Última atualização em: 28/07/2019

Prólogo

2010, 10880 Malibu Point, Califórnia – EUA.


O sol brilhava naquela fatídica manhã de quinta-feira, espalhando majestosamente seu acalento caloroso envolvendo todos que por ali estão. O céu exibia o seu azul sem fins, refletindo a coloração no mar de água cristalinas e ondas tranquilas.
As palmeiras que enfeitavam a costa da praia dançavam aos movimentos da brisa fresca, que influenciava toda vegetação que a rodeava, e que soprava o rosto de uma certa loira apoiada no balcão de vidraça exageradamente limpa, na extensa varanda da mansão extremamente chamativa.
Pepper Potts admirava a vista, gravando a paz que aquele cenário transmitia. Ela apreciava este momento de calmaria e o fazia necessário toda manhã, afinal, faz-se fundamental toda e qualquer técnica para manter o controle emocional e mental quando se trabalha com um dos homens mais pretensiosos, arrogantes, de egos extremamente inflados e orgulhosos do mundo.
Então procurou fechar os olhos, memorizando a paisagem, e respirou fundo três vezes seguidas.
- Ele está atrasado - a voz de Happy Hogan surgiu às costas da mulher, tímida por invadir o momento íntimo.
- Me conte alguma novidade - respondeu serena, permanecendo de olhos fechados. - A reunião é com os acionistas e sócios da Companhia, estão finalizando os últimos detalhes da Expo Stark. Ele sabe que é importante.
- Desconfio que ele não liga - disse dando de ombros. - Já que está lá em baixo mexendo nos brinquedinhos dele.
- Ele está o quê? - esbravejou imediatamente virando-se para encarar o segurança, que se assustou.
Tony aumentou o som. Estava analisando possíveis protótipos compatíveis com seu novo projeto e não conseguia pensar claramente sem que aqueles acordes de guitarra e solos de bateria estivessem zunindo escandalosamente nos seus ouvidos.
Mexia a cabeça conforme o ritmo da música enquanto apertava o último parafuso da base de segurança de um dos protótipos, quando de repente o silêncio tornou-se ensurdecedor. Ele virou-se confuso na direção da porta e assim que viu a personificação da frustração parada olhando diretamente em sua direção, girou a cadeira de volta à sua mesa.
- Por favor, não abaixe a música.
- Eu não acredito que vai fazer isso comigo de novo, Tony!
- Ah, Deus... - murmurou baixo. - Está irritada e neurótica, e eu preciso trabalhar então...
- Você se tranca nesta garagem enquanto o Conselho de Planejamento da Expo tá lá na sala de reuniões da sua empresa para finalizar os detalhes que você especificou que queria na sua feira!
- Por isto mesmo estou aqui, já expus claramente aos funcionários da minha empresa os detalhes que eu quero para a estreia da minha feira. Que na verdade foi ideia do meu pai, e eu só estou representando o legado - o homem explicou tranquilo, sem recolher as mãos que trabalhavam vorazmente no encaixe à sua frente. - Não tem nenhuma razão a minha tão aclamada presença além da satisfação do Conselho, sendo assim, me veto desta função.
Pepper grunhiu de raiva para logo em seguida respirar fundo, lembrando-se da paisagem de instantes atrás.
- Tony, você precisa cumprir os compromissos como CEO da Stark - disse mais calma.
- Nah - estalou a língua, virando-se para a loira. - Você pode fazer isso por mim. Assistente pessoal e secretária, lembra?
Pepper massageou as têmporas lentamente, fitando o homem que parecia uma criança com suplica nos olhos. Por fim, suspirou derrotada.
- Tudo bem, está liberado por hoje - ele comemorou. - Mas a partir de amanhã, retoma seu posto na sua sala daquela empresa.
Tony assentiu e assistiu a mulher sair pela porta de vidro, batendo-a rudemente, e subir às escadas com passadas pesadas. Ele soltou o ar, divertido.
O homem tornou a aumentar o volume do seu som e a trabalhar naquilo que realmente lhe motivava. Com o auxílio de seus robô e seu programa inteligente, Jarvis, estava para finalizar sua criação, até que o vislumbre de uma garota parada ao lado de fora da porta de vidro o assusta.
Ele piscou os olhos e os esfregou com força, concluindo não ser uma alucinação de sua mente criativa. Esta ainda estava relativamente sã.
Todavia, realmente havia uma garota parada ao lado de fora da sua garagem, impedida por uma porta trancada, revestida com uma tecnologia de última geração. Ela encarava a tranca eletrônica curiosa, sem tocá-la.
Tony aproveita a distração da desconhecida e abafa os sons da garagem apertando algumas teclas de seu teclado digital sob a mesa, fazendo com que a recém chegada não ouça suas indagações:
- Jarvis, quem diabos é essa garota e como entrou aqui?
A tal, de aparência jovem, cabelos castanhos escuros compridos, roupas inusitadas para aquele verão – calça e camisa completamente pretas, cobertas por um sobretudo igualmente preto e botas militares – mirou-o imediatamente com uma expressão, que Tony deduziu ser, estupefata.
- As câmeras de segurança não captaram o momento da aparição, senhor – a voz robótica soou pelo ambiente.
- Todas as internas e externas? - questionou procurando mexer os lábios minimamente, uma vez que a outra não tirava os olhos dele. - Estou cansado de pessoas invadindo minha propriedade. Primeiro o pirata, agora isto...
- Na verdade, a câmera 3 das escadas capta o momento. Contudo, a garota rompeu do nada, não tenho registros fisicamente prováveis do fator que possa ter decorrido isto.
Visivelmente a garota estava longe de ser alguma ameaça, considerando seu corpo magro e estatura baixa. Mas dado sua chegada repentina, sem explicações razoáveis de como ultrapassou um sistema poderoso de segurança sem ser detectada e, ainda por cima, a origem desconhecida, o deixava hesitante em qualquer ação.
Tony a mirava com uma sobrancelha arqueada, arrogantemente duvidoso, quando soprou:
- Jarvis...
- Desde que a grota surgiu tenho tentado encontrar sua identidade no banco de dados nacional, senhor.
- E então...
- Sem resultados cabíveis.
- O que isso quer dizer? Afinal, onde estão Pepper e Happy?
- Ambos estão à caminho das Indústrias Stark. O senhor quer que eu os contate?
- Não - murmurou quase sem voz.
Ele olhou de canto a sua armadura, parada a menos de um metro de distância. Contudo, antes que pudesse alcançá-la, a tranca eletrônica se esverdeou e a porta se abriu.
- Ei, ei, ei – ele chamou sua atenção imediatamente, antes que a mesma pudesse adentrar o local, surpreso que mesmo sem tocá-la a garota destrancou a porta. - Pode ficar paradinha aí, garota – Tony determinou e a garota riu anasalado, porém atendeu ao pedido. – Quem é você? Alguma agente prodígio da Superintendência Humana de... espiões, sei lá o resto do nome?
- Poderia, não poderia? – a voz suave surgiu pela primeira vez seguida de um sorriso estonteante, afagando os ouvidos do outro. – Entretanto... Que graça teria?
- Isso é algum tipo de insinuação à minha vida sexual ativa? – Tony indagou, enquanto analisava se deveria acionar a armadura ou não. – Não imagina a quantidade de pessoas da sua idade que já vieram até mim alegando que eu sou o pai.
- É extremamente impressionante, ridículo até, o quão é parecido com ele – declarou ela, sorrindo com a mesma expressão estupefata. – Até mesmo na falta de modéstia.
Tony vincou a testa, ainda mais desconcertado.
- Do que diabos está falando? Aliás, como rompeu meu sistema de segurança? Como entrou aqui, fedelha?
Dado seu silêncio contínuo ainda encarando-o diretamente nos olhos, ele continuou:
- Stalker¹ é crime, assim como invasão à domicilio, mocinha. Seus pais não vão gostar de saber da sua atitude.
- Já há algum tempo eu não tenho tido o privilégio de saber o que meus pais pensam ao meu respeito - ela finalmente murmurou se aproximando mais, sem desviar os olhos do rosto de Tony. – Ouso dizer, que estariam orgulhosos ou deveras aterrorizados.
- Eu disse para ficar parada! – se exaltou, disfarçadamente se afastando dela enquanto se aproximava da sua armadura.
- Estariam orgulhosos de Howee. Com certeza – continuou plena, com um sorriso fraco no canto da boca – Ele, você... teriam deixado papai muito feliz.
Os olhos castanhos estavam levemente marejados e, apesar de suas frases não terem coerência, Tony conseguiu captar algo. Ou, achava que tinha captado.
- O que? – indagou, a ponto de encostar-se ao traje de ferro, mas travou ao tentar refletir sobre as pronuncias confusas.
- Olhe só para você! Não posso acreditar que perdi isso, sua infância, juventude... Se tornar um homem renomado, o gênio prodígio dessa geração... uma das mentes mais brilhantes do mundo... Howee deve ter ficado tão orgulhoso. Ah, Howee... - ela suspirou tristonha. - Eu sinto tanto!
Tony parou e mirou seu rosto tranquilo, enquanto o dele próprio estava totalmente contorcido em confusão. Ele pensou nas possibilidades, pensou nas estatísticas, nos poucos acontecimentos que decorreram até aquele momento então soprou, com a voz rouca:
- Jarvis, quais foram os últimos resultados da sua busca pelo banco de dados?
- A identificação mais próxima é de Annabel Walter Stark, senhor. Irmã biológica do senhor Howard Stark. Porém, seu status é de desaparecida há exatos sessenta e cinco anos.
A garota rapidamente limpou a lágrima solitária que escorreu por sua bochecha e sorriu em sua direção.
- Impossível! – murmurou quando finalmente reconheceu aquele rosto que estampava diversas das fotos antigas armazenadas juntamente com as coisas do falecido pai.

-x-


- Sinais vitais em perfeito estado, senhor - a voz robótica pronunciou.
- Alguma anomalia interna?
- Escaneamento da estrutura corporal em 10%... 20%...
- Tony, estou dizendo...
- Quietinha aí - o homem interrompeu a garota, analisando a prancheta em suas mãos.
- 90%... 100%... Escaneamento concluído.
- Jarvis...
- Tudo em perfeito estado, senhor. Os órgãos estão trabalhando em sintonia, nenhuma ruptura, tipo de fratura, deslocamento ou sinal de transplantes.
- A amostra de sangue que tiramos...?
- Tipo O negativo, sem identificações de doenças ou glóbulos incomuns.
- Existe a possibilidade dela ser uma filha... não, não, uma neta da minha tia - Tony protestou.
- A digital escaneada bate perfeitamente com a digital de Annabel...
- Tá, já entendi - ele suspirou, derrotado, jogando a prancheta em cima da mesa.
- Contudo... – a voz robótica incitou, deixando Tony em alerta. – há um gene completamente desconhecido, de substâncias concentradas que não se encontram na tabela periódica. Este gene está interligando seus órgãos e corrente sanguínea, fortalecendo-os consideravelmente.
A garota sob a maca se ergueu, revirando os olhos em tédio. Deveria saber com quem estaria lidando, afinal sendo filho de quem é, não poderia esperar reação diferente.
- Nenhum histórico sobre esse tal gene? – questionou o rapaz, altamente curioso. – Talvez no banco de dados do pentágono.
- Há um relatório arquivado que cita um conteúdo parecido com este, suponho. Mas ele está em posse da S.H.I.E.L.D. e é ultra secreto. Não tenho acesso a ele.
- Que tal hackearmos os agentes? – incitou Tony sorrindo travesso.
- Prefere invadir um sistema de uma agencia de segurança ultra secreta para ler um arquivo que conta uma história, ao invés de simplesmente escutar a história em pessoa? – inquiriu a garota, apontando a si mesma.
Ele suspirou fundo.
- Sim, claro – respondeu objetivo. – Quem garante que a sua palavra seja verdadeira?
Harriet riu anasalado.
- Você quer provas concretas – concluiu a jovem, sorrindo. – Claro.
- Sou um cientista, querida – disse ele. – Só acredito em fatos.
- Então vai tentar localizar arquivos de 1943, os quais contém resultados de exames, solicitados pela doutora Stark. Que, por caso, sou eu mesma - ela esclareceu. – Estes exames, os quais, talvez pudessem me explicar o que estava acontecendo dentro do meu próprio corpo.
Tony revirou os olhos teatralmente.
- Não tínhamos a tecnologia mais avançada na época, mas eu fiz o que pude e, segundo eles, nada acontecia enquanto claramente se via a mudança. O gene crescendo e se espalhando por minhas veias. Algo que humano algum pôde explicar.
- Sim, você disse - ele disse descontente, abanando as mãos em desinteresse. - Junto à uma história insana e improvável sobre a segunda guerra, armas espaciais e... Qual é mesmo o nome? Sovereign²? – ele bufou. – Realmente espera que eu acredite em tudo isso?
- Sim - ela deu de ombros.
- E como você pretende fazer isso sem que me permita invadir os arquivos da S.H.I.E.L.D.? - Tony a encarou com uma das sobrancelhas arqueadas, desafiando-a.
- Te mostrando - séria, ela se aproximou do rapaz e pousou a mão nas laterais do seu rosto.
Antes que Tony pudesse a repelir, sentiu sua cabeça girar violentamente, como se estivesse em um daqueles brinquedos gira-gira que se encontra em playgrounds. Não conseguiu contar quantas voltas deu, nem poderia, dada a velocidade com que foi feita, mas lentamente ela parava. Ele se sentiu tonto e sua cabeça doeu por alguns instantes.
Assim que a imagem se focalizou, ele percebeu não estar mais em seu laboratório e sim em uma sala de estar, com um notável papel de parede vermelho, carpete bege e lareira grande com fogo crepitando. Os móveis antigos pontuavam o ar clássico do lugar, assim como o piano preto de calda posto no canto.
Quis explorar mais desse lugar estranho, mas sua cabeça não se movia de acordo com suas vontades, aliás, fazia o contrário delas. Seus olhos estavam focados na capa de um livro que momentaneamente ele não soube dizer o que dizia em seu título, mas dado alguns segundos, lia-se "Um novo tipo de raios" de Wilhelm Conrad Röntgen³.
Ele pôde sentir um sorriso se abrir em sua face, mesmo que não tenha tomado a iniciativa para tal ato, e sua cabeça se virou para o lado, ainda contra sua vontade, onde um senhor de cabelos e bigode pretos pousava em uma poltrona grande da cor verde-musgo.
- Obrigada papai, era exatamente o que eu queria - uma voz fina e infantil despontou de seus lábios e apesar de seu choque ser grande, a cena seguiu como se ele fosse um mero telespectador.
- Fico feliz que tenha gostado, querida - O homem sorriu bondoso, olhando diretamente para ele. - Veio diretamente de Amsterdam para você.
Aquele rosto... Aquele rosto não era de um todo desconhecido para Tony, fazia-o se recordar de alguém que há muito não lhe passava pela cabeça.
- Howard, filho, largue isso e venha até aqui - o homem soprou e logo um garoto franzino, de cabelos escuros penteados para o lado, sapatos muito bem engraxados e gravata borboleta, que Tony não notara antes, se levantou ao seu lado e andou na direção do ancião. - Este é o seu.
O garoto segurou o embrulho azul com um brilho flamejante aos olhos. Não se demorou em ajoelhar-se ao chão e rasgá-lo sem cerimônia. Assim que os olhos atingiram o que havia dentro do embrulho, o sorriso alcançou seus lábios arrebatadoramente.
- Puxa papai, o senhor conseguiu.
O mais velho sentado na poltrona sorriu novamente orgulhoso antes de comentar:
- Essa é uma das mais modernas válvulas que se tem, um amigo me devia um favor e me enviou isso de lá da União Soviética.
- Isso vai deixar meu motor de última geração - afirmou o garoto. - Obrigado papai.
Antes que tivesse se acostumado com a cena que acabara de presenciar, tudo voltou a girar, ainda mais rápido desta vez. Quando a velocidade foi diminuindo e a tontura passou, Tony pôde identificar um cemitério, pessoas vestidas de preto, a chuva clichê e um clima fúnebre.
Ele estava de frente a uma cova recém-aberta, a qual descia um caixão cor marfim. Tony sentiu o toque de uma mão pequena à sua e notou a versão jovem de seu pai ao seu lado. Este estava com os olhos marejados e o nariz avermelhado.
- Não se preocupe , eu vou cuidar de você - soprou ele.
Tony sentiu-se zonzo, mas não por conta dos giros que ele sabia que viriam, e sim, pela cena. Balançou sua cabeça até poder voltar à realidade e se deparar com a estranha garota o encarando.
Ofegante, ele a afastou.
- Que tipo de bruxa é você? - ele esbravejou. - Tá colocando feitiços em mim?
- Que pensamento retrógrado, Tony - riu anasalada antes de ficar séria. - Estas são lembranças da minha infância.
- Como isso é possível? - soprou estupefato. Eram poucas as vezes que Tony se surpreendia e esta, com certeza, é uma delas.
- Com o tempo você acaba descobrindo que existem coisas que a ciência não pode explicar, o que lhe resta é somente acreditar em deduções e teorias que podem parecer ridículas e impossíveis.
- Tudo bem - se recompôs. - Conseguiu a minha atenção. Agora eu quero que me explique, com todos os detalhes possíveis, essa história toda.
Ele puxou uma das suas cadeiras caras e confortáveis e a indicou para a moça. Assim que se sentaram, ela deu um suspiro longo antes de começar.

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¹ Palavra inglesa que significa "perseguidor". É aplicada a alguém que importuna de forma insistente e obsessiva uma outra pessoa que, em muitos casos, é uma celebridade. A perseguição persistente pode levar a ataques e agressões.
² É uma raça galáctica altamente avançada, geneticamente projetada, que vive no coletivo de planetas de mesmo nome.
³ Foi um físico alemão que, em 8 de novembro de 1895, produziu radiação eletromagnética nos comprimentos de onda correspondentes aos atualmente chamados raios X.


1.1 - Exposição Mundial do Amanhã

1943 Queens, Nova York - EUA.

"Bem-vindos ao pavilhão Maravilhas modernas e ao O Mundo de Amanhã. Um mundo maior. Um mundo melhor."
A voz soou dos alto falantes por todo o ambiente, ganhando a atenção das diversas pessoas de diferentes culturas, crenças, cidades e gêneros que ali estavam presentes.
- Credo, o locutor parece você falando - a jovem morena disse em falso tom enojado, enquanto suas mãos ágeis alinhavam o nó da gravata borboleta preta do mais velho. - Quantos daqui você já enfeitiçou com seus convictos e sutis, porém mortais, argumentos sobre tecnologia moderna?
- Estamos em uma feira do amanhã, - riu presunçoso. - Suponho que já tenha enfeitiçado a todos.
- A modéstia não é uma característica que faça parte do seu dicionário, não é mesmo? - debateu, finalizando o nó.
- Não seria modesto caso não admitisse que este e mais projetos das Indústrias Stark, seriam infinitamente mais prósperos caso você estivesse em minha equipe projetista principal - alfinetou enquanto checava suas vestimentas ao espelho retangular daquele minúsculo camarim escuro.
- Não precisa de mim, Howee. - disse sorrindo bondosa, cruzando os braços sobre os seios. - As indústrias têm-se desenvolvido de maneira fascinante e tudo isso graças a você.
- A empresa tem o seu nome também - disse sério, encarando-a pelo reflexo. - Poxa , você montou o seu primeiro motor de funcionamento a energia solar aos três anos de idade...
- Não durou mais de 12 horas... - ela o interrompeu, desdenhando-se.
- Quando tinha sete, já falava fluentemente sete línguas... - girou nos calcanhares para desafiá-la diretamente nos olhos.
- Não se fala uma língua morta, portanto, duas delas não contam... - tornou a interrompê-lo.
- Com 10 anos você se formou no ensino médio, e com 11 foi aprovada em Cambridge - ele riu estupefato. - Foi a estudante mais jovem a entrar lá.
desviou-se do olhar acusatório do irmão, não estava gostando do rumo em que a conversa ia percorrendo.
- Você é uma prodígio, tem conhecimento em diversas áreas, é Ph.D. em física quântica - o rapaz dizia exasperado.
- Aonde quer chegar com isso, Howard? – indagou desconfortável.
- Você é tão incrivelmente talentosa - pronunciou calmo. – Aparece com ideias fascinantes da noite para o dia. Mas parece tão perdida e... Desorientada.
engoliu em seco, fitando a ponta de seus sapatos de couro e meio salto.
- Você fez - Se aproximou da irmã, tentando encontrar seus olhos. - Você conseguiu cumprir tudo o que o papai queria e até mais. Mas, ... - segurou em seus braços, forçando-a olhá-lo. - Você acha que ele iria aprovar que depois disso você vivesse de voluntariada, em países pobres, servindo de uma médica completamente comum?
- Howee...
- Não estou dizendo que não é uma atitude nobre, porque é sim, e muito. Tem inovado técnicas de medicina como ninguém - respirou fundo. - Mas , você tem o potencial que poucas pessoas têm. Você possui uma das mentes mais brilhantes que eu conheço.
- Você também é uma das mentes mais brilhantes que eu conheço.
- Isso não é uma competição de quem exalta mais o ego do outro, estou falando sério - riu nasalado. - Eu tenho investido a minha mente em alguma coisa que irá revolucionar o futuro e, talvez, acabar de vez com essa guerra. E você... Iria deixa-lo completamente arrojado.
- Howard... - ela começou a negar, mas fora interrompida.
- Não! É sério - ele lambeu os lábios, fazia isso para ganhar tempo e calcular argumentos que o fortalecesse. - Tenho esse projeto...
- Por céus, Howard, eu já disse - ela vociferou se afastando do irmão. - Não quero trabalhar em uma empresa que semeia o caos e arrisca vidas... Seu conceito é inovador e revolucionário, admito, porém junto com isso você também produz a violência, irmão. E disso, já temos o suficiente – ela sorriu fraco. – Eu sou em prol à vida, não a armamentos que a dissemina.
- Tudo bem - ele respirou fundo. - Não vou discordar de você desta vez - ela ergueu as sobrancelhas em surpresa.
Howard nunca hesitou em defender o seu patrimônio, relatando que era fornecida a segurança e não ao contrário.
- Não vou discordar porque eu realmente quero que me escute.
Ela assentiu, portanto o jovem continuou:
- Tem esse projeto. Um projeto incrível, . Ele vai mudar vidas. Não é das Indústrias somente, envolve também...
- Sr. Stark? - uma tímida voz feminina hesitante o interrompeu, junto ao rangido da porta sendo aberta vagarosamente.
- Sim - respondeu seco depois de respirar fundo.
- A apresentação do senhor começa em 30 minutos... - a moça, jovem, com uma prancheta nas mãos, gaguejou por entre o vão da porta. - A diretoria solicitou um breve resumo antes que suba no palco.
Howard respirou fundo novamente e riu de seu nervosismo desnecessário.
- Conversamos depois, você tem uma apresentação inovadora a fazer - ela disse, recolhendo seu blazer e boina da cor caqui, pronta para se retirar dos aposentos.
- Antes - ele correu até o sofá vermelho sangue, posto ao canto do camarim, onde retirou de sua maleta de couro uma pasta de arquivos repleta de papéis e correu para entregar em suas mãos. - Leia tudo. E então, conversamos.
Howard piscou para a irmã antes de seguir a jovem que o atormentara pela porta secundária. Logo que desceu os olhos para a pasta, reconheceu o símbolo do governo Americano.
- Jesus Cristo...

