Última Atualização: 19/09/2018

Prólogo

Como o mundo é regido pelo tempo e espaço, tudo nasce, cresce, envelhece e morre. Tudo existe e dura por um determinado período e depois simplesmente deixa de existir e não pode ser mais encontrado em tempo algum. As memórias ficam fazendo com que o passado possa ser vivido novamente em nossas mentes. Todos nós guardamos memórias de período anteriores que vivenciamos e sabemos que daqui a algum tempo, seja daqui a 10 minutos ou 10 anos, vamos morrer.
Para Steve Rogers, sua relação existencial com o tempo foi bem diferente. Lutar na Segunda Guerra Mundial e ficar em suspensão desde o fim da guerra até os tempos atuais mudou completamente sua vida. Levou muito tempo até se acostumar às novas tradições, leis, tecnologia... Principalmente às pessoas.
O mais difícil não era se adaptar, era conviver com o passado. Conviver com todas as possibilidades perdidas, com o tempo que perdeu, com as pessoas que perdeu. Aquelas duas grandes e perigosas palavras “e se...” o assombravam todos os dias quando ele levantava pela manhã e durante a noite as imagens de quem ele amava o atormentava em sonhos.
No escuro ele podia ver Bucky lhe dizendo “não vou te deixar. Ficarei aqui até o fim”, podia ouvir rindo e depois chorando sendo arrastada para longe e várias vezes durante a noite ele acordava gritando “eu vou te achar”. Então se via sozinho em seu quarto na Torre dos Vingadores no século XXI e voltava a deitar esperando que no vazio existencial perdido entre tempo e espaço ele pudesse encontrar Bucky e novamente mesmo que isso nunca mais fosse possível, pelo menos as boas lembranças superavam as que lhe causavam tormento.


Capítulo 1

1942

O pequeno apartamento continuava o mesmo de sempre, mas não o olhava mais como o seu lar. Tudo naquele lugar era nostalgia, saudade e perda. Olhava para o quarto de sua mãe e odiava o fato de tudo ainda estar exatamente no lugar como se ela ainda fosse voltar. O roupão aguardava educadamente pendurado na porta do guarda-roupa, os sapatos debaixo da cama pareciam ansiosos para serem calçados e a garota apoiada no batente da porta trocaria qualquer coisa no mundo para ter só mais um abraço de Alyssa Stark.
Então era isso, pensava , estava órfã. Sozinha no mundo se seu tio Howard não tivesse a convidado a morar com ele. Howard dissera que ela poderia trabalhar com ele num novo projeto científico e que uma mente brilhante não poderia ser desperdiçada. sempre dera extrema importância aos estudos. Para uma mulher da década de 40 era extremamente difícil conquistar algo naquela simples vida, ainda mais sendo filha de mãe solteira, já que havia perdido o pai muito cedo. Então realmente a oportunidade que o tio lhe oferecia era rara e preciosa.
De certa maneira estava feliz por estar se preparando para ir embora, sair daquele apartamento poderia ser o que ela precisaria para seguir em frente. Nas últimas semanas estava empacotando tudo e jogando algumas coisas fora, mas simplesmente não conseguia mexer no quarto da mãe. Mas naquele instante cheio de melancolia, ela colocou algumas coisas dentro de uma caixa. A escova de dente, o pente, os chinelos e o roupão foram para dentro de uma caixa.
Sentia-se horrível, mas sabia que era preciso. Respirou fundo e saiu do apartamento, desceu as escadas até a parte de trás do prédio e jogou a caixa no lixão violentamente. Estava cansada de ver tudo aquilo lhe assombrando dia e noite. Deu às costas para a lata de lixo, mas ao segundo passo recuou e voltou a tirar a caixa do lixo. Ia chorar e pedir desculpas à falecida mãe, mas sentiu que não estava sozinha.
Ao olhar do outro lado da cerca percebeu que um jovem magricela e baixinho a observava com olhos azuis solidários e tristes. A luz do sol deixava o cabelo de Steven completamente dourado.
- Desculpe, eu não quis ser indelicado. – Ele começou meio sem jeito, estava se esforçando para não desviar os olhos dos dela. – Eu só queria dizer que eu soube sobre Alyssa, era uma mulher incrível. Eu sinto muito, .
balançou a cabeça e respirou fundo fazendo força para não deixar as lágrimas rolarem.
- Eu também perdi os meus pais...
- Eu sei, Steve. – Respondeu , delicadamente. – É muito gentil de sua parte, obrigada. – Deu o melhor sorriso que poderia entregar a alguém naquele momento.
Steve sempre fora gentil, contido e inseguro. O conhecia a alguns anos desde que se mudou para o bairro, sempre sendo atormentado pelos outros garotos quando na verdade era o melhor de todos. tinha o costume de ler sentada na janela todas as noites, às vezes via Steve chegar e trocavam um aceno. Esse era o tipo de contato que eles tinham. Já com Bucky Barnes, amigo inseparável de Steve, conversava mais.
-Como foi no alistamento hoje? –Perguntou ao loiro, mas logo se arrependeu. A expressão no rosto dele era de tristeza e decepção. Todos sabiam do sonho de Steve de servir na guerra, mas sua saúde e porte físico nunca permitiriam isso.
- Não consegui. Pela quarta vez. – Suspirou, sendo sincero, o que lhe confortava era que não iria o achar idiota por isso. Bem, talvez achasse, mas não diria. – Mas o Bucky entrou, 107 infantaria. Vai amanhã para a Inglaterra.
- Eu sinto muito, Steve. De verdade. – Naquele momento soltou a caixa dentro da lata de lixo e se aproximou da cerca para ficar perto dele. – Mas se esse é o seu sonho, vai encontrar algo que só você pode fazer para ajudar. Basta seguir em frente.
Steve sorriu de verdade e retribuiu por alguns segundos, até os dois rirem do nada.
-Vai estar na Exposição do Futuro hoje? Seu tio vai estar lá, não é?
revirou os olhos fazendo Stevie rir.
- Claro que vai, já fui intimada a ir. E você?
- Eu vou, sim. – Steve colocou as mãos nos bolsos. – É a última noite do Bucky na cidade, ele quer se divertir um pouco.
- Bem, então... eu vejo vocês lá. – alisou seu vestido e começou a se afastar enquanto Steve seguia o seu caminho. Voltou para casa e agora entendia que no momento não precisava superar tudo de uma vez, por ora, bastava seguir em frente.

Atualmente

O sol estava se pondo e fazia exatamente 72 horas que Steve não dormia. Desde que começara a treinar os novos vingadores e a descobrir antigas bases da HIDRA, não conseguia baixar a adrenalina para dormir. Romanoff tinha que atualizar as informações a todo segundo, cada dia era uma nova morte de agentes antigos da Hidra. E todos suspeitavam que o Soldado Invernal estivesse fazendo isso.
Ao terem acesso às bases antigas da HIDRA, Romanoff fez o possível e o impossível para coletar informações. Há alguns meses atrás encontrou uma base no subsolo de uma cidade pequena russa, mas conseguiu lá um HD antigo e desde então dedicava seu tempo a tirar alguma informação dali.
Steve se afastou e pela janela encarou a cidade de Nova Iorque. Pensou em como faria para encontrar Bucky, entender o que aconteceu com ele e impedi-lo de matar mais e mais pessoas. Desde que os Vingadores enfrentaram Ultron no último ano, Steve não tinha parado. E o treinamento dos novos vingadores vinha dando trabalho, ainda mais Wanda que estava muito instável depois da morte de seu irmão.
- Capitão, você precisa ver isso. – A voz de Romanoff soou pelo cômodo. Steve atravessou a sala e foi até ela olhando para a localização que ela encontrou na tela.
- O que é isso?
- É uma antiga base da HIDRA que havia aqui em Nova Iorque, quero ir lá pra ver se não encontramos algum registro.
Steve suspirou cansado, já haviam passado por isso inúmeras vezes.
- Nunca encontramos algo, eles são extremamente cuidadosos quando se trata de apagar rastros, Romanoff.
- Ah, é? – Natasha arqueou uma das sobrancelhas enquanto se levantava e vestia a jaqueta. – Então por que nosso sistema captou que há um computador conectando a rede lá nesse exato momento?
Sem responder, Steve simplesmente pegou o seu escudo e seguiu Romanoff.

Era um prédio de uma rua sem saída de um bairro pequeno. Natasha suspirou dizendo o quão clichê aquilo era, Steve conseguiu abrir com facilidade o portão todo enferrujado enquanto argumentava que devia ser pra despistar qualquer suspeita.
Ele avaliou os ratos que saiam correndo enquanto eles passavam pela entrada. Com um chute dele a porta da frente abriu e Natasha seguiu na frente com uma lanterna.
- Realmente e completamente abandonado, Agente Romanoff. – Provocou o Capitão e quando recebeu um olhar reprovador da ruiva quase sorriu.
Seguiram pelo amplo hall de entrada. A lanterna de Natasha não dava conta de iluminar todo o teto em estilo gótico e as grandes pinturas na parede.
- Decoração antiquada para uma empresa não acha? – Comentou Steve curioso ao ver o piso xadrez. Seguiram do hall até as escadas. – Não se parece nem um pouco com as bases que encontramos anteriormente.
- É sério, tem alguma coisa aqui. – Insistiu a agente, intrigada.
- Só admite logo que não vamos encontrar nada e...
A voz do Capitão foi interrompida pelo som de passos no topo da escada. Ambos se calaram imediatamente e desligaram a lanterna, mal se ouvia o som da respiração dos dois. Aguardaram em silêncio por trinta segundos, quando nada aconteceu novamente começaram a subir devagar em silêncio absoluto com Romanoff na frente e o Capitão na retaguarda.
Chegaram ao amplo corredor que era iluminado somente pela luz da lua que entrava por uma vidraça quebrada. Se não fossem os passos que escutaram antes, nada mais diria que havia alguém ali. Seguiram até a primeira porta fechada, Natasha do lado esquerdo e Rogers do direito. Trocaram sinais indicando que o Capitão iria na frente, Steve abriu a porta rapidamente sem fazer muito barulho. Com a luz da lanterna em questão de segundos vasculharam todo o quarto até constatarem que não havia nada ali além de velhos computadores que encontraram nas bases anteriores.
Ainda em silêncio saíram do quarto, assim que Natasha colocou o pé no corredor, soltou um sibilo baixo de dor. Direcionou a lanterna para sua perna que doía e viu ali uma faca cravada no músculo.
Instantaneamente, Steve girou olhando ao redor à procura de alguém. Um vulto preto passou pela janela e uma risada divertida ecoou pelo corredor. Natasha arrancou a faca da perna e sacou sua arma.
Um sibilo metálico passou de raspão entre eles e foi desviado pelo escudo do Capitão, provavelmente outra faca atirada. Mas não tinham tempo pra checar, porque a presença misteriosa se jogou contra Natasha. A ruiva sentiu o corpo do adversário envolver o seu tronco e agarrar o seu pescoço a jogando no chão, começou a sufocar, mas conseguiu utilizar os braços para sair do golpe.
Steve acertou um soco no adversário, sem saber muito bem onde por causa da escuridão e conseguiu agarra-lhe o braço, Natasha segurou uma das pernas. Mas a força dele era incrível conseguiu girar todo o corpo escapando das mãos deles, acertou um soco em Steve que revidou, mas o adversário se abaixou e o soco acabou por acertar Romanoff.
- Merda, Cap! – Gritou e chutou o adversário que simplesmente riu e torceu o seu pulso, ia quebra-lo, mas a investida de Steve não deixou. O escudo acertou a cabeça do adversário que arfou com raiva e avançou para cima do Capitão o lançando contra a parede, mas ele era mais forte. Percebeu que ao adversário tinha um corpo menor e mais esguio que o seu e o jogou contra a parede, Natasha acertou em cheio um pontapé na cabeça dele. Mas ainda assim ele se levantou.
A agente pegou a lanterna do chão e iluminou o adversário, tanto ela quanto o Capitão perceberam que se tratava de uma figura feminina com o mesmo porte físico de Natasha. Cabelos longos presos por um rabo de cavalo e uma máscara obscura que só deixavam os olhos para fora.
Rogers e Romanoff partiram para o ataque, Steve mirou o escudo no peito e Natasha investiu em uma rasteira para ela cair, mas a mulher com um salto fez uma acrobacia, girou no ar e suas mãos se apoiaram no escudo. Ela pairou no ar por um segundo e aterrissou no chão do outro lado. Mas Steve e Natasha continuaram com as investidas e a mulher escapava de cada uma sempre movendo corpo com facilidade e agilidade incríveis enquanto acertava tapas provocativos e golpes brutos no peito que faziam o Capitão cambalear e Romanoff perder a respiração.
Natasha urrou de raiva e mesmo com a perna sangrando avançou com sua maior velocidade, vários golpes de ataque que foram defendidos um a um, mas rápidos demais e não deram nenhuma chance de ataque à adversária. Enquanto a luta com Natasha se tornava intensa Steve rondou a inimiga e no momento de distração acertou a cabeça dela com o escudo.
A mulher caiu ao chão.
XxxX

Algemaram a mulher desacordada e Steve a carregou para fora do prédio depois que ele e Romanoff checaram os outros cômodos e seguiram de carro até a sede dos Vingadores.
- Por mim ela deveria ser morta. – O sussurro de Natasha saiu carregado de ódio. Tinham colocado a mulher em uma cama na enfermaria improvisada da nova sede. Agora com o ambiente iluminado era possível ver os detalhes de sua roupa. Um aparente uniforme colado ao corpo de cor escura, parecido com um dos uniformes que agentes da Shield usavam, mas não havia nenhum símbolo. E a máscara era preta com detalhes de um vermelho tão vivo que parecia que as linhas do desenho ascendiam.
Capitão, Romanoff e Barton encaravam a mulher presa à cama.
- O que fazemos com isso? – Natasha praticamente cuspiu a última palavra.
- Obviamente, vamos interrogá-la. Não há dúvidas de que tiraremos boas informações. – Barton cruzou os braços e revirou os olhos. – Mas, antes, vamos identificá-la.
Steve estava muito ansioso por isso, queria muito tirar aquela máscara. Sentia que precisava conhecer o rosto da adversária, precisava obter informações e achar uma maneira de rastrear Bucky. Aproximou-se da cama, seus dedos tocaram a máscara e a retirou.
O mundo parou, Steve encarava o rosto à sua frente confuso e quase tonto. Largou a máscara a deixando cair do chão e aproximou o rosto para encarar de perto a mulher que ele reconhecia tão bem os traços. Ouviu Barton e Romanoff perguntarem o que tinha de errado, mas as vozes soaram distantes.
As bochechas coradas, os lábios carnudos e vermelhos, o formato do rosto e o castanho avermelhado dos cabelos. Tão familiar para ele quanto o seu próprio rosto. Não havia um dia de sua vida em que não se lembrava daquelas feições. Se arrependia todas as vezes que lembrava do último momento em que viu os olhos dela com medo se afastarem dele e ele gritar eu vou te achar, eu vou te achar. Prometeu salvá-la e não tinha conseguido.
- Capitão, quem é ela? – Perguntou Barton com uma expressão extremamente séria e perturbada.
- Outro fantasma do meu passado. – Sussurrou Steve sem conseguir reconhecer a própria voz enquanto encarava o rosto dela.
- Steve como você a conhece? – Natasha perguntou perdida.
- De 1942. – Respondeu o Capitão num sussurro, passou os dedos pelo cabelo da mulher. – Ela é Stark.
Barton abriu a boca surpreso, mas não conseguiu dizer nada. Natasha se apoiou na beirada da cama levando um tempo para processar toda a informação.
E enquanto Steve encarava perplexo o rosto tão próximo do seu, os olhos de se abriram.


Capítulo 2

1942

A feira estava cheia de pessoas. Muitos jovens olhavam animados e encantados todos os protótipos de coisas que viriam existir no futuro. Mas já estava acostumada com todas as invenções Stark. Apesar de se encantar com os projetos mais avançados do tio Howard, tinha passado as últimas semanas o ajudando a planejar o que seria apresentado naquela noite.
A indústria Stark abriu o evento mostrando como o carro do futuro poderia voar e toda a plateia vibrou de felicidade. ria com a reação das pessoas, mal sabiam elas o que a ciência era capaz de fazer. Ainda mais os experimentos durante as Grandes Guerras.
Tomou um gole do champanhe e tirou uma de suas luvas de seda branca que estavam incomodando demais. De longe viu que o tio ergueu uma taça em sua direção mostrando como estava contente com o evento que seguia e retribuiu o sorriso sentindo-se satisfeita em cumprir a primeira responsabilidade que eles exerciam juntos.
- Olá, Senhorita Stark. – Bucky Barnes saudou com um de seus melhores sorrisos, parecia mais seguro e realizado em seu uniforme de Sargento. Mas mesmo sem ele, Bucky sempre teve uma presença marcante.
- Olá, Sargento Barnes. – Sorriu de volta e percebeu que Steve estava atrás do amigo, meio acuado e triste como vira de manhã. – Olá, Steve! – O sorriso que mandou para Steve foi bem mais alegre e bobo e Barnes riu.
- Uma garota linda dessa feliz em te ver, Steve. Devia chamá-la para dançar. – Bucky sugeriu brincando enquanto cutucava o amigo. Steve ficou extremamente sem graça e as garotas que os acompanhavam não pareciam nada felizes com a interação dos três.
Steve se enrolou nas palavras e sentiu-se desconfortável ao ver que provavelmente ele não a chamaria para dançar, sem falar que ele e Bucky estavam acompanhados. Sorriu tentando disfarçar o desconforto e olhou ao redor a procura de alguma desculpa para se afastar.
- Imagina, Bucky. Vejo que já estão acompanhados e tenho que ficar aqui, caso Howard precise de mim. – Suspirou olhando em direção ao tio que conversava com homens de negócios e com as mulheres mais bonitas do evento.
- É uma pena. - Bucky olhou sugestivo para os dois. - Quem sabe outra noite, não?
concordou com a cabeça, pediu licença e se afastou dos dois antes que as garotas a enforcassem. Seguiu até o lado de fora onde havia uma feira de recrutamento para o exército. O ar fresco fez com que ele perdesse a vergonha que sentiu com Bucky e Steve.
- Devemos nos preparar. – Howard se colocou ao lado da sobrinha. – A guerra vai ficar mais intensa e estão requisitando a indústria Stark para inovações que poderão trazer a nossa vitória.
se virou para o tio e tirou um farelo de biscoito que tinha no bigode irresistível dele. Às vezes não via Howard como um tio e sim mais como um irmão, talvez por terem idades muito próximas.
- Muito trabalho pela frente?
- Sim, coisas perigosas. – O tom de voz de Howard passou a ser um sussurro. – Estaremos com o exército, provocando os nazistas. Temo que terei que colocá-la em treinamento o mais rápido possível, para que possa se proteger.
- Me proteger? – sussurrou de volta, sem entender o que ele estava querendo dizer. – No que é que estamos nos metendo, Howard?
Howard, por sua vez, sorriu para uma senhora que passou por eles o parabenizando pelo evento, era inacreditável como ele conseguia sorrir para os outros enquanto deixava a sobrinha numa curiosa agonia.
respirou fundo e recebeu do tio uma pasta coma arquivos, abriu discretamente e deu uma lida por cima captando as informações mais importantes.
- “Projeto Supersoldado”? – Sussurrou .
Howard simplesmente piscou um dos olhos e tomou mais um drink de seu conhaque.
***

Os meses que se seguiram foram de trabalho contínuo e intenso. foi enviada por Howard até a base de recrutamento do exército, lá ela treinava intensamente o dia inteiro e aproveitava para acompanhar o desempenho dos jovens que se alistaram para o projeto. Um deles deveria ser escolhido para dar inicio ao Projeto e entre os candidatos estava o pequeno Steve.
O Projeto consistia em um teste cientifico que poderia trazer uma grande inovação. Um supersoldado capaz de ganhar a guerra e mandar Hitler de volta aos portões do inferno. Um projeto supervisionado e patrocinado pela indústria Stark. Mas só o seu incrível e devastador conhecimento científico não era o bastante, ela precisava aprender combate e defesa corporal.
Como braço direito de Howard e também como a próxima Stark a liderar os negócios da família, ela estava cuidando da avaliação dos rapazes que se voluntariaram para o projeto e enquanto isso aproveitava também para aprender táticas de combate. Mas Peggy Carter estava pegando pesado demais com a jovem, todos os dias treinava sem parar e apanhava até aprender o golpe de defesa. Mesmo toda roxa e dolorida, ela também se dedicava ao Projeto que Howard dizia ser um grande marco na ciência e tecnologia.
Em uma tarde de sol os novos recrutas estavam em fila para o treinamento, um pouco adiante no gramado estava pronta para continuar seu treinamento matinal. Felizmente naquele dia ela tinha conseguido tomar café da manhã e levantou antes do sol nascer, tinha passado a semana inteira sendo acordada rudemente por Peggy e não queria viver de novo a experiência de acordar com água na cara.
Lembrou-se de aquecer os músculos antes de iniciar a sequência de golpes e enquanto esticava os membros do corpo observou os voluntários correrem pelo gramado em fila, se exercitando arduamente. Steve era sempre o último da fila, distante do grupo e muito longe de terminar o exercício. Ainda assim ele nunca desistia.
Geralmente o treinamento de era com Peggy Carter, mas dessa vez Carter não veio vestida para lutar e muito menos parecia ter a intenção de fazer algum exercício físico com a saia justa e os saltos que estava usando naquela manhã. Vários dos recrutas pararam de correr para ver Peggy passar e sorriram ao ver ela parar ao lado de , definitivamente os jovens esperavam ver as duas treinando. Mas o invés de mostrar para quais os exercícios fariam essa manhã, Peggy chamou Tom, um grandalhão dos novos recrutas.
- Tom, lute com a Stark. E não tenha dó. – Disse ela. Simplesmente assim, nem bom dia desejou a Stark.
Tom olhou para as duas, meio duvidoso, mas ao ver a firmeza no olhar de Carter sorriu malicioso e moveu os ombros em um rápido aquecimento. Todos os recrutas tinham parado o exercício e começavam a forma uma roda ao redor dos dois. segurou o nervosismo e se posicionou, lembrou-se do que havia aprendido até o momento.
Avançou para Tom com o punho direito, mas com um leve tapa ele afastou sua mão e estapeou sua cara. Foi rápido e doeu. O estalo foi alto, o rosto dela parecia ter pegado fogo e todos os novos recrutas próximos riram.
sentiu a raiva subir-lhe a cabeça, não deixaria que fossem rir dela apanhando. Achou aquilo cruel e direcionou a Peggy um olhar de revolta. Tentou outra investida contra Tom, dessa vez com o punho esquerdo, mas Tom desviou rindo e acertou outro tapa no rosto da garota. Mais uma vez os recrutas riram.
- Parem, com isso tenham respeito. – Steve reclamou em voz alta. balançou a cabeça para manter a concentração e avançou contra Tom novamente. Ele riu desleixadamente e esticou uma das mãos para lhe dar mais um tapa, porém com raiva raciocinou melhor do que antes, segurou o pulso de Tom e com um chute alto acertou o queixo dele.
Tom cambaleou para trás, tomou impulso e avançou com as duas pernas em torno do pescoço de Tom se jogando contra o chão e o derrubando. Sufocava ele com as pernas enquanto prendia o seu braço em uma espécie de chave que quebraria o braço dele em poucos segundos.
- Muito bem, . – Disse Carter indicando que poderiam parar, mas apertou ainda mais as pernas sufocando Tom que começou a ficar vermelho e a mexer deliberadamente o braço livre.
- Stark, já chega! – Berrou Carter. E então soltou o rapaz e se levantou, virou-se para os novos recrutas com um olhar furioso no rosto, mas a voz macia como veludo. – Quem dos engraçadinhos que estavam rindo antes se candidata a ser o próximo?
Alguns dos rapazes se afastaram e outros desviaram o olhar, mas Steve balançava afirmativamente cabeça mostrando-se impressionado e Peggy quase sorrindo. Seria orgulho estampado nos olhos dela?

Atualmente

Os olhos castanhos amendoados mostravam ainda força, determinação e raiva profunda. Como ele se lembrava de ter visto no dia em que ela deu uma surra em um dos novos recrutas. abrira os olhos e ele se afastou um pouco, sem saber o que dizer e ela não demonstrava emoção nenhuma em vê-lo. Não reconhecer nenhum sentimento no olhar dela era como encarar o seu fantasma, aquele corpo quase parecia estar vazio.
- ? – A voz de Steve soou firme, apesar de por dentro ele sentir que seu coração iria se desfazer.
- Quem é ? – Perguntou a mulher, franzindo o cenho. Olhou em volta e viu que só tinha eles dois ali. Mexeu os pulsos incomodada com as amarras que a prendiam na cama.
- Você é .
Ele olhou nos olhos dela esperando algo, uma faísca, uma luz, uma sombra da que ele conheceu. Mas havia nada ali.
Romanoff e Barton haviam saído segundos antes dela abrir os olhos, eles estavam com uma amostra de sangue para checar o DNA da moça e verificar se era mesmo a Stark perdida da era de ouro, mas Steve nem precisava da confirmação para ter certeza. Pediu para Natasha contatar Tony Stark e Clint procuraria por Fury, aquele era um assunto que poderia ficar pior.
- Quem é você? – Perguntou Steve confuso com a sensação de estar falando com um estranho tão íntimo e igualmente vazio.
ficou em silêncio, desviou o olhar para baixo e encarou as próprias mãos. Sentiu-se perdida, como se fosse a primeira vez que ela fosse pensar sobre isso.
- Quem é você? – Repetiu Steve.
- Sou uma combatente de campo. – Respondeu. – Tenho uma missão.
A resposta saiu automática, como se ela tivesse sido programada para responder exatamente aquilo. Nenhuma emoção na voz ou nas feições faciais. A beleza clássica nos traços delicados do rosto dela trouxe a Steve a consciência do quanto sentia saudade de e do passado.
- Qual a sua missão, combatente? – Steve cruzou os braços tentando se conter por dentro.
- Encontrar o Soldado Invernal, matar o Capitão América. – Mesma forma automática de responder.
Steve deu as costas a ela por um segundo, não podia acreditar naquela visão. Primeiro Bucky seu melhor amigo e agora , a Hidra estava manipulando-o num jogo cruel. Virou-se novamente para ela.
- Por quê?
A pergunta pareceu desestabilizá-la mentalmente, como a se resposta para aquela pergunta não estivesse em seu sistema.
- Por quê? – O Capitão perguntou mais alto, mas ela o olhou nos olhos e Steve percebeu que ela parecia perdida mentalmente. Abriu a boca na tentativa de responder, mas nenhuma palavra saiu.
- , o que fizeram com você? – Ele questionou se aproximando. – Há quanto tempo está assim?
As mãos dela começaram a tremer e ela balançou a cabeça violentamente, os olhos perderam o foco.
- Não sei do que está falando, não sei, não sei do que está falando... – Sibilou, os lábios tremiam com uma sensação de pavor refletida nos olhos dela.
Steve sentiu dor no peito, não podia mais conter o certo desespero que estava sentindo. Tocou uma das mãos dela, mas aquilo a fez gritar como se o toque dele a tivesse feito entrar em colapso.
- EU NÃO SEI DO QUE ESTÁ FALANDO, EU NÃO SOU , NÃO SEI DO QUE ESTÁ FALANDO!
Romanoff entrou no quarto e chamou Steve para fora. O Capitão caminhou em direção a ela sem deixar seus olhos longe de até a porta da sala se fechar.
- E então? – Ele perguntou para Natasha. Ela parecia atordoada e poucas vezes Steve a viu dessa maneira.

- As amostra de sangue confirmaram que se trata de Stark. – Começou a falar e viu que Steve suspirou como se estivesse carregando um grande peso nas costas com aquela confirmação. – Falamos com Tony e pedimos informações sobre o que a família Stark soube de desde o seu desaparecimento. Capitão, isso soa impossível. – A agente observou bem o rosto do loiro. – Ela é como você, não envelheceu esse tempo todo.
Steve olhou mais uma vez para a porta fechada desejando não ter saído daquela sala com tão pouco entendimento sobre a situação.
- O que ela disse?
- Nada. Ela não tem memória, Romanoff. A única coisa que sabe dizer é que é uma combatente com a missão de encontrar o Soldado Invernal e me matar.
Os dois ficaram em silêncio pensativos.
- Capitão? – Clint chamou pelo comunicador. – Qual é o estado mental da sua amiguinha?
Steve não gostou do termo, mas estava apreensivo demais para responder.
- Sem memória, praticamente sem personalidade. Parece uma máquina programada.
- Tenho informações que podem ser úteis, então. – Começou Clint fazendo Natasha e Steve prenderem a respiração. – Disse que ela foi sequestrada pela Hidra, não é? A Hidra teve um projeto chamado Controle Mental MK, consistia em escravizar mentalmente e modificar soldados para seguirem regras sem questionar. Assim memórias são perdidas através de traumas psicológicos.
O Capitão sentiu o estômago embrulhar ao pensar no que Bucky e haviam sido submetidos, virou-se apara a parede oposta fechando os punhos na tentativa de conter o tremor que percorreu pelo seu corpo. A indignação e repulsa que tinha pela Hidra tomou conta de si e ele socou o concreto liberando toda sua força e energia deixando uma grande marca de seu punho e de sua raiva.
***

Steve não dormiria por mais um dia. Encarava a cidade de Nova Iorque pela janela, mas na verdade estaria observando agora se Romanoff não o tivesse colocado para fora. Natasha ficou de analisar melhor o estado mental da jovem e depois com Clint eles pensariam no que seria possível fazer. Primeiro tentariam submetê-la a processos que poderiam recuperar sua memória, informariam sua verdadeira identidade. Com isso contaria com a ajuda de Tony Stark que poderia apresentar provas de quem realmente era e a história familiar poderia ser uma boa arma sentimental.
Pelas informações que Clint adquiriu viram que o Controle MK Ultra possui falhas, poderiam explorar essa falha até libertar grande parte da mente da jovem. E que o controle precisava ser feito com frequência, caso contrário o individuo controlado vai perdendo a noção de realidade e a aos poucos recupera memórias antigas. Talvez fosse isso que acontecia com . Devia não estar sendo submetida aos processos do Controle com frequência e com isso sua mente ficava confusa misturando informações da qual não lembra a origem. E por fim veriam se seria possível controlar o alter-ego de até ela não ter mais choques com a realidade e se tornar consciente de quem realmente era.
O que preocupava o Capitão era se realmente poderia se recuperar. Existia ainda alguma parte dela forte o bastante para voltar à superfície? E quanto ao Bucky? Tantas perguntas rondavam a sua mente enquanto encarava as luzes da cidade. Precisava ser mais que um soldado dessa vez, precisava ser a ponte que traria seus amigos de volta. O que incomodava era que ele mesmo não havia se ajustado aos tempos de hoje, como poderia ajudar outros a se adaptarem? Lembrou-se dele e de Bucky combatendo os nazistas, lembrou-se de sempre citando referências cientificas. Lembrou-se do sorriso dela e da vez que a vira chorar. Lembrou-se novamente do último segundo que a viu e gritou eu vou te encontrar. Décadas depois ele a encontrou, agora precisava salvá-la. Mas talvez só pudesse salvar a si mesma.
***

Steve não sabia ao certo dizer quando foi que finalmente dormiu, mas sabia que só tinha caído no sono depois que amanheceu. Agora se levantava de sua cama e checava o relógio via que estava na hora do almoço. Escovou os dentes e trocou de roupa o mais rápido que conseguia e saiu de seu quarto. Desceu alguns níveis da sede dos vingadores e chegou até o andar da enfermaria, mas lembrou-se de que era horário de almoço e precisava de uma refeição. Então voltou até a cozinha e lá encontrou com Clint sentado à mesa almoçando.
- Bom dia, Cap. – Saudou Barton de boca cheia.
- Bom dia, gavião. – O loiro respondeu se sentando com uma bandeja onde colocou comida, frutas e uma sobremesa. Com seu metabolismo era várias vezes mais rápido que a de um ser humano comum, tinha que comer bem mais que alguém comum. – Como foi ontem à noite e hoje?
Clint nem precisava perguntar sobre o que o Capitão estava perguntando, era óbvio que ele iria querer o relatório completo e provavelmente passaria dia e noite tentando tirar informações da jovem que apreenderam. Barton não tivera contato direto com ela, mas estava monitorando toda ação e especulação feita por Romanoff que a interrogou durante a noite, ou pelo menos tentou interroga-la.
- Nada de novo. – Clint respondeu logo de cara para não criar falsas expectativas. – Romanoff tentou conversar, mas a jovem simplesmente parecia incapaz de raciocinar com clareza. Com certeza é devido ao Controle Mental...
Steve encarava seu prato de comida enquanto mastigava e sentia a decepção tomando-lhe a mente.
- Mas consegui falar com Tony ontem e não acho que ele tenha acreditado, disse que virá hoje mais tarde e quer ver a menina com urgência. – Continuou Clint e Steve franziu o cenho como se aquilo fosse meio arriscado. Dois Stark no mesmo ambiente poderia dar muito errado. – Pensei que pudéssemos aguardar mais alguns dias, vai levar um tempo até a programação começar a apresentar falhas e ela passar a recuperar a memória. Durante esse processo pensei de contarmos com Wanda para checar a estabilidade e características mentais, Romanoff e eu auxiliaremos nas atividades físicas, Tonny a ajudará a lidar com seu humor instável e conhecimento científico.
Clint parou e observou a postura rígida e contida de Rogers e percebeu que nunca o vira assim tão apreensivo. Imaginou o quanto deveria ser difícil ver a Hidra tentar se erguer novamente enquanto encarava também outros fantasmas de sua antiga vida.
- Senhor, é de extrema importância que você e Tony estejam de acordo e colaborem contando a história verdadeira. Mostrem pra garota documentos, fotos, histórias que indiquem a história dela e aos poucos conseguiremos os segredos que estão ocultos até para ela mesma. – Clint revirou o restante de comida que tinha em seu prato e apontou o garfo para Steve. – Sei que está se esforçando pra não se envolver emocionalmente quando já está claramente se afogando em seus sentimentos de perda, culpa e nostalgia... – Clint suspirou com um sorriso brincalhão. - Mas na hora certa, vai se aproximar dela e retirar as informações que precisamos. Por enquanto seria bom nos focar no HD encontrado por Natasha, em possíveis outras bases remanescentes da Hidra e nos rastros do Soldado Invernal.
Steve suspirou concordando plenamente:
- Há muito trabalho pela frente.
***

Terminado o café da manhã, que na verdade era o almoço, Steve desceu até o andar da enfermaria pensando em todas as possibilidades que se abriram nesse último dia. A mente de um soldado trabalhava por meio de estratégia a todo tempo, portanto Steve quando estava focado em algo pensava logo em como agir. Mas quando o inimigo era um completo estranho dentro de um corpo muito familiar é meio complicado pensar em táticas.
Ao chegar próximo ao quarto de , Natasha saiu do quarto entrando no corredor e barrando a passagem de Steve.
- Como ela...
- Bem, você vem comigo. – Interrompeu antes que ele dissesse qualquer coisa e o puxou para o andar de cima na sala de operações. Enquanto subiam as escadas, Rogers pensou em dizer um não bem autoritário para Natasha, mas provavelmente com uma só palavra ela iria o arrastar de qualquer jeito.
- Na verdade eu estava pensando em...
- Pensando em ver como a morena bonitinha da década de 40 está. – Completou a agente ligando o computador e tirando sua jaqueta ao se sentar com os olhos grudados na tela enorme colada à parede. – Eu sei, mas lembra aquele HD que encontramos meses atrás? Acho que posso ter conseguido a chave pra abrir alguns arquivos.
Steve puxou outra cadeira para o lado de Natasha e observou o computador ligar, olhou curioso para Romanoff que digitava códigos sem parar.
- Que tipos de arquivos? – Perguntou sem saber interpretar o motivo do rosto da agente estar pálida.
- Esse tipo de arquivos... – Murmurou Natasha encarando a tela, Steve seguiu o seu olhar e deparou-se com uma lista enorme de pessoas. Natasha clicava em cada nome e cada um abria uma ficha com informações. Nomes conhecidos de políticos e empresários de todo o mundo.
- Esses são...
- Integrantes da Hydra. – Confirmou Romanoff, com um sussurro.
- Alguns deles já estão mortos. – Observou Rogers enquanto checavam alguns nomes da lista. – Aliás, os que morreram recentemente... foram assassinados pelo Bucky... Como John Armstrong.
Natasha tirou os olhos para encarar o rosto de Steve.
- Então, para encontrar o Soldado Invernal precisamos descobrir quem será o seu próximo alvo e temos a lista bem em nossas mãos.
Rogers encarou a tela analisando os nomes da lista.
- Pelo menos alguma coisa temos para começar a trabalhar. – Suspirou, olhou no relógio em seguida. – Podemos analisar essas fichas até a hora do almoço. Depois teremos o treinamento dos Novos Vingadores e possivelmente alguma ocorrência na cidade pra checar. À noite trabalharemos com mais calma com .
Natasha revirou os olhos com um sorriso.
- Parece preocupado demais com ela.
Steve direcionou um olhar duro à russa.
- Ela é minha responsabilidade, é claro que estou.
- Bem, talvez não seja completamente sua responsabilidade, sabe. Considerando que ela é uma Stark e sua única família no momento é o Tony...
- Tony não cuida nem de si mesmo, Romanoff. – Cortou Steve deixando claro que a conversa terminaria ali. Natasha riu baixinho e voltou a se concentrar nas fichas que tinham acabado de ter acesso, mais tarde ela provavelmente acharia um novo jeito de irritar Steve com aquele assunto.
- Não me falou como conseguiu a chave de acesso. – Observou o Capitão lembrando de quantos meses tentaram de tudo para descobrir a senha de acesso e ninguém, nem mesmo Natasha conseguiu burlar o sistema de segurança do HD.
- Sua amiguinha me falou.
- Então ela se lembra de algumas coisas? – A voz soou equilibrada, mas aquela pergunta carregava grande esperança.
- Não, se lembra de só de uma coisa. Projeto Darksouls. O nome soa familiar para você?
Sua mente trabalhou incrivelmente rápido em um segundo na tentativa de capturar qualquer vestígio de familiaridade que fosse, mas não encontrou nada além de uma estranha sensação de que não era uma palavra nova para ele. Balançou a cabeça de forma negativa.
- disse ser o único nome que se lembra. Então decidi que poderia ser a senha de acesso e que se fosse isso mesmo, as pessoas nessa lista estariam envolvidas nesse projeto.
- Projeto Darksouls. – Sussurrou Rogers pensativo. – Outra coisa que precisamos descobrir.


Capítulo 3

A enfermaria tinha 10 macas organizadas em duas fileiras pelo amplo salão. Armários com variados medicamentos e equipamentos tomavam conta das paredes e dois refrigeradores se encontravam no canto oposto ao da janela. Tudo que tinha para encarar o dia inteiro. A cor excessivamente branca do local estava a tediando profundamente e toda vez que alguém entrava ou saía pela porta sentia uma grande vontade de tentar escapar, queria saber onde estava mesmo que não conseguisse entender o que poderia fazer em seguida.
Às vezes se pegava encarando as próprias mãos ou a própria imagem refletida na janela ao invés de prender sua atenção na cidade lá embaixo. Não sabia quem era. Não saber quem se é. Terrivelmente aterrorizador, por mais redundante que possa soar, era o que ela pensava ao tentar descrever a sensação de profundo vazio, a sensação de não existir. Sensação de não pertencer a um lugar, a um tempo, a alguém...
Poucas coisas que se passavam pela sua cabeça, das quais elas tinham convicção de serem reais era o nome Projeto Darksouls, que não sabia de onde vinha, mas pronunciá-lo e pensar nele trazia uma estranha sensação de assombro, também convicção de que era uma combatente, soldada bem treinada e podia sentir isso em cada poro de seu corpo quando entrava em ação e tinha a missão de encontrar dois outros soldados. Sabia os nomes desses soldados: Soldado Invernal e o Capitão América.
Curiosamente, não sabia quem aqueles dois eram, só conhecia o nome deles. Até à noite anterior, quando o homem extremamente alto, musculoso, loiro e de olhos azuis lhe perguntou por que queria matá-lo. Então deduziu que aquele seria o Capitão América. Lembrou-se dos poucos segundos que passaram juntos e as perguntas que ele havia feito naquele momento lhe trouxe uma angústia profunda, como se um grande buraco negro tivesse sido aberto dentro de sua alma e estava sugando tudo que era ela, ou quem ela chegou a ser um dia.
Não ter memórias é como não ter uma identidade, por isso estava num estado desesperado de tentar se agarrar a alguma coisa na tentativa de encontra-se a si mesma. Desde a noite anterior, tentou lembrar-se de sua infância, adolescência e se era tão boa no combate corpo-a-corpo deveria ter aprendido em algum lugar. Tentava se recordar desse lugar, de qualquer lugar. Entretanto tudo o que conseguia ver dentro de si era o vazio.
Sentia-se fraca, exposta, vulnerável e, consequentemente, furiosa. Os punhos dela se fecharam violentamente com a onda de raiva que sacudiu seus músculos. Encarava a si mesma pelo reflexo, sua expressão não demonstrava fraqueza por mais que se sentisse assim. Alguém tinha feito aquilo com ela, destruído seu passado e se tinha uma coisa que queria tanto quanto recuperar suas memórias era vingança.
Uma mão tocou o seu ombro e, sem pensar, o corpo de respondeu. Agarrou o pulso e o girou, enquanto posicionava o seu corpo para encarar quem a tinha tocado e, no instante em que encarou o rosto do homem que vira também na noite anterior, o soltou e defendeu precariamente com os braços a chave que ele tentou lhe aplicar.
Com apenas um segundo de ação e defesa Clint prendia um dos braços de , o olhar dele centrado e em alerta. acenou com o outro braço, indicando redenção.
- Desculpa, me pegou desprevenida. – Explicou, sentindo o olhar de Barton lhe sondando duvidoso. – É sério, não ouvi quando entrou no quarto.
- Nem quando eu chamei o seu nome? – Parecia uma pergunta carregada de ironia, por mais que ele permanecesse sério, sem desviar os olhos dos dela nem por um segundo.
- Não, não te ouvi me chamar. – Afrouxou a outra mão que segurava o braço dele que a prendia. – Eu estava concentrada, numa espécie de meditação tentando recuperar minha memória.
Clint a soltou, mas sua linguagem corporal deixava bem claro que estaria pronto caso ela o atacasse.
- Credo, até parece que um homem desse tamanho tem medo de mim. – Provocou se afastando dele rolando os olhos e voltou a encarar a janela, o sol começava a ser pôr.
Clint riu como se aquela fosse realmente uma ideia ridícula.
- Nós dois sabemos que você não é de confiança, mas eu te quebraria em um minuto.
- Uau! Isso soou extremamente tentador. – piscou um dos olhos para ele, Clint abriu a boca para responder, mas a porta da enfermaria foi aberta e ele se virou para olhar quem estava entrando.
A jovem seguiu o seu olhar e encarou o homem que entrava. Observou o relógio caro no pulso, a camisa esportiva e os sapatos italianos. Ele andou devagar até os dois, parou e tirou os óculos escuros aproximando seu rosto do de de uma maneira que quase a deixou constrangida.
- Santa Maria... – Murmurou o homem arregalando os olhos. – Quando disseram que encontraram a minha tia desaparecida durante a Segunda Guerra achei que estivessem falando de no máximo uma senhora caduca prestes a bater as botas e não de uma jovem gostosa!
- Tia? – Questionou , olhando do homem atrevido a Clint.
Barton sorriu olhando para os dois.
- Tony, essa é . E esse é Tony Stark. – Clint declarou encarando a expressão dos dois com um expressivo sorriso de divertimento.

Assim que Steve abriu a porta da sala de treinamentos, um punching ball quase lhe acertou a cabeça. Felizmente ele desviou prontamente graças aos seus reflexos. Olhou ao redor da enorme sala de treinamento e deparou-se com Wanda o olhando quase que constrangida e falcão sobrevoando o amplo salão com suas asas e assoviando animado.
- Essa foi por pouco, Wanda. – Falcão sorriu enquanto pousava, andou em direção a Steve. – Mais um pouco e teríamos um Capitão sem cabeça. – Deu um soco leve no ombro do colega.
- Desculpa. – Pediu a Feiticeira Escarlate com o seu leve sotaque. Steve percebeu que ela já estava usando o seu novo uniforme. – Mas devia bater antes de entrar. Achamos que não viria hoje.
- Por que eu não viria? – Steve perguntou confuso, olhou ao redor e percebeu que ninguém mais estava treinando além de Wanda e Falcão.
- Parece bem dedicado a encontrar o que restou da Hydra, sem falar na mulher misteriosa que deu uma surra em você e na Romanoff. Clint também está monitorando ela agora junto com o Tony já que ela possivelmente também é a tia desaparecida dele. – Falcão tirou seus óculos e observou a expressão séria e contrariada de Steve, sabia que ele ficava bem tenso quando algo estava relacionado com a Hydra e seu passado, mas também sentia que Steve às vezes parecia equilibrado demais e só aliviava o estresse socando a cara de alguém.
- Tia do Tony? Ela parecia bem nova pelo que vi ontem. – Wanda perguntou, confusa. Steve a olhou.
- A viu ontem?
- Não pessoalmente. Clint a estava monitorando, eu vi pelo televisor dele. – Explicou a Feiticeira. – Mas talvez mais tarde eu a veja, querem que eu descubra se ela tem boas intenções, não é?
Falcão assobiou impressionado.
- Então é provável que ela entre para o nosso time também, não é? Já que estamos agregando mais gente e falando nisso Peter Parker está a caminho, aceitou o convite de Tony.
Steve pareceu alarmado com tanta informação de uma vez só.
- Na verdade, eu não tinha pensado nisso. Antes precisamos descobrir muita coisa até poder fazer suposições. – Respondeu ele encarando os dois.
- Se tem uma coisa que podemos supor com certeza é que dois Stark no mesmo lugar vai ser impossível de aguentar. – Riu Falcão e até Wanda segurou um sorriso divertido.
- Sabe de uma coisa, hoje devemos fazer um treinamento a céu aberto. – Sugeriu o Capitão. – Wanda, cheque as notícias e veja quais ocorrências podemos responder nessa noite. Chame o Visão para se juntar a nós.
- Parece estar ocorrendo um incêndio no centro de Nova Iorque, fora de Manhattan. – Wanda informou depois de checar o sistema de atualizações da Torre.
Steve pendurou o escudo nas costas e se retirou sendo seguido pelos outros.

encarou Tony que estava do outro lado da mesa sentado de frente para ela.
- Então eu não sou sua tia, eu sou sua prima e há uma grande diferença nisso. – Disse rolando os olhos e cruzando os braços.
- Na verdade, eu te chamei de tia por você ser... de mais idade. – Provocou Tony abrindo algumas pastas diante da mesa e as empurrou na direção de . – Mas se você achar que é falta de respeito eu posso lhe chamar de Senhora.
Ela o encarou prestes a dar uma resposta que envolvesse algum insulto, mas quando seus olhos encararam os arquivos que ele colocou na mesa a resposta se perdeu. Olhou para Clint que estava calado desde então e com um olhar ele a induziu a pegar os arquivos. A jovem encarou a pasta que continha muito mais que fotos e protocolos, aquilo tinha um valor subjetivo enorme. Não ia encontrar só seu histórico escolar e médico, parte de quem era estava ali naqueles papéis e em parte aquilo era assustador.
Abriu a primeira pasta e uma foto em preto e branco tomava conta da metade da primeira folha. A jovem na foto tinha os cabelos escuros, um olhar forte e um quase sorriso doce. Estava de braços cruzados e parecia vestir um uniforme do exército. O penteado clássico e beleza suave davam a jovem um estilo lindo retrô. perdeu a respiração por um segundo enquanto reconhecia aqueles traços como seu.
Olhou o nome escrito embaixo da foto: Elise Stark, Codinome: Miss Stark, Posição: Agente e Estrategista de batalhas do exército americano e Coordenadora das indústrias Stark. Nascida em 12 de Setembro de 1921.
Ao ver a data de nascimento um arrepio gélido percorreu-lhe a espinha. Ela tirou os olhos do arquivo e encarou Tony e Clint seriamente.
- Tá de brincadeira comigo, não é? Querem me convencer de que eu nasci em 1921? – Sibilou entre dentes. – Tudo bem que não estou mentalmente sã, mas eu não sou idiota!
- , por favor. – Pediu Clint calmo. – Que vantagem teríamos se criássemos uma história absurda? É tão inacreditável pra você quanto é pra nós, também precisamos descobrir o que houve com você. Por favor, continue a ler os arquivos.
Ela olhou para Tony que repentinamente havia parado com as provocações e agora a observava atento, voltou a encarar os arquivos e deparou-se com um pequeno registro de tudo que havia vivido. Nasceu e cresceu em Nova Iorque, seu pai morreu na adolescência e logo depois a mãe o que a fez ir morar com o seu tio Howard. Howard que cuidava de uma indústria e dono de um conhecimento cientifico incrível deu espaço ao crescimento de que ao trabalhar com o tio ampliou seu conhecimento e prática cientifica, patenteou várias criações tecnológicas e embarcou em missões com o exército americano derrubando várias tropas nazistas se tornando assim uma grande figura.
- Céus, eu fiz tudo isso mesmo? – Murmurou virando páginas e páginas de relatórios sobre suas missões. – Eu fui uma máquina. – Usou um tom quase irônico.
- Você foi uma lenda. – Corrigiu Tony.
Depois de fotos e relatórios, vieram recortes de manchetes dos jornais mais famosos da época. Fotos de e sua grande beleza classista ao lado do Capitão América e de outros soldados, e Peggy Carter, e Howard que carregavam o título das indústrias Stark. E depois das manchetes vieram as fotos antigas e desbotadas dela com o loiro que vira na noite anterior, pareciam sorrir segurando xícaras e muito agasalhados em alguma cabana fria, pareciam cansados.
Em outra foto ela estava com o cabelo despenteado, nada das curvas glamorosas seguradas pelo laquê, estava suja de terra no meio de dois rapazes. O da direita era o loiro que vira na noite anterior e o da esquerda tinha os cabelos negros, também alto e com o uniforme do exército tão sujo quanto o de . Apesar de parecem ter lutado pra caramba, o sorriso no rosto dos três mostravam satisfação. Virou a foto e viu que estava escrito atrás “Companheiros de guerra: Bucky, e Steve depois de acabar com uma tropa nazista”.
- Esse loiro da foto, o Capitão América... – virou a foto para que Tony e Clint pudessem ver. – Eu não lembro de nada praticamente, mas algo na minha mente fica dizendo que ele é minha missão.
- Lembra-se de ter visto ele antes, lembra-se de ter vivido isso? – Clint puxou uma cadeira mais próxima dela e se sentou.
- Não exatamente. – Ela respondeu e Tony mudou sua postura endireitando as costas visivelmente curioso. – Sinto uma grande nostalgia, como se houvesse saudade. Quase sinto que posso alcançar lembranças, mas não consigo nada.
- Tudo bem, pelo menos a sensação de nostalgia pode nos dizer que se se esforçar um pouco mais pode lembrar- se de alguma coisa. – Comentou Tony pegando a foto da mão de e apontou para o Capitão América. – Esse é o vovô Steve, vocês eram bem próximos. Talvez convivendo com ele de novo possa ir se lembrando de algumas coisas.
Seus olhos voltaram-se novamente para os arquivos, tinha acabado com uma pasta já e então pegou a segunda e a abriu. Tinha uma ficha sua novamente com dados, mais especificamente da que era considerada sua “última missão”. Tinha um relatório de Peggy Carter, um de Howard e outro de Steve. Lendo por cima percebeu que em um confronto contra o acampamento do exército americano conseguiram captura-la e desde então haviam registrados rastros que poderiam usar para encontra-la. Mas ao ir avançando por cada relato do arquivo feito por diferentes pessoas sentia o crescente desespero da equipe ao constar que mesmo derrotando o Caveira Vermelha não havia nenhuma pista do que havia acontecido com ela.
“A desaparecida Miss Stark” diziam as manchetes, “Qual será o paradeiro de Stark?” e mais “Nazistas podem ter matado Stark”. Ela leu a última manchete e respirou fundo, sentia o peito comprimido como se não existisse mais ar naquela sala. Os olhares de Clint e Tony caíam como chumbo sobre ela. Na última folha do arquivo tinha uma carta anexada, no envelope estava escrito “De Howard para ”.
- A perdida Miss Stark. – Comentou Tony a tirando de seu torpor. – É assim que te chamam até hoje. Quer dizer, se você é você... Quer dizer, se você é quem pensamos quem é...
- Já entendemos, Tony. – Cortou Clint. – E ela é. Os exames do DNA confirmaram isso ontem.
Os dedos de Tony tamborilaram batidas na mesa, um sinal um tanto apreensivo percebeu .
- Legal, então. – Ele comentou com os olhos arregalados para . – Minha única família é uma tia da década de 40 que não envelhece.
- Prima! – Corrigiu com fúria na voz.
- Seja lá o que você tenha feito pra se conservar poderia me passar a receita, imagina o quanto poderíamos vender com a indústria de cosméticos. “Fibra de para você que tem problemas com rugas”... – Tony anunciava pensativo, Clint tossiu sem saber se ria ou mandava os dois pararem e irritada pegou umas das pastas e bateu com ela na cara de Tony. O Homem de Ferro se levantou dando um soco na mesa como resposta e Clint se colocou entre os dois.
- Já chega! – Resmungou Gavião. – Parecem duas crianças! Tony pare de provocá-la e controle sua agressividade!
Tony ajeitou o paletó e voltou a se sentar com um olhar duro na direção da jovem enquanto ela se abaixava para juntar os arquivos que tinham caído. Seu olhar pensativo parou mais uma vez sobre várias fotos. Pegou um que tinha olhado há pouco e não tinha prestado tanta atenção, era ela com Howard Stark e uma mulher mais velha que eles dois. Tocou a foto para tirá-la do chão e então sua cabeça latejou de dor, ela arfou e sibilou tentando se controlar, mas a dor progrediu até a fazer gritar.

