Última atualização: 16/11/2017

Prólogo

Coreia do Sul, casa de Mo-Yeon.


Kang Mo-Yeon e Yoo Shi-Jin finalmente estavam juntos após todas as dificuldades passadas, porém, o novo cargo de major de Shi-Jin manteve a aproximação do casal ainda mais difícil. Assim como ele havia conquistado sua carreira, Mo-Yeon também se tornara a cara do Haesung Hospital.
Seo Dae-Young e Yoon Myeong-Joo já haviam se casado, e eram o exemplo para a Dr. Kang e o major Shi-Jin do quanto suas carreiras continuariam sempre sendo o contraponto. Afinal, Seo Dae e Myeong eram unidos também pelo trabalho que faziam.

— Enquanto nós tivermos que estar em lugares diferentes, não há chance de tornar isso aqui – ela disse apontando para ambos — Uma relação duradoura.
— E o que você sugere?
— Você havia dito que se tornar major facilitaria!
— Eu disse que me tornar major, me arriscaria menos. Nunca falei que não teria trabalho.
— Então eu, é quem pergunto Shi-Jin. O que você sugere?
— Se você fosse uma Schetzer, estaríamos juntos mais tempo.

Ela o olhou com olhos arregalados, em sua incrédula irritação. Ele fazia piada naquele momento?

— E não é uma piada. – respondeu como se lesse os pensamentos dela.
— Eu não vou abrir mão do hospital.
— Oh, que mulher materialista!
— Você abriria mão da sua carreira no exército por mim?
— Já cogitei muito tempo atrás, ou se esqueceu?
— Claro que não. Me arrependo todos os dias por ter te apoiado.
— Você nunca quis fazer o esforço, não é dr. Kang?

E a partir dali uma discussão que se tornava hábito surgia.

Brasil – Goiás, 1º Batalhão de Forças Especiais.


— Cumprimentar comandante!

E os três militares presentes bateram continência ao superior à sua frente.

— Capitã , a senhorita será designada a gerenciar os interesses do nosso país no acordo de Seul. Será preparada durante os próximos três meses, suas tarefas estarão entre representar o seu país e defender os nossos interesses, agir com diplomacia internacional, negociar com governantes e os militares de Seul o que lhe for designado sobre o “Acordo Antiterrorismo na América Latina”. E para isso, será treinada em idioma, combate, e cultura. Alguma objeção?
— Não senhor comandante.
— Está apta para se encarregar destas e das demais funções que virão?
— Sim senhor comandante.
— Neste caso, serão quatro os seus deveres insolúveis: garantir a proteção dos cidadãos da sua nação, realizar com ordem e lealdade a sua missão, atribuir acordos políticos vantajosos e o principal de todos: não morrer.
— Capitã apresentando-se de acordo com as normas e obrigações do Comando de Operações Especiais das Forças Armadas Brasileira.
— Está dispensada. Seu major irá lhe delegar os próximos procedimentos. Em posição de sentido, a capitã bateu continência e seguiu o seu major porta à fora do gabinete do comandante da operação.


Capítulo 1


— Capitã , na minha sala em quinze minutos.

O grupo de militares almoçava no refeitório entre risadas e diálogos contrastantes à sua rotina de trabalho, e sempre tão tensa. Aquele era um dos poucos momentos de calmaria entre eles, no batalhão. ria de uma piada feita pelo primeiro-tenente Monteiro, quando o major Barcelos surgiu no andar superior do refeitório emitindo em alta voz, a ordem. Todos encaravam a mesa onde ela se encontrava. Aquele chamado só poderia significar, algo relacionado ao assunto que gerava curiosidade ultimamente, entre os subordinados à capitã.

— Aconteceu alguma coisa? – perguntou Danilo, seu namorado e primeiro-tenente.
— Aconteceu. Eu tenho uma reunião com o major, não ouviu?

Ela saiu, em postura séria e carregando sua bandeja ao recolhimento. era uma militar dedicada à sua carreira, disciplinada e correta em suas ações. Ninguém estranhara a mudança de postura da capitã ao ser chamada, e muito menos duvidaram que ela fosse dizer ao Danilo qualquer informação alheia. A discrição também era uma excelência da militar. O que não deixava Danilo feliz, pois, sendo uma patente abaixo dela muitas vezes o primeiro-tenente acreditava que a militar se aproveitava de sua hierarquia em sua relação. discordava daquilo e nem dava muita atenção quando o homem começava com suas reclamações. A verdade é que, Danilo não aceitava sua mulher sendo superior a ele dentro do quartel, e aquilo já gerava discussões entre eles. Discussões, inclusive que já estava exausta.
Antes de sair do refeitório ela olhou para trás, e a maioria de seus aspirantes a olhavam com curiosidade.

— Quero relatório final, de todos os primeiros-tenentes acerca do treinamento dos aspirantes, na minha mesa às 16 horas.

Deu a ordem em alto e bom tom e saiu em direção à sala do major. Passou no banheiro, escovou os dentes, arrumou novamente seu cabelo impecavelmente preso. Caminhou até a sala onde era aguardada e parou na porta antes de bater. Passou as mãos sobre seu uniforme, o ajeitando mais uma vez, arrumou suas insígnias e finalmente bateu à porta. Após ouvir a ordem para entrar, bateu continência ao seu superior.

— Descansar, capitã.

Significava que seu major permitia uma conversa formal não-hierárquica. Ele indicou a cadeira para que ela sentasse. E estendeu-lhe uma pasta.

— Sua próxima missão.

, pegou-a e leu. Para entender o que a missão compreenderia, é necessário entender a que batalhão a capitã servia.
era capitã, uma oficial intermediária aspirante a oficial superior, no Exército Brasileiro. Servia ao Comando de Operações Especiais Brasileiro, uma das grandes unidades operacionais do Exército que conta com unidades de apoio e de operações especiais, com elevados níveis de treinamento. Dentro das subunidades do Comando, há a divisão dos batalhões. A capitã , pertencia ao 1º Batalhão de Forças Especiais.
O 1º BFEsp trata-se da principal unidade de elite das Forças Armadas do Exército Brasileiro capacitada ao planejamento, condução e execução de operações de guerra irregular, contraterrorismo, fuga e evasão, inteligência de combate, contraguerrilha, guerra de resistência, operações psicológicas, reconhecimento estratégico e busca, localização e ataque a alvos estratégicos. As operações do 1º BFEsp são caracterizadas por requerer alto grau de sigilo, apresentar consideráveis riscos, pois, sua maioria é executada em território hostil.
valorizava muito seu trabalho porque como mulher era uma honra imensurável conseguir chegar àquele posto, e justamente num Comando de Elite. Não pensava duas vezes se tivesse de escolher entre a carreira – seu sonho – ou qualquer outra coisa: escolheria a carreira. Ela compreendia a importância de sua função e cargo.
Há alguns anos o governo brasileiro estendia negociações com a Ásia, e tudo começou com comércio da indústria tecnológica, no entanto, interesses ocultos entre os governos já vinham sendo tratados. O Brasil, como forte influência na América Latina vinha perdendo apoio da América do Norte, cada vez mais interessada na exploração de seus recursos e domínio de suas ações. Numa tentativa de driblar o poder norte-americano e se tornar um país forte entre os governos latinos – se não influente –, estudava acordos com a Ásia. Os países asiáticos cresciam em potência mundial cada vez mais, e para um emergente como o Brasil – após tentativas de aliança com Europa e América que não saíram da corrente “colonialista de poder” - seria uma oportunidade ímpar se aliar ao Oriente. Dada estas descobertas para o Comando Especial, delegou-se também a esta unidade tratar dos assuntos que envolviam riscos ao governo brasileiro, e à nação. Mas, quais riscos? Com a difusão crescente dos conflitos entre Coreia do Norte e Coreia do Sul, o imperador atual da Coreia do Norte – Kim Jong-Un determinou estar contra qualquer aliança de outros países com a sua nação irmã. Ameaças terroristas eram difundidas em segredo, internamente para o governo brasileiro.
A pasta que seu superior, Major Barcelos havia lhe entregado constava de uma missão de alta importância. representaria a defesa armada dos interesses do Brasil na Coreia. Os países trabalhariam em conjunto por suas razões comuns, entretanto, a estratégia ousada do país latino-americano não os despreocupava do passo grande que estavam prestes a dar. Tanto o governo asiático quanto o brasileiro desconfiavam-se entre si, então o Batalhão das Forças Especiais Brasileiro entraria em total domínio desta inter-relação. E obviamente, a Coreia agiria da mesma forma.
Capitã seria enviada para o Exército Coreano, se estabeleceria entre eles e com ela iria um destacamento brasileiro, do qual ela seria responsável por treino e integridade. estava aguardando aquilo, já havia sido informada da possibilidade de receber àquela função. As especulações, ali diante aquela pasta se tornavam reais. E já imaginava o burburinho entre seus subalternos: quem será convocado ao destacamento? Quais oficiais acompanhariam a capitã? Quanto tempo se estabeleceriam lá? E o mais importante: voltariam?
Após ler todos os documentos na pasta, encarou seu major que a observava num misto de confiança e preocupação, e deu-lhe uma silenciosa afirmação. O superior sorriu e pegando a pasta de volta, a fez assinar os documentos, e assinou em seguida. Estava feito. Ela iria para a Coreia do Sul e tudo o que envolveria aquela experiência era totalmente incerto.

Seul, Coreia do Sul - Casa de Mo-Yeon.


Seo Dae e Myeong Joo tocaram a campainha no exato momento em que Mo-Yeon andava de um lado ao outro de sua sala tempestiva em acusações para Shi-Jin. Ele que apenas encarava a mulher à sua frente, entendiado e exausto de sempre escutar as mesmas desculpas, não fez cerimônia alguma ao levantar-se e deixá-la falar sozinha. Abriu a porta, e o casal de amigos já o encaravam com a expressão de “brigando de novo?”. Seo Dae e Myeong entraram cumprimentando Mo-Yeon que se manteve calada e cabisbaixa. Yoo Shi-Jin bateu no ombro do amigo, o chamando para a cozinha da casa. Deixou sua namorada – em histeria – na companhia da amiga Myeong Joo.

— Eu a amo, mas está cada vez mais difícil, Wolf.
— O relacionamento de vocês está a cada dia mais, por um fio. Você tem que ser forte.
— Estou cansando de ser forte para salvar uma relação onde eu faço o melhor que eu posso, mas, ela insiste em dizer que o problema é o Exército sendo que o hospital está em primeiro lugar em tudo para ela. O que ela quer? Que eu peça dispensa e a aguarde chegar dos plantões?
— Ei, Yoo Shi-Jin! Vocês dois têm que pensar no quê os une. Se vocês se amarem o suficiente, estas discussões estúpidas de vocês deixarão de existir.
— Não sei mais o quê nos une, Seo Dae. Eu a amo, mas, ela me exige sacrifícios demais para alguém que desde o começo quis desistir.

Myeong Joo adentrou à cozinha para pegar um copo de água para amiga que chorava na sala.

— Você precisa fazer alguma coisa! – ela esbravejou ao amigo que não aparentava uma expressão nada feliz.
— Oh! Mais do que eu tenho feito? Quando se estica muito um lado da corda, ela arrebenta.
— E está prestes a arrebentar, é o que você quer Shi-Jin?
— Myeong, eu só quero que… A Dr. Kang perceba o quanto ela muito tem reclamado e pouco feito.

A esposa de Seo Dae saiu do cômodo suspirando pesadamente. Não cabia a ela, ou ao seu marido resolver aquilo. Cabia aos amigos, mas, era sufocante para ela ver que os dois não conseguiam ultrapassar aquela fase de discussões infinitas. Minavam pouco a pouco, dia a dia, tudo o que os tinha feito ficar juntos. E para Myeong, que demorou tanto a conseguir viver seu amor, aquela era a situação mais ridícula do mundo: dois turrões brigando para ver quem era o culpado por não saber lidar com os obstáculos que surgiam em sua relação.

— Big Boss, porque você não leva a Dr. Kang ao jantar de formatura dos cabos?
— Se ela tiver tempo.
— Já é uma demonstração de que você está tentando. E nós não poderemos fugir deste evento mesmo… Kim Ki-Bum vai receber sua patente de primeiro-sargento e está bastante ansioso e orgulhoso por isso.
— Quem diria que aquele garoto chegaria lá, não é?
— E ele disse que não vai parar até chegar a oficial general.

Os amigos sorriram cúmplices, por se recordar da época em que Ki-Bum pertencia a uma gangue e havia roubado Seo Dae-Young.

— Vou falar com Mo-Yeon. É minha última tentativa. Se nada mudar eu não vou insistir em alguém que me obriga a abrir mão de algo, que ela nunca estará disposta a abrir mão também.
— Orgulhoso.
— Ela que é materialista demais. Oh, que garota materialista essa em quem fui me apaixonar!

---


Mo-Yeon andava pelos corredores do Haesung Hospital, relendo atenciosamente o prontuário de um paciente que faria uma grave cirurgia. Esbarrou sem querer em Han Suk-Won, o presidente do hospital. Ele sorriu para ela, de uma maneira interessada. Mo-Yeon já lidava com as investidas de seu presidente há algum tempo, e não o correspondia – o que o fazia insistir cada vez mais, sem que ela soubesse – contudo, Mo-Yeon sorriu de volta para ele naquele dia. E ao se dar conta do que havia feito, de costas para ele ela pousou sua mão em seus lábios, e estava surpresa com sua própria atitude. Aonde estava com a cabeça, em correspondê-lo daquele jeito? Seu celular tocou indicando uma chamada de Shi-Jin, a médica teria meia hora para descansar antes da cirurgia. Desligou a chamada e guardou o telefone no bolso saindo concentrada em seu prontuário. Yoo Shi-Jin, encarou pensativo, o seu aparelho após ver que sua namorada negou sua chamada. Guardou-o no bolso e retornou para a sede de seu batalhão em Seul.

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Yoo Shi-Jin não estava em seu melhor dia. Estava tenso devido às informações que recebera de sua próxima missão, Seo Dae e Myeong não haviam sido convocados para estarem com ele e portanto, sua cabeça estava a mil. Ele estaria longe de casa mais uma vez, entretanto desta vez, sem os seus melhores companheiros. Torcia para que pelo menos Snoopy, Harry Potter e Piccolo estivessem. Agora como major, dificilmente ele iria a combate como os companheiros que ainda não haviam o alcançado, mas, a menor ideia de estar novamente em acampamento e "sozinho" o deixava descontente. Para variar, Mo-Yeon estava atrasada. Avistou Dae-Young e Myeong Joo entrarem pelo salão devidamente vestidos como oficiais em uniforme de gala. Acenou-lhes e logo estavam os três reunidos.

— Rápido, rápido Ha Ja-ae, prepare uma sala de cirurgia para mim!

Mo-Yeon estancava a ferida no peito de seu paciente, enquanto os enfermeiros empurravam a maca – na qual ela estava em cima, mais uma vez, em uma cena antiga – em direção à emergência do hospital. A enfermeira chefe Ja-ae seguiu urgentemente aos preparativos da cirurgia de última hora. Antes de entrar à área restrita, Mo-Yeon observou um relógio acima da porta e constatou o quão atrasada estava. Não dava mais. Yoo Shi-Jin teria de comparecer à formatura de Kim Ki-Bum desacompanhado, de novo.

Duas horas de atraso, e nada da namorada aparecer. Shi-Jin não conseguia esconder a sua irritação por aquilo, e seus amigos o olhavam tristes por saber o quanto significava para ele, que a dr. Kang estivesse lá. Não era ele a formar, ou algo do tipo, mas, ele estava se esforçando. E ela não reconhecia isso. Myeong algumas vezes tentou convencer Kang que por sua própria culpa, Yoo Shi-Jin escorria-lhe entre os dedos, mas, a amiga não admitia o seu erro. Para ela, sua profissão estava acima de qualquer deslize: “Eu salvo vidas e não posso ir contra isso, se me for solicitado”, Kang sempre dizia. Para Myeong Joo, a doutora sempre fora egoísta ao se tratar de abrir mão da profissão, vez ou outra. Ela também era médica e compreendia as implicações da carreira, mas, Mo-Yeon não enxergava que a função dos meninos estavam acima de qualquer escolha. Ela tinha sim a escolha de adequar sua carreira para acompanhar Yoo Shi-Jin, já ele, não.
Yoo Shi-Jin ajeitou seu uniforme antes de ser chamado ao microfone para discursar aos novos formandos. A cerimônia chegava ao final.
Após o jantar, Kim Ki-Bum agradecia com todo seu afeto à presença da médica Myeong e seu esposo Seo-Dae – cujo a admiração do agora primeiro-sargento Ki-Bum era indiscutível – e, por último ao seu eterno capitão e agora, major Yoo Shi-Jin.
Todos se despediram com sorrisos e “até breves”, além das congratulações aos graduados. Shi-Jin pegou suas chaves e antes de ligar o carro conferiu seu celular, na esperança de que Kang teria esforçado-se para, ao menos, se explicar. Nada havia registrado. Suspirou pesadamente e deu partida em direção ao seu apartamento.
Na manhã seguinte, Kang saía de seu plantão e estava cansada. Não apenas pelo físico, mas pelo estresse mental gerado também pela culpa. Telefonou ao namorado que não atendia. “Ele nunca vai me perdoar”, ela pensou. Dirigiu lenta, e ao primeiro semáforo insistiu em nova ligação para Shi-Jin. Finalmente ele atendeu.

— Big Boss!
— Beauty. – a voz dele soava seca.
— Desculpe, mil desculpas, um paciente deu entrada e eu estava de saída. Juro que já estava de saída e…
— Então por quê não deixou o paciente para outro médico e simplesmente saiu para cumprir seus outros compromissos, como a maioria dos médicos fazem? – ele a interrompeu, grosseiro.
— Yoo Shi-Jin... – suspirou cansada e triste, as lágrimas querendo rolar face abaixo — Vamos, conversar pessoalmente?
— Não. Agora, eu tenho as minhas obrigações. Só estarei disponível à noite.
— Eu retorno ao meu plantão, esta noite. – Mo-Yeon estava envergonhada em afirmar aquilo, ela sabia que havia vacilado.
— Eu estarei à porta do hospital, antes de dar o seu horário. Não se preocupe, não será uma conversa longa.

Desligou a chamada sem que ela dissesse qualquer coisa. Entrou na sede militar, e já era aguardado pelo coronel, que dispunha de todas as ordens e informações sobre sua nova missão militar.


Capítulo 2

— Espere, ! Não vai nem me dar um beijo?

estava a caminho de seu treinamento, há meses aquela rotina se estendia. Mal esperava pelo fim do treino, não por cansaço. Talvez um pouco. Mas, principalmente por ansiedade e certo desejo de tirar umas férias de Danilo – que desde o início de seu treinamento a perturbava constantemente por ela não desistir da missão. Entretanto, naquela manhã ele não havia reclamado de nada.
Ela abria a porta do carro dele, e o encarava com uma sobrancelha arqueada. Sorriu contente e o deu um selinho, que logo Danilo fez questão de transformar em um grande beijo.

— Alguém acordou de bom humor? - ela perguntou.
— Minha namorada está mais perto de partir. Acho que devo aproveitá-la, não?
— Hum… Finalmente aceitou!
— Não há como discutir com você.
— Não mesmo.
— Não mereço um agrado?
— Não. Na verdade, demorou muito para reconhecer quem sou.

Dito aquilo ela o beijou novamente e saiu do carro, fechando a porta sorrindo-o e seguindo sem olhar para trás.
Danilo revirou os olhos e entortou a boca. Às vezes o jeito mandão da namorada o tirava do sério. Acelerou com o carro em direção ao quartel. Precisava encher a cabeça com trabalho.
adentrou a guarita do centro de treinamento, e os aspirantes lhe bateram continência. Ela respondeu-os – como sempre séria – e ao chegar em frente ao major Barcelos bateu ela a continência, ajeitando sua mochila nas costas. Vestia seu uniforme de treino, e portanto, o major chamou um dos aspirantes para carregar a bolsa dela até o banco, e já foi ordenando-a os exercícios principais: polichinelos, corrida, barra e abdominais. Em seguida, seguiu para o exercício de combate: rastejo, escalada, saltos e rolamentos, e tiro. E por último, batalhou corpo a corpo com seus subordinados cujos quais não sabiam, mas já estavam sendo testados. Seriam eles os convocados, e a capitã precisava saber se poderia confiar em sua equipe. Embora a escolha dos convocados tenha sido feita entre ela e o major, em demandar aqueles que anteriormente já haviam executado missões ao lado da capitã.
Ela recusava-se a lutar só com mulheres, uma vez que na guerrilha não teria escolha. Contudo no Batalhão não havia diferenciação, mas, por sua posição ela poderia usufruir de alguns benefícios vez ou outra – e também por Barcelos ser seu amigo.
sentou-se ao chão, cansada. E seu major que já havia a deixado de lado por um tempo, surgiu a perguntando se estava bem.

— É claro. - respondeu ela.
— Preparada então?
— Sem dúvidas, para o previsível.
— E o idioma?
— (FRASES EM COREANO)
— E o que significa?
— As minhas frases de sobrevivência, óbvio. Lembra?
— “Preciso comer, por favor”, “Tenho sede”, “Preciso de um bom banho, por favor”, “Preciso de ajuda”, “Obrigada”.
— Muito bem, major. Agora você também já as conhece em coreano, se precisar. Nada mal, para alguém que teve apenas três meses para aprender a escrever, ler e falar. Não é?
— Verdade. Mas, eles são fluentes em inglês. E apesar de tudo, creio que o exército sul-coreano não será hostil com a chegada de vocês.
— Só confio 100% em mim, você sabe.

Ele lhe entregou uma garrafa de água, e a ajudou a se levantar. Os dois caminhavam para dentro do quartel. Era um caminho mais ou menos longo, do campo até o quartel. E ela precisaria ajeitar suas últimas coisas antes de deixar o Batalhão. Então, caminharam calmamente, em postura de oficial e subordinada e não de amigos.

— O primeiro-tenente Danilo, como está reagindo?
— Não me importo para o que ele pensa, mas, por incrível que pareça hoje estava humorado.
— Não é muito dura nesta relação, capitã?
— Ele sempre soubera que para mim a carreira vem na frente. E na verdade, só implica porque sou superior a ele, hierarquicamente.
— É notório.
— Entrego daqui há alguns minutos o requerimento do destacamento, em sua sala.
— Eles serão informados por você.
— Sim senhor.

Continuaram o percurso em silêncio. Cada um em seus pensamentos, cumprimentaram-se militarmente antes de entrarem. Ela seguiu para o banho, e saiu já uniformizada. Danilo a pegou de surpresa na saída do banheiro, e a beijou escondido. Ela o afastou brutalmente, e o encarou com raiva. Ele sabia que aquele tipo de atitude era o que ela mais detestava. E ao afirmara aquilo, o 1º tenente se exaltara com ela:

— Se não quer mais nada, seja tão digna comigo quanto é com sua farda!
— Eu nunca permiti este tipo de comportamento. E não faça escândalo. – falou categórica.
— Nunca permitiu comigo, não é?
— Seja mais claro nas suas acusações.
— Eu soube do seu ex-namorado, e de como você não ligava muito para posições.
— Eu sou capitã, e não mais uma soldada que pode se dar ao gosto de ser punida!
— Depois deste discurso, nunca mais diga que a hierarquia não importa para você, .
— Primeiro-tenente Aguiar! Está suspenso das suas tarefas militares por cinco dias, e sob supervisão em prisão por desrespeito à sua superior.

Ela o encarava friamente. E ele a olhava com ódio. Como ela poderia ter utilizado a hierarquia numa discussão de casal?

— Me acompanhe em silêncio.

Deu as costas a ele, e seguiu até o tenente Monteiro o indicando sobre ordem de suspensão. Monteiro, encarou aos dois, bastante surpreso. Jamais imaginaria que ela faria algo daquele tipo.
E também sentia-se mal, por vingar-se daquela forma. Ela não sabia o quê o sentimento por Danilo havia se tornado. Agia como uma pessoa mimada, com poder. Dali, ela seguiu para sua sala, onde encaminhou o relatório ao major. E após o almoço no quartel, que não fora no refeitório aquele dia, a capitã seguiu ao microfone de avisos e fez a sua última tarefa do dia:

“Cabos Pereira, Santoro, Albuquerque e Silva direcionem-se ao gabinete da capitã em dez minutos!”


A curiosidade já gerava burburinhos ordenados pelo quartel. Ela estava em pé em sua sala, em frente a sua mesa, aguardando os convocados baterem à porta. Pontualmente, todos os quatro estavam em sua sala, em pé, em continência.

— Descansar!

Eles ajeitaram sua postura.

— Vocês estão sendo designados para o destacamento da operação Ásia Latina, cujo eu serei sua capitã. Me acompanharão em missão à Coreia do Sul e tem exatamente três dias para se prepararem para viajar. Os demais documentos e necessidades burocráticas já foram preparados pelo Exército. Demais informações da missão apenas quando partirmos, e devem manter sigilo total sobre a ida para a Coreia, bem como a toda e qualquer informação que lhes for passada daqui por diante. Quebras no regulamento gerarão punições descritas no código de ética militar. Alguma dúvida?
— Não, capitã – os quatro disseram juntos.
— Estão dispensados para o descanso antes da partida. Despeçam de suas famílias conforme o protocolo de sigilo pré missão. E estejam no quartel dentro de três dias, pontualmente às quatro e quarenta e cinco da manhã.
— Sim senhora – repetiram ao mesmo tempo, novamente.
— Dispensados.

Eles saíram da sala dela, e ela seguiu ao local onde seu namorado estava “preso”.

— Você veio me punir pelo quê, agora?
— Diminuí sua punição para dois dias. Extrapolei os ânimos.
— E comprovou o que eu sempre soube…
— Foi a primeira vez que coloquei a hierarquia dessa forma.
— Não, na minha percepção…
— Danilo… Eu embarco em três dias.

Ele a encarou satisfeito.

— Então, está me tirando da punição porque eu fui convocado?
— Não. Porque eu fui injusta.
— Eu não fui convocado?
— Não entendeu?
— Já entendi. Eu vou te dizer só uma coisa, e espero que você pense nisso enquanto estiver em missão.

Um silêncio constrangedor e doloroso se fez, os dois se olhavam como se soubessem o que viria a seguir. E sabiam. Então, Danilo continuou:

— A carreira militar pode ser a grande conquista que você teve até aqui, mas não será a única, a menos que você continue agindo como se não tivesse outras opções. Outras formas de ser feliz. Pense bem. A sua patente veio com trabalho e esforço, sim, mas, outros sacrifícios vieram junto com a fama de militar impecável. Tem certeza que ser sisuda o tempo todo, é o caminho para o respeito?

, engoliu a seco. E caminhou calma até ele, o beijou o rosto e saiu dali antes que Danilo falasse qualquer outra coisa.

---


Shi-Jin já estava descontente na noite anterior pelo fato de, possivelmente retornar a Urk sem sua equipe antiga. Agora, que descobrira o teor de sua missão, ele estava ainda mais irritado. Não pela função em si, mas pelo tamanho da responsabilidade que lhe foi entregue. E ainda, mantinha seu pensamento em Mo-Yeon e no quanto desejou que ela lhe desse qualquer outra desculpa pela sua ausência. A última coisa que ele queria escutar era “eu tive um paciente de urgência”. Shi-Jin sentia que sempre haveria um paciente entre eles, uma cirurgia depois, ou quaisquer outros assuntos do hospital em prioridade. E Mo-Yeon ainda se atrevia a reclamar que, a posição dele como major impossibilitava que ficassem juntos? Quando se conheceram, ele era muito mais ausente do que hoje. E depois de refletir sobre aquilo, Shi-Jin felicitou-se pela missão. Seria uma temporada distante, e aí sim, Mo-Yeon teria motivos para reclamar. Embora, em seu coração o major desejasse acabar de uma vez por todas com aquele sofrimento.
Shi-Jin estava à porta do hospital, conforme havia dito à Mo-Yeon e telefonava a ela avisando.
A mulher surgiu rapidamente e seus cabelos, que não eram mais tão curtos como quando se conheceram, sacudiam desprendendo-se do penteado. Indicavam uma corrida desesperada para chegar o quanto antes até ele. O olhar do homem que amava era opaco e decepcionado. E o cenho de Mo-Yeon franzia-se a denunciar que o choro estava contido. Ela correu até ele, que não moveu-se em nada. As mãos continuavam no bolso, e o olhar reto em direção à mulher aflita. Como em câmera lenta, os braços dela passaram pelo pescoço dele, num abraço urgente. Drª Kang afundou sua face nos ombros do rapaz, e as lágrimas não podiam ser controladas. E ele permaneceu imóvel.
Yoo Shi-Jin separou Mo-Yeon de seu corpo, a fazendo o olhar. Ela limpou as poucas lágrimas que caíram, sem esforço, e antes que ela abrisse a boca para dizer qualquer coisa, ele a interrompeu:

— Eu vou para Urk.

Mantiveram o silêncio. Ela quebrou-o, após se recuperar do que ouvira.

— Só porque não pude estar no jantar de Ki-Bum?
— Não. É apenas uma missão que veio em boa hora.
— Boa hora? Nos afastar agora, não é a melhor opção!
— Para mim é.

Ela continuou o encarando surpresa, e ele em silêncio, sério como pouquíssimas vezes conseguira se manter perto dela.

— Há muito tempo não te enviam a uma missão em Urk…
— Não há com o quê se preocupar.
— Tem certeza que é o melhor agora?
— Tenho certeza que sim.
— Yoo Shi-Jin… Me perdoa! Eu não podia …
— Ir contra quando me foi solicitado. É o mesmo em relação ao meu trabalho, e se você não consegue aceitar isso, assim como eu não consigo aceitar…

Foi a primeira vez que ele se moveu: olhou para o chão. Shi-Jin era sensível apesar de tudo, e segurar o tremor que sentia por dentro, ao que estava prestes a fazer era difícil. Mo-Yeon era a única batalha a qual ele jamais imaginou que teria de enfrentar, estando do lado oposto. Não desejava terminar com ela, depois de tudo e tanto tempo. Mas, utilizar a frase dela, aquela que era sua desculpa para ele o tempo todo, deixou claro o quanto a discussão entre eles não teria um bom final, como de Seo-Dae e Myeong.
O vento frio passou por eles, e os longos cabelos de Mo-Yeon esconderam seu rosto para em seguida revelar os olhos vermelhos e espantosos em lágrimas. Entretanto, ela era tão orgulhosa quanto ele. Não poderia desabar quando o próprio Shi-Jin se mantinha impassível.

— Estamos terminando – ela disse.
— Estamos.

Ela acenou afirmativamente, com as mãos em seu jaleco. E os olhos de Shi-Jin já não eram tão indecifráveis. Demonstravam uma dor que se tornava cada vez mais insuportável, à medida que ela estava tão perto, e seu perfume tão reconhecível a ele.

— Boa sorte em Urk.
— Se cuide, também.

E os dois sorriram falsamente, e se viraram ao mesmo tempo. Caminharam e a lágrima escorreu profunda, queimando suas faces, porém não antes de os dois, ao mesmo tempo olharem para trás e encararem a partida um do outro. Deram as costas de novo, e caminharam mais apressados. Mo- Yeon não conseguiu se manter firme e correu de volta ao hospital, para cair ao chão logo que saíra do campo de visão dele. Yoo Shin-Jin chorava como há muito, muito tempo não fazia, apoiado ao volante de seu carro. Da última vez que os olhos lhe arderam por aquela razão, Mo-Yeon o consolava, em Urk enquanto ele queimava a foto de seu antigo capitão. Que ele admirava e havia se tornado seu inimigo.
Deu partida em direção ao seu apartamento, para recolher suas coisas. Já havia despedido de seus amigos, antes de ir ao hospital.
Ha-Jae encontrou Mo-Yeon agachada na entrada do hospital, aos prantos e correu em sua direção. Os médicos, enfermeiros e pacientes que chegavam no lugar a encaravam de maneira vergonhosa. Não seria ela a deixar, a amiga e médica respeitada passar por aquele constrangimento público.
Ajudou Mo-Yeon a se levantar e a tirou dali, ainda aos prantos e inconsolável.




Continua...



Nota da autora: PRIMEIRA fic de k-drama gente! Então dá para imaginar o nervosinho que eu não estou né? Espero muito, muito que vocês tenham se atraído pelo comecinho de história, e juro dar o meu melhor para não decepcionar vocês. E eu sei que Song-Song agora é OTP oficial, mais do que real, entretanto... AH VÁ, que você não queria fazer parte desse casal? Fortes emoções, fortes emoções... E não esqueçam de comentar galerinha, porque eu estou muito curiosa para saber as reações de vocês!

Tenho uma ask para responder perguntas das leitoras, e o link está abaixo.
A fanfic tem trilha sonora no spotify e o link também está abaixo. ;D





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