Última atualização: 19/03/2026

Dedicatória

Para todas aquelas que sonharam em casar com seus favoritos. Sejam eles cantores, personagens literários ou pilotos de corrida.


Capítulo 1 - Antes do amanhecer

Out there's a world that calls for me, girl
Headin' out into the unknown
Wayfarin' strangers and all kinds of danger
Please don't say I'm goin' alone — Ends of the Earth



Segurei a respiração com força, cada músculo do meu corpo tenso, enquanto o som de passos pesados ecoava pelo corredor. A luz fraca do abajur iluminava meu rosto — pálido, os olhos arregalados, fixos na porta entreaberta.
— Você acha que pode se esconder de mim, garota? — a voz grave e arrastada de Richard cortou o silêncio, pouco antes de um baque seco contra a parede.
Me encolhi ainda mais no canto do quarto, as costas pressionadas contra o papel de parede desgastado. Meu coração batia tão forte que mal conseguia ouvir meus próprios pensamentos. Ele estava bêbado. De novo.
A porta se escancarou, batendo contra a parede. E lá estava ele. Olhos vermelhos, hálito carregado de álcool.
— Você é igual à sua mãe… fraca, ingrata — ele murmurou, se aproximando. Me olhou de cima a baixo e sorriu de canto. — Acho que finalmente chegou a hora de você servir para alguma coisa. O corpo daquela imunda da Amélia já não serve pra esquentar mais minha cama.
A bile subiu queimando pela minha garganta. Achei que fosse vomitar.
Ele sempre foi um monstro. Sempre bêbado, sempre violento. Mas, até então, seus ataques se limitavam a socos e chutes. Aquilo era diferente. Aquilo era um aviso. Outras vezes, Richard já tinha insinuado que queria mais do que descontar sua raiva em mim, uma vez comprou o mesmo perfume que eu uso e falou que adorava sentir o cheiro enquanto eu dormia. Parece que ele cansou de brincar. O pânico me atingiu como um trovão. Eu preferia morrer a deixar aquele homem encostar um dedo em mim daquela forma.
Agir foi instintivo. Meus dedos encontraram o celular na cama antes mesmo que eu percebesse, e corri direto para a janela. Pulei sem pensar. O impacto no chão do jardim fez meu joelho gritar, mas eu não parei. Corri pela noite, sem olhar para trás, até encontrar abrigo atrás de um velho galpão.
Com as mãos trêmulas, desbloqueei o telefone e disquei o número que mais me importava. A linha chamou três vezes.
? O que aconteceu? — a voz da veio abafada, com barulho ao fundo.
— Ele… ele me encontrou, . E dessa vez queria me estuprar! Eu não posso mais ficar aqui — minha voz falhou, e engoli em seco, tentando conter o choro.
No fundo, ouvia gritos e o som de algo se quebrando do outro lado da linha. Me doía imaginar o que ela também estava enfrentando.
— Eu… eu também não posso mais ficar aqui, — a voz da saiu quase como um sussurro. — Me encontre no bar daqui a pouco. A gente dá um jeito.
— Eu vou te buscar — respondi, limpando as lágrimas com as costas da mão. Não tínhamos tempo a perder. Se íamos fazer isso de verdade, fugir, então precisava de um plano. Um bom plano.
Esperei cerca de vinte minutos antes de retornar pra casa. Tinha certeza de que peguei Richard de surpresa com a minha fuga — afinal, sempre aguentei tudo calada, escondendo as marcas, fingindo que nada acontecia. Tudo para não abandonar a minha mãe.
Espiei pela janela da sala. Lá estava ele: dormindo no sofá, com a boca aberta, uma mão segurando o controle da velha TV e, na outra, uma cerveja barata. Provavelmente tentou me esperar, mas eu sabia que, depois dos surtos, ele nunca ficava acordado por muito tempo.
Abri a porta com cuidado e passei pelo cômodo em passos leves. Assim que me senti segura, corri para o quarto. Joguei tudo o que julgava importante dentro da mochila velha. Tinha alguns dólares guardados, e subi numa cadeira para pegar a caixa com o dinheiro no topo do guarda-roupa.
Foi quando minha mãe apareceu na porta.
— Sempre imaginei quando esse dia chegaria — disse ela, encostada no batente. — Fico feliz que finalmente tenha chegado — sorriu fraco. Os hematomas da briga começavam a aparecer no rosto dela.
— Eu juro que volto pra te tirar daqui, mamãe — falei, com os olhos marejando.
— Não se preocupe comigo. Vou ficar bem. A cidade é pequena. Se ele me matar, pelo menos vai ser preso, e esse tormento acaba pra você.
— Nunca repita isso, mãe! Eu vou embora, mas vou voltar por você. Se mantenha firme. Assim que eu estiver segura, entro em contato. Eu prometo.
— Eu te amo, minha menina. Desculpa por te colocar nessa situação. Fui fraca demais pra fugir, e agora é tarde.
— Não é! A gente vai resolver isso. Eu te amo. — A abracei forte, e choramos juntas, baixinho.
— Vai logo antes que ele acorde!
Nos despedimos mais uma vez, num abraço apertado, uma promessa silenciosa de recomeço e liberdade. Peguei a mochila, desci as escadas e passei a mão na chave da caminhonete do Richard. Era velha, mas funcionava. Com sorte, a bebida o manteria apagado até o dia seguinte. Era a minha chance. Nossa chance.




O cheiro de cerveja velha e gordura queimada impregnava tudo ao meu redor. Cada canto daquele maldito bar parecia exalar o mesmo fedor sufocante. As lâmpadas fluorescentes tremeluziam acima de mim, lançando sombras longas nas paredes descascadas. Eu enxugava um copo por pura repetição, sem prestar atenção no líquido escuro que escorria pela borda. Minha mente estava longe. Muito longe.
— Ei, garota! — um homem no balcão ergueu a voz, o cigarro apagado pendendo da boca rachada como um acessório grotesco. — Meu copo está vazio.
— Já vai — murmurei, olhando rapidamente para o relógio na parede. 2h45.
Mas eu não estava mais ali. Pelo menos, não de verdade. Estava lá fora, no estacionamento escuro, onde a me esperava com uma mochila e a chave da caminhonete dele.
Senti o celular vibrar no bolso do avental. Uma mensagem curta iluminou a tela:
"Estou esperando. Anda logo."
O coração disparou. Era real. A gente ia mesmo fazer isso.
— Peter, faltam apenas 15 minutos pro fim do meu turno e eu… eu preciso ir. Minha mãe… ela tá doente — a mentira saiu tão frágil que quase me encolhi ao ouvi-la em voz alta.
Peter, o dono do bar — e um idiota com mais álcool no sangue do que sinapses funcionando — só bufou e acenou sem tirar os olhos da TV velha pendurada na parede.
Minhas mãos tremiam quando tirei o avental. Dobrei devagar e deixei sobre o balcão, como se aquele gesto significasse alguma coisa. Então empurrei a porta dos fundos e fugi.
Lá fora, estava encostada na lateral da caminhonete velha. O capô estava coberto de poeira e ferrugem, e mesmo assim, naquele instante, era o veículo mais bonito do mundo. As estrelas pareciam mais brilhantes do que nunca, ou talvez fosse só a adrenalina me deixando ver tudo com mais nitidez. O rádio antigo da caminhonete chiava entre estações, cuspindo pedaços de músicas misturados com estática.
— Demorou — ela sussurrou, os olhos azuis fixos em mim. — Ele está dormindo. Temos algumas horas até que perceba que a caminhonete sumiu.
— Isso é loucura, . E se der errado? E se ele nos encontrar?
— E se ele não nos encontrar? — ela rebateu, com uma firmeza que me pegou de surpresa. — Você quer passar mais um ano servindo bêbados até às três da manhã enquanto seus pais olham pra você como se você fosse um fantasma? Porque eu não quero mais viver com aquele… com ele.
Engoli em seco e assenti. Era isso. Sem mais perguntas. Sem mais dúvidas.
Entramos na caminhonete — ela no volante, eu no banco do passageiro. As mãos dela tremiam quando girou a chave. O motor tossiu, protestou, depois rugiu.
— Você precisa passar em casa para pegar alguma coisa?
— Não. Peguei tudo antes de sair pra trabalhar. Podemos ir!. — Me segureifirme na borda do banco, o coração batendo alto.
Os faróis cortaram a escuridão do estacionamento e, logo, o bar ficou para trás, cada vez menor no espelho. A estrada parecia infinita, uma faixa cinza de liberdade sob um céu cravejado de estrelas. O vento frio entrava pelas janelas abertas e, com ele, o cheiro do passado começava a sumir.
— E agora? — perguntei, baixinho.
— Agora a gente dirige até não sobrar mais estrada — disse , olhando firme para frente.
O rádio chiou de novo e, como num sinal do destino, sintonizou uma estação qualquer. Uma música antiga começou a tocar — falava de liberdade, promessas quebradas e esperança depois da última curva.
Senti um riso escapar.
— Não acredito que estamos mesmo fazendo isso! — olhei pra ela, sorrindo.
— Quer dizer, eu estava super nervosa, mas agora que a gente tá saindo desse fim de mundo, tenho que admitir que foi a decisão certa.
— Minha filha, tudo que a gente precisava era de alguns dólares e um pouco de coragem — me lançou um olhar de canto, tentando manter o foco na estrada. — Aí, eu amo essa música.
Life is a Highway, do Tom Cochrane, começou a tocar. Ela aumentou o volume, pronta para cantar aos berros.
— Um clássico é um clássico.
Eu ri com ela. Por um instante, a vida pareceu mais leve. Como se, pela primeira vez, a gente tivesse uma chance real.
— Para onde exatamente estamos indo? — perguntei, ainda sorrindo.
— Oeste — ela respondeu com firmeza. — Longe daqui. Longe dele.
Assenti e encostei a cabeça no vidro frio. O deserto passava em borrões, e eu me permiti respirar. De verdade.
A gente não tinha um plano. Nem dinheiro suficiente. Mas tinha uma coisa que nunca tivemos antes: liberdade. Por agora, isso bastava.
Duas horas depois, um som estranho começou a sair do motor. franziu a testa, olhando o painel.
— Não, não, não… agora não — murmurou, encostando a caminhonete no acostamento.
— O que aconteceu? — me inclinei pra frente, tensa.
— Acho que o motor está superaquecendo — ela saiu do carro e abriu o capô. Uma nuvem de vapor subiu imediatamente.
— Calma, … Vamos resolver isso.
— Resolver como, ? Eu não sei nada sobre motores! — ela bateu a porta, irritada, andando de um lado pro outro.
Saí também e olhei em volta. A estrada estava vazia. Tudo que se ouvia era o vento e o som distante de alguns carros, longe, na rodovia principal.
— Ótimo começo para uma fuga — murmurei com um sorriso cansado.
Ela riu, mesmo nervosa. Aquele riso que a gente solta quando tudo está desmoronando, mas, ainda assim, continua.
— Vamos dar um jeito. Sempre damos.
Nos sentamos no capô da caminhonete. Quatro da manhã. O céu começava a se tingir de um azul esbranquiçado, tímido. O silêncio era quase pesado, interrompido apenas pelo vento cortando o deserto e algum bicho noturno se escondendo entre as sombras.
Eu olhei pro horizonte e, por um momento, acreditei de verdade: a gente ia conseguir.




Olhei por cima do ombro, o tempo todo esperando ver faróis surgirem na escuridão. A gente ainda estava perto demais de Kingman. Longe o suficiente pra não ver mais as luzes da cidade, mas não tanto assim pra impedir que Richard nos alcançasse, se estivesse por perto.
— Estamos perto demais — murmurei, abraçando meus joelhos contra o peito. — Ele pode nos achar. Quando ele descobrir que a caminhonete sumiu, vai saber para onde viemos.
me lançou um olhar breve, mas não respondeu logo. Os olhos dela varreram o horizonte vazio, como se quisessem encontrar algum sinal de movimento, alguma luz... qualquer coisa.
— Talvez ele nem tenha acordado ainda. Talvez… talvez ele nem venha te procurar.
Soltei um riso trêmulo, sem nenhuma graça.
— Você não conhece ele, . Ele sempre me encontra. Sempre.
O silêncio voltou a nos cercar como um cobertor sufocante. O tempo começou a se arrastar, grosso e pegajoso como o medo. O céu clareava aos poucos, as estrelas se apagando uma a uma, e um brilho alaranjado começou a pintar o horizonte. Os minutos pareciam horas. A madrugada parecia interminável.
— Que horas são? — perguntou baixinho.
— Sei lá… umas cinco, talvez seis — respondi, olhando pro painel da caminhonete. O relógio digital estava apagado. A bateria já tinha morrido, assim como a dos nossos celulares.
Ela esfregou os braços, tentando afastar o frio da madrugada, mas eu sabia que aquele arrepio não vinha só da temperatura.
— E se ele aparecer aqui? E se ele já estiver a caminho?
Baixei a cabeça, os ombros tremendo sem controle.
— Eu não quero voltar para lá, . Eu prefiro ficar aqui, no meio do nada, até morrer de fome ou de sede.
Senti a mão dela pousar no meu ombro, quente e firme.
— Ei, olha pra mim. Ninguém vai nos levar de volta. Nem ele. Nem ninguém.
Ergui o rosto devagar, meus olhos marejados e doloridos.
— Você não entende. Eu sei como ele olha pra mim, . É como se ele já soubesse que eu não ia conseguir fugir. Como se… como se ele estivesse só esperando eu falhar.
me olhou com firmeza, respirou fundo e falou com aquela voz que só usava quando queria me lembrar que o mundo ainda podia ser nosso.
— Então vamos provar que ele tá errado. Nós vamos sair daqui, . Não importa como. Mesmo que a gente tenha que andar até os pés sangrarem, a gente vai sair daqui.
Assenti devagar, limpando as lágrimas com as costas da mão. Olhei mais uma vez pra estrada, mas tudo o que vi foi o deserto vazio, pontuado por arbustos secos e areia. Nenhum sinal de vida. Nenhum sinal de socorro.
— Eu… eu fico pensando no que ele vai fazer se nos encontrar. Não só comigo, mas com você também. Ele não vai deixar barato, .
— A gente sabia que não ia ser fácil, . Sabia que tinha um risco. Mas ficar lá não era uma opção. Não pra você. Não pra mim.
Soltei o ar com força e abaixei a cabeça de novo. Queria que algo acontecesse. Que qualquer coisa acontecesse.
— Só queria que alguém aparecesse logo. Que alguma coisa acontecesse. Qualquer coisa.
O tempo passou devagar. Ficamos ali sentadas, envolvidas pelo silêncio opressivo do amanhecer. O céu agora brilhava em tons dourados, e o frio começava a ceder, dando lugar ao calor seco do deserto.
Então, ouvi.
Um som. Fraco, no começo. Um motor.
— Você ouviu isso? — me endireitei no capô num pulo, o coração disparando.
também se levantou, olhando na mesma direção. Um ponto escuro começou a surgir no horizonte, crescendo devagar.
— É um carro — ela murmurou, prendendo a respiração.
O som aumentava. Mais próximo. Era real. Uma caminhonete velha surgiu na estrada, levantando poeira alaranjada sob a luz dourada do sol nascente.
Senti meu coração martelar com tanta força que doía.
— E se for ele?
— Não tem como ser ele. Onde ele arrumaria um carro tão rápido? — apertou minha mão com força, e eu agarrei a dela como se fosse a única coisa me mantendo de pé.
A tensão no ar era quase visível. Estávamos vulneráveis. Perto demais de Kingman, perto demais de tudo.
Mas por ora era só um motor. Uma chance. O som ficou mais alto. A caminhonete veio se aproximando e, por fim, parou a poucos metros de nós. O motor desligou.
A porta do motorista rangeu e um homem desceu. Alto. Magro. Boné surrado e óculos escuros. Botas que batiam secas no chão do deserto. Cada passo dele era um alerta dentro de mim.
— O que temos aqui? — disse ele, a voz grave, arrastada pelo sotaque do interior.
deu um passo à frente, me protegendo com o corpo sem me esconder por completo.
— Nosso carro quebrou — disse , com mais firmeza do que eu esperava. — A gente só precisa de uma carona até a cidade mais próxima.
O homem parou diante da gente, inclinou a cabeça. Analisou. Silêncio. Longo demais.
— Bem — disse ele, enfim, passando a mão pela barba rala. — Vocês não deviam estar por aqui sozinhas. Esse lugar não é seguro.
Abri a boca pra falar, mas nada saiu. Minha garganta travou. Meus olhos colados no rosto dele, buscando qualquer sinal de que ele fosse… perigoso.
— Eu… — tentei, mas minha voz morreu ali mesmo.
respirou fundo e avançou um passo.
— O senhor pode nos ajudar? Por favor?
Ele suspirou e olhou para a caminhonete quebrada.
— Bom, eu estava indo pra Barstow. Não é longe. Posso levar vocês até lá.
Soltei o ar preso nos pulmões, mas meu corpo continuava rígido.
— Obrigada — murmurei, com dificuldade.
— Peguem suas coisas — disse ele, já se virando. — Não tenho o dia todo.
Trocamos um olhar rápido e corremos pro carro. Peguei minha mochila, o zíper quase estourando com o peso das poucas coisas que consegui salvar. O essencial. O pouco que ainda era meu.
Entramos na caminhonete. O cheiro de gasolina e couro queimado encheu o ar. Me sentei ao lado da porta, no meio, entre mim e o desconhecido. Por um momento, desejei que ela estivesse em meu lugar. Mas eu também sabia que ela teria feito o mesmo.
O silêncio lá dentro era quase tão pesado quanto o do deserto lá fora. Fiquei olhando pela janela, vendo a paisagem passar, mas minha mente estava longe. Em Richard. Em Kingman. Em tudo que nós deixamos para trás — e tudo que ainda podia nos alcançar.
— De onde vocês vêm? — o homem perguntou, quebrando o silêncio.
me olhou antes de responder:
— De… uma cidade pequena. Kingman. Não fica muito longe.
— Hm. Conheço Kingman. Lugar difícil para duas garotas como vocês.
Ele não disse mais nada depois disso. E a estrada continuou.


O sol já estava alto, o calor entrava pelas janelas rachadas da caminhonete, grudando na pele. Depois de quase uma hora, começamos a ver as luzes de Barstow surgindo no horizonte. Meu coração apertou no peito. Uma cidade. Um posto. Algo que se parecia com segurança.
Ele parou perto de um posto de gasolina à beira da estrada.
— É aqui que deixo vocês — disse, sem nos olhar.
— Obrigada, de verdade — respondeu antes de sair rapidamente. Fui atrás, e logo estávamos ali, paradas na beira da estrada, vendo a caminhonete sumir na poeira.
soltou um suspiro longo, como se tivesse prendido a respiração o tempo todo.
— Acho que tivemos sorte dessa vez.
Assenti, mas não consegui relaxar. Ainda sentia como se Richard pudesse aparecer a qualquer segundo.
— Não podemos ficar aqui muito tempo. Precisamos arranjar outro carro, outra carona… qualquer coisa.
Ela olhou ao redor. O posto estava quase vazio. Um atendente fumava perto das bombas, e um velho sentado numa cadeira dobrável observava tudo com olhos cansados.
— Vamos entrar, pegar algo pra comer e pensar no que fazer depois — ela sugeriu.
Concordei, e seguimos juntas até a loja.
Barstow não era o fim. Era só mais uma parada. Richard ainda estava lá fora, em algum lugar. Mas por agora, por alguns minutos, a gente podia respirar.


Capítulo 2 - Um turno para sobreviver

Oh, oh got a little paycheck
You got big plans and you gotta move
And I don't feel nothing at all
And you can't feel nothing small - Ophelia



O cheiro de café fresco e bacon queimado grudava no ar, como se fizesse parte da mobília daquele lugar. Os caminhoneiros ocupavam as mesas próximas às janelas, falando alto, mastigando mais alto ainda. Olhei ao redor, tentando parecer despreocupada, mas meus dedos não paravam de brincar com um saquinho de açúcar vazio.
estava tensa. Dava pra ver pelo jeito que os olhos dela varriam o lugar, procurando qualquer ameaça escondida entre um copo de café e uma fatia de torta. Me sentia igual. Um pouco menos assustada, talvez. Um pouco mais cansada.
Escolhemos uma mesa no canto, encostando as mochilas nos pés, como se aquilo fosse nos proteger de alguma coisa. Uma garçonete com cara de quem já viu coisa demais na vida veio com um bloquinho nas mãos e um coque frouxo preso no topo da cabeça.
— Bom dia, meninas. O que vai ser?
Abri o cardápio plástico só por hábito, mas foi mais rápida:
— Dois cafés, panquecas com ovos e... só isso.
A mulher assentiu e saiu andando.
Fiquei olhando para a estrada pela janela. Era estranha aquela sensação de estar longe o suficiente para pensar que talvez, só talvez, tivéssemos escapado... mas perto demais pra acreditar nisso de verdade.
— A gente não pode ficar aqui muito tempo — murmurei, mais para mim do que pra ela.
— Ei, eu falei isso primeiro! Mas eu sei — respondeu, ainda com o olhar perdido na estrada. — Porém, precisamos mesmo descansar um pouco. Só hoje.
Ela não precisava me convencer. Eu sabia que, se tentasse dar mais um passo naquela manhã, minhas pernas iam me trair.
A comida chegou, e com ela, um pouco de silêncio confortável. Comemos como quem se esconde atrás da mastigação. Ninguém queria ser a primeira a trazer o medo de volta pra mesa.
Quando terminamos, se levantou pra pagar. Eu a observei de longe, enquanto o frentista — um homem baixo, com cara de xereta e boné encardido — puxava conversa com ela. Não ouvi tudo, mas vi o jeito que ela hesitou antes de responder, o jeito que ela olhou pra mim e eu soube que estávamos prestes a mudar os planos de novo.
— A gente aceita — disse ela.
Aceita o quê?, pensei. Mas já entendi quando o cara apontou pro hotelzinho ao lado. Um quarto barato, um banho quente e uns trocados trabalhando por ali. Não era muito, mas era mais do que tínhamos quando saímos de Kingman.
Agradecemos, seguimos até a recepção do hotel, e escolhemos um quarto só pra nós duas. Privacidade virou luxo, e, sinceramente, nenhuma de nós queria dormir separada numa cidade desconhecida.
Assim que abrimos a porta do quarto, fui recebida por uma explosão de gosto duvidoso. Duas camas de solteiro velhas, papel de parede que imitava renda preta e verde, jogo de cama xadrez combinando, carpete que um dia foi branco, agora era um amarelo mostarda.
— É… por 40 dólares, não dava para esperar muita coisa — comentou, jogando a mochila na cama.
— Realmente, mas breguice não é sobre dinheiro, é sobre gosto. E a pessoa que decorou esse lugar... — falei, indo direto pra outra cama.
— Não estamos em posição de reclamar de nada. Pode ir tomar banho primeiro, vou colocar nossos telefones para carregar e tirar um cochilo. Me acorda quando sair.
— Pode deixar.
Entrei no banheiro esperando o pior e, bom... encontrei. Azulejo encardido, espelho quebrado, e um cheiro que nem o vapor do chuveiro conseguiu mascarar. Mas estava quente, e eu precisava daquilo. Lavei meu corpo e minha cabeça como se conseguisse apagar os últimos dias com sabão.
Quando saí, enrolei a toalha na cabeça e voltei pro quarto, onde continuava desmaiada.
— Meu amor, se você acha que o quarto está uó, é porque ainda não viu o banheiro — comentei alto. Nada. Nem um pio. — , acorda! — cutuquei o ombro dela até ela murmurar, ainda meio grogue.
— O quê?
— Pode ir tomar banho, mas não se espante com o banheiro.
Ela saiu se arrastando com a mochila na mão, e eu fui direto pro celular. Não esperava grande coisa, mas ainda assim… esperei. Conectei no Wi-Fi e esperei os sinais de vida que talvez nunca viessem.
Só tinha uma mensagem. Da minha mãe.
"Nunca mais volte."
A parte racional de mim já sabia que era isso. Mas a outra, a estúpida, ainda esperava por uma linha torta de preocupação. Um "onde você está?" ou "estamos preocupados". Qualquer coisa.
Mas não. Era só isso. "Nunca mais volte." Me senti murchar. O silêncio teria sido melhor. A ilusão, mais gentil.
Fechei os olhos com força, mas foi inútil. Tudo voltou com a intensidade de um soco no estômago. O barulho do vidro estilhaçando. As luzes vermelhas e azuis dançando no meu rosto. O asfalto molhado e o grito da minha mãe:
— Por que você deixou ele sair assim?!
Lucas estava no carro naquela noite. A gente brigou. Eu gritei. Ele gritou mais. Saiu batendo a porta, os pneus cantaram no escuro. E depois, tudo que restou foi silêncio.
— Você devia ter impedido ele, . Isso é culpa sua.
O olhar do meu pai. Cheio de mágoa. Cheio de julgamento.
Essas palavras ficaram gravadas em mim. Como uma âncora presa no peito. Não importa quantas vezes eu tentei me soltar, elas continuam me puxando de volta.
— Está tudo bem, .
A voz de me trouxe de volta. Ela estava ali, saindo do banheiro, cabelo molhado e olhar atento. Tocou meu braço, de leve, como se dissesse mais com o gesto do que com as palavras.
— A culpa não foi sua. Um dia, eles vão perceber isso.
Sorri fraco. Não respondi. Só assenti. Era mais fácil assim.
O resto da manhã passou em silêncio. Me arrumei, tirei um cochilo breve e, quando deu meio-dia e meio, fomos até a cozinha. Karen nos entregou os aventais com um discurso que me fez rir, mesmo sem vontade.
— Se algum engraçadinho tentar passar a mão na bunda de vocês, estão livres pra derramar café nas calças dele. Só não contem pro Den.
O turno foi cansativo. Eu fiquei no balcão, enchendo canecas de café como se aquilo fosse o único destino possível para mim. circulava entre as mesas, recolhendo pratos e tentando parecer invisível. Eu a entendia. Cada cliente novo parecia um risco. Um possível Richard com outro nome.
Uma garçonete mais velha notou meu jeito e se aproximou.
— Tá tudo bem?
Assenti, forçando um sorriso.
— Sim... só cansada.
Ela sorriu gentil.
— Descansar nunca é fácil nessa estrada, não é?
Quis abraçar ela naquele momento. Mas só voltei a encher outra caneca.
As horas passavam devagar. Quando o sol começou a se pôr, o frentista apareceu de novo com algumas notas amassadas. Eu peguei sem questionar. Dinheiro era dinheiro.
— Obrigada — disse .
Voltamos pro quarto. A primeira coisa que saiu da minha boca foi a verdade crua e honesta:
— Eu tô exausta.
sentou-se na cama e olhou pela janela.
— Amanhã cedo, a gente vai embora.
— Pra onde?
— Pensei em Bakersfield. Depois, Fresno. Lá é um bom lugar pra despistar. Temos muitas boas opções.
Assenti. Eu confiava nela. Era tudo que eu tinha.
Dormimos mal naquela noite. Ela teve pesadelos com Richard. Eu… eu só revivi tudo de novo. Como sempre.
Lucas. O acidente. O grito da minha mãe.
A culpa.
Sempre a culpa.

O sol ainda mal tinha subido no céu quando voltamos para o posto, as mochilas pesando nos ombros e as costas reclamando da noite mal dormida. O mundo parecia quieto demais — como se tivesse sido congelado no tempo — exceto pelo som do motor de um caminhão sendo abastecido.
Um homem grisalho, com uma expressão gentil demais para aquele cenário de poeira e diesel, olhou pra gente assim que nos aproximamos.
— Pra onde vocês vão? — ele perguntou, os olhos indo direto pras mochilas.
— Bakersfield — respondeu, sem nem pensar.
Ele coçou o queixo, pensativo por meio segundo.
— É pra lá que eu tô indo. Se não se importam com a companhia... subam. — Apontou com o queixo pra cabine do caminhão.
Foi aí que notei duas crianças espiando pela janela, rindo com a cara suja de quem já passou muito tempo fora de casa. Elas nos encaravam como se fôssemos atração de circo.
— São meus filhos — o homem disse, quase como desculpa. — Às vezes eu os levo nas viagens, sabe, pra darem valor aos estudos que eu pago pros dois. — Ele lançou um olhar que era metade carranca, metade brincadeira. As crianças desviaram os olhos, ainda rindo baixinho.
Olhei pra . Ela me olhou de volta. A gente não disse nada. Não precisava. A troca de olhares já era uma linguagem por si só.
A cabine era apertada, cheirava a café velho e a papel alumínio com restos de lanche, mas, depois de um motel brega e um turno inteiro servindo café para estranhos, aquilo parecia quase acolhedor.
As crianças continuavam nos espiando com curiosidade disfarçada. Eu me encostei na lateral da cabine e fiquei ali, em silêncio, enquanto o caminhão ganhava velocidade na estrada vazia.
virou para trás, olhando Barstow desaparecer no espelho retrovisor. Eu também olhei, mas não senti nada. Nem alívio, nem saudade. Só aquele vazio que vem depois de sobreviver mais um dia.
Mais uma cidade deixada pra trás. Mais uma lembrança que a gente não vai querer revisitar. Mas eu sabia que ainda estávamos longe de estar segura. E a estrada ainda era longa.


Capítulo 3 - Entre o fim e o começo

I'll keep my eyes fixed on the,
I'll keep my eyes fixed on the sun. - Shake me Down



O sol da manhã castigava Bakersfield com um calor seco e impiedoso. Senti o vento quente bater contra meu rosto assim que desci do caminhão, como se o ar estivesse saindo direto de um secador industrial na potência máxima. Pisamos na calçada e agradeci o motorista com um sorriso cansado e um aceno. As crianças, que tinham feito questão de narrar cada buraco da estrada, também acenavam como se fôssemos parte da viagem delas.
— Parece que chegamos ao centro do forno — murmurou ao meu lado, ajustando a alça da mochila.
Soltei um suspiro cansado, o suor já começando a se acumular na nuca.
— Pelo menos é melhor que a estrada. Foram as duas horas mais difíceis da minha vida, tenho certeza que aquele homem não tem habilitação.
— Eu realmente pensei que íamos morrer umas cinco vezes. E aquelas crianças não sabem o que significa a palavra "silêncio", aparentemente.
Soltei uma risada curta. Foi bom rir, mesmo que só por um segundo. Mesmo que meu corpo inteiro estivesse tenso e minha mente ainda presa no medo de que Richard pudesse, de alguma forma, nos encontrar até ali.
Caminhamos por algumas quadras até encontrar um motel que parecia ter parado no tempo — um letreiro piscante prometia quartos baratos e ar-condicionado. Duas promessas que eu sabia que, provavelmente, não seriam 100% verdadeiras. Mas a gente não tinha escolha. Pagamos e recebemos a chave de um homem de meia-idade, que mal levantou os olhos do jornal velho na recepção.
Quando abri a porta do quarto, fui recebida por um cheiro morno de cigarro, mofo e perfume barato. Suspirei. As paredes tinham um papel florido em tons de vermelho desbotado, descascando em alguns cantos. A cama parecia ter sido usada por gerações inteiras antes da gente — afundada no meio, com lençois xadrez em rosa e bege, rasgados em alguns pontos. O abajur na mesa de cabeceira piscava como se estivesse tendo uma crise existencial.
Olhei para tudo aquilo com um aperto no peito. Era horrível. Mas já dormi em lugares piores — inclusive no próprio quarto onde cresci.
jogou a mochila no chão e se jogou na cama com um suspiro longo.
— Vou aproveitar pra descansar um pouco. Você vai sair?
Hesitei. Olhei pra ela e depois pra minha mochila no canto.
— Vou procurar algum trabalho temporário. Precisamos de dinheiro para seguir viagem.
Ela assentiu de olhos fechados. Fiquei mais um segundo olhando pra ela antes de sair. Estava exausta, e podia ver no rosto dela que ela também estava. Mas fugir exigia mais do que só coragem. A gente precisava sobreviver.
Desci até a recepção e perguntei, quase sem esperar nada, se estavam contratando. E estavam. Um dos funcionários não apareceu no turno da limpeza, e o gerente queria alguém com urgência. O pagamento não era muito, mas já ajudava. Eu aceitei sem pensar duas vezes.

Subi para avisar , mas ela já dormia profundamente. Olhei para ela dormindo tão rápido que mal teve tempo de reclamar do lençol rasgado. A respiração dela era ritmada, como se tivesse encontrado um canto seguro por alguns minutos. Eu não sabia onde nós iríamos parar. Mas sabia que não queria parar sem ela do meu lado.
Voltei com passos leves e, em pouco tempo, já estava com um carrinho de limpeza empurrando o peso de um aspirador barulhento pelos corredores abafados.
O trabalho era simples, mas cansativo: trocar lençois, esfregar banheiros, aguentar hóspedes que mal notavam minha presença. O suor escorria pela minha nuca e as costas doíam. Mas eu fazia sem reclamar. Não tinha espaço para reclamação. Só pra continuar.
Enquanto dobrava toalhas, cantarolava uma música antiga que minha mãe gostava. Isso me dava um senso de normalidade. Me fazia lembrar de quem eu era antes de tudo desmoronar. Às vezes, um hóspede sorria pra mim e eu retribuía, mesmo que só por obrigação.
Cada quarto era um novo mundo estranho, com restos de vidas que eu não conhecia. E cada vez que eu fechava a porta atrás de mim, sentia que estava limpando não só a sujeira dos outros, mas também um pouco do medo que ainda morava em mim. A verdade é que eu ainda olhava por cima do ombro o tempo inteiro. Ainda sentia que ele podia aparecer em qualquer esquina. Mas naquele dia, naquele lugar feio, abafado e silencioso, pelo menos por algumas horas, eu podia fingir que a liberdade tinha cheiro de produto de limpeza e som de aspirador velho.



Após um cochilo de trinta minutos, acordei com a sensação incômoda de estar deixando tudo nas costas da . Eu precisava fazer alguma coisa. O dinheiro que eu trouxe do bar não duraria muito, e o que ela ganhava limpando quartos mal dava pra nos manter em movimento. Peguei meu caderno de desenhos e fui até uma praça movimentada perto do motel.
Sentei num banco de madeira e abri o caderno no colo. As pessoas passavam apressadas, mas algumas diminuíam o passo ao ver meus traços ganharem forma no papel. Casais jovens queriam retratos rápidos, crianças riam curiosas, idosos se aproximavam com olhos cheios de memórias. Eu sorria de leve, educadamente, mas raramente dizia mais do que o necessário. Entre um rosto e outro, eu desenhava a — ou cenas vagas da estrada: uma caminhonete, uma placa inclinada, o céu imenso, infinito.
— Você tem talento — comentou uma senhora, deixando algumas notas amassadas na minha mão.
— Obrigada — respondi, quase num sussurro.
Quando o sol começou a cair e a luz dourada se espalhou pelas calçadas, voltei para o motel com alguns trocados no bolso e os dedos sujos de grafite. chegou pouco depois, exausta, com o cabelo colado na testa e a camiseta manchada de produto de limpeza. Caímos na cama ao mesmo tempo, como se tivéssemos combinado.
— Acho que estou oficialmente fedendo a água sanitária — disse ela, passando a mão no rosto.
Ri baixo e joguei um travesseiro nela.
— Eu passei o dia ouvindo histórias aleatórias de completos desconhecidos. Você sabia que um cara queria que eu desenhasse o cachorro dele usando óculos escuros?
— Isso é incrível. E você fez?
— Não. Ele queria pagar com um cupom de café — revirei os olhos.
Rimos juntas. Por um instante, a tensão entre nós se dissolveu. Era raro ter esses momentos de leveza.
Depois de um tempo, ela ficou séria.
— Você acha que um dia vamos parar de fugir?
Fiquei olhando para meus dedos, ainda sujos de grafite. Respirei fundo antes de responder.
— Eu espero que sim. Mas até lá… a gente tem uma à outra, né?
Ela assentiu, com um meio sorriso.
Enquanto tentava dormir, eu sabia que os pesadelos não deixariam. Ele estava sempre lá, nos sonhos dela. O padrasto. O medo. A fuga. E eu… eu também não conseguia descansar. Fiquei encarando a janela por um bom tempo, pensando no que poderia ter sido, no que ainda podia ser — se é que podia. Peguei meu caderno de novo. Tentei escrever.
"Queridos mamãe e papai,
Hoje me peguei pensando em nós…"

Minha letra tremia conforme eu escrevia. Pensei em tudo o que tínhamos perdido. Em Lucas. Em mim. Na nossa casa, que parecia sempre aquecida, até quando tudo desmoronava. Escrever era como arrancar algo de dentro, como tentar me perdoar mesmo sabendo que ninguém mais ia ler aquilo.
Estava tão imersa que nem percebi se mexendo na cama.
— Ainda estamos muito perto de Kingman. Parece que saímos há meses, mas só fazem três dias. Não consigo relaxar. Quando acho que vamos pegar um caminho mais longo, alguma coisa acontece. Será que estamos destinadas a ficar presas aqui?
Fechei o caderno, ainda com a carta inacabada, e suspirei.
— A gente saiu com quase nada. O carro quebrou. Encontramos carona e empregos temporários. Você tá levando isso mais a sério que eu — ironizei. — E olha que eu é quem trabalhava em um bar.
Ela riu com a cabeça baixa, mas logo ficou séria de novo.
— Não dá pra continuar parando de cidade em cidade. Logo ele vai nos encontrar. — Passou a mão no cabelo, nervosa. — Sobre o emprego… seus desenhos estão funcionando. Continua com isso, eu continuo limpando.
— Obrigada por me livrar das mãos bobas. É bom tirar férias — brinquei, tentando suavizar.
Guardei o caderno na mochila. Eu sabia que aquela carta nunca seria enviada, mas, de alguma forma, era mais fácil quando eu escrevia como se ainda houvesse uma chance de retorno.
— Qual é o nosso próximo passo?
— Pensei em ficarmos aqui só mais um dia. O motel tá pagando pouco, mas melhor que nada, dá pra garantir a próxima refeição e talvez um quarto melhor. Lavamos as roupas, nos organizamos… mas sem enrolar. Depois, seguimos viagem.
Assenti.
— É um bom plano. E, bom… nem temos certeza se o Richard está mesmo nos procurando. Vai ver, pra ele, foi até um alívio.
— Duvido — ela rebateu, olhando para o teto. — Nunca enfrentei ele de verdade. Ele não vai deixar isso quieto. Por enquanto, minha mãe deve estar tentando segurar a barra.
— Você falou com ela?
— Não. Só vou fazer isso quando a gente estiver a milhas daqui. Em segurança.
— Será que ele já achou o carro?
— Espero que não. Se achar, vai ser pior.
Ficamos em silêncio por um momento. O quarto escuro, só com aquela luz irritante da TV piscando.
— Amanhã cedo tento fechar mais uma diária. Saímos à noite. Fresno tá a uma hora e meia daqui. Lá a gente pode pegar uma estrada maior, talvez seguir até São Francisco. Não sei…
— Ver o mar ia ser bom — bocejei. — E eu jurava que você já estava dormindo.
— Impossível com essa luz piscando e meus pensamentos tentando me matar — ela respondeu, se virando pra mim.
Olhou o celular.
— Quatro da manhã. Às sete tenho que estar de pé. Se eu não dormir logo, vou virar um zumbi do The Walking Dead.
— Nós duas, irmã, nós duas. Chega pra lá.
Me enrosquei do lado dela e puxei a coberta até os ombros.
— Vai passar, . Logo a gente vai ficar bem.
Ela não respondeu. Mas eu senti quando seu corpo relaxou. O sono, finalmente, começou a vencê-la.
E eu deixei que o silêncio nos cobrisse como um cobertor velho.



Quando o alarme tocou às sete da manhã, tudo em mim implorava pra eu ficar na cama. Por um segundo, achei que a fosse me convencer de desistir, mas nenhuma de nós disse nada. Sabíamos que precisávamos do dinheiro. Sabíamos também que quanto mais tempo ficássemos ali, mais fácil seria para sermos encontradas — mesmo que, no fundo, nem soubéssemos ao certo se havia alguém nos seguindo.
Foi com esse pensamento martelando que pulei da cama e fui direto pro banheiro, antes que a preguiça me abraçasse de novo. Tomei um banho rápido, escovei os dentes e vesti uma calça flare surrada, junto com a regata branca que já estava ficando gasta nas laterais. Prendi o cabelo num rabo de cavalo firme e respirei fundo antes de sair do quarto. A cada dia, me convencer a levantar era uma batalha diferente.
Na recepção, encontrei o mesmo homem de sempre — o atendente de olhar cansado e barba malfeita. Nunca me preocupei em perguntar o nome dele, nem fazia questão.
— Você tá precisando mesmo de dinheiro, hein, menina? — ele soltou, meio rindo, meio com desdém. — Normalmente ninguém aguenta mais de um dia trabalhando por aqui.
— Pois é… — forcei um sorriso. — Mas vai ser só por hoje. Eu e minha amiga precisamos ir embora logo, então... quanto mais grana, melhor.
A era extrovertida. Eu não. Pra mim, trabalhar ali já era um desafio. Falar com estranhos, então... uma tortura silenciosa. Eu preferia observar. Ficar quieta. Desconfiada. Mas naquela situação, não dava pra ser seletiva. Era engolir em seco e sorrir.
— Sorriam e acenem, rapazes, sorriam e acenem… — murmurei pra mim mesma depois que ele me entregou a chave do primeiro quarto.



Quando ouvi a porta se fechar, virei pro outro lado da cama com um suspiro. Ninguém ia estar na praça tão cedo, certo? Podia dormir mais um pouquinho. Mas não demorou pra culpa me cutucar. A estava lá fora desde cedo, limpando quartos fedorentos enquanto eu ficava aqui, deitada, só pensando em como tudo tinha dado errado.
Levantei com preguiça, mas também com pressa. Passei um pouco de água no rosto e amarrei o cabelo de qualquer jeito. Nem café da manhã a gente tinha tomado — estávamos tentando economizar tudo que podíamos. Quando fechei a porta do quarto atrás de mim, soltei um riso abafado.
— Meu Deus, eu realmente larguei tudo pra vender minha arte na praça.
Eram oito e meia em ponto quando cheguei na mesma praça do dia anterior. O banco sob a árvore já parecia meu. Tirei os desenhos da mochila, deixei alguns do dia anterior em exposição e me preparei para começar de novo. Bastaram os primeiros cinco dólares de um cliente para que meu estômago me lembrasse do almoço que ainda estava longe.

— Juro por tudo, se eu tiver que desentupir mais um vaso, vou me jogar na frente do primeiro caminhão que passar por essa estrada — ouvi dizer assim que se sentou para almoçar.
— Ia reclamar que as pessoas querem que eu faça desenhos de graça, mas, sério, o seu trabalho é mil vezes pior que o meu — respondi, dando uma mordida no meu hambúrguer.
— E ainda temos a tarde toda pela frente. Quando encontramos um lugar pra ficar, juro que nunca mais quero ver uma vassoura na minha frente — ela continuou, com a voz cansada.
O dia passou arrastado, pesado. Eu fiquei na praça, tentando vender meus desenhos. A maioria das pessoas passava sem nem olhar, mas cada venda era uma pequena vitória. No fim do dia, consegui juntar 40 dólares. Não era muito, mas ajudava, e era o que me mantinha firme.
Quando a noite finalmente chegou, estávamos exaustas. Cada passo parecia custar o dobro. Fizemos o check-out do motel em silêncio, assinando nomes falsos, havíamos decidido escolher por outros nomes, para não deixarmos rastros, foi ideia da . Ela estava meio obcecada com o padrasto, como sempre, tentando sumir de qualquer forma. O recepcionista nem se deu ao trabalho de olhar pra gente, só acenou com a cabeça e nos deixou ir. A sensação de alívio era enorme, mas a estrada à frente ainda era um mistério assustador.
Caminhamos até o posto de gasolina, o vento frio cortando meu rosto, a luz das lâmpadas refletindo no chão molhado. O corpo inteiro parecia cansado demais pra dar mais um passo.
Lá, encontramos dois motoqueiros. Eram motoqueiros mais velhos, provavelmente na faixa dos 50 anos. O couro que cobria seus corpos parecia pesando tanto quanto suas expressões. As jaquetas de couro, botas grossas e óculos escuros, apesar da noite, davam a eles um ar intimidador. Os rostos durões e os olhares fechados não convidavam a aproximação, mas, ao contrário do que se poderia imaginar, um deles, com voz grave, ofereceu uma carona depois de olhar pra nós e nossas mochilas.
— Não precisamos, obrigada — ouvi dizer, puxando minha mão para ir embora.
— Vocês não vão achar ninguém que dê carona aqui. Devem aproveitar — disse o outro, sorrindo de lado.
— Já conseguimos carona outras vezes, obrigada. Vamos, respondeu, andando.
Eu tentei insistir:
— Amiga, não seria melhor aceitar? E de moto é mais rápido.
— Você tá louca? Eu não vou subir nessa moto com dois caras esquisitos — ela respondeu na hora.
, a gente tá pegando carona com os caminhoneiros há dias, e eles podem nos matar sem ninguém ver!
Eles se olharam, e um disse:
— Última chance. A gente tá indo agora, precisa chegar em Fresno logo.
— Viu? Eles tão indo pra mesma direção que a gente! — falei, animada.
— Se eu morrer, vou virar um espírito obsessor atrás de você, — ela brincou.
— Combinado! — pisquei pra ela. — Aceitamos a carona, muito obrigada, cavalheiros.
— Não temos capacetes extras, mas a cidade é perto, e de moto é ainda mais rápido — o homem falou. — Eu sou o John, e esse é o Marco.
— Prazer, John. Eu sou a Vanessa, e essa é a Bianca — respondi, já subindo na garupa.
Marco riu:
— A gente conhece forasteiras, mas vamos fingir que acreditamos em vocês. Não queremos problemas.
Eles ligaram a moto e aceleraram, deixando o posto para trás. Apesar do medo, senti o vento no rosto e ouvi o ronco do motor, uma sensação estranha de liberdade — daquelas que só quem não tem escolha a não ser seguir em frente pode entender. Fresno era um mistério, mas naquele momento, qualquer coisa parecia melhor. A noite seguiu, e as luzes do posto ficaram para trás, enquanto a estrada à frente parecia nos chamar para o desconhecido.


Capítulo 4 - Ecos do asfalto

And I was running far away
Would I run off the world someday?
Nobody knows, nobody knows - Runaway



A moto rugiu ao virar na avenida principal de Fresno, cortando o vento seco da tarde. Eu me agarrava com força à cintura do motoqueiro, sentindo cada vibração do motor. Atrás, vinha em outra moto, os cabelos pretos soltos dançando com o vento, os olhos dela fixos nas placas e nas fachadas que passavam como borrões.
Paramos num posto antigo. John apagou o cigarro com a sola da bota antes de se virar para a gente.
— Fresno não é lugar pra passear — disse ele, tirando o capacete. — Se vão ficar, fiquem atentas. E se vão continuar... talvez seja hora de parar de brincar de fugir. Nós não as conhecemos, e provavelmente nunca vamos, mas se serve de dica desses dois velhos: vocês são jovens, bonitas e inteligentes, seja lá do que fugiram, encontrem um lugar seguro e sigam a vida de vocês. A estrada não é lugar para duas garotas que não sabem nem onde vão dormir na próxima noite.
Eu franzi o cenho, quem esse cara achava que era pra ficar dando sermão pra gente? O sangue esquentou dentro de mim, e a gratidão pela carona quase sumiu diante daquela arrogância.
— Nós não estamos brincando — respondi, tentando manter a voz firme, mais do que eu esperava. — Estamos tentando não morrer.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas não comentou nada. Só deu meia-volta e entrou na loja de conveniência, seguindo o amigo.
Desci da moto, sentindo o suor escorrer, mesmo com o vento frio da estrada.
— Ele não tá totalmente errado — disse , olhando para a cidade à nossa frente. — A gente age como se o mundo fosse deixar a gente em paz só porque corremos por tempo suficiente.
— Não é isso. É só... — respirei fundo. — Eu só preciso de um segundo pra entender o que vem depois. Sabe? A próxima curva. O próximo passo.
— A gente nunca sabe o que vem depois, — Ela chutou uma pedra no asfalto. — E é aí que mora o perigo. Não podemos ficar pra sempre fugindo. Temos 23 anos, uma hora precisamos parar. Eu não quero dormir cada noite num hotel. Estamos "nessa vida" há poucos dias e eu já não aguento mais. Precisamos de um lugar para morar, um emprego e uma perspectiva. Não fugimos pra sobreviver, fugimos pra finalmente começar a viver.
Meus olhos ficaram marejados. Eu sabia que ela tinha razão. Sabia que não era justo com — a menina largou tudo que conhecia pra entrar nessa loucura comigo. O mínimo que eu podia dar era segurança. E a verdade é que nem sei se meu padrasto está mesmo atrás de mim. Precisávamos decidir o que fazer.

Fresno era maior do que eu tinha imaginado, uma cidade barulhenta e pulsante, cheia de gente apressada que parecia carregar o peso do mundo nas costas. O som constante dos carros, das conversas misturadas e das sirenes formava uma espécie de trilha sonora caótica, mas real. As calçadas estavam cheias de rostos que não olhavam pra gente, uns com olhares perdidos, outros com as marcas de noites mal dormidas estampadas na pele cansada. Era um lugar onde ninguém se importava com quem você era ou de onde vinha — e, para nós, isso era exatamente o que precisávamos.
Enquanto caminhávamos com as mochilas pesando nas costas, eu observei se adaptando rápido ao ambiente, como se aquela cidade cheia de desconhecidos fosse um porto seguro temporário.
— Aqui a gente pode desaparecer — ela falou baixo, com uma espécie de esperança misturada a uma urgência que eu conhecia bem.
Eu parei por um instante, olhando para os prédios altos e para o céu ainda tingido de cinza pelo fim da tarde. Respirei fundo, tentando afastar a ansiedade que teimava em apertar meu peito.
— Por quanto tempo a gente pode desaparecer? — perguntei, a voz saindo mais fraca do que eu queria.
deu de ombros, com um sorriso meio triste, como se essa resposta não tivesse uma resposta certa.
— Até a gente encontrar um lugar onde ficar não signifique ser encontrada. Até a gente poder respirar sem olhar por cima do ombro. — Ela me lançou um olhar determinado, e por um instante achei que ela estivesse falando com mais fé do que eu mesma sentia.
Eu balancei a cabeça, tentando acreditar que aquele lugar, apesar de tudo, poderia ser o começo de algo diferente. Que talvez, enfim, a estrada de fugas intermináveis pudesse dar uma trégua — mesmo que por pouco tempo.

Mais tarde, depois de conseguir um quarto barato num hostel decadente no centro e tomar um banho que parecia até luxo, nós saímos para procurar comida. Acabamos num mercado de rua que parecia um cenário improvisado: barracas com lonas gastas, gente vendendo peças de carro usadas, cigarros soltos, DVDs piratas. O cheiro de fritura misturado com gasolina e o que a gente achava que era maconha invadia o ar.
parou na frente de uma banca de chaveiros, cheia daqueles que tinham formas de carros antigos.
— Quando eu era criança, o Lucas colecionava essas coisas — disse , tocando numa chave com a ponta dos dedos. — Ele falava que um dia ia dirigir um Impala preto e sair por aí, sem destino.
— Meio que ele conseguiu — eu murmurei sem pensar, e logo me dei conta do que disse.
engoliu em seco, ficou olhando pro nada, perdida em algum pedaço do passado. Antes que eu pudesse pedir desculpas, um homem magro, com cara inquieta, percebeu a nossa hesitação e puxou papo.
— Vocês não são daqui, né? — ele perguntou, olhando das mochilas pro nosso rosto cansado.
— Só de passagem — respondi rápido.
— Todo mundo aqui tá "de passagem" — ele riu, mas não tinha humor nenhum. — Até ficar preso. Vocês têm cara de quem tá procurando alguma coisa... ou fugindo de alguma coisa. — O sotaque dele era carregado.
— Nós não queremos confusão — disse .
— Ninguém quer. Mas às vezes ela acha a gente — ele deu de ombros. — Tem gente que arranja trabalho, outros se viram em racha, luta… Às vezes tudo junto. Se quiserem, posso apresentar umas pessoas.
Franzi a testa.
— Por quê? O que você ganha com isso?
— Nada. Só reconheço quando alguém está à deriva. E às vezes cair na estrada errada é melhor do que não ter estrada nenhuma.
olhou pra mim.
— Nós precisamos de dinheiro. E informação. Se a gente continuar, não dá pra ficar dependendo só da sorte.
Eu hesitei um segundo, depois assenti.
— Tá. Mostra o caminho.
Fresno começava a mostrar um lado que não estava nos mapas, nem nas placas. Ali, entre fumaça e segredos, nossa estrada começava a mudar de direção. O vendedor apontou para uma rua lateral onde a luz pública falhava e o som distante de motores vibrava no ar.
— Sigam por ali. Depois da ponte, vão ver um galpão velho, com um portão enferrujado. Não tem placa, mas vão saber que é lá. Batam duas vezes e esperem. Não falem demais.
Olhei pro beco desconfiada. Ajustei a alça da mochila no ombro.
— E se for uma armadilha?
— Se fosse, eu já teria roubado vocês — ele sorriu torto e sumiu entre as barracas.
Nós caminhamos até o ponto indicado, o tênis batendo no asfalto rachado. Um cachorro latiu longe. O galpão era grande, alto, com janelas cobertas por tábuas e pintura que já fora vermelha, hoje algo entre bordô e marrom. A luz que vinha de dentro passava por frestas irregulares. Respirei fundo e bati duas vezes.
Silêncio.
Uma porta lateral rangeu, abriu devagar, e um homem enorme, tatuado, de braços cruzados, apareceu.
— Quem mandou vocês?
— O cara da feira — respondeu. — Disse que a gente podia ver o que tá rolando.
Ele nos avaliou por um tempo que pareceu longo demais, então se afastou, abrindo caminho.
— Sem celular. Sem perguntas. E fiquem longe da pista.
Entrei no galpão e tudo mudou de cor. Luzes vermelhas e azuis piscavam no teto, música eletrônica misturada ao ronco de motores e burburinho da multidão. Era um coração pulsando fora do peito da cidade, escondido dos olhos comuns.
Carros enfileirados, potentes, modificados, brilhando com pintura fosca. Rostos duros, tatuados, mulheres com roupas provocantes distribuindo bebidas. Cheirava a óleo diesel, cigarro e perigo.
O galpão era dividido em duas partes: de um lado, os carros de corrida; do outro, um ringue improvisado onde rolava uma luta clandestina, a galera gritando "Luta! Luta! Luta!".
— Isso aqui é outro mundo — murmurei, fascinada.
— A gente devia ir embora — disse , olhando ao redor. — Não é o nosso mundo.
— Nenhum lugar é, lembra? — falei, me virando pra ela. — Mas talvez seja hora de encontrar um onde a gente possa sobreviver.
Antes que ela respondesse, um silêncio tomou conta do lugar. Todos se viraram para os fundos do galpão, onde começava uma pista improvisada: dois carros lado a lado, motores rugindo como um desafio.
O último piloto entrou no carro. Alto, atlético, com jaqueta preta, luvas de couro, capacete todo preto com visor escuro. Algo nele prendia o olhar, como se o ar ao redor soubesse que ele era diferente.
— Quem é ele? — sussurrou.
— Como eu vou saber? Cheguei aqui junto com você! — respondi, levando uma cotovelada dela.
— Dizem que ele nunca perdeu — um cara comentou atrás da gente. — Corredor fantasma. Ninguém sabe o nome, só chamam de Raven.
Um arrepio subiu pela minha espinha. O nome mexeu com algo em mim que ainda estava correndo. O sinal foi dado. Os carros dispararam com um rugido coletivo. A corrida durou segundos, mas Raven era diferente — reflexos, frieza, controle.
Ele venceu.
Ao sair do carro, ele não celebrou, só abaixou a cabeça como quem agradece. Nem parava pra falar, mesmo com o pessoal tentando puxar conversa. Dei um passo à frente, algo me puxava pra ele. Quando chegou perto, senti que ele me observava, mas não dava pra dizer, o capacete cobria o rosto. Raven entregou a chave do carro para um rapaz e sumiu atrás de umas cortinas.
ficou encarando o ponto por onde ele desapareceu.
— Você viu como ele dirigia? — ela perguntou.
Assenti devagar.
— Como se estivesse fugindo de algo atrás dele.
— O outro cara — ela riu da própria piada.
As luzes voltaram a piscar e um novo par de carros se alinhava para outra corrida. Talvez aquele fosse o começo do caminho que mudaria tudo.


— Vocês são novas. — A voz firme veio de uma mulher que parecia saída de um filme de ação. Ela tinha os cabelos crespos presos num coque apertado, roupa preta dos pés à cabeça e uma postura que não deixava espaço para dúvidas.
Me virei junto com a , e senti ela firmar os pés como se já estivesse esperando confusão.
— Só estamos olhando — ela respondeu, mais defensiva do que o necessário.
A mulher sorriu de canto, como se já soubesse o final da história.
— Todo mundo começa assim. Olhando. Depois, quando se dá conta, já está no meio do jogo.
Ela estendeu a mão com naturalidade, como se tivesse feito isso centenas de vezes.
— Me chamam de Reyna. Cuido de parte da organização. Corridas, apostas, entrega... Tudo que faz esse lugar respirar.
Troquei um olhar com a . Respirei fundo e apertei a mão dela.
— O que exatamente você quer com a gente?
— Disseram que chegaram pela mão do Rick, do mercado. Isso significa que vocês são sobreviventes, não turistas. E a gente precisa de gente assim.
— Precisa como? — franziu o cenho. Típico.
— Aqui, todo mundo tem uma função. Quem dirige, quem aposta, quem cuida dos bastidores. Quem distrai a polícia. Quem cuida dos lutadores.
— Lutadores? — Ergui uma sobrancelha.
— Lutas clandestinas. Toda quinta-feira. A gente movimenta bastante dinheiro com isso. E os lutadores… bom, alguns são só músculos. Outros têm histórias que fariam vocês empalidecerem. Um em especial tá dando o que falar.
Ela fez uma pausa, só pra aumentar o mistério.
— Nome de luta: . Só isso. Rápido, letal. Nunca perde, mas parece que está sempre a um soco do fim.
Mordi o lábio inferior, meio curiosa, meio assustada.
— E o que faremos com essa informação?
— Podemos começar com trabalho simples. Servir bebida, limpar, distrair quem precisa ser distraído. Se mostrarem que sabem mais do que aparentam, podem subir. Tudo em sigilo. Aqui ninguém é o que parece.
Reyna nos analisava como quem vê um diamante coberto de lama.
— Vocês têm cara de quem carrega segredo demais pra dar meia-volta. Então decidam: querem continuar assistindo... ou vão entrar no jogo?
Olhei pra . Não escondemos nada uma da outra. Medo. Ansiedade. Curiosidade. E, acima de tudo, aquela vontade incontrolável de finalmente pertencer a algum lugar.
assentiu primeiro.
— Nós entramos.
Respirei fundo. E fui com ela.
Reyna sorriu, satisfeita, como quem acabara de vencer uma aposta.
— Ótimo. Amanhã, estejam em San José. Dezessete horas. Vão até Los Altos, tem uma feira de rua chamada DeMartini Orchard. Procurem o Tino, digam que Reyna mandou. E tragam cara de quem já deixou tudo pra trás. Porque depois disso... não tem volta.
— San Jose? — repetiu, surpresa.
— Fresno é só uma distração. Um pit stop. O mundo real acontece em San Jose. Corridas grandes. Lutas sérias. Dinheiro de verdade.
E com isso, Reyna desapareceu pelo galpão, como uma sombra se dissolvendo na multidão. Fiquei ali, parada ao lado da , vendo tudo acontecer como se fosse um sonho esquisito.
— O que a gente acabou de fazer? — murmurei.
— Abrimos uma nova porta — disse . — E vamos torcer pra não ser uma armadilha.
Do outro lado do galpão, um homem subia no ringue improvisado. Luzes vermelhas e brancas estouravam em flashes. O público enlouquecia.
O nome dele estava bordado nas costas do casaco preto: .
— Vamos, aparentemente conseguimos um emprego... meio duvidoso, mas é alguma coisa — falou, já pegando minha mão e me puxando.
— Ah, mas eu queria ver a luta… — resmunguei, fazendo um biquinho.
— Hello!! A gente vai trabalhar com isso agora. Você vai enjoar de ver esses caras se socando.
— Nossa, , como você é chata.
— Se acostume com isso. Eu sou a cabeça. Você, o coração.
— Estou empolgada! Será que pagam bem? Vai que a gente consegue um apê fofo pra dividir.
— Se eles pagarem e não nos matarem, já é lucro.
— Vamos lembrar que quem topou primeiro foi você.
Ela revirou os olhos, e eu segurei o riso.
— Você tava doidinha pra dizer sim, eu vi. Se interessou pelo lutador, foi?
— Querida, não era eu quem tava sedenta pelo piloto mascarado, olhando pra ele como se fosse um mosquito e ele a luz.
— Tanta coisa boa pra comparar, e você escolhe um mosquito? Em minha defesa, ele parecia um gostoso.
— Se fosse mesmo, não usava capacete — provoquei, enquanto seguíamos o Google Maps pela rua. Tínhamos que voltar no hostel para pegar as mochilas antes de seguir viagem. — Vai ver é desdentado.
— É o estilo. Duvido que um homem daquele tamanho não tenha todos os dentes. Chegamos! Pegamos nossas coisas, chamamos um táxi e partimos rumo à rodoviária.
Destino: San Jose. E, com ele, um novo capítulo. Ou uma armadilha bem montada. Mas pelo menos a gente não estava mais parada.

— Com licença, duas passagens para San José, por gentileza — pedi, tentando parecer mais confiante do que realmente estava. A mulher do caixa nem ergueu os olhos. Apenas passou os bilhetes e estendeu a mão com a impaciência de quem já viu centenas de rostos como o nosso.
Assim que pagamos, seguimos para o ponto de embarque e nos sentamos nos bancos de ferro. Eu nem tinha percebido o quanto meu corpo doía até encostar ali. Era como se tudo — adrenalina, correria, tensão — tivesse sido colocado em pausa naquele momento. Meu corpo, finalmente, exigia um descanso.
— Nossa, estou moída — murmurei, espreguiçando os braços acima da cabeça. Olhei pro lado e vi uma daquelas máquinas antigas de salgadinhos e refrigerantes. — Vou pegar algo pra gente.
Ela assentiu sem dizer nada, o olhar perdido num ponto qualquer da estação. Voltei com um refrigerante e um pacote de batata que parecia ter mais ar que comida, e sentei ao lado dela.
— Sabe... eu me senti no filme do Percy Jackson lá dentro, naquela cena em que eles comem a flor de lótus e ficam presos no cassino. Juro, eu não notei o tempo passar.
riu pelo nariz, pegando um punhado do salgadinho.
— Quanta bagagem de referência nessa cabecinha.
— Você é tão divertida, !
Ela arqueou uma sobrancelha, com aquele ar blasé que só ela conseguia manter mesmo completamente exausta.
— Obrigada. É um talento.
Sorrimos, cúmplices naquela pausa silenciosa. A estação estava fria, iluminada por luzes brancas que zumbiam levemente. Tudo parecia suspenso, como se o mundo respirasse com a gente, só esperando o próximo passo.
Não demorou muito até o ônibus chegar. O som do motor freando na plataforma cortou o silêncio como um aviso.
Levantamos juntas, ainda um pouco lentas, e colocamos as mochilas nos ombros. Quando entregamos as passagens para o motorista, troquei um último olhar com . Algo no meu peito apertou, uma mistura estranha de ansiedade e entusiasmo.
Quando a caminhonete sumiu na poeira, virou pra mim. Não disse nada. Só me deu aquele olhar que significava "a gente ainda vai sair dessa". Eu assenti. Era o nosso jeito de prometer que, enquanto estivéssemos juntas, ninguém mais ia ditar nosso fim
Talvez aquilo fosse só mais uma fuga. Talvez fosse o começo de tudo. Mas uma coisa era certa: o submundo estava de braços abertos para nos receber. E nós — tontas, loucas, corajosas — estávamos prestes a entrar.


Capítulo 5 - Fim da linha… ou não

Someone like me can be a real nightmare
Completely aware
But I'd rather be a real nightmare
Than I die unaware, yeah - Nightmare



Chegamos em San José com o dia nascendo devagar, tingindo os prédios altos com um tom de dourado cansado. Dormi um pouco no ônibus, o suficiente pra não cair dura no chão, mas não o bastante pra apagar a exaustão acumulada nos ossos. Quando descemos na rodoviária, fui tomada por uma sensação esquisita, como se o mundo estivesse gritando e eu ainda tentasse entender onde estava. Era gente pra todo lado, barulho, buzinas, passos apressados. San José pulsava diferente. Não era como Kingman, onde o vento seco do deserto carregava os mesmos ruídos há anos. Aqui tudo parecia em movimento — como se ninguém tivesse tempo pra olhar pra ninguém. E, de um jeito estranho, isso era exatamente o que a gente precisava.
Pegamos um motorista de aplicativo porque não fazia sentido andar à toa por uma cidade que não conhecíamos. Quando o carro parou na frente de um hotel de fachada cinza, com janelas altas e uma entrada que parecia ter sido pintada há décadas, fiquei em silêncio. O prédio parecia contar histórias demais. Histórias que eu não sabia se queria ouvir.
— Ok… — murmurei, ajustando a alça da mochila no ombro. — Vamos entrar, né?
— Às vezes eles nem têm um quarto… — respondeu, ainda com a testa franzida.
— A gente precisa que eles tenham. Por pior que seja.
E tinham. E, pra minha surpresa — uma surpresa tão grande que quase me fez rir de nervoso — o quarto era bom. Duas camas de solteiro com colchas brancas, paredes claras, um banheiro limpo de verdade. Olhei ao redor desconfiada, esperando ver alguma rachadura escondida, uma torneira vazando, qualquer coisa que nos trouxesse de volta pro inferno de onde a gente saiu.
— Cara, você tá com um pé de coelho escondido na bolsa? — perguntou, jogando a mochila na cama. — A gente tá com MUITA sorte ultimamente.
— Fala baixo, vai que o universo escuta e resolve cobrar a conta.
Ela riu, se jogou na cama com um suspiro tão leve que me deu vontade de deitar também e esquecer o mundo. Mas primeiro, banho. Depois, decisões.
Tomei um banho demorado, tentando lavar mais do que só o suor e a estrada. Eu queria tirar de mim o peso dos dias anteriores. As lembranças. As incertezas. Quando saí, ficamos um tempo em silêncio, só olhando as roupas que tínhamos na bolsa. Nenhuma parecia adequada. Nenhuma parecia feita para esse “novo mundo”.
— O que diabos se usa pra um encontro desses? — perguntei, ainda encarando minhas opções com as mãos na cintura.
— Couro? — sugeriu, com aquela carinha debochada que ela sempre faz quando sabe que tá palpitando no escuro.
— Ótimo! Começamos bem, .
Demoramos tanto nesse ritual do banho e da indecisão que decidimos sair pra comer e deixar o dilema fashion pra depois. Coloquei um shorts jeans de cós alto, uma blusa branca simples e um boné azul bebê. Óculos escuros, porque mesmo com as olheiras, eu ainda tinha uma reputação a zelar. apareceu de vestido tomara-que-caia verde e tênis preto. Pela primeira vez em muito tempo, ela parecia feliz.
Achamos uma cafeteria que servia uns pratos decentes. Sentamos do lado de fora, aproveitando o sol quente e o cheiro de café misturado com o som da cidade viva ao redor. Gente indo e vindo, bicicletas, crianças correndo. Era como assistir a uma vida que não nos pertencia, mas que de algum jeito, agora podia.
— Comida de verdade! — murmurei, enchendo a boca de macarrão. — Se eu comesse mais um hambúrguer, acho que teria um colapso.
— Nem fala. Eu estava precisando sentar a bunda numa cadeira e só comer. Sem pensar. Sem planejar a próxima fuga.
— A gente ainda tem preocupações — lembrei.
Ela me olhou, séria por um segundo. Depois sorriu de leve.
, a gente está a quilômetros de Kingman. Estamos numa das maiores cidades da Califórnia, e até agora ninguém nos achou. A
vida continua. E pela primeira vez, ela tá dando uma trégua. Fiquei quieta. Ela estava certa. Mas ainda assim, havia algo em mim que não sabia descansar.
— Sabe… — falei, dando de ombros — cancela o que eu disse mais cedo. Sobre eu ser a razão e você o coração. Acho que nossos papéis estão se misturando. Seu coração tá peludo.
gargalhou alto.
— Nada disso! Só não percebi o quão merda tava minha vida... até eu sair dela. Por falar nisso — ela pegou minha mão em cima da mesa — obrigada. Acho que você me salvou.
Senti um aperto no peito. Segurei a mão dela de volta.
— Você me salvou antes. Só tô retribuindo o favor. Mas chega de drama, ! — dei um sorriso. — Essa cidade é incrível. Tem sol, mar, coqueiros e... — um homem passou sem camisa na nossa frente, corpo de academia, sorriso de filme. Abaixei os óculos. — Homens gostosos. Obrigada, universo. É aqui que eu saio do celibato involuntário.
— Você é impossível. — Ela riu.
— E você adora. Vamos explorar, vai que a gente acha um look acessível para causar hoje à noite.
E fomos. Andamos por ruas arborizadas, lojas pequenas e vendo artistas de todos os tipos. Por algumas horas, esquecemos de tudo. Esquecemos o deserto, o padrasto, a estrada, o medo. Pela primeira vez em muito tempo... a gente só viveu.

Andávamos de braços dados pela calçada quando passamos em frente a um brechó com a vitrine torta e letreiros quase apagados. Trocamos um olhar cúmplice e entramos. O ar lá dentro era uma mistura de mofo com nostalgia, e as araras rangiam a cada peça remexida. Eu adorava esse tipo de lugar. Cada roupa parecia carregar uma história, um eco de alguém que já foi outra coisa.
Quando saímos, já eram quatro da tarde. As sacolas pesavam nos braços, mas o tempo corria mais pesado ainda. Reyna tinha deixado claro que atraso não era uma opção. E se tinha uma coisa que eu não queria agora, era estragar essa chance.
De volta ao hotel, foi direto para o banho. Enquanto isso, fiquei organizando as compras na cama, dobrando o pouco que tínhamos com o cuidado de quem tenta dar ordem a um caos que vem de dentro.
Vesti um shorts curto de couro preto, uma regata branca simples e uma jaqueta racer vermelha com listras brancas nas mangas.
Me olhei no espelho e fiz uma careta, rindo da própria imagem.
— Tô muito caricata, né? Parece que tô indo ser recrutada para um cartel.
sorriu, ainda secando os cabelos com a toalha.
— Eu adorei. Se for pra se meter em encrenca, que seja com estilo.
Revirei os olhos, mas não pude conter o sorriso.
vestiu uma legging preta, uma camiseta larga também preta e finalizou com uma jaqueta de couro marrom que a deixou mais pesada, mais presente. Era como uma armadura.
— Está linda! — eu disse, já calçando o tênis. — Vamos logo, já chamei o carro, tá esperando lá embaixo.
Era isso. Tínhamos uma chance. Uma porta entreaberta. E mesmo sem saber o que havia do outro lado, eu sabia que não dava mais pra voltar.

Dentro do veículo, eu observava pela janela enquanto o cenário mudava — o centro agitado de San José ficando para trás, dando lugar a ruas mais calmas, lojas antigas, pequenos mercadinhos. Tudo parecia calmo demais para o que nos esperava.
Quando o carro parou diante daquela estrutura colorida, coberta por flores e sacolas reutilizáveis, eu tive certeza de que alguma coisa estava errada.
— É aqui? — perguntou, franzindo a testa.
O motorista só assentiu. Suspirei e desci, sentindo o calor subir pela nuca, aquela sensação que mistura adrenalina com o mais puro medo. O lugar era absurdamente comum. Gente idosa, barracas de frutas, cheiro de hortelã e poeira. Nada ali dizia “mundo clandestino”.
— Não acredito que vamos vender tomates — murmurei, ainda tentando encontrar um sinal, qualquer coisa que fizesse sentido.
As pessoas nos olhavam como se fôssemos parte de algum tipo de pegadinha. Estávamos vestidas como figurantes de um filme de ação, no meio de uma feira hippie. Ridículo.
Andamos até parar diante de um homem alto, gordo, vestindo uma camisa havaiana que gritava “turista perdido”. Ele sorriu demais pra quem não nos conhecia. sussurrou:
— Será que é ele?
— Tem cara de Tino... — respondi.
— Cheguem mais, meninas! Aceitam morangos? Bem-vindas à barraca do Tino! — ele sorriu ainda mais, mostrando um dente de ouro reluzente. Quase ri de nervoso.
— Viemos pela Reyna — falei baixinho, olhando ao redor como se alguém fosse nos prender só por dizer esse nome em voz alta.
— Ah, sim, sim! Reyna falou que vocês viriam. Me acompanhem, por gentileza. — Ele saiu da barraca com um estalar de dedos e outro homem imediatamente assumiu seu lugar. — Meu carro está logo ali, atrás do barracão.
apertou meu braço com força, como se quisesse me ancorar ao chão. Eu mesma não sabia se queria seguir.
— Precisamos nos preocupar? — perguntei, tentando manter a voz firme.
— Com certeza. Mas não comigo. Eu sou amigo — respondeu ele, e sua resposta não ajudou em absolutamente nada.
Seguimos até uma SUV preta, e ele abriu a porta de trás. Um segundo de hesitação, e entramos. Já estávamos ali, afinal.
O caminho seguiu em silêncio. Não conversamos. Ele não perguntou nada, e nós não oferecemos informação. O som da ópera preenchia o carro, cortando qualquer tentativa de pensamento coerente. Claro que Tino ouviria ópera. Por que não?
Quando o carro finalmente parou, vi um galpão metálico, gigantesco e sem sinal de vida aparente. A pintura descascada, o portão entreaberto. Sem placa. Sem nome. Sem nada.
— Se eu desaparecer, minha última refeição foi macarrão, mas pelo menos foi um bom macarrão — murmurei.
riu, tentando disfarçar o nervosismo. Eu percebi. Porque eu também estava fazendo a mesma coisa.
Assim que cruzamos o portão, tudo mudou. Era como atravessar um limiar invisível entre a realidade e algum tipo de submundo vivo e pulsante. Luzes de néon lançavam reflexos azulados sobre o chão de concreto. O som dos motores rasgava o silêncio da noite. Gritos, risos, música alta. O cheiro de gasolina misturado com cigarro e adrenalina.
Olhei para . Ela parecia estar no mesmo estado que eu: deslumbrada, assustada, fascinada.
— Vocês não parecem tão perdidas quanto eu esperava. Isso é bom — Tino comentou, com um sorriso que eu não soube decifrar.
— E agora? — perguntou.
— Agora vocês seguem por aqui — ele apontou para a esquerda, onde a música eletrônica batia com força no peito. — Loirinha, você vem comigo pras garagens. Vai conhecer o pessoal das corridas. Moreninha — ele olhou para — o bar é logo ali, fale com o Davi, diga que fui eu quem mandou.
Toquei a mão da por reflexo. Era estranho me afastar dela. Estranho e desconfortável.
— Cuide dela — disse ela, com a voz mais firme do que o normal.
— Deixa comigo — ele respondeu.
A vi se afastar, os cabelos escuros desaparecendo entre as luzes quentes e a fumaça.
Eu respirei fundo e segui com Tino por um corredor de concreto, tentando não parecer tão tensa quanto estava. O cheiro de gasolina era forte. Passamos por uma cortina de lona e demos de cara com o que parecia uma garagem de outro mundo. Carros alinhados, motores abertos, ferramentas jogadas, vozes altas. Uma bagunça organizada. Ou um caos funcional.
E foi quando eu o vi.
Encostado num carro preto, braços cruzados, músculos definidos sob a camiseta escura, a pele negra brilhando, tatuagens subindo pelo braço. Rosto sério, olhos estreitos e observadores. O tipo de homem que podia te devorar com um olhar. O tipo de homem que parecia saber exatamente onde estava e o que fazia ali. O cabelo preso para trás em tranças que destacavam ainda mais a expressão severa.
E então nossos olhos se encontraram. Foi como ser puxada para dentro de um vórtice. Algo nele me pareceu familiar, como se eu já tivesse cruzado aquele olhar em outra vida. Ou em um sonho.
Eu fiquei ali, parada, tentando entender de onde vinha aquela sensação absurda de reconhecimento. O tempo desacelerou. E por um instante, fui só eu e ele. Eu e aquele olhar.


Eu me aproximava do bar, sentindo a vibração elétrica do lugar pulsando no peito — o som abafado dos motores ao longe, a música que batia forte pelas caixas em algum canto do galpão, e aquele cheiro intenso de álcool misturado com calor humano. Estava quase alcançando o balcão quando uma gargalhada alta cortou o ar, acompanhada do tilintar ritmado de vidro.
Levantei os olhos e vi ele. Um cara que fazia malabares com garrafas atrás do balcão, com uma naturalidade que parecia parte dele, como respirar. Cabelos castanhos bagunçados, como se tivesse acabado de sair de um vendaval e gostado do resultado. Olhos claros, azuis como o mar em um dia quente, e um sorriso que parecia surgir fácil, quase automático.
Ele vestia uma camiseta branca com as mangas dobradas, mostrando antebraços fortes e uma corrente simples no pescoço que brilhava sob a luz quente do bar improvisado. Havia algo nele que me atraía — não arrogância, mas uma confiança tranquila, como quem já está acostumado a ser observado.
— Você é a nova ajudante? — perguntou, girando uma garrafa na mão antes de deixá-la deslizar pelo antebraço até cair na outra.
Parei em frente ao balcão, apoiei uma mão na madeira desgastada e olhei ao redor antes de encará-lo.
— Depende — respondi, com um meio sorriso — Isso aqui paga em dinheiro ou em encrenca?
Ele soltou uma risada leve, que combinava perfeitamente com o barulho ao redor, como se fosse parte da trilha sonora daquele lugar. Jogou outra garrafa para o alto e pegou com uma facilidade que irritava.
— Os dois. Mas, se der sorte, as gorjetas pagam a terapia. — Estendeu a mão por cima do balcão. — .
Apertei firme a mão dele.
.
— Nome de realeza. Gosto disso. — Ele sorriu de canto enquanto começava a preparar um drink improvisado. — Quer começar com algo forte ou só observar e fingir que sabe o que está fazendo?
Eu ri baixo, meio desafiadora. Ah, se ele soubesse.
— Eu finjo muito bem. Mas posso surpreender.
Ele me olhou por um segundo a mais, os olhos brilhando com uma curiosidade que quase parecia jogo. Ou talvez fosse mesmo. E eu me sentia pronta.


Capítulo 6 - Regra n. 1 do submundo: você não vê nada, não ouve nada e não pergunta nada

He's so tall and handsome as hell
He's so bad but he does it so well
I can see the end as it begins - Wildest Dreams



Certo, se me contassem 1 mês atrás que hoje eu estaria em San José, em um lugar isolado cheio de carros, música, lutadores e mulheres seminuas eu iria perguntar o que a pessoa fumou e se tinha um pouco pra mim. Eu sempre tive vontade de fugir de Kingman, de conhecer o mundo, de descobrir a minha verdadeira personalidade sem ter o peso do medo em meus ombros. Eu não sei quem eu sou, do que eu gosto, eu só sei me esconder e tentar passar despercebida. E agora isso está prestes a mudar.
Tino me largou em frente aos mecânicos e disse que logo uma moça iria aparecer e me ajudar, depois de me chamar de ‘loirinha' mais vezes do que eu conseguia suportar, finalmente falei meu nome pra ele, que apenas piscou e saiu andando.
Reyna não tinha explicado muito. Apenas disse que o lugar era confiável, o que, vindo dela, na qual eu não conhecia, ainda podia significar “talvez não matem você”. Mas eu precisava do dinheiro. E mais do que isso... precisava do controle. Do poder de escolher. Nem que fosse só por uma noite.
Olhei em volta, analisando o velho galpão para tentar entender como ele funciona, mas a princípio segue o mesmo esquema de Fresno. O lugar é dividido em dois, um lado ficam os carros e do outro o ringue de luta, cada lado tem um bar e um mezanino com alguns sofás e puffs. Aparentemente, por mais que seja uma coisa só, os lados não se misturam, cada um tem suas regras e seus empregados.
A música pulsava, um misto de hip hop sujo com batidas eletrônicas que vibravam no peito. Mal conseguia distinguir as conversas ao redor — vozes altas, risadas estridentes, pedidos de bebida, apostas cochichadas como orações perigosas. Tudo era muito, e ao mesmo tempo, parecia longe demais. Como se eu estivesse ali, mas não de verdade.
Senti minhas costas queimarem, como se estivesse sendo observada e olhei por cima do ombro para tentar achar de onde vinha a sensação e lá estava ele. O mecânico. Ajoelhado ao lado de um carro preto que parecia saído de Velozes e Furiosos, especialmente o 2, se vocês considerarem minha opinião. As mãos sujas de graxa, os braços definidos, o maxilar marcado como se tivesse sido desenhado com faca. E os olhos... Escuros. Intensos. Quase hostis.
Ele continuava me encarando. Qual é, eu sei que eu sou bonita, mas já estava começando a me incomodar. Por um segundo, senti como se estivesse nua. Não fisicamente, mas emocionalmente. Como se ele visse através da fachada que construí nos últimos dias, a menina durona, prática, que não precisa de ninguém.
Droga.
Desviei o olhar rápido demais e me amaldiçoei por isso.
? — a voz feminina me puxou de volta à realidade. Vinha de uma mulher ruiva com uma prancheta e fones pendurados no pescoço. Ela me analisava como quem decide se vai me contratar ou mandar embora antes mesmo do teste.
— Sim — respondi. Tentei parecer confiante.
— Indicação da Reyna?
Assenti com um movimento curto.
Ela soltou um suspiro.
— Beleza. Você vai ajudar a equipe dos corredores. Manter o público longe dos carros, atender os pedidos dos VIPs — apontou para o mezanino — e garantir que ninguém cause confusão fora da pista. Se alguém te incomodar, vem direto em mim. Aqui a gente tolera gritaria, mas não filha da putagem. Entendido?
— Entendi. — E de verdade, eu entendi. Era caos com regras. E isso eu sabia jogar.
— Me chamam de Migs. — Ela estendeu a mão.
Apertei. Firme. Gostava de gente como ela, objetiva, direta. Sem rodeios. Migs me deu uma camiseta preta enrolada com um elástico e apontou para uma área atrás de um dos carros tunados, onde outras garotas já circulavam com radinhos e listas.
Antes de seguir, olhei de novo.
O mecânico ainda estava ali. O olhar cravado em mim, como se eu fosse um enigma que ele ainda não decidira se valia a pena resolver. E, por um segundo, não consegui desviar. Ele tinha algo… perigoso. Não do tipo que machuca. Do tipo que faz você querer se aproximar, mesmo sabendo que vai se queimar.
Mas eu desviei. Porque eu sempre desvio. Ainda.
Me virei e segui para a área designada, fingindo que meu coração não estava tentando furar meu peito com tanta força.
Talvez eu só precisasse de uma noite como essa. Talvez, pela primeira vez, eu pudesse parar de fugir do mundo e começar a correr com ele.
Troquei de camiseta atrás de um dos carros, protegida por uma lona improvisada. A malha preta grudava na pele quente sob o calor das luzes e do asfalto. Prendi o cabelo em um coque alto e enganchei o rádio no cinto, como Migs tinha me mostrado.
Primeira regra da noite? Observar.
Durante a primeira meia hora, me mantive calada, indo de um lado para o outro, entregando garrafas, ouvindo conversas, anotando pedidos que nem sempre entendia. Era um caos com ritmo, e tudo girava em torno de velocidade, dinheiro e adrenalina. Olhares rápidos, mãos sujas de graxa, risadas abafadas e apostas cochichadas entre cigarros e goles de cerveja. De vez em quando via atrás do bar dando risada com um rapaz, estou ansiosa para voltarmos ao hotel e saber detalhes da primeira noite dela.
E, no meio de tudo isso, ele.
O mecânico.
Os cabelos estavam trançados para trás, braços fortes cobertos por manchas de óleo e graxa, misturados com as tatuagens. A camiseta preta colava no corpo por causa do calor. Havia algo nele, não só a precisão com que se movia, mas o silêncio atento, como se enxergasse tudo, mesmo quando ninguém percebia sua presença.
Ele não falava muito. Mas quando falava, todo mundo ouvia.
Eu o observei enquanto ele ajustava uma peça embaixo de um dos carros, deitado no chão, os dedos se movendo como se soubessem exatamente o que estavam procurando. Era como assistir alguém dançando com as mãos.
Estava distraída encarando essa cena quando ele se levantou e me flagrou olhando.
Merda. De novo.
Desviei rápido, nota mental para parar de fazer isso, mas ouvi a voz dele, baixa, firme, quase grave demais para aquele ambiente barulhento.
— Você está com o rádio da equipe?
Virei devagar. Ele estava com os braços cruzados, suado, um leve traço de graxa na têmpora esquerda, como se tivesse coçado os olhos com a mão suja. Os olhos escuros me examinaram com uma calma que parecia perigosa.
— Tô, sim. Migs me colocou aqui — respondi, tentando parecer mais confiante do que me sentia.
— A Migs está ocupada agora. Fala comigo se precisar de qualquer coisa.
Dei um leve aceno, e por um segundo achei que ele fosse embora. Mas ele deu mais um passo na minha direção. Perto demais. Podia sentir o cheiro de graxa e do perfume amadeirado que emanava, era bom.
— Qual seu nome?
. E você?
Ele hesitou. Só por um instante.
.
Não reconheci o nome. Também não era como se fosse reconhecer, afinal, não conhecia nenhuma alma além de Tino e Migs. Pra mim, era só isso: um mecânico bonito e sério que andava como se carregasse peso demais nos ombros.
— Primeira noite? — ele perguntou, sem tirar os olhos de mim.
Assenti.
— Vai aguentar?
Mordi o canto da boca, tentando esconder um sorriso.
— Já aguentei coisa pior.
Um canto da boca dele subiu. Não era um sorriso. Era... quase.
— Ótimo. Fica aqui por enquanto. Esse carro tá com uma aposta alta demais pra gente se distrair. Se alguém se aproximar demais, me chame.
— Como vou te encontrar no meio disso tudo?
Ele me olhou por mais um segundo.
— Eu vou estar por perto. Sempre tô.
Continuei ali, de pé ao lado do carro, fingindo concentração enquanto o coração batia forte demais. Parte de mim queria correr dali. A outra... queria descobrir por que diabos um simples “” conseguia mexer tanto comigo. Alguma coisa me dizia que aquele cara ia me engolir inteira.
E, por algum motivo, eu não queria escapar.

Fiquei ao lado do carro, como um segurança, já eram quase 21h e pelo que ouvi pelos cantos, as corridas normalmente se iniciavam às 22h. Parei para olhar o carro mais de perto, ele era completamente preto, os vidros fumês não deixavam enxergar nada dentro do automóvel, coloquei as mãos ao redor do rosto e grudei a testa na janela tentando ver qualquer coisa, mas a única coisa que consegui notar levemente era um corvo desenhado no volante.
— A curiosidade matou o gato — ouvi a voz de nas minhas costas e me virei num pulo.
— Provavelmente foi de susto — respondi colocando a mão no coração.
— Ele não gosta que encostem no carro, loirinha. — Lá vem esse apelido de novo.
— Seja mais original, Tino já me apelidou assim. Quem é ele? — Pedi cruzando os braços sobre o peito. era bem mais alto que eu, tinha que erguer um pouco o pescoço para olhar para ele.
— Raven. O dono do carro. — Simplesmente falou e deu ombros, encostando-se no capô.
— Pensei que Raven — falei o nome devagar — não gostasse que encostassem no carro dele, mas você pode? — provoquei.
— Eu sou o mecânico dele. É óbvio que eu posso. Se ele ganha as corridas, é por minha causa.
— Pensei que tinha haver com talento.
— E com motor. E, preferencialmente, um motor que funcione.
Antes que eu pudesse responder, o fone de ouvido de soou e ele fechou a cara se afastando.
— Eu não vou ficar de babá desse carro a noite toda. — Bufei olhando para os lados. — Mas também, vou fazer o que? Ok, estou enlouquecendo e falando sozinha.
Quando pensei em me afastar e achar outra coisa para fazer, escutei falar no ponto:
— Não saia de perto desse carro. É uma ordem. — Revirei os olhos. Agora pronto, ele acha que manda em mim.
Eu estava encostada no carro, foda-se que não podia, braços cruzados, tentando parecer ocupada, mas meus olhos vasculhavam o ambiente, procurando qualquer coisa que me fizesse sentir menos inútil. tinha sumido depois da mensagem seca no rádio, e parte de mim queria muito responder com um palavrão. Mas a outra parte… obedecia.
Foi quando o som mudou.
Não era música. Não era o barulho comum do galpão. Era como um vácuo. Um silêncio denso, estranho. As pessoas começaram a se agitar, assobiando, murmurando empolgadas. E então eu ouvi.
Passos. Firmes. Lentos. Compassados.
Olhei para o lado e o vi se aproximando.
Raven.
O nome circulava como um sussurro preso entre os dentes do público. Ele vinha a pé, vindo direto do túnel escuro que levava aos bastidores da arena. Jaqueta de couro fechada até o pescoço, botas pretas pesadas e uma máscara que cobria todo o rosto, uma espécie de capacete estilizado, com visor espelhado, escuro como tinta fresca. Nenhuma pele à mostra. Nenhuma brecha.
Era... quase desumano.
E ele vinha direto para o carro. O carro que eu estava cuidando.
Senti meu corpo congelar antes que minha mente processasse. O mesmo frio na espinha de quando você sente perigo e não sabe de onde vem. Me afastei sem perceber, um passo pequeno, mas automático. Os olhos — ou o que quer que estivesse atrás daquela máscara — se voltaram na minha direção por um segundo. Só um segundo. Mas foi o bastante para me fazer segurar o ar nos pulmões.
Ele não falou nada. Não acenou. Só abriu a porta do carro como se o mundo ao redor não importasse. Entrou. Fechou. E então o motor rugiu com um som gutural, cheio de raiva contida.
Eu ainda estava parada a poucos metros, com o coração batendo alto demais no peito, tentando entender o que, exatamente, tinha acabado de acontecer.
— É ele — murmurou uma das garotas da equipe ao meu lado, quase em reverência. — O Raven.
Não sei o que respondi. Talvez nada. Porque tudo que eu conseguia pensar era no peso daquele olhar invisível sobre mim. E em como aquele homem, completamente coberto e mudo, conseguiu me fazer sentir mais exposta do que nunca.
As luzes da pista acenderam em estalos. A primeira corrida da noite estava prestes a começar.
E ele estava indo pra ela.


Capítulo 7 - Drinks e problemas de confiança

It's like your eyes are liquor
It's like your body is gold
You've been calling my bluff on
All my usual tricks - End Game



empurrou o copo pela bancada até ela. O líquido era âmbar, com gelo tilintando preguiçosamente dentro.
— Primeira lição: aceita o drink, não pergunta o que tem dentro. Confiança é moeda forte por aqui.
— E se eu morrer?
— Vai morrer sorrindo. Ou desmaiada. O que, sinceramente, às vezes é um upgrade.
Provei. Queimava na medida certa. Um toque doce no final, meio cítrico. Melhor do que eu esperava. Franzi os lábios, surpresa.
— Ok… ganhou um ponto.
— Ganho pontos rápido. Me disseram que sou tipo febre: chega devagar e quando percebe já tá suando.
Odeio admitir, mas ri. Havia algo de leve nele. Não exatamente seguro, mas... confortável. E naquele lugar, onde tudo parecia denso, isso era raro.
— Você sempre flerta com as funcionárias novas?
— Só com as que têm cara de que vão embora antes do fim da noite.
Cruzei os braços, encarando. Não era possível que eu tivesse tanta cara de frágil assim.
— E o que te faz pensar isso de mim?
Ele se aproximou levemente. O rosto ainda com aquele sorriso, mas os olhos... eles tinham alguma coisa ali.
— Você está com os ombros duros. Os olhos varrem o lugar como se procurassem saída. E tá usando o copo como escudo, mas segura com força demais pra alguém que só tá bebendo.
Arfei, surpresa por dentro. Não por ele ter notado, mas por ter acertado. Olhei em volta, sem saber o que responder de imediato.
— Boa leitura.
— Costumo acertar. É útil quando metade dos caras aqui resolve que a melhor forma de resolver a noite é quebrar uma cadeira na cabeça do outro.
— E você? Qual sua história aqui?
Ele deu de ombros, desviando o olhar por um instante.
— Eu sirvo drinks. Luto quando preciso. E dou conselhos ruins de graça. É um combo irresistível.
Antes que eu pudesse retrucar, um barulho alto ecoou do fundo do galpão. Metal contra metal. A multidão começou a se agitar.
olhou por cima do ombro.
— Parece que o show vai começar.
— Corridas?
— Mais do que isso — respondeu, pegando um pano e limpando as mãos. — É noite de Raven.
O nome pareceu carregar um peso estranho. As pessoas começaram a se virar. O clima mudou.
— Já que você o conhece bem, aparentemente, me diz, quem é Raven? — perguntei.
se inclinou de novo, dessa vez sem sorriso.
— Ele não fala com ninguém. Não tira a máscara. Ninguém sabe o nome verdadeiro, só que corre como se estivesse fugindo de algo que vai alcançar se ele parar.
Arrepios. Exatamente o que a pensou na noite em Fresno.
— E ele corre hoje?
— Sempre corre. Mas quando ele aparece… ninguém respira até a largada.
Admito, fiquei curiosa.
— Se for curiosa, vai lá ver. Mas não se aproxima muito. Esse lugar já queima sem ajuda de gasolina.
Assenti, quase sem pensar. Empurrei o copo de lado e comecei a andar. Sem saber exatamente por quê. Talvez eu só quisesse ver o tal Raven. Ou talvez eu só não quisesse ficar parada, como sempre fiquei.
Enquanto me afastava, ouvi dizer atrás de mim:
— Boa sorte com isso.
E mesmo assim, o que me arrepiou não foi só ele. Foi o que vi logo ao lado.
. Ela estava ali, vestida com o uniforme da equipe, perto de um dos carros. Os olhos fixos nele. Não como todo mundo, que olhava com idolatria, com excitação. Não. Ela parecia tensa. Quieta. Pequena demais diante daquela presença.
E então ela deu um passo pra trás.
Só um. Mas foi o suficiente. Eu conhecia aquele gesto. O corpo dela falou por ela antes que ela pudesse disfarçar. E o jeito que ela olhava pra Raven… era como se reconhecesse alguma coisa nele. Como se sentisse o perigo antes mesmo do motor rugir.
O som aumentou. As luzes começaram a piscar. E tudo em mim ficou em silêncio. Eu continuei olhando. já não estava mais à vista. E por algum motivo, isso me preocupou.

Voltei pro bar, mas a cabeça ficou na pista. O barulho dos motores ainda ecoavam nos meus ouvidos, como se meu corpo estivesse preso em outra frequência. tinha se afastado logo depois daquilo, sumido de vista, e por mais que eu quisesse ir atrás dela, não saberia onde procurar.
me recebeu com um sorriso torto e uma garrafa na mão.
— Fugiu da função? Isso dá suspensão, sabia? — disse, jogando uma cereja num copo que claramente não precisava de uma.
— Tô em treinamento, lembra? Tenho direito a cinco minutos de choque cultural — respondi, subindo no apoio atrás do balcão.
Ele riu. Mas era diferente daquela gargalhada fácil de antes. Menos leve. Ou talvez eu só estivesse mais atenta agora.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, sem parar de mexer as garrafas, mas com os olhos em mim.
— Acho que sim. Só… — hesitei, olhando pro fundo do copo como se tivesse alguma resposta lá. — Aquilo foi intenso. O Raven, a corrida, a forma como todo mundo… muda quando ele aparece. E a parecia… sei lá, diferente. Você conhece ele?
Ele levou mais tempo do que devia para responder. Longo o suficiente pra me fazer notar.
— Todo mundo aqui conhece o Raven — respondeu por fim, com um encolher de ombros casual demais pra ser sincero. — Ele é o cara que todos querem vencer e ninguém consegue.
— Mas ninguém sabe quem ele é? Tipo… ninguém mesmo?
sorriu de canto, aquele sorrisinho que diz tudo e nada ao mesmo tempo.
— Se soubessem, o mistério ia perder a graça, não acha?
— Ou ia fazer muita gente tremer — provoquei, tentando forçar um pouco.
Ele parou de limpar o copo por um segundo.
— Talvez. Mas, sinceramente? Algumas máscaras protegem mais do que escondem.
Fiquei em silêncio, encarando ele. Não era só charme. Tinha alguma coisa ali. Algo mais fundo do que o brilho nos olhos.
— E você? Vai me dizer quem você é de verdade ou também tá de máscara? — perguntei, tentando inverter o jogo.
— Eu? — Ele riu, voltando a se mexer. — Eu sou só o barman.
Mentira. Mas ele fazia parecer verdade com uma facilidade irritante.
Tomei um gole da bebida que ele deslizou pra mim e decidi não apertar mais. Por enquanto.
Mas uma coisa era certa: se o Raven era um enigma, era o tipo de pessoa que escondia as respostas atrás de um sorriso. E eu ainda ia descobrir o que ele estava protegendo.
Fiquei ali, atrás do balcão, observando as pessoas passando, rindo, dançando, como se todo aquele caos fizesse sentido pra elas. Talvez fizesse. Pra mim ainda era tudo barulho e disfarce.
voltou a preparar mais um drink, e eu só fiquei olhando. Ele se movia como se tivesse nascido ali, como se aquele lugar o aceitasse sem questionar. Eu invejava isso. Essa facilidade que algumas pessoas têm de caber nos espaços, e de fazer os espaços se moldarem a elas.
Eu nunca tive isso. Sempre fui a peça torta do quebra-cabeça. A filha adotiva que tentava ser grata o tempo todo, mesmo quando aquilo doía mais do que ajudava. A irmã que não conseguiu impedir uma tragédia. A garota que carrega o nome como uma piada, quando tudo que sentia era derrota.
Mas ninguém aqui sabia disso. E, por mais estranho que pareça, isso me dava poder. Aqui, eu podia ser só… eu. Ou talvez outra versão de mim. Uma que ria alto, que flertava com um barman bonito e que não se desculpava por existir.
Olhei pra de novo. Ele pegava uma bandeja com garrafas e entregava para uma garota mais nova do outro lado do balcão. Sorriu, brincou, fez alguma piada que a fez rir alto. E, mesmo com tudo isso, seus olhos voltavam sempre para mim.
Como se estivesse de olho. Como se esperasse algo. Suspirei. Talvez eu também estivesse esperando algo. Mas não era amor. Nem um conto de fadas. Eu não acreditava mais nessas coisas. Se havia algo que aprendi na marra, era isso: confiar em alguém pode ser um convite para se despedaçar. E eu já tinha cacos demais pra juntar.
Por algum motivo, aquele bar suado, barulhento, com cheiro de gasolina e cerveja barata, me parecia mais honesto do que muita coisa que vivi. E … ele me olhava como se não visse meus pedaços quebrados, ou talvez visse e não ligasse.
Talvez fosse isso que me deixava desconfortável.
Porque parte de mim queria acreditar de novo. E a outra, a que aprendeu a fugir antes que doesse, já ensaiava a próxima saída.
Mas eu ainda estava ali.
E isso, pra mim, já era muita coisa.


Capítulo 8 - Onde a vida nos olha com carinho

One touch and you got me stoned
Higher than I've ever known
You call the shots and I follow
Sunrise but the night's still young
No words, but we speak in tongues
If you let me, I might say too much - Off My Face



Meus passos ecoavam nos corredores estreitos dos fundos enquanto tentava normalizar a respiração. O som das corridas ainda vibrava no concreto, como um eco distante que teimava em me puxar de volta.
Mas eu não conseguia.
Assim que ele passou por mim, paramentado, máscara cobrindo o rosto, corpo tenso e preciso como se carregasse chumbo nas veias, tudo congelou. O mundo perdeu som, forma, chão. Meus pés se moveram sozinhos, levando-me para longe da pista como se meu corpo soubesse que não aguentaria ficar.
E agora eu estava aqui, andando sem rumo pelos bastidores do galpão, tentando colocar um nome no que tinha sentido.
Medo?
Não exatamente. Era algo mais profundo. Um tipo de vertigem. Como se olhar pra ele fosse me puxar pra algum lugar onde eu não queria cair. Como se algo nele gritasse perigo... e familiaridade.
Me encostei em uma pilastra de ferro, fechei os olhos e inspirei fundo soltando o cabelo do coque. Eu não vim até aqui pra fugir de novo. Eu fugi pra viver. Pra me encontrar. E talvez, encarar o desconhecido fizesse parte disso.
Eu precisava decidir se aquilo era medo ou instinto. Se aquele arrepio era sobre o que eu vi... ou sobre o que senti. Fechei os olhos mais uma vez. "Você não veio até aqui pra fugir de novo", repeti. E fui.
Com um último impulso de coragem, voltei para o salão principal.
A música me envolveu como uma onda morna. As luzes vermelhas, os risos, o cheiro forte de álcool e gasolina, tudo parecia mais suportável agora. Caminhei devagar até o bar, desviando dos grupos de pessoas que vibravam com a corrida que eu não vi terminar.
estava encostada no balcão, com um copo na mão e um sorriso que não era o de sempre, era mais relaxado. Mais... leve. Como se, por algum milagre, ela também tivesse se encontrado em meio ao caos.
Ela me notou se aproximando e arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Sumiu no meio da corrida. Não achei que fosse do tipo que foge.
— Nem eu — murmurei, me apoiando na bancada em sua frente. — Mas aquele piloto... Raven... ele me tirou o ar.
riu, tomando um gole da bebida.
— É, parece que ele tem esse efeito. E você perdeu uma bela exibição. Parecia que estava lutando com os demônios no volante.
— Talvez estivesse. — Olhei em volta. — E você? Trabalhando ou flertando?
Ela sorriu com o copo ainda nos lábios, mas não respondeu de imediato. Bastou seguir seu olhar até o outro lado do balcão para encontrar o motivo da mudança em seu rosto: um dos bartenders, alto, bonito, cabelos pretos e olhos azuis cheios de energia. Ele lançava um sorriso cúmplice em nossa direção antes de voltar a girar uma garrafa entre os dedos.
— Ah... entendi. — Falei com um meio sorriso. — Flertando enquanto trabalha.
— disse ela, como se o nome fosse um segredo que ainda estava se acostumando a dizer em voz alta. — É impossível ignorar esse cara.
— Ele sabe?
— O quê?
— Que você também é impossível de ignorar?
Ela me olhou, surpresa, depois riu.
— Eu senti sua falta — disse, sincera, e pousou a mão sobre a minha por um instante. Um gesto pequeno, mas cheio de significados.
— Também senti a sua — respondi, engolindo em seco. — Mesmo tendo sido só algumas horas... parecia mais.
Ela assentiu. No fundo, ambas sabíamos que aquele lugar, aquelas pessoas, estavam começando a mexer com a gente. E por mais assustador que fosse, talvez fosse isso que a gente precisava. Ser desafiadas. Ser vistas.
Ser sentidas.

Enquanto pedia mais uma bebida, após nosso expediente, “a última da noite, eu juro”, meu olhar se perdeu no movimento do galpão. As pessoas começavam a dispersar, algumas se reuniam perto dos carros, outras celebravam vitórias e perdas com o mesmo entusiasmo embriagado.
Do outro lado da multidão, encostado em uma das colunas de concreto, com os braços cruzados e a expressão dura, estava ele. .
Por um momento, nossos olhares se cruzaram. Ou talvez fosse só impressão.
Dessa vez ele desviou rápido, empurrando-se da coluna e desaparecendo entre os corredores internos. Como se nunca tivesse estado ali.
— Esse é o mecânico do Raven, né? — perguntou ao meu lado, me entregando um copo de água com limão.
Assenti, ainda com o coração acelerado.
.
— Hm. Tem cara de quem já matou alguém com as próprias mãos e depois voltou pro turno. — Ela tomou um gole e ergueu a sobrancelha. — Você tá vermelha. Tá tudo bem?
Soltei uma risada abafada, balançando a cabeça.
— Tô tentando entender o que aconteceu hoje. Tô me sentindo... viva. Assustada, mas viva.
— A gente tá onde devia estar. — Ela me deu um leve empurrão no ombro. — Eu senti isso também. Como se, pela primeira vez, a vida não estivesse passando por cima da gente... mas olhando na nossa direção.

Saímos juntas do galpão, atravessando o pátio de asfalto rachado. O vento da madrugada aliviava o calor acumulado da noite. Estávamos suadas, exaustas e completamente despertas.
— Você gostou dele — ela comentou, depois de alguns passos em silêncio.
— Do Raven?
— Não. Do .
Eu a encarei, surpresa, mas ela só deu de ombros.
— Você olha pra ele como quem tá tentando não se afogar.
— E você pro como quem quer mergulhar de cabeça.
Ela sorriu, cúmplice.
— Eu vou ter que concordar com você, . — Ela fez uma careta exagerada — Tem muito homem bonito por metro quadrado nesse lugar. Acho que meu celibato involuntário também está com os dias contados.
Soltei uma gargalhada, abafando o som com a mão.
!
— Ah, pelo amor de Deus, amiga, você nos viu nos últimos meses? Estávamos parecendo duas freiras de convento em retiro espiritual. E você também, com essa sua cara de "sou racional e centrada", mas quase babando no mecânico mal-humorado que nem sabe sorrir.
— Ele sabe sorrir — retruquei, antes de pensar.
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Sabia! Já reparou. Tá perdida.
Revirei os olhos, mas não consegui segurar o sorriso.
— E o ? Vai fingir que não percebeu que ele não tirou os olhos de você a noite inteira?
— Eu? Eu vou fazer de conta que sou só mais uma funcionária exemplar do bar, que por acaso sabe como segurar uma coqueteleira. — Ela piscou. — Mas entre nós... se ele me chamar pra sair, eu não vou fingir surpresa.
— Você acha que ele vai?
, ele me chamou de "realeza" com aquele sorriso. Se não me chamar pra sair, eu demito ele da minha fantasia de verão.
Rimos juntas, como se o mundo estivesse um pouco menos pesado do que na manhã anterior. Ali, encostadas no capô de um carro enferrujado, com os cabelos bagunçados e os olhos ardendo de cansaço e adrenalina, eu senti que estava exatamente onde queria estar.
E com quem eu precisava.
— Agora falando sério — Comecei olhando em volta e notando que o lugar estava praticamente vazio — Como vamos embora? Eu tenho certeza que nenhum táxi vai chegar até aqui.
— Puta merda… o Tino nem para nos dar uma carona — falou abraçando o próprio corpo.
— Perdidas? — Uma voz falou e eu olhei para o lado para ver de quem se tratava.
, né? Prazer, , melhor amiga da . — Estendi a mão para cumprimentá-lo.
— Prazer, . falou bastante de você hoje.
— Só coisas boas, imagino. — Sorri e revirou os olhos.
— Eu sei que mal nos conhecemos — começou — Mas poderia nos dar uma carona?
— Infelizmente, gatinha, eu tenho apenas um lugar para você. — Ele piscou e eu abri a boca pronta para reclamar — Mas meu amigo aqui — apontou para um carro que passava por nós. O carro era verde e tinha chamas pretas nas laterais. O motorista parou assim que viu . — Pode ajudar as duas donzelas.
Assim que o vidro abaixou, pude ver o motorista misterioso. .
, consegue dar carona para as meninas? Eu estou só com a moto. — Ele olhou para mim, como quem estivesse se explicando. — E tenho quase certeza que não vai deixar a amiga para andar de moto comigo.
— Ainda bem que tem um cérebro pensante nessa cabecinha bonita — falou desencostando-se do carro e se aproximando de .
— Então você me acha bonito? — perguntou sugestivo.
— Ah, pelo amor de Deus! Chega com esse flertezinho de quinta de vocês. — Interrompi. — Por favor, , se você puder nos levar até o hotel vai ser ótimo. Ainda não conhecemos nada na cidade e nem temos meios de transporte.
— Claro, podem entrar — disse destravando o carro. — Depois a gente conversa — falou para e arrancou antes que o menino pudesse responder.
— Esse carro é muito bonito — comentou maravilhada.
— Obrigado — respondeu olhando para ela pelo retrovisor.
Após explicar onde o nosso hotel ficava, ficamos em silêncio. Um silêncio constrangedor, diga-se de passagem.
— Então… — começou — , você e o são amigos há muito tempo?
— Desde que comecei a trabalhar no submundo. Há 6 anos — ele respondeu, sério, não abrindo margens para mais questionamentos. Graças a Deus logo chegamos e pudemos finalmente acabar com essa torta de climão.
— Obrigada pela carona — falei descendo do carro. — Nos vemos por aí.
— Certamente não tirarei meus olhos de você — ele respondeu.
— O quê?
— Ué, fico de chefe quando a Migs não pode. O que você entendeu?
— Nada. Tchau. Boa noite. — Me apressei em responder e virei as costas indo de encontro com que me esperava na porta do hotel.
— O que foi isso? — Ela sussurrou.
— Eu não sei. Entra. — E só depois que a porta fechou que ouvimos o motor do carro roncar.
No corredor do hotel, virou pra mim com um olhar debochado.
— Então... o mecânico mal-humorado não vai tirar os olhos de você? É isso mesmo?
— Ele tava falando do trabalho — falei rápido, tentando soar indiferente.
— Aham. E eu sou a nova piloto da Fórmula 1.
Revirei os olhos, destrancando a porta do quarto.
— Você quer dormir ou quer apanhar?
— Quero saber como você vai lidar com um chefe sexy te observando enquanto você serve bebida pra playboy com dinheiro sujo. — Ela jogou a bolsa no chão e se jogou na cama com um suspiro teatral. — Isso vai ser divertido.
— Eu vou lidar muito bem, obrigada. Profissionalismo é meu segundo nome.
— Claro. " Profissionalismo ", totalmente imune a olhos castanhos, mandíbula marcada e voz de comando.
Me joguei na outra cama com um travesseiro cobrindo o rosto.
— Posso pedir transferência pro bar?
— Não, querida. Lá já tem uma dona.
Tirei o travesseiro do rosto e encarei o teto.
— A gente tá ferrada, né?
— Completamente. — Ela respondeu rindo. — Mas pelo menos tá divertido.
— E perigoso.
— Como toda boa história.
Por um segundo, ficamos em silêncio. Mas não era o silêncio tenso de antes. Era aquele confortável. Tipo quando você sabe que, apesar de tudo, está exatamente onde devia estar.
— Boa noite, Profissionalismo .
— Boa noite, "Vou dar em cima do até ele me pedir em casamento" .
— Já tá se tornando um plano.
Sorri, fechando os olhos. Amanhã será outro dia. E dessa vez, eu estarei pronta pra ele.


Capítulo 9 - Manual prático de sobrevivência entre marmanjos

We never painted by the numbers, baby
But we were making it count - The 1



O loft era uma bagunça funcional. Uma mistura de oficina abandonada e lar improvisado, bem do jeito que a gente precisava, sem perguntas, sem luxo, só espaço pra respirar entre uma noite e outra. Tijolo à mostra, vigas de ferro antigas cruzando o teto alto, um sofá puído que já tinha aguentado mais rounds do que eu, e uma mesa de madeira onde o vivia desmontando o que quer que fosse que estivesse quebrado.
A cozinha era praticamente um canto com uma geladeira barulhenta, uma pia entupida e três panelas que ninguém sabia usar. Eu vivia dizendo que aquilo parecia um cenário de filme de luta underground. dizia que era só o preço da liberdade.
Joguei o capacete sobre a bancada e afundei no sofá, com os músculos gritando depois da última luta. A luz quente das luminárias penduradas deixava tudo com cara de madrugada que nunca acaba. Do fundo, ouvi o barulho do chuveiro.
Peguei uma cerveja velha da geladeira e voltei pro sofá. A TV estava ligada no mudo, passando algum jogo irrelevante. Eu só queria silêncio. Ou melhor, silêncio por fora. Porque por dentro, o nome dela ainda martelava na cabeça.
. Pensei que tinha morrido e ido para o céu quando vi ela andando em direção ao bar com aquela legging apertada marcando os lugares certos, por um segundo, esqueci como respirar. Parando para analisar agora, acho que pareci meio bobo, mas, definitivamente, mexeu comigo com aquele jeito debochado e aquele sorriso fácil que parecia dizer "eu te conheço" mesmo sem saber nada de mim. Merda. Era só uma garota. Bonita, sim, esperta até demais, mas ainda assim... só uma garota. Certo?
Eu tentei tirar a imagem da da cabeça, mas era inútil. Ela ria como se não tivesse medo, falava como se o mundo ainda fosse bonito. E, merda, às vezes eu acreditava nisso só de olhar pra ela.
O barulho do chuveiro parou e saiu do corredor com o cabelo molhado, camiseta escura grudando no peito e aquele olhar de sempre, como se o mundo tivesse peso demais e ele fosse o único tentando carregá-lo com as mãos sujas de graxa.
— A gente precisa consertar o registro do chuveiro — falei, só pra quebrar o silêncio.
— A gente precisa de mais toalhas. Você usou a minha de novo — ele rebateu, seco.
Dei um meio sorriso, girando a garrafa na mão.
— Você não ia usar mesmo.
Ele não respondeu. Só foi direto pra bancada, mexendo em alguma peça de motor que ninguém pediu pra consertar. Era o jeito dele de calar o mundo: desmontar alguma coisa e fingir que não estava sentindo nada.
Mas eu conhecia esse cara.
— E então… — soltei. — A loira.
Nada.
. Você viu o jeito que ela olhava pro galpão? Como quem decora as saídas antes de respirar?
não ergueu o olhar. Mas parou por meio segundo.
— Você mal falou com ela — ele respondeu.
— E você olhou pra ela como se tivesse levado um soco no estômago. Dos bons.
Dessa vez ele largou a ferramenta, mas ainda evitava encarar. Sorri, porque às vezes o silêncio dele dizia mais que qualquer confissão.


falava como quem não liga pra nada, mas enxergava mais do que deveria. O problema é que ele via até o que eu tentava esconder.
. Ela não combinava com aquele lugar. E ainda assim... fazia sentido. Como se estivesse buscando alguma coisa que nem ela sabia o nome. Algo que eu também buscava, mas já tinha desistido de encontrar. Eu me lembrava dela, a vi na noite de Fresno, senti meu mundo parar enquanto ia em sua direção e hoje levei um susto quando a vi de novo, ainda mais bonita que aquele dia, menos assustada. As pernas à mostra e os longos cabelos loiros lisos fizeram eu me perder do mundo, não conseguia tirar os olhos, ela acendeu algo em mim que estava morto a muito tempo.
— Ela é só mais uma garota tentando pagar as contas — falei, voltando pra peça como se ela fosse urgente, ignorando meus pensamentos.
— Hmm. Claro. Porque você vive muito interessado em garçonetes e rostos bonitos. Me engana que eu gosto.
Ignorei.
— Distração custa caro. Você devia saber disso melhor que ninguém.
— Distração não é a mesma coisa que destruição, . Uma coisa te tira o foco. A outra te afunda porque você já tava indo pro fundo antes.
— Distração custou minha carreira. A reputação da minha família. A porra da vida que eu levei anos construindo.
O silêncio veio pesado depois disso. não rebateu. Só deixou as palavras pairarem ali, entre os tijolos frios e os fantasmas que nunca saíam do lugar.
Andei até a janela. A vista dali dava pra um beco, mas era alta o suficiente pra ver as luzes distantes da cidade. Era o tipo de lugar onde a gente podia sumir sem desaparecer de verdade. Era seguro. Anônimo.
Mas ela…
Ela me viu.
No meio da multidão, dos sons, dos disfarces. me viu. E isso me deixava mais exposto do que qualquer corrida.
— Eu não quero me envolver — disse, sem olhar pra ele.
— Você já está envolvido. Só ainda não percebeu.

O sol começava a invadir as janelas do nosso loft, aquele espaço meio improvisado que dividimos. Paredes com marcas das nossas batalhas, equipamentos espalhados, o cheiro de óleo e café forte. O dia ia começar, e a rotina do submundo precisava continuar.
já estava acordado, com os olhos focados enquanto arrumava as luvas. Hoje ele tinha uma luta importante, uma daquelas que podem mudar tudo pra ele. Eu admirava o jeito que ele se entregava, aquela vontade de provar algo mais, fugir do passado, como eu.
Enquanto eu mexia no motor do carro no canto da garagem que virou meu laboratório, pensava na corrida da noite passada. No medo que vi nos olhos dela quando passou por mim, naquela tensão que eu não consigo evitar.
— O que vai fazer hoje? — perguntei sem olhar pra ele.
— Treinar até a luta. Preciso estar no meu melhor. — Ele ergueu o olhar, firme. — Não posso errar.
Eu entendi. Cada soco que ele dava era como se tentasse golpear os fantasmas que carrega.
— Eu vou testar algumas mudanças no carro. Se quiser, pode dar uma olhada depois.
Ele sorriu meio desconfiado, mas aceitou.
O dia prometia ser longo, cheio de barulho de motor, suor e talvez alguma resposta que ainda não encontramos.
E mesmo com tudo isso, a presença dela, , já mexia comigo de um jeito que eu não estava pronto para admitir.


Capítulo 10 - Caos generalizado

I'm a young lover's rage
Gonna need a spark to ignite - My Songs Know What You Did In The Dark



Acho que, com o tempo, a gente se acostuma a quase tudo.
O barulho dos motores, o cheiro de fumaça e graxa, a música alta que vibra até o osso, e até mesmo o jeito como as luzes piscam como se o mundo fosse um eterno sábado à noite. No começo, parecia outro planeta. Agora… é só a nossa rotina.
Faz um mês desde que eu e chegamos aqui. Um mês desde que nossa fuga terminou com uma caminhonete velha parando no meio do nada e duas figuras estranhas oferecendo uma carona que, por algum motivo, decidimos aceitar. Desde então, vivemos no submundo — no começo pensei que fosse só um jeito de chamar a parte ilegal da cidade, mas Davi me explicou que era como encontrávamos uns aos outros fora dali, uma forma de reconhecer e pertencer — ou pelo menos na parte dele que se esconde entre corridas ilegais, lutas clandestinas e dinheiro rápido.
O galpão onde tudo acontece funciona como uma cidade dentro da cidade. Tem regras próprias, uma hierarquia meio silenciosa e gente de todo tipo — dos que só aparecem pra apostar até os que praticamente moram ali. É dividido entre dois lados: o da corrida, comandado pela Migs, e o da luta, onde um cara chamado Davi organiza os combates e cuida das apostas. Reyna comandava tudo, mas quase não aparecia, estava sempre tentando manter as coisas sob controle do lado de fora.
Eu fiquei com o bar, o que me rende uma boa visão de tudo que acontece no ringue. Sirvo bebida, escuto conversa, observo mais do que falo. , por outro lado, trabalha do lado das corridas, com o pessoal VIP. Serve drinks, organiza a área de apostas e checa a lista de presença. Não é o trabalho dos sonhos, mas a gente recebe em dinheiro vivo e ninguém faz perguntas.
Nosso primeiro mês rendeu uns oitocentos dólares para cada uma. Nada que vá nos tirar daqui, mas o suficiente pra sonhar com um canto só nosso. Estamos de olho numa casa velha afastada do centro da cidade, o aluguel é mais barato e é mais perto do lado da cidade na qual o submundo pertence, pequena, com azulejos rachados e uma vista terrível, mas é nosso tipo de luxo, por enquanto.
Eu ainda desenho e, modéstia a parte, estou cada dia melhor, e redescobriu o talento para a dança e a garota é fenomenal, chama a atenção toda vez que decide mostrar seu talento na pista.
Quanto aos meninos… bom, eles são um capítulo à parte.
é o mais fácil de ler. Carismático, engraçado, debochado, sempre com uma resposta pronta e um sorriso cínico no canto da boca. Disse que só lutava de vez em quando, por necessidade. Mentira descarada. Demorou pouco para descobrirmos que ele é o lutador de Fresno, , conhecido no circuito clandestino por derrubar caras com o dobro do tamanho dele. Ele treina todos os dias como se o mundo dependesse disso. Hoje tem uma grande luta, e ele está mais concentrado do que nunca. Finge que está tranquilo, mas eu vejo nos olhos dele: ele sente o peso. E carrega calado.
... é mais complicado. Trabalha no carro do Raven, o piloto mascarado que ninguém realmente conhece. O em si vive de cara limpa, mas mesmo assim mantém certa distância. Ele é metódico, preciso, sempre ocupado com alguma coisa que ninguém mais entende. Tem um jeito de observar sem se envolver, como se sempre estivesse um passo fora de tudo. A verdade é que ninguém fala muito sobre o passado dele, e ninguém se atreve a perguntar. A galera do galpão parece saber quem ele é — ou foi — mas ninguém comenta. Nem mesmo entre sussurros.
Pra mim e pra , ele é só o mecânico fechado que vive no limite entre o rude e o protetor. Às vezes, ele fala com a . Curto, direto, como se as palavras pesassem. Ela tenta puxar conversa, provocar. Ele responde com silêncio ou com um olhar que diz mais do que qualquer frase. Não sei o que está acontecendo ali, mas sinto que tem alguma coisa.
Eu e também temos… algo. Não sei o que é, mas está lá. Um jogo constante entre provocação e curiosidade. Não quero me envolver. Mas a verdade? Acho que já estou envolvida até o pescoço, toda vez que olho para aqueles olhos azuis o meu coração trava.
Por enquanto, nosso elo é a sobrevivência. Eu, , e , cada um lidando com os próprios fantasmas, fingindo que não vê os dos outros. A intimidade ainda é superficial, mas o convívio constante cria laços invisíveis. Como cordas puxando todos para mesma direção, mesmo que ninguém saiba exatamente qual.
Agora, o sol já se pôs e o galpão começa a despertar de novo. Daqui a pouco, as corridas vão começar, o bar vai lotar, e o ringue vai se encher de sangue e apostas. A mesma rotina de sempre. Mas, estranhamente, essa rotina tem nos dado alguma forma de segurança.
Luzes vermelhas dançavam no teto de zinco, e a fumaça de cigarro misturada ao cheiro de pneu queimado criava um clima de urgência. O galpão parecia respirar, como um bicho vivo — cheio de músculos, metal e dinheiro sujo.
As vezes eu me permito esquecer que estivemos em fuga, de certa forma ainda estamos, deixo-me acreditar que encontrei meu lugar no mundo. Meus pais nunca mais entraram em contato e eu tenho um milhão de cartas não enviadas em uma caixa embaixo da minha cama. Não pergunto para como ela se sente em relação ao padrasto, mas percebo que está mais leve e feliz, começou a dançar e de vez em quando se apresenta no palco. Vamos manter a vida desse jeito, é o suficiente. Pelo menos por enquanto.

As luzes começaram a acender uma a uma, banhando o galpão com aquela cor âmbar que deixava tudo mais irreal. Era como se o mundo lá fora sumisse quando isso aqui ganhava vida. O som dos motores ecoava do lado das corridas, mas aqui, no lado do ringue, era o barulho dos copos, das fichas de apostas e das vozes se sobrepondo que preenchia o ar.
Eu amarrei o avental atrás da cintura, prendi o cabelo num coque meio torto e comecei a organizar as garrafas no balcão. O Davi passou por mim com a prancheta na mão, riscando nomes, murmurando ordens para os seguranças.
— Tá bonita hoje, . — ouvi falar do outro lado do bar.
Revirei os olhos sem conseguir segurar um sorriso.
— Você fala isso toda noite.
— Porque é verdade toda noite.
Ele estava encostado no balcão, já vestido com o moletom escuro e a fita de tecido enrolada nas mãos. O cabelo um pouco úmido do banho recente, os olhos azuis com aquele brilho de provocação que ele usava como escudo. Mas hoje tinha algo mais ali. Uma tensão no maxilar, um silêncio que vinha depois das piadas. Era noite de luta. E por mais que ele escondesse bem, eu sabia que aquilo mexia com ele.
— Tá nervoso? — perguntei.
Ele deu de ombros.
— Um pouco. Mas é bom. Me lembra que eu tô vivo.
Pousei o pano de limpeza e encostei os cotovelos no balcão, me inclinando um pouco.
— Você é bom nisso, .
— Isso é o problema.
Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer com aquilo, o alto-falante anunciou o início das apostas e ele se afastou, indo em direção ao ringue para os últimos ajustes. Fiquei com aquele comentário ecoando na cabeça.
No lado oposto do galpão, a já estava de pé na área VIP das corridas, com o cabelo preso num rabo de cavalo alto e um tablet nas mãos, conferindo os nomes da lista. Ela fazia aquilo parecer fácil — lidar com ricaços suados de adrenalina, atender pedidos, sorrir e manter o controle mesmo quando tudo parecia desmoronar.
Foi então que vi , de costas, com as mãos sujas de graxa, abaixado ao lado do carro preto fosco do Raven. Ele mexia em algo no motor, os movimentos rápidos e precisos. Mesmo ali, no meio do caos, ele parecia isolado. Não falava com ninguém. Nem quando outro mecânico passou perto e comentou algo, ele respondeu. Só ergueu os olhos por um segundo… e olhou direto na direção da .
Ela percebeu. Eu vi. Mas fingiu que não viu.
A tensão entre os dois era quase cênica. Não havia troca de palavras, nem aproximação direta, só olhares rápidos, gestos involuntários, silêncios que duravam um segundo a mais do que deviam. A não sabia quem ele era. E, pelo que entendi, preferia assim. Mas eu via algo ali. Uma faísca. Daquelas que acendem devagar antes de incendiar tudo.
Voltei ao bar, respirando fundo. A música começou a subir. Os apostadores chegavam, o movimento crescia. Era só mais uma noite no submundo. Mas havia algo diferente no ar.

A multidão se acumulava em volta do ringue, formando aquele círculo apertado que parecia pulsar junto. Eu já sabia o que viria. Gritos, apostas, suor, sangue. E o nome dele ecoando em meio aos sons abafados.
.
Não o cara que “luta de vez em quando”, como ele me disse no primeiro dia. Ele era o nome mais falado ali. Um tipo de lenda local, com uma sequência de vitórias que fazia os apostadores enlouquecerem.
Eu me encostei no balcão e observei. Ele entrou no ringue com aquele jeito despreocupado, os ombros relaxados, como se estivesse indo comprar pão. Mas eu sabia que ele estava longe de tranquilo.
Enquanto isso, do outro lado do galpão, ainda estava na área VIP, mas os olhos dela não estavam nos convidados. Estavam em .
Ele estava parado agora, encostado em uma pilastra com as mãos nos bolsos, observando o carro do Raven ser levado para o centro do galpão. desviou o olhar quando ele olhou de volta. Mas não rápido o suficiente. Eles se viram. De novo. E aquele silêncio entre os dois gritou no ar.
De repente, um barulho seco cortou a atenção de todos. Um estouro. Alto. De metal. O ringue ainda não tinha começado. A corrida também não. Mas o caos chegou antes do previsto.
— Alguém quebrou a grade da entrada lateral! — gritou um dos seguranças, correndo até Davi.
Eu larguei o pano que estava segurando e dei a volta no balcão, tentando ver melhor. correu na direção da porta lateral. se adiantou também, mas com uma calma estranha. Como se já soubesse o que estava por vir.
Um carro velho e amassado forçou a entrada, derrubando parte da estrutura metálica improvisada da entrada da lateral dos fundos. A multidão recuou, as apostas pararam. Por um segundo, ninguém soube o que fazer. Mas então, dois caras desceram do carro com passos firmes, como se tivessem certeza de que aquele era o lugar certo.
Um deles carregava uma corrente de metal.
— Isso aqui vai virar uma merda — murmurou , que havia descido do ringue e vindo para perto do balcão.
E virou.
Foi tudo rápido. Uma briga generalizada começou no canto oposto do galpão. Gritos. Cadeiras sendo jogadas. O som dos rádios dos seguranças falhando. atravessou o espaço entre os carros e o ringue num pulo, puxando para trás antes que ela se aproximasse demais. Eu me escondi atrás do balcão e vi se aproximando e me puxando pelo braço para longe dali.
— Fica atrás de mim! — escutei dizer para na minha última olhada para trás antes de sair para fora.
O submundo podia parecer organizado, com regras próprias e rotinas estabelecidas. Mas bastava um passo em falso — uma entrada errada, uma noite mal calculada — para tudo desmoronar.
E essa era só a primeira rachadura.


O caos explodiu antes mesmo que eu pudesse entender o que estava acontecendo.
Gritos. Correria. Um copo de vidro quebrando perto demais. As luzes piscavam com mais força, estroboscópicas, como se quisessem ofuscar a visão de propósito. Tudo parecia em câmera lenta, mas, ao mesmo tempo, rápido demais.
— Fica atrás de mim! — murmurou, firme, sem olhar pra mim. Não era um pedido.
Um dos seguranças voou sobre uma mesa perto de nós, derrubando bebidas e pessoas com ele. Alguém gritou um nome que não consegui identificar. A massa de corpos se movia como um mar em tempestade — socos, empurrões, gente caindo, outros tentando sair, alguns rindo, como se fosse só mais uma sexta-feira qualquer naquele mundo.
E ele ali. Parado.
era o único ponto fixo. Ombros retos, mandíbula travada, o olhar afiado como navalha. Ele mantinha o corpo ligeiramente à frente do meu, de modo que se alguém tentasse se aproximar, teria que passar por ele primeiro.
Eu já tinha o visto dirigir, sorrir de canto, discutir com mecânicos, ser charmoso. Mas nunca assim.
— O que tá acontecendo? — gritei, tentando me fazer ouvir no meio do barulho.
— Os caras vieram provocar. Sabiam que morderiam a isca. Estão tentando nos desestabilizar.
Olhei em volta, tentando encontrar ou , mas tudo que vi foi o rastro da pancadaria. Gente que provavelmente nem sabia por que estava brigando, mas entrou mesmo assim. Uma briga puxava outra, como um efeito dominó de raiva e ego ferido.
— A ! — soltei, tentando me mover.
me segurou com mais força, firme, sem machucar.
— Ela saiu com o . Estavam do outro lado quando começou. Ele vai tirar ela de lá. Confia em mim.
Um sujeito cambaleou na nossa direção, o rosto sangrando, camisa rasgada. deu um passo rápido e, com um movimento curto e preciso, o afastou com o braço, como quem afasta uma onda menor antes da grande chegar.
Ele não parecia tenso. Parecia calculado.
— Você já fez isso antes — falei, ofegante, mais uma constatação do que uma pergunta.
Ele não respondeu. Apenas me olhou, rápido, e depois desviou os olhos de novo, atento a tudo ao redor.
… quem são aqueles caras?
Ele hesitou. Foi sutil, mas eu percebi. Como uma rachadura pequena em um muro forte.
— São capangas de uma gangue da cidade, o filho de um dos chefes iria lutar com essa noite e, obviamente, perder, vieram provocar para que a luta não acontecesse, mas são burros, pioraram as coisas. Davi não vai deixar barato, muito dinheiro estava envolvido hoje.
— E você?
— Eu? — ele olhou pra mim, e por um instante, aquele véu que ele carregava nos olhos pareceu vacilar. — Eu só conserto carros.
Quis rir. E chorar. E perguntar mais.
Mas outro estouro nos interrompeu. Um banco de madeira voou a poucos metros de nós. olhou pra mim e fez o sinal com a cabeça.
— Vem.
Me puxou pelo braço, abrindo caminho entre a confusão com o corpo. Ele não batia em ninguém, mas todos pareciam entender que não era bom atrapalhar aquele homem. Gritava com os olhos. Carregava presença.
Saímos pela lateral do galpão, por uma porta estreita que dava para o estacionamento dos fundos. O ar lá fora estava seco e morno, cheio de poeira e cheiro de borracha queimada. Mas parecia respirar de novo.
— Você tá bem? — ele perguntou, e pela primeira vez, vi um traço real de preocupação em sua voz. colocou as mãos em mim, uma em cada braço e me olhava no fundo dos olhos, procurando qualquer deslize meu.
Assenti, ainda com o coração batendo na garganta.
— O que foi isso? Aqueles caras… por que todo mundo entrou na briga se sabiam que essa era a intenção deles?
— Porque ninguém quer parecer fraco. E porque, às vezes, aqui dentro, a violência é só uma desculpa pra extravasar o que o mundo inteiro já empurrou pra dentro. Mas, com certeza, haviam caras infiltrados com esse propósito, esperaram eles entrarem para serem a distração e começaram a brigar uns com os outros. Isso é uma merda! — Chutou uma lata que estava no caminho.
Fiquei em silêncio.
Ele tirou a jaqueta, passou pela minha frente e me ofereceu. Eu hesitei.
— Você está tremendo. Pega. — Ele não pediu. Só entregou.
Aceitei, encolhendo os ombros dentro dela. O tecido cheirava a óleo, perfume e alguma coisa indefinida que eu ainda não sabia nomear.
— Obrigada — murmurei.
— Vamos ir atrás do . Ele deve estar do lado contrário.
Assenti e me coloquei ao lado de , caminhando no escuro sem enxergar direito onde eu estava pisando.


Capítulo 11 - Vai se criando uma amizade incrível

These burning flames, these crashing waves
Wash over me like a hurricane
I captivate, you're hypnotized
Feel powerful, but it's me again - Middle Of The Night



A porrada foi instalada antes mesmo do primeiro soco oficial da noite.
A confusão começou num canto e se espalhou como fogo em campo aberto. Eu já tinha sentido no ar que algo tava errado — o silêncio tenso antes do barulho, o jeito que Davi apertava a prancheta, os olhares desviados. Mas quando o carro derrubou a grade e dois idiotas desceram de peito inflado achando que mandavam alguma coisa aqui, eu soube: merda à vista.
Vi a ainda atrás do balcão, tentando entender o que estava acontecendo. Alcancei ela antes que alguém acertasse uma cadeira por engano.
— Vem comigo. — disse baixo, firme. Ela não hesitou.
Atravessei o galpão empurrando gente com o corpo, desviando de cotoveladas e garrafas. Muita gente só entrou na pancadaria porque precisava de uma desculpa. E hoje, os caras tinham servido ela na porra de um prato de prata.
Saímos por uma porta lateral do ringue, um beco que dava pros fundos. Parei só quando tive certeza de que não tinha mais barulho perto. estava ofegante, mas inteira.
— Você tá bem? — perguntei, encostando as costas na parede, tentando desacelerar o coração. Ela assentiu, o coque torto e o olhar ainda em alerta.
— Isso foi... — ela começou, mas não terminou. Nem precisava. Eu sabia o que foi. Caos calculado. Teste de território. E um aviso: a paz aqui dura pouco.
Me abaixei um pouco, com as mãos apoiadas nos joelhos. O sangue ainda estava quente demais. Não por medo. Por raiva. Raiva por saber que quase colocaram ela no meio daquilo. Que ela podia ter se machucado.
Raiva por me importar. Raiva por não conseguir fingir que não ligo.
— Eles queriam desestabilizar tudo — falei. — Sabiam que eu ia lutar, que era dia grande. Se a briga geral começasse, a luta ia ser adiada. Dinheiro perdido, reputação suja, caos pro Davi resolver. Funcionou.
Ela encostou na parede ao meu lado, os braços cruzados, o peito subindo e descendo devagar.
— Você ia ganhar? — ela perguntou, sem olhar pra mim.
Soltei uma risada curta, sem humor.
— Eu sempre ganho. É isso que incomoda eles.
me olhou. Não disse nada por um momento. Depois se aproximou um pouco mais, o tom mais baixo, mais suave.
— E você gosta de ganhar?
Demorei. Porque a resposta era mais complicada do que sim ou não.
— Eu luto porque preciso. Ganhar… virou obrigação. Se eu perder, sou só mais um cara quebrado tentando pagar as contas com os próprios ossos.
Ela engoliu em seco.
— Você não é só isso — ela disse, e havia tanta convicção no olhar dela que eu tive que desviar os olhos.
O silêncio voltou, denso. Até que uma porta bateu e escutamos passos.
Instintivamente, me coloquei na frente dela, mas era o . Com a ao lado, uma mão segurava o ombro dela, como se estivesse impedindo-a de sair de perto dele, ela estava encolhida dentro da jaqueta dele.
Ele só olhou pra mim, e eu entendi tudo com aquele olhar. O caos estava só começando.
parou a uns dois passos, a mão ainda firme no ombro da , como se estivesse protegendo ela do mundo todo.
— A festa acabou. — ele disse.
Assenti, soltando o ar que nem percebi que segurava.
— Todo mundo inteiro? — perguntei, encarando a .
Ela acenou, a voz saindo baixa.
— Só um pouco zonza… mas nada que pizza e ar fresco não resolvam.
ergueu uma sobrancelha.
— Pizza?
— É, ué — ela respondeu, como se fosse óbvio. — A gente sobreviveu a um motim. Isso merece um queijo derretido.
deu uma risada, daquelas que saem quando o corpo tá cansado, mas o alívio bate forte.
— Se tiver refrigerante, eu topo.
Eu olhei pra elas, depois pro . Ele deu de ombros, o canto da boca subindo num meio sorriso.
— Conheço um lugar 24h. Ninguém vai ligar se a gente estiver suado, manchado ou meio amassado.

A lanchonete parecia saída de um filme velho. Banquinhos vermelhos rasgados, cheiro de batata frita no ar e um jukebox no canto que só tocava clássicos meio desafinados. As paredes eram cobertas por fotos de celebridades que provavelmente nunca pisaram ali e pôsteres de carros antigos com frases como "Drive fast, eat slow."
— Isso aqui parece saído de um filme dos anos 80 — comentou, empurrando a porta e entrando com aquele andar confiante de quem já viu coisa pior.
— Se for filme de terror, eu sou o que morre primeiro — murmurei.
bufou um riso pelo nariz. entrou logo atrás dele, os braços cruzados como se estivesse pronta para bater em alguém se a comida não fosse boa.
Sentamo-nos em um dos estofados vermelhos desbotado. O cardápio plastificado grudava um pouco nos dedos, o que eu achei levemente preocupante.
pediu uma porção de batata frita com bacon e queijo, como se não tivesse acabado de desviar de socos vinte minutos atrás. Eu fui de hambúrguer duplo com batata frita, porque se é pra esquecer o caos, que seja com gordura.
e escolheram a pizza mais exagerada do cardápio. Quatro queijos, borda recheada, extra pepperoni e duas Coca-Cola de cereja. Quando chegou, parecia que ela tinha saído direto do inferno, brilhando de óleo, fumegando, com um cheiro que fez todo mundo parar de falar por dois segundos.
— Isso pode matar alguém — comentei, encarando a fatia monstruosa que a colocou no prato.
— Provavelmente — ela respondeu. — Mas pelo menos morre feliz.
— Com o colesterol estourado — completou , pegando uma batata da minha porção com a maior cara de pau.
Empurrei o prato pro centro da mesa e cruzei os braços.
— Você tem dois segundos para devolver.
Ele mastigou devagar, provocando, e me olhou com um sorrisinho sacana.
— Que bom que a gente não tá contando.
riu alto, pegando o copo dela.
— Isso aqui tá parecendo briga de criança no recreio.
— E você é a monitora da turma? — perguntei, encarando ela.
— Eu sou a que desenha nas carteiras e nunca é pega.
quase engasgou de rir.
— Claro que é. Aposto que até hoje você tem aquele estojo cheio de canetinha.
— Tenho mesmo — ela respondeu, sem um pingo de vergonha. — E funciona melhor que terapia.
— Não duvido — disse , mordendo um pedaço da pizza delas. Cara, ele roubava a comida de todo mundo na surdina. — Desenhar me parece mais útil do que lutar com três caras por cinquenta dólares.
— Ei — rebati, levantando uma sobrancelha. — Foram cem. E eu ganhei.
— Metade foi pro gelo e a outra para uma pizza — apontou, mordendo a borda da fatia. — Isso é quase um investimento emocional.
Dei uma risada baixa, balançando a cabeça. pegou mais uma batata minha, mas dessa vez deixei passar. estava mexendo no refrigerante dela, fazendo bolinhas com o canudo.
— Então... — começou, com aquele tom meio provocativo que só ele sabia usar. — Vocês duas tão sempre grudadas, tipo irmãs ou coisa assim? Há quanto tempo essa amizade dura?
trocou um olhar rápido com , meio sem jeito, mas deu de ombros, decidida.
— Amizade? Nós somos um casal. — Engasguei, engasguei muito, engasguei mesmo, deu a volta na mesa e começou a bater nas minhas costas. Quando consegui recuperar o fôlego, olhei para as duas em estado de choque.
— Ca-casal? O- — Não consegui terminar a frase e de repente uma explosão de risadas encheu o ambiente. ria tanto que começou a chorar e derreteu no banco indo parar embaixo da mesa. , que ainda estava do meu lado verificando se eu estava bem, olhou para as duas e negou com a cabeça enquanto segurava o sorriso.
Após uns três minutos de risos incessantes, respirou fundo e falou que estavam brincando.
— Puta que pariu, que susto, pensei que tinha entendido tudo errado. — Olhei para que tinha os olhos cheios de lágrimas e as bochechas vermelhas, mas ela apenas fez um sinal com a mão, mandando continuar.
— Desde que a gente tinha uns 7 anos, mais ou menos. — ela falou, simples. — Crescemos juntas no deserto, numa cidadezinha lá no meio do nada, Kingman.
Franzi a testa, curioso.
— Deserto? Sério? Como é viver num lugar assim, tão longe de tudo?
sorriu com um leve tom de nostalgia, mas sem melancolia.
— É... quente pra caramba, e meio isolado. Mas a gente não tinha muita escolha. A cidade era pequena, as pessoas eram poucas, mas todo mundo se conhecia.
tomou fôlego e encarou direto.
— Passamos por umas merdas lá. Coisas que preferíamos esquecer, sabe? Mas a gente se agarrou uma na outra porque, sem isso, não tinha como sobreviver.
ficou sério, mas não fez muitas perguntas, esperando que continuassem.
— Eu, especialmente — continuou , — estava farta da minha antiga vida. Não aguentava mais ficar presa naquele lugar, naquela casa, com tudo que rolava. — Notei torcer a cabeça para o lado, como se quisesse saber todos os segredos que a menina escondia — Tinha que sair, nem que fosse pra me virar do jeito que desse.
completou:
— Eu não tive uma vida fácil também. Meus pais adotivos... não entenderam a minha dor quando meu irmão morreu. Me culparam demais. Fugir foi a única forma que encontrei para tentar respirar.
Balancei a cabeça, meio impressionado.
— Como vieram parar nesse submundo maluco?
— Primeiro, nós roubamos o carro do meu padrasto — começou e arregalou os olhos. — Mas aquela tralha velha não durou muito tempo, então viemos pedindo carona.
— Carona? Vocês são suicidas ou o que? — falou horrorizado.
— Era isso ou andar a pé. Tenta você fugir no meio da noite, sem dinheiro, no deserto, pra ver se funciona. — falou dando ombros.
— Então vocês só pegaram carona com desconhecidos e seguiram sem destino nenhum? — Perguntei tentando entender.
riu.
— Exato. Sem plano, sem mapa. Só a gente, o desespero e um monte de estrada pela frente.
deu um sorriso cansado, mas verdadeiro.
— Vocês são loucas. Definitivamente loucas, e inconsequentes. Imagina… — estava indignado, falava mexendo a cabeça para os lados em negação e eu só conseguia pensar que a merda deveria ser muito maior se elas estavam dispostas a correr risco dessa maneira.
— Se a gente sobreviver a mais um mês — disse — acho que vai ser difícil seguirmos sozinhas de novo. Querendo ou não o submundo virou uma família esquisita, o pessoal lá é legal.
— Ninguém aqui vai seguir sozinho — respondi, tranquilo. — Nem que eu tenha que amarrar vocês três no mesmo carro.
— Dibs no banco da frente — levantou a mão.
— Dibs em nunca dividir o banco com você — respondi.
— Dibs em ter os dois quietos — revidou, rindo.
Levantei a mão, fingindo fazer uma promessa.
— Proposta de brinde: às amizades que surgem no meio do caos e que, talvez, acabem virando família.


Sentado naquela mesa meio apertada da lanchonete, eu não conseguia desgrudar os olhos das duas. Não era só pelo jeito que elas se abriram, contando aquela história crua, sem firulas nem chororô, mas pelo que aquilo dizia delas.
Gente que já tinha passado por uns buracos profundos, e mesmo assim tava ali, firme, tentando seguir em frente. , com aquele olhar que não aceita proteção fácil, tipo "eu me viro, não preciso de você", mas, na real, precisava sim, só que não ia admitir. , mais doce, com um jeito que misturava cansaço e uma esperança meio tímida, tentando encontrar lugar no mundo.
estava lá, de boa, mas eu sabia que ele também prestava atenção naquele papo. Naquela conexão meio esquisita que a gente tinha, todos tentando ser mais que só um grupo improvisado, começava a ganhar forma.
Eu não sou de abrir meu passado pra ninguém. Nem precisava. Mas ouvir aquelas duas contar tudo daquela maneira, me fez pensar em como a gente também estava fugindo, cada um da nossa própria merda.
Talvez fosse isso que nos juntava, no fim das contas: a necessidade de recomeçar, de encontrar um lugar onde ninguém julgasse nosso passado.
Enquanto puxava o sorriso mais sarcástico do mundo, desafiando qualquer proteção que eu tentasse oferecer, mesmo que ela não percebesse, já que eu tentava me manter longe, eu sabia que aquele era o tipo de luta que eu estava disposto a enfrentar.
Não era só sobre correr ou lutar para sobreviver no submundo. Era sobre a gente, de um jeito que nem a gente ainda entendia direito. Mas, por enquanto, a noite era deles — e eu só tinha que estar ali, prestando atenção, sem deixar eles caírem.

O silêncio no carro durou exatos trinta segundos. Tempo suficiente pra eu ajeitar as mãos no volante, encarar a estrada e pensar que, se alguém respirasse mais fundo ali dentro, o vidro embaçava.
— Posso colocar música? — perguntou do banco de trás, já esticando o dedo na direção do painel.
— Pode, contanto que não seja country. — murmurei, fingindo um arrepio.
— Então já era para você, . — provocou , rindo e tombando a cabeça para o lado. — Ela tem uma playlist só com Alan Jackson, tentou colocar esses dias na caixa de som do galpão, voou uns 3 seguranças em cima dela tirando-a de perto. Davi disse que está proibida de passar do lado do sistema.
— Country é arte, seu ignorante. — ela rebateu, com aquela voz debochada. — Mas tá bom, vamos no seguro.
O carro logo se encheu de uma batida leve, indie o bastante pra não irritar ninguém, mas ainda assim ritmada. Do meu lado, mantinha os braços cruzados, encarando o vidro. Fingindo que não tinha nada demais, quando eu sabia que ela estava prestando atenção em tudo. Inclusive em mim.
— Quer que a gente leve vocês pro mesmo hotel da outra vez? — perguntei, sem tirar os olhos da estrada.
— Pode ser. — disse , dando de ombros. — Mas a gente tá pensando em sair de lá.
— É? Por quê?
— Achamos um lugar mais afastado da cidade. — respondeu agora, se inclinando para frente entre os bancos, parecendo uma criança. — Um pouco mais barato, e finalmente nosso. Morar em hotel não é como se sentir-se em casa. Dá para pagar o aluguel se a gente continuar no submundo. Parece ser tranquilo.
— Fico surpreso que ainda existam lugares tranquilos por aqui. — comentei, sincero.
— Bom, é tranquilo até alguém aparecer com música alta e pneus cantando, né? — lançou, me olhando de canto com aquele meio sorriso provocador, sei que ela lembrou do dia que eu cheguei no galpão com a música alta e a velocidade um pouco mais rápida do que o necessário.
— Ei, ei. Eu só acelero onde é permitido. — ironizei. — Permitido por quem, exatamente, aí já é outra história.
riu atrás.
— E você achando que ela ia te dar moral, irmão. A nasceu com uma plaquinha de “não se aproxime” colada na testa.
— Não é verdade. — ela virou o rosto para ele, indignada. — Eu sou muito acessível.
— Claro. Tipo cofre de banco. — retrucou ele, e os dois começaram a trocar provocações baixas.
— Quando vocês estão pensando em se mudar? — Perguntei interessado.
— Amanhã vamos conversar com o proprietário, se tudo der certo já pegamos as chaves. Não é como se tivéssemos móveis ou coisas assim, só nossos objetos pessoais mesmo. — respondeu me olhando.
— Sim, e ainda o local tem uma coisa parecida com uma cozinha, por enquanto está bom, vamos comprando o restante aos poucos. — complementou.
— Se vocês quiserem, eu e o podemos ir junto, sabe, para ver se o local é seguro para as damas. Né, ? — Olhei para pelo retrovisor e cerrei o olhar.
— Ahn.. claro, se elas quiserem. — Assenti.
— Não precisa.
— Seria ótimo.
As duas falaram ao mesmo tempo, , obviamente, foi a que negou, e eu soltei o ar pelo nariz.
— Decidam e nos avisem. — Disse estacionando na frente do hotel. — Me de seu celular, vou anotar nossos números. — Estiquei a mão para a que revirou os olhos, mas entregou. — Pronto. Qualquer coisa é só chamar.

O portão rangeu como sempre quando puxei com força, e entrou logo atrás, chutando uma pedra do chão como se fosse a culpada pelo estrago da noite.
A garagem estava escura, com o cheiro de óleo velho e fumaça ainda impregnado no ar. Encostei o carro e desliguei o motor. O silêncio depois da música do rádio pareceu mais alto do que deveria. Descemos do carro e subimos os degraus para entrarmos no loft.
— Que noite. — resmungou, jogando as chaves num canto da bancada, onde um filtro de ar aberto esperava há dias por atenção.
— A gente devia cobrar ingresso. Pelo caos. — respondi, me jogando no sofá velho que servia de sala de reuniões, sala de descanso e sala de "não temos tempo nem vontade pra ter outra".
— E ainda ia ter fila. — ele riu seco, mas a risada não durou muito. Sentou-se na beirada da bancada e passou a mão pelo rosto. — Mas falando sério, a gente tá ferrado, né?
Suspirei, pegando a garrafa de água esquecida na mesa de centro, ou algo parecido com isso, já que eram 3 pneus velhos um em cima do outro com um tampão de madeira.
— A luta era o maior nome do mês. E a corrida… bom, já sabe. Era nossa chance de equilibrar as coisas.
— Com todo mundo falando do Raven de novo, os apostadores iam voltar, mas com aquela briga generalizada, o lugar virou manchete de caos, não de espetáculo. — Passávamos por um período difícil no mundo clandestino. Ano passado a polícia havia feito uma mega operação para acabar com as lutas e corridas clandestinas, tivemos que ficar escondidos por um tempo para não dar bandeira e o negócio esfriou. San José é grande, mas ninguém queria ser pego, então gangues de cidades vizinhas começaram a financiar o mundo ilegal e tiraram nosso prestígio.
Sem o Raven correndo, as coisas não iam tão boas para eles, mas eram piores para nós. Depois que a poeira baixou, Davi e Migs, junto com Reyna, organizaram as coisas para voltarmos à ativa e colocaram Tino como ponte para novos recrutamentos, como as meninas, ele também era os olhos da rua, juntamente com Rick no mercado. Agora, as coisas começavam a se reestruturar, entretanto, quem estava financiando outras lutas e corridas não estavam felizes com a nossa volta e a todo momento tentavam puxar nosso tapete. Hoje foi um exemplo.
Roco é filho de um dos caras da cidade vizinha, ele começou a competir depois que nós entramos de "férias" e estava levando a melhor, mas com de volta, o menino perdeu a posição de primeiro lugar e o papai não queria deixar barato. Porém, aparentemente não eram homens o suficiente para definirem o ganhador no ringue, precisavam destruir o negócio dos outros.
— O Davi vai ficar puto. — disse ele.
— Ele já tá. Me mandou mensagem. — tirei o celular do bolso e mostrei a notificação. — "Ou vocês controlam o circo, ou eu corto o financiamento." Bem delicado, como sempre.
— A culpa nem foi nossa dessa vez. — se levantou, impaciente. — Você viu que eu não ia partir pra cima, só pensei em tirar a de lá. Os caras que estavam para assistir é que começaram tudo.
— Eu sei. Mas ninguém quer saber de explicação quando o caixa ficou negativo.
— A luta vai rolar de novo?
— Se o Roco não tiver quebrado alguma costela, sim. Eu vi ele aproveitando o momento para distribuir alguns socos — respondi, jogando o corpo pra trás no sofá. — Mas vai demorar. E o público perdeu confiança, isso chama a atenção da polícia, cara.
bufou. Caminhou de um lado pro outro como sempre fazia quando estava inquieto.
— E a corrida?
— Aí é que tá. Não sei. A galera do circuito está dividida. Alguns acham que foi só uma noite ruim, outros tão com medo de que isso espante a polícia pra cá. Meu celular não para de vibrar com as notificações do grupo, só consegui olhar por cima.
— Eles sempre tiveram medo de tudo. — disse, com aquele desdém típico dele. — Querem dinheiro, mas não querem risco.
— É o jogo. E o jogo está ficando mais caro. — completei.
Ficamos um tempo em silêncio, o barulho distante de sirenes quebrando a madrugada. Eu encarei o teto manchado de óleo e poeira, tentando visualizar o próximo movimento.
Não era só a corrida ou a luta. Era o sistema todo ameaçado. E a gente sabia que, quando a coisa desandava, os primeiros a levarem a culpa eram os que ficavam no centro da engrenagem — no caso, nós dois.
parou ao meu lado.
— Sabe o que me ferra mais?
— O quê?
— Eu quase morri naquela porra de ringue, no começo do ano, na minha primeira luta com o Roco, em Fresno, tudo bem que não temos muitas regras para dentro do ringue, mas o que ele fez comigo foi surreal, e ainda sim eu dei meu show e venci daquele merda. E ninguém vai lembrar disso. Vão lembrar da cadeira voando, da multidão se batendo, da porra toda desabando.
— Ninguém lembra do sacrifício, só do estrago. — murmurei, mais para mim do que pra ele.
Ele olhou pra mim, como se adivinhasse que minha cabeça estava em dois lugares — parte ainda presa no caos da luta, parte pensando no jeito que a segurou o celular com meu número. Como se aquilo fosse mais incerto do que o calendário de corridas.
— Acha que elas ligam? — ele perguntou, largando o corpo ao meu lado no sofá.
— As meninas?
— É.
Pensei por um segundo.
talvez não. Ela é mais do tipo que some no mundo se quiser.
— E ?
— Ela é diferente. Mais aberta. Mas… não sei, cara. Elas estão fugindo de alguma coisa. E eu não sei se querem que a gente faça parte ou só sejam uma ponte pra próxima parada.
balançou a cabeça devagar. A madrugada seguiu em silêncio depois disso. Nenhum de nós quis dizer mais nada. Só ficamos ali, naquele loft frio, tentando entender como manter tudo de pé quando a base já vinha rachada há tempo.
Mas eu sabia de uma coisa: se o mundo estava desabando, era melhor ter aliados por perto. Mesmo que eles viessem na forma de duas garotas com olhos atentos e passados mais pesados do que pareciam carregar.


Capítulo 12 - Home

Make a living
And make a home
Must have been as hard as it could be - Butterfly Fly Away



A luz entrava pela fresta da cortina como uma acusação. Quente demais, cedo demais, brilhante demais pra quem tinha dormido só umas quatro horas.
— Levanta. — jogou um travesseiro na minha cabeça.
— Vai pro inferno — murmurei, puxando o cobertor sobre o rosto.
Ela ignorou como sempre. O cheiro de café fraco enchia o quarto, vindo da cafeteira que ganhamos no mercado de pulgas semana passada. O hotel ainda era nosso lar improvisado, e a gente precisava de um lugar logo, pois estávamos brigando constantemente sobre o uso do banheiro.
— Tá tarde, a gente combinou de ir ver o lugar hoje.
— Eu sei.
— Então levanta.
— Eu tô viva, não é o suficiente?
Ela riu, mas estava inquieta. Abri um olho. Estava de pé, caneca na mão, olhando meu celular sobre a mesinha de cabeceira.
— Não — falei antes dela dizer qualquer coisa.
— Só pra avisar que eu ainda não disse nada.
— Mas pensou.
Ela se virou devagar, com aquele sorrisinho debochado de quem já tinha decidido o que fazer, só estava esperando a melhor hora.

— Não.
— Eles foram legais. E ajudaram a gente. Não custa nada…
— Custa, sim. — Me sentei, os cabelos bagunçados caindo no rosto. — Custa ter homens demais no nosso caminho. Já tivemos o bastante.
Ela suspirou, sentando-se na cama ao lado da minha.
— Eles não são "homens no caminho", . Eles só… estavam lá. E ofereceram ajuda. E a gente tá indo ver um lugar onde talvez vá morar. É normal ter alguém por perto. Isso não te transforma em vítima de novo.
Fiquei em silêncio por um momento, digerindo. Ela me conhecia bem demais.
— Eu sei me virar. Você não está sã e salva?
— Eu sei e estou. — Ela sorriu. — Mas isso não quer dizer que você tem que fazer tudo sozinha.
Fitei o teto por alguns segundos. me deu o número sem dizer muita coisa. Sem pressão. Mas aquele contato salvo no meu celular parecia queimar mais que lava no inferno.
— Você gosta dele — ela cantarolou, me cutucando com o pé.
— Eu gosto da distância. — Retruquei. — E da paz. E de não ter alguém dizendo o que fazer.
— E mesmo assim não apagou o número dele. — Ela ergueu as sobrancelhas.
Revirei os olhos.
— Porque você encheu o saco pra eu não apagar.
— Não! — ela riu. — Isso é fato alternativo.
Peguei o celular, olhei pra tela e depois pra ela.
— Vai, liga você.
deu de ombros, sorrindo vitoriosa.
— Achei que nunca pediria.
Ela clicou no número de com a maior naturalidade do mundo, como se não estivéssemos há três minutos brigando por isso. Colocou no viva-voz e mordeu a borda da caneca enquanto esperava.
Do outro lado, um toque. Depois dois. Três.
— Se ele não atender, é destino — sussurrei.
— Cala a boca.
Na quarta chamada, a voz de atendeu, meio rouca de sono e meu corpo se arrepiou:
— Alô?
sorriu e se jogou na cama ao lado da minha, triunfante.
— Bom dia, mecânico. Ainda se lembra da gente?
riu baixo.
— Difícil esquecer duas garotas que me deram um baile na madrugada.
— A gente vai ver aquele lugar hoje — ela continuou. — Querem vir?
Houve um segundo de silêncio do outro lado.
— Dá meia hora. A gente busca vocês.
Ela desligou e me olhou com aquela expressão de quem acabou de ganhar um argumento.
— Viu? Agora a gente tem companhia.
— Não pedi companhia.
— Mas vai ter mesmo assim.
Suspirei e me levantei, indo direto pro banheiro.
— Melhor que a gente ache esse lugar logo, senão vamos acabar nos enfiando em mais confusão.
— Vai ser divertido. — Ela gritou do banheiro. — A gente merece um dia normal.
Talvez ela tivesse razão. Talvez fosse só isso — um dia normal com dois caras que, por mais enrolados que fossem, não pareciam querer consertar a gente. Só… andar do lado.
E talvez, só talvez, isso não fosse o pior dos cenários.

O carro parou em frente a uma construção que parecia esquecida por Deus e pela prefeitura de San José. A fachada estava descascada, as janelas sujas, e o portão da frente rangia de um jeito que dava vontade de sair correndo. Um cachorro latiu ao fundo — ou talvez fosse um demônio. Difícil dizer.
desligou o carro e olhou para o lugar, em silêncio.
foi o primeiro a falar.
— Isso aqui tá abandonado ou alguém escolheu viver aqui?
abriu a porta do banco de trás com empolgação, ignorando o clima pesado.
— Parece pior do que estava nas fotos, mas o cara disse que é tranquilo. É afastado, ninguém enche o saco.
— Tranquilo? — riu, saindo também. — Isso aqui grita "assalto ao cair da noite". Cês tão de brincadeira.
Cruzei os braços, ainda sentada no banco do passageiro.
— Não é tão ruim assim. É o que dá pra pagar. E tem portão.
soltou uma risada seca.
— Portão? , esse portão aí se você encostar ele cai. Isso aqui não é um lugar pra morar, é um cenário de filme de terror.
se aproximou do portão e cutucou. Ele rangeu ameaçadoramente.
— Ok… talvez um pouco caído. Mas o cara cobrou barato.
— Porque ele claramente quer esconder um corpo aqui dentro — rebateu. — E provavelmente é o de uma de vocês… ou das duas.
— Olha — Desci do carro, impaciente — a gente não chamou vocês para avaliar a arquitetura, só pra dar opinião, lembram? A gente consegue se virar.
me encarou.
— Não, vocês não conseguem se virar aqui. Isso não é "alternativo", é perigoso. Vocês podem acabar em alguma encrenca real.
bufou.
— Vocês não são nossos pais.
— Ainda bem — murmurou, olhando de novo para a fachada.
Me aproximei da grade e olhei para dentro, sem graça, realmente, talvez tínhamos sido enganadas.
— A gente achou que era melhor do que pagar por noite no hotel. A gente quer ficar parada um tempo.
passou a mão no cabelo, respirando fundo.
— Vocês querem sossego, beleza. Mas esse lugar aqui? Não.
— E vocês têm uma opção melhor? — Rebati.
Ele apontou para o carro.
— A gente vai rodar até achar. San José tem canto pra tudo, só precisa de um pouco de paciência. Vocês não vão ficar aqui.
Hesitei, mas já tinha dado um passo para trás, olhando em volta como se só agora tivesse percebido os detalhes: a bicicleta enferrujada encostada no muro, uma câmera pendurada e desconectada, e uma risada abafada vinda de algum lugar lá dentro.
— Tá — disse, voltando pro carro. — Voto com os meninos. Esse lugar é assustador.
Revirei os olhos, mas fui atrás, me dando por vencida.
— Se a gente acabar num lugar pior, eu vou esfregar na cara de vocês.
— Aceito o risco — respondeu, abrindo a porta.
deu a volta e se jogou no banco de trás.
— Mas sério, esse cara parecia o Norman Bates com menos carisma?
gargalhou.
— Ele tinha um olho que não parava de piscar. Tava me dando nervoso.
— Aposto que ele aluga o porão por um extra. — disse. — "Pague 50 a mais e você pode usar a jaula."
ligou o motor.
— Bora, antes que o cara resolva sair com uma serra elétrica. A gente acha um lugar decente, ou pelo menos sem riscos biológicos.
Olhei pela janela, mordendo o canto da boca, meio irritada, meio agradecida.
— Não precisava tudo isso…
deu uma rápida olhada pra mim.
, se você quer independência, show. Mas não à custa da própria segurança. Dá pra ter os dois, só tem que procurar mais.
Não respondi, mas não desviei o olhar da rua. A verdade era que parte de mim sabia que ele estava certo. Só não queria dar o braço a torcer. Ainda.
já estava mexendo no celular.
— Tá, vamos ver aqui… conheço um cara que alugou um lugar em Blossom Valley… meio caidinho, mas bem melhor que o Motel Armagedom ali de trás.
já estava encostada no banco, empolgada.
— Pode ter uma varanda? Eu sempre quis uma varanda. Não precisa nem funcionar, só ser fofa.
riu baixo, enquanto dirigia.
— Veranda estética. Anotado.
Fingi que não estava sorrindo.

Blossom Valley parecia outro mundo. Ruas largas, árvores bem cuidadas, crianças brincando de bicicleta, e até uma vendinha com uma placa pintada à mão que dizia "Sorria, você está em casa". Senti um aperto no peito só de ver. Era o tipo de lugar que imaginava quando sonhava com paz — mesmo que nunca tenha acreditado que fosse possível.
O carro parou em frente a um prédio baixo, com varandas pequenas e floreiras improvisadas. Uma senhora saiu da lavanderia carregando uma cesta cheia de roupas dobradas e acenou com simpatia.
olhou ao redor com os olhos brilhando.
— Isso aqui parece cenário de comercial de margarina. Eu topo.
— Parece seguro — admitiu, inclinando-se entre os bancos da frente.
já estava no celular. Depois de alguns toques, alguém atendeu e ele falou rápido, meio em código. Quando desligou, encarou o grupo com um suspiro resignado.
— Dois mil e oitocentos. Por mês. Isso no mais barato que ele tinha.
O silêncio caiu como uma pedra.
soltou um som engasgado.
— Dólares?
— Em barras de ouro, por acaso? — Ironizei, cruzando os braços.
— Isso é... mais da metade do que a gente tem — fez as contas no ar, o rosto ficando sério. — Não dá.
inclinou a cabeça, pensativo.
— Talvez se vendêssemos um rim.
— Você tem dois — retruquei — Se quiser abrir os negócios…
— Tô falando do seu, querida.
deu um leve tapa no ombro do amigo.
— Para. Não é porque é caro que acabou. A cidade é grande. A gente vai achar algo mais acessível.
Olhei de novo para o prédio à frente, agora com um gosto amargo na boca. O lugar era bonito. Tranquilo. Mas também era um lembrete de que o mundo ainda não funcionava ao nosso favor.
— Aposto que ninguém aqui teve que fugir no meio da noite — murmurei.
escutou, mas em vez de comentar, apenas encostou a mão no meu ombro por um instante, silenciosamente.
— Vamos tentar mais para leste — sugeriu, ligando o carro de novo. — Tem umas zonas residenciais com aluguel por quarto. Não é o ideal, mas pode servir até acharem algo melhor.
— Aluguel por quarto? — Ergui a sobrancelha. — O cara da casa do terror também oferecia isso.
riu alto.
— Ah, então você gostou da jaula.
— Era aconchegante — completou. — Se a gente fosse um casal e tivesse espírito de aventura.
— Ok, vocês duas precisam urgentemente de um corretor de imóveis — falou, rindo enquanto dava a ré. — Ou de um exorcismo.
— Qual vier primeiro — rebati, mas estava sorrindo.
O carro se afastou pelas ruas de Blossom Valley, e olhei pela janela mais uma vez. Não dava para ter tudo, não agora.

O segundo lugar ficava num bairro mais afastado, meio misturado entre zona industrial e residencial. O prédio era antigo, com tinta descascando e uma escada que rangia tanto que parecia gritar socorro a cada passo.
— Acho que vi essa escada num episódio de "CSI" — comentou baixinho, enquanto subíamos.
O corretor abriu a porta e o cheiro que saiu de dentro fez dar dois passos para trás no automático.
— Caralho… — ele levou a mão ao peito. — Isso aqui não é mofo, é uma entidade.
entrou logo depois, respirou uma vez e fechou a cara.
— Se eu morrer aqui dentro, avisa minha mãe que eu lutei até o fim.
O corretor pigarreou, constrangido.
— O loft é bem ventilado…
— Claro que é. — apontou para uma mancha escura na parede. — O ar entra, vê isso aqui e tenta sair correndo.
cutucou a porta com um dedo. Ela balançou inteira.
— Interessante — ele comentou. — A porta não fecha, mas pelo menos ameaça cair em cima da gente.
— Isso não é uma porta. — concluiu. — É um acordo de cavalheiros entre a madeira e a gravidade.
O corretor forçou um sorriso.
— Então… o que acharam?
e se entreolharam por um segundo.
— Que se ventar forte — começou.
— A gente perde a porta — completou.
— E ganha uma experiência espiritual. — finalizou.
Andei até a cozinha, onde uma barata atravessava o chão sem nenhum constrangimento.
— Olha, uma moradora. Será que ela divide o aluguel?
já estava de volta no corredor.
— Passo.
saiu por último, batendo a porta com cuidado.
— Próximo.

O terceiro lugar parecia promissor. Tinha uma fachada bonitinha, com uma árvore florida na frente e uma varanda improvisada. A proprietária era uma senhora de voz fina, cabelo preso num coque e um olhar... peculiar.
— É proibido fazer barulho depois das sete. Nem risadinhas. Televisão, só no volume dois. E tem que deixar o sapato virado pra esquerda quando entrar. Dá azar se for pra direita.
Nós quatro congelamos.
— Tô fora — falou antes mesmo de entrar.
— Sorte que ela avisou antes de darmos a entrada — sussurrou.
— A gente agradece, senhora, mas vamos continuar procurando — disse, mantendo a voz calma, mesmo enquanto puxava nós três de volta pro carro.
Já do lado de fora, dei uma risada abafada.
— Volume dois. Nem sabia que isso existia.
— É quase mudo — completou, fingindo indignação. — Como a gente vai surtar pelo Dean Winchester se nem podemos ouvir o que ele fala?
— O problema é que vocês tão procurando paz e sossego num raio de dez milhas de onde tem corrida clandestina, galpão de luta e oficina ilegal — disse, meio rindo. — Acham mesmo que isso combina com "vida calma"?
cruzou os braços, encarando-o.
— Não somos tão problemáticas assim.
— Claro. Vocês e o prédio com paredes possuídas formariam uma família adorável.
estacionou o carro no acostamento, suspirando.
— A gente pode tentar na região de Alum Rock. É mais simples, os aluguéis são menores. Não é o paraíso, mas talvez achemos alguma coisa decente.
Olhei para o relógio no painel. Já passava das quatro da tarde. Estávamos rodando há horas. Minha barriga estava roncando.
— O que vocês acham? — perguntou.
assentiu.
— A gente não tem luxo, só precisa de um lugar seguro.
Soltei o ar com força.
— E sem criaturas andando pela pia, de preferência.
estalou os dedos.
— O mínimo. E que as portas não caiam se você tossir.
ligou o carro novamente, com um sorriso contido.
— Então vamos caçar esse milagre chamado lar acessível em San José.

Alum Rock é um distrito de San José, localizado em East San José. Possui um parque enorme conhecido como Alum Rock Park e é conhecido por ser um bairro residencial muito bem arborizado e com boas casas, segundo o Wikipedia, que é a única coisa que minha internet permite carregar.
— Olha, pelo Google parece ser bem familiar. — falou me mostrando uma imagem.
Quando chegamos na pequena casa listada no aplicativo de aluguéis, todos ficamos em silêncio por uns bons três segundos.
A casa estava cor-de-rosa desbotada. Portão enferrujado. Grama morta. E uma senhora com um cigarro na boca nos esperava na varanda, vestindo um roupão que tinha claramente visto dias melhores.
— Vocês que tão aqui pro aluguel? Já vou avisando que não permito gatos, cachorros, namorados e namoradas, não pode ficar aqui fora e nem gosto de conversa. — ela disparou, sem tirar o cigarro da boca.
respondeu antes de qualquer um:
— Na verdade, não. Acho que a gente errou o endereço. Vamos dar meia-volta rapidinho, tá?
De volta ao carro, virou para mim:
— A gente conseguiu achar a PIOR casa de um bairro impecável. E com uma LOUCA! — Se encostou no banco frustrada. — E eu to morrendo de fome. Qual é o próximo?
— Minha última tentativa por hoje. West Murphy. Se não tiver nada lá, tentaremos amanhã de novo e depois vamos comer, pelo amor de Deus. — falou. — e eu ainda temos que ir para o galpão mais cedo, resolver a situação de ontem antes que a noite comece.
— Certo. — Suspirei cansada. — Também estou faminta. Desculpem fazer vocês rodarem tanto, assim que tivermos um dinheiro sobrando, devolvemos o valor da gasolina.
— Fica quietinha, fica. Que gasolina o que — falou no banco de trás. — Vocês realmente iam morar naquele lugar horroroso que viram antes? Tipo, sério mesmo?
— Era o que dava pra pagar — respondi, firme. — É isso ou uma barraca no parque.
— Então é uma barraca no parque — retrucou, bufando. — Porque aquele lugar tinha sinal de rádio pirata, vizinho com tornozeleira eletrônica e uma vibe de "aqui já aconteceu um assassinato".

O sol já começava a descer quando estacionou o carro em frente a um condomínio no Sunnyvale, em West Murphy. O lugar se chamava Sand Studios e possuía várias casinhas cinzas baixas, coladas umas nas outras. Uma criança passava de patins, e um senhor regava plantas que cresciam num jardim colado à sua propriedade.
— Isso aqui já parece bem mais promissor — disse . — Tem até gente viva aqui fora.
— E o melhor — completei, olhando as anotações no celular —, é dentro do que a gente pode pagar. Tipo... realmente pagar. Seiscentos dólares por mês, com o desconto da entrada à vista.
— Se for decente, a gente vai fazer uma vaquinha e comprar uma cafeteira nova, — murmurou . Entre um lugar e outro comentamos que ganhamos uma cafeteira usada no mercado de pulgas e estávamos usando, jurei que os olhos do iriam cair para fora do corpo e soltou um "que nojo!" baixinho.
estacionou o carro em frente a uma casa que aparentava estar vazia e um cara magro, de camiseta pólo azul-marinho e um sorriso apressado apareceu. Assim que desembarcamos, ele abriu a porta do studio e nos deixou entrar.
O cheiro era de limpeza. Um alívio.
A cozinha era minúscula, tipo, sério, cabia uma pessoa por vez, toda branca, com armários simples, uma geladeira compacta já meio amarelada pelo tempo, e um fogão de duas bocas. Tudo parecia antigo, mas em bom estado. O chão era de linóleo claro, limpo e sem manchas.
— Ok... isso é definitivamente melhor que o anterior com a senhora do cigarro — murmurei, olhando em volta.
— Sala com carpete, dois quartos pequenos, ambos com janelas grandes... ar-condicionado na sala... — o corretor apontava com pressa. — Banheiro fica ali, do lado da cozinha. Não tem banheira, só o box mesmo, mas a água quente funciona e a ventilação é boa. O condomínio foi construído em 1962 e nós já reformamos algumas casas, mas elas são mais caras… bom, vou deixar vocês analisarem com calma.
Fui até o banheiro. Branco. Tudo branco. Limpo. Simples. Sem charme algum, mas honesto.
olhava pela janela do que seria um dos quartos. A vista dava para a lateral do condomínio, não era muito bonito, já que era tudo cinza e havia poucas árvores, mas é limpo e seguro. Ela virou pra mim com aquele olhar que só ela fazia quando já estava decidida, mas me deixava fingir que eu tinha escolha.
— Eu topo.
— Eu também — disse, soltando o ar.
nos olhava do batente da porta, os braços cruzados.
— É apertado.
— Primeiro, você já viu o seu tamanho? É óbvio que é apertado pra ti, e segundo, é o paraíso comparado às opções anteriores — respondi.
— E seguro — completou , recebendo um olhar raivoso de . — Isso aqui parece o lugar onde idosos aposentados moram e reclamam de barulho depois das 20h. Perfeito pra vocês.
Revirei os olhos.
— A gente vai pagar a entrada à vista. O corretor disse que, com isso, o aluguel cai para seiscentos dólares fixos.
— Parece golpe — murmurou . Eu estava pronta para discutir, mas me interrompeu.
... — disse com um sorriso paciente —, esse golpe é o único que a gente pode pagar. Deixa a gente cair.
suspirou, mas no fundo, parecia aliviado também.
— Tá bom. Só... façam contrato. E confiram a fechadura. Se o ar-condicionado parar, liguem pro cara. Não tentem consertar sozinhas. E…
— Tá bom, pai. — Cortei, provocando.
Ele fez uma careta.
— Tá bom, pai. — ortei, provocando.
— Só tentando manter vocês vivas. Se acontecer, qualquer coisa, qualquer, me liga na hora. — Mas antes que eu pudesse responder, o corretor voltou com os papéis e as chaves, e ali mesmo, sentadas no chão da sala sem móveis, a gente assinou.
Quando saímos, com a chave em mãos, bateu na moldura da porta.
— Agora é oficial. Vocês têm um lar.
— Mais ou menos — disse . — Temos uma caixa branca com carpete e uma geladeira dos anos 90. Mas é o bastante.
— É o começo, e vamos continuar brigando pelo banheiro — corrigi.
E, por um instante, todos nós sorrimos como se aquilo realmente fosse uma vitória.
Porque era.
— Podemos ir comer agora? — perguntei animada.
— Deixamos vocês em algum lugar, nós precisamos mesmo ir para o galpão. Migs já enviou umas cinco mil mensagens.
— Nesse caso, podem nos deixar no hotel, precisamos de um banho e lá tem um mercadinho com alguns salgadinhos. Temos que trabalhar depois — falou colocando o cinto.
— Tem certeza? — perguntou e ela apenas assentiu.
Voltamos para o hotel com o mesmo silêncio confortável de sempre, o rádio ligado num pop calmo, o sol se pondo devagar atrás dos prédios baixos.
— Amanhã a gente começa a mudança, então? — perguntou , quando entramos no quarto.
— Amanhã de manhã — confirmei. — Se não quiser dormir no chão do novo apê hoje mesmo. Tem algo meio simbólico nisso.
— Poético, você quer dizer. Mas não. Vamos aproveitar nosso último banho decente por um bom tempo, já que duvido que vamos ter dinheiro para comprar um bom shampoo no próximo mês — ela abriu a sacola com salgadinhos e jogou um pacote na minha direção. — Come.
— Obrigada, mãe. — Rasguei o pacote e me joguei na cama, ainda com os tênis nos pés. — A gente tem que ir trabalhar daqui a pouco…
— Nem me lembra. Estou moída. E ainda vamos ver os meninos de novo, será que vai ficar uma situação chata?
— Você quem quis ligar pra eles.
Ela deu de ombros com aquele sorriso de canto que significava: não me arrependo.
— No fundo, você também queria.
Fingi que não ouvi.
O quarto do hotel parecia menor do que nunca agora que sabíamos que íamos sair dali. O som do ar-condicionado engasgando, o cheiro de fritura vindo da lanchonete ao lado... tudo parecia mais tolerável, como se a saída iminente tivesse tirado o peso do lugar.
Tomamos banho revezando o tempo na água quente. saiu enrolada na toalha, os cabelos molhados, e caiu na cama de barriga pra baixo.
— Acho que tô começando a sentir uma coisa que se chama esperança.
— Eu só tô sentindo dor nas costas e fome — respondi, esticando a mão pra pegar outro salgadinho.
Nos olhamos por um segundo e começamos a rir.
— Zerinho ou um para ver quem vai descer pegar mais um pacote de Ruffles? — Perguntei e revirou os olhos.


Capítulo 13 - Colchas e carpetes

You're so golden
I don't want to be alone - Golden



O cheiro de óleo, ferrugem e fumaça ainda pairava no ar quando estacionou o carro ao lado do galpão. O caos ainda era visível na bagunça de cadeiras tombadas e manchas secas no chão. Migs estava do lado de fora, falando com dois caras de confiança, enquanto Davi andava de um lado pro outro com o celular colado na orelha e um olhar que avisava: alguém ia pagar por aquilo.
Desci do carro com os ombros tensos, e veio logo atrás.
— A gente devia ter ficado — murmurou , sério.
— Não adiantaria. Ia parecer que a briga tinha sido por nossa causa.
— Já parece, de qualquer forma.
Migs nos viu e acenou com a cabeça, chamando-nos com um gesto. Fui o primeiro, olhando de relance o galpão, que agora parecia mais silencioso, mas ainda carregava a tensão no ar. parou ao meu lado, cruzando os braços.
— Foi o pai do Rocco, como imaginávamos — disse Migs, direta. — Mandou gente de outras cidades. Galera que tava fazendo apostas às escondidas enquanto a gente tava se resguardando no ano passado. O velho tá querendo sabotar as lutas. Davi já tá cuidando disso.
— Sabotar como? — Perguntei, tenso. — Só porque o filho dele perdeu moral?
— Não só isso. Ele quer a zona. Quer desacreditar o sistema, fazer parecer que a gente perdeu o controle. Sabe como é… se as apostas aqui parecem bagunça, os outros param de confiar. O velho quer tomar espaço.
Passei a mão pelo rosto, irritado.
— Isso começou quando o Rocco perdeu pra mim, não foi?
Migs assentiu.
— Desde então ele está tentando voltar pro topo. Mas o garoto não tem cabeça, não tem força. O pai tá querendo resolver no grito o que o filho não conseguiu com os punhos.
deu um passo à frente.
— E agora? A luta foi adiada. A corrida foi cancelada. Isso é uma grana que vai embora.
— A gente vai remarcar. Mas até lá, vamos ter que botar ordem na casa. Mostrar que isso aqui ainda tem dono — Davi chegou perto, finalizando a ligação. — Já mandei um recado pra ele. Na próxima, ninguém vai sair antes. Reyna está vindo para cuidar da situação de perto também.
— Eles vieram armados? — perguntei, olhando fixamente para Davi.
— Não. Vieram só com aquela corrente ridícula. Aconteceu exatamente o que queriam, entraram chamando a atenção, desestabilizaram o pessoal sem falar uma única palavra e saíram antes que pudéssemos pôr as mãos neles, deixaram uns capangas infiltrados para começarem a briga. Mas não duvido que tentem subir o nível se a gente não reagir.
— Isso tá virando guerra territorial. — Bufei. — Vai chamar a atenção da polícia, de novo.
— É exatamente isso que é, moleque — disse Davi. — E você agora tá no centro. Querendo ou não.
Troquei um olhar rápido com , depois voltei a olhar para Migs.
— E quanto a hoje? Todo mundo bem?
— Uns cortes, um ombro deslocado. Mas ninguém morreu. Os caras do velho saíram na correria quando perceberam que estavam em minoria. E quando vocês dois sumiram com aquelas garotas, alguns pensaram que era uma armação.
— A gente tirou elas porque estavam no meio da confusão — respondeu, seco. — Não tem nada de armação.
Migs fez que sim com a cabeça.
— Eu sei. Mas precisa entender que agora, todo mundo vai olhar pra vocês esperando uma reação. Principalmente você, .
Cerrei os punhos. Odiava essa parte. Nunca quis ser o centro de nada. Só queria lutar, ganhar o dinheiro e proteger quem eu me importo.
— Eu não pedi pra virar símbolo de porra nenhuma — murmurei.
— Mas virou — Davi rebateu, firme. — Então decide logo o que vai fazer com isso. Porque a próxima rodada vai ser decisiva. Ou a gente põe esses caras no lugar deles… ou perdemos tudo.
O silêncio se instalou por um momento. Só o som distante de pneus derrapando e uma sirene abafada lembrava que estávamos numa cidade que nunca dormia.
quebrou o silêncio.
— E quanto à corrida?
Migs deu de ombros.
— Cancelada por enquanto. Mas Raven vai ter que aparecer na próxima. O público quer. E a gente precisa mostrar força.
não respondeu de imediato. Olhou para o lado, em direção ao galpão escuro. Depois assentiu.
— Tá. Mas da próxima vez, colocaremos seguranças do lado de fora, eles entraram arrombando tudo com aquela merda de carro.
— Pode deixar. Já estamos reestruturando tudo. — O celular de Davi tocou e ele se afastou.
Soltei o ar pela boca e olhei o relógio. Ainda era cedo demais pra dormir, já que não tínhamos trabalho hoje e tarde demais pra fazer qualquer coisa. Mas tinha uma coisa em mente.
— Vou dar uma passada no hotel. Só pra ver se as meninas estão bem.
levantou a sobrancelha, mas não comentou. Sabia que não adiantava provocar quando o assunto era . E ele também estava com a cabeça em outra garota.
Migs soltou um meio sorriso.
— Vai lá, protetor de órfãs.
Lancei um olhar torto, mas não respondi. Só virei as costas e fui para o carro, com logo atrás.
A noite ainda não tinha terminado.
— A gente vai ficar igual cachorrinho atrás delas? — perguntou fechando a porta do motorista.
— Não lembro de ter chamado você para ir junto.
— É o meu carro.
— Mero detalhe. Acelera logo essa coisa.
— Detalhe importantíssimo.


O pacote de chips fazia um barulho irritante a cada vez que eu enfiava a mão pra pegar mais um. Estava quase no fim, assim como a paciência da minha barriga. zapeava pelos canais sem prestar atenção em nada. A TV estava no mudo, mas mesmo assim, a luz azulada tremeluzia pelo quarto como se estivesse animada em ser inútil.
Estiquei as pernas na cama, confortável no moletom largo, e me espreguicei como um gato.
— Amanhã a gente compra comida de verdade — murmurou , ainda encarando a tela. — Nada que venha num saco engordurado.
— Você fala isso toda vez que acaba o pacote — respondi, com um sorriso preguiçoso.
Antes que a discussão gastronômica fosse além, três batidas secas soaram na porta. Ergui uma sobrancelha e olhei para .
— Espera o quê? Serviço de quarto com alma caridosa?
bufou e foi até a porta, abrindo só o suficiente para espiar. Ouvi a voz grave de e me levantei num pulo pra ver melhor.
— Vocês por aqui? — disse , já com aquele tom desconfiado.
— Só viemos avisar que hoje não tem submundo — disse , sempre com aquele sorriso tranquilo. — A luta e a corrida foram suspensas. Vocês ganharam a noite de folga.
Me inclinei por trás de , aparecendo na fresta da porta, fazendo com que abrisse mais.
— Tudo isso de saudades? Isso podia ter sido mandado por mensagem, sabiam?
— E perder a chance de ver a cara de vocês depois de um jantar à base de salgadinho? — retrucou , encostado no batente da porta como se morasse ali.
ergueu o pacote murcho como prova.
— Foi um verdadeiro banquete.
— Então vamos resolver isso — disse , olhando para nós. — A gente tá com fome também.
Peguei o pacote da mão de e joguei na mesinha e pegando o tênis sem nem olhar para , que ainda fingia hesitar.
— Vem, . É comida de graça. Vai fingir que não quer?
resmungou algo inaudível e fechou a porta atrás de nós. Quando descemos pro estacionamento, o ar da noite parecia mais frio, mas também mais vivo. Sempre achei que a cidade mudava de cara à noite — os sons, as pessoas, até o jeito como os faróis refletiam no chão.
— Onde vamos? — perguntei, amarrando o cabelo num coque improvisado.
— Um restaurante 24 horas que o insiste que tem o melhor milkshake da cidade — respondeu , abrindo a porta do carro.
— "Insiste" não. Afirma com propriedade — retrucou , abrindo a porta de trás para mim.
Entrei e sentei-me ao lado de no banco de trás, enquanto ia na frente com . Claro. Era sempre assim — fingindo que não ligava pra nada, mas eu já conhecia aquele jeitinho de olhar torto e responder atravessado só pra esconder o interesse.
O carro ligou, e o rádio começou a tocar uma banda velha que reconheci vagamente. e trocavam farpas como de costume. Sorri sozinha. Era meio engraçado como os dois brigavam até pra ver quem respirava primeiro, mas… eu não era boba. Sabia ler entrelinhas. não era do tipo que perdia tempo com quem não ligava. E … bem, podia dizer o que quisesse, mas ela deixava.
O carro seguiu, mergulhado em luzes laranjas de postes antigos e o cheiro de fritura imaginária de um jantar que ainda nem tinha chegado.
— Parando para pensar. — Comecei depois de uns minutos em silêncio. — Você é cheio de restaurantes 24h, né?
— Trabalhe igual eu, lute até cansar e saia faminto do ringue para ver se não conhece todos os restaurantes 24h da região, — piscou. — mas prometo que levarei a senhorita em um lugar adequado assim que possível. — Minha barriga congelou com a possibilidade.
— Está me chamando para um encontro, ?
— Talvez, . — Rimos um para o outro nos olhando, só desviei o olhar com o som do meu celular apitando, era uma mensagem da com um emoji tampando os olhos, uma berinjela, um coração pegando fogo e uma carinha de vergonha. Tive que trancar os dentes para não soltar uma gargalhada.

O carro seguia em silêncio pelas ruas quase desertas da cidade, iluminadas pelas luzes amareladas dos postes. Eu olhei pela janela, vendo tudo passar como se fosse uma daquelas fitas antigas de filme. Lá fora, um posto velho piscava a hora em vermelho no letreiro: 23:48. Quase meia-noite. E mesmo assim, a ainda arrumava energia para discutir com o sobre pizza fria.
— São quase meia-noite — ouvi o comentar do meu lado. — E vocês ainda tão com energia para brigar por causa de pizza?
— Isso aqui nem é briga — retrucou , no banco da frente, encarando o . — Isso é o jeito dele de tentar parecer interessante.
— É o meu charme natural, na verdade — respondeu , com aquele sorriso convencido que dava vontade de jogar algo nele. Tipo uma pizza fria mesmo.
Tentei segurar o riso, mas escapou antes que eu percebesse.
— Charmoso como um cacto — murmurei, cruzando os braços enquanto recostava no banco.
— Ei, cactos sobrevivem em qualquer lugar — disse , dando uma olhada de lado pra mim. — Isso é quase uma declaração de admiração.
— Vou anotar essa — falei, tentando manter o tom leve, mesmo sentindo o coração meio aquecido por dentro.
O carro virou numa rua mais clara e, à frente, o letreiro azul de neon do diner apareceu, piscando: "Kelly’s Diner – Aberto 24h". O lugar havia sido reformado há pouco tempo e era todo decorado em xadrez branco e azul claro.
Escolhemos uma mesa no canto, com vista pra rua. Os bancos estofados rangiam. Depois de pedirmos as comidas — milkshakes, hambúrgueres e batata frita, dessa vez para todo mundo — o se inclinou para frente, apoiando os braços sobre a mesa, com aquele olhar curioso que ele usava quando queria parecer desinteressado, mas claramente não estava.
— Tá, pergunta séria agora. Qual vai ser a primeira coisa que vocês vão comprar pra casa nova?
Abri um sorriso quase automático. A pergunta parecia boba, mas me pegou desprevenida, de um jeito bom.
— Um espelho de corpo inteiro. Tô cansada de me olhar de relance no vidro do banheiro, é minúsculo.
revirou os olhos, mas respondeu com a firmeza de sempre:
— Uma cama decente. Prioridades.
— Eu recomendo um sofá — disse , olhando para . — Vai querer algo confortável para deitar e ignorar o mundo.
— Pra isso serve a cama — retrucou ela, pegando uma batata com um ar debochado. — O sofá vai ser a última coisa.
O olhou direto pra mim, e senti meu estômago dar aquele pequeno salto estranho. Do tipo bom, eu acho.
— E você? De verdade.
Pensei por um segundo. Meus olhos foram até a janela, onde a noite parecia respirar devagar lá fora.
— Uma cortina bonita. Que deixe a luz entrar, mas esconda o mundo lá fora. Tipo… um lar.
— Isso foi quase filosófico — brincou , com aquele sorrisinho provocador.
— Quase — respondi, olhando pra ele com um sorriso enviesado. E pisquei. Porque por algum motivo, aquilo parecia necessário.
cruzou os braços e ficou me encarando com aquele olhar tranquilo dele.
— Se precisarem de ajuda com mudança, móveis, carregar coisa pesada… tamo aí.
— Tipo dois irmãos mais velhos — disse e fez cara de nojo, zombando. — Muito fortes e absolutamente subutilizados.
A riu, e foi aquele tipo de riso raro, de verdade. Vi o rosto dela relaxar por um momento, e isso me deu uma sensação estranha... de conquista? Talvez.
— Valeu — ela disse, o tom leve, mas com algo sincero por trás. Como se ela soubesse que estava aceitando ajuda pela primeira vez em muito tempo.
Sem pensar muito, empurrei o joelho de leve contra o debaixo da mesa, só pra lembrar ele de que estávamos do mesmo lado.
— Mas se a gente achar um sofá rosa, vocês vão ter que carregar sem reclamar.
— Tá brincando? Eu levo no colo — respondeu ele.
— E eu nunca mais entro na casa de vocês — disse , com a voz dramática.
Não deu pra segurar a risada. A mistura de piada ruim, milkshake doce e o chiado da grelha nos fundos do diner era quase confortável demais.
— Tá decidido então — disse , empurrando o copo de milkshake vazio pro lado. — Se o sofá for rosa, vocês carregam sorrindo.
— Eu sorrindo? — arqueou uma sobrancelha, teatral. — Só se for rosa neon com glitter, aí viro até influenciador no Instagram só pra combinar.
— Com certeza teria seguidores — retruquei, rindo. — "Mecânico rabugento e o sofá brilhante: uma história de superação."
tossiu de leve, tentando segurar o riso, mas não resistiu.
— Se isso virar trend, vou ter que sair correndo da cidade.
— Você já corre da cidade — provoquei.
Ele me lançou aquele olhar de quem quer responder alguma coisa afiada, mas não consegue pensar rápido o suficiente, então só deu de ombros, com aquele sorrisinho de canto que eu odiava achar bonito.
— Mudando de assunto — disse , olhando entre mim e a . — Vocês ainda vão ficar muito tempo naquele hotel?
— Só até amanhã — respondeu , olhando pro relógio no celular. — Depois disso, oficialmente começamos a aventura do "não temos móveis, mas temos um teto" e uma cafeteira velha.
— Importante ter teto — comentou , sério por um segundo. — Mesmo que o chão ainda seja bagunçado.
Fiquei olhando pra ele, surpresa com a frase. Não era poética, nem planejada. Só… real. E vinda de alguém como ele, dizia mais do que parecia.
pigarreou, como se sentisse o peso do momento.
— E vocês? Moram onde?
— Em um loft totalmente zoneado — disse . — Bairro tranquilo. Bem afastado da cidade, mas funciona pra gente. E tem garagem, o que é o mais importante por conta do Rav… , já que ele praticamente vive no carro. — contornou a situação e eu olhei de maneira sorrateira para que erguia uma sobrancelha, quando ela abriu a boca prestes para fazer uma pergunta, a cortou:
— Não exagera — retrucou , sem graça. — Eu só gosto de ter meu espaço.
— Ele fala isso, mas tem um cobertor no banco de trás, uma escova de dentes no porta-luvas e três garrafas de água escondidas debaixo do banco.
— Parece até acampamento — comentei, achando graça.
— É um estilo de vida — disse , sério. Depois sorriu. — Alternativo.
— Pensei que você tivesse só uma moto… — soltou, pensativa.
— Ahn, sim, é um carro velho, não funciona. Estamos só brincando. O loft é um caos, vocês não iriam querer entrar lá. Tem tralha pra todo lado, o ar não funciona há um tempão, nossa geladeira é abastecida com cerveja e água… um horror para duas damas.
— E o ainda usa as minhas toalhas.
— Cara, cala a boca! — amassou um guardanapo e jogou em .
A garçonete passou recolhendo alguns pratos e trocando os copos por novos, cheios de refrigerante. A noite lá fora parecia ter desacelerado, e mesmo o barulho da cidade parecia distante, como se a gente tivesse encontrado uma bolha segura onde o tempo não corria.
— E vocês se conhecem faz tempo, né? Lembro que comentaram na outra noite. — perguntou, dessa vez com um tom mais suave, quase... respeitoso.
Assenti, olhando de relance pra . Ela também assentiu, sem hesitar.
— Sim, como comentamos — respondi. — A gente cresceu juntas. Cidade pequena, no meio do deserto. Só tinha a gente. E uns cactos.
— Os cactos têm sido uma constante hoje — brincou , tentando aliviar o peso que ele mesmo trouxe à tona.
— Mas sério — disse . — Dá pra ver que vocês se cuidam. Isso é raro.
Por um instante, ninguém respondeu. só olhou pra ele, depois pra mim, e eu dei de ombros como se dissesse "ele não tá errado".
— A gente faz o que pode — respondi, simples.
— É. E agora que temos uma casa… — começou, abrindo um sorriso. — Falta o resto do mundo. Mas a gente chega lá.
— Com um sofá rosa. E glitter. Não esquece do glitter — lembrou , apontando com a batata frita.
— Anotado — murmurei.


O sol ainda nem tinha aparecido direito quando entrou na cozinha com a cara amassada e os pés descalços, batendo a porta da geladeira com mais força do que o necessário.
— Não tem leite — resmungou, encarando a garrafa d’água como se ela tivesse a obrigação de se transformar em café com leite na hora.
— Compra — falei, jogando uma almofada do sofá nele.
— Compra você — retrucou, jogando de volta.
Sorri de canto, me espreguiçando. A verdade era que aquele loft onde morávamos era um fim de mundo. Concreto mal acabado, paredes com umidade, e uma vista linda... se você curtisse olhar para nada. Mas, pra gente, funcionava. A garagem embaixo servia pro carro. O andar de cima, pra dormir e fingir que tínhamos uma rotina.
Só que, diferente do que a maioria imaginava, a gente não vivia de trocado. Eu e sabíamos esconder bem o que tínhamos. As apostas nas corridas e lutas não vinham só com risco, vinham com lucro. E mesmo com uma vida discreta, ainda assim… tínhamos grana.
— Tava pensando... — falei, pegando o celular em cima da bancada — a gente podia ajudar as meninas com a mudança hoje. E, sei lá... providenciar pelo menos as camas.
me olhou como se estivesse esperando a pegadinha.
— Ajudar com a mudança, beleza. Agora comprar móveis?
— Não móveis. Só... camas. É o mínimo. Elas estão começando do zero. E tem aquela cafeteira nojenta.
— Mano, esquece essa cafeteira. — Falou caminhando até a janela e apoiando os braços no parapeito, encarando a cidade que ainda despertava.
— Você está gostando dela, né?
Demorei pra responder. Porque não era simples. me tirava do sério. Mas também me fazia prestar atenção. Nela, nas coisas ao redor. Como se o mundo ganhasse mais contraste quando ela tava por perto.
— Ela é... interessante — murmurei.
— Interessante. — repetiu com sarcasmo. — Aham.
— E você acha a o quê? Irritantemente engraçada?
Ele riu.
— Ela tem respostas afiadas demais pro meu gosto.
— E você adora isso.
Ele levantou as mãos como quem se rende.
— Ok, ok. Mas voltando: você acha que elas vão aceitar?
— Não sei. Mas a gente pode dar um jeito de parecer que não é presente. Só... facilitar a vida.
Peguei o celular e mandei mensagem.


Online

A gente passa aí às 9h para ajudar, beleza?



A resposta veio quase imediata


Online

A gente passa aí às 9h para ajudar, beleza?

Desde que traga café. E donuts. Muitos



Sorri sozinho. não perdia tempo.

Duas horas depois, estávamos estacionando em frente ao hotel. As meninas desceram com duas malas, uma mochila, a maldita cafeteira e um saco de salgadinhos — que, pelo visto, tinha sido o café da manhã.
— Trouxeram o café? — perguntou, se esticando para olhar dentro do carro.
mostrou a sacola da lanchonete e ela quase o abraçou.
— Agora sim — disse, pegando um donut.
jogou a mochila no banco de trás, em cima do colo de que a olhou com raiva, por quase ter derrubado seu donut, e sentou no passageiro, do meu lado. Estou me acostumando com essa dinâmica de lugares, parece certo.
— Tô com medo de olhar o que tem no porta-malas.
— Só tem coisa leve — menti.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Eu vi lá de cima você descendo do carro rapidamente e tentando fechar o porta-malas três vezes, .
— Dramática, e é um carro esportivo, não significa nada quando no porta-malas mal cabe uma caixa de ovos.
Ela me lançou aquele olhar de quem sabia muito bem que eu estava escondendo algo. Mas não insistiu.

Chegar no condomínio foi mais tranquilo do que eu esperava. O lugar era silencioso, limpo, e apesar do studio ser pequeno, tinha cara de lar. As paredes brancas, o carpete nos quartos, a cozinha minúscula... tudo dizia “começo”. Bem melhor que nosso loft, que por mais que fosse maior, é comandado por dois homens que mal sabem usar um fogão.
Ajudamos a levar as coisas. ficou encarregado das malas. Eu e carregamos os donuts.
— Ok, agora a grande pergunta — falei — Vocês vão querer ajuda pra montar tudo, ou preferem fingir que são fortes e independentes?
— Fortes e independentes — disseram as duas ao mesmo tempo.
— Espera… montar tudo o que se a gente não tem nada? — perguntou colocando as duas mãos na cintura.
Quando o porteiro apareceu com a entrega — duas camas embaladas, simples, mas novas — me olhou como se estivesse tentando ligar os pontos.
— Isso não estava no porta-malas.
— Ah, isso? — dei de ombros. — Achamos na calçada.
— Com etiqueta da loja.
— Que coincidência, né?
Ela cruzou os braços, mas o sorriso surgiu, ainda que contido.
— Vocês não precisavam…
— A gente sabe — interrompi, encarando-a. — Mas quisemos.
Por um segundo, ela hesitou. E depois só disse:
— Tá. Nesse caso, não somos fortes e independentes, podem montar.
— Já peguei as ferramentas — disse, abrindo a caixa como se tivesse feito isso mil vezes.
Enquanto montávamos as camas, e as meninas tentavam organizar a cozinha, havíamos parado no Walmart antes de virmos para a nova casa delas, para poderem ter pelo menos uns produtos de limpeza e alguns mantimentos.
— Camas montadas. — Apareci na sala. — Agora, vou buscar o que estava no porta-malas.
— Se vocês compraram um sofá rosa com glitter…. — começou a falar desesperada.
Saí para fora rapidamente e voltei com duas sacolas enormes.
— Jogo de cama! Tcharan! — falou antes que eu pudesse responder.
— O quê? — As duas falaram juntas.
— Vocês não acharam que iam dormir no colchão sem nada, né? Não somos trogloditas. — pegou uma das sacolas e estendeu para . — Escolhi especialmente pra você, princesa. — Revirei os olhos, mas notei as bochechas da menina ficarem vermelhas.
— Esse é seu. — Estiquei a sacola que havia sobrado para , que descruzou os braços e me olhou com desdém.
— Obrigada.
Assim que as meninas desembalaram os pacotes, pude ver o rosto delas serem tomados por um brilho.
— É… — Começou .
— Perfeito. — Completou .
Eu e passamos uma hora dentro da loja decidindo qual seria a melhor opção para as meninas, por fim, decidimos comprar colchas "irmãs", a colcha de era em um tom de amarelo bem fraco, com vários sóis dourados espalhados, o lençol era no mesmo tom de amarelo para combinar, já o de era um conjunto todo preto, com a lua espalhada em prata.
— Muito obrigada, meninos. O que vocês estão fazendo pela gente é sensacional. Não temos palavras — falou levantando-se a abraçando nós dois.
— É… até que vocês tem utilidade — falou dando ombros, e puxou ela para um abraço lateral bagunçando seu cabelo.
— Amolece esse coração de pedra, menina — falou brincando com ela. Ergui a sobrancelha encarando a cena, eu vou amolecer a cara dele. Pigarreei.
— Então… conseguiram ligar a geladeira? — perguntei e deu uma risada escandalosa soltando .

O fim da tarde chegou sorrateiro, com uma luz alaranjada entrando pela janela grande da sala, refletindo no carpete como se quisesse deixar tudo mais bonito por uns minutos.
A geladeira finalmente ligada — depois de alguns tapas do , que jurava que era "jeito" — e os donuts, bom... tinham desaparecido como se nunca tivessem existido.
apareceu no corredor com uma toalha pendurada no ombro e o cabelo preso de qualquer jeito.
— Se vocês não forem embora logo, vamos obrigar vocês a esfregar o banheiro, para garantir que esteja mesmo limpo.
— Esse é meu sinal pra fugir — falei, me levantando.
riu baixinho, sentada no chão da sala, com os joelhos dobrados e o travesseiro da sua cama no colo. Ela não parecia querer que a gente fosse. Mas também não ia dizer isso.
— A gente devia trazer comida japonesa — disse, coçando a nuca. — Um brinde à nova toca.
— Nossa... um yakisoba quentinho seria perfeito agora — disse, jogando a cabeça pra trás. — A gente até comprou umas comidas no Walmart, tipo, pipoca e macarrão instantâneo, mas aparentemente eles só vão ligar o gás amanhã.
— Glamour — murmurou.
— Cês tão falando sério? — perguntei.
— Infelizmente — respondeu. — Mas é só hoje. Amanhã a gente dá um jeito.
— Vocês passaram todo aquele tempo no mercado e não compraram comida? Comida de verdade? — falei indignado.
— Meu filho, a gente não tem dinheiro não. Já viu o preço da cenoura? Um absurdo! E também não adiantaria nada sem gás. Quando recebermos o próximo salário resolvemos isso. — me respondeu.
me olhou. E sem precisar de palavras, ele entendeu. Me virei de novo pra elas.
— Então a gente volta daqui a pouco com yakisoba. E refrigerante. E uma garrafa de vinho barato. Vocês vão negar isso também?
abriu a boca pra protestar, mas cortou:
— Se trouxer sobremesa... a gente aceita.

Uma hora depois, estávamos os quatro sentados no chão da sala, as caixas de comida japonesa abertas entre nós, copos de plástico e risadas escapando vez ou outra.
A TV ainda não existia. A decoração era inexistente. Mas havia algo mais importante ali: conforto. Um começo. Senti o olhar de sobre mim e me virei.
— Obrigada — ela disse baixinho, de verdade dessa vez.
— Por?
— Pela cama. Pela comida de verdade. Por fingir que não viu que eu quase chorei quando vi a geladeira funcionando.
Fiquei em silêncio por um momento.
— A gente sabe como é começar do zero.
Ela assentiu. E pela primeira vez, não rebateu, nem provocou. Só ficou ali, ao meu lado, com os olhos brilhando por causa da luz, ou talvez de alguma coisa que ela mesma não queria admitir.
— Vai dar certo — eu disse, sem nem saber exatamente por quê.
— Eu sei — ela respondeu. — Mas se não der... a gente finge que tá tudo bem. E segue em frente.
Sorri.
— Isso vocês sabem fazer bem.
Ficamos em silêncio por mais um tempo, enquanto tentava equilibrar um hashi no nariz e ameaçava jogar molho shoyu nele se ele derrubasse o apetrecho sujo no carpete limpo.
Naquele instante, mesmo com o mundo lá fora sendo o caos que sempre foi, ali dentro estava tudo certo.
Pelo menos por agora.


Capítulo 14 - Oh no, i'm fallin’ in love

God if you are real I need your help because
This girl has stolen my heart with her broken halo
And I can't deny she's so damn fine
Gimme some advice - Sexy Drug



Em uma semana, o novo apartamento já parecia um lar. As paredes ainda estavam vazias, os talheres não combinavam e o banheiro fazia um barulho estranho quando puxava a descarga, mas... era nosso.
Com poucos móveis e dinheiro contado, cada pequena conquista ganhava outra dimensão. Uma lâmpada nova. Um tapete achado numa venda de garagem para a cozinha. Um cereal barato no café da manhã.
Decidimos achar um bico, já que acabamos ficando com a tarde livre, assim, de dia, voltou com seus desenhos na praça. A cidade era maior, o movimento melhor, e as pessoas, mais propensas a pagar por arte. Ela falou até sobre se inscrever numa exposição de uma galeria local. Eu consegui um bico num posto de gasolina, nada glamouroso, mas rendia o suficiente para manter o gás, o sabonete e um café fraco sempre pronto na nossa cafeteira de guerra, que, por enquanto, além da geladeira, era nosso único eletrodoméstico. Desse jeito equilibramos as contas, o dinheiro do submundo vai para o aluguel e o restante mantemos nossa casa.
À noite, voltávamos pro submundo — onde o jogo de verdade acontecia.
Depois do caos da última luta, Davi e Migs estavam de volta com força. O galpão enchia de novo. A fumaça no ar tinha gosto de eletricidade. A tensão era quase física — como se todo mundo ali estivesse preso em silêncio por tempo demais e agora só soubesse gritar com os olhos.
Foi numa dessas noites que tudo começou a mudar pra mim, embora eu não tenha percebido de imediato.
Eu estava encostada num canto, tentando ignorar o frio que passava pelo zíper quebrado da minha jaqueta, quando ouvi uma conversa entre e Migs.
— O Raven vai puxar primeiro — disse Migs, olhos grudados na tela, preocupada. — Mas se ele repetir o traçado da última corrida, vai sair muito rápido da curva três.
Fiquei olhando o mapa no monitor por alguns segundos. A linha vermelha da simulação parecia estilingada demais naquela curva.
— Ele não vai conseguir segurar a traseira ali — falei, sem pensar.
virou pra mim.
— Como é?
Engoli em seco. Eu não era ninguém ali. Só mais uma garota nos bastidores. Mas continuei:
— Se ele entrar com essa velocidade e essa angulação, vai abrir demais na saída. Vai perder tração. E se o outro vier colado, já era.
Um silêncio estranho se formou. Migs franziu a testa, mas em vez de retrucar, olhou de volta para a tela e começou a fazer ajustes.
— De onde você tirou isso? — perguntou , desconfiado, mas não hostil.
— Eu assisto as corridas. Só... gosto de entender. Às vezes, assistir às corridas me lembra ver alguém dançando. Não a parte bonita e ensaiada do palco, mas os bastidores — os músculos tensos, o suor, os pequenos deslizes que só quem entende repara. É um caos coreografado. E, de alguma forma, meu olhar sabe onde o dançarino pode tropeçar.
Ele não disse nada, apenas assentiu devagar. Minutos depois, vi Migs cochichando algo com ele antes de sair.
Naquela noite, Raven venceu — com uma curva três muito mais aberta.
Nos dias seguintes, começaram a me fazer pequenas perguntas. Coisas pontuais, quase casuais. Migs passou a deixar o notebook virado na minha direção de vez em quando. E aos poucos, quase sem querer, comecei a fazer parte daquilo.
Nada oficial, é claro. Mas quando eu comentava algo, ouvia-se silêncio. Quando apontava um erro, vinham os olhares. Alguns já me chamavam de "a loirinha dos cálculos" — apelido que eu odiava, mas não me dei ao luxo de corrigir, afinal começou pelo Tino.
Depois de rever mais uma rodada de gravações, espreguicei os braços e deixei escapar um sorriso discreto.
Eu ainda era uma sombra ali dentro. Mas uma sombra que começava a ter forma. Se conseguisse confiança o suficiente, o salário aumentava e eu poderia dizer adeus ao posto de gasolina.
— Vai dançar agora? — Migs perguntou, com um sorriso zombeteiro. Trabalhar nesse lugar me despertou algo que há muito tempo eu não sentia, meu amor pela dança, sempre gostei de dançar, desde pequena, mas com a chegada do meu padrasto em nossas vidas, tudo perdeu o sentido.
— Por que não? Trabalhei de graça, né? Mereço um intervalo.
Caminhei até a pista improvisada, onde várias pessoas já se movimentavam. A fumaça no ar misturava cheiro de cigarro, gasolina e perfume barato. Mas ali, naquele instante, nada disso importava.
Um cara se aproximou. Alto, sorriso fácil, jaqueta de couro desgastada.
— Vem comigo — disse, oferecendo a mão.
Eu deveria ter dito não. Mas simplesmente queria dançar, então aceitei.
A batida me envolveu como um cobertor. Me movi com naturalidade, os cabelos soltos acompanhando cada giro, cada rebolar de quadril. O cara era insistente, queria me puxar mais, colar nossos corpos, mas eu mantinha distância — divertida, mas atenta. Sempre atenta.
Até que ele exagerou.
As mãos dele escorregaram para minha cintura com força, uma mão pousou ali e a outra desceu na minha bunda, dando um apertão. E antes que eu pudesse empurrá-lo ou responder... alguém me puxou de volta. Com força.
— Que porra é essa? — . Vi o cara saindo de fininho pelo canto dos olhos.
O som ainda batia alto, mas a tensão entre nós era mais alta ainda.
Ele me segurava pelo braço, firme, o rosto a centímetros do meu.
— Qual é o seu problema?! — rebati, surpresa.
— O cara tava praticamente te comendo no meio da pista — rosnou.
Afastei o braço.
— Eu sei me virar, obrigada.
Os olhos dele queimavam. Não era raiva. Era algo mais denso. Mais quente. Mais... íntimo. Ele passou a mão nos cabelos, tentando se recompor, mas falhou miseravelmente.
— Esse lugar tá cheio de babaca hoje. E nem todo babaca entende quando tá passando dos limites. Eu vou atrás daquele otário. — fez menção de sair, mas o segurei pelo braço.
— Não sou de porcelana, .
— Eu sei. Mas isso não significa que você precise aguentar esse tipo de merda.
— E desde quando você se importa? — disparei, antes que meu cérebro me dissesse pra ficar calada.
O silêncio entre nós ficou denso.
Olhos nos olhos.
Respiração acelerada.
A música parecia mais lenta agora. Ou talvez fosse só o sangue correndo alto nos meus ouvidos.
Não era só sobre proteção. Era ciúmes. Puro. Cru. Ardente.
Tive vontade de rir, mas não o fiz. Em vez disso, dei um passo mais perto, o suficiente pra que minha voz saísse baixa, só pra ele.
— Cuidado, . Ciúmes assim... entrega coisa que você tá tentando esconder.
Ele não respondeu. Apenas desviou o olhar, com um meio sorriso nos lábios. Um daqueles sorrisos que dizem "você não faz ideia do que tá mexendo."
Mas eu fazia.
Pelo menos um pouco.
Raven

Ela saiu da pista com aquele maldito andar provocante, jogando o cabelo pros ombros como se nada tivesse acontecido. Como se ela não tivesse acabado de virar meu mundo do avesso com uma porra de uma dança.
Eu fiquei ali. No meio da fumaça. Na porra da batida eletrônica que parecia zombar da minha cara.
Ciúmes? Era isso que ela tinha dito?
"Ciúmes assim entrega coisa que você tá tentando esconder."
Porra. Talvez esteja. Talvez esconda mesmo. Mas também não era como se eu tivesse muita escolha. Não podia me envolver, não podia me distrair, não podia deixar esse lugar ferrar minha cabeça de novo — não depois do que aconteceu da última vez.
Mas ela…
Aquela garota era uma merda de uma distração que me fazia querer esquecer de tudo.
E isso me deixava com raiva.
Joguei o corpo de volta contra a parede, os punhos cerrados. Olhei em volta procurando o , qualquer desculpa pra sair dali antes que fizesse alguma merda.
Ele estava no fundo, falando com o Davi.
— E aí?
Davi levantou o olhar. Tinha algo nos olhos dele que não vi nos últimos dias: preocupação real.
— O pai do Rocco mandou mais gente hoje — ele disse. — Estão infiltrando nas apostas, bagunçando os números. Jogando os novatos contra os caras de fora.
cruzou os braços.
— Querem afundar tudo por dentro.
— Exato — Davi confirmou. — E não é só pelas apostas. É pessoal. Esse velho quer a nossa cabeça desde que você tirou o filho dele da jogada.
soltou um riso seco.
— Eu só acabei com a pose dele. Se ele tivesse um pingo de coragem, vinha resolver comigo direto. Mas claro... manda os cachorros em vez de vir latir na minha cara.
Eu fiquei em silêncio. O clima estava escuro como o próprio galpão. Mas parte da minha cabeça ainda estava lá atrás, com a . Com a porra do jeito que ela me olhou. Com o cheiro dela ainda grudado na minha camiseta.
— Eles vão tentar sabotar as próximas lutas — Davi continuou. — E as corridas também.
— Acha que a Migs está preparada pra isso? — perguntei, seco.
Davi deu de ombros.
— Migs sabe fazer o jogo virar. Mas ela não confia em ninguém. Nem em vocês. Nem em mim. Ela vai deixar rolar até alguém sangrar de verdade.
— Até alguém morrer, né? — completou, sombrio.
Eu não disse nada. Porque sabia que ele tinha razão. passou a mão nos cabelos, tenso. Depois me olhou.
— E você? Vai se controlar até quando?
— Que porra você tá falando?
Ele soltou uma risada curta.
— Tô falando da . Eu vi a cena, todo mundo viu. Você acha que engana quem, ? O jeito que você olha pra ela... você quer ela. Quer tanto que quase quebra a cara do idiota que encostou nela.
— Ele passou do limite.
— E você também. Internamente. Não finge que não está se corroendo.
Suspirei, cansado. Passei a mão no rosto.
— Isso não pode acontecer, .
— Por quê? Porque você é um ex-pilot… — ele se interrompeu quando o olhei com fúria — corre com uma máscara e vive fingindo que é outra pessoa? — sussurrou alto.
— Porque ela não merece alguém como eu.
Ele me encarou, sem ironia agora.
— Isso você deixa ela decidir, irmão.
Silêncio. A batida da música vibrando na estrutura do galpão. Eu encostei de novo na parede, tentando voltar a pensar no que importava. Na infiltração. Nas corridas. No Raven. No que viria. Mas a verdade é que a imagem dela, dançando, mordendo o lábio, girando como se fosse dona da noite tinha se enraizado em mim como veneno. E se ela soubesse que o Raven que ela assiste em vídeos sou eu e que eu sou um filho da puta que fez merda e acabou com tudo. Ela ia fugir. Como minha família. Como todo mundo, mas até lá eu ainda podia observá-la e protegê-la a distância, mesmo que ela não quisesse, porque se alguém mais encostar nela daquele jeito de novo, juro por Deus, não vai sair daqui andando.

Dois dias haviam se passado desde a confusão com e as coisas entre eu e ela estavam diferentes, a proximidade que havíamos construído nos dias passados, quando as meninas estavam de mudança, simplesmente morreu, eu havia estragado tudo, para variar.
Eu estava debaixo do carro, com a chave inglesa na mão e a cabeça cheia. O som das ferramentas ecoava abafado contra o concreto do galpão. Aquilo costumava me acalmar. Rotina. Ordem. Graxa, engrenagens, comandos. Nada ali mentia pra mim, mas hoje, não estava funcionando, porque ela estava ali.
Sentada no canto da bancada ao lado da Migs, com o rabo de cavalo alto e a camiseta colada ao corpo suado pela movimentação do galpão. . A garota que, em questão de semanas, saiu da beira do desespero pra sentar de frente com Migs e opinar na porra da estratégia do Raven. Minha estratégia.
Não que eu fosse do tipo que não ouve ninguém, mas ver ela ali — concentrada, mexendo nos dados, sugerindo mudanças de entrada nas curvas como se fosse uma veterana — mexia com algo dentro de mim que eu não sabia nomear. Talvez orgulho. Talvez receio.
Ou pura e simples raiva de não ter mais controle.
Ela apontava pra tela do notebook e Migs, a filha da puta mais teimosa que eu conheço, estava assentindo. Como se fizesse sentido. Como se aquela loirinha com olhos verdes e língua afiada tivesse virado especialista do dia pra noite.
Mas ela era boa. Merda, ela era boa. E eu odiava isso tanto quanto admirava.
— Você tá muito quieto hoje. — surgiu do nada, apoiando o ombro suado no capô ao meu lado. — Aconteceu alguma coisa... ou a loirinha virou o centro do seu mundo?
— Vai se foder. — rosnei, mas minha voz saiu mais baixa do que queria.
Ele riu, aquele riso debochado que me irritava há anos.
— Relaxa, Raven. — Ele sussurrou o nome e eu quase enfiei a chave em sua garganta — Ninguém vai tirar seu posto de rei do submundo só porque a Barbie dos números sabe ler dados de aceleração.
Joguei a chave inglesa de lado e me levantei, limpando as mãos em um pano encardido.
— Isso não tem nada a ver com o que ela sabe — menti.
— Claro que não. — Ele cruzou os braços. — Tem tudo a ver com o que ela faz você sentir. A gente vê, irmão. Você olha pra ela como quem tenta se convencer de que pode resistir. Mas todo mundo já entendeu que não pode.
Me calei. Porque ele estava certo.
Eu a vi dançar naquela porra de palco improvisado há dois dias, o corpo fluindo entre as luzes vermelhas como se ela tivesse nascido ali. E então, no mesmo lugar, hoje, ela estava decifrando padrões de condução e sugerindo linhas de entrada com uma precisão que nem os meus pilotos veteranos conseguiam.
Ela era uma ameaça. E não no sentido ruim.
Era uma ameaça ao que eu lutei pra construir: minha paz, meu anonimato, meu silêncio. era barulho. era movimento. era o tipo de problema que eu passaria a vida resolvendo com um sorriso torto no rosto. Ela se levantou da bancada, pegou uma garrafa de água e seguiu para o box onde eu estava. Pensei em sair. Fingir que estava ocupado demais pra conversar, mas ela me viu. Como sempre faz.
— chamou, firme, com aquela voz doce que escondia um temperamento explosivo.
.
— Tô te atrapalhando?
— Sempre — respondi, sem pensar.
Ela ergueu a sobrancelha, parando a dois passos de mim. Mesmo com o barulho do galpão, o mundo pareceu se calar.
— Migs me pediu ajuda com os dados de frenagem — explicou, como se precisasse justificar algo pra mim.
— E você achou que sabia mais do que os caras que estão aqui há anos?
— Não. — Ela cruzou os braços. — Eu só vi algo que ninguém tinha visto. Achei que o objetivo fosse ganhar corridas, não alimentar egos.
Toquei a ponta do nariz, fechando os olhos por um segundo.
— Você tem razão.
Ela piscou.
— O quê?
— Você ouviu. — me aproximei um pouco. O suficiente pra sentir o cheiro doce do suor na nuca dela. — Mas se vai se meter, vai ouvir também.
— Ouvir o quê?
— Que se alguém encostar em você, se alguém te colocar em perigo, se alguma porra sair do controle por sua causa, eu vou arrancar os braços de qualquer um com as próprias mãos.
Ela abriu um sorriso lento, debochado, sem desviar o olhar.
— Ah, entendi. Machismo disfarçado de preocupação. Que fofo.
— Não é machismo, sunshine. — Sorri torto. — É ameaça mesmo.
Ela riu. Mas eu vi o leve arrepio que percorreu os braços dela.
Tinha gostado da ideia.

O som do motor roncava no fundo como um animal faminto prestes a ser solto da jaula.
Estávamos no ápice da noite. Os corredores já alinhados, a multidão fervendo no mezanino, Migs de um lado com o rádio em mãos e — merda, — do outro, de pé, concentrada, o tablet colado ao peito como se fosse parte dela.
Ela usava a camiseta preta com o logo do submundo, amarrada na cintura, deixando à mostra parte do abdômen. Cabelo preso alto, fones no ouvido, olhos verdes atentos como se pudessem ver o futuro. E, por um instante, me ocorreu o absurdo: talvez ela visse.
A corrida daquela noite era grande. Dinheiro alto nas apostas. Dois corredores novatos da nossa equipe contra um veterano de San Bernardino e o maldito primo do Rocco, aquele babaca que causou o caos na semana anterior.
— Linha dois tá muito ousada. — ela disse, virando pra Migs. — Se o Ramirez não reduzir na curva da faixa amarela, vai rodar. Chama ele no rádio.
— Já avisei. Não respondeu. — Migs rosnava, mas estava ouvindo. — Acha que roda mesmo?
— Aposto cinquenta que ele come pneu. — Ela nem piscou.
E então, segundos depois, Ramirez freou tarde demais, perdeu o controle e o carro saiu girando como uma bailarina bêbada na pista de terra.
— Caralho — Migs murmurou.
Eu só observava. Com os braços cruzados atrás das duas, maxilar travado e os punhos fechados. Meu corpo dizia que eu devia intervir. Tomar as rédeas. Assumir o comando da equipe, do rádio, da situação. Mas algo em mim estava paralisado.
Ela sabia o que fazia.
, a garota que apareceu do nada, que fugiu de uma vida fodida e agora mandava numa equipe de corrida com mais firmeza do que os veteranos.
— Faixa um liderando, mas o pneu traseiro esquerdo tá com desgaste irregular — ela disse no rádio, firme. — Migs, se o Arthur tentar fechar, manda recuar. Não vale o risco.
Migs apenas assentiu. E seguiu a ordem.
E deu certo. Filha da puta, deu certo.
me olhou por cima do ombro. Um segundo só. E sorriu de canto. Não de arrogância, mas de satisfação. Orgulho. Aquilo era dela. Ela tinha vencido uma batalha invisível ali. Contra o medo, contra o instinto de fugir, contra tudo.
E meu coração deu um giro que eu não esperava.
"Você tá fodido", pensei comigo mesmo.
Eu nunca me envolvia. Nunca misturava trabalho com qualquer outra merda. Mas agora ali estava eu: observando aquela mulher tomar o controle da corrida com a precisão de um sniper — e não conseguindo tirar os olhos dela.
No fim da corrida, vencemos por uma diferença mínima. O público explodiu em gritos e assobios, enquanto os carros estacionavam, cobertos de poeira e glória.
tirou os fones, entregou o tablet de volta para Migs e se virou. Os olhos procurando algo. E quando me achou, hesitou. Só por um segundo.
Mas foi o suficiente.
Fui até ela. Andei devagar, ignorando o burburinho ao redor. Quando parei em frente, ela ergueu o queixo.
— Você tá com alguma coisa entalada aí ou só veio me dar parabéns? — ela perguntou, ainda ofegante, as bochechas vermelhas do calor e da adrenalina.
— Você foi bem — falei, sem rodeios.
— Isso é tudo? Um "você foi bem"? Eu acabei de impedir três acidentes e ganhei uma corrida, .
— Eu sei.
Ela ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Então?
— Então agora você entende. — Inclinei a cabeça. — O que é viver isso. O controle, o poder. A sensação de que o mundo obedece quando você acerta a frequência.
Ela ficou em silêncio. Depois assentiu, devagar.
— É viciante.
— É perigoso — completei.
— Eu não tenho medo — respondeu, firme. — E você também não deveria ter.
Aquela frase me atingiu como um soco.
E sem pensar, me aproximei mais. O suficiente pra sentir o hálito quente dela contra meu queixo.
— Eu não tenho medo, sunshine. Eu tenho certeza. E é isso que me fode.
Ela sorriu. Pequeno. Quase gentil.
— Vai ter que lidar com isso, então.
E saiu, deixando só o cheiro dela, o calor do corpo e a porra do meu coração tentando entender quando foi que tudo desandou.
Eu fiquei ali. Sozinho. No meio da comemoração.
Pensando que eu já tivesse perdido essa corrida. E que ela nunca foi minha pra vencer.


Capítulo 15 - Marmalade, we're making out

How much longer will it take to cure this?
Just to cure it cause I can't ignore it if it's love (love)
Makes me wanna turn around and face me
But I don't know nothing about love - Accidentally in love



Hoje é noite de luta. O bar tá cheio, como sempre. O som dos copos batendo, a vibração da multidão em volta do ringue, o cheiro de álcool e suor... tudo isso já não me assusta. É o meu turno no bar, mas nas últimas semanas, Davi começou a me dar pequenas folgas quando percebeu que eu começava a ficar muito avoada, os pensamentos sobre a exposição de arte tomando conta de mim.
E agora, aqui estou eu. Sentada num canto mais escuro, quase invisível, com meu caderno de croquis no colo e um lápis na mão. Meus olhos seguem os movimentos no ringue, mas não qualquer um. Eu sigo ele.
.
Ele se move como se tivesse nascido pra isso. Não só pra luta, mas pra cena. Cada passo dele parece ensaiado — ou pior, natural. As faixas brancas nas mãos, o moletom escuro que ele joga fora antes de subir, os músculos tensos nos ombros e braços. O sorriso que ele lança pro público antes do primeiro golpe. Eu deveria achar ridículo. Eu deveria estar atrás do bar. Mas aqui estou eu, desenhando como se minha vida dependesse disso.
— Você é obcecada — murmuro para mim mesma, riscando as linhas do maxilar dele com mais intensidade.
gira, desvia de um soco e revida com um direto no queixo do oponente. A multidão grita, se levanta, agita as apostas.
Depois de uns minutos, tão concentrada no desenho que não vejo a luta acabar, sinto alguém parar do meu lado, mas não levanto os olhos.
— Isso é novo. — a voz dele, baixa, quase divertida.
Pisco algumas vezes antes de levantar o olhar e dar de cara com o próprio , suado, com uma toalha no pescoço, o rosto vermelho do esforço e o sorriso de sempre no canto da boca.
— Você não devia estar comemorando com os apostadores? — pergunto, fechando devagar o caderno.
— Preferi vir ver quem é que anda me desenhando como se fosse uma dessas estátuas gregas. — Ele senta ao meu lado sem ser convidado, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Posso ver?
— Não — respondo rápido demais.
Ele ri, aquela risada baixa que é quase um ronronar.
— Achei que a gente já tivesse superado essa fase de segredos.
— Isso não é segredo. É só... meu. Ainda não terminei.
Ele olha pra mim de lado. Os olhos azuis mais claros do que deveriam ser num lugar tão escuro.
— Você sempre desenha quando estou lutando?
— Eu desenho o que me inspira — respondo, seca. Mas não rude.
— E eu te inspiro? — ele sorri mais, mas não de forma convencida. Como se estivesse realmente curioso.
— Você tem um rosto interessante. Uma expressão estranha antes de cada soco. Como se estivesse pensando em outra coisa — murmuro.
— Talvez eu esteja mesmo. — Ele diz, e por um segundo, o silêncio entre a gente parece dizer mais do que qualquer outra coisa. — Você sabia que podia desenhar assim desde sempre?
Dou de ombros.
— Aprendi sozinha. Não é como se meu pai quisesse me deixar estudar arte. Mas sempre foi o que me salvou da bagunça. No papel, tudo tem forma. Até o caos.
Ele observa meu caderno fechado, mas não insiste.
— Quero ver quando estiver pronto — diz, se levantando.
— Quem disse que vai ficar pronto? — retruco.
Ele dá um passo pra trás, e antes de se virar, me lança um último sorriso.
— Porque você não sabe parar no meio. Você termina o que começa.
E então desaparece no meio da multidão, como se nunca tivesse parado.
Fico mais alguns minutos ali, fingindo que o desenho é o único motivo de eu continuar sentada nesse canto escuro. Mas meu lápis treme mais do que devia. Cada linha do rosto dele parece me desafiar a encarar algo que eu ainda não sei se estou pronta para admitir. tem esse efeito. Ele te joga no centro de um furacão e depois age como se não tivesse feito nada demais.
Fecho o caderno de novo e guardo na mochila. Volto pro bar antes que alguém perceba minha ausência prolongada.
O bar está uma bagunça, como sempre depois de uma luta. Copos sujos, gente rindo alto, contando vantagens que não conquistaram. não está mais ali. Ótimo. Meu coração precisa de cinco minutos de paz.
— Sumida — ouço uma voz familiar dizer do outro lado do balcão.
Quase respiro aliviada. . Com o cabelo preso num coque alto, suada, cansada, mas com aquele brilho no olhar que só aparece quando ela dança. Ela puxa uma garrafa d’água e se senta num banco do lado de dentro.
— Você perdeu, viu? — ela continua. — O quase arrancou a cabeça do cara. O público foi à loucura.
— Eu vi — respondo, enxugando o balcão. — Inclusive, acabei desenhando. De novo.
Ela sorri de canto, olhando pra mim com aquela expressão de quem sabe mais do que diz.
— Você tá ferrada — comenta, tomando um gole da água. — Ele mexe com você.
— Ele mexe com todo mundo. Faz parte do charme de lutador malandro.
— Mas com você é diferente. Você não cai fácil. E mesmo assim…
Reviro os olhos, mas não nego. Porque ela está certa. Porque não dá pra mentir pra . Porque talvez, pela primeira vez, eu esteja cansada de negar.

Mais tarde, já do lado de fora, sentada na mureta que dá vista para os fundos do galpão, eu acendo um cigarro. Não sou de fumar. Mas hoje… hoje é diferente. O papel entre meus dedos queima devagar, assim como a ideia dele, ainda rondando minha cabeça.
aparece do nada. Como sempre. Como se o universo conspirasse pra ele me achar nos momentos que eu menos quero ser achada — e mais preciso.
— Você fuma? — pergunta, erguendo uma sobrancelha.
Dou um trago, lento, e assopro a fumaça antes de responder:
— Hoje sim.
Ele encosta na parede ao meu lado, em silêncio por um momento. Está com outra roupa agora, calça jeans escura e camiseta cinza, cabelo ainda úmido do banho, o perfume discreto, amadeirado.
— Obrigado por hoje — ele diz, do nada.
Viro o rosto pra ele, surpresa.
— Por quê?
— Por desenhar. Por olhar pra mim como se eu fosse mais do que um cara que sabe dar soco. Nem todo mundo faz isso.
— Talvez porque nem todo mundo presta atenção.
Ele sorri, mas é um sorriso diferente. Um pouco mais triste. Um pouco mais… sincero.
— E você presta?
— Sempre — digo, sem hesitar.
não responde de imediato. Ele apenas se inclina um pouco, pega o cigarro da minha mão, dá um trago e devolve. E naquele gesto, naquela troca silenciosa de olhares, tem mais intimidade do que em qualquer beijo.
— Me mostra quando estiver pronto — ele repete, antes de sair andando em direção ao estacionamento.
E, de novo, some.
Fico ali por mais alguns segundos, olhando a brasa do cigarro apagar devagar. Amanhã ele vai estar treinando como se nada disso tivesse acontecido. Eu vou estar atrás do balcão, fingindo que também não. Mas hoje… hoje ele me viu.


Eu não sou o tipo de cara que pensa muito depois de uma luta. Eu bato. Grito. Sangro. Ganho. Depois tomo banho, visto qualquer merda de roupa e deixo o barulho pra trás. Mas hoje alguma coisa ficou. A imagem dela. No canto escuro do galpão. Sozinha. Me desenhando.
E não era como se estivesse rascunhando qualquer merda em papel — ela me via. Eu senti. Cada linha traçada parecia arrancar um pedaço meu que eu nem sabia que existia.
Fumo ainda no ar, boca dela marcada de vermelho escuro, jeito extrovertido e com os olhos atentos. E a forma como ela fala comigo, como se não tivesse medo, como se não tivesse pressa.
Dirijo sem rumo por alguns minutos depois que saio do galpão. As ruas de San José estão quase vazias a essa hora, mas minha cabeça parece uma porra de estádio lotado. E tudo que toca lá dentro é o nome dela.
.
Me viro para a lanchonete da esquina, aquela 24 horas onde a gente costuma ir quando o mundo pesa demais. Mas não é isso que eu quero. Não agora. Eu só quero... nem eu sei o que eu quero.
Encosto a moto num beco e deixo o motor ligado. Jogo a cabeça pra trás e encaro o céu por um segundo. Meu maxilar ainda dói da luta. Meus dedos estão ralados. Tô vivo. Mas parece que foi ela que me acertou hoje.
Ela e aquele maldito caderno.
Pensei que era só mais uma menina perdida no caos, igual a tantas outras que passam pelo bar. Mas ... ela observa antes de atacar. Ela calcula. Ela guarda tudo — e quando fala, te desarma inteiro.
E por algum motivo torto e fodido, isso me faz querer vê-la ruir. Querer ver o que ela esconde. Destrancar tudo com as mãos, mesmo que me machuque no processo.
Solto um palavrão baixo e bato o punho no guidão. A porra do sorriso dela ainda tá grudado na minha memória. Aquilo não é normal. Aquilo não é seguro. Mas talvez seja por isso mesmo que eu queira tanto. O celular vibra no apoio da moto. . Mando direto pra caixa postal. Não quero conversa. Não quero ninguém agora.
Só ela.
Tiro o capacete, desço da moto e caminho pela rua vazia com os punhos nos bolsos. A cidade tem esse jeito sujo e silencioso de te lembrar quem você é. Eu não sou herói. Não sou namorado de ninguém. Sou o cara que luta. Que ganha dinheiro na porrada. Que finge que a vida tem algum sentido quando tá com o ringue girando ao redor.
Mas mexe com o equilíbrio.
E isso... isso é perigoso.
Talvez eu devesse me afastar.
Talvez devesse ignorar o jeito que ela me olha.
Mas eu já vi esse jogo antes. E ela me provocou. Desenhou minha alma num maldito caderno.
Agora... agora eu preciso ver o que mais ela esconde.
E se for pra queimar, que seja bonito. Que seja com ela.

Meus dedos ainda estavam sujos de grafite.
Eu desenhei como se estivesse hipnotizada — e talvez estivesse. O barulho do galpão tinha sumido por um tempo. Só existia ele, no ringue, e eu, tentando entender o que diabos fazia aquele homem parecer mais perigoso quando estava em silêncio do que quando socava alguém com toda força.
Depois que ele foi embora, eu tentei voltar pro bar. Fingi que nada tinha acontecido. Mas a verdade? Eu não conseguia parar de pensar na forma como ele me olhou. Como se já tivesse me visto nua. Não o corpo. A alma.
Fiquei até tarde. Davi me mandou embora depois de perceber que eu estava só enrolando e só haviam três gatos pingados lá dentro. Hora de fechar. já havia ido pra casa, tinha conseguido carona com uma das meninas da corrida, pediu para eu ir junto, mas recusei, estava elétrica demais para qualquer coisa.
Voltei pro apartamento. tinha ido dormir cedo — ou fingido que estava dormindo quando entrei em casa.
Mas eu não queria dormir. Eu precisava sair.
De mim.
Dele.
Troquei de roupa. Um moletom velho, o cabelo solto e o caderno embaixo do braço. Não sabia pra onde ia, mas acabei voltando pra onde tudo começou. Consegui um uber até uma esquina próxima e depois terminei o caminho a pé.
O galpão estava fechado, mas o estacionamento dos fundos não. Me sentei no capô de um carro velho, iluminada só por uma luz de emergência pendurada num poste. Tirei o caderno da mochila e o abri. O rosto dele. Firme. Suado. Feroz.
Merda.
— Você tem esse hábito de desenhar qualquer lutador ou é só comigo?
A voz me fez virar tão rápido que quase derrubei o caderno. E lá estava ele. . De moletom escuro, mãos nos bolsos, olhar cravado em mim como se eu fosse uma equação que ele ainda não resolveu.
— Você me seguiu? — perguntei, a voz mais firme do que eu esperava.
Ele deu de ombros, parando na minha frente.
— Estava meio perdido, quando vi fui parar na rua da sua casa. Eu te vi sair. E fiquei curioso.
— Curioso é uma palavra perigosa.
— Não mais do que você. — Ele sorriu de canto. — Posso ver agora?
— Não.
— Ainda?
Assenti, mas ele não insistiu.
Ao invés disso, se sentou ao meu lado. O silêncio se instalou entre nós como uma respiração compartilhada.
— Sabe o que eu pensei hoje enquanto lutava? — ele perguntou, de repente. Neguei com a cabeça.
— Pensei se você ainda estava me vendo. Por quê?
— Porque você tem raiva demais guardada. E isso me fascina — falei baixo, encarando a rua vazia. — Você sangra e sorri. Parece que está tentando convencer o mundo que está tudo bem, mesmo quando não tá.
Ele se virou, me olhando de verdade.
— E você, ? O que esconde no seu silêncio?
Demorei pra responder.
— Coisas que prefiro deixar no papel. Lá ninguém me julga. Ninguém tenta consertar.
Por um segundo, achei que ele fosse rir. Mas não.
Ele apenas encostou a testa na minha, devagar, como quem respeita a tensão.
— Eu não quero te consertar — ele murmurou. — Mas quero bagunçar tudo o que você acha que é verdade.
A respiração dele tocou minha boca.
Meus dedos tremiam no colo.
Não era beijo ainda.
— E se eu não quiser ser bagunçada? — perguntei.
Ele sorriu, sem se afastar.
— Você já tá sendo.
E então foi como um estouro.
As mãos dele foram pro meu rosto, boca colada na minha, quente, faminta, quase bruta e eu beijei de volta como se não tivesse opção. Porque eu não tinha. Beijar era como cair num poço sem fundo. Escuro, profundo e absolutamente inevitável. A boca dele tinha gosto de urgência. E uma promessa que eu não sabia se queria cumprir.
As mãos de desceram do meu rosto para minha cintura, puxando como se quisesse me colar nele de vez, como se aquela distância entre nossos corpos fosse uma afronta pessoal.
Eu não resisti. Joguei o caderno no teto do carro, puxei para mais perto, subi uma das pernas sobre ele, me sentando em seu colo com uma naturalidade que não fazia o menor sentido.
Nossos corpos se encaixaram com um estalo surdo. A respiração dele bateu no meu pescoço. Meus dedos cravaram na nuca dele, puxando sem pedir licença.
— Merda, … — ele murmurou contra minha pele, os lábios descendo por meu maxilar, a barba por fazer arranhando de leve, como se quisesse deixar marca.
E eu queria. Queria me sentir marcada.
Era loucura. Era cedo. Era errado.
Mas era isso ou enlouquecer de vez.
As mãos dele apertaram minhas coxas. Subiram por debaixo do moletom, encontrando a pele da minha cintura. Ele respirava rápido. Quente. Tenso. Como se estivesse se segurando por um fio.
— Diz que eu posso — ele pediu, baixo, a boca perto do meu ouvido.
— Pode. — saiu antes que eu pensasse. — Mas não aqui.
Ele travou. O corpo inteiro. As mãos ainda em mim, mas agora imóveis. Nos encaramos por alguns segundos. A tensão era como uma corda esticada entre nossos corpos. Se puxasse mais um pouco, rasgava. Se soltasse, explodia.
— Então onde, ? — Ele rosnou, o nome escapando como uma provocação embriagada.
— Qualquer lugar... — respondi, ainda arfando. — Que não tenha cheiro de graxa e abandono e que eu não corra o risco de pegar tétano.
Ele riu. Riu como se estivesse perdido. Como se tivesse sido pego no próprio jogo.
— Isso foi você dizendo que quer fazer isso direito? — ele perguntou, os olhos perigosos demais.
— Não sei o que é certo, . Mas sei o que eu quero. E agora… eu quero parar. Porque se eu não parar agora, a gente vai se foder. Literalmente. — Falei num sopro, encostando a testa na dele.
Ele sorriu. Mas era aquele sorriso torto, afetado.
— Então eu espero — ele disse, e mesmo assim não me soltou. — Mas da próxima vez que você sentar no meu colo e me olhar desse jeito, … eu não prometo me segurar.
Desci devagar, sem tirar os olhos dele.
Meus joelhos ainda estavam fracos.
O corpo todo em alerta.
— A gente ainda tem uma luta pra perder — falei, pegando o caderno com os dedos trêmulos.
Ele olhou pra mim como se eu fosse o caos mais bonito que ele já viu.
— Essa luta eu já perdi quando pus os olhos em você pela primeira vez. Você já era minha muito antes de ser. — Arfei. — Vou te levar para casa, minha garota não anda sozinha à noite. — Não consegui responder, apenas assenti concordando.


Capítulo 16 - I just wanna be somebody to someone

Don't take me tongue-tied
Don't wave no goodbye
Don't break - Tongue Tied



Eu não dormi. Na real, nem tentei.
Fiquei encarando o teto sujo do loft por tempo demais, os dedos coçando pra escrever alguma coisa, socar alguma coisa, esquecer alguma coisa.
Mas não dava, porque eu ainda sentia o gosto dela. O peso dela no meu colo. A voz dizendo "pode"… e depois, "para". entrou na minha cabeça como uma porra de granada sem pino. Agora tudo que eu fazia tinha o rosto dela costurado nas beiradas.
Levantei cedo. Mais cedo que o normal.
só me lançou aquele olhar dele: direto, silencioso, julgador pra caralho. Mas não falou nada. A gente tem esse pacto não verbal: cada um com seus fantasmas. Ele sabia que eu estava com alguém durante a madrugada, não sabia quem era, mas acho que desconfia, eu também desconfiaria.
O galpão ainda estava meio morto quando cheguei. Os caras da luta limpando os restos da noite passada, Davi gritando com dois seguranças que sumiram. O ringue estava vazio, mas o cheiro de sangue ainda estava lá, misturado com suor e cerveja barata.
Fui direto pra área de treino, tirei a camisa e comecei a socar o saco com força demais. Cada golpe era uma desculpa pra não pensar. Pra não lembrar da risada dela. Do desenho no colo. Do jeito como ela olhou pra mim antes de ir embora.
Inferno.
— Você vai rasgar o saco se continuar assim — ouvi a voz de atrás de mim.
— Melhor o saco do que alguém, né? — respondi, ofegante.
Ele encostou na parede, de braços cruzados, com aquela cara de "eu sei mais do que falo". O cara é um livro fechado com capa de ferro, mas às vezes, ele me lê como se fosse fácil.
— A ? — ele pergunta, direto.
— O que tem ela?
Ele não responde. Só ergue uma sobrancelha. Desgraçado. Joguei a toalha no banco e passei a mão no rosto suado.
— A gente quase transou ontem. No galpão.
Ele não parece surpreso. nunca parece surpreso. Só suspira, como quem carrega o mundo nas costas e tá cansado disso.
— Isso vai dar merda, .
— Tudo que vale a pena dá.
Ele não responde. Mas o olhar dele diz o suficiente. Diz que ele já viu esse filme antes. Diz que ele sabe que o "vale a pena" pode custar caro. Mas eu tô cagando. Porque eu não vou me afastar. Porque quando ela me olha daquele jeito, eu me esqueço de tudo. E, pela primeira vez em anos, quero lembrar como é sentir.


Fingi que dormi. Fingi tão bem que quase me convenci. Mas a verdade?
Passei a madrugada com o coração acelerado e as mãos geladas. Repetindo a mesma cena como se minha mente fosse uma fita presa no mesmo trecho.
A mão dele no meu quadril. A respiração entrecortada. Meu nome escapando da boca dele como um segredo sujo. E então o para. A quebra. O fim. Eu sabia que era o certo. Mas isso não fazia doer menos.
Quando cheguei ao galpão, o mundo já estava girando no modo automático. Migs gritava com dois novatos no lado das corridas, Davi fazia malabarismo com as fichas de apostas. As luzes ainda piscavam com aquele tom âmbar sujo que eu já tinha aprendido a amar e odiar na mesma proporção.
O bar estava tranquilo. Por enquanto. Puxei o avental, prendi o cabelo e fingi normalidade. Mas ele já estava lá. Encostado na beirada do ringue, sem camisa, com as mãos enfaixadas e os olhos grudados no nada. Só que não era o nada. Era em mim.
Desviei rápido. Rápido demais. E ele notou. Claro que notou. Continuei cortando limões como se aquilo fosse a tarefa mais urgente do mundo. Mas meu corpo todo estava consciente da presença dele. Do cheiro de suor, couro e alguma coisa que era só .
Ele se aproximou devagar. Como se soubesse que não precisava correr pra me alcançar.
— Dormiu bem? — a voz dele era baixa, rouca. Quase debochada. Mas com uma ponta de verdade que me arrepiou.
— Melhor que você, aposto — respondi sem erguer os olhos.
— Você acha?
— Tenho certeza.
— Porque eu tô com essa cara de quem foi atingido por um caminhão de incertezas? — ele provocou, e eu odiei o quanto queria rir.
— Não. Porque você tem essa cara de quem quer conversar sobre ontem e não vai.
Silêncio. Denso. Cortante.
— E você? — ele perguntou. — Quer conversar sobre ontem?
Soltei o ar com força.
Larguei a faca sobre a tábua.
— Não sei.
Ele se aproximou mais um passo. Perto demais.
— Mas você desenhou — ele disse. — Você desenha quando sente. Ou não?
— Você sabe demais sobre mim — murmurei, irritada.
— Você me deixou saber.
Encostei as mãos no balcão, firme. Me obriguei a encará-lo.
— O que você quer, ?
Ele abriu um sorriso pequeno, um pouco torto, um pouco torturante.
— Ainda estou tentando descobrir. Mas seja o que for… você começou também.
Me afastei primeiro. Dei a volta no bar, peguei uma bandeja e fui recolher copos vazios nas mesas. E claro ele veio atrás. não sabe ficar quieto. Mas a verdade? Talvez eu não quisesse que ele soubesse.
— Vai ser assim agora? Você me beija, sobe no meu colo, rebola no meu pau e vai fugir de mim? — Ele falou chegando por trás e sussurrando no meu ouvido causando arrepios na minha pele. Fechei os olhos e respirei fundo.
— Acho que nos precipitamos…
— Você se arrepende?
— Não! — falei rápido demais, me virando para ele.
— Então não estou entendendo o que está te impedindo. Se estivéssemos em qualquer outro lugar, você não teria me pedido para parar. Teria? — Estava me sentindo sufocada, pressionada.
, eu preciso trabalhar. Mais tarde a gente conversa — falei notando que Davi nos olhava com interesse. Empurrei o peito dele para que se afastasse de mim e ele segurou a minha mão.
— Responde a porra da minha pergunta — falou firme.
— Não, idiota. Não teria pedido para parar. Agora me solta! — Puxei meu braço e sai pisando duro, percebendo que chamamos mais atenção que o normal, já que o galpão inteiro nos olhava. Abaixei a cabeça com vergonha e entrei na despensa para me esconder.
Que ódio desse idiota. Que ódio de mim. Otária. Pensei encostando a cabeça na porta de madeira.

Mais tarde, o bar estava quase vazio.
A última luta já tinha terminado, os sons abafados dos motores do outro lado do galpão começavam a diminuir. Davi já tinha sumido com as fichas e os seguranças cochilavam em pé.
Fechei o caixa, guardei as garrafas, limpei o balcão pela terceira vez — e ele continuava ali. Sentado em uma cadeira no canto do bar, uma perna esticada, a outra dobrada, os braços apoiados atrás da cabeça, camiseta preta colada no peito, suado da luta.
— Tem um motivo pra você ainda estar aqui ou só gostou do meu show de limpeza? — perguntei, jogando o pano molhado na pia.
Ele sorriu de lado, aquele maldito sorriso.
— Talvez os dois.
Revirei os olhos, mas fui até ele. Encostei-me na bancada ao lado da cadeira onde estava sentado, de braços cruzados.
— Você precisa parar com isso.
— Com o quê?
— Com esse olhar. Como se tivesse algo que eu não sei. Como se estivesse me esperando ceder.
Ele se inclinou para frente, cotovelos nos joelhos.
— Não estou esperando você ceder, porque isso você já fez. Eu sou paciente, princesa, não vou desistir de você agora que já começamos, agora que provei o gosto da sua boca. Agora que você já é minha.
Fiquei sem palavras por dois segundos. Talvez três.
— Não vou me envolver, . É muito cedo, a gente nem se conhece direito. — Revirei os olhos afirmando.
— Você já está envolvida.
Aquela frase. De novo. Como se ele soubesse exatamente onde apertar.
— Você tem mil outras meninas nesse galpão dispostas a te dar tudo com um estalar de dedos — falei, tentando manter o tom firme. — Por que insiste logo em mim?
Ele levantou devagar, me fazendo recuar instintivamente. Só um passo. Mas ele percebeu.
— Porque você não me dá tudo — murmurou se aproximando. — Você me dá guerra. Me dá verdade. E, porra… porque desde que eu te vi, eu quero saber onde esse fogo vai dar se eu acender.
Meu coração martelava tão alto que eu tinha certeza que ele ouvia.
— E o que acontece quando não tiver mais como apagar?
Ele parou diante de mim.
Tão perto que eu sentia o calor do corpo dele, o cheiro de suor e desodorante e algo só dele.
— A gente queima junto.
— Você não me conhece, .
— Então me mostra. Me deixa conhecer.
Eu podia recuar. Dizer não. Dar um passo e sair dali com minha razão intacta. Mas não saí.
— Só… não estrague isso — sussurrei.
Ele sorriu.
Dessa vez, sem ironia. Sem máscara.
— Prometo que não vou.
E então ele encostou a testa na minha, como se pedir permissão sem palavras. Eu não recuei. Não dessa vez.
Se ele me beijasse agora, seria o começo de algo que nem eu sabia nomear.
Mas ele não beijou. Apenas ficou ali. Testa na minha. Respiração quente.
Silêncio entre dois furacões prestes a colidir. E foi exatamente isso que me fez querer mais. Ainda estávamos ali, tão perto que eu sentia o ar quente da respiração dele roçar minha pele. Meus olhos estavam presos nos dele — claros, intensos, como se quisessem invadir e bagunçar tudo que eu achava que tinha sob controle.
— Só me diz uma coisa — ele disse, com a voz rouca, baixa. — Você quer?
Engoli seco. Meu corpo inteiro estava gritando sim, mesmo que a cabeça ainda tentasse resistir. Mas não resisti.
— Quero, mas....
Foi tudo que ele precisou. O beijo veio rápido, quente, sem espaço pra dúvida. A mão dele envolveu minha cintura, me puxando com força. Beijava como lutava: com precisão, com fome. Me senti despencar — sem medo da queda.
Minha mão agarrou a barra da camiseta dele, puxando pra mais perto. Ele gemeu contra minha boca, como se estivesse esperando por isso há tempo demais.
— Finalmente — ele murmurou entre um beijo e outro, rindo contra meus lábios.
— Cala a boca — sussurrei, rindo também, mas sem afastá-lo nem um milímetro.
— Uau — uma voz soou atrás da gente. — Espero que isso não quebre nenhuma regra do bar.
Nos viramos ao mesmo tempo, ainda colados. estava de braços cruzados, encostada na parede ao lado do balcão. E, atrás dela, , com a típica expressão neutra, mas os olhos dançando com algo que parecia entre divertimento e vigilância.
— Vocês não têm casa? — resmungou, soltando minha cintura aos poucos, como se a eletricidade ainda estivesse lá.
— Na verdade, temos — respondeu, sorrindo de canto. — Mas viemos chamar vocês. Todo mundo já foi embora e o disse que queria fechar o galpão, achei que dava tempo de espiar se o casal já tinha saído do flerte para ação.
— Eu não beijei ninguém — murmurei, ajeitando o cabelo e tentando controlar a temperatura do meu rosto.
— Não, imagina. A boca do caiu na sua sem querer. — rebateu.
riu alto. só observava.
— A gente já ia sair — disse, olhando de relance pra mim, mais sério agora. — Mas valeu a visita. Da próxima vez talvez você consiga entrar no momento exato do beijo.
— Dá próxima vez trago a pipoca. — piscou.
— Tá bom — interrompeu, a voz grave e firme como sempre. — Vamos. A noite foi longa. Davi quer reunião amanhã cedo.
— Sobre a briga? Ainda? Já não foi resolvido? — perguntei, olhando para , que agora estava ao lado do .
— É — ele respondeu. — Mas isso fica pra amanhã. Hoje a noite termina aqui.
E por algum motivo, enquanto caminhávamos juntos para fora do galpão, com o peso da madrugada sobre os ombros e o gosto do beijo ainda nos lábios, tive certeza: Nada entre nós quatro seria como antes.


Capítulo 17 - Tudo que você tenta esconder um dia aprende a gritar

It's getting dark and it's all so quiet
And I can't trust anything now
And it's coming over you like it's all a big mistake - Haunted



Levar elas de volta pra casa naquela noite foi automático. Ninguém discutiu sobre isso. Ninguém planejou. Simplesmente aconteceu. E talvez fosse isso que mais me incomodava — o quão natural tudo se tornou.
A e a já faziam parte da rotina. Da bagunça. Do silêncio. Do caos e da trégua. Parecia certo. Como se os quatro funcionassem melhor juntos, mesmo sem entender o porquê. Ninguém falou sobre o beijo do e da , mas também ninguém precisou. O clima estava ali, pairando entre nós, e o silêncio disse tudo. Eles estavam cruzando a linha.

As semanas tinham passado como um borrão. O ringue voltou a funcionar. As corridas voltaram a girar. E o submundo retomou seu ritmo violento e imprevisível. Mas nem tudo tinha voltado ao normal. Eu não tinha.
Passei os últimos dias me concentrando mais nos ajustes do carro. Testes, curvas, ajustes de suspensão, tempo de resposta. Tudo precisava estar perfeito. agora me ajudava com algumas análises e, estranhamente, fazia sentido ter ela por perto.
Hoje, ela apareceu com uma prancheta. Cheia de linhas, curvas desenhadas à mão, observações anotadas em caneta azul. Algumas risíveis, outras... brilhantes.
— Onde conseguiu esses dados? — perguntei, levantando os olhos.
— Observei. Deitei no chão perto da curva 3 na última corrida. O Raven — ela hesitou — sempre acelera mais tarde que os outros. E mesmo assim, sai da curva mais rápido. Tem algo ali que compensa.
Ela não fazia ideia. E isso era o mais irônico. Falava comigo sobre mim, como se eu fosse só mais um mecânico qualquer. E por algum motivo, eu deixava e isso estava me matando.
— Isso é só intuição?
— Experiência de quem passou a vida observando gente perigosa. A gente aprende a ler movimentos quando depende disso pra não morrer.
Ela não disse por sobrevivência. Disse pra não morrer. É aí que você percebe a diferença.
Permaneci em silêncio por alguns segundos, analisando. Peguei a prancheta e a encostei no capô. Ela deu meia-volta pra sair, mas eu falei antes.
— Você deveria vir comigo na próxima testagem. Observar da pista.
Ela parou.
— Você quer que eu vá?
Assenti. Simples. Sem rodeios. Ela não esperava. Isso eu vi. Antes que ela dissesse qualquer coisa, o rádio apitou no meu bolso.
, preciso de você no lado das lutas. Jarek apareceu de novo sem estar na lista. — Era Davi.
— Tô indo.
Desliguei.
— Vai resolver briga também? — ela cruzou os braços.
não veio hoje, não tem luta com ele, ficou em casa se recuperando para a próxima. Faço um pouco de tudo. Inclusive manter gente como você longe de encrenca.
— Gente como eu?
— Que acha que se protege sozinha, mas não faz ideia do tamanho do buraco em que está pisando.
Ela soltou uma risada baixa. Sem humor.
… eu cresci num buraco. Isso aqui é passeio no parque.
Eu poderia ter rebatido com frieza. Poderia ter rido. Mas o que saiu foi:
— Prende o cabelo quando for pra pista. E troca aquele short. Distração demais pra quem precisa manter o carro na linha.
Ela arqueou a sobrancelha, desafiadora.
— Isso foi um aviso, uma crítica... ou você tá com ciúmes?
— Foi um aviso — respondi seco. Mas não consegui esconder o riso no canto da boca. — E você é livre para ignorar. Mas aí não reclama quando acabar nos braços errados.
— E quais seriam os certos?
Ela deu um passo mais perto, quase me desafiando. Sempre jogando gasolina na faísca. E eu cada vez mais perto do fogo. Eu quis responder os meus. Mas engoli. O rádio apitou de novo. Maldição.
— Depois a gente conversa sobre estratégia. — Apontei pra prancheta. — E sobre short jeans indecente.
Virei as costas antes que ela visse o que aquela conversa tinha feito comigo.
Mal sabia ela que, mesmo longe da pista, ela me tirava do controle muito mais do que qualquer curva.

Atravessei o galpão por trás dos carros, desviando da fumaça e dos sons abafados que vinham do lado das lutas. O barulho aumentava à medida que me aproximava. Gritos abafados, copos batendo, o som de uma garrafa quebrando. Quando passei pelo corredor lateral, já sabia: Jarek tinha arranjado confusão de novo.
O maldito sempre aparecia nas noites em que o controle era essencial.
! — Davi me chamou com o cenho franzido, parado no centro da área do bar com dois seguranças visivelmente perdidos. — Ele tá tentando entrar na porra do ringue dizendo que tem aposta pessoal com o Russo. Não tava na lista, e ainda por cima tá cheirado.
Suspirei, estalei o pescoço e avancei.
Jarek estava aos berros, com a camisa aberta, o colar de prata balançando no peito suado. Os olhos arregalados, a mandíbula travada. Conhecia aquele olhar. Já tinha quebrado o nariz de caras com o mesmo brilho nas pupilas.
— Tô falando que ele me chamou, porra! — Jarek berrou, empurrando um dos seguranças.
— Ninguém chamou você — falei, seco, e ele virou na hora.
— Ah, olha só quem veio. O mecânicozinho. — Ele riu. Riso torto, instável. — Achei que você só entendia de carro, não de homem de verdade.
Dei um passo à frente. Devagar.
— Dá meia-volta, Jarek. Não tem lugar pra você aqui hoje. Nem amanhã. Nem nunca mais, se você continuar forçando.
— Eu tenho uma aposta! — ele gritou. — Tenho ficha na mesa!
— Aposta que não existe, não se cobra. E aqui, você não cobra porra nenhuma. — Falei mais baixo agora. Mais frio.
Ele me encarou. O olhar vacilou. Bastava um movimento em falso e ele tentaria algo. Mas não tentou. Porque ele sabia quem eu era.
Não como mecânico. Não como peça sobressalente do Raven. Sabia o que vinha antes disso. Sabia o que eu ainda era.
Eu me aproximei o suficiente pra ele sentir o peso da minha presença. Falei baixo, só pra ele ouvir:
— Se quiser brigar, me espera lá fora. Mas se pisar aqui dentro de novo, Davi vai quebrar teu contrato com todas as casas de apostas da Costa. Vai sobrar nem fichinha de bar para você apostar em porrinha.
Ele hesitou. Cuspiu no chão. Deu um passo pra trás.
— Isso ainda vai voltar pra você, — ele disse entre dentes.
— Então venha preparado da próxima vez.
Dois seguranças o pegaram pelo braço. Eu acenei pra Davi, e ele devolveu com um sinal rápido. Resolvido.
Fiquei ali mais um instante, observando a movimentação voltar ao normal. As apostas foram reabrindo. A luta reagendada. O caos retomando sua ordem.
Mas minha cabeça… minha cabeça já tinha voltado pra .
Ela estava se metendo nisso como quem mergulha de olhos fechados. Estratégia, pista, análise. Achava que estava só ajudando. Mas cada passo dela nesse mundo era uma pegada a mais no concreto. E concreto não perdoa queda.
Voltei andando pro lado das corridas, com o barulho das lutas ficando pra trás.
Eu tinha um carro pra revisar. E uma garota teimosa demais pra própria segurança, prestes a descobrir o quão fundo é o buraco em que já se meteu.

Voltei para a área dos boxes, mas ela não estava mais onde deixei. O carro do Raven estava coberto com a lona preta, e a prancheta dela estava sobre o banco de apoio. Peguei sem pensar. Tinha mais anotações do que imaginei — dados, curvas, nomes codificados…
O que me prendeu foi o olhar que ela colocava nas pessoas. Era como se visse além da pele, do músculo. Como se ela soubesse. Demais. Foi quando ouvi a voz dela atrás de mim.
— Vai ficar fuçando minhas coisas ou só queria roubar minha prancheta mesmo?
Virei devagar. Ela estava com os cabelos parcialmente soltos, presos só com uma presilha torta. O rosto manchado de poeira e suor. Bonita demais pra estar aqui.
— Isso é informação técnica. E tá no meu carro. Posso considerar espionagem.
— Só se você não tiver nada a esconder no seu carro — ela rebateu.
Aquelas palavras bateram seco. Olhei pra ela, e dessa vez, acho que não consegui esconder.
— O que foi? — ela perguntou, o tom ainda brincalhão, mas os olhos... atentos demais.
— Nada. Só tô cansado.
— Você parece mais do que cansado, . Parece… em conflito.
Dei dois passos até ela.
— O que você viu?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Isso é um teste?
— É uma pergunta.
— Vi você conversando com o Davi como se estivesse acima dele. Vi como Jarek saiu daqui olhando pra baixo. Vi como ninguém encosta no carro do Raven sem você autorizar. E vi você me olhando como se soubesse que uma hora eu ia começar a desconfiar de você.
Fiquei em silêncio por longos segundos. Porra. Ela era boa.
— E o que você desconfia?
Ela baixou os olhos.
— Que você não é só o que diz que é. E que provavelmente eu não sou digna de confiança.
Ela deu meia-volta. Começou a andar em direção à parte externa. Eu segui. Ficamos em silêncio até estarmos fora do galpão, os dois encostados no capô de um carro abandonado, longe de ouvidos.
Foi quando falei:
— Antes... você disse que fugiu pra não morrer.
Ela endureceu ao meu lado. Não me olhou.
— O que tem?
— Eu quero saber o que você quis dizer.
— Por quê você quer saber? Já falei tudo aquele dia no restaurante. — A voz dela saiu baixa, trêmula.
— Como posso confiar em você, se você não confia em mim? — Perguntei divertido.
O silêncio entre nós pesava. Parecia hesitante. Como se estivesse se perguntando até onde podia ir. Até onde eu ia com ela.
… me fala quem fez isso com você. O que fizeram com você. — Minha voz saiu firme, mas sem pressa. Como se eu estivesse tentando segurar a raiva com as duas mãos.
Ela mordeu o lábio. Desviou os olhos. Um segundo. Dois.
E então quebrou.
— Meu padrasto, ele era… imprevisível — a voz dela saiu falhada. — Às vezes passava uma semana sem falar comigo. Outras, me fazia limpar a casa toda de madrugada e gritava se eu derrubasse uma colher. Minha mãe sempre dizia que ele era um homem quebrado, que só precisava de paciência.
— Ele não era um homem quebrado, . Ele era um monstro. — Interrompi.
Ela fechou os olhos.
— Eu achava que estava exagerando. Eu me convenci de que era normal apanhar por responder atravessado. Que eu devia ficar grata por ainda ter um teto. Quando ele batia na minha mãe, eu dizia que era porque ela provocava. Porque era mais fácil acreditar nisso do que aceitar que a gente estava presa no inferno.
— E você tentou sair?
Ela riu. Um som seco. Amargo.
— Inúmeras vezes. Eu juntei dinheiro escondido por mais de um ano. Toda gorjeta que conseguia, todo trocado. Mas ele sempre achava. Lia minhas mensagens, revirava minha mochila. Ele dizia que se eu tentasse fugir de novo, ele ia fazer pior do que bater.
— E naquela noite? — perguntei, a mandíbula travada.
Ela demorou. A voz saiu embargada, mas firme.
— Eu vi o jeito que ele me olhou. Como se eu já fosse dele. Como se tivesse esperado aquele momento por anos. Minha mãe estava desacordada, ele empurrou a porta do meu quarto… e sorriu. — Ela engoliu em seco. — Eu soube que ia acontecer. Que nada ia parar ele. Então eu corri. Pulei a janela. Machuquei meu joelho com a queda, mas eu continuei correndo. Como se o inferno estivesse nas minhas costas. E estava.
Ela tremia. Eu sentei no capô do carro ao lado dela e passei o braço em volta de seus ombros. Ela não recuou.
— Eu ainda acordo com medo — continuou. — Ainda acho que vou abrir os olhos e ele vai estar na porta. Às vezes sonho que tô presa em casa de novo, e que ninguém me escuta gritar.
— Você não tá mais sozinha, .
— Eu sei — sussurrou. — Mas tem dias que eu ainda sou aquela menina, parada no corredor, ouvindo os passos dele subindo as escadas.
Eu segurei o rosto dela entre as mãos e a fiz me olhar.
— Se esse filho da puta ainda respira, é porque você é boa demais. Mas se você quiser... se você quiser justiça — minha voz baixou, cada sílaba arrastada de raiva contida — eu dou um jeito.
Os olhos dela brilharam com lágrimas que ela se recusava a deixar cair.
— Você acha que eu sou fraca, não acha?
— Não. Eu acho que você sobreviveu ao inferno. E ainda conseguiu sair andando. Isso não é fraqueza. Isso é uma força do tipo que ninguém ensina.
Ela abaixou a cabeça. Um soluço escapou. E eu deixei. Porque às vezes a força também tá em chorar na frente de alguém e não pedir desculpas por isso.
— Eu não quero que você se envolva com isso, . Ele já destruiu minha vida. Não quero que destrua a sua também.
Eu sorri, mas sem humor.
, você já tá na minha vida. E ninguém destrói o que eu escolho proteger.
O silêncio que veio depois foi diferente. Um silêncio cheio de promessas veladas e verdades sussurradas com os olhos. Eu não sabia dizer o que estava nascendo ali. Mas sabia que era mais forte do que qualquer disfarce que a gente ainda tentasse usar.
Ela me abraçou. Dessa vez, por vontade própria. E eu segurei como se isso fosse a coisa mais importante que eu já tive nas mãos.
E talvez fosse.
— Nome completo? — perguntei, a voz baixa, gelada.

— Nome. Completo.
Ela me encarou. E pela primeira vez... pareceu com medo de mim.
— Richard Lowell.
— Ele ainda mora em Kingman?
Ela não respondeu. Eu não precisava. Já estava resolvido.
Me afastei um passo. Encostei a testa no metal frio do carro. Tentei respirar. Mas aquela história... me destruiu. E eu não sabia o que fazer com o que sentia por ela. Só sabia que se um dia cruzasse com esse desgraçado, ele não voltaria a andar.
ainda me observava, mas agora... com algo a mais no olhar. Talvez reconhecimento. Talvez alívio. Talvez a mesma raiva que eu sentia.
— Você quer que eu suma com ele? — perguntei, sem olhar.
— O quê?
— Eu tô perguntando se você quer que eu mate esse filho da puta.
O silêncio que veio depois não foi recusa.
Ela se aproximou. Devagar. Encostou a mão no meu rosto, e quando falei de novo, foi mais baixo:
— Porque eu mataria. Sem pensar duas vezes.
Ela não disse nada. Apenas me abraçou novamente.
E porra... aquilo doeu mais do que qualquer soco que eu já levei.