-x-

"Senhoras e Senhores, o Sr. Howard Stark!" anunciou Beth, assistente de palco e secreto caso amoroso do homem anunciado.
Aplausos saldaram a entrada de Howard no palco, e este, ousado como só ele, acaba por roubar um beijo da senhorita antes de se apossar de seu microfone. Uma estratégia atrativa ao público, claro.
- Senhoras e senhores, e se eu disser que em poucos anos, seus carros nem precisarão tocar o solo? - incitou o público, sorrindo charmoso.
A sua plateia era numerosa, mal se via um espaço desocupado e os urros de espanto apenas o motivavam, ele adorava a face de todos quando viam do que ele era capaz.
- Com a Tecnologia de Reversão Gravitacional Stark, vocês poderão fazer... Isto - e acionou o controle de comando principal depois de suas assistentes retirarem as rodas do carro posicionado no centro do palco.
As luzes se voltaram ao carro de cor sangue, que antes era suportado pelo chão, e em poucos segundos levitava como mágica, subindo consigo os chios de surpresa.
Howard sorriu orgulhoso.
Porém, por pouco tempo.
Assim que o carro atingiu o seu máximo de altura, o motor movido à gravidade começou a superaquecer e automaticamente se desligou, soltando o carro do ar e fazendo-o cair brutalmente ao chão.
Howard riu levemente envergonhado, antes de relatar:
- Eu falei "em poucos anos", não foi?
A salva de palmas cobriu as risadinhas baixas e Howard olhou fixamente para um ponto especifico da plateia. sorria para o irmão com olhos piedosos, porém, não fora sua expressão que chamara a atenção do engenhoso cientista e sim a pasta guardada debaixo de seu braço.
- Um alternador teria resolvido - a morena comentou consigo mesma, vendo seu irmão se retirar do palco de cabeça e ego erguidos ao modo que o público se esvaía.
- Imagino que entenda disso mais que um dos maiores e mais brilhantes engenheiros deste país - abordou de forma rude uma voz masculina que, ao checar, vinha de um homem com vestes uniformizadas do exército americano.
Os olhos azuis mais impressionantes, quais se destacavam do verde musgo de suas vestimentas.
- Ah sim, do que eu poderia compreender sendo uma mulher de pouca idade que provavelmente cuida do lar enquanto homens como você e ele lutam por um futuro melhor ao nosso país? - debateu risonha, trazendo um sorriso satisfeito ao soldado arrogante e suas duas acompanhantes. - A não ser, é claro, que eu entenda de engenharia mecânica e tenha noção de que um alternador resolveria o problema do motor gravitacional do Sr. Stark.
O soldado tirou o sorriso presunçoso do rosto imediatamente, arqueando a sobrancelha direita, em forma de desafio.
- Não que eu tenha que explicar a extensão do problema mecânico que assola o motor do Sr. Stark para você, soldado, que por ter uma mente tão reduzida seria incapaz de entender que os alternadores são movidos pelo próprio motor e suprem a corrente elétrica para o sistema elétrico.
“Eles também mantêm a bateria carregada e assim não sobrecarregariam o próprio motor. Desta forma o automóvel não precisaria de combustível como a gasolina para se movimentar, a força gravitacional se tornaria suficiente.”
A jovem continuou sua explicação ignorando as faces das moças, que riam da expressão constrangida de seu companheiro.
- Mas claro que o Sr. Stark, no comando de uma organização de porte multinacional, poderia se esquecer de uma pequena solução para um problema considerado tão agravante no seu projeto.
“Uma vez que o mesmo tem de cuidar de milhares de outros detalhes de projetos que o senhor ou as senhoras sequer imaginam existir. Ele é um homem brilhante, por isso está em uma posição tão importante ao invés de... - ela mirou o soldado de cima à baixo de forma ríspida antes de dizer: - um simples sargento.”
A boca do sargento abriu e se fechou algumas vezes, porém, antes que pudesse pronunciar uma palavra sequer, outra voz chamou a atenção dos ali presentes.
- Srta. Stark? se virou e reconheceu o assistente pessoal do irmão, que sempre apresentava um sorriso convidativo no rosto.
- Sim, Sr. Jarvis?
- O Sr. Stark a aguarda no saguão superior - informou formalmente.
- Diga-o que já o encontro - dito isso a jovem se virou aos estranhos, agora pasmos, e sorrindo educadamente, disse antes de se retirar. - Sargento. Senhoritas. Até uma próxima ocasião.
Assim que se juntou à Jarvis, os dois riram juntos.
- Envenenando os telespectadores do seu irmão? – indagou à loira.
- Não - ela riu. - Apenas enaltecendo os conhecimentos de uma jovem mulher aos de um machista.
O sargento James Buchanan Barnes assistiu àquela mulher se afastar até a mesma sumir de suas vistas, e um pouco após isso. As moças, quais os nomes não mais importavam, chamavam por seu nome e o notificaram que seu amigo havia desaparecido.
Apenas desta forma ele pôde se desconectar daquele momento único ao qual sabia que havia conhecido a mulher mais impressionante de todas, para ir atrás dele.
Já no saguão superior, surpreendia o irmão e seus colaboradores ao pronunciar:
- Eu aceito.


1.2 - Projeto Renascimento

Base militar, Campo Lehigh; Wheaton, Nova Jersey - EUA.


Em uma sala localizada no subsolo da base militar, especificamente na grande sala de reuniões, estavam respeitáveis nomes de diferentes patentes debatendo confidencialmente sobre sua maior estratégia daquela guerra.
- Esta base militar é usada pela Reserva Científica Estratégica, uma agência de guerra aliada formada em 1940 sob as ordens do nosso presidente para combater a divisão de armas especiais nazistas, a HIDRA - explicou o Coronel Philips. - Ele sabia que a situação da nossa nação fora da guerra era apenas temporária.
- Adolf Hitler é a maior ameaça ao mundo livre, ele quer estar um passo à frente de todos. Procura ser o primeiro na corrida armamentista e para isso recruta os engenheiros que estão ao seu alcance para testar as suas teorias ousadas, quais ele pensa serem revolucionárias - Howard acrescentou. - Porém, de fato, a concorrência é forte, e isto o causa revolta.
- Os engenheiros americanos são de longe os mais avançados no tempo e tecnologia - observou.
- Ele tem ciência disso, por isso enviou um grupo de assassinos profissionais da HIDRA para matá-los - o Coronel revelou.
- Você não... - a jovem mirou seu irmão, preocupada.
- Eles me protegeram. Não se preocupe - o rapaz pousou a mão sob a da irmã na mesa da sala de reuniões, confortando-a.
- Chegaram até você? - perguntou perplexa. - Como não soube de nada?
- Jamais a teria posto em uma posição que a deixasse em perigo também - mirou os olhos do irmão, este a passava tranquilidade.
- O que foi feito a respeito disso? - a jovem se direcionou com voz dura ao Coronel. - Howard ainda corre riscos?
- Não, senhorita - prontamente respondeu. - Ele tem soldados altamente treinados e agentes disfarçados o acompanhando todos os dias. Além disso, persuadi-lo a se juntar a Reserva e assim desenvolver estratégias que não só protejam à sua vida, mas a vida de todos os americanos.
- E o projeto Renascimento é uma destas estratégias? - indagou a jovem, adquirindo uma postura mais séria.
- Sim. Pouco tempo depois da tentativa, organizamos um resgate à Abraham Erskine, o cientista qual consta no arquivo - assentiu. - Ele era mantido por Johann Schmidt, comandante da HIDRA. Presumo que tenha lido a ficha dele.
- Sim, li.
- O objetivo da Reserva é criar um exército de super soldados que possam derrotar qualquer coisa que as potências do Eixo encontrarem no campo de batalha - explicou Howard.
- Quanto ao Erskine. Ele é confiável? - soltou sem perceber que ao fundo da sala, uma figura grisalha, com óculos tortos e jaleco branco, acompanhava a conversa desde que se iniciara.
- Suponho que seja difícil acreditar em um alemão que acabara de ser retirado de uma base de projeção de armas nazistas - disse o senhor em um inglês arrastado ao sotaque alemão, calando a todos na sala. - Mas acredito que todos devem saber sobre os dois lados da história antes de se posicionar.
- Se me permite, doutor. Tenho apenas um lado a defender - os demais componentes da conversa se calaram, sentindo a tensão no ar, enquanto a jovem se pronunciava. - Portanto se o senhor for metade de tudo o que li nos relatórios, é o suficiente para que eu possa acreditar que quer deter aqueles nazistas tanto quanto eu. Presenciei o pior lado desta guerra, e farei o meu melhor para acabar com ela - se levantou e caminhou na direção do senhor, estendendo-lhe a mão. - Será um prazer trabalhar com uma mente tão deslumbrante e brava quanto a do senhor.
- Digo o mesmo, Srta. Stark - respondeu, apertando a mão da mulher.
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-x-


Na manhã seguinte, acompanhado de Howard Stark, o Doutor Erskine apresentou à o maquinário que seria utilizado para o projeto, as desenvolturas destas máquinas, a matéria que fora utilizada e como estes transformarão os simples soldados em algo muito maior.
- E assim, o soro mudará toda a estrutura molecular e psicológica dos soldados - finalizou mostrando-a suas anotações.
- Tudo é completamente impressionante, Doutor - admirou-se a jovem.
- Nem tudo, minha querida - ressaltou o senhor. - Tive o conhecimento que a senhorita trabalhou com primeiros socorros no Sul da África. Como voluntária, certo?
- Sim, senhor. Socorro às comunidades carentes prejudicadas pela guerra - explicou .
- Soube também que o sistema de transmissão sanguínea e divisão molecular criado pela senhorita tem demonstrado muita funcionalidade em muitas outras regiões - ele a encarou com um sorriso prazeroso sob a face.
A jovem encarou o irmão, que deu de ombros como se não tivesse relação alguma com o fato.
- Tem um grande admirador, Srta. Stark - revelou Erskine. - E de tanto ouvir sobre seus feitios, acabei me tornando um também.
sorriu. Sua pele sob o rosto se avermelhou.
- Como posso ajudá-lo? - indagou. - Imagino que tenha me convocado por um motivo específico.
- E eu imagino que a senhorita já tenha o desvendado antes mesmo de termos terminado o pequeno tour - disse ele, arrancando uma risada contida de .
- Seu transfusor é engenhoso, Doutor - disse se aproximando da máquina em questão. - É completamente meticuloso e funcional, porém não para uma transfusão de tal magnitude como o senhor deseja.
- Continue, por favor - pediu educadamente, enquanto o jovem Howard só observava a arte que era sua irmã mais nova trabalhando.
- O soro irá alterar as células moleculares dos soldados, não só as sanguíneas, portanto temos de desenvolver um transfusor que afete as demais moléculas de forma acoplada.
- A senhorita...
- Por favor, me chame de .
- , - prontamente se corrigiu - você já tem em mente como irá desenvolver tal transfusor?
- Acredito que preciso desenvolver uma pesquisa antes. Aprimorar a ideia – refletiu com a mão sob o queixo. – Acredito que serão necessárias cobaias para testes. Mas não podem ser os soldados daqui. Eles já têm ciência de que estão treinando para algo maior, para serem escolhidos, portanto as moléculas de toda a sua região cerebral está tensionada e de difícil acesso - o Doutor assentiu. - Preciso de soldados de batalha, que estando preparados para o pior, não se preocuparam com nada mais que suas batalhas. Desta forma o cérebro se move conforme os músculos e instintos, é uma região tensa, mas não a ponto de ter um acesso improvável.
- Sua solicitação é uma ordem, estarei requerendo que enfermeiras recolham os suprimentos de acordo com suas coordenadas...
- Não, - interrompeu-o delicadamente - se o senhor me permite, gostaria de eu mesma retirar as amostras. A área cerebral é extremamente delicada e eu não me sentiria bem em saber que alguns de nossos homens foram prejudicados por falta de habilidades. Sem querer ofender.
- É completamente compreensível, .
- Não, não é - intrometeu-se Howard, exasperado. - É isso mesmo que eu entendi. Você quer ir para o campo de batalha?
- Tomarei cuidado - assegurou .
- Uma ova, eu te conheço - discordou o irmão. - Não vai se arriscar de tal forma só para recolher algumas amostras!
- Todos estão se arriscando nesta guerra, não aceito fazer menos que isto - disse a jovem convicta. - Você mesmo é um.
- Não, completamente inadmissível - Howard balançava a cabeça em negação.
- Não foi você quem disse que eu tenho que investir meu talento em algo que irá revolucionar o mundo? - acusou-o. - Eu me dedico ao meu máximo em qualquer coisa que faço, já devia saber disto.
Howard tentou encontrar argumentos para desarmá-la, mas era impenetrável e isso a tornava irredutível em diversas situações.
- Vai mesmo jogar o veneno contra mim?
- É isso que fazemos de melhor - brincou. - Não se preocupe, eu vou me cuidar.
- Vou com você! - sugeriu.
Antes que a jovem pudesse negar, o Doutor, que apenas assistia a batalha entre irmãos, decidiu intervir:
- Isto é improvável, Sr. Stark. Uma vez que preciso de suas habilidades aqui. Agora que sabemos que precisamos de um transfusor novo, preciso do mais habilidoso engenheiro para desenvolvê-lo fisicamente de forma que se encaixe com os demais adereços.
sorriu para o senhor.
- Isso é um tipo de complô contra mim? - Howard caçoou, ainda tenso, mirando de um ao outro.
- Ela estará protegida, cuidarei pessoalmente para que o melhor pessoal a acompanhe - garantiu Erskine.
- Não sei... - Howard coçou o maxilar, ainda hesitante.
- Não é como se eu fosse menor e precisasse de sua autorização – soprou cuidadosamente.
Howard respirou fundo e agarrou-a pelos braços.
- Tenho condições - franziu o cenho e então o rapaz prosseguiu. - Viajará apenas para países ao máximo de 9 horas daqui, para que consiga retornar a cada semana e eu ver que está bem.
- Tudo bem, eu...
- Não é só, - adiantou-se, interrompendo-a. - Vai aceitar de bom grado a companhia de homens treinados para te proteger de qualquer eventualidade que vier a acontecer. Te escoltando.
- Howard! - exasperou incrédula.
- Temos um acordo? - arqueou a sobrancelha, em tom de desafio.
Um momento de silêncio tomou o laboratório, pouco antes da voz feminina interrompe-lo.
- Tudo bem - concordou e abraçou o irmão. - Mas não exagere, não quero uma tropa na minha cola.
- Fechado.
- Muito bem, meus queridos - disse Erskine. - Não temos tempo a perder.


1.3 - Divisão 107°

Base militar Americana, Campo 107º; Londres, Inglaterra - RU.


O silêncio da madrugada é brutalmente interrompido com o chiar das rodas do carro moderno deslizando pelo chão barroso. A escuridão assolava a floresta de inúmeras árvores altas e maciças, exceto a quota a qual as luzes dos faróis iluminavam.
O automóvel percorreu por um longo período até chegar em portões de madeira, escoltados por soldados americanos armados. O motorista informou-os o motivo da entrada e em pouco tempo a passagem lhes foi liberada.
O campo aberto que se deu em seguida mostrou-se movimentado por diversos indivíduos concentrados em suas diversas tarefas, enfermeiras, soldados, médicos, cozinheiros, prisioneiros e aspirantes, todos submersos em seu próprio mundo.
Logo que o carro estacionou, os três integrantes desceram, dois deles diretamente se dirigiram ao porta-malas para retirar as monstruosas bagagens que ali estavam, enquanto um ficara para cumprimentar a figura corpulenta e de face raivosa que se aproximava, seguida por uma menor.
- Tenente Malcon, divisão 107º, se apresentando - o maior bateu continência. - Fui notificado sobre a chegada de uma equipe de reforço médico.
- Somos nós mesmos - a jovem respondeu sorrindo, indicando a si e os outros dois, quais depositavam as bagagens ao chão.
- Imaginei que por ser denominada equipe, fosse constituída por mais... De uma meia dúzia de pessoas - enunciou desconfiado.
- Garanto ao senhor que somos o suficiente para o trabalho que nos foi passado - garantiu a mulher.
- E suas patentes são...
- Cirurgiã chefe, Doutora Stark - indicou o nome bordado ao peito. - E estes são os doutores Heicht e Wilson, meus auxiliares.
- Agora compreendo - declarou o tenente, sorrindo petulante. - A solicitação de uma guarda de segurança para uma simples equipe médica havia me deixado curioso, no entanto, se tratando de um Stark...
- Não solicitei nenhum tratamento especial, tenente - respondeu dura. - Apenas vim cumprir com o meu papel de cidadã americana e ajudar da forma que me foi resignada.
- Então espero que não se importe se não formos hospitaleiros o suficiente para a senhoria, - retrucou o maior. - A ultima coisa que meus homens precisam são distrações desnecessárias. Suas tarefas são de demasiada importância para que se preocupem com encargos além da proteção deles mesmos.
- Compreendo perfeitamente, tenente.
- Esta é uma área de guerra, senhorita, e se não consegue manter-se viva por si só, sugiro que volte ao mesmo lugar de onde veio.
O tenente estava pronto para dar as costas para os três recém-chegados, contudo a voz adocicada o impediu.
- Se me permite, tenente. Gostaria de lembrá-lo em nome de quem estou aqui presente neste momento - incitou. - O Coronel Philips me alertou de antemão a hesitação do senhor, que de início se negou a colaborar com um projeto de cunho confidencial.
“Porém, como não cabe ao senhor decidir se tal incumbência é necessária ou não, estou aqui a mando do governo americano, que especificamente indica, o nosso sábio presidente pra coletar amostrar de seus homens, quais serão igualmente beneficiados com o projeto.”
sentiu o tenente se encolher minimamente.
- Sargento Barnes - bradou o tenente de repente, assustando os demais.
- Sargento Barnes, divisão 107º, se apresentando, senhor - manifestou-se o menor, coberto pelas sombras, batendo continência.
- Sua tarefa daqui em diante é acompanhar a senhorita Stark onde quer que vá, 24 horas por dia e assegurar a sua segurança igualmente como a de seu projeto.
- Isso não é necessário...
- Ah, eu faço questão - o tenente a interrompeu, sorrindo contragosto.
A jovem mordeu a bochecha internamente e assentiu, afinal, havia feito um acordo com Howard e, por mais desnecessário que pensasse ser, sabia que ele teria noção se ela não cumprisse com sua parte do acordo.
- O sargento irá apresentar-lhes seus aposentos - informou o maior, antes de se retirar. - Espero que não seja deveras básico para a senhoria.
- Me acompanhem, por favor - anunciou o Sargento, antecipando-se em prestar a gentileza de carregar algumas das malas estampadas com o símbolo das Indústrias Stark, antes de virar-se para uma direção oposta à que o Tenente havia ido.
À medida que caminhavam, mirava a figura à sua frente, que pouco era iluminada devido aos limitados postes de luz improvisados espalhados pelo campo. Ela tentava mirá-lo, mas este parecia intencionalmente virar o rosto conforme as sombras.
Não demorou muito para chegarem à primeira cabana, feita de lona grossa e grande o suficiente para uma dúzia se acomodar. Os rapazes levaram consigo seus pertences mais os utensílios que usariam para recolher as amostrar e refrigerá-las. E logo os dois restantes continuaram seu caminho.
Chegaram a uma cabana menor. O Sargento educadamente puxou o tecido grosso, abrindo-a, e indicou que a jovem entrasse.
adentrou o ambiente escuro e assim que seus olhos se acostumaram com a escuridão, pôde identificar quão pequeno era o espaço que, para ela, bastava. Era composto por uma cama de solteiro de ferro, um caixote de madeira pequeno e uma mesa de ferro quadrada posta no canto.
O baque evidenciando que a bagagem fora depositada no chão chamou sua atenção. Assim ela se virou para encontrar a face familiar, agora iluminada pelos flashes de luz que vinham da abertura.
Aqueles olhos azuis destoavam qualquer cor. Fitou-o surpresa.
- O tenente costuma amedrontar os recém-chegados, - murmurou ele, hesitante, sem mirá-la diretamente nos olhos. - Cá entre nós, ele é uma figura bem assustadora. Por isso... - riu pelo nariz. - Foi engraçado vê-lo se sentir ameaçado por uma garota do seu tamanho.
arqueou a sobrancelha.
- Suponho que seja normal em seu cotidiano, - continuou Barnes, finalmente permitindo-a contempla-lo diretamente nos olhos. - Intimidar os que te desafiam.
- Quando se é uma mulher nos tempos em que as pessoas as diminuem inconscientemente, você pode se inferiorizar ou mostrar do que é capaz - afirmou. - É claro que prefiro a segunda opção.
- Isso é inspirador - admitiu.
- Não pareceu ser sua opinião no nosso último encontro - sorriu travessa.
- Assumo que fui um imbecil, - declarou abertamente, escondendo o rosto por entre as sombras. - Gostaria que soubesse que aqueles dizeres não definem quem realmente sou. Eles foram postos de maneira terrivelmente equívoca. Perdoe-me.
- Não sentencio as pessoas com simples amostras e sim com a análise delas.
- Me permitirá lhe conceder mais das amostras? - sorriu charmoso. - Afinal, nos tornaremos próximos, e garanto que não se decepcionará.
- Por favor, Sargento – riu debochada. - Esta é uma situação a qual eu dificilmente ocorreria e que nem de longe é do meu agrado.
“Não tive outra opção a não ser aceitá-lo ao meu lado. Meu objetivo aqui é único, e garanto ao senhor que não é me relacionar com militares. Portanto, espero que saiba que sou imune aos seus encantos. Sinto desesperança-lo, porém garanto que deve haver uma garota de sorte por aí que queira analisar as suas amostras.”
Barnes bufou, sem reação.
- A viagem foi longa e o dia amanhã será agitado, se me dá licença... - incitou a mulher.
- Claro, claro - murmurou ainda desconcertado, saindo por entre a fenda.

