FFOBS - Colors, por Priscila Delour


Colors

Finalizada em: 22/06/2018

Capítulo Único

Red

Like the colors in autumn, so bright just before they lose it all
(Red - Taylor Swift)


O dia havia amanhecido nublado em Metrópollis. Não estava frio, mas definitivamente não parecia ser um dia de verão. sentia falta do estilo ensolarado de Los Angeles, mas aprendeu a amar também a nebulosa Metrópolis com as suas cores neutras.
Passou a infância na Califórnia, mas após o divórcio de suas mães, ela se mudou. Adaptou-se bem ao término da faculdade e em vez de fotografar a vida cotidiana de famosos em Hollywood, agora era uma das fotógrafas do Planeta Diário. Bem, ainda era uma freelancer tentando um cargo efetivo, mas já era um começo.
Não era a mais requisitada do chefe, mas de fato não havia outro profissional que se arriscava tanto. E ninguém conseguia acertar o ângulo do Superman como ela. Mas as fotos do Superman ela guardava para si, um hábito adquirido a partir da primeira vez que o viu de perto. Sempre recordava da ocasião e ainda mantinha as imagens na parede de seu quarto especial de fotografias no seu pequeno e decadente apartamento.
Lembrava-se do dia em que tirou a primeira foto que marcaria a nova fase de sua vida. Nesse dia um incêndio se formou em um prédio residencial da cidade. Toda a estrutura de 6 andares estava em chamas instantes depois do fogo ter iniciado. O Planeta Diário soube da ocorrência através de um chamado dado pela polícia pelo rádio. havia acabado de mostrar para o chefe as fotos da próxima matéria que seria intitulada "A poluição em Metropólis. Estamos sufocando?", o que para parecia um título ridículo, mas as fotografias da cidade eram boas.
- Essas fotos são uma porcaria, mas vou te dar um bom preço por elas. - Disse Perry White, o diretor do jornal, um homem alto, negro e que tinha alguns fios grisalhos.
- Quer dizer o meu salário, certo? Disse que eu seria efetivada esse mês, estou como freelancer há dois anos! - Ela exclamou, a mão segurando firmemente a câmera profissional pendurada no pescoço. A vontade que tinha era de partir a lente na cara dele.
Ele levantou os olhos do papel e a encarou com os olhos semicerrados.
- Temos uma ocorrência na área leste na cidade, um prédio em chamas. Preciso de fotos dramáticas e só temos você disponível. - Ele cruzou os braços a observando dos pés à cabeça, como se julgasse que ela não era capaz. - Consiga imagens que me façam chorar de emoção, aí então falaremos de sua efetivação depois.
lançou um olhar severo para ele. Não só ia ter as melhores fotos, ia fazê-lo engoli-las.
Alguns minutos depois ela estava descendo da van do Planeta Diário com a câmera em mãos, carregando no ombro a bolsa que tinha o filtro e as lentes caso precisasse. Não poderia levar o tripé, em meio ao caos de bombeiros, policiais, paramédicos e vítimas, ela teria que se mover.
Tudo ao seu redor parecia um borrão de cores neutras sendo invadidas por tons de amarelo dos bombeiros e tons de vermelho de vítimas. Ela captava os detalhes e a câmera registrava. Seus olhos eram os filtros, a lente era sua arma.
Um grito soou alto e desesperador pelo quarteirão. ergueu os olhos para o prédio em chamas. Na última janela havia a silhueta de uma pessoa que sacudia os braços em meio a fumaça, gritava por socorro. O prédio já estava inteiramente em chamas, uma fornalha que erguia no meio da cidade. Os bombeiros encaravam a estrutura, havia lamento e tristeza no olhar deles. Ela compreendeu, não havia como salvar a mulher.
correu para mais perto, ultrapassou a faixa amarela da segurança, alguém gritou um xingamento pra ela. Quanto mais ela avançava a fumaça ficava mais forte, o ambiente perdeu a cor, tudo era cinza e em alguns pontos era dourado devido às chamas. Estava quase na calçada do prédio quando um vulto passou pelo céu circulando o prédio. Ela parou observando lá de baixo as cores vermelho e azul do homem lá em cima que desafiava o dourado do fogo que se erguia até o céu.
Ele entrou no prédio, posicionou a câmera esperando por ele.
Superman saiu do prédio com a vítima no colo. O ângulo era perfeito, ele estava de frente pra ela, pousando no chão com a capa tremendo em meio ao caos. Um deus grego salvando um mortal. bateu a foto e abaixou a câmera para contemplar com os próprios olhos.
Ele pousou na frente dela, poucos metros de distância. Grupos de paramédicos correram e esbarraram em Di ao passar, pegaram a mulher desacordada dos braços do herói. A fotógrafa se aproximou com alguns passos e então ele a olhou, a olhou profundamente nos olhos. A expressão dele era como de contentamento, ela podia jurar que os lábios se curvaram na ponta como se ele estivesse contendo um sorriso.
Com um movimento ágil, ela ergueu a câmera e registrou mais uma foto, cara a cara com ele. Então ele realmente sorriu e voou para longe no segundo seguinte, o vento fez o gorro vermelho dele voar e se perder no caos.
Naquele dia ela retornou ao Planeta Diário cheirando à fumaça, correu para revelar as fotos e as colocou em um envelope. Poderia ter enviada por e-mail, mas faria questão de ver a reação do chefe cara a cara. Correu apressada pelos corredores, passou pelo andar da redação e acabou esbarrando em um rapaz alto que usava camisa xadrez e óculos, ela se desculpou rapidamente e ele a olhou por um longo segundo, pareceu ser familiar, mas ela não parou para pensar e marchou até a mesa do chefe.
Quando ela se aproximou, ele ergueu os olhos para encará-la da mesma maneira que havia feito mais cedo.
abriu o envelope, tirou as fotografias e as jogou em cima da mesa.
- Espero que tenha preparado os lenços. - Anunciou quando ele pegou as fotos, observando cada uma em silêncio. Olhou para as imagens dos bombeiros carregando as vítimas, as famílias de sobreviventes se abraçando, o prédio sucumbindo em chamas. Então ele parou quando olhou a imagem do Superman resgatando a mulher enquanto entrava no prédio, olhou para a outra foto dele pousando com ela e quando ele estendeu a mão para alcançar a terceira - a foto do sorriso secreto do herói, a tirou da mesa e guardou de volta ao envelope.
- Essa última não. - Ela declarou. Ele a encarou como se em parte estivesse admirado e em outra achasse ela um pé no saco.
- Muito bem. Quero a do Superman resgatando a mulher para a primeira página...
- Ah, se quer ela na primeira página, eu vou escolher a legenda da foto. - Ela cruzou os braços decidida, a equipe do jornal tinha um péssimo gosto para títulos e derivados.
Ele revirou os olhos e suspirou, passou as mãos pelo rosto e depois afirmou com a cabeça.
- Tudo bem, as fotos são realmente boas. Você tem sua efetivação. - Ele declarou por fim.
Ela sorriu e arqueou a sobrancelha.
- Você me deve um gorro novo. Perdi o meu preferido hoje.
Ele revirou os olhos e abriu a gaveta da mesa, retirou de lá um cheque e assinou.
- Uma pequena bonificação por sua perda. - Disse ao entregar o cheque.
No dia seguinte a foto que tirara estava na primeira matéria e a legenda era: o vermelho da esperança em meio as cinzas. Ela guardou a matéria e a pendurou em um quadro no quarto ao lado da foto do sorriso secreto do herói que ela guardou pra si.

