Finalizada em: 16/12/2025

Prólogo

- Exatamente! Você tem duas opções nesse caso. Você pode usar o “will” em “I will study tomorrow for my text”… - Grifei o escrito no quadro. — Ou você pode usar o “going to”, nesse caso você não necessariamente está trabalhando com o gerúndio, porque você já está colocando o verbo to be antes...
- Então é mais fácil usar o “will”, certo? — A japonesa perguntou.
- Pessoalmente, eu acho que sim, mas são duas opções válidas que vocês verão conforme a localização. — Andei pela sala, checando o relógio acima da porta. — O “will” é mais visto aqui na América do Norte. Canadá e Estados Unidos. Agora o “going to” é mais visto no Reino Unido. E como eu sempre digo...
- Você nunca sabe como vai receber a informação! — Meus seis alunos falaram, me fazendo rir.
- Exatamente! — Ri fracamente. — Vamos tirar uns 20 minutos de intervalo depois voltamos?
- Eba! — Eles falaram se levantando apressadamente e eu ri fracamente, vendo-os combinarem de ir na cafeteria da esquina.
Juntei os materiais acumulados em cima da mesa, vendo a lista de exercícios que eu passaria para eles logo depois e esperei todos os alunos saírem para ir logo atrás deles e puxar a porta. Passei pelos corredores da escola, dando um aceno de cabeça para os alunos e professores de outras salas e entrei na sala dos professores.
Fui direto até a cafeteira, pegando um copo de isopor e enchendo-o. Há quase um ano aqui, é a primeira vez que eu realmente pego o frio de fim de ano, e nunca soube lidar muito bem com isso nem quando estava no Brasil.
Coloquei duas colheres de açúcar e apoiei o quadril um pouco mais para a esquerda para dar espaço para outros professores se servirem. Tirei o celular do bolso, vendo algumas notificações e uma delas era o foguinho do Tinder e só puxei a notificação rapidamente para ver o que era e vi o tal do Eric que eu estava conversando há uns dois dias.
“Quer sair hoje à noite?”
Suspirei fundo. Apesar de estar solteira toda minha vida, eu não estava tão desesperada assim. Os papos eram entediantes e ele só sabia falar de carros, e eu não sou a mais expert no assunto. Bloqueei o celular de novo e voltei-o ao bolso.
- ...Não, Carly. Infelizmente não poderemos te ajudar... — Ouvi Vera na recepção logo ao meu lado. — Não, só trabalhamos com inglês mesmo, nosso trabalho é com estrangeiros...
- Ah, tem certeza? Seria para algo mais básico... Nada fora do comum. — A mulher na frente dela falava com um tom desapontado na voz.
- Sim, Carly. Somente inglês e francês...
- E tem algum lugar que vocês podem me indicar? — A mulher falou.
- Hum... Para italiano é complicado... — Vera disse suspirando. — Você precisa para uma turma particular, né?!
- Sim! Seria para minha chefe e para os outros membros da empresa, é algo meio urgente... — Vera suspirou, pensando.
- Eu posso perguntar aqui, mas não conheço ninguém que dá aulas de italiano por aqui... — Arregalei os olhos.
- Com licença? — Minha voz saiu mais rápida do que eu me mexer. — Desculpe me intrometer, mas vocês estão buscando professor de italiano?
- Sim, você conhece alguém, ? — Vera virou para mim.
- Sim, eu! — Falei rindo.
- Mesmo? — A tal da Carly falou empolgada.
- Sim! — Falei rindo. — Eu não sou fluente porque nunca fui para Itália, mas eu completei todos meus cursos e sou avançado...
- Ah, isso já é o suficiente! Seria para o básico, sabe? E algo mais específico, para reuniões e compreensão em alguns eventos e palestras... — Assenti com a cabeça.
- Nisso eu posso te ajudar, eu tenho material também...
- Perfeito! — A mulher me interrompeu. — Você pode me passar seu contato? Assim conversamos depois.
- Claro! — Peguei uma folha do bloquinho de Vera e anotei meu nome e o telefone. — Estou disponível após as seis.
- Perfeito! — Ela pegou. — Eu sou Carly, falando nisso. — Ela esticou a mão por entre a divisão de vidro.
- , mas todo mundo me chama de . — Apertei sua mão.
- Obrigada! Entrarei em contato. — Ela disse saindo animada, me fazendo rir.
- Nunca vi alguém tão animada por aprender italiano... — Brinquei com Vera que riu ao meu lado.
- Ela não está animada por aprender italiano, ela está animada por conseguir alguém para ensinar italiano aos chefes dela... — Vera riu negando com a cabeça.
- Você sabe do que se trata? — Perguntei.
- Ela é assistente de grandes executivos aqui, então é meio que O Diabo Veste Prada, não existe tarefa impossível...
- Entendi... — Falei, pressionando os lábios.
- Ah, , quando ela entrar em contato contigo, aproveita essa oportunidade, tá?
- Como assim? — Franzi a testa.
- Pode cobrar be-e-e-em caro. — Vera disse e franzi a testa. — Ela trabalha para família Stroll, eles são praticamente donos de Montréal. — Ela deu um sorriso, pegando o telefone que tocava.


Capítulo 1

- Obrigada! — Falei para o motorista quando desci do Uber e dei alguns passos para dentro da calçada.
Olhei para a grande estátua no centro da praça e o edifício logo atrás. Montréal não é conhecida por prédios incrivelmente altos como outras cidades, mas eles possuíam arquiteturas diferentes dentre si que era fácil diferenciá-los no horizonte.
Eu estava na frente do prédio que parecia um triângulo, ou uma caixa de leite se preferir, ele era inteiro espelhado e homens e mulheres com roupas sociais saíam do mesmo após o fim do expediente.
Dei uma olhada novamente para minha roupa e suspirei. Apesar do termômetro começar a atingir os 24 graus alguns dias agora no fim de abril, o fim do dia voltava a esfriar e esperava que eu não gelasse dentro desse blazer e blusa de manga comprida por baixo, além do jeans e do tênis sem cadarço.
Observei algumas mulheres saindo e fiquei feliz pelo mundo corporativo estar um pouco mais despojado. Ajeitei minha mochila nas costas e suspirei, entrando no prédio.
Se eu achava que o lado de fora estava caótico, dentro estava muito mais. Pessoas desciam dos diversos elevadores e a recepção à minha frente estava apinhada de pessoas. Me aproximei lentamente e olhei em volta, em busca de um homem engravatado, em sua maioria seguranças, para me dar uma informação.
- Madame? — Um deles me chamou e respirei fundo ao ser chamada pelo francês. Sei que Montréal tem sua dominância francesa, mas simplesmente não consigo gostar ou aprender a gostar dessa língua. Engoli em seco ao me aproximar com o cartão que Carly havia me entregue.
- Sportswear Holdings, s'il vous plaît? — Perguntei e ele deu um aceno com a cabeça.
- Décimo oitavo andar. — Ele falou em inglês. — Preciso de um documento, por favor. — Assenti com a cabeça e lhe entreguei meu passaporte, vendo-o anotar as informações na minha frente. — Olhe para a câmera, por favor. — Ele indicou a webcam e dei minha melhor cara de paisagem para entrar no registro de um dos prédios comerciais de Montréal. — Pronto, agora só seguir à direita. — Ele disse ao devolver meu passaporte.
Dei um aceno com a cabeça e segui para o local que ele disse, me espremendo entre as pessoas saindo do elevador para poder entrar antes que o mesmo fechasse e apertei o número 18. Pressionei os lábios com a tradicional música de elevador e ri sozinha até chegar ao andar.
O local estava bem mais vazio do que lá embaixo e uma mulher bonita estava na recepção repassando ligação atrás de ligação. Me movimentei para tentar me colocar na linha do olhar dela que anotava os recados no computador.
- Um minuto, por favor! — Ela disse de forma mais despojada e acenei com a cabeça, ouvindo-a mudar do inglês para o francês em algumas ligações, antes de abaixar o fone da cabeça e me dar completa atenção. — Pode falar.
- Eu tenho reunião com... — Chequei o papel novamente. — Claire Stroll. — Falei.
- Ah sim, , certo?
- Isso. — Dei um sorriso.
- Venha comigo, por favor. — Ela disse, se levantando e ouvi o telefone tocando.
- Você não vai...
- Não se preocupe. — Ela disse e assenti com a cabeça, andando com ela pela empresa.
O local cheirava empresarial, então vários computadores, salas grandes de reunião tomavam conta do andar, mas muitas estavam vazias pelo horário próximo às oito da noite. Não me preocupei com isso, somente segui a mulher que deveria ter minha idade.
- Com licença, Claire? — A mulher falou em inglês e fiquei relaxada, já que Carly me garantiu que dentro da empresa, eles falavam inglês, não francês.
- Sim... — A loira do lado de dentro falou.
- A professora de italiano.
- Ah, sim, pode deixá-la entrar! — Ela abanou a mão animada enquanto se levantava e a mulher deu um aceno para mim e entrei, vendo-a fechar a porta atrás de mim. — , que prazer te conhecer! — Ela disse animada e estiquei a mão, vendo-a fazer o mesmo.
- Olá, senhora Stroll, o prazer é meu! — Falei.
- Pode me chamar de Claire. Stroll é do meu ex-marido, não estamos mais juntos, mas é mais difícil tirar o sobrenome do que colocar. — Ela disse brincalhona e dei um aceno com a cabeça. — Pode se sentar, por favor.
- Nesse caso, pode me chamar de . — Falei e ela se sentou à minha frente.
- É realmente um prazer enorme te conhecer, . — Ela sorriu. — Acho que você quem vai salvar a minha vida...
- Eu só sou uma professora, senhora... — Falei rindo.
- Bem, pelo que eu vi sobre você, seu foco é ajudar os outros a realizarem os sonhos, certo? — Pressionei os lábios ao descobrir que ela havia pesquisado meu Instagram profissional.
- Sim... — Falei rindo.
- Bom, eu tenho um sonho a realizar e ele está na Itália. — Assenti com a cabeça. — Vou te dar uma explicação geral, . Eu tenho uma reunião na Itália em setembro, nossa marca está crescendo e vamos precisar de uma equipe lá. Nossa empresa não produz roupas, não fazemos desfiles, nem nada do tipo, mas trazemos marcas famosas para o Canadá e Estados Unidos. Nos tornamos uma distribuidora de confiança para empresas como Pierre Cardin, Ralph Lauren, Michael Kors e Tommy Hilfiger, agora empresas italianas como Versace, Dior, entre outras, querem que nossa empresa, ajude na divulgação da marca mundialmente... — Dei um aceno com a cabeça ao reconhecer as marcas. — E italianos são tradicionais, então falar italiano...
- É primordial. — Falei e ela deu um aceno com a cabeça.
- Exatamente. — Ela suspirou. — Nós temos um grupo de 12 pessoas, inclusive eu, que precisam destravar o italiano em quatro meses. É possível?
- Possível é, senhora, mas serão preciso várias horas de dedicação. — Falei e ela assentiu com a cabeça.
- Eu sei que você tem a escola e, também, dá aulas particulares, mas teria como nos encaixar? Dinheiro não é o problema, como Carly deve ter te dito. — Engoli em seco, sabendo que Carly já havia falado sobre isso comigo e respirei fundo.
Falamos de valores que realmente mudariam minha vida aqui no Canadá, mas eu teria que abrir mão dos meus precisos horários de folga pelos próximos quatro meses. Isso era algo que pesava na balança, já que eu praticamente só trabalhava, mas também poderia ser minha chance de finalmente investir na minha escola ou até realizar meu sonho de trabalhar na Itália.
- Eu tenho alguns horários disponíveis de quinta-feira à noite e sábado à tarde eu tenho livre. — Falei, minhas sextas-feiras acabavam para eu dedicar à preparação das aulas da semana seguinte e domingo é dia de não fazer nada.
- Para gente conseguir destravar em quatro meses, quanto tempo por dia você acha necessário? — Ela perguntou e suspirei.
- O ideal seria quatro horas, mas é impossível alguém ficar completamente focado por esse tempo, então sugiro cinco, com pausa para alguns intervalos. — Falei.
- E você aguenta cinco horas seguidas? Com 12 velhos com a cabeça de uma formiga? — Ri fracamente.
- Acredito que vocês falem francês também...
- A maioria. — Ela disse.
- O cérebro já está bem elástico, então. — Falei e ela confirmou com a cabeça.
- Eu preciso disso com urgência, , é possível? — Ela perguntou em um tom mais sério e assenti com a cabeça.
- Sim. — Falei. — Eu só preciso de uma semana para preparar o material.
- E o pagamento? Não quero que fique com vergonha de cobrar, . Sei sua média de valores, mas você trabalha com alunas particulares. Serão 12 alunos particulares ao mesmo tempo. Muitos bem mais velhos do que eu. — Engoli em seco, assentindo com a cabeça.
- Serão quatro meses? Cinco horas por semana? 12 pessoas? — Perguntei e ela assentiu com a cabeça.
- Exatamente. — Ela falou e tirei o celular da bolsa, abrindo a calculadora, digitando os números:
250 dólares a mensalidade por uma hora semanal. Cinco horas mensais. Quatro meses. 12 pessoas. 60 mil dólares. Engoli em seco. Eu tinha problemas com cobrar, era difícil falar que cobrava 250 dólares mensais para uma vez na semana, agora imagina falar esse número? Era alto demais, mas era literalmente o meu preço.
- E então? — Ela disse e olhei para ela, respirando fundo.
- É... 50 mil dólares... O valor completo pelos quatro meses. — Falei, sentindo a garganta doer ao falar isso e ela assentiu com a cabeça, pensando isso.
- Entendo... — Ela disse, se ajeitando na cadeira.
- Posso dar um desconto se...
- Não, não! — Ela disse. — É que não foi esse valor que a Carly me disse sobre você. Esperava por volta de uns 60 mil. — Ela disse e assenti com a cabeça.
- Sim, senhora, mas eu dou desconto para aulas em grupo. — Falei e ela confirmou com a cabeça.
- 10 mil é um belo desconto... — Ela disse em tom de deboche e pressionei os lábios. — Que tal fecharmos em 80 mil, ?
- Senhora? É mais do que meu preço. — Falei.
- É, eu sei, mas tem seu transporte para vir aqui todo sábado, o material que você vai comprar para gente, além de aguentar essa turma toda por quatro meses direto. Talvez eu devesse arredondar para 100 mil para você pagar uma terapeuta muito boa. — Ri fracamente de nervoso.
- Que isso, senhora. — Ela me olhou séria.
- Acredite em mim. — Ela disse suspirando. — O mundo corporativo é uma porcaria... — Ela negou com a cabeça e assenti com a cabeça casualmente. — Então, 100 mil?
- Não, senhora, não precisa de tudo isso...
- Tem uma cota sobrando nesse projeto, e prefiro gastar com alguém que valha a pena. — Ela disse.
- A senhora nem me conhece. — Falei.
- Brasileira, 29 anos, veio para o Canadá porque era um intercâmbio mais barato, acabou ficando ao ser contratada pela escola que veio estudar. Trabalha pela manhã e tarde lá, dá aulas particulares até tarde da noite e está de pé no dia seguinte para começar tudo de novo. E agora está aceitando perder seu sábado quase inteiro para dar aula para um bando de velhos que poderiam ter feito isso bem antes... — Ela disse. — Eu fucei no seu Instagram. — Ela disse e assenti com a cabeça. — Não te conheço, , mas sei identificar alguém que quer crescer na vida. Não custa nada eu te ajudar.
- Obrigada, senhora. — Falei.
- Meu ex-marido trabalha mais na parte de carros e afins, mas ele tem um programa para jovens talentos, acho que eu posso ter um também, e começar contigo. — Dei um pequeno sorriso.
- Me ajudaria muito, senhora, mas eu não posso aceitar... — Suspirei.
- É minha oferta, . É pegar ou largar! — Ela disse e dei um pequeno sorriso.

- CEM MIL DÓLARES, AMIGA! CEM MIL DOLARES EM QUATRO MESES! — Gritei a plenos pulmões enquanto saía da empresa com o botão no áudio do WhatsApp. — É 25 MIL DÓLARES POR MÊS, É MUITO MAIS DO QUE EU GANHO NA ESCOLA E NAS AULAS PARTICULARES. — Suspirei, relaxando os ombros, vendo que eu estava do lado da estátua estranha de novo. — Cem mil dólares, Ama. Eu vou conseguir montar minha escola. — Suspirei. — Pequenininha, claro, mas é um começo. — Soltei o botão.
Meu Deus!
Cem mil dólares!
Eu sabia que o trabalho não seria fácil, nunca dei aula para mais do que seis pessoas em uma sala, e em sua maioria são intercambistas muito empolgados com a nova língua ou brasileiros tentando melhorar aqui. Isso sem contar que seria minha primeira experiência como professora de italiano oficialmente.
Merda!
Eu tinha muito o que fazer até a próxima semana. O valor vai compensar, mas vai ser um trabalho bem pesado.
Olhei o horário no celular e era quase nove da noite. Eu não estava tão longe de casa, mas não queria pegar transporte público agora. Vim de Uber para não chegar suada e nem atrasada, mas eu iria pegar para voltar novamente, tinha que estar de pé as sete para ir para a escola.
Observei em volta, vendo diversos letreiros de fast food e fiz um uni duni tê mentalmente antes de ir na escolha mais óbvia: KFC. Peguei um balde pequeno com meu molho de mostarda e mel e Coca-Cola, e pensei por alguns segundos se levava para casa, mas o descarte de todo esse papelão me deixou com preguiça.
Me sentei em uma banqueta alta, devorando meu KFC com a mão direita, enquanto a esquerda tinha dificuldades em contar as novidades para meus pais no Brasil. Menos de 15 minutos depois, eu lambia a ponta dos dedos e limpava no guardanapo. Passei álcool nas mãos e chamei o Uber.
Entrei apressada em minha kitnet, tirando a roupa e fui para um banho quente. O tempo estava esfriando cada vez mais e eu somente com uma cacharréu e o blazer por cima. Esperei somente esquentar meu corpo e saí novamente, colocando meu pijama. Joguei as almofadas no chão e deitei entre as cobertas, encarando o verde do teto.
- Cem mil dólares... — Suspirei, deixando um sorriso se formar em meus lábios.

- Fica calma que vai dar certo, teacher! Você sempre fala que fica nervosa com novos alunos e se dá superbem com todos. Vai dar tudo certo. — Minha aluna Thaís falava pela chamada do Google Meet.
- Ah, tomara que esteja certa! — Falei rindo e ela sorriu. — Bom, Thaís, páginas 25 e 26 do workbook para semana que vem.
- Obrigada, teacher! Até quarta. — Ela disse e esperei que ela fechasse a ligação antes de fechar também.
Empurrei a cadeira rapidamente, abrindo a geladeira e peguei uma lasanha congelada e coloquei no micro-ondas. Aproveitei para tomar banho enquanto ela descongelava e esquentava. Saí do banheiro, vestindo a calça preta que eu comprei com o adiantamento de Claire e da Sportswear Holdings, e comi somente de sutiã à mesa, tomando cuidado para o molho quente não espirrar em meu corpo.
Joguei o pote no lixo e lavei os talheres antes de terminar de me arrumar. Diferente da reunião na semana passada, dessa vez eu coloquei uma camiseta branca com alguns desenhos discretos e minha jaqueta jeans. Escovei os dentes, fiz uma maquiagem bem discreta e coloquei os tênis. Peguei os dois sacos com materiais novos, colocando na mesa, juntei o notebook na mochila e tirei o celular da tomada.
A ansiedade me bateu mais uma vez enquanto eu pedia o Uber, mas respirei fundo. Já tinha passado por esses altos e baixos nesses cinco dias, mas o contrato já estava assinado, o salário de maio já estava na minha conta e Claire contava comigo.
Eu não a conhecia, dei uma pesquisada rapidamente pelo Wikipedia. Ela é belgo-canadense, estilista e dona de uma marca chamada Callens. Devido ao seu casamento com o bilionário canadense Lawrence Stroll, possui ações na empresa dele e hoje cuida da área de divulgação de marcas de roupas famosas. Já Lawrence cuida da parte de carros, inclusive possui até uma equipe de Fórmula Um. Quando falam que Lawrence é dono de Montréal, agora eu entendo o porquê.
Apesar de ambos serem divorciados, aparentemente eles possuem uma boa relação. Talvez pela holding, os dois filhos, ou só sabem viver em harmonia como deveria ser com qualquer casal. Uma rápida pesquisada nos links do Wikipedia, descobri que seu filho é piloto e sua filha uma aspirante a cantora. Acho que não encontraria um professor de inglês na família Stroll.
Desci do Uber e segui para a recepção, lá peguei meu crachá de visitante e fui até o elevador. A empresa não estava totalmente vazia, mas poucas pessoas ocupavam as salas de reunião. Uma recepcionista diferente me guiou até a sala e engoli em seco quando vi a sala com vários engravatados lá dentro. Apertei as mãos nos materiais e respirei fundo quando ela guiou a porta aberta.
- Ciao... — Falei tímida, rindo em seguida.
- Ciao! — Claire disse animada, se levantando do outro lado da mesa. — Reservei a ponta da mesa para você! — Ela indicou o canto em que eu já estava e assenti com a cabeça.
- Obrigada. — Deixei minhas coisas na ponta da mesa, tentando manter um sorriso rosto.
- Precisa de alguma ajuda? — Ela perguntou mais baixo quando se aproximou.
- Não, não, só organizar e já começo. — Sorri e ela assentiu com a cabeça, voltando para seu lugar.
Tirei o notebook da mochila, liguei-o e tirei os livros e os kits de lápis e caderno que eu fiz com o nome da minha escola. Não podia perder a oportunidade de fazer divulgação para pessoas com um pouco mais de dinheiro, né?! Vai que...
Ergui meus olhos para os presentes e suspirei. Tinham 12 pessoas ali. Nove deles eram homens, três mulheres, e a faixa etária da maioria deve passar de 50 anos. Tinha somente uma mulher que deveria regular comigo e era a única que sorria junto de Claire.
Sempre falei que queria uma turma de idosos, mas eu imaginava algo como o grupo de velinhas da igreja que eu frequentava no Brasil, não vários ricaços de uma empresa que manda em Montréal.
- Buongiorno, mi chiamo e sono la tua insegnante! — Falei, me colocando na frente do pessoal. — Eu sou , e eu fui convidada pela Claire para ensinar italiano para vocês. — Tentei manter um sorriso amigável. — Nós temos quatro meses para aprender entre o básico e o intermediário, além de deixá-los confortável com o idioma para que possam se comunicar livremente. — Alguns assentiram com a cabeça. — Para quem fala o inglês, ele pode ser um pouco diferente, mas estamos em Montréal, então creio que a maioria de vocês já fala dois idiomas, um terceiro vai ser fácil... — Alguns riram, me fazendo sorrir. — Ok, vamos lá, eu gostaria de saber o nome de todos e, se possível, o que fazem aqui na empresa, para gente fazer amizade. Que tal? Começando por “mi chiamo...” e dizendo seu nome.
Essa pergunta não agradou a maioria dos homens, mas todos se apresentaram entre pronúncias boas e ruins, mas não era o foco agora, então só deixei rolar. Começar é difícil, especialmente quando a maioria não parecia estar animada em passar cinco horas do seu sábado comigo.
- Muito bom! — Sorri. — Eu me chamo , podem me chamar de , e estarei com vocês nessa jornada. Vou distribuir os materiais que foi pensado com o foco mais empresarial, ele é de vocês e espero que abusem bastante dele.
Peguei os materiais, dando a volta na larga mesa, deixando um na frente de cada pessoa antes de voltar para meu lugar. Conectei o notebook no data show e abri a apresentação em Power Point, não costumo trabalhar assim, é com as mensagens do chat do Google Meet ou um quadro branco, mas achei que fosse melhor para mostrar para eles.
Quando virei para eles novamente, as caras não eram mais animadas, então só respirei fundo.
- Andiamo? — Falei, vendo o sorriso de Claire e foi nisso que foquei.

