Finalizada em: 04/08/2020

Prólogo

18 de Dezembro – 18h

- Obrigada! Nós te ligamos em caso de novidades. – Sorri para o último ator e acompanhei seus movimentos até ele sair da sala e relaxei o corpo na poltrona, apertando os braços das mesmas.
- Ele foi bem. – Anna falou ao meu lado e eu suspirei.
- Eu não sei, não é exatamente isso que eu procuro. – Pressionei os lábios.
- Acho que devemos ficar com o Jude Law, ele foi o melhor e combina perfeitamente com o papel do Harry. – Shawn* falou na ponta da mesa. – Ele é bonito, ótimo ator, a idade combina com o personagem. – Ele deu de ombros, demonstrando também o cansaço entre tantas audições.
- O Rodrigo foi bem também. – Andrew falou. – Talvez fique entre os dois.
- Vocês não entendem. – Suspirei. – Eu não vejo o Harry em nenhum deles. – Neguei com a cabeça. – Eles são lindos, poderosos, mas eles não têm a essência do Harry.
- Eu entendo o que você quer dizer. – Andrew falou. – Mas estamos ficando sem opções. Chris, Jake e Liam já estão em outros projetos seus, Hugh está ocupado com a agenda, Ryan e Ben não deram moral para o projeto...
- Eles estão vendo o projeto como um romance somente, isso acaba complicando um pouco. – Shawn disse passando as folhas do roteiro.
- Se ao menos eles tivessem lido o livro... – Anna comentou.
- Mas é isso? – Virei para Andrew. – Não tem mais nenhuma audição?
- Tem um, na verdade. – Ele falou. – Mas não acho que você vá gostar.
- Por quê? Quem é? – Quase me debrucei sobre a mesa para pegar o papel.
- Adam Driver. – Ele falou e eu peguei o currículo do mesmo, vendo sua foto e virando para ver seus projetos.
- Ele não é...?
- Sim, o Kylo Ren de Star Wars. – Andrew falou.
- Adam? – Anna perguntou. – O que ele está fazendo aqui? Ele é mais conhecido por papéis mais... – Virei pra ela. – Desafiadores.
- Não me faça querer mudar de editora. – Comentei e ela ergueu as mãos.
- Você não entendeu. Adam nunca fez um filme de romance. Ele faz filmes que o desafiam como pessoa e como ator. – Ela bufou. – É difícil explicar.
- Eu entendo. – Falei. – Ele fez “Infiltrado na Klan”, “Silêncio” do Scorcese, “Lincoln”, “J. Edgar”... – Ela suspirou. – São todos filmes que esgotam o ator. – Ela se virou para mim. – Harry tem suas intrigas familiares e românticas, mas não podemos deixar de falar que é um filme romântico, apesar dos personagens serem mais velhos. – Suspirei.
- Além de que ele é bem abaixo da idade do Harry. – Andrew falou.
- E não é bonito quanto você menciona. – Anna disse.
- Eu já trabalhei com o Adam, ele é bom e não foi em nenhum trabalho supercomplicado e ele acabou se tornando o personagem principal sem querer. – Shawn falou e eu me virei para ele.
- Qual filme? – Perguntei.
- Sete Dias sem Fim, é uma dramédia para maiores de 18, aborda uma família que precisa seguir uma tradição judaica e ficar em luto por sete dias. – Ele falou. – É baseada em um livro. – Ele apontou para mim, me fazendo suspirar. – Adam faz o irmão mais novo, tipo o filho que nasceu 10 anos depois? E ele é a veia cômica do filme, ele parece ser sério, mas ele tem outro lado. – Suspirei.
- Ou seja, ele é bom de drama e de comédia? – Ponderei.
- Bom, ele está naquele História de um Casamento, né? – Andrew falou.
- Está, mas não é exatamente um filme de romance. – Shawn falou. – É... – Ele suspirou. – Eu não sei explicar. – Rimos juntos. – O bom do Adam é que ele já tem experiência com nudez parcial em vários projetos.
- Isso quer dizer... – Virei para ele.
- Harry tem muitas cenas de sexo e nem todas com a Ophelia, . – Dei um sorriso irônico e ele assentiu com a cabeça
- Esqueci desse detalhe.
- Mas ele seria um Harry gostoso? Ele me parece tão magrinho. – Anna comentou.
- Ele é alto, mas está em forma. – Shawn falou.
- Eu devo me perguntar como você sabe disso? – Andrew provocou e Shawn não se importou em mostrar o dedo do meio para ele.
- Você quer que ele tire a camisa no teste?
- Não! – Falei rapidamente alto, sacudindo as mãos. – Estamos perdendo o foco do assunto: ele está aqui? – Perguntei.
- Quem?
- Adam! – Falei firme.
- Ah, está!
- E o cara esperando? – Revirei os olhos. - Chame-o, vamos ver como ele se sai. – Falei, me ajeitando na cadeira e pegando o roteiro adaptado do meu filme.
Os três se entreolharam e Andrew se levantou e foi até a porta chamar o último candidato a personagem principal masculino do meu livro. Observei a capa do livro e a foto de Adam lado a lado e ponderei com a cabeça. Ele não era nem de perto de como eu imaginava Harry, mas ele era um bom ator e estava aqui por um motivo. Só precisava descobrir qual.
Observei Adam entrar na sala calado e deixar sua mochila em uma das cadeiras ao lado da porta e dei uma analisada nele de cima a baixo. Ele parecia levemente desconfortável em estar ali sendo observado por três adultos e um estagiário, mas estava usando roupa social, o que me lembrou Harry.
- Oi, Adam, tudo bem? – Shawn falou.
- Oi, Shawn. Não sabia que era projeto seu! – Ele veio até a mesa, cumprimentando cada um de nós, e eu dei um sorriso para o mesmo.
- Eu confio em alguns projetos, você sabe. – Ele assentiu com a cabeça. – Bom, Adam, deixa eu te apresentar a , que é autora do livro. – Dei um meio sorriso quando ele olhou para mim. – Anna, editora original do livro e Andrew, negociador de .
- Prazer conhecê-los. – Ele falou, seguido de um sorriso de lado.
- Então, você está aqui pelo papel do Harry, certo? – Shawn perguntou.
- Sim, exatamente. – Ele falou.
- E por quê? – Perguntei. – Não sabia que Adam Driver era fã de romance. – Ele deu um sorriso de lado.
- E quem não é? – Ele falou, dando de ombros. – As pessoas me conhecem mais pelos meus trabalhos mais recentes, mas quando eu gosto de um trabalho, eu gosto de dar uma chance – Sorri. – Talvez meu maior desafio seja fazer uma história de amor. – Assenti com a cabeça. – Além de que eu li o livro, não é só uma história de amor, não é mesmo? – Dei um pequeno sorriso e apoiei as costas na cadeira.
- Vamos lá, então! – Shawn disse. – Você pode fazer a cena 127? vai te acompanhar nas falas da Ophelia.
- Claro! – Ele pegou o roteiro enviado para teste e procurou a página.
- Você pode começar após a descrição, quando ele a chama. – Falei, pegando o roteiro já marcado de diversos testes ao longo do dia. – Quando quiser. – Falei.
Ele passou os olhos rapidamente pelas palavras anteriormente, entendendo o enredo da cena e sacudiu uma das mãos ao lado do corpo enquanto segurava o roteiro com a outra. Ele olhou para mim e assentiu com a cabeça, sinalizando que começaria.
- Ophelia!* – Ele chamou em desespero.
- Ah não. – Gemi. – Você sabe o que fez? – Falei firme.
- Sim! – Ele se aproximou da mesa. - Eu vim atrás de você, foi o que Fiorella disse, que você não poderia fazer nada, mas eu poderia. – Bufei como Ophelia.
- Mas isso não era agora, seu idiota! – Falei igualmente alto. – Me diga, como você vai explicar isso? – Mantive a ironia na voz.
- Eu vou botar a história toda a limpo, falar de Natalie, falar das ideias políticas e que eu me apaixonei por você. – Gargalhei ironicamente.
- Ah, se você quer destruir sua carreira, fique à vontade, mas não me coloque no meio das suas besteiras. – Bufei alto. – Não se atreva a mencionar meu nome.
- O que aconteceu? – Ele reduziu o tom de voz. – Um dia você briga comigo, depois diz que ficaria comigo e agora não? – Ele falou gentilmente.
- Eu queria ficar contigo, Tyler, mas não era agora. – Balancei a cabeça. – Você deveria continuar fazendo seu papel de pião, finalizar isso e depois, quando a poeira baixasse, a gente poderia tentar. – Suspirei. – Você acabou de colocar uma bomba enorme na minha mão e não percebeu isso.
- Você está se escutando? – Ele colocou o indicador na lateral da têmpora – Você coloca sua carreira em um patamar quase monárquico, mas é miserável e infeliz.
- Como você se... – Fui interrompida.
- Sim, eu me atrevo! – Ele falou forte. – Olha o que você faz com Ellie, ela é a criança mais espetacular que eu conheci em toda minha vida e é criada por porteiros e empregadas, sendo que tem um talento suficiente para estar construindo um próprio reinado. – Percebi que seu rosto se avermelhou de nervoso. - Você sai quando ela está dormindo, pede para pessoas estranhas pegarem ela, levarem comida e cuidar, e quando chega, ela já está dormindo. Até eu cuido da sua filha melhor que você. – Ele aumentou o tom de voz novamente. – E mais, eu não sei o que aconteceu contigo, o que fizeram contigo ou se você só não tem coração mesmo, mas você não se dá uma chance nem para ser feliz. – Ele soltou uma risada irônica, andando de um lado para outro. – Eu poderia lutar por você, sabia? – Ele apontou em minha direção. - Pelo tempo que fosse preciso, mas eu sei que eu estaria entrando em uma luta perdida. – Ele riu de forma irônica novamente. – Você não tem ideia como eu lutaria todos os dias da minha vida para te fazer feliz. – Ele falou quase em um gemido. – Mas eu não posso, tenho que focar na minha carreira também. – Ele virou de costas, como se fosse sair.
- Harry, eu... – Fui interrompida novamente.
- Não se preocupe, eu e Natalie acharemos a desculpa perfeita para esse casamento falido. Seu nome não será mencionado. – Ele falou firme, virando de costas novamente, me fazendo suspirar.
- Uau! – Andrew falou e nós quatro aplaudimos.
- Foi muito bom. – Sorri e ele assentiu com a cabeça.
- Parabéns. – Sorri, pressionando meus lábios.
- Nós estamos fazendo alguns testes e voltamos a falar contigo sobre uma segunda chamada, tudo bem? – Shawn falou.
- Claro! Vocês têm minhas informações. – Ele sorriu, pegando sua bolsa novamente.
- A produção está marcada para começar em março do ano que vem, você teria disponibilidade? – Perguntei e ele se virou para mim.
- A gente sempre dá um jeito. – Ele sorriu e saiu da sala, me fazendo colocar as mãos na boca.
- Então...? – Andrew falou.
- Ele é bom. – Anna falou.
- Ele foi ótimo. – Suspirei.
- Adam é outro nível. Nunca vi um ator tão versátil como ele. – Shawn disse.
- Versátil o suficiente para viver Harry nos cinemas? – Perguntei e eles se viraram para mim.
- O que está pensando, ? – Eles perguntaram.
- Eu não sei, preciso fazer umas pesquisas ainda. – Suspirei. – Mas eu gostei dele. – Mordi meu lábio inferior.

*Shawn Levy é o diretor de Sete Dias Sem Fim.
*Cena extraída da minha história (I Got the) Power.



Capítulo 1

22 de Dezembro – 14h

- Você tem certeza sobre isso? – Morgan perguntou e eu abaixei a cabeça na mesa, suspirando pela enésima vez naquela reunião.
- Eu não sei, gente! Me digam vocês. Vocês trabalham com ele há quatro anos. Vocês que precisam me dizer. – Suspirei.
- Ele... – Colin parou para pensar o que falar. – Ele é um desafio. – Ele foi honesto. – Ele dá sempre cento e 10 por cento em tudo o que ele faz, refazemos cenas perfeitas para ficar sensacionais por ele não achar que está bom o suficiente. Ele é sempre o primeiro a chegar e o último a sair, mas ele também tem seus problemas.
- Como assim? – Perguntei.
- Ele tem problemas de ansiedade e busca de resultados. – Morgan falou. – Ele odeia assistir seus trabalhos prontos, não é muito maleável em entrevistas, tem zero contato com fãs por redes sociais e mora em um lugar inatingível por imprensa ou fãs em Nova York. – Ela deu de ombros.
- O que quer dizer...? – Perguntei.
- Ele não é o galã ideal. – Aegon se intrometeu.
- Ele não é nem um galã, para ser honesta. – Claire falou.
- Estou buscando pessoas além do físico, achei que já tivesse deixado claro. – Falei firme.
- Tirando o físico, ele pode não ser aquele cara ideal. – Morgan falou. – Você está acostumada a trabalhar com Chris Evans, Jake Gyllenhaal e Liam Hemsworth, apesar do pouco contato com os fãs em redes sociais, eles são ótimos em outros departamentos. – Ela suspirou. – Você sabe que, apesar de problemas, eles serão sensacionais em entrevistas, em premières, em sessões de fotos, até no físico. – Suspirei. – Com Adam talvez...
- Eu andei pesquisando, ele tem um bom físico. – Falei baixo, fazendo as mulheres da sala darem sorrisos.
- Você realmente quer ir por esse caminho? – Colin perguntou e eu suspirei.
- Quanto tempo eu tenho para decidir isso? – Perguntei, desistindo de lutar.
- Seria ideal divulgar o elenco até o começo de janeiro. – Morgan disse.
- Bem, então vamos encerrar por hoje, pode ser? Eu vou para casa para o Natal, tenho 24 horas enfiada dentro de um avião, tenho muito tempo para pensar. – Eles riram.
- E sobre a atriz da Ophelia? – Aegon perguntou.
- Penélope, não tenho nem dúvidas. – Eles riram e se levantaram. – Ela é a Ophelia perfeita.
- Vou entrar em contato com ela. – Andrew falou e sorrimos.
- Independente do resultado, vai ser um filme incrível. – Claire falou. – Porque a história é incrível.
- Obrigada, gente! – Me levantei.
- Reunião dia dois novamente? – Colin perguntou.
- Dia seis, deixa eu aproveitar minha família um pouco. – Falei e eles riram.
- Você marca com a Emily lá na frente? – Assenti com a cabeça.
- Obrigada, gente! Feliz Natal. – Peguei minha agenda, livro e roteiro em cima da mesa, coloquei a bolsa no ombro e segui para fora de uma das salas dos escritórios da Disney em Nova York.
Parei no hall das salas e apoiei minha bolsa em um dos sofás disposto ali e peguei a agenda para ver que compromissos eu tinha naquele dia e fiquei feliz em constatar que podia ir para casa muito feliz.
- Olha quem está aqui! – Virei para trás, vendo Shawn Levy chegando e sorri.
- Oi, Shawn, como você está? – Ele me abraçou rapidamente e eu sorri.
- Tudo certo e contigo? – Ele sorriu.
- Tudo bem também, estava em reunião com os chefões.
- E aí? Se decidiu?
- Não sei. Eu fiquei esses últimos dias assistindo várias coisas do Adam. Ele é muito bom, Shawn!
- Ele é ótimo mesmo. – Ele suspirou. – Ele sempre se dedica bastante nas gravações e, apesar de realmente ser um pouco arredio nessa questão de entrevistas e aparição pública, ele nunca se esconde. Ele vai a premières, participa da divulgação, faz o que precisa ser feito.
- Eu vi o filme que você dirigiu e achei sensacional. – Sorri. – Eu ri bastante e o personagem dele é a veia cômica, né?! – Ele assentiu com a cabeça.
- Ele foi ótimo, foi uma surpresa para todos nós, na verdade. Talvez ele seja um bom Harry, ele sabe equilibrar muito bem a parte séria, comédia e o romance. – Coloquei a bolsa no ombro.
- E como ele é fora das câmeras? Tenho a impressão de que ele é mais fechado, mais quieto.
- Nem um pouco! – Ele falou rindo em seguida. – Ele é muito sensacional. Brinca, se diverte, faz piadas com tudo e todo mundo, mas quando falamos “silêncio no set”, ele entra no personagem e vira realmente o personagem. – Suspirei.
- Eu vou pesquisar um pouco mais sobre ele, quero decidir ainda no final do ano para começar a divulgação. – Ele sorriu.
- Bom, eu sou suspeito para falar, mas ele vai ser um ótimo Harry, posso te garantir. – Dei um pequeno sorriso.
- Quem dera isso fosse definição máxima, né?! – Ele gargalhou.
- Você é Deus, , vai fazer a escolha certa. – Pressionei os lábios, assentindo com a cabeça. – Sempre faz.
- Das outras vezes era mais fácil. – Ele assentiu com a cabeça. – O que está fazendo aqui?
- Estamos começando a organizar as datas de gravação, queremos começar gravando tudo em estúdio em Burbank para depois gravar os outtakes aqui em Nova York.
- Eles já fecharam uma data certa para o início das gravações? – Perguntei.
- 31 de março, se nada mudar.
- Vai dar certo, não posso atrasar essa produção, já tenho turnê de lançamento de “Lute Como uma Garota” para agosto. – Ele riu.
- Você descansa, por acaso? – Sorri.
- Dificilmente. – Rimos juntos. – Falando nisso, eu preciso ir, tenho que finalizar um livro ainda esse ano ou vou me atrasar até nesse departamento.
- E ainda tá escrevendo coisa nova?
- Nunca paro! – Brinquei, pegando meus materiais de novo. – Te vejo depois, bom Natal, caso a gente não se fale mais. – Ele me deu um rápido beijo na bochecha.
- Você também! – Ele sorriu e eu segui em direção aos elevadores.

Esperei o elevador chegar e sorri para o ascensorista quando entrei no mesmo, e pedi para ir para o térreo. O elevador parou em outros andares, fazendo mais pessoas entrarem e saírem e quando chegou no térreo, eu saí sozinha.
Andei pelos corredores do prédio, vendo pôsteres de diversos lançamentos da Disney nas paredes do lugar e dei um pequeno sorriso, feliz por ter conquistado tanta coisa em somente cinco anos. Parei em frente a uma porta que me separava do lobby e esqueci de ficar com meu cartão chave na mão.
Bufei alto e me aproximei da parede, erguendo a perna esquerda e encostando-a na parede e equilibrando os materiais em minha perna e virei a bolsa para o lado, procurando pelo cartão chave dentro da minha carteira.
- Achei! – Falei, puxando-o da mesma.
- Posso te ajudar? – Me assustei e tudo foi para o chão.
- Droga! – Falei suspirando.
- Me desculpe. – A pessoa falou se abaixando rapidamente no chão e pegando meus materiais.
- Você não precisa... – Falei, mas ele já se levantou, me esticando os materiais. - Adam! – Falei surpresa, pegando os materiais.
- , certo? – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Obrigada!
- Não há de quê, pena que não evitei o desastre. – Ri fracamente.
- Que isso, toda vez eu tento e nem sempre dá certo. – Ele abriu a porta para nós e deu espaço para que eu saísse antes.
- É meio chatinho andar por esses prédios mesmo. – Ele comentou.
- Dois anos trabalhando com eles e ainda não me acostumei, acho que não tenho mais conserto. – Ele riu fracamente.
- Talvez não. – Sorri. – Então, reuniões?
- É. – Sorri sem graça. – Cuidar de quatro produções ao mesmo tempo não é para qualquer um. – Suspirei.
- Parabéns! – Assenti com a cabeça, entrando na fila da recepção.
- Obrigada! E você?
- Divulgação de Star Wars e algumas coisas mais.
- Ah, eu vi o filme, parabéns. – Mordi meu lábio inferior.
- Obrigado! – Ele disse. – Você gostou?
- Nunca fui uma fã de Star Wars, mas gostei sim. – Fui honesta. – Eu só mudaria os últimos cinco minutos de filme. – Ponderei com a cabeça.
- Você quer dizer...?
- É, depois daquilo. Aproveitaria melhor o personagem.
- É, talvez tivesse sido uma boa. – Rimos juntos.
- Você está esperando algo? Eu preciso marcar uma reunião.
- Só fazendo companhia, na verdade. – Ele sorriu. – Preciso ir para casa começar a preparar as coisas para o Natal.
- Passa o Natal aqui?
- Sim, minha família veio dessa vez. – Ele sorriu.
- Oi. – Chegou minha vez.
- Um minuto. – Falei para Adam. – Oi, preciso marcar uma reunião para produção de novo.
- Que dia, ? – Ela perguntou.
- Dia seis em diante. – Falei e ela checou a agenda.
- Pode ser as duas da tarde? – Ela perguntou.
- Combinado. – Falei e ela sorriu, imprimindo a confirmação e eu enfiei de qualquer jeito no bolso. – Obrigada, bom Natal!
- Para você também. – Ela falou sorrindo e saí da fila, encontrando Adam um pouco distante.
- Então, o que estava falando? – Perguntei.
- Você vai passar o Natal aqui? – Ele perguntou.
- Não, eu vou para casa. – Sorri. – Depois de longos três anos.
- Sério? – Assenti com a cabeça.
- Sim. – Ri fracamente. – Desde que meus livros estouraram aqui nos Estados Unidos e a Disney comprou os direitos, eu não voltei para casa. – Suspirei.
- Você deve estar louca para ir, não é mesmo?
- Sim. – Ri fracamente. – Eu não conheço minha sobrinha, se quer saber. Ela já tem um ano e meio e eu ainda não a conheço.
- Deve ser bem chato isso. – Dei de ombros.
- Tem suas vantagens. – Sorri.
- Vai viajar hoje ou amanhã?
- Hoje ainda, tentar chegar para o jantar de Natal, fazemos do dia 24 para o dia 25. – Ele sorriu.
- Fazemos assim em casa também. - Ele empurrou a porta para a rua e um forte vento fez a capa da minha agenda abrir com o vento.
- Ah não! – Reclamei quando vi os grossos flocos de neve caírem e até já se acumulavam na calçada. – Eu odeio neve.
- Por quê? Eu acho bonito, deixa tudo mais no clima.
- Eu posso te dar uma lista enorme de motivos, mas o principal é: voos são cancelados com nevascas.
- Oh, verdade! – Ele franziu o rosto. – Você tem um plano B caso isso aconteça?
- Não. – Falei como um gemido. – Outro Natal no aeroporto que não vai ser. – Mordi meu lábio inferior, sentindo as lágrimas se formarem.
- Me desculpe. – Ele falou. – Se eu puder fazer algo para te ajudar...
- Tudo bem. Rezar para esse avião decolar já ajuda. – Ele deu um sorriso de pesar e eu suspirei.
- Na verdade, acho que eu posso fazer algo. – Ele falou. – Tem uma caneta?
- Tenho... – Franzi a testa, pegando a caneta presa no espiral da agenda.
- Posso escrever aqui? – Ele abriu a agenda.
- Claro! – Falei e ele puxou-a mesma para si, anotando algo rapidamente e dobrou a folha que havia anotado antes de colocar em cima
- Eu te passei meu endereço, se acontecer alguma coisa, você já tem um plano B.
- Você não precisa, a gente nem se conhece. – Ele deu de ombros.
- Mesmo assim, ninguém deveria passar o Natal sozinho. – Mordi o lábio inferior.
- Obrigada. – Sorri. - Boa viagem, espero que não consiga ir em casa. – Assenti com a cabeça.
- Eu também. – Suspirei e ele afastou dois passos, acenando com a mão antes de se afastar, me fazendo suspirar. - Harry faria isso. – Cochichei sozinha.