1942

As paredes brancas do hospital davam enjoo à . Ela tremia sem parar, já não sabia mais se era de nervoso ou por estar com frio e toda molhada. Sair correndo para a rua gritando por socorro quando sua mãe desmaiou na sala foi uma tarefa tão instintiva que ela só percebeu que estava debaixo de chuva quando chegaram pra ajudar. Tinham levado sua mãe desacordada e a deixaram esperando lá em mio a um monte de enfermeiras com seus aventais e chapeis que passavam pelo corredor trazendo uma corrente de ar que só fazia estremecer ainda mais.
Estar em uma situação crítica como aquela sem saber se estaria tudo bem com a sua mãe era particularmente difícil por ela estar sozinha, sentia imensa saudade do seu pai e desde que morrera as coisas foram ficando cada vez mais difíceis principalmente financeiramente. O pai de fora enviado para a Europa no ano anterior quando o presidente Roosevelt começou a mandar tropas americanas pra lá e ele morreu em combate duas semanas após ter saído de casa.
Alyssa, mãe de , não queria aceitar dinheiro do irmão mais novo Howard e dizia que seria capaz de cuidar de si e da filha sozinha, mas não era tão simples quanto parecia. sentia que não precisavam só de dinheiro, mas também de apoio familiar, por isso antes de ficar no corredor esperando por notícias tinha pedido a uma vizinha para mandar um telegrama para seu tio Howard.
- Stark? – Perguntou uma enfermeira loira se colocando diante da jovem enquanto arrumava seu chapéu. balançou a cabeça afirmando. – Bem, Alyssa era sua mãe, certo? Não posso imaginar como seja difícil ouvir isso, eu sinto muito, mas sua mãe teve um infarto e quando ela chegou ao hospital já não havia mais nada que podíamos fazer.
As lágrimas rolaram enquanto seu coração era partido mais uma vez. Não sabia se a enfermeira tinha dito alguma outra coisa, se ela havia tentado abraça-la, só conseguia ouvir os próprios gritos e de repente Howard Stark vinha correndo pelo corredor do hospital e a prendeu em seu abraço.
- Vai ficar tudo bem, pequena. – Ele sussurrou abraçando uma sentada ao chão.

Atualmente
As lágrimas escorriam enquanto gritava, Clint a tentou tirá-la do chão, mas ela o arremessou contra a parede e Tony surpreso a encarou nos olhos.
- Ei... vai ficar tudo bem, pequena. – Disse ele enquanto Clint se levantava com um resmungo. E sua voz soou exatamente como a de Howard. – Ninguém vai te machucar, , por favor, se concentre em nós. Lembra que estávamos conversando, não lembra?
Ele respirou fundo olhando o ambiente a sua volta, estava de novo na sala com Clint e Tony. O que havia vivido alguns minutos atrás era na verdade... uma lembrança.
- Desculpa... –Sibilou levantando as mãos em um sinal de paz. – Desculpa, de verdade. Eu só acabei de ter uma lembrança muito forte.
Clint suspirou aliviado e voltou a se sentar enquanto Tony fazia o mesmo.
- Do que se lembrou? – Eles perguntaram ao mesmo tempo.
pegou a foto do chão e mostrou para eles.
- Aqui, essa é a minha mãe! E meu tio Howard.
- Também conhecido como meu pai. – Declarou Tony, mas ela o ignorou.
Ela olhou para a foto mais uma vez e sentiu o que reconheceu como saudade.
- Isso não pode ser verdade. - Murmurou e olhou seriamente para os dois, sentia as lágrimas ainda presas nos olhos. – Estão fazendo algum teste mental comigo? Como posso confiar em vocês?
- Como nós podemos confiar em você? – Clint se levantou e a olhou nos olhos. – Os dois lados aqui estão se arriscando, mas se queremos descobrir mais precisamos de alguma maneira nos unir.
olhou mais uma vez a foto e os arquivos e depois a cara de idiota do Tony e concordou.
- Então, hoje pedirei para que Wanda veja sua mente e a intenção que há nela. Se todos concordarem, te mostrarei a Torre e você nos ajudará a descobrir o que aconteceu. – Clint explicou observando que parecia pensativa e depois olhou Tony que maneou a cabeça de forma afirmativa.
- Está bem. – Respondeu por fim a jovem, sentando-se novamente.
- Já que resolvemos em parte todo esse drama, eu vou me arrumar porque espero curtir bem a noite de Manhattan antes que comecemos a semana salvando todos os indefesos civis de Nova Iorque. – Tony declarou ajeitando seu blazer enquanto se levantava e caminhava até a porta. Clint se levantou recolhendo os arquivos.
- Posso ficar com eles? – perguntou olhando para as pastas nas mãos do Gavião.
- Pode, talvez lhe ajude com alguma coisa. – Entregou em suas mãos os arquivos e caminhou até a porta com Tony. –Aguarde aqui, mandarei Wanda vir lhe encontrar.
- Como se eu tivesse como ir pra algum outro lugar. – Ela resmungou cruzando os braços voltando seu olhar para o teto. Infelizmente a sala nem janelas tinha. Gavião pareceu não ouvir a última frase dela e saiu trancando a porta.

Uma hora.
Duas horas.
Talvez três.
perdeu a noção de há quanto tempo estava esperando, apoiou os braços na mesa e deitou a cabeça sobre eles e dormiu um pouco até Tony entrar novamente na sala e bater a porta.
Ela se endireitou em um pulo atenta no segundo em que despertou.
- Oh, desculpe. Eu te acordei? – Havia um leve tom irônico e divertido na voz dele. – Vim te apresentar uma pessoa, .
se levantou ignorando o comportamento irritante de Tony e observou a mulher entrar na sala. Ela tinha cabelos longos e pretos, usava uma jaqueta de couro vinho e um vestido preto com meias longas e coturno. Pareceu um visual um tanto gótico, reparou. Então pensou em buscar referências do que exatamente era gótico, mas sua mente vazia não foi capaz de lhe apresentar nenhuma lembrança relacionada ao termo.
- Olá, . – Ela tinha um sotaque que lembrava os russos, mas era um pouco diferente. – Meu nome é Wanda.
Como não respondeu, Wanda se aproximou e sentou-se na ponta da mesa. Tony saiu da sala fechando a porta.
- É você que vai ler a minha mente? – Perguntou observando a outra que parecia um pouco mais velha, ou talvez tivessem a mesma idade. Não, se lembrou, não teriam a mesma idade porque a Stark tinha nascido em 1921.
- Sim. – Wanda se aproximou então ficando de frente para , depois a observando andou ao redor dela. – Poderei ler quais são suas intenções, assim saberemos melhor o que fazer com você.
Com uma careta soltou um risinho de escárnio, uma resposta tão involuntária quanto um reflexo.
- “O que fazer comigo?”, parece ser a sensação do momento. – Comentou quando Wanda se posicionou novamente à sua frente.
- Não tente nada ou eu explodo a sua cabeça. – Wanda arrumou as mangas da jaqueta. – Ah, e a sala é monitorada. – Foi só o que disse antes de colocar seus dedos nas têmporas de . Seus dedos gelados tocaram a pele quente da jovem e seus olhos adquiriram um brilho vermelho intenso, enquanto que os de ascendiam num tom violeta extremamente incomum. Wanda observou curiosa e viu entrar em torpor perdendo o controle de sua consciência dando passagem para Wanda.
Ler a mente de alguém era intenso, muito árduo. Wanda às vezes ficava impressionada com a magnitude de suas próprias habilidades e ainda havia muita coisa que precisava aprender a controlar, mas ainda assim tinha certeza que nunca veria algo como aquilo novamente.
Estava completamente escuro, não podia ver nada ao seu redor. Estendeu a mão na tentativa de sentir parada à sua frente, mas ela não estava lá.
-? – Wanda sentiu a ansiedade na própria voz. Uma brisa gelada soprou ao seu redor fazendo todo o seu corpo arrepiar violentamente. Então, o local começou a clarear como se as luzes fossem acesas gradativamente.
Wanda estava cercada por outras Wandas.
Assustou-se no primeiro segundo, mas depois percebeu que eram reflexos seus. Vários espelhos estavam espalhados ao redor, incontáveis espelhos.
- ? – Ela chamou começando a caminhar entre os espelhos e as variadas imagens de seus reflexos não a deixavam entender que caminho estava fazendo, confundiam sua cabeça, já começava a achar que alguns dos reflexos não se moviam como ela estava se movendo. E então ela viu a imagem de passando pelo espelho à sua direita. Virou-se para observar o reflexo dela, mas agora ela estava passando pelo espelho da esquerda.
Virou-se para o espelho da esquerda e num piscar de olhos todos os reflexos eram da imagem de , mas ela não conseguia encontrar a verdadeira. Olhou ao redor a procura dela, mas percebeu que só conseguia ver reflexos e a imagem que o espelho apresentava era de uma com os cabelos ondulados perfeitamente arrumados com laquê e um vestido de festa, a imagem de uma antiga.
- Onde você está? – Sussurrou Wanda encarando a imagem no espelho.
A imagem de sorriu.
- Eu estou bem aqui. – A voz não saiu de nenhum dos espelhos, mas sim detrás de Wanda. E no espelho à sua frente, a feiticeira Escarlate viu o seu próprio reflexo e o de uma a encarando pelas costas. Virou-se para a jovem confusa.
A que a encarava agora tinha a os traços do rosto cansado, os cabelos estavam compridos e mal cuidados amarrados em um rabo de cavalo, o olhar em seu rosto era completamente insano e um brilho violeta profundo irradiava de sua íris.
- Quem é você? – Perguntou a Feiticeira tentando ler o olhar sombrio no rosto insano de .
Em resposta a Stark sorriu e os espelhos explodiram violentamente assustando Wanda que reagiu com seus poderes tentando controlar os milhares de fragmentos no ar, mas logo percebeu que não era necessário. Os próprios fragmentos se sustentaram no ar, levitando, cada um mostrando a face de uma antiga .
A de agora caminhou entre os fragmentos, tocando alguns com os dedos ainda sorrindo.
- Eu sou o que restou. – Respondeu levando seu olhar até Wanda agora. – Sou a parte que conseguiu sobreviver enquanto o meu ser se despedaçava em fragmentos. Sou um caco do espelho rachado que não pode encontrar o seu resto, sou a parte de um todo. – Caminhou até a Feiticeira Escarlate, ficando perigosamente próxima e seu sorriso se desfez enquanto sussurrava no ouvido dela: - E infelizmente, sou a parte ruim.
Wanda olhou para os fragmentos que flutuavam ao redor das duas.
- Como pode ter tanta certeza? – Perguntou esticando as mãos para pegar dois cacos de espelho ao seu redor. – Os pedaços ainda estão aqui, pode ser que ainda dê pra juntá-los. – Falou encaixando os dois cacos que refletiam o sorriso de uma Stark perdida décadas atrás.
A Feiticeira Escarlate olhou os olhos amendoados da Miss Stark que estavam nos cacos em suas mãos e depois para os olhos violetas de à sua frente.
- Por que os seus olhos brilham dessa cor?
- Assim eu enxergo melhor no escuro. – Ela respondeu. Então as luzes se apagaram, a escuridão voltou e a única coisa que Wanda enxergou antes de ser envolvida pelo escuro foram os olhos violetas da Miss Stark.


Capítulo 4


Sair da mente de Stark foi tão difícil quanto entrar. Wanda sentiu-se forçando a si mesma a voltar enquanto sua cabeça parecia estar sendo arrancada de si. Doeu e muito.
Quando abriu seus olhos sentiu a cabeça doer também por conta da iluminação da sala, como se ela tivesse ficado realmente no escuro por muito tempo.
Olhou para que continuava de olhos fechados, sangue escorria do nariz dela e aos poucos o corpo dela amoleceu e Wanda a pegou antes que ela caísse no chão.
- Ei, ! –Wanda chamou na mesma hora que Clint entrou na sala e a ajudou a sentar em uma cadeira.
A Stark franziu o rosto e se sentou colocando as mãos na cabeça.
- Você disse que não ia doer. – Resmungou ao abrir os olhos, passou a mão no rosto e depois encarou seus dedos manchados de sangue.
- Isso nunca tinha acontecido antes. –Murmurou Wanda em resposta.
As duas se olharam por um momento, relembrando o que havia acontecido. Wanda e analisaram os olhos uma da outra como se o que tivesse acontecido fosse extremamente íntimo e de fato era. Wanda sentiu-se invasiva na mente dela, e , claramente, não estava confortável.
- Vocês duas estão bem? – Clint perguntou ao ver as duas se encarando.
balançou a cabeça e se levantou.
- Você espera aqui... – Disse olhando para e saiu da sala sendo acompanhado por Wanda.

Steve estava cansado, precisava de uma boa noite de sono. Logo após o farto jantar para repor as energias, uma preguiça havia tomado conta do supersoldado. Sem falar no dia corrido depois de discutir com Natasha sobre os arquivos encontrados, treinamento dos Novos Vingadores e salvando algumas pessoas de um prédio em chamas no centro da cidade. Precisava de um tempo pra descansar, mas antes tinha uma coisa que os Vingadores deveriam resolver e por mais que estivesse com vontade de deitar, ele queria ainda mais era saber o que seria decidido sobre o caso de .
Depois de ter feito o jantar, ele seguiu até a enorme sala de estar da Torre e sentou-se no sofá aguardando pelos outros. Tudo na Torre era muito sofisticado com tecnologia de ponta, tudo tinha um ar de riqueza e moda que Steve felizmente já havia se acostumado, mas que também o fazia sentir saudade de seu pequeno apartamento no Brooklyn com os móveis de madeira.
Thor foi o primeiro a chegar. Com todo o seu porte enorme forte sentou-se na outra ponta do sofá e Steve sentiu o móvel se mover um pouco.
- Olá, irmão. – Ele disse todo sorrisos com sua voz grave digna de um deus.
- Olá, Thor. Como foi a viagem?
O deus tinha ido passar alguns dias com a namorada Jane e voltara agora todo sorridente, pelo visto os dias de folga tinham sido proveitosos.
- Foi ótimo! – Thor deu uma risada grave que reverberou pela sala. – E você, irmão? O que fez nos últimos dias?
Steve suspirou se acomodando mais no sofá.
- Nada demais. Mas encontrei uma pessoa que pode ajudar a encontrar mais informações sobre a Hidra.
- Humm... – Thor coçou o queixo observando Steve. – Vejo que parece preocupado, mas não fique ansioso. Tenho certeza de o que quer que tenha encontrado pode tirar coisas boas disso.
Steve sorriu, percebeu que sentiu falta do jeito amistoso e ao mesmo tempo poderoso de Thor, a presença dele era reconfortante de diversas maneiras. Sem mencionar que muitas vezes Steve e Tony não matavam um ao outro, porque Thor sempre trazia a razão para qualquer discussão.
Clint entrou na sala acompanhado de Wanda e logo atrás Natasha apareceu. Wanda sentou-se no sofá de frente para Steve e Thor e Steve a observou por alguns segundos. Ela foi a última a ter contato com e queria o quanto antes saber como foi, mesmo que estivessem a ponto de falar sobre isso ele não podia evitar o hábito de observar alguém e tentar ter alguma resposta através disso.
Olhou para Natasha que estava sentada em uma cadeira ao seu lado e ela olhou para a perna dele que não parava de balançar. Ele notou que sua ansiedade não passou desapercebida aos olhos da russa e parou de sacudir a perna.
- Onde está Tony? – Steve perguntou percebendo que não havia nem sinal dele pela Torre.
- Ele saiu. – Clint disse apoiando uma das pernas na mesa de centro. –Mas já viu e nós contamos a ele o que sabemos de sua história.
Natasha apoiou os braços nos joelhos projetando o seu corpo mais à frente, claramente interessada.
- E como foi?
- Espera. – Pediu Thor olhando de Clint para Steve. – é a pessoa da qual falou agora há pouco?
- Sim. – Steve confirmou balançando a cabeça uma vez. – É uma velha amiga, foi sequestrada pela Hidra em 1942. Eu e a Natasha a encontramos e ela não faz ideia de quem é, não tem memória.
- Mas ela pode recuperá-las. – Completou Natasha. –E por isso ela está conosco. Através dela podemos conseguir mais informações para acabar de vez com o que restou da Hidra, podemos chegar ao Soldado Invernal...
- Bucky. – Corrigiu Steve rapidamente.
-E quem sabe as habilidades não nos sejam úteis para outras missões também. – Completou Romanoff encostando as costas na cadeia e cruzando as pernas.
- Mas para deixá-la na Torre precisamos saber se ela é de confiança. –Concluiu Thor e com essa afirmação todos pousaram o olhar em Wanda.
- Enquanto eu e Tony estávamos com ela, observamos algumas coisas. –Clint olhou para cada um até seu olhar parar em Steve. – Demos fotos a ela pra provar as histórias que contamos. Duas em especial parecerem afetá-la remotamente e uma em especial a fez entrar em um estado de transe enquanto revivia uma memória.
Steve se inclinou para frente no sofá.
- Que fotos? O que aconteceu?
Clint pegou a pasta que estava em seu colo e a abriu sobre a mesinha de centro. Na primeira página estavam separadas três fotos e ele as entregou a Steve.
Steve segurou as fotografias, olhou a primeira e o aperto em seu peito quase o deixou sem respirar como se Thor tivesse dado uma grande martelada em seu tórax. A fotografia mostrava ele e segurando duas xícaras de café e ele se lembrava perfeitamente bem daquele dia. Estavam acampando no leste europeu e durante as frias madrugadas de inverno ele, e Bucky tomavam café e tiravam um tempo pra conversar antes de voltarem para as batalhas. Aquela fotografia foi tirada por Bucky, e os três costumavam ter uma cópia dela.
Ele olhou para a segunda foto e viu a imagem dele abraçando e Bucky, os três com uniforme de combate completamente sujos e rindo. Era uma foto que ele tinha e olhava sempre que podia recordando dos bons momentos, por muitas vezes aquela lembrança o fazia ter esperança em continuar lutando. Não pode evitar um sorriso ao ver aquelas duas fotos.
- Foi assim que ela reagiu. –Clint falou olhando para Steve. – O mesmo olhar de saudade que você tem agora mostrou ao ver essas duas fotos.
Steve pegou a terceira foto e viu nela com a mãe Alyssa e o tio Howard.
- Ao ver essa foto ela começou a chorar, então os olhos dela ficaram... diferentes. – Clint franziu a testa tentando descrever para os outros. –A íris tomou uma tonalidade violeta muito forte e ela se agachou no chão com o olhar perdido por alguns segundos, então voltou a soluçar chorando...
Todos olharam atentamente para Clint esperando que ele continuasse.
- Eu fui tentar acalmá-la, perguntar o que estava sentindo. Mas quando me aproximei, com um simples empurrãozinho ela me arremessou contra a parede.
Thor arregalou os olhos.
- Te arremessou como se fosse uma folha de papel?
- Calma. Não é pra tanto! – Riu Clint levemente incomodado. – Se eu quisesse teria revidado...
Natasha riu alto.
- O que quero dizer é que a jovem é extremamente forte. – Completou Clint cruzando os braços e rolando os olhos.
- Os olhos dela. – Wanda começou a falar se pronunciando pela primeira vez e todos os olhos da sala se voltaram para ela. – Eu também vi.
Steve guardou as fotografias dentro da pasta de Clint e a deixou sobre a mesa, olhou para Wanda atento cruzando os braços sob o peito.
- O que viu na mente dela, Wanda? – Ele perguntou enfim. Ansiava por aquela respostas há dias. O que quer que estivesse na mente de definia quem ela era agora e toda decisão que fosse ser tomada a respeito dela dependeria da resposta de Wanda.
- O que vi na mente dela foi único. Nunca tinha visto algo assim antes. – Ela disse diretamente para Steve ele percebeu que os olhos dela o observavam. – Ela realmente não tem lembrança alguma, o que vi foi sua personalidade fragmentada e uma parte dela lutando para permanecer durante esse processo árduo de identificação que ela está buscando.
- Você fala como uma psicóloga. – Observou Natasha. – Então é como se a personalidade estivesse fragilizada?
- Sim. – Respondeu Wanda. – Ela não faz ideia de quem é, mas ela sabe que é perigosa. Está tentando descobrir quem é e ainda assim parece ter medo de si mesma.
- Coitada. – Comentou Nat franzindo a testa. – Então o que faremos com ela? Se ela está em um processo de reconstrução da personalidade pode demorar até recuperar as memórias, isso se ela recuperar.
- Ela vai recuperar. – Wanda disse em um tom de total certeza que praticamente acalmou o coração de Steve. –Eu sei que vai, vi isso na mente dela. As memórias estão lá, em pedaços e inacessíveis no momento. Mas se soubermos como estimular ela é provável que ela as recupere.
Todos ficaram em silêncio por um momento, pensativos.
- Acho que devemos dar uma chance à ela. – Thor disse finalmente quebrando o silêncio. – Melhor monitorá-la de perto do que descartar ela.
- Não estávamos pensando em descartar. –Steve respondeu imediatamente e Natasha sorriu de lado.
- Fica tranquilo, Cap. Não queremos acabar com sua única paquera dos últimos 70 anos. –Ela brincou. Steve rolou os olhos enquanto Clint segurava uma risada e Thor sorriu contente.
- Paquera? –Ele perguntou curioso. – É outro termo que vocês mortais usam para “namorada”?
Depois disso Clint não conseguiu segurar uma risada e Wanda também riu baixo e Steve lançou um olhar impaciente aos dois.
- Jovens, por favor, vamos manter o foco. – Ele pediu descruzando os braços e passando uma das mãos pelo cabelo claramente desconfortável.
- Certo. – Concordou Wanda tentando colaborar com Steve. – Eu concordo com Thor, ela precisa ser monitorada. Mas não dá pra mantê-la presa dentro de uma sala, ela precisa de um espaço para que possa se desenvolver e para que possamos descobrir mais sobre ela.
- Concordo com a Feiticeira. – Clint declarou. – Quero conhecer as habilidades de combate dela e vou precisar de Natasha pra isso. Sem falar que precisamos descobrir o que aconteceu com ela enquanto estava com a Hidra.
- Eu tenho uma ideia do que pode ter acontecido. – Romanoff suspirou e olhou para Steve. – Acho que ela foi torturada, Steve.
Ele a olhou nos olhos aguardando por mais informação que aquela e apenas aquela frase já fazia seu coração pesar.
- Quando ela chegou e eu fui coletar um pouco do sangue dela para fazer exames... encontrei cicatrizes pelo braço que iam até as costas. Deve ter outras pelo corpo dela. A Hidra provavelmente a torturou querendo informações para chegar até você. – Ela disse e Steve desviou o olhar, ficou encarando os seus sapatos sem conseguir formular uma resposta.
A grande culpa pesava sobre o seu espirito, mal conseguia imaginar o que sua amiga havia sofrido. Não conseguia suportar imaginar sendo atingida várias e várias vezes se recusando a falar o que sabia. Não podia imaginar quantas vezes ela foi ferida a ponto de se perder de si mesma e tudo isso para cumprir o seu papel.
Você é um bom soldado, garota. Ele dissera uma vez a ela brincando e em resposta ela tinha sorrido orgulhosa como se aquilo fosse o maior elogio que alguém já havia feito a ela. Um das muitas memórias que tinha de que o fazia se sentir como uma sombra do que ele era no passado.
- Podemos coloca-la em quarto monitorado, ela vai ter horário para treinar comigo e com o Clint e conforme ela for recuperando as memórias nós progredimos na nossa tarefa. – Concluiu Natasha se levantando. Clint aproveitou para dizer que por ele tudo bem e se retirou alegando que precisava descansar.
Wanda e Thor deram boa noite ao Capitão e se retiraram, mas Natasha em pé cruzou os braços o encarando com uma expressão de divertimento.
- O que foi agora, outra piadinha sobre minha vida amorosa? – Steve perguntou arqueando uma sobrancelha.
- Na verdade, não. Tenho mais o que fazer e você também.
- Eu tenho?
- Sim, precisa levar para conhecer a Torre e deixá-la no novo quarto dela. – Natasha disse antes de sair da sala de estar deixando um Steve ainda mais ansioso para trás.
Steve se levantou do sofá e saiu da sala estar indo em direção ao elevador, apertou o botão e enquanto as portas se fechavam se deu conta do quanto estava aliviado apesar de tudo o que estava acontecendo. Então admitiu pra si mesmo que ele estava com medo, estava com medo de ter perdido a amiga para sempre e dela ter sofrido algo que não poderia ser reparado, ao menos agora tinha alguma esperança.
O elevador abriu e ele saiu pelo corredor, parou na porta à direita e digitou sua senha de acesso. A porta foi aberta e ele adentrou no espaço. Olhou para a figura de costas para a porta que segurava uma fotografia em sua fina e delicada mão. Ela levantou a cabeça e olhou em sua direção, os olhos estavam avermelhados como se estivessem cansado e o cabelo negro solto emoldurando seu rosto.
Há muitos e muitos anos ele sonhava com o seu passado e em todo sonho aqueles olhos estavam presentes. Por muito tempo teve a certeza de que estava morta e agora a figura dela estava sentada bem à sua frente como um fantasma. Poucas coisas haviam mudado na aparência dela, seus cabelos estavam bem mais longos, ela parecia mais forte e pelo seu olhar ele podia dizer que ela não parecia reconhecê-lo como um amigo. Os olhos dela pareciam curiosos e ansiosos, mas ela se manteve em silêncio.
- Está com fome? – Ele perguntou se aproximando, colocou as mãos no bolso da calça sem saber muito bem sobre o que falar.
Ela balançou a cabeça de forma afirmativa.
- Vem comigo, tem jantar na cozinha.
Ela arqueou as sobrancelhas surpresas e levou uns três segundos para se levantar, como se não tivesse certeza se deveria segui-lo.
- Vem, eu não vou machucá-la. – Steve disse indicando a porta.
Ela guardou as fotografias dentro da pasta e a colocou debaixo do braço, se aproximou de Steve e passou pela porta.
- Eu sei que não vai me machucar. – Ela disse parando no corredor e ele saiu da sala tomando a frente e indo até o elevador. Detectou um tom de confiança na voz dela e olhou para enquanto caminhavam até o elevador.
- Me falaram que éramos amigos. – A voz dela soou pelo cubílo de metal enquanto as portas eram fechadas. Steve a olhou e encontrou os olhos dela ansiosos o encarando. – Eu sei que falei que minha missão era te matar, me desculpe. A minha mente anda um pouco confusa.
E lá estava, a que ele realmente conhecia e não só a sombra dela. Mas também não podia deixar se iludir, se ela fosse uma espiã bem treinada também pediria desculpa. Entretanto, se fosse uma espiã Wanda teria descoberto quando entrou na mente dela. Steve soltou o ar preso em seus pulmões ainda tentando decidir como receberia aquela nova versão de uma pessoa que conhecia há muito tempo.
- Está tudo bem. Mas talvez devesse se desculpar com Barton por ter jogado ele na parede. – Comentou em tom de brincadeira saindo na sala de estar e pelo canto do olho viu ela quase sorrir abertamente.
Ela olhou ao redor observando a sala de estar, a televisão que ocupava uma parede inteira e os móveis exageradamente sofisticados. Seus olhos foram até o teto observando o enorme lustre que iluminava a sala e quando percebeu que estava distraída demais ela olhou para ele que estava sorrindo.
Quando viu que tinha a atenção dela ele virou à esquerda entrando na cozinha.
- Então, o que você quer comer? – Ele perguntou abrindo o armário, vendo a variedade de pães e biscoitos que tinha lá. Depois olhou em direção ao fogão lembrando que ainda tinha comida, provavelmente teriam esquecido de levar um jantar para ela. Steve não culpava os colegas, a rotina deles era tão agitada que eles próprios esqueciam que precisam se alimentar de vez em quando.
Olhou no relógio de pulso e percebeu que já passava da meia-noite. Lembrou que durante a guerra quando ele e os Howling Commandos passavam madrugadas acordados montando estratégia, gostava de servir chocolate quente e biscoitos para todos.
- Acho que um copo de leite quente e alguns cookies seria bom. –Ela sugeriu entrando na cozinha. Tinha os olhos atentos em tudo, apreciando cada detalhe e então ela olhou para Steve. – Eu já estive aqui antes?
- Não. – Ele disse tocando na geladeira, ela se abriu sozinha e Steve pegou a garrafa de leite. – Por quê? Algo aqui lhe parece familiar?
- Não, eu só não faço ideia de quais lugares já conheci nessa vida. – Ela contou suspirando, se aproximou da bancada e colocou a pasta em cima dela e se sentou em um dos bancos. Olhando para Steve que agora colocava o leite quente na xícara e entregava para ela com um prato de biscoitos.
Já que ela havia citado que não se lembrava de conhecer algum lugar, achou que fosse uma boa hora para fazer algumas questões que estavam na sua mente desde a primeira vez que a encontrou três dias atrás.
- Não se lembra nem mesmo do que estava fazendo na base em que te achei?
As mãos dela seguraram a xícara e os seus olhos amendoados encararam os azuis de Steve. Não pareceu nervosa, mas encarou o olhar dele por alguns segundos como se estivesse tentando entender o que ele esperava daquela pergunta, pareceu estar tentando ver se estaria sendo testada. E de fato Steve a estava sondando, mas ela não pareceu notar.
- Eu já tinha acordado lá. – Ela contou enquanto seus dedos desenhavam círculos na xícara. – E eu acordei com muita raiva. Muita raiva.
Ele franziu a testa intrigado pela maneira que ela destacou o que sentiu, deduziu que deveria ser algo extremamente forte, porque quando ele olhou os seus olhos pela primeira vez na enfermaria ela ainda parecia bem alterada.
- O que acontece quando você está com muita raiva?
- Eu... – A voz soou fraca e então respirou fundo, provavelmente não querendo soar abalada. –Eu perco o controle, não consigo pensar direito. Foi o que aconteceu quando me lembrei da minha mãe e reagi de forma muita impulsiva jogando seu amigo na parede.
Rogers se lembrou da cara de Clint ao tocar no assunto, obviamente tinha ficado com o orgulho e ferido. Agora olhando para e vendo o quanto ela aprecia uma doce garota que não faria mal nem a uma mosca, achou que a situação ou deveria ser muito engraçada de se ver ou ela realmente mais poderosa do que poderiam imaginar.
- Clint contou que seus olhos mudam, a íris fica em um tom violeta. –Ele contou pegando mais uma xícara de leite para si e se sentou ao lado de . Com a proximidade não se sentiu encarando uma estranha, estranha foi a sensação de familiaridade com ela mesmo devido às bizarras circunstâncias.
Ela piscou algumas vezes olhando diretamente para Steve.
- Meus olhos... O quê?
- Eles mudam um pouco de cor. Não sabia disso? – Ele pegou um dos cookies do prato dela e mordeu enquanto ela parecia pensativa.
- Não sabia... e ei! Pegue mais cookies, esses não vão dar pra nós dois! –Resmungou pegando um do prato e mordendo.
- Calma, eu não como tanto assim!
Ela riu balançando a cabeça de forma negativa.
- É claro que come. Analisando superficialmente sua massa corporal e sua enorme massa muscular, também se baseando no fato que você deve praticar extensas atividades físicas diárias frequentemente, acredito que para manter todo esse incrível metabolismo em um nível que está acima da linha de normalidade comparada a população em geral, você deve comer muito! –Disse rápido e com um tom de normalidade que trouxe a Steve a velha sensação de reconhecimento que aliviou a pressão em seu coração. Em momentos pequenos como esse ele se lembrava dela e em alguns outros sentia que encarava olhos vazios como se não estivesse naquele corpo, e a complexidade desses momentos causava uma incrível batalha dentro de si. Confiar ou não confiar?
Lembrou-se de setenta anos atrás do dia em que se tornara um supersoldado. e Howard o encaravam maravilhados e analisavam cada parte do seu corpo. “Analisando sua massa corporal e sua enorme massa muscular, também se baseando no fato de que você vai praticar extensas atividades físicas diárias frequentemente, acredito que para manter todo esse incrível metabolismo em um nível que está acima da linha de normalidade comparada à população em geral, você vai precisar comer muito!” Ela tinha dito sorrindo fazendo anotações no caderno de Howard, enquanto as ondas do cabelo caíram sobre o seu rosto.
Agora setenta anos depois lá estava ela, repetindo as mesmas palavras. Com uma das mãos ela tirou o cabelo dos ombros e o olhou como se esperasse uma resposta. Mas Steve não fazia ideia do que dizer.
-Por que está me olhando assim?
Rogers desviou o olhar para a xícara de leite e tomou quase metade do copo de uma vez evitado olhá-la novamente.
- Assim como? – Perguntou dando de ombros uma vez.
- Deixa pra lá. – Ela baixou o olhar para o prato de cookies vazio agora. –É que pareceu um olhar de saudade.
Ele olhou para ela que encarava a pasta fechada. Ele sentia saudade sim, mas não admitiria isso naquele momento. Não enquanto não tivesse certeza de que ela poderia recuperar as memórias, não até ter certeza de que não havia más intenções da parte dela. Steve tinha receio de que ela e Bucky tivessem mudado pra sempre, sabe se lá o que exatamente a Hidra fez com eles. Mas apesar de tudo, apesar de não querer criar expectativas em ter os amigos de volta, também não poderia desistir.
Rogers abriu a pasta em cima da bancada e a primeira fotografia era deles três. , Steve e Bucky sorrindo em 1942.
- Quem é ele? – perguntou olhando a foto nas mãos de Steve.
- Meu melhor amigo. – A resposta veio tão natural quanto respirar. Então Steve guardou a foto na pasta e se levantou levando as xícaras e o prato para a pia. –Vou te mostrar o seu quarto agora. –Olhou para indicando com a cabeça para que ela o seguisse.

Chegando a porta do quarto, Steve a abriu e acendeu a luz do aposento. Não era apertado, mas também nada muito grande. Parecia confortável, como um quarto de apartamento. Os móveis simples, era apenas uma cama, um guarda-roupa pequeno e uma escrivaninha. Em cima da cama havia algumas roupas dobradas.
-Acredito que Romanoff tenha separado as roupas para você. –Steve observou enquanto olhava o quarto, se aproximou das roupas e as olhou sem tocar e depois deixou a pasta que Clint lhe dera em cima da escrivaninha.
-É um ótimo quarto. Ficar em uma enfermaria ou numa sala esquisita enquanto todos te fazem perguntas é um pouco bizarro. –Ela sorriu por um momento quando o olhou nos olhos e então se virou para acender o pequeno abajur sobre a escrivaninha.
Steve ouviu aquilo e riu, poderia citar uma lista com milhares de coisas realmente bizarras que já havia encontrado e nenhuma delas geralmente envolvia perder a memória, bem, tirando o encontro inesperado com Bucky.
-O banheiro fica no final do corredor e esteja pronta amanhã cedo. Romanoff ou Clint passarão aqui e lhe informarão o que planejaram para manhã. –Enquanto Steve falava se aproximou da janela e observou que não dava para ver quase nada da cidade lá embaixo. Rogers se aproximou e tirou as mãos do bolso.
-. –Ele chamou para que ela o olhasse. Quando ela se virou, encarou o rosto dela de perto. –Espero que não cause problemas e se eu descobrir que há algo de errado ou que você tem outras intenções, eu...
-Tudo bem. –Ela o interrompeu com a voz firme. –Eu já entendi. Se eu for uma traidora, você me mata. Todos já deixaram isso bem claro, Capitão.
Os ombros dela estavam tensos e a respiração controlada, ele percebeu que talvez tenha pegado pesado e que fora um dia confuso para ela. Uma ameaça não melhoraria as coisas, mas não poderia deixar de dizer aquilo. Ao olhar para Bucky meses atrás e vê-lo como o Soldado Invernal e saber que ele poderia ter sido morto pelo seu amigo deixou em Steve um sentimento de dúvida, quase não se permitia acreditar que talvez pudesse ter o verdadeiro James de volta. O mesmo poderia acontecer com .
Os dois se olharam por alguns segundos e a firmeza nos olhos dela trouxeram milhares de lembranças a ele, mas provavelmente nenhuma a ela. Steve então se virou para porta.
-Te vejo amanhã. –Ele disse fechando a porta. Suspirou pesadamente ao caminhar pelo corredor, precisa dormir e esquecer por um tempo de como seria mais fácil se o passado tivesse ficado para trás.

encarou a porta mesmo depois dele ter saído por ela. Os olhos azuis do Capitão trouxeram uma sensação de tristeza a ela, como se a desconfiança da parte dele a tivesse magoado. Mesmo que não soubesse explicar, sabia que estava chateada por isso. Voltou-se apara a cama e olhou as roupas deixadas nela, eram poucas, mas er ao bastante para passar o dia seguinte.
Tirou os tênis e a jaqueta que colocaram nela quando a prenderam e abriu a pasta deitando-se na cama. Observou as fotografias que traziam a ela a sensação de nostalgia e encarou o seu próprio sorriso na imagem desejando lembrar a razão de estar sorrindo tanto.


Capítulo 5


1942

Terminar 500 abdominais fora uma tarefa árdua, até mesmo cruel para Steve que nunca foi do porte atlético e muito menos saudável. Todos já haviam terminado os exercícios, o sol já havia se posto, mas Rogers não era do tipo que desistia. E sabendo disso, o comandante até se retirou e deixou que Steve terminasse sozinho.
Quando chegou ao último abdominal ele esticou seu corpo sobre o gramado e respirou fundo sentindo os pulmões comprimidos com tamanho esforço e cada parte do seu corpo ardia violentamente, mas seu coração estava eufórico. Era pouco se comparado a que soldados comuns faziam, mas para o pequeno Steve era a meta do dia sendo alcançada.
Encarou satisfeito as estrelas que começaram a surgir no céu, sorriu de lado imaginando-se numa grande batalha correndo pelos campos de combate acompanhado de vários soldados que lado a lado lutariam pelo seu país, lutariam pela liberdade e direito de igualdade...
O momento estava tão agradável que Steve poderia até mesmo imaginar uma música distante embalando aquela cena. Encarou as estrelas novamente e percebeu que realmente a música estava vindo de algum lugar e não só das coisas que estavam imaginando. Levantou-se devagar e com dificuldade, parou para respirar com mais facilidade e começou a caminhar tentando seguir o som baixo da música.
Chegou até o pátio fechado de treinamento e ouviu a musica vir lá de dentro como um sussurro suave. Abriu a porta devagar e entrou.
No lugar onde geralmente vários soldados, recrutas e agentes treinavam não havia ninguém além da garota sentada ao chão do lado da vitrola. Era uma coisa bem peculiar naquele cenário onde alguns sacos de pancadas e outros materiais de treinamento a cercavam, mas a música suave e a expressão no rosto de pareciam trazer uma beleza singela àquele lugar.
Ele fechou a porta sem fazer barulho e atravessou o pátio em silêncio, não queria cortar aquele momento de prazer que ela parecia estar mergulhada. Sentou-se perto dela e escutou a música em silêncio.

We'll meet again
We'll meet again,
Don't know where,
Don't know when
But I know we'll meet again some sunny day


A melodia calma do jazz parecia ecoar dentro de Steve e ele sorriu relaxando. Então a voz doce e macia de começou a cantar ao seu lado.

Keep smiling through,
Just like you always do
Till the blue skies drive the dark clouds far away


Ele virou para o lado para ver o rosto dela, ainda estava de olhos fechados e cantarolava baixinho.
Então Steve se lembrou de não ter chamado ela para dançar na feira e como Bucky havia dito que ela gostava de dançar e que era um grande erro não tirar uma garota para dançar. E naquele momento ele se levantou e estendeu a mão para bem na hora em que ela abriu os olhos. A jovem o encarou com um sorriso surpreso, mas aceitou a mão dele e se levantou.
Ela era um pouco mais alta que ele, mas ainda assim se encaixaram perfeitamente em um abraço. A mão esquerda de Steve envolveu a cintura dela enquanto a direita a guiava no embalo da melodia.
- Sentia falta de ouvir uma música, então roubei temporariamente a vitrola do comandante. – Ela sussurrou como se aquilo fosse um grande segredo e quando Steve afastou um pouco a cabeça para olhá-la nos olhos, ele viu um lampejo de um divertimento ousado nela como se eles fossem parceiros de um crime.
- Eu também sentia falta de música. – Steve contou olhando a vitrola no canto do pátio. – Ajuda muito a relaxar.
- Seu desempenho é incrível, Steve. – Agora tomava aquele tom de análise que sempre usava quando conversavam sobre o Projeto. Seus olhos ficavam sérios e profissionais, o que na maioria das vezes todos os recrutas achavam incrivelmente sexy. – Sua força de vontade é maior que já vi também. Está ansioso para amanhã?
O amanhã era o grande dia, quando finalmente testariam a empreitada cientifica que seria o Projeto Supersoldado. Steve sonhava que fosse dar certo, precisava dar certo. Ele nem precisou respondê-la, só de olhá-la ele viu no sorriso dela que ela sabia.
- Vai ficar tudo bem. – Ela lhe assegurou com aquele tom sério novamente. – Vamos cuidar disso.
Então ela deitou a cabeça em seu ombro e aquele foi um dos abraços mais reconfortante que Steve já sentira em toda a sua vida e por um minuto não existia guerra, não existia o dever de ser um soldado ou a preocupação de viver e morrer lutando. Havia somente a melodia reconfortante ecoando pelo pátio e a presença inebriante de em seus braços.

Atualmente

Depois de quase três horas de luta com Natasha, parecia realmente estar cansando. Na primeira hora tinha se saído muito bem, cada golpe havia sido defendido e bloqueado, tirando algumas investidas surpresas tanto da parte dela quanto de Natasha. Enquanto as duas executavam seus movimentos, Clint observava de um canto da sala e parecia quase decepcionado, até que em um dado momento ele decidiu participar.
não entendeu o propósito da coisa toda e achou até mesmo injusto precisar lutar contra os dois, mas para sua surpresa tinha se saído muito bem. Conseguia desviar dos vários golpes da dupla, chegou a executar um mortal tomando impulso na parede. Mas isso durou apenas alguns minutos, o corpo dela já começava a demonstrar cansaço. Os músculos ardiam muito, os ossos pareciam doloridos demais e quando Natasha a acertou no joelho esquerdo ela caiu.
Sentiu que teria batido com a cara no chão se não tivesse sido capaz de colocar as mãos para amortecer a queda. Mal conseguiu respirar sentido o joelho latejar, sabia que aquela parte do corpo era mais sensível. O golpe de Natasha não fora tão cruel assim, provavelmente já havia machucado aquela área antes. Tentou se levantar, mas um chute em seu estômago fez com que ela se curvasse de novo.
Ao abrir os olhos e erguer a cabeça, viu o rosto de Clint como um borrão e tentou se levantar e recebeu outro chute no estômago.
- Levanta. – Ele disse como uma ordem. E tentou obedecer, mas ele a acertou com outro chute no estômago.
- Que merda. – Ela sibilou se colocando de joelhos. Outro chute de Clint a derrubou.
- Eu acho que você consegue fazer mais do que isso. – Ele disse pegando pelos ombros e a levantando. Ela mal teve tempo de respirar, porque no segundo seguinte Clint a jogou contra a parede. Ela bateu a cabeça violentamente e por mais que fora da sala de treino ele fosse uma pessoa gentil, ela realmente estava começando a odiá-lo agora.
- Eu consigo fazer mais. Nunca ouviu a lenda que conta como eu chutei a bunda de Hitler? – Ela sibilou em um tom sarcástico. Natasha riu do outro lado da sala e tomou um gole de água enquanto descansava assistindo os dois.
- Ela às vezes parece o Tony. – Disse a russa.
piscou irritada. Tony era incrivelmente irritante e idiota, só tinha o visto uma vez e tinha certeza de que não queria o ver de novo. Não queria ser parecida com ele.
- O que foi? Ficou irritada? – Clint perguntou quase sorrindo e bufou de raiva, tentou se desprender com uma chave, mas o punho esquerdo de Clint a acertou no estômago.
O punho de aço fez seu corpo todo tremer violentamente com o golpe e sentiu as costas serem prensada ainda mais na parede. Ela franziu a testa confusa, Clint não tinha um braço de aço. Olhou para o braço forte e ameaçador enquanto ele lhe dava outro golpe. De repente a única coisa da qual ela sabia era de que iria morrer. Tinha certeza de que iria morrer.