Gray


Depois da primeira reportagem ter feito um recorde de vendas para o Planeta Diário, era a escalada para registrar as melhores fotos do Superman. Ela chegou a receber propostas de outras empresas do ramo da mídia, além disso era sempre chamada para emergências pois, segundo o diretor de redação, suas fotografias faziam qualquer um chorar.
Infelizmente, com o decorrer do tempo, o diretor e alguns do grupo de redação começaram a questionar a conduta do herói, e o discurso midiático produzido pelo Planeta Diário começou a ter uma linha um tanto quanto distorcida da realidade e estava influenciando na opinião dos leitores que tomavam partido sem refletir sobre o que lhes era apresentado.
"Superman: a salvação ou a destruição?" era o título da matéria de Julho, seria a primeira capa de novo, e lá estava a foto mais recente que ela tinha do Superman sobrevoando a cidade.
Ao ver o rascunho da redação, mal conseguiu terminar de ler as palavras da jornalista Lois Lane. Amassou o papel com uma das mãos e marchou novamente até a sala do chefe. Passou pelo corredor dos redatores e ao chegar na sala do diretor, encontrou a porta aberta e entrou com o papel amassado em mãos.
Lá dentro o chefe parecia estar em uma discussão calorosa com outro funcionário, um homem alto com camisa xadrez, óculos com um rosto perfeitamente esculpido em uma expressão de descontentamento.
- Não me interessa, Kent! Quero essa matéria na primeira capa amanhã, é uma ótima matéria. - O chefe levantou o tom de voz para homem a sua frente e só então encarou do outro lado. - O que diabos você está fazendo aqui?
abriu o papel em suas mãos e mostrou a matéria como se o motivo fosse óbvio.
- Não quero minha foto nessa porcaria de matéria.
O chefe se levantou batendo as mãos na mesa com um berro.
- Quem é o chefe dessa merda?! Sou eu! Eu escolho que matéria e fotos serão publicados. Se estão descontentes tirem essas bundas moles dessa empresa! - Então ele se calou e encarou os dois, Kent e .
Ela ficou feliz por ter deixado a câmera em cima da mesa do outro lado do andar, poderia ter de fato quebrado a máquina na cara do chefe. Iria acabar sendo indenizada, ou pior, ter que comprar uma nova câmera.
- Eu entendo que nem sempre concordem com o que é apresentado pelo jornal, afinal temos várias opiniões aqui dentro. - O diretor falou com a voz mais branda. - Valorizamos o trabalho de vocês, mas nem todos veem o Superman como herói e temos que apresentar isso também.
permaneceu calada e Kent rígido como mármore.
- Preciso de vocês para a cobertura das finais hoje. Os Lakers contra o Chicago Bulls. Temos lugares especiais, vai ser bom para fotos exclusivas e os detalhes do jogo. - O chefe voltou a se sentar. - Preciso que estejam lá hoje à noite, a matéria sairá na seção de esportes. - Então ele voltou a encarar a tela do computador como se o assunto estivesse resolvido.
saiu bufando da sala com Kent logo atrás.
- O Planeta Diário mostrar várias opiniões? Devíamos mostrar a verdade. - Murmurou Kent ao seu lado, mais para si mesmo do que pra ela.
- Eu concordo. - Ela suspirou. Então ele parou no corredor e tocou no braço dela fazendo-a a parar e olhar para ele.
- Suas fotografias são incríveis. Eu vi as outras matérias. - Ele disse com a voz serena, um leve sorriso nos lábios que trouxe novamente a sensação de reconhecimento incômoda. - Sinto muito que nem sempre as usem da maneira que você gostaria que o mundo visse.
- Obrigada, Kent... - Ela devolveu o sorriso com o agradecimento sincero. O elevador parou no andar e entrou.
- Me chame de Clark.
- Então te vejo no jogo, Clark. - Ela respondeu e as portas do elevador se fecharam.
À noite, a fotografa seguiu para o seu trabalho da vez que consistia em registrar os dribles e cestas de caras altos e suados. Sentia-se desanimada, o que mais queria era ter a imagem espetacular, registrar um momento importante que fizesse as pessoas sentirem o momento ao olhar para a foto. Duvidava que fosse encontrar algo assim em um jogo de basquete.
Ainda assim entrou no estádio com o crachá de acesso especial, a bolsa com o seu material sempre pendurada ao ombro. Olhou para o ingresso e checou a fileira e a poltrona, seguiu para o acento na terceira fileira. Na poltrona do centro estava Clark Kent ajeitando os óculos com um tablet no colo.
se aproximou e sentou ao lado dele.
- Hey, Kent. - Ela cumprimentou e o olhou nos olhos ao se sentar. Ele sorriu e era o tipo de sorriso perfeito e seguro que geralmente deixavam as outras pessoas desconcertadas.
- Clark. - Ele corrigiu e mexeu-se na cadeira mudando de posição para inclinar o corpo na direção dela. O olhar dele pareceu durar um longo segundo.
- Clark. - Ela concordou e baixou os olhos para a sua bolsa, a abriu tirando a melhor câmera que tinha para a ocasião.
- Gosta de basquete? - Ele perguntou agora olhando para a plateia que se preparava para o início do jogo.
- Han... Não. - Ela suspirou passando a alça da câmera pelo pescoço. - Quer dizer, não ligo muito. Queria fotografar outras coisas.
