Dedicatória
Capítulo 1 - Antes do amanhecer
Out there's a world that calls for me, girl
Headin' out into the unknown
Wayfarin' strangers and all kinds of danger
Please don't say I'm goin' alone — Ends of the Earth
Headin' out into the unknown
Wayfarin' strangers and all kinds of danger
Please don't say I'm goin' alone — Ends of the Earth
Segurei a respiração com força, cada músculo do meu corpo tenso, enquanto o som de passos pesados ecoava pelo corredor. A luz fraca do abajur iluminava meu rosto — pálido, os olhos arregalados, fixos na porta entreaberta.
— Você acha que pode se esconder de mim, garota? — a voz grave e arrastada de Richard cortou o silêncio, pouco antes de um baque seco contra a parede.
Me encolhi ainda mais no canto do quarto, as costas pressionadas contra o papel de parede desgastado. Meu coração batia tão forte que mal conseguia ouvir meus próprios pensamentos. Ele estava bêbado. De novo.
A porta se escancarou, batendo contra a parede. E lá estava ele. Olhos vermelhos, hálito carregado de álcool.
— Você é igual à sua mãe… fraca, ingrata — ele murmurou, se aproximando. Me olhou de cima a baixo e sorriu de canto. — Acho que finalmente chegou a hora de você servir para alguma coisa. O corpo daquela imunda da Amélia já não serve pra esquentar mais minha cama.
A bile subiu queimando pela minha garganta. Achei que fosse vomitar.
Ele sempre foi um monstro. Sempre bêbado, sempre violento. Mas, até então, seus ataques se limitavam a socos e chutes. Aquilo era diferente. Aquilo era um aviso. Outras vezes, Richard já tinha insinuado que queria mais do que descontar sua raiva em mim, uma vez comprou o mesmo perfume que eu uso e falou que adorava sentir o cheiro enquanto eu dormia. Parece que ele cansou de brincar. O pânico me atingiu como um trovão. Eu preferia morrer a deixar aquele homem encostar um dedo em mim daquela forma.
Agir foi instintivo. Meus dedos encontraram o celular na cama antes mesmo que eu percebesse, e corri direto para a janela. Pulei sem pensar. O impacto no chão do jardim fez meu joelho gritar, mas eu não parei. Corri pela noite, sem olhar para trás, até encontrar abrigo atrás de um velho galpão.
Com as mãos trêmulas, desbloqueei o telefone e disquei o número que mais me importava. A linha chamou três vezes.
— ? O que aconteceu? — a voz da veio abafada, com barulho ao fundo.
— Ele… ele me encontrou, . E dessa vez queria me estuprar! Eu não posso mais ficar aqui — minha voz falhou, e engoli em seco, tentando conter o choro.
No fundo, ouvia gritos e o som de algo se quebrando do outro lado da linha. Me doía imaginar o que ela também estava enfrentando.
— Eu… eu também não posso mais ficar aqui, — a voz da saiu quase como um sussurro. — Me encontre no bar daqui a pouco. A gente dá um jeito.
— Eu vou te buscar — respondi, limpando as lágrimas com as costas da mão. Não tínhamos tempo a perder. Se íamos fazer isso de verdade, fugir, então precisava de um plano. Um bom plano.
Esperei cerca de vinte minutos antes de retornar pra casa. Tinha certeza de que peguei Richard de surpresa com a minha fuga — afinal, sempre aguentei tudo calada, escondendo as marcas, fingindo que nada acontecia. Tudo para não abandonar a minha mãe.
Espiei pela janela da sala. Lá estava ele: dormindo no sofá, com a boca aberta, uma mão segurando o controle da velha TV e, na outra, uma cerveja barata. Provavelmente tentou me esperar, mas eu sabia que, depois dos surtos, ele nunca ficava acordado por muito tempo.
Abri a porta com cuidado e passei pelo cômodo em passos leves. Assim que me senti segura, corri para o quarto. Joguei tudo o que julgava importante dentro da mochila velha. Tinha alguns dólares guardados, e subi numa cadeira para pegar a caixa com o dinheiro no topo do guarda-roupa.
Foi quando minha mãe apareceu na porta.
— Sempre imaginei quando esse dia chegaria — disse ela, encostada no batente. — Fico feliz que finalmente tenha chegado — sorriu fraco. Os hematomas da briga começavam a aparecer no rosto dela.
— Eu juro que volto pra te tirar daqui, mamãe — falei, com os olhos marejando.
— Não se preocupe comigo. Vou ficar bem. A cidade é pequena. Se ele me matar, pelo menos vai ser preso, e esse tormento acaba pra você.
— Nunca repita isso, mãe! Eu vou embora, mas vou voltar por você. Se mantenha firme. Assim que eu estiver segura, entro em contato. Eu prometo.
— Eu te amo, minha menina. Desculpa por te colocar nessa situação. Fui fraca demais pra fugir, e agora é tarde.
— Não é! A gente vai resolver isso. Eu te amo. — A abracei forte, e choramos juntas, baixinho.
— Vai logo antes que ele acorde!
Nos despedimos mais uma vez, num abraço apertado, uma promessa silenciosa de recomeço e liberdade. Peguei a mochila, desci as escadas e passei a mão na chave da caminhonete do Richard. Era velha, mas funcionava. Com sorte, a bebida o manteria apagado até o dia seguinte. Era a minha chance. Nossa chance.
O cheiro de cerveja velha e gordura queimada impregnava tudo ao meu redor. Cada canto daquele maldito bar parecia exalar o mesmo fedor sufocante. As lâmpadas fluorescentes tremeluziam acima de mim, lançando sombras longas nas paredes descascadas. Eu enxugava um copo por pura repetição, sem prestar atenção no líquido escuro que escorria pela borda. Minha mente estava longe. Muito longe.
— Ei, garota! — um homem no balcão ergueu a voz, o cigarro apagado pendendo da boca rachada como um acessório grotesco. — Meu copo está vazio.
— Já vai — murmurei, olhando rapidamente para o relógio na parede. 2h45.
Mas eu não estava mais ali. Pelo menos, não de verdade. Estava lá fora, no estacionamento escuro, onde a me esperava com uma mochila e a chave da caminhonete dele.
Senti o celular vibrar no bolso do avental. Uma mensagem curta iluminou a tela:
"Estou esperando. Anda logo."
O coração disparou. Era real. A gente ia mesmo fazer isso.
— Peter, faltam apenas 15 minutos pro fim do meu turno e eu… eu preciso ir. Minha mãe… ela tá doente — a mentira saiu tão frágil que quase me encolhi ao ouvi-la em voz alta.
Peter, o dono do bar — e um idiota com mais álcool no sangue do que sinapses funcionando — só bufou e acenou sem tirar os olhos da TV velha pendurada na parede.
Minhas mãos tremiam quando tirei o avental. Dobrei devagar e deixei sobre o balcão, como se aquele gesto significasse alguma coisa. Então empurrei a porta dos fundos e fugi.
Lá fora, estava encostada na lateral da caminhonete velha. O capô estava coberto de poeira e ferrugem, e mesmo assim, naquele instante, era o veículo mais bonito do mundo. As estrelas pareciam mais brilhantes do que nunca, ou talvez fosse só a adrenalina me deixando ver tudo com mais nitidez. O rádio antigo da caminhonete chiava entre estações, cuspindo pedaços de músicas misturados com estática.
— Demorou — ela sussurrou, os olhos azuis fixos em mim. — Ele está dormindo. Temos algumas horas até que perceba que a caminhonete sumiu.
— Isso é loucura, . E se der errado? E se ele nos encontrar?
— E se ele não nos encontrar? — ela rebateu, com uma firmeza que me pegou de surpresa. — Você quer passar mais um ano servindo bêbados até às três da manhã enquanto seus pais olham pra você como se você fosse um fantasma? Porque eu não quero mais viver com aquele… com ele.
Engoli em seco e assenti. Era isso. Sem mais perguntas. Sem mais dúvidas.
Entramos na caminhonete — ela no volante, eu no banco do passageiro. As mãos dela tremiam quando girou a chave. O motor tossiu, protestou, depois rugiu.
— Você precisa passar em casa para pegar alguma coisa?
— Não. Peguei tudo antes de sair pra trabalhar. Podemos ir!. — Me segureifirme na borda do banco, o coração batendo alto.
Os faróis cortaram a escuridão do estacionamento e, logo, o bar ficou para trás, cada vez menor no espelho. A estrada parecia infinita, uma faixa cinza de liberdade sob um céu cravejado de estrelas. O vento frio entrava pelas janelas abertas e, com ele, o cheiro do passado começava a sumir.
— E agora? — perguntei, baixinho.
— Agora a gente dirige até não sobrar mais estrada — disse , olhando firme para frente.
O rádio chiou de novo e, como num sinal do destino, sintonizou uma estação qualquer. Uma música antiga começou a tocar — falava de liberdade, promessas quebradas e esperança depois da última curva.
Senti um riso escapar.
— Não acredito que estamos mesmo fazendo isso! — olhei pra ela, sorrindo.
— Quer dizer, eu estava super nervosa, mas agora que a gente tá saindo desse fim de mundo, tenho que admitir que foi a decisão certa.
— Minha filha, tudo que a gente precisava era de alguns dólares e um pouco de coragem — me lançou um olhar de canto, tentando manter o foco na estrada. — Aí, eu amo essa música.
Life is a Highway, do Tom Cochrane, começou a tocar. Ela aumentou o volume, pronta para cantar aos berros.
— Um clássico é um clássico.
Eu ri com ela. Por um instante, a vida pareceu mais leve. Como se, pela primeira vez, a gente tivesse uma chance real.
— Para onde exatamente estamos indo? — perguntei, ainda sorrindo.
— Oeste — ela respondeu com firmeza. — Longe daqui. Longe dele.
Assenti e encostei a cabeça no vidro frio. O deserto passava em borrões, e eu me permiti respirar. De verdade.
A gente não tinha um plano. Nem dinheiro suficiente. Mas tinha uma coisa que nunca tivemos antes: liberdade. Por agora, isso bastava.
Duas horas depois, um som estranho começou a sair do motor. franziu a testa, olhando o painel.
— Não, não, não… agora não — murmurou, encostando a caminhonete no acostamento.
— O que aconteceu? — me inclinei pra frente, tensa.
— Acho que o motor está superaquecendo — ela saiu do carro e abriu o capô. Uma nuvem de vapor subiu imediatamente.
— Calma, … Vamos resolver isso.
— Resolver como, ? Eu não sei nada sobre motores! — ela bateu a porta, irritada, andando de um lado pro outro.
Saí também e olhei em volta. A estrada estava vazia. Tudo que se ouvia era o vento e o som distante de alguns carros, longe, na rodovia principal.
— Ótimo começo para uma fuga — murmurei com um sorriso cansado.
Ela riu, mesmo nervosa. Aquele riso que a gente solta quando tudo está desmoronando, mas, ainda assim, continua.
— Vamos dar um jeito. Sempre damos.
Nos sentamos no capô da caminhonete. Quatro da manhã. O céu começava a se tingir de um azul esbranquiçado, tímido. O silêncio era quase pesado, interrompido apenas pelo vento cortando o deserto e algum bicho noturno se escondendo entre as sombras.
Eu olhei pro horizonte e, por um momento, acreditei de verdade: a gente ia conseguir.
Olhei por cima do ombro, o tempo todo esperando ver faróis surgirem na escuridão. A gente ainda estava perto demais de Kingman. Longe o suficiente pra não ver mais as luzes da cidade, mas não tanto assim pra impedir que Richard nos alcançasse, se estivesse por perto.
— Estamos perto demais — murmurei, abraçando meus joelhos contra o peito. — Ele pode nos achar. Quando ele descobrir que a caminhonete sumiu, vai saber para onde viemos.
me lançou um olhar breve, mas não respondeu logo. Os olhos dela varreram o horizonte vazio, como se quisessem encontrar algum sinal de movimento, alguma luz... qualquer coisa.
— Talvez ele nem tenha acordado ainda. Talvez… talvez ele nem venha te procurar.
Soltei um riso trêmulo, sem nenhuma graça.
— Você não conhece ele, . Ele sempre me encontra. Sempre.
O silêncio voltou a nos cercar como um cobertor sufocante. O tempo começou a se arrastar, grosso e pegajoso como o medo. O céu clareava aos poucos, as estrelas se apagando uma a uma, e um brilho alaranjado começou a pintar o horizonte. Os minutos pareciam horas. A madrugada parecia interminável.
— Que horas são? — perguntou baixinho.
— Sei lá… umas cinco, talvez seis — respondi, olhando pro painel da caminhonete. O relógio digital estava apagado. A bateria já tinha morrido, assim como a dos nossos celulares.
Ela esfregou os braços, tentando afastar o frio da madrugada, mas eu sabia que aquele arrepio não vinha só da temperatura.
— E se ele aparecer aqui? E se ele já estiver a caminho?
Baixei a cabeça, os ombros tremendo sem controle.
— Eu não quero voltar para lá, . Eu prefiro ficar aqui, no meio do nada, até morrer de fome ou de sede.
Senti a mão dela pousar no meu ombro, quente e firme.
— Ei, olha pra mim. Ninguém vai nos levar de volta. Nem ele. Nem ninguém.
Ergui o rosto devagar, meus olhos marejados e doloridos.
— Você não entende. Eu sei como ele olha pra mim, . É como se ele já soubesse que eu não ia conseguir fugir. Como se… como se ele estivesse só esperando eu falhar.
me olhou com firmeza, respirou fundo e falou com aquela voz que só usava quando queria me lembrar que o mundo ainda podia ser nosso.
— Então vamos provar que ele tá errado. Nós vamos sair daqui, . Não importa como. Mesmo que a gente tenha que andar até os pés sangrarem, a gente vai sair daqui.
Assenti devagar, limpando as lágrimas com as costas da mão. Olhei mais uma vez pra estrada, mas tudo o que vi foi o deserto vazio, pontuado por arbustos secos e areia. Nenhum sinal de vida. Nenhum sinal de socorro.
— Eu… eu fico pensando no que ele vai fazer se nos encontrar. Não só comigo, mas com você também. Ele não vai deixar barato, .
— A gente sabia que não ia ser fácil, . Sabia que tinha um risco. Mas ficar lá não era uma opção. Não pra você. Não pra mim.
Soltei o ar com força e abaixei a cabeça de novo. Queria que algo acontecesse. Que qualquer coisa acontecesse.
— Só queria que alguém aparecesse logo. Que alguma coisa acontecesse. Qualquer coisa.
O tempo passou devagar. Ficamos ali sentadas, envolvidas pelo silêncio opressivo do amanhecer. O céu agora brilhava em tons dourados, e o frio começava a ceder, dando lugar ao calor seco do deserto.
Então, ouvi.
Um som. Fraco, no começo. Um motor.
— Você ouviu isso? — me endireitei no capô num pulo, o coração disparando.
também se levantou, olhando na mesma direção. Um ponto escuro começou a surgir no horizonte, crescendo devagar.
— É um carro — ela murmurou, prendendo a respiração.
O som aumentava. Mais próximo. Era real. Uma caminhonete velha surgiu na estrada, levantando poeira alaranjada sob a luz dourada do sol nascente.
Senti meu coração martelar com tanta força que doía.
— E se for ele?
— Não tem como ser ele. Onde ele arrumaria um carro tão rápido? — apertou minha mão com força, e eu agarrei a dela como se fosse a única coisa me mantendo de pé.
A tensão no ar era quase visível. Estávamos vulneráveis. Perto demais de Kingman, perto demais de tudo.
Mas por ora era só um motor. Uma chance. O som ficou mais alto. A caminhonete veio se aproximando e, por fim, parou a poucos metros de nós. O motor desligou.
A porta do motorista rangeu e um homem desceu. Alto. Magro. Boné surrado e óculos escuros. Botas que batiam secas no chão do deserto. Cada passo dele era um alerta dentro de mim.
— O que temos aqui? — disse ele, a voz grave, arrastada pelo sotaque do interior.
deu um passo à frente, me protegendo com o corpo sem me esconder por completo.
— Nosso carro quebrou — disse , com mais firmeza do que eu esperava. — A gente só precisa de uma carona até a cidade mais próxima.
O homem parou diante da gente, inclinou a cabeça. Analisou. Silêncio. Longo demais.
— Bem — disse ele, enfim, passando a mão pela barba rala. — Vocês não deviam estar por aqui sozinhas. Esse lugar não é seguro.
Abri a boca pra falar, mas nada saiu. Minha garganta travou. Meus olhos colados no rosto dele, buscando qualquer sinal de que ele fosse… perigoso.
— Eu… — tentei, mas minha voz morreu ali mesmo.
respirou fundo e avançou um passo.
— O senhor pode nos ajudar? Por favor?
Ele suspirou e olhou para a caminhonete quebrada.
— Bom, eu estava indo pra Barstow. Não é longe. Posso levar vocês até lá.
Soltei o ar preso nos pulmões, mas meu corpo continuava rígido.
— Obrigada — murmurei, com dificuldade.
— Peguem suas coisas — disse ele, já se virando. — Não tenho o dia todo.
Trocamos um olhar rápido e corremos pro carro. Peguei minha mochila, o zíper quase estourando com o peso das poucas coisas que consegui salvar. O essencial. O pouco que ainda era meu.
Entramos na caminhonete. O cheiro de gasolina e couro queimado encheu o ar. Me sentei ao lado da porta, no meio, entre mim e o desconhecido. Por um momento, desejei que ela estivesse em meu lugar. Mas eu também sabia que ela teria feito o mesmo.
O silêncio lá dentro era quase tão pesado quanto o do deserto lá fora. Fiquei olhando pela janela, vendo a paisagem passar, mas minha mente estava longe. Em Richard. Em Kingman. Em tudo que nós deixamos para trás — e tudo que ainda podia nos alcançar.
— De onde vocês vêm? — o homem perguntou, quebrando o silêncio.
me olhou antes de responder:
— De… uma cidade pequena. Kingman. Não fica muito longe.
— Hm. Conheço Kingman. Lugar difícil para duas garotas como vocês.
Ele não disse mais nada depois disso. E a estrada continuou.