- O que aconteceu com o seu braço? – Ela perguntou e Clint viu que ela estava com medo.
Ele observou o próprio braço sem entender a pergunta, estava tudo normal e ela encarava o seu braço como se tivesse alguma coisa ali.
- Me solta. – Ela disse com os olhos cheios de lágrimas. – Você não pode me matar. ME SOLTA!
O grito ecoou pela sala e Clint se assustou sem entender o que queria dizer, Natasha levantou atenta observando enquanto a expressão de se tornava dura e furiosa. A íris da jovem mudou de castanho para violeta e antes que Clint pudesse soltá-la ela o acertou com o joelho e ele se desequilibrou.
acertou um chute alto no peito dele e Natasha soube na hora que ela estava fora de controle. A russa se lançou contra , mas ela se abaixou, agarrou as pernas de Natasha e a jogou violentamente no chão. O baque do corpo de Natasha sendo lançado ecoou juntamente com o seu grito de dor.
Clint que estava se levantando acertou por trás, mas ela se virou agarrou-lhe pelo braço e o torceu. Clint gemeu de dor, mas usou a outra mão para golpear a barriga dela.
A jovem se inclinou com a força do golpe, mas ainda assim não soltou o braço dele. Ele sentiu o osso torcer aos poucos com a força da garota, Natasha se levantou e com o cotovelo acertou a cabeça de . Se não fosse por isso, provavelmente estaria com o braço quebrado.
Com o golpe da russa, caiu no chão arfando com o corpo tremendo.
Natasha e Clint ficaram atentos a cada movimento, mas ela não tentou se levantar. Ela deitou no chão e respirou fundo.
- Senhorita Stark, você está bem? – Natasha perguntou se aproximando. Agachou-se ao lado dela e viu que quando abriu os olhos eles estavam normais.
- Sim, vocês só me irritaram um pouco. – Ela murmurou se sentando no chão, massageou o joelho esquerdo que estava bem dolorido e lembrou-se do braço de aço que viu e de como ela sabia que não iria escapar. Era uma lembrança fragmentada que não poderia trazer muita informação, mas que com certeza trouxe pavor.
olhou Clint enquanto ele a observava, ele sabia que ela tinha se lembrado de alguma coisa. A mesma coisa tinha acontecido na sala de interrogação, mas talvez ele fosse tentar explorar isso em um outro momento.
- Você precisa de roupas. – Natasha se levantou e pegou uma garrafa de água. Entregou a garrafa para e pegou a bolsa da mesma. – Não posso ficar te dando as minhas todos os dias.
se levantou e pegou a sua bolsa acompanhando Natasha e Clint até a saída.
- Onde posso conseguir dinheiro? – Perguntou não fazendo ideia de poderia arranjar algum tipo de emprego naquela torre.
- Você não possui direito sobre as Indústrias Stark? –Natasha sorriu. – Por que se sim, a fortuna do Tony também é sua.

A oficina de Tony tinha várias prateleiras com capacetes diferentes. Em cada canto do cômodo havia um computador, ou uma tela plana e o no centro da mesa havia um grande holograma em terceira dimensão mostrando as imagens e os desenhos de projetos que Anthony estava desenvolvendo.
Ao entrar no local, sentiu-se familiarizada com o ambiente, mas não acreditando que já estivesse ali, mas sim porque uma oficina de trabalho e projetos tecnológicos de última geração era como uma sala de estar, pra ela era confortável.
Ela se aproximou da mesa e observou o holograma, a imagem mostrava uma armadura completamente de aço. Com capacete, braços e pernas. tocou o holograma e deu um zoom nos ombros da armadura, lá Tony tinha feito uma anotação “alterar programação dos microcompulsores”. girou a imagem e checou os relatórios de atividade dos microcompulsores da armadura.
Ao levantar o olhar e encarar a prateleira de Tony, notou os capacetes expostos que pareciam fita-la meticulosamente. Ela seguiu até a prateleira e encarou o capacete dourado e vermelho sendo iluminado pela luz do sol que entrava pela parede de vidro. Parecia imponente, autoritário e sagaz. Ela levantou a mão para tocá-lo.
- Não mexa nas minhas coisas. – A voz de Tony parecia calma enquanto ele fechava a porta da oficina, mas seus olhos deixavam bem claro que para ele era como uma criança pequena: curiosa e perigosa.
- Seu brinquedinho é impressionante. – sorriu para Tony enquanto apontava para o holograma no centro da mesa. Puxou a cadeira e se sentou enquanto ampliava a imagem com as mãos. – Vejo que o antigo projeto de microcompulsores do Howard deu certo com você.
Tony tirou o blazer e o pendurou sobre outra cadeira, olhou rapidamente para o holograma que era analisado por ela e sorriu de canto.
- Bem melhor do que aquelas bugigangas da sua época, não é? – Tony comentou sentando-se na mesa ao lado. – Pra vocês gás mostarda era um grande avanço tecnológico.
virou-se para ele com um olhar furioso.
- Não. Um soro capaz de criar o maior soldado já visto até hoje é que era um grande avanço tecnológico. – Ela sorriu como se aquele comentário fosse o bastante para calar a boca de Tony. – E olha só, pode até ter construindo grandes coisas, mas eu achei o erro dos seus microcompulsores.
Ele olhou para o holograma e depois para o sorriso dela, riu alto.
- Eu duvido que seu conhecimento de 70 anos atrás possa me ser útil agora.
- Por que você é sempre tão irritante? – Ela suspirou rolando os olhos e voltando a mexer no holograma.
- E por que você é tão chata?
Os lábios dela ficaram comprimidos enquanto segurava uma resposta mal criada na ponta da língua.
- Olha , sou um homem muito ocupado e não quero que me atrapalhem enquanto estou na oficina. Então por que não me diz logo o que você está procurando? Estou atrasado para o meu banho de beleza. – Ele se levantou da cadeira, seguiu até o frigobar e tirou uma latinha de refrigerante de lá.
o observou por um momento em silêncio. Reconhecendo aos poucos as atitudes e a voz de Tony que a faziam ter pequenos lampejos das lembranças que tinha de Howard.
- Eu queria saber se a sua família... Quer dizer, a nossa família... – Ela respirou fundo e olhou ao redor na oficina, procurando não fixar o olhar em Tony. – Eu queria saber se a nossa família não guardou nenhum pertence meu, algo de valor ou que me ajude a ter dinheiro.
A latinha não chegou aos lábios de Tony, ele precisou parar cada movimento para processar as palavras dela.
- Está me pedindo dinheiro? – Ele perguntou surpreso. – Ah, é claro. Peça ao bilionário. Você não pode trabalhar ou algo assim?
Ela se levantou claramente furiosa e sua expressão era assustadora. Ela andou até Tony e cruzou os braços, o fitando com olhos lindos e mortais.
- Eu trabalhei tanto, Anthony, que graças a muitos projetos meus é que essa empresa foi construída. – Ela andou devagar, dando uma volta ao redor de Tony e o observando atentamente. – Eu continuaria a trabalhar sem problema se eu não estivesse sob vigilância dos Vingadores. E tem mais, estou pedindo a você, porque você é meu tutor.
O tom na voz de trouxe um arrepio na pele de Tony. Não foi medo que sentiu, mas sim um respeito grande e reconhecimento. falou como Howard falaria. Ele não queria nenhum pouco servir de tutor a alguém, mas ao olhar para os cabelos castanhos e os olhos de coragem dignos de uma Stark ele percebeu que de fato ela poderia ser sua única família.
Ele suspirou e a encarou como se ela fosse uma criança petulante, então tomou um gole do refrigerante e caminhou até a mesa, tocou em algumas funções e falou em voz alta:
- Jarvis, poderia procurar nos arquivos para mim quais eram as coisas de Stark que meu pai guardava?
- Bom dia, Senhor Stark. – A voz soou clara e calma pela oficina. – Estou checando os meus bancos de dados, devido a algumas falhas no sistema poderá levar alguns minutos.
- Jarvis... – sussurrou olhando ao redor como se procurasse o dono da voz.
Tony a encarou curioso com a expressão de surpresa dela.
-Sim, é o meu sistema. Ainda está sendo reconstruído. Ultron acabou com ele da última vez e...
- Jarvis... – Repetiu . Os olhos ela pareciam sem foco e ela mal escutou Tony terminar a frase.
Ele esse aproximou dela franzindo a testa.
- , você está bem?
Ela olhou para ele a abriu o maior sorriso que Tony já tinha visto ela dar.
- Eu lembro que Jarvis era o mordomo de Howard. – Então fechou um pouco o sorriso e olhou em volta. – Me lembro de estar em uma sala com tio Howard desenhando projetos e Jarvis servia café pra gente enquanto trabalhávamos.
Tony colocou a lata de refrigerante sobre a mesa e sentou-se de volta na cadeira organizando os hologramas que tinha bagunçado enquanto mexia neles curiosa.
- Jarvis se foi quando eu era jovem. Quando montei o sistema de defesa achei que seria um bom nome.
Então Anthony a olhou um pouco pensativo.
- Disse que identificou o erro nos meus microcompulsores. Quer tentar consertá-los?
arqueou uma sobrancelha dizendo:
- Tá bom. Vamos ver no que meu conhecimento ultrapassado pode te ajudar.

Passaram horas discutindo, desenhando e testando novas formas de configurações dos micocompulsores. Chegaram até o ponto de afastar as mesas e testar um protótipo das peças no chão. Tony se concentrava na configuração da armadura e tentava arrumar uma nova forma de aperfeiçoar as peças para que elas pudessem ter um melhor desempenho.
Nas primeiras horas o que mais fizeram foram discutir e discordar, até acharam melhor separar as tarefas e estavam trabalhando melhor assim.
Tony estava sentado no chão configurando os fios que iriam para os ombros da armadura e acabou sujando o rosto com um pouco de óleo quando conseguiu encaixar os novos microcompulsores.
- Como descobriu como fazer isso? – Tony perguntou fechando as ombreiras da armadura.
- Eu lembrei de quando Howard pensou em construir o carro do futuro. Um carro que iria voar e não teria rodas. Foi assim que começou a surgir a ideia dos microcompulsores.
Os dois olharam para as ombreiras, o resultado de um trabalho que durou horas.
- Acha que vai funcionar? – Ela perguntou observando o rosto cansado e satisfeito de Tony.
- Vou testar amanhã. Se der problema, vou colocar você pra fazer tudo de novo.
soltou uma risada cansada e esticou as pernas no chão.
- Sua armadura é incrível, mas talvez haja algumas coisas que podem mudar. Se tirar muitas coisas, ela ficaria mais leve. Também parece passar uma imagem de poder inumano...
- Mas às vezes é essa a intenção. – Tony colocou as ombreiras em cima da mesa e se levantou. –Se lutasse com todo tipo de criatura que ataca as pessoas lá fora, iria querer uma arma assustadora também.
Ela parou para pensar em um segundo e depois se levantou.
- É, pode ser que sim. Mas minha armadura seria muito mais estilosa. –Brincou dando uma piscadinha para Tony.
Ele levantou as sobrancelhas e com uma expressão de incredulidade e divertimento falou saindo da sala:
- Você pode até tentar, mas o Stark mais estiloso que já existiu sou eu.
- Eu adoraria continuar discutindo com você, mas sabe que não dá pra argumentar com loucos. – Ela colocou vestiu a jaqueta enquanto falava com um tom irônico. – E eu preciso levantar cedo, Clint e Natasha estarão esperando para eu dar uma surra neles.
seguiu até corredor e Tony a acompanhou até a porta. Pensou em discordar, mas seria outra discussão que não teria fim. E aquela tarde na oficina de Tony foi a prova de que eles tinham o dom de discutir por horas a fio.
- Até mais, chato. – Ela murmurou quando o elevador parou no andar e ela entrou apertando o número de seu andar.
- Até mais, vovó. – Tony falou enquanto o elevador fechava e antes que ela pudesse respondê-lo irritada.
Ao voltar para a oficina, Tony trancou a porta e com um comando fez com que as paredes de vidro escurecessem para que quem passasse do lado de fora não conseguisse ver o que aconteceria lá dentro.
- Jarvis. – Chamou Tony sentando-se em sua mesa. – Pode me passar a informação que pedi para que encontrasse mais cedo?
- Sim, Senhor Stark. Estava aguardando a sua permissão, já que acionou o protocolo de sigilo enquanto estava aqui. – Jarvis ligou o holograma no centro da sala e começou a apresentar a Tony vários arquivos com fotos de e alguns documentos guardados por Howard. – A Senhorita Stark é co-fundadora da Stark Enterprises e patenteou vários projetos importantes e revolucionários. Segundo Howard Stark, tinha em sua posse 40% das ações da empresa. Por ter sido dada como morta, Howard assumiu a parte de e assim teve sob seu domínio 100% das ações da empresa.
- Eu sabia disso. Mas ela tinha 40%? Caramba, isso é muita coisa. – Tony murmurou levantando as mangas da camisa e afrouxando o colarinho.
- Tecnicamente ela ainda pode ter 40%, Senhor Stark. Afinal, ela está viva e pode querer reivindicar seus direitos de co-fundadora. – Explicou Jarvis enquanto apresentava velhas fotos em família dos Starks.
- Que bom que ela não recuperou a memória. Sabe-se lá quem ela realmente é e quais suas intenções, ela ter essas habilidades bizarras e poder aquisitivos pode ser um grande desastre. – Ele suspirou pesadamente massageando as têmporas. –Jarvis, por favor, mantenha esses arquivos e informações em segurança e se possível tente acessar através da rede outros arquivos, quero saber quem mais tem conhecimento disso.
- Senhor, acabei de detectar que a Shield tem algumas informações. – Jarvis jogou no holograma uma imagem de Howard e Stark ao lado de Peggy Carter. – Parece que a Senhorita Stark serviu de inspiração para a fundação da Shield e segundo os relatos de Peggy e Howard a ideia inicial de montar uma força tática foi dela.
- Mas que merda. – Murmurou Tony alarmado. – Certo, Jarvis. Muito obrigado.
- O que o Senhor pretendo fazer? – Perguntou Jarvis desligando o holograma.
- Preciso ter uma conversinha com o picolé.

Enquanto caminhava pelo corredor sentiu a barriga roncar violentamente, suspirou cansada sem saber se poderia ir até a cozinha para comer alguma coisa antes de dormir. Só havia tomado um café da manhã depois do treino com Natasha e Clint e Tony ainda servira um sanduíche com refrigerante para ela durante a tarde na oficina. Mas fora isso não havia comido nada e seu corpo parecia ter sido moído devido ao árduo trabalho no treino e na oficina.
Mesmo que tenha sido cansativo, foi a primeira vez em que sentia que fez algo que gostava ali na Torre. Poderia não se lembrar do que gostava, mas ao treinar e criar um novo modelo de microcompulsores, entendeu porque fez parte da Divisão Estratégica Cientifica do exército e do Hollowing Commandos. gostava tanto da parte de estratégia quanto da ação e encontrou algo em que realmente era boa. Sorriu ao perceber que pela primeira vez não estava tão desesperada e que talvez tivesse dado o primeiro passo para encontrar a si mesma.
Caminhava devagar pelo corredor enquanto tentava lembrar qual era a porta do seu quarto. Bocejou cansada e levantou os braços para se espreguiçar. Ao abrir os olhos viu a silhueta de Steve no corredor, ele estava encostado na porta de seu quarto e parecia estar segurando alguma coisa.
Ele observou se aproximar e quando ela chegou perto ele percebeu que ela estava com a bochecha suja do que parecia ser óleo. Lembrou-se de que Clint havia avisado que ela estava na oficina de Tony e apesar da aparência cansada, os olhos dela estavam brilhando de contentamento, algo que Steve se lembrava de ver depois de missões que eles cumpriam juntos.
- Oi. – Ela disse ao parar na frente da porta. Olhou nos olhos de Steve e depois para o que ele trazia nas mãos.
- Oi, . – Ele disse, de repente sentiu-se um pouco sem jeito. –Eu trouxe bolo e um pouco de chá e algumas outras coisas que podem te ajudar.
Ela sorriu e abriu a porta do quarto.
- Nossa, Capitão. Muito obrigada! Eu estou morrendo de fome. – Ela deixou a porta aberta para Steve passar, tirou o casaco e o pendurou no cabide.
Depois virou para trás e encarou Steve parado do lado de fora do corredor.
- Não vai entrar? – Ela perguntou confusa.
Sem saber o que responder ele entrou no quarto e fechou a porta. Colocou o prato com bolo e a garrafa com chá em cima da escrivaninha e sentou-se na cama com outras coisas no colo. se aproximou e sentou-se ao lado dele.
- O que é isso?
- É seu. – Ele respondeu entregando o disco de vinil a ela e um livro antigo também. –Você me emprestou há muitos anos atrás e eu não tive a chance de devolver.
pegou o disco primeiro e leu o nome na capa. “We’ll meet again” de Vera Lynn e depois pegou o livro antigo das mãos de Steve. O título era “Um conto entre duas cidades” de Charles.
- Seu livro favorito. Talvez possa te ajudar a recuperar alguma memória. –Ele esticou o braço até a escrivaninha e serviu um pouco de chá em um copo. – E o disco tem uma música que você roubou do comandante durante nosso treinamento.
sorriu e aceitou o copo de chá. Encarou o disco pensativa e depois fitou os olhos azuis de Steve.
- Eu não tenho vitrola, queria poder ouvir agora.
- Eu tenho uma no meu quarto. –Steve respondeu colocando a garrafa de chá de volta na escrivaninha.
sorriu divertida.
- Isso é um convite para eu ir até o seu quarto?
Ele ficou um pouco vermelho e precisou respirar fundo para não engasgar com o chá.
- De maneira alguma, eu não faria isso de maneira inadequada...
riu brincando.
- Estou brincando, Capitão. – Ela pegou um pedaço de bolo e tirou os sapatos sentando na cama.
Alguns segundos de silêncio se seguiram enquanto ela observava o livro e o disco que ele trouxera e Steve pensava em como formular as palavras.
- Eu gostaria de me desculpar com você. – Steve olhou para o rosto atento e confuso de . – Por ter sido grosseiro ontem e ter te ameaçado daquela forma.
A expressão dela se suavizou e ela maneou a cabeça compreensiva.
- Tudo bem. Você só está se assegurando de que não vou causar problemas.
- É que você tem um certo dom para causar problemas, deve ser uma coisa dos Starks. – Ele lhe lançou um sorriso divertido para mostrar que estava brincando.
Ela sorriu visivelmente segurando uma risada e observou enquanto Steve se levantava e caminhava até a porta. Ela o seguiu e parou encostando-se ao batente enquanto ele parava no corredor de frente à ela.
- Obrigada. Pelo lanche, pelo livro e também pelo disco. – Franziu a testa como se estivesse refletindo sobre algo. – Talvez eu aceite suas desculpas.
Steve riu baixo e balançou a cabeça.
- Você sempre se faz de difícil. – Ele murmurou saindo pelo corredor.


Capítulo 6


A brisa do começo da manhã era suave e assim como o sol, parecia que o amanhecer surgia com preguiça. queria muito saber que dia que era, chutava ser primavera ou verão. Tanto tempo sem liberdade e ela já sentia completamente desorientada. Sem falar que o receio e a angustiante sensação de estar sendo seguida não permitiam que ela aproveitasse um momento no mundo normal.
Às vezes sentia-se como um organismo fora do espaço e tempo. Sua mente oscilava entre memórias fragmentadas e pensamentos aleatórios na tentativa de associar as imagens que via com alguma coisa conhecida. Era difícil descrever como não lembrava o seu nome, mas sabia que tinha que fugir pra sobreviver antes que suas lembranças sumissem de novo. Era como um rápido momento de clareza. Era como se houvesse uma terrível tempestade em sua mente e um relâmpago fosse uma lembrança avisando que a escuridão dentro de si não era seguro e muito menos normal.
Ainda mais quando ele estava atrás dela. Em alguns momentos ela o sentia perto e era em situações assim que ela realmente experimentava o desespero. Havia algo de muito errado em tudo, mas principalmente nele. Naqueles olhos azuis frios e o braço de metal que estavam prontos para condená-la. Já fazia uma semana que fugia, se escondia em bairros pequenos e rurais e em três dias conseguiu pegar um trem da França para a Inglaterra e esperava de alguma forma sair da Europa. Mas não conseguia formular um plano coerente. Não sabia de onde vinha e nem para onde deveria ir, mas o instinto gritava em sua mente: CORRA.
Decidiu ir até uma pequena e velha livraria que achou em um dos becos e esperava conseguir um mapa da região. Como não tinha dinheiro, ela explicou ao velho vendedor que estava perdida. O senhor de cabelos grisalhos olhou com certa impaciência para ela, mas lhe concedeu um mapa simples, murmurou algo em galês e se retirou para o fundo da loja.
abriu o mapa no balcão e examinou o litoral do país. Como não tinha dinheiro, documentos e muito menos estabilidade mental, pensou em talvez conseguir sair em um navio de cargas clandestinamente. Estava tão desesperada em fugir que não se importava como faria isso e nem por que precisava ir tão rápido.
A campainha da loja tocou anunciando a entrada de um novo cliente. tentou virar discretamente a cabeça para olhar e encontrou um rosto coberto por uma máscara preta que só permitia que os olhos e a testa fossem vistos. Os cabelos compridos e escuros que representavam o seu medo e o braço de metal pronto para lhe matar.
Ele estendeu a arma em sua direção, levantou a perna direita e chutou a arma para longe. Mas ele pegou sua perna e a torceu com força derrubando no chão empoeirado.
Com a mão de metal ele a segurou pelo pescoço e a levantou.
Ele começou falar olhando furioso em seus olhos. Mas ela não conseguia distinguir as palavras em russo.
- Вы не можете бороться. Я не позволю вам бежать.
sabia que não era a primeira vez que ele vinha para matá-la. Mas ao invés de temer ou até mesmo odiar aqueles olhos furiosos em si, ela sentiu compaixão e reconhecimento.
- Я закончу вас.
O aperto em sua garganta ficava mais forte e insuportável. fazia força pra puxar o ar e não apagar. Bateu um dos pés na prateleira ao lado para tomar impulso e se jogou contra o soldado. Ambos caíram ao chão e rolou para longe já se levantando e correndo em direção às escadas.
Não deu tempo de correr pra muito longe, antes que conseguisse se lançar pelas escadas para escapar, ele a alcançou. Ele a puxou pelo braço, se lançou contra ele e levou uma joelhada na barriga. Desequilibrada, ela cambaleou para trás e ele aproveitou para acertar outro chute em seu tórax. O corpo de voou longe e bateu na parede de vidro da loja.
O vidro quebrou e foi arremessada em direção ao asfalto frio da rua. Sentiu seu corpo pesar em sua perna esquerda, houve o barulho de algo sendo deslocado e uma dor alucinante tomou conta de sua perna.
berrou de dor, a visão escureceu e por alguns segundos ela não conseguiu ver e nem ouvir nada. Só conseguia sentir a queimação no joelho.
Respirou com dificuldade lutando para não apagar. Então uma mão de aço forte e gélida a pegou pelo pescoço e a levantou deixando seu corpo suspenso no ar.
Os olhos azuis frios e insanos a fitaram.
-Achou que poderia escapar? -Ele perguntou. - Eu sempre vou te achar.
ouviu a voz dele como se ela estivesse distante e diante do borrão que era sua visão só conseguiu distinguir os olhos dele. Então uma memória veio à sua mente e o medo deu lugar ao reconhecimento.
-Bucky... -Ela sussurrou tentando focar os olhos nos dele. Estendeu a mão na tentativa de tocá-lo, mas perdeu o ar quando a mão dele apertou seu pescoço.
-Quem diabos é Bucky? -Ela ouviu ele questionar e sua visão escureceu enquanto perdia a consciência.


Eu sempre vou te achar.


despertou com um susto que fez parecer que o seu coração tinha parado de bater. Respirava como se tivesse corrido milhões de quilômetros e suava como uma maratonista também. Sua cabeça doía e por longos segundos precisou encarar um ponto fixo na parede para recuperar os sentidos completamente e compreender que teve um sonho.
Não era apenas um pesadelo, era uma lembrança que foi recuperada enquanto dormia. Isso era bom, pois tinha mais uma informação a acrescentar em sua história pessoal e entender quem era. Porém, também era ruim recuperar lembranças em sonhos, pois quando ela acordava sempre perdia parte das memórias.
Felizmente ela praticava um exercício que a ajudava guardar o máximo de detalhes possíveis depois que tivesse lembrado algo. Contava de um a cinco e depois repassava mentalmente o sonho que tinha acabado de ter. Os flashs das imagens distorcidas voltavam a surgir em sua mente, fragmentadas e um pouco confusas. Mas ela conseguiu guardar consigo o fato de que ela estava fugindo de alguém que deveria mata-la, esse alguém era um cara com um braço de metal que falava russo e ele não tinha tentado matá-la apenas uma vez.
Outro detalhe importante era que sabia o nome dele, havia o reconhecido e dito o nome dele. Mas foi um pedaço do sonho que não conseguiu guardar, teria que esperar para recuperar essa informação novamente com outra memória.
Olhou no relógio e praguejou baixinho enquanto saltava da cama, se não corresse para se arrumar logo acabaria perdendo o treino da manhã. Já havia passado algumas semanas desde que chegara à Torre dos Vingadores e devido ao seu bom desempenho nos treinos matinais, Clint e Natasha deixaram que experimentasse um treino com os Novos Vingadores. Aquele era seu primeiro dia e se chegasse muito atrasada seria uma vergonha.
Colocou o uniforme, prendeu o cabelo em um rabo de cavalo alto e quase não conseguiu fazer uma maquiagem descente. Fechou a porta do quarto e saiu correndo pelo corredor, ao entrar no elevador deu de cara com Tony.
-Não devia estar brincando de lutinha com a Natasha ou algo assim? –Ele perguntou calmamente a olhando de cima a baixo, arrumou o colarinho da camisa e as mangas do terno.
-Bom dia pra você também. – fingiu um sorriso para ele, porque sabia que aquilo o irritava profundamente. –Sim, estou a caminho da sala de treinamento.
-Não bastou passar uns 70 anos desaparecida, ainda se atrasa para os compromissos. –Ele franziu a testa com uma expressão que demonstrava desapontamento e colocou os óculos escuros para sair do elevador. –Espero que não se atrase também para o seu trabalho na oficina. –Ele disse saindo elevador, as portas fecharam e revirou os olhos tendo a certeza de que ela e o primo nunca conseguiriam ter uma conversa que não fosse irritante.

***



Steve olhou novamente no relógio da ala de treinamento e cruzou os braços se encostando na parede. Olhava ao redor observando todos na sala. Natasha socava um saco de pancadas em um ritmo eu deixava claro que ela não estava tendo um dia bom. Falcão parecia estar configurando suas asas com um novo dispositivo que ele ganhou de presente de Tony. Wanda parecia entretida em usar seus poderes para controlar facas chinesas. Enquanto que Clint estava ao seu lado em silêncio desde que Natasha chegou e ele passou boa parte do tempo a observando.
Só faltava até o momento e ele estava considerando a possibilidade de ir chama-la e ver se estava tudo bem com ela.
-O que há de errado com vocês dois? –Falcão perguntou se aproximando dos rapazes. Ele tinha colocado os óculos na cabeça e estava limpando as luvas. Olhou atentamente para os dois e logo sorriu para Steve. – vai vir hoje não é? Estou ansioso para conhecê-la.
Steve lançou lhe um olhar muito sério e Clint riu vendo a expressão do Capitão.
Então a porta da sala se abriu e entrou por ela. Seus olhos rondaram toda a extensão da sala, prestando atenção em cada um que estava lá e nos equipamentos disponíveis. A observação durou um segundo apenas e ela fechou a porta atrás de si, depois voltou a olhar os vingadores e seus olhos pararam em Steve.
Falcão e Clint seguiram o olhar dela até Steve e perceberam que ele também a observava.
-Nossa, uma troca de olhares. Que profundo. –Brincou Sam sorrindo dando um soco de brincadeira no ombro do Capitão, Clint segurou a risada.
-Fiquem quietos. –O loiro murmurou tentando manter a postura séria e balançando a cabeça para os dois.
-Ei, Sam. Sabia que uma noite dessas Steve pegou um lanche na cozinha e levou até o quarto dela? –Clint sussurrou para os dois e Sam segurou uma gargalhada.
Steve sorriu para os dois e respondeu em tom irônico:
-Você não pode falar nada, Clint. Tem baba no canto da sua boca desde que a Romanoff entrou na sala.
Falcão riu alto e Steve sorriu para Clint que tinha visivelmente ficado sem resposta e provavelmente para evitar outros comentários doa amigos ele seguiu até o outro lado da grande sala e cumprimentou .
De longe Steve viu ela sorrir para ele e para Natasha, os três pareciam estar mais próximos desde que passaram a treinar em todas as manhãs juntos. Wanda se aproximou de e as duas pareciam trocar um olhar de cumplicidade desde que Wanda entrou na mente dela. Parecia que de certa forma a Stark já tinha um espaço ali na Torre, estava até trabalhando com Tony na oficina e segundo Romanoff ela tinha recuperado algumas pequenas lembranças e a frequência dos surtos e apagões tinham diminuído consideravelmente.
A ruiva caminhou em direção ao loiro enquanto Clint explicava a como eram os treinos.
-Ela recuperou outra lembrança hoje. –Natasha sussurrou pra Steve. –Durante a madrugada eu consegui abrir protocolo Darksouls, Steve...
Os olhos de Natasha tomaram um enigmático enquanto observavam à distância.
-O que descobri não foi nada bom. –Ela suspirou e então encarou os olhos do Capitão. –Precisamos conversar o mais rápido possível.
-Logo após o treino, então. –Assegurou o loiro, ela concordou e se posicionou ao lado dele falando em voz alta:
-Já que estamos todos aqui, podemos começar. –Natasha observou enquanto todos se viravam para ela. –Vamos nos dividir em duas equipes. Quero e Falcão comigo contra Capitão, Gavião e Feiticeira. Jogaremos pique bandeira. –Ela disse tirando dois lenços do bolso, um era vermelho e o outro verde. –Minha equipe ficará com a bandeira verde, a do Capitão com a bandeira verde.
Rogers seguiu até Romanoff, pegou o lenço verde e o amarrou no cinto. Percebeu que o olhar de seguiu o lenço, sabia que ela já estava pensando estrategicamente. Se ela soubesse como manejar bem suas habilidades, poderia levar sua equipe à vitória.
-O objetivo é que uma das equipes consiga ter posse dos dois lenços no território da equipe rival. Não vale ter somente um membro da equipe com os dois lenços no território oponente, é necessário que toda a equipe esteja do mesmo lado. Entendido?
olhou ao redor e depois para o chão percebendo pela primeira vez a linha que dividia a sala em dois espaços. Caminhou com Natasha e Falcão para um lado enquanto Capitão, Gavião e Feiticeira seguiram para o outro.
-Boa sorte. –Desejou Wanda movendo os dedos dos quais saíram uma névoa vermelha.
-Pode ficar com a sorte para você. Eu não preciso. –Sorriu a Stark se posicionando entre Natasha e Falcão.
Falcão assoviou sorrindo.
-Gostei da sua competitividade. Bem vinda ao time, . –Eles trocaram apertos de mão e encararam o time do Capitão à sua frente.
Natasha assoviou para indicar que a luta começara.

Foi o pique bandeira mais alucinante que já vira na vida e com certeza não indicaria aquele jogo para crianças.
Assim que a Viúva Negra deu o sinal, Clint avançou para . Ela lembrou-se de como havia treinado intensamente com ele nas últimas semanas, tinha a vantagem de já saber como distraí-lo, mas ele também conhecia uma fraqueza dela.
Como ela esperava, Clint tentou golpear seu joelho esquerdo, mas ela bloqueou o chute dele com a outra perna o pegou pelos braços e usando o pé como barreira para fazê-lo tropeçar conseguiu derrubá-lo ao chão. Mas sabendo que ele se levantaria em menos de um segundo decidiu escolher outro inimigo.
Com uma rápida olhada ao redor viu que próximo a ela Viúva Negra lutava com o Capitão e a bandeira verde estava presa ao cinto dele. Já que ele estava distraído seria um bom momento.
Com uma leve corrida ela deu a volta e se aproximou pelas costas do Capitão. Quando ele ergueu os braços para se defender dos ferrões jogados pela Viúva, correu se lançou no chão e passou escorregando pelas pernas do Capitão. Segurou o lenço e puxou se levantando para correr, mas o Capitão segurou o seu pulso e com o outro braço lançou a Viúva Negra para longe.
-Não vai ganhar tão cedo, . –Steve disse com os olhos azuis brilhando de divertimento e tomou de volta o lenço verde. Enquanto o amarrava na cintura ele rodeou e apreciou o olhar inquieto e ativo dela.
Sem avisar ela atacou, se abaixou ao chão e deu uma rasteira em Steve. Ele se desequilibrou, mas conseguiu se recuperar se agachando. se lançou contra ele, mas ele a abraçou para amortecer o golpe e os dois rolaram pelo chão. Pelo canto do olho Steve viu Gavião Arqueiro e Viúva Negra, pareciam que estavam rindo. E Falcão sobrevoava o enorme salão, enquanto a Feiticeira Escarlate tentava lançar adagas e facas chinesas sobre ele.
O Capitão conseguiu prender o corpo de contra o chão, mas com uma das pernas ela conseguiu afastá-lo com força e ele sem querer soltou as mãos dela. girou o corpo dele e conseguiu prendê-lo ao chão jogando o peso do corpo dela sobre o dele, e com as pernas fez uma chave prendendo a perna esquerda dele. Puxou-a com força e Steve sibilou surpreso sentindo sua perna doer um pouco.
-Natasha, corra para o nosso campo. Vou levar a bandeira. –Ela gritou sorrindo encarando os olhos de Steve, puxou o lenço novamente do cinto dele e quando o Capitão tentou jogá-la para o outro lado com as mãos, ela chutou a lateral de seu rosto.
Steve sentiu o rosto corar, se levantou logo atrás de . Ela corria a toda velocidade, pronta para ultrapassar a linha e chegar ao território. Viúva Negra estava com a bandeira vermelha amarrada ao pulso e prendia Clint com uma chave de braço ao redor do pescoço dele. Falcão só esperava ultrapassar a linha para pousar.
Capitão olhou para o seu lado direito e viu a Feiticeira pronta para o seu sinal. Steve levantou um dos braços dando o aval e Wanda usou a energia do seu poder para mover um saco de pancadas na direção de .
Quando os pés da Stark estavam prestes a cruzar a linha, o saco de pancadas a atingiu em cheio e a arremessou contra a parede. O barulho do corpo dela atingindo o concreto ecoou pela sala e por um segundo todos soltaram exclamações. Por um momento Steve quase olhou para Wanda para indicar que ela poderia ser mais cuidadosa, mas se levantou do chão sorrindo.
Gavião aproveitou para se soltar da chave da Viúva e se afastou, a Feiticeira se aproximou de pronta para um próximo ataque e Falcão voou baixo, agarrou Steve pelo uniforme e o tirou do chão. Um pouco acima dos outros ele conseguiu ver Wanda e se encarar.
Ela encarou a Feiticeira, pegou o lenço em suas mãos e o amarrou ao redor da cabeça. Então ela avançou sobre Wanda que a bloqueou com uma névoa de energia vermelha, mas girou o corpo se agachou e pegou pelas pernas a lançando longe.
Quando Falcão passou próximo a uma parede, o Capitão a usou para tomar impulso com as pernas e se lançou a direção contrária a que Falcão estava voando o fazendo se desequilibrar a planar meio desastrado.
Steve conseguiu se soltar e rolou pelo chão e acabou esbarrando em Gavião que tinha acabado de ser acertado por um dardo dela.
Viúva Negra correu em direção ao outro lado da sala, o lenço vermelho estava em suas mãos. Steve se lançou na direção dela e ao passar pela russa tomou o lenço de suas mãos. Ela praguejou em russo e se voltou para Steve, mas Wanda se colocou entre os dois e Natasha se acalmou, provavelmente estava tendo uma ilusão criada pela Feiticeira.
Gavião lançava flechas contra Falcão que dançava pelo ar e corria em direção a Steve ele se preparou para interceptá-la, mas ela passou direto por ele e pulou em direção a Wanda. As duas pararam no chão.
-Nada de truques com a mente. –Resmungou .
Natasha começou a recobrar os sentidos e a Feiticeira sinalizou para Steve.
Ele se colocou entre as duas e puxou pela cintura, Wanda voltou ao combate com Natasha na tentativa de voltar a fazê-la entrar em torpor. se balançou violentamente e chutou a barriga da Steve com os joelhos. Ela a prendeu contra a parede e então ela viu o lenço vermelho amarrado no pulso do Capitão e Steve encarou o lenço verde ao redor da cabeça de .
A aproximidade trouxe uma das melhores recordações que ele guardava consigo.

1942

A energia entre os soldados era incrível, ainda mais por estarem ganhando. Os rapazes enfrentavam outros soldados da tropa nazista, granadas estouraram ao longe e o som de uma metralhadora ao fundo fazia o sangue de Steve ferver.
Ele o observava o comandante da tropa ao longe, a farda alemã com o símbolo nazista presa ao braço traziam repulsa ao loiro.
-Como faremos para chegar até ele? –Ele se virou pra que tinha os olhos arregalados e brilhavam de tanta excitação.
-Você cuida dos soldados ao redor dele, eu consigo alcança-lo. –Ela respondeu com um sorriso maroto que Steve achou extremamente encantador.
-Você sozinha com o comandante dessa tropa? –Ele perguntou preocupado. Não que duvidasse da capacidade dela, mas dada as circunstâncias precisava considerar todo o perigo do cenário em caos que estavam presenciando no momento.
Mas ela olhou profundamente em seus olhos e aproximou o rosto do dele.
-Se eu conseguir derrubá-lo, quero dar uma volta naquela sua nova motocicleta que você usou outro dia. –Ela mordeu os lábios e sorriu mais vez. Steve suspirou e rolou os olhos lembrando de como ela tinha ficado hipnotizada pela motocicleta que ele usou para invadir um campo de concentração no dia anterior.
-Tudo bem. Se derrubá-lo, pode passar um dia com a moto.
Ela riu baixo sentindo-se triunfante, amarrou a badana do exército ao redor da cabeça, beijou o rosto de Steve e seguiu em direção ao comandante enquanto o Capitão derrubava todos os soldados alemães ao redor.

Atualmente

Rogers encarou os olhos brilhantes e animados de .
-Você ainda tem uma moto? –Ela perguntou em um sussurro.
Ele ficou surpreso, fitou os olhos dela e sorriu de lado.
-Se lembra disso?
Ela balançou a cabeça afirmando.
-Tenho uma ainda melhor do que a antiga.
Ela mordeu os lábios e em seguida sorriu com o mesmo olhar desafiador e maroto que tinha quando os dois derrotavam tropas nazistas.
-Se eu fizer minha equipe ganhar, quero dar uma volta com a sua moto. –Declarou com certeza e Steve balançou a cabeça negativamente.
-Se você ganhar. –Enfatizou.
Ela sorriu, as bochechas coraram e os olhos mostravam divertimento. Ela tocou o pulso de Steve, os dedos roçaram em sua pele e então ele percebeu a tempo que não era uma demonstração de carinho e sim uma tentativa de tirar o lenço vermelho dele.
O Capitão segurou o braço de e virou o corpo dando as costas para ela, a puxou pelo braço fazendo o corpo de passar por cima de si e tombar no chão. Mas ela reagiu rápido e passou uma rasteira em suas pernas o fazendo cair, em um segundo rápido demais para Steve perceber, ela tomou o lenço e correu em direção ao território em que Viúva Negra e Falcão aguardavam por ela prendendo Gavião e Feiticeira Escarlate ao chão.
Ela cruzou a linha erguendo o lenço vermelho, sorrindo. Então Natasha e Sam soltaram Clint e Wanda. Steve se levantou seguindo até eles.
-Isso foi sensacional. –Sam exclamou fechando as asas e tirando os óculos, parecia extremamente contente e olhava para com certa admiração. –Já serviu à Divisão Estratégica Científica para ao o Exército, não é? Aprendeu a lutar assim lá?
-Eu... hã..-Ela pensou antes de responder. –Acho que sim. Pelo que tenho lembrado...
Então o sorriso dela se transformou em uma expressão mais séria, ela olhou para Steve e ele percebeu a dúvida em seus olhos. Colocou uma das mãos nos ombros dela e apertou com um sorriso.
-Você foi muito bem. –Assegurou Steve na tentativa de lhe proporcionar mais certeza.
Natasha estalou a língua em uma expressão de desapontamento.
-Foi bom, mas completamente fora do esperado. –Natasha olhou para Clint que concordou com um aceno de cabeça. –Sabemos que pode fazer e nem chegou a usar suas verdadeiras habilidades. O intuito do treino era mostrar para todos o que você pode fazer, Steve precisa ver para nos ajudar a tirar algumas conclusões.
franziu a testa para os dois, claramente estava com o orgulho ferido.
-Pra falar a verdade, Steve facilitou as coisas pra você. Ficou claro que ele também não mostrou toda a sua capacidade ao te enfrentar. Havia certa insegurança entre vocês dois. –Clint falou se aproximando dos dois, coçou o queixo pensativo e então olhou para Natasha. –Eu sugiro que ela treine hoje à noite também.
-Eu não vou treinar. –A Stark declarou extremamente calma enquanto soltava os cabelos do rabo de cavalo. –Tenho um trabalho na oficina, estou cansada e dolorida e nem mesmo sei para o que é que vocês estão me treinando. –Os olhos dela fitaram Natasha, Clint e Steve especificamente. Havia certa irritação frenética em seu olhar, mas a voz soava superior. –Acham que eu acredito que faço exercícios e luto todos os dias só porque estão com dó de me deixar em uma cela em tempo integral? Estou sendo preparada para algo e sinceramente eu estou um pouco cansada de não saber das coisas.
-Eu entendo que não tenha sido fácil. –Steve se pronunciou. As palavras saíram da sua boca antes mesmo que precisasse pensar em como acalmá-la, era uma coisa que fez naturalmente tantas vezes que para falar era como seguir um instinto. –Vai ser um processo complicado. Não quero que sinta como uma criminosa presa, mas precisa ser monitorada até todos possam entender o que você é capaz de fazer. Até que se lembre de quem você realmente é e tem tido um grande progresso nos últimos dias.
Falcão se aproximou e deu um soco de brincadeira no braço dela.
-Não desanime. Vamos ajudar você. –Ele disse passando por ela e indo até a porta com os seus pertences, Wanda segurava a porta aguardando os colegas para sair da sala.
Clint lançou um olhar solidário à e com Natasha seguiu até a porta.
Steve aproveitou que os outros haviam se afastado um pouco e se aproximou da amiga, olhou nos olhos frustrados dela.
-Não fique chateada. Vamos chegar às respostas. –Ele suspirou e desviou o olhar por um segundo sentindo várias lembranças do passado lhe atingir como uma grande maré. Pensou em Bucky, Peggy e na de antigamente. Ver o olhar perdido dela à sua frente feria o coração do soldado. –Eu prometi que ia te encontrar e te achei. Também prometi que cuidaria de você e vou fazer disso a minha missão principal.
Depois de ter saído da sala de treinamento, Steve seguiu Natasha e Clint para o andar de pesquisas e informações da Torre. Onde ultimamente Natasha havia passado noites em claro tentando decodificar arquivos e protocolos da Hidra que estavam no velho HD encontrado em uma das bases.
A sala estava cheia de computadores, telas e papéis de pesquisa, estava consideravelmente bem desorganizada. Um travesseiro estava sobre uma das cadeiras e outro estava sobre uma das mesas. Romanoff e Barton provavelmente dormiam e comiam lá enquanto esperavam o hardware conseguir quebrar a segurança dos arquivos para que pegassem informações.
A ruiva sentou-se em uma cadeira e começou a digitar abrindo várias pastas até encontrar a que queria.
-Encontrei registros da fase um do Projeto Darksouls. -Explicou Natasha abrindo um vídeo. -A imagem é antiga e de pouca qualidade, mas é possível que você reconheça.
A imagem na tela mostrava uma sala pequena, bem iluminada e com uma mulher presa a uma cadeira de metal no centro. O cabelo escuro dela cobria-lhe o rosto, os pulsos e tornozelos estavam amarrados com cintos e presos na cadeira de metal.
Alguém se aproximou dela, o homem baixo tinha um jaleco branco, era meio careca e usava óculos. Steve reconheceu o Dr. Arnim Zola que auxiliava o Caveira Vermelha. Um tremor gélido percorreu o corpo de Steve quando o Doutor tocou o rosto da mulher e quando ela levantou o olhar ele reconheceu .
-O que ele vai fazer? - Steve perguntou com o maxilar cerrado.
-Vai apagar quem ela é. -Clint respondeu com um sussurro enquanto o Dr. Zola colocava um capacete grande e monstruoso na cabeça de . Ele foi até a mesa e puxou uma alavanca. Uma forte corrente de energia passou do capacete para a cadeira de metal envolvendo a sala em uma tempestade de raios.
O corpo de sacudia violentamente, então um raio atingiu a tela e a imagem escureceu.
Steve e Clint ficaram em silêncio e Natasha fechou a pasta.
O punho do Capitão fechou-se com força, a ira crescia dentro dele e sua cabeça mal conseguia formular o ódio que sentia de pessoas loucas pelo poder, se tinha uma coisa da qual não gostava era de tiranos.
-Agora vou mostrar a fase dois do Projeto. -Declarou Natasha abrindo outro vídeo.
Barton cruzou os braços e respirou fundo mostrando-se também bem apreensivo.
A imagem mostrou novamente presa à mesma cadeira. Os cabelos estavam mais longos, ela estava mais magra e os olhos pareciam não ter foco. O Dr. Zola se aproximou com uma enorme seringa e aplicou o conteúdo no braço de . Ele se afastou voltando à mesa e pegou um caderno fazendo anotações, mediu a frequência cardíaca dela e de repente o corpo de começou a sacudir compulsivamente com uma convulsão violenta.
As cintas que amarram suas pernas soltaram e metade de seu corpo flutuou tremendo enquanto a substância invadia seu sistema nervoso. A imagem escureceu e o vídeo foi cortado.
-O que ele colocou nela? –Steve perguntou com um tom de urgência na voz. –Tem mais registros?
-Ainda não sabemos o que colocaram nela, encontrei ainda só uma parte dos registros. –Natasha abriu alguns protocolos no computador, a ficha que a Hidra tinha da com os relatórios das pesquisas feitas nela. –Os relatórios dizem que ela foi mantida como prisioneira até 1946. Tentaram usá-la como fonte de informação, mas ela não abriu a boca e acabou se tornando uma prisioneira sem função para a Hidra. Mas como tinha grande potencial físico e intelectual decidiram que poderiam começar uma série de estudos e testes com ela. Aparentemente, o Projeto Darksouls tinha o objetivo de proporcionar um método que possibilitasse a Hidra de capturar soldados e agentes inimigos e transformá-los nos melhores combatentes que conhecesse a fraqueza de seu exército.
Steve respirou fundo e se afastou de Natasha dando as costas a ela e Barton, apoiou um dos braços na mesa e segurou a raiva dentro de si.
-Uma das etapas do Projeto era apagar as memórias para que a emoção e as lembranças não interferissem na performance dos indivíduos capturados. –Nat falou em voz baixa, olhou em direção a Steve e depois para Clint. –Eu sinto muito, Cap. Mas também precisamos ver que ela sobreviveu, já é alguma coisa.
-Sim, mas o quanto ela sofreu pra sobreviver? –Steve se virou para os dois. A expressão do Capitão mexeu com Natasha que raramente o via balançado daquela maneira.
-Isso não é tudo. Tem mais uma coisa. –Clint se levantou, caminhou até Steve e colocou a mão no ombro do Capitão. –A Shield tem registros da . Bem, ainda não sabem quem é ela, porque se soubessem Fury nunca a permitiria estar aqui.
Rogers olhou para Clint sem entender e depois para Natasha. A ruiva apontou para a tela, então Steve viu no monitor o vídeo de uma câmara de segurança do que parecia ser um escritório. A porta da sala abriu e o executivo atrás da mesa se levantou, uma mulher entrou. O macacão preto e colado ao corpo, umas máscara vermelha e preta que ele reconheceu como a roupa que usava no dia em que a encontrou e a levou para Torre.
-Ela matou muita gente pra Hidra, Steve. –Clint apertou o ombro do amigo e olhou para Natasha imaginando que Steve devia se sentir como ele se sentiria se aquilo acontecesse com Romanoff. –A Shield não tem a identificação dela, mas ela está na lista dos mais procurados. Sem falar que não sabemos o nível de consciência dela, tecnicamente ainda está em recuperação, mas não sabemos se ela ainda pode ter um lapso e voltar à programação mental que Hidra colocou sobre ela.
O Capitão passou a mão pelo rosto vermelho.
-Preciso de um tempo pra pensar no que podemos fazer. –Ele murmurou com a voz rouca. –Com licença. –Disse simplesmente se retirando da sala.

***


Quando estavam na oficina, Tony e esqueciam das horas que se passavam rapidamente, enquanto trabalhavam eram capazes de se esquecer do mundo lá fora e enxergavam somente o futuro promissor que a ciência era capaz de proporcionar. Era como se o mundo pudesse acabar do lado de fora da oficina, mas eles só sairiam de lá depois que tivessem cumprido seu objetivo.
No momento os dois pareciam dois estilistas bizarros mexendo em peças de aço que tentavam encaixar em um manequim que tinha a forma feminina. Usavam máscara escuras, grandes e de metal preto, luvas anti-inflamáveis e ferramentas de grande risco. A ideia de para uma nova armadura era promissora, mas enquanto Tony garantia que eles tinham robôs que poderiam construir a armadura seguramente, ela insistia que para o protótipo ser devidamente correto era necessário que fosse feito por mãos humanas.
-Sabe, na década de 20 houve uma grande modificação nas fábricas. –Ela contava levantando a máscara e deixando o rosto sujo de fuligem à vista e arrumava a cotoveleira de aço no braço do manequim. –O trabalho humano começou a ser substituído pelo trabalho das máquinas.
-Por conta da Revolução Industrial, sei sei... –Tony disse rolando os olhos. Às vezes falar com era como estar em uma aula chata de História.
-Claro que foi um marco para a humanidade, grande avanço e etc. –Ela abaixou e começou a ajustar as botas de aço leve do manequim, então ergueu os olhos brilhantes para Tony. –Só que algumas indústrias como as de artesanato, por exemplo, enfrentaram grandes problemas no resultado final do produto. A mercadoria perdia consideravelmente a qualidade, porque as máquinas não tinham tato nem a experiência humana para dizer quando um vaso ou uma porcelana estaria em perfeita condições de uso.
Tony suspirou entediado passando a chave de fenda para ela.
-Entende o que quero dizer? –Ela perguntou apertando um parafuso na sola da bota.
-Pra ser sincero, não escutei metade do que você disse... –Ele murmurou. Ela o olhou com uma expressão irritada e ligou o lança-chamas perto do rosto de Tony de propósito, ele se afastou atordoado e ela virou o lança-chamas para o peitoral do manequim.
-Eu quis dizer que a droga de uma máquina nem sempre percebe os detalhes como eu e você. –Concluiu com o sorriso vitorioso que sacudiam os nervos de Tony. Ele tomou o lança-chamas da mão dela resignado e definiu o peitoral da armadura ele mesmo.
Tony afastou-se da armadura e tirou a máscara para melhor contemplar o novo protótipo. Sua expressão se contorceu em um sorriso que escapou contra a sua vontade.
-Eu sei que ficou incrível. -Respondeu ao seu lado sorrindo também. -Quanto tempo acha que vai levar até ficar completa?
Tony contornou o manequim com passos lentos observando cada detalhe.
-Já colocamos os otimizadores, então só vai precisar de uns retoques. Talvez de uma pintura e acolchoamento.
-Não. Vamos ver isso no modelo final. Se colocá-la no andar de baixo com aquele seu super robô que cuida da sua armadura, teremos logo o prototipo. Podemos testar e depois faremos o acabamento final. -Ela respondeu colocando as máscaras e as luvas sobre a mesa e olhou para Tony aguardando a resposta dele.
Ela tinha o mesmo olhar ansioso que Howard tinha, que Tony acreditava ele mesmo ter. Fazia por amor ao descobrimento, amor à ação e esperava de alguma maneira mudar o mundo. Anthony percebeu que a cada dia que ela vinha pra oficina era um momento em família que ele nunca teve a chance de ter com os seus pais. Ele e brigavam tanto, porque eram parecidos demais.
-Tony? - chamou ainda esperando a resposta dela, com o olhar ansioso.
-Claro, tudo bem por mim. -Ele tirou o máscara e sentou-se em sua mesa. Deu o comando a Jarvis para que o protótipo recebesse os devidos ajustes.
guardou as suas luvas e a máscara em uma gaveta baixa de uma escrivaninha. Prendeu novamente o cabelo e colocou a jaqueta se preparando para sair.
-Você leu a carta? -Tony perguntou de repente. A expressão dela no inicio foi de confusão e depois de reflexão. -A carta do meu pai. -Explicou Tony em voz baixa e então se virou para ela.
colocou as mãos no bolso da jaqueta e se aproximou do primo.
-Não tive coragem ainda. -Ela suspirou.
Ambos ficavam desconfortáveis com assuntos sentimentais.
-Bem, depois que ler... Se precisar de alguma coisa... Eu estarei aqui. -Ele a olhou por um segundo e ela maneou a cabeça num ato silencioso de agradecimento. Então Tony deu um tapinha nos ombros da jovem e se levantou da mesa indo até o frigobar.
-Como ele morreu? -Ela perguntou. A voz saiu em um sussurro, mais ainda assim firme e corajosa como se dissesse: pode falar, eu aguento.
Tony parou segurando o copo de uísque. Encarou o líquido e de repente não tinha mais vontade de beber.
-Foi assassinado. -Sentiu o gosto amargo da boca ao pronunciar isso. -A Hidra matou Howard. Fizeram parecer que foi um acidente de carro.
Um silêncio duro reflexo do peso emocional dos dois permaneceu na oficina por um segundo. Quando Tony conseguiu reunir força para virar e olhar nos olhos de , ela já estava saindo pela porta com uma expressão dura e aterradora no olhar.


A raiva era tão forte que a Stark podia senti-la se mover dentro de si, queimava em seu sangue e parecia forçar seus músculos a se mover. Imaginar a morte de Howard trouxe uma descarga incontrolável de inquietação e pensar no tio fez com que o seu cérebro tentasse reagir ao choque recuperando lembranças que ela tinha de Howard Stark.
Seu corpo tentava controlar suas emoções explosivas sem sucesso, ela não estava em condições de entrar em um processo de luto.
sabia que a aceleração demasiada de seus batimentos cardíacos, a respiração profunda e descompassada, a tensão em seus músculos indicavam o inicio de outro surto que a faria novamente confrontar o passado que não recordava ter vivido.
Caminhava pelos corredores da Torre sem precisar pensar aonde estava indo, só precisava pensar em socar alguma coisa e seus instintos a levariam ao lugar certo.
Adentrou a sala de treinamento e caminhou até o saco de pancadas mais próximo. Não reparou no ambiente ao seu redor, a única coisa que enxergava era o material à sua frente que receberia a raiva que estava sentindo.
Sua mente mal formulava pensamentos, mesmo assim conseguiu projetar a Hidra à sua frente, todos os anos que perdeu, os sonhos que não viveu, o sofrimento que ficou marcado na sua mente e no seu corpo... O punho de atingiu o saco com uma força enorme, ele balançou violentamente e a corrente de aço fez um ruído estranho quase se rompendo com a força.
Cada soco desferido era parte do que sentia, o que vinha guardando dentro de si, o que estava remoendo desde que se tornara consciente novamente explodia com cada impacto até que a corrente que sustentava o saco se rompeu e ele chocou-se contra a parede.
Então Steve caminhou até o saco de pancadas amassado pelos golpes de , pegou o material e arrastou até o outro lado da sala para uma pilha de outros sacos estragados.
A Stark observou Steve e só então começou a pensar claramente.
-Desculpe, eu não vi que estava aqui. -Falou com a voz rouca por conta do esforço físico.
- Tudo bem. -Ele se aproximou enquanto tirava as faixas de proteção das mãos que estavam vermelhas por conta dos golpes que ele vinha treinando. -Eu já estava descansando quando você entrou de repente e destruiu o meu saco de pancadas.
iria se desculpar novamente, mas então viu um brilho cômico nos olhos azuis do Capitão e soube que ele estava brincando.
-Acho que não foi um problema pra você, já que parece ser um especialista em destruir materiais de treinamento. -Ela indicou a pilha no fundo da sala e sorriu. Caminhou até o banco mais próximo e se sentou com um suspiro.
Steve a acompanhou sentando-se ao seu lado, entregou à ela sua garrafa de água e pegou uma toalha para secar o próprio rosto.
Rogers vestia uma calça escura com coturnos e uma fina regata branca molhada pelo suor. O rosto estava corado e as mãos avermelhadas, parecia estar treinando intensamente já há algum tempo.
Ele se virou para com os olhos a sondando.
-Você está bem? -Ele perguntou. Pareceu uma pergunta íntima demais para , como se fosse comum ela se abrir para ele. Sentiu-se incapaz de formular uma resposta, só balançou a cabeça levemente e devolveu a garrafa de água para o Capitão.
-Eu também preciso socar alguma coisa quando fico frustrado.
direcionou o olhar para a pilha de sacos amarrotados e depois arregalou os olhos para Steve, estava surpresa.
-É, eu exagerei um pouco hoje.
-"Um pouco"? - Repetiu impressionada e percebeu que ele sorriu sem graça. -É bom saber que aproveitou bem as aulas que teve comigo.
Rogers ergueu os olhos para a Stark, perplexo encarou-a.
-Se lembrou?
Ao ver a esperança nos olhos dele ela sentiu a tristeza golpeá-la como uma facada no peito. Balançou a cabeça negativamente.
-Não. -Sussurrou. -Desculpe Capitão.
Ele sorriu.
-Está tudo bem...
-Soube que treinamos juntos, porque Tony e Clint me passaram uma pasta com algumas informações... As memórias que recuperei não tem me servido pra nada ultimamente.
Ele se virou pra ela com a testa franzida como se estivesse refletindo.
-Talvez devesse se preocupar menos em recuperar suas antigas memorias e se focar mais em absorver as novas experiências.
refletiu em cada palavra e soltou um meio sorriso para o loiro.
-E você, Steve? O que tem te frustrado a ponto de você acabar com os sacos de pancada?
Ele balançou a cabeça devagar e sem jeito desviou o olhar. Algo dentro de sabia que ele se sentiu desconfortável e que não ia se abrir com facilidade. Podia não se lembrar conscientemente das reaçoes de Steven, mas sabia interpretá-las de alguma maneira.
-Já que estamos os dois de cabeça quente, vamos treinar juntos. - se levantou tirando a jaqueta de couro e a jogou no banco. Tirou os coturnos pretos e Sem esperar a resposta do Capitão, caminhou até o centro da sala.
Steve a seguiu primeiro com os olhos, depois se levantou e se posicionou de frente para ela.
Os dois caminharam fechando um círculo, um observando o outro.
-Antes de começarmos tenho uma objeção a fazer. -Ela disse amarrando ataduras ao redor dos dedos para protege-los. Os olhos já começavam a cintilar de ansiedade. Antes que ela continuasse a falar, Rogers sabia o que era.
-Tudo bem. Nada de pegar leve por você ser mulher. -Ele completou sorrindo. E por um rápido segundo, ele via a dizer "mulheres não são o sexo frágil".
A Stark sorriu, um sorriso doce e encantador que ela sempre soltava segundos antes de dar o bote.
O movimento foi rápido demais para que Steve visse, tudo que pode fazer foi segurar a perna impedindo que o chute o acertasse no último segundo. Girou a perna dela a jogando pra trás e aproveitou para desferir um soco em sua direçao. Errou quando ela saltou com giro.
Um soco dianteiro foi defendido, mas recebeu outro no estomago. bloqueou a perna de Steve com a sua, mas levou uma pancada na costela. Os golpes dois seguiam sem parar, numa velocidade alarmante e dificil de ser acompanhada que exigia prática e intenso raciocinio rápido. Se um dos dois hesitasse por um segundo, iriam parar no chão.
Steve prendeu um dos braços de e o torceu a deixando de costas.
-Você está com um estilo diferente de luta. -Ele sussurrou nas costas dele, o hálito quente soprou no cabelo dela.
-Talvez seja influencia da Romanoff e do Barton. -Com a mão direita ela puxou Steve pelo pescoço, abaixou fazendo seu corpo de obstáculo e puxou o Capitao por cima de si fazendo-o cair na sua frente.
-É um pouco diferente do estilo da Natasha, mas parece ser russo também. -Ele deu impulso para se levantar e bloqueou suas pernas fazendo-o cair de joelhos de frente para ela. Steve tomou os seus braços e usando o peso do seu corpo jogou o corpo dela contra o tatame.
Ela arquejou com o impacto do tombo em suas costas e Steve aproximou-se ainda mais dela preocupada.
-Desculpa, não medi a força do golpe. -Murmurou com uma pontada de culpa na voz. Mas riu encarando os olhos dele e permaneceu sorrindo por tempo o bastante para trazer de volta uma memória que pertencia aos dois.


Era o primeiro treinamento de Steve depois do experimento. Estava extremamente nervoso, mal tinha se acostumado com as proporções do próprio corpo e já tinha sido direcionado para um combate corpo à corpo com .
Como os dois treinavam juntos anteriormente seria ótimo ter a vantagem de já conhecerem os movimentos um do outro, porém agora Steve era praticamente outra pessoa e não fazia ideia do quanto isso iria interferir em seu desempenho.
Entretanto, estava lá em sua frente o encorajando com o olhar. Sua silhueta feminina e delicada nem parecia capaz de quebrar a cara de alguém sem parecer graciosa e sua expressão nem parecia temerosa diante do fato de que teria que treinar com um Steve que agora tinha o tamanho de um armário perto dela.
Steve riu.
-O que foi? -Ela perguntou o sondando com os olhos
-Sinto que hoje você não vai conseguir me acertar. -Ele disse brincando e desafiador. Ela sorriu e atacou.
Uma sequência de golpes complicados e fortes, investidas impactantes em um ritmo rápido e instintivos foram desferidos em alguns segundos. sabia atacar tão bem quanto sabia defender e Steve sentiu-se satisfeito ao perceber que também não ficou para trás, não ficou em desvantagem nem por um segundo.
Houve um momento em que os dois tentaram derrubar um ao outro no mesmo segundo e ambos caíram no chão. tombou sobre Steve com a perna presa na dele, a respiração cansada soprou seu hálito no rosto de Rogers e então ela riu encarando os olhos de Steve.
Ele tocou o rosto dela sentindo a risada dela ecoar dentro de si e sentiu alivio por não tê-la machucado de alguma forma.
-O que achou? -Ela perguntou com o tom de voz baixo e terno.
-Acho que foi a risada mais linda que já ouvi.
Ela riu de novo, mais baixo e timidamente dessa vez.
-Eu estava falando do treino. -Ela sussurrou.
Ele permaneceu com os olhos focados nos dela e a mão que estava no rosto de desceu até a nuca da Stark e Steve a puxou para perto. O rosto aproximou-se do dela e seus olhos encararam os lábios próximos dos seus e ela fechou os olhos enquanto ele diminuía a distância entre os dois.
Mas ele não pode beijá-la, porque Peggy Carter entrou na sala de treinamento interrompendo o momento.


Steve observava o sorriso dela, tocou-lhe o rosto e aproximou seus lábios dos dela e viu que no olhar de ainda não havia o reconhecimento pleno, mais uma vez não era o momento. Então direcionou seus lábios para a testa dela com beijo rápido e se levantou.
-Acho que por hoje você já me venceu o bastante. –Steve pegou a jaqueta e deu a mão à ajudando-a a se levantar. –E precisamos descansar. Clint prometeu que vai se esforçar para organizar uma tarefa complexa para você amanhã.
Ela fez uma careta e o acompanhou até a porta, aparentemente sem perceber o desanimo de Steve.
-Estou a ponto de mandar Clint ir se ferrar. –Ela murmurou antes da porta do elevador se fechar.

entrou no seu quarto passando mentalmente todas as informações que conseguia guardar sobre si mesma. Era um exercício que fazia todas as noites antes de dormir. Sentava-se na beirada da cama e tirava os coturnos.
Eu sou Stark.

Tirou a jaqueta e a blusa, dobrou a roupa e colocou dentro do armário. Retirou as peças que usaria para dormir e se trocou.
Nasci aproximadamente em 1920. Desapareci durante a Segunda Guerra Mundial. Acharam que eu estava morta, apagaram minhas memórias.

Sentou-se na cama novamente, passou os dedos pelo cabelo desfazendo os nós de seus fios escuros e longos. Suspirou cansada e seus olhos repousaram sobre a escrivaninha ao lado da cama. As pastas que recebera de Clint e Tony estavam ali com todos os arquivos e informações sobre sua vida, mas havia também ali a carta de Howard.
Lembrou-se do que Tony havia dito a ela, lembrou-se que não tinha mais família e também da última vez que riu com Howard. Se deu conta de que mesmo que lutasse durante toda a sua vida, nunca estaria realmente pronta para ler as últimas palavras de seu tio. Então decidiu pegar a pasta, abrir o envelope e ler a carta mesmo que nunca mais fosse capaz de superar a saudade que sentiria.


***


1942

estava lendo Um conto sobre duas cidades, tinha conseguido encontrar um lugar confortável para se sentar na grama do lado de fora da barraca de Bucky. Enquanto ela lia, ele esticava seu corpo na grama aproveitando os últimos raios de sol da estação. Em alguns momentos ele a ficava encarando pensando se interrompia a leitura dela só para irritá-la ou se perguntava o porquê ela estava lendo aquele livro pela décima vez. Por fim, decidiu ir até Steve quando Peggy Carter passou pelos dois e entrou na tenda do Capitão.
Foi nesse instante que ergueu os olhos e acompanhou os passos de Peggy até que ela entrou na tenda de Steve.
-Peggy está sempre indo levar informações para Steve ultimamente. –Ele comentou virando-se para . –Mas eu acho que ela usa isso como desculpa pra ficar perto dele.
A Stark sorriu e revirou os olhos sem encará-lo, ainda concentrada no livro.
-Não que ela precise de uma desculpa, bonita do jeito que é...-Murmurou se levantando e foi nesse segundo que conseguiu o mínimo de atenção de , ela simplesmente lançou-lhe um olhar irritado e ele sorriu se levantando e indo até a tenda de Steve.
Ao adentrar o local deparou-se com uma rotineira conversação sobre o andamento das missões, número de soldados e planejamento. Como tinha percebido anteriormente, era só uma forma de Peggy conseguir mais tempos conversando com Steve, tanto que minutos depois de Bucky ter se juntando à conversa, Peggy retirou-se da tenda.
-Vejo que o soro de Howard te deu muitas habilidades, mas você continua péssimo em conquistas amorosas.
-Cala a boca. –Exclamou Steve surpreso, tirando os olhos do mapa aberto na mesa e fitou os olhos de Bucky com certo divertimento. –Por que está falando isso?
-Porque Peggy vem aqui no mínimo cinco vezes ao dia pra te falar as mesmas coisas e você nem ao menos percebe.
Steve encarou o amigo, os olhos azuis pensativos.
-É sério? –Perguntou depois de um tempo. Bucky riu achando graça no modo desapercebido e inocente do amigo.
-Sim, idiota. É sério. –Deu um tapa nas costas de Steve e mais uma vez percebeu no quanto seu melhor amigo magricela e baixinho estava mais alto do que ele agora. –Lembre-se do que eu sempre te digo: é um pecado não tirar uma garota bonita para dançar.
Steve sorriu para ele com um olhar divertido e ao mesmo ansioso para revelar algo.
-Eu sei, já tirei uma garota para dançar. –Respondeu.
-E quem foi? –Bucky perguntou surpreso e então pensou em observando Peggy entrar na tenda de Steve e no olhar irritado que ela demonstrou quando ele havia comentado que Peggy era bonita. Teria sido a quem Steve estava se referindo? Não podia ser, porque era a garota para quem Bucky estava guardando uma dança. Mas Steve não pode responder quem era, porque o Coronel Philips entrou na tenda e informou que tinham conseguido uma boa motocicleta para ele e Steve saiu para ver.
Porém, Bucky permaneceu na tenda pensativo. Em silêncio começou a tentar juntar as peças do que já tinha observado e questionava se deveria contar a Steve o que estava pensando e se deveria perguntar de quem o amigo estava falando. Então seus olhos passaram pelo fundo da tenda e ele sentiu que não estava exatamente sozinho no local, mesmo que não pudesse mais ver ninguém.
Seguiu até o fundo e tocou o tecido da tenda que servia de parede, soube que havia alguém do outro lado escutando a conversa e sabia exatamente quem era.
-O que está procurando ? –Perguntou em voz alta e sentiu que ela suspirou. Então se aproximou da cortina e o rosto deles ficaram separados apenas pelo tecido. –É feio ficar escutando a conversa dos outros.
-Como sabia que eu estava aqui, James? –Ela sussurrou em resposta.
-Lembra de quando você mudou pro Brooklyn e de quando nós éramos pequenos, costumávamos brincar de esconde-esconde na rua? –Ele sussurrou em resposta deslizando os dedos pelo tecido da cortina da tenda. -Você era a melhor do grupo, ninguém nunca conseguia saber onde você se escondia. Mas eu sempre te encontrava. –Disse afastando o tecido e fazendo uma abertura no fundo da tenda, conseguiu avistar o rosto de que estava do lado de fora. –Eu sempre vou te encontrar.

Atualmente
Bucky Barnes acordou no meio da noite com a respiração ofegante e o coração batendo tão forte que fazia seu peito doer. Era mais um sonho que trazia uma velha lembrança. Felizmente não fora um pesadelo dessa vez, era um sonho muito bom. Um dos que raramente dava vontade de sonhar um pouco mais, que raramente não traziam sofrimento e sim uma vontade imensa de nunca mais perder aquela memória de novo.
Recordar de Steve, do seu velho eu e de trouxe uma sensação de pertencimento que há muito ele não havia sentido. Voltou a se deitar encolhendo o corpo tentando achar novamente uma posição confortável.
Eu vou encontrá-los. Foi seu último pensamento antes que fosse novamente envolvido em outros sonhos.


Capítulo 7

1942

A noite tinha acabado de começar, o por do sol sumira do céu havia poucos instantes. Para iluminar o local, os soldados haviam pendurado velhas luzes pisca-pisca pelo acampamento. As luzes lembravam Bucky do Natal e de repente sentiu falta de casa. Sentiu falta de ver as luzes de Natal do Brooklyn enquanto caminhava pelas ruas com as botas afundando na lama.
Então viu Steve, os cabelos tão dourados quanto às luzes do acampamento. Ele estava cercado pelos Howling Commandos e os soldados riam alto à beça enquanto outro grupo assava espetinhos na fogueira.
Do outro lado da fogueira estava olhando para o soldado na frente dela. Logo reconheceu o sujeito como Tom, Steve contou que quando a Stark havia entrado para o esquadrão logo após de ter acertado a cara do sujeito, Tom se mostrou muito mais cavalheiro com ela. Agora parecia que o idiota estava tentando se aproximar.
Quando Bucky se aproximou de Steve, viu que há muito tempo o amigo também estava observando os dois.
-Está vendo a cara de tédio de ? -Steve perguntou, se divertindo com a situação.
-Sim. Esse sujeito está a ponto de levar outro soco dela. -Bucky riu, aceitando o copo de bebida que o loiro ofereceu.
Então olhou em volta como se procurasse uma desculpa para se afastar. Foi aí que os olhos dela se acenderam tão ardentes quanto à fogueira quando viu os dois.
Bucky não sorriu quando seus olhos se encontraram com os dela, Steve fez menção de ir ao encontro de , mas Peggy Carter barrou o caminho quando apareceu para saudar os dois.
Após Peggy começar a falar qualquer coisa a respeito da comida, Steve maneou a cabeça e estava visivelmente sem jeito quando ela sugeriu que eles dançassem a música.
Steve não recusaria o convite de uma dama na frente de todos os soldados, era educado e tinha bom senso. Então pegou a mão de Peggy Carter e seguiu para mais perto da vitrola, isso fez com que todos os soldados soltassem assovios e todos os homens do recinto estavam desejando companhia.
Ele percebeu no aquilo resultaria assim que todos os soldados por perto começaram a olhar de relance, era óbvio que todos iriam querer ter uma dança com a Lady Stark. Bucky sorriu consigo mesmo, ele queria ver quem era o idiota que iria tentar.
Tom continuava falando e só parava para levar o copo à boca, sorria educadamente, mas estava claramente concentrada em outras coisas. O olhar da jovem vagava pelo acampamento e então ela viu Steve dançando com Peggy. Ela se virou para Tom entregando seu copo a ele, ele sorriu assentindo e se afastou.
Bucky se aproximou assim que Tom saiu, reparou que permaneceu de cabeça baixa e ela virou o corpo em direção à floresta como se cogitasse uma fuga da comemoração. Quando ela começou a se mover, Bucky a alcançou.
-Olá, senhorita. –Ela a tocou no braço. Ela se virou e quando os olhos castanhos dela reconheceram os dele, o sorriso que ela abriu foi grande.
-Boa noite, Sargento. –Disse toda cortês, piscando os longos cílios e as ondas do cabelo balançaram. Por pouco, Bucky Barnes quase tropeçou nas palavras.
-Vi que seguia para a floresta, senhora. Temo que não seja seguro ir para lá sozinha. –Ela sorria enquanto ele falava e estava o olhando nos olhos, diferentemente do que havia feito com Tom. Era um bom sinal.
-Eu aprecio a sua preocupação, Sargento James. –Ela acariciou a mão dele e então estendeu os braços para arrumar o chapéu de Bucky. –Mas eu não sou uma donzela em perigo.
Ele riu, segurou a mão dela e beijou-lhe a mão.
-Bom, talvez seja uma donzela que goste de dançar...
Ela riu, pareceu ter um corado um pouco e então balançou a cabeça positivamente.

Atualmente
,
Onde você está?
Já faz tanto tempo que estamos a sua procura. A Guerra já acabou, nós vencemos e você não está aqui para brindar conosco. Você, Bucky e o Capitão desapareceram e deixaram para trás uma América vitoriosa.
Fico me perguntando o que aconteceu na noite do seu desaparecimento. Ainda não descobri ao certo quem foi a última pessoa a te ver.
Já organizei as maiores buscas e as melhores investigações. As suspeitas são de que te sequestraram e te mantiveram em cativeiro para conseguir informações sobre os Howling Commandos e que provavelmente te mataram com o fim da guerra.
Mas você realmente morreu? Não consigo ser capaz de aceitar isso. Eu sei que mesmo sob tortura e ameaça você não iria informar nada e que arranjaria uma forma de sobreviver. Mas tanto tempo se passou e você ainda não deu notícias.
Agora tenho as minhas dúvidas acerca das possibilidades de você ter sobrevivido. Agora acho que de alguma forma você está morta e eu não posso enterrá-la ao lado de nossa família.
Ah, ... Eu sinto muito. Me perdoe... Aonde quer que esteja, me perdoe, porque eu mesmo jamais conseguirei me perdoar. Deveria ter cuidado melhor da minha sobrinha, deveria ter te protegido da guerra, eu não deveria ter deixado meu último projeto secreto em suas mãos. Não só fui descuidado com você como também deixei o soro em suas mãos.
Achava que esse seria o meu maior acerto quando na verdade foi o maior erro da minha vida.
Queria de alguma maneira poder lhe ajudar a encontrar o caminho de volta para casa, para que seu espírito descanse em paz. Então providenciei que colocassem a sua lápide ao lado de sua mãe e quando eu também partir, lá estarei.
Com todo amor do mundo,
Howard.


As palavras de Howard ecoavam pela mente de sem parar. Todo dia antes de dormir ela relia a carta e pensava no tio a escrevendo com lágrimas nos olhos, lágrimas que ele nunca deixaria realmente alguém ver. Imaginava a própria lápide no cemitério onde sua família estava enterrada e aquilo a assombrava todos os dias. Todas as noites tinha pesadelos, no entanto nunca realmente se lembrava dos sonhos.
Ao sentar na cama tentou contar até cinco e recordar o que tinha visto em seu sonho, mas não conseguiu reunir nada além da sensação de desespero que os pesadelos deixavam. Então decidiu praticar o exercício que fazia antes de dormir, já que o exercício anterior não iria funcionar.
Meu nome é Stark. Eu nasci na década de 20, sou filha de Alyssa Stark e sobrinha de Howard Stark. Trabalhei para o governo e desapareci durante a Segunda Guerra Mundial. Fui presa e torturada, apagaram as minhas memórias e minha família está morta. Menos o Tony, ele é meu primo e é um pé no saco.
entrou no banho e aproveitou para relaxar enquanto a água escorria pelo seu corpo, não havia dormido bem à noite e sentia-se extremamente cansada. Sua mente passara a noite tentando encontrar formas de escapar dos sonhos ruins ao invés de repor as energias, e treinar naquele dia seria algo ainda mais árduo. Treinar. Abriu os olhos com o pensamento e se deu conta de que já havia passado da hora de seu treino e ninguém havia ido acordá-la.
Saiu do banheiro, vestiu o macacão e calçou os coturnos. Retirou-se do quarto andando apressada pelo corredor, desceu as escadas e parou na sala de estar encontrando o recinto estranhamente vazio. Passou pela sala e seguiu até a sala de jantar, esbarrou em alguém e ergueu os olhos para encarar o moreno alto à sua frente.
-Bom dia, . Tudo bem? Parece nervosa. –Sam disse ao mesmo tempo em que mastigava cereais com leite. Segurava a tigela com cereais próxima ao peito e parecia esfomeado pela maneira que mastigava.
-Bom dia, Sam... –Respondeu se afastando um pouco dele, olhou ao redor ainda à procura de mais alguém. –É que estou atrasada para o treino e ninguém foi me chamar...
-Ah, sim. O treino foi cancelado. –Confirmou ele, ainda mastigando cereais. Puxou uma cadeira da mesa e indicou para que tomasse um lugar enquanto ele se sentava. –A turma saiu pra atender um chamado no centro da cidade e eu tive que ficar caso você precisasse de alguma coisa.
arqueou uma das sobrancelhas e sorriu incomodada.
-Preciso da minha memória de volta, preciso de uma boa noite de sono... –Suspirou, sentando-se em cima do balcão, fingindo uma expressão reflexiva. –Preciso de muitas coisas, Sam. Mas definitivamente não preciso de uma babá.
Ele riu, uma alta e sonora gargalhada balançando a cabeça.
-É verdade. Depois de ver a surra que você consegue dar em todo mundo, talvez eu é quem precise de cuidados.
Ela decidiu se juntar a Sam e tomar café da manhã com ele. Levantou-se e tirou uma tigela do armário, encheu-a com leite e acrescentou uma porção de cereais.
-Todos estão atendendo a um chamado? O que foi que aconteceu? -Ela perguntou, voltando a se sentar ao lado de Sam. O moreno balançou a cabeça enquanto mastigava.
-Wanda e Visão foram até Long Island ajudar uma escola que estava em chamas, eles conseguiriam chegar lá mais rápido. -Sam então pegou o controle em cima da mesa e apertou um botão. Uma tela holográfica se formou no centro da mesa de jantar, a transmissão high tech mostrava imagens de um viaduto no centro da cidade e embaixo do viaduto viu Viúva Negra, o Capitão América e o Homem de Ferro cercando um homem que devia ter cerca de 2 metros de altura, extremamente forte e usava uma máscara de couro bizarra.
Os três heróis investiam contra o homem, mas ele defendia todos os golpes com uma capacidade sobrenatural, ninguém conseguia sequer encostar um dedo nele.
-Qual é a desse cara? -Ela perguntou curiosa sem tirar os olhos da tela. -Olha como ele defende perfeitamente, até parece que sabe exatamente como os três vão atacar e se defender... Eles estão apanhando demais!
Falcão concordou com a cabeça e uma ruga de preocupação se formou em sua testa quando o homem derrubou o Homem de Ferro.
-Ele se intitulou como Treinador. -Explicou Sam que agora tinha parado de comer para observar a transmissão com . -É um antigo agente da Shield, que na verdade é da Hidra, e quando a organização entrou em conflito com os agentes duplos.
A imagem na tela era emitida pelas câmeras de segurança da cidade. Na região era possível ver o enorme aglomerado de civis que fugiam do viaduto e da rodovia correndo abandonando os seus carros. A Viúva Negra afastava os civis mais próximos tirando crianças das regiões e pedindo que todos saíssem do local.
O Homem de Ferro e o Capitão não estavam dando conta do Treinador e logo um grupo de agentes passou pelos civis, indo de encontro à Natasha. O grupo de agentes com uniforme de combate era composto por no mínimo oito indivíduos e o que vinha na retaguarda tinha um uniforme que mais parecia uma armadura, o capacete tinha o desenho de uma caveira e no seu peito o desenho de dois ossos cruzados tinha destaque.
abriu a boca para fazer mais perguntas, mas viu que Tony ainda não havia se levantado. Ele permanecia no chão fazendo força para movimentar os braços e uma pequena onda de curto percorreu os ombros da armadura. Ela soube na hora qual era o problema.
-Jarvis! -Ela chamou elevando o tom de voz.
-Olá, Senhorita Stark. -Respondeu o sistema.
-Quando eu ajudei Tony a consertar os microcompulsores da armadura, falei para ele reprogramar corretamente. - deixou a tigela de cereal de lado e ampliou a imagem da transmissão focando-a no Homem de Ferro que parecia estar tendo uma convulsão no chão.
-Tony afirmou que iria reprogramar depois se achasse que haveria necessidade, mas ainda não o fez. -Respondeu Jarvis calmamente.
Ela bufou irritada e virou para Sam que a encarava de boca aberta sem entender.
-Precisamos ir pra lá agora antes que Tony exploda a própria cabeça.
-Mas eu nem terminei o meu cereal. -Ele resmungou.
Levou apenas alguns minutos para Sam colocar o seu traje de Falcão e acompanhar até o velho viaduto no centro de Nova Iorque.
Quando estavam saindo da Torre, Falcão praguejou ao vê-la com uma armadura que consistia em um metal bem trabalhado que caiu perfeitamente bem em sua silhueta feminina.
-A armadura ainda não está pronta pra voar. -Ela declarou, colocando uma máscara pequena de aço que cobria-lhe o rosto da testa até abaixo dos olhos. -Vou precisar de uma carona.
-Acho que vou ser demitido. -Foi o que Falcão disse ao levantar voo carregando consigo. Mesmo que tenha recebido ordens para não permitir que saísse da Torre, reconheceu que Tony parecia bem debilitado pela transmissão.
Sobrevoaram pela cidade fazendo caminho entre os milhares de prédios, o sol brilhava refletindo o seu brilho nos enormes arranha-céus e sentiu um frio na barriga quando olhou para baixo e por um instante imaginou o que aconteceria com ela se Falcão a deixasse cair.
O ar quente da cidade batia em seu rosto e se lembrou que era a primeira vez que saía da Torre e também não se lembrava da última vez em que viu uma tarde ensolarada na cidade de Nova Iorque. Sentiu-se livre e de repente o medo de cair foi substituído pela sensação de liberdade que a fez perceber o quanto se sentia presa. Passara anos cativa, mesmo que não lembrasse o que aconteceu, seu coração não se esquecia do sentimento de opressão e ela carregava isso consigo todos os dias. Menos naquele momento, porque finalmente não havia nada que pudesse prendê-la.
Falcão fez uma curva e balançou de um jeito nada seguro e por um segundo quase gritou, mas Sam logo estabilizou e sobrevoou o viaduto.
Pelo céu era possível ver a Viúva Negra atrás de um carro se protegendo segurando a coxa ensanguentada com uma das mãos.
Falcão soltou próxima ao chão, ela rolou amortecendo a queda e ergueu-se próxima à Romanoff.
Natasha a encarou com seus enormes olhos verdes pulsando de adrenalina.
-Mas o que diabos, ?! -Ergueu a cabeça na direção de Falcão. -Trouxe uma assassina em série descontrolada para o meio de um confronto em lugar público?!
As palavras de Natasha soaram duras, indignadas e rápidas demais. levou um segundo para entender o clima de tensão. Falcão ficou sem resposta, o Capitão olhou de relance na direção deles.
-O que você quis dizer com...
-Não importa. -Natasha cortou a pergunta e se levantou com um curativo improvisado na perna. -Tony precisa de ajuda. -E correu de volta até o Capitão sem olhá-la nos olhos.
O grunhido impaciente de Tony fez com que voltasse sua atenção para ele. Correu até a caminhonete abandonada na rodovia e observou o Homem de Ferro caído no teto do veículo. Os braços da armadura sacudiram como uma onda de energia.
- Vendo você assim não parece nada heroico. - subiu na caminhonete e puxou um dos braços da armadura.
A estrutura de aço abriu-se com suas mãos hábeis e revelou o fio solto na parte posterior do antebraço.
-E você não parece o Homem Lata nessa armadura rústica. - Caçoou Tony, parecendo impaciente. - Mas você tem mais quadril que o Homem de Lata.
sorriu com o gracejo e acertou o punho de metal no revestimento de Tony, ele gemeu com o choque gerado.
-Eu mandei você reprogramar os microcompulsores no sistema, não mandei?! - reconectou o fio solto no antebraço. - Agora reprograme com Jarvis, idiota.
Tony respondeu com um xingamento que foi abafado pelo grito de Falcão.
se virou a tempo de inclinar o corpo para longe do punho preto que vinha na direção dos seus olhos. Mas o adversário a acertou com um chute, ela se desequilibrou, mas não caiu.
Quando ergueu os olhos para o agressor identificou que em seu rosto havia uma cicatriz, ele usava uma pseudo armadura feita de um material rústico. O desenho de dois ossos em forma de "x" estavam entalhados no peito dele.
-O que você está fazendo com os Vingadores? -Ele perguntou com um tom de divertimento na voz.
permaneceu a uma distância segura dele, sentiu o estômago latejar com a dor do chute levado, mas não demonstrou o incomodo que estava sentindo para ele.
-Você se lembra de mim? -Ele perguntou sorrindo, tirou a viseira do chão e a esmagou com uma só mão. -Parece que você entrou em surto de novo e dessa vez conseguiu fugir não é?
-Quem é você? -Ela perguntou, estreitou os olhos porque a luz do sol quase bloqueou a sua visão.
-Fomos parceiros, querida. -Ele sorriu sedutor e cruel. -Achei que se lembraria do seu amigo Ossos Cruzados.
Antes que ele respondesse sabia que no fundo de sua mente as palavras de saudação estavam gravadas Heil Hydra.
-Sabe quem você é? -Ele perguntou agora a cercando. -Vou fazer você lembrar. -Então ele avançou com uma força furiosa e ao invés de lhe acertar um golpe jogou seu corpo para cima dela e ambos caíram pela borda do viaduto em direção ao concreto da rodovia lá embaixo.
Nos milésimos de segundos que durou a queda, tentou usar o peso de seu corpo para cair por cima de Ossos Cruzados. Mas não conseguiu, foi o peso dele que a esmagou sobre o teto de uma caminhonete.
Quando as costas de sua armadura chocaram com o metal do veículo, ela sentiu o impacto fazer seus ossos tremerem. Se não estivesse com a proteção seria uma saco quebrado.
Um forte zumbido chiou em seu ouvido, piscou atordoada e ainda assim conseguiu segurar o punho de Ossos Cruzados.
-, você está bem? Consegue me ouvir? Pedi para Jarvis integrar seu aparelho de escuta no sistema. -A voz de Tony ecoou pelo comunicador. -Aguenta aí, estou arrumando a armadura.
Crossbones se inclinou sobre o corpo dela e pressionou o joelho contra o estômago de .
-Quando precisávamos te colocar nos eixos, era só te machucar. -Ele segurou o rosto dela de forma brusca. -Você sempre recupera as memórias sob pressão.
A Stark encarou bem os olhos por trás do capacete rústico que tinha pintado uma caveira por toda a extensão do rosto. Mas não o reconhecia, nada lhe era familiar. Por mais que ele pressionasse o joelho em seu estômago e fechasse as mãos em seu pescoço, nada lhe vinha à cabeça. Pelo menos, conseguiu ouvir a voz de Steve berrando no conector: , reaja!
Uma rajada de vento sacudiu o ar em volta deles, era Falcão sobrevoando a área mantendo os civis curiosos a uma distância segura do confronto. Quando os olhos de Crossbones tiraram o foco dos seus por um segundo, ela agarrou-lhe a perna que pressionava o seu estômago e torceu enquanto usava o peso do seu corpo para derrubá-lo.
Ambos caíram da caminhonete, mas ela tinha a vantagem de estar por cima. Quando Crossbones tentou se levantar, segurou a porta aberta do veículo e a bateu contra a cabeça do grandalhão.
-Só vou perguntar uma vez. –Ela se ajoelhou, o agarrando pelo colarinho e encarou os olhos vermelho atordoados pela pancada. –Quem é você e o que sabe sobre mim?
Os olhos dele tentaram focar no dela, estava recobrando os plenos sentidos. Ela riu e apesar de não poder ver a expressão completa do rosto dele, reconheceu em seus olhos o deboche.
-Acho que a questão aqui é “Quem é você?”.
Uma onda de fúria percorreu o corpo de , tão viva e intensa como um choque elétrico e, antes que pudesse conter, explodiu deixando fluir toda sua angústia pela memória perdida, pela falta de propósito que a guiava todos os dias, explodiu batendo a porta do carro mais uma vez na cabeça de Crossbones.
-Eu? Eu sei quem eu sou. –Ela se ergueu sobre ele e ficou satisfeita ao ver o olhar de deboche mudar para uma expressão de desentendimento. –Eu sou a Lady de Aço. –Complementou o acertando com um soco cheio no estômago. –Babaca.
Vários gritos e assobios soaram do outro lado do viaduto, ela se virou par ver o que acontecia e para surpresa percebeu que a multidão aplaudia a ela.
-Essa foi boa, . –Falcão falou pelo comunicador, enquanto sobrevoava e emitia avisos aos civis que gritavam pelos Vingadores.
Com Crossbones desacordado, a Stark procurou por Homem de Ferro e viu que eles estavam na parte de cima do viaduto, trabalhando em conjunto para alternar os golpes no Treinador.
A Viúva Negra, apesar de estar mancando, trabalhava com sua mira certeira para atingir os outros da equipe. Apesar de a arma ser de pequeno porte, a munição claramente era capaz de derrubar um cara se fosse usada por uma agente russa claramente irritada.
Quatro dos agentes armados investiam contra Natasha quando avançou até um deles, o que estava mais distante na extremidade do grupo foi facilmente atingido com a chave de pernas que a Stark habilmente lhe deu. Ambos foram ao chão e com o punho ela quebrou o nariz do sujeito. Porém, um dos agentes mais próximos a acertou com um tiro de choque.
No momento a dor foi tão intensa que todos os nervos de seu corpo pareceram explodir, com certeza estavam em uma voltagem acima do normal para uma arma de choque. Por instante, o cérebro da jovem pareceu explodir em um lapso desconcertante e enquanto a dor fluía por cada centímetro de seu corpo, pode sentir uma parte adormecida de si voltar à vida.
A força e poder em suas mãos a faziam sentir a segurança de estar no controle, o pescoço que segurava na chave entre os seus braços era tão frágil quanto o corpo de um boneco. Ela já havia feito aquilo tantas vezes, o movimento era completamente automático. Matar era automático e de certa forma até prazeroso.
Mate.
Era o comando em sua mente.
Stark obedeceu a comando como a incrível máquina projetada que era. O corpo já trabalhava com a mente desligada dos questionamentos, não havia regra ou moral, havia somente a ordem a cumprir.
Quebrou o pescoço do agente que estava imobilizado em seus braços. Virou-se com a mesma fúria, mal podia enxergar os olhos de quem segurava a arma elétrica, somente o puxou pelo colete e esmagou sua cabeça no concreto da rodovia.
- . –Era a voz de Steve soando pelo comunicador.
Uma parte dela escutou a urgência na voz dele, mas a outra estava ocupada demais amassando a cabeça de um agente no concreto. Bateu com ela uma, duas e na terceira vez um braço segurou o seu corpo.
-Ele está morto. –Foi o que Tony falou a segurando e afastando do corpo. –Acabamos aqui. Vamos sair, os civis estão olhando.
A voz dele soou como a de Howard e Steve gritava seu nome enquanto se aproximava, a familiaridade com o abraço de um Stark e a voz de Rogers a fez olhar para o sujeito que tinha cara no asfalto.
-Assassina... –Sussurrou para si.
O Capitão América se aproximou dos dois e olhou para os agentes no asfalto, em seguida dirigiu seu olhar para Natasha que mantinha uma certa distância deles e observava com a expressão indecifrável. Foi nesse momento que percebeu que havia algo que não estavam contando a ela.
-Devemos voltar à sede e contatar o Fury. –Conclui Steve com sua voz de comandante, a postura séria e segura que sempre assumia em campo. Mas já havia aprendido a reconhecer a apreensão em seus olhos há muitas décadas e Rogers estava claramente tenso para ela. –Perdemos Crossbones e o Treinador, ambos conseguiram fugir com o que restou do esquadrão e não temos sobreviventes para interrogar.
-Certo, Capitão. – O Homem de Ferro tocou no braço da Stark. –Vamos para casa então.

Durante todo o percurso, nada comentou. Tony deixou Jarvis no piloto do aerodeslizador dos Vingadores e se sentou ao lado da Stark perguntando se ela estava bem.
Ela o olhou de relance, maneou a cabeça, mas nada acrescentou em palavras. Steve notou que ela não o olhou desde que o encarara longamente no campo de batalha. Depois do comentário que Natasha soltou ao ver fora da sede, deve ter ficado claro que algo estava errado.
Desde que encontraram os arquivos remanescentes da Hydra, Steve repetia todas as informações mentalmente. Sentia a raiva e indignação crescer dentro de si, mas a sensação de completa impotência era a pior parte. Ele não podia simplesmente se aproximar e dizer: "E aí, ? Tudo bem? Espero que tenha recuperado suas memórias, porque você fez coisas ruins como por exemplo matar uma boa quantidade de pessoas e talvez agora esteja sendo procurada por um grupo de terroristas nazistas e talvez o governo federal dos Estados Unidos queira te prender. Mas então, quer sair pra jantar?". Não, não poderia ser simples assim.
O Capitão suspirou, sentindo que carregar esse peso estava o fazendo sentir um cansaço palpável nos ombros. Os olhos azuis dele encontraram os verdes de Natasha que estava ao seu lado o observando.
Depois de terem descoberto os arquivos, a russa mostrou-se mais pensativa a respeito das poucas pistas que haviam encontrado até então. No começo da manhã ela chegou a sugerir que se a Stark não mostrasse uma boa melhora, seria melhor que a entregassem à SHIELD.
-Sobre o que eu falei hoje cedo... - Ela suspirou e olhou para do outro lado do veiculo. -Desculpe. -Ouvir a russa pronunciar aquilo era extremamente raro. Havia resistência e até certa ternura em sua voz.
Natasha se aproximou e sentou ao lado do Capitão, olhou para os olhos de Steve que ainda estavam focados em .
-Olhei pra ela hoje dando uma surra naqueles caras e percebi que talvez eu esteja julgando ela errado.
Um lampejo de divertimento passou pelos olhos dele quando se virou para encarar a russa.
-Talvez? -Enfatizou ele.
-Talvez. -Ela concordou torcendo os lábios. -De certa maneira, eu vejo que ela é como eu. -Romanoff pousou seus olhos na Stark que encarava a janela do aerodeslizador. -Eu também fiz coisas horríveis no passado, mas encontrei na Shield um lugar para fazer algo bom. E agora nos Vingadores eu acho que achei uma maneira de quitar minha dívida em vermelho. -Natasha olhou para Tony, que estava concentrado nos comandos do transporte, e depois para o Capitão. -Talvez sejamos o recomeço dela.
Steve sorriu de maneira tímida e contida.
Natasha revirou os olhos.
-Pelo amor de Deus, chama logo ela pra sair. -Foi o que a ruiva disse ao se levantar e caminhar se alongando.

***


O aerodeslizador chegou à sede, assim que saíram da sala de transportes e seguiram para o saguão dos Vingadores, alcançou Steve. Ela o segurou pelo braço fazendo-o diminuir o ritmo enquanto Natasha e Tony entravam na Torre. Sam passou por eles, deu uma piscadinha para os dois e também entrou. Só quando estavam realmente sozinhos, foi que ela o olhou nos olhos.
-Pode falar, Capitão. -Disse simplesmente.
Steve sabia que em algum momento teria que explicar a ela o que haviam descoberto nos arquivos.
-, talvez você precise de mais tempo...
-Não, Stevie. -Ela insistiu. A voz soou frágil quando pronunciou o nome dele. -Eu sei que quer me proteger, eu sei. Mas eu preciso saber agora. -Os olhos castanhos encararam os dele decididamente.
-Encontramos arquivos. -Steve suspirou, indicou o caminho com a cabeça. -Eu posso explicar...
Começaram a seguir para a sala
-Não. -Ela disse, seguindo até a sala com ele. -Me mostre os arquivos.
Rogers não soltou o braço dela até chegarem à sala.
Ao adentrar o lugar, ele separou duas cadeiras da mesa e puxou uma delas para se sentar. Depois dela ter se acomodado, Steve se sentou, abriu a gaveta da escrivaninha ao lado e tirou de lá uma pasta.
Deixou a pasta na mesa à frente de que, sem esperar permissão, abriu os arquivos.
Assim que os olhos dela começaram a percorrer as informações, a expressão no rosto dela e o silêncio fizeram Steve se aproximar arrastando a cadeira para ela.
-Você foi a chave para um projeto chamado Darksouls. -A voz dele era branda e acolhedora. -O projeto fazia parte de um plano para criar um exército ou uma equipe de indivíduos com incríveis capacidades. Você foi uma peça chave para o desenvolvimento da metodologia que chamavam de Controle Mental Monarca, que eles descrevem com a sigla MK.
-Isso você já tinha me falado. -Ela sussurrou em resposta e apontou para uma lista de nomes e datas e em seguida seus olhos encontraram os de Steve. Ela já sabia o que estava por vir.
-Deu certo o plano deles. Te transformaram em uma grande máquina da Hydra. Durante anos usaram você em missões, mas o controle MK apresentava falhas e decidiram descartá-la.
Ela ergueu os olhos dos arquivos.
-As falhas são os surtos?
-Sim. –Steve tentou se ajeitar na cadeira desconfortável. –As falhas são quando alguns lampejos de lucidez tomam conta e você fica incontrolável. Com o passar do tempo, o controle MK demanda mais intensidade e piora as consequências. Ao que parece, precisaram aprofundar mais e mais o método e talvez isso interfira bastante na recuperação de sua memória. –Ele abaixou os olhos e estendeu a mão tocando a de . –Há coisas que você nunca vai lembrar.
Ela respirou fundo, com os olhos marejados balançou a cabeça.
-Tudo bem, talvez sejam coisas demais para uma mente humana suportar.
-Não suporta. Por isso você sofre os lapsos de dissociação da realidade. –Ele esticou uma das mãos e colocou os fios soltos dela atrás da orelha.
-Parece que as coisas estão fazendo mais sentido agora. Lembro-me de estar fugindo e de ser perseguida. –Olhou para a mão de Steve sobre a dela. –Às vezes me lembro de frases, palavras, imagens aleatórias. Às vezes sonho com você.
A confissão foi tão delicada e suave que Steve Rogers por um momento ficou sem palavras, olhou para a mão dela em contato com a sua e lembrou-se de quantas décadas esperava que aquilo acontecesse.
-Em outros momentos sinto apenas um enorme vazio. Estou cansada de tentar resgatar quem eu fui um dia, Stevie. –Ela sussurrou, apertou levemente a mão dele e suspirou. –Então eu vejo quanta fé você tem colocado em mim e em como até mesmo o Tony tem se esforçado comigo. Ganhei um espaço aqui e talvez seja algo que me faça continuar.
Os olhos dela encontraram os dele e Rogers percebeu no quanto ela parecia desolada, pela primeira vez realmente disposta a mostrar como estava se sentindo.
-É muita coisa pra pensar e ao mesmo tempo há um vazio por dentro. –Os olhos dela voltaram para os arquivos e depois para a tela do computador. –Eu quero ver o resto sozinha.
Ele assentiu, entrelaçou os dedos nos dela e franziu a testa sentindo-se relutante em deixá-la ver tudo sozinha. Mas acataria a vontade da Stark. Por fim se levantou, aproximou-se e beijou a testa dela.
-Até mais tarde, então. –Se afastou e conseguiu vê-la sorrindo um pouco. –Se precisar, me chame.
Steve Rogers saiu da sala deixando Stark com os arquivos recuperados.

***


O dia passou e Steve prosseguiu com as organizações de treinos, escalas para os Vingadores e relatórios que precisariam reportar. Tentou ao máximo não chegar à parte onde precisavam contatar o Fury para compartilhar o que tinha descoberto até agora. Provavelmente receberiam uma chamada urgente assim que a SHIELD tivesse acesso às informações do ocorrido no centro da cidade pela manhã.
Entre uma tarefa e outra, ou enquanto estava malhando e se exercitando com Sam, chegou a perguntar aos outros se haviam visto . Não houve sinal dela desde que a deixou sozinha na sala, então pensou em procura-la na hora do jantar.
-Ei, Nat. – Disse ao encontrar a russa na sala de estar. – Viu por aí?
Ela tirou os olhos da televisão e franziu a testa.
-Não. – Sentou-se com a postura ereta enquanto observava Steve. – Achei que ela estivesse com você. Tony estava procurando ela algumas horas atrás, mas como não a encontrou em nenhum lugar, achamos que vocês...
-Não a vejo desde que voltamos da cidade.
Natasha estreitou os olhos e se levantou.
-Acha que ela fugiu da Torre?
-Acho que sim. –Ele passou a mão pelos cabelos, pensativo e ansioso. –Já procurei por todo lugar.
-Vamos emitir um sinal para a equipe, precisamos achá-la. –Romanoff pegou o celular e começou a digitar na tela. –Vamos chamar o Nick e avisar que ela fugiu e é uma ameaça à...
Steve segurou o braço dela a impedindo de digitar.
-Não. –Disse em um tom que não aceita contradições. –Eu vou encontrá-la, Romanoff.
Então pegou a jaqueta e saiu da Torre com a sua moto.
Conhecia cada canto de Nova York, também conhecia a Stark de quase setenta anos atrás. Deveria ser capaz de encontra-la agora, não poderia falhar de novo. Pensou em parar no museu e verificar se ela estaria lá olhando todas as imagens e esculturas feitas em homenagem a eles, talvez ela tivesse se lembrado de procurar por Peggy Carter, duas coisas que ele havia feito assim que acordou nesse século.
Mas tinha um lugar que só quereria ir, ele pensou quando se recordou dela olhando pela primeira vez a carta que Howard Stark deixou. foi visitar sua família. Não Tony, o primo que ela acabara de conhecer, mas sua família no passado. Rogers saiu de Manhattan, atravessou o Rio East e chegou ao Brooklyn em alguns minutos. Seguia em direção aos Queens, sabia que o Machpelah Cemetery estava situado entre os dois bairros. Era lá que os Stark estavam enterrados.
Na entrada do cemitério, estacionou a moto debaixo de uma árvore e adentrou o local silencioso. Alguns postes iluminavam as fileiras de lápides. Não eram lápides grandes, cheias de esculturas como na maioria dos cemitérios, eram pequenas e organizavam-se no gramado. Era fácil identifica-las e foi fácil encontrar olhando para a família dela.
Ele se aproximou em silêncio e colocou-se ao lado dela. Encarou a lápide de Alyssa e Howard Stark e mais uma vez olhou para a lápide de Stark. Antes sentia um pesar enorme ao ver o nome dela ali, agora sabia que não deveria temer que ela estivesse morta.
Steve ergue os olhos para o céu e encarou as estrelas solitárias lá em cima. Da última vez que contemplou um anoitecer tão belo, ela estava ao seu lado sorrindo. Agora ela estava chorando, pode ver as lágrimas assim que a luz do luar banhou o seu rosto. Era um choro silencioso e solitário, uma dor que ela não queria compartilhar. Mas ainda assim estava lá do lado dele encarando a lápide.
-Eu estou morta... -Sussurrou, dessa vez não soava espantada. Parecia que tinham-lhe arrancado toda esperança.
-Estou morta. -Ecoou com o olhar vidrado em seu nome exibido na velha lápide.
-Você não está! -Steve a encarou, mas ela não o olhava e sequer parecia notar sua presença. -Está aqui comigo agora. Essa lápide foi algo que Howard fez acreditando que você não iria voltar. -O loiro sacudiu-a pelos ombros, manteve o tom de voz firme mesmo quando ela o olhou nos olhos pela primeira e o tempo parou, a brisa congelou. Havia só os olhos dela encarando os dele.
-Pode ter perdido a si mesma, mas nunca esteve morta. Nem a Hidra com todo o seu exército conseguiria te derrubar. -Steve estendeu a mão e tocou o rosto dela. Sentiu a pele macia sob seus dedos e ela fechou os olhos com o seu toque, deixando a última lágrima rolar. -Você me trouxe de volta à vida. Confie em mim e eu farei o mesmo por você. -Sua voz tornou-se um sussurro e ela abriu os olhos, e Steve soube naquele olhar que ela por fim estava se entregando a ele, porque apesar de não ter como fazê-la se lembrar do passado, havia o fato de que quando estavam juntos, passado e presente se chocavam em um único instante e os fantasmas voltavam à vida.
A brisa parava, os segundos desaceleravam e o universo se dobrava, porque nada, nem mesmo o tempo, poderia dar um fim à ligação que eles tinham. Ela respirou fundo e Steve pode sentir em seu rosto o hálito quente e doce.
Uma nuvem cobriu a lua e por algum momento não havia nenhuma luz iluminando o rosto de .
-Acha que fizeram de mim um monstro? –A pergunta pairou no ar como um peso, o rosto da Stark estava em trevas.
-Não, . Nunca seria um monstro pra mim. –Steve respondeu com segurança.
-O que faremos a seguir? -Ela perguntou, passando as mãos pelas suas.
-Nós encontraremos o Bucky. -Ele consentiu e o olhar dela mostrou mútua determinação.

***


James Buchanan Barnes encarava o próprio rosto na grande imagem do museu. Lia e relia todas as informações e gloriosas imagens do Howlling Commandos. Algumas coisas estavam voltando à memória, mas depois de alguns instantes ele perdia tudo em um lapso. Em uma tentativa de guardar o pouco que conseguia, Bucky criou uma espécie de pequeno diário. Carregava consigo o notebook e sempre que alguma velha sensação, lembrança ou pressentimento o tomava, Bucky guardava daquela maneira.
Olhou no relógio e viu que estava anoitecendo, seria melhor sair antes que o segurança fosse o avisar de que estavam fechando. Guardou o notebook na mala e levantou-se, passou pela foto de Steve Rogers sentiu que um milhão de informações estavam presas em sua cabeça. Aos poucos ele se lembrava de coisas pequenas, como flashs de sua infância, imagens da guerra, frases e conversas aleatórias. O diário o ajudava a pegar todo aquele apanhado do passado e tentar organizá-lo de forma que fizesse sentido.
Passou então pela grande imagem de Stark, às vezes tudo o que conseguia lembrar dela era o sorriso atrevido e o olhar de determinação. Em outros momentos, os lapsos de memória eram tão fortes que ele podia sentir o que havia sentido quando olhava para ela e Steve no meio do caos.
O que fazia Bucky continuar tentando era principalmente a lembrança do amor, companheirismo e conquista.
-Você é um dançarino admirável, Sargento. –Ela riu enquanto ele a guiava em volta da fogueira e todos os soldados batiam palmas no ritmo da música.
-Eu sei disso, boneca. –Piscou.


Capítulo 8

O amanhecer no acampamento era sempre silencioso, já que todos se colocavam de pé quando ainda estava escuro e faziam o café da manhã quando os primeiros raios de sol iluminavam o céu. Era geralmente um amanhecer quieto e frio, porque todos sentiam falta de sua casa, da família e, principalmente, de comida e papel higiênico - duas coisas raras durante a guerra.
Mas o silêncio se dava mais precisamente quando a maioria estava ocupada lendo as cartas que chegavam de manhã uma vez a cada duas semanas. As cartas de saudade, esperança e amor que aliviavam um pouco a pressão pela qual todos passavam.
Em uma manhã como essa, saiu de sua tenda, do uniforme de combate só tinha vestido a calça de cintura alta e as botas. Não se preocupou em elaborar os cachos icônicos da época, só deixou os cabelos presos em um rabo de cavalo e parou na entrada da tenda, fechando os olhos enquanto os primeiros raios da manhã tocavam sua pele.
- Bom dia, Stark. - A voz cortês de Peggy Carter entoou quando ela parou na frente da tenda de . Peggy tinha alguns envelopes na mão e observou enquanto ela procurava deliberadamente por um. - Tem uma carta pra você, é de Howard. - Ela encontrou o envelope que já parecia bem gasto e o entregou a Stark.
- Obrigada, Peggy. - Ela disse, observando a carta na mão. - Queria que fosse uma carta dizendo que faço falta, mas você sabe... Meu tio só sabe falar de negócios.
Peggy sorriu e então olhou para a pilha que segurava.
- Bem, se tem alguém que está matando alguém de saudade, essa pessoa é James. - Carter declarou, franzindo a cenho enquanto lia o nome do destinatário das cartas.
- Quer dizer Bucky. - corrigiu de forma automática. Ele detestava que o chamassem de James, na verdade só deixava que o chamasse assim. Ver Peggy dizer o nome dele causou um certo desconforto que a Stark não soube explicar, porém Peggy não percebeu.
- Eu procurei por Bucky em todo o acampamento, alguns disseram que ele estava vindo em direção à sua tenda. - Carter disse, olhando ao redor como se talvez Bucky pudesse estar por perto.
- Que estranho. Ainda não o vi hoje. - A Stark também olhou ao redor, procurando por qualquer sinal dele. Então seus olhos caíram na floresta que se estendia por trás do acampamento e ela soube que ele estaria lá.
- Bem... Será que você poderia ficar com as cartas e entregar a ele quando o ver? - Peggy sorriu. - Ainda não tomei café.
- Claro. - Respondeu a Stark, recebendo uma pilha de cartas nas mãos.
- Obrigada, . - Peggy começou a andar em direção ao acampamento. - Vou guardar uma panqueca para você.
sorriu. Ela adorava panquecas.
Com a pilha de cartas, saiu do perímetro do acampamento e adentrou na floresta. Era inverno, mas a época de nevascas e geadas havia passado. Agora as árvores estavam secas e sem cor, parecia que todos os galhos e folhas se inclinavam desesperadamente na direção do sol, como se estivessem morrendo de saudade do calor.
Bem, Dolores também parecia estar morrendo de saudade de Bucky a julgar pela dezena de cartas. checou e todas eram da mesma remetente, Dolores. Ela contou quantas cartas eram no total enquanto sua bota andava pelo solo irregular da floresta. Às vezes olhava para o chão para se certificar de que continuava seguindo as pegadas de Bucky.
Mais à frente o solo se elevava em uma subida, lá em cima havia uma enorme rocha sob a sombra de um carvalho. Há poucos metros de distância era possível ver Bucky sentado na rocha, vestia a calça, botas de combates e uma camiseta branca que de alguma maneira destacava bem a cor de sua pele e os olhos azuis.
- Sargento Barnes. - Chamou , cruzando as mãos atrás das costas em uma posição de reverência.
- ! - Ele exclamou com a voz baixa, mas o rosto se preencheu com um sorriso. Ele inclinou a cabeça na direção dela, o cabelo úmido e escuro dele se moveu. - Chegue mais perto.
Ela tomou distância, correu levemente e saltou, batendo o pé no carvalho para tomar impulso. Subiu na elevação do terreno com maestria e sem dificuldade. Quando ela se sentou na rocha ao lado de Bucky, ele parecia encará-la com um brilho nos olhos silenciosos.
Olhando-o de perto agora, podia sentir o cheiro fresco de sabonete, café e colônia, o cabelo úmido indicava que ele havia tomado banho há pouco tempo.
Ele a olhou nos olhos e desviou o olhar para as cartas que estava segurando e entregou a pilha para Bucky.
- Estavam te procurando para entregar isso. - Ela explicou enquanto ele olhava cada envelope rapidamente. - Dolores parece realmente sentir sua falta. Pela quantidade de cartas, parece que deixou de respondê-la.
- Deixei... E lamento por isso. - Ele disse, abrindo o que pareceu ser o envelope mais novo e recente. - Expliquei a ela que não daria certo. Não poderia me comprometer com ela, mas pelo visto ela quis insistir.
Ele começou a ler a carta em silêncio e se sentiu extremamente desconfortável, como se estivesse de intrusa em um momento privado. Quando fez menção de se levantar, Bucky tocou o pulso dela, a impedindo de sair.
- Aonde vai?
- Achei que iria querer ficar sozinho para ler as cartas.
Então ele deixou a pilha de envelopes de lado e a olhou, soltando-a.
- Não. - Disse em um tom solene. - Fique comigo.
Fique comigo. Duas palavras que era um pedido silencioso que eles entendiam bem, significava fique comigo e eu me sentirei melhor.
A Stark hesitou por um segundo, mas afirmou com a cabeça e voltou a se sentar.
- Mas se você começar a chorar com o coração partido, vou ter que marcar uma festa do pijama com Peggy e preparar sorvete para ouvir os seus lamentos. - Ela disse, brincando, quando um raio de sol passou pelos galhos do carvalho e atingiu o rosto de Bucky. Ele riu como se a provocação fosse a mais engraçada que ele já tinha ouvido e inclinou a cabeça apoiando as mãos na rocha tomando sol.
- Não estou de coração partido, estou aliviado. - Confessou Bucky. - Não estava certo antes, pelo menos agora estou menos errado do que antes.
Stark encarou Bucky pensativa, não conseguia entender ao que ele estava se referindo especificamente. Então chutou:
- Não estava apaixonado antes, mas agora encontrou uma garota bacana. É isso?
- Uma garota bacana... - Ele repetiu e então semicerrou os olhos enquanto encarava e sorriu. Um sorriso secreto que ele dava quando guardava um segredo. - Talvez. Mas e você, encontrou o cara bacana?
Ela pensou em Steve e depois em Peggy. Na decisão que havia tomado ao ver eles dois dançando pelo acampamento. Steve não seria dela e ela deveria então seguir em frente.
- Estamos em uma guerra, não tenho tempo para romance. – Declarou .
Bucky sorriu, aceitando que conquistar aquela garota seria um desafio. Bucky Barnes adorava desafios.

Atualmente

As semanas passavam e Stark conseguiu estabelecer uma rotina saudável em meio aos Vingadores.
De manhã cedo ia treinar com Natasha e Clint, mas às vezes era preciso atividades mais desafiadoras. Aos poucos ela conseguia compreender melhor suas habilidades. No meio da adrenalina sabia que seus olhos ficavam na cor violeta e que isso era algum tipo de ativação do seu organismo. Sabia também que super excitação de seus neurônios era o que na maioria das vezes causava os seus surtos.
Agora sabia como moderar melhor a força e controlar a raiva quando tinha lampejos de seus traumas no meio de uma luta.
À tarde sempre ficava com Tony na oficina, mas na maioria das vezes ele tinha negócios para administrar fora e deixava encarregada do que poderia ser cuidado dentro da Torre. Ajudava ela a trabalhar melhor as funções cognitivas e resgatar o lado cientifico e tecnológico de sua personalidade. E, além disso, aproximava ela e Tony, quase como verdadeiros primos.
No final de todas as noites, ela ia até o quarto de Wanda Maximoff e compartilhava com ela o que aprendeu durante o dia. Wanda checava sua mente, tentando resgatar as memórias de , monitorando-a para saber se em algum momento ela não quebraria de vez. Às vezes Wanda conseguia fazer se lembrar de coisas pequenas como qual a cor favorita de sua mãe, qual a comida que detestava e com quantos anos andou de bicicleta pela primeira vez.
Em alguns raros momentos e nos dias mais difíceis, Wanda trazia à tona as memórias de tortura. A Feiticeira não conseguia visualizar a mente da Stark por completo, era como espreitar pelo buraco da fechadura. Mas toda vez que alcançavam esse tipo de memória, tinha um surto violento.
Não era como os outros surtos em que ela quase matava todo mundo. Nesses em específicos, mordia os lábios e enterrava as unhas na palma das mãos até sangrarem, então ela se contorcia em uma convulsão nervosa.
Em uma noite, Visão entrou no quarto de Wanda atravessando a parede e se deparou com ela tentando trazer de volta à consciência.
Quando acordou na cama de Wanda, a Feiticeira e Visão estavam aliviados. se sentou, sentindo a cabeça girar e doer violentamente.
- Vou chamar o Steve. - Declarou Visão, se colocando de pé. Ele passou a usar roupas normais e sociais, mas em um estilo muito culto que ainda assim o faziam parecer mais humano. A joia amarela pulsante brilhava em sua testa.
- Não. - Pediu , estendendo a mão para ele. - Por favor, não chame ele. Eu estou bem. - Ela se virou para Wanda, que ainda parecia atônita e preocupada. - Estou bem, Wands. Eu quero... quero tentar de novo.
- Está louca? - Ela piscou indignada, balançando a cabeça. - Encontrei um bloqueio muito forte em sua mente, tentei quebrá-lo e você... Você começou a se machucar e apagou. - Ela olhou para as próprias mãos e depois para as mãos de . - Eu senti a sua dor. O bloqueio ainda está muito forte.
A Stark se sentou e segurou as mãos de Wanda de forma determinada.
- Eu confio em você. Faça.
A Stark semicerrou os olhos, estava disposta e decidida. Wanda não pode negar, sabia o desespero e empenho que ela tinha para recuperar sua vida e decidiu ajudá-la. Mas se algo acontecesse, chamaria Steve mesmo que se recusasse a isso.
Uma névoa vermelha envolveu a consciência de em um abraço violento. Sangue pingou de seu nariz, os olhos acenderam numa cor violeta e ela gritou quando a lembrança veio à tona.

1942

Era difícil dizer se era dia ou noite, não conseguia mais arranhar as paredes para continuar a contagem dos dias, as unhas já haviam caído. Também já não era mais possível fazer a contagem de acordo com o horário em que suas refeições eram servidas, depois que a série de experimentos começou, ela não conseguia ficar acordada ou focada por muito tempo. Às vezes só acordava depois de ouvir os gritos do homem que ficava na sela ao lado.
As luzes foram acesas, a jovem protegeu os olhos com as mãos. A claridade machucou no início e aos poucos a visão foi se acostumando. Piscou algumas vezes e, quando seus olhos se focaram na porta de entrada, conseguiu ver o Dr. Arnim Zola e outro homem alto, careca com cicatrizes no rosto, mas o que tinha mais destaque era o tapa-olho no olho direito.
- Bom dia, senhorita. - Saudou Zola, entrando na sala com uma mesa móvel. Colocou a mesa no canto da sala enquanto o homem alto e careca se aproximou dela.
- Senhorita, este é o Barão Von Strucker. - Anunciou Zola em um tom cheio de orgulho e respeito. - Ele tem supervisionado nosso progresso e estava ansioso para conhecê-la.
O Barão tocou o rosto de , segurando-a pelo queixo. Ela torceu as algemas no pulso numa tentativa inútil de se afastar dele.
- Uma Stark. - A voz de Strucker era grave e rouca. - Uma preciosidade.
respirou fundo e cuspiu toda saliva que podia na cara de Strucker.
O Barão endureceu a expressão e a mão dele que a segurava pelo queixo passou para o pescoço em uma ameaça silenciosa, ele apertou obstruindo por alguns instantes o ar em seus pulmões.
não conseguia respirar, seu rosto estava ficando com uma coloração intensamente vermelha. Mas em nenhum segundo o olhar dela vacilou, deixando bem claro que o encararia até a morte.
Então Strucker a soltou, o corpo dela vacilou quando os pulmões conseguiram a primeira arfada de ar. O Barão riu e a segurou pelo cabelo.
- Essa é rebelde. - Ele riu, olhando para o Dr. Arnim Zola enquanto torcia os longos cabelos escuros de nas mãos. - Mas vamos torná-la uma cadete obediente.
Zola sorriu como se aquilo não fosse nem um pouco desumano.
- Não é bom que ela continue com esse cabelo comprido, não vamos dar ao inimigo uma maneira de pegá-la. - Strucker a soltou e A. se aproximou com a máquina elétrica. - Raspe tudo.
A. segurou os cabelos de , eles haviam crescido bastante desde que entrara para o Howlling Commandos, eles passavam dos ombros como grandes ondas negras. O Dr. Zola ergueu a tesoura e os aparou sem cuidado e prática. não olhou para os fios que caíam, seus olhos continuavam focados em Strucker.
Dr. Zola voltou à mesa de utensílios e pegou a máquina elétrica, quando ele se aproximou a Stark se retorceu na cadeira, tentando se afastar.
Strucker balançou a cabeça, mostrando que desaprovava o comportamento dela.
- Você é uma jovem ousada, já deixou claro que não teme a morte. - O Barão caminhou ao redor da cadeira dela e voltou a parar em sua frente. - Mas tente não se rebelar tanto. Pra cada má ação sua, torturamos o homem da cela ao lado.
franziu o cenho lembrando-se dos gritos escoando pelas paredes.
- Mostre um pouco de compaixão ao próximo e se comporte. - Barão von Strucker caminhou até a porta e a abriu. - Afinal, quem está na sela ao lado é James Buchanan Barnes.
Strucker fechou a porta antes que o grito de fúria dela alcançasse os seus ouvidos.

Atualmente

Depois do choque inicial, todo o resto foi uma confusão de dor. gritou, Visão hesitou, mas Wanda se mostrou no controle e conseguiu acalmá-la em poucos segundos.
A Stark relaxou e Wanda pode ver alguns flashs da memória que ela estava revivendo contornada pela névoa vermelha dos poderes da feiticeira.
Wanda conseguiu ver e sentir o momento de torturas, sentia os gritos como se tivessem saído de sua garganta e quando terminou, tombou, murmurando um "valeu, vou guardar uma panqueca pra você", o que não fez o menor sentido.
Visão checou o pulso e níveis hormonais de e quando achou que era satisfatório, se retirou atravessando a parede novamente.
Wanda cobriu a outra e deixou que ela dormisse no seu quarto aquela noite. Lembrou-se que depois da morte do irmão Pietro, não havia divido o quarto com ninguém e sentiu um curioso alívio da solidão, ficando feliz com a companhia da Stark, por mais que aquilo tivesse parecido com uma festa do pijama macabra marcada por horrores da segunda guerra.
No dia seguinte, quando Wanda levantou, estava preparando o café e realmente serviu panquecas. Ela parecia bem, pensou a feiticeira, pelo menos não tinha sangue escorrendo do nariz.
- O que você vai fazer hoje? - A Stark perguntou enquanto despejava café na xícara de Wanda. - Você sabe, além de salvar o mundo e etc.?
A outra franziu a testa, pegou a xícara e o café preto combinava com o esmalte e boa parte da roupa de Wanda.
- Nada. Por quê?
- Hum. - parou pensativa. - O que garotas do século 21 fazem para se divertir?
Wanda a olhou, segurando a risada.
- Saem pra beber, ficam com os rapazes, passam à noite em festas e...
fez uma careta para tudo que ela citou.
- Fazem compras...? - Sugeriu Wanda.
- Legal! Vamos até a costureira! - A Stark sorriu, se sentando.
- Não, ! - Exclamou Wanda. - Não é de costume encomendar roupas nesse estilo. É pra isso que usamos o shopping, lembra.
riu e tomou um gole do café.
- Acha que eu não sei o que é um shopping? Estava brincando com você. - Ela respondeu. - Não estou tão caduca assim.
A feiticeira somente balançou a cabeça e não comentou que "caduca" era uma palavra que sua avó usaria.
Depois de ter feito uma rápida saída com Wanda para o shopping, pediu para que Natasha a encontrasse em seu quarto. Como não era permitido que ela ficasse muito tempo fora sem ser monitorada, ia precisar que outra pessoa a ajudasse. Quando contou a ideia, Wanda negou, informando que não teria nenhuma habilidade que pudesse ajudar com uma tesoura. Mas a russa concordou até de bom grado, como se uma coisa normal demais fosse enriquecer o dia de uma agente implacável.
Agora estavam na suíte em que a Stark passou as últimas semanas. O reflexo no espelho do banheiro mostrava decidida encarando os próprios olhos. Natasha estava em pé atrás dela, encarando a tesoura em suas mãos.
- Já que você tem certeza disso, então tudo bem. - Ela disse com seu sotaque russo e então suspirou. - Qual o comprimento?
A Stark torceu uma mecha do seu cabelo entre os dedos, mostrando a altura do corte.
Romanoff ergueu a tesoura e sorriu.
- Vamos deixar essa cabeleira mais interessante. - Quando começou a aparar os fios, olhou para os olhos de pelo reflexo. - Acho que o Capitão vai gostar.
- Cala a boca. - Respondeu a outra.
Natasha simplesmente sorriu, um especial que mostrava satisfação quando ela conseguia irritar .
As mãos da russa cortaram os fios de maneira habilidosa. O cabelo ficou um pouco abaixo dos ombros, as ondas negras agora recebiam um novo balanço.
Nath tirou os fios que ficaram pelo casaco da Stark e olhou o reflexo dela no espelho.
- Mas que inferno, mesmo com essa cara pálida você está linda.
riu baixo e abriu a gaveta com maquiagem.
- Isso é porque eu nem terminei.

***


Tony Stark estava revirando os dados de seu sistema tentando reconstruir Jarvis. Após o ataque de Ultron, estava impossível de recriar um completamente igual. Agora estava se esforçando para partir da estaca zero com algumas inovações e concluir seu novo sistema Friday.
Ouviu a porta de vidro se mover, mas estava acostumado com a voz de Jarvis anunciando a chegada de alguém e não deu atenção ao intruso.
- Espero que tenha reprogramado os microcompulsores como eu mandei, ou na próxima vez eu mando você enfiá-los no...
- Opa! - Tony ergueu a cabeça, já fingindo um olhar indignado. - Nunca vi uma tia avó falar assim...
- Sou sua prima mais velha. - Ela balançou os ombros de um jeito que fez seu cabelo ondular, Tony congelou observando. - Não me chame de tia.
- Céus, ! O que vocês fez? - Ele se levantou e se aproximou cautelosamente. - Você sempre teve uma presença meio fantasmagórica, mas hoje você parece ter saído de uma revista da década de 30.
- Eu só cortei o cabelo, prefiro assim. - Ela franziu o cenho e se sentou na cadeira de couro DELE. Tony achou que aquilo era um tremendo desaforo, mas encarando-a ali concluiu que talvez todo Stark fosse meio desaforado.
Olhando para ela agora, Tony percebia que parecia muito mais confiante. O olhar, o andar, a voz, tudo indicava que ela estava mais segura de si. Não era apenas a mudança do penteado, era o que ele significava. O ar de dama corajosa era Stark recuperando sua essência.
Ele decidiu que seria uma boa hora para dar continuidade ao que estava planejando.
Tony se dirigiu até a cafeteira no canto da sala ao lado do frigobar. Um braço robótico serviu duas xícaras de capuccino para ele. Assim que pegou as xícaras, Tony sentou-se ao lado da prima.
Ela estava bagunçando todos os arquivos holográficos da armadura de Tony, provavelmente checando a configuração dos microcompulsores.
- ... - Ele chamou, oferecendo a xícara a ela.
Os olhos distraídos focaram na xícara por meio segundo e em seguida ela levou a bebida à boca. No instante seguinte ela franziu o cenho e o encarou.
- Capuccino de chocolate?
- Steve disse que você adora. - Respondeu na defensiva.
Ela sorriu, desviando o olhar, provavelmente pensando no velhote.
- Eu quero te mostrar uma coisa, . - Tony deu um tapa na mão frenética dela que insistia em mexer nas suas coisas. Com alguns clicks ágeis, uma voz feminina soou pela oficina.
- Olá, Sr.Stark. - Disse o novo sistema.
- Olá, Friday. - Ele respondeu casualmente. Percebeu o olhar surpreso e tristonho de , ela também sentiu a ausência de Jarvis.
- Esta é a Senhorita Stark, Friday.
- Olá, Senhorita Stark. - Saudou Friday, porém não respondeu e lançou a Tony um olhar questionador.
- Por favor, Friday, mostre o projeto a ela.
Com a ordem as luzes do local diminuíram e o compartimento onde Tony guardava uma de suas armaduras se abriu. A luz focou no uniforme recém-criado exibido no compartimento especial para o traje, era como um closet elegante para uma peça de roupa.
O traje era um macacão azul escuro com o formato para corpo feminino, o tecido de alta flexibilidade e proteção era revestido em aço nos braços e pernas. Havia um par de luvas de aço dourado, do mesmo material havia as botas que combinavam com a grande estrela dourada no tórax do uniforme.
- O que é isso, Tony? - A voz de era um sussurro admirado, os olhos se arregalavam enquanto ela se aproximava da armadura.
- Apresento a você a armadura da Lady de Aço. - Ele anunciou num tom seguro, orgulhoso e satisfeito.
- Ela é linda! - sorria com os olhos, os lábios se curvavam ligeiramente numa expressão de aprovação. Após vários segundos de contemplação, ela perguntou: - Por que fez isso, Tony?
- Um pequeno agradecimento por ter salvado minha vida. - Respondeu sincero. virou o rosto para ele com gratidão no olhar, ambos estavam apreciando um momento raro de demonstração de sentimento sem verbalizar completamente. - E também porque os Starks devem andar com estilo.
Ela riu, colocando uma mão na cintura. Com dourado da armadura refletido nos seus olhos, a beleza de pareceu ofuscar qualquer coisa elegante deste século.
- Não vejo a hora de experimentar.
- Pode usá-la agora. – Tony se aproximou dela e lhe um tapinha no ombro. –Como Natasha está em uma missão com o Capitão, quem vai acompanhar o seu exercício de hoje serei eu e o menino Gavião.
- Que ótimo. –Ela resmungou dando-lhe um leve empurrão.

***


- Muito bem, . – A voz de Tony ecoou pela sala de treinamento. Assim que saíram do laboratório, havia colocado a armadura e se posicionava no centro da sala. Ela esticava todo o corpo experimentado a forma como a roupa se ajustava ao seu corpo. – Consegue me ouvir bem?
A voz pelo conector soou com clareza.
- Sim, Tony, estou ouvindo. Apenas cale a boca por um segundo. – Ela reclamou, esticando bem os braços e fazendo movimentos circulares com eles enquanto aquecia. – Com você e Friday tagarelando o tempo todo não dá!
Desde que ligaram a armadura, e isso foi a apenas cinco minutos, reclamava todo o tempo sobre as sugestões e informações que Friday trazia. Tony teria desligado a opção de ter retorno de Friday, mas era importante que pelo menos na primeira vez de uso tivesse essa comunicação com o sistema.
O fato da armadura de ter alguns recursos mecânicos só na região dos braços e nas pernas, facilitava o controle. Ela não era composta por um capacete, era uma viseira dourada que cobria os olhos e a testa da Stark. As botas tinham propulsores para que também pudesse voar e Tony estava tentando convencê-la a experimentar.
- Qual o nome que você deu a ela, ? –Barton perguntou enquanto rodeava a Stark, observando como ela estava experimentando a armadura.
- Lady de Aço. – Ela respondeu. Clint sorriu e olhou para Tony balançando a cabeça.
- Impressionante. – Ele se afastou um pouco quando ela testou um giro e rolou pelo chão. – O que você pode fazer com isso?
- Basicamente, comparada à minha armadura, nada. – Tony respondeu, passando as mãos pelo rosto. – Achei melhor começar com algumas funções básicas. Afinal, se surtar a gente pode acabar sem nossas cabeças.
saltou, usando a perna para tomar impulso na parede e deu um mortal para trás.
- Minha intenção era de que não fosse algo tão robótico quanto a minha armadura. Na verdade, o traje de é mais auxiliar. Revestimento nos punhos podem deixar seus golpes mais potentes e ajuda-la em atividades de escaladas. – Explicava Tony enquanto ele e Barton seguiam com o olhar correndo pela sala de treinamento. – Sabe que você não precisa pipocar de um lado pro outro? Afinal, com o revestimento das botas você pode voar! – Tony ergueu a voz num tom impaciente, era a décima vez que falava sobre os microcompulsores das botas, mas ela simplesmente não usava.
Clint olhou para o controle pequeno na mão direita de Tony.
- Ativa você o comando, quero ver como fica voando.
- Friday, ativar modo de voo. – Declarou Tony.
- Vocês dois não se atrevam... – Mas antes que ela terminasse a frase, as solas das botas acenderam. Stark flutuou pela sala de treinamento como um saco de pancadas. – Me coloquem no chão!
Clint riu e Tony sorriu satisfeito.
- Era disso que eu estava falando. – Declarou o bilionário.
Ela se contorceu no ar, perdendo o equilíbrio e virou de cabeça para baixo, ainda flutuando sem rumo pela sala, batendo em vários sacos de pancadas.
- Friday, me coloque no chão! – Gritou pelo comunicador.
- Desculpe, Senhorita Stark. Comando indisponível. – Declarou o sistema. Tony franziu a testa, algo na programação estava errado. – Para sua segurança, vou ativar o modo ejetar. – Declarou Friday.
Em um segundo, tudo o que Tony e Clint viram foi um borrão azul e dourado sendo lançado contra a parede. quebrou alguns blocos de concreto e rolou pelo chão.
Tony e Clint correram para alcançá-la.
- , você está bem? Alguma coisa na programação deu errado. – Tony tirou a viseira do rosto dela. estava sorrindo.
- Quero tentar de novo. – Ela disse, se sentando. – Foi supimpa!
Clint revirou os olhos, aliviado, dizendo: - Ninguém mais diz “supimpa” hoje em dia, .

***


O dia havia sido longo em comparação aos outros. Depois que tinha se encaixado em uma rotina, sentia-se mais segura e sua mente não parecia mais tão vazia. Percebia em si e nos outros detalhes que a surpreendiam.
Conseguia ver quando Tony estava extremamente focado e não iria nem responder um "bom dia", ele se inclinava sobre a mesa com mais empenho e só levantava a voz para dar ordem à Friday.
Também percebia o jeito que Clint e Natasha trocavam olhares com significados de anos de parceria, mas ela também sabia que tinha algo mais. Agora sabia que não devia temer os treinos com eles, Clint a tratava de um jeito meio carinhoso e protetor e Natasha sabia quais pontos provocar para que ela se empenhasse mais.
Já Sam havia se mostrado um ótimo mentor para referências culturais. Em uma tarde de sábado ele passou assoviando pela cozinha e perguntou:
- Que música é essa?
Ele arregalou os olhos pasmo e olhou em volta, indignado.
- Como assim que música é essa? É Billie Jean do MJ!
- Ah... - Lamentou , tirando os olhos da tigela de cereal. - Não conheço essa MJ.
- Não é "essa MJ". - Sam parecia estar entrando em ebulição. - É o Rei do pop Michael Jackson!
Então ele a puxou pelos ombros e a arrastou para a sala, murmurando coisas como "que absurdo" e "não se ensina nada para as crianças hoje em dia".
Naquele tarde, Sam fez saber os maiores sucessos do Rei do Pop e conheceu também os melhores vídeos. Levou boa parte da tarde, mas Sam ensinou à a coreografia de Thriller e ela agora era capaz de fazer até o Moonwalker com perfeição.
- Amanhã vou te mostrar as músicas da Madonna. - Ele anunciou como um professor que fez o plano de ensino e depois acrescentou com uma voz séria: - Não conte a ninguém.
Ela não contou a ninguém além de Steve. Agora toda semana, Sam preparava uma playlist especial para que ela pudesse ouvir.
Cada dia que passava ela descobria algo novo para fazer, outra coisa para aprender, mais um motivo para sorrir. Descobriu que conversar com Visão trazia um novo olhar de reflexão para sua própria vida e podia repensar o sentido da existência com uma criatura que parecia tão humanamente nova como um ser que tinha uma joia amarela na testa.
Identificava-se com Wanda, que tinha se juntando aos Vingadores há pouco tempo e havia perdido o irmão gêmeo, ela que era jovem, mas também tinha uma parte obscura dentro de si que a fazia temer os seus próprios poderes. Havia noites em que não conseguia dormir e às vezes ficava acordada no quarto da feiticeira até o cansaço as vencer.
Não chegou a conversar com Thor, o deus nórdico alienígena, ele tinha partido para Asgard. Mas todos falavam bem do deus, dizia-se que somente alguém com muita honra poderia pegar o seu martelo. A primeira vez que falaram aquilo para ela, virou-se para Clint e perguntou se o termo “martelo” era alguma gíria ou se era um martelo de verdade. Ele riu alto, engasgando com a água que estava tomando no intervalo do treino e a abraçou, um ato de carinho e camaradagem que ela ficou feliz em receber.
Para relaxar e combater seus conflitos internos, ela reservava uma hora para si no laboratório de pesquisa. Organizou um mês para si, e toda noite depois de ter passado o dia treinando, trabalhando e fazendo uma terapia intensiva com Wanda, se retirava e passava as últimas horas do seu dia no laboratório.
Natasha tinha permitido que tivesse acesso a alguns arquivos de pesquisas genéticas e ao laudo que a russa e Barton montaram quando ela chegou à Torre a primeira vez. Assim, a Stark começou a sua pesquisa sobre o que havia sido alterado em seu DNA com os experimentos da Hydra. Era difícil começar sem uma referência, mas conseguiu ver as substâncias que estavam alteradas em seu metabolismo.
Em de suas pesquisas de alteração genética, ela encontrou uma monografia escrita pelo Doutor Bruce Banner. A descrição e os relatos agradaram muito à , que achou que poderia até usar o conhecimento do cientista para compreender melhor sua situação. Ficou surpresa ao perceber que o laboratório em que estava era dele, mas que os Vingadores não tinham notícia de seu paradeiro.
Chegou a ver os registros de vídeo dos Vingadores em combate. O grandalhão verde parecia uma máquina mortal um tanto descontrolada.
- Bem, pelo menos eu não fico gorda e verde. – Ela murmurou, fechando os arquivos. Suspirou frustrada e novamente leu a pasta confidencial que carregava sempre consigo.
Os dedos percorreram a folha gasta e amassada da carta de Howard que ela lia quase todos os dias.
- Com foi que eu sumi, tio Howard? – Ela sussurrou, encarando a caligrafia do tio. Estava cansada de nunca consegui as respostas que importavam.
“Deveria ter cuidado melhor da minha sobrinha, deveria ter te protegido da guerra, eu não deveria ter deixado meu último projeto secreto em suas mãos. Não só fui descuidado com você como também deixei o soro em suas mãos.” Diziam as palavras dele.
franziu a testa, de repente sentiu-se confusa.
“Deixei o soro em suas mãos”, ela releu. Mas o último soro deveria ter sido aplicado em Steve. O combinado era que as amostras fossem destruídas para não caírem nas mãos erradas.
“Eu não deveria ter deixado meu último projeto secreto em suas mãos.” – Ela leu em voz alta. Parou para pensar em um segundo. – O que nós fizemos, Howard? Eu não estava no exército só para ver o desempenho de Steve? – Ela releu toda a carta mais uma vez. Havia algo ali, mas quem teria as respostas quase um século depois?
Os olhos de percorreram todos os arquivos novamente, deveria haver uma resposta. Alguém deveria saber. Então ela encontrou a sua foto com Peggy Carter.
Peggy ainda estava viva. Peggy sabia.
se levantou, pegou o arquivo com o relatório de Peggy Carter e saiu à procura de Natasha.
- Preciso sair. – Foi a primeira coisa que falou assim que encontrou com a ruiva pelo corredor. Ela simplesmente a encarou de volta.
- O que quer dizer com “preciso sair”? – Natasha olhou ao redor e balançou a cabeça. – De maneira alguma, da última vez você arrastou a cara de alguém no asfalto na frente da cidade inteira e depois gritou “Eu sou a Lady de Aço’.
Nat tentou continuar o seu caminho, mas se colocou na frente dela.
- Esfreguei a cara de um dos bandidos. – Explicou como se fosse óbvio. – Por favor, é importante. Preciso ver Peggy Carter, a casa dela é perto do Brooklyn.
Natasha cruzou os braços parecendo ponderar.
- Por favor, confie em mim. – Pediu e algo nos olhos da Stark convenceu a russa.
- Certo, vou te dar a chave de segurança de hoje para você sair. – Sussurrou Nat, passando o crachá de acesso dela. – Mas se Steve notar sua ausência, vou dizer que não sei de nada.
guardou o crachá no bolso.
- Tudo bem, na próxima eu te dou cobertura quando você estiver saindo do quarto do Clint de novo. – A Stark piscou para Romanoff que franziu o rosto numa expressão perturbada, sussurrando um “como você sabia”, mas já estava saindo do compartimento sem tempo para responder.
Não foi difícil sair do compartimento, correr pela estrada até chegar a uma rua comum de Nova Iorque. Não foi difícil encontrar um táxi livre à noite na cidade que nunca dorme, muito menos difícil encontrar o endereço de Peggy Carter.
Difícil foi pensar no que estava prestes a vislumbrar. Ela encarou o prédio à sua frente, em um daqueles apartamentos estava Carter. Mas não a Carter que conhecia. Tudo parecia estranhamente irreal quando ela apertou o botão do interfone.
- Alô? – Respondeu a voz de uma mulher. O coração de sentiu o aperto afrouxar ao constatar que não era a voz de Peggy Carter.
- Hã... Oi, aqui é , uma amiga da Peggy. – Disse a Stark, só agora percebendo que não sabia como se apresentar. “Ah, moça, eu sou tipo uma assassina desmemoriada da década de 40 e queria ver sua velha tia indefesa”, não se pode dizer esse tipo de coisa. Clint havia explicado a ela. – Gostaria muito de saber como Peggy está. Faz tempo que não a vejo.
Um longo segundo de silêncio passou enquanto a mulher do outro lado do interfone ponderava.
- , você disse? – Ela perguntou por fim. – De onde conhece Peggy?
- Temos um amigo em comum, Steve Rogers. – Ela tentou.
- Tudo bem. Aguarde um instante, vou abrir a porta.
relaxou um pouco e cruzou os braços para se aquecer quando a brisa passou balançando o seu cardigã. Logo a porta do prédio abriu e uma moça loira e alta saiu, ela olhou para enquanto segurava a porta.
- Boa noite. – Ela disse, os olhos eram amendoados e sentiu a estranha sensação de que ela lhe lembrava alguém, mas não conseguiu identificar quem. – A empregada da minha tia disse que você estava subindo e pediu para que eu deixasse você entrar antes de sair.
sorriu.
- Muito obrigada. – Disse, entrando no prédio. – Boa noite. – Trancou a porta e subiu as enormes escadas do hall, observando a decoração renascentista no interior do prédio. Que bom gosto hein, Peggy.
A empregada tinha uma estatura baixa, aparentava ter aproximadamente alguns 40 e poucos anos. O rosto era sério, porém receptivo.
- Boa noite, Senhorita...?
- Stark. – Respondeu automaticamente e depois pensou: Merda. Se aquilo fosse algum tipo de avaliação de Clint, ela teria tirado zero na matéria “manter o disfarce”.
- A senhora Carter está esperando. – Explicou a empregada enquanto seguia com ela para o interior do grande apartamento. Passaram pela sala de estar e pararam no corredor a caminho do quarto. – Devo lhe avisar, Peggy muitas vezes não consegue manter o diálogo e se cansa facilmente devido à idade.
Então ela abriu a porta do quarto e deixou que adentrasse o local.
Assim como o resto do apartamento, a mobília tinha um traço renascentista. As paredes eram cor de creme e uma janela enorme estava no canto direito. Na cama havia uma idosa deitada, com grandes travesseiros para apoiar as costas.
congelou no lugar.
A pele de Peggy Carter estava enrugada, o corpo parecia magro e frágil mesmo deitada, os cabelos completamente grisalhos caíam pelos ombros. Os olhos baços focaram no rosto de .
Peggy franziu a testa como se tentasse enxergar a jovem à sua frente. se aproximou devagar e se sentou na cadeira ao lado da senhora.
- Peggy? – A voz da Stark soou trêmula. Sabia que ia encontra-la com a idade que deveria ter, sabia que ela ia estar diferente. Mas nada podia prepara-la para aquele momento e por mais que soubesse, por mais que soubesse que ela tinha a idade que e Steve deveriam ter, ainda assim a sensação de estranhamento fez as mãos da Stark tremerem.
- ? – A voz dela soou rouca e confusa. – é você? É mesmo você?
O coração de quase desmoronou. O reconhecimento, a dúvida e a tristeza numa única pergunta desmontou tudo dentro dela.
- Sou eu, Peggy. – A voz antes trêmula agora só um sussurro.
Então Peggy Carter estendeu a frágil mão e tocou as ondas do cabelo de .
- Meu Deus... você não mudou nada. – Ela disse com os olhos arregalados. – Então você nunca esteve morta? Eu temi tanto que tivéssemos perdido você. Conquistamos tantas coisas, , sempre quis que você visse... a Shield, lembra da nossa ideia, a Shield...
As mãos de Peggy começaram a tremer ainda mais e ela não conseguiu terminar a frase.
segurou as mãos de Peggy firmemente e por instante foi como se a fosse da Stark fosse transmitida à velha agente.
- Você voltou, agora pode ver tudo. Você está bem. – Ela sorriu, os olhos desfocados. – Steve sempre soube. Que bom te ver, depois de tanto tempo...
- Sim. – Concordou e então olhou para as fracas mãos de Peggy. Ela não tinha apenas envelhecido, ela estava morrendo. Tinha tido uma boa vida, claro que foi a melhor agente e serviu o seu país, teve uma família, uma casa e agora poderia partir. Uma lágrima escorreu pelo rosto de , ela não se importou de qualquer maneira, olhou para Peggy e sorriu. – Você disse que tinha guardado panquecas pra mim.
Peggy riu, uma risada rouca, afagou as mãos de .
- Ah minha criança, não chore. – Ela olhou profundamente nos olhos da jovem e ali enxergou a sabedoria que só alguém que tinha vivido uma vida inteira teria. – Eu sei o que está pensando, afinal o tempo não para. Meu tempo está acabando, mas querida, não pense no que a vida poderia ter sido. Pense no que ela poderá ser, é isso que significa recomeçar.
sorriu, era exatamente o que precisava. Recomeçar.
- Peggy, eu vim aqui porque estava pensando no que aconteceu antes de...
- Quem é você? – Peggy a interrompeu. Os olhos parecia embaçados, encarou agora com uma expressão confusa e soltou as mãos dela.
- Sou eu... a . – Respondeu ela e Peggy continuou a observando, confusa.
A porta do quarto se abriu e a empregada sorriu para .
- Desculpe, Miss Stark. – Disse ela ao se aproximar. – Mas já está na hora da medicação da Senhora Carter e ela precisa repousar.
olhou uma última vez para os olhos desfocados e distraídos de Peggy Carter.

Made in Brooklyn

Stark saiu do prédio de Peggy Carter quando o sol já havia se posto há muito tempo. Enquanto pegava o casaco que deixou no cabide do hall, ela checou o relógio de pulso e percebeu que passava das 22h. Sabia que ia estar encrencada com os Vingadores por ter sumido de novo.
Ela abriu a porta e colocou o cardigã, pronta para descer as escadas da entrada. Quando levantou os olhos para a frente viu uma moto encostada na calçada e a silhueta alta do homem encostado na motocicleta.
Steve Rogers estava de braços cruzados com rosto erguido para o céu como se estivesse observando a noite. A luz da lua refletiu nas feições fortes de angulosas do soldado, o cabelo adquiriu um tom pálido de loiro.
Quando a porta do prédio se fechou atrás de , ele virou o rosto na direção dela.
Ela suspirou, se preparando para as explicações que teria que dar e desceu os degraus.
- Ei, fujona. - Ele cumprimentou quando ela se aproximou. De perto, percebeu que o azul dos olhos de Steve pareciam escuros como o mar.
- Precisava vê-la. - Ela declarou. Em poucas palavras explicando que precisava de uma âncora com o passado e Steve entendeu. Ele sempre entendia. - Como sabia que eu estava aqui?
- Eu sabia porque eu fiz o mesmo. - Ele então ergueu os olhos para o prédio, para a janela de Peggy. - Estamos sempre tentando entender o passado.
O coração dela se apertou lembrando-se do choque de ver Peggy e imaginar que em circunstâncias normais ela estaria da mesma forma ou até mesmo já teria falecido. Talvez tivesse filhos, ou netos que cresceriam com Tony. De repente, a ideia deixou zonza.
Steve direcionou os olhos para ela e a observou com um olhar de divertimento.
- Se bem me lembro, estou lhe devendo um passeio de moto. - Ele semicerrou os olhos quando se virou para subir na moto e a luz da lua atingiu seus olhos.
Ele se sentou e subiu junto com ele, passando as mãos pela cintura de Steve.
- O bom moço Steve Rogers anda de moto sem capacete? - Ela perguntou, fingindo um tom de incredulidade ao sussurrar em seu ouvido.
O corpo do Capitão tremeu e ele riu.
- Quieta ou você vai voltar pra Torre a pé e sem o tour pelo nosso bairro.
Stark apertou a cintura de Steve Rogers quando ele deu a partida.
Nosso bairro. Tinha dito Steve. Agora eles navegavam pelas ruas de Nova Iorque. A velocidade ideal que fazia com se estivessem voando com leveza e como era arde da noite, o caminho estava tranquilo.
Ao ver as ruas passando por eles, quase sentiu-se decepcionada. Muitas coisas não a lembravam de nada e nem pareciam familiares. Algumas construções antigas a faziam ter flashs da infância, como se um filme preto e branco estivesse ganhando cores aos poucos.
Em um momento Steve teve que parar diante do farol vermelho. Virou para trás para encará-la e depois apontou para um prédio residencial e a praça Roosevelt ao lado.
- Costumávamos fazer lanches ali. - O olhar azul focado nos velhos bancos da praça envolvida pelo ar noturno. - Antes da guerra, antes do soro do supersoldado.
- Antes de perdemos os nossos pais. - murmurou, lembrando de repente de estar tomando sol no banco, as pernas magricelas de uma garota de 14 esticadas por baixo do vestido enquanto Steve dava comida aos pombos e Bucky gritava, correndo atrás de outros meninos em uma brincadeira qualquer.
Não havia o peso da responsabilidade, da perda e nem da glória cobiçada nas eras de guerra.
O farol ficou verde, mas Steve e encararam a praça mais um segundo antes de voltarem a deslizar pelas ruas.
Então Steve continuou a conduzir a moto, virou uma rua à direita que era uma leve subida e então estacionou a moto de frente para um prédio antigo que parecia ter passado por algumas reformas, mas ainda mantinha a antiga fachada. encarou as escadas da entrada e a simples e pequena porta. Seu coração esquentou e ela sorriu enquanto descia da moto de Steve e subiu na calçada, encarou cada detalhe quase querendo tocar o prédio.
- É a sua casa. - Ela disse, sorrindo. Se lembrava e então virou os olhos para ele.
- Ainda deixa uma cópia das chaves no vaso da samambaia?
Ele riu e balançou a cabeça, antes que pudesse responder, estava correndo para o outro lado da rua. Parou subitamente ao encarar a casa na frente.
Ela havia sido claramente reformada, mudaram a cor de caramelo para azul. sentiu o peito apertar, Alyssa Stark amava sua casa na cor caramelo. Mas obviamente não era mais a casa dela.
tocou o portão e lembrou de quando a mãe morreu e ela precisou jogar algumas coisas dela fora.
Os dedos da Stark percorreram a cerca fria do portão.
- Lembra-se da sua casa? - Steve se aproximou, a voz doce e cheia de carinho, sabendo que era sofrido ver algo assim.
- Não é mais a minha casa. - Ela suspirou lembrando-se de quando Howard foi buscá-la para se mudar. Muitas coisas voltavam à memória agora.
Ela se virou para Steve, que estava com as mãos na jaqueta e observava a casa azul.
- O apartamento ainda é seu? - Ela olhou para o prédio do outro lado da rua, para a janela apagada no andar de cima.
- É sim. - Ele olhou para ela. - Eu só passei as últimas semanas na Torre para ficar perto de você. Mas sempre fiquei no apartamento antes disso.
Ela sorriu. Um sorriso tão aberto e natural, nada contido ou irônico como era na maioria das vezes. Steve não pode deixar de retribuir.
Então ela passou o braço em volta do braço direto dele e ele como um bom cavalheiro a conduziu durante uma caminhada lenta e calma pelas ruas do Brooklyn.
- Gosto de andar por aqui quando preciso esfriar a cabeça. - Ele confessou com a voz baixa. Era um segredo que ele estava compartilhando, percebeu. - Acho que nos primeiros dias depois de ter sido descongelado, isso me impediu de perder a cabeça.
Ela ergueu os olhos castanhos para ele, precisava erguer a cabeça para olhá-lo agora. Antes ela conseguia vê-lo e abraçá-lo sem ficar na ponta dos pés, e se o apertasse demais poderia acabar quebrando Steve. Mas agora ela sentia que um abraço de urso dele podia muito bem esmagar ela.
- Fico imaginando o quanto foi difícil pra você passar por tudo isso sozinho. - Ela falou, deitando a cabeça no ombro dele enquanto caminhavam. - Eu tive sorte de ter encontrado você de alguma forma. Eu sei que teria perdido controle, às vezes ainda sinto que vou perder tudo que consegui até agora. - Ela suspirou, levando a outra mão para tocar o braço dele. - Morro de medo às vezes.
- Eu sei. - Ele disse enquanto desciam a rua lentamente. Virou para observar as casas e seus lábios roçaram na testa de quando ele falou. - Mas você é forte. Seu progresso tem sido incrível.
Então ele franziu o rosto em uma expressão curiosa.
- Ainda não me contou do que você tem lembrado.
Ela sorriu, erguendo um pouco a cabeça ao encarar o céu. A luz banhou as ondas do cabelo dela, que pareciam ser da cor de chocolate quente, pensou Steve.
- Eu me lembro da esquina logo à frente. - Ela apontou para o fim da rua que eles alcançavam. - Lembro de uma vez em que você estava se esforçando fisicamente para entrar no exército e eu perguntei se você apostaria corrida com uma garota.
Steve riu, balançando a cabeça.
- Subimos a rua correndo até o seu portão. Eu ganhei. - Ele declarou, focalizado nos olhos dela. - Mas hoje eu sei, você me deixou ganhar pra que eu ficasse feliz. Você sempre foi assim, mesmo quando eu era pequeno e magricela, você sempre fazia com que eu me sentisse se fosse o magricela mais forte do mundo. - Ele riu.
Mas ela não riu junto. Estava com uma expressão reflexiva e então parou, barrando Steve quando chegaram na esquina.
Ele a olhou nos olhos, esperando enquanto ela pensava, enquanto lembrava. Lembrava-se de cada segundo em que viu Steve naquelas ruas do Brooklyn. Lembrava-se dele pequeno e magro no exército se transformar no grande e implacável soldado. Então ela soube o porquê de cada lembrança dele apertar o seu coração.
- Eu te amei. - Ela disse com os olhos castanhos bem abertos, como se enfim tivesse encontrado a si mesma. Aquilo mexeu violentamente com Steve, como se ele tivesse sido virado do avesso. A declaração o atingiu em cheio. - Te amei muito antes de você ser um supersoldado. Amei Steve Rogers que era magro, baixo e quase sempre se metia em briga na rua.
- Desde quando? - A pergunta dele saiu em um sussurro rouco e surpreso.
Ela segurou as mãos dele e o puxou pra perto. Passou a mão esquerda pelo ombro dele enquanto que com a direita segurou a sua mão, e então ela se moveu puxando Steve para uma dança.
Ele riu um pouco perdido. Mas ela começou a cantar We'll meet again, ele percebeu que ela estava resgatando enfim não só uma parte dela, mas dele também.
Então ela parou a dança, ergueu os olhos para ele. O castanho neles pareceu melancólico, como se tivessem acabado de voltar de uma viagem no tempo e descoberto que o futuro era completamente incerto.
- Eu não sabia. - Ele sussurrou, colocando a mecha solta atrás da orelha dela. - Não imaginava. Eu sempre pensei que nunca olharia pra mim.
Ela balançou a cabeça e soltou-se dele.
- Acho que eu decidi não contar depois que te vi com a Peggy. - Ela olhou para ele com os olhos mais claros e cheios de vivacidade. - Achei que poderíamos ser dois amigos que continuariam apostando corridas...
Steve percebeu um segundo tarde demais o que ela estava prestes a fazer, aquele lampejo no olhar dela sempre foi o alerta. Mas antes que Steve pudesse se preparar, já se colocou a correr pela rua acima.
Ela sempre era difícil de manter.
Steve correu atrás.
- Não vai ganhar dessa vez! - Ele gritou em aviso. Ele pode ouvir que ela riu. Acelerou, sem muito empenho estava a alcançando.
Quando estava chegando próxima à árvore, soube que logo faltaria pouco para que ela alcançasse o portão. Então ele a pegou pela sua cintura e com um movimento rápido, mas gentil, virou o corpo dela para ele enquanto ambos estavam arfando numa confusão de risos.
- Eu deixei você ganhar de novo. - Ela declarou com o rosto corado, os cabelos desalinhados pela corrida e a respiração descompassada. Steve sorriu sem perceber, com a luz da lua e os fracos postes de luz iluminando os dois. Ele pressionou seu corpo contra o dela, os guiando até encostarem na árvore sem tirá-la do seu abraço. Ele podia sentir o cheiro de avelã e perfume, doce sem ser enjoativo. Pode ver os olhos dela se fechando enquanto seus lábios se aproximavam, os longos cílios dela roçaram em seu rosto quando ele a envolveu com seus lábios.
No instante em que as bocas se encontraram foi como se as estrelas de colidissem com o mar calmo de Steve. Algo sacudiu e virou de cabeça pra baixo dentro dele como se cada parte de si tentasse encontrar ela. também sentiu, Steve tinha gosto de cafeína e quando ela deslizou os dedos pelo cabelo dele, a língua dele encontrou a dela cheia de saudade e ela pode sentir que o beijo era uma mistura de carinho, saudade e deixava o peso do desespero pra trás. Já não estavam mais fora de casa e perdidos no tempo, não havia tempo ou espaço suficiente para sustentar aquele beijo. Estavam em seu lugar quando estavam juntos.
Talvez um beijo normal não fosse tão forte. Mas estavam esperando um pelo outro há muito tempo. Ninguém os conhecia como eles conheciam um ao outro. Uma das mãos de Steve apertou a cintura dela e a outra acariciava o rosto da Stark.
Relutante ele desgrudou os lábios dela para respirar.
- . - Conseguiu sussurrar antes dela o puxar de volta, negando que ele interrompesse o beijo.
Ele podia sentir que o coração parecia explodir, o gosto de estava em sua boca, o perfume dela, o abraço. Ela era tudo o que ele conseguia e queria sentir no momento.
Mas tiveram que interromper o beijo para que pudessem respirar. O que Steve achou estranho já que parecia que agora o seu oxigênio vinha dela, que estava com os lábios rosados, o rosto corado e a respiração e hálito quente ainda chamando Steve.
- Não acredito que fiquei décadas sem esse beijo. - Ele murmurou, brincando com os lábios pelo rosto dela, ela riu e respirou fundo sentindo o cheiro dele acariciando a sua nuca.
- Acho que pra dois velhotes a gente até que beija bem. - Steve riu e apertou os braços, levantando pela cintura, girou com ela e eles voltaram a caminhar até a moto.
Andaram, sempre parando quando Steve roçava o nariz pelo rosto dela ou quando ela beijava o queixo dele sem olhar por onde estava andando sendo que Steve precisou segurá-la para que não caíssem sobre a moto. E então estavam se beijando de novo, a boca um do outro se tornou mais familiar, e Steve sentou na moto, puxando para se apoiar nele.
Ela estava quase na mesma altura que ele em pé no meio fio, enquanto ele envolvia as mãos em sua cintura. Até que ele deixou de explorar-lhe a boca para beijar-lhe o queixo e o rosto.
Então o celular de alguém tocou, mas Rogers não se importava. Então esticou o braço pela jaqueta dele e pegou o celular.
- Hum? - Ela murmurou ao atender enquanto ele mordiscava a bochecha dela, brincando. - Oi, Nat...
Ele pode ouvir a russa reclamar do outro lado da linha.
- Eu estou bem. - Declarou e Steve beijou os lábios dela, a interrompendo. Ela segurou a risada e tentou afastá-lo.
Do outro lado da linha, Natasha perguntou por Steve.
- O Steve? - A Stark olhou para ele, procurando respostas. O loiro balançou a cabeça de forma negativa e colocou o dedo indicador sobre os lábios, brincando. riu alto. - O Steve está por aí...
- Olha que seja. - Nat suspirou, irritada. - São duas horas da manhã e ninguém tinha notícia. Trate de voltar pra Torre, você não tem permissão pra sair sem aviso prévio.
- Tudo bem. - respondeu distraída e desligou o telefone.
Então ela o abraçou e o beijou de novo, e Steve sentiu como se fosse assim que devia ter terminado pra ele, como deveriam ter terminado para os soldados que voltaram pra casa depois da guerra.
Lá estava ele, no Brooklyn, beijando a garota certa, que estava nos seus braços. Como se ainda fosse a década de 40, como se eles estivessem matando a saudade e o desespero por acharem que iam perder um ao outro. Estavam lá, dois jovens se beijando debaixo de árvores e dando passeios na moto ficando até tarde fora de casa. E então ele a levaria pra casa depois do beijo de boa noite.
- Não quero voltar... - Disse , passando os dedos pelos fios louros de Rogers. - Mas Nat me ameaçou com aquele sotaque russo.
Steve sorriu. Ele geralmente tinha uma expressão muito séria e contida como Capitão dos Vingadores. O sorriso pareceu exclusivo e caloroso.
- Tudo bem. – Disse, um pouco relutante. - Eu te acompanho, se a senhorita permitir.
sorriu, subindo na moto e ambos partiram.
Naquela noite, eram apenas um casal jovem dos anos 40 pelas ruas do Brooklyn.

1942

A cabeça doía e latejava de forma bastante desconfortável. Ela sentiu vontade de levantar, mas sabia que não conseguiria manter o equilíbrio devido à vertigem. Tentou abrir os olhos, mas só conseguia ver a tenda como um borrão.
- Sargento Barnes, o Capitão solicita sua presença no pavilhão. - Uma voz distante chamou.
Alguém se moveu ao seu lado, ela esticou o braço e pegou em seu pulso, o impedindo de se mover.
Era Bucky.
- Fique. - Murmurou , os olhos cansados demais para conseguir ver a expressão dele. Sentiu que ele sentou na cama, segurava a sua mão.
- Você está bem? - Ele perguntou.
Ela não respondeu, estava se sentindo péssima. - O que aconteceu? - Ela perguntou.
- Jogaram você, caiu rolando pelo barranco na floresta. - A expressão no rosto dele era dura, o aperto na mão de repente pareceu cheio de culpa protetora. - Bateu a cabeça. Peggy acha que teve uma concussão.
Ela suspirou, cansada demais para perguntar qualquer outra coisa, cada pedaço de si parecia doer. Deve ter sido uma queda e tanto. Lembrava-se de ter saído com o grupo para enfrentar uma base nazista no sul da Rússia, contornaram a floresta durante dia. Lembrava-se de ter amarrado o lenço de Steve na cabeça e do seu sangue molhando o tecido após um alemão ter lhe acertado a testa com a base de uma espingarda.
- Descanse o máximo que puder. É uma ordem. - Murmurou Bucky. O cansaço tomou conta de si, antes de ficar novamente inconsciente sentiu um toque caloroso dos lábios dele em sua bochecha e apagou.

Atualmente

Às vezes ela ainda acordava no meio da noite sentindo-se esmagada pelo caos e o vazio. Nesses momentos se lembrava do que tinha conquistado e desenvolvido com cada um e sentia novamente que havia esperança e que em algum momento se sentiria completa. Pensar em esperança fazia lembrar o jeito que Steve olhava para ela, esperança era o que ele sentia nela.
Então ela se convencia de que a cada dia seria uma nova descoberta, por mais que parecesse que havia algo irrecuperável, ela podia reconstruir uma parte de si se permanecesse forte. Às vezes tentava lembrar se era uma garota forte, se na infância seu pai havia lhe dito para cuidar da mãe enquanto ele estava na linha de frente da primeira guerra mundial. Mas não se lembrava de nada do pai.
"Há coisas que você nunca mais vai lembrar", disse Steve uma vez. Em alguns momentos que sentia que não podia alcançar os resquícios de si mesma, ela tinha vontade de segurar a mão de Bucky e dizer fique. Fique e afaste o meu medo, fique e leve os pesadelos embora.
Ela não lembrava bem dele, as poucas recordações eram um borrão e parecia que quando tentava se concentrar nele, a mente reagia com um bloqueio brutal e uma sensação de ódio alarmante a dominava. Mas depois a onda se acalmava e uma dor de saudade perdurava durante toda noite.
Steve uma vez disse que também sentia. Ele disse que era uma coisa que só os três sentiam, porque eles não se encaixavam no mundo. Porque a existência deles estava suspensa no ar e somente um cordão invisível e profundo amarrava os três um ao outro.
Em uma noite de insônia, se levantou da cama e acendeu a luz. Abriu a pasta de arquivos e os espalhou sobre a cama, correu até a oficina de Tony e surrupiou alguns materiais. Voltou correndo, ligou a vitrola que Steve tinha emprestado e colocou o disco de Vera Lynn.
We will meet again ecoou pelo quarto.
pegou todas as fotos antigas e com os adesivos que roubou de Tony colou elas na parede em uma ordem específica. Primeiro colocou no lado esquerdo a foto que tinha com sua mãe Alyssa e com o tio Howard, depois a foto dela com o Coronel Phillips e Peggy Carter, no centro colocou o enorme retrato da Stark da década de 40, a vice-comandante dos Howlling Commandos, a primeira na luta feminista pelo lugar das mulheres no exército, aquela sequestrada pela Hydra e que amou o seu país. Por último, colocou todas as que tinham Steve e Bucky, essas preencheram boa parte da parede.
Embaixo da foto de Steve ela anotou "esperança", na foto de Bucky ela anotou "eu sempre irei te encontrar". E então encarou o seu retrato, aquele que tantas vezes encarou perguntando-se quem era. Mas dessa vez, sabia quem era ela. Escreveu embaixo do seu retrato: "Lady de Aço".
Encarou seu trabalho, satisfeita. Toda vez que acordasse veria aquilo e nunca mais permitiria que se esquecesse da sua vida de novo. Não vou me perder novamente.
Um trovão explodiu do lado de fora e a energia caiu. O quarto escureceu, a vitrola parou de tocar e um relâmpago brilhou, iluminando o recinto com uma luz pálida e fantasmagórica e no mesmo segundo, vislumbrou a figura de farda atrás da porta, o rosto cadavérico escuro quando a voz sussurrou:
- Pode tentar acabar conosco, Miss Stark. - Declarou o Caveira Vermelha. - Mas toda vez em que se corta uma cabeça da Hydra, outras duas nascem no lugar.
Em um segundo, estava com a arma na mão e os dentes cerrados, mirando na porta. As luzes acenderam com a volta da energia, mas ela estava sozinha no quarto. Em apenas um segundo tinha tirado a pistola debaixo do colchão, mas foi também em um segundo que o Caveira Vermelha apareceu e se foi.
Ela respirou fundo, esquadrinhando o quarto com os olhos, a pele arrepiada. Porém, ela sabia que ele não poderia estar ali. Estava há muito tempo morto. O perigo, na verdade, estava em sua cabeça, a mente de estava pregando mais uma peça. Ela se sentou na cama e o corpo estremeceu.
Eu sou Stark, nasci nos anos 20, fui co-fundadora das indústrias Stark e vice-comandante dos Howlling Commandos. Fui sequestrada pela Hydra, treinada a serviço do Barão Strucker. Mas voltei e não podem me manipular. Eu estou no controle. Ela pensou, fechando os punhos, o tremor passou, ela não se permitiria ter outro surto. Eu estou no controle.


Capítulo 9

1944

O fim da tarde foi marcado pelas nuvens cinzas escurecendo ainda mais a mata ao redor. Um relâmpago percorreu todo o céu deixando o acampamento em um sinistro clima de tempestade.
Todos os soldados passaram a pegar qualquer coisa que estivesse do lado de fora e colocavam para dentro das cabanas. Roupas e botas que secavam, comida, mapas, cartas, tudo era arrastado às pressas para dentro.
O céu escurecia ainda mais, o cheiro de maresia já ficava mais forte, os soldados gritavam lamentando a chegada da chuva. Naqueles lugares distantes e frios da Polônia a chuva era gelada. Já era costume entre os soldados falar que o inferno era gelado como uma chuva polonesa. Mas Bucky gostava dos temporais, era sempre um momento em que poderiam fazer uma pausa no acampamento, mas se estivesse em um campo de batalha nunca que a guerra teria uma trégua por causa de uma chuva.
No acampamento era diferente, estava esperando pela chuva. Ele e Steve conseguiam pegar o raro achocolatado na dispensa do coronel, um whisky e pão mofado e com tudo escondido debaixo da camisa eles iam até a cabana de para comer enquanto ela terminava seus incansáveis relatórios ou lia algum clássico de Charles Dickens.
Depois de umas semanas, quando a comida se tornava cada vez mais escassa, não tinha mais achocolatado para contrabandear, todos sentiam fome, o pão mofado continuava mofado, mas agora eles davam graças ao pão.
Bucky passou pelo meio da fila de cabanas, todo o acampamento parecia sem cor. O céu nublado anunciava que não conseguiria segurar a tempestade por muito tempo e isso deixava os soldados atônitos.
- Sargento Barnes! - Gritou um dos soldados. Bucky se virou e viu que era Rodney. - Já recolheu as suas coisas?
- Sim. - Ele respondeu desviando os olhos para a cabana de que estava aberta e vazia. - Na verdade estou procurando pela Miss Stark.
Rodney deu uma risadinha.
- É, já percebemos que você se abriga na cabana dela quando chove.
Bucky então simplesmente direcionou o olhar para Rodney e o encarou.
O sorriso do soldado foi substituído por uma expressão pálida.
- Espero que esse comentário não esteja fazendo suposições errôneas sobre a minha conduta e principalmente da Senhorita Stark. - Bucky deu um passo à frente e cruzou os braços, mas mantinha a expressão relaxada.
- N n na não, Senhor. - As orelhas de Rodney ficaram extremamente vermelhas, ele largou as coisas no chão e imediatamente ficou ereto. - Peço desculpas, Senhor.
- Está liberado, soldado. - Bucky deu um tapinha no ombro do soldado e seguiu em direção à borda da floresta, encontraria .
Saberia seguir o caminho pelas pegadas que ela havia deixado na geada que cobria a terra, mas não precisava delas porque sabia que sempre buscava um lugar alto de onde pudesse observar melhor o perímetro. Não que já não houvesse um grupo para fazer uma ronda, mas sim porque aquilo parecia acalmar os ânimos. Bucky mesmo gostava de escapar um pouco, o cheiro de homens sujos e esfomeados longe de casa deixava todos angustiados.
Todos ficavam tão desesperados em vencer a guerra e voltar pra casa que aos poucos se esqueciam que a guerra tem um preço. Mais tarde Bucky saberia que a guerra lhe custou tudo.
Um relâmpago brilhou, o trovão soou ameaçador em contraste com o anoitecer pálido devido ao frio. Bucky colocou as mãos no bolso para aquecê-las e continuou pela trilha, não muito longe estava parada em cima de uma elevação onde ela podia ver a terra se inclinar para baixo e se estender até chegar nas cabanas improvisadas dos soldados que andavam de um lado para o outro recolhendo as coisas, se preparando para ter abrigo.
- Eu já estava indo ajudar. - Ela comentou quando ele se aproximou, estava de braços cruzados e balançava levemente o corpo tentando se manter aquecida. - Eu só estava vendo o perímetro, observando se falta muito para sair daqui.
- Eu não vim te repreender ou cobrar por nada. - Ele tranquilizou, ela respirava aquele senso de responsabilidade e Bucky sabia que às vezes ela ficava sobrecarregada com aquilo. Ele também ficava. - Assim que a chuva passar, vamos retornar a viagem e avançar para o próximo posto. Vai terminar logo.
Ela franziu a testa.
- Queria dizer o mesmo da pesquisa. Sem Howard aqui é muito mais difícil. Não tem o equipamento necessário, acho que não estamos avançando tanto quanto poderíamos. - Ela comentou olhando o horizonte branco da floresta coberta pelo gelo sujo.
- Acho que está fazendo um ótimo trabalho super avançado. - Ele virou o rosto para ela. - Com todas essas coisas de ciência e tecnologia que só você entende.
- Está me chamando de nerd. - Ela observou.
Bucky sorriu, mas logo voltou a expressão séria ao lembrar que os soldados já não sorriam mais com tanta frequência. Seus homens estavam com frio e esfomeados, precisavam sair de lá o mais rápido possível.
- Você também. - Disse . - Não se cobre demais. Tudo bem se sentir vontade de sorrir às vezes, isso também pode fortalecer seus soldados. No meio de tanto caos, um pouco de amor é bem-vindo.
Ele sorriu de novo, não ia perder a oportunidade.
- Achei que não tinha tempo para romance e agora está falando de amor para mim? - Ele arqueou uma sobrancelha. - O que quis dizer com isso?
Ela arregalou os olhos e depois conteve sua surpresa já prevendo que ele estava brincando.
- Não foi isso o que eu quis dizer. - Ela murmurou sem graça. Era muito difícil desarmar a Senhorita Stark daquela forma.
- Quer dizer que tem pensado em mim desde que te tirei para dançar? - Ele se aproximou um passo, recuou outro.
Ela apertou os braços em si quando a primeira gota de chuva caiu.
- Porque eu tenho pensado você. - Bucky finalmente disse. Ele soltou o ar, o alívio fez ele saber que fez o certo.
- Não brinque comigo, James. - Ela disse com a mão acertando seu braço, um gesto que sempre era usado quando implicavam um com o outro. Bucky segurou a mão gelada de , não era implicância.
- Quem disse que estou, boneca? - Ele sorriu porque sabia que ela não gostava do apelido, desviou os olhos quase sem jeito porque ela ainda o encarava e pegou a outra mão fria de juntou-as com as suas, levou até os lábios e soprou seu hálito quente para ajudar a aquecer.
Os ombros dela relaxaram, a chuva caiu em uma torrente atingindo os dois. Os soldados começaram a correr no acampamento procurando abrigo, ao longe era possível ouvi-los lamentando.
- Eu sei, não temos tempo pra romance. - Ele sussurrou, riu baixo.
- Podemos pensar nisso depois. - Ela respondeu, o hálito quente fez uma nuvem de vapor. Bucky sentiu vontade de beijá-la, mas levou seus lábios até as costas da mão dela.
- Depois. - Ele repetiu.
recolheu a mão, sorriu timidamente pra ele e andou na frente tomando o caminho de volta. Bucky a seguiu, eles apressaram o passo, a chuva estava gelada demais para que continuassem parados, ele quase escorregou em uma descida. A fina camada de gelo que cobria o solo começava a derreter.
Quando estavam alcançando as tendas, uma explosão no acampamento chacoalhou o solo. gritou de surpresa, mas o grito dela sou baixo depois que os ouvidos de Bucky começaram a emitir somente um zumbido, o mundo ficou em silêncio. Chamas se levantaram em meio ao acampamento, os soldados gritaram. Percebendo que havia algo errado, se precipitou na frente correndo o máximo que podia derrapando as botas na descida. Bucky a seguiu até alcançarem o centro do acampamento.
Ele viu que o que estava em chamas era a tenda principal, viu Steve correr direto para lá. Precisavam salvar todos os mapas e os materiais o mais rápido possível. Bucky olhou para , mas ela já seguia em direção à própria tenda do outo lado do acampamento, provavelmente para pegar seus materiais de pesquisa. Ele se virou par a a tenda principal correndo na mesma direção que Steve.
No interior boa parte já estava em chamas, o tecido da tenda se desfazia, a madeira que servia como teto improvisado estava caindo. Steve já havia pegado algumas pastas e papéis soltos e enrolado debaixo do braço, Rodney segurava duas malas e Bucky ajudou a carregar mais duas.
- O que aconteceu? - Bucky gritou para Steve e eles correram para fora da tenda. Foi quando os tiros começaram.
Rodney foi atingido ao lado de Bucky e caiu no chão.
- Estamos sendo atacados! - Alguém que passou correndo gritou. - Estamos sendo atacados!
Tom passou correndo e jogou uma arma para Bucky, ele a pegou e destravou se abrigando atrás de uns dos jipes estacionados. Ele olhou para o caos do acampamento, as chamas da tenda principal estavam crescendo e alcançando as tendas ao redor, em meio às chamas ouviam-se os gritos e os tiros. Steve estava com o escudo e pulou o jipe partindo para o ataque.
Bucky mirou em três que avançavam em meio aos soldados, reconheceu a insígnia no uniforme deles e atirou. Avançou logo depois de Steve, acertou dois que se aproximavam pelas laterais. Não pareciam muitos, logo os soldados estavam se organizando dando mais eficiência no contra ataque.
A adrenalina agia no corpo de Barnes, ele já não sentia mais a chuva fria, as chamas que cresciam cada vez mais. Quase não ouviu o grito de Rodney à sua esquerda:
- Eles estão recuando!
Bucky estranhou e olhou ao redor notando que a quantidade de inimigos diminuía, eles estavam voltando para o perímetro da floresta.
- Acha que estão planejando algo? - Bucky perguntou ao se posicionar ao lado de Steve.
O Capitão balançou a cabeça de forma negativa.
- Por que atacariam para recuar assim? - Steve olhou ao redor. - Acho que estavam nos distraindo.
Os soldados começaram a se reunir no centro do acampamento decidindo se deveriam vasculhas o perímetro da floresta e tentar rastrear a tropa que atacou. Enquanto Bucky ouvia os outros discutindo as estratégias, olhou ao redor do acampamento e viu barraca da divisão científica completamente em chamas.
- Steve. - Ele chamou.
Rogers olhou para o seu rosto e então seguiu o seu olhar até as chamas.
- Você viu a ?

Atualmente

Bucky acordou sentindo todo o seu corpo estremecer como se tivesse acabado de levar um soco no estômago. Encarou o teto e percebeu que ainda estava no apartamento abandonado em Bucharest.
Um trovão ribombou lá fora e as gotas da chuva batiam violentamente na janela e ecoavam pelo cômodo. Só então Bucky se lembrou do que havia sonhado. Sempre sonhava com aquilo quando chovia.
Mesmo décadas depois, a chuva ainda trazia o sentimento de urgência e o nome de ficava preso em sua garganta. O nome dela era a última coisa que ele lembra ter gritado naquela memória. Também foi no frio e meio a neve que Bucky caiu para fora do trem em movimento, viu o rosto de Steve se distanciar enquanto ele caía junto com a neve. As lembranças eram frias, desfocadas, a maioria partes complexas de algo sem contexto.
Deveria ter morrido naquele instante, a última coisa que viu foi o vermelho do sangue manchar o branco. Ele perdeu muito mais que o braço esquerdo naquele dia, perdeu algo que passaria o resto da vida procurando. A procura o fazia acordar no meio de noites chuvosas, levantar sonolento da cama e pegar a mochila que usava. Tirava um caderno e um notebook de lá, pesquisava e escrevia o máximo que conseguia de suas lembranças. Sua alimentação e rotina eram controladas para exercitar sua memória, fazia anotações dos menores detalhes.
“Eu gosto de tecnologia e ficção” ele rabiscou no bloco de notas enquanto comia uma ameixa. Temia que fosse perder a memória novamente a qualquer momento, era um sobrevivente que nunca poderia confiar em si mesmo.
“Bucky?” Steve havia perguntado quando se reencontraram, ele não fazia ideia do que aquilo queria dizer e não fazia ideia de que aquele era seu nome. Mas algo despertou dentro dele, a inquietação, a sensação de que algo estava errado. Steve havia acordado Bucky, trazido-o de volta para o controle. Agora ele não podia perder nenhuma informação, estava quebrado há muito tempo e procurava desesperadamente se consertar.
Juntar cada parte para entender a totalidade não era uma tarefa fácil, ainda mais sem saber se já tinha todas as partes necessárias para construir uma imagem de si mesmo. O museu em Nova Iorque dizia que Bucky Barnes havia sido uma pessoa normal, tinha tido uma vida, tinha sido o melhor amigo de alguém. Mas o Bucky de agora tinha apenas fantasmas, sonhando com a sombra do que ele já havia sido. Por mais confuso e doloroso que fosse ele estava vivo e à procura do que poderia preenchê-lo. As memórias poderiam ter se perdido pra sempre, mas algo de si ainda poderia ser resgatado. Pelo menos, era o que esperava e dizia a si mesmo.
Ao menos já possuía um plano em mente, os lugares que ficava era sempre pra investigar a própria história do Bucky que sobreviveu e foi levado. Havia cometido inúmeros crimes, tinha vontade de não olhar para dentro e assim evitar encarar o que ele havia se tornado. Mas se nunca enfrentasse a si mesmo nunca poderia se refazer. Por um instante se perguntou se Steve saberia, se ele entenderia. Havia algum lugar para o que havia restado de Bucky? Mesmo que recuperasse todas as memórias, não poderia apagar o Soldado Invernal.
Cada letra escrita era um flash de algo em sua mente. Podia ver as imagens acumularem em sua cabeça, a vez em que colocaram o braço de metal nele e ele tentou por dias arrancá-lo com a própria mão até a pele machucar e criar cicatrizes. Lembrava das vezes que empunhou uma arma, acertou alguém, cumpriu uma missão. Não lhe perguntavam se queria, não sabia mais o que era vontade, só conhecia a obediência. Mas em algum ponto, a obediência deixou de ser o bastante. As perguntas começaram a surgir e toda vez que hesitava, suas memórias eram apagadas. Mas até mesmo o Soldado Invernal tinha um limite e quando foi reconhecido pela primeira vez, se agarrou com todas as forças na possibilidade que surgiu.
“Bucky?” Steve havia perguntado e foi o bastante para acordar Bucky Barnes.
“Bucky?” havia sussurrado quase sem ar e foi o bastante para ele se perguntar por que estavam lutando.
Levou semanas até ele se lembrar de alguma coisa sobre ela, sobre sua conexão com Steve e com seu passado. Agora se perguntava como ela ainda estava viva ou se era de fato uma lembrança real, quando foi torturado viu uma porção de coisas que não eram reais a ponto de não saber no que acreditar, até deixar de acreditar em qualquer coisa completamente.
Ele franziu a testa e parou de escrever por um momento, a cabeça latejava e sentia que estava dando voltas novamente. Precisava voltar a dormir, às vezes conseguia descansar melhor depois reunir de escrever, depois de pensar nas possibilidades e com muito esforço resgatar algo que fizesse sentir que voltar a ser ele mesmo valia a pena. Às vezes se perguntava se havia alguém esperando por ele, provavelmente não, pois todos que conheciam já haviam partido. Afinal, pessoas normais não vivem jovens por tanto tempo. Tinha uma irmã chamada Rebecca, mas não sabia se esta ainda estava viva. Tinha Steve que talvez estivesse procurando por ele, mas Bucky estava tentando ficar fora do radar. Não iria encontrar ninguém até ter certeza que não ia parecer um monstro, não mais.
Um miado ecoou pelo quarto. O gato preto subiu na mesa e farejou os papéis de Bucky. Ele encarou o filhote que soltou mais um miado agudo, provavelmente estava com fome.
Bucky suspirou, parecia que os dois não conseguiam dormir.
Ele havia encontrado o gato miando desesperado na escada de incêndio do prédio, o achara na noite anterior. O filhote não tinha coleira nem aparentava que conseguiria se virar sozinho nas ruas com aquele tamanho, então decidiu que o gato poderia ficar com ele temporariamente. E para não se apegar, decidiu chamar ele apenas de Bichano. Não soava como um nome, nada de especial. Apenas Bichano.
O gato olhou para ele com seus grandes olhos verdes, os pelos pretos serviam como uma perfeita camuflagem no escuro.
- Você se parece comigo. - Concluiu Barnes. - Deve gostar de ameixas. - Ele disse pegando uma e oferecendo para Bichano.
O gato farejou, pegou com a boca, mastigou pelo que parecia ser uma eternidade e então cuspiu a ameixa.
Bucky encarou o animal como se ele fosse idiota.
- Isso faz bem pra memória. - Reclamou recolhendo as folhas. Com suspiro se levantou em direção à cozinha. Bichano o seguiu miando insistente. - Espero que goste de leite.


Capítulo 10

1945

não saberia dizer se era dia ou noite, se era inverno ou verão ou há quanto tempo estava lá. Os riscos feitos por suas unhas na parede agora pareciam desconexos demais para ela entender a própria contagem de tempo. Na maioria das vezes sentia que sua mente estava longe demais para ser alcançada, sabia que tinha perdido a cabeça. Seus próprios pensamentos pareciam fragmentados demais e soavam até estranhos para ela mesma. A loucura é algo difícil demais para ser explicado.
Havia alguns momentos em que ela retomava a consciência e percebia que a situação era alarmante, quando se dava conta era muito pior. Percebia que não conseguia mais raciocinar, muitas vezes esquecia o próprio nome. Após intermináveis sessões de tortura sua mente fragmentada não seguia mais uma linha comum, na verdade parecia ir e voltar em círculos desgovernados até frear bruscamente e a sã consciência lhe atingia como um soco tão forte que a fazia chorar.
Temia que já estivesse há tanto tempo ali que acabou envelhecendo e por isso sua mente não funcionava da mesma forma. Percebia que estava se esquecendo de como um dia foi a vida fora daquele lugar, seu passado, sua família. Era como se sua essência escorregasse aos poucos entre os seus dedos e tentava desesperadamente não se deixar escapar. Todas as noites ela deitava na estreita cama, se encolhia até abraçar os próprios joelhos e repetia para nunca se esquecer:

- Eu sou Stark, da divisão científica do exército americano.
Estamos em guerra contra os nazistas. Eu ajudei meu tio no Projeto Supersoldado,
minha missão era acompanhar o Capitão e avaliar os resultados a longo prazo do soro.
Fui capturada, todo dia fazem testes e tentam me fazer falar. Mas eu não vou falar e
não vou me esquecer.


Mas conforme o tempo passava, passou a se encontrar tentando preencher lacunas que ela sabia que não estavam lá antes.

- Eu sou Stark, da divisão científica do exército americano.
Estamos em guerra contra os nazistas. Minha missão era… Fui capturada, todo dia
fazem testes e tentam me fazer falar.


Ela apertava os braços ao redor do próprio corpo e torcia para que no dia seguinte ela não se esquecesse de quem era. Mais uma vez a acordavam, arrastavam para a sala do Dr. Zola e ela ficava lá horas, dias, meses até esquecer quanto tempo havia passado. E então a jogavam de volta no quarto e trancavam a porta.

- Eu sou Stark… Fui capturada, todo dia fazem testes e
tentam me fazer falar. Mas eu não pertenço a esse lugar.


Houve dias em que ela molhou o travesseiro ao chorar quando tentou lembrar o seu nome e não conseguiu. Também podia ouvir o homem ao lado do seu quarto gritar ou esmurrar a parede repetidamente. achava que conhecia ele, mas não tinha certeza. Às vezes quando ela se recusava a sair do quarto, a ameaçavam dizendo que machucariam o homem do quarto ao lado. Aquilo doía, mas ela já não sabia bem o porquê.

- Eu não pertenço a esse lugar.


Era a única coisa que ela tinha certeza. O resto se foi como as cinzas do acampamento que ficou para trás. Primeiro eles a torturaram. Cortaram seu cabelo, arrancaram suas unhas, queimaram sua pele. Lentamente, fariam de tudo para conseguir respostas. Queriam o Capitão América, sua localização, seu ponto fraco, suas estratégias. Mas não importava a tortura, nunca seria uma traidora. Pelo menos não enquanto estivesse consciente, e isso o Dr. Zola logo percebeu.
Mas eles não tinham pressa em conseguir alguma informação dela, na verdade ela era uma peça rara e importante para os planos da Hydra. Além de possuir o conhecimento que precisavam, poderia servir como uma inestimável moeda de troca. Não precisavam descobrir muitos pontos fracos do Capitão América, eles tinham um deles em suas mãos.
Stark era um achado que a Hydra estava disposta a abraçar com todos os seus braços.
- Já não tem mais uma aparência agradável, Miss Stark. -Zola disse entrando na sala.
já estava amarrada na cadeira ao lado da mesa com instrumentos médicos.
O olhar dela estava desfocado, antes ela sempre rebatia os argumentos, mas naquele momento ela nem pareceu ouvir.
- Isso é bom, não queremos você com a mesma aparência de antes. - Continuou Zola examinando as seringas na mesa. - Hoje é o seu renascimento, queremos que você tenha um recomeço. Nova aparência, novo nome...
- Eu tenho um nome. - Sussurrou .
Ele se virou lentamente para ela.
- O quê disse?
- Eu tenho um nome. - Ela disse mais alto, a voz soou rouca.
Zola a observou por um tempo. endireitou as costas, fechou os punhos e a respiração se tornou irregular. Ela ainda tentava, não cedia. Sua persistência realmente parecia atrasar os planos, aquilo piorou o mau humor dele. Os EUA haviam acabado de vencer a guerra e sua mais estimada cobaia não dava o braço a torcer.
- Qual o seu nome? - Ele perguntou em um tom desafiador.
ergueu a cabeça, o olhou nos olhos e abriu a boca... Mas nada saiu. Ela sabia que tinha um nome, mas não conseguia dizer qual era. Zola esperou pacientemente, os segundos passaram e movia os lábios sem conseguir emitir um som.
Ela se deu conta de que já não sabia mais. Lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto dela.
- Não se preocupe. Vou te dar um novo nome. - Ele sorriu, ela poderia resistir, mas essa era uma luta que ele iria ganhar. - Acho que está descobrindo que podemos não ter vencido a guerra agora, mas ainda não acabamos.
Ele se virou para a mesa examinando o material, o silêncio perdurou na sala até começar a rir subitamente.
Zola a encarou, definitivamente ela estava fora de si.
, ainda com o rosto molhado pelas últimas lágrimas, abriu um sorriso e continuou a rir.
- Você disse que perdeu a guerra?! - Ela sorriu. - A guerra acabou?
Zola observou enquanto ela tinha um último lampejo de consciência.
- Nós ganhamos. – Ela continuou a dizer. - É claro que ganhamos. Você está acabado.
A boca de Zola tremeu, sua vontade era de acertar a seringa no pescoço dela, mas se controlou. No fim das contas, poderia lhe lançar um último insulto e nada iria mudar. Como ele costumava se dizer: haviam perdido uma vez, mas ainda havia outras coisas a se ganhar.
- O que acha que vai acontecer? Que virão atrás de você, irão te resgatar e você irá voltar para casa e comemorar a grande vitória? - Zola se aproximou lentamente e inclinou a cabeça para que seus olhos ficassem na altura de . - Ninguém vai vir por você. O Capitão América está morto.
Ela respirou fundo, os olhos cheios de lágrimas e as mãos fechadas em punhos. Zola soube nos olhos dela que aquilo doeu mais do que qualquer tortura e condicionamento comportamental que haviam feito com ela. Doía e ela não sabia o porquê, já havia esquecido. O nome Capitão América já não lhe trazia algo à memória consciente, mas ainda abalava a emocional.
- Nós seres humanos somos uma máquina da natureza tão engenhosa e curiosa, não acha? - Zola se voltou para a mesa e colocou as luvas brancas. - A mente pode ser nossa salvação, mas também nossa condenação. Sei que deve estar sofrendo, mas tudo isso é para um propósito maior. Estamos salvando o mundo. O Capitão América pode ter parado essa guerra, deu a própria vida para isso. Mas não pode nos parar, estamos crescendo.
Na parede da sala havia um vidro que permitia que pessoas do lado de fora observassem o que ocorria lá dentro. A porta da sala se abriu e um grupo de quatro assistentes entrou, dois de cada lado de . A luz do outro lado do vidro acendeu e pode ver um grupo de homens com fardas e jalecos brancos, todos tinham uma insígnia em seus uniformes. O símbolo era uma caveira com vários tentáculos dentro de um círculo.
- Você não vai se lembrar disso, mas é uma grande honra. - Zola continuou. ainda encarava as pessoas que observava do lado de fora. - Vai experimentar sua própria pesquisa e isso vai revolucionar a genética. Suas alterações no soro do supersoldado foram maravilhosas, é claro que eu apliquei meus próprios ajustes. Se tudo correr bem, podemos criar um exército.
Então Zola se virou para o vidro e olhou para os homens do lado de fora. Começou a apresentação em alemão.
- Hoje apresento a vocês o resultado do Projeto Darksouls. O primeiro indivíduo da pesquisa é Elise Stark. Começamos o procedimento de condicionamento comportamental e controle mental há quase três anos, felizmente com ótimos resultados. Agora começaremos as alterações físicas que permitiram ampliar a capacidade de combate do indivíduo. Se obtivermos sucesso nesta segunda fase do projeto, prosseguiremos com o mesmo protocolo para as demais cobaias. - Zola se virou para os dois enfermeiros do lado da mesa. - Iniciar a aplicação do soro.
Cada um dos dois recolheram uma seringa da mesa, ela tinha um fluído violeta que entrava em contraste com a luz. encarou a substância sabendo que aquilo seria sua morte, desejava ao menos recordar o próprio nome antes de morrer. Mas nada lhe parecia familiar.
Um dos enfermeiros inseriu a seringa na veia do braço direito dela e deixou a substância invadir o sangue de . Ela sentiu o líquido queimar, subir pelo seu braço e se espalhar. Em seguida o segundo assistente injetou a outra substância no braço esquerdo. A sensação de calor aumentou e ia se espalhando pelos braços, a pele formigava, os músculos se contraiam cada vez mais. Era como fogo, as chamas invisíveis aumentavam a dor e o desconforto. mordeu os lábios tentando suportar, tentando se lembrar.
- Iniciar condicionamento e controle mental. - Solicitou Zola.
fechou os olhos, o corpo se contorceu violentamente. Dois assistentes seguraram o corpo dela, a cadeira longa de metal sacudiu. Havia gritos na sala e ela percebeu que eram seus gritos, sua voz distorcida ecoou enquanto seu corpo queimava. Um terceiro assistente parou na sua frente, não conseguia distinguir o rosto, sua visão estava turva e o mundo girava.
- Saudade. – Declarou o assistente. sentiu seu peito arfar e sua voz cessou, mas o corpo continuava a tremer. Sentia saudade mais do que dor, saudade do que já havia sido, saudade do mundo lá fora, saudade de lembrar.
- Conhecimento.
torceu as pernas, a cadeira sacudiu enquanto o soro mudava seu metabolismo.
- Vinte e um.
Ela desejou que acabasse logo. Mas se ao menos pudesse se lembrar. Havia rostos sem nomes na sua mente, despedidas nunca dadas, vitórias não comemoradas, a vida que foi roubada dela.
- Morte.
Ela conseguia se sentir indo, o que restara estava se distanciando. A própria vontade de persistir já a fazia perguntar “por quê?”. Persistir pelo quê? Ela nem mesmo tinha um nome.
- Fogo.
A pessoa que ela havia sido tinha ido embora há muito tempo atrás em meio às chamas de um acampamento. Miss Stark já não existia mais.
- Nove.
O vazio que ela era, sem nome, sem história. Pronta para ser abraçada pelos braços da Hydra, guiada pelas nove cabeças. Não pensava mais por si, estava pronta para servir.
- Sono.
Sentiu seu corpo paralisar, a queimação ia cessando. Sua consciência de identidade estava adormecida para dar lugar à arma que ela seria.
- Darksoul.
O passado estava nas sombras. O último suspiro dela como Stark foi dado.
- Zero.
Estava renascendo.
- Combate.
Seu único objetivo era o combate.
O tremor cessou, o corpo relaxou.
Um dos assistentes checou os sinais vitais na tela. Sem batimento cardíaco.
- Está morta. - Declarou ele a Zola.
O Dr. Zola olhou no relógio de pulso e calmamente se virou para a equipe que observava.
- Apresento a vocês o mais novo modelo de agente das operações da Hydra. - Ele declarou.
Os batimentos cardíacos voltaram, o monitor emitiu um bipe lento e baixo para indicar que ainda havia sinal de vida.
- Apresento a vocês: Ghost. - Ele se aproximou dela e a tocou no ombro. - Bom dia, agente.
Ela abriu os olhos, as íris violetas se destacaram na sala.
- Pronta para servir. - Ela respondeu.
Zola exibiu um meio sorriso para a equipe.
- Heil Hydra! Heil Hydra! - Os assistentes disseram.
- Heil Hydra. - Concordou o restante da equipe.
Ela se levantou.
- Heil Hydra. - Disse Ghost, não mais .

