Finalizada em: 02/02/2019
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When You're Ready


— Calma, eu preciso te falar uma coisa. — ele ergueu o tronco e se apoiou nos cotovelos, a fim de olhá-la nos olhos.
— Ah não! Você está grávido! — ela debochou, sendo incapaz de manter a densidade que via nos olhos do amigo. Era muito tarde para conversas sérias e eles estavam embriagados demais e vestindo roupas de menos para aquilo.
balançou a cabeça para desaparecer com o sorriso que se formou ao ser zombado por ela. Tinham um problema de riso frouxo quando estavam juntos.
— Não, , me escuta… É… — ele a encarou de novo. — Vamos fazer um pacto? De que quando a gente se apaixonar… Vai ser um pelo outro. — o rapaz ergueu as sobrancelhas, como se indagasse se aquilo parecia razoável. — Eu prometo não me apaixonar por mais ninguém. Você promete?
riu e não respondeu. Em vez disso, colocou uma das mãos na nuca dele, trazendo seu rosto para perto do dela. Se voltassem a fazer o que estavam fazendo, se esqueceria do que havia dito e eles nunca mais falariam sobre isso.
Não precisavam daquele tipo de acordo. Eles eram o que eram e iam continuar sendo, certo? Além do mais, ela não podia prometer que se apaixonaria por ele, porque achava que nunca se apaixonaria. Por ninguém.


Porque essa MERDA de diálogo ficava indo e voltando em sua cabeça? Relembrá-lo inteiro, incluindo as expressões faciais de , não iria mudar nada! Não havia sido sua falta de resposta que tinha o feito se distanciar e conhecer alguém. Ele provavelmente nem se lembrava de todos os detalhes daquela noite, três meses atrás! Por isso mesmo, também não adiantava ficar pensando nas palavras dele como provas de que o rapaz estava errado ou em débito com ela. E de qualquer forma, jamais teria coragem de confrontá-lo sobre isso, então era inútil se deixar ser consumida pela lembrança.
Tão inútil quanto se trancar no banheiro para evitar o anfitrião da festa.
Se olhou no espelho, checando a maquiagem, arrumando a franja e tentando se livrar daquele olhar derrotado. Porque deveria se sentir derrotada, afinal? Seu amigo tinha se mudado para uma casa legal - que ainda era perto da sua - e estava feliz!
Feliz e namorando.
Apaixonado.
Por outra garota.
Balançou a cabeça e abriu a porta ao mesmo tempo que sua melhor amiga levantava uma mão para bater.
— Achei que você tinha morrido aí dentro… — Angie disse, a observando com atenção. —Está tudo bem? Você chegou e já se enfiou no banheiro!
tentou o sorriso mais sincero que conseguiu, enquanto repetia o mantra “Ele está feliz! Amigos ficam felizes pelos outros amigos!”.
— Está sim, achei que tinha alguma coisa na minha lente. — Mentiu, passando pela amiga, que entrou no cômodo desocupado.
Antes de fechar a porta, porém, Angie a chamou:
? — se virou e voltou alguns passos. — Ele já perguntou por você umas 5 vezes…

A casa nova de não era grande; tinha dois quartos - ele estava dividindo com um rapaz da sua turma - sala, banheiro e cozinha. A grande estrela, porém, era a churrasqueira; uma ótima aquisição que estava sendo estreada naquela tarde.
Antes de chegar à porta da cozinha, teve dúvidas se devia mesmo fazer aquilo. Ela odiava admitir, mas a mera visão dele no fundo do quintal fazia seu coração doer. Não se viam há um mês, não se falavam direito há dois… Não queria descobrir que uma das amizades que mais prezava, que tinha tomado tanto cuidado para manter, havia mesmo se quebrado. E não repetiria aquilo nem em um confessionário, mas também não queria vê-lo com outra pessoa.
Entretanto, não podia mais fugir. O rapaz e ela cruzaram olhares a distância e ele agora a observava. A esperava sair da casa.
Assim que chegou a varanda, sentiu todos os olhos nela. Ficou com um pouco de raiva ao perceber que seus amigos presentes estavam apreensivos. Será que realmente acreditavam que ela faria alguma coisa estúpida? Em primeiro lugar, ela e nunca tiveram nada “sério” e em segundo lugar, ela jamais causaria qualquer tipo de cena com a namorada dele, que não tinha culpa de nada.
Soltou a respiração e se dirigiu ao casal que conversava com Simon (o outro dono da casa) e um segundo rapaz perto da churrasqueira.
— Hey! Feliz Open House! — cumprimentou levantando os braços, se arrependendo imediatamente das palavras sem sentido que tinha escolhido e fazendo uma careta. Abraçou (que parecia estar nervoso também) rapidamente e então se virou para a garota ao seu lado. Estava fugindo de uma conversa decente com ele? Sim. Era um comportamento infantil? Com certeza!
— Hm… , essa é Mikaella. Mika, essa é . — ele falou, apontando de uma para a outra. Seu rosto estava contraído, como se fazer aquilo fosse incrivelmente desconfortável. Por mais que tivesse se preparado para este momento, não se sentia 100% bem, tampouco.
Que merda!
— Prazer, ! Estava ansiosa para te conhecer! — Mika disse, totalmente sincera. Ela tinha a voz doce e melodiosa, como uma professora de criança.
— Igualmente! Seja bem vinda à turma, Mika! — respondeu sorrindo e apertou o braço dela com carinho. Então se virou para cumprimentar os outros rapazes da roda. — Oi, tudo bem? Simon, a casa é linda!
— Obrigado, ! Prazer revê-la! — Simon lhe lançou um sorriso de lado que, em qualquer outra ocasião, não passaria batido. Mas naquele dia, não seria capaz de flertar nem se Ryan Gosling aparecesse no quintal!
Deu uma desculpa qualquer e se afastou da roda, pensando onde iria. Angie estava em um canto discutindo com Arthur, seu plus 1. Angie sendo Angie. Resolveu se sentar nas escadas que davam para a cozinha, junto com Jeremy.
— Oi, Jer! Por que está sozinho aqui? — perguntou, abrindo uma cerveja.
— Alex resolveu jogar xadrez com Andrew… Não dá para competir com o irmão gêmeo. — ele apontou para a sala, onde os dois estavam debruçados sobre um tabuleiro e pareciam muito concentrados. riu.
— Eles não se viam há uns dois meses… Dá um desconto!
— Ah, eu não ligo, na verdade… Só estou um pouco entediado. Que bom que você chegou! — O rapaz falou sorrindo e dando batidinhas no joelho da amiga ao seu lado. Jeremy namorava Alex há pouco tempo, mas já tinha o elegido como seu namorado favorito do amigo de infância. Os dois estavam no quinto ano do curso de Medicina e pareciam ter saído de um desses seriados de hospital.
— Infelizmente, acho que não sou a melhor companhia hoje… — confessou, tomando mais um gole de cerveja.
— Hm... — Jer acompanhou, observando-a de canto de olho. — Alex falou algo sobre um possível triângulo amoroso.
soltou uma risada de deboche.
— Triângulo amoroso! Alex é muito exagerado! — ela rolou os olhos.
— Quer conversar sobre isso? Me conta aí a sua história com o .
— É um pouco longa… — ela tentou se esquivar, mas Jeremy riu.
— O jogo entre meu namorado e meu cunhado acabou de começar... Eu tenho toda a tarde!
suspirou, mas resolveu ceder. Ela também não tinha muito mais o que fazer naquela casa, a não ser jogar conversa fora com Jeremy.
— Bom, como você sabe, eu, Angie, Alex, Andrew e morávamos no mesmo bairro e frequentávamos a mesma escola e mesma série. Nossa amizade começou pela conveniência que toda amizade entre colegas do ensino fundamental começa. — ela sorriu, pensando na foto dos 5 pestinhas fantasiados para o Halloween existente em seu mural. Quatro pedaços do seu coração que batiam fora do seu corpo desde muito pequena. — O milagre mesmo foi que nós nunca nos distanciamos. Por mais raro que seja, parece que nós sempre crescemos para o mesmo lado. Quando tínhamos 14 anos, Andrew começou a namorar a Morgan e ela só veio para somar! Virou a sexta parte que a gente nem sabia que precisava.
— Bem lembrado! Cade a Morgan? — Jeremy perguntou, olhando em volta.
Morgan era aeromoça, enquanto Andrew tinha começado a trabalhar como controlador de tráfego aéreo. Os dois eram os únicos que não moravam na mesma cidade universitária dos outros. Em vez disso, moravam a 2h dali, perto do aeroporto. E estavam noivos!
— Não conseguiu tirar o dia de folga. Uma pena… Sinto falta dela!
— Morgan parece ser uma pessoa ótima! Mas continue... Você e sempre foram apaixonados um pelo outro?
O estômago de se revirou ao ouvir aquilo. A palavra apaixonado/a envolvendo o nome dos dois lhe causava mal estar.
— Não, não. Nós nunca fomos... — tossiu de um jeito culpado. — … Apaixonados um pelo outro. Nós nos conhecemos desde que nem pensávamos em namoro e essas coisas, então passamos quase toda a adolescência sem nos importarmos um com o outro.
— Até que um dia… — Jer provocou, fazendo-a rir.
— Nós tínhamos 16 anos e era o baile de primavera na escola. Eu não havia conseguido um par e Alex foi comigo. Ele ainda não tinha…
Mas não precisou continuar. Jeremy fazia que sim com a cabeça, como se ele também se lembrasse de algo parecido em seus próprios anos de ensino médio. A vida antes de poderem ser quem eles eram.
— Entendo.
— Mas Alex, lindo como ele sempre foi, não passou muito tempo sozinho e me fazendo companhia. Andrew e Morgan tinham acabado de descobrir o sexo e não faziam outra coisa. E Angie… — apontou para a amiga, que ainda discutia com o cara que tinha vindo com ela. — Você conhece a peça, né? Rainha do drama desde que saiu das fraldas! Já estava arrancando a cabeça de alguém em algum canto do salão.
— Vai ser a maior advogada que esse país já teve! — Jer exclamou.
— Eu gostaria de ver um juiz dar uma sentença que não seja favorável a ela! — os dois riram. — E, por fim, estava com alguma garota que agora nem me recordo quem era. Ele sempre teve todo o carisma que existe no mundo, esse mesmo sorriso que é uma injustiça contra a raça humana... — falou, enquanto observava o rapaz de longe e se lembrava da versão mais jovem dele. O cabelo liso, que o adulto não usava mais; as roupas de skatista; a voz que ainda não era tão grave quanto agora, mas já causava um certo delírio coletivo nas garotas da escola. A beleza do amigo sempre tinha sido superior a de qualquer outro menino aos olhos de , mesmo que essa nunca tivesse se dado conta conscientemente. — Mas acho que ele logo se entediou. Nós ficamos uns 5 minutos sentados lado a lado de mau humor no baile, antes dele se oferecer para me levar embora.

Flashback
— Eu não acredito que no dia que a minha mãe me deixou ficar até 1h da manhã na rua, eu estou indo para casa antes de meia noite! — bufou, enquanto passava os braços pelas mangas do paletó de .
O garoto vinha andando atrás dela, mãos nos bolsos, parecendo resignado.
— A gente pode ficar andando por aí até dar a hora… — deu de ombros. — Você está com fome?
Ela se virou, prestando atenção nele pela primeira vez desde que haviam saído dos terrenos da escola. tinha crescido quase 20cm naquele ano. Seu corpo, agora longilíneo, ficava bonito de calça social, camisa e gravata. Involuntariamente imaginou como ele ficava sem roupa alguma. Hormônios...
— O que houve entre você e Marissa?
não respondeu de imediato e a alcançou, andando ao lado da amiga na calçada. Sem combinarem, estavam indo em direção ao McDonald’s 24h que havia na avenida que separava as ruas onde os dois moravam.
— Não houve nada. Ela estava mais interessada em tirar fotos com as amigas e eu perdi a paciência. Eu não era a primeira opção dela, de qualquer forma… Acho que fiz um favor indo embora.
A amiga franziu a testa. Marissa estava fora de si? Quem podia ser melhor que ?
— Ela provavelmente vai se arrepender quando perceber que nenhum garoto no baile era mais bonito que você! — falou sorrindo, tentando consolá-lo. Era algo que diria a Angie, se a amiga dissesse que era a segunda opção de um garoto, por isso parecia certo dizer a ele também.
O jeito como a olhou, porém, fez seu sangue esquentar de um jeito esquisito. Podia sentí-lo correr desesperado em direção ao seu rosto e pescoço. Baixou os olhos.
Ele não precisava desse tipo de apoio motivacional. Podia dizer que seu desempenho com as meninas, principalmente no último ano, era acima da média. Não estava realmente preocupado que Marissa não fosse afim dele. Mas por algum motivo, ouvir um elogio como esse de soava diferente. Soava como algo muito mais valioso. Não só porque a achava linda - especialmente naquela noite, usando um vestido preto até o meio das coxas, cabelo preso e salto alto - , mas porque ela nunca parecia ligar muito para ele. Não desse modo, pelo menos.
— Não consigo entender como ninguém te chamou para o baile. — confessou, algo que vinha pensando há dias. Havia até se arrependido de ter chamado Marissa quando percebeu que a amiga teria que ir com Alex.
riu.
— Você só está tentando devolver o elogio. — ela ainda não tinha levantado o rosto para voltar a encará-lo.
— Claro que não! — a cutucou nas costelas. — Hey, — finalmente olhou para ele. — Você está linda hoje e qualquer garoto que estivesse no meu lugar agora seria o cara mais sortudo do mundo!
Ela sorriu de lábios fechados, ainda sendo capaz de sentir o sangue viajando pelo seu corpo, o coração acelerado, um atordoamento estranho. Nunca tinha se sentido nervosa assim na presença de nenhum de seus melhores amigos. , Andrew ou Alex.
De garoto nenhum, se fosse bem sincera.
Já tinha saído e beijado alguns meninos de sua sala e da sala acima da sua. No geral, era divertido, ela gostava da sensação “andar de montanha russa” que era ficar com alguém. Mas era isso… Guardava seus sentimentos de afeto somente para seus cinco amigos. Angie dizia que tinha um coração de gelo e ela gostava da definição. Parecia algo forte, badass.
Porque estava se sentindo estranha, recusou o hambúrguer e pediu apenas uma casquinha, enquanto o amigo pediu um refrigerante e batatas fritas. Enquanto comiam, sentados um de frente para o outro, uma dança de olhares acontecia, sem que percebessem. observava enquanto lambia seu sorvete, a atenção voltada ao movimento da língua dela. Então se dava conta do que estava fazendo e desviava os olhos, se concentrando em algum ponto à esquerda da mesa em que estavam. levantava o rosto, a tempo de ver levando o refrigerante a boca e, porque o amigo tinha o olhar perdido em algum ponto longe, ela podia apreciar o formato dos lábios dele e de seu maxilar. Até se dar conta do que estava fazendo… Um balé bem ensaiado que durou por todo o tempo que estiveram lá. Mal conseguiram conversar.
Faltava 10 minutos para 1h da manhã quando chegaram em frente ao portão de . Pararam um de frente para o outro.
— Muito obrigada pela companhia, ! Foi melhor que o baile todo! — ela disse, dando um beijo no rosto dele e tirando o paletó. O garoto relutou, mas aceitou o casaco de volta. Tinha ficado com o perfume dela. Ele sorriu.
— Digo o mesmo. Foi… Eu… Obrigado! — deu um passo em direção a ela, os olhos passeando pelo rosto da amiga e parando em seus lábios. Sem discrição dessa vez. — ?
— Hum? — prendeu a respiração, prevendo o que viria a seguir.
— Seria inadequado se eu te beijasse agora?
fez que não com a cabeça, incapaz de proferir palavras. Se surpreendeu ao perceber que queria muito que ele a beijasse. segurou o rosto dela com uma das mãos e usou a outra para segurar em sua cintura e a trazer para mais perto. passou os braços pelo pescoço do garoto. Vantagens de estar de salto.
E então seus lábios se tocaram e foi como provar cores e sentir sons. Era mil vezes melhor do que andar de montanha russa! se lembrou que era experiente naquilo. Muito mais do que ela ou que os garotos que já havia beijado, ele sabia o que estava fazendo. Mas talvez fosse diferente - e melhor - apenas porque os dois se conheciam há tanto tempo e era fácil sincronizarem seus ritmos. Eles tinham intimidade.
Quando se separaram, relutantes, pensou ter visto uma vulnerabilidade em que nunca tinha percebido antes. Os olhos dela estavam escuros e ela parecia irradiar algo que lembrava medo. Mas porque ela sentiria medo?
— Eu preciso entrar… — A garota disse, em tom de quem pede desculpas.
? Está tudo bem? Eu… Eu fiz algo que te desrespeitou? — arregalou os olhos e se viu repassando os últimos minutos na própria cabeça, tentando se lembrar onde suas mãos estavam a todo momento.
Ela fez que não com a cabeça vigorosamente, chegando mais perto do amigo e fazendo carinhos em seus braços.
— Não! Eu… Eu só… Obrigada por hoje, . — disse, sorrindo sincera. Quando o garoto fez menção de se aproximar de novo, desviou e deu um beijo demorado na bochecha dele. — Você é um bom amigo! A gente se fala amanhã.
então deixou um confuso na porta de sua casa e correu para dentro, antes que desse 1h. A verdade é que o modo como estava se sentindo a desnorteava um pouco. Não gostava de se sentir frágil, de dar tanto poder a alguém. Mesmo que fosse alguém que ela já amasse tanto. Amigos tinham um poder diferente, algo mais equilibrado e fácil de lidar. Ela gostava desse tipo de relacionamento.
Em um compromisso mudo selado naquela noite, eles não voltaram a falar daquele beijo até o segundo ano de faculdade.
Fim do Flashback

— E vocês continuaram amigos, como se nada tivesse acontecido, durante todo o resto do ensino médio? — Jeremy tinha um dos olhos fechados, demonstrando desconfiança. riu e tomou um gole de sua cerveja.
— Te juro! Tudo voltou ao normal. Como eu havia dito, Marissa realmente se arrependeu de não ter dado atenção ao e eles começaram a sair por um tempo. Nós saímos com um bom número de pessoas, para ser sincera… Nada sério, de nenhuma das partes. E totalmente sem segundas intenções entre nós dois.
— Até que um dia… — Ele repetiu, fazendo a amiga gargalhar. Teriam uma conversa de muitos “até que um dia…” pela frente.
— Foi uma grande vitória quando nós dois, Angie e Alex passamos para a mesma universidade. E foi meio que natural a decisão de morarmos juntos desde o começo. Os primeiros seis meses foram os mais complicados… e Alex eram dois filhinhos de mamãe! — ela brincou.
— Bom, até hoje! — Jeremy concordou, rindo e rolando os olhos.
— Com o tempo fomos aprendendo essa nova dinâmica também. A gente se conhecia o suficiente para dar bronca, sentar, conversar e até brigar… Mas se resolver depois. — deu de ombros. — A maior diferença mesmo era Morgan e Andrew estarem longe.
— E você e o … — o amigo cutucou, levantando as sobrancelhas. — Você fica enchendo linguiça, garota!
gargalhou.
— Estou tentando contar a história com detalhes, oras! Como você pediu.
— Eu quero os detalhes sórdidos!
Foi a vez dela rolar os olhos enquanto ria.
— Eu e continuamos do mesmo jeito por todo o primeiro ano e boa parte do segundo. Eu nem reparei direito quando ele virou esse homão todo, acho que estava observando muito de perto… — voltou a olhar para o atual que agora tentava amenizar a discussão entre Angie e Arthur. Ele tinha deixado a barba crescer. Era um atributo novo em seu rosto, que o fazia parecer mais velho, mas combinava com ele. Uma moldura bonita para o sorriso favorito de . — Mas aí no aniversário de… Hm… Um ex namorado do Alex, nós acabamos indo para casa sozinhos.

Flashback
se jogou no sofá assim que abriu a porta. Não fazia ideia de que horas eram, mas eles pareciam ter passado o dia inteiro naquele churrasco. Ouviu a amiga colocar as sandálias no chão do quarto dela e ir para a cozinha.
observou do balcão americano quando ele se levantou e foi até seu quarto.
—Vou tomar banho… — Anunciou.
— Ok, vou fazer algo para gente comer.
Meia hora depois, ela já estava de pijama na cozinha quando o viu se aproximar, usando apenas samba canção. Não era uma visão incomum, afinal moravam juntos, mas às vezes a pegava de surpresa como ele era bonito. Parecia ter sido desenhado por um perfeccionista obcecado por proporções. Todos os músculos delineados e esculpidos pelos anos praticando boxe.
— Acho que ainda estou bêbado… — confessou, fazendo-a rir. Ele se aproximou e roubou uma colherada do jantar da amiga. Ao olhá-lo de mais perto, percebeu que seu rosto estava todo vermelho. Afastou os cachinhos dele da testa para examinar melhor.
— Em algum momento do dia você usou protetor solar?
Ele fez que não com a cabeça, se virou e apontou para a própria nuca.
— Aqui está vermelho também? Está ardendo!
soltou uma risada alta.
— Cabeção! — zombou e, sem raciocinar direito, passou os dedos pelo pescoço dele. Só percebeu o que estava fazendo quando o rapaz encolheu os ombros, se esquivando, e um caminho de arrepios seguiu de onde os dedos dela estavam até seu pulso. Nenhum deles disse nada e tentou disfarçar roubando mais um pouco do jantar de . Os dois permaneceram em silêncio, revezando o talher até terminarem o prato.
— Vai sair de novo? — ela perguntou, quando terminou de lavar a louça e se juntou ao amigo no sofá.
— Sem condições…— respondeu e então se lembrou de algo que queria ter comentado antes. — ? Você gostou do novo namorado da Angie?
A garota pensou um pouco antes de responder. Gus era simpático, até; parecia ser um cara engraçado. Contudo, durante alguns períodos da festa, pensou tê-lo visto dando em cima de outras garotas que estavam lá. Não era algo escandaloso ou bem na cara, era o jeito como ele conversava e tocava nas meninas. Talvez ela até tivesse imaginado ver algo que nem aconteceu… Mas tinha ficado com essa impressão ruim.
— Acho que não. — disse, por fim. — Angie merece alguém melhor.
riu e concordou.
— Às vezes eu tenho a impressão de que sou exigente demais quando se trata de vocês duas e do Alex. — contou, de um jeito descontraído. A cabeça encostada nas costas do sofá, o corpo virado na direção de . — Acho que só vou sossegar quando sentir que cada um de vocês encontrou uma Morgan.
sorriu, sentindo todo seu peito se aquecer. Morgan e Andrew eram a referência de todos eles para almas gêmeas. Particularmente, ela era uma cética; não acreditava que o raio cairia duas vezes na mesma turma e, por isso, procurava não se envolver demais com ninguém. Mas apesar disso, também desejava alguém incrível para Angie e Alex… E , é claro!
— E você?
— Eu o quê? — o garoto perguntou, os olhos cravados nos dela.
— Já encontrou sua Morgan?
riu, soltando o ar de um jeito que soava como uma caçoada, e virou o rosto e o corpo para frente, cortando o contato visual dos dois.
— Não estou procurando minha Morgan… Não ainda.
riu. Claro que ele não estava!
— Você dorme com tanta gente, que um dia a sua alma gêmea vai estar bem embaixo do seu nariz e você não vai ver! — zombou.
se empertigou no sofá, fingindo estar ofendido.
— Heeey! Eu… Nem foram tantas assim!
— Não, né? Eu perdi a conta… — acusou.
Ele virou o rosto de novo para ela, um sorriso de lado vitorioso nos lábios.
— Prestando atenção? — quis saber, levantando as sobrancelhas.
— A gente mora na mesma casa, imbecil! — Ela deu a língua.
— Você sabe que pode furar a fila quando quiser, né? — falou, encarando-a de um jeito intenso, instigando-a, e moveu seu corpo mais para perto do dela no sofá. — Você tem prioridade.
— Shiu, vai! Olha o filme! — cortou, empurrando-o de volta. Mas não estava ofendida.
Ficaram um tempo assistindo TV quietos, até que o rapaz tombou um pouco no sofá para o lado dela. Como não encontrou resistência, foi se aproximando e se aproximando até estar com as costas contra o tronco dela, um braço passado pelas suas pernas e a cabeça encostada no ombro oposto da garota.
Começou a desenhar círculos com os dedos na coxa dela distraidamente e, em retribuição, levantou um dos braços e passou a fazer carinho nos cabelos dele. ainda era o mesmo moleque que tinha conhecido anos atrás, mas de alguma forma parecia ter desenvolvido seus super poderes (de sedução). Ele agora sabia quando usar seus diversos tipos de sorriso, quando pesar ou atenuar seus olhares e quando provocar com uma brincadeirinha ou parecer um cachorrinho abandonado. Era quase impossível resistir quando o garoto “ligava” seu charme, como boa parte das alunas da universidade já haviam aprendido. admirava as novas “habilidades” do amigo, se divertia assistindo-o, ainda que às vezes ela própria fosse uma vítima.
Aquela noite parecia ser uma dessas ocasiões. Até então, todas as vezes em que ele estava nesse humor estranho de flertar com ela, desviava com risadas e exclamações de “Sai, , vai lá ligar para a X!”, a garota do momento. Mas não naquele dia. Talvez estivesse carente, talvez só quisesse pagar para ver até onde ele iria… Talvez ela também estivesse em um humor estranho de responder às investidas dele. Ou mesmo de tomar a iniciativa.
Estavam se fazendo carinho e o pensamento seguinte foi e voltou em sua mente duas vezes antes dela tomar coragem. A cabeça de estava arcada para trás enquanto recebia o cafuné, expondo o pescoço dele. sabia que, assim que se mexesse, teria que agir ou ele podia entender o movimento como ela se esquivando. Fechou os olhos e contou até 3.
Passou a mão livre pelo peito dele, o abraçando, e se inclinou. Os lábios alcançaram o pescoço de e ela o ouviu produzir um som de surpresa, parando a mão espalmada sobre a coxa dela.
sentiu um certo prazer em observar o corpo todo dele reagir ao seu toque, até que o rapaz pareceu voltar a si. Se desvencilhou dela e se sentou direito no sofá. Os olhos indagadores.
Abriu a boca para dizer algo, mas a garota achou que se eles conversassem sobre isso, se convenceriam a não prosseguir.
A única coisa que se propôs a dizer foi:
— Eu não posso ser a única que está curiosa…
E antes que entendesse exatamente o que estava acontecendo, ela já estava sobre ele. Seus lábios se encontraram, quase três anos depois daquele primeiro beijo, mas foi como se fizessem aquilo todos os dias. A paralisação pela surpresa logo se dissipou e o rapaz colocou uma das mãos em seus cabelos e a outra no quadril dela, por baixo da camisa de pijama, conduzindo seus movimentos. nunca tinha reparado como as mãos dele eram grandes, até perceber quanto de seu corpo ele podia tocar de uma vez só. E ele não estava tímido sobre usar as mãos para explorá-la.
Não, ela não era a única curiosa. Nunca tinha sido.
— Quarto… Agora… — sussurrou, contra os lábios dele.
Por mais certeza que tivesse de que nem Angie, nem Alex voltariam naquela noite, achava que seria um anticlímax irreversível se fossem interrompidos pelos outros melhores amigos/moradores da casa.
parou de beijá-la, ofegante, mas com um sorriso radiante no rosto.
Seus olhos a estudavam como se tentassem detectar qualquer sinal de dúvida. Será que estava pensando naquele dia do baile, em como ela havia corrido dele?
— Seu quarto? — perguntou. fez que sim com a cabeça, já puxando-o para dentro, mas ele recuou. — Eu… Hum… Preciso pegar as camisinhas no meu quarto.
CamisinhaS. O plural não passou despercebido por ela.
Em cinco segundos ele estava de volta, sorrindo de lado e a pegando pela cintura, para voltar a beijá-la.
Como no primeiro beijo, anos atrás, a sintonia ali era algo que nenhum deles tinha experimentado com outros parceiros antes. Era como se tivessem os sentidos aguçados quando estavam juntos e pudessem se compreender até sem dizerem nada. Feromônios, conexão mental, ultrassom… O que quer que fosse, funcionava só entre os dois. podia sentí-la reagindo a ele e, então, era capaz de repetir os movimentos preferidos dela, intensificar seu toque onde achava que iria gostar. Ela, por sua vez, parecia saber todos os truques de como “navegá-lo”: como beijar, acariciar e o que dizer para deixá-lo completamente maluco.
Quando os músculos de ambos relaxaram e eles pararam de se movimentar um contra o outro, tentando estabilizar suas respirações e aproveitando as últimas ondas elétricas percorrendo seus corpos, o rapaz se deitou no colchão, trazendo-a para ficar sobre o seu peito. Sorriu para o teto, sentindo o abraço forte dela em torno de seu tronco, e não pode deixar de pensar que faziam uma grande dupla.

acordou em um susto, demorando um pouco para se sintonizar de onde estava. Foi o peso de um braço em seu ombro que o trouxe de volta. . O quarto de .
Ele e .
O pânico tomou conta dele. E se se arrependesse? E se amizade desandasse depois disso? Será que ela iria acordar com vergonha? Seria melhor se não acordassem juntos? Levantou o tronco, procurando sua samba canção e saiu da cama, indo até a porta na ponta dos pés.
— Dando o fora antes da garota acordar? Então você realmente é esse tipo de cara, han? — brincou, chamando sua atenção da cama.
Ele se virou, sem jeito.
— Eu não sabia se você iria acordar arrependida e sem querer olhar para a minha cara… — justificou.
A garota riu.
— Volta aqui, seu estranho! São 5 horas da manhã e a gente mora na mesma casa! Eu teria que sair pela janela para te evitar... Não vale a pena...
A voz dela ainda era sonolenta e, ao se aproximar de volta, viu que ela mantinha só um olho aberto. Mesmo assim, soava tão certa do que estava dizendo! O bom humor intacto, de quem não estava levando a situação tão a sério.
Se deitou de novo e não se conteve: deu um beijo demorado na bochecha da amiga, que sorriu de olhos fechados.
? — Uma pergunta martelava em sua cabeça desde a noite anterior. Não queria esperar até de manhã para saber. — Você estava bêbada?
Ela abriu os olhos de volta, encontrando os dele. Ele mordia o lábio inferior e usava sua melhor expressão de filhotinho, aguardando a resposta com expectativa. Maldito garoto e seus olhos expressivos!
— Eu estava dirigindo, . — ela o lembrou, levantando as sobrancelhas. — Eu sabia o que estava fazendo.
foi agraciada com o melhor sorriso de lado do repertório do rapaz.
— Então você sempre quis isso… Desde que a gente tinha 16 anos!
gargalhou, fazendo-o rir também.
— Você se acha tanto! — respondeu, balançando a cabeça e o empurrando.
ergueu o tronco, apoiando o rosto na mão e os dois se encararam em silêncio. Se ao menos soubesse como ele se sentia intimidado pelo jeito como ela o conhecia (ainda mais agora). Ou como se sentia às vezes, quando passava muito tempo a observando...
— Eu queria também. — confessou. A garota não havia perguntado, mas era esse seu efeito nele.
— Então pronto… — falou, levantando uma das mãos e fazendo um carinho breve na bochecha dele. Depois fechou os olhos e se ajeitou na cama. ainda ficou um tempo olhando para a amiga, tentando entender porque seu coração estava batendo tão desencontrado. abriu um dos olhos e riu. — Pelo amor de Deus, moleque! Deita aí!
Ele a obedeceu, abaixando o corpo de volta na cama. Ousou chegar mais perto dela e passar o braço pelo tronco da garota. sorriu e se aproximou, se aconchegando nele também.
Os dois estavam bem, não havia estranheza.
Fim do Flashback

— E aí vocês começaram a sair… — Jeremy concluiu, fazendo-a rir.
— Nãããão! A gente nunca teve nada, Jer. De verdade.
— Ah não, você não vai vir com outro “daí tudo voltou ao normal” para cima de mim, não! Você nem conseguia parar de sorrir enquanto me contava! balançou a cabeça, corando e desviando o olhar.
— Nós… Hm… Continuamos dormindo juntos, ocasionalmente. Quando nenhum dos dois estava ficando com alguém… Ou… Não sei, quando fazia sentido, sabe? Era tão cômodo! — tentou explicar. Eles eram amigos há anos, moravam na mesma casa, estavam no mesmo curso… Se os dois estavam com vontade e não estavam saindo com ninguém, tinham a opção de escolher um desconhecido no Tinder, Happn ou seja lá qual o aplicativo OU podiam ficar juntos, conversar e tomar uma cerveja no sofá da sala, de pijama. Não era uma escolha difícil. — E você sabe como é. As coisas tendem a ser… Erm… Melhores, se você conhece bem a outra pessoa.
— E Alex e Angie sempre souberam? Levavam numa boa?
riu, como uma criança que fez arte, e tomou mais um gole da sua cerveja para fazer um suspense.
— Demoraram um ano para descobrir.
— Um ano?! Alex é a pessoa mais distraída que eu conheço, não esperava menos... — Jeremy ponderou. — Mas a Angie?
— Alex realmente não viu umas evidências bem na cara dele! — contou, rindo.

Flashback
fechou a porta do quarto com cuidado, abafando as risadas de , e foi pé ante pé até a cozinha. Precisou colocar as mãos na boca para não gritar ao perceber que já havia alguém ali.
Alex se endireitou e fechou a porta da geladeira parecendo assustado também.
— Caramba, , que susto!
Bom, ela não podia simplesmente virar e voltar agora. Continuou até a pia e encheu um copo d’água, fingindo naturalidade.
— Alex! Não sabia que você estava em casa!
Alex e Angie, quando estavam solteiros, saíam na sexta a noite e só apareciam no domingo. Uma disposição invejável!
— Estudando. Tenho prova segunda-feira. — Seus olhos examinaram a amiga de cima a baixo e ele franziu a testa. — Menina, tem alguém com o aí, você não devia andar pela casa de calcinha e sutiã.
Ela engoliu em seco.
— É mesmo?
— Seu quarto é ao lado do dele! Você não ouv...
Mas como todo castigo parecia pouco, ouviram passos e dobrou o corredor.
Cabelo bagunçado, usando apenas boxers.
— Você vai beb… — ele tropeçou e parou olhando de um para o outro em choque. — Ahn… Oi Alex! — ergueu as sobrancelhas, alarmada. — E… Ahn... Oi ! O que… O que você, vocês estão fazendo em casa?
— Tenho prova segunda. E você? — Alex perguntou, observando o amigo também entrar na cozinha. Se virou para a amiga seminua e deu alguns passos para o lado para cobrí-la da visão de com o próprio corpo. Um gesto que seria fofo, se a situação não fosse hilária. — Quem é a garota?
— Garota?
Ambos Alex e rolaram os olhos.
— Que está com você, oras. — Alex disse. Depois se dirigiu a . — Você jura que não escutou? É do lado do seu quarto, !
— Tomei remédio para dormir. — a garota mentiu, dando de ombros. Estava com uma vontade sem tamanho de rir.
O amigo voltou a questioná-lo.
— Fala aí, ! — Forçou, mais uma vez, dando um sorriso de lado. — Você deve gostar bastante dela, porque...
O rapaz tinha acabado de levar o copo à boca e engasgou. Enquanto tossia, decidiu intervir.
— Deixa ele em paz, Alex! A gente não faz interrogatório sobre os caras que você pega! — ela e trocaram olhares culpados e a garota mordeu o lábio inferior, escondendo seu sorriso.
— Nossa, calma! Não está mais aqui quem perguntou. — falou, levantando os braços. — Bom, vou voltar a estudar. Boa noite!
achou melhor aproveitar e ir também.
— Vamos diminuir o barulho, prometo! — ainda disse, enquanto Alex fazia joia e entrava em seu quarto.
olhou para trás uma última vez, para a cozinha. Ele estava encostado na pia, as duas mãos apoiadas no mármore, cabeça tombada para o lado e um sorriso brincalhão no rosto. Era um abuso ser tão bonito!
Na dúvida, entrou no próprio quarto. Um minutos depois recebeu uma mensagem.
“Eu não sabia que ele estava em casa! Essa foi por pouco!”
“A gente devia contar para os dois?”
ela perguntou.
“Um dia. Não agora. Quando Alex não se lembrar de hoje, quem sabe.”
“Pode ser. Mas hein? Então você gosta bastante de mim?”
“Desculpa, quem tá falando?”

abafou a risada com a mão.
“Besta!”
“Você vai voltar aqui?”
“Desculpa, quem tá falando?”
devolveu e o ouviu rindo no quarto ao lado.
“=(”
“Boa noite, .”

Fim do Flashback

Jeremy gargalhou.
— Meu amorzinho! Tão alheio ao planeta Terra! — falou, ainda rindo. — Mas e a Angie, criatura? Consigo imaginar que ela tenha feito um escândalo quando descobriu! fez que sim com a cabeça. Jer tinha entrado na vida deles há tão pouco tempo, mas já os conhecia tão bem!
— Talvez eu e estivéssemos começando a ficar menos prudentes… Um dia ela acabou encontrando a gente… Hum… Se pegando na cozinha, no meio do terceiro ano. Aí deu uns gritos, jogou coisa, sentou para falar com a gente igual mãe… Foi um evento!
— Angie é meu espírito animal! — Jeremy disse, se divertindo.
sorriu e observou a amiga, que finalmente tinha parado de bater boca e conversava animadamente em uma roda com seu mocinho, Simon, e Mika. Se encolheu, tentando suprimir o bichinho do ciúme se alimentando de coisas ruins em seu peito. Desde o começo tinha se prometido que não teria aquele tipo mesquinho de sentimento.
Se lembrou que Angie tinha sido a primeira a questioná-la sobre situações como a daquele churrasco. Sempre um poço de sabedoria, que havia subestimado.

Flashback
Eram 2h30 da manhã quando chegaram em casa. Cedo para os parâmetros dos dois, mas ambos concordaram que a balada estava um pouco caída e decidiram ir embora juntos.
Como já era parte da rotina deles, foi se trocar, tirar a maquiagem e as lentes de contatos, e encontrou na cozinha. Ele sorriu, gostava de vê-la de óculos.
— Cereal? Torrada? — perguntou, enquanto olhava para dentro do armário.
— Torrada. Acho que ainda tem queijo. — ela respondeu, indo checar na geladeira.
Prepararam o que comer e se sentaram lado a lado no balcão americano. O celular dele vibrou com uma nova mensagem.
“Não te encontrei mais, você ainda está aqui dentro? xx Hannah”
leu e não respondeu.
— Te contei que minha mãe melhorou? — se virou para . Sua mãe tinha depressão e vivia de melhoras e recaídas. Às vezes era complicado morar longe de casa…
O rosto da amiga se iluminou com a notícia. Sentiu a mão dela apertando a sua.
— Sério? Os remédios novos estão ajudando?
— Estão. Ela começou a fazer terapia ocupacional também… Como sua mãe sugeriu. — contou. Os dois sorriram um para o outro. — E a Panqueca?
Panqueca era o filhote de cachorro que a família de tinha encontrado na rua e adotado duas semanas atrás.
— Engordou mais um pouco e ganhou uma casinha. Minha mãe colocou ela na frente da câmera hoje mais cedo. Eu preciso voltar para casa para brincar com aquela bolinha de pêlo! — e eram doidos por animal. Tinham discutido mais de uma vez sobre terem um no apartamento. — Se Alex não fosse alérgico, ela podia passar uma temporada aqui com a gente!
— Foda-se o Alex! A gente expulsa ele de casa. — brincou, levantando os braços.
— Mas Panqueca não vai pagar o aluguel… — respondeu e os dois gargalharam.
recolheu os pratos e os colocou dentro da pia, se virando então para encará-la. A garota tinha se levantado do banquinho para ficar de frente para ele.
— Está com sono? — quis saber, empurrando a perna da amiga com a sua e lhe lançando um olhar sugestivo.
— Dá um tempo, ! — A garota falou, rindo e balançando a cabeça.
O celular dele vibrou mais uma vez.
“Estou indo para casa. Se você quiser ir para lá… xx Hannah”
rolou os olhos e virou o visor do celular para baixo.
— Você acha que a gente ficou preguiçoso? — perguntou.
— Como assim? — franziu a testa.
— Quando saímos, quando estamos ficando com outras pessoas… — explicou. — Eu acho um pouco mais difícil me esforçar… Porque, qualquer que seja o resultado, temos um ao outro garantidos. Sabe?
colocou a mão sobre o peito, fingindo estar ofendida.
— Hm, com licença? Eu não estou garantida para ninguém merda nenhuma!
Os dois riram e o garoto deu um passo, se aproximando dela.
— Ah não? — perguntou, a voz grave e quase cantada. tinha catalogado cada olhar, cada sorriso e cada tom de voz que ele usava quando queria algo. Algo. Ela agora podia dizer quando o amigo estava só brincando, quando estava realmente flertando com ela e qual a intensidade do “golpe” que estava aplicando. Aquela voz, e o olhar que acompanhava, era sendo impiedoso.
adorava esse jogo! Fez que não com a cabeça devagar, retribuindo o olhar de mormaço.
— Não senhor!
— Eu vou ter que te seduzir então. — agora o garoto estava brincando. Era engraçado observar as nuances e as mudanças no rosto dele. Entender exatamente onde ele estava.
— Por favor...
olhou em volta, em busca de ideias.
— Vinho? — ofereceu, encolhendo os ombros e levantando as palmas das mãos para cima.
gargalhou.
— Você é péssimo! — falou. — Ainda bem que me alertou sobre o perigo da preguiça… Eu vou dormir e deixar você pensando sobre isso.
Deu um passo para sair da cozinha, mas ele a segurou pela cintura e, em um único movimento, a colocou sentada no balcão. Ok, agora tinha ficado interessante.
descansou uma mão de cada lado dela e se posicionou entre as pernas abertas de . Levantou as sobrancelhas como se perguntasse “E agora?”.
Ela riu e ia responder algo espertinho, mas não encontrou nada para dizer. A forma como ele a olhava de repente não era mais plausível de piadas. O rapaz mordeu o lábio inferior, os olhos vagando pelo rosto dela de um jeito que beirava a adoração e a deixava tímida. subiu as duas mãos até o rosto dele, acariciando sua bochecha. Cruzou as pernas nas costas de , prendendo-o ali. Não que ele pretendesse ir a qualquer lugar...
Era verdade que tinham criado uma regra de não se beijarem/se pegarem/transarem em outros cômodos da casa que não fossem os quartos dos dois, mas naquela madrugada nenhum deles parecia se lembrar.
murmurou algo incompreensível ao sentir os lábios de em seu maxilar, logo abaixo da orelha, e o abraçou pelo pescoço. As mãos dele indo e voltando em suas coxas, geravam incontáveis morrinhos de arrepio.
Estavam tão arrebatados no momento que não escutaram a porta. Nem Angie chegando na cozinha.
— QUE POUCA VERGONHA ESTÁ ACONTECENDO AQUI? — ela berrou. — , tem um na sua cara! — acusou, atirando a clutch que carregava no garoto. Tudo virava um espetáculo se ela estava envolvida.
Ele se desvencilhou de , ainda meio desnorteado; a mão no braço direito onde a bolsinha tinha o atingido.
— Que merda é essa, Angelica? — perguntou, bravo.
— Mas é o que eu quero saber! O que os dois pensam que estão fazendo? Eu não sei se estou mais boquiaberta porque vocês estão se atracando no meio da cozinha ou por descobrir assim que estão namorando!
— Nós não estamos namorado. — os dois responderam em uníssono, sem se olharem.
— Ah não?
Fizeram que não com a cabeça.
— Bom, então vocês vão precisar me explicar direitinho do que se trata… — Angie falou, cruzando os braços. — Todo mundo na sala!
O amigo ajudou a descer do balcão, ainda sem olhá-la nos olhos. daria todo o dinheiro que (não) tinha para saber o que ele estava pensando.
O que mais temia era alguém cutucar o que estava ali, imperturbável, até formar um buraco. E ele sabia que, se havia alguém que poderia listar todos as falhas do plano deles, era Angelica Owen - a futura advogada.
Os dois se sentaram no sofá, enquanto Angie parou em frente a eles. Quando ela incorporava a “mãe”, não havia muito como pará-la.
— Podem começar.
O garoto rolou os olhos e não respondeu. respirou fundo e decidiu acabar com aquilo logo.
— Você está fazendo um incêndio de um palito de fósforo, Angie. A gente não tem nada sério… Só… Erm… Fica de vez em quando.
— Desde quando?
olhou para cima, pensativa.
— Do ano passado, acho.
— DO ANO PASSADO? COMO vocês esconderam isso de mim? Alex sabe? Eu vou chamar ele no Facetime! Cadê minha bolsa?
— São 3h da madrugada, criatura… Eu conto para ele amanhã. — falou segurando o braço da amiga e fazendo-a se sentar na mesinha de centro. Estava tentando abrandar os ânimos. — Desculpa não ter contado antes, Angie. E, só para deixar claro, isso NUNCA acontece na cozinha ou qualquer outro cômodo comum da casa.
— Ah, menos mal! — A amiga respondeu com um certo tom de ironia. — E o que vocês pretendem como isso? Tem algum futuro?
— Pretensão nenhuma… Zero futuro. — respondeu rápido, dando de ombros. — Ficamos juntos quando não está acontecendo nada melhor nas nossas vidas amorosas. É só… Uma forma de escape, eu acho.
— A gente não tem que ficar aqui se justificando como se você fosse a mulher traída, Angie. Fica na sua, que saco! — Foi a contribuição de à discussão. Por algum motivo o incomodava ouvir repetir mil vezes que aquilo não era nada. se virou, olhando feio para ele. Alô? Era para acabar com o assunto, não jogar gasolina nele!
— Mulher traída? Você sabe com o que eu estou preocupada, ? O que acontece se vocês terminarem? A gente vai ter que escolher lados? Eu não sou a mulher traída; mas eu e Alex seremos os filhos de casal divorciado quando esse sexo solidário de vocês for por água abaixo!
— E porque você tem tanta certeza que vai dar errado? — Ele a desafiou.
— Porque sempre dá…
— Mas meu Deus do céu! Eu e não vamos terminar nada, porque não existe nada para terminar! — falou alto, tentando colocar um fim na briga dos dois.
balançou a cabeça e se levantou, indo para seu quarto e batendo a porta atrás dele. As duas permaneceram em silêncio por um tempo. Quando voltou a falar, Angie parecia mais calma e centrada. E sóbria.
— Eu sei que chegar dando chilique acabou com a minha credibilidade, mas meu receio é real, . Essas coisas nunca acabam bem. E se vocês se apaixonarem um pelo outro?
— Não aconteceu até agora, não vai acontecer mais. — A garota respondeu. Entendia as preocupações de Angie, mas ela só estava descobrindo aquilo agora. e já estavam nisso há um ano. E funcionava.
— E se vocês se apaixonarem por outras pessoas? Resolverem que não querem mais ter um estepe, enquanto o outro ainda quiser?
— Eu, me apaixonar? , se apaixonar? Qual a chance?
Angie rolou os olhos.
— Eu só não quero um de vocês choramingando no casamento do outro, porque ficaram nesse lenga lenga sem rótulo por tempo demais e perderam a oportunidade de terem algo real!
Dessa vez gargalhou.
— Antes o problema era se a gente terminasse e agora é se a gente não ficar junto?
— Vai vendo… Eu disse que vocês se enfiaram em uma situação de merda!
alcançou a mão da amiga e a apertou.
— Eu agradeço os conselhos, Angie. Mas está tudo sob controle.
Ela se deu por vencida.
— Bom, eu lavo as minhas mãos! E gostaria de não saber quando vocês estiverem transando, por favor.
— Pode deixar.
— E nunca mais se peguem no balcão. Ou nesse sofá.
— Eu prometo!
Angie respirou fundo e se levantou, indo em direção à cozinha para buscar sua clutch.
? — Perguntou baixinho, voltando para perto da amiga. — Ele tem pegada?
soltou outra risada alta.
— Eu gostaria de usar a Quinta Emenda*, Meritíssimo. — Brincou, fazendo a amiga bufar e sair rindo.
*a 5ª Emenda da Constituição Americana, que assegura o direito do réu de permanecer calado para evitar a produção de provas contra si mesmo.

estava deitada de barriga para cima, os olhos desfocados mirando o teto. Tinha entrado em seu quarto já fazia algum tempo, mas não conseguia dormir e continuava pensando no que Angie havia dito. Enquanto estava quente na discussão, não se deixou abalar. Contudo agora, sozinha e repensando tudo o que ela tinha falado… Todos os “E se” dançavam em sua cabeça.
Ouviu uma batida tão fraquinha na porta, que se perguntou se teria imaginado. Quando se levantou e a abriu, encontrou parado ali com uma expressão de culpa no rosto.
Ele segurou uma das mãos dela, fazendo carinho com o polegar e encostou a cabeça na batente.
— Me desculpa por ter explodido e sido grosso com vocês duas.
sorriu.
— Eu só perdoo porque acho que metade da sua raiva veio da bolsada que ela te deu.
encolheu os ombros, tentando não fazer barulho enquanto ria.
— Você está bem? — Ele perguntou.
— Acho que sim, eu só... Angie tem o dom de ser uma amiga mãe que me faz repensar todas as minhas escolhas da vida inteira.
O garoto balançou a cabeça.
— Eu... , eu não me importo com o que ela acha que vai acontecer ou não. Nossa amizade não mudou até agora e não vai mudar... Nunca!
— É, eu sei… — Mas não parecia tão certa.
— Você quer que a gente pare com isso? Por um tempo... Para sempre... O que você decidir, está decidido!
Ela sorriu com gratidão. Não podia ter escolhido alguém melhor para ser seu companheiro de sexo solidário.
— Eu gosto da nossa dinâmica, não acho que estamos estragando nada... — deu de ombros. — Não quero parar.
Foi a vez dele sorrir.
Esse não era um sorriso catalogado. Era só seu melhor amigo sorrindo. Um sorriso que tomava o rosto dele todo e a deixava com a impressão de que era a primeira vez que via alguém sorrir de verdade. Como se tivesse inventado o conceito.
O sorriso favorito dela no mundo.
O rapaz levantou a mão de que estava entrelaçada na dele até seu rosto e lhe deu um beijo.
— Então pronto... — falou, usando a expressão que ela costumava usar para finalizar conversas. — Boa noite, !
— Boa noite!
Se separaram e a garota entrou de novo em seu quarto.
Angie normalmente era muito boa com essas coisas, mas estava errada sobre eles. não pretendia se apaixonar e achava que também não. Pelo menos por ora. Eles tinham entrado nessa naturalmente e sairiam naturalmente. Colocariam um ponto final naquilo quando não fosse mais legal ou divertido para nenhum dos dois.
Simples assim.
Muito simples.
Fim do Flashback

Foi o olhar perdido de pelo quintal que impediu Jeremy de fazer o comentário pertinente de que Angie estava com a razão. A amiga certamente não precisava de lembretes. Mas ainda havia o final da história para ouvir. E agora ele estava curioso.
— Ok, eu entendi como começou essa amizade colorida. Inclusive não julgo… Vocês dois são muito bonitos para não se pegarem! — A amiga riu do comentário. — Mas porque acabou? Foi depois que ele conheceu a Mika?
negou com a cabeça. A ordem dos fatos não era essa. Mas explicar porque ela se sentia tão desconfortável naquela festa implicaria em contar sobre a promessa que ela não fez… Ainda que não tivesse certeza se esse era mesmo o porque de ter se afastado. Mudado de casa. Começado a namorar. Talvez fosse egocentrismo de sua parte pensar que estava atrelada aos motivos dele.
Foi salva pelo gongo, porém. Enquanto achava um jeito de explicar, Alex se sentou no degrau acima do que eles estavam e abraçou o namorado por trás.
— Já acabaram o jogo? — Jeremy indagou, olhando para cima. — Quem ganhou?
— Suflair se deitou em cima do tabuleiro. — Simon tinha um gato de estimação. — Foi um empate técnico... E você? Sentiu minha falta? — Alex perguntou.
— Não muito… — Jer respondeu e tomou um tapinha no braço. — estava me contando sobre…
Mas a garota se levantou rápido, antes que ele terminasse a frase. Não teria saúde para recomeçar o assunto.
— Refil! — Falou, sacudindo a latinha vazia em suas mãos. — Querem mais cerveja, meninos?
Jeremy sorriu solidário, entendendo que ela não queria mais conversar sobre aquilo.
— Mais uma, por favor.
— Duas!
sorriu e fez que sim com a cabeça, entrando na cozinha. Estava fechando a porta da geladeira, quando ouviu alguém na porta.
— Hey! — cumprimentou, parecendo sem jeito.
— Oi! — ela respondeu, se endireitando. — Não acredito que parou de chover para o churrasco finalmente acontecer! Eu achei que não iria parar a tempo.
Era isso. Estava falando sobre o tempo com um dos seus melhores amigos. franziu a testa e ele pareceu entender a tentativa frustrada e riu. Então ficou sério, colocou as mãos nos bolsos e fez que sim com a cabeça. Iria continuar com o assunto só para irritá-la.
— Pois é! Eu e Simon demos muita sorte. A previsão de chuva era 80%, principalmente depois das 2h da tarde, mas a umidade...
— Tá bom, eu já entendi! — o interrompeu rindo. Os dois se encararam direito pela primeira vez em cerca de um mês. Ele estava mesmo muito bonito de barba. — Como você está?
— Bem… — respondeu. Porque ele devia mesmo estar. Casa nova, último ano do curso de engenharia, um namoro na fase “lua de mel”… Tudo melhor do que o esperado. Ainda assim, a ansiedade que ele sentia em estar naquela cozinha era um sinal de que alguma coisa não ia tão bem... — Segunda-feira começo o estágio na Samsung. — contou.
sorriu. Ele tinha tentado por um ano inteiro sem sucesso.
— Aquele mesmo que você queria?
— Exatamente o que eu queria!
Ela desejou abraçá-lo. Poderia se quisesse, certo? Então porque o máximo que fez foi pressionar as latinhas em suas mãos?
— Você merece, ! — disse, por fim.
Enquanto falava, ele se aproximou e a garota chegou a acreditar que ele estava vindo a abraçar. Mas o rapaz passou por ela e abriu a geladeira. Claro. Não estava na cozinha a toa. Pegou duas latinhas, uma para ele e uma para Mika.
— E você? Novidades?
— Na verdade, não… Tudo igual. — mentiu. Se tinha uma coisa que sua vida não estava, era igual.
— Jane já se mudou?
Angie tinha achado alguém para ficar com o quarto de . Foi quando percebeu que a mudança dele era real.
— Já! Ela é legal. — falou e depois levantou os olhos. — Muito mais organizada que você.
Ele abriu a boca, ofendido.
— Olha só... Eu… Eu tinha melhorado bastante!
— Porra nenhuma! — provocou, fazendo-o rir. — E se eu entrar no seu quarto agora, quantas peças de roupa eu vou encontrar no chão?
— E se você não entrar? Não seria esse o paradoxo de Schrödinger? Ela gargalhou.
— Não, . Eu tenho certeza absoluta que seu quarto está uma zona! E eu espero de todo o coração que não tenha um gato morto lá!
Ele a acompanhou nas risadas.
— Falando em gatos, você conheceu o Suflair?
Os olhos dela se iluminaram como ele sabia que aconteceria.
— Sim, ele é lindo! E você finalmente tem um animal de estimação aqui!
— Você pode vir brincar com ele quando estiver com saudade da Panqueca… — ele queria completar com “e de mim”, mas achou que era forçar demais. Não podia mais flertar com ela… Mesmo que já fosse uma segunda natureza na amizade deles. Mesmo sem pretensão nenhuma.
fez que sim com a cabeça, sorrindo.
— Oi, essa cerveja é pra hoj–Ah! — Alex parou na soleira da porta ao vê-los. — Foi mal, não quero interromper nada…
— Você nunca interrompe, irmão! — respondeu bem humorado, indo até ele. — Tudo bom? A gente nem conversou direito…
continuou os observando por um tempo, tentando se resolver com seus conflitos internos. Saber que ela e ainda eram capazes de conversar como sempre era um ponto positivo em ter ido naquele churrasco. Perceber que não se sentia totalmente à vontade quando ele estava com Mika, não… Era algo que ela nem entendia direito.
Mas isso ia passar, não ia? Tinha que passar! Queria aceitá-la na turma como aceitava Jeremy. Como um dia aceitou Morgan, antes dela não ser mais vista como “agregada”. Porque como a amiga, talvez Mikaella permanecesse com eles indefinidamente.
Seu estômago se contraiu ao pensar nisso. Sentiu então uma culpa tremenda ao se dar conta de que estava desejando que Mika não fosse a Morgan de .

**


, qual a sua parte favorita em termos uma segunda casa para fazermos festinhas? — Angie perguntou, do outro sofá.
Era uma sexta a noite, três semanas depois do churrasco, e a turma toda estava na casa de Simon e .
— Não ter que arrumar nada depois que acaba! — A amiga respondeu e as duas deram um high five.
— Concentra, Angie! — Alex falou.
Eles iam jogar Jogo da Vida, mas Morgan tinha esquecido o dela em casa; Banco Imobiliário tinha sido vetado por metade dos presentes, então estavam jogando Imagem & Ação.
Enquanto Simon tentava fazer mímicas para MIB - Homens de Preto, se pegou olhando para Mika, que estava entre as pernas de e com Suflair no colo. Eles pareciam estar juntos há anos!
Pelo menos não estava sendo estranho. A namorada do amigo era muito agradável, era fácil gostar dela. E nem tinha porque ser estranho. Não tinha...
— Você está encarando eles de novo. — Jeremy disse, bem baixinho, perto da orelha dela. A garota abaixou a cabeça e logo em seguida voltou a olhar para Simon.
— Homens de preto! — Mikaella exclamou, acordando Suflair quando deu um gritinho de alegria por ter acertado. se curvou para dar um beijo nela. Casal de propaganda de margarina.
Algumas rodadas depois, as pessoas começavam a perder o interesse a medida que o grau alcoólico aumentava. Andrew e Morgan já tinham ido dormir, eram definitivamente os casados do grupo.
— Jane, daqui meia hora nós vamos, né? — Angie quis saber, checando o relógio. — Vamos só tomar a saideira.
se levantou.
— Boa! Vou querer uma também. Alguém mais quer cerveja? — perguntou ao grupo e foi respondida com 5 dedos para cima. — Ah, que ótimo! — disse rindo, indo até a cozinha.
— Acho que você vai precisar de mais duas mãos… — apareceu atrás dela, tomando a frente para abrir a geladeira. Pelo jeito, dali em diante, eles só se encontrariam sozinhos naquele cômodo.
— Obrigada!
— Está bonita… Vai sair depois daqui? — ele perguntou, a examinando de canto de olho.
corou.
— Não sei, talvez… Jane tem VIPs para a Pandora’s Box.
— Ela parece ser bem legal, que bom que eu fui substituído a altura.
— Sempre um poço de humildade! — a garota rolou os olhos, rindo. — É… Hm… O Simon está saindo com alguém?
tirou os olhos da geladeira e se virou para ela, quase caindo.
— Não… Não que eu saiba, porque?
— Jane acha ele bonito. — ela respondeu, levantando as sobrancelhas.
O rapaz tentou disfarçar o alívio que sentiu.
— Ela vai precisar entrar na fila… Primeiro, porque ele está interessado em você. — falou, analisando com atenção a expressão facial da amiga, mas não conseguindo decifrá-la.
— E segundo, porque a melhor amiga da Mika também está afim dele.
— Uau, Simon!
— Você… Ficaria com ele? — mordeu o lábio inferior, os olhos encarando os dela com ansiedade. Depois pareceu perceber o que estava fazendo e abaixou o rosto. — Porque… Eu disse para a Mika que a prioridade era sua.
Os sinais desencontrados que ele enviava para estavam a deixando com vontade de gritar.
— Não, eu acho que não. — resolveu responder com o que estava sentindo, independente se era ou não o que queria que ela respondesse. — Nada de recomendação para amigos, lembra?
O rapaz sorriu. O sorriso que ela mais gostava.
— Lembro.

Flashback
Era uma noite de sexta-feira, mas e estavam sozinhos em casa. Os dois teriam monitoria no outro dia e não estavam com vontade de dormir pouco e ir de ressaca para uma aula sábado de manhã. A responsabilidade dando as caras aos quarenta e cinco do segundo tempo.
O controle estava em cima da TV e por isso eles assistiam uma comédia romântica qualquer que passava na Warner.
— Ugh! — fez a garota, na cena em que a mocinha de repente percebia que estava apaixonada pelo mocinho, prestes a se mudar de país.
riu.
— Porque você é tão avessa a romances e namoros, afinal? — perguntou, virando o rosto para ela. — Se eu não te conhecesse, iria achar que era um trauma familiar, mas seus pais são casados e felizes há 30 anos!
— Não sou avessa. Acho ótimo, desejo para todo mundo!
— Menos para você… — O garoto respondeu.
Ela deu de ombros.
— Acho que não vim com esse aplicativo instalado. — brincou.
— Claro.
— Eu não sei… Acho que sempre fui assim. Essas coisas são compartimentalizadas na minha cabeça.
— O fato de você dizer “cabeça” e não “coração” já explica muito… — Ele resmungou, fazendo-a rir.
— Para mim, são coisas diferentes. Eu amo meus pais, vocês, a Panqueca, sorvete de pistache... E o amor de vocês me completa. Quando eu estou carente ou querendo algo físico, saio com um cara. E fico feliz e completa de novo… — Olhou para o amigo. — Não sinto que preciso de mais nada dele.
— E o que acontece se um dia um desses caras for divertido, inteligente… Você vai descartá-lo porque ele não é sorvete de pistache?
balançou a cabeça.
— Eu sou hétero, . Homens da nossa idade que sejam divertidos, inteligentes e queiram algo sério não existem…
Ele riu, concordando.
— Justo. Mas olha o Andrew, por exemplo. Se encaixa em todas essas categorias…
A garota achou engraçado que ele não se usasse como exemplo.
— É verdade. Mas conhecer um estatisticamente diminui minha chance de conhecer outro. — respondeu astutamente. adorava o jeito como o cérebro dela funcionava.
— Ok, você tem toda razão!
— E eu tenho você como meu meio termo, de qualquer forma. — falou, se virando para ele, como se o desafiasse a perguntar.
— Meio termo? — Ele franziu a testa.
— Meio inteligente, meio bom de cama… — Explicou, um sorriso diabólico nos lábios.
O rapaz riu alto.
— É assim que você me recomenda para as suas amigas?
Foi a vez dela de franzir a testa.
— Quem disse que eu te recomendo para as minhas amigas?
— E porque não?
Como assim porque não? Era para estar panfletando o amigo por aí?
— Bom, primeiro porque imagina se ela se apaixonasse e eu tivesse que escutar sobre como você não quer nada com nada, sendo que eu sempre soube que você não queria nada com nada? Ou que estranho seria se você largasse uma amiga minha na balada para voltar para casa comigo?
Ele aceitou, fazendo que sim com a cabeça.
— De fato. Sem recomendações para amigos... Não está mais aqui quem falou.
— Pega o controle lá… Esse filme está ruim demais!
O que mais gostava em era como ele nunca tentava se fazer de príncipe encantado. Nem para ela, nem para ninguém. Estava aqui cobrando respostas sobre porque não se apaixonava, mas os dois eram iguais. E era por isso que se davam tão bem. Em todas as situações.
Fim do Flashback

**


vinha do quarto, ainda com os olhos no visor do celular.
— Era minha mãe. Te mandou um beijo! — falou, ao chegar na sala, mas não encontrou o amigo sentado à mesinha de centro, como tinha o deixado quando saiu para atender o telefone. — ?
O garoto colocou a cabeça para dentro.
— Aqui! — estava na sacada do apartamento, fumando.
Ela franziu a testa e foi se juntar a ele no quadrado apertadinho.
— Desde quando você voltou a fumar? — perguntou, torcendo o nariz. Tinha passado anos falando na cabeça dele para convencê-lo a parar.
— Não faz muito tempo... Eu tinha parado por sua causa. — deu de ombros. — Mas me mudei daqui e a gente não… Você sabe. Então...
Ela o encarou sem saber o que dizer.
— Bom, desde que eu não esteja lambendo um cinzeiro, foda-se seu pulmão, né? — disse, com ironia, fazendo-o rir. — Larga essa merda, vai? Por você, não por mim.
rolou os olhos, mas sorria. Eram conversas assim que o faziam sentir falta de passar tempo com ela.
— E a sua mãe? — o rapaz mudou de assunto, apontando com a cabeça para o celular de .
— Tudo bem. Tem um rato na lavanderia… Avisei que não volto para casa enquanto ele estiver morando lá! — os dois riram. — E a sua?
tragou o cigarro e deu um sorriso sereno, de lábios fechados, antes de soltar a fumaça.
— Bem também, por incrível que pareça. Empenhada como eu nunca vi nas aulas de cerâmica. — voltou a encará-la, a estudando, antes de continuar. não gostava quando o amigo fazia isso. Se sentia exposta, vulnerável a uma visão de raio X que só ele tinha. E sempre sabia que em seguida viria algo que geraria uma reação nela. — Estou pensando em levar Mika para conhecê-la.
Oh. Uau. Esperava muitas coisas, mas não esperava isso. Então era sério mesmo… Bom, claro que era, sabia disso. Porque estava tão assustada? Ou abalada?
Fez o possível para soar agradavelmente surpresa.
— Ah é? Acho uma boa… Vocês já estão juntos há o que? Três meses?
— Quase quatro… — ele corrigiu, sem olhá-la nos olhos, e apagou o cigarro no copo que carregava. — Essa casa não tem mais cinzeiro!
— Essa casa não tem fumantes mais. — a garota respondeu, talvez um pouco mais agressiva do que gostaria, entrando na sala. — Nós precisamos continuar. Não fizemos praticamente nada hoje.
Ele a acompanhou para dentro.
Trabalharam em silêncio até Angie surgir, vinda do supermercado.
— Olá, meus queridinhos! Ainda nesse TCC do inferno? Uma tarde linda lá fora e vocês curtindo o sábado assim? — disse, da cozinha.
— Eu aproveitaria o sábado, se a gente não fosse experimentar vestidos de madrinha com a Morgs amanhã… — a lembrou.
Angie se jogou no sofá, atrás deles, com um pacote de M&Ms na mão.
— Ah é! Que saco! — reclamou, jogando a cabeça para trás como se não conseguisse pensar em um jeito pior de passar o domingo. Depois se virou para , chamando a atenção dele com o pé. — Fala com a Mika, ela pode ir com a gente...
O garoto sorriu, mas olhou para antes de responder. Ela levantou os braços.
— Não me olha com essa cara, não! — falou. — Se Mika quiser passar a tarde assistindo a gente experimentar vestido, a companhia dela vai ser um prazer! — percebeu Angie escondendo um risinho debochado, mas não disse nada. — Eu não vou aproveitar que estamos sozinhas para estragar seu namoro contando que fui a última pessoa com quem você transou antes dela, se seu medo é esse.
— Eu sei que você não contaria. E ela sabe que já ficamos.
— Oi?
Ele deu de ombros, como se isso fosse uma informação irrelevante. Roubou uma mãozada do M&Ms de Angie.
— Na noite depois churrasco. Estávamos falando sobre vocês, eu perguntei as impressões dela e ela me perguntou se eu já tinha ficado com uma das duas… Eu disse que sim.
— E o que ela disse? — aquela conversa estava derretendo o cérebro de .
— Mika riu e disse que poderia ter apostado que era você.
— O que isso quer dizer?
— Que eu tenho bom gosto… — Angie se intrometeu, fazendo o amigo rir e atirar uma almofada nela.
— O que significa, ? Porque ela achou que era eu? — repetiu.
Tinha dado na cara que estava incomodada no dia do churrasco? Tinha tratado Mikaella mal? Ou pior, com indiferença?
— Sei lá, ! Eu não fiquei a interrogando sobre isso. Mas Mika não se importou… Riu e mudou de assunto.
— Gosto dela! — Angie falou, sorrindo, e sorriu de volta.
— Ela gosta de vocês também. — ele se virou para , levantando as sobrancelhas. — De vocês duas.
— Eu também gosto dela! — a garota respondeu, como se estivesse se defendendo de uma acusação.
E gostava mesmo, era uma ótima pessoa. A coisa esquisita que sentia, junto com a simpatia por ela, iria passar.
Um dia.
Eventualmente.
O celular de vibrou e ele soltou uma risadinha.
— Falando no diabo… — e começou a juntar suas coisas. — Preciso ir, . A gente continua semana que vem, pode ser? Te ligo lá para quarta-feira combinando.
Ele se despediu das duas e saiu. Angie sorria de lado, enquanto jogava um M&M para cima e pegava com a boca. cerrou os olhos para a amiga.
— O que foi?
— Nada… — a amiga respondeu, ainda com aquele sorriso de quem sabia um segredo. — Nadica de nada!

voltou para seu quarto e se deitou ao lado de Mikaella. A garota se mexeu, sonolenta, e se deitou sobre o peito dele.
— Esqueci de te falar, Angie e vão amanhã com a Morgan escolher vestidos para o casamento. Te convidaram para ir junto, se você quiser…
— Hm… — fez. — Legal da parte delas me convidarem, mas amanhã já combinei de estudar com a Pamella. — ela levantou a cabeça para olhá-lo e sorriu. — Mas agradeça às duas por mim!
— Pode deixar! — ele respondeu, sorrindo de volta, e mexendo no cabelo da namorada. Pensou em algo que queria perguntar a ela desde a sua conversa com naquela tarde.
— Mika, você se incomoda que eu fume?
Ela deu de ombros.
— Não… O pulmão é seu! — brincou.
Sabia que ela só estava tentando ser engraçada, mas a resposta passava bem longe da esperada. O rapaz soltou uma risadinha para não deixá-la sem graça e resolveu não puxar mais nenhum assunto.
A garota deu um beijo de boa noite em seus lábios e se deitou novamente sobre ele. Logo pegou no sono.
continuou acordado, incomodado com algo que não conseguia compreender o que era. Não tinha a convidado para ir conhecer seus pais, mas de repente nem queria mais fazer o convite. Pelo menos por enquanto.
Eles nem se conheciam direito... Quatro meses não eram nada!
O problema parecia ser que tudo no relacionamento era novo para ele. Mikaella era sua primeira namorada, no real sentido da palavra. Quantos meses depois de conhecer alguém você a apresenta para a família? Ou diz “eu te amo”?
Uma nova onda de pânico tomou conta dele. O que faria se ela dissesse “eu te amo”? Ainda não tinha certeza se poderia dizer o mesmo de volta! A amava? Gostava bastante dela, isso era certo, mas qual era a diferença entre gostar bastante e amar? Qual era a unidade de medida?
Suspirou, se sentindo meio derrotado. Coisas subjetivas confundiam sua cabeça “de exatas”.
Mas talvez tudo se resumisse ao seguinte: Se ele não sabia se era amor, então ainda não era.

Flashback
A turma toda estava de volta à cidade natal deles para a comemoração de Bodas de Prata dos pais de Morgan. Se conhecerem desde pequenos significava que seus pais também se conheciam e tinham criado uma amizade.
Andrew e eram os únicos sentados à mesa e assistiam Alex e Angie, perto da banda, dançando a macarena com os avós da Morgan. Andrew então se virou para o amigo.
— Vou pedir Morgs em casamento.
— Mal posso esperar por esse dia, cara! — ele respondeu, não se dando conta do que exatamente o rapaz ao seu lado estava dizendo.
— Não. Não “um dia…”. Eu vou pedí-la em casamento amanhã. Quando voltarmos para casa.
parou com a taça de vinho a meio caminho da boca.
— Como? Amanhã?
— Eu não tenho porque esperar! Nós dois terminamos nossos cursos e temos um emprego. — começou a contar nos dedos. — Moramos juntos, namoramos desde os 14 anos e nossas famílias já são praticamente uma!
Olhando por esse lado…
— É, apesar de vocês serem novos, vocês se conhecem desde sempre. — ponderou, e então olhou para o amigo com um olho meio fechado. — Mas você não tem medo de que um de vocês descubra outra pessoa mais para frente? Ou tenha uma daquelas crises “eu não me conheço sem você” ou “nós nunca aproveitamos a vida solteiros”?
Andrew riu.
— Fazendo o papel de advogado do diabo?
Ele deu de ombros.
— Alguém tem que fazer...
— Descobrir outra pessoa é um risco que existe para qualquer casal, não importa quanto tempo eles se conheçam ou quantos anos tenham. Não posso deixar de pedir a mulher da minha vida nos últimos 10 anos em casamento com medo disso. — explicou. — O mesmo para as crises. Não posso garantir que elas não vão existir, mas espero que nós dois saibamos lidar. Juntos. Mas hoje, agora, eu sei que é ela e que não quero nada além disso. E espero que Morgan sinta o mesmo.
sorriu e apertou o ombro do amigo. Em nenhum momento realmente havia duvidado do que ele sentia, mas era bom confirmar que Andrew tinha maturidade para o passo que estava dando. Afinal, não podia dizer o mesmo de si próprio.
— Eu queria ter essa certeza sobre alguma coisa na minha vida. Deve ser maneiro! — divagou, com ar de riso. — Como você sabe se ama alguém o suficiente, de qualquer forma? — seus olhos vagaram pelo salão e encontraram . Ela estava conversando com a mãe dele em uma mesa mais a frente, fazendo-o sorrir. — Se bem que você conhece o amor da sua vida desde os 14 anos, então…
Andrew seguiu os olhos do amigo e balançou a cabeça. Achou melhor não comentar que achava que conhecia a dele desde os 9.
— Você e ainda estão nessa de amigos com benefícios?
— Não é tão pervertido quanto parece. A gente age mais puramente como amigos do que faz sexo.
— E vocês sabem que não vão se apaixonar por ninguém além de vocês mesmos fazendo isso, né? — Andrew perguntou. — Ou um dos dois vai sair machucado.
deu um risadinha e soltou um “pffff” debochado.
— Com todo o respeito, irmão, não somos você e a Morgan. Não é tão complicado assim. Ninguém vai se apaixonar... Ninguém vai quebrar o coração de ninguém.
levantou a cabeça e os viu. Franziu a testa e balbuciou “O que?” ao perceber que estava sendo observada. Os dois riram e responderam “Nada”.
— Vocês, jovens, é quem sabem… — Andrew brincou, por fim. — Você vai ser meu padrinho, né?
— Na delirante possibilidade da Morgan aceitar?
O amigo riu.
— Isso! Se a Morgan surpreendentemente aceitar… Você vai ser meu padrinho?
— Com toda a certeza do mundo. Vou organizar a melhor despedida de solteiro que já existiu! — disse, parecendo mais animado do que esteve durante a conversa toda.
Foi a vez de Andrew soltar um “pffff”. Se levantou e olhou em volta, procurando a futura noiva.
— Eu mal posso esperar pelo dia que você vai aparecer completamente de quatro por uma garota. — falou, dando um tapinha amigável nas costas do amigo.
— Eu esperaria sentado! — ele respondeu, bem humorado.
Seus olhos dançaram de volta para . Ela estava mais uma vez absorta em uma conversa com a mãe dele, uma segurando a mão da outra sobre a mesa. Seu subconsciente imediatamente as imaginou como sogra e nora. Sua mãe iria adorar, sem dúvidas!
E era bem verdade que colocava a barra de seus padrões de namorada lá em cima. Tão alto que talvez só ela mesma pudesse alcançar.
Contudo, isso só seria um problema quando ele decidisse procurar por uma.
SE um dia ele decidisse procurar por uma.
Altamente improvável…
Fim do Flashback

**


passava um fim de semana na casa de seus pais, o mesmo que tinha planejado trazer a namorada para conhecê-los. Apesar de ter decidido não fazer a apresentação formal, resolveu ir visitá-los de qualquer forma, passar tempo com a mãe. No fim, achava que tinha tomado a melhor opção, porque em casa podia estudar para as provas e se dedicar ao seu TCC. Sem os amigos ou Mika na cidade, não havia distrações.
Estava trabalhando no sofá da sala quando percebeu alguém parado na soleira da porta.
— Que concentrado! — zombou e ele levantou a cabeça, surpreso.
— Hey! — o mais esquisito era que o garoto estava pensando nela naquele exato momento. — Ia te mandar um email agora mesmo sobre o TCC. Está fazendo o que aqui?
Ela andou na direção dele e se sentou ao seu lado.
— Vim visitar meus pais também. Aí passei aqui para dar um “oi” para a sua mãe e ela me disse que você tinha vindo. — engoliu a estranheza que era os dois andarem tão distantes que não haviam conversado sobre virem no mesmo fim de semana, e não comentou sobre isso. Sabia, porém, que devia estar sentindo o mesmo, porque ele sorria como quem pede desculpas. — Achei que Mika viria com você.
— Não. Eu… Achei melhor esperar um pouco… — contou, dando de ombros, sem maiores detalhes.
sentiu vontade de sorrir, mas sabia que não deveria e só concordou com a cabeça. Decidiu mudar de assunto.
— Mas o que você ia me mandar por email?
— A última parte da introdução que escrevi. Você é muito melhor nessas coisas de revisão bibliográfica e citações… — se virou para ela, encarando-a. — Você está ocupada? Quer ler?
sorriu e pegou o laptop do colo dele, se ajeitando até ficar confortável no sofá.
— Tenho todo o tempo do mundo!