O sol já estava alto, o calor entrava pelas janelas rachadas da caminhonete, grudando na pele. Depois de quase uma hora, começamos a ver as luzes de Barstow surgindo no horizonte. Meu coração apertou no peito. Uma cidade. Um posto. Algo que se parecia com segurança.
Ele parou perto de um posto de gasolina à beira da estrada.
— É aqui que deixo vocês — disse, sem nos olhar.
— Obrigada, de verdade — respondeu antes de sair rapidamente. Fui atrás, e logo estávamos ali, paradas na beira da estrada, vendo a caminhonete sumir na poeira.
soltou um suspiro longo, como se tivesse prendido a respiração o tempo todo.
— Acho que tivemos sorte dessa vez.
Assenti, mas não consegui relaxar. Ainda sentia como se Richard pudesse aparecer a qualquer segundo.
— Não podemos ficar aqui muito tempo. Precisamos arranjar outro carro, outra carona… qualquer coisa.
Ela olhou ao redor. O posto estava quase vazio. Um atendente fumava perto das bombas, e um velho sentado numa cadeira dobrável observava tudo com olhos cansados.
— Vamos entrar, pegar algo pra comer e pensar no que fazer depois — ela sugeriu.
Concordei, e seguimos juntas até a loja.
Barstow não era o fim. Era só mais uma parada. Richard ainda estava lá fora, em algum lugar. Mas por agora, por alguns minutos, a gente podia respirar.
Capítulo 2 - Um turno para sobreviver
Oh, oh got a little paycheck
You got big plans and you gotta move
And I don't feel nothing at all
And you can't feel nothing small - Ophelia
You got big plans and you gotta move
And I don't feel nothing at all
And you can't feel nothing small - Ophelia
O cheiro de café fresco e bacon queimado grudava no ar, como se fizesse parte da mobília daquele lugar. Os caminhoneiros ocupavam as mesas próximas às janelas, falando alto, mastigando mais alto ainda. Olhei ao redor, tentando parecer despreocupada, mas meus dedos não paravam de brincar com um saquinho de açúcar vazio.
estava tensa. Dava pra ver pelo jeito que os olhos dela varriam o lugar, procurando qualquer ameaça escondida entre um copo de café e uma fatia de torta. Me sentia igual. Um pouco menos assustada, talvez. Um pouco mais cansada.
Escolhemos uma mesa no canto, encostando as mochilas nos pés, como se aquilo fosse nos proteger de alguma coisa. Uma garçonete com cara de quem já viu coisa demais na vida veio com um bloquinho nas mãos e um coque frouxo preso no topo da cabeça.
— Bom dia, meninas. O que vai ser?
Abri o cardápio plástico só por hábito, mas foi mais rápida:
— Dois cafés, panquecas com ovos e... só isso.
A mulher assentiu e saiu andando.
Fiquei olhando para a estrada pela janela. Era estranha aquela sensação de estar longe o suficiente para pensar que talvez, só talvez, tivéssemos escapado... mas perto demais pra acreditar nisso de verdade.
— A gente não pode ficar aqui muito tempo — murmurei, mais para mim do que pra ela.
— Ei, eu falei isso primeiro! Mas eu sei — respondeu, ainda com o olhar perdido na estrada. — Porém, precisamos mesmo descansar um pouco. Só hoje.
Ela não precisava me convencer. Eu sabia que, se tentasse dar mais um passo naquela manhã, minhas pernas iam me trair.
A comida chegou, e com ela, um pouco de silêncio confortável. Comemos como quem se esconde atrás da mastigação. Ninguém queria ser a primeira a trazer o medo de volta pra mesa.
Quando terminamos, se levantou pra pagar. Eu a observei de longe, enquanto o frentista — um homem baixo, com cara de xereta e boné encardido — puxava conversa com ela. Não ouvi tudo, mas vi o jeito que ela hesitou antes de responder, o jeito que ela olhou pra mim e eu soube que estávamos prestes a mudar os planos de novo.
— A gente aceita — disse ela.
Aceita o quê?, pensei. Mas já entendi quando o cara apontou pro hotelzinho ao lado. Um quarto barato, um banho quente e uns trocados trabalhando por ali. Não era muito, mas era mais do que tínhamos quando saímos de Kingman.
Agradecemos, seguimos até a recepção do hotel, e escolhemos um quarto só pra nós duas. Privacidade virou luxo, e, sinceramente, nenhuma de nós queria dormir separada numa cidade desconhecida.
Assim que abrimos a porta do quarto, fui recebida por uma explosão de gosto duvidoso. Duas camas de solteiro velhas, papel de parede que imitava renda preta e verde, jogo de cama xadrez combinando, carpete que um dia foi branco, agora era um amarelo mostarda.
— É… por 40 dólares, não dava para esperar muita coisa — comentou, jogando a mochila na cama.
— Realmente, mas breguice não é sobre dinheiro, é sobre gosto. E a pessoa que decorou esse lugar... — falei, indo direto pra outra cama.
— Não estamos em posição de reclamar de nada. Pode ir tomar banho primeiro, vou colocar nossos telefones para carregar e tirar um cochilo. Me acorda quando sair.
— Pode deixar.
Entrei no banheiro esperando o pior e, bom... encontrei. Azulejo encardido, espelho quebrado, e um cheiro que nem o vapor do chuveiro conseguiu mascarar. Mas estava quente, e eu precisava daquilo. Lavei meu corpo e minha cabeça como se conseguisse apagar os últimos dias com sabão.
Quando saí, enrolei a toalha na cabeça e voltei pro quarto, onde continuava desmaiada.
— Meu amor, se você acha que o quarto está uó, é porque ainda não viu o banheiro — comentei alto. Nada. Nem um pio. — , acorda! — cutuquei o ombro dela até ela murmurar, ainda meio grogue.
— O quê?
— Pode ir tomar banho, mas não se espante com o banheiro.
Ela saiu se arrastando com a mochila na mão, e eu fui direto pro celular. Não esperava grande coisa, mas ainda assim… esperei. Conectei no Wi-Fi e esperei os sinais de vida que talvez nunca viessem.
Só tinha uma mensagem. Da minha mãe.
"Nunca mais volte."
A parte racional de mim já sabia que era isso. Mas a outra, a estúpida, ainda esperava por uma linha torta de preocupação. Um "onde você está?" ou "estamos preocupados". Qualquer coisa.
Mas não. Era só isso. "Nunca mais volte." Me senti murchar. O silêncio teria sido melhor. A ilusão, mais gentil.
Fechei os olhos com força, mas foi inútil. Tudo voltou com a intensidade de um soco no estômago. O barulho do vidro estilhaçando. As luzes vermelhas e azuis dançando no meu rosto. O asfalto molhado e o grito da minha mãe:
— Por que você deixou ele sair assim?!
Lucas estava no carro naquela noite. A gente brigou. Eu gritei. Ele gritou mais. Saiu batendo a porta, os pneus cantaram no escuro. E depois, tudo que restou foi silêncio.
— Você devia ter impedido ele, . Isso é culpa sua.
O olhar do meu pai. Cheio de mágoa. Cheio de julgamento.
Essas palavras ficaram gravadas em mim. Como uma âncora presa no peito. Não importa quantas vezes eu tentei me soltar, elas continuam me puxando de volta.
— Está tudo bem, .
A voz de me trouxe de volta. Ela estava ali, saindo do banheiro, cabelo molhado e olhar atento. Tocou meu braço, de leve, como se dissesse mais com o gesto do que com as palavras.
— A culpa não foi sua. Um dia, eles vão perceber isso.
Sorri fraco. Não respondi. Só assenti. Era mais fácil assim.
O resto da manhã passou em silêncio. Me arrumei, tirei um cochilo breve e, quando deu meio-dia e meio, fomos até a cozinha. Karen nos entregou os aventais com um discurso que me fez rir, mesmo sem vontade.
— Se algum engraçadinho tentar passar a mão na bunda de vocês, estão livres pra derramar café nas calças dele. Só não contem pro Den.
O turno foi cansativo. Eu fiquei no balcão, enchendo canecas de café como se aquilo fosse o único destino possível para mim. circulava entre as mesas, recolhendo pratos e tentando parecer invisível. Eu a entendia. Cada cliente novo parecia um risco. Um possível Richard com outro nome.
Uma garçonete mais velha notou meu jeito e se aproximou.
— Tá tudo bem?
Assenti, forçando um sorriso.
— Sim... só cansada.
Ela sorriu gentil.
— Descansar nunca é fácil nessa estrada, não é?
Quis abraçar ela naquele momento. Mas só voltei a encher outra caneca.
As horas passavam devagar. Quando o sol começou a se pôr, o frentista apareceu de novo com algumas notas amassadas. Eu peguei sem questionar. Dinheiro era dinheiro.
— Obrigada — disse .
Voltamos pro quarto. A primeira coisa que saiu da minha boca foi a verdade crua e honesta:
— Eu tô exausta.
sentou-se na cama e olhou pela janela.
— Amanhã cedo, a gente vai embora.
— Pra onde?
— Pensei em Bakersfield. Depois, Fresno. Lá é um bom lugar pra despistar. Temos muitas boas opções.
Assenti. Eu confiava nela. Era tudo que eu tinha.
Dormimos mal naquela noite. Ela teve pesadelos com Richard. Eu… eu só revivi tudo de novo. Como sempre.
Lucas. O acidente. O grito da minha mãe.
A culpa.
Sempre a culpa.

O sol ainda mal tinha subido no céu quando voltamos para o posto, as mochilas pesando nos ombros e as costas reclamando da noite mal dormida. O mundo parecia quieto demais — como se tivesse sido congelado no tempo — exceto pelo som do motor de um caminhão sendo abastecido.
Um homem grisalho, com uma expressão gentil demais para aquele cenário de poeira e diesel, olhou pra gente assim que nos aproximamos.
— Pra onde vocês vão? — ele perguntou, os olhos indo direto pras mochilas.
— Bakersfield — respondeu, sem nem pensar.
Ele coçou o queixo, pensativo por meio segundo.
— É pra lá que eu tô indo. Se não se importam com a companhia... subam. — Apontou com o queixo pra cabine do caminhão.
Foi aí que notei duas crianças espiando pela janela, rindo com a cara suja de quem já passou muito tempo fora de casa. Elas nos encaravam como se fôssemos atração de circo.
— São meus filhos — o homem disse, quase como desculpa. — Às vezes eu os levo nas viagens, sabe, pra darem valor aos estudos que eu pago pros dois. — Ele lançou um olhar que era metade carranca, metade brincadeira. As crianças desviaram os olhos, ainda rindo baixinho.
Olhei pra . Ela me olhou de volta. A gente não disse nada. Não precisava. A troca de olhares já era uma linguagem por si só.
A cabine era apertada, cheirava a café velho e a papel alumínio com restos de lanche, mas, depois de um motel brega e um turno inteiro servindo café para estranhos, aquilo parecia quase acolhedor.
As crianças continuavam nos espiando com curiosidade disfarçada. Eu me encostei na lateral da cabine e fiquei ali, em silêncio, enquanto o caminhão ganhava velocidade na estrada vazia.
virou para trás, olhando Barstow desaparecer no espelho retrovisor. Eu também olhei, mas não senti nada. Nem alívio, nem saudade. Só aquele vazio que vem depois de sobreviver mais um dia.
Mais uma cidade deixada pra trás. Mais uma lembrança que a gente não vai querer revisitar. Mas eu sabia que ainda estávamos longe de estar segura. E a estrada ainda era longa.
Capítulo 3 - Entre o fim e o começo
I'll keep my eyes fixed on the,
I'll keep my eyes fixed on the sun. - Shake me Down
I'll keep my eyes fixed on the sun. - Shake me Down
O sol da manhã castigava Bakersfield com um calor seco e impiedoso. Senti o vento quente bater contra meu rosto assim que desci do caminhão, como se o ar estivesse saindo direto de um secador industrial na potência máxima. Pisamos na calçada e agradeci o motorista com um sorriso cansado e um aceno. As crianças, que tinham feito questão de narrar cada buraco da estrada, também acenavam como se fôssemos parte da viagem delas.
— Parece que chegamos ao centro do forno — murmurou ao meu lado, ajustando a alça da mochila.
Soltei um suspiro cansado, o suor já começando a se acumular na nuca.
— Pelo menos é melhor que a estrada. Foram as duas horas mais difíceis da minha vida, tenho certeza que aquele homem não tem habilitação.
— Eu realmente pensei que íamos morrer umas cinco vezes. E aquelas crianças não sabem o que significa a palavra "silêncio", aparentemente.
Soltei uma risada curta. Foi bom rir, mesmo que só por um segundo. Mesmo que meu corpo inteiro estivesse tenso e minha mente ainda presa no medo de que Richard pudesse, de alguma forma, nos encontrar até ali.
Caminhamos por algumas quadras até encontrar um motel que parecia ter parado no tempo — um letreiro piscante prometia quartos baratos e ar-condicionado. Duas promessas que eu sabia que, provavelmente, não seriam 100% verdadeiras. Mas a gente não tinha escolha. Pagamos e recebemos a chave de um homem de meia-idade, que mal levantou os olhos do jornal velho na recepção.
Quando abri a porta do quarto, fui recebida por um cheiro morno de cigarro, mofo e perfume barato. Suspirei. As paredes tinham um papel florido em tons de vermelho desbotado, descascando em alguns cantos. A cama parecia ter sido usada por gerações inteiras antes da gente — afundada no meio, com lençois xadrez em rosa e bege, rasgados em alguns pontos. O abajur na mesa de cabeceira piscava como se estivesse tendo uma crise existencial.
Olhei para tudo aquilo com um aperto no peito. Era horrível. Mas já dormi em lugares piores — inclusive no próprio quarto onde cresci.
jogou a mochila no chão e se jogou na cama com um suspiro longo.
— Vou aproveitar pra descansar um pouco. Você vai sair?
Hesitei. Olhei pra ela e depois pra minha mochila no canto.
— Vou procurar algum trabalho temporário. Precisamos de dinheiro para seguir viagem.
Ela assentiu de olhos fechados. Fiquei mais um segundo olhando pra ela antes de sair. Estava exausta, e podia ver no rosto dela que ela também estava. Mas fugir exigia mais do que só coragem. A gente precisava sobreviver.
Desci até a recepção e perguntei, quase sem esperar nada, se estavam contratando. E estavam. Um dos funcionários não apareceu no turno da limpeza, e o gerente queria alguém com urgência. O pagamento não era muito, mas já ajudava. Eu aceitei sem pensar duas vezes.
Subi para avisar , mas ela já dormia profundamente. Olhei para ela dormindo tão rápido que mal teve tempo de reclamar do lençol rasgado. A respiração dela era ritmada, como se tivesse encontrado um canto seguro por alguns minutos. Eu não sabia onde nós iríamos parar. Mas sabia que não queria parar sem ela do meu lado.
Voltei com passos leves e, em pouco tempo, já estava com um carrinho de limpeza empurrando o peso de um aspirador barulhento pelos corredores abafados.
O trabalho era simples, mas cansativo: trocar lençois, esfregar banheiros, aguentar hóspedes que mal notavam minha presença. O suor escorria pela minha nuca e as costas doíam. Mas eu fazia sem reclamar. Não tinha espaço para reclamação. Só pra continuar.
Enquanto dobrava toalhas, cantarolava uma música antiga que minha mãe gostava. Isso me dava um senso de normalidade. Me fazia lembrar de quem eu era antes de tudo desmoronar. Às vezes, um hóspede sorria pra mim e eu retribuía, mesmo que só por obrigação.
Cada quarto era um novo mundo estranho, com restos de vidas que eu não conhecia. E cada vez que eu fechava a porta atrás de mim, sentia que estava limpando não só a sujeira dos outros, mas também um pouco do medo que ainda morava em mim. A verdade é que eu ainda olhava por cima do ombro o tempo inteiro. Ainda sentia que ele podia aparecer em qualquer esquina. Mas naquele dia, naquele lugar feio, abafado e silencioso, pelo menos por algumas horas, eu podia fingir que a liberdade tinha cheiro de produto de limpeza e som de aspirador velho.
Após um cochilo de trinta minutos, acordei com a sensação incômoda de estar deixando tudo nas costas da . Eu precisava fazer alguma coisa. O dinheiro que eu trouxe do bar não duraria muito, e o que ela ganhava limpando quartos mal dava pra nos manter em movimento. Peguei meu caderno de desenhos e fui até uma praça movimentada perto do motel.
Sentei num banco de madeira e abri o caderno no colo. As pessoas passavam apressadas, mas algumas diminuíam o passo ao ver meus traços ganharem forma no papel. Casais jovens queriam retratos rápidos, crianças riam curiosas, idosos se aproximavam com olhos cheios de memórias. Eu sorria de leve, educadamente, mas raramente dizia mais do que o necessário. Entre um rosto e outro, eu desenhava a — ou cenas vagas da estrada: uma caminhonete, uma placa inclinada, o céu imenso, infinito.
— Você tem talento — comentou uma senhora, deixando algumas notas amassadas na minha mão.
— Obrigada — respondi, quase num sussurro.
Quando o sol começou a cair e a luz dourada se espalhou pelas calçadas, voltei para o motel com alguns trocados no bolso e os dedos sujos de grafite. chegou pouco depois, exausta, com o cabelo colado na testa e a camiseta manchada de produto de limpeza. Caímos na cama ao mesmo tempo, como se tivéssemos combinado.
— Acho que estou oficialmente fedendo a água sanitária — disse ela, passando a mão no rosto.
Ri baixo e joguei um travesseiro nela.
— Eu passei o dia ouvindo histórias aleatórias de completos desconhecidos. Você sabia que um cara queria que eu desenhasse o cachorro dele usando óculos escuros?
— Isso é incrível. E você fez?
— Não. Ele queria pagar com um cupom de café — revirei os olhos.
Rimos juntas. Por um instante, a tensão entre nós se dissolveu. Era raro ter esses momentos de leveza.
Depois de um tempo, ela ficou séria.
— Você acha que um dia vamos parar de fugir?
Fiquei olhando para meus dedos, ainda sujos de grafite. Respirei fundo antes de responder.
— Eu espero que sim. Mas até lá… a gente tem uma à outra, né?
Ela assentiu, com um meio sorriso.
Enquanto tentava dormir, eu sabia que os pesadelos não deixariam. Ele estava sempre lá, nos sonhos dela. O padrasto. O medo. A fuga. E eu… eu também não conseguia descansar. Fiquei encarando a janela por um bom tempo, pensando no que poderia ter sido, no que ainda podia ser — se é que podia. Peguei meu caderno de novo. Tentei escrever.
Hoje me peguei pensando em nós…"
Minha letra tremia conforme eu escrevia. Pensei em tudo o que tínhamos perdido. Em Lucas. Em mim. Na nossa casa, que parecia sempre aquecida, até quando tudo desmoronava. Escrever era como arrancar algo de dentro, como tentar me perdoar mesmo sabendo que ninguém mais ia ler aquilo.
Estava tão imersa que nem percebi se mexendo na cama.
— Ainda estamos muito perto de Kingman. Parece que saímos há meses, mas só fazem três dias. Não consigo relaxar. Quando acho que vamos pegar um caminho mais longo, alguma coisa acontece. Será que estamos destinadas a ficar presas aqui?
Fechei o caderno, ainda com a carta inacabada, e suspirei.
— A gente saiu com quase nada. O carro quebrou. Encontramos carona e empregos temporários. Você tá levando isso mais a sério que eu — ironizei. — E olha que eu é quem trabalhava em um bar.
Ela riu com a cabeça baixa, mas logo ficou séria de novo.
— Não dá pra continuar parando de cidade em cidade. Logo ele vai nos encontrar. — Passou a mão no cabelo, nervosa. — Sobre o emprego… seus desenhos estão funcionando. Continua com isso, eu continuo limpando.
— Obrigada por me livrar das mãos bobas. É bom tirar férias — brinquei, tentando suavizar.
Guardei o caderno na mochila. Eu sabia que aquela carta nunca seria enviada, mas, de alguma forma, era mais fácil quando eu escrevia como se ainda houvesse uma chance de retorno.
— Qual é o nosso próximo passo?
— Pensei em ficarmos aqui só mais um dia. O motel tá pagando pouco, mas melhor que nada, dá pra garantir a próxima refeição e talvez um quarto melhor. Lavamos as roupas, nos organizamos… mas sem enrolar. Depois, seguimos viagem.
Assenti.
— É um bom plano. E, bom… nem temos certeza se o Richard está mesmo nos procurando. Vai ver, pra ele, foi até um alívio.
— Duvido — ela rebateu, olhando para o teto. — Nunca enfrentei ele de verdade. Ele não vai deixar isso quieto. Por enquanto, minha mãe deve estar tentando segurar a barra.
— Você falou com ela?
— Não. Só vou fazer isso quando a gente estiver a milhas daqui. Em segurança.
— Será que ele já achou o carro?
— Espero que não. Se achar, vai ser pior.
Ficamos em silêncio por um momento. O quarto escuro, só com aquela luz irritante da TV piscando.
— Amanhã cedo tento fechar mais uma diária. Saímos à noite. Fresno tá a uma hora e meia daqui. Lá a gente pode pegar uma estrada maior, talvez seguir até São Francisco. Não sei…
— Ver o mar ia ser bom — bocejei. — E eu jurava que você já estava dormindo.
— Impossível com essa luz piscando e meus pensamentos tentando me matar — ela respondeu, se virando pra mim.
Olhou o celular.
— Quatro da manhã. Às sete tenho que estar de pé. Se eu não dormir logo, vou virar um zumbi do The Walking Dead.
— Nós duas, irmã, nós duas. Chega pra lá.
Me enrosquei do lado dela e puxei a coberta até os ombros.
— Vai passar, . Logo a gente vai ficar bem.
Ela não respondeu. Mas eu senti quando seu corpo relaxou. O sono, finalmente, começou a vencê-la.
E eu deixei que o silêncio nos cobrisse como um cobertor velho.
Quando o alarme tocou às sete da manhã, tudo em mim implorava pra eu ficar na cama. Por um segundo, achei que a fosse me convencer de desistir, mas nenhuma de nós disse nada. Sabíamos que precisávamos do dinheiro. Sabíamos também que quanto mais tempo ficássemos ali, mais fácil seria para sermos encontradas — mesmo que, no fundo, nem soubéssemos ao certo se havia alguém nos seguindo.
Foi com esse pensamento martelando que pulei da cama e fui direto pro banheiro, antes que a preguiça me abraçasse de novo. Tomei um banho rápido, escovei os dentes e vesti uma calça flare surrada, junto com a regata branca que já estava ficando gasta nas laterais. Prendi o cabelo num rabo de cavalo firme e respirei fundo antes de sair do quarto. A cada dia, me convencer a levantar era uma batalha diferente.
Na recepção, encontrei o mesmo homem de sempre — o atendente de olhar cansado e barba malfeita. Nunca me preocupei em perguntar o nome dele, nem fazia questão.
— Você tá precisando mesmo de dinheiro, hein, menina? — ele soltou, meio rindo, meio com desdém. — Normalmente ninguém aguenta mais de um dia trabalhando por aqui.
— Pois é… — forcei um sorriso. — Mas vai ser só por hoje. Eu e minha amiga precisamos ir embora logo, então... quanto mais grana, melhor.
A era extrovertida. Eu não. Pra mim, trabalhar ali já era um desafio. Falar com estranhos, então... uma tortura silenciosa. Eu preferia observar. Ficar quieta. Desconfiada. Mas naquela situação, não dava pra ser seletiva. Era engolir em seco e sorrir.
— Sorriam e acenem, rapazes, sorriam e acenem… — murmurei pra mim mesma depois que ele me entregou a chave do primeiro quarto.
Quando ouvi a porta se fechar, virei pro outro lado da cama com um suspiro. Ninguém ia estar na praça tão cedo, certo? Podia dormir mais um pouquinho. Mas não demorou pra culpa me cutucar. A estava lá fora desde cedo, limpando quartos fedorentos enquanto eu ficava aqui, deitada, só pensando em como tudo tinha dado errado.
Levantei com preguiça, mas também com pressa. Passei um pouco de água no rosto e amarrei o cabelo de qualquer jeito. Nem café da manhã a gente tinha tomado — estávamos tentando economizar tudo que podíamos. Quando fechei a porta do quarto atrás de mim, soltei um riso abafado.
— Meu Deus, eu realmente larguei tudo pra vender minha arte na praça.
Eram oito e meia em ponto quando cheguei na mesma praça do dia anterior. O banco sob a árvore já parecia meu. Tirei os desenhos da mochila, deixei alguns do dia anterior em exposição e me preparei para começar de novo. Bastaram os primeiros cinco dólares de um cliente para que meu estômago me lembrasse do almoço que ainda estava longe.