Clark olhou para câmera e depois para ela.
- Outras coisas como o quê?
- Qualquer coisa que dê esperança. - Ela respondeu e o olhar de Clark mudou para uma expressão compreensiva e ele sorriu de novo. Foi um sorriso aberto e espontâneo, quis guardar aquele gesto e habilmente levantou a câmera e com o filtro preto e branco registrou o sorriso de Clark.
Ele franziu o rosto um pouco sem graça, mas a foto em tons de cinza destacando o seu sorriso já estava registrada.
A plateia explodiu em gritos e palmas quando os times entraram na quadra. Clark e passaram a se concentrar no jogo, ela se sentiu bastante limitada sem poder levantar muitas vezes para escolher os ângulos e Kent não parecia nada animado com as anotações que fazia de cada jogada.
Pareceram horas intermináveis, no intervalo Clark sugeriu que ela comesse alguma coisa, mas recusou e acabaram dividindo apenas um refrigerante.
O melhor momento foi quando os Lakers fizeram seu último arremesso, ela já estava preparada, deu o close certo e fotografou a marcação de cesta que levou o time à vitória.
Os torcedores explodiram de alegria enquanto ela e Clark explodiam de alívio, tinham sobrevivido. Saíram das fileiras e andaram pelo estádio junto a multidão na direção da saída.
- Não sabia que você era comentarista esportivo. - Ela comentou ajeitando a alça da bolsa em seu ombro, Clark caminhava ao seu lado com a jaqueta pendurada no braço e uma das mãos no bolso da calça jeans, ele riu.
- Não sou. Na verdade, o trabalho de hoje foi um castigo para nós dois. - Ele respondeu quando saíram da parte coberta e caminharam até o estacionamento.
- Espero que isso não aconteça toda vez que alguém defender o Superman. - Ela sorriu e tocou no braço dele. - Te passo as fotos por e-mail, ok? Boa noite, Kent... Digo, Clark.
Ela começou a se afastar, Clark apertou a chave do carro indeciso.
- Mas está tarde, Di! Posso te dar uma carona. - Ele ponderou, mas ela continuou andando e se virou com um sorriso.
- Não se preocupe, é rápido até minha casa. - Falou já distante, o vento soprou forte e ela segurou o gorro. - Boa noite, Clark.
Ele assentiu, a viu partir e seguiu até o carro.
caminhou para fora do estádio passando pelo portão. Era quase meia noite, mas cruzando duas ruas conseguiria pegar o metro a tempo. As ruas estavam quietas e vazias a não ser pelos restaurantes 24h abertos, não havia comércio ou pedestres pelas ruas.
Ela caminhou com passos apressados, já conhecia as ruas como as linhas de sua mão. Sabia se virar já que não podia contar com um carro próprio ainda. O mundo parecia muito silencioso e o único som que conseguia distinguir era dos seus passos e a sua respiração.
Há alguns metros de distância, havia um grupo de quatro homens. Falavam baixo, só era possível distinguir os sussurros e a fumaça de hálito quente entre eles. Ela diminuiu o passo cautelosa, tentou pensar rápido no que poderia fazer. Não poderia correr o risco de fazer o caminho alternativo e perder o último trem.
Atravessou a rua para o lado contrário e continuou sem olhar novamente para o grupo do outro lado na esquina. Passou por eles e então ela percebeu que a conversa parou, eles interromperam as falas e observaram ela passar. Um deles assoviou para chamar atenção, mas continuou com os passos firmes.
- Ei, por que não para pra falar com a gente? - Gritou um dos homens andando em sua direção. Ela acelerou o passo o deixando pra trás.
- Se acha bonita demais pra isso? - Gritou o segundo. Ela ouviu passos apressados atrás de si, percebeu que eles estavam vindo atrás dela.
Merda, pensou olhando para a frente, a rua estava escura. Talvez conseguisse correr.
Eles apressaram o passo atrás de si, começou a correr, mas um deles alcançou a sua bolsa e a puxou para trás. Imediatamente ela reagiu o chutando entre as pernas. Ele gemeu e se agachou.
Os outros três riram e se aproximaram.
- Essa é durona. - Disse o que segurava a garrafa, o bigode dele parecia encharcado de álcool. Dois começaram a cercá-la pela direita e pela esquerda.
- Passe a bolsa, vadia. - Resmungou o que se levantava com a mão entre as pernas. o acertou no nariz com raiva, foi sem pensar. Ela podia sentir o sangue fervilhar, sabia que não devia reagir, mas ninguém podia chamá-la de vadia!
- Olha garota, não reaja. - Disse o que estava à sua esquerda. - Passe a bolsa e vamos para o beco nos divertir.
Eles a cercavam e se aproximavam devagar, estava encurralada. Tentou se afastar, mas eles a estavam guiando para o beco escuro do lado esquerdo.
sentiu o pânico crescer em seu peito, o pulso tremia e o sangue martelava em sua cabeça. Não ia deixar que tocassem nela, preferiria morrer a deixar que algo assim acontecesse.
- Se querem as minhas coisas podem levar. - Ela murmurou tentando manter a distância, eles formaram um círculo ao seu redor. - Mas não toquem em mim.
O que segurava a garrafa riu e engasgou com o próprio riso. O que ela havia acertado entre as pernas balançou a cabeça.