— É muito tarde? Para dizer que eu sou apaixonada por você?
— Eu teria te esperado pelo resto da vida…

se mexeu desconfortável no sofá.
— Porque sempre que a gente está assistindo TV junto, tem uma comédia romântica tosca passando? — perguntou. Os dois tinham terminado com o TCC, mas ela ainda estava na casa de .
Ele riu e passou o braço pelo encosto do sofá, sobre a amiga.
— Acho que seu ceticismo atrai. — zombou. — Esse nem é a pior que a gente já viu!
riu e depois de pensar alguns segundos sobre a posição em que estavam sentados, se encostou no rapaz. Se deu conta, ao fazer isso, de quanto tempo não ficavam assim, quanto tempo vinha evitando qualquer contato físico com . E só então percebeu como sentia falta daquilo. Dele. O cheiro do desodorante, como ele sempre parecia estar 10°C mais quente, a voz e a risada reverberando tão próximo ao ouvido dela e os dedos longos dele tamborilando a música que estava tocando na TV em seu ombro. Se sentiu culpada por querer chegar mais perto.
Por querer mais, de um modo geral.
tirou o braço do sofá para abraçá-la, um pouco incerto sobre o que fazer com a mão sobre o ombro da amiga. Como costumava agir quando se sentavam assim? Parecia ter se passado anos desde a última vez que assistiram um filme juntos ou só ficaram de bobeira. Sorriu inconscientemente ao sentir o peso da cabeça dela em seu ombro e tronco. O cheiro do shampoo, a mão gelada que ela apoiava nele só para irritá-lo e o som da risada dela, assim tão de perto, traziam uma sensação familiar. Um tipo simples de alegria.
Era difícil admitir aquilo, porque havia muitas implicações, mas sentia saudades de . Sim, era verdade que eles ainda se viam com frequência, estavam fazendo um TCC juntos! Mas agora era como ter a versão limitada da amizade premium que tinham antes. E ele tentava de qualquer maneira não pensar demais sobre isso. “Se concentra no filme. Muda de canal. Puxa um assunto. Fala sobre o Suflair.”
Porque pensar demais trazia sentimentos mal resolvidos a tona que não deviam nem um dia ter existido.

Flashback
tinha tirado dois dentes do siso fazia três dias e por isso estava de molho, dormindo no sofá da sala. Acordou sentindo um beijo na testa e alguém levantando seu tronco para se sentar embaixo dela.
— Está melhor? — perguntou, examinando-a. — Sua bochecha já está voltando ao normal.
— Ainda dói, mas menos do que o dia da operação. Único problema é que estou ficando meio enjoada de sorvete…
Ele fez uma cara de decepção.
— Ah não!
— Ah não o que?
— Eu te trouxe um potão de sorvete! De pistache.
sorriu, se sentando.
— Por você eu faço esse sacrifício! — ironizou. — Como estava o churrasco? O que eu perdi?
Era domingo a tarde e ela tinha sido a única da casa a não ir à república do rapaz com quem Angie estava ficando.
— Nada de importante… Angie estava feliz e Roger é legal. Ah! E Alex estava conversando com aquele cara da sala dele, como era mesmo o nome? Aquele com quem ele sempre quis ficar e os dois nunca estavam solteiros na mesma época?
— Jeremy?
— Isso!
A novidade pareceu animá-la.
— Até que enfim! Mal posso esperar para ouvir Alex contando como foi. — Então cutucou o amigo nas costelas. — E você? Porque voltou para casa tão cedo?
— Para ficar com você… — ele respondeu, como se fosse óbvio.
tombou a cabeça para o lado sorrindo mais abertamente.
— Aaawn! — fez e se aproximou, fazendo carinho na bochecha dele. — E ainda trouxe sorvete? O que eu fiz para merecer você, hein? Eu te amo tanto!
a encarou. Sabia que ela estava só exagerando no agradecimento e sendo afetuosa, mas desde a festa dos pais de Morgan e a conversa com Andrew, vinha tendo essas ondas de sentimentos que não sabia distinguir. Como se tivesse recebido todas as peças de um quebra cabeças para montar, sem saber qual deveria ser a imagem final.
Quando tirou a mão de seu rosto, ele inclinou a cabeça na direção dela. Queria beijá-la só por beijar, só para estar com ela… Sem maiores intenções, ou melhor, com intenções diferentes das que tinha antes. A amiga, porém, se moveu para trás e riu.
— Eu tomei remédio e estou meio grogue ainda. — explicou. — Acho que precisaremos suspender as atividades até minha boca sarar.
O garoto voltou a se sentar direito, sem jeito. Torceu para não estar corando.
— É claro, me desculpa!
— Não por isso. — respondeu, dando um beijo no rosto dele e se levantando para ir à cozinha.
passou o braço pelo encosto do sofá e com a outra mão desarrumou o cabelo, perdido em pensamentos. Não gostava de ambiguidades, de não saber nem colocar em palavras o que estava pensando.
voltou com o pote de sorvete e duas colheres. Se sentou encostada nele e lhe entregou um dos talheres.
— Você está quentinho! — comentou. Ele sempre estava quentinho.
O garoto tirou o braço do sofá e a abraçou, enquanto aceitava a colherada de sorvete que a amiga estava oferecendo.
— E você está gelada! Tem certeza que devia estar tomando sorvete?
riu, colocando a mão que segurava o pote de sorvete, e estava semi-congelada, na coxa dele. puxou a perna, soltando um palavrão baixinho e a divertindo.
— Mas e aí? Seu aniversário é semana que vem. O que quer fazer? — a garota perguntou.
— Qualquer coisa. — ele deu de ombros. — Não importa o que eu quero, Angie vai planejar algo por ela mesma... Que provavelmente vai nos render uma advertência com os vizinhos.
gargalhou. Ele estava completamente certo.
— Angelica Owen, senhoras e senhores!
Os dois continuaram dividindo o sorvete, conversando e assistindo TV. Quando o pote chegou ao fim, se ofereceu para levá-lo na cozinha e voltou com um cobertor, que abriu sobre os dois.
— E ainda me perguntam porque eu não quero um namorado… Quem precisa de um? — brincou, voltando a se aconchegar perto do amigo, o abraçando e descansando uma das mãos no peito dele.
riu, mas não respondeu. Tamborilou a música que vinha da TV no ombro dela distraidamente.
Ele e já estavam há mais de dois anos nesse tipo particular de relacionamento e não tinha existido nenhuma dúvida ou confusão até então. Porque aquilo agora, afinal?
Mas, depois de todo esse tempo, o rapaz já não tinha mais certeza se queria ficar com outras pessoas. De repente ele se via questionando o que as outras garotas acrescentavam na vida dele? Ou ele na delas, já que nunca se comprometia, nunca se esforçava. Por outro lado, gostava de estar com , gostava de tudo sobre ela. E sobre os dois.
Conseguia enxergar Angie dizendo “Eu avisei!”, indiferente, sem nem tirar os olhos do livro que lia. Ou Andrew rindo se ele contasse que achava que podia estar se apaixonando. Nem sabia se era isso mesmo que estava acontecendo, mas parecia a justificativa mais aceitável para o jeito como seu estômago se contorcia sob o toque da mão dela naquele momento.
O único problema: Era um sentimento não correspondido. seguia tranquila na sua vida de amar seus pais, seus amigos e sorvete de pistache. Ele nem precisava perguntá-la sobre isso para saber que sua opinião sobre namoro não havia mudado.
O máximo que podia fazer era esperar. Esperar que um dia ela estivesse pronta, que também tivesse esse momento “eureka” e que fosse sobre e mais ninguém.
Podia render o melhor tipo de história de amor ou a expectativa mais frustrada de que se tem notícia. Era tão difícil calcular as probabilidades que o rapaz resolveu deixar para lá.
Fim do Flashback

checou as horas no celular e se desencostou do sofá e do rapaz, virando-se para olhá-lo.
— Preciso ir embora, minha mãe vai achar que eu fui sequestrada.
riu e fez que sim com a cabeça, se levantando e a acompanhando até a porta.
— A gente se fala essa semana. — ele falou enquanto a abraçava. — Sobre o TCC e como vamos para a casa do Andrew e da Morgan no fim de semana que vem.
— Angie já disse que vai de carro, se você quiser uma carona.
— Depende se eu não precisar dar monitoria no sábado de manhã… Mas a gente vai combinando.
A amiga sorriu e, quando já estava do lado de fora, ouviu alguém chamá-la.
? Achei que você fosse ficar para o jantar?
Era o pai de , que se juntou a ele na porta.
— Obrigada, Mr. ! Mas tenho que ir, nem disse para a minha mãe onde estava indo quando saí. — respondeu, sorrindo.
— Tudo bem então. Mas você precisa voltar logo!
— Eu prometo! — falou e acenou para os dois.
Assim que ela desapareceu de vista e fechou a porta, encontrou o pai sorrindo de um jeito satisfeito.
— Eu falei para a sua mãe! Sempre soube que vocês iam acabar assim, desde que eram dois adolescentes chatos!
O rapaz franziu a testa. Primeiro porque “acabar assim”? E segundo porque nenhum dos seus pais sabiam do beijo deles no ensino médio e muito menos da amizade especial que cultivaram durante a faculdade. Do que ele estava falando?
— Acabar assim como, pai? Fazendo dupla para o TCC?
— Namorando! — Mr. respondeu, animado. — Você não disse que ia trazer sua namorada para casa esse fim de semana? Como se a precisasse ser apresentada formalmente por aqui! — zombou.
tinha se esquecido completamente que tinha comentado isso com ele, quando teve a ideia. Passou a mão pela testa, exasperado.
— Eu disse, mas… não é minha namorada. — explicou, sem olhá-lo nos olhos. — Mika, Mikaella, minha namorada… Ela… Eu acabei não falando com ela.
— Ah… — o pai disse, parecendo desapontado. E sem graça. — Poxa, eu…
— O que o senhor quis dizer com “sempre soube”?
Ele deu uma risadinha.
— Vocês sempre foram grudados de um jeito diferente do resto da turma, sempre combinaram mais. Eu não sei explicar… Sua mãe também já reparou, você olha para ela como se não existisse ninguém mais interessante no mundo. E ela... — mas ao perceber o impacto de suas palavras no filho, resolveu levar a conversa para outro rumo. — Eu tenho certeza que você também olha assim para a… Como é mesmo? Mikaella?
— Isso. — respondeu, um pouco atordoado. — Eu gosto muito dela. Da Mika, eu digo. — falou, talvez afirmando mais para si mesmo do que para o pai.
Mr. sorriu, apertando o ombro dele.
— Eu acredito, filho. Ela deve ser uma pessoa fantástica e uma garota de sorte também!
fez que sim com a cabeça, mas não respondeu.
Mikaella era fantástica, com certeza. Mas sortuda por namorá-lo? Ele teria que se esforçar mais para fazer dessa afirmação uma verdade.

**


Faltava um mês para o casamento de Andrew e Morgan e a turma estava reunida na casa dos dois para conversarem sobre a cerimônia.
— Nós não escolhemos muitos padrinhos. Basicamente só vocês e nossos pais. e seriam um par, Angie e Jeremy e Alex vai entrar com a Gillian… — ela contou, lendo o caderninho onde vinha organizando o casamento.
se mexeu no sofá, parecendo incomodada. Morgan não estava ciente de que Mikaella sabia sobre ela e o amigo. Como a garota também estaria presente, acreditava que seria melhor se não entrassem juntos.
— Erm… Tem certeza, Morgs? Eu poderia trocar com a Angie e…
A amiga levantou a cabeça, franzindo a testa.
— Não, não… Você ficaria mais alta que o Jeremy de salto.
— Eu acho que seria melhor se eu fosse madrinha com o Alex, então. Não quero criar um mal estar com a Mika, já que ela não vai entrar com o . Além disso, ela sabe que nós...
— Ah… — Morgan soltou, olhando para o amigo. O rapaz balançou a cabeça.
— Mika tem noção de que conhece os noivos há quatro meses e você há 11 anos, ! Eu sei porque você acha que pode ser um problema, mas Mika não é idiota de criar um climão no casamento de alguém que não tem nada a ver com isso! E nem tem motivo para existir mal estar nenhum.
A amiga se sentiu atacada pelo tom dele. Engoliu em seco, tentando manter sua voz estável. Talvez tivesse imaginado a grosseria. Um efeito do vai e vem de sentimentos que vinha experimentando e que a deixava mais sensível àquele assunto.
— Façam como quiser. — deu de ombros, olhando para os noivos e tentando sorrir. — O que vocês decidirem, para mim está ótimo.
abaixou a cabeça, se arrependendo de como havia falado com ela. Porque tinha se colocado tão na defensiva? Era a possibilidade de que houvesse de fato um mal estar se eles entrassem juntos? Medo de que Mika também reparasse que eles “combinavam mais”, como seu pai tinha descrito?
pode ir com a Gillian. — Angie tentou. — Sua irmã terminou com o namorado dela, nao terminou, Morgs? Acho que vai ser drama free.
Morgan fez que sim com a cabeça, olhando grata para a amiga, e escrevendo algo em seu caderninho.
— Isso, ótimo! , você entra com a Gillian. e Alex, Angie e Jeremy. — a noiva falou, se virando para a sala, que agora parecia um velório. — Todos… Todos de acordo?
Silêncio.
— Sim. Próximo tópico. — Alex sugeriu por fim, olhando ao redor da sala com os olhos arregalados. Era provavelmente a pessoa menos investida no “relacionamento” dos dois amigos. Não costumava fazer muitas perguntas.
— Nós trouxemos docinhos da degustação… Alguém servido? — Andrew ofereceu, tentando mudar o humor do cômodo. Em vão.
O clima pesado continuou por toda a reunião e foi quase um alívio quando eles se despediram dos futuros noivos e Alex, que ficaria o resto do fim de semana com o irmão e a cunhada.
caminhava de cabeça baixa em direção ao carro de Angie e ia para o seu. Pelo menos tinham ido em dois carros e não precisariam se aturar por mais 2h.
O rapaz estava indo abraçar Angie, mas ela colocou a mão na frente dele, impedindo seu movimento.
— Não, chega vocês dois!
Os dois a olharam, assustados.
— Angie… — O garoto começou.
— Não! , você volta com o . Nós somos amigos há mais de 10 anos, caralho! Conversem como adultos e resolvam isso!
A amiga se apressou para entrar no automóvel e deixou e plantados na calçada. O rapaz suspirou e saiu em direção ao próprio carro.
— Vamos, então.

Fazia quarenta minutos que estavam na estrada e não haviam trocado uma palavra. O rádio tocava uma playlist do Spotify de , da qual sabia até a ordem das músicas e se dar conta disso a irritou. Soltou a respiração pesadamente pela quinta vez, enquanto observava o Sol se pôr do seu lado da estrada.
— Me desculpa. Por ter gritado com você. — disse, quebrando o silêncio. — Eu… Entendo que você só estava querendo evitar um possível constrangimento.
— Mika sabe que temos história. Eu não queria que ela pensasse que a gente tinha sido colocado junto de propósito e não simplesmente porque eu sou mais alta que o Jeremy quando uso salto. — desabafou. O garoto sentiu uma pontada no coração ao perceber o quanto ela estava chateada.
— Eu entendo o que você quis dizer. — ele falou, como quem pede desculpas. — E ela não sabe que temos história. Só acha que ficamos uma vez muito tempo atrás. Eu nunca… Nunca contei a verdade. — confessou. — Mas eu percebo agora que você não sabia disso e achava que Mika… Enfim, podia te ver como uma ex. Me desculpa. — repetiu.
— Bom, você podia ter me explicado isso antes, né? Até onde eu sabia, por mais evoluída e madura que Mikaella seja, ainda seria estranho ver seu namorado de braço dado com alguém que transava com ele regularmente um mês antes de vocês se conhecerem.
— Não é só isso… — se ajeitou no banco, apertando os dedos no volante. se virou para olhá-lo. Ele limpou a garganta antes de continuar. — Eu… Estava em um lugar confuso na nossa… Amizade colorida… Quando a conheci.
A garota franziu a testa. Do que ele estava falando?
— Confuso como?
fez que não com a cabeça antes de responder.
— Você se lembra… Da minha festa de aniversário?

Flashback
— Ainda tem pessoas aqui, … — sussurrou, rindo, enquanto era puxada para dentro do próprio quarto.
— Elas já deviam ter ido embora! — Ele respondeu, encostando-a na porta fechada e a beijando. As coisas entre eles nunca tinham essa urgência. Nunca precisavam ter, era despretensioso demais para isso. Mas não questionou e o beijou de volta, as mãos firmes no cabelo do rapaz.
Quando partiram o beijo, ela voltou a sorrir… Ainda estranhando aquele ímpeto todo.
— Nós devíamos estar lá fora recepcionando as pessoas. — disse, sem realmente empurrá-lo ou se mover.
— Angie pode fazer isso.
— É o seu aniversário! Judy está aí! Provavelmente esperando a vez dela de ser jogada na parede e chamada de lagartixa. — falou, levantando as sobrancelhas e tentando prender o riso.
Mas ele não queria ficar com Judy. Com mais ninguém, para ser mais exato. Era seu aniversário e ele só queria passar aquela noite com .
— Eu não poderia ligar menos para quem está ou não está atrás dessa porta. — Afirmou, olhando-a com intensidade. Sua voz baixa ficava mais grave que o normal e o jeito como pronunciou as palavras devagar, dando ênfase em cada uma delas, foi o suficiente para fazer as pernas dela fraquejarem.
não estava rindo mais. Estava envolta pelo calor que emanava da pele dele, consumida pelo fogo em seus olhos. Contornou o maxilar do rapaz com os dedos, parando em seus lábios perfeitos. Estava tão acostumada a vê-lo todo dia, que às vezes se esquecia que “meros mortais” não tinham aquela aparência. O rosto, o cabelo, o corpo todo...
— Você é tão lindo! — soltou, arrebatada no momento, o álcool certamente falando mais alto.
Sem piscar ou tirar os olhos dela, a desencostou da porta e a conduziu até o meio do quarto, na beirada da cama.
Você é linda, . Você é tudo que eu... — começou, mas se distraiu abrindo o zíper lateral do vestido dela. Quando a peça de roupa caiu no chão, ele passou alguns segundos admirando-a. — Eu… Eu não…
riu e cobriu os olhos dele com as mãos.
— Para, estou ficando com vergonha!
riu também e pegou a mão da garota, destampando seus olhos e passando o braço dela pelo próprio pescoço. deu um passo à frente e se encostou nele.
— Bom, agora se você não me jogar na parede e me chamar de lagartixa, eu é que vou ficar um pouco decepcionada. — ela disse baixo, perto do ouvido dele, provocando-o.
O rapaz mordeu o lábio inferior, fechando os olhos. Segurou a parte posterior da coxa dela, trazendo-a para cima. Deu dois passos para a frente, mas pensou melhor, voltou e a colocou em cima da cama, deitando-se por cima dela.
— Eu estou um pouco bêbado para transar em pé. — confessou, fazendo-a gargalhar.
— Tudo bem, eu acho que eu também.
— Ótimo! — exclamou, beijando-a mais uma vez.
O garoto ficou de joelhos na cama e tirou a própria camiseta. Quando voltou a se abaixar sobre ela, estava sorrindo. A amiga levantou uma das mãos e passou os dedos pelos cachos do cabelo dele que caiam na testa, empurrando-os para longe de seus olhos. ficou em silêncio sentindo o toque suave em sua pele e observando o rosto dela tão perto do seu. As palavras que vinha evitando agora subiam de seu peito até sua garganta. Irrefreáveis.
A mão dela desceu de seu rosto, passando pelo pescoço e tórax. Quando estava chegando ao cós da calça, o rapaz a interrompeu.
— Calma, eu preciso te falar uma coisa. — ele ergueu o tronco e se apoiou nos cotovelos, a fim de olhá-la nos olhos.
— Ah não! Você está grávido! — respondeu, rindo. quis sorrir também, mas se segurou. Sabia que não era o melhor momento para falar algo sério, mas não podia voltar atrás.
— Não, , me escuta… É… — ele a encarou de novo. — Vamos fazer um pacto? De que quando a gente se apaixonar… Vai ser um pelo outro. — ele ergueu as sobrancelhas. Será que estava fazendo algum sentido? Não queria que a amiga se comprometesse agora, sabia que seria pedir demais. Mas desejava pelo menos ser a pessoa em mente, quando o momento chegasse. — Eu prometo não me apaixonar por mais ninguém. — nem se ele tentasse... — Você promete?
a observava com expectativa, mas a resposta nunca veio. puxou o rosto dele para baixo e o beijou, enquanto suas pernas o abraçavam na altura do quadril. Não haveria mais nenhum grande diálogo entre os dois pelo resto da noite. Ele teria que lidar com a decepção na manhã seguinte. Uma decepção maior do que esperava.

se virou na cama, mas não encontrou ninguém por ali. Será que já tinha ido para o quarto dele?
Se sentou e se espreguiçou, pensando no desastre que o resto da casa devia estar depois da festa e como seria horrível ter que fazer faxina de ressaca, quando a porta se abriu e o rapaz entrou carregando uma bandeja de café da manhã.
— Bom dia! — ele disse feliz.
— Bom dia! Porque eu estou ganhando café na cama se o aniversário é seu? — perguntou confusa, enquanto coçava os olhos.
riu, colocando a bandeja sobre ela e se sentando ao seu lado.
— Nenhum motivo especial, queria fazer algo para você…
Ele estava sorridente. Os olhos brilhando de um jeito bonito, reparou. Tomou um gole de café e pegou uma rosquinha.
— Bom, muito obrigada de qualquer modo! Assim vou ficar mal acostumada.
O garoto deu de ombros, como se não fosse nada, e continuou a observando. O cabelo bagunçado, mesmo de onde estava sentado podia sentir o cheiro do shampoo dela que adorava… Sem pensar muito, deu um beijo bem de leve no pescoço de . Sorriu ao observar o arrepio se espalhar pela pele dela… Como a agitação na superfície da água, depois de se jogar uma pedra em um lago. Se pegou sentindo coisas que nunca tinha sentido antes, ou talvez nunca tivesse se deixado sentir. Era maravilhoso e apavorante. Ela não havia respondido na noite anterior, mas talvez nem tivesse escutado ou entendido direito. Agora que estavam sóbrios, ele voltaria ao assunto de serem um casal de verdade um dia. Aquilo entre os dois podia funcionar, não podia?
Quando terminou o café, se levantou e foi até o banheiro. Se surpreendeu ao encontrar ainda deitado em sua cama quando voltou. Ele normalmente acordava e seguia com a vida, como se nada tivesse acontecido. Às vezes os dois até tomavam café juntos, mas na cozinha.
— Com preguiça de levantar? — ela indagou, chamando a atenção dele. — Não te julgo, a sala está uma zona! Já estou sofrendo por antecipação pensando em limpar!
O rapaz riu e estendeu a mão para que a amiga se deitasse ao lado dele.
— Deixa a Angie acordar primeiro. Afinal, a festa aqui em casa foi ideia dela... — respondeu, fazendo-a rir também.
— Bem pensado!
Então ficaram calados, deitados um de frente para o outro se encarando. O coração de acelerou de repente e ela se lembrou da noite anterior, de como havia sido… Diferente. Como estava diferente.
— No que você está pensando? — ele quis saber.
— Seus olhos ficam mais claros na luz do dia… — disse. sorriu daquela maneira bonitinha que usava o rosto todo. — E você?
Ele não respondeu. Em vez disso a abraçou, trazendo-a mais para perto, e a beijou. se supreendeu não pelo ato em si, mas pelo jeito como estava sendo beijada. Parecia mais um gesto de afeto do que preliminares. Algo que se sustentava por si só, independente do que viria, ou não, depois. E realmente, quando se separaram, ele não tentou tirar sua roupa. Apenas distribuiu beijos pelo rosto dela todo, sorrindo daquele jeito que estava sorrindo desde a hora que o vira.
— Nós devíamos perguntar mais vezes um para o outro no que estamos pensando. — brincou, fazendo-o rir. voltou a abraçá-la e deu um beijo em seus cabelos.
Ficaram assim por um tempo, até que voltassem a dormir.
Ao abrir os olhos novamente, ainda estava emaranhada no rapaz. Deitada de costas para ele, o braço de passava por cima dela e as mãos dos dois estavam entrelaçadas. Podia sentir o rosto dele descansando em seu pescoço. Involuntariamente sorriu, mas então pareceu enxergar a cena de fora. Como se aquele casal deitado na cama bagunçada fosse uma foto em seu Pinterest. Um casal real. Que estava junto há anos, com certeza. Franziu a testa e se desvencilhou, quase caindo da cama e o acordando.
, o que houve?
— Ahn? Não, está tudo ok. Eu… Eu preciso ir ao banheiro.
Quase correu para fora do quarto.
Ali no corredor, longe do amigo, foi se acalmando e quase rindo da própria mente. Casal… Que ideia ridícula! Era , seu melhor amigo e parceiro de sexo solidário. Nada além disso.
Quando voltou, era ele quem estava sentado na cama, ainda parecendo preocupado.
— Tem certeza que está tudo bem? — ele perguntou.
— Tenho sim. Só estava apertada. — mentiu, mas continuou perto da porta, longe do alcance das mãos e dos poderes persuasivos do garoto. — E você? O que você tem? Está… Agindo de um modo estranho a manhã toda.
Seus olhos grandes e indagadores a escanearam, do modo como ele costumava fazer quando a examinava de dentro para fora.
— Estranho como?
— Café na cama, carinho, dormir de conchinha… Está parecendo um romântico cafona! — ela disse, com escárnio.
sentiu seus ombros encolherem. Assim como sua esperança.
— Algo errado nisso? Eu pensei que…
Mas foi interrompido pela aproximação dela, que se sentou na cama e deu um empurrãozinho brincalhão no amigo.
— Estamos parecendo um casal de namorados, credo… — debochou.
A bolha em que estavam se estourou e de repente se deu conta de que aquela ali era . Sua melhor amiga, . E ela nunca se apaixonava, porque não acreditava nesse tipo de amor. Suas tentativas seriam em vão e ele acabaria a perdendo se a pressionasse.
Se sentiu acordando de um transe e quase saltou da cama, a pegando de surpresa.
— O que houve? — dessa vez, a pergunta vinha dela.
— Nada. — o rapaz estava se vestindo. — Vou começar a limpar lá fora… A cozinha está nojenta.
franziu a testa.
— Angie não acordou ainda.
Mas já estava na porta.
— Eu… Vou acordá-la. Até daqui a pouco.
E então a garota ficou sozinha, e meio perdida, no quarto. A manhã toda havia sido tão surreal! Será que estava sonhando? Só poderia ser. De repente estava dentro de um daqueles filmes clichês que odiava, vendo e imaginando coisas que não estavam ali.
Naquele momento, não ligou as ações de ao acordo que ele havia sugerido na noite anterior. Talvez nem se lembrasse de sua existência.
Mas a lembrança viria. E, quando chegasse, a assombraria por dias e dias, por semanas… Faria se arrepender de tê-la esquecido.
Fim do Flashback

estava estática.
— Não, , não! Você nunca me disse isso! O jeito como você falou naquele dia foi como se fosse uma coisa no futuro! Um "se estivermos solteiros com 40 anos, a gente se casa!". — ela disse, exasperada, a justificativa que vinha repetindo para si mesma. Não queria dar o braço a torcer de que tinha mesmo desencadeado tudo o que acontecera depois daquilo.
— Que diferença faz? Você não queria namorar, . Sempre foi clara sobre isso. Na manhã seguinte do meu aniversário, você tirou sarro do café na cama, se esquivou quando eu tentei ser carinhoso... E você estava no seu direito, eu é que estava forçando a barra. Você sempre deixou claro o seu propósito, eu não podia te cobrar mais do que a gente tinha combinado desde o começo... Não era justo. — ele a olhou de canto do olho. — Mas eu estava começando a gostar de você e aquilo foi um choque de realidade de que eu ia acabar me machucando se a gente continuasse…
Ela se lembrava daquela manhã. Devia ter desconfiado da mudança de humor de , mas a verdade é que na hora nem pensou muito sobre aquilo.
— Me desculpa por ter feito pouco caso da sua tentativa de me mostrar como estava se sentindo. Você devia ter me contado, dito com todas as letras.
— Agora tanto faz... — ele falou, dando de ombros. sentiu vontade de chorar. — Você não sentia o mesmo e eu comecei a namorar a Mika um tempo depois. — balançou a cabeça. — A gente nem tinha que estar conversando sobre isso. Mas eu devo ter dito a ela em um dos nossos primeiros encontros que estava gostando de alguém e, por isso, nunca contei muito sobre eu e você. O contexto dessa confissão era só esse… Não era para você se sentir culpada por ter me dado um pseudo-pé na bunda. Já passou! — brincou.
tirou uma das mãos do volante e apertou a mão dela, sorrindo. forçou um sorriso e voltou a olhar pela janela.
Pelo menos finalmente tinha a resposta da questão que martelava em sua cabeça desde que o rapaz havia se mudado de casa. Sim, o princípio de tudo era a promessa que não respondera.
Ela só precisava ter dito que sim. Teve vontade de chorar mais uma vez.
— Você vai ficar em casa? — o garoto perguntou, um tempo depois, e se virou para ela. — Na sua casa, quero dizer.
— Na minha casa, isso.
— E está com a chave? Perdi o carro da Angie de vista, não sei se ela está indo para lá.
— Estou sim. Nunca saio dependendo da “Senhorita Deu na Telha”.
tinha inventado essa apelido e riu ao ouví-lo de novo. Mas sua risada soava estranha naquele ambiente, ainda parecia triste.
Ele queria reverter o clima no carro que havia causado. Voltar no tempo até a casa de Andrew e Morgan naquela tarde e retirar o que havia dito. Dessa forma não teria a magoado e depois confessado que tinha começado a gostar dela meses atrás.
Aquele dia todo parecia um erro.
— Vai sair mais tarde? — tentou puxar assunto.
Algo acendeu em . Isso! Era isso que precisava! Sair, beber, dançar, ver gente… Parar de ser consumida por esses pensamentos.
Antes de responder, pegou o celular e mandou uma mensagem para Jane.
— Acho que sim. — falou. Quis convidá-lo, mas talvez fosse atrapalhar todo o plano. Seria melhor se não o visse mais naquele fim de semana. Ou mesmo na próxima semana... Podiam discutir o TCC por email.
Quando chegaram, segurou sua mão uma última vez, antes que a amiga saísse do carro.
— Estamos bem? — perguntou, sorrindo. O sorriso que ela amava, que a fazia derreter como um sorvete no sol.
sorriu também.
— Nós sempre estamos.
E como ela queria que aquilo fosse a verdade!

O dia anterior voltou para a cabeça de em flashes. A casa de Andrew e Morgan, , a conversa no carro de , Jane e seus VIPs para a Pandora’s Box, shots de tequila, “, esse é o Russell”, shots de tequila, Russell, vodca e algo que devia ser refrigerante ou energético, um segurança os expulsando da casa noturna que estava fechando, o banco de trás do Uber com Russell… ela e Russell pelo quarto todo.
Quando abriu os olhos, o teto ainda rodava… E o novo conhecido dormia ao seu lado. Se virou para olhá-lo e não sentiu nada, além dos sintomas de ressaca. Para falar a verdade, se sentia um pouco amarga. Não era uma culpa com a sociedade por ter dormido com alguém que tinha acabado de conhecer (não era a primeira vez) ou preocupação com o que os outros iam pensar (seus amigos não tinham muita moral para julgar). Era mais uma decepção consigo mesma. Russell era bonito, mas e aí? Não sabia (ou não se lembrava) se ele era engraçado, se tinha um animal de estimação ou se gostava de sorvete de pistache.
Pela primeira vez, não se sentiu completa.
Levantou da cama, vestiu um moletom e saiu do quarto. Estava ficando claustrofóbica. Queria acordá-lo e pedir para que fosse embora, mas não era de seu feitio ser assim tão objetiva.
Ouviu vozes além do corredor e viu que dois de seus amigos estavam por ali.
— Bom dia! — cumprimentou, se aproximando do balcão que separava a cozinha e a sala.
— Temos a custódia do Jeremy hoje! — Angie falou, apontando para o garoto ao seu lado e comemorando.
— Jer, você dormiu aqui? — perguntou, dando um beijo no rosto dele.
— Já são 1h da tarde, minha filha! Ele veio para cá almoçar.
— Ah sim. E Jane? Dormiu aqui? Ela já levantou?
— A noite de vocês duas deve ter sido boa! — Jeremy disse, rindo e servindo café para . — Ela ainda está dormindo, mas já passou por aqui umas duas vezes procurando remédio para o fígado.
— Remédio para fígado é uma ótima ideia… — a garota resmungou.
Quando estava terminando seu cereal, ouviu passos no corredor e uma tosse masculina. Russell parecia não fazer ideia de onde estava.
— Ahn… Oi. Boa tarde… Eu…
se levantou e foi até ele. Podia ouvir Jeremy e Angie dando risadinhas atrás do balcão, enquanto se escondiam para continuar ouvindo a conversa.
— Oi! Como você está? Hm… Dormiu bem? — perguntou, se sentindo muito tímida. Parou em frente ao rapaz sem saber ao certo como cumprimentá-lo. Já tinha feito isso antes, mas estava tão desconfortável dessa vez, que preferia evitar qualquer contato físico. Optou por colocar as duas mãos no bolso canguru do casaco.
— Dormi sim. Obrigado!
— Quer tomar café? Almoçar?
Russell riu, sem graça. Tinha um sorriso bonito, reparou. Mas não tão bonito quanto o de .
Porque diabos estava comparando os dois?
— Não, não… Eu… preciso ir para casa, mas agradeço. Eu… Queria chamar um Uber… — o rapaz disse, balançando o celular. — Qual… Qual o endereço daqui, por favor?
Pelo menos a vontade de acabar logo com aquela situação parecia ser recíproca.
Depois de passar o endereço e ajudá-lo a achar seu sapato (mais um momento de constrangimento quando Angie soltou um “Ah, era seu? Espera aí, eu coloquei no quarto do Alex! Estava jogado no meio do corredor...”), avisou os amigos que iria descer para esperar o Uber com Russell na portaria.
Ao voltar para o apartamento, encontrou os dois jogando cartas na sala e se deitou no sofá.
— Bonitinho, o moço… — Jeremy foi o primeiro a se pronunciar. — Vocês trocaram telefone?
A última coisa que queria era falar sobre isso.
— Uhum. — respondeu, secamente.
O alívio de se ver livre do rapaz começava a dar espaço para outros assuntos em sua cabeça. Outros assuntos = . Tinha sido inocente em imaginar que beber ajudaria a diluir o teor da conversa que tinham tido na tarde anterior. Ou que dormir com outro cara magicamente diminuiria a confusão que estava sentindo com relação ao amigo.
O cérebro de parecia sintonizar e dessintonizar, largando frases avulsas dançando em sua mente, juntamente à imagem de debruçado sobre ela no aniversário dele. Ou segurando sua mão no carro enquanto sorria, um dia antes.
“Eu prometo não me apaixonar por mais ninguém.”
“...eu estava começando a gostar de você…”
“Agora tanto faz.”
“Estamos bem?”

— Que cara de dor! Você está bem? — Jer franziu a testa, observando-a.
— Tudo isso é ressaca? — Angie perguntou, examinando a amiga também, que grunhiu uma resposta. — Aliás, como foi a volta com ? A gente não se viu depois… Vocês conversaram?
mexeu as pernas, chutando o ar e choramingando, e cobriu os olhos com o braço.
— Ruim assim?
Jeremy tirou os olhos das cartas.
— Ela está apaixonada por ele. — concluiu.
— Como? — Angie indagou, elevando a voz. — Porque o Jeremy sabe disso e eu não?
fez que não com a cabeça. Não precisava de um chilique da amiga agora. A vontade de chorar que vinha engavetando desde a volta da casa de Andrew e Morgan finalmente chegando à superfície.
— Ô, minha querida! — a voz de Angie se suavizou e ela se aproximou, fazendo carinho no cabelo de .
— Eu odeio o modo como estou me sentindo. — disse. — Esse sentimento pegajoso, horroroso. Eu quero tirar isso de mim.
Talvez fosse ciúmes, talvez estivesse apenas sendo muito egoísta. Afinal, só tinha sentido falta de quando o amigo se afastou e a anarquia em sua cabeça havia começado quando ele contou sobre Mikaella para a turma.
A explicação só podia ser essa, já que não se apaixonava…
Se lembrou então da noite em que ele tinha a beijado pela primeira vez, quando ainda eram adolescentes. De como havia se sentido atônita com a ideia de um sentimento que não podia controlar… Todos esses anos depois, era exatamente como se sentia. O medo era o mesmo.
— Mas estar apaixonado é assim, você… — Jer começou, tentando consolá-la.
— Não estou apaixonada! — retrucou de um modo urgente, tirando o braço dos olhos e encarando os amigos. — Eu não me apaixono.
— Você é humana, . — Angie falou, como se explicasse algo óbvio para uma criança. — É uma coisa natural. E está tudo bem se você está gostando assim de alguém.
— Não, não está. Não assim. Não dele.
— Qual o problema de ser o ? Sinceramente, só vocês dois não previram isso...
— O problema é ele estar namorando outra pessoa. Porque isso significa não ser correspondida e ter que conviver com esse fato, com ele... Agir naturalmente e sempre me perguntar se eu estou transparecendo algo quando Mika está com a gente.
— Você já vem fazendo isso, . — Jeremy refletiu. — Admitindo o que sente por ele ou não...
— Eu achei que começarmos ou deixarmos de fazer sexo poderia terminar com a nossa amizade, mas é gostar dele que vai acabar com tudo! Eu odeio isso. Odeio! — e então confessou o que mais a estava enlouquecendo desde o dia anterior. — estava gostando de mim e eu nao percebi. Ele se afastou e eu deixei ele ir.
O silêncio tomou conta da sala por alguns instantes.
— Mas talvez isso não seja tão ruim assim.— Angie disse, por fim. — percebeu que estava gostando de você, se afastou, conheceu alguém e superou. Voltou à estaca zero com a amizade de vocês dois. Se dê um tempo... E quem sabe você também conheça alguém!
— É verdade! — Jer concordou.
cobriu os olhos de novo.
— E se não houver mais ninguém? — perguntou, a voz abafada na manga do moletom.
E se ela não quisesse mais ninguém?
Angie deu de ombros.
— Você volta a ser o igluzinho que nós conhecemos e amamos. Te fazia feliz, não fazia?
— FazIA. No passado.
Naquele momento, nem ao mesmo sabia se em algum momento tinha mesmo sido “coração de gelo” como gostava de se definir ou ser definida. Era uma burrice tremenda que ela nunca tivesse ligado os pontos. A verdade agora caía em sua cabeça como uma marretada. O modo como sempre havia se sentido em relação a era estar apaixonada! Cumplicidade e desejo. Dormir com a pessoa, mas também dividir as melhores e piores partes do dia. Querer estar junto, gostar de estar junto, ter atributos favoritos, entender os defeitos e querer que a pessoa melhore para o bem dela mesma…
E quem preenchia todas as alternativas? Sim, o próprio. Era por isso que não se apaixonava por mais ninguém… Mas então porque tinha demorado esse tempo todo para ver aquilo, admitir o que sentia?
Não era difícil deduzir a razão. Esse era o sentimento esmagador que ela temia tanto! Era mais fácil seguir a vida sem nunca lhe dar atenção. No entanto, se Angie estava certa (e infelizmente ela sempre estava), não havia como escapar... Iria se sentir assim uma hora ou outra.
E se fosse mesmo inevitável que tivesse que dar esse poder a alguém, queria que o poder fosse de . Independente do que acontecesse a partir dali, quebrando-o (já estava quebrado?) ou não, sabia que ninguém tomaria conta de seu coração tão bem quanto ele.
O que trazia ao ponto zero de toda aquela história: Ela vinha cumprindo a promessa antes mesmo de ter feito a proposta. A diferença era que, como ele havia dito no dia anterior, agora tanto fazia… Tinha perdido seu timing de dizer tudo isso para o amigo.
? — Jer chamou, parecendo preocupado com o silêncio dela.
Ela tirou os braços de cima do rosto, encarando os amigos, e suspirou.
— Bom, eu sempre posso esperar ele resolver se mudar do país e contar como eu me sinto no meio de um aeroporto… — zombou, dando de ombros e forçando um sorriso. Tentou secar as lágrimas em seus olhos, mas elas parecerem se multiplicar como forma de vingança.
Os dois a abraçaram.
— Está muito cedo para dizer “Eu avisei”? — Angie perguntou.
— Sim. Cala a boca e me abraça. — respondeu, sentindo-se ser apertada mais forte.

**


Toda vez que assistia As Patricinhas de Beverly Hills, ria e comentava como era difícil se identificar com o filme, já que as personagens eram tão ricas e mimadas. A ironia da vida era que, nesse momento, podia dizer exatamente como Cher se sentia naquela cena em que a protagonista não sabe se comportar perto de Josh, depois de se dar conta de que estava apaixonada por ele.
Tinha evitado por uma semana na faculdade e inventado uma gripe para não ir até a casa do rapaz com o resto da turma no fim de semana… Mas, racionalmente, não podia tirá-lo de sua vida. E nem queria! Então teria que lidar com o coração disparado constantemente e o fato de que passaria metade do tempo de cabeça baixa quando estivesse com o amigo, para não olhá-lo com olhos em formato de coração.
Porque além de tudo, de repente ela se sentia como uma daltônica que milagrosamente tinha passado a ver cores pela primeira vez. Agora era um ser de tonalidades quentes e saturadas, que deixava um rastro de poeira azul cintilante por onde andava. E esse não era o único fator de sua percepção que tinha mudado. Cada movimento dele parecia uma dança. O cheiro do garoto era o mesmo do parque preferido dela no outono. A voz era como música.
Ele era uma obra de arte... Que não a pertencia. Porque havia passado tempo demais o enxergando em preto e branco.

observou quando deu um beijo na namorada e acenou para ela de longe antes de ir embora. Naquele sábado, a casa era habitada por 10 mulheres, entre amigas e familiares de Morgan. Alex havia cedido seu quarto para as visitantes e ido dormir com Jeremy. Elas estavam se reunindo e se arrumando no apartamento para irem ao Clube das Mulheres.
A despedida de solteira obviamente tinha sido planejada por Angie, doutora em “vamos, vai ser legal”.
— Eu esperava mais animação de uma mulher prestes a ver homens desproporcionalmente fortes, besuntados em óleo, dançando sensualmente de sunguinha! — Morgs disse, rolando os olhos, enquanto se sentava ao lado de no sofá. Estava usando um véu e uma faixa escrito “NOIVA” e segurava um buquê de flores falsas.
— Como deixamos a Angie nos convencer disso? — perguntou rindo e tomando mais um gole de sua bebida.
Mas as duas responderam ao mesmo tempo:
— Advogada Owen…
— Porque você está com essa carinha? — Morgan insistiu. — Tudo isso é porque vamos ao Clube das Mulheres? Você pode se sentar de costas para o palco, eu ia fazer isso, mas deixo para você!
riu e fez que não com a cabeça. Em qualquer outra ocasião, contaria o que estava acontecendo, afinal ela era uma de suas melhores amigas. Mas aquele não era o lugar e Mikaella também sairia com elas, era parte da turma agora. Não queria chamar mais atenção para o assunto… A discussão na casa de Morgan e Andrew já havia sido o bastante.
— Não é nada… Estou só me recuperando de uma gripe. — mentiu. — Mas é melhor a gente começar a chamar os Ubers, né? A bebida do esquenta já acabou!
As duas se levantaram e se juntaram ao resto das meninas, tentando organizá-las. Gillian e Jane eram as mais animadas com a ideia de assistirem ao “show” em meia hora; Mika conversava com elas e parecia um pouco deslocada ainda, por não conhecer todo mundo. As amigas do trabalho de Morgan riam alto de algo que Angie estava falando.
se sentia alheia àquela euforia. Queria estar tão empolgada quanto as outras garotas...Sua amiga iria se casar em uma semana, poxa! Era uma época péssima para estar se sentindo miserável assim. Por isso, enquanto esperavam os carros, entrou na cozinha e encheu seu copo com uma dose caprichada de vodca. Ela não podia ficar alegre, mas podia ficar bêbada… O que para um olho menos treinado, era quase a mesma coisa.

Ok, era preciso dar o braço a torcer que aquela noite não tinha sido o pior programa de índio que Angie já havia sugerido. Morgan, sendo a noiva, tinha subido no palco e dançado com com os moços durante as apresentações (o que, por si só, já tinha valido toda a experiência) e uma das amigas dela agora usava o cap de marinheiro de um dos strippers. Todas elas tinham bebido e dançado e mesmo tinha dado risada até a barriga doer pelo menos uma vez.
Como ninguém queria dormir, estavam então do lado de fora da casa noturna esperando para voltarem ao apartamento e continuarem bebendo por lá.
— Mensagem do ? — Morgan perguntou para Mika. , sentindo uma fisgada na barriga, se virou para elas. A namorada do amigo sorria, tirando os olhos do celular.
— É sim! Perguntou como foi e se eu já quero que ele venha me buscar…
— Mas você vai voltar com a gente para a casa das meninas, não vai?
— Vou. Estou dizendo isso para ele.
Morgs concordou e deu um sorriso satisfeito.
— Fico feliz de saber que vocês estão bem! Sempre quis que ele namorasse alguém legal. Vou jogar o buquê na sua direção semana que vem! — ela brincou, fazendo Mikaella rir.
— Você disse que ia jogar para o Alex! — a acusou, se arrependendo de ter dito qualquer coisa assim que terminou a frase. As duas se viraram para olhá-la, desconcertadas.
Angie também devia estar ouvindo, porque imediatamente levantou a cabeça e encarou com os olhos arregalados.
— Erm… eu divido o buquê em dois... — Morgan tentou contornar, mas o assunto pareceu morrer ali.
abaixou a cabeça e se distanciou do grupo, fingindo que ia verificar se algum dos carros que tinham chamado estava vindo na outra direção.
— Você precisa disfarçar melhor, amiga...
Angie a abraçou de lado e também fingiu que checava o fim da rua.
— Eu sei… Saiu sem querer.
— Chegando em casa, a senhora vai beber só água!
— Se VOCÊ está me mandando parar de beber, meu estado deve ser preocupante… — zombou.
— Você acha que eu estou te abraçando, mas na verdade eu estou impedindo que você caia de cara no chão. — Angie deu um beijo em sua bochecha, enquanto a garota ria. — Aguenta só mais um pouquinho, tá? Já já a noite acaba.
— Obrigada por ser a melhor amiga do mundo!
Por fim, dois carros surgiram virando a esquina e vieram na direção do clube.
— Finalmente! — Angie exclamou, voltando para perto do grupo de meninas.
abraçou os próprios braços e continuou um pouco longe delas. Ainda estava se sentindo mal por ter atravessado a conversa só para ser desagradável. Teria que se desculpar com Mika, ela não era culpada por seu problema.

Contrário ao que tinha dito para Angie, não parou de beber quando chegou em casa. Entre copos que circulavam e alguém que trazia refil para todas eficientemente, ela acabou naquele estado em que o chão e as paredes se movem e as conversas não fazem mais muito sentido.
Quando seu estômago deu sinais de retaliação ao total desprezo por limites, ela se levantou do sofá e tentou chegar ao banheiro, mas a parede do corredor pareceu entrar em sua frente.
— Vem, , eu te ajudo! — Mika se ofereceu.
sentiu dois braços a escorando e a garota a acompanhando até o banheiro. Não costumava passar mal, nunca bebia até chegar a esse estágio, por isso precisou que Mikaella a tratasse quase como uma boneca de pano: a ajudasse a se sentar no chão, prendesse seu cabelo e segurasse sua cabeça.
Era a última pessoa que gostaria que presenciasse esse momento de humilhação, mas estava mal demais para recusar.
— Obrigada, Mika! — disse, se encostando na parede de frente para o vaso, quando o pior já tinha passado. — Preciso escovar os dentes. Tirar as minhas lentes. E tomar um banho!
— Eu confesso que fiquei um pouco preocupada lá no bar. — Mika contou, reparando como a garota estava branca igual a um papel. — Você bebeu três vezes mais que a gente. Está... Está tudo bem?
— Eu já devia ter aprendido que beber não resolve nenhum problema...
Mikaella se sentou ao lado dela.
— Quer conversar?
Talvez fosse a pressão baixa, o sincericídio que só o alcool proporciona ou o ácido gástrico que tinha corroído seu filtro, mas quando deu por si, já estava no meio de um monólogo comprometedor.
— Eu me sinto mal porque... Você entende? Nem eu sabia que ia acabar me apaixonando por ele. Eu não queria, não planejei isso. Eu não me apaixono! E todo mundo me dizia que isso era impossível e eu respondia: "Assista e aprenda!". Mas adivinha quem tomou no cu? Eu! — esbravejou, apontando o dedo com muita força para o próprio peito. Haviam lágrimas em seus olhos.
Mika franziu a testa. De quem ela estava falando?
E então fez-se a luz! Ah meu Deus, era apaixonada por Andrew? Era por isso que estava agindo como o Grinch da despedida de solteira a noite toda?
, eu sei que deve ser muito doloroso, mas desde que você não faça nada sobre isso e não aja contra…
Mas ela fez que não com a cabeça vigorosamente e tombou um pouquinho para o lado.
— Não, não! Eu jamais faria, você não tem com o que se preocupar! O que eu sinto pelo não muda o respeito que tenho por você. — disse. Foi a vez de Mikaella sentir a cabeça rodar. — Você é uma pessoa incrível e eu espero que você seja a Morgan dele e o faça feliz! Do fundo do meu coração! — se endireitou e colocou a mão no ombro da garota, que agora só queria se levantar e correr dali. — E eu vou torcer para você pegar o buquê, de verdade mesmo, me desculpa por...
— Tudo bem por aqui? — Angie perguntou e Mika se colocou de pé tão rápido que foi quase como se estivesse sentada em espinhos.
— Ela… Ela passou mal. Você cuida dela? Eu preciso… Ir… — falou, já passando pela porta, incapaz de olhar para trás uma última vez.
— O que você fez, ? — a voz da amiga era um misto de bronca, pena e desespero.
juntou as pernas e apoiou a cabeça nos braços sobre os joelhos, a realidade do que tinha acabado de fazer a atingindo brutalmente.
— Falei mais do que devia. — confessou, a voz embargada.
Angie suspirou e entrou no banheiro, a ajudando a se levantar.
— Banho e cama, mocinha! A gente vai ter uma conversa séria quando você melhorar! — e, enquanto colocava a amiga embaixo do chuveiro, resmungou. — Isso deve ser castigo por todas as vezes que eu fiquei bêbada e chata, puta merda!

estava em seu quarto, de banho tomado e um pouco mais sóbria. O que significava que sua constituição corporal naquele momento era 60% água e 40% remorso.
Angie bateu na porta e entrou, se sentando na beirada da cama.
— Acho que agora é uma boa hora para o discurso “Eu avisei”. — falou, cabisbaixa. — Eu estou merecendo.
Mas ela fez que não com a cabeça.
— Não tem a mesma graça quando já é esperado… — zombou e estendeu o braço para segurar a mão da amiga. Então continuou em tom de mãe decepcionada (que é sabidamente o pior tom de voz que existe). — Hoje você bebeu mais do que eu já te vi beber em todos os nossos anos de amizade, Mika foi embora por sua causa e Morgan está mais preocupada do que aproveitando a própria festa. Eu sei que está difícil, minha querida, mas você não pode continuar se machucando e machucando os outros desse jeito…
levantou a mão livre para secar os olhos.
— Eu sei… Eu… Estou com tanta vergonha!
— Eu falei para mim mesma que não ia me meter, mas eu só vejo duas saídas para acabar com esse enrosco, . Ou você conta para o o que está acontecendo, abre seu coração e seja o que Deus qu…
Mas fez que não com a cabeça e a interrompeu.
— Eu não posso! Não é justo, Angie! Com ele, com a Mika. Eu disse a ela que não agiria a respeito disso.
A amiga deu de ombros.
— Então você precisa enterrar isso de uma vez. E parar de se martirizar por não ter percebido a tempo quando ele estava gostando de você. Também não é justo contigo viver nesse limbo...
Alguém parou na porta e elas ficaram sem reação ao notarem quem era.
? — Angie perguntou. — Está fazendo o que aqui? É uma festa só de menina! — brincou, tentando amenizar o clima.
— Mika me pediu para vir buscá-la, mas não estou encontrando ela. Vocês… — seu celular tocou, anunciando uma nova mensagem. — Ah, ela acabou de chegar em casa. Que estranho… — As duas trocaram olhares culpados. Ele entrou no quarto parando ao lado da cama. — ? Porque você está chorando?
Antes de conseguirem inventar uma desculpa, ouviram uma risada alta e o interfone tocando.
— Merda! — Angie exclamou, se levantando. Então olhou de um para o outro, receando deixar o cômodo.
— Pode… Pode ir. — disse, afirmando com a cabeça. Sabia que a amiga estava com medo de sair e dar abertura para mais uma chuva de verdades não solicitadas. Mas tudo estava sob controle agora. Ela achava.
se sentou na cama também, ainda olhando-a alarmado.
— É, pode ir. Eu fico aqui com ela.
Era isso mesmo que Angie não queria, mas quando o interfone tocou outra vez, se deu por vencida.
— Ok! Eu… Já volto.
Ficaram em silêncio por um tempo, até que ele fez a pergunta que temia.
— Porque você está chorando? — repetiu e então sorriu de lado, cutucando-a na perna. — Virou uma bêbada que chora? Desde quando?
— Eu não tenho um coração de gelo! — respondeu, se sentindo um pouco ofendida. Os olhos se enchendo de lágrimas de novo. Era verdade que costumava se orgulhar por isso antes, mas agora odiava a ideia de que o amigo pudesse pensar que ela era incapaz de sentir algo. Especialmente sendo ele.
— Nunca achei que você tivesse… — o rapaz falou com ternura e, ao perceber que a amiga estava realmente chateada, a puxou para um abraço. — Eu estava brincando, . Ei...
Angie parou na batente, observando os dois. tinha as costas viradas para a porta e fez um sinal de que ela podia ir, balbuciando que estava tudo bem. A garota resolveu entregar para Deus e acenou antes de sair. O que tivesse que acontecer entre eles, aconteceria. Os dois se soltaram e voltaram a se sentar um de frente para o outro. Quando levantou o rosto, percebeu algo diferente nele.
— Você tirou a barba! — falou, tocando o maxilar do rapaz. Quis contornar o queixo dele com os dedos, mas puxou a mão antes que ficasse ainda mais tentada. sentiu um formigamento já conhecido percorrer seu corpo e passou a mão distraído pelo rosto também. Quando é que pararia de reagir assim a ela? Já tinha passado da hora!
—Tirei... Alex me proibiu de subir no altar semana que vem parecendo o náufrago. — contou.
Ela rolou os olhos.
— Sempre o exagero em pessoa! Era só uma barba ralinha…
— Opa, ralinha não! Demorou para crescer! — retrucou, fazendo-a rir.
— Eu sei, costumava te encher o saco por causa disso.
— Você não gostava da barba te pinicando… — o rapaz se lembrou, a encarando.
Resolvera deixar crescer especificamente porque não gostava. Tinha sido seu jeito irracional de repelí-la.

Flashback
A última semana não tinha sido das mais fáceis para . Concordava plenamente com quem tinha dito que a ignorância era uma benção, sua vida era muito menos complicada quando ainda não tinha plena consciência do que sentia por sua colega de casa e melhor amiga.
Havia passado todos esses dias trancado em seu quarto, evitando andar pelos cômodos comuns e ter que dividir a cozinha, a sacada ou o sofá com ela. Era meio ridículo, mas por enquanto era melhor que não se encontrassem. Uma hora essa paixão platônica desapareceria, tudo voltaria ao normal e ele contaria para sobre esses dias sombrios e os dois iriam rir por horas disso! “Lembra aquela época que eu quase surtei porque estava gostando de você? Bons tempos!”
Era uma sexta-feira a tarde e ele finalmente estava sozinho em casa e podia se jogar no sofá da sala sem pensar demais sobre o que estava fazendo. Um momento de paz, pelo menos.
A alegria, porém, durou apenas uma hora. Estava lendo um livro quando e Alex chegaram, conversando e rindo. se sentou, considerando quão nonsense seria se corresse de volta para seu quarto, mas não foi rápido o suficiente.
— Olha quem está aqui, Al! — ela zombou, se sentando ao lado dele e dando-lhe um beijo na bochecha. — Já achei que você tivesse se mudado! Para uma caverna, aparentemente… — falou, passando os dedos delicadamente pela barba por fazer do rapaz.
Alex riu da cozinha. se encolheu e se moveu para escapar do alcance dela.
— Oi… Onde vocês estavam? — perguntou. Fingiu não ouvir as provocações, afinal andava mesmo se escondendo.
— Alex vai sair com o Jeremy de novo… Ele foi comprar um casaco novo e eu fui ajudar a escolher. — contou. O amigo finalmente tinha ficado com o colega de classe de quem era afim desde o primeiro ano e, pelo que parecia, logo logo seriam oficialmente um casal. Alguém tinha que estar se dando bem naquela casa! — E você? Porque anda tão sumido?
Não podia mentir sobre provas e trabalhos, pois estavam na mesma sala.
— Acho que peguei uma gripe… — inventou. — Passei a semana só querendo dormir…
o olhou preocupada, colocando a mão na testa e pescoço dele, medindo sua temperatura. Que bom que não estava tentando evitar qualquer contato entre eles!
— Acho que você não está com febre… Está se sentindo melhor? — a garota disse.
— Ah sim! Acordei bem melhor!
— Que bom! — falou. — Hey, vai sair hoje? — perguntou em um tom mais baixo, levantando uma das sobrancelhas. Passou a fazer carinho na nuca do amigo, enquanto o olhava de um jeito sugestivo. — Angie voltou para casa e Alex tem o encontro mais tarde. Estaremos só os dois aqui... Mas você precisa fazer essa barba! — brincou. engoliu em seco e fingiu rir, sem a olhar nos olhos.
— Eu… Tenho um encontro também. — mentiu, sem nem saber direito o que estava fazendo. — Tudo bem? — só então a encarou, mas não parecia chateada. E porque estaria, se não sentia o mesmo por ele?
— Claro! Alguém que eu conheça?
— Não… É uma garota do Tinder.
— Ah sim! Onde vocês vão?
Mas o rapaz foi salvo por Alex entrando na sala e se sentando no sofá junto aos dois. Esperou mais 15 minutos, enquanto o amigo contava sobre Jeremy, e se desculpou para voltar para o próprio quarto. Bom, agora precisava de um encontro. Era melhor que procurasse mesmo por alguém no Tinder, como já havia dito…
Enquanto escolhia, se deparou com uma garota que não lhe parecia estranha. Mikaella. Será que faziam alguma aula juntos? Foi quando deram match que pareceu se lembrar.
"Eu juro que isso não é uma cantada barata, mas acho que te conheço de algum lugar." disse.
"Ah não! Achei que você seria melhor de papo que isso! #CarasDecepcionantesdoTinder"
"Hahahaha
É serio! Você joga volei no ginásio da universidade?"
"...
Jogo!"
"Eu faço aula de boxe lá um horário antes de vocês."

Mikaella se lembrou também. Ela era agradável, bonita, inteligente… Não seria tão ruim assim se a chamasse para sair, afinal.
“Tem algum plano para hoje a noite?” perguntou.
“Na verdade não… E você?”
“Estava procurando uma companhia para ir comigo à nova confeitaria, do lado do prédio da Arquitetura.”
“Você me ganhou na simples menção de açucar refinado...”

sorriu para a tela do celular. Era isso, tinha um encontro e estava surpreendentemente animado. Talvez conhecer alguém novo e esquecer estivessem mais próximos do que esperava!
E não faria a barba. Não precisava mais agradá-la.
Fim do Flashback

mordeu o lábio inferior, cortando o contato visual. Doía pensar em quando se viam todo dia e ela podia implicar até com as coisas mais irrelevantes nele. O coração ficava apertado com tantas memórias, uma boa parte delas ali mesmo onde estavam. Aquele quarto, aquela cama.
— Você sente saudades de morar aqui? — perguntou.
sorriu.
— Claro que sinto! Da casa barulhenta no café da manhã, Alex e Angie brigando por causa do banheiro, todo mundo assistindo série junto, você… — seu rosto se contraiu, como se ele tivesse sido pego fazendo algo errado. Limpou a garganta para disfarçar. — … Conversarmos na sacada, enquanto você me xinga por estar fumando… Simon é bem na dele. Às vezes parece que somos só eu e Suflair na casa.
cogitou usar o passe “desconsidera, estou bêbada” para perguntar se tinha sido o motivo dele ter se mudado, mas não queria espantá-lo dali. Poderia passar o resto da noite conversando com .
— Você não pode realmente sentir falta do Alex e da Angie discutindo!
Ele riu.
— Como não? O drama, os sapatos voando, a vizinha de baixo interfonando e mandando os dois calarem a boca…
gargalhou.
— Eu devia ter gravado a primeira vez que Jane presenciou essa batalha de divas para te mostrar! A pobre passou o resto da semana pisando em ovos.
— Viu? Não tem como não ficar com saudade…
— A gente pode trocar uma vez por semana. Você fica aqui com esses malucos e eu durmo abraçada no Suflair!
— Combinado! — respondeu, rindo. Quando ficaram em silêncio, o rapaz alcançou a mão de , que descansava nos joelhos, e fez carinho com o polegar. — Você não precisa falar, mas se quiser conversar sobre porque está se sentindo assim, estou aqui para isso...
deu de ombros.
— Não é nada demais… — mentiu. — Acho que é só emoção pelo casamento... Misturado com álcool, claro. Você acredita que nossos melhores amigos vão se casar semana que vem?
— É muito louco, né? Eu brincava de Power Rangers com o Andrew! E isso foi, tipo… Mês passado!
Os dois riram.
— Você não tem medo de nunca viver algo parecido com o que os dois tem? — perguntou, encarando-o.
— Não costumava ter. Agora… Às vezes sinto, sim. — cerrou os olhos. — Mas você sente esse tipo de medo? De não viver um amor romântico?
— Não precisa soar tão surpreso! — ela respondeu, cutucando-o na costela e fazendo-o rir.
— Mas eu estou surpreso!
deu de ombros e abaixou os olhos. Sorriu ao perceber que ele ainda fazia carinho em sua mão.
— Andrew e Morgan fazem parecer ser algo bom. Algo que eu queria para mim... Um dia. — levantou o rosto, observando . Queria conseguir dizer que ela só queria o que os amigos tinham se fosse com ele, mas engoliu essa declaração. O rapaz não desviou o olhar. Na verdade, a olhava tão intensamente, que receou que ele estivesse lendo seus pensamentos. — E de vez em quando eu tenho medo de nunca ter a oportunidade de amar alguém assim... Ou de já ter perdido a minha.
engoliu em seco. não podia estar falando dele, podia? Não... Seria loucura! Depois de tudo o que ele havia passado sozinho enquanto tentava não prejudicar a amizade dos dois! Fez menção de falar duas vezes, mas nada saiu de seus lábios. Seus olhos tentavam decifrar os olhos dela, mas tudo que via era tentando fazer o mesmo.
— Eu preciso ir... — disse, por fim, cortando o contato visual dos dois e soltando a mão dela.
Algo fez segurar a mão de de volta. Amanhã o deixaria ir e seguiria sua vida como Angie havia dito, amanhã conversaria com Mikaella sobre sua confissão desastrosa... Mas naquele momento, ela só queria mais tempo com ele, outra memória. Mesmo se não fosse exatamente como desejava, mesmo se fosse mais agridoce do que pudesse suportar.
— Fica aqui comigo, por favor? Até eu pegar no sono?
Ele suspirou e então sorriu, apertando a mão dela.
— Claro!— falou. Depois descalçou os sapatos e se deitou na cama com ela. sorriu quando ele tirou os óculos dela, dobrou as pernas e guardou no criado mudo. Ele não precisava ser sempre tão fofo assim!
Estavam um de frente para o outro, se encarando, o que fez ambos se lembrarem da manhã seguinte ao aniversário dele. De onde estava, podia ver todas as pintinhas em seu rosto e precisou colocar as mãos bem seguras embaixo do travesseiro para evitar mexer nos cachinhos dele. Era pior quando ela sabia exatamente a sensação do cabelo de em seus dedos.
— Você está feliz? — indagou. Era só o que importaria quando acordasse no dia seguinte e soubesse que nunca mais ficariam tão perto assim um do outro.
Mas ele não entendeu a pergunta de primeira.
— Você diz hoje ou no geral?
— Eu gosto muito, muito, muito de você. — explicou. "Gostar" não era um verbo forte o suficiente para o que sentia, mas tinha medo de falar demais novamente. Por ora, esperava que ele compreendesse a intensidade do seu sentimento pela quantidade de "muitos" que tinha usado. — Quero que você seja feliz.
Ele levantou uma mão e afagou os cabelos dela, o olhar passeando distraidamente por seu rosto. Se sentiu derrotado pelo campo gravitacional de , que sempre o puxava de volta de alguma forma.
— Estou tão feliz quanto posso ser agora. — o rapaz respondeu, depois de um tempo pensando.
O que não era mentira. Talvez ele até pudesse ser mais feliz do que estava, mas não nas condições atuais de sua vida.
Quando sentiu os dedos dele em sua bochecha, fechou os olhos. O cansaço de todos os acontecimento das últimas horas finalmente a vencendo. Se sentia protegida e em paz quando estava por perto. Mesmo que teoricamente ele fosse o olho do furacão.
— Eu gosto tanto de você! — repetiu. Mas pelo seu tom de voz, estava pegando no sono.
Ele sentiu seu coração esquecer de bater por um segundo.
— Também gosto muito de você. — devolveu, em um sussurro.
Às vezes mais do que deveria. Sempre muito mais do que já tinha gostado de qualquer outra pessoa que não fosse de sua família.
A garota se aproximou e o abraçou, descansando o rosto na curva do pescoço dele; deu um beijo no topo da cabeça da amiga.
Tinha passado tanto meses evitando ao máximo ficar próximo assim dela para seu próprio bem e ali estava… A guarda baixa, deitado naquela cama, o cheiro dela por todos os lugares, deixando segurar seu corpo e seu coração outra vez.

**


Mika,
Mesmo se eu usasse todos os caracteres dessa mensagem para escrever “Me desculpa por ontem” mil vezes, ainda não seria suficiente. Eu fui uma pessoa medíocre!
Porém eu não retiro uma das coisas que eu te disse, você é mesmo uma pessoa incrível que eu respeito demais. Infelizmente não posso fazer muito sobre meus sentimentos além de me afastar, mas só queria te garantir que jamais faria qualquer coisa para atrapalhar sua felicidade. E a do .
Eu prometi para mim mesma que essa semana seria uma pessoa e uma dama de honra melhor do que tenho sido, por isso todo meu foco está no casamento de Andrew e Morgan (e mais uma vez, eu asseguro que sábado que vem vai ser totalmente diferente de ontem!). Mas, se você quiser, podemos conversar sobre isso semana que vem.
Caso você esteja se perguntando se ele escondeu essa informação de você, não sabe nada sobre o que eu te disse. Sei que não posso pedir muito, mas queria que ele continuasse no escuro, por favor.
Me desculpa mais uma vez. Te vejo no sábado.
xx


Mikaella não sabia exatamente o que dizer, por isso só respondeu que estava tudo bem e ela não diria nada a . Na verdade, essa parte da mensagem tinha a deixado realmente aliviada e só quando leu as desculpas de , no domingo a tarde, foi capaz de voltar a falar com o namorado. Não achava que seria capaz de perdoá-lo se ele tivesse escondido algo assim dela.
No mais, não havia sido nada além de simpática e gentil pelo tempo que se conheciam. O sábado anterior devia ter sido apenas um escorregão e ela acreditava que a garota estava realmente mortificada de vergonha por isso. Seria incomum ter alguém tão próximo apaixonada por seu namorado, mas confiava que ela não faria nada sobre isso. Desde que fosse unilateral, não tinha com o que se preocupar…
… E era unilateral, certo?

Era quinta-feira e estavam na casa de e Simon. Mika na poltrona, com Suflair dormindo em seu colo, e o rapaz sentado no sofá, conversando com Angie pelo Facetime.
— O lugar é enorme! Eu já pedi um carrinho de golfe pra ir da casa até onde estão montando a tenda da festa! — ela disse, fazendo-o rir. Já estava na casa de campo onde seria o casamento no fim de semana. — O único problema é a quantidade de pernilongo…
— Você só reclama, mulher! — brincou. — Alex já chegou?
— Já. Mas o Jeremy só vem sábado de manhã.
— Ele está aqui? Eu e Mika podemos dar uma carona para ele.
— Acho que está, posso ver com o Alex depois.
— Isso! — exclamou. — Vira a câmera para a janela de novo, quero ver o lado de fora!
— A cerimônia vai ser la embaixo, está vendo? Onde estão montando o tablado.
Ele riu.
— Você está com o dedo na frente, Angelica! Passa o celular para a , ela é melhor nisso que você!
— Que absurdo! — a amiga reclamou. Mas depois deu o braço a torcer. — Ok, espera aí. ?
Mika levantou os olhos ao ouvir o nome de . Desde sábado, involuntariamente se pegava em estado de alerta toda vez que ela era mencionada. No começo achou que não teria problemas com a confissão da garota, mas agora começava a se perguntar se isso era verdade.
— Oi! — cumprimentou. — Como você está?
Era impressão dela ou a voz do namorado tinha ficado mais terna do que quando ele estava falando com Angie? Existia um brilho em seus olhos que nunca tinha reparado. apoiou o cotovelo no joelho e o rosto na mão. O jeito como ele estava sorrindo para a tela do aparelho definitivamente era diferente. Não era? Aquela forma incomum de carinho com sempre estivera ali e Mika só estava percebendo agora? Parecia uma daquelas ilusões de ótica que, depois de vistas, eram impossíveis de serem ‘desvistas”.
Ou era só aquilo mesmo? Uma ilusão de ótica, que Mikaella estava criando por saber o que antes não sabia?
— É tão bonito aqui, você vai amar! Vou lá na varanda te mostrar o gramado!
— Por favor! A Angie como cinegrafista…
riu.
— Ela já desistiu da carreira de youtuber faz um tempo. Lembra da época de vlogger dela?
se juntou a nas gargalhadas. Assistir assim a cumplicidade dos dois incomodou Mika um pouco. Eles só estavam conversando, porque a deixava tão inquieta?
— Hum… O que é isso na mesa? — ele perguntou.
— Aaaah! Seu preferido! Cupcakes de chocolate com castanha!
Foi nesse momento que lembranças do seu primeiro encontro com foram caindo como peças de dominó, uma após a outra, até que Mikaella enxergasse a situação de um modo totalmente diferente.
Como tinha deixado isso passar?

