Dedicatória
Capítulo 26 - Driving you crazy
We can't just keep talkin' about it
We think too often about it
We can't just be cautious about it
I wanna get wild
Take me for a ride, boy
Show me your wild side, boy - Wild Side
We think too often about it
We can't just be cautious about it
I wanna get wild
Take me for a ride, boy
Show me your wild side, boy - Wild Side
O corpo dela se moldava ao meu como se tivesse sido feito para encaixar. Cada centímetro da me chamava para um lugar onde eu não sabia se conseguiria voltar depois. E o pior? Eu não queria voltar.
Ela era minha redenção e minha ruína ao mesmo tempo. Uma chama que eu deveria apagar. Mas tudo o que eu fazia era me aproximar mais. A luz tênue fazia a pele dela brilhar como pecado. Os olhos verdes semicerrados, a boca entreaberta, o peito subindo e descendo. Eu nunca tinha visto nada tão bonito.
— ... — a voz saiu num sussurro trêmulo, e eu perdi o último pedaço de controle que ainda me restava.
Me inclinei sobre ela, nossas peles se tocando por inteiro agora, e levei a boca até o ouvido dela.
— Você pode me domar fora dessa cama, Sunshine — murmurei, mordendo de leve o lóbulo da orelha — mas aqui... eu é que mando em você.
Ela arqueou o corpo, arfando, e eu senti a resposta dela como uma corrente elétrica pela espinha. Passei a mão pela lateral de seu corpo até o quadril, apertando com força.
— Tira essa calça. Devagar. Quero ver você se desfazendo por mim.
Ela obedeceu, com os olhos fixos nos meus, tirando o jeans com uma lentidão ensaiada, o tecido deslizando por suas coxas, deixando-a apenas de calcinha branca. Me sentei de joelhos entre suas pernas, observando.
— Deus do céu... — murmurei, quase sem voz. — Você me destrói.
Levei a mão até o centro dela por cima do tecido e a senti quente, molhada, tremendo de expectativa.
— Isso tudo pra mim?
Ela mordeu o lábio e assentiu, os olhos queimando.
— Eu quero você. Todo.
— Vai ter. Cada maldito pedaço.
Me inclinei e arranquei a calcinha, jogando-a em algum canto do quarto. Então mergulhei nela com a boca, sem aviso, sem piedade. A língua firme e o ritmo lento, aumentando gradualmente. gemeu alto, uma das mãos agarrando o lençol, a outra enfiada no meu cabelo.
— ... foda-se... — ela arfava, os quadris se mexendo contra minha boca. — Eu vou…
— Goza pra mim, — murmurei contra ela. — Agora.
E ela gozou. Com um gemido quebrado, o corpo todo estremecendo, o gosto dela inundando minha boca. Eu continuei até sentir as coxas dela tremerem e o corpo desfalecer.
— Você... é um desgraçado — ela riu, ofegante, enquanto eu subia por cima dela.
— Um desgraçado completamente seu — sussurrei contra sua boca, enquanto tirava o resto das roupas e colocava a camisinha.
Ela me puxou para si com as pernas, me prendendo, e quando me encaixei, só houve silêncio por um segundo. O momento antes da explosão. O momento em que dois mundos colidem.
Entrei nela devagar. Cada centímetro, cada maldito segundo. Ela era quente, apertada, perfeita. Minha cabeça caiu contra o pescoço dela e soltei um gemido rouco.
— Porra, você ainda vai me matar, .
Ela passou as unhas pelas minhas costas, arranhando com força, deixando sua marca registrada por ali, marcando-me como se fosse minha dona e, porra, aquela mulher mandava mais em mim do que imaginava, se ela me pedisse para ir buscar a lua eu ia com um sorriso no rosto, e então cravou os olhos nos meus.
— Me fode, .
Eu perdi o controle.
Comecei a me mover com força, com fome. Cada estocada fazia a cama ranger, os gemidos dela se misturando aos meus. O som da pele contra pele, os suspiros abafados, o cheiro do sexo preenchendo o quarto.
— Mais rápido — ela implorou.
— Manda de novo e eu vou te fazer gritar — rosnei, cravando os dedos no quadril dela.
— Mais rápido, porra!
— É isso que você quer, Sunshine? Quer que eu te foda como se o mundo estivesse acabando?
Ela respondeu com um grito abafado, o corpo inteiro tremendo.
Eu a virei de bruços, virando-a de quarto, puxei pela cintura e entrei de novo. Ela arqueou as costas e gritou meu nome. Me movi com força, firmeza, dei um tapa estalado em sua bunda, onde com certeza ficaria a marca da minha mão no dia seguinte. Fui até o limite.
— Você é minha — disse, entre dentes. — Só minha.
— Sua — ela arfou. — … caralho, eu sou sua.
E ela gozou de novo. Forte. Violenta. Me levando junto. Eu explodi dentro dela com um gemido baixo, o corpo todo tremendo, enterrando o rosto entre seus ombros.
Ficamos ali, suados, colados, sem ar.
Depois de um tempo, deitei ao lado dela, puxando-a para cima do meu peito. A respiração ainda irregular, os corações batendo no mesmo ritmo.
Ela me olhou. Um sorriso sonolento nos lábios.
— Agora sim... a gente começou algo.
— E eu não tenho a menor intenção de parar.

A respiração dela ainda estava quente contra meu peito.
Um braço jogado por cima da minha cintura, as pernas enroscadas nas minhas. Passei os dedos devagar pela coluna dela, subindo e descendo, como se pudesse memorizar cada curva, cada osso, cada centímetro.
— Não era pra acontecer assim — falei, baixinho.
Ela ergueu o rosto, apoiando o queixo no meu peito, os cabelos bagunçados caindo de um lado.
— Assim como?
— Tão intenso. Tão... inevitável.
Ela não respondeu de imediato. Só me olhou, com aqueles olhos verdes que pareciam enxergar fundo demais.
— A gente passou tempo demais fingindo que não era nada.
— Eu achei que te proteger era manter distância — confessei. — Que esconder quem eu fui era o jeito de garantir que você não saísse correndo.
Ela subiu o corpo um pouco, ficando quase cara a cara comigo. A mão dela foi até meu rosto, os dedos traçando a linha da minha mandíbula.
— … você nunca foi só o que te aconteceu. Nunca foi só o piloto da Fórmula 1. Nem o Raven. Nem o mecânico. Nem o herdeiro prodígio.
— Então o que eu sou? — perguntei. A voz falhou, só um pouco.
Ela me olhou como se a resposta fosse óbvia.
— O homem que me salvou. E que eu quero ver salvar a si mesmo também.
Engoli em seco. Nunca pensei que alguém fosse dizer isso pra mim de novo. Nunca esperei que um dia eu me sentisse visto... sem máscara, sem passado, sem corrida. Ela me beijou de leve, um beijo preguiçoso, calmo, com gosto de descanso.
— Você vai embora? — ela sussurrou, com a testa colada na minha.
— Eu não consigo mais — respondi. — Você virou casa.
Ela sorriu, quase sem abrir os olhos, e se ajeitou de novo no meu peito.
— Vou descansar, só um pouquinho — falou com a voz sumindo, entregando-se para o sono.
A lua batia fraca pela janela do quarto. Lá fora, o mundo ainda era perigoso, imprevisível, cheio de sombras. Mas ali, naquela cama torta, com o coração dela batendo perto do meu, por alguns instantes, tudo estava em paz.
Eu adormeci com a mão na nuca dela, o corpo dela inteiro sobre o meu. E uma única certeza na mente: Eu nunca mais vou deixar ninguém tirar isso de mim.

A estrada de Oakland até San José parecia mais curta na volta.
Talvez fosse o cheiro dele ainda grudado no moletom que eu usava. Talvez fosse a sensação de que, pela primeira vez, eu tinha deixado alguém ver quem eu era. não fugiu, na verdade, ele segurou minha mão a viagem inteira, mesmo eu insistindo que ele iria nos matar pilotando com uma mão só. Só soltou quando encostamos em frente ao nosso prédio.
— Quer que eu entre com você? — ele perguntou, já tirando o capacete.
— Não precisa, eu me viro — respondi com um sorriso mole, o corpo ainda meio derretido do fim de semana inteiro grudada nele.
Apenas quando coloquei os pés na sala com a mochila nas costas notei que havia algo estranho.
— ? — chamei.
Nada. Silêncio.
Entrei mais um pouco. O lugar estava… revirado. Como se alguém tivesse saído às pressas, ou pior — entrado à força. Uma das cadeiras estava caída, os quadros estavam tortos. A mochila da ainda estava no canto, mas ela… ela não estava ali.
— Porra… — sussurrei, puxando o celular com mãos trêmulas.
Em menos de cinco minutos, estava ao meu lado. Ele olhou em volta, a expressão fechada, os punhos cerrados.
— Isso foi uma invasão. Ou ela saiu correndo por algum motivo — ele rosnou, andando em círculos pela sala. — Ela não ia sair assim, do nada.
— Eu vou ligar pro — falei, mas já estava no celular.
— Não atende — ele disse, o maxilar travado. — Vem comigo. Vamos direto pro loft. Se ela não estiver lá, a gente caça esse desgraçado.
Sai correndo para fora com a cabeça girando, o medo escalando pelas costas. A última coisa que a gente precisava agora era mais um susto. A viagem tinha sido boa demais pra acabar desse jeito.
arrombou a porta como se fosse derrubar a parede junto. Eu já ia gritar o nome da quando o cheiro doce de panquecas invadiu o corredor. E ali estavam eles.
, de costas pra porta, usando uma blusa larga demais — que reconheci como sendo do — e mexendo alguma coisa numa frigideira. encostado na pia, só de calça de moletom, com cara de quem estava em casa, literalmente e emocionalmente.
— Oi? — foi o que consegui dizer, a voz embargada entre o susto e o alívio.
se virou, a boca suja de calda de chocolate, uma espátula na mão.
— Gente? Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa?
entrou bufando, os olhos indo de mim para o .
— A casa de vocês tá parecendo cena de assalto. Achei que tivesse acontecido merda. Vocês não têm celular não?
franziu a testa e pegou o aparelho largado no sofá.
— Sem sinal. Merda — murmurou. — A gente… a gente passou a noite aqui. Eu não consegui deixar ela sozinha depois de ontem.
Ele olhou para , como se dissesse tudo sem dizer nada. E ela respondeu com um sorriso pequeno, cansado, mas verdadeiro.
— Eu ia avisar, mas não queria estragar o final de semana de vocês e também só queria um minuto de paz. E panquecas.
soltou o ar com força e jogou as chaves da moto no balcão.
— Vocês vão me matar do coração, porra — resmungou, mas já se aproximando da mesa como se o cheiro de açúcar tivesse vencido a preocupação.
— A gente trouxe café — falei, ainda meio trêmula. — Quente. Da estrada.
— Então senta e come — disse. — Está uma delícia, eu juro, mesmo com a frigideira dos meninos disputando comigo quem iria ficar com mais panqueca, pois gruda tudo. — Ela revirou os olhos.
— Não gruda, nada. Você que não tem paciência para esperar a massa secar — ele rebateu, já colocando dois pratos a mais na mesa.
— Ah claro, o problema é a minha massa perfeita e não a sua frigideira do tempo em que Jesus ainda era marceneiro.
E ali estávamos. Os quatro. A mesa improvisada cheia de panquecas tortas, e de fato, sem muita massa, xícaras de café cheias, risadas nervosas e olhares cúmplices. Não falamos do susto, por mais que a curiosidade estivesse me corroendo. Não falamos do que veio antes. Só comemos, rimos e dividimos o silêncio bom, aquele que só existe quando a gente se sente seguro.
Mesmo que por pouco tempo. Porque a gente sabia. No fundo, sabíamos. A paz era só um intervalo. E a próxima corrida estava prestes a começar.
Capítulo 27 - And having bad ideas
It's harder and harder to get you to listen
More I get through the gears
Incapable of making alright decisions
And having bad ideas - Why'd You Only Call Me When You're High?
More I get through the gears
Incapable of making alright decisions
And having bad ideas - Why'd You Only Call Me When You're High?
Acordei com o som da chaleira apitando e o cheiro de café fresco se espalhando pela cozinha. A luz entrava filtrada pelas cortinas finas do estúdio, e por um segundo, tudo parecia tranquilo demais. Quase normal. Como se a nossa vida não tivesse virado de cabeça pra baixo nos últimos meses.
estava sentada no sofá com uma caneca nas mãos, encarando um ponto fixo na parede como se tivesse visto um fantasma. E talvez tivesse. Ela era boa em esconder, mas eu a conhecia bem demais pra não perceber os sinais.
— Você dormiu bem? — perguntei, sentando ao lado dela.
Ela assentiu devagar, mas não me olhou. Estava de moletom, o cabelo solto, a caneca apoiada no joelho. Tensa demais para o que deveria ser uma manhã de descanso.
— , o que tá pegando?
Ela hesitou, depois soltou o ar como quem desistia de manter a pose.
— Eu só estou cansada, .
— Cansada ou assustada?
Ela me encarou por um segundo e eu vi. O medo ali, escondido bem no fundo dos olhos verdes. Mas ela desviou rápido, fingindo que era só mais um café.
— Eu só quero que as coisas fiquem bem. Por um tempo. Sem correria, sem briga, sem polícia batendo no galpão.
Assenti, apertando a perna dela de leve.
— Vão ficar. A gente vai manter tudo sob controle. — Força na voz. Como se eu acreditasse.
Mudei de assunto, tentando aliviar o clima.
— Aliás… a exposição da minha arte vai rolar semana que vem.
Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa de verdade dessa vez.
— Sério?
— Sério. Mandei o portfólio ontem à noite, na casa dos meninos, e acordei com a aceitação, falaram que adoraram meu trabalho! — Aplaudi animada — A exposição vai ser pequena, mas é um começo.
— Isso é… incrível! — largou a caneca e me abraçou — Você vai mostrar os desenhos do ?
— Só no dia, para manter meu ar de misteriosa. — Ri. — Quero ver a cara dele quando ver os desenhos de si mesmo.
Ela riu também, mas logo o sorriso sumiu de novo. Suspirei.
— Se você quiser, a gente pode achar outro lugar para morar.
ficou em silêncio por alguns segundos, depois assentiu de leve.
— Eu sei, mas aqui já é tão nosso e agora os meninos trocaram todas as trancas, temos até entrada digital. Vai dar tudo certo! — Suspirou apertando minha mão.
— Ok. Mas você sabe que isso não vai ficar assim pra sempre, né?
Ela assentiu de novo.
— Vamos falar da sua exposição — disse mudando de assunto. — eu espero que tenha desenhos meus também, afinal eu cheguei primeiro! — Dei uma risada alta.
— Claro que tem! Minha exposição se chama “Red Lights” e é sobre toda a nossa jornada, tem desenhos de quando tudo começou.
— Aí que emoção! Acho que eu vou chorar de alegria! Minha amiga vai ser uma artista de sucesso, finalmente vamos sair da pobreza! — Dei um tapa na perna dela.
— Não crie expectativas, exposição pequena, lembra?
— Ai, cala a boca! Minhas expectativas já estão altíssimas!
O motor ronronava de forma irregular, e eu já tinha refeito o ajuste do carburador duas vezes, mas não era isso que me incomodava. O carro funcionava. Era minha cabeça que estava com problema.
Migs apareceu na porta do galpão com um cigarro no canto da boca e o semblante fechado. Depois da queda do submundo, eles desapareceram e agora ela e Davi reaparecem, falaram que ficaram assustados e preferiram esperar a poeira baixar. Davi, como Reyna havia comentado, realmente ficou ganancioso, então, junto com , afastamos ele das lutas e estávamos procurando alguém para substituí-lo, mas preferi o manter por perto. e eu chegamos a conclusão que eles eram fiéis, apesar dos pesares, então voltamos a trabalhar em equipe, mas agora eles obedeciam. E, também, eram os únicos que sabiam da minha identidade como Raven, então é bom ter alguém cobrindo as coisas.
— A polícia voltou a circular ontem à noite na estrada oeste. Pegaram um dos corredores que largou na hora errada. Ele cantou.
— Sobre o quê? — perguntei, me erguendo devagar.
— Disse que ouviu falar de apostas rolando no galpão de San José. Mas não deu nomes. Ainda.
Davi apareceu atrás dela, sério, com a prancheta de sempre.
— A gente vai ter que suspender as lutas por uns dias. Corridas também. Tudo de baixo perfil até o próximo mês.
A ideia de ficar longe da pista me deu um gosto amargo na boca.
— Não vamos conseguir nos manter com mais 1 mês parados. Não podemos ficar suspendendo tudo a cada problema que aparecer. Vamos colocar as lutas nas quintas, como antigamente e as corridas na sexta, a cada 2 semanas no início, até termos certeza de quem está dentro é de confiança. E nada de corridas e lutas no mesmo dia, ficamos muito dispersos e eles conseguem se infiltrar.
— E os caras de Fresno? — perguntei. — Ainda tentando sabotar?
— Não chegaram a tempo de entrar no sistema. Mas Rocco tá inquieto — Davi respondeu. — Esse moleque dele vai acabar morto se continuar bancando o espertinho.
Suspirei. Era sempre assim: um jogo de poder mal disfarçado de adrenalina. E no meio de tudo, agora tinha a . Que estava cada vez mais envolvida. Cada vez mais perto.
— Aliás, tem uma coisa que eu queria dizer — olhei pros dois. — Eu quero tirar a das corridas. Pelo menos por enquanto.
Migs arqueou uma sobrancelha.
— Por que, afinal? A garota é boa. Rende mais do que metade dos caras.
— É exatamente por isso. Se ela começar a chamar atenção, vai dar merda. Ela não é como a gente. Não ainda. E... ela tem problemas fora daqui. Pesados.
Davi trocou um olhar com Migs, depois assentiu.
— Ok. Mas isso é você quem vai explicar pra ela. Não sou babá de ninguém e não to afim de levar um soco na cara, você sabe que eu revidaria. — Migs falou dando um sorrisinho. Ela não é nem louca de pôr as mãos na .
— Eu me viro.
E era verdade. Eu ia me virar. Só precisava descobrir como contar isso pra ela sem fazer parecer que eu queria afastá-la — e sem levar um soco na cara — Quando, na verdade, tudo que eu queria era manter ela por perto. Em segurança. Mas com nosso cerco fechando e o passado dela assombrando cada vez mais eu não fazia ideia de como manter isso tudo inteiro.

Os ponteiros do relógio pareciam arrastar as horas em câmera lenta. Meu corpo estava presente no galpão, como sempre — uniforme preto, agora com a nova logo que a desenhou atrás, rádio no cinto, tablet com os nomes dos apostadores na mão e dessa vez com mais de um sinal da polícia, eles não vão me enganar de novo. Mas minha cabeça estava a quilômetros dali.
Depois daquela noite com o , depois do beijo, depois de tudo... era como se um novo espaço tivesse se aberto entre nós. Não vazio. Um espaço cheio. Cheio de coisas não ditas, de sentimentos mal encaixados, de confissões que ainda doíam no peito.
E agora ele estava ali, parado na lateral do galpão, de braços cruzados, me observando com aquele olhar sério que ele achava que escondia bem. Mas eu já conhecia. não me encarava assim à toa.
Me aproximei, respirando fundo.
— Vai me vigiar de novo ou é só saudade?
Ele não respondeu de imediato. Soltou o ar devagar pelas narinas e me fez sinal para segui-lo. Passamos pelos fundos do galpão até uma área mais silenciosa, onde os carros aguardavam ajustes e o som da multidão virava só um ruído abafado.
— Preciso conversar com você — ele disse, firme.
— Isso nunca é bom sinal. — Cruzei os braços.
— É sério, .
Revirei os olhos, mas assenti. Ele coçou a nuca, nervoso. nervoso era raro. Aquilo já era o suficiente para me deixar em alerta.
— Fala logo.
— Quero que pare de trabalhar do lado das corridas.
Silêncio.
Por alguns segundos, achei que tinha escutado errado.
— O quê? — Comecei a rir — Você é engraçado, .
— Só por um tempo. As coisas tão instáveis, a polícia voltou a rondar, e…
— Ah, entendi — dei um passo pra trás, o coração acelerando com uma raiva que subia no peito. — Você quer me afastar. Você acha que eu sou frágil demais, é isso?
— Não foi isso que eu disse.
— Mas é o que você tá fazendo! — cuspi as palavras. — , eu não sou uma criança! Eu sei cuidar de mim, eu sei lidar com isso. Eu estou envolvida, eu trabalho aqui, eu ajudo! Agora que tá ficando difícil, você quer me tirar do jogo?
— Eu tô tentando te proteger, porra! — ele ergueu a voz, os olhos faiscando. — Você tem ideia do que pode acontecer se eles resolverem olhar de verdade pro lado de dentro? Se descobrirem quem é você, do que você tá fugindo?
Engoli em seco. Era disso que se tratava. Não era sobre as corridas. Era sobre mim. Sobre o que eu não contei. Sobre o que eu escondi até agora.
— Você acha que eu não pensei nisso todos os dias? Que eu não durmo com medo de ouvir passos na calçada ou uma batida na porta? Mas o que você quer que eu faça, ? Me esconda para sempre?
Ele passou a mão pelo rosto, frustrado, e então fez algo que me desmontou por dentro: abaixou a cabeça e quando ergueu os olhos estavam cheios de lágrimas.
— Eu só... — ele começou, mais baixo — eu só não sei o que eu faço se algo acontecer com você. Você entende isso?
Por um segundo, tudo em mim quis ceder. Ir até ele. Tocar. Dizer que sentia o mesmo. Mas outra parte... a parte cansada, ferida, em constante estado de alerta... ela falou mais alto.
— Eu entendo. Mas você não manda em mim. Nem no que eu escolho fazer com a minha vida. E se você não consegue aceitar isso, então talvez a gente não esteja no mesmo lugar.
Ele me olhou como se eu tivesse dado um soco no peito dele. E eu me odiei por isso. Mas também me odiei por todo o resto. Por ainda ter medo. Por confiar e duvidar ao mesmo tempo.
— Tudo bem — ele disse, depois de alguns segundos. — Mas só lembra de uma coisa, : se um dia você precisar fugir de novo eu vou ser o primeiro a correr atrás de você, então não tenta me manter longe, não testa a minha paciência e muito menos o que eu sinto por você.
Virei o rosto antes que ele visse meus olhos cheios d’água. E voltei para a multidão. Como se ainda tivesse forças pra fingir que aquilo não tinha me partido inteira.
O clima tinha mudado.
Não era só a tensão no galpão, o movimento mais nervoso dos corredores, o som das apostas que pareciam mais aceleradas. Era a .
Ela voltou do lado das corridas com o maxilar travado e os olhos fundos. Vi quando ela entrou pela porta dos fundos, largou o crachá da noite na bancada e foi direto para o banheiro, sem me olhar. Suspirei, largando o pano de limpeza atrás do balcão e virando para , que estava no canto amarrando os cadarços da bota. Ele me olhou, levantando uma sobrancelha.
— Ela tá estranha — comentei.
— Conta uma novidade, é estranha, minha filha — ele respondeu com um sorriso de canto.
— Não desse jeito — insisti. — Acho que foi alguma coisa com o .
— É. Ele voltou pro galpão igual um furacão — disse, se aproximando e encostando no balcão. — Era pra ele falar que ela não poderia mais participar das corridas…
— Vocês ficaram loucos? Isso acabaria com ela, ela já tem problemas demais e cabeça vazia é oficina para o diabo, já dizia minha avó, não dá para deixar ela atoa.
— Fique à vontade para falar isso pro . Eu tentei e recebi um rosnado de volta, um rosnado, você tem noção disso? — falou apavorado.
— Você acha que eles se fazem bem? — perguntei, depois de uns minutos em silêncio.
— Acho que ambos foram muito machucados no passado e agora não querem machucar um ao outro e também já estão enrolados demais para conseguirem se manter longe.
Não respondi. Apenas olhei em direção ao banheiro, onde ainda não tinha saído.
A água gelada do lavatório não parecia suficiente para esfriar o sangue quente que ainda pulsava no meu pescoço. As palavras do ecoavam na minha cabeça como tiros.
Terminei de limpar o rosto, respirei fundo e saí. Voltei ao lado da , fingindo o melhor que pude. Ela não insistiu. E por isso eu amava tanto essa garota. Sabia a hora de perguntar e, mais importante ainda, a hora de calar.

A madrugada se arrastou até que pudemos ir embora. e insistiram em nos levar até em casa, como sempre, e nós deixamos. A chuva fina que começou a cair no caminho parecia encobrir o silêncio que pairava entre mim e no carro.
Quando entrei no studio, tudo parecia igual. O cheiro leve de incenso de lavanda da ainda flutuava no ar. A mesinha de centro estava bagunçada com revistas e papéis de desenho. Mas tinha alguma coisa errada. Uma sensação. Um arrepio gelado subindo pelas costas.
Fechei a porta atrás de mim e caminhei lentamente até o balcão da cozinha. Foi então que vi. Um envelope. Branco. Sem nome. Sem selo. Apenas... ali.
— ? — chamei, a voz falhando.
— Oi? — ela saiu do quarto com um casaco nos braços, franzindo o cenho. — Que foi?
— Isso... tava aqui quando a gente saiu? — apontei.
Ela se aproximou devagar. Pegou o envelope com cuidado, virou-o nas mãos.
— Não que eu me lembre — respondeu, a voz agora também diferente.
Abri o papel com os dedos trêmulos. Dentro, uma única foto. Eu. Esperando no ponto de ônibus. De novo. Mesmo ângulo da outra vez. Mesmo olhar distraído no rosto. Uma legenda escrita à mão no verso, com uma caneta de tinta vermelha:
“Você continua linda, minha menina, e eu amo quando não percebe que está sendo observada.”
Meu estômago virou. olhou pra mim. Os olhos castanhos dela estavam arregalados, mas a voz firme.
— Caralho, que inferno de homem. O dia que ele morrer eu tenho certeza que o diabo vai mandar ele de volta com medo de ser substituído.
Não respondi e nem consegui rir da sua piada ruim, só consegui sentar no sofá com a foto no colo. O mundo parecia menor, apertado, claustrofóbico.
— Chama os meninos de volta, não podemos ficar aqui. Não posso te colocar em perigo. Mas que caralho, como ele entrou de novo?

O som do motor do carro ainda ecoava em mim, mesmo depois que paramos na garagem do loft. A noite parecia mais escura do que o normal, mesmo com as luzes da rua acesas. Meus dedos ainda tremiam levemente, e eu sabia que não era só adrenalina. Era outra coisa. Algo mais fundo. Mais antigo. A chuva piorou lá fora, os raios e trovões não davam descanso.
Richard estava perto. Mas eu não podia dizer isso em voz alta. Porque se eu dissesse… se eu admitisse… isso se tornava real demais.
— Você tá gelada — a voz de veio ao meu lado, baixa, quase um aviso.
Assenti, engolindo seco. Ele abriu a porta e estendeu a mão pra mim. Não hesitei em aceitar. Entramos no loft juntos. As luzes estavam apagadas, e por um instante, o silêncio me pareceu confortável. Seguro. trancou a porta com duas voltas e passou a mão no cabelo.
— Você não vai esconder mais nada de mim, certo? — ele disse, sem me olhar. A voz dele estava contida, mas eu conhecia aquele tom. Era raiva disfarçada de controle.
— Eu não escondi. Eu… só não queria envolver você.
— Você acha que eu já não estou envolvido, Sunshine?
A pergunta caiu como um golpe surdo no meio do peito.
— Eu só tenho medo — minha voz saiu mais fraca do que eu queria. — Eu sei o que Richard é capaz de fazer. E agora que ele sabe onde eu tô… você entende o que isso significa?
se aproximou, o maxilar travado.
— Significa que ele vai morrer antes de chegar perto de você de novo.
— Não fala isso! — rebati num sussurro desesperado. — Não pode ser você. Não por minha causa. Você… você tem que ficar fora disso. Você já se esconde de tanta coisa. Já perdeu tanto. Se ele te expuser…
— Que se foda — ele disse, sem hesitar. — Que se foda meu passado, . Você acha que eu me importo com um nome bonito na mídia? Com uma equipe que me odeia? Com meu rosto nos jornais?
— Mas sua família…
— Minha família me virou as costas no dia em que tudo aconteceu. Não me restou ninguém. Só você.
A força daquelas palavras me paralisou.
— Eu não posso te perder — ele disse, mais baixo agora, quase como se confessasse pra si mesmo. — E se isso significa virar o mundo de cabeça pra baixo, eu viro.
Fiquei em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, eu me permiti admitir o que eu sentia por . Porque amar alguém como ele… significava perder o controle. E eu sempre precisei ter o controle, mas, sim, de fato, eu amava o , mais do que qualquer outra pessoa.
— Agora que as coisas estão claras, eu percebo que, antes dos presentes chegarem, ele já entrou na casa — murmurei. — Tenho certeza. Algumas coisas mudavam de lugar. Vi minha escova virada ao contrário. Minha calcinha favorita sumiu. E depois apareceu de novo na gaveta errada. Pensei que fosse a , então não dei bola, mas agora…
O olhar de ficou negro.
— Filho da puta.
— Eu não queria te contar… porque eu sabia que você ia reagir assim.
— Como é que você queria que eu reagisse, porra? Quer que eu fique parado enquanto esse desgraçado entra na casa onde você dorme?
— Eu queria que você não morresse por minha causa — sussurrei. — Só isso.
respirou fundo. Passou a mão no rosto. Estava no limite.
— Eu vou resolver isso. Sem te perder. Sem perder ninguém. Mas você vai prometer que não vai esconder mais nada de mim, entendeu?
Assenti. Um nó na garganta.
— Agora vem cá. — Ele me puxou devagar e eu deitei em seu peito ouvindo o som do seu coração, sentindo as batidas dele acalmarem o meu.
A porta bateu devagar quando saiu.
Ele estava diferente. Tenso. Silencioso de um jeito que nem ele costumava ser. E a ... Deus, a não tava bem. Parecia que ela estava prestes a explodir. Ou sumir. E isso me dava um nó no estômago.
apareceu na cozinha sem camisa, com um copo de suco na mão, e se encostou no batente da porta como quem já sabia que algo estava errado.
— Eles brigaram? — ele perguntou.
Dei de ombros, sentada no sofá, puxando o cabelo pro lado e tentando soltar um pouco do calor acumulado.
— Acho que não, mas não dá pra ter certeza de nada vindo desses dois, né?
se aproximou e sentou do meu lado. Meus olhos foram direto para o suco, ele percebeu e estendeu o copo.
— Tá bom, toma — disse. — Mas você vai dividir o drama comigo.
— Drama? — arqueei a sobrancelha, pegando o copo. — Eu sou uma flor de leveza e equilíbrio emocional.
Ele riu, aquele riso curto e rouco, e apoiou um dos braços atrás de mim no encosto do sofá.
— Só que não — murmurou. — A verdade é que tá todo mundo fodido. Só estamos fingindo melhor do que ontem.
Bebi um gole e encostei a cabeça no ombro dele. Era confortável, quente, firme. E me dava a estranha sensação de que, por alguns segundos, o mundo podia parar de girar rápido demais.
— Você já viu a assim antes? — perguntei.
— Não desse jeito — ele respondeu. — Mas o ... quando ele se fecha desse jeito, é porque tá no limite. Ele é orgulhoso. E quando sente que tá perdendo o controle, vira um muro.
— E o que você faz com um muro?
— Você espera alguém construir uma porta. Eu dirigia que no meu caso, preferia explodir com uma bola igual a Miley Cyrus naquele clipe — soltei uma gargalhada — mas tratando-se do , é melhor esperar.
Ficamos em silêncio um tempo. Apenas aproveitando a presença um do outro.
— E você? — ele perguntou, a voz mais baixa. — Tá tudo bem com você?
Fechei os olhos.
— Não sei — respondi. — É como se, agora que a gente está finalmente vivendo... eu tivesse medo de estragar tudo. Tipo, se eu me abrir demais, você vai me achar fraca. Ou errada.
Ele virou o rosto pra mim e, com os dedos, levantou meu queixo pra que eu olhasse pra ele.
— , se tem uma coisa que você não é, é fraca. E se tiver alguma coisa errada em você, bom... então fodeu. Porque eu tô cada vez mais envolvido nessa sua loucura.
Ele passou o braço por cima de mim e me puxou pra mais perto. Meu rosto encostado na pele dele.
— Acha que eles vão ficar bem? — perguntei, mais pra mim mesma do que pra ele.
— Vão. Porque a é braba, mas tem um coração que não sabe desistir. E o ... — ele suspirou. — Ele vai até o inferno por ela, mesmo que nunca admita.
Fechei os olhos, ouvindo os batimentos dele.
— E você? Vai até onde por mim?
Ele beijou o topo da minha cabeça antes de responder.
— Onde você quiser que eu vá.
Capítulo 28 - Confissões sussurradas
I waited for a girl like you to come and save my life
All the days I waited for you
You know the ones who said I'd never find someone like you
'Cause you were out of my league
All the things I believed
You were just the right kind
Yeah, you were more than just a dream - Out of My League
All the days I waited for you
You know the ones who said I'd never find someone like you
'Cause you were out of my league
All the things I believed
You were just the right kind
Yeah, you were more than just a dream - Out of My League
Por alguns dias, tudo pareceu calmo demais. A polícia sumiu. O novo galpão funcionava como um santuário subterrâneo, escondido em algum ponto do mapa que só a gente sabia. As corridas voltaram, as lutas também. O dinheiro fluiu. A Migs e o Davi sorriram pela primeira vez em semanas. Até os apostadores pareciam mais animados — como se o perigo tivesse tornado tudo mais vivo.
Mas eu sabia. A calmaria, quando vem de repente, não é um presente. É um aviso. No papel, a vida estava boa. Eu e morávamos num lugar de verdade. O estúdio era simples, mas era nosso. E o melhor: distante de Kingman.
me levava e buscava quase todos os dias. Depois da noite da fuga, ele ficou ainda mais presente. Não tocamos mais no assunto. Nem no da polícia. Nem no do galpão. E muito menos no meu padrasto. Era como se ambos estivéssemos cansados demais para reviver os traumas. Ou talvez fosse só medo do que ainda poderia vir.
se jogava na exposição como se fosse a única coisa que importava. treinava como um louco, mesmo que não tivesse luta marcada. Os dois... bem, era visível. A coisa entre eles já passava dos flertes. Tinham se tornado parte um do outro — mesmo que fingissem que não.
E eu... eu fazia o que sempre fiz. Estava na lateral da pista, checando a ficha de apostas dos corredores, quando ouvi meu nome pelo rádio. estava me chamando, sempre me parecia um problema quando ele me chamava, mesmo quando não era. Preciso urgentemente ser menos desesperada.
— Sunshine, preciso de você aqui na área técnica. Agora.
Engoli em seco.
Desde que contei tudo pra ele sobre Richard, e desde que ele me contou tudo sobre o passado na F1, nossa relação ficou mais crua. Mais real. Ele me olhava diferente. Como se me enxergasse por dentro. E às vezes, isso me dava medo.

Atravessei a parte de trás do galpão e encontrei ele de pé, com as mãos cruzadas e os olhos fixos em mim.
— O que houve? — perguntei.
— Isso. — Ele apontou para o carro do Raven. Um detalhe no capô. Um adesivo colado com cuidado, preto sobre preto, quase imperceptível. Mas eu conhecia aquele símbolo.
Um corvo.
— Não fui eu — sussurrei, com o estômago gelando.
não respondeu. Só estendeu a mão com algo que havia tirado do banco do carro. Um envelope. Com o nome de escrito.
A mesma caligrafia. A mesma assinatura no canto.
Um presente para o namorado da minha filha. R.
Meu corpo inteiro ficou tenso. Os dedos formigando. O ar fugindo.
— Quando isso apareceu aqui? — perguntei, a voz falha.
— Hoje. Durante a última corrida. Eu cheguei tarde demais. Ninguém viu quando o desgraçado entrou ou saiu. — Ele passou a mão pelos cabelos presos em tranças novas, os olhos fixos em mim. — ... ele tá mais perto do que a gente pensava.
O som dos motores explodiu atrás de nós. Gritos, aplausos, música alta. Mas aqui, no canto mais escuro da área técnica, eu só ouvia meu coração batendo. se aproximou e segurou meu rosto entre as mãos, firme.
— Você não vai passar por isso sozinha. — Seu tom era grave. Cheio de uma fúria silenciosa. — Eu juro, ele não encosta mais em você.
Meus olhos se encheram d’água, mas pisquei forte, engolindo o medo.
— Não quero que ele destrua isso aqui. — Murmurei. — Nossa vida, vocês, o que a tá construindo…
— Ele não vai. — me puxou num abraço, o primeiro em dias. Forte. Protetor, como um escudo. Mas, mesmo assim, eu sentia. A calmaria tinha acabado. E o silêncio, agora, era só a respiração antes do grito.
Minha cabeça estava a mil. A exposição estava a menos de uma semana de acontecer. Minha primeira de verdade. Eu consegui a vaga na raça, mandei os desenhos, mas menti no currículo. Quando o e-mail de confirmação chegou, eu achei que fosse uma piada.
Mas não era. Era real. Eu ia exibir minha arte. Em público. Com meu nome. E isso me deixava feliz e apavorada na mesma medida.
dizia que eu era boa. Que meus traços pareciam vivos, obviamente não mostrei o que seria exposto, deixei ele ver apenas os descartados. Mas quando ele falava assim, com aquele olhar de quem me via inteira, eu não sabia se ele estava sendo sincero ou só encantado. E eu não podia me dar ao luxo de acreditar em promessas vazias.
Naquela noite, depois de ver a sumir pelos corredores com o , fiquei um tempo sozinha, sentada num canto da arquibancada improvisada do novo galpão, com o caderno no colo. Desenhava formas que não faziam sentido — sombras, traços borrados, expressões distorcidas.
Até que ouvi a voz dele atrás de mim.
— Deixa eu adivinhar... essa é a sua versão de relaxar?
. Revirei os olhos sem levantar a cabeça.
— Tem gente que relaxa quebrando o nariz dos outros. Eu prefiro lápis.
— Touché — ele riu, se sentando ao meu lado, o corpo ainda quente do treino. Usava só uma regata preta e a calça esportiva, os cabelos bagunçados. — Você vai me contar o que tá acontecendo?
Fechei o caderno devagar.
— Com a ?
— Com vocês duas. Vocês estão estranhas. Mais do que o normal.
Suspirei, olhando para o ringue vazio.
— A está assustada. Mas não quer falar sobre isso. E eu… tô tentando segurar o meu próprio mundo também. A exposição tá chegando, e quanto mais perto fica, mais parece que alguma coisa vai dar errado.
Ele virou de lado, com os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Você tem medo de ser boa?
— Não. Tenho medo de ser boa e ainda assim não ser suficiente.
ficou quieto por um momento. E então disse:
— Eu cresci ouvindo que para lutar não precisava muito, o talento bastava, quando meu pai começou a perder, o discurso mudou e lutar era sinônimo de fracasso. E aí ele foi embora. Sumiu. E eu fiquei. Lutando. Só que... cada vez que eu ganhava, eu me sentia mais próximo dele. E isso me dava nojo.
Virei o rosto devagar, surpresa com a sinceridade.
— Eu achava que você lutava porque gostava.
— Eu gosto, mas luto porque sou bom. E porque é o que eu sei fazer. Mas até hoje, mesmo quando eu ganho, tem uma parte de mim que espera ouvir ele dizendo que eu sou uma decepção.
Fiquei em silêncio. E então estendi a mão, tocando de leve os dedos dele.
— Eu gosto de te ver no ringue. Você tem muito mais que talento, , você se transforma lá dentro, e, pra mim, isso é ser artista também.
Ele me olhou como se não soubesse o que dizer. E, pela primeira vez, não tentou brincar com isso. Só aceitou.
Ficamos em silêncio por um tempo. Depois ele falou:
— Quero ir com você na exposição.
— Ainda nem tá pronta.
— Mas vai estar. E quando estiver, eu vou estar lá.
Sorri.
— A gente precisa cuidar da .
— Eu sei — ele respondeu. — E vamos. Mas você também precisa deixar alguém cuidar de você às vezes.
Ele entrelaçou os dedos nos meus, devagar. E naquele momento, tudo ficou em pausa, é incrível como o tem o poder de mudar meu mundo e meu humor, ele me tira do sério ao mesmo tempo que me faz rir, ele me deixa segura mesmo estando em alta velocidade em cima de uma moto, ele faz meu mundo se transformar apenas por estar nele e eu não sei viver mais longe disso.

Depois do treino, me convidou pra voltar com ele pro loft. Disse que estava cansado de comer miojo e que eu cozinhava melhor do que ele.
O loft estava do mesmo jeito de sempre: meio bagunçado, meio limpo, meio lar. Tinha cheiro de graxa e incenso, que eu dei de presente para os meninos para ver se diminuía o futum de macho, e uma playlist de rock alternativo rolava baixinho em alguma caixa de som. Eu gostava daquilo. De como era diferente de tudo que eu conhecia.
— Pode usar a cozinha — ele disse, jogando a toalha de treino no encosto do sofá. — Tem arroz, ovo e... é, arroz e ovo. — Dei risada enquanto abria a geladeira.
Preparei um Yakimeshi, arroz frito com ovos e alguns legumes que achei perdidos na geladeira, achou que era um super prato elaborado e eu que não queria destruir esse sonho dele. Sentamos no chão da sala com os pratos no colo, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Vocês não tem mesa? — perguntei.
— Temos. Ela também luta. Tá quebrada.
Eu ri. Ele parecia menos tenso do que antes. Mais , e menos o nome ecoado no ringue.
— Princesa — ele chamou, depois de um tempo em silêncio. — Posso te perguntar uma coisa?
— Só se não for idiota.
— Por que você não confia em mim?
A pergunta pegou de surpresa. O arroz ficou sem gosto por um segundo.
— Eu confio — menti.
— Não. Você... calcula. Toda resposta, toda aproximação. Você mede o que diz, como se cada palavra fosse uma moeda. E eu entendo, tá? Mas às vezes, parece que você tá esperando eu estragar tudo.
Engoli em seco.
— Não é você. É... a vida. As pessoas. Meus pais nunca acreditaram em mim. Nunca apoiaram o que eu queria. E agora, mesmo quando algo bom acontece, tipo a exposição, eu fico esperando o momento em que alguém vai dizer que é mentira. Que foi um engano. Que eu não pertenço.
Ele me olhou por um tempo. Depois apoiou o prato no chão e se aproximou, de joelhos.
— Você pertence. Aqui. Comigo. Com a . Com a porra da exposição. Você pertence porque você existe. E isso basta.
Aquela era a coisa mais bonita que alguém já tinha me dito. Me aproximei também, até nossas testas quase se tocarem. Senti o cheiro da pele dele, ainda quente do banho, e a respiração levemente acelerada.
— Se você quebrar meu coração, …
— Eu não vou quebrar.
O beijo veio devagar, sem pressa. Ambos sabíamos que não precisava ser urgente. Que a intensidade estava nas entrelinhas. Os dedos dele se prenderam nos meus cabelos, enquanto minhas mãos escorregaram pela nuca dele.
Ficamos ali, naquela sala bagunçada, dois sobreviventes tentando ser pessoas normais. Tentando encontrar amor num lugar onde a violência parecia mais fácil.
— Eu vou poder usar um terno na exposição? — perguntou depois de um tempo.
— Você tem um?
— Não. Mas agora tenho um bom motivo pra arranjar um.
Sorri, fechando os olhos.
Era isso. Pela primeira vez, eu estava deixando alguém ficar. E parecia disposto a não ir embora.
— Acho que eu amo você… — sussurrei baixinho, como se fosse um segredo e vi prender a respiração.
— Acho que eu amo você também, princesa. — Sorri, largando o prato para o lado e pulando no colo de , enchendo-o de beijos.
Capítulo 29 - Stay
I'm grateful for your existence
Faithful no matter the distance
You're the only girl I see
From the bottom of my heart, please, believe - All That Matters
Faithful no matter the distance
You're the only girl I see
From the bottom of my heart, please, believe - All That Matters
Quando entrei no loft, o cheiro de comida batida no óleo e perfume amadeirado me acertou como um soco gentil, estávamos passando as noites na casa dos meninos até nos sentirmos seguras novamente. veio atrás de mim, ainda com a expressão tensa da noite anterior, mas alguma coisa nele estava mais leve. Talvez porque tínhamos sobrevivido mais uma vez. Talvez porque eu ainda estava aqui.
e estavam jogados no sofá, os dois com os cabelos bagunçados e aquele brilho cúmplice no olhar, aposto meu rim que estavam se beijando loucamente. olhou pra mim com um sorriso de canto, e me lançou um olhar que dizia: depois te conto tudo.
— Boa noite, Tom e Jerry — disse, erguendo uma mão preguiçosa no ar. — Já que vocês demoraram, comemos quase tudo. Mas deixamos um copo d’água.
— Boa noite, Tico e Teco. Agradecida — murmurei, jogando a jaqueta numa das poltronas e chutando os sapatos.
— Eu fiz arroz com ovo, mas tinha pouco, tem lasanha, que eu me recuso a comer pois está naquele congelador desde que a gente veio neste loft a primeira vez — comentou — e o acha que é comida italiana.
— Ei, não fala assim da minha herança cultural de micro-ondas — ele rebateu.
Sentei ao lado da , estiquei as pernas sobre a mesinha de centro e respirei fundo. foi direto até a geladeira, pegou uma cerveja e voltou para se encostar na parede, braços cruzados.
— Vocês parecem... estranhamente bem — comentei, olhando de um para outro.
— Um dia sem pancadaria já conta como milagre — respondeu.
— E você, tá bem? — perguntou, mas os olhos se moveram para antes que eu respondesse. Senti o clima pesar por um instante.
— Tô. Cansada — dei de ombros, tentando parecer convincente. — E faminta.
— Eu ainda tô tentando entender como vocês dois sobrevivem comendo só proteína em pó e em barra — murmurou, se referindo aos dois machos alfa encostados pela casa.
— Precisamos manter esses corpinhos esculturais — respondeu, pela primeira vez, se juntando às provocações. — E porque ninguém sabe cozinhar.
— Mentiroso, lembra quando eu fiz aquele macarrão à carbonara?
— Como esquecer da noite que fomos parar no hospital com intoxicação alimentar, né ?
Eu e soltamos uma gargalhada.
— Incrível como sobreviveram tanto tempo sem a gente, né amiga? — me cutucou.
— Por isso o cérebro do é desse jeito, pensei que fossem as pancadas, mas os neurônios devem estar corroídos por falta de comida decente. — Soltei.
— Ei! Eu gostava mais de você quando seus ataques eram direcionados ao nosso amigo Dominic Toretto — falou ofendido.
— Cara, eu sou negro.
— Mas a é a Letty. — Ele se defendeu e se deu um tapa na testa.
Aquele tipo de noite era raro. Sem fugas. Sem apostas insanas. Sem correria. Era só a gente, como bons jovens curtindo a vida e tirando sarro um do outro.

A madrugada foi chegando devagar. Ficamos ali por horas, jogando conversa fora. Às vezes, era nesses momentos que eu percebia como os quatro estavam presos uns aos outros. Como, sem saber, a gente tinha virado família.
Eu encostei a cabeça no ombro da , e por alguns minutos, ninguém falou nada, e aquilo bastava.

— Você acha que eu deveria usar vermelho? — perguntei, puxando a blusa que mal cobria o quadril. — Ou isso grita "desesperada por atenção"?
me lançou um olhar por cima da borda do copo d’água.
— Isso grita "eu sei que sou gostosa". Vai fundo.
Dei uma risada curta. A exposição estava a dois dias de acontecer, e eu estava a centímetros de explodir por dentro. Era a minha chance. Talvez não de mudar o mundo, mas de mostrar que eu existia fora das sombras.
estava mais calada do que o normal. Depois do último "presente" — um envelope com fotos nossas em Bakersfield — ela passou a dormir com uma faca embaixo do travesseiro e trancar todas as janelas. A gente sabia que Richard estava por perto. E isso deixava todo mundo alerta. Mas nela aquilo corroía em silêncio.
— Ele vai errar uma vez — eu disse, enquanto organizava os panfletos. — E quando errar, a gente pega ele.
Ela assentiu, mas o olhar estava em outro lugar.
chegou à noite. veio logo depois. Juntos, pareciam dois soldados. Quando entraram no studio, o silêncio se quebrou num instante. Nós quatro, juntos, funcionamos de um jeito estranho. Como se já tivéssemos nascido no mesmo fôlego, mesmo tendo vindo de mundos completamente diferentes.
— Davi confirmou que vai reforçar a segurança nas próximas noites — avisou. — As câmeras estão posicionadas. Se o Richard aparecer de novo, não vai ser passando despercebido.
— E a polícia? — perguntei.
— Compramos uns caras — respondeu, jogando a chave da moto no balcão. — Mas tem limite. A gente não pode dar margem de novo.
estava no sofá, os joelhos encolhidos, mexendo no celular como se aquilo fosse mais seguro do que olhar pra gente. se aproximou devagar, tocou de leve o ombro dela. Vi quando ela se encolheu primeiro, mas depois relaxou. Havia algo entre eles agora. Mais do que atração. Algo que doía.
— Ainda não quero que vocês andem sozinhas — ele murmurou. — Principalmente depois da exposição da . Lugar fechado, cheio de gente, fácil de se infiltrar.
— Eu não vou deixar que ele estrague isso — respondi. — Eu não deixo ele roubar mais nada de nós.

Mais tarde, me ajudava a montar a base dos quadros no pequeno depósito da galeria onde exporia. O depósito da galeria era abafado, como se o ar ali não se renovasse há anos. Estava escuro, exceto por uma faixa de luz dourada que escapava da fresta da porta, cortando os lençois brancos que cobriam esculturas esquecidas.
cantarolava uma música do Justin Bieber, mas parecia agitado.
— O que foi? — perguntei.
— Nada. Só... você parece pronta pra ir embora a qualquer segundo. Como se ainda não acreditasse que pode pertencer aqui.
Fiquei muda por um instante.
— É que tudo o que eu quis na vida foi ser levada a sério. Mostrar o que eu faço, o que eu penso. E agora que eu posso… tenho medo que alguém tire isso de mim.
— Ninguém vai tirar nada de você, . Nem Richard, nem seus pais, nem você mesma.
Virei o rosto, mas ele já tinha me lido por inteiro. Como sempre fazia.
— Fica — ele pediu. — Fica aqui comigo. Na vida. No caos. No que der e vier.
— Isso foi um pedido de namoro, ? — Perguntei me aproximando e colocando as mãos em seu rosto.
— Só se você disser que sim, se não é pegadinha, mande para dois amigos e veja a reação deles — falou piscando um olho e eu gargalhei.
— Quero ver a cara do quando eu o pedir em namoro então. — abriu a boca, mas antes que pudesse responder eu o interrompi — Claro que eu aceito namorar com você. — me beijou com força, me empurrando para a parede do depósito.
— Isso vai ser interessante — murmurou quando eu prendi minhas pernas ao redor dele.
— Alguém pode nos ver — respondi sem fôlego. parou o beijo e se levantou.
Eu ouvi a porta se fechar atrás de mim. O som seco da tranca girando. Meu coração reagiu antes da minha cabeça.
— Você trancou? — perguntei sem olhar.
— Uhum — a voz do veio rouca, baixa, perto demais. — Tô cansado de fingir que não te olho como um maldito viciado.
Senti um calor subir pelas minhas coxas, como se minhas pernas tivessem memorizado o toque dele mesmo antes que ele me encostasse. Respirei fundo. A saia colava na minha pele. Maldito calor. Ou talvez fosse só ele.
Virei devagar, e ali estava ele. As mãos nos bolsos, os olhos cravados nos meus. De um jeito faminto. Tenso. Quase desesperado. E eu queria aquilo. Eu queria ser o gatilho que ele passava dias tentando não puxar.
— Você vai me beijar ou só me olhar como se quisesse me rasgar ao meio? — provoquei, já com a respiração falha.
Ele veio em um segundo. A parede me recebeu com um baque suave. As mãos dele na minha cintura, subindo rápido, com uma pressa que só aumenta quando se segura por tempo demais. A boca dele encontrou a minha tirando o gosto de qualquer outro nome, qualquer pensamento que não fosse ele. As mãos deslizaram pelas minhas costas até acharem a barra da camisa — e, em segundos, ela foi empurrada para cima, presa entre nós, deixando meu sutiã de renda preta à mostra.
— Essa saia vai me matar — ele murmurou contra meu pescoço, erguendo tecido com força até os meus quadris estarem livres, expostos. Eu senti o ar gelado e logo em seguida as mãos dele ali, firmes, quentes, desesperadas.
Me agarrei nos ombros dele, nas costas largas, sentindo cada músculo se mover contra mim. Não havia tempo pra delicadeza. Ele me virou, me curvou sutilmente contra uma das mesas de apoio do depósito, o tampo de madeira pressionando meus quadris.
— Fala se você não pensou nisso quando saiu de casa com essa saia — ele disse entre os dentes, os dedos já me deixando fora de mim.
— Eu pensei… — confessei, arfando — pensei no que você faria se eu provocasse até o ponto de te quebrar.
Ele riu baixo, rouco, animalesco. E quebrou.
Entrou em mim com força. Com fome. Me desfiz nas mãos dele, no ritmo frenético, no som abafado de nossos corpos colidindo, nos sussurros sujos que ele deixava escapar toda vez que eu gemia o nome dele. Era rápido, era quente, era brutalmente íntimo. Uma explosão contida entre caixas e quadros e lençois sujos de pó.
Capítulo 30 - Red Lights
Nobody else needs to know
Where we might go?
We could just run the red lights
We could just run the red lights - Red Lights
Where we might go?
We could just run the red lights
We could just run the red lights - Red Lights
Quando eu vi meu nome no cartaz pendurado do lado de fora da galeria, por um segundo, achei que fosse mentira.
“Red Lights – por ”
A exposição que nunca achei que teria coragem de montar. A mostra que contava a nossa história — minha e da — em traços, riscos, e tintas vermelhas como os semáforos que ignoramos na estrada pra liberdade.
parou ao meu lado e entrelaçou nossos dedos.
— É real — ele disse, como se pudesse ouvir o caos que meu coração fazia no peito.
A galeria ficava numa rua pequena de Willow Glen, charmosa e cheia de prédios baixos. O espaço tinha sido emprestado por um coletivo de artistas alternativos, e mesmo sem luxo, era perfeito. Branco, limpo, com trilha suave tocando ao fundo e luzes quentes iluminando as paredes cobertas com meus quadros.
Eu vi a parada perto de uma das peças. Usava um vestido preto de alça fina, o cabelo solto e os olhos marejados. O estava do lado dela, com uma das mãos nas costas dela, firme. Ele não dizia nada, só ficava ali, presente. Isso era tudo que ela precisava.
As pessoas começaram a entrar. Artistas locais, curiosos, amigos do coletivo. Depois Davi chegou, até mesmo Migs apareceu — e, claro, cumprimentou todos como se fosse o prefeito da cidade.
No centro da parede principal estava o quadro que deu nome à exposição.
"Red Lights" — um desenho das costas de duas garotas correndo pela estrada em direção a uma cidade distante, enquanto o céu atrás delas sangrava em vermelho.
se aproximou de mim, os olhos brilhando.
— Você contou tudo isso em imagens… — ela disse, baixinho. — E ninguém percebeu o quanto doeu.
— Era esse o ponto — respondi. — Mostrar que a dor também vira beleza.
— E virou. Está absolutamente incrível, ! — se aproximou ao lado dela, e mesmo sem dizer muito, assentiu com o olhar. A aprovação silenciosa dele sempre foi mais forte do que qualquer elogio.
Na parte lateral da galeria, havia uma série de quadros menores, em sequência, como uma linha do tempo:
“Kingman” — uma casa isolada no meio do deserto, com um vulto masculino atrás da janela.
“Barstow” — duas meninas em cima de um capô, assistindo o amanhecer com medo e esperança.
“San José” — as luzes do galpão e os olhos dos dois rapazes que mudariam tudo.
“He(art)” — em movimento, desenhado como se fosse feito de sombras e faíscas.
“Corrida contra o amor” — um carro preto com um corvo pintado em vermelho, com a silhueta de refletida na lataria.
— Isso aqui… — apontou, impressionado — parece pôster de filme. E eu sou muito gostoso, nossa! — Não pude conter a gargalhada e dei um tapa em seu braço.
— Não é? — provoquei. — Drama, tensão, fuga, segredos... só falta o final feliz.
Ele me puxou pela cintura, sem se importar com os olhares ao redor.
— Você vai ter seu final feliz, . Toda princesa termina sua história com "Felizes Para Sempre". — Selei nossas bocas com o beijo.

A exposição durou duas horas. Recebi elogios, perguntas, até propostas. Uma editora pequena se aproximou, dizendo que queria conversar sobre um livro. Mas o que mais me marcou foi ver os rostos deles — , , — olhando meus quadros com orgulho, fez tudo valer a pena.
— Você conseguiu, . — me abraçou no fim, e mesmo tremendo, não chorou. — A gente tá viva, por sua causa, porque você topou essa loucura comigo sem pensar duas vezes, porque você não deixou a gente desistir e segurou as pontas nas noites difíceis. Eu amo compartilhar a vida com você e eu amo você. Mesmo quando tudo parece desmoronar, você está do meu lado, segurando a minha mão, nos mantendo fortes e unidas, obrigada por ser a metade da minha laranja. — Não pude conter as lágrimas e chorei abraçando-a.
— Você é a pessoa mais importante do mundo pra mim, Eu te amo pra sempre! — Ficamos mais uns segundos abraçadas, tentando conter a emoção. Uau, era real! Eu consegui!
Quando a noite terminou, todos saímos de lá juntos. De mãos dadas, corações expostos, prontos para enfrentar o que viesse depois. Porque agora, o mundo sabia que existia. E eu não ia mais me esconder.

Quando chegamos no studio, eu ainda estava com o sapato de salto nas mãos e a alma meio fora do corpo.
jogou as chaves sobre a bancada da cozinha e se encostou ali, me olhando em silêncio. O ar do lugar ainda tinha o cheiro das velas baratas que usamos no banheiro. A janela deixava a luz da rua entrar em listras finas, cortando o escuro.
— Foi foda — ele disse. Simples assim.
— Foi, né? — respondi, jogando a sandália num canto e me espreguiçando. — Sabe quando seu corpo está exausto, mas a cabeça ainda tá girando?
— É adrenalina. Você viveu o seu próprio ringue de luta hoje.
Me aproximei, abracei sua cintura e encostei o rosto no peito dele.
— Achei que fosse desmaiar. Tinha uma hora ali que eu não sentia mais as pernas.
— Eu percebi. — Ele beijou o topo da minha cabeça. — Você ficava mexendo nos dedos da mão esquerda, igual faz quando tá tentando não chorar.
— Você repara em tudo, hein?
— Em você? Sempre.
Ficamos ali, abraçados, ouvindo os sons abafados da rua. A cidade finalmente parecia quieta.
— Você ainda quer lutar? — perguntei de repente.
Ele me olhou.
— Sempre.
— E se eu te disser que toda vez que você entra naquele ringue, eu sinto medo por você?
Ele sorriu de lado.
— Eu diria que é recíproco. Toda vez que você some com seu caderno e se isola do mundo, eu fico imaginando se está fugindo.
— Às vezes sim — murmurei. — Mas você entendeu, né?
— Que você me ama e tem medo de me perder? Entendi.
— Idiota. — Dei um empurrão leve nele. — Mas sim.
Ele me puxou de volta, colando nossas testas.
— Eu não vou a lugar nenhum, . E se eu for… você vai junto.
— Isso parece uma ameaça — sorri.
— É uma promessa. — E então me beijou.

Eu não dormi. A exposição foi linda. Eu me forcei a sorrir, a rir, a fingir que estava tudo bem. Mas, por dentro, alguma coisa não parava de me corroer. A caixa que chegou ontem. O laço vermelho. O bilhete sem assinatura. “Sente minha falta?”
Eu joguei fora antes que a visse. Mas não antes de sentir o gosto amargo da lembrança voltando com tudo. E o mais estranho: eu não contei pro . Pela primeira vez em semanas, eu guardei um segredo.
Ele saiu para a sacada, e eu o segui. Nos encostamos lado a lado, em silêncio.
— Você ficou linda hoje — ele disse depois de um tempo. — Não consegui parar de olhar. Na verdade, acho que você tem um tipo de feitiço, eu nunca consigo tirar os olhos de você, Sunshine. — Me virei para encará-lo de frente, a barba estava por fazer, a camisa social preta apertava os músculos e deixava a pele negra mais brilhante, o piercing no nariz brilhava com a luz da lua. Tão lindo.
— Não é justo. Eu não tô preparada pra carinho agora.
— Então me xinga, mas fica aqui.
Respirei fundo.
— , se o Richard voltar…
— Ele não vai encostar em você.
— Eu sei que você diz isso com convicção, mas… não é você que tem as cicatrizes.
Ele se virou para mim, os olhos escuros mais intensos do que deveriam ser.
— Então me mostra — ele sussurrou. — As que não estão na pele.
Engoli em seco.
— Eu tô com medo. E pela primeira vez, eu não quero correr. Eu quero ficar. Com você. Com a . Com essa vida que a gente criou no caos. Mas eu tô com medo de tudo isso ser arrancado de mim.
Ele passou o braço ao redor da minha cintura e me puxou contra o peito dele.
— Então se for, a gente arranca de volta. Com sangue, se for preciso.
Fiquei ali, sentindo a batida do coração dele.
E prometi a mim mesma: se o inferno vier bater na porta, nós vamos estar em chamas também.
Capítulo 31 - Antes que tudo queime.
So tell me to leave
I'll pack my bags, get on the road
Find someone that loves you
Better than I do, darling, I know - July
When you said your last goodbye
I died a little bit inside
I lay in tears in bed all night
Alone, without you by my side - All I Want
I'll pack my bags, get on the road
Find someone that loves you
Better than I do, darling, I know - July
When you said your last goodbye
I died a little bit inside
I lay in tears in bed all night
Alone, without you by my side - All I Want
Dois dias depois da exposição
A paz que a exposição da trouxe durou pouco. Foi bonita, intensa, quase suficiente para me fazer esquecer da sombra que rastejava pelas frestas da nossa porta. Mas as sombras não desaparecem com arte, nem com aplausos. Elas esperam. Observam. E atacam quando o mundo amolece.
O presente chegou como todos os outros. Caixa média, fita vermelha, cheiro de ameaça. Só que dessa vez, eu não hesitei. Não tremi. Levei a caixa para o quarto, travei a porta, e abri com as mãos firmes — como se eu estivesse abrindo uma gaveta de provas contra o próprio diabo.
Dentro, apenas uma fotografia: . Mais novo. De macacão branco, olhos determinados, coberto pela poeira dos circuitos e pela glória que ele enterrou. O nome da equipe brilhava no peito. O sobrenome também. "Bennett." Não tinha como negar: ele foi alguém grande.
Atrás da foto, duas coisas: um bilhete escrito à mão e um guardanapo de bar com o endereço rabiscado em tinta azul.
Hoje. 21h. Vai estar me devendo essa."
Richard sempre soube como jogar. Mas o erro dele foi pensar que eu ainda era a garota de antes — a que fugia, a que abaixava os olhos, a que aceitava viver em silêncio só pra sobreviver.
Eu não era mais ela.
Fechei a caixa de novo com calma. Era claro que ele queria mais do que só me ver. Queria mostrar poder. Queria ver até onde eu ia pra proteger o que era meu. Mas eu também tinha aprendido a jogar. E sabia blefar.
Dei um tempo. Respirei. Caminhei até a sala, encostei no batente da porta e fiquei observando os outros rindo baixo com um filme ruim passando na TV. estava deitado no chão, os braços cruzados sob a cabeça, rindo com e de alguma piada interna. E por um instante, senti uma pontada no estômago.
A gente tinha conseguido criar alguma coisa aqui. Um lar estranho, improvisado, com rachaduras e fantasmas, mas ainda assim nosso. E agora eu ia ter que sangrar pra manter isso de pé.
Aceitei os termos do Richard, mas os meus iam vir por cima, escondidos em cada olhar, cada palavra, cada passo que eu desse naquela noite. Se ele achava que eu ia sozinha, com medo, de coração aberto… então ele esqueceu com quem estava lidando. Eu ia acender o fósforo com as minhas próprias mãos.

A rua parecia mais escura, como se soubesse o que eu estava prestes a fazer. Cada passo meu soava oco na calçada, o salto baixo ecoando como uma contagem regressiva. O frio cortava pelos buracos do casaco, mas eu não sentia. Porque o medo aquece e também congela. O medo é um paradoxo sujo que vive debaixo da minha pele desde os doze anos. Desde que o nome dele virou uma sombra que não se apaga.
Richard estava me esperando. Eu sabia exatamente onde encontrá-lo, como se meu corpo fosse uma bússola quebrada, sempre apontando pro norte errado. O bar era uma espelunca esquecida por Deus, metida num beco onde até as luzes pareciam ter medo de acender. Havia um cheiro de cerveja velha, suor, cigarro e derrota impregnado nas paredes, o mundo ali parecia ter desistido de si mesmo.
Ele estava no fundo, de costas para a porta, mas parecia que seu corpo tinha sentido a minha presença, pois logo seus olhos voltaram-se para mim. Aqueles olhos que já foram os primeiros a me chamar de bonita e os primeiros a me fazer sentir suja. Ele não parecia mais velho. Só mais venenoso. O tempo não corrói homens como Richard. Ele os destila.
Sentei na frente dele sem falar nada. Segurei minha bolsa com força. Estava preparada pra tudo, menos pra ver aquele sorriso surgir no rosto dele. O mesmo de sempre. Lento. Sabendo demais.
— Você demorou — ele disse, a voz ainda com aquele timbre de comando, como se eu fosse uma criança desobediente.
— Não vim pra jogar conversa fora — respondi. Minha voz saiu firme, apesar das rachaduras por dentro.
Ele girou o copo nas mãos. Uísque barato. Mesmo gosto de sempre.
— Eu vi a exposiçãozinha da sua amiga. "Red Lights." Criativo. Uma artista agora. Quanta liberdade numa só garota, quem diria que a assassina do irmão tinha talento, né? Eu poderia ter investido nela ao invés de você. — Bile subiu na minha garganta e senti meu corpo tremer — Aposto que os namoradinhos de vocês devem ter ficado orgulhosos.
— Você não tem direito de falar da minha família e muito menos do .
— Por quê? Tem medo do que eu sei?
Ele jogou um envelope sobre a mesa. Eu não toquei. Mas vi. Fotos. Artigos antigos. Cópias de documentos. Contratos. Era real.
— Bennett. O milagre da Fórmula 1. O garoto-prodígio que perdeu o controle de tudo. Do carro. Da vida. Da própria família. Sabe o que é mais bonito nisso? A ironia. Porque você sempre amou homens quebrados, né, Brooke? Mas esse vai se despedaçar junto com você.
Minha garganta se fechou. E mesmo assim, continuei.
— O que você quer?
Ele me olhou, inclinando-se para frente como um animal farejando fraqueza.
— Você. De volta. No banco do meu carro. No controle da sua boca e das suas escolhas. Como sempre foi. Você vem comigo, e ninguém mais precisa saber do seu Raven — o apelido saiu amargo da sua boca. — Agora... se você preferir brincar de heroína, amanhã de manhã essa história vai estar em toda maldita rede de notícias do país. A filha rebelde de Kingman apaixonada por um criminoso fugitivo. O ex-piloto de Fórmula 1, agora corre em corridas clandestinas, ganhando dinheiro de viciados e colocando famílias em perigo. — Ele passou a língua nos lábios — Já posso sentir o gosto da minha vitória.
O gosto de bile voltou na minha garganta, mas eu engoli.
— Me dá um dia. Vinte e quatro horas.
Ele sorriu.
— Amanhã, às nove. Depois disso... seu namoradinho já era.

Saí daquele bar como quem assina a própria sentença — e agora, andando pelas ruas silenciosas de volta pro estúdio, só conseguia pensar em como fazer isso doer o menos possível nos outros. não podia saber. Se soubesse, enfrentaria o inferno por mim, e se queimaria no processo. também. Ela tentaria salvar tudo, mas eu conheço esse mundo. Nenhum deles tem ideia do que significa ter alguém como Richard com a coleira na sua garganta. Respirei fundo, me sentindo prestes a mergulhar antes de afundar, e decidi: vou ser a vilã dessa história. Vou ser a puta ingrata, a traidora, a louca. Se for preciso destruir tudo que construímos para manter cada um deles respirando, eu destruo. E depois sumo. Porque amor, às vezes, é isso: sangrar sozinha pra não deixar ninguém mais sangrar.
Como eu pude ser burra, como eu pude achar que poderia enganar um homem como Richard? Eu simplesmente não consigo. Ele pode estar blefando, pode não contar para ninguém sobre , mas eu acho muito difícil, ele tem tudo nas mãos para fazer isso acontecer.
Eu sempre odiei protagonistas burras de livros de romance que escondem a verdade de seus amigos para protegê-los e olha só quem eu me tornei? Me sinto em um desenho animado onde tem um anjo e um diabo em cada ombro, um lado meu, o certo, o consciente, a razão, me diz pra contar, pra chegar em casa e falar tudo, bolar um plano com eles, mas a emoção, não me deixa fazer isso, não posso correr o risco de colocar todo mundo na cadeia. Não sei até onde o Richard foi, que cartas ele esconde na manga.
Os carros passavam por mim como vultos. As luzes da cidade viravam rabiscos borrados nos meus olhos. Cheguei no estúdio sem lembrar como. estava sentado no chão da sala, descalço, com um caderno nas mãos, riscando qualquer coisa. Ele levantou os olhos e me viu. A expressão se suavizou. Como sempre fazia quando me olhava.
— Você sumiu.
— Eu precisava pensar.
— Tá tudo bem?
Não. Nada tava bem. Mas ele era. Ele era o único lugar onde a dor era menor. Por isso doía mais ainda.

O relógio da parede marcava quase três da manhã. As luzes da sala estavam apagadas, exceto por um abajur fraco no canto, projetando sombras nas paredes o próprio lugar parecia tremer com o que estava por vir. Eu estava sentada no sofá, vestida com a camiseta preta dele e um jeans, como se isso fosse mais um domingo qualquer, mas não era. estava na poltrona ao lado, calado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas, encarando o chão como se procurasse ali uma explicação que eu não daria. O silêncio entre nós era denso. Cortante. Eu sentia a garganta seca, a boca amarga, o coração batendo num ritmo lento e calculado, me preparando para matar alguém. E, de certa forma, eu estava.
— Você vai me dizer o que está acontecendo? — ele perguntou finalmente, a voz rouca, cansada, como se já soubesse que a resposta não viria doce. — Você estava bem nestes últimos dois dias, hoje voltou estranha. O que aconteceu? Recebeu mais um presente?
Fechei os olhos por um segundo. Um segundo só. E nesse segundo, quase desmoronei. Quase fui até ele, sentei no colo dele e disse tudo: que eu estava com medo, que eu precisava protegê-lo, que o inferno estava vindo atrás de mim e que, se eu não fizesse algo, ele também seria engolido. Mas eu não podia. Não podia arriscar a vida dele. Nem a da . Nem a do . Eu era a isca agora. Eu precisava ir embora e não podia deixar eles virem atrás de mim, mesmo que já tivesse me prometido que ele sempre viria, dessa vez isso não poderia acontecer.
— Estive pensando na nossa última conversa, sobre querer ficar e sobre a vida que construímos, acho que me perdi no personagem. Minha vida nunca foi fácil, você sabe, fugir foi a melhor coisa que me aconteceu, não posso mentir, entretanto…. está bem agora, você viu a exposição, não precisa mais de mim, tem o , Richard me encontrou, o que significa que não me escondi tão bem quanto deveria, então fui percebendo que a culpa é sua.
— Minha? — Ele levantou de maneira indignada. A maneira como ele me olhou… Deus. Aquilo me destruiu. Como se cada célula do corpo dele gritasse em silêncio: não mente pra mim.
Levantei do sofá e fui até a janela. Vi as luzes da cidade lá fora, os carros passando, a vida acontecendo como se tudo estivesse normal. Como se eu não estivesse prestes a abrir mão da única coisa que me fez sentir viva de verdade. Respirei fundo e falei, sem virar pra ele:
— Eu pensei que talvez eu estivesse pronta pra isso. Pra nós. Mas eu não tô.
— O quê? — ele perguntou, e a voz dele era só incredulidade e dor.
— Foi um erro. — As palavras saíram afiadas. Cruéis. — A gente foi um erro desde o começo. Um capricho meu. Uma distração. Eu só queria sentir alguma coisa. E você… você estava ali. Fácil.
— Fácil? — ele repetiu, dando um passo em minha direção. — É isso que eu sou pra você agora? Um capricho?
Me virei. Encarei ele. Os olhos castanhos marejados. As mãos trêmulas. O peito subindo e descendo como se ele estivesse prestes a sair correndo ou me agarrar pelos ombros e implorar que eu dissesse que era mentira.
— Você é só mais uma parte da confusão toda. Eu estou cansada de viver assim. Com medo, correndo, me agarrando em qualquer coisa pra fingir que tô bem. Você não me salva, . Nunca salvou. Eu só deixei você pensar que salvava. Na verdade, por um momento eu também acreditei nessa baboseira de lutarmos juntos contra o passado e blá, blá, blá — ri sem humor — entretanto, isso é coisa de filme de ação, meu passado é um caos, o seu é criminoso, nós dois juntos somos uma bomba prestes a explodir e eu não quero isso.
Ele deu um passo pra trás. Como se cada palavra fosse um soco. E era. Eu estava socando ele. Destruindo. Pisando em tudo o que a gente construiu com uma frieza que eu não sabia que existia em mim. Mas era a única forma. Ele não ia me deixar ir se eu dissesse a verdade. Ele ia tentar me proteger. E isso custaria a vida dele. Do . Da .
— Eu precisava de estabilidade. Um teto. Dinheiro. Segurança. Por um tempo, foi isso que eu consegui aqui. Mas agora acabou. Já deu. Eu não vim pra ficar. Nunca foi a minha intenção. Eu me distraí com você e o Richard me encontrou, não posso mais ficar, não posso mais me dar o luxo de pensar que está tudo bem, pois não está. Nunca esteve e nunca vai estar.
— Você está dizendo que só ficou comigo por conveniência? — ele cuspiu, sem conseguir esconder o veneno que escorria junto da mágoa. — Você usou a porra do meu teto, da minha cama, do meu trabalho, da minha vida… pra depois dizer que já deu?
— Exatamente isso — menti.
— Você é igual a todo mundo. — A voz dele falhou. — Finge que ama, que se importa, que é diferente… e depois vai embora. Vocês sempre vão embora. Quando eu começo a acreditar que talvez, só talvez, eu mereça ser amado… vocês me provam o contrário.
— Não coloca isso em mim, . Você só se apaixona rápido demais. Você se apega a qualquer pessoa que te olhe como se você fosse mais do que um acidente. Eu nunca te prometi nada. A sua pose de macho durão, os "não me toque" durou até eu forçar um pouquinho, admite que você é uma farsa, é o melhor para todo mundo.
Ele se aproximou, olhos cravados nos meus. A dor estampada no rosto, tão exposta, tão dilacerante, que meu estômago revirou.
— Você é cruel. Você me faz acreditar que eu posso confiar e depois arranca tudo. Parabéns! — Deu algumas palmas secas — Conseguiu. Destruiu mais uma parte de mim.
— Bom, eu estou indo embora de qualquer forma. Quem sabe você pode colar os pedacinhos com a próxima que deitar na sua cama.
Silêncio. Um silêncio ensurdecedor. Ele deu um passo pra trás, como se cada palavra minha tivesse arrancado um pedaço dele. O olhar dele ainda implorava, ainda acreditava que eu ia ceder, que ia rir, que ia dizer que era só uma brincadeira cruel. Mas eu não cedi. Porque se eu fraquejasse agora, tudo estaria perdido.
— Eu falei que ia te levar ao limite e depois ia embora — sussurrei, com o gosto do sangue na garganta.
Ele não respondeu. Apenas virou de costas, os ombros tensos, a respiração pesada. E quando a porta se fechou atrás dele, o som foi como um tiro no meu peito. Me apoiei na parede, os joelhos fracos, a respiração falha. Mas não chorei. Não podia chorar. Porque a guerra estava só começando. E eu precisava ser mais forte que a dor.

Eu andei sem saber pra onde. A cidade parecia diferente — como se cada rua tivesse sido redesenhada enquanto eu estava com ela. Como se as calçadas, os postes, os carros tivessem perdido o tom quando ela me arrancou de dentro do próprio peito.
As palavras dela ainda gritavam na minha cabeça. Fáceis. Conveniência. Já deu. O ar entrava pelos meus pulmões como gelo, cortando por dentro. Eu sentia o gosto do sal na boca, mas não chorei. Não conseguia. Meu corpo estava em estado de choque, como se meu sistema nervoso tivesse se recusado a processar o que tinha acabado de acontecer. Porque não era real. Não podia ser. Aquela não era a Brooke que eu conheço.
A Brooke que eu conheço me empurrou contra a parede da garagem e disse que queria sentir minha alma. Que me beijou como quem implora por salvação. Que chorou no meu ombro quando sonhou com o passado. Que tremia quando dizia que amava a como se a vida dela dependesse disso. A Brooke que eu conheço não me chutaria para fora da vida dela como se eu fosse um pedaço de lixo.
Mas era ela. Os olhos eram os mesmos. A boca também. Só que tinha algo morto ali. Como se ela tivesse se colocado por trás de um espelho e deixado um reflexo falso no lugar. Como se estivesse lendo um roteiro. Palavras ensaiadas.
Ela falou olhando nos meus olhos. E doeu. Doeu como se tivesse arrancado minhas costelas uma por uma com as próprias mãos. Eu me senti uma criança de novo. Abandonada. Largada no meio do mundo, com os joelhos sangrando e ninguém por perto pra limpar.
estava na cozinha, mexendo numa caneca de chá, e estava no sofá, com um controle na mão e o semblante cansado.
Ela me viu primeiro.
— ?
Parei na entrada. A garganta fechada. Os olhos ardiam, mas eu me recusei a chorar. Pelo menos não ali. Não na frente deles.
— Aconteceu alguma coisa? — se levantou, largando o controle, já em alerta. Os dois vieram até mim como se estivessem se aproximando de um homem prestes a pular de um penhasco.
— Ela terminou comigo. — Foi tudo o que consegui dizer.
franziu a testa, o rosto perdendo a cor.
— Como assim? Quando?
— Ela disse que só tava comigo por conveniência. Que precisava de estabilidade e agora já tinha conseguido. Que não me amava. Que eu fui fácil.
arregalou os olhos, sem disfarçar o impacto.
— Isso não é a Brooke.
— Eu sei — eu respondi, quase num sussurro. — Mas foi ela quem disse.
— Tem alguma coisa errada — ela falou, se aproximando
bufou, passando a mão na cabeça.
— Isso não tem sentido. Ela nunca foi boa em mentir, mas... isso não parece real.
— Ela me mandou embora como se eu fosse um estorvo — eu disse, finalmente deixando a dor atravessar a barreira. — Como se nunca tivesse significado nada. E sabe o pior? Eu fiquei parado. Esperando ela dizer que era brincadeira. Esperando ela rir. Pedir desculpa. Eu fui patético.
— Você foi… você foi o que ama. — colocou a mão no meu braço. — Isso não é fraqueza. Isso é o que torna você quem é. Mas se tem algo errado, a gente vai descobrir. Ela pode ter te chutado, mas não é a primeira vez que a Brooke se esconde atrás de uma máscara.
respirou fundo e passou a mão pela nuca.
— Acha que ela tá em perigo?
— Não sei — respondi. — Mas se estiver... ela vai se afundar sozinha pra não afundar a gente junto. É o tipo de coisa que ela faria.
Ficamos ali em silêncio por um tempo. voltou a se sentar, os olhos perdidos. me entregou uma cerveja. Eu aceitei, mas não tomei. Eu só conseguia pensar numa coisa: ela falou olhando nos meus olhos. E ainda assim parecia estar pedindo socorro no silêncio.
— Mas se ela me amava, por que fez desse jeito? Por que pisou em tudo? Por que me fez pensar que eu era só um idiota apaixonado? — falei depois de um tempo em silêncio
— Porque, às vezes, amar significa quebrar o próprio coração com as mãos — falou baixinho.
Fechei os olhos. E, pela primeira vez, deixei as lágrimas caírem.
— Então por que parece que eu morri e ela seguiu em frente?

A maçaneta girou mais leve do que o normal. Estranho. Entrei devagar, esperando encontrar a Brooke jogada no sofá com uma tigela de cereal e o som da TV abafando o silêncio — como sempre fazia quando precisava pensar. Mas o apartamento estava quieto. Um silêncio espesso, desconfortável, como se tivesse sido esvaziado de dentro pra fora.
— Brooke? Brooke, se você pensa que vai fugir da conversa sobre o término repentino com o , você está muitíssimo enganada, mocinha.
Nada.
Larguei a mochila no chão e fui direto pro quarto. A porta entreaberta. A colcha amassada, mas a cama vazia. O armário... escancarado. Vazio. Um buraco se abriu dentro de mim.
Fui até o banheiro. Nenhuma escova de dente amarela. Nenhum dos potes de creme que ela colocava na prateleira de cima. O cheiro dela ainda estava lá, impregnado nos azulejos, no ar. Mas ela não estava.
Não. Não. Não.
— Brooke?! — minha voz ecoou pela casa. — Isso não tem graça. Fala comigo!
Corri de volta ao quarto. Foi quando vi o papel em cima da escrivaninha, dobrado com cuidado. Com a minha inicial escrita com a caligrafia dela.
Tremi antes de abrir.
Eu sei que você vai me odiar por isso.
Mas eu precisava ir."
Meu coração parou. A letra dela continuava ali, redonda e decidida, como se ela estivesse sentada a poucos metros, escrevendo com calma. Mas cada linha parecia um corte.
Eu me sentei na beira da cama. As mãos tremendo. As palavras dançando diante dos meus olhos.
Vou tentar.
E prometo que mando mensagens quando puder."
"Te amo.
"
O silêncio agora era ensurdecedor. Eu li o bilhete três vezes, até cada letra doer.
Ela foi embora.
Ela foi embora.
Sem me avisar. Sem me olhar nos olhos. Sem uma última briga, um último abraço, um último "fica".
Levantei com o coração na garganta e disquei o número do . Ele atendeu na segunda chamada, a voz rouca e quebrada.
— ... ela se foi.
— O quê?
— A Brooke. Ela sumiu. Levou tudo. Só deixou um bilhete.
— Droga — ele sussurrou, como se já soubesse. — O que dizia?
— Que eu não precisava mais dela. Que o passado dela ia me afundar. Que era pra eu viver minha vida. Que não era pra você acreditar no que ela disse, ela só precisava fazer você ir embora pra ela sair. Ela tá se afastando de propósito. ... ela tá se sacrificando de novo.
Ouvi falando ao fundo, perguntando o que tinha acontecido. O barulho de passos rápidos. respirou fundo.
— A gente vai trazer ela de volta.
E eu soube que ele falava sério. Fechei os olhos. Segurei o bilhete contra o peito. O quarto dela ainda cheirava a Brooke. Mas ela não estava mais ali. E algo me dizia que ela não queria que ninguém a encontrasse tão cedo. Ou pior — que alguém a impediu de ser encontrada.
Capítulo 32 - O preço do silêncio
Maybe it's in the gutter
Where I left my lover
What an expensive fate
My V is for Vendetta
Thought that I'd feel better
But now I got a bellyache - bellyache
Where I left my lover
What an expensive fate
My V is for Vendetta
Thought that I'd feel better
But now I got a bellyache - bellyache
O som dos pneus cortando o asfalto era a única coisa viva naquela estrada. Todo o resto — o ar, o céu, as árvores secas que passavam rápidas pelas janelas — parecia morto. Eu me sentia assim também: um corpo sendo levado, uma alma tentando se manter de pé.
Richard dirigia em silêncio, uma mão firme no volante, a outra descansando no câmbio como se qualquer movimento pudesse se transformar num golpe. O silêncio entre nós não era calmo, era ameaçador.
Eu não o olhava. Não precisava. O cheiro do perfume dele, o barulho da respiração pesada, a sombra do perfil refletida no vidro, tudo me fazia lembrar de cada instante que tentei apagar da memória. Mas agora eu estou aqui de novo. Por escolha.
— Você sempre foi esperta — ele disse, a voz arrastada, sem emoção. — Mas demorou pra entender o que era melhor pra você.
Meus dedos estavam fechados num punho, escondidos no colo, quase afundando na pele. Ele queria uma reação. Eu não ia dar.
— Aposto que seus amiguinhos ficaram bem confusos — ele continuou, um sorriso torto nascendo no canto da boca. — Acha que vão demorar pra perceber que você não era nada além de uma pedra no caminho deles?
Meu estômago revirou. Eu sabia que cada palavra era um golpe calculado e ainda assim doía.
— Você sempre estraga tudo, . Sempre achou que podia correr. — Ele virou o rosto, rápido, e os olhos dele me encontraram por um segundo. Escuros, duros, frios. — Mas no fim você sempre volta pra mim.
Desviei o olhar para a estrada, tentando respirar. O céu começava a escurecer, e o farol do carro riscou o asfalto como uma lâmina.
“Calma.”
“Pense.”
“Espere.”
Tudo o que eu precisava era de tempo.
Richard achava que tinha vencido. Que eu tinha desistido. Mas ele não sabia. Não sabia do bilhete, esperava ao menos que eles entendessem que eu não fugi por opção, que pegassem nas entrelinhas da escrita. Não sabia que, dessa vez, eu não estava fugindo. Estava caçando.
Quando o carro entrou numa estrada de terra, senti o coração acelerar. O som das pedras esmagadas pelos pneus ecoava como estalos de ossos. Cada curva me levava mais fundo para longe — longe deles, longe de qualquer coisa que pudesse me salvar.
O chalé apareceu no fim da estrada, pequeno, sufocado por árvores e silêncio. Uma lâmpada amarela piscava na varanda. O tipo de lugar em que ninguém escuta os gritos.
Richard desligou o carro e ficou ali por um instante, respirando devagar, como se estivesse saboreando o momento. Depois virou o rosto pra mim, e o sorriso dele foi pior que um soco.
— Bem-vinda de volta pra casa.
Fiquei parada. Não me mexi até que ele saísse e abrisse a porta do meu lado, num gesto quase cortês. O ar cheirava a madeira úmida e ferrugem. O frio da noite cortava minha pele como lembranças.
— Vai entrar? — ele perguntou, impaciente. Assenti, sem responder. Cada passo no chão de madeira rangente soava como um grito engolido.
Lá dentro, tudo era igual e diferente ao mesmo tempo. As janelas trancadas com pregos. A garrafa vazia sobre a mesa.
Meu corpo lembrava. Mesmo que eu quisesse esquecer. Era uma versão pior da minha própria casa.
Richard largou as chaves sobre a mesa e se recostou na parede, observando. O olhar dele me percorreu com calma, como quem examina algo que já possui.
— Sabe o que eu gosto em você, ? — ele disse, cruzando os braços. — Essa sua mania de tentar parecer forte. É quase engraçado.
Mantive os olhos fixos no chão. Se olhasse para ele, perderia o controle.
— Você não precisa fingir mais. — Ele deu um passo à frente, a voz mais baixa, mais perigosa. — Ninguém vai te procurar. Ninguém quer você de verdade.
Inspirei devagar. E, por um instante, vi o rosto do , o olhar firme, as mãos marcadas de graxa, o sorriso cansado. O , com o maxilar tenso, rindo quando eu fazia algo idiota. A … meu lar. Eles iam me odiar, o medo deles não notarem algo de errado em mim começava a me preencher, mas tenho certeza de que são inteligentes, um deles havia de perceber a farsa. Só um. Levantei o queixo.
— Eu sei o que você quer, Richard. — Minha voz saiu firme, ainda que o coração batesse rápido. — Mas você não vai ganhar.
Ele riu.
— Ah, … você nunca aprende.
Deu mais um passo. E eu recuei, calculando a distância, o tempo, as saídas. Ele achava que eu era presa, mas eu estava só esperando o momento certo para virar o jogo.
— Antes de você começar com suas ideias, … — ele murmurou, com a voz baixa, quase carinhosa. — Acho que tem algo que você deveria ver.
O ar sumiu dos meus pulmões. Aquela frase nunca significava nada bom. Richard virou-se e caminhou até uma porta nos fundos da casa, pegando um molho de chaves do bolso. O som metálico ecoou no silêncio, cortando o ar como uma lâmina. Ele destravou o cadeado e empurrou a porta, abrindo caminho para um corredor estreito e escuro.
— Anda. — O tom seco, autoritário. — Vai na frente.
Por um segundo, hesitei, mas o olhar dele bastou. Obedeci. O corredor tinha cheiro de mofo e ferro. As paredes eram frias, úmidas, e a luz fraca piscava sobre nossas cabeças. Cada passo soava alto demais, como se o próprio chão gritasse para que eu voltasse. Quando ele parou diante de uma porta de ferro, senti o coração martelar no peito. Richard girou a maçaneta com calma, saboreando a tensão. E quando a porta se abriu… o mundo parou.
Ela estava ali. Sentada numa cadeira, com os pulsos amarrados, os olhos perdidos, o cabelo grisalho caindo sobre o rosto. Magro demais. Pálido demais. Mas viva.
— Mãe… — minha voz falhou.
Ela ergueu o olhar, lenta, confusa, como se estivesse acordando de um pesadelo antigo. Quando me viu, os olhos marejaram, e ela sussurrou:
— ?
O chão pareceu sumir sob meus pés. Dei um passo à frente, mas Richard me segurou pelo braço, com força suficiente para deixar marcas.
— Calma — disse, quase sorrindo. — Ela está bem. Pelo menos… por enquanto.
O sangue gelou nas minhas veias. Ele se aproximou da minha mãe e passou a mão no ombro dela, a tocando como se fosse seu troféu.
— Eu disse a ela que você viria. Que você entenderia que a gente pertence ao mesmo lugar. Que não tem porque lutar contra o que já é inevitável.
Meus olhos queimavam. O desespero subia pela garganta, mas eu engoli tudo. Gritar não ia mudar nada.
— Por que… porque ela está aqui? — perguntei, a voz trêmula.
Richard me olhou como quem explica algo óbvio.
— Porque eu sei que ela não ia ficar quieta. E qual graça teria matá-la? — Ele deu um meio sorriso, torto, cruel. — Agora você tem um bom motivo para obedecer, não tem?
Meu corpo inteiro tremia. Minha mãe estava viva e eu ia tirá-la dali, nem que fosse a última coisa que eu fizesse. Engoli o nó na garganta, ergui o rosto e forcei a voz a sair firme:
— O que você quer de mim?
Richard se inclinou, os olhos brilhando com satisfação.
— Quero você de volta onde sempre pertenceu, .
Fez uma pausa, deixando o peso das palavras cair sobre mim.
— Ao meu lado. Agora você está grandinha o suficiente — ele me olhou de cima a baixo — e deu uma bela encorpada — falou lambendo os lábios.
Meu estômago revirou, mas eu não recuei. Não mais. Eu olhei para minha mãe, para o medo estampado nos olhos dela. E prometi em silêncio: eu vou te tirar daqui. Eu juro. Por enquanto… eu ia jogar o jogo dele, mas no fim o tabuleiro seria meu.

A noite caiu pesada. O relógio na parede marcava horas mortas, e cada segundo parecia um golpe, um lembrete do tempo que eu estava perdendo — e do que ele tinha tomado de mim.
Richard me trancou num quarto pequeno, de paredes descascadas e janela coberta por grades enferrujadas. Havia uma cama estreita, um lençol áspero e uma lâmpada amarela que piscava no teto, como um olho cansado. Antes de sair, ele virou para mim com um sorriso satisfeito.
— Se eu fosse você, tentaria dormir. Amanhã a gente conversa melhor. — E então, o som do trinco ecoou, como um veredito.
Silêncio.
Sentei na beira da cama, os dedos pressionando o lençol até ficarem brancos. Minha mente rodava, frenética, entre lembranças e promessas, entre o passado e o que estava por vir. Minha mãe estava ali. Respirando. Machucada, mas viva. E eu… eu estava de volta ao lugar que mais temi. Por fora, precisava parecer rendida. Por dentro, eu queimava.
Fechei os olhos e revivi cada detalhe da última semana: a exposição da , os olhos do brilhando quando me olhava, o riso do ecoando no loft. Tudo o que construímos com as próprias mãos. Tudo o que Richard ameaçava destruir.
Ele achava que podia me dobrar, como sempre fez. Mas ele não entendia — eu já não era a menina assustada que ele deixou no chão anos atrás. Agora, eu conhecia as sombras. Eu aprendi a andar nelas.
A imagem da minha mãe presa naquela cadeira não saía da minha cabeça. Cada cicatriz no rosto dela era um lembrete do que eu tinha a perder. E do que eu estava disposta a fazer. Era estranho estar ali, em uma casa com a minha mãe e meu padrasto e não ouvir gritos, brigas ou socos, obviamente isso só poderia significar desgraça. Richard quieto não era nada bom, nada.
Minha cabeça rodava pensando em tudo que minha mãe passou enquanto eu estava longe, havia prometido ajudá-la e me distrai sendo feliz, a culpa batia como um fantasma em minhas costas, mas agora as coisas iam ser diferentes. Eu estava longe, no meio do mato e ninguém conseguiria me salvar.
Passei as mãos pelos bolsos, tateando com calma. Nada. Nenhuma brecha. Ele havia pegado meu celular, desgraçado, mas havia tempo. E tempo era tudo o que eu precisava para planejar. Amanhã, ele vai querer conversar. Ia querer negociar. Ia achar que me controlava. E eu deixaria.
Fiquei de pé e caminhei até a janela. A luz da rua era fraca, mas suficiente para ver o reflexo do meu rosto por entre as grades — os olhos fundos, o cansaço estampado. Olhei para mim mesma e sussurrei:
— Aguenta firme.
Porque essa guerra não seria vencida com força. Seria vencida com paciência. Com sangue frio. Com estratégia. Jamais imaginei que ajudar em corridas clandestinas iria me ajudar tanto. Eu não podia fugir ainda. Mas podia observar. Ouvir. Esperar. E quando ele menos esperasse, eu ia acender o fósforo. E ver tudo o que ele construiu desabar nas chamas.
Deitei na cama, os olhos fixos no teto rachado. Cada som da casa — um passo no corredor, o vento batendo nas janelas — parecia um aviso. Mas o medo não me controlava mais. Agora, ele era meu combustível.
Capítulo 33 - O que nos resta em meio às cinzas
We're swaying to drum beats
In motion, I'm feeling
My patience controlling
The question I won't speak
We're telling the stories
Our laughter, he knows me
We're leaving, we're talking
You're closer, it's calming - After Dark
In motion, I'm feeling
My patience controlling
The question I won't speak
We're telling the stories
Our laughter, he knows me
We're leaving, we're talking
You're closer, it's calming - After Dark
O tempo perde o nome quando você é prisioneira. Não há manhã, nem noite, nem ontem. Só as paredes. O som do cadeado girando virou meu relógio. E o som das botas dele no corredor, meu lembrete de que o inferno existe, e que às vezes ele tem rosto humano.
Às vezes, parecia que eu estava enlouquecendo, quando sentia que minha alma estava querendo deixar meu corpo, começava a prestar atenção em minha volta, decorar os sons, os tempos: três passos da porta até a parede, dois segundos de intervalo entre cada ronda do capanga, que havia aparecido um dia depois que eu cheguei e não era mais amigável que o Richard, um feixe de luz entrando pela fresta às seis e quarenta da manhã. Eles acham que quebraram meu corpo. Mas o que eles não entendem é que o corpo é só uma fachada. Eu aprendi a lutar com o que eles nunca vão ver.
Richard vinha todos os dias. Sempre com a mesma postura — o predador satisfeito. Entrava sem bater, caminhando na própria casa. O olhar avaliando, a voz cortante, o perfume familiar de perigo. Ele gostava de falar. Gostava de ouvir o som da própria crueldade ecoando nas paredes.
— Você parece cansada — ele disse na terceira manhã, encostando-se no batente da porta, um copo de uísque na mão. — Achei que você fosse mais forte.
Fingi não ouvir. Mantive os olhos no chão, as mãos no colo, como ele queria. Silêncio é mais afiado que faca.
— Eu te dei tudo, — ele continuou, aproximando-se. — Te tirei do lixo. Te ensinei o que é valor. E você fugiu pra brincar de mocinha com aquele bastardo. — Ele abaixou, segurou meu queixo com força. O hálito dele cheirava a álcool e passado podre. — Agora olha pra mim. Me diz que ainda acha que é livre.
Eu olhei. E deixei ele ver exatamente o que queria: vazio. Olhos mortos. Alma quebrada.
— Você vai voltar a ser quem era — ele prometeu, soltando meu rosto com desprezo. — Vai reaprender. E vai agradecer.
Ele saiu, e a porta trancou atrás de mim com um estalo seco.
Eu fiquei imóvel por longos minutos, ouvindo o eco das botas sumindo pelo corredor. E então recomecei. Um passo. Depois outro. Risquei no chão com uma lasca de madeira, contando quantos segundos levava entre o som dos passos na escada e a volta do guarda. A parede nordeste era mais úmida. Alguma infiltração ali. Talvez uma brecha. O barulho do gerador vinha do lado de fora, à esquerda. Se eu conseguisse desligá-lo, a casa ficaria no escuro.
Não era um plano ainda. Era só um mapa de possibilidades.
Na noite seguinte, Richard me levou para outro cômodo. Disse que eu precisava "lembrar quem eu era". Sentada num canto, os cabelos desgrenhados, o olhar vago, estava a minha mãe, respirava, mas era só isso. O corpo ali. A alma em algum lugar que ele destruiu antes de mim.O pescoço tinha marcas de mãos, havia sido esganada, a roupa estava rasgada e os peitos estavam amostra, com um chupão em cada lado.
— Antes de pensar em fugir — Richard sussurrou no meu ouvido —, lembra que a família vem primeiro. — Ele passou o braço pelos meus ombros como um gesto de carinho. Mas era uma coleira. Eu não chorei. Ele queria lágrimas. Eu dei silêncio, a escuridão de não saber o que se passava na minha cabeça. Porque o escuro é o lugar onde os monstros se perdem.
O submundo clandestino nunca foi um lugar de paz. Nunca teve a ilusão de normalidade. Sempre existiu sob regras invisíveis, códigos silenciosos, uma hierarquia que sustentava a bagunça. Agora, até isso desmoronou. As ruas estavam em guerra; os nomes antigos desapareciam, e os esconderijos que julgávamos seguros estavam sendo invadidos. Contatos, aliados, tudo que construímos — sumiu. Silêncio absoluto. O silêncio é pior que uma ameaça explícita: ele prenuncia a queda antes mesmo de vermos os corpos caírem. E nós estávamos no centro do fogo, sem mapa, sem escudo, apenas tentando sobreviver.
Parecia que o mundo resolveu girar em 360 graus ao mesmo tempo. Tudo estava desmoronando e nós não sabíamos para que lado correr.
Passei os últimos dias em ligações que ninguém atendia, mensagens que não recebiam resposta. Cada passo parecia mais incerto que o anterior. Cada sombra nas ruas era suspeita. Cada luz acesa na madrugada, uma armadilha. Enquanto isso, o nome dela ainda ecoava na minha mente como um grito surdo: . Ela tinha ido embora. Foi isso que contamos para Reyna, Migs e David, esse era o relato oficial, mas nós sabíamos que não. não desapareceria por acaso. Ela foi levada. E eu sentia isso com cada músculo do meu corpo.

No loft, tudo parecia morto. Traços dela por toda parte: o casaco jogado na cadeira, o perfume quase imperceptível no ar, as anotações espalhadas pelo balcão. Tentávamos de tudo, reviramos a casa das meninas em busca de pistas, mas nada, nada mesmo mostrava onde ela poderia estar, não havia como rastreá-la. Eu tentava manter a cabeça erguida, mas sentia que estávamos cercados, o chão desaparecendo sob nossos pés.
O toque do telefone rasgou o silêncio. Uma voz baixa, rouca, carregada de pânico, transmitia informações tão rápidas que parecia impossível processar.
— Eles estão vindo atrás de vocês.
— Quem? — Minha voz saiu dura, o estômago embrulhado. — Quem, Reyna?
— Todos. Polícia, imprensa, velhos contatos. E mais: o nome "Raven" apareceu num relatório oficial. O acidente da Fórmula 1. Bennett. — Meu coração congelou.
— De onde veio isso? — perguntei.
— Alguém nos denunciou, . Tínhamos um infiltrado, contaram tudo. Não posso falar mais, os celulares vão ser rastreados, se é que já não estão. Vocês precisam se mandar. Agora! — A ligação caiu, deixando apenas o eco do perigo.
Ali eu entendi: o passado não voltava sozinho. Ele chegava com força, arrastando tudo no caminho, e estávamos prestes a ser esmagados.
— Merda, merda, merda! — Xinguei alto chutando tudo que havia pela frente. veio em minha direção e parou o que estava fazendo. — Reyna ligou, a casa caiu. Descobriram tudo, . Nossos nomes, as corridas, as lutas, seu passado. Estamos fodidos, estamos mortos.
— Precisamos dar o fora, agora — falou começando a se mexer. Eu fiquei paralizado. - ! — Gritou — Se mexe, caralho! Vamos, amor! Precisamos pegar tudo o que der.

Quando estávamos terminando de separar alguns documentos falsos e arrumar malas com peças de roupa, escutamos três batidas pesadas na porta. Rápidas, firmes, certeiras. Cada batida ecoava pelo loft como um tambor de guerra. recuou. apareceu, suado, olhos inflamados, buscando no escuro respostas que não existiam.
— ? Bennett? — Olhei através do olho mágico da porta e vi dois homens de terno, distintivos brilhando na luz da rua. — Mandado de prisão.
O mundo parou. Sirenes ao longe cresciam, transformando cada sombra em ameaça. Um passo em falso e tudo acabaria. engoliu em seco. me olhou como se buscasse saída, mas já não havia. Cada respiração pesada parecia pesar toneladas.
O loft inteiro se transformou em arena de sobrevivência, com o tempo diminuindo, cada segundo pesando mais que o último. O submundo, nosso lar improvisado, estava prestes a ser queimado.
As luzes do hall piscavam, sinalizando que o restante da polícia não estava longe. Cada corredor parecia se estender em direção ao precipício. A cidade inteira se tornava um labirinto traiçoeiro, e nós éramos presas no meio dele. Uma sensação de jogo de gato e rato, uma corrida contra a própria sorte, tomava conta do ar.
— Preciso encontrar — sussurrou, voz rouca, quase quebrando, enquanto se aproximava da porta.
— E eu preciso manter a viva — respondi. Cada escolha parecia impossível, cada movimento poderia ser o último.
A tensão apertava o peito como um punho. Cada segundo contava. O submundo, a polícia, os inimigos invisíveis — tudo convergia para um único ponto: o resgate ou a ruína.
O mundo lá fora já não era seguro. O passado, a dor, a raiva e o medo convergiam em uma tempestade perfeita. E nós estávamos no olho dela, prestes a descobrir que nem o talento, nem a força, nem o amor seriam suficientes se não nos mantivéssemos unidos.
Capítulo 34 - Fuga
You left your diary at my house
And I read those pages
Do you really love me, baby - Wait a Minute!
And I read those pages
Do you really love me, baby - Wait a Minute!
O loft nunca pareceu tão apertado. Cada passo ecoava mais alto do que deveria, e eu podia sentir o coração da batendo na minha nuca enquanto ela se agarrava à minha cintura. A escada interna, que quase nunca usávamos, rangia sob nosso peso, cada degrau era um lembrete de que alguém poderia nos ouvir. A adrenalina me deixava nervoso, mas focado.
— Devagar — murmurou , a voz baixa, quase sufocada pelo medo. — Se eles ouvirem…
— Eu sei — respondi. — Só confia em mim.
Chegamos ao térreo, a garagem estava lá, sombras dançando nas paredes conforme as luzes da rua invadiam o espaço por frestas na porta metálica. se inclinou sobre mim, respirando fundo, e eu senti o cheiro dela misturado à gasolina da moto.
— Pronta? — perguntei. Ela assentiu, o queixo duro, os olhos ardendo.
— Sempre — respondeu. E então subimos na moto, ela se firmou atrás de mim com os braços apertados em volta da minha cintura.
— Assim que nós ligarmos esses motores, isso aqui vai virar o inferno, é impossível eles não nos escutar, então segura firme, não me solta por nada, eu vou tirar a gente daqui, ok? — Perguntei e vi ela assentir. — Certo, lá vamos nós.
O carro do Raven estava logo atrás, ao volante, as luzes refletindo nos retrovisores da moto enquanto nos preparávamos para dar o fora. O ronco da moto parecia gritar na madrugada, misturando-se às sirenes que começavam a se aproximar de algum lugar atrás do prédio.
Assim que o portão terminou de abrir e eu liguei a moto ouvi os gritos dos policiais.
— ELES ESTÃO FUGINDO, VAMOS, VAMOS!
E esse foi o meu sinal para acelerar. Chegamos ao fim da rua e fez a primeira manobra ousada: curva fechada, carro deslizando, pneus cantando. Um carro da polícia que vinha na direção contrária quase perdeu o controle na curva. Meu coração pulou na garganta.
— Boa! — gritei, sem poder conter o alívio momentâneo.
— Próxima à ponte velha, seguimos em frente — respondeu , quando colei minha moto ao lado do seu carro, comandando tudo como sempre.
A perseguição parecia interminável. Cada segundo no trânsito era um teste. A moto cortava ruas estreitas, becos, desviava de carros, pedestres e obstáculos que pareciam surgidos para nos testar. Eu sentia a tensão nos ombros, nos braços, cada músculo pronto para reagir. A adrenalina não era apenas combustível, era sobrevivência.
A cada curva, eu sentia a tensão subir. Olhei para , seu cabelo esvoaçando, olhos fixos na estrada à frente, mandíbula tensa.
— Eles estão vindo — disse, sem rodeios.
— Eu sei — respondi.
Nos moviámos como espectros, cortando ruas secundárias, desviando de carros parados, dos pedestres apavorados. O vento assobiava. Eu via o reflexo das sirenes na lataria do carro de e sentia meu estômago revirar. Cada passo errado nos custaria caro.
A polícia nos seguia com precisão. Passamos por vielas estreitas, estacionamentos abandonados, ruas de paralelepípedos onde o asfalto parecia querer nos engolir. nos guiava pelo carro, piscando faróis e indicando desvios estratégicos. Cada sinal, cada movimento era um código entre nós.
As luzes da cidade passavam como borrões. O bairro começava a mudar — os prédios baixos se tornaram casebres, as ruas sujas, com postes tortos e lixo espalhado pelo chão. San José mostrando sua periferia. Era ali que tínhamos uma vantagem: conhecíamos atalhos, ruas mortas que poderiam despistar qualquer perseguidor.
— À esquerda! — gritou ele, e virei com a moto, derrapando levemente na poeira da rua. A sirene soou mais próxima.
— Eles estão colando! — gritou. Eu podia sentir sua mão apertando minha cintura ainda mais forte. Acelerei ainda mais, sentia que poderia bater na traseira de a qualquer momento, o pânico começava a tomar conta do meu corpo, mas eu evitava tremer.
Foi então que a nossa salvação veio, em um semáforo fechado, que sinalizava as preferências de uma encruzilhada, passamos a mais de 200km/h bem a tempo de dois caminhões porta container passarem e trancarem os carros da polícia.
— Essa foi por muito pouco — falou dando uma risada nervosa.
Segundos pareciam horas. Meu peito queimava de adrenalina, mas não havia espaço para fraqueza. Precisávamos chegar ao esconderijo antes que a polícia desse a volta e nos encurralasse.

Após alguns segundos, avistei o letreiro do motel barato — luzes piscando, paredes descascadas, cheiro de café velho e fumaça de cigarro ainda forte no ar. Reduzi a velocidade, respirando fundo, tentando manter firme atrás de mim. estacionou o carro logo depois, derrapando um pouco no cascalho da entrada.
— Conseguimos — murmurei, mas o coração ainda batia acelerado, sabendo que isso era apenas uma pausa. Não estávamos fora de perigo. Só havíamos adiado o confronto.
desceu da moto, os olhos percorrendo o entorno, avaliando o perímetro. Eu podia ver a tensão se dissipando lentamente, mas não completamente. Cada segundo de paz aqui era provisório.
— Não se preocupe, esse lugar é um dos nossos. Gustav, um dos nossos lutadores, usa o motel dos pais como esconderijo. Fica aqui, vou pedir para ele esconder nossos veículos e pegar um quarto — falei olhando para que abraçava o corpo, nervosa, e ela apenas assentiu.
Depois que eu e organizamos nossos veículos e instruímos Gustav a avisar os outros a fugirem, finalmente seguíamos a caminho do quarto. Infelizmente, ou felizmente, só tinha uma unidade disponível com duas camas de casal, teria que servir, mesmo que tivesse bufado mais que um touro o caminho todo.
— Precisamos nos reagrupar, pensar nos próximos passos — disse, mais para mim mesmo do que para ela.
— E encontrar a — completou , quase sussurrando. Um lembrete cruel de que a caçada estava longe de terminar.
O motel barato seria nosso refúgio temporário, mas a cidade inteira parecia prestes a desabar sobre nós. E nós apenas respirávamos fundo, nos preparando para a próxima luta.
O quarto do motel cheirava a mofo e desespero. As paredes amareladas pareciam encolher a cada respiração, e o som do ventilador velho rangendo no teto só servia pra me lembrar que a gente estava preso num tempo que não era nosso. A fuga tinha deixado um gosto metálico na boca — medo, adrenalina e o peso de tudo o que a gente tinha perdido.
entrou primeiro. Não disse nada. Esperou a gente passar e fechou a porta, girou a tranca com força e jogou a mochila sobre uma das camas.
O silêncio entre nós era tão denso que parecia vibrar. encostou na parede, respirando pesado, ainda com o olhar aceso da corrida. Eu fiquei no meio do quarto, sem saber onde colocar as mãos, como se qualquer movimento errado pudesse fazer o chão abrir sob nossos pés.
— Tirem as jaquetas — murmurou, enfim. — A gente vai precisar ficar aqui por um tempo.
A voz dele soava diferente. Fria, técnica. Raven assumindo o lugar do . E, pela primeira vez, eu entendi o que quis dizer quando falava que ele mudava. Era como ver um soldado se preparando para a guerra.

Passado algumas horas, ainda estava sentado à beira da cama, o notebook aberto diante dele, os olhos fixos na tela, as mãos se movendo com uma precisão quase automática. Desde o momento em que entramos ali, ele não tinha dito quase nada — apenas ligou o computador, conectou-se a uma rede instável e começou a digitar freneticamente, como se o mundo inteiro dependesse daquilo.
andava de um lado para o outro, os punhos cerrados, os olhos vermelhos. Eu conseguia sentir a tensão dele vibrando no ar, cada passo carregado de raiva, culpa e impotência.
— … — chamei, a voz mais baixa do que eu pretendia. — Você vai conseguir encontrar ela, né?
Ele não respondeu de imediato. Apenas continuou digitando, os olhos estreitos, concentrados. Foi então que vi a mudança sutil em sua expressão — um lampejo de esperança misturado com fúria.
— Eu estava revendo as câmeras de segurança — ele murmurou, a voz tensa, quase um sussurro. — Do dia em que ela foi embora. Não sei como não pensei nisso antes, estava tão absorto na tristeza, que não usei a cabeça. Usei o mesmo sistema que a gente usava pra rastrear viaturas, lembra? O da malha policial. Hackeei as câmeras da região, pensei que pudéssemos achar alguma coisa, pois claramente ela não fugiu de ônibus, então fui seguindo os passos dela pelas câmeras e achei algo.
Meu coração disparou. Ele virou a tela pra gente, e lá estava . Saindo de um bar. Caminhando com o corpo caído e logo do lado dele estava o Richard, os dois seguiam em direção a um sedan preto.
— Consegui a placa — continuou, os dedos já digitando mais comandos. — Cruzei com o banco de dados, rastreei pelo número do chassi e… achei o modelo, o dono, tudo. É dele. É o Richard.
soltou um palavrão baixo, a mandíbula travada. Eu senti o estômago revirar. fechou o punho com força sobre o teclado, respirando fundo.
— Agora que eu sei o carro, posso rastrear o GPS, triangulação de sinal. Vou precisar de alguns minutos para quebrar a criptografia. Mas se ele não tiver desativado o rastreador, eu consigo.
— E se ele tiver? — perguntei, a voz falhando.
— A gente acha outro jeito. — Ele olhou pra mim, e pela primeira vez naquela noite, havia um fogo frio nos olhos dele. — Eu vou encontrar ela, . Nem que eu tenha que virar o inferno de cabeça pra baixo.
se aproximou, colocando uma mão pesada no ombro dele.
— Faz o que tiver que fazer. Eu tô contigo.
Ficamos os três ali, em silêncio, enquanto digitava, o som das teclas ecoando no quarto pequeno. Eu não sabia se estava respirando. Só sabia que não podia deixar o medo me vencer agora. confiava em mim. E eu confiava neles.
Fiquei em pé, observando os dois, sentindo o ar pesado no peito. Queria fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas tudo o que eu podia fazer era esperar e tentar não desabar.
A luz do notebook refletia no rosto dele, e eu via o cansaço escondido sob o controle. O mesmo cansaço que eu sentia. A sensação de estar sempre um passo atrás, de correr contra um relógio que a gente não via.
começou a andar de um lado pro outro, novamente, estava impaciente e com o cabelo todo desgrenhado de tanto passar as mãos.
— Isso não tá certo. Se ela tivesse escolha, teria mandado um sinal. Um recado. Qualquer coisa.
— Talvez ela não pudesse. — Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Acho que o único jeito que ela achou de deixar alguma pista foi o bilhete, ele foi um sinal que ela não estava indo por opção.
Ele parou. Olhou pra mim, e naquele olhar eu vi tudo o que ele não dizia: medo, culpa, impotência.
— Eu devia ter protegido ela — murmurou ouvindo nossa conversa.
Me aproximei, coloquei a mão sobre o braço dele.
— Não se sinta culpado, todos nós deveríamos ter prestado mais atenção.
O som seco de uma tecla final, e então o mapa apareceu na tela — um ponto vermelho piscando num quadrante isolado de San Jose, quase fora do perímetro urbano.
— Achei um sinal — ele disse, e pela primeira vez, a voz quebrou um pouco. — É fraco, mas é ele. Um sedan preto, modelo compatível. Foi visto por câmeras de trânsito há seis horas em um mercado na saída da cidade.
se aproximou, com os olhos fixos na tela.
— Isso é o suficiente para rastrear?
— Ainda não. — digitava sem parar. — Mas se o carro estiver parado, posso usar triangulação de antenas de celular próximas. Se ele desligou o rastreador, ainda dá pra rastrear o celular dela. Só que…
— Só que o Richard deve ter tomado — completei, e senti um arrepio na espinha.
Ele assentiu, sem tirar os olhos da tela.
— Mesmo assim, posso tentar rastrear os últimos sinais. Talvez achemos o trajeto, uma rota. Um padrão.
O som das teclas voltou, incessante. A luz azul tremulava, iluminando nossos rostos cansados.
Lá fora, o barulho distante de uma sirene cortou a noite, como um lembrete cruel de que o mundo ainda estava caçando a gente. Mas aqui dentro, havia só três pessoas tentando costurar um plano com pedaços de esperança.
Sentei ao lado deles, respirando fundo, o coração pulsando no ritmo frenético das teclas. A estava viva. E a gente ia encontrá-la. Nem que fosse nas cinzas do inferno.
Capítulo 35 - Pistas
I don't wanna live forever
'Cause I know I'll be living in vain
And I don't wanna fit wherever
I just wanna keep calling your name
Until you come back home - I Don’t Wanna Live Forever
'Cause I know I'll be living in vain
And I don't wanna fit wherever
I just wanna keep calling your name
Until you come back home - I Don’t Wanna Live Forever

estava jogado na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, os cabelos ainda úmidos do banho. Eu me sentei ao lado dele e fiquei em silêncio por alguns segundos. O barulho do ventilador girando no teto misturava-se ao som das teclas do computador. A rotina do inferno.
Peguei o celular. Havia oito ligações perdidas e duas mensagens de voz — todas com o mesmo número, o da minha mãe. “Eles viram a matéria”, pensei. A exposição, as fotos, os comentários. O nome foi impresso em preto e branco nas páginas de um jornal regional. Artista local expõe obra inspirada em temas sombrios de juventude e redenção.
Anos atrás essa manchete teria feito meus pais se orgulharem. Agora, era só um lembrete do que eu fugi. percebeu meu olhar fixo na tela.
— Pais? — perguntou, sem rodeios. Assenti.
— Viram a exposição, suponho eu. Estão tentando contato desde o dia que saiu a notícia no jornal. Eu... — engoli seco. — Não consigo atender. Não sei o que dizer. — Ele ficou um tempo quieto, mexendo na pulseira que usava no pulso esquerdo, o olhar perdido no chão.
— Às vezes não precisa dizer nada — murmurou, por fim. — Só ouvir. — Soltei uma risada curta, amarga.
— Você não entende. Não é só orgulho ferido. É culpa que corrói por dentro. — se virou pra mim, os olhos azuis cansados, mas firmes.
— Princesa, ninguém sai ileso disso aqui. Nem você, nem eles. Mas se a gente sair vivo dessa — ele respirou fundo, a voz mais baixa — a gente pode ir até a sua cidade. Conversar. Fechar esse ciclo. Não precisa recomeçar nada. Só... deixar o peso pra trás. — Fiquei olhando pra ele. A forma como dizia "a gente" me desarmava, como ele sempre me colocava em seu futuro e se colocava no meu também. Nosso relacionamento evoluiu tão rápido, eu nem sabia que isso era possível, no começo, não sabia diferenciar o que era real e o que era carência e o desejo de ser amada, mas olhando para o , para o meu , num quarto de motel barato, sendo procurados pela polícia, com a desaparecida, eu não poderia sentir nada além de amor, mesmo com todos os problemas nos rondando como tubarões, ele ainda dava um jeito de cuidar de mim.
— Você faria isso? — perguntei, desviando meus pensamentos. — Se fosse com o seu pai?
O silêncio dele foi longo. continuava digitando no fundo, a luz azul cortando o ar pesado do quarto. finalmente levantou o olhar.
— Faria. — A resposta saiu quase num sussurro. — Não porque ele merece. Mas porque eu mereço ficar em paz. — As palavras dele ficaram pairando entre nós, como se tivessem encontrado um eco dentro de mim. Por um instante, o caos lá fora sumiu. Só existia aquele quarto apertado, o som do teclado e o peso do que ainda estava por vir. E pela primeira vez em dias, eu quis acreditar que realmente haveria um depois.
recostou-se na parede, a camiseta subindo um pouco quando passou a mão pelos cabelos, e eu percebi que ele tremia levemente — não de frio, mas de tensão.
— Faz quanto tempo que você não dorme direito? — perguntei, tentando quebrar o vazio. Ele deu uma risada seca.
— O suficiente pra esquecer o que é sonhar.
— E comer?
— Se contar café e raiva, eu tô bem alimentado. — Sorriu de lado, mas o olhar não acompanhou o gesto. Eu suspirei e encostei o ombro no dele.
— Às vezes eu acho que nunca mais vou conseguir respirar sem medo — confessei. — Tipo... mesmo que a gente encontre a , mesmo que tudo acabe, parece que uma parte de mim vai continuar presa nesse inferno.
virou o rosto na minha direção.
— Você é a pessoa mais teimosa que eu conheço. — Ele hesitou, a voz mais baixa. — Se tem alguém que vai aprender a respirar de novo, é você.
— E você? — perguntei. — Quando tudo isso acabar... o que sobra de você?
Ele ficou um tempo sem responder. Os olhos fixos na janela, onde as luzes da rua piscavam em vermelho e amarelo.
— Eu não sei. — A voz saiu rouca, quase um desabafo. — Eu só sei lutar. Sempre foi assim. O ringue, as brigas, os erros... — Ele esfregou o rosto, cansado. — E agora tem você, a , o . E de repente eu tô lutando pra algo que não dá pra bater. Eu não sei o que fazer se perder vocês ou se eu for preso, não sei o que é pior, acho que minha mãe iria me visitar na prisão só para me descer o cacete. — Soltou um risinho frouxo.
Me aproximei dele encostando meu nariz em sua bochecha.
— Você não vai. Nem perder a gente e nem ser preso. — Ele sorriu novamente e passou os braços ao redor do meu corpo, me puxando para cima de seu peito. fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como quem precisa se convencer disso.
— Às vezes eu esqueço que a gente ainda é jovem — ele murmurou, rindo sem humor. — Era pra gente estar em alguma festa idiota, não planejando uma fuga ou caçando uma amiga.
— Talvez um dia a gente vá — respondi, tentando sorrir. — Um dia, sem precisar fugir de ninguém. E você vai dançar comigo. — Ele abriu um meio sorriso cansado.
— Prometo que irei tentar.
O som de uma notificação interrompeu a nossa bolha. se moveu na cadeira, rápido, o olhar vidrado na tela.
Eles estavam sentados na cama, em uma conversa que eu preferia não interromper, mas o som que piscou na tela me fez levantar antes que pudesse pensar. O mapa tremia no monitor, uma linha azul piscando entre as coordenadas.
— Desculpem por interromper o momento de vocês — falei, virando-me para eles, e a expressão dos dois mudou instantaneamente — de exaustos para atentos. — Mas acho que encontrei alguma coisa.
se aproximou primeiro, depois , com aquele olhar ansioso, o tipo que rasga o peito.
— Conseguiu rastrear? — ele perguntou.
Assenti, girando o notebook em direção a eles.
— Não exatamente o rastreamento padrão. O carro do Richard tem um modelo antigo, sem GPS ativo, mas... — Suspirei, os dedos ainda deslizando pelas teclas. — Eu lembrei que esses carros ainda usam módulos de atualização via satélite, tipo um backup de localização para concessionárias. Consegui interceptar o último ping antes do sistema desligar de vez.
— E onde ele foi? — perguntou, inclinando-se para frente.
Ampliei o mapa.
— Ele ficou naquele mercado tempo o suficiente pra eu acessar as câmeras. — Pausei, o coração acelerando. — E eu vi. Richard não está sozinho, havia mais um homem com ele. Eles fizeram bastante compras, a julgar pela quantidade de sacolas.
— Outro cara? — perguntou, cerrando os punhos. — E a ?
— Não apareceu em momento nenhum. — Respirei fundo, a garganta seca. — Mas depois do mercado, o carro foi visto pela última vez entrando nessa região de mata — apontei o ponto piscando na tela, uma área fora da cidade, sem sinal de torres
— A floresta fica longe — disse, a voz baixa, mas firme. — A gente precisa ir até lá.
— Amanhã — interrompi — Se formos agora, não passamos da entrada antes do amanhecer. A região é fechada, sem luz, e não sabemos o que tem lá.
— Espera, volta a imagem — veio em um salto atrás de mim e pegou o notebook do meu colo. — Filho da puta, eu vou matar esse animal.
— O que? Você conhece o outro cara? — Perguntei confuso.
— Porra, . É o Jarek! A Reyna falou na ligação que a polícia descobriu sua identidade, das corridas, de tudo, que havia um infiltrado em nosso meio. Foi ele! Ele ajudou o Richard, por isso que as coisas chegavam para a no nosso galpão e ninguém nunca viu alguém diferente. Foi esse merdinha que trazia tudo para dentro.
— Não acredito. — Coloquei a mão na testa. — Não acredito que deixei isso passar, eu pensei que havia resolvido esse assunto com ele aquela tarde em que ele foi arrumar confusão. Não dei a atenção que deveria.
— Calma — falou. — Não é hora de acharmos culpados, pois se for, todos nós somos. Agora precisamos pensar no que fazer para salvar ela. Amanhã fazem quatro dias que ela está presa. Não podemos deixar isso se postergar mais.
se jogou na cadeira, o maxilar tenso.
— E se ele estiver movendo ela de novo?
— Eu deixei um sistema de monitoramento ativo. Se o carro ligar, eu vou saber. — Respirei fundo e acrescentei, mais baixo: — Mas o tempo tá acabando.
se levantou, pegou o celular e foi até o canto do quarto.
— Vou ligar pra Reyna. Não vou citar a , vou falar que é nossa fuga. Se a gente for pra lá, precisamos estar armados. — Ele discou, e por alguns segundos o quarto ficou em silêncio, só o som da voz dele abafada ao telefone.
se levantou e foi até a janela, observando a rua vazia, o asfalto úmido refletindo os faróis distantes. Eu fechei o notebook e apoiei os cotovelos nos joelhos, sentindo o corpo pesar. Quatro dias. Quatro dias sem ela. Quando voltou, os olhos dele estavam mais duros.
— Reyna disse que consegue mandar as armas e um carro de apoio até o amanhecer. Vai deixar tudo num ponto de entrega na saída da cidade.
Assenti.
— Ótimo.
— E depois disso? — perguntou. — A gente entra lá e reza pra não morrer?
— Depois disso, a gente termina o que começou — falei olhando direto pra ela. — E traz a de volta.
O relógio do quarto marcava 3h47 quando o silêncio voltou. Ninguém dormiu. Mas pela primeira vez em uma semana, havia um destino.

A madrugada cedeu espaço a um céu de chumbo. Não havia sol, só aquela luz pálida de quando o dia nasce cansado. O som distante de um motor quebrava o silêncio da rua, e o cheiro de chuva antiga misturava-se ao da gasolina. A entrega chegou exatamente como Reyna prometera: um carro preto, sem placas, estacionado discretamente atrás do motel. Dentro, um estojo metálico com duas pistolas automáticas, um rifle desmontado, mapas impressos e um rádio portátil. Tudo milimetricamente organizado, no estilo dela.
Eu poderia ir com meu carro, ele era definitivamente mais rápido, entretanto a polícia ainda estava no nosso cangote, se ele fosse visto pelas ruas. Já era. conferiu o interior com olhar rápido e profissional — cada peça, cada pente.
— Tá tudo limpo — disse, ajustando o coldre na cintura. permaneceu quieta, o casaco grosso cobrindo os braços. Os olhos dela tinham aquele brilho entre o medo e a raiva, e eu sabia que era isso que a mantinha de pé.
Eu fechei o porta-malas, olhei para os dois e falei:
— A partir daqui, sem improvisos. O sinal que peguei do carro do Richard era fraco, mas constante até certo ponto. A floresta fica a pouco mais de uma hora, se pegarmos a estrada por fora da cidade.
assentiu, antes de subir em sua moto ele arrancou as placas, ele poderia ir com o próprio veículo pois não era modificada, havia pelo menos umas 1000 dela na cidade, poderiam passar despercebidos por policiais menos atentos. Na noite anterior bolamos o nosso plano, iriamos em dois veículos, pois se a merda ficasse fora de controle alguém tinha que conseguir fugir e como não dirige e eu não vou a lugar nenhum sem a , a chance de salvação ficou para eles.
— Você vai na frente, Raven. A gente te segue. — A alcunha soou estranha depois de tanto tempo, mas, naquele momento, fazia sentido. Eu entrei no carro, o mesmo que já tinha me dado a liberdade e agora parecia me arrastar de volta pro inferno.
se aproximou da janela antes que eu ligasse o motor.
— … — ela hesitou. — Se a gente não encontrar nada, se for uma armadilha…
— Então a gente dá um jeito de sair. — Sorri sem humor. — Sempre damos.
Ela assentiu, respirou fundo e subiu na moto atrás de . O rugido do motor rasgou o ar e o carro acompanhou, deslizando pela rua molhada. O bairro era um labirinto de vielas e postes tortos, o tipo de lugar onde o tempo parece ter desistido de andar.
O rádio chiou no painel, e a voz de veio abafada:
— Mantém a distância, Raven. Se virmos viatura, dispersamos.
— Copiado. — Apertei o volante, os olhos fixos na estrada.
A cidade foi ficando pra trás — o barulho, as luzes, o caos. O asfalto começou a se transformar em terra batida, o verde tomando conta dos dois lados da pista. O sinal do celular morreu de vez, e o mundo pareceu encolher até caber dentro do som dos motores.
Por um instante, tudo pareceu suspenso — como se o tempo prendesse a respiração. Até que o som veio: sirenes. Duas, talvez três, longe o bastante para não serem vistas, mas perto o suficiente para gelar o sangue.
— Droga — a voz de cortou o rádio. — Viatura vindo pela rota sul.
— Continua — respondi. — Tem um acesso lateral, à direita.
O carro derrapou na curva, o motor gritou. Vi pelo retrovisor a moto dobrando atrás, as luzes vermelhas piscando ao longe. A estrada se abriu num descampado, cercado por árvores. Mais um quilômetro, e o som das sirenes se perdeu. Paramos o carro sob a sombra densa das copas. A respiração de era audível até de dentro do carro, e desligou o motor da moto, olhando para mim.
— Acha que despistamos?
— Por enquanto. — Puxei o mapa. — O caminho da frente leva direto pra entrada da floresta. Se eles estavam indo pra algum lugar escondido, é lá.
— Ótimo — respondeu, secamente. — Nossa fuga não serviu para nada, aparentemente eles estão nos cercando. — Assenti. — Então vamos em direção ao nosso inferno.
desceu da moto, o vento bagunçando os cabelos, e encarou a estrada de terra que se estendia diante deles.
— Você acha que ela tá viva, ? — perguntou, sem olhar pra mim.
Respirei fundo, a resposta presa na garganta.
— Ela tem que estar, se não teremos mais um velório… ou dois. — Eu girei a chave. O motor roncou. E, quando os pneus tocaram a terra, o som pareceu o começo de alguma coisa irreversível.
Capítulo 36 - Mantenha sua alma acesa
ATENÇÃO: CAPÍTULO COM GATILHO. ABUSO SEXUAL NÃO EXPLÍCITO. LEIA COM CUIDADO E, SE NECESSÁRIO, PULE ESSA PARTE, NÃO COLOQUE SUA SAÚDE MENTAL EM RISCO, NÃO VALE A PENA.
Senti o mundo estalar como vidro entre os dedos antes de lembrar como respirar. Acordei com o gosto metálico preso na boca, como se tivesse mastigado um pedaço durante a noite, e as paredes do quarto giravam devagar, lentas, punindo qualquer tentativa de me levantar. O colchão rangia sob um corpo que não era bem o meu — parecia um traje emprestado que alguém havia esquecido no escuro —, e eu fiquei ali, imóvel, escutando o som da minha própria respiração se arrastando como um animal ferido. Minha mão procurou instintivamente algo para segurar e encontrou o tecido rasgado, minha blusa com um fio de perfume velho, a lembrança de risos que agora soavam falsos na minha cabeça.
Imagens vinham como estilhaços, sem ordem, sem começo decente: o rosto do em mil variações — feroz, despedaçado, me procurando; as luzes da galeria que antes celebravam, agora cortando como lâminas; a com os olhos cheios de tinta, escorrendo como lágrimas; a minha mãe sentada, vazia, como um corpo que precisava de voz e não tinha. Cada rosto se sobrepunha ao outro até que eu não sabia mais qual era meu e qual era empréstimo de memória. De repente eu via a estrada, o capô do carro brilhando, as mãos que não eram as minhas segurando o volante — e depois tudo escurecia. A mente me devolvia retalhos, um sussurro aqui, um cheiro ali; o que tinha acontecido vinha como chuva ácida: era impossível pegá-lo sem se ferir.
Tentei chorar e a água não veio. Só veio um som arrastado, esquisito, que eu não reconhecia como meu — um pranto antigo, enrolado numa voz que às vezes parecia de criança. Minhas pernas não obedeciam; meu estômago parecia ter virado chumbo. Era como se meu corpo tivesse decidido que a melhor resposta era desligar. Olhos abertos, alma fechada. O mundo continuava funcionando do lado de fora com sua crueldade cotidiana, mas dentro daquele quarto o tempo estava emperrado, cada segundo colado ao outro como se nada pudesse acontecer nunca mais.
Pensei, entre fragmentos, nas promessas que me dei. Lembrei de quando a ideia de ir até o limite me pareceu uma estratégia, um movimento de xadrez que eu controlaria: entrar no inferno, acender um fósforo, sair. Pensei que dava pra fazer isso sem que ninguém se queimasse. Ri baixinho — uma risada besta, sem humor — ao perceber como eu fui ingênua. Achei que poderia “dar o nó” no Richard, que poderia transformá-lo num tropeço meu. Em algum lugar, lá no fundo, havia o cálculo, a frieza do plano; aquele cálculo agora parecia um papel molhado que se desfaz ao menor toque. A estratégia evaporou. Sobrou o silêncio.
Minha mãe veio à minha cabeça com a precisão cruel de um relógio. A imagem dela sentada, os pulsos marcados, o corpo reduzido a tudo que eu não fui capaz de proteger, doía de um jeito que não permitia dividir palavras. A voz dela, quando vinha me lembrava de promessas antigas, de um lar que eu tinha jurado reconstruir. E agora eu estava aqui: incapaz de cumprir a promessa mais simples de todas. A culpa era um animal faminto que lambia minhas entranhas; queria me devorar inteira.
. Cada lembrança dele vinha com uma pressão no peito. Vi o jeito que ele me olhava na galeria, o rosto que eu conhecia tão bem e que agora parecia não me pertencer mais. Pior do que a lembrança foi a certeza de que eu o tinha atraído para isso. Pensei em como ele teria reagido se eu tivesse contado, se tivesse confiado. Pensei nas mãos dele, na força e na vontade de me proteger — e o estômago se contorceu, porque eu percebi que essa proteção me teria matado de um jeito diferente, e talvez menos solitário. A imagem dele tentando me arrancar do mundo em chamas me perseguiu: e se eu tivesse soltado a mão? E se, por querer ser a heroína sozinha, eu tê-lo levado para o inferno também?
O pensamento de que a única saída era a morte apareceu não como um plano, mas como uma cortina escura descendo diante dos meus olhos: e se acabar com tudo fosse a paz que me faltava? Não era um manifesto, nem mesmo uma ideia acompanhada de coragem — era só um vislumbre: luz apagando, respiração cessando, silêncio. Fiquei algum tempo ali encarando essa possibilidade como se observasse a superfície de um lago congelado, sabendo que qualquer passo podia rachar o que restava de mim. Mas antes que a imagem se tornasse ação, veio um outro pensamento — impossível de calar: eu tinha gente ao redor. . . Minha mãe, ainda respirando. Mesmo assim, o nó na garganta não desatou. O mundo lá fora pedia que eu continuasse, que resistisse; dentro de mim, todo o mapa parecia queimado.
As memórias do plano se misturavam aos flashes de humilhação e dor. Pensei em cada escolha, em cada minuto que achei que controlava o risco. E doeu mais, porque a estratégia que nasceu da coragem virou armadilha. Achei que poderia manipular o monstro — o que eu não sabia era que ele me reconheceria como presa e como troféu. O quão tola fui acreditar que poderia entrar num lugar que ensinou homens como ele a não ter limite e sair intacta. Essa percepção era o golpe final: eu não tinha sido esperta. Eu tinha sido enganada por mim mesma.
Chorei, finalmente, mas o choro veio em ondas curtas e silenciosas, como se minha boca tivesse esquecido a língua das lágrimas. Queria gritar o nome da , do , queria pedir ajuda, queria que alguém aparecesse e sacudisse o mundo pra que tudo voltasse a fazer sentido. Em vez disso, ouvi passos do lado de fora: a porta se abriu, sombras passaram, vozes rudes, o ranger de correntes. A presença deles, o som das botas no piso, trouxe uma náusea que eu não consegui disfarçar. Meu corpo encolheu, útero e pulmões se contrairam ao mesmo tempo, uma reação química ao perigo que não se mede em raciocínio, só em reflexo.
E no meio desse abandono, uma parte de mim, minúscula, uma fagulha que me parecia ridícula, se recusou a aceitar que tudo terminasse ali. Não por esperança romântica, mas por ódio. Ódio de quem me fez aquilo. Ódio de ter sido empurrada para um lugar onde o único caminho que me parecesse direito era o da destruição. Esse ódio era o que ainda me segurava por uma linha tênue: se eu não podia ser a mesma de antes, eu iria transformar essa fúria em alguma coisa que pudesse servir aos outros — nem que fosse em silêncio, nem que só servisse para mostrar ao Richard que havia subestimado o que ele chamava de frágil.
As horas se arrastaram. As vozes de fora se misturaram aos meus próprios pensamentos em looping. Pensamentos como facas: devia ter contado tudo; devia ter sido mais forte; devia ter tirado a minha mãe dali antes; devia ter acreditado que a ajuda viria; devia ter avisado o . E então, como se a culpa fosse insuficiente, veio o medo: e se eu, ao insistir em ser a heroína, tivesse condenado todos os outros? O pavor inflou tão grande que eu engasguei. A imagem do — sempre pele e punho, um centro de estabilidade — tremulou por um segundo em minha memória, e eu quase me agarrei a ela como se fosse um salva-vidas. Pensei como seria pedir perdão depois do que viria, se ainda houvesse tempo.
Não chorei alto. Os choros eram furtivos, quase um animal que chora no escuro para não ser ouvido. Minha boca formou palavras sem som. Repeti mentalmente nomes como preces: , , mãe. Cada nome era uma pontada. E naquela repetição, descobri que não estava totalmente vazia: havia ali ainda um fio de vontade, minúsculo e febril, que me dizia que, se eles vinham, eu deveria sobreviver pelo menos até ver seus olhos outra vez — para que eles soubessem o quanto eu havia tentado, o quanto eu me quebrei por proteger. Talvez fosse vaidade. Talvez fosse amor. Talvez fosse a mistura de tudo isso.
O quarto continuou a girar lentamente, as sombras alongando como dedos famintos. Eu me encolhi deitada, abraçando os joelhos, torrente de imagens e memórias me atravessando sem pedir licença. E, entre uma lembrança e outra, uma promessa sussurrada que mal parecia minha: não vou deixar que ele me transforme em silêncio puro. Ainda que eu tivesse me partido, ainda que as coisas tivessem ido para um lado que eu não saberia descrever, havia um fio que eu me obriguei a tramar com a boca seca — eu iria, de algum modo, virar isso contra ele. Mesmo que me custasse tudo.
As vozes voltaram, os passos ecoaram até parar em frente a minha porta, Richard entrou, ouvi o zíper da calça descer, e então meu cérebro se desligou.

Acordei com o som de passos no corredor. Não sei se era manhã ou tarde — a luz entrava fraca pelas frestas, e o ar tinha aquele cheiro agridoce de mofo e ferro que o corpo aprende a reconhecer como dor. As cobertas pesavam sobre mim como se quisessem me prender ali, me impedir de respirar. E talvez fosse exatamente o que eu merecia.
Por um tempo, fiquei olhando o teto rachado, tentando lembrar o que era real e o que era invenção da minha cabeça. O corpo latejava, cada pedaço tinha sido substituído por algo mais duro, menos meu. Toquei o próprio braço e senti um arrepio percorrer o corpo inteiro — não pelo frio, mas pela repulsa. Era meu, mas parecia outra pessoa.
Pensei em , na forma como ele me olhava como se enxergasse tudo, até as partes que eu mesma evitava. Tentei imaginar o que ele faria se me visse agora, se reconheceria alguma coisa em mim além do estrago. A garganta apertou. O rosto dele era a única lembrança que me trazia ar — e ao mesmo tempo, a mais cruel, porque vinha junto da culpa.
A porta abriu devagar, e o som do trinco bastou para que eu encolhesse. Não gritei, não chorei — só prendi a respiração, como um animal que tenta se esconder da caça mesmo depois de ter sido pego. Os passos se aproximaram, pesados, conhecidos. E então a voz.
— Dormiu bem, princesa?
Não respondi. O silêncio o irritou. Ele se aproximou, o cheiro dele invadindo tudo.
— Vai fingir que não me ouve? — o tom dele era quase divertido, como se estivesse satisfeito. — Eu te disse que ia ser assim. Você sempre achou que podia me enganar.
Cada palavra vinha como uma lâmina, cortando o pouco de calma que eu ainda tentava construir. Eu queria levantar e gritar, queria fazer ele sentir o mesmo medo que colocou em mim por anos, mas o corpo não obedecia. Ele falava, e tudo o que eu conseguia pensar era por quê eu ainda estou viva?
Ele se inclinou um pouco, e por um segundo, pensei que fosse me tocar. Não tocou. Só riu.
— Vai ficar aqui até aprender a não fugir, entendeu? — sussurrou, antes de se afastar. Ah, sim, minha fuga. Na segunda noite achei que tinha entendido tudo, os horários, os sons, as falhas, e, por um segundo, pareceu que sim. Eu consegui quebrar a maçaneta do meu quarto, saí sem fazer barulho, cheguei até o pé da escada e lá estava Richard, sorrindo para mim. Ele sabia que eu ia tentar, estava só esperando a chance de me pegar de novo, de poder justificar tudo que fez comigo, com meu corpo. Passei a noite vomitando. — Depois, se comportar-se direitinho, talvez eu te deixe ver o sol de novo.
A porta bateu. E o som seco ecoou dentro de mim, reverberando em tudo que sobrou. Fiquei ali por muito tempo, tentando entender se o que eu sentia era medo, vergonha ou ódio. Mas o que veio primeiro foi o vazio. Um silêncio denso, que preenchia cada espaço do corpo, me apagando por dentro.
As lágrimas vieram de novo. Eu não sabia mais se chorava por mim, por , por ou pela minha mãe. Só sabia que chorava porque ainda respirava, e cada respiração era um lembrete do que eu não conseguia esquecer.
Em algum ponto da tarde, comecei a ouvir sons ao longe — talvez carros, talvez vento, talvez vozes. Quis acreditar que eram eles, que tinham me encontrado, que tudo isso era só mais uma armadilha que eu conseguiria vencer. Mas não havia certeza. E a incerteza, naquele lugar, era a pior forma de tortura.
Deitei de lado, olhando a parede descascada, e deixei a mente vagar. Pensei em como ficaria quando descobrisse. Pensei na , no quanto ela se culparia por ter acreditado que eu conseguiria lidar com tudo sozinha. Pensei em como seria o rosto do Richard se um dia fosse ele quem estivesse preso.
Não era esperança. Era raiva. E naquele instante, entre o sangue seco e o ar pesado, eu soube: se eu saísse viva dali, ele nunca mais tocaria em ninguém. Fechei os olhos e deixei a raiva se instalar. Era a única parte de mim que ainda pulsava. Precisava manter a minha alma acesa.
Just put your hand on the glass
I'll be tryin' to pull you through
You just gotta be strong - Mirrors
My heart's seen things I wish it didn't
Somewhere I lost some of my innocence
And I miss it
I miss it - Older Than I Am
I'll be tryin' to pull you through
You just gotta be strong - Mirrors
My heart's seen things I wish it didn't
Somewhere I lost some of my innocence
And I miss it
I miss it - Older Than I Am
Senti o mundo estalar como vidro entre os dedos antes de lembrar como respirar. Acordei com o gosto metálico preso na boca, como se tivesse mastigado um pedaço durante a noite, e as paredes do quarto giravam devagar, lentas, punindo qualquer tentativa de me levantar. O colchão rangia sob um corpo que não era bem o meu — parecia um traje emprestado que alguém havia esquecido no escuro —, e eu fiquei ali, imóvel, escutando o som da minha própria respiração se arrastando como um animal ferido. Minha mão procurou instintivamente algo para segurar e encontrou o tecido rasgado, minha blusa com um fio de perfume velho, a lembrança de risos que agora soavam falsos na minha cabeça.
Imagens vinham como estilhaços, sem ordem, sem começo decente: o rosto do em mil variações — feroz, despedaçado, me procurando; as luzes da galeria que antes celebravam, agora cortando como lâminas; a com os olhos cheios de tinta, escorrendo como lágrimas; a minha mãe sentada, vazia, como um corpo que precisava de voz e não tinha. Cada rosto se sobrepunha ao outro até que eu não sabia mais qual era meu e qual era empréstimo de memória. De repente eu via a estrada, o capô do carro brilhando, as mãos que não eram as minhas segurando o volante — e depois tudo escurecia. A mente me devolvia retalhos, um sussurro aqui, um cheiro ali; o que tinha acontecido vinha como chuva ácida: era impossível pegá-lo sem se ferir.
Tentei chorar e a água não veio. Só veio um som arrastado, esquisito, que eu não reconhecia como meu — um pranto antigo, enrolado numa voz que às vezes parecia de criança. Minhas pernas não obedeciam; meu estômago parecia ter virado chumbo. Era como se meu corpo tivesse decidido que a melhor resposta era desligar. Olhos abertos, alma fechada. O mundo continuava funcionando do lado de fora com sua crueldade cotidiana, mas dentro daquele quarto o tempo estava emperrado, cada segundo colado ao outro como se nada pudesse acontecer nunca mais.
Pensei, entre fragmentos, nas promessas que me dei. Lembrei de quando a ideia de ir até o limite me pareceu uma estratégia, um movimento de xadrez que eu controlaria: entrar no inferno, acender um fósforo, sair. Pensei que dava pra fazer isso sem que ninguém se queimasse. Ri baixinho — uma risada besta, sem humor — ao perceber como eu fui ingênua. Achei que poderia “dar o nó” no Richard, que poderia transformá-lo num tropeço meu. Em algum lugar, lá no fundo, havia o cálculo, a frieza do plano; aquele cálculo agora parecia um papel molhado que se desfaz ao menor toque. A estratégia evaporou. Sobrou o silêncio.
Minha mãe veio à minha cabeça com a precisão cruel de um relógio. A imagem dela sentada, os pulsos marcados, o corpo reduzido a tudo que eu não fui capaz de proteger, doía de um jeito que não permitia dividir palavras. A voz dela, quando vinha me lembrava de promessas antigas, de um lar que eu tinha jurado reconstruir. E agora eu estava aqui: incapaz de cumprir a promessa mais simples de todas. A culpa era um animal faminto que lambia minhas entranhas; queria me devorar inteira.
. Cada lembrança dele vinha com uma pressão no peito. Vi o jeito que ele me olhava na galeria, o rosto que eu conhecia tão bem e que agora parecia não me pertencer mais. Pior do que a lembrança foi a certeza de que eu o tinha atraído para isso. Pensei em como ele teria reagido se eu tivesse contado, se tivesse confiado. Pensei nas mãos dele, na força e na vontade de me proteger — e o estômago se contorceu, porque eu percebi que essa proteção me teria matado de um jeito diferente, e talvez menos solitário. A imagem dele tentando me arrancar do mundo em chamas me perseguiu: e se eu tivesse soltado a mão? E se, por querer ser a heroína sozinha, eu tê-lo levado para o inferno também?
O pensamento de que a única saída era a morte apareceu não como um plano, mas como uma cortina escura descendo diante dos meus olhos: e se acabar com tudo fosse a paz que me faltava? Não era um manifesto, nem mesmo uma ideia acompanhada de coragem — era só um vislumbre: luz apagando, respiração cessando, silêncio. Fiquei algum tempo ali encarando essa possibilidade como se observasse a superfície de um lago congelado, sabendo que qualquer passo podia rachar o que restava de mim. Mas antes que a imagem se tornasse ação, veio um outro pensamento — impossível de calar: eu tinha gente ao redor. . . Minha mãe, ainda respirando. Mesmo assim, o nó na garganta não desatou. O mundo lá fora pedia que eu continuasse, que resistisse; dentro de mim, todo o mapa parecia queimado.
As memórias do plano se misturavam aos flashes de humilhação e dor. Pensei em cada escolha, em cada minuto que achei que controlava o risco. E doeu mais, porque a estratégia que nasceu da coragem virou armadilha. Achei que poderia manipular o monstro — o que eu não sabia era que ele me reconheceria como presa e como troféu. O quão tola fui acreditar que poderia entrar num lugar que ensinou homens como ele a não ter limite e sair intacta. Essa percepção era o golpe final: eu não tinha sido esperta. Eu tinha sido enganada por mim mesma.
Chorei, finalmente, mas o choro veio em ondas curtas e silenciosas, como se minha boca tivesse esquecido a língua das lágrimas. Queria gritar o nome da , do , queria pedir ajuda, queria que alguém aparecesse e sacudisse o mundo pra que tudo voltasse a fazer sentido. Em vez disso, ouvi passos do lado de fora: a porta se abriu, sombras passaram, vozes rudes, o ranger de correntes. A presença deles, o som das botas no piso, trouxe uma náusea que eu não consegui disfarçar. Meu corpo encolheu, útero e pulmões se contrairam ao mesmo tempo, uma reação química ao perigo que não se mede em raciocínio, só em reflexo.
E no meio desse abandono, uma parte de mim, minúscula, uma fagulha que me parecia ridícula, se recusou a aceitar que tudo terminasse ali. Não por esperança romântica, mas por ódio. Ódio de quem me fez aquilo. Ódio de ter sido empurrada para um lugar onde o único caminho que me parecesse direito era o da destruição. Esse ódio era o que ainda me segurava por uma linha tênue: se eu não podia ser a mesma de antes, eu iria transformar essa fúria em alguma coisa que pudesse servir aos outros — nem que fosse em silêncio, nem que só servisse para mostrar ao Richard que havia subestimado o que ele chamava de frágil.
As horas se arrastaram. As vozes de fora se misturaram aos meus próprios pensamentos em looping. Pensamentos como facas: devia ter contado tudo; devia ter sido mais forte; devia ter tirado a minha mãe dali antes; devia ter acreditado que a ajuda viria; devia ter avisado o . E então, como se a culpa fosse insuficiente, veio o medo: e se eu, ao insistir em ser a heroína, tivesse condenado todos os outros? O pavor inflou tão grande que eu engasguei. A imagem do — sempre pele e punho, um centro de estabilidade — tremulou por um segundo em minha memória, e eu quase me agarrei a ela como se fosse um salva-vidas. Pensei como seria pedir perdão depois do que viria, se ainda houvesse tempo.
Não chorei alto. Os choros eram furtivos, quase um animal que chora no escuro para não ser ouvido. Minha boca formou palavras sem som. Repeti mentalmente nomes como preces: , , mãe. Cada nome era uma pontada. E naquela repetição, descobri que não estava totalmente vazia: havia ali ainda um fio de vontade, minúsculo e febril, que me dizia que, se eles vinham, eu deveria sobreviver pelo menos até ver seus olhos outra vez — para que eles soubessem o quanto eu havia tentado, o quanto eu me quebrei por proteger. Talvez fosse vaidade. Talvez fosse amor. Talvez fosse a mistura de tudo isso.
O quarto continuou a girar lentamente, as sombras alongando como dedos famintos. Eu me encolhi deitada, abraçando os joelhos, torrente de imagens e memórias me atravessando sem pedir licença. E, entre uma lembrança e outra, uma promessa sussurrada que mal parecia minha: não vou deixar que ele me transforme em silêncio puro. Ainda que eu tivesse me partido, ainda que as coisas tivessem ido para um lado que eu não saberia descrever, havia um fio que eu me obriguei a tramar com a boca seca — eu iria, de algum modo, virar isso contra ele. Mesmo que me custasse tudo.
As vozes voltaram, os passos ecoaram até parar em frente a minha porta, Richard entrou, ouvi o zíper da calça descer, e então meu cérebro se desligou.

Acordei com o som de passos no corredor. Não sei se era manhã ou tarde — a luz entrava fraca pelas frestas, e o ar tinha aquele cheiro agridoce de mofo e ferro que o corpo aprende a reconhecer como dor. As cobertas pesavam sobre mim como se quisessem me prender ali, me impedir de respirar. E talvez fosse exatamente o que eu merecia.
Por um tempo, fiquei olhando o teto rachado, tentando lembrar o que era real e o que era invenção da minha cabeça. O corpo latejava, cada pedaço tinha sido substituído por algo mais duro, menos meu. Toquei o próprio braço e senti um arrepio percorrer o corpo inteiro — não pelo frio, mas pela repulsa. Era meu, mas parecia outra pessoa.
Pensei em , na forma como ele me olhava como se enxergasse tudo, até as partes que eu mesma evitava. Tentei imaginar o que ele faria se me visse agora, se reconheceria alguma coisa em mim além do estrago. A garganta apertou. O rosto dele era a única lembrança que me trazia ar — e ao mesmo tempo, a mais cruel, porque vinha junto da culpa.
A porta abriu devagar, e o som do trinco bastou para que eu encolhesse. Não gritei, não chorei — só prendi a respiração, como um animal que tenta se esconder da caça mesmo depois de ter sido pego. Os passos se aproximaram, pesados, conhecidos. E então a voz.
— Dormiu bem, princesa?
Não respondi. O silêncio o irritou. Ele se aproximou, o cheiro dele invadindo tudo.
— Vai fingir que não me ouve? — o tom dele era quase divertido, como se estivesse satisfeito. — Eu te disse que ia ser assim. Você sempre achou que podia me enganar.
Cada palavra vinha como uma lâmina, cortando o pouco de calma que eu ainda tentava construir. Eu queria levantar e gritar, queria fazer ele sentir o mesmo medo que colocou em mim por anos, mas o corpo não obedecia. Ele falava, e tudo o que eu conseguia pensar era por quê eu ainda estou viva?
Ele se inclinou um pouco, e por um segundo, pensei que fosse me tocar. Não tocou. Só riu.
— Vai ficar aqui até aprender a não fugir, entendeu? — sussurrou, antes de se afastar. Ah, sim, minha fuga. Na segunda noite achei que tinha entendido tudo, os horários, os sons, as falhas, e, por um segundo, pareceu que sim. Eu consegui quebrar a maçaneta do meu quarto, saí sem fazer barulho, cheguei até o pé da escada e lá estava Richard, sorrindo para mim. Ele sabia que eu ia tentar, estava só esperando a chance de me pegar de novo, de poder justificar tudo que fez comigo, com meu corpo. Passei a noite vomitando. — Depois, se comportar-se direitinho, talvez eu te deixe ver o sol de novo.
A porta bateu. E o som seco ecoou dentro de mim, reverberando em tudo que sobrou. Fiquei ali por muito tempo, tentando entender se o que eu sentia era medo, vergonha ou ódio. Mas o que veio primeiro foi o vazio. Um silêncio denso, que preenchia cada espaço do corpo, me apagando por dentro.
As lágrimas vieram de novo. Eu não sabia mais se chorava por mim, por , por ou pela minha mãe. Só sabia que chorava porque ainda respirava, e cada respiração era um lembrete do que eu não conseguia esquecer.
Em algum ponto da tarde, comecei a ouvir sons ao longe — talvez carros, talvez vento, talvez vozes. Quis acreditar que eram eles, que tinham me encontrado, que tudo isso era só mais uma armadilha que eu conseguiria vencer. Mas não havia certeza. E a incerteza, naquele lugar, era a pior forma de tortura.
Deitei de lado, olhando a parede descascada, e deixei a mente vagar. Pensei em como ficaria quando descobrisse. Pensei na , no quanto ela se culparia por ter acreditado que eu conseguiria lidar com tudo sozinha. Pensei em como seria o rosto do Richard se um dia fosse ele quem estivesse preso.
Não era esperança. Era raiva. E naquele instante, entre o sangue seco e o ar pesado, eu soube: se eu saísse viva dali, ele nunca mais tocaria em ninguém. Fechei os olhos e deixei a raiva se instalar. Era a única parte de mim que ainda pulsava. Precisava manter a minha alma acesa.
Capítulo 37 - You are my heaven
A drop in the ocean
A change in the weather
I was praying
That you and me
Might end up together - A Drop In The Ocean
A change in the weather
I was praying
That you and me
Might end up together - A Drop In The Ocean
A floresta engole o som.
Árvores altas demais, próximas demais, formando um corredor estreito que só leva para frente ou para o fundo do inferno. A casa aparece depois da última curva, madeira velha, torta, cercada por ferro improvisado e tábuas pregadas nas janelas como se alguém tivesse tentado manter o mundo do lado de fora. Ou manter algo preso dentro.
Meu estômago afunda.
fica no carro. As mãos dela voam pelos dispositivos, telas piscando em verde e vermelho, mapas incompletos, sinais quebrados. Ela não olha para mim quando fala.
— Duas viaturas a menos de quinze minutos. Estão longe demais para ouvir, perto demais para ignorar.
Assinto. já está fora, arma em punho, maxilar travado. Ele não pergunta nada. Nunca pergunta quando é hora de agir.

A porta lateral cede fácil demais. Isso me incomoda. Nada que envolve Richard é simples. O cheiro vem antes da visão. Álcool velho, suor, ferrugem, algo metálico que gruda no fundo da garganta. Piso rangendo sob meus pés, cada passo calculado como se eu ainda estivesse em uma pista, procurando o ponto exato de freada.
Jarek surge do nada. Grande. Braços grossos. Olhos vazios. Ele avança depressa. O impacto é feio. Desordenado. Não tem coreografia, não tem honra. Só cotovelos, joelhos, o baque seco de um corpo contra a parede. entra junto, rápido demais, mas o homem reage, dispara a arma. O tiro estoura dentro da casa como um trovão preso.
Merda. A intenção não era chamar atenção tão rápido.
consegue derrubá-lo, mas o preço vem rápido. Sangue no ombro dele. Um rosnado contido. Ele continua de pé.
— Vai — ele diz. — Pode deixar que eu acabo com ele. — Ele desviou os olhos de mim e voltou para nosso ex-lutador — Sentiu saudades dos meus punhos, Jarek, docinho?
— Vai se foder — Jarek falou cuspindo em e foi a última coisa que eu vi antes de ir buscar .
Corro pelo corredor estreito, o coração batendo tão alto que parece denunciar cada passo. Subo as escadas e vejo uma porta ao fundo. Trancada. Cadeado improvisado. Eu arrebento com o ombro, uma, duas vezes, até a madeira ceder com um estalo que ecoa como sentença.
E então eu vejo. está em uma cama dura.
Por um segundo, meu cérebro se recusa a aceitar. Monta outra imagem. Outra pessoa. Qualquer coisa que não seja isso. O corpo dela está encolhido, roupa suja, rasgada em lugares errados, sangue seco nas pernas, nos braços. O rosto… os olhos roxos, inchados, fechados demais, vazios demais. O cabelo emaranhado como se tivesse sido puxado, arrancado de si mesma.
Ela respira. É a única coisa que me mantém de pé. Eu caio de joelhos ao lado dela, a arma escorregando da minha mão como se tivesse perdido o peso. Minha voz sai falha, irreconhecível.
— .
Nada. Eu toco o braço dela. Com cuidado. Como se ela fosse feita de vidro quebrado.
— Sou eu. Olha pra mim, Sunshine.
Ela pisca. Uma vez. Duas. O foco demora. Quando vem, não traz alívio. Traz culpa.
— Se eu estiver morrendo — ela cuspiu, com dificuldades para falar — saiba que você é o meu paraíso, . Eu te amo!
Essa frase me atravessa mais fundo que qualquer bala. Antes que eu consiga responder, palmas lentas ecoam atrás de mim.
Richard surge do corredor como se estivesse entrando em um palco. Camisa aberta, arma relaxada na mão, o mesmo sorriso torto de quem sempre acreditou que o mundo lhe devia algo.
— Bonito reencontro — ele diz. — Sempre soube que você viria. Homens como você sempre vêm.
Minha visão escurece nas bordas.
— Quatro dias — ele continua, olhando para ela. — Aguentou mais do que eu esperava. Mas não se preocupe, ela não ficou assim logo de cara, eu tentei ser bonzinho, sabe piloto, mas ela tentou fugir, então teve que pagar o preço e a mãe dela também. — Algo estala dentro de mim.
Eu me levanto devagar, ficando entre ele e a .
— Você tocou nela.
Richard ergue a sobrancelha, quase se diverte.
— Ela sempre foi minha. Antes de você aparecer com esse teatrinho de salvador.
Meu corpo inteiro entra em alerta. Eu vou matar esse filho da puta.
— Você trancou ela aqui. Você encostou nela. Você destruiu a mãe dela. — Ele dá de ombros.
Ele ri. Um som baixo, satisfeito.
— Família é isso. Controle. Gostaria de ter tido mais tempo — Ele inclinou a cabeça olhando para atrás de mim. — Tinha tantos planos pra você, garota, principalmente para o seu cor... — Não o deixo terminar de falar, avanço para cima dele com toda a fúria que há dentro de mim
Ele atira.
Não tem câmera lenta. Eu me jogo para o lado, sinto a bala passar perto demais. Eu atinjo o braço dele com tudo que tenho. A arma cai. Ele tenta recuar. Escorrega.
Richard tenta se recompor, mas eu já estou em cima dele. O choque dos nossos corpos é brutal, sem espaço para respirar. Ele gira o tronco, tentando escapar, mas eu o prendo contra a parede com o peso inteiro do meu corpo. O som da madeira rachando se mistura ao grunhido de dor dele.
Ele reage com a fúria de quem nunca soube perder. Cotoveladas, socos desordenados, cuspindo insultos entre os dentes. Eu absorvo cada golpe como se fossem brasas, mas não recuo. A raiva me sustenta. Eu não luto apenas para vencer — eu luto para destruir.
— Você não vai tocar nela nunca mais — rosno, a voz carregada de ódio.
Richard tenta rir, mesmo com o sangue escorrendo pelo canto da boca. Esse riso é gasolina no meu fogo. Eu o agarro pelo pescoço, empurro até o chão, meus joelhos cravados contra o peito dele. O padrasto esperneia, mas a força já não é suficiente.
Ele ainda tenta falar, mas eu não deixo. Meu punho desce, uma, duas, três vezes, cada golpe ecoando como sentença. O rosto dele se desfaz em dor e arrogância quebrada. Eu não paro. Não quero parar. Sinto os ossos do rosto se esfarelarem em baixo dos meus punhos, a raiva começa a me consumir cada vez mais e não enxergo nada além de sangue e fúria.
O ar na sala fica pesado, quase irrespirável. Sinto o gosto metálico do sangue, o calor da fúria queimando por dentro. Aperto o pescoço de Richard com as duas mãos, meu olhar fixo, selvagem.
— Você acabou, Richard. — As palavras saem como veneno.
Ele se debate, mas os movimentos já são fracos, desesperados. Eu aperto mais forte, meu corpo inteiro vibrando com a necessidade de acabar com aquilo. Não há piedade, não há redenção. Só o fim.
Por um instante, o silêncio é absoluto. Só a minha respiração ofegante, só o olhar vazio dele. Sinto o limite se aproximar, a linha tênue entre justiça e vingança. Eu quero atravessar. Eu quero matar.
solta um som frágil, quase um sussurro. É isso que me faz hesitar. O mundo volta em um estalo. Ainda seguro Richard, mas agora percebo o peso do que estou prestes a fazer. Ele, derrotado, não sorri mais. O poder se foi. O controle se foi. Eu o mantenho preso, mas a decisão final ainda arde dentro de mim.
Antes que eu pudesse tomar qualquer atitude ouço o barulho de passos pesados subindo as escadas e luzes de lanternas chegando próximo a porta. Largo Richard no chão, sem terminar o trabalho, e me aproximo de aninhando-a em meus braços.
— Acabou, acabou, amor — falo baixinho enquanto ela se desmancha em lágrimas.
Passos pesados ecoam pelo corredor como um aviso tarde demais. Vozes se sobrepõem, ordens atropeladas, o feixe agressivo de lanternas rasgando o quarto escuro.
— Polícia! Larga ela! Agora!
O grito vem acompanhado do estalo metálico de armas sendo engatilhadas. Meu corpo reage antes da cabeça. Eu me viro parcialmente, ainda com colada ao meu peito, protegendo-a por instinto, como se o mundo inteiro fosse uma ameaça.
— Não se mexe! — outra voz berra. — Mãos onde eu possa ver!
Por um segundo, tudo trava. Eles não sabem quem somos, pelo menos esses policiais em específico. E nós não sabemos por que eles estão aqui. O sangue nas minhas mãos. O corpo de Richard largado no chão, respirando mal, irreconhecível. Jarek, presumo, inconsciente em algum lugar da casa. ferido no andar de baixo. quebrada nos meus braços.
Se eles acharem que isso é uma cena de crime comum… se acharem que eu sou o agressor…
— Ela foi sequestrada — eu falo rápido, a voz rouca. — Esse homem fez isso com ela. Ele manteve ela presa aqui por uma semana.
— Afaste-se dela agora! — alguém grita de novo.
se agarra à minha camisa com a pouca força que tem. Sinto os dedos dela tremendo, o choro preso no peito, o corpo entrando em pânico ao perceber mais vozes, mais homens, mais armas.
— Não — ela sussurra. — Por favor.
Um policial se aproxima mais devagar. Ele olha para ela. Para o estado dela. Para o quarto. Para as marcas. Para Richard no chão.
O tom muda um grau.
— Quem fez isso com você, senhorita?
Ela tenta falar. Não consegue. O som morre antes de virar palavra. Eu respondo por ela.
— Ele. O padrasto. Richard .
O nome paira no ar. Outro policial surge à porta, falando no rádio.
— A gente recebeu um chamado de um grupo de trilheiros. Eles viram movimentação estranha na casa, ouviram um disparo. Achavam que estava abandonada.
Trilheiros. Não vieram por nós. O alívio não vem inteiro. Ainda não.
— Tem mais alguém aqui? — perguntam.
— A mãe dela — respondo. — Ele manteve a mãe dela presa também.
Isso vira uma explosão de movimento. Gente correndo escada abaixo, vozes se cruzando, pedidos de ambulância, reforço, perícia. O caos se espalha pela casa como fogo em mato seco.
Alguém cobre com uma manta térmica. Outro tenta me afastar dela de novo.
— Senhor, precisamos separar vocês por enquanto.
— Não — eu digo, firme. — Ela não vai ficar sozinha.
O policial hesita. Olha para ela de novo. Para o jeito como ela se encolhe quando ele chega perto demais. Ele recua um passo.
— Tudo bem. Mas o senhor vai precisar descer conosco.
Assinto. Com cuidado, pego no colo. Ela pesa menos do que deveria. Isso me revolta de um jeito silencioso, corrosivo. Descemos as escadas sob olhares atentos. está encostado na parede da sala, sendo atendido por um paramédico improvisado. O ombro dele sangra, mas os olhos estão firmes em mim. Ele vê . O rosto dele fecha.
— Filho da puta — ele murmura.
Quando a porta da frente se abre, a noite explode.
Luzes. Muitas. Holofotes improvisados cortando a escuridão da floresta. Viaturas. Ambulâncias. E, além da fita amarela recém-estendida, câmeras.
Imprensa.
Alguém vazou rápido demais. Ou alguém já estava esperando por qualquer coisa que explicasse aquela casa no meio do nada.
— O que tinha dentro da casa na floresta?
— A polícia confirma vítimas em cativeiro?
— Há mortos?
Os flashes começam. Eu tento virar o rosto. Tarde demais. Um jornalista abaixa a câmera devagar. Olha de novo. Franze a testa. Chega mais perto.
— Espera… — ele diz, alto o suficiente para ser ouvido. — Esse cara…
Outro levanta o celular. Amplia a imagem. Os olhos dele se arregalaram.
— Não é possível.
O murmúrio cresce como uma onda.
— É ele? Bennett?
Meu nome atravessa o ar como um disparo atrasado.
Um policial se vira bruscamente para mim.
— Meu chefe vai me matar quando descobrir que você estava bem na minha cola e eu não o peguei. Garoto, tenho que admitir, você é bom em pilotar mesmo, mas está preso em nome da lei e tem o direito de ficar calado, tudo que falar poderá ser usado contra você no tribunal. Entendido? — Apenas assenti, mas já não importa.
Câmeras se voltam. Flash atrás de flash. O passado que eu enterrei com tanto cuidado rasga a superfície ali, no meio da floresta, coberto de sangue, com a mulher que eu amo despedaçada nos meus braços.
Raven cai. Bennett fica exposto. Eu não digo nada. Não explico. Não me escondo. Só abaixo a cabeça e encosto a testa na da , protegendo-a do barulho, da luz, do mundo inteiro. Se esse foi o preço para tirá-la daquele inferno, então saibam quem eu sou. Eu pagaria de novo.
Capítulo 38 - Começos e recomeços, de novo e de novo
Will you still love me when I got nothing but my aching soul?
I know you will, I know you will, I know that you will
Will you still love me when I'm no longer beautiful? - Young and Beautiful
I know you will, I know you will, I know that you will
Will you still love me when I'm no longer beautiful? - Young and Beautiful
As sirenes continuam gritando mesmo quando o mundo começa a desacelerar.
A ambulância fecha as portas com um baque seco, isolando o som de fora, mas não o peso. está deitada na maca, coberta até o pescoço, os olhos seguindo o nada no teto branco. Um paramédico fala com ela em voz baixa, mas é como se estivesse falando com água.
Eu não solto a mão dela.
— Senhor, precisamos verificar você também — alguém diz atrás de mim.
— Depois.
Não é um pedido. É um aviso cansado. Ela aperta meus dedos de repente, um reflexo tardio, como se o corpo tivesse lembrado sozinho que ainda existe um chão possível.
— Não me deixa — ela sussurra, quase sem voz.
Eu me inclino, encostando a testa na dela, ignorando o sangue seco na minha pele, ignorando tudo.
— Não vou a lugar nenhum. Nunca mais, Sunshine.
Do lado de fora, flashes continuam estourando como tiros. Meu nome já não é só um nome. É manchete em formação. Um policial entra na ambulância, sério, profissional demais para o que está acontecendo.
— Precisamos que o senhor nos acompanhe depois que ela for estabilizada.
Eu assinto. Não discuto. Não corro. Não nego.

No hospital, o tempo se dobra. Médicos entram e saem. some por corredores brancos e eu fico do lado de fora com as mãos sujas, sentado numa cadeira de plástico que range quando me movo. aparece horas depois, o braço imobilizado, o rosto fechado. Ele não fala nada. Só senta ao meu lado.
— Ela vai ficar bem, amigo — ele diz.
surge logo depois, o rosto pálido, os olhos vermelhos. Ela me abraça sem pedir permissão, forte demais para alguém tão pequena.
— Eles estão dizendo tudo — ela murmura. — A casa. O padrasto. A mãe dela. Não tem como abafar. Como ela estava, não consegui vê-la, a polícia não me deixou chegar perto.
— Eu não vou mentir pra você, , mas você precisa saber, para quando entrar no quarto não esboçar choque, ela não tem noção de como está, mas a coisa foi feia. Aquele arrombado acabou com ela, destruiu o meu raio de sol. — assentiu, chorando.
— Não vai ser fácil, mas a gente vai ajudar ela e ela vai brilhar de novo — falou.
Um policial me chama pelo nome completo.
— Bennett.

A sala de interrogatório é pequena, sem drama. Só perguntas. Datas. Nomes. Eu respondo tudo. Não escondo nada. Quando perguntam sobre as corridas, eu não nego. Quando perguntam sobre o estado que eu deixei Richard, eu sustento o olhar.
— Ele estuprou a minha mulher. — O policial assentiu — Ele trancou ela por dias, ele abusou da mãe dela, ele bateu nelas, rasgou suas roupas, as privou de tudo. O senhor sabe que eu deveria ter metido um tiro na cabeça daquele filho da puta.
Silêncio. Um deles fecha o caderno devagar.
— Você entende que isso muda tudo, não entende?
Entendo. Desde o momento em que entrei naquela casa.
Quando saio, meu telefone vibra sem parar. Mensagens. Chamadas. Números antigos. Contatos que eu enterrei junto com o capacete. Um deles aparece no visor, insistente.
Equipe Aureum Racing.
Eu deixo tocar. Não agora.
Volto para o quarto onde está. Ela dorme, finalmente, sedada, exausta, viva. A mãe dela está em outro andar, também estável. Não é um final feliz. É um intervalo entre tragédias.
Eu sento ao lado da cama e observo o rosto dela, tão quieto que dói. Passo o polegar com cuidado pelo dorso da mão dela.
— Eu perdi tudo uma vez — murmuro, sem saber se ela ouve. — Mas não vou perder de novo, e não vou perder você, . Eu te amo, eu te amo mais que qualquer coisa nesse mundo. Você é minha vida, você pode ser a lua para os outros, mas pra mim você é o sol, Sunshine.
Lá fora, o mundo se reorganiza ao redor do meu nome. Aqui dentro, tudo que existe é essa respiração lenta, esse pulso frágil insistindo em continuar. E pela primeira vez em anos, eu não coloco a máscara de volta.
O corredor do hospital virou extensão da internet. Não importa para onde eu ande, parece que alguém está sempre prestes a me reconhecer, a me perguntar alguma coisa, a querer uma reação que eu não tenho. O sequestro da está em todos os jornais. As fotos da casa na floresta circulam com legendas alarmistas. O nome dela aparece em letras grandes demais para alguém que mal consegue se manter acordada agora.
Meu celular vibra de novo, já não tenho mais forças para verificar quem inferniza a minha vida.
Mãe
Online
Online
Vimos as notícias. Sabemos o que aconteceu com a sua amiga. Você está bem?
Pai
Online
Online
Por favor, atende. Precisamos falar.
Não é preocupação pura. Eu conheço o tom. É medo misturado com culpa antiga, aquela que nunca foi embora, só ficou quieta enquanto eu estava longe o suficiente para não lembrá-los de nada.
Bloqueio a tela.
está encostado na parede em frente à máquina de café, o braço imobilizado, a postura tensa de quem não relaxa nem quando o perigo imediato já passou. Ele me observa sem perguntar. Sempre fez isso. Sempre entendeu quando o silêncio era escolha, não ausência.
— Eles estão tentando falar comigo — digo, quebrando o silêncio porque, se eu não disser, vai virar outra coisa dentro de mim.
— Seus pais — ele responde, como constatação, não pergunta.
Assinto.
— Desde que saiu a matéria. Desde que o nome da virou manchete. Desde que perceberam que o inferno chegou perto demais.
Ele cruza os braços, faz uma careta breve por causa da dor no ombro.
— Gente assim só entende o tamanho da coisa quando vira notícia.
Não discordo. Isso dói mais do que deveria.
— Eles sabem do sequestro. Sabem de tudo — continuo. — E mesmo assim… — dou uma risada curta, sem humor — a primeira pergunta foi se eu estou bem. Não se preciso de ajuda. Não se a precisa de alguma coisa. Só… se eu sobrevivi ao constrangimento público.
fica quieto por alguns segundos. Depois se aproxima um pouco mais.
— Você não deve nada a eles — ele diz. — Nem explicação, nem resposta, nem reconciliação simbólica para aliviar culpa alheia.
Olho para ele. Há algo diferente no jeito como ele fala. Mais firme. Menos tentativa de conserto.
— Eu sei — respondo. — Mas parece que o mundo inteiro resolveu cobrar presença agora. Como se o silêncio fosse crime.
— O mundo sempre cobra quando a gente sangra em voz alta — ele diz. — Antes disso, ninguém liga.
Encosto as costas na parede fria, sentindo o peso disso tudo descer de uma vez.
— Eu não sei o que fazer quando isso acabar — confesso. — Não com eles. Não comigo.
não tenta responder rápido. Ele pensa. De verdade.
— Então não decide agora — diz por fim. — Nem tudo precisa virar resolução só porque o mundo está olhando. Às vezes, sobreviver já é trabalho suficiente.
Essa frase fica entre nós por alguns segundos. Não como consolo. Como permissão. Meu celular vibra outra vez. Ignoro.
— Obrigada — murmuro.
— Pelo quê?
— Por não tentar me empurrar pra uma versão melhor de mim mesma — respondo. — Eu não tenho energia pra isso hoje.
Ele dá um meio sorriso torto.
— Sorte sua. Eu nunca gostei muito da versão editada das pessoas.
Ficamos ali. Sem planos. Sem promessas. Só respirando no meio do caos que ainda não terminou.
Acordar não é mais natural como antes. Primeiro vem o peso. Depois o som distante de vozes que não alcançam. Em algum ponto, a consciência tenta negociar com o corpo, como se perguntasse se ainda vale a pena voltar. Meus olhos abrem devagar, a luz do quarto me ferindo como se fosse nova demais para alguém que passou dias no escuro. O teto branco me encara de volta. Por um instante, meu peito aperta, o pânico tenta subir rápido demais, imagens quebradas ameaçam voltar.
Mas então sinto uma mão. Quente. Firme. Conhecida.
— Ei… — a voz vem baixa. Controlada demais para não quebrar. — Você está aqui.
Viro o rosto com dificuldade. . Sem máscara. Sem fuga. Com olheiras profundas e um corte mal fechado no supercílio. Ele parece alguém que atravessou o inferno e esqueceu de voltar inteiro.
As lágrimas vêm antes que eu consiga impedir.
— Eu achei que… — minha voz falha antes de virar frase. Engulo. Tento de novo. — Achei que não ia conseguir.
Ele fecha os olhos por um segundo. Quando abre, estão vermelhos, cansados, vivos.
— Eu também — ele admite. — E odeio isso.
Meu peito aperta.
— Minha cabeça não para — continuo, encarando o lençol como se fosse mais fácil falar para ele. — Fica voltando. Não como filme. Como… pedaços. Sons. Cheiros. Eu não sei quando isso vai parar.
— Talvez não pare tão cedo — ele diz, sem suavizar. — Mas você não vai atravessar isso sozinha.
— Você perdeu tudo por minha causa.
Ele solta um ar curto, quase uma risada sem humor.
— Não, , eu recuperei tudo. Você está aqui na minha frente, viva. Você também é o meu paraíso. Eu te amo.
Minha mão treme quando seguro a camisa dele. Ainda preciso confirmar que é real. Que ele está ali. Que eu não estou mais sozinha naquele quarto.
— Eu te amo! — Encaro ele por alguns segundos e o choque toma conta de mim — Minha mãe…?
— Viva — ele responde imediatamente. — Machucada. Mas viva. E segura.
Algo dentro de mim cede. Não melhora. Não cura. Mas cede o suficiente para que eu respire.
— Eles sabem? — pergunto, a voz falhando. — Sobre você.
Ele fecha os olhos por um segundo.
— Sabem.
Não pergunto mais nada. Não agora.
O telefone toca quando estou no estacionamento do hospital, tentando acender um cigarro que não deveria existir mais na minha vida. O braço dói, o corpo reclama, mas minha cabeça está longe dali.
O número eu reconheço antes mesmo de atender. Meu pai. Deixo tocar uma vez. Duas. Na terceira, atendo.
— … — a voz dele vem diferente. Mais baixa. Menos inteira. — Eu vi as notícias.
Claro que viu. O mundo inteiro viu. Precisei quase morrer algumas vezes para virar assunto.
— Eu imaginei — respondo, olhando para o chão rachado à minha frente, como se ele tivesse alguma resposta escrita ali.
Ele faz uma pausa curta demais para ser ensaiada, longa demais para ser confortável.
— Você está machucado?
Olho para o braço imobilizado, para o curativo ainda fresco, para o sangue que não é mais meu, mas ainda está na memória do corpo. Penso em quantas vezes me machuquei antes, quantas vezes cheguei em casa sangrando e ele não estava lá para perguntar nada.
— Estou vivo — digo. E é tudo o que ele merece ouvir.
O silêncio do outro lado pesa mais do que qualquer soco. Eu conheço esse silêncio. Ele sempre esteve lá.
— Fiquei sabendo das lutas — ele continua, como se estivesse pisando em vidro. — De você. Do que você tem feito. Do… talento.
Talento. A palavra vem tarde, atravessada, quase indecente.
— Ficou sabendo agora — respondo, sem levantar a voz, sem ataque. Não é acusação. É constatação. — Quando virou notícia. Quando alguém achou que valia a pena contar.
Ele suspira. Um som cansado, carregado de coisas que eu não vivi ao lado dele.
— Eu errei com você — ele diz. — Com a sua mãe. Eu sei disso. Eu era jovem, arrogante, achei que podia ser alguém sem carregar ninguém comigo. Eu…
— Não — interrompo, e minha voz sai firme de um jeito que me surpreende. — Não é sobre erro. Erro é quando você tenta consertar depois. Isso foi uma escolha. Você escolheu ir. Eu escolhi ficar. Eu escolhi aguentar. A conta fechou assim.
Do outro lado, ele não responde de imediato. Imagino a mão dele passando pelo rosto, o olhar baixo, o arrependimento tentando achar um lugar para existir agora.
— Eu queria consertar — ele diz por fim, quase num sussurro. — Antes que seja tarde demais.
Essa frase atravessa fundo. Porque por muito tempo, tudo que eu quis foi ouvir algo assim. Eu esperei por isso quando ainda era menino, quando treinava até os ossos doerem, quando cuidava da minha mãe sozinho, quando subia em ringues que não perdoavam fraqueza. Esperei por uma mão no ombro, por alguém dizendo "eu vejo você".
E agora… agora já não cabe mais.
— Eu não quero — respondo, e não há crueldade nisso. Só a verdade. — Não porque eu odeie você. Mas porque eu já construí outra coisa por cima do buraco que você deixou. E mexer nisso agora não vai me salvar. Só vai abrir ferida velha.
O silêncio se alonga depois da minha resposta, pesado demais para ser só constrangimento. Do outro lado da linha, ouço um ruído baixo, como se ele estivesse mudando de lugar, talvez andando pela casa. Consigo imaginar. Sempre imaginei. Ele nunca soube ficar parado quando algo fugia do controle.
— Eles me ligaram — ele diz, por fim. — Ontem à noite.
Franzo a testa.
— Quem?
— Um cara da federação. Disse que estava tentando falar com você há dias, mas não conseguiu. Perguntou se eu ainda era seu pai.
A frase me atinge de um jeito estranho. Não como insulto. Como ironia.
— E você respondeu o quê? — pergunto.
Ele demora.
— Que sim. Que ainda era.
Respiro fundo pelo nariz, sentindo um riso curto, seco, quase escapar.
— Engraçado — murmuro. — Precisou um estranho confirmar pra você.
— Não é assim — ele se apressa. — Eles falaram do seu nome com… respeito. Como se você fosse alguém grande. Como se eu devesse saber.
— Eu sempre fui alguém — respondo, sem elevar a voz. — Só nunca fui conveniente o suficiente pra entrar na sua vida de novo.
Ele engole em seco. Dá pra ouvir.
— Disseram que você tem potencial real — continua, insistindo. — Que as lutas clandestinas chamaram atenção. Que alguém cruzou dados, vídeos, resultados. Que você luta diferente. Não só força. Cabeça. Resistência.
Fecho os olhos por um segundo.
— Eles me ligaram no hospital — digo. — Enquanto minha amiga estava entre a vida e a morte. Enquanto eu ainda estava com sangue que não era meu na camisa.
— Eu sei — ele diz. — Foi isso que me fez ligar.
A sinceridade tardia pesa mais que qualquer mentira antiga.
— Você sabe o que é isso pra mim? — continuo. — Eles me ligarem agora. Depois de tudo. Depois de eu ter passado a vida inteira lutando em porões, cuidando da minha mãe, sobrevivendo com o corpo. Isso não é redenção. É atraso.
— Mas é uma chance — ele insiste, a voz tremendo. — A chance que eu nunca tive.
Aí está. A frase que explica tudo.
— Não — respondo, firme. — É a chance que eu construí. E não vou carregar o seu fracasso junto comigo pra tornar isso bonito.
Ele fica quieto. Quando fala, é mais baixo.
— Eu fiquei orgulhoso.
Fecho os olhos de novo. Dessa vez, dói.
— Orgulho sem presença não cria filho — digo. — Só cria distância.
— Eu queria estar lá — ele tenta. — Quando você começou. Quando você venceu. Quando te chamaram agora.
— Mas não esteve — corto. — E agora, quando finalmente bateram na sua porta, você lembrou que tinha um filho.
O silêncio que vem depois não é defensivo. É derrotado.
— Eles perguntaram se eu podia falar com você — ele diz, quase como confissão. — Se eu podia convencer você a aceitar. Disseram que você escutaria.
— Você não me conhece mais — respondo. — Quem eles procuraram quando buscaram você não sou eu. É a ideia de quem acham que eu sou, a ideia de quem acha que eu tenho um pai presente e que dá conselhos bons, e não um covarde.
Ele solta um suspiro longo, cansado, velho.
— Então você vai assinar?
Olho para o hospital outra vez. Para a porta automática. Para a vida que segue sem pedir licença.
— Vou conversar com eles — digo. — Vou ouvir o que tem a dizer. Vou escolher com calma, com a cabeça, mas não pra te provar nada. Não pra te vingar. Não pra te salvar.
— E eu? — ele pergunta, quase sem voz. — Onde eu fico nisso?
A pergunta chega tarde demais para machucar de verdade.
— Você fica onde sempre ficou — respondo. — Fora do ringue. Fora da decisão. Fora da minha vida e, principalmente, fora da vida da minha mãe.
Desligo antes que ele possa responder. Não sinto raiva dele, não mais, mas sinto necessidade de impor limites. Guardo o celular. Apago o cigarro sem fumar. Entro de volta no hospital com a sensação estranha de ter fechado uma porta que sempre esteve aberta demais.
Eu esperei a vida inteira por esse momento. E agora que ele chegou, eu finalmente sei: já não preciso mais dele.
Capítulo 39 - Pingos nos i’s
I have faltered, I have stumbled,
I have found my feet again.
I've been angry, and I've been shaken,
Found a new place to begin.
My persistence to make a difference,
It's led me safe into your hands.
In this life - In This Life
I have found my feet again.
I've been angry, and I've been shaken,
Found a new place to begin.
My persistence to make a difference,
It's led me safe into your hands.
In this life - In This Life
Existe um tipo de silêncio que só aparece depois da catástrofe. O mundo tentando decidir o que fazer com o que sobrou. Estou sentado em uma sala branca demais, iluminada demais, enquanto homens de terno discutem versões da minha vida como se estivessem analisando um motor desmontado sobre a mesa. Nome, sobrenome, passado, presente, possíveis futuros. Tudo organizado em pastas.
Eles falam comigo como se eu fosse dois homens ao mesmo tempo. Bennett, o prodígio que caiu. Raven, o piloto mascarado que reapareceu onde não devia. Nenhum dos dois cabe inteiro em mim agora.
— Bennett, ou devo chamá-lo de Raven? — a voz do outro lado da mesa é firme, profissional, sem rodeios. — Não vou fingir que isso não poderia ter sido evitado. Mas também não vou fingir que não vimos o que você fez.
Fecho os olhos.
— Não fiz por reconhecimento.
— Eu sei — ele responde. — É por isso que estamos aqui.
Ele fala de desempenho, de dados, de vídeos antigos que nunca desapareceram de verdade, apenas esperaram o momento certo para voltar à superfície. Fala do talento que não se apaga. Da frieza sob pressão. Da leitura de risco. Daquilo que não se ensina. Fala sobre os meus vídeos das corridas clandestinas que estão bombando na internet, ainda mais agora que sabem que quem pilotava era um ex-piloto de Fórmula 1.
Enquanto ele fala, minha mente não vai para troféus, nem para pódios. Vai para um garoto de macacão branco, com as mãos tremendo antes da largada, acreditando que velocidade era tudo o que ele precisava para existir. Vai para o dia em que tudo desmoronou. Para o acidente. Para o silêncio da família depois. Para o nome Bennett se tornando peso morto.
— Não estou interessado em apagar o que aconteceu — digo. — Não vou fingir que nunca caí.
— Ninguém quer isso — ele responde. — Queremos saber se você consegue correr sabendo exatamente quem você é agora. E, tem mais, se você aceitar voltar, podemos ajudar com as corridas clandestinas, sabe, o que você fez, salvando a garota? Isso foi grande, , você é um herói.
Olho para minhas mãos. As marcas de sangue seco nos nós dos dedos foram limpas, mas eu ainda consigo vê-las por debaixo da pele, grudadas em minha alma, já passaram-se três dias desde que tudo estourou, ainda está no hospital. Ainda há dor no corpo. Ainda há culpa. Mas também há algo que não existia antes: escolha.
— O que você quer dizer?
O homem à minha frente não responde de imediato. Ele cruza as mãos sobre a mesa, inclina o corpo para frente como quem decide parar de medir palavras. Não há entusiasmo no rosto dele, nem condescendência. Há cálculo. E, por trás disso, algo que reconheço bem demais: oportunidade.
— Queremos dizer que o mundo mudou enquanto você esteve fora — ele começa. — E mudou de um jeito que ninguém aqui poderia ter previsto.
Outro homem desliza um tablet pela mesa. A tela está cheia de gráficos, recortes de notícias, vídeos pausados no exato momento em que meu carro surge da escuridão, faróis cortando a noite como lâminas.
— Você desapareceu no pior momento possível — ele continua. — Um acidente. Um nome queimado. Uma família destruída publicamente. Durante anos, isso foi tudo o que existia quando se falava em Bennett.
Ele faz uma pausa curta, estratégica.
— Agora, o que existe é um homem que voltou do submundo, que correu onde ninguém mais teve coragem, que se expôs para salvar uma vida e pagou o preço disso em praça pública. Não como um ídolo intocável. Mas como alguém real.
Sinto o maxilar travar.
— Vocês querem um arco de redenção — digo. — Um espetáculo.
— Não — ele responde com calma. — Queremos a verdade. O espetáculo veio sozinho.
Ele aponta para a tela.
— Seus vídeos nas corridas clandestinas estão batendo números que pilotos ativos da categoria não alcançam. Pessoas que nunca assistiram uma corrida estão assistindo você. Não pela velocidade, mas pela história.
— Isso não apaga o acidente — digo. Minha voz sai baixa, firme. — Eu causei aquilo. Uma pessoa morreu.
O silêncio que se instala não é constrangedor, mas carrega um fundo de respeito.
— Justamente — ele responde. — E você nunca tentou fugir disso. Você sumiu. Pagou com o próprio nome. Viveu fora do sistema. Isso não é marketing.
Ele se recosta na cadeira.
— Sua família perdeu tudo porque o sistema precisava de um culpado, claro. Um vilão simples. Hoje, o público não quer vilões simples. Quer entender. Quer ouvir. Quer alguém que diga: eu errei, eu destruí coisas, eu vivi com isso, e ainda assim estou aqui. Eu sou humano.
Engulo em seco.
— E o que isso tem a ver com eles? — pergunto. — Com o sobrenome Bennett?
Outro homem entra na conversa, mais velho, a voz carregada de tempo.
— Tem tudo a ver. Seu retorno não é só seu. Os patrocinadores já entraram em contato com sua família. Isso não é só nostalgia, é associação, , você trás o que há de melhor na Fórmula 1. O nome Bennett voltou a circular, seu passado não é perfeito, mas você é um sobrevivente, foi de assassino a herói em menos de uma semana. O povo quer você.
Minha mão aperta o braço da cadeira.
— Vocês estão dizendo que querem que eu volte… carregando tudo isso.
— Estamos dizendo que não queremos que você deixe nada para trás — ele responde. — Nem o acidente. Nem a culpa. Nem o que você se tornou depois. Queremos o piloto que sabe exatamente o que custa errar.
O silêncio se estende. Penso na . No quarto branco. No corpo dela marcado por algo que nunca deveria ter acontecido. Penso em mim mesmo, anos atrás, acreditando que velocidade era uma forma de escapar.
— Se eu voltar, — digo, finalmente — não vai ser para limpar imagem nenhuma. Eu não vou ser símbolo de superação conveniente.
— Ótimo — ele responde. — Porque o mundo já cansou disso.
Respiro fundo.
— Então eu aceito. — Levanto o olhar. — Mas com uma condição.
Eles esperam.
— Eu vou falar. Tudo. Publicamente.

A coletiva acontece dois dias depois.
As câmeras são um mar. Quando subo ao púlpito, o barulho diminui aos poucos, como se todos estivessem prendendo a respiração juntos. Vejo rostos curiosos, céticos, famintos. Vejo gente que me odiou. Gente que esqueceu. Gente que nunca soube quem eu fui.
Seguro o microfone com as duas mãos, buscando uma âncora em meio ao mar de sentimentos controversos que existem dentro de mim.
— Meu nome é Bennett — começo. — E durante muito tempo, eu acreditei que desaparecer fosse a única forma de assumir a responsabilidade pelo que fiz.
O silêncio é absoluto.
— O acidente que encerrou minha carreira não foi uma fatalidade. Foi um erro. Meu erro. Uma decisão tomada no limite, em um esporte que vive de limites, mas que não perdoa quando eles são ultrapassados.
Minha garganta aperta, mas continuo.
— Alguém perdeu a vida. E isso não é algo que o tempo apaga. Não é algo que os títulos compensam. É algo que você carrega. Todos os dias. Muitos falaram, depois que a minha carreira já havia se encerrado, que foi um acidente de corrida, que eu não fui o culpado, que isso pode acontecer com qualquer um, como já aconteceu tantas vezes, eu não vejo assim. Hoje vejo que poderia ter tentado tomar alguma decisão diferente, mas não podemos mudar o passado, apenas aceitá-lo e melhorar nosso futuro.
Algumas canetas param de se mover.
— Eu saí porque não sabia existir sendo apenas o homem que causou aquilo. Porque minha família foi destruída junto comigo. Porque o sobrenome Bennett virou sinônimo de fracasso, vergonha, ruína.
Respiro fundo.
— Durante anos, eu vivi fora do sistema. Corri onde não havia aplausos. Onde não havia regras claras, ou melhor, onde não havia regra alguma. Onde o erro não virava manchete, virava morte. Eu usei outro nome porque não acreditava mais no meu.
Levanto o olhar.
— Demorei a perceber que eu não estava tentando fugir. Eu estava tentando sobreviver ao que eu me tornei.
Um murmúrio percorreu a sala.
— Eu voltei porque alguém que eu amo foi ferida. Porque o anonimato deixou de importar quando a vida dela estava em risco. E naquele momento, eu entendi algo que demorei anos para aceitar.
Faço uma pausa curta.
— A culpa não me impede de seguir. Ela me obriga a ser melhor.
O silêncio pesa, denso.
— Estou voltando às pistas. Não como o prodígio que fui. Não como o herdeiro de um nome poderoso. Mas como um homem que sabe exatamente o que custa errar… e o que custa ficar parado.
As câmeras disparam.
— Não peço perdão. Não peço esquecimento. Só peço que entendam: eu não corro para apagar o passado. Eu corro carregando ele comigo. E corro com meu companheiro no meu peito, gostaria que as coisas tivessem sido diferentes, parceiro. — Falo olhando para o céu. — Sei que haverão perguntas sobre minha mulher, sobre meu relacionamento com a família do Ben e sobre o acidente, mas teremos muito tempo para isso.
Dou um passo para trás.
— Obrigado.
E quando me afasto do púlpito, pela primeira vez, sinto que estou, finalmente, me apresentando ao mundo inteiro como quem eu realmente sou.
O hospital tem um cheiro que não sai da pele. Antisséptico, metal, algo que tenta parecer limpo demais. Estou vestida com roupas que não são minhas. Tecidos macios, novos, que não conhecem meu corpo. achou melhor fazer um banho de loja e comprar roupas novas para me animar quando eu saísse do hospital. Ainda assim, cada passo dói como se eu estivesse aprendendo a existir outra vez.
Foram duas semanas internada. Duas semanas cuidando do que era visível e do que não era. A pele cicatrizando devagar, o corpo recuperando peso, exames, medicamentos, horários que me lembravam que eu ainda estava aqui. A parte mais difícil não foram as agulhas nem os remédios. Foi sentar na frente de alguém e admitir que eu não tinha controle nenhum sobre o que tinha acontecido comigo.
Na primeira sessão de terapia, eu entrei com uma ideia fixa: engavetar tudo. Trancar as lembranças em algum lugar da minha mente e seguir em frente como se, com o tempo, elas simplesmente fossem desaparecer. Eu queria esquecer. Precisava esquecer. Acreditei, de verdade, que isso seria suficiente.
Emily me ouviu em silêncio antes de dizer que não funcionava assim.
Ela explicou que terapia não era sobre apagar o que eu vivi, porque o cérebro não funciona como um arquivo que você pode deletar quando quer. Que eu não tinha garantia nenhuma de que aquilo não voltaria à tona em algum momento, através de um cheiro, um toque, um som, uma situação banal demais para ser prevista. Que os gatilhos existem justamente porque o trauma não some, ele se esconde.
O trabalho, segundo ela, não era esquecer. Era ressignificar. Era olhar para o que aconteceu sem deixar que aquilo definisse quem eu sou. Construir estratégias para quando a memória tentasse me puxar de volta, aprender a reconhecer os sinais do meu próprio corpo, encontrar formas saudáveis de atravessar a dor quando ela aparecesse, porque ela iria aparecer. Não como castigo, mas como parte do processo.
Eu odiei ouvir isso no começo. Queria uma solução mais simples, mais limpa. Mas aceitei a ajuda. Aceitei a terapia duas vezes por semana. Aceitei que sobreviver não significava estar ilesa.
E, pela primeira vez desde que tudo aconteceu, entendi que não se tratava de deixar Richard no passado. Se tratava de não permitir que ele continuasse vivendo dentro de mim. Afinal, nessa terra ele já não vive mais, bateu tanto nele que não havia médico no mundo que pudesse o salvar, e sendo bem sincera, acredito que todos que estavam naquela casa não faziam questão; me contou que o atendimento a ele demorou horas para acontecer. Queria poder agradecer a cada uma daquelas pessoas.

anda ao meu lado, perto demais e, ao mesmo tempo, com um cuidado quase reverente, como se qualquer movimento brusco pudesse me fazer desaparecer. Ele segura firme a minha mão.
Quando atravessamos a porta de saída, a luz do dia me atinge de um jeito estranho. O mundo não acabou enquanto eu estava presa. As pessoas continuam andando, falando, vivendo. Essa constatação é quase ofensiva e é também algo que estou tratando na terapia.
está parada perto do carro, de braços cruzados junto ao corpo, como se estivesse se segurando inteira para não se desfazer. O cabelo preso de qualquer jeito, os olhos cansados, vermelhos. Ela me encara por um segundo que parece longo demais. Como se estivesse conferindo se eu sou real. Se não sou mais uma imagem cruel inventada pela mente dela.
— … — a voz dela sai quebrada, fraca, irreconhecível.
Eu não penso. Não calculo. Apenas caminho. Quando ela se move na minha direção, o impacto é inevitável. Nós nos chocamos em um abraço que não tem cuidado, nem delicadeza. Tem urgência. Tem sobrevivência.
me aperta como se estivesse tentando me costurar de volta no mundo. O corpo dela treme inteiro, soluços presos no peito, e quando eu afundo o rosto no pescoço dela, o cheiro conhecido me desmonta.
— Eu achei que tinha te perdido — ela sussurrou, quase sem voz. — Eu achei que… — ela não termina.
Minhas mãos se agarram à blusa dela. Meus dedos tremem.
— Você não perdeu — respondo, mas a frase sai mais como um pedido do que uma afirmação. — Eu tô aqui. Eu voltei.
Ela ri e chora ao mesmo tempo, um som feio, verdadeiro, humano demais.
— Você voltou — repete. — Você voltou.
Por um instante, nada mais existe. Não o hospital. Não a floresta. Não o que foi feito comigo. Só nós duas, juntas, de pé, respirando o mesmo ar. Como sempre fomos. Como sobrevivemos sendo.
foi me visitar no hospital todos os dias, mas tudo estava ainda muito recente, não conseguia abraçá-la e nem conversar com ela com calma, pois a todo instante entrava uma enfermeira me dando algum medicamento, vê-la depois de tudo, comigo finalmente curada, é como reencontrar um pedaço de mim mesma, é como estar de volta em casa. é a minha casa.
e observam de longe, respeitando aquele espaço que é só nosso. Eu sei que eles estão ali. Sei que são parte disso agora. Mas … é o chão sob meus pés.
Um mês depois
Eu nunca pensei que voltaria aqui.
A casa continua igual, e isso me irrita mais do que deveria. As paredes no mesmo tom neutro, os móveis alinhados demais, como se tudo tivesse sido congelado no tempo enquanto eu apodrecia por dentro em outro lugar. O relógio da sala faz o mesmo barulho de sempre, aquele tique-taque baixo que marcava as horas das minhas culpas, uma por uma.
Eles estão sentados no sofá quando eu entro. Minha mãe se levanta primeiro. O rosto dela está cansado. Não só pelos dias recentes, mas por anos de coisas não ditas. Meu pai permanece sentado, as mãos apoiadas nos joelhos, rígido como sempre foi quando não sabia lidar com emoções.
O silêncio pesa. É o mesmo silêncio de depois do acidente do Lucas. O mesmo silêncio que me ensinou a engolir tudo.
— Você podia ter morrido — ela diz, a voz falhando antes mesmo de terminar a frase.
Eu sinto o nó se formar na garganta, mas não deixo ele subir. Não hoje.
— Eu sei.
Ela se aproxima, mas para no meio do caminho, como se não soubesse se ainda tem esse direito. Isso dói mais do que qualquer grito.
— Estava em todos os jornais, — meu pai diz. — Sequestro. Floresta. Armas. Pessoas mortas. Você… — ele passa a mão pelo rosto. — Você sempre esteve no meio do perigo. — Não consigo deixar de pensar que isso tem a ver com a morte do meu irmão, também.
Eu rio. Um som curto, amargo.
Minha mãe leva a mão à boca. Os olhos dela se enchem rápido demais.
— Nós só queríamos te proteger.
— Não — respondo, sentindo o corpo inteiro tremer. — Vocês queriam que eu compensasse. Que eu equilibrasse a balança. Que eu pagasse pelo Lucas.
O nome do meu irmão cai na sala como algo vivo. Meu pai fecha os olhos. Minha mãe começa a chorar de verdade agora, sem tentar esconder.
— Ele morreu porque…
— Para — eu falo, mais alto do que pretendia. — Para com isso. Vocês não vão colocar isso em mim de novo.
As lágrimas finalmente caem. Quentes. Pesadas. Eu não as enxugo.
— Eu era uma criança — continuo. — Uma criança tentando sobreviver à própria casa. Eu carreguei essa culpa por anos porque vocês precisavam de alguém para culpar. Porque era mais fácil do que aceitar que o mundo é injusto e que às vezes coisas horríveis acontecem sem motivo.
Minha mãe se senta, como se as pernas não aguentassem mais.
— Nós te amamos — ela diz. — Do nosso jeito.
Eu respiro fundo, tentando não deixar a raiva engolir tudo.
— O amor de vocês me ensinou a me odiar — digo, com a voz quebrando. — Me ensinou que eu precisava ser perfeita, quieta, grata. Que eu não podia errar. Que eu não podia sentir. Que eu precisava merecer existir aqui.
Meu pai finalmente se levanta. Ele parece menor do que eu lembrava.
— Você acha que foi fácil pra gente? — ele pergunta. — Perder um filho? Ver tudo desmoronar?
— Eu não acho que foi fácil, até porque eu também perdi meu irmão e perdi meus pais junto, mesmo vocês ainda estando vivos, — respondo. — Mas também não foi justo. E eu não posso mais carregar isso. Eu quase perdi a minha melhor amiga. Eu quase perdi tudo. Mas eu encontrei uma casa, eu encontrei uma família que me entende com meus erros, com meus acertos, com meus defeitos e qualidades, meus amigos. E, pela primeira vez, eu escolhi ficar. Eu escolhi amar. Eu escolhi viver.
Minha mãe se levanta e vem até mim. Dessa vez, ela não para. Ela me abraça, forte demais, como se estivesse tentando recuperar anos em segundos.
— Me perdoa — ela chora. — Me perdoa por ter feito você acreditar que precisava pagar por algo que não foi sua culpa.
Eu a abraço de volta, apesar de tudo, apesar do muro que ainda estará entre nós, pois anos de renúncia, sofrimento e culpa não são apagados em uma conversa de uma hora, eu ainda preciso da minha mãe e do abraço dela.
— Eu perdoo — digo, e essa palavra pesa e liberta ao mesmo tempo. — Mas isso não significa que tudo vai ser como antes.
Ela assente, soluçando.
— Eu sei.
Meu pai se aproxima devagar. O abraço dele é hesitante, quase inseguro.
— Eu perdi você também — ele diz. — E não percebi.
Eu fecho os olhos por um segundo. Sinto o peso se mover dentro de mim. Não sumir. Mas mudar de lugar.
— Eu não sei como vai ser daqui pra frente — falo. — Talvez a gente se veja menos. Talvez leve tempo. Mas eu precisava vir. Precisava dizer tudo isso. Para não levar esse peso comigo.
— Como você vai ficar agora? — Meu pai perguntou preocupado.
— Minha exposição foi um sucesso, apesar de ter sido pequena, o que aconteceu com , querendo ou não, maximizou as coisas. Irei ser ilustradora de uma editora de livros infantis. Vão lançar uma série de livros que falam sobre os sentimentos negativos para as crianças, para que elas possam aprender quem nem tudo é bom, assim, saberão entender o que estão sentindo e como reagir a eles. Tristeza, raiva, culpa e luto. Achei o meu propósito no mundo, pai. Minha arte vai encontrar quem realmente precisa dela. Nenhuma criança precisará amadurecer antes da hora ou crescer achando que é normal sentir tanto, culpar-se tanto. — aperta a minha mão com força, demonstrando apoio.
Conversamos por mais algumas horas, esclarecemos tudo que nunca foi esclarecido durante anos, choramos, sorrimos e quando eu me afasto, sinto algo diferente. Não é alívio total. Não é felicidade. É paz suficiente. Quando saio daquela casa, o ar parece mais leve. O mundo continua imperfeito. Mas eu também continuo. E, pela primeira vez, isso basta.
Nunca achei que meu futuro teria papel timbrado. Contrato assinado, comissão atlética, médico conferindo exame, advogado usando palavras como cláusula e prazo. Tudo muito limpo. Muito correto. Muito distante do cheiro de sangue seco e serragem molhada dos lugares onde eu aprendi a lutar.
Quando me perguntam como me sinto, eu travo. Porque a verdade é que não é vitória o que eu sinto. É estranheza. Como se alguém tivesse aberto uma porta que eu passei a vida inteira acreditando que não existia.
Passei anos lutando porque precisava. Porque a conta vencia. Porque ninguém vinha salvar a gente. Eu não pensava em carreira, em futuro, em título. Pensava em sobreviver à próxima noite sem quebrar nada que não pudesse curar até a semana seguinte.
Agora me chamam de promessa.
É engraçado isso. Promessa de quê? Eu já cumpri tudo o que prometi a mim mesmo quando era moleque: manter minha mãe viva, manter a casa de pé, não virar meu pai. O resto sempre foi lucro.
O primeiro evento oficial que eu assisti do lado de fora do ringue foi estranho pra caralho. Luzes demais. Público sentado, bebendo cerveja, discutindo golpes como se aquilo não fosse o corpo de alguém ali dentro. Eu me vi nos caras que aqueciam no backstage. A tensão nos ombros, a mandíbula travada, o silêncio pesado antes de entrar. A diferença é que agora existe uma ambulância de verdade. Existe regra. Existe alguém que para a luta se der errado.
Parece pouco pra quem sempre teve isso. Pra mim, é tudo.
Meu pai apareceu no dia em que assinei o contrato. Ele ficou parado perto da porta, mais velho do que eu lembrava, menor também. Disse tudo que já havia dito no telefone. Eu deixei ele falar.
Quando terminou, eu disse que estava tudo bem. Frisei o que já havia dito, que não queria ele na minha vida, que agora tudo pertenceria a minha mãe, pois foi ela que segurou a barra quando ele nos virou as costas, ele assentiu, como se entendesse. Talvez entenda. Talvez não. Isso também não é mais meu problema.
estava comigo. Ela segurou minha mão enquanto eu assinava o contrato, aquele gesto simples foi mais importante que meu nome no papel. Às vezes ela me olha como se ainda estivesse surpresa por eu não ter me destruído no caminho. Às vezes eu também me surpreendo.
Ainda gosto da sensação do corpo em alerta, da concentração absoluta, do mundo se reduzindo a movimento e respiração. Mas agora eu sei que não é o único lugar onde eu existo. Não é mais prisão. É uma escolha. É uma profissão. Não desconto mais a raiva nos meus rivais, não tem mais fuga, apenas liberdade e paz.
Quando entro no ringue hoje, entro inteiro. Não com raiva da vida. Não tentando pagar a dívida emocional com os punhos. Entro porque quero estar ali. Porque aprendi que força não é só aguentar. É saber quando parar. Hoje tenho orgulho de quem sou, tenho orgulho de quem fui e, por mais torto que pareça, tenho orgulho do caminho que trilhei para chegar até aqui.
Capítulo 40 - Yas Marina
And this one is for the champions
I ain't lost since I've began, yeah
Funny how you said it was the end, yeah
Then I went, did it again, yeah - Industry Baby
I ain't lost since I've began, yeah
Funny how you said it was the end, yeah
Then I went, did it again, yeah - Industry Baby
Um ano depois
Um ano depois e eu ainda não sei o que quero ser quando crescer. E, sinceramente, essa é a melhor parte.
Estou sentada na área reservada à família, usando um crachá caro demais para alguém que ainda não decidiu se quer continuar dançando ou estudar outra coisa. Antes, essa indecisão teria me dado ansiedade. Hoje, ela só… existe. Não tem urgência. Não tem cobrança. Eu sobrevivi a coisas demais para achar que preciso resolver minha vida num domingo qualquer em Abu Dhabi, inclusive, isso é loucura, ainda não acredito que conheci tantos lugares incríveis viajando com o para acompanhá-lo em seu primeiro ano de volta à Fórmula 1.
O calor é absurdo. O tipo de calor que faz você questionar decisões básicas, como sair de casa. O barulho dos motores atravessa o corpo de um jeito que não dá pra ignorar. Eu observo as pessoas ao redor, todas absurdamente concentradas, enquanto penso que, se alguém tivesse me contado um ano atrás que eu estaria aqui, vendo meu noivo — Sim, noivo! me pediu em casamento em uma madrugada onde resolvemos voltar aos velhos tempos e apostar uma corrida clandestina, eu contra ele, ele, obviamente, venceu e quando eu cheguei na linha de chegada ele estava ajoelhado em frente ao carro, apenas com o farol nos iluminando, segurando a aliança mais linda do mundo, foi impecável e a nossa cara — disputar um campeonato mundial de Fórmula 1 empatado com o Max Verstappen, eu teria pedido o contato do psiquiatra dessa pessoa.
Os pais do estão ali perto, discutindo alguma coisa sobre estratégia, quem olha de fora não imagina que um dia eles não pertenceram a esse lugar. Foi incrível acompanhar essa evolução da família, onde eles foram de "estranhos" para inseparáveis em tão pouco tempo. Não consigo imaginar como foi para viver tanto tempo longe dos pais.
passa por mim indo para o carro e faz aquele sorriso torto que ele sempre faz quando está tentando parecer tranquilo. Eu levanto o polegar.
— Estarei na linha de chegada esperando você — digo.
Ele ri.
— Serei o primeiro a chegar. — Dou um beijinho rápido em seus lábios e me afasto em direção a área destinada à família. Eu coloco o fone, ajeito o cabelo e me recosto. Hoje, eu não preciso ser nada além do que já sou. E isso é mais do que suficiente.
Nunca pensei que ia gostar de assistir corrida, mas aqui estou eu, xingando engenheiro mentalmente e analisando curva como se tivesse nascido para isso. O ouvido do Max Verstappen já deve estar queimando, pois é impossível passar mais do que trinta segundos sem xingá-lo, Deus me perdoe.
Estou sentado ao lado da , com um boné que eu definitivamente não precisava comprar, mas comprei mesmo assim, tinha o número 44 de na frente em roxo. Ela está calma demais para alguém que sabe exatamente o que está acontecendo na pista. Eu, por outro lado, já perdi a conta de quantas vezes prendi a respiração desde a largada.
— Você vai desmaiar — ela comenta, sem tirar os olhos do telão.
— É envolvimento emocional — respondo. — Totalmente justificável. Meu marido que está correndo! — Falei e ela riu.
A corrida está limpa, mas não pode ocorrer nenhum errinho. e Max estão grudados um no outro como se tivessem combinado. Eu reconheço isso. É o mesmo tipo de disputa que existe quando dois lutadores sabem exatamente o que o outro é capaz de fazer.
Só que aqui, ao invés de sangue, tem pneu.
Engraçado pensar que eu também estou em outro lugar agora. Luto legalizado. Médico antes e depois. Bolsa assinada. Entrevista que não envolve polícia. Às vezes ainda parece errado, como se alguém fosse aparecer dizendo que houve um engano e que eu preciso voltar para o porão.
Mas ninguém aparece.
Quando segura a posição numa tentativa mais agressiva do Max, eu bato palma sem perceber.
— Esse filho da puta amadureceu — digo.
sorri, passando a mão na sua barriga. Pois é, vamos ter um bebê! Quando ela me contou eu desmaiei, juro por tudo, acordei com ela em cima de mim me abanando. Fiquei desesperado, com medo, afinal, já tínhamos conversado sobre filhos e eu fui claro sobre o meu receio de tornar-me pai, mas é a minha rainha, me entendeu e me acolheu, quando deveria ter sido ao contrário. Então, fui fazer o que todo homem faria: terapia. Agora, já está com 6 meses de gestação, estamos esperando uma menina que se chamará Poppy e eu não vejo a hora de ser pai.
— Crescer faz isso com as pessoas. Algumas — falou enquanto eu me levantava e erguia um cartaz escrito “, largue a e case-se comigo”.
Eu reparo nas cores primeiro.
O azul do céu, o branco das arquibancadas, o vermelho dos carros passando rápido demais para serem detalhes isolados. Tudo parece muito limpo, muito organizado, e talvez seja isso que mais me chama atenção. O caos ficou para trás.
Vejo vibrar do meu lado, gritando e torcendo pelo amigo com toda a força que ele tem, o que é bastante considerando que ele luta, e eu estou seriamente preocupada em sermos processados por tantos xingamentos destinados a outros pilotos. Ele mudou. Não só fisicamente. Existe uma tranquilidade nele agora que não vinha acompanhada de cansaço. Isso me deixa feliz de um jeito silencioso.
Meus pais mandaram mensagem de novo. Hoje nossa relação é outra, o tempo cura as feridas e a descoberta que seriam avós os refez como humanos. Parecia que eles eram um quadro caótico na qual foi repintado com cores vibrantes e felizes. Nos vemos 1 vez por mês, mas fazemos chamadas de vídeo quase todos os dias, eles adoram ver a evolução da minha gravidez e eu jamais os afastaria disso.
Penso que, se alguém me dissesse que esse seria o meu futuro, eu teria rido. Artista. Reconhecida. Em paz. Prestes a lançar mais uma coleção de livros ilustrados por mim e com uma galeria de arte que ajuda pequenas artistas mulheres a trabalharem no ramo. Sentada em Abu Dhabi assistindo um amigo disputar um campeonato mundial.
A vida tem um senso de humor estranho, mas faz tudo valer a pena.
Empatar um campeonato mundial com o Max Verstappen não estava no meu bingo pessoal de retorno à Fórmula 1. Mas aqui estamos.
O carro está bom. O corpo também. A cabeça, principalmente. Não estou correndo contra nada. Não estou tentando apagar nada. Só estou fazendo o que sei fazer, do jeito certo.
As últimas voltas chegam e eu sinto aquele silêncio interno que só aparece quando tudo se alinha. Rádio falando. Engenheiro nervoso. Eu respondo automaticamente. Sei exatamente onde estou perdendo milésimos. Sei onde posso ganhar.
Na última curva, eu não penso em título. Penso que quero cruzar essa linha inteiro. E quando isso acontece, o rádio explode. Campeão.
Eu rio dentro do capacete, um riso curto, desacreditado. Desacelero, estaciono, desligo o carro. Quando tiro o capacete, a equipe já está em cima de mim. Gritos, tapas, alguém chorando, alguém berrando meu nome errado. Perfeito.
A primeira pessoa que eu procuro é a . Ela está ali, com aquele sorriso que só ela tem. Eu vou até ela antes de qualquer câmera.
— Eu falei que estaria te esperando na linha de chegada, Raven — falou pulando no meu colo.
— E eu falei que seria o primeiro a chegar. — A beijei enquanto girava seu corpo.
aparece logo depois, me abraça forte.
— Nunca mais reclamo de luta — ele diz. — Isso aqui é tortura psicológica.
vem em seguida, tranquila, como se já soubesse que tudo ia acabar assim.
— Pensei que a Poppy ia nascer hoje mesmo. — Arqueei minha sobrancelha, preocupado. — Isso se o fosse parir. — Soltei uma gargalhada. — Parabéns, ! — Ela me abraçou.

— , campeão mundial na sua primeira temporada de volta à Fórmula 1. Como você descreve essa corrida?
— Cansativa pra caralho… — eu paro, percebo o microfone, dou um meio sorriso. — Cansativa. Muito intensa. O Max não cedeu um centímetro hoje.
— Vocês estavam empatados no campeonato antes da largada. Isso pesou em algum momento?
— Se eu disser que não, vou estar mentindo. Mas tentei não pensar nisso. Quando você começa a correr pelo número, já perdeu o foco. Eu só pensei em fazer cada volta direito.
— O que passou pela sua cabeça nas últimas voltas?
— Que Verstappen é um dos melhores pilotos dessa geração. Você tem que torcer pra não errar, pois ele estará cheirando o seu cangote.
— Esse título tem um peso diferente depois de tudo o que você viveu?
— Tem. — Eu respiro fundo antes de continuar. — Não porque apaga o passado. Não apaga. Mas porque prova que eu não fiquei preso nele.
— Muita gente diz que essa foi uma história de redenção. Você concorda?
— Eu não sei se chamaria de redenção. — Dou de ombros. — Eu caí, aprendi a levantar e voltei diferente. Para mim, isso já é suficiente.
— Sua família está aqui hoje. Isso foi importante?
— Muito. — Minha voz falha um pouco, mas sigo. — A gente se perdeu por um tempo. Estar aqui juntos agora… significa mais do que qualquer troféu. Aproveitando a oportunidade, quero mandar um beijo para minha noiva maravilhosa, , em breve . Te amo, Sunshine! — A plateia vai à loucura e a repórter ri.
— E sobre o futuro? O que vem depois desse título?
Eu sorrio, cansado, feliz.
— Hoje eu vou comemorar, mas nas férias eu me caso, o resto não tem pressa!
— Bennett, campeão mundial de Fórmula 1.
— Obrigado. — Olho para a câmera uma última vez. — E… é bom estar de volta.
Epílogo
Long live the walls we crashed through
How the kingdom lights shined just for me and you
I was screaming: Long live all the magic we made
And bring on all the pretenders
I'm not afraid - Long Live
How the kingdom lights shined just for me and you
I was screaming: Long live all the magic we made
And bring on all the pretenders
I'm not afraid - Long Live
Chegamos juntos.
Quatro pessoas correndo pelo estacionamento do hospital como se estivéssemos fugindo da polícia, ok... não foi um bom exemplo tendo em vista que já fizemos isso mais vezes do que é saudável contar. praticamente arrasta a pela mão, enquanto ela caminha com a calma irritante de quem está prestes a parir e ainda assim parece mais lúcida do que todos nós.
— Amor — ela diz, respirando fundo —, se você me puxar assim de novo, eu vou parir no elevador só pra te traumatizar.
— Desculpa, desculpa — responde, já à beira do colapso. — Mas você falou "contração" e meu cérebro desligou.
empurra a porta de entrada com o ombro.
— Respira, . Ela já fez coisa pior do que isso. Lembra da exposição em Milão?
— Aquilo foi estresse emocional — rebate. — Isso aqui é um ser humano saindo de outro ser humano.
— Tecnicamente — digo —, você também saiu de alguém um dia.
— NÃO É A MESMA COISA — ele grita, enquanto a enfermeira da recepção nos encara como se já estivesse se arrependendo de ter escolhido essa profissão.
é levada rapidamente para a sala de parto. não solta a mão dela nem por um segundo.
— Senhor, só o acompanhante pode entrar — diz a enfermeira.
— Sou eu — responde, firme demais para alguém que estava surtando há dez segundos. — Eu entro com ela.
olha pra ele e sorri.
— Vai aguentar?
— Não sei — ele diz. — Mas não vou deixar você sozinha.
Eles desaparecem pela porta.
O corredor fica silencioso por meio segundo.
Depois eu e nos olhamos.
— Dez reais que ele chora antes do bebê — digo.
— Eu aposto vinte — responde. — E mais cinco se ele pedir desculpa por existir.
Sentamos nas cadeiras duras, lado a lado. O hospital segue seu ritmo estranho, gente passando, passos apressados, carrinhos de metal. Eu apoio a cabeça no ombro dele.
— Engraçado — falo. — Um ano atrás, isso tudo parecia impossível.
— Um ano atrás, eu estaria fugindo de qualquer lugar com esse nível de responsabilidade — ele responde.
— E agora?
— Agora eu estou torcendo pra uma criança nascer enquanto meu melhor amigo tenta não desmaiar. Evolução.
A porta se abre de repente.
Um choro invade o corredor. Alto. Forte. Nada delicado.
Eu me levanto no mesmo instante.
— Essa é ela.
sorri antes mesmo de ver.
Após uma eternidade, mentira, foram 20 minutos, a enfermeira aparece.
— Podem entrar.
está exausta, cabelo grudado na testa, mas com aquele sorriso vitorioso. está ao lado dela, olhos vermelhos, completamente destruído emocionalmente. Nos braços da , um pacotinho pequeno, berrando com autoridade.
— Essa — diz, orgulhosa — é a Poppy. — Nos mostrando a menina de cabelos pretos como a noite.
ri e chora ao mesmo tempo.
— Ela é perfeita — ele fala, a voz falhando. — Ela grita igual eu.
— Isso não é um elogio — digo.
Ele me olha.
— Eu sei. Mas é genética.
se aproxima devagar, respeitoso, como se estivesse diante de algo sagrado.
— Bem-vinda a nossa família — ele murmura. — A gente vai errar bastante.
Poppy continua chorando.
— Ela concorda — comenta.
Nós quatro ficamos ali. Espremidos. Cansados. Inteiros. Não somos uma família tradicional. Nunca fomos. Mas estamos juntos. E, de algum jeito torto e perfeito, isso sempre foi suficiente.
— Vem cá, só por curiosidade — começou a perguntar depois de uns minutos em silêncio. — O já pediu desculpa por existir?
solta uma gargalhada.
— Antes mesmo da neném sair. — Tiro vinte e cinco dólares de bolso e entrego pro .
— Vocês estavam apostando enquanto eu estava parindo? — sussurra alto para não assustar a neném.
FIM. (ou como o gostaria: E viveram felizes para sempre.)
Nota da autora: Chegar até aqui não foi simples.
Red Lights nasceu do caos, da dor, da fuga e da tentativa constante de sobreviver quando tudo parece escuro demais. Esta história me atravessou de formas que eu não esperava e me acompanhou por meses, às vezes em silêncio, às vezes exigindo ser escrita mesmo quando eu não tinha forças.
Essa história me acompanha desde os meus 15 anos, mas por muito tempo eu adiei o momento de escrevê-la. Hoje, aos 25, dez anos depois, me sinto profundamente grata e feliz por finalmente ter tirado esses personagens do papel e permitido que eles encontrassem um espaço no coração de vocês.
Aos leitores que caminharam comigo até o fim: obrigada por ficarem. Obrigada por confiarem nesses personagens, por sentirem raiva, medo, amor e esperança junto com eles. Nada disso existiria sem vocês do outro lado das páginas.
Um agradecimento especial a todos que fizeram Red Lights chegar ao Top 10 das histórias mais lidas do site. Eu ainda não sei até quando isso vai durar (então estou aproveitando enquanto posso, hahaha), mas saber que essa história alcançou esse lugar já é algo que vou carregar comigo para sempre. Esse espaço também é de vocês.
Aos meus personagens, que parecem estranhos agradecer, mas juro que não é: obrigada por resistirem. Brooke, por sobreviver. Elijah, por aprender a voltar. Victoria, por ser fiel. Adrian, por escolher ficar. Vocês me ensinaram mais do que eu imaginava.
Aos amigos, a minha beta incrível e a todos que me apoiaram durante esse processo, oferecendo palavras, paciência e incentivo quando eu duvidava: vocês foram fundamentais. Escrever pode ser solitário, mas vocês tornaram o caminho mais leve.
Encerrar Red Lights não é um adeus, mas sim um até logo. Uma luz que finalmente muda de vermelho para verde. A vida continua, os caminhos seguem, e eu sigo escrevendo.
Obrigada por estarem aqui.
Com carinho,
Maeve Hatter.
Nota da beta: Ahh, Maeve. Como irei sentir falta de betar e ler essa fic. Ela ficará no meu coração ❤️.
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Red Lights nasceu do caos, da dor, da fuga e da tentativa constante de sobreviver quando tudo parece escuro demais. Esta história me atravessou de formas que eu não esperava e me acompanhou por meses, às vezes em silêncio, às vezes exigindo ser escrita mesmo quando eu não tinha forças.
Essa história me acompanha desde os meus 15 anos, mas por muito tempo eu adiei o momento de escrevê-la. Hoje, aos 25, dez anos depois, me sinto profundamente grata e feliz por finalmente ter tirado esses personagens do papel e permitido que eles encontrassem um espaço no coração de vocês.
Aos leitores que caminharam comigo até o fim: obrigada por ficarem. Obrigada por confiarem nesses personagens, por sentirem raiva, medo, amor e esperança junto com eles. Nada disso existiria sem vocês do outro lado das páginas.
Um agradecimento especial a todos que fizeram Red Lights chegar ao Top 10 das histórias mais lidas do site. Eu ainda não sei até quando isso vai durar (então estou aproveitando enquanto posso, hahaha), mas saber que essa história alcançou esse lugar já é algo que vou carregar comigo para sempre. Esse espaço também é de vocês.
Aos meus personagens, que parecem estranhos agradecer, mas juro que não é: obrigada por resistirem. Brooke, por sobreviver. Elijah, por aprender a voltar. Victoria, por ser fiel. Adrian, por escolher ficar. Vocês me ensinaram mais do que eu imaginava.
Aos amigos, a minha beta incrível e a todos que me apoiaram durante esse processo, oferecendo palavras, paciência e incentivo quando eu duvidava: vocês foram fundamentais. Escrever pode ser solitário, mas vocês tornaram o caminho mais leve.
Encerrar Red Lights não é um adeus, mas sim um até logo. Uma luz que finalmente muda de vermelho para verde. A vida continua, os caminhos seguem, e eu sigo escrevendo.
Obrigada por estarem aqui.
Com carinho,
Maeve Hatter.
Nota da beta: Ahh, Maeve. Como irei sentir falta de betar e ler essa fic. Ela ficará no meu coração ❤️.