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- A-TEN-ÇAO! - gritou o Tenente Malcon, e automaticamente seus homens se posicionaram devidamente. - Está é a Doutora Stark, ela foi enviada diretamente do nosso país para cuidar da saúde de todos vocês - indicou a jovem ao seu lado. - É de extrema importância que todos, sem exceção, compareçam ao ponto de atendimento médico para realizar os devidos exames. Sem mais, dispensados - assim que os soldados se dispersaram, o tenente voltou-se à jovem. - Satisfeita, senhorita?
- Por ora - declarou com um sorriso zombeteiro enquanto o assistia se afastar carrancudo.
Ela achava engraçado como os homens repudiam seguir ordens de uma mulher.
- Sargento Barnes se apresentando - pronunciou de supetão às suas costas, pegando-a de surpresa.
- Por Deus, sargento - soprou com a mão sob o peito. - Não vejo necessidade em bater continência toda vez que nos encontrarmos, portanto...
- É a regra, senhorita – respondeu sério, acompanhando-a. - Qual o cronograma de hoje?
- Fazer testes – informou-o. – Preciso de cinco homens para testes intensivos esta manhã para que na manhã seguinte eu possa extrair fluído cerebral e moléculas sanguíneas.
- Para que serve estes testes antes da extração? – indagou, levemente interessado.
- Além de conferir se estão aptos para a funcionalidade, para que após a extração possamos fazer os mesmos testes e nos certificarmos que eles estão tão saudáveis como antes.
- Parece animador - soltou sarcástico.
- E é – riu.
Portanto, no primeiro dia foram selecionados aleatoriamente cinco soldados para os testes, que levaram o dia inteiro. Coisa que enfureceu o Tenente. Ele não entendia como tirar a concentração de seus homens poderia ajuda-los na guerra.
Os dias se passaram vagarosamente. Assim como os resultados das coletas. Em cinco dias, os médicos conseguiram coletar dez amostras de soldados diferentes. Contudo, estes estavam perfeitamente saudáveis como antes de terem cedido seus fluidos cerebrais. Nenhum fora afetado ou alterado, o que já era uma vitória.
Quando dada a data de retorno para a visitação solicitada por seu irmão, permitiu-se suspirar aliviada. Era preciso muita concentração para se coletar os fluidos, fazer os testes, se proteger de ataques surpresas, correr com seus materiais de um local ao outro e, ainda, manter resfriadas as amostras já coletadas.
Apesar do número baixo, comparada à quantidade de soldados da divisão, estava otimista. Contudo, Howard não era tão positivo quanto a irmã.
- Demorou uma semana para retirar dez amostras? – vociferou.
- Howard. Apenas estou sendo o mais cautelosa possível – explicou. – Preciso ser, caso contrário, posso ter uma fração de resultados errados e ao menos notar. O que acarreta ao fracasso do projeto. Portanto, tenha paciência. A pressa é inimiga da perfeição.
- Existe a possibilidade de um reforço de médicos? – sugeriu Howard. – Talvez em maior quantidade de pessoas...
- Teríamos que fazer uma seleção restrita, o projeto é secreto e já foi difícil liberar os doutores Heicht e Wilson para a coleta – lembrou o coronel Philips.
- Uma ajuda seria bem vinda – admitiu . – De profissionais altamente capacitados, claro.
- Tentarei providenciar para a senhorita, – disse Erskine. – Enquanto isso, leve o tempo que precisar, estaremos aguardando ansiosamente.
No primeiro dia da segunda semana, os soldados foram resignados a saírem da base móvel e auxiliarem outros em campo aberto. Assim, não conseguira fazer testes em nenhum dos soldados. O que era decepcionante, ao seu ponto de vista.
O prazo era apertado e cada minuto perdido era um prejuízo contabilizado à nação.
Tal reação não fugiu do radar do observador sargento.
- Triste, doutora? - perguntou Barnes.
- Frustrada. Mais do que imaginei que estaria - respondeu enquanto observava os frascos de amostras vazios.
- Sabe, a situação por aqui nem sempre é tão calma quanto a senhorita esta presenciando - informou. – Temos tido sorte em pegar pontos privilegiados e não darmos de cara com algum nazista. Os encontros são sempre muito sangrentos e mais do que simplesmente frustrantes. Agradeça por estar sentindo apenas frustração no momento.
Barnes não somava sua ignorância e grosseria antes de falar o que pensa. Ainda mais com uma “mimadinha de berço de ouro” feito Stark.
Ele tentou no início, afinal, a mulher estava ali a mando de superiores e não tinha que abrir os dentes para todos ao seu redor. Dado as circunstancias, mulheres eram mal vistas quando ocupavam cargos de patentes altas, e ela sabia se impor muito bem ao fato. Ele não anularia esta conduta.
Entretanto, a sua extrema falta de tato, deixou-o farto e irritado. Por um longo período, ele calculava suas atitudes só para ser bem visto por ela. Sua relação não melhorou. Assim, permitiu-se ser tão bruto quanto.
Todavia, desta vez, ela encolheu os ombros.
Pensou naqueles com quem estavam convivendo ultimamente, quais descobriu por serem atenciosos e completamente zelosos por sua segurança.
Por mais que seu Tenente não tenha resignado outros além do estúpido Sargento para isso, os outros contribuíam até mais que ele.
Havia conhecido homens de diferentes culturas e histórias. Pais de família grande, solteirões arrogantes, irmãos cuidadosos, viúvos angustiados e jovens corajosos. Todos com um pouco de conhecimento e experiência para passar e alertar.
Assisti-los morrer lhe partiria o coração. Tanto quanto saber que outros homens com outras histórias estavam tendo o triste fim pelo mundo afora.
Afinal, isto era guerra.
- Apesar de já ter presenciado as consequências de encontros com nazistas, eu nunca presenciei o momento em questão – declarou. – Não me nomeio covarde por não querer presencia-lo também, e sim de sensata.
“Procuro ver o lado positivo das coisas, Sargento. Essa divisão tem muito potencial, como eu imagino que as outras tenham. E eu adoraria fortalece-los com o que estou prestes a desenvolver. Cada pausa no processo deste projeto, aumenta o tempo de seus homens em campo aberto se arriscando, morrendo. Por isso me frustra.”
Ela engoliu em seco antes de finalizar:
- Mortes que podem ser evitadas. Não estou decepcionada porque sou uma garotinha mimada que não sabe lidar quando as coisas não acontecem de acordo com os planos.
Barnes viu-se sem reação. Mais uma vez.

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Aquela semana fora de total agitação no campo, o que atrasava ainda mais o projeto. No final dela, os médicos haviam extraído apenas mais duas amostras de homens diferentes.
- Isso é inaceitável! – esbravejou Howard. – Do que adianta por sua vida em risco quando ao menos consegue as amostras que precisa?
- Estaria me arriscando em qualquer lugar que estivesse, - retrucou. – Ao menos que estivesse na bolha protetora a qual você quer me enfiar a qualquer custo.
- , minha querida – disse com a voz engasgada, enquanto alisava a lateral de seu rosto. – Eu só não quero te perder.
- Eu sei, Howee, - disse sorrindo acalentadora. – Mas o seu medo só esta me atrasando. O tempo que gasto para vir até aqui, para você se certificar que estou bem, é o tempo que poderia estar colhendo ainda mais amostras. Diminuindo meu tempo em campo aberto.
Howard respirou fundo e olhou fixamente nos olhos castanhos da irmã mais nova. Sua hesitação era tamanha, mas ele não podia negar. Ela tinha razão.
- Tudo bem, - soprou derrotado. – Mande-me noticias a cada três dias.
- A cada cinco – negociou.
Howard sorriu, acariciando a bochecha da irmã.
- Teimosa.
- Tenho a quem puxar.
- Aqueles médicos, os quais havíamos comentado, Doutor Erskine... – Howard incitou.
- Acredito que gostarão das noticias quanto a este assunto.
Assim, tornou-se oficial a decisão de completo foco na função de coleta de amostras cerebral e sanguínea. Mais oito médicos foram enviados para auxiliar a equipe e assim, terminar a missão em menos tempo possível.
As duas semanas que se seguiram foi um completo sucesso. Separados por equipes de testes, coleta e testes pós-coleta. Conseguiram arrecadar mais de trinta amostras de diferentes soldados e sem causar nenhum dano aos mesmos.
O Tenente estava menos carrancudo pela eficiência e rapidez, o Sargento já não alfinetava de forma maldosa e Howard se mostrava cada vez mais satisfeito pela decisão tomada.
Até acontecer o que mais temiam.


1.4 - Bombardeio

Campo 107º; em algum lugar de Londres, Inglaterra - RU.


A cor vermelha assumiu todo o cenário.
Dos mais diversos tons. Sangue vivo, sangue coagulado, sangue viscoso e sangue ralo.
E estava coberta por todos eles.
A movimentação no campo nunca fora tanta quanto agora. Homens carregavam uns aos outros por todos os lugares. Feridos gritavam de dor por todos os lados e corpos desfalecidos estavam espalhados por todas as partes.
mal conseguia respirar e, não sabia como, ainda tinha forças para continuar suturando ou tirando algum resíduo de bomba do membro de alguém. Sua mente mal funcionava enquanto suas mãos agiam o mais rápido possível.
“O que aconteceu?” Alex esbravejou.
“Bombardeio” confirmou outra voz. “Pegaram-vos desprevenidos”
“Onde?”
“Há uns quinze quilômetros daqui” vociferou um dos enfermos. “Muitos tiveram que ser deixados, não tinha possibilidades de salvação.”
“Temos que sair daqui o mais rápido possível, a possibilidade de outro bombardeio é muito grande.”
“Doutora”
“Temos que ir!”
“Doutora”
parou apenas quando uma mão segurou seus braços. Sua visão estava turva e seus ouvidos abafados. Ela tinha leve noção do tamanho do caos ao seu redor até realmente visualiza-lo.
Preferia não ter o feito.
Respirou fundo múltiplas vezes, afastou as mãos de seu braço e voltou ao ferimento exposto. Só sabia que tinha que continuar suturando e retirando resíduos de bomba. Essa era a sua função.
Quando ia passar para o próximo enfermo, braços fortes tornaram a afasta-la.
- Preciso continuar, - ela gritou a plenos pulmões – ele vai morrer!
- Ele já está morto, doutora – disse a voz do Sargento, engasgada. – Não há mais nada que possa fazer por ele.
- Não... – soprou sem voz.
- Temos que ir! – gritou Alex. – Richard, pegue as caixas. Não podemos perder as amostras.
- Coloquem a em um carro, - gritou outra voz que ela não pôde reconhecer no momento – precisamos tirá-la daqui agora!
- Eu a levo, sou responsável por ela – Barnes esbravejou.
- Tudo bem, recolham os equipamentos – Richard ordenou aos outros médicos, igualmente abalados. – Não há nada mais que possamos fazer por eles. O resgate está os transferindo.
- Eles vão morrer... – soprou, com a garganta seca.
Barnes, que já estava deveras abalado, decidia-se se devia ou não devia contata-la. Precisava de sua ajuda.
Observou-a de perto por todo este tempo e comprovou com os próprios olhos o porquê de ela estar em um cargo de chefia.
Era boa.
Muito boa.
Assim sendo só ela seria capaz de solucionar o seu problema.
Eles não eram próximos, muito menos colegas. Mas ele teria que passar por cima do orgulho ferido para salvar uma vida. E o faria sem pensar duas vezes.
- Preciso da sua ajuda, - sussurrou ele no ouvido da jovem, puxando-a pelo braço para longe da cabana de assistência e mirando diretamente em seus olhos. – Por favor.
Nunca havia presenciado tamanha suplica naqueles olhos chamativos. Deste modo, ela tratou de respirar fundo e limpar os olhos, que mal tinha notado estar encharcado por lágrimas.
Fitou os olhos, também angustiados, do Sargento com mais clareza e indicou que poderia prosseguir. Este correu por entre os feridos e ela seguiu em seu encalço.
Chegando a um determinado limite do campo, Barnes se agachou em frente a um homem.
Ela o conhecia.
Este havia contado a história de como havia conhecido a sua esposa a na noite anterior. Patrick Fitzgerald, se não se enganava. Amigo próximo do Sargento.
- Está muito ferido – disse o Sargento com os olhos marejados, controlando a liberação das lágrimas. – Por favor...
Ela se agachou junto ao soldado e começou a analisar os ferimentos.
Não eram tão graves, comparados aos demais soldados. Contudo, era necessária uma pequena cirurgia para a reparação da costela, que havia consequentemente lesionado o seu pulmão.
- Precisa de uma rápida cirurgia – explicou. – Acredito que deva aguardar um dos carros de transporte.
- Retirada em cinco minutos! – Gritou um soldado aos demais.
- Não - soprou o senhor, com a voz falha. – Irei morrer se me deixar ir.
- Não tenho mais anestesia aqui, o senhor sentiria muita dor – revelou hesitante.
- Não mais do que sinto agora, - disse quase sem voz. – você tem que...
E, de repente, Patrick entrou em convulsão.
- Rápido, segure a cabeça dele – ela solicitou e de imediato o Sargento a obedeceu.
Passado a convulsão, o senhor parou de respirar.
- E agora? – indagou o Sargento com as lágrimas agora escorrendo como linhas duras por seu rosto.
- Preciso fazer aqui e agora, ou então ele morre – dito isso a jovem correu para encontrar acessórios que pudessem a ajudar.
Encontrou uma adaga entre objetos de primeiro socorros caídos pelo chão, suas pinças, linha e álcool. Não precisava de muito mais.
Retornou onde o Sargento estava segurando o colega nos braços e pediu para endireita-lo.
- Você vai ter que segurá-lo – disse á Barnes. – Se ele se mover enquanto minha mão estiver lá dentro, vai tudo por água a baixo.
Barnes respirou firme e se concentrou, enquanto abria o homem e enfiava a sua mão entre os órgãos dele.
Visto que a lesão causara uma pequena hemorragia, esta teve que afastar a costela que causou o estrago e suturar o corte. Para isto, retirou um grampo do cabelo e o esterilizou.
O homem se contorceu de dor. Barnes conseguiu o segurar.
- Temos que ir agora! – esbravejou o Tenente ao longe.
A jovem se apressou em estancar o sangue, suturar e deixar as coisas de volta no lugar apropriado, improvisando em meio ao campo aberto.
Visto que o homem abrira os olhos e respirava adequadamente, Barnes respirou aliviado.
- Vá - disse o Sargento. – Eu fico para deixa-lo com o resgate.
- Não - respondeu. – Precisa de ajuda para leva-lo até o ponto – indicou com a cabeça os carros de transporte dos feridos a mais de dez metros de distância. – Eles não virão até aqui.
- Não, você tem que ir! – vociferou. – Se algo acontecer com você...
- Quem decide por isso sou eu – retrucou interrompendo-o.
Barnes ficou sem fala. Nunca, nos seus mais variados devaneios, imaginaria que Stark arriscaria a própria vida para salvar a de um soldado qualquer.
Por um instante, o mundo parou. Enquanto ele assimilava o que acabava de acontecer.
Neste tempo ela procurava com os olhos por algo que pudesse servir como maca e encontrou uma mesa caída.
Correu até lá e tentou ergue-la.
A perna da mesa estava presa a ferros retorcidos, do que uma vez fora uma cama. Antes que ela pudesse tentar soltá-la, Barnes chegou chutando as pernas da mesa e as separando da base da mesa.
Juntos eles carregaram a base até Patrick e o ajeitaram.
- Rápido, ou ficaremos para trás! – alertou o rapaz.
Eles ergueram a mesa com Patrick sob ela. O peso era excessivo.
- Consegue carrega-lo? – indagou o Sargento, visto o esforço da moça.
- Tranquilo – soprou rapidamente, mentindo descaradamente.
Seus braços teriam que aguentar, pois ela levaria o senhor até que este ficasse em segurança. Nem que perdesse os membros no meio do caminho.
Atenciosamente eles foram andando por entre os feridos até que conseguissem chegar aos socorristas nos carros. mal sentia seu corpo, o peso a comprimia por inteira.
Quando finalmente conseguiram colocar Patrick dentro do carro, puderam respirar aliviados.
Uma ofegante sorriu para o Sargento antes que este conseguisse segurá-la a tempo. Suas pernas estavam bambas e doloridas.
- Vamos, você consegue! – ele incentivou-a. Pegando-a no colo e correndo na direção que vira os militares seguirem. – Fica comigo.
- Estou bem – insistiu, com a visão desfocada. – Foi só uma tontura.
- Adrenalina em alta e esforço excessivo, Doutora – disse ele. - A senhorita mais do que ninguém deveria saber as consequências dele.
se permitiu sorrir antes de sua visão ser tomada pela completa escuridão.

-x-


Uma hora.
Fora preciso uma hora para ter causado todo aquele estrago.
Apesar de já terem prestado os primeiros socorros a maioria dos feridos e transferindo-os para um hospital local, muitos não aguentaram a espera e faleceram.
Os sobreviventes e sem ferimentos graves adiantaram-se por quase trinta quilômetros floresta adentro para fugir da mira do inimigo.
Barnes, com a caçula Stark em seus braços, conseguiu alcança-los duas horas depois.
Quando finalmente acordara, notou que estava deitada sob um colchonete ao chão, dentro de uma barraca que não cabia nada mais que ela mesma. Levantou-se rapidamente, porém a tontura não permitiu que continuasse.
Teve de respirar fundo com os olhos fechados cinco vezes consecutivas, até que sua visão voltasse ao normal.
Finalmente levantou-se, agora devagar, e saiu para o lado de fora da tenda.
Ali, várias outras tendas foram reerguidas. Soldados sentados ao chão por todos os lados, todos sensibilizados com o ataque que ocorrera há poucas horas.
continuou, procurando um rosto conhecido.
Encontrou Alex sentado ao lado da maior tenda do campo, com um prato de comida sob as mãos. Ele havia tirado o excesso de sangue de seu rosto e mãos, mas os vestígios ainda os denunciavam. Quando a avistou, deixou o prato de lado e levantou-se para abraça-la rapidamente.
- Graças a Deus, você está bem – o rapaz disse.
- Digo o mesmo sobre você – sorriu ao se afastar. – Richard...
- Está na fila da comida - indicou com a cabeça um ponto mais a frente onde homens se organizavam em filas indianas para a refeição. – Pela terceira vez.
- Deixe-o comer - falou ela rindo antes de adquirir uma postura séria. – Precisa se recuperar e se preparar pelo o que ainda está por vir.
- O que quer dizer? – questionou preocupado.
respirou fundo antes de enunciar:
- Não vamos embora. Ao menos, eu não vou.
- Está louca?
- Estes homens precisam mais de nós do que imaginei – sorriu fraco. – O resultado disso seria deveras diferente caso já estivessem com o soro em suas veias.
Alex umedeceu os lábios, refletindo.
- Vou permitir que vá, aqueles que queiram ir – ela suspirou. – Afinal, não sobraram muitos homens para que possamos coletar amostras.
Richard se aproximava dos dois, já estava com o prato em mãos.
- Qual o plano, chefe? – questionou o mesmo.
- Terminar com isso o quanto antes possível para que estes consigam vingar seus companheiros – soprou entre dentes.

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No dia seguinte, anunciou sua decisão aos demais médicos e apenas um optou por ficar. O Tenente agradeceu o auxílio que a equipe prestou aos feridos e cuidou da volta para a casa deles pessoalmente.
solicitou a Malcon que reunisse os soldados para que ela pronunciasse um comunicado. E de bom grado ele o fez.
Ele havia presenciado bravura e tamanha coragem da jovem desde o início do bombardeio. Concluiu que não poderia estar mais errado em relação à ela e suas intenções perante os homens de sua divisão.
- Caros companheiros, eu, mais do que ninguém, lamento a perda de todos vocês.
“A morte de companheiros tão honrosos e leais não será esquecida. A minha missão aqui não se difere muito da de vocês. Estou aqui para matar nazistas e é isso que eu vou fazer – limpou a garganta. – O governo dos Estados Unidos não quer que eu revele isso a vocês - mirou Alex, que assentiu, incentivando-a. – Mas eu não acho justo assisti-los saírem por aí desnorteados sem um pingo de esperança no bolso.”
“Estou trabalhando em um projeto secreto, o qual tornará muitos de vocês mais fortes e intelectualmente desenvolvidos. Esta é a nossa arma contra os alemães. Por isso vim para recolher estas amostras que venho coletando de cada um de vocês.”
“Peço que, por favor, cooperem. Os soldados que ainda não tiverem seus fluidos coletados apresentem-se a tenda de pronto atendimento para que os testes sejam iniciados. E, assim, para que possamos nós mesmos estourar os miolos de Hitler e envia-lo aos portões do inferno.”
O discurso foi encerrado com uma avalanche de salva de palmas e assobios.
- Mandou bem - disse Richard sorrindo assim que a mulher se aproximou.
Nos três dias seguintes, brigou com seu irmão para que continuasse no lugar e finalizasse seu trabalho. Howard, contrariado, ameaçou retirar os recursos fornecidos à mulher se esta não retornasse à América imediatamente.
Depois do bombardeio e o seu resultado, se tornou ainda mais dura e exigente, não permitindo fracassos ou falhas.
Daria sua vida para aquele projeto, se preciso.
Mas Howard não concordava.
Por isto, em uma manhã de terça-feira, ele apareceu na base móvel para levar a irmã para casa.