- Nós só queremos nos divertir. - Murmurou o que estava na sua direita, ele havia se aproximado e sussurrado pra ela. sentiu a repulsa explodir dentro de si, girou a alça da bolsa e acertou ele na cabeça. O homem à sua esquerda se precipitou e agarrou o seu pulso, ela acertou o nariz dele com o cotovelo.
O que estava na sua frente avançou, ela ergueu a perna para um chute, mas ele estava mais atento e agarrou-lhe a perna e a puxou. perdeu o equilíbrio e caiu no concreto gelado. Um deles a agarrou pelas costas e a ergueu do chão, os outros dois tentaram agarrar os seus braços, ela pisou no pé do que segurava as suas costas e torceu os braços para se soltar dos outros dois. Em meio aos gritos dela e os socos que ela acertou, a câmera que estava em seu pescoço se soltou e caiu no chão. Um flash estourou no ambiente quando a câmera chocou contra o concreto. A luz iluminou o beco por um instante, conseguiu ver a silhueta de alguém, instantes antes de ouvir um dos homens gritar e o barulho de ossos se quebrando. Em seguida, o que estava à sua direita foi arremessado contra a lata de lixo.
Então ela o viu quando a luz do poste refletiu o símbolo em seu peito. Superman se aproximou dela, em instantes tinha derrubado os quatro homens, foi em um piscar de olhos. Ela respirou fundo aliviada.
Ele se aproximou devagar como se estivesse dando um tempo para ela perceber que ele estava ali para ajudar. O rosto sereno dele estava pouco iluminado, a vestimenta azul parecia preta com a pouca iluminação e capa vermelha parecia estar cinza tremeluzindo no beco.
- Você está bem? - Ele perguntou e a tocou no ombro. Ela balançou a cabeça, o alivio estava tomando conta do seu corpo, conseguia sentir o choque a deixar agora. Ele se abaixou e pegou a câmera do chão, se levantou e a olhou nos olhos, pareceu estar de fato preocupado.
- Espero que não tenha quebrado. - Ele colocou a máquina em suas mãos. Ela apertou a câmera até as pontas dos dedos ficarem brancas.
- Obrigada. - Sussurrou.
Ele estendeu a mão e acariciou o seu rosto afastando as lágrimas, só então ela percebeu que tinha chorado.
- Onde é sua casa? - Ele perguntou, a voz baixa e serena passava segurança. Ele era alto e musculoso, levantou um pouco a cabeça para olhar o seu rosto.
- Moro em um apartamento na parte sul, na rua Lincoln. - Ela respondeu ainda sentindo o rosto quente onde ele havia tocado. - Eu ia pegar o metrô.
- Vou te levar pra casa. - O tom era decidido, ele não estava perguntando. Levou a mão até o braço dela e se aproximou. Passou a mão pelas costas dela e a ergueu, a outra mão segurando suas pernas.
Instintivamente segurou-se nele e o Superman voou. Ela teria gritado, mas perdeu o fôlego quando o vento atingiu o seu rosto. Podia ver o céu envolvê-los e o ar frio soprar entre eles, inclinou de leve a cabeça e viu as luzes da cidade lá embaixo, pareceram tão minúsculas que só então ela deu conta do quão alto estavam voando. Sentiu o corpo tremer, mas o Superman apertou o abraço.
- Não olhe para baixo. - Disse ele sorrindo para tranquilizá-la. - Qual é o seu prédio? - É o mais antigo, cor de tijolos. O único prédio com sacadas. - Ela fez um esforço para olhar e apontou o edifício para ele. - Sou do último andar....
Então ele se curvou levando o corpo dela junto enquanto mergulhavam no ar em direção ao apartamento.
achou que ele a deixaria na calçada e partiria, mas ele pousou na sacada de seu apartamento, ela olhou para a porta de vidro fechada e para as suas velhas cortinas e depois para ele que tinha o rosto pouco iluminado pela noite.
Levou um longo segundo até que ele a deixasse descer de seu colo colocando-a no chão, a mão continuou pousando em sua cintura. Com uma das mãos ela segurava a câmera, a outra estava no braço dele.
- Obrigada. - Ela o olhou nos olhos. Naquele momento estava escuro e não podia ver os detalhes da cor dos olhos dele, mas sabia pela expressão que ele parecia estar apreciando o momento.
- Não devia andar sozinha tarde da noite. - Ele ergueu as sobrancelhas explicando o óbvio, sorriu. - Metropolis é uma cidade perigosa.
- Eu sei, mas acreditei que chegaria bem até o metro. - Ela explicou e então olhou para dentro do seu apartamento percebendo que ele havia acabado de salvar sua vida e ela devia pelo menos convidá-lo para entrar. - Você gosta de café?
Ele riu baixo e ela não entendeu o motivo, ainda estava aprendendo a ler ele.
- Vamos entrar! - Ela convidou com um sorriso e a voz era um doce sussurro tímido e isso fez ele sorrir abertamente e balançar a cabeça de forma negativa.
- Ah, qual é?! Aposto que mesmo os super heróis fazem pausa para o café. - Ela insistiu e se afastou virando-se para as portas de vidro da sacada, abriu afastando a cortina e entrou na sala acendendo a luz. Se virou para o Superman pronta para mais um argumento, mas ele já não estava mais lá. Ele partira em uma noite nublada.
Ela ainda correu até a sacada na tentativa de vê-lo uma última vez naquela noite, mas ele não estava mais por perto.
- Obrigada. - Sussurrou para o céu e voltou a entrar no apartamento.

