Última atualização: 18/04/2018
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Prólogo

Vinte anos atrás...

- Então seu marido está participando de um processo seletivo para um cargo de engenheiro químico em outra cidade? – ela perguntou, enquanto observava correr de enquanto riam alto.
- Sim, é uma vaga e tanto. Caso ele passe ganhará bem mais do que ganha atualmente... – ela suspirou fundo.
- Mas você não quer se mudar para lá, certo? – Alice questionou, enquanto a fitava.
- De verdade, não. – fez uma pequena pausa - Minha família é daqui, sabe? Gosto da calmaria do interior... Se nos mudarmos estaria completamente sozinha em uma cidade grande.
- Eu te entendo, Anny. Mas às vezes é preferível arriscar, a ficar na mesmice. Trabalhe essa ideia, já que ainda não é certeza de se mudarem.
- Sim, você tem toda a razão – ela deu um breve sorriso a Alice, enquanto a última lhe dava um afago nas costas, em forma de conforto.
As duas mulheres observavam seus filhos brincarem animadamente na pracinha que tinha perto da casa delas.

- Peguei você – finalmente havia alcançado à amiga.
- Ai, – ela estava ofegante pela corrida - Deveríamos brincar com aqueles garotos – apontou alguns meninos mais a frente – Eles parecem legais. Brincar de pega-pega só nós dois não é tão legal. – ela tentava convencê-lo.
- Ai, não, , eles são idiotas... – ele fez careta enquanto os encarava - Já sei! Vamos brincar de outra coisa. – a garotinha no auge de seus onze anos revirou os olhos.
- Certinho... do que quer brincar? – ele deu um sorriso torto.
- Vamos brincar de... Stop! – a garota franziu o cenho.
- Stop? Me parece bem legaaal! – ela exclamou e bateu na mão do garoto. – Países?
- Não, , eu não conheço muitos - revirou mais uma vez os olhos – Você é muito esperta, você sabe que está mais avançada do que eu em geografia. – ele fez um bico. sempre fora mais dedicada aos estudos do que o garoto.
- Chorão. – ele aumentou ainda mais o bico – Ok... que tal nome de pessoas? – ele suavizou a expressão.
- Feito! - Eles começaram a sacudir as mãos com os punhos fechados.
- O Sssstop - disseram juntos quando abriram as mãos. mostrou apenas um dedo, já o garoto colocou dois.
- Letra C! Eu primeiro – ela sorriu – Camila! – apontou pra ele, indicando que era sua vez.
- Hummm... Caroline – ele respondeu rapidamente.

- Eu me preocupo com eles – apontou para as crianças – Eles brigam tanto, mas não se desgrudam.
- Sim – a vizinha deu um riso leve - É verdade. sentirá muito a perda de caso vocês realmente mudem-se.
- E ele dela... E ele dela... – a mulher suspirou, enquanto os observava.



Capítulo 1

2017

Uma semana antes...

- Filho! Levanta! – Anny abriu as cortinas do quarto. sentiu o sol em sua pele, abriu os olhos, incomodado. Mais uma vez sua mãe entrava de supetão em sua casa.
- Mãe, o que faz aqui? – ele abriu os olhos com dificuldade em focá-los nela. Tateou a cama em busca de seu celular. Com certa dificuldade, o achou. Franziu o cenho e suspirou alto quando viu que ainda eram 06h30min da manhã, havia perdido 30 minutos de sono.
- Ué, filho, eu vim para ver como você estava, saber se precisava de algo, te ajudar a organizar as coisas em sua casa... Você tem comido direito? Têm dormido o necessário todos os dias? – ela o olhava, preocupada.

era seu filho único, e ela nunca havia aceitado bem que ele morasse sozinho, mesmo que o rapaz tivesse maturidade para isso. Pelo menos uma vez na semana ela aparecia de surpresa para ver como o rapaz vivia.

- Ah, mãe, por favor, eu já tenho 30 anos! Você e essa mania de super proteção. – disse entediado, enquanto se espreguiçava preguiçosamente pela cama.
- , entenda: filhos não crescem para uma mãe, então se você tiver 30, 40 ou 50 anos, eu virei a sua casa e te tratarei como o meu bebê. – Ela sentou-se na cama dele e alisou o rosto do rapaz, com um sorriso doce nos lábios.
- Oh, mãe, eu desisto. – ele fez uma careta fofa e sorriu pra ela – Respondendo suas perguntas; Não tem nada pra organizar aqui em casa. Dona Rita já fez a faxina da semana. Sim, fiz todas as refeições, café da manhã, almoço e jantar e dormi o necessário esses dias! – ele riu ao final do interrogatório.
- Que bom, meu bem. Agora, levante dessa cama e vá tomar um bom banho. Vou terminar de preparar o seu café da manhã que está do jeitinho que você gosta. - assentiu como um garotinho de cinco anos, acatando as ordens da mãe. Era sempre assim, não adiantava.
- , que bagunça é essa no armário de panelas!? – Ela chegou à cozinha tentando achar algo naquela desordem.

sorriu, balançando a cabeça negativamente, enquanto entrava no banheiro. Terminou o banho, fez sua barba, colocou sua camisa social rosa bebê e vestiu a calça preta social. Pra finalizar, penteou os cabelos de uma forma desorganizada, mas que lhe caia perfeitamente bem, pegou sua mochila e saiu do quarto. Deparou-se com uma mesa de café da manhã repleta de coisas que ele amava, os olhos dele brilharam. Não demorou mais de dez segundos para que ele jogasse a mochila no sofá e atacasse aquela comida, começando com o pão francês e o iogurte. Sua mãe o olhava com satisfação.

*


- Que porcaria é essa de relatório? – Edgard entrou como um furacão na sala do rapaz e tacou os papéis na mesa dele – Faça outro já! – Saiu batendo a porta da sala do rapaz, não lhe dando oportunidade de que pudesse se defender.

Ele bufou e começou a bater a cabeça na mesa de uma forma desesperada. O dia tinha se iniciado relativamente bem com a visita de sua mãe, mas seu chefe conseguia sempre estragar tudo.
trabalhava na Engeali há seis anos, entrou na empresa como estagiário, passou por diversas promoções e agora era analista sênior de recursos humanos no local. Seu chefe, Edgard, sempre fora uma pessoa difícil de lidar, mas de uns tempos pra cá, estava mais insuportável, sempre pegando no seu pé e exigindo perfeições. desconfiava que era porque o homem estava em processo litigioso e sua ex esposa queria arrancar até as cuecas dele. Ele sempre descontava no primeiro que aparecia, na grande maioria das vezes era em , seu subordinado direto.
Ele respirou fundo, amassou o papel com força e se pôs a redigir novamente o documento. Depois de conferir todos os dados dos funcionários que tinham adquirido assistência médica e o custo do benefício, mudou algumas palavras e sentiu que estava melhor do que o anterior. Colocou para imprimir e levou a sala de Edgard.
deu duas batidinhas na porta e entrou rapidamente sem esperar permissão. Deparou-se com uma cena bem inusitada. Jane, auxiliar de limpeza, estava se debatendo nos braços de seu chefe, enquanto chorava desesperada, tentando se soltar dele. Quando ela o viu aproveitou a oportunidade e saiu correndo da sala, enquanto chorava alto. Ele sentia seu rosto queimar, uma raiva lhe consumia por inteiro.

- Aprenda a bater na porta, caro! - Edgard arrumou a calça que estava desabotoada.
- Você não tem vergonha?! - rosnou, sua vontade era de lhe dar uns bons socos.
- Vergonha de quê? Elas se fazem de difíceis, mas eu sei que elas gostam - deu um sorriso malicioso.
- Jane claramente não o queria, você estava... – dera um soco na mesa de raiva - Estava tentando estuprá-la!
- E você vai fazer o que a respeito? Me denuncie e eu mando você e aquela vagabunda embora. – Edgard respondeu com um sorriso de escárnio.

não lhe respondeu, simplesmente jogou os relatórios na mesa do homem de qualquer jeito e se retirou da sala, sem olhar para trás. Ele estava possesso de raiva, ele não podia e não queria deixar aquilo pra lá. Foi em direção à copa onde Jane geralmente ficava, ele iria ajudá-la.
A encontrou em um canto da sala, com o rosto escondido pelas mãos, ele viu quando os ombros dela abaixavam e levantavam, sinal de que ela ainda chorava. Ele se aproximou dela e tocou em seu ombro, ela se retesou ao toque, assustada.
- Ei, calma, sou eu, – ela foi tirando as mãos do rosto e pode observar o rapaz – Vem, senta aqui, vou te preparar uma água com açúcar.

Ele a conduziu até a cadeira e a ajudou a se sentar, percebeu que ela tremia, e que estava com o rosto bastante vermelho. Pegou os ingredientes e preparou o calmante caseiro. Deu para que ela tomasse. A garota foi se acalmando aos poucos.

- Obrigada, muito obrigada. – ela suspirou fundo.
- Não precisa me agradecer. – ele passou a mão no cabelo – Há quanto tempo isso acontece?
- Há uns meses ele me assediava, dizia que eu era muito bonita, me olhava de uma forma maliciosa, mas foi a primeira vez que ele de fato tentou algo – ela respondeu com um fio de voz. sentiu as mãos tremerem, a raiva voltando com força total.
- E por que nunca o denunciou?
- Porque eu tenho duas filhas para sustentar sozinha, não posso perder meu emprego! Eu estava aguentando isso por elas. – ela sentiu os olhos voltarem a umedecer.
- Eu posso compreender. – ele respondeu com um tom de voz ameno - Olha, eu vou te ajudar, isso não pode e não vai ficar assim.
- Me ajudar como? Se nós tentarmos algo contra ele sem provas, vamos os dois pra rua.
- Sim, eu sei. – ele passou a mão nos cabelos novamente, os bagunçando mais, enquanto pensava por alguns instantes – É por isso que não tentaremos sem provas.
- O que pensa em fazer? – ela o olhou, esperançosa.
- Vamos gravar a confissão dele. – ele sorriu confiante.
- Ele nunca confessaria algo assim, !
- Temos que ter paciência, Jane. Só o que eu te peço é que confie em mim, por favor, eu só quero te ajudar.
- Eu confio sim. – ela passou a mão pelo rosto limpando os resquícios de lágrimas.
- Eu tenho um plano, mas eu preciso que você tenha sangue frio!

***


Passaram-se alguns dias, Edgard não havia tentado mais nada com Jane, e a moça estavam na espreita, ele sabia que seu chefe não aguentaria e voltaria a assediá-la, era típico de homens assim.
Foi em uma quinta-feira que tudo aconteceu, Jane limpava a estante de livros da sala do homem, estava sozinha no local, já que ele estava em uma reunião com alguns gerentes. Limpava distraída, quando sentiu alguém lhe abraçar por trás com força. Ela virou seu corpo pra frente e não sentiu surpresa quando viu que era Edgard ali.

- Me solte – ela o empurrou com força. Ligou à micro câmera que estava no botão de sua blusa, para focar no homem que estava a sua frente – Me deixe em paz, por favor!

O notebook de apitou, ele sabia o que aquilo significava e logo clicou em cima do programa do monitoramento da câmera. Abriu Skype e criou uma videoconferência com as imagens em tempo real para todos os gerentes. Estava pronto para interromper quando fosse necessário.

- Para de se fazer de difícil, eu sei que você quer também! - ele mexia no cinto, tentando desafivelá-lo.
- Eu não quero, você está louco! – ela se afastava mais dele – Você me persegue, me assedia há meses... Por que eu?! – ele tentava uma aproximação.
- Eu quero você, estou completamente louco. Eu mandei te contratarem porque você era a mais gostosa daquele processo seletivo, eu te queria... Eu quero comer você em todas as posições possíveis, nem que tenha que ser a força.
- Nojento! Não! – ela corria desesperada pela sala, tentando sair, mas não conseguia.

saiu correndo de sua sala antes que o pior pudesse acontecer ali. Entrou de repente, colocou Jane atrás de si e deu um soco na cara do homem, que cambaleou para trás devido à força que depositara ali. O homem cuspiu sangue.

- Você está louco? Perdeu o juízo corporativo? – Edgard lhe olhava incrédulo – Pega as suas coisas e se manda daqui e leve essa vadia junto com você. Está demitido!
- Veremos quem sai demitido daqui... Veremos – sorriu misterioso e saiu da sala com Jane em seus braços. O homem limpou o sangue do canto da boca, extremamente irritado. Só que o que ele não sabia era que tudo aquilo estava sendo transmitido em tempo real no Skype empresarial para todos os seus líderes. Não demorou muito para que os seguranças acompanhados dos gerentes aparecessem no escritório e demitissem o homem por justa causa.

Atualmente...

Naquele mesmo dia Edgard havia saído da empresa escoltado pelos seguranças até a polícia. foi homenageado pelos gerentes e ainda convidado pela diretoria para participar do processo seletivo que aconteceria naquela mesma semana para ocupar a vaga de Edgard, já que o cargo de gestor de recursos humanos era de suma importância e não podia ficar vago.
Porém, não havia conseguido passar. De acordo com a selecionadora, ele não tinha o perfil que eles procuravam. Ele ficou desolado, tinha perdido a chance de crescimento de sua vida. Tinha até voltado a assinar a Catho* e estava há procura de vagas.
tinha ido almoçar aquele dia com Joe, um de seus melhores amigos. Fazia um bom tempo que não almoçavam juntos. Trabalhavam na mesma empresa, porém Joe fazia parte do TI.

- Eu tô procurando outro emprego, se souber de alguma coisa me avisa. – Joe arregalou os olhos, desacreditado.
- Como assim? Você trabalha há seis anos aqui... Eu não entendo – suspirou audivelmente antes de responder.
- Eles abriram recrutamento externo, ao invés de me promoverem. A Margareth disse que eu não tenho perfil. Que porra de perfil eu não tenho?
- Ei, calma, cara. Às vezes eles querem uma pessoa que tenha experiência na área, devido à emergência, por isso você não passou.
- E você acha que essa pessoa que eles contrataram tem experiência com os custos-benefícios da empresa?
- Talvez não tenha, mas um gestor precisa saber liderar, analisar algumas estratégias, elaborar planos e isso, você não tem experiência nenhuma.
- Eu sei, eles podiam me dar à oportunidade.
- Com a folha de pagamento fechando? Nem pensar, eles querem alguém pronto.

odiava admitir, mas sabia que o amigo tinha toda a razão. Acabou por tomar um longo gole de sua bebida já que não tinha mais argumentos para rebater.

- Foda-se, eu não ajudarei em nada. – ele deu de ombros, ressentido. Joe resolveu ignorar a ultima fala do amigo, sabia que ele não faria isso, não era de sua personalidade.
- Já contrataram o novo gestor? – Joe lhe questionou de boca cheia.
- Sim, inclusive está hoje na empresa, conhecendo as instalações – revirou os olhos – E não é novo gestor, é nova gestora.
- Hum... Já pensou se é gostosa? – Joe deu um sorrisinho malicioso.
- Deve ser uma senhora de cinquenta anos, mal amada, e que tenha mais de dezessete gatos – Joe riu alto com a suposição do amigo.
- , não morda a língua – Joe o advertiu, ainda rindo.
- Eu não vou morder, pode apostar. – lhe deu uma piscadela, enquanto ria.

Eles terminaram de almoçar, sem mais conversas significativas. Deram uma passada na loja de doces que ficava do outro lado da rua para comprarem chocolates e chicletes para o decorrer da tarde. Voltaram para suas respectivas funções, sem muitas novidades.

passara uma boa parte da tarde traçando o perfil de uma vaga para auxiliar contábil, quando foi interrompido por batidas na porta. Respondeu um entra, discretamente.
- Oi, – era a Margareth que entrou acompanhada de alguém em sua sala.
- Sim? - ele quis revirar os olhos, mas continuou de cabeça baixa enquanto terminava de digitar.
- Vim te apresentar a nova gestora de recursos humanos – ele parou de digitar, e finalmente encarou Margareth. – , este é , analista sênior. , está é , sua nova líder.
Quando ambos escutaram os nomes, empalideceram. Não, não podia ser. Aquilo era uma brincadeira de muito mau gosto, não escutava aquele nome fazia anos. arfou quando olhou bem e viu quem era o analista.
- Você?! – eles disseram em uníssono. Os olhos arregalados e corações disparados.

* Catho: agência online de empregos.


Capítulo 2

Sem pensar nas consequências de suas ações, se aproximou do rapaz e pulou em seus braços, o abraçando com toda a sua força. , surpreso a segurou por reflexo. Ele, a princípio havia ficado sem reação, mas depois que percebeu que quem lhe abraçava era , sua melhor amiga de infância, ele a abraçou de volta e a apertou em seus braços. Passaram alguns minutos abraçados, parecia estranho, mas naquele abraço sentiram-se finalmente em casa. Margareth olhava a cena surpresa por eles se conhecerem, viu que eles não se desgrudariam tão cedo e resolveu pigarrear os despertando. Relutantes, separaram-se, desceu do colo do rapaz, tímida e ajeitou a roupa, indo para o lado da selecionadora.

- Então já se conhecem, correto? – Margareth perguntou o óbvio.
- Sim, era meu amigo de infância, não nós víamos há vinte anos. – ela sorria, enquanto falava. lhe fitava intensamente, estava em choque.
- Que coincidência, não? – Margareth olhava de um para o outro.
- É sim, o destino nos pregando peças. – ela o olhou com os olhos brilhando, aquilo parecia um sonho.
- Quer que eu lhes dê mais privacidade? – Margareth perguntou ácida. balançou a cabeça, voltando a si, e lembrando onde estava.
- Claro que não. Eu peço desculpas pelo meu comportamento, é que... – ela suspirou, o fitando rapidamente. O coração ainda estava batendo rapidamente – Bom – ela olhou a mulher – Quero conhecer o restante da minha equipe.
- Ah, claro – a mulher sorriu falsamente, enquanto conduzia até a porta. Tudo sendo acompanhado pelos olhos atentos de .
- Nos vemos, o chamou pelo seu apelido. Margareth saiu atrás da moça encostando a porta.

se jogou na cadeira, abriu alguns botões da camisa, alarmado. Ela havia se tornado uma mulher maravilhosamente linda. As emoções de quando ele era um garotinho de dez anos voltaram como uma avalanche, porém tudo ainda mais intenso, como aquilo era possível?

conheceu mais dois analistas e três assistentes depois de . Estava extremamente cansada, tinha andado aquela empresa inteira acompanhada de Margareth, tudo o que ela queria era sentar. Ela não via a hora daquela “tour” acabar. Pararam em frente há uma porta.

- Essa aqui é sua sala – Margareth abriu a porta do lugar. A sala era enorme, e ficava no fim do corredor – Fique a vontade para decorá-la como bem entender. Logo mais chegarão às plaquinhas para colocar na sua porta e mesa. Dúvidas me procure, ok? Ah, e seja muito bem vinda a Engeali. Com licença. – Margareth saiu da sala.

Finalmente ela estava sozinha, sentou-se no sofá que havia no canto da sala e tirou os sapatos de salto, massageando seus pés, estavam bem doloridos. Levantou-se e pegou o notebook o ligando, não fazia ideia do que fazer naquele momento. Teria que conversar com o seu chefe para saber. Pegou-se pensando em , e naquele encontro de mais cedo. Queria ter conversado com ele, conhecido sua vida, mas se repreendeu, ali não era lugar para aquilo, ela tinha que se controlar. Levou um susto quando escutou um barulho do notebook, era notificação de um e-mail. Seu gerente pedindo para que ela se dirigisse a sala dele, ela suspirou pegando os sapatos e os colocando de volta, aquele dia estava bem longe de acabar.

***


Já eram 18h00min, arrumava suas coisas para ir embora, queria deitar na sua cama e dormir, mas não podia. Ajeitou tudo e encaminhou-se até o elevador, que a levou até o térreo. Ela caminhava desajeitada com algumas pastas nas mãos, nelas consistiam as avaliações de cada liderado seu, ela queria saber as aptidões de cada um para começar a demandar algumas coisas.
Ficou em frente ao prédio da empresa, e pegou seu celular, chamando um uber pelo aplicativo. Enquanto aguardava resolveu olhar sua redes sociais. Foi surpreendida por um toque sútil em seu ombro esquerdo, virou-se e viu parado atrás de si. Deu um passo para trás, visivelmente surpresa.

- Preciso me acostumar com isso – deu um riso leve se referindo à presença do rapaz.
- Eu mais ainda, afinal de contas, você é minha chefe agora. – ele sorriu, coçando a nuca.
- Sou sua chefe dentro daquele prédio ali – apontou para empresa - aqui fora você é somente e eu . – ela sorriu.
- Certo – ele pigarreou - Está fazendo o que parada ai?
- Chamei um uber estou esperando ele chegar – ela deu uma olhada no aplicativo. Ainda faltavam cinco minutos para o motorista chegar. Bufou.
- Parece que vai demorar um pouquinho – ele deu uma espiadinha no celular dela – Quer uma carona? – ela pareceu ponderar.
- Bom, acho que sim – resolveu aceitar, era uma carona.
- Certo, deixa eu te ajudar com essas pastas – ele as pegou da mão dela e as carregou como o cavalheiro que era.

Eles atravessaram a rua lado a lado, sem falarem nada. destravou seu Renault Clio 2015, e abriu a porta para que ela entrasse, e em seguida entrou com as pastas e as colocou no banco de trás. Ela mexia freneticamente no celular para cancelar a corrida do aplicativo.

- Bom para que lado eu devo ir? – ele a questionou, visivelmente curioso.
- Eu moro na Bela Vista, conhece?
- Conheço sim. Quando estivermos perto você me diz onde eu devo seguir, ok? - ela assentiu.

Ele deu partida no veículo, e um silêncio desconfortável se instaurou ali. olhava para a janela, desconcertada, ela queria conversar com ele, mas nada vinha na sua cabeça. A mesma coisa se passava com .

- Então – os dois disseram juntos, e riram.
- Primeiro as damas – lhe incentivou a falar.
- Quero te perguntar tantas coisas, ... – ela o olhou concentrado no trânsito - Primeiro de tudo, como você passou esses vinte anos?
- Bom depois que eu me mudei para São Paulo, eu repeti alguns anos no colégio, terminei o ensino médio aos 20 anos. Fiquei muito indeciso sobre o que fazer então ingressei aos 24 anos na faculdade de adm porque abrange tudo, e saberia ao final do curso o que eu queria da minha vida. Entrei na Engeali como estagiário e tenho seis anos de empresa. Moro atualmente sozinho. Meu pai aposentou-se e está casado com minha mãe ainda. E eu ainda estou indeciso sobre a profissão que escolhi pra minha vida. Acho que resumidamente é isso ai. – ela não pode evitar rir no fim do relato – E você?
- Uaau, estou com saudades de seus pais, sua mãe ainda faz aquele bolo de cenoura maravilhoso? – ele riu, assentindo.
- Faz sim, de vez em quando ela vai lá em casa e deixa ele pra mim – ele deu uma rápida olhada para ela.
- Eu quero, já necessito daquele bolo pra ontem – sentiu a boca salivar. – E quanto a ter ou não ter escolhido a profissão certa, nunca é tarde para se encontrar. – ela tocou sutilmente no ombro do rapaz.
- Sim, você tem toda a razão – ele não pode evitar sorrir. Depois de tantos anos ela sempre sabia o que dizer.
- Bom, eu me formei no mesmo colégio no qual estudávamos. Vim para São Paulo com 18 anos, pois passei na FGV*, cursei administração porque gostei da grade curricular, fiz pós em gestão de pessoas, e agora estou concluindo meu MBA em gestão empresarial. Meu pai faleceu há doze anos, minha mãe mora ainda em Monte Castelo, junto com meus dois irmãos.
- Nossa, eu sinto muito por seu pai... Como foi isso? – ele perguntou visivelmente triste.
- Ele infartou enquanto trabalhava, chegou ao hospital já sem vida – ela sentiu um aperto no peito, aquilo ainda doía muito, mesmo tendo passado tantos anos. Ele percebendo o clima, rapidamente mudou de assunto.
- Veio pra cá e por que não me procurou? – ele perguntou, brincalhão.
- Mas eu procurei... Aqui é uma cidade muito grande, acabei desistindo com o tempo. – ela mexeu nas unhas, fingindo interesse na atividade. Ele acabou surpreso com a resposta.
- Procurou? – ela assentiu - Eu sempre quis voltar para o Monte, mas eu nunca consegui. Eu senti muito a sua falta. – ele a confidenciou. – Meus pais acham que eu repeti a quinta série por isso, eu acho que eles têm razão. – ela sorriu largo, achando graça.
- Ai, , isso foi um enorme problema então – ela deu uma leve risadinha - Eu também senti a sua falta. Eu chorei algumas noites de saudade. – confessou, sentindo as bochechas queimando. Ele a olhou rapidamente e achou adorável.
- Por que perdemos o contato, ? – ele a fitou, intensamente. O carro estava parado no farol.
- Nossos pais... – ele ainda a fitava. Ele não tinha a noção do que aquele olhar fazia com a mulher.
- Não sei por que nos afastaram desse jeito. – ele se aproximou e alisou o rosto dela – Você se tornou uma mulher muito linda... – ele sussurrou. Ela umedeceu os lábios, sentia a boca seca. A região que ele alisava parecia formigar.

Despertaram daquele momento com buzinas dos carros de trás alertando que o farol havia ficado verde. passou as mãos nos cabelos, os bagunçando. engoliu em seco. Foram o restante do trajeto calados, não eram capazes de falarem mais nada.
Quando chegou ao bairro dela, a moça explicou o lugar onde morava e seguiu o caminho que ela indicava, não demorou em que chegassem em frente a casa.

- Muito obrigada pela carona, – ela esticou-se para o banco de trás e pegou suas pastas que estavam lá. – Quer entrar? – ela perguntou por educação, torcendo internamente que ele não quisesse.
- Melhor não, , você deve estar cansada. – ela agradeceu aos anjos por aquela resposta.
- Estou um pouquinho – ela sorriu – Bom, é... Tchau – ela estava pronta para abrir a porta, mas segurou seu braço levemente.
- Até amanhã – ele se aproximou dela, a respiração de ambos estava um pouco acelerada. Ele desviou dos lábios dela e lhe deu um beijo demorado na bochecha, e a soltou relutante.

Ela desceu rapidamente do carro, procurou desesperadamente sua chave, e entrou na casa, sendo acompanhada pelo olhar do rapaz. Abriu a porta, e encostou-se a ela quando a fechou. Passou a mão por sua testa, ainda com a respiração ofegante.

- O que houve, ? – , sentada no sofá, a questionou, preocupada.
- Hãn, oi, amiga – ela abriu os olhos – Nada. – jogou as coisas em cima da mesinha de centro e foi até a cozinha procurando alguma coisa pra comer.
- Como assim nada? – ela a olhava, incrédula. Tinha levantado do sofá e seguido à amiga até a cozinha. – Não mente pra mim.

suspirou, não tinha como mentir para . Elas se conheciam há treze anos, quando ela e a mulher moravam em uma república junto com mais cinco pessoas. Ambas não eram de São Paulo, e vieram cursar a faculdade ali, acabaram se apegando uma à outra e hoje dividiam uma casa juntas.

- Tudo bem, não vou mentir. – colocou um pedaço de lasanha no micro-ondas. – Como você sabe hoje foi meu primeiro dia na empresa nova – assentiu – Então, conheci o local que me agradou muito, um ambiente muito limpo e bem estruturado e...
- Vamos direto ao ponto que te fez entrar dentro de casa desse jeito, por favor? – a interrompeu, rolando os olhos.
- Às vezes você é tão insuportável! – franziu o cenho. – Enfim, eu reencontrei na empresa, ele será meu liderado.
- ?! Aquele seu amigo de infância? Seu primeiro...
- Sim, esse mesmo! – a interrompeu - Ele me trouxe até em casa, e inevitavelmente rolou um clima no fim da carona.
- Gente... – puxou uma cadeira para sentar – Estou chocada!
- Eu estou muito mais, pode acreditar. Isso não podia acontecer, eu tenho um namorado! – ela mexeu no cabelo, nervosa.
- Sim, você tem. – ela desdenhou – Mas era o tal , seu primeiro amor... E o primeiro amor à gente nunca esquece. – ela sorriu, enquanto piscava os olhos freneticamente.
- Éramos só crianças, , para com isso! – chamou a atenção da amiga, sem graça.
- Sim, mas agora são adultos, e se rolou um clima, é porque ainda se amam. Isso é tão fofo – ela suspirou audivelmente.
- Para de falar asneiras, por favor! Ai, tá vendo? Era por isso que eu não queria te contar nada – ela ralhou com .
- Ok, não falo mais nada – fingiu passar um zíper na boca – Ai, isso é tão sexy, você, chefe dele, essa tensão de anos acumulados, os dois transando em cima da mesa da sua sala e... – tacou o pano de prato na amiga, enquanto ria – Tá bom, eu parei.
- Idiota! – chamou sua atenção rindo alto. O micro-ondas apitou avisando que a comida estava pronta. – Eu sou profissional e espero que ele seja também.
- Agora só saberemos disso amanhã – ela sorriu, enquanto observava a amiga comer.
- Sim. Só te garanto uma coisa: eu não pego mais carona com ele.
Elas riram, enquanto passaram a noite conversando sobre outras trivialidades.

* Faculdade Getúlio Vargas: fundada em 20 de dezembro de 1944 com o objetivo inicial de preparar pessoas qualificadas para a administração pública do Brasil.


Capítulo 3

se espreguiçou longamente, desligando o despertador que mostrava o horário das 06h30min, hoje era seu segundo dia de trabalho. Ela tinha ido dormir razoavelmente tarde estudando o perfil de cada liderado, era bem perfeccionista com seu trabalho. Acordara bem disposta e agradecida por ter conseguido aquele emprego. Se ela não tivesse arranjado, completaria na semana que vem cinco meses desempregada.
Seu telefone começou a tocar, ficou bem surpresa quando viu quem era... Tinha se esquecido por completo de seu pobre namorado.

- Oi, amor! – ela colocou o aparelho no viva voz, enquanto se arrumava.
- , tudo bem? Você disse que me ligaria, mas não ligou... – ela bateu na própria testa se lembrando.
- Estou bem, Bru e você? Bom, eu disse mesmo, mas cheguei bem cansada ontem que deitei e dormi. Me desculpa.
- Tudo bem, e como foi o primeiro dia de trabalho? – ele perguntou, interessado.
- Muito bom. Reencontrei meu amigo de infância, você acredita? – ela comentou. Decidiu que não esconderia aquela informação, não tinha motivos para tal.
- Que legal, amor. Já tem em quem confiar ali dentro. Isso ajuda muito. – ela terminava de pentear os cabelos.
- Sim, ajuda mesmo... – ela suspirou fundo, tentando ignorar os pensamentos que estavam rondando sua cabeça, todos envolvendo . Ela não tinha como negar que aquele repentino reencontro tinha mexido muito com ela – Volta quando de viagem? – Bruno era agente de viagens, e muitas vezes precisava viajar por conta disso.
- Volto na segunda ou no máximo terça.
- Ah, então falta pouquinho – ela sorriu meigamente – Queria conversar mais com você, mas preciso terminar de me arrumar, o dever me chama. Beijo.
- Beijo, minha vida. Bom trabalho.
- Pra você também – sorriu e desligou o contato. Depois do telefonema percebeu que estava com saudades dele.

Terminou de se vestir e deu uma rápida checada no espelho alisando a roupa. Pegou a bolsa e foi até a cozinha para preparar o seu café. Estava sozinha, já que a melhor amiga tinha saído de casa mais cedo por ter uma consulta marcada com um paciente às 07h00min, era psicóloga.
Tomou o café rapidamente, enquanto olhava suas redes sociais. Decidiu que hoje iria de metrô, tinha que economizar. Utilizar uber todos os dias não cabia em seu orçamento de recém-empregada.

***


Desceu do metrô zonza, era sempre assim que se sentia quando pegava o transporte aquele horário, sempre estava superlotado. Alisou a roupa, se ajeitando, respirou fundo e entrou na empresa, cumprimentando alguns funcionários da recepção e se encaminhando ao elevador que a deixaria em seu andar.
Viu que todos os seus liderados já estavam ali, exercendo suas funções, demorou-se um pouco mais na sala de um certo rapaz. Respirou fundo, arrancando aqueles pensamentos de si, e se dirigiu a sua sala.
Antes de fazer qualquer uma de suas tarefas diárias tinha decidido que queria apresentar-se adequadamente aos colaboradores, para se familiarizar com todos. Então se sentou em sua mesa e mandou um e-mail convocando a presença de todos em sua sala. Olhou o lugar e viu que caberia perfeitamente todos ali.
Escutou breves batidas na porta e assustou-se com a rapidez que eles tinham lido ao e-mail. Apareceram três moças com sorrisos tímidos, as cumprimentou e pediu que sentassem. Não tardou para que chegasse ali, acompanhado de um sorriso lindo e de um perfume delicioso. Ele lhe surpreendeu quando lhe deu um beijo estalado na bochecha e dirigiu-se para o sofazinho no canto da sala. Viu o olhar que as meninas lhe lançaram, sabia bem o que aquilo significava, sentiu seu rosto inteiro muito quente, e com certeza aquilo não era timidez. Não tardou para que viessem os outros dois analistas que faltavam.

- Bom dia a todos!

Ela os cumprimentou brevemente e escutou um sonoro bom dia em resposta.

– Chamei todos vocês aqui, porque queria me apresentar adequadamente, e conhecê-los um pouco melhor também. – ela deu um rápido sorriso. – Vou começar por mim... Meu nome é , tenho 31 anos e sou formada em administração. Atualmente faço MBA em gestão empresarial. Trabalho na área de recursos humanos há nove anos e amo o que faço – sorriu fechado.
- Uaau, não parece que tem 31 anos, é lindíssima! – Bianca comentou. Os colegas reviraram os olhos com o puxa-saquismo da garota.
- Linda mesmo... – disse mais para si do que tudo, mas foi possível que e os outros colaboradores escutassem. Ela respirou fundo, estava a colocando em uma saia bem justa com aquele comportamento.
- Obrigada – sorriu sem mostrar os dentes. estava bem acostumada com liderados do tipo da moça, todo o lugar tinha um. – Agora eu quero saber o nome de vocês, idade, quanto tempo de empresa, se estudam e quais são as funções de cada um, ok? – eles assentiram – Quem começa? – Bianca rapidamente levantou as mãos pedindo a palavra.
- Meu nome é Bianca, tenho 22 e dois anos na Engeali. Esse ano me formo na faculdade de recursos humanos. Eu cuido do treinamento e desenvolvimento de cada funcionário da empresa, garantindo as 100 horas que cada colaborador deve ter dentro de sala de treinamento ou a distância (e-learning).
- Muito bom, Bianca, prazer em conhecê-la. – sorriu. – Próximo?
- Eu – sorriu, e tomou à vez – Meu nome é , tenho 30 anos, sou formado em administração. Atualmente não estudo e tenho seis anos de empresa. Eu cuido do recrutamento e seleção, traço os perfis das vagas, emito a contratação de novos funcionários para todas as áreas da empresa, exceto gerência. – ele deu uma piscadinha e sorriu para . Ela tinha que impor limites a ele, caso não, aquilo lhe traria graves problemas em seu ambiente de trabalho. Ela queria sim retomar a amizade dele, mas da porta pra fora da empresa, ali era a chefe do rapaz e demonstração de afeto e intimidade queimariam seu filme, e por Deus, ela demorou muito para conseguir aquele emprego.
- Obrigada, . – sorriu sem mostrar os dentes.

E assim se prosseguiu, o restante do grupo se apresentou e foi conhecendo cada um pessoalmente, apesar de ter os estudado no dia anterior. Dispensou a todos, exceto seu melhor amigo, causando estranhamento dos demais.

- , precisamos impor limites aqui! – ela ralhou com o rapaz, nervosa – Aqui dentro, sou sua líder e essas intimidades não podem e não devem acontecer! – ela terminou a frase com a voz bem fininha – Sim, eu te abracei ontem, na frente da selecionadora, mas acabou. Eu já perdi alguns pontos com aquilo, não posso mais me prejudicar!
- Sim, chefa – ele frisou bem a palavra e assim se retirou da sala com um biquinho chateado.

Ela se lembrou que ele sempre fazia aquela carinha quando ela não concordava com alguma brincadeira que ele propunha. Ela sentou-se na cadeira, fechou os olhos e suspirou alto. Quem foi que disse que as coisas seriam fáceis com ali? Ledo engano.


***


Duas semanas haviam se passado, evitava qualquer tipo de contato com , senão o profissional. Tinha ficado magoado com o corte que ela tinha lhe dado. Ele sabia que ela era sua chefa, mas aquilo era muito novo para ele. Ela tinha que tentar compreendê-lo.
Escutou duas batidinhas leves na porta e respondeu um entra, enquanto tentava se focar na demanda nova que tinha recebido. E por ironia, quem estava ali na porta era .

- ? – ela abriu a porta e a encostou. Sentou-se de frente ao rapaz, sem nenhum tipo de convite – Vim te explicar como traçar esse perfil de vaga em específico.
- Ah, tudo bem – ele respondeu sério, sem encará-la. Ela rolou os olhos com o jeito dele.

Ele empurrou sua cadeira, deixando que se aproximasse. Ela foi lhe explicando como ele deveria fazer, e ele ia anotando tudo para não precisar incomodá-la novamente.

- Entendeu? – ele assentiu, ela suspirou fundo – Me desculpa, ok? Eu fui grossa com você, desnecessariamente. Queria ter feito isso antes, mas estava tão corrido com o fechamento da folha que eu não consegui.
- Com quem eu estou falando agora? Com a minha líder ou com a minha amiga? – ele a alfinetou.
- Não acredito que você é tão criança assim, ! – ela mexeu no cabelo, nervosa.
- Criança, eu? Não vem com essa, , eu tenho o direito de estar magoado com você. Poxa, eu sei que eu passei dos limites, concordo. Mas tem jeitos e jeitos de se falar com alguém! – ele se levantou da cadeira, bravo.
- Eu sei que fui grossa, não tô aqui engolindo meu orgulho me desculpando com você? Que saco, ! – ela já ia se retirando da sala, quando ele segurou o braço dela, fazendo com que ela voltasse para trás. Ela espalmou as mãos no peito dele, surpresa.
- Eu desculpo – ele sussurrou. Ela levantou a cabeça, estava perdida nos olhos dele.

Ela sentiu o coração de bater forte, o seu estava do mesmo jeito. Aquela pseudo discussão tinha deixado o clima bem mais intenso, e ambos não estavam conseguindo se segurar. Aproximaram-se devagar, até que seus narizes se tocassem, as respirações estavam aceleradas, estavam quase se beijando quando foram interrompidos por duas batidas na porta, rapidamente se desvencilharam.

- , eu preciso que me ajude a... – Lucas se interrompeu quando viu que estava ali – Nossa, me desculpe, eu não sabia que estava aqui, .
- Não, tudo bem, Lucas, já terminei com . Com licença. – saiu sem graça da sala. respirou fundo e se sentou na cadeira.
- Do que precisa, Lucas – o olhou entediado, se ele não tivesse aparecido com toda certeza ele a beijaria, dessa vez não hesitaria.

***


Já eram 18h45min, agradecia a Deus por hoje ser sexta-feira, aquela semana tinha sido bem tumultuada. Decidira que estava na hora de ir embora já que tinha chegado às 08h00min aquele dia, tinha hora para chegar, mas não tinha hora para sair, já que não batia ponto por seu cargo ser de confiança. Ajeitou a sala e saiu dirigindo-se ao elevador, tinha sido um dia bem cansativo. Desceu e caminhou até a saída da empresa. Foi em direção ao metrô quando sutilmente sentiu alguém segurar o seu braço direito. Virou-se, surpresa.

- Oi, sorriu docemente para ela, que não pode evitar retribuir o gesto.
- Oi, – ela ajeitou a bolsa no ombro, sem graça. Deus sabia que era errado, mas estava o evitando desde o incidente de mais cedo.
- Tem algum compromisso pra hoje? – ela o olhou, desconfiada. Resolveu responder a verdade.
- Nada, vou assistir netflix à noite inteira – sorriu fofamente. Bruno tinha novamente viajado para mais um trabalho, deixando sozinha. Quando ela estava desempregada até o acompanhava em algumas viagens, mas agora não tinha como. Pelo menos amanhã ele estaria de volta.
- Não, nada disso. Hoje é sexta feira, dia de happy hour! - ele estava animado - Nós geralmente vamos a um barzinho com karaokê na rua de cima, você está convidada e não aceito não como resposta. – ela o olhou, desconcertada. Sabendo o que ela perguntaria, ele completou – Ninguém do nosso setor vai. Vamos, ! Por favor...
- Eu... – ela ponderava os prós e contras daquilo. Os dois sentiam uma atração fortíssima, era inegável, e ela definitivamente não podia se entregar a aquilo.
- , vamos! – ele a despertou de seus devaneios. tinha o olhar pidão.
- Tudo bem – ela sorriu e ele a abraçou de lado, enquanto andavam em direção a dois rapazes que estavam encostados em um muro.

sabia que deveria não ter aceitado, mas ela queria mais de em sua vida. Aproximaram-se dos rapazes.

- Gente, essa é a . esses são Joe e Pedro, ambos trabalham no departamento de TI e são meus amigos.
- Oi, moça – Pedro foi breve no cumprimento.
- Então você é a famosa ... Muito prazer! – Joe foi mais específico. Ela não pode conter uma risadinha leve.
- Famosa, é? – olhou para , desconfiada, enquanto cumprimentava com beijos estalados a bochecha dos rapazes – Prazer, meninos.

Antes que respondesse a pergunta dela o celular de começou a tocar, ela viu o número e empalideceu, era Bruno. Ela sabia que não estava fazendo nada errado, mas fora impossível controlar as emoções. Desfez o abraço com , pediu licença e foi atender um pouco mais afastada.

- Aposto que deve ser uma mulher de cinquenta anos, mal amada, e com dezessete gatos. - Joe lembrou-se da conversa que teve com o amigo há algumas semanas - Eu disse que você ia morder a língua.
- Ah, cala a boca, idiota - deu um cascudo no amigo.
- Ela é uma mulher muito bonita, . - Pedro analisava de longe. franziu o cenho com comentário do amigo, mas antes que pudesse dizer algo, Joe o fez.
- É sim, mas tira os olhos que o viu primeiro. - deu um leve empurrãozinho no rapaz. sentiu as bochechas pegarem fogo.
- Joe! - ele ralhou.
- Seja sincero, , estou mentindo?!
- Não – ele passou a mão no cabelo, o bagunçando - Desde que eu a reencontrei não consigo tirá-la da minha cabeça. É como se um sentimento que estivesse adormecido dentro de mim acordasse de uma vez, me sufocando. - ele respirou fundo.
- É melhor mudarmos de assunto, ela está vindo. - Pedro sinalizou. guardava o celular na bolsa enquanto se aproximava. – Não vou furar seu olho. – eles riram.
- Vamos?! - eles assentiram e caminharam para o lugar.

Chegaram ao barzinho, e sentaram em uma mesa próxima do palco no qual tinha um rapaz cantando uma música qualquer.


***


Já estavam na quarta rodada de cerveja daquela noite. Os rapazes conversavam animados, e já estava bem enturmada e participava ativamente das conversas deles.
- Então o se compadeceu do sofrimento da moça e eles bolaram um plano e pegaram o ex chefe dele. – Pedro bebericou a bebida quando terminou de falar. – o expôs para a diretoria da empresa.
- Uaau – ela exclamou surpresa – É louvável o que fez, não posso deixar de reconhecer isso, mas me deixa enojada que em pleno século XXI existam homens como atitudes iguais as do antigo chefe dele. Isso jamais deveria acontecer!
- É, eu concordo. Atitudes como as do não seriam necessárias se os homens entendessem que devem respeitar uma mulher. – Joe comentou.
- Exatamente! Quando essa sociedade irá entender? – exclamou. Os rapazes concordaram com ela, exceto que estava calado. – ?! – ela o cutucou na barriga, ele se sobressaltou com o susto.
- Oi?! - estava alheio à conversa, olhava o catálogo de músicas, curioso.
- Tá quietinho demais... – ele largou o catálogo e lhe olhou. Joe e Pedro conversavam entre si.
- Ah, é que eu estava procurando uma música pra cantar – ele fechou o livro.
- E achou? – ela bebericou sua cerveja, esperando sua resposta.
- Achei sim. Só um minuto – foi até o dj e pediu para que ele colocasse a música que ele havia escolhido, e voltou a companhia dela. – Não vai cantar?
- Eu? Não mesmo, canto muito mal – ela debochou de si mesma.
- Eu também não canto bem, mas hoje eu senti uma vontade imensa de cantar – ele lhe sorriu.

Escutaram o nome do rapaz no alto falante, já era a vez dele.

Coloquem essa música para tocar, por favor:

estava nervoso, não era nenhum cantor profissional, mas uma vontade súbita de cantar algo veio em sua cabeça. Subiu ao palco, sentou-se em um banquinho e ouviu os acordes da música.

Linda do jeito que é
Da cabeça ao pé
Do jeitinho que for
É, e só de pensar
Sei que já vou estar
Morrendo de amor
De amor

cantava de olhos fechados, tinha escolhido aquela música a dedo, e assim como a letra sugeria, era uma homenagem a , que tinha voltado a sua vida. Dessa vez ele não deixaria que nada os separasse.

Coisa linda
Vou pra onde você está
Não precisa nem chamar
Coisa linda
Vou pra onde você está

Desde quando cantava tão bem assim? Seu amigo era um talento nato, por que ele não tinha investido na música ainda? Eram as perguntas que rondavam na cabeça de . Aos poucos a ficha foi caindo e ela foi percebendo o teor da letra da música, ficou surpresa com aquilo.

Linda feito manhã
Feito chá de hortelã
Feito ir para o mar
Linda assim, deitada
Com a cara amassada
Enrolando o acordar
O acordar

Ele a encarava agora, com o olhar firme e preciso. Era assustador para ele, mas estava sim apaixonado por sua melhor amiga, e temia não ser correspondido. Ela estava com os olhos arregalados, era estranho, mas ela estava presa a aquele olhar, e não conseguia quebrar aquele contato.

- Céus... – ela balançou a cabeça, sorrindo, estava mesmo muito surpresa.

Joe e Pedro olharam a situação e soltaram risinhos entre si, tinham perdido mesmo um soldado.
estava amando, ninguém nunca havia cantado ou feito algo assim para ela. Era adorável, era apaixonante... Ela o queria para si, o achava a coisa mais linda que já tinha visto.
Mas ela tinha um namorado. Sim, ela tinha um namorado, aquilo caiu como um tijolo em sua cabeça quando lembrou-se de Bruno. Ela não deveria estar ali, ela não podia ter aceitado aquele convite, se as coisas continuassem assim ela feriria o coração de duas pessoas. E eles não mereciam.

Coisa linda
Vou pra onde você está
Não precisa nem chamar
Coisa linda
Vou pr aonde você está
Ah, se a beleza mora no olhar
No meu você chegou e resolveu ficar
Pra fazer teu lar
Pra fazer teu lar

Ele foi terminando a música com um sorriso lindo em seu rosto, mas assim que percebeu a situação que se seguia embaixo, o sorriso se desmanchou. deixava o dinheiro na mesa e sai apressadamente do bar. Ele sem mesmo terminar a música saiu atrás da amiga, sendo aplaudido de pé por todos os presentes no bar. Ele ignorou as parabenizações e foi atrás dela

Ele a viu em frente ao bar, mexendo freneticamente no celular, se aproximou cautelosamente.

- , você saiu correndo, me desculpe, eu não fiz para te assustar, nem nada, eu só quis mesmo cantar a música e... – ela o interrompeu.
- Me desculpe você, . Eu deveria ter te contado antes, mas eu tenho um namorado. – ela mexeu no cabelo, nervosa.
- Eu pensei que... Estava solteira – ele comentou, derrotado.
- Eu sei que você pensou, e peço mesmo desculpas por isso. – um carro foi estacionando em frente aos dois, era o veículo que ela havia solicitado pelo aplicativo. Abriu a porta de trás do carro, mas não sem antes sussurrar – Eu sinto muito.

Ele encostou-se a parede, calado, vendo o carro se distanciar cada vez mais dele. Ele não estava louco, sabia que ela não era totalmente imune a ele, por isso não desistiria dela, não desistiria mesmo.

Coisa linda
Vou pra onde você está
Vou pra onde você está



Capítulo 4

Finalmente o final de semana havia chegado, era uma manhã linda de sábado, levantava-se cansada, tinha tido uma madrugada difícil, não conseguira pregar o olho, um certo alguém e sua apresentação não saiam de sua cabeça, lhe causando certa preocupação. Bocejou audivelmente, criando coragem para o dia que viria.
Foi até a cozinha e encontrou uma cozinhando para ambas. sempre gostou de cozinhar, amava e sempre dizia que a relaxava. Esse tipo de tarefa era dela, agradecia muito pela amiga gostar, porque se fossem depender dela, morreriam de fome.

- Bom dia – ela sussurrou e sentou-se a mesa, enquanto observava a amiga fazer panquecas.
- Bom dia – ela virou rapidamente e viu grandes marcas roxeadas embaixo dos olhos de – Não dormiu bem?
- Pois é, as coisas no trabalho estão bem puxadas... – mexia nos detalhes da toalha de mesa, tudo para não encarar a psicóloga. Detestava como conseguia lê-la facilmente.
- Eu imagino, liderar uma equipe de muitos funcionários não é fácil, admiro muito sua profissão – estava concentrada nas panquecas e não a encarava – Só o trabalho mesmo? Ou alguém de lá? – a psicóloga riu levemente.
- Só, – bufou, rapidamente mudando de assunto – E ai, como foi o encontro com o carinha do tinder? – percebeu isso, e anotou mentalmente que assim que tivesse oportunidade levaria aquela conversa mais a fundo, com certeza a insônia da amiga tinha nome e sobrenome.
- Uma porcaria... – ela suspirou, derrotada.
- Por quê? – mudou a postura para escutar a amiga.
- Bom, eu cheguei às catracas do metrô liberdade pontualmente, porque você bem sabe que eu detesto atrasar e deixar a pessoa esperando – ela deu uma breve pausa para experimentar a calda, estava faltando chocolate – Ele perdeu dez pontos comigo porque me fez esperar quinze minutos! Quinze minutos! Assim como odeio atrasar, eu detesto esperar! – exclamou irritada – Ele me pediu desculpas e disse que estava muito trânsito e blá, blá, blá, é claro que eu não acreditei.
- , eu já disse que você é chata hoje? – a amiga mostrou o dedo do meio para .
- Então fomos para o Emporio Zuki ali na Rua Galvão Bueno, sabe?
- Sim, eu sei. Comida japonesa, né? – assentiu fervorosamente.
- Eu estava bem animada, mesmo com o atraso dele, nós conversávamos sobre tudo. Tudo o que vinha em minha cabeça era que dessa vez eu desencalharia. O cara sabia conversar, era boa pinta, amava comida japonesa como eu, era cheiroso... Como dizia Anastasia Steele*: Minha deusa interior estava dançando merengue com passos de salsa - riu alto. pausou a história para experimentar novamente a calda, agora estava no ponto.
- Continua, pelo amor de Deus. – a apressou, extremamente curiosa.
- Calma – sorriu - Então terminamos de comer e fomos caminhar pela região, conversamos sobre algumas coisas e eu não aguentei o lenga lenga, parti pro ataque e beijei o boy! Agora vem o meu desespero: , ele baba! - simulava um choro.
- Como assim? Baba? - ela arqueou a sobrancelha, com um sorriso no rosto. colocou as panquecas na mesa para que pudessem se servir.
- Baba muito, eu o beijei e até o meu nariz tinha baba dele. Eu pensei, não o boy deve ter sido pego de surpresa, por isso babou meu rosto inteiro, então beijei de novo e para minha decepção ele achava que minha boca e rosto eram depósitos de baba! Como alguém conseguia salivar desse jeito? Eu nunca beijei um cara que babasse tanto! Qual era o problema dele?
- Puta que pariu! Que nojo! - não pode evitar e riu muito.
- Ri mesmo, sua ridícula! - fingiu estar magoada. limpava as lágrimas de tanto rir - Eu o bloqueei da minha vida! Que noite! Meu Deus!
- Psico louca, por que não tenta achar alguém pessoalmente? - deu uma bela mordida na panqueca, já recuperada da crise de riso.
- Eu tenho preguiça de procurar, socializar... – ela pegou uma panqueca e colocou a calda nela.
- Vou ver se o Bruno não tem nenhum amigo solteiro.
- Ah não, nem vem com essa, ! Já basta o pseudo relacionamento que eu tive com o melhor amigo dele. Que não vale o que come.
- Mas... - a interrompeu.
- Sem "mas" prefiro mil vezes o tinder a isso - ela terminou de mastigar – E por falar no Bruno... Ele volta quando?
- Hoje à tarde, ele disse que o desembarque aqui em São Paulo tá marcado para às 14 horas. Vou passar o fim de semana com ele - ela fechou os olhos por alguns segundos, à psicóloga percebeu.
- , vamos lá, o que está acontecendo com você? – tinha um olhar bem cansado.

Contou tudo para o que tinha acontecido naquela semana, do quase beijo no escritório até a declaração de amor em forma de música.

- De verdade, posso ser sincera? – piscou os olhos incessantemente.
- Lá vem porcaria – conhecia bem a amiga que tinha.
- Termina com o Bruno, porque não vai demorar pra você empurrar todos os objetos da mesa do seu escritório e cair de boca no ! - ao término da frase começou a rir. acabou rindo também. Mesmo prevendo o que poderia vir, sempre a surpreendia.
- Eu aqui desesperada, e você fazendo piada - revirou os olhos, e riu levemente. - Não quero nem pensar em segunda feira, não sei como vou encará-lo.
- Amiga! – segurou as mãos dela – Seu relacionamento com o Bruno é morno, eu não vejo aquela paixão nos seus olhos. Ele é muito ausente por conta do trabalho dele, e talvez isso seja um agravante. – ela se arrumou na cadeira - De repente, brota na sua vida com a intensidade como sobrenome, joga as verdades na mesa de uma forma extremamente apaixonante, e você fica como? Balançada! Ele foi seu primeiro amor, amiga! – concordava com tudo o que a amiga dizia - Enfim, meu conselho é você terminar com o Bruno antes que você cometa alguma loucura.
- Não é simples assim, , eu gosto dele! Ele é um cara tão legal, bacana, tenho medo de magoá-lo.
- Por ele ser tão legal e bacana que ele não merece uma pela metade. Pare de altruísmo e pensa somente em você, ok? , o que você quer?
- Eu quero os dois! Pode, tia ? – sorriu brincalhona.
- Sua gulosa – elas riram alto.
– Brincadeiras a parte, você nunca disse palavras tão certeiras como essas. Eu vou pensar a respeito sobre isso tudo.
- Certo, eu estou aqui para isso – ela levantou-se da mesa, deu um abraço apertado na amiga, e um leve apertão no bumbum dela – ‘Bora correr pra queimar as calorias do nosso café da manhã?
- Ah, não... tô com preguiça - revirou os olhos.
- Sedentária! Fui - pegou a garrafinha de água e se mandou, deixando uma imersa em pensamentos.

Bruno havia desembarcado finalmente na cidade. Pode observar concentrada no celular, chegou de mansinho e sussurrou no ouvido da amada.

- Oi, coração – revirou os olhos, odiava esse apelido, era extremamente piegas.
- Não gosto que me chame assim - ela lhe olhou entediada enquanto dava um abraço no namorado. Deu um selinho longo no rapaz.
- Estava com muitas saudades de você, espero não precisar viajar tão cedo.
- Eu também estava - alisou o rosto do rapaz. - Vamos?
- Com certeza - ele passou o braço pelos ombros da moça e caminharam juntos até a saída do aeroporto.

***

Era domingo, os dois estavam deitados assistindo ao novo filme do Will Smith na netflix, curtindo o dia após um almoço maravilhoso que Bruno havia preparado. O rapaz prestava total atenção a tela da tevê e lhe observava. Sempre gostou muito do rapaz, era uma companhia muito agradável, admirava o jeito como Bruno era aventureiro, queria ser um terço do que o namorado era.

- O filme é muito mais interessante do que eu, você devia tentar assisti-lo. - ela apertou o nariz dele de leve.
- Sério? Acho você bem mais – sorriu safada.

O rapaz pausou o filme no notebook e pulou nos braços da namorada. O beijo começou lento, mas rapidamente ganhou intensidade. As mãos do rapaz percorriam todos os locais que conseguiam alcançar, as mãos dela não estavam diferentes.
Bruno estava entre as pernas de , cada vez mais pressionando suas intimidades. Ele desceu o rosto e começou a beijar o pescoço dela, fechou os olhos curtindo o momento. Quando os abriu, puxou Bruno para si, mas tudo o que viu foi o rosto de seu melhor amigo ali. Assustada, empurrou o namorado que foi ao chão.

- Outch! – ele exclamou, confuso – O que foi que eu fiz de errado? – ela se sentou no sofá, com as mãos cobrindo seu rosto.
- Nada – ela sussurrou. Sua mente estava brincando com ela.
- E então por que me empurrou? – ele levantou do chão e sentou-se ao lado dela no sofá.
- Eu... Olha, me desculpa, Bru – ela balançou a cabeça negativamente, ainda com o rosto tampado.
- Ei, tá tudo bem – ele a abraçou de lado, forçando que ela tirasse as mãos do rosto – Fica tranquila.
- Não, não está tudo bem. – ela desfez o abraço, levantou-se e arrumou os cabelos que estavam desgrenhados. – Eu vou embora.
- Mas, , são 15h22min – ele olhou rapidamente a hora no notebook - Ainda está cedo. – ele levantou-se e a seguiu até o quarto onde ela já fechava sua mochila para ir embora. Ela a colocou nas costas e parou em frente ao rapaz.
- É que eu lembrei que preciso organizar umas coisas para amanhã! – ela passou as mãos pelo cabelo, nervosa.
- Eu não tô entendendo mais é nada – ele encostou-se a porta enquanto a encarava firmemente. Ela respirou fundo e passou em direção a sala, ele estava em seu encalço. – ...
- Xiu... Não é nada com você, Bruno. Fica tranquilo que você não fez nada de errado. É que eu me lembrei da análise do perfil de um candidato para gerência amanhã, por isso te empurrei daquele jeito, na hora acabei me assustando. – ela mentiu descaradamente. Nem se chovesse dinheiro ela contaria o que surgiu em sua cabeça naquele momento.
- Tudo bem, você está em experiência no trabalho, precisa se dedicar – ela mordeu os lábios, e o namorado fingiu acreditar. Não era de hoje que a mulher estava estranha, investigaria aquilo mais a fundo – Vem aqui – ele a abraçou e lhe deu um beijo casto. – Fica bem. A gente vai se falando. Eu amo você – ele a abraçou novamente.
- A gente vai se falando – ela suspirou e fez um coração com as mãos. Não se sentia capaz de responder um “eu também te amo”, não era justo.

***

Já fazia dois dias que não vinha ao trabalho por estar de atestado, e aquilo de alguma forma preocupava , o que ele teria de tão grave assim? Deixou aquele assunto pra lá, precisava se concentrar, tinha alguns recrutamentos externos e precisava mensurar se aprovava ou não essas novas contratações. Olhou o quadro operacional para ver quantas vagas deveria abrir para o mercado, tinha que aprovar logo a quantidade para que Lucas e fizessem os perfis das vagas. ... Bateu a mão na mesa brava. Resolveu fechar a tela do notebook, e suspirou. Não conseguia ignorar a preocupação com o rapaz. Levantou-se de sua mesa e caminhou para fora de sua sala, precisava fazer uma breve visitinha ao departamento de tecnologia da informação.

Joe ouviu três batidas delicadas soarem por sua porta. Rapidamente autorizou a entrada de quem quer que fosse, mas quando viu quem era tomou um susto.

- ? O que faz aqui? - a garota lhe olhava envergonhada.
- Bom dia pra você também, Joe! - ele riu, sem graça.
- Bom dia. É que eu esperava qualquer um, menos você aqui.
- Eu sei... - ela pigarreou, desconcertada - É que faz dois dias que o não vem trabalhar - Joe arqueou a sobrancelha - Eu sei que ele está de atestado, mas queria saber o que houve...
- Ah, isso - ele sorriu - Depois que você foi embora daquele jeito o ficou bem mal, bebeu demais. - ela suspirou fundo - Tivemos que levá-lo pra casa e tudo. No dia seguinte, ele acordou com a famosa ressaca, porém com muitas dores de garganta. Foi ao hospital e as amígdalas estavam super inflamadas, o médico resolveu dar cinco dias pra ele. Provavelmente foi o gelo das bebidas.

Ela ficou calada, estava tentando assimilar tudo, sentia uma culpa imensa por ele ter ficado daquela forma, ela precisava fazer algo por ele.

- Joe, qual é o endereço do ?
- Pra quê? - Joe arqueou a sobrancelha, zombeteiro. revirou os olhos.
- Pra que se pede o endereço de uma pessoa? - ela perguntou irônica.
- Com essa delicadeza toda eu não vou passar é nada - ele respondeu risonho.
- Cala a boca e passa logo, vai - ele riu. Pegou um papel e caneta e anotou o endereço para ela.
- Pronto, dona grosseria, está aqui. - ele lhe olhou. Ela pegou o papel e suspirou.
- Vou pegar a linha mais movimentada do metrô?! Ele mora em Itaquera - ela riu, divertida. Lembrava-se do primeiro dia em que se viram, o rapaz tinha desviado completamente sua rota pra deixá-la em casa. Joe riu.
- Não é todo mundo que mora no centro de São Paulo, - ele sorriu.
- Tudo bem, não estou reclamando, só lembrei-me de algumas coisas – sorriu - Mas muito obrigada, Joe. - ele assentiu. Ela já estava pronta para sair, quando Joe a chamou.
- , só não o magoe mais, ele não merece. - ela segurou a maçaneta com mais força.
- Pode deixar – ela sussurrou e abriu a porta saindo do local. Ela só não tinha certeza de suas últimas palavras.

***

encarava a portaria do prédio de seu amigo do outro lado da rua, tudo o que vinha na sua cabeça eram as palavras de Joe. não merecia mesmo que ela o magoasse, mas ela não queria ficar longe dele. Egoísta? Talvez um pouco. Definitivamente aquilo estava tomando proporções que ela já não tinha mais nenhum controle. Ela passou as mãos no cabelo, nervosa e parou em frente ao prédio do rapaz. Tocou o interfone e pode escutar uma voz.

- Boa tarde, qual o apartamento, por favor?
- Apartamento 303, bloco C. O nome do morador é ! Me chamo .
- Ok, moça. Vou ligar, só um minuto. - ela escutou o barulho do interfone ficar mudo. Estava com medo dele não querer vê-la depois do que tinha acontecido naquela fatiga sexta feira. Aquela demora para o porteiro retornar estava a deixando mais apreensiva. Ela escutou o clique do portão e mordeu o lábio inferior.
- Pode entrar, moça. Bloco C é o rosa bebê. – ele apontou na direção onde ficava.
- Ok, muito obrigada. - ela entrou no prédio, suas mãos tremiam, estava nervosa.

Caminhou em direção ao local em que o porteiro lhe indicou, logo avistando o elevador. Entrou e apertou o número três. Deu uma olhadinha no espelho, ajeitando a roupa que usava. Antes de vir para casa do amigo, ela tinha ido a sua casa para trocar de roupa, colocando algo mais confortável. Tinha saído do trabalho às 16h00 aquele dia, havia adiantado tudo para conseguir fazer a visita ao amigo.
O elevador parou, indicando que o andar havia chegado. Ela desceu, e achou rapidamente a porta do apartamento. Ficou encarando-a por incontáveis segundos. Finalmente criou coragem e tocou a campainha.
A porta foi aberta por ninguém menos que Anny, a mãe do rapaz. quando percebeu estava sendo abraçada apertadamente por ela, era um abraço tão gostoso. Trazia-lhe lembranças de sua cidade natal. Sorriram felizes quando se separaram aos poucos.

- Você se tornou uma linda mulher, ! – ela segurou as mãos da mais nova – Por favor, entre – ela abriu espaço para que passasse. – Como está?
- Oi, tia Anny – ela não pode evitar chamá-la assim, sempre fora tia Anny para ela - Eu estou bem, graças a Deus – sorriu.
- Como sua mãe está? Tem notícias de Montecastelo? – a mulher lhe enchia de perguntas, tinha sua curiosidade, afinal, já eram vinte anos sem voltar para aquele local.
- Minha mãe está bem. Faz uns dois meses que não vou lá, mas as coisas estão nas mesmas, tia. Claro que não está tudo igual, porque com a globalização, enfim... Deixa pra lá – ela riu nervosa. Mesmo com a mãe dele ali, ela não estava 100% à vontade.
- Eu imagino. Sinto saudades de lá, mas até hoje não sei por que nunca voltei... – ela comentou pensativa.
- São coisas da vida que a gente não tem uma explicação – sorriu para a senhora.
- Fiquei sabendo de seu pai – ela passou a mão pelos braços de em sinal de conforto - E mesmo que tenha se passado muitos anos, eu sinto muito.
- Oh, sim. Eu agradeço pelas palavras – ela desviou o olhar, encarando o chão. O clima acabou pesando.
- Bom, eu já vou indo, fico mais tranquila que não ficará sozinho – se desesperou.
- Não, tia, fica mais um pouco para gente colocar as fofocas em dia – ela tentava convencer Anny, queria que a mãe do rapaz estivesse ali para que se sentisse mais confortável na presença de .
- Infelizmente eu não posso, . Meu marido daqui a pouco está em casa e eu preciso conversar algumas coisas muito importantes com ele. Estava mesmo de saída quando você chegou – não tinha como contra argumentar, então sorriu amarelo.
- Manda um beijo para o tio Gustavo. Precisamos todos marcarmos alguma coisa – Anny sorriu animada.
- Mas é claro que sim, dessa vez não perderemos o contato, ok? E pode deixar que eu dou sim o beijo a ele – elas se abraçaram novamente – Ah, está deitado no quarto, teve febre hoje, mas agora está bem melhor – achava adorável a ligação que Anny tinha com o filho – Ele detesta que eu faço isso com ele, mas eu não posso evitar, . – ela sorriu.

não estava mais deitado, naquele momento ele espiava entre as pilastras as duas mulheres conversarem. Desde o momento que sua mãe tinha atendido ao interfone na hora que estava saindo do apartamento, ele havia tomado um baque quando sua mãe tinha lhe perguntado se podia autorizar a entrada da moça. ... Ela queria acabar com a sanidade dele, só podia mesmo ser isso. Sem pensar duas vezes, ele liberou a entrada dela. Ele voltou a si, quando escutou a fala das duas:

- Pode deixar que eu peço para ele tomar a sopa - Anny já estava abrindo a porta.
- Obrigada, ! Foi um enorme prazer revê-la. - elas sorriram e a mais velha saiu do local.

percebendo a movimentação, correu para o quarto e se jogou na cama se cobrindo, parecendo um garotinho de oito anos que havia acabado de aprontar.
deixou sua bolsa no sofá, e olhou o local que estava impecável, aquilo não era bem a cara de , mas no fim ele sempre a surpreendia. Estralou todos os dedos das mãos, e devagar foi até o quarto do rapaz. Deu leves batidas na porta anunciando sua presença. direcionou o seu olhar para ela, que sorriu sem graça.

- Oi! Como você está? - ela perguntou entrando de vez no ambiente.
- Já estive melhor - ele respondeu com a voz rouca.

Ela se aproximou da cama, e o abraçou. Estava tão preocupada, sentia-se responsável de alguma forma por aquilo. O problema ali não era a dor de garganta do rapaz, e sim o coração dele, que ela havia despedaçado. não teve outra reação, se não corresponder ao abraço dela, como gostava de tê-la em seus braços, era uma das melhores sensações que ele já havia sentido.

- Eu sinto muito - soltaram-se devagar e sentou-se na ponta da cama, enquanto se ajeitava.
- Quando ia me contar que tem um namorado? - ela desviou o olhar para suas unhas.
- Você nunca me perguntou, por isso eu nunca falei – ele esperava qualquer resposta vinda dela, menos aquilo. era inacreditável, sempre conseguia surpreendê-lo de infinitas formas.
- Claro, porque isso não é nada relevante! - sua fala pingava ironia. – Para que compartilhar, não é? – ela engoliu a resposta para aquilo, e o encarou.
- , por favor, não quero discutir com você sobre isso, eu só... não contei - direcionou o olhar para ele, e viu que ele estava visivelmente magoado - Eu sei que deveria ter falado, mas não esperava que você estivesse... - ela não teve coragem de terminar a frase.
- Apaixonado? Sim, eu estou completamente apaixonado por você - ela o encarava surpresa. Escutar aquilo, assim sem qualquer tipo de preparação, era estranho.
- , eu... Droga! – xingou, ele havia a desarmado por inteira. Não conseguia completar nenhuma resposta, eram sempre reticências atrás de reticências.
- , eu respeito o seu relacionamento, não sou um adolescente inconsequente, posso conviver com sua rejeição.
- Por favor, eu não te rejeito, eu quero você em minha vida. Quero muito, não posso te perder de novo – tinha a voz esganiçada.
- Você não me quer do jeito que eu te quero! – ele suspirou, chateado.
- , não faz assim... - ela se levantou da cama – Eu vou esquentar sua sopa, você precisa se alimentar. De acordo com sua mãe você não comeu ainda. - ela mudou completamente de assunto, não estava pronta para ter aquela conversa com ele, não assim.

se jogou na cama com um sorriso no rosto. Ela estava extremamente confusa, era perceptível e ele daria o tempo dela. Não tocaria mais naquele assunto, pelo menos não por agora.
Ela foi até a cozinha, pegou um prato em uma das prateleiras do armário e colocou uma quantidade razoável para esquentar a sopa no micro-ondas. Enquanto esquentava, sua mente vagava para a conversa com . Ela teria que por um fim no relacionamento com Bruno, ela precisava ficar sozinha para organizar sua cabeça, não era justo com nenhum deles. Pode escutar um bip do aparelho indicando que a comida estava quente. Ela retirou o prato, o deixando na mesa e procurava por talheres, quando foi surpreendida por uma voz:

- Segunda gaveta à direita – ela deu um gritinho assustado.
- Você me assustou - ela colocou a mão no coração que estava a mil. Foi em direção ao local informado por ele.
- Não foi minha intenção - ele passou a mão nos cabelos os bagunçando ainda mais - Não precisava levar nada na minha cama, posso comer bem aqui. - ele sentou-se na cadeira e indicou uma para que ela se sentasse também, assim que ela lhe entregou uma colher - Não acredite em tudo o que minha mãe diz, ela é exagerada. Eu já comi hoje - ele balançou a cabeça negativamente.

Ela o encarou, ele tinha um sorriso de lado, seus cabelos estavam bagunçados e sua barba por fazer. Ela prendeu a respiração, mesmo cheio de olheiras e desleixado, ele continuava incrivelmente lindo. a flagrou o encarando descaradamente, ela sentiu as bochechas esquentarem e desviou rapidamente o olhar e ele riu internamente. Mais um ponto pra ele.

- As mães exageram mesmo, principalmente tia Anny - ela sorriu. levava algumas colheradas na boca.
- Minha mãe exagera demais, pra ela eu sempre serei um garotinho indefeso.
- É porque você é o filho único dela, ... - riu do bico que ele fazia.
- É, nem me fale - sorriu, mudando rapidamente de assunto - Como conseguiu meu endereço? - ele estava curioso.
- Joe. - não parecia nada surpreso com a informação - Ele me contou que depois que fui embora você bebeu muito e ficou doente por... - ele a interrompeu.
- Por ingerir muito gelo – ela assentiu - Tinha que ser o tapado do Joe! - ele passou a mão pelo rosto, incrédulo – Bebi muito, mas não foi só por isso que fiquei doente. Eu já estava com a garganta meio estranha naquele dia, só acelerou o processo - ele empurrou o prato para longe com mais da metade da sopa, estava doendo engolir qualquer comida.
- Eu imagino, o vírus estava incubado em você - ela concluiu por fim. – Ah, não posso deixar de enaltecer o quanto você canta bem, fiquei admirada.
- Ah, isso – sorriu envergonhado – Não me acho isso tudo, mas obrigado.
- Você deveria investir nisso, viu? – o olhava terna – Tem futuro.
- Eu não sei, tenho minhas dúvidas - ele se levantou, e tampou o prato com um pano e guardou na geladeira, junto com a panela de sopa. - Eu vou para o quarto, me acompanha? - ela arregalou os olhos e ele gargalhou - , bem que eu queria isso ai que você está pensando, mas é que eu estou bem cansado mesmo. – ela sentiu mais uma vez as bochechas queimarem de vergonha, era claro que ele queria descansar, que tola.
- Ah, claro. Eu já vou pra minha casa... - ela já ia pra sala, quando sentiu o toque suave da mão dele.
- Fica, vamos assistir a um filme ou sei lá. Só me faz companhia - ele tinha os olhos pidões - Por favor, .
- , já são 18h30, eu vou atravessar a cidade para chegar em casa – ele continuava com aquele olhar – Tá bom, mimado, nós vamos assistir a um filme apenas. – ela frisou bem a última palavra - Algumas coisas nunca mudam mesmo – ela riu, lembrando-se como ele era persuasivo desde criança.
- Vamos – ele a abraçou de lado e caminharam até o quarto do rapaz.

Ele foi até o notebook, o conectando a televisão. Não tinha noção de qual filme assistir, até que uma ideia surgiu em sua cabeça e sem pensar muito digitou no google o título do filme. havia puxado o celular do bolso para olhar algumas notificações, viu o nome de Bruno em algumas delas. O respondeu:

Estou bem, Bru, dia de trabalho bem produtivo, graças a Deus! ☺ Depois nos falamos, vou tomar banho! 💜


Sentia-se péssima por omitir estar na casa de , mas aquilo não pegaria bem, e não estavam fazendo nada de errado mesmo.

- Pronto, – sorriu enigmático – Adivinha qual filme é? – ela guardou o celular no bolso do short finalmente olhando a tela da tevê.
- Não faço ideia – ela respondeu risonha.
- Vamos matar a sua curiosidade - Ele apertou o play e se jogou na cama, deitando no canto esquerdo.


ficou na pontinha olhando a tela curiosa. Soltou um grito quando viu a introdução do filme.
- Não acredito nisso, – a mulher riu alto – O filme da minha vida, cara! O Rei Leão!
- Lembra quando a gente saía correndo da escola para ver? – ele comentou nostálgico.
- Claro que lembro, nossas mães não aguentavam mais ver a gente colocando aquela fita no vídeo cassete. Era um ritual todo dia depois da escola.
- Tempo bom demais – elucidou. Ele percebeu que estava na pontinha da cama, e balançou a cabeça negativamente - , deita aqui do meu lado, eu não mordo, só se você pedir – ele arqueou a sobrancelha direita e soltou um risinho malicioso.
- Você é um idiota, isso sim – ela tirou o tênis e deitou ao lado do rapaz, a uma distância razoavelmente grande. Ele a puxou pra si e a fez encostar a cabeça em seu peito, abraçando-a de lado, ela reprimiu um gritinho assustando pela repentina aproximação dele.
- Bem melhor assim – ela revirou os olhos pra ele, virando-se completamente para o filme.

E assim foi o começo de noite deles, começaram vendo O Rei Leão. Depois que terminaram decidiram maratonar, com O Rei Leão II. Mas antes do término do filme, acabou pegando no sono, fazendo com que sorrisse.

- Algumas coisas nunca mudam mesmo – ele e a abraçou mais, dando lhe um beijo em sua testa e sorrindo largamente. Acabou depois de alguns minutos adormecendo abraçado ela.

*Menção ao livro Cinquenta Tons de Cinza autoria de E. L. James.


Capítulo 5

cantarolava alguma música qualquer enquanto preparava seu café da manhã. Hoje lhe deu uma imensa vontade de comer torrada feita de forma tradicional: com pão amanhecido. Tinha acabado de colocar os pedaços do pão no forno, sua boca salivava de vontade. Com toda a certeza estava na TPM. Enquanto aguardava, resolveu olhar o whatsapp, nenhuma consulta desmarcada, suspirou aliviada. Ela escutou a campainha tocar e franziu o cenho, não esperava ninguém àquela hora.

- Oi, Bruno - ela sorriu para o rapaz que aguardava do outro lado da porta. Ela deu passagem para que ele entrasse.
- Hey, - ele lhe deu um beijo na bochecha e entrou.
- O que a anta da esqueceu que te obrigou a vir buscar? - Bruno franziu o cenho.
- Como assim?
- Ué, a não dormiu na sua casa ontem? Pra você vir tão cedo é porque ela esqueceu algo. - ela respondeu irônica.
- Ela não dormiu na minha casa - ela empalideceu. - Eu vim cedo porque queria fazer uma surpresa pra ela. Pensei de irmos a alguma cafeteria, sei lá... Agora isso não importa. Onde ela está?
- Misericórdia! - ela quis morrer, tinha acabado de entregar a amiga para o boy.
- !? Onde ela está? - Bruno estava exaltado.
- Eu... Não sei – ela o olhava, apavorada.
- Porra! Ontem ela me disse que estava indo tomar banho pelo whats e sumiu! - ele puxou o celular e tentou ligar para ela. - Caixa de mensagens! – ele estava preocupado.
- Minhas torradinhas – correu até o forno, as tirando a tempo. As colocou em cima da pia, colocou manteiga em cima da mesa, pronta pra comer, mas ficou sem graça com a aflição do rapaz – Bruno, se acalma. Ela deve estar bem, pensamento positivo – ela tentou lhe passar força.
- Eu espero, só não estou com bom pressentimento sobre isso - ele respondeu descontente. Ele puxou o celular novamente, tentando ligar para a namorada. engoliu em seco. Sua amiga tinha muitas explicações para dar.

sentiu uma forte claridade em seus olhos e percebeu que estava abraçada a alguém, acabou abrindo os olhos, sonolenta. Tomou um susto quando viu a figura de seu amigo tão próxima de si. Alarmada, levantou da cama bruscamente. Céus, ela tinha dormido na casa de ! Com a movimentação brusca dela, acabou acordando, e a viu desesperada colocando o tênis. Ela direcionou o olhar para o rapaz, enfurecida.

- Por que não me acordou?! Que merda, ! – ela amarrava o all star.
- Você dormia tão profundamente que eu não tive coragem – ele passou a mão pelos olhos, os coçando. Terminou de colocar o tênis e tirou o celular do bolso do short. Frustrou-se quando viu que ele estava desligado.
- Meu celular está completamente descarregado, que horas são? – pegou o próprio aparelho e fez uma careta quando viu. Ela se aproximou e tomou o celular da mão dele – 08h58min. Porra! – ela gritou assustada. Correndo até a sala atrás de sua bolsa. - Eu ainda estou na experiência na empresa! Céus, eu não sei o que vou fazer se eles me mandarem embora.
- Calma, , isso não vai acontecer. Eu te levo pra você não chegar tão atrasada.
- Não, , você tá doente! Eu vou direto trabalhar agora, se eu chegar umas 10h00min com uma boa explicação não vai dar problema e... – ele a interrompeu.
- , suas roupas não estão bem adequadas para trabalhar – ela caiu em si com a fala do rapaz. Ele tinha toda a razão.
- EU VOU PERDER MEU EMPREGO – ela estava desesperada – Eu sou uma irresponsável, não prezo as coisas que eu conquisto, eu mereço mesmo a minha demissão e... – a segurou pelos braços.
- Ei, ei, – ela o encarou – Para com isso. Você é uma mulher extraordinária, uma excelente profissional, ninguém vai te demitir por um atraso. – ele a encarava fixamente – Confia em mim – ela suspirou, assentindo - Eu só vou me trocar e então eu te levo até sua casa, você se troca e pronto você vai trabalhar. Vai dar tudo certo.

Ela sentiu uma leve calmaria com as palavras dele, respirou fundo, o fitando.

- Certo, eu vou ao banheiro – ela o respondeu um pouco mais calma e se trancou no cômodo.

Viu o enxaguante bucal do rapaz e o utilizou, aquilo daria até chegar em casa, lavou o rosto e o enxugou. Deu uma checada no espelho para ver sua aparência e abriu a porta. Viu o rapaz terminando de fechar a calça, sem camisa. Ela não pode deixar de olhar para o corpo dele, mas especificamente a barriga que com toda a certeza ele gastava algumas horas trincando na academia. Ele se assustou com o barulho da porta que foi aberta bruscamente.

- Nossa, , mais um pouquinho e você me pegava de cueca – só de pensar na possibilidade, a mulher sentiu o rosto fervendo. sem calça lhe tiraria a sanidade.
- Vou... é... Vou te esperar na sala – ela saiu do cômodo atordoada com a visão que teve. balançou a cabeça para os lados, rindo.

Ele rapidamente vestiu uma camiseta branca, colocou um tênis, foi ao banheiro e depois a sala. Encontrou bisbilhotando alguns porta retratos seus. Tocou levemente no ombro dela.

- Vamos? – ela assentiu pegando a bolsa.

Durante o trajeto até o Renault Clio do rapaz os dois não trocaram uma palavra, aquele silêncio não era nada agradável. bufou, frustrado. Ele destravou o veículo e abriu a porta para que ela pudesse entrar, assim que ela entrou, ele fechou a porta e deu a volta no veículo, entrando. Lentamente, o automóvel começou a andar.

- deve estar preocupada... – ela soltou as palavras de repente.
- Quem é ? - desviou os olhos da rua rapidamente para encará-la.
- Minha melhor amiga, ela mora comigo – ela tentou mexer no rádio dele, tentando ligá-lo. Ele viu a dificuldade dela e o ligou.
- Pensei que morasse com seu namorado – ele jogou aquilo, espiando rapidamente a expressão dela.
- Não estamos nesse nível – ela olhou para a janela. Não se sentia confortável para falar de Bruno para .
- Ah, certo – ele pigarreou. Resolveu amenizar o assunto – Como conheceu ?
- Na faculdade, morávamos em uma república, a amizade foi crescendo e agora não consigo viver sem ela na minha vida. é meu oposto, é aquela amiga que você pode estar com o maior problema do mundo e ela sempre acha o humor nas coisas. – ela refletiu.
- Quero conhecê-la – ele comentou, animado. O farol havia fechado.
- Ela também quer te conhecer, precisamos marcar alguma coisa. – ela comentou animada, o encarando.
- Há, então você fala de mim pra ela... O que você fala? Já sei, você diz que eu sou irresistível e que está sendo difícil se aguentar para não me tascar um beijo na boca? – ele passou a mão no cabelo teatralmente.
- Você é um idiota e um puta convencido – mal ele sabia que aquelas palavras eram bem verdades – Dirigi essa droga de carro que o farol abriu.
- Sim, senhora – ele bateu continência, arrancando com o veículo.

Não demorou mais que trinta minutos para que encostasse o veículo em frente à casa de . Ela rapidamente olhou o relógio do rádio e viu que era 09h47min. Abriu a porta do carro, sendo acompanhada por .

- Você quer entrar? – ela falou enquanto abria o portão da casa.
- Não precisa, eu te espero aqui - ela já abri o portão - Só me trás algo pra eu mastigar? Tô em jejum ainda.
- Claro que trago. – ela o encarou, envergonhada - Você não tem noção da culpa que eu tô sentindo de tirar você de casa desse jeito. - ela se virou para o rapaz.
- Fica tranquila, eu tô com um pouco de dor ainda, mas tô bem melhor.
- Tá certo - ela assentiu agora abrindo a porta e entrando na residência.

Tomou um susto quando viu que Bruno estava dentro da sua casa. Sentiu o coração querer sair pela boca. Ele e possuíam celulares nas mãos e ambos estavam conversando. Com toda a certeza eles a procuravam, talvez ligassem para parentes ou conhecidos.

- Graças a Deus você apareceu - foi a primeira que a avistou – Bruno estava quase careca! – ficou petrificada enquanto encarava Bruno.
- Onde você estava? - ele estava nitidamente nervoso. Ela engoliu em seco e se dirigiu para o quarto, calada. Precisava se trocar para ir trabalhar estava muito atrasada. Bruno a seguiu, bravo.

ficou bem quieta na dela, aquilo ia explodir a qualquer momento. Deu uma rápida olhada na janela e viu um rapaz mexendo no celular, parado em frente a um veículo. A julgar pela descrição que tinha lhe dado, com certeza aquele era o . Santo Deus, o circo estava armado.
percebeu que Bruno a seguia, como ela previra. O tranquilizaria de alguma forma. Entrou no quarto e se virou para ele.

- Bruno, eu sei que é complicado, mas mantenha a calma, por favor... – ela fez uma careta quando viu a face que o namorado fazia – Eu posso explicar, estava na casa de um amigo que precisou de uma ajuda - ela foi até o guarda roupa pegando qualquer peça social.
- Que amigo!? - ele alterou a voz. Enquanto ela tirava o short e colocava uma calça social.
- É o meu amigo que eu reencontrei, se lembra? – ele arqueou a sobrancelha - Ele estava doente, eu passei a noite lá - ele franziu o cenho - Eu sei como isso soa nos seus ouvidos, mas tudo tem uma explicação plausível. - ela fez um coque no cabelo, não dava tempo de penteá-los adequadamente.
- Você dormiu com ele - ele cuspiu as palavras, ressentido. Ela largou o cabelo e se aproximou do rapaz.
- Eu não faria uma coisa dessas. Você precisa confiar em mim. - ela tentou tocá-lo, mas ele se esquivou.
- Não me toca, ! – ele rosnou para a garota, que recolheu a mão se afastando.
- Bruno, me deixa explicar tudo, por favor? – ela tinha súplica na voz – Olha, esse momento não é o adequado para conversarmos sobre isso, eu preciso trabalhar estou em período de experiência e estou muito atrasada. Me deixa eu ir a sua casa hoje a noite assim que eu largar o expediente? Vou te explicar tudo, eu prometo. Eu não te trai. - ela terminou de prender o cabelo.
- Difícil de acreditar diante dos fatos – ele respondeu sarcástico, mas acabou ponderando - Uma chance de me explicar essa situação direito. - ele fechou as mãos em punho.
- Eu não vou desperdiçá-la, eu prometo. Agora, eu preciso realmente ir.

correu até a sala, pegou a bolsa, quando estava quase na porta se lembrou que ainda estava em jejum, voltou pra cozinha, pegou um pote e colocou as torradas que havia feito, sendo observada pela amiga e por Bruno.

- Depois conversamos - ela direcionou o olhar a moça, que concordou. Ela pegou o pote, já estava pronta para sair quando escutou a voz de Bruno.
- Você vai de ônibus? - ela engoliu em seco com aquela pergunta.
- Ah... não. Eu... É, tem um Uber me esperando - arqueou a sobrancelha com a hesitação da amiga, ela precisava aprender a mentir melhor.

O rapaz assentiu, estava magoado com ela, mas acima de tudo queria que ela se mantivesse no emprego. Depois de tanto tempo desempregada... ele viu de perto o quanto ela lutou para estar na Engeali. Se ela não tivesse o uber a esperando, ele a levaria sem hesitar.
Ela se despediu silenciosamente de e Bruno e saiu em disparada de casa, tinha demorado mais do que pretendia. a viu abrindo o portão e ia falar algo com ela, mas ela fez um gesto de silêncio com uma das mãos, sabia da mania que Bruno tinha de olhar pela janela pra vê-la saindo. achou estranho o jeito dela, e ficou ainda mais confuso quando ela entrou no banco de trás do carro. Ele entrou no veículo, e a primeira coisa que fez foi questioná-la sobre as suas atitudes.

- O que houve? - ele se virou para trás, confuso.
- Para ali na esquina, que eu passo para o banco da frente e te explico o que está acontecendo.

E assim fez, deu partida no carro, e parou na esquina. Ela desceu, entrou no carro de novo e passou para o banco do carona. arrancou, dirigindo o mais rápido que lhe era permitido, já que o máximo que ele poderia atingir era 50 km por hora, maldito limite de velocidade.

- Estou esperando explicações... – ele a instigou a falar.
- Certo, meu namorado estava na minha casa logo cedo e eu dormi fora, ! Olha a merda toda - ela fechou os olhos, massageando as têmporas.
- Mano... - ele fez uma mini careta. - E o que você falou para ele?
- A verdade - ela o olhou - Só que a verdade não era a melhor saída, já que eu dormi na sua casa... Agora ele acha que transei com você.
- Se você quiser eu posso, sei lá, falar com ele, não fizemos nada de errado.
- , não! As coisas só piorariam, deixa que eu me viro com isso. Eu vou conversar com ele hoje à noite, vou contar tudo. - agora ela tinha o olhar preso na janela. A última frase ela tinha dito mais pra ela do que pra ele.
- Contar o quê? - ele a fitou, confuso.
- Não te interessa! - ela revirou os olhos com a curiosidade dele. lembrou-se do pote com as torradas, e antes que ele a retrucasse, ela já emendou - Trouxe comida pra você. – ele não lhe deu ouvidos.
- É lógico que me interessa, já que nessa conversa vai rolar meu nome - ele parou o carro no semáforo.
- Meu Deus, você não tem limites, é pessoal! – ela franziu o cenho - Vai comer ou não? - ela abriu o pote, vendo pela quentura que as torradas estavam mornas, pegou uma pra si.
- Meu Deus, como você é irritante – ele elucidou, retomando a direção do veículo - Me dá uma?
- Agora a irritante serve pra alguma coisa - ela acabou sorrindo de lado - Pega. - ela estendeu o pote pra ele.
- Sem chances eu dirigir e comer ao mesmo tempo, coloca na minha boca? - ele tentou segurar a risada, quando percebeu que ela o fitava de forma estranha. - Por favor, ? - ela suspirou fundo - Eu tô doente ainda. - o coração dela pesou. sabia bem como utilizar as palavras.
- Abre a boca, - ela pediu e assim ele o fez. colocou uma torrada na boca do rapaz.
- Cara, é caseira... – ele comentou de boca cheia.
- É sim. e sua criatividade matinal – ela comentou.

Ela já reconhecia onde estava. Passavam em frente ao Memorial da América Latina, faltava pouco para chegar até a Engeali. colocou mais uma torrada na boca do rapaz, enquanto entrava na rua da empresa e encostava o carro em frente ao local.

- Prontinho, entregue. - ela tirou o cinto e o fitou. Aproximou-se, acariciou levemente o rosto dele, que engoliu em seco e lhe deu um singelo beijo na bochecha.
- Obrigada pela carona, - ela desceu do carro, sem esperar a resposta dele. Atravessou a rua entrando rapidamente no prédio. encostou-se ao banco do veículo.
- Cara, eu amo mesmo essa mulher! – ele suspirou apaixonado, começando a seguir o longo caminho até sua casa.

entrou apressada na empresa, tinha que passar despercebida, já que já eram 10h25min. Embarcou no elevador e chegou até seu andar dando passos apressados, quando foi surpreendida por Bianca, sua liderada mais complicada.

- Oi, chefa! Dormiu demais, né? – sorriu maliciosamente.
- Oi, Bianca. Dormi sim – ela sorriu falsamente – Estou achando que você está bem ociosa para ficar prestando atenção nas horas que eu chego. Espero que os e-learnig de segurança do trabalho estejam prontos no meu e-mail, caso não, terei que rever algumas coisas.
- Estarão em breve, chefa – ela mordeu os lábios, nervosa. – Me desculpe.

a ignorou, deixando a moça extremamente pálida correndo em direção a própria sala para mexer nos últimos detalhes daquele treinamento. entrou na sua sala, e como sempre tirou os sapatos os deixando embaixo da mesa. Assustou-se com a presença de Jane, a colaboradora da limpeza.

- Oi. Me desculpe, não foi minha intenção te assustar, – ela se desculpou, sorridente.
- Oi, Jane. Ah, não, fique tranquila. Eu entrei de repente – ela sorriu. – Muita bagunça na minha sala?
- Nenhuma, sua organização é impecável – ela comentou verdadeira – Você quer ver um lugar bagunçado? É a mesa do franziu o cenho com a intimidade que ela chamava o rapaz. Jane deveria ter no máximo trinta anos, morena, corpo esbelto... Perfeita para o amigo.
- Ah... ele é bagunceiro mesmo, já entrei na sala dele e acabei observando – ela concordou com a moça.
- Agora está tudo tão organizado... – ela mencionou desanimada – Você sabe quando ele volta? Sinto falta da alegria dele aqui – ela passava o pano distraída na janela. engoliu seco, estava sentindo aquele bendito sentimento, queria se trucidar.
- Amanhã ele estará aqui, se tudo der certo – ela tentou soar neutra, mas sua vontade era perguntar o quão íntimos eles eram.
- Ah, que bom, fico feliz – ela terminou de limpar a janela, e se preparou para sair – Com licença e um ótimo dia.
- Pra você também – ela respondeu da mesma forma e se jogou na sua cadeira.

Passou a mão pelo rosto, nervosa. Estava sentindo raiva de si mesma, ela não tinha o direito de sentir ciúmes de . Ele estava a deixando completamente louca. Ele era sua ruína. Suspirou fundo, abrindo a tela do notebook e o ligando. Cinquenta e quatro e-mails não lidos, estralou os dedos deixando os pensamentos pessoais um pouco de lado, para começar mais um longo dia de trabalho.