1.5 - Adeus

- Quem você pensa que é? – vociferou a jovem. – Ultrapassou os limites do ridículo, Howard!
- Não permito que fique aqui, isso é uma missão suicida! – retrucou no mesmo tom. – Não foi isso que combinamos.
Os dois discutiam frente ao Tenente e auxiliares médicos, dentro da tenda que Malcon os ofereceu assim que percebeu o temperamento de ambos assim que se encontraram.
- Quer que eu fique presa dentro de um laboratório, retraindo o meu talento, escondendo-me das multidões pelo único fato de eu ser mulher e ainda assim ser bem melhor que você!
Howard esbugalhou os olhos, ferido.
- Como pode pensar uma coisa dessas? – indagou com a voz retraída. – Como pode sequer imaginar na possibilidade de eu querer esconder você?
- Porque é isso o que faz, desde quando eu nasci! – respondeu com a voz engasgada e olhos molhados. – Admita, odeia o fato de eu ser melhor que você.
- Sim, você é muito melhor que eu! – anunciou abertamente – Você é um gênio, com uma inteligência sobrenatural que ultrapassa as maiores mentes que já existiram. Além disso, tem um grande coração e é justa, sempre opta pelo certo porque é o melhor a se fazer – ela sentiu uma lagrima escorrer por sua bochecha – Eu não odeio este fato, pelo contrário, me orgulho muito dele.
secou as lágrimas rapidamente.
- Não tento te esconder, eu tento te proteger. Sabe quantos assassinos vieram atrás de mim todos esses anos só por eu ser quem eu sou? Quantos engenheiros já não foram mortos por serem bons no que fazem? Se já tentam comigo por saberem do que eu sou capaz, imagina o que fariam se soubessem do que você é capaz.
Howard se aproximou da irmã, estudando seus movimentos com cuidado para não afugenta-la.
- Eu não sobreviveria se alguma coisa acontecesse à você, – admitiu convicto. – Você é a única família que eu tenho. Te amo mais do que amo a mim mesmo.
Quando finalmente conseguiu alcança-la, agarrou-a forte, afagando o seu choro sentido. Os espectadores decidiram deixá-los em seu momento intimo, visto que já não corriam o risco de se machucarem fisicamente.
- Sinto muito por ter dado a impressão errada - murmurou por entre os cabelos da jovem. – Você merece todo o reconhecimento do mundo.
- Me desculpe - soprou ela. – Eu fui muito egoísta.
- Tudo bem - disse ele, acariciando seus cabelos. – Isso que dá ter o ego de um Stark.
Ambos riram.
- Se não quisesse que eu me arriscasse poderia ter me incentivado à outro tipo de trabalho – ela sorriu afrontosa.
- Sim - concordou. – Talvez uma balconista, vendedora ou até como uma chapeleira – os irmãos riram novamente, pensando nas possibilidades. – Mas aí, não seria você. Seria qualquer outra pessoa, menos Stark.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Howard se certificou que a irmã estaria realmente protegida e que estaria de volta a casa dali quinze dias.
Ela deu a sua palavra.
Então era isto, teriam que correr com o trabalho.

-x-


- Não sabia que eram permitidas bebidas alcóolicas nas bagagens dos soldados – provocou , sorrindo travessa ao se deparar com Barnes sentado escorado em uma árvore, afastado do campo concentrado, com uma garrafa pequena nas mãos.
- Podemos abrir uma exceção à regra – sorriu charmoso, indicando a garrafa a médica. – Servida?
- Eu passo, obrigada – respondeu sentando-se ao seu lado.
Depois de um silêncio constrangedor, Banes decidiu quebra-lo.
- Entende de estrelas, doutora? – indagou de repente, pegando-a desprevenida.
- Não... Exatamente? – respondeu duvidosa, arrancando risadas do rapaz.
- Aqui no meio da floresta é mais fácil de localiza-las, veja – apontou ao céu, mostrando-a as mais famosas formas. - Aquela é a Ursa maior, e aquela a ursa menor.
- Eu nunca tinha reparado nisso - riu, admirada. - Você estudou sobre astrologia ou algo relacionado?
Barnes riu alto.
- Não - soltou divertido. - Eu costumava me deitar sob o gramado no fundo do quintal, com minha mãe – sorriu recordando-se. - E ela me contava histórias sobre as estrelas e as constelações. Em Nova York não dá para vê-las tão claramente quanto aqui, então ela juntou dinheiro por cinco meses para me dar um telescópio e assim poder vê-las melhor.
- Parece ser ter sido encantador – declarou somente.
Dado o silêncio que crescia por sua demonstração de desinteresse, decidiu comentar:
- Meu pai, quando estava em casa, lia livros de químicos famosos para eu e meu irmão - o sargento fez uma careta imediata, desgostosa. Ela riu. - Eu sei, parece completamente entediante, mas era a forma dele de nos contar histórias. E, naquela época, eu ficava tão fascinada quanto ficaria com as histórias sobre as estrelas.
- Menos mal – ele admitiu, sorrindo.
- Quando ele faleceu - ela engoliu em seco. – Howard tentou continuar com a tradição. Mas não era a mesma coisa.
Barnes mirou-a com pesar. Não se atentou que ela era órfã.
- Sinto muito, não deveria ter falado de minha mãe...
- Imagina – cortou-o delicadamente, sorrindo. – É bom lembrar-me dele de vez em quando. Sinto tanta sua falta – admitiu mirando as estrelas. – Mas Howee tenta compensar de todas as formas possíveis. Tem feito um bom trabalho desde então.
Barnes não conseguiu não imaginar duas crianças, por volta de seus sete anos de idade, sozinhos em lares adotivos. Com o medo constante da adoção de um e não do outro. A solidão era dura nesses lares, ele supunha.
Droga.
Havia a julgado tão mal.
Inicialmente o sargento pensou quão detestável seria a tarefa de ser babá de uma garota metida a cientista, contudo, com o passar do tempo, viu o quão boa ela era e o quão corajosa havia demonstrado ser.
- Sobre aquele dia... – ele limpou a garganta, para ganhar tempo. – Não tive a oportunidade de agradecê-la corretamente.
- Não é necessário, Sargento...
- Oh! Então tá bom – adiantou-se ele, dando de ombros e segurando o riso. Ele esperou que a jovem se pronunciasse, mas ela abria e fechava a boca por diversas vezes, sem saber o que falar. Finalmente riu e a informou. – Estou brincando.
- Céus, por um segundo tive certeza que realmente era o idiota que pensei que fosse – zombou ela.
Ambos riram.
- De verdade - afirmou ele, agora mais sério. – Eu quero agradecer – mirou diretamente em seus olhos. – Foi muito corajosa. Patrick não estaria vivo se não fosse por você. Seu pai estaria muito orgulhoso agora.
- Eu que agradeço - respondeu sorrindo. – Me carregar por trinta quilômetros não deve ter sido uma tarefa fácil.
- O que? – ele riu. – Peso pena.
não pôde deixar de rir. Quando o clima pesado se dissipou, ela se permitiu perguntar:
- Qual é a sua história com Patrick?
- Patrick é um amigo antigo da família – revelou. – Ele... Foi quem salvou meu pai quando serviam juntos na última guerra.
- Mas ele...
- Está vivo, sim – informou sorrindo, antes de se retrair. – Só não é o mesmo de antes. Foi um dos 20 mil soldados que teve o rosto destroçado por estilhaços.
- Eu sinto muito – disse verdadeira.
- Eu havia dito para Patrick que ele já havia feito o bastante pelo país, mas o velho é teimoso – mordeu o lábio inferior. – Como estava completamente saudável, disse que era sua obrigação batalhar quantas vezes fosse preciso por seu país.
- Muito valente!
- Ele é - concordou. – Uma das minhas referências e inspirações como pessoa.
- Veja, sargento – ela sorriu. – É a única pessoa para quem eu falei o que sinto sobre meu pai. Portanto não se reprima em compartilhar o que quiser comigo. É bom conversar em situações como estas.
Barnes sorriu de volta, selando ali o contrato de que seriam mais decente um com o outro. Até porque, não tinham razão para não ser.
No dia seguinte, acompanhou aqueles que foram suas cobaias no dia anterior. Assegurando-se que nenhum deles tivesse algum tipo de efeito colateral da anestesia ou alguma parte cerebral prejudicada.
Fez testes de aptidão, inteligência e força, o que tomou todo o seu dia e o dia seguinte.
De fato era de extrema importância que se assegurasse que todos eles estivessem seguros dos experimentos feitos e saudáveis o suficiente mesmo após o bombardeio.
A tensão do dia, agitação e esforço que fazia deixou-a aflita e inquieta. O que não passou despercebido pelos olhos do Sargento, novamente.
- Cansada, ?
- Não - negou rapidamente. – É só as minhas costas. O colchonete não é lá dos mais confortáveis.
- Acredito que nenhum seja – zombou Alex.
- Terminamos por hoje? – indagou Richard.
pegou a prancheta em mãos antes de responder: - Acredito que sim.
- Perfeito – disse Barnes. – Assim podemos nos permitir uma folga e beber um pouco. O que acham?
- Uma bebida não cairia mal agora – disse Alex, contente.
- Fiquem a vontade, eu passo – disse a jovem.
- A Srta. não bebe? – questionou o Sargento.
- Contraditório seria se dissesse que não bebe - Heicht se manifestou tímido, arrancando uma risada de Wilson e uma carranca nervosa de Stark.
- Richard! - vociferou a mulher, com as bochechas ruborizadas.
- Não, por favor, conte mais - pediu Barnes sorrindo.
- Foi uma situação adversa e é passado - mirou-o com um sorriso travesso sob os lábios. – Não interfere no agora.
- O passado é a nossa história, contribuiu para o que somos agora – retrucou.
- Garanto que algumas noites de bebedeira não influenciam em meu caráter.
Barnes sorriu.
- Só denuncia que você é humana e sede a alguns males. É bom saber disso.
riu anasalado.
- Ela é muito tensa. Não concorda, doutor? - Barnes indagou para Wilson, que já havia sessado as risadas.
- Desde quando se deu por gente, sargento.
- Você também, Alex? - ela indagou, enquanto lacrava as caixas térmicas para entregá-la nas mãos do mesmo, solicitando: - Deixe-as na refrigeração, as moléculas devem estar intactas para a análise no laboratório. Em seguida, permita-se descansar. Você merece.
- É pra já, doutora - respondeu gentil, se retirando logo em seguida.
- Também está dispensado, soldado - anunciou a Heicht, que riu. - Vá tomar um pouco de ar puro.
O ruivo assentiu, recolheu suas coisas e se esvaiu pela saída da cabana. trajou seu casaco, higienizou as mãos e deixou o local, com o Barnes em seu encalço.
- O que faremos agora? - ele perguntou. - Almoço? Um cochilo, talvez?
- Me ver livre de você é uma opção? - indagou risonha.
- Não vai se ver livre de mim tão cedo.
Os dois tiveram muitas divergências nos primeiros dias, repudiando a forma como se tratavam. Ela muito fechada, ele invasivo demais. Alfinetavam-se constantemente. Contudo, depois do episódio do bombardeio que levaram os dois ao limite, permitiram-se conhecer um ao outro.
Apesar das convergências de personalidades, neste tempo o sargento conseguiu observá-la ainda mais de perto, da mesma forma que ela, agora, o analisava.
Ele achava curiosa a maneira como a mulher pensava, a forma como rapidamente dúzias de soluções e argumentos eram calculados em milésimos de segundos em sua cabeça; Passou a admirar também o quanto ela é sensata, perspicaz, além de corajosa – obviamente – e como seu coração era bondoso, por mais que quisesse esconder este fato.
Ela apreciava a forma como ele era respeitado por todos; como era gentil ao se reportar desde ao tenente como aos soldados; como repudiava a injustiça; como via o mundo de uma forma que ela jamais havia visto e como ele conseguia a fazer rir, por mais irritada que estivesse.
Outro quesito o qual ele não podia ignorar também, era o quão ela era atraente. Apesar de uma beleza jovial, a mulher não precisava se produzir para encantar a todos por onde passasse. Já estava dando o que falar por entre os soldados, coisa que o enfureceu certo dia.
- Está terminado, senhor Hampks - disse a jovem educadamente, assim que retirou a agulha delicadamente do braço do soldado. - Você se saiu muito bem.
- Isso porque não me viu na cama. Te domo em um piscar de olhos, princesa - piscou atrevido.
Mal tivera tempo de processar o que acabara de acontecer, viu o homem ser jogado no chão. Barnes havia se atirado em cima do soldado, socando-o no rosto sem dificuldades.
Logo a tenda se tornou pequena, pelo acúmulo de pessoas que tentavam separar o sargento do soldado.
- Nunca... mais - cuspiu Barnes, ofegante. - Ouse direcionar... uma palavra sequer... à ela.
- Sim, sargento - murmurou o outro, de cabeça baixa.
- Peça perdão - esbravejou o superior.
- Perdão, doutora Stark - grunhiu o soldado. - Fui desrespeitoso e inconsequente.
, ainda sem falas, apenas assentiu.
Com a aproximação, ele não deixava de segui-la em quaisquer lugares. Parte porque apreciava sua companhia, e parte porque adorava provoca-la.
- Que diabos, Barnes, não acredito que pensa que minha segurança será comprometida até aqui - reclamou, assim que o encontrou de prontidão ao lado de fora da cabana exclusa à necessidades fisiológicas.
- Os lugares mais propensos a acontecer fatalidades são aqueles que menos desconfiamos.
- O banheiro é um deles? - indagou arqueando a sobrancelha. - É perturbador imaginar que alguém possa me atacar enquanto faço minhas necessidades.
- Nunca se sabe - deu de ombros aos risos, acompanhando-a pelo caminho de volta ao ponto de atendimento médico.
- Em uma base militar cercada de soldados americanos treinados? - instigou. – Desconfio que ousem se infiltrar aqui depois de que ouvi falar que a Divisão 109º exterminou os malditos daquele dia.
- Os alemães não tem escrúpulos, . Você mesma viu.
- Você que tem muita imaginação, James - frisou o nome intencionalmente.
- Ah não, James não - rejeitou o sargento, envergonhado. - Odeio que me chamem assim.
- Eu sei - sorriu satisfeita.

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Depois do último plantão completo com sucesso, encontrava-se sentada numa banqueta observando o treino dos soldados àquela tarde quando o sargento se juntou a ela.
- Alex e Richard pediram para dizer que já recolheram todos os suprimentos necessários e já os lacraram.
- Ah sim - murmurou distraída. - Obrigada.
- São figuras e tanto, não?! – incitou. - Alex e Richard.
- São sim - soprou sem tirar os olhos do treinamento.
- ? - Barnes chamou-lhe a atenção.
- Oi, perdão - disse, finalmente intencionada ao sargento. - São, são sim figuras e tanto. Pessoas maravilhosas, posso afirmar.
- Conhece-os há quanto tempo?
- Há uns cinco anos, da universidade de medicina - respondeu, tornando a fitar os homens à frente.
- Quantos cursos você fez? - indagou curioso. - Cada vez que procuro saber, mais perdido fico.
riu antes de responder:
- Já fiz física, física quântica, engenharia, química e, por último, medicina.
- Uau - soltou espantado. - Quantos anos você têm mesmo, 40?
- Entrei cedo na escola, da mesma forma que também saí cedo - explicou em tom levemente tristonho. - Daí então, avancei alguns anos por conta da leitura. Algumas matérias eu nem precisava estar presente, já sabia antes mesmo de serem dadas.
- O que tanto tem de interessante lá? - perguntou, indicando os soldados, ao mudar de assunto. - Algum te chama à atenção?
- Não - ela riu. - Não é isso.
- O que? – provocou. - Eles não são bons o suficiente para você?
- Primeiramente, patentes e nomenclaturas não definem uma pessoa. Um sujeito sem educação alguma pode ser o mais sábio de todos. Experiências são os aprendizados mais concretos possíveis.
- Sim - concordou, para em seguida alfineta-la. - Da mesma forma que sábios homens podem também ser desde um milionário engenheiro a um simples sargento militar.
riu.
- Me perdoe se magoei-o de alguma forma. Minha intenção era unicamente a humilhação momentânea - descontraiu com sutileza, sorrindo graciosamente. – Eu mudei muito desde que vim para cá, agreguei muitos valores que universidade alguma pôde me oferecer. Uma delas é não julgar alguém antes de conhecê-lo - sorriu mirando o rapaz. – Ele pode ser a pessoa mais maravilhosa que pode existir e não sabe.
- Claro que sim - Barnes riu, enfeitiçado.
voltou os olhos ao treino, constrangida. Assim, ele permitiu-se observa-la em silêncio.
A ruga equivocada no meio da testa, que sempre dava o ar de sua graça quando a mulher se concentrava em algo, contradizia aos seus demais traços belos e delicados. A boca carnuda sendo mordida impiedosamente queria dizer que ela estava desconfortável com algo.
A jovem se sentiu observada e virou-se para o sargento sorrindo, até perceber sua expressão frustrada.
- Algum problema? - indagou levemente preocupada.
- Não - murmurou desconcertado, coçando o maxilar. - Só estou... Enfim. Não é nada.
encarou-o nos olhos, profundamente azuis. Descobriu há alguns dias, ser esta a sua cor favorita. Contudo, um leve problema a intrigava, as orbes azuis não estavam alegres e divertidas como constantemente estavam, estas assumiram tons escuros e duvidosos.
Não se podia dizer o que se passava pela cabeça daquele homem e hesitou em pergunta-lo sobre.
- Vai mesmo embora hoje? - soltou rouco, o sargento.
- Sim - sorriu triste. - Eu já deveria ter ido há dois dias. Tenho que analisar as amostras e só posso fazer isso com o maquinário adequado. Além do fato de que se eu não for, meu irmão vem novamente e me arrasta pelos cabelos de volta para casa.
Barnes mordeu os lábios, inquieto, desviando os olhos dos de .
- O tenente comentou sobre uma provável volta, na semana que vem...
- Não será necessária - a mulher fez uma pausa dramática antes de continuar: - Já extraímos fluidos de todos os componentes desta divisão. E, pela quantidade, acredito que não têm por que extrair mais.
O sargento grunhiu insatisfeito.
- Bom - riu contragosto. - Ao menos nos veremos livres um do outro.
A jovem sentiu-se estranha com tal fala, como se aquelas palavras fossem completamente erradas, principalmente por ter como portador tal indivíduo. Quis negar. Contudo, ao invés disso, murmurou:
- Sim, privacidade finalmente.
- É - concordou descontente.
Naquele mesmo dia, à noite, o grupo de médicos acomodavam as bagagens na traseira do carro moderno enquanto o sargento e o tenente apenas assistiam.
Ao terminarem, eles se direcionaram aos anfitriões para a despedida.
Barnes fitou a moça delicadamente despedindo-se do seu Tenente e engoliu em seco, da mesma forma que ela fez quando se deparou com a hora de despedir-se do mesmo.
Ela se aproximou vagarosamente e passou os braços envolvendo o pescoço do rapaz, em um pedido silencioso, tendo que ficar nas pontas dos pés para selar o gesto. Barnes foi pego de surpresa, porém, instantaneamente retribuiu-o com extrema intensidade.
O abraço era caloroso, trazendo conforto, segurança, acalento e paz.
Ficaram na mesma posição por longos segundos, que pareceram horas. Inspiraram os aromas, para guardar como lembrança e se afastaram, lentamente.
Tanto o que falar e, no entanto, nada completamente concreto.
Barnes sabia que nunca iria encontrar mulher como no resto de sua vida, e que, apesar do pouco tempo que passaram juntos, ela já era capaz de desperta-lo e fazê-lo se sentir confiante o suficiente para fazer tudo que quisesse; permitiu-o sonhar e planejar futuros por mais improváveis que fosse; o compreendia, e ao mesmo tempo, não o fazia; sutilmente divertia-o por mais drástico que fosse o assunto... E permitia-o sentir-se vivo.
Contudo, depois de tudo o que ela deixou explícito desde o começo, não tinha coragem de investir ainda mais para acabar frustrado. Já haviam avançado mais do que o esperado.
Já Stark, sabia de tudo e ao mesmo tempo nada. Tanto que tentou, tanto que se policiou, simplesmente não compreendia como acabara por gostar de alguém que a contrariava, a provocava e, também, tanto a fazia sorrir e a fez sentir-se viva pela primeira vez em anos.
Não só falando de projetos ou a solução de doenças, sobre o futuro e as decisões que a aprisionaram pelo resto da vida, mas sobre a vida em si, sobre pessoas, histórias e problemas reais.
Tanto que conversaram, tanto que discordavam e concordavam que não perceberam que estavam se conhecendo.
Mas nada disso importava agora. O que passou, ficaria no passado e ambos, calados, seguiriam caminhos diferentes porque eles já tinham destinos definidos antes mesmo de se conhecerem.
Os olhos de deixaram os de Barnes ao se virar e dar as costas para o sargento, para sempre.
Nada mais foi dito, o silêncio sempre fora o protagonista da cena.


1.6 - Nióbio

As ruas de Nova York costumavam ser agitadas até mesmo em altas horas da noite. Era rotineiro se deparar com jovens entrando e saindo de bares, casais passeando à luz das estrelas e até mesmo crianças brincando.
Depois que foi dada a largada na guerra armamentista, nem mesmo em horários de grande movimentação, não se vê um indivíduo circulando aleatoriamente por aqueles lados. O medo faz as pessoas se recolherem e se sentirem inseguras até mesmo dentro de suas casas.
O Brooklyn era um dos bairros mais afetados com a ausência de seus moradores, uma vez que a maioria fora convocada a participar da guerra e o que lhe restou vive em hibernação desde a evolução das ameaças.
Por ser considerado um bairro discreto, o Brooklyn abriga o laboratório de investigação da superintendência estrategista, qual estava a todo vapor com a análise de suas amostras.
- Classificação de tipos sanguíneos, por favor - solicitou, ajeitando os óculos protetores aos olhos, e prancheta para anotações em mãos.
- Grupo A positivo, 57 pessoas; Grupo A negativo, 45 pessoas; Grupo B positivo, 17 pessoas; Grupo B negativo, 21 pessoas – Alex informou, observando as amostras à sua frente.
- Total de 140 indivíduos dos primeiros grupos - Richard declarou.
- Próximo - a mulher pediu. - AB positivo e negativo.
- Positivo são 14 pessoas e negativo, 9 - Richard informou.
- A contagem do grupo O são de 160 pessoas.
- 150 amostras foram comprometidas, portanto, são inacessíveis.
A jovem socou o balcão de alumínio com força, irritada, assustando seus colegas no laboratório.
- Fluídos cerebrais desperdiçados - negou com a cabeça. - Como isso foi acontecer? A refrigeração não foi suficiente?
- O equipamento do Dr. Erskine recusou as 150 amostras.
estranhou, franzindo o cenho.
- 323 aceitos e 150 recusados - refletiu, sentando-se em uma grande e branca poltrona giratória.
A mulher lambeu os lábios lentamente enquanto girava-se vagarosamente na poltrona, observando atentamente o local que passava diante de seus olhos. De repente, parou.
- Durante as verificações, as recusas foram aleatórias ou existe um tipo de padrão?
Os doutores se entreolharam.
Antes mesmo de responderem, se apressou até os relatórios. Não precisou correr os olhos mais que uma vez pela folha para constatar o erro.
- A cada quatro amostras e meio aceitas, uma era recusada - a mulher se virou para o equipamento e inclinou a cabeça, para ter uma perspectiva diferente.
- ...
- Só um minuto - interrompeu o colega. - Eu preciso... - e deitou-se no chão, em frente ao equipamento.
- Descansar? - Richard arqueou uma sobrancelha. - Tem toda razão, estamos aqui já tem mais de 48 horas seguidas e você...
- Calado - interrompeu-o novamente, acomodando-se no chão frio.
O silêncio prolongou-se por um curto período, até que ela saltou do chão num segundo.
- É o chão - andou de uma ponta do laboratório à outra. - Ele tem um decline de 4,2 graus.
Alex e Richard miraram o piso debaixo de seus pés.
- Impressionante... - murmurou Alex.
- Como... - Richard encontrava-se confuso.
- Não é nítido, mas percebe-se de um ângulo específico - explicou anotando sua descoberta nos papéis.
- Tem um decline... - refletiu Alex. - Então temos... Que colocar um calço na máquina?
riu.
- Gostaria que fosse mais simples.
- Poderíamos levar o equipamento para um piso que seja alinhado - sugeriu Richard.
- Olha o tamanho desta máquina, acha mesmo que ela passa pela porta? - contrapôs Alex.
- Vamos precisar montar um transfusor inclinado para a direita 4,2 graus - declarou . - Chamem o Howard.

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- É, tem razão - confirmou o mais velho, bocejando. - Precisamos montar um transfusor inclinado 4,2 graus para a direita.
- Então, já pode começar - a jovem determinou agitada.
- O que? - Howard indagou, conferindo seu relógio de pulso. - , são 03h40min da madrugada!
mirou o irmão, ainda com seu calção de dormir, olhos inchados e cansados de quem nada descansou.
- Me mostre como e eu faço, assim pode voltar a dormir - disse indicando as ferramentas do irmão.
Howard continuou encarando-a.
- Não estou cansada - ela justificou.
- Não está cansada? - intrigou-se. - Você está exausta! Está neste laboratório desde que chegou, trabalhando por contínuas horas sem parar.
- Tudo bem, eu o faço sozinha. Se não se importar, vou pegar alguns de seus livros emprestado. Me dá uma carona? - perguntou retirando o jaleco branco de seu corpo e vestindo seu casaco de lã vermelho.
- , por mais que aprenda a montá-lo hoje, não tem como. A matéria prima está escassa, o nióbio com que montei era o único que tinha - explicou. - Como terá que ser montado inclinado, precisaremos do material ainda mais concentrado, puro.
parou por um instante e suspirou.
- Droga! - murmurou esfregando as têmporas.
- O que está acontecendo? - Howard indagou, estranhando a irmã. - Por que essa obsessão com este projeto?
- Não estou obcecada - respondeu imediatamente.
- Ah, não? - Howard encarou-a intensamente, fazendo-a desviar-se em menos de cinco segundos. - Quando me referi para investir sua mente em algo, não pensei que fosse exagerar.
- Só quero entregá-lo logo.
- Não é só isso - discordou. - Está... Diferente. Quer falar sobre isso?
engoliu em seco.
- Eu só quero terminá-lo logo para que esta guerra cesse logo.
- Não minta para mim - riu nasalado. - Eu sei quando você mente.
suspirou, contrariada.
- Tudo bem - ele murmurou. - Não precisa me contar. Eu entendo que é muito cedo para falar sobre aquilo - encarou-o inquieta. - Amanhã pego um voo até a Austrália para ver se consigo mais do ferro para você. Só... - fechou os olhos, cansado. - Por favor, vá descansar.
sorriu e assentiu, seguindo o irmão para fora do laboratório.
À tarde, naquele mesmo dia, Howard embarcou em um voo em direção a outro continente, solicitando que repousasse e só retornasse ao trabalho quando ele estivesse de volta, para seu próprio bem.
Mas ela sentia-se inválida estando parada, sem colaborar com algum progresso em qualquer coisa que fosse, portanto dirigiu até a base militar em Wheaton.
A jovem foi recebida pelo Coronel Philips assim que chegou.
- Srta. Stark - cumprimentou. - Que surpresa vê-la por aqui hoje.
- É um completo desperdício de criatividade ficar em casa em um momento como este.
- Tem toda razão. Contudo - frisou. - Toda a equipe técnica e estratégica foi para a Austrália com o Sr. Stark, presumo que seus trabalhos não são necessários no momento.
Ela suspirou frustrada.
- Poderia analisar os padrões subalternos de seus homens...
- Eu ao menos sei o que isso quer dizer - o homem admitiu.
- Na verdade é uma desculpa, coronel - outra voz feminina adiantou-se em explicar. - Para que ela fique e encontre quaisquer outras tarefas que a entretenha. Estou errada?
suspirou e virou-se para encarar a dona da voz. Em um uniforme extremamente limpo e com uma leve maquiagem no rosto, Peggy Carter a encarava de maneira acusatória.
- Coronel Philips... - um soldado chamou-o, tomando sua atenção. - O senhor tem um recado, pediram-me para requisitá-lo com urgência.
- Senhoritas, de me deem licença - requisitou pouco antes de se afastar e seguir o soldado.
aproveitou a deixa para aproximar-se da agente, que ainda a encarava.
- Agente Carter - disse estendendo-lhe a mão, séria.
- Senhorita Stark - a outra retribuiu, apertando-lhe a mão e puxando-a para um abraço.
Ambas riram.
- Me dedurando na cara dura - disse a mais jovem logo após se separarem. - Pensei que fosse minha amiga.
- E sou - respondeu ela. - E por isso me preocupo com você.
- Vai começar... - murmurou entediada.
- Howard me contou sobre o ataque, os pesadelos - se encolheu minimamente. - E que você apareceria aqui hoje.
O sangue, os corpos, os ferimentos... Estavam presente todas as vezes que ela fechava os olhos. Por isso não dormia. Por isso ficava constantemente concentrada em algo.
As imagens a amedrontariam para o resto da vida.
- Típico dele - revirou os olhos teatralmente.
- Sabe que ele tem razão, não é? - incitou-a. – Não acha que deveria procurar um profissional que lhe ajudasse...
- Howard está certo em noventa por cento das situações - assentiu, cortando-a. - Mas eu estou completamente renovada depois que dormi – mentiu. – Portanto...
- Não vou te contestar. Sabe o que é melhor para a sua saúde porque, afinal, a médica aqui é você.
- Obrigada - sorriu.
Elas começaram a caminhar pelo campo, que aquele horário se encontrava vazio.
- Os homens saíram para um treino externo - explicou a agente. - Grand os levou para verificar todas as suas condições possíveis.
- Certamente - a outra concordou.
- Apesar de tudo - disse cuidadosamente. – Como foi a experiência em Londres? - indagou-a educadamente.
- Reflexiva - respondeu simplificadamente, acrescentando em seguida: - Me fez pensar em muito. Ainda assim a maioria dos soldados colaborou e assim conseguimos amostras da maioria... - engoliu em seco. – Dos soldados da base.
- Excelente! - parabenizou-a.
- É... - a jovem sorriu fraco, mantendo em mente apenas os momentos bons e excluindo aqueles que tanto a atormentavam.
- Suponho que o olhar apaixonado não seja referente a somente isso – declarou observadora.
- Não sei do que está falando - desconversou, evitando os olhos da amiga.
- Tudo bem - a mulher sorriu. - Sinto que ficarei sabendo sobre isso em algum momento.
Seguiram caminhando em silêncio, com o sol cálido sob suas cabeças. Chegando à sombra de uma árvore, sentaram-se confortavelmente.
- O nome dele é Barnes, James Barnes - manifestou-se, dada por vencida.
Peggy sorriu, incentivando-a continuar.
- Ele foi quem o tenente pôs para cuidar da minha segurança caso alguma eventualidade acontecesse. A pedido do Howard, claro - explicou calma.
- Então, o que houve? - a agente perguntou instigando a amiga.
- Nada demais - deu de ombros, suspirando. - Nós conversamos. Muito, aliás.
- Sobre algo em específico?
- Sobre tudo - expôs. - Nossos pontos de vista sobre as coisas, pessoas e o mundo.
- E descobriu que são semelhantes - concluiu sorrindo.
- Não - negou imediatamente. - Completamente ao contrário. Somos absolutamente diferentes - Peggy franziu o cenho. - Mas isso foi bom. Foi o que nos instigou. São como conceitos vistos de ângulos diferentes, mas com o mesmo significado. Entende?
- Compreendo.
- Eu nunca conheci ninguém igual - admitiu. - Uma boa pessoa com as melhores intenções.
olhou o horizonte, com uma pontada de tristeza em seu olhar.
- Ele foi o primeiro homem, exceto o Howard, que me respeitou por quem eu sou e não por ser uma Stark - relevou. - Ele me admira pelo o que posso fazer e não se entedia ouvindo-me falar sobre as minhas teorias. Além do mais - hesitou dramaticamente. – Ele afugentava os pesadelos. De alguma forma, conseguia dormir tranquila depois de conversar com ele.
Peggy sorriu abertamente.
- Mas nada importa agora - revelou, pegando a agente de surpresa.
- E por qual razão?
- Ele está na guerra, Peggy - disse. - Sabe-se quando irá acabar, se vai realmente acabar, se ele sobreviverá ou, sequer, iremos nos encontrar novamente.
- Não seja tão desesperançosa - aconselhou-a. - Podemos ser surpreendidos pelo destino. Não temos ideia do que pode acontecer.
- Não gosto de probabilidades incertas - garantiu. - Trabalho apenas com certezas e exatidão. Eu vi o que a guerra pode causar, e ela não é piedosa.
- Não desista - pediu. - É saudável se relacionar com as pessoas, ainda mais aquelas que nos fazem bem.
- Me senti viva - admitiu. - Como se pudesse respirar novamente, sem a pressão... disso aqui - indicou o espaço ao seu redor. - Não quero ser ingrata, sou eternamente agradecida por todo o suporte e proteção que Howard me propôs - pôs a mão sob o peito. - Mas sinto como se não pudesse viver da maneira que eu quero, com minhas próprias decisões, sempre tendo que pensar em quem sou e o que esperam de mim.
- Imagino o quão seja difícil - confortou-a tocando-lhe o ombro.
- Enfim - desconversou, mudando completamente de assunto. - Você havia comentado que ia se mudar daquele apartamento minúsculo, conseguiu?

-x-


Três dias haviam se passado e recebeu a notícia de que seu irmão nada encontrara, mas que, contudo, continuaria procurando por algo que pudesse substituir a matéria prima.
já estava a ponto de explodir de tanta agonia. Nada podia fazer sem o novo transfusor, nenhuma análise, nenhum teste... Nenhum progresso.
Todos os dias ela se direcionava para a base, contribuindo com algo que pudesse auxiliar o Coronel Philips e cessar as suas fortes dores de cabeça. Os pesadelos não cessavam e ela tratava com cafeína a sua falta de descanso.
No final do quinto dia, , o coronel e a agente Carter receberam um recado interessante: - O professor Braun, da universidade de Oxford, comunicou que pode ter até um quilo do tipo da matéria que estão procurando. Ele usa para experimentos com os alunos e pode doá-lo ao governo, se estiverem interessados.
- Ele especificou qual é a matéria? - indagou.
- Não, apenas disse que é um tipo de ferro - o garoto respondeu.
- Como ele ficou sabendo que estamos procurando uma matéria? - Carter indagou desconfiada.
- Emitimos um comunicado - revelou o coronel. - Depois do terceiro dia a procura, estamos ficando um pouco desesperados.
- Como saberemos se este é realmente o tipo de ferro específico que vocês precisam? - indagou Carter.
- Podemos emitir outra mensagem - sugeriu o garoto.
- Não, nestes tempos é muito arriscado - vetou o coronel. - Já nos arriscamos demais emitindo o primeiro, se os alemães souberem que estamos à procura deste material em específico, farão de tudo para que não consigamos.
- Então terei que ir até lá - se maifestou. - Não tem ninguém disponível aqui para ir fazer o reconhecimento, a não ser eu.
- Howard não vai gostar de saber que vai para a Inglaterra novamente - Peggy disse.
- Ele não tem que gostar - disse a jovem. - Quando estiver com o ferro nas mãos, ele ao menos se importará quais meios foram usados para consegui-lo.
- Ela tem razão, não podemos perder mais tempo algum - o coronel concordou. - Prepare-se Srta. Stark, pois vai retornar à Inglaterra.


1.7 - Oxford

Universidade de Oxford; Oxford, Inglaterra - RU.


Assim que pôs os pés para fora do avião, respirou o ar gélido e refrescante da Inglaterra. Aprendera a apreciar a diferença, havia algo de cordial nos ares de lá.
Tudo tinha um conceito mais clássico e luxuoso, mesmo os pontos de ônibus e bordeis espalhados pelo centro da cidade. As cores vermelho, azul e branco caíam de forma charmosa sob a cidade. Induzia-nos acreditar que todos os ingleses fossem igualmente cordiais e charmosos.
estava na companhia de um agente, que foi instruído a deixá-la especificamente na porta da Universidade de Oxford para que não houvesse contratempos e divergências de informações. Além de cuidar da sua proteção, uma exigência do próprio Coronel Philips.
Assim que chegaram, a porta do carro foi aberta e ela saltou para fora, quase engasgando-se com a própria saliva quando reconheceu quem abrira a porta para ela.
- James? - soltou surpresa.
- É um prazer revê-la, Srta. Stark - disse sorrindo gentilmente, vestido com o uniforme americano que o vira pela primeira vez, e beijando-lhe as costas da mão.
- Mas... - olhava para os lados, procurando uma explicação plausível para tal acontecimento. - O que está fazendo em Oxford?
- Um dos superiores requisitou exclusivamente a minha pessoa para... - ele riu anasalado. - Garantir a sua segurança, novamente.
Ela franziu o cenho e assim que Peggy veio à sua mente, ela sorriu incrédula, mordendo o lábio inferior.
- Pensei que havia se dado por farta de mim - ele caçoou.
- Oh - fez-se de surpresa. - Pensa que eu quem pedi exclusivamente a sua pessoa para a minha segurança?
- Seria ultrajante? - incitou.
- Deveras, sargento – disse ao sorrir abertamente. - Eu suponho que, na realidade, o senhor soube que eu estava a caminho e se ofereceu para me proteger. Deve ter ficado muito entediado depois da minha partida.
- Não posso negar - revelou verdadeiramente. – Os dias ficaram definitivamente mais sombrios.
Percebendo a tensão crescente no assunto, ela decide-se por perguntar:
- Como está?
- Bem e você? – respondeu puxando-a para um rápido abraço. Os braços envoltos a cintura dela e sua cabeça encostada em seu peito.
- Existindo, por enquanto - murmurou quase sem voz.
A buzina do carro, o qual ainda estava parado com a porta aberta, assustou-os, fazendo-os se afastar automaticamente.
- Srta. Stark, não quero interromper - o agente ao volante disse. - Mas preciso chegar ao hotel antes das onze, lá irei me encontrar com chefe de segurança do hotel. Já que está na companhia do Sargento Barnes, se não se importa...
- Ah, claro - disse corada, recolhendo sua bolsa de mão e fechando a porta do carro que num instante partiu.
Os dois assistiram o carro desaparecer por entre os outros até Barnes pronunciar indicando a universidade com a cabeça:
- Então, vamos?
- Ah, sim! - soltou. - Precisamente.
- Então... - instigou o sargento enquanto caminhavam oferecendo o braço direito à dama, que não hesitou em laça-lo. - Como tem ido a pesquisa?
- Está me perguntando sobre um assunto confidencial? – retrucou sorrindo marota. O sargento fora abrir a boca para se explicar quando ela riu. - Tem ido bem, em partes. Teve que dar uma pausa, mas acredito que logo estará finalizada.
- Fico feliz em ouvir - revelou.
- Senhorita Stark! - uma voz exaltada chamou-os a atenção.
sorriu sem graça na direção do senhor que parecia emocionado demais. Ele avançou na direção da mulher, pegando sua mão livre e depositou diversos beijos ali.
Ela olhou para Barnes, que fez uma careta, e delicadamente puxou a mão dos lábios do homem de cabelos grisalhos revoltados, suéter xadrez, calças amarrotadas e óculos tortos.
- Perdoe-me a excitação - ele disse. - Não é sempre que vemos uma das mais brilhantes físicas desta geração.
- Obrigada - sorriu educada.
- Devo dizer que é uma grande honra conhecê-la, senhorita.
- Digo o mesmo, professor - ela retribuiu.
- Suponho que este seja seu companheiro - o professor disse, erguendo a mão para Barnes.
- Sargento Barnes, professor – o rapaz apertou-lhe a mão educadamente. – É um prazer conhece-lo.
- Bom - o professor encarou Barnes por um instante fixamente antes de, num piscar de olhos, voltar à sua animação. - Seguimos ao que realmente interessa, certo? Sigam-me, por favor.
Barnes riu sem compreender as reações inesperadas do homem, fazendo-a rir também, e o seguiram pelo caminho de pedras por entre o bem cuidado gramado da Universidade.
Eles percorreram um longo caminho entre corredores repletos de mármores até chegarem a uma porta de madeira rústica, a qual o professor abriu e indicou que entrassem.
Os dois avançaram e se depararam com uma sala repleta de carteiras estudantis, quadros negros, livros, papéis, réguas e espátulas. No final desta sala, havia outra porta.
Esta menor.
O professor retirou do bolso da calça amarrotada um conjunto com diversas chaves e com uma, abriu a porta. Esta sala, menor que a anterior, encontrava-se repleta de prateleiras com frascos de conteúdos estranhos.
O homem seguiu para um corredor específico e de lá puxou uma caixa de madeira, semelhante a um baú. Voltou-se para os dois e, com outra chave do molho de diversas chaves, abriu o baú, revelando seu conteúdo.
desatrelou o seu braço do sargento para segurar o baú com suas próprias mãos. Vendo de perto, pôde reconhecer que aquele era o tal nióbio qual Howard tanto procurava.
- Ele é cem por cento puro, retirado das profundezas da floresta Amazônia, no Brasil.
- Impressionante - a mulher murmurou. - Quanto quer por ele?
- Imagine - disso o homem recusando com as mãos gorduchas. - Pode levá-lo, precisarão muito mais que nós.
- O senhor vai me dar mais de um quilo de nióbio de graça? – indagou estupefata. - Por favor, eu insisto...
- Não, querida – recusou imediatamente.
Barnes, treinado em se atentar a atitudes suspeitas, reparou no suor escorrendo na lateral do rosto do homenzinho e suas mãos trêmulas. Contudo, nada disse, deixou que a conversa fluísse sem interrupções.
- Eu não tenho como agradecê-lo, professor - sorriu. - O senhor está ajudando o futuro das nossas nações.
- Fico feliz em poder ajudar - o homem soprou sorrindo amarelo. - Principalmente para algo que revolucionará o mundo. Vejo muito potencial na senhorita.
- Obrigada, professor - ela sorriu doce. - Não decepcionarei.
Assim que deixaram a sala, um jovem solicitou a ajuda do senhor para um cálculo que não compreendera e o homem deixou-os sem hesitar. Barnes o acompanhou com os olhos até que desaparecesse pelo corredor.
- Isso foi mais fácil que eu pensei que seria - admitiu .
- Fácil até demais – murmurou entre dentes. – Tem certeza que é isso o que realmente procura?
franziu o cenho e abriu a caixa novamente, avaliando o conteúdo de cor metálica posto em seu interior.
- Acredito que sim – ela respondeu ao fechar a caixa. – Por quê?
- Esqueça – deu de ombros e ofereceu-lhe o braço, qual ela novamente aceitou. - Quanto, exatamente, vale isto aí? Parece ser muito precioso para você e o gorducho.
- Agora, por conta da guerra, um quilo custa por volta de vinte e seis mil e quinhentos dólares - calculou rapidamente fazendo aquela ruga distinta surtir por entre suas sobrancelhas.
- Por Deus - soprou surpreso e indicou o pequeno baú nas mãos da jovem ao aconselhar: - Segure isso bem.
riu enquanto eles voltavam pelo mesmo corredor o qual haviam passado anteriormente. Pelas grandes aberturas laterais podiam-se observar diversos estudantes vagando pelo vasto campus verde e bem cuidado.
Alguns deles repousavam sobre a grama, alguns liam sentados ao pé de árvores, outros andavam apressadamente e parte deles apenas jogavam conversa fora.
Barnes mirou a cena melancolicamente e engoliu em seco, gesto que não foi despercebido pela mulher ao seu lado.
- Está tudo bem?
- Sim - ele sorriu acanhado. - É só que... Fico pensando como seria minha vida agora caso não tivesse ingressado no exército tão jovem.
As velocidades dos passos foram diminuindo até cessarem, quando ambos se viraram para fitar o cenário.
- Teria frequentado um lugar como este - ele deduziu. - Provavelmente já teria terminado o curso. Arquitetura, acho.
- Arquitetura? – ela repetiu ao sorrir. - É uma área extremamente interessante.
- É - soprou retribuindo o sorriso. - Eu teria um belo emprego. Teria uma bela casa e um belo carro. Talvez já teria uma família, esposa e filhos.
engoliu em seco, imaginando-o chegar em uma casa comum com uma mulher de estereotipo recatada e responsável pelo lar, crianças que herdaram seus enigmáticos olhos azuis correndo ao redor da mesa de jantar enquanto ele está sentado aguardando o preparo da refeição.
Se encolheu.
Ela não se encaixava nesta cena. Nunca seria o tipo de mulher que fica em casa para servir seu marido e filhos e não tem uma carreira própria.
- E isso seria extremamente entediante - ele completou, fazendo-a franzir o cenho em confusão. - Eu não consigo me imaginar nesta vida padronizada.
riu nasalada, levemente aliviada.
- Talvez eu teria aceitado isso antes, apenas seguir o rumo certo de uma vida padrão e satisfatória - ele fez uma careta. – Mas você me fez enxergar coisas eu nunca havia reparado.
- Como o que? – indagou curiosa. – Por exemplo.
- Não tenho que ter uma vida inteira dedicada ao militarismo só porque meus descendentes tiveram essa mesma carreira – deu de ombros. – Não preciso, necessariamente, viver para trabalhar para sustentar uma família de cinco pessoas.
- Exato!
- Eu tenho capacidade de me aprofundar nos estudos e crescer profissionalmente tanto quanto qualquer pessoa.
- Você pode revolucionar o mundo, se quiser – incentivou-o o encarando face a face. – Basta acreditar ser possível e lutar para que isso aconteça.
- É, eu sei – suspirou encarando aqueles enigmáticos olhos castanhos quais sentiu tanta falta. - Você me mudou, . Abriu os meus olhos.
- Não - ela sorriu. – Você mesmo fez isso. Acreditando no seu potencial.
- Mas você me motivou e, por isso, serei eternamente grato.
Ela sorriu ainda mais, desviando os olhos dos azuis hipnotizantes.
- Admito que - ele disse desconsertadamente enquanto coçava a nuca. – Foi sentida a sua partida. Apesar de saber que estaria mais segura longe daquele lugar.
voltou sua atenção ao sargento.
- Depois que você foi embora, - ele deu de ombros - foi como se toda a cor que havia colocado no mundo se fora junto com você. Eu... – ele passou a mão pelos cabelos em sinal de nervosismo, procurava se distrair com pequenos atos quando se sentia assim. - Realmente pensei que nunca mais a veria novamente. Nunca havia me sentido tão melancólico, nem por falta de casa, ou da minha família ou de qualquer outra coisa.
pousou sua mão sob a bochecha de Barnes, depositando um leve carinho no local. Sem desviar seus olhos dos dele fez com que ele perdesse completamente o rumo de seus pensamentos. Quais havia ensaiado frente ao espelho durante horas antes do encontro.
Nunca havia ficado sem jeito de falar com as mulheres, afinal, era um galanteador. Mas com tudo era diferente.
Era novo.
Era excitante.
E encantador.
Presos em uma conexão tão intensa que os demais ao seu redor pareceram evaporar. Nenhum ruído, nem mesmo de suas respirações foram percebidos.
No entanto, quando estavam a ponto de tocarem os lábios um do outro, o rapaz sente-se observado e, pior, ameaçado.
Ele desvia do rosto da jovem, que de início não compreende sua atitude, e, antes que pudessem ao menos falar, ele a empurra para longe.
O sonido abafado de um tiro rompe o silêncio e o momento.


1.8 - Dia Sangrento

A gritaria e correria no campus se opunham do cenário de minutos anteriores, onde se podia ver a paz e quietude. O desespero tomou conta como uma onda de 10 metros de altitude se apoderando de uma indefesa cidade à beira-mar.
Ninguém sabia, contudo também, não ficariam para tentar entender o que acabara de acontecer. Tudo o que sabiam era que foi disparado um tiro, mal desconfiavam que ele fora intencionalmente certeiro e preciso.
O sargento encontrava-se caído ao chão com uma trêmula agachada ao seu lado. As mãos da jovem, repletas de sangue, pressionavam desesperadamente o ombro esquerdo do rapaz.
- Saia daqui... - ele soprou, fraco. - Agora!
- Só saio daqui com você - grunhiu entre dentes.
- Vá - ele engoliu em seco, perdendo a consciência. - Você têm que se salvar.
- Pare de dizer besteiras - murmurou, sentindo a respiração do outro cada vez mais precária. - Só fique comigo, James. Fique acordado.
- Ten...tarei
- James! - esbravejou quando este fechou os olhos. - James!
Ela conferiu sua pulsação, ainda ativa, contudo debilitada. Esticou a cabeça para conferir o campus e se surpreendeu em encontra-lo completamente vazio, exceto, por um homem vestido integralmente de preto e uma máscara em formato cilíndrico andando em sua direção.
Outro tiro foi disparado, ela se encolheu novamente. Estavam protegidos pelos muros de pedra que cercavam o corredor, porém não por muito tempo.
- James! - chamou-o novamente, engatinhando até suas costas e enlaçando seus braços por trás de seu tronco. – James. Preciso que fique acordado!
Ela arrastava-o com dificuldade, agachada para não ser atingida. Não sabia para onde iria e nem como escapariam disto. Mas não o deixaria para trás.
Outro tiro fora disparado e, este, passou a milímetros de sua cabeça. Lágrimas escorriam por seu rosto. Ela estava apavorada.
Quando o homem misterioso pulou a abertura, ficou frente-a-frente com os dois e apontou-lhes a arma, engoliu em seco.
- James! - gritou, entre fungadas e lágrimas. - James!
Seu fim estava diante de seus olhos.
O homem destravou a trava de segurança e antes de ouvir o som do disparo, ela fechou seus olhos.
Estava trêmula, chorosa e mal respirava. Mas podia jurar que não fora atingida.
Ao abrir os olhos, percebeu que o disparo foi feito pelo homem ferido em seus braços.
- James! - esbraveceu abraçando-o pelos ombros. - Por Deus!
Ela o arrastou e encostou-o na parede, para que ficasse sentado. Este mal aguentava-se com os olhos abertos, mas lutava com todas as suas forças por ela.
- Fique comigo! - ela ordenou. - Comigo! Não ouse apagar novamente.
- Sim, senhora - ele sorriu contido, tamanha era sua dor.
- Pressione isto! - ela indicou o ombro ferido. - Vou procurar ajuda!
- ... - soprou.
- Eu vou te tirar daqui! – grunhiu. - Só permaneça acordado.
Ela levantou, ainda trêmula, e assim que viu o corpo do homem jogado ao chão não muito distante deles, suas pernas fraquejaram.
Ela caminhou lentamente na direção do mascarado. Passo a passo, prendendo a respiração.
A arma estava caída perto do homem, ela se adiantou em chutar para longe.
Lutava contra a vontade de tirar a máscara do desconhecido e revelar o rosto do terrível homem que tentara os matar.
Seria um espião infiltrado? Um dos deles? Um dos nossos? Um dos que tentara matar seu irmão?
Sua mão se erguia automaticamente, os dedos prontos para arrancar o disfarce, revelar o rosto daquela terrível alma.
De repente a imagem de Howard apareceu em sua mente, a expressão chorosa e em agonia, trancafiado em seus próprios aposentos com a solidão como companhia. Estava magro e maltrapilho, a barba por fazer e olheiras profundas tomando conta de sua face. Aquele seria seu irmão caso estivesse morta agora.
Ela respirou fundo e mais uma lágrima percorreu sua face. Tinha que se manter segura pelo bem dele e do pobre sargento baleado.
Por fim, quando desistiu da ideia e antes de se afastar da figura assustadora, o mesmo deu um salto surpresa e se jogou por seu corpo, pressionando-a contra o chão.
Suas mãos estavam ao redor de seu pescoço, comprimindo todo o ar que por ali já passou. tentava lutar, suas mãos empunhadas contra as de seu assassino, porém, inigualável era a força dela contra a dele.
Sua visão foi se tornando turva e seus movimentos se tornavam suaves.
O sargento, a poucos metros de distancia, esbravejava com raiva e dor:
- Solte-a, desgraçado!
Sua arma estava a centímetros de seus pés, onde fora deixada quando disparada da última vez. Ele tinha que alcança-la, tinha que ajudar . Ela não tinha muito tempo.
Seus movimentos pararam por completo.
Ele juntou o último resquício de força que seu corpo lhe ofereceu, alcançou a arma e disparou contra o verme, que caiu, por cima da jovem.
Quando o ar voltou drasticamente ao seus pulmões, tossiu e chorou.
Havia um homem morto sob si.

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- James Buchanan Barnes. Não ouse desmaiar agora!
Ele respirou fundo e lutou contra o cansaço, os olhos pareciam pesar toneladas e não mais podiam ficar abertos. Apesar de não poder enxergar e estar levemente desfalecido, tinha mínima noção do que acontecia ao seu redor.
- Droga, vou ter que dar um jeito nisso agora - o soar doce da voz o fez sorrir.
Sua cabeça pesava como nunca e ele teria agradecido quando sentiu mãos pequenas e finas o deitar e ajeitar seu corpo ao chão frio, se sua voz, como o resto de seus membros, obedecessem seus desejos.
- Droga, não tem nada que... Ei! - o grito fino e desesperado fez o coração do rapaz se sobressaltar. - Você aí, de camisa laranja! Venha aqui!
James nada via, mas pôde sentir que alguém se aproximava, seja pelos passos abafados ou a respiração conturbada.
- O que aconteceu? Onde está todo mundo? - um rapaz, de voz aguda, indagou com a voz trêmula.
- Não tenho tempo de explicar agora, só preciso da sua ajuda e rápido, ou então ele morrerá.
- O que posso fazer para ajudar? - questionou com a voz mais firme.
- Preciso que encontre álcool, alguma coisa afiada, panos limpos, e, se possível, linha, agulha e uma pinça.
- Vou ver se encontro na enfermaria um kit de primeiros socorros - conforme ele terminava a frase, sua voz se distanciava.
- Tudo bem, tudo bem - ela repetiu, com o rosto perto do dele. - Você vai ficar bem - engoliu em seco. - Nós vamos ficar bem!
Ele não conseguiu ter noção do tempo que se passara, mas parecia que se passara uma eternidade até que o garoto voltasse.
- Aqui - o som pontiagudo do vidro sendo depositado no chão chamara a atenção de James, que cada vez menos tinha consciência do que acontecia. - Não consegui álcool puro, essa vodka resolve?
- É perfeita, obrigada - respondeu a mulher. - Agora, preciso que faça isso que eu estou fazendo para que eu esterilize essas coisas, tudo bem?
A pressão que o sargento nem percebera que existia sob o ombro esquerdo diminuiu e logo voltou.
- Pressione forte, ele não pode perder sangue algum mais.
- Tudo bem - o rapaz disse. - Deste jeito está bom?
- Perfeito.
Ruídos de ferro se chocando com o chão e líquido sendo derramado irromperam as respirações pesadas.
- James, isso vai doer um pouquinho, meu amor - a voz doce soprou. - Só um pouquinho.
Dado o aviso, Barnes sentiu seu ombro queimar. Como se chamas vivas estivessem tomando conta daquele local e sua pele se esvaia junto às labaredas. Sua voz finalmente saiu, esbravejada e em agonia.
- Por Deus, sabe o que está fazendo? - o rapaz indagou com aflição.
- Vai ficar tudo bem, meu amor.
A frase da voz açucarada soprada em seu ouvido fora a última coisa que ele ouviu antes de desmaiar e a escuridão tomar conta dele por completo.

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- Relatório da situação - uma voz rubra solicitou.
Ainda estava escuro, sombrio. Ele não conseguia se mover, falar, ao menos sentir seus próprios membros ou o peso de seu corpo.
- A bala estava alojada no nervo do ombro esquerdo, tive de abri-lo imediatamente e tirá-la ainda no local. Fiz uma sutura flexível, que suportasse a viagem até aqui, ele perderia muito mais sangue caso não a fechasse imediatamente e corria perigo de bactérias se alojarem.
- Prossiga.
- Chegando aqui o abri novamente e tive de reconstruir o nervo com enxertos e fechar. Ainda assim ele perdeu muito sangue, mas está estável agora. Estará como novo em poucas semanas - uma voz feminina respondeu calma.
Uma faixa de luz surgiu no meio das trevas. Era singela e pequena, contudo perceptível. Aos poucos ela se tornava mais forte e intensa, até que dado um nível que esta retrocedia e se apagava.
Até que esta desapareceu por completo, levando sua mínima consciência com ela.


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- Não pudemos localizá-lo, logo que o esquadrão chegou ao local... - uma voz vacilante tornava-se cada vez mais clara. Contudo, ele não pôde reconhecer de quem era.
- Está me dizendo que o homem morto, - outra voz oscilante interrompeu a primeira, engasgando com a palavra forte - que levara um tiro na cabeça não estava lá onde o deixamos?
- Não é possível deduzir o que pode ter...
- Ele estava morto! - a segunda voz esbravejou. - Ele estava sob mim, eu senti a vida se esvaindo de seu corpo!
- Alguém deve ter recolhido...
- Não! - o grito calou o primeiro, tornando o silêncio vasto.
A faixa de luz despontou ao horizonte trevoso novamente e desta vez ele tentou se mover até a sua direção. Mas, ao contrário do efeito que imaginou que teria, a faixa caminhou lentamente até ele. Assim que a atravessou, foi tendo noção de cada parte de seu corpo lentamente de baixo para cima.
Os dedos dos pés, pernas, quadril, abdômen, peito, braços e cabeça, tudo em efeito retardatário. Sentiu também a dor.
Sua respiração estava falha e seu peito doía a cada suspiro. Abriu os olhos. Sua visão estava contorcida, a claridade o cegou momentaneamente.
Aos poucos o sargento percebeu os adereços de um quarto de hospital. Completamente claro e limpo. Notou a enfermeira ajeitando ataduras em seu ombro esquerdo, de onde vinha a maior parte de sua dor.
Notou o tenente Malcon, parado ao lado da porta, em uma postura defensiva. Notou dois homens com vestes pretas, armados e com postura ameaçadora no canto do quarto. E, por fim, sentada em uma poltrona ao lado da cama em que ele estava, encontrou , trajada de vestes brancas, que faziam jus a sua profissão.
Ela e o tenente ainda discutiam, mas ele já não compreendia nada. Sua cabeça latejava, o que deixou-o pouco confuso.
- Ele acordou - anunciou a enfermeira.
Os dois viraram-se para o sargento atônitos.
- James - ela sussurrou tocando-lhe o rosto. - Como se sente?
- Como... - a voz rouca rasgou sua garganta. - Como se tivesse levado um tiro - não deixou de zombar.
Ambos riram levemente.
se levantou, puxando o estetoscópio que enlaçava seu pescoço, e pousou sob o peito dele.
- O que... - a dor interrompeu-o.
- Batimentos normalizados - informou logo devolvendo o instrumento no lugar anterior e direcionando-se ao rosto do sargento. Puxou a parte de baixo de seus olhos. - Pupilas estáveis.
- Diagnóstico, doutora - pronunciou, sorrindo.
- Forte como um touro - respondeu retribuindo o sorriso. - Está sentindo dor?
- Um pouco, nada em exageros.
- Onde? - indagou atenciosa.
- Todo lugar – murmurou. - Mas está mais concentrada no ombro esquerdo e minha cabeça está me matando.
- Aplique um analgésico - ordenou para a enfermeira, que de imediato puxou uma seringa de um lugar que o sargento não pôde ver e inseriu em um dos muitos canos que estavam ligados a ele.
- Onde estamos? - ele questionou olhando ao seu redor.
- St. George's Hospital, Londres.
- Caramba - murmurou com a voz falha. - Como chegamos aqui?
- Digamos que foi um caminho longo – ela sorriu.
Barnes gemeu de dor, o ombro doía que nem um inferno.
- Sinto muito, tive que fazer o procedimento no local... - tentou se explicar, com a voz vacilante.
- Ei - ele a interrompeu, movendo sua mão direita lentamente até que tocasse a dela sob os lençóis da cama. - Sei que fez o melhor para me ajudar. Tá tudo bem agora, graças a você.
- Não, não - negou balançando a cabeça enquanto agarrava sua mão sem hesitação. - Você me salvou! Levou um tiro por mim - deu uma pausa para castigar seu lábio inferior impiedosamente ao mesmo tempo em que seus olhos se enchiam d'água. - Você... Salvou a minha vida, James! E eu não sei como agradecer – tocou a mão do sargento por cima dos lençóis do leito.
- É este o trabalho dele, afinal - a voz rabugenta do tenente, o qual ambos haviam esquecido ainda estar presente, interrompeu-a e a fez se encolher, recolhendo a mão.
O silêncio tomou conta do local.
- Barnes, ficará de licença até estar completamente recuperado e pronto para retornar - anunciou o homem. - Seus pertences serão enviados de imediato para que tenha uma estadia satisfatória. Por hora, dispensado.
- Obrigado, senhor - disse antes do homem corpulento se virar e sair pela porta.
permaneceu quieta.
- Ele é um idiota, sabe disso - murmurou para a mulher.
- Mas não deixa de ter razão - sorriu acanhada.
- Quem são esses? - indagou indicando os rapazes que os observavam.
- Seguranças - murmurou com a boca torta. - Estão aqui para nos proteger.
- Mas por que...
- Esqueça, isso não importa agora. Não se preocupe com isso.
- Está bem - sorriu, aproximando suas mãos novamente. Antes que estas se tocassem, recolheu a sua.
- James...
- Ah não - bufou, interrompendo-a. - Não vamos retroceder, certo? Foi muito difícil dizer aquelas coisas, mas se for preciso eu repito...
- Não, é que...
- Pode nos dar um pouco de privacidade, por favor? - questionou diretamente aos seguranças.
- Estaremos ao lado de fora, se precisarem... - disse o mais alto, antes de se retirarem e fecharem a porta.
engoliu em seco.
- Não - soprou, referindo-se à expressão aflita da mulher. - Não fiz aquilo só porque era a minha obrigação com você, . Sabe disso, não é?
Ela abaixou a cabeça, desviando de seus olhos acusatórios.
- Fiz aquilo porque eu não suportaria viver em um mundo no qual você não viva.
sorriu ainda de cabeça baixa, e logo que mirou diretamente nos olhos do rapaz, disse:
- Sei disso. Mas... A minha vida é completamente conturbada. Te inserir nisso...
- Como se a minha fosse uma completa organização, certo? - indagou, tenso.
riu e mirou a face do homem que não deixara de estar constantemente presente em seus pensamentos. Passou a mão delicadamente pelo queixo com a barba por fazer e sorriu ainda mais.
- Eu jamais imaginei que algum dia poderia sentir tal sensação - admitiu enquanto se aproximava vagarosamente, inclinando-se na direção dele. - É abrangente, intenso e doloroso - ela percorreu a lateral do rosto do rapaz com a ponta dos dedos. - Você desperta o melhor em mim e te perder... seria como... Perder a mim mesma novamente.
- Você é a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci.
A pressão do corpo dela sobre o dele causara um leve desconforto, por conta dos ferimentos, mas ele não se importou. Assim que os lábios dela tocaram os dele, toda a dor desapareceu e ele se rendeu ao seu cheiro, seu toque, sua textura e a sua pessoa.
Era certo, estavam apaixonados.


1.9 - Retorno À America

Howard percorria os corredores do grande hospital, desnorteado e perdido. Havia se informado na recepção, mas a explicação que a loira lhe forneceu de nada adiantara, sua visão estava conturbada, números e palavras eram apenas borrões.
Sua respiração estava descompassada e ofegante, ele estava trêmulo da cabeça aos pés.
Ele precisava encontrá-la. Precisava ver com os próprios olhos que ela estava bem, como o Coronel Philips o garantiu dezenas de vezes.
- Howard! - a voz feminina chamou sua atenção, ele se virou em sua direção. - Até que enfim te encontrei. Saiu correndo, mal esperou a recepcionista terminar de falar.
- Peggy, eu não a encontro! - agarrou a mulher pelos ombros, em agonia. - E se ela estiver...
- Ela não está, Howard - interrompeu-o soltando-se de suas mãos vagarosamente. - Ela não deu entrada como paciente, e sim como cirurgiã. Precisa se acalmar, a recepcionista disse que ela está no 201 como acompanhante.
- Tudo bem, - ele respirou fundo - vamos lá.
Os dois seguiram pelo corredor até o final, passando por diversos quartos com diversas pessoas em sofrimento e isso só deixou Howard ainda mais aflito.
Mas, assim que visualizou-a, ainda do lado de fora do quarto, sentada na poltrona de frente à um rapaz desconhecido, não pôde conter as lágrimas nos olhos.
- !
Ela se virou em sua direção imediatamente, intrigada por ouvir tal voz naquele lugar. Pensou estar ludibriada até que viu a imagem de seu irmão, em completo desespero vir em seu rumo.
Ela sequer teve tempo de se levantar da poltrona, ele se jogara em seus braços, chorando copiosamente.
- Howard! - ela suspirou. - Tudo bem, tudo bem, eu estou aqui!
- Você... – soluçou. - Você...
- Sim, estou bem! - interrompeu-o penosamente. - Eu estou viva!
Era lastimável vê-lo em tamanha vulnerabilidade. Um homem que aos olhos do mundo é completamente frio e arrogante, até egocêntrico, se acabando em lágrimas daquela maneira.
- Está tudo bem - garantiu engasgada. - Eu estou bem!
Ela sentiu a respiração do irmão se normalizando aos poucos. Os soluços se cessaram, mas eles permaneceram abraçados. Ele de joelhos ao chão e ela sentada na poltrona.
Peggy entrou no quarto vagarosamente.
- Vamos dar licença a eles, rapazes - a agente solicitou aos dois seguranças que estavam ao canto do quarto de prontidão.
Contudo, antes que pudessem se retirar, ergueu a mão:
- Não é necessário, rapazes. Obrigada.
Howard enxugou as lágrimas nas vestes da irmã e se afastou aos poucos, para mirá-la nos olhos, agora sério. pôde notar as bolsas roxeadas debaixo de seus olhos, o cabelo em completa desordem e as vestes sujas.
- Você quase me mata de susto! - grunhiu ele entre dentes.
- Eu sei, Howee. Eu sinto muito...
- Sente? - interrompeu-a exasperado, levantando-se. - Você é completamente irresponsável, !
- Howee...
- Eu não quero saber das suas razões – vociferou. - Você poderia estar morta neste exato momento!
- Eu sei...
- Eu poderia ter te perdido para sempre! - sua voz falhou assim que seus olhos marejaram.
A mulher se calou.
- Tão inconsequente... - ele murmurou. - Se jogou de cabeça nos braços do inimigo sem nem ao menos perceber.
- Como? - ela indagou, sem entender.
- Howard! - Peggy interviu, em tom de repreensão.
- Era uma armadilha - ele revelou, ignorando a agente. - Aqueles nazistas desgraçados sabiam que você estaria por aqui por conta do nióbio. O senhor Braun não existe!
- Por Deus! - soprou chocada, com a mão sob a boca. Repassou toda a chegada à universidade. Não se recordava do homenzinho ter dito seu nome à eles, realmente.
- Eles identificaram a mensagem que o coronel passou ao professor - Peggy informou. - Nossa base de comunicação não podia prever, não podíamos imaginar...
- Não tente justificar as nobres razões para terem feito o que fizeram - Howard interrompeu-a, nervoso. - Vocês me traíram e por causa dessa atitude imprudente eu quase te perdi!
engoliu em seco e suspirou fundo.
- Mas não perdeu - abraçou-o com força, enlaçando seus braços finos pela cintura do mais velho. - Eu estou aqui, estou bem. Ele não conseguiu e... - sorriu, descontraída. - Apesar de tudo, consegui o nióbio.
- Você acha que eu ligo para essa droga de nióbio? - tornou a vociferar, afastando-a para olhar em seus olhos. - Você me desobedeceu, saiu de casa e pior, veio para cá bancar a heroína, negando-me a única coisa que te pedi. Tranquilidade.
- Eu sinto muito! - esbravejou de volta.
- Tudo bem, já chega vocês dois - a agente ordenou. - Entendo que os nervos estão a flor da pele, contudo, todos estão bem e em segurança. Há guardas por todo o hospital, incluindo aqui, ninguém ousará encostar nela novamente, Howard.
O maxilar do mais velho se enrijeceu por um instante, para logo em seguida ele soltar o ar e fechar os olhos enquanto suspirava.
Peggy se aproximou e abraçou em um ato extremamente caloroso. A mais nova era como sua irmã caçula, afinal, conviviam juntas constantemente e ela aprendera a amá-la.
- Monstrinha - a agente sussurrou no ouvido da outra. - Ainda bem que está a salvo.
Ao se afastarem, Howard tomou a frente novamente.
- Por favor, - solicitou com olhos suplicantes - nunca mais faça isso comigo.
- Prometo! - garantiu a jovem, voltando a abraçar o irmão, que depositou um beijo suave no topo na cabeça da mais nova antes de soltá-la.
- Gente - a voz de Peggy chamou-os a atenção e indicou o rapaz deitado, agora acordado, olhando em sua direção.
- Bom dia - disse, sorrindo para o sargento que retribuiu imediatamente. - James, estes são Howard, meu irmão, e a Peggy, uma das minhas melhores amigas.
- Eu bateria continência se meu braço esquerdo não estivesse detonado.
Howard riu antes de pronunciar:
- Não se preocupe rapaz, fique à vontade.
- Bom - começou . - Howee, Peggy. Este é o homem que literalmente salvou a minha vida. James Buchanan Barnes.
Howard observou o rapaz de cima a baixo e sorriu.
- Não posso expressar em palavras a minha gratidão, soldado.
- Sargento - corrigiu .
- Claro, sargento - Howard repetiu sorrindo. - Terá sua recompensa por ter se arriscado para proteger a minha irmã. Foi uma atitude muito nobre.
- Com todo respeito, senhor - James se pronunciou. - Não é necessário quaisquer recompensa, só o fato dela estar em segurança já me deixa satisfeito.
Howard arqueou uma sobrancelha. mirou Peggy de canto de olho, que sorria contida.
- Insisto que, ao menos, o seu tratamento seja realizado sob cuidados dos melhores médicos da América. Sob total custeio dos Stark.
- Agradeço, senhor.
- Peggy, procure Jarvis e peça que cuide dos pertences do rapaz - indagou Howard. - Ele volta conosco hoje.

-x-

Brooklyn , Nova York - EUA.


- Para cima - solicitou a jovem e de imediato o rapaz obedeceu, erguendo o braço sem dificuldade alguma.
Ela passou a mão por toda a extensão do braço até chegar ao ombro nu, marcado pela cicatriz do incidente que acontecera há quase um mês. Apertou o local.
- Algum tipo de dor?
- Não, pela centésima vez - respondeu ele sorrindo. - Fez um ótimo trabalho, .
- Só estou checando - deu de ombros.
- Acho que é só uma desculpa pra ficar passando a mão em mim - ergueu a sobrancelha, charmoso, indicando o peito e abdômen descobertos. - Sei que você não resiste.
riu, recolhendo suas mãos de imediato.
- Ridículo - girou em calcanhares no laboratório, na intenção de se afastar.
- Não - impediu-a, puxando-a pela cintura e girando-a para que ficasse de frente com ele. - Pode se aproveitar de mim o quanto quiser, eu não ligo.
- Fico feliz em saber, Sr. Barnes - respondeu de forma sedutora, enlaçando o pescoço do rapaz com seus braços lentamente. - Porque estava pensando em outra consulta particular hoje à noite lá em casa. O que acha?
- Só dizer a hora - murmurou com os lábios roçando nos dela.
Os dois se beijaram calmamente, sentindo os toques de suas línguas macias e as carícias adicionais ocasionadas por duas mãos.
Só notaram que não estavam mais sozinhos quando o ruído leve de um coçar de garganta soou pelo ambiente. Imediatamente se separaram.
- Vão para um quarto - aconselhou um Richard risonho.
- Engraçadinho - resmungou , ruborizada.
Barnes riu e prontamente vestiu a camisa branca, deixada em cima da bancada de metal para a "consulta".
- Eu sabia que isso ia acabar acontecendo - comentou Richard.
- Amassos no laboratório? - indagou risonha. - Previsível.
- Não - o rapaz riu. - Vocês dois.
O casal se entreolhou com cenhos franzidos.
- Toda vez que estavam juntos havia um tipo de tensão sexual no ar - disse, logo desviando-se de uma caneta que voou na sua direção. - É sério – riu. - Não é mesmo, Alex?
O rapaz, que acabara de entrar pelas portas do laboratório concordou imediatamente.
- Você deve essa pra gente, sempre deixávamos vocês sozinhos - o loiro indicou a Barnes. - Era completamente desconfortável ficar perto de vocês. Parecia que a qualquer momento iam começar a se atracar.
- Não que tenha mudado muito de lá pra cá - Richard se manifestou.
Barnes gargalhou.
- Já chega, cupidos - finalizou. - Terminei por aqui. Erskine está me aguardando para conhecer o escolhido para o projeto, chequem o estoque de sangue e fluídos e logo estarão dispensados.
- É para já, chefe – Soltaram simultaneamente procurando adiantar os afazeres solicitados.
Barnes puxou-a a um canto delicadamente para indagar:
- Está pronta para voltar?
- Está tudo ótimo – sorriu. - além do mais meu irmão implantou uma guarda para a minha segurança agora, você sabe. Eu reclamaria se não estivesse me sentindo melhor com eles lá fora me protegendo - admitiu enquanto vestia o seu casaco de malha. - Te vejo mais tarde.
- Não que não seja encantadora a ideia de passar a noite inteira com você – argumentou. – Mas estava pensando em te levar para um jantar antes, talvez. Em um restaurante chique - olhou-a com expectativa. - Com a sua guarda te assegurando do lado de fora do restaurante, claro.
- Bobo - ela riu. - Você disse que odiava esses lugares.
- É meu último final de semana em Nova York antes que eu retorne para a base - molhou os lábios, desconfortável. - Queria fazer alguma coisa diferente.
- Não está planejando uma despedida, não é? – seu coração descompassou.
- Claro que não, . Não havíamos combinado de mandarmos cartas toda semana? – indagou. - A não ser que tenha desistido disso.
- Não - riu anasalada. - É só que parece...
- Nada vai acontecer - interrompeu-a. – Eu vou ficar bem. Você vai ficar bem. E quando tiver vencido essa guerra, voltarei para comemorarmos juntos - sorriu puxando-a para mais perto e a beijando rapidamente na bochecha. – Agora vamos, você já está atrasada e eu tenho que me encontrar com a Senhora Barnes – revirou os olhos, brincalhão.
- Ela só está preocupada com você – sorriu meiga sendo arrastada pelo rapaz.
- Ah sim, me esqueci de que vocês falam a mesma língua – zombou em falso tom sarcástico.

-x-

Base militar, Campo Lehigh; Wheaton, Nova Jersey – EUA.


- Não está realmente pensando em escolher o Rogers, está? – indagou o Coronel Philips, caminhando pelo campo de treinamento com o Doutor Erskine em seus calcanhares. se apressou para acompanha-los.
- É a escolha certa – respondeu o Doutor. – Senhorita , bom dia.
- Bom dia Doutor. Bom dia Coronel – cumprimentou-os. – Quero me desculpar pelo atraso, tive um imprevisto esta manhã...
- Sem problemas querida - interrompeu-a Erskine. – o importante é que está aqui.
Ele lhe passou uma prancheta com a ficha de um dos soldados e continuou andando, ela o acompanhou.
- Steve Rogers – a foto era a de um garoto louro e franzino, com um histórico impressionante de doenças congênitas.
- Quando trouxe um asmático de 40 quilos à minha base, não protestei. Achei que seria útil como cobaia. Não pensei que o escolheria – confessou o coronel.
- Se fosse apenas a Asma - comentou . – Ele tem escarlatina, febre reumática, sinusite, pressão alta, problemas no coração, diabetes... – se interrompeu, encarando Erskine duvidosa. – Doutor, não tenho certeza se ele aguentaria a potência do soro.
Eles pararam em frente à um grupo dos diversos grupos naquele campo que estavam treinando. Peggy os comandava.
de imediato reconheceu o garoto da foto, este mal se aguentava em pé pelo esforço que fazia. Duas flexões a mais e ele desmaiaria.
- Uma agulha é capaz de atravessar o braço dele – lamentou o coronel. – Olha isso. Ele me faz chorar.
Ela sentiu compaixão pelo garoto. Apesar de todas os indicadores estarem contra ele, este se esforçava para manter-se na linha tênue do seu limite. Como se sua força vinha do desafio de provar que poderia ser tão quanto os outros.
- Procuro qualidades além do físico – esclareceu Erskine.
- Sabe quanto tempo demorou para preparar este projeto? – indagou o Coronel. – Como implorei ao senador sei-lá-o-nome...
- Brandt – disse .
- Isso mesmo.
- Eu sei do seu empenho – Erskine ressaltou.
- Então me recompense – pediu o Coronel. – O Hodge passou em todos os testes. É bom e rápido. É um soldado – indicou um rapaz louro e musculoso logo à frente, de expressão arrogante, que realizava as flexões com perfeição.
- Ele é um valentão – corrigiu Erskine.
- Não se vence guerras com bondade, doutor – pronunciou-se dirigindo a um caminhão de carga que estava próximo à eles e retirando de uma das caixas uma granada. – Mas com valentia – destravou projétil e jogou-o no meio dos soldados, gritando:
- Granada!
sentiu seu coração palpitar de forma anormal. Suas pernas fraquejaram e as mãos estavam trêmulas. Sua visão se destoou, tornou-se um borrão. No horizonte, ela pensou ter visto aquela figura irracional com vestes pretas e com a máscara em forma de cilindro.
Olhou para o lado e o sangue tomou conta de sua visão, além de corpos caídos e mutilados arrastando-se em sua direção.
- Senhorita Stark? – a voz do doutor trouxe-a de volta à sensatez. – Está tudo bem?
Ela controlou sua respiração e logo que sua visão voltara ao normal acenou com a cabeça, em forma positiva.
A verdade era que, mesmo que Barnes estivesse com ela todo esse tempo, dormindo ao seu lado e seguranças altamente treinados mantendo a sua proteção, os pesadelos continuavam.
Cada vez mais reais.
E ela já não tinha uma boa noite de sono há mais de mês.
Este seu afastamento do cargo só dificultou ainda mais, não tinha nada mais com o que se distrair do que Barnes. E pensar nele desta forma a fazia se sentir culpada, como se só estivesse o usando.
- Tem certeza? – reforçou o doutor.
- Sim - respondeu com a voz rouca. – Acredito que tenha sido apenas um susto.
Assim voltaram sua atenção para a situação à sua frente, onde todos os soldados haviam fugido exceto o frágil e magrelo garoto loiro, que surpreendentemente havia se jogado em cima da bomba, formando uma espécie de barreira com o próprio corpo.
- Saia! – ele gritou para Peggy, que ameaçou se aproximar. – Afaste-se!
estava esperando que aquele corpo magrelo fosse despedaçado e arremessado aos ares, mas logo percebera que a granada demorara muito para explodir. Era falsa.
Suspirou aliviada.
- Granada falsa – alguém anunciou. – Liberado.
Erskine sorriu para o Coronel.
- Isso é um teste? – indagou Rogers, se levantando.
- Continua sendo magrela – resmungou o Coronel, saindo de perto deles.
Erskine sorriu para , que retribuiu.
- Tenho que admitir, doutor. É uma jogada arriscada.
- Fico feliz em saber que terei seu apoio nesta decisão.
- Vou fazer alguns exames, os básicos – informou a garota. – Caso os resultados sejam ruins, estudarei uma forma de melhorá-los, senhor. Este – apontou o garoto loiro – é o cara de quem precisamos.
Erskine sorriu novamente.


1.10 - Promessas

A luz alaranjada do pôr-do-sol banhava a extensão da base em Wheaton, dando-lhe um ar mais acolhedor e convidativo.
Com a escolha do soldado adequado para o projeto Renascimento, todos os outros foram dispensados dos testes e direcionados a divisões em campos de batalha reais. Na base estrategista então só sobrara o coronel, o pessoal da administração, os diversos profissionais envolvidos ao projeto e o escolhido. - Muito bem rapaz, vamos começar os exames. Serão feitos todos os dias pela manhã durante uma semana. Assim, teremos noção do processo das vitaminas que serão aplicadas. Tudo bem?
- Sim, senhora – o loiro respondeu educadamente.
- Ah não, por favor – a mulher sorriu. – Me chame de .
- Steve – ele estendeu-lhe a mão em um cumprimento menos formal, qual ela retribuiu rapidamente.
- Devo dizer que é um imenso prazer, Steve – ela sorriu, adiantando-se para pegar a prancheta deixada em cima da maca de ferro.
- Igualmente, senhorita.
- Vou fazer algumas perguntas para começarmos. Com o decorrer do tratamento as farei novamente para obter resultados da evolução, tudo bem? – o rapaz assentiu. – Steve, não precisa ter vergonha aqui. Preciso que seja o mais honesto comigo para termos resultados verdadeiros. Tudo bem? – ele assentiu novamente. – Ok, vamos lá. Você sente dores no peito quando pratica atividade física?
- Sim.
- Qual a intensidade desta dor? Insuportável, média ou suportável.
- Diria que é média para o suportável, ela vai e vem – respondeu refletindo seus treinos anteriores.
- Certo, - disse anotando na prancheta. – no último mês você sentiu dores ao fazer as atividades físicas no campo?
- Sim.
- Você apresenta algum desequilíbrio devido à tontura e/ou perda momentânea da consciência?
- Não.
- Você já se submeteu a algum tipo de cirurgia, que comprometa de alguma forma a atividade física?
- Não.
- Já tomou ou toma algum tipo de medicamento para fortalecê-lo em atividades físicas?
- Uma vez, há uns dois anos.
Eles continuaram com o questionário de pouco mais de 50 perguntas. Logo em seguida, pediu para que Steve corresse por uma hora na esteira, sendo monitorado por máquinas ligadas ao seu corpo.
- Sinto-me um rato no laboratório – o rapaz comentou ofegante enquanto corria.
- Está quase para ser – ela disse sorrindo. – Mas não se preocupe, não vou permitir que eles o engulam.
Steve sorriu e se concentrou em seus testes.
intensificou todos exames no primeiro dia, para que o processo fosse agilizado e terminado antes do prazo apresentado. Portanto, quando a noite caiu, Steve estava exausto.
- Me desculpe, peguei pesado com você – admitiu a doutora.
- Tudo bem, eu não me importo com isso – deu de ombros, sorrindo. – A senhorita é uma das poucas pessoas que me tratam de igual para igual, não como se fosse um objeto fácil que está a ponto de se quebrar.
analisou a frase do rapaz e assentiu.
- Eu te entendo, rapaz.
Logo eles se despediram e dirigiu-se a saída.
Tinha marcado de sair com Barnes, mas não idealizaram um lugar e nem estipularam horários. Sendo assim, seguiu para casa, para poder se banhar e assim que pronta, se dirigiu à residência dos Barnes.
Um de seus guarda-costas se adiantou em sair e tocar a campainha, enquanto a jovem aguardava dentro do carro. Passados poucos minutos, o rapaz apareceu e adentrou o carro, que de imediato saiu e começou a vagar pelas ruas de Nova York.
- Se me permite dizer, - Barnes começou – tenho que comentar que está estonteante esta noite. Como sempre.
- É um dom – deu de ombros charmosa, fazendo-o rir.
Ele puxou-a pela perna para mais perto, dedilhando vagarosamente a pele exposta. sorriu, a mão do rapaz já havia se acostumado em brincar com aquela parte de seu corpo automaticamente.
O jovem entrelaçou suas mãos e olhou diretamente naquele castanho que poderia ser comparado ao sol de uma manhã cinzenta. A tempestade que eles causavam a cada piscada era fascinante para ele.
- O que você fez comigo? – ele soprou próximo aos seus lábios, sorrindo. – Nunca me vi tão dependente de alguém como estou de você. Só de pensar que amanhã...
- Não pensaremos no amanhã então – interrompeu-o, acariciando seu maxilar com os dedos. – Estamos vivendo o hoje e o hoje é aqui e agora, nós dois juntos.
- Tem razão – concordou puxando seus lábios com os dentes delicadamente para um beijo caloroso. O motorista automaticamente subiu a divisória de vidro do carro, dando-lhes privacidade.

Chegando ao restaurante, foram diretamente direcionados a um espaço mais privado, onde havia uma mesa vazia dentre cinco. O restaurante luxuoso comportava dourado nas paredes e espelhos que iam do teto ao chão, aparentando ser maior do que realmente era. Todas com casais conversando alegremente e aproveitando a refeição, e assim o fizeram quando se sentaram.
Logo o garçom veio prestar seus serviços e lhes fornecerem os mais diversos pratos especializados da casa. Optaram por massa, afinal o dia fora longo e, ao menos , estava faminta.
Foram-lhes dado como cortesia da casa um belo vinho, servido por outro garçom cuidadoso o suficiente para deixá-los confortáveis o suficiente.
- E então... – começou Barnes. – Você sempre ganha vinhos em restaurantes por aí? Porque para mim, foi a primeira vez.
riu e assentiu, antes de dar uma bela golada no conteúdo em sua taça.
- Um dos diversos privilégios em ser uma Stark – a jovem respondeu dando de ombros.
- Acredito que o chef e dono deste restaurante sejam velhos conhecidos da família – Barnes provocou risonho.
- Os Pratt tem a honra de receber o famoso Howard Stark aqui todas as quartas-feiras – ela ri. – Nenhuma delas seguidas da mesma companhia, claro.
- Galanteador - o sargento entortou a boca, zombeteiro. – Típico dos Stark.
- Só se existir algum outro Stark que eu não conheça - ela riu. – Howard leva essa fama nas costas sozinho.
- Agora, falando sério – ele umedeceu os lábios. – Nunca namorou antes?
sorriu e abriu a boca, sem ter nada o que comentar, logo em seguida riu.
- O que? – ele indagou curioso.
- Namorar não é bem uma palavra que existia no meu vocabulário – ela explicou entre sorrisos. – Eu sempre fui muito ocupada com os estudos, casos, teorias e projetos... – ela mordeu o lábio inferior. – As únicas pessoas com quem eu me relacionei por toda a minha vida foram as que já trabalharam comigo.
- “As pessoas”? – ele frisou. – Acho que Howard não carrega a fama sozinho, não?!
- Não, - ela riu. – Só fiquei com duas pessoas em todos os meus vinte anos. E as duas foram pessoas com quem eu trabalhei, isso que eu quis dizer – explicou ruborizada.
- Oh meu deus - ele exclamou engasgando enquanto tomava um gole de vinho. – Richard e Alex.
- Por Deus - ela gargalhou. – Claro que não!
- Não, eu só...
- Richard sempre teve namorada, desde quando o conheci na faculdade – explicou. – Acredito que esteja até mesmo noivo.
Barnes riu e refletiu, assentindo enquanto desfrutava do macarrão que acabara de chegar.
Eram amigos, apenas.
Ele não tinha com o que se preocupar.
Até que...
- E o Alex...
olhou aos lados de boca cheia, engoliu e por fim riu.
- Foi há muito tempo, não tem com o que se preocupar.
- Ah não - ele fez uma careta, largando os talheres sobre o prato. – Eu gostava tanto dele.
- E não tem porque deixar de gostar – riu anasalada. – Somos grandes amigos e sempre fomos.
- Mas vocês...
- Quer mesmo saber sobre isso? – dado que ele assentiu, mesmo hesitante, ela continuou: – Nós apenas... Atendíamos necessidades um do outro.
- Oh não! – ele tampou os olhos. – Por favor, pare de falar. Essa imagem está viva em minha cabeça agora.
- Paramos quando percebemos que não tínhamos porque continuarmos, já que éramos mais amigos do que amantes. Não nos gostávamos... deste jeito – agarrou a mão do rapaz do próprio rosto e a entrelaçou com a sua.
- Isso me deixa pouco mais confortável – soltou sarcástico. – Mas se diz que não existe mais nada entre os dois...
- Somos apenas bons e velhos amigos – reforçou.
- Bom – soprou o rapaz, rindo.
- Mas e você?
- O que tem eu? – indagou antes de enfiar o macarrão boca adentro.
- Aposto que já teve diversas conquistas - ela arqueou a sobrancelha rindo. – No dia em que te conheci estava com duas ao seu lado.
- Eu posso explicar – disse calmo.
- Não precisa – ela riu. – Estou só lhe provocando.
- Eram companheiras, sim – ele disse, ignorando-a. – Porém uma delas estava com o meu amigo. E, graças a uma doutora metida a sabe tudo, não terminei a noite com nenhuma porque era deveras “estúpido”.
- Devia agradecer a tal doutora - disse com a voz baixa e sedutora. – Deve ter lhe livrado de uma vida excepcionalmente comum.
- Ah, é – ele recordou da conversa dos dois. – Ela estava apenas me preparando para o que estava por vir.
- E o que está por vir? – murmurou quase que inaudível.
- Me diga você, – arqueou a sobrancelha. – Vai me permitir de uma vez por todas ser um cavalheiro respeitoso e tradicional e fale com seu irmão?
mordeu o lábio inferior e aquela ruga estava marcada em sua testa, ela estava desconfortável. Ele já sabia a ler tão bem.
- Barnes, vamos esperar essa guerra acabar, está bem? – ela acariciou seu rosto. – E então lhe dou a resposta que tanto quer.
- Tudo bem - ele assentiu. – Eu lhe dou o tempo de que precisa para aceitar o fato de que tem uma pessoa que está completamente apaixonada por você.
- Não é isso.
Desde quando assumiram ser recíproco o sentimento de ambos, Barnes tem sido intenso e projetando planos aos dois. Planos que nunca havia feito ou sequer pensado.
Viver ao lado de uma outra pessoa.
Nunca tivera isso, nunca havia sentido isso. Uma espécie de bactéria que aos poucos vai dominando cada parte de seu coração e influenciando nas suas decisões.
Influenciando em seu modo de pensar, de falar e até respirar ao lado de uma certa pessoa. Ela estava assustada com a intensidade desse sentimento.
Mais ainda, assustada com o impacto que causaria na sua vida se, por algum acaso, seus pesadelos se tornassem realidade e uma daquelas pessoas feridas fosse Barnes.
Ou pior, do que ele seria capaz se por algum acaso ela fosse uma daquelas pessoas feridas.
Ela se arrepiava só de pensar.
A perda.
Era um fator de grande peso em sua vida. A perda a fragilizou ao mesmo tempo que a fortificou. Porque em consequência dela, ela agiu focada em tudo o que acreditava que fosse o ideal de seu pai para a sua vida. Fez tudo o que ele sonhava para ela. Contudo, quando não tinha mais ideia do que seguir, se estagnou.
Preferiu se afastar do irmão, preferiu poupá-lo de questões que não poderia responder. Questões estas que ela ainda tenta ignorar. E se alienou.
Até seu irmão surgir com este novo projeto, e retirá-la da beirada do abismo que estava prestes a cair.
- O que é então? – Barnes indagou, trazendo-a de volta dos pensamentos.
- Tenho medo de te perder – admitiu rouca. – Tenho medo de me apegar completamente em você e você se for.
- ... – soprou acariciando a lateral de seu rosto.
- Eu não suportaria – desviou de seus olhos azuis honestos. – Não suportaria outra perda. Não de outra pessoa que eu amo. Por isso não posso te amar enquanto isto não acabar... – ele tratou de limpar a lágrima solitária que escorreu de seu olho. – Pode parecer muito egoísta, mas me destruiria. Você me permitiu respirar ar fresco, e voltar ao abismo abafado me mataria.
- Me ouça com atenção – pediu sério, segurando as laterais de seu rosto. – Eu farei o máximo para me manter vivo. Por você. Lutarei de todas as maneiras porque eu sei que quando eu retornar, você vai estar aqui me esperando, certo?
Ela assentiu.
- Ótimo! – ele sorriu. – É tudo o que eu preciso.
Na manhã seguinte, o acompanhou até o aeroporto onde pegaria o avião que o levaria de volta a sua divisão. Ficaram o máximo que puderam juntos, com as mãos entrelaçadas e abraçados. Quando o Coronal Philips surgiu através da porta de vidro, o coração de parou.
- Olhe - ele chamou-a a atenção, segurando as laterais de seu rosto, com o próprio bem próximo ao dela. – Isso não é um adeus. Nos comunicaremos toda semana. E assim que a guerra acabar... eu volto para você.
- Me prometa – pediu, com a voz rouca.
- Não vai se livrar de mim tão cedo – sorriu antes de selar seu último beijo.
assistiu-o se afastar enquanto um desajeitado Howard tentava lhe dar apoio. Ele não era muito bom com essas coisas, mas ela sabia que ele se importava.
Era um irmão muito protetor e ciumento. Não aprovava o namoro dos dois, mas sabia que era o melhor para a irmã. Há tempos não a via sorrir da forma que sorria quando estava com o Sargento.
Portanto, acompanhou-a até em casa, mesmo com tanto a fazer, e garantiu pessoalmente que ela não ficasse sozinha nem por um instante.
Ao menos, a sensação de perda amenizar.


1.11 - Casulo Metálico

Steve corria o perímetro designado de quarenta metros em solo seguidos de nado, em aproximadamente mais vinte metros. Seu corpo já não doía mais como há três semanas, seus pulmões não queimavam a ponto de parecer que iam explodir, sua visão já não ficava turva à medida que o exercício ia se intensificando e sua cabeça já estava livre das dores.
Assim que retornou até onde estava, sentava sob as raízes de uma grande árvore, permitiu jogar-se aos seus pés. Pôde ouvir o “click” soar ao desligar do cronômetro.
logo tomou nota.
- Quanto tempo? – indagou aos sopros, recuperando o fôlego.
- Foram quarenta e dois minutos – relevou. – Um tempo exuberante para quem fazia o mesmo circuito em uma hora e meia.
- Não é o suficiente – disse ameaçando levantar-se. Sendo inesperadamente impedido pela mão da jovem, que o empurrou de volta à grama.
- Sem exageros, Steve – aconselhou analisando os dados coletados escritos na prancheta. – Tivemos um avanço de 89% ideologicamente comprovados desde que começamos com as vacinas e vitaminas.
- Podemos melhorar – insistiu o garoto franzino.
- Sim, poderíamos – ela sorriu com pesar.
- O governo pegou no seu pé novamente? – ele se ergueu, sentando-se próximo à jovem e apoiando suas costas no tronco da árvore. Haviam ficado consideravelmente próximos nas últimas semanas. Afinal, passavam cerca de dezoito horas juntos em seis dias por semana.
- Eles têm reclamado do atraso nas pesquisas – admitiu abaixando a tonalidade de sua voz. Funcionários que passam por perto poderiam sequer cogitar nas finalidades dos estudos. – Garanti que o fortalecimento do seu sistema era de extrema importância e ainda ontem apresentei os progressos.
- E eles?
- Disseram que foi o suficiente. Este – apontou para o lago – é o seu último teste.
- Como se soubessem do necessário para isto mais do que você – o rapaz ironizou rindo anasalado. – Estou farto da forma como acatam suas imposições e decisões como se não fossem relevantes. Certamente tem contribuído para a nação mais do que eles mesmos e ainda assim não lhe dão o devido reconhecimento.
- Eles escutam o Erskine, - sorriu de lado, dando de ombros em seguida – o Erskine me escuta e acaba dando no mesmo. Se eu afrontar esse pessoal eles podem me tirar da pesquisa, então, o que posso fazer?
- Fico abismado com a injustiça que existe do reconhecimento do trabalho de uma mulher nos dias de hoje – rosnou ele. – Foi por isso que saiu cantando pneus ontem?
- Aquilo? – murmurou desviando-se dos olhos azuis do rapaz. – Não exatamente.
- Foi seu irmão? – insistiu cuidadoso.
respirou fundo e encarou-o nos olhos. E como se eles fossem uma alavanca qual destravava seu resguarde e permitisse que ela pudesse falar de assuntos pessoais e até íntimos, revelou:
- Mais uma carta não entregue.
- Oh, – murmurou ele com pesar, passando seus braços pelo ombro da morena e trazendo-a para perto. – Eu sinto muito.
- Sei que ele não deve estar em território seguro e sigiloso, afinal, é guerra. Mas não ter notícia de James, não saber sequer se está vivo, me desestrutura de uma forma que eu mal consiga respirar – admitiu controlando seu choro na garganta, guardando-o para quando estivesse sozinha e em seu quarto.
- Ele deve estar bem, não se preocupe – o rapaz confortou-a. – Geralmente quando cartas não são entregues, é porque a localização da base está em constante mudança, talvez para despistar nazistas – sugeriu. – Se algo tivesse acontecido você já teria ciência. Notícias ruim chegam rápido.
- Tem razão – concordou, afastando-se do peito do amigo e limpando as lagrimas que ameaçavam desabar. – Não tenho por que entrar em desespero ainda.
- Sabe, tenho um amigo que é sargento de uma divisão em terras inimigas. Bucky. Não sei da sua localização atual – ele comentou. – Não tenho tido notícias dele, como notícias do resto do mundo daquele portão para fora. Mas algo, dentro de mim, me diz que ele está bem. Não sei dizer certamente o que é, mas essa coisa não me faz entrar em desespero porque no fundo eu sei que ele ainda está bem.
- Fé, Steve – ela sorriu. – Religiosos dizem que é o que conforta um indivíduo quando o mesmo se vê perdido ou em meio ás trevas.
- Chame-o de como quiser – ele deu de ombros sorrindo. – Isso é o que você precisa ter. Fé nos outros como fé em si mesma.
sorriu e acariciou o braço do amigo levemente, antes de puxar de volta a prancheta e desconversar:
- Vou começar o questionário, atenção – ele se endireitou. – Repito que para a base concreta dos resultados preciso que seja o mais honesto possível. Tudo bem?
- Ora, têm mesmo que repetir isso toda vez que for me entrevistar? – ele riu. – Sei as perguntas de cor.
- Sim – ela sorriu, lendo o papel. – Sentiu alguma dor no peito ao praticar as atividades propostas?
- Não.
- Certo - disse anotando na prancheta. - Você apresenta algum desequilíbrio devido à tontura e/ou perda momentânea da consciência?
- Não.

No dia seguinte o maquinário já estava disposto no laboratório, sendo ajustado por engenheiros em posições milimetricamente calculadas. Howard andava apressado de um lado ao outro, coordenando as ações e verificava a qualidade do trabalho. Assim como igualmente avaliava os materiais para primeiros socorros, identificadores de pressão, batimentos cardíacos e transfusão de sangue.
Ela reuniu o máximo de sangue compatível com o de Steve que pôde para qualquer emergência.
Erskine observava os convidados chegando à sala de vidro acima do laboratório, homens de ternos com pastas os quais tinham postura sofisticada e ar rude com suas medalhas e cargos expostos em suas faces.
Medíocres, era o que achava.
Mas precisava de seu investimento e aprovação, por esta razão concordara em fazer o experimento assistido. Portanto escolheram um laboratório escondido sob uma velha loja de antiguidades, cercada de agentes e protegida por soldados disfarçados.
Quando a porta dupla se abriu e Steve passou por ela pela primeira vez, todos pararam para observar por um instante. Este ficou levemente desconfortável, logo seguindo os passos de Peggy. Eles desceram as escadas e se aproximaram vagarosamente da equipe, que continuou com seu trabalho normalmente.
Ele seguiu na direção de Erskine e eles selaram o aperto de mãos.
- Bom dia – disse o doutor com seu sotaque puxado, sendo rudemente interrompido por um flash de uma máquina que registrava o tão aguardado momento. – Por favor, agora não.
O fotógrafo, com o rosto avermelhado, se afastou dos dois.
Steve observou a máquina ao centro do salão. Parecia-se com um foguete metálico com lugar para uma pessoa. Observou as agulhas postas ao lado e, pela primeira vez, sentiu-se incerto da decisão que tomara tão veemente.
- Está pronto? – indagou o doutor, observando a hesitação do rapaz. Este só assentiu. – Ótimo. Tire a camisa, a gravata e o quepe.
Steve se adiantou e foi entregando seus pertences a uma enfermeira.
- Bom dia Steve - cumprimentou , se aproximando do rapaz. – Peggy.
- Confiante, ? – indagou a mulher.
- Muito! – afirmou a jovem sorrindo. – Não se preocupe, Steve – se aproximou vagarosamente do rapaz para declarar. – Estou com muita fé referente a isto.
- Me deixa mais tranquilo – admitiu ele.
- Preciso medir sua pressão e batimentos antes de começarmos, tudo bem? – ela informou e ele assentiu.
A habilidosa jovem logo apresentou seus acessórios e prendeu-os ao rapaz.
- Tenho que monitorar constantemente, principalmente durante a transfusão – alertou-o. Manuseou os dois objetos e declarou em seguida: – Tudo normal, pressão 11 por 7 e batimentos a 65 por minuto.
A enfermeira tomou nota enquanto digitava a informação nas máquinas.
- Podemos dar início ao projeto – declarou para o irmão, que assentiu. – Boa sorte, Steve.
O rapaz abraçou a amiga rapidamente e subiu os degraus em direção ao foguete no centro da sala. Ele se deitou e acomodou-se, respirando fundo para não desistir naquele exato momento. Seu país precisava dele.
Erskine se aproximou do grande casulo metálico para falar com o rapaz.
- Confortável?
- É meio grande – respondeu, causando risadas leves ao doutor. – Guardou um pouco de Schnnapps?
- Não tanto quanto devia. Desculpe.
- Não me diga que beberam ontem – pronunciou-se , fazendo falsa pose de desaprovação.
- Tenho outra garrafa para mais tarde - o doutor respondeu. – Pode se juntar a nós, doutora. Se quiser.
sorriu.
- Senhor Stark, como estão os níveis? – indagou Erskine.
- Em 100%.
- Ótimo!
- A energia do Brooklyn vai cair, mas estamos mais prontos do que nunca – respondeu o rapaz com excitação soltando faíscas de seus olhos.
- Peggy - chamou-lhe a atenção, que estava sob o rapaz no casulo metálico. – Não ficaria mais confortável na cabine?
- Sim, claro – disse constrangida pela obsessão referente à preocupação com o soldado, que não passou despercebida. – Até mais.
Erskine chamou a atenção dos homens na cabine, quais distraídos, jogavam conversa fora e se endireitou. Todos se posicionaram e esperaram pelo anuncio do doutor, que se iniciou assim que o mesmo pegou o microfone.
- Me ouvem? Está ligado? – certificando-se de que sim, prosseguiu: - Senhoras e senhores, hoje não damos mais um passo em direção a aniquilação, mas o primeiro passo a caminho da paz. Começaremos com uma série de micro injeções nos principais grupos musculares.
, junto de outros médicos, ajeitaram o dispositivo de injeções assim como os recipientes com o soro de líquido de cor azulada.
- A infusão do soro causará alteração celular imediata. E para estimular o crescimento, o indivíduo será saturado de raios-vita.
pegou o recipiente de penicilina e sorriu a Steve, indicando a injeção enquanto pedia sua permissão. Que foi concedida com um aceno.
Erskine se aproximou quando o rapaz fechara os olhos.
- Não foi tão ruim – admitiu depois que se afastou.
- Isso foi penicilina – informou o doutor com um sorriso de pesar. – Infusão de soro. Iniciando em 5, - todos ao redor do casulo prenderam a respiração. – 4, – tornou a checar os indicadores cardíacos. – 3, – Howard procurou o olhar da irmã, criando uma conexão de esperança quando encontrado. – 2, – as agulhas se posicionaram automaticamente próximo à pele clara dos braços do rapaz e Erskine pousou a mão ao seu ombro como forma de apoio. – 1.
empurrou a alavanca de liberação do soro e assim foi feito. Quando já inserido, Erskine mirou Howard:
- Agora, Senhor Stark.
Dado o comando, Howard aciona os propulsores que fecham a capsula com Steve lá dentro. Em seguida engenheiros conectam os tubos de liberação da radiação.
O ambiente se torna cada vez mais tenso.
Erskine bate no casulo e chama a atenção de Steve: - Está me ouvindo?
- É tarde para ir ao banheiro, certo? – o rapaz brinca, com a voz abafada pelo casulo fechado.
Erskine ri e manda prosseguir com os procedimentos. Então Howard aciona a energia e todos na sala colocam os óculos protetores.
- 10% - anuncia o rapaz.
- Ritmo cardíaco segue normal – segue anunciando a jovem.
- 20%.
- Batimentos em 75 por minuto.
- 30%.
- Pressão 13 por 85.
- Em 40%.
- Batimentos em 86 por minuto.
- 50%.
- Ainda em 13 por 85.
- 60%.
- Howard, ele vai entrar em taquicardia! – esbravejou.
- 70%.
Um grito agoniante sai de dentro do casulo e todos se amedrontam.
- Steve! – grita, aproximando-se da caixa, agora espalhando luz por todo o ambiente.
- Steven! – esbraveja Erskine igualmente se aproximando.
- Pare tudo! – Peggy surgiu no alto da escadaria.
- Steven! – Erskine bateu no casulo.
- Pare tudo! – Peggy ordenou mais uma vez.
se aproximou dos tubos de radiação e ameaçou arrancá-lo.
- Desative o reator, Howard! Agora! – vociferou .
Antes que o rapaz desligasse e puxasse os tubos, com a voz forte e ofegante, Steve respondeu em agonia:
- Não!
Todos pararam em seus lugares.
- Não desligue! Eu consigo!
Assim Howard volta ao propulsor de energia e acelera-o hesitante.
- 80%... 90%.
, ainda com as mãos sob o tubo de radiação, sente-se presa. Como se por elétrodos sua mão estivesse magnetizada ao tubo.
- 100% - vociferou Howard.
A este ponto, a luz cegava toda a sala e as máquinas começaram a entrar em curto circuito. tentava puxar as mãos, mas estas permaneciam presas ao tubo. Ela forçou-se com os pés para longe da máquina, contudo sua força era mínima.
Quando a máquina entrou em combustão e o tubo explodiu, a força jogou contra a parede do outro lado do laboratório.
Todas as máquinas se desligaram.
A energia do laboratório, assim como de todo o quarteirão, caiu.
Todos estavam tão ansiosos para ver o experimento sair do casulo em sua mutação cientifica que demoraram a perceber a garota desmaiada caída ao chão.




Continua...



Nota da autora: Olá, caro leitor. Primeiramente quero agradecer imensamente por ter clicado em V E N U S para poder ler. Espero que goste do enredo e se divirta ao longo dos capítulos.
Já deixo avisado aqui que o rumo da história pode se alterar e não ter um final como nos filmes ou HQ's da Marvel. Muitas mudanças foram feitas, apesar de baseadas em acontecimentos dos filmes e HQ's, e espero que gostem de cada uma delas tanto quanto eu gostei.
Já deixo claro aos fanáticos pela Marvel, também, que se clicou nessa estória pensando ser uma estória alternativa que segue estritamente os fatos ocorridos em filmes ou HQ's esteja ciente que pode sim haver algumas adaptações e até mesmo erros cronológicos ou controversos com os fatos ocorridos nos filmes ou HQ's. Apesar de estudar muito para não ocorrer.
Erros serão prováveis e por vezes propositais, não somos perfeitos.
Para quem não é fã da Marvel, acredito que seja necessário assistir ao menos o filme "Capitão América: O primeiro vingador" para compreender Venus.
A estória da origem e vida de Venus é de autoria completa minha, Kelly Cristina V. S. Apesar de seu universo ser o mesmo Universo da Marvel. Os personagens e episódios acrescentados são de minha autoria e qualquer semelhança a outras estórias é mera coincidência. Respeito o trabalho alheio assim como espero que respeitem o meu.
Tem sido uma experiência maravilhosa para mim escrevê-lo e eu espero do fundo do meu coração que todos que estão lendo curtam nem que for um pouquinho. Tem muita coisa para rolar e eu espero que você leia tão desesperadamente quanto eu estava enquanto escrevia.

Espero que daqui até o final vocês se divirtam muito e compreendam todas as referências que eu coloquei.
Gostaria de agradecer a capista maravilhosa Flávia Coelho, que foi quem fez essa capa absurdamente perfeita e totalmente representativa a história. Beijos de luz à ela”.
Temos um trailer official agora!! Confiram no link abaixo.
Venus - Origin - Trailer Official

Beijos de luz, vejo vocês depois.

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Nota de beta: Ah, que maravilha de capítulo. Adoro como ela se encaixou na cena, Kelly. Parece que foi assim mesmo que aconteceu... Quero muuuito saber o que aconteceu com a e o que vai acontecer com ela depois disso.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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