Yellow


Look at the stars, look how they shine for you and
everything you do. Yeah, they were all yellow.

(Yellow - Coldplay)


No dia seguinte ao jogo de basquete, chegou ao Planeta Diário e verificou com a equipe de fotógrafos o que cada um faria naquela manhã. Eles trocavam as atividades do trabalho e naquele dia, estava escalada para digitalizar e editar as fotos para as matérias diárias enquanto outra pessoa ia pra campo com os repórteres.
Quando ela se sentou na mesa da edição, Lois Lane passou pela porta da sala e bateu na porta aberta para anunciar que estava lá.
- , o Perry quer que você o encontre na sala dele. - Lois declarou e prontamente se levantou para sair.
Lois a acompanhou pelo corredor.
- Eu fiz uma proposta ao Perry, gostaria que você ficasse fixa na minha equipe de campo. Espero que não se importe, quer dizer, acho que você tem muito talento e poderíamos usar melhor o seu trabalho. - Lois disse enquanto caminhavam pelos corredores. A maioria das salas possuíam divisórias e portas de vidros para passar transparência e melhorar a comunicação, naquela situação permitia que olhasse para qualquer coisa menos para a cara de Lois Lane.
- Olha, eu não sei bem. - disse quando chegaram em frente ao elevador. - Não gostei da última matéria que fizeram do Superman e não foi de acordo com o que eu queria passar com aquela fotografia.
Lois maneou a cabeça.
- Eu entendo e esse é um dos desafios de trabalhar com uma equipe fixa, lidar com os diferentes pontos de vistas. - Lane declarou enquanto o elevador abria e um fluxo de pessoas passava por elas. - Não quero você só pelas fotos do Superman, eu quero a sua visão de mundo pra equipe.
Aquilo fez parar para refletir e lembrar que seu trabalho era com as imagens e não com os argumentos da matéria, talvez uma equipe de diferentes áreas pudesse abrir sua visão para enxergar outras cores.
- Obrigada, Lois. - Ela olhou nos olhos da outra. - Eu vou pensar a respeito.
Lois sorriu e entrou no elevador no mesmo momento em que Clark saia.
- Bom dia, Kent. - Lois cumprimentou quando ele passou por ela.
-Bom dia, Lois. - Ele respondeu e parou de frente para . O elevador atrás dele se fechou. - Bom dia, voltou bem para casa ontem? Ouvi dizer que a região é perigosa.
sorriu e balançou a cabeça.
- Havia um grupo de homens bêbados na rua, mas eu cheguei bem em casa. - Ela respondeu. - Cheguei muito rápido, voando praticamente.
Ele riu e de repente a piada interna dela não pareceu tão particular.
- Da próxima vez eu a acompanho até em casa, sem objeções. - Ele afirmou ainda com um sorriso. - Bem, você está saindo para campo hoje?
- Na verdade, hoje é meu dia de escritório. Vou ficar na edição.
- Bem, nesse caso, gostaria de almoçar comigo? - Clark perguntou tentando ser casual demais. - Podemos discutir mais sobre basquete.
riu, os dois detestavam basquete.
- Claro. Eu tenho que passar na sala do Perry e editar as imagens da seção de política. Então meio-dia a gente pode se encontrar na entrada do prédio? - Ela perguntou também entrando na tentativa de ser casual demais.
- Claro. - Kent deu um visível sorriso aliviado. - Então até logo.
Ele se virou para continuar o seu caminho e seguiu para o corredor à direita. Bateu na sala de Perry e ele sinalizou para que ela entrasse.
- , suas fotos foram publicadas hoje na seção de esportes e fizeram sucesso. - Ele afirmou com o mesmo tom crítico de sempre. - Já recebeu convites para ficar numa equipe fixa, dois repórteres solicitaram você.
- Dois? - Ela perguntou curiosa. - Achei que só Lois havia feito a proposta.
- Jimmy Olsen também solicitou. - Explicou Perry. - Gostaria que você pensasse a respeito e escolhesse em até dois dias. Preciso de uma equipe completa para a cobertura do evento da LexCorp que será na semana que vem.
- Isso é um tipo de promoção? - perguntou desconfiada, Perry nunca era muito claro quando precisava pagar mais.
- O que quer dizer com isso? - Ele perguntou tirando os olhos do computador para observá-la.
- Vou ganhar mais?!
Perry suspirou.
- Vai sim, com certeza.
- Eu vou pensar na proposta e retorno quando eu decidir. - Ela conteve muito bem o sorriso de contentamento e se levantou para sair da sala.
- , nada de gorros no evento da LexCorp. Vai precisar de um vestido de gala. - Ele disse antes dela sair para o corredor.
Depois de passar o restante da manhã organizando as imagens para as próximas publicações, pegou a bolsa onde deixava sua câmera e a pendurou no ombro direito. Verificou no espelho se estava apresentável e arrumou os cachos. Saiu do seu andar, naquele momento o movimento era menor devido ao horário de almoço e quando chegou na recepção viu que Clark já estava lá.
Ele estava sem o blazer, usava somente mais uma camisa social, os óculos quadrados davam a ele um ar de jovem simples e intelectual. Ela se aproximou e ele abriu um meio sorriso quando se cumprimentaram.
- Eu conheço uma lanchonete aqui perto, lá também tem almoço. Nada exótico, mas a comida é boa. - Clark comentou enquanto saíam do prédio do Planeta Diário e entravam nas ruas do centro de Metrópolis.
- Por mim está ótimo. - respondeu enquanto eles atravessavam a calçada cheia de pessoas. - Como tem sido sua rotina hoje?
- Bem, eu sou da mesma equipe da Lois. Hoje só tivemos uma matéria para cobrir em campo e ela ficou com a tarefa, hoje eu fiquei na redação.
- Acho que estar na ativa em campo é muito mais emocionante.
- Bem, qualquer coisa para não ter que ouvir Perry o dia inteiro. - Clark brincou. Ele indicou o lado direito para mostrar a entrada da lanchonete e o acompanhou. Era um local típico onde se ia para comprar hamburguer e milkshake, mas no menu havia alguns pratos prontos para almoço. Clark escolheu a última cabine que ficava do lado da vitrine e era possível ver a rua do lado de fora.
se sentou e abriu o menu.
- Acho que já passamos da fase “jogar conversa fora”, não é? - Ela perguntou deixando a câmera no banco ao seu lado enquanto Clark sentava à sua frente. - Por que gosta desse lugar?
- Tem gosto de comida caseira. É bom quando você sente saudade de casa. - Ele recostou no banco relaxando. - De onde você é?
- Los Angeles. - respondeu.
Clark pareceu surpreso.
- Por que se mudou pra Metropolis?
- O plano era Nova York, mas aqui o apartamento estava mais barato. - Ela olhou o menu e optou por um típico filé de peixe. - Não é ruim, na verdade eu gosto. Tem um contraste muito grande, cada cidade tem a sua própria cor e eu queria muito descobrir qual era a de Metropolis.
Clark acenou para a garçonete enquanto seus olhos focavam em .
- É uma mudança e tanto. - Ele observou. - Eu sou de Smallville, é perto e eu já sinto uma grande diferença.
- Que cor Smallville tem, Kent? - Ela perguntou curiosa.
A garçonete parou na mesa para anotar os pedidos interrompendo momentaneamente. Clark pediu filé de frango e o de peixe, mas continuou aguardando pela resposta dele quando a garçonete saiu.
- Eu sempre gostei de olhar o céu. Quando eu morava em Smallville, eu ficava no telhado à noite, me ajudava a pensar. - Ele disse voltando os olhos para o céu de Metropolis. A imagem da janela ficou refletida em seus olhos. - Acho que a cor de Smallville é azul.
O céu abriu para dar lugar à luz do sol, algo bem difícil de acontecer durante o outono daquela cidade. A luz do sol entrou pela vitrine e atingiu o azul dos olhos de Clark que ficaram semicerrados com a repentina luz.
- Qual a cor de Los Angeles, Di?
Ela tirou a câmera do banco e habilmente tirou uma foto do rosto de Clark.
- Amarelo. - Ela respondeu notando cada traço do rosto dele. Clark lhe parecia tão familiar e ao mesmo tempo diferente, ela sentia que precisava de um tempo para memorizar todas as linhas do seu rosto. Ele era uma pintura que precisava ser apreciada.
Eles continuaram o almoço em um jogo de perguntas e respostas para sair da conversa comum rotineira. Clark chamou as rodadas de “lance” e as respostas que o mais surpreendiam ele chamava de “cesta”. A ideia era propositalmente ridícula e compartilhava daquele senso de humor.
- Filho único? - Ela perguntou quando terminaram o almoço e a garçonete tirou os pratos da mesa.
- Sim e você?
- Filha única de duas mães. - Ela contou. - Hoje elas são divorciadas.
- Foi difícil? - Ele perguntou, os olhos passeavam pelo rosto de como se lesse algo novo pela primeira vez.
- Foi, mas todo o amor que elas me deram era maior do que qualquer preconceito do mundo lá fora. - Ela respondeu balançando a perna debaixo da mesa e acidentalmente a encostou na perna de Clark. - Mas elas se separaram depois de muitos anos, eu entrei na faculdade e não quis passar a vida fotografando celebridades na beira da praia. Então aqui estou eu.
- Para descobrir as novas cores da vida. - Ele concluiu.

Aquele foi o primeiro de outros almoços que tiveram juntos até um estar completamente ligado na rotina do outro. Era difícil dizer se era apenas uma amizade casual, já que nem Clark ou era de jogos e paquera. Tinham o próprio ritmo, tomavam tempo pra descobrir um ao outro e se deixavam cada vez mais atraídos por particularidades.
Depois de uma semana, Clark sabia que era alérgica a amendoim. sabia que Clark só tomava café puro pela manhã. Odiavam basquete, mas aturavam futebol. E a maneira que mordia o lábio quando Perry gritava, fazia Clark se perguntar qual gosto ela tinha.
Mais uma semana e no fim do dia eles esperavam um pelo outro no térreo do prédio e Clark a acompanhava até a estação a algumas quadras de lá e depois ia até o estacionamento. Ela ainda não aceitava caronas para voltar pra casa.
era mais nova e tinha uma energia muito diferente, aquilo para Clark era novo e tão calmo. Ele sentia falta de uma certa normalidade, de simplesmente enxergar os detalhes e sentir os gostos novos. Nos últimos dias, era uma imagem a ser contemplada.
Clark tentou se aproximar, mas não demais. Sabia que não era justo envolver alguém na vida dupla que levava, mas não podia deixar de conhecer mais daqueles olhos que mesmo o vendo através das lentes da câmera, conseguia enxergar mais do que a maioria das pessoas.
Conseguia enxergar o Superman, sem deixar de pensar no lado humano de Clark. Sim, porque apesar de ser de outro mundo, ele se sentia muito mais próximo da humanidade que cada vez mais o rejeitava.
Então era muito bom caminhar com ela por alguns minutos e por um instante se sentir normal. Se sentir humano. Mesmo quando no fim de tarde de outono eles tivessem que correr até a estação, porque nenhum dos dois tinha um guarda-chuva.
Correram pelas calçadas desviando de poças, constrangidos ao mesmo tempo em que riam até buscarem abrigo na estação que tinha o teto e as paredes de vidro onde era possível ver a água escorrer ao redor. Clark levou seus olhos até naquele fim de tarde de outono.
Água pingou do rosto dela até chegar ao cachecol amarelo.
- Eu disse que você devia ir até o estacionamento, agora vai ter fazer o caminho até lá nessa chuva. - Ela sorriu afastando o cabelo molhado do rosto.
- Eu disse que deveria ir comigo até o carro, eu poderia te levar pra casa. - Clark tentou mais uma vez e ela mordeu os lábios depois de sorrir.
- Da próxima vez. - Ela confirmou e ele não pode mais esperar, segurou as duas pontas do cachecol e a puxou para perto e beijou os lábios dela.
tinha gosto de chocolate quente com batom de morango, a boca era quente e respondeu ao beijo dele. Água ainda pingava dos dois e o nariz gelado dela encostou em seu rosto, ele desceu as mãos até a cintura dela e também passou o nariz pelo rosto de Di.
Ela se afastou para o olhar nos olhos percebendo como seus óculos estavam embaçados pela água, ela ergueu as mãos e antes que Clark percebesse o que ela estava prestes a fazer, tirou os óculos dele e os secou com a ponta do cachecol.
Quando ele se virou para ela para colocar os óculos de volta no rosto dele, Clark soube que ela mais uma vez enxergou muito mais.
Ela hesitou por um segundo observando os olhos dele e depois voltou a colocar os óculos de volta em seu rosto.
Se ela soube no momento, nada falou.
Clark também nada disse.
Então abriu um sorriso e lhe beijou mais uma vez.

Blue


Only seeing myself when I'm looking up at you.
(Blue - Troye Sivan)


