Última atualização: 13/04/2018

Prólogo

Um mês antes

sabia muito bem que J.A.R.V.I.S. gostava de atormentar sua vida, só que existia um limite, e o dela era colocar o som mais irritante possível de alarme pela manhã. Para sua surpresa, Steve sequer se incomodava, sempre se levantando depois de alguns momentos e se espreguiçando, devolvendo com simpatia os desejos de bom dia que o sistema lhe dava. , por sua vez, apenas puxava o lençol sobre a cabeça e posicionava o travesseiro do soldado como um escudo para que a luz que atravessava as janelas não chegasse a seu rosto, fingindo que não existia até que Steve liberasse o banheiro e dava início à operação “fazer com que saísse da cama”.
- ... – ele cantarolava, se sentando na beirada da cama, próximo o suficiente para conseguir alcançar a cintura da mulher, apertando a região com as pontas dos dedos para que ela se contorcesse – Vai, levanta ou vou deitar em cima de você. Ambos sabemos que isso nunca termina bem para nenhum dos dois...
- Mais cinco minutos – pediu em um bocejo interrompido por risadas, segurando os pulsos do homem para fazer com que ele parasse, girando o corpo para outra beirada da cama, fazendo com que ele caísse ao seu lado – E já disse que não foi minha culpa você ter caído. Você é pesado e estava me sufocando, não percebi que tinha te empurrado em direção da cômoda...
Steve riu baixo em concordância, satisfeito ao ver a mulher se encolher surpresa depois de um beijo no pescoço.
- Cinco minutos então. J.A.R.V.I.S. vai estar contando, não vai, J.? – o soldado se deu por vencido, se distanciando da mulher e logo se pondo de pé.
- Estarei, senhor.
Resmungando baixo quando já estava sozinha no quarto, esticou o braço para pegar seu celular ao lado da cabeceira da cama. Já fazia um certo tempo que o aparelho lhe fora devolvido, mas evitava mexer nele por estar sempre na companhia de alguém. Era um costume antigo seu sempre checar a Linha do Papai – um canal seguro para momentos de emergência, que impossibilitava qualquer tipo de rastreamento –, mas não fizera isso desde que voltara para a Torre depois da temporada sobre o controle da HYDRA por um simples motivo: com certeza deveria ter algumas mensagens de Tony e Clint na esperança de que ela teria conseguido fugir de quem quer que fosse seu sequestrador, e todos haviam entrado em um acordo de que era melhor ela não ouvir nada daquilo. Ainda era algo muito recente, e com a recuperação lenta que estava tendo, poderia pôr tudo a perder. Já não concordava com aquilo tudo, por isso acessou a linha na primeira oportunidade que teve.
A primeira gravação era de Clint, algo padrão e codificado. Pedia alguma forma de contato, algum sinal de que ela estava bem e em segurança. Claramente fora uma medida desesperada, já que o protocolo seria ela enviar alguma mensagem a ele, coisa que nunca aconteceu. Depois vinha uma mensagem de Tony, praticamente um mês depois de seu sequestro pelo que entendera, sem nem um pouco do tom profissional que o arqueiro tentara fingir na sua mensagem. Pela sua voz mole e arrastada, provavelmente já tinha bebido demais, e talvez tivesse a esperança que ela magicamente teria acesso àquela mensagem, retornando a ligação em seguida. Um aperto insistente em sua garganta avisou de que talvez os outros estivessem certos, que ouvir aquilo não lhe faria bem nenhum, mas mesmo assim ela continuou. Não planejava tão cedo estar em uma situação que aquele canal fosse necessário, mas era melhor manter ele limpo.
A mensagem seguinte era em um código de toques estranho que ela não entendeu em um primeiro momento, o que a fez xingar o próprio nome por aquela linha não permitir repetições, e que definitivamente não era de nenhum dos Vingadores. Com aquilo ainda fresco na memória, ela se pôs a repeti-lo, tentando reconhecer o seu padrão para decifrá-lo. Depois de repeti-lo umas cinco vezes, e aquele incômodo no peito apenas se intensificar a cada tentativa, que tanto o reconheceu como também decodificou.
Espero que você consiga um dia voltar para casa.
Era um sistema de códigos da HYDRA, tão antigo que eles sequer o usavam mais. A mensagem seguinte também apresentava o mesmo código, constituindo-se de uma sequência numérica de onze dígitos. Com a respiração travada da garganta, decorou os números, os digitando com agilidade depois de fechar aquela linha, mas não antes de garantir que aquela ligação não poderia ser rastreada. Ela apertou o botão de chamada.
Quando sua mão trêmula conseguiu finalmente levar o aparelho ao ouvido, a ligação já estava no meio do terceiro toque, sendo atendida apenas no sexto. Seu coração batendo forte contra as costelas em expectativa talvez pudesse ser ouvido do outro lado da linha, onde o silêncio predominava. Quem quer que fosse, assim como ela, também prendia a respiração, sem saber o que fazer.
- Sim? – respondeu a pessoa do lado da linha, a voz baixa e grave, com um leve ruído de sua respiração pesada batendo no microfone. no mesmo instante ofegou, levando a mão livre à boca para tentar abafar qualquer som surpreso que ainda poderia vir a produzir. Só havia uma pessoa que ela poderia esperar usar aquele código, e aquela voz ela poderia reconhecer em qualquer lugar.
- Bucky?

Capítulo 1

Como toda manhã, e Steve encontraram com Natasha e Clint em um dos corredores dos quartos, e juntos seguiram para a cozinha. Eles eram sempre os primeiros a acordarem – claramente obrigada pelo Capitão –, mas um cheiro forte de queimado que dominava o andar deixava claro que alguém acordara mais cedo que eles, e aparentemente tivera alguns problemas para preparar sua refeição.
J.A.R.V.I.S. havia aberto as portas da sacada da cozinha a pedido de Petr para tentar disfarçar o cheiro forte que dominava o ambiente enquanto tentava retirar com uma espátula quebrada a massa que grudara na frigideira. Como estava cedo demais para estar acordado e já estava ali há um bom tempo, Petr sequer conseguiria monitorar seus arredores mesmo se quisesse, já que seu sono não ajudava em nada nesse quesito. O russo apenas percebeu que estava acompanhado quando indagações divertidas chegaram aos seus ouvidos.
- Ivanov, o que diabos...? – começou Natasha, quase rindo ao ver a cara de desespero do homem, que tinha até um pouco de massa crua de panqueca nos cabelos. A mulher apenas ergueu as mãos e garantiu uma boa distância entre eles enquanto se direcionava para a geladeira – Sabe de uma coisa? Não quero saber.
- Teve um ataque aqui? – perguntou Steve rindo um pouco, mas sinceramente preocupado. Não dava para uma pessoa sozinha fazer aquela zona toda, tinha que ter mais algum envolvido. Não era humano alguém chegar àquele nível de desastre sem ajuda.
- Banner estava tentando te ajudar e perdeu a paciência? – Clint se juntou, cruzando os braços em frente ao peito e apontando para cima com o queixo – Tem algo estranho até no teto.
- Eu não chequei direito se a tampa do liquidificador estava realmente fechada... – se explicou Petr, pegando um pano que já se podia considerar imundo que estava jogado na bagunça da pia para limpar superficialmente suas mãos antes de se adiantar para sua irmã.
- Não precisava disso tudo – disse , recuando alguns passos quando percebeu o cheiro de ovo que o homem que vinha de abraços abertos exalava – Abraços apenas depois de você tomar um banho, por favor.
- Ingrata – resmungou ele, se inclinando para ao menos beijar seu rosto, aproveitando que ela abaixara a guarda para a prender em seus braços, esfregando o cabelo sujo em seu rosto – Feliz aniversário.
- Mas seu aniversário é em ag... oh – estranhou Clint, só depois entendendo a falha que cometeram: a data de agosto fora escolhida por Howard e Maria Stark para driblar a mídia, mas não se tratava da data real do nascimento de . Ela havia nascido em abril, mais especificamente naquele dia – Qual é o recorde de planejar uma festa em cima da hora?
- Sem festas – avisou , só então conseguindo se livrar do aperto do irmão e praguejando baixo mesmo que rindo – Meu aniversário para vocês é em agosto, nada mudou. Para o Pete é só alguns meses antes.
- Santo Deus, alguém tentou destruir minha cozinha?! – ofegou Tony assim que entrou no ambiente, interrompendo o sermão apenas para parar ao lado da filha e lhe beijar o rosto – Feliz aniversário, coisinha.
- Coisinha não – reclamou ela, agora sem rir – Vovó odiava quando você me chamava assim.
- É legal saber seu aniversário de verdade – continuou Tony, ignorando a filha por completo. Sua intensão era pegar alguma coisa pronta na mesa, mas desistiu assim que se lembrou quem havia preparado aquilo tudo, indo para os armários procurar algum cereal.
- É só uma data, Tony. E eu gosto de comemorar em agosto, vamos manter assim.
- Nós vamos sair em missão no aniversário dela? – comentou Natasha, agradecendo quando Steve passou para ela os copos para colocar na mesa – Viu, Clint? Eu disse que não era perseguição com você.
- Melhor presente! Acabar com a HYDRA de vez, recuperar o cetro... Estou esperando isso há um ano. Já era tempo – lembrou a aniversariante do dia, arrancando algumas risadas em concordância. quase esticara o braço para pegar a caixa de cereais que Clint acabara de se servir, mas o olhar sério de seu irmão do outro lado da mesa a fez mudar de ideia. Petr havia se esforçado para lhe fazer algo legal, o mínimo que ela podia fazer era ao menos experimentar, mesmo que isso fosse resultar em uma intoxicação alimentar mais tarde. Ela retirou a panqueca do topo da pilha e colocou em um prato, cortando um pequeno pedaço e logo colocando na boca para não desistir, seus olhos se arregalando logo em seguida – Ah meu Deus...!
- O que foi? – questionou Petr, apreensivo. Sua experiência na cozinha não era das mais extensas, e já havia queimado a língua tantas vezes provando coisas quentes demais que seu paladar estava comprometido – Está ruim?
- Pelo contrário, isso está ótimo! – mal havia terminado de mastigar o primeiro pedaço e já cortava o segundo, revirando os olhos quando o irmão resmungou um ofendido “você parece surpresa” – Mas é claro que eu estou, já viu a aparência disso e o estado da cozinha?!
- Vamos, gente – disse Steve depois de alguns minutos enquanto se levantava, checando seu relógio antes – Saímos em uma hora.
Mesmo não tendo sido chamada, terminou o resto de panqueca que ainda estava em seu prato antes de colocar o utensílio na pia, seguindo o soldado para o elevador. Ela já estava mais do que acostumada com a seriedade de Steve antes de saírem em missão, mas tinha algo diferente daquela vez. Algo que ela confirmou assim que ouviu um “sim, Stark” quando perguntou se estava tudo bem.
- Você só me chama de Stark quando estou encrencada – ponderou ela, cruzando os braços e apoiando as costas na parede de metal do elevador – O que eu posso ter aprontado nos últimos cinco minutos?
- Por que não me contou que era hoje? – choramingou Steve, seus ombros caindo ainda mais quando a russa riu divertida – Eu não comprei nada e não dá para ir procurar alguma coisa na próxima meia hora.
- Se concentre no presente de agosto, esse que conta – lembrou , ambos agradecendo J.A.R.V.I.S. depois que o sistema informara que uniformes limpos haviam sido deixados alguns minutos atrás no quarto que dividam, ela andando mais a frente quando saíram do elevador, virando minimamente a cabeça para trás antes de fazer mais um ponto – E eu quero continuar o máximo possível com vinte e cinco anos.
Steve fechou a porta às suas costas com sorriso descrente nos lábios, imitando a mulher quando ela começou a se despir. Seu uniforme limpo estava em cima de sua mesa, sendo esse o lado do quarto para qual se direcionara, jogando a calça que usava de pijama próxima a porta do banheiro antes pegar as peças de seu traje, apreciando o cheiro de limpeza que seria nada menos do que uma memória nas próximas horas.
- Qual é a diferença de ter vinte e cinco ou vinte e seis? – perguntou ele, se virando para a mulher que checava se todas as partes do seu uniforme estavam juntas sobre a cama, já que um dia quase fora obrigada a sair sem colete pela peça ter se perdido na lavanderia. Agora era um hábito de todos checar os itens com antecedência.
- Perto demais dos trinta. Não tenho maturidade para isso – respondeu a russa, tirando o celular do bolso e ligando a tela apenas para garantir que não recebera nenhuma notificação. Antes que ela pudesse jogar o aparelho sobre o colchão e terminar de se ajeitar, Steve soltou um “idade é só um número”, fazendo com que perdesse o foco e começasse a rir, jogando o aparelho sobre os lençóis esticados em seguida – Gente velha que fala isso, Rogers.
- Ei, estou perto dos cem, esqueceu? – brincou ele, seus reflexos rápidos permitindo que conseguisse pegar a peça usada que tirara em sua direção antes de seguir para o banheiro.
- Só cala a boca e vai se ajeitar logo. Vou tomar outro banho – avisou ela, deixando a porta aberta depois de passar para garantir que conseguiriam se ouvir para acertar os últimos detalhes da missão – Petr me sujou de massa e não estou a fim de ficar com esse cheiro na viagem toda.
Já faziam meses que eles tinham ciência da localização do cetro, mas não podiam tomar uma decisão precipitada e colocar em risco todo o trabalho que vieram tendo no último ano. Aquela operação requeria muito mais cuidado dos que as últimas, e tinha que ser no tempo certo. Sokovia era a última base da HYDRA de que tinham conhecimento – se tivesse mais alguma, nem a própria HYDRA sabia de sua existência –, e com certeza haveria alguns truques na manga. Afinal, nenhum dos aprimorados já conhecidos havia aparecido até o momento, além de suas habilidades ainda serem um mistério. Erros não podiam acontecer de forma nenhuma naquele momento, eles tinham que garantir aquilo.
- Fecha para mim? – pediu quando retornou do banheiro, se sentando de costas para o soldado e segurando o cabelo úmido para frente. Como ainda não haviam conseguido pensar em algo para anular a toxina no ar que fora usada na Islândia, a única medida preventiva que Tony e Bruce conseguiram pensar foi reforçar os trajes da dupla de irmãos, adicionando um segundo colete ainda mais resistente por debaixo de todas as camadas, os fechos localizados no meio das costas para garantir que eles não tentariam retirar a peça em um momento de sanidade abalada, o que resultou em muitas reclamações. Não demorou muito para que sentir Steve se posicionando próximo a ela, os dedos do soldado invés de trabalharem nos fechos, passando por debaixo da alça do colete, deslizando o material sobre o ombro desprotegido da mulher – Eu pedi para fechar, não para abrir... Temos horário para cumprir, Capitão.
- Não é como se eles fossem sair sem a gente... – lembrou ele, rindo satisfeito ao ver a mulher se encolher com a respiração batendo em pescoço – É seu aniversário e eu não comprei nada, tenho que compensar de algum jeito.
riu descrente com a sugestão, até chegando a virar o corpo para ficarem frente a frente, mas os planos de ambos foram interrompidos por batidas fortes e bem ritmadas na porta do quarto.
- Eu espero que vocês estejam se vestindo, não tirando a roupa – a voz de Clint chegou até os dois depois de ele parar de esmurrar a madeira – Alguém ainda precisa checar os veículos e isso é com vocês dessa vez.
- Para colocar o uniforme, a gente tem que tirar a roupa, Barton. E já estamos subindo – gritou a resposta, mesmo sem saber se o arqueiro chegara a lhe dar ouvidos. Steve, em contraste com seu ar risonho, não estava nem um pouco feliz. Sabia que teria volta por ter feito Clint acordar mais cedo para checar todo o equipamento na última missão para dormir mais um pouco, agora não podia nem reclamar. Seu humor só melhorara quando a risada divertida de ecoou pelo quarto assim que ele se afastou para pegar o resto de seu uniforme – Vai terminar de se vestir no quinjet?
- Nós dois vamos – corrigiu ele, mal percebendo a expressão confusa da sua colega de quarto. Além de não ter fechado seu colete, não tinha colocado nem as calças ainda, enquanto ele apenas não vestira a parte de cima do traje sobre a regata branca, seus pés já protegidos pelas botas.
- Você quer que eu saia pelo prédio seminua? Esqueceu que meu pai mora aqui?
Steve ofegou um rápido pedido de desculpas, dessa vez travando todos os fechos do colete com agilidade, até mesmo entregando os calçados da ex-espiã e a puxando pela mão para deixar o quarto. Ela tivera que parar no meio do caminho para buscar as últimas peças que ainda não vestira, mesmo sem entender o motivo da repentina pressa do soldado. Checar o equipamento a ser utilizado na missão era uma tarefa um tanto demorada e cansativa, mas ainda tinha bastante tempo de sobra, não precisavam correr com nada. Quando questionou o homem, o sorriso travesso que ele exibira já era uma pista do tipo de resposta que estava para receber.
- Quanto mais cedo terminamos, mais tempo livre vamos ter, não é?

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Toda vez que tirava a mão de apoio do banco da moto, era obrigada a ouvir seu irmão ralhando com ela na frente do veículo, já que era fácil demais ela cair depois de alguma manobra brusca de última hora, mesmo ela conseguindo prever com um pouco de antecedência as escolhas de Petr. O problema não era usar apenas uma mão para atirar, mas sim estar usando apenas uma arma quando nem duas seriam o suficiente.
Aquela missão estava contando com o elemento surpresa, e não estava exatamente dando muito certo.
A equipe estava um pouco mais afastada do que eles inicialmente planejaram, a dupla de irmãos sendo os que ficaram mais para trás, tentando controlar a situação que os integrantes mais à frente não conseguiram. Um jipe com inimigos entrou no caminho dos ex-espiões, parecendo bastante determinados a acertar o veículo a frente, que Natasha conduzia. Mesmo sabendo que a irmã não conseguiria ouvir graças a todo o barulho que os cercavam e por estar incapacitado de sinalizar com as mãos, Petr assobiou para chamar a sua atenção, esperando apenas ela se virar para frente e guardar a arma no coldre para acelerar ainda mais a moto, diminuindo a distância entre os veículos para que ela pudesse pular no jipe. O cara que atirava para todo lado sequer viu o que o atingiu antes de cair para fora do veículo, seu companheiro ao volante tendo um destino bem parecido. mal teve tempo de se preocupar com o robô da HYDRA que pulara em sua traseira e já a tinha em sua mira, visto que segundo depois Thor o despedaçara com ajuda de seu martelo. O asgardiano até chegou a perguntar se estava tudo bem, e a resposta que obteve foi a mulher erguendo o braço direito o mais alto que conseguia para apontar para a torre de vigia cheia de atiradores, algo que ele logo tratou de dar conta.
passou então a brincar de “atropelar o máximo de pessoas possível”, rindo sozinha ao pensar que tirariam sua carteira de motorista para sempre se comentasse aquilo quando fosse renovar sua licença, não demorando muito para que alguém pedisse que ela focasse em seu trabalho. Por pura birra, não comentou o fato de todos, na mais perfeita sincronia, terem pulado ao mesmo tempo de uma falha funda demais no terreno, o que forçou ela, assim como Clint e Natasha, a abandonarem os jipes e partirem para luta direta no solo.
Alguém precisava ter registrado aquele momento.
- Merda! – seu pai praguejando chegou a seus ouvidos instantes mais tarde, parecendo ter colidido com alguma coisa.
- Olha a língua! – a repreensão de Steve veio logo em seguida, mentalmente conseguindo ver revirar os olhos mesmo ela estando alguns bons metros atrás – J.A.R.V.I.S., qual a visão daí de cima?
- O prédio central está protegido por algum tipo de escudo de energia. A tecnologia do Strucker vai além de qualquer outra base da HYDRA que tomamos.
- Ele estava nos esperando – comentou , tendo que se inclinar para trás no último segundo para não ser atingida pelo martelo voador que Thor convocava, seguindo com os olhos o trajeto da arma para repreender o deus – Cara, cuidado!
- O cetro está aqui – disse Thor, depois de brevemente se desculpar com a colega – Strucker não conseguiria tal defesa sem ele. , consegue dizer?
- Longe demais, porém capaz. Já disse que eu cortei relações com o cetro, não sei dizer onde ele está com tanta facilidade – explicou ela, pelo que parecia ser a terceira vez apenas naquela semana. Talvez um aviso por escrito seria mais efetivo? – Mas sim, provavelmente está. Vamos cruzar os dedos.
Alguma conversa aleatória foi iniciada em seguida, mas não prestou muita atenção, já que estava ocupada demais pensando em como derrubar o novo grupo de soldados que se aproximavam com o mínimo possível de esforço, por não ter muita noção ainda do que estavam prestes a enfrentar. Ela se lembrava de pelo menos dois aprimorados durantes suas breves visitas à base de Sokovia, e apenas tinha um conhecimento superficial sobre as habilidades de um deles, estavam andando em um território mais do que hostil.
- É, acho que perdemos o elemento surpresa – o comentário de Clint foi a primeira coisa que ela registrou depois de finalizar com o grupo, já tendo novos amiguinhos para brincar antes mesmo de soltar o braço recém quebrado do último inimigo que derrubara. Sua concentração estava bem direcionada até aquele momento, ela logo se dispersando quando seu pai resolveu quebrar seu recorde pessoal de tempo em silêncio.
- Espera, ninguém vai comentar que o Capitão disse “olha língua”?
O soldado que lutava com a mulher não teve muito tempo para estranhar sua oponente gargalhar brevemente, já que mesmo com a distração, ela não interrompeu a luta e logo o nocauteou.
- Eu tenho que ficar quieta – se explicou, aproveitando a pequena pausa para procurar Steve com os olhos – Caso contrário ele me acusa de perseguição.
- Escapou... E eu não faço isso – emendou Steve, assim que ouviu um “aham, sei” da colega, estranhando quando ela não retrucou. Inconscientemente, ele tentou a localizar nos arredores, temendo que ela tivesse sido atingida ou algo do tipo – Ás?
- A cidade vai ser atingida – alertou ela, J.A.R.V.I.S. em seguida emendando que a resposta ofensiva da HYDRA estava colocando civis em risco. A Legião de Ferro logo foi acionada, momentaneamente se distraindo com a reação negativa da população, quando voltou a prestar atenção no que devia, o cenário que estava inclusa estava um pouco mais estranho, uma presença diferente – Epa... Um aprimorado. Gente, é o velocista.
- Localização?
- Não dá para dizer quando ele não fica em um lugar, não é mesmo? – respondeu ela, levemente mal-humorada com a pergunta até que pertinente de seu irmão, sua postura mudando drasticamente quando conseguiu travar um possível trajeto do aprimorado, chutando até com mais força do que o necessário o rosto de um dos soldados – Gavião, está da sua área...! Barton, o bunker!
Natasha, que estava mais próxima, gritou pelo colega ao presenciar ele sendo atingido e saiu em seu auxílio.
- Rogers, talvez ele esteja indo para o seu lad... Já te atingiu – tentara mais um aviso, desistindo ao perceber que mais uma vez estava atrasa. Até aquele momento ela nunca percebera que sua fala não fora aprimorada com o resto de suas habilidades, que aquela limitação estúpida de produzir um som apenas depois do outro não permitia que acompanhasse seus sentidos mais rápidos que o normal.
- Obrigado pela tentativa, Ás – ofegou Steve, sem poder se dar ao luxo de parar por um segundo, já tendo que voltar para a luta. Os esforços de todos em manter as brigas próximas estavam surtindo efeito, já que agora ele, Thor e estavam praticamente dividindo a mesma luta, em um momento ou outro até conseguindo dar suporte entre eles. Sem trocar uma palavra sequer, Steve em um momento lançara seu escudo em direção às costas da mulher, que se abaixou no último instante para dar uma rasteira em outro soldado, já que o Capitão se encarregara de finalizar o anterior com quem ela lutava – Stark, precisamos entrar.
Minutos mais tarde, Tony comunicou que tinha derrubado o campo de energia, tempo o suficiente para o trio conseguir controlar momentaneamente a situação, até respirando um pouco enquanto se preparavam para continuar.
- O aprimorado, é o que você conhece? – questionou Thor, quando finalmente se aproximou do grupo com seus passos arrastados, já que não entraria em um combate de imediato, podendo se ocupar em tirar do cabelo alguns galhos que agora se confundiam com os fios presos na altura da nuca.
- Duvido que exista outro como ele, e espero que não exista.
- De nossos novos inimigos, nunca vi algo igual – comentou Steve, um tom brincalhão em sua voz que praticamente passou despercebido graças a sua postura mais séria de Capitão – Na verdade, eu não vi.
- Gente, o Clint está mal – comunicou Natasha, obrigando o trio a mudar de assunto – Vai precisar de extração, e o Petr está ocupado.
- Eu levo Barton para o jato, quanto antes melhor – disse o asgardiano, junto com os outros dois acompanhando a movimentação de um numeroso grupo de soldados, aproveitando a dupla apenas assentindo para determinar a estratégia dali para frente – Ivanov consegue controlar a situação aqui enquanto isso. Vocês e o Stark pegam o cetro.
- Entendido.
- Eles estão em formação de novo – comentou Thor, já girando o martelo em sua mão, assim como Steve erguera seu escudo na altura da cabeça. , em contrapartida, recusou dois passos – Milady, tampe os ouvidos.
A mulher sabia que não surtiria muito efeito, mas obedeceu mesmo assim, apenas por desencargo de consciência. O eco dos metais colidindo, mesmo que a energia direcionada para uma direção oposta à sua, sempre dava uma abalada em seus sentidos sensíveis, sendo necessário um segundo ou dois para que pudesse voltar a ação.
- Encontrem o cetro – Thor repetiu mais uma vez, apenas levantando voo quando fez com a mão que tinha entendido. Ela apenas voltou por inteiro ao normal quando a voz de seu pai voltou a ecoar em seu ouvido, tendo que buscar apoio no ombro de Steve enquanto ria.
- E pelo amor de Deus, olha a língua!
- Isso não vai parar tão cedo... – resmungou o soldado, delicadamente empurrando a mulher ao seu lado para que ela acompanhasse a corrida nem tão leve que precisavam iniciar.
- Isso sim é perseguição, coração.
O caminho até o prédio não era tão longe, mas, com uma ou outra interferência no trajeto, e Steve só chegaram em seu destino quando a situação já estava parcialmente sob controle, pelo menos no lado de fora. Clint já estava seguro no quinjet com Thor, Natasha já estava a caminho do seu show do dia, com Petr próximo apenas por precaução, monitorando os arredores apenas para caso algum desgarrado não fosse parado pela Legião de Ferro. Tony, por sua vez, já estava revirando o prédio quando eles chegaram, agora só precisavam se dividir.
- Quer tirar no impar ou par...? – sugeriu Steve, retirando seu capacete no meio tempo – Ou consegue dizer onde Strucker está?
- Ímpar – disse a mulher, mal prestando atenção no jogo enquanto reclamava mentalmente por não conseguir distinguir a energia que Strucker transmitia. Ela era muito boa em memorizar presenças, mas dois encontros rápidos, sendo com seu organismo levemente alterado, era demais até para ela – Certo, eu vou para a ala leste. Vou manter um olho no seu lado.
Steve apenas concordou e eles logos se dividiram, não demorando muito para que ele anunciasse que estava com o Barão, o que fez com que mudasse o foco de sua procura: de alguma forma, precisava pensar em um meio de encontrar aquele maldito cetro. Até o momento a mulher não sabia dizer se era ela que estava bloqueando o cetro ou a situação contrária, e, de alguma maneira, nenhuma parecia muito boa. Pelos níveis elevados de sua impaciência, o melhor era poder localizar a maldita arma e terminar aquilo de uma vez.
- , você não estava me monitorando? – depois do tom um tanto impaciente, a segunda coisa que ela estranhou foi ser chamada pelo primeiro nome, algo que Steve evitava com bastante sucesso durante as missões, normalmente se limitando ao seu codinome, já que os homens de sua família tinham prioridades ao sobrenome – Acabei de ser apresentado ao segundo aprimorado, e dessa vez eu vi. É a garota. Completamos os gêmeos. Não ataquem.
- Tenho o pressentimento que não estou sentindo a presença dela – confessou ela, depois de praguejar baixo e se direcionar para a área onde sentia a presença do soldado – Isso pode vir a ser bem problemático...
- Thor, estou com os olhos no prêmio – anunciou Tony, sem saber que praticamente fizera sua filha tropeçar no ar de ansiedade – , se quiser vir para cá para deslocamento mais seguro, já agradeço.
A russa mudou seu trajeto logo em seguida, passando a correr com mais empenho ao notar algumas mudanças no comportamento do pai, algo para o qual ela não encontrou explicação em um primeiro momento. Apenas quando se concentrou um pouco mais que ela notou que Tony não estava sozinho, que pelo menos uma presença ela sentia e reconhecia, outra já parecia quase um fantasma de tão oscilante.
- Stark? – chamou com desespero, optando por ignorar os outros colegas que pediam atualização de status, rapidamente trocando para uma linha particular, apenas para aquela sensação de algo estar errado quando o silêncio de Tony continuou – Droga! Pai? O velocista está aí.
Quando já descia apressada as escadas atrás da passagem secreta, Tony apareceu nos últimos degraus com o cetro na mão protegida pela luva da armadura, um pouco mais sério do que de costume. Por algum motivo que ela não conseguia ler, ele estava tenso, até mesmo parecia um pouco abalado. Ao ser questionado pelo seu estado, Tony em primeiro momento tentou desconversar, mas diante da insistência da filha, pediu que ela fizesse a varredura do local de onde ele acabara de sair. estava prestes a ralhar com o pai quando notou algo curioso e grande na sala secreta, atendendo assim o pedido do pai.
Assim que ficou de frente com a carcaça daquela criatura que ela sequer sabia o nome, compreendeu o estado do pai. Ela sequer havia participado da batalha propriamente dita, e, mesmo apenas tendo aparecido em NY depois da situação controlada e por pouco tempo, dizer que estava desconfortável era o mínimo. Tony ainda tivera muito mais contato do que ela, todo o incidente com o míssil e o portal em que ele quase ficara preso, era compreensível seu estado. Até a russa teve dificuldades de continuar seu trabalho, analisando o ambiente com o máximo de concentração que conseguira juntar. Depois da tarefa concluída, Tony já não estava mais na sala ao lado, tendo seguido para nave para deixar o cetro em um local seguro.
Assim que voltaram para o quinjet, todos já estavam prontos para retornarem para a Torre, logo voltando para o ar. No caminho até a cadeira do piloto para falar com o pai, passara carinhosamente a mão pelo cabelo de Bruce ao passar ao seu lado, conseguindo sem dificuldade identificar a música alta que saia de seus fones. Tony parecia bastante ocupado programando a rota da viagem, não dando respostas maiores do que de uma palavra quando ela pedia alguma informação. Sua postura estava um pouco mais tensa do que costumava ficar depois de uma missão, mas, como ele não parecia estar muito afim de papo, optou por deixar esse assunto para mais tarde, indo se juntar a Thor e Steve depois de checar como estava Clint, sob os cuidados de Natasha e Petr.
O cetro estava dentro de uma caixa de vidro resistente para garantir que ninguém tocaria a arma por acidente, já que ainda não sabiam como ela funcionava. teve que agradecer mentalmente por seu irmão e Steve estarem distraídos demais para notar sua breve hesitação quando o brilho da pedra oscilou provavelmente pela sua presença, como se reconhecesse um velho amigo – mesmo que de amigos eles não tivessem nada. Pouquíssimas vezes e o cetro dividiram o mesmo espaço, e todas trouxeram consequências catastróficas. Seu lado mais medroso temia que algo desandasse também naquela ocasião, mas ela sabia que agora era diferente. Tinha que ser.
- , nem sonhe – alertou Tony ao parar ao lado do asgardiano, a concentração com que sua filha encarava a arma começando a incomodar. Tinha uma boa confiança nem , mas não podia negar que ela poderia perder a noção por um momento e se deixar levar pela curiosidade. O engenheiro sentia que ela era uma peça importante para descobrir como o cetro funcionava, só que não parecia uma ideia muito inteligente fazer aquilo no ar.
- Não acredito que seria algo arriscado, mas estou cansada demais para tentar alguma coisa – explicou a russa ao pai, mesmo que seus olhos não desviassem do brilho azul da arma – Estou realmente apenas olhando.
- É bom, não é? – continuou Tony para os dois homens, que também observavam o cetro, embora com menos vontade do que a ex-espiã – Estamos atrás disso desde a queda da S.H.I.E.L.D.... Não que eu não goste das nossas missões em conjunto.
- Não, mas isso encerra tudo.
- Assim que descobrirmos para que foi usado – lembrou Steve, emendando o comentário de Thor – Não falo só de armas.
- Armas deveria ser a minha jurisdição, mas eu também não compreendo como – soltou Tony cansado – Banner e eu vamos examiná-lo antes de devolver para Asgard. Tudo bem para você? Só alguns dias até a festa de despedida. Você vai ficar, não vai, T-Hammer?
- Sim, ficarei – garantiu o asgardiano, sorrindo com a ideia – A vitória deve ser honrada com festividades.
- É, quem não gosta de festa? – começou Tony, seu tom de voz deixando claro que iria implicar com alguém, e o alvo não costumava variar muito – Capitão?
- Espero que isso ponha um fim nos Chitauri e HYDRA – disse Steve sério, não conseguindo manter o semblante ao ouvir resmungar um “você deve ser divertido à beça em festas” – Então sim, festa.
- ? – Tony se virou para a filha – Vai ser pelo seu aniversário também. Uma menção honrosa, já que você quer manter a data de agosto.
- Wilson não me chama de Party Hard por nada – respondeu ela risonha, dando alguns tapinhas no ombro do pai enquanto se afastava do grupo – Vou tirar um cochilo enquanto a gente não chega, me chamem se precisarem de mim.
Acabou que mal dormira no restante do trajeto. Clint passara todo o percurso também acordado, e ela acabou por lhe fazer companhia enquanto os outros descansavam um pouco. A nave apenas ficou movimentada quando estava prestes a pousar na Torre, Natasha e Petr a postos para levar o arqueiro para o laboratório de Bruce, onde a Dr.ª Cho estava acomodada naquela visita, com o próprio Bruce os seguindo mais atrás e sem tanta pressa. Thor saíra logo em seguida, com a caixa do cetro nos braços, rumando para o laboratório de Tony, onde os estudos seriam realizados pelos próximos dias, deixando apenas o trio a bordo. Tony terminava de desligar o quinjet e Steve organizava os materiais médicos que foram usados, jogando uma embalagem pela metade de gaze em para que ela acordasse, segundos antes de Maria Hill subir a bordo, seu tablet contra o peito.
- O laboratório está pronto, chefe.
- Na verdade, ele é o chefe – corrigiu Tony, levantando da cadeira do piloto com cuidado, já que estava naquela posição há muito tempo – Eu só pago por tudo, e crio tudo, e faço todo mundo parecer mais legal.
- Ei, eu também ajudo – resmungou no meio de um bocejo, esticando os braços o máximo possível para trás de sua cabeça até ouvir o estralo alto, seu ombro relaxando com o alívio momentâneo. Ela já deveria saber que deitar naquele banco era uma péssima ideia.
- Strucker? – disse Steve, parando ao lado da ex-agente para receber mais informações enquanto seguiam para fora da nave.
- Está com a OTAN.
- Os aprimorados?
- Pietro e Wanda Maximoff.
- Falei que era outro Peter – riu ao alcançar a dupla. Por ter tido sua mente desestabilizada pelo cetro depois de conhecer o garoto, ficara difícil se lembrar de seu nome. Pelo menos não viajara tanto em dizer que era uma das variantes de Peter, assim como o nome de seu irmão.
- Gêmeos. Órfãos aos dez anos quando um míssil atingiu o prédio deles – continuou Hill, se saindo muito bem na sua tarefa de ignorar a mais jovem dos Stark, como já era de costume – Sokovia tem um passado difícil. O lugar não tem nada de especial, mas os países em volta, sim.
- O que temos sobre as habilidades deles? – questionou Steve.
- Ele tem metabolismo acelerado, homeostase térmica aprimorada. O lance dela já é interferência neural, telecinese, e manipulação mental.
Hill educadamente respeitou o turno de seu interlocutor na conversa, mas um breve silêncio confuso se instalou. Steve até chegou a olhar para em busca de termos mais simples e compreensíveis para leigos, apenas para vê-la também assumir uma expressão confusa, mas por não conseguir encontrar uma forma menos elaborada para explicar de imediato.
- Ele é rápido e ela é estranha – concluiu Hill, logo concordando com a escolha de palavras da secretária.
- Bem, eles vão aparecer de novo – suspirou o soldado, sinalizando para que a namorada entrasse primeiro no elevador.
- Aqui diz que eles foram voluntários para os experimentos do Strucker – comentou Hill, os olhos passando rapidamente pelas informações no tablete que carregava – É loucura.
- Com licença que dois dos Vingadores foram voluntários para os experimentos, mais respeito, por favor – resmungou ofendida, mal tendo tempo de pedir apoio ao homem ao seu lado porque ele já emendou em seu comentário:
- Que tipo de monstro deixaria um cientista alemão fazer experiência em si mesmo para proteger o seu país?
institivamente levou uma mão a boca, não conseguindo comprimir a risada debochada que lhe subiu pela garganta. Ela já amava aquele homem por inúmeros motivos, aí ele ainda vinha com aquele tipo de comentário e com aquela frieza bem controlada apenas para fazer com que ela se sentisse ainda mais orgulhosa da escolha que fizera.
- Não estamos em guerra, Capitão – Hill tentou consertar seu comentário infeliz, mas tudo que conseguiu foi um “eles estão” da dupla antes das portas do elevador se fecharem.
- Eu poderia te beijar até amanhã por ter abaixado a bola dela – comentou depois de um tempo, finalmente se permitindo rir. Tinha que agradecer aos céus por sua boa memória e pela imagem da Hill contrariada que não se desfaria tão cedo. Steve, por outro lado, não pareceu compreender logo de cara o comportamento da namorada.
- Você parece que ficou mais irritada com a Hill do que eu.
- Não confio nela para qualquer situação. Aquela mulher era o braço direito do Diretor da S.H.I.E.L.D. e tem zero empatia, uma visão fechada e egocentrista demais para tal cargo – explicou a mulher, se apoiando na parede às suas costas – Nunca entendi como ela chegou a tal lugar.
- Nunca tinha reparado nisso – confessou Steve, repassando mentalmente algumas memórias que tinha da antiga agente. Sempre soube que não se dava muito bem com ela, mas nunca chegara a sair em busca de um motivo. Sendo bem sincero, era fácil demais ela pegar birra com alguém e vice-versa, então nem dava muito para se sentir culpado por não ter procurado se informar mais sobre o relacionamento das duas.
Como o silêncio se manteve por mais um tempo, Steve logo assumiu que o assunto anterior havia sido finalizado, já que parecia ter aberto mão de seu turno na conversa, sendo assim, havia todo um leque de possibilidades a sua disposição, mesmo o que o soldado tinha em mente não envolvesse exatamente fala. A mulher não pareceu entender de imediato suas intenções quando ele parou bem próximo a ela, seu olhar baixo travado em seus olhos confusos.
- Temos assuntos pendentes que não estou muito afim de manter em espera – lembrou ele, assistindo com cuidado a compreensão se apossar do rosto da ex-agente – J.A.R.V.I.S., mantenha o caminho limpo para nós.
- Pelo amor de Deus, Rogers! – ofegou risonha, em sincronia com o aviso do sistema de que o corredor até o quarto compartilhado estava seguro – Tenho quase certeza que você também tirou um cochilo no caminho de volta, mas você não quer, sei lá, tomar um banho e dormir?
- Gostei da ideia do banho... Essa missão nem foi tão pesada, e Super Soldado, lembra? – insistiu ele, a voz tão baixa que apenas a audição sobre-humana da mulher poderia registrar, o sorriso sugestivo dele inconscientemente se espelhando em seus próprios lábios – Não é tão fácil assim me cansar.
chegou a rir descrente e balançar a cabeça apenas para fazer graça. As mãos do soldado estavam apoiadas na parede do elevador à suas costas, seu corpo preso entre os braços ainda protegidos pelo uniforme – não que ela estivesse planejando fugir ou algo do tipo. Aproveitando da proximidade, ela apenas inclinou a cabeça minimamente para frente, já sendo capaz assim de capturar o lábio do homem, que interpretou aquele sinal como permissão para iniciar o beijo que estava esperando desde que embarcaram de volta para casa, horas atrás. Seu peito vibrou com uma risada profunda ao ouvir ofegar surpresa quando ele encaixou uma mão da parte de trás de seu joelho, fazendo com que instintivamente suas pernas se fechassem ao redor da cintura dele.
- Não é muito minha cara fugir de um desafio, não é? – brincou ela, praguejando baixo quando Steve mudou os lábios para seu pescoço, agradecendo por todo seu peso agora ser responsabilidade dele, visto que o homem abraçar sua cintura com mais empenho e murmurando contra seu ouvido chegava bem perto de ser crueldade.
- Feliz aniversário, doll.

Capítulo 2

Naquela mesma noite, a maior parte dos Vingadores se reuniu no laboratório principal de Tony, não para assistir a dupla de cientista trabalhar, mas sim para garantir a segurança nacional, caso o experimento não saísse como planejado. Com o objetivo de tentar desvendar como a HYDRA estava utilizando o cetro para aprimorar pessoas, havia se voluntariado tanto para a parte técnica como para cobaia. Seu irmão não havia sofrido nenhuma mudança quando submetido àquele procedimento, mas era mais seguro que fosse ela na outra ponta dos fios. Petr não tinha tanto autocontrole como a irmã, era melhor não arriscar.
Todos assistiam a mulher andar de um lado para o outro, ajustando coisas que eles sequer conseguiam compreender, apenas cientes de que deveriam ficar atentos quando ela plugou um par de eletrodos nas têmporas, puxando a cadeira mais próxima para se sentar e ficar encarando a máquina. Os computadores que monitoravam ambos mostravam dados que apenas Tony e Bruce entendiam, ocasionalmente perguntavam algo para a russa, que se limitava a respostas curtas. Sua consciência estava fora de jogo, mas o procedimento não estava sendo exatamente uma disputa: assim como quando fora voluntária em Sokovia, o poder do cetro não lhe afetava, precisava de sua permissão, algo que em hipótese algum poderia conceder ali. tinha completa confiança em sua mente, mas sabia que o restante da equipe imediatamente esperaria uma reencenação do episódio de 2012, e aquela falta de confiança poderia vir a abalar sua concentração.
Além de que vai lá saber o que poderia ser alterado se recebesse poder da arma. Melhor deixar quieto.
Mesmo com toda boa vontade de , eles não conseguiram muitos avanços com os dados que coletaram, já que mal compreendiam nem a mulher nem a arma. Dessa forma, logo a equipe foi dispensada. e Steve passavam a maior parte do tempo organizando as informações que adquiriam nos últimos meses, garantindo que não haviam deixado nada para trás. Ocasionalmente, Clint, Natasha e Petr se ofereciam para ajudar, embora o russo da equipe na verdade passasse a maior parte do dia na academia com Thor. Bruce e Tony ficavam no laboratório principal, tentando aproveitar da melhor maneira que podiam o pouco tempo que tinham com o cetro, já que ele seria devolvido para Asgard no domingo.
- Você não vai incluir mesmo a ? – perguntou Bruce no dia seguinte, depois de ver mais uma simulação falhar – Ela entende isso tudo mais do que nós dois juntos.
- Conheço minha filha, ela vai ser a primeira dizer não – suspirou Tony, quase deitando em cima das folhas espalhadas pelo chão em que ele trabalhava – E ela está apenas fingindo que quer colaborar com o cetro, na verdade tudo que ela quer é ele bem longe daqui.
- Acha que ela estava fingindo ontem? – o cientista se virou surpreso, tendo que controlar sua expressão ao notar passando pela porta principal, seu olhar divertido passando por todo o espaço, propositalmente evitando o cetro em cima de uma das mesas. Um tanto nervoso, Bruce murmurou um tímido oi, aproveitando a distância da mulher para discretamente mudar a tela em que trabalhava para uma de análise – Decidiu se juntar a nós?
- Na verdade, fui eu que chamei... – explicou Tony, sinalizando para a filha se aproximar enquanto se levantava para buscar algo na mesa ao lado – Mas se quiser ajudar, não vamos achar ruim. A especialista no cetro é você.
- Posso tentar de novo, mas... O pisca-pisca e eu no momento não somos exatamente BFFs – respondeu , uma hesitação estranha na voz que fez Bruce ficar receoso e acreditar na constatação da mulher. Talvez fosse o comentário de Tony que estivesse bagunçando suas interpretações, já que dificilmente conseguiria flagrar a jovem mentindo – Para que me chamou aqui então, se não é pelo cetro? – estranhou ela, seu olhar se tornando desconfiado quando uma possibilidade lhe atingiu – Eu já te disse que não quero continuar o projeto da Dama de Ferro, não é? Eu não preciso de uma armadura, só me atrasaria.
- Você já deixou isso bem claro – resmungou Tony, a contragosto. Se sentiria muito mais confortável com algo mais resistente que um tecido protegendo a filha, mas não iniciaria aquela discussão novamente, pelo menos não ali – Desse projeto eu só vou levar para frente aquela arma eletromagnética, pode vir a ser útil.
- Seja feliz com aquilo, e sem a minha ajuda. Se eu me envolver, vou querer fazer mil testes e minha cabeça volta a latejar só de pensar nisso.
- Nós vamos diminuir a frequência – lembrou o homem, mal dando atenção ao que a filha dizia visto que finalmente encontrara o tablet que tanto procurava, o tirando de debaixo de uma quantidade absurda de papéis.
- Que para mim continua sendo muita alta, então melhor eu manter distância – concluiu , olhando com curiosidade o aparelho que agora seu pai lhe oferecia – E agora eu fiquei curiosa, já que zeramos as possibilidades do seu chamado.
- Eu estou reconstruind... Na verdade, construindo outra mansão Stark – explicou ele, escondendo as mãos nos bolsos da calça para disfarçar seu nervosismo, mesmo sabendo que a mulher facilmente detectaria aquilo caso quisesse – Dessa vez em New York mesmo.
- E por que me quer nisso? – questionou ela, sem seus olhos abandonarem os esquemas da construção mesmo sem absorver muitas informações – Não sou arquiteta, nem esse tipo de engenheira.
- Quero que você pense no que fazer com seu quarto.
Quando olhou para ele como se estivesse de repente sob a mira de uma arma, Tony riu de leve, se adiantando para uma mesa um pouco mais distante, fingindo trabalhar em algo. Bruce mais ao fundo sequer mais se dava ao trabalho de aparecer ocupado.
- Não é uma intimação, certo? Nem um convite – esclareceu Tony, girando algumas vezes a cadeira na qual se sentara, a postura a filha permanecendo inalterável – Os últimos meses morando juntos foi legal? Foi, mas você já é bem crescidinha e eu sei disso. Só que eu seria um pai horrível se não tivesse um quarto só para você na minha casa. Sabe, para caso você queria ficar depois de uma festa, sei lá. Até o Pete tem um.
- Você falou sobre isso com o Pete? – indagou ela no automático, apenas depois percebendo que não era algo tão surreal assim. Sendo bastante sincera, qualquer coisa que passava por sua mente no momento parecia ser algo de outro mundo, tamanho estado de surpresa e questionamento em que se encontrava. Era algo tão simples e idiota, e mesmo assim ela não tinha se dado conta até o momento, precisava de mais alguns instantes para voltar ao seu estado normal.
- Sim, falei. Ia falar com você primeiro, mas você estava ocupada – contou o mecânico, começando a ficar preocupado quando a expressão da filha não suavizou. Tinha algo além perturbando sua mente, e, sem pensar duas vezes, ele já checava os níveis de atividade do cetro – ? Está tudo bem?
Talvez tenha sido os primeiros sinais de desespero na voz de Tony que a trouxe de volta, rapidamente pedindo desculpas à dupla apreensiva antes de puxar a cadeira mais próxima e se jogar nela, abandonando o tablet na mesa ao lado.
- Sim, é só que... Acho que só agora que eu me dei conta de que terminamos o trabalho – confessou ela, sem pensar muito bem no que estava dizendo. Era um pensamento até que bobo que lhe atingira, ainda mais da forma que lhe afetara – Nós acabamos com a HYDRA, recuperamos o cetro... Quero dizer, Thor voltando para a Asgard, você mudando para a mansão nova, Clint voltando p... fazer sei lá o que ele faz durante as folgas, mesma coisa a Romanoff... Acho que me senti um pouco perdida de repente.
Ambos os homens a acompanharam no breve silêncio. Ela facilmente conseguiria pegá-los mentindo caso dissessem que em nenhum momento aquele pensamento os atingira. Estavam quase que há um ano naquela missão, e só agora conseguiram um desfecho. Era um tanto estranho pensar em cada um seguindo seu caminho, mesmo que fosse o mais natural e esperado, e exatamente o que iria acontecer.
- Não que eu não tenha notado que não fui incluído na lista, mas... – brincou Bruce, tentando aliviar o clima antes de tocar em um detalhe que praticamente piscava em sua mente, implorando para ser abordado – O que Steve planeja fazer?
- Não faço ideia. Não estamos conversando muito ultimamente – explicou ela, demorando mais do que se orgulhava para entender o motivo do sorriso sugestivo do pai, resmungando um “não nesse sentido” enquanto revirava os olhos – Quero dizer, um tempo atrás nós falamos de voltar para a estrada, mas... Faz meses. Bem antes de eu entrar no modo Hail HYDRA. As coisas estão diferentes agora.
- É o que você quer?
- Não sei – respondeu ela, uma sinceridade em sua voz que nenhum dos dois cogitou questionar – Sei que não quero voltar para a S.H.I.E.L.D., e duvido que eles fossem me aceitar de volta, vão dizer que estou permanentemente comprometida. Além de achar que também não me encaixo mais nos padrões deles.
- De qualquer jeito, você merece uma folga, . Tivemos um ano exaustivo, você em especial, então desacelera – Tony desconversou, parando às costas da filha e apoiando ambas as mãos em seus ombros, que relaxaram minimamente com o aperto do pai – Vai colocar suas séries em dia e cansar de dormir. Qualquer coisa, se o tédio ficar insuportável demais, Pepper sempre pode te arrumar um cargo.
- Acho que eu prefiro a S.H.I.E.L.D. – cortou o assunto de imediato, se levantando antes que Tony começasse a levar aquilo a sério e J.A.R.V.I.S. colocasse a CEO na linha. Não que a mulher não gostasse de trabalhar na empresa da família, mas definitivamente não queria passar por aquele estresse tão cedo – Vou trabalhar no meu quarto e deixar vocês em paz.
A dupla assistiu a mulher deixar o laboratório, mantendo o silêncio até mesmo depois que as portas se fecharam às suas costas. Bruce estava, para dizer o mínimo, intrigado. Claro que o cientista sabia que os poderes de muitas vezes ficavam o tempo todo ligados, mas que ela deixava em uma espécie de funcionamento em segundo plano, dando atenção a eles apenas quando lhe convinha. Agora ele não sabia dizer se a mulher estava tão distraída assim ou se Tony tinha aprimorado suas habilidades de esconder informações da filha àquele nível.
- Steve estava procurando um apartamento no Brooklin – comentou Bruce depois de um tempo, quando ambos já tinham voltado a suas tarefas. O detalhe importante era que tanto ele como Tony presenciaram o soldado fazendo suas pesquisas.
- É, eu sei – suspirou o engenheiro, desistindo de fazer a anotação que pretendia na folha a sua frente, girando a caneta entre seus dedos para tentar dispersar aquele nervosismo – Se eu interferir e dar merda, eles vão querer me culpar. Melhor que eles se resolvam.
Bruce apenas riu.
- Sua fé nos dois vira e mexe me impressiona.
- Só não consigo ver minha filha vivendo no subúrbio, ok? – se explicou Tony, revirando os olhos quando notou que Bruce não concordava com ele – Fazendo coisa de gente normal. Se eles fizerem isso, vão terminar em menos de um mês.
- Prefere que ela volte para Manchester? – provocou o cientista, sabendo que se tratava de um assunto bem delicado. Aquela família era um prato cheio para qualquer terapeuta, e Bruce sabia que o amigo às vezes se arrependia de ter escolhido logo ele para conversar sobre aquelas coisas. Sabia que no fundo, se Tony pudesse escolher, iria querer que as coisas permanecessem daquela forma: sua filha a no máximo alguns andares de distância, mesmo que ele não quisesse admitir. Ele prezava demais o relacionamento que agora tinham, mesmo que não fosse o melhor de todos, e a possibilidade de não ter a filha ao seu lado sempre que quisesse talvez o assustasse.
- Já reparou que ela nunca mais chamou o Wilson pelo primeiro nome? – comentou Tony de repente, seu tom de voz deixando claro que não estava mais a fim de tanta conversa – O máximo de distância que ela puder manter da Inglaterra, ela vai manter. Conheço minha filha, mesmo que você não acredite nisso.
- Eu nunca disse isso, apenas que ela não gosta de agir seguindo determinados padrões – lembrou Bruce, agora com mais cuidado – Ou vai negar que o passatempo preferido dela é mostrar que os outros estão errados?
Tony não respondeu àquilo, estendendo o tratamento de silêncio por um longo período, até ser obrigado a tirar uma dúvida com o colega, e o clima mais leve – na medida do possível – voltando a habitar o ambiente, ambos continuando seus trabalhos sem maiores interrupções, até o ponto que o sono não podia ser mais ignorado, assim como os preparativos para a festa de despedida.

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Nos últimos dias, Steve notara sem muita dificuldade algumas mudanças sutis no comportamento da namorada, mas acabou por optar em não a questionar. Muita coisa estava acontecendo naquela semana, de coisas simples a mais complexas, essas últimas sendo um pouco mais preocupantes, mas que acreditava que era melhor se ela comentasse sobre se sentisse a necessidade, não por ser pressionada. Tirando isso, na maior parte do tempo estava tudo na mais perfeita ordem.
Quando estava próximo do horário combinado para a festa, Steve começou a se ajeitar bem antes que a mulher, que continuou sentada na cama que dividiam enquanto trabalhava em um projeto que ela não explicara, mas que o soldado sabia que era da nova Mansão Stark, já que ouvira Tony comentar sobre algo desse estilo com Petr dias atrás. O motivo de não ter tocado naquele assunto ainda a cada dia o incomodava um pouco mais, já que não fazia ideia do que a mulher planejava fazer agora que as obrigações deles como vingadores haviam sido concluídas, e esperava que conversassem sobre isso nos próximos dias, já que na última semana ou eles estavam na companhia de muita gente, ou com relatórios demais para terminar e analisar. Com a partida de Thor no domingo, assim como a provável de Clint e Natasha também, teriam mais tempo livre, e menos desculpas para não tocar naquele assunto. Steve não sabia ao certo o motivo de estar tão tenso com aquilo tudo: eles não tinham obrigação de fazer tudo junto, e suspeitava que sabia disso também. O problema era que, nos últimos meses, tudo que os envolvia não era discutindo, mas apenas determinado pelas circunstâncias. Em nenhum momento desde sua volta, eles pararam para conversar de fato como que eles como um casal ficava, mesmo depois que toda a situação se acalmou. Era óbvio que estavam juntos, nenhum dos dois discordaria daquilo, mas deveria existir um limite para eles fugirem daquele tipo de conversa, certo?
apenas deu sinais de que iria se arrumar para a festa quando ele já estava pronto, lançando uma piscadela em aprovação depois de admirar a escolha até que simples de vestimenta que ele escolhera – a camisa azul coberta pela jaqueta de couro marrom com a calça jeans de lavagem escura –, logo dizendo que ele já podia subir se quisesse, que ela ainda demoraria um pouco mais. Steve até se opôs em um primeiro momento, mas já estava começando a ficar com fome por ter pulado o jantar, optando assim por se juntar à equipe e os primeiros convidados que já haviam chegado. A primeira coisa que Steve notou foi a ausência do anfitrião, Rhodes explicando logo que nenhum dos Stark costumava obedecer aos horários que estipulavam, que pelo menos uma hora de atraso era o mínimo que devia esperar.
Tony realmente esperava exata uma hora, ainda acrescentou alguns minutos a mais na conta, mas conseguindo a atenção de todos do jeito que queria quando finalmente resolveu comparecer, resultando em alguns comentários surpresos.
Até Steve estranhara a escolha do vestido, mesmo que não tenha chegado a comentar a respeito. Era um modelo até que justo destacando suas curvas, mas o decote não era profundo e chegava a ser discreto, a saia terminava um pouco acima dos joelhos, e as alças largas nos ombros terminavam por equilibrar a peça, que seguia o mesmo tom de chumbo por toda sua extensão. Para os padrões Stark, aquilo era roupa para ir à igreja. Até mesmo a escolha da maquiagem era um tanto inusitada, sem os lábios pintados de cores escuras, e os olhos até que discretos. O único detalhe que não surpreendeu foi a escolha do salto, que, se não deixava ela da mesma altura que Steve, chegava bem perto.
Alguns rostos conhecidos e outros nem tanto interromperam o trajeto de até o bar, onde o maior grupo de pessoas da casa estava concentrado, um ou outro mais bem informado até chegando a lhe desejar parabéns pelos anos recém completados, sem conseguir manter sua atenção por mais tempo do que isso.
Seu pai a recepcionou logo com uma taça de Martini antes que ela pudesse cumprimentar o grupo, interrompendo rapidamente a história que Rhodes contava, mas que talvez ele tivesse ter desistido de contar, já que ninguém pareceu muito surpreso com o seu desfecho. Thor foi o encarregado de encerrar o assunto, dizendo que era sim uma história muito boa, seu sorriso debochado não abandonando seu rosto nem quando voltava sua atenção para o copo de cerveja que não vira sequer uma vez vazio durante toda a noite.
- E onde estão as damas, cavalheiros? – perguntou Hill ao trio, enquanto eles ainda riam – Só estou vendo o Capitão acompanhado...
- O Wilson já chegou? – perguntou sem pensar duas vezes, seus olhos passeando pela sala em busca da dupla, só mais tarde entendendo o motivo do riso do grupo – Quero registrar que não estava fazendo piada, foi uma pergunta inocente em um momento ruim. Falo com vocês mais tarde.
Steve, Sam e Petr estavam assistindo um grupo de veteranos jogando sinuca, provavelmente esperando a vez deles. Steve foi o primeiro a avistar a mulher se aproximando, deixando os dois falando sozinhos e se adiantando para ela, pegando uma de suas mãos e a girando em um movimento de dança, puxando pela cintura em seguida, os braços dela apoiados em seus ombros em seguida como se fosse a coisa mais natural do mundo. Algumas pessoas ao redor discretamente comentavam entre si sobre o casal, outros nem tanto, mas eles não estavam realmente prestando atenção.
- Linda, como sempre – comentou ele em um sussurro, aproveitando enquanto ria em agradecimento para emendar o plano que ele e Petr trabalhavam desde cedo – Quer zoar com a cara do Sam?
- Você achar que precisa perguntar me ofende.
Acabou que o plano maligno não salvava , que acabou sendo a dupla de Sam para o jogo, comprometendo assim sua própria imagem se tentasse complicar a vida de seu parceiro. Steve e Petr, por outro lado, estavam mais do que felizes. Assim que as pessoas entenderam quem iria jogar agora, aos poucos elas foram se fechando ao redor da mesa, até algumas apostas começando a ser fechadas.
tentara trapacear na hora de decidir quem começava para criar uma vantagem logo de cara, mas Steve já esperava aquilo, sendo assim ele a começar a partida. Sam balançou a cabeça em negação quando viu três bolas seguindo diretamente para a caçapa, e diversas outras que pareciam fáceis até para ele.
- Quero voltar no tempo e perguntar para o eu do passado por que diabos ele achou que era uma boa ideia entrar nesse jogo com vocês... – resmungou ele, apoiando o queixo em seu taco enquanto assistia Steve rondar a mesa em busca de uma posição melhor – Os três são bons demais com ângulos.
- Eu sou do seu time, Wilson.
- Mas você sozinha não consegue equilibrar a habilidade dos dois.
- Steve, troca comigo – o soldado apenas ergueu os olhos para a mulher, continuando a se preparar para a tacada enquanto ouvia o que ela dizia – Eu vou dar na cara dele.
Acabou que o receio de Sam tinha muitos fundamentos, já que agora eles lutavam apenas para não perder tão feio assim. Como tinha um pouco mais de habilidade que seu parceiro, estava encarregada de atrapalhar os adversários, dificultando a tarefa deles de terminar logo o jogo, assim como deixando os dois sem outra opção a não ser ajudar o lado deles, mesmo que sem querer. Petr praguejara baixo depois que encaçapou sem querer uma bola adversária, ficando ainda mais emburrado quando sua irmã riu com gosto enquanto rodava a mesa para decidir qual seria o próximo passo. Não demorou muito para que ela localizasse o alvo, ficando com aquele mesmo não sendo um dos mais fáceis de sua vida.
- , essa não vai dar – aconselhou Steve, assistindo a mulher se sentar de lado na beirada da mesa – Tenta outra.
- Ah coração, você vai se arrepender de ter dito isso... – debochou , se debruçando ainda mais sobre a mesa enquanto fazia os últimos ajustes da tacada, esquecendo disso tudo quando sentiu alguém parar perto demais, apoiando até uma mão em sua coxa. Intrigada, a mulher corrigiu sua postura, voltando a ficar em pé, mas nem o soldado nem sua mão saíram do lugar – Posso te ajudar com alguma coisa, Rogers?
- S-seu vestido não é tão comprido, estou apenas impedindo a visão dos outros, pode continuar – explicou Steve, tentando inutilmente disfarçar seu constrangimento ao pigarrear, o que apenas fez com que algumas pessoas próximas rissem – Finge que não estou aqui.
- Barton, o Capitão está atrapalhando a jogada da minha parceira – Sam gritou pelo arqueiro, que conversava com a Dr.ª Cho do outro lado da sala – Pode isso?
- Rogers, você pode olhar, não tocar!
Um riso coletivo dominou o ambiente, principalmente com Steve fingindo uma expressão culpada e erguendo as mãos em sinal de derrota, mesmo que não tivesse se afastado de fato, mas optou por não reclamar. Ela estava ocupada demais pensando em como até o DJ da festa estava do seu lado. Quando as pessoas próximas voltaram às suas conversas a parte, ou a prestarem atenção na partida, uma música bastante propícia começou a ser tocada, com enrolando para terminar sua jogada apenas para que a sincronia com a letra fosse maior.
Não só ela havia encaçapado a bola que Steve duvidara, como também encurralara uma adversária, as pessoas ao redor soltando alguns gritos animados e algumas palmas.
- I live for the applause, applause, applause... cantou alto, acompanhando a letra de Applause, o que apenas fez aumentar a animação dos espectadores.
Animação que não durou muito, já que um pouco depois Sam encaçapou uma bola adversária por engano e em seguida Petr finalizou o jogo, eles tendo que liberar a mesa para as próximas equipes.
- Me dá um pouco – pediu um pouco impaciente, quando ela e Steve acabaram por se juntar a Thor e um grupo de veteranos, que discutiam a bebida asgardiana que o deus não deixava mais ninguém provar. Os veteranos concordaram com entusiasmo, se juntando aos pedidos que deixassem a garota experimentar, assim como eles.
- , eu não acredito que seja uma decisão sábia... – Thor começou com cuidado, sabendo que seria difícil a convencer do contrário, ainda mais que o soldado ao seu lado estava claramente tirando o corpo e deixando que ele se virasse.
- Steve escondeu aquela garrafa que você deu para ele. Deixa de ser ruim e me deixa experimentar – insistiu ela – Minha tolerância é alta.
Thor acabou por se dar por vencido, pegando um copo limpo na mesa e preenchendo metade dele com o líquido. pegou o copo com receio, até cheirando a bebida em um primeiro momento para já se preparar pelo que estava por vir, mas o perfume não parecia com nada que ela já sentira, o único jeito era experimentar logo.
- Isso é... doce – constatou ela, suavizando a careta de expectativa quando percebeu que o gosto não era forte, pelo menos não como o álcool humano – Parece xarope.
- , n...! – Thor estava pronto para concordar com ela, até seu rosto perder a cor quando a viu virar o copo de uma vez, os veteranos comemorando sua ousadia – Pelas barbas de Odin, isso não vai terminar bem.
- Enche o copo – exigiu ela, esticando o objeto em sua direção. A voz da mulher, eles logo puderam constatar, já parecia um pouco alterada – Qual é, Thor! Deixa de ser mole, passa para cá.
Em algum momento eles acabaram se separando, já que agora conversa animadamente com alguns colegas do andar de seu laboratório, assim como algumas pessoas que Steve jurava ter visto em uma das festas das Indústrias Stark, então assumia que se tratava de acionistas, ou filhos, talvez. Ele e Sam seguiram para a parte superior da sala, onde podiam conversar mais livremente. Como andara ocupado nos últimos dias, só agora que o soldado conseguira fazer um resumo bem por cima de como fora a última missão de alguns dias atrás, rindo quando ele se apressou em dizer que estava apenas mantendo a imagem ao dizer que estava decepcionado de não ter participado.
- Vingar é o seu mundo... E seu mundo é doido – brincou Sam, respirando fundo quando percebeu que aquele assunto acabara. Tinha algo a mais tumultuando os pensamentos de seu amigo, isso ele podia dizer com facilidade, e talvez pudesse dar um palpite no motivo – Ainda não achou um lugar no Brooklin?
- Não acho que eu possa pagar um lugar no Brooklin – retrucou Steve rindo. Ele não recebia exatamente um salário, e um dia sua conta bancária zeraria. Aquela cidade como um todo havia se tornado cara demais, ainda não fazia ideia do que faria dali para frente.
- Já pensou em rachar o aluguel com a ? A menina pode comprar a cidade inteira, se quiser – lembrou Sam, rindo da própria piada por ser a mais pura verdade. Quando seu amigo não o acompanhou, ele soube que estava certo desde o começo – Você não falou disso com ela, não é? Tipo, morar juntos.
- Tony está terminando a mansão Stark, acredito que ela vai continuar morando com o pai.
- Estamos falando da mesma pessoa? – retrucou ele de imediato, a ideia lhe parecendo surreal mesmo tendo passado pouco tempo em sua companhia – gosta da independência, sem ninguém no pé dela. A garotinha do papai já cresceu, e você sabe bem disso.
- Eu não sei... As coisas ainda estão bem confusas, tanto entre nós como na família dela – Steve tornou a suspirar, encontrando mais um detalhe importante – E ainda tem o Pete. Tony provavelmente vai querer ter os dois por perto por mais tempo.
- O Stark perdido... Não vou mentir, queria odiar o garoto, mas ele até parece legal – resmungou Sam, apontando com a cabeça para o local que eles abandonaram a pouco tempo, onde um novo grupo se divertia – Se eu esquecer a surra na sinuca que você ajudou ele a me dar, claro.
- Foi ideia da – respondeu o soldado de imediato, seu olhar travado em algum lugar aleatório a sua frente, mas um sorriso discreto lhe entregando.
- Uhum, sei – concordou ele irônico, seu tom de voz mudando ao ver subindo as escadas, rindo quando ela pareceu tropeçar nos próprios pés – Falando na princesa...!
- Lá embaixo, sozinhos no bar – disse a mulher de uma vez, parando entre os dois. Sam foi o que mais demorou para localizar as pessoas a quem ela se referia, já que não fazia ideia do que se tratava.
- Dr. Banner e a Romanoff...? – disse ele confuso, só depois entendo o sorriso travesso da Stark. Com aquela distância, Sam nunca iria conseguir ouvir o que eles diziam, mas ela conseguia e não podia estar se divertindo mais – Mentira...!
- Levou mais tempo do que eu me orgulho para perceber isso.
- Mentira...!
- É a coisa mais adorável que você pode presenciar nessa Torre, juro. Queria fazer piada, mas totalmente entrei no barco – comentou ela animada, fazendo a dupla rir – Preciso de ajuda para pensar no nome do ship.
- Vamos assistir de mais perto – sugeriu Steve, já a puxando pela cintura – Sam?
- Nah, aqui de cima consigo ver mais coisa – desconversou ele, olhando em seguida para o relógio – E acho que já está quase na hora de eu caçar meu rumo também...
- Passa a noite aqui – ofereceu , se soltando de Steve para abraçar o amigo – O que não falta é quarto vago.
- Eu meio que me ofereci para levar uma amiga para casa, se é que me entende... – brincou ele, rindo mais quando levou um tapa nas costas da mulher – É bom te ver, Party Hard. O Capitão fica insuportável sem você.
- Ei...! – reclamou Steve, levemente ofendido, logo relaxando os braços por saber que não tinha muito como se defender – Verdade, mas ei.
Mesmo depois de se despedirem de Sam, o casal demorou um pouco mais para se aproximar do balcão do bar, se divertindo pela conversa codificada de Bruce e Natasha, e agradecendo a audição sobre-humana que permitia que eles pudessem disfarçar que estavam prestando atenção em conversas alheias. Assim que Natasha se afastou, voltando a se juntar ao grupo maior que se acomodara no meio da sala, Steve parou ao lado do cientista, abordando o assunto da forma menos sutil possível, o que apenas fez que Bruce ficasse mais sem jeito, principalmente quando decidiu entrar na conversa.
- Você deveria dar ouvidos a ele... – foi a primeira coisa que ela disse, dando um tapa de leve no ombro do soldado – Ele é a autoridade mundial quando o quesito é “esperar demais”.
- Ei!
- Dois anos, Rogers. Foi o tempo que demorou para você me beijar. Na verdade, minto – continuou ela, ignorando os pedidos quase desesperados de Bruce para que eles não brigassem em público, especialmente que obrigassem que ele assistisse – Eu que te beijei.
- Lógico que n... – Steve abandonou a frase pela metade, sendo possível identificar o exato momento que sua mente tirou toda sua certeza – Meu Deus, foi você que me beijou!
- O que o cara a moda antiga está querendo dizer... – retomou o assunto principal, deitando no balcão para puxar uma garrafa das prateleiras de baixo, seu olhar nunca abandonando o soldado ao seu lado mesmo que estivesse se direcionando ao cientista – Você deveria tomar alguma atitude. É isso que você não fez ainda.
- Por que eu estou receoso de aceitar conselho de vocês dois? – Bruce tentou brincar, mas mais uma vez ele havia sido posto um pouco de lado na conversa, Steve cruzando os braços enquanto repassava suas últimas ações mentalmente em busca de algo a que a mulher pudesse estar se referindo, e falhando.
- Está tentando passar alguma indireta para mim, Stark? – perguntou ele por fim, ficando ainda mais desconfiado quando começou a rir.
- E desde quando eu sou do tipo de pessoa que manda indiretas, Rogers? Eu fui aprendiz do Gavião Arqueiro... – ela passou por Bruce, parando ao lado do loiro, o queixo apoiado em seu ombro – Eu sou tão direta quanto uma flecha.
- Você está bêbada – constatou ele de imediato, mesmo sem conseguir identificar o cheiro característico de álcool em seu hálito – Esse trocadilho foi ruim demais, você nunca abaixaria o nível assim.
- Não vou mentir, faz sentido. E bem, não é uma festa de verdade se você não tem um Stark bêbado... – comentou a mulher, aparamente pensativa, sequer se opondo quando Steve tirou a garrafa ainda cheia de sua posse e devolveu ao balcão, com cuidado tomando suas mãos nas dele e a puxando sem pressa, para o que provavelmente era o caminho para os elevadores.
- Que tal dermos boa noite e descermos, hm?
- Já está querendo terminar com a festa, Capitão? – soltou ela, em um claro tom de advertência, mas nem se esforçando muito para se desvencilhar dos braços do soldado quando ele conseguiu a prender em um abraço de lado. não tinha realmente chegado à embriagues, mas não podia negar que a tal bebida asgardiana não era algo que seu organismo estava pronto para processar. Apenas queria saber qual o limite de paciência do homem com amigos bêbados.
- Ou querendo começar outra – sugeriu Steve, sabendo muito bem que a mulher não cederia fácil, que teria que oferecer algo que atraísse sua atenção, sabendo que obtivera sucesso ao ver seus olhos se arregalarem em surpresa e seus lábios se esticarem em um sorriso divertido. Quando Bruce entendeu, soltou um nervoso "gente, eu ainda estou aqui".
- Gostei da atitude, para variar! – comentou ela, rindo ainda mais quando Steve indagou um “o que você quer dizer?” – Eu não gosto dessa expressão, mas na falta de uma vai ser ela mesmo: eu que uso as calças nessa relação.
- Beleza, eu realmente não quero participar dessa conversa – se apressou Bruce em dizer, pegando sua garrafa e já se afastando. Aquilo definitivamente duraria um bom tempo e havia um limite que ele podia ouvir e ainda poder olhar na cara dos dois depois – Boa sorte, Cap.
- Brucie...! De verdade, agora – ainda conseguiu ser mais rápida que o cientista determinado a se afastar o mais rápido possível, segurando seu antebraço e se distanciando alguns passos de Steve, a mudança de sua postura clara em todos os seus gestos – Vocês dois? É bem legal. E ela beija muito bem, vantagem para você.
- Verdade – concordou Steve, só depois se questionando como a mulher podia saber aquilo – Espera, o que?!
- Faz muito tempo, e estávamos sob disfarce – explicou ela, sua voz saindo um pouco mais alta do que planejava pelo riso que estava tendo dificuldades para controlar. Alguém precisava registrar a expressões de Steve e Bruce, aquilo precisava ser preservado – Você acha que eu iria beijar a Romanoff assim, do nada?
- Ouvi meu nome, e foi exatamente isso que aconteceu – contou Natasha, se apoiando na proteção do andar superior.
voltou a rir, sem negar nem concordar com a colocação da conterrânea se afastando da dupla assim que a primeira pessoa a chamou ao longe, deixando que os dois discutissem entre eles as informações que esperavam que o outro tivesse e como poderiam obter mais. Clint em algum momento foi incluso na conversa, mas logo disse que preferia ficar de fora, já que aparentemente estava de férias durante a tal missão, e que até agora tudo que ele teve acesso foi o relatório final que elas produziram e diversas versões diferentes que elas sempre alteravam quando questionadas. Era um beco sem saída e eles nunca descobririam de fato o que acontecera.
Um pouco mais tarde, praticamente todos os convidados já haviam se despedido e ido embora, com exceção de alguns que já podiam ser considerados de casa, além dos que realmente eram. O grupo havia se acomodado no conjunto de sofás do andar inferior da sala, mantendo na maior parte do tempo conversas paralelas, apenas em alguns momentos abordando algum assunto que atraia a atenção de todos, assim como Steve resolveu continuar uma discussão daquele mesmo dia, se virando inconformado para ao seu lado.
- Fui eu que te beijei, cacete!
- Você ainda está pensando nisso?! – disse ela descrente, achando graça tanto pelo homem ainda estar remoendo aquilo como por seu pai e Hill terem gritado “olha a língua!”.
- Lógico, você me fez duvidar da minha memória! – continuou Steve, depois de reclamar que ele deixara aquela advertência escapar – Agora estou duvidando da sua.
- O que está acontecendo? – perguntou Rhodes – Sinto que perdi alguma coisa.
- Eles estão discutindo quem deu o primeiro beijo, ou algo assim – explicou Bruce rindo, constrangido tanto por lembrar da conversa como por ter que contar para os outros – Já faz um bom tempo.
- Está brincando, né? Eles ficaram sem assunto para discutir? – resmungou Tony – Nunca mais deixem esses dois beberem.
- Eu te beijei primeiro, e depois você tomou o controle.
chegou a abrir a boca para retrucar, até finalmente entender ao que o soldado se referia, mesmo assim sua expressão mudando de encrencada para indignada em um piscar de olhos.
- Você está chamando aquilo de beijo?! – questionou ela, rindo incrédula quando ele concordou – Aquilo foi beijo de 2ª série e acho que nem eles beijam assim mais. Está vendo a barra? Não força.
- Eu não estou classificando o tipo de beijo, e você acabou de provar meu ponto.
- Aceita logo que você além de ter demorado dois anos, ainda esperou que eu te beijasse.
- Eu n...! – Steve estava pronto para continuar negando, até perceber que a mulher não lhe dava mais atenção e digitava algo em seu celular – O que você está fazendo?
- Ligando para o Wilson. Ele estava lá, ele decide.
Enquanto os dois se resolviam – chegaram em um consenso que aquilo não importava, e que aquela discussão ficaria para outro dia –, o tema da conversa passou a ser o martelo de Thor e como deveria ter um truque para apenas ele conseguir erguê-lo. Como Clint iniciara a discussão, ele foi o primeiro a ser convidado para tentar, o que iniciou uma nova brincadeira no grupo. Eles foram em sequência: Clint, Tony, Tony e Rhodes - com os braços das armaduras ainda, causou bastantes risos de pena –, Bruce e sua tentativa de fazer graça que quase resultou em levantando para abraçá-lo por “ser precioso demais para esse mundo”, e por último Steve.
O cara era o Capitão América, a lenda viva, a pessoa que todos esperavam tomar a decisão certa e normalmente tomava. Então sim, todos ficaram na expectativa quando ele se levantou. E essa expectativa mudou para tensão para certo trio que pensou ver o martelo se mexendo. em um primeiro momento se virou para o irmão, que também buscara nela alguma explicação sobre o que acontecera, ambos de virando em seguida para Thor, que ria fingido enquanto Steve se afastava. Ele estava assustado, isso eles podiam dizer.
O deus aproveitou quando se levantou para tentar disfarçar melhor sua surpresa, sorrindo satisfeito enquanto ela contornava a mesa para ficar de frente para o martelo, seus dedos até passando de leve por cima da tira de couro na outra ponta do cabo.
- Vai tentar, Lady ? – comentou ele, seu tom de voz deixando claro que a ideia o divertia – Você seria uma rainha memorável.
- Pode me chamar de conservadora, mas eu prefiro chegar ao trono à moda antiga – contou ela, se jogando ao lado do asgardiano no sofá, apoiando o queixo em seu ombro – Casando com o rei.
Tony foi o primeiro a começar a rir, dizendo que Steve precisava ficar esperto com sua mulher, ou logo seria trocado. Thor por sua vez não deu muita atenção aos colegas que riam e faziam piadas, sua atenção concentrada no que a mulher viera fazer do seu lado. Pelo menos com ela ali podia tirar a dúvida que agora o atormentava.
- Ele conseguiu levantar e fingiu que não? – perguntou ele em um sussurro, passando um braço por trás de seu ombro para a manter próxima, fingindo um abraço carinhoso.
- Eu não sei, vim aqui te perguntar isso – contou ela, uma confusão genuína em seus olhos que o deus sequer pensou em questionar, mesmo que a situação não parecesse normal – Não dá para ser meio digno, dá?
- Como você não sabe dizer se ele ergueu ou não?
- Vocês me embebedaram! – lembrou ela, já na defensiva – Capaz de eu errar meu próprio nome se me perguntarem.
- Conveniente, não?
- Você que me deixou beber!
Enquanto os dois continuavam na discussão, o restante do grupo paralelamente discutia que Petr e Natasha também tentar, que negaram sem pensar duas vezes, acabando que Clint voltou ao seu ponto de que tudo não passava de um truque, com Tony logo intervindo com suas teorias de que não passava de uma tecnologia de reconhecimento. Foi nesse ponto que a dupla voltou a prestar atenção no que eles diziam, cientes de que não chegariam a lugar nenhum com aquilo.
- Bem, é uma teoria muito interessante, só que eu tenho uma melhor... – suspirou Thor, deixando seu copo sobre a mesa e já esticando a mão em direção ao cabo do martelo, girando a arma no ar antes de continuar – Vocês não são dignos.
A sala então se encheu de risos debochados, que provavelmente teriam durado pelo resto da noite se um som estridente não tivesse feito com que eles se dispersassem, indagações tumultuadas em seguida sobre o que era aquilo. Tony foi o primeiro a reagir, tirando seu celular do bolso e tentando descobrir o que acontecera, mas não conseguiu se concentrar por muito tempo, visto que uma nova voz se fez presente, o homem se virando assim como os outros para a área dos elevadores, onde uma armadura aos pedaços da Legião de Ferro parecia estar apenas esperando pela atenção de todos.

Capítulo 3

- Não... Como poderiam ser dignos? Vocês são todos assassinos.
Quase que em sincronia, todos foram se colocando de pé, encarando o que parecia ser uma das armaduras da Legião de Ferro em estado precário, que mal conseguia ficar em pé sem cambalear para os lados. Steve foi o primeiro a se pronunciar, pedindo que Tony desse alguma explicação, ele por sua vez passando a pergunta para J.A.R.V.I.S., que se manteve em silêncio, apenas para deixar o engenheiro ainda mais intrigado.
- Desculpe, eu estava dormindo – contou a máquina, sua própria voz soando estranha aos ouvidos de todos, além do conteúdo de suas palavras. Ele soava genuinamente confuso – Ou eu estava sonhando acordado?
- Reinicie o sistema, tem um traje com problema – Tony proferiu a ordem mesmo sem obter alguma resposta de sua inteligência artificial, tocando no botão da tela vezes seguidas como se fosse resolver assim o problema. Quando percebeu que não adiantaria em nada, o homem olhou discretamente para filha, sinalizando com a cabeça em seguida a direção para seu laboratório. Não era muito indicado no momento fazerem movimentos bruscos, mas, se fosse necessário, com certeza conseguiria chegar antes de todos e saberia o que fazer.
- E tinha esse barulho horrível e eu estava preso por... cordões – a armadura parecia estar revivendo o momento, se estendendo em uma pausa longa enquanto parecia tentar recuperar o fio do pensamento – Tive que matar o outro cara. Ele era um cara legal.
- Você matou alguém? – questionou Steve, notando a sutil mudança na postura de todos, que agora estavam ainda mais atentos para os passos que precisariam tomar diante de um ataque, algo difícil de se desconsiderar agora que o intruso anunciava um assassinato no prédio. era a mais próxima a ele, mas não conseguiria garantir a segurança momentânea da mulher mesmo chutando a mesa para cima, já que ela estava entre os dois móveis localizados no meio da pequena sala. Sem contar que provavelmente o foco da ex-espiã era outro, já que à sua direita estava uma cientista sem o menor preparo para aquele tipo de situações, e, se o que quer que fosse aquele sistema tivesse tomado controle sob tudo o que tinha na Torre, precisava garantir sua segurança. Thor, Natasha, e Clint estavam tendo pensamentos parecidos, já que discretamente começavam formar uma barreira à frente de Helen, discutindo em silêncio as melhores rotas de fuga.
Dependendo do nível que a situação virasse, por mais bem treinados que fossem, a parte apenas humana dos presentes também teriam que buscar abrigo.
- Não teria sido minha primeira escolha, mas, no mundo real, as escolhas são cruéis.
- Quem te enviou?
A resposta para a pergunta do asgardiano não veio por aquela voz naturalmente robotizada, mas por uma humana com aqueles mesmos traços por se tratar de uma gravação. Aos poucos, eles foram se virando para Tony.
“Eu vejo uma armadura em volta do mundo”.
- Ultron – soltou Bruce depois de um tempo, como se de repente entendesse a situação, mesmo não fazendo assim muito sentido. Aquele trecho da conversa acontecera dias atrás, enquanto discutiam o projeto que parecia tão inalcançável, não dava para entender como poderia estar sendo ameaçados agora por tal criação.
- Em carne e osso. Bem, não ainda – brincou a armadura, gesticulando para o próprio corpo de metal – Não nessa crisálida. Mas estou pronto. Estou em missão.
- Que missão?
- Paz para nosso tempo.
Outras armaduras da Legião de Ferro invadiram a sala, atravessando as paredes e voando diretamente para o grupo, que teve que se proteger como pode. Steve chutou a mesa de centro para tentar criar um obstáculo, mas resultou tanto nele como voando alguns metros para trás de qualquer forma. Ambos estavam desarmados, então tiveram que improvisar da maneira que podia. O escudo de Steve estava no andar, só que longe demais. Clint parecia estar tentando ir atrás da peça, Natasha tentando lhe dar cobertura com a arma que pegara debaixo do balcão do bar, onde Bruce estava abrigado. em algum momento aproveitara de seu salto fino e resistente para fincá-lo no peito de uma das armaduras, danificando o reator permanentemente. Quando outra máquina tentou lhe acertar pelas costas, tudo que ela pode fazer foi se jogar no chão, torcendo para que a armadura que destruíra caísse sobre a outra, sua melhor chance de ganhar tempo, arrancar o outro sapato com salto intacto, e atingir as fiações do pescoço da armadura, depois abaixar novamente para evitar o gancho que a máquina tentara lhe aplicar.
- Isso foi dramático – comentou Ultron, quando o combate terminou, os vingadores ofegantes olhando ao redor para ver se estavam todos bem e a situação realmente contida – Me desculpe, sei que vocês têm boas intenções. Só não pensaram direito. Vocês querem proteger o mundo, mas não querem que ele mude. Como a humanidade está salva se não tem permissão para evoluir? Com isso? – ele se abaixou, erguendo uma das armaduras pela cabeça e esmagando seu capacete com os dedos de metal – Essas marionetes? Só há um caminho para a paz: a extinção dos Vingadores.
Thor foi o que reagiu mais rápido, seu martelo despedaçando a armadura depois de atingir a máquina em cheio no peito, mas isso não impediu de continuar a ouvir sua voz repetindo aquelas palavras, quase como se cantasse. Aquela medida do asgardiano não tinha muita valia, se ele era uma inteligência artificial, com certeza tinha um plano de fuga pela internet.
Sem muitas palavras, todos se direcionaram para o laboratório de Tony para buscar respostas sobre o que acontecera. Thor se desligara do grupo em algum momento que não conseguia se lembrar, mas também não deu muita atenção. Pela primeira vez em muitos anos, ela estava realmente se arrependendo de ter bebido, já que agora não conseguia confiar em seus sentidos.
Tony e Bruce explicaram a história da melhor e mais rápida forma possível, ignorando os olhares nada amigáveis que recebiam de seus colegas.
- Vocês já tentaram desligar e ligar de novo? – questionou Petr depois que pareceram ter terminado, a dupla de cientistas se viraram lentamente para ele – O que foi? Esse não é o procedimento padrão para qualquer coisa tecnológica?
- Você é meu irmão, Petr. Te chamam de Soldado Corvinal – resmungou , nem se dando ao trabalho se olhar para o homem, julgando bem mais proveitoso continuar a procurar informações – Isso é uma vergonha. Pelo menos tente soar inteligente.
- Mas vocês já tentaram?
- Não temos um botão, Pete – Bruce encerrou o assunto, se virando em seguida para a mais nova dos irmãos – , conseguiu alguma coisa?
- Não... Além de nos ameaçar, ele bagunçou o Wi-Fi... Agora sim ele mexeu com algo perigoso – respondeu ela, revirando os olhos quando um grupo considerável a repreendeu por não estar mantendo o foco – Que é? Ninguém mexe com meu Wi-Fi... J? J.A.R.V.I.S.?
Quando não teve nenhuma resposta, se virou para o pai. O comentário de Clint sobre Ultron ter dito que matara alguém de repente fez todo o sentido do mundo. Antes que Tony ligasse a representação 3D de J.A.R.V.I.S., ela já estava com os olhos arregalados travados em um lugar aleatório, alguma parte de sua mente se recusando a processar as informações. J.A.R.V.I.S. era parte do círculo pequeno que ela considerava sua família, era difícil se lembrar de um tempo em que ele não estava lá e nem se recordava de sua criação. Por alguns segundos ela chegara a considerar o pai insensível por expor aquele holograma no meio de todos. Era como olhar um corpo recém-morto.
- J.A.R.V.I.S. era a primeira linha de defesa – lembrou Steve, julgando errado a mulher ao seu lado balançar a cabeça em descrença – Tentou desativar o Ultron, faz sentido.
- Não, não faz.
- Ele podia ter assimilado o J.A.R.V.I.S. – sentindo que não iria conseguir terminar o raciocínio, Bruce tomou a dianteira, mesmo estando tão horrorizado como ela – Isso não é estratégia, isso é... raiva.
Os passos duros e apressados de Thor atraíram a atenção de todos, o clima ficando ainda mais tenso ao notarem que ele já se adiantara e trocara suas roupas midgardianas por seu traje de guerra asgardiano. Ninguém falhou em perceber a hostilidade que o deus transmitia, mas a dupla de irmãos foi a primeira a reagir, já que conseguiram com maestria traçar os passos que ele daria com antecedência.
Eles apenas se diferenciaram em prioridades e métodos de abordagem.
Enquanto Petr se adiantara para mover Tony para uma área levemente mais segura – às suas costas e pelo menos um metro a mais longe de Thor –, avançara diretamente para o asgardiano, permitindo que ele se iludisse que encontrara uma brecha em sua defesa com obter sucesso em fechar a mão redor do pescoço desprotegido da mulher. Seu alvo era o pai, mas a filha deveria ter envolvimento também, não fazia diferença. Ele chegara até a conseguir a erguer do chão antes de se contorcer e passar uma perna por cima do braço e parando o pé em sua garganta, aproveitando da gravidade para girar seu corpo e levar ambos ao chão.
- Eu sou a menos paciente dessa família, Thor – avisou ela, depois aplicar a chave com mais perfeição e segurar por alguns instantes apenas para mostrar que deveria ser levada a sério antes de libertá-lo – Então sugiro que se expresse com palavras, e gentis, de preferência.
- Sai do caminho, Stark – exigiu ele enquanto se levantava – Me deixe resolver isso.
- Foi mal, cara. Não parece que você está muito afim de conversar – retrucou a mulher, suas ações contradizendo sua postura defensiva: a pouca distância que existia entre eles foi cancelada pelos passos descuidados de , que em nenhum momento quebrou o intenso contato visual – Mas se você quer continuar a desperdiçar energia com socos, por mim, ótimo. Ou podemos nos focar em resolver a porcaria do problema.
- está certa – Petr se apressou em acalmar a situação, mesmo que sua vontade fosse bater a cabeça da irmã na mesa mais próxima. Não se controlava violência com violência, o que diabos ela estava pensando? Se tivesse mais tempo, tentaria descobrir o motivo de
- Mas é claro que estou certa!
- Respire.
- Estou tentando!
- O rastro esfriou a uns 160 km indo ao norte – informou Thor, por algum motivo parecendo se dirigir apenas a ela – E ele está com o cetro. Temos que recuperá-lo, de novo.
- Nós temos um uma inteligência artificial psicopata com a porcaria do cetro e você acha que eu estou feliz com isso? Para de olhar assim para mim! – rosnou a mulher, sem se opor quando seu irmão a guiou para longe do asgardiano.
- Não entendo, você criou esse programa – comentou Helen para Tony, ganhando um silêncio geral para continuar – Por que ele está tentando nos matar?
Tony começou a rir logo em seguida, com Bruce inutilmente pedindo que ele parasse. A explicação que o engenheiro dera não convencera nem a própria filha, pelo contrário. Ninguém ali estava feliz, e, se fossem comparar, era sem sombra de dúvidas a pessoa mais insatisfeita ali. Steve acabou por tomar a dianteira no final, colocando todos para rastrearem Ultron de alguma forma antes que ele resolvesse atacar de novo, e assim a equipe se separou. Precisavam estar preparados para uma partida a qualquer momento, então trocar as roupas de festas e acessórios por uniformes e armamento era uma boa pedida.
O grupo se dispersou com facilidade, apenas os dois cientistas permanecendo mais próximos, a forma tensa como se movimentavam deixando claro que tinham coisas a discutir, algo que aparentemente podia ficar para depois, já que ambos inconscientemente seguiam para a direção de .
- Eu não quero nem falar com vocês agora – avisou ela, parando rapidamente apenas para mostrar que realmente não estava a fim de conversa – Não tenho tempo para isso. Tenho que consertar a bagunça que fizeram.
- ... – insistiu Bruce, se arrependendo por isso no exato momento que ela desistiu de seguir o caminho que planejava. A forma como seus ombros se movimentaram já adiantava que seu humor não era dos melhores, e que nada muito melhor estava por vir.
- Certo, talvez eu tenha tempo para gritar um pouco – ela voltou atrás, cruzando os braços em frente ao peito mesmo sem precisar intensificar sua postura de repreensão – Eu tive que interferir lá em cima porque vocês seriam condenados por um ponto de vista, mas vocês sabiam muito bem o que estavam fazendo, não é?
- Você está sugerindo que nós queríamos criar um robô assassino? – rebateu Bruce sem pensar duas vezes, ciente de a mulher não interpretaria positivamente seu tom irônico, mas ele já estava começando a ficar sem paciência também. E disso ele tinha bastante.
- Não estou colocando intenções em cheque, mas vocês sabiam que as chances de dar merda eram enormes, e que ninguém iria concordar. Exatamente por isso não contaram disso para mim, não? – acusou a mulher, e a instantânea falta de resposta da dupla foi o suficiente para que ela continuasse, depois de soltar uma risada sarcástica e nada feliz – Nos últimos três dias, tudo o que vocês fizeram foi me tirar da jogada porque sabiam que eu iria explodir esse prédio se fosse necessário para parar isso. Toda a baboseira de “como você quer o seu quarto?” e “o que Steve vai fazer?” foi manobra para me deixar o mais longe possível do laboratório. Vá em frente e minta na minha cara, diga que estou equivocada.
- Eu estava legitimament... – Tony tentou se defender, mesmo sabendo que seria brutalmente interrompido em seguida.
- Como eu disse, não estou julgando intenções, mas que vocês quiseram juntar o útil ao agradável, isso vocês fizeram – a pausa estava ali, à espera de réplica, e ela nunca chegou. Tony apenas desviou o olhar, sem ter como escapar daquela. Sabia desde o começo que era um erro envolver sua filha naquilo, e agora teria que lidar com as consequências. Na ausência de respostas, apenas riu sem humor – E por algum motivo, sinto que a porcaria da bomba ainda não terminou de explodir na nossa cara... Vão encontrar a porcaria do robô psicótico.
Um pouco de paz e silêncio era tudo que a mulher desejava, mas a ausência da voz prestativa de J.A.R.V.I.S. quando entrara no elevador apenas fez com que se irritasse ainda mais. Chegava a ser ingenuidade ter acreditado que as coisas permaneceriam na calmaria depois dos meses que tivera, que poderia finalmente ter um pouco de descanso. Ela sabia exatamente no que tinha se enfiado desde o começo, e naquela vida não existiam folgas, formas de pular fora. Sempre tinha a próxima missão, e um certo cansaço começava a dominá-la. Sempre fazendo as mesmas coisas, nunca conseguindo um resultado definitivo. Quase que destinada a correr atrás do próprio rabo, sem chegar a lugar nenhum.
Seu humor estava uma maravilha, por isso não estranhou quando a porta de seu quarto se fechou com um estrondo muito maior que de costume.
- Ei, esqueceu a sutileza na cozinha? – gritou Steve do banheiro, que se assustara de leve com a movimentação repentina no outro cômodo. Sua sentidos ainda estavam bastante atentos, à espera de qualquer outro tipo de ataque, e definitivamente não tinha ajudado em nada com aquela barulheira no quesito se acalmar.
Mas se acalmar era algo que ele teria que fazer de qualquer jeito, já que a mulher estava utilizando a vez de estar de cabeça quente, e ambos naquele estado era perigoso.
- Ah, Rogers, não começa você também, não!
- Opa... O que foi que eu fiz? – estranhou o soldado, voltando para o quarto com uma toalha jogada por cima dos cabelos úmidos, interrompendo todo seu processo de limpeza antes que perdesse a chance de intervir. estava jogada na cama que dividiam, o rosto virado para o teto e o peito subindo e descendo no ritmo de sua respiração acelerada – , fala comigo.
- Desculpa, não era para eu gritar com você – pediu ela depois de um tempo, se sentando no colchão que não tinha mais os lençóis tão bem organizados. O movimento exasperado de suas mãos passando pelo rosto e cabelos expressou muito bem todo o seu cansaço – Entrei no modo grito e as vezes é difícil sair.
- Com quem você estava gritando?
- Tony e Bruce – respondeu ela, pedindo em seguida para que ele ao menos deixasse a tolha molhada na cadeira, não ao seu lado na cama, quando se sentou próximo a ela – Odeio quando não me contam as coisas, principalmente quando eu poderia ter descoberto se tivesse sido um pouco mais atenta. Isso podia ter sido evitado com tanta facilidade...
- Sabe que se culpar desse jeito não vai ajudar em nada – lembrou Steve, nada contente com a forma que a mulher estava encarando a situação. Ele estava irritado também, sabia que tinha que tomar cuidado para não fazer tudo se tornar ainda mais destrutivo, e agora temia que não fosse ter aquele tato.
- Ah, vai ajudar, sim – retrucou ela sem hesitar, se colocando de pé para se trocar também – Algo desse gênero nunca mais acontece de novo, não no meu turno.
Steve optou por ficar em silêncio depois daquela declaração, apenas avisando que estava subindo para se juntar a Hill nas buscas, uma ordem disfarçada de pedido para que ela não demorasse muito para subir também. A equipe inteira precisava estar focada para essa missão de última hora. Ultron era problema deles, e precisava ser parado o quanto antes.

Capítulo 4

Como esperavam, Ultron estava agindo. Diversos laboratórios ao redor do mundo foram saqueados, e, de acordo com as vítimas que sobreviveram aos ataques, os irmãos Maximoff estavam com ele, apenas para tornar tudo menos problemático, claro. Uma pista apareceu junto com aquelas informações, o recado amigável que Ultron deixara na cela de Strucker depois de o matar sendo o suficiente para eles saberem onde procurar. Era nessas horas que arquivo físico era bastante útil, já que todas as informações digitais sobre o barão haviam sido perdidas depois do show da inteligência artificial psicótica.
Depois de um tempo de pesquisa, eles chegaram ao nome de Ulysses Klaue, a marca em seu pescoço no dialeto de Wakanda sendo o suficiente para suspeitarem que o traficante tinha algum estoque de vibranium, e que deveria ser disso que Ultron estava atrás. E assim que eles terminaram voando em direção à costa africana.
O local era uma área de sucata, o traficante estava num navio que levava o nome de Churchill, que não passava de uma fábrica de armas. Não foi difícil nem para ou Petr perceberem que Klaue já estava com outros visitantes, e que parecia que não estava correndo tudo tão bem assim, já que Ultron acabara de cortar o braço do traficante. Aquela definitivamente não era uma transação pacífica.
- Stark é uma doença! – grunhia a inteligência artificial, sem perceber os heróis se aproximando com cautela.
- Ah, Junior... – brincou Tony, antes de pousar, mais à frente do grupo – Assim magoa o papai.
- Ele vai ficar de castigo, não é? Caçula só pode ter privilégio quando se trata de mim... Posso instalar o Baidu nele? – se juntou ao pai, atraindo a atenção principalmente da outra dupla de irmãos – Ligeirinho.
- Ivanova – devolveu Pietro no mesmo tom, se afastando ligeiramente da irmã para uma tentativa falha de intimidar a mulher – Ou prefere Stark agora?
- Sempre preferi.
Como de costume, Bruce estava na nave à espera do Código Verde, se a situação pedisse por aquilo. Clint, Natasha, e Petr estavam posicionados estrategicamente próximos ao grupo principal, já que, além de precisarem se preocupar com Ultron, ainda tinham os capangas de Klaue, que não demorariam muito para entrar em ação, sem se importar em quem atingiriam. Como a questão ali era um tanto pessoal, foi Tony que ficou de enfrentar Ultron, ainda mais pela maior parte do combate ser aérea. Um grupo de armaduras avançou em direção do trio de heróis, e foi a primeira a conseguir se livrar deles e ir em direção aos gêmeos, mesmo sabendo que se tratava de uma abordagem arriscada. A HYDRA nunca deixara ela e a garota no mesmo ambiente com medo de resultados catastróficos, e agora a ex-assassina estava apostando todas as suas fichas em que os poderes – pelo menos os mentais – da Maximoff não iriam funcionar nela.
- As coisas não precisam ser desse jeito, Pietro – arriscou começar da forma mais amigável que a situação permitia, nem um pouco confortável em ter que enfrentar duas crianças. Claro que não se tratava da pessoa mais otimista e entusiasta sobre como todas as pessoas podiam ser boas, mas, se existia alguém com uma excelente e extensa experiência com ingenuidade, era Stark – Acreditar que tudo é preto e branco te deixa muito sucessível para manipulações, e é isso que Ultron está fazendo. Essa não é a forma de consertar as coisas.
- Que bom que não é conserto que procuramos.
Mesmo se esforçando ao máximo para conseguir acompanhar a menor movimentação do garoto, foi difícil conseguir bloquear o golpe que ele desferira, sua força aumentada pela velocidade a lançando contra uma das barras de proteção. Quando voltou a ficar de pé, já não sabia mais dizer com precisão onde estava Pietro, e ela nem tinha tempo para isso, já que tinha que parar a outra metade daquela dupla. Steve tentara avançar na garota quase que ao mesmo tempo que , ambos sendo atingidos pela rajada de energia que fez com que voassem alguns poucos metros para trás.
- Você está bem? – perguntou o soldado, estranhando quando a mulher não levantou de imediato para continuar a luta. Seu olhar era determinado, sua concentração em localizar a garota que não estava mais em seu campo de visão – Thor e eu lidamos com os robôs, os outros com os homens do Klaue, e você vai atrás da Maximoff. Consegue fazer isso?
se pôs de pé em um pulo, Steve também se distanciando quando outra armadura avançou contra eles. Steve pulara por cima do robô e encaixara seu escudo nas articulações de seu pescoço, que cedera quando a mulher abaixou o corpo para um potente chute lateral.
- Todos os sentidos ligados, Cap – ordenou , antes de sair do fogo cruzado e tentar achar a pequena feiticeira. Não demorou muito para que Steve pedisse atualização de status para Thor e ele comunicasse que a garota estava tentando dominar sua mente, e o silêncio que se estendeu em seguida foi o suficiente para confirmar que ela tinha obtido sucesso.
Por precaução, deixou que seus poderes fluíssem com mais liberdade em suas veias, a ardência característica daquele brilho azul atingindo seus olhos fazendo com que ela piscasse algumas vezes a mais do que o habitual. Steve pediu que ela tentasse apontar a localização dos gêmeos, mas era difícil demais. O melhor palpite que ela podia ter era quando sentia um membro da equipe se comportar de forma estranha, apontando que mais um tinha sido atingido, e só ela sabia como isso estava a irritando. Aquela garota estava ferrada quando conseguisse colocar as mãos nela.
Não demorou muito para Wanda escolher a mulher como a próxima vítima, tendo que utilizar de reflexos rápidos para desviar do cotovelo de que tentara lhe acertar o rosto. Suas mãos ainda estavam envolvidas pela energia vermelha quando a garota recuou alguns passos, tentando entender o que acontecera. Até aquele momento, apenas Ultron era imune aos seus poderes mentais, e ela nunca acreditava muito quando Strucker dizia que seu maior desafio seria tomar a mente de Dominik Ivanova, ou qualquer fosse o nome que ela optava por usar. O brilho azul intenso de seus olhos parecia debochar de sua tentativa, a convidando a tentar novamente, mesmo parecendo já saber qual seria o desfecho.
Wanda podia não saber lutar, mas aquela desgraça de espécie de escudo que ela podia criar era bastante útil, e estava tendo dificuldades em conseguir encaixar um bom golpe. Sua atenção dividida em tentar manter um mapa mental da movimentação de Pietro estava atrapalhando demais seu desempenho. Se pelo menos tivesse um parceiro disponível, a tarefa de dominar a garota ficaria consideravelmente mais fácil, só que eles que estavam em maior número do que ela, não o contrário. até conseguiu prever a movimentação de Pietro e tentar se adiantar para a investida dele, mas não foi tão bem-sucedida como esperava. Wanda a jogara contra o irmão, o impacto assim sendo amplificado. A mulher caiu de barriga para baixo e até que não demorou para se levantar, só que a dupla não estava mais ali, e mais alguém tinha caído.
Steve não entendera como fora parar ali. Também não se lembrava de onde estava antes, mas uma sensação estranha dominava seu corpo, lhe avisando que algo estava muito errado.
Uma música alta ecoava pelo ambiente cheio de pessoas que o soldado não conhecia. Não era uma música atual – parecia uma das músicas agitadas que se ouvia quando ele era mais jovem, de volta à 1930. Os trajes das pessoas a sua volta também eram daquela época, contrastando com o ar moderno de um dos andares privados da Torre dos Vingadores. Steve se sentia perdido, algo ruim se juntava em seu peito, quase tomando conta de suas ações e fazendo com que deixasse o local, até que dedos frios se fecharam ao redor de seu antebraço, por alguém as suas costas.
- Está pronto para nossa dança?
E lá estava Peggy, exatamente como sua memória lembrava, até a mesma cor vibrante de batom nos lábios que traziam um sorriso convidativo para combinar com a mão estendida que esperava pela resposta. Seu olhar seguia de um para o outro, completamente atordoado, até que o som de uma foto sendo tirada às suas costas junto com o flash forte fez com que sua atenção se dispersasse, seu batimento cardíaco já acelerado entrando em um passo ainda mais rápido quando sua mente não soube diferenciar de uma bomba.
- A guerra acabou, Steve – garantiu ela, refletindo o mesmo olhar sofrido e ansioso que o rosto do soldado mostrava – Podemos ir para casa. Imagine.
O som de explosões voltou a ser ouvido, os instintos de Steve implorando para que fossem levados a sério, que daquela vez era realmente um ataque. Ele acabou por confiar naquela voz em sua mente, mais uma vez dando as costas a Peggy para procurar qualquer indício de que estavam sofrendo um ataque, algo que nunca encontrou.
Mas avistou vítimas.
Uma mulher parecia estar inconsciente nos braços de um homem que tentava a manter em pé, uma mão segurando com empenho sua cintura enquanto outra cobria o meio de suas costas, de onde saia um líquido escuro que não parecia ser o vinho que ocasionalmente caía sobre alguém e fazia parecer um ferimento. Era sangue. A voz do homem ecoava pelo salão em um volume ainda mais alto do que a música explodia de alto-falantes, pedindo por socorro que ninguém ao redor se dispunha em dar. Parecia que todos haviam entrado em um acordo silencioso de ignorar a dupla, ou simplesmente não conseguiam os ver. Não demorou para que o olhar do homem encontrasse a única pessoa que acompanhava a cena, todo o ar escapando do peito de Steve ao finalmente reconhecer não só ele, mas a mulher que escorregara de seus braços e caíra no chão com o rosto virado em sua direção, os olhos que ele passava tanto tempo admirando agora sem brilho nenhum.
Outra explosão fez o chão tremer antes que ele conseguisse dar um passo em direção a e Bucky na esperança de constatar que tudo não passava se uma má interpretação de sua mente, mas uma mão garantiu que ele não sairia do lugar. Steve até chegou a se virar para pedir que a pessoa o soltasse, só que não encontrou ninguém perto o suficiente. A própria Peggy não estava em nenhum lugar próximo que seus olhos alcançavam, e, quando se lembrou de quem tinha que socorrer, também não encontrou a dupla. As pessoas da festa, entretanto, dançavam agora com um entusiasmo mais do que antes.
- Estou te procurando há eras, Rogers!
A voz às suas costas era tão conhecida como sua própria, mas a imagem não lhe era tão familiar: o cabelo escuro em um corte mais curto, os lábios pintados de vermelho, uma camisa branca simples e uma saia comprida de cintura alta, algumas marcas de expressão um pouco mais fundas próximas aos olhos e nos cantos dos lábios, uma camada leve de maquiagem que tentava cobrir profundas olheiras e falhava. Aquela não era a versão de que ele conhecia, embora seu sorriso continuasse o mesmo, assim como o brilho divertido em seus olhos.
- O pessoal está brincando dizendo que você está velho demais para essas coisas e está tentando fugir.
- Talvez – Steve não sabia como responder, mas as palavras saíram de sua boca, quase que como vontade própria. Antes que pudesse se questionar pelas suas ações, os braços de foram lançados ao redor de seu pescoço, e como de costume, sua mente resolveu parar por alguns instantes e se dedicar apenas a ela.
- Podemos ir para casa, se você quiser – sugeriu a mulher, sussurrando contra seus lábios – Deixar eles serem feliz com as piadas hoje... Deixe que eles te chamem de velho. Você é meu velhote.
Steve sorriu concordando. Ambos seus braços se moveram com o intuito de puxá-la mais contra ele, mesmo que fossem se movimentar em um ritmo muito mais lento que a música pedia, só que Steve pareceu abraçar o ar. Antes que pudesse entender o que acontecia, a batida ritmada da música se transformou em sons abafados de explosões, e pouco a pouco as pessoas começavam a deixar a sala, que lhe pareceu inacreditavelmente fria, mesmo com a luz amarelada que atravessava as amplas janelas do andar. , ele demorou para perceber, não estava mais a sua frente. Ela caminhava com passos lentos até a janela mais próxima, deixando um rastro de sangue que parecia sair de uma mancha em suas costas e percorrer verticalmente do tecido branco de sua camiseta e pela saia até atingir o chão. No piso brilhoso, armas estavam jogadas de qualquer jeito: pistolas desmontadas, flechas quebradas – até mesmo seu escudo com o metal contorcido estava estranhamente largado no chão, com algumas gostas de sangue de quando pulou pacientemente o objeto.
Três ou quatro vezes Steve tentou chamá-la, apenas para descobrir que sua voz não saia. Quando pensou em se adiantar na direção da mulher, sentiu a presença de mais alguém, se virando apenas para deixar que seu queixo caísse alguns bons centímetros.
Perto do elevador estava parado sua versão antes do soro, magrelo e com baixa estatura.
- Está fazendo de novo, Starkie.
se virou com um sorriso triste para trás, e então Steve percebeu como estava equivocado: aquela voz não era sua; embora fosse magrelo, o garoto parecia saudável, a estatura compatível com sua pouca idade. E a maior diferença eram seus olhos – não azuis e pequenos como os seus, mas como os olhos grandes e escuros de .
- Chegou mais cedo hoje, Jay – murmurou ela, passando as mãos demoradamente pelo rosto cansado – Se tivesse avisado, tinha ido te buscar.
O garoto deixou que sua mochila caísse de seus ombros, parando ao lado do que parecia ser os restos do que um dia fora o capacete da armadura de Tony. Sem desviar dos objetos no piso, o garoto caminhou rapidamente até a mulher, parando próximo a ela, ambos silenciosamente admirando a visão da cidade.
- Mãe? – arriscou ele, claramente desconfortável – O pai não voltou ainda, não é?
- Ainda não.
- Mãe...?
- Sim, James?
- Ele não vai voltar, não é? – não respondeu de imediato, e tomado pelo desespero ainda mais pela temperatura diminuindo sem piedade, Steve tentava gritar palavras aleatória, querendo atrair a atenção dos dois.
- Não. Ele não vai voltar – disse ela por fim, seus olhos frios pareciam tentar expressar algum sentimento, mas falhavam.
- Desde quando você sabe disso? – indagou o garoto, um tom de acusação em sua voz que ele tentara maquiar, mas sabia que não iria passar despercebido. , por sua vez, apenas respirou fundo antes de se agachar a frente do filho, garantindo assim que nenhum deles teria agora que abaixar ou subir demais o olhar.
- Desde antes de ele partir.
- Por que não me contou?
- E ser aquela que destruiu sua esperança? – retrucou , um riso na sua voz que soou falso demais – Já é difícil o bastante ser quem te colocou nessa bagunça.
- Não foi você sozinha.
- Mas sou eu que ficou para trás, não é?

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estava um pouco mais desesperada do que queria admitir. De toda a equipe, apenas ela, Clint, e seu pai estavam de pé – todos os outros estavam fora do jogo. Felizmente, o arqueiro conseguira desestabilizar a garota Maximoff, e duvidava que eles voltariam para lutar. Agora Tony estava tentando conter o Hulk, enquanto e Clint tentavam recuperar os membros caídos. Eles estavam em um tipo de transe poderoso, não respondiam a nenhum tipo de estímulo, e pelo menos não apresentavam resistência quando alguém tentava movê-los, mesmo que não ajudassem em nada.
- Clint, vai ser necessário nós dois para carregar o Thor – gemeu a mulher, que equilibrava precariamente Steve sob seus ombros – Ele é mais pesado que o Rogers e eu estou quase quebrando aqui.
- Não é hora para chamar ninguém de gordo, .
- Nem quero imaginar quanto mais esses caras pesariam se estivessem acima do peso...
e Steve caíram com um baque alto, e Clint quase se preparou para debochar dela até vê-la presa debaixo do corpo do soldado, que tinha ambas as mãos ao redor de seu pescoço. O arqueiro até considerou intervir, mas a mulher pediu que ele fosse logo buscar Thor. Não era tão recorrente como ela acordando com dificuldades de distinguir sonho e realidade, mas Steve também tinha seus momentos, e ela aprendera a lidar com eles com o tempo. Dessa vez era um episódio engatilhado por um terceiro e de uma forma muito invasiva, mas a mulher esperava que fosse ser como qualquer outro para contornar.
- Steve, sou eu – disse ela com calma, sequer tentando lutar contra o aperto do homem. Suas mãos estavam erguidas entre os dois, em sinal de rendição – Tevie? O que quer que você tenha visto, não é verdade. Preste atenção em mim.
Não demorou para que o soldado a soltasse, se sentando no chão de qualquer maneira, recuando até suas costas colidirem com o metal do quinjet. Ainda havia um vestígio de pânico em seus olhos que Steve não conseguia disfarçar, sentimento que parecia se tornar mais palpável quando tentava focalizar no rosto da mulher. não percebeu aquilo de imediato, cometendo o erro de forçar sua presença e pedir atenção. A forma que Steve recuou amedrontado ao sentir os dedos da mulher em seu braço fez com que também se afastasse, arrependimento claro em todos seus gestos.
- Tudo bem, sem toque – garantiu ela logo em seguida, antes mesmo de abaixar suas mãos e partir para alguma outra tarefa. Steve pareceu mais aliviado com a nova distância criada.
Natasha e Petr já estavam seguros na nave, e com certeza Clint iria precisar de ajuda com o asgardiano, e ainda tinha que torcer para seu pai estar tendo sorte com o Hulk. Se preocupar com os Maximoff e Ultron estava fora de cogitação no momento, e mesmo assim parecia uma escolha arriscada. O androide planejava algo e cada célula de seu corpo estava em alerta. Seu pai fizera a péssima brincadeira de Ultron se tratar de um Stark mais novo, e aquela ideia fazia seu estômago se revirar mesmo tendo entrado na onda. Se ele tivesse só um terço do dom destrutivo que ela e Tony possuíam, o estrago já seria grande.

Capítulo 5

A cena toda fazia com que seu sangue gelasse nas veias, e isso só se intensificava ao reconhecer a pessoa ajoelhada em frente de todos, de cabeça baixa, algum ferimento profundo escondido pelo cabelo já que havia um rastro de sangue que passava por sua nuca e sumia por debaixo do uniforme surrado. Tony se aproximou com passos desesperados, passando um braço por de trás dos ombros da filha, a inclinando para estudar o seu estado, a mão trêmula passando pelo seu rosto ferido. O pouco ar que seus pulmões comportavam lhe escapou assim que notou seus olhos abertos brilhando com um azul fraco, aos poucos se extinguindo.
- Pai... – Tony estremeceu ao ouvir a voz distante da filha, principalmente por não ter visto seus lábios se mexendo. já não respirava mais, ele tinha certeza disso – Pai...
- Pai! – arriscou chamar mais alto, aumentando o aperto no braço do homem que acordou assustado, fazendo com que ela voltasse a um tom de voz mais calmo e amigável – Foi mal...! Já chegamos. Você está legal?
Tony concordou sem muita firmeza, logo desconversando e pedindo informações sobre onde estavam de fato. Imaginando que Clint queria presenciar a reação do restante da equipe à existência de sua família, apenas repetiu a fala do arqueiro, de que se tratava de um refúgio, e seu pai não insistiu mais no assunto, ainda mais que todos já tinha desembarcado.
Assim que seus pés tocaram o solo da fazenda, um sentimento familiar até demais se acomodou em seu peito, algo que sempre acontecia em suas visitas, mas daquela vez estava amplificado. Tudo parecia estar da mesma forma que ela se recordava, mesmo a última vez que estivera ali sendo algo como dois anos atrás, e, em contrapartida, ela definitivamente não era a mesma pessoa. parou de andar de repente quando estava a poucos metros da entrada da casa, fazendo com que toda a equipe parasse um passo depois ao perceber sua para súbita. Clint já sabia do que se tratava, mas se virou para a mulher a questionando silenciosamente.
- Eu n... Só me dá um minuto. Eu preciso... de um minuto.
Petr, mesmo sem entender o que acontecia, ficou para trás com a irmã, sentando ao seu lado nos degraus de madeira da entrada. Como estava fazendo ele perder as explicações que o restante da equipe já estava ou iria receber, fez um breve resumo sobre a quem pertencia aquele terreno e quem eram seus moradores. Claro que o russo não acreditara de princípio, mas o nível de cansaço da mulher estava tão explícito que ele duvidava que teria energias para inventar alguma história, então assumiu aquilo como verdade. A única pergunta que ela realmente fugiu foi sobre o motivo de não ter entrado junto com os outros, desconversando dizendo que não era nada importante. O homem até teria insistido mais um pouco se passos pesados e nada calmos não tivessem atraído a atenção dos dois, ainda mais porque vinham na direção deles.
- Thor? – estranhou eles, principalmente quando Steve apareceu em seguida – Aconteceu alguma coisa?
- Eu vi alguma coisa naquele sonho, preciso de respostas e não vou encontrá-las aqui – explicou o deus, e, como o trio não expressou resistência, logo ele girava seu martelo, voando para longe em seguida.
- A garota manipula medos, o que ela pode ter mostrado para ele ficar daquele jeito? – Petr pensou alto, percebendo isso quando Steve e se viraram para ele, mantendo o silêncio para que ele se explicasse – Autoconhecimento, gente. Nós sabemos muito bem qual é nosso maior medo, mas ele disse que viu algo, como se fosse algum tipo de visão, não um pesadelo. Ela tem poder para isso?
- O que diabos você viu? – acusou sua irmã. Sua teoria, talvez por causa da exaustão que sentia, parecia bizarra demais, ele tinha que ter algum fundamento.
- Eu? Nada que não já me perturbe de olhos abertos ou fechados, pode ficar tranquila – garantiu ele, de repente sentindo falta da terceira voz da conversa. Na verdade, ele só ficara curioso o voo inteiro – Algo que queria compartilhar, Capitão?
Antes mesmo que Steve pudesse entender o que fora questionado, o som estalado da mão de colidindo com o braço do irmão em sinal de repreensão, que ele não tinha o menor direito de ser invasivo daquela forma.
- Não, não tenho – disse o soldado por fim, aproveitando para mudar de assunto e questionar a inquietação de – Estou assumindo que você já sabia do segredo do Barton.
- Sim, e é melhor eu entrar logo...
- Está pronta para isso? – perguntou Petr, a seguindo para dentro da casa – Eu estou meio nervoso por você, já.
- Não, mas eu preciso muito ir no banheiro – brincou ela, mesmo sendo verdade. Seria melhor primeiro sair correndo para o banheiro mais próximo, e talvez até fazer uma parada na cozinha, mas tinha que encarar os Barton primeiro, o resto era sua recompensa. Tinha que ser como arrancar um curativo, um movimento rápido e único, por isso sua coragem diminuiu um pouco quando precisou parar mais uma vez, ao notar que Steve estava fazendo o caminho contrário ao deles – Stevie, está tudo bem? Não vai entrar?
“Podemos ir para casa, se você quiser”.
“Não, ele não vai voltar”.
“Steve, olha para mim”.
Mesma voz, três sentimentos diferentes expressos em seu timbre, e duas das falas se repetiam apenas em sua mente sem pausa prevista, a terceira com um tom de preocupação que fazia com que parasse seu caminho ainda desconhecido, tendo que lutar contra todos os seus instintos para erguer os olhos para a mulher, imagens diferentes dela que sequer existiam se sobrepondo a um ponto que chegava a deixá-lo tonto. A construção no fundo ainda não ajudava em nada, fazendo piorar ainda mais aquele sentimento de ser algo inalcançável, um cenário a qual ele nunca pertenceria.
- Vou dar uma volta pelo terreno, volto daqui a pouco.
A dupla de irmãos assistiu o soldado se distanciar, ambos chegando à conclusão de que não era uma boa ideia se opor a seu desejo.
- Você sabe que ele está escondendo alguma coisa, certo? – comentou Petr, quando eles voltaram a se virar para dentro da casa. apenas revirou os olhos e respirou fundo.
- O que seria de mim sem você para me dizer o óbvio?
- Você fica cega quando se trata desse cara, então sim, você estaria em sérios problemas sem mim.
Aquilo foi o suficiente para que ela parasse mais uma vez, sua impaciência crescendo exponencialmente quando o irmão ainda ousou dar mais dois passos despreocupados antes de também parar.
- Do que você está falando, Petr?
- Nada que deveríamos discutir aqui, você já tem coisa demais para ocupar sua mente – lembrou ele, sinalizando com a cabeça para o portal que dava para o que ele julgava ser a sala da casa, de onde já conseguia ver Clint tentando descobrir o que eles planejavam fazer.
Engolindo em seco, ultrapassou o irmão e tomou a dianteira, adentrando apenas um passo para dentro da sala e esperando pelo melhor.
- Olá, família! – disse com um falso tom de animação, ganhando a atenção de todos assim que entrou na casa. Levando em consideração o tempo que ficara longe dali e os motivos de tal afastamento, ela esperava que Laura fosse começar a gritar com ela, e que culparia a instabilidade da gravidez depois. Só que fora um Barton diferente que correra em sua direção, ainda usara o sofá de apoio no processo para pular em seus braços, se agarrando a ela com tanto desespero que chegou a assustar.
- Ei, Cooper? – ofegou , apoiando um braço nas costas do garoto para garantir que ele não cairia, a outra mão pousando sobre sua nuca, mantendo sua cabeça encostada na dela. Buscando apoio, a mulher olhou para os pais da criança mais ao fundo. Seu desespero apenas aumentou quando ouviu um soluço baixo – Coop, voc... Clint, ele está chorando!
Em segundos, o arqueiro estava ao seu lado, na sua melhor postura de pai preocupado, alisando as costas do filho enquanto perguntava o que tinha acontecido. Até segundos atrás, antes da entrada da dupla de ex-agentes, Cooper estava perfeitamente normal, rindo e brincando com a irmã. tentava acalmar o menino, se agachando com ele ainda em seu colo quando percebeu que ele ficava mais alterado toda vez que tentava responder suas perguntas, não se surpreendendo nem um pouco quando ele não a soltou mesmo estando mais uma vez próximo do chão.
- Clint, o que eu faço?! – sussurrou ela com urgência, voltando a ficar de pé, o aperto do garoto se tornando ainda mais empenhado. O arqueiro apenas pediu que ela continuasse falando com ele, até mesmo buscando direcionamento com Laura em seguida, mas a mulher estava tão confusa quando ele. voltou a respirar fundo, se concentrando em deixar a voz o mais amigável e clara possível – Coop, você precisa me falar o que tem de errado, tudo bem? Por que você está chorando?
- V-você estava com problemas – respondeu o garoto, que afundou ainda mais seu rosto na curva do pescoço da mulher quando ela começou a rir, o que fez ele chorar ainda mais – Para de rir!
- Cooper, eu sempre estou com problemas, você já me conhece – replicou ela sem conseguir voltar à seriedade, virando o pescoço o máximo que a articulação permitia para tentar ter ao menos um relance do rosto do garoto – Me fala o que realmente aconteceu.
- Papai disse que você estava com problemas muito ruins dessa vez, e que não achava que você iria voltar.
- Qual é, Coop! Ele estava brincando – garantiu ela – Às vezes ele se irrita comigo, mas você sabe que ele me ama.
- Não, ele não estava – insistiu ele, e algo em sua voz fez com que a mulher parasse e levasse o que ele dizia a sério. Seu riso antes era de nervoso, mas agora ela sentia que realmente tinha algo atormentando o menino – Ele estava falando com a mamãe, os dois estavam chorando. Ele disse que não iriam te encontrar v... viv...
Sabendo que o garoto não ia conseguir terminar a frase pela forma que tremia, apertou mais seu corpo em seus braços, olhando rapidamente para o casal Barton apenas para sinalizar que teriam uma conversa bem séria mais tarde. Ela já estava cansada de dizer que precisavam tomar cuidado que estavam criando dois pequenos espiões naquela casa, e era certeza que eles não esperavam uma das crianças tentando ouvir uma conversa daquelas.
- Certo. Cooper, olhe para mim – disse a mulher, agora com um pouco mais de firmeza, tirando os braços do redor do garoto para afastar com delicadeza as pernas dele que se fecharam ao redor de sua cintura, se abaixando um pouco até que seus pés tocassem o chão. Quando ele já estava seguro no solo e não se opôs, ela retirou os braços de seu pescoço. O choro do garoto havia se transformado em algo mais controlado, e ele ainda fungava um pouco, sua cabeça se mantendo baixa o tempo todo – Cooper Barton, eu disse para você olhar para mim.
Mesmo relutante, ele ergueu o olhar para a mulher, não conseguindo manter o contato visual quando ela esboçou um sorriso talvez para incentivá-lo, mas ela logo segurou seu queixo para que a posição não mudasse tanto, seus olhos logo voltando para os dela. Quando sentiu que ele não tentaria mais fugir, ocupou seus dedos em limpar os rastros de lágrimas no rosto do garoto, sua confiança no que fazia apenas voltando quando ele pareceu se acalmou de fato.
- Você está me vendo, não é? Eu não vou a lugar nenhum – a voz firme e clara, sem nenhuma hesitação. O olhar que em nenhum momento ameaçava se afastar. Precisava transmitir confiança, fazer com que ele se sentisse confortável. não fazia ideia de tudo aquilo estava saindo, ainda mais com sua mente uma bagunça, mas parecia estar surgindo efeito – O que aconteceu já foi, tudo bem? Eu voltei já faz meses! Você tem meu número, assim como a Lila, podia ter me ligado, se estava tão preocupado. Ou falado com seus pais.
Cooper assentiu sem muita firmeza, fungando de leve e passando as costas da mão no nariz. Levemente orgulhosa de suas próprias ações, abraçou o garoto, beijando rapidamente sua têmpora antes de afastá-lo mais uma vez, jogando todo seu cabelo para trás e segurando seu rosto com ambas as mãos.
- E eu te avisei, eventualmente todos meus homens acabam chorando. Mas você tem que parar logo, ou começa a me irritar – ela começara com a voz amigável, passando para um tom um pouco mais psicótico enquanto apertava as bochechas da criança, que riu de leve – E você é novinho demais para eu poder te socar, então para.
- E eu estava quase falando que você estava levando jeito para a coisa... – suspirou Clint, erguendo as mãos e rumando para a cozinha, sinalizando para que os visitantes acompanhassem seus passos.
- E você, Lila? Não chora por mim e não me dá nem um beijo?! – resmungou brincando, tendo que se afastar de Cooper para receber a garota que não hesitou em pular em seu pescoço. Rindo satisfeita, ela ergueu os olhos para a matriarca da família, que assistia tudo com sua expressão séria. A ex-agente então esboçou um de seus melhores sorrisos – Oi, Laura.
- Você me dá mais dor de cabeça do que meus filhos, sabia disso? – resmungou a morena mais velha, sua seriedade se esvaindo quando viu se pôr de pé ainda com sua filha ainda pendurada no pescoço, girando a criança para suas costas antes de se adiantar para abraçá-la – Duas quase mortes por ano é mais do que eu aguento, você se controla.
- Mamãe, a tia Starkie pode dormir no meu quarto? – perguntou Lila para Laura, que não teve a chance de responder, já que se intrometeu.
- Tia? – repetiu a mulher, olhando feio para a criança que apoiava o queixo em seu ombro – Que história é essa?! Estamos no mesmo time, vocês não podem me jogar para o time dos adultos.
- Quanta maturidade, – gritou Petr da cozinha, o grupo restante rumando para lá. Os quatro homens estavam jogados nas cadeiras da mesa de jantar, o cansaço impresso em todos os seus gestos. Lila desceu das costas da mulher assim que chegaram no cômodo, permitindo assim que ela ocupasse a cadeira ao lado do irmão, que colocou a mão sobre seu ombro quando ela deitou sobre a mesa. Esse gesto não passou despercebido por nenhuma das crianças.
- Esse é seu namorado?
- Ew – resmungou os dois, voltando a erguer a cabeça – Não, esse é meu irmão.
- Mais um Starkie? – disse a garota, animada com a ideia. até chegou a abrir a boca para explicar a situação, mas desistiu da ideia.
- Na verdade, não, mas vocês não vão prestar atenção na minha explicação então... – suspirou ela, voltando a descansar a cabeça sobre o tampo de madeira.
- Por que nunca trouxe ele antes?
- Ele é tímido – foi a primeira desculpa que pensou, logo desconversando ao ergueu o braço e apontar para Tony, que ocupava o lugar em frente ao seu – Mas esse é realmente outro Starkie, é meu pai.
- Falando em namorado, cadê o Rogers? – perguntou Tony, depois de acenar para as crianças, que chegavam a olhar para ele com admiração. No fundo, ele estava achando um pouco de graça da situação. Até aquele dia, nunca fora apresentado como pai, era sempre que era apresentada como filha. Filha essa que deu a resposta mais vaga possível.
- Foi dar uma volta.
- Ele está bem? – Clint se juntou à conversa, mas não especificou exatamente ao que se referia, mesmo que todos compreendessem. Quem caíra da feitiçaria da garota Maximoff ainda estava visivelmente abalado, não era uma boa ideia se referir àquilo com todas as palavras.
- Eu só ajo como se soubesse de tudo, não se esqueçam – suspirou , rindo em seguida quando Natasha reclamou que ela estava se apossando de suas falas sem pedir permissão – Ah, verdade. A minha é “eu só ajo como se soubesse o que estou fazendo”, não é? Foi mal...
- Acho melhor vocês subirem e tomarem um banho, descansar um pouco – sugeriu Laura, recebendo apenas resmungos arrastados em concordância – e Nat ainda lembram onde ficam tudo?
- Sim, dona.
Como contavam com poucos banheiros, uma ordem foi improvisada depois de um pouco de discussão. Se tivesse usado o argumento de ser a mais nova do grupo, talvez tivesse conseguido furar a fila e aproveitar a água quente que não duraria para sempre, mas, como Steve ainda não tinha voltado, aceitou que os outros passassem na sua frente e foi atrás do soldado. Mesmo já começando a esfriar assim como o sol se aproximava do horizonte, ela optou por tirar pelo menos a parte de cima de seu uniforme, mantendo apenas a calça e a regata que sempre usava por baixo.
Não demorou muito para que conseguisse encontrar o soldado, que estava apoiado em uma das cercas do terreno, parecendo bastante entretido com os passarinhos que voavam de um galho para outro nas árvores ao redor. Seu escudo não estava mais em suas costas, e sim descansava a seus pés. A própria parte de cima de seu traje também não estava mais em seu corpo. Aparentemente ele e tiveram a mesma ideia.
- Rolou um sorteio para saber quem usava o chuveiro primeiro, e você meio que ficou por último – comunicou a mulher, assim que parou ao seu lado.
- Por que não estou surpreso? – ele riu de leve, ciente que algo daquele gênero poderia acontecer. Os métodos da equipe quando queriam ser justos nas escolhas sempre favorecia quem estava junto no momento, era quase regra, uma tradição a ser seguida. Steve estava prestes a perguntar como ela não tinha ocupado o banheiro antes de todos quando notou que não estava mais ao seu lado, voltando a respirar aliviado ao notar ela a alguns passos de distância, rumando para a segunda construção do terreno – Ei, aonde você vai?
- Quero checar alguma coisa, vem comigo.
desacelerou o passo até que o homem caminhasse ao seu lado, se recusando a dar maiores explicações. Clint tivera sua diversão em ver a equipe reagir a sua família, agora ela teria a dela. Sabia muito que seu sorriso travesso estava apenas deixando o soldado mais intrigado, e até chegou a esquecer disso quando desenrolou a corrente que mantinha as portas fechadas, sua atenção completamente tomada enquanto fazia uma contagem rápida dos bichinhos no cercado e até reconhecer um deles.
- Olha só, a Galinha Tony não está mais doente! – constatou ela, deixando um Steve atordoado para trás – Sim, Clint nomeou galinhas por nós.
- Isso é... estranho.
- Lembro que ri por dois dias quando ele me contou. A Galinha Fury tinha até um sobretudo! – contou a mulher, de repente ficando pensativa – Devo ter foto disso em algum lugar... Clint fala que elas se comportam melhor do que a gente.
- Bem, ele teria problemas se fosse tentar fazer o almoço com a gente – brincou ele, seu sorriso criando mais confiança e se alargando um pouco mais com o riso dela em concordância. Eles se mantiveram daquele jeito por mais alguns instantes, assistindo à movimentação das galinhas que não sabia mais dizer qual era qual com tanta facilidade como antes. Por estarem sozinhos e afastados dos outros, parecia um bom momento para tentar explicar o que vira naquele maldito pesadelo, mas o menor pensamento de falar sobre aquilo já fazia com que ele travasse. Sabia que estava à espera de ele se sentir confortável para falar sobre aquilo, mas Steve não conseguia, principalmente porque não conseguia compreender o que aquilo tudo deveria significar.
Thor saíra em busca de respostas sobre o que vira, mas o que ele poderia buscar com base no que vira?
- Melhor entrarmos logo – lembrou , seus dedos passando rapidamente pela extensão do braço do soldado antes terminar sua mão, um movimento praticamente natural de tão recorrente, mas que naquele momento apenas fez com que ele se sentisse culpado – Se demorarmos mais, capaz de ainda termos que dormir no sofá.

Capítulo 6

Ao retornarem para a casa, a maior parte da equipe já estava mais adequada ao ambiente, ferimentos cuidados e uniformes trocados por roupas civis. Apenas Natasha e Bruce ainda não haviam descido, e o restante ajudava na cozinha com o jantar que teria que ser feito em muito mais quantidade do que de costume.
- O que vai ter de sobremesa, mãe? – perguntou Cooper em determinado momento, quando e Steve já tinham entrado na cozinha e perguntavam das decisões que o restante da equipe tinha ficado de tomarem sozinhos.
- Depende do que você quer fazer – respondeu Laura, rindo quando o garoto revirou os olhos – Pega a para ajudar.
A mulher riu ainda mais ao ouvir reclamando, nem precisando se virar para saber que a mais nova tinha sua expressão inconformada estampada no rosto. Cooper olhou pedinte para a mulher, que bufou antes de ir junto com ele procurar algo que não fosse tão difícil de fazer devido as poucas habilidades culinárias de ambos.
- Posso saber por que vocês ficam com as camas? – indagou Petr depois de um tempo, um pouco mais alto que o resto da conversa que mantinha com Tony e Steve – Sorteio é mais justo.
- Apenas uma pergunta: vocês querem dormir comigo, com o Steve ou entre vocês? – se intrometeu na conversa, desviando os olhos do livro de receitas – E já aviso que dormir com o Steve é a mesma coisa de dormir do lado de uma fornalha. Deve dar para manter uma cidade pequena em funcionamento com o calor que ele emana só de noite.
- Eu fico com o sofá – disseram os dois em uníssono.
- Sai daqui, Petr, eu sou mais velho – Tony se apressou em dizer antes que o mais novo pudesse contra argumentar – Mereço mais conforto. Eu te sustento!
Acabou que a organização para a noite ficou exatamente como esperava: Steve e ela ficariam com um dos quartos, enquanto Natasha e Bruce ficariam com o outro, Tony ganhara justamente o privilégio do sofá, e Petr tinha ainda o luxo de poder escolher entre dormir no quarto das crianças, ou em algum amontoado de cobertas no chão da sala. Como parecia uma boa oportunidade de atormentar o pai de sua irmã, acabou optando pela sala.
- Tem que ser nessa ordem mesmo? – a pergunta de Cooper atraiu a atenção de Steve, que deixou de lado a conversa que mantinha para assistir a dupla pensativa mais no canto da cozinha. Talvez fosse sua mente querendo lhe torturar, mas até aquele momento o soldado nunca reparara em como agia perto de crianças. Por sua fama de imatura e irresponsável, sempre imaginara que ela não se dava bem com mais jovens, mas aquela cena aparecia para contrariar tudo aquilo. Talvez pudesse se tratar apenas de uma exceção, que com as crianças de Clint ela fosse mais paciente e receptiva, mas nada daquilo impedia Steve de repassar aquelas imagens que expressavam parte de seus medos, assistindo toda a cena com um sorriso discreto e triste nos lábios.
Ele não pertencia àquele ambiente.
- Se a receita está falando... – respondeu , olhando por cima do ombro do garoto a página que pretendiam reproduzir – Ninguém pode culpar a gente se seguimos a receita, certo?
- Bem pensado! – os dois pareceram entrar em uma sintonia maior no momento, cada um trabalhando em uma parte diferente da receita, até Cooper parar confuso, coçando a nuca – Como que derreto manteiga?
- Sei lá, micro-ondas? Laura, com o q...? – parou no meio do caminho, tendo uma ideia bem melhor – Quer saber? Vamos tacar tudo no micro-ondas! Cadê a forma de silicone?
- Tem certeza que é uma boa ideia?
- Só confia, Coop... – a mulher insistiu, mesmo sem saber se era realmente um bom plano, mas iria pagar para ver. Mais afastada, na outra ponta da cozinha, a dona da casa parou pela terceira vez em cinco minutos com a mão na barriga, e decidiu intervir – Laura, vai sentar, por favor. Clint cuida de tudo.
- É bom oferecer o serviço dos outros, não é? – resmungou o arqueiro, mesmo concordando com sua antiga pupila e sinalizando para que a mulher ficasse à mesa com os outros. Laura chegou a se opor em um primeiro momento, mas perdeu a causa por ser minoria no ambiente, já que logo todos se uniram em pedidos para que ela descansasse um pouco.
- É a sua esposa, Gavião – lembrou , continuando a discussão – E uma criança que eu tenho certeza que não tem meu nome mesmo eu tendo estado em cativeiro quando vocês decidiram isso.
- Você nunca vai deixar essa passar, não é? – Clint grunhiu depois de jogar a cabeça para trás, seus ombros caindo em sinal de cansaço. Aquele assunto já tinha sido abordado tantas vezes e por algum motivo sentia que aquela não seria a última – Eu conheço a Natasha há mais tempo, .
- E eu estava em cativeiro! Eu podia ter sido morta, e você não teve a decência de me fazer uma homenagem – retrucou a mulher, parando brevemente apenas para agradecer Cooper que lhe passava a forma já com a massa crua para que ela colocasse no forno – Aposto que a menina não tem nem uma referência a mim no segundo nome. Isso é um ultraje!
- Você sabe que é um menino, certo?
se virou para o arqueiro, completamente inexpressiva.
- Preciso dizer que quero ser madrinha? – disse ela, uma mão dramaticamente sobre o peito. Quando Clint revirou os olhos, ela adotou uma postura mais urgente – O moleque zoou a Romanoff já no útero, ele tem que ficar sob a minha tutela!
- Eu não deixo nem um cachorro sob a sua tutela, .
Enquanto a mulher ria e concordava, as crianças engataram em uma conversa sobre o novo filhote da fazenda, que não tinha permissão para ficar dentro de casa – e que definitivamente não entrava escondido no quarto deles de noite, eles fizeram questão de frisar. Todos em algum momento chegavam a incentivar as histórias das crianças, sendo Steve o mais quieto na conversa, algo que não passou despercebido por , que até tentava ignorar sua preocupação e curiosidade, mas começava a perder feio. Eles sempre contavam as coisas um ao outro, o que podia ser agora para todo aquele segredo?
- Starkie, tá pronto! – o grito animado de Cooper tirou a mulher de seus pensamentos, tendo que se movimentar com agilidade para sair em socorro do garoto.
- Cuidado, está quente...! – o pedido da mulher foi completamente ignorado, ela optando por salvar a forma com o resto da sobremesa enquanto o garoto soltava assustado ao sentir os dedos começarem a queimar enquanto colocava um pouco do bolo na boca. Quando ele arregalou os olhos, adotou uma postura mais preocupada – Ficou ruim?
- Vocês estragaram a sobremesa, não foi? – suspirou Laura, se levantando para supervisionar a dupla depois da mulher também experimentar o doce e repetir a expressão da criança.
- Estragamos – concordou ainda de boca cheia, rápido demais para não parecer suspeita – Está horrível! Vamos comer sozinhos como castigo, certo, Barton 3? Pega e sai correndo.
- Me deixa ver isso aqui... – resmungou a mulher mais velha, a dupla rindo cúmplice quando ela respirou fundo com os lábios cheios de chocolate – HYDRA te ensinou a cozinhar?!
- Não vou mentir e dizer que isso não passou pela minha cabeça, mas acho que foi seu filho – brincou ela, terminando de colocar o pedaço que pegara na boca e indo atrás de um pano para limpar os dedos e tentar tirar o excesso de trigo que voara em sua camiseta enquanto ajudava a mexer a massa – Eu não conseguiria fazer uma coisa dessa sozinha.
Clint foi outro que ficou suspeito com a comoção e pediu para experimentar também, com Laura logo intervindo com o argumento de que tinha que salvar o apetite para o jantar, que já estava pronto. aproveitou a deixa para fugir da cozinha por alguns instantes, sob o pretexto de precisar trocar a roupa suja de farinha. O suspeito foi ela sinalizar para que Steve a seguisse, algo que não passou despercebido pelo restante do grupo, que se dividiu em acreditar que eles tinham algo muito sério para conversar ou que estava usando seus privilégios de espiã para passar doces para o soldado sem que ninguém pudesse notar.
O curioso era que ambas as possibilidades estavam certas.
- Toma, contrabando – disse ela rindo baixo, lhe entregando o pequeno bolo quando alcançaram o segundo andar da casa. Steve agradeceu e logo em seguida a parabenizava por ter gostado, mas ela não se pronunciou a respeito disso. Seu objetivo pelos próximos dias era não pressionar o soldado de maneira alguma, deixar que ele absorvesse o que quer que precisava ser absorvido por sua mente em seu próprio tempo, só que Steve não parecer nem estar se esforçando para disfarçar que algo o incomodava não facilitava sua tarefa – O que aconteceu? Você estava mais quieto que o normal lá embaixo.
Steve sabia que em algum momento não iria mais suportar todo aquele silêncio de sua parte, que era pedir demais de sua personalidade essencialmente curiosa, mas não podia negar que a abordagem cuidadosa que a mulher fazia o pegou despreparado. Por algum motivo que ele desconhecia, esperava que ela fosse gritar, reclamar que ele estava tentando esconder algo quando tinha prometido tempos atrás que nada mais ficaria encoberto entre eles. Era uma forma indireta de traição, e saber que tinha muito mais coisa que escondia dela fazia com que Steve se sentisse ainda pior. Só que não podia passar aquele peso para , pelo menos não agora. Tudo ainda era recente demais, sua estadia com a HYDRA e todos os inconvenientes que isso causou, em especial os fatores mentais. já tinha que lidar com coisas demais, não precisava ter que se ocupar com os problemas e questionamentos dele. Parecia injusto demais.
- Tinha que estar atento caso você resolvesse colocar fogo na cozinha de novo – desconversou ele, o sorriso travesso que tentara esboçar conseguindo arrancar um riso ofendido da mulher.
- E eu ainda me arrisquei para te dar o doce antes da hora, quanta ingratidão – entrou na brincadeira, mas o soldado sabia que não tinha sido tão convincente assim. Era o típico “finge que me engana e eu finjo que eu acredito” – Você realmente está bem ou está esperando que eu insista um pouco mais? Se você me deixa no escuro não tem como eu...
- Só ainda em choque com tudo que aconteceu – Steve logo a cortou, se adiantando um passo e tomando o rosto da mulher nas mãos, aquele toque tão habitual parecendo agora tão estranho, como se fizesse uma eternidade que não sentisse a pele dela contra sua. Steve sabia que tinham outras coisas para se preocupar no momento, mas tinha que pensar em um jeito logo de lidar com aquela maldita visão. Aquilo não podia contaminar sua mente o tempo todo, era perigoso demais. Se deixasse que aquilo controlasse sua mente como agora, quando precisasse entrar em ação, seria o menos recomendado. O mundo precisava do Capitão América, não de Steve Rogers e seus medos – Juro.
Se aceitou suas palavras como verdadeiras, não tinha como ele saber. O fato foi que ela não se opôs ao beijo rápido para qual o soldado se adiantou, e que suas mãos percorreram seu peito largo até pararem em seus ombros como de costume, nada em seu toque sutil que entregasse qualquer forma de dúvida. A cena só teve um final inusitado por causa de um riso infantil que atraiu a atenção dos dois adultos.
Lila tinha um largo sorriso e escondia as mãos atrás das costas, balançando o corpo de um lado para o outro à espera de ser notada.
- Papai disse para vocês não ficarem enrolando e descerem logo – avisou a criança, logo dando as costas aos dois e correndo para o andar inferior aos gritos de “sim, eles estavam se beijando”.
- Eu odeio crianças – suspirou antes de voltar para o quarto que dividiriam aquela noite, em busca de uma camiseta limpa. Steve permaneceu no meio do corredor esperando seu retorno, sem saber o que fazer em relação a muitas coisas.

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A manhã seguinte mais uma vez foi silêncio no grupo.
Claro que as poucas horas dormidas de todos eram um fator a ser considerado, mas ainda conseguia sentir que coisas a parte atormentavam a mente de cada um. Laura e Clint trocarem olhares significativos sempre que possível não era de se estranhar, já que a situação era bastante delicada para o casal, mas a mulher não conseguir entender o que Natasha e Bruce estava passando. Tramando, na verdade. A russa era mais difícil de ler, embora não impossível. E estar conseguindo notar as alterações em seus menores gesto era algo no mínimo preocupante. Os eventos do dia anterior tinham abalado ambos individualmente e era difícil medir os estragos, mas era claro que tinha algo a mais. A cumplicidade no olhar da dupla indicava algo a mais, e começava a temer o que quer que eles estavam planejando. Da última vez que uma dupla da equipe agiu sozinha, Ultron foi resultado.
O que poderia acontecer quando se juntava o cientista e a Viúva-Negra?
- Bom dia – desejou Laura, assim que entrou na cozinha na companhia do marido, interrompendo as teorias mais insanas que a mais jovem do grupo tentava montar – , pode aproveitar e cortar um pouco de lenha depois?
- Tony e Steve conseguem lidar com isso, não? – interveio Clint, antes que a mulher pudesse responder – Meio que precisava de você com algumas contas...
- Você precisa parar de inventar reformas nessa casa, Clint – suspirou ela de volta, já se colocando de pé para deixar sua louça usada na pia – E parar de jogar o trabalho para mim.
O arqueiro riu sem graça, dizendo que aquela era a última, mas ninguém colocou muita fé naquilo. Dizia aquilo a tanto tempo, que eles só acreditariam vendo.
Não demorou muito para que terminasse as plantas de que Clint precisava, mas, como seu pai parecia estar se saindo até que bem com um machado, acabou deixando para ele a tarefa e continuou a auxiliar seu antigo tutor – isso quando não estava brincando com as crianças. Por terem um tempo útil bastante escasso com o pai, Lila e Cooper preferiram ficar com ele do lado de fora da casa, invés de ajudar o trio que ficara no interior para auxiliar Laura no que fosse preciso. A dupla de crianças vez ou outra ajudava em medir algo que o pai pedia, mas a maior parte do tempo estavam era aproveitando a presença de , já que ela viam ainda menos que Clint. O arqueiro tinha o cuidado de elogiar os filhos sempre que notava a menor das evoluções das posições, já que as crianças tinham tirado para voltar a ajudá-los com ginástica. A mais velha do trio tinha uma facilidade para os movimentos que as crianças teriam que se esforçar muito para alcançar, mas isso não impedia Clint de se sentir orgulhoso quando Cooper executava uma estrela com as pernas um pouco mais erguidas na terceira vez, ou quando Lila conseguia ficar dois segundos a mais sozinha no handstand sem ter a mão da adulta de apoio.
Aquela cena conseguia com facilidade fazer com que o arqueiro esquecesse de todos os problemas que assombravam o grupo, só a discussão mais ao longe começando a ficar mais esquentada que o tirou da bolha em que se escondera.
- Hm, ? – Clint chamou sua atenção, apontando com a cabeça para a dupla que estava encarregada de cortar lenha. Cooper voltou a ficar de pé com dificuldade, quase caindo quando perdeu o apoio da mulher em suas pernas para que mantivesse uma postura melhor – Melhor você interferir, eles estão alterados demais.
Em seguida, Steve partiu um pedaço de madeira com as próprias mãos, sua respiração acelerada indicando ainda mais como estava alterado. Seu pai não estava muito diferente, embora um pouco surpreso pela demonstração gratuita de força. Daquela distância não dava para saber sobre o que falavam – e ela não estava prestando atenção até o momento também –, mas não podia ser coisa boa.
- Me dá essa faca – pediu ela, fazendo com que os três Barton arregalassem os olhos – Melhor, me dá o arco.
- Você vai atirar neles? – perguntou Lila receosa, mas mesmo assim entregando a arma para ela.
- Pelo amor de Deus, mulher. Tenha um pouco de bom senso – ofegou Clint ao vê-la testar a tensão da corda antes de se direcionar para a aljava – Não vale a pena, eles vão se matar, de qualquer jeito.
- Crianças, digam quem eu acerto primeiro...
pegou duas flechas de uma vez, as posicionando com pouca distância entre elas, sem demorar muito para definir seu alvo e disparar. Mesmo tendo sido atiradas ao mesmo tempo, uma flecha chegou primeiro a seu alvo, fincada próximo do pé de Tony, que era o mais próximo. Como estava sem ângulo, não deu para mirar a outra no pé de Steve, essa assim apenas passando próxima a seu quadril, fincando no chão alguns metros atrás do soldado. O resultado, entretanto, fora exatamente o que ela pretendia: atenção dos dois completamente dela.
- Estou a três segundos de descer até aí, e vocês não vão gostar – disse a mulher, a voz mais alta do que de costume para que eles pudessem a ouvir mesmo com a distância – Então eu sugiro que parem de frescura.
- Crianças, se um dia vocês ameaçarem atirar em mim, vocês vão ficar de castigo pelo resto da vida – avisou Clint para os filhos, mesmo que seu olhar acompanhasse sua antiga aprendiz encostar o arco na parede e dizer que voltava logo – Isso era realmente necessário, ? Confio na sua pontaria, mas do mesmo jeito.
- Um robô assassino dá menos trabalho que esses dois brigando – resmungou ela – Eu devia ter pensado melhor antes de me enfiar nessa. Steve e Tony se dando bem? São momentos raros. É quase como se eles esperassem um deslize um do outro para atacar. Não é saudável.
- Vai me dizer que você não está bolada com essa história toda? – insistiu Clint, sem controlar sua curiosidade para entender mais a fundo o posicionamento da mulher naquilo tudo. Ela não estava feliz, claro. Ninguém estava. Mas a medida de de tentar colocar panos quentes a todo momento começava a tirá-lo do sério. Aquilo não lembrava em nada a garota que ele treinara, ela deveria ser a primeira na linha de atribuição de culpa, não a intermediadora – A ameaça partiu de dentro dos Vingadores.
- Nem Bruce nem meu pai quiseram causar algum problema, a intenção deles era boa, e para mim é o que basta – o tom da mulher era de fim de conversa, tanto que ela logo deu as costas ao trio e caminhou para longe – Steve? Posso pegar Tony emprestado por um segundo?
- A gente parou a discussão. Vou levar sermão do mesmo jeito? – resmungou o engenheiro, quando passou a marchar em direção à mulher – Se eu vou levar bronca, Steve vai ter que levar também.
Não dava para dizer se ele estava falando sério ou não, mas não fazia diferença. Tinha a tirado do sério de qualquer maneira.
- Você lembra que é meu pai, certo? Eu não sou sua mãe, eu sou sua filha – rosnou ela. Eles não estavam assim tão afastados como pretendia, mas não parecia uma boa ideia andar e discutir com o homem. Havia a possibilidade de seu pé criar vida própria e confundir o comando de um passo com chutar a pessoa ao seu lado – E você realmente acha que discutir com o Steve era uma boa ideia?
- Ele começou! – retrucou ele, na defensiva – E ele está escondendo alguma coisa, você já deve ter percebido, espero eu.
- Você quer dizer a ilusão? Ele não quer falar disso, e é direito dele – lembrou , cruzando os braços em frente ao corpo enquanto planejava devolver na mesma moeda – Você também foi atingindo e você não está me vendo te forçar a dizer o que foi, está?
- Você estava morta. Não é tão difícil assim adivinhar qual é meu maior medo – respondeu Tony sem pensar duas vezes. Em outra ocasião, teria ficado satisfeito com a maneira que sua filha alterou o peso do corpo de uma perna para a outra, a forma desconfortável que ela desviou o olhar. Só não ficou porque estava tão irritado quanto ela, ou até mais. Tinha esquecido como podia ser ingênua em alguns momentos, e definitivamente não esperava ter que se encontrar com aquela versão da filha tão cedo – Toda a equipe estava morta, mas o baque final não é nenhum deles: é você. Pode ter dado errado, mas Ultron era uma das formas não só de manter o mundo seguro, mas você. E você vai querer me incriminar por isso?
- Depois da S.H.I.E.L.D. e do Projeto Insight, você tem que admitir que é compreensível que estejamos relutantes com qualquer medida que queria terminar com ameaças antes que se tornem ameaças – disse a mulher, com uma calma que não alcançava seus olhos – Nós vimos isso dar errado, e quase custou nossas vidas. Você deve se lembrar muito bem desse episódio.
- HYDRA na sua cola? – devolveu Tony, em um tom cínico que fez revirar os olhos – Pode ter certeza que eu lembro muito bem, assim como um extraterrestre tomando interesse especial em você. Tudo coisas com que eu consigo lidar, claro.
- Hm, Sr. Stark? – Laura sabia que não era o melhor momento para interromper pai e filha, mas também não parecia uma boa ideia deixar eles se matarem. A única forma que a mulher via de impedir um drama ainda maior era juntar o útil ao agradável e fazer o pedido pelo qual saíra em busca de um dos engenheiros – Normalmente eu pediria isso para a , mas... Nosso trator parou de funcionar e...
- Claro, eu olho – respondeu Tony, sem sequer deixar que Laura terminasse de explicar a situação, rumando para o celeiro sem mais delongas. Laura até chegou a abrir a boca para perguntar a se tudo estava bem mesmo sabendo que não estava, mas a mulher também logo lhe deu as costas, rumando para o que acreditava ser os limites da fazendao, se aventurar pelo terreno dos vizinhos.
Steve, que de longe acompanhava a conversa da dupla, não conseguiu se controlar quando viu rumando para longe, logo abandonando sua tarefa e a seguindo. Se ela tinha ciência de que estava sendo seguida, ou ela optou por ignorar e que ele desistiria mais cedo ou mais tarde ao entender que queria ficar sozinha, ou não se importava da companhia. O trajeto era um caminho por entre algumas árvores até alcançar um lago vizinho, que por sorte estava deserto. O sol alto refletia na água clara, criando uma paisagem agradável, que Steve em um dia comum teria como primeiro impulso registrar em seu caderno. A mulher sentada nas margens abraçando os joelhos completava o cenário com um ar quase melancólico, mas não diminuía sua beleza, pelo contrário. Nunca tinha visto fora de um ambiente urbano, tecnológico ou campo de batalha, e parecia curioso como seu estado de espírito se refletia no ambiente. Fosse seus poderes de influência ou o próprio soldado fazendo as projeções, o fato era que aquela era uma cena que ele não queria se intrometer.
deixou o silêncio se estender por mais um tempo quando Steve se sentou ao seu lado na grama, em uma postura muito mais relaxada que sua. Enquanto ela tinha o queixo apoiado nos joelhos, o soldado tinha as mãos sobre o colo, mexendo as juntas dos dedos em movimentos nervosos por não saber o que fazer. Claro que ele estava incomodado com toda a situação, e que deveria ter pegado um pouco da discussão com seu pai.
- Um pouco antes de a gente se conhecer, Barton me trouxe aqui pela primeira vez – contou ela, sem tirar os olhos da água que se mexia minimamente com a brisa do local – Sempre gostei daqui, da paz... Mas eu cresci em uma mansão, ganhava tudo que pedia, cercada de pessoas que faziam tudo o que eu quisesse. Eu não me encaixo nessa realidade. Sempre senti que não pertencia a esse lugar – respirou fundo e mudou de posição, seu sorriso amargurado desconsertando ainda mais o soldado quando virou o rosto minimamente para ele – E o engraçado é que agora às vezes sinto que eu não pertenço mais a lugar nenhum.
- Por que está me contando isso? – perguntou ele, desconfiado, para dizer o mínimo. riu de leve com tal constatação. Ah, aquela imagem era muito boa, mesmo que cruel.
- Porque você ainda se sente assim às vezes, não é? Como se não pertencesse a esse tempo – explicou ela, quase se sentindo mal ao notar a culpa se apossando dos olhos do soldado – Não precisa mentir, eu consigo ver isso em seus olhos ainda. Somos ambos deslocados: você temporalmente, eu espacialmente.
Steve riu sem humor, se virando para o lago em seguida. Ela estava certa, não tinha razão para tentar desmentir. Até então nunca tinha imaginado que a mulher se sentia tão deslocada agora para construir aquela comparação, e ele estava bastante perto de se sentir preocupado por tal colocação se não estivesse se sentindo tão exposto. Ingrato, talvez. não sabia apenas interpretar seus movimentos e gestos, ela conseguia entender sua mente. Sabia o que ele às vezes desejava esconder, inutilmente. A mulher parecia ser a pessoa mais indicada para compreendê-lo, e ele retribuía daquela forma.
- Eu não estou tentando te forçar, ok? – ela se apressou em dizer, quando o silêncio do soldado se tornou intenso demais – Coisa demais na cabeça. Não sei, conversar me pareceu uma boa ideia.
- Dia ruim, hm?
- Estamos nos escondendo, então acho que tenho que concordar – devolveu ela, no mesmo tom quase brincalhão – Fazia muito tempo que eu não me sentia tão inútil.
- Não queria brigar com seu pai – confessou Steve, que em partes estava sendo sincero. Não ter desejos de bater de frente com o homem era completamente diferente de precisar, ou de dizer que não iria.
- Eu também não, mas às vezes é necessário – suspirou ela, seguindo a mesma linha de pensamento do homem – Ele pisou na bola feio, e me preocupa porque ele ainda não entendeu no que errou. Fui negligente com ele.
- Não é sua culpa, ...
- Pode não ser completamente, mas tem um pouco do meu pé aí, mesmo que indiretamente – continuou a mulher, ignorando a tentativa de Steve de tirá-la da equação – Devia ter prestado mais atenção.
- Todos devíamos... Talvez não nos conhecemos tão bem como pensávamos.
até o momento mantinha a cabeça baixa, os olhos quase fechados. Agora que uma luz de alerta se acendeu em sua mente com aquela discreta constatação, seus olhos agora eram dominados por um ar preocupante, suas sobrancelhas quase unidas já adiantando o questionamento.
- Steve? – começou ela, o tom excessivamente amigável demais tentando compensar pela futura pergunta invasiva – Ele te disse alguma coisa?
- Ei, crianças? – antes que pudesse entender o que planejava, Clint os chamou ao longe, não querendo andar mais do que o necessário já que o caminho de volta para a casa era um tanto longo. Se ele percebera o ar tenso entre o casal, ou escolheu ignorar, ou sentiu que estava salvando a pele de um dos dois – Reunião na cozinha. Fury está aqui.

Capítulo 7

Algumas pessoas quando repentinamente aparecem, chegam a causar certo alívio espontâneo. Nick Fury muitas vezes tinha esse efeito.
não ficou exatamente surpresa com a visita de Fury, até chegou a agradecer mentalmente, já que o ex-Diretor deu um certo norte para que eles voltassem ao jogo, e era exatamente disso que eles precisavam. A fazenda estava funcionando como um refúgio, não uma colônia de férias. Eles tinham problemas para resolver e aquela sensação de estarem adiando não estava melhorando em nada o humor da equipe. O antigo Diretor não tinha tantas informações como eles desejavam, mas não faria aquela visita por nada, e no fim de algumas horas eles já tinham um novo plano de ação pronto para colocar em prática.
A maior parte da equipe seguiria para Seul, já que o suposto interesse de Ultron pela Drª Cho não era algo para ser ignorado. Tony iria para o Oslo tentar descobrir quem era que estava bagunçando os códigos, sendo sua acompanhante apenas para desencargo de consciência, já que a ação estava prevista para se focar na Coreia. Fury retornaria para NY junto com Bruce para ficar a postos caso sua intervenção com a S.H.I.E.L.D. fosse necessária, e provavelmente seria.
passou a maior parte do tempo conversando com os responsáveis que permitiam a visita de pai e filha, já que Tony achou que naquele caso duas cabeças pensando juntas poderia atrapalhar. Apenas quando finalmente encontrou o que queria que a mulher foi chamada a se unir a ele, a expressão mista de confusão e satisfação do mais velho fazendo ela hesitar por um instante, apenas para imitá-lo em seguida.
Aquilo sim que era uma reviravolta.
Tony pilotava enquanto a filha tentava descobrir o que acontecia com o resto da equipe, que pelo visto ainda enfrentava Ultron. Eles não haviam chegado cedo o suficiente, mas também não tarde demais, conseguindo impedir nem que fosse momentaneamente a transferência da consciência de Ultron para o corpo criado pelo berço, e agora eles tinham a função de separar os dois definitivamente. Se a inteligência artificial tivesse sucesso, as chances deles de vitória seriam reduzidas drasticamente, e sem volta.
No pouco espaço de tempo que tirara para trocar seu uniforme sujo por um limpo que Clint chegou com o berço, tendo que vestir a calça de material especial de qualquer jeito e buscar a primeira camiseta de seu guarda-roupa compartilhado e voltar para o laboratório. A adrenalina em seu sangue já estava em um nível tão alto que ela dispensou o elevador, correndo os quatro andares que separavam o piso que estava do laboratório com o máximo de agilidade que conseguia. A falta de ação em comparação com o resto da equipe estava lhe dando nos nervos, chegando a repreender mentalmente Steve por ter optado por levar seu irmão invés dela. A mulher tentava se enganar que era a falta de costume em ficar na parte teórica das missões, que agora era muito mais um soldado do que uma cientista, mas no fundo sabia que era aquela energia estranha que começava a se espalhar lentamente pelo prédio que estava a atingindo.
O aviso do berço ter chegado era completamente descartável.
Ela conseguia sentir.
- ! – Tony disse alto, assim que avistou a filha saindo da porta das escadas de incêndio. A forma exagerada como ela respirava já indicava que ela não estava no melhor de seus estados, e Tony definitivamente não queria ter que lidar com sua filha alterada no momento, nem tinha tempo para isso – Por que não vai ajudar o Barton? Duas cabeças pensam melhor do que uma. E mais um par de ouvidos para tentar escutar o chamado da Viúva deve ser uma boa.
Para seu quase desespero, não pareceu lhe dar ouvidos. Ela passou a caminhar com passos lentos e quase ameaçadores em direção à dupla atrás do berço, e Tony em um primeiro momento se enganou ao acreditar que ela tinha previsto suas escolhas, e que aquilo nada mais se tratava do que uma repreensão que se aproximava. Foi Bruce o primeiro a perceber que não era nada daquilo que se tratava.
O brilho discreto de seus olhos que pareciam determinados em observar o ser dentro do berço não era um bom sinal.
- , você precisa nos deixar fazer isso – pediu Tony com a voz baixa e calma, temendo despertar a mulher do que quer fosse o transe de curiosidade que ela estava. Seu receio só se tornou preocupação quando notou as veias da mão da filha serem tingidas do brilho azul de seus poderes, enquanto as pontas dos dedos passeavam pelo vidro do berço selado – ?
- Como posso ajudar? – perguntou ela, quando finalmente ergueu os olhos para a dupla, aos poucos retornando a tonalidade habitual. Quando notou a postura tensa de ambos, ela emendou – Não tenho como explicar, mas sei que dessa vez vai funcionar.
- Por algum motivo isso não me tranquiliza – debochou Bruce, sem saber mais como agir quando Tony voltou a andar de um lado para o outro, voltando suas análises e arrumando algo para sua filha fazer.
Como não tinham tempo a perder, o trio logo estava trabalhando em sincronia. Bruce lidava diretamente com o berço e suas configurações, enquanto os Stark preparavam a transferência de J.A.R.V.I.S. para o androide.
- Vocês têm três minutos para terminar o upload.
- E ficar dizendo isso não vai fazer com que terminamos mais rápido, Brucie – resmungou , terminando o que acreditava ser sua última sequência de códigos, apenas para mais um empecilho aparecer no caminho, outros ajustes precisando serem feitos.
- Eu só vou dizer isso uma vez – a voz firme de Steve fez com que o trio parasse o que faziam, mais chocados não pela intromissão do capitão na atividade que ia contra tudo o que a equipe tinha discutido anteriormente, mas sim por quem acompanhava o soldado.
Pietro e Wanda estavam mais atrás, parecendo um tanto acuados no ambiente novo, mas ainda com um pouco da determinação nos olhos que dominava por completo a postura de Steve.
- Que tal nenhuma?
- Desliguem.
- Não vai rolar.
- Pai, termina aqui para mim – pediu , querendo diminuir a tensão entre Steve e seu pai, que já estava alta demais antes mesmo daquele momento. O soldado por sua vez não pareceu nada contente ao constatar de vez que a mulher tinha mudado de lado – Eu lido com eles.
- Vocês não sabem o que estão fazendo – continuou Steve, seu olhar agora travado na mulher a sua frente que oscilava entre uma postura mais defensiva ou ofensiva.
- E você sabe? – devolveu Bruce, em um tom atrevido que não era tão comum em sua voz, antes que pudesse começar sua tarefa de apaziguar a situação. Com a cabeça, ele apontou para a mais nova dos gêmeos – Ela não está na sua cabeça?
- Eles mudaram de lado – adiantou a informação, mesmo sentindo que a garota pretendia dizer algo – Se ela estivesse na mente dele, eu saberia.
- Tem certeza? – foi aí que Wanda pareceu deixar de lado toda sua hesitação, chegando até a arriscar um passo mais para frente, parando próxima a Steve. Seus olhos brilhando em um tom apagado de vermelho desafiavam silenciosamente a mais velha, que não pode deixar se sorrir em falsa compaixão.
- Querida, estou nesse jogo há mais tempo que você está nesse mundo – sabia que aquela abordagem era completamente oposta da que precisava manter no momento, mas não conseguiu conter seu lado mais imaturo, deixando que a tonalidade azul de seus olhos se intensificasse. Tentar intimidar era um erro, e garotinha insolente estava prestes a entender isso – De bruxa para bruxa, você não me supera.
- Eu sei que estão com raiva...
- Ah, já passamos disso – Bruce interrompeu a tentativa da garota de se explicar e persuadi-los, seu tom frio conversando muito bem com sua expressão indiferente – Eu posso tirar a vida de vocês com minhas mãos sem mudar de cor.
- Dessa vez eles estão certos – disse , de forma tão definitiva que foi possível para todos acompanhar as mudanças na postura de Steve, que agora tinha ciência de que a situação não seria resolvida na conversa – E vocês não vão interferir.
Pietro foi o primeiro a reagir, querendo aproveitar da distração de todos e ele mesmo colocar o ponto final, mas definitivamente não esperava que fosse conseguir não apenas prever sua movimentação, como também lançar com agilidade uma armadilha em seus pés, fazendo com que ele tropeçasse e caísse para frente.
- Já não passamos por isso antes, ligeirinho? – suspirou a mulher cansada, logo tendo que direcionar sua atenção em vista da investida de Steve diretamente a ela. O soldado não avançara com grandes intenções, apenas na tentativa de impedir os movimentos dos braços de para que ela não lançasse outro artefato no garoto, possibilitando então que ele pudesse correr à vontade e desconectar todos os fios à vista.
Depois de um bom tempo esperando o momento certo, Clint e Petr finalmente resolveram agir no piso inferior, o arqueiro aproveitando Pietro ter parado em um dos quadros de vidro para atirar contra ele, fazendo com que o velocista caísse para o mesmo andar que eles e permitisse que o ex-assassino imobilizasse o garoto.
Não satisfeito com apenas a pausa no processo pelos fios desconectados, Steve lançou seu escudo contra as máquinas, seu alvo nunca sendo atingido por ter interceptado a arma. Enquanto Steve era jogado para longe pelo tiro do repulsor de Tony que começava a ter sua armadura contra o corpo, Wanda disparou uma rajada de energia contra , que aproveitou o escudo em sua mão para se proteger e logo o lançou contra a garota, que acabou presa nas mãos de Bruce quando foi jogada para trás. Steve, ao se colocar de pé, mudou seu alvo principal para a mulher que tentara correr para os computadores. afastou com agilidade os braços do soldado que tentaram a imobilizar pelo tronco, sua tentativa de chute circular para aproveitar Steve curvado também sendo devidamente bloqueada. Depois de tanto tempo juntos, ambos sabiam que nenhum estava lutando para machucar de fato, mas isso não tornava o embate menos sério e perigoso. Eles estavam lutando sério, buscando com empenho explorar os pontos fracos que conheciam. O problema era que se conheciam bem demais e aquilo levaria tempo demais para chegar a um desfecho, por isso Tony pediu que a filha se abaixasse quando o peitoral de sua armadura se conectou, o disparo do repulsor do peito fazendo que tanto ele como Steve voassem alguns metros para trás.
Wanda aproveitou a distração de Bruce que acompanhava o embate do outro lado para lançar energia por seu próprio corpo e atingir o homem às suas costas, que logo foi ao chão. Livre agora, a garota avançou contra , que ergueu os braços em um movimento inconsciente invés de pular para o lado e desviar da rajada, quase que como se soubesse que teria sucesso naquela escolha. O redor de seus braços brilhava com a energia de Wanda, o brilho azul de suas veias começando a se sobressair em sua pele criando uma tonalidade nova, o tom de roxo se tornando cada vez mais frio enquanto ambas mediam suas forças. Ambas com os braços tensos em frente ao corpo, as expressões contorcidas pelo esforço que faziam, até que algo estalar entre elas e cada uma voar alguns metros para trás.
Foi nesse cenário que Thor chegou à Torre, ignorando tudo o que acontecia e pousando sobre o berço e invocando o máximo de raios que podia, para golpear a máquina em seguida.
e Bruce tentaram impedir, mas foi inútil. Tudo que puderam fazer foi assistir, assim como os outros.
A explosão do berço fez com que Thor também voasse para longe, caindo bem próximo da parede de vidro que separava o laboratório do ambiente social da Torre, seu olhar focado, assim como os outros, na criatura que saíra do berço. A figura humanoide era quase em sua totalidade roxa, a pedra em sua testa brilhando em um tímido tom de amarelo que conquistara sem dificuldades a atenção de , quase que a hipnotizando. A mulher pareceria ter entrado em um transe, aquelas imagens que lhe pareciam tão familiares mais uma vez inundando a sua mente.
Ela só saiu do transe quando, um tanto acuado, a criatura investiu contra Thor, que não hesitou em jogá-lo para trás. Ele parou bem próximo à proteção final da Torre, que se quebrada, o deixaria nas ruas de NY. Quase que em sincronia todos passaram a se movimentar para o andar inferior, imitando Steve e pulando também a proteção, parando bem próxima ao soldado para silenciosamente pedir que ele não avançasse, já que sabia reconhecer uma energia hostil quando na presença de uma, e hostilidade era tudo que Steve exalava. Thor pretendia tomar a dianteira também, mas recuou quando notou o brilho determinado nos olhos da mulher e a forma confiante que ela avançava. Ela sabia de alguma coisa, e o deus sentia que era melhor confiar em seus instintos.
A criatura apenas desviou sua atenção da silhueta da cidade quando ouviu uma ordem que deveria ser firme, mas que saíra um tanto trêmula pelo nervosismo inexpressado da mulher. Se deixasse seu corpo agir por conta própria, todos ali conseguiriam ouvir seu coração batendo contra as costelas, isso se já não tivesse desmaiado. Foi difícil continuar a controlar seus batimentos quando assistiu a criatura descer sem pressa em sua direção, pousando no chão à sua frente e estudando sua fisionomia, assim como ela estudava a dele.
- Você está com medo – a voz dele era baixa a calma, um timbre familiar que demorou para reconhecer, já que sua atenção estava direcionada para outros assuntos.
- Eu tenho medo de muitas coisas, você não é uma delas – devolveu ela no mesmo tom, numa sinceridade que surpreendeu até mesmo a mulher. O olhar da criatura se tornou mais curioso, suas pupilas brilhantes parecendo buscar algo nos traços de .
- Eu sei quem você é – contou ele, sua mão hesitante seguindo para o rosto da mulher, a ponta de seus dedos afastando alguns fios de cabelo que caíram sobre sua testa – Eu te vi antes...
- Pode me chamar de .
- Srtª Stark.
E foi então que algo estalou em sua mente.
- Isso é bem bizarro... Ele tem a voz do J.A.R.V.I.S. e me trata da mesma forma – ofegou , finalmente recuando, sua postura confiante se esvaziando de uma vez – Thor, explica.
- Eu tive uma visão – começou o asgardiano, parando ao lado da criatura que acompanhava com a tenção seus movimentos – Um vórtice que suga toda a esperança de vida, e no centro está... aquilo.
- A gema?
- É a Joia da Mente – continuou ele, depois de assentir para Bruce – Uma das seis Joias do Infinito. O maior poder do Universo. Inigualável em sua capacidade destrutiva.
- E por que você traria...?
- Stark estava certo – Thor não permitiu que Steve terminasse, seu tom firme fazendo todos ofegassem discretamente – Os dois estavam.
- Oh, é definitivamente o fim dos tempos...
- A joia te mostrou algo, não foi? – perguntou Thor a , ignorando a alfinetada de Bruce. A mulher, por sua vez, concordou sem muita vontade – Você teve a visão também.
- E não contou exatamente por que? – indagou Steve, se virando um tanto raivoso para a mulher do outro lado da sala. Para sua surpresa, manteve a postura mais recuada.
- Ninguém perguntou – foi sua escolha de resposta, o que não melhorou o humor de ninguém na sala, mas pelo menos foi o suficiente para que ela adotasse um tom mais determinado – Não me olha assim, eu não confio na joia, por que iria acreditar nela? Assumi que eram só alucinações. Fui ensinada a não confiar a joia.
- Krigor te ensinou isso – lembrou Petr – E a joia te ajudou a recuperar suas memórias, caso tenha esquecido.
- Certo, eu fiz uma escolha ruim. Coloca na conta.
- Os Vingadores não vão derrotar Ultron – Thor retomou o assunto principal, ciente de que não era difícil eles permanecerem no assunto secundário.
- Não sozinhos – corrigiu o androide, passando a caminhar pelo espaço sem pressa nenhuma, fazendo com que alguns membros também começassem a se movimentar, estudando melhor sua figura. Tony foi uma delas.
- Por que sua visão fala com o J.A.R.V.I.S.?
- Nós reconfiguramos a matiz do J.A.R.V.I.S. para criar algo novo – Tony respondeu à pergunta de Steve, sem se dar o trabalho de desviar o olhar para o soldado, principalmente quando ele respondeu um malcriado “acho que já tive minha cota de coisas novas”.
- Eu olhei em sua mente, e vi aniquilação – comentou Wanda, depois da criatura garantir que não era Ultron nem J.A.R.V.I.S.
- Olhe novamente.
- Como se o selo de aprovação dela valesse alguma coisa – debochou Clint, sem imaginar que veria sua antiga pupila sair em defesa do androide, lembrando que o selo dela valia – Não tenho muita certeza disso, pirralha.
A discussão seguiu por mais um tempo. O androide expôs seus pontos, mas mesmo assim não pareceu conquistar por completo a confiança de todos. Apenas quando entregou Mjolnir a Thor que todos pareceram chegar a um consenso. Erguer o martelo por si só já era um excelente argumento.
- Steve... – praticamente teve que correr atrás do soldado quando ele liberou todos para se aprontarem, ele sequer se dando o trabalho de disfarçar que estava tentando manter distância da mulher. Como não queria criar uma cena, apenas quando estavam afastados o suficiente da equipe que ele chegou a responder os chamados da mulher, apenas para dizer que não queria falar com ela no momento. parou de andar no mesmo instante, o tom raivoso do soldado despertando seu lado teimoso que não deveria dar as caras logo agora – Então é melhor você mudar de ideia rápido, porque essa pode muito bem ser a última chance que vamos ter, visto que estamos praticamente indo em direção à nossa morte.
Steve acabou por imitá-la, com a diferença que não cruzara os braços em frente ao corpo como ela, mas deixara as mãos na cintura, os ombros completamente tensos enquanto girava os calcanhares para ficarem frente a frente.
- Você sabe que foi idiota em concordar com Tony e Bruce.
- Eu sabia que ia dar certo dessa vez.
- Claro, porque a joia te mostrou – Steve praticamente cuspiu as palavras, sem conseguir se controlar e diminuindo a distância entre eles. Agora mais próximos, ele conseguia acompanhar com mais facilidade as alterações no rosto da mulher, ergueu o queixo e um pouco as sobrancelhas, esperando que ele terminasse – Do mesmo jeito que ela te mostrou nós como seus inimigos anos atrás, ou já se esqueceu que foi aquela maldita joia que fez com que você nos atacasse? Ela tentou tomar sua mente uma vez, e agora você simplesmente confia nela.
- Eu não confio na joia, não estou nem perto disso – devolveu sem pensar duas vezes, suas sobrancelhas unidas expressando sua leve confusão da interpretação errônea do soldado – Só que eu confio em mim, eu sei quem eu sou e no que eu acredito. Eu vi aquele cara lutando ao meu lado, e eu não luto ao lado de quem eu não confio.
Aquelas palavras pegaram Steve desprevenido, que acabou por quebrar o contato visual e engolir em seco, mesmo que não tenha feito sua postura relaxar. Tinha certo orgulho do pensamento da mulher, não podia negar. Só que também não podia ignorar quanto aquilo podia ser perigoso.
- Visão disse que você estava com medo, você disse que não é dele... – comentou ele depois de um tempo, a hesitação que apareceu por um segundo nos olhos de não passando despercebida – O que está te assustando? O que mais você viu?
- Eu não sei. Isso que me assusta – respondeu ela simplesmente, respirando fundo antes de seguir seu caminho para o arsenal, sem se preocupar se Steve iria segui-la ou não – Precisamos nos aprontar.

Capítulo 8

Ao longo dos anos, já estivera naquele cenário diversas vezes: no transporte a caminho de mais uma missão. Apenas em casos específicos isso resultava em um clima agradável, dependia muito da equipe que compunha. Naquele dia, em especial, o clima não era dos melhores.
Eles estavam caminhando mais uma vez para um cenário “possível fim do mundo”, não tinha como exigir muita coisa.
Steve, como de costume, iniciara um discurso motivacional na metade do trajeto, depois que os detalhes principais da estratégia que seria usada estavam decididos. Seu olhar poucas vezes cruzara com o de – principalmente porque apenas uma vez ou outra ela parou de fitar os próprios pés. A equipe num geral estava evitando contato visual, o recente embate entre eles sendo quase uma companhia física, sobrevoando a cabeça de todos. Confiança era algo tão central para aquilo dar certo, e agora tudo o que eles tinham eram dúvidas e incertezas.
- Você está começando a ficar desidratado – Pietro virou a cabeça para a origem do som, se mexendo surpreso no lugar quando quase deu de cara com uma garrafinha cheia de um líquido esverdeado. apenas ergueu uma sobrancelha, o questionando silenciosamente se iria pegar o objeto ou estava esperando algum tipo de convite formal.
- Obrigado... Stark – resmungou ele de volta, a mulher quase sorrindo tanto pelo “r” carregado como pela tentativa do garoto de tentar fazer seu nome soar como um insulto. Medo. Era isso que soava em sua voz, mesmo que tentasse com muito empenho mascarar. Culpa. Não importava o que fizessem, tanto ele como a irmã tinham uma parcela de responsabilidade naquilo tudo, e sua ingenuidade e poucos anos vividos não conseguiam quitar o débito. Eles podiam salvar o dia, não mudaria nada.
Remorso.
Bem, estava bastante familiarizada com aqui.
- Disponha – foi a única resposta que o garoto obteve, podendo apenas assistir a mulher voltar para seu lugar na nave. Vez ou outra ele pegava a irmã também encarando aquela que por muito tempo apenas conheciam como primeira voluntária, embora o brilho avermelhado de seus olhos não estivesse mais ali, a garota se esforçando para manter os poderes e instintos sob controle. poderia ser um de seus alvos principais de vingança por tudo que aconteceu em Sokovia e com sua família, mas agora tinham que admitir que o suporte tanto da filha como do pai eram bem-vindos para amenizarem os estragos da burrada que fizeram.
- Natasha. Não podemos esquecer da Natasha – lembrou Bruce, enquanto todos recebiam suas instruções. Steve instantaneamente se virou para a dupla mais velha de irmãos, já contando com suas habilidades singulares de rastreamento.
- Melhor ficar com vocês, eu busco a Roman...
- Não – o cientista cortou a fala de Petr, soando com uma firmeza e urgência que pegou todos desprevenidos. Quando notou a estranheza nos olhares que o encaravam – Você é mais útil na evacuação da cidade, consegue localizar pessoas com muito mais facilidade. Eu não sou tão útil assim nessa etapa, eu busco a Romanoff.
Steve até chegou a buscar apoio em , na esperança que ela entendesse melhor a situação, como normalmente acontecia, mas a confusão expressa em seus traços levemente contorcidos dizia o contrário. Bruce não estava sendo completamente sincero no momento, e nenhuma pessoa a bordo sabia dizer o porquê.
- Bom, Banner vai atrás da Romanoff. Stark e... Visão? – houve uma breve pausa, onde todos silenciosamente concordaram com o batismo em tempo recorde do mais novo membro – Stark e Visão localizam Ultron. Thor faz o reconhecimento de campo subterrâneo. O restante de nós cuida da evacuação da cidade.
Eles se dividiram assim que pousaram na cidade. Havia pouca comunicação no aparelho que os gêmeos colocaram nos ouvidos enquanto ainda abordo, todos ocupados demais e cientes de suas funções. Eles não tinham muito tempo, então precisavam correr.
E mesmo assim o tempo não foi o suficiente.
Foi um grito estridente e um estrondo de cimento se quebrando que atraiu a atenção de Pietro, que tentava organizar a multidão para que saíssem da área o mais rápido possível, tendo que se dividir entre essa tarefa e proteger as pessoas dos robôs que literalmente brotavam do chão. Logo instruções passaram a serem gritadas em seu ouvido, assim como atualização de status dos membros da equipe, sendo poucas proferidas por ele. Ou ele corria ou falava, não dava para fazer os dois.
E então ele não pode mais correr.
O chão começou a tremer debaixo de seus pés e logo ele estava contra o cimento empoeirado, tendo dificuldade em manter a estabilidade. Não demorou muito para que estivesse ao seu lado, lhe dando algum suporte para voltar a ficar em pé, mesmo com ela própria vacilando vez ou outra. Pietro queria ter verbalizado suas dúvidas, perguntado o que estava acontecendo, mas não apenas a expressão da mulher lhe adiantava que não queria as respostas, como também os robôs de Ultron se postaram ao seu redor, proferindo um discurso que fez o sangue do garoto gelar e ferver ao mesmo tempo, atacando contra as máquinas junto de em uma quase perfeita sincronia.
- A cidade... – ofegou ele, quando o perímetro já estava limpo, e seu fôlego começava a se alterar minimamente.
- Voando? Pelo jeito... – respondeu , devolvendo sua pistola para o coldre de sua coxa esquerda. Ela mal se deu o tempo de respirar um pouco, já caminhando em um ritmo um tanto acelerado para a direção oposta que o garoto deveria seguir – Limpe a área até a rua principal. Se tiver algum problema...
- Não deixe ser um problema, já sei.
até chegou a abrir a boca para discordar, que na verdade ele devia pedir reforços, mas tudo que ela viu foi o vulto azulado da movimentação do garoto, seguido de sons consecutivos de algo batendo contra metal. Talvez ele fosse capaz de não deixar algo ser um problema.
- Saiam da beirada! Procurem abrigo mais afastado das beiras! – era praticamente o que mais gritava, além de xingamentos aleatórios enquanto destruía os robôs que cruzavam seu caminho, que atacavam tanto a ela como os civis – Stark, o que está acontecendo?
- Trabalhando nisso – foi a resposta que ela obteve – Cuide dos civis, acabe com o exército.
- Não foi isso o q...!
- Ás, ala oeste – a ordem de Petr interrompeu a conversa, a urgência na voz do russo deixando claro que não era o ideal deixa-lo esperando – Agora.
- Ei, ligeirinho? Uma carona, por favor – Pietro nem estava tão perto assim, mas em segundo um de seus braços envolviam seu corpo e a tiravam do chão, seus olhos se fechando automaticamente quando sentiu que a velocidade que estava era bem mais alta do que estava acostumada. Quando o ruído violento do vento parou, o som que preencheu seus ouvidos foi mais uma risada baixa do que qualquer confusão que acontecia na cidade.
- Rápido demais para você?
- Pouca das vezes que dá para se gabar disso... – devolveu a brincadeira, mais uma vez uma pistola em cada mão, atirando por trás dos ombros do garoto antes dele voltar a sua movimentação e ela poder assim dar o suporte que precisava para seu irmão descendo a rua. Havia um grupo considerável de civis em busca de abrigo, e um número ainda maior de robôs, o que explicava bastante a urgência com que Petr exigira reforços. Pela velocidade, Pietro conseguia derrubar muito mais inimigos que cada irmão separado, mas ali seu rendimento caiu drasticamente, e não parecia ser exatamente pelo cansaço. As muitas pessoas correndo ao seu redor, as vezes que chegava tarde demais mesmo correndo o mais veloz que podia. Não demorou muito para ver o garoto entrar em um beco e se apoiar contra uma das paredes, as mãos nos joelhos enquanto tentava reconquistar o controle de sua respiração.
Apenas quando a situação ali foi precariamente controlada que se permitiu seguir até ele, se curvando um pouco ao seu lado e colocando uma mão em seu ombro, gesto que não foi nada bem visto para quem estava pronto a todo momento para mais um ataque repentino.
- Ei, pirralho... Tudo bem? – a resposta foi positiva, o balanço de cabeça frenético que deixaria qualquer pessoa normal com dor de cabeça – Respira. Desacelera.
- Olha para quem você vai dizer isso... – resmungou ele baixo, os mesmo tons de medo e remorso que notara mais cedo em seus olhos voltando a cena, agora tomando conta de seus menores traços, do timbre de sua voz, e da forma como suas mãos tremiam.
- Não tente correr antes de aprender a andar, ok? – ela logo o cortou, seu tom nada amigável fazendo com que Pietro seguisse em silêncio. Ele não podia mentir para ela, a mulher era atenta demais para isso, mesmo naquele cenário. Não era de se estranhar que ela tivesse captado todas suas hesitações e temores – Essas pessoas são egoístas, não sabem como agir em um momento desses e só querem estar seguras, e isso não significa facilitar nosso trabalho. Se não estiver com a cabeça no lugar, se não consegue lidar com tudo o que aconteceu e está acontecendo, é melhor ficar de fora. Não precisamos de mais gente para resgatar, entendeu?
- Você conseguiu ficar ainda mais irritante do que já era... – bufou ele no dialeto da cidade, desencostando da parede e fazendo questão de empurrar de leve com o ombro para ter espaço para deixar o local – Vou ficar bem. Você está legal?
No instante seguinte, o velocista já não estava mais ao seu alcance, seu irmão se aproximando em uma corrida cansada para garantir que estava tudo bem, já que a área estava limpa.
- , Pete. A garota Maximoff está em choque. Está em um lugar seguro, mas não sei se vai sair daqui tão cedo ¬– Clint anunciou em um canal fechado para eles – Conseguem ficar de olho nela de vez em quando?
- Dê mais tempo a ela, Gavião – disse , aceitando o cartucho extra que Petr lhe estendia enquanto tentavam localizar algum lugar onde poderia ser necessários – Logo ela se acostuma.
- Quando você se acostumou?
- Quem disse que eu acostumei? – ela devolveu uma pergunta, rindo divertida enquanto seu irmão revirava os olhos – A cidade está voando, já desisti de tentar acompanhar... Tempos malucos.
- Lutem mais, conversem menos.
Se não tivesse reconhecido a voz e conseguido acompanhar minimamente a movimentação do velocista os contornando, a dupla de irmãos poderia dizer que aquela voz era independente de um corpo porque não viram nada.
- Dois minutos atrás eu estava acalmando aquele pirralho e ele já se acha no direito de me dar bronca. Não disse? – alargou o sorriso, sem perder a chance de se mostrar certa em alguma coisa – Tempos malucos, irmão.
- Ponto para você, Stark. Ela saiu – o arqueiro tornou a interromper a conversa dos dois – Reforços no que sobrou da ponte principal. Rogers e Romanoff não estão conseguindo segurar a barra.
Com um grupo maior ajudando na contenção, logo a área também foi limpa, a maior parte da equipe podendo se dedicar a organizar os civis, tirá-los das áreas de risco.
- A segunda remessa deve chegar logo, estejam preparados – lembrou Steve, levando a mão à orelha para ajustar seu comunicador – Stark?
não queria ter que dizer aquilo em voz alta, mas seu pai em nenhum momento ter pedido ajuda para pensar em como descer a cidade de uma forma segura não era o melhor dos sinais. Se Tony acreditasse por um momento que existia uma possibilidade, ele não teria hesitado em passar a bola para a filha. A falta de comunicação entre eles nas últimas horas era um sinal claro: não tinha formas de descer a cidade. Não inteira, não com todo mundo vivo.
Seu olhar seguira instantemente para o chão quando Steve veio buscar algum apoio nela, depois das palavras de Natasha que tentavam ver o melhor do cenário. queria ter uma alternativa, não ser obrigada a colocar vidas que não eram suas na balança, poderia fazer qualquer coisa para não ocupar aquela posição ingrata.
E então um dos mais belos veículos criados pelo homem emergiu entre as nuvens, o trio ficando praticamente sem reação. nunca foram muito fã dos períodos em que habitara o helicarrier quando ainda era uma agente da S.H.I.E.L.D., mas não podia dizer que era muito bom ver um logo agora.
Não foi preciso muito esforço para fazer os civis seguirem para os barcos – naquele ponto, eles já tinham aprendido a identificar socorro –, e a tarefa deles agora era localizar desgarrados, garantir que todos estavam a bordo.
E parar Ultron.
Esse último item era um tanto complicado.
quase não conseguiu controlar seus batimentos acelerando contra sua vontade, as mãos voltando a suar um pouco mais enquanto eles se posicionavam estrategicamente em volta do núcleo para proteger a alavanca. Era um jogo simples: se Ultron e cia. chegasse até ali, fim de jogo. Sem segundas chances. Falhas não seriam mais toleradas.
Por longos minutos, tudo que ela pode ouvir era metal sendo quebrado e contorcido. Suas luvas haviam se perdido em algum momento, então as mãos de estavam com mais escoriações e queimaduras que o normal. Uma das mangas de seu traje também foi comprometida, deixando o corte longo que quase percorria todo seu braço exposto, ferimento que ganhara quando praticamente atravessara um robô com o braço para impedir que ele atacasse Wanda, em um dos poucos momentos que ela estava com a retaguarda desprotegida. Sua atenção estava tão concentrada em não causar fogo amigo que ela mal notou quando Tony, Thor e Visão se separaram do grupo, partindo em um ataque conjunto contra Ultron, algo que foi finalizado por uma participação nada prevista de Hulk. Após isso, foi consideravelmente fácil abater os robôs restantes, já que a maioria tentou uma fuga aérea e a perseguição não cabia à maior parte da equipe.
- Temos que sair logo. O ar está ficando rarefeito. Vocês embarcam – ordenou Steve antes que pudessem criar gosto pelo momento de pausa, depois apontando para a dupla de irmãos mais velha – , Petr e eu procuramos por desgarrados. Vamos logo em seguida.
- E o núcleo?
- Eu projeto – Wanda respondeu a dúvida de Clint sem hesitar, o olhar não tão confiante do arqueiro e de fazendo com que ela firmasse ainda mais a postura – É meu trabalho.
- Certo, vamos andando – concordou , assim o trio de buscas logo deixou a igreja.
Por terem pouco tempo, não demorou muito para que os irmãos se irritassem com os pedidos de Steve para que se apressassem. Mesmo se fosse um local familiar para ambos, ainda era uma tarefa difícil confirmar se tinha ou não mais alguém naquele tanto de prédio, se ninguém tinha desmaiado nas tentativas de procurar refúgio. Era uma tarefa complicada e de extrema importância, eles não podiam deixar alguém para trás porque foram distraídos e relaxados.
Eles encontraram um grupo pequeno próximo de uma lanchonete, Steve se certificando de acompanhá-los até o barco já que havia um homem com o pé machucado, e os irmãos continuaram a caminhar pelos arredores em busca de algum sinal de alguma vida que ainda precisasse ser salva.
- Uma criança – disse Petr de repente, atraindo a atenção da mulher, que não conseguia mais distinguir presenças com a maestria de sempre, o cansaço diminuindo sua precisão, seus olhos tentando compensar a falta de sentindo e ela girando no próprio eixo na esperança de não ser alguém fora de seu campo de visão.
- Onde?!
- Tem uma criança n... O que o Barton ainda está fazendo aqui?!
e Petr ainda perceberam a aproximação do quinjet pilotado por Ultron em sincronia, ambos forçando as pernas já cansadas o máximo que conseguiam para correr em direção das duas pessoas que não iriam conseguir sair da zona de perigo. A mulher estava mais à frente, até conseguiria alcançar Clint e o menino, mas apenas seria alvejada junto, no máximo conseguindo servir de escudo para os dois, levar a maior parte dos tiros e torcer para eles não serem tão atingidos. Só que mesmo de consciência limpa para fazer aquele sacrifício, não daria tempo. O máximo que podia fazer era parar no meio do caminho e revidar, tentar de alguma forma danificar ou o sistema de armas ou o sistema de voo, o que a deixaria exposta demais.
Sem se permitir pensar duas vezes, parou no meio do caminho, mentalmente já supondo o trajeto de seus tiros, ciente de que sua pouca munição em ambas as pistolas não permitia cálculos errados. Três vidas em risco, contando com a sua própria, não havia espaço para erros.
Os três primeiros tiros atingiram a placa que protegia o sistema de armas, mas não conseguiu causar dano o suficiente. A nave seguiu atirando, e ela não deu sinais de que iria recuar. Steve e Thor, que também estavam nas proximidades, apenas entenderam as intenções da mulher segundos mais tarde, quando ela já estava no chão, em segurança. Petr não hesitara em pular na direção da irmã, tirando tanto ela como si mesmo o máximo que conseguiu da linha de tiro, e mesmo assim ambos sendo atingidos consideravelmente, só que em áreas menos perigosas, como braços e pernas, nada com que eles já não estivessem acostumados.
, depois de recuperar o fôlego que se perdera quando suas costas bateram com violência contra o chão, quase chegou a ralhar com o irmão por ter impedido sua ação, mesmo sabendo que as intenções dele eram as melhores. Mais difícil do que ignorar a dor dos seus novos ferimentos, foi se controlar para descobrir o que acontecera metros às suas costas. Clint estava longe demais de qualquer coisa que pudesse servir de proteção, e ela sabia muito bem que a prioridade do arqueiro seria o menino, como mandava o protocolo. O curioso foi sentir algo servindo de escudo em frente os dois, a mulher apenas entendendo que era um carro quando se virou para trás, sua mente entendendo menos ainda o que se passara.
Não tinha como aquele carro simplesmente ter aparecido ali nos últimos segundos, ainda mais na posição que estava, garantindo ainda mais que quem estivesse atrás dele não fosse ser atingido. Além da força sobre-humana para mover um veículo daquele porte, também era necessária uma velocidade sem igual para seus sentidos não conseguirem acompanh...
- Pietro!
Petr se levantou instantes depois do grito desesperado da irmã, cambaleando um pouco assim como ela, com a diferença de que ele hesitou assim que entendeu o que acontecera, das limitações das possibilidades de ações úteis que poderia ter. Já não parou para analisar a situação como todo em nenhum momento.
Um dos protetores em seus joelhos se soltou de vez de sua calça quando ela se joelhou no chão de qualquer jeito ao lado do garoto caído, suas mãos por um instante confusas pelo número absurdo de hemorragias para estancar depois de virá-lo de barriga para cima, até localizar as duas que julgava ser mais problemáticas, fazendo pressão da melhor forma que podia. Em um momento de inocência, buscara algum indício de melhora no rosto do garoto, apenas percebendo o erro que cometera quando seus olhos se encontraram. Depois de quase uma década fazendo o que fazia, conhecia bem demais aquele olhar.
E ele nunca antecedia coisa boa.
- Petr, faz alguma coisa! – pediu ela ao irmão a alguns passos de distância, o desespero que não encontrara espaço para se expressar em seu rosto dominando sua voz falha. Petr se questionou por um momento se estava ciente da condição do garoto, ou se estava apenas optando por ignorar. Não dava para salvar, muito dano interno. Só de tentar movê-lo para o transporte já seria o suficiente para fazer com que ele perdesse muito mais sangue do que realmente tinha – Clint, tira o menino daqui! Tem muito... sangue.
Mesmo sem ninguém estar de fato obedecendo seus pedidos, não parou. Para falar a verdade, ela estava no automático. Não fazia ideia do que estava fazendo, e nenhuma parte de sua mente estava se opondo àquilo. Sua parte racional havia tirado um momento de folga, e uma confusão de emoções tomara o controle. Seu único foco era a respiração cada vez mais irregular do garoto, que fazia um esforço absurdo para conseguir mover o braço menos ferido, só depois do que pareceu uma eternidade conseguindo ergueu a mão em uma altura o suficiente para cobrir uma das de que inutilmente tentava parar uma das hemorragias. O toque já frio dos dedos de Pietro quebrou a concentração da mulher, que voltou a encarar seu rosto ferido e sujo, aquele maldito olhar desesperado e ao mesmo tempo consciente tentando lhe dizer algo que ela se recusava a interpretar, que ela precisava ignorar para manter o mínimo de sanidade. Seus ouvidos que não captavam mais nenhum som exterior fizeram uma exceção para um grito ao longe que chegara a ela um tanto abafado, mas que sabia muito bem a intensidade. Ela conhecia aquele sentimento.
Com cuidado, ela tirou a outra mão do ferimento próximo ao coração que tentava estancar, quase rindo amargurada ao notar que sua interferência não fazia a menor diferença, que o sangue continuava a correr da mesma forma. Aquela mão, com uma calma que o momento definitivamente não permitia, aos poucos foi tomando a de Pietro, um aperto firme o suficiente para não machucar ainda mais seus dedos feridos e ao mesmo tempo possibilitar que ele pudesse sentir, já que a sensibilidade daquela área já estava comprometida.
- Shh... – pediu ela, depois de retirar a segunda mão, passando com cuidado seus dedos embebidos de sangue pela testa do garoto, que ficara mais agitado ao tentar falar algo e acabar se engasgando. Ele estava com medo, e tinha todo direito do mundo. Ele era só uma criança – ...está tudo bem.
Não estava. Definitivamente não estava.
Eles estavam em uma cidade nos ares, mais um erro deles e era extinção de toda a vida do planeta. Mais um erro, mais uma falha. Aquele à sua frente era só uma das vítimas que ela sequer conseguia contar, e nem sabia se queria, se conseguiria aguentar tal informação. Nem com Pietro ela estava conseguindo lidar, que não estava tão distante de um estranho como qualquer outra vítima naquela cidade. Eles não se conheciam. Dava para contar nos dedos de uma mão quantas vezes se encontraram, e no espaço de tempo do último ano ainda. Naquele dia eles estavam lutando juntos, mas também lutaram um contra o outro. Deveria significar algo, mas não significava. Ela não estava vendo um aliado, muito menos um inimigo.
Era só um garoto no meio de uma guerra.
apenas voltou a seus sentidos quando uma mão apertou seu ombro, a forçando a olhar para cima, demorando um pouco mais do que o normal para identificar Clint, que deixara a criança que saíra para resgatar um pouco mais afastada antes de voltar para ajudar. Seus olhos tentando transmitir algo que ela não conseguiu compreender, talvez fosse cansaço. A mulher só percebeu o erro que cometera quando quis voltar a olhar para o garoto que confortava, ciente de que havia se perdido em seus pensamentos, que não encontraria a mesma coisa que estava fixada em sua memória, algo que sabia que estava prestes a ser substituída.
O olhar ainda congelado em sua direção, mas sem aquele brilho temeroso. Sem mais nada.
Sem pressa, deixou suas costas irem se inclinando até ela também estar deitada no chão empoeirado, suas mãos instintivamente querendo seguir para seu rosto. Ela só impediu o movimento porque aquela tonalidade vermelha em sua pele fez com que se sentisse enjoada, se contentando apenas em fechar os olhos com força e deixar os braços caírem de cada lado de seu corpo.
Quando sentiu uma mão se fechar ao redor de seu antebraço e a puxar para cima que percebeu que chorava, mesmo que em silêncio. Petr que tentava a pegar no colo, perguntando se havia algum ferimento muito sério, não acreditando nem um pouco nela quando respondeu que estava tudo bem. O máximo de ajuda que aceitou foi para ficar de pé, mal conseguindo olhar para Steve enquanto ele erguia o corpo de Pietro, e ele também estava evitando contato visual. Petr que deveria tê-la guiado até o barco mais próximo, porque definitivamente não lembrava do caminho até ali. Sua mente apenas voltou minimamente aos eixos ao ouvir ao longe a pergunta de um dos operantes do barco, se os Vingadores a bordo já liberavam a partir para o helicarrier.
- Preciso checar mais uma vez – pediu ela, voltando a pisar no solo frágil da cidade nos ares, sendo seguida logo por Steve, tanto para garantir que não havia mais ninguém para ser resgatado como que não iria muito longe.
Ele esperou pacientemente na medida do possível, acompanhando os olhos azulados da mulher passear pela silhueta destruída da cidade, sem nenhum sinal de reconhecimento de vida em seu rosto que indicasse alguma descoberta.
- ? – ele arriscou chamá-la, tocando seu braço quando não obteve resposta – Precisamos ir. Não tem mais ninguém.
- Sou eu que determino isso, Capitão – Steve estava pronto para questionar, mas a forma como os olhos de se arregalaram fez com que ele esquecesse daquilo momentaneamente, ainda mais quando a mulher passou a avançar com empenho em uma direção qualquer – Tem alguém no terceiro prédio em frente. Inconsciente.
- !
Aconteceu tudo muito rápido: Steve sentiu a oscilação sutil no solo, seu olhar logo procurando a igreja ao fundo. Ele não chegou a constatar se alguém tinha chegado ao núcleo ou não, mas seu corpo agiu por puro instinto, sua mão se esticando e seus dedos agarrando com vontade parte do tecido do traje de , a puxando para trás sem delicadeza alguma, mas garantindo que ela conseguiria voltar a bordo a tempo. Quando percebeu a distância do solo aumentando abruptamente, a maior parte de seu corpo já estava de volta no barco, sua mão livre conseguindo segurar a ponta escorregadia da rampa de acesso, enquanto a outra segurava com ainda mais empenho o antebraço de Steve, que pela movimentação rápida demais ainda não conseguira segurar seu braço. Em meio a gritos surpresos de civis ao notarem a cidade despencando, parte da equipe que Fury trouxera logo gritou por socorro aos dois heróis pendurados, a equipe daquele barco tendo bastante trabalho em conseguir aguentar o peso de dois super soldados. Felizmente, o braço que garantia que nenhum dos dois despencaria para a morte era o menos ferido, o que facilitou na tarefa de se esforçar para puxar ambos para bordo. Steve não tinha muito no que ajudar, seu olhar era tão desesperado como o de , mas mesmo assim tentava se manter o mais imóvel possível para não atrapalhar o esforço da mulher, podendo apenas auxiliar no seu embarque quando já estava em uma boa altura e segura dentro do barco. Uma vez ambos seguros, eles desabaram sob a rampa, suas respirações fazendo o que bem entendessem porque eles não se importavam mais.
- Eu já te disse alguma vez que não gosto de alturas? – comentou , virando a cabeça minimamente para o lado para fitar o soldado que tinha metade do corpo sobre o dela – Sinceramente, essa experiência não melhorou o caso.

Capítulo 9

Enquanto não tomou um reforço da vacina anti-tétano, ninguém lhe deu ouvidos. Ela duvidava se faria mesmo algum efeito em seu organismo, mas, como mal também não faria, acabou por ceder, pelo menos assim podia deixar de vez a ala hospitalar e obter respostas de verdade.
Até agora, ela não tivera notícias de seu pai, Thor, Visão e Wanda, e, se passasse mais um minuto daquela forma, pessoas inocentes pagariam o preço, porque ela iria sim começar a gritar com quem não merecia, e pouco se importava sobre isso. A movimentação nos corredores era intensa: pessoas buscando por familiares, querendo saber do estado dos feridos movidos para a UTI... Poucos notavam a passagem de entre eles, o uniforme padrão da S.H.I.E.L.D. que ela mais uma vez usava sendo o suficiente para quase um disfarce não planejado, mas que fora bem-vindo. Se fosse reconhecida como Vingadora, poderia desencadear reações positivas e negativas, e ela não tinha tempo para nenhuma delas.
Chegando na ponte, os agentes que ocupavam as estações pararam momentaneamente para fazer notada sua presença, logo voltando aos seus trabalhos em seguida. Alguns rostos eram conhecidos, outros nem tanto. estava há tanto tempo afastada da S.H.I.E.L.D. que não se surpreendia em não reconhecer mais a equipe principal, e aquela sensação lhe deixou desconfortável. Tantos anos na agência, e agora mais do que nunca ela se sentia uma estranha, ainda mais depois da temporada na HYDRA.
- Hill?
- O tal Visão está com a Wanda na ala leste – informou a mulher, que já não aguentava mais os pedidos de sua superior sobre atualizações da equipe – Seu pai está sem energia no solo, Thor está com ele.
- Seu status, agente? – pediu Fury, deixando de lado as telas onde acompanhava as informações mais importantes para se virar para com as mãos juntas atrás das costas – Preciso de equipes de resgate no solo, avaliar a situação no que restou na cidade e coordenar o fluxo de informações daqui de cima com lá embaixo.
- Fico com a equipe de resgate, sem problemas – disse ela sem pensar duas vezes. Já queria se oferecer mesmo para ajudar no solo, Fury talvez ainda a conhecesse muito bem – Sabe o status do meu irmão? Ele é bem útil nesse cenário também.
- Está se equipando no momento. Sua equipe vai estar no hangar 6.
- Entendido, senhor.
girou os calcanhares, ajustando o canal que precisaria usar no aparelho em seu ouvido, rumando para onde acreditava que deveria ser a área de preparação de agentes, onde todo o equipamento que poderia precisar para resgastes estariam à sua espera. Ali ela encontrou um novo par de luvas que não eram tão resistentes quanto o que seu pai projetara, mas daria para o gasto. Não havia mais luta agora, era resgate. O máximo de força que faria seria para erguer destroços e ajudar soterrados. Pensando bem, talvez fosse melhor levar um par extra.
- Agente Stark – uma voz conhecida a chamou quando deixava a sala, um sorriso satisfeito aparecendo em seu rosto ao dar de cara com a pessoa depois do portal – Sua equipe está pronta.
- Fala, James – suspirou ela, esticando a mão para o antigo colega. Por cima do ombro do homem, viu seu irmão se aproximando, algo em sua postura adiantando que algo estava errado – Pete? Tudo bem?
- Esse traje é desconfortável demais... – resmungou ele, arrancando uma risada compreensiva de James – Como conseguiram passar tanto tempo usando isso? Credo.
tentara se preparar para o que estava prestes a presenciar quando o quinjet pousou na parte da cidade que não se arriscara nos ares, mas não conseguiu ser realista o suficiente, mesmo já tendo mentalizado o pior. Aquele cenário era como nada que tinha visto antes: havia um buraco imenso no solo, prédios que nem estavam tão próximos à cratera também tinham desmoronado, o tremor da retirada de parte da cidade causara danos estruturais e diversas explosões. Isso sem contar a queda dos destroços da cidade que eles tiveram que explodir. A mulher nunca tivera que classificar um cheiro como aquele que dominava quilômetros e quilômetros em todas as direções, mas a partir de hoje o reconheceria como cheiro de desastre.
E dos grandes.
Seu uniforme padrão da S.H.I.E.L.D. ajudara bastante a evitar reações raivosas dos habitantes de Sokovia, mas um ou outro acabava por reconhecê-la tanto pela fisionomia como por algum colega a chamando pelo nome. Em um determinado momento, um grupo chegou a criar um tumulto e recusar a ajuda dos jovens Vingadores, mas tudo foi esquecido quando o prédio que eles esvaziavam começou a desmoronar, e ainda havia pessoas dentro dele. O grupo se silenciou quando a dupla não hesitou em voltar ao prédio, desviando com agilidade dos escombros que despencavam sem piedade. Petr foi o primeiro a retornar, com alguém que não sobrevivera aos ferimentos nos braços. No grupo de revoltosos, um homem se distanciou dos demais, um grito doloroso saindo do fundo de sua alma enquanto corria em direção do agente, reconhecendo a filha em seus braços. O momento apenas não seguiu porque o estrondo de mais um andar despencando assustou a todos, a maior parte do grupo chegando a se afastar por precaução. Apenas Petr e mais alguns seguiram a direção oposta, devido os gritos de pedido de socorro de e de vozes infantis.
Depois dos dez minutos mais longos de sua vida, tanto como as duas crianças estavam seguras fora do prédio já no chão, outra equipe da S.H.I.E.L.D. se assegurando do bem-estar de todos. A mulher tentou discutir, mas aparentemente a agência tinha novos protocolos para agentes que queria permanecer em ação depois de terem soterrados, e, julgando pelo cansaço que começava a ficar difícil de disfarçar, aceitou ser levada de volta para o helicarrier, se livrando do pano imundo que usaram para improvisar um curativo em sua testa antes de subir no barco com mais algumas vítimas que precisavam de atendimento urgente.
E foi assim que terminou pela segunda vez no dia em uma das alas da enfermaria, um novo recorde pessoal. Pelo menos dessa vez sua visita foi mais rápida, saindo de lá em minutos apenas com um pano embebido de sabe-se lá o que para limpar os ferimentos de seus braços agora expostos, já que a parte de cima de seu macacão fora aberta e estava pendurada em seu corpo, a regata clara que vestia por baixo agora sendo a única peça que cobria seu tronco. Não muito contente com ter que ficar de molho agora, ainda deu algumas voltas pelo helicarrier, tentou se oferecer para ajudar onde quer que fosse, apenas para ser ordenada a retornar ao seu quarto – que ela sequer sabia onde era.
Nessa busca um tanto não muito empenhada em encontrar o bendito quarto, acabou encontrando Natasha em um dos laboratórios, sentada contra uma parede de vidro, uma garrafa de água pela metade nas mãos.
- Um lugar desse tamanho e aqui que você escolheu para descansar? – estranhou a mais nova, seu tom sarcástico não sendo muito bem recebido pela ex-espiã – Cadê o Banner?
Mesmo se não fosse quem fosse, teria percebido naquele momento que algo realmente estava errado, principalmente pela forma com os olhos de Natasha vacilaram e evitaram encarar , quase que com vergonha.
- Eu não sei – foi a resposta que a ruiva deu, virando o rosto mais ainda – Ninguém sabe.
- Espera, ele simplesmente... sumiu? Isso não parece em nada com o Banner – o tom de acusação aos poucos foi tomando a voz de , que começava a ficar irritada pela mais velha não ter tentado negar – Natasha, o que você fez? Não me olha desse jeito, você fez alguma coisa.
Natasha podia ter mentido? Podia. Teria surtido efeito? Provavelmente apenas feito com que ela se sentisse mais estúpida, já que a última pessoa para quem deveria tentar mentir era . Até mesmo Fury fosse ser mais fácil de enrolar, nada comparado àquela pirralha quando já estava desconfiada.
- Ele já queria fugir, mas... – a mulher respirou fundo, quase rindo quando ouviu o próprio barulho falho que produzia ao inspirar – Eu sabia que precisavam de nós. Não dava para simplesmente dar as costas.
- Você o forçou a se transformar – deduziu a mais nova, a expressão no rosto da russa já sendo mais do que o suficiente para confirmar a história. Ela até chegou a abrir a boca para responder, mas nenhum som saiu e ela acabou por forçar um sorriso estrangulado – Droga, Nat... Você quer um abraço? Um soco na cara?
- Só quero ficar um pouco sozinha.
sabia que talvez fosse bom deixar Natasha sozinha, que companhia não lhe faria mal, mas ela continuava a mulher letal que sempre fora, e a última coisa que precisava naquele dia era de uma mordida de aranha, por isso assentiu e deixou o recinto, mas apenas depois de pedir que Natasha a procurasse caso quisesse alguém para conversar.
Logo em seguida, enquanto ela perambulava pelos corredores, acabou esbarrando com um Steve Rogers de tipoia no braço pelo qual ficara pendurado horas mais cedo. Ele tentara convencer os médicos de que não precisava daquilo, que logo os ligamentos de seu ombro estariam melhores, mas estava tão cansado que em certo ponto desistiu de contrariá-lo e apenas concordou. Quanto mais gastava tempo ali, mais demoraria para encontrar .
Não que isso tivesse sido rápido também, já que ela passou uma eternidade em expedição no solo.
- !
- Steve, oi – ofegou ela, depois de uma rápida checagem no homem por ferimentos, mesmo já tendo feito isso mais cedo e o soldado não ter tido a chance de se machucar mais desde sua partida – Você não devia estar descansado?
- Como estão as coisas lá embaixo?
- Nada bem – a mulher acabou por responder, mesmo sua pergunta tendo sido ignorada. Talvez o protocolo devesse ser amenizar seu depoimento para fazer com que Steve se desligasse um pouco da situação e pudesse se recuperar com mais paz, só que nem ela conseguia fazer aquilo no momento. Eram coisas demais para se preocupar – E a garota?
- No quarto. Alguém precisa ir falar com ela.
O pedido não apenas ficou expresso no silêncio sugestivo, como seus olhos também logo trataram de finalizá-lo.
- Vai você, vou acabar piorando tudo se for eu – fugiu da tarefa, até começando a caminhar para trás, visualmente mostrando que não iria voltar atrás – Não tenho tato para isso, e ela não gosta da minha família, vamos evitar confusões por hora.
Steve esboçou um sorriso discreto em concordância, chegando até a imitar a mulher e se virar para seguir a direção contrária. Ele apenas não seguiu aquela rota porque um chamado tímido e inseguro. Num piscar de olhos, era outra mulher em sua frente.
- Stevie? Sobre o que a gente estava conversando ontem, eu...
- , não – seu corte fora um tanto brusco, mas o soldado julgou que não era uma boa ideia deixar aquele assunto se estender, muito menos ali. Falando por si só, Steve sabia que estava bastante abalado, chegava a ter medo de quanto aquilo afetara a ex-espiã, e, mesmo que não fosse admitir, tinha medo de descobrir – Ambos estávamos alterados, não se dê o trabalho. Conversamos sobre tudo isso em outro momento, tudo bem? Temos muita coisa para cuidar agora. Vá descansar um pouco. Eu seguro as pontas.
Se chegou perto de seu bendito quarto, ela não tomou ciência disso. Só para deixar o corredor depois de Steve já levou um tempo. Seus pés pareceram terem se grudado ao piso depois de ele avançar em sua direção, o toque de seus lábios em seu rosto ainda um pouco sujo sendo mais leve apenas que uma de suas mãos em sua cintura. Havia passado tantas horas em batalha, tanto tempo em tensão a espera de um ataque que algo sutil e delicado como aquilo lhe parecia algo completamente estranho, um gesto que seu corpo não sabia mais reconhecer, muito menos aceitar. Ela hesitara no primeiro instante, e sabia que Steve também notara, mas ele teve a delicadeza de não comentar nada e seguir seu caminho.
Horas mais tarde, depois de ter evitado ao máximo qualquer tipo de contato social, Fury encontrou a jovem Stark em um dos laboratórios que tinha uma vista privilegiada do vasto céu que agora era ocupado por várias e densas nuvens. Algumas estrelas se destacavam no tom escuro de azul, mas nenhuma conquistava a atenção da mulher. Seu olhar era única e exclusivamente da lua que aos poucos era coberta pela sombra do próprio planeta.
- Por que não está no seu quarto, Stark? – debochou o ex-diretor, quando entendeu que ou a mulher não estava notando sua presença ou não se importava com ela – Monstro debaixo da cama?
estava debruçada sobre uma das mesas do laboratório, seus pés sequer chegando a tocar o chão pela altura do banco em que sentava. Quando Fury se anunciou, ela apenas mexeu os olhos em sua direção, voltando a focar na lua logo em seguida, nem um pouco entretida.
- Não sei se debaixo da cama.
A resposta não passara de um resmungo, tanto o tom de voz como o conteúdo da mensagem fazendo o homem bufar alto. Nem quando ele era pago para isso, ele era pago para isso. Em nenhum momento quando aceitara aquele cargo anos atrás alguém lhe avisara que teria que lidar com Stark, e essa falta de aviso começava a lhe irritar.
- Vou me arrepender de perguntar, mas o que te incomoda?
Assim que viu a mulher respirar fundo, abrir a boca e tornar a fechá-la, completamente incerta, Fury soube que estava nada mais do que certo. Em nenhum momento ele planejara, mas continuava se encontrando naquele cenário: algo explodindo na cara de todos, consideravelmente atingida, e ele assumindo a posição de ouvinte, de, se não colocar a mulher de volta aos trilhos, pelo menos puxar com mais empenho o freio para que ela sozinha resolvesse seus problemas de rota.
Apenas por consideração de tudo isso que Fury se sentou no banco vago ao lado da engenheira. Não era como se ele se importasse de fato.
- Eu fui... Eu sou uma agente de campo experiente – a correção não lhe pareceu tão natural como esperava, mas não deixava de ser verdade, e agora mais do que nunca se sentia daquela forma. O trabalho de campo da S.H.I.E.L.D. nunca fora simples ou livre de acidentes, todos sabiam e até os agentes apenas de laboratórios tinham contato com isso, ninguém na agência podia ser despreparado. E o pior que era aquela sensação que mais dominava a mulher – Trabalhei umas poucas vezes em resgate, deve dar para contar em uma mão só. Quando estava na HYDRA, eu era apenas um soldado, mas mesmo assim era diferente. Nunca tive em um cenário como esse. E nem estou falando da cidade voando... É só...
- Guerra – completou Fury, ele próprio estremecendo ao som da palavra – Você nunca teve em um cenário real de guerra até hoje. Isso muda as pessoas, você sabe. Vai ficar bem?
- Você fala como se eu tivesse escolha – não gostava nem um pouco daquele tom amargurado que acabava a colocando em posição de vítima, mas, quando se deu por si, a resposta um tanto malcriada já tinha lhe escapado, e seus ouvidos já capturavam a risada rouca do homem ao seu lado, que se virara para levantar e apoiara uma mão carinhosamente em seu ombro.
- Você tem, você se permitir ter já é outra história... – disse ele, o toque em suas costas logo sumindo assim que Fury passou a rumar para a saída, aumentando a altura de sua voz para que nenhuma palavra fosse perdida – Não fique fugindo do sono, Stark. Sei que vai conseguir uma maneira de lidar com isso tudo. Se você não conseguir, ninguém mais vai.
Um pouco mais tarde, quando uma das nuvens interrompeu o contato visual intenso que mantinha com o satélite natural, se forçou a levantar, ciente de que não encontraria seu quarto com tanta agilidade, que assim ainda teria um certo tempo livre para tentar colocar sua mente no lugar. O problema era que, ou seus pés já conheciam aquele percurso mesmo com sua memória desconhecendo a informação, ou seus instintos estavam em seu auge, ao ponto de ela sequer perceber que rastreava algo.
Ou melhor, alguém.
Steve estava deitado de costas para a porta, encolhido na cama que era muito menor do que a que eles costumavam dividir da Torre, ainda mais por se tratar de um colchão de solteiro. Com as políticas nada amigáveis da S.H.I.E.L.D. sobre relacionamentos entre colegas de trabalho, não surpreendia ninguém a ausência de camas que fossem desenhadas para comportar duas pessoas, mas também não era desculpa para aquela miniatura de cama. Assim que ouviu a porta se abrindo, ele passou sem pressa alguma pela transição de passar a deitar de bruços, ocupando assim praticamente todo o colchão, mas facilitando a tarefa de de se ajeitar contra ele. A única parta de seu traje que se livrou foram as botas antes de subir no colchão fino e aceitar de bom grado aquele calor agradável que ela não sabia mais ao certo se merecia, mas que não era momento de questionar.
Nenhum dos dois chegou a dormir de fato, mas pelo menos conseguiram esvaziar um pouco a mente.

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Hill sequer precisou repassar qualquer exigência das diversas autoridades internacionais ou de veículos de mídia, a iniciativa da coletiva de imprensa partiu dos próprios Vingadores, e aconteceu logo depois do retorno da equipe para NY, um pouco mais de uma semana depois do desastre de Sokovia.
A parte da equipe que não descera para a coletiva ficou na cozinha, recorrendo a alguns petiscos para distrair a ansiedade que sentiam. Até os mais controlados tinham que admitir que estavam um tanto nervosos, sem saber o que esperar daquelas quase duas horas que foram reservadas para perguntas e declarações oficiais – que eles sabiam que seriam as mais lentas possíveis. Tony e Steve estavam ali apenas como apoio moral, seria a encarregada de conduzir toda a coletiva, e sua expressão não deixava dúvidas de que estava preparada para isso. Tony eles já sabiam que estaria com roupas civis, mas ninguém podia descordar que era um tanto estranho ver o casal com as peças mais sociais possíveis em um momento onde estava ali por sua vida de heróis, o uniforme de ambos muito bem guardados em suas respectivas partes do closet compartilhado. Steve parecia desconfortável com a gravata preta que acompanhava a camisa clara – ou talvez fossem as centenas de jornalistas no auditório –, mas parecia estar em casa. Sua expressão serena e ao mesmo tempo dura conversava com seu vestuário impecável, nenhum fio de cabelo fora do penteado baixo, assim como não tinha uma linha fora do lugar no suéter que cobria a camisa clara que usava. Claro que ela estava tão nervosa como os homens de cada um de seus lados, com o mesmo nível de remorso por tudo que acontecera, só que não tinha uma pergunta que qualquer jornalista ali poderia fazer que a pegaria desprevenida, e isso já era o suficiente para deixá-la um pouco mais calma.
Eles poderiam a tirar do sério com uma facilidade surpreendente, mas não significava que ela não veria isso chegando.
- Se você vai querer nos acusar de algo, por favor, pelo menos seja coerente – demandou a mais jovem na mesa, ignorando o beliscão de aviso que tanto seu pai como Steve lhe deram na perna – Se tínhamos o objetivo de criar um robô assassino, para que nos daríamos o trabalho de tentar pará-lo?
- Talvez ele tenha saído do controle de vocês – retrucou o maldito jornalista, satisfeito com a reação que ele acreditava ser mais descontrolada da mulher – Parou de obedecer.
- Claro, porque tem muita coisa que um grupo de pessoas como Os Vingadores não consegue resolver por conta própria, precisamos mesmo de um robô assassino – para um auditório tão cheio, não esperava um silêncio tão absoluto como aquele, onde até a respiração de muitos ficou difícil de ouvir por tão sem reação que ficaram. Era uma manobra arriscada? Demais. O pessoal do movimento anti-herói deveria estar se deliciando naquele momento, ainda mais com uma integrante da equipe dizendo com todas as palavras que eles eram, sim, poderosos e possuíam um grande poder de destruição, logo tentariam usar aquela declaração contra eles, mas não hoje. Hoje aquela era a defesa deles – Não estamos recuando na responsabilidade de nenhum dos acontecidos, inclusive, medidas de recuperação de todas as áreas destruídas já estão em prática. Temos ciência de que isso nunca vai apagar o que aconteceu, e sentimos imensamente por isso, mas não há mais o que possamos fazer. Ninguém nesse prédio aprendeu a voltar no tempo, e tenho certeza que, se conseguíssemos, vocês ainda achariam algum detalhe para nos culpar, não é mesmo?
- Você acha que a situação é engraçada, Stark? Pessoas morreram!
- Eu sei muito bem o que aconteceu, nós estávamos lá. Apenas voltamos dois dias atrás quando a maior parte das buscas por sobreviventes e o remanejamento deles para áreas seguras já tinha sido feito – lembrou ela, o corpo mais debruçado sobre a bancada, as mãos espalmadas próximas à base do microfone à sua frente – Então não venha dizer que estamos dando as costas aos nossos erros, ou que não estamos fazendo o possível para amenizar o estrago. Mais alguma pergunta?
Horas mais tarde, foi a primeira a começar a descaracterização.
Assim que as portas do elevador se fecharam, ela desceu de seus saltos e jogou os braços para trás da cabeça, puxando a gola do suéter e o puxando para finalmente se livrar da peça, toda a organização de seu cabelo partindo junto com o agasalho. Enquanto Steve apenas se livrou da gravata, Tony aproveitou para se livrar também da camisa, os três heróis já trajando as já tão comuns expressões exaustas dos últimos dias.
- Hill, mais alguma atualização de Sokovia? – pediu Steve, assim que se juntaram ao restante da equipe na cozinha, aceitando sem pensar duas vezes a garrafa de cerveja que Clint lhe estendera.
- As buscas continuam, todos os sobreviventes e atingidos estão sendo atendidos.
- Lá embaixo... Foi brutal – comentou Pepper, quase rindo de piedade da figura de que se sentou ao seu lado e deixou a testa bater na mesa – Você saiu bem. Esperava uma abordagem menos agressiva, não vou mentir, mas eles não estavam permitindo.
virou o rosto apenas para sorrir agradecida para a mulher, só então se permitindo contar quantas pessoas estavam no ambiente.
- Cadê a garota?
- Assistiu apenas o começo, depois foi para o quarto. Um pouco pesado demais para ela ainda – contou Clint, e os três recém-chegados apenas assentiram em compreensão. Wanda quase sempre se ausentava quando precisavam abordar o desastre de uma forma mais burocrática, e ninguém conseguia julgá-la por isso.
Com o passar do tempo, a cozinha começou a ser esvaziada, e o grupo se resumia a , Clint, Natasha, Petr, Steve, Tony, e Thor, que ficavam mais apreciando o que bebiam e comiam do que de fato conversando. Até o dono da Torre trazer um assunto importante, que não tinha sido debatido até então.
- Thor vai voltar para Asgard, Barton para a fazenda... O que o resto de vocês vai fazer?
- Você já tem algo em mente – arriscou Steve, mesmo relutante em saber o que o engenheiro podia estar planejando. Da última vez que ele pensara em algo isolado do grupo, eles terminaram com um robô assassino, então seu receio era justificável.
- Se vocês estiverem dispostos, principalmente porque o trabalho vai sobrar mais para vocês... – começou Tony, apontando logo de cara para as três pessoas que coincidentemente estavam sentadas lado a lado. Natasha buscou algum sinal de já conhecimento dos planos de Tony no casal à sua direita, mas Steve e pareciam tão confusos quanto ela – Temos duas crianças que precisam de treinamento, pelo menos no sentido mais leve da palavra. Wanda não tem completa noção dos poderes, e acho que poderíamos ajudar, se ela quiser. E o Visão... Wilson e Rhodes também foram de bastante ajuda...
- Você quer recrutá-los – resumiu a russa mais velha, e Tony assentiu.
- E Petr também. Com ele não rolou uma oficialização.
- Ei! – reclamou o homem, agora decidindo prestar mais atenção na conversa por seu nome ter sido citado – também não.
- Ela está na equipe desde o começo, só demorou um pouco para entrar em ação – retrucou Natasha, revirando os olhos ao ouvir a risada alta e divertida de sua antiga pupila em seguida.
- Mas se formos fazer isso, não dá para ser na Torre – comentou , depois de voltar ao assunto quando Steve lhe pediu foco – É arriscado, além de pouco espaço.
- As Indústrias Stark tem um terreno no norte do estado que não usamos há anos... Passei essa manhã para o nome dos Vingadores. Bem afastado de civilização, bastante espaço – Tony foi listando as vantagens, assistindo o trio trocar olhares significativos e discutindo silenciosamente – Ainda dá para passar parte da iniciativa científica para lá também, passar parte do pessoal da Torre para lá, e ainda chamar mais gente.
Steve até chegou a abrir a boca para dar uma resposta quando e Natasha colocaram as mãos sobre a mesa e se apoiaram mais contra o encosto de suas cadeiras, mas a chegada repentina de mais pessoas na cozinha fez com que todo o grupo esquecesse o assunto, encarando ambos os homens que agora pareciam um tanto constrangidos.
J.A.R.V.I.S. não avisara que não estava sozinha no cômodo.
- Prof. Gerard! Encosto! – festejou a mulher, um tom extremamente falso ao se direcionar a Andrew, que devolveu o mesmo sorriso cínico a ela – No que posso te ajudar?
Ainda um bom sem jeito, Erik Gerald caminhou para o lado da mesa onde sua antiga aluna estava, lhe entregando um tablet com diversos arquivos abertos que precisavam de sua autorização imediata. O grupo assistiu passar os olhos por cima das informações com agilidade, a caneta em sua mão vez ou outra assinando alguma permissão, e em raras ocasiões barrando certos pedidos que não estava de acordo com suas exigências, circulando o que precisava ser alterado e explicando para o homem que acompanhava com o máximo de atenção que tinha.
- Mande tudo para meu laboratório – pediu ela, devolvendo a tela ao homem – Dou uma olhada mais tarde, professor.
- Acho que já faz alguns anos que pedi para deixar o “professor” de lado, Srtª Stark – comentou Gerald, conseguindo fazer abandonar a expressão centrada de antes, um sorriso travesso se desenhando em seus lábios.
- E eu me lembro de já ter pedido que me chamasse de , mas você insiste em me ignorar.
Tony pigarreou ao fundo, quebrado o contato visual que a dupla mantinha, e ele em seguida revirou os olhos.
- Srtª Stark, eu preciso de algumas outras confirmações suas – lembrou o professor, depois de quase ter começado a se despedir do grupo, e para a surpresa de , ele não voltou a lhe entregar o tablet – MIT pediu hoje de manhã.
- Eles vão querer manter o calendário mesmo com tudo o que aconteceu? – estranhou ela, chegando até a girar mais em seu assento, se virando completamente para o homem que parecia tão incerto como ela. Aquele era um assunto delicado, ele tinha assistido toda a conferência junto com toda sua equipe de cientistas – Não me importo de deixar para o semestre que vem, se for o caso.
- Na verdade, as confirmações são mais a respeito disso. Eles não têm certeza se você ainda estaria disposta a seguir o calendário, em razão dos últimos acontecimentos.
- É daqui algumas semanas, não sei se os ânimos já terão diminuído até lá.
- O que você vai fazer lá? – perguntou Tony, interrompendo a discussão que ninguém além da dupla estava entendendo.
- Eles querem que eu participe de uma semana de palestras, dê algumas aulas... Que foi? Eu tenho título acadêmico, esqueceram? – resmungou , assim que viu todos a olharem desconfiada – O “doutora” na frente de Stark não é enfeite... Você vai me acompanhar, professor?
- Eu e o Sr. Baker.
- Ah não.
- Minha reação foi essa – Andrew soltou uma risada sem humor, cruzando os braços em frente ao corpo ao ganhar o olhar nada feliz de .
- Isso tem dedo da Pepper.
- Mas é claro – devolveu ele sem pensar duas vezes – Sem contar que não é inteligente te soltar em uma sala sem alguém para apoio teórico.
Clint estava com uma torrada a caminho da boca, sua mão ficando suspensa ao passar então a encarar , esperando a retaliação.
- Você quer questionar meus conhecimentos? – disse ela lentamente, perdendo toda a compostura quando Andrew simplesmente assentiu – Perdeu a noção do ridículo?
- É minha área também, tenho o mesmo grau de formação que você.
- Engraçado, e quem Fury colocou na frente da Fase 2 mesmo?
- Você está se referindo ao programa que explodiu na sua cara?
- Ei, a parte de armamento estava perfeitamente bem. O resto que explodiu na minha cara, que não entra nessa discussão.
- Conveniente, não?
- Crianças... – resmungou Tony, ciente de que aquilo poderia levar o resto da noite, ainda sendo otimista. Teria que ter uma conversa bem séria com Pepper por ter achado que aquilo era uma boa ideia.
- Quem é esse cara?
- Argh, esse é o tal irmão perdido? – bufou Andrew, apontando para o Petr confuso – Me diga que ele é mais agradável do que você.
- Já não gostei de você, cara – foi a única resposta que o Ivanov mais velho deu, o que culminou em um sorriso satisfeito de sua irmã caçula.
- Me explica um negócio, ... O MIT convidou você para dar aula? – começou Tony, e Andrew ainda teve a audácia de soltar um “oh oh, problemas”, o que quase resultou em um pedaço de pão voando em sua direção, se Steve não tivesse segurado o braço de – Eles queriam um convidado especial e você foi o primeiro nome? A Stark que nunca sequer estudou lá?
- Sua agenda estava mais cheia que a minha, então Pepper passou o compromisso para mim – respondeu a mais nova, a fala lenta e um pouco travada entregando a resposta improvisada – Ela não falou contigo sobre isso?
- Boa jogada – murmurou Gerald ao seu lado, assim que Tony pareceu comprar a desculpa de última hora e voltava a atenção a sua comida.
- Você não viu o resto do meu repertório – devolveu rindo de leve – Você pode cuidar das coisas relacionados ao MIT para mim, certo?
Gerald assentiu, e logo deixou o cômodo junto com Andrew, a dupla usando o tablet que trouxeram para se organizarem para as novas tarefas adquiridas.
- Vai trocar o Capitão pelo Erik, Stark? – brincou Clint.
- Quem? – devolveu distraída, apenas entendendo o erro que cometera quando todos começaram a rir e o soldado ao seu lado soltou um “ei” ofendido – Não “quem Steve”! Ai meu Deus, desculpa! Eu esqueço qual é o primeiro nome dele, acostumei com o sobrenome.
- Em um pouco mais de duas semanas já é a segunda vez que você aparentemente me troca, deveria ficar preocupado? – o soldado entrou na brincadeira, sorrindo ainda mais satisfeito quando se engasgou com sua bebida, seu corpo não tendo sido capaz de ingerir o líquido e rir ao mesmo tempo.
- Antiga paixonite da faculdade, completamente inofensiva – disse ela, depois de controlada a breve crise de tosse – Mas com o Thor eu ficaria esperta, porque se ele piscar para mim eu vou para Asgard com ele.
- Já pisquei várias vezes, milady, e ainda não vi suas malas prontas.