24 de Dezembro – 16h

Fiz um sinal da cruz antes de entrar no aeroporto LaGuardia pela terceira vez em três dias e puxei minha mala em direção ao guichê. Meu voo havia sido cancelado outras vezes devido a problemas climáticos. À essa altura do campeonato, eu não chegaria em casa a tempo para o Natal, era impossível, por sinal, mas era melhor eu reencontrar minha família do que ficar mais duas semanas sozinha aqui em Nova York.
O aeroporto estava muito pior do que nos últimos dias, mas caminhei em direção ao guichê da Air Canada e fiquei feliz por pagar o programa de fidelidade e ter uma vantagem na fila. Duas pessoas depois, fui chamada e apoiei os braços no guichê.
- Oi. – Falei para a mesma atendente que me atendeu nas outras vezes.
- Oi de novo, senhorita . – Ela deu aquele sorriso compensador e eu suspirei.
- Quais as novidades? – Suspirei.
- Sem novidades. – Ela suspirou igualmente. – Todos os voos estão cancelados até segunda ordem. – Passei a mão no rosto, sentindo vontade de chorar novamente. – Me desculpe, senhorita.
- Você não tem culpa nenhuma. – Soltei a respiração pela boca. – É só triste. – Suspirei.
- Tem algo que eu possa fazer para senhorita? Podemos te acomodar na melhor suíte de hotéis parceiros, eles farão uma ceia hoje à noite e...
- Obrigada, Jane. – Suspirei. – Eu vou ver o que fazer e qualquer coisa retorno, tudo bem?
- Claro, senhorita . – Peguei minha mala e saí da fila, procurando algum lugar aonde eu pudesse apoiar minha bolsa e puxei o celular da mesma e procurei pelo número de minha mãe no WhatsApp, esperando chamar.
- Oi, meu amor! – Minha mãe atendeu e eu suspirei.
- Oi, mãe. Tudo bem?
- Tudo bem, querida, feliz Natal. – Suspirei.
- Feliz Natal, mãe. – Me encostei em uma pilastra. – Eu não tenho notícias muito boas.
- Nada ainda, querida? – Ela perguntou e eu passei a mão na lágrima solitária.
- Nada, mãe. Eu não sei o que fazer. Queria estar aí com vocês. – Abracei meu corpo.
- Ah, querida. Acontece, meu amor. Está tudo bem.
- Não está não. – Puxei a respiração, sentindo as narinas entupirem. – Eu não aguento mais uma data dessas sem vocês, mãe. – As lágrimas começaram a descer pelas bochechas.
- Não chore, meu amor, por favor. – Ela falou tentando me acalmar. – Está tudo bem. – Suspirei. – Nós vamos dar um jeito, ok?!
- Não sei como, mesmo. Já tentei de todos os jeitos e não tem como, nem de navio. – Ela riu fracamente.
- Os aviões estão pousando normalmente? – Olhei para as janelas do aeroporto.
- Não sei, nem me toquei a isso.
- Talvez possamos ir no ano novo, o que acha? – Ela perguntou e eu dei um pequeno sorriso.
- Seria muito bom. – Suspirei, limpando o rosto. – Só queria estar com vocês.
- Está tudo bem, meu amor. – Puxei minha mala para uma senhora passar e minha bolsa caiu da mesma, derrubando algumas coisas, me fazendo revirar os olhos. – Filha?
- Estou aqui, só derrubei minha bolsa. – Me abaixei para pegar a mesma, vendo minha agenda toda escancarada no chão.
- Você tem aonde passar a noite de Natal? Não quero que fique sozinha. – Levantei a bolsa.
- Relaxa, mãe. Eu me viro, não se preocupe. – Peguei a agenda, vendo que ela estava com uma página dobrada.
- Por favor, meu amor. Ao menos na casa da Anna ou do Andrew, eu não quero... – Prestei atenção no que estava escrito “154 Hicks Street, Brooklyn Heights, espero não te ver lá, Adam”, suspirei. – , você está aí?
- Desculpa, mãe. Acabei de ver na minha agenda um convite de Natal. – Suspirei.
- Vá, querida, mas não fique sozinha, ok?! – Assenti com a cabeça;
- Ok, mãe, eu vou ver o que faço, manda um beijo para o papai, pro Luke, para Mariah e para Nini. – Suspirei, fechando minha bolsa.
- Pode deixar, meu amor. Fique bem, ok?!
- Pode deixar, mãe. – Suspirei. – Nos falamos mais tarde?
- Sim, eu peço para o seu irmão te ligar quando ele chegar aqui. A festa acabou tarde ontem. – Ri fracamente.
- 18 horas de diferença no horário faz uma bagunça na minha cabeça que você não tem noção. – Falei e ela gargalhou.
- Minha filhinha foi fazer sucesso do outro lado do mundo, faz parte. – Sorri.
- Feliz Natal, mãe. À sua bênção. – Falei.
- Que Deus te abençoe, meu amor. – Suspirei e desliguei a ligação.
Olhei para a letra garranchada em minha agenda e respirei fundo, ponderando com a cabeça. Será que...?
Não, não deveria.
Eu nem conheço o cara, além de que aposto que a família dele estaria junto também, é estranho...
Eu acho que me sentiria mal se fosse um estranho na minha família...
Bom...
E tem o filme, contrato de privacidade e envolvimento...
Mas será que...?
Não, eu não deveria.
Suspirei.
Mas e se...
Eu poderia passar a noite escrevendo, tenho somente 20 dias para entregar o próximo capítulo do meu livro, talvez seja uma boa.
Não, ninguém deveria passar o Natal assim, nem eu.
Suspirei novamente.
Eu não quero passar a noite de Natal sozinha. É depressivo até para mim.
Talvez se...
Bom.
Eu posso dar uma passadinha lá, só dar um oi e ir embora.
Não seria tão mal, será?
Talvez não.



Capítulo 2

24 de Dezembro – 20h

- 154, 154… Um, cinco, quatro. – Passei os olhos pela rua e encontrei o número.
Adiantei o carro um pouco mais para frente e precisei fazer uma balize para caber na vaga. Respirei fundo, olhando novamente o bilhete de Adam e joguei a cabeça para trás, vendo os flocos de neve se acomodarem no para-brisa do carro.
- Coragem, . – Falei para mim mesma e empurrei a porta do carro, colocando o celular dentro do bolso do grosso sobretudo e fechei a mesma, seguindo para a porta do carona e abri a mesma, feliz pela minha pavlova estar inteira e fechei o mesmo. - Um, cinco, quatro... – Cochichei novamente, seguindo para a porta e senti minha mão tremer por baixo do refratário e parei em frente à fina e alta casa alaranjada no Brooklyn Heights.
Aquele não era exatamente o melhor lugar para um dos maiores atores da realidade morar, era totalmente fora da Big Apple. Quando eu me mudei para cá, indicaram de cara morar em Manhattan e como eu não conhecia nada e podia pagar um apartamento sensacional lá, por que não? Para Adam pelo visto não era uma boa ideia.
A casa estava silenciosa, bem diferente da minha nas festas de fim de ano, mas uma luz saía da janelinha sobre a porta. Engoli em seco, criando coragem e vergonha na cara de realmente aceitar seu convite e apertei a campainha, bufando em seguida. Algo se mexeu dentro da casa e uma sombra apareceu no lugar da janela e logo a porta foi aberta.
- Olá? – Uma senhora baixa de cabelos loiros abriu a porta e não era quem eu esperava.
- Oi, eu sou , eu...
- ? – Ouvi uma voz ao fundo e desviei o rosto de sua mãe para ver Adam aparecendo pelo corredor central. – Você veio. – Ele falou com uma voz triste.
- Pois é. – Ri fracamente.
- Sinto muito. – Assenti com a cabeça.
- Caham! – A senhora forçou a garganta propositalmente e nos viramos para ela.
- Mãe! – Adam falou surpreso. – Essa é , ela é... – Ele parou a frase no meio do caminho, fazendo careta para pensar em uma definição.
- Sua namorada? – Sua mãe falou e eu comprimi os lábios, segurando uma risada.
- Não. – Falei rindo. – Eu sou uma escritora e Adam fez um teste para o meu filme e... – Suspirei, rindo em seguida. – É complicado.
- Ela é de fora, convidei-a para passar o Natal com a gente, caso ela não conseguisse ir para sua cidade.
- Ah, por isso a decepção em vê-la. – A senhora baixa bateu na barriga do filho que fez uma careta.
- É... – Falei fracamente.
- Ah, vamos sair dessa neve, não é mesmo? – Ela abriu espaço, me fazendo rir e Adam também segurava sua risada. – Vamos entrar, querida.
- Obrigada. – Subi os degraus restantes e entrei na casa quente de Adam.
- Seja bem-vinda. – Ele falou sorrindo e eu assenti com a cabeça.
- Ah, eu trouxe isso. – Estiquei o prato para Adam. – É uma pavlova, é do meu país, é a única coisa que eu real sei cozinhar e que eu conseguisse fazer em quatro horas. – Ele sorriu, pegando o refratário e minhas mãos geladas encostarem nas dele. – Desculpa.
- Nossa, que mão gelada! – Ri fracamente. – Vem para frente da lareira. – Ele acenou com a cabeça. – E você não precisava trazer nada, sério.
- Você salvou meu Natal, não podia vir de mãos abanando. – Sorri, entrando na sala e percebendo outras cinco pessoas ali. – Oi... – Falei sem jeito.
- Gente, essa é a , ela é... – Adam empacou novamente.
- Uma amiga bem desconhecida. – Falei por ele e o pessoal riu.
- Esse são meu padrasto Rodney. – Estendi a mão para o homem, sorrindo.
- Prazer.
- Minha irmã April. – A cumprimentei novamente. - Seu marido Ryan...
- Oi! – Sorri.
- E meu filho Dylan*. – Ele falou do loirinho que se escondia atrás de April.
- Um filho? – Virei para Adam surpresa. – Eu não sei nada disso na sua ficha.
- E vamos continuar assim, tudo bem? – Ele cochichou e eu assenti com a cabeça.
- Entendido! – Sorri e me abaixei para o menino loiro, provavelmente igual a mãe. – Oi, Dylan, eu sou .
- Oi. – Ele acenou com a mão e eu sorri, me levantando.
- Uma graça. – Falei para Adam. – É um prazer conhecer vocês e desculpa me infiltrar na festa de vocês.
- Não se preocupe. – Sua mãe falou.
- Ah, Nancy. – Adam falou. – Acho que não falei o nome dela.
- É um prazer, senhora Driver.
- Vamos nos manter em Nancy, pode ser? – Ela falou e eu assenti com a cabeça.
- É claro. – Sorri.
- Como eu guardo isso? – Adam perguntou sobre a pavlova.
- Fora da geladeira mesmo. – Sorri e ele sumiu para outro cômodo no fundo.
- Então, , Adam disse que não conseguiu ir para sua cidade. – Nancy falou.
- Sim, país, na verdade. Eu sou da Nova Zelândia. – Dei um pequeno sorriso.
- Eu não sabia disso. – Adam apareceu novamente e eu ri fracamente.
- Estamos quites. – Acenei em direção ao seu filho.
- Eu pensei que era australiana pelo sotaque. – Sorri.
- Ele ainda está aqui? – Brinquei e eles riram. – Eu sou de Whangaparaoa, é perto de Auckland.
- Espera, esse é o nome da sua cidade? – April perguntou e eu fiz uma careta.
- É bem interessante aprender a escrever nessa cidade: “ok, agora vamos escrever o nome da cidade W-H...” já era! – Eles gargalharam.
- E eu achando que Mishawaka é difícil. – Adam comentou ao meu lado.
- Não é muito melhor também, não. – Dei de ombros, fazendo-o sorrir.
- Você bebe algo, ? – Rodney perguntou. – Uísque, champanhe?
- Aceito um refrigerante, se tiver. – Falei incerta.
- Claro! – Ele falou até surpresa. – Coca?
- Está ótimo! – Sorri, me sentindo levemente julgada pelos presentes.
- Então, você não bebe ou é porque está dirigindo? – Adam perguntou. – Sabe, acho que até você ir embora já passou o efeito. – Ri fracamente.
- Eu só não bebo mesmo. – Dei um sorriso de lado, sorrindo para seu padrasto quando ele me entregou um copo de Coca-Cola.
- Como vocês se conheceram? – Ryan perguntou.
- Ah sim... – Eu e Adam falamos juntos.
- Ela...
- Eu... – Rimos juntos.
- O filme é seu, melhor você falar. – Ele falou e se afastou, seguindo para o fundo.
- Eu sou escritora e um livro meu está sendo adaptado para filme e Adam foi fazer um teste. – Sorri.
- Por acaso você não é , é? – April perguntou e eu fiz uma careta.
- Posso não ser... – Falei fracamente e ela arregalou os olhos.
- Oh, meu Deus! – Ela falou animada, se levantando da poltrona e vindo em minha direção. – Seus livros são incríveis. – Ela gritou e me abraçou fortemente. – Adam, como você não me disse que vai estrelar em um filme de ?
- Foi só um teste por enquanto. – Fiz uma careta.
- Eu não posso contar. – Ele gritou longe.
- E tem esse motivo também. – Apontei para ele. – Confidencialidade e tudo mais. – Dei um sorriso largo.
- Me fala que é “Incrível Poderosa”, por favor! – Ela gemeu.
- Eu não posso concordar ou negar com as afirmações. – Ela bufou.
- Ah, você é igualzinho ao Adam. – Ri fracamente.
- Pare de amolar ela, querida, vamos lá para a cozinha, sim? – Nancy falou, me fazendo rir.
- Vocês precisam de ajuda? Não que eu seja boa em cozinha, mas...
- Claro, vamos lá no fundo, Adam pode te mostrar a casa. – Seguimos para o fundo da casa e chegamos em uma cozinha com um balcão central e Adam checava algo no forno. – Como está aqui? – Ela perguntou.
- Só pegar uma cor agora. – Ele se levantou.
- Por que você não mostra a casa para ? Eu cuido disso. – Nancy falou.
- Claro. – Ele se levantou, deixando um pano em cima da bancada. – Venha! – Ele me chamou com a cabeça e seguimos de volta para a sala.
- Eu posso tirar isso? – Apontei para o casaco.
- Claro! – Ele bateu na cabeça como se tivesse se esquecido e eu abri os botões do casaco, tirando-o junto do cachecol e ele o segurou para mim e eu fiquei somente com minha cacharrel verde-água por baixo. – Eu vou colocar ali... – Ele apontou para a entrada e eu assenti com a cabeça, vendo-o voltar rapidamente. – Vamos lá. – Ele disse e o segui escada acima.
*É conhecido que Adam tem um filho de uns dois, três anos, mas ninguém sabe o nome.

- Você tem medo de cachorro? – Ele perguntou, se virando para trás e eu neguei com a cabeça.
- Não, por quê? – Ele chegou ao topo da escada e empurrou um cercadinho, não sei se para seu filho ou para o cachorro.
- Eu tenho um. – Cheguei até o mesmo degrau dele e observei um grande cachorro marrom com a língua de fora encarando Adam.
- Que coisa mais linda! – Falei, vendo-o colocar as patas na grade. – Ele morde?
- Não, mas ele brinca demais, então aconselho cuidado. – Ele empurrou a grade, tentando manter o cachorro para dentro e eu passei no espaço vazio, encostando meu corpo no dele.
- Desculpe. – Comentei e ele negou com a cabeça, fechando o cercado de novo.
- Tudo bem. – Ele sussurrou.
- Ei! – Falei para o cachorro que começou a me cheirar e estendi a mão para ele me conhecer e o mesmo lambeu, me fazendo rir. – Qual é meu nome, menino? – Acariciei sua cabeça.
- Moose. – Adam falou, passando pela frente e Moose colocou as patas em minhas pernas, me fazendo rir. – Moose, chão! – Ele falou firme e eu ri fracamente.
- Está tudo bem. – Falei, acariciando a cabeça do cachorro.
- Ele é um rottweiler? – Perguntei, andando para mais perto de Adam, deixando Moose pular à minha volta.
- É sim. – Ele falou e eu sorri. - Minha ex-esposa me deu antes do divórcio.
- Sinto muito. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
- Está tudo bem. – Ele sorriu. – Bom, estaria melhor se não fôssemos sócios em um projeto, mas acontece. – Fiz uma careta.
- Isso é difícil. – Dei um sorriso de lado. – Que projeto? Se eu puder perguntar.
- Arts in the Armed Forces. Nós criamos juntos quando estudamos em Julliard, é um projeto para levar uma programação artística legal para militares em serviço, veteranos, famílias, etc...
- Nossa, que legal! – Sorri. – Você fez parte do exército, não?
- Marinha! – Estalei o dedo como se me lembrasse.
- É isso mesmo, acho que estava no seu currículo. – Ele assentiu com a cabeça. – Então, divórcio, cachorro, filho? – Virei para ele. – É uma daquelas histórias? – Ele virou o rosto como se não entendesse.
- Como assim? – Dei de ombros.
- Eu sou escritora, eu me inspiro com qualquer coisa. – Dei de ombros e ele riu. – Principalmente os momentos que eu vivo. E isso me parece um clichê! – Ele riu fracamente.
- Diferenças irreconciliáveis, guarda compartilhada, ela me deu o cachorro, então ele é meu, enfim, só o bom enredo convencional. – Ele deu de ombros. – Não acho que dê para fazer algo com isso.
- Você já leu algum livro meu?
- Os quatro lançados aqui. – Assenti com a cabeça.
- Então você sabe que eu consigo fazer algo com isso. – Pisquei e ele riu.
- Se te inspirar, fique à vontade. – Sorri. – Vem cá, você vai gostar de ver isso.
Ele empurrou as portas da direita e uma livraria se abriu em minha frente. Ela não era nem de perto grande igual à minha, mas aquele cheiro de mogno misturado com papel ainda me fazia suspirar.
- Só porque eu sou uma escritora você acha que eu gosto de livros e livrarias? – Perguntei e ele deu de ombros.
- O clichê que diz. – Sorri.
- No meu caso, ele está certíssimo. – Suspirei, ouvindo-o rir ao meu lado. – O que você tem de bom aqui?
- Mais roteiros, na verdade. – Ele comentou apontando para vários calhamaços de papel sem capa. – Literatura de diversas partes do mundo, muitas revistas... – Virei para o lado, encontrando alguns livros acumulados em uma mesa e encontrei “Incrível Poderosa” ali.
- E “Incrível Poderosa”? – Ergui o livro para ele, fazendo-o rir.
- Quando minha agente falou do seu filme, eu precisei ler para conhecer antes, aí acabei seguindo para outros. – Ele tirou alguns livros de cima e vi “O Bêabá da Vida”, “Estranha” e “Lute como uma Garota”. – Sorri.
- Se você quiser me falar se gostou, eu agradeço, mas parei de perguntar isso para as pessoas há uns dois anos. – Ele riu.
- Gostei e muito, na verdade. Inicialmente eu achava que suas histórias eram para o público infanto-juvenil, até ler. – Assenti com a cabeça. – Você tem um dom de fazer as situações do dia a dia parecerem algo mais, parabéns.
- Obrigada! – Sorri.
- Seria cara de pau pedir para você autografar? – Gargalhei abertamente, vendo-o com uma caneta estendida para mim.
- Já que estou aqui... – Dei de ombros. – Mas você vai ficar me devendo...
- O que exatamente? – Ele perguntou.
- Até o fim da noite eu decido. – Rimos juntos e eu me debrucei para assinar a folha de rosto dos quatro livros, passando cada um para o lado conforme eu o fazia. – Pronto! – Devolvi a caneta para ele.
- Obrigado. – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
- Então, o que mais você tem por aqui?
- Eu te trouxe aqui praticamente para você assinar os livros, mas se quiser realmente ver, tem mais três andares e o terraço. – Engasguei, batendo a mão no peito.
- Três andares? Isso quer dizer que são cinco? – Perguntei.
- Não pense que é tão grande, a casa cresce para cima. – Ele deu de ombros, seguindo em minha frente para fora da livraria e puxei a porta, incerta sobre Moose. – Aqui do outro lado temos uma sala de estar. – Ele mostrou e eu vi outra sala com lareira e lindos móveis brancos. – Aí aqui em cima tem o quarto e o banheiro principal, em cima temos mais dois quartos de visita e dois banheiros e no quinto também. – Franzi os lábios, realmente surpresa. – Ah e tem lavanderia, adega, um parquinho e tudo mais lá embaixo.
- Ok, tem um porão e cinco andares? – Franzi os lábios. – Sucesso! – Ele negou com a cabeça.
- Você quer ver? – Ele perguntou.
- Não precisa. – Abanei com a mão. – Vamos voltar lá para galera, sua mãe já deve achar que sou sua namorada. – Pisquei e ele riu.
- Me desculpe por isso, afinal. – Ele estendeu a mão. – Desde que eu me separei, ela tenta me juntar com alguém. – Ri fracamente. – Eu nem disse que te chamei para evitar isso...
- Aí eu vim! – Ele riu.
- É, aí você veio. – Sorri.
- Eu tenho que te agradecer muito por isso, sabia? – Suspirei. – Essa época do ano é de lembrar, agradecer, estar próximo de pessoas que amamos, mas também é a época que eu fico mais pensando, então ficar sozinha nem sempre é uma opção. – Ele pressionou os lábios, assentindo com a cabeça. - Sei que nosso grande contato foi um teste que mal trocamos uma palavra e um encontro no HQ da Disney, mas você se tornou uma parte importante para mim.
- Eu só fui simpático com uma pessoa que pareceu bem decepcionante em ver a neve. – Senti meu rosto esquentar.
- Nós temos neve na Nova Zelândia, sabia? – Falei e ele sorriu.
- Força do hábito. – Ele sorriu.
- Adam, vamos servir a ceia! – Sua mãe gritou e ele revirou os olhos.
- Me sinto como uma criança de 13 anos com ela aqui. – Sorri.
- Quem nunca? – Dei de ombros. – Mas ela mora contigo?
- Graças a Deus não. – Rimos juntos.
- Só você e Dylan? – Perguntei.
- Terças e sextas, fins de semana e feriados alternados. – Ele falou desanimado.
- Sua ex mora longe? – Me atrevi a perguntar.
- Três quarteirões daqui. – Suspirei.
- Deve ser difícil. – Ele deu de ombros.
- Só enquanto Dylan é criança, depois combinamos de rever o acordo. – Assenti com a cabeça.
- Que bom, eu acho. – Ele abanou com a cabeça.
- Bom, não estamos aqui para falar dela, não é mesmo?
- Só se ela for o peru. – Falei e ele deu uma risada sem graça. – Desculpa, piadinha sem graça.
- Talvez. – Ele comentou e eu sorri.



Capítulo 3

24 de Dezembro – 22h

- Aí estão vocês, o peru já saiu do forno. – Nancy falou quando aparecemos na escada de novo.
- Estava mostrando a biblioteca para ela. – Adam falou atrás de mim e eu sorri.
- Vamos ficar em volta da mesa? – Adam pegou Dylan no colo e sorri ao perceber que ele não era nada igual ao pai, poderia ser um sobrinho que eu acreditaria.
- , você tem alguma tradição de Natal? – Rodney perguntou e eu esperei que todos ocupassem seus lugares e me coloquei ao lado de Ryan, no espaço vazio.
- Nós só rezamos antes de comer e cumprimentamos todos após a meia-noite. – Comentei e vi Adam tocar o ombro de Ryan e ambos trocaram de lugar, me fazendo deixar escapar um pequeno sorriso.
- É similar ao nosso. – April falou. – Também agradecemos a quem foi importante em nossas vidas ou algum momento importante no seu ano.
- Fazemos isso no ano novo. – Comentei.
- Aqui cada um vai para um lado, querida. – Nancy disse, me fazendo rir.
- Atualmente eu tenho furado com a família, mas faz parte. – Eles assentiram com a cabeça.
- Bom, eu vou começar, então. – Adam falou pegando sua taça. – Eu quero agradecer a Jim Jarmusch, Noah Baumbach, Scott Z. Burns e J. J. Abrams pelas minhas grandes oportunidades que eu tive esse ano. E ao pessoal do Hudson Theathe também. – Vi sua irmã revirar os olhos.
- Agradecer ao apoio da sua família também é bom. – Ela falou, fazendo eles rirem.
- Vocês não gostam das minhas escolhas como ator, então...
- O Kylo é demais! – Dylan falou no colo do pai e eu ri fracamente.
- Você não tem nem idade para ver o Kylo ainda. – Adam fez cócegas em sua barriga e Dylan riu, me fazendo sorrir.
- Ao que você é grato, Dylan? – April perguntou e ele suspirou.
- Ao papai e a mamãe. – Ele falou sorrindo e mordi meu lábio inferior para evitar um sorriso largo demais.
- Mãe. – April falou.
- A todos vocês, por estarmos juntos em mais um Natal. – Eles assentiram com a cabeça e viraram para Rodney.
- A Deus, à igreja, a você e aos seus filhos por me receberem tão bem na família. – Ele falou olhando para Nancy e trocaram um beijo rápido.
- Você faz o mesmo agradecimento há uns 30 anos. – Adam comentou, me fazendo rir fracamente.
- Pelo jeito funciona. – Comentei, vendo Rodney piscar para mim.
- E você? – Ele perguntou e todos olharam para mim.
- Eu costumo ser igual ao Adam e agradecer às conquistas do meu trabalho, mas hoje vou agradecer a vocês, família Driver. – Sua mãe foi pega de surpresa, arregalando os olhos. – Ao Adam, principalmente. – Virei para ele. – Por deixar que uma estranha entrasse na sua família e compartilhasse esse momento tão íntimo. Além de me tratar tão bem.
- Ah, querida! – Nancy esticou a mão e eu a apertei por alguns segundos. – Você é bem-vinda aqui.
- Obrigada. – Sorri.
- Você é a estranha no seu livro? - Adam perguntou rapidamente.
- Quê? – Todos viraram para ele.
- Seu livro, “Estranha”, é você? – Ri fracamente.
- Se eu tivesse o dom de cantar, posso te garantir que não estaria escrevendo livros. – Brinquei e ele riu. – Ryan? Ao que você é grato?
- À April por incríveis três anos. – Ele falou e eu sorri. – E você? – Viramos para olhá-la.
- Eu vou agradecer à . – Arregalei os olhos.
- A mim? – Perguntei rindo.
- A ela? – Ryan e Adam perguntaram levemente ofendidos.
- É! – Ela falou firme. – Quem sabe ela faz o Adam dar mais sorrisos. – Adam revirou os olhos fortemente e eu ri.
- Vocês sabem que a gente não...
- Sim! – Rodney falou.
- Não. – Nancy falou.
- Eu tenho minhas dúvidas. – April ergueu a mão e eu neguei com a cabeça.
- Isso vai ser ótimo para contar no futuro. – Ryan comentou e eu sorri.
- Bom, vamos rezar, não é mesmo? Já estou com fome! – Rodney falou e todos rimos. Eles começaram a se dar as mãos e eu fiz o mesmo entre Adam e Rodney. Ou melhor, entre Rodney e Dylan, já que o mais novo segurou a mão do pai e fez eu segurar a dele, me fazendo sorrir. - Querido Deus, nos reunimos diante dessa mesa para celebrar o Seu aniversário...