— Juro por tudo, se eu tiver que desentupir mais um vaso, vou me jogar na frente do primeiro caminhão que passar por essa estrada — ouvi dizer assim que se sentou para almoçar.
— Ia reclamar que as pessoas querem que eu faça desenhos de graça, mas, sério, o seu trabalho é mil vezes pior que o meu — respondi, dando uma mordida no meu hambúrguer.
— E ainda temos a tarde toda pela frente. Quando encontramos um lugar pra ficar, juro que nunca mais quero ver uma vassoura na minha frente — ela continuou, com a voz cansada.
O dia passou arrastado, pesado. Eu fiquei na praça, tentando vender meus desenhos. A maioria das pessoas passava sem nem olhar, mas cada venda era uma pequena vitória. No fim do dia, consegui juntar 40 dólares. Não era muito, mas ajudava, e era o que me mantinha firme.
Quando a noite finalmente chegou, estávamos exaustas. Cada passo parecia custar o dobro. Fizemos o check-out do motel em silêncio, assinando nomes falsos, havíamos decidido escolher por outros nomes, para não deixarmos rastros, foi ideia da . Ela estava meio obcecada com o padrasto, como sempre, tentando sumir de qualquer forma. O recepcionista nem se deu ao trabalho de olhar pra gente, só acenou com a cabeça e nos deixou ir. A sensação de alívio era enorme, mas a estrada à frente ainda era um mistério assustador.
Caminhamos até o posto de gasolina, o vento frio cortando meu rosto, a luz das lâmpadas refletindo no chão molhado. O corpo inteiro parecia cansado demais pra dar mais um passo.
Lá, encontramos dois motoqueiros. Eram motoqueiros mais velhos, provavelmente na faixa dos 50 anos. O couro que cobria seus corpos parecia pesando tanto quanto suas expressões. As jaquetas de couro, botas grossas e óculos escuros, apesar da noite, davam a eles um ar intimidador. Os rostos durões e os olhares fechados não convidavam a aproximação, mas, ao contrário do que se poderia imaginar, um deles, com voz grave, ofereceu uma carona depois de olhar pra nós e nossas mochilas.
— Não precisamos, obrigada — ouvi dizer, puxando minha mão para ir embora.
— Vocês não vão achar ninguém que dê carona aqui. Devem aproveitar — disse o outro, sorrindo de lado.
— Já conseguimos carona outras vezes, obrigada. Vamos, — respondeu, andando.
Eu tentei insistir:
— Amiga, não seria melhor aceitar? E de moto é mais rápido.
— Você tá louca? Eu não vou subir nessa moto com dois caras esquisitos — ela respondeu na hora.
— , a gente tá pegando carona com os caminhoneiros há dias, e eles podem nos matar sem ninguém ver!
Eles se olharam, e um disse:
— Última chance. A gente tá indo agora, precisa chegar em Fresno logo.
— Viu? Eles tão indo pra mesma direção que a gente! — falei, animada.
— Se eu morrer, vou virar um espírito obsessor atrás de você, — ela brincou.
— Combinado! — pisquei pra ela. — Aceitamos a carona, muito obrigada, cavalheiros.
— Não temos capacetes extras, mas a cidade é perto, e de moto é ainda mais rápido — o homem falou. — Eu sou o John, e esse é o Marco.
— Prazer, John. Eu sou a Vanessa, e essa é a Bianca — respondi, já subindo na garupa.
Marco riu:
— A gente conhece forasteiras, mas vamos fingir que acreditamos em vocês. Não queremos problemas.
Eles ligaram a moto e aceleraram, deixando o posto para trás. Apesar do medo, senti o vento no rosto e ouvi o ronco do motor, uma sensação estranha de liberdade — daquelas que só quem não tem escolha a não ser seguir em frente pode entender. Fresno era um mistério, mas naquele momento, qualquer coisa parecia melhor. A noite seguiu, e as luzes do posto ficaram para trás, enquanto a estrada à frente parecia nos chamar para o desconhecido.
Capítulo 4 - Ecos do asfalto
And I was running far away
Would I run off the world someday?
Nobody knows, nobody knows - Runaway
Would I run off the world someday?
Nobody knows, nobody knows - Runaway
A moto rugiu ao virar na avenida principal de Fresno, cortando o vento seco da tarde. Eu me agarrava com força à cintura do motoqueiro, sentindo cada vibração do motor. Atrás, vinha em outra moto, os cabelos pretos soltos dançando com o vento, os olhos dela fixos nas placas e nas fachadas que passavam como borrões.
Paramos num posto antigo. John apagou o cigarro com a sola da bota antes de se virar para a gente.
— Fresno não é lugar pra passear — disse ele, tirando o capacete. — Se vão ficar, fiquem atentas. E se vão continuar... talvez seja hora de parar de brincar de fugir. Nós não as conhecemos, e provavelmente nunca vamos, mas se serve de dica desses dois velhos: vocês são jovens, bonitas e inteligentes, seja lá do que fugiram, encontrem um lugar seguro e sigam a vida de vocês. A estrada não é lugar para duas garotas que não sabem nem onde vão dormir na próxima noite.
Eu franzi o cenho, quem esse cara achava que era pra ficar dando sermão pra gente? O sangue esquentou dentro de mim, e a gratidão pela carona quase sumiu diante daquela arrogância.
— Nós não estamos brincando — respondi, tentando manter a voz firme, mais do que eu esperava. — Estamos tentando não morrer.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas não comentou nada. Só deu meia-volta e entrou na loja de conveniência, seguindo o amigo.
Desci da moto, sentindo o suor escorrer, mesmo com o vento frio da estrada.
— Ele não tá totalmente errado — disse , olhando para a cidade à nossa frente. — A gente age como se o mundo fosse deixar a gente em paz só porque corremos por tempo suficiente.
— Não é isso. É só... — respirei fundo. — Eu só preciso de um segundo pra entender o que vem depois. Sabe? A próxima curva. O próximo passo.
— A gente nunca sabe o que vem depois, — Ela chutou uma pedra no asfalto. — E é aí que mora o perigo. Não podemos ficar pra sempre fugindo. Temos 23 anos, uma hora precisamos parar. Eu não quero dormir cada noite num hotel. Estamos "nessa vida" há poucos dias e eu já não aguento mais. Precisamos de um lugar para morar, um emprego e uma perspectiva. Não fugimos pra sobreviver, fugimos pra finalmente começar a viver.
Meus olhos ficaram marejados. Eu sabia que ela tinha razão. Sabia que não era justo com — a menina largou tudo que conhecia pra entrar nessa loucura comigo. O mínimo que eu podia dar era segurança. E a verdade é que nem sei se meu padrasto está mesmo atrás de mim. Precisávamos decidir o que fazer.

Fresno era maior do que eu tinha imaginado, uma cidade barulhenta e pulsante, cheia de gente apressada que parecia carregar o peso do mundo nas costas. O som constante dos carros, das conversas misturadas e das sirenes formava uma espécie de trilha sonora caótica, mas real. As calçadas estavam cheias de rostos que não olhavam pra gente, uns com olhares perdidos, outros com as marcas de noites mal dormidas estampadas na pele cansada. Era um lugar onde ninguém se importava com quem você era ou de onde vinha — e, para nós, isso era exatamente o que precisávamos.
Enquanto caminhávamos com as mochilas pesando nas costas, eu observei se adaptando rápido ao ambiente, como se aquela cidade cheia de desconhecidos fosse um porto seguro temporário.
— Aqui a gente pode desaparecer — ela falou baixo, com uma espécie de esperança misturada a uma urgência que eu conhecia bem.
Eu parei por um instante, olhando para os prédios altos e para o céu ainda tingido de cinza pelo fim da tarde. Respirei fundo, tentando afastar a ansiedade que teimava em apertar meu peito.
— Por quanto tempo a gente pode desaparecer? — perguntei, a voz saindo mais fraca do que eu queria.
deu de ombros, com um sorriso meio triste, como se essa resposta não tivesse uma resposta certa.
— Até a gente encontrar um lugar onde ficar não signifique ser encontrada. Até a gente poder respirar sem olhar por cima do ombro. — Ela me lançou um olhar determinado, e por um instante achei que ela estivesse falando com mais fé do que eu mesma sentia.
Eu balancei a cabeça, tentando acreditar que aquele lugar, apesar de tudo, poderia ser o começo de algo diferente. Que talvez, enfim, a estrada de fugas intermináveis pudesse dar uma trégua — mesmo que por pouco tempo.

Mais tarde, depois de conseguir um quarto barato num hostel decadente no centro e tomar um banho que parecia até luxo, nós saímos para procurar comida. Acabamos num mercado de rua que parecia um cenário improvisado: barracas com lonas gastas, gente vendendo peças de carro usadas, cigarros soltos, DVDs piratas. O cheiro de fritura misturado com gasolina e o que a gente achava que era maconha invadia o ar.
parou na frente de uma banca de chaveiros, cheia daqueles que tinham formas de carros antigos.
— Quando eu era criança, o Lucas colecionava essas coisas — disse , tocando numa chave com a ponta dos dedos. — Ele falava que um dia ia dirigir um Impala preto e sair por aí, sem destino.
— Meio que ele conseguiu — eu murmurei sem pensar, e logo me dei conta do que disse.
engoliu em seco, ficou olhando pro nada, perdida em algum pedaço do passado. Antes que eu pudesse pedir desculpas, um homem magro, com cara inquieta, percebeu a nossa hesitação e puxou papo.
— Vocês não são daqui, né? — ele perguntou, olhando das mochilas pro nosso rosto cansado.
— Só de passagem — respondi rápido.
— Todo mundo aqui tá "de passagem" — ele riu, mas não tinha humor nenhum. — Até ficar preso. Vocês têm cara de quem tá procurando alguma coisa... ou fugindo de alguma coisa. — O sotaque dele era carregado.
— Nós não queremos confusão — disse .
— Ninguém quer. Mas às vezes ela acha a gente — ele deu de ombros. — Tem gente que arranja trabalho, outros se viram em racha, luta… Às vezes tudo junto. Se quiserem, posso apresentar umas pessoas.
Franzi a testa.
— Por quê? O que você ganha com isso?
— Nada. Só reconheço quando alguém está à deriva. E às vezes cair na estrada errada é melhor do que não ter estrada nenhuma.
olhou pra mim.
— Nós precisamos de dinheiro. E informação. Se a gente continuar, não dá pra ficar dependendo só da sorte.
Eu hesitei um segundo, depois assenti.
— Tá. Mostra o caminho.
Fresno começava a mostrar um lado que não estava nos mapas, nem nas placas. Ali, entre fumaça e segredos, nossa estrada começava a mudar de direção. O vendedor apontou para uma rua lateral onde a luz pública falhava e o som distante de motores vibrava no ar.
— Sigam por ali. Depois da ponte, vão ver um galpão velho, com um portão enferrujado. Não tem placa, mas vão saber que é lá. Batam duas vezes e esperem. Não falem demais.
Olhei pro beco desconfiada. Ajustei a alça da mochila no ombro.
— E se for uma armadilha?
— Se fosse, eu já teria roubado vocês — ele sorriu torto e sumiu entre as barracas.
Nós caminhamos até o ponto indicado, o tênis batendo no asfalto rachado. Um cachorro latiu longe. O galpão era grande, alto, com janelas cobertas por tábuas e pintura que já fora vermelha, hoje algo entre bordô e marrom. A luz que vinha de dentro passava por frestas irregulares. Respirei fundo e bati duas vezes.
Silêncio.
Uma porta lateral rangeu, abriu devagar, e um homem enorme, tatuado, de braços cruzados, apareceu.
— Quem mandou vocês?
— O cara da feira — respondeu. — Disse que a gente podia ver o que tá rolando.
Ele nos avaliou por um tempo que pareceu longo demais, então se afastou, abrindo caminho.
— Sem celular. Sem perguntas. E fiquem longe da pista.
Entrei no galpão e tudo mudou de cor. Luzes vermelhas e azuis piscavam no teto, música eletrônica misturada ao ronco de motores e burburinho da multidão. Era um coração pulsando fora do peito da cidade, escondido dos olhos comuns.
Carros enfileirados, potentes, modificados, brilhando com pintura fosca. Rostos duros, tatuados, mulheres com roupas provocantes distribuindo bebidas. Cheirava a óleo diesel, cigarro e perigo.
O galpão era dividido em duas partes: de um lado, os carros de corrida; do outro, um ringue improvisado onde rolava uma luta clandestina, a galera gritando "Luta! Luta! Luta!".
— Isso aqui é outro mundo — murmurei, fascinada.
— A gente devia ir embora — disse , olhando ao redor. — Não é o nosso mundo.
— Nenhum lugar é, lembra? — falei, me virando pra ela. — Mas talvez seja hora de encontrar um onde a gente possa sobreviver.
Antes que ela respondesse, um silêncio tomou conta do lugar. Todos se viraram para os fundos do galpão, onde começava uma pista improvisada: dois carros lado a lado, motores rugindo como um desafio.
O último piloto entrou no carro. Alto, atlético, com jaqueta preta, luvas de couro, capacete todo preto com visor escuro. Algo nele prendia o olhar, como se o ar ao redor soubesse que ele era diferente.
— Quem é ele? — sussurrou.
— Como eu vou saber? Cheguei aqui junto com você! — respondi, levando uma cotovelada dela.
— Dizem que ele nunca perdeu — um cara comentou atrás da gente. — Corredor fantasma. Ninguém sabe o nome, só chamam de Raven.
Um arrepio subiu pela minha espinha. O nome mexeu com algo em mim que ainda estava correndo. O sinal foi dado. Os carros dispararam com um rugido coletivo. A corrida durou segundos, mas Raven era diferente — reflexos, frieza, controle.
Ele venceu.
Ao sair do carro, ele não celebrou, só abaixou a cabeça como quem agradece. Nem parava pra falar, mesmo com o pessoal tentando puxar conversa. Dei um passo à frente, algo me puxava pra ele. Quando chegou perto, senti que ele me observava, mas não dava pra dizer, o capacete cobria o rosto. Raven entregou a chave do carro para um rapaz e sumiu atrás de umas cortinas.
ficou encarando o ponto por onde ele desapareceu.
— Você viu como ele dirigia? — ela perguntou.
Assenti devagar.
— Como se estivesse fugindo de algo atrás dele.
— O outro cara — ela riu da própria piada.
As luzes voltaram a piscar e um novo par de carros se alinhava para outra corrida. Talvez aquele fosse o começo do caminho que mudaria tudo.
— Vocês são novas. — A voz firme veio de uma mulher que parecia saída de um filme de ação. Ela tinha os cabelos crespos presos num coque apertado, roupa preta dos pés à cabeça e uma postura que não deixava espaço para dúvidas.
Me virei junto com a , e senti ela firmar os pés como se já estivesse esperando confusão.
— Só estamos olhando — ela respondeu, mais defensiva do que o necessário.
A mulher sorriu de canto, como se já soubesse o final da história.
— Todo mundo começa assim. Olhando. Depois, quando se dá conta, já está no meio do jogo.
Ela estendeu a mão com naturalidade, como se tivesse feito isso centenas de vezes.
— Me chamam de Reyna. Cuido de parte da organização. Corridas, apostas, entrega... Tudo que faz esse lugar respirar.
Troquei um olhar com a . Respirei fundo e apertei a mão dela.
— O que exatamente você quer com a gente?
— Disseram que chegaram pela mão do Rick, do mercado. Isso significa que vocês são sobreviventes, não turistas. E a gente precisa de gente assim.
— Precisa como? — franziu o cenho. Típico.
— Aqui, todo mundo tem uma função. Quem dirige, quem aposta, quem cuida dos bastidores. Quem distrai a polícia. Quem cuida dos lutadores.
— Lutadores? — Ergui uma sobrancelha.
— Lutas clandestinas. Toda quinta-feira. A gente movimenta bastante dinheiro com isso. E os lutadores… bom, alguns são só músculos. Outros têm histórias que fariam vocês empalidecerem. Um em especial tá dando o que falar.
Ela fez uma pausa, só pra aumentar o mistério.
— Nome de luta: . Só isso. Rápido, letal. Nunca perde, mas parece que está sempre a um soco do fim.
Mordi o lábio inferior, meio curiosa, meio assustada.
— E o que faremos com essa informação?
— Podemos começar com trabalho simples. Servir bebida, limpar, distrair quem precisa ser distraído. Se mostrarem que sabem mais do que aparentam, podem subir. Tudo em sigilo. Aqui ninguém é o que parece.
Reyna nos analisava como quem vê um diamante coberto de lama.
— Vocês têm cara de quem carrega segredo demais pra dar meia-volta. Então decidam: querem continuar assistindo... ou vão entrar no jogo?
Olhei pra . Não escondemos nada uma da outra. Medo. Ansiedade. Curiosidade. E, acima de tudo, aquela vontade incontrolável de finalmente pertencer a algum lugar.
assentiu primeiro.
— Nós entramos.
Respirei fundo. E fui com ela.
Reyna sorriu, satisfeita, como quem acabara de vencer uma aposta.
— Ótimo. Amanhã, estejam em San José. Dezessete horas. Vão até Los Altos, tem uma feira de rua chamada DeMartini Orchard. Procurem o Tino, digam que Reyna mandou. E tragam cara de quem já deixou tudo pra trás. Porque depois disso... não tem volta.
— San Jose? — repetiu, surpresa.
— Fresno é só uma distração. Um pit stop. O mundo real acontece em San Jose. Corridas grandes. Lutas sérias. Dinheiro de verdade.
E com isso, Reyna desapareceu pelo galpão, como uma sombra se dissolvendo na multidão. Fiquei ali, parada ao lado da , vendo tudo acontecer como se fosse um sonho esquisito.
— O que a gente acabou de fazer? — murmurei.
— Abrimos uma nova porta — disse . — E vamos torcer pra não ser uma armadilha.
Do outro lado do galpão, um homem subia no ringue improvisado. Luzes vermelhas e brancas estouravam em flashes. O público enlouquecia.
O nome dele estava bordado nas costas do casaco preto: .
— Vamos, aparentemente conseguimos um emprego... meio duvidoso, mas é alguma coisa — falou, já pegando minha mão e me puxando.
— Ah, mas eu queria ver a luta… — resmunguei, fazendo um biquinho.
— Hello!! A gente vai trabalhar com isso agora. Você vai enjoar de ver esses caras se socando.
— Nossa, , como você é chata.
— Se acostume com isso. Eu sou a cabeça. Você, o coração.
— Estou empolgada! Será que pagam bem? Vai que a gente consegue um apê fofo pra dividir.
— Se eles pagarem e não nos matarem, já é lucro.
— Vamos lembrar que quem topou primeiro foi você.
Ela revirou os olhos, e eu segurei o riso.
— Você tava doidinha pra dizer sim, eu vi. Se interessou pelo lutador, foi?
— Querida, não era eu quem tava sedenta pelo piloto mascarado, olhando pra ele como se fosse um mosquito e ele a luz.
— Tanta coisa boa pra comparar, e você escolhe um mosquito? Em minha defesa, ele parecia um gostoso.
— Se fosse mesmo, não usava capacete — provoquei, enquanto seguíamos o Google Maps pela rua. Tínhamos que voltar no hostel para pegar as mochilas antes de seguir viagem. — Vai ver é desdentado.
— É o estilo. Duvido que um homem daquele tamanho não tenha todos os dentes. Chegamos! Pegamos nossas coisas, chamamos um táxi e partimos rumo à rodoviária.
Destino: San Jose. E, com ele, um novo capítulo. Ou uma armadilha bem montada. Mas pelo menos a gente não estava mais parada.

— Com licença, duas passagens para San José, por gentileza — pedi, tentando parecer mais confiante do que realmente estava. A mulher do caixa nem ergueu os olhos. Apenas passou os bilhetes e estendeu a mão com a impaciência de quem já viu centenas de rostos como o nosso.
Assim que pagamos, seguimos para o ponto de embarque e nos sentamos nos bancos de ferro. Eu nem tinha percebido o quanto meu corpo doía até encostar ali. Era como se tudo — adrenalina, correria, tensão — tivesse sido colocado em pausa naquele momento. Meu corpo, finalmente, exigia um descanso.
— Nossa, estou moída — murmurei, espreguiçando os braços acima da cabeça. Olhei pro lado e vi uma daquelas máquinas antigas de salgadinhos e refrigerantes. — Vou pegar algo pra gente.
Ela assentiu sem dizer nada, o olhar perdido num ponto qualquer da estação. Voltei com um refrigerante e um pacote de batata que parecia ter mais ar que comida, e sentei ao lado dela.
— Sabe... eu me senti no filme do Percy Jackson lá dentro, naquela cena em que eles comem a flor de lótus e ficam presos no cassino. Juro, eu não notei o tempo passar.
riu pelo nariz, pegando um punhado do salgadinho.
— Quanta bagagem de referência nessa cabecinha.
— Você é tão divertida, !
Ela arqueou uma sobrancelha, com aquele ar blasé que só ela conseguia manter mesmo completamente exausta.
— Obrigada. É um talento.
Sorrimos, cúmplices naquela pausa silenciosa. A estação estava fria, iluminada por luzes brancas que zumbiam levemente. Tudo parecia suspenso, como se o mundo respirasse com a gente, só esperando o próximo passo.
Não demorou muito até o ônibus chegar. O som do motor freando na plataforma cortou o silêncio como um aviso.
Levantamos juntas, ainda um pouco lentas, e colocamos as mochilas nos ombros. Quando entregamos as passagens para o motorista, troquei um último olhar com . Algo no meu peito apertou, uma mistura estranha de ansiedade e entusiasmo.
Quando a caminhonete sumiu na poeira, virou pra mim. Não disse nada. Só me deu aquele olhar que significava "a gente ainda vai sair dessa". Eu assenti. Era o nosso jeito de prometer que, enquanto estivéssemos juntas, ninguém mais ia ditar nosso fim
Talvez aquilo fosse só mais uma fuga. Talvez fosse o começo de tudo. Mas uma coisa era certa: o submundo estava de braços abertos para nos receber. E nós — tontas, loucas, corajosas — estávamos prestes a entrar.
Capítulo 5 - Fim da linha… ou não
Someone like me can be a real nightmare
Completely aware
But I'd rather be a real nightmare
Than I die unaware, yeah - Nightmare
Completely aware
But I'd rather be a real nightmare
Than I die unaware, yeah - Nightmare
Chegamos em San José com o dia nascendo devagar, tingindo os prédios altos com um tom de dourado cansado. Dormi um pouco no ônibus, o suficiente pra não cair dura no chão, mas não o bastante pra apagar a exaustão acumulada nos ossos. Quando descemos na rodoviária, fui tomada por uma sensação esquisita, como se o mundo estivesse gritando e eu ainda tentasse entender onde estava. Era gente pra todo lado, barulho, buzinas, passos apressados. San José pulsava diferente. Não era como Kingman, onde o vento seco do deserto carregava os mesmos ruídos há anos. Aqui tudo parecia em movimento — como se ninguém tivesse tempo pra olhar pra ninguém. E, de um jeito estranho, isso era exatamente o que a gente precisava.
Pegamos um motorista de aplicativo porque não fazia sentido andar à toa por uma cidade que não conhecíamos. Quando o carro parou na frente de um hotel de fachada cinza, com janelas altas e uma entrada que parecia ter sido pintada há décadas, fiquei em silêncio. O prédio parecia contar histórias demais. Histórias que eu não sabia se queria ouvir.
— Ok… — murmurei, ajustando a alça da mochila no ombro. — Vamos entrar, né?
— Às vezes eles nem têm um quarto… — respondeu, ainda com a testa franzida.
— A gente precisa que eles tenham. Por pior que seja.
E tinham. E, pra minha surpresa — uma surpresa tão grande que quase me fez rir de nervoso — o quarto era bom. Duas camas de solteiro com colchas brancas, paredes claras, um banheiro limpo de verdade. Olhei ao redor desconfiada, esperando ver alguma rachadura escondida, uma torneira vazando, qualquer coisa que nos trouxesse de volta pro inferno de onde a gente saiu.
— Cara, você tá com um pé de coelho escondido na bolsa? — perguntou, jogando a mochila na cama. — A gente tá com MUITA sorte ultimamente.
— Fala baixo, vai que o universo escuta e resolve cobrar a conta.
Ela riu, se jogou na cama com um suspiro tão leve que me deu vontade de deitar também e esquecer o mundo. Mas primeiro, banho. Depois, decisões.
Tomei um banho demorado, tentando lavar mais do que só o suor e a estrada. Eu queria tirar de mim o peso dos dias anteriores. As lembranças. As incertezas. Quando saí, ficamos um tempo em silêncio, só olhando as roupas que tínhamos na bolsa. Nenhuma parecia adequada. Nenhuma parecia feita para esse “novo mundo”.
— O que diabos se usa pra um encontro desses? — perguntei, ainda encarando minhas opções com as mãos na cintura.
— Couro? — sugeriu, com aquela carinha debochada que ela sempre faz quando sabe que tá palpitando no escuro.
— Ótimo! Começamos bem, .
Demoramos tanto nesse ritual do banho e da indecisão que decidimos sair pra comer e deixar o dilema fashion pra depois. Coloquei um shorts jeans de cós alto, uma blusa branca simples e um boné azul bebê. Óculos escuros, porque mesmo com as olheiras, eu ainda tinha uma reputação a zelar. apareceu de vestido tomara-que-caia verde e tênis preto. Pela primeira vez em muito tempo, ela parecia feliz.
Achamos uma cafeteria que servia uns pratos decentes. Sentamos do lado de fora, aproveitando o sol quente e o cheiro de café misturado com o som da cidade viva ao redor. Gente indo e vindo, bicicletas, crianças correndo. Era como assistir a uma vida que não nos pertencia, mas que de algum jeito, agora podia.
— Comida de verdade! — murmurei, enchendo a boca de macarrão. — Se eu comesse mais um hambúrguer, acho que teria um colapso.
— Nem fala. Eu estava precisando sentar a bunda numa cadeira e só comer. Sem pensar. Sem planejar a próxima fuga.
— A gente ainda tem preocupações — lembrei.
Ela me olhou, séria por um segundo. Depois sorriu de leve.
— , a gente está a quilômetros de Kingman. Estamos numa das maiores cidades da Califórnia, e até agora ninguém nos achou. A
vida continua. E pela primeira vez, ela tá dando uma trégua. Fiquei quieta. Ela estava certa. Mas ainda assim, havia algo em mim que não sabia descansar.
— Sabe… — falei, dando de ombros — cancela o que eu disse mais cedo. Sobre eu ser a razão e você o coração. Acho que nossos papéis estão se misturando. Seu coração tá peludo.
gargalhou alto.
— Nada disso! Só não percebi o quão merda tava minha vida... até eu sair dela. Por falar nisso — ela pegou minha mão em cima da mesa — obrigada. Acho que você me salvou.
Senti um aperto no peito. Segurei a mão dela de volta.
— Você me salvou antes. Só tô retribuindo o favor. Mas chega de drama, ! — dei um sorriso. — Essa cidade é incrível. Tem sol, mar, coqueiros e... — um homem passou sem camisa na nossa frente, corpo de academia, sorriso de filme. Abaixei os óculos. — Homens gostosos. Obrigada, universo. É aqui que eu saio do celibato involuntário.
— Você é impossível. — Ela riu.
— E você adora. Vamos explorar, vai que a gente acha um look acessível para causar hoje à noite.
E fomos. Andamos por ruas arborizadas, lojas pequenas e vendo artistas de todos os tipos. Por algumas horas, esquecemos de tudo. Esquecemos o deserto, o padrasto, a estrada, o medo. Pela primeira vez em muito tempo... a gente só viveu.

Andávamos de braços dados pela calçada quando passamos em frente a um brechó com a vitrine torta e letreiros quase apagados. Trocamos um olhar cúmplice e entramos. O ar lá dentro era uma mistura de mofo com nostalgia, e as araras rangiam a cada peça remexida. Eu adorava esse tipo de lugar. Cada roupa parecia carregar uma história, um eco de alguém que já foi outra coisa.
Quando saímos, já eram quatro da tarde. As sacolas pesavam nos braços, mas o tempo corria mais pesado ainda. Reyna tinha deixado claro que atraso não era uma opção. E se tinha uma coisa que eu não queria agora, era estragar essa chance.
De volta ao hotel, foi direto para o banho. Enquanto isso, fiquei organizando as compras na cama, dobrando o pouco que tínhamos com o cuidado de quem tenta dar ordem a um caos que vem de dentro.
Vesti um shorts curto de couro preto, uma regata branca simples e uma jaqueta racer vermelha com listras brancas nas mangas.
Me olhei no espelho e fiz uma careta, rindo da própria imagem.
— Tô muito caricata, né? Parece que tô indo ser recrutada para um cartel.
sorriu, ainda secando os cabelos com a toalha.
— Eu adorei. Se for pra se meter em encrenca, que seja com estilo.
Revirei os olhos, mas não pude conter o sorriso.
vestiu uma legging preta, uma camiseta larga também preta e finalizou com uma jaqueta de couro marrom que a deixou mais pesada, mais presente. Era como uma armadura.
— Está linda! — eu disse, já calçando o tênis. — Vamos logo, já chamei o carro, tá esperando lá embaixo.
Era isso. Tínhamos uma chance. Uma porta entreaberta. E mesmo sem saber o que havia do outro lado, eu sabia que não dava mais pra voltar.

Dentro do veículo, eu observava pela janela enquanto o cenário mudava — o centro agitado de San José ficando para trás, dando lugar a ruas mais calmas, lojas antigas, pequenos mercadinhos. Tudo parecia calmo demais para o que nos esperava.
Quando o carro parou diante daquela estrutura colorida, coberta por flores e sacolas reutilizáveis, eu tive certeza de que alguma coisa estava errada.
— É aqui? — perguntou, franzindo a testa.
O motorista só assentiu. Suspirei e desci, sentindo o calor subir pela nuca, aquela sensação que mistura adrenalina com o mais puro medo. O lugar era absurdamente comum. Gente idosa, barracas de frutas, cheiro de hortelã e poeira. Nada ali dizia “mundo clandestino”.
— Não acredito que vamos vender tomates — murmurei, ainda tentando encontrar um sinal, qualquer coisa que fizesse sentido.
As pessoas nos olhavam como se fôssemos parte de algum tipo de pegadinha. Estávamos vestidas como figurantes de um filme de ação, no meio de uma feira hippie. Ridículo.
Andamos até parar diante de um homem alto, gordo, vestindo uma camisa havaiana que gritava “turista perdido”. Ele sorriu demais pra quem não nos conhecia. sussurrou:
— Será que é ele?
— Tem cara de Tino... — respondi.
— Cheguem mais, meninas! Aceitam morangos? Bem-vindas à barraca do Tino! — ele sorriu ainda mais, mostrando um dente de ouro reluzente. Quase ri de nervoso.
— Viemos pela Reyna — falei baixinho, olhando ao redor como se alguém fosse nos prender só por dizer esse nome em voz alta.
— Ah, sim, sim! Reyna falou que vocês viriam. Me acompanhem, por gentileza. — Ele saiu da barraca com um estalar de dedos e outro homem imediatamente assumiu seu lugar. — Meu carro está logo ali, atrás do barracão.
apertou meu braço com força, como se quisesse me ancorar ao chão. Eu mesma não sabia se queria seguir.
— Precisamos nos preocupar? — perguntei, tentando manter a voz firme.
— Com certeza. Mas não comigo. Eu sou amigo — respondeu ele, e sua resposta não ajudou em absolutamente nada.
Seguimos até uma SUV preta, e ele abriu a porta de trás. Um segundo de hesitação, e entramos. Já estávamos ali, afinal.
O caminho seguiu em silêncio. Não conversamos. Ele não perguntou nada, e nós não oferecemos informação. O som da ópera preenchia o carro, cortando qualquer tentativa de pensamento coerente. Claro que Tino ouviria ópera. Por que não?
Quando o carro finalmente parou, vi um galpão metálico, gigantesco e sem sinal de vida aparente. A pintura descascada, o portão entreaberto. Sem placa. Sem nome. Sem nada.
— Se eu desaparecer, minha última refeição foi macarrão, mas pelo menos foi um bom macarrão — murmurei.
riu, tentando disfarçar o nervosismo. Eu percebi. Porque eu também estava fazendo a mesma coisa.
Assim que cruzamos o portão, tudo mudou. Era como atravessar um limiar invisível entre a realidade e algum tipo de submundo vivo e pulsante. Luzes de néon lançavam reflexos azulados sobre o chão de concreto. O som dos motores rasgava o silêncio da noite. Gritos, risos, música alta. O cheiro de gasolina misturado com cigarro e adrenalina.
Olhei para . Ela parecia estar no mesmo estado que eu: deslumbrada, assustada, fascinada.
— Vocês não parecem tão perdidas quanto eu esperava. Isso é bom — Tino comentou, com um sorriso que eu não soube decifrar.
— E agora? — perguntou.
— Agora vocês seguem por aqui — ele apontou para a esquerda, onde a música eletrônica batia com força no peito. — Loirinha, você vem comigo pras garagens. Vai conhecer o pessoal das corridas. Moreninha — ele olhou para — o bar é logo ali, fale com o Davi, diga que fui eu quem mandou.
Toquei a mão da por reflexo. Era estranho me afastar dela. Estranho e desconfortável.
— Cuide dela — disse ela, com a voz mais firme do que o normal.
— Deixa comigo — ele respondeu.
A vi se afastar, os cabelos escuros desaparecendo entre as luzes quentes e a fumaça.
Eu respirei fundo e segui com Tino por um corredor de concreto, tentando não parecer tão tensa quanto estava. O cheiro de gasolina era forte. Passamos por uma cortina de lona e demos de cara com o que parecia uma garagem de outro mundo. Carros alinhados, motores abertos, ferramentas jogadas, vozes altas. Uma bagunça organizada. Ou um caos funcional.
E foi quando eu o vi.
Encostado num carro preto, braços cruzados, músculos definidos sob a camiseta escura, a pele negra brilhando, tatuagens subindo pelo braço. Rosto sério, olhos estreitos e observadores. O tipo de homem que podia te devorar com um olhar. O tipo de homem que parecia saber exatamente onde estava e o que fazia ali. O cabelo preso para trás em tranças que destacavam ainda mais a expressão severa.
E então nossos olhos se encontraram. Foi como ser puxada para dentro de um vórtice. Algo nele me pareceu familiar, como se eu já tivesse cruzado aquele olhar em outra vida. Ou em um sonho.
Eu fiquei ali, parada, tentando entender de onde vinha aquela sensação absurda de reconhecimento. O tempo desacelerou. E por um instante, fui só eu e ele. Eu e aquele olhar.
Eu me aproximava do bar, sentindo a vibração elétrica do lugar pulsando no peito — o som abafado dos motores ao longe, a música que batia forte pelas caixas em algum canto do galpão, e aquele cheiro intenso de álcool misturado com calor humano. Estava quase alcançando o balcão quando uma gargalhada alta cortou o ar, acompanhada do tilintar ritmado de vidro.
Levantei os olhos e vi ele. Um cara que fazia malabares com garrafas atrás do balcão, com uma naturalidade que parecia parte dele, como respirar. Cabelos castanhos bagunçados, como se tivesse acabado de sair de um vendaval e gostado do resultado. Olhos claros, azuis como o mar em um dia quente, e um sorriso que parecia surgir fácil, quase automático.
Ele vestia uma camiseta branca com as mangas dobradas, mostrando antebraços fortes e uma corrente simples no pescoço que brilhava sob a luz quente do bar improvisado. Havia algo nele que me atraía — não arrogância, mas uma confiança tranquila, como quem já está acostumado a ser observado.
— Você é a nova ajudante? — perguntou, girando uma garrafa na mão antes de deixá-la deslizar pelo antebraço até cair na outra.
Parei em frente ao balcão, apoiei uma mão na madeira desgastada e olhei ao redor antes de encará-lo.
— Depende — respondi, com um meio sorriso — Isso aqui paga em dinheiro ou em encrenca?
Ele soltou uma risada leve, que combinava perfeitamente com o barulho ao redor, como se fosse parte da trilha sonora daquele lugar. Jogou outra garrafa para o alto e pegou com uma facilidade que irritava.
— Os dois. Mas, se der sorte, as gorjetas pagam a terapia. — Estendeu a mão por cima do balcão. — .
Apertei firme a mão dele.
— .
— Nome de realeza. Gosto disso. — Ele sorriu de canto enquanto começava a preparar um drink improvisado. — Quer começar com algo forte ou só observar e fingir que sabe o que está fazendo?
Eu ri baixo, meio desafiadora. Ah, se ele soubesse.
— Eu finjo muito bem. Mas posso surpreender.
Ele me olhou por um segundo a mais, os olhos brilhando com uma curiosidade que quase parecia jogo. Ou talvez fosse mesmo. E eu me sentia pronta.
Capítulo 6 - Regra n. 1 do submundo: você não vê nada, não ouve nada e não pergunta nada
He's so tall and handsome as hell
He's so bad but he does it so well
I can see the end as it begins - Wildest Dreams
He's so bad but he does it so well
I can see the end as it begins - Wildest Dreams
Certo, se me contassem 1 mês atrás que hoje eu estaria em San José, em um lugar isolado cheio de carros, música, lutadores e mulheres seminuas eu iria perguntar o que a pessoa fumou e se tinha um pouco pra mim. Eu sempre tive vontade de fugir de Kingman, de conhecer o mundo, de descobrir a minha verdadeira personalidade sem ter o peso do medo em meus ombros. Eu não sei quem eu sou, do que eu gosto, eu só sei me esconder e tentar passar despercebida. E agora isso está prestes a mudar.
Tino me largou em frente aos mecânicos e disse que logo uma moça iria aparecer e me ajudar, depois de me chamar de ‘loirinha' mais vezes do que eu conseguia suportar, finalmente falei meu nome pra ele, que apenas piscou e saiu andando.
Reyna não tinha explicado muito. Apenas disse que o lugar era confiável, o que, vindo dela, na qual eu não conhecia, ainda podia significar “talvez não matem você”. Mas eu precisava do dinheiro. E mais do que isso... precisava do controle. Do poder de escolher. Nem que fosse só por uma noite.
Olhei em volta, analisando o velho galpão para tentar entender como ele funciona, mas a princípio segue o mesmo esquema de Fresno. O lugar é dividido em dois, um lado ficam os carros e do outro o ringue de luta, cada lado tem um bar e um mezanino com alguns sofás e puffs. Aparentemente, por mais que seja uma coisa só, os lados não se misturam, cada um tem suas regras e seus empregados.
A música pulsava, um misto de hip hop sujo com batidas eletrônicas que vibravam no peito. Mal conseguia distinguir as conversas ao redor — vozes altas, risadas estridentes, pedidos de bebida, apostas cochichadas como orações perigosas. Tudo era muito, e ao mesmo tempo, parecia longe demais. Como se eu estivesse ali, mas não de verdade.
Senti minhas costas queimarem, como se estivesse sendo observada e olhei por cima do ombro para tentar achar de onde vinha a sensação e lá estava ele. O mecânico. Ajoelhado ao lado de um carro preto que parecia saído de Velozes e Furiosos, especialmente o 2, se vocês considerarem minha opinião. As mãos sujas de graxa, os braços definidos, o maxilar marcado como se tivesse sido desenhado com faca. E os olhos... Escuros. Intensos. Quase hostis.
Ele continuava me encarando. Qual é, eu sei que eu sou bonita, mas já estava começando a me incomodar. Por um segundo, senti como se estivesse nua. Não fisicamente, mas emocionalmente. Como se ele visse através da fachada que construí nos últimos dias, a menina durona, prática, que não precisa de ninguém.
Droga.
Desviei o olhar rápido demais e me amaldiçoei por isso.
— ? — a voz feminina me puxou de volta à realidade. Vinha de uma mulher ruiva com uma prancheta e fones pendurados no pescoço. Ela me analisava como quem decide se vai me contratar ou mandar embora antes mesmo do teste.
— Sim — respondi. Tentei parecer confiante.
— Indicação da Reyna?
Assenti com um movimento curto.
Ela soltou um suspiro.
— Beleza. Você vai ajudar a equipe dos corredores. Manter o público longe dos carros, atender os pedidos dos VIPs — apontou para o mezanino — e garantir que ninguém cause confusão fora da pista. Se alguém te incomodar, vem direto em mim. Aqui a gente tolera gritaria, mas não filha da putagem. Entendido?
— Entendi. — E de verdade, eu entendi. Era caos com regras. E isso eu sabia jogar.
— Me chamam de Migs. — Ela estendeu a mão.
Apertei. Firme. Gostava de gente como ela, objetiva, direta. Sem rodeios. Migs me deu uma camiseta preta enrolada com um elástico e apontou para uma área atrás de um dos carros tunados, onde outras garotas já circulavam com radinhos e listas.
Antes de seguir, olhei de novo.
O mecânico ainda estava ali. O olhar cravado em mim, como se eu fosse um enigma que ele ainda não decidira se valia a pena resolver. E, por um segundo, não consegui desviar. Ele tinha algo… perigoso. Não do tipo que machuca. Do tipo que faz você querer se aproximar, mesmo sabendo que vai se queimar.
Mas eu desviei. Porque eu sempre desvio. Ainda.
Me virei e segui para a área designada, fingindo que meu coração não estava tentando furar meu peito com tanta força.
Talvez eu só precisasse de uma noite como essa. Talvez, pela primeira vez, eu pudesse parar de fugir do mundo e começar a correr com ele.
Troquei de camiseta atrás de um dos carros, protegida por uma lona improvisada. A malha preta grudava na pele quente sob o calor das luzes e do asfalto. Prendi o cabelo em um coque alto e enganchei o rádio no cinto, como Migs tinha me mostrado.
Primeira regra da noite? Observar.
Durante a primeira meia hora, me mantive calada, indo de um lado para o outro, entregando garrafas, ouvindo conversas, anotando pedidos que nem sempre entendia. Era um caos com ritmo, e tudo girava em torno de velocidade, dinheiro e adrenalina. Olhares rápidos, mãos sujas de graxa, risadas abafadas e apostas cochichadas entre cigarros e goles de cerveja. De vez em quando via atrás do bar dando risada com um rapaz, estou ansiosa para voltarmos ao hotel e saber detalhes da primeira noite dela.
E, no meio de tudo isso, ele.
O mecânico.
Os cabelos estavam trançados para trás, braços fortes cobertos por manchas de óleo e graxa, misturados com as tatuagens. A camiseta preta colava no corpo por causa do calor. Havia algo nele, não só a precisão com que se movia, mas o silêncio atento, como se enxergasse tudo, mesmo quando ninguém percebia sua presença.
Ele não falava muito. Mas quando falava, todo mundo ouvia.
Eu o observei enquanto ele ajustava uma peça embaixo de um dos carros, deitado no chão, os dedos se movendo como se soubessem exatamente o que estavam procurando. Era como assistir alguém dançando com as mãos.
Estava distraída encarando essa cena quando ele se levantou e me flagrou olhando.
Merda. De novo.
Desviei rápido, nota mental para parar de fazer isso, mas ouvi a voz dele, baixa, firme, quase grave demais para aquele ambiente barulhento.
— Você está com o rádio da equipe?
Virei devagar. Ele estava com os braços cruzados, suado, um leve traço de graxa na têmpora esquerda, como se tivesse coçado os olhos com a mão suja. Os olhos escuros me examinaram com uma calma que parecia perigosa.
— Tô, sim. Migs me colocou aqui — respondi, tentando parecer mais confiante do que me sentia.
— A Migs está ocupada agora. Fala comigo se precisar de qualquer coisa.
Dei um leve aceno, e por um segundo achei que ele fosse embora. Mas ele deu mais um passo na minha direção. Perto demais. Podia sentir o cheiro de graxa e do perfume amadeirado que emanava, era bom.
— Qual seu nome?
— . E você?
Ele hesitou. Só por um instante.
— .
Não reconheci o nome. Também não era como se fosse reconhecer, afinal, não conhecia nenhuma alma além de Tino e Migs. Pra mim, era só isso: um mecânico bonito e sério que andava como se carregasse peso demais nos ombros.
— Primeira noite? — ele perguntou, sem tirar os olhos de mim.
Assenti.
— Vai aguentar?
Mordi o canto da boca, tentando esconder um sorriso.
— Já aguentei coisa pior.
Um canto da boca dele subiu. Não era um sorriso. Era... quase.
— Ótimo. Fica aqui por enquanto. Esse carro tá com uma aposta alta demais pra gente se distrair. Se alguém se aproximar demais, me chame.
— Como vou te encontrar no meio disso tudo?
Ele me olhou por mais um segundo.
— Eu vou estar por perto. Sempre tô.
Continuei ali, de pé ao lado do carro, fingindo concentração enquanto o coração batia forte demais. Parte de mim queria correr dali. A outra... queria descobrir por que diabos um simples “” conseguia mexer tanto comigo. Alguma coisa me dizia que aquele cara ia me engolir inteira.
E, por algum motivo, eu não queria escapar.

Fiquei ao lado do carro, como um segurança, já eram quase 21h e pelo que ouvi pelos cantos, as corridas normalmente se iniciavam às 22h. Parei para olhar o carro mais de perto, ele era completamente preto, os vidros fumês não deixavam enxergar nada dentro do automóvel, coloquei as mãos ao redor do rosto e grudei a testa na janela tentando ver qualquer coisa, mas a única coisa que consegui notar levemente era um corvo desenhado no volante.
— A curiosidade matou o gato — ouvi a voz de nas minhas costas e me virei num pulo.
— Provavelmente foi de susto — respondi colocando a mão no coração.
— Ele não gosta que encostem no carro, loirinha. — Lá vem esse apelido de novo.
— Seja mais original, Tino já me apelidou assim. Quem é ele? — Pedi cruzando os braços sobre o peito. era bem mais alto que eu, tinha que erguer um pouco o pescoço para olhar para ele.
— Raven. O dono do carro. — Simplesmente falou e deu ombros, encostando-se no capô.
— Pensei que Raven — falei o nome devagar — não gostasse que encostassem no carro dele, mas você pode? — provoquei.
— Eu sou o mecânico dele. É óbvio que eu posso. Se ele ganha as corridas, é por minha causa.
— Pensei que tinha haver com talento.
— E com motor. E, preferencialmente, um motor que funcione.
Antes que eu pudesse responder, o fone de ouvido de soou e ele fechou a cara se afastando.
— Eu não vou ficar de babá desse carro a noite toda. — Bufei olhando para os lados. — Mas também, vou fazer o que? Ok, estou enlouquecendo e falando sozinha.
Quando pensei em me afastar e achar outra coisa para fazer, escutei falar no ponto:
— Não saia de perto desse carro. É uma ordem. — Revirei os olhos. Agora pronto, ele acha que manda em mim.
Eu estava encostada no carro, foda-se que não podia, braços cruzados, tentando parecer ocupada, mas meus olhos vasculhavam o ambiente, procurando qualquer coisa que me fizesse sentir menos inútil. tinha sumido depois da mensagem seca no rádio, e parte de mim queria muito responder com um palavrão. Mas a outra parte… obedecia.
Foi quando o som mudou.
Não era música. Não era o barulho comum do galpão. Era como um vácuo. Um silêncio denso, estranho. As pessoas começaram a se agitar, assobiando, murmurando empolgadas. E então eu ouvi.
Passos. Firmes. Lentos. Compassados.
Olhei para o lado e o vi se aproximando.
Raven.
O nome circulava como um sussurro preso entre os dentes do público. Ele vinha a pé, vindo direto do túnel escuro que levava aos bastidores da arena. Jaqueta de couro fechada até o pescoço, botas pretas pesadas e uma máscara que cobria todo o rosto, uma espécie de capacete estilizado, com visor espelhado, escuro como tinta fresca. Nenhuma pele à mostra. Nenhuma brecha.
Era... quase desumano.
E ele vinha direto para o carro. O carro que eu estava cuidando.
Senti meu corpo congelar antes que minha mente processasse. O mesmo frio na espinha de quando você sente perigo e não sabe de onde vem. Me afastei sem perceber, um passo pequeno, mas automático. Os olhos — ou o que quer que estivesse atrás daquela máscara — se voltaram na minha direção por um segundo. Só um segundo. Mas foi o bastante para me fazer segurar o ar nos pulmões.
Ele não falou nada. Não acenou. Só abriu a porta do carro como se o mundo ao redor não importasse. Entrou. Fechou. E então o motor rugiu com um som gutural, cheio de raiva contida.
Eu ainda estava parada a poucos metros, com o coração batendo alto demais no peito, tentando entender o que, exatamente, tinha acabado de acontecer.
— É ele — murmurou uma das garotas da equipe ao meu lado, quase em reverência. — O Raven.
Não sei o que respondi. Talvez nada. Porque tudo que eu conseguia pensar era no peso daquele olhar invisível sobre mim. E em como aquele homem, completamente coberto e mudo, conseguiu me fazer sentir mais exposta do que nunca.
As luzes da pista acenderam em estalos. A primeira corrida da noite estava prestes a começar.
E ele estava indo pra ela.
Capítulo 7 - Drinks e problemas de confiança
It's like your eyes are liquor
It's like your body is gold
You've been calling my bluff on
All my usual tricks - End Game
It's like your body is gold
You've been calling my bluff on
All my usual tricks - End Game
empurrou o copo pela bancada até ela. O líquido era âmbar, com gelo tilintando preguiçosamente dentro.
— Primeira lição: aceita o drink, não pergunta o que tem dentro. Confiança é moeda forte por aqui.
— E se eu morrer?
— Vai morrer sorrindo. Ou desmaiada. O que, sinceramente, às vezes é um upgrade.
Provei. Queimava na medida certa. Um toque doce no final, meio cítrico. Melhor do que eu esperava. Franzi os lábios, surpresa.
— Ok… ganhou um ponto.
— Ganho pontos rápido. Me disseram que sou tipo febre: chega devagar e quando percebe já tá suando.
Odeio admitir, mas ri. Havia algo de leve nele. Não exatamente seguro, mas... confortável. E naquele lugar, onde tudo parecia denso, isso era raro.
— Você sempre flerta com as funcionárias novas?
— Só com as que têm cara de que vão embora antes do fim da noite.
Cruzei os braços, encarando. Não era possível que eu tivesse tanta cara de frágil assim.
— E o que te faz pensar isso de mim?
Ele se aproximou levemente. O rosto ainda com aquele sorriso, mas os olhos... eles tinham alguma coisa ali.
— Você está com os ombros duros. Os olhos varrem o lugar como se procurassem saída. E tá usando o copo como escudo, mas segura com força demais pra alguém que só tá bebendo.
Arfei, surpresa por dentro. Não por ele ter notado, mas por ter acertado. Olhei em volta, sem saber o que responder de imediato.
— Boa leitura.
— Costumo acertar. É útil quando metade dos caras aqui resolve que a melhor forma de resolver a noite é quebrar uma cadeira na cabeça do outro.
— E você? Qual sua história aqui?
Ele deu de ombros, desviando o olhar por um instante.
— Eu sirvo drinks. Luto quando preciso. E dou conselhos ruins de graça. É um combo irresistível.
Antes que eu pudesse retrucar, um barulho alto ecoou do fundo do galpão. Metal contra metal. A multidão começou a se agitar.
olhou por cima do ombro.
— Parece que o show vai começar.
— Corridas?
— Mais do que isso — respondeu, pegando um pano e limpando as mãos. — É noite de Raven.
O nome pareceu carregar um peso estranho. As pessoas começaram a se virar. O clima mudou.
— Já que você o conhece bem, aparentemente, me diz, quem é Raven? — perguntei.
se inclinou de novo, dessa vez sem sorriso.
— Ele não fala com ninguém. Não tira a máscara. Ninguém sabe o nome verdadeiro, só que corre como se estivesse fugindo de algo que vai alcançar se ele parar.
Arrepios. Exatamente o que a pensou na noite em Fresno.
— E ele corre hoje?
— Sempre corre. Mas quando ele aparece… ninguém respira até a largada.
Admito, fiquei curiosa.
— Se for curiosa, vai lá ver. Mas não se aproxima muito. Esse lugar já queima sem ajuda de gasolina.
Assenti, quase sem pensar. Empurrei o copo de lado e comecei a andar. Sem saber exatamente por quê. Talvez eu só quisesse ver o tal Raven. Ou talvez eu só não quisesse ficar parada, como sempre fiquei.
Enquanto me afastava, ouvi dizer atrás de mim:
— Boa sorte com isso.
E mesmo assim, o que me arrepiou não foi só ele. Foi o que vi logo ao lado.
. Ela estava ali, vestida com o uniforme da equipe, perto de um dos carros. Os olhos fixos nele. Não como todo mundo, que olhava com idolatria, com excitação. Não. Ela parecia tensa. Quieta. Pequena demais diante daquela presença.
E então ela deu um passo pra trás.
Só um. Mas foi o suficiente. Eu conhecia aquele gesto. O corpo dela falou por ela antes que ela pudesse disfarçar. E o jeito que ela olhava pra Raven… era como se reconhecesse alguma coisa nele. Como se sentisse o perigo antes mesmo do motor rugir.
O som aumentou. As luzes começaram a piscar. E tudo em mim ficou em silêncio. Eu continuei olhando. já não estava mais à vista. E por algum motivo, isso me preocupou.

Voltei pro bar, mas a cabeça ficou na pista. O barulho dos motores ainda ecoavam nos meus ouvidos, como se meu corpo estivesse preso em outra frequência. tinha se afastado logo depois daquilo, sumido de vista, e por mais que eu quisesse ir atrás dela, não saberia onde procurar.
me recebeu com um sorriso torto e uma garrafa na mão.
— Fugiu da função? Isso dá suspensão, sabia? — disse, jogando uma cereja num copo que claramente não precisava de uma.
— Tô em treinamento, lembra? Tenho direito a cinco minutos de choque cultural — respondi, subindo no apoio atrás do balcão.
Ele riu. Mas era diferente daquela gargalhada fácil de antes. Menos leve. Ou talvez eu só estivesse mais atenta agora.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, sem parar de mexer as garrafas, mas com os olhos em mim.
— Acho que sim. Só… — hesitei, olhando pro fundo do copo como se tivesse alguma resposta lá. — Aquilo foi intenso. O Raven, a corrida, a forma como todo mundo… muda quando ele aparece. E a parecia… sei lá, diferente. Você conhece ele?
Ele levou mais tempo do que devia para responder. Longo o suficiente pra me fazer notar.
— Todo mundo aqui conhece o Raven — respondeu por fim, com um encolher de ombros casual demais pra ser sincero. — Ele é o cara que todos querem vencer e ninguém consegue.
— Mas ninguém sabe quem ele é? Tipo… ninguém mesmo?
sorriu de canto, aquele sorrisinho que diz tudo e nada ao mesmo tempo.
— Se soubessem, o mistério ia perder a graça, não acha?
— Ou ia fazer muita gente tremer — provoquei, tentando forçar um pouco.
Ele parou de limpar o copo por um segundo.
— Talvez. Mas, sinceramente? Algumas máscaras protegem mais do que escondem.
Fiquei em silêncio, encarando ele. Não era só charme. Tinha alguma coisa ali. Algo mais fundo do que o brilho nos olhos.
— E você? Vai me dizer quem você é de verdade ou também tá de máscara? — perguntei, tentando inverter o jogo.
— Eu? — Ele riu, voltando a se mexer. — Eu sou só o barman.
Mentira. Mas ele fazia parecer verdade com uma facilidade irritante.
Tomei um gole da bebida que ele deslizou pra mim e decidi não apertar mais. Por enquanto.
Mas uma coisa era certa: se o Raven era um enigma, era o tipo de pessoa que escondia as respostas atrás de um sorriso. E eu ainda ia descobrir o que ele estava protegendo.
Fiquei ali, atrás do balcão, observando as pessoas passando, rindo, dançando, como se todo aquele caos fizesse sentido pra elas. Talvez fizesse. Pra mim ainda era tudo barulho e disfarce.
voltou a preparar mais um drink, e eu só fiquei olhando. Ele se movia como se tivesse nascido ali, como se aquele lugar o aceitasse sem questionar. Eu invejava isso. Essa facilidade que algumas pessoas têm de caber nos espaços, e de fazer os espaços se moldarem a elas.
Eu nunca tive isso. Sempre fui a peça torta do quebra-cabeça. A filha adotiva que tentava ser grata o tempo todo, mesmo quando aquilo doía mais do que ajudava. A irmã que não conseguiu impedir uma tragédia. A garota que carrega o nome como uma piada, quando tudo que sentia era derrota.
Mas ninguém aqui sabia disso. E, por mais estranho que pareça, isso me dava poder. Aqui, eu podia ser só… eu. Ou talvez outra versão de mim. Uma que ria alto, que flertava com um barman bonito e que não se desculpava por existir.
Olhei pra de novo. Ele pegava uma bandeja com garrafas e entregava para uma garota mais nova do outro lado do balcão. Sorriu, brincou, fez alguma piada que a fez rir alto. E, mesmo com tudo isso, seus olhos voltavam sempre para mim.
Como se estivesse de olho. Como se esperasse algo. Suspirei. Talvez eu também estivesse esperando algo. Mas não era amor. Nem um conto de fadas. Eu não acreditava mais nessas coisas. Se havia algo que aprendi na marra, era isso: confiar em alguém pode ser um convite para se despedaçar. E eu já tinha cacos demais pra juntar.
Por algum motivo, aquele bar suado, barulhento, com cheiro de gasolina e cerveja barata, me parecia mais honesto do que muita coisa que vivi. E … ele me olhava como se não visse meus pedaços quebrados, ou talvez visse e não ligasse.
Talvez fosse isso que me deixava desconfortável.
Porque parte de mim queria acreditar de novo. E a outra, a que aprendeu a fugir antes que doesse, já ensaiava a próxima saída.
Mas eu ainda estava ali.
E isso, pra mim, já era muita coisa.
Capítulo 8 - Onde a vida nos olha com carinho
One touch and you got me stoned
Higher than I've ever known
You call the shots and I follow
Sunrise but the night's still young
No words, but we speak in tongues
If you let me, I might say too much - Off My Face
Higher than I've ever known
You call the shots and I follow
Sunrise but the night's still young
No words, but we speak in tongues
If you let me, I might say too much - Off My Face
Meus passos ecoavam nos corredores estreitos dos fundos enquanto tentava normalizar a respiração. O som das corridas ainda vibrava no concreto, como um eco distante que teimava em me puxar de volta.
Mas eu não conseguia.
Assim que ele passou por mim, paramentado, máscara cobrindo o rosto, corpo tenso e preciso como se carregasse chumbo nas veias, tudo congelou. O mundo perdeu som, forma, chão. Meus pés se moveram sozinhos, levando-me para longe da pista como se meu corpo soubesse que não aguentaria ficar.
E agora eu estava aqui, andando sem rumo pelos bastidores do galpão, tentando colocar um nome no que tinha sentido.
Medo?
Não exatamente. Era algo mais profundo. Um tipo de vertigem. Como se olhar pra ele fosse me puxar pra algum lugar onde eu não queria cair. Como se algo nele gritasse perigo... e familiaridade.
Me encostei em uma pilastra de ferro, fechei os olhos e inspirei fundo soltando o cabelo do coque. Eu não vim até aqui pra fugir de novo. Eu fugi pra viver. Pra me encontrar. E talvez, encarar o desconhecido fizesse parte disso.
Eu precisava decidir se aquilo era medo ou instinto. Se aquele arrepio era sobre o que eu vi... ou sobre o que senti. Fechei os olhos mais uma vez. "Você não veio até aqui pra fugir de novo", repeti. E fui.
Com um último impulso de coragem, voltei para o salão principal.
A música me envolveu como uma onda morna. As luzes vermelhas, os risos, o cheiro forte de álcool e gasolina, tudo parecia mais suportável agora. Caminhei devagar até o bar, desviando dos grupos de pessoas que vibravam com a corrida que eu não vi terminar.
estava encostada no balcão, com um copo na mão e um sorriso que não era o de sempre, era mais relaxado. Mais... leve. Como se, por algum milagre, ela também tivesse se encontrado em meio ao caos.
Ela me notou se aproximando e arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Sumiu no meio da corrida. Não achei que fosse do tipo que foge.
— Nem eu — murmurei, me apoiando na bancada em sua frente. — Mas aquele piloto... Raven... ele me tirou o ar.
riu, tomando um gole da bebida.
— É, parece que ele tem esse efeito. E você perdeu uma bela exibição. Parecia que estava lutando com os demônios no volante.
— Talvez estivesse. — Olhei em volta. — E você? Trabalhando ou flertando?
Ela sorriu com o copo ainda nos lábios, mas não respondeu de imediato. Bastou seguir seu olhar até o outro lado do balcão para encontrar o motivo da mudança em seu rosto: um dos bartenders, alto, bonito, cabelos pretos e olhos azuis cheios de energia. Ele lançava um sorriso cúmplice em nossa direção antes de voltar a girar uma garrafa entre os dedos.
— Ah... entendi. — Falei com um meio sorriso. — Flertando enquanto trabalha.
— — disse ela, como se o nome fosse um segredo que ainda estava se acostumando a dizer em voz alta. — É impossível ignorar esse cara.
— Ele sabe?
— O quê?
— Que você também é impossível de ignorar?
Ela me olhou, surpresa, depois riu.
— Eu senti sua falta — disse, sincera, e pousou a mão sobre a minha por um instante. Um gesto pequeno, mas cheio de significados.
— Também senti a sua — respondi, engolindo em seco. — Mesmo tendo sido só algumas horas... parecia mais.
Ela assentiu. No fundo, ambas sabíamos que aquele lugar, aquelas pessoas, estavam começando a mexer com a gente. E por mais assustador que fosse, talvez fosse isso que a gente precisava. Ser desafiadas. Ser vistas.
Ser sentidas.

Enquanto pedia mais uma bebida, após nosso expediente, “a última da noite, eu juro”, meu olhar se perdeu no movimento do galpão. As pessoas começavam a dispersar, algumas se reuniam perto dos carros, outras celebravam vitórias e perdas com o mesmo entusiasmo embriagado.
Do outro lado da multidão, encostado em uma das colunas de concreto, com os braços cruzados e a expressão dura, estava ele. .
Por um momento, nossos olhares se cruzaram. Ou talvez fosse só impressão.
Dessa vez ele desviou rápido, empurrando-se da coluna e desaparecendo entre os corredores internos. Como se nunca tivesse estado ali.
— Esse é o mecânico do Raven, né? — perguntou ao meu lado, me entregando um copo de água com limão.
Assenti, ainda com o coração acelerado.
— .
— Hm. Tem cara de quem já matou alguém com as próprias mãos e depois voltou pro turno. — Ela tomou um gole e ergueu a sobrancelha. — Você tá vermelha. Tá tudo bem?
Soltei uma risada abafada, balançando a cabeça.
— Tô tentando entender o que aconteceu hoje. Tô me sentindo... viva. Assustada, mas viva.
— A gente tá onde devia estar. — Ela me deu um leve empurrão no ombro. — Eu senti isso também. Como se, pela primeira vez, a vida não estivesse passando por cima da gente... mas olhando na nossa direção.

Saímos juntas do galpão, atravessando o pátio de asfalto rachado. O vento da madrugada aliviava o calor acumulado da noite. Estávamos suadas, exaustas e completamente despertas.
— Você gostou dele — ela comentou, depois de alguns passos em silêncio.
— Do Raven?
— Não. Do .
Eu a encarei, surpresa, mas ela só deu de ombros.
— Você olha pra ele como quem tá tentando não se afogar.
— E você pro como quem quer mergulhar de cabeça.
Ela sorriu, cúmplice.
— Eu vou ter que concordar com você, . — Ela fez uma careta exagerada — Tem muito homem bonito por metro quadrado nesse lugar. Acho que meu celibato involuntário também está com os dias contados.
Soltei uma gargalhada, abafando o som com a mão.
— !
— Ah, pelo amor de Deus, amiga, você nos viu nos últimos meses? Estávamos parecendo duas freiras de convento em retiro espiritual. E você também, com essa sua cara de "sou racional e centrada", mas quase babando no mecânico mal-humorado que nem sabe sorrir.
— Ele sabe sorrir — retruquei, antes de pensar.
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Sabia! Já reparou. Tá perdida.
Revirei os olhos, mas não consegui segurar o sorriso.
— E o ? Vai fingir que não percebeu que ele não tirou os olhos de você a noite inteira?
— Eu? Eu vou fazer de conta que sou só mais uma funcionária exemplar do bar, que por acaso sabe como segurar uma coqueteleira. — Ela piscou. — Mas entre nós... se ele me chamar pra sair, eu não vou fingir surpresa.
— Você acha que ele vai?
— , ele me chamou de "realeza" com aquele sorriso. Se não me chamar pra sair, eu demito ele da minha fantasia de verão.
Rimos juntas, como se o mundo estivesse um pouco menos pesado do que na manhã anterior. Ali, encostadas no capô de um carro enferrujado, com os cabelos bagunçados e os olhos ardendo de cansaço e adrenalina, eu senti que estava exatamente onde queria estar.
E com quem eu precisava.
— Agora falando sério — Comecei olhando em volta e notando que o lugar estava praticamente vazio — Como vamos embora? Eu tenho certeza que nenhum táxi vai chegar até aqui.
— Puta merda… o Tino nem para nos dar uma carona — falou abraçando o próprio corpo.
— Perdidas? — Uma voz falou e eu olhei para o lado para ver de quem se tratava.
— , né? Prazer, , melhor amiga da . — Estendi a mão para cumprimentá-lo.
— Prazer, . falou bastante de você hoje.
— Só coisas boas, imagino. — Sorri e revirou os olhos.
— Eu sei que mal nos conhecemos — começou — Mas poderia nos dar uma carona?
— Infelizmente, gatinha, eu tenho apenas um lugar para você. — Ele piscou e eu abri a boca pronta para reclamar — Mas meu amigo aqui — apontou para um carro que passava por nós. O carro era verde e tinha chamas pretas nas laterais. O motorista parou assim que viu . — Pode ajudar as duas donzelas.
Assim que o vidro abaixou, pude ver o motorista misterioso. .
— , consegue dar carona para as meninas? Eu estou só com a moto. — Ele olhou para mim, como quem estivesse se explicando. — E tenho quase certeza que não vai deixar a amiga para andar de moto comigo.
— Ainda bem que tem um cérebro pensante nessa cabecinha bonita — falou desencostando-se do carro e se aproximando de .
— Então você me acha bonito? — perguntou sugestivo.
— Ah, pelo amor de Deus! Chega com esse flertezinho de quinta de vocês. — Interrompi. — Por favor, , se você puder nos levar até o hotel vai ser ótimo. Ainda não conhecemos nada na cidade e nem temos meios de transporte.
— Claro, podem entrar — disse destravando o carro. — Depois a gente conversa — falou para e arrancou antes que o menino pudesse responder.
— Esse carro é muito bonito — comentou maravilhada.
— Obrigado — respondeu olhando para ela pelo retrovisor.
Após explicar onde o nosso hotel ficava, ficamos em silêncio. Um silêncio constrangedor, diga-se de passagem.
— Então… — começou — , você e o são amigos há muito tempo?
— Desde que comecei a trabalhar no submundo. Há 6 anos — ele respondeu, sério, não abrindo margens para mais questionamentos. Graças a Deus logo chegamos e pudemos finalmente acabar com essa torta de climão.
— Obrigada pela carona — falei descendo do carro. — Nos vemos por aí.
— Certamente não tirarei meus olhos de você — ele respondeu.
— O quê?
— Ué, fico de chefe quando a Migs não pode. O que você entendeu?
— Nada. Tchau. Boa noite. — Me apressei em responder e virei as costas indo de encontro com que me esperava na porta do hotel.
— O que foi isso? — Ela sussurrou.
— Eu não sei. Entra. — E só depois que a porta fechou que ouvimos o motor do carro roncar.
No corredor do hotel, virou pra mim com um olhar debochado.
— Então... o mecânico mal-humorado não vai tirar os olhos de você? É isso mesmo?
— Ele tava falando do trabalho — falei rápido, tentando soar indiferente.
— Aham. E eu sou a nova piloto da Fórmula 1.
Revirei os olhos, destrancando a porta do quarto.
— Você quer dormir ou quer apanhar?
— Quero saber como você vai lidar com um chefe sexy te observando enquanto você serve bebida pra playboy com dinheiro sujo. — Ela jogou a bolsa no chão e se jogou na cama com um suspiro teatral. — Isso vai ser divertido.
— Eu vou lidar muito bem, obrigada. Profissionalismo é meu segundo nome.
— Claro. " Profissionalismo ", totalmente imune a olhos castanhos, mandíbula marcada e voz de comando.
Me joguei na outra cama com um travesseiro cobrindo o rosto.
— Posso pedir transferência pro bar?
— Não, querida. Lá já tem uma dona.
Tirei o travesseiro do rosto e encarei o teto.
— A gente tá ferrada, né?
— Completamente. — Ela respondeu rindo. — Mas pelo menos tá divertido.
— E perigoso.
— Como toda boa história.
Por um segundo, ficamos em silêncio. Mas não era o silêncio tenso de antes. Era aquele confortável. Tipo quando você sabe que, apesar de tudo, está exatamente onde devia estar.
— Boa noite, Profissionalismo .
— Boa noite, "Vou dar em cima do até ele me pedir em casamento" .
— Já tá se tornando um plano.
Sorri, fechando os olhos. Amanhã será outro dia. E dessa vez, eu estarei pronta pra ele.
Capítulo 9 - Manual prático de sobrevivência entre marmanjos
We never painted by the numbers, baby
But we were making it count - The 1
But we were making it count - The 1
O loft era uma bagunça funcional. Uma mistura de oficina abandonada e lar improvisado, bem do jeito que a gente precisava, sem perguntas, sem luxo, só espaço pra respirar entre uma noite e outra. Tijolo à mostra, vigas de ferro antigas cruzando o teto alto, um sofá puído que já tinha aguentado mais rounds do que eu, e uma mesa de madeira onde o vivia desmontando o que quer que fosse que estivesse quebrado.
A cozinha era praticamente um canto com uma geladeira barulhenta, uma pia entupida e três panelas que ninguém sabia usar. Eu vivia dizendo que aquilo parecia um cenário de filme de luta underground. dizia que era só o preço da liberdade.
Joguei o capacete sobre a bancada e afundei no sofá, com os músculos gritando depois da última luta. A luz quente das luminárias penduradas deixava tudo com cara de madrugada que nunca acaba. Do fundo, ouvi o barulho do chuveiro.
Peguei uma cerveja velha da geladeira e voltei pro sofá. A TV estava ligada no mudo, passando algum jogo irrelevante. Eu só queria silêncio. Ou melhor, silêncio por fora. Porque por dentro, o nome dela ainda martelava na cabeça.
. Pensei que tinha morrido e ido para o céu quando vi ela andando em direção ao bar com aquela legging apertada marcando os lugares certos, por um segundo, esqueci como respirar. Parando para analisar agora, acho que pareci meio bobo, mas, definitivamente, mexeu comigo com aquele jeito debochado e aquele sorriso fácil que parecia dizer "eu te conheço" mesmo sem saber nada de mim. Merda. Era só uma garota. Bonita, sim, esperta até demais, mas ainda assim... só uma garota. Certo?
Eu tentei tirar a imagem da da cabeça, mas era inútil. Ela ria como se não tivesse medo, falava como se o mundo ainda fosse bonito. E, merda, às vezes eu acreditava nisso só de olhar pra ela.
O barulho do chuveiro parou e saiu do corredor com o cabelo molhado, camiseta escura grudando no peito e aquele olhar de sempre, como se o mundo tivesse peso demais e ele fosse o único tentando carregá-lo com as mãos sujas de graxa.
— A gente precisa consertar o registro do chuveiro — falei, só pra quebrar o silêncio.
— A gente precisa de mais toalhas. Você usou a minha de novo — ele rebateu, seco.
Dei um meio sorriso, girando a garrafa na mão.
— Você não ia usar mesmo.
Ele não respondeu. Só foi direto pra bancada, mexendo em alguma peça de motor que ninguém pediu pra consertar. Era o jeito dele de calar o mundo: desmontar alguma coisa e fingir que não estava sentindo nada.
Mas eu conhecia esse cara.
— E então… — soltei. — A loira.
Nada.
— . Você viu o jeito que ela olhava pro galpão? Como quem decora as saídas antes de respirar?
não ergueu o olhar. Mas parou por meio segundo.
— Você mal falou com ela — ele respondeu.
— E você olhou pra ela como se tivesse levado um soco no estômago. Dos bons.
Dessa vez ele largou a ferramenta, mas ainda evitava encarar. Sorri, porque às vezes o silêncio dele dizia mais que qualquer confissão.

falava como quem não liga pra nada, mas enxergava mais do que deveria. O problema é que ele via até o que eu tentava esconder.
. Ela não combinava com aquele lugar. E ainda assim... fazia sentido. Como se estivesse buscando alguma coisa que nem ela sabia o nome. Algo que eu também buscava, mas já tinha desistido de encontrar. Eu me lembrava dela, a vi na noite de Fresno, senti meu mundo parar enquanto ia em sua direção e hoje levei um susto quando a vi de novo, ainda mais bonita que aquele dia, menos assustada. As pernas à mostra e os longos cabelos loiros lisos fizeram eu me perder do mundo, não conseguia tirar os olhos, ela acendeu algo em mim que estava morto a muito tempo.
— Ela é só mais uma garota tentando pagar as contas — falei, voltando pra peça como se ela fosse urgente, ignorando meus pensamentos.
— Hmm. Claro. Porque você vive muito interessado em garçonetes e rostos bonitos. Me engana que eu gosto.
Ignorei.
— Distração custa caro. Você devia saber disso melhor que ninguém.
— Distração não é a mesma coisa que destruição, . Uma coisa te tira o foco. A outra te afunda porque você já tava indo pro fundo antes.
— Distração custou minha carreira. A reputação da minha família. A porra da vida que eu levei anos construindo.
O silêncio veio pesado depois disso. não rebateu. Só deixou as palavras pairarem ali, entre os tijolos frios e os fantasmas que nunca saíam do lugar.
Andei até a janela. A vista dali dava pra um beco, mas era alta o suficiente pra ver as luzes distantes da cidade. Era o tipo de lugar onde a gente podia sumir sem desaparecer de verdade. Era seguro. Anônimo.
Mas ela…
Ela me viu.
No meio da multidão, dos sons, dos disfarces. me viu. E isso me deixava mais exposto do que qualquer corrida.
— Eu não quero me envolver — disse, sem olhar pra ele.
— Você já está envolvido. Só ainda não percebeu.

O sol começava a invadir as janelas do nosso loft, aquele espaço meio improvisado que dividimos. Paredes com marcas das nossas batalhas, equipamentos espalhados, o cheiro de óleo e café forte. O dia ia começar, e a rotina do submundo precisava continuar.
já estava acordado, com os olhos focados enquanto arrumava as luvas. Hoje ele tinha uma luta importante, uma daquelas que podem mudar tudo pra ele. Eu admirava o jeito que ele se entregava, aquela vontade de provar algo mais, fugir do passado, como eu.
Enquanto eu mexia no motor do carro no canto da garagem que virou meu laboratório, pensava na corrida da noite passada. No medo que vi nos olhos dela quando passou por mim, naquela tensão que eu não consigo evitar.
— O que vai fazer hoje? — perguntei sem olhar pra ele.
— Treinar até a luta. Preciso estar no meu melhor. — Ele ergueu o olhar, firme. — Não posso errar.
Eu entendi. Cada soco que ele dava era como se tentasse golpear os fantasmas que carrega.
— Eu vou testar algumas mudanças no carro. Se quiser, pode dar uma olhada depois.
Ele sorriu meio desconfiado, mas aceitou.
O dia prometia ser longo, cheio de barulho de motor, suor e talvez alguma resposta que ainda não encontramos.
E mesmo com tudo isso, a presença dela, , já mexia comigo de um jeito que eu não estava pronto para admitir.
Capítulo 10 - Caos generalizado
I'm a young lover's rage
Gonna need a spark to ignite - My Songs Know What You Did In The Dark
Gonna need a spark to ignite - My Songs Know What You Did In The Dark
Acho que, com o tempo, a gente se acostuma a quase tudo.
O barulho dos motores, o cheiro de fumaça e graxa, a música alta que vibra até o osso, e até mesmo o jeito como as luzes piscam como se o mundo fosse um eterno sábado à noite. No começo, parecia outro planeta. Agora… é só a nossa rotina.
Faz um mês desde que eu e chegamos aqui. Um mês desde que nossa fuga terminou com uma caminhonete velha parando no meio do nada e duas figuras estranhas oferecendo uma carona que, por algum motivo, decidimos aceitar. Desde então, vivemos no submundo — no começo pensei que fosse só um jeito de chamar a parte ilegal da cidade, mas Davi me explicou que era como encontrávamos uns aos outros fora dali, uma forma de reconhecer e pertencer — ou pelo menos na parte dele que se esconde entre corridas ilegais, lutas clandestinas e dinheiro rápido.
O galpão onde tudo acontece funciona como uma cidade dentro da cidade. Tem regras próprias, uma hierarquia meio silenciosa e gente de todo tipo — dos que só aparecem pra apostar até os que praticamente moram ali. É dividido entre dois lados: o da corrida, comandado pela Migs, e o da luta, onde um cara chamado Davi organiza os combates e cuida das apostas. Reyna comandava tudo, mas quase não aparecia, estava sempre tentando manter as coisas sob controle do lado de fora.
Eu fiquei com o bar, o que me rende uma boa visão de tudo que acontece no ringue. Sirvo bebida, escuto conversa, observo mais do que falo. , por outro lado, trabalha do lado das corridas, com o pessoal VIP. Serve drinks, organiza a área de apostas e checa a lista de presença. Não é o trabalho dos sonhos, mas a gente recebe em dinheiro vivo e ninguém faz perguntas.
Nosso primeiro mês rendeu uns oitocentos dólares para cada uma. Nada que vá nos tirar daqui, mas o suficiente pra sonhar com um canto só nosso. Estamos de olho numa casa velha afastada do centro da cidade, o aluguel é mais barato e é mais perto do lado da cidade na qual o submundo pertence, pequena, com azulejos rachados e uma vista terrível, mas é nosso tipo de luxo, por enquanto.
Eu ainda desenho e, modéstia a parte, estou cada dia melhor, e redescobriu o talento para a dança e a garota é fenomenal, chama a atenção toda vez que decide mostrar seu talento na pista.
Quanto aos meninos… bom, eles são um capítulo à parte.
é o mais fácil de ler. Carismático, engraçado, debochado, sempre com uma resposta pronta e um sorriso cínico no canto da boca. Disse que só lutava de vez em quando, por necessidade. Mentira descarada. Demorou pouco para descobrirmos que ele é o lutador de Fresno, , conhecido no circuito clandestino por derrubar caras com o dobro do tamanho dele. Ele treina todos os dias como se o mundo dependesse disso. Hoje tem uma grande luta, e ele está mais concentrado do que nunca. Finge que está tranquilo, mas eu vejo nos olhos dele: ele sente o peso. E carrega calado.
... é mais complicado. Trabalha no carro do Raven, o piloto mascarado que ninguém realmente conhece. O em si vive de cara limpa, mas mesmo assim mantém certa distância. Ele é metódico, preciso, sempre ocupado com alguma coisa que ninguém mais entende. Tem um jeito de observar sem se envolver, como se sempre estivesse um passo fora de tudo. A verdade é que ninguém fala muito sobre o passado dele, e ninguém se atreve a perguntar. A galera do galpão parece saber quem ele é — ou foi — mas ninguém comenta. Nem mesmo entre sussurros.
Pra mim e pra , ele é só o mecânico fechado que vive no limite entre o rude e o protetor. Às vezes, ele fala com a . Curto, direto, como se as palavras pesassem. Ela tenta puxar conversa, provocar. Ele responde com silêncio ou com um olhar que diz mais do que qualquer frase. Não sei o que está acontecendo ali, mas sinto que tem alguma coisa.
Eu e também temos… algo. Não sei o que é, mas está lá. Um jogo constante entre provocação e curiosidade. Não quero me envolver. Mas a verdade? Acho que já estou envolvida até o pescoço, toda vez que olho para aqueles olhos azuis o meu coração trava.
Por enquanto, nosso elo é a sobrevivência. Eu, , e , cada um lidando com os próprios fantasmas, fingindo que não vê os dos outros. A intimidade ainda é superficial, mas o convívio constante cria laços invisíveis. Como cordas puxando todos para mesma direção, mesmo que ninguém saiba exatamente qual.
Agora, o sol já se pôs e o galpão começa a despertar de novo. Daqui a pouco, as corridas vão começar, o bar vai lotar, e o ringue vai se encher de sangue e apostas. A mesma rotina de sempre. Mas, estranhamente, essa rotina tem nos dado alguma forma de segurança.
Luzes vermelhas dançavam no teto de zinco, e a fumaça de cigarro misturada ao cheiro de pneu queimado criava um clima de urgência. O galpão parecia respirar, como um bicho vivo — cheio de músculos, metal e dinheiro sujo.
As vezes eu me permito esquecer que estivemos em fuga, de certa forma ainda estamos, deixo-me acreditar que encontrei meu lugar no mundo. Meus pais nunca mais entraram em contato e eu tenho um milhão de cartas não enviadas em uma caixa embaixo da minha cama. Não pergunto para como ela se sente em relação ao padrasto, mas percebo que está mais leve e feliz, começou a dançar e de vez em quando se apresenta no palco. Vamos manter a vida desse jeito, é o suficiente. Pelo menos por enquanto.

As luzes começaram a acender uma a uma, banhando o galpão com aquela cor âmbar que deixava tudo mais irreal. Era como se o mundo lá fora sumisse quando isso aqui ganhava vida. O som dos motores ecoava do lado das corridas, mas aqui, no lado do ringue, era o barulho dos copos, das fichas de apostas e das vozes se sobrepondo que preenchia o ar.
Eu amarrei o avental atrás da cintura, prendi o cabelo num coque meio torto e comecei a organizar as garrafas no balcão. O Davi passou por mim com a prancheta na mão, riscando nomes, murmurando ordens para os seguranças.
— Tá bonita hoje, . — ouvi falar do outro lado do bar.
Revirei os olhos sem conseguir segurar um sorriso.
— Você fala isso toda noite.
— Porque é verdade toda noite.
Ele estava encostado no balcão, já vestido com o moletom escuro e a fita de tecido enrolada nas mãos. O cabelo um pouco úmido do banho recente, os olhos azuis com aquele brilho de provocação que ele usava como escudo. Mas hoje tinha algo mais ali. Uma tensão no maxilar, um silêncio que vinha depois das piadas. Era noite de luta. E por mais que ele escondesse bem, eu sabia que aquilo mexia com ele.
— Tá nervoso? — perguntei.
Ele deu de ombros.
— Um pouco. Mas é bom. Me lembra que eu tô vivo.
Pousei o pano de limpeza e encostei os cotovelos no balcão, me inclinando um pouco.
— Você é bom nisso, .
— Isso é o problema.
Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer com aquilo, o alto-falante anunciou o início das apostas e ele se afastou, indo em direção ao ringue para os últimos ajustes. Fiquei com aquele comentário ecoando na cabeça.
No lado oposto do galpão, a já estava de pé na área VIP das corridas, com o cabelo preso num rabo de cavalo alto e um tablet nas mãos, conferindo os nomes da lista. Ela fazia aquilo parecer fácil — lidar com ricaços suados de adrenalina, atender pedidos, sorrir e manter o controle mesmo quando tudo parecia desmoronar.
Foi então que vi , de costas, com as mãos sujas de graxa, abaixado ao lado do carro preto fosco do Raven. Ele mexia em algo no motor, os movimentos rápidos e precisos. Mesmo ali, no meio do caos, ele parecia isolado. Não falava com ninguém. Nem quando outro mecânico passou perto e comentou algo, ele respondeu. Só ergueu os olhos por um segundo… e olhou direto na direção da .
Ela percebeu. Eu vi. Mas fingiu que não viu.
A tensão entre os dois era quase cênica. Não havia troca de palavras, nem aproximação direta, só olhares rápidos, gestos involuntários, silêncios que duravam um segundo a mais do que deviam. A não sabia quem ele era. E, pelo que entendi, preferia assim. Mas eu via algo ali. Uma faísca. Daquelas que acendem devagar antes de incendiar tudo.
Voltei ao bar, respirando fundo. A música começou a subir. Os apostadores chegavam, o movimento crescia. Era só mais uma noite no submundo. Mas havia algo diferente no ar.

A multidão se acumulava em volta do ringue, formando aquele círculo apertado que parecia pulsar junto. Eu já sabia o que viria. Gritos, apostas, suor, sangue. E o nome dele ecoando em meio aos sons abafados.
.
Não o cara que “luta de vez em quando”, como ele me disse no primeiro dia. Ele era o nome mais falado ali. Um tipo de lenda local, com uma sequência de vitórias que fazia os apostadores enlouquecerem.
Eu me encostei no balcão e observei. Ele entrou no ringue com aquele jeito despreocupado, os ombros relaxados, como se estivesse indo comprar pão. Mas eu sabia que ele estava longe de tranquilo.
Enquanto isso, do outro lado do galpão, ainda estava na área VIP, mas os olhos dela não estavam nos convidados. Estavam em .
Ele estava parado agora, encostado em uma pilastra com as mãos nos bolsos, observando o carro do Raven ser levado para o centro do galpão. desviou o olhar quando ele olhou de volta. Mas não rápido o suficiente. Eles se viram. De novo. E aquele silêncio entre os dois gritou no ar.
De repente, um barulho seco cortou a atenção de todos. Um estouro. Alto. De metal. O ringue ainda não tinha começado. A corrida também não. Mas o caos chegou antes do previsto.
— Alguém quebrou a grade da entrada lateral! — gritou um dos seguranças, correndo até Davi.
Eu larguei o pano que estava segurando e dei a volta no balcão, tentando ver melhor. correu na direção da porta lateral. se adiantou também, mas com uma calma estranha. Como se já soubesse o que estava por vir.
Um carro velho e amassado forçou a entrada, derrubando parte da estrutura metálica improvisada da entrada da lateral dos fundos. A multidão recuou, as apostas pararam. Por um segundo, ninguém soube o que fazer. Mas então, dois caras desceram do carro com passos firmes, como se tivessem certeza de que aquele era o lugar certo.
Um deles carregava uma corrente de metal.
— Isso aqui vai virar uma merda — murmurou , que havia descido do ringue e vindo para perto do balcão.
E virou.
Foi tudo rápido. Uma briga generalizada começou no canto oposto do galpão. Gritos. Cadeiras sendo jogadas. O som dos rádios dos seguranças falhando. atravessou o espaço entre os carros e o ringue num pulo, puxando para trás antes que ela se aproximasse demais. Eu me escondi atrás do balcão e vi se aproximando e me puxando pelo braço para longe dali.
— Fica atrás de mim! — escutei dizer para na minha última olhada para trás antes de sair para fora.
O submundo podia parecer organizado, com regras próprias e rotinas estabelecidas. Mas bastava um passo em falso — uma entrada errada, uma noite mal calculada — para tudo desmoronar.
E essa era só a primeira rachadura.

O caos explodiu antes mesmo que eu pudesse entender o que estava acontecendo.
Gritos. Correria. Um copo de vidro quebrando perto demais. As luzes piscavam com mais força, estroboscópicas, como se quisessem ofuscar a visão de propósito. Tudo parecia em câmera lenta, mas, ao mesmo tempo, rápido demais.
— Fica atrás de mim! — murmurou, firme, sem olhar pra mim. Não era um pedido.
Um dos seguranças voou sobre uma mesa perto de nós, derrubando bebidas e pessoas com ele. Alguém gritou um nome que não consegui identificar. A massa de corpos se movia como um mar em tempestade — socos, empurrões, gente caindo, outros tentando sair, alguns rindo, como se fosse só mais uma sexta-feira qualquer naquele mundo.
E ele ali. Parado.
era o único ponto fixo. Ombros retos, mandíbula travada, o olhar afiado como navalha. Ele mantinha o corpo ligeiramente à frente do meu, de modo que se alguém tentasse se aproximar, teria que passar por ele primeiro.
Eu já tinha o visto dirigir, sorrir de canto, discutir com mecânicos, ser charmoso. Mas nunca assim.
— O que tá acontecendo? — gritei, tentando me fazer ouvir no meio do barulho.
— Os caras vieram provocar. Sabiam que morderiam a isca. Estão tentando nos desestabilizar.
Olhei em volta, tentando encontrar ou , mas tudo que vi foi o rastro da pancadaria. Gente que provavelmente nem sabia por que estava brigando, mas entrou mesmo assim. Uma briga puxava outra, como um efeito dominó de raiva e ego ferido.
— A ! — soltei, tentando me mover.
me segurou com mais força, firme, sem machucar.
— Ela saiu com o . Estavam do outro lado quando começou. Ele vai tirar ela de lá. Confia em mim.
Um sujeito cambaleou na nossa direção, o rosto sangrando, camisa rasgada. deu um passo rápido e, com um movimento curto e preciso, o afastou com o braço, como quem afasta uma onda menor antes da grande chegar.
Ele não parecia tenso. Parecia calculado.
— Você já fez isso antes — falei, ofegante, mais uma constatação do que uma pergunta.
Ele não respondeu. Apenas me olhou, rápido, e depois desviou os olhos de novo, atento a tudo ao redor.
— … quem são aqueles caras?
Ele hesitou. Foi sutil, mas eu percebi. Como uma rachadura pequena em um muro forte.
— São capangas de uma gangue da cidade, o filho de um dos chefes iria lutar com essa noite e, obviamente, perder, vieram provocar para que a luta não acontecesse, mas são burros, pioraram as coisas. Davi não vai deixar barato, muito dinheiro estava envolvido hoje.
— E você?
— Eu? — ele olhou pra mim, e por um instante, aquele véu que ele carregava nos olhos pareceu vacilar. — Eu só conserto carros.
Quis rir. E chorar. E perguntar mais.
Mas outro estouro nos interrompeu. Um banco de madeira voou a poucos metros de nós. olhou pra mim e fez o sinal com a cabeça.
— Vem.
Me puxou pelo braço, abrindo caminho entre a confusão com o corpo. Ele não batia em ninguém, mas todos pareciam entender que não era bom atrapalhar aquele homem. Gritava com os olhos. Carregava presença.
Saímos pela lateral do galpão, por uma porta estreita que dava para o estacionamento dos fundos. O ar lá fora estava seco e morno, cheio de poeira e cheiro de borracha queimada. Mas parecia respirar de novo.
— Você tá bem? — ele perguntou, e pela primeira vez, vi um traço real de preocupação em sua voz. colocou as mãos em mim, uma em cada braço e me olhava no fundo dos olhos, procurando qualquer deslize meu.
Assenti, ainda com o coração batendo na garganta.
— O que foi isso? Aqueles caras… por que todo mundo entrou na briga se sabiam que essa era a intenção deles?
— Porque ninguém quer parecer fraco. E porque, às vezes, aqui dentro, a violência é só uma desculpa pra extravasar o que o mundo inteiro já empurrou pra dentro. Mas, com certeza, haviam caras infiltrados com esse propósito, esperaram eles entrarem para serem a distração e começaram a brigar uns com os outros. Isso é uma merda! — Chutou uma lata que estava no caminho.
Fiquei em silêncio.
Ele tirou a jaqueta, passou pela minha frente e me ofereceu. Eu hesitei.
— Você está tremendo. Pega. — Ele não pediu. Só entregou.
Aceitei, encolhendo os ombros dentro dela. O tecido cheirava a óleo, perfume e alguma coisa indefinida que eu ainda não sabia nomear.
— Obrigada — murmurei.
— Vamos ir atrás do . Ele deve estar do lado contrário.
Assenti e me coloquei ao lado de , caminhando no escuro sem enxergar direito onde eu estava pisando.
Capítulo 11 - Vai se criando uma amizade incrível
These burning flames, these crashing waves
Wash over me like a hurricane
I captivate, you're hypnotized
Feel powerful, but it's me again - Middle Of The Night
Wash over me like a hurricane
I captivate, you're hypnotized
Feel powerful, but it's me again - Middle Of The Night
A porrada foi instalada antes mesmo do primeiro soco oficial da noite.
A confusão começou num canto e se espalhou como fogo em campo aberto. Eu já tinha sentido no ar que algo tava errado — o silêncio tenso antes do barulho, o jeito que Davi apertava a prancheta, os olhares desviados. Mas quando o carro derrubou a grade e dois idiotas desceram de peito inflado achando que mandavam alguma coisa aqui, eu soube: merda à vista.
Vi a ainda atrás do balcão, tentando entender o que estava acontecendo. Alcancei ela antes que alguém acertasse uma cadeira por engano.
— Vem comigo. — disse baixo, firme. Ela não hesitou.
Atravessei o galpão empurrando gente com o corpo, desviando de cotoveladas e garrafas. Muita gente só entrou na pancadaria porque precisava de uma desculpa. E hoje, os caras tinham servido ela na porra de um prato de prata.
Saímos por uma porta lateral do ringue, um beco que dava pros fundos. Parei só quando tive certeza de que não tinha mais barulho perto. estava ofegante, mas inteira.
— Você tá bem? — perguntei, encostando as costas na parede, tentando desacelerar o coração. Ela assentiu, o coque torto e o olhar ainda em alerta.
— Isso foi... — ela começou, mas não terminou. Nem precisava. Eu sabia o que foi. Caos calculado. Teste de território. E um aviso: a paz aqui dura pouco.
Me abaixei um pouco, com as mãos apoiadas nos joelhos. O sangue ainda estava quente demais. Não por medo. Por raiva. Raiva por saber que quase colocaram ela no meio daquilo. Que ela podia ter se machucado.
Raiva por me importar. Raiva por não conseguir fingir que não ligo.
— Eles queriam desestabilizar tudo — falei. — Sabiam que eu ia lutar, que era dia grande. Se a briga geral começasse, a luta ia ser adiada. Dinheiro perdido, reputação suja, caos pro Davi resolver. Funcionou.
Ela encostou na parede ao meu lado, os braços cruzados, o peito subindo e descendo devagar.
— Você ia ganhar? — ela perguntou, sem olhar pra mim.
Soltei uma risada curta, sem humor.
— Eu sempre ganho. É isso que incomoda eles.
me olhou. Não disse nada por um momento. Depois se aproximou um pouco mais, o tom mais baixo, mais suave.
— E você gosta de ganhar?
Demorei. Porque a resposta era mais complicada do que sim ou não.
— Eu luto porque preciso. Ganhar… virou obrigação. Se eu perder, sou só mais um cara quebrado tentando pagar as contas com os próprios ossos.
Ela engoliu em seco.
— Você não é só isso — ela disse, e havia tanta convicção no olhar dela que eu tive que desviar os olhos.
O silêncio voltou, denso. Até que uma porta bateu e escutamos passos.
Instintivamente, me coloquei na frente dela, mas era o . Com a ao lado, uma mão segurava o ombro dela, como se estivesse impedindo-a de sair de perto dele, ela estava encolhida dentro da jaqueta dele.
Ele só olhou pra mim, e eu entendi tudo com aquele olhar. O caos estava só começando.
parou a uns dois passos, a mão ainda firme no ombro da , como se estivesse protegendo ela do mundo todo.
— A festa acabou. — ele disse.
Assenti, soltando o ar que nem percebi que segurava.
— Todo mundo inteiro? — perguntei, encarando a .
Ela acenou, a voz saindo baixa.
— Só um pouco zonza… mas nada que pizza e ar fresco não resolvam.
ergueu uma sobrancelha.
— Pizza?
— É, ué — ela respondeu, como se fosse óbvio. — A gente sobreviveu a um motim. Isso merece um queijo derretido.
deu uma risada, daquelas que saem quando o corpo tá cansado, mas o alívio bate forte.
— Se tiver refrigerante, eu topo.
Eu olhei pra elas, depois pro . Ele deu de ombros, o canto da boca subindo num meio sorriso.
— Conheço um lugar 24h. Ninguém vai ligar se a gente estiver suado, manchado ou meio amassado.