Atualmente

Ainda não tinha amanhecido quando acordou. E dessa vez ela se lembrava do sonho, o que pareceu muito mais assustador do que as outras lembranças que havia recuperado. Ela se sentou na cama e encarou a própria mão, estava gelada. Alguém havia a ensinado a como esquentar as mãos, juntou as duas e levou até os lábios soprando seu hálito quente entre as palmas. O hálito de outra pessoa já havia feito aquilo, de certa forma ela sabia que não era uma lembrança de Steve. Mas ele sempre estava lá nos momentos mais sombrios.
Ela se levantou, calçou os chinelos e pegou um robe pendurado na parede e saiu do quarto. Não iria conseguir voltar a dormir depois de ter revivido uma lembrança como aquela, depois de algo assim todas as memórias ruins poderiam vir como uma enxurrada de pesadelos. tinha em sua mente os flashs de estar amarrada tendo sua mente desfeita, poderia ver sua mão segurando armas, atirando, tirando vidas, sendo o inimigo. A ideia de ter que enfrentar aquele seu lado a aterrorizava.
Ghost.
Isso a assombrava e ela precisava de algo conhecido para manter seus pés no chão. Por isso bateu na porta de Steve. Ele atendeu logo depois da batida. Ele a olhou com surpresa, também estava surpresa ao encontrá-lo acordado e com a calça do uniforme. O colete e a máscara estavam sobre a cama.
- Você está bem? - Steve perguntou e abriu mais a porta dando passagem para ela.
- Eu lembrei de algo e estou com uma sensação estranha. - Ela disse entrando. Foi quando viu a mala de Steve sobre a cama, aberta como se ele estivesse organizando suas coisas dentro dela. – Você está saindo ou chegando?
- Saindo. – Ele respondeu tirando o colete da cama e o colocando sobre a camisa branca. – Que sensação estranha?
- A sensação de que não sei de tudo. Desde que encontramos Crossbones, desde que Natasha disse que eu era...
- Não se prenda a isso, . – Steve ajeitou o colete, os cabelos loiros desalinhados pela pressa. Ele se aproximou de e afagou os braços dela. – Pode não estar pronta pra algumas coisas...
- Steve. – Ela interrompeu com a voz doce, porém firme. – Eu decido quando estou pronta. E quero saber, preciso saber.
- Eu sei. – Ele suspirou, franzindo a testa. – Mas eu quero protegê-la...
se aproximou ainda mais e tocou o rosto de Steve.
- Proteção não é controle, Steve. – Sussurrou. – Essa escolha eu preciso fazer.
Ele fechou os olhos por um segundo e balançou a cabeça.
- Eu preciso ir agora, . Estou indo para Lagos com Sam, Natasha e Wanda. Crossbones vai estar lá e eu não posso perdê-lo dessa vez. – Ele disse com a voz baixa. Tocou a mão dela que estava em seu rosto e gentilmente a tirou. – Me desculpe. Acho melhor que espere na Torre, vamos estar em meio a muitos civis e precisamos diminuir os riscos.
entendeu que precisavam diminuir os riscos, porque ela era uma ameaça.
Assassina.
Ghost.
estava pronta para encarar esse seu lado, mas Steve não parecia pronto. Ela se perguntou se ele não estava na verdade tentando proteger a si mesmo.
Porque talvez ser o que era agora fosse demais para ele. Steve sempre o certo em busca da justiça seria capaz de olhar para seu lado obscuro?
Ele se virou para pegar a máscara em cima da cama e viu que dentro da mala aberta estava o relógio de bolso aberto com a imagem de Peggy Carter.
Steve pegou a mala e a fechou, beijou a testa de se despedindo e saiu pelo quarto.
Ela ficou ali, refletindo sobre o fato de que só ela poderia enfrentar a si mesma. Aquilo lhe pareceu tão solitário. Sentiu vontade de pedir que alguém a ajudasse a enfrentar as lembranças ruins naquela noite.
Fique comigo. Fique e leve embora os pesadelos. Fique e eu me sentirei melhor.
Ninguém havia ficado.

***


Pela manhã já havia escrito tudo o que lembrava em um bloco. Poderia ter usado o computador, mas segurar a caneta e fazer algo com sua própria caligrafia era muito mais confortável e ajudava no processo de lembrar-se suas pesquisas e anotações antigas. Sabia que havia sito torturada por anos, que ela mesma estava criando um novo soro com Howard e que a Hydra usou seus estudos para fazer dela uma arma. E o nome que sempre iria a assombrar era Ghost, uma ironia sádica no mínimo.
- Miss Stark. – Disse Friday às 8h da manhã.
- Sim. – Respondeu rascunhando um desenho no fim da página, era um rapaz de cabelos escuros e olhos claros. Ela achava que era Bucky, mas não tinha muita certeza.
- O Senhor Stark solicitou que você o acompanhe hoje em um evento de projeto e pesquisa. Happy estará aqui para buscá-la às 9h. – Disse Friday. – Recomendo que use um estilo social casual. O Senhor Stark achou melhor lembrá-la das roupas que estão usando atualmente, saia longa de cintura alta com ondas fixadas com laquê são consideradas fora de moda hoje em dia...
suspirou não acreditando que Tony tivesse feito aquilo. Friday como o bom sistema programado que era, mostrou à look sugeridos pela Vogue.
- Para um estilo que esbanje dinheiro recomendamos que você se inspire em Kim Kardashian, Miley Cyrus... – Continuou Friday. se levantou ignorando completamente as imagens.
nem mesmo se lembrava de já ter ouvido falar naquelas pessoas e achava que seu senso vintage não era nada alarmante. Tony estava sendo chato.
Tony estava dando uma oportunidade a ela de sair e mesmo relutante em admitir, ela estava grata por isso. Resolveu não provocar Tony e se vestiu de maneira simples, calça social de cintura alta, camisa e salto alto. Mas não deixou de colocar laquê no cabelo, ela estava disposta a trazer aquela moda de volta. Entrou no carro no horário marcado.
- Bom dia, Miss Stark. – Disse Happy encarando seu penteado. – Está muito bonita hoje.
- Obrigada, Happy.
Ele a levou até o centro da cidade explicando que o evento aconteceria em um prédio executivo que tinha convênio com as principais universidades. Happy estacionou e abriu a porta do carro para ela quando chegaram.
- Já estão a esperando lá dentro. – Disse Happy. - Tenha um bom dia, Senhorita Stark.
desceu do carro e entrou no prédio. No hall de entrada havia enormes banners de programas de pesquisas e bolsas. Um dos banners possuía o logotipo Stark e ela sentiu em seu íntimo um orgulho de tudo que havia sido construído, o império que Howard havia começado. Se dirigiu até uma das recepcionistas, mas antes que pudesse se apresentar, uma mulher se aproximou.
- Senhorita Stark. – Disse a mulher. se virou e notou que ela usava um fone, um crachá de identificação das Indústrias Stark. – Eu sou a nova assistente do Senhor Stark, ele te aguarda no auditório. Posso leva-la até lá.
agradeceu e seguiu a mulher.
A assistente entrou pela porta dos fundos do auditório, Tony estava no palco e a cortina do local estava fechada. Havia um barulho do outro lado, burburinho de conversas paralelas enquanto esperavam o início da palestra. Bem, deduziu que fosse uma palestra, como Howard fazia antes vendendo sua história de superação e dando visibilidade para suas patentes.
Ela e a assistente caminharam até Tony.
- Senhor Stark, está aqui. Você entra em cinco minutos. - Ela disse antes de sair.
Tony se virou para e observou as roupas que ela havia escolhido.
- Confesso que tive muito medo que você aparecesse de óculos colorido e calça boca de sino.
- Tony, isso é dos anos 70. E eu não acho que eu já tenha usado algo assim. - Ela se aproximou de Tony e ajeitou o colarinho amassado da camisa dele, um gesto que costumava fazer com Howard.
- Eu sei bem que você usaria qualquer coisa cafona do século passado dando a desculpa de que é vintage. - Ele continuou com os comentários sarcásticos e riu, porque ninguém entendia melhor o humor de um Stark do que um outro Stark.
- Você detesta meu gosto fashion, já entendi.
- Sim, mas não te chamei aqui devido a seu gosto fashion ou seja lá o que for isso que você veste. - Ele tirou um aparelho do bolso, era pequeno e semelhante a um fone bluetooth, e o colocou na orelha. A ponta do aparelho ficava fixada em sua têmpora. - A Stark vai abrir portas para estudos e pesquisas no âmbito universitário e empreendedor para os jovens selecionados nesse projeto.
- Inovação é essencial para investimento tecnológico. - concordou.
- Sim, eu gostaria que visse esse projeto. Talvez possamos nos ajudar caso você consiga recuperar algumas memórias e se um dia puder me auxiliar na parte de investimento e pesquisa...
- É um convite oficial para trabalhar com você. - observou enquanto Tony ajeitava o paletó que não precisava ser ajeitado.
- É uma oportunidade a longo prazo. Não quero que sinta que estou jogando algo sobre você, ainda mais com todos os problemas relacionados a amnésia. - Tony limpou a garganta. - Não acho que ficar trancada naquele lugar e sendo monitorada vá ajudar muita coisa. E você não precisa ter ajuda só do Steve.
Eles se olharam por um breve instante sem saber muito bem como se expressar, a verdade era que nenhum dos dois tinha um bom histórico de relações familiares para saber como agir no momento.
- Olha não sou bom com isso. - Tony gesticulou para os dois. - Essa coisa de família. Mas o que eu quero dizer é que... Nós Starks devemos permanecer juntos.
sentiu-se tão grata que os olhos ficaram úmidos e ela precisou piscar várias vezes e desviar o olhar por um instante e assim evitar que alguma lágrima escapasse. - Obrigada, Tony.
Ele apertou o ombro delas de maneira gentil.
- Pense a respeito e se sentir que for bom pra você, fale comigo. - Ele disse.
- Senhor Stark, tudo pronto! Vamos começar. - A assistente de Tony disse ao se aproximar e gesticulou para que a seguisse para ficar fora do palco.
Vi saiu com a assistente e se posicionou na lateral do palco enquanto Tony caminhava para o centro. As cortinas se abriram lentamente e uma salva de palmas ecoou pelo auditório.
Tony acionou o dispositivo em sua cabeça e o palco foi transformado. O espaço antes vazio começou a ser preenchido por um piano, um sofá, cortinas no fundo. Uma sala foi construída visualmente e ficou intrigada com a proporção de realidade, estava adentrando em um lugar novo. Levou um tempo para perceber que havia uma mulher de meia idade no piano, ela tinha os olhos fechados e ao seu redor havia uma decoração de natal com miniatura do papai Noel e doces.
Um homem entrou na cena arrumando a gravata e o reconheceu de imediato, mesmo com as rugas e os cabelos já brancos.
- Tio Howard. - Ela sussurrou fazendo esforço para não piscar e perder a miragem que estava vendo.
Howard parecia tão real que a parte irracional de quase a fez se mover na direção dele. Howard parou de frente para o sofá e acordou um rapaz que estava nele.
O rapaz era Tony, porém mais novo e pela expressão facial tinha um humor mais ácido também.
- Dizem que o comportamento irônico é um sinal de que um dia será um grande homem. - Howard disse para o filho.
percebeu que a mulher no piano era Mary, mãe de Tony. Ela se levantou e caminhou até o filho.
- Por favor, diga alguma coisa. Sabe que é a última vez que vai nos ver. - Ela disse ao beijar o rosto do filho.
- Eu te amo, mãe. - Disse o Tony mais novo. - Eu sei que fez o seu melhor, pai.
Mary e Howard saíram da sala.
Tony, o verdadeiro, caminhou pela sala e tocou a vela que estava sobre o piano. Todo o cenário holográfico se desfez e o palco ficou tão vazio como estava antes, de certa forma isso mostrava à que todos tinham lembranças que os assombravam. Tony revivia a última vez que viu os pais e usou a lembrança para dizer o que deveria ter dito.
- Sequestro do hipocampo para tratar traumas em memórias. - Tony comentou enquanto o holograma sumia. - Um investimento incerto pra uma terapia com custo bilionário. Claro que não muda o fato de que meus pais pegaram o avião naquela noite, chegaram ao seu destino e morreram em um acidente de carro. Não muda o fato de que eu nunca cheguei a dizer aquelas palavras e nem que eu não me despedi.
compreendia o quanto aquilo era difícil e pela segunda vez no dia, Tony fez com que seus olhos enchessem de lágrimas.
- Mas com esse novo projeto, temos a possibilidade de tratar os traumas através de lembranças. Transformar um tiro no escuro em um acerto no alvo. - Claro que Tony ia transformar o discurso em algo inovador e esperançoso. - Pensando nisso, a Stark Industries está fornecendo uma bolsa integral para cada universitário aqui presente. Através do Programa MBTI, vocês terão a oportunidade de acertar novos alvos.
A plateia de estudantes e investidores se levantou e aplaudiu.
Um representante da empresa se dirigiu até o centro do palco para dar continuidade à apresentação e Tony se retirou indo em direção aos bastidores. Tirou o dispositivo da orelha e o colocou de volta no bolso e olhou para como se esperasse um comentário dela.
- Foi impressionante, Tony. – Ela disse em voz baixa. – Por um momento parecia tão real, céus!
- Bem, isso é um começo. Se continuarmos investindo poderemos descobrir mais. – Tony comentou colocando as mãos nos bolsos da calça. – Poderíamos usá-lo para lhe ajudar também e ainda há outros projetos para vermos...
- Senhor Stark, me desculpe. – A assistente disse que se aproximar. – Esqueci de tirar o nome de Pepper Potts do programa...
- Senhor Stark! Eu estava pensando se o financiamento é válido só para estudantes ou se funcionários também poderiam trabalhar nisso... – Interrompeu um homem com o crachá da Stark. Ao redor outros funcionários começaram a olhar como se planejassem se aproximar, como se aquele fosse o momento perfeito para encher Tony de perguntas.
- Com licença, onde fica o banheiro? – Tony perguntou para a assistente enquanto tocou o braço de indicando que ela deveria lhe acompanhar. Os dois começaram a caminhar deixando assistente e funcionário para trás.
Tony e saíram em direção a uma porta e passaram por ela. Havia uma placa indicando que os banheiros ficavam no corredor à direita. Tony seguiu pela esquerda na direção dos elevadores e o acompanhou.
- Tio Howard estaria orgulhoso de você, Tony. – Ela disse quando pararam para esperar o elevador. – Sabe, já que você começou com toda essa conversa sobre família...
começou a usar seu tom sarcástico, o que fez Tony suspirar. – Eu gostaria de saber quem é Pepper, talvez conhecê-la...
- Não vamos falar disso, . Não quero que fique pensando que podemos conversar sobre essas coisas, não quero saber sobre você e o Picolé. – Tony respondeu negando com a cabeça.
- Nem eu sei sobre mim e Steve. – murmurou lembrando de ter visto ele colocar o relógio com a foto de Peggy na mala antes de partir.
Tony franziu a testa e abriu a boca como se fosse fazer uma pergunta, mas parou quando uma senhora se aproximou e parou ao lado dele de frente para a porta do elevador.
- Vai descer? – Ele perguntou apertando o botão para chamar o elevador.
- Eu estou onde eu quero estar. – Ela respondeu colocando a mão na bolsa para tirar algo de lá. Algo na postura dela fez se precipitar e segurar a mão dela antes que ela tirasse o objeto da bolsa.
- Está tudo bem, . Ela não é uma ameaça. – Afirmou Tony. tirou a mão.
- Desculpe, senhora. São vícios do trabalho. – respondeu um pouco constrangida, não pode evitar um reflexo.
- Eu trabalho com Recursos Humanos. – Respondeu a mulher, era mais baixa que e olhava atentamente para Tony. – É chato, mas esse emprego era o bastante para que eu conseguisse criar bem o meu filho.
Ela tirou a mão da bolsa e estava segurando uma foto, colocou ela contra o peito de Tony numa fúria contido. viu o rancor nos olhos dela.
- Esse era o meu filho, Charlie Spencer. – Tony pegou a foto e olhou o rosto do rapaz. – E você o matou.
Houve um silêncio tenso onde Tony olhava da foto para a mãe e tentava entender o contexto de toda a situação.
- Você e o restante dos Vingadores em Sokóvia. Um prédio caiu no meu filho enquanto a cidade se desfazia. Vocês acham que estão nos mantendo seguros? Há pessoas que se machucam também, Senhor Stark.
Algo mudou nos olhos de Tony, algo denso e triste.
- Quem vai vingar o meu filho? – A mulher olhou para por um instante. - Ele está morto. – Ela voltou o olhar para Tony. – E eu culpo você, culpo os Vingadores.
Dito isto, a mulher saiu pelo corredor.
queria ter dito algo, mas “sinto muito” era vazio e nada poderia diminuir a dor daquela mulher. Nada poderia tirar a culpa que pesou sobre as feições de Tony naquele momento. O elevador parou no andar e os dois entraram em silêncio.

***


Tony não havia conseguido emitir uma única palavra desde que encontrara a mulher que lhe acusou de matar-lhe o filho. Depois do ocorrido, não tentou fazer com que ele continuasse o assunto e Tony estava extremamente grato por isso. Havia muita coisa em sua cabeça que ele precisa organizar.
Em um primeiro momento pensou na situação de maneira racional, ele sabia que o que ele e os Vingadores faziam era com o objetivo de um bem maior. Afinal, eles evitaram uma invasão alienígena. Mas pela primeira vez, Tony começava a ver os efeitos colaterais com clareza. Quantos morriam toda vez que os Vingadores interviam?
- Não dá para salvar todo mundo, dá? - Ele se questionou em voz alta enquanto servia-se de um copo de suco natural, mas na verdade queria muito uma dose de conhaque. Olhou para a foto de Charlie Spencer que deixou sobre a sua mesa e se recusou a procurar algo sobre o garoto naquele primeiro momento, Tony precisava antes organizar seus pensamentos.
Sempre tivera certeza de que suas ações como um Vingador, como o Homem de Ferro, eram para proteger e lutar por outras pessoas. Nunca machucá-las.
Tony ligou a televisão de seu escritório e passou para o canal de notícias. Bebeu um gole do suco amargo de laranja e encarou as imagens do noticiário que mostrava uma explosão em um prédio da cidade de Lagos na Nigéria. Ele se inclinou sobre a mesa ao ver que Steve, Sam e Wanda estavam nas proximidades da explosão. As imagens mostravam que a explosão atingiu o prédio, Wanda não conseguiu controlá-la.
Tony tentou compreender a situação, com certeza Wanda não queria ferir os outros. Mas ele só conseguia olhar para as pessoas que estavam sendo resgatadas, as pessoas que eles deveriam estar protegendo.
Ele engoliu em seco e deixou o copo sobre a mesa enquanto encarava a foto do garoto morto em Sokóvia.
- Friday. - Ele ativou o sistema com o comando de voz. - Preciso de todas as informações sobre Charlie Spencer morto em Sokóvia.
- Senhor Stark, o Secretário de Defesa deixou um recado para o Senhor hoje.
- Me conecte com o Secretário de Defesa Ross. - Tony complementou, precisava fazer algo a respeito.

***


Haviam sido dias difíceis em Lagos. Não conseguiram as coisas exatamente como queriam e Steve já estava começando a questionar sua posição como capitão da equipe. A explosão que atingiu cidadãos repetia em sua mente diversas vezes e ele sabia que a culpa era sua, mas Wanda achava que a responsabilidade deveria ser toda dela. Apesar de todo o ocorrido, ele só conseguiu se lembrar de Crossbones falando de Bucky e isso aumentava o sentimento de urgência que ele tinha para encontrar mais informações, para encontrar Bucky.
Steve imaginava se seria possível encontrar o amigo e ajudá-lo no que fosse necessário, saber o que aconteceu nas últimas décadas quando estavam separados. Como havia acontecido com , ela estava perto agora e ao mesmo tempo distante. Era comum que ele pensasse com frequência nela e que os pensamentos fossem carregados de carinho, mas nunca antes os pensamentos eram acompanhados de desejo. Eles eram amigos desde sempre e todas suas lembranças estavam ligadas à ela, mas era muito difícil quando sua ideia de primeiro amor estava sempre ligada à Peggy Carter.
Ele sabia que tinha um sério problema com desapego, não exatamente de pessoas, mas sim da época em que viveu. O jovem Steve que sonhava em ter um casamento, filhos e viver para a família havia morrido congelado vários anos atrás. O Steve de agora parecia estar sempre buscando reviver o que fora um dia, usando para isso. Ela era sua âncora e quando ele sentia que estava se afundado na loucura deste mundo atual, a presença dela sempre o fazia sentir que tinha algo familiar no qual ele ainda podia se abrigar.
O beijo dela havia mexido com ele de uma maneira muito rara e singular, havia sido perfeito. Então por que ele ainda carregava a foto de Peggy consigo?
Steve saiu do elevador e entrou na sala de estar do complexo, era de madrugada e depois do que aconteceu em Lagos ele geralmente voltaria para o próprio apartamento velho no Brooklyn. Porém, era um daqueles momentos em que ele queria ver algo familiar.
Havia só uma luminária branca no canto da sala próxima ao sofá onde estava sentada. Uma melodia baixa ecoava pelo recinto e Steve percebeu que era a vitrola do lado da luminária. A música era lenta e a voz era de Vera Lynn. Ele se aproximou e deixou a mala que carregava no chão, tirou o boné e a jaqueta os deixando no sofá. ergueu os olhos para ele e abriu um meio sorriso, como se perguntasse como ele estava.
Ele estava cansado demais para falar sobre o que havia acontecido em Lagos e mais cansado ainda para retomar o conflito de seus pensamentos. Ele então só tirou as botas e caminhou de meias até . Ela se levantou e o abraçou.
Steve respirou fundo enquanto a sensação de familiaridade levava embora o caos em sua mente. Ele a apertou em seus braços.
- Fico feliz que esteja bem. - Ela murmurou se afastando do abraço e voltando a se sentar no sofá. - Bem na medida do possível, quero dizer.
Steve se sentou ao lado dela e suspirou, virou o rosto para observá-la.
- Por que você não está dormindo?
- Eu sabia que você ia chegar hoje. - Ela respondeu com outro sussurro.
Ele se inclinou na direção dela para ver melhor com a luminária criando reflexos no rosto dela.
- Não, . Por que não está dormindo nos últimos dias? – Steve passou o polegar pelas olheiras dela.
Ela encolheu as pernas as colocando em cima do sofá, levou alguns instantes em silêncio e ele esperou pacientemente até que ela conseguisse falar.
- Eu tenho sonhado noites inteiras de lembranças. – Ela respondeu depois de um tempo com as mãos entrelaçadas sobre os joelhos. – Cada dia um pesadelo novo. Eu seu o que aconteceu, ou pelo menos a maior parte do que aconteceu.
Steve nada disse, deixou que ela tivesse seu tempo para expressar tudo que havia na mente dela. mexeu os dedos da mão com um suspiro e então se virou para olhá-lo no rosto, a luz só alcançava parte de suas feições e Steve não a conseguia ler por completo porque não conseguia enxergar a parte de que estava nas sombras.
- Eu tenho lembrado das vezes em que puxei o gatilho, das vezes em que empunhei uma faca. – Ela disse com a voz sempre em um tom baixo e vacilante. – Eu lembro de ter sido o inimigo. Você deveria ter me matado, Steve. Naquele dia em que me encontrou.
Rogers se mexeu desconfortável com a declaração, a testa franzida com um suspiro frustrado porque não conseguia nem formular palavras.
- Eu não faria isso, .
Ele não faria e ponto.
Mais um momento de silêncio. Steve pensou se deveria segurar as mãos dela, mas não estava certo se era disso que precisavam no momento.
- Quando você pretendia me contar que eu fui uma assassina?
- Quando estivesse pronta. É muita coisa para assimilar, .
- Sim e eu sei que quer me proteger, Steve. – Ela respondeu e tocou o braço dele, os olhares se encontraram na pouca luz. – Mas eu acho que você estava acima de tudo protegendo a si mesmo de ter que lidar comigo assim.
Ele tocou a mão dela que estava em seu braço.
- Assim? Assim como? – Ele apertou a mão dela. – Por que você fala como se tivesse mudado?
- Porque eu mudei, Steve! – Ela exclamou, sem aumentar o tom de voz. – Eu não sou mais a garota de décadas atrás, eu mal me lembro dela! E eu vejo em seus olhos Steve, eu vejo toda essa expectativa que você tem quando me vê e eu não acho que seja porque está apaixonado. Você olha pra mim como se eu carregasse tudo o que você perdeu, como se eu fosse uma lembrança nostálgica voltando à vida e você não consegue enxergar o que eu fui nos últimos anos e o que isso faz de mim agora.
Steve sentiu o coração afundar ainda mais, ele segurou as mãos de e olhou atentamente para os dedos dela em seu braço, os tirou de lá e os entrelaçou com os seus.
- Você é a minha casa, . – Steve sussurrou afagando a mão dela. – O meu lar. - E você é o meu. Somos familiares no meio de tanta coisa desconhecida. – concordou, mas desviou os olhos do rosto dele. – Mas eu não sou o seu amor, sou?
Steve manteve a mão dela firmemente com a sua, pensou no beijo que compartilharam no Brooklyn. Pensou na que morava perto dele e sempre o cumprimentava e elogiava mesmo quando ele era apenas um garoto abaixo do peso e com a saúde frágil. Pensou na companheira de batalhas no exército, pensou na última vez que a viu quando o acampamento pegava fogo. Imaginou os anos de controle e tortura da Hydra, imaginou Ghost e não mais .
- Eu amo você...
- Mas não desse jeito. – Ela complementou o que ele ainda não conseguia dizer no momento. – Porque a foto que você carrega ainda é a de Peggy Carter. E eu ainda sou só um fantasma.
Os dois ficaram em silêncio e mesmo que estivesse escuro demais para ver os detalhes, Steve sabia que ela tinha lágrimas nos olhos. Ele também tinha.
- Eu sinto muito, . – Steve disse, era a única coisa que poderia dizer. Pela primeira vez entendia que havia colocado nela as expectativas de um passado que nunca iria voltar.
Ela beijou a mão dele, Steve sentiu o corpo aquecer. Porém ainda não conseguia decifrar se era apenas afeto ou se também havia desejo e sentiu-se muito errado por isso. Ela o amava desde o começo, antes de todo mundo. Ela o amou quando ele era apenas um garoto perdido do Brooklyn. O beijo havia sido tudo, mas porque ele não tinha certeza se poderia ser certo?
- Eu também sinto, Steve. – Ela se levantou e silenciosamente saiu da sala. O disco continuou a tocar.

You'll never know just how much I miss you
You'll never know just how much I care


Steve ouviu a canção com todos os sentimentos dentro de si fazendo-o pensar que ele e eram como linhas paralelas: sempre próximos, mas nunca se encontrando.

If there is some other way to prove that I love you
I swear I don't know how
You'll never know now


Capítulo 11

Complexo dos Vingadores, Nova York

Alguns dias depois de Steve e o restante dos Vingadores terem voltado de Lagos, o Secretário de Defesa Ross visitou o complexo acompanhado de Tony. Quando Ross solicitou uma reunião, todos ficaram tensos. Sabiam que não era algo bom ele ir pessoalmente de encontro com a equipe.
Tony o acompanhou, ele estava extremamente calado e a expressão era de uma ansiedade silenciosa. Nisso era diferente do pai que quando mais jovem não conseguia se manter quieto diante de uma situação tensa.
Natasha, Steve, Sam e Wanda entraram na sala. continuava sentada na poltrona do lado de fora. Tony passou por ela sem dizer nada e antes de fechar a porta de vidro Ross disse a ela:
- Essa reunião é só para os Vingadores.
Ela exibiu um sorriso venenoso em resposta.
Não falou com Steve quando ele passou por ela. Nos últimos dias eles estavam distantes, respeitando o espaço um do outro. Não estavam sem se falar por mágoa, mas sim porque simplesmente nada precisava ser dito desde a última conversa.
Estava acabado. E se dariam um tempo até conseguirem estar próximos novamente.
Ross fechou a porta de vidro que não dava privacidade alguma. Pelas divisórias transparentes, pode ver Steve questionar porque ela não podia entrar. Tony nada disse.
Ela sabia que não era oficialmente parte dos Vingadores e não estava esperando que fosse participar da reunião, entendia que Ross apenas reforçou o fato porque era um idiota. Portanto permaneceu na poltrona da outra sala.
de certa forma ainda sentia que gostaria de fazer parte, participar e poder ter voz ativa nos assuntos deles. Era impossível não se sentir conectada de alguma forma depois do tempo que convivia com eles. Eles a ajudaram e ela teve um crescimento pessoal. Mas ao mesmo tempo sentia que não merecia.
- Ghost. - Ela murmurou pra si mesma lembrando do passado, suas mãos estavam manchadas de sangue. Sangue não era fácil de limpar, mesmo metaforicamente falando.
Mas ela tinha planos de poder continuar trabalhando a serviço da sociedade, encontrar algo no que investir e não deixar que as ações do passado a engolissem e anulassem quem ela poderia ser. Claro que em teoria era ótimo, mas não tão simples na prática.
Depois de alguns minutos, o Secretário Ross saiu da sala e deixou o complexo dos Vingadores. não se preocupou em se despedir adequadamente, ela estava na sala de estar do segundo andar onde era ligada à cozinha aberta.
Ela estava acomodada em uma poltrona com um notebook revisando alguns pequenos projetos da empresa que Tony deixara passar por sua análise. Sam e Natasha se sentaram no sofá, Steve se acomodou na poltrona à sua frente. Rhodes ficou em pé no meio da sala e Tony foi até a bancada para se servir do café.
- Esse Acordo é errado de muitas maneiras. - Disse Sam, claramente dando continuidade ao que foi debatido na sala anteriormente.
notou que Wanda não estava na sala com eles, provavelmente foi decidido que ela não participaria da discussão.
Então ela deduziu que por “não ser uma vingadora” não deveria estar participando. Ela tirou o notebook do colo e se levantou.
- , eu gostaria que você participasse da discussão. - Steve disse ao perceber que ela sairia da sala, era a primeira vez que ele lhe dirigia a palavra em dias. A voz soou cansada, mas ainda de forma carinhosa. Os olhos dele se desviaram do rosto dela para encarar a pilha de papéis que era o Acordo de Sokóvia em suas mãos.
- O governo está exigindo que os Vingadores respondam ao comitê de segurança das Nações Unidas. - Natasha explicou para ela. - Só poderíamos agir quando convocados e seguindo as ordens de outros superiores.
- O que eu acredito que seria o mais indicado, precisamos fazer as coisas com ordem e evitar que outros acidentes aconteçam. - Rhodes declarou. A segurança em seu tom deixava claro que já havia decidido.
- Se não assinarem, estariam fora dos Vingadores? - questionou. Sam afirmou com um aceno de cabeça.
- No seu caso, , a questão é mais complicada. - Rhodes comentou e direcionou o seu olhar para ele. - Vão precisar investigar o que fez durante o seu tempo na Hydra, possivelmente algum tipo de julgamento para concluir se está apta ou não a prestar serviço como uma Vingadora.
As mãos de apertaram o notebook, mas ela continuou em silêncio.
- Eu discordo disso, tem cooperado desde que a encontramos e sabemos que ela não serviu a Hydra por vontade própria. - Rebateu Sam.
- Mas tecnicamente ainda é uma criminosa para o governo, a conta dela está no vermelho. - Natasha destacou, porque ela própria era lembrada de sua época como espiã. - Se ela assinar o Acordo de Sokóvia, podem considerar que ela realmente está disposta a servir o país de forma adequada agora.
- Vamos deixar que nos digam se somos ou não Vingadores? - Steve questionou. - Vamos deixar que decidam por nós? Não vamos poder agir quando julgarmos necessário, a menos que eles nos controlem como controlam todo o resto.
- Não podemos achar que podemos fazer tudo sozinhos. Isso é arrogância, Capitão. - Rhodes suspirou com uma certa frustração.
Tony bateu com a mão na bancada da mesa e acionou seu tablet que abriu uma foto, exibiu a imagem como um holograma no meio da sala interrompendo a fala de todos. A imagem era de um jovem garoto sorrindo, tinha o cabelo curto, a pele negra sob o sol e imediatamente fez lembrar da mulher que interceptou Tony outro dia.
Era o filho daquela mulher.
- Ah, desculpem interromper. - Tony disse num tom fingido de surpresa. - Mas caso se interessem, esse é Charlie Spencer.
O restante olhou para a imagem do garoto sem entender do que Tony estava falando.
- Charlie havia acabado de se formar em engenharia, ele poderia ter feito uma pós graduação ou começado a trabalhar em uma grande empresa. - Tony falava enquanto enchia sua xícara com café. - Mas ele decidiu passar o verão em Sokóvia construindo casas para pessoas carentes.
A tensão era quase palpável entre eles agora. Os ombros de Steve pesaram.
- Acredito que Charlie teria um futuro brilhante. - Continuou Tony sem conseguir olhar para os outros. - Mas agora nunca vamos saber, porque jogamos um prédio em cima dele enquanto estávamos sendo legais salvando o mundo.
entendeu porque ele estava tão calado desde o principio. Tony estava carregando aquela culpa desde que a mãe de Charlie o acusara de matar o filho.
- Claramente deixamos vítimas por onde passamos. - Tony se aproximou do grupo na sala. Colocou as duas mãos nos bolsos da calça. - Precisamos de um controle.
Após um breve silêncio, Natasha falou:
- Eu concordo com ele.
Steve balançou a cabeça de forma negativa, Tony ficou surpreso por ele e a russa concordarem em algo.
Visão continuava com um olhar reflexivo e só percebeu que ele estava ali naquele momento. Ele era tão quieto e silencioso que ela frequentemente esquecia que ele estava sempre observando.
Tony falava e o restante discutia, Steve tirou o celular do bolso e olhou para a tela do aparelho. A expressão dele se fechou de maneira abrupta, ele já estava sério antes, mas o assombro que passou pelo seu rosto era diferente.
- Eu preciso ir. - Ele disse simplesmente. Se levantou sem olhar para os outros, mas olhou para no momento em que passou por ela e saiu pela porta.
imediatamente soube. O olhar de Steve era um olhar de perda e isso só podia significar que Peggy Carter havia partido.
Os Vingadores trocaram olhares silenciosamente questionando o motivo de Steve. não conseguia falar, parecia que havia algo em sua garganta. Lembrou de Peggy no exército, no laboratório, nas festas em que iam e como elas eram a companhia uma da outra em meio a um ambiente repressor para mulheres.
Por um tempo elas amaram o mesmo homem, mas isso nunca foi motivo para se odiarem. Nem deveriam, mulheres lutam juntas. Elas tinham sonhos e ideais que compartilhavam, mesmo quando se foi, Peggy ficou e fundou a SHIELD como elas haviam planejado fazer. Ela foi forte e lutou pelo que acreditava até o final e isso era uma grande perda para o mundo.
- ? - Tony perguntou chamando sua atenção.
Ela sentiu a mão direita tremer, mas respirou fundo e se desculpou.
- Não se preocupem, eu vou atrás do Steve. - Ela respondeu ao se levantar e saiu pela porta a fechando atrás de si. Passou pelo corredor do primeiro andar e desceu as escadas, encontrou Steve encostado de costas no corrimão com uma das mãos cobrindo o rosto evitando que suas lágrimas ficassem à vista.
desceu os degraus e ele sabia que ela estava ali, mas não ergueu o rosto no primeiro momento, um capitão raramente compartilhava seus momentos de vulnerabilidade. Ela o tocou no braço e quando ele olhou para o rosto dela, viu que os olhos de refletiam as lágrimas dele. E ela o abraçou, porque se tivessem que chorar com alguém eles chorariam juntos. Aquilo fez Steve sentir que não estava sozinho e ele amava por lhe proporcionar aquilo.
Ela o apertou em seus braços com toda a bravura e proteção que ela podia oferecer e Steve se deixou chorar por mais uma perda, talvez a mais significativa de todas.
Depois nos momentos que seguiram após a notícia, eles nada conversaram. Não por causa da conversa sobre a relação dos dois que tiveram antes, mas só pelo simples fato de que eles estavam cheios de sentimentos e o silêncio compartilhado era de tristeza, mas também havia um conforto na companhia um do outro.

Londres

cuidou de tudo, Steve estava perdido e não conseguia reunir energias para planejar coisas simples. Ele normalmente se sentiria envergonhado por estar tão aéreo, mas precisava se permitir um momento de fraqueza. Ela preparou a viagem, a roupa e até mesmo mandou uma mensagem para os outros Vingadores. Sam e Natasha combinaram de encontrá-los em Londres, já que e Steve partiram primeiro.
Durante a viagem até Londres para o funeral, caminhou ao seu lado, arrumou seu paletó e até mesmo fez o nó de sua gravata.
Enquanto ela trabalhava com o tecido da gravata e ajustava o colarinho, Steve segurou a mão dela de forma gentil.
- Não precisa fazer isso, ainda mais depois de...
- Steve. - interrompeu. - Eu sei, mas eu quero fazer e você não precisa se preocupar. E não precisamos retomar nenhuma conversa anterior, o principal não mudou. Ainda cuidamos um do outro. Faço isso por você, mas por mim e pela Peggy também.
Ela dobrou o colarinho dele e deixou que as mãos escorregassem pelos braços de Rogers.
- Eu também a amava. - Ela disse em um sussurro controlando os sentimentos. - E você precisa se deixar ser cuidado. Nem sempre dá pra resolver tudo com um escudo de vibranium.
Steve a abraçou e deixou que naquele momento ela fosse o seu escudo. Foram juntos até o funeral em uma grande igreja anglicana, Peggy teria adorado a beleza do local e ficaria muito satisfeita em estar de volta ao lugar em que nasceu.
Era muito bonito, uma despedida digna que partia o coração de Steve.
Ele carregou o caixão pelo longo salão juntamente com outros familiares e amigos próximos de Peggy, com as lágrimas acumuladas nos olhos ele caminhou com toda honra e bravura que sua garota merecia e também com toda gentileza e ternura que teria usado naquela dança dos dois que nunca aconteceu.
Ele se sentou entre e Sam. Sam tocou no seu ombro e eles escutaram a cerimônia juntos. Sua mente oscilava entre as lembranças de Peggy Carter e pensamentos sobre os Vingadores assinando o Acordo de Sokóvia.
Não parecia certo, há muito tempo que ele não confiava no governo. Vestia a bandeira de sua pátria somente pelo povo, nunca somente pelos seus líderes. Confiava nos Vingadores, mas confiar nos líderes desse mundo era um risco que ele não queria correr.
Em funerais um membro da família fazia um discurso e se despedia, geralmente até mais de um membro. Muitos tinham o que dizer e agradecer à Margareth Carter e uma dessa pessoas foi Sharon. Sam imediatamente cutucou Steve no ombro, quando ele direcionou os olhos para a frente viu a agente loira que se disfarçou como sua vizinha enquanto o vigiava.
Primeiramente ele ficou surpreso por não ter percebido, depois ficou com vergonha por quase ter chamado a sobrinha de Peggy para sair.
- Tia Peggy dizia que quando você faz o que é certo e o resto do mundo diz o contrário, é seu dever não se mover e dizer ao resto mova-se você. - Sharon disse durante o discurso.
Steve captou aquela frase, soava exatamente como os conselhos da velha amiga. Ele olhou para o seu lado direito e observou discretamente enxugar as lágrimas com um lenço. A Lady de Aço também tinha seus momentos de vulnerabilidade, mas nunca deixou de defender o que acreditava. Steve percebeu que não sabia qual seria a decisão dela sobre o Acordo de Sokóvia e por um instante temeu que isso fosse se tornar mais uma barreira.
e Tony estavam muito mais próximos, realmente como uma família. Steve sabia que os dois precisavam disso, os Starks geralmente eram solitários.
A mão de Steve agiu antes que ele pensasse, o que era raro de acontecer, tocou a mão de ao seu lado e entrelaçou os dedos dela com os seus. Ao seu lado ela chorou silenciosamente. Uma lembrança atingiu Rogers com força, de todas as perdas que ele podia lembrar sua mente o levou a 1944 quando o acampamento estava em cinzas e Steve viu lágrimas nos olhos de outro amigo.

Bucky não disse nada, apenas mostrou a dog tag que apertou na palma da mão. O nome Stark estava no metal, a única coisa que restou da Miss Stark. Nada do corpo, dos arquivos de pesquisa, nada. Quando um integrante sumia e só encontravam a dog tag isso significava que o integrante era considerado morto.

Rogers por um instante se perguntou se seria possível que Bucky lembrasse daquilo e como reagiria se um dia reencontrasse .
Steve nunca tinha reparado em como Bucky e eram próximos até ele ficar transtornado com o desaparecimento dela. Claro que os três sempre estavam juntos, mas Steve nunca tinha imaginado que eles tinham uma amizade entre eles, algo como ele e tinham. Quando estavam perto um do outro, Bucky e eram cheios de uma jovem implicância.
O que o preocupava no momento, era que o Acordo de Sokóvia parecia estar marcando uma divisão dos Vingadores e Steve já estava cansado de perder os seus amigos.
Ao fim da cerimônia todos se levantaram e começaram a ir embora. Alguns cumprimentavam outros, comentavam sobre Peggy e expressavam os pêsames. Em algum momento, quando a igreja estava vazia, Natasha chegou e se aproximou de Steve.
estava do outro lado do local com Sam, eles conversavam em um tom baixo. estava séria, mas às vezes Sam conseguia arrancar um sorriso dela.
- Meus pêsames, Steve. - Nat disse para ele e parou ao seu lado. - Esse mês tem sido inacreditável. Ela se referia ao acidente a Lagos, ao Acordo e talvez a ele e também.
- Você vai assinar o Acordo? - Ele perguntou e a olhou nos olhos.
- Eu quero fazer o que é certo. - Nat disse um suspiro. - Não quero que separe a gente, a nossa equipe. Se quiser, pode pegar o voo para Veneza comigo.
A conferência para a aprovação do Acordo ocorreria em Veneza na sede da ONU. Steve estava certo de que não deveria seguir ideias tão instáveis.
- Obrigado, Nat. - Ele disse por fim. - Mas eu não vou.
- Eu sei. - Ela disse e o tocou no braço de forma carinhosa. - Eu vim para te ver. Não queria que ficasse sozinho.
Às vezes algumas palavras de Nat valiam mais do que um milhão de abraços. Eles se despediram e ela saiu da igreja para chegar a tempo no aeroporto.
O telefone de tocou fazendo o som ecoar pela igreja vazia. Ela olhou na tela do aparelho e se surpreendeu ao ver que a chamada era de Tony.
- Oi, Tony. - Ela atendeu. Sam caminhou até Steve enquanto ela falava ao telefone.
- Oi. - Ele respondeu. - Meus sentimentos, .
- Obrigada.
- Como você está?
- Bem, na medida do possível. - Ela suspirou e olhou ao redor. - Foi um funeral muito bonito.
- Escuta, . - Tony ainda mantinha um tom suave, como se estivesse sendo cuidadoso ao falar com ela naquele momento. - Eu sei que não é a melhor hora, mas eu gostaria de saber seus pensamentos a respeito do Acordo...
- Não vou conseguir ir na conferência em Veneza. Preciso de um tempo. - Ela começou e Tony deixou que ela continuasse. - Eu tenho pensado a respeito, eu gostaria de limpar a minha ficha por assim dizer. Mas sinceramente, não sei se se submeter a esses ideais é um bom caminho.
- Eu entendo. - Ele respondeu e suspirou. - Eu gostaria que fosse mais fácil, estou tentando fazer a coisa certa.
- Eu sei que está, Tony. - sabia que a mente dele não tinha descanso desde que encontrara a mãe de Charlie Spencer.
Os dois ficaram em um silêncio compreensivo por um instante.
- Ok, me chama se precisar. - Ele disse por fim. - E com isso quero dizer “não me chame”.
E desligou.
se sentiu um pouco mais leve depois de falar com ele. Olhou para Steve e Sam que trocavam sorrisos provavelmente devido a algum comentário engraçado de Sam.
Aquela leveza era algo tão raro em sua vida. Fazia se perguntar como poderia mantê-la. Ela devia começar a organizar sua vida, seu trabalho e conquistar seu lugar. Mas acima de tudo, se redimir. O Acordo de Sokóvia era a primeira oportunidade que tinha de tentar começar a ter um reconhecimento e quem sabe contar sua história.
Estava na hora do governo saber que a Miss Stark não estava mais desaparecida. E precisava calar a culpa que Ghost via sussurrando dentro de si.
Ela olhou para o aparelho em sua mão e discou o número de Nat.
- Oi, Stark.
- Você já saiu?
- Não... - Nat respondeu. - Vou entrar no jato agora.
- Espere por mim. - disse e desligou. Caminhou até Steve e Sam e os dois se viraram para ela.
Steve soube no instante em que viu o olhar dela.
- Estou indo para Viena. - Ela confirmou.
Steve balançou a cabeça de modo afirmativo. Sam fez uma cara de desanimo como se quisesse convencê-la do contrário, mas ainda assim deu um soco leve no braço dela de forma amigável.
- Tentem não morrer sem mim. - Ela disse ao colocar o sobretudo e caminhar rapidamente para saída.
Uma parte de Steve sempre morria um pouco quando a via partir.

***


A manhã passou lentamente após o funeral. Tanta coisa acontecendo em pouco tempo que Steve não teve vontade de acompanhar Sam no almoço. Ele comeu no restaurante do hotel e Steve só o acompanhou no meio da tarde para comer algo.
Eles foram no café da esquina em frente ao hotel, pegariam o voo no final do dia e estariam em Nova York o mais rápido possível. Geralmente usavam algum jato que era bem mais rápido, mas não poderiam usar alguns recursos enquanto não assinassem o Acordo.
- Sam, sobre o Acordo... - Começou Steve olhando para o copo de café que ele mal havia tocado.
- Estou com você, Capitão. - Sam concluiu de imediato. - Não que seja uma questão de favoritismo...
Steve riu levemente.
- ... Mas concordo com o que você disse. Não confio no governo para isso. - Sam completou. - Entretanto, eu entendo a decisão de e Natasha. O histórico delas não é bom aos olhos dessa politicagem toda, elas precisam fazer o que for necessário para não se tornarem os novos alvos do governo.
Steve concordava, mas ao mesmo tempo temia que o governo quisesse ter controle sobre eles porque já eram os alvos. Não esperava viver o bastante para ver o país que defendeu por toda a vida se virar contra ele.
- Rogers. - Sam chamou. E quando Steve o olhou, Sam inclinou a cabeça na direção da televisão que tinha na parede da cafeteria. Era uma notícia urgente, as imagens mostravam uma explosão em um local em Viena.
Steve se inclinou sobre a mesa para ver a reportagem.

“Uma grande explosão na sede das Nações Unidas aconteceu durante a conferência do Acordo de Sokóvia. O Rei de Wakanda T'Chaka morreu na explosão. Aguardamos notícias sobre o número de mortos e feridos. Acredita-se que foi um atentado terrorista, as câmeras de segurança registraram James Buchanan Barnes no local. Ele é suspeito e está sendo procurado pela polícia federal...”

Steve olhou para a imagem do que seria Bucky saindo de um estacionamento, ele olhou para Sam que já pegava o celular e discava um número.
Os dois se levantaram para sair do café e agir rápido.
- Nat, o que aconteceu? - Sam perguntou ao telefone.
Steve deixou que Sam conversasse com ela e atravessaram a rua voltando para o hotel.
- Nat disse que estão achando que Bucky é o autor da explosão. Ela pediu para que a gente deixasse que encontrassem ele. - Sam explicou.
Um pedido que não seria considerado por Steve.
- Levaram sob custódia para Washington. - Sam acrescentou enquanto atravessavam o lobby do hotel. - Ela será interrogada, acreditam que ela tem algum tipo de ligação com o ocorrido.
Steve sentiu vontade de praguejar. Precisava de para encontrar Bucky antes dos agentes federais.
Seguiram em direção ao elevador e encontraram Sharon Carter saindo de lá. Ela olhou para os dois, segurava o telefone na mão direita.
- Acabei de ser chamada, estão atrás do Barnes. - Ela murmurou. - Me encontrem no saguão em alguns minutos.