Flashback
Aquele primeiro encontro com certeza estava colocando outros primeiros encontros no chinelo! Como não dar nota 10 para o garoto que tinha dito “Pode escolher quantos doces você quiser! Só não vamos pegar o mesmo ao mesmo tempo, combinado? Aí podemos dividir.”, assim que entraram na confeitaria?
Mikaella tinha namorado por 3 anos, então não estava mais acostumada àquilo. Além disso, desde que tinha ficado solteira, todos os caras que havia conhecido no Tinder e com quem tinha saído se encaixavam em duas categorias: os estúpidos, no sentido de serem grosseiros, e os estúpidos, no sentido de serem tapados.
Mas pelo visto, aquele era seu dia de sorte!
era engraçado e desenvolto. Falava com muitos gestos e muito entusiasmo sobre praticamente tudo, Mika nunca tinha achado pecinhas de celular tão fascinantes! Tinham conversado sobre seus cursos, vôlei (ele queria aprender a jogar e pediu que ela o ensinasse), suas famílias e o que queriam fazer quando terminassem a universidade. Não existiram silêncios constrangedores ou momentos esquisitos. A atenção dele parecia ser indivisivelmente dela quando estava contando algo e o rapaz havia a interrompido uma vez para dizer que gostava de sua risada. A confirmação de que estava oficialmente encantada vinha toda vez que ele tocava em seu braço ou mão, de um jeito espontâneo. Ela se sentia como gelatina por dentro.
Estavam agora na terceira rodada de bolos e segunda xícara de capuccino.
— Qual seu sabor de bolo favorito? — perguntou.
— Bolo de cenoura com cobertura de chocolate! — a garota respondeu, sem pestanejar. — E o seu?
— Hm... — ele fez, parando o garfo entre os lábios fechados e sorrindo. Devia saber exatamente o que estava fazendo; esse tipo sutil de charme normalmente era o mais premeditado. Mas em uma loja cheia de doces, Mikaella não conseguia tirar os olhos do rosto dele, então não podia negar que estava funcionando. — Chocolate e castanhas. — finalmente respondeu e a encarou com olhos preocupados. — Você não é alérgica não, né?
Ela sorriu.
— Não!
— Ufa! Seria muito difícil ter um relacionamento com alguém que não come castanha! — disse e depois levantou o garfo com um pedaço do bolo que tinha escolhido. De nozes. — E nós teríamos que correr para o hospital imediatamente!
Mikaella riu junto com ele. Precisava descobrir logo qual era o problema do rapaz, se desiludir de uma vez. Ou o coração partido doeria mil vezes mais quando tivesse escolhido os nomes dos filhos dos dois.
As flores do casamento ela já tinha decidido ali pela metade do segundo bolo.
— Quanto tempo você ficou com a última pessoa com quem namorou? — indagou. coçou a nuca, sorrindo como se estivesse sem graça.
— Eu… Nunca namorei.
Mika não soube dizer na hora se aquilo era um defeito ou não.
— Mas você já se apaixonou antes...
— Isso não é conversa para o quarto ou quinto encontro? — o rapaz tentou se esquivar, sorrindo e mantendo um olho fechado e o outro aberto.
Ela riu.
— Pode ser, mas eu estou realmente curiosa. Vai que a gente não chegue no estágio de falar sobre nossos ex...
Ele riu e resolveu ceder. Soltou o ar antes de voltar a falar.
— Acho que só me apaixonei uma vez e ainda não... — então arregalou os olhos e percebeu que estava prestes a dizer que gostava de outra garota em um encontro. — Deixa para lá.
Mas Mika entendeu e sorriu.
— Está tudo bem... Você ainda gosta dela?
fez que sim com a cabeça, os olhos grandes e amedrontados de uma forma quase infantil.
— É complicado, nós nos conhecemos há muito tempo, estamos sempre juntos. Mas eu… Não quero mais, sabe? Já deu...
Ele parecia tão sincero, que Mika apenas respondeu como responderia a um amigo, em vez de um possível interesse amoroso.
— Seis meses atrás, eu terminei um namoro de 3 anos. Nós circulávamos nos mesmos grupos e no começo eu não conseguia seguir em frente por isso, vendo meu ex todo dia. Precisei me afastar por um tempo. E felizmente todo mundo entendeu que seria temporário, para o meu próprio bem.
O garoto concordou com a cabeça.
— E como você se sente agora, em relação a ele? — questionou, comendo um pedaço de bolo mas sem tirar os olhos dela. Mika deu de ombros.
— Às vezes ainda dói e às vezes é como se nunca tivesse acontecido… De vez em quando me pergunto se já o esqueci 100% e a resposta depende do dia.
— E qual a resposta hoje? — quis saber, sorrindo de lado de um jeito adoravelmente maroto.
E em um piscar de olhos Mikaella nem se lembrava mais do fato dele estar emocionalmente ligado a outra garota.
— Hoje eu estou 100% comendo um milhão de doces com um rapaz interessante que eu conheci no Tinder.
riu e continuou sorrindo depois. Tinha um dos sorrisos mais bonitos que ela já tinha visto.
— Engraçado… Eu estou 100% do mesmo jeito!
— É mesmo?
O garoto fez que sim com a cabeça, sorrindo e comendo mais um pedaço de bolo. Era revigorante como sinceridade parecia exalar dos poros dele.
— Hoje nem acabou e já estou ansioso para te ver de novo! — confessou.
E era mútuo. Mika mal podia esperar pelo segundo encontro. E, antes disso, pelo beijo de boa noite que trocariam mais tarde, antes de se separarem. E seria melhor que todos os bolos que experimentaram naquela noite.
Fim do Flashback

O estômago de Mikaella afundou. Descobrir que gostava de de repente era só a ponta do iceberg. Tinham se envolvido tanto e tão rápido que ela nunca mais julgou necessário voltarem ao assunto dele ter começado o relacionamento dos dois gostando de outra mulher. Nem cogitou ficar obcecada sobre quem era a garota e se ela ainda estava ou não na vida dele. Não era uma característica sua ser paranoica.
Então se lembrou da noite em que tinha sido apresentada às amigas dele. Estava deitada na perna do namorado naquele mesmo sofá, assistindo TV.

— E o que você achou das meninas?
— Angie é intensa, né? — respondeu, fazendo-o rir. — Muito divertida, por outro lado. já me pareceu mais fechada, conversamos menos… Mas ela parece ser legal também. Porque?
— Só para saber mesmo… Quero que todas vocês se deem bem.
— Vocês se conhecem desde sempre, né?
— Desde sempre…
— Você já ficou com uma delas? — Mika perguntou, mais por curiosidade, se lembrado de um episódio específico de Friends. Amizades longas assim sempre tinham uns segredinhos.
Devia ter se virado para olhar o rosto dele. Mas na hora a pergunta era puramente inocente.
demorou alguns segundos para responder.
— Já… Com a
Mikaella riu, porque tinha certeza que a resposta seria essa.
— Eu poderia apostar que seria ela!
O namorado riu também e mudou de assunto.


O rapaz não tinha perguntado porque ela achava que era e Mika nunca tinha analisado aquilo a fundo, até então. Mas lá estava, desde o dia que a conhecera, sua intuição berrando sobre a ligação dos dois. Talvez seu subconsciente tivesse absorvido aquele mesmo olhar que no momento direcionava ao celular em suas mãos, enquanto ainda falava com ela no Facetime. O tom de voz, a linguagem corporal e até o sorriso. ganhava um sorriso que era só dela. Mais bonito, mais aberto, mais especial. Não era invenção da sua cabeça, afinal.
— Até sábado então, manda um beijo para a Morgs! — ele se despediu. — Tchau! — ainda sorria quando levantou os olhos da tela, franzindo a testa para Mikaella, que tinha uma expressão confusa e nauseada. — Mika? O que foi?
— A garota por quem você era apaixonado quando nos conhecemos… Era a ?
O sorriso sumiu dos lábios dele, que parou com a boca meio aberta a encarando, como se estivesse em choque. Por um minuto, ela desejou que o rapaz negasse.
— Mika… — começou, após alguns segundos em total silêncio.
— Você tem um detector de mentiras no lugar do rosto, . É melhor ser honesto comigo. — não era uma ameaça, mas o modo como o namorado era transparente tinha sido umas das características que a atraíra para aquele relacionamento. Não queria perder isso em um momento tão importante. — Só… Me conta. Se existe alguma coisa que eu não sei.
Ele abaixou o rosto e bagunçou os cabelos, parecendo nervoso. Se essa conversa tivesse acontecido um mês antes, tudo seria diferente. Ele diria que sim e contaria brevemente a história que tinha com , deixando claro que era algo que tinha acontecido, mas terminado.
Entretanto, desde sábado, não parava de pensar na amiga. Em dizendo a ele que tinha medo de ter perdido a oportunidade de viver algo como Andrew e Morgan. Em ouví-la pegar no sono com o rosto em seu pescoço. A sensação de ter os braços em torno dela novamente. Toda vez que se lembrava, os sentimentos concomitantes de derrota e o contentamento puro de se sentir completo daquela noite voltavam. E persistiam, como se estivesse permanentemente tendo um devaneio muito vívido.
Levantou a cabeça, sabendo que estava escrito em sua testa tudo o que estava pensando.
— É, é a .
Não passou despercebido por Mikaella o uso do verbo no presente.
— E o que houve entre vocês? — perguntou. Os dois não podiam ter namorado, porque tinha dito no dia da despedida de solteiro que se apaixonara por ele sem querer. Seria o caso de dois amores não sincronizados e, por isso, platônicos?
E queria mesmo saber? Àquela altura do campeonato, ela já não tinha mais certeza de nada. Mas não tolerava mentiras e omissão era também uma forma de mentir. Ficaria realmente chateada se houvesse mais ali que deveria ter dito.
O rapaz, por sua vez, considerava qual o melhor jeito de contar aquilo sendo honesto, mas não agressivamente honesto. Não queria causar dor sem necessidade na namorada.
e eu tínhamos… Ahn… Uma espécie de amizade colorida. Por alguns anos funcionou só como algo casual mesmo e… É… Eu acabei começando a gostar dela… Meio que por acidente… — falou, sem conseguir olhá-la nos olhos. Era nesse ponto que deveria dizer “mas hoje em dia eu não sinto mais nada pela ”, porém não foi capaz. Não era verdade.
Mikaella tentava absorver aquela conversa, sem saber direito o que pensar.
Pamella, sua melhor amiga, costumava dizer que o problema com relacionamentos que começavam em apps era que você atravessava a vida da pessoa sem saber o suficiente sobre ela. Mika costumava concordar, mas não muito… Achava que era um risco que se corria em qualquer forma de aproximação. Mas o problema do Tinder era mascarar aquela deficiência… Os primeiros encontros aconteciam de imediato e logo surgia uma falsa sensação de intimidade, de confiança. Era fácil passar por cima de detalhes importantes. Negligenciar características e partes da vida da outra pessoa.
Se tivesse conhecido no ginásio onde treinavam, não ficariam logo de cara… Talvez enquanto estivesse na fase do interesse, Mika visse ele e juntos em uma festa ou descobrisse sobre os dois por outra pessoa. E talvez saber daquilo até a fizesse desistir dele. Era difícil prever, mas teria mais tempo para conhecê-lo, de qualquer forma. Ignorar o passado do namorado, a amizade colorida, a importância de na vida de , teria sido uma escolha ativamente sua.
— Eu não sei o que dizer… — Mikaella falou, em voz baixa, soltando a respiração pesadamente. — Isso era algo que eu queria ter sido alertada no começo, sabe? Ter decidido por mim mesma o que fazer com essa informação.
— Me desculpa por não ter te contado antes, Mika. Eu… Eu tinha medo do que poderia acontecer. Acho que não queria causar nenhum tipo de desconforto. Provavelmente mais para mim, do que para qualquer outra pessoa. — disse. — Foi uma escolha errada.
A garota fez que sim com a cabeça e levantou o rosto para olhá-lo. tinha as sobrancelhas arqueadas e a encarava como se analisasse as consequências de ter sido tão irresponsável com os sentimentos dela. Estava arrependido, isso era visível. Mas se pudesse escolher entre Mika e , quem escolheria?
Mordeu o lábio inferior. Poderia acabar aquela discussão ali. Dizer que estava magoada, que queria um tempo para pensar, mas que ficariam bem.
Contudo Mikaella sabia de algo que ele não sabia, que prometeu não dizer… Debateu contar ou não, mas não falar significaria nunca saber se era a primeira opção.
está apaixonada por você. — Soltou, de uma vez.
Pode ver a confusão preenchendo cada célula do rosto do namorado. balançou a cabeça e depois riu, incrédulo.
— O que? Não! — retrucou. — Se é disso que você tem medo, nunca se apaixona… Pode ficar tranquila!
— Não, você não entendeu. Não é uma hipótese. Eu sei do que estou falando, isso é um fato. — corrigiu, prestando tanta atenção na mudança de expressão do rosto dele, que temia ficar com dor de cabeça. — Eu estou te contando porque preciso saber se isso muda algo ou não.
olhava de um lado para o outro atordoado, traçando suas próprias conclusões de porque aquilo poderia ser verdade. Mas depois de tanto tempo esperando para ouvir aquelas palavras, agora estava em negação. E além disso, Mikaella era a última pessoa que havia imaginado ser a mensageira dessa “novidade”.
— Ela não… — ele murmurou.
— Eu preciso saber, . — Mika repetiu. — Porque você fala com ela de um jeito diferente e sorri de um jeito diferente. Vocês terem se relacionado no passado é algo que eu posso relevar. Se você não sentir mais nada pela , eu posso relevar … Do contrário, não quero ficar aqui recebendo os restos do seu amor frustrado, só porque você acha que nunca vai ter quem sempre quis.
Naquele momento o rapaz percebeu que, sendo verdade ou não que era apaixonada por ele, não devia mesmo continuar em um relacionamento se não pudesse ser e dar tudo de si. Mikaella não merecia aquilo.
Suspirou, se sentindo mal por ter prolongado essa decisão. Mika soube o que ouviria antes das palavras sairem da boca do namorado.
— Eu devia ter sido mais prudente… Com você, com o seu coração. Eu achei que poderia fazer dar certo entre a gente. Eu gosto de você, Mika. Muito! Mesmo! Me perdoa por ter causado isso.
Antes das lágrimas cairem de seus olhos, a garota virou o rosto para o outro lado. Suflair acordou, incomodado com o movimento embaixo dele, e saiu do colo dela.
Mikaella não imaginou que doeria tanto. Tinha terminado um namoro de 3 anos, conhecia há apenas seis meses… Ainda assim, tinha colocado tempo e dedicação naquele relacionamento. E sabia que ele estava falando a verdade, que gostava dela. Mas não o suficiente.
Sentiu as mãos dele em suas bochechas, secando suas lágrimas. Também tinha os olhos marejados.
— Me perdoa! — pediu outra vez, a voz baixa suplicante.
— O que é que se vai fazer? — ela deu de ombros. — Eu só… Se você não soubesse… Por quanto tempo ainda insistiria nisso?
A resposta sincera provavelmente era “até que eu gostasse mais de você”, mas fez que não com a cabeça.
— Não sei…
— Eu ia conhecer seus pais esse fim de semana… — Mika o lembrou. O pensamento a deprimiu ainda mais. Iria a um casamento cheio de pessoas que não conhecia, mas que de alguma forma faziam parte do passado do namorado. Tinha estado tão animada!
— E eles iriam te adorar!
Ela fez que não com a cabeça e levantou da poltrona, se desvencilhando dele. Precisava ir embora. Não tinha porque ficar ali, recebendo elogios tipo prêmio de consolação. Já sabia tudo o que precisava saber. Entrou no quarto de e começou a pegar suas coisas; o rapaz parou na porta, a observando.
— Você não precisa ir agora… — tentou.
Estava se sentindo mal por como as coisas entre eles estavam terminando. Por machucar daquele jeito alguém com quem se importava. Independente do que sentisse ou não por ela, Mika tinha sido muito importante em sua vida. A primeira namorada perfeita! Paciente, carinhosa, amigável... Não pediria que eles continuassem em contato, porque achava que seria egoísmo de sua parte exigir aquilo, mas era difícil saber que estava a perdendo. E que era absolutamente sua própria culpa.
— É melhor. — ela falou, com convicção. Colocou a alça da bolsa no ombro e olhou em volta. Sentiria falta daquele quarto, da bagunça que fazia no guarda roupa e como sempre usava de charme para aniquilar a bronca, quando ela chamava sua atenção. Sentiria saudades de Suflair e mesmo da turma de amigos dele. Não veria Morgan se casando, Alex tentando pegar o buquê ou Angie sendo a bêbada mais engraçada que ela conhecia.
Respirou fundo como alguém que está prestes a fazer uma longa caminhada, abaixou os olhos e deixou o cômodo. a acompanhou até a porta.
— Deseja felicidades para a Morgan e o Andrew por mim, por favor. — foi só o que conseguiu dizer a ele quando chegou a hora de se despedir.
não respondeu, mas fez que sim com a cabeça. Estava com cara de choro também.
— Espero que um dia você possa me perdoar…
— Eu também. — Mikaella respondeu. Quis abraçá-lo, mas achou melhor não. Para seu próprio bem. — Seja feliz, .
— Você também, Mika.
Ela acenou e foi andando de cabeça baixa até dobrar a esquina. O rapaz ainda ficou mais um tempo na porta, tentando absorver tudo o que tinha acontecido. Se sentindo vazio e envergonhado.
Esperava que ela ficasse bem. Era só o que lhe desejava.
Voltou à sala e se sentou, ainda perplexo, no sofá. Estava pensando no que deveria fazer em seguida e seu foco logo mudou para a bigorna que Mika tinha deixado cair em sua cabeça. era apaixonada por ele? Como? Desde quando? Porque Mikaella sabia e ele não? Chegou a pegar o celular, mas o colocou de volta no bolso, se lembrando que estava na casa onde seria o casamento, ajudando Morgan e concentrada nos preparativos. Podiam se falar no sábado, quando ela já estivesse dispensada de suas funções como dama de honra. Além disso, se iam finalmente conversar sobre os dois, tinha que ser pessoalmente!

**


Andrew e Morgan não poderiam ter pedido por um dia mais bonito para aquele casamento. A tarde viraria noite bem atrás do arco onde os dois diriam, diante do padre, seus pais e amigos, que pretendiam ficar juntos para sempre e as primeiras cores deslumbrantes do por do Sol já apontavam no horizonte.
conversava com os avós de Morgan quando o viu chegar. Perdeu o fio do que estava dizendo ao observar se aproximando de Angie e pedindo que ela arrumasse sua gravata. Ficava ainda mais bonito usando terno, como era possível? Olhando em volta, não avistou Mika. Sentiu o remorso pesando em seu estômago de novo, esperava que ela não tivesse desistido de ir pelo que havia acontecido no sábado anterior.
Quando se juntou aos amigos, a cerimonialista já os organizava em pares para a entrada. estava andando até Alex, mas alguém segurou sua mão.
— Nós vamos entrar juntos. — falou, quase como se estivesse pedindo permissão. — Eu… Já falei com a Gillian e o Al. Tudo bem?
O coração de disparou, desesperado e confuso, ao ouvir aquilo. Queria ter mais tempo para analisar o que significava, queria se virar para trás e ver o que Angie estava achando. Saberia se era bom ou ruim só de olhar para a expressão facial da amiga.
— Claro! — disse por fim, sorrindo e tentando disfarçar o nervosismo em sua voz. Rezou para que ele não percebesse como a mão dela tremia quando entrelaçaram os braços.
Ao ficarem lado a lado, prontos para andarem juntos o caminho até o altar, precisou respirar fundo algumas vezes para se acalmar. Não sabia bem o que estava fazendo, mas a vontade incontrolável de entrar com ela havia lhe invadido assim que a viu.
As palavras de Mikaella não saiam de seus pensamentos. está apaixonada por você”. Talvez quisesse sentir por si mesmo se aquilo era verdade ou não, mas a verdade era que seu julgamento estava prejudicado. Ela parecia sim nervosa, trêmula... Mas isso não significava nada.
Ele acabaria vendo sinais onde não havia nenhum, só por desejar tanto que eles existissem.
estava tão arrebatada nos próprios sentimentos, que mal prestou atenção no caminho até onde os padrinhos ficariam, tudo parecia um borrão de cores e rostos conhecidos. Só tinha consciência das partes do seu corpo que estavam em contato com , ao seu lado.
Mas então todos se levantaram para a entrada de Morgan e, naquele momento, foi como se ela deixasse para trás tudo o que dizia respeito a sua vida pessoal. Ao observar uma de suas melhores amigas caminhar sorridente em direção a um de seus melhores amigos, parecendo magnífica e irradiando amor, a emoção que tomou conta de foi outra. Uma felicidade muito maior do que ela. Amava tanto os dois! Chegava a pesar em seu peito, como algo palpável e sólido, o tanto que desejava tudo de bom e lindo que havia no mundo para eles.
Riu um pouco ao perceber que Andrew estava chorando e nem se deu conta das lágrimas que ela própria derramava. ofereceu um lenço a ela com uma das mãos enquanto colocava a outra na parte inferior de suas costas, fazendo a garota se virar para olhá-lo.
— Obrigada! — agradeceu, baixinho, se surpreendendo ao ver que o rapaz também estava emocionado. Ele agora tinha o rosto virado para o lado onde o Sol estava se pondo e a claridade fazia seus olhos, embargados, parecerem mais claros que o normal. Era tão bonito! Sorriram um para o outro, cúmplices, e teve certeza que ele estava sentindo exatamente o mesmo que ela ao assistir a entrada de Morgan. Eram apenas coadjuvantes de algo muito maior que estava acontecendo ali. E por ora estavam mais do que satisfeitos em celebrarem juntos a união de seus amigos.

Depois de todas as fotos e brindes e danças, pegou uma cerveja e se sentou a mesa vazia, observando os outros convidados. Tinha perdido de vista.
— Alex tinha razão… — uma voz disse, vindo da sua direita, e ele se virou a tempo de ver Angie se sentando na cadeira vazia ao seu lado.
— Sobre?
— Você fica melhor sem barba mesmo! — ela respondeu, cutucando-o na bochecha e fazendo-o rir.
Angie riu também e se aconchegou ao lado do amigo, que tinha o braço passado pela cadeira dela, repousando a cabeça no ombro de .
— Andrew e eu tínhamos uma aposta, se você traria ou não um acompanhante. — ele contou.
— Espero que você tenha apostado que eu…
Mas ele nem esperou que Angie completasse.
— … Não levo bolo para festa. — disseram juntos e riram.
— Por isso você sempre foi meu favorito! — a garota disse, enquanto davam um high five. — ... Depois do Alex… E agora do Jer. Na verdade, eu acho que gosto mais do Jeremy que de todos vocês.
— Jeremy é o favorito de todo mundo. Ainda é novo na turma, não tem podres… — considerou.
— Isso é verdade! — Angie então se endireitou na cadeira e encarou o amigo. — E falando em pessoas novas na turma… Porque você não trouxe sua acompanhante?
O rapaz não respondeu de imediato. Tomou mais um gole de sua cerveja, enquanto olhava o salão. Angelica abriu a boca em choque, prevendo o que ele diria.
— Mikaella e eu não estamos mais juntos.
— O que? Quando? — deixou a pergunta mais óbvia para o final. — Porque?
voltou a encará-la, pendendo a cabeça para o lado e lançando um olhar que dizia “você sabe porque”.
— Nós terminamos na quinta-feira. Era só uma questão de tempo... Eu estava só me enganando e enganando a Mika. — suspirou. — Obrigado por nunca ter dito nada para a , de qualquer forma. — falou, alcançando a mão da amiga e apertando-a.
Ela deu de ombros.
— Eu amo vocês dois a mesma quantidade! Minha lealdade é sempre de quem pedir primeiro. — brincou e sorriu.

Flashback
checou o relógio e esfregou uma mão na outra, nervoso. Se os colegas de casa demorassem mais, ele acabaria desistindo do que estava prestes a fazer.
Como havia planejado, e para seu alívio, Angie chegou primeiro ao apartamento. Precisaria do reforço dela quando fosse bombardeado com as perguntas que não queria responder.
A amiga deixou suas coisas no quarto e voltou para a sala, se sentando no sofá de frente para ele.
— Boa tarde, meu querido! Queria falar comigo? — cumprimentou, mas franziu a testa ao perceber a expressão do rapaz. — O que aconteceu?
— Angie… Eu… Vou te contar uma coisa, mas você precisa me jurar que não vai contar para ninguém, nem para a . Especialmente a !
, você está me assustando. Fala logo!
Ele soltou o ar uma, duas vezes e então disse:
— Eu… Eu sinto algo pela … E... — começou, mas foi interrompido pela amiga que caiu na gargalhada.
— Ah, menino! Faça-me o favor, eu achando que você estava doente! Conta uma novidade...
Ele fechou a cara.
— É, eu sei que todo mundo previu e todo mundo nos avisou, mas… Não era para acontecer.
— Vocês conversaram sobre isso?
balançou a cabeça. Havia um certo desespero em seus olhos, que fez Angie parar de rir. Pelo jeito o assunto era sério.
— Eu tentei falar sobre isso com ela no meu aniversário, mas a … — o garoto deu de ombros, derrotado. — Não quer namorar. Ela não se sente confortável com romance e essas coisas. E eu preferi não dizer nada, fingir que não está acontecendo nada. — passou a mão pelos cabelos, exasperado. — E enquanto estava tentando enterrar isso que sinto por ela, eu conheci essa menina, a Mikaella. Nós nos damos bem, eu gosto dela e… Quero que funcione entre nós.
— E como eu posso te ajudar? Você disse que precisava de mim para alguma coisa… — Angie perguntou.
— Um dos meus amigos vai sair de onde mora para uma casa de dois quartos e eu… — ele contou, baixando os olhos. — Eu disse que moraria com ele. Quero me mudar daqui.
Aquilo pegou a garota desprevenida.
— Como? Você vai sair do nosso apartamento?
voltou a encará-la. Devia ser um mal sinal se tinha deixado Angelica boquiaberta.
— Eu preciso, Angie! Pela saúde da minha amizade com a , para eu poder fazer esse relacionamento com a Mika dar certo. Não morar com a e passar 80% do meu dia com ela parece ser a única solução para esquecê-la.
A amiga balançou a cabeça em negação.
— Eu sabia. Sabia que ia dar merda…
— E eu fui o primeiro a dizer que você estava enganada, eu sei. Mas aconteceu e não sei mais o que fazer. Eu preciso ir, para as coisas voltarem a ser como sempre foram. — explicou. — E eu preciso da sua ajuda hoje, quando contar isso para o Alex e a . Eu preciso que você esteja do meu lado quando eu precisar mentir sobre porque vou me mudar.
Ela soltou o ar lentamente, passando as mãos pelos cabelos.
— Você pensou bem nisso? Quer mesmo que seja assim? — perguntou.
O garoto fez que sim.
— Quero.
Ouviram uma chave na porta e as vozes de seus dois amigos chegando. Angie não havia concordado vocalmente em ajudá-lo, mas quando Alex e passaram pela sala, ela acenou para e o rapaz teve certeza que a amiga compraria aquela discussão por ele.

O cérebro de parecia incapaz de processar a informação que estava recebendo. iria se mudar? Ela e seus três colegas de casa estavam sentados na sala e todos os olhos estavam nele, que explicava como Simon tinha encontrado uma casa muito legal de dois quartos - que tinha churrasqueira! - e havia o convidado para dividir as despesas. A garota queria confrontá-lo, mas estava esperando que Angie fizesse aquilo por ela. Era muito melhor em argumentações.
O problema era que Angelica parecia perfeitamente confortável com a novidade. Escutava com uma expressão séria no rosto, mas balançava a cabeça concordando e parecia calma, serena… Como se a ideia de não morar mais ali fizesse algum sentido.
Pelo menos Alex parecia tão desorientado quanto ela.
— Mas porque você quer sair daqui, para começo de conversa? — ele questionou. estava desesperada para que olhasse para ela, queria entender o que estava acontecendo. Já vinha o sentindo tão distante recentemente e agora isso? Mas o garoto parecia fazer um esforço consciente de evitá-la.
— Não é que eu queira sair daqui. Mas Simon ofereceu e me fez pensar que seria bom. Eu amo vocês, mas essa casa não é exatamente um lugar de paz e silêncio... — zombou. — E esse é o ano do meu TCC, eu preciso...
— Eu sou a sua parceira de TCC! — retrucou, revoltada, não conseguindo mais ficar em silêncio.
— Bom, talvez até seja melhor então… — Angie ponderou, fazendo franzir a testa. Quando ela finalmente se pronunciava era a favor desse nonsense?
— Angie!
A amiga deu de ombros.
— O que? Parece que nunca ouviu as histórias horríveis sobre pessoas que fazem TCC juntas e brigam tanto que param de se falar! Eu só estou dizendo que talvez seja bom existir um jeito de vocês se darem uma folga, se for necessário…
a olhou com gratidão. Era exatamente por isso que havia contado para Angelica primeiro.
— Nada vai mudar… — disse. É claro que iria, já havia mudado. Mas ele tinha que fingir que tudo continuava como sempre fora. — A casa é aqui perto, vamos nos ver sempre. E eu posso ajudar a procurar alguém para ficar com o meu quarto, não vou largar vocês na mão com o aluguel e as contas…
Os três ficaram em silêncio. ainda balançava a cabeça incrédula.
— Bom, eu sei lá… Se você prefere, … — Alex cedeu.
Era isso, havia sido abandonada do lado racional dessa conversa.
— Não! Não! … — chamou, suplicante. O rapaz finalmente se virou para encará-la. Tinha as sobrancelhas arqueadas e uma quantidade enorme de um sentimento que ela não sabia dizer qual era nos olhos. Parecia tristeza misturada com algo além. — Porque você está fazendo isso? Não pode ser só por causa do barulho! Você não…
De repente a dúvida que vinha tendo desde o aniversário dele voltou a rondar seus pensamentos. Sempre que tentava “rastrear” quando o amigo tinha começado a ficar estranho, voltava àquele dia. Desde que tinha se lembrado do acordo que havia proposto, de só se apaixonarem um pelo outro, era só nisso que vinha pensando.
— Depois eu é que sou dramática! — Angie a interrompeu, em tom de brincadeira. — O moleque vai morar duas casas para a esquerda, , pelo amor de Deus! Ele não está indo para o Japão!
— Exato!
O celular de Alex tocou.
— É o Jeremy. Posso ir atender? Terminamos por aqui?
— Terminamos sim, irmão. Obrigado pela compreensão! — falou, sorrindo quando o amigo deu batidinhas em seu ombro antes de sair para o quarto. Angie se pôs de pé também.
— Ótimo! Eu acho que sei de uma menina procurando um lugar para morar, vou ver se tenho o facebook dela.
E então eram só e na sala. Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, se impedindo de perguntar se a decisão tinha a ver com os dois. Se sentia meio ridícula em pensar que sim.
O garoto se levantou por fim e segurou sua mão.
— Nós… Estamos bem? — Foi só o que teve coragem de indagar.
Ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Claro que sim… — mentiu. Cortou o contato visual para olhar as horas. — Eu… Preciso ir, . Mika está me esperando para irmos ao cinema. Nos falamos depois.
A garota o soltou e observou enquanto o amigo desaparecia pelo corredor. Algo dentro dela incomodava como uma pedrinha no sapato, embrulhava seu estômago. Era um pouco sobre não conversarem mais como antes, sobre ele do nada resolver se mudar e essa garota com quem vinha saindo…
E lá no fundo também era um pouco por não ter dito que sim, que SE um dia se apaixonasse - mesmo que achasse improvável - só poderia ser por ele, quando teve a oportunidade.

bateu na porta e colocou a cabeça para dentro do quarto de Angie.
— Obrigado pela ajuda!
Ela levantou os olhos do celular e sorriu.
— Sem problemas, meu querido. Espero que dê certo com a Mika.
O rapaz sorriu de volta.
— Eu também!
E ele queria. Ele precisava que desse certo.
Fim do Flashback

— Pelo menos você tentou! — Angie comentou, dando de ombros.
— Sempre tem um ”pelo menos”…
A amiga acotovelou nas costelas.
— Hey, se você pedir com jeitinho, acho que a Jane troca de casa com você!
— Você é completamente maluca, Angelica! — ele fez que não com a cabeça, mas estava achando graça.
— Ela tem mesmo uma quedinha pelo Simon, oras…
— Bom, mais um motivo. Eu sei por experiência própria que morar com a pessoa por quem você é platonicamente apaixonada não dá certo.
— Seria um ótimo jeito de perpetuar essa novela! Não posso negar que amo o drama! — Angie confessou.
— E eu não sei? — o rapaz disse, olhando-a de rabo de olho. — Não, eu vou continuar onde estou mesmo. O motivo de ter saído do apartamento ainda é o mesmo. E depois de tudo o que aconteceu… Nada mudou.
— Estraga prazeres! — a amiga bufou, fazendo-o rir.
levantou os olhos, procurando pela festa de novo. Ela estava do outro lado do salão e, quando seus olhos se cruzaram, a garota sorriu. Estava tão bonita naquele vestido longo e o cabelo preso! O frio na barriga que sentia quando a admirava assim ainda era o mesmo de todos aqueles anos atrás, no dia do baile de primavera. Ele ainda sentia como se estivesse com a pressão baixa, exatamente como quando perguntou se podia beijá-la naquela noite. Ou em sua festa de aniversário, há alguns meses.
Mordeu os lábios quando ela reluntantemente voltou a encarar a pessoa com quem estava conversando.
— Mika me disse que está apaixonada por mim. — contou, voltando sua atenção para Angie. — De onde ela tirou essa ideia?
A garota sabia que não conseguiria mentir mas, ao mesmo tempo, achava que não era ela quem deveria ter essa conversa com o rapaz.
— Ela e se falaram na festa de despedida da Morgan. Antes de você chegar…
O rapaz franziu a testa.
— Se falaram?
estava bêbada e… Hum… Sendo muito honesta.
Ele fez que não com a cabeça. Muitas informações em um curto espaço de tempo.
— O que?
— Vocês dois precisam conversar, . O mais rápido possível! Nós dois sabemos - e provavelmente todos os outros convidados dessa festa sabem também - porque você terminou seu namoro. E porque nunca namorou outra pessoa… Se acertem logo de uma vez!
— Esse não é o lugar, Angie…
A garota ficou em silêncio, mas conhecia a expressão no rosto dela. Angelica Owen estava maquinando algo.
— Não, não é. Mas eu tenho uma idea.

estava saindo do banheiro com Morgan (afazeres da dama de honra: segurar o vestido da noiva para ela fazer xixi) quando encontraram Angie.
, eu estava mesmo te procurando! Me faz um favor?
— Meninas, preciso ir lá abraçar uns parentes do Andrew. Já falo com vocês... — Morgan avisou, abraçando as duas. — , obrigada pela ajuda! — disse, enquanto saía.
— Disponha, meu amor! — ela respondeu, sorrindo, e se virou para Angie. — Pois não!
— Corre lá na casa onde a gente está ficando e pega o carregador portátil, por favor? A bateria do meu celular está acabando.
— Você está brincando, né?
— Não, poxa! Vai lá para mim! Rapidão...
acabou rindo, Angie era inacreditável!
— Porque você mesma não vai, sua folgada?
— Eu não posso sair daqui. — explicou, com um ar de assunto de máxima importância. — Estou paquerando o primo gatinho da Morgs, meu tempo é precioso!
— E o meu não é?! Angie franziu a testa.
— Você não está de olho em ninguém, está?
A amiga, involuntariamente, passou os olhos pelo salão procurando por . Que, aliás, não parecia estar em lugar nenhum.
— Não, mas…
— Então! Vai lá para mim! O tempo que ficou aqui reclamando, já estaria na metade do caminho…
balançou a cabeça. Angie sempre vencia pelo cansaço!
— Ok, onde você deixou essa merda?
A garota abriu um sorriso triunfante.
— Em cima da cama.
— Vê se não some com o garoto então antes que eu te ache…
— Pode deixar! — falou.
já estava de costas quando a amiga a abraçou por trás.
— Angelica?
— Ai, finalmente!
Foi a única coisa que ela disse, antes de se desvencilhar e sair rindo.
Maluca!

ainda xingava baixinho quando entrou onde as madrinhas estavam hospedadas. As casinhas dos convidados ficavam morro acima de onde a festa estava acontecendo e ela não tinha perdoado Angie por aquela viagem sem propósito. Estranhamente, o quarto da amiga parecia estar com a luz acesa. Sera que a cabeça de vento tinha esquecido assim?
Levou um susto ao entrar no cômodo e perceber que já havia alguém ali.
?
Ele estava sentado na cama, os braços descansando nas coxas e a perna direita se movendo inquieta. Levantou os olhos ao ouvir seu nome.
— Oi! — Cumprimentou, sorrindo e ficando de pé. A respiração dele era a de alguém que havia corrido aquele morro todo.
— Angie também te mandou para pegar alguma coisa para ela? — perguntou, tentando rir, mas havia uma intensidade nos olhos do amigo, a encarando, que a deixava nervosa e desconcertada.
Era a primeira vez que estavam sozinhos pessoalmente depois da despedida de solteira da Morgan.
O garoto deu uma risadinha.
— Não. — coçou a nuca, um pouco sem jeito. — Na verdade, fui eu quem pedi para ela arranjar uma desculpa para você subir aqui. Estava com medo que não viesse, do contrário.
— O que houve?
Se já estava nervosa antes, agora parecia que iria implodir. O que era tão urgente que não poderia esperar até que eles voltassem para casa? Será que tinha alguma relação com o fato de Mikaella não ter ido ao casamento? Será que ela tinha contado sobre a confissão de no banheiro? Tinha prometido que não falaria nada a ele, mas… Depois de tudo, não a culparia se tivesse mentido.
suspirou. Só havia uma pergunta que queria fazer, mas agora que estava ali tudo parecia mais difícil.
E se ela negasse? E se não estivesse apaixonada por ele?
— Eu... Não estou mais namorando. — foi o que acabou falando, enquanto colocava as mãos nos bolsos. Continuou observando o rosto dela, atento à sua reação.
abriu a boca, sem saber o que dizer. De repente, se sentiu leve como uma pluma. Era errado, ela sabia, mas não conseguia evitar.
— Você está bem? — perguntou.
deu de ombros, vê-la tão de perto outra vez fazia seu coração acelerar.
— Era inevitável... — respondeu.
— Quer conversar sobre isso? — ofereceu um sorriso solidário. Não queria vê-lo sofrendo ou com o coração partido. Acima de qualquer coisa que sentisse por ele, o bem estar do amigo vinha em primeiro lugar e ela se sujeitaria a uma noite toda ouvindo sobre o namoro se o fizesse se sentir melhor.
— Você não vai perguntar porque nós terminamos?
Ela engoliu em seco. Era isso, sabia sobre o ocorrido e queria tirar satisfações. A garota levantou os olhos, temerosa. Ainda não conseguia compreender toda a ansiedade no olhar que ele direcionava a ela desde que entrara no quarto. O rapaz não parecia aborrecido, porém.
— Porque vocês terminaram?
Os poucos segundos que ele levou para responder pareceram se arrastar por horas.
— Mika acredita que você sente algo por mim. Ainda que eu nunca tenha dito nada sobre nós dois, além do que ela já sabia. — explicou, captando cada mudança no rosto da garota em sua frente. — Mas a Angie me disse que vocês conversaram?
cortou o contato visual deles. Não seria capaz de suportar encará-lo enquanto tentava se justificar.
— Não foi de propósito… Não estava tentando sabotar seu namoro, nem nada do tipo! Juro! Mas eu estava bêbada e ela me perguntou o porque daquele estado lastimável… E eu… Acabei soltando. — falou, ainda mirando o chão. — Mas no dia seguinte eu me desculpei e prometi para Mika que não iria me colocar entre vocês, que nós podíamos conversar depois do casamento, se ela quisesse!
Isso explicava muito sobre aquela noite e o dia em que ele e Mika terminaram, pensou.
— Mas então é verdade? — indagou. — Que você sente algo por mim.
ergueu o rosto e soltou o ar pesadamente antes de fazer que sim com a cabeça. De que adiantaria mentir agora? Era apaixonada por ele, tinha percebido tarde demais e tudo que havia acontecido desde então era sua culpa e ela precisava se desculpar e seguir em frente.
— Irônico, né? — deu uma risadinha sem humor. — Depois de todos esses anos, de involuntariamente ter te dado um fora…
A pegou de surpresa perceber que havia um sorriso crescendo no rosto do rapaz. Um sorriso tímido, era verdade, mas que já se enraizava nos cantinhos dos olhos dele.
— Quando Mikaella me contou sobre os seus sentimentos, ela queria ter certeza que saber disso não mudava nada entre nós dois. — explicou. — Não era para fazer diferença, mas para mim mudava tudo. E constatar isso me fez entender que eu não devia estar namorando outra pessoa… Porque não consegui deixar de sentir o que sentia por você. — disse, finalmente.
Esse não era o desfecho da conversa que estava esperando. Seu coração já parecia ter entendido o que aquilo significava, mas o resto do seu corpo estava em choque.

— Quando te contei sobre o que eu sentia no carro aquele dia, você me falou que eu devia ter dito tudo com todas as letras, então é isso que eu estou fazendo. Para mim não vai funcionar com mais ninguém além de você. É isso. E eu não vou tentar de novo enquanto tiver essa certeza. Não quero machucar outra pessoa, como aconteceu com a Mika. — ele falou. Fazia uma força hercúlea para não tirar as mãos dos bolsos e tocá-la, abraçá-la. — Então me resta esperar. Esperar que você sinta o mesmo, que esteja pronta. Eu não quero te pressionar. Pode levar 1 ano, 10… O tempo q–
— Eu estou pronta agora. — o interrompeu. Não havia a menor chance dela perder o timing dessa vez, de deixar outra oportunidade passar. Andou o espaço que havia entre eles e segurou o rosto do amigo com as duas mãos. — Me desculpa por demorar tanto para perceber, mas eu sei o que eu quero agora.
abriu aquele sorriso que tomava conta do rosto todo, aquele que já sabia que era apaixonada antes mesmo de se dar conta de que era apaixonada por todo o resto. E nunca a fez tão feliz vê-lo sorrindo.
— Você tem certeza? Não precisa me responder agora, se quiser pensar sobre…
— Não, não, não! — O desespero dela o fez rir. — Eu não preciso pensar.
Ele tirou as mãos dos bolsos e a segurou pela cintura. descansou os braços nos ombros do rapaz, enquanto se olhavam pelo que parecia ser uma eternidade.
Havia uma euforia dentro de que ele não sabia exatamente como externar. Queria abraçá-la e mantê-la por perto, sentindo o cheiro e o toque dela; queria deitá-la naquela cama imediatamente e beijá-la da cabeça aos pés. Mas também queria passar o resto da noite conversando e rindo como costumavam fazer.
havia passado todos esses meses pensando que se ao menos soubesse que o último beijo que tinham trocado era o último, teria decorado cada segundo. Cada suspiro, cada sorriso que dava contra seus lábios, o modo como a segurava.
Colocou uma das mãos na nuca dele, embrenhando os dedos pelos cabelos do garoto. Tinha desejado por tanto tempo poder voltar a fazer isso! Ele fechou os olhos e afundou o rosto na curva do pescoço de , enquanto ronronava como um gatinho.
— No que você está pensando? — ela perguntou, se encolhendo quando os lábios dele encontraram seu ombro e clavícula.
— Que Angie nos mataria se transássemos no quarto dela.
gargalhou, mas quase se esqueceu qual era a graça ao sentir a risadinha do garoto contra sua pele. A medida que os beijos dele vinham subindo em direção ao seu maxilar, mais ela ia perdendo a linha de raciocínio.
Naquele instante, onde os dois sabiam como se sentiam e estavam ali juntos, tudo parecia bom demais para ser verdade. a abraçou forte, colando o corpo de no seu, e pressionou suavemente os lábios nos dela. Respirou fundo. Quando finalmente se beijaram, havia o nervosismo do primeiro beijo e a sincronia que só os casais que já estão juntos há anos possuem. Afinal, era exatamente isso que aquele momento representava. Era novo e familiar ao mesmo tempo.
Permaneceram abraçados mesmo depois de partirem o beijo. Respirando um ao outro, se fazendo carinho… A saudade que transbordava em ambos tornava tudo mais intenso e urgente.
— Eu odeio vestido longo! — falou, por fim, fingindo estar brava e o fazendo rir, enquanto tentava sem sucesso subir no colo do rapaz e passar as pernas em torno dele.
— Passei a tarde toda admirando ele em você, mas nesse momento, acho que odeio esse vestido também! — concordou.
— Meu quarto fica do outro lado do corredor… — sugeriu, já puxando-o para a porta.
Ele riu e fez que não com a cabeça.
— Por mais tentado, para não dizer outra coisa, que eu esteja… — O garoto arqueou as sobrancelhas, fazendo-a rir. — Dois do nossos melhores amigos se casaram hoje. E nós temos todo o tempo do mundo para ficarmos juntos. — um beijinho. — E sozinhos. — outro beijinho. — E sem roupa. — e mais um beijinho.
sorriu. Era assim que pessoas completamente apaixonadas se sentiam? Apenas ouvir que tinham o resto da vida já a deixava toda boba.
— Então você vem dormir comigo quando a festa acabar? — convidou, mordendo o lábio inferior. Foi andando para trás, voltando a puxá-lo para fora do quarto.
— Vai ser permitida a entrada de rapazes aqui depois?
— Não sei, mas estou disposta a quebrar umas regras!
Ele riu, a abraçando e beijando uma última vez antes de voltarem para a festa.
— Então eu faço questão de tirar esse vestido de você.

Era engraçado reparar que a maioria das pessoas ali não estava assustada em ver e como um casal. Pelo jeito só os dois tinham perdido esse memo de que perteciam um ao outro.
, talvez, fosse a pessoa mais surpresa com a situação toda. Era esquisito e incrível ao mesmo tempo poder entrelaçar seus dedos aos do garoto, assim, em público. Ter abraçando-a por trás enquanto conversavam com alguém... Dançarem juntinhos e poder beijá-lo quando tinha vontade.
E, certamente, o que mais a surpreendia era como todos esses gestos pareciam habituais. Demonstrar afeto dessa forma não era algo que estava acostumada a fazer, mas era . Com ele tudo era fácil e natural. E maravilhoso!
Brincava tanto que não tinha vindo com esse app instalado e, no fim, ela só nunca havia usado do modo certo.
Estavam na pista de dança juntos e tinha a bochecha encostada no peito dele, quando observou Alex e Jeremy dançando abraçadinhos também ali por perto. Seus olhos e os de Jer se cruzaram e os dois trocaram sorrisos vitoriosos. O amigo só tinha precisado ouvir a história uma vez, assistir como ela se comportava ao redor de em duas ou três ocasiões para matar a charada. Difícil saber se ele era muito sensível ou se tudo estava tão na cara assim! Provavelmente uma combinação dos dois.
— Ugh, esse casal! — Angie exclamou, parando ao lado deles com a mão cheia de docinhos. já tinha a enchido de beijos, por ter insistido que fosse "buscar o carregador". — Não sei se morro de amor ou se me arrependo, quando penso que vocês agora vão ficar se pegando todo dia no sofá de casa!
— Todo dia, não... — corrigiu. — Um dia no seu sofá e um dia no meu!
Angelica rolou os olhos de brincadeira, mas franziu a testa.
— Você não vai voltar para o apartamento?
Ele sorriu, fazendo carinho na bochecha dela.
— Não... Acho que agora já me acostumei com o Simon e o Suflair. — depois fingiu que estava sussurando. — Você também vai gostar de ter um lugar para se esconder da Angelica de vez em quando… Vai por mim.
— Ah, vai tomar no cu! — a amiga xingou, rindo, enquanto jogava bolinhas de papel de doce nele.
Estavam conversando quando Alex, Jeremy, Andrew e Morgan se juntaram aos três.
— Nós queremos uma foto com vocês todos! — Andrew falou, erguendo os braços. Já estava levemente bêbado - com a gravata frouxa e sem o paletó - mas altamente sorridente.
— Uma foto onde todo mundo encontrou sua Morgan, menos a Angie. — Alex zombou, mostrando a língua para a amiga, que riu debochada.
— Eu SOU minha Morgan, meu querido.
— Ah, falando nisso, meu primo está interessado! — a noiva contou, fazendo um joinha com uma mão e segurando a amiga pelo braço com a outra.
Angie bateu palmas, apressada.
— Então tirem logo essa foto, que eu tenho mais o que fazer!
Quando os amigos se dispersaram, e ficaram sozinhos novamente e ele a puxou para perto.
— Isso é surreal! — exclamou, com a boca perto do ouvido dela.
O som da voz dele parecia deslocar tudo que havia dentro dela, enquanto criava ondas na superfície de sua pele. O abraçou mais forte em resposta.
— Você está feliz? — perguntou, se lembrando da noite da despedida de solteira.
riu.
— Tão feliz, que chega a doer! — respondeu, antes de beijá-la outra vez. Podia fazer isso quanto quisesse, onde quisesse. Tinha sua melhor amiga de volta e tudo que sentia por ela era recíproco. Como mais estaria se sentindo?
Quando se separaram, o rapaz se endireitou e a encarou, como se soubesse algo que ela desconhecia.
— O que foi? — perguntou, sorrindo também. Embriagada em tanta felicidade.
— Essa noite. Foi… Está sendo… Tudo o que você mais odeia em comédias românticas.
Ela riu.
— O casamento nem era seu! Podia ter sido muito pior!
gargalhou e balançou a cabeça.
— Droga, eu devia ter esperado mais…
fez que não com a cabeça, enquanto afagava o cabelo dele, e ficou na ponta dos pés para alcançar sua boca.
— Não, foi tudo perfeito! Tudo perfeito!
— Você está feliz? — O rapaz devolveu a pergunta, mas a resposta veio na forma de mais um beijo.
sorriu satisfeito.
— Então pronto!
Estavam bem! Sempre estavam bem.

***


Fim!



Nota da autora: Vamos ao bingo das fanfics escritas por mim: (x) fics baseadas em uma música; (x) termina em uma festa de casamento; (x) a melhor amiga da pp é mais legal que a pp; (x) sem cenas restritas; (x) playlist; ( ) final triste. Aeeeeee! Pelo menos de um dos meus próprios clichês eu me livrei! Hahahahaha
Essa fic surgiu porque eu sempre quis escrever uma história em que os protagonistas eram amigos que se pegavam de vez em quando, até o dia que desse ruim… A inspiração bateu depois de ouvir You know me too well, do Nothing but thieves (ouçam!). Apesar de que, no fim, a história foi mais para o lado romântico melosinho, do jeitinho que eu seeeeempre escrevo.
E aí eu caí nessa cilada que é ter um crush no Noah Centineo e estamos aí vivendo felizes nesse buraco desde agosto, hahahaha… Meu protagonista tinha que ser ele!
Antes de me despedir, queria agradecer a Thatha, que é essa pessoa linda e essa autora incrível, que me aguenta e lê tudo o que eu escrevo com a maior paciência e faz comentários maravilhosos e me motiva a terminar as histórias e começar outras. Obrigada pela ajuda em mais uma fic, Thatha <3
E obrigada você que está lendo isso agora. Espero de coração que tenha gostado! Não se esqueça de comentar!!
Até a próxima!
Lary



Outras Fanfics:
On the third floor (1D/Em Andamento)
08. Flicker (Ficstape Flicker/Finalizada)
Trap (1D/Finalizada)
04. When we were young (Ficstape 25/Finalizada)
Daydreamer (Outros/Finalizada)
Someone like you (Outros/Finalizada)
06. Glasgow (Ficstape Catfish and the Bottlemen/Finalizada)
08. Sound of Reverie (Fictape Lovely Little Lonely/ Finalizada)
09. Then there’s you (Ficstape Nine Track Mind/Finaliada)
10. Here we go again (Ficstape Turn it up/Finalizada)
While my guitar gently weeps (Outros/Finalizada)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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