Depois de ter beijado Clark, ficou terrivelmente inquieta. Não como normalmente se fica depois do primeiro beijo de um casal, mas inquieta do jeito achando que o namorado é um possível super herói alienígena. Foi algo no rosto de Clark, seus traços, seus olhos, seus segredos presos que ficaram ameaçados no ar enquanto ela o olhava nos olhos e colocava os óculos de volta em seu rosto. Como não havia um modo muito certo de soltar caramba, você parece o Superman, se convenceu de que sua obsessão com o herói estava ficando preocupante.
Voltou para casa naquele dia e deixou os sapatos na entrada depois de ter fechado a porta, correu para o quarto e logo revelou a foto que havia tirado na primeira vez que almoçou com Clark, o brilho amarelo do sol iluminou bem o sorriso ou era o brilho do sorriso dele que iluminava todo o restante, era difícil dizer. Olhou bem a linha do rosto, o maxilar e seus olhos foram em direção ao mural que tinha com suas melhores imagens do Superman.
Ela se aproximou devagar do mural, conseguia cada pixel daquelas imagens, cada traço que poderia até mesmo desenhá-las. A suspeita que sentiu ao ver o rosto de Clark mais cedo se tornou certeza. respirou fundo.
Havia beijado o Superman.
Várias vezes imaginou como poderia tocar nesse assunto com Clark ou se deveria tocar, talvez ele não quisesse mostrar essa parte de sua vida. O que faria total sentido, eles mal se conheciam e cogitou fazer jogo duro se ele demorar a revelar. Riu de si mesma, ela nunca faria esse tipo de coisa, não quando os olhos de Clark sobre ela. Mas não teve a chance de descobrir se ele surgiria com o assunto, já que ele não apareceu no trabalho no dia seguinte. Também não apareceu nos outros três dias seguintes.
As reportagens do Superman só pioravam, mesmo quando ele não aparecia ou não tinha ocorrências, havia um grande grupo de críticos crescendo na indústria da comunicação e eles escolheram o herói como alvo.
No fim do quarto dia, não suportou ficar sem notícias e Clark nem mesmo retornava suas ligações, então ela precisou recorrer a quem menos desejava: seu chefe Perry White.
- Ele está de licença. - Ele disse simplesmente e fez um sinal para que ela saísse de sua sala e voltasse ao trabalho.
O evento da Lexcorp passou e nada de Clark. Mas Lex Luthor cumprimentou e comentou que havia visto as imagens do Planeta Diário e admirado o trabalho.
- Até parece que você conhece o Superman. - Ele havia dito com uma risada, mas um brilho perigoso no olhar.
Ela riu como se fosse a ideia mais ridícula do mundo e Lex não perguntou de novo. Depois de uma semana, ela não tolerou mais a esperava e pediu para que Lois conseguisse o endereço de Clark na ficha que tinha no trabalho. Lois, como a boa repórter investigativa que era passou para o endereço e ainda deu a chave de uma das vans do Planeta Diário. Depois de terminar o trabalho, no início da noite saiu de Metropolis em direção à Smallville.
parou a van em frente ao portão da fazenda. Desceu e trancou o veículo colocando as chaves no bolso da calça jeans e caminhou até a entrada.
Era uma casa antiga, porém bem cuidada. As luzes acesas davam um aspecto vivo e acolhedor, no portão havia a caixa de correios com o sobrenome Kent desenhado no metal. subiu as escadas da entrada e tocou a campainha, o tapete no chão dizia "bem-vindo".
Uma mulher de cabelos grisalhos atendeu a porta.
- Boa noite. - Ela disse em um tom educado, um meio sorriso e um olhar cauteloso. - No que posso ajudar?
- O meu nome é . - Ela olhou a mulher nos olhos. – Trabalho com o seu filho no Planeta Diário. Estou procurando por Clark, faz dias que não tenho notícias dele. Eu não quero incomodar, só preciso saber se ele está bem.
Martha Kent pareceu pensar por um tempo enquanto secava as mãos no pano de prato que segurava.
- O Clark está bem, querida. - Ela respondeu em um tom doce. - Ele me falou sobre você, sei que são próximos. - Então ela sorriu como se quisesse insinuar algo e abriu completamente a porta como um convite para entrar.
sorriu aliviada e entrou na casa dos Kent. Seguiu Martha pelo hall e parou na entrada da cozinha enquanto a mãe de Clark seguia até a pia.
- Estou terminando o jantar e preciso ficar de olho para não deixar a carne passar do ponto. - Ela explicou enquanto mexia nas panelas do fogão. - Você pode ir chamar o Clark. O quarto dele é a primeira porta à esquerda.
Ela voltou para o hall e subiu as escadas para o andar de cima. O corredor era pequeno e cheio de fotografias da família Kent. Havia fotos de um homem sempre perto de Clark e Martha, ela julgou ser o falecido pai de Clark. Virou na primeira porta à esquerda e bateu.
Não houve resposta. Novamente ela bateu na porta, dessa vez mais alto.
- Pode entrar. - A voz masculina soou baixa como se estivesse muito distante.
abriu a porta e olhou para o quarto, a cama estava arrumada, a escrivaninha bem organizada e a decoração com detalhes azuis deixava claro que ele havia crescido ali. No teto havia miniaturas de planetas penduradas no teto, toda a galáxia estava no quarto de Clark Kent, mas ele não estava lá.
Ela procurou mais uma vez e tudo que viu foi a janela aberta do quarto.
Sempre gostei de olhar o céu. Quando eu morava em Smallville, eu ficava no telhado à noite, me ajudava a pensar. Ela lembrou do que ele disse na noite em que saíram da cafeteria e seguiu até a janela do quarto, inclinou-se para o lado de fora e olhou para os lados. Clark estava ali sentado no telhado, os braços apoiados nos joelhos e os olhos nas estrelas como se expiasse todo o universo.
Ela subiu no parapeito da janela e se aproximou engatinhando e se sentou ao lado dele, ergueu os olhos para o céu.
- O que está fazendo? - Ela perguntou. Só então ele a olhou, mas seu rosto parecia um misto de expressão contida.
- Eu estava olhando o céu, me ajuda a pensar...
- Não, Clark. - Ela o interrompeu. - O que está fazendo sumindo desse jeito?
- Tirei férias, achei que alguém no trabalho te avisaria. - Ele não a olhou quando respondeu, o que significava que estava mentindo.
- E não ia me ligar? - O tom soou mais irritado. - Eu sei que não é férias coisa nenhuma. Você está se escondendo, está desistindo.
Ele franziu o cenho pensativo e abaixou a cabeça olhando a estrada.
- Não sei do que está falando.
respirou fundo e o olhou.
- Está desistindo do Superman. - Ela respondeu de forma direta. Ele a olhou observando seus olhos e balançou a cabeça de forma negativa como se ela estivesse falando um absurdo. Ela sentiu um buraco crescer dentro de seu peito, estava esperando que ele lhe dissesse a verdade.
estendeu a mão e tocou o rosto dele, os olhares presos um no outro estavam tão perto que ela pôde sentir a respiração dele vacilar e levou a outra mão ao rosto dele. Tirou o óculos de Clark devagar e encarou o profundo azul de seus olhos.
- Eu sei que é você. - Ela sussurrou. - Eu conheço todas as suas cores. - Ela acariciou o seu rosto e ele fechou os olhos como se o toque fosse tudo o que ele precisava. - Não precisa mentir pra mim.
