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Última atualização: 13/08/2022

Capítulo 1 – Careless Whisper

There's no comfort in the truth, pain is all you'll find
(Não há conforto na verdade, dor é tudo que você vai encontrar)

Desde antes de entender-se por gente, sempre esteve envolvida com carros e corridas. Filha caçula de Dale Earnhardt, ou como era conhecido, The Intimidator, o automobilismo estava em suas veias. Após a morte do pai na tradicional Daytona 500, a paixão de por esse mundo ficou ainda mais forte, sendo aquela a ligação perpétua com seu querido pai. nunca abandonou o mundo do automobilismo e fez dele sua carreira, e da sua carreira, sua vida. Tornou-se engenheira mecânica premiada e sem usar o sobrenome do pai, para que ninguém a acusasse de estar sugando o nome dele para conseguir sucesso. Conseguiu o que para muitos da área parecia impossível: foi contratada como a mais jovem engenheira da Ferrari.
Miller Earnhardt fez da Ferrari seu lar. E da Fórmula 1 sua paixão, mas nunca deixando de lado a admiração pela Nascar, onde viu seu pai alcançar suas maiores vitórias.
Assim como o pai, adorava os dias das grandes corridas. O GP de Mônaco era o seu preferido, e com o passar dos anos a preferência só aumentava. Era emocionante e desafiador colocar um carro para correr naquelas pistas, ainda mais sendo uma criação sua. não poderia ficar mais ansiosa para o início da corrida e ver a Scuderia Ferrari ali.
— Bom dia, equipe! — cumprimentou, animada, ao chegar no Paddock.
— Viu passarinho verde hoje, Miller? — Marlo perguntou, fazendo Miller revirar os olhos.
— Vermelho. Vi essa minha belezinha aqui que vai entrar na pista.
— E vai destruir, tenho certeza — o segundo engenheiro da equipe respondeu, e um incômodo fora do comum pareceu percorrer o corpo de .
Deveria ser coisa de sua cabeça, pensou a jovem, não tinha nada para dar errado naquela corrida. A Scuderia Ferrari estava brigando pelo título e, naquela manhã, Giuseppe Fernandez largaria na Pole Position. Tudo estava se encaminhando para mais um sucesso da equipe.
— Giu! — chamou o piloto pelo apelido assim que o viu sair de sua sala. — Como estamos?
— Relaxe, principessa, está tudo dentro dos conformes.
Ao dizer o apelido íntimo que tinha dado para a engenheira, olhou em repreensão para Giuseppe. Ninguém da equipe poderia saber que os dois tinham um relacionamento além do profissional há um mês.
Bambino! brincou com o rapaz, que era mais novo que ela apenas dois anos. — Prepare-se para entrar no carro.
— Já nasci preparado, prin… querida .
sorriu. Aquilo era uma verdade incontestável. Giuseppe Fernandez era o piloto mais jovem da Ferrari e já havia subido no pódio em quatro grandes prêmios. Mônaco era a esperança que pela primeira vez ele fosse campeão.
— Boa sorte, bambino. Faça essa máquina voar.
— Foi feita por você, né? Confio nela de olhos fechados.
sorriu e o abraçou. Abraços antes das corridas eram comuns no Paddock, então não chamaria a atenção da equipe. Mas Giuseppe, mesmo não sabendo de fato o que a morena sentia por ele, queria beijá-la na frente de todos. Sabendo que não podia, apenas correspondeu o abraço o mais forte que pôde e sussurrou em seu ouvido:
— Te trago a vitória, principessa.
sentiu seus pelos arrepiarem e o soltou, ainda com um sorriso no rosto.
— Fernandez! — o preparador o chamou, fazendo com que o piloto voltasse sua atenção inteiramente para a corrida que iria começar.
Giuseppe largou na Pole Position e conseguiu manter a posição após as voltas iniciais, disputando com seu companheiro de equipe Vettel e o piloto da Mercedes, Lewis Hamilton. Até que, na sexta volta, Fernandez começou a perceber problemas no carro.
Tem algo de errado! — gritou nos microfones.
— Boxes, agora! — respondeu, mesmo não sendo o indicado para o início da corrida.
— Você está louca? — Marlo perguntou fora dos microfones para a companheira de equipe, que o ignorou. — Estamos em primeiro, não podemos arriscar perder posição.
— Não podemos arriscar o piloto — ela respondeu. — Para os boxes, Fernandez — repetiu ao microfone.
Lewis me ultrapassou! Vettel também! Não…
— Boxes, Fernandez! É uma ordem! — decretou. — Preparem-se! — gritou para a equipe, que já estava a postos para receber o piloto.
— Você vai estragar tudo, Miller.
— Eu que mando aqui, Marlo. Obedeça.
Porém, para a surpresa da equipe, Giuseppe não conseguiu realizar a última curva que faltava para a chegada nos boxes. Ele estava a poucos segundos para a entrada, mas bateu o bico de seu carro na parede da curva em alta velocidade. Ninguém no box parecia acreditar que o carro tinha sido partido ao meio por conta da batida violentíssima no guard rail, muito menos quando a Ferrari que Fernandez pilotava explodiu em chamas.
gritava ao microfone, mas não obtinha nenhuma resposta do piloto. A bandeira vermelha foi decretada 4.5 segundos após o impacto, e o carro médico levou 10 segundos do momento do impacto até o local do acidente. Giuseppe, inconsciente, foi retirado dos destroços e recebeu atendimento de emergência estendido na pista, enquanto a equipe apagava o fogo que já tinha consumido toda a traseira do carro. Até que o helicóptero pousou na pista para removê-lo, sendo levado imediatamente ao hospital.
Tudo aconteceu rápido demais. O aviso, a batida, o fogo, tudo. A equipe da Ferrari ainda estava atônita, tentando resolver rapidamente com a FIA, enquanto estava em choque no chão do box.
Giuseppe Fernandez tinha perdido o controle e a batida tinha resultado na perda total do veículo. Restava esperar para saber se aquele dia terminaria em tragédia ou milagre.
, … — o diretor de máquinas a chamou, balançando seus ombros. — Precisamos ir para a sala!
— Giuseppe… Ele tá vivo? O carro pegou fogo, Will. Pegou fogo.
— Não sabemos, o helicóptero o levou. Vamos , levante-se.
não soube dizer como arranjou forças para se levantar daquele chão que parecia mais gelado que o normal. Andou até a sala principal de reunião acompanhada de Will, mas, desde que entrou ali, não conseguiu escutar nada do que era dito. A única coisa que passava pela sua cabeça era o acidente de Giuseppe. O acidente ainda não tinha nenhuma explicação lógica e parecia que nunca teria. O carro estava impecável, o piloto era o melhor, as condições da pista estavam na mais perfeita ordem. Nada naquele dia estava fazendo sentido.
As horas pareciam não passar. Cada vez que o telefone tocava na sala de reunião, o coração de só faltava sair pela sua boca. Ficar esperando por uma ligação que tivesse noticias certas de Giussepe parecia um jogo de tortura, no qual era a principal jogadora. Era ela quem tinha projetado o carro, quem tinha o liberado naquele dia para a corrida. Era ela quem também estava envolvida romanticamente com o piloto, mesmo que fosse apenas há um mês. Naquele jogo, não ganharia nunca.
Até que o telefone tocou, e, desde aquele momento, Miller soube que sua vida nunca mais seria a mesma.
E então o helicóptero sobrevoou pela pista de Mônaco com a bandeira da Itália pendurada. Aquilo só significava uma coisa: o automobilismo estava de luto pela morte do jovem piloto Giuseppe. O esporte estava de luto por um dos pilotos mais brilhantes que já tinham visto correr pela Scuderia Ferrari.


Capítulo 2 – Atlantis

Losing everything I’ve ever know, it’s all become too much
(Perdendo tudo o que já conheci, tudo se tornou demais)

Mesmo concentrada nas fórmulas à sua frente, aumentou o volume dos fones de ouvido quando percebeu que sua mente estava divagando outra vez para o pior dia de sua carreira. Mesmo após cinco anos, o dia 29 de maio de 2017 ainda passava na cabeça da engenheira como se tivesse ocorrido há poucos dias.
Nada mais na vida da engenheira pareceu funcionar depois da morte de Giuseppe Fernandez.

CNN informa: Morre Giuseppe Fernandez, prodígio da Fórmula 1 após batida de carro.

GloboNews: Acidente mata precocemente corredor da Fórmula 1.

BBC News: Fórmula 1 de luto. Morre hoje Giuseppe Fernandez após trágico acidente no GP de Mônaco.

Fox News: Acidente ou Imperícia? Ferrari se pronuncia sobre a morte de Giuseppe Fernandez.

ABC News: Após trágico acidente, engenheira Ellie Miller é demitida da Ferrari e processo é arquivado.

O fatídico acidente, segundo divulgado pelo parecer técnico de engenheiros da Ferrari, foi causado por uma falha no motor e pneu na sétima volta do GP de Mônaco. O pneu do carro do piloto italiano estourou em uma curva, ocasionando um capotamento por centenas de metros. Para além da batida, o carro começou a pegar fogo por conta do esquentamento excessivo do motor. O parecer basicamente atribuía a culpa à última engenheira que teve contato com a supervisão do carro, pois tudo poderia facilmente ser resolvido se tivesse executado seu trabalho de maneira correta. nunca acreditou que tivesse sido falha sua, mas nunca teve como provar. Sempre desejou que a Ferrari continuasse as investigações do trágico acidente, mas a equipe italiana preferiu arquivar o caso junto da FIA, pois já tinham achado um bode expiatório. Era preferível que a única mulher engenheira da equipe fosse culpada do que gerar ainda mais riscos para a imagem da escuderia.
Então, assinou a demissão e nunca mais foi contratada por nenhuma equipe, pois ninguém queria correr o risco de ter a imagem atrelada à possível causadora da morte da promessa da escuderia italiana. voltou a morar com sua família nos Estados Unidos, Carolina do Norte, lutando contra a estagnação da carreira e dedicando-se inteiramente à pesquisa.
— Filha, você não vai comer algo? — o toque doce, acompanhado da voz preocupada da mãe de , a fez despertar daquele pesadelo em que sua mente estava.
— Oi, mãe, tô estudando.
— Já faz quase dez horas que você não desce, .
passou as mãos pelo rosto e olhou para o relógio da cabeceira, que já marcava nove da noite.
— Vou trazer algo, ok?
— Obrigada, mãe. E desculpe por ter perdido a hora do jantar, hm… mais uma vez.
— A gente ainda espera por você. Toda noite — Blanca respondeu como se fosse chorar a qualquer momento.
Mais do que ninguém, Blanca Earnhardt sentia falta da filha. Sentia saudade de como era leve, engraçada, sorridente, comunicativa, de quando ela estava sempre presente nas reuniões de família. , para a família, sempre tinha sido a pessoa mais parecida com o pai da casa, desde o seu jeito brincalhão até quando era séria e tinha que resolver problemas. A paixão pelas corridas era só um traço, os dois eram muito mais parecidos do que poderiam imaginar.
Mas desde o acidente que a tirou da Scuderia Ferrari, tornou-se irreconhecível. Para a família Earthnet, eles não tinham perdido só Dave pela segunda vez, mas também parte do brilhante legado que ele havia deixado: a filha caçula.
— Desculpe, mãe…
— Querida, tá tudo bem — Blanca passou a mão direita pelos cabelos presos da filha. — Vou trazer algo para você comer. Depois você volta a estudar, ok?
E recebendo um pequeno aceno de cabeça da filha, Blanca saiu do quarto rezando internamente para que a filha melhorasse. , ao ver a mãe sair, deixou que lágrimas teimosas escapassem de seus olhos. Ela também a queria de volta, mais que tudo. Giuseppe não iria querer vê-la daquele jeito, muito menos o seu pai.
Mas era difícil, mesmo com toda a ajuda e compreensão. Faltava algo. E sabia que nunca mais teria de volta o que tinha sido lhe tirado, e nunca mais iria poder cumprir a promessa que havia feito ao pai.
Aquilo a destruía por inteiro.


🏎️


Hungaroring
GP da Hungria

O erro de Bottas e a chuva que parecia aumentar a cada minuto fez com que a corrida da Hungria se tornasse uma das mais caóticas da Fórmula 1 em muitos anos, tendo como resultado Esteban Ocon vencendo pela primeira vez na competição e levando a Alpine ao topo do pódio.
Enquanto o francês e a equipe comemoravam, poderia quebrar seu box inteiro com a raiva que estava sentindo dentro de si depois da corrida que fez.
A temporada do piloto era uma montanha-russa, mas parecia que sempre estava no fundo do poço. Conseguiu o papelão de ficar em 11º em um Grand Prix, onde apenas treze pilotos estavam disputando. Ficou não só atrás da Alpine, mas também das duas Alfa Romeo, além de ter que ver seu companheiro de equipe, Lando Norris, conseguindo pontuar para a equipe e conquistando a P7.
estava frustrado. Ele havia mudado para a McLaren para conquistar pódios e pontos para fazer a equipe brigar na Competição dos Construtores, mas até agora só tinha sido decepcionante. ainda não havia conseguido um único pódio pela equipe e parecia sempre chegar atrás do companheiro, o jovem Lando. O que fazia sua confiança ficar ainda mais balançada.
Sua chegada à McLaren foi recebida com expectativas muito altas depois que largou a Renault, mas uma das suas maiores dificuldades estava sendo acostumar com o novo carro. Parecia que nunca o conseguia levar ao seu máximo, por mais que tentasse. Ele não estava encontrando a consistência necessária para pilotar.
Por sorte, as férias de verão estavam em sua porta. só queria entrar em um avião e não pensar mais em corridas, pódios, treinos e todo o resto pelos quinze dias que teria de descanso.
E aquilo o destruía, porque a Fórmula 1 era sua vida.


Capítulo 3 – I'm Still Standing

And did you think this fool could never win?
Well, look at me, I'm coming back again
(E você pensou que este idiota nunca ia conseguir?
Bem, olhe para mim, estou de volta outra vez)

24 de outubro de 2021
Austin, EUA


Faltavam cinco GPs para a temporada de 2021 acabar e estava ansioso para que aquele ano terminasse. Depois que saiu da Renault, nada do que havia planejado para sua estreia na McLaren saiu como planejado.
Mesmo após o quinto lugar em Monza, Itália, onde trouxe pontos importantes para a equipe – já que foi o único a pontuar no GP –, estava cada vez mais decepcionado consigo mesmo e pressionado tanto pela equipe quanto pela mídia. A cada corrida, perdia espaço para o companheiro de escuderia, Lando Norris, o jovem piloto já considerado um dos futuros da Fórmula 1. não conseguia entender como havia decaído tanto. E o fato de estar ficando cada vez mais velho e longe de ganhar um título o fazia duvidar cada vez mais sobre a sua permanência no meio do automobilismo.
Assim que colocou o capacete, já em seu carro, rezou para todos os deuses existentes para que, naquela corrida, conseguisse ao menos pontuar para sua equipe. também pensou em seu ídolo, Dale Earnhardt, pedindo para que este o guiasse naquela pista em sua terra natal.
Então, as cinco luzes vermelhas apagaram, e esqueceu o mundo ao seu redor. Somente pontuar naquele Grand Prix importava. Max Verstappen largou da pole position, mas, logo na curva 1, Hamilton, por dentro, conseguiu a liderança, deixando os espectadores ainda mais eufóricos. Todos tinham a certeza que a disputa seria, mais uma vez, entre Mercedes e RedBull. Mas ninguém pareceu se esquecer da batalha que estava acontecendo logo atrás, entre Ferrari e McLaren.
Para a surpresa da própria equipe, mergulhou por dentro e ultrapassou Carlos Sainz, deixando para trás o companheiro de equipe, Lando, que pareceu perder tração, logo diversas posições para os rivais. A briga entre , Sainz e Leclerc parecia estar tão boa quanto a briga entre Hamilton e Verstappen, que pareciam tão imersos na própria batalha que esqueceram-se por um momento também disputar com outros dezoito pilotos.
O ego cobrava. E naquela corrida não foi diferente. A chuva começou a cair e Hamilton viu a oportunidade de ultrapassar o rival, então mergulhou para tentar cortar sua frente. Mas Max não quis dar o braço a torcer de jeito nenhum e freou tarde, fazendo com que o pneu dianteiro direito de Hamilton tocasse seu pneu traseiro esquerdo. A suspensão quebrou quase imediatamente; o carro rodou em altíssima velocidade pela brita e acertou em cheio o paredão de pneus.
A direção de prova agiu rapidamente, e, em segundos, a bandeira vermelha já estava estendida. A corrida foi paralisada e os pilotos retornaram aos boxes para aguardar uma nova decisão da direção de prova.
— Você está indo bem, !
— Certo — limitou-se a responder para a equipe.
Ele não queria se animar demais e acabar perdendo o foco. A raiva que sentiu naquele dia de toda a sua situação estava lhe servindo para seu benefício mais do que o esperado. E ele não iria estragar tudo, iria aproveitar cada brecha que pudesse daquela corrida – a começar pela retomada pós-paralisação.
A corrida recomeçou e todos já estavam cientes da punição de dez segundos que Hamilton havia recebido por causar a colisão com Verstappen, para desespero da RedBull, que esperava que o piloto perdesse algumas posições. Mas foi que aproveitou a punição de Lewis, que caiu para quarto lugar, fazendo sua melhor volta – saiu do quinto lugar e conquistou o segundo. O australiano disputava diretamente com Checo Pérez, que não conseguiu segurar o primeiro lugar por muito tempo. estava em primeiro naquela corrida e tinha pneus novos.
Pérez, mesmo usando o DRS, não achava espaço para a ultrapassagem. era rei quando se tratava de chuvas nas corridas; chegava a parecer que, por baixo d’água, ele se destacava. O piloto da McLaren era mais rápido do que seus rivais em todas as voltas. Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo ali, parecia que um milagre tinha caído sob .
— Hamilton está em P3, ! Pérez não vai segurá-lo por muito tempo.
— Quantos segundos?
— Cinco segundos de você.
— Ele não vai me passar.
Faltando apenas cinco voltas para o final da corrida, Hamilton ultrapassou Pérez e estava apenas a 2,5 segundos de . E como se sua vida dependesse daquele resultado, acelerou ainda mais, conseguindo a volta mais rápida da corrida.
Mesmo com o britânico em seu encalço, os deuses para os quais rezou ao entrar em seu carro intercederam por ele e o australiano cruzou a bandeira quadriculada.
— P1, ! P1!
— Porra! — gritou, deixando explodir tudo o que estava guardado, soltando uma gargalhada em seguida. — YEAAAAAAAH! P1, merda! WOOAAAAAH!!!
gritou mais algumas vezes e, antes que parasse o carro, mandou uma mensagem para a equipe e para quem mais ousasse duvidar que ele merecia estar correndo na Fórmula 1.
— No fundo, eu sabia que isso ia acontecer… Então, obrigado por me apoiar. E para qualquer um que pensou que eu saí: eu nunca saí, apenas me afastei por um tempo. Obrigado, gente! Obrigado!
queria poder parar no tempo e viver aquele momento para sempre. Ele tinha conseguido seu primeiro pódio naquele ano infernal.


🏁


É a McLaren pilotada por que ganha o Grand Prix dos Estados Unidos! — o comentarista gritou, e o mais velho sorriu com a vitória do time laranja, mas abaixou o volume assim que viu o rosto emburrado da mãe.
— Você sabe que sua irmã não gosta mais de corridas de Fórmula 1, desligue isso.
Mama, venha ver! Esse cara é fã do papai.
— Piloto de Fórmula 1? Jura? — Ralph deu um sorriso sincero e juntou-se ao filho à frente da televisão. Ela amava saber que seu marido, mesmo depois de tanto tempo, ainda era lembrado.
— Sim! Isso é reprise da corrida, olhe o que ele falou do papai — disse animado, mostrando o telefone para a mãe.
Na tela do smartphone brilhava um tweet do piloto australiano que dizia: “Obrigado, Austin! Hoje meu ídolo me abençoou e eu espero ele esteja orgulhoso de mim! Obrigado, Dale, nunca esquecerei de você, CAMPEÃO! 🏁”
— Que menino bom! Vou convidá-lo para jantar.
— Aqui em casa? — Ralph estranhou o pedido. A mãe quase nunca convidava alguém para jantares em casa, já que nunca estaria presente.
— Sim! Eles estão em Austin, não é? Convide-o. Como fã do seu pai, acredito que ele virá.
— Mandei mensagem!
— Você escreve muito rápido nesse negócio — a mãe brincou quando o filho mostrou que já havia feito o convite.
— Não tanto quanto naquele computador. Ela já desceu hoje? — perguntou, mas pela expressão que tomou conta do rosto da mãe, preferiu não ter perguntado. Ele já sabia a resposta. — Ei, o respondeu!
— Mas já?
— Acho que ele deve estar num porre comemorando e com o celular na mão — riu. — Olhe, disse que vem amanhã à noite. Falou, “me mande o endereço que estarei aí, será uma honra!”
— Será que ele vai lembrar?
— Se não lembrar, pelo menos a senhora não terá que se preocupar, pois teremos comida para o restante da semana.
Blanca soltou uma risada sincera e deixou-se envolver no abraço do filho mais velho. Ela sentia falta da presença de , mesmo ela estando tão perto, e ter Ralph ao seu lado lhe trazia conforto e calma. Uma coisa positiva tinha resultado daquele caos todo que a vida da família Earnhardt tornou-se. Blanca teve ainda mais certeza que sua família era unida e que eles jamais abandonariam uns aos outros.
Ralph decidiu se aposentar da NASCAR no mesmo ano do incidente com a irmã, e mudou-se de vez para ficar em Charlotte com as duas mulheres de sua vida. Mas não ficou longe das corridas por muito tempo, virou comentarista da NASCAR Cup Series na NBC e sócio da equipe JR Motorsports. Ao longo dos seus 46 anos, não tinha mulher, nem filhos, para a tristeza de Blanca que sempre quis ter a casa lotada de netos. Mas os três estavam bem, dadas as circunstâncias atuais, e sempre fariam de tudo para que voltasse a ser a de antes.


🏁


Blanca Earnhardt preparou a mesa do café da manhã para os dois filhos como fazia toda manhã, pontualmente às sete horas.
— Bom dia, mãe!
— Bom dia, querido. O piloto respondeu?
— Quem respondeu? — perguntou, com a voz cheia de sono, ao chegar à cozinha coçando os olhos.
— Filha? — Blanca perguntou, surpresa ao ver a mais nova. Ela não conseguia se lembrar da última vez que a filha esteve ali para fazer uma refeição junto dela e de seu irmão.
— Oi, mãe. Oi, Ralph — esboçou um sorriso gentil.
O mais velho piscou várias vezes, deixando o celular sobre a mesa. Com a mão livre, fez carinho na mão da irmã que estava sobre a mesa, e deixou escapar uma lágrima que logo limpou. Ninguém mais entenderia a importância daquele momento para a família Earnhardt.
estava ali entre eles para o café da manhã.
Apesar de não demorar muito à mesa, Blanca estava se sentindo feliz e realizada. Sua menina havia descido para comer em companhia da família depois de meses. Desde o acidente, era raro sair do quarto, principalmente para fazer refeições. A mais nova havia adquirido, junto da depressão, uma espécie de transtorno alimentar que não a permitia comer normalmente. Mesmo com as consultas regulares, se recusava a tomar remédios e dizia que melhoraria em seu tempo, que precisava ter o seu próprio, mesmo a mãe achando que estava demorando demais.
Mas não era uma reclusa completa. Ela não vivia presa em seu quarto há cinco anos, como sua mãe fazia parecer. Ela entendia a mãe e o porquê de ela vê-la assim, mas não era totalmente verdade. Seus passos de cura eram passinhos de bebê, mas ainda eram passos.
ministrava tutoria para a turma de mestrado da Universidade de Berkeley, na Califórnia, porque tinha PhD de Engenharia Mecânica com ênfase em Fenômenos de Transporte, além de ser uma pesquisadora. Ela não precisava atravessar os Estados Unidos para ensinar; os alunos vinham até na faculdade de Charlotte uma vez a cada três meses para aprender. Sentia-se tranquila, porque convivia com nerds iguais a ela e que não se interessavam pela Fórmula 1, não sabiam de seu passado e nem poderiam a ligar a um acidente que aconteceu em 2017 com o jovem piloto. Mesmo o mundo inteiro sabendo quem era Giuseppe Fernandez, era uma sombra e um passado distante da Ferrari e dentro daquele mundo completamente fechado. Fora dali, ninguém a conhecia. Pelo menos ao escondê-la, a escuderia italiana fez um bom serviço.
gostava de dar aulas trimestrais e ajudar alguns alunos a dar prosseguimento em suas pesquisas, mas aquilo não a fazia feliz. A coisa que fazia feliz era estar no paddock, cercada por aquele mundo, mas ela nunca mais colocaria os pés dentro de um autódromo. E aquilo ainda a destruía por dentro. Sem poder viver em seu real mundo, não tinha nada. Nenhuma paixão, alegria verdadeira, nada. Era como se tivesse um grande buraco em sua vida.
Por aquele motivo, e também por sentir ainda muita culpa, vivia reclusa em seu próprio mundo dentro do seu quarto. O seu infinito particular. Ali tinha um setup completo, conseguia realizar suas pesquisas e ajudar alguns jovens estudantes. não conseguia enxergar motivo para sair do quarto e fazer refeições em família, viajar e conhecer novas pessoas. Afinal, não era justo ela voltar a ter uma vida normal quando tinha contribuído para tirar a vida de alguém. Desde o acidente de Giuseppe, sentiu-se culpada de seguir sua vida e estar o tempo inteiro com a família, pois pensava que tinha tirado aquele direito tanto do italiano quanto da família dele. Era pelo que tinha acontecido sob sua responsabilidade que a família Fernandez jamais voltaria a ser o que era. E aquilo a consumia por dentro. Ela só estava pagando o preço por todo o caos.
Mas naquela manhã, sentiu-se feliz por fazer a primeira refeição do dia com a mãe e o irmão. Pela primeira vez não sentiu culpa por ter feito uma refeição completa e muito menos por estar em companhia de sua família.
O despertador tocou, a tirando de seus pensamentos e lembrando-a que tinha consulta. suspirou, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e conectou o Google Meet. Em minutos sua psicóloga apareceu na tela do seu MacBook.
— Bom dia, !
— Oi, Vívian, bom dia!
— Você me parece animada hoje, quer compartilhar algo?
— Eu tomei café da manhã com minha mãe e meu irmão, conversamos um pouco. Nada demorado, sabe?
— Isso é uma notícia e tanto! Como você se sentiu?
— Eu me senti bem. Pela primeira vez não senti culpa…
E então a consulta continuou durante quarenta minutos. já tinha passado da fase que eram duas vezes por semana e duravam mais de uma hora, por isso levava aquilo como uma pequena vitória. E ela gostava das suas pequenas vitórias.
— Bom falar com você, ! E pense com carinho na possibilidade de também descer para o jantar, já que o almoço pode exigir muito de você.
— Sabe, Vívian, estou realmente sentindo falta dos jantares que minha mãe fazia. Obrigada pela conversa! A gente se vê em quinze dias.
— Sim! Qualquer coisa você pode me ligar, certo?
— Obrigada! Até.
E a consulta encerrou-se com determinada a fazer mais uma refeição em família. Como era no princípio.


Capítulo 4 – Brighter Days

Think I found the light it's been so long, I better hold on to this feeling before it's gone
Whatever happen we both grew, and let's move on
(Acho que encontrei a luz depois de tanto tempo, é melhor eu me apegar a esse sentimento antes que ele vá embora
Seja o que aconteceu, ambos amadurecemos com o tempo)

estava feliz. Talvez a palavra “feliz” não fosse suficiente para explicar o que estava sentindo desde o momento em que cruzou a bandeira quadriculada, muito menos quando fez sua habitual cerimônia de beber champanhe em sua sapatilha de corrida, ficando descalço no pódio. Por mais que não fosse sua primeira vez no lugar mais alto do pódio, o sentimento ainda era inexplicável. queria viver aquilo em todos os finais de semana.
Ele também gostava do lugar de onde estavam, Texas. Gostava do ar de interior da cidade, gostava de vestir roupas de vaqueiro, lembrava da sua vida no interior da Austrália. tinha um carinho mais do que especial pelo GP dos Estados Unidos, porque era o país natal de seu ídolo. Tanto que, na corrida, usou um capacete em homenagem ao seu herói de infância, o lendário heptacampeão da NASCAR, Dale “The Intimidator” Earnhardt. O layout, totalmente pintado em preto, remetia ao que Dale usava na Nascar. No topo do capacete tinha o número 3, eternizado por Earnhardt e com a mesma fonte que até hoje estampava os carros da mais popular categoria dos Estados Unidos. Na parte de trás, havia a inscrição “Honey Badger”, texugo do mel, apelido de .
sentia-se em casa. Queria ficar mais tempo em terras americanas.
E seu pedido pareceu ser atendido quando uma notificação lhe chamou a atenção. Era mensagem privada em seu Twitter, do filho de seu ídolo de infância.
— Esse final de semana consegue ficar melhor! — comentou para os colegas, mesmo com o barulho das caixas de som.
— Largue esse celular, ! — Carlos Sainz gritou, e teve gritos de concordância.
soltou uma risada. Adorava a companhia dos pilotos quando não estavam disputando por pontos e pódios. Já eram grandes amigos de alguns, mesmo com toda a rivalidade dentro das pistas.
— Não fique triste por Max não estar aqui — Lewis provocou e recebeu o dedo do meio como resposta.
Stroll! gritou o sobrenome do mais novo.
— Aqui! — gritou de volta, indo estabanado até . — O que quer, hein?
— Eu duvido você me arranjar um jatinho para amanhã à tarde.
endoidou, gente! — Ocon, que estava por perto escutando tudo, gritou para os colegas. — quer o jatinho do Stroll.
— Cale a boca, francês idiota. Sério, Lance, eu preciso de um jatinho.
— Arrumo fácil. Mas terá que dançar com Carlos.
— Não sei dançar TikTok!
— Sabe sim! ¡Vamos, papá! — Stroll o empurrou até onde o espanhol estava fazendo passos desconexos até então.
— Preciso de mais bebida!
E como se fosse mágica, mais champanhe surgiu à frente de .
Ele realmente amava os Estados Unidos.


🏁


O relógio marcou uma da tarde e sentiu seu ouvido zumbir quando o jatinho da família Stroll decolou. Ele estava de ressaca, mas agradecido pelo colega ter atendido seu pedido. Na realidade, Lance Stroll aproveitou que esticaria a passagem pelos Estados Unidos então resolveu levar junto Esteban, Pierre, Lando e Carlos.
— Vocês são muito barulhentos — reclamou ao se ajeitar na confortável poltrona. Só uma daquela deveria custar alguns milhares de dólares.
— Na verdade, você que é velho.
— Cale a boca, Lando. Quem te convidou, hein?
— Carlos. Carlos não vive sem mim.
— Não convidei, não, você veio sozinho. Aliás, para onde estamos indo, afinal? Eu nem sei.
— Nem eu, só segui Stroll depois que acordei.
— Isso pode ser considerado sequestro? — Norris perguntou, mas foi respondido por Gasly com uma almofada em seu rosto.
— Carolina do Norte. Charlotte — murmurou e escutou protestos e risadas, que foram ignorados no momento em que colocou os fones disponibilizados no jatinho dos Strolls, que pareciam ser maiores que sua cabeça.
colocou a playlist disponível no Spotify do voo no aleatório e adormeceu escutando o que parecia ser Taylor Swift. Deveria bem ter sido escolhido por Carlos ou Lance. Era a cara deles.
— Acorda, Bela Adormecida — se espantou assim que Carlos retirou os fones de ouvido. — ¡Llegamos!
— Posso levar os fones? — perguntou, mesmo sabendo que não precisava perguntar. Se Stroll negasse, iria pegar do mesmo jeito.
— Leve, leve. A McLaren não tá mais pagando tão bem assim, que você não tem fones? — o herdeiro provocou, arrancando risadas dos colegas.
desceu do jatinho e rapidamente entrou em um carro que já estava esperando por eles. Era incrível como não precisava se preocupar com absolutamente nada quando estava na companhia de um herdeiro Stroll; bastava que eles estalassem os dedos e tudo era resolvido. Talvez fosse por aquele motivo que havia demorado para sentir confiança em Lance, mas com o passar do tempo e convivência no Paddock, os dois viraram amigos. Lance Stroll era um homem bom e íntegro, que tinha dado a sorte de nascer em uma família bilionária.
O motorista os levou para o The Ritz-Carlton, e assim que se acomodaram em seus devidos quartos, se permitiu tomar uma aspirina e dormir um pouco mais antes do jantar com a família Earnhardt. Sua cabeça ainda estava dolorida por conta da madrugada de bebedeira com os outros pilotos. esquecia que seu corpo já não era mais o de um jovem de vinte e poucos anos, mesmo que parecesse um.
Ele acordou às cinco em ponto com o despertador do celular gritando. Deveria chegar na casa dos Earnhardt antes das seis e meia, horário marcado por Ralph Dale Jr., então arrumou-se rapidamente e agradeceu por ter um motorista à sua disposição. não fazia ideia de como chegaria ao lugar e, pela mudança de paisagem, imaginou que a casa da família não ficava nem perto do centro de Charlotte. O motorista foi diminuindo a velocidade, então imaginou que já estava na propriedade dos Earnhardt. Estava longe de parecer uma fazenda, porque não tinha animais, mas era um espaço gigantesco.
A casa era grande, rústica e memorável, onde o muro de pedras destacava a fachada, esbanjando elegância e soberania. Também pudera, era onde a família da lenda do automobilismo da NASCAR residia.
piscou diversas vezes quando o motorista manobrou e lhe deixou próximo ao que parecia ser uma garagem. Pelo que conseguia enxergar, tinha um total de seis carros, sendo um deles uma possível versão de um de corrida do seu herói da infância e uma Ferrari 488 GTB, que parecia nunca ter sido usada. Que a McLaren o perdoasse, mas sentiu vontade de dirigir aquele carro. Era belíssimo.
— Chegamos, sr. !
espantou-se com a voz do motorista que invadiu o carro. Talvez aquela tenha sido as primeiras palavras para ele, além do boa tarde.
— Obrigado! Hm…
— Sr. Stroll pediu que eu ficasse à sua disposição. O senhor quer que eu lhe busque em algum horário?
— Pode ser às 22h. Céus, eu nem trouxe nada, minha mãe vai me matar.
O motorista deixou escapar uma risada ao ver a preocupação do piloto por não ter obedecido regras de visitas, se é que elas existiam.
— O seu nome, desculpe-me, nem perguntei!
— Robert, mas não tem problema, sr. . Às 22h lhe apanho. Não se desespere por não ter trazido nada, acredito que a família nem irá reparar!
respirou aliviado e desceu do carro, ficando em frente à porta. Parecia nem acreditar que estava na propriedade do seu ídolo do automobilismo. Se ele havia se tornado quem era, foi por influência total de Dale Earnhardt. Respirou fundo e tocou a campainha.
Sorriu assim que a porta abriu e revelou uma senhora de estatura mediana, com cabelos loiros e olhos castanhos. Aquela deveria ser a matriarca da família.
— Querido! — a mulher o cumprimentou, animada, dando-lhe um abraço apertado. — Vamos, entre! Junior, veja quem chegou!
— Hey, ! — o filho mais velho de Dale veio em sua direção, também lhe dando um abraço. — Cara, bom te conhecer! Após sua vitória, minha mãe quis porque quis te convidar para um jantar.
— Me chame de Blanca, querido! Nossa, de verdade, fiquei emocionada com suas palavras e com a forma que você fala sobre Dale com tanto carinho! Ele com certeza ficaria feliz em receber você aqui.
— Vocês não têm ideia do quanto estou feliz em estar aqui! De verdade, o sr. Dale é a minha inspiração desde que me entendo por gente.
E os três só não se perderam na hora conversando porque Blanca era muito pontual na cozinha. Assim que o alarme avisou que o forno já poderia ser desligado, a matriarca deixou os dois na sala e terminou de preparar a mesa de jantar. Claro que não arrumou a mesa sozinha, mas gostava de cozinhar. A cozinha era seu templo sagrado, assim como as refeições. Era uma tradição que não largava de mão.
e Ralph sentaram-se à mesa e Blanca percebeu que o rapaz tinha um olhar confuso, como se estivesse querendo entender se só seriam eles dois ou se teria mais gente. sempre pensou na família Earnhardt como uma família grande, assim como queria manter a sua.
— Está faltando , mas acredito que ela não virá. Perdão por isso, inclusive!
, é?
— Minha filha caçula. Somos só nós três nessa casa enorme, acredita? Mas ainda acredito que um dia ela estará cheia. E de crianças, não é, Junior?
— Mamãe, pelo amor de Deus… Não ligue, , ela está naquela fase de me cobrar netos. Aproveite enquanto ainda é novo!
soltou uma gargalhada, e Blanca achou a risada do rapaz única e contagiante. Acabou rindo também de alguma outra coisa dita por ele e o filho. Desejou que estivesse ali.
— Mas que barulheira é essa…. Mio Dio parou de falar no momento em percebeu que tinha companhia na cozinha.
, filha, esse é !
— Oh, mio Dio, madre, como ninguém avisou que teríamos companhia em casa?
— Você nunca desce…
encarou o irmão, e teve a certeza que ela poderia matar o mais velho somente com aquele olhar. E sem nem trocar uma palavra com o piloto, saiu rapidamente da cozinha, deixando-os apenas com o barulho do que pareceu ser um tropeço na escada acompanhado de um xingamento em outra língua.
— Perdoe , . Ela é…
— Ela acabou de xingar em italiano? perguntou, ainda absorto com o furacão que tinha passado pela cozinha.
— Vestígios do tempo em que passou na Ferrari. De vez em quando ela fala em italiano, principalmente quando está estressada.
Ferrari?
E sem que percebesse, Ralph Dale Jr. e Blanca estavam contando toda a história de e Fórmula 1 para .
— Eu tinha 28 anos quando aconteceu esse acidente. O dia me marcou porque, afinal, era Mônaco. Subi no pódio, mas a sensação era esquisita, a gente não conseguiu comemorar. Só sabíamos que ele estava no hospital. Eu nunca poderia imaginar que era quem estivesse no paddock naquele dia. Todo mundo falava sobre a engenheira, mas o assunto logo acabou. Acho que hoje foi a primeira vez que escutei falar sobre essa história depois daquele ano!
— A gente ainda tem que conviver com isso, sabe? não superou, e a Ferrari não fez questão alguma de ajudar. Pelo contrário, baniram de tudo! Tudo!
— Odeio aquela equipe — Ralph disse. Ele nunca se esqueceria do descaso que fizeram com a irmã que tanto se doou por aquele time. — Eles são muito ingratos. Se meu pai fosse vivo, era capaz de tocar fogo naquele lugar.
— Eu iria ajudá-lo, céus, que sujeira! então nunca mais voltou a trabalhar na Fórmula 1?
— Nunca mais. Corridas eram a sua vida, igual eram a vida de Dale, e eles tiraram isso dela. Toda vez que vejo aquela maldita Ferrari estacionada em nossa garagem, tenho vontade de quebrar, mas não me permite.
sentiu seu estômago revirar. Ele sabia mais do que ninguém o quão injusto, sujo e nocivo era aquele mundo; afinal, estava ali desde os seus 22 anos, mas a atitude da Ferrari naquela história tinha sido algo que ele nunca havia visto. Primeiro que, para , as equipes eram como famílias, passavam mais tempo com eles do que com as suas de sangue. Então, eles tinham que se proteger acima de tudo. E proteção foi tudo o que a equipe italiana não fez com .
duvidava que se ela tivesse revelado de quem era filha, o tratamento da escuderia teria sido o mesmo. Para eles, ela era só mais uma peça que dera problema cedo demais.
— Agora sim, boa noite! — a voz de preencheu o lugar, tomando toda a atenção de para si.


Capítulo 5 – Enchanted

My thoughts will echo your name until I see you again.
(Meus pensamentos vão ecoar o seu nome até eu te ver de novo.)

Se pudesse se enfiar em um buraco e nunca mais sair dele, ela o faria.
Como sua própria família aprontava uma daquelas? Trazer gente em casa e nem avisar. Era certo que a mãe e o irmão já tinham recebido algumas pessoas em casa – eles eram pessoas muito conversadeiras e sociáveis. Junior, para completar, era namorador, mesmo não tendo relacionamento sério com ninguém. Mas, naquela noite, eles poderiam ter avisado. Uma mensagem de texto no grupo dos três no WhatsApp resolveria.
Mas ela não recebeu nada.
só tinha tomado um banho durante o dia e nem tinha lavado o cabelo. Usava um moletom rosa manchado e um short preto velho. Era um traje aceitável para um jantar em família na segunda-feira depois de muito tempo, mas era totalmente deplorável para um jantar com em sua mesa.
podia estar totalmente fora do mundo da Fórmula 1, nem fazia mais questão de acompanhar as corridas pela televisão e odiava quando se pegava assistindo, porque não queria mais ter lembranças daquele mundo em que tinha sido expulsa. Mas ela sabia quem era o piloto sentado na cozinha de sua casa. Não porque era fã ou algo do tipo, afinal, ele era de uma equipe totalmente sem história que levava nome de energético.
Mas sabia quem era porque o respeitava.
Desde que a engenheira entrou na Fórmula 1 em 2014, já tinha vencido carros feitos por ela enquanto dirigia um modelo bem inferior. Ele era um excelente piloto que, na época, dava trabalho para a , atrapalhando muitas vezes as dobradinhas de 1º e 2º lugar da Ferrari.
não fazia a mínima ideia se ainda seguia por aquele caminho, mas, pela lembrança que tinha, merecia respeito.
— Isso deve ter sido bem ideia de Junior! — praguejou ao lembrar que tinha tropeçado na escada em que subiu e desceu a vida inteira.
A caçula dos Earnhardt praguejou mais uma vez quando se meteu embaixo do chuveiro e sentiu a água gelada bater contra seu corpo. riu sozinha ao se dar conta que, num espaço de dez minutos, já tinha rogado praga para o vento mais do que era o recomendado por alguma lei da atração. Mas ela gostava de praguejar. Seu irmão dizia que tinha personalidade de um pinscher: pequena e raivosa. Para ser sincera, se considerava um pouco raivosa – sempre tinha sido, tal como seu pai. Mas era do bem assim como o homem que lhe deu a vida.
saiu do banheiro, enrolou os cabelos na toalha e parou despida em frente ao seu guarda-roupa. Enquanto observava suas peças de roupa, percebeu que realmente precisava comprar novas – suas únicas peças decentes eram as que iria para a faculdade ministrar aula. Um total de cinco peças.
Naquele momento, desejou ter uma amiga que pudesse lhe ajudar com roupas, mas ela só tinha sua mãe e seu irmão.
Earnhardt sempre foi muito solitária; desde a faculdade até a vida profissional, nunca foi de ter amizades. Aquele era um mundo desleal, competitivo e machista, que se não tomasse cuidado, poderiam tirá-la do caminho. Não se arrependia do caminho que tinha escolhido, mas se perguntava muitas vezes se poderia ter feito algo de diferente, mesmo sabendo que não.
Stronzo! (Merda!) — xingou-se e pegou o vestido marrom que estava praticamente escondido entre suas calças de linho e jeans. — Irá servir.
terminou de se arrumar, respirou fundo quatro vezes e saiu do quarto. Com toda certeza a sua psicóloga iria gostar de saber que ela interagiu com pessoas além do que já estava acostumada a interagir virtualmente, como seus alunos ou sua mãe e seu irmão. Só não saberia se seria bom ter sido um piloto de Fórmula 1.
Não depois de tudo.
— Agora sim, boa noite! — disse ao descer as escadas, atraindo a atenção do piloto para si.


🏎️


piscou algumas vezes antes de se dar conta que a caçula da família ainda estava em pé, falando algo para o irmão e a mãe. O piloto levantou-se rapidamente e estendeu a mão para a engenheira, que voltou sua atenção toda para ele. Ali, percebeu o quanto os olhos dela eram instigantes e incrivelmente bonitos. Pareciam estar sussurrando “já nos conhecemos?”, mas aquela era a primeira vez que a tinha visto.
— Oi, ! Perdão pela invasão à sua casa — sorriu quando ela apertou sua mão. Seu toque era suave. — Sou .
— Como se você precisasse se apresentar! — disse, fazendo com que ele ficasse surpreso. — Oi, , você já me deu muita dor de cabeça, sabia?
O homem, que não era de ficar sem palavras, ficou. As engrenagens da sua mente pareceriam não funcionar depois da pergunta da engenheira.
— Estou brincando, — ela falou, e o australiano respirou aliviado. — Mas é um pouco de verdade.
— Pare com isso, está fazendo o rapaz ficar tímido — Blanca ralhou com a caçula, fazendo o mais velho soltar uma risada.
Dale Ralph Junior estava adorando aquela situação e tinha a certeza que, se o pai fosse vivo, faria ficar constrangido também. olhou para ele com um sorriso travesso, e os dois sentaram-se à mesa. Para a felicidade da engenheira, a mãe tinha organizado o jantar com comidas que ela adorava.
— A Ação de Graças nessa casa chegou mais cedo! — brincou enquanto servia-se do purê de batatas.
— As visitas primeiro, mocinha.
— Não, pode se servir! — falou antes que Blanca interviesse mais uma vez.
— Mamãe fez até peru! — Ralph comentou enquanto servia-se de um bom pedaço da ave.
— Daqui a pouco vai pensar que não tem comida nessa casa.
gargalhou; ele adorava ambientes familiares, ainda mais quando aquelas provocações aconteciam. Aquilo tudo o fazia sentir-se em casa.
— Todos servidos, hora de agradecer! Nossa Ação de Graças antecipada graças a ! — brincou e a mãe a encarou, como se estivesse perguntando onde a filha tinha aprendido aqueles modos. Era um traço do pai, Blanca sabia.
— O que é Ação de Graças? — perguntou, tímido.
— Por um momento esqueci que você não é americano.
— É um feriado, meu filho — Blanca interrompeu a mais nova antes que ela soltasse mais alguma pérola. — Comemoramos em novembro. está falando isso porque é comum comermos peru nesse dia.
— A gente também agradece pelas coisas boas que aconteceram no nosso ano.
assentiu e pareceu pensar no que ele poderia agradecer naquele ano de 2021. As coisas não estavam maravilhosas para ele, que tinha saído de uma pandemia, trocado de equipe, perdido posições… Tinha muita coisa para reclamar, na verdade. Mas, ao mesmo tempo, coisas boas aconteciam com o tempo inteiro. Sua família estava completa e saudável, tinha ganhado seu primeiro pódio no ano e ainda estava na casa do seu herói de infância, sentado à mesa com a família dele.
era muito grato por tudo aquilo. Ele realmente tinha muito a agradecer.
— Eu começo! — Blanca balançou a cabeça negativamente quando o mais velho começou a falar, mas deixou um sorriso escapulir. — Sou grato por ter conhecido uma mulher bacana lá no trabalho.
não aguentou e soltou uma gargalhada, fazendo todos a mesa rirem também, enquanto Blanca dava tapinhas no braço do filho.
— Eu sou grata por ter peru no jantar hoje — sorriu. Ela era grata não só por ter peru no jantar, mas sim por estar sentada à mesa, de banho tomado, jantando com sua família e fazendo piadas com o convidado como faziam antigamente. Antes de tudo acontecer.
estava grata por ter alguns minutos de vida normal novamente. Mas aquilo era muito para falar na frente do piloto.
— Sua vez, avisou ao australiano, que estava à sua direita, na ponta da mesa.
— Sou grato pelo meu pódio desse final de semana. E por estar aqui.
Blanca sorriu ao sentir verdade nas palavras do piloto. A matriarca da família era conhecida por sempre saber quando as pessoas eram boas ou não, e ela sabia que era bom assim que o filho mostrou-lhe o piloto falando sobre seu marido, e seu pressentimento só se confirmou quando o viu à sua porta pela primeira vez.
A energia das pessoas nunca enganava Blanca Earnhardt. E ela tinha adorado a de .
— Eu sou grata por estar na companhia de vocês nesse jantar — a matriarca sorriu. — Vamos comer!
A ordem foi como música para o ouvido de todos naquela mesa. Toda aquela comida parecia deliciosa, principalmente para , que não via comida de verdade desde o dia anterior. Seu corpo só tinha recebido álcool e comida processada.
— Como tá indo na McLaren, ? — Ralph perguntou, e o piloto bebeu um grande gole do vinho.
— Difícil — foi sincero. Era de conhecimento de todos que sua primeira temporada na equipe não tinha sido nada como o planejado.
— Me perdi nessa história — encarou o piloto com os olhos semicerrados. — Você não era da Red Bull?
— Eu saí em 2019. Fui para Renault, que agora é Alpine.
soltou uma gargalhada. Muita coisa tinha mudado no mundo da Fórmula 1 desde que saiu, mas algo não mudou: a opinião dela sobre algumas equipes. A engenheira sempre achou a escuderia francesa uma piada, e mantinha um claro desgosto pela equipe da Red Bull.
— Cansou de Max Verstappen? Pelo que eu lembre, ele era bem petulante — disse ao se lembrar de quando o piloto surtou com Giuseppe após uma corrida.
— Muita coisa aconteceu. Inclusive, Max está em segundo no campeonato esse ano.
— Hamilton permanece em primeiro? — perguntou após colocar um pouco de comida na boca. Lewis era o piloto que mais respeitava.
— Sim — respondeu, e deu um sorriso —, mas acho que Max ganhará esse ano.
— Não acredito que vou ter que voltar a assistir Fórmula 1.
De acordo com o que estava contando para a família Earnhardt, para o mundo da Fórmula 1 naquele ano estava uma completa loucura. tinha saído da equipe que fora criado desde 2014, Renault tinha sido vendida e Max Verstappen poderia tirar o campeonato de Lewis Hamilton.
, mesmo entretida na conversa com o irmão e o piloto, não conseguiu parar de pensar no quanto sentia falta de estar naquele mundo. Imaginou onde estaria a Ferrari com ela na equipe no meio daquela loucura. Para afastar os pensamentos, resolveu servir-se de mais uma rodada de peru. Para a felicidade de Blanca, também colocou um pouco mais de comida em seu prato. A mulher adorava quando comiam da sua comida; sentia falta de estar com a mesa de jantar cheia.
— Você pode me passar o molho? — perguntou e tocou no braço do piloto.
não entendeu o que aconteceu, mas sentiu suas mãos suarem e seus pelos se arrepiarem com o toque da mulher. Ele largou os talheres, rapidamente pegou a tigela de Cranberry e a estendeu desajeitadamente para a mulher, fazendo com que a louça escorregasse de sua mão, indo parar no colo da engenheira.
— Ah, meu Deus.
Che cavolo! (Que droga!) grunhiu. ainda estava com os olhos arregalados pelo susto, mas levantou-se rapidamente, passando o guardanapo branco no colo da engenheira em uma tentativa falha de limpar. — Ci fai o ci sei? Imbranato. (Você é assim mesmo ou só está fingindo? Atrapalhado).
Scusate, . Scusate. (Desculpa, . Desculpa.) — o piloto pediu, desesperado.
No momento em que percebeu que ele estava falando com ela em italiano, colocou sua mão no braço dele e o encarou. Ninguém nunca respondia quando ela começava a falar na língua estrangeira. não sabia se aquilo a deixava feliz ou ainda mais estressada.
não conseguia decifrar o que os olhos dela queriam dizer. Se ela estava com raiva, ódio, ou só queria que ele parasse de tentar ajudar a limpar o que não tinha mais jeito.
— Você me deve um vestido novo — foi a única coisa que disse para o piloto, pegando o guardanapo de sua mão.
não sabia se a engenheira falava sério ou brincando, mas preferiu não arriscar – com certeza daria um novo vestido para a mulher. Sentou-se novamente e bebeu o restante do vinho que restava em sua taça.
Earnhardt realmente parecia um furacão.
Seus olhos tinham fogo, aquilo era inegável. Pareciam sempre estar prontos para quando a dona ficasse raivosa. Mas ainda com raiva, conseguia ser estranhamente doce.
estava absorto com a presença da mulher e de como ela o tinha deixado sem fala por mais de duas vezes naquela noite. Aquilo não era comum para homens como . Ele sempre fora acostumado com mulheres, por mais que não gostasse da sua reputação no Paddock. Ele era um conquistador nato, nunca passava nervoso para conquistar ninguém. Bastava um sorriso e pronto, todas estavam aos seus pés.
Mas com era diferente.
Ela parecia não estar nem aí para seus sorrisos, o tratava como um homem normal. E estava encantado com aquilo.
O australiano também estava decidido que iria fazer de tudo para se desculpar com a mulher pelo vestido estragado. Nada tiraria aquilo de sua cabeça.
Ele realmente estava encantado em conhecer Earnhardt.


Capítulo 6 – Sign of the Times

Things are pretty good from here, remember everything will be alright. We can meet again somewhere.
(As coisas parecem boas daqui, lembre-se que tudo ficará bem. Podemos nos encontrar novamente em algum lugar.)

14 de dezembro de 2021
Woking, Inglaterra


Quando atravessou as portas da sede da McLaren, em plena terça-feira, cumprimentando a quem sua vista enxergava, fez todos os funcionários pensarem a mesma coisa:
O que o piloto estava fazendo ali logo após o último final de semana da temporada?
Aquilo era estranho. A semana pós final de temporada era quando ninguém tinha notícias dos pilotos, porque eles estavam extravasando por conta do caos que sempre eram as temporadas de Fórmula 1. Ninguém aparecia para trabalhar dois dias depois. Muito menos .
Mas ali estava ele, indo diretamente para a sala de Zak Brown – o que aumentava ainda mais os burburinhos pela sede.
! — o CEO da McLaren exclamou surpreso ao ver o piloto entrar em sua sala.
O homem estava com bom humor, e agradeceu mentalmente por aquilo. Com toda a certeza deveria ser pelo quarto lugar no Mundial de Construtores, já que durante o campeonato foi de muita dúvida que obtivessem um lugar no top 5 da classificação, pois teve momentos que beiravam o sétimo.
— A que devo a honra de ter você aqui tão cedo? Só o esperava aqui no final do mês que vem.
— Precisamos conversar! — ele foi direto, e Brown o olhou preocupado.
Sabia sobre os desejos do piloto de um dia ganhar um mundial e como o carro da equipe dificultou o australiano a perseguir o título. Zak não desejava uma saída do homem da escuderia tão repentina, como havia sido com a Renault na temporada passada.
— Não sendo sobre você sair da equipe, eu aceito falar sobre tudo.
sorriu ao sentar-se na cadeira branca em frente ao homem, e Zak sentiu que podia se acalmar. O sorriso do piloto não era de quem desejava pedir uma quebra de contrato.
— Eu preciso que você me faça um favor, é muito importante.
— Qualquer coisa para o nosso australiano preferido.
respirou fundo e, sem rodeios, disse o que precisava:
— Preciso de uma engenheira nova.
Zak o encarou como se o homem estivesse delirando. Sem contar que ele estava falando no feminino, quando claramente havia passado o ano inteiro trabalhando com um homem.
— Mas você já tem um engenheiro de corrida, a equipe vai começar os preparativos para a nova temporada segunda-feira!
— Eu sei, por isso preciso de uma engenheira nova.
, o que está acontecendo?
— Posso ser sincero? — perguntou, mesmo sabendo que iria falar tudo o que pensava a qualquer momento. — O engenheiro que esteve comigo esse ano não é um dos melhores. Não brigou por mim nas estratégias passadas pelos engenheiros de Lando e vocês, aceitou tudo de cabeça baixa. Não sinto confiança em quem não sente confiança em mim, não tem como continuar dirigindo dessa forma. Eu quero ser campeão. Eu quero estar no lugar mais alto do pódio, e não vejo isso acontecendo se tudo continuar da mesma maneira.
Zak sentiu que o piloto vinha guardando as palavras por muito tempo. Por trás do sorriso mais encantador e fácil do paddock, existia um homem que poderia ter muita raiva e frustração dentro de si. E não era adequado perturbar um homem daqueles, que facilmente enfrentaria um exército com um sorriso no rosto para defender o que acreditava ser certo.
— Tudo bem, — Zak respondeu após uma pausa. — Irei providenciar uma seleção de engenheiros para a nova temporada.
— Eu já tenho uma engenheira em mente, quero que a contrate.
— Você está falando sério?
— Mais sério do que nunca — ele deu um sorriso característico. — Earnhardt.
Earnhardt? — perguntou surpreso ao ouvir o sobrenome. — Earnhardt, da família de Dale Earnhardt? O da NASCAR?
— Exatamente.
A proposta para Zak parecia mais benéfica que o esperado. Ter na sua equipe alguém da família Earnhardt era algo jamais esperado, principalmente por ninguém saber de coisas da família, que era muito reservada. Somente Dale Junior era visto na mídia, e suas aparições fora de seu trabalho eram raras.
Earnhardt é parente de Dale? Sobrinha? Com o que vamos lidar?
— Ela é filha de Dale, a caçula.
— Essa menina desapareceu da mídia desde a morte do pai! Você está brincando.
só pode estar louco”, Brown pensou. Era sabido de todos que Dale Earnhardt havia deixado dois herdeiros, mas apenas um seguiu seu caminho no automobilismo. A mais nova sempre fora apenas um nome sem rosto.
— Estou falando sério, e prometi pessoalmente ao irmão que iria conseguir um espaço para ela em minha equipe.
— Earnhardt Junior quer a irmã na McLaren?
coçou a cabeça, pois já esperava que Zak fizesse muitas perguntas no momento em que revelasse o nome da engenheira. Não era para menos, afinal, a família Earnhardt ainda era muito respeitada no meio do automobilismo de forma geral. Dale havia construído uma história, e seu filho seguiu seu legado com louvor.
— Agora vem a parte complicada da história.
— Vou precisar de uma água, você está me trazendo muitas novidades.
Brown apertou um botão na sua mesa e, minutos depois, lhe foram servidos petiscos, cafés e água. O CEO estava sentindo que aquela conversa iria demorar muito mais que alguns minutos, porque não estava lhe contando a história toda.
E ele estava certo. Mal terminou de beber sua água e voltou a falar:
— Você se lembra do caso Giuseppe Fernandez na Ferrari?
— Em 2017, se bem me lembro. Muito triste o acidente, o garoto era uma espécie de Charles Leclerc daquela época.
— Sim! Você lembra o que saiu da época?
— Não muita coisa, a FIA e a Ferrari foram rápidos em resolver o caso. Saiu apenas que a engenheira deles deixou passar uma falha no carro. Não saiu fotos dela, nada. Era só um nome que, sinceramente, não me lembro. Foi demitida e ninguém nunca mais tocou no assunto.
Miller.
— Não me recordo o nome. Mas por que isso é importante agora, ?
passou a mão pelos cabelos cacheados, nervoso. Era a história de , e ele sentia que estava invadindo um espaço que ela estava tentando deixar para trás. Mas não era justo ela não ter mais uma carreira por puro egoísmo de sua antiga equipe. E ele havia prometido ao irmão de que iria arranjar um espaço para que ela pudesse voltar a fazer o que amava.
sempre cumpria suas promessas, daquela vez não seria diferente.
Miller é Earnhardt. Ela nunca usou o nome do pai para não ser acusada de nepotismo, mas acredito que se tivesse usado a Ferrari, jamais teria feito o que fez.
, você está falando sério?
— Sim, Zak. Estou pedindo que contrate Earnhardt mesmo sabendo do passado dela com a Ferrari.
Zak jogou o corpo para trás e sentiu sua mente trabalhar mais rápido que o normal. Ninguém sabia que Earnhardt frequentava o paddock desde 2015, muito menos que tinha sido expulsa pelas portas do fundo da Ferrari como se não fosse nada. não era uma nepotista – pelo que Zak se lembrava, a Ferrari na época era imbatível, que decaiu no ano do acidente. No ano seguinte acharam Leclerc, mas ainda não conseguiram brigar pelo pódio como Mercedes e RedBull.
— Você tem certeza? — Zak perguntou para o piloto, mesmo sabendo que já tinha sua resposta.
Se conseguisse fazer algo para se acostumar com o novo carro, a equipe como um todo só teria a ganhar. A diretoria de Relações Públicas resolveria se vazasse para a mídia quem de fato era Miller em 2017, mas aquilo seria um problema fácil de resolver. Não teria questões judiciais, afinal, não houve crime e, se houvesse, já teria prescrito.
Zak Brown resolveu arriscar.
— Estou disposto a fazer qualquer coisa para tê-la em minha equipe. Só preciso que você me dê esse voto de confiança.
— Me passe o contato da Earnhardt.
sorriu. Ele tinha conseguido que Zak aceitasse sua proposta arriscada. O australiano sentiu um alívio percorrer seu corpo. Desde que soube de toda a história de e Ferrari, viu-se na obrigação de fazer algo, afinal, era a filha do seu herói de infância. E quando a conheceu durante o jantar, mesmo depois dos xingamentos em italiano, soube que aquilo seria o certo a se fazer, não só por ter ficado encantado pela mulher. Mas porque era justo que ela tivesse uma chance de manter o legado do pai no automobilismo assim como o irmão teve.
E acreditava em justiça.



15 de dezembro de 2021
Charlotte, EUA


gostava quando chegava o mês de dezembro por causa do clima de Natal. Ela não era muito chegada a festividades, mas a época lhe lembrava muito de seu pai. Dale costumava dizer que coisas boas aconteciam no mês do nascimento de Jesus, então aquela era sua época preferida. não acreditava fielmente na crença do pai, mas tinha as melhores lembranças possíveis, então gostava de fingir que em dezembro receberia boas notícias, assim como o pai sempre recebia. Afinal, ele conquistou diversos títulos naquele mês.
sorriu ao passar a mão pela fotografia que ficava em um lugar de destaque na sua escrivaninha. Apesar de não se lembrar do dia em que foi tirada, gostava de olhar para o pai a carregando, recém-nascida, com um macacão de piloto personalizado sob medida para ela. Seu destino estava traçado, de fato, desde a maternidade.
— Me ilumine, papai — pediu em sussurro e voltou a focar no artigo em sua frente.
A engenheira estava fazendo as últimas correções de seus orientandos naquele ano, estava feliz por eles terem a chance de defender sua tese e crescer na carreira acadêmica. valorizava quem escolhia seguir na academia. Achava deveras importante e ficava contente por fazer parte daquele mundo, mesmo não sendo o seu mundo verdadeiro. Era bom ser útil.
Marcou de vermelho um parágrafo que estava confuso e foi quando o toque de seu telefone lhe tirou a atenção. Rapidamente olhou para a tela, mas desligou ao não reconhecer o número. Se fosse algum aluno, receberia um e-mail. Eles não tinham acesso ao seu número privado.
Odiava ser incomodada, mas agradeceu mentalmente, pois pôde olhar a hora e se deu conta que estava atrasada para o almoço com sua mãe e irmão. Desde o dia do jantar com , estava se esforçando para fazer todas as refeições no horário e na companhia de sua família. Ela se sentiu muito feliz naquela noite, como há tempos não sentia, mesmo tendo o vestido arruinado pelo piloto.
desceu as escadas e encontrou a mãe colocando a travessa de lasanha na mesa. Finalmente não tinha sido a única a atrasar para o almoço. Sorriu e foi em direção a ela, dando-lhe um beijo na bochecha.
— Amo lasanha.
— E eu amo você aqui!
Pinscher! — Ralph gritou ao entrar, fazendo o fuzilar com o olhar.
— Você vai ficando velho e cada vez mais idiota, Junior.
— Sem tremedeira de raiva, por favor! — provocou, bagunçando o cabelo da irmã. — Ah, mandou oi para você.
— Quem é ? Ah, não acredito — fez uma pausa ao ver o irmão sorrir. — Você é amigo do piloto agora?
— Sou. Inclusive, ele me garantiu ingressos VIPs para o início da temporada que vem.
— Como se você precisasse — a mais nova deu de ombros. — Diga a esse mão-solta que ele me deve um vestido novo.
não esqueceria do estrago que o australiano fez em sua roupa com molho cranberry. Era seu único vestido.
— Você fala como se não tivesse dinheiro algum. Você ensina isso na faculdade, ser pobre?
— Cale a boca, imbecil.
Blanca balançou a cabeça negativamente e sentou-se. Ela poderia brigar com os dois, mas no fundo adorava ver os filhos daquele jeito, juntos e falantes. Demorou tanto tempo para voltar a ser daquele jeito novamente que, pela matriarca, poderia passar o dia inteiro trocando farpas com o mais velho.
Blanca Earnhardt estava feliz porque parecia estar cada vez mais de volta entre eles.
Os dois sentaram-se próximo a mãe e bateu nas mãos do irmão para que o mais velho não pegasse o pegador. Mas, antes que pudesse se servir, seu celular começou a tocar novamente.
— Que inferno! — praguejou, pegando o aparelho de seu bolso.
!
— Esse número fica me ligando, não sei quem é.
— Atenda! — Ralph disse que como se fosse óbvio.
— Lógico que não. Primeiro que não sei quem é, segundo que odeio falar ao telefone, que me mande um e-mail — disse ao desligar a ligação.
achava insuportável falar ao celular, já que qualquer problema poderia ser facilmente resolvido em três linhas de um e-mail. E ela não iria dar o braço a torcer. Da próxima vez que o número aparecesse em seu visor, ela o bloquearia.


🏎️


não planejava passar muito tempo na Inglaterra. Só tinha ido ao país para resolver as coisas com Zak e, com a afirmativa do CEO, já estava pronto para voltar para casa. Só esperava que Earnhardt aceitasse a oferta da McLaren.
Fechou as malas e foi em direção ao aeroporto – mal podia esperar para chegar na Austrália e ficar com sua família na primeira semana de suas férias. Depois iria para Mônaco e Ibiza com seus amigos, também pilotos. A mansão de Carlos Sainz na ilha espanhola era coisa de outro mundo, valia a estadia.
Sentou-se na sala privativa do aeroporto e entrou no Instagram para passar o tempo. adorava a rede social, era muito útil. Postou um story e, antes que pudesse começar a ver o dos outros, o número de Zak Brown brilhou em sua tela.
— Meu chefe preferido!
, tenho duas notícias. Uma boa e uma ruim.
— Só quero saber da boa.
A boa é que nossa equipe de relações pessoais já está trabalhando no caso Earnhardt. Abigail está no comando e Beatrice vai acompanhar pessoalmente vocês nesse período. Ela é realmente é uma fera, você sabe.
deu uma risada ao se lembrar do jeito único da negra ao lidar com mídias e repórteres.
Mas a notícia ruim é que não consigo contatar . Ao que parece, ela me bloqueou. Minhas ligações nem completam mais.
não conhecia a Earnhardt muito bem, mas já deveria desconfiar que aquela reação seria a cara dela.
Você pode resolver isso? Temos até depois de amanhã para ela assinar o contrato. Precisamos começar a trabalhar.
— Vou resolver. Obrigado por avisar!
respirou fundo, passou as mãos pelo cabelo e foi em direção à atendente da sala privativa. Ele teria que ser colocado urgentemente em um voo que fosse para Charlotte, nos Estados Unidos.


Capítulo 7 – Fight Song

And I don't really care if nobody else believes ‘cause I've still got a lot of fight left in me.
(E eu realmente não me importo se ninguém mais acredita, porque eu ainda tenho muita luta que ficou em mim.)

16 de dezembro de 1996
Charlotte, EUA


O piloto estadunidense da NASCAR, Dale Earnhardt, nunca pensou muito em ter uma família grande, mas sempre quis ter um filho que seguisse com seu legado. Para o grande The Intimidator bastava um sucessor. E ele teve. O primogênito levou seu nome, Ralph Dale Earnhardt Junior, e para orgulho de Dale Sr., sempre fora apaixonado pelo mundo do pai e começou a correr oficialmente aos 17 anos, em 1991.
No mesmo ano que realizou o sonho de ver o herdeiro correr profissionalmente pela primeira vez, descobriu que a esposa teria mais uma filha. Dale ficou surpreso, afinal, não tinha sido nem um pouco planejado. Mas assim que colocou nos braços pela primeira vez, soube que ela era tudo em sua vida. Ele protegeria a menina para sempre, mostraria cada pedaço de si e da sua história. Lhe apresentaria o automobilismo, mas ela seria livre para escolher o que fazer. Ele iria apoiá-la independente do que quisesse fazer no futuro. Poderia ser modelo – Dale Sr. a apoiaria e até mesmo a patrocinaria.
O grande homem de preto faria de tudo por aquela bebê que cabia na palma de sua mão.
Para a sua maior alegria, desde criança sempre fora apaixonada por corridas. A primeira de sua vida foi quando tinha apenas dois anos, e assistiu o pai correr pela primeira vez na NASCAR CUP. Claro que ele trouxe a vitória e dedicou o troféu para a caçula. sempre fora a menina dos olhos de Dale.
Assim como para , Dale era seu herói. Tudo o que a mulher fazia em sua vida tinha o dedo do pai. O automobilismo sempre esteve presente na relação dos dois, desde o nascimento até a morte.
Dale era um homem completo. A família respirava automobilismo, como ele sempre sonhou.
, ao longo dos seus cinco anos, já não queria mais brincar com as bonecas que ainda estavam encaixotadas aos montes em seu quarto. Ela queria saber mesmo da programação das férias com o pai: ajeitar o carro parado na oficina da família. A criança já conseguia identificar com maestria as mais diversas peças espalhadas pelo lugar.
levava muito a sério a missão de ajudar o pai; pegava sempre com cuidado cada ferramenta que lhe era pedida, e sua parte preferida era quando o pai a permitia mexer dentro do carro, saindo todas as vezes suja de graxa. Aquilo sim era diversão de verdade.
Naquele dia, a caçula da família desceu a escadaria correndo, recebendo um olhar de reprovação da mãe assim que pisou na sala de estar.
— Estou atrasada, mamãe — disse, fazendo Blanca balançar a cabeça negativamente, mas com um sorriso no rosto. — Papai já deve estar me esperando.
— Não vá se machucar! — pediu, mas não obteve resposta da menina.
Sem se prolongar no assunto, passou a mão pelo macacão jeans que usava e correu para fora de casa, indo em direção à garagem. Dale Earnhardt já estava ali, com o capô do carro levantado.
— Cadê Junior? — perguntou, chamando a atenção do pai.
— Oi, princesa! Seu irmão foi treinar.
— Hm, ok. Não vejo mais ele em casa — ela soou triste. A pequena sentia falta de ter a presença do irmão de 22 anos em casa, mas tudo o que ele fazia agora era treinar para ser um piloto de elite da NASCAR.
Dale saiu de perto do carro, abaixou-se e chamou a filha para seus braços.
— Um dia você entenderá, querida. Ralph está brigando pelo seu sonho, que é ganhar a Nationwide Series, assim como um dia você precisará brigar pelo seu.
— Vou mesmo ter que brigar? — ela cruzou os braços, pensativa.
— Com toda a sua alma, princesa. Nada vai ser fácil, mas você terá a mim, sua mãe e a seu irmão. Vamos brigar por você também.
— Ótimo — sorriu. — Agora vamos ajeitar esse carro, papai!
— Um dia você terá vários desses para ajeitar!
Os olhos de brilharam. Aquele era seu sonho: ajeitar carros. E ela iria brigar por aquilo, com toda a sua alma.



16 de dezembro de 2021
Charlotte, EUA


rolou pela cama, relutando para se levantar. Ela queria ficar mais um pouco naquele lugar confortável, sonhando com o tempo que passou com o pai. Era aconchegante ter aquelas lembranças. Mesmo não sendo religiosa, acreditava que, quando sonhava com o pai, era porque ele estava por perto.
Levantou-se a contragosto quando sentiu o estômago roncar e desceu a escadaria na esperança que a mãe tivesse feito um café da manhã daqueles. Não teve tempo de comer na noite anterior porque se perdeu na correção dos artigos e acabou dormindo com fome. Mas não viu a mãe nem o irmão na cozinha e nem em lugar nenhum. Por sorte, a mesa continuava posta, de forma impecável, como todos os dias. Entretanto, antes que pudesse se sentar, escutou a campainha.
— Quem visita os outros uma hora dessas? — perguntou a si mesma ao ir em direção à porta.
Assim que abriu, se assustou com o australiano parado com as mãos no bolso da calça de moletom e um sorriso no rosto. “Tinha que ser”, pensou, tinha que parar de frequentar a minha casa quando estou completamente desarrumada.”
!
. Entre — esticou o braço para que ele passasse. — Você está esperando Junior? Esse safado saiu sem avisar.
— Na verdade, é com você. Como é aquele provérbio, “se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha”?
soltou uma risada. só poderia estar maluco. Ela não tinha absolutamente nada para tratar com o piloto e muito menos era entendida de provérbios.
— Não sei do que você está falando!
— Você não atendeu às cinco ligações do CEO da McLaren, então eu tive que vir aqui te buscar. Você será contratada e voltará para a Fórmula 1!
Ao ouvir as palavras do piloto, sentiu seu coração errar as batidas. Deu um passo em falso para trás e foi como se o seu corpo não correspondesse mais a seus comandos. sentiu suas pernas fraquejarem, mas antes que pudesse cair, passou o braço em volta de sua cintura e a manteve em pé.
a colocou sentada no sofá e ajudou a engenheira a colocar sua cabeça entre os joelhos, ficando em pé, à sua frente.
— Respire fundo, — disse, calmo, e passou as mãos pelas costas da morena por longos minutos.
— falou séria, levantou a cabeça e olhou em direção ao piloto. estava com a testa franzida e os olhos estreitados, como se a qualquer momento pudesse matar o homem à sua frente. — Eu não gostei da brincadeira. Isso não se faz.
estava visivelmente abalada e, também, irritada com o piloto. Por alguns segundos, o australiano não soube como reagir ao se dar conta de como ela havia recebido a notícia. A caçula dos Earnhardt parecia tão vulnerável, machucada. Aquilo ainda a atormentava.
, me desculpe, não queria deixar você mal…
— Mas deixou — ela o cortou. — Você pode…
— Mas eu falei sério — continuou ele antes que a mulher o expulsasse da casa. — O CEO da McLaren realmente estava ligando para você e eu posso provar, certo?
manteve seu olhar desconfiado, ainda sem entender por que o piloto estava fazendo tudo aquilo. pegou o celular do bolso e sentou-se ao lado da engenheira no sofá.
— Zak? Oi! — fez uma pausa. — Sim, consegui. Você pode falar com ela, por favor? — estendeu o telefone para , e antes que ela o levasse até o ouvido, encarou, hesitante, a tela. Respirou aliviada ao verificar o nome que ali brilhava: “Zak Brown - Chefe”.
— Hm, oi. É a .
Oi, ! — escutou a voz firme, mas animada do outro lado da linha. — me falou muito bem de você, então queria te convidar para vir aqui em nossa sede, na Inglaterra, tudo bem?
— Sim — ela encarou o piloto. — Falarei com a respeito. Obrigada! E desculpe qualquer transtorno.
Ele tem um jeito peculiar, , não se desculpe — escutou o homem rir. — Te esperaremos aqui, até mais!
A morena encerrou a ligação e devolveu o celular para o australiano, que a encarava fixamente como se esperasse uma confirmação rápida. Mas não teve.
— Você realmente não estava mentindo. Mi scusi.
— Eu não mentiria para você — foi sincero. — Você quer ir?
— Partiríamos quando?
— Comprei o último voo do dia, sai daqui a cinco horas. Aí amanhã de manhã iríamos para a empresa.
assentiu.
— Espere aqui, preciso fazer uma ligação — ela se levantou do sofá e deu as costas para o piloto, mas virou rapidamente como se tivesse lembrado de algo. — Pode comer, se quiser — apontou para o outro cômodo. — Você já sabe o caminho.
Então, deixou o piloto sozinho e subiu a escadaria – sem cair daquela vez. Assim que fechou a porta do quarto, quis gritar. A engenheira havia passado seus últimos anos desejando voltar para o mundo da Fórmula 1 e, quando a oportunidade apareceu, literalmente à sua porta, ela não sabia o que fazer.
pegou seu celular e ligou para o número que já sabia de cor.
? — a voz de sua terapeuta invadiu o quarto. — Você está bem? Esperava seu contato somente na semana que vem.
— Irei cometer uma loucura — foi sincera, afinal, tudo aquilo parecia uma grande loucura.
— Sente-se, respire e me conte o que está acontecendo.


🏎️


A cena de quase desmaiando ao receber a notícia ainda estava na cabeça de em looping. Ele nunca imaginou que veria a engenheira daquela forma, e aquilo o entristeceu verdadeiramente. Os acontecimentos com a Ferrari realmente a fizeram muito mal e tinham deixado consequências mesmo depois de todos aqueles anos.
“Como podem destruir uma vida assim?”, se perguntou enquanto tentava achar uma posição confortável no enorme sofá da sala dos Earnhardt. Mas ele não iria achar conforto algum, pois além de estar se sentindo cansado, estava com fome. tinha pegado um voo de Londres para os Estados Unidos na noite anterior, que durou dez horas – ele não tinha comido, muito menos dormido direito.
O piloto deu de ombros e andou em direção à sala de refeições da família americana. Não seria mal educado, havia oferecido comida. E ele nunca recusaria comida.
Sorriu ao ver a mesa farta, lembrando-se do jantar que tivera ali meses atrás. Os Earnhardt realmente gostavam de comer bem, e gostava bastante daquele traço da família. Ele era um apreciador de boas comidas.
O australiano pegou um prato e sentiu-se num hotel. Panquecas com calda, ovos fritos mexidos, bacon frito, salsichas, pães, cereais, leite, bagels, torradas, até mesmo muffins e cookies estavam à sua frente. “Michael que lutasse em seus treinos”, pensou em seu personal e grande amigo antes de se servir de uma boa porção de ovos com bacon.
O australiano se preparava para mais uma rodada, pegando panquecas com calda de mel, quando foi surpreendido pela matriarca da família e seu filho mais velho.
? — a mulher perguntou surpresa, fazendo o piloto a encarar assustado ainda com um pedaço na boca.
— Oi, senhora Earnhardt! — ele disse com a boca cheia, engolindo rapidamente com a ajuda do suco de laranja. — Desculpe pela invasão, hm, estou esperando ! Ela subiu já tem bastante tempo.
— Você está esperando a Pinscher? — Ralph perguntou, recebendo um olhar de reprovação da mãe e arrancando uma risada alta do piloto. — Aquilo deu certo?
— Sim!
— Aquilo o quê? — Blanca perguntou, curiosa, sentando-se à mesa.
disse que iria conseguir um emprego para na McLaren.
— Ela aceitou? — Blanca não podia se ver, mas sua expressão era de pura felicidade. Ela, mais do que ninguém, desejava que a filha alcançasse seu sonho.
— Não sei — respondeu —, eu espero que sim. Mas ela só me deixou sozinho aqui e subiu. Espero que não tenha fugido.
— A Pinscher deve estar pensando mil formas de dar certo e outras mil de dar errado.
— Pare de chamar sua irmã de cachorro, Ralph. Coisa feia.
— Mas ela é igualzinha a uma pinscher. Relativamente baixa, treme a mão quando fica com raiva, gosta de ser metida a brigona — o mais velho dos Earnhardt provocou a mãe. — Obrigado por tentar, ! Nosso pai deve estar agradecendo também.
— É o mínimo que posso fazer! Afinal, o pai de vocês mudou a minha vida — limpou a boca com o guardanapo. — E a senhora está mudando a minha vida com essa comida deliciosa.
Blanca sorriu em agradecimento; era realmente um galanteador. Mesmo quando falava de boca cheia, conseguia encantar.
Os três continuaram em uma conversa animada. contava mais uma de suas histórias, arrancando risadas, mas parou de falar quando percebeu na cozinha com uma mala e uma mochila nas costas. Ele sabia que a engenheira era bonita, mas a enxergando ali, com a claridade natural que entrava pelas janelas da grande casa, teve a certeza. Ela vestia uma calça de linho preta junto de uma blusa laranja. Calçava um tênis perfeitamente branco, o cabelo estava solto, não usava maquiagem, e se perguntou como poderia ser ainda mais bonita daquele jeito.
— Você terá que me levar para fazer compras — disse para o piloto, chamando a atenção de sua mãe e irmão.
— Para onde você vai com essa mala, hein, mocinha? — Blanca perguntou, mesmo já sabendo a resposta da filha caçula.
— Irei brigar pelo meu sonho, mamãe. Do jeito que papai me ensinou.
nunca havia tido tanta certeza quanto aquela durante todos aqueles anos. Ela iria para a McLaren com e enterraria seu passado com a Ferrari. Earnhardt não estava sozinha. Ela iria brigar por seu sonho de voltar à Fórmula 1 com toda a sua alma.


Capítulo 8 – One More Light

Who cares if one more light goes out? Well, I do.
(Quem se importa se mais uma luz se apagar? Bem, eu me importo.)

17 de dezembro de 2021
Londres, Inglaterra


não conseguiu dormir durante a viagem, ao contrário de , que estava aproveitando todos os benefícios de estar na primeira classe da aeronave. O piloto havia reclinado a poltrona o máximo que conseguia e dormia como se estivesse em sua própria casa, estava até mesmo de boca aberta. riu sozinha ao ver a cena e aproveitou para tirar uma foto, que com toda a certeza usaria contra quando surgisse a oportunidade.
Antes que pudessem sair do avião, ela aproveitou para ajustar seus horários. Esperava que não sofresse com o jet lag, mas sabia que era difícil – afinal, Londres estava cinco horas à frente de Charlotte. Os dois pisaram em terra firme às duas da manhã da quinta-feira, e o corpo de implorava por um descanso. Muita coisa tinha acontecido naquelas últimas horas, e tudo ainda parecia uma loucura.
— Vamos para um hotel aqui, tudo bem? — perguntou assim que pisaram no estacionamento do aeroporto. apenas assentiu, cruzando os braços em uma forma de se proteger do frio. — Fique com isso, deve ajudar — ele tirou o moletom laranja que usava e o entregou para a engenheira.
Em dias normais, recusaria por não querer atrapalhar, mas por conta do frio que estava quase para fazer seus dentes rangerem, aceitou de bom grado. Entregou a mochila que carregava para o piloto e vestiu rapidamente a peça, dando um sorriso de canto ao prestar atenção na marca que estava no punho do moletom.
— Você tem uma marca de roupas? — perguntou assim que entregou a mala para o motorista que os esperava.
— Legal, não é? — ele sorriu, e acenou positivamente com a cabeça. — Você pode ficar com esse.
— Serei modelo da Ric3 — falou, convencida, arrancando uma risada do piloto.
— Será um prazer! E ei — ele deu três tapinhas na pequena mochila da engenheira assim que se acomodaram dentro do carro —, você me avisa quando for para mandar buscar o restante das suas coisas em Charlotte.
riu sem graça e o encarou.
— Eu não tenho mais bagagens, . De nenhum tipo.
O piloto passou a mão pelo cabelo, que já estava com os cachos mais aparentes, e deixou escapar um sorriso ao ver a mulher olhar atentamente cada detalhe da paisagem na madrugada inglesa. Earnhardt parecia sentir-se livre. E adorava vê-la daquela forma.
Liberta, como sempre deveria ter sido.


🏎️


os hospedou no Mandarim Oriental, o hotel seis estrelas que ficava localizado em frente ao Hyde Park.
suspirou, surpresa, assim que pisou na cobertura em que iriam ficar. Era uma das quatros principais do hotel – possuía uma vista espetacular para o Hyde Park, dois quartos e uma sacada de tirar o fôlego. Fazia muito tempo que ela não frequentava espaços tão chiques e finos; talvez nem soubesse mais como se comportar naqueles ambientes.
— Você pode ficar em qualquer quarto. Fique à vontade, ok? — deixou a mochila de , que ainda carregava, ao seu lado no sofá.
— Obrigada, . Mas como vamos fazer? A sede fica muito longe daqui? É em Woking, não é?
— Sim! Woking fica a alguns quilômetros daqui. Não se preocupe, a McLaren já mandou um carro para ficar comigo nesse tempo. Hm, vou precisar resolver algumas coisas, mas ficaremos aqui hoje. Mais tarde lhe explico como faremos, você ainda precisa assinar o contrato.
o encarou, séria.
— Não quero dar trabalho! São suas férias, e eu lembro como vocês esperavam ansiosos para esse momento. Posso me virar sozinha, , só me dê o endereço do lugar.
falava gesticulando, e se deu conta do porquê do irmão mais velho da mulher a chamar de pinscher. Ela realmente parecia um quando ficava nervosa e, principalmente, na defensiva.
— Eu sei que você pode — ele sorriu gentilmente —, mas não precisa se preocupar. Aliás, pode ficar com o quarto maior. Você parece estar precisando de uma noite de sono melhor que eu. Estarei no quarto ao lado, se precisar.
saiu da sala, deixando a engenheira a sós. ainda não entendia o motivo de o piloto estar sendo tão gentil – talvez fosse de sua própria natureza ser assim, solícito e preocupado, mas ela não estava acostumada com tantos cuidados. ainda se lembrava de como as coisas funcionavam na Fórmula 1 e sempre tinha sido cada um por si, e ela estava acostumada com a própria solitude. Mas as coisas pareciam ter mudado durante todos aqueles anos em que ficou de fora.
Earnhardt respirou fundo e sentiu seu corpo relaxar, ajeitando-se no sofá que era mais confortável que a cama em que dormia todos os dias. Agradeceu mentalmente por ter aparecido e dormiu.


🏁


saiu do quarto às cinco da manhã. Não tinha mais nem um pingo de sono, já que aproveitou as horas no avião para dormir tudo o que não havia dormido nos dias passados. Passou pela sala e balançou a cabeça negativamente – ainda que tivesse um sorriso nos lábios – ao ver dormindo profundamente, encolhida no sofá.
— Amanhã suas costas irão me agradecer — murmurou ao pegar a engenheira no colo.
a colocou no meio da cama, cobrindo-a do pescoço aos pés em seguida. No pouco tempo que tinha passado com ela, já tinha percebido que Earnhardt não era tão adepta ao forte frio que fazia na Inglaterra.
A morena ainda vestia seu moletom, e percebeu que ela não havia trazido consigo muitas coisas, apenas uma mala – que falava a todo momento para terem cuidado – e uma mochila, que ele passou a maior parte do tempo carregando desde que saíram do aeroporto. O piloto se perguntou o que de tão importante tinha trazido, porque, segundo ela, aquilo era tudo o que tinha.
coçou os olhos e voltou a mexer em seu celular. com certeza iria assinar o contrato mais tarde, então ficar hospedado em Londres era perda de tempo, pois ficariam muito tempo em Woking. Já pensando nisso, o piloto passou o restante da madrugada procurando uma casa para alugar na cidade inglesa. Um apartamento poderia ser pequeno caso não gostasse de dividir ambientes. achou uma casa que aparentava ser espaçosa e confortável, e, sem pensar duas vezes, alugou a propriedade com um clique e um reconhecimento facial. O cartão de débito já autenticado no celular facilitava muitas coisas.
Voltou para o quarto e resolveu deitar. Ainda faltavam três horas para que eles fizessem a pequena viagem para Woking, então cochilou sem nem perceber. O australiano acordou com o alarme, levantou-se preguiçosamente e saiu em direção ao quarto de para acordá-la, mas a encontrou sentada no sofá mexendo em sua mochila.
— Acordei em uma cama muito mais confortável que esse sofá. Preciso comprar uma igual — ela disse assim que percebeu entrar na sala. — Você me carregou, foi?
— Foi — ele respondeu, recebendo um sorriso como resposta.
— Obrigada — voltou a mexer na mochila. — Não sei o que vestir, não tenho roupas de frio. Como é lá na sede?
— É frio — respondeu novamente, e a engenheira o olhou com os olhos semicerrados. — Vou te emprestar um dos meus moletons, vai servir.
— Fica igual um vestido. Mas pelo menos não passo frio.
— Você não trouxe muitas coisas, não é?
— Só o importante. O resto posso comprar por aqui mesmo, ou onde eu for ficar.
— É verdade. E por sinal — ele coçou o pescoço, dando um pigarro —, você vai morar comigo durante uns dias.
Eu vou o quê? — ela perguntou, o encarando assustada.
— Você precisará de companhia para se adaptar e, surpresa — sorriu animado —, serei seu anfitrião.
balançou a cabeça negativamente, já prevendo formas de não matar o piloto durante a estadia na Inglaterra, pois não poderia ficar desempregada novamente.
— Quanto vai custar essa brincadeira? — ela perguntou e deu de ombros, em um claro sinal que não fazia ideia. E saiu da sala.
esfregou suas mãos na coxa, ainda pensativa, mas o piloto tinha razão no final das contas. Não fazia sentido algum ficar em Londres quando o lugar que trabalharia ficava em outra cidade. Talvez a ideia de dividir uma casa com ele não fosse tão absurda, mesmo Earnhardt não tendo noção de como as coisas iriam acontecer.
voltou para a sala do quarto do hotel e entregou para algumas peças de suas próprias roupas. agradeceu e foi se trocar; vestiu-se com sua calça mais grossa e colocou a blusa de moletom de por cima da blusa de manga comprida. Ela gostou da cor do moletom, era amarelo-claro. Amarelo era a cor preferida da engenheira. Voltou para a sala e mentalmente agradeceu pelo piloto já ter pedido serviço de quarto. Eles comeram enquanto falava sobre a casa que tinha alugado e rapidamente desceram para irem em direção a Woking.
Os olhos de Earnhardt brilharam assim que viu o McLaren GT preto e fosco em sua frente. Sem pensar muito, a engenheira se aproximou do carro esportivo e poderia dizer com firmeza cada detalhe dele, apenas por aquela primeira olhada.
— Lindo, não é?
— Sim!
— E sabe o que é melhor? — ele incitou, o encarou. — Foi de graça.
A morena sorriu acompanhada de , e entraram no carro que já estava com todas as bagagens devidamente arrumadas.
— Pronta? — perguntou, e o encarou mais uma vez.
Pronta.
Ela estava mais do que pronta. Havia esperado por muito tempo por aquele momento, que agora estava mais perto do que imaginava. E então, acelerou em direção à saída de Londres.


⚙️


Os dois cruzaram o enorme portão de entrada da McLaren e seguiram por uma estrada até a portaria principal da sede. A sede em Woking tinha uma vista espetacular, parecia ter saído de um set de cinema.
Ao entrarem na área principal, os olhos de foram certeiros na escultura feita em bronze em homenagem a Ayrton Senna que estava exposta no boulevard da fábrica da equipe. A lenda do automobilismo brasileiro, e mundial, estava reproduzido como se estivesse dentro do cockpit, pilotando o carro, com o tronco na vertical e as pernas deitadas na horizontal. Os detalhes de seu uniforme e capacete não passaram despercebidos pelos olhos atentos da engenheira – estavam devidamente esculpidos no bronze.
— Incrível! — disse animada, batendo palmas como se fosse uma criança. — Você pode tirar uma foto minha aqui? Preciso mandar para minha família, eles não vão acreditar!
riu e concordou, então pegou o celular da engenheira e ficou ao lado da estátua, sem ousar tocá-la. Em seguida, aproveitou e tirou uma selfie com a mulher, também ao lado da escultura.
— Aqui é muito legal, não é?
— É perfeito — exclamou ao continuarem andando. encarava tudo como se fosse uma criança que acabara de ganhar um brinquedo novo.
Não se parecia em nada com a sede da Ferrari na Itália, mas desde o primeiro momento, se emocionou. Passou pelas portas de vidro acompanhada de e quis chorar; estava de cara com os carros que cresceu amando.
Parecia que ela tinha cinco anos de novo e estava vendo seu primeiro carro de corrida.
Sentiu seus olhos encherem d’água quando parou em frente aos carros de Ayrton Senna, Niki Lauda, Alain Prost, Lewis Hamilton, Jenson Button, Kimi Räikkönen, Mika Häkkinen. E sorriu verdadeiramente ao passear por entre os carros que disputaram Can-Am, Indy e Le Mans.
— Isso é história viva, — comentou ao se agachar ao lado do carro em que Ayrton Senna havia disputado a temporada de 1990. — Obrigada, de verdade.
passou a mão pelo número 27 e permitiu-se chorar pela primeira vez. Ela estava de volta àquele mundo. Ao mundo que tanto amava e que sentia falta. abaixou-se ao seu lado e a abraçou.
— Você voltou, .
Os dois voltaram a andar por entre os espaços do Centro de Tecnologia McLaren até que pararam em frente à sala da divisão McLaren Applied Technologies. Era uma espécie de laboratório onde os engenheiros dedicavam suas horas nas peças e controladores. sempre quis conhecer aquele lugar, mas nunca tinha tido a oportunidade. Afinal, era uma ferrarista.
— Você sabia que é aí nessa sala que são fabricadas as peças da IndyCar, Fórmula E — fez uma pausa — e da NASCAR?
poderia jurar que os olhos da mulher estavam brilhando. sempre teria uma ligação com a categoria, também pudera, filha de quem era.
— Eu não sabia disso — o piloto revelou, um pouco constrangido. — Na verdade, não entendo muito dessas coisas, mas é bom finalmente ter uma engenheira que me explique, certo?
soltou uma risada.
— Obrigada por pensar em mim para esse emprego, . De verdade.
— Ao que me lembre, temos que assinar um contrato agora!
e Earnhardt caminharam juntos pelos grandes corredores da sede, até que passaram pela versão do McLaren Senna, em tamanho real feito inteiramente de peças de Lego. sorriu, tendo uma lembrança boa de sua infância quando passava muitas horas do seu dia construindo carros e bonecos de lego. Ela adorava montar as peças.
— Isaac vai adorar conhecer isso aqui! — ele deu um grande sorriso ao apontar para o carro.
— Você tem um filho? — a engenheira perguntou, curiosa. havia falado o nome transparecendo muito amor.
— Não! — riu. — É meu sobrinho mais velho. Tenho dois, Isaac e Isabella. Moram em Perth com minha família.
— Ele gosta de Lego?
— Ele é apaixonado! Isabella, nem tanto. Mas Isaac é louco, vive me pedindo os brinquedos, mas sempre acabo esquecendo de levar um novo. Acho que estou devendo uns três para ele.
— Eu era exatamente assim quando criança — sorriu ao se lembrar de quando perturbava o pai para que ele trouxesse peças novas quando voltasse de suas corridas.
Os dois subiram pela escada branca que dava na sala de Zak, e, antes que pudessem entrar, pareceu recuar. Seus pensamentos começaram a se embaralhar e a encarou, como se soubesse que algo estava errado.
— Ei — ele tocou nos ombros de —, estarei ao seu lado. Vai dar tudo certo, ok?
— Estou com medo — ela assumiu. — E se eu não fizer um trabalho bom com você? E se perdermos? Ou pior, se eu fizer alguma besteira…
— Com o seu currículo, acho difícil — o australiano foi sincero. — Vamos fazer isso juntos. É a minha primeira vez também mudando algo na equipe.
sorriu, concordando. Esperou o piloto abrir a porta e entrou na sala gelada em seu encalço.
Zak Brown estava sentado, acompanhado de uma mulher que deveria ser um pouco mais nova que . Ela possuía o cabelo trançado que ia até sua cintura; seus olhos eram negros e combinavam perfeitamente com sua pele. Ela vestia um macaquinho curto, laranja, acompanhado de um tênis Nike, e se perguntou como a mulher aguentava o frio.
! Finalmente nos conhecemos — foi a primeira a falar. Então, levantou-se e estendeu a mão em direção à engenheira. — Nesses quatro dias, esses dois — apontou para Zak e — só falam de você.
— De mim? — perguntou, dando uma risada nervosa.
— Sim! Não se preocupe, foram coisas boas. Ah, eu me chamo Beatrice Portinari, mas me chame de Bea, por favor.
— Finalmente pude conhecer Earnhardt! — Zak a cumprimentou. — Você me foi muito bem recomendada.
— Não sei o que andou falando para vocês, mas só sou uma engenheira mecânica.
— Formada pelo MIT e que dá tutoria para os alunos de Mestrado em Berkeley. — Beatrice disse e a encarou, não tendo ideia de como a mulher sabia sua formação. Ela nunca tinha falado nada para . — Não seja modesta, . Tá tudo bem ser um gênio. riu sem graça, e Zak fez sinal para que ela se sentasse; fez o mesmo.
— O que é MIT? — ele perguntou, recebendo um olhar nada contente de Bea.
— É a melhor faculdade de engenharia do mundo. Sim, , do mundo inteiro — respondeu antes mesmo de .
sentiu seu rosto ruborizar e abaixou a cabeça, percebendo que estava balançando os pés. Ela estava ansiosa e nervosa.
— Beatrice é nossa contratada de relações públicas, por isso ela sabe tanto de você. Tivemos que fazer uma busca sobre sua vida inteira, desculpe a intromissão.
encarou Zak, preocupada.
— Então vocês sabem de tudo?
A Ferrari foi um lixo com você — Bea foi sincera e arrancou um sorriso da engenheira. — Não se preocupe, estaremos prontos para brigar por você se for necessário.
— Obrigada! — sussurrou, parecendo mais aliviada.
— Se você quiser, é claro — Zak disse, colocando um papel em sua frente. — Você só tem que assinar.
Earnhardt estava a um passo de voltar para o mundo que a tinha expulsado. O mundo que sempre sonhou voltar, mas nem nos seus mais loucos devaneios imaginou que seria daquela forma, ainda mais tão rápido e com pessoas tão dispostas a fazer dar certo. olhou para o piloto ao seu lado e, quando recebeu um sorriso de , se deu conta que poderia ficar tranquila.
E então, assinou o contrato que estava à sua frente. Ela oficialmente fazia parte da McLaren.
Earnhardt estava de volta ao jogo.


Capítulo 9 – Night Changes

She's heading for something that she won't forget
Having no regrets is all that she really wants
(Ela está indo em direção a algo que nunca esquecerá
Viver sem arrependimentos é o que ela quer)


não sabia como as coisas seriam dali em diante, mas preferiu confiar em , ignorando tudo o que tinha aprendido na Ferrari sobre não acreditar nas pessoas ao seu redor. As coisas poderiam ser diferentes, ela faria ser diferente.
— Ainda não acredito que você alugou uma casa — disse assim que o piloto passou pela entrada do condomínio, que ficava a cerca de vinte minutos da sede da McLaren.
— Acredite. Eu também contratei algumas pessoas para ajudar na organização da casa.
! — deu gargalhadas. — Por quê?
— Você pode precisar de espaço, e está acostumada a viver em uma casa grande.
sorriu ao perceber o cuidado que o piloto havia tido para que ela não sofresse tanto com a mudança brusca, não só de país mas também de rotina. estacionou perfeitamente em frente à casa onde tinha uma pequena fachada feita de tijolinhos, que lembrava com a de onde tinha crescido. sorriu ao se lembrar com carinho de Charlotte. Desceram do carro e tirou calmamente todas as bagagens; eram mais malas dele do que da engenheira.
Entraram na casa e se deu conta do quão espaçosa era, além de ser bem iluminada. Existiam janelas por todas as partes; seus olhos conseguiram enxergar um enorme quintal que com toda certeza deveria ter uma piscina. gostava de piscinas, mas sabia que não entraria em nenhuma enquanto continuasse aquele frio na Inglaterra.
— Boa tarde, senhor e senhora ! — uma senhora branca, de meia-idade, com os cabelos presos e a roupa devidamente passada, os cumprimentou. e se entreolharam e gargalharam, assustando a governanta.
— Céus, desculpe! — quem falou primeiro. — Não somos casados, nós só trabalhamos juntos.
— Mil perdões! — a expressão da mulher era de puro desespero.
— Não se preocupe! — falou, tocando em seus ombros.
percebeu que ele gostava de falar tocando nas pessoas. Apesar de não ser chegada a cumprimentos, a engenheira gostava quando era o piloto quem fazia.
— Essa é Earnhardt! Por favor, faça-a se sentir em casa.
— Com toda a certeza, senhor ! Eu sou Meredith, a chefe da equipe que o senhor contratou. Trabalharei com mais duas pessoas.
— Oi, Meredith — sorriu amistoso. — Pode me chamar de .
A mulher sorriu, sabendo que não o chamaria pelo primeiro nome, pois não era assim que as coisas funcionavam na Inglaterra. Meredith apresentou a casa para os dois, que ficaram ainda mais surpresos com o quão grande ela era. Tinha um total de cinco quartos, sendo três suítes, e um enorme quintal que contava com uma piscina e churrasqueira. Aquela foi a parte preferida de – piscina e churrasco eram suas combinações preferidas.
Depois de estarem devidamente acomodados, foi atrás de , que tinha escolhido o quarto com vista para o quintal.
— Precisamos conversar — disse, recebendo um sinal da engenheira para que ele entrasse no quarto. estava com a mala aberta, arrumando as coisas que tinha trazido. — Então era isso que você guardava a sete chaves nessa mala.
arrumava perfeitamente na mesa, encostada na parede, seu material de trabalho: um MacBook, um monitor também da Apple, teclado, mouse e um iPad.
— Meu material de trabalho — ela sorriu, tirando um pequeno quadro de dentro da parte protegida da mala. Era uma fotografia dela recém-nascida com o pai. — Mas, sim, diga.
— São duas coisas. A primeira é que a Beatrice me encheu o saco para eu passar seu telefone para ela…
— Eu nem sei como você conseguiu meu número.
— Seu irmão quem me deu — deu de ombros e suspirou. Não estava surpresa; Junior sempre fora um enxerido. — Enfim, Bea deve encher você de mensagens e vai querer te levar para fazer compras. Acabei falando que você sentia frio aqui.
— Ótimo, assim compro logo o vestido que você está me devendo, não pense que eu esqueci — brincou, e riu.
— A segunda coisa é mais um pedido. É que eu sou acostumado a passar o Natal com a minha família, mas não queria deixar você sozinha aqui, se acostumando com tudo.
, você já fez muito. Não precisa pedir pra ir visitar sua família, claro que não irei me importar.
— Não, , eu quero trazer eles pra cá. A casa é bem grande, acredito que eles não irão incomodar você. Vou falar com todos antes.
Ela sorriu para o piloto.
, é a sua família! Isso nem deveria estar em cogitação aqui. Você deveria me tirar, e não pensar que eu poderia não aceitá-los aqui!
— Jamais expulsaria você, ! — foi sincero e a morena sorriu, sendo pega de surpresa. — Mas obrigado. E, ah, tem mais uma coisa.
— Então são três coisas que você queria falar.
riu, coçando a cabeça.
— Sim, hm — ele passou a mão pela garganta, demorando mais tempo que o normal para continuar —, você quer jantar comigo mais tarde?
— Eu iria se tivesse roupas — apontou para as roupas espalhadas pela cama. — Isso é tudo o que eu trouxe de Charlotte.
soltou uma risada ao olhar para as peças. Todas aparentavam serem feitas de tecidos finos que não protegeriam a mulher do frio inglês.
— Se eu resolver esse problema, você iria?
— Tranquilamente. Ah, e eu não uso vermelho — piscou para o piloto, e ele saiu apontando para a própria cabeça, como se estivesse avisando que não iria esquecer.
não sabia o que iria fazer, mas resolveu deixar as coisas acontecerem, afinal, era só um jantar. Um jantar com o australiano que lhe havia dado a oportunidade de fazer o que mais amava na vida.
A morena terminou de ajeitar suas coisas do trabalho, colocou suas – poucas – roupas no lugar e, enfim, ligou para a família. Estava há quase três dias longe, mas já tinha uma porção de novidades para contar.


🏎️


O som dos saltos altos de Beatrice Portinari invadiram a casa em Woking, fazendo , que já estava à sua espera na espaçosa sala, dar um largo sorriso ao ver que a negra trazia sacolas, das mais diversas marcas, penduradas em seus braços.
— Eu só não peço um aumento porque amo fazer compras, você sabe que eu não diria não.
— Você é a melhor, Portinari! — pegou todas as sacolas de sua mão, deixando-as no sofá ao seu lado. — Mas, por favor, tire meu cartão da sua Apple Wallet. O do futuro não pode ficar pobre.
— Você está chorando miséria. Não gastei nem 1% do seu salário.
— Se você tivesse tido mais tempo, gastaria! — brincou, recebendo um olhar travesso da mulher. — Obrigado, Bea! Espero que goste das roupas.
— Se ela não gostar, é maluca — a italiana falou como se a dúvida do piloto fosse uma ofensa. — Eu tenho um ótimo gosto, .
— Disso tenho certeza. Por isso pedi para você, e não para Leclerc ou Maximilian.
Argh — Beatrice gesticulou com as mãos, como se fosse para parar de falar. — Não fale deles, você sabe. E sim, Charles se veste no escuro, todas as vezes. E Max não tenho nem comentários, só veste coisa da RedBull.
— Seus namorados são esquisitos — provocou. gostava de testar a paciência das pessoas, e Beatrice Portinari era uma de suas maiores vítimas.
— Cale a boca — balançou as mãos em um sinal para o piloto esquecer o assunto. Charles Leclerc, Beatrice Portinari e Max Verstappen eram tópicos que a negra evitava tratar. — Eles não são meus namorados, ok?
— Escolha Max. Maximilian é meu amigo.
— Lance Stroll é seu amigo e nem por isso eu escolheria o herdeiro.
— De besta, nesse momento você poderia estar usando o cartão dele em seu Wallet, e não o meu.
— Você é impossível, . Impossível — a italiana bufou e recebeu um abraço do piloto. — Me avise se ela não gostar de algo — sorriu —, mas duvido que isso vá acontecer.
Beatrice deu as costas para o piloto, deixando com um sorriso no rosto e várias sacolas.
gostava verdadeiramente de Beatrice. Ele tinha conhecido a italiana quando ainda era piloto da Red Bull, o então companheiro de equipe, Max, chegou animado falando sobre como tinha reencontrado uma mulher incrível na noite passada. Beatrice Portinari havia virado a cabeça do piloto neerlandês e seguia fazendo isso até os dias de hoje, mesmo tendo Charles Leclerc na história. Mas aquela era uma história que Bea não gostava de contar.
subiu cuidadosamente a pequena escada, tentando não se desequilibrar com as diversas sacolas que segurava. A porta do quarto de estava fechada – deveria estar falando com sua família ou já estaria focada em seu trabalho, pensou o piloto antes de dar uma pequena batida com o pé na porta, que acabou se tornando um estrondo. a abriu rapidamente, com a mão no peito.
— Você me assustou — disse para o australiano, que tinha um sorriso sem graça no rosto.
— Desculpa! Não consegui bater — levantou as sacolas ainda com dificuldade. — São para você — ele as deixou em cima da cama enorme.
— Isso tudo é pelo vestido que você estragou?
riu.
— Isso tudo é para você não passar muito frio. Beatrice quem comprou. — sorriu e percebeu seus olhos brilharem. — Mas ela disse que vocês ainda precisam ir às compras antes da temporada começar.
— Com toda certeza! — ela disse ao pegar uma sacola da Valentino. — McLaren ou você que pagou por isso?
— A McLaren, né? Eles pagam meu salário.
soltou uma risada.
— Faço um cheque para você mais tarde. Talvez minha mãe fique feliz ao ver minha conta sendo movimentada. Ela vive dizendo que não levarei dinheiro algum para o caixão. — gargalhou, sendo acompanhado pela estadunidense. — Obrigada, . Lhe encontro às oito, assim que terminar de corrigir esse trabalho. É o último.
— Trabalho?
— Sim! Preciso finalizar as orientações dos meus alunos de Berkeley antes de me dedicar inteiramente à McLaren. Não posso deixá-los sem orientação final, seria terrível. Mas já encontrei um tutor à altura deles.
— Não melhor que você, claro.
sentiu seu rosto queimar e fitou os próprios pés, descalços.
— Você fez tudo isso agora? — ele perguntou.
— Não, desde o avião enquanto você babava dormindo.
a encarou com os olhos arregalados; riu da surpresa do piloto. Ele havia sido flagrado.
— Até as oito, .
— Não se atrase — ele piscou e saiu do quarto.
mal podia esperar por aquele jantar. Só esperava não derramar nada na mulher.


⚙️


tentou voltar a concentração para o último artigo que faltava, mas as dezenas de sacolas que estavam em sua cama a chamavam.
, quando ainda morava na Itália, adorava passear pelas ruas recheadas de lojas e sempre voltava com mais de dez sacolas para casa. Ela gostava de ir às compras, mesmo que sozinha, afinal, estava na Itália e trabalhava na escuderia mais famosa do mundo – não poderia deixar a desejar em nenhum aspecto. Mas quando o acidente aconteceu, tudo mudou. Nenhuma roupa mais lhe tinha serventia, além de ter perdido muitos quilos. Não precisava mais estar arrumada, pois era apenas uma decepção. Mandou a mãe entregar tudo para a doação mesmo tendo a vontade de queimar. Não queria mais nada que remetesse àqueles seus dias gloriosos. Ela não merecia.
deixou em Charlotte a única coisa que lhe remetia à Itália e à Ferrari: o carro esportivo que ainda estava perfeitamente estacionado em sua garagem. Era uma punição pessoal tê-lo sob seu teto. Esperava um dia conseguir tirá-lo dali. Mandá-lo pro inferno, assim como todos os tifosi. No mesmo lugar onde a Ferrari a tinha deixado.
Earnhardt deixou a mesa de trabalho e sentou-se na cama, abrindo sacola por sacola, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar. Não era por ser Gucci, Prada, Miu Miu, Chanel ou Dior ali, mas sim porque cada peça parecia ter sido comprada pela própria . A engenheira não sabia como, mas Beatrice havia acertado em tudo. Desde as vestimentas até os calçados. A italiana tinha comprado, além das roupas e biquínis, duas botas, um salto alto e dois tênis. era uma fã de tênis, porque sempre combinavam com tudo e eram confortáveis.
Da pequena fortuna em sacolas, deixou para abrir por último a da Burberry, e teve uma feliz surpresa ao retirar um vestido amarelo de dentro. A cor preferida de era amarelo. Amarelo, para a engenheira, significava muitas coisas, até mesmo amor, como na música do Coldplay. Earnhardt ainda acreditava que um dia poderia encontrar o seu yellow em meio ao caos que era.
Ela pegou o vestido com cuidado. Ele não possuía mangas, era feito de lã em conjunto de seda e parecia que se moldaria perfeitamente no momento em que estivesse em seu corpo. Faria par perfeito com a jaqueta xadrez vintage que tinha uma pequena logo da mesma marca do vestido. estava apaixonada. Seria aquela roupa que usaria no jantar com .
“Diga a Beatrice que amei cada peça”, ela enviou a mensagem para e, enfim, voltou a sentar-se na mesa para que pudesse finalizar a correção do artigo.
estava feliz como não ficava há muito tempo.


🏎️


estava no sofá, amarrando seus Vans pretos que pareciam combinar perfeitamente com sua calça jeans preta, assim como sua camiseta, fazendo par com um casaco verde-escuro e branco no estilo colegial – quando percebeu descer as escadas.
O piloto piscou algumas vezes antes que a mulher olhasse em sua direção; ela estava ainda mais linda do que nos outros dias. Segurava delicadamente o casaco em sua mão esquerda e usava um vestido amarelo que pareceu ter sido feito sob medida, e uma parte de seus cabelos estavam perfeitamente presos, enquanto a outra caía por seus ombros. adorava como amarelo parecia ter sido feito para . Ela combinava com a cor.
— Você está muito bonita, ! — disse assim que a engenheira ficou à sua frente.
— Você também, . Gostei da jaqueta — ela sorriu. — Vamos?
— Sim! Antes que percamos nossa reserva.
— Você fez até uma reserva!
— Claro que fiz! Não poderia deixar você esperando em uma fila no restaurante. Você está muito bonita para esperar no frio.
soltou uma risada e acompanhou o piloto em direção ao carro, que estava em frente à casa.
O caminho até o restaurante The Clock House não ficava muito distante da propriedade onde os dois estavam hospedados. Quanto mais via a paisagem ao seu redor, tinha a certeza que havia escolhido uma localidade de alto luxo. Talvez nem ele mesmo soubesse daquilo.
estacionou em frente ao restaurante e a porta de foi aberta pelo manobrista. Antes que pudesse sair, já estava a aguardando. O restaurante escolhido pelo piloto ficava localizado em um belo edifício georgiano, bem no centro do bairro de Ripley. Assim que adentraram, receberam um espaço elegante, contemporâneo e luxuoso; prestava atenção a cada detalhe. A engenheira adorou como o lugar era requintado, mas ao mesmo tempo, descontraído e acolhedor. Não tinha muitas pessoas, o que a fazia ficar ainda mais confortável.
— Aqui é lindo, sussurrou enquanto eles eram guiados para a área de jantar, que ficava no primeiro andar. Havia ainda menos gente do que no térreo próximo à entrada, onde ficava localizado o bar.
— Gostei muito da vista — apontou para o grande jardim completamente iluminado.
— Podemos tentar fazer isso no jardim daquela casa, não é? — ela perguntou, animada com a possibilidade.
— Com toda certeza. Você gostou mesmo?
— Eu adorei as luzes, acho que ficaria lindo esticadas no quintal — respondeu e voltou a atenção para o menu disposto na mesa.
Ao ler, soube que a cozinha era comandada pelo Chef Paul Nicholson e que o restaurante possuía uma estrela Michelin e três Rosetas AA. não fazia ideia do que tudo aquilo significava, mas deveria ser muito importante.
— Boa noite, Sr. e Sra. .
Os dois se entreolharam, e encarou como se estivesse implorando para ele não soltar uma de suas gargalhadas.
— Eu sou Serina Drake, a proprietária do restaurante. Espero que vocês gostem muito da experiência em nosso lugar!
— Hm, obrigado! Estamos ansiosos para provar cada comida daqui.
— O lugar é fantástico — elogiou —, muito confortável!
Serina sorriu alegremente.
— Vou pedir para trazerem nosso menu especial, fiquem à vontade!
Assim que a proprietária afastou-se da mesa, encarou , que olhava em direção ao jardim em uma tentativa de não explodir em gargalhadas:
— As pessoas me casaram! Imagine quando a notícia vazar e o mundo da Fórmula 1 souber.
deixou escapar uma gargalhada. Foi acompanhada por , e inevitavelmente atraíram olhares das pessoas que ali estavam.
— Me sinto um velho. Se eu tivesse no auge dos meus vinte anos, ninguém cogitaria que eu fosse casado.
— Você não parece velho, bebeu com delicadeza um gole do vinho. — Vai ver só somos muito bonitos.
— Isso é verdade — ele assentiu —, mas confesso que você é mais do que eu, óbvio.
sorriu timidamente e voltou a beber seu vinho.
A comida não demorou a chegar, e foi quando viram os pratos que perceberam que estavam famintos – quase não comeram naquele primeiro dia em Woking. Após a primeira garfada, fechou os olhos e mentalmente agradeceu a por ter escolhido aquele restaurante. O sabor era divino.
Os dois jantaram em um silêncio confortável, e, assim que os pratos foram retirados, prestou atenção na pequena tatuagem que tinha em seu mindinho direito: o número 3.
— Você realmente gosta do número 3, não é?
— Eu amo, é meu número da sorte. Sempre dizem que na terceira vez é destino sorriu. — Mas comecei com o três por conta do seu pai, sabia?
o encarou, surpresa.
— É sério? — sorriu. Ele pensou por um momento que aquele sorriso poderia iluminar todo aquele ambiente. — Era o número preferido do meu pai também.
— Sim! Comecei a correr por causa de Dale, digamos que ele mudou a minha vida. Fiz meu pai, ainda criança, me levar para uma corrida na NASCAR. Eu era muito pequeno, mas lembro que foi a melhor sensação que tive na minha vida — ele sorriu, saudoso. — Ver Dale ali, correndo, cortando todo mundo e saindo vitorioso me fez ter a certeza que era aquilo que eu queria. Comecei a dar meu melhor no Kart logo depois, e, bom, o resto é história. Virei oficialmente piloto de Fórmula 1 graças a Dale.
não percebeu, mas seus olhos estavam cheios d’água. Era emocionante que alguém além dela e da sua família tivesse um amor tão visível por seu pai. Ainda mais quando era alguém que nem chegou a conhecê-lo de verdade. limpou delicadamente a lágrima que escorreu no rosto da engenheira e recebeu um sorriso em agradecimento.
— Por isso você me ajudou?
— Sim e não — ele foi sincero. — Quando sua mãe e seu irmão me contaram superficialmente a sua história, eu pensei em ajudar você por causa de seu pai. Devo a vida que tenho hoje a ele. Mas depois que você chegou para o jantar, tive a certeza que não era por ele. Odeio injustiças, e a Ferrari foi mais que injusta. Foi criminosa, se me permite dizer — possuía faíscas de raiva em seu olhar. O piloto achava toda aquela história uma grande merda. — Foi por você, .
sorriu, porque não sabia o que dizer. O piloto a tinha deixado completamente sem fala, afinal, não esperava por todo aquele discurso. Talvez uma piada sem graça, mas todas aquelas palavras, não. era uma caixinha de surpresas.
— Vou te mostrar uma coisa que quase ninguém sabe. Não que eu seja uma pessoa muito popular jogou os cabelos para o lado. — Eu também tenho um três tatuado — sussurrou, como se fosse um segredo.
E então percebeu, pela primeira vez, a tatuagem de atrás da orelha direita. Era praticamente do mesmo tamanho da que tinha em seu dedo e na mesma fonte. sorriu com a coincidência.
Talvez o três realmente fosse destino.


Capítulo 10 – Eternal Sunshine

Maybe I have made mistakes and been through my fair share of pain
But all in all, it's been okay
(Talvez eu tenha cometido erros e passado pela minha cota de dor
Mas apesar de tudo, está tudo bem)


20 de dezembro de 2021
Woking, Inglaterra


quase nem vira o final de semana passar; tinha optado por terminar todas as suas obrigações com os alunos de Berkeley e se despediu no domingo à noite. Após uma chamada de vídeo que contou com toda sua turma, a engenheira sentiu que finalmente tinha cumprido seu dever com eles. Aquele ciclo na academia foi encerrado com excelência.
ficou feliz por não ser importunada por ou Meredith naqueles dias. E também porque uma refeição era deixada à sua porta três vezes por dia, e a avisavam com uma simples batida na porta – ela só não sabia qual dos dois era o responsável por aquele gesto de cuidado. sentia-se culpada por não estar presente para o piloto no final de semana, já que ele usaria aqueles dois dias para ajeitar o que precisasse na casa, pois sua família chegaria para passar o Natal e Ano-Novo. gostava da companhia de e esperava que ele não a achasse uma egoísta. Ela só não queria decepcionar seus alunos, largando-os de qualquer jeito justo no final do semestre.
não gostava de decepcionar ninguém.
Mas mal a engenheira sabia que tinham sido ordens de que ninguém a importunasse naqueles dias – ele resolveria tudo que fosse necessário. O australiano sabia o quão importante era para a estadunidense resolver as pendências com seu antigo trabalho para que pudesse seguir cem por cento com a McLaren. O piloto admirava aquele traço de , o de se doar em tudo que se propusesse a fazer. Sem contar que, após o jantar no The Clock House, ele parecia estar ainda mais encantado por ela. Por sua tatuagem em segredo, pela gargalhada tão alta quanto a dele, seu vestido amarelo e também pelo seu sorriso capaz de iluminar uma cidade inteira.
arrumou toda a casa com Meredith e sua equipe durante os dois dias. Queria tudo perfeito para quando sua família chegasse da Austrália, afinal, fazia uns bons meses que não os via. Seus sobrinhos deveriam estar enormes, assim como a saudade que ele sentia. Pensando neles, fez diversos pedidos em lojas infantis na internet e não sabia como iria fazer para eles levarem tudo para Perth.
— Natal chegou mais cedo? — perguntou ao chegar na sala, atraindo a atenção do piloto. Sentado no carpete, ele abria caixas de papelão para ela.
— Para Isaac e Isabella! E aquele é para você — apontou para uma caixa branca, com um laço laranja em volta, que estava no sofá.
— Mais presentes para mim? Você vai me acostumar mal, — piscou para ele, que teve vontade de fotografá-la.
se sentou no sofá e abriu a caixa – eram uniformes perfeitamente dobrados da McLaren. sorriu ao ver a mulher pegar cada blusa com um extremo cuidado, como se valessem mais do que todas as roupas de marca que tinha em seu guarda-roupa.
— Presentes da McLaren, sou apenas o entregador — uma risada escapou por seus lábios, e o encarou, sorrindo.
— Obrigada, — chamou-o pelo apelido pela primeira vez desde que haviam se conhecido.
Ele adorou como o apelido soou no sotaque e voz da engenheira. sentiu seu corpo responder de uma maneira que nunca tinha experimentado – sentiu calor percorrer sua espinha, mas, ao mesmo tempo, suas mãos estavam suadas. Era diferente.
— Vou trocar de roupa — ela avisou. — Você irá hoje?
— Claro que irei! Sou seu anfitrião, , você não se livrará de mim tão cedo — piscou para a engenheira, que sorriu de canto.
não havia falado, mas estava feliz por estar presente em seu primeiro dia oficial de trabalho.


🏎️


De acordo com sua terapeuta, toda vez que sentisse o nervosismo dominar seus atos, ela deveria parar, contar de dez a zero, respirar fundo e, assim, seus pensamentos entrariam em ordem. Ela deveria se lembrar do quão capacitada era e afirmar para si mesma que merecia as coisas boas que aconteciam em sua vida.
E assim fez ao adentrar a porta principal da sede da McLaren, ao lado de , cumprimentando a todos. Ainda que tivessem atraído olhares curiosos, a engenheira só estava focada em ter um primeiro dia brilhante. Afinal, não foi criada para decepcionar.
Os dois subiram a escadaria branca e entraram na sala de Zak, que estava acompanhado por um homem branco, cabelos bem cortados e um óculos de armação preta e quadrada. Ele não era nem um pouco desconhecido para .
Earnhardt! — Zak a cumprimentou, animado. — Bem-vinda oficialmente, vejo que o uniforme lhe caiu bem! — apontou para a blusa polo e branca, com o logo da equipe, que a engenheira usava por dentro de sua calça preta de cintura alta.
— Obrigada! entregou tudo direitinho.
O piloto fez uma pequena reverência.
— Obrigado, ! , quero que você conheça Andreas Seidl, ele é nosso engenheiro-chefe e te acompanhará nesses primeiros dias.
— Bem-vinda, — Andreas estendeu a mão direita em direção à engenheira, que a apertou quase imediatamente. — Seu currículo é impressionante. A McLaren só tem a ganhar com você na nossa equipe!
E eu também se intrometeu, fazendo a morena encará-lo, cúmplice. — Não adianta, Seidl, ela trabalhará ao meu lado. Não invente de deixá-la nessa fábrica.
Andreas riu e deu três tapinhas no ombro do piloto.
— Já viu o currículo dessa mulher? Você é um sortudo, Honey Badger — Seidl voltou sua atenção para . — Irei lhe mostrar onde você irá ficar.
Honey Badger, huh? sussurrou para o engenheiro antes que saísse da sala.
— Depois explico — ele deu uma piscadela e não acompanhou a mulher, que seguiu o engenheiro-chefe.
não sentia-se mais tão nervosa, era como se já frequentasse o lugar há bastante tempo. Ela foi apresentada a cada pessoa da enorme sala branca que ainda não conhecia; os funcionários eram amigáveis e solícitos. Perguntou-se se o clima ali era sempre daquele jeito ou era só porque a pausa de final de ano seria naquela mesma semana.
— Você ficará aqui — Seidl apontou para a mesa que ocupava uma parede inteira.
não percebeu, mas seus olhos estavam brilhando ao ver o espaço que iria ocupar por aqueles dias até a pré-temporada. A mesa estava composta por um computador de alto nível, dois monitores ao lado e alguns televisores na parede. Tudo era de última geração, um sonho para qualquer engenheiro amante de tecnologia de ponta.
— Se quiser abandonar para trabalhar aqui, vamos entender.
deixou escapar uma gargalhada, fazendo Andreas encará-la com a sobrancelha arqueada:”
Esqueça, vocês são mais parecidos do que eu pensava.
olhou para ele sem entender, mas o engenheiro balançou a cabeça e as mãos em um sinal para que ela esquecesse. Então, Seidl começou a apresentá-la tudo o que deveria saber antes de começar a trabalhar ali. “Muita coisa está diferente”, pensou enquanto o engenheiro-chefe lhe ensinava as novas regras. Até que apontou para a tela em sua frente, fazendo Andreas parar de falar.
— Isso aqui. A FIA enlouqueceu? — ela tinha um ar sério e, ao mesmo tempo, feroz. — Efeito solo em 2022? Você só pode estar de brincadeira, Andreas. Isso era coisa da década de 70 e 80.
— São as novas exigências da Federação. Dizem que querem trazer mais competitividade.
— Isso pode ser um perigo sério para a saúde. Nem todos os pilotos têm vinte e dois anos. Alonso ainda corre? — Andreas concordou. — Espere para ver como ficará as costas dele, ele já é quarentão.
O engenheiro deixou escapar um riso.
— Esperamos que isso não seja um problema. Já estamos fazendo todos os testes possíveis no simulador e no túnel de vento.
— Só vamos saber realmente nos testes na pista, Seidl — murmurou desgostosa e marcou o trecho do novo regulamento no iPad que estava em suas mãos.
Ela trabalharia para ajustar o efeito solo da melhor forma. E se acontecesse qualquer coisa com a saúde de por conta da nova regra instaurada pela FIA, iria para cima deles com tudo.
Ao ver a engenheira fazer suas pontuações enquanto explicava cada informação do regulamento e apresentava os projetos das novas peças que iriam compor o novo carro da escuderia, Andreas Seidl sentiu uma chama em que não via na equipe havia algum tempo. Ela tinha vontade de fazer as coisas darem certo, e naquelas horas que esteve com a engenheira, teve a certeza que iria brigar por em cada corrida.
A equipe que se preparasse – estaria acompanhado por um furacão.


⚙️


O dia seguinte no escritório não foi diferente. já estava imersa nas novas regras e fazia suas anotações e cálculos com base nas informações que eram trazidas a todo momento por Seidl e o restante da equipe. Ela precisaria estar por dentro de tudo para que fizesse o melhor trabalho possível quando a temporada começasse. Nenhuma informação poderia lhe faltar.
estava tentando entender o layout do novo carro e como as peças que estavam faltando iriam integrá-lo, quando escutou uma voz conhecida sua, sendo seguida por altas gargalhadas. estava aprontando.
— Por que você o deixou vir para cá? — perguntou para Seidl fingindo uma irritação, mas rindo em seguida, sem acreditar, ao ver como o piloto estava chegando no escritório.
gritava igual uma criança enquanto se divertia andando em um mini kart dentro do escritório, usando as cadeiras e pessoas como obstáculos que tinha que ultrapassar. Não contente, bateu em uma parede e fingiu que não viu, indo com o brinquedo em direção onde estava.
— Você não tem umas férias para curtir, hein? — perguntou ao tirar o boné laranja do piloto e colocá-lo na sua própria cabeça.
— Perturbar você me parece mais interessante — respondeu, saindo do kart. pegou o boné de volta e bagunçou os cabelos da engenheira, que o olhou com as sobrancelhas franzidas. — O que você está estudando aí?
— Maneiras do seu carro não ser o pior do grid. Já sabe das novas regras da FIA, não é?
— Sei — deu de ombros. — Uma babaquice, todo ano inventam alguma coisa. Malucos.
— Bom que você sabe. Em fevereiro vamos para os simuladores antes da pré-temporada.
sorriu. Ele adorava os simuladores, sentia-se em um parque de diversões.
— Agora me deixe trabalhar, vá brincar para lá. Chispa.
— Aqui é mais emocionante — disse, voltando para dentro do kart. — Tem mais obstáculos para ultrapassar.
acelerou, voltando a fazer muito barulho para o terror de . O piloto parecia uma criança quando encontrava um brinquedo novo. Até que bateu em uma das colunas do escritório, que ficou visivelmente amassada.
! gritou e foi em direção ao piloto, que estava com as mãos na boca, incrédulo. — Tá vendo o que você fez?
— Não fui eu — disse, saindo do kart outra vez. — Você está vendo coisas, senhorita Earnhardt. Max Verstappen invadiu aqui e fez isso.
— Palhaço.
estalou a língua e deu um beijo na bochecha de , que estava com as duas mãos na cintura.
— Irei ver se a comida desse lugar está pronta — ele piscou para a engenheira antes de lhe dar as costas e sair do lugar. deixou escapar uma risada e voltou para sua mesa.
era impossível. E ela adorava aquilo, mesmo que nunca fosse falar em voz alta.


🏁


foi acompanhada até o refeitório por e pegou a mania do piloto de cumprimentar todos a seu caminho, mesmo que já tivesse feito isso quando havia chegado na sede. Talvez, naquele dois dias, Earnhardt tivesse conversado com mais gente do que em quatro anos.
gostava da companhia do piloto, mesmo que ele fosse incrivelmente barulhento e conversador. tinha um jeito único de ser, e ela gostava de conhecê-lo cada vez mais.
— Hm — ele engoliu rapidamente —, vou precisar buscar minha família no aeroporto daqui a pouco, mas voltarei para te levar de volta pra casa, tudo bem?
— Oh, meu Deus, como ficarei sem por algumas horas? — dramatizou, colocando a mão no peito.
— Minha presença é maravilhosa, eu sei, amore mio.
— Algo que eu preciso saber sobre sua família?
— Eles são mais barulhentos que eu.
— Pois duvido muito — brincou, recebendo uma expressão de indignação do piloto como resposta.
Continuaram a comer enquanto conversavam amenidades, até que o piloto fez uma careta ao olhar para o celular.
— Uh, esqueci que o aeroporto fica em Londres. Vou ter que ir.
— Como você vai trazer toda sua família em um carro esportivo?
— Já pensei em tudo. Até logo, amore mio, não morra de saudades de mim.
— Já estou morrendo! — gritou assim que ele começou a andar, escutando as suas risadas.
O caminho até o aeroporto de Londres era um pouco longo, mas não se importava. Iria ver a família e aquilo bastava – poderia fazer o trajeto quantas vezes fosse necessário para que pudesse encontrá-los. encaminhou-se para a área VIP do aeroporto e finalmente pôde escutar o sotaque marcante que tanto sentia falta.
Agachou-se ao ver os sobrinhos correrem em sua direção e os agarrou em seu colo.
— Meu Deus, vocês estão enormes!
— Estávamos com saudade — disseram juntos, não desgrudando do piloto.
— Tio , quero andar de kart — Isaac disse, para o desespero da mãe.
— Sua mãe me mata.
— Ainda bem que você sabe! — a voz de Michelle se fez audível e ele riu, levantando-se para abraçar a irmã e os pais.
— Você deixou o cabelo crescer! — o pai, o ítalo-australiano Joe, abraçou saudosamente o filho.
— Está lindo! Sempre foi. Você está mais bonito. Parece feliz.
Estou feliz! — revelou o piloto entre os braços dos pais. — Senti muito a falta de vocês. Nossa, pensei que a temporada não fosse acabar nunca.
— Por que nos trouxe para cá e não voltou para Perth? Acho que era uma viagem mais barata — Michelle pontuou enquanto tentava em vão fazer as crianças pararem de pular para chamar a atenção do tio.
— Tenho uma surpresa. Mas antes, pai, preciso que você dirija para eu poder levar meu carro de volta.
— Sem problema algum, filho. Conte suas novidades quando chegarmos em casa.
E assim o piloto fez. Depois de mostrar cada canto da casa em que estava hospedado em Woking para a família, contou rapidamente sobre e o porquê de ter permanecido na Inglaterra ao invés de voltar correndo para Perth. Sua família pareceu entender e não fizeram muitas perguntas; Grace conhecia como ninguém o coração gigante que o filho tinha. não iria mudar nunca.
— Tio vai sair e já volta — avisou para os pequenos, que já estavam entretidos com os diversos brinquedos que haviam ganhado. Isabella se despediu com um tchauzinho, mas Isaac foi até o piloto com os braços cruzados.
— Você vai embora de novo?
— Irei voltar tão rápido que nem vai dar tempo de você sentir minha falta.
Impossível — ele fez um bico.
— Sem brabeza. Vou trazer uma pessoa muito legal para você e sua irmã conhecerem, ela é muito amiga do Tio .
— Ela pode ser nossa amiga também? — perguntou, desconfiado.
— Sim! Ela vai adorar.
— Então tudo bem, pode ir — Isaac autorizou e saiu de casa rumo à sede da McLaren.
O relógio marcava oito da noite quando o piloto estacionou em frente à casa em Woking. desceu rapidamente e, antes que pudessem entrar, escutou vozes animadas vindas de dentro da residência. A engenheira percebeu que eram do mesmo sotaque forte de , então perguntou para si mesma se todos eles seriam iguais ao piloto.
Assim que entraram, foram recebidos por Isaac, que sorriu animado para a morena.
— Oi, eu sou Isaac. Tio disse que você pode ser minha amiga também — disparou, fazendo se assustar com a rápida aproximação, mas sorriu em seguida, abaixando-se para conseguir ficar próxima à altura da criança. — Eu gosto de carros, bolas e Lego — ele contou nos dedos suas preferências. — E você, gosta do quê?
— Oi, Isaac, eu sou . Eu também gosto de carros e Lego. Mas não sou boa brincando de bola.
— Eu ensino — virou-se para o tio, que estava em pé ao lado da estadunidense. — Eu gostei da Tia . Ela parece uma princesa.
— Uma principessa concordou com o sobrinho, o segurando no colo.
O apelido dito por pegou de surpresa, fazendo-a ficar absorta por alguns segundos nas lembranças que lhe invadiram de repente. Piscou algumas vezes antes de recobrar a atenção e levantar-se do chão. Embora fosse o mesmo apelido que Giuseppe Fernandez havia lhe chamado em sua última corrida, não era nem um pouco parecido quando saiu da boca de . Era diferente. Até a forma que a fazia se sentir era diferente. Antes era incômodo, mas ao vir de , era suave e acolhedor.
passou as mãos pelo rosto rapidamente e seguiu em direção ao quintal da casa, onde sua família estava reunida. Ali, conheceu e de primeira, gostou de todos. Grace tinha cabelos curtos e possuía o mesmo sorriso de ; Michelle adorava fazer piadas; e o pai, Joe, era o mais calado dentre as duas, mas ainda assim tinha um sorriso no rosto e sempre uma frase pronta. Ao vê-los, entendeu o porquê de ser quem era. Ele tinha crescido em um lar com muito amor e carinho, assim como ela também fora criada.
— Você é mais bonita do que comentou!
— Mamãe! — gritou, parecendo constrangido.
— Ele falou mesmo — Michelle concordou, levando um tapinha na nuca do irmão.
— Você é uma enxerida. Não disse nada para ela, .
— Acredito — piscou para o piloto —, e obrigada! Mas acho que está faltando uma pessoa, não? — perguntou ao se lembrar que havia dito que tinha dois sobrinhos.
A chatonilda da Isabella — Isaac respondeu, sendo seguido por um olhar repreendedor da mãe. — Ela dormiu. Amanhã você fala com ela. Tio disse que entraremos todos na piscina.
fuzilou com o olhar, e o piloto levantou as mãos em rendição. Ela não teria como negar entrar na piscina com duas crianças, afinal, eram crianças. só esperava que não fizesse tanto frio assim.
— Vamos comer! Estávamos à espera de vocês — Grace apontou para a mesa que estava um pouco mais afastada deles, então, percebeu como o quintal estava bonito.
As árvores estavam cortadas perfeitamente. Havia muitas luzes e cadeiras espalhadas, principalmente embaixo da maior árvore que tinha ali. Agora tinha uma mesa grande com um banco de madeira reto em cada lado, além de espreguiçadeiras ao lado da piscina. também percebeu que havia dois carrinhos infantis de Kart perfeitamente estacionados ao lado de um de mini kart para adultos. Sorriu ao ser abraçada de lado pelo piloto; ele havia arrumado tudo cuidadosamente no final de semana.
— Você colocou as luzes do restaurante? — sussurrou, passando o braço pelas costas de .
— Você disse para mim que tinha adorado — respondeu como se fosse óbvio e a puxou em direção à mesa.
Ali, sentiu coisas que não saberia nomear. Mas era estranhamente confortável estar perto de . Muito confortável mesmo.


Capítulo 11 – Exile

I think I've seen this film before, and I didn't like the ending
(Acho que já vi esse filme antes e não gostei do final)


23 de dezembro de 2021
Woking, Inglaterra


trabalhou apenas durante os dois dias da semana na sede da McLaren e logo entrou, junto de toda equipe, para a pausa de Natal.
A engenheira quis correr para o aeroporto e pegar o primeiro avião para Charlotte e passar o restante dos dias com sua família, afinal, fazia anos desde a última vez que havia ficado tão longe deles, mas não podia. Precisava se acostumar com a rotina de trabalho em Woking; teria muito tempo para ver a família quando a temporada começasse. Com toda a certeza as equipes se matariam para ter a família Earnhardt como convidados especiais, mesmo aquele posto sendo da McLaren.
também não estava mais imersa em solitude. Podia não ter os Earnhardt por perto, mas agora convivia com uma família tão faladeira e amável quanto a sua. Os haviam chegado para passar as comemorações de final de ano ao lado de , e adorou conhecê-los.
Principalmente as crianças. nem sabia que gostava tanto assim daqueles seres tão pequenos, mas desde que recebeu os abraços carinhosos de Isaac e Isabella, descobriu que amava crianças. Queria ter algumas delas correndo pela sua casa quando fosse mais velha.
— Tia — o loiro chamou sua atenção enquanto ela digitava em seu MacBook —, vamos para o quintal?
— Isaac, baby, está ocupada — falou ao se abaixar para pegar o sobrinho no colo, que fez um bico. — Desculpe — sussurrou para , que balançou a cabeça negativamente ao sair do quarto com um sorriso em seus lábios.
— Tá sol. Queria brincar. Isabella é chatonilda.
balançou a cabeça negativamente e se levantou, estendendo os braços para que o menino fosse para seu colo. Isaac sorriu como se tivesse ganhado um Lego novo e, sem pensar duas vezes, empurrou o peito do tio para ele entregá-lo à engenheira.
— Futebol ou carro? — a engenheira perguntou ao tirá-lo do colo de , e Isaac colocou a mão direita no rosto, como se tivesse que tomar uma decisão muito difícil.
— Os dois — respondeu, manhoso, arrancando uma risada de .
não soube o que era aquilo em seu corpo, mas algo o encheu de alegria ao ver com seu sobrinho mais velho no colo, gargalhando e descendo as escadas enquanto a criança conversava animadamente com ela. Isaac tinha se aproximado de primeira de , sendo que sempre fora muito grudado com . Mas não tinha como competir com a engenheira, ele sabia bem.
— Tio ! — antes que pudesse ir para o quintal com os dois, escutou a voz doce de Isabella o chamar. — Brinca de boneca comigo? Isaac não quer.
— Claro, meu amor. Vamos brincar com todas as suas bonecas.
Bella puxou pelas mãos e foram em direção à sala, que mais parecia uma loja de brinquedos. Ele não fazia ideia como a família arrumaria aquilo tudo para levar quando voltassem à Austrália. Talvez tivesse exagerado um pouco com os brinquedos que comprou. Mas não se arrependia. No dia de Natal ainda ganhariam mais.
Estava brincando com as meia dúzia de bonecas de Isabella, até que Isaac entrou correndo pela sala chutando tudo ao seu redor com ao seu encalço. Isabella, enraivecida, empurrou o irmão, que caiu no carpete.
Chatonilda — respondeu, mostrando a língua para a irmã mais nova enquanto ela armava um bico, com os olhos cheios d’água.
— Isaac! Não brigue com sua irmã, peça desculpas — foi sério, mas ao mesmo tempo se segurava para não rir da pequena briga dos dois. — Vamos, cara.
— Ela é uma chatonilda. Desculpa, chatonilda — ele sorriu para a irmã, que mantinha um bico ainda maior. — Não quis chutar as bonecas, elas estavam no meio. Vim só chamar todo mundo para a piscina, não é tia ? — perguntou com a voz mansa, puxando a barra da camisa de .
— É verdade. A bola dele caiu na piscina, então viemos trocar de roupa e pegar as boias para brincarmos.
— Piscina! — Bella bateu palminhas em direção ao tio. — Por favor, tio !
— Claro, princesa. Vamos trocar de roupa antes que a mãe de vocês chegue e corte nossa diversão.
Os sobrinhos riram cúmplices e seguiram e para a parte de cima da casa onde ficavam os quartos.
— Quero o rosa com coração — Bella praticamente ordenou para o tio enquanto o irmão a imitava, fazendo careta. “Então era assim que ela e Júnior eram”, pensou a estadunidense.
— Precisa de ajuda, ? — a engenheira perguntou ao vê-lo encarar a gaveta apontada por Isabella, sem saber qual biquíni pegaria, já que as cores eram parecidas.
— Eu resolvo aqui, ! Pode ir se trocar — respondeu, ainda confuso, sem tirar os olhos da gaveta.
— É esse aqui o que ela quer — passou o braço por cima do piloto e gentilmente pegou o biquíni ros- escuro com corações desenhados. — Não é, Bella?
— Sim! Obrigada, tia . Tá vendo, tio ? Rosa e coração sorriu em agradecimento para a engenheira, e saiu do quarto.


⚙️


agradeceu mentalmente por Beatrice ter achado necessário comprar um biquíni. Ela ainda não tinha tido a oportunidade de agradecer pela gentileza da comunicadora de ter feito o pequeno favor para , porque Bea estava aproveitando suas férias em Ibiza. Talvez fosse por aquele motivo que ela tinha lembrado de comprar a peça de roupa para .
ajeitou o biquíni azul com detalhes em rosa da Versace, dando mais uma olhada no espelho. A engenheira nunca tinha se preocupado em como seu corpo iria aparecer para as pessoas, mesmo depois de ter ficado um pouco abaixo do peso durante os quatro anos que voltou para os Estados Unidos, mas pensou por alguns segundos se a acharia bonita na peça de roupa.
— No que você está pensando, Miller Earnhardt? — brigou consigo mesma na frente do espelho. — Sei pazza? (Está louca?)
Ela respirou fundo ao prender os cabelos em um rabo de cavalo alto e desceu as escadas. Assim que entrou no quintal, sorriu ao ver brincar na água com os sobrinhos.
— Tia ! — Isaac gritou, animado, fazendo com que encarasse a engenheira. — Está quentinho!
— Sim! — Isabella concordou, jogando água para cima e fazendo cair no rosto do tio, que piscou várias vezes para entender o que tinha acontecido nos últimos segundos. — Molhei você.
— Tio estava com cara de bobo — Isaac apontou para o australiano e soltou uma risada sapeca junto da irmã.
— Eu apoio guerra de água no tio soltou a ideia despretensiosamente para as crianças enquanto se sentava na espreguiçadeira.
A engenheira soltou uma gargalhada quando as crianças não deram nem tempo para o tio se proteger. Com uma mão seguravam na boia, com a outra, jogavam água em direção ao piloto, que inutilmente tentava se defender do pequeno caos causado por .
— Você vai ver só! — apontou para ela e apoiou-se na borda da piscina.
rezou para que ninguém percebesse a forma que olhou para quando ele saiu da piscina, ajeitando o short que caía perfeitamente e deixava visível seus ossinhos da pelve, além de suas tatuagens coloridas na coxa. era incrivelmente bonito, e se odiou por perceber aquilo justo naquele momento – quando ela estava sozinha com ele e duas crianças para vigiar, mas principalmente por ele ser seu novo colega de trabalho.
Ela não poderia deixar se envolver. Não de novo.
— Água para você, principessa sussurrou em seu ouvido quando a pegou no colo.
O apelido em italiano que saiu da boca do piloto a fez arrepiar. estava tão absorta em gravar a imagem de saindo da piscina que nem percebeu quando ele chegou mais próximo.
A engenheira não teve reação, só sentiu a água da piscina molhar todo seu corpo.
! — gritou, sendo acompanhada de palmas e risadas das crianças. — Você me paga.
— Você mereceu, vai — ele gargalhou, passando a mão pelos cabelos e molhando de propósito.
— Para! — ela gargalhou. — O que você fez para essa água estar tão gostosa? Nada gelada.
— Você disse que não gostava de água gelada. Dei um jeito.
sorriu e, naquele momento, percebeu o quanto estava ferrada. Teria que lutar muito contra si mesma para que não entrasse ainda mais em sua mente.



10 de Janeiro de 2022
Woking, Inglaterra


O feriado de final de ano passou mais rápido do que gostaria. Ela aproveitou para falar mais tempo com a família por chamadas de vídeo, sentia falta de receber o cuidado da mãe e também das infinitas picuinhas com o irmão. Mas apesar da falta que sentia da família, os dias não estavam sendo ruins. adorava estar passando aqueles dias com a família australiana.
tinha criado um carinho especial pela família de . Gostava de como a mãe dele era sempre cuidadosa quando preparava as refeições e não deixava Meredith chegar perto da cozinha. O pai de era o mais calado, mas vez ou outra puxava assunto com , principalmente sobre veículos automotores desde que Joe revelou que já tinha pertencido àquele mundo e havia encontrado Dale durante alguns eventos automobilísticos. Já Michelle era faladeira igual , mas para o azar do piloto, ela adorava contar para as histórias mais vergonhosas possíveis da infância e adolescência do australiano – com toda a certeza usaria para encrencar com o homem quando tivesse oportunidade. A estadunidense também adorava como e Michelle eram cuidadosos um com o outro, principalmente quando se tratava sobre as crianças. Era visível não só nas palavras, mas no olhar, quando era cuidadoso, preocupado e acolhedor com Isabella e Isaac. era como um pai para as crianças.
também tinha se apegado aos sobrinhos de . Eles eram bastante arteiros e encrenqueiros um com o outro, o que fazia lembrar da sua relação com o irmão. Isaac e Isabella também gostavam de estar na presença de , passavam muito tempo explicando as histórias dos desenhos preferidos, de como era a escola e sobre o que queriam ser no futuro. Isabella, que sempre parecia estar com uma boneca em mãos, não perdia a oportunidade de entregar para a engenheira para que elas pudessem brincar. Isaac não ficava para trás – o mais velho estava sempre por perto para lhe entregar os mais apertados abraços que podia, principalmente após o Natal, quando lhe deu de presente uma miniatura em Lego do carro de corrida McLaren. O pequeno gritou que era igual ao carro que o tio dirigia e não desgrudou mais da engenheira até o momento que tiveram que ir embora.
Momento esse que foi regado de muito choro, não só por parte das crianças, mas de também. O piloto era apaixonado pela família; eles eram a sua força, e se despedir era sempre ruim. odiava as despedidas.
Mas estava feliz e grato pelo tempo que passou com a família, afinal, pôde ver com seus próprios olhos como os sobrinhos estavam crescidos e continuavam crescendo cada vez mais rápido. Teve de volta o cuidado da mãe, as conversas e degustações de vinho com o pai e as farpas trocadas com a irmã que sempre terminavam em abraços. E também tinha , que dividiu momentos especiais com sua família. adorava ver a engenheira brincando na piscina com seus sobrinhos, arrumando bonecas com Isabella e montando Lego com Isaac, assim como gostava de vê-la receber dicas de cozinha com a mãe. Ele sempre estava com um ouvido atento quando ela conversava sobre automobilismo com seu pai. só ficava envergonhado quando Michelle começava a contar suas peripécias quando adolescente, aí ele queria mandar a irmã dele de volta para Perth; mas quando gargalhava, ele esquecia o motivo da risada e apenas curtia aquele som.
adorava escutar gargalhar, assim como adorava vê-la fazendo várias outras coisas. Estava realmente encantado, mesmo não tendo a mínima ideia do que passava pela cabeça da engenheira.
encarou digitar rapidamente no computador no escritório da McLaren e desejou que eles estivessem em casa, dividindo uma cerveja na beira da piscina.
— Vamos? — ela perguntou, tirando de seus pensamentos. — Tá pensando em quê, hein?
O piloto sorriu. “Em você, principessa”, pensou, mas apenas balançou a cabeça negativamente, passando as mãos pelo rosto.
— Hora do simulador, né?
— A melhor hora do seu dia.
levantou e seguiu por entre os corredores da fábrica, que já pareciam tão naturais para a engenheira. Ela tinha se adaptado com uma facilidade impressionante.
Entraram na sala dos simuladores e esfregou as mãos, animado. Ele adorava as sessões, mesmo que o antigo engenheiro não usasse tanto. aproveitou que o piloto estava todos os dias perambulando pela sede e resolveu que começaria o treinamento com ele antes da data prevista, já que todos os outros pilotos estavam de férias e só voltariam próximo à data de apresentação oficial dos carros, em fevereiro. Naquele dia, testariam o Circuito Internacional do Brahim.
estava atenta a todos os movimentos de , anotando todos os detalhes possíveis no seu inseparável iPad. Ele estava se saindo melhor do que a engenheira esperava. Apesar de o piloto levar como uma diversão, também sabia que o momento era sério, então se dedicava de verdade para dar o seu melhor.
— Muito bem, elogiou quando ele finalizou a sua décima, marcando seu melhor tempo, 1:30:459. — Vamos dificultar as coisas, ok?
— E tem como dificultar?
o encarou com a sobrancelha arqueada e um sorriso nos lábios.
— Eu sempre tenho como dificultar, — ela piscou, e o piloto sentiu um arrepio percorrer por seu corpo. — Feche os olhos.
— E como vou enxergar? — brincou. sorriu, dando de ombros. — Sempre tem como dificultar, entendi. Vamos lá, Principessa.
sentiu borboletas fazerem um festival em seu estômago e balançou a cabeça em uma tentativa de controlar o que estava acontecendo. fechou os olhos e ela respirou fundo, tocando em seu ombro.
— Exercício de confiança. Você precisa aprender a confiar que eu serei seus olhos na corrida, que estarei vendo coisas que você não consegue — explicou. — Isso vamos trabalhar com o tempo, mas já começamos hoje, entende? Mas agora esse exercício é importante para que você possa trabalhar seus outros sentidos. Principalmente a visualização. Você precisa conhecer as pistas do circuito de olhos fechados, não pode ser pego de surpresa. Podemos começar?
O piloto assentiu. não fazia ideia, mas já confiava nela desde o momento em que pediu para Zak que a colocasse na McLaren. Ele brigou por ela assim como sabia que ela brigaria por ele em qualquer situação.
— Siga a minha voz.
respirou fundo e sentiu ainda mais perto o cheiro da mulher. Queria poder sentir aquele cheiro adocicado que emanava de sua pele, misturado com café e canela do seu hálito, cada vez mais perto. Poderia ser coisa da sua cabeça, mas emanava um calor que ele conseguia sentir na sua própria pele. quis abrir os olhos, tomá-la nos braços e beijá-la ali mesmo, mesmo com as câmeras de segurança ao redor.
— Cinco, quatro, três, dois, agora.
E como se já soubesse o que fazer, acelerou. O australiano não sabia como era possível, mas conseguia enxergar com clareza a pista mesmo com os olhos fechados. Seu corpo sabia o que fazer e como fazer, principalmente porque estavam sendo guiados por , que fazia a visualização ser ainda mais real.
prendeu a respiração quando o piloto fez uma curva arriscada, mas soltou, deixando um sorriso escapar por seus lábios quando ele completou a volta com maestria.
— É isso aí, Honey Badger — usou seu famoso apelido. — Você conseguiu.
— E eu nem trapaceei!
riu.
— Tá vendo, Principessa? Confio em você de olhos fechados.


🏎️


A sessão no simulador levou grande parte do dia, e apesar de se divertirem no lugar, ambos agradeceram por chegarem em casa. Era bom estar no lugar confortável sem a pressão para que tivessem resultados.
— Preciso de um bom banho — avisou.
— Eu também, mas vou aproveitar e fazer logo nosso jantar, você vai querer?
— Você, cozinhando?
— Me respeite, . Sua mãe me ensinou algumas coisas.
— Eu quero só ver.
mostrou o dedo do meio para o piloto, que subiu as escadas enquanto ria. Ela gostava de escutar rindo. De alguma forma parecia que as coisas ficariam bem quando escutava aquele som tão característico do piloto.
deixou a água quente do chuveiro bater contra seu corpo e se perdeu no tempo em que ficou ali. Era difícil assumir em voz alta, mas dominava seus pensamentos. Ele não tinha falado sobre aquilo com ninguém, afinal, não estava acostumado com aquele tipo de coisa. era o tipo de homem que não precisava fazer muito esforço para conquistar alguém – bastava um olhar, uma frase galanteadora acompanhada de um sorriso que a mágica estava feita. Ele não passava horas do seu dia se perguntando como conquistar alguém ou sobre o que deveria falar para impressionar, as coisas eram fáceis naquele quesito.
Mas ao se tratar de Earnhardt, nada era fácil.
tinha deixado-se encantar por desde o momento em que ela o xingou em italiano, como se o homem não entendesse a língua. O jeito que ela ficou surpresa quando ele devolveu no mesmo idioma o deixou ainda mais fascinado; era uma caixa de surpresas. E o fato de ela ser incrivelmente inteligente em tudo o que fazia deixava as coisas ainda mais difíceis para o australiano. Afinal, ele era apenas um piloto. Não tinha muito estudo, não sabia falar sobre coisas inteligentes de engenharias, nada que ela estivesse acostumada a conversar. se sentia muito burro, para ser sincero, quando estava perto de , apesar de adorar vê-la falar sobre qualquer assunto, mas principalmente quando ela explicava sobre carros e todas suas perspectivas. Ela tinha um brilho no olhar que não tinha visto em nenhuma outra mulher. Somente em Earnhardt.
O fato de eles estarem morando juntos há quase um mês também não era um facilitador. Durante todos aqueles dias, ele tinha percebido que ela não era só inteligente, também tinha uma beleza natural inexplicável. Ela quase não usava maquiagem e passava a maior parte do tempo vestida com um moletom de e short de pijama. também achava que poderia iluminar uma cidade inteira com um sorriso, ainda mais se estivesse vestida de amarelo. A cor parecia ter sido feita para ela.
— Estou parecendo um adolescente — resmungou para si mesmo ao desligar o chuveiro. Provavelmente gastou mais água que uma família em um dia inteiro; seu amigo Vettel não ficaria nada contente se soubesse daquilo. — Se recomponha, . Se recomponha.
se enxugou e se vestiu, pensando em como seria mais fácil se lhe dissesse o que pensava sobre aquele assunto, se ela também já tinha tido vontade de beijá-lo. Ou se ele só estava fantasiando coisas demais. Seria muito mais fácil se ele soubesse o que ela pensava, mas Earnhardt era ilegível. Ou ele que não sabia interpretar sinais.
desceu as escadas e não encontrou na cozinha, mas percebeu as luzes do quintal acesas. Sorriu ao ver a engenheira encostada na árvore, mexendo no celular, usando um top amarelo e uma saia da mesma cor.
— Hey! — o piloto a chamou, fazendo com que tirasse os olhos do aparelho.
— Você apareceu! Pensava que tinha me dado um bolo.
— Nunca, Principessa — ele sorriu, e sentiu um calor percorrer por seu corpo.
— Vamos comer.
A engenheira puxou pela mão e o levou até a mesa próxima da árvore, que estava perfeitamente arrumada com uma travessa de spaghetti a carbonara, duas taças e um vinho francês que o pai dele havia deixado.
O jantar seguiu com os dois conversando amenidades, até que perceberam que a mesa era grande demais para eles. Então, levaram o vinho para perto da piscina enquanto admiravam as estrelas do céu límpido de Woking.
— Você é muito bonita, murmurou ao aproximar seu corpo um pouco mais do da engenheira.
estava a uma distância nada segura do piloto e sentiu como se borboletas estivessem fazendo um furacão dentro de seu estômago. Sem pensar no que poderia acontecer nos segundos seguintes, desceu os olhos para aquela boca carnuda que tinha dentes perfeitamente brancos e alinhados.
queria beijá-lo. Muito.
Como quis no dia que o viu sair da piscina encharcando tudo ao seu redor ou quando entraram no carro na volta do primeiro jantar em Woking. queria ter perto de si, mesmo que sua mente gritasse para que ela se mantivesse em uma distância segura. Mas ali, enquanto seus olhos passeavam entre as íris castanhas de e seus lábios, esqueceu o que sua mente gritava durante todos aqueles dias. Principalmente quando sentiu o toque quente de por trás de sua orelha, acariciando sua pele exposta.
sentiu sua mão tremer, assim como seu corpo inteiro, quando colocou seus lábios sobre os dela. Ele puxou Earnhardt para si, era como se precisassem um do outro urgentemente. gostou da sensação que percorria seu corpo quando a língua do australiano percorria cada canto de sua boca.
tinha urgência de tê-la ainda mais perto, assim como também tinha.
A morena passou suas mãos pelos cabelos do piloto, desceu para sua nuca e fez carinho com suas unhas ali, o fazendo arfar por entre o beijo, que não foi quebrado. tinha como gosto um frescor de menta misturado com um doce que não soube dizer do que era. Mas que gostou, gostou muito.
Ele apertou a cintura da engenheira e sentiu seu corpo queimar por todos os lugares imagináveis e inimagináveis. Cada canto dele parecia clamar por ela. precisava tê-la ainda mais perto, se é que aquilo fosse possível.
Mordiscou o canto da boca dela e deu-lhe um selinho em seguida. Naquele momento, teve a certeza que estava entregue a Earnhardt.
A engenheira o afastou, respirando com dificuldade; seu peito subia e descia aceleradamente, assim como o do piloto. Os dois precisavam de ar, assim como precisavam estar em contato novamente.
fechou seus olhos e foi como se sua mente voltasse a tomar conta de seu corpo novamente. Ela não podia, aquilo era arriscado demais. Não podia colocar tudo a perder, não depois das coisas que já havia passado.
pensou que talvez nunca tivesse paz realmente. Não poderia estar feliz, que sempre era puxada para a realidade. Talvez estivesse fadada àquele destino miserável para sempre: estar sozinha. Para que nenhuma tragédia acontecesse.
— Desculpe, — levantou-se e deixou o piloto sozinho, com sua mente ainda tentando entender o que tinha acontecido.


Continua...



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