Bucharest, Romania

A Agente 13 passou as informações que tinha sobre o paradeiro de Bucky Barnes. Steve imediatamente seguiu para o último lugar onde ele tinha sido visto: um bairro simples no subúrbio da capital romena.
Ele estava numa corrida com os agentes federais que buscavam por Bucky, precisava encontrá-lo primeiro. Sam estava lhe dando cobertura e realizando o mapeamento da área e Steve com o uniforme de Capitão entrou no prédio onde aparentemente seria o esconderijo de Bucky.
Ele subiu as escadas rapidamente e em silêncio. Destrancou a porta e cuidadosamente entrou. Olhou para o pequeno apartamento pouco mobiliado. Havia apenas uma mesa pequena, uma geladeira e uma pia. Havia um pedaço de pano que estava sendo utilizado como cortina. Era pouco iluminado.
Steve caminhou até a pequena bancada da cozinha, havia um papel colado na geladeira e ele percebeu que era uma lista de compras.
Amoras.
Ameixas.
Leite.
Peixe.
Chá branco e verde.
Havia pouca louça, mas estava limpa sobre a pia. O pequeno apartamento dizia muita coisa, Bucky estava tentando passar desapercebido, mas também estava tentando viver. Rogers notou que todos os alimentos na lista eram indicados para auxiliar na memória. Então, acima de tudo, Bucky estava tentando se lembrar.
Steve olhou na bancada onde havia um pequeno bloco de anotações. Ele o pegou e abriu, encontrou algumas páginas com marcações de datas e frases rápidas.
“1991, Sibéria”.
Steve folheou mais algumas páginas e uma outra chamou sua atenção.
“1974, primeiro lapso. Stark, Ghost. Já se perguntou o por quê?”
Parecia que Bucky estava guardando o que conseguia lembrar, ou anotando o quê não conseguia lembrar por completo. Steve sentiu algo ao seu redor mudar, lentamente se virou para trás e o viu.
Finalmente o viu.
Bucky estava com o comprimento do cabelo abaixo das orelhas, um boné cinza e uma jaqueta de moletom cinza que escondia o braço de metal. Usava um par de luvas pretas e os olhos azuis pareciam mais conscientes do que quando Steve o viu na última vez.
- Você sabe quem eu sou? - Steve perguntou. O olhar de Bucky alternou entre o seu rosto e o bloco de anotações que segurava.
O bloco era importante para Bucky. Um gato preto pequeno miou e subiu na pia. Steve colou o bloco sobre a bancada.
- Você é o Steve. - Bucky respondeu. - Eu li sobre você no museu.
Ele estava sendo cauteloso, não ia revelar agora o que lembrava. Steve por sua vez estava pisando em ovos também e tinha pouco tempo.
- Sobre Viena...
- Não fui eu. - Bucky respondeu firmemente e era só disso que Rogers precisava.
- Olha, existem pessoas que acham que foi você. Eles estão vindo. - Steve se aproximou com alguns passos devagar. Bucky o observou em silêncio. - Precisamos sair daqui sem chamar atenção e sem machucar ninguém.
O gato chiou alto e pulou da pia no instante que uma granada entrou pela janela estilhaçando o vidro. Steve tampou a granada com o escudo no instante seguinte e conteve a explosão. A porta da saída de incêndio foi quebrada por dois agentes da Swat que entraram armados.
Bucky conteve o primeiro e Steve partiu pra cima do segundo. O apartamento foi invadido por balas, Steve a desviava com seu escudo e Bucky usava o braço de metal. Em poucos instantes havia uma equipe inteira de agentes dentro do apartamento.
Havia uma tensão durante o confronto, Steve não sabia se Bucky iria cooperar e em contrapartida Bucky não sabia se Steve confiava nele. Estavam em dupla contra os agentes, mas ainda tantas coisas não ditas entre os dois que a expectativa se mostrava nas ações.
Steve se distraiu e acabou sendo derrubado depois de uma explosão da porta da frente. Bucky se inclinou sobre ele fechando o punho e por um instante cruel Steve achou que ele havia perdido o controle de novo, mas o punho de Bucky acertou o assoalho de madeira ao lado de sua cabeça. Arrancou uma tábua e tirou de lá uma mochila, colocou-a sobre os ombros e deu um soco no cara atrás de si.
Rogers deduziu que os poucos pertences preciosos estavam lá dentro. Mas por que ele não deixou ela em um lugar mais acessível? Pensando por um instante em tudo que observou no apartamento, entendeu que talvez tenha sido o primeiro lugar seguro pra ele em muito tempo.
A lista de coisas para comprar, sair para buscar ameixas era a primeira escolha que Bucky fazia em muito tempo. Por mais pequeno que fosse, era o primeiro passo pra liberdade.
Ele estendeu a mão de Steve e o levantou.
Foi naquele momento que Rogers soube, Bucky Barnes estava de volta.


Capítulo 12

Rússia, 1974

Não era um bom momento para Hydra. Após o surgimento do Tratado de Desarmamento Nuclear em 1968, onde sessenta e três países concordaram com o desarmamento para dar fim a uma era de guerras, houve um enfraquecimento dos ideais pregados pela organização. Talvez enfim começasse uma era de paz e aqueles que ainda compactuavam com a Hydra precisavam se preparar para o novo mundo que estava se formando.
Ainda que o mundo estivesse formando laços de paz, a Hydra ainda procurava crescer nas sombras, embaixo de cidades, por trás de cortinas. Como tentáculos que suavemente se espalhavam, se enrolavam entre governos esperando os momentos oportunos. Uma saída foi começar novos recrutamentos e dar continuidade aos projetos, a preparação para a guerra era o mais importante. Investir na ciência para aprimoramento e testes seria essencial nesse momento, então decidiram resgatar dois cientistas que estavam sob custódia nos EUA.
Devido ao clima tenso da Guerra Fria ainda estar presente, selecionar os melhores indivíduos para uma missão desse nível seria a decisão mais sábia. O comandante de operações Barão Von Strucker recordou do projeto Darksouls há muito tempo arquivado. Tinha a vantagem de usar uma combatente especial que não deixava rastros, mas a operação para criá-la não teve muitos avanços. Ghost era eficiente, mas instável. Decidiram deixá-la na criogenia desde a década de 60.
Strucker achou que este era o momento de acordar o fantasma. Para que a missão saísse como o esperado, poderia enviar com ela um outro indivíduo que pudesse assegurar o sucesso da operação caso Ghost apresentasse uma falha.
- Vamos mandar Ghost e o Soldado Invernal. - Strucker disse diante da equipe de operações.
Todos usavam o uniforme com o símbolo de uma caveira com oito tentáculos estampado no braço direito e no peito. Os oficiais se olharam refletindo sobre a decisão.
- Sabemos que Ghost pode ter algumas falhas se for em uma missão a longo prazo e não sabemos da situação do Soldado Invernal desde que fora congelado há dez anos atrás. - Disse um dos oficiais. - Sem falar que esses dois se conheciam antes, um pode acabar ativando a memória do outro.
- Poderíamos fazer um teste. Acordamos os dois indivíduos, prosseguimos com o protocolo de controle mental e os colocamos juntos para observar como reagem. - Sugeriu outro oficial.
Ninguém levantou objetificações.
Strucker piscou seu único olho.
- Então está na hora de acordar as crianças.

***


Quando abriu os olhos, sentiu a luz branca da sala quase a cegar. Respirou com dificuldade e não conseguia se mover, seu corpo parecia pesar toneladas. Tinha a sensação de que havia morrido e voltado à vida de repente. Piscou várias vezes até conseguir enxergar um grupo de médicos ou cientistas ao seu redor.
Um deles usou uma seringa para injetar algo no seu braço e nos instantes seguintes se sentiu muito acordada. Todos os sentidos funcionando ao máximo, ela sentia cheiros de produtos químicos, conseguia ouvir as conversas em russo da sala ao lado, distinguiu uma equipe de seis pessoas ao seu redor. Não sabia o motivo, mas queria sair dali.
Mexeu os braços, mas eles estavam firmemente presos por amarras. Ela chacoalhou a cadeira de aço em que estava.
Um homem com farda e chapéu militar vermelho se aproximou com um livro da mesma cor que os detalhes do seu uniforme.
- A Hydra saúda nossa agente. - Ele disse. - Você foi recrutada quando nossas forças operavam na Alemanha, nossa casa. Nós crescemos, outras cabeças surgiram. Agora operamos na Rússia e solicitamos os seus serviços.
sabia que ele estava falando em russo e que aquilo não um bom sinal, mesmo que ela não soubesse explicar o porquê. O oficial abriu o livro e começou a recitar:
- Saudade. - Ele disse e o corpo de tremeu. - Conhecimento, vinte e um, morte, fogo.
No fundo de sua mente ela vislumbrou um incêndio que a separava de sua vida anterior, as chamas começaram a percorrer cada célula de seu corpo. Ela podia sentir que algo estava despertando.
- Nove, sono, Darksoul. - O oficial continuou a recitar. - Zero, combate.
O tremor passou e os olhos dela se fecharam.
- A Hydra saúda Ghost. - Disse o oficial mais uma vez. - Bom dia, agente.
Ela abriu os olhos, a íris violeta se destacou na sala.
- Pronta para servir. – Ela respondeu.
- Heil Hydra. - Disse o oficial.
- Heil Hydra. - Concluiu Ghost.
Ela se levantou e a equipe recebeu ordens para examinar seu corpo. Um do grupo jogou um macacão preto que tinha uma estrela vermelha no braço e ordenou que ela se trocasse.
Ela colocou o macacão e calçou os coturnos que outro lhe entregou.
- Me siga. - Disse o oficial quando ela ficou pronta, ele saiu da sala. Ela o seguiu.
Logo atrás vinha a equipe, percorreram corredores mal iluminados. Havia um leve aroma de esgoto, goteiras em algumas curvas e várias lâmpadas piscavam pelo caminho. A Hydra estava tentando sobreviver com o pouco que tinha.
Entraram em um salão mais amplo, no centro havia um octógono cercado por grades. Quem quer que entrasse lá para lutar, não poderia sair até segundas ordens. Abriram a porta para ela.
- Ghost, entre. - Ordenou o oficial e ela obedeceu. Fecharam a porta atrás de si, os outros se espalharam pelo espaço para observar.
- A única coisa que precisa fazer é lutar, mas não tire a vida do oponente. Dê o seu melhor, o Barão estará observando. - O oficial murmurou do outro lado da grade. A porta de metal do salão se abriu e Strucker entrou, todos fizeram mesuras conforme ele passava.
Ghost observou o símbolo da Hydra na farda dele, os enfeites de reconhecimento em seu uniforme e um dos olhos tinha uma lente de vidro embutida em seu rosto. O olho comum piscou e a observou seriamente. Ele era o Barão e reconhecendo isso, Ghost fez uma mesura inclinando a cabeça.
O olhar dele era perturbador, mas ela não tinha o que temer. Estava ali para servir.
Começou a aquecer as pernas flexionando as pontas dos pés repetidamente para alongar a panturrilha. Abriu as pernas e se curvou até os dedos da mão tocarem os pés. O soro que haviam dado a ela já havia deixado seu corpo quente.
Houve uma movimentação do outro lado da gaiola e todos que estavam do lado oposto de Ghost se afastaram para abrir caminho.
Um outro soldado se aproximava. O cabelo grande passava da altura dos olhos, ele vestia o mesmo macacão que ela, porém a manga esquerda fora cortada para mostrar o braço de metal que ele tinha. Uma estrela vermelha havia sido desenhada no braço.
Ele se aproximou sem vacilar, os movimentos quadrados e pacientes como um robô. Abriram o portão do lado dele e ele entrou.
- Este é o Soldado Invernal, seu oponente. - Disse o oficial atrás de .
O Soldado direcionou os olhos para ela, eram azuis e tão sem vida quanto os dela.
Não houve uma contagem, nem um anúncio de que começara, eles simplesmente se observaram. Ele começou a andar pela esquerda e Ghost pelo lado contrário.
Eram bem treinados para combate corpo a corpo, não tinham pressa para fazer algo por impulso. Ghost foi quem tomou a iniciativa, fechou os punhos e os manteve na altura do queixo para defesa e avançou com a perna direita.
O Soldado não recuou, na verdade se aproximou como se esperasse pra ver a tentativa dela. Ghost tomou impulso com a perna direita e levantou a esquerda na altura do abdômen dele.
Claro que ele defendeu, com o antebraço golpeou a perna esquerda dela. Mas Ghost estava contando com isso e ainda no breve segundo que estava no ar, girou e o atingiu no peito com a perna direita.
Não foi um golpe forte, mas de qualquer maneira acertou.
- Vocês têm cinco minutos para derrubar o seu adversário. - Anunciou um dos oficiais.
O Soldado Invernal avançou com o braço comum, Ghost desviou, mas ele lhe acertou na coxa com um dos joelhos. Ela sabia que precisava evitar o braço de metal, era o ponto forte dele e desvantagem pra ela.
Ela desviou de uma chave, mas estava encurralada com a grade em suas costas. O Soldado percebeu a chance e avançou com o braço de metal, usando seu corpo como barreira para ela não saísse. Ele a acertou na barriga.
Ghost ofegou, a impaciência se transformou em irritação. O tempo estava passando, ela olhou para o rosto dele e se perguntou o porquê. Por que ele a acertou? Por quê continuava tentando lhe bater? Usou a coxa dele como apoio para o pé direito e saltou no espaço estreito, saltou para cima dele. Se jogou contra o tórax dele. As pernas entrelaçaram o pescoço do Soldado e ela alcançou o braço de carne e osso dele.
Rolaram pelo chão até que ela conseguiu firmar a chave prendendo o braço dele. Ele usou o braço de metal para acertar a perna dela várias vezes para fazê-la soltar, mas ela mal sentiu. A irritação era maior, não era assim que ele devia agir com ela. Ela não sabia explicar, mas algo lá no fundo fazia com que ela sentisse que havia algo de errado.
- O tempo acabou. - Disse o oficial. Mas não escutou.
O Soldado a acertou na perna novamente.
Por quê, por quê, por que ele de todas as pessoas?
- Ghost. - Chamou o oficial.
O Soldado Invernal apertou o tornozelo dela com o punho de aço que tinha, ela afrouxou com um sibilo. Ele saiu da chave e prendeu o corpo dela contra o chão.
Ghost olhou o Soldado Invernal nos olhos. Os punhos dele prendiam seus braços no chão e as respirações ofegantes pelo esforço pareciam uma só.
"Por quê" algo ressoou dentro dela, além dela. Mas foi só um segundo.
- O tempo acabou. - Ele sibilou entre dentes e se levantou.
Ghost se levantou e seguiu para a porta oposta da cela. Fez uma mesura para o Barão e saiu quando o oficial abriu para ela.
- Ela é feroz. - O Barão comentou com o oficial ao seu lado enquanto observava Ghost ser escoltada para fora do salão. - Ele continua implacável. Prepare-os para a missão.

Wasgington, D.C. Atualmente

Stark estava mais uma vez confinada sendo interrogada em uma sala. A diferença era que agora se lembrava mais da própria vida e sabia quando o Secretário Ross fazia perguntas idiotas. Ele fez questão de fazer algumas perguntas assim que ela foi resgatada em Viena após a explosão.
Um estilhaço havia cortado seu antebraço e outro a bochecha, mas nada que um band-aid não resolvesse. O Acordo não foi assinado e começaram uma caçada à Bucky Barnes.
E estava confinada na sede de segurança nacional com a cara nojenta de Ross a encarando como se fosse superior à ela.
- Senhorita Stark, depois de ser capturada e usada para os interesses da Hydra, manteve contato com alguém? - Ross questionou.
- Quer saber se vi Barnes desde que estou com os Vingadores? - Ela reformulava a pergunta para que ele talvez se tocasse do seu tom idiota. - Não, Senhor Secretário. Os Vingadores foram bastante rigorosos, eu não podia sair do complexo e em caso de alguma urgência eu deveria sair somente acompanhada.
- Em algum momento teve a intensão de se apresentar à justiça americana? Precisamos lembrar que seu histórico contém crimes e assassinatos que impactam a política mundial.
respirou e expirou devagar.
- Sim, por isso mesmo achei que seria mais sensato comparecer na conferência em Viena e demonstrar minha boa vontade e arrependimento. - Ela deixou as mãos sobre a mesa e olhou no rosto do Secretário deixando de lado a aversão que tinha a ele. - Eu entendo que eu tenha que responder a esses crimes e gostaria de ajudar com as lembranças e conhecimento que tenho. Poderia cooperar com o governo e com os Vingadores para manter nosso mundo seguro e evitar que casos como o meu e o de Barnes ocorram novamente.
Ross limpou a garganta e percebeu que ele não estava esperando por uma resposta tão educada.
- Vamos continuar a investigação do seu caso. Até segundas ordens, não pode agir sem autorização. - Ross se levantou e apoiou uma das mãos sobre a mesa. - Temos um centro de detenção especial para agentes que se recusaram a cooperar com as exigências do governo. Você será mantida lá até o encerramento do caso.
não reclamou, mas ficou curiosa sobre o novo centro de detenção. Não estava exatamente surpresa que o governo já tivesse criado uma prisão para seus agentes especiais e para heróis também.
Ross saiu da sala com um sorrisinho convencido. Quem entrou em seguida foi Tony, ele estava sem o blazer do terno, as mangas da camisa estavam dobradas até os cotovelos deixando seu Rolex de ouro visível, mas de alguma maneira eram os sapatos italianos que brilhavam mais.
Ele olhou para com cautela como se esperasse seu súbito ataque de fúria.
- Hoje de manhã eu estava no funeral de uma amiga, à tarde vi o salão de conferência da ONU explodir e acabei de ser presa. - listou os fatos, soltou um suspiro pesado. - Estou cansada demais para gritar com você agora.
- Ótimo. - Ele disse visivelmente mais relaxado, mas continuou em pé como se ignorasse a cadeira disponível. - Não foi um dos melhores dias pra mim também. Trouxeram Steve e Sam da Romênia, Bucky Barnes está sob custódia sendo avaliado.
fechou os olhos por um segundo e expirou lentamente.
- Esses dois idiotas, sempre fazendo bagunça. - Ela murmurou pra si.
Tony se sentou sobre a mesa ao seu lado.
- Ele não quis assinar o Acordo. - Tony resmungou, agora mais de perto. podia ver as orelhas vermelhas, a veia da têmpora saltada e o suor gelado se formando na testa de Tony. Ele estava nervoso, provavelmente havia brigado com Steve.
- Às vezes dá vontade de socar aqueles dentes perfeitos.
- Nem me diga. - Ele concordou.
- Mas sabe, Tony. - Ela amenizou o tom de voz. - Eu sempre achei que não devíamos aceitar o Acordo de Sokóvia.
Não foi nenhuma grande revelação, ele já sabia que estava hesitando.
- Eu achei que deveria fazer o que é certo, atender a essas ordens e exigência e quem sabe um dia não estar mais em débito com governos e superiores. - Ela disse se virando na cadeira na direção de Tony. - Mas eu não posso confiar neles, nessa politicagem tola. Usam segurança para minar a liberdade. Não me mantiveram segura na segunda guerra, não me mantiveram segura durante todos esses anos que estive presa pela Hydra. Com certeza não vão me manter segura agora. Mas eu me sentia segura com vocês.
- E vai continuar. – Tony garantiu. - Eu fiz algumas exigências e garantiram que durante toda a averiguação do seu caso iriam cooperar. Tenho tentado, , graças a Deus não te confinaram em um cubículo ambulante como um animal.
Algo acendeu na mente de .
- Mas fizeram isso com Barnes. - Ela concluiu. De repente um gosto amargo subiu na boca de , uma raiva que estava crescendo.
- Eu sei que não é perfeito, mas é o melhor que podemos fazer agora. - Tony falou agora fechando a mão em um punho, algo pesava dentro dele. - Não precisa concordar com o Capitão pelo rostinho bonito dele.
O que crescia em explodiu e ela se levantou ficando de frente para Tony.
- Ora, pensa tão pouco de mim assim? Acha que concordo com Rogers por conta de um rosto bonito, acha que sou fútil? Acha que eu não sei de todas as questões em jogo? - Ela perguntou sem levantar muito o tom de voz, queria manter a coerência no diálogo. - Você não pode me diminuir dessa maneira, Anthony. Tenho mais experiência política para discutir essa questão do que você e seu terno de 300 mil dólares.
A expressão de Tony era de uma surpresa e no instante seguinte o rosto se fechou, ele sabia que havia sido um idiota. Ele se sentir envergonhado por isso fez com que sentisse uma vitória saborosa.
- Estou cansada de comentários idiotas, já basta o "Ross mainsplaining all the time". -Ela se afastou alguns passos de Tony.
- Me desculpe, . - Tony disse. E quando ele se desculpa, era raro e sincero.
- Você é minha família, Tony. - Ela disse ainda de costas. - Te conheço o bastante para saber que você é mais parecido com Howard do que gostaria. Está carregando esse peso consigo desde que encontrou a mãe de Charlie Spencer. - Ela caminhou pela sala e Tony a ouvia pensativo. – Eu sei que tem sido cuidadoso e que provavelmente nunca mencionou minha parte das Indústrias Stark porque não me deixaria assumir nada sem estar despreparada, não correria esse risco.
Tony olhou os olhos de quando ela voltou a se aproximar dele.
- Eu fiquei chateada por você não ter mencionado isso pra mim. - Ela confessou com um sorriso chateado. - Mas eu entendo o seu lado, eu também não deixaria alguém que surge depois de 70 anos e sem memória assumir uma parte nos negócios. Então eu decidi ganhar a sua confiança e aceitar os pequenos trabalhos, me inserir aos poucos. Porque afinal, você é a única família que me restou.
Ele piscou devagar, as palavras dela lhe acertando o peito já dolorido.
- Eu não podia deixar até ter certeza das suas intensões. - Ele murmurou.
- Tudo bem, eu disse que entendo. - Ela deu um meio sorriso chateado. - Mas mesmo que você seja minha família e mesmo que eu reconheça seu esforço, eu ainda acho que podemos fazer melhor do que isso. Não abrir mão da nossa liberdade.
Ela apertou o ombro de Tony que sempre estavam tensos.
- Não podemos deixar a nossa culpa definir quem nós somos. - Ela sussurrou e pela primeira vez em muito tempo, o peso que ele carregava aliviou por um instante.
Os Starks trocaram um olhar significativo, porque nunca eram muito bons com palavras. Até que Tony revirou os olhos.
- Steve está na sala de operações neste andar. - Ele disse por fim cruzando os braços. - Se alguém te pegar no caminho diga que eu esqueci a merda da porta aberta.
No segundo seguinte, já tinha saído da sala.
A sala de operações era ampla e com mesas de reunião compridas bem distribuídas. Havia o centro do andar com várias telas exibindo imagens de segurança, canais de noticiários e monitoramento, ao redor havia aquários que eram separados pelas paredes de vidro. notou que Steve e Sam estavam em um deles e seguiu na direção, tendo cuidado para não cruzar com alguém e chamar atenção para si.
Entrou na sala e os dois se viraram para ela enquanto fechava a porta.
- Tony tinha dito que você estava em cana de novo. - Ponderou Sam.
- Tony deve ter pago uns milhões para manter minha ilustre presença nesse buraco modernizado. - Ela disse se aproximando dos dois e puxou uma cadeira do lado de Sam.
Olhou para o rosto sério e ansioso de Steve.
- O que houve?
- Encontramos Bucky em Bucharest a tempo, teríamos conseguido sair se o Príncipe T'Challa não tivesse dificultado a situação. - Steve contou brevemente o que ocorreu.
havia visto o príncipe uma vez e foi quando ele tentava socorrer o pai na explosão em Viena. Ela entendia que ele buscava vingança, mas estava sendo precipitado ao julgar que Bucky era o autor daquele atentado.
- Aquele idiota me arranhou inteiro. - Resmungou Sam que parecia particularmente chateado. - Bucky será julgado, mas estão fazendo algum tipo de avaliação psicológica com ele agora.
Ao tirar os olhos de Sam, ela flagrou Steve a observando. Ele tinha uma certa curiosidade na expressão e ela soube o que ele estava perguntando.

Assinou o Acordo?

balançou a cabeça de forma negativa.
Ele franziu o cenho curioso como se perguntasse o motivo. Mas ela não teve a chance de responder pelo olhar ou verbalmente, porque a Agente 13 entrou na sala, manteve o olhar atento ao redor da sala de operações e se aproximou do controle que estava sobre a mesa. Ela digitou um código e a tela da sala deles ligou.
Quando a imagem na tela carregou, foi possível notar que estava sendo transmitida pela câmera de segurança da sala onde Bucky Barnes era mantido. observou que colocaram ele preso numa espécie de cubo, como Tony havia mencionado.
- Ninguém pode saber que estou liberando o acesso pra vocês. - Ela disse em voz baixa.
a olhou brevemente e não conseguiu identificar se ela tinha alguma semelhança com Peggy, mas certamente percebeu que Sharon Carter ficou em pé ao lado de Steve depois de apreciá-lo bastante com os olhos.
Mas ela não podia ficar observando o que acontecia ao redor, o fato de Bucky estar preso naquela situação era o que realmente merecia sua atenção.
Em situações como aquela, o governo já tinha o contato de profissionais bem indicados e reconhecidos para realizarem as avaliações psicológicas. Quem quer que fosse o psicólogo, devia ter um ótimo currículo e boas indicações para auxiliar nos processos confidenciais daquele nível. Nunca era qualquer um.
O avaliador começou com perguntas básicas para se certificar do nível de consciência e lucidez de Bucky.
- Então, James…
- Bucky. - o ouviu corrigir o Doutor.
Ele não deixava que o chamassem de James. Por isso ela o chamava assim, para implicar com ele. Mas ele nunca de fato havia reclamado disso, talvez até gostasse.
- Conte-me o que se lembra. - Disse o Doutor e logo em seguida as luzes se apagaram.
Todas as luzes se apagaram. Eletrônicos foram desligados em toda a central de operação.
Não era uma simples queda de energia. Um prédio de segurança máxima estaria preparado para aquilo.
Alguém chamou no rádio da Agente 13.
- Parece que houve uma explosão que ocasionou um apagão pela cidade. - Ela comentou.
sentiu que algo estava errado. As coisas ultimamente nunca ocorriam por acaso. Ela se levantou e saiu da sala com Steve e Sam logo atrás.
- Acham que é o príncipe dos gatos de novo? - Sam perguntou enquanto eles corriam pelo corredor.
- A essa altura pode ser qualquer um. - Disse Steve quando chegaram em frente aos elevadores desligados. saiu na frente e fez a curva para seguir para a saída de emergência.
Ela abriu a pesada porta de metal como se fosse papel.
- Qual o andar? - Ela perguntou quando eles começaram a descer os lances. A escada era um círculo formando um buraco no meio, se se dirigissem para o parapeito era possível ver o piso do subsolo metros abaixo.
- Subsolo.
- Vocês dois se certifiquem de que Barnes esteja bem. - falou olhando de Sam para Steve. - Eu vou avisar os outros, precisamos bloquear todos os acessos. Ninguém entra e ninguém sai dessa central.
Steve continuou a descer e voltou para o corredor, as luzes de emergência foram acionadas e um alarme começou a soar em cada canto do local. Ela retornou para a sala central e encontrou Tony.
- Steve já desceu para verificar o que aconteceu com Barnes. - Ela falou. - Tem algo errado, Tony. Alguém quer chegar até ele, vamos fechar todos os acessos do local.
- Eu já alertei os outros, estão tentando recuperar o acesso às câmeras de segurança. - Ele respondeu indicando para que ela o seguisse.
Enquanto andavam pelo corredor Tony tirou do bolso da calça uma tiara dourada, parou no meio do corredor e colocou a tiara na cabeça de desajeitadamente.
Tirou mais duas pulseiras douradas do bolso e encaixou elas em cada um dos pulsos de .
- Não testei, mas sei que funciona. - Ele disse retomando a corrida. - Caso precise, pode ter o resto da sua armadura se acionar o comando na pulseira.
Ela observou o fino metal em volta dos pulsos e ajeitou a tiara sobre a cabeça.
- Espero que não exploda. - Ela murmurou.
O sistema de Tony, FRIDAY, informou que havia uma movimentação na saída oeste onde ficava a praça de alimentação. Os dois desceram até o térreo e correram pelo pátio iluminado, todas as portas de vidro permitiam que eles vissem a imensidão do local.
viu algumas mesas serem jogadas para longe, logo na frente estava o Soldado Invernal derrubando Natasha com seu braço de aço. Sharon Carter estava no chão levantando. Ninguém iria conseguir pará-lo.
olhou ao redor, mas não viu Steve.
Tony avançou tocando o Rolex em seus pulsos que se transformou em nano partículas de metais que cobriram sua mão. Ele defendeu um soco do soldado invernal, mas não conseguiu acertá-lo. O braço dele bloqueou o golpe, o som de metal contra metal ecoou e Tony foi lançado longe.
A última coisa que ela queria era reencontrá-lo daquela maneira, ela sabia que não ia conseguir pará-lo. Ainda assim avançou.
Com o comando a tiara dourada se transformou em uma fina máscara dourada que cobria metade do seu rosto, as pulseiras se desfizeram em minúsculas partículas de metal para se reconstruir em luvas douradas. tentou não parecer impressionada com isso caso Tony estivesse olhando.
Ela se lançou contra o Soldado, o punho esquerdo foi em direção ao abdômen e o direito já estava preparado para segurar o braço dele. Ele foi atingido e já havia o enfrentado vezes o bastante para saber que o sibilo que lhe escapou era de irritação, ele raramente era acertado.
O Soldado pousou os olhos sobre ela, nenhum traço de reconhecimento. Ele prendeu contra uma das pilastras do salão.
- A gente precisa melhorar nossa comunicação. - Ela murmurou prendendo um dos braços dele antes que ele a acertasse. - James, olhe pra mim.
Ele franziu a testa, um leve estranhamento passou pelas suas feições. Com bastante esforço, poderia tentar acalmá-lo.
Mas alguém avançou no Soldado, separando os dois. Era um homem negro, alto e que reconheceu como o príncipe de Wakanda que estava no encontro em Viena.
Ele tinha um estilo de luta corporal muito diferente, com movimentos mais bruscos e que impactavam de forma diferente e ao mesmo tempo lembravam os movimentos rápidos de um felino. Mesmo com essa habilidade ele não foi capaz de impedir que o Soldado o jogasse longe e desaparecesse no instante seguinte.
suspirou de frustração e se deixou deslizar até o chão próxima de Tony.
Os dois gemeram em uníssono.
Mas para ela não havia acabado. Sabia que Steve ia conseguir encontrá-lo e ela precisava ver os dois, havia algo em toda aquela situação que ainda não fazia sentido. Felizmente, ela não havia assinado acordo algum.
O que ela precisava fazer no momento era pegar o restante de sua armadura e ir embora. As duas coisas deixariam Tony muito irritado.


***


Voltar à consciência era sempre difícil e doloroso para Bucky Barnes. Não se sentia nem lá e nem aqui, uma parte soldado invernal e outra parte ele mesmo. A enxaqueca fazia sua cabeça pulsar, piscou os olhos várias vezes e seu corpo arrepiou. Percebeu que estava molhado, virou a cabeça e viu seu braço de metal preso em uma máquina de solda o que lhe deixava em uma posição bastante desconfortável.
Instintivamente tentou se soltar e percebeu um rápido movimento ao seu redor. Foi quando viu que era Steve de braços cruzados na sua frente. Até parecia bem sério, mas Bucky não se intimidou. Lembrava do Steve pequeno e magro que ele costumava defender em brigas no Brooklyn.
Ao seu lado estava Sam que parecia bem irritado.
As lembranças mais recentes haviam voltado à sua mente e ele percebeu o que havia feito. Escapou da prisão após o suposto analista ter ativado o outro lado dele, o lado assassino.
- Quero saber com que Bucky estou falando. - Steve disse, sua voz ecoou pela fábrica abandonada.
- O nome da sua mãe é Sarah. - Bucky pensou na informação mais próxima que poderia ter da infância dos dois. - Você colocava jornal nos sapatos e eu precisava te dar chocolate escondido, porque você não podia comer por causa da intolerância à lactose.
Ele lembrou de um dia em que Steve mesmo sabendo que ia passar mal, decidiu comer uma barra inteira de uma vez. Isso o fez rir.
- Ele não ia achar essas informações no museu. – Steve disse com uma sombra de um sorriso no rosto.
- E isso deixa as coisas bem? Ele é confiável agora? - Sam rebateu nenhum pouco satisfeito. Steve maneou a cabeça concordando, Bucky compreendia porque estavam tão receosos. Ele não confiaria em si mesmo no lugar deles.
- Quem era aquele homem e o que ele fez com você? - Steve perguntou, a postura inflexível.
Ao ver a força e a postura de Rogers, Bucky sentiu um traço de orgulho condensado em vários outros sentimentos. Ele engoliu em seco e tentou se concentrar.
- Ele falou as palavras de comando e eu perdi o controle.
- O que ele queria?
- Eu não sei.
- Bucky, dessa vez vou precisar de uma resposta melhor do que “não sei”. - Steve rebateu, Bucky sabia que pela tensão marcada na testa ele parecia ansioso. Conhecia Steve bem demais e se surpreendeu por saber desses detalhes de forma tão natural.
- Ele perguntou sobre a Sibéria, o lugar de onde eu vim. - Bucky sentiu que as palavras eram estranhas assim que saíram pela sua boca. A ideia da Sibéria ser a sua casa parecia errada, mas era lá que o Soldado Invernal havia surgido.
- Por quê? - Sam perguntou.
- Porque eu não sou o único soldado invernal. - Ele disse quando as lembranças ficaram compreensíveis. - Existe um exército desses soldados adormecidos. Eles falam inúmeras línguas diferentes, são habilidosos, podem se infiltrar e derrubar um país sem ninguém perceber.
- Era isso que Zemo disse que queria, derrubar impérios. - Concluiu Steve.
- Esse cara está atrás de um exército, precisamos pegá-lo antes que chegue na Sibéria. - Sam olhou para Steve, estava claramente pronto para agir só esperava o direcionamento do Capitão. Isso fez com que Bucky sentisse um alívio, era bom saber que Steve possuía aliados e amigos. Steve não estava sozinho.
Bucky sabia o preço de ser sozinho.
- Precisamos de reforço. - Steve concluiu. - Precisamos contar ao Tony.
- Acha que ele vai acreditar? - Sam indagou. - Mesmo que ele acredite, não acho que o Secretário Ross vai permitir qualquer ação.
Steve suspirou.
- Alguma ideia?
- Eu conheço um cara. - Sam sorriu de lado. - Podemos contatar Clint e tirar Wanda do complexo já que Tony a prendeu lá.
- Ótimo, então já temos apoio. - Steve concluiu, ainda de braços cruzados.
- Capitão, acha que ajudaria? - Sam perguntou após um momento de hesitação.
Bucky ficou atento ao nome mencionado, a imagem de Stark voltando à sua mente na forma de várias recordações. Ele observou o rosto de Steve para ter a confirmação de que estavam falando sobre a Stark.
Steve abriu a boca para responder, mas foi interrompido por uma vibração no ar que causou um leve zumbido. Sam e Steve conheciam o som o bastante para saber que era algo pousando. Passos do outro lado da comporta foram ouvidos, eram de metal.
Por um instante Bucky achou que era o Homem de Lata, o outro Stark. Mas a porta de ferro foi aberta e uma pessoa diferente entrou.
Ela tinha metade dos braços e das pernas cobertos por uma fina armadura de aço azul escuro da cor do uniforme de Steve. Detalhes dourados contornavam o metal em seus pulsos e na cintura. Ela tinha uma máscara fina dourada que cobria somente os olhos.
A Lady de Aço tocou o dispositivo em sua têmpora e a máscara se desfez em pequenas partes de aço voltando a ser somente um enfeite em sua cabeça.
Bucky encarou a figura diante de si.
- Não vou ser o reforço de ninguém. - Ela declarou com a voz suave, um leve divertimento passando pelos olhos. - Cansei de limpar a bagunça de vocês, rapazes. Agora eu sou linha de frente.
- Entendido, Lady. - Sam e ela trocaram um aperto de mãos elaborado, o que fez Steve quase revirar os olhos.
- Eu sabia que ela viria. - Ele explicou a Sam.
Steve direcionou um olhar sugestivo a Bucky e se virou para ele.
Os dois se olharam pela primeira vez em muito tempo e ele ficou feliz por não tê-la esquecido para sempre. E por um breve momento temeu que ela não se lembrasse dele. Ou pior, que lembrasse só da parte ruim.
Ela se aproximou lentamente dando tempo para que eles apreciassem os detalhes um do outro.
- Olá, Sargento Barnes. - Ela disse inclinando a cabeça, uma mesura que ela costumava fazer há muitos anos atrás. Bucky retribuiu o aceno, tenso imaginando que ela não se lembrava.
Então abriu um meio sorriso, aquele que ela dava quando eles compartilhavam segredos.
- Acho que dessa vez fui eu que te encontrei, James. - Ela disse.
Ele a observou novamente vendo os cabelos curtos que se enrolavam nas pontas, podia lembrar dos detalhes do uniforme de guerra dela. Hoje usava uma armadura bem elaborada, mas ainda tinha o mesmo sorriso.

Eu sempre vou te encontrar.

Ela se lembrava. Isso por um momento era tudo o que ele precisava. Para Bucky algo familiar era raro, ser reconhecido como ele mesmo e não apenas como uma arma era algo que ele não tinha há muito tempo.
- Você se lembra de tudo? - Ele perguntou, não podia deixar de confirmar.
- Lembro que me arranjava apelidos cafonas, sempre interrompia minhas leituras, vencemos algumas batalhas... - Ela citou como se enumerasse os fatos mentalmente.
Bucky estendeu a mão devagar em sua direção e ela a segurou.
- Me desculpe. - Ele murmurou baixo, porque também se lembrava da parte ruim. - Por ter ido atrás de você pela Hydra, por...
- Tudo bem, nós não tivemos escolha. - Ela respondeu apertando levemente a mão dele, porém isso não o aliviava por completo. poderia entender, mas algumas coisas que ele fez não poderiam ser apagadas.
- Ainda assim eu matei pessoas, pessoas que você... - Ele tentou dizer e ela se aproximou mais ainda até o abraçar, interrompendo o que ele iria dizer. Como estava sentado, a cabeça de Bucky encaixou perfeitamente no ombro dela. Mesmo vasculhando toda a memória que tinha, ele não se lembrava de um abraço tão aconchegante como aquele.
Ele sabia que não merecia, mas estava tão bom que não pode recusar.

Não vá embora.

Eles ficaram em silêncio, não havia mais nada além da saudade sendo deixada para trás.
Bucky sentiu uma mão apertar o seu ombro, a mão de Steve lhe dando apoio de novo. E por um instante em muito tempo, havia uma faísca dentro dele. Isso era o bastante para fazer ele continuar enfrentando todas as lembranças.

Fique e leve embora os sonhos ruins.

Em algum momento Sam e Steve saíram para contatar outros que pudessem ajudar, saiu do abraço para observar o braço de metal preso na máquina de solda.
- Você parece cansado. - Ela ponderou enquanto analisava a máquina. - Vou te tirar dessa coisa.
- Cuidado, dizem que sou incontrolável. - Ele disse com um leve tom de divertimento.
- Engraçado, dizem o mesmo de mim. - Ela encontrou o comando da máquina e manualmente tirou o peso de cima do braço de metal de Bucky permitindo que ele pudesse voltar a movimentá-lo.
Bucky alongou o braço e observou a peça acoplada ao corpo do Sargento.
- Acho que deveria tentar descansar um pouco. Eu fico de guarda, preciso deixar Tony longe daqui. - Ela tocou novamente o aparelho em sua têmpora que formou um visor à sua frente mostrando o mapa do local.
Bucky se sentou no chão no canto encostado à parede observando analisar o perímetro. Não queria dormir no início, poderia continuar observando-a, trocando lembranças com Steve e esquecendo o passado obscuro. Mas fazia tanto tempo que ele não dormia e o fato de que ia vigiá-lo lhe deixava mais tranquilo. Mesmo que os pesadelos viessem não seria por muito tempo.
- Você se lembra de tudo? - Ele perguntou querendo saber uma coisa antes de descansar. - Lembra de 1974?
o olhou pensativa, desviou os olhos levando um tempo para fazer uma busca em suas próprias memórias. Mas quando se virou para Bucky ele já estava de olhos fechados.
As ruínas da velha fábrica faziam qualquer pequeno som ecoar. podia ouvir uma goteira que parecia gritar a noite inteira, fora isso não havia nenhum som depois do anoitecer.
Temia que Tony não lhe dessem ouvidos e continuasse do lado do governo, se aquilo fosse longe demais quais seriam as consequências?
Teve que desativar boa parte de aplicações do sistema de sua roupa, a última coisa que queria era ser rastreada por Tony. Lamentava que isso tivesse acontecido logo quando os dois haviam ficado mais próximos e de certa forma sentia que estava falhando com Tony ao não o apoiar nessa decisão. Os Starks costumavam guardar rancor, Tony ia se lembrar daquilo pro resto da vida.
Bucky mexeu uma das pernas e seu peito subiu com a respiração descompassada. Ele havia caído no sono depois dela garantir a Steve que ficaria de olho nele. Estava quieto desde então, mas agora parecia estar sonhando.
Havia algo nas feições dele que quase a impediram de conter um sorriso. Era um brilho de reconhecimento e felicidade que durou apenas um segundo até que ele novamente se fechou e então os vários anos de tortura, missões e congelamento formaram uma enorme barreira.
Bucky mais uma vez se mexeu. A respiração era pesada, os olhos continuavam fechados e a posição em que ele estava parecia extremamente desconfortável. Ela pensou na pergunta dele, queria dizer que há pouco tempo recuperou as lembranças de 1974. Poderia dizer a ele em outro momento, quando ele estivesse seguro.

Nova York, 1974

Ghost e o Soldado Invernal foram mandados para Nova York no outono, assim teriam tempo para estudar os locais frequentados pelos dois cientistas contatados e realizar a missão no início do inverno. Eles haviam sido capturados durante a Guerra Fria sob suspeita de fazerem parte de uma organização que apoiava a guerra contra os EUA, a américa manteve os dois sob custódia deixando que seguissem com a pesquisa cientifica a favor da América. Esperavam que eles contribuíssem com informações do que estaria sendo preparado no leste europeu. Viveriam em instalações do governo, sendo monitorados e trabalhando a favor da américa, assim seriam chamados de contribuintes ao invés de criminosos.
A instalação ficava na fronteira com Long Island, Ghost e o Soldado fizeram sua base temporária em uma cabana abandonada. Naquela região montanhosa fazia mais frio e era difícil que alguém resolvesse passar uma temporada de férias por ali por conta da temperatura. Precisavam apenas de três dias naquele lugar sem serem notados, era o suficiente.
Sempre eram designados para casos de urgência, nunca a longo prazo. A Hydra precisava mantê-los nas rédeas, então cumpriam a missão e voltavam direto para casa.
Casa era uma palavra estranha para Ghost.
Ela havia se deparado com palavras estranhas em alguns momentos e a primeira delas foi "por quê". Mas não podia perguntar pra alguém aquilo, não havia ninguém que valesse a pena perguntar. Seu companheiro, o Soldado Invernal, não falava. Era tão silencioso quanto ela.
Mas às vezes a mente dele poderia ser igualmente barulhenta.
Quando chegaram na cabana, Ghost vasculhou a área ao redor para se certificar que não havia ninguém nas proximidades. O Soldado bloqueou as janelas para que ninguém pudesse ver o interior do local, alimentou e acendeu a lareira, depois espalhou algumas armas estratégicas para ter uma sempre ao seu alcance caso alguém invadisse a cabana.
Ghost armou pequenas armadilhas ao redor do local, assim saberiam caso alguém se aproximasse. Os dois organizaram os materiais que haviam levado. Dois colchões estreitos e infláveis que ficaram em lados opostos do cômodo, os alimentos para seis refeições de cada um ficaram sobre a mesa no centro que era o único móvel do local junto com três cadeiras.
Ela iniciou o turno de vigia do começo da noite. Agiriam na noite seguinte.
O Soldado havia comido seu lanche previamente preparado, permanecia em silêncio enquanto comia, lavou o rosto e as mãos quando terminou. Tirou a camisa porque a lareira havia deixado a cabana de um cômodo só muito bem aquecida e se deitou sobre um estreito colchão inflável no canto da parede.
Ghost terminou sua refeição com calma. Era uma barra, alguns grãos, pão e água. Quando chegasse na Rússia, poderia receber um banquete devido a missão que até lá estaria comprida. Depois de terminar, limpou tudo, apagar qualquer indicio que alguém estivera ali era sua especialidade. Deixou o fogo da lareira baixo, já tinham calor o bastante para uma noite.
Ela tirou a parte de cima do macacão preto, este era sem símbolos para que ninguém soubesse de onde vinham e permaneceu com a regata branca do uniforme. Inclinou a cadeira de madeira até que os pés dianteiros do objeto deixassem o chão para que ela pudesse se balançar quando ficasse entediada demais. Havia tirado os coturnos e ficado com as meias, apoiou os pés sobre a mesa e ficou escutando o silêncio da noite.
Durante as duas primeiras horas só se podia ouvir o assovio do vento passando pelas frestas de madeira da cabana. Mas depois o Soldado começou a se mexer no colchão estreito.
Os ouvidos atentos de Ghost notaram a respiração irregular, ele movia a cabeça e os membros devagar, mas assim que a cabeça parava era o braço ou a perna que mexia. Não esperava que alguém como ele fosse tão inquieto dormindo.
Ela observou nos primeiros minutos e ele parou. Mas exatamente vinte minutos depois a respiração irregular voltou. Analisando as respostas corporais, Ghost concluiu que ele estava sonhando e que isso o impedia de ter um sono tranquilo, ele poderia ficar cansado durante a vigia.
Ghost decidiu que deveria verificar um jeito de fazê-lo parar.
Ela tirou os pés da mesa e pousou a cadeira no chão devagar. Se levantou e se aproximou com cautela.
Ao abaixar para se sentar ao lado do colchão, ela percebeu que ele murmurava alguma coisa.
Ghost levantou a mão em direção ao rosto dele. Quando dormiam demais alguém os acordava com um tapa na Hydra ou com um balde de água gelada. Mas ela não queria acordá-lo, queria que voltasse a ter um sono quieto. Olhou para o peito dele. Deveria cutucá-lo? Talvez tocar a cabeça? Não tinha um protocolo para seguir nesse tipo de situação. Observou o tórax dele e os braços, o de metal refletia o reflexo da lareira com fogo baixo.
De repente ela percebeu que a respiração dele estava estática. Ghost notou que o Soldado estava prendendo a respiração e a mão dela continuava estendida na direção dele.
Ela lentamente olhou para o seu rosto e viu os olhos azuis obscurecidos pela pouca luz, ele tinha acordado e estava a observando.
Normalmente ele deveria ter reagido, eram treinados para sempre estarem alerta. Ghost teria achado a aproximação ameaçadora no lugar dele, não teria observado esperando pelo toque.
Ela fechou a mão e começou a recolher o braço, mas ele se moveu tão rápido quanto o vento e segurou o braço dela com o seu de carne e osso e ela pode sentir o toque dele.
Sentir era mais uma palavra muito incomum para Ghost. Mais precisamente o significado. Ela nunca era permitida a sentir, tudo o que conhecia era seguir. Mas não havia nenhuma ordem no momento, nada a obedecer e por isso quando levantou o outro braço para se soltar deixou que o Soldado segurasse ele também com o seu braço de aço.
Havia algo ali nos olhos dela que parecia tão familiar para ele. Familiar era algo tão distante, porém tão bom. Fazia com ele sentisse que seu peito estava rasgando e sendo costurado no instante em que ela o olhava diretamente daquela forma. Estivera tendo um sonho ruim, um pesadelo que voltava todas as noites e nunca acabava. Ele acordava angustiado, desolado e nem mesmo conseguia se lembrar do que sonhou.
Mas olhando para ela naquela noite, ele sabia que havia algo a ser lembrado. A memória consciente ainda não deixava claro o quê, mas havia uma memória sensorial no toque da pele dela que levou a angústia embora. Assim que ele abriu os olhos e viu a mão dela estendida em sua direção, ansiou pelo toque. E o Soldado Invernal nunca havia ansiado tanto por algo em sua vida.

Fique e leve os sonhos ruins embora.

- Já se perguntou por quê? - Ela murmurou a pergunta que estava apitando em sua cabeça, não sabia mais o que dizer. Era um questionamento a tudo que não recordavam.
Eles nunca podiam questionar, desejar, escolher. Mas o questionamento surgiu desde que eles se enfrentaram no salão, punho contra aço. Tudo parecia muito errado, diferentemente de agora. Agora quando o Soldado tocava os braços dela, parecia certo.
Não havia uma ordem a seguir, não sabia qual o protocolo para a situação. Ninguém havia os ensinando sobre desejo, sobre sentir. Mas sabiam que em algumas situações era necessário agir, e que atitude poderia ele ter além de não deixá-la ir embora naquela noite?
Ele aproximou o rosto em direção a ela até as respirações se tornarem uma só. Lábios se encontraram, um toque mais quente e convidativo do que a própria lareira. O gosto dela era suave quase nostálgico como se escondesse uma década de lembranças. Ele era firme no toque das mãos enquanto os lábios era um pedido e ao mesmo tempo uma entrega, ele mesmo não sabia há quanto tempo esperava por aquilo.
As mãos nos braços já não eram o bastante, então ele a soltou só para trazê-la para mais perto. A mão de metal ficou nas costas dela, cuidadosamente a apertando em um abraço enquanto a outra passava pelo cabelo e descia pelo pescoço.
As mãos dela sempre foram habilidosas, o abraçando aos poucos dançando traços pelo seu corpo.
De repente ela que estava ali matava uma saudade tão profunda e encoberta. O carinho dele preenchia um vazio tão grande e frio. Era uma espera tão longa, uma resposta que finalmente havia chegado, uma faísca que se transformou em um incêndio. Haviam se separado muitos anos antes enquanto chamas se espalhavam ao redor do acampamento, mas agora se encontravam um na chama do outro. Não sabiam como haviam começado, mas o momento era real e talvez tivessem se encontrado em uma outra vida há muito tempo atrás. Mesmo que não se lembrassem disso naquele momento, eles eram mais eles mesmos.
Ele a puxou para a cama. Ela estava agora em seus braços.
, não mais Ghost.
Bucky, não mais Soldado Invernal.




Continua...



Nota da autora: Olá, galera. Que saudade! Esses dois últimos capítulos deram trabalho, até pensei em reduzir algumas coisas. Mas como o tempo foi passando, eu achei que vocês iriam gostar de uma atualização grandinha, haha. Estou muito feliz pela história finalmente ter chegado nessa parte, aaaa. Eu mal vejo a hora de ver o que vocês acharam, de ler os comentários e de continuar o desenrolar dessa fic. Enquanto o site não atualiza, eu sempre fico na página relendo as msgs de vocês. Comecei a estudar coreano, então mais um pouco e a beta Carolina vai receber meus e-mails só em coreano kkkk. Queria agradecer à minha amiga Juliana Turcato que sofreu enquanto eu mandava os trechos dos capítulos pra ela, nos conhecemos devido a nossa paixão pela Marvel e eu não podia deixar de citá-la com muito amor. Eu espero que vocês se divirtam e que essa história continue falando de um jeito especial com vocês. Até a próxima att.





Outras Fanfics:

» Colors - [Heróis - DC - Shortfics]

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus