Última atualização: 27/10/2017
Escrita e revisada por: Ray Dias

Capítulo 1

Presente


Eu havia acordado às seis horas da manhã, e às oito e meia da manhã, Lucas não parava de falar sobre quais coisas Miguel gostaria de colocar em sua malinha. Miguel mal dormira de tanta ansiedade, e no meio da noite foi para o meu quarto pedindo para dormir comigo. Eu estava acabada de cansaço, pois além do meu filho se mexendo a noite toda na cama, meu sono também havia sido roubado por inquietudes desconhecidas.
Às sete da manhã, ainda preparava o café quando vi Miguel pulando em seu padrinho – Lucas – e implorando para que ele ligasse o aparelho de som. Lucas me olhou como se pedisse permissão, e eu apenas assenti com um meio sorriso. Lucas colocou o CD para tocar, e Miguel cantava as músicas apaixonadas do pai, estava eufórico e sorridente. O maior fã de , era, sem dúvida, o seu filho. Apressei Miguel para o café da manhã e sentamos os três: eu, meu filho, meu melhor amigo e também padrinho de Miguel. Miguel conversava animado com Lucas sobre os planos que teria com o pai e eu, embora feliz por meu filho, também estava preocupada. Às oito da manhã eu já estava vestindo e penteando os cabelos de Miguel. E como dito, às oito e meia da manhã Lucas organizava os últimos itens na malinha do afilhado.

— Pronto filho, agora é só aguardar o seu pai chegar.
— Já está na hora?
— Não filho, seu pai chegará às dez. E agora são oito e quarenta.
— Campeão, porque você não assiste aos desenhos? Ajuda a passar rápido, a hora. – disse Lucas como se contasse um grande segredo.

Miguel correu para a sala de tevê.

— Eu nunca o vi tão ansioso para ver o pai. – disse Lucas.
— Ele tem sentido muita falta do , e eu estou muito preocupada com isso.
— O que você pretende fazer?
— Eu não sei Luke, não posso cobrar mais do . É o trabalho dele.
— Tenho certeza que assim que você conversar com , ele fará o esforço necessário para o melhor do Miguel.
— É, é o que eu espero.
— Eu quero te dizer que eu estou muito feliz de estar aqui com vocês dois. E eu sempre farei o que eu puder e não puder, por você e pelo Miguel.
— Ah irmão, você sabe que eu também sempre estarei contigo. Mas, embora minha intuição me diga o contrário, eu tenho certeza de que é só uma fase. Miguel está começando a entender as coisas, e essa turnê do foi uma surpresa para ele.

Luke havia ido morar comigo e com Miguel, assim que eu e nos separamos. Nós resolvemos dar um tempo, e ainda não tínhamos nos divorciado legalmente. Luke também havia rompido o namoro com Marcos. Os dois estavam juntos há muito tempo, quando ainda estávamos na faculdade. Eles eram o tipo de casal que eu sempre achei que não fosse dar certo. Tão diferentes um do outro. E foi Marcos chegar nas nossas vidas, para eu sair. Eu amava o Marcos, por ele amar Lucas e aos poucos ele também foi conquistando o meu coração. Depois que Lucas e eu terminamos a faculdade, a minha vida sofreu uma grande reviravolta: eu trabalhava numa clínica da zona sul do Rio de Janeiro, e recebi proposta em Minas Gerais e não pensei duas vezes em me mudar. Cerca de dois meses depois estava eu, em minha nova casa em Belo Horizonte. A minha mudança trouxe muitas dificuldades para nós no começo, mais que um amigo, Lucas era um irmão. Morávamos juntos há anos.
Eu comecei morando sozinha na capital, Belo Horizonte, de aluguel. Trabalhava em três clínicas, uma delas eu gerenciava – pois fora a proposta que me fizera ir embora do Rio – e não demorou muito para que eu alcançasse uma posição confortável no trabalho. Antes de conhecer o , eu já havia proposto ao Lucas vir morar comigo, assim que eu financiei meu apartamento. Não tinha ainda pagado nem a terceira parcela do financiamento, e estava quebrada financeiramente. Comecei a trabalhar o dobro para recuperar meu conforto. Mas estava feliz, pela conquista do próprio imóvel. Se não fosse a ajuda dos meus pais, eu também não teria conseguido tão rápido. Lucas e Marcos estavam vivendo um suposto pré casamento na relação e tudo caminhava bem para eles. No dia em que Lucas me telefonou contando da separação, eu não pensei duas vezes antes de dizer, para ele vir embora. E ele veio e comigo estava desde então.
Terminamos de arrumar a cozinha, e enquanto Luke fazia companhia ao Miguel na sala de tevê, eu fui tomar banho. Ao acabar de pentear meu cabelo, eu voltei para a sala e pegava o telefone para ligar ao . O relógio marcava dez horas, e embora eu devesse esperar mais um pouco, já me preocupava com um possível atraso.

— Mamãe, quantas horas?
— Eu já estou ligando para o seu pai.

Assim que terminei de falar, a campainha do apartamento tocou. Miguel pulava sorrindo e eu o sorri de volta. Fui em direção à porta, e ao abrir lá estava o sorriso mais lindo do mundo. O sorriso tão idêntico ao de Miguel. E os mesmos olhos castanhos, tão profundos e pacíficos mal tiveram tempo de me encarar. Miguel pulou no colo do pai. Sorri com a cena, como eu sempre sorria ao ver os dois. Miguel desceu do colo do pai, e veio me abraçar. Agachei à altura de meu filho, e olhando em seus olhos disse:

— Filho, a mamãe quer que você aproveite todos os momentos com o papai, tá bem?
— Pode deixar. – ele sorria largo e eu o olhava, com os mesmos olhos preocupados da noite anterior.
— Eu te amo muito.

Miguel respondeu um “eu também” e novamente nos abraçamos apertado. Luke cumprimentava . E ao me separar de Miguel, finalmente pude cumprimentar meu ex.

— Bom dia . – ele disse me abraçando.
— Bom dia , como vai?
— Eu vou bem, e você?
— Também. – sorri amigável.
— Luke, se importa de esperar com Miguel na porta do elevador? – perguntou ao Lucas quando viu que Miguel já estava na porta do elevador ansioso.
— Algum problema? – perguntei.
— Você quem vai me dizer. Porque está tão preocupada? Tem alguma coisa acontecendo com o Miguel?
— Tem sim . – suspirei cansada — Ele tem sentido muito a sua falta. Mal dormiu esta noite, se mexendo na cama, acordou eufórico, colocou o seu CD e está te aguardando desde as seis horas da manhã. E eu não estou te cobrando nada, mas eu me sinto muito culpada por tê-lo feito passar por tudo isto.

Assim que terminei de falar suspirando pesadamente, abaixei a cabeça. pegou meu queixo me fazendo o olhar.

— A culpa não é sua. Não seja tão dura com você. O único culpado nisso tudo fui eu, que acabei negligenciando a nossa família. Pode ficar tranquila porque eu também sinto muita falta dele e eu estarei o tempo inteiro com o Miguel. Eu vou aproveitar cada minuto, e ele vai se divertir muito. Eu vou dar o meu melhor, porque eu também sinto falta de…
Antes que ele pudesse terminar de falar, Pedro surgiu ao lado dele me cumprimentando e me beijando.
— Oi amor. Bem, você já conhece o – sorri fraquinho — , este é o Pedro.
— Finalmente eu pude conhecer o papai do Miguel.

Pedro disse cumprimentando , tentando soar simpático e após respondê-lo, meu namorado voltou-se a mim:
— Querida, eu trouxe as coisas para fazer seu prato favorito: bife à parmegianna.

Sorri sem graça. Aquele não era o meu prato favorito. Pedro deu as costas em direção à cozinha e voltei a encarar .

— Acho que precisa contar para ele que o seu prato favorito é bobó de camarão, ou na falta, qualquer tipo de massa. Ou não é mais?
— Pode ficar contente em saber que você ainda tem razão sobre isso. – eu sorri.
, no próximo fim de semana é o aniversário da minha mãe. E eu sei que é o seu fim de semana com o Miguel, mas eu queria saber se você se importa se eu levá-lo para o sítio. Mamãe está com saudades dele e de você, e do Luke também. O convite é extensivo.
— Eu tinha planejado algumas coisas com Miguel, mas se ele quiser ir não tem problema. Eu passo os outros dois fins de semana seguidos com ele. Tudo bem?
— Certo, mas pensa direitinho sobre você e Luke irem também. Mamãe está realmente com saudades.
— Eu vou pensar. – sorri e ele beijou meu rosto saindo.

Lucas voltou para casa após se despedir de Miguel, e acenou do elevador. Meu ex e meu filho entraram no elevador e eu fechei a porta, com uma angústia diferente no peito.

Capítulo 2

Antes de descer o elevador, abracei Luke – que assim como era melhor amigo de , também se tornou um amigo fiel para mim – e não me contentando apenas às cordialidades, precisei investigar:

— Há quanto tempo eles estão juntos? – perguntei apontando discretamente para .

Ele sorriu e me encarou com aquele olhar de desafio, antes de responder:

— Eles estão saindo há cinco meses, mas oficialmente juntos só tem dois.
— Cinco meses? – me espantei com aquilo — Ela não me falou nada!
— Você esperava que ela ligasse para dizer que partiu para outra?
— Não, mas… Você também não contou nada, Luke!
— Desculpe , você não pediu para que eu espionasse a vida amorosa da minha irmã.
— Não é isso. – mexi nos cabelos, um hábito de quando eu ficava sem graça — Ela está apaixonada por ele?
— O que você acha?
— Luke, não brinca cara…
— Ela não confessou nada ainda, acho que ela está apenas deixando acontecer.

Abracei de novo o meu amigo, Miguel puxava minha perna para irmos logo. Sorri e acenei para que ainda estava à porta de seu apartamento. Bati no ombro de Lucas dizendo:

— Eu vou ficar de olho neste namoro, e conto com você.

Lucas apenas assentiu sorrindo.
Desci o elevador com Miguel sorrindo e falando todos os planos que havia feito. Eu estava muito feliz por estar com meu filho após tanto tempo de viagem. Entretanto, vê-la preocupada com nosso filho daquele jeito, aparentemente cansada, me deixou preocupado com ela também. Vê-la de novo trouxe o mesmo sentimento misto de alegria e tristeza, que eu sentia desde a nossa separação.
Perguntei ao Miguel o que ele gostaria de fazer primeiro antes de irmos para o show, e ao me responder “qualquer coisa com você, papai”, eu pude perceber que a falta que eu fiz ao meu filho era muito maior do que eu imaginava. A culpa que sentia, não poderia ser maior que a minha.
No carro, a caminho da minha casa, Miguel adormeceu. A mãe havia dito que ele não dormiu nada na noite anterior por efeito de ansiedade. E eu também havia dormido um pouco mal, eu também estava ansioso para rever o meu filho. Chegamos em casa e levei Miguel no colo até o seu quarto.
Aquela ainda era a nossa casa, e tudo dentro dela me lembrava . Nós havíamos nos separado há um ano. E em momento algum eu quis o divórcio, e também decidira esperar. Se ela chegasse, a qualquer momento a me pedir o divórcio, eu negaria. Embora estivéssemos afastados por um ano, eu não aceitava a ideia de oficializar o fim da nossa história.
Aquele Pedro… Eu não poderia imaginar que já teria outro na vida dela. Ele era uma ameaça que, dia e noite, eu torcia para não acontecer.
Quando decidiu partir com Miguel, eu quis que ela ficasse na nossa casa, mas ela decidiu que seria melhor voltar para o seu apartamento. Eu havia comprado aquela casa para ela, por ela, com ela, e jamais imaginaria viver ali sem a ou com outra pessoa. Mas, é o tipo de pessoa que ao romper os laços não guarda as fitas. Não é do tipo que rasga as fotografias, mas não as deixa expostas também.
E ela não havia mudado muito depois da nossa separação. Continuava doce, meiga e mesmo eu acreditando que ela passaria a me odiar ou evitar o contato comigo, ela não o fez. Provando-me a cada dia de distância que, o seu único motivo para se afastar de mim fora minha culpa, minha negligência com a família, e a sua intuição. sempre seguia a sua intuição. Por alguma razão, sua intuição dizia que ela deveria se afastar, e não voltou atrás com sua decisão. Eu batalhei para que ficássemos juntos, mas não o suficiente. Naquela época, aceitar as condições que impunha a nós soava como abandonar a minha carreira. E eu jamais aceitaria, e mal acreditava que a mesma mulher que me conquistou e conhecia toda a minha paixão pelo trabalho estaria me propondo aquilo. Os primeiros meses de distância foram baseados nas discussões sobre Miguel. Nenhum dos dois queria recorrer à decisões judiciais, pois nos levaria ao litígio e não havia necessidade daquilo. e eu sempre resolvemos todos os nossos problemas à base de diálogos, nunca levantamos o tom de voz um para o outro, e mesmo na nossa briga com os ânimos exaltados.
À noite, eu teria o último show da minha turnê. Eu havia voltado aquela manhã e prometido ir buscar o Miguel. Ele iria comigo à Arena Minas, para assistir o show que encerrava aquela turnê e após eu teria todo o tempo para o meu filho. Meu empresário, assessores e algumas pessoas da equipe passariam na minha casa à tarde para alguns detalhes finais. Era o primeiro show que o meu filho assistiria. Quando bebê, o levou a algumas apresentações, mas ela é uma mãe muito zelosa e só permitiria Miguel ir a um show, verdadeiramente, quando ele fosse um pouco maior. Aquilo explicava a euforia dele durante aquele fim de semana, e por mais que ele estivesse ansioso para executar todos os planos que havia feito, eu não queria acordá-lo. Miguel precisava daquele descanso e eu também.
Berta era a empregada da casa, e depois que nos separamos ela não queria continuar a trabalhar na casa sem que sua “adorável patroa” – como ela dizia, pelo enorme apreço que tinha à – estivesse ali. Pedi também pelo apreço que ela tinha a mim, que não deixasse a governança da casa. Eu mantinha uma relação mais aberta – sem muitas formalidades – com Berta, do que . E embora tivesse em Berta uma conselheira, um tipo de mãe, Berta correspondia igualmente à como uma filha, mas, ainda assim, mantinha a formalidade de ser sua patroa. Berta, ia ao apartamento de com alguma frequência visitar a patroa amiga e o Miguel. Berta era apaixonada por nosso Miguel. E quando ficava sem babá para olhar o menino, era Berta que quebrava seus galhos nos momentos de emergência.
Ela estava na cozinha preparando o nosso almoço e sorriu feliz quando eu entrei para beber água.