- Aqui o molho, querida. – Nancy me passou o molho de mostarda e mel e eu agradeci, despejando um pouco sobre meu prato.
- Obrigada. – Falei, sorrindo.
- Então, , eu conheço seus livros, seus filmes, mas como você chegou aqui? – April perguntou e eu desviei meu olhar do delicioso peru para olhar para ela.
- Como assim? – Passei o guardanapo levemente na boca para falar.
- Como você chegou aos Estados Unidos e fez esse sucesso gigantesco? – Ela perguntou e eu suspirei.
- Uau! Isso é o tipo de pergunta longa. – Eles riram comigo. – Acho que para responder isso eu preciso começar do começo mesmo. – Eles riram.
- Conta para gente! – Nancy falou e eu descansei os garfos, apoiando os braços na mesa.
- Eu comecei a escrever na escola ainda, com nove ou 10 anos, cartinhas para paqueras, redações e eu sempre tive elogios de professores e eles acabaram me indicando para cursos de escrita, de jovens leitoras, enfim, eu fui aperfeiçoando a escrita, fui melhorando, criando gosto por gêneros e, até eu me formar na escola, eu já tinha sete contos escritos. – Eles assentiram com a cabeça. – Fui para faculdade de Letras, Literatura e Línguas na Austrália, que é um curso bem sensacional em Adelaide, e o foco sempre foi escrever e criar seus próprios enredos, aí no meu terceiro ano da faculdade eu comecei a escrever o que hoje é o livro “O Beabá da Vida”, mostrei para amigas, elas acharam que tinha potencial, comecei a publicar online e aí não parei mais. – Dei de ombros. – Aí eu fiz uma publicação independente, um tio meu comprou um, mostrou para alguns conhecidos e uma editora australiana quis publicar o livro, inicialmente eram 10 mil exemplares, mas na internet eu já estava crescendo, então os países em volta já pediam pelo livro, então foi passos bem de formiguinha mesmo, publicamos na Nova Zelândia, depois Indonésia, Papua Nova Guiné, Malásia, Filipinas, Tailândia, todos os países ali em volta, até que chegou no Japão, quando chegou lá, o negócio estourou para o mundo inteiro. – Dei um pequeno sorriso.
- Uau, isso é incrível. – Adam falou e eu assenti com a cabeça.
- Falam que é difícil um livro ser traduzido, mas o seu foi logo de cara. – April comentou.
- Cada país ali em volta da Nova Zelândia fala uma língua, então foi necessário, mas o processo de tradução é muito demorado, então entre eu publicar na Austrália e chegar no Japão foram cinco anos, porque minha editora fazia tudo, então era mais chato.
- E como fazem agora? – Adam perguntou.
- Agora o país meio que demonstra interesse no livro, aí eles cobrem todos os custos e trabalho de tradução, impressão, adequação a região ou ao país e por aí vai. – Ponderei com a cabeça.
- Depois do Japão, você foi para onde? – Rodney perguntou.
- Fui para Inglaterra, o livro foi traduzido em inglês e aí italiano, alemão, enfim, todos os países ali em volta, aí quando traduziu para espanhol, abriu precedente para publicar na América Latina, quando traduziu para o francês abriu precedente para publicar na África e português para publicar no Brasil e países africanos. – Eles assentiram com a cabeça. – Muda algumas coisas de região, mas o básico está feito.
- Estados Unidos foi o último? – April perguntou.
- Foi! – Ri fracamente. – A gente sabia que estourar nos Estados Unidos era outro nível, seria um passo gigantesco, então a gente meio que ficou jogando War pelo mundo, até vir para cá. Antes disso tinha o restante da Ásia para publicar e uma parte da África. – Assenti com a cabeça.
- E como foi vir para cá? – Nancy perguntou.
- É outro nível. – Ri fracamente. – Eu já cheguei aqui contratando um negociador, pois já tinham 12 produtoras querendo comprar os direitos do livro para filmes, séries e afins, é loucura. – Eles riram.
- Em quantos países você está presente hoje? – Adam perguntou e parei para contar.
- Mais fácil eu falar em quantos eu não estou. – Comentei e o vi arregalar os olhos.
- Quantos?
- Não tenho um número exato, mas não estou em países socialistas, de extrema pobreza e na Antártica. – Ele riu fracamente. – Dá uns 20, eu acho.
- De 193 países? Você não está em 20? – Assenti com a cabeça para Ryan. – Você é demais!
- Obrigada. – Ri fracamente. – O mais engraçado é que isso aconteceu há 12 anos somente. – Suspirei.
- Qual sua idade? – April perguntou.
- 34. – Comentei. – Publiquei o livro aos 22, cinco anos depois eu cheguei ao Japão, quatro anos depois eu cheguei aqui e agora fazem três que eu parei um pouco as turnês para produzir as adaptações.
- Você já teve três, não é mesmo? – Nancy perguntou.
- Já sim. – Sorri. – E agora a quarta com “Incrível Poderosa”. – Olhei para Adam. – Um por ano.
- Tá explicado porque você não vai para casa há três anos. – Assenti com a cabeça.
- Vantagens e desvantagens de ser uma pessoa pública. – Ele assentiu com a cabeça, pressionando os lábios e bebeu mais um gole de seu vinho.
- Você parou de publicar por conta dos filmes? – Nancy perguntou.
- Na verdade não, eu tenho cerca de 15 trabalhos já escritos e em processo de publicação, mas eu tenho um contrato com minha editora original de publicar exatamente na mesma ordem que eu publiquei o primeiro e assim por diante.
- Vai demorar nove anos para chegar aqui? – April perguntou surpresa.
- Não, agora é tudo mais fácil, eles fazem o pedido para todas as editoras com quem eu já publiquei, ou seja, umas 173 editoras e depois vão liberando aos poucos. Depois de publicado na Austrália, em uns três meses está aqui.
- Ufa! Imagina só? – Gargalhei, negando com a cabeça.
- Eu tenho meu site também, sempre libero um conto ou outro.
- Eu sei, eu acompanho. – April sorriu.
- Não sabia que sua irmã era fã, Adam. – Ele riu.
- Ainda bem que eu não contei sobre o teste. – Sorri.
- Teste para que personagem, hein?! – Ela perguntou e eu e Adam ficamos quietos, nos encarando, voltando a olhar para nossas comidas. – Ah, qual é!
- Relaxa, mulher! – Ryan falou, fazendo com que a gargalhada ecoasse à mesa.

O resto da refeição seguiu da melhor forma possível. Os Driver conseguiram fazer com que eu me sentisse realmente em casa e confortável para conversar, palpitar nos assuntos e cair na gargalhada com eles sobre piadas e comentários sobre eles ou outros parentes.
Era interessante observar Adam em um momento íntimo como esse. Não sabia dizer se era porque eu estava presente, mas ele era quieto, na dele, soltava alguns comentários irônicos, mas era difícil realmente abrir uma gargalhada gostosa. E, baseado nos diversos filmes que eu vi dele – quase sua filmografia inteira –, eu sabia que ele também tinha um pezinho na comédia e que ele era muito bom nisso.
Ele não se dirigiu a mim ou a ninguém diretamente na mesa durante o jantar. Bom, com exceção de seu filho que teimava em finalizar o pouco de comida que Nancy havia colocado para ele. Do pouco que eu conhecia Adam, eu podia defini-lo como fechado e talentoso. Ele conseguia mudar de papel para papel, qual fosse a necessidade, sem perder a intensidade e ainda era quase misterioso pessoalmente, difícil de se abrir.
Eu me empanturrei de peru, presunto e batatas até me lembrar que estava na casa de estranhos e que um pouco de educação era sempre bom. Quem quer que tenha feito aquela comida, tinha colocado algo muito mais do que só amor.
- Posso ir brincar? – Dylan perguntou para o pai e Adam confirmou com a cabeça, ajudando-o a descer da cadeira e o menino seguiu para próximo à árvore de Natal aonde alguns carrinhos estavam jogados ali.
- Bom, vamos abrir espaço para a sobremesa? – Nancy perguntou se levantando.
- Já terminaram? – April perguntou e o pessoal já começou a passar os pratos para ela e eu fiz o mesmo.
- Estava uma delícia. – Comentei e eles sorriram.
- O peru é de responsabilidade do Adam, o presunto da minha mãe e eu faço as batatas. – April falou orgulhosa e eu ri fracamente, vendo-a seguir em direção à cozinha com os pratos.
- Sabe quem também tem uma inclinação para cozinha, Adam? – Me levantei, ajeitando a cadeira e o mesmo ergueu o rosto para me dar atenção. – Harry. – Pisquei e o deixei rindo fracamente, pegando um dos pratos e seguindo para cozinha, observando ele, Rodney e Ryan me encarando. – Precisam de ajuda, meninas? – Entrei na cozinha.
- Como servimos? – Nancy estendeu a pavlova e eu a segurei.
- Prato mesmo e garfo ou colher, tanto faz, ele derrete na boca mesmo. – Dei de ombros e elas sorriram.
- Está muito bonito mesmo. Você quem fez? – Nancy perguntou.
- Um dos meus poucos dotes culinários. – Suspirei e elas assentiram com a cabeça.
- Eu fiz torta de abóbora. – April falou animada. – Não está com uma cara linda igual a sua, mas tenho meus louros.
- Com certeza. – Falei e segui de volta para a cozinha, colocando em um dos espaços já vago na mesa, encontrando Adam e Rodney também limpando a mesa com os salgados e Ryan brincava com Dylan.
- Isso é uma beleza, hein, ? – Rodney perguntou trazendo os pratos e eu sorri.
- A gente precisa saber fazer algo, não é mesmo? – Eles riram fracamente.
- Vamos comer, gente! Eu fiz uns biscoitinhos também para não perder a tradição. – Nancy colocou um refratário cheio de cookies decorados com temática de natal.
- Dylan, quer sobremesa? – Adam perguntou e ele veio correndo animado.
- Eu quero o que a tia trouxe. – Ele falou e eu dei um sorriso convencido para Adam. – É bonito.
- Você gosta? – Falei com aquele tom de falsa surpresa quando se fala com crianças.
- O que é? – Ele perguntou quando Adam o pegou no colo.
- É nuvem de açúcar... – Ele arregalou os olhos, surpreso. – Com frutas deliciosas.
- Eu quero nuvem, papai! – Sorri quando ele falou com o rosto coladinho ao Adam.
- Faz às honras, por favor? – Adam perguntou e eu me aproximei da mesa, pegando a faca da mão de Rodney e cortei a mesma, ouvindo aquele delicioso “crock” e tirei o primeiro pedaço para Dylan que quase pulou do colo de Adam – levando em conta que aquele homem tinha 1,90 de altura, ele foi corajoso – e correu pegar o prato que eu te entregava. – Come aqui, não vai sujar o tapete. – Adam falou alto e eu ri quando o menino deu meia volta.
- Ok. – Ele falou visivelmente emburrado.
- Aproveita e serve todo mundo, , por favor. – Rodney falou e eu fiz o que me foi pedido, tirando um pedaço para mim mesma, junto da torta de April.



Capítulo 4

24 de Dezembro – 23h

- Acho que está tudo aqui. – Falei quando deixei o último prato na pia.
- Obrigada. – Nancy falou. – Vá lá com o pessoal.
- Por que você não vai lá com o pessoal e deixa que eu cuido da louça? – Perguntei para ela.
- Não, não precisa... – Segurei suas mãos.
- Vocês estão sendo muito gentis comigo, eu só trouxe uma sobremesa, por favor... – Encarei seus olhos castanho claro igual de Adam e ela assentiu com a cabeça. – Eu ajeito aqui. – Ela suspirou.
- Eu não deveria, mas minhas costas agradeceriam um pouco. – Ela disse e eu assenti com a cabeça.
- Vai lá. – Sorri e arregacei as mangas da blusa, olhando para os pratos, talheres e travessas para lavar.
Comecei a organizar os materiais, pegando a buchinha, colocando um pouco de detergente e comecei os trabalhos, tentando deixar que meu TOC não diagnosticado não organizasse o lado que o escorredor estava e nem onde colocar as louças depois.
- Não acredito que ela deixou você lavar a louça. – Virei para o lado, vendo Adam entrando na cozinha.
- Eu sei ser bem convincente quando quero. – Falei, tirando o sabão dos refratários.
- Ela está cansada. – Ele falou. – Ela trabalhou o dia inteiro preocupada em fazer tudo perfeito depois que eu me separei. – Ele coçou a nuca, jogando seus cabelos longos para o lado.
- Parece que vocês estão lidando bem com isso. – Ele deu de ombros.
- Não tem porquê ficar lembrando disso. Passou, mas agora está no passado, então... – Ele parou ao meu lado, deixando um copo dentro da pia quase vazia e pegou um pano de prato.
- E agora você se afunda no trabalho? – Perguntei, estendendo um refratário para ele.
- De certa forma, esse ano foi muito importante para mim, então meu tempo livre eu dedicava ao meu filho... – Ele começou a secar.
- Nunca imaginei que você já tivesse um filho.
- Minhas vidas pessoal e profissional são bem diferentes e eu tento mantê-las bem separada. – Assenti com a cabeça.
- Queria conseguir fazer isso. – Suspirei. – Faz quatro anos que eu não sei mais o que é vida pessoal. – Suspirei.
- Sem namorados e pretendentes na sua lista? – Ele perguntou pejorativamente e eu ri fracamente.
- Só personagens literários. – Ele gargalhou.
- É, acho que já me apaixonei por alguns também. – Ele deu de ombros e eu sorri.
- Escuta... – Ele falou colocando uma mão em meu ombro e eu me silenciei, desligando a torneira, tentando ouvir o que seus ouvidos captavam.
- “Ela é ótima, finalmente ele trouxe alguém incrível para gente conhecer”. – Ouvi a voz de Nancy.
- “Ele diz que não tem nada, amor...” – Rodney foi interrompido.
- “Ainda”. – Ouvi April e eu e ele nos entreolhamos, dando risadas silenciosas.
- Eles já devem ter marcado o casamento. – Ele comentou e eu sorri.
- Não julgo, minha família provavelmente faria o mesmo. – Dei de ombros.
- Nem adianta brigar com minha mãe, é a mesma história desde que eu fiz Girls.
- Como assim? – Virei para ele, sacudindo as mãos dentro da pia e ele me entregou o pano para que eu secasse a mão.
- Vamos só dizer que ela é complicada. – Assenti com a cabeça, virando de costas para a pia e encostando a cintura na quina da mesma.
- Entendo o que é isso, acho que até hoje minha mãe não leu nenhum livro meu. – Suspirei.
- Mesmo? – Ele se virou para mim.
- Mesmo. – Dei um meio sorriso. – Ela me dá todo apoio que eu preciso e eu a amo demais, mas acho que nunca leu. – Suspirei. – Em partes eu acho até bom, assim ela não tem com o que me julgar.
- Talvez tenha algumas cenas que você precise ser julgada. – Ri fracamente, sentindo meu rosto esquentar e eu dei um sorriso cara de pau para ele.
- Acontece. – Foi só o que consegui falar. – Mas e seu pai? – Perguntei, ficando de frente para ele, agora apoiada na bancada no centro do cômodo. – Qual a história?
- Como assim?
- Quem é Rodney? – Ele suspirou.
- Eu e meu pai nunca tivemos uma boa relação, nem ninguém, na verdade. – Ele deu de ombros. – Eu e April temos um ano e meio de diferença, quando eu tinha três anos meus pais se separaram e, se a relação com minha mãe não é legal, com meu pai é pior ainda. – Dei de ombros. – Rodney é pastor da igreja que a gente frequentava em Mishawaka, ele faz bem para minha mãe, é o que importa. – Assenti com a cabeça, vendo-o cruzar os braços.
- Sempre. – Assenti com a cabeça e virei de costas esticando o pano de prato em cima bancada.
- Hum, ... – Virei para ele.
- O quê? – Ele apontou em direção à minha calça.
- Acho que seu bumbum está brilhando. – Franzi a testa e puxei o celular do bolso, vendo uma ligação e a foto da minha mãe na mesma.
- Você se importa? É minha mãe.
- Fique à vontade. – Ele falou, se retirando e eu sorri, deslizando o dedo sobre a tela.
- Oi, mãe! – Coloquei o telefone na orelha.
- Oi, meu amor. Como você está? – Minha mãe respondeu.
- Ah, por aqui está tudo certo. E aí? – Apoiei o corpo na bancada central.
- Você foi na casa do seu amigo? – Ela perguntou.
- Estou aqui e não somos exatamente amigos... – Falei em um sussurro.
- Namorado, então? – Ela perguntou e eu ri fracamente, olhando para a porta para ver se Adam não estava lá.
- Não, mãe. A gente se conheceu há uma semana, eu nem deveria estar aqui, na verdade. – Suspirei. – Ele fez o teste de um filme, essas coisas andam em segredo absoluto até a divulgação. – Ri fracamente.
- Ah, é ator? – Ela sussurrou como se tivesse fugindo das vozes que falavam alto do outro lado do telefone. – Quem é? Eu conheço? – Suspirei, revirando os olhos.
- Talvez conheça...
- Eu trabalho com nomes, filha. – Suspirei, virando para a porta novamente, vendo se estava sozinha novamente.
- Mãe, eu não posso...
- Nome! – Ela falou mais alto.
- Adam Driver. – Falei baixo, me aproximando da porta e ouvindo as conversas na outra sala.
- Hum, ele é charmoso! – Ela comentou e eu revirei os olhos. – Tem certeza que não é um amigo, pelo menos?
- Mãe!
- O quê? Olha esses olhos penetrantes, essa boca, esses cabelos... – Senti meu rosto esquentar e coloquei a mão na testa, tentando me esconder. – Ele é sexy, filha...
- Mãe! – Falei um pouco mais alto.
- Só estou falando que você tem uma opção e você está na casa dele agora mesmo.
- Mãe, por favor. – Suspirei.
- Ah, filha, você não namora há quanto tempo? – Suspirei.
- Uns 10 anos...
- Viu?! Até eu tenho uma vida romântica melhor do que a sua... – Ela abaixou o tom de voz. – E eu não sou uma das escritoras de romance mais renomadas da minha época. – Suspirei.
- Chega desse papo, como está o pessoal aí? – Suspirei.
- Pensa no que eu falei, ok?! Ele é gato. – Revirei os olhos.
- Mãe, chega disso, atores de Hollywood, principalmente atores cotados para meus filmes, estão foras de cogitação...
- Ele é solteiro, né?! – Me sentei em uma das banquetas.
- Divorciado com um filho de dois anos e meio.
- Solteiro, então. – Bati a mão na testa novamente.
- Eu tenho que ir, mãe. – Falei. – Já estou escondida há bastante tempo.
- Eu sei que você está fugindo da conversa...
- Feliz Natal, mãe! Amo vocês. – Tirei o celular da orelha.
- Se proteja, ok?! Usem camisinha! – Apertei o botão de desligar, me fazendo bufar.
- Caralho! – Suspirei, me vendo sozinha na cozinha e fechei os olhos.
Imediatamente os olhos de Adam apareceram em minha mente, os olhos castanho claros, descendo para o nariz e depois os grossos lábios, me fazendo abrir os olhos apressadamente. Senti a respiração pesada e neguei com a cabeça, sacudindo os cabelos.
Apertei o celular em minha mão e desbloqueei o mesmo, procurando pelo navegador e digitei “Adam Driver shirtless”, esperando a página carregar, arregalando os olhos quando isso aconteceu. Meu Deus! Ele escondia totalmente o ouro embaixo do suéter que usava. Ele não era só charmoso, ele era gostoso também.
- Pronto? – Me assustei, deixando o celular pular da minha mão e o bloqueei novamente rapidamente. – Desculpe, não queria te assustar. – Adam falou.
- Tudo bem, eu só não esperava. – Ele riu fracamente.
- Tá tudo bem com a sua família?
- Sim, mandaram abraços e agradeceram por me receberem. – Fingi alguma coisa, apesar de ser meio verdade.
- Vem conversar, então. Depois eu organizo as comidas. – Ele falou e eu sorri, seguindo em sua direção, sentindo-o apoiar a mão levemente em minhas costas quando eu passei.

25 de Dezembro – 00h

- Desculpa a demora, estava falando com minha família. – Sorri fracamente, apontando o celular para a família de Adam.
- Quantas horas são de diferença, ? – Nancy perguntou.
- 18. – Comentei, checando o relógio. – São quase seis da tarde de amanhã lá.
- Deve ser meio difícil para se comunicar. – Adam comunicou.
- A gente gosta de brincar que eles estão viajando no tempo. – Dei de ombros e eles riram.
- Eles te contam o que acontece? – Ryan perguntou.
- Não. – Fiz um falso bico exagerado. – Isso pode afetar a linha do tempo. – Ele riu.
- De Volta para o Futuro? – Adam perguntou me estendendo um copo e eu sorri.
- O quê? Eu sou fã! – Dei de ombros e ele sorriu.
- É Coca-Cola. – Adam falou baixo sobre o copo e eu agradeci com a cabeça.
- Obrigada. – Dei um pequeno gole no mesmo, dando um pequeno cheiro quando aproximei do nariz.
- Pai, olha isso! – Dylan gritou e Adam entregou seu copo a Ryan e seguiu para o lado do filho, se ajoelhando e se sentando ao lado do filho. – É você! – Ele esticou uma action figure do Kylo e eu coloquei a mão na boca, tentando me conter com a fofura.
- Esse não sou eu, querido. Esse é o Kylo. – Adam pegou o boneco, analisando o boneco. - Está bem melhor que o original. – Revirei os olhos, rindo fracamente.
- Não fale besteira. – Escapuliu e eu fechei a boca novamente, fazendo uma careta.
- Gente... – Rodney chamou atenção. – É meia-noite! – Ele disse como se fosse óbvio. – Feliz Natal.
- Feliz Natal! – O pessoal falou alto e eu enfiei as mãos no bolso do casaco, vendo Rodney abraçar Nancy, Ryan abraçar April, Adam abraçar Dylan e eu sobrei. Dei uma volta ao redor do corpo, franzindo os lábios e dando aquela básica olhada na decoração e virei novamente para a árvore de Natal.
- Feliz Natal. – Virei novamente, vendo Adam com Dylan no colo e um largo sorriso no rosto.
- Feliz Natal! – Dylan falou divertidamente e eu sorri, vendo-o se esticar para meus braços e eu o peguei no colo.
- Feliz Natal, seu lindo! – O abracei fortemente, sentindo-o se aninhar em meu colo e encarei Adam, o qual mantinha um pequeno sorriso no rosto.
- Vamos dar espaço para os outros, seu aproveitador? – Adam comentou, fazendo cócegas nas costas dele e Dylan se puxou para baixo, indo para o chão.
- Com ciúmes de uma criança? – Brinquei e ele riu.
- Feliz Natal! – Ele disse e passou os braços ao redor do meu corpo, me fazendo sorrir e eu o abracei pela barriga, encostando a cabeça em seu peito.
- Feliz Natal. – Suspirei, fechando os olhos.
Seu abraço me fez lembrar do abraço de meu irmão. Meu irmão que eu não via há mais de quatro anos, ou minha mãe, meu pai e toda a grande família de Whangaparaoa e uma pequena lágrima escorreu pela bochecha, pingando no suéter de Adam.
- Desculpe! – Ergui a cabeça, passando a mão sobre a bochecha, puxando a respiração.
- Está tudo bem? – Ele perguntou.
- Só me lembrando da minha família. – Neguei com a cabeça e ele passou a mão em minha bochecha.
- Está tudo bem. – Ele disse.
- Eu sei. – Suspirei. – Vocês são ótimos, isso me faz bem, é só que, apesar de tudo...
- Eu sei. É a saudade. – Ele falou e eu dei um pequeno sorriso.
- Não fique assim, você já é parte da família. – Ouvi a voz de Nancy e abri um sorriso.
- Driver? – Ryan perguntou. – Soa engraçado.
- Eu gosto! – April falou sugestivamente e eu neguei com a cabeça.
- Feliz Natal, gente! – Falei e Nancy veio me abraçar fortemente, seguido de todos da família, fazendo com que eu me sentisse mais acolhida ainda.
Quando todos nos separamos novamente, segui em direção à janela, percebendo os pontos brancos caindo do céu e afastei a cortina um pouco, soltando uma risada sozinha ao perceber os carros da rua todos cobertos da neve grossa que caía ali.
- Você gosta de neve? – Ouvi a voz de Adam atrás de mim e eu suspirei.
- Um pouco, depende do momento... – Ele riu fracamente. - Me dá uma sensação de acolhimento. – Abracei meu corpo. – Mas não sei lidar com isso, sou uma pessoa praieira. – Suspirei.
- Eu já sou da neve, nasci em San Diego, mas morei em Indiana minha vida inteira, acho que é por isso que eu gosto tanto de Nova York, me identifico com o tempo. – Suspirei.
- Eu moro aqui há quatro anos e ainda não me acostumei. – Virei o rosto para o lado, encarando seu perfil sério e as duas mãos enfiadas no bolso da calça. – Sabia que eu tenho sérias dificuldades em escrever no frio?
- Mesmo? – Ele perguntou.
- Mesmo. E dificilmente consigo produzir no frio, então eu estou com vários capítulos atrasados para enviar para a editora.
- Algum motivo em especial para aparentemente odiar essa época do ano? – Ele perguntou e eu ri fracamente.
- Você já sabe. – Tirei a mão de dentro do bolso e segurei a sua, sentindo-o puxar a sua de volta rapidamente.
- Meu Deus! Eu pensei que fosse por causa do frio lá fora. – Gargalhei.
- Em partes, mas chega essa época e eu congelo. – Suspirei. – Os pés estão iguais.
- Isso é loucura. – Ele disse.
- Eu cogito todo fim de ano viajar para algum lugar quente, tipo Brasil. – Fiz uma careta. – Adorei divulgar o livro lá.
- Não precisa ir tão longe, você pode passar umas férias na Califórnia, Flórida...
- Já passo bastante tempo por lá. – Suspirei. – Nove entre 10 voos sou eu indo para Burbank acompanhar gravações. – Ele deu um pequeno sorriso.
- Já devemos ter nos encontrado lá. – Ele disse e eu dei de ombros.
- Talvez. – Sorri, guardando a mão dentro do bolso da calça novamente.
- Não, não. Vem cá! – Ele me puxou pela mão e me levou em direção à lareira acesa. – Agora fica aqui até essa pedra de gelo descongelar. – Sorri, vendo sua larga risada.
- Não é fácil assim, sabia? – Perguntei.
- Precisamos começar por algum lugar. – Ele esfregou suas mãos na minha e eu suspirei, assentindo com a cabeça, sentindo sua mão quente sobre a minha e não consegui evitar mais um sorriso naquela noite.



Capítulo 5

25 de Dezembro – 1h

- E como é? – April perguntou acariciando Moose que teve permissão para descer depois que as comidas saíram da mesa.
- Ah, é meio solitário. – Dei de ombros. – Bom, ser escritora é um trabalho meio solitário, né?! Silêncio, calmaria, é meio que uma necessidade, mas eu tenho a Anna e o Andrew para me fazer companhia.
- Aqueles que estavam no teste? – Adam perguntou, estalando o dedo para Moose que abandonou April e foi até o dono, fazendo sua irmã fechar a cara.
- É! – Assenti com a cabeça. – Anna é a minha editora aqui nos Estados Unidos e Andrew eu o encontrei na faculdade de Harvard fazendo economia.
- Ele parece novo. – Adam comentou.
- E é! Ele tem 18 anos. – Comentei e notei que o mesmo se engasgou com sua bebida.
- Opa! – Nancy comentou, batendo nas costas do filho.
- Como isso?
- Não sei, mas o garoto é um gênio. – Abanei as mãos. – Bom, ele fez a Disney comprar os direitos do meu primeiro livro por quase um bilhão de dólares. – Todos da sala arregalaram os olhos.
- O QUÊ? – Ryan gritou.
- Pois é. – Falei mais baixo, dando um sorriso de lado. – Isso veio um acordo de exclusividade total, todos os meus filmes vão ser feitos pela Disney e tudo mais, mas é...
- Olha... – Ryan se levantou e estendeu a mão, eu franzi a testa e estendi a minha, sentindo-o dar uma pequena sacudida. – Que eu pegue um pouco dessa sua sorte. – Neguei com a cabeça, vendo o pessoal rir.
- Tem suas vantagens, tenho que admitir, mas o trabalho é daquele jeito... – Deu de ombros.
- Aposto que você é o tipo de pessoa que tem um cômodo na sua casa de frente para o rio Hudson, aquela calmaria toda, só para você escrever. – April comentou.
- Eu moro na frente do Central Park e meu escritório dá para ele. – Pisquei e ela sorriu.
- Típico de autora...
- Mas eu escrevo muito na cama, TV ligada em algum filme e só vou. Deixo os dedos dançarem pelo teclado. – Dei um pequeno sorriso.
- Deve ser legal criar esses mundos, não só fazer parte deles. – Adam comentou.
- Seu trabalho também é muito legal, queria eu ter feeling para ser atriz.
- Nunca teve peças na escola ou algo do tipo?
- Eu sempre cuidei do roteiro. – Dei de ombros e o pessoal gargalhou. – No máximo uma iluminação.
- Você é bonita, deveria ficar menos atrás de livros e mais na frente das câmeras. – Adam comentou, fazendo com que minha bochecha esquentasse.
- E qual sua desculpa? – April falou e Adam empurrou-a de lado, fazendo-a cair do pufe que estava sentada, me fazendo rir fracamente.
- Ainda bem que eu não derrubei meu champanhe. – Ela comentou e Adam mesmo se levantou para ajudá-la.
- Acho bom parar, não é mesmo? – Nancy comentou, pegando o copo meio vazio da mão da filha.
- Pai... – Dylan puxou a calça de Adam e o mesmo se abaixou para falar com o filho.
- Fala, campeão! – Ele bagunçou os cabelos loiros.
- Lê uma história para mim? – Ele perguntou baixinho e com o rosto abaixado, provavelmente pela atenção causada.
- Sabe quem é uma boa contadora de história? – Adam ergueu os olhos para mim.
- Ah, não! – Ri fracamente. – Como você diz isso? Você não sabe. Eu sou uma péssima leitora.
- Me permita duvidar. – Adam se levantou. – Nos lançamentos a autora sempre lê o primeiro capítulo do livro, certo?
- Não sempre, mas...
- Pronto! – Ele sorriu.
- Você lê? – Dylan perguntou e fiz um bico com aqueles olhos castanhos iguais do pai.
- O que você gosta de ler? – Perguntei, me ajoelhando na sua frente.
- Gibi! – Ele falou animado.
- Gibi? – Fingi surpresa! – Pega o seu favorito para eu ler. – Falei.
- Eu pego, eu pego! – Adam falou.
- Pega o do Homem-Aranha! – Dylan falou animado e eu sorri.
- Vai se arrumando para sua história! – Adam falou já no pé da escada e Dylan saiu correndo para subir no sofá da sala, com a ajuda de Rodney.
Andei até o lado do sofá, puxando um pufe para mais perto do sofá e me sentei ao lado de Dylan que se aconchegava no sofá. Ouvi passos e Adam desceu as escadas novamente, segurando o gibi com a ponta dos dedos. Quando ele chegou perto de mim, ele esticou a mesma e se sentou no espaço vazio do sofá.
- Hum, Peter Parker, é?! – Vi na capa e Dylan confirmou com a cabeça.
- Ele é grande e tem um filho. – Dylan falou animado. – Chama Ben, igual ao personagem do papai.
- Você levou seu filho para ver Star Wars? – Perguntei para Adam.
- Não, ele não tem idade para isso, mas eu conto para ele. Ele gosta de saber. – Sorri, abrindo o gibi com cuidado.
- Conta, conta! – Dylan falou.
- “Em um longo tempo no futuro, Peter e Mary Jane tem um filho, Ben Parker, diferente de tudo o que foi esperado dele, ele não herdou os poderes de seu pai...” – Olhei os olhos empolgados de Dylan. – “Ben precisava enfrentar outros problemas, como o de ser um garoto normal e esconder o maior segredo de sua vida: ser filho do Homem-Aranha”. – Virei a página. – “Como diria seu tio-avô: com grandes problemas vem grandes responsabilidade, Ben sabia que não podia passar sua vida vivendo à sombra de seu pai, então...”
- Pode parar! – Adam falou e eu ergui o rosto, vendo Dylan com os olhos fechados.
- Fácil assim? – Adam acariciou os cabelos do filho e o mesmo não deu nenhum indício de que estava acordado.
- Ele estava segurando o sono faz um tempo. – Adam se levantou. – Ele faz isso quando tem visita. – Sorri.
- Eu sou o novo brinquedinho? – Brinquei.
- Em partes. – Ele sorriu. – Eu já volto, vou levá-lo para cama.
- Por que você não o ajuda, ? – April comentou e eu entendi a deixa.
- Claro! – Me levantei, vendo Adam pegar seu filho no colo.

- Desculpe pela minha família. – Adam falou quando chegamos ao primeiro andar da casa.
- Não se preocupe. – Puxei o celular do bolso, vendo uma única conversa com 236 mensagens não lidas e estiquei para ele. – A minha deve estar fazendo igual.
- À distância é menos pior. – Sorri.
- Você que se engana. – Suspirei. – Vergonha a gente passa em qualquer lugar. – Ele sorriu e segui com ele para mais um andar.
- O que você contou para eles? – Ele perguntou e eu pensei um pouco.
- A verdade. – Olhei para ele, chegando ao segundo andar e percebi que tinha somente um largo quarto à esquerda e um largo banheiro à direita.
- Eles acham que você está mentindo. – Ri fracamente, vendo-o apontar para as portas duplas fechadas e me apressei até elas, abrindo-as.
- Nem eu sou capaz de inventar uma mentira tão crível para eles. – Olhei o largo quarto se abrir e percebi a grande cama de casal no meio do quarto, com uma decoração incrivelmente minimalista. Além disso, um berço pouco maior que o convencional estava próximo a uma das suas janelas, que foi aonde Adam colocou seu filho.
- Você é escritora, como não criou nada? – Ri fracamente.
- O que eu ia falar? Nada que eu pudesse falar faria que esse título de “namorados” saísse das nossas costas.
- Talvez elas enchessem por não ter contado a elas. – Suspirei, vendo-o acariciar a cabeça de seu menino e dar um beijo no local, me fazendo esconder um pequeno sorriso com as mãos.
- Minha família tem mais de 50 pessoas e todas elas estão em casa, não! – Ele riu fracamente.
- Vamos lá fora. – Ele disse e segui para fora com ele, vendo-o puxar as portas. – Talvez seria melhor termos mudado a abordagem. – Ele disse.
- Como? – Ri fracamente. – Eu literalmente conversei por 15 minutos ou menos nas duas ocasiões que estive contigo. Não é como se tivéssemos criado uma intimidade incrível. – Desci a primeira leva de escadas.
- Você está passando o Natal na minha casa, já era. – Ele comentou e o senti segurar minha mão quando eu ia descer o próximo degrau. – Vem cá. – Ele indicou com a cabeça a sala em frente à biblioteca e o segui até a mesma, sentindo-o deixar os dedos escaparem quando ele teve minha atenção. – Como diz meu tio: dá dinheiro para uma pessoa, mas não dê intimidade...
- Bom, eu invadi sua intimidade meio rápido demais, eu deveria ter ligado. – Suspirei e dei um estalo. – Você não deixou seu telefone.
- Não é tão mal, vai?! – Ele se sentou na poltrona e eu me acomodei no sofá em L à sua frente.
- Não! – Falei rapidamente. – Sua família é ótima, mas foi muito rápido, eu não pensei direito, sério. – Neguei com a cabeça. – A privacidade é para ser privada, entende? Você tem um filho, Adam, ninguém sabe disso e eu sei... – Falei um tanto incrédula.
- E o que você vai fazer com essa informação? – Ele perguntou.
- Nada! – Dei de ombros. – No máximo mudar minha visão sobre você ou usar essa criança maravilhosa na inspiração de um personagem. – Ele abriu um largo sorriso. – Ele é ótimo.
- Obrigado. – Ele relaxou o rosto. – E por que você mudaria sua visão sobre mim? – Ele perguntou e eu relaxei os ombros, encostando as costas no sofá.
- Eu já te conhecia de alguns filmes e eu sempre tive essa visão do Adam Driver quieto, sério, cult... – Ele riu fracamente.
- Eu sou assim...
- Não só assim! – O interrompi. – Eu vi vários filmes seus durante essa semana, e você é ótimo! – Exagerei o movimento com as mãos. – Você é engraçado, você é relaxado, você dança, você canta, você foi militar, você estudou em Juilliard... – Encarei seus olhos. – Você é gostoso! – Neguei com a cabeça, vendo-o rir. - Você é um em um milhão, Adam. – Suspirei, apoiando os cotovelos nas pernas e o queixo entre as mãos. – Esse é você, não o cara quieto e sério que você demonstra lá fora ou com seus projetos.
- Ok, você ganhou. – Assenti com a cabeça.
- Eu não estou em uma luta, eu só realmente gosto de ver que as pessoas não são só o que elas aparentam ser na TV. – Relaxei o corpo na poltrona novamente.
- E você, , quem você é na vida real? – Ele perguntou e eu dei de ombros.
- Eu sou assim. – Ergui os braços. – Essa é a genuína . Provavelmente a mesma que você vê em entrevistas e em reuniões. – Dei um pequeno sorriso. – É mais fácil quando seu produto principal saiu da sua mente e você só precisa passar por um papel. – Dei um meio sorriso.
- Você está me dizendo que você é assim no profissional também? – Ele se levantou e se seguiu até o minibar ali do lado, se servindo de uma dose de uísque.
- Ninguém nunca me disse outra coisa. – Sorri.
- Está me dizendo que a pessoa que tem um contrato de quase um bilhão de dólares com a Disney é “assim”? – Ele bebeu um pouco. – Não quer algo?
- Estou bem, obrigada. – Ele voltou para o sofá, se sentando na outra ponta e cruzando uma perna para cima do mesmo. – É, eu sou assim. – Ri fracamente.
- Você parecia mais tímida entre quatro paredes.
- No teste, você diz?
- É! – Neguei com a cabeça.
- Esse mundo de Hollywood ainda me surpreende. Você estava no meu teste, Adam. – Suspirei. – Que porra Kylo, Charlie, Flip, Garupe, Daniel, Philip e muitos outros estavam fazendo em um teste do meu filme?
- Eu recebi o roteiro há um tempo e me interessei, aí conheci seu trabalho e fui buscando, vocês abriram testes, por que não tentar?
- Porque você é fucking Adam Driver. – Falei firme, colocando uma perna em cima do sofá também. – Antes de qualquer teste, o papel seria seu só por ter demonstrado interesse. – Suspirei. – E não é pelo filme em si, pela sua popularidade. É pelo livro. – Falei animada. – Eu não sei como, mas você se tornou meu Harry e agora você deu a deixa, e eu quero você.
- Vamos falar de negócios agora? – Ele deixou o copo na mesa ao lado do sofá.
- Não! – Falei. – Não venha com essa pose de negociador comigo. Eu já tenho Andrew para aturar e ele é bem mais novo. – Ele riu fracamente. – Eu quero saber o que eu preciso fazer para ter Adam Driver como Harry. – Estiquei um braço no apoio do sofá.
- Mudar o nome do personagem já é um começo. – Ele brincou.
- Não vai acontecer. – Sorri e ele retribuiu. – Me diga, o que você quer?
- Não estou entendendo, eu fui no teste apto a participar do filme, caso eu passasse, então, imagino que você saiba algo que eu não sei do que está falando.
- Trabalhar em um filme meu é similar a uma nova franquia Star Wars. – Falei. – Não na legião de fãs, não sou metida o suficiente para achar isso, mas na parte de divulgação do filme e gravação. – Suspirei. – Eu andei lendo umas histórias, você dá 110 por cento no papel. Você entra de corpo e alma nisso, mas você também não gosta de ver meus trabalhos, não fica muito confortável em entrevistas. Eu quero que você se divirta com esse trabalho, não que seja um fardo para você.
- Não é um fardo para mim, eu gosto muito do que eu faço e gosto de saber que eu sou bom nisso...
- Parabéns pelas indicações, por sinal. Estou torcendo por você*. – Ele sorriu.
- Valeu. – Ele disse. – Mas eu não sei ser simpático de graça, odeio ver meus trabalhos, tem algo a ver com rejeição ou sei lá o quê...
- Ansiedade, talvez. – Suspirei.
- Eu faço terapia, mas é algo que eu não consigo superar. É algo vulnerável demais. É o meu corpo em jogo. Espero que não veja isso de forma ruim, mas minha arte e meu corpo são a mesma coisa, mas dentro desse corpo tem uma alma, uma pessoa que também não gosta de rejeição, que já teve problemas em casa, no trabalho, em relacionamentos...
- Você não precisa falar isso para mim. – Comentei com o tom de voz mais baixo.
- Somos íntimos já, certo? – Ri fracamente.
- Todos já tivemos problemas, Adam. Mas estamos aqui, não é mesmo? Você como ator, eu como escritora. Eu já tive rejeições também, tenho vários problemas psicológicos que uma vida louca de viagens, lançamentos e distância de qualquer relação humana pode ter. – Suspirei, sentindo que aquilo estava indo para outro caminho. – O momento mais íntimo que tive nos últimos quatro anos foi o seu abraço lá embaixo. – Confessei baixo. – Todos enfrentamos demônios, mas são exatamente para isso que eles existem, para serem enfrentados e vencê-los. – Mordi meu lábio inferior, soltando a respiração pesada pela boca. – Nós estamos aqui para sermos desafiados, aposto que nenhum de nós dois estaríamos aqui se alguém não olhou para gente e falou “você não presta”. Nós pagamos para ver.
- Você já...? – Ele perguntou.
- Não com essas palavras, mas cada negação de uma editora comprovava isso. – Assenti com a cabeça. – No seu caso são os testes. – Me levantei, seguindo até o piano que estava à beirada na janela fechada. – Quantos testes você não passou e as pessoas te davam respostas genéricas? Ou pior, usavam sua beleza, sua altura, seu corpo, seu sotaque ou o que for como desculpa? – Dei de ombros. – Posso te garantir que ninguém está livre delas. – Suspirei, apertando uma nota aguda no piano, me fazendo suspirar. – Alguém que deu sorte analisa os maiores como se fossem deuses, quando as vezes somos iguais ou melhores, mas também queremos ter essa mesma sorte e sermos os que avaliam os outros. – Neguei com a cabeça. – Estou saindo do foco aqui. – Suspirei e me sentei ao piano. – Me diga, você está disposto a viver o Harry e fazer toda parte chata do trabalho? – Posicionei as mãos em cima do piano e virei o rosto para ele.
- Quantos filmes? – Ele se levantou e andou em minha direção.
- Só um. – Suspirei. – E uma possível série na Disney Plus daqui 10 anos.
- 10 anos? – Ele falou assustado.
- Vamos dizer que existe uma continuação em andamento, mas o foco vai ser na filha dele. – Suspirei.
- Uma possibilidade?
- Sim! – Suspirei. – Se passa 10 anos após o final do livro, então nada melhor do que deixar esse tempo passar.
- Eu não sei nem se estarei vivo até lá. – Ri fracamente, tocando algumas notas esporádicas.
- E ainda estamos aqui, não é mesmo? – Comecei a movimentar os dedos ritmados, saindo Clocks do Coldplay. – The lights go out and I can't be saved, tides that I tried to swim against. Have brought me down upon my knees, oh I beg, I beg and plead, singing... – Suspirei, deixando as mãos escorregarem no piano.
- Você é boa. – Ri fracamente.
- Eu só sei essa música, fiz um mês de aula só. – Ele riu fracamente e se sentou ao meu lado, me fazendo dar um espaço para ele.
- O que aconteceu?
- Uma editora me ligou e o resto é história. – Dei de ombros e vi suas mãos se posicionarem ao piano e ele começou uma melodia conhecida.
- Happy Birthday? – Perguntei e ele riu, tocando o verso completo, antes de parar.
- Eu cantei no meu teste para Julliard. – Virei para ele.
- Você está brincando...
- Pior que não. – Gargalhei, colocando as mãos na boca para abafar o som e apoiei a mão em seu ombro.
- E você entrou?
- Para você ver. – Gargalhamos juntos.
- É a melhor história que eu já ouvi. – Ri e ele negou com a cabeça.
- Eu sei algumas outras, mas só músicas clássicas ou de musicais.
- Toca. – Falei.
- Não, qual é.
- Por favor, depois voltamos ao papo do filme, vai. – Comentei e ele me encarou por alguns segundos, com o rosto próximo o suficiente para que eu sentisse sua respiração e ele assentiu com a cabeça.
- Ok, ok. – Ele começou a movimentar os dedos nas teclas em alguma música que eu não conhecia e permiti deitar minha cabeça em seu ombro, só aproveitando a música.


*Adam concorreu a diversas premiações de Hollywood no começo de 2020 pelo seu papel em História de um Casamento, infelizmente não ganhou nenhuma.



Capítulo 6

25 de Dezembro – 2h

- Ok, me diga o filme da sua vida. – Ele me perguntou e eu suspirei, pressionando os lábios.
- De Volta para o Futuro. – Falei, fazendo uma careta em seguida.
- Para valer? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça.
- Apesar de falar para as pessoas que é E o Vento Levou... – Sua gargalhada ecoou pela sala.
- Vergonha cinematográfica, é? – Dei de ombros.
- Em partes. – Sorrimos cúmplices.
- Você tocou Happy Birthday para seu teste para Juilliard, por quê? – Falei abismada.
- Eu não sei...
- Parece que as pessoas se preparam a vida toda para isso e você cantou Happy Birthday? – Ergui as mãos.
- Eu me decidi fazer o teste no susto. – Ele deu de ombros. – Eu tive um acidente que causou minha dispensa da Marinha, aí eu voltei para casa, entrei na Universidade de Indianapolis para fazer alguma coisa, e aí em uma viagem para Nova York eu decidi tentar de novo e fui.
- Meu Deus! – Falei gargalhando. – Isso é loucura.
- Você está rindo, mas eu estou aqui, bacharel em Belas Artes há 10 anos. – Pressionei os lábios como quem finge surpresa.
- Olha! Parabéns! – Brinquei e ele riu. – Juilliard tem peso.
- É só mais uma universidade. – Ele deu de ombros.
- E com o que você se acidentou para ser dispensado da Marinha? – Perguntei.
- Minha vez de perguntar agora.
- Por favor! – Falei, vendo-o rir. – Eu deixo você fazer duas seguidas depois.
- Ok, ok. – Ele abanou com a mão. – Eu gostava de fazer trilha de bicicleta e afins, aí eu caí feio um dia e desloquei o esterno. – Ele encostou no centro do peito, me fazendo reagir com uma careta.
- Ai. – Reclamei. – Dói muito?
- É quase como se você fizer muitas abdominais, você fica com dor para respirar, rir, espirrar, qualquer coisa. – Ele deu de ombros. – Mas a recuperação é pior, pois tem perigo de atingir o coração ou o pulmão por causa da região.
- Que delícia, hein?! – Fui irônica.
- Dois meses internado no hospital. – Neguei com a cabeça.
- Que loucura. – Sorri. – Eu nunca quebrei nenhum osso, torci ou levei pontos, sou bem-comportada.
- Alguém tem que ser. – Ele sorriu. – Minha vez.
- Ok, diga! – Joguei a cabeça para trás, encostando no sofá.
- Me conte mais sobre o Harry. – Ele falou e me surpreendeu, fazendo erguer a cabeça para olhá-lo de novo.
- Você não leu o livro?
- Li, mas aposto que minha visão é diferente da sua. – Dei de ombros.
- Sempre! – Cruzei as pernas em cima do sofá, mordendo o lábio inferior. – Bom, Harry começa o livro como o pesadelo de todas as garotas. – Suspirei. – Ele é mulherengo, irresponsável, vive em pé de guerra com a Ophelia, mas, apesar de tudo isso, ele tem um coração enorme e ele realmente se importa com Nova York. Ele quer ajudar, ele sabe os problemas da cidade e ele sabe que ele pode ajudar. – Ergui as mãos. – Ele mora há três anos de frente para Ophelia, vivem em pé de guerra por ela ter uma filha de 11 anos e ele ser festeiro. Aí ele começa a perder essa personalidade quando começa a se apaixonar pela Ophelia e ver sua filha como filha dele. – Dei um pequeno sorriso. – É uma transformação mútua. Ele de um mulherengo irresponsável vira um completo bobo apaixonado e ela de uma rocha inquebrável, acaba se tornando areia na praia. – Ergui meu olhar para ele novamente, vendo-o sorrir.
- Talvez tenhamos um pequeno problema com a parte de mulherengo e tudo mais...
- Eu já vi seu corpinho sem esse suéter, eu já vi cenas íntimas suas e... – Ponderei as palavras. – Gostei do que vi. – Dei de ombros. – E eu estou conhecendo um pouco do seu coração, você tem tudo para ser o Harry.
- E não teve ninguém melhor do que eu?
- Se você está tão relutante, por que foi fazer o teste? – Cruzei os braços. – Eu não fiz convite especial para ninguém.
- Eu não sou igual Chris Evans ou Jake Gyllenhaal... Em vários aspectos. – Ele suspirou.
- Ainda bem que cada um tem suas preferências, não é mesmo? – Dei um pequeno sorriso. – Eu te acho um ator extremamente talentoso e eu te acho muito sedutor... – Coloquei a mão na boca, me calando em seguida.
- Falou demais? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça, enchendo a boca de ar e o vi rir encabulado.
- Às vezes eu sou verdadeira demais. – Dei um sorriso forçado e ele riu. – Desculpe...
- Ah não, você me chamou de sedutor, vou levar isso para o resto da vida. – Sorri, negando com a cabeça.
- Minha culpa. – Sorri. – Vai, mais uma.
- Hum, deixa eu pensar... – Ele levou a mão à boca, pensando por alguns segundos. – Antes do meu teste, você me queria no seu filme?
- Eu só tinha um ator em vista para ser o Harry que seria o ator brasileiro Rodrigo Santoro, mas a agenda dele não bate com a produção do filme e a Disney quer para agora, então não tem como adiar, mas não. – Fui honesta. – Eu fiquei surpresa com a sua audição e, no dia seguinte, fui ver uma exibição especial de Star Wars que a Disney me convidou, depois História de um Casamento já estava na Netflix, O Relatório na Amazon Prime e aí eu não parei mais de pensar em você, vi todos os filmes seus que eu consegui nessa semana. – Suspirei. – Estou obcecada, honestamente. Não sei como não pensei antes em você. – Ele deu um pequeno sorriso.
- Sua vez. – Ele disse somente.
- Eu vi sobre seu projeto Arts in que Armed Forces, qual foi a ideia?
- Eu fiquei quase três anos nos fuzileiros navais e percebi que não tem nenhum programa de qualidade para eles, para suas famílias, uma distração fora do militarismo e tudo mais, aí surgiu essa ideia com minha ex-esposa logo que saí de Juilliard e o projeto foi crescendo, teve repercussão e hoje temos vários projetos nos Estados Unidos e nos países com militares americanos focado nas artes. Levamos atores conhecidos e desconhecidos para encenar peças, monólogos, musicais... Tudo como forma de entretenimento gratuito para eles. – Sorri.
- Isso é ótimo, parabéns. Depois me passa mais informações. Aposto que aceitam doações.
- Sempre! – Rimos juntos. – Os fãs estão fazendo uma arrecadação em nome do Ben Solo por não gostarem do fim, chama The Rise of Ben Solo.
- Nossa, adorei! Eu estava tão feliz com o fim e... – Deixei a palavra no ar. – Não me conformo, poderiam ter alongado mais 10 minutinhos, não ia matar ninguém! – Ele riu fracamente. – Me passa o link que eu doo sim.
- Obrigado. Será muito bem recebido. – Assenti com a cabeça.
- Eu tenho um projeto também, mas não é nada muito grande, é só um favor que eu faço. Eu tenho uma parceria com minha editora da Nova Zelândia que ela me manda manuscritos que foram negados para eu avaliar a linguagem, enredo e dar sugestões para os autores.
- Que legal! – Ele falou realmente animado.
- É, eu reviso cerca de 10 histórias por semana. Claro que três, quatro capítulos, mas é legal. Você até acha algumas coisas lá que se surpreende por terem sido negadas.
- É muito legal. Ninguém gosta de receber um não, principalmente sem motivo. Se souber aonde errou, já ajuda. – Assenti com a cabeça.
- Eu pretendo expandir esse projeto aqui para os Estados Unidos, unir outros escritores e profissionais.
- Vai dar certo. – Ele disse. – É muito legal. – Assenti com a cabeça, sorrindo.
- Sua vez. – Suspirei.
- A última, pode ser? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça, deveríamos estar naquilo há mais de uma hora.
- Você me quer no seu filme? – Ele perguntou e eu sorri.
- Quero, mas você está disposto a tentar mudar alguns comportamentos para estar no meu filme?
- Sim. – Ele falou calmamente. - Aonde eu assino? – Ele falou e eu me levantei animada, seguindo em sua direção e o abraçando, quase me jogando em cima de seu corpo na poltrona, ouvindo-o rir.
- Vou pedir para Andrew marcar uma reunião contigo assim que entrar o ano novo. – Ele sorriu quando eu me levantei.
- Vai ser legal trabalhar contigo. – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
- Com você também. – Suspirei.

- Qual sua lembrança favorita de Halloween? – Perguntei, afofando a almofada em meu colo.
- Nenhuma! Eu odeio Halloween. – Fiz uma careta.
- Como assim? É o melhor dia do ano! – Reclamei e ele riu.
- Não! A gente sai fantasiado para ganhar vários doces porcaria que acabam no fundo de um pote de vidro na cozinha. – Ele comentou e eu suspirei.
- Ok, você está certo disso, mas é o único dia do ano que eu podia ser eu mesma. – Joguei a cabeça para trás, apoiando-a no assento do sofá.
- Ah, no Halloween? Não acredito em você. – Ele disse e se arrastou até se sentar ao meu lado no chão.
- Claro que é, que outro dia eu podia sair vestida de bruxa montada em uma vassoura? – Falei e ele virou para mim.
- Você só podia ser você mesma no Halloween por que é uma bruxa? – Ele ligou os pontos e eu pisquei, abrindo um largo sorriso e o mesmo gargalhou. - Ah, meu Deus! Quero provas disso. – Ele disse e eu suspirei.
- Não tenho, bruxa não aparece em fotos. – Ele negou com a cabeça e eu parei por um momento. – Ou será que são vampiros? – Fiz uma careta. – Me perdi no enredo, desculpe.
- Seria uma ótima história! – Ele disse e eu gargalhei, negando com a cabeça. - Foi cancelada! – Ele disse abanando a mão e eu sorri.
- Deixa minha histó...
- Com licença... – Fui interrompida por uma voz e viramos o rosto para o lado, vendo Nancy aparecendo na sala.
- Ei! – Falamos quase juntos.
- O papo está bom? Vocês sumiram. – Ela comentou, apoiando no batente da porta.
- Estávamos nos conhecendo melhor. – Comentei. – Agora que ele vai estrelar o meu filme. – Falei ritmado, vendo-o rir envergonhado.
- Não vamos falar sobre isso até março. – Fingi trancar a boca, vendo-o rir.
- Nós já vamos, precisamos dormir para aproveitar o almoço amanhã. – Ela comentou e Adam se levantou e esticou a mão para me ajudar.
- Obrigada. – Sussurrei.
- Mas já? Está cedo... – Ele olhou o relógio. – Meu Deus, são duas da manhã.
- O quê? – Quase gritei, colocando a mão na boca em seguida. – Eu preciso ir também, meu Deus, pai, que feio. Não se deve ficar na casa das pessoas até essa hora.
- Que isso, vocês estavam se divertindo. – Nancy comentou.
- Bom, eu vou aproveitar o embalo, então. – Falei, ajeitando minha blusa já amassada e sua mãe voltou a descer as escadas.
- Me deixa seu telefone para gente combinar novamente. – Adam falou no topo da escada e eu assenti com a cabeça.
- Fazia tempos que eu não perdia horas só conversando. – Suspirei. – Eu adoro isso. Para melhorar só faltava um Imagem e Ação. – Ele gargalhou.
- Acho que eu devo ter um perdido por aí. – Ele comentou e eu neguei com a cabeça, chegando ao andar de baixo, vendo Rodney, April e Ryan também se preparando para irem embora.
- Apareceram, é?! Estavam se pegando lá em cima? – April cruzou os braços e antes de eu responder algo, Adam foi mais rápido e ergueu o cachecol dela até cobrir seu rosto.
- Você é tão indelicada. – Ele comentou e eu segui até o cabideiro, pegando meu casaco pesado, luvas e cachecol, colocando tudo.
- Nos vemos amanhã no almoço? – Nancy falou para mim e eu ponderei com a cabeça.
- Venha! – Adam falou e eu virei o rosto para ele. – Vai ter que ajudar a finalizar aquele peru. – Ri fracamente.
- Precisaremos de um exército maior para isso. – Comentei.
- Há! Até parece. – Ryan falou e eu ri. – No segundo dia é menos bebida e mais comida, então virei com minhas calças maiores...
- Ah, que família delicada que eu tenho. – Nancy comentou e foi abraçar seu filho. – Se cuida, ok?! Voltamos lá pela uma hora.
- Ok, estarei aqui com o Dylan. – Ele disse e eu virei para ele.
- Obrigada pela festa. – Falei. – Muito obrigada mesmo. – O abracei e senti suas mãos segurarem minha cintura, me fazendo deixar um pequeno sorriso escapar.
- Não podia deixar uma donzela sozinha no Natal. – Neguei com a cabeça.
- Foi muito bom mesmo e, se não se importar, eu volto amanhã. – Falei.
- Vai ser bom te ter aqui, você ainda precisa me passar seu telefone. – Assenti com a cabeça.
- Não vou esquecer. – Sorri, piscando, me afastando dele. – Nos vemos em algumas horas.
- Eu te vejo amanhã!
- Por favor! – April comentou enquanto eu a abraçava. – Precisamos de mais mulheres aqui, esposas talvez...
- April! – Adam falou firme.
- Podemos começar por namoradas, então! – Ela ergueu os braços.
- Você é ótima, um dia vou te enfiar em algum livro. – Comentei, abraçando Rodney e Ryan em seguida.
- Independente do motivo, você vai ser sempre bem-vinda com a gente. – Rodney comentou e eu assenti com a cabeça.
- Obrigada, vocês me fizeram muito bem, foi ótimo. – Sorri e eles assentiram com a cabeça.
- Bom, boa volta para vocês e cuidado com o gelo. – Adam se aproximou de nós e abriu a porta, fazendo todos nós paramos e encarar a camada de cerca de 50 centímetros de gelo que tinha subido na porta e esbranquiçava toda a rua. – Mudança de planos. – Ele fechou a porta em um baque.
- Quanto tempo ficamos aqui? – Comentei.
- O suficiente, aparentemente. – Nancy falou.
- Bom, a sorte é que temos quartos o suficiente, não é mesmo?
- Eu não posso dormir aqui. – Comentei impulsivamente.
- Por que não? – Adam foi o primeiro a comentar. – Temos lugares, tenho algumas roupas, muita coberta e chocolate quente.
- Eu fico com o terceiro andar. – April falou, sumindo pelas escadas.
- Ela é rápida. – Ryan falou, me fazendo rir e foi atrás de sua esposa.
- Bom, isso sobra o quarto andar para você. – Adam se virou para mim.
- Eu posso dormir em qualquer canto, sério. – Ergui as mãos. – Sofá, tapete, ficaria surpresa os lugares ruins que eu dormi no começo da minha carreira. – Nancy riu fracamente.
- Não vai ser necessário. – Adam disse. – Acharemos um lugar para você. – Sorri.
- Bom, vamos providenciar, não é mesmo? – Nancy comentou. – Venha.

- Me dá um segundo! – Falei quando chegamos ao quarto andar e eu me apoiei no corrimão para respirar fundo.
- Cansou? – Adam perguntou rindo e eu assenti com a cabeça.
- Eu não faço nenhum tipo de exercício físico há uns seis meses. – Respirei fundo. – Já não serviria para morar nessa casa. – Ryan e Adam riram.
- Minha mãe raramente vem aqui em cima, quando vem, usa o elevador. – Adam comentou. – Direita ou esquerda? – Ele falou e eu franzi a testa.
- Tem um elevador aqui? – Reclamei, respirando fundo. – Você poderia ter me falado antes de eu deixar meu pulmão no terceiro andar. – Ryan gargalhou.
- A gente usa só para trazer coisas, é bem pequeno. Dá claustrofobia. – Adam deu de ombros e eu revirei os olhos. – Direita ou esquerda? – Ele repetiu.
- Esquerda, porque se for igual o seu quarto, tem uma vista legal! – Coloquei o cabelo atrás da orelha e ele riu, seguindo para o lado esquerdo e abrindo as portas duplas do quarto e mostrando um quarto muito similar ao dele.
- Não vemos muito aqui, então talvez esteja com um cheiro de fechado. – Adam comentou e o quarto estava mais quente que o restante da casa mesmo. – Aqui à direita temos o banheiro, e eu vou pegar algumas roupas para você ficar mais confortável.
- Você não precisa se incomodar, relaxa. – Me aproximei da janela, vendo a neve pesada cair nas ruas de Nova York e dei um pequeno sorriso. – Está ótimo.
- Poderia dizer para você olhar a cidade lá do terraço, mas acho que vai estar igual lá embaixo. – Ele comentou e eu neguei com a cabeça.
- Está tudo bem.
- Bom, eu vou dormir, gente! – Ryan falou. – Até mais tarde.
- Boa noite. – Eu e Adam falamos juntos.
- Eu já volto. – Adam comentou e eu respirei fundo, vendo-o sair do quarto.
Observei o quarto em volta e a decoração era bem similar ao de Adam, a diferença era que os detalhes de seu quarto eram todos de mogno e esse tinha mais cinza e laranja, dando um ar descontraído. A cama de casal no centro com um grosso edredom nos tons da decoração, uma mesa de cabeceira com luz do lado esquerdo da cama, uma poltrona com uma mesinha encostada ao lado da janela, uma lareira nunca usada com decoração em cima dela, além de um quadro abstrato posicionado em cima e um a cômoda branca do lado oposto à janela.
O espaço era largo e inteiro branco, poderia ser muito bem confundido com um manicômio, mas a decoração minimalista deixava-o com um ar aconchegante até. Meu apartamento era mais cheio de coisa, mais papéis, livros e post-its espalhados pela casa como forma de me inspirar a produzir em qualquer momento da minha vida, além de ter muita cor e uma escrivaninha e uma larga poltrona confortável para eu escrever realmente em qualquer lugar.
Me sentei na cama e me livrei do par de botas que eu usava desde antes de ir para o aeroporto. Mesmo enfiados na meia, pareceu que meus pés relaxaram um pouco, me fazendo até suspirar. Ergui uma perna para cima e massageei o pé esquerdo, dormiria sem meia para relaxar um pouco.
- Aqui está. – Ouvi a voz de Adam antes de ver seu corpo entrar no quarto novamente e ele trazia consigo algumas trocas de roupa e mais duas cobertas. – Eu encontrei um pijama da minha ex para você, caso não sirva, trouxe roupas minhas, já que somos quase da mesma altura, mais coberta, caso precise, e uma escova de dentes.
- Muito obrigada, você não precisa se preocupar, eu já estou abusando demais em ficar.
- E você quer fazer o quê? Sair nessa neve? Olha, eu acabei de fechar um filme, não quero ficar sem produtora. – Dei um pequeno sorriso, negando com a cabeça. – Você é bem-vinda aqui e eu tenho quartos o suficiente para todo mundo. Não está me atrapalhando, é até bom ter alguém para ocupar esses quartos e conversar. – Sorri.
- Faz tempo que você não tem alguém para conversar? – Perguntei, pegando as roupas que ele havia me dado, colocando embaixo do braço e a escova entre os dedos.
- Que não me trate como alguém que precisa de psicóloga desde que eu me separei, sim. – Ele comentou e eu assenti com a cabeça.
- Vou ver como vão ficar. – Falei das roupas e segui para o banheiro, encostando a porta.
O banheiro estava mais gelado, talvez por causa da falta de uso do aquecedor interno, então tive que correr para fazer o que precisava. Prendi os cabelos em um alto rabo de cavalo, tirei a maquiagem do rosto com sabonete e aproveitei para escovar os dentes, muito grata pela escova de dentes.
Finalizando a higiene, me livrei de luvas, casaco e cachecol novamente, além de calça, blusa e sutiã. Odiava usar aquele negócio e ele estava me apertando fazia horas. Fui ao banheiro e peguei a roupa da ex de Adam, um conjunto de calça e blusa comprida. Coloquei ambos e me senti incrivelmente desconfortável, além de estar apertada. Era quase como uma pessoa que usava GG colocar algo M. Quando fucei sobre Adam, lembro de ver fotos dele com sua ex, ela era bem menor do que eu, em altura e largura.
Tirei as roupas novamente e peguei as de Adam, inicialmente fiquei levemente entorpecida pelo cheiro de sua blusa, era uma mistura de amaciante e perfume masculino, o que denunciava que a roupa havia sido usada e lavada há pouco tempo. Obviamente agora suas roupas ficaram grandes em mim, mas a calça tinha uma cordinha para amarrar, o que impediu que ela escorregasse de minha roupa e sua blusa ficava cerca de 10 centímetros a mais sobrando no comprimento e nos braços. Bom, Adam era bons 10 centímetros mais alto do que eu, então já era esperado.
Me olhei no espelho novamente e respirei fundo. Eu não estava exatamente bonita, mas há anos havia optado pelo confortável do que pelo bonito, então não estava me importado. Juntei todas as minhas roupas novamente, dobrando-as e escondendo o sutiã no meio delas e saí do banheiro, jogando uma mecha para trás da orelha.
- Minhas roupas? – Adam perguntou e eu andei até a poltrona e deixei minhas coisas lá.
- As roupas da sua ex são muito pequenas para mim, ficou muito apertado! – Ele riu fracamente.
- Eu imaginei, você tem mais corpo do que ela. – Ele falou e eu deixei um sorriso escapar do meu corpo.
- As suas serviram, mas aí ficou maior, mas está ótimo para dormir. – Ri fracamente e sorri.
- Bom, eu vou te deixar descansar, então, o dia foi corrido para você. – Suspirei.
- Nem fala, foi muita coisa junta. – Parei em sua frente novamente.
- Bom... – Ele se aproximou de mim, estalando um beijo em minha testa. – Boa noite, se precisar de comida ou água, fique à vontade de ir na cozinha e qualquer emergência, pode me chamar. – Ele falou olhando fundo em meus olhos. – Ok?!
- Ok. – Falei ainda desconcertada pelo beijo na testa. – Boa noite, que Jesus te proteja. – Falei.
- A você também. – Ele disse, se afastando e puxando as portas duplas do quarto quando saiu, me fazendo sentar no sofá.
Era impressão minha ou aquele beijo havia um significado diferente?
Posso te garantir que como escritora de livros, um beijo na testa significava muito mais do que apenas uma forma de cumprimento, era carinho, respeito, proteção...
Ah, lá vem Adam Driver aquecendo meu coração.
Entrei embaixo das cobertas e peguei o celular para dar uma rápida olhada nas mensagens e vi diversas mensagens de amigos, família e colegas de trabalho me desejando feliz Natal e o grupo da família estava cheio de mensagens. Abri o mesmo e arregalei os olhos quando percebi diversas fotos de Adam sem camisa jogadas lá e muitas reclamações dos homens heterossexuais da família, me fazendo rir.
Minha mãe estava realmente tentando me juntar com alguém por telefone ou redes sociais, alguém que ela nunca havia conhecido pessoalmente, tampouco eu. A senhora estava ficando louca já.



Capítulo 7

25 de dezembro – 4h

Virei novamente na cama bufando pela milésima vez e estiquei o braço, apertando o botão da luminária ao meu lado e senti meus olhos reclamarem da iluminação repentina. Olhei para o teto branco e soltei a respiração fortemente. Eu fiquei andando para lá e para cá o dia inteiro, dormi tarde no dia anterior para terminar uma última revisão e estava sem sono.
Que porcaria era essa?
Quando meu prazo estava vencendo e eu tinha que finalizar um capítulo, o sono vinha, né?!
Joguei a coberta para o lado e me levantei, deixando as meias deslizarem pelo chão e fui até a janela, vendo que a neve tinha dado uma cessada e tentei ver os andares abaixo, mas não foi possível.
Talvez eu estivesse um tanto agitada com tudo o que havia acontecido agora à noite. Não esperava que uma noite de Natal seria tão empolgante. Normalmente a gente ficava na piscina até a hora do “Papai Noel” aparecer e a gente fazer aquela brincadeira com crianças. Aqui, apesar de ter Dylan, era algo bem mais comportado. Jantar, conversas, bebidas e só, mas Adam havia trazido uma intensidade que eu não esperava.
Era fácil eu me abrir com ele. Parecia que ele realmente ouvia e estava realmente interessado no que a gente quisesse compartilhar. Apesar de não ter tido nenhum momento físico, foi intenso, íntimo, diferente de tudo o que eu já havia vivenciado. É algo que eu só conhecia dos meus livros. Eu estava vivendo meu próprio clichê e não tinha a ideia de como agir com isso.
Ainda tinha que pensar que ele seria meu novo ator principal, agora que aceitou fazer parte do meu filme. Eu tinha convivido com Chris, Jake e Liam e com nenhum deles eu tive isso, um momento íntimo para trocarmos ideias sobre nossas vidas e nosso dia a dia. Bom, eu também nunca tinha passado um Natal na casa de algum deles e perdido boas quatro horas só jogando conversa fora.
Era realmente coisa de livro.
Livro! Com certeza eu conseguiria dormir com uma boa história, eu era como criança para dormir! Voltei para a mesa de cabeceira, pegando meu celular e vi que ele tinha nove por cento de bateria, se eu começasse a ler alguma coisa agora, com certeza eu ficaria sem bateria amanhã. Esqueci de pedir um carregador para Adam e não esperava dormir aqui para ter que trazer um. Não era tão viciada assim.
Mas Adam tinha uma ótima biblioteca lá embaixo, acho que não teria problema eu pegar um livro emprestado. Sentei na beirada da cama e calcei as botas novamente, sem ter a preocupação em amarrar os cadarços e abri a porta do quarto, checando se alguém estava lá. Só a luz do hall da escada estava acesa.
Segurei o corrimão e desci devagar um lance de escada, chegando ao terceiro andar e conferi novamente se as luzes dos quartos ocupados estavam ligadas, mas nada. Nancy e Rodney, e April e Ryan realmente dormiam. Desci mais um lance, chegando ao andar do quarto de Adam e a luz estava igualmente desligada, me fazendo descer mais um andar, franzindo a testa quando o degrau rangeu e eu chequei se a porta não se abria ou as luzes não se acendiam.
Cheguei ao segundo andar e vi a luz acesa do hall e fui até a livraria que tinha as portas abertas e liguei a luz de um abajur ali, vendo a biblioteca se abrir e encher meus olhos. Me aproximei da larga prateleira embutida na parede e passei a mão na lombada dos livros, abrindo um pequeno sorriso ao encontrar diversos livros ali dentro.
A maioria dos livros eram de autores americanos ou ingleses, mas de diversos gêneros, desde clássicos até romances adolescentes. Adam era um leitor bem eclético e isso mostrava um pouco na sua personalidade. Tinha livros que eu nunca tinha ouvido falar, mas tinham muitos conhecidos do meu mundo.
Suspirei ao encontrar As Crônicas de Nárnia perdido por ali, a versão completa com os sete contos, igual a versão que eu tinha em casa. Talvez uma leitura em O Sobrinho do Mago não seria uma péssima ideia.
Tirei o livro com cuidado para não fazer os outros tombarem e fui até o beiral da janela, aonde tinha um acolchoado e algumas almofadas no mesmo. Ajeitei as almofadas e abri o mesmo, encontrando no sumário a página do conto e passando as páginas até chegar lá.
“O que aqui se conta aconteceu há muitos anos, quando vovô ainda era menino. É uma história de maior importância, pois explica como começaram as idas e vindas entre o nosso mundo e a terra de Nárnia.
Naqueles tempos, Sherlock Holmes ainda vivia em Londres e as escolas ainda eram piores que as de hoje. Mas os doces e salgadinhos eram muito melhores e mais baratos; só não conto para não dar água na boca de ninguém.
Naquela época vivia em Londres uma garota que se chamava Polly. Morava numa daquelas casas que ficam coladas umas nas outras, formando uma enorme fileira.
Uma bela manhã, ela estava no quintal quando viu surgir por cima do muro vizinho o rosto de um garoto. Polly ficou muito espantada, pois até então não havia crianças naquela casa, apenas os irmãos André e Letícia Ketterley, dois solteirões que moravam juntos.
Por isso mesmo, arregalou os olhos, muito curiosa. O rosto do menino estava todo encardido. Não poderia estar mais encardido, mesmo que ele tivesse esfregado as mãos na terra, depois chorado muito e então enxugado as lágrimas com as mãos sujas. Aliás, era mais ou menos isso que havia acontecido.”
Ergui o rosto quando ouvi um barulho e desci as pernas do acolchoado prestando atenção no barulho contínuo... De alguém descendo as escadas. Deixei o livro aonde eu estava e me levantei, me aproximando mais da porta e dei de cara com Adam aparecendo à porta.
- Meu Deus! – Coloquei a mão no peito, me assustando.
- Caramba! – Ele reclamou também, gargalhando em seguida.
- Xí! – Falei, levando a mão até sua boca, vendo-o se calar. – Desculpe. – Abaixei as mãos.
- O que está fazendo aqui? Você sabe que horas são? – Ele perguntou e ri fracamente.
- Não estou conseguindo dormir e meu celular está acabando a bateria, vim abusar da sua biblioteca para me distrair.
- Não tem problema nenhum. - Ele falou. – Está precisando de alguma coisa? Eu...
- Não, que isso. – Abanei a mão. – Acho que só estou muito pouco agitada, a noite foi legal. – Ele abriu um pequeno sorriso. – E você? O que está fazendo aqui há essa hora?
- São quatro horas, é a hora do leite do Dylan.
- Você acorda todo dia quatro da manhã para isso? – Ele deu de ombros.
- Sempre que ele está comigo.
- Se você não se importar, vou ficar aqui mais um pouco, talvez levar o livro lá para cima. – Falei.
- Não me importo. – Ele disse. – Vou só levar a mamadeira para o Dylan e logo eu volto para fazer companhia para você.
- Não precisa, eu logo vou subir. Você precisa dormir também com essa galera toda na sua casa. – Ele riu fracamente.
- Não estou tendo muito sucesso no departamento do sono, mas é bom ter a casa cheia para variar. – Sorri fracamente. – Eu já volto. – Ele comentou e eu assenti com a cabeça, vendo-o seguir novamente para o andar de baixo.

Adam demorou um pouco para voltar, ele subiu novamente, demorou cerca de 20 minutos, desceu novamente e, quando voltou, trazia consigo duas xícaras em suas mãos. Ele se sentou ao meu lado e eu abaixei os pés de seu sofá, colocar o livro no colo e pegar a xícara de chocolate quente borbulhante.
- Obrigada. – Sussurrei, bebericando um gole.
- Então, o que estava lendo? – Ele perguntou e eu peguei o livro com a mão livre.
- As Crônicas de Nárnia...
- Clássico! – Ele falou e eu assenti com a cabeça, devolvendo o livro ao meu colo.
- Você tem muita coisa aqui, coisas que eu nem conheço. Você leu tudo? – Perguntei, mantendo a xícara próxima ao meu rosto, bebericando devagar devido ao líquido quente.
- Não! – Ele falou, gargalhando em seguida. – Meu avô era apaixonado por livros, então tem coisas aqui desde a juventude dele, ele acabou deixando de herança para mim e eu tive a desculpa para ter essa biblioteca. – Ele bebericou também, colocando a xícara no batente da janela.
- Talvez você tenha puxado ele no gosto por histórias. – Comentei.
- Provavelmente, minha mãe era uma paralegal, meu pai se afastou da gente aos sete anos...
- Algum motivo especial? – Comentei, não tentando dar muita importância ao assunto.
- Pai bêbado, abusivo, nada de novo. Meus pais se separaram e, com o tempo, a gente foi se separando. – Assenti com a cabeça.
- Sinto muito. – Comentei.
- Não precisa, minha mãe conheceu Rodney logo depois e ele sempre fez céus e terra por ela por mim e April. Ele é quem eu chamo de pai. – Ele deu de ombros.
- Que bom, é muito legal isso. – Dei um pequeno sorriso. – Ele é uma ótima pessoa, bem divertido... – Falei, soltando uma risada junto.
- E você? Qual a história dos pais da grande ? – Ele perguntou.
- Bem... – Suspirei, relaxando os ombros. – Meu pai era surfista, depois que quebrou o joelho ele precisou parar e abriu uma lojinha de produtos para surfe. – Ponderei com a cabeça. – Minha mãe era aquele tipo patricinha, mas estudava para ser piloto na força aérea neozelandesa...
- Sua mãe era sensacional, hein?! – Ri fracamente.
- Ainda é. – Sorri. – Ela é instrutora de pilotos de caça hoje em dia.
- Legal! – Assenti com a cabeça.
- Bom, o destino levou-a à loja do meu pai, um beijo, um encontro, segundo encontro, estou grávida, Nathan nasceu, eles decidiram namorar, casar, seis anos depois eu nasci e essa é a vida. – Dei de ombros.
- Ela ficou grávida após o segundo encontro? – Adam perguntou rindo.
- No segundo encontro, na verdade. – Sorri. – Ela não era fácil. Ainda não é, na verdade. – Neguei com a cabeça.
- Sua família deve ser engraçada. – Assenti com a cabeça.
- Deve estar uma festa lá em casa, já recebi várias mensagens no WhatsApp, sinto falta deles.
- Você disse que tem uma sobrinha, certo? – Adam perguntou.
- Tenho sim, a Cordélia, ela tem quase três anos. – Suspirei.
- Cordélia? – Ele perguntou, pegando sua xícara e dando um longo gole.
- Posso te garantir que não é inspirado na Cordélia de William Shakespeare. – Ele riu fracamente.
- É um nome incomum, então. – Ele comentou, devolvendo a xícara no batente.
- Minha cunhada se inspirou em um filme da Barbie, caso queira saber. – Ele ficou quieto e virou o rosto para mim, com o rosto franzido. – Eu não estou brincando. – Gargalhei, finalizando minha bebida em um gole. – Mas ela entendeu o nome errado e acabou ficando.
- Ela é fã? – Assenti com a cabeça, inclinando o corpo até a mesa mais próxima para deixar a xícara e o livro escorregou do meu colo.
- Mais do que deveria. – Comentei, abaixando o corpo para pegar o livro e Adam fez o mesmo, fazendo com que nossas cabeças batessem.
- Ai! – Reclamamos juntos e eu ergui o corpo com a mão na lateral da cabeça, deixando o livro no chão.
- Você está bem? – Adam também se levantou com a mão no mesmo lugar e nos encaramos.
- Acho que sim, mas alguma coisa sacudiu aqui dentro. – Brinquei, vendo-o esticar a mão até minha testa.
- Está vermelho, tem certeza que não machucou? – Ele passou o dedão no lugar e estava levemente adormecido.
- Está formigando. – Ri fracamente. – Você tem uma cabeça muito dura. – Gemi, esticando a mão até a dele.
- É o cabelo! – Ele brincou e eu sorri, negando com a cabeça.
- Seu cabelo é melhor do que o meu, qual é. – Ele sorriu, me encarando. – O quê? – Perguntei quando seu olhar parou sobre o meu e seu rosto se ergueu em um sorriso.
- Desculpe, eu estava só... – Ele balançou a cabeça, fazendo seus cabelos bagunçarem. – Eu só estava pensando sobre hoje. Fazia um bom tempo que eu não me divertia tanto com alguém. – Mordi meu lábio inferior.
- Eu estava pensando exatamente a mesma coisa. Estou vivendo meus próprios clichês com alguém mais legal que os meus personagens. – Suspirei.
- Duvido disso. – Ele comentou.
- Você sabe há quanto tempo eu não me envolvo com alguém? Fisicamente ou romanticamente? – Perguntei.
- Quanto?
- Vai fazer 11 anos. – Suspirei. – Bom, romanticamente, eu nunca tive.
- Você é uma escritora de romance e nunca se apaixonou? – Dei de ombros.
- Minha vida não seguiu o mesmo rumo das minhas amigas. Eu odiava sair e socializar, tive alguns namoradinhos por causa da pressão das amigas e família, mas nunca me interessei. – Dei de ombros. – Vamos dizer que publicar meu livro foi minha passagem só de ida para evitar agradar a sociedade e viver como eu bem queria.
- Solteira? – Ele perguntou e eu ponderei com a cabeça.
- Livre. – Dei um pequeno sorriso. – Eu sempre estou aberta a conhecer pessoas e tentar, mas são poucas pessoas que entendem minha vida corrida, as que entendem são minha família. – Dei de ombros. – Acabou vindo a calhar essa carreira para mim.
- E agora? – Ele perguntou.
- Como assim?
- Eu estou olhando para você, você está olhando para mim... – Suspirei.
- Somos areia do mesmo saco, Adam, andamos pelo mesmo caminho, a diferença é que você já viveu uma grande história de amor, eu ainda não. – Dei de ombros. – Meu Deus! – Ri sozinha. – Eu sou um clichê ambulante. – Ele sorriu.
- Eu gostei de você, . – Ele disse, segurando minha mão. – Podemos sair qualquer hora... – Ele parou. – Depois do filme passar.
- O filme começa a ser rodado em março, com sorte terminamos as gravações em julho, mais cinco meses de pós-produção, o lançamento fica marcado para fevereiro e a divulgação em janeiro... – Virei para ele. – Eu não tenho todo esse tempo. – Ele riu comigo.
- Alguma ideia melhor? – Ele me perguntou.
- Eu nunca me importei muito com o que as pessoas podem dizer, sabia? E achei que você também não. – Comentei.
- Bom, o personagem que eu apareci era a pior pessoa do mundo, asquerosa, nojenta, péssima... – Sorri. – E eu ainda estou aqui.
- Então... – Ele sorriu e ergueu sua mão até meu pescoço, virando o corpo para mim.
Ele aproximou o corpo do meu e eu inclinei meu corpo para frente, apoiando uma mão na perna dele que estava em cima do sofá. Ele tocou nossos narizes e eu respirei fundo, fechando meus olhos. Nossas bocas se tocaram levemente e eu ergui minha mão livre até seu rosto, deixando os dedos enroscarem em seus cabelos pretos.
Suas mãos desceram até minha cintura e me inclinei em sua direção, passando os braços ao redor do seu pescoço e ele me puxou mais em sua direção. Ajoelhei sobre o assento acolchoado e senti suas mãos chegarem em minha bunda.
Inclinei meu rosto para outro lado, sentindo minha respiração começar a falhar e suas mãos subiram para minhas costas, me apertando contra seu corpo. Joguei seu cabelo para trás e ele deu pequenas mordidas em meu lábio inferior. Nossos lábios descolaram por alguns segundos e ele deu curtos beijos em meus lábios e abri meus olhos devagar, vendo seu corpo um pouco mais baixo que o meu.
Ele deu uma risada fracamente, apertando minha cintura e eu sorri, roçando nossos narizes levemente e abaixando a mão para seu rosto. Ele deu curtos beijos em minha mão e eu sorri, abaixando o corpo para sentar em seu colo.
- Talvez não dê mais para esperar até o lançamento do filme. – Ri fracamente.
- Quem diria que um Natal seria mais produtivo do que 10 anos de vida? – Ele sorriu, apoiando a cabeça em meu ombro e dando um curto beijo no mesmo.
- Você é incrível. – Ele disse e eu suspirei.
- E agora? – Perguntei. – O que fazemos?
- Eu tenho uma boa ideia do quê. – Ele disse, segurando meu queixo e colando nossos lábios novamente.

- Acho melhor irmos dormir na cama. – Disse, sentindo-o acariciar minhas costas.
- Isso é um convite? – Ele perguntou e eu sorri, apoiando as mãos em seu peito e mantendo nossos rostos bem pertos.
- Poderia ser, se sua mãe não fizer escândalo quando descobrir. – Comentei e ele riu fracamente.
- Você tem razão, aposto que April faria uma festa. – Ele disse e eu sorri.
- Por que ela é assim? Sua separação foi tão ruim como parece? – Perguntei, erguendo meu corpo de seu colo e me sentando no acolchoado novamente.
- Não, aí que tá. Nós estudamos juntos, atuamos juntos, namoramos, casamos, mas em um momento não sentíamos mais nada pelo outro e optamos por nos separar. – Ele se sentou também. – Foi calma, amigável, não teve drama, choro, enfim, então April acha que eu sofri, que estou depressivo e tenta loucamente me juntar com alguém.
- Imagina se ela não tentasse... – Comentei, ouvindo-o rir.
- Quem diria que uma nevasca seria responsável por tudo isso. – Sorri.
- Bom, ainda temos muito pela frente, acho que, por enquanto, deveríamos ver o que vai rolar, principalmente pelas nossas carreiras. – Ele assentiu com a cabeça.
- Por enquanto, eu conheci uma mulher incrível e quero conhecê-la muito mais. – Sorri, colando nossos lábios levemente.
- Vamos começar com o Natal, ok?! – Falei, bocejando logo em seguida.
- Começando por dormir antes, que tal? – Ele disse, se levantando e me esticou as mãos para eu me levantar.
Quando o fiz, ele estava na minha frente. Ele passou os braços pela minha cintura, me trazendo para mais perto dele e colou nossos lábios novamente de forma leve, me fazendo sorrir.
- Valorize as pequenas coisas, elas são as melhores. – Comentei, pegando minha caneca na mesa.
- Eu levo, vai deitar, nos encontramos em algumas horas. – Ele comentou e percebi que já passava das cinco da manhã. – Não muitas horas, na verdade. 10 horas minha mãe vai começar a acordar todo mundo.
- Nossa, que delícia! – Fui irônica e ele riu.
- Ela é assim, mas tem bom coração.
- Sei bem. – Sorri. – Me senti acolhida aqui.
- Bem-vinda à família. – Ri ironicamente.
- Vamos devagar, Adam. – Dei dois tapinhas em seu peito.
- Vai lá, eu levo lá embaixo. Dorme bem, ok?! – Ele falou, pegando a caneca da minha mão.
- Você também. – Fiquei na ponta dos pés, dando um rápido beijo em sua bochecha e segui pela porta, indo até o lance de escadas. – Obrigada.
- Pelo o quê? – Ele perguntou do outo lado da escada.
- Por tudo. – Sorri, deslizando a mão no corrimão e subindo as escadas.



Capítulo 8

25 de Dezembro – 10h

Quando Adam disse que Nancy acordaria todo mundo as 10 da manhã, eu não acreditei. Achava que era exagero que falávamos da nossa mãe, mas não. Era cerca de 10 e 15 quando ela abriu a porta do quarto empolgadamente.
- Vamos acordar, querida! – Ela gritou da porta, me fazendo pular. – Já está tarde e o Papai Noel veio. – Ela disse, saindo em seguida.
Fiquei olhando para o teto por mais algum tempo até criar coragem para levantar da cama. Após o acontecido na madrugada, eu fiquei uns bons 30 minutos olhando para o teto, pensando em tudo o que havia acontecido. Não queria rotular para o que é que fosse, mas eu estava sentindo um quentinho dentro do meu peito e muitas ideias para histórias passavam pela minha cabeça e tudo por causa de Adam.
Joguei meus pés para fora da cama e caminhei em direção ao banheiro. Tentei dar um jeito na minha cara sem maquiagem, então só dei umas apertadinhas na bochecha para ver se ao menos minha cara melhorava, mas nada. Lavei o rosto, prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto e troquei as roupas largas de Adam pela minha do dia anterior.
Fucei discretamente nos armários à procura de algo e fiquei feliz por achar um desodorante masculino perdido ali. Parecia que havia sido esquecido por alguém, porque estava todo empoeirado, mas serviu para dar aquela renovada no cheiro. Agradeço ao frio por não me fazer suar.
Escovei os dentes e calcei as botas novamente, mas não vesti o casaco, não sei se era o aquecedor do quarto ou se o tempo realmente havia melhorado, mas estava um pouquinho mais quente. Voltando para o quarto, eu arrumei a cama tentando deixá-la igual encontrei na noite passada e deixei as roupas de Adam dobradas na ponta da mesma.
Peguei minhas coisas, além do celular descarregado e saí do quarto, criando coragem em encarar Adam novamente. Eu confesso que meu coração palpitava em vê-lo novamente. Nosso encontro na madrugada havia sido maravilhoso, mas havia sido somente isso, não tinha mais nada.
Quando eu o encontrasse, como agiria? Um abraço? Um beijo? Ou só um “oi”? Eu estava pior do que minhas personagens e começava a perceber o porquê de elas serem tão parecidas comigo. Suspirei, descendo no terceiro andar e a porta de um dos quartos estava escancarada, o que imaginei ser de Rodney e Nancy, já a outra ainda estava fechada. April deve conhecer a mãe que tem.
Desci para o segundo andar e parei ao ver Dylan descendo escadas abaixo correndo e sorri ao ver Adam, ainda de pijamas, saindo do quarto. Ele fechou as portas duplas do mesmo antes de perceber minha presença e também sorriu quando me viu.
- Eu disse, não disse? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça.
- Você conhece a mãe que tem. – Falei e ele riu fracamente, se aproximando de mim e dando um curto beijo em minha testa, me fazendo fechar os olhos por alguns segundos.
- Dormiu bem? – Ele perguntou, apertando minha mão de forma carinhosa e eu assenti com a cabeça.
- Pouco, mas muito bem.
- Dona Nancy é meio empolgada. – Ele deu de ombros. – Antes de descer, gostaria de saber se podemos deixar o que houve essa noite só entre nós. – Mordi meu lábio inferior. – Não por não ter gostado, eu gostei e muito e quero repetir o mais rápido possível... – Ri fracamente. – Mas para evitar interrogatórios, April e minha mãe são...
- Como minha mãe e meu irmão... – Suspirei. – Eu concordo e até agradeço por isso, você tem Dylan também, não é tão fácil.
- Acredite, até é. – Ele falou apertando minha mão novamente. – Só quero aproveitar um pouco a gente, descobrir o que isso vai dar. – Sorri, me colocando na ponta dos pés para dar um curto beijo em seu queixo.
- Um dia de cada vez, senhor Driver. – Falei e ele sorriu.
- Pai, o Papai Noel veio! – Dylan gritou lá de baixo, nos fazendo rir.
- Ah, o Papai Noel isso, o Papai Noel aquilo... – Nos assustamos com a voz de April enquanto descia as escadas e soltamos as mãos, me fazendo cruzar os braços. – Bom dia! – Ela falou um tanto grossa.
- Bom dia. – Falei animada.
- Por que todo Natal ela tem que acordar a gente as 10? Natais são feitos para dormir até mais tarde, recuperar a ressaca do dia seguinte. – Sorrimos.
- Vamos, ranzinza, é Natal! – Adam abraçou sua irmã de lado e sorri ao perceber que eles eram realmente muito parecidos. Os cabelos pretos, o nariz comprido, a boca carnuda e até as pintinhas no rosto.
- Vamos, visita? – April perguntou para mim já no segundo degrau.
- Vamos, estou com fome! – Falei, descendo um degrau, apoiando minhas mãos em seus ombros.
- Aposto que tem comida de sobra...
- Tem comida de sobra. – Ela e Adam falaram juntos e eu sorri.
- Poderia jurar que vocês eram gêmeos. – Comentei.
- Um ano e seis meses de diferença... – April comentou.
- Eu sou seis do meu irmão, vocês estão no lucro. – Abanei as mãos, chegando no andar de baixo com eles.

- Ah, bom dia, meus queridos! – Nancy falou animada e eu ri fracamente. – Ah, vão se trocar vocês dois, agora! – Ela falou quando viu Adam e April de pijamas. – Tem visita aqui.
- Se o Adam quiser, ela podia passar do nível “visita” e se transformar em “família”, o que você acha, maninho? – April provocou Adam e o mesmo revirou os olhos.
- Você de boca fechada é tão mais legal. – Adam respondeu e eu ri.
- Enquanto isso não acontece, ainda é visita.
- Mãe! – Adam repreendeu a mãe e eu gargalhei, me aproximando de Nancy e dando um rápido abraço nela.
- Feliz Natal, gente! – Falei e em seguida abracei Rodney.
- Alguém ao menos se lembra do espírito de Natal. – Nancy provocou. – Feliz Natal, é muito bom te ter aqui. – Sorri. – Cadê Ryan?
- Logo desce! – April respondeu.
- Pai, olha o que eu ganhei. – Dylan chamou a atenção do pai novamente e observei Adam se aproximar da árvore de Natal com diversos presentes embaixo dela.
- Venha tomar café, querida. – Nancy falou e eu me aproximei da mesa, me sentando na cadeira que ela havia puxado para mim. – Tem café, leite, ovos, bacon, pão, fica à vontade.
- Obrigada. – Falei, vendo a mesa farta na casa de Adam e peguei um pedaço de pão, manteiga e um pouco de ovos, e enchi minha caneca com um pouco de café com leite.
Adam e April ficaram brincando com Dylan e seus brinquedos novos até Nancy ralhar com eles mais uma vez e eles finalmente subiram para se arrumar. Ryan desceu igualmente apresentável como eu e se sentou à mesa e logo os irmãos vieram nos fazer companhia. Eu já havia terminado de comer, mas fiquei papeando à mesa.
- Adam, depois você me empresta um carregador de celular? – Perguntei tirando o aparelho do bolso da calça. – Ele morreu ontem à noite.
- Claro, depois eu pego para você.
- Eu tenho um aqui. – April se levantou apressada e seguiu em direção ao sofá e puxando um longo fio da sua bolsa. – Me dá aqui. – Estiquei o celular para ela. – Vou colocar aqui, ok?!
- Obrigada! – Falei.
- Falando em “ontem à noite”, teve fome de madrugada, filho? – Nancy perguntou e eu arregalei os olhos levemente. – Vi a caneca na pia.
- Ah, eu fui pegar a mamadeira do Dylan e não estava conseguindo dormir, fiz um chocolate quente para mim. – Adam se explicou.
- E precisou de duas canecas para isso? – Me distraí bebendo o último gole do meu café.
- Fiz uma lambança no micro-ondas, sabe? – Ele comentou.
- Sei! – April falou irônica, gargalhando logo em seguida.
- Bom, não enrolem muito para tomar café que o almoço vai ser servido há uma hora. – Nancy falou saindo da mesa com seu prato e copo.
- Será que o tempo melhorou? – Perguntei.
- Parece que estava saindo o sol. – Rodney comentou antes de se levantar.
- Você vai ficar para o almoço, não é mesmo? – Adam perguntou em um leve tom de desespero e eu ri fracamente.
- Se você faz questão... – Brinquei, vendo April e Ryan darem sorrisos cúmplices.
Me levantei da mesa, pegando meu prato e xícara e segui até a cozinha aonde Nancy lavava a louça. Deixei minhas coisas na pia e vi que boa parte da sobra do dia anterior já estava na bancada central e tinha muita coisa ainda para acabar.
- Nossa! Vai ter sobra para mais muito tempo. – Comentei.
- Acredite, os meninos matam isso em dois tempos. – Rodney respondeu.
- Você sabia que Adam comia um frango inteiro nos seus tempos de Juilliard?
- O quê? – Perguntei assustada.
- E seis ovos no café da manhã! – Rodney completou.
- Meu Deus, gente! Para que isso? – Falei rindo.
- E um Subway de 30 centímetros. – Adam comentou entrando na cozinha.
- Para onde ia tudo isso? – Perguntei, vendo-o deixar suas louças com sua mãe.
- Eu tinha acabado de sair dos fuzileiros navais, estava tentando manter a dieta.
- Meu Deus, eu como uma sobrecoxa e já acho que vou explodir. – Ele riu fracamente.
- Eu parei depois de um tempo, percebi que não estava queimando a mesma quantidade de calorias de quando estava nos fuzileiros e não tinha muito tempo para ir para malhação. – Ele deu de ombros.
- Meu Deus, ainda assim, é algo louco de imaginar. – Falei, me aproximando das portas de vidro do outro lado, percebendo um deck que não tinha notado ontem à noite. – Legal aqui!
- Você não mostrou a casa para ela ontem? – Nancy perguntou para Adam.
- Mostrei aqui dentro só. – Ele falou.
- Parece que a neve já derreteu. – Comentei sobre a aguaceira do lado de fora.
- Pelo menos vocês ficaram aqui em segurança. – Nancy comentou.
- Vem, vou te levar para conhecer o resto. – Adam falou, seguindo para a porta da cozinha.
- Coloquem casaco, ainda está frio.
- Aqui é rápido, quando a gente subir, pegamos os casacos. – Ele abriu a porta e um vento gelado passou pelo corpo, fazendo com que meus cabelos presos se arrepiassem. – Aqui no fundo tem só um terraço, com espaço para fazer algo ao ar livre, algumas árvores e plantas e as espreguiçadeiras para relaxar. – Ele foi apontando para a pia, a longa mesa com dois bancos próximos e as espreguiçadeiras alguns degraus acima e muitas flores e plantas que agora estavam encharcadas por causa da chuva.
- É bonito aqui! – Virei o rosto e percebi a altura da casa, vendo todos os cinco andares para cima.
- Não sou do tipo que faz muita festa, mas quando faço, neva. – Ele brincou e eu sorri, vendo-o abrir a porta novamente. – Vem, sai desse vento. – Ele comentou e eu voltei para dentro, pisando no tapetinho na porta, secando as solas da bota.
- O que mais você tem aqui? – Perguntei, vendo-o descer as escadas e fui atrás, chegando no porão da casa.
- Aqui temos a lavanderia, casa das máquinas, aquecedor... – Ele andou um pouco. – Um quartinho de recreação para o Dylan, uma adega... – Ele foi apontando.
- Uma adega bem vazia, pelo visto. – Comentei.
- Eu não sou muito do vinho, gosto de um uísque no fim do dia, mas deixo isso lá em cima já. Meus pais que gostam e trazem quando vem.
- No meu apartamento nem tem isso. – Ri fracamente.
- Você mora em Manhattan, né?! – Ele perguntou.
- Sim, moro, me indicaram lá logo que eu vim para cá e eu fiquei... – Falei subindo as escadas de novo.
- Nunca pensou em morar no Brooklyn? – Ele perguntou.
- Nunca, na verdade, lá acaba sendo perto de tudo o que eu preciso, né?! – Dei de ombros.
- Eu não gosto muito de lá, muita atenção, muito paparazzi, aqui eu consigo fugir um pouco disso. – Ele deu de ombros. – É bem difícil achar fotos minhas perambulando pela cidade.
- É um bom argumento. – Suspirei, e voltamos para a cozinha.
- Gemada, queridos? – Nancy ofereceu.
- Natural ou batizada? – Adam perguntou.
- Levemente batizada. – Ela falou, fazendo uma careta e Adam pegou um copo.
- Servida?
- Não, obrigada. – Agradeci e seguimos de volta para a sala, vendo Dylan brincando com April e seus brinquedos.
- Eu moro aqui no Brooklyn desde que me mudei para cá, realmente gosto daqui, só mudei de casa mesmo. – Ele deu de ombros e voltamos a subir as escadas.
- Quando eu vim para cá, eu realmente não conhecia ninguém. Depois conheci Anna e Andrew e aí eu acabei ficando por lá, mas talvez morar por aqui não seja tão ruim.
- Posso checar se tem alguma casa vaga aqui na rua. – Ri fracamente, deslizando a mão no corrimão.
- Se tiver uma com bem menos andares que a sua, podemos conversar. – Falei e ele virou para trás, dando um pequeno sorriso e seguiu para o primeiro andar.
Subimos para o segundo andar e eu o aguardei no hall do quarto e banheiro para ele pegar seu moletom e vesti-lo. Subimos para o terceiro, já fazendo minha respiração falhar e eu entrei rapidamente no que seria meu quarto e peguei meu casaco, vestindo-o enquanto saí do mesmo.
- Vem, tem mais um. – Adam falou, me ajudando a ajeitar a gola do casaco e subiu na minha frente, abrindo uma porta quando chegamos ao andar de cima, fazendo com que o vento bagunçasse seus cabelos e arrepiassem os meus presos no rabo de cavalo.
- Nossa, que sol! – Comentei quando saí para o terraço, vendo-o segurar a porta para mim e pisar nas rasas poças de água acumulada. – Não está tão ruim. – Comentei e ele veio logo atrás de mim.
O terraço era bem similar ao andar de baixo próximo à cozinha. Tinha várias plantas, espreguiçadeiras, mesa, pia e bancada para fazer festas e muito do céu, agora aberto, de Nova York.
- Nem parece que tinha aquele tanto de neve mais. – Comentei, me aproximando da murada, tentando procurar a ponte do Brooklyn perdida no horizonte.
- Talvez foi uma desculpa para você passar a noite aqui. – Ele comentou atrás de mim e senti seus braços passarem ao redor da minha barriga e seu queixo encostar em meu ombro.
- Agora entendo o porquê quis vir aqui. – Comentei, colocando minhas mãos em cima das suas.
- Foi ideia da minha mãe. – Ele se defendeu e eu ri fracamente, girando meu corpo e ficando de frente para ele, levando as mãos até sua nuca.
- Aposto que sua mãe sabe sobre noite passada. – Comentei e ele acariciou minha barriga, colocando a mão em minha cintura por dentro do casacão aberto.
- Com certeza. – Ele comentou, encostando sua testa na minha e senti nossos narizes roçarem lentamente. – Dona Nancy é esperta, mas discreta.
- April é mais difícil. – Comentei, fechando os olhos.
- April tenta, desde que eu me separei, me juntar com alguém, acho que ela perdeu amizade com quase todas amigas, porque ela marcava encontros e era um desastre ou eu não aparecia. – Joguei a cabeça para trás para gargalhar.
- Que maldade, Adam!
- Não é maldade, ela sabia que eu não queria nada, não estava buscando outro relacionamento e marcava sem eu saber. Esse ano foi meio corrido para mim, sabia? – Ele falou e eu ri fracamente.
- Sei bem. – Sorri, acariciando suas bochechas avermelhadas de frio.
- E agora, você aparece na minha vida, totalmente sem pretensão... – Ele deu de ombros. - É tipo a história de A Bela e a Fera, aparece uma moça no castelo da Fera e os empregados ficam loucos achando que ela é a garota certa.
- E ela é? – Perguntei com segundas intenções.
- A Fera acha que sim, mas a Bela ainda está receosa. – Ele disse e eu sorri.
- Não estou com receio, só não quero ter que fazer recast do meu filme sendo que acabei de escolher o ator principal. – Comentei, tocando seus lábios levemente com a ponta dos dedos.
- Quando começam as gravações mesmo? – Ele perguntou.
- Com sorte, em março. – Ele assentiu com a cabeça.
- Meio apressado, não?
- Todos os meus filmes tem sido assim. Lançamento do livro, divulgação, escolha de elenco para o filme, gravação, divulgação e começa tudo de novo. – Suspirei, sentindo-o me apertar contra seu corpo.
- E depois que acabar esse? Tem mais livros e mais filmes vindo por aí? – Ele perguntou e eu suspirei.
- Não sei, talvez tire 2021 para descansar, tenho outros livros prontos ou quase prontos para começar o processo de publicação, mas preciso descansar um pouco.
- 2020 nem chegou e você já está pensando em 2021? – Ri fracamente.
- Dificilmente vivo o presente, costumo pensar no que vai acontecer quando eu finalizar tal coisa.
- O que está pensando agora? – Ele perguntou.
- O que eu vou fazer quando terminar de escrever meu livro novo e o que eu vou fazer quando for embora hoje. – Ele ergueu o rosto, abrindo os olhos.
- Não sei sobre a primeira, mas eu estou surpreso como você conseguiu mexer comigo em menos de 24 horas e quero descobrir muito mais. – Sorri.
- Não estamos indo muito rápido? – Frisei o muito.
- Ei, eu nem te pedi em casamento ainda. – Gargalhei alto.
- É, então não. – Sorri, sentindo-o colar os lábios nos meus rapidamente.
- Vamos ver aonde isso vai dar, tá? Mas não tenho medo de descobrir para quais caminhos ele vai me levar. – Sorri, acariciando sua nuca.
- Você pensou que aconteceria tudo isso em uma semana quando foi fazer o teste? – Perguntou.
- Nem pensar! – Ele falou alto. – Te achei muito bonita, mas para começar, eu não achei nem que conseguiria o papel, quiçá que a gente se desse tão bem. – Sorri.
- Eu confesso que fiquei viciada em você. – Suspirei. – Sua audição realmente tirou meu fôlego e logo depois eu vi em uma leva Star Wars, e eu adoro o Kylo, depois vi História de um Casamento e depois vi O Relatório, foi um fim de semana dedicado a você. Aí eu fiquei obcecada. – Ele riu fracamente.
- E o que o Shawn achou? – Ele perguntou.
- Ele já trabalhou contigo, então é totalmente favorável em te ter no filme. – Sorri. – Ah! Com isso eu fui ver o filme Sete Dias sem Fim e acho que nunca dei tanta risada na minha vida. Você é bom para comédia.
- Valeu! – Ele sorriu.
- Deveriam fazer uma continuação, é muito bom mesmo. – Ele sorriu.
- Acho difícil, mas quem sabe?
- Sei que é baseado em um livro, vou conversar com o autor. – Ele sorriu.
- Vai, poderosa! – Ele falou e eu ri fracamente.
- Às vezes eu consigo. – Sorri. – Os produtores da Disney têm o receio por tudo que a gente conversou ontem, sua ansiedade, problema em assistir aos próprios filmes, etc... – Ele deu de ombros. – Mas eu estou disposta a tentar e sei que você está disposto a tentar.
- Sabe o que me acalma? – Ele perguntou.
- Hum...
- Seus lábios. – Ele sussurrou com a boca colada à minha e deixei que ele finalmente aprofundasse o beijo, apertando minha cintura, fazendo com que meu corpo inclinasse levemente para trás.
Ergui uma das mãos para seus cabelos, bagunçando os mesmos e segurei em sua nuca, sentindo sua pele até mais quente do que o resto de seu corpo. Ele distribuiu alguns beijos pelo meu queixo, descendo pelo meu pescoço e arfei com o arrepio que aquilo causou em meu corpo, me fazendo suspirar alto.
- Mas já está com saudades? – Brinquei e ele riu fracamente.
- Eu demorei para dormir depois que a gente subiu, eu só pensei nele. – Sorri.
- O que você vai fazer quando não tiver meus lábios, hein?! – Sussurrei contra seu ouvido.
- Irei sempre atrás deles. – Ele sussurrou, voltando a colar nossas bocas novamente.

- É gostoso aqui. – Comentei apoiada na marquise, sentindo o vento gelado bater em meu rosto. – Estamos em Nova York, mas eu poderia me imaginar em um dos meus livros. – Suspirei. – Uma pequena e remota cidade do interior.
- “Incrível Poderosa” não se passa em Nova York?
- Sim! E algumas em Los Angeles, mas adoro quando escrevo sobre o interior. – Virei para ele, vendo o mesmo dar um gole na xícara que sua mãe havia lhe dado mais cedo.
- Ah, dona Nancy! – Ele fez uma careta forte. – Ela colocou a garrafa inteira aqui dentro. – Ri fracamente e ele me estendeu. – Quer experimentar?
- Nem fraco, nem forte. – Comentei.
- Esqueci que você não bebe. – Ele apoiou a xícara na marquise novamente.
- Quer saber o motivo de eu não beber? – Comentei, olhando para o céu.
- Tem algum motivo específico ou profundo? – Ele perguntou, virando o corpo para o lado.
- Um pouco dos dois. – Suspirei, mordendo meu lábio inferior.
- O que aconteceu? – Ele perguntou.
- A idade legal para beber na Nova Zelândia é de 18 anos. A de dirigir é 16 igual aqui, então no ensino médio todo mundo já pegava o carro dos pais, ia para escola, para casa dos amigos, enfim... – Abanei a cabeça. – Um dia uma amiga me chamou para ir na festa de 21 anos da irmã, ela também chamou outra amiga nossa, a Zoe. – Suspirei. – A Zoe me pegou em casa e fomos para a casa da Jane, essa amiga minha. Lá tinha só gente mais velho, amigos da sua irmã e tal, e muita bebida. – Relaxei os ombros. – Nós nunca tínhamos bebido na vida, então experimentamos realmente todo tipo de bebida, vinho, vodca, tequila, uísque. – Me arrepiei ao falar.
- Já até imagino aonde isso vai dar. – Ele se endireitou e segurou minha mão que estava apoiada na marquise.
- Eu me senti bambear muito rápido, então tive noção de parar e comecei a beber água, comer os doces da festa, enfim, tentar melhorar. – Suspirei. – Zoe não. – Puxei o ar fortemente, percebendo que eu tentava segurar o choro. – Bom, passou algumas horas, eu também não percebi que ela estava mal e fomos embora para casa. – Olhei para o céu rapidamente, respirando fundo. – Ela deu de cara com um carro que estava estacionado na rua. Ela acertou só o lado dela. – Suspirei. – Ela morreu na hora. – Ele apertou minha mão mais forte. – Eu estava sem cinto e acabei batendo o tórax e a cabeça. – Ergui um pouco da minha blusa, mostrando uma cicatriz de uns quatro centímetros na lateral esquerda da minha barriga.
- Isso explica muita coisa. – Virei para ele, assentindo com a cabeça. – Sinto muito. – Assenti com a cabeça.
- Já faz quase 15 anos, mas não tem um dia que me ofereçam algo alcóolico que eu não lembre de Zoe. – Ele passou os braços pelos meus ombros, me puxando para seu peito e eu fechei os olhos, suspirando, abraçando-o pela cintura.
- Deve ter sido uma época muito difícil. – Suspirei. – Espera um pouco. – Ele afastou o rosto até conseguir me encarar. – Essa é a Zoe que você sempre dedica seus livros? – Dei um pequeno sorriso.
- Ela mesma. – Relaxei os ombros. – Ela fez todos os cursos de literatura e escrita comigo, queria ser escritora também, mas... Bem. – Suspirei. – Então eu acabo fazendo um pouquinho por nós duas.
- Aposto que ela está orgulhosa por você. – Abracei-o de lado.
- Eu sei que está. – Olhei para o céu. – Só queria que fizéssemos sucesso juntas. – Suspirei. – A mãe dela me deu os manuscritos que ela guardava, na chance que eu escrevesse algum dia, mas eu nunca consegui.
- Um dia você vai conseguir, você vai ver. Por enquanto, continue homenageando-a em todas as oportunidades. – Assenti com a cabeça.
- Sempre. – Sorri, franzindo a testa ao perceber um ponto se movimentando no céu. – Ah, fala sério, aquilo é um avião? – Apontei para o céu e Adam pareceu prestar atenção por um momento.
- Parece... – Ele falou calmamente.
- Ah, qual é. – Falei brava, vendo-o rir ao meu lado.
- Pensa em tudo o que não teria acontecido se você pegasse aquele avião. – Sorri, me virando para ele.
- Talvez você tenha razão. – Ele beijou minha testa.
- Ah, aí estão vocês. – Eu e Adam nos assustamos com April entrando no terraço e nos afastamos um passo para trás. – Nem precisa fingir, vai. Eu sei de tudo o que aconteceu noite passada. – Ela abanou a mão, se aproximando da gente.
- Você bebeu gemada, por acaso? – Adam perguntou.
- Está forte, né?! – Ela comentou e rimos. – Não sei o que vocês vão fazer com esse relacionamento, mas eu a aprovo totalmente, maninho! – Ela me abraçou pelos ombros, me sacudindo. – E você trate-a bem, não se encontra alguém incrível assim em anos.
- Você me conheceu ontem. – Comentei.
- E o Adam dois dias antes e já tá caidinho por você.
- Sete dias. – Ele tentou corrigir e só gargalhamos.
- Você se apaixonou à primeira vista, irmãozinho, eu vou te zoar para sempre. – April falou alto e eu neguei com a cabeça, vendo Adam revirar os olhos.



Capítulo 9

25 de Dezembro – 12:30h

- Acho bom entrarmos. – Comentei, apertando meus braços em cima dos de Adam que me apertava fortemente.
- Vamos, logo minha mãe serve o almoço também.
- Acho que eu não aguento mais ver comida. – Ele estendeu a mão e eu sorri, pegando-a.
- Ainda tem o almoço, a sobremesa e o café...
- Meu Deus! – Fiz uma careta, seguindo em direção às escadas.
Descemos as escadas quase lado a lado, comigo sempre um andar abaixo e eu ainda achava aquela casa muito alta, não conseguiria viver ali de jeito nenhum. Quando chegamos quase no terceiro andar, comecei a ouvir um som bem familiar.
- Zoin... Zoin... – O som era repetitivo e levemente metálico.
- Ah, não acredito. – Adam reclamou.
- O quê? Eu conheço esse som. – Adam revirou os olhos e desceu os degraus faltantes na minha frente e eu o segui. – Eu disse para você não mexer nisso, Ryan! – Arregalei os olhos ao ver April e Ryan em quase uma legítima luta de sabres.
- Oh, meu Deus! – Falei, seguida de uma gargalhada. Ryan tinha um sabre azul em suas mãos, April o vermelho de Kylo Ren, além da máscara do mesmo.
- Isso não é brinquedo, gente! – Adam falou como um verdadeiro pai, tirando o sabre da mãe de April e puxando o capacete para fora, me fazendo rir.
- Não acredito que você tem isso e não me falou! – Falei animada, me aproximando deles na sala em frente à biblioteca.
- Eu guardo de recordação, não é para brincar. – Peguei o sabre do Kylo da mão de Adam e o mexi em minha mão.
- Oh, isso é até pesadinho. – Medi o peso.
- É o que eu usei no filme, sem os efeitos, né?! – Ele ponderou com a cabeça e eu encontrei um botão no mesmo, apertando e percebendo que ele apagou.
- Oh, isso é legal! – Falei gargalhando sozinha e apertei o botão de novo. – Zum!. – Fiz o barulho do sabre, gargalhando em seguida.
- E vocês deram banana para um macaco. – Ele comentou, se sentando em um pufe.
- Ah, qual é! – Ri. – Eu joguei críquete quando mais nova, deve ser meio similar.
- Você tem cara de quem jogava rúgbi. – Ryan falou.
- Eu?! – Falei, surpresa.
- Você tem cara de ser bem casca grossa. – Neguei com a cabeça.
- Eu joguei no ensino médio, se te conforta, era meio que obrigatório.
- Sabia! – Ele brincou e eu ri, negando com a cabeça.
- Nossa, doía demais, sirvo para isso não. Cada dia de treino era um roxo diferente. Capaz de ter alguns nas costas ainda. – Eles riram. – Agora me mostra uns movimentos, Adam. – Entreguei o sabre virado para baixo.
- Ah, qual é! – Ele fez uma careta.
- O quê? Vai! – Falei. – Eu vi os filmes, você tem estilo.
- Você jogou críquete, pega o outro. – Ele comentou.
- Não é como se fosse esgrima, Adam. – Falei, pegando o sabre azul da mão de Ryan, percebendo ser um pouco mais leve. – Eu quero ser o Kylo. – Fiz uma careta.
- Ah, meu Deus! – Adam trocou os sabres, me fazendo abrir um largo sorriso.
- Isso não quebra, né?! – Toquei os dois sabres rapidamente. – Não! – Falei animada.
- O que você pretende, ? – Ele se afastou para o hall dos dois cômodos.
- Se isso fosse Star Wars e isso fosse de verdade, provavelmente eu teria intenção de decepar um braço! – Dei um sorriso sacana e Ryan e April caíram na gargalhada com a referência e Adam arregalou os olhos.
- A gente acabou de se conhecer. – Ele falou atônito e eu abri um largo sorriso honesto.
- Essa daí é para casar, irmãozinho! – April falou e eu neguei com a cabeça.
- Eu perdi alguma coisa? – Ryan perguntou e April abanou a mão.
- Vamos só dizer que eu e mamãe estávamos certas. – Ela sorriu e eu pisquei em sua direção.
- Ok, Adam. Dê seu melhor Ben Solo! – Empunhei o sabre com as duas mãos, afastei os pés e encarei Adam.
- Já vi que você é competitiva. – Tombei a cabeça para o lado rapidamente. – Manda ver!
- Vou ligar meu lado de jogadora de rúgbi. – Brinquei e ele riu.
Aquilo realmente estava saindo do controle, mas eu nunca tinha lutado com sabres antes, nem na vez que eu fui para Disney. Eu não era exatamente uma fã de Stars Wars, mas quem nunca sentiu vontade de fazer aquilo na vida? Ainda mais com apetrechos verdadeiros? E Adam parecia bem interessado na luta, era quase como se eu conseguisse ver os olhos de Kylo nos dele.
Como boa batsman* que eu fui, avancei como se eu fosse rebater uma bola de críquete, mas o Ben Solo na minha frente colocou seu sabre da mesma forma que o meu, fazendo um barulho oco quando eles se encostaram e girou o corpo, fazendo seu sabre erguer o meu e trocarmos de lugar.
- Como você fez isso? – Perguntei surpresa, sentindo meu ombro doer.
- Eu tenho seis anos nisso. – Ele disse e eu parecia muito surpresa com isso.
- Cara, quem diria que eu ia me viciar em Star Wars quando isso finalizasse? – Falei, endireitando o sabre horizontalmente com as mãos e ataquei Adam de novo.
Ele deu uma de Matrix e simplesmente saiu da frente do meu ataque, me fazendo atingir um vaso que estava em cima da lareira e o mesmo se separou em dois, fazendo com que planta e terra caíssem dele.
- Oh, meu Deus! – April falou e eu coloquei uma mão na boca, surpresa. Moose latiu lá embaixo.
- Me desculpe! – Falei entre segurar a risada e me sentir culpada nisso.
- O que aconteceu aí em cima? – Nancy gritou lá de baixo e nós quatro nos entreolhamos como crianças.
- Acho melhor você voltar para o críquete. – Adam estendeu a mão e eu fiz um bico antes de entregar o sabre de volta para ele. – E vocês nunca mais mexam nisso.
- Desculpe. – Ryan e April falaram juntos.
- Eu fico te devendo uma planta. – Fiz uma careta, vendo a areia espalhada em cima da lareira e um pouco no chão junto do vaso quebrado em quatro pedaços e da planta inteira.
- Está tudo bem. – Adam abanou a mão.
- Aonde eu encontro uma vassoura? – Perguntei, vendo-o colocar as coisas de Star Wars no lugar novamente.
- Relaxa, eu cuido disso. – Adam abanou a mão.

*Batsman: é o jogador do críquete que acerta a bola.

- O que vocês estavam aprontando lá em cima? – Nancy perguntou quando nós quatro descemos com as maiores caras de pau da vida.
- Não foi nada. – Adam falou, seguindo em direção ao seu filho que brincava com várias coisas no chão.
- É, nada demais. – Dei de ombros, seguindo em sua direção.
- O que vocês estão aprontando? – Ela perguntou novamente.
- Pergunta para o Adam, ele que está andando escondido por aí. – April falou e Adam a encarou.
- É, verdade, aonde vocês estavam? – Rodney perguntou e foi minha vez de encarar April.
- Então, Dylan, o que você ganhou do Papai Noel? – Me sentei ao seu lado, encostando as costas no sofá.
- Eu ganhei muita coisa! – Ele falou animado, enquanto Adam acariciava sua cabeça. – Ganhei a fantasia do Homem Aranha. – Ele falou erguendo a mesma. – E o lançador de teia.
- Uau! – Falei animada. – O que mais? – Moose veio em minha direção e se deitou ao meu lado.
- Ganhei massinha! – Ele falou animado com várias massinhas já misturadas uma na outra, tornando uma cor estranha.
- E o que você está fazendo de legal? – Perguntei, fazendo um carinho em Moose.
- Um avião! – Ele falou, animado.
- Posso te ajudar? – Perguntei.
- Pode! – Ele falou com um grande sorriso no rosto e vi Adam dar o mesmo sorriso que ele, mas em minha direção.
Passei alguns minutos relembrando como fazia esculturas de massinha, mas o avião era realmente a única coisa que eu conseguia fazer, além de qualquer coisa com a massinha em forma de cobrinha, mas aquilo estava me divertindo, e o melhor, divertindo Dylan. O sorriso que ele dava a cada escultura que eu mostrava para ele, fazia meu sorriso se iluminar.
Adam e eu havíamos criado um vínculo muito estranho e delicioso em menos de 24 horas, mas confesso que estar com ele, Dylan e toda sua família, me fazia realmente considerar o que pudesse acontecer depois que aquele dia acabasse.
Tirando alguns beijos, Adam e eu não falamos sobre o que pudesse acontecer, mas eu estava empolgada com aquilo. Ninguém nunca tinha me envolvido tanto quanto Adam e eu me sentia realmente em uma das minhas histórias que terminavam com aquele final aberto com grandes expectativas para o futuro, mas que a gente sabia exatamente o que ia acontecer na próxima cena.
- Vem almoçar, gente! – Nancy falou e Dylan foi o primeiro a sair correndo, me deixando largada no chão.
- Precisa de uma ajuda? – Adam parou em minha frente, me estendendo a mão e eu me levantei.
- Preciso de uma academia e ficar em forma. – Comentei e ele deu um pequeno sorriso.
- Você está ótima. – Neguei com a cabeça, seguindo em direção à mesa, me ajeitando junto deles.

- Por que você não vai descansar, Nancy? – Perguntei, ajudando-a a levar as coisas para a cozinha de volta. – A gente cuida disso.
- Não, não, vocês já cuidaram disso ontem, é a minha vez. – Ela disse.
- Na verdade, é a minha vez. – April apareceu. – Ryan e eu cuidamos disso. Vão descansar, passar um tempo juntos e blá, blá, blá.
- Eu não vou negar isso, então. – Nancy comentou, dando um rápido beijo em Adam. – Vou ficar lá no quarto um pouco antes de ir, ok?!
- Fique o tempo que quiser. – Adam comentou e eles trocaram um sorriso antes dela voltar para a sala.
- Vocês podem ir também, Ryan e eu cuidamos daqui. – April falou e eu e Adam nos entreolhamos.
- Soneca pós-almoço? – Adam sugeriu.
- É a única coisa que dá para fazer depois do tanto que eu comi. – Comentei, ouvindo April gargalhar.
- Viu?! Esse é o efeito Driver, comer até falar chega. – Adam falou e eu neguei com a cabeça.
- Acho que é o efeito também, a diferença é que a gente come muita carne e churrasco.
- Não nego também. – Ele fez um movimento com a cabeça e o segui para fora da cozinha, deixando April e Ryan cuidando das sobras e da louça.
- Nessa época eu já desisto. – Abanei a mão.
- Acho que todo mundo, né?! – Ele riu fracamente. – Eu devo voltar só após o ano novo agora, aproveitar que o Dylan vai ficar comigo.
- Ele vai passar o ano novo contigo? – Perguntei, voltando para a sala e percebendo Dylan abraçado em Moose dormindo ou quase lá.
- Não, ele vai com Joanne, eu talvez vá para alguma festa ou algo assim. Nunca fui muito fã de ano novo.
- Nem eu. – Comentei, vendo-o se aproximar de Dylan e pegá-lo no colo, fazendo Moose erguer a cabeça.
- Vem também, garoto! – Adam falou e seguiu em direção à escada com Dylan em seu colo e Moose passou na frente dele, subindo para o primeiro andar, eu fui atrás deles.
Subimos em silêncio até o segundo andar, onde ficava seu quarto e ele ajeitou Dylan em seu berço, encaixando as almofadas ao redor do filho. Ele acariciou a cabeça do mesmo e se sentou em sua cama, observando seu filho dormir. Moose se aproximou do berço e se acomodou sobre o tapete e também relaxou por ali.
- Senta! – Ele bateu ao seu lado na cama e eu fiz o que ele pediu.
- Dá licença. – Falei e ele virou o rosto, mas antes que ele pudesse perguntar, eu deitei meu corpo na cama, esticando os braços para trás e me espreguiçando.
- Fica à vontade. – Ele falou e eu sorri, vendo-o fazer o mesmo do que eu e virar o rosto em minha direção.
- Você tem um filho incrível, sabia? – Falei e senti o mesmo apoiar a mão em minha cintura.
- Ele definitivamente é a melhor parte de mim. – Ergui uma mão para seu rosto, tirando o cabelo da frente.
- Não sei como você e sua ex estão fazendo, mas estão fazendo muito bem.
- Um dia de cada vez. – Assenti com a cabeça.
- Sei bem o que é isso. – Falei e ele aproximou nossos rostos, dando um curto beijo em meus lábios.
- Está muito cedo para gente falar sobre o futuro? – Ele perguntou e eu suspirei.
- Estou pensando nisso desde o que houve ontem à noite. – Suspirei.
- Eu vou ser honesto contigo, algo aconteceu aqui nessa noite, não sei se foi a magia do Natal, Papai Noel ou o que seja, mas eu quero saber o que mais pode acontecer. – Ele cochichou com os lábios se tocando. – Eu estou separado há quase um ano, não tinha intenção nenhuma em me aproximar de ninguém de novo, mas aconteceu. – Assenti com a cabeça.
- Eu estou vivendo realmente “a noite”, como nós mulheres chamamos. Você cria toda a intimidade com uma pessoa, sem tirar as roupas e eu já escrevi muito dessas cenas, mas foi a primeira vez que eu a vivi. – Suspirei, encarando seus olhos. – Eu não vou desperdiçar, principalmente sabendo que você sentiu o mesmo.
- O que faremos com isso, então? – Ele virou a barriga para cima novamente e eu passei o braço em sua barriga, me aconchegando e ele passou o braço em meus ombros, me trazendo para mais perto.
- Eu quero ficar contigo agora, então esperar a gravação e lançamento do livro não vai colar comigo. – Ele sorriu, dando um beijo em minha cabeça.
- Concordo plenamente. – Rimos juntos. – Ideias?
- Como está seu começo de ano? – Perguntei.
- Muitos festivais de filmes para participar e muitas premiações, vou apresentar o Saturday Night Live também. – Ele falou suspirando. – Devo ficar em Los Angeles um tempo, provavelmente até o Oscar.
- Eu tenho planos para ir para casa no ano novo, caso não neve novamente. – Ele riu fracamente.
- Não sei se quero que neve ou não, para você ficar comigo. – Sorri.
- Quer passar o ano novo em Whangaparaoa? – Perguntei e ele riu fracamente.
- E aguentar todas as perguntas da família ? Melhor não! – Sorri.
- Eu estou aguentando, ok?!
- Aqui tudo começou com brincadeira, só April que descobriu, mas porque ela ficou espionando. – Ri fracamente. – Mas ela não contou para minha mãe, nós guardamos segredos entre a gente, pelo menos até um dos dois realmente queira falar.
- Então ganhamos alguns dias?
- Alguns! – Ele me apertou em seu braço.
- Bom, eu devo ir no Golden Globe, apresentar algum prêmio de roteiro e tudo mais, além do Oscar, agora os outros depende muito. – Suspirei. – Eu devo ficar indo e voltando para fazer decisões sobre o filme, apesar do filme se passar em Nova York, eles acabam gravando muita coisa em Burbank.
- Sei bem! – Ele riu. - Acho que podemos começar com um primeiro encontro, o que acha? – Ergui o rosto, olhando seus olhos próximos aos meus.
- Nova York ou Los Angeles? – Perguntei.
- Nova York, com certeza. – Rimos juntos. – Menos imprensa, menos paparazzi... Apesar de tudo. – Sorri.
- Ok, então acho que quando eu voltar da Nova Zelândia eu te ligo?! – Falei em sinal de pergunta.
- Sim, com certeza, eu preciso te passar meu número. – Ele se sentou na cama, esticando para pegar seu celular na mesa de cabeceira e me entregou. – Para eu não esquecer mais. – Dei um pequeno sorriso e anotei meu número de telefone, estendendo o aparelho para ele novamente.
- E onde você vai passar o ano novo? Com a família? – Perguntei.
- Ah, não. Meus pais voltam para Mishawaka, April viaja com Ryan, Dylan volta com Joanne, capaz de eu ir na festa da Disney mesmo, só para sair de casa. – Ele comentou.
- Ah, verdade. – Franzi a testa. – Recebi o convite, nunca consegui ir, mas porque estava trabalhando, divulgando livro, divulgando filme... – Abanei a mão.
- Eu fui em 2015 por causa do lançamento de O Despertar da Força, é legal. Uma banda boa, ótimo jantar, uma vista sensacional da Times Square e da bola, é bem de boa. – Ele ponderou com a cabeça, girando o corpo e colocando uma perna em cima da cama. – Pouca gente, sem imprensa, dá para passar o tempo.
- Bom, eu espero não ter que descobrir como é. – Sorrimos.
- Melhor você sair daqui e já ir para o aeroporto, aproveitar o tempo aberto. – Ri fracamente.
- Talvez eu faça. – Comentei e nos aproximamos novamente, deixando que nossos lábios se tocassem levemente.

Um choro me despertou e eu quase pulei de onde eu estava com o susto. Percebi que estava na cama de Adam e que tinha adormecido após nosso papo mais cedo. Olhei para a janela e vi que o sol começava a se pôr e Adam se levantava para tirar seu menino no berço.
- Ei, garoto, tá com fome? – Ele perguntou, enquanto Dylan o abraçava fortemente.
- Quero. – Dylan falou manhoso.
- Que horas são? – Cocei os olhos.
- Quase cinco da tarde. – Arregalei os olhos.
- Meu Deus, acho que eu preciso ir. – Falei rindo, me levantando, seguindo atrás dele.
- Tem certeza? – Ele perguntou e eu suspirei.
- Uma hora a história precisa acabar. – Falei, descendo com ele.
- Pode ser um capítulo? Para começarmos outro em breve? – Sorri com seu entendimento à minha metáfora e eu assenti com a cabeça.
- Com certeza. – Falei.
- Cheque mate. – Ouvimos no andar de baixo e encontramos April e Ryan jogando xadrez na biblioteca.
- Treinando seus movimentos, irmãzinha? – Adam perguntou e rimos.
- Finalmente acordaram, hein? – Nancy e Rodney apareceram da outra sala, Nancy segurava um dos meus livros.
- Ficamos conversando e perdemos noção do tempo. – Comentei.
- É! – Adam falou, me fazendo rir fracamente.
- Pai, mamá! – Dylan chamou nossa atenção.
- Vamos, garoto, vovô resolve isso! – Rodney falou, pegando Dylan no colo e descendo.
- Eu tenho que ir também. – Falei.
- Ah, mas já? – Nancy comentou.
- É, vou ver se eu consigo ir para casa ainda, além de que realmente abusei da hospitalidade de vocês. – Nancy sorriu.
- Não precisa se preocupar com isso, você é muito bem-vinda e foi muito bom te ter conosco. – Ela falou, me abraçando fortemente e eu sorri, apertando-a igualmente. – Além de que peguei para ler seus livros, são muito bons mesmo.
- Obrigada. – Sorri. – Foi um prazer enorme conhecer vocês. – Falei, seguindo para abraçar April e depois Ryan.
- O prazer foi nosso, espero te ver novamente em outras circunstâncias. – April falou.
- Vão ter, com certeza. – Adam comentou.
- As circunstâncias que eu disse era como casal, mas deixa quieto. – Ela falou e eu sorri.
- Quem sabe? – Virei para Adam e todos ficaram em silêncio, trocando risinhos cúmplices.
- Quem sabe, né?! – Nancy falou também e eu sorri.
- Foi um prazer, gente! Obrigada. – Sorri, acenando para eles.
- Meu celular está lá embaixo ainda, né?!
- Sim, está no carregador ainda. – April comentou.
- E sua vasilha está lá embaixo também. – Nancy falou rapidamente.
- Obrigada. – Sorri. – Obrigada pela noite, nos vemos em breve. – Acenei.
- Com certeza! – Eles falaram e eu desci os últimos degraus com Adam. Chegamos lá embaixo e vi Rodney dando uma mamadeira para Dylan que a bebia animado.
- Estou indo, Rodney! – Comentei.
- Ah, mas já? – Ele se levantou. – Foi um prazer te conhecer, viu?! Foi muito bom te ter aqui. – Sorri.
- Obrigada! – O apertei fortemente. – Tchau, viu, garotão? – Falei para Dylan que acenou de longe.
- Tchau! – Ele falou tímido.
- Aqui suas coisas. – Adam falou com a vasilha da minha sobremesa em mãos e meu celular dentro dela. – Trouxe mais coisas?
- Só isso, eu acho, qualquer coisa, já sei aonde mora. – Ele riu fracamente.
- Então... – Falamos juntos e olhamos para Rodney.
- Boa volta, . – Rodney falou. – Vamos, garoto? – Ele segurou a mão de Dylan e ambos foram correndo para cozinha.
- Se lembra que eu falei que você ia me dever algo por assinar seus livros? – Comentei.
- Sim, faz pouco tempo. – Rimos juntos.
- Assina o contrato. – Falei. – Vou te mandar o mais rápido possível.
- Não se preocupe, não vou mudar de ideia. – Ele falou.
- Vai ser bom te conhecer melhor, Driver, e trabalhar contigo, com certeza.
- Será que saberemos separar vida pessoal e profissional? – Ele perguntou e eu sorri.
- Eu sou uma produtora executiva e uma roteirista bem chata. – Falei, passando os braços pelo seu pescoço.
- E como namorada? – Fiz uma careta.
- Faz anos que isso não acontece, talvez alguém bem ciumenta, ainda mais que vou me envolver com o garoto do momento. – Ele sorriu, encostando sua testa na minha.
- Estou empolgado para saber. – Ele disse, colando os lábios nos meus. Apoiei uma mão em seu ombro e levei a outra para sua nuca, apertando a mesma quando o beijo se tornou mais intenso.
Ele apertou minha cintura, me trazendo para mais perto. O beijo foi se tornando mais calmo, até que foi interrompido e se transformou em um forte abraço. Encaixei meu rosto na dobra de seu pescoço e dei um curto beijo em sua bochecha, nos separando lentamente.
- Vamos conversando, ok?! – Ele falou e eu assenti com a cabeça, dando mais um curto beijo em seus lábios.
- Obrigada por isso.
- Eu que agradeço! – Ele disse e suspirei, dando um papo para trás.
Adam deu uns passos à frente e abriu a porta para mim, fazendo um ventinho gelado passar pelo meu corpo. Dei alguns passos para frente e passei o braço livre em seu ombro, dando um curto beijo em seus lábios, vendo-o sorrir.
- Até mais. – Falei e ele sorriu.
- Com certeza. – Ele falou sorrindo.
Mordi meu lábio inferior, transformando-o em um sorriso e saí de sua casa, tomando cuidado para não escorregar e segui em direção ao meu carro que estava visivelmente molhado. Abri o mesmo e dei uma olhada na porta novamente, vendo Adam parado ali e o mesmo esticou a mão, me fazendo sorrir e retribuir.
Entrei no carro, ligando-o e saí dali com um largo sorriso no rosto, vendo Adam rapidamente pelo vidro do carro e suspirei quando o mesmo ficou para trás. Peguei o celular no banco do carona e o coloquei no suporte que eu tinha e dei dois toques no mesmo.
- Ok, Google. – Respirei fundo. – Ligar Andrew Tang. – Ouvi o celular apitar e a ligação começar, tocando três vezes antes de Andrew atender.
- Fala aí, chefa! – Andrew atendeu. – Feliz Natal.
- Feliz Natal, Andrew. – Sorri.
- Aproveitando muito a família?
- Que nada, fiquei nos Estados Unidos mesmo. – Suspirei. – Queria que você fizesse algo para mim.
- Claro, pode falar!
- Não precisa ser hoje, mas assim que possível.
- Manda! – Ele disse.
- Eu vou fechar minha escolha no Adam Driver mesmo. – Falei firme.
- Vai mesmo?
- Vou! – Suspirei. – Eu tenho uma ótima intuição para essas coisas, não vou desistir dela por motivos ridículos.
- Vou preparar o contrato e mandar para os executivos da Disney, então. – Sorri.
- Perfeito, nos falamos depois.
- Pode deixar, chefa! Bom descanso para você, se conseguir! – Ri fracamente.
- Até que eu consegui descansar esses dias, foi muito bom. – Sorri.
- Que bom! – Ele falou.
- Até mais! – Falei, apertando para a ligação desligar, desviando para o trânsito rapidamente. – Ok, Google, ligar para Anna Patermore. – Falei e a ligação foi atendida muito mais rápido.
- , que surpresa! – Anna atendeu.
- Ei, Anna, como você está? – Falei, parando em um semáforo.
- Tudo certo e aí? Foi para casa?
- Até parece. – Suspirei. – Fiquei nos Estados Unidos mesmo.
- Mesmo? E você passou o Natal sozinha? Fala sério, você podia ter vindo aqui em casa.
- Relaxa, eu não fiquei sozinha, tive uma alternativa melhor.
- Ah é? Decidiu namorar depois de 20 anos?
- 10 e foi quase isso. – Ri fracamente.
- Me conta tudo! – Ela falou animada.
- A história é longa, mas eu passei o Natal com Adam Driver.
- Adam Driver nosso futuro Harry?
- Adam Driver nosso Harry, porque ele já topou fazer parte do filme e já pedi para Andrew preparar o contrato.
- E o que te fez finalmente decidir isso? – Ela perguntou.
- Eu tive a noite com ele, Anna.
- A noite? – Ele perguntou.
- A noite! – Frisei.
- Mentira! – Ela entendeu. – Como? Meu Deus! E vocês se beijaram? Transaram? Como foi?
- Calma! – Falei firme. – Nós nos beijamos sim, não transamos, mas foi muito mais íntimo do que isso. – Suspirei. – Foi incrível, An. Acho que eu estou apaixonada.
- Ah, que lindo! – Ri fracamente. – E ele vai fazer o Harry mesmo? Como vocês vão fazer? – Suspirei.
- Eu não tenho a mínima ideia, mas eu não quero esperar um ano para descobrir e também não quero escolher outra pessoa. Depois de hoje eu tenho certeza que ele é perfeito para o Harry.
- Vejo uns probleminhas de publicidade aí? – Suspirei.
- Talvez! Por isso eu quero que a gente divulgue o elenco o mais rápido possível, vou falar com os produtores amanhã e pedir esse aval, enquanto isso, eu vejo como eu e Adam vamos caminhando.
- Ok, Adam não é alguém que fica muito na mídia, você está até demais, mas é por fase, acho que a desculpa “nos conhecemos no trabalho” é ideal.
- Além de que foi o que aconteceu. – Falei e ela riu do outro lado.
- Eu não me importo. Desde que eu te conheço, você nunca se demonstrou ao menos interessada por um cara bonito, então eu super apoio isso e luto contra tudo e todos para fazer você ter o final feliz de todos os seus livros.
- Eu sei. – Suspirei. – Eu espero por ele faz tempo também. – Abri um largo sorriso.
- Você vai para casa ainda? – Anna perguntou.
- Não sei ainda, talvez tente ir, preciso finalizar aquele capítulo ainda esse ano, mas eu te aviso, ok?!
- Me avisa mesmo, ok?! – Ri fracamente. – E depois marcamos um café para você me contar detalhes dessa sua grande noite.
- Pode deixar! – Sorri, desligando o celular em seguida.
Respirei fundo e segui meu caminho de volta para o Upper East Side, deixando que minha cabeça se lembrasse de todos os pequenos momentos que eu havia passado naquelas quase 24 horas e como tudo havia sido bem mais perfeito do que tudo que eu já vivi.



Epílogo

Terminei de me arrumar, vestindo uma jaqueta leve por cima da calça jeans e camiseta e me sentei na beirada da cama para calçar meus saltos altos e me ergui novamente, me encarando no longo espelho do quarto de hotel em Los Angeles. Tombei a cabeça para o lado e abri um pequeno sorriso, suspirando.
Me aproximei da agenda na escrivaninha e virei a página, encontrando o último dia de março e abri um pequeno suspiro, vendo escrito na minha caneta desleixada: “início das gravações Incrível Poderosa em Burbank”. Mordi meu lábio inferior, empolgada com mais uma etapa da minha carreira e ouvi meu celular apitar. O tirei do bolso e deslizei o mesmo.
“A caminho de Burbank, te vejo lá?” – Sorri com a mensagem de Adam e ri fracamente, ainda não tendo a mínima ideia de como faríamos isso, já que tivemos pouquíssimos encontros nos últimos três meses, principalmente corridos, por causa de nossos trabalhos.
“Eles meio que precisam de mim, sabe? Eu sou a autora e roteirista.” – Respondi, seguido de uma carinha piscando e bloqueei o celular.
Guardei tudo de volta na minha bolsa, além da minha agenda de compromissos e o livro o qual o filme foi inspirado, e puxei a porta do quarto, sabendo que não voltaria tão cedo para lá. Desci pelo elevador, encontrando um carro me esperando na porta. Entrei no mesmo apoiei a cabeça, aproveitando a viagem até Burbank.
O passeio demorou cerca de 40 minutos, levando em conta que eu estava em um hotel afastado no centro, mas logo me vi passando pela guarita do Walt Disney Studios em Burbank. Me senti em casa ali, afinal, não era a primeira vez que eu iria para lá e com certeza não seria a última. O carro me deixou na porta dos escritórios.
Dois contrarregras me esperavam na porta, já me passando diversas informações de gravação, locação, etc e eu só acenei com a cabeça, seguindo para dentro do estúdio, em direção ao Hall B, onde uma réplica perfeita da frente do prédio de Ophelia e Harry, com bem menos andares, é claro, e a entrada do Central Park estava montada. Suspirei ao ver minha história para fora do papel e sorri.
- Bom dia! – Virei o rosto, vendo meu diretor ali e o abracei de lado.
- Bom dia, Shawn! – Sorri.
- Satisfeita? – Ele perguntou e eu dei um pequeno sorriso, suspirando.
- É perfeito. – Ele disse e vi o carinho de pipoca sendo colocado na entrada do parque.
- Bem-vinda à Nova York da sua história. – Sorri. – Logo começamos, ok?!
- Sem problemas! – Falei, dando uma volta ao redor do corpo, procurando onde as câmeras estavam posicionadas e segui para as cadeiras de cinema, me sentando na minha com meu nome.
Apoiei a bolsa no braço da mesma e puxei minha agenda de lá, junto do livro e guardei a agenda no bolso da poltrona, abrindo o livro na parte marcada, a cena no qual Harry encontra Ellie passeando pelo Central Park. Li a cena mais uma vez e olhei para o cenário montado. Era perfeito!
- Tentando entender um pouco da história? – Virei o rosto para o lado, vendo Adam se aproximar com as mãos no bolso da calça social e a blusa arregaçada até os ombros e uma gravata afrouxada, como Harry usaria.
- Me situando um pouco. – Me levantei, deixando o livro na cadeira. – Faz tempo que eu não leio, sabe? – Pisquei.
- Até parece, roteirista. – Sorri, passando os braços pelos seus ombros e o abraçando fortemente. - Eu senti sua falta. – Ele foi honesto e não consegui evitar um suspiro, nos afastando, mas mantendo os braços em sua nuca.
- Eu também, senhor indicado a todos os prêmios possíveis. – Ele riu fracamente.
- Começo de ano foi meio louco.
- Nem fala. – Revirei os olhos. – Já estou ficando velha para turnês longas e loucas.
- Bom, agora estamos aqui. – Ele sorriu, erguendo uma mão para meu rosto e eu fechei os olhos por alguns segundos. – Três meses de gravação?
- Quatro. – Falei sorrindo. – Consegui alongar um pouco e dar folgas mais espaçadas para vocês.
- Bom, então são quatro meses contigo. – Sorri.
- Sim e o que você vai fazer a respeito disso? – Perguntei.
- Bom, podemos começar com um jantar após as gravações, tem uma pizzaria sensacional aqui.
- Deli’s Delicious? – Falei e ele assentiu com a cabeça.
- Eu estou em casa, conheço esse estúdio como a palma da minha mão. – Falei, vendo-o rir.
- Depois de uma pizza, podemos dar uma volta, conhecer nossos quartos e passar a noite papeando? – Ele comentou e eu sorri.
- Está perfeito para mim, mas acho que podemos fazer mais do que só papear. – Comentei, piscando em seguida e ele sorriu.
- Combinado, então. – Ele falou, dando uma rápida olhada em volta e, em um rápido segundo, seus lábios colaram nos meus e eu suspirei, erguendo uma mão até seus cabelos, tentando não bagunçar o trabalho do cabeleireiro.
- Alguém pode nos ver. – Comentei assim que ele cessou o beijo e ele olhou em volta.
- Eles não me parecem muito interessados. – Ele deu de ombros e eu neguei com a cabeça, estalando um beijo em sua bochecha.
- Sabe a melhor coisa de trabalhar com a Disney? – Me afastei alguns passos até minha cadeira novamente.
- O quê? – Ele perguntou.
- Contrato de confidencialidade. – Falei, piscando e ele gargalhou.
- Não posso negar. – Ele sorriu. – Ficará aqui o dia todo?
- Sim, vou acompanhar tudo. – Fiz um clique em minha caneta, voltando a abrir o livro.
- Tudo? – Ele perguntou.
- Tudo, tente não ficar nervoso, ok?! – Pisquei, vendo-o rir.
- É a oportunidade de trabalhamos juntos e ficarmos juntos finalmente, você realmente acha que eu vou ficar nervoso? – Ele piscou de volta e eu sorri.
- Atores no set! – Shawn gritou.
- Deli’s Delicious as oito? – Perguntei e ele assentiu com a cabeça.
- Espero que antes. – Ele seguiu para o centro do set, aonde Marie Ella, a intérprete de Ellie chegava e eu sorri, vendo-a abrir um largo sorriso quando me viu e acenar.
Desliguei meu celular, coloquei meus óculos e esperei para ver pessoalmente uma atuação ao vivo do meu novo ator favorito que tinha sérias dificuldades em tiram os olhos de mim.





Fim.



Nota da autora: Essa história foi uma surpresa para mim. Eu crushei o Adam no fim do ano e do nada comecei a escrever essa história, fiquei cerca de uns 20 dias nela, foi bem rapidinha, mas eu não sabia onde finalizar ela. Não sabia se iria até o ano novo, até as gravações ou se alongava ela, então fui deixando rolar até que senti que ela chegou ao fim.
Foi a primeira vez que fiz isso, dificilmente escrevo sem roteiro, então foi bom ver que deu certo!
Espero que tenham gostado, se apaixonado pelo Adam e me digam aqui embaixo todos os seus momentos favoritos, ok?!
Agradeço à Naty por entrar em mais uma comigo, fico feliz por te ter como beta, amiga e aquela pessoa que a gente surta seja para fics ou para vida mesmo!
Beijos, beijos e até a próxima!




Outras fanfics

(I Got the) Power


Nota da beta: Flá, você arrasa tanto e eu acompanhei desde o comecinho da ideia, foi um surto louco que se transformou nessa long incrível, fiquei apaixonada por esses dois e como as coisas entre eles foram sutis, mas ao mesmo tempo, intensas. Feriado Natalino cheio de surpresas, os dois se ganharam de presente de Natal hhahah! Ameeei, todos os personagens impecáveis <3
Acompanhei Power também e achei mesmo que ele combina direitinho como o pp dela! <3
Enfim, eu que agradeço por me agraciar com essa fic tão incrível e por compartilharmos tantas coisas juntas! Mais uma na listinha, e que com certeza não será a última! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus