Dedicatória
Capítulo 26 - Driving you crazy
We can't just keep talkin' about it
We think too often about it
We can't just be cautious about it
I wanna get wild
Take me for a ride, boy
Show me your wild side, boy - Wild Side
We think too often about it
We can't just be cautious about it
I wanna get wild
Take me for a ride, boy
Show me your wild side, boy - Wild Side
O corpo dela se moldava ao meu como se tivesse sido feito para encaixar. Cada centímetro da me chamava para um lugar onde eu não sabia se conseguiria voltar depois. E o pior? Eu não queria voltar.
Ela era minha redenção e minha ruína ao mesmo tempo. Uma chama que eu deveria apagar. Mas tudo o que eu fazia era me aproximar mais. A luz tênue fazia a pele dela brilhar como pecado. Os olhos verdes semicerrados, a boca entreaberta, o peito subindo e descendo. Eu nunca tinha visto nada tão bonito.
— ... — a voz saiu num sussurro trêmulo, e eu perdi o último pedaço de controle que ainda me restava.
Me inclinei sobre ela, nossas peles se tocando por inteiro agora, e levei a boca até o ouvido dela.
— Você pode me domar fora dessa cama, Sunshine — murmurei, mordendo de leve o lóbulo da orelha — mas aqui... eu é que mando em você.
Ela arqueou o corpo, arfando, e eu senti a resposta dela como uma corrente elétrica pela espinha. Passei a mão pela lateral de seu corpo até o quadril, apertando com força.
— Tira essa calça. Devagar. Quero ver você se desfazendo por mim.
Ela obedeceu, com os olhos fixos nos meus, tirando o jeans com uma lentidão ensaiada, o tecido deslizando por suas coxas, deixando-a apenas de calcinha branca. Me sentei de joelhos entre suas pernas, observando.
— Deus do céu... — murmurei, quase sem voz. — Você me destrói.
Levei a mão até o centro dela por cima do tecido e a senti quente, molhada, tremendo de expectativa.
— Isso tudo pra mim?
Ela mordeu o lábio e assentiu, os olhos queimando.
— Eu quero você. Todo.
— Vai ter. Cada maldito pedaço.
Me inclinei e arranquei a calcinha, jogando-a em algum canto do quarto. Então mergulhei nela com a boca, sem aviso, sem piedade. A língua firme e o ritmo lento, aumentando gradualmente. gemeu alto, uma das mãos agarrando o lençol, a outra enfiada no meu cabelo.
— ... foda-se... — ela arfava, os quadris se mexendo contra minha boca. — Eu vou…
— Goza pra mim, — murmurei contra ela. — Agora.
E ela gozou. Com um gemido quebrado, o corpo todo estremecendo, o gosto dela inundando minha boca. Eu continuei até sentir as coxas dela tremerem e o corpo desfalecer.
— Você... é um desgraçado — ela riu, ofegante, enquanto eu subia por cima dela.
— Um desgraçado completamente seu — sussurrei contra sua boca, enquanto tirava o resto das roupas e colocava a camisinha.
Ela me puxou para si com as pernas, me prendendo, e quando me encaixei, só houve silêncio por um segundo. O momento antes da explosão. O momento em que dois mundos colidem.
Entrei nela devagar. Cada centímetro, cada maldito segundo. Ela era quente, apertada, perfeita. Minha cabeça caiu contra o pescoço dela e soltei um gemido rouco.
— Porra, você ainda vai me matar, .
Ela passou as unhas pelas minhas costas, arranhando com força, deixando sua marca registrada por ali, marcando-me como se fosse minha dona e, porra, aquela mulher mandava mais em mim do que imaginava, se ela me pedisse para ir buscar a lua eu ia com um sorriso no rosto, e então cravou os olhos nos meus.
— Me fode, .
Eu perdi o controle.
Comecei a me mover com força, com fome. Cada estocada fazia a cama ranger, os gemidos dela se misturando aos meus. O som da pele contra pele, os suspiros abafados, o cheiro do sexo preenchendo o quarto.
— Mais rápido — ela implorou.
— Manda de novo e eu vou te fazer gritar — rosnei, cravando os dedos no quadril dela.
— Mais rápido, porra!
— É isso que você quer, Sunshine? Quer que eu te foda como se o mundo estivesse acabando?
Ela respondeu com um grito abafado, o corpo inteiro tremendo.
Eu a virei de bruços, virando-a de quarto, puxei pela cintura e entrei de novo. Ela arqueou as costas e gritou meu nome. Me movi com força, firmeza, dei um tapa estalado em sua bunda, onde com certeza ficaria a marca da minha mão no dia seguinte. Fui até o limite.
— Você é minha — disse, entre dentes. — Só minha.
— Sua — ela arfou. — … caralho, eu sou sua.
E ela gozou de novo. Forte. Violenta. Me levando junto. Eu explodi dentro dela com um gemido baixo, o corpo todo tremendo, enterrando o rosto entre seus ombros.
Ficamos ali, suados, colados, sem ar.
Depois de um tempo, deitei ao lado dela, puxando-a para cima do meu peito. A respiração ainda irregular, os corações batendo no mesmo ritmo.
Ela me olhou. Um sorriso sonolento nos lábios.
— Agora sim... a gente começou algo.
— E eu não tenho a menor intenção de parar.

A respiração dela ainda estava quente contra meu peito.
Um braço jogado por cima da minha cintura, as pernas enroscadas nas minhas. Passei os dedos devagar pela coluna dela, subindo e descendo, como se pudesse memorizar cada curva, cada osso, cada centímetro.
— Não era pra acontecer assim — falei, baixinho.
Ela ergueu o rosto, apoiando o queixo no meu peito, os cabelos bagunçados caindo de um lado.
— Assim como?
— Tão intenso. Tão... inevitável.
Ela não respondeu de imediato. Só me olhou, com aqueles olhos verdes que pareciam enxergar fundo demais.
— A gente passou tempo demais fingindo que não era nada.
— Eu achei que te proteger era manter distância — confessei. — Que esconder quem eu fui era o jeito de garantir que você não saísse correndo.
Ela subiu o corpo um pouco, ficando quase cara a cara comigo. A mão dela foi até meu rosto, os dedos traçando a linha da minha mandíbula.
— … você nunca foi só o que te aconteceu. Nunca foi só o piloto da Fórmula 1. Nem o Raven. Nem o mecânico. Nem o herdeiro prodígio.
— Então o que eu sou? — perguntei. A voz falhou, só um pouco.
Ela me olhou como se a resposta fosse óbvia.
— O homem que me salvou. E que eu quero ver salvar a si mesmo também.
Engoli em seco. Nunca pensei que alguém fosse dizer isso pra mim de novo. Nunca esperei que um dia eu me sentisse visto... sem máscara, sem passado, sem corrida. Ela me beijou de leve, um beijo preguiçoso, calmo, com gosto de descanso.
— Você vai embora? — ela sussurrou, com a testa colada na minha.
— Eu não consigo mais — respondi. — Você virou casa.
Ela sorriu, quase sem abrir os olhos, e se ajeitou de novo no meu peito.
— Vou descansar, só um pouquinho — falou com a voz sumindo, entregando-se para o sono.
A lua batia fraca pela janela do quarto. Lá fora, o mundo ainda era perigoso, imprevisível, cheio de sombras. Mas ali, naquela cama torta, com o coração dela batendo perto do meu, por alguns instantes, tudo estava em paz.
Eu adormeci com a mão na nuca dela, o corpo dela inteiro sobre o meu. E uma única certeza na mente: Eu nunca mais vou deixar ninguém tirar isso de mim.

A estrada de Oakland até San José parecia mais curta na volta.
Talvez fosse o cheiro dele ainda grudado no moletom que eu usava. Talvez fosse a sensação de que, pela primeira vez, eu tinha deixado alguém ver quem eu era. não fugiu, na verdade, ele segurou minha mão a viagem inteira, mesmo eu insistindo que ele iria nos matar pilotando com uma mão só. Só soltou quando encostamos em frente ao nosso prédio.
— Quer que eu entre com você? — ele perguntou, já tirando o capacete.
— Não precisa, eu me viro — respondi com um sorriso mole, o corpo ainda meio derretido do fim de semana inteiro grudada nele.
Apenas quando coloquei os pés na sala com a mochila nas costas notei que havia algo estranho.
— ? — chamei.
Nada. Silêncio.
Entrei mais um pouco. O lugar estava… revirado. Como se alguém tivesse saído às pressas, ou pior — entrado à força. Uma das cadeiras estava caída, os quadros estavam tortos. A mochila da ainda estava no canto, mas ela… ela não estava ali.
— Porra… — sussurrei, puxando o celular com mãos trêmulas.
Em menos de cinco minutos, estava ao meu lado. Ele olhou em volta, a expressão fechada, os punhos cerrados.
— Isso foi uma invasão. Ou ela saiu correndo por algum motivo — ele rosnou, andando em círculos pela sala. — Ela não ia sair assim, do nada.
— Eu vou ligar pro — falei, mas já estava no celular.
— Não atende — ele disse, o maxilar travado. — Vem comigo. Vamos direto pro loft. Se ela não estiver lá, a gente caça esse desgraçado.
Sai correndo para fora com a cabeça girando, o medo escalando pelas costas. A última coisa que a gente precisava agora era mais um susto. A viagem tinha sido boa demais pra acabar desse jeito.
arrombou a porta como se fosse derrubar a parede junto. Eu já ia gritar o nome da quando o cheiro doce de panquecas invadiu o corredor. E ali estavam eles.
, de costas pra porta, usando uma blusa larga demais — que reconheci como sendo do — e mexendo alguma coisa numa frigideira. encostado na pia, só de calça de moletom, com cara de quem estava em casa, literalmente e emocionalmente.
— Oi? — foi o que consegui dizer, a voz embargada entre o susto e o alívio.
se virou, a boca suja de calda de chocolate, uma espátula na mão.
— Gente? Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa?
entrou bufando, os olhos indo de mim para o .
— A casa de vocês tá parecendo cena de assalto. Achei que tivesse acontecido merda. Vocês não têm celular não?
franziu a testa e pegou o aparelho largado no sofá.
— Sem sinal. Merda — murmurou. — A gente… a gente passou a noite aqui. Eu não consegui deixar ela sozinha depois de ontem.
Ele olhou para , como se dissesse tudo sem dizer nada. E ela respondeu com um sorriso pequeno, cansado, mas verdadeiro.
— Eu ia avisar, mas não queria estragar o final de semana de vocês e também só queria um minuto de paz. E panquecas.
soltou o ar com força e jogou as chaves da moto no balcão.
— Vocês vão me matar do coração, porra — resmungou, mas já se aproximando da mesa como se o cheiro de açúcar tivesse vencido a preocupação.
— A gente trouxe café — falei, ainda meio trêmula. — Quente. Da estrada.
— Então senta e come — disse. — Está uma delícia, eu juro, mesmo com a frigideira dos meninos disputando comigo quem iria ficar com mais panqueca, pois gruda tudo. — Ela revirou os olhos.
— Não gruda, nada. Você que não tem paciência para esperar a massa secar — ele rebateu, já colocando dois pratos a mais na mesa.
— Ah claro, o problema é a minha massa perfeita e não a sua frigideira do tempo em que Jesus ainda era marceneiro.
E ali estávamos. Os quatro. A mesa improvisada cheia de panquecas tortas, e de fato, sem muita massa, xícaras de café cheias, risadas nervosas e olhares cúmplices. Não falamos do susto, por mais que a curiosidade estivesse me corroendo. Não falamos do que veio antes. Só comemos, rimos e dividimos o silêncio bom, aquele que só existe quando a gente se sente seguro.
Mesmo que por pouco tempo. Porque a gente sabia. No fundo, sabíamos. A paz era só um intervalo. E a próxima corrida estava prestes a começar.
Capítulo 27 - And having bad ideas
It's harder and harder to get you to listen
More I get through the gears
Incapable of making alright decisions
And having bad ideas - Why'd You Only Call Me When You're High?
More I get through the gears
Incapable of making alright decisions
And having bad ideas - Why'd You Only Call Me When You're High?
Acordei com o som da chaleira apitando e o cheiro de café fresco se espalhando pela cozinha. A luz entrava filtrada pelas cortinas finas do estúdio, e por um segundo, tudo parecia tranquilo demais. Quase normal. Como se a nossa vida não tivesse virado de cabeça pra baixo nos últimos meses.
estava sentada no sofá com uma caneca nas mãos, encarando um ponto fixo na parede como se tivesse visto um fantasma. E talvez tivesse. Ela era boa em esconder, mas eu a conhecia bem demais pra não perceber os sinais.
— Você dormiu bem? — perguntei, sentando ao lado dela.
Ela assentiu devagar, mas não me olhou. Estava de moletom, o cabelo solto, a caneca apoiada no joelho. Tensa demais para o que deveria ser uma manhã de descanso.
— , o que tá pegando?
Ela hesitou, depois soltou o ar como quem desistia de manter a pose.
— Eu só estou cansada, .
— Cansada ou assustada?
Ela me encarou por um segundo e eu vi. O medo ali, escondido bem no fundo dos olhos verdes. Mas ela desviou rápido, fingindo que era só mais um café.
— Eu só quero que as coisas fiquem bem. Por um tempo. Sem correria, sem briga, sem polícia batendo no galpão.
Assenti, apertando a perna dela de leve.
— Vão ficar. A gente vai manter tudo sob controle. — Força na voz. Como se eu acreditasse.
Mudei de assunto, tentando aliviar o clima.
— Aliás… a exposição da minha arte vai rolar semana que vem.
Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa de verdade dessa vez.
— Sério?
— Sério. Mandei o portfólio ontem à noite, na casa dos meninos, e acordei com a aceitação, falaram que adoraram meu trabalho! — Aplaudi animada — A exposição vai ser pequena, mas é um começo.
— Isso é… incrível! — largou a caneca e me abraçou — Você vai mostrar os desenhos do ?
— Só no dia, para manter meu ar de misteriosa. — Ri. — Quero ver a cara dele quando ver os desenhos de si mesmo.
Ela riu também, mas logo o sorriso sumiu de novo. Suspirei.
— Se você quiser, a gente pode achar outro lugar para morar.
ficou em silêncio por alguns segundos, depois assentiu de leve.
— Eu sei, mas aqui já é tão nosso e agora os meninos trocaram todas as trancas, temos até entrada digital. Vai dar tudo certo! — Suspirou apertando minha mão.
— Ok. Mas você sabe que isso não vai ficar assim pra sempre, né?
Ela assentiu de novo.
— Vamos falar da sua exposição — disse mudando de assunto. — eu espero que tenha desenhos meus também, afinal eu cheguei primeiro! — Dei uma risada alta.
— Claro que tem! Minha exposição se chama “Red Lights” e é sobre toda a nossa jornada, tem desenhos de quando tudo começou.
— Aí que emoção! Acho que eu vou chorar de alegria! Minha amiga vai ser uma artista de sucesso, finalmente vamos sair da pobreza! — Dei um tapa na perna dela.
— Não crie expectativas, exposição pequena, lembra?
— Ai, cala a boca! Minhas expectativas já estão altíssimas!
O motor ronronava de forma irregular, e eu já tinha refeito o ajuste do carburador duas vezes, mas não era isso que me incomodava. O carro funcionava. Era minha cabeça que estava com problema.
Migs apareceu na porta do galpão com um cigarro no canto da boca e o semblante fechado. Depois da queda do submundo, eles desapareceram e agora ela e Davi reaparecem, falaram que ficaram assustados e preferiram esperar a poeira baixar. Davi, como Reyna havia comentado, realmente ficou ganancioso, então, junto com , afastamos ele das lutas e estávamos procurando alguém para substituí-lo, mas preferi o manter por perto. e eu chegamos a conclusão que eles eram fiéis, apesar dos pesares, então voltamos a trabalhar em equipe, mas agora eles obedeciam. E, também, eram os únicos que sabiam da minha identidade como Raven, então é bom ter alguém cobrindo as coisas.
— A polícia voltou a circular ontem à noite na estrada oeste. Pegaram um dos corredores que largou na hora errada. Ele cantou.
— Sobre o quê? — perguntei, me erguendo devagar.
— Disse que ouviu falar de apostas rolando no galpão de San José. Mas não deu nomes. Ainda.
Davi apareceu atrás dela, sério, com a prancheta de sempre.
— A gente vai ter que suspender as lutas por uns dias. Corridas também. Tudo de baixo perfil até o próximo mês.
A ideia de ficar longe da pista me deu um gosto amargo na boca.
— Não vamos conseguir nos manter com mais 1 mês parados. Não podemos ficar suspendendo tudo a cada problema que aparecer. Vamos colocar as lutas nas quintas, como antigamente e as corridas na sexta, a cada 2 semanas no início, até termos certeza de quem está dentro é de confiança. E nada de corridas e lutas no mesmo dia, ficamos muito dispersos e eles conseguem se infiltrar.
— E os caras de Fresno? — perguntei. — Ainda tentando sabotar?
— Não chegaram a tempo de entrar no sistema. Mas Rocco tá inquieto — Davi respondeu. — Esse moleque dele vai acabar morto se continuar bancando o espertinho.
Suspirei. Era sempre assim: um jogo de poder mal disfarçado de adrenalina. E no meio de tudo, agora tinha a . Que estava cada vez mais envolvida. Cada vez mais perto.
— Aliás, tem uma coisa que eu queria dizer — olhei pros dois. — Eu quero tirar a das corridas. Pelo menos por enquanto.
Migs arqueou uma sobrancelha.
— Por que, afinal? A garota é boa. Rende mais do que metade dos caras.
— É exatamente por isso. Se ela começar a chamar atenção, vai dar merda. Ela não é como a gente. Não ainda. E... ela tem problemas fora daqui. Pesados.
Davi trocou um olhar com Migs, depois assentiu.
— Ok. Mas isso é você quem vai explicar pra ela. Não sou babá de ninguém e não to afim de levar um soco na cara, você sabe que eu revidaria. — Migs falou dando um sorrisinho. Ela não é nem louca de pôr as mãos na .
— Eu me viro.
E era verdade. Eu ia me virar. Só precisava descobrir como contar isso pra ela sem fazer parecer que eu queria afastá-la — e sem levar um soco na cara — Quando, na verdade, tudo que eu queria era manter ela por perto. Em segurança. Mas com nosso cerco fechando e o passado dela assombrando cada vez mais eu não fazia ideia de como manter isso tudo inteiro.

Os ponteiros do relógio pareciam arrastar as horas em câmera lenta. Meu corpo estava presente no galpão, como sempre — uniforme preto, agora com a nova logo que a desenhou atrás, rádio no cinto, tablet com os nomes dos apostadores na mão e dessa vez com mais de um sinal da polícia, eles não vão me enganar de novo. Mas minha cabeça estava a quilômetros dali.
Depois daquela noite com o , depois do beijo, depois de tudo... era como se um novo espaço tivesse se aberto entre nós. Não vazio. Um espaço cheio. Cheio de coisas não ditas, de sentimentos mal encaixados, de confissões que ainda doíam no peito.
E agora ele estava ali, parado na lateral do galpão, de braços cruzados, me observando com aquele olhar sério que ele achava que escondia bem. Mas eu já conhecia. não me encarava assim à toa.
Me aproximei, respirando fundo.
— Vai me vigiar de novo ou é só saudade?
Ele não respondeu de imediato. Soltou o ar devagar pelas narinas e me fez sinal para segui-lo. Passamos pelos fundos do galpão até uma área mais silenciosa, onde os carros aguardavam ajustes e o som da multidão virava só um ruído abafado.
— Preciso conversar com você — ele disse, firme.
— Isso nunca é bom sinal. — Cruzei os braços.
— É sério, .
Revirei os olhos, mas assenti. Ele coçou a nuca, nervoso. nervoso era raro. Aquilo já era o suficiente para me deixar em alerta.
— Fala logo.
— Quero que pare de trabalhar do lado das corridas.
Silêncio.
Por alguns segundos, achei que tinha escutado errado.
— O quê? — Comecei a rir — Você é engraçado, .
— Só por um tempo. As coisas tão instáveis, a polícia voltou a rondar, e…
— Ah, entendi — dei um passo pra trás, o coração acelerando com uma raiva que subia no peito. — Você quer me afastar. Você acha que eu sou frágil demais, é isso?
— Não foi isso que eu disse.
— Mas é o que você tá fazendo! — cuspi as palavras. — , eu não sou uma criança! Eu sei cuidar de mim, eu sei lidar com isso. Eu estou envolvida, eu trabalho aqui, eu ajudo! Agora que tá ficando difícil, você quer me tirar do jogo?
— Eu tô tentando te proteger, porra! — ele ergueu a voz, os olhos faiscando. — Você tem ideia do que pode acontecer se eles resolverem olhar de verdade pro lado de dentro? Se descobrirem quem é você, do que você tá fugindo?
Engoli em seco. Era disso que se tratava. Não era sobre as corridas. Era sobre mim. Sobre o que eu não contei. Sobre o que eu escondi até agora.
— Você acha que eu não pensei nisso todos os dias? Que eu não durmo com medo de ouvir passos na calçada ou uma batida na porta? Mas o que você quer que eu faça, ? Me esconda para sempre?
Ele passou a mão pelo rosto, frustrado, e então fez algo que me desmontou por dentro: abaixou a cabeça e quando ergueu os olhos estavam cheios de lágrimas.
— Eu só... — ele começou, mais baixo — eu só não sei o que eu faço se algo acontecer com você. Você entende isso?
Por um segundo, tudo em mim quis ceder. Ir até ele. Tocar. Dizer que sentia o mesmo. Mas outra parte... a parte cansada, ferida, em constante estado de alerta... ela falou mais alto.
— Eu entendo. Mas você não manda em mim. Nem no que eu escolho fazer com a minha vida. E se você não consegue aceitar isso, então talvez a gente não esteja no mesmo lugar.
Ele me olhou como se eu tivesse dado um soco no peito dele. E eu me odiei por isso. Mas também me odiei por todo o resto. Por ainda ter medo. Por confiar e duvidar ao mesmo tempo.
— Tudo bem — ele disse, depois de alguns segundos. — Mas só lembra de uma coisa, : se um dia você precisar fugir de novo eu vou ser o primeiro a correr atrás de você, então não tenta me manter longe, não testa a minha paciência e muito menos o que eu sinto por você.
Virei o rosto antes que ele visse meus olhos cheios d’água. E voltei para a multidão. Como se ainda tivesse forças pra fingir que aquilo não tinha me partido inteira.
O clima tinha mudado.
Não era só a tensão no galpão, o movimento mais nervoso dos corredores, o som das apostas que pareciam mais aceleradas. Era a .
Ela voltou do lado das corridas com o maxilar travado e os olhos fundos. Vi quando ela entrou pela porta dos fundos, largou o crachá da noite na bancada e foi direto para o banheiro, sem me olhar. Suspirei, largando o pano de limpeza atrás do balcão e virando para , que estava no canto amarrando os cadarços da bota. Ele me olhou, levantando uma sobrancelha.
— Ela tá estranha — comentei.
— Conta uma novidade, é estranha, minha filha — ele respondeu com um sorriso de canto.
— Não desse jeito — insisti. — Acho que foi alguma coisa com o .
— É. Ele voltou pro galpão igual um furacão — disse, se aproximando e encostando no balcão. — Era pra ele falar que ela não poderia mais participar das corridas…
— Vocês ficaram loucos? Isso acabaria com ela, ela já tem problemas demais e cabeça vazia é oficina para o diabo, já dizia minha avó, não dá para deixar ela atoa.
— Fique à vontade para falar isso pro . Eu tentei e recebi um rosnado de volta, um rosnado, você tem noção disso? — falou apavorado.
— Você acha que eles se fazem bem? — perguntei, depois de uns minutos em silêncio.
— Acho que ambos foram muito machucados no passado e agora não querem machucar um ao outro e também já estão enrolados demais para conseguirem se manter longe.
Não respondi. Apenas olhei em direção ao banheiro, onde ainda não tinha saído.
A água gelada do lavatório não parecia suficiente para esfriar o sangue quente que ainda pulsava no meu pescoço. As palavras do ecoavam na minha cabeça como tiros.
Terminei de limpar o rosto, respirei fundo e saí. Voltei ao lado da , fingindo o melhor que pude. Ela não insistiu. E por isso eu amava tanto essa garota. Sabia a hora de perguntar e, mais importante ainda, a hora de calar.

A madrugada se arrastou até que pudemos ir embora. e insistiram em nos levar até em casa, como sempre, e nós deixamos. A chuva fina que começou a cair no caminho parecia encobrir o silêncio que pairava entre mim e no carro.
Quando entrei no studio, tudo parecia igual. O cheiro leve de incenso de lavanda da ainda flutuava no ar. A mesinha de centro estava bagunçada com revistas e papéis de desenho. Mas tinha alguma coisa errada. Uma sensação. Um arrepio gelado subindo pelas costas.
Fechei a porta atrás de mim e caminhei lentamente até o balcão da cozinha. Foi então que vi. Um envelope. Branco. Sem nome. Sem selo. Apenas... ali.
— ? — chamei, a voz falhando.
— Oi? — ela saiu do quarto com um casaco nos braços, franzindo o cenho. — Que foi?
— Isso... tava aqui quando a gente saiu? — apontei.
Ela se aproximou devagar. Pegou o envelope com cuidado, virou-o nas mãos.
— Não que eu me lembre — respondeu, a voz agora também diferente.
Abri o papel com os dedos trêmulos. Dentro, uma única foto. Eu. Esperando no ponto de ônibus. De novo. Mesmo ângulo da outra vez. Mesmo olhar distraído no rosto. Uma legenda escrita à mão no verso, com uma caneta de tinta vermelha:
“Você continua linda, minha menina, e eu amo quando não percebe que está sendo observada.”
Meu estômago virou. olhou pra mim. Os olhos castanhos dela estavam arregalados, mas a voz firme.
— Caralho, que inferno de homem. O dia que ele morrer eu tenho certeza que o diabo vai mandar ele de volta com medo de ser substituído.
Não respondi e nem consegui rir da sua piada ruim, só consegui sentar no sofá com a foto no colo. O mundo parecia menor, apertado, claustrofóbico.
— Chama os meninos de volta, não podemos ficar aqui. Não posso te colocar em perigo. Mas que caralho, como ele entrou de novo?

O som do motor do carro ainda ecoava em mim, mesmo depois que paramos na garagem do loft. A noite parecia mais escura do que o normal, mesmo com as luzes da rua acesas. Meus dedos ainda tremiam levemente, e eu sabia que não era só adrenalina. Era outra coisa. Algo mais fundo. Mais antigo. A chuva piorou lá fora, os raios e trovões não davam descanso.
Richard estava perto. Mas eu não podia dizer isso em voz alta. Porque se eu dissesse… se eu admitisse… isso se tornava real demais.
— Você tá gelada — a voz de veio ao meu lado, baixa, quase um aviso.
Assenti, engolindo seco. Ele abriu a porta e estendeu a mão pra mim. Não hesitei em aceitar. Entramos no loft juntos. As luzes estavam apagadas, e por um instante, o silêncio me pareceu confortável. Seguro. trancou a porta com duas voltas e passou a mão no cabelo.
— Você não vai esconder mais nada de mim, certo? — ele disse, sem me olhar. A voz dele estava contida, mas eu conhecia aquele tom. Era raiva disfarçada de controle.
— Eu não escondi. Eu… só não queria envolver você.
— Você acha que eu já não estou envolvido, Sunshine?
A pergunta caiu como um golpe surdo no meio do peito.
— Eu só tenho medo — minha voz saiu mais fraca do que eu queria. — Eu sei o que Richard é capaz de fazer. E agora que ele sabe onde eu tô… você entende o que isso significa?
se aproximou, o maxilar travado.
— Significa que ele vai morrer antes de chegar perto de você de novo.
— Não fala isso! — rebati num sussurro desesperado. — Não pode ser você. Não por minha causa. Você… você tem que ficar fora disso. Você já se esconde de tanta coisa. Já perdeu tanto. Se ele te expuser…
— Que se foda — ele disse, sem hesitar. — Que se foda meu passado, . Você acha que eu me importo com um nome bonito na mídia? Com uma equipe que me odeia? Com meu rosto nos jornais?
— Mas sua família…
— Minha família me virou as costas no dia em que tudo aconteceu. Não me restou ninguém. Só você.
A força daquelas palavras me paralisou.
— Eu não posso te perder — ele disse, mais baixo agora, quase como se confessasse pra si mesmo. — E se isso significa virar o mundo de cabeça pra baixo, eu viro.
Fiquei em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, eu me permiti admitir o que eu sentia por . Porque amar alguém como ele… significava perder o controle. E eu sempre precisei ter o controle, mas, sim, de fato, eu amava o , mais do que qualquer outra pessoa.
— Agora que as coisas estão claras, eu percebo que, antes dos presentes chegarem, ele já entrou na casa — murmurei. — Tenho certeza. Algumas coisas mudavam de lugar. Vi minha escova virada ao contrário. Minha calcinha favorita sumiu. E depois apareceu de novo na gaveta errada. Pensei que fosse a , então não dei bola, mas agora…
O olhar de ficou negro.
— Filho da puta.
— Eu não queria te contar… porque eu sabia que você ia reagir assim.
— Como é que você queria que eu reagisse, porra? Quer que eu fique parado enquanto esse desgraçado entra na casa onde você dorme?
— Eu queria que você não morresse por minha causa — sussurrei. — Só isso.
respirou fundo. Passou a mão no rosto. Estava no limite.
— Eu vou resolver isso. Sem te perder. Sem perder ninguém. Mas você vai prometer que não vai esconder mais nada de mim, entendeu?
Assenti. Um nó na garganta.
— Agora vem cá. — Ele me puxou devagar e eu deitei em seu peito ouvindo o som do seu coração, sentindo as batidas dele acalmarem o meu.
A porta bateu devagar quando saiu.
Ele estava diferente. Tenso. Silencioso de um jeito que nem ele costumava ser. E a ... Deus, a não tava bem. Parecia que ela estava prestes a explodir. Ou sumir. E isso me dava um nó no estômago.
apareceu na cozinha sem camisa, com um copo de suco na mão, e se encostou no batente da porta como quem já sabia que algo estava errado.
— Eles brigaram? — ele perguntou.
Dei de ombros, sentada no sofá, puxando o cabelo pro lado e tentando soltar um pouco do calor acumulado.
— Acho que não, mas não dá pra ter certeza de nada vindo desses dois, né?
se aproximou e sentou do meu lado. Meus olhos foram direto para o suco, ele percebeu e estendeu o copo.
— Tá bom, toma — disse. — Mas você vai dividir o drama comigo.
— Drama? — arqueei a sobrancelha, pegando o copo. — Eu sou uma flor de leveza e equilíbrio emocional.
Ele riu, aquele riso curto e rouco, e apoiou um dos braços atrás de mim no encosto do sofá.
— Só que não — murmurou. — A verdade é que tá todo mundo fodido. Só estamos fingindo melhor do que ontem.
Bebi um gole e encostei a cabeça no ombro dele. Era confortável, quente, firme. E me dava a estranha sensação de que, por alguns segundos, o mundo podia parar de girar rápido demais.
— Você já viu a assim antes? — perguntei.
— Não desse jeito — ele respondeu. — Mas o ... quando ele se fecha desse jeito, é porque tá no limite. Ele é orgulhoso. E quando sente que tá perdendo o controle, vira um muro.
— E o que você faz com um muro?
— Você espera alguém construir uma porta. Eu dirigia que no meu caso, preferia explodir com uma bola igual a Miley Cyrus naquele clipe — soltei uma gargalhada — mas tratando-se do , é melhor esperar.
Ficamos em silêncio um tempo. Apenas aproveitando a presença um do outro.
— E você? — ele perguntou, a voz mais baixa. — Tá tudo bem com você?
Fechei os olhos.
— Não sei — respondi. — É como se, agora que a gente está finalmente vivendo... eu tivesse medo de estragar tudo. Tipo, se eu me abrir demais, você vai me achar fraca. Ou errada.
Ele virou o rosto pra mim e, com os dedos, levantou meu queixo pra que eu olhasse pra ele.
— , se tem uma coisa que você não é, é fraca. E se tiver alguma coisa errada em você, bom... então fodeu. Porque eu tô cada vez mais envolvido nessa sua loucura.
Ele passou o braço por cima de mim e me puxou pra mais perto. Meu rosto encostado na pele dele.
— Acha que eles vão ficar bem? — perguntei, mais pra mim mesma do que pra ele.
— Vão. Porque a é braba, mas tem um coração que não sabe desistir. E o ... — ele suspirou. — Ele vai até o inferno por ela, mesmo que nunca admita.
Fechei os olhos, ouvindo os batimentos dele.
— E você? Vai até onde por mim?
Ele beijou o topo da minha cabeça antes de responder.
— Onde você quiser que eu vá.
Capítulo 28 - Confissões sussurradas
I waited for a girl like you to come and save my life
All the days I waited for you
You know the ones who said I'd never find someone like you
'Cause you were out of my league
All the things I believed
You were just the right kind
Yeah, you were more than just a dream - Out of My League
All the days I waited for you
You know the ones who said I'd never find someone like you
'Cause you were out of my league
All the things I believed
You were just the right kind
Yeah, you were more than just a dream - Out of My League
Por alguns dias, tudo pareceu calmo demais. A polícia sumiu. O novo galpão funcionava como um santuário subterrâneo, escondido em algum ponto do mapa que só a gente sabia. As corridas voltaram, as lutas também. O dinheiro fluiu. A Migs e o Davi sorriram pela primeira vez em semanas. Até os apostadores pareciam mais animados — como se o perigo tivesse tornado tudo mais vivo.
Mas eu sabia. A calmaria, quando vem de repente, não é um presente. É um aviso. No papel, a vida estava boa. Eu e morávamos num lugar de verdade. O estúdio era simples, mas era nosso. E o melhor: distante de Kingman.
me levava e buscava quase todos os dias. Depois da noite da fuga, ele ficou ainda mais presente. Não tocamos mais no assunto. Nem no da polícia. Nem no do galpão. E muito menos no meu padrasto. Era como se ambos estivéssemos cansados demais para reviver os traumas. Ou talvez fosse só medo do que ainda poderia vir.
se jogava na exposição como se fosse a única coisa que importava. treinava como um louco, mesmo que não tivesse luta marcada. Os dois... bem, era visível. A coisa entre eles já passava dos flertes. Tinham se tornado parte um do outro — mesmo que fingissem que não.
E eu... eu fazia o que sempre fiz. Estava na lateral da pista, checando a ficha de apostas dos corredores, quando ouvi meu nome pelo rádio. estava me chamando, sempre me parecia um problema quando ele me chamava, mesmo quando não era. Preciso urgentemente ser menos desesperada.
— Sunshine, preciso de você aqui na área técnica. Agora.
Engoli em seco.
Desde que contei tudo pra ele sobre Richard, e desde que ele me contou tudo sobre o passado na F1, nossa relação ficou mais crua. Mais real. Ele me olhava diferente. Como se me enxergasse por dentro. E às vezes, isso me dava medo.

Atravessei a parte de trás do galpão e encontrei ele de pé, com as mãos cruzadas e os olhos fixos em mim.
— O que houve? — perguntei.
— Isso. — Ele apontou para o carro do Raven. Um detalhe no capô. Um adesivo colado com cuidado, preto sobre preto, quase imperceptível. Mas eu conhecia aquele símbolo.
Um corvo.
— Não fui eu — sussurrei, com o estômago gelando.
não respondeu. Só estendeu a mão com algo que havia tirado do banco do carro. Um envelope. Com o nome de escrito.
A mesma caligrafia. A mesma assinatura no canto.
Um presente para o namorado da minha filha. R.
Meu corpo inteiro ficou tenso. Os dedos formigando. O ar fugindo.
— Quando isso apareceu aqui? — perguntei, a voz falha.
— Hoje. Durante a última corrida. Eu cheguei tarde demais. Ninguém viu quando o desgraçado entrou ou saiu. — Ele passou a mão pelos cabelos presos em tranças novas, os olhos fixos em mim. — ... ele tá mais perto do que a gente pensava.
O som dos motores explodiu atrás de nós. Gritos, aplausos, música alta. Mas aqui, no canto mais escuro da área técnica, eu só ouvia meu coração batendo. se aproximou e segurou meu rosto entre as mãos, firme.
— Você não vai passar por isso sozinha. — Seu tom era grave. Cheio de uma fúria silenciosa. — Eu juro, ele não encosta mais em você.
Meus olhos se encheram d’água, mas pisquei forte, engolindo o medo.
— Não quero que ele destrua isso aqui. — Murmurei. — Nossa vida, vocês, o que a tá construindo…
— Ele não vai. — me puxou num abraço, o primeiro em dias. Forte. Protetor, como um escudo. Mas, mesmo assim, eu sentia. A calmaria tinha acabado. E o silêncio, agora, era só a respiração antes do grito.
Minha cabeça estava a mil. A exposição estava a menos de uma semana de acontecer. Minha primeira de verdade. Eu consegui a vaga na raça, mandei os desenhos, mas menti no currículo. Quando o e-mail de confirmação chegou, eu achei que fosse uma piada.
Mas não era. Era real. Eu ia exibir minha arte. Em público. Com meu nome. E isso me deixava feliz e apavorada na mesma medida.
dizia que eu era boa. Que meus traços pareciam vivos, obviamente não mostrei o que seria exposto, deixei ele ver apenas os descartados. Mas quando ele falava assim, com aquele olhar de quem me via inteira, eu não sabia se ele estava sendo sincero ou só encantado. E eu não podia me dar ao luxo de acreditar em promessas vazias.
Naquela noite, depois de ver a sumir pelos corredores com o , fiquei um tempo sozinha, sentada num canto da arquibancada improvisada do novo galpão, com o caderno no colo. Desenhava formas que não faziam sentido — sombras, traços borrados, expressões distorcidas.
Até que ouvi a voz dele atrás de mim.
— Deixa eu adivinhar... essa é a sua versão de relaxar?
. Revirei os olhos sem levantar a cabeça.
— Tem gente que relaxa quebrando o nariz dos outros. Eu prefiro lápis.
— Touché — ele riu, se sentando ao meu lado, o corpo ainda quente do treino. Usava só uma regata preta e a calça esportiva, os cabelos bagunçados. — Você vai me contar o que tá acontecendo?
Fechei o caderno devagar.
— Com a ?
— Com vocês duas. Vocês estão estranhas. Mais do que o normal.
Suspirei, olhando para o ringue vazio.
— A está assustada. Mas não quer falar sobre isso. E eu… tô tentando segurar o meu próprio mundo também. A exposição tá chegando, e quanto mais perto fica, mais parece que alguma coisa vai dar errado.
Ele virou de lado, com os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Você tem medo de ser boa?
— Não. Tenho medo de ser boa e ainda assim não ser suficiente.
ficou quieto por um momento. E então disse:
— Eu cresci ouvindo que para lutar não precisava muito, o talento bastava, quando meu pai começou a perder, o discurso mudou e lutar era sinônimo de fracasso. E aí ele foi embora. Sumiu. E eu fiquei. Lutando. Só que... cada vez que eu ganhava, eu me sentia mais próximo dele. E isso me dava nojo.
Virei o rosto devagar, surpresa com a sinceridade.
— Eu achava que você lutava porque gostava.
— Eu gosto, mas luto porque sou bom. E porque é o que eu sei fazer. Mas até hoje, mesmo quando eu ganho, tem uma parte de mim que espera ouvir ele dizendo que eu sou uma decepção.
Fiquei em silêncio. E então estendi a mão, tocando de leve os dedos dele.
— Eu gosto de te ver no ringue. Você tem muito mais que talento, , você se transforma lá dentro, e, pra mim, isso é ser artista também.
Ele me olhou como se não soubesse o que dizer. E, pela primeira vez, não tentou brincar com isso. Só aceitou.
Ficamos em silêncio por um tempo. Depois ele falou:
— Quero ir com você na exposição.
— Ainda nem tá pronta.
— Mas vai estar. E quando estiver, eu vou estar lá.
Sorri.
— A gente precisa cuidar da .
— Eu sei — ele respondeu. — E vamos. Mas você também precisa deixar alguém cuidar de você às vezes.
Ele entrelaçou os dedos nos meus, devagar. E naquele momento, tudo ficou em pausa, é incrível como o tem o poder de mudar meu mundo e meu humor, ele me tira do sério ao mesmo tempo que me faz rir, ele me deixa segura mesmo estando em alta velocidade em cima de uma moto, ele faz meu mundo se transformar apenas por estar nele e eu não sei viver mais longe disso.

Depois do treino, me convidou pra voltar com ele pro loft. Disse que estava cansado de comer miojo e que eu cozinhava melhor do que ele.
O loft estava do mesmo jeito de sempre: meio bagunçado, meio limpo, meio lar. Tinha cheiro de graxa e incenso, que eu dei de presente para os meninos para ver se diminuía o futum de macho, e uma playlist de rock alternativo rolava baixinho em alguma caixa de som. Eu gostava daquilo. De como era diferente de tudo que eu conhecia.
— Pode usar a cozinha — ele disse, jogando a toalha de treino no encosto do sofá. — Tem arroz, ovo e... é, arroz e ovo. — Dei risada enquanto abria a geladeira.
Preparei um Yakimeshi, arroz frito com ovos e alguns legumes que achei perdidos na geladeira, achou que era um super prato elaborado e eu que não queria destruir esse sonho dele. Sentamos no chão da sala com os pratos no colo, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Vocês não tem mesa? — perguntei.
— Temos. Ela também luta. Tá quebrada.
Eu ri. Ele parecia menos tenso do que antes. Mais , e menos o nome ecoado no ringue.
— Princesa — ele chamou, depois de um tempo em silêncio. — Posso te perguntar uma coisa?
— Só se não for idiota.
— Por que você não confia em mim?
A pergunta pegou de surpresa. O arroz ficou sem gosto por um segundo.
— Eu confio — menti.
— Não. Você... calcula. Toda resposta, toda aproximação. Você mede o que diz, como se cada palavra fosse uma moeda. E eu entendo, tá? Mas às vezes, parece que você tá esperando eu estragar tudo.
Engoli em seco.
— Não é você. É... a vida. As pessoas. Meus pais nunca acreditaram em mim. Nunca apoiaram o que eu queria. E agora, mesmo quando algo bom acontece, tipo a exposição, eu fico esperando o momento em que alguém vai dizer que é mentira. Que foi um engano. Que eu não pertenço.
Ele me olhou por um tempo. Depois apoiou o prato no chão e se aproximou, de joelhos.
— Você pertence. Aqui. Comigo. Com a . Com a porra da exposição. Você pertence porque você existe. E isso basta.
Aquela era a coisa mais bonita que alguém já tinha me dito. Me aproximei também, até nossas testas quase se tocarem. Senti o cheiro da pele dele, ainda quente do banho, e a respiração levemente acelerada.
— Se você quebrar meu coração, …
— Eu não vou quebrar.
O beijo veio devagar, sem pressa. Ambos sabíamos que não precisava ser urgente. Que a intensidade estava nas entrelinhas. Os dedos dele se prenderam nos meus cabelos, enquanto minhas mãos escorregaram pela nuca dele.
Ficamos ali, naquela sala bagunçada, dois sobreviventes tentando ser pessoas normais. Tentando encontrar amor num lugar onde a violência parecia mais fácil.
— Eu vou poder usar um terno na exposição? — perguntou depois de um tempo.
— Você tem um?
— Não. Mas agora tenho um bom motivo pra arranjar um.
Sorri, fechando os olhos.
Era isso. Pela primeira vez, eu estava deixando alguém ficar. E parecia disposto a não ir embora.
— Acho que eu amo você… — sussurrei baixinho, como se fosse um segredo e vi prender a respiração.
— Acho que eu amo você também, princesa. — Sorri, largando o prato para o lado e pulando no colo de , enchendo-o de beijos.
Capítulo 29 - Stay
I'm grateful for your existence
Faithful no matter the distance
You're the only girl I see
From the bottom of my heart, please, believe - All That Matters
Faithful no matter the distance
You're the only girl I see
From the bottom of my heart, please, believe - All That Matters
Quando entrei no loft, o cheiro de comida batida no óleo e perfume amadeirado me acertou como um soco gentil, estávamos passando as noites na casa dos meninos até nos sentirmos seguras novamente. veio atrás de mim, ainda com a expressão tensa da noite anterior, mas alguma coisa nele estava mais leve. Talvez porque tínhamos sobrevivido mais uma vez. Talvez porque eu ainda estava aqui.
e estavam jogados no sofá, os dois com os cabelos bagunçados e aquele brilho cúmplice no olhar, aposto meu rim que estavam se beijando loucamente. olhou pra mim com um sorriso de canto, e me lançou um olhar que dizia: depois te conto tudo.
— Boa noite, Tom e Jerry — disse, erguendo uma mão preguiçosa no ar. — Já que vocês demoraram, comemos quase tudo. Mas deixamos um copo d’água.
— Boa noite, Tico e Teco. Agradecida — murmurei, jogando a jaqueta numa das poltronas e chutando os sapatos.
— Eu fiz arroz com ovo, mas tinha pouco, tem lasanha, que eu me recuso a comer pois está naquele congelador desde que a gente veio neste loft a primeira vez — comentou — e o acha que é comida italiana.
— Ei, não fala assim da minha herança cultural de micro-ondas — ele rebateu.
Sentei ao lado da , estiquei as pernas sobre a mesinha de centro e respirei fundo. foi direto até a geladeira, pegou uma cerveja e voltou para se encostar na parede, braços cruzados.
— Vocês parecem... estranhamente bem — comentei, olhando de um para outro.
— Um dia sem pancadaria já conta como milagre — respondeu.
— E você, tá bem? — perguntou, mas os olhos se moveram para antes que eu respondesse. Senti o clima pesar por um instante.
— Tô. Cansada — dei de ombros, tentando parecer convincente. — E faminta.
— Eu ainda tô tentando entender como vocês dois sobrevivem comendo só proteína em pó e em barra — murmurou, se referindo aos dois machos alfa encostados pela casa.
— Precisamos manter esses corpinhos esculturais — respondeu, pela primeira vez, se juntando às provocações. — E porque ninguém sabe cozinhar.
— Mentiroso, lembra quando eu fiz aquele macarrão à carbonara?
— Como esquecer da noite que fomos parar no hospital com intoxicação alimentar, né ?
Eu e soltamos uma gargalhada.
— Incrível como sobreviveram tanto tempo sem a gente, né amiga? — me cutucou.
— Por isso o cérebro do é desse jeito, pensei que fossem as pancadas, mas os neurônios devem estar corroídos por falta de comida decente. — Soltei.
— Ei! Eu gostava mais de você quando seus ataques eram direcionados ao nosso amigo Dominic Toretto — falou ofendido.
— Cara, eu sou negro.
— Mas a é a Letty. — Ele se defendeu e se deu um tapa na testa.
Aquele tipo de noite era raro. Sem fugas. Sem apostas insanas. Sem correria. Era só a gente, como bons jovens curtindo a vida e tirando sarro um do outro.

A madrugada foi chegando devagar. Ficamos ali por horas, jogando conversa fora. Às vezes, era nesses momentos que eu percebia como os quatro estavam presos uns aos outros. Como, sem saber, a gente tinha virado família.
Eu encostei a cabeça no ombro da , e por alguns minutos, ninguém falou nada, e aquilo bastava.

— Você acha que eu deveria usar vermelho? — perguntei, puxando a blusa que mal cobria o quadril. — Ou isso grita "desesperada por atenção"?
me lançou um olhar por cima da borda do copo d’água.
— Isso grita "eu sei que sou gostosa". Vai fundo.
Dei uma risada curta. A exposição estava a dois dias de acontecer, e eu estava a centímetros de explodir por dentro. Era a minha chance. Talvez não de mudar o mundo, mas de mostrar que eu existia fora das sombras.
estava mais calada do que o normal. Depois do último "presente" — um envelope com fotos nossas em Bakersfield — ela passou a dormir com uma faca embaixo do travesseiro e trancar todas as janelas. A gente sabia que Richard estava por perto. E isso deixava todo mundo alerta. Mas nela aquilo corroía em silêncio.
— Ele vai errar uma vez — eu disse, enquanto organizava os panfletos. — E quando errar, a gente pega ele.
Ela assentiu, mas o olhar estava em outro lugar.
chegou à noite. veio logo depois. Juntos, pareciam dois soldados. Quando entraram no studio, o silêncio se quebrou num instante. Nós quatro, juntos, funcionamos de um jeito estranho. Como se já tivéssemos nascido no mesmo fôlego, mesmo tendo vindo de mundos completamente diferentes.
— Davi confirmou que vai reforçar a segurança nas próximas noites — avisou. — As câmeras estão posicionadas. Se o Richard aparecer de novo, não vai ser passando despercebido.
— E a polícia? — perguntei.
— Compramos uns caras — respondeu, jogando a chave da moto no balcão. — Mas tem limite. A gente não pode dar margem de novo.
estava no sofá, os joelhos encolhidos, mexendo no celular como se aquilo fosse mais seguro do que olhar pra gente. se aproximou devagar, tocou de leve o ombro dela. Vi quando ela se encolheu primeiro, mas depois relaxou. Havia algo entre eles agora. Mais do que atração. Algo que doía.
— Ainda não quero que vocês andem sozinhas — ele murmurou. — Principalmente depois da exposição da . Lugar fechado, cheio de gente, fácil de se infiltrar.
— Eu não vou deixar que ele estrague isso — respondi. — Eu não deixo ele roubar mais nada de nós.

Mais tarde, me ajudava a montar a base dos quadros no pequeno depósito da galeria onde exporia. O depósito da galeria era abafado, como se o ar ali não se renovasse há anos. Estava escuro, exceto por uma faixa de luz dourada que escapava da fresta da porta, cortando os lençois brancos que cobriam esculturas esquecidas.
cantarolava uma música do Justin Bieber, mas parecia agitado.
— O que foi? — perguntei.
— Nada. Só... você parece pronta pra ir embora a qualquer segundo. Como se ainda não acreditasse que pode pertencer aqui.
Fiquei muda por um instante.
— É que tudo o que eu quis na vida foi ser levada a sério. Mostrar o que eu faço, o que eu penso. E agora que eu posso… tenho medo que alguém tire isso de mim.
— Ninguém vai tirar nada de você, . Nem Richard, nem seus pais, nem você mesma.
Virei o rosto, mas ele já tinha me lido por inteiro. Como sempre fazia.
— Fica — ele pediu. — Fica aqui comigo. Na vida. No caos. No que der e vier.
— Isso foi um pedido de namoro, ? — Perguntei me aproximando e colocando as mãos em seu rosto.
— Só se você disser que sim, se não é pegadinha, mande para dois amigos e veja a reação deles — falou piscando um olho e eu gargalhei.
— Quero ver a cara do quando eu o pedir em namoro então. — abriu a boca, mas antes que pudesse responder eu o interrompi — Claro que eu aceito namorar com você. — me beijou com força, me empurrando para a parede do depósito.
— Isso vai ser interessante — murmurou quando eu prendi minhas pernas ao redor dele.
— Alguém pode nos ver — respondi sem fôlego. parou o beijo e se levantou.
Eu ouvi a porta se fechar atrás de mim. O som seco da tranca girando. Meu coração reagiu antes da minha cabeça.
— Você trancou? — perguntei sem olhar.
— Uhum — a voz do veio rouca, baixa, perto demais. — Tô cansado de fingir que não te olho como um maldito viciado.
Senti um calor subir pelas minhas coxas, como se minhas pernas tivessem memorizado o toque dele mesmo antes que ele me encostasse. Respirei fundo. A saia colava na minha pele. Maldito calor. Ou talvez fosse só ele.
Virei devagar, e ali estava ele. As mãos nos bolsos, os olhos cravados nos meus. De um jeito faminto. Tenso. Quase desesperado. E eu queria aquilo. Eu queria ser o gatilho que ele passava dias tentando não puxar.
— Você vai me beijar ou só me olhar como se quisesse me rasgar ao meio? — provoquei, já com a respiração falha.
Ele veio em um segundo. A parede me recebeu com um baque suave. As mãos dele na minha cintura, subindo rápido, com uma pressa que só aumenta quando se segura por tempo demais. A boca dele encontrou a minha tirando o gosto de qualquer outro nome, qualquer pensamento que não fosse ele. As mãos deslizaram pelas minhas costas até acharem a barra da camisa — e, em segundos, ela foi empurrada para cima, presa entre nós, deixando meu sutiã de renda preta à mostra.
— Essa saia vai me matar — ele murmurou contra meu pescoço, erguendo tecido com força até os meus quadris estarem livres, expostos. Eu senti o ar gelado e logo em seguida as mãos dele ali, firmes, quentes, desesperadas.
Me agarrei nos ombros dele, nas costas largas, sentindo cada músculo se mover contra mim. Não havia tempo pra delicadeza. Ele me virou, me curvou sutilmente contra uma das mesas de apoio do depósito, o tampo de madeira pressionando meus quadris.
— Fala se você não pensou nisso quando saiu de casa com essa saia — ele disse entre os dentes, os dedos já me deixando fora de mim.
— Eu pensei… — confessei, arfando — pensei no que você faria se eu provocasse até o ponto de te quebrar.
Ele riu baixo, rouco, animalesco. E quebrou.
Entrou em mim com força. Com fome. Me desfiz nas mãos dele, no ritmo frenético, no som abafado de nossos corpos colidindo, nos sussurros sujos que ele deixava escapar toda vez que eu gemia o nome dele. Era rápido, era quente, era brutalmente íntimo. Uma explosão contida entre caixas e quadros e lençois sujos de pó.
Capítulo 30 - Red Lights
Nobody else needs to know
Where we might go?
We could just run the red lights
We could just run the red lights - Red Lights
Where we might go?
We could just run the red lights
We could just run the red lights - Red Lights
Quando eu vi meu nome no cartaz pendurado do lado de fora da galeria, por um segundo, achei que fosse mentira.
“Red Lights – por ”
A exposição que nunca achei que teria coragem de montar. A mostra que contava a nossa história — minha e da — em traços, riscos, e tintas vermelhas como os semáforos que ignoramos na estrada pra liberdade.
parou ao meu lado e entrelaçou nossos dedos.
— É real — ele disse, como se pudesse ouvir o caos que meu coração fazia no peito.
A galeria ficava numa rua pequena de Willow Glen, charmosa e cheia de prédios baixos. O espaço tinha sido emprestado por um coletivo de artistas alternativos, e mesmo sem luxo, era perfeito. Branco, limpo, com trilha suave tocando ao fundo e luzes quentes iluminando as paredes cobertas com meus quadros.
Eu vi a parada perto de uma das peças. Usava um vestido preto de alça fina, o cabelo solto e os olhos marejados. O estava do lado dela, com uma das mãos nas costas dela, firme. Ele não dizia nada, só ficava ali, presente. Isso era tudo que ela precisava.
As pessoas começaram a entrar. Artistas locais, curiosos, amigos do coletivo. Depois Davi chegou, até mesmo Migs apareceu — e, claro, cumprimentou todos como se fosse o prefeito da cidade.
No centro da parede principal estava o quadro que deu nome à exposição.
"Red Lights" — um desenho das costas de duas garotas correndo pela estrada em direção a uma cidade distante, enquanto o céu atrás delas sangrava em vermelho.
se aproximou de mim, os olhos brilhando.
— Você contou tudo isso em imagens… — ela disse, baixinho. — E ninguém percebeu o quanto doeu.
— Era esse o ponto — respondi. — Mostrar que a dor também vira beleza.
— E virou. Está absolutamente incrível, ! — se aproximou ao lado dela, e mesmo sem dizer muito, assentiu com o olhar. A aprovação silenciosa dele sempre foi mais forte do que qualquer elogio.
Na parte lateral da galeria, havia uma série de quadros menores, em sequência, como uma linha do tempo:
“Kingman” — uma casa isolada no meio do deserto, com um vulto masculino atrás da janela.
“Barstow” — duas meninas em cima de um capô, assistindo o amanhecer com medo e esperança.
“San José” — as luzes do galpão e os olhos dos dois rapazes que mudariam tudo.
“He(art)” — em movimento, desenhado como se fosse feito de sombras e faíscas.
“Corrida contra o amor” — um carro preto com um corvo pintado em vermelho, com a silhueta de refletida na lataria.
— Isso aqui… — apontou, impressionado — parece pôster de filme. E eu sou muito gostoso, nossa! — Não pude conter a gargalhada e dei um tapa em seu braço.
— Não é? — provoquei. — Drama, tensão, fuga, segredos... só falta o final feliz.
Ele me puxou pela cintura, sem se importar com os olhares ao redor.
— Você vai ter seu final feliz, . Toda princesa termina sua história com "Felizes Para Sempre". — Selei nossas bocas com o beijo.

A exposição durou duas horas. Recebi elogios, perguntas, até propostas. Uma editora pequena se aproximou, dizendo que queria conversar sobre um livro. Mas o que mais me marcou foi ver os rostos deles — , , — olhando meus quadros com orgulho, fez tudo valer a pena.
— Você conseguiu, . — me abraçou no fim, e mesmo tremendo, não chorou. — A gente tá viva, por sua causa, porque você topou essa loucura comigo sem pensar duas vezes, porque você não deixou a gente desistir e segurou as pontas nas noites difíceis. Eu amo compartilhar a vida com você e eu amo você. Mesmo quando tudo parece desmoronar, você está do meu lado, segurando a minha mão, nos mantendo fortes e unidas, obrigada por ser a metade da minha laranja. — Não pude conter as lágrimas e chorei abraçando-a.
— Você é a pessoa mais importante do mundo pra mim, Eu te amo pra sempre! — Ficamos mais uns segundos abraçadas, tentando conter a emoção. Uau, era real! Eu consegui!
Quando a noite terminou, todos saímos de lá juntos. De mãos dadas, corações expostos, prontos para enfrentar o que viesse depois. Porque agora, o mundo sabia que existia. E eu não ia mais me esconder.

Quando chegamos no studio, eu ainda estava com o sapato de salto nas mãos e a alma meio fora do corpo.
jogou as chaves sobre a bancada da cozinha e se encostou ali, me olhando em silêncio. O ar do lugar ainda tinha o cheiro das velas baratas que usamos no banheiro. A janela deixava a luz da rua entrar em listras finas, cortando o escuro.
— Foi foda — ele disse. Simples assim.
— Foi, né? — respondi, jogando a sandália num canto e me espreguiçando. — Sabe quando seu corpo está exausto, mas a cabeça ainda tá girando?
— É adrenalina. Você viveu o seu próprio ringue de luta hoje.
Me aproximei, abracei sua cintura e encostei o rosto no peito dele.
— Achei que fosse desmaiar. Tinha uma hora ali que eu não sentia mais as pernas.
— Eu percebi. — Ele beijou o topo da minha cabeça. — Você ficava mexendo nos dedos da mão esquerda, igual faz quando tá tentando não chorar.
— Você repara em tudo, hein?
— Em você? Sempre.
Ficamos ali, abraçados, ouvindo os sons abafados da rua. A cidade finalmente parecia quieta.
— Você ainda quer lutar? — perguntei de repente.
Ele me olhou.
— Sempre.
— E se eu te disser que toda vez que você entra naquele ringue, eu sinto medo por você?
Ele sorriu de lado.
— Eu diria que é recíproco. Toda vez que você some com seu caderno e se isola do mundo, eu fico imaginando se está fugindo.
— Às vezes sim — murmurei. — Mas você entendeu, né?
— Que você me ama e tem medo de me perder? Entendi.
— Idiota. — Dei um empurrão leve nele. — Mas sim.
Ele me puxou de volta, colando nossas testas.
— Eu não vou a lugar nenhum, . E se eu for… você vai junto.
— Isso parece uma ameaça — sorri.
— É uma promessa. — E então me beijou.

Eu não dormi. A exposição foi linda. Eu me forcei a sorrir, a rir, a fingir que estava tudo bem. Mas, por dentro, alguma coisa não parava de me corroer. A caixa que chegou ontem. O laço vermelho. O bilhete sem assinatura. “Sente minha falta?”
Eu joguei fora antes que a visse. Mas não antes de sentir o gosto amargo da lembrança voltando com tudo. E o mais estranho: eu não contei pro . Pela primeira vez em semanas, eu guardei um segredo.
Ele saiu para a sacada, e eu o segui. Nos encostamos lado a lado, em silêncio.
— Você ficou linda hoje — ele disse depois de um tempo. — Não consegui parar de olhar. Na verdade, acho que você tem um tipo de feitiço, eu nunca consigo tirar os olhos de você, Sunshine. — Me virei para encará-lo de frente, a barba estava por fazer, a camisa social preta apertava os músculos e deixava a pele negra mais brilhante, o piercing no nariz brilhava com a luz da lua. Tão lindo.
— Não é justo. Eu não tô preparada pra carinho agora.
— Então me xinga, mas fica aqui.
Respirei fundo.
— , se o Richard voltar…
— Ele não vai encostar em você.
— Eu sei que você diz isso com convicção, mas… não é você que tem as cicatrizes.
Ele se virou para mim, os olhos escuros mais intensos do que deveriam ser.
— Então me mostra — ele sussurrou. — As que não estão na pele.
Engoli em seco.
— Eu tô com medo. E pela primeira vez, eu não quero correr. Eu quero ficar. Com você. Com a . Com essa vida que a gente criou no caos. Mas eu tô com medo de tudo isso ser arrancado de mim.
Ele passou o braço ao redor da minha cintura e me puxou contra o peito dele.
— Então se for, a gente arranca de volta. Com sangue, se for preciso.
Fiquei ali, sentindo a batida do coração dele.
E prometi a mim mesma: se o inferno vier bater na porta, nós vamos estar em chamas também.
Continua...
Nota da autora: Olá!! Vocês já devem me conhecer de outras histórias, mas se você não me conhece, eu sou a Maeve Hatter. Escrevo histórias desde os meus 11 anos de idade, mas de uns anos para cá decidi compartilhar com vocês o que se passa nessa cabecinha.
Após um tempinho parada, (5 anos, cof, cof) focada em terminar a universidade e tentando sobreviver até os 30 anos, decidi retornar ao mundo da escrita apresentando a vocês o meu novo filho: Red Lights.
Red Lights é sobre amor, fuga, liberdade e sobre se encontrar. Obviamente é sobre homens bonitos e que colocariam fogo no mundo por suas amadas também, assim, aqui vão algumas coisas que vocês vão encontrar nessa história:
★ Corridas clandestinas;
★ Lutas clandestinas;
★ Menção a abuso sexual e abuso sexual não explícito;
★ Cenas de sexo explícito;
★ Lutas corporais explícitas;
★ Mortes;
O livro é para maiores de 18 anos e tentarei tratar todos os assuntos com o máximo de seriedade, respeito e com muita pesquisa.
Não se preocupem com casais tóxicos, aqui, os personagens principais são completamente rendidos por suas parceiras e vise-versa.
Caso ajude na sua imaginação, é inspirado no Charles Leclerc e no Lewis Hamilton. Sim, eu sei, tudo de bom, né? As meninas também tem suas inspirações, é nossa diva Scarlett Rose Leithold e é a Bronova, ainda, temos playlist no Spotify e pastinha no Pinterest, para ajudar na fundamentação da história. Ufa! Falei demais, encontro vocês nas notas da autora e nos comentários, estarei sempre de olho. Beijinhos!
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Após um tempinho parada, (5 anos, cof, cof) focada em terminar a universidade e tentando sobreviver até os 30 anos, decidi retornar ao mundo da escrita apresentando a vocês o meu novo filho: Red Lights.
Red Lights é sobre amor, fuga, liberdade e sobre se encontrar. Obviamente é sobre homens bonitos e que colocariam fogo no mundo por suas amadas também, assim, aqui vão algumas coisas que vocês vão encontrar nessa história:
★ Corridas clandestinas;
★ Lutas clandestinas;
★ Menção a abuso sexual e abuso sexual não explícito;
★ Cenas de sexo explícito;
★ Lutas corporais explícitas;
★ Mortes;
O livro é para maiores de 18 anos e tentarei tratar todos os assuntos com o máximo de seriedade, respeito e com muita pesquisa.
Não se preocupem com casais tóxicos, aqui, os personagens principais são completamente rendidos por suas parceiras e vise-versa.
Caso ajude na sua imaginação, é inspirado no Charles Leclerc e no Lewis Hamilton. Sim, eu sei, tudo de bom, né? As meninas também tem suas inspirações, é nossa diva Scarlett Rose Leithold e é a Bronova, ainda, temos playlist no Spotify e pastinha no Pinterest, para ajudar na fundamentação da história. Ufa! Falei demais, encontro vocês nas notas da autora e nos comentários, estarei sempre de olho. Beijinhos!