A lanchonete parecia saída de um filme velho. Banquinhos vermelhos rasgados, cheiro de batata frita no ar e um jukebox no canto que só tocava clássicos meio desafinados. As paredes eram cobertas por fotos de celebridades que provavelmente nunca pisaram ali e pôsteres de carros antigos com frases como "Drive fast, eat slow."
— Isso aqui parece saído de um filme dos anos 80 — comentou, empurrando a porta e entrando com aquele andar confiante de quem já viu coisa pior.
— Se for filme de terror, eu sou o que morre primeiro — murmurei.
bufou um riso pelo nariz. entrou logo atrás dele, os braços cruzados como se estivesse pronta para bater em alguém se a comida não fosse boa.
Sentamo-nos em um dos estofados vermelhos desbotado. O cardápio plastificado grudava um pouco nos dedos, o que eu achei levemente preocupante.
pediu uma porção de batata frita com bacon e queijo, como se não tivesse acabado de desviar de socos vinte minutos atrás. Eu fui de hambúrguer duplo com batata frita, porque se é pra esquecer o caos, que seja com gordura.
e escolheram a pizza mais exagerada do cardápio. Quatro queijos, borda recheada, extra pepperoni e duas Coca-Cola de cereja. Quando chegou, parecia que ela tinha saído direto do inferno, brilhando de óleo, fumegando, com um cheiro que fez todo mundo parar de falar por dois segundos.
— Isso pode matar alguém — comentei, encarando a fatia monstruosa que a colocou no prato.
— Provavelmente — ela respondeu. — Mas pelo menos morre feliz.
— Com o colesterol estourado — completou , pegando uma batata da minha porção com a maior cara de pau.
Empurrei o prato pro centro da mesa e cruzei os braços.
— Você tem dois segundos para devolver.
Ele mastigou devagar, provocando, e me olhou com um sorrisinho sacana.
— Que bom que a gente não tá contando.
riu alto, pegando o copo dela.
— Isso aqui tá parecendo briga de criança no recreio.
— E você é a monitora da turma? — perguntei, encarando ela.
— Eu sou a que desenha nas carteiras e nunca é pega.
quase engasgou de rir.
— Claro que é. Aposto que até hoje você tem aquele estojo cheio de canetinha.
— Tenho mesmo — ela respondeu, sem um pingo de vergonha. — E funciona melhor que terapia.
— Não duvido — disse , mordendo um pedaço da pizza delas. Cara, ele roubava a comida de todo mundo na surdina. — Desenhar me parece mais útil do que lutar com três caras por cinquenta dólares.
— Ei — rebati, levantando uma sobrancelha. — Foram cem. E eu ganhei.
— Metade foi pro gelo e a outra para uma pizza — apontou, mordendo a borda da fatia. — Isso é quase um investimento emocional.
Dei uma risada baixa, balançando a cabeça. pegou mais uma batata minha, mas dessa vez deixei passar. estava mexendo no refrigerante dela, fazendo bolinhas com o canudo.
— Então... — começou, com aquele tom meio provocativo que só ele sabia usar. — Vocês duas tão sempre grudadas, tipo irmãs ou coisa assim? Há quanto tempo essa amizade dura?
trocou um olhar rápido com , meio sem jeito, mas deu de ombros, decidida.
— Amizade? Nós somos um casal. — Engasguei, engasguei muito, engasguei mesmo, deu a volta na mesa e começou a bater nas minhas costas. Quando consegui recuperar o fôlego, olhei para as duas em estado de choque.
— Ca-casal? O- — Não consegui terminar a frase e de repente uma explosão de risadas encheu o ambiente. ria tanto que começou a chorar e derreteu no banco indo parar embaixo da mesa. , que ainda estava do meu lado verificando se eu estava bem, olhou para as duas e negou com a cabeça enquanto segurava o sorriso.
Após uns três minutos de risos incessantes, respirou fundo e falou que estavam brincando.
— Puta que pariu, que susto, pensei que tinha entendido tudo errado. — Olhei para que tinha os olhos cheios de lágrimas e as bochechas vermelhas, mas ela apenas fez um sinal com a mão, mandando continuar.
— Desde que a gente tinha uns 7 anos, mais ou menos. — ela falou, simples. — Crescemos juntas no deserto, numa cidadezinha lá no meio do nada, Kingman.
Franzi a testa, curioso.
— Deserto? Sério? Como é viver num lugar assim, tão longe de tudo?
sorriu com um leve tom de nostalgia, mas sem melancolia.
— É... quente pra caramba, e meio isolado. Mas a gente não tinha muita escolha. A cidade era pequena, as pessoas eram poucas, mas todo mundo se conhecia.
tomou fôlego e encarou direto.
— Passamos por umas merdas lá. Coisas que preferíamos esquecer, sabe? Mas a gente se agarrou uma na outra porque, sem isso, não tinha como sobreviver.
ficou sério, mas não fez muitas perguntas, esperando que continuassem.
— Eu, especialmente — continuou , — estava farta da minha antiga vida. Não aguentava mais ficar presa naquele lugar, naquela casa, com tudo que rolava. — Notei torcer a cabeça para o lado, como se quisesse saber todos os segredos que a menina escondia — Tinha que sair, nem que fosse pra me virar do jeito que desse.
completou:
— Eu não tive uma vida fácil também. Meus pais adotivos... não entenderam a minha dor quando meu irmão morreu. Me culparam demais. Fugir foi a única forma que encontrei para tentar respirar.
Balancei a cabeça, meio impressionado.
— Como vieram parar nesse submundo maluco?
— Primeiro, nós roubamos o carro do meu padrasto — começou e arregalou os olhos. — Mas aquela tralha velha não durou muito tempo, então viemos pedindo carona.
— Carona? Vocês são suicidas ou o que? — falou horrorizado.
— Era isso ou andar a pé. Tenta você fugir no meio da noite, sem dinheiro, no deserto, pra ver se funciona. — falou dando ombros.
— Então vocês só pegaram carona com desconhecidos e seguiram sem destino nenhum? — Perguntei tentando entender.
riu.
— Exato. Sem plano, sem mapa. Só a gente, o desespero e um monte de estrada pela frente.
deu um sorriso cansado, mas verdadeiro.
— Vocês são loucas. Definitivamente loucas, e inconsequentes. Imagina… — estava indignado, falava mexendo a cabeça para os lados em negação e eu só conseguia pensar que a merda deveria ser muito maior se elas estavam dispostas a correr risco dessa maneira.
— Se a gente sobreviver a mais um mês — disse — acho que vai ser difícil seguirmos sozinhas de novo. Querendo ou não o submundo virou uma família esquisita, o pessoal lá é legal.
— Ninguém aqui vai seguir sozinho — respondi, tranquilo. — Nem que eu tenha que amarrar vocês três no mesmo carro.
— Dibs no banco da frente — levantou a mão.
— Dibs em nunca dividir o banco com você — respondi.
— Dibs em ter os dois quietos — revidou, rindo.
Levantei a mão, fingindo fazer uma promessa.
— Proposta de brinde: às amizades que surgem no meio do caos e que, talvez, acabem virando família.
Sentado naquela mesa meio apertada da lanchonete, eu não conseguia desgrudar os olhos das duas. Não era só pelo jeito que elas se abriram, contando aquela história crua, sem firulas nem chororô, mas pelo que aquilo dizia delas.
Gente que já tinha passado por uns buracos profundos, e mesmo assim tava ali, firme, tentando seguir em frente. , com aquele olhar que não aceita proteção fácil, tipo "eu me viro, não preciso de você", mas, na real, precisava sim, só que não ia admitir. , mais doce, com um jeito que misturava cansaço e uma esperança meio tímida, tentando encontrar lugar no mundo.
estava lá, de boa, mas eu sabia que ele também prestava atenção naquele papo. Naquela conexão meio esquisita que a gente tinha, todos tentando ser mais que só um grupo improvisado, começava a ganhar forma.
Eu não sou de abrir meu passado pra ninguém. Nem precisava. Mas ouvir aquelas duas contar tudo daquela maneira, me fez pensar em como a gente também estava fugindo, cada um da nossa própria merda.
Talvez fosse isso que nos juntava, no fim das contas: a necessidade de recomeçar, de encontrar um lugar onde ninguém julgasse nosso passado.
Enquanto puxava o sorriso mais sarcástico do mundo, desafiando qualquer proteção que eu tentasse oferecer, mesmo que ela não percebesse, já que eu tentava me manter longe, eu sabia que aquele era o tipo de luta que eu estava disposto a enfrentar.
Não era só sobre correr ou lutar para sobreviver no submundo. Era sobre a gente, de um jeito que nem a gente ainda entendia direito. Mas, por enquanto, a noite era deles — e eu só tinha que estar ali, prestando atenção, sem deixar eles caírem.

O silêncio no carro durou exatos trinta segundos. Tempo suficiente pra eu ajeitar as mãos no volante, encarar a estrada e pensar que, se alguém respirasse mais fundo ali dentro, o vidro embaçava.
— Posso colocar música? — perguntou do banco de trás, já esticando o dedo na direção do painel.
— Pode, contanto que não seja country. — murmurei, fingindo um arrepio.
— Então já era para você, . — provocou , rindo e tombando a cabeça para o lado. — Ela tem uma playlist só com Alan Jackson, tentou colocar esses dias na caixa de som do galpão, voou uns 3 seguranças em cima dela tirando-a de perto. Davi disse que está proibida de passar do lado do sistema.
— Country é arte, seu ignorante. — ela rebateu, com aquela voz debochada. — Mas tá bom, vamos no seguro.
O carro logo se encheu de uma batida leve, indie o bastante pra não irritar ninguém, mas ainda assim ritmada. Do meu lado, mantinha os braços cruzados, encarando o vidro. Fingindo que não tinha nada demais, quando eu sabia que ela estava prestando atenção em tudo. Inclusive em mim.
— Quer que a gente leve vocês pro mesmo hotel da outra vez? — perguntei, sem tirar os olhos da estrada.
— Pode ser. — disse , dando de ombros. — Mas a gente tá pensando em sair de lá.
— É? Por quê?
— Achamos um lugar mais afastado da cidade. — respondeu agora, se inclinando para frente entre os bancos, parecendo uma criança. — Um pouco mais barato, e finalmente nosso. Morar em hotel não é como se sentir-se em casa. Dá para pagar o aluguel se a gente continuar no submundo. Parece ser tranquilo.
— Fico surpreso que ainda existam lugares tranquilos por aqui. — comentei, sincero.
— Bom, é tranquilo até alguém aparecer com música alta e pneus cantando, né? — lançou, me olhando de canto com aquele meio sorriso provocador, sei que ela lembrou do dia que eu cheguei no galpão com a música alta e a velocidade um pouco mais rápida do que o necessário.
— Ei, ei. Eu só acelero onde é permitido. — ironizei. — Permitido por quem, exatamente, aí já é outra história.
riu atrás.
— E você achando que ela ia te dar moral, irmão. A nasceu com uma plaquinha de “não se aproxime” colada na testa.
— Não é verdade. — ela virou o rosto para ele, indignada. — Eu sou muito acessível.
— Claro. Tipo cofre de banco. — retrucou ele, e os dois começaram a trocar provocações baixas.
— Quando vocês estão pensando em se mudar? — Perguntei interessado.
— Amanhã vamos conversar com o proprietário, se tudo der certo já pegamos as chaves. Não é como se tivéssemos móveis ou coisas assim, só nossos objetos pessoais mesmo. — respondeu me olhando.
— Sim, e ainda o local tem uma coisa parecida com uma cozinha, por enquanto está bom, vamos comprando o restante aos poucos. — complementou.
— Se vocês quiserem, eu e o podemos ir junto, sabe, para ver se o local é seguro para as damas. Né, ? — Olhei para pelo retrovisor e cerrei o olhar.
— Ahn.. claro, se elas quiserem. — Assenti.
— Não precisa.
— Seria ótimo.
As duas falaram ao mesmo tempo, , obviamente, foi a que negou, e eu soltei o ar pelo nariz.
— Decidam e nos avisem. — Disse estacionando na frente do hotel. — Me de seu celular, vou anotar nossos números. — Estiquei a mão para a que revirou os olhos, mas entregou. — Pronto. Qualquer coisa é só chamar.

O portão rangeu como sempre quando puxei com força, e entrou logo atrás, chutando uma pedra do chão como se fosse a culpada pelo estrago da noite.
A garagem estava escura, com o cheiro de óleo velho e fumaça ainda impregnado no ar. Encostei o carro e desliguei o motor. O silêncio depois da música do rádio pareceu mais alto do que deveria. Descemos do carro e subimos os degraus para entrarmos no loft.
— Que noite. — resmungou, jogando as chaves num canto da bancada, onde um filtro de ar aberto esperava há dias por atenção.
— A gente devia cobrar ingresso. Pelo caos. — respondi, me jogando no sofá velho que servia de sala de reuniões, sala de descanso e sala de "não temos tempo nem vontade pra ter outra".
— E ainda ia ter fila. — ele riu seco, mas a risada não durou muito. Sentou-se na beirada da bancada e passou a mão pelo rosto. — Mas falando sério, a gente tá ferrado, né?
Suspirei, pegando a garrafa de água esquecida na mesa de centro, ou algo parecido com isso, já que eram 3 pneus velhos um em cima do outro com um tampão de madeira.
— A luta era o maior nome do mês. E a corrida… bom, já sabe. Era nossa chance de equilibrar as coisas.
— Com todo mundo falando do Raven de novo, os apostadores iam voltar, mas com aquela briga generalizada, o lugar virou manchete de caos, não de espetáculo. — Passávamos por um período difícil no mundo clandestino. Ano passado a polícia havia feito uma mega operação para acabar com as lutas e corridas clandestinas, tivemos que ficar escondidos por um tempo para não dar bandeira e o negócio esfriou. San José é grande, mas ninguém queria ser pego, então gangues de cidades vizinhas começaram a financiar o mundo ilegal e tiraram nosso prestígio.
Sem o Raven correndo, as coisas não iam tão boas para eles, mas eram piores para nós. Depois que a poeira baixou, Davi e Migs, junto com Reyna, organizaram as coisas para voltarmos à ativa e colocaram Tino como ponte para novos recrutamentos, como as meninas, ele também era os olhos da rua, juntamente com Rick no mercado. Agora, as coisas começavam a se reestruturar, entretanto, quem estava financiando outras lutas e corridas não estavam felizes com a nossa volta e a todo momento tentavam puxar nosso tapete. Hoje foi um exemplo.
Roco é filho de um dos caras da cidade vizinha, ele começou a competir depois que nós entramos de "férias" e estava levando a melhor, mas com de volta, o menino perdeu a posição de primeiro lugar e o papai não queria deixar barato. Porém, aparentemente não eram homens o suficiente para definirem o ganhador no ringue, precisavam destruir o negócio dos outros.
— O Davi vai ficar puto. — disse ele.
— Ele já tá. Me mandou mensagem. — tirei o celular do bolso e mostrei a notificação. — "Ou vocês controlam o circo, ou eu corto o financiamento." Bem delicado, como sempre.
— A culpa nem foi nossa dessa vez. — se levantou, impaciente. — Você viu que eu não ia partir pra cima, só pensei em tirar a de lá. Os caras que estavam para assistir é que começaram tudo.
— Eu sei. Mas ninguém quer saber de explicação quando o caixa ficou negativo.
— A luta vai rolar de novo?
— Se o Roco não tiver quebrado alguma costela, sim. Eu vi ele aproveitando o momento para distribuir alguns socos — respondi, jogando o corpo pra trás no sofá. — Mas vai demorar. E o público perdeu confiança, isso chama a atenção da polícia, cara.
bufou. Caminhou de um lado pro outro como sempre fazia quando estava inquieto.
— E a corrida?
— Aí é que tá. Não sei. A galera do circuito está dividida. Alguns acham que foi só uma noite ruim, outros tão com medo de que isso espante a polícia pra cá. Meu celular não para de vibrar com as notificações do grupo, só consegui olhar por cima.
— Eles sempre tiveram medo de tudo. — disse, com aquele desdém típico dele. — Querem dinheiro, mas não querem risco.
— É o jogo. E o jogo está ficando mais caro. — completei.
Ficamos um tempo em silêncio, o barulho distante de sirenes quebrando a madrugada. Eu encarei o teto manchado de óleo e poeira, tentando visualizar o próximo movimento.
Não era só a corrida ou a luta. Era o sistema todo ameaçado. E a gente sabia que, quando a coisa desandava, os primeiros a levarem a culpa eram os que ficavam no centro da engrenagem — no caso, nós dois.
parou ao meu lado.
— Sabe o que me ferra mais?
— O quê?
— Eu quase morri naquela porra de ringue, no começo do ano, na minha primeira luta com o Roco, em Fresno, tudo bem que não temos muitas regras para dentro do ringue, mas o que ele fez comigo foi surreal, e ainda sim eu dei meu show e venci daquele merda. E ninguém vai lembrar disso. Vão lembrar da cadeira voando, da multidão se batendo, da porra toda desabando.
— Ninguém lembra do sacrifício, só do estrago. — murmurei, mais para mim do que pra ele.
Ele olhou pra mim, como se adivinhasse que minha cabeça estava em dois lugares — parte ainda presa no caos da luta, parte pensando no jeito que a segurou o celular com meu número. Como se aquilo fosse mais incerto do que o calendário de corridas.
— Acha que elas ligam? — ele perguntou, largando o corpo ao meu lado no sofá.
— As meninas?
— É.
Pensei por um segundo.
— talvez não. Ela é mais do tipo que some no mundo se quiser.
— E ?
— Ela é diferente. Mais aberta. Mas… não sei, cara. Elas estão fugindo de alguma coisa. E eu não sei se querem que a gente faça parte ou só sejam uma ponte pra próxima parada.
balançou a cabeça devagar. A madrugada seguiu em silêncio depois disso. Nenhum de nós quis dizer mais nada. Só ficamos ali, naquele loft frio, tentando entender como manter tudo de pé quando a base já vinha rachada há tempo.
Mas eu sabia de uma coisa: se o mundo estava desabando, era melhor ter aliados por perto. Mesmo que eles viessem na forma de duas garotas com olhos atentos e passados mais pesados do que pareciam carregar.
Continua...
Nota da autora: Olá!! Vocês já devem me conhecer de outras histórias, mas se você não me conhece, eu sou a Maeve Hatter. Escrevo histórias desde os meus 11 anos de idade, mas de uns anos para cá decidi compartilhar com vocês o que se passa nessa cabecinha.
Após um tempinho parada, (5 anos, cof, cof) focada em terminar a universidade e tentando sobreviver até os 30 anos, decidi retornar ao mundo da escrita apresentando a vocês o meu novo filho: Red Lights.
Red Lights é sobre amor, fuga, liberdade e sobre se encontrar. Obviamente é sobre homens bonitos e que colocariam fogo no mundo por suas amadas também, assim, aqui vão algumas coisas que vocês vão encontrar nessa história:
★ Corridas clandestinas;
★ Lutas clandestinas;
★ Menção a abuso sexual e abuso sexual não explícito;
★ Cenas de sexo explícito;
★ Lutas corporais explícitas;
★ Mortes;
O livro é para maiores de 18 anos e tentarei tratar todos os assuntos com o máximo de seriedade, respeito e com muita pesquisa.
Não se preocupem com casais tóxicos, aqui, os personagens principais são completamente rendidos por suas parceiras e vise-versa.
Caso ajude na sua imaginação, é inspirado no Charles Leclerc e no Lewis Hamilton. Sim, eu sei, tudo de bom, né? As meninas também tem suas inspirações, é nossa diva Scarlett Rose Leithold e é a Bronova, ainda, temos playlist no Spotify e pastinha no Pinterest, para ajudar na fundamentação da história. Ufa! Falei demais, encontro vocês nas notas da autora e nos comentários, estarei sempre de olho. Beijinhos!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Após um tempinho parada, (5 anos, cof, cof) focada em terminar a universidade e tentando sobreviver até os 30 anos, decidi retornar ao mundo da escrita apresentando a vocês o meu novo filho: Red Lights.
Red Lights é sobre amor, fuga, liberdade e sobre se encontrar. Obviamente é sobre homens bonitos e que colocariam fogo no mundo por suas amadas também, assim, aqui vão algumas coisas que vocês vão encontrar nessa história:
★ Corridas clandestinas;
★ Lutas clandestinas;
★ Menção a abuso sexual e abuso sexual não explícito;
★ Cenas de sexo explícito;
★ Lutas corporais explícitas;
★ Mortes;
O livro é para maiores de 18 anos e tentarei tratar todos os assuntos com o máximo de seriedade, respeito e com muita pesquisa.
Não se preocupem com casais tóxicos, aqui, os personagens principais são completamente rendidos por suas parceiras e vise-versa.
Caso ajude na sua imaginação, é inspirado no Charles Leclerc e no Lewis Hamilton. Sim, eu sei, tudo de bom, né? As meninas também tem suas inspirações, é nossa diva Scarlett Rose Leithold e é a Bronova, ainda, temos playlist no Spotify e pastinha no Pinterest, para ajudar na fundamentação da história. Ufa! Falei demais, encontro vocês nas notas da autora e nos comentários, estarei sempre de olho. Beijinhos!
