Postada em: 20/12/2017

Capítulo Único

“Oh, Eu vou segurar sua mão quando o trovão cair
E eu vou abraçá-la, vou seguir o caminho
Prometo a você aqui de cima
Que vamos enfrentar o que vier”
(Walking The Wire – Imagine Dragons)

- A primeira coisa que você elogiou em mim não foi minha aparência física, não foi meu bom gosto, minha lábia, minha dança ou qualquer coisa assim. Você disse que eu parecia ser inteligente. Não! Que na verdade eu era inteligente, que você podia sentir isso. E acho que me apaixonei naquele mesmo momento. – um coro de “awn” foi feito no salão e eu e rimos juntos, ao que os olhos dela já brilhavam querendo encher d’água. Segurei o microfone com mais força, olhei pro chão do palco e depois olhei pra frente, focando meus olhos em uma sentada na mesa dos noivos com um sorriso e uma expressão de ansiedade no rosto. E então continuei: - Eu já tinha recebido tantos elogios, mas a única pessoa que deve ter falado com tanta genuidade que eu era inteligente tinha sido minha mãe, e isso quando eu comecei a falar. – os convidados riram e minha mulher também, espantando o choro temporariamente. - E eu me senti mais vivo. Me senti uma pessoa melhor no segundo em que você elogiou meu cérebro. Estranho, não?

Flashback, POV , 26 de Setembro de 2013

Trabalho na perfumaria de uma loja de departamento no maior shopping da minha cidade, que não é lá muito grande, e essa é a quinta-feira mais tediosa e sem movimento que tive desde que comecei aqui quase um ano atrás.
Já eram quase 10 da noite, chovia lá fora (talvez fosse esse o motivo do pouco movimento) e eu estava sozinha no segundo andar da loja, atrás do balcão da perfumaria. O vendedor que deveria estar ali pra atender os clientes, vulgo meu amigo Jorge, o gay mais gay que conheço, estava batendo perna por aí.
E eu estava morrendo de vontade de fazer xixi fazia meia hora e nada dele aparecer, e se eu deixasse o andar sozinho ambos estaríamos no olho da rua. Então estava me ocupando sentada no chão procurando um dos perfumes que tinha chego hoje, e que jurava ter colocado ali na última divisão da bancada, quando ouvi alguém pigarrear acima de mim e me levantei.
- Boa noite! – disse o homem à minha frente, do outro lado da bancada.
Boa minha noite ficou agora mesmo!
À minha frente estava simplesmente um dos homens mais bonitos que já havia visto pessoalmente. Cidades pequenas não costumam ter fama de fazer muitos modelos, afinal.
Observei seu corpo aparentemente saudável. A pele úmida pela chuva que ele deve ter pegado contrastava com seus olhos, que naquele momento pareciam brilhar ao me olhar. Os cabelos caídos e bagunçados faziam jus ao charme do homem.
- Boa noite. – respondi sorrindo, tentando não parecer afetada pela camisa social molhada e colada ao abdômen e braços claramente definidos dele. – Em que posso ajudá-lo?
- Bem... – ele mordeu os lábios, dando uma olhada nos perfumes nas prateleiras atrás de mim. - Meu perfume acabou e eu preciso de um novo, queria um cheiro diferente, mas não tenho ideia do que me agrada. Eu sempre ganhei meus perfumes. – ele deu uma risadinha e então focou seus olhos nos meus. – O que você me sugere?
- Humm... Deixe-me ver! – dei uma olhada nos perfumes na bancada à minha frente, caçando alguns em especial. – É pra usar no dia a dia mesmo? – levantei meus olhos a ponto de vê-lo confirmar com a cabeça. – Você me parece inteligente... Não, você é inteligente, eu posso sentir. – comecei minha famosa análise de personalidade e ele riu. – Deve trabalhar em um escritório suponho, pela camisa social. – ele assentiu outra vez, com um sorriso brincando nos lábios. Belo sorriso, inclusive! – E como estamos na primavera, em que chove bastante e faz frio também, eu sugiro essas fragrâncias aqui.
Coloquei uns perfumes amadeirados em cima da bancada e fui molhando as fitas olfativas com cada fragrância e entregando para ele sentir.
- Esse tem cheiro de cravo! – reclamou ao sentir a primeira fita, fazendo uma careta engraçada e eu ri.
- É a fragrância dele mesmo. Eu não suporto esse cheiro em perfume e pela sua cara você também não gostou, né?! – ele confirmou balançando a cabeça e o entreguei outra fita.
- Hum, gostei desse. – balançou no ar a fita de um perfume amadeirado com acorde marinho.
- Passa no pulso pra sentir.
E ele o fez. Gostou de mais dois, onde espirrou o perfume no outro pulso e também no pescoço. Outras três ele não gostou, então peguei mais amostras de outras fragrâncias que eu amava e dei pra ele sentir também.
- Ah, eu gostei muito desse, mas nem tenho mais onde espirrar depois desse tanto. – disse rindo e me entregou a fita para que eu cheirasse. Era um perfume amadeirado e oriental que quando você sente imagina um homem inteligente e sexy e tem vontade de se agarrar a ele. Perfeito para o meu cliente!
- Hum, esse é muito bom mesmo! Passa na orelha. – disse e ele fez careta, me olhando como se eu fosse doida, o que me fez rir. – Vem cá. – pedi pra ele aproximar o rosto e peguei o perfume, me debrucei sobre a bancada para alcançar seu corpo e espirrei o perfume na parte de trás de sua orelha, ao que ele se arrepiou todo ao sentir o liquido frio em uma região tão quente.
Antes que eu pudesse me afastar senti a mão dele em meu ombro e seu rosto se aproximando do meu pescoço. Respirou fundo ali, soltando um suspiro logo em seguida.
- Acho que gostei foi do seu perfume. – sussurrou em meu ouvido e dessa vez fui eu quem arrepiou. – Cheira a lilás e dia chuvoso! - Ri , de nervoso, e me afastei dele.
- , tudo bem por aqui? – levei um puta susto ao ouvir a voz de Marlene, minha supervisora.
Deus do céu, será que ela me viu debruçada no balcão cheirando o homem?!
- Tudo sim, Marlene! – dei um sorriso manso, me fazendo de Santa ao mesmo tempo em que rezava pra uma pra que ela não tenha visto a última cena nessa perfumaria.
- O Senhor precisa de alguma coisa? Está tudo certo? – se dirigiu ao homem em minha frente, tão educada que quem vê até pensa que não é uma megera. Ele encarou meu peito por um segundo antes de responder e logo achei que era um sacana e ia falar que eu estava dando em cima dele ali mesmo.
- Tudo ótimo, a Senhorita está sendo muito prestativa. – Ah, ele estava olhando meu crachá e não meu peito! - Acaba de me ajudar a decidir o perfume que irei levar.
- É mesmo? – ela se aproximou mais e ficou ao lado dele. – E qual o Senhor irá levar? – O Senhor a que ela se referia mostrou o último perfume provado, o que espirrei em sua orelha, e Marlene sorriu largo. Era um perfume caro, realmente. – Ótima escolha, com certeza não se arrependerá. – sorriu pra ele e se virou pra mim. – Já arrumou o pagamento, ? Estamos prestes a fechar.
- Farei isso agora!
- Cartão de crédito, por favor. – disse e peguei a maquininha. Ele logo me entregou o cartão, me permitindo olhar rapidamente seu nome ali antes de fazer todo o processo. .
- Ah, e o último perfume que senti está disponível? – ele disse e demorei um segundo para me lembrar que o ultimo perfume que ele sentiu não era o que estava comprando e logo compreendi o que queria dizer.
- Hoje infelizmente não. Mas posso te avisar quando ficar.
- Oh, por favor, eu adorei esse perfume, quero ele o quanto antes. – ele disse sério, na maior cara de pau e me segurei muito pra não rir.
- Posso imaginar mesmo, é um ótimo perfume, modéstia a parte. – respondi e dona Marlene nos olhou com a testa franzida, o que me fez abaixar a cabeça e focar no que estava fazendo no computador.
Assim que terminei, retirando o cartão da máquina e entregando ao dono, dona Marlene foi para parte de trás da perfumaria olhar alguma coisa e ao mesmo tempo já pegou seu telefone, me entregando com a parte de chamadas aberta, ao que eu ri baixo da rapidez e ousadia do homem. Mas anotei meu número ali e entreguei de volta a ele.
Minha supervisora voltou ao nosso campo de visão e coloquei o perfume rapidamente dentro de uma sacola, entregando para em seguida.
- Muito obrigada, - disse meu nome devagar, como se fosse um sabor de sorvete e se deliciasse só ao dizê-lo. -, espero voltar mais vezes e ser atendido por você.
- Será um prazer.
Ele sorriu mais uma vez me olhando e então se virou, indo em direção à saída da loja. Desviei meu olhar dele e o mesmo caiu em minha supervisora do outro lado da loja que olhava pra mim com os olhos arregalados e começou a apontar freneticamente pro painel de avaliação na porta. Uma completa doida.
- Ah, não se esqueça de deixar uma avaliação no painel, por favor! – disse alto para que ele ouvisse e o mesmo foi até o painel, apertou em “ótimo’’ no botão verde e virou pra mim, piscando um olho e sumindo do meu campo de visão em seguida.
- Meu Deus do céu, que homem! – Jorge apareceu do meu lado me assustando inicialmente, mas logo me fazendo rir ao vê-lo se abanando. – Tu deve estar toda molhada aí né, fogosa.
Puta que pariu! Não sei como consegui ignorar minha bexiga explodindo nesse tempo que esteve aqui, mas agora que lembrei a vontade de fazer xixi veio mil vezes mais forte.
- Eu preciso ir no banheiro, fica aqui pra mim um segundo! – pedi a Jorge, já saindo correndo rumo ao banheiro do shopping, mas antes escutando mais uma das gracinhas do meu amigo.
- Urhum... Sei bem o que vai fazer no banheiro depois de ver aquele gostosão...
Me controlei pra não rir, senão faria xixi no meio do corredor, e apressei o passo.

Flashback off

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- Mas aí eu me senti um otário porque na minha mente eu só pensava o quanto você era bonita até aquele momento. E então você me passou um número que não tinha whatsapp e logo achei que era um número falso e que você tinha percebido o otário que eu era. – deu aquela risada escandalosa só dela, fazendo todo mundo rir junto. - Mas aí eu liguei pra aquele número e, quando você atendeu, eu tive a certeza de que você que era a inteligente.

Flashback, POV , 27 de Setembro de 2013

Tinha me atrasado fazendo umas pesquisas na faculdade e agora me encontrava tremendamente atrasada para meu turno na perfumaria. Estava pegando um pacote de cookies pra comer enquanto corria no caminho ao trabalho quando meu telefone tocou. Achando que era Jorge atendi rapidamente, sem olhar o visor.
- Alô!
- Você não tem whatsapp! – aquela voz, que ontem estava sussurrando no meu ouvido e que ficou ecoando horas na minha mente, disse do outro lado da linha. Quando me toquei do que ele disse soltei uma risada.
- Eu sei.
- E por que não me disse?
- Você pediu meu número, não disse para quê exatamente queria...
- Engraçadinha. Por que não tem whatsapp?
- Para evitar desinteresse.
- Como assim?
- Bem, quando o cara só quer ficar de conversinha em aplicativo ele claramente não está interessado o suficiente e te fará perder tempo. Agora, se ele te liga, em pleno século 21, é porque no mínimo ele quer ouvir sua voz e isso já é algo!
- Eu realmente queria ouvir sua voz! – disse e pude imaginar seu sorriso ali. Aquele maldito sorriso, que assim como sua voz não saia da minha cabeça! – Mas, mais que isso, eu quero te ver e sentir seu perfume mais uma vez. – meu coração deu um pequeno pulo no peito.
E ali eu soube que um “não” não estaria em cogitação.

Flashback off

💙💍💙


- E depois disso eu comecei a conhecer cada qualidade sua, . Descobri também o quanto você era apaixonante, infinitamente fascinante. E aí eu percebi que te amava. E que não conseguia mais imaginar um dia em que não amaria. – sorriu da forma mais doce que conseguia e balançou a cabeça em negação, como sempre fazia quando eu falava algo fofo. Como se ela não acreditasse que alguém pudesse pensar tais coisas dela. - E eu lembro de um dia em que estávamos com nossos amigos... Agora com muita honra nossos padrinhos e madrinhas. – me virei para a mesa deles fazendo uma reverência e todos bateram palmas, gritando e fazendo barulho como sempre. Logo me virei de volta para minha mulher e continuei: - E você me disse que as pessoas ficavam chocadas quando dizia que nunca tinha namorado, mas que elas não entendiam o porquê. Que vários garotos já haviam lhe pedido em namoro, mas que nenhum te conquistou o bastante para que quando pedisse não viesse outra palavra em sua mente a não ser um grande sim...

Flashback, POV , 15 de Dezembro de 2013

Era domingo e eu estava na casa de Nathaniel, com e outros amigos nossos. Após passar a tarde toda assando carne, banhando de piscina e jogando truco, estávamos todos vendo o sol se pôr na varanda da casa que dava vista direta pro mar, apenas jogando conversa fora.
Eu não fazia ideia que tinha amigos em comum com quando nos conhecemos. Mas nossa cidade não é lá muito grande, então não foi uma surpresa também. Após me formar, acabei largando meu emprego na perfumaria e fui trabalhar em uma editora, e lá conheci Kessya, que acabou se tornando minha melhor amiga rapidamente e que por coincidência havia sido vizinha e amiga de por muitos anos. Fora outras figuras que eu já conhecia da vida e ele também.
Mas falando em , desde nosso primeiro encontro estávamos saindo direto e ficando vez ou outra, mas mais do que isso nós construímos uma amizade muito forte e em muito pouco tempo. E isso me assustava às vezes.
- E você, ? – Nathaniel disse meu nome e eu percebi que nem estava mais prestando atenção na conversa. Só estava encarando a vista à minha frente.
- Eu o quê?
- Por que ta aí encalhada até hoje? A gente sabe que às vezes você é um porre, mas diferente da Kessya aqui – apontou pra loira ao seu lado que lhe mostrou a língua. – você ainda tem salvação.
Revirei os olhos pra Nathaniel, rindo. Só porque Kessya era a mais saidinha de nós, ele vive implicando com ela dizendo que ela “não era pra namorar”, quando no fundo todo mundo sabe que ela “não é pra namorar” com outras pessoas e sim com ele que é apaixonadinho nela.
- Me diz você! Não to vendo nenhuma namorada sua aqui. – brinquei e todo mundo riu.
- Ah, meu bem, ainda não apareceu uma princesa pra cuidar desse príncipe aqui. - disse apontando pro seu corpo malhado. - Uma que faça comidinha boa, cuide dessa minha casinha... Sabe como é né. – Nathaniel falou e foi bombardeado por tapas e exclamações das meninas chamando ele de inútil e machista.
- Na verdade ninguém aceita namorar com ele mesmo. Só nesse ultimo ano ele levou um fora de umas seis garotas. – Pietro, irmão de Nathaniel, disse rindo, fazendo os meninos pegarem do pé dele.
- Esse é o problema: os homens querem tudo e têm tudo na mão. É muito fácil pedir uma garota em namoro, agora conquistar ela a ponto de que, quando pedi-la em namoro, não venha outra palavra na mente dela sem ser “sim” é o problema que vocês homens não entendem. – disse apontando o dedo na cara deles.
- É isso aí, garota! – Kessya gritou com a voz enrolada pela embriaguês. – Fica a dica aí, otário. – deu uma cotovelada em Nathaniel, me fazendo rir enquanto o mesmo reclamava de dor.
- E você, ? O que acha? Tá tão calado aí... – Pietro perguntou e só então notei que ele realmente não havia falado muita coisa desde que sentamos na varanda.
arregalou os olhos, assustado, como se estivesse sido pego no flagra e olhou de mim até Pietro, respondendo então:
- Eu não poderia concordar mais.

Flashback off

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- E, acho que você não sabe disso... – soltei um pequeno riso, ao que logo arregalou os olhos, curiosa como sempre. – Mas naquele mesmo dia em que você nos disse essas exatas palavras eu já tinha tudo planejado pra me declarar e te pedir em namoro dali a uma semana. – sibilou um “mentira” e eu afirmei com a cabeça. – Mas eu fiquei morrendo de medo de levar um fora quando você disse essas coisas e cancelei tudo.
Todos no local começaram a rir, principalmente os padrinhos que sabiam de tudo e minha mulher que não fazia ideia.
- Eu só fui criar coragem de te pedir em namoro um mês depois. E isso porque eu não aguentava mais te ver e não poder te beijar. Porque eu tinha certeza de que não tinha feito metade do que você merecia pra ser conquistada. Aliás, não sei até hoje porque você disse esse primeiro sim. Mas eu sei que fiquei extremamente feliz por ter o dito. E a forma como nossas vidas se encaixaram daquele pedido de namoro em diante... Só mostraram que era pra ser. Apesar de tudo, de todos os dias longe um do outro, de toda a saudade, das noites que simplesmente sumiram, das lágrimas que derramamos... Era pra ser! Porque esse é o preço que pagamos quando se trata de amor, certo? E eu sei que assim como enfrentamos tudo isso, nós enfrentaremos tudo o que vier!

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Flashback, POV , 25 de Janeiro de 2016

Terminava de colocar os pratos na mesa e estava indo pegar o vinho no frigobar quando meu celular apitou, avisando que tinha chego uma mensagem.
estava viajando a trabalho há dois meses; Dois meses que não nos víamos e mal nos falávamos porque a rede onde ele estava era horrível. Mas ele tinha prometido que estaria aqui essa noite, para comemorar nossos dois anos de namoro, que tinha sido na verdade uma semana atrás, mas ele não tinha conseguido voltar.
Então hoje fiz questão de preparar um jantar, comprar um vinho, arrumar uma mesa na varanda, com direito a velas e tudo mais. Me arrumei toda e estava só esperando ele chegar para matar a saudade.
Cacei meu celular por toda sala até achá-lo debaixo de uma almofada, esperando uma mensagem de dizendo que estava chegando.
Mas a mensagem ali era o completo contrário:

“Meu amor, aconteceu um imprevisto e tivemos que resolver às pressas aqui na empresa e acabei perdendo meu vôo. Amanhã estarei aí, prometo. Eu te amo”

Dois meses longe, dois anos de namoro a serem comemorados depois de tantas promessas perdidas como essa e ele perde o vôo!
Simples assim!
Era inacreditável o tamanho descaso que ele estava tendo com nós dois ultimamente. Fazendo viagens longas, trocando noites comigo para trabalhar. Como se precisasse!
A situação financeira dele está pra lá de boa, ninguém aqui está morrendo de fome. Temos nossa casa própria, carros, tudo do bom e do melhor. E tudo bem que talvez pensemos em casar e ter filhos e que isso exige uma quantidade boa de dinheiro, mas de nada vai adiantar tanto dinheiro se não tiver mais um relacionamento pra concluir esses planos!
Sem que eu percebesse já estava chorando, agachada na frente do sofá com meu celular e a mensagem aberta em mãos.
Eu sei que ele me ama. Sei que sou o amor dele. Mas, sinceramente, ultimamente não está dando pra sentir nada disso. Não quando ele me deixa sozinha no nosso aniversário de namoro. E me deixa sozinha com todo um jantar preparado só pra ele. Com uma preparada só pra ele.
Me levantei e fui até a varanda para apagar as velas e depois fui para o quarto, me jogar na cama, de maquiagem, vestido e tudo, e chorei até cair no sono.

Acordei com um som alto vindo debaixo do travesseiro de . Abri os olhos olhando em volta e vi que ainda estava escuro, portanto ainda era madrugada. Tateei a cama até achar meu celular e encarei a tela com a visão embaçada por conta da maquiagem e de todo o choro antes de dormir.
Era minha mãe ligando.
- Oi, mãe. – atendi com a voz meio falha.
- Filha! – mamãe disse com voz de choro e meu corpo acordou na mesma hora, fazendo com que me sentasse na cama. – Filha... – ela repetiu soluçando muito e meu coração já batia disparado, meus olhos enchendo d’água, já acostumado por tantas lágrimas derramadas horas antes.
- O que aconteceu, mãe? – perguntei nervosa e esperando a má noticia que com certeza viria. Mas mamãe só conseguia chorar alto do outro lado enquanto eu já chorava junto. – Mãe, por favor, me fala o que houve!
Ela soluçou mais algumas vezes até que respirou fundo, tão fundo que pude escutar pelo telefone, como se o que fosse falar exigisse dela um fôlego e força que já quase não tinha, e enfim conseguiu dizer com a voz embargada:
- Seu pai... Seu pai...
E ela não precisava dizer mais nada. Eu já conseguia sentir. Sozinha, no meio da madrugada, e nas lágrimas e desespero da minha mãe por telefone eu consegui sentir.

O restante da madrugada e todo o dia passou como um borrão. Após chorar até quase ficar sem ar no meu quarto quando desliguei o telefone com minha mãe, me segurei pra não chorar assim mais. Tentei ser forte e apoiar minha mãe o máximo que conseguia.
Meu pai tinha sofrido um ataque cardíaco e morreu ainda na ambulância. Sem tempo para os médicos fazerem muita coisa. Sem tempo dele se preparar. Ou de nos despedirmos.
Era tão típico dele se sentir mal e só tomar um remedinho achando que ia adiantar. Mas não quando se tratava de um enfarte!
Durante o velório e enterro eu sentia uma dor terrível no peito. E uma saudade tão grande que me fazia querer desmaiar. Saudade já do meu pai e do meu namorado, que deveria estar ali comigo.
Alguns primos e amigos tentaram me passar o telefone com chamadas dele várias vezes, mas eu não queria atender. Porque eu estava com tanta, tanta raiva de ele não estar ali e porque se eu ouvisse a voz dele... Sabia que desabaria. Mas eu não podia me permitir isso, porque minha mãe já estava desabando e eu estava sustentando ela e não tinha quem me sustentasse ali caso eu fizesse o mesmo.
Então não ouvi sua voz ou o que quer que ele quisesse dizer. Mas eu sentia sua falta. E sentia raiva. Muita, muita raiva!

Era umas nove da noite quando meus primos me convenceram a deixar a casa da minha mãe e ir pra minha, para tomar um banho e tentar comer e dormir um pouco. Kessya, como minha melhor amiga, insistiu muito para que ficasse comigo, mas eu só queria ficar sozinha um pouco.
Cheguei em casa e só consegui tomar uma chuveirada rápida e me jogar na cama só de calcinha e sutiã mesmo, com o cabelo molhado e tudo, e fiquei ali, sentindo uma coisa horrível que eu nem sabia o que era e que não conseguia fazer passar.
Encarei o teto por muito tempo, sem conseguir sequer fechar os olhos pra tentar dormir, quando escutei o barulho de chaves e então uma porta se abrindo. Me virei de lado e fechei os olhos, para fingir estar dormindo, porque não estava a fim de escutar e sequer falar nada.
Escutei largando a mala no chão do quarto, tirando os sapatos, então o cinto e certamente a calça e o resto das roupas, ficando só de cueca como ele costuma ficar para dormir. E então a pressão de seu corpo deitando na cama e, um segundo depois, ele me abraçando. Forte, muito forte!
E quando vi eu já estava chorando.
- Me desculpa... – ele disse com a voz embargada. – Me desculpa... – me apertou mais forte ainda e começou a beijar meu rosto, me fazendo perceber que ele também estava chorando. – Me desculpa...
E ele continuou assim, pedindo desculpas enquanto suas lagrimas se misturavam às minhas. E eu chorava alto enquanto ele me abraçava, me segurando enquanto eu desabava. Por uma madruga inteira. Fazendo a saudade, pelo menos dele, se esvair um pouco. E me fazendo sentir todo amor que ele declarava a mim, e que nosso relacionamento ainda estava li. Que ele estava ali para me sustentar, sempre que fosse preciso.

Flashback off

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- Mas, apesar de não saber por que você disse o primeiro sim, o segundo eu sei! Porque, mesmo tendo toda certeza de que você era demais pra mim, eu usei a inteligência que você tinha dito que eu tinha lá na primeira vez que me viu para me prometer que tentaria lhe conquistar todos os dias, para que quando eu a pedisse em casamento você não pensasse e dissesse outra coisa a não ser um grande sim...

Flashback, POV , 24 de Setembro de 2016

Já eram 10 da noite quando saí da festa de inauguração do mais novo livro de um dos autores mais famosos em nossa editora. Geralmente me acompanhava nesses eventos, assim saíamos para jantar ou fazer alguma outra coisa logo após. Mas dessa vez ele disse que tinha marcado de encontrar uns ex colegas de faculdade dele e não podia ir comigo de jeito nenhum. E ele deve ter ficado sentido de não poder ir comigo porque pra compensar passou a semana toda sendo extremamente carinhoso e atencioso. Fazendo o jantar, me mandando mensagens o dia todo, comprando chocolates e doces, me abraçando e me mimando muito mais do que o normal.
Mas o engraçado era que a festa mal tinha começado e eu já queria ir embora, porque não era a mesma coisa sem ele do meu lado. E o fato de eu sentir saudade dele assim era extremamente cômico porque há três anos, antes daquele homem aparecer cheirando meu pescoço num dia chuvoso, eu nem sabia que conseguia sentir esse tipo de coisa.
Eu não fazia ideia de que iria aparecer alguém na minha vida que me faria sentir tão bem. Que iria ser meu amigo e meu companheiro ao mesmo tempo, alguém com que eu tivesse certeza de poder contar e confiar cegamente. O meu maior medo era de eu mesma acabar estragando tudo porque nunca fui a garota que tinha o sonho de namorar, casar e ter filhos. Na verdade, eu morria de medo de ter só essas coisas como meta de vida e vivia fugindo do menor vestígio delas.
Até aparecer. Sorrindo daquele jeito, me tratando sempre melhor do que eu achava merecer, sendo companheiro, atencioso, respeitoso e leal. Fazendo eu me apaixonar por todas suas qualidades e compreender todos seus defeitos, que no final não tinham a menor importância. Me fazendo descobrir que amar era divertido, quando nunca achei ser possível.
Foi assim, tudo muito rápido, mas ao mesmo tempo devagarzinho e quando vimos já estávamos tão conectados que eu o colocava em cada um dos planos que planejava pro futuro. E imaginava que mesmo que todos esses planos dessem errado, ele estaria lá. E pensar desse jeito me levava a seguir rumo às metas das quais sempre fugi. Por isso chegava a ser cômico!

Estacionei o carro na garagem e estranhei ver a luz do nosso quarto acesa, achando que não iria chegar tão cedo em casa. Tirei meus saltos ali na varanda porque os mesmos estavam matando meus pés e testei a porta para ver se estava aberta. Geralmente quando ele está em casa deixa tudo aberto. Mas a porta estava trancada, então provavelmente ele só havia esquecido a luz no quarto acesa mesmo. Vasculhei minha bolsa atrás das minhas chaves, levando bons segundos para achá-las naquela bagunça.
Foi o prazo de eu abrir a porta que Ainda Bem do Thiaguinho começou a tocar e levei o maior susto, rindo em seguida ao me lembrar de todas as vezes que berrei essa música no meio da casa dedicando a enquanto ele ria e me puxava pra dançar; Mas quando vi toda a sala coberta de pétalas de rosas e velas minha perna bambeou e eu tive que agachar pra não cair, largando minha bolsa e saltos ali mesmo.
As pétalas e velas formavam uma trilha que fui seguindo até dar na escada, logo no primeiro degrau havia um perfume com uma fita olfativa colada na frente e um bilhete atrás.
O frasco do perfume não me era familiar e ao sentir a fragrância na fita vi que realmente não o conhecia. Tinha um cheiro estranho, como algo azedo e forte. Peguei o bilhete colado nele e o li:

“Sabe esse cheiro azedo? É como cheirava a minha vida antes de te conhecer.”

Ri da breguice e vi que alguns degraus acima havia outro frasco.
O próximo perfume eu conhecia. Era o perfume que vendi a ele quando nos conhecemos e que ele passou a usar desde então. O que cheirava a homem inteligente e sexy e me fez agarrar ele. E no bilhete dizia:

“Esse é o cheiro que trouxe o amor da minha vida”

Balancei a cabeça negativamente com a fofura e subi mais os degraus até chegar no penúltimo perfume. Esse eu conhecia mais ainda. Cheirava a lilás e dia chuvoso.

“Esse é o cheiro que o amor da minha vida tinha quando o conheci.”

Sorri de orelha a orelha, incrédula e emocionada por ele ter lembrado desse perfume que eu não usava há anos!
No último degrau não havia nenhum frasco, mas sim uma blusa minha também com um bilhete:

“Mas esse... Esse, meu amor, é o seu perfume. O perfume que me faz feliz. Cheira a paz. Consegue sentir?

Cheirei a blusa rindo em meio a meu estado choroso. Era uma blusa que eu havia vestido dias atrás e nem tinha lavado ainda! Mas se ele diz que cheira a paz...

Agora, depois de todos esses cheiros, que tal descobrir o cheiro do homem mais nervoso e apaixonado do mundo e que está bem atrás dessa porta?!”

Olhei pra frente encarando a porta do nosso quarto e fui até ela, respirando fundo a abri devagarzinho. E lá estava ele: . De braços abertos e com o sorriso mais lindo que eu já havia visto na vida. Rodeado de mais pétalas de rosas de frente à nossa cama. O teto do quarto inteiro estava cheio de balões em forma de coração e a iluminação era toda por velas.
- O que é tudo isso? – consegui dizer com a voz embargada, surpresa com tudo aquilo. riu.
- Tudo isso é pra dizer o quanto eu te amo. – ele disse tranquilo e sem parar de sorrir. – Vem cá, vem! – Me chamou pra ficar no meio do quarto junto dele e eu fui, com o coração batendo acelerado, o estômago revirando de ansiedade e um sorriso no rosto que refletia o quanto eu estava feliz naquele momento.
me puxou, me dando um selinho apenas e me abraçando. Me deixando juntinho dele, me segurando pela cintura e encaixando seu rosto em meu pescoço, de modo que seus lábios ficaram colados em meu ouvido, me fazendo arrepiar exatamente como da primeira vez em que ele se enfiou ali.
- Posso te contar um segredo? – apenas murmurei em afirmação, fechando os olhos. - Eu nem precisava de perfume nenhum quando entrei naquela loja... Mas eu estava passando e senti que deveria entrar. Simples assim! – deixou um beijo em meu pescoço e uma mordida de leve em minha orelha, me fazendo arrepiar novamente e respirar fundo. - Acho que minha alma já sabia de algo, que meu corpo e mente ainda não sabiam. Sabia que nossos corpos foram feitos pra estarem juntos, assim coladinhos, sem medo e para sempre. – Ele me apertou mais um pouco em seu abraço e eu deixei um beijo em seu ombro. - Por isso eu não senti como se estivesse começando a te conhecer e sim como se estivesse lembrando de algo. Como se a cada vida que já vivemos, optamos por voltar, achar um ao outro e nos apaixonarmos de novo. Várias e várias vezes até a eternidade. – ele afrouxou nosso abraço e segurou meu rosto, fazendo um carinho em minha bochecha, sorrindo pra mim enquanto eu sorria de volta e focando seu olhar no meu. - E eu tive tanta sorte por ter te encontrado nessa vida, porque tudo o que eu quero fazer... Tudo o que eu sempre quis fazer, é passar a vida te amando. Então... – arregalei os olhos e levei à mão a boca enquanto via se ajoelhando no chão, sem soltar minha outra mão que tremia de nervoso. - ... – a mão livre dele de repente apareceu com uma caixinha com uma aliança dentro e eu já sentia meu rosto molhado pelas lágrimas. - Quer se casar comigo?

Flashback off

💙💍💙


- Bem, fico feliz de ter conseguido cumprir minha promessa. – finalizei meu discurso e o salão inteiro começou a aplaudir enquanto minha mulher se levantava para vir ao meu encontro e eu ia ao dela. foi logo me abraçando apertado e eu a abracei de volta, quando me soltou suas mãos foram pro meu rosto, espremendo minhas bochechas e me fazendo rir, enquanto eu ainda a segurava contra mim.
- Você não existe! – disse olhando em meus olhos e balançando a cabeça. E eu sabia que esse era o seu “eu te amo”, mas ela ainda fez questão de o dizer com as palavras habituais - Eu te amo tanto! – e dito isso juntou nossos lábios, em um beijo lento e forte que me fazia sentir a adrenalina de estar apaixonado, como se estivéssemos andando numa corda bamba e fossemos ser jogados para cima. E me fazia extremamente feliz lembrar de que sentiria essa adrenalina pelo resto de nossas vidas.


Fim.



Nota da autora: Tudo bem, eu sei que essa fic ficou dez vezes mais melosa e dramática do que a música pedia, mil perdões! 😂
Mas é que minha ideia original não estava fluindo e quando eu vi um vídeo dessa música com o Dan e Aja e somei ao fato de minha irmã estar casando e a família só falar nisso, acabou saindo isso aí mesmo! Só espero que não tenha ficado um completo desastre e que quem ler goste pelo menos um pouquinho.
E se você foi uma das pessoas que leu e gostou um pouquinho, eu fico extremamente grata e também gostaria muito que deixasse um comentário aqui embaixo. Também sou super aberta a opiniões e críticas construtivas, ok?!
Queria agradecer a Jessica, que fez essa capa linda da minha fic e todas as outras capas desse ficstape, mas principalmente a Eli porque essa fic definitivamente não teria saído sem a ajuda dela. Você é um anjo, Eli, não desiste de mim e muito obrigada 💜
Agora deixo a dica pra irem ler o restante desse ficstape, porque autoras maravilhosas conseguiram fazer jus a esse álbum com fics super legais, viu! É só clicar no ícone escrito “ficstape evolve” aqui embaixo que vai pro link onde estão as outras fics.
xoxo





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