Ele levou a mão dele até a dela e a segurou em seu rosto.
- Eu vi a forma que Lex falou com você, ele vai te usar para chegar até mim.
- Lex acha que sabe de muita coisa, mas eu o convenci de que não posso chegar ao Superman. - Explicou ela, Clark apertou o braço em volta dela e ela viu no olhar dele que aquilo o machucava.
- Se não for Lex, outro alguém pode saber. - Ele disse afastando a mão dela. - Por favor, . É para sua segurança.
Aquilo era demais. Ela pôde sentir a dor e frustração crescer e fazer o seu sangue esquentar, subitamente se esqueceu de que estavam no telhado e se levantou.
- Isso é tão clichê, odeio clichês. - Ela murmurou se afastando.
- Cuidado com a telha solta. - O tom de voz dele era um alerta, mas ela não prestou atenção e andou em direção à janela.
- Não estou pedindo pela sua proteção. - Murmurou e logo depois sentiu o pé deslizar e ela escorregou pelo telhado, tentou se agarrar em algo, mas continuou a escorregar rápido demais. Sentiu quando seu corpo passou pela beirada e seguiu em queda livre até o chão. Não pôde evitar um grito quando seu corpo mergulhou em direção ao gramado.
Ela caiu, mas foram os braços de Clark que a pegaram como no dia em que ele a encontrou no beco.
Ela sentiu o aperto no peito aliviar ao perceber que a queda havia durado apenas segundos e olhou para o rosto dele.
Clark arqueou a sobrancelha.
- Não precisa da minha proteção é? - Ele disse em um tom provocativo.
fechou a cara e desceu de seu colo.
- Cala a boca. - Ela murmurou. - Não atrapalhe minha saída dramática.
Mas ele segurou o seu braço e novamente a puxou pra perto.
- Não vai embora assim. - Ele murmurou a abraçando, passando o nariz pelo cabelo dela.
- E como é que eu deveria partir? Se sentiria melhor se eu chorasse e dissesse que você me magoou? - Ela afastou o rosto para o olhar, Clark balançou a cabeça negativamente e desceu as mãos até a cintura dela. - Então eu deveria dizer que por mim tanto faz e te xingar ou fingir que não significa nada?
Ele não respondeu, mas ela sabia que não era fácil pra ele abrir mão de tantas coisas para ser o herói da cidade. Clark a puxou pra perto, sustentando-a com o seu abraço.
pode sentir o ar mudar ao redor deles, mas não tirou os olhos de Kent.
- Você sabe que não vou aceitar isso. - Ela murmurou. - Pode desistir de ser o Superman, você não deve nada a esse mundo. Mas Clark, não negue o que você é ou se prive daquilo que realmente ama, isso sim é indesculpável.
Então ele sorriu e só então ela percebeu que a mudança no ar era porque estavam levitando a vários metros no chão próximos ao telhado. arregalou os olhos sentindo um arrepio na espinha.
- C-Clark... - Ela gaguejou.
- Shh. - Ele sussurrou, o olhar brincalhão contendo um sorriso. - Não estrague o nosso beijo dramático.
Ele aproximou o rosto do dela até seus lábios se encontrarem. O beijo foi suave no princípio, o hálito era quente e o abraço tinha um aperto carinhoso. Até que ele entreabriu a boca para que as línguas se entrelaçassem como um choque térmico, Clark tinha gosto de café quente e doce perfeito para o inverno. Enquanto que parecia trazer consigo o gosto de uma ensolarada Califórnia, ele podia sentir na boca dela o seu gosto doce, porém determinado. Suas mãos subiram pelas costas dela, a fina silhueta que encaixava perfeitamente na sua.
- Clark?! - Alguém gritou lá embaixo. O beijo foi interrompido para que os dois olhassem para Martha Kent gritando no gramado. - Coloque a pobre garota no chão e venham jantar!
Tudo que Clark pode fazer foi acenar positivamente para a mãe e corou.
- Venham logo ou a comida vai esfriar. - Ela murmurou voltando para dentro da casa.
Clark se inclinou novamente para e deu um beijo demorado no rosto dela.
- Você definitivamente vai ficar para o jantar. - Ele declarou pousando com ela no gramado, andou até a cozinha segurando sua mão.
O jantar foi tão caloroso e familiar que fez pensar em como cresceu em um ambiente completamente diferente. Clark tinha aquele jeito contido e educado de um rapaz do interior que sempre ajudou em casa, cuidava da fazenda e se dedicava à família como filho único. Ele estava com uma camisa xadrez e com um boné que Martha explicou que tinha sido do pai dele. O boné era de uma cor azul gasta que só fazia ressaltar a cor de seus olhos agora que ele estava sem óculos.
Ao contrário dele, havia crescido em São Francisco e depois em Los Angeles, a capital nacional do cinema e todos os estereótipos de beleza possíveis.
Sua família sempre viveu na cidade grande e era vista como nada tradicional pelo fato de que ela tinha duas mães. Foi muito amada por ambas e elas fizeram de tudo para protegê-la da intolerância e do preconceito. Não foi uma infância ruim, mas era difícil chegar em casa e esconder das mães que era excluída no colégio. Até que as mães se separaram e a casa pareceu ter morrido, como se a sociedade tivesse vitória sobre o amor e as relações duramente construídas.
sempre achou que teria um relacionamento muito comum se fosse comparado ao de suas mães, duvidava até mesmo que fosse ter o mesmo empenho e dedicação que elas tinham uma com a outra. Mas depois de olhar para Clark, teve certeza de que faria de tudo para que desse certo. Mesmo que eles fossem de planetas diferentes, literalmente.
Martha recolheu os pratos após o jantar e Clark guiou de volta ao quarto dele. Ela entrou novamente no cômodo observando as paredes azuis, os pôsteres de naves espaciais e velhos livros sobre o universo deixados na prateleira. Cada pedaço no cômodo tinha um pouco de Clark e era tudo de um azul infinito como o céu.
Ele apagou a luz e a puxou para o seu abraço fazendo com que os dois deitassem sobre a cama. Ele apontou para o teto onde havia um pequeno sistema solar pendurado, vários planetas em órbita de uma grande estrela que brilhava laranja neon. Por toda a extensão do teto do quarto havia pequenas estrelas amarelas que brilhavam no escuro. Clark tinha seu próprio universo ali.
- Eu não quero me esconder, quero voltar e continuar a fazer o que é certo. - Ele murmurou depois de um tempo em silêncio.
- Muitas pessoas acreditam em você, você não está sozinho Clark.
No escuro ele segurou a mão dela.
- Qual é a nossa cor, ?
Os dois observavam o universo trocando segredos.
- Azul e amarelo, como o céu e as estrelas.




Fim.



Nota da autora: Olá, tudo bem? Muito obrigada por ler esta shortfic, eu espero que tenha gostado. Ela foi escrita há dois anos atrás e eu achei que já estava mais do que na hora de revisá-la e compartilhar com alguém. Caso tenha gostado, por favor deixe o comentário e indique para outras pessoas. Eu gosto muito de saber os sentimentos que uma história pode despertar. Tenho realizado um projeto pessoal para escrever mais fics de heróis e o seu retorno me ajudaria a saber se estou seguindo o caminho certo. Também escrevo The Ghost of You aqui no site e recomendo a leitura caso não conheça ainda. Mais uma vez obrigada por ler esta história.



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