— Miguelzinho está cada vez mais bonito, !
— É… Está cada vez mais parecido com a mãe.
— Tem razão. Como ela está? – Berta perguntava distraída.
— Não sei ao certo, me pareceu abatida. Mas continua linda… – eu disse sob os olhares esguios de Berta recordando a imagem de minha ex — Berta, você sabia que ela está namorando?

A mulher abriu e fechou a boca um pouco nervosa e me encarou. Respirou fundo e disse se justificando:

— Olha , você não me pediu para vigiar a dona !
— Não estou te cobrando nada Berta. – eu ri enquanto via o seu nervosismo.
— Bem… Eu vi o cara, algumas vezes – disse com desdém — Não gosto dele e já falei isso para ela, mas eu não posso fazer nada, porque se pudesse o senhor bem sabe onde ela estaria agora – me olhou por cima dos óculos — Mas se eu fosse o senhor, ficaria tranquilo. Aquele romance não vai vingar.
— Porque acha isto?
— Tenho feito minhas mandingas.
— Que horror Berta!
— Brincadeira – ela gargalhou após ver minha reação — Eu também quero a felicidade da dona , mas eu digo isso por saber que ela está com aquele homem apenas para compensar.
— Compensar o que?
— A falta que sente do senhor.

Depois que disse aquilo, Berta saiu deixando as panelas no fogo. Eu fiquei pensando nas suas palavras e recordei o dia que pedi para ela continuar trabalhando na casa:

— Berta, infelizmente foi embora, e eu apreciaria muito se você pudesse continuar a governar a casa.
— Olha “seu” , eu amo esta família, e meu coração está partido com isso tudo. Eu não ficaria nesta casa sem a dona , mas pelo apreço que tenho ao senhor, eu concordo em continuar. Mas eu vou ser bem clara: se o senhor colocar outra mulher aqui dentro, eu saio sem nem olhar para trás. Eu não vou aceitar outra patroa, e acho bom o senhor ir fazendo sua parte quanto a trazer dona , de volta!
— Obrigada, Berta. - abracei sutilmente à governanta amiga enquanto sorria fraco.
Estava feliz por ela ficar, mas triste por tais circunstâncias.


— Ela logo vai perceber que não vai adiantar agir deste jeito. Assim como o senhor percebeu, antes mesmo de tentar compensar a falta que ela o faz. – Berta disse me despertando dos pensamentos, voltando ao seu fogão.
— Eu tentei compensar também Berta, mas você está certa. Eu percebi que não adiantaria… – Berta me olhava com desaprovação por saber daquilo — E não me chame de senhor, nós já pulamos esta etapa!

Apertei o ombro da senhora e fui ao meu quarto. Deitei na cama e olhando em volta tudo me lembrava : desde as cortinas até o abajur ao lado da cama que pertencia a ela.
Alguns meses depois de nos separarmos eu saí em turnê e desde então trabalhava incessantemente. Voltar para aquela casa, ainda tocava numa ferida aberta. E eu tentei esquecê-la, me entregando a outras mulheres nas viagens e isso só me atrapalhou ainda mais. Então meti as caras na turnê, e embora todas as músicas cantadas me lembrassem ela, com o tempo eu consegui cantar e viver aquelas canções – a maioria escritas para ela – com indiferença.
A sensação de anestesia aos sentimentos havia se tornado parte da rotina. Pelo menos até aquela manhã.
Eu ainda a amava. E não entendia porque não lutei por ela. Como eu disse, acho que não lutei o suficiente. Estava tão impregnado da minha carreira que cogitar voltar atrás para ficar com ela, significava perder tudo, mas depois de tudo o que eu tinha era a minha família. A carreira embora importante, não tinha mais graça se não fosse para cantar para ela. Não era como antes.
E só depois de vê-la beijando outro, que eu me dei conta de que estava na hora de agir novamente. Eu não poderia a entregar de mão beijada. Ela com certeza só deu chance a ele, por achar que eu não me importava, já que eu não lutei o suficiente.
Eu encarava o teto do nosso quarto, e pensava no rosto dela. O rosto que eu não via há tanto tempo, mas tinha todos os traços gravados na cabeça. Peguei o violão e comecei a cantar a minha música, que fazia parte da minha vida desde que havia saído dela. E com esta música, pensando nela, eu começava todos os shows da turnê:

“Trouxe o meu colchão pra sala, hoje eu vou dormir aqui, pois não quero relembrar os momentos que vivi. O lençol que a gente usava tem perfume de jasmim, o que tanto me agradava hoje não faz bem pra mim. Depois que você foi embora entrou outra em seu lugar, e é só quando eu me deito que ela vem me visitar. Passa as mãos em meu cabelo, insiste muito em me beijar, e eu com delicadeza peço pra se afastar. Eu não quero compromissos, nem tampouco me apegar, nem novelas tenho visto, dá vontade de chorar. Tenho medo de acordar de madrugada, e uma luz semiapagada refletir ela pra mim. Sei que está tão curiosa e louca pra me perguntar: quem está no seu lugar, quem roubou meu coração se chama solidão.” - (A outra)


Aquela noite seria a última da turnê, a última que eu cantaria “A outra” como se fosse uma verdade. Eu havia voltado e mudaria as coisas. Eu não desisti da minha musa, dona de todas as letras e versos. E se todas as canções me lembrariam ela pelo resto dos meus dias, ela estaria ao meu lado pelo resto dos meus dias sendo a inspiração de tudo o que eu fizesse. Eu ainda a amo. E foi necessário vê-la com outro, para despertar. Perder, nos faz valorizar. E eu recusava acreditar que havia a perdido.

Capítulo 3

Lucas entrou logo após que e Miguel saíram. Eu estava na cozinha com Pedro e Luke decidiu ir para o seu quarto. Abracei Pedro pelas costas, ele virou e beijou os meus lábios serenamente. Sorri e peguei as cebolas para picar, ajudando-o.

— Então ele voltou da turnê? – Pedro perguntou.
— Sim, graças a Deus. Eu já estava me preocupando com Miguel. Agora as coisas vão ficar bem.
— Ele não vai vir aqui sempre, não é?

O tom de voz que Pedro usou me deixou bastante incomodada.

— Ele é o pai do meu filho, e virá sempre que necessário. – respondi um pouco mais rude do que esperava.
— Você podia ter me avisado. Espero que me avise quando ele vier de novo.

Parei o que eu fazia, e volvi a minha atenção ao Pedro que continuava seus afazeres com uma cara debochada.

— Para quê? Você é fã dele, e pretende avisar a todo mundo quando ele vier?
— Definitivamente não sou fã dele. Mas acho que devo saber quando o seu ex estiver te visitando.
— Certo Pedro – eu começava a me alterar sem saber o motivo — é o pai do meu filho. Ele faz parte da minha vida, você goste ou não e ele estará por perto sempre.
— Até entendo vocês tem um filho, uma ligação, mas é da vida do Miguel que ele faz parte.
— Pedro, você não tem autoridade sobre mim ou meu filho. , Miguel e eu estamos unidos para a vida toda. E você é quem deve se adequar a isto.
— Se você me quiser na sua vida, também tem que entender que eu não quero minha mulher com o ex andando por aí, o Miguel não pode servir de desculpa para isso.

Pedro já estava tão alterado quanto eu. Nós dois estávamos frente a frente, e eu já não reconhecia o olhar do homem à minha frente.

— Eu não sou sua mulher. Você acabou de chegar na minha vida. E eu não vou mais discutir nada disso com você, está em um patamar que você não chegou.
— Olha só, eu entendo que vocês tem que conviver bem, mas amor… – Pedro se aproximou carinhoso como quem queria fazer as pazes — Eu vejo um futuro para nós três, eu não pretendo tomar o lugar de pai do Miguel, mas nós seremos uma família. E quando sair o seu divórcio com , ele terá as visitas contadas e não teremos que nos preocupar com isso, então vamos parar de brigar.

Pedro tentou me beijar quando eu empurrei o afastando.

— Não estou reconhecendo você. Qual é a sua Pedro?
— Eu que não estou entendendo porque está tão nervosa por ouvir a verdade. Vocês separaram. Acabou. O golpe foi dado e agora ficaremos juntos.
— GOLPE? – eu gritei nervosa — Você está insinuando que eu dei um golpe no ?
— Bem, isso não importa agora amor, o motivo do término não faz diferença. Nós três seremos uma família. Ele voltou da turnê, o divórcio vai ser resolvido e seremos felizes. Esquece isso!
— Não se aproxima de mim, seu estúpido! Será que o golpista não é você?
— Do que está falando?
— Foi fácil se envolver com uma mulher fragilizada por um término recente, que tem um filho com um cantor famoso e que, ao sair o divórcio – que você pelo visto, espera mais do que eu – receberá uma alta pensão do ex-marido, não é mesmo?
, não seja estúpida!
— Pedro, eu não quero olhar mais para você por hoje.

Lucas, que aparentemente estava ouvindo a conversa escondido entrou à cozinha. Ele parou próximo a nós, observando a discussão. Se bem conheço meu melhor amigo, ele estaria preparado para intervir se necessário.

, qual o problema? Porque a hipótese do divórcio te deixou tão nervosa? Porque você está me atacando deste jeito?
— Pedro, eu não sei mais quais as suas reais intenções. Eu preciso pensar… Vai embora.
— Amor, acalme-se eu vou fazer o bife à parmegianna que você adora e nós vamos…
— EU DETESTO BIFE À PARMEGIANNA, PEDRO – gritei o interrompendo — E você nem ouviu quando te contei a história da primeira vez, segunda e terceira vez. Eu só como para não ser grosseira com você, mas quer saber de uma coisa… Eu fui muito estúpida! A gente não tem nada a ver!
— Eu fiquei este tempo todo cozinhando à toa para você?
— Não teria perdido o seu tempo se soubesse ouvir.
— Olha só, tá na cara que não vai dar certo por hoje… – Pedro colocou as mãos na cintura e olhando para mim continuou — Eu vou embora.
— E não precisa mais voltar.
— Do que você está falando? Você está terminando comigo?
— O que você quer que eu faça? Você foi estritamente agressivo com esta história de tirar o da vida do meu filho.
— Não! De tirar o da sua vida! Eu achei que você queria isso!
— Eu não te pedi isso!
— Não acredito que perdi meu tempo com você…
— E nem eu acredito que depois de três meses estudando, se você merecia ou não, entrar na minha vida e do meu filho, eu ainda assim me enganei.
— Sabe o que foi pior? – ele perguntou como se não houvesse escutado o que eu disse — Ter que conquistar o seu filho pra nada!
— Então você assume que não se importa nem um pouco com o Miguel!

Lucas me retirou da cozinha, pois sabia o quão nervosa eu estava, e antes de sair da cozinha eu gritei:

— Pedro some da minha casa, da minha vida, eu não quero você perto do meu filho e nem de mim! Você vai agir como se nós nunca tivéssemos existido, entendeu?

Pedro deu as costas enquanto eu falava, e Lucas o acompanhou até a porta. Fui até o balcão da cozinha e pegando o bife que ele estava empanando, eu corri para a sala e antes que ele entrasse no elevador joguei o bife em cima dele:

— E LEVA ISSO TAMBÉM, SEU ESTÚPIDO!
!!! – Lucas gritou meu nome, me olhando incrédulo.

Bati a porta da casa e me joguei sentada ao sofá.

— Primeiramente eu não entendi nada do que aconteceu aqui! – Lucas disse parado de braços cruzados à minha frente.

Lucas me encarava com receio, e de repente começou a gargalhar.

— Você realmente jogou um bife no Pedro?
— Eu nunca mais vou comer bife à parmegianna, Luke! – coloquei as mãos sobre o rosto e de repente o juízo retornou a mim: — Céus, Luke! O que eu fiz?
— Sim, foi um desperdício de comida. Coisa mais feia ! – ele falou sentando-se ao meu lado.
— Não Luke, desperdício de tempo, como eu pude me envolver com esse, cara?
— Acho que é como você disse, você estava fragilizada.
— E você não me impediu por quê, seu traíra? – bati no ombro de Lucas.
— Gata, não vem com essa não! Você não me pediu que vigiasse a sua vida amorosa. – Lucas sorriu e depois de um silêncio disse: — É a segunda vez que digo isso hoje.
— O quê?
, esta explosão não teve nada a ver com o ?
— Claro que teve Lucas! Óbvio que teve! Você sabe que eu não sou hipócrita de esconder os sentimentos.
— Então, você ainda ama o .
— Amo. E vê-lo hoje não me fez nada bem. Eu sei que tem um ano que estamos separados, mas depois que ele saiu de turnê eu não o vi mais, e os ânimos se acalmaram…
— Então vocês voltam e resolvem tudo isso. Certo?
— Claro que não Lucas! Óbvio que não!
— Por que não?
— Eu não volto pro até ter certeza de que ele mudou. Eu nem sei se ele me ama.
— Ele ama.
— Como você tem tanta certeza?
— Ele disse que ia ficar de olho no seu namoro. Não gostou nada de saber do Pedro. Perguntou se você amava o Pedro. E bem… Dá pra ver nos olhos dele.
— O que os olhos dele dizem não vão mudar o que aconteceu. Ou o prova que a família é importante para ele, ou eu assino o divórcio.

Depois de dito aquilo, Lucas me falou que não iríamos almoçar em casa. Fomos nos arrumar e saímos para almoçar num restaurante que o Lucas adorava, e eu não conhecia.

Capítulo 4

Miguel e eu tomamos banho de piscina à tarde. E eu fiz algo que não achava correto, mas se fez necessário: coletei informações do namoro de .

— Ele é legal papai, mas parece que a mamãe não gosta dele.
— E você já falou isso para ela? – perguntei com um sorriso, ao meu filho.
— Ela diz que eu sou pequeno pra entender as coisas.

Afaguei os cabelos do meu filho, e o abracei apertado enquanto tomávamos Sol. Berta surgiu chamando Miguel para tomar banho, e descansar para sair comigo mais tarde. Antes de ir, Miguel beijou o meu rosto e perguntou:

— Quando você volta para casa, papai?

Olhei para o rostinho esperançoso do meu filho, e o os olhos de , refletidos nos dele me fizeram responder:

— Papai volta logo, filho.

Miguel saiu correndo em direção à Berta. Eu não sabia se o meu filho perguntava quando eu voltaria para minha família, ou para dentro da casa em que estávamos. Meu empresário e equipe surgiram atrás de Berta, enquanto ela entrava em casa com Miguel. Levantei, enrolei a toalha na minha cintura e bebi o restante do meu drinque indo até eles. Todos falavam em como Miguel havia crescido, e estava cada vez mais parecido com a mãe. Me perguntaram se eu havia a visto, e como eu havia ficado com reencontro. Apenas respondi:

— Já tenho uma música nova para o próximo álbum.
— Mesmo longe, é a melhor musa inspiradora – disse Rick, meu empresário — E podemos escutar?
— Escrevi hoje, antes do almoço. E ainda estou finalizando os acordes finais, mas acho que ficou bom. Vamos pro estúdio.

Entrei e troquei de roupa, guiei minha equipe ao estúdio da minha casa. Enquanto todos se acomodavam nas poltronas e sofá, eu peguei meu violão e mostrei a próxima música:


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“Sente meu perfume aqui, sei que esse cheiro te lembra de tanta coisa. E os amores que virão depois não conseguirão superar nós dois. Você roda, roda e para em mim. Sou o seu princípio, meio e fim como tatuagem que se faz, e você não pode apagar jamais. E passe o tempo que passar, o nosso amor renascerá como a flor de primavera. E aqui vai o meu recado pro seu novo namorado, que está vivendo uma mentira: quando ela ama você, é a mim que está amando, quando ela beija você, é a mim que está beijando, ela não pensa em você é em mim que está pensando, ela nunca me esqueceu, o amor dela sou eu.”


, ... – disse Rick sacudindo a cabeça negativamente, sorrindo, quando terminei — Ela me causou problemas demais nesta turnê, mas vamos convir que já está garantindo a próxima!
— Você se diverte com a minha desgraça, não é mesmo Anderson Ricardo? – eu perguntei para o meu empresário sorridente.
— Jamais! Eu mais do que ninguém quero que vocês se acertem. Ela é a sua musa, afinal.

Afirmei com a cabeça e meu empresário e equipe me encaravam sorridentes.

— Você precisa reconquistá-la . – disse Rick, agora sério e compassivo.

Apesar de brincar muito com a situação, Rick conhecia nossa história e torcia por nós. Ele gostava de . E era impossível não gostar.

— Então ela está com outro? – perguntou Ana, minha assessora.
— Um tal de Pedro.
— Eu vou mandar um buquê de flores para ela agora mesmo. – disse Ana se levantado apressada.
— Ana, Ana, espera! – eu levantei a chamando — Vamos agir com calma, ok?
— Isso aí! A música é boa , mas hoje temos o último show para fechar. Teremos tempo pra trabalhar no novo CD e na missão “quero minha amada de volta”. Vamos trabalhar pessoal! – disse Rick, enfático.

Depois de sair do estúdio, eu fui me arrumar para a passagem de som. Miguel, graças à Berta, já estava arrumado para sairmos com uma malinha de coisas que Berta preparou. Ana pegou Miguel no colo, e como ambos se davam muito bem, ela foi a babá da noite. Fomos para a Arena, as coisas estavam quase prontas, a passagem de som foi ótima, e o último show perfeito. Só não foi mais perfeito, porque minha musa não estava assistindo-o com meu filho. O show foi televisionado e eu realmente esperava que assistisse pela televisão. Eu mesmo mandei uma mensagem para Luke, avisando a hora e o canal.

- x -

Passado


— Isso Luke, no Villa Mix! Eu já estou voltando para casa para me arrumar.
— Queria estar aí com você !
— E eu também queria que vocês pudessem vir. Como está o Marcos?
— O Marcos não está se sentindo muito bem hoje.
— O que ele tem?
— Não sei, chegou estranho do trabalho.
— Me mantenha informada.
— Claro, claro, eu vou mesmo te ligar do Rio de Janeiro, enquanto você está numa festa sertaneja em Belo Horizonte de camarote curtindo bastante para te falar se o Marcos está com 36, ou 37 e meio de febre! Acorda né, vadia!
— Estou falando sério, Lucas! Se precisar me ligue.
— Como se você pudesse fazer alguma coisa! Você está dirigindo e falando no celular?
— As duas mãos estão no volante, não pira!
— Olha só, eu vou desligar. Depois você me conta como foi, e se você tiver a oportunidade transa com o por mim.
— Ai, deixa de ser piranha! Até depois, se cuidem. Te amo.
— Também te amo, juízo!

Algumas horas depois de ter falado com Luke ao telefone, eu cheguei em casa e subi correndo para meu apartamento.
Quando morava no Rio, eu fui a uma boate com alguns amigos, inclusive Lucas, onde Dennis – um DJ – bastante conhecido em Minas estaria. Acabei conhecendo-o e nos tornamos amigos pouco a pouco.
Eu não via, ou falava com Dennis desde que havia me mudado do Rio. Até aquela semana, quando ele me ligou se recusando a receber um “não” ao convite que me fez. Ele tocaria nos intervalos dos shows do Villa Mix, que aconteceria no fim de semana em BH. Dennis tinha uma carreira grande na capital. E teria acesso ao camarote VIP dos artistas, e desejava me levar de acompanhante e aproveitar para que, matássemos a saudade de sair juntos para “azarar”. Eu já havia desistido de pedir ao Dennis para não utilizar aquele tipo de gíria. Tão ridícula. Coloquei o meu vestido azul-marinho e calcei o pep-toe roxo. Terminei de jogar os meus cabelos, ajeitar o batom e desci para encontrar Dennis.

— Gostoso! – eu abracei meu amigo quando o vi.
— Gostosa! – ele me rodopiou no abraço — Finalmente estamos nos reencontrando! Achei que você havia conhecido algum outro DJ das baladas mineiras, e me deixado de escanteio.
— Mas é óbvio que não! Não tem amigo melhor para curtir as baladas do que você, exceto o Luke!
— Com o Luke eu não tenho como competir. Como ele está?
— Bem, no RJ. Está me fazendo muita falta.
— Serei o seu Luke hoje, se quiser! Eu só não beijo rapazes.
— Pode ser apenas o Dennis. – eu disse sorrindo.

Entramos no carro dele e fomos direto ao festival. Chegamos lá, às 21 horas. Entrei no camarote e Dennis foi preparar-se para tocar. Ele seguraria do início até as dez e meia, onde a primeira atração entraria: Jorge e Matheus.
No camarote estavam alguns poucos cantores e duplas sertanejas que iriam se apresentar e já haviam chegado, amigos de amigos, convidados vip e pessoas que eu não conhecia, mas tiravam muitas fotos ao lado dos outros presentes. A minha primeira hora sem a companhia de Dennis foi tranquila, eu nunca tive problemas para me socializar. Enquanto eu dançava na beira do camarote assistindo ao Dennis, uma garota se aproximou puxando assunto. Não lembro qual era o nome dela, mas lembro que ela me perguntou se eu era famosa. E eu respondi que não, que era apenas uma amiga do Dennis. Ela sorriu e ficamos conversando por um bom tempo e nos enturmando, até que Dennis voltou. Eu e ele bebíamos alegres e dançarinos, arrancando risos dos mais próximos a nós. Jorge e Matheus já tocavam, e o Villa Mix havia oficialmente começado. Vez ou outra algum cantor, ou dupla conhecido do Dennis se aproximava para falar com ele e, ele me apresentava:

— Esta linda que me acompanha hoje, é a . E nós não estamos juntos, tá?

Me deixava extremamente sem graça na frente das pessoas, porém conforme o álcool ia fazendo efeito, eu achava mais engraçado do que vergonhoso. Em determinado momento, eu conversava com um dos meus novos colegas, quando Dennis me chamou em um cantinho:

, tem um amigo meu que pediu para te apresentar a ele, vem cá.
— Tudo bem, que amigo? – perguntei aleatoriamente, meio altinha.

Então Dennis me levou até um cantinho mais vazio, onde estava o cara mais atraente que eu tinha visto até então.
Seu cabelo impecável, um blazer de manga ¾ preto sobre uma camisa branca de estampa minimalista. Uma barba tão impecável quanto o cabelo, bebia um drinque olhando fixamente para nós dois.
Eu não reconhecia o rapaz, mas meu coração já batia mais forte com o êxtase da imagem à minha frente. Após nos aproximarmos mais, notei que ninguém mais era, do que:

? – eu perguntei ao vê-lo.
, esta é a .
… Que doce.

Luan puxou minha mão, e eu sorri, em seguida ele me abraçou devagar e enquanto ele me abraçava encarei divertida, ao Dennis fazendo uma careta pelo xaveco bobo de .

— É um prazer te conhecer, você me chamou bastante atenção. – disse.
— Se você não estivesse escondidinho aqui, eu diria que também chamou a minha – falei sorridente para ele o olhando de cima a baixo — Você está muito bonito!
— Eu aprendi a me vestir depois de um tempo, o Dennis me conheceu nas épocas iniciais de Villa Mix, não é?
— Com certeza a melhor coisa que ele fez foi abolir o xadrez. – Dennis disse dançando ao nosso lado e xavecando uma loira um pouco mais afastada.
— E aí, como você conheceu o Dennis? – me perguntou.
— Eu estava numa boate que ele tocava, e ao acabar de se apresentar ele esbarrou em mim e derrubou sua vodca no meu vestido.

Luan deu um meio sorriso sacana para Dennis, que foi logo tratando de se explicar:

— Foi um acidente de verdade, mas nos rendeu uma amizade maravilhosa. – e deu outro sorriso sacana para nós.
— Não, não sorri assim. Dennis e eu nunca ficamos. – esclareci.
— Eu não sou cara de compromisso, a é muito legal, nos demos muito bem e eu preferi manter a amizade com ela do que, correr o risco de magoá-la.
— Aham – resmunguei arrancando risos do Dennis que foi logo se reparando:
— Digamos, que a é uma mulher encantadora. Ela é decidida e eu enxerguei um potencial fracasso em me apaixonar por ela. Então ela foi bem clara quanto o “Dennis, eu não estou interessada em nada sério, não quero que você fique mal depois”.

Dennis imitou a minha voz enquanto contava para o , mas não tirava os olhos da loira.

— Dennis – o chamei — Vai logo falar com a loira!
— Bem, com licença . A será uma companhia melhor que eu, te garanto. – ele se virou, mas voltou a nós em seguida: — E não zoa com ela, porque eu posso até ser seu amigo, mas eu sou mais amigo dela.

levantou as mãos em justificativa, e logo depois Dennis saiu. e eu ficamos nos encarando sorridentes. Eu não estava nem um pouco a fim de fazer a puritana com ele, mas também não queria que ele me achasse uma qualquer. Entre olhares e sorrisos sedutores, eu também queria conhecer aquele cara tão lindo, e galanteador com falsa inocência que se interessara por mim. Conversamos animados, dançamos e enquanto íamos até a mesa de bebidas reabastecer nossos copos, meu celular tocou.

— Oi Mário! – atendi falando alto por causa do barulho.
? Eu preciso falar com você.
— Mário, olha desculpa, mas eu estou no meio de uma festa cara, eu não consigo te entender direito. Te ligo depois, se cuida! – disse e desliguei.
— Namorado? – perguntou ao pé do meu ouvido.
— Ex. – eu sorri.
— Tem muito tempo?
— Vejamos… – fiz uma continha de dedos — Cinco anos.

fez uma cara desanimada.

— Que terminamos. – então ele fez uma cara espantada.
— E ele ainda corre atrás de você?
— Não, é que nós meio que, nos tornamos amigos. Então ele mantém o contato, mas não nos vemos e nos falamos mesmo há muito tempo.
— Entendi. – disse o sorrindo abertamente.

Capítulo 5

Eu havia acabado de chegar ao camarote, e encontrei alguns parceiros. Peguei uma bebida e fiquei conversando com eles, perguntei a alguns se já haviam se apresentado. Eu entraria depois do Marcos e Belutti. E ainda faltava bastante tempo. Decidi não beber muito antes do show, eu apresentaria duas músicas e depois estaria livre. Não pretendia ficar na festa por muito tempo.
Algumas garotas que estavam no local, conhecidas, outras acompanhantes de alguns amigos vieram se apresentar ou falar comigo. Estava em uma rodinha de conhecidos e, desconhecidos conversando, quando vi o Dennis passar de relance. Não tínhamos gravado nada juntos, mas eu planejava aquilo há algum tempo. Ele era um dos DJ que eu mais escutava, e embora o funk não fosse a minha praia, eu dava o braço a torcer no trabalho dele.
Pedi licença ao pessoal e fui até ele. Nós éramos amigos, havíamos estado nas mesmas festas algumas vezes e ele já havia gravado até com outros parceiros do sertanejo. E eu sempre dizia quando o via “vamos combinar alguma coisa”, mas acabava que eu mesmo nunca o procurava. Então ele me abraçou e fomos para uma parte mais afastada da mesa de comidas e conversamos.
Zé Felipe surgiu no camarote, acompanhado com sua nova namorada ou ficante. Nunca sabíamos quem ia surgir com o filho do Leonardo. E ele veio falar conosco. Não demorou muito para Dennis sair. Eu fiquei acompanhando para onde ele iria.
E então a vi.
Dennis parou ao lado de uma garota de vestido azul-marinho colado ao corpo, com um sapato roxo que valorizava ainda mais seu visual.
Ela tinha as pernas douradas mais lindas que eu já havia visto. Ele passou a mão pela cintura da garota e beijou seu rosto. Por um tempo fiquei observando os dois, até notar que eles não estavam juntos. Mas ele conhecia a garota. Perdi um tempo em meus olhares furtivos sobre ela, e ninguém havia se aproximado ainda e eu não entendia a razão.
Será que ela teria mau hálito? Qual o problema, para uma mulher incrível como ela não ter nenhum cara a rondando?
Ela dançava animada, e conversava simpática com todo mundo. E eu voltei a ser um garoto de quinze anos, tímido e incapaz de chegar naquela mulher. Ela não iria me esnobar se eu chegasse para cumprimentá-la não é?
Dennis se aproximou de mim, sem que eu percebesse.

— Estou vendo você secando a , tá?
— Pô cara, ela está com você? Foi mal… Mas ela é linda.
— É, ela é minha amiga. Porque não vai falar com ela? Ela é muito legal. Eu diria até que deve ser a garota mais legal daqui.
— E porque ninguém está com ela?
— Tem um monte de gente com ela, a socializa muito bem. Não vê? – ele disse óbvio.
— Ela tem namorado?
— Não.
— Então porque nenhum cara está com ela?
— Boa pergunta. Mas quer saber? Se você não for falar com ela, logo alguém vai aparecer.
— Ela é um pouco, intimidadora. – eu disse para o Dennis justificando minha falta de coragem e ele riu.
— Espera aqui. – disse se afastando e piscando para mim. — Não acredito nisso! – ele voltou a me olhar, parando de ir até a mulher e falou ainda rindo da minha atitude.

Não demorou muito e ele voltou trazendo a garota, por sua mão.
A cada passo que ela dava se aproximando, eu ia ficando mais embabacado.
Decidi me esconder um pouco abaixo da luz para me recuperar da minha cara de idiota, assim quando ela se aproximasse não veria o meu queixo caído.
E ela era ainda melhor de perto.
Ela foi a primeira a falar quando estávamos frente a frente. Pronunciou meu nome numa voz melodiosa, e linda. Minha cabeça foi às nuvens com o som de meu nome pronunciado por ela. Dennis nos apresentou, e como quando o cérebro congela após tomar um sorvete rápido demais, o meu havia perdido os sentidos. Aquela foi a pior coisa que eu poderia ter dito. "Que doce" , tão idiota. Abracei-a para que ela não visse minha estúpida cara, e pensando em como recuperar a primeira impressão me afastei voltando a falar com ela.

— É um prazer te conhecer, você me chamou bastante atenção. – eu disse
— Se você não estivesse escondidinho aqui, eu diria que também chamou a minha – ela falou com um sorriso simpático e me olhando dos pés à cabeça — Você está muito bonito!
— Eu aprendi a me vestir depois de um tempo, o Dennis me conheceu nas épocas iniciais de Villa Mix, não é? – eu definitivamente estava impactado e totalmente sem assunto com aquela mulher.

Ela era intimidadora, sedutora, mas, ao mesmo tempo, soava muito acessível à conversa e uma aproximação. Eu não sabia como agir com ela, e fiquei pensando se não seria aquele o motivo de nenhum cara ter se aproximado dela.

— Com certeza a melhor coisa que ele fez foi abolir o xadrez. – Dennis encarava uma loira enquanto falava conosco.
— E aí, como você conheceu o Dennis? – perguntei.

Eu estava mesmo curioso para saber, de onde o Dennis tirou aquela mulher, e por qual motivo a boca dela estava tão disponível daquele jeito. Dennis não era o tipo de cara que deixava uma mulher daquelas passar.

— Eu estava numa boate que ele tocava, e ao acabar de se apresentar ele esbarrou em mim e derrubou sua vodca no meu vestido.

Quando terminou de contar, eu imaginei que Dennis já havia estado com ela, mas ainda não entendia por quê havia deixado-a livre daquele jeito. Dei um meio sorriso sacana para Dennis, e tanto ele quanto entenderam meus pensamentos.

— Foi um acidente de verdade, mas nos rendeu uma amizade maravilhosa.
— Não, não sorri assim. Dennis e eu nunca ficamos.

E assim que respondeu, eu olhei para Dennis em dúvida. Eu realmente não estava entendendo.

— Eu não sou cara de compromisso, a é muito legal, nos demos muito bem e eu preferi manter a amizade com ela do que, correr o risco de magoá-la.
— Aham – zombava da desculpa dada por Dennis, e ele apenas riu continuando a falar.
— Digamos que, a é uma mulher encantadora. Ela é decidida e eu enxerguei um potencial fracasso em me apaixonar por ela. Então ela foi bem clara quanto ao “Dennis, eu não estou interessada em nada sério, não quero que você fique mal depois”.

Dennis imitou a voz de , que nem de longe chegaria próximo ao tom tão sedutor e melodioso que eu escutava. E ele não parava de olhar para a loira.

— Dennis. Vai logo falar com a loira! – o advertiu como se, assim como eu, não aguentasse mais observar aquela troca de olhares entre o rapaz e a loira do outro lado.
— Bem, com licença . A será uma companhia melhor que eu, te garanto. – ele se virou, mas voltou a mim, sendo taxativo: — E não zoa com ela, porque eu posso até ser seu amigo, mas eu sou mais amigo dela.

Apenas levantei as minhas mãos demonstrando que eu era inocente de qualquer coisa. E assim ele foi paquerar a loira. Depois que Dennis saiu eu não conseguia prestar atenção em mais nada que não fosse . Ela sorria tão lindo, que o meu próprio sorriso era um contágio do dela.
Eu não sabia se ela estava tão interessada quanto eu, mas eu estava realmente de quatro por ela. E mal poderia culpar o álcool, primeiro porque ela realmente era um pedaço de mau caminho. E outra porque ainda não havia bebido o suficiente para isso. Trocamos olhares, sorrisos, meias palavras, dançamos e quando fomos ao balcão de bebidas pegar outros drinques o telefone dela tocou.

— Oi Mário!

Ela atendeu falando alto por causa das conversas altas do camarote e a música do show. Ela fazia uma cara de desinteresse por aquela ligação, assim como umas caretas que mostravam que ela não conseguia ouvir nada.

— Mário, olha desculpa, mas eu estou no meio de uma festa cara, eu não consigo te entender direito. Te ligo depois, se cuida!

Ela desligou e voltou a sorrir para mim, enquanto pegava seu drinque da minha mão. Bebeu e voltou a olhar para onde o show ocorria. Dançava discreta e sorrindo, até que eu perguntei para tirar qualquer dúvida:

— Namorado?
— Ex. – ela sorriu convencida como se esperasse a minha pergunta.
— Tem muito tempo?
— Vejamos… – contou os dedos de uma mão — Cinco anos.

Um relacionamento de cinco anos ainda poderia se reaver. E embora ela não tenha dado tanta importância ao telefonema pensei que talvez, competir com o tal Mário não fosse dar certo.

— Que terminamos.

Então ela disse que havia terminado há cinco anos. Eu me espantei. Duas coisas se passaram em minha cabeça: a primeira é que não deveria ser uma mulher de sair com muitos caras, ou namorar sério, porque depois de cinco anos aquele cara ainda estava procurando ela… Ou talvez ele fosse um dos muitos ex-namorados que ainda a procuravam. Ou apenas um ex-namorado muito apaixonado, de muito tempo. E a segunda coisa que eu pensava era o porquê de eu estar tão interessado em saber quantos caras aquela mulher teria, ou em como poderia ser difícil competir com eles. Mas competir o quê? Eu só queria uma noite com aquela mulher.

— E ele ainda corre atrás de você?
— Não, é que nós meio que, nos tornamos amigos. Então ele mantém o contato, mas não nos vemos e nos falamos mesmo há muito tempo.
— Entendi.

Sorri abertamente para ela. E antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, Rick, o meu empresário que estava curtindo o camarote tanto quanto eu, e eu nem ao menos havia notado chegar, apareceu ao meu lado dizendo que estava na hora de me encaminhar ao palco. Ele sorriu para , ela deu a ele um aceno meigo de cabeça e sorriu.
Levantei me direcionando a falar com Rick, e ele não parava de olhar .

— Me diz que você não está com ela. – ele falou.
— Eu vou descer, cantar e subir rápido e espero que possa observar se algum cara vai se aproximar dela. – eu disse baixinho para ele.
— Eu posso ficar com ela se quiser. Me diz que você não está com ela. – ele repetiu ainda sorrindo para e sem tirar os olhos dela.

Eu notei que já estava estranhando a reação de Rick, dei uma leve batida no peito de Rick o acordando. Revirei os olhos e falei para ele com todas as letras “eu estou com ela sim”. Ele entortou a boca em reprovação, depois sorriu e me desejou boa sorte no palco. Cumprimentou em despedida e saiu dançando até um grupo de pessoas que pareciam o aguardar.

— Vou descer para cantar. – eu disse aos ouvidos dela.
— Ah, sim claro! Eu vou assistir e cantar muito aqui de cima. – ela falou animada, beijando o meu rosto.

Minha pele arrepiou com o toque dos lábios dela, afaguei seus cabelos pela nuca e devolvi o beijo em seu rosto. Me retirei ao backstage do palco, para me preparar para cantar.

Capítulo 6

tocou minha nuca beijando de volta o meu rosto e senti um arrepio percorrer meu corpo. Assim que ele saiu, eu fui andando até o Dennis que estava conversando com os mesmos colegas que havíamos feito no início da festa. A loira estava com ele, e ele me apresentou a ela. Assim como ele foi protetor comigo em relação ao , pensei em ser com ele em relação à loira. Mas acho que quem deveria ser protegido ali, não era o Dennis e sim, a garota. Então decidi não falar nada perto dele. Afinal, ele era meu amigo. Depois quando ele não estava por perto eu sondei a loira:

— Qual sua intenção com o Dennis, uma noite ou duas?

Ela me olhou desentendida e apenas respondeu:

— Duas.
— Então tá, olha ele é meu amigo, e eu já vou te avisando que o cara é muito legal. Mas não cria expectativas tá? Eu não quero que você fique mal com ele, e nem ele com você. Só… Vai com calma. Uma noite por enquanto é o suficiente.

Ela sorriu e me agradeceu pelo aviso. Quando ele voltou, nos olhou e sobre uma encarada duvidosa para mim, nos disse: “hum… já estão amiguinhas, é?” . Dennis sabia que eu teria dito algo à garota, mas estava tranquilo. Eu saí para ir falar com outras pessoas que me chamaram, e no meio do caminho, a repórter do canal Multishow que estava no camarote desde o início me parou.

— Você estava por aí conversando com o , vocês estão juntos? – me perguntou diretamente.
— Nós nos conhecemos hoje, aqui no evento. – eu falei tentando fugir de qualquer resposta que pudesse comprometer tanto ele quanto eu.

O cara que havia ido falar com ele para descer ao palco, e que me paquerava indiscreto, havia visto a jornalista comigo e ficou observando curioso nós duas.

— Qual o seu nome? – a mulher me perguntou.
.
— E vocês se conheceram aqui hoje, e o que você achou do ?
— Ele é um fofo, muito simpático – respondi entendendo a armadilha da mulher e quais respostas ela queria, então fui mais esperta ao responder — Eu vim com um amigo, e nós acabamos sendo apresentados através dele.
— Então você e o não estão saindo, ou nada do tipo?
— Não, não, como eu disse nós acabamos de nos conhecer.
— Mas ele não deu nenhuma investida em você? Eu notei como ele te olhava, pode falar amiga, estamos todas no mesmo barco.

Ri discreta e simpática, para Titi Müller, a jornalista – que parecia um pouco altinha – e respondi:

— Prometo que, se ele me paquerar em algum momento, eu volto aqui pra te contar tá?
— Combinado! – ela apertou a minha mão e me abraçou — Você é muito simpática , tomara que vocês se beijem!

Saí sorrindo de perto do câmera e da jornalista. O homem que havia falado com ainda me olhava curioso. Antes que eu chegasse aos meus amigos, ele se aproximou de mim.

— Boa noite!
— Olá! – eu disse simpática a ele.
— Eu sou Ricardo Souza, empresário do . – ele me estendeu uma mão e nos cumprimentamos com beijinhos no rosto.
— Ah, isso explica a sua cara de curiosidade, eu sou .
— É, pois é, eu nunca vi você com ele…
— Nos conhecemos hoje.
— E você é do meio? – o empresário perguntou obviamente curioso em saber quem era a “ninguém” que conversava com .
— Não, eu sou fisioterapeuta. Eu sou convidada, apenas. – eu respondi com uma expressão humilde.
— Ah que legal! Eu já quis ser fisioterapeuta, mas eu sou melhor com música.
— Posso garantir, como fã dos seus artistas, que é sim.
— Você é muito simpática, está explicado como te encontrou, além de seguir a sua beleza notória.
— Ah obrigada, que gentil – respondi tímida — E na verdade, nós fomos apresentados pelo Dennis. Somos amigos.
— Ah bacana! Dennis é um cara divertido!
— Sim, muito, olha Rick, eu tenho que ir. Meus colegas me chamam ali – o pessoal que havia me chamado, continuava me chamando e eu já estava a fim de sair daquela conversa, e antes que o homem não soubesse como perguntar eu já fui respondendo: — Olha, aquela repórter fez umas perguntas sobre o e eu, eu apenas disse que éramos amigos que acabaram de se conhecer. Se ela perguntar alguma coisa…
— AH! Não, claro! Fique tranquila, até mais. – ele respondeu com um sorriso largo e saiu.

Fiquei imaginando que estes empresários às vezes são meio sanguessugas. Me reuni aos meus colegas, e assisti a apresentação de ao lado deles.

– x –


Após terminar de cantar voltei ao camarote e fui procurar . Estava preocupado se algum outro cara teria a encontrado, e se havia perdido a atenção dela para outro. Eu andava olhando para os grupos de pessoas à procura dela, quando Titi Müller apareceu em minha frente me assustando. Cumprimentei ela, que me parabenizou pela apresentação. Ela estava um pouco alegre por efeito do álcool, eu supus, e sorria muito. Eu cumprimentei a câmera do programa e Titi deu um grito:

— Olha ela!

Ela se referia à , que passou perto de nós, sem nos notar. Ela foi até , me puxando pela mão. Eu queria agradecer à Titi, por aquilo.

! Nós conversamos com a sua amiga , que é muito, muito simpática por sinal – ela abraçou de lado — Nós já somos amigas, não é ?

assentiu sorrindo um pouco sem graça.

, ela disse que vocês se conheceram hoje e que vocês não estão de affair. Você confirma isso?

Eu estava ansioso para deixar claro à que aquela noite, eu queria estar com ela e somente com ela, então prevendo não correr o risco de tomar um toco na frente das câmeras, decidi ser um pouco mais ousado nas respostas:

— Sim, nos conhecemos hoje e não estamos de affair ainda, mas eu estou muito interessado na . – Titi deu um urro de zombaria, olhando para ela, e sorriu sapeca.
, e aí? – Titi perguntou.
— A minha promessa continua de pé. Eu falei que se ele me paquerasse eu contaria a vocês.
— Mas ele está te paquerando, gata! E aí, rola um beijinho ou não? – Titi falou e eu peguei a mão de sorrindo, sem jeito.
— Ele que é a celebridade, se eu beijá-lo ele pode se sentir exposto. Fica a critério dele.
— Eu gosto disso! – disse a Titi sorridente olhando para mim.

E então delicadamente, segurei o rosto de com as duas mãos, e sussurrei ao ouvido dela: “com toda a licença, senhorita”, e beijei seus lábios de uma maneira calma. Titi comemorou com comentários e dizendo para a câmera tem uma paquera no Villa Mix, sim!” ela afastou a filmagem de nós dois. Quando eu e separamos o beijo, sorrimos para Titi que deu uma piscadinha cúmplice para nós.
Guiei até um canto afastado e mais escuro do camarote, e nos sentamos numa poltrona dali para conversar. Continuamos a falar sobre os mesmos assuntos que tínhamos antes de eu ir para o palco. Então beijei novamente . Um beijo tão harmonioso, que parecia que nossas bocas foram feitas uma para a outra.

— Eu estou extremamente encantado por você hoje. – eu disse entre os beijos.

sorriu e então nos separou. Olhou voraz em meus olhos e disse:

, eu não sou muito de rodeios tá? Não precisa gastar poesias ou falar coisas bonitas para me levar pra sua cama. Eu sou o tipo de pessoa que se quiser dormir com você sem compromisso, vai fazer isso e sair antes que você acorde no dia seguinte. E se eu quiser ficar de chameguinho com você, eu vou acordar e deixar meu telefone. E se eu não tiver a fim, eu te dispenso antes mesmo de dar tempo dessa noite acabar.

Eu fiquei boquiaberto com as palavras dela. Jamais imaginaria ouvir tudo aquilo.

— Pode pensar o que quiser, mas eu só tenho uma pergunta: o que você quer é passar a noite comigo?

Continuei calado, encarando os olhos dela, e acariciando seu rosto. Ainda estava digerindo tudo o que ela disse. Eu levando horas para falar o mínimo com ela, e ela conseguindo ser direta daquele jeito?

… Quais as suas intenções comigo hoje? – perguntou de novo, despertando-me do transe.
— Eu quero dormir com você sim, mas não quero que você saia sem despedir amanhã.

Ela sorriu, em um meio sorriso sedutor.
E eu só conseguia pensar em uma coisa: eu caí na teia de uma viúva-negra?

Capítulo 7

Depois do beijo, eu achei melhor ser direta com o . Eu queria ficar com ele, mas não o queria gastando o latim com poesias e palavras falsas para me levar para o quarto dele. Era muito mais simples e sincero apenas falar o que queria.
Esta minha forma direta de agir, intimida um pouco os homens, mas me poupa tanta dor de cabeça com eles. E eu tenho que agradecer ao Mário por isso, porque antes dele, eu não sabia me comunicar com os homens. Então depois de muito quebrar a cara, mudei meu jeito de ser, pelo meu próprio bem.
e eu ficamos de amasso durante o restante da noite, e um pouco antes de irmos embora voltamos a dançar e socializar. Dennis já havia me mandado uma mensagem dizendo que tinha ido para o hotel. Se responsabilizou pela minha volta, – ainda que desnecessário – disse que na hora que eu quisesse ir embora mandasse uma mensagem a ele, que ele pediria o carro.

“Ei , não achei a senhorita docinho em canto algum e olha que coincidência: eu também não achei o . Hum… Estranho não? Kkkk. Então eu voltei para o hotel acompanhado. Quando quiser ir embora, me avisa que eu faço questão de pedir o carro para te buscar aí. Não apronta, dê sinal de vida!”
“Você deixou a sua, docinho por uma loira peituda, e adivinha só quem teve que cuidar de mim? Não se preocupe, quando eu chegar em casa amanhã de manhã te aviso Den! Use camisinha!”


Respondi e assim que e eu entrávamos no carro dele meu celular apitou, com uma nova mensagem do Dennis.

“Amanhã de manhã? Quem tá levando a gostosa da pra casa? Hahaha”
“Não achei que fosse responder agora, a loira fugiu de você?
“Estamos subindo pro quarto agora, mas fala logo quem é o safado para eu agarrar a mina aqui logo!”
“Como você é fofoqueiro! HAHAHA, se concentra na sua missão aí!”
!”
“O , né Dennis! Quem mais seria?”
“Não acredito! Ele não faz teu tipo, ele é muito romântico! Ele vai se apaixonar, coitadinho…”
“Tchau Dennis!”


Depois não visualizei nenhuma mensagem do Dennis, e contei ao que ele havia ido embora com a loira.

— Vou avisar a ele, pra ficar tranquilo que eu mesmo te levarei para casa amanhã – ele disse assim que comentei a preocupação do Dennis comigo.

Cheguei ao hotel onde estava hospedado, e o quarto era magnífico. Antes que eu pudesse tirar os meus sapatos, me abraçou por trás e beijou meu pescoço. Joguei minha bolsa em um canto, retirei os sapatos, e virei de frente ao passando os braços por sua nuca e o beijando. Ele retirou seu blazer, jogando-o longe também, e me beijou falando em seguida:

— Tenho uma condição.
— O que? – o olhei em dúvida.
— Eu falei sério quando disse que não queria que você fosse embora sem se despedir amanhã.

Sorri não levando ele a sério e voltei a beijá-lo. novamente nos separou e disse:

— É sério , nada de sair de fininho amanhã. Tudo bem por você?
— Tudo bem, não é uma condição tão grave assim.

Voltei a beijá-lo. Ele mexia comigo e eu não sabia os motivos.
Ele era lindo, mas até ali não tinha nada de diferente nele em relação a outros caras com quem eu fiquei, exceto por sua fama, que sinceramente não importava para mim.
E depois daquele papo de não sair de fininho no dia seguinte, só conseguira me lembrar da mensagem do Dennis: “Ele é muito romântico, ele vai se apaixonar…” . Temia por aquilo.
A última coisa que eu precisava era me apaixonar por um cara como ele, e muito menos que ele se apaixonasse por mim. Mas era muita petulância pensar aquilo, então resolvi acreditar que ele não desejava que eu saísse de fininho, por precaução de marketing. Afinal, uma noite com uma garota desconhecida poderia render bons ou maus tabloides para ele, se não tivesse certo cuidado. E por mais que aquela não fosse a minha intenção, eu realmente pretendia apagar aquele acontecimento, eu não poderia culpar o por pensar outra coisa.

Capítulo 8

Eu não havia tido uma noite daquelas há muito tempo. Eu estava feliz e satisfeito, começou com um jogo de sedução. Uma novidade. Um encanto. E eu acreditei que seria uma aventura, porque me deixou de quatro babando por ela, mas eu não poderia cogitar a hipótese de ficar tão surpreso e apegado ao que nós passamos aquela noite.
Eu acordei antes dela, por puro e banal, medo de acordar e não mais a ver ao meu lado. A boca semiaberta, com os lábios um pouco inchados e tão convidativos. O nariz redondo e empinado, com a ponta avermelhada pela baixa temperatura daquela manhã. Os cílios, eram pequenos num olhar tão intrigante, e estavam um pouco borrados da maquiagem da noite anterior. E a pele dourada e macia de seu corpo, me convidando a abraçá-la e não mais soltar.
O que estava acontecendo comigo? Eu tive certeza, desde que a vi, que ela não seria um passatempo como outras que tiveram, mas também não era para ser daquele jeito.
Aquela tara absurda, que eu sentia ao vê-la ali ao meu lado. Um desejo inexplicável de seguir com ela round após round . Que feitiço aquela mulher trazia consigo? Era certo dizer que, a noite fizera-se tão agradável porque era um furacão de mulher mesclado a uma singela sedução. O papo fluía, o carinho magnetizava, e – aquela estúpida – sensação de que as bocas foram feitas uma para a outra. Na verdade, uma sensação de transa eterna.
Me peguei a observando dormir, e pensando se eu encontraria um sexo melhor do que aquele, pois, uma noite com fez cair por terra todos os outros. Como se fosse a primeira vez que eu dormia com uma mulher. E enquanto a observava me odiava, porque eu não poderia ceder àquele instinto primitivo e guardá-la num bolso. Eu precisava ser racional. Eu precisava pensar que, foi uma noite com uma mulher ainda desconhecida, cuja qual se eu quisesse continuar naquilo, eu teria de ir além de uma noite.
Eu poderia ir além? O que ela fazia da vida? O que ela pensava daquela situação? E a voz dela, na noite anterior ecoava em minha mente:

“Eu sou o tipo de pessoa que se quiser dormir com você sem compromisso, vai fazer isso e sair antes que você acorde no dia seguinte. E se eu quiser ficar de chameguinho com você, eu vou acordar e deixar meu telefone. E se eu não tiver a fim, eu te dispenso antes mesmo de dar tempo dessa noite acabar”.



Ela queria sexo sem compromisso? Não havia como saber, uma vez que eu inventei aquela condição maluca de “não saia de fininho”. E por quê eu fizera aquilo, não consegui reunir em qualquer explicação. Será que ela deixaria seu telefone? E se o fizesse sem que eu pedisse, eu poderia considerar um interesse a mais? E se eu a pedisse o telefone dela? Significaria um interesse, ou ela me passaria apenas por ser atrás do telefone dela? Ela não me pareceu o tipo aproveitadora. Mas, eu não a conhecia. Ser polido era dificultoso.
Beijei os lábios convidativos dela, e sem intenção de acordá-la massageei sua cintura naquele carinhoso afeto. Ela contorceu-se um pouco, estufando o peito que denunciava os mamilos rígidos. E eu comecei a imaginar – numa tentativa frustrada de conter minha excitação – as possibilidades de estar com ela em outras situações.
Quando dei por mim estava imaginando nós dois num romance sério. Em vários eventos de família, e em passeios como namorados. E imaginei ela com a minha equipe de trabalho. Notei o quão solitária estava sendo minha vida, e fantasiando um futuro com aquela estranha, eu me levantei e fui à mesa do quarto de hotel, e iniciei o esboço de uma música cuja aquela mulher arrebatadora de uma noite acabara de me inspirar.

“Ser romântico às vezes ajuda, mas se fecho os olhos te imagino nua.
Talvez pareça uma cena de Hollywood.
Se está pensando isso por favor, não se ilude.
Eu só quero uma noite de amor.
Como as outras, só mais uma que passou.
Mas foi só a porta fechar, pra mudar minha cabeça.
A sua boca vale o preço pra perder o sossego que eu tinha.
A lua até beijou o mar pra não ficar de vela, os quatro perdidos de amor: eu, você, o mar e ela”.


Eu comecei a dedilhar os primeiros acordes, e a construir a melodia. Em um momento de pausa olhei para trás, e ela estava acordada com um sorriso bobo no rosto, bem quietinha, mas atenta.

— Bom dia – ela disse rouca, com um sorriso ameno.
— Bom dia – respondi.

Deixei o violão de lado, e a música sobre a mesa. Caminhei até a cama e me aninhei embaixo das cobertas, deitei frente a frente aos olhos dela. E pude notar o quão sem graça ela havia ficado. Ficamos em silêncio nos olhando.

— Uma música nova? – ela perguntou.
— Acordei inspirado.

Ela riu fraco, e estava mesmo um pouco sem graça com aquilo. Ou com o que havia acontecido na noite anterior. Eu não sabia na verdade. Me aproximei ainda mais do corpo dela, cauteloso. Ela ainda estava nua e sentimos um choque quando nossos corpos se aproximaram. Ela não desfazia o contato visual. E eu abraçava-a contra meu peito, numa atitude possessiva de nos manter ali pelo tempo que fosse. E quando pensei em beijá-la, ela me beijou primeiro.
Naquela deliciosa troca de energias, ela subiu sobre meu corpo, com as mãos espalmadas em meu peitoral. E eu apertava a sua cintura de uma forma mais voraz, não consegui me deixar ser dominado por ela de novo. Eu iria mostrá-la também, o quanto eu poderia deixá-la dependente daquilo.
E invertendo as nossas posições, deixei entregue a mim. E embora eu achasse que a estava dominando, no meu poder de tocá-la como bem entendesse, o dominado era eu.
Meu celular tocou quatro vezes, antes que eu o pegasse definitivamente e o desligasse.

— Você deveria atender… Pode ser importante.

Ela disse sussurrado ao meu ouvido. Mais insano eu ficara a medida que aquele timbre de voz invadia minha cabeça.

— Seja o que for pode esperar.
… Sério… Atende.

E interrompeu meus beijos me fazendo a olhar descontente. Sorriu um sorriso sacana, e pegou o aparelho no criado-mudo ao lado e me estendeu.

— É o Rick... – respondi constastando as ligações de meu empresário.
— Vamos. – ela respondeu e me empurrou para o lado da cama.
— Onde você vai?
— Eu tenho que ir, e você também.

Caminhou nua - e pude ver sua pele arrepiar de frio – em direção ao banheiro. A segui ainda confuso com aquela reação: ela se preparava para ir embora, e como ficaríamos?

— Vamos tomar café juntos?

Perguntei, como um adolescente ressabiado logo que entrei ao banheiro com ela.
me olhou confusa. Adentrou o box e abriu o chuveiro. Molhou o corpo, os cabelos e depois de um tempo curtindo a água sobre si, ela abriu os olhos e me encarou ainda sem resposta.

— Eu acho que você vai se atrasar, não?
— Não, não! Está cedo, ainda vou tomar café. E estou te convidando – eu entrei no box e fechei a porta dele, colando nossos corpos.

Ela assentiu com um sorriso meigo, e eu a beijei.
Ao acabar, ela secou o corpo molhado e eu não conseguia conter minha animação na presença dela. Passei um tempo a mais sob a água quente, para me livrar daquele tesão interminável.
Ela secou os cabelos com o secador do hotel, enrolada à toalha, escovou os dentes e saiu do banheiro sem dizer nada.
E eu fiquei ali, numa terrível vontade de puxar de volta ao meu corpo aquela mulher e não mais deixá-la ir.
Eu só poderia estar louco.


- x -




Voltei ao dormitório buscando minhas roupas e as vestindo. E não conseguia assimilar o quê, afinal, havia ocorrido ali. Eu poderia repetir aquela noite para o resto da minha vida. E aquela manhã. E aquele banho. E onde eu estava com a cabeça?
Algo me mantinha acordada na realidade de que, bastaria sair por aquela porta que nunca mais aconteceria de novo. Eu tinha certeza de que, havia sido tão carinhoso e atencioso de manhã não apenas porquê de fato ele era assim, mas, principalmente porque aquilo tudo não aconteceria mais. E me peguei – como uma idiota – lamentando, quando aquilo acabasse.
Ele convidara-me para tomar café da manhã, mas não significava nada. E as ligações do empresário, poderiam ser um sinal de que era hora de “dispensar a garota sem que ninguém notasse”. E se aquilo fosse verdade, eu não me importaria. Não ficaria brava, porque as sensações que ele me causara na noite anterior eram suficientes para não me importar se houvesse sido apenas uma transa.
Ele saía do banheiro e eu já estava arrumada para sair.

— Desculpe fazer você esperar. – e sorriu largo para mim — Vou só me trocar e vamos.
— Imagina…

Respondi e andei até a mesa do quarto, onde estavam próximos o violão e um papel escrito. A letra rápida de quem não pode deixar escapar a inspiração.
Seria errado ler? Invasivo? Olhei discretamente para ele, de costas pegando suas roupas, e li de relance algumas frases. Não evitei um sorriso. E decidi não ficar perto da música, pois, ele poderia não gostar.

— Você vai gostar quando ouví-la pronta.

Ele disse e eu me virei surpresa para ele.

— Tenho certeza que sim.

Pegou uma jaqueta preta e vestiu. Me olhou dos pés a cabeça e voltou ao guarda-roupas falando:

— Onde você quer ir?

Fiquei boquiaberta com a frase.

— Como?
— Onde quer tomar café?
— Ah... – ele veio até mim me vestindo com um casaco seu — Onde você quiser.
— Certo, vamos numa cafeteria que tem aqui perto?
— Mas… Desculpe, você vai sair por aí comigo?

Ele pensou um pouco. Notou o que eu estava tentando dizer. Ergueu o rosto em um sorriso e respondeu:

— Vou.

Sorri de volta, mas, lembrei-me do empresário dele na noite anterior me sondando e preocupado com a entrevista. E aquelas ligações de manhã. Ele poderia ter coisas a fazer, e eu não queria jamais dar motivos para quaisquer que fossem as pessoas, ou até o próprio dizer que eu o atrapalhei em algo e me dispensar de uma maneira justificável. Antes dele encenar uma forma de me dispensar, eu o dispensaria.

— Não, é melhor eu ir. Eu não posso mesmo demorar, e você também não. Seu empresário deve ter afazeres para te cobrar e bem… É melhor ficarmos por aqui, não é?

Ele me olhava confuso com as mãos na cintura. Mexeu no cabelo, meio que o despenteando de leve com o cenho franzido em contrariedade.

— Ficarmos por aqui, tipo…?
— Foi uma noite maravilhosa, . Obrigada.

Me aproximei o beijando e dei as costas. Quando girei a maçaneta e abri a porta, olhei para ele sorrindo e acenei. Antes que eu saísse por completo do quarto ele me chamou:

— Espera!

Ficou me olhando e sua respiração ofegava aos poucos, ainda com o cenho franzido.

— Me dê seu número de telefone? Por favor…

Eu não esperava por aquilo, e sorri. Ele com o celular estendido em minha direção, com uma face curiosa. Me aproximei, peguei o telefone e salvei meu número. Ele o pegou de volta, sorridente, me puxou para um beijo e disse:

— Nada de sair de fininho, lembra?

Acenei positivamente, e saímos juntos do quarto. Entrei no elevador e o fechei antes que ele entrasse, me despedi e quando a porta se fechou totalmente, deixei meu corpo sentir o baque de bater na parede do elevador. Eu sorria como há muito tempo não fazia.

Capítulo 9

Presente


— Ei filho, o que você achou do show do papai?
— Foi muito legal, papai! Eu quero ser igual você quando crescer!

Miguel estava mais animado do que o normal depois de ter visto o último show da minha turnê. Berta preparava um café da manhã especial para o meu garotinho. E nós dois sorrimos com a empolgação dele.

— E o que a mamãe acha disso? – perguntei a ele na intenção de descobrir se Mel aprovava que o filho sonhasse em ser cantor.
— Ela disse que eu sou muito talentoso, igual você.
— Claro que é! – Berta respondeu sujando a bochecha dele de cobertura de chocolate.

Miguel ria espalhando sonoridade pela cozinha. Eu pensava o que faria sobre minha relação com , a turnê havia acabado e eu poderia descansar um pouco do trabalho e focar na minha vida. A vida de verdade que eu abandonei. Peguei uma xícara e me servi de café, olhando o céu pela grande janela da minha cozinha. Sorri ao lembrar, o quanto insistiu naquelas janelas grandes por toda a casa. Berta surgiu ao meu lado, e cutucou o meu braço indicando o garotinho curioso na bancada da cozinha.

— Papai?
— Oi filho!
— Você ficou triste?
— Não, de forma nenhuma! Eu estou é muito feliz porque estou com você!

Arranquei cócegas dele, o enchendo de beijos. E como era ótimo ouvir a gargalhada dele.

— Do que nós vamos brincar hoje?
— O que você quer fazer?
— Jogar futebol! – ele respondeu levantando os braços em comemoração.

Peguei meu moleque o colocando sobre os ombros, beijei o rosto de Berta e saímos correndo para a varanda gramada. Antes de começarmos a jogar bola, Miguel iniciou um pique pega entre nós. E após algum tempinho, eu pedi para que ele fosse até seu quarto buscar a bola de futebol que esquecemos. Entramos juntos na cozinha, Miguel correndo para buscar a bola.

— Não corre Miguel! – gritei para ele e fui ao filtro buscar água.

Berta bateu em meu braço com o pano de prato, fazendo-me notá-la ao telefone. Sorri e pedi desculpas, enquanto ela me olhava. Não me atentei à conversa até ouvir o nome dela.

— Sim dona , mas é claro que eu posso…

Berta olhou-me com um sorriso bobo, indicando com os olhares que, estava fazendo cerimônia em pedir-lhe algo. Aquelas duas sempre seriam muito mais do que patroa, ou melhor, ex-patroa e governanta.
Bebi meu copo de água ansioso por saber que ela estava conversando com Berta, e tamborilava meus dedos na bancada. Berta se despediu, esmoreci ao achar que ela não queria falar comigo, mas, Berta estendeu o telefone para mim.
Puxei o aparelho de suas mãos, ansioso e antes de falar algo, respirei fundo.

?
— Olá , bom dia. Tudo bem?
— Sim, e com você?
— Também… Eu posso falar com o Miguel?

Era isso. Ela ligou para falar com o Miguel. Mas é lógico! Onde eu estava com a cabeça?

— Ele foi ao quarto buscar a bola de futebol… – ela demonstrou satisfação — Mas, é claro que pode, só aguarde um instante, por favor.
— Obrigada .

Fui com o aparelho no ouvido até o quarto de Miguel. Queria ficar na linha escutando a respiração dela do outro lado. O nosso pequeno estava em seu quarto, no meio de seus brinquedos a procurar a bola de futebol e mal se incomodou em parar quando me viu chegando.

— Filho, a mamãe quer falar com você.

Ele sorriu e correu para o telefone.

— Alô, mamãe?

Fez uma pausa na conversa com ela e ordenou ao me ver observando-o no telefone:

— Papai! Procure a bola, não vai dar tempo de brincar tudo!

Sorri e baguncei seus cabelos. Miguel caminhou até sua cama e sentou-se para se concentrar na voz da mãe. E eu, procurando a bola, me concentrei na conversa dos dois:

— Sim mamãe, foi muito legal! Tinha um monte de gente gritando o nome do papai! E um monte de meninas querendo agarrar ele!

Não, Miguel! Não!

— Mas ele não agarrou as meninas, mamãe!

Isso aí, filho!

— Eu quero fazer igual ele, quando eu crescer mamãe! – Miguel soltou uma gargalhada e eu estava certo que havia feito uma palhaçada para ele — Sim, eu estou me divertindo. A tia Berta fez bolo de chocolate! E agora eu vou jogar futebol com o papai. Também te amo, mamãe. Você vem pra cá?

E meu coração se espremeu ao ouvir meu filho, com seus pequenos sinais, demonstrando a nossa falta.

“Não vai dar tempo de brincar tudo”
“Você vem pra cá, mamãe?”


— O papai pode ir aí pra casa amanhã?

Eu me sentia na obrigação de reparar meus erros, com o meu filho. E com a minha esposa.

— Tá bom… Eu também te amo, mamãe.

Miguel me entregou o telefone.

— Ela quer falar com você.

— Oi, .
, amanhã você vai levar o Miguel à escola, mas nem eu e nem o Luke poderemos buscá-lo. Então a Berta vai trazê-lo para mim, tudo bem?
— Eu o levo!
— Sabemos que você é ocupado, . E eu já combinei com a Berta.
— De forma alguma, eu vou buscar o meu garoto na escola e levá-lo para você. Precisa de mais alguma coisa, ?
— Não, obrigada. Você já falou com ele, sobre o aniversário da sua mãe?
— Ainda não, e você vai?
— Eu não sei, provavelmente não, . Mas, por favor, não esqueça de me avisar se o Miguel decidir ir com você…
— Fique tranquila…
— Obrigada , até mais. Qualquer coisa, me ligue!

Ela desligou a chamada e eu sabia que com “qualquer coisa” ela se referia a “qualquer coisa com o Miguel”.
O pequeno já não estava mais no quarto e nem a bola de futebol. Desci as escadas e o encontrei brincando sozinho no gramado, bastante feliz.

— Berta... – a chamei observando meu garoto e colocando o telefone na base — Não precisa buscar o Miguel amanhã, eu vou levá-lo para a mãe dele.
— E a está bem, ?
— Ela disse que sim, mas… Por quê?
— Não reconhece mais o tom de voz triste dela?
— Eu só achei que fosse coisa da minha cabeça, ou que ela não quisesse falar comigo.
— Se fosse isso, ela simplesmente não falaria. Você não conhece mais a sua mulher?

Berta me olhou desafiante, suspirei e ia responder, mas Miguel gritou meu nome cobrando que eu não estava lá fora com ele.

- x -



— Eles estão jogando futebol.

Contei ao Lucas, que estava temperando o lombo de porco.

— E este sorrisinho, aí? – ele perguntou me observando de soslaio.
— É bom saber que Miguel está aproveitando o pai.
— Você também poderia estar lá aproveitando.
— Não começa Luke, já conversamos sobre isso.
— Deixa de ser impassível!
— E esta carne aí? É melhor ficar bem temperada!
— Você e a sua mania de mudar de assunto, quando se trata da sua felicidade!
— Onde você colocou as batatas que compramos? – perguntei vasculhando a geladeira a fim de mudar definitivamente o assunto — Não me diga que as esqueceu!
— Não se faça de sonsa, estão na gaveta da geladeira.

Eu sorri escondidinho e me juntei ao Luke na bancada da pia.

— E o que ficou resolvido? A Berta poderá buscar o Miguelzinho para nós?
— Sim, mas fez questão de trazê-lo.
— Ah… E como ele vai entrar, dona mocinha? Ou ele tem uma chave do seu apê e você nunca me contou!?
— Bom, ele tinha. Mas, não sei. Não pensei nisso… Eu vou ligar para a Berta e pedir para emprestar a chave dela para ele.
— Ele tem esta chave, acredite. Pode não saber onde guardou, mas ele tem.

Luke e eu preparamos o almoço, e dividimos uma garrafa de vinho. E enquanto o lombo assava, eu preparava as minhas coisas para o trabalho do dia seguinte. Lavei um dos meus jalecos – pois, havia esquecido – e separei as pastas dos meus pacientes. Lucas apareceu na porta do meu quarto, com as taças de vinho e eu já estava guardando minhas coisas.

— Seu ex te ligou.
— Aconteceu alguma coisa com o Miguel? – perguntei assustada me levantando da cama e puxando o telefone no criado-mudo ao meu lado.
— Seu outro ex.

Olhei aliviada para Lucas, feliz por não ser já que – certamente – ele ligaria para falar de Miguel. E desdenhei aquela informação desnecessária. A carne estava quase pronta, e saímos do meu quarto para preparar a mesa.

— Não vamos colocar a mesa só para nós dois hoje, ... – Lucas reclamou manhoso.
— Tudo bem, então tire a carne do forno e deixe-a fatiada, por favor.

Colocamos nossos pratos e fomos para a sala. E assim que ligou a televisão, Luke colocou em um canal que reprisava o último show de Luan. No caso, o show da noite anterior.

— Sério, isso?
— Ah para! Eu quero assistir! Quero ver se o Miguelzinho aparece.
— Ele sabe que não deve expor o Miguel, assim.
— Deixa de ser chata, eu sei que você também queria ter assistido o show dele ontem, e só não viu porque é uma orgulhosa.
— Não tem nada disso, eu estava bem cansada ontem. E só.
— Quietinha, vai começar o show do seu amor.

Decidi não discutir mais com Luke, era óbvio que ele sempre torceria para que e eu ficássemos juntos. E no fundo, eu também torcia, mas havia muito receio. Embora as lembranças de quando nos separamos não mexessem mais comigo como antes, eu ainda recordava de cada palavra. Cada cena.
era o marido perfeito, e de repente sua carreira se colocou entre nós e nossa família. Com toda a certeza de que me relacionar com ele nunca seria um problema por seu trabalho, eu investi fundo em nós dois. E me apaixonei como nunca. E vivi os momentos mais felizes que jamais havia imaginado e, como um flash dos muitos holofotes em volta dele, tudo acabou.
Eu não fazia ideia se, tinha outra pessoa em sua vida naquela altura do campeonato. Ele não era mulherengo, nem o tipo que misturava trabalho com a vida pessoal – isso no início do nosso namoro e da sua carreira –, mas estar em turnê pelo tempo que havia ficado... Eu decidi acreditar que ele tentou seguir a vida dele. Assim como eu – erroneamente – tentei seguir a minha. A verdade é que eu estava completamente enfurecida com a separação, e me dediquei somente ao meu filho no começo. Mas, com o tempo a fúria diminuiu dando lugar à decepção por todas as expectativas criadas sobre o casamento, e percebi que deveria dar uma nova chance à mim. E foi ali que surgiu o encosto, cujo qual eu havia rompido há um dia. E cujo o mesmo, ligava ao meu telefone no momento em que eu estava concentrada no show do meu ex-marido, compenetrada em sua performance e nas palavras daquela canção que eu conhecia muito bem.

“Promete que vai ser só minha?”...


O estridente volume do aparelho telefônico tocando, me tirou daquele transe e irritou Luke.

— Pelo amor de Deus, ! Fala com ele!

Puxei o aparelho e saí da sala para não atrapalhar o entretenimento de Luke.

— Alô?
... A gente precisa conversar.
— Não, não precisamos. A minha decisão foi dada ontem. E talvez a única coisa que eu ainda tenha a te dizer é me desculpar pela forma rude que agi. Embora eu estivesse bastante correta da minha escolha, eu não poderia tratar você como tratei.
, eu quem peço desculpa. Você não tem que se desculpar.
— Está perdoado. Seja feliz.
— Não faz assim, ... Olha, eu errei! Eu não deveria me colocar entre a história que você teve com o . Eu sabia que ele sempre seria um fantasma na sua vida, e aceitei isso quando me envolvi, mas eu não quero perder você por uma bobagem.
— Ainda que você estivesse sendo sincero agora, Peter, eu não posso acreditar em você simplesmente porque não consigo. Eu não consigo confiar duas vezes. E eu não quero ao menos tentar. Então, seja feliz.

Desliguei a ligação antes que ele continuasse a choramingar qualquer coisa. E quem começara a chorar na cama do meu quarto, fui eu. Não por ele, mas por tudo. Se Luke estava certo, eu estaria sendo impassível demais em mal dar uma chance para conversar com sobre nós. No entanto, ele não demonstrara momento algum que havia interesse naquele tipo de diálogo. Eu estava dividida entre romper o meu “não confiar duas vezes” e, manter a cautela do medo do passado.

- x -



De manhã cedinho, Miguel e eu tomamos café juntos prevendo o tempo que não poderíamos fazer aquilo de novo. E com esperança de não me separar dele de novo, eu perguntei se ele gostaria de ir para casa da avó.

— Sábado é aniversário da vovó, e ela gostaria muito que você fosse para o sítio. Você quer?
— Mas sábado é o dia da mamãe... – falou cabisbaixo enquanto bebia seu leite, e Berta beijou sua cabeça em carinho.
— Acontece que eu já conversei com a mamãe, e ela disse que se você quiser ir não tem problema. Mas no outro fim de semana você ficará com ela duas vezes.

Ele ainda mantinha a cabeça baixa, e sério, pensando nas opções.

— E também... A vovó quer que a mamãe e o tio Luke vão. Mas, aí eu não posso te prometer filho, porque eu convidei, mas se eles não quiserem ir é direito deles. Pense no tamanho da vontade de vê-la.
— Muito, muito papai!
— Pois é! E vão estar todos seus primos e tios por lá! E o vovô... Mas, se você não quiser ir Miguel, não tem problemas, o papai te leva pro sítio outro dia.
— A mamãe pode ir?
— Mas é claro!
— É o que seu pai mais quer, Miguelzinho. – pronunciou-se Berta me deixando envergonhado na frente do meu filho.
— E o tio Peter?
— Quem?
— O namorado dela papai, e se ela falar que só vai se ele for?

A fala de Miguel me deixou com raiva, mas eu me contive:

— Não acredito que sua mãe iria desejar, que ele fosse para a casa da vovó... Mas, ela pode levar quem ela quiser.
— Eu quero ir, mas não quero ficar muito tempo sem te ver depois.
— Não vai ficar filho, o papai está de férias agora. Passarei mais tempo em casa, e trabalhando nas novas músicas, então eu vou te ver mais vezes! Façamos assim: eu te levo para a escola – eu disse me levantando e o colocando em minhas costas enquanto Berta levava as coisas dele para o carro — E quando eu for te buscar, você me diz o que decidiu. Que tal?
— VOCÊ VAI ME BUSCAR NA ESCOLA?
— Sim, e vou te levar para a casa da mamãe!
— EEEBAAA!
... Você tem a chave? pediu para lhe emprestar a minha.
— Se ela não trocou as fechaduras, eu ainda tenho a minha cópia, Berta.
— Sério?
— Qual o espanto? Eu já não contei que eu amo demais a , para desistir dela?

Berta olhou para Miguel na tentativa de notar se ele havia escutado o que eu dissera, mas ele estava concentrado com os brinquedos dentro da mochila. Beijei a testa de minha amiga governanta, afivelei o cinto de segurança na cadeirinha de Miguel, e entrei no carro pronto para mais um dia de retorno à casa.
Naquela manhã após deixar Miguel na escola, retornei para minha casa e trabalhei na nova música escrita. Cuja a inspiração fora saber que a minha estava com outro. Liberei a Berta de qualquer outra responsabilidade na casa aquele dia, pois, eu não almoçaria em casa. Ao meio-dia eu já estava na porta da escola, pronto a buscar meu filho e um paparazzi, que havia me flagrado, tirou fotos de nós dois. Decidi que fugir não seria prudente.

— Papai, por que tem um moço tirando fotos nossas?
— Dê um tchauzinho para ele, filho. É um fotógrafo, e eles tentam tirar fotos do papai no dia-a-dia.
— Ah tá... Isso acontece quando estou com a mamãe também. Ela falou que é por sua causa.
— Ela fica muito chateada com isso, filho?
— Só às vezes, normalmente ela fala para eu ignorar.
— Ela está certa.

Entramos no carro, e eu segui pensando o quanto a nossa união mexeu definitivamente com a vida de . Ela sempre seria a mãe do meu filho, a ex-mulher – ou não, eu torcia – e mesmo que ela soubesse disso quando nos unimos, eu ficara extremamente culpado por não ter valorizado os sacrifícios dela como deveria.

?
? Aconteceu alguma coisa?
— Estou a caminho com Miguel.
— Ah sim, obrigada. Eu não poderei chegar cedo, tem certeza que não é melhor pedir à Berta para ficar com ele?
— Não, tudo bem. Eu tenho a tarde livre. Não se preocupe.
— Certo, obrigada. Então, fique à vontade.
— Até mais.


Após o telefonema rápido, perguntei ao Miguel se ele gostaria de almoçar em algum lugar comigo, ou se preferia que eu cozinhasse para nós. E obviamente, o garoto escolheu a segunda opção. E eu achei ótimo. Seria uma boa surpresa para chegar em casa e ver que eu preparei um belo almoço. Ou pelo menos, eu pensava que seria.

Passado



Às dez horas da manhã, eu chegava na clínica. Ainda estava muito dispersa em relação à noite anterior com o . Andava na rua olhando para todos os lados, num complexo incomum de vigilância. Provavelmente, eu achava que estaria em todos as manchetes de fofocas no dia seguinte, mas, graças aos céus não estava.
Quando adentrei a recepção da clínica, a reação de todos presentes ali, fora absolutamente normal. Cumprimentei pacientes e colegas de trabalho, e fui em direção à minha sala. Queria mesmo, era ficar sentadinha em minha cadeira giratória, rodopiando e repassando a noite mentalmente, mas, não seria maduro. Ocupar a mente com trabalho, sim. Seria?
Atendi os pacientes, e me peguei vez ou outra observando o visor do celular. O que eu esperaria? Só porque ele pedira meu telefone, não significava que haveria um contato. Sacudi a cabeça, para afastar aqueles pensamentos adolescentes. E me atirei no trabalho.

- x -



Cada um dos gemidos de , ecoavam em meus ouvidos e eu sorria. Rick me chamara uma, dua, três vezes. E eu, não entendia nada do que ele falava.

! Cara, se concentra! Precisamos definir a agenda!
— Foi mal…
— Isso tem a ver, com a garota de ontem?
— Não. Vamos trabalhar. – respondi afastando qualquer paranoia de Rick.

Se por algum acaso, meu empresário desconfiasse de que minha desconcentração era devido àquela garota, provavelmente eu nunca mais veria , tamanha a dificuldade que ele iria impor.
Ana chegou com os ingressos enviados pela empresa, de cortesia. A chamei em um canto, bem depois da minha reunião com Rick e equipe, e pedi a ela que telefonasse para , conseguisse seu endereço, e a enviasse um ingresso cortesia para o camarote.

— Ei, é a garota da entrevista? – Ana perguntou discreta.
— É. Mas, morre entre nós, entendeu?
— Que fixação, hein?
— Você não faz ideia.
— Quero conhecê-la.
— Ana… Não seja precipitada.
— Eu? Pode acreditar que não sou eu, quem está se precipitando.

- x -



— Alô. – atendi sem ao menos ler o número, e prendi o telefone entre a orelha e o ombro, com as mãos cheias de roupas dobradas.
— Está em casa?
— Estou.
— Em cinco minutos estou chegando aí. Só tenho uma hora antes de pegar o avião.
— O quê?
– falei um pouco mais alto do que o normal. Larguei as roupas sobre a cama, pegando o celular e lendo o visor.
— Não acredito que me confundiu com o !
— Porra, Dennis! Que susto!


Ele apenas sorriu fraco, e despediu-se. Aquilo estava indo longe demais. Eu realmente achei que , me ligaria e avisaria que passaria lá em casa? Só poderia ser piada.
Naquela noite Dennis voltaria para o Rio de Janeiro, e como bom fofoqueiro passaria na minha casa para saber da noite anterior, eu tinha certeza daquilo. Despedir-se da amiga? HA-HA.
Conversamos sobre a festa, o perguntei o que eu deveria fazer em relação àquela história, pois, eu não era conhecida por sair com os caras mais populares. Dennis riu e perguntou se eu havia me apaixonado. Nos despedimos uma hora depois. Pontualmente.

— Quero saber onde esta história vai parar, huh?
— Em lugar algum. Imagina... – fiz cara de desacreditada sorrindo.
— Quem diria... – Dennis me abraçou apertado — , apaixonada por alguém finalmente. E melhor, por !

Dennis começou a gargalhar, e eu o repreendi dizendo que não estava apaixonada por ninguém.
Beijou minha testa e seguiu para o elevador. Antes de entrar, me lançou um olhar divertido e um aceno.
Aquela noite retornei ao meu quarto e terminei de embalar as roupas destinadas à doação. Meu telefone tocou e era Lucas. Contei a ele tudo o que havia acontecido. Fazendo-o prometer que não contaria nada para Marcos.

— Mas, ele é meu parceiro.
— Não é que eu não goste dele, mas, não quero render esta história para mais ninguém.


Ele começou a rir no telefone.

— É impressão minha, ou você está com medo?
— Medo de quê?
— De que o mundo descubra isso.
— Não vai acontecer por culpa minha, ok?
— E quanto à entrevista?
— Por sorte, ninguém vai se ligar nisso.
— Sorte? Só ela mesmo. Você paquera com o cantor sertanejo mais badalado numa entrevista de um canal de música super conhecido, depois transa com ele no hotel que ele está hospedado e só porque ninguém te parou na rua no dia seguinte, acha que escapou das fofocas?
— Luke… Não me pira, tá?
— Não pira você, gata. Não foi com o do jardim de infância que você transou. Foi com o meteoro da paixão, fofa.
— Podemos falar de você agora?
— Estou pensando em terminar com o Marcos.
— Sério?
– entonei numa descrença infinita pela milésima vez a ouvir aquilo e saber que não era verdade — Mas o que ele fez agora?
— Nada. Mas, não sei se somos certos.
— Luke, você adora inventar uns problemas na sua cabeça né?
— O que vai fazer no seu aniversário?
— Que aleatoriedade! Eu sei lá!
— Quero ir te visitar. Talvez eu nem volte.


Bocejei de preguiça daquele drama que se iniciava. Continuamos conversando até eu me cansar do Lucas dizendo que iria “dar uma guinada na vida dele”. E antes de nos despedirmos, Luke me xingou de vadia dizendo que pediu para eu pegar o por ele, não o .

Uma semana se passou desde a noite do VillaMix, e eu estava no consultório da clínica atendendo, quando Estevão – meu chefe – surgiu na porta avisando do recesso de sexta-feira por causa das obras. Após aquela micropausa, estalei o pescoço aliviada pelo descanso que viria bem a calhar. Meu celular tocou.

— Oi!
?


Não reconheci aquela voz ao telefone, e olhei para o visor do celular. Não reconhecia o número. Mas, a ligação era de São Paulo. “Se for telemarketing…”, pensei já irritada com a possibilidade de desligar na cara de alguém, ainda que a falta de educação não fosse meu forte.

— Sim, quem deseja?
— Eu sou a Ana, assistente pessoal de produção do . Teria um minuto?


A primeira coisa que me veio a mente: eu precisaria de um advogado. Estava surtando com a hipótese de ter vazado qualquer informação e agora, ser processada por transar com . Eu estava pirando, fato.

— Pode falar…
— O pediu para que eu te enviasse um ingresso para o próximo show dele. Por isso estou entrando em contato: para pegar seu endereço. Será no dia 26 de setembro, na Esplanada do Mineirão.
— Ah… Olha, não precisa disso.
— Eu só estou fazendo o meu trabalho, quanto a ir no show ou não, é decisão sua.
— Poderia dizer a ele que eu agradeço enormemente a gentileza, mas não posso aceitar.
— Tem compromisso esta data? Posso te enviar para outra data.
— Não, olha… Como é mesmo o seu nome?
— Ana. E , se você não tem compromisso por que não iria?
— Eu imagino o quanto o deve estar ocupado, para te encarregar disto, mas, eu não posso mesmo aceitar. Obrigada.
— Certo, obrigada pela atenção. Mas, se mudar de ideia é só me telefonar neste número. De qualquer jeito o ingresso já é seu. Eu falei que é camarote?
— Obrigada Ana, bom trabalho e bom dia.


- x -



— Ela recusou?

Eu estava completamente surpreso. Não por ter um presente rejeitado, mas pelo quê aquilo significava.

— Quando você telefonou?
— Hoje pela manhã.
— Mas, eu te pedi isto há uma semana, Aninha!
— Desculpe , mas, você sabe o quanto todos andamos ocupados. E ficar gracejando as mulheres com quem você dorme não está nas minhas funções.
— Desculpa, não quis ser grosseiro, é só que… Agora de última hora ela não vai poder.
— Ela não tem compromisso. Me afirmou isso, apenas não aceitou. Disse que não podia aceitar.
— Droga, o que isso quer dizer?
— Como?
— Você é mulher, por que acha que ela recusou?
— Eu sou mulher e meu nome é Ana Vilela. Se você quer saber os motivos dela, pergunte você a ela.
— Ela não quer mais me ver?
— Você realmente, quer vê-la de novo?
— O que você achou que eu queria?
— Um cortejo de agradecimento pela noite? Ganhar uma fã? Não correr risco de um escândalo?
— Eu já fiz isso alguma vez?

Estava ultrajado com a fala de Ana.

— Não sei. Foi a primeira vez que você me pede algo do tipo.
— Eu vou ligar para ela! – disse me levantando bruscamente.
! Você entra no palco em dez minutos.

Acenei para Ana, demonstrando que estava ciente daquilo. E torci para que ela me atendesse.

- x -



Terminei de jantar e estava lavando a louça. E meu celular tocou enquanto eu tinha as mãos cheias de sabão. Não consegui atender a tempo, mas, antes de abrir a torneira novamente, ele tocou de novo.

!
— Sou eu, o .


Gelei sem ter a menor ideia do motivo daquela reação.

— Oi... – eu não sabia o que dizer.
— Eu tenho que entrar no palco daqui alguns minutos, então, não podia ir antes de ligar e saber por que você rejeitou meu ingresso.
— Por que, eu deveria aceitar?
— Por que eu quero te ver de novo!
— Oi?
– eu estava irritada com a forma como aquilo soava uma ordem — Você por acaso pensou se eu gostaria de te ver de novo?
— Claro! Por isso estou ligando, eu não quero que você não queira mais me ver.


Ele se enrolou nas palavras e pude ouvir pessoas o chamando para se apressar. Ri da situação e, acredito que ele se acalmou ao notar que eu ria. Não era uma ordem, ou uma intimação. Ele só estava curioso para saber se foi ou não uma dispensa minha.

— Você não quer me ver de novo?
— Quero sim.
— Ótimo! Eu vou passar para a Ana tá? Por que eu preciso subir ao palco, e ela vai te…
— Ei, , é a Ana. Tudo bem?


Ela tomou o telefone dele, e terminou a ligação após anotar meu endereço para o envio do ingresso.
Dormi mais leve. Eu não deveria ter colocado um ponto final naquela insanidade? Algo me dizia que, eu estava brincando com fogo.
Três dias depois chegou em meu apartamento um arranjo de flores, com um lindo envelope dourado. Dentro, o ingresso e um cartão escrito por . Ou pelo menos, só assinado por ele.

Capítulo 10


Presente


Ouvi som de violão sendo tocado, e uma melodia desconhecida. Coloquei a chave na maçaneta e assim que entrei à sala, me deparei com pai e filho cantando juntos. Sorri, aquela cena me deixou nostálgica em memórias criadas por mim no passado. Eu já havia imaginado aquele momento, quando Miguel ainda era um bebê e vê-los trouxe-me a saudade de algo que não vivemos, e eu nem sabia se viveria novamente. Senti falta daquela família.
Caminhei sorrateira por trás do sofá, e deixei a bolsa no aparador. Toquei o ombro de Luan e ele, assustando-se sem parar de tocar e cantar olhou para mim sorridente. Miguel pulou em meu colo e continuou cantando enquanto eu o enchia de beijos. Luke chegara apressado – como sempre – e ao nos ver parou estático com um sorriso largo. Não demorou a se juntar a nós.
reforçou o último refrão e eu já havia gravado-o, cantei acompanhada de Miguel.

“ Que tal apostar?
A gente não se fala mais por um mês.
Você vai ver que o tempo não muda nada, nada.
Nada, nada… Eu tô’ aí, mesmo sem estar...”.



Nossos olhares eram fortes e indesviáveis como se nunca houvesse mudado nada entre nós. Desci Miguel de meu colo, repousou o violão no sofá e Luke começou a gritar brincadeiras para Miguel – que saiu correndo do tio. Me sentei ao lado de no sofá, e ele avançou sobre mim para um cumprimento de beijinhos no rosto, me assustando e nos deixando constrangidos.

— Música nova?
— Desde que voltei venho compondo bastante.
— Isso é ótimo.
— É mesmo, ainda mais porque longe daqui eu estava numa crise criativa. É como se… toda minha inspiração tivesse ficado aqui.

Desviei o olhar por um momento com um sorriso afirmativo em meus lábios.

— Miguel gosta de pegá-lo, – apontei para o violão encostado ao sofá — e fingir que toca. Acho que seguirá os passos do pai.
— Tudo bem para você, se ele quiser isso?
— Eu jamais irei me opor às decisões profissionais do nosso filho, sempre estarei lá para apoiá-lo e ajudá-lo a lidar com isso da melhor forma.

Minha frase pareceu uma crítica, embora nunca tenha sido.

. Me desculpe.

O olhei surpresa, e seus olhos continham mágoa e arrependimento. Pelo menos eu pensava que era isso. Sorri, a fim de que ele continuasse.

— Eu causei tanto mal a vocês dois… Sinceramente se eu pudesse voltar atrás…
— Papai!!

Miguel surgiu correndo nos interrompendo e pulando ao colo do pai. Luke já havia trocado de roupa para almoçar e estava à cozinha servindo a mesa.

— Tudo bem, .

Afirmei para ele que sorriu. Miguel nos puxava por suas mãozinhas para almoçarmos, embora ele e já tivessem comido e eu também. Para que meu filho não se chateasse com “mamãe não quer comer a comida do papai”, eu fiz companhia a Luke numa pequena degustação. apressou-se para ir embora, mas, ao notar que Miguel protestaria eu o convidei a ficar o restante da tarde.
Estávamos na sala, eu havia acabado de servir café para nós três, sentados conversando, e Miguel brincava sobre o tapete.

— E então , já falou com ele sobre a ida para o sítio?
— Sim, mas ele ficou dividido.
— Filho? – ele me deu atenção com seus pequenos olhos castanhos, como os do pai — Você quer ir ao aniversário da vovó?
— Eu queria, mas, eu não queria não ficar com a mamãe…

Nós três entreolhamos, enquanto ele voltou a atenção aos brinquedos.

— E você, ? Você não quer mesmo ir?
eu tenho tanta coisa para resolver, sabe?
— Que tanta coisa, ? - Luke perguntou irônico.
— Referente ao trabalho, Luke. – respondi o encarando cortante.
— Então você mudou bastante. A que conheci não deixava de estar com a família por causa de trabalho.

me pegou. Ele me conhecia o suficiente para saber que aquela era uma desculpa esfarrapada, ainda mais por causa da nossa separação que envolvia aquela temática. Sorri culpada, e nós três rimos discretos por eu ter sido pega na mentira.

, é como eu tinha dito… Não sei se seria uma boa ideia.
— Por quê não? Minha família te ama, e todos querem te ver.
— Eu só não estou preparada para este reencontro. Seria a primeira vez que eu encararia sua família desde…
— Garanto que vai ser como sempre foi. Ninguém vai julgar você por nada, até porque não foi você a culpada.

Luke nos encarava com um sorriso bobo, que eu podia pressentir ainda que estivesse com os olhos grudados aos de .

— E vai ser bom pra você esquecer o término do namoro, !

Encarei, mais uma vez cortante, ao Luke – que sorria falsamente. Minha vontade era de matá-lo. Miguel estava ali e não era assim que ele deveria saber. E ainda tinha .

— Você... – fez uma pausa, com um esboço de sorriso que rapidamente, ele, num pigarro desfez — Terminou com aquele tal de…?
— Peter. Este final de semana.
— Eu… Eu não vou dizer que lamento porque estaria, mentindo.
— Não há o que lamentar, de qualquer forma. Ele foi um erro. Mais um.

Eu não queria ser estúpida com ele, quando disse “mais um” dando a entender que nosso casamento também fora um erro. Por que não era o que eu pensava. Foi um acerto enquanto durou. E felizmente, me conhecia bem o suficiente para saber que eu estava generalizando e não o atacando. Sorriu verdadeiro, e continuou a insistir na ida para o sítio.

— E você Luke, vai não é?
— Lógico. Se a quiser ficar aqui sozinha, o problema é dela. Eu estou com muita saudades do pudim de milho da sua mãe!
— Que bom. Ela vai adorar ver vocês lá.

Miguel se levantou e sentou-se entre e eu. Apoiou a cabeça no colo do pai, e os pés no meu. Fiz cócegas arrancando risadas gostosas de meu filho.

— Adivinha, onde o seu padrinho vai? - Luke perguntou chamando a atenção dele.
— Aonde, dindo?
— Ao aniversário da vovó!

Miguel se levantou animado e sorridente.

— EBA! Mamãe, você também vai?

Aqueles pares de pequenas jabuticabas a me encarar, com aquele sorriso branco de leite deixaram meu coração apertado. Miguel merecia, depois de tanto tempo, uma reunião da família completa. Suspirei vencida pelo emocional. Encarei , outro sorriso de apertar o coração, certamente vitorioso de minha decisão.

— Vou sim, filho.

Todos os três comemoraram.

— O tio Peter vai também, mamãe?
— Não filho… Ele… Não vai.

Ponderei se era o momento, mas, logo decidi que o melhor momento de explicar ao meu filho por que o tio Peter não estaria ali não era aquele.
Não demorou para , após me convencer a ir para o sítio com ele e Miguel em vez de separada com Luke, se despedir.
Miguel chorou dizendo que gostaria que o pai dormisse lá, mas, com jeitinho explicou não poder. E outra vez meu coração estava apertado. Primeiro pelo que nós fazíamos ao nosso filho, e segundo porque eu também queria que ele ficasse.
Levei Miguel ao banho, e o coloquei na cama logo após o jantar às dezenove horas. Caminhei pós-banho para a sacada da sala. Era possível ver a grande avenida – naquele horário – pouco movimentada de carros e cheia de luzes. O ar de cidade que se prepara para descansar.
Me inclinei na varanda enquanto pensava no retorno de . O ventinho ameno, fresco, e amigo chicoteava meus cabelos soltos e meu hobby de cetim.
Escutei passos lentos dentro de meu cômodo.

— Em que está pensando, hein, mocinha?

Luke abraçou-me apoiando o queixo em meu ombro. Sorrimos, por já saber a resposta.

, … Você o ama. Por que ficar tão distante quando é claro que vocês querem estar juntos?
— Eu já falei, Luke. Não antes de ter certeza de que entende onde errou.
— Mais certeza? É só você se atentar ao olhar dele…
— É fácil se confundir agora Luke. Estamos nos reencontrando depois de tudo. E se dermos um passo apressado e depois nada mudar?
— Você pensa demais, pensa muito para quem sente tanto.

Beijou minha bochecha e saiu do quarto deixando-me. Fechei os olhos por um instante e lá estavam meus pensamentos vagueando novamente em , seus olhares, trejeitos e sorrisos. Seu cheiro, sua voz, sua presença.

- x -


A lua estava mais brilhante do que em qualquer noite desde que eu voltara. Ela estava livre de novo. Ela estava próxima de novo. Por mais que não da forma como eu gostaria, já era alguma coisa. Eu estava deitado na espreguiçadeira da piscina, encarando aquele céu estrelado. Com o brilho das estrelas copiando o brilho dos olhos dela. Num simples piscar, as memórias daquela noite vinham: nós três como uma família feliz cantando juntos, conversando, rindo… Nós, como uma família tão perfeitamente intacta que não parecíamos ter passado um turbulento ano separados. Como eu a desejava. Minha vontade era de agarrar-lhe ao saber que ela estava livre de Peter, e de levá-la em meus braços para o seu quarto quando começamos a iniciar o diálogo sobre o passado.
Outro piscar de olhos e memórias mais antigas reverberavam meu coração. Um arrepio leve percorreu meu corpo, denunciando em meu tórax nu abaixo da lua. Não era sensação de frio, era o tesão saudoso do corpo de .
Eu precisava do perdão dela, mais do que tudo, eu precisava retomar meu espaço em seu coração. E aquela viagem para o sítio deveria ser a grande chance da nossa reaproximação definitiva.




Continua...



Nota da autora: E aí leitoras? O que vocês estão achando, hein, hein, hein? Comentem, conversem comigo, não me deixem sozinha aqui!
Eu tenho uma ask só para responder às perguntas e curiosidades das minhas leitoras, e o link está abaixo:
Beijos adocicados no coração de vocês!




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