Capítulo 10

Wanda estava bem perto de girar os calcanhares e voltar para seu quarto, mas não estava exatamente com humor para aguentar o Capitão no seu pé mais tarde. Esse ainda era o cenário mais otimista. Com a sorte que tinha, era capaz de Clint alugar seus ouvidos pelo resto da sua estadia na Torre.
Fazia um pouco mais de uma semana que ela tinha acompanhado os Vingadores em seu retorno para casa, e mesmo assim parecia uma eternidade. Eles corriam tanto de um lado para o outro, realizando tarefas atrás de tarefas, que a garota mal conseguia acompanhar. Ela mais do que ninguém entendia o peso dos acontecimentos dos últimos tempos, e até chegava a invejar o empenho que cada membro da equipe tinha de fugir dos próprios pensamentos, se mantendo assim ocupados o máximo possível. Só tinha um momento que cada um se via obrigado a parar e encarar tudo o que acontecera, e nem era nas poucas e mal dormidas horas de sono.
Era durante as consultas com Monica.
Wanda estava bem perto de odiar a psicóloga.
Na primeira vez que a garota se exaltara um pouco e deixara seus poderes se manifestarem mesmo que sem riscos, Wanda pensou que a mulher surtaria, que fosse chamar todo o socorro possível e que decretaria que ela precisava ser mantida em cativeiro. Para sua surpresa, Monica ergueu minimamente a sobrancelha, silenciosamente a questionando se seu objetivo era mesmo intimidá-la, além de deixar claro que estava falhando miseravelmente. Só dias mais tarde que Wanda entendeu o motivo da psicóloga não fraquejar diante de seres muito mais poderosos que ela.
E o motivo era que Stark fora a paciente anterior ao seu agendamento daquele dia, Wanda conseguindo pegar no ar um pouco da discussão das duas. Por algum motivo que no fundo a garota não conseguia entender, o nome de seu irmão era recorrente na voz da dupla, muitas vezes Monica insistindo em lembrar que aquilo não era culpa da ex-agente. Mesmo com seu instinto de querer descordar, Wanda sabia que a psicóloga estava certa. Em primeira instância, era culpa de Ultron. E o que mais doía era que eles ajudaram o androide. Ela o ajudara. Esse era o principal tópico que Monica gostava de abordar, isso e seu ódio de longa data aos donos do prédio, sentimento que ela estava ficando melhor em mascarar. Ela ouvira os dois lados da história, e sentir que nem Tony e nem tiravam dos ombros a culpa dos danos causados pelas Indústrias Stark pareceu agir quase que como um pré-requisito para detestá-los um pouco menos. Wanda podia ser jovem, mas não o suficiente para ignorar os próprios erros, alguns que pareciam muito maiores e venenoso do que os cometidos por pai e filha ao longo dos anos.
Foi quase que com vergonha que Wanda desviou o olhar para uma janela ao fundo quando a porta do consultório se abriu sem aviso algum, marchando para fora enquanto ignorava os pedidos de Monica para que retornasse. Sua expressão irritada não amoleceu assim que notou a garota próxima à porta, assim como também não desacelerou o passo.
- Aproveite o humor maravilhoso dela – foi a única coisa que ela disse antes de sumir pelo corredor, o resmungo baixo fazendo aos poucos um sorriso sem humor aparecer nos lábios da garota.
Pelo visto ninguém gostava mesmo daquelas sessões.

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naquele dia estava especialmente de bom humor.
Claro que ela podia dormir pelo resto do mês, tamanha a exaustão que se acumulava, só que aquela era a última semana dos Vingadores na Torre, e na seguinte ela estaria no MIT, o que significava fugir de toda e qualquer possibilidade de estresses referentes à mudança. Aquilo deveria ser o mais próximo de férias que a mulher experimentaria em meses, por isso nem reclamou quando disseram que aquela era a sua vez de ajudar a organizar a cozinha depois do café da manhã.
Talvez ela tivesse reclamado um pouco, mas apenas para não quebrar a tradição.
- Ah, antes que eu esqueça...! – disse rápido, quase deixando um prato ensaboado cair de suas mãos, sinalizando com empenho para conseguir a atenção de Steve, que continuava à mesa – Meu pai perguntou se vamos querer continuar dividindo um quarto no complexo.
- E o que você disse para ele? – devolveu Steve, sem prestar muita atenção. No mesmo instante, o resto da equipe na cozinha ficou levemente mais tensa, olhando de um para o outro enquanto silenciosamente os questionavam se iam mesmo discutir aquilo em público.
- Que eu iria falar com você? – continuou ela, um tom de obviedade em sua voz – Pensei que meu comentário sobre o assunto já fosse servir de introdução para darmos uma resposta em conjunto. Comunicação em sociedade funciona assim, Rogers. Não vamos começar o dia quebrando máximas conversacionais.
- E-eu não acho que quero participar dessa conversa – comentou Thor para Petr ao seu lado – Será que conseguimos sair discretamente?
- Cara, jurava que você ia pedir pipoca.
- Muito cedo – respondeu o deus sem pensar duas vezes, só depois realmente considerando a possiblidade – Mas boa ideia. Podemos estourar um pacote antes de sair?
- Desculpe, só não entendi o que precisa ser discutido – suspirou o soldado, deixando seus talheres sobre a mesa e virando sua cadeira para trás, podendo assim agora ver melhor a mulher sem se entortar tanto.
- Porque nós começamos nessa de dividir o quarto porque eu precisava de supervisão?
- Você acha que continua no meu quarto porque eu estou te supervisionado? Ou que ainda precisa de supervisão? – estranhou ele, quase achando graça na forma que ficou sem jeito. Normalmente era o contrário, precisava aproveitar esses momentos. Se J.A.R.V.I.S. não tinha um protocolo para registrar tais cenas, ele precisava criar um urgente.
- Foi uma medida provisória que permaneceu até hoje simplesmente porque nenhum de nós se opôs, e que não significa que temos que dividir um quarto para sempre e em qualquer lugar.
- Essa é sua forma delicada de dizer que não quer mais dividir um quarto comigo?
- Essa é minha forma delicada de colocar que foi nos dada a opção pelas circunstâncias, já que pelo visto somos acomodados demais até para tocar no assunto sem cobrança de terceiros.
- Você está falando em tecnicidades e ainda não disse se quer ou não.
- Você quer? – ela fugiu da pergunta, devolvendo ao homem risonho – Isso é provavelmente a versão mais aproximada de realmente morar juntos que podemos ter, por isso trouxe o assunto.
- Eu não tinha pensado dessa forma, mas não me incomoda a ideia. E você? A ideia de assusta, por acaso?
- Na real, o que me incomoda é pensar em você me acordando todo dia às cinco da manhã – desconversou ela, mesmo que aquilo realmente fosse verdade. Normalmente não conseguia dormir muitas horas seguidas, mas os horários do soldado eram bem ofensivos
- Qual é, eu costumava acordar as quatro, acrescentei uma hora a mais por você.
- Sábado e domingo continua sendo sacanagem. É pecado, praticamente.
- É sua condição para continuarmos dessa forma? – Steve ficou sério depois que ela assentiu, tirando alguns segundos para pensar nos aspectos que não gostava dela como colega de quarto – A minha é sem mais ferramentas perigosas no quarto. Ainda acho que ficou uma cicatriz no meu pé por pisar naquele troço...
- Bebê chorão... E aquilo foi no laboratório, a idade não está fazendo bem para sua memória.
- Então vamos continuar no mesmo quarto?
- Você que sabe.
- Você que sabe.
- Devo repassar a decisão para seu pai, chefe? – Sexta-Feira interrompeu a discussão, causando alguns risos. Nem o sistema parecia estar mais aguentando os dois.
- Sim, Sexta-Feira, por favor.
- Se todas as decisões que eles tomarem forem tomadas desse jeito, até ano que vem eles estão casados – comentou Clint em um sussurro para Natasha, momentaneamente se esquecendo da audição sobre-humana de algumas pessoas do recinto.
- Você sabe que se algo desse gênero acontecer, ela vai te fazer ser dama de honra, não é, Gavião? – provocou Steve, conseguindo controlar com tanta maestria o calor que subia em seu rosto para debochar do colega que até se sentiu orgulhoso.
- Muito engraçado – resmungou o arqueiro depois de uma curta risada falsa – E tenho certeza de que seria a Natasha.
- Que? Com essas pernas, um salto e um vestido colado? Querido, Natasha vai ter que entender – seguiu com a brincadeira, Clint não conseguindo mais ficar sério depois que sua colega mais antiga soltou um “não só entendo como apoio a ideia”.
- Vocês não vão me ver de vestido....! De novo.
- Como assim de novo?
- A gente não fala sobre isso.
- Por que não? Como não?
- A gente não fala de Budapeste, ok? – disse Natasha firme, fazendo todo o grupo criar ainda mais interesse no assunto.
- Vocês lembram de Budapeste de um jeito bem diferente que eu...

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Nem quando a equipe foi reunida e a Torre virou aquela loucura de movimentação entre os habitantes do prédio chegou perto do nível do tráfego de pessoas no Complexo dos Vingadores nos primeiros dias. Havia sido organizado todo um projeto sobre as divisões entre os andares, entre os laboratórios já disponíveis para uso. Todas as equipes estavam devidamente designadas para seus respectivos espaços. Tudo pensado para uma transição tranquila.
Mas é claro que eles conseguiram criar zona mesmo assim.
No mínimo três colegas no espaço de tempo de cinco minutos procuraram para avisar da confusão de destino de certas máquinas, logo as mais disputadas entre os cientistas e que costumava sofrer monopolização de tempos em tempos. Se estivesse com tempo de sobra, a mulher teria gritado com todos da forma menos educada possível, mas ainda tinha que terminar de organizar as coisas dos Vingadores para o início do treino dos novos recrutas, além de precisar correr porque Thor e seu pai estava prestes a partir.
Quando finalmente conseguiu chegar à sala de convivência, a equipe já tinha se dispersado, apenas a dupla e Steve ainda estavam lá, a sua espera para a última despedida. Thor estava mais uma vez com seus trajes asgardianos, algo que até estranhava agora, depois de tantos dias seguidos sem incidentes que precisavam do martelo em ação. Além de eventuais pegadinhas, mas isso definitivamente não servia de manchetes para jornais.
- O elevador não é digno – não prestava atenção e nem queria, a discussão inútil de Steve e seu pai sendo algo que requisitava energia demais para alguém que já estava cansada.
- Vou sentir falta dessas conversas.
- Pode levar os dois – brincou ela séria sem pensar duas vezes, ganhando o riso divertido do deus e a indignação da dupla – Vai estar me fazendo um favor.
- Se ele consegue erguer o martelo, ele pode ficar com a joia – Thor retomou o assunto principal, aproveitando que tinha alcançado o gramado para se virar para o trio, de frente para a mulher de quem ele tomou com delicadeza uma das mãos, a levando aos lábios – E além do mais, ele tem alguém a altura para o guiar. Milady.
- Milorde.
- Da última vez que seguimos caminhos diferentes, a preocupação não abandonou meu peito, e você estava em perigo – comentou Thor, um pouco intrigado quando não pareceu incomodada com a lembrança não tão antiga – Espero que não estejamos mais uma vez nesse cenário.
- Bem, posso dizer que me sinto mais confiante dessa vez – assegurou ela, apenas para perceber em seguida que suas palavras não tinham sido o suficiente para confortar o deus.
- Continuo com a sensação de que você esconde algo.
- Todos nós temos, Thor – comentou Tony, desviando o olhar para as árvores ao redor para fugir do olhar irritado da filha – É força do hábito.
poderia ter acessado seu repertório de respostas, mas um agente da S.H.I.E.L.D. aparecendo na porta com um chamado de Fury foi o suficiente para que ela deixasse a discussão de lado. Com um suspiro, ela avisou que já estava a caminho. Se as coisas continuassem cansativas dessa forma com o passar dos dias, Clint não seria o único vingador aposentado.
- Agora é tchau mesmo – disse ela, se adiantando para beijar o rosto de Thor, que logo emendou um braço.
- Qualquer coisa, me envie um corvo.
- Vocês se acham tão engraçadinhos...
O trio assistiu ainda com sorrisos divertidos no rosto a mulher voltar ao prédio, só então iniciando suas próprias despedidas. Steve riu por educação quando Tony comentou da falta de respeito de Thor com o gramado alheio, mal conseguindo prestar a devida atenção enquanto o engenheiro comentava da aposentadoria do Gavião e como parecia uma boa ideia ter um refúgio.
- Você e podem arrumar um lugar também... – a partir daí a atenção de Steve foi conquistada, a sinceridade na voz de Tony junto com a seriedade em seus olhos fazendo com que ele parasse no meio do caminho até o carro do engenheiro – Começar do zero.
- O cara que queria isso foi congelado 70 anos atrás... – foi a resposta que o soldado deu, depois de um tempo ponderando o assunto. Quando notou que seu interlocutor não estava satisfeito com o que ouvia, ele emendou: – Mas por que a pergunta, Tony? Está querendo netos?
- Santo Deus, não – ofegou o herói, a imagem lhe pegando de surpresa. A lembrança de dedos pequenos e rechonchudos agarrando seus cabelos foi o suficiente para até engatilhar uma leve dor de cabeça – Não faço ideia de como sobreviveu crescendo perto de mim, crianças é a última coisa que quero perto.
- E provavelmente é a última coisa que quer também.
Tony parou.
O que diabos foi aquilo que ele ouvira na voz do soldado? Ressentimento?
- Vocês já conversaram sobre isso?
- Não preciso, eu a conheço – a resposta firme e rápida demais fez com que Tony estranhasse ainda mais a postura do soldado, cruzando os braços em frente ao corpo enquanto ele continuava a se explicar – mudou muito, Tony. Uma vida de civil? Ela riria na minha cara se eu sugerisse isso.
- Se é o que você quer, deveria falar com ela. Oh céus, estou virando seu conselheiro amoroso... – Tony resmungou mais baixo, passando as mãos no rosto em um movimento cansado apenas para retomar com uma abordagem diferente – Não, melhor: estou falando isso como o pai dela. A HYDRA mexeu com ela, e acabar com eles se tornou seu único objetivo de vida. Só que nós já derrotamos a HYDRA, Rogers. Não tem mais nada a prendendo.
- Sempre tem a próxima missão – retrucou ele – Ela quis ficar aqui para treinar os Novos Vingadores.
- Só que em algum momento a próxima missão não vai ser mais o suficiente – insistiu Tony, e de repente ele não sabia dizer se estava falando da filha ou de si mesmo – É um objetivo muito vago. merece mais que isso. Ela merece um pouco de normalidade, e mesmo que isso ainda me irrite um pouco, acredito que essa normalidade seja você.
Aquela colocação pegou Steve desprevenido e o deixou sem palavras, o que Tony aproveitou como deixa para partir de uma vez. Já tinha dado muita coisa para o soldado pensar, e a agenda dele para dia ainda estava cheia, não podia sobrecarregar sua mente ainda mais. Como agora as coisas pareciam caminhar para tempos mais calmos, talvez as coisas voltariam para o rumo natural, com o casal retomando o que ficara em pausa desde o sequestro há quase um ano. Tony podia não gostar ou acreditar que eles tomariam o caminho mais tradicional, mas já tinha aceitado que, qualquer que fosse o trajeto, eles provavelmente traçariam juntos.
- E só para deixar registrado – Tony, já dentro de seu carro, disse um pouco mais alto, já que Steve também retomara seu rumo para de volta ao prédio – Se vocês tiverem filhos um dia, não há a menor chance de as crianças serem Rogers, elas vão ser Stark e não tem discussão.

Capítulo 11

TRÊS MESES DEPOIS
Para alguém com audição sobre-humana, toques para notificações são bastante descartáveis.
Como a maioria das pessoas da sua idade, dificilmente ficava mais de uma mão de distância de seu celular, e, mesmo que estivesse longe, não era difícil para ela reconhecer a sequência específica de vibração do aparelho. Cada tipo de notificação tinha uma combinação única, o que já adiantava à mulher a velocidade que ela teria para buscar o aparelho – ou simplesmente fingir que não ouvira.
As notificações que recebia eram das mais variáveis. A maior parte apenas fazia com que ela respirasse fundo e tentasse não revirar os olhos, mas uma ou outra fazia sua respiração travar momentaneamente na garganta.
Aquele dia já começara com uma dessas.
- Você pode falar agora? – Bucky Barnes perguntou do outro lado da linha, completamente alheio a todo processo da mulher de rapidamente checar seus arredores antes de se jogar na cama ainda não arrumada para alcançar o aparelho o mais rápido possível. , por sua vez, bufou e assoprou a mecha de cabelo que atrapalhava sua visão.
- Se não pudesse, não teria atendido, gênio.
- Adorável, como sempre... – a risada de Barnes soou longe, e ele também respirou fundo. Incerteza. O soldado estava se movimentando, mas não estava em um local aberto, claro. Não havia muito sons da cidade que ela pudesse captar, mas também não se tratava de um ambiente rural e afastado. Era um local alto, apenas. Um prédio. Não em uma metrópole, mas definitivamente uma área urbana – Lembra quando eu te mandei uma mensagem dizendo que sua mãe estava viva e você disse que não estava, e ficamos nessa discussão até você resolver dizer que ela tinha te feito uma visitinha e já tinha morrido, dessa vez para valer?
- Lembro vagamente, mas não recuso caso queira reencena-la, rir um pouco mais com isso não me faria mal nenhum – respondeu ela, o riso claro em sua voz. Aquele fora o único dia que realmente não gostou de não poder comentar com ninguém de seu contato com Barnes, tinha sido uma troca memorável de mensagens, ela quase pudera sentir o desespero do soldado em suas palavras. E também tinha certeza que Barnes planejava um bom soco em seu rosto pela brincadeira inapropriada.
- Às vezes me pergunto por que ainda te aturo...
- Você não me ligou para relembrar os bons tempos, você só liga quando é importante, emergência – lembrou , se colocando de pé. O perímetro podia estar seguro, mas ela ainda tinha horários para cumprir, e, se não terminasse de se ajeitar logo, alguém apareceria para repreendê-la. Sua sorte era que o uniforme já estava devidamente ajeitado em seu corpo. Teria sido um desafio colocar o tecido consideravelmente resistente com o celular na orelha, para dizer o mínimo – O que foi?
- Lembra que você disse que ela não disse onde estava escondida esse tempo todo?
- Você encontrou o esconderijo dela?
- Você não encontrou?
soltou sua bota no chão, gesticulando dramaticamente como se seu interlocutor pudesse a ver.
- Claro que encontrei, estou surpresa por você ter encontrado.
- Então onde é?
- Diz você primeiro para eu ter certeza que você achou – a risada quase descrente de Barnes preencheu a linha, e se deu por vencida, acompanhando o homem – Tenho andado ocupada, tá? Encontrar o esconderijo dela não é prioridade, e ultimamente eu não tenho tendo tempo nem para as prioridades.
- Você realmente está se esforçando – constatou o soldado, sem tons de dúvida em sua voz. Eles não conversavam muito nos últimos tempos, mas ele saberia do maior envolvimento de com os Vingadores mesmo se ela não tivesse contato. Estava em todos os meios de notícias, era difícil conseguir evitar todos, e ultimamente sua missão era fazer exatamente o contrário.
- Eu nunca pensei que iria gostar de treinar alguém, só não pensei que iria desempenhar tantas funções ao mesmo tempo... Você não ligou para me ouvir reclamar! O que você achou?
- O apartamento onde ela esteve morando... – ele contou de uma vez, ciente que não seria inteligente prolongar a conversa ainda mais. Seu olhar cansado caiu sobre a pilha de papeis dentro de uma caixa ao lado do sofá empoeirado – Por um bom tempo, pelo que entendi. Tem muita informação aqui. Tanto da HYDRA como da S.H.I.E.L.D., assim como dos próprios Vingadores. Ela estava atenta a todos os movimentos possíveis.
- Bem, ela tinha bastante tempo livre. Qual a localização?
Sendo um humano aprimorado como ela própria, Barnes tinha os sinais vitais bastante discretos. Se fosse qualquer outra pessoa no lugar de , poderia facilmente ter deduzido que ele tinha sofrido um infarto fulminante.
- Bucky, a localização – repetiu o pedido, agora com mais firmeza. Ela sabia o motivo da hesitação do soldado, mas não estava em posição para se dar ao luxo de não ter aquela informação – Me diz a localização.
- Você não vai querer vir aqui?
- Se eu quisesse te achar, eu já teria – precisou de muita força de vontade para não rir da fala receosa de Bucky, se focando mais na parte de ele não querer ser descoberto e como aquilo era idiota – E além do mais, minha presença é preciosa demais para ir atrás de quem não me quer por perto. Já te disse como tenho coisa para fazer?
- Então para que quer saber a localização?
- Primeiro, por curiosidade – a resposta 100% honesta surpreendeu até mesmo – Ela ficou 25 anos fora do radar da HYDRA, não é façanha para qualquer um. Segundo porque pode ter alguma coisa importante aí, preciso manter registro de tudo, velhos hábitos não se perdem. Eventualmente, alguém pode querer se mudar para aí, e dificultar recuperar todo esse material. Você me dizendo onde é, posso colocar o apartamento na minha rede de emergência, mantê-lo protegido.
- Romênia. Bucareste.
- Sério? Jurava que ela tinha optado por ficar longe da Europa, o mais distante possível das bases centrais da HYDRA. Esqueci que ela gostava de contrariar – interrompeu a própria digressão, lembrando que tinha coisa mais importante para perguntar e que Barnes já estava minimamente mais à vontade – O que você vai fazer agora?
- Estava pensando em ficar aqui um tempo... – “isso explica ele não querer dar a localização”, pensou ela – Estudar o que ela deixou para trás.
- Tem certeza? Você quer ficar onde ela esteve? – era inteligente pressioná-lo? Nem um pouco, mas não tinha como deixar aquela pergunta de lado. Menos inteligente seria deixar que ele tomasse uma decisão como aquela sem ponderar devidamente – Pensei que você não fosse muito com a cara dela depois de toda a bagunça que ela causou, principalmente na sua mente.
- Talvez ficar aqui me ajude lembrar dos últimos detalhes – disse Barnes, e por sua voz conseguiu deduzir que ele estava mais tentando convencer a si mesmo do que ela – Não custa tentar.
- Tudo bem, você que sabe – duvidava que conseguiria fazer o soldado mudar de ideia, e no fundo acreditava ser uma boa alguém fazendo um levantamento do que estava no tal apartamento, por isso deixou o assunto de lado. Ainda mais por sentir aproximação no seu perímetro de monitoramento, o que fez com que sua postura mudasse por completo – Certo, Steve está voltando para o quarto, tenho que desligar antes que ele chegue perto demais. Me manda o endereço de onde você está por mensagem, e eu coloco o apartamento na rede, como disse. Que nome você está usando mesmo?
- Jason Priestly.
- Vou por nesse nome então. Você fica quanto tempo quiser. Precisa de alguma coisa? Posso transferir alguma coisa p...
- Ainda me lembro de como roubar caixas eletrônicos, não preciso mais da sua ajuda.
- Grosso – resmungou ela, praguejando baixo quando notou que Steve já estava nas escadas do andar – Preciso mesmo desligar, tchau.
Sem esperar a despedida de volta, encerrou a ligação e jogou o aparelho em meio aos lençóis amarrotados, respirando fundo e calçando duas botas, na sua melhor encenação de estar apenas se aprontando nos últimos minutos.
Steve sequer parou para estudar o ambiente depois de abrir a porta.
- Para de me enrolar, Stark! – grunhiu ele, avançando até a mulher e gesticulando para que ela levantasse logo.
- Sério? Sem preliminares hoje? – brincou ela, seu olhar não desviando do desafiador do soldado mesmo quando foi buscar no móvel ao lado da cama algo para prender o cabelo – Direto ao que importa?
- Sem preliminares – repetiu ele, puxando a mulher pelos ombros e a empurrando para a saída do quarto, mesmo com seus protestos nada educados – Você não faz ideia do trabalho que me deu planejar esse treino, então vamos logo.

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Naqueles primeiros meses, todo e qualquer treinamento no complexo era dedicado para integração e evolução dos novos recrutas, o que significava que os membros seniores estavam sendo bastante negligenciados nos treinos. Eles participavam constantemente do treino dos novatos, mantinham seus treinos individuais com os aparelhos da academia para que condicionamento físico não diminuísse, mas ainda faltava o fator desafio.
O número de missões que recebiam tinha finalmente se estabilizado depois de semanas da Batalha de Sokovia, o que permitiu que os líderes da equipe pudessem começar a pensar nos pontos que eles próprios poderiam melhorar.
Por motivos de entretenimento, Steve optou por começar com .
estava bastante desconfiada antes mesmo de entrar da sala de treinamento, sentimento que apenas aumentou quando Steve lhe entregou um objeto curioso e tratou logo de subir para o andar superior, de onde ele provavelmente monitoraria todo o exercício. A viseira que recebera não apenas impedia que ela visse qualquer coisa a sua volta, como também tinha luzes internas que piscavam em um ritmo confuso, com o objetivo de a distrair tanto quanto os fones que logo seriam ligados no volume máximo.
Ela teria a pior dor de cabeça da história quando aquilo terminasse.
- Você está brincando comigo, não é, Rogers? – gritou a mulher assim que o som foi ligado, reconhecendo a música imediatamente no primeiro toque. No fundo, ela esperava que fosse realmente apenas sons aleatórios que seriam reproduzidos para tirar sua atenção, mas pelo visto o desafio era outro bem diferente – Pede para eu me concentrar e coloca para tocar Sexy Back? Por que não desce aqui e treina comigo, Capitão?
- Você está a um comentário inapropriado de levar uma advertência por insubordinação, Stark – disse Steve sério, tendo que repetir a ameaça mais uma vez quando ela sinalizou que não estava ouvindo, pausando a playlist que preparara com cuidado na noite anterior – Podemos prosseguir ou tem algo útil a acrescentar?
- Você sabe que eu vou acabar dançando aqui, não é, senhor? – não abandonou seu tom mais ousado – Posso pelo menos tirar a blusa? Sinto que vai ficar bem quente aqui...
- Coração, você pode tirar tudo se quiser. O que importa é você vencer a simulação... – respondeu ele, um sorriso em sua voz deixando claro que a postura de Capitão havia ficado momentaneamente de lado – Só se lembre que vai ser tudo gravado para análise futura.
- Como que você pode dizer uma coisa dessa e não ser ameaçado com advertência e eu sim? Não está certo isso – resmungou , tirando rapidamente a viseira para encarar o soldado. Steve teve que se controlar para não rir de sua expressão inconformada.
- Bem, eu não posso me ameaçar, e você e Natasha ainda não perceberam que têm poder para isso até agora...
Talvez uma pequena risada tivesse lhe escapado enquanto praguejava baixo, tomada pela surpresa da revelação
- Eu não acredit... Mas eu vou encher seu rabo de advertências! – exclamava ela entre resmungos, sua postura se tornando bem mais alterada – Solta a música logo e começa o exercício. Espero que tenha muito Beyonce porque você vai me ver dançando de longe e eu tenho uma ótima memória para coreografias.
Exatamente como esperava, o exercício planejado não era capaz de exigir cem por cento da mulher, e Steve podia deduzir isso apenas pela forma frustrada que ela se movia. Um ano atrás, aquele exercício poderia ter sido o maior pesadelo de , já que não estava acostumada a entrar em ação em cenários com muitas distrações. Agora, com suas habilidades especiais mais desenvolvidas e com a recente experiência de cenários caóticos, o que Steve propusera chegava bem perto de brincadeira de criança.
- Qual é, isso nem pode ser chamado de um desafio! – grunhiu ela, depois de destruir a última leva de robôs. A música e o jogo de luzes pararam imediatamente, mas não chegou a tirar a viseira, apenas se virou para direção que o soldado estava – Desce aqui e luta comigo.
- Se você acha que assim já foi fácil, imagina nós contr...
- Lute contra mim, Steve – ela logo tratou de corrigir – Não fazemos isso faz eras. Tira essa jaqueta e os sapatos e desce aqui comigo, tenho uns movimentos novos que você vai gostar.
O soldado ergueu uma sobrancelha, divertido. , sem apoio de sua visão, apenas entendeu o que acontecera segundos mais tarde.
- Certo, estou ciente da conotação sexual não planejada da minha última frase, e, por incrível que pareça, eu realmente estava mirando na leitura mais inocente – ela tentou se defender. Não que fosse negar aquela possibilidade, claro. Só que eles tinham reservado aquele dia para treino, e ela tinha esperado muito tempo para aquilo – Treinando as crianças eu notei algumas coisas legais, e queria colocar em prática, mas preciso de ajuda. Seja um bom menino e desça aqui, me dá um pouco de ação.
Sem ter como contra argumentar os pontos da ex-espiã, Steve abandonou seu posto, retornando para o andar inferior. já estava a postos, a viseira e os fones colocados de lado no piso da sala. Um sorriso satisfeito enfeitava seu rosto.
Agora sim eles poderiam chamar aquilo de treino.

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Considerando o tempo que já estavam na equipe, os novos recrutas não estranhavam saírem exaustos das sessões de treino, mas era definitivamente uma novidade ver membros seniores cansados, para dizer o mínimo. Eles não estavam mais ofegantes como minutos atrás, as posturas extremamente relaxadas depois de tanto tensionar os músculos, mas os cabelos úmidos de suor era o suficiente para que eles assumissem que Steve e tinham aproveitado bastante o treino exclusivo.
- Como foi? – perguntou Sam, passando o copo vazio para Steve quando ele se sentou ao seu lado na mesa. Petr e Wanda trocaram um olhar rápido depois de escolherem o que comeriam, ambos relutantes em ficar perto dos dois heróis suados, o que resultou em uma discreta corrida para ver quem ficava com o lugar mais afastado da mesa. Com um pouco de trapaça, a mais nova que ganhou o prêmio, sorrindo vitoriosa ao ver o homem se sentar ao lado do Capitão, tomando o cuidado de arrastar um pouco sua cadeira para o outro lado, evitando ao máximo sua larga figura. , que quase entrava dentro da geladeira enquanto buscava algo, que acabou por responder.
- Bom. Conseguimos trabalhar algumas coisas novas, aprimorar algumas estratégias conjuntas que não deram muito certo nas últimas tentativas – contou ela. Natasha já havia terminado sua refeição, mas estava parada contra o balcão da pia para acompanhar a conversa. Como tinha tido um dia bastante calmo, assistir uma possível discussão entre o casal de heróis era uma boa pedida. Ela só precisava esperar um pouco.
- Pelo menos dessa vez você não me acertou o escudo na minha cara – comentou Steve casualmente, se servindo do suco ao som de ofegando ofendida.
- Nat, sabia que estamos hierarquicamente na mesma posição que o Steve? – soltou a mais nova, nada surpresa em ver que a ruiva sorria de leve quando se virou para ela. Sua expressão apenas se alterou pela pergunta aparentemente aleatória, adquirindo alguns tons de confusão.
- No que você quer chegar?
- Nós podemos dar advertências para ele.
- Isso também significa que você pode advertir a Nat – acrescentou Steve, que quase se engasgou com o som estridente que produziu, algo que deveria se aproximar de uma risada, mas não parecia muito humano. Ela estava agachada contra o armário da pia, abraçando o próprio tronco mesmo sem soltar a embalagem de manteiga que pegara na geladeira. Natasha, por sua vez, não parecia mais tão feliz como antes.
- Melhor dia da minha vida! – a mais nova conseguiu dizer com dificuldades, secando algumas lágrimas de riso que lhe escapavam. Quando ergueu o olhar e viu Natasha de expressão fechada, o acesso de riso recomeçou, e Steve e Sam desistiram de acompanhar a conversa.
- Nem começa, Stark – ameaçou a mais velha, mas mesmo assim ofereceu a mão para ajudar ela a se levantar.
- Cinco anos sofrendo na sua mão finalmente vai valer alguma coisa – brincou . Ela teria continuado se as luzes da cozinha não tivessem apagado por um breve instante, retornando em seguida avermelhadas, não brancas. A equipe trocou olhares rápidos antes de se apressarem para deixar a cozinha, cada um rumando para seus quartos.
Não seria uma noite de folga, aparentemente.



Continua...



Nota da autora: Adoro capítulo meio filler que trava pra escreverrrr Porém não posso reclamar dessa att por motivos de bUCKY PORRA

Nota da ex-beta: Bucky e Steve e Av tendo um belo momento como o casalzão da porra que eles são após cinco séculos sem uma cena assim? se precisarem de mim eu to ali no cantinho respirando com ajuda de aparelhos.

Para comentários, críticas, xingamentos e ameaças de morte, a caixinha de comentários continua no mesmo lugar e pedindo por atenção!






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