***

Bruno encarava a tela do celular, sentado no sofá, já se passava das 20h30 e nada de aparecer, ela lhe devia boas explicações, não era certo a conduta que ela teve. Ela estava estranha há um tempo, mas especificamente desde que entrou no novo emprego, ele tinha percebido, mas acabou deixando pra lá devido à correria na agência. Não era um dos melhores namorados, já que vivia viajando direto, mas gostava muito dela, tinha um apreço imenso pela moça. Era quase um ano de relacionamento. Escutou a porta abrindo e se virou de frente para ela, ainda sentado.

- Oi, Bruno - ela tentou soar alegre ao cumprimentar o namorado.
- Você veio mesmo – ele comentou inexpressivo.
- Pois é, eu vim... – ela estava parada próxima à porta e entrou de vez no apartamento e se jogou no sofá ao lado do rapaz. Ele acabou saindo do sofá e se sentou na mesinha de centro. Ficaram face a face.
- Bom, Bruno, eu vou ser direta – ela colocou o cabelo atrás da orelha - Vou falar toda a verdade pra você - ela suspirou, retomando o fôlego - Esse meu amigo que fui visitar ontem porque estava doente - era difícil falar aquilo para o namorado - A gente teve uma história muito importante na infância/puberdade, ele era aquele tipo de amigo que eu fazia tudo junto, era aquela pessoa que esteve sempre ao meu lado, brincávamos juntos, éramos inseparáveis até o dia que ele se mudou para São Paulo e...

Flashback

estava extremamente calado desde o começo do dia, sempre monossilábico. Não havia esperado a amiga para o recreio, estava bem diferente do usual dele, não conseguia entender o que se passava. No final da aula, estava pronto para ir para casa, quando o abordou.

- O que há com você? – eles caminharam lado a lado para a saída do lugar.
- Não é nada... – ele olhava o chão, cabisbaixo.
- , nem vem. Me conta, por favor, por favorzinho – ele acabou sorrindo do jeito dela.
- Vou sentir sua falta...
- Como assim? – ela o fitou, confusa.
- Eu tô indo embora, – ele finalmente a encarou - Eu vou morar em São Paulo na semana que vem. – ela balançou a cabeça, descrente.
- Para de mentir, vai – ela o empurrou de leve sorrindo, ele não devolveu o sorriso – O quê? Como assim?
- É que meu pai conseguiu emprego lá, vai ganhar muito melhor que aqui. Minha mãe disse que meu quarto vai ser bem maior, com tevê e um próprio vídeo cassete. – ela mordeu os lábios.
- E você gostou de ganhar todas essas coisas? – ela perguntou triste. Ele se virou rapidamente para ela.
- , eu pouco me importo com essas baboseiras de tevê no quarto, eu não quero ir, quero ficar aqui, na escola, com você.
- Você é meu melhor amigo, , como as coisas vão ser sem você? – ela sentiu uma lágrima escorrer, a limpou de pressa, antes que o garoto percebesse.
- Eu não sei, – ele a olhou, rapidamente.

Ela segurou a mão dele, o parando na caminhada e o abraçou fortemente, um abraço apertado e tristonho, ele retribuiu com a mesma ternura. Não queriam se separar, o que seria de um sem o outro? O abraço foi desfeito aos poucos e ela foi beijar a bochecha dele, mas o garoto acabou se virando de repente, o beijo acabou virando um selinho. Ambos ficaram bem envergonhados.

- Isso foi bem estranho - ele a olhou, encabulado.
- Sim, foi mesmo - ela sentiu as bochechas esquentarem.

Ele se aproximou rapidamente dela e lhe deu um selinho de novo.

- É um estranho bom - eles acabaram rindo no final, voltando a caminharem até a casa de .

Nunca mais haviam se beijado de novo.

Fim do Flashback

contou tudo ao rapaz, desde a infância até o reencontro dentro da empresa.

- Então esse é o amigo que você reencontrou no trabalho... - ele já sabia a resposta, mas queria confirmar – Eu sabia que era algo a ver com seu novo emprego, só não imaginava que seria algo dessa magnitude.
- Sim, é ele, Bruno. O fato é que, ele é apaixonado por mim e... – ele a interrompeu.
- E você por ele! Ah, deixa eu adivinhar: eu tô sobrando na história - ele riu melancólico.
- Bruno, eu contei essa história toda para que você entendesse o que estava acontecendo desde o início. Eu gosto de você, mesmo. Quero que você entenda que eu não te trai, eu nunca seria capaz de um ato desses.
- Você não negou estar apaixonada por ele - ela abaixou a cabeça - Você quer terminar o nosso namoro, é isso? Tudo por conta de uma lembrança do passado?
- Eu não sei se estou apaixonada, eu não sei! – ela mordeu fortemente os lábios, sentindo o gosto de sangue - Eu quero terminar sim, porque não é justo eu ficar com você confusa com meus próprios sentimentos.
- Eu queria me firmar aqui, reduzir as viagens para a gente ficar mais junto, mas você destruiu tudo.
- Bruno, não faz assim – ela faz uma breve pausa - Você não tem noção do quão difícil está sendo pra mim, mas não é justo você não me ter por inteira - lembrou-se das palavras de , sentindo a voz embargar - Eu sinto muito por quebrar seu coração, eu me sinto um monstro - ela acabou começando a chorar.

Eles choraram por um tempo, calados, só se ouvia respirações pesadas e fungadas. Ela decidiu ir embora, aquilo não era saudável para ninguém. Tirou a cópia da chave do apartamento dele e colocou na mesa. Levantou-se pronta pra sair, abriu porta, deu uma última olhada no rapaz, que tinha tampado o rosto com as mãos e se sentiu ainda mais angustiada.

- Espero que um dia você possa me compreender. – ela disse aquelas últimas palavras e saiu do local.

Ela tinha se aliviado por dizer toda a verdade para Bruno, mas não se sentia nada bem por deixá-lo tão mal daquele jeito. Ele não merecia aquilo mesmo. Aliás, ela não merecia nenhum dos dois, acabou por refletir.



Capítulo 6

chegou em casa, cabisbaixa. Percebeu que estava na cozinha pela movimentação no cômodo, apareceu na soleira da porta e observou que a amiga estava com uma caixa de pizza aberta e ainda encontrava-se vestida com a roupa que tinha ido trabalhar. Sinal de que havia acabado de chegar em casa. Suspirou fundo, anunciando sua chegada para a amiga.

- Oi, ! Desculpa não te esperar para comer, estava faminta. Fiz um acompanhamento terapêutico com um cliente cleptomaníaco, isso me deixou morta de fome, não é novidade, né? – a garota se atropelava enquanto tentava absorver aquela enxurrada de palavras - Pedi as nossas pizzas preferidas, metade portuguesa e a outra metade cinco queijos, hummmm – ela engoliu o resto da comida que tinha na boca - Tá tão boa, sis! – finalmente olhou para e percebeu que ela não estava nada bem – E eu estou falando como uma tagarela enquanto você está visivelmente mal. O que há?

sentou-se na cadeira ao lado de e sentiu as lágrimas voltarem com força.

- Eu terminei com o Bruno – largou o pedaço de pizza pela metade e se aproximou da amiga, a abraçando fortemente. não estava entendendo como o dia havia findado desse jeito.
- Ai, ... Como assim? – mordeu o lábio inferior - Eu imagino que esse término não tenha sido fácil – enxugou as lágrimas que desciam incessantemente do rosto dela.
- Não foi mesmo. Você tinha que ver a cara que ele fez, . Aquilo doeu mais do que se ele tivesse me xingado – ela soluçou.
- Eu sei, o Bruno sempre foi um cara muito bacana – ela enxugou mais duas grossas lágrimas que rolaram do rosto de – Acho que a melhor coisa para você neste momento é tomar um banho, tentar relaxar, depois a gente faz aquele chazinho de camomila, hum?
- Tá certo, eu vou – ela abraçou fortemente. Levantou-se da cadeira e foi até o quarto. suspirou fundo, olhou a pizza e voltou a comer, ainda estava morta de fome.

*
saiu do banho, tinha chorado um pouco durante o momento, porém saiu um pouco mais renovada, o banho realmente havia a relaxado. Foi até a sala e viu uma sentada no sofá, assistindo a The Criminal Minds. assustou-se, acabou demorando bem mais tempo que o esperado no banho.

- Acabei fazendo o chá, acho que ele não está mais fumegante, ou seja, pronto para ser consumido.
- Ai, , o que seria de mim sem você? – ela sorriu fofamente – Obrigada!
- Você não seria nadinha, – ela sorriu. foi até a cozinha, pegou a caneca e encheu de chá, não gostava muito de chás, ainda mais em pleno verão, mas camomila, era camomila e sempre a acalmava. Voltou para a sala, e sentou-se ao lado de - Ami... – A psicóloga abriu a boca pra continuar a falar, mas acabou se calando. Queria perguntar aquilo que tinha visto de manhã, mas viu que não era pertinente.
- O que foi, ? - ela fungou, tinha chorado demais.
- Não é nada - ela olhou pra baixo, desviando o olhar de .
- Fala logo o que você quer saber - com um estalo, lembrou-se que não tinha contado a amiga a história toda – Ah, nossa! Você não deve estar entendendo nada. Vou te contar tudo desde o começo da noite de ontem até o término com o Bruno.

contou sobre ter passado a noite com , de ele estar doente e mesmo assim levá-la em casa, a saia justa com Bruno, até o término do relacionamento com ele.

- Primeiro lugar: é lindo, ! – riu - Eu o vi pela janela hoje de manhã - não pode deixar de sorrir a escutando - Em segundo, sobre o término com o Bruno você fez o certo, eu já tinha te falado não é saudável você ficar com ele apaixonada pelo - balançou a cabeça negando - Você não nega porque você está sim, desde o dia que você o reencontrou. E terceiro, o que você vai fazer agora? - a encarou, curiosa.
- Eu vou passar o fim de semana em Montecastelo. – bateu a mão na testa teatralmente – Assim eu vejo a minha mãe e principalmente a Helena.
- Você acha que fugir vai adiantar? – revirou os olhos.
- Eu não estou fugindo, , eu só quero ficar um tempo com a minha família, me preocupar com os problemas delas que são muito maiores que os meus, diga-se de passagem, e manter distância do Bruno e do ! Eu só quero respirar!
- Você está fugindo! – piscou rapidamente os olhos - Mas você não disse que amanhã o volta do afastamento? Será inevitável não encontrá-lo.
- Amanhã eu tenho um congresso na zona sul, mas especificamente em Santo Amaro, não vou para a empresa.
- E segunda feira? Uma hora você vai ter que encontrar o senhor eusougostoso.com.
- Até segunda feira eu estarei mais equilibrada – embrenhou a mão nos cabelos, e bufou alto – Você não tem noção de como eu sinto raiva do a instigou a falar – Ele chegou bagunçando tudo. Eu beijava o Bruno pensando nele, eu trabalhava pensando nele, e Deus sabe e você também, a luta que foi conseguir esse emprego - ela fez uma breve pausa - Os muitos meses que eu passei desempregada e os preconceitos que eu passei para chegar aonde cheguei. Agora para fechar com chave de ouro: até ciúmes dele eu tenho sentido! – acabou rindo no final da frase.
- Então o negócio é sério mesmo e... – a interrompeu, retomando seu monólogo.
- E que direito eu tenho de sentir ciúme dele? Me diz? – ameaçou falar algo, mas a mulher a interrompeu – Sim, eu estou incondicional e irrevogavelmente apaixonada por ele e a intensidade que a cada dia esse sentimento cresce dentro de mim me assusta. – ela tampou o rosto com as duas mãos. Finalmente ela havia externalizado, não tivera coragem de falar aquilo para o ex namorado, mas a verdade era que sabia muito bem o que sentia, só não queria admitir.
- De verdade, sabe o que eu acho? Que é difícil demais ser você – elas riram – Só se joga, curta o , você quer ele, ele te quer – abaixou a cabeça – Pensa somente em você, esquece um pouco o Bruno, ele vai superar um dia, gatinha.
- É difícil isso, não é drama é só que eu não quero magoar o Bruno. - ela respirou fundo - Enfim, por isso quero me afastar de tudo isso.
- Fuja, vai ter um tempo com sua família, vai pra calmaria de sua cidade natal, talvez te faça bem – ela bocejou no término da frase.
- É nisso que eu estou apostando – ela sorriu levemente. soltou mais um logo bocejo.
- Vou dormir, , estou extremamente cansada, hoje foi um dia bem complexo.
- Vou tentar dormir, estou bem cansada também – ela foi até a televisão e a desligou. As duas foram caminhando até os quartos, despediram-se e cada uma entrou no seu.

***

observou o ônibus fazer o contorno para estacionar em sua cidade natal, uma viagem de 07h40 min, estava até com dores de tanto tempo sentada, apesar das paradas. A cidade fazia quase divisa com o estado do Mato Grosso do Sul. Ela tinha dormido e acordado diversas vezes durante o trajeto.
Enquanto o ônibus estacionava pode ver sua mãe na plataforma de saída da rodoviária, sentiu um aperto no peito, estava mesmo com saudades dela e de tudo aquilo. O ônibus finalmente estacionou, ela pegou sua pequena mochila e desceu.

- Confesso que eu não esperava você aqui, querida. Quando me ligou avisando sobre a viagem, fiquei surpresa. - A garota sorriu com o comentário da mãe e foi de encontro a ela, a abraçando fortemente. Demoraram longos minutos para se soltarem.
- Você para, hein? Eu já estava pensando em vir aqui, só que tive uma motivação. – elas caminhavam, enquanto segurava fortemente a alça da mochila em seus ombros.
- Que seria? – a mãe examinou o rosto da filha para encontrar algo.
- Saudade da minha mãe maravilhosa, ué? – ela estalou mais um beijo no rosto da senhora.
- Quem não te conhece que te compre, filha – elas riram – Estava com saudades de você também, meu amor.

Continuaram a caminhada já que a rodoviária era bem próxima da casa de sua mãe.

- Você tá bem mesmo, meu amor? – Alice perguntou desconfiada.
- Eu estou sim, mãe – ela desviou o olhar, não estava ali para pedir conselhos sobre a situação que estava vivendo, queria espairecer e tocando no assunto não ajudaria em nada – E Helena?
- Está na mesma, filha. Deprimida, não sai do quarto – o sorriso da mulher morreu – Não está indo ao psicólogo, estou bem preocupada com a saúde mental de sua irmã. – suspirou fundo. – Espero que com sua visita ela se entusiasme, pelo mesmo um pouco. - Mãe, eu nunca imaginei que ela ficaria tão mal assim – franziu o cenho – Eu sinto que tem algo a mais ali.
- Creio que sim, mas sua irmã não me conta nada, ela é tão fechada... Com você ela se sente tão à vontade – a mãe apertou os lábios.

Elas logo chegaram a casa, e a mãe empurrou o pequeno portão de madeira permitindo a entrada de . Ela sentiu um cheiro familiarizado, consequentemente um bolo quentinho de fubá estava em cima da mesa pronto para consumo. Elas adentraram ao cômodo, jogou a mochila no sofá.

- Mãe, eu vou vê-la – a mãe assentiu e logo subiu as escadas.
- Espero que tenha sorte – a mãe sussurrou.

viu a primeira porta do corredor, a qual pertencia a irmã mais nova, bateu levemente e escutou um vai embora.

– Mas eu não vou embora mesmo – abriu a porta e suspirou fundo com a escuridão que predominava aquele ambiente. Sua irmã sofria, e aquilo lhe destroçava. – Helena?
- Oi, ! - a garota respondeu baixo.

acendeu a luz, se aproximou e sentou no canto da cama ao lado da adolescente. Lhe abraçou ternamente, Helena sentia saudades da irmã mais velha, nos braços dela sentia certo conforto e paz. tinha preocupação nos olhos, Lena estava visivelmente mais magra e tinha extensas olheiras.