Eu achava que já tinha enterrado tudo isso.
O passado.
As memórias.
As vozes.
Mas bastou ele perguntar. Bastou aquele olhar, aquela calma estranha no meio do caos que sempre existe entre nós, pra tudo subir à superfície como uma ferida mal cicatrizada.
E agora aqui estou eu, sentada no capô de um carro, com a jaqueta dele, que me entregou após um vento gelado bater em meus braços, me envolvendo como um abrigo, e o peito ardendo como se alguém tivesse rasgado de dentro pra fora.
Falar aquilo em voz alta me fez sentir como se tivesse tirado um pedaço de vidro preso na garganta. Ainda dói. Mas pelo menos agora eu consigo respirar.
O silêncio dele depois das minhas palavras me atingiu mais do que qualquer consolo barato teria feito. não disse que ia ficar tudo bem — porque não ia. E eu precisava disso. De alguém que não me tratasse como uma vítima, mas como uma sobrevivente. Como alguém inteira, mesmo cheia de partes rachadas.
Mas quando ele falou… Quando ele me prometeu proteção com aquele tom de quem já cumpriu promessas piores. Eu senti algo mudar dentro de mim.
Medo.
Culpa.
Desejo.
Tudo misturado. A forma como ele me segurou depois. Como se meu corpo fosse feito de algo precioso, não de cicatrizes. Como se minhas lágrimas não fossem fraqueza, mas prova de que eu ainda estava aqui. Lutando.
Eu o abracei.
E pela primeira vez, não me senti suja por precisar de alguém.
— Eu odeio que ele ainda tenha esse poder sobre mim — sussurro, como se minhas palavras pudessem evaporar no ar morno da madrugada.
não responde. Só aperta meu braço com os dedos largos, firmes. Como se dissesse: "eu sei". E eu acho que ele sabe mesmo. Porque tem uma tristeza nos olhos dele que eu reconheço. Aquela que só existe em quem já foi machucado e aprendeu a sorrir com os dentes cerrados.
— Eu... eu não sabia se conseguiria contar isso pra alguém. — Confesso. — Nem mesmo pra .
— Não precisa se forçar — ele diz, baixo. — Mas se quiser, eu tô aqui.
"Eu tô aqui." Três palavras simples. Mas quando ele fala, elas ganham peso. Ganham valor.
Fecho os olhos por um instante, tentando memorizar a sensação de estar protegida. De não precisar olhar por cima do ombro. De não ser só medo e fuga o tempo inteiro.
— Eu nunca contei pra ninguém — digo, enfim. — Não com todos os detalhes. Só… não queria que ninguém olhasse pra mim com pena. E eu sei que a … se soubesse tudo, ia carregar isso como se fosse dela também, ela já carrega, mesmo sabendo pouco.
— Eu não sinto pena de você — ele diz, e há algo afiado e certeiro nas palavras dele. — Eu sinto raiva. Muita. Por não ter estado lá. Por não ter podido impedir. Mas de você? Só respeito.
O nó na minha garganta aperta de novo.
… — murmuro, virando o rosto pra ele.
Ele já me encara. Os olhos escuros, intensos, quase selvagens. Mas é uma selvageria que não assusta. É o tipo que assusta quem tenta me tocar sem permissão.
— O que você tá pensando? — pergunto, já sabendo que não quero a resposta completa.
— Tô pensando no que vai acontecer se um dia esse cara aparecer.
— E se ele aparecer?
— Então a gente resolve — ele diz. Simples assim. — Você não vai estar sozinha. Nunca mais.
E, naquele instante, algo em mim muda. Como se pela primeira vez em muito tempo, eu pudesse parar de correr. Como se esse lugar — esse galpão de fumaça, corridas e caos — tivesse me mostrado o que é ter alguém que escolhe ficar mesmo depois de ouvir a pior parte da sua história.
E esse alguém... é ele. Misterioso. Silencioso. Tão perigoso quanto confiável. E, por algum motivo, eu começo a entender que meu coração sabe disso antes mesmo de mim.


Capítulo 18 - O que resta quando a poeira abaixa

Never thought I'd live
To see the day
When everybody's words got in the way
Hey sugar show me all your love
All you're giving me is friction
Hey sugar what you gotta say? - Everybody talks



O silêncio da nossa nova casa era diferente do silêncio do hotel. Lá, era ausência. Aqui… parecia pausa. Um intervalo entre o que fomos e o que estamos tentando ser.
O estúdio em Sunnyvale era pequeno, mas confortável à sua maneira. A cozinha minúscula tinha cheiro de produto de limpeza e paredes brancas demais. Os carpetes rangiam sob nossos pés descalços, e o ar-condicionado fazia aquele barulho insistente e reconfortante que preenchia o vazio. Ainda não tínhamos muitos móveis, só o essencial. As camas em cada quarto, a geladeira que veio junto, um micro-ondas de uma casa que estava se mudando e a cafeteira que fazia barulhos estranhos, mas entregava o que prometia e um sofá pequeno, porém confortável e não era rosa com glitter, apenas o bom e velho off white.
estava jogada de barriga pra cima na sala, com um pote de pipoca no chão, os pés balançando no ar e o cabelo preso. Eu estava encostada na geladeira, bebendo um copo de água e uma camiseta de banda que mal me lembrava de ter comprado.
— Tá tudo muito estranho — ela disse de repente, com a boca meio cheia de pipoca. — Tipo... bom. Mas estranho.
— Estranho como? — perguntei, me deitando ao lado dela, olhando para o teto.
— Eu beijei o . Tipo, beijei mesmo. Ele não é só o cara charmoso que trabalha no bar, apesar que agora que estou lá ele deixou todo o serviço para mim. — Revirou os olhos. — Ele é um lutador fodido, talentoso pra caralho, que podia ter qualquer garota e…
— E escolheu você — completei, olhando pra ela. — Você percebe isso, né?
Ela desviou o olhar e encolheu os ombros.
— Eu sei. Mas não sei o que fazer com isso. A gente ficou... íntimos. Não só fisicamente. Ele é engraçado, protetor, irritante pra caramba. Mas também tem esse lado... solitário. Que não mostra pra ninguém. Só que aí eu me pergunto: e se for só agora? E se isso for só mais um episódio e depois ele cansar? É tão pouco tempo…
— E se não for? — retruquei. — Você vive fugindo do que sente, . Talvez agora seja a hora de parar e só... tentar. Se der merda, você vai saber que pelo menos arriscou. Não vai mais viver naquela expectativa eterna.
Ela me olhou, quieta, e depois soltou um suspiro pesado.
— E você?
— Eu contei pra ele. — A frase saiu mais baixa do que eu queria.
— Contou o quê?
— Tudo. Sobre o Richard. Sobre o que aconteceu naquela noite. Sobre minha mãe. Contei tudo pro ontem.
sentou-se devagar, os olhos grudados nos meus.

— Eu não queria. Mas saiu. E ele escutou. Escutou mesmo, sabe? Sem me interromper, sem tentar me consolar do jeito errado. Só... ficou ali. Me olhando como se estivesse processando cada pedaço do meu trauma. Como se fosse fazer algo com aquilo.
— E isso te assustou?
Assenti.
— Porque ele parece o tipo que faria alguma coisa. Que pegaria um carro, dirigiria até Kingman e colocaria uma bala na cabeça do Richard sem pensar duas vezes. E por mais que uma parte minha deseje isso todos os dias... tem outra parte que sabe que isso só vai chamar atenção. Que vai bagunçar tudo. E que... vai me fazer sentir culpada. Porque, no fundo, por mais que ele seja um monstro, ele ainda é o cara que dorme ao lado da minha mãe.
se aproximou e pegou minha mão.
— Ele não vai fazer nada sem te contar. O importante é que você não está mais sozinha com essa dor. Você falou em voz alta. Isso já é um passo gigante.
— E se ele se afastar depois disso? — sussurrei.
? Se ele quisesse se afastar, teria feito isso na primeira semana. Ele continua ali, olhando pra você como se soubesse que não pode quebrar nada em você porque o mundo já tentou fazer isso antes.
A emoção bateu, mas eu a engoli. Não era hora de chorar. Era hora de respirar e seguir.
— A gente vai ficar bem, né?
— A gente já tá bem — disse, sorrindo. — Ou pelo menos no caminho.
Sorri de volta, e por um instante, tudo pareceu certo. O teto branco, o cheiro de pipoca, o barulho do ar-condicionado e o som de duas garotas tentando reconstruir o próprio mundo, uma rachadura de cada vez.
E por mais que o submundo lá fora continuasse pulsando, por mais que os segredos ainda estivessem enterrados e os perigos à espreita, naquele apartamento velho, com móveis improvisados e o caos esperando na próxima esquina, nós estávamos em paz. Mesmo que fosse só por um capítulo.

A noite mal tinha começado, mas meu estômago já estava embrulhado.
Eu me aproximei do bar antes do movimento apertar e encostei no balcão onde organizava garrafas, a camiseta preta colada no corpo por causa do calor do galpão. Ela ergueu os olhos, sorriu rápido, mas franziu o cenho assim que viu meu rosto.
— Tá tudo bem?
— Não sei — murmurei, olhando por cima do ombro, como se pudesse surgir ali, do nada. — Você já sentiu que tá perdendo o controle da própria história?
parou por um segundo, largando a garrafa na bancada.
de novo?
Assenti, mordendo o lábio.
, eu não sei… tem algo estranho. Ontem, antes da minha conversa com ele, ele chamou o carro de Raven de "meu carro", parece bobo e, eu tinha ignorado, mas agora isso não sai da minha cabeça. Toda vez que olho pra ele, parece que tem alguma coisa que ele quer dizer, mas segura. Eu me abri com ele, sabe? Contei tudo. Sobre o Richard, minha mãe, tudo. E... ele ainda tá se escondendo.
respirou fundo, limpando as mãos num pano.
— Acha que ele está mentindo?
— Não sei se é mentira. Mas é omissão. E eu estou cansada de confiar em homens e quebrar a cara.
Ela estendeu a mão e apertou a minha por cima do balcão, com firmeza.
— Só vai com calma. Não foge antes de ter certeza do que tá acontecendo.
Assenti. Mas lá no fundo... algo em mim já começava a se preparar pra correr. Ou pra lutar.


Já passava das cinco da tarde quando encostei o carro de volta no galpão. estava ao meu lado, calado. Pela primeira vez em dias, não tocava no rádio. Só o barulho do motor preenchia o silêncio.
Fazia tempo que não nos sentíamos tão... normais.
As meninas estavam bem. Na casa nova. Rindo de coisa idiota com aquele brilho de quem ainda acredita que dá pra começar de novo. Estávamos nos tornando parte da rotina um do outro. Involuntariamente. Como uma peça que encaixa, mesmo quando você finge que não está procurando por ela.
Mas essa paz me deixava inquieto. Porque não ia durar.
Desliguei o motor e empurrei a porta pesada do galpão. O cheiro de óleo queimado, tinta e fumaça ainda impregnava o lugar. Davi e Migs estavam numa reunião improvisada na sala dos fundos. A tensão era quase física. Mesmo com a briga resolvida, o estrago tinha sido grande demais pra simplesmente fingirmos que nada aconteceu.
— Eles acham que foi um ataque isolado? — perguntei a .
— Não. O pai do Rocco não vai parar. Ele perdeu o respeito dos dele, e agora quer recuperar pela força.
— Usando o submundo como campo de guerra.
assentiu.
— E usando a gente como alvo.
Passei a mão no cabelo, exausto, tinha desfeito as tranças e raspado o cabelo. Mas não era o cansaço físico que me moía por dentro. Era a culpa. O nome Raven não saiu da boca de ninguém, mas eu vi os olhares. Vi os cochichos. E mais do que isso: vi os olhos da na corrida anterior. Ela viu mais do que devia. E mesmo que não saiba o quê, está conectando pontos. E isso vai me destruir.
Ela confiou em mim. E eu tô mentindo.
Subi para o mezanino do lado das corridas. Dali de cima conseguia ter uma visão geral de todo o galpão e do meu carro, que ainda estava ali, coberto, imóvel, parecendo só mais um entre tantos. Mas eu sabia que não era. Que cada parafuso daquele motor era uma parte da minha identidade que eu tentava enterrar.
— Vai contar pra ela? — perguntou, me seguindo com as mãos nos bolsos.
— Não. Ainda não. Se ela souber quem eu sou, tudo muda. E eu tô gostando de como ela me olha agora. Como se eu não fosse uma farsa.
— Você não é uma farsa, porra.
— Eu sou o Raven. Isso faz de mim o maior fantasma desse lugar. E você sabe que fantasmas sempre cobram um preço.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Do lado de fora, o som de uma moto rasgou a madrugada.
— Ela me contou tudo — falei olhando para baixo.
— Quem?
— A . Sobre do que ela fugiu.
assentiu, devagar, esperando eu continuar.
— O padrasto. A mãe. O medo constante. Ela não usou a palavra "trauma". Mas a palavra gritou em cada frase que saiu da boca dela.
só me olhou.
— E você? Vai fazer alguma coisa?
— Se eu fizer, ela corre risco. E eu também. Ele pode ser um merda qualquer em Kingman, mas mexer com a sujeira certa chama atenção. A gente sabe disso melhor do que ninguém.
— E se ele vier atrás dela?
— Aí eu mato ele.
Simples assim.
Porque entre todas as escolhas que eu já fiz, proteger a — mesmo que ela nunca saiba disso — é a única que não me parece errada.
— E a ? — perguntei, virando o jogo de volta pra ele. — O que você vai fazer agora que ela tá no meio disso tudo?
deu de ombros, mas o sorriso torto não apareceu. Só um cansaço nos olhos.
— Tô tentando não me ferrar por completo. Mas acho que já era. Eu tô nela até o pescoço.
— Bem-vindo ao clube.
Descemos de volta pro térreo. A luz do galpão oscilava, como se soubesse que algo grande estava por vir. Porque estava. A sensação estava ali — nas entrelinhas, nos olhares, no ar rarefeito que respirávamos sem perceber.
A história ainda ia virar.

A noite parecia mais quente do que o normal. Os dois lados estavam abertos hoje: luta e corrida.
O inferno duplo.
já estava atrás do bar, puxando uma bandeja e girando garrafas com agilidade. sumiu no vestiário dos lutadores, as mãos já enfaixadas, o nome dele riscado em negrito no topo das apostas da noite.
E ... ela estava em meio à fumaça e ao som metálico dos motores turbinados. Hoje vestia um shorts saia minúsculo que estava me matando toda vez que passava rebolando por mim com o rabo de cavalo alto balançando no mesmo ritmo que sua bunda. O tablet em mãos, anotando valores, desviando de toques indesejados e risadas carregadas de álcool.
Ela parecia no controle. Mas eu sabia que não estava. Porque eu estava lá, e ela me olhou diferente. Havia algo nos olhos dela. Uma dúvida. Um início de desconfiança.
Talvez eu tenha deixado escapar demais. Talvez ela esteja juntando as peças. Talvez a mentira já esteja grande demais para sustentar o que quer que a gente esteja construindo.
Mas antes que eu pudesse pensar mais, ouvi o gongo. O som cortou o ar como um tiro. Hora da primeira luta.
A multidão se deslocou rapidamente para o lado do ringue. Os gritos aumentaram. Fichas trocavam de mãos. Davi falava alto, coordenando os seguranças, e Miller entrou de cabeça erguida, encarando o oponente — um sujeito alto, de aparência arrogante, braço coberto de tatuagens e dentes cerrados como se estivesse faminto.
— Arrebenta ele!— gritou alguém no fundo.
E ele fez exatamente isso.
O primeiro soco foi rápido. Um cruzado de direita que pegou o cara no queixo e fez a cabeça dele girar para o lado. A multidão rugiu. O adversário cambaleou, mas reagiu. Um chute na lateral do corpo, e Miller recuou, os olhos estreitados. O cara avançou. Dois socos, no terceiro, ele agarrou com o antebraço e retribuiu com um gancho que explodiu sangue da boca do sujeito.
— Porra... — murmurei, com um meio sorriso. Ele era bom, novo lutador enviado por Reyna, ainda estava em fases de teste e adaptação, mas tinha talento.
Na outra ponta do galpão, ouvi os motores aquecendo. Migs estava de fone, mandando ajustar posições. O cheiro de borracha queimada tomou conta do espaço como perfume de guerra.
estava sozinha, de costas para mim, observando os carros. Ela anotava algo, mas sua postura dizia outra coisa. Tensa. Rígida. Como se sentisse que alguém estava atrás dela. Me aproximei sem pensar.
— Tá tudo certo? — perguntei, a voz baixa, o suficiente para não assustá-la.
Ela virou devagar. Os olhos verdes estavam diferentes. Não havia o brilho costumeiro de raiva ou provocação. Tinha algo pior: cautela.
— Por que não estaria?
— Você tá distante. Se abriu pra mim e agora parece que sei lá, eu te dei uma rasteira.
Ela deu um riso curto, quase sem humor.
— E você tá o quê? Observando de longe como sempre? Ou só esperando para me jogar de escanteio quando se cansar do jogo de gato e rato?
Ouch. Travei o maxilar. Não respondi de imediato. Ela cruzou os braços.
— Você me ouviu. Você soube de tudo que eu passei e mesmo assim... — a voz falhou por um segundo. — Mesmo assim você não confia em mim.
— Não é sobre confiança. É sobre sobrevivência, eu quero proteger você.
— E você sobrevive mentindo?
— Às vezes, é o único jeito.
Ela me olhou como se não me conhecesse mais. E talvez... talvez não conhecesse mesmo. Porque eu era dois. . E Raven. E ela só conhecia metade.
— Eu não vou te prometer que sou um bom cara, . — A voz falhou por fim. — Mas nunca vou deixar que encostem um dedo de novo em você. Nunca.
Ela hesitou. Por um segundo, vi as palavras se formando nos lábios dela. Mas ela se virou antes que saíssem. Deixou o tablet no balcão. E saiu.
Fiquei ali. O cheiro do motor explodindo à minha esquerda. A próxima corrida começando. Enquanto o que eu mais queria proteger já começava a se afastar de mim.


Capítulo 19 - Skin

No heels, no shirt, no skirt
All I'm in is just skin
No jeans, take em' off
Wanna feel yo' skin
You a beast oh
You know that I like that (yo' skin)
Commere baby
All I wanna see you in is just skin - Skin



O barulho do ringue parecia mais distante essa noite. Talvez porque meu foco estivesse em outro lugar.
— Dois whiskys e uma cerveja para o mezanino, mesa 02 — pedi ao bartender novo, já empurrando as fichas, Davi havia me pedido para servir enquanto o cara aprendia a lidar com os clientes exigentes. Meus olhos estavam no ringue, mas meu coração estava no desde que ele me beijou naquela noite.
E não foi só o beijo. Foi tudo que veio depois. Os toques disfarçados, as conversas silenciosas, os olhares longos que a gente fingia não notar. Nenhum dos dois nomeou o que era. Mas eu sentia. Ele sentia também.
— Apostando contra mim hoje? — a voz grave dele surgiu do lado, me fazendo virar devagar. tinha aquela postura de quem sabe exatamente o que faz com os efeitos colaterais que provoca.
— Apostando que você vai fazer alguma idiotice só pra impressionar — retruquei, com um sorriso de canto.
Ele riu. Se aproximou, encostando o antebraço no balcão, inclinando o corpo pro lado, perto o suficiente para me fazer prender a respiração. A jaqueta de treino estava aberta, o moletom escuro por baixo colado no torso dele como uma segunda pele. O cabelo bagunçado de propósito.
— Eu sempre impressiono — disse, com aquele tom de deboche tão típico.
— Hm. Não lembro de ter assinado contrato com lutador convencido.
— Você assinou com o beijo, princesa. Isso conta.
Quase derrubei a bandeja de nervosa. Meus olhos buscaram o fundo do bar, tentando escapar. Falha total. Ele adorava me desequilibrar.
— Esse apelido é ridículo — sussurrei, mas não consegui esconder o sorriso.
— Então por que você sorri toda vez que eu digo?
— Porque tô rindo da sua autoestima, não do apelido.
Ele soltou uma risada baixa, fazendo minha pele arrepiar-se, depois virou o rosto na direção do ringue e ficou observando por alguns segundos, o maxilar travado.
— Tá tudo bem com você? — perguntei.
Ele demorou a responder.
— Davi ainda tá puto com o que aconteceu. A briga. O cancelamento da luta. Tão cobrando que eu derrube o cara que vai subir comigo hoje com espetáculo. Não só por dinheiro. Por reputação. Não querem dar o braço a torcer e nem baixar a guarda.
— E você consegue?
Ele me olhou.
— Eu sempre consigo. A questão é… se eu ainda quero.
Fiquei em silêncio. Porque era aquilo. Era o submundo cobrando mais do que ele estava disposto a dar. Era o sangue que pingava das mãos, mesmo quando ninguém via.
Peguei minha prancheta, os papéis de fichas e as bebidas do mezanino e fui me afastando do bar, mas ele me segurou pelo braço. Não forte. Só o suficiente pra me fazer parar.
— Vem comigo depois — disse, a voz mais baixa, o olhar firme.
— Depois da luta?
— Quero… sair um pouco. Do caos. Só eu e você.
Pisquei, surpresa.
— Isso é um convite para um encontro?
— É um pedido pra ver você desenhando sem se esconder.
Respirei fundo.
— Tá bom. Depois da luta. Mas só se não quebrar nenhum osso.
— Por você, eu saio inteiro.
Ele piscou. E sumiu entre os corredores, deixando no ar o cheiro do moletom e a promessa de algo que eu não sabia nomear.
Do lado de fora, as luzes da corrida começaram a piscar. Do lado de dentro, os gritos cresceram. Mas naquela noite, meu mundo era feito só de duas coisas: a linha do meu lápis e o som do nome dele ecoando no ringue.


Quando entrei no ringue, a única coisa na minha cabeça era o jeito que ela me olhava. Como se me desenhasse por dentro. Como se enxergasse o que ninguém mais via. Era diferente de todas as outras vezes. Eu não estava lutando só por dinheiro, por respeito ou por fama. Eu estava lutando porque queria merecer o olhar dela.
— Boa sorte, — sussurrou o treinador, me entregando as fitas.
Eu apenas assenti, girando os ombros, testando a tensão no corpo. Cada músculo meu estava pronto. Quando os refletores vermelhos cortaram a penumbra, caminhei até o ringue como quem volta pra casa. O chão vibrava sob meus pés. Os rostos ao redor se distorciam em sombras, bocas abertas, olhos arregalados. Mas eu não via ninguém. Só o círculo à minha frente.
Ali dentro, não existia distração. Só instinto.
Meu adversário entrou com pose de campeão. Era maior, largo, com os punhos fechados e o queixo travado — desses que confiam demais no próprio peso. Achou que ia me intimidar. Achou errado.
O sinal soou.
Ele veio com tudo, um cruzado direto no meu rosto. Senti o impacto quebrar o ar, forçando meu corpo a ceder meio passo. Só que eu já tinha lido ele antes do toque. Quando o punho dele ainda voava, meu cotovelo já estava indo em direção ao fígado.
Sequência. Um, dois, joelho. O som da carne dele se dobrando foi quase bonito.
Cada movimento era automático, treinado até a exaustão. Mas não era só técnica. Nunca foi. Era raiva. Ele tentou me agarrar, mas a chave veio lenta demais. Girei o tronco, soltei com um corte seco de cotovelo no queixo e recuei só o suficiente pra enxergar.
Ali. A abertura.
A multidão berrava, mas era como se estivessem debaixo d’água. Distantes. Longe. Só havia o ritmo da respiração dele, pesada. Descompassada. O suor escorrendo pelos ombros. Os olhos perdendo o foco.
Agora era só questão de tempo.
Têmpora. Mandíbula. Gancho.
Senti o osso ceder debaixo do meu punho. Senti o corpo dele vacilar.
Não esperei ele cair. Pulei um passo à frente, chutei com força lateral — o impacto fez as cordas tremerem. Ele se apoiou, ainda tentando manter dignidade. Admirável, mas inútil.
O último soco foi seco, sem glória.
Quando ele caiu, não senti prazer. Só alívio.
A multidão explodiu. As luzes piscaram. Fumaça subiu. O corpo dele ainda estava no chão. Virei de costas pro ringue e saí sem olhar pra trás. Eles gritavam meu nome como se eu fosse um deus.


O bar estava quase vazio quando a luta terminou. As luzes fortes ainda piscavam por cima do ringue, como se não quisessem deixar a noite morrer. A multidão se dissipava aos poucos, hoje teria corrida, não era o Raven, entretanto ainda trazia glória, mas minha mente ainda estava lá dentro, presa no ringue. Presa nele.
saiu com o rosto suado, os cabelos grudados na testa, um corte pequeno no lábio inferior e aquele mesmo sorriso arrogante como se tivesse vencido não só a luta, mas o mundo inteiro. E talvez tivesse. As apostas estouraram. Davi parecia satisfeito, os clientes vibravam, e ainda assim, ele não olhou para ninguém.
Só pra mim.
Quando se aproximou, sem pressa, eu já sabia que não teria mais como fingir distância. Ele atravessou o espaço como se o caos ao redor não existisse, como se o único som que importasse fosse o da minha respiração acelerada.
— Você viu? — perguntou, a voz ainda rouca da luta.
— Você sabe que eu vi.
Ele riu de canto, e aquela risada me aqueceu o peito como um cigarro aceso na ponta dos dedos.
— Bora sair daqui. Antes que o Davi me coloque pra dar autógrafo em ficha de aposta.
Assenti com a cabeça, e saímos pela lateral do galpão, em silêncio, até a moto dele.
— Ah, não! — Gemi.
— O que? Você nunca andou de moto? — Perguntou-me olhando com curiosidade.
— Andei quando estava fugindo, mas não estava no meu melhor dia de sanidade mental, não sei se quero repetir…
— Prometo que vai gostar, princesa, vou com calma. — Ele falou se aproximando e passando a ponta dos dedos na minha bochecha.
Ele estendeu o capacete na minha direção. Fiquei alguns segundos parada, olhando para o objeto como se ele fosse uma bomba prestes a explodir.
— Você dirige bem mesmo? — Perguntei desconfiada.
Ele me lançou um olhar de lado, tranquilo demais.
— O suficiente pra você não se arrepender de ter subido na minha garupa.
— Isso não foi um "sim".
— Foi um "confia".
Revirei os olhos.
— Todo problema grande da humanidade começou com alguém dizendo isso.
Um sorriso preguiçoso apareceu no rosto dele enquanto ligava a moto.
— Fica tranquila. Se fechar os olhos, passa mais rápido.
— Uau — soltei, seca. — Agora eu tenho certeza de que vou morrer.
— Não hoje — ele respondeu, engatando a marcha. — Hoje você só vai ficar levemente traumatizada.
— Que alívio — murmurei. — Era exatamente o plano.
Ele não estava ajudando. Mas, mesmo assim, coloquei o capacete. O interior cheirava a couro e perfume masculino. Subi na garupa com cuidado, agarrando a lateral do banco com os dedos duros.
— Segura em mim — disse ele, ligando o motor.
— Tô bem assim.
— Vai se arrepender.
E então a moto rugiu — um som grave, quase animal — e partimos.
No começo, tudo era instinto: eu endurecida, tentando manter o equilíbrio, o coração acelerado. A cidade começou a se desfazer em borrões de luz, o vento rasgava minha jaqueta e bagunçava tudo dentro de mim.
Era como se estivéssemos voando rente ao asfalto, como se o mundo tivesse ficado pequeno atrás de nós. As ruas passavam como cenas de um filme acelerado, e a única coisa que me mantinha ancorada era ele. O corpo firme, quente, sólido.
Aos poucos, soltei as mãos do banco e toquei a jaqueta dele. Só os dedos, de leve. Depois mais firme. Quando percebi, meus braços estavam ao redor da cintura dele.
Ele virou uma esquina com o corpo inclinado e eu fui junto, sem pensar. A sensação era crua, viciante.
Quando a moto finalmente desacelerou e estacionou na frente da nossa casa, eu desci com as pernas meio bambas, o coração disparado, mas o rosto quente de algo que eu não sabia nomear.
Tirei o capacete devagar. me observava em silêncio.
— E aí? — ele perguntou. — Sobreviveu?
— Você devia avisar que não é só uma carona — murmurei. — É um sequestro emocional.
Ele riu, um som raro e baixo.
— Tô te devolvendo agora, não tô?
— Não sei se quero voltar.
Foi só depois que percebi o que tinha dito. Mas ele não reagiu. Apenas pegou o capacete da minha mão, os olhos fixos nos meus por um segundo a mais do que deveria.
— Sempre que quiser fugir, é só pedir.
— Quer entrar? — perguntei, ainda sem olhar pra ele. — Sei que você me chamou pra sair, mas se quer me ver desenhar, aqui em casa é o melhor lugar e estamos sozinhos, a ainda deve estar no galpão… — Percebi que estava falando demais e me interrompi.
ficou em silêncio por um segundo, então guardou os capacetes no compartimento da moto e se aproximou da porta.
Dentro do studio, a luz fraca da sala parecia fazer o tempo desacelerar. Ele tirou o moletom, jogando em cima do balcão da cozinha, e ficou parado, me observando enquanto eu largava as chaves do lado e prendia o cabelo em um coque alto, nervosa sem motivo.
— Você ainda tá me desenhando na cabeça, né? — ele perguntou, a voz baixa.
— Tô tentando esquecer — sussurrei, sem pensar.
— Isso quer dizer que não tá funcionando.
— Isso quer dizer que você devia parar de falar e me deixar respirar.
Ele deu um passo, e outro. E quando encostou as mãos no meu rosto, foi como se tudo ficasse em silêncio. Os beijos anteriores tinham sido cheios de pressa, como se dependêssemos da boca um do outro para sobreviver, provocativos, como se estivéssemos testando os limites. Mas esse... esse não. Esse estava cheio de tudo que a gente não tinha coragem de dizer.
me beijou como se estivesse cansado de resistir. Como se meu corpo fosse o único lugar que ele reconhecia como abrigo. As mãos dele deslizaram para a minha cintura, me puxando com firmeza. Meus dedos apertaram a barra da camisa dele, e eu só queria que o mundo parasse por um segundo.
Quando me empurrou de leve contra a parede da sala, meu corpo respondeu antes da minha cabeça. Eu não queria pensar. Eu não queria analisar. Eu só queria sentir.
E com ... tudo era sentir.

A porta se fechou atrás de nós com um clique abafado, e o silêncio que ficou era pesado, quase palpável. Meu coração martelava tão forte que eu podia ouvir o eco dele na minha cabeça. estava parado na minha frente, os olhos fixos nos meus, sombrios, intensos.
— Você tem certeza? — a voz dele saiu rouca, baixa, quase um sussurro que parecia invadir cada espaço do quarto.
Eu não conseguia dizer nada de imediato. Meu corpo tremia, as mãos inquietas tentando encontrar algum lugar para se apoiar. O medo estava ali, uma sombra fria no meu peito, mas algo dentro de mim gritava mais alto: o desejo, a necessidade, a urgência de estar ali com ele.
— Tenho — respondi, quase engolindo as palavras, como se fossem a última coisa que eu podia oferecer.
Ele se aproximou devagar, as mãos firmes segurando meu rosto com uma delicadeza que contradizia a força que emanava dele. A testa dele tocou a minha, e respiramos juntos, compartilhando o mesmo ar, a mesma ansiedade.
— Tá tremendo — ele sussurrou contra meus lábios.
— Eu tô com medo.
— Eu também.
Essas duas palavras me desmontaram.
Então ele se inclinou e me beijou — não era um beijo apressado, nem um selinho breve. Era um beijo profundo, demorado, que falava de tudo o que ele sentia e não sabia como dizer. A língua dele encontrou a minha, explorou, dançou, puxou, fez-me perder o fôlego.
Minhas mãos subiram para o pescoço dele, apertando levemente, segurando-o para não deixá-lo escapar. O corpo dele encostou no meu, duro, quente, pulsando de desejo.
Quando as mãos dele começaram a puxar a minha blusa lentamente, eu não resisti, deixei que ele tirasse cada botão, cada pedaço de tecido até que minha pele estivesse exposta sob a luz branda que entrava pela janela. Ele explorou com os dedos, traçando cada curva, cada contorno, cada cicatriz que eu nem sabia que tinha.
Os polegares dele roçaram meus mamilos, fazendo-os endurecerem instantaneamente, e um gemido rouco escapou da minha garganta. Ele sorriu contra a minha pele, sussurrando palavras que me fizeram arrepiar inteira.
Então ele me ajudou a deitar na cama, que rangeu sob nosso peso. Eu sentia o colchão contra minhas costas. deslizou os beijos do meu pescoço ao colo, lambendo, mordendo suavemente, enquanto as mãos deslizavam pelas minhas costas, descendo até a cintura. A cada toque, meu corpo respondia, arqueando, buscando mais, implorando por mais.
Quando ele começou a descer a mão para o cós da minha calça, meu estômago se encheu de borboletas — medo e excitação misturados em um nó apertado. Ele tirou minha calça com cuidado, quase reverente, e depois me deixou completamente nua diante dele, sem pressa, admirando cada centímetro da minha pele.
Eu o olhei, buscando aprovação, buscando entender se ele realmente queria aquilo, se eu não estava apenas me iludindo. Ele respondeu com um beijo firme, dizendo mais do que palavras jamais poderiam.
Ele se despiu em seguida, tirando a camiseta e a calça, revelando a pele marcada, o corpo musculoso e as cicatrizes que eu sabia serem marcas de uma vida difícil. Quando ele ficou completamente nu, seu membro endurecido pulsou diante de mim, e eu senti um calor forte crescer dentro do meu ventre.
se posicionou entre minhas pernas, seus dedos encontrando meu clitóris, massageando com pressa contida, enquanto seus olhos nunca deixavam os meus.
— Me diz se eu for rápido demais — ele pediu, a voz baixa e rouca.
— Vou te avisar — prometi, quase sem fôlego.
Ele pegou do bolso uma camisinha, abriu com cuidado e a vestiu, como se aquele fosse um ritual sagrado. Eu observei, fascinada pela seriedade do momento, pelo cuidado dele comigo.
Quando ele se posicionou para entrar em mim, eu prendi a respiração. A ponta dele tocou lentamente minha entrada, fazendo pressão até que eu cedesse. A sensação foi estranha no começo — dolorosa, intensa, penetrante.
Ele entrou devagar, cada centímetro seu preenchendo meu corpo, fazendo meu peito subir e descer acelerado. Segurei as mãos dele, cravando as unhas na pele quente enquanto ele permanecia imóvel por alguns segundos, dando tempo para meu corpo se acostumar.
Então começou a se mover, primeiro lento, cadenciado, como uma dança antiga e poderosa. Cada avanço dele fazia meu corpo estremecer, cada retirada criava um vazio que ele logo preenchia com urgência crescente.
inclinou a cabeça para trás, soltando um gemido rouco, enquanto eu sentia o calor do nosso contato, a mistura do suor e da respiração entrecortada. Seu corpo pressionava contra o meu, me dominando e me protegendo ao mesmo tempo.
Eu fechava os olhos e me entregava completamente, o medo dissolvendo-se no prazer avassalador que ele despertava em mim. Ele mudou o ritmo, aumentando a velocidade, o movimento ficando mais firme, mais profundo. Minhas pernas se enroscaram em torno dele, puxando-o para mais perto, como se pudesse fundir nossos corpos em um só.
— Linda — ele murmurou. — Você é linda demais.
Eu gemia alto, minhas costas arqueando, o corpo reagindo ao toque dele de uma maneira que eu nunca havia imaginado ser possível. Cada golpe dele dentro de mim era um choque de fogo que me consumia por inteiro.
Ele agarrou meus quadris com força, marcando território, deixando claro que eu era dele — só dele. O olhar dele era selvagem, dominador.
Quando a pressão no meu ventre começou a crescer, sabia que estava perto do meu limite. parecia sentir isso também, seu ritmo tornou-se frenético, cada estocada mais intensa, mais desesperada.
Quando o prazer explodiu dentro de mim, eu gritei, um som rouco, selvagem, liberando toda a tensão acumulada. Meu corpo tremeu violentamente, minhas unhas cravaram nas costas dele, e eu senti meu mundo virar de cabeça para baixo.
gemeu meu nome com força, entregando-se ao próprio êxtase, seu corpo pesado pressionando o meu, segurando-me firme enquanto seus músculos se contraíam em ondas.
Ficamos ali, suados, ofegantes, unidos num silêncio que falava mais do que qualquer palavra poderia. Eu sentia o batimento do coração dele contra o meu, sentia a respiração pesada, sentia a vida pulsando na intensidade daquele momento.
Ele sussurrou, quase inaudível:
— É só o começo, .
E eu soube que estava certo.




Continua...



Nota da autora: Olá!! Vocês já devem me conhecer de outras histórias, mas se você não me conhece, eu sou a Maeve Hatter. Escrevo histórias desde os meus 11 anos de idade, mas de uns anos para cá decidi compartilhar com vocês o que se passa nessa cabecinha.
Após um tempinho parada, (5 anos, cof, cof) focada em terminar a universidade e tentando sobreviver até os 30 anos, decidi retornar ao mundo da escrita apresentando a vocês o meu novo filho: Red Lights.
Red Lights é sobre amor, fuga, liberdade e sobre se encontrar. Obviamente é sobre homens bonitos e que colocariam fogo no mundo por suas amadas também, assim, aqui vão algumas coisas que vocês vão encontrar nessa história:
★ Corridas clandestinas;
★ Lutas clandestinas;
★ Menção a abuso sexual e abuso sexual não explícito;
★ Cenas de sexo explícito;
★ Lutas corporais explícitas;
★ Mortes;
O livro é para maiores de 18 anos e tentarei tratar todos os assuntos com o máximo de seriedade, respeito e com muita pesquisa.
Não se preocupem com casais tóxicos, aqui, os personagens principais são completamente rendidos por suas parceiras e vise-versa.
Caso ajude na sua imaginação, é inspirado no Charles Leclerc e no Lewis Hamilton. Sim, eu sei, tudo de bom, né? As meninas também tem suas inspirações, é nossa diva Scarlett Rose Leithold e é a Bronova, ainda, temos playlist no Spotify e pastinha no Pinterest, para ajudar na fundamentação da história. Ufa! Falei demais, encontro vocês nas notas da autora e nos comentários, estarei sempre de olho. Beijinhos!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.