- Eu senti tanto a sua falta – ela deu um beijo na testa da irmã, enquanto a tinha em seus braços.
- Eu também senti, – Helena deixou escapar algumas lágrimas.
- Quer me contar o porquê está tão triste? – ela alisava o cabelo da irmã, e dava beijos na testa dela.
- A minha mãe já deve ter te contado – ela suspirou fundo, se agarrando ao abraço.
- Sim, ela me contou, mas eu quero escutar de você.
- Certo – ela suspirou – Meu melhor amigo, o Dennis, sofreu um acidente de moto, e morreu! Ele não podia ter morrido, sabe? Eu o amava tanto... – ela vomitava as palavras, como se elas a sufocassem - Eu o amava mais do que um amigo, e ele morreu sem saber disso. – ela se embolava com as palavras e as lágrimas desciam incessantemente.
- Lena, não se martirize assim. Olha, o Dennis morreu sabendo que poderia contar com você pra tudo e do amor mais puro e sincero que você tinha por ele.
- Sim, mas eu também era apaixonada por ele, . – ela soluçou.
- Onde ele estiver ele sabe de tudo, Lena, e ele não gostaria de te ver tão triste assim. Você precisa viver por ele, por mim e pela mamãe, nós te amamos tanto.
- Eu também amo vocês, mas dói muito. Eu já tentei inúmeras vezes levantar e tentar seguir em frente, mas eu simplesmente travo.
- Eu sei que dói, e dói muito. Com o tempo essa dor vai se transformando em saudade e a gente acaba aprendendo a conviver com ela – suspirou fundo – Quando o papai morreu, eu achei que fosse morrer junto com ele tamanha era a dor dentro de mim. Com a força da mamãe e a sua, que era tão criança e não entendia nada, eu fui conseguindo me estabilizar emocionalmente. O que eu quero dizer com isso é que você tem a mim e a mamãe para te ajudar no que precisar, seja apenas para te fazer companhia, ou para chorarmos juntas. Helena, eu estou aqui pra você.
- Eu sei que está – ela voltou a abraçar a irmã e assim ficaram por um tempo – ?
- Diga – ela sussurrou rouca.
- Faça tudo o que sentir vontade e acima de tudo se arrependa por ter feito algo e não por nunca tê-lo feito.
- Por que esta me dizendo essas coisas? – franziu o cenho, completamente confusa.
- Porque o que aconteceu me deixou essa lição. Não quero que cometa os mesmos erros que eu. Não esconda seus sentimentos – ela sorriu minimamente.

estava petrificada, nunca pensou que as palavras de uma garota de dezessete anos, que ao seu ver, pouco sabia da vida, lhe surtiria tanto efeito.

- Certo, eu prometo seguir seus conselhos – elas sorriram uma para outra – Se você seguir os meus. Vai voltar a frequentar a psicólogo e o psiquiatra. Você precisa querer melhorar. Promete pra mim, bebê? – a chamou pelo apelido de infância.
- Eu prometo que vou tentar – ela suspirou fundo, enquanto sentia o carinho feito pela irmã em seus cabelos.
- Tentar é um ótimo passo, mas eu tenho certeza que você vai conseguir. Mesmo eu estando em São Paulo, me mande áudios, me escreva, me liga, só me procura sempre que se sentir angustiada ou sufocada com essa dor, ok?
- Eu farei isso, , pode deixar. – lhe deu um beijo na testa.
- Agora o que acha de descermos pra tomar café com bolo de fubá? Hein?
- Não tô com fome... – a interrompeu.
- O que conversamos, Lena? – a garota fez um biquinho, desanimada.
- Pra eu viver – suspirou – Tá certo, vamos descer.

Ela se levantou da cama e as duas seguiram abraçadas até a cozinha, a mãe passava o café e respirou aliviada ao ver um sorriso mínimo no rosto da filha mais nova. havia conseguido.

- Gosto de ver vocês duas assim, meus amores! – elas sorriram uma para outra e juntas deram um abraço apertado na mãe. Helena concluiu que o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço tão acolhedor como aquele. Só elas para lhe darem força nessa fase tão difícil.

***
Era segunda feira e já estava de volta a São Paulo. Passar o fim de semana com a família foi extremamente bom e gratificante. Deixara uma Helena um pouco melhor, e ainda a fez prometer que voltaria as consultas psicológicas. E assim que a garota entrasse em férias escolares em julho a traria para passar alguns dias com ela.
Já era quase oito horas da manhã e andava devagar dentro da Engeali até sua sala. Sentia o corpo moído, parecia que tinha sido surrada dentro daquele metrô, precisava de um carro com urgência, não estava mais aguentando pegar aquele transporte superlotado. Ficava mais cansada no trajeto, do que com o trabalho em si.
Entrou em sua sala com cara de poucos amigos, o dia havia começado tumultuado. Olhou a mesa e uma série de documentos pendentes estavam em cima dela, quis chorar com o tamanho da pilha deles. Tirou os saltos dos pês como de praxe e os colocou no canto da mesa. Sentou na cadeira com pernas de índio e se pôs a ler os documentos.
Não passou nem cinco minutos lendo, quando foi interrompida pela porta.

- Oi! Licença, dona – Wesley colocou somente a cabeça para dentro da sala. Era o mais novo jovem aprendiz da Engeali
- Diga, Wesley – ela o olhou rapidamente, dividindo a atenção aos documentos e ao garoto.
- Pediram para te entregar isso – ela se segurou para não revirar os olhos, provavelmente mais um documento.
- Certo, deixa em cima da mesa – ela voltou a olhar para o rapazinho e se surpreendeu com que ele carregava em mãos. – Quem mandou?
- O . Ele pediu para te entregar esse café, porque de acordo com ele: Esse café melhora qualquer humor – o rapaz terminou a frase imitando o homem. acabou sorrindo, era ridicularmente fofo.
- Certo, obrigada – ele entregou o café nas mãos dela e saiu discretamente da sala.

Ela voltou à leitura dos documentos agora com um sorriso de lado, enquanto se deliciava com o café.

**
assobiava uma música qualquer que tocava no ipad. Estava bem melhor de saúde, agora só tinha uma tosse incomoda, mas nada que ele não pudesse viver. Havia seguido as orientações do médico e tivera uma boa recuperação.

- , – Jane apareceu na porta a abrindo, com um sorriso enorme. Ele acabou se assustando com a aparição espontânea dela ali – Trouxe biscoito de água e sal e café porque você é um viciado.
- Jane, é bolacha! – ele comentou brincalhão, pegando o alimento que ela oferecia.
- Não vou discutir isso com você – ela sorriu divertida. Jane entregou o café na mão do rapaz e desastrado do jeito que ele era acabou virando o conteúdo do copo em cima de si mesmo.
- Nossa, que merda – ele reclamou. Pegou folha sulfite para se secar.
- Ai, , folha sulfite não seca nada – ela bateu a mão na testa – Deixa eu te ajudar. – ela pegou o pano que estava em sua cintura e colocou sobre a blusa e parte da calça dele tentando absorver o café.
- , preciso urgente que você m... – se interrompeu com a cena que visualizou. Jane sentada na mesa, com a cabeça abaixada, e sentado de frente para a moça – O que está acontecendo aqui?

Os dois tomaram um susto com a aparição da mulher, rapidamente eles se arrumaram em posições mais confortáveis.

- Não é nada demais, é que o derrubou café e eu estava o ajudando a se secar – Jane tentava se explicar.
- Não é o que me pareceu – olhava para os dois com a sobrancelha arqueada.
- ... – ela lhe lançou um olhar matador, ele se calou. Aquela cara... Já tinha se passado tantos anos, mas aquela cara significava... Ah, não, não, ela não podia estar com ciúmes? Ou podia?
- Bom, é... – a moça gaguejava, de olhos arregalados, buscando ajuda com , que parecia petrificado – Eu só estava o ajudando ele queria se secar com papel sulfite e eu peguei meu pano, foi somente isso. Não desconfie, por favor. Eu nunca faria algo nesse nível, de jeito nenhum.
- Jane, deixa que eu falo com a minha chefa, vá em paz – tocou no ombro da moça, voltando a si. Ele tentava esconder a sombra de um sorriso. Jane franziu o cenho, confusa – Confia em mim, ok? – ele piscou e ela assentiu.
- Tudo bem, com licença – ela saiu da sala. acompanhava a cena de braços cruzados.
- , estamos em um ambiente corporativo e eu quase pego meu subordinado com outra colaboradora fazendo... Você sabe o quê! – ameaçou balançar a cabeça negando - Não negue, era essa a visão que eu tive quando entrei!
- , pelo amor de Deus! Olha o estado da minha camisa, eu nunca faria uma coisa dessas – ele se levantou, mostrando que o tecido pingava café. - Não veja maldade onde não há – Ela o avaliava e media as palavras do rapaz. Suspirou fundo, praticamente convencida.
- Ok, que isso não se repita. Porque, caso aconteça, terei que tomar medidas drásticas!
- Não vai se repetir, porque não fizemos nada – ele torceu a boca com a insistência dela naquilo.

Ele desabotoou a camisa rapidamente, tirando-a e ficando apenas de regata branca. Os olhos de não puderam ser direcionados para outro lugar senão para os braços e ombros do rapaz.

- , olha a postura! – ela ralhou com ele.
- Eu não vou ficar com a blusa cheirando café, já basta a calça – ele sorriu de lado – O que foi? Te incomoda? – ele apontou pra si.
- Ah, ... Você não merece nem resposta – ela revirou os olhos – Você não saia dessa sala sem a sua camisa, estamos entendidos?
- Sim, senhora – ele bateu continência.
- Enfim, com essa bagunça toda acabei me esquecendo de falar o mais importante. Estou sendo cobrada pelo comercial, eles precisam desses desligamentos que te demandei mais cedo, não demora mais!
- Tá faltando só algumas coisas, mas já libero os kits – ela assentiu. Estava caminhando para saída da sala, quando disse algo que a fez parar – Não precisa ter ciúmes de mim, , eu sou todo seu.
- Como você é prepotente, por Deus – ela acabou se virando – Eu já disse que a cena que eu presenciei foi extremamente estranha, e eu sou sua líder.
- Deixa a minha líder de lado, não quero falar com ela. - ela enrugou o nariz - O seu olhar de ciúmes continua o mesmo de vinte anos atrás, eu te conheço. – ele sorriu sacana. Como aquele sorriso a irritava. Ela caminhou e parou de frente pra ele.
- Aonde quer chegar com isso? – ela o examinou.
- Eu quero entender o que você sente por mim, porque a cada minuto eu fico mais confuso com cada ação sua – ela fechou os olhos, aquele assunto não era para ser discutido ali.
- , eu não vou falar com você sobre isso agora, aqui não é lugar. É nosso ambiente de trabalho!
- Sim, está coberta de razão. Hoje eu te dou uma carona, e a gente conversa. – ele a pressionou.
- Ok – foram essas últimas palavras de e o baque alto da porta pode ser ouvido.

***
olhou o relógio, já era 18h49, sentiu que era seguro. Abriu a porta bem devagar, evitando qualquer ruído, pegou sua bolsa, e pé por pé foi até o elevador. Entrou no veículo mais seguro do mundo com um sorriso de alívio, provavelmente já havia ido embora. Ela se sentia como uma adolescente de quinze anos, mas quanto mais pudesse evitar ter aquela conversa com , ela evitaria. Estava quebrando a promessa com Lena, mas não se sentia a vontade, não ainda.
O elevador abriu, e o sorriso dela morreu quando avistou conversando com a recepcionista. Ele ainda não tinha ido embora. Ele não tinha a visto ainda e por isso, ela andou depressa, olhando para o lado oposto ao qual ele estava, mas de nada adiantou, ele a viu. Ele pegou a mochila depressa para alcançá-la.

- Não mesmo, – ele segurou de leve o braço dela. Ela virou-se pra ele, sem graça.
- Eu não tinha te visto, me desculpa – ele enrugou a testa, em descrença.
- Claro que não viu, eu acredito mesmo – ele a respondeu sarcástico. Ela forçou um sorriso – Vamos?
- Vamos – suspirou fundo, andando junto com ele.

Eles caminharam até o carro do rapaz que estava estacionado do outro lado da rua, e entraram calados. Um silêncio desconfortável se instalou ali.

- Pra onde? – ele perguntou.
- Para minha casa, . não está lá, fica ótimo para conversarmos.
- Se você quiser falar no carro mesmo, só tem a gente aqui. Eu não vejo problema.
- Não! Na minha casa. Não me sinto segura de conversar sobre isso no seu carro – era uma mentira deslavada. Ela estava tentando ganhar tempo com o rapaz, ela não sabia ainda como começar a abordar o assunto. Ela sentia o estômago embrulhando.
- Tudo bem, pra sua casa então – ele sorriu de lado e começou a dirigir.

Durante o percurso, tentou conversar com , mas ela era monossilábica. A tensão que emanava do corpo da mulher, deixava curioso, querendo entender o que poderia vir dali.
Ele finalmente estacionou o veículo em frente à casa dela. Desceram e rapidamente entraram na casa, calados. Ela colocou a bolsa em cima do sofá, direcionando seu olhar a ele.

- Quer tomar alguma coisa? – ela perguntou educadamente.
- Não, estou bem - Ele lançou-lhe um olhar curioso. Ficaram em um silêncio desconfortável por alguns instantes.
- Eu estou completamente apaixonada por você - ela quebrou o silêncio, capturando a atenção do rapaz.
- Você o quê? - ele se assustou com a frase dela.
- Quando eu te vejo, meu coração dispara, borboletas sambam no meu estômago, eu fico nervosa... Me sinto uma adolescente imatura – sentiu-se desconfortável abrindo-se dessa forma pra ele – Eu tô apaixonada por você, - Ele sorriu, era o sorriso mais lindo que tinha visto em sua face – E sim, eu fiquei com ciúmes de você com Jane.

Ele riu alto, e a abraçou, não aguentando se segurar mais.

- Eu nunca esperei que escutar essas palavras me fariam tão bem – ele ainda sustentava o sorriso – Você é tão marrenta! Se declara pra mim desse jeito, mas está namorando. Assim você me quebra, – ele fez um biquinho.
- Eu terminei meu namoro tem uns dias – ela suspirou fundo, não queria falar de Bruno, não naquele momento.
- Ah, , então eu vou te beijar – ele a examinou.
- Então beija...

Ele se aproximou do rosto dela, ela o encarava, ansiosa. Ele desenhou seu lábio inferior com os dedos, ela fechou os olhos, completamente entregue a ele. lhe deu um selinho longo, um simples encostar de lábios. entreabriu os lábios, e ele tornou aquele simples selinho em um beijo de verdade. Eles se beijavam como se tivessem sede um do outro, começara lento e agora era feroz. grudou seus corpos de forma que não havia se quer algum espaço entre eles. Ele a trouxe para o seu colo, e as mãos dele passavam por todo o corpo dela. As mãos da mulher, ora bagunçavam o cabelo dele, ora arranhavam a nuca do homem. não queria parar de beijá-la, estava viciado em .





Continua...



Nota da autora: Finalmente essa atualização saiu! Eita faculdade, viu? Hahahha e ai? O que acharam? Rolou beijinhooooo, uhhul! Se eu surtei escrevendo? Que isso rrsrs, finalmente né, gente? Teve também um pouco da família da pp, que até então só tinha sido mencionada! Enfim, espero que gostem dessa atualização, e por favor comentem ai pra eu saber, por favoooor kkkk! Beijos e até a próxima. Ah, para as que ainda não estão no grupo do facebook, entrem, por favor para acompanhar spoilers, interagir comigo, saber quando a fic vai atualizar e conhecer um pouco mais do meu trabalho. Beijos







Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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