- Ah, Ama, você sabe que eu não estou acostumada com isso, né?! — Ela riu comigo.
- Eu fico imaginando sua cara, deve ter sido a pior coisa de todas...
- Foram cinco horas, Ama! — Suspirei. — Você não tem noção! Tiveram cinco pessoas que interagiram! Cinco! — Tombei a cabeça para trás.
- Ah, mas vai ver foi só a primeira vez, ... — Ela disse. — Como você mesma diz: começar é difícil...
- Difícil, não impossível! Eu estou acostumada com pessoas que querem aprender um idioma, agora eu estou com dois, talvez três verdadeiros interessados...
- Você está indo para lá agora, certo? — Ela perguntou.
- Sim, acabei de descer do ônibus. — Suspirei, olhando para o prédio. — Respirando fundo antes de voltar para sofrência. — Ela gargalhou alto.
- Ah, miga, só você! — Ela riu.
- Ai, foi péssimo, de verdade...
- Então pensa nos cem mil, miga! Cem mil dólares! Sua escola, sua chance de nunca mais voltar para o Brasil...
- Você sabe que eu não penso assim...
- Eu sei, eu sei, você ainda gosta dessa terra de sofredores... — Ri fracamente.
- Eu gosto... — Suspirei. — Só apareceu a oportunidade...
- Eu sei, também sinto sua falta! — Rimos juntos e chequei o relógio.
- Também sinto, miga... — Suspirei. — Chegou minha hora. Te mando mensagem mais tarde.
- Combinado, miga! Boa sorte! — Ri fracamente.
- Obrigada! Manda um abraço para o Edu.
- OUTRO! — O namorado dela gritou, me fazendo rir.
- Ah, no viva-voz de novo! — Falei rindo. — Tchau!
- TCHAU! — Duas vozes falaram em tons diferentes, me fazendo rir antes de desligar.
Guardei o celular antes de entrar na empresa e foi fácil passar pela segurança agora. Fiz o mesmo caminho das outras duas vezes até estar perto da sala envidraçada novamente, entrando devagar pela porta.
- Buongiorno! — Falei.
- Buongiorno! — Alguns responderam e me coloquei na ponta da mesa, deixando minha mochila e contei nove pessoas ali hoje. — Estamos com alguns atrasos? — Perguntei.
- Alguns... — Claire disse claramente incomodada com isso.
- Bom, eu vou devolver a lição de casa enquanto eles não chegam. — Falei, pegando minha pasta e tirando as folhas soltas. — Para uma primeira aula, gostei que vocês foram muito bem. — Atravessei a sala, distribuindo as tarefas de casa, passando por Claire. — Parabéns! — Falei, vendo-a sorrir e voltei para meu lugar. — Eu vou abrindo as coisas aqui, enquanto eles chegam.
Eu devo dizer que demorei o dobro do tempo para abrir o Power Point e me preparar para a aula, mas pela cara de Claire, eles não iam aparecer, então quando finalizei tudo, eu me virei para eles.
- Bom, vamos começar? — Falei e Claire abriu o livro com calma.

- Péssimo?
- TERRÍVEL! — Falei dramática. — Tiveram três pessoas na última aula, Ama! TRÊS! É a quinta aula! Está ficando ridículo! Eu sinto uma idiota ali na frente.
- Acho que não tem problema, a Claire fez um acordo contigo, ela não vai dar para trás.
- Eu estou com medo de ela desistir! Ela não vai ficar pagando cem mil à toa, Ama. E eu não acho que seja só uma “reunião de negócios” ou viagem para sei lá onde... Isso está ridículo.
- Ah, miga, pior que eu nem sei o que te dizer... — Suspirei, encarando a empresa.
- Hoje é o começo do segundo mês, é para eles me pagarem na segunda-feira, eu tenho planos, eu...
- RELAXA, MULHER! — Ama gritou, me fazendo suspirar. — Olha a ansiedade falando de novo. Relaxa! — Suspirei. — Entra naquela empresa, peito estufado e ensine esses velhos a parlare l’italiano! — Ela forçou o sotaque, me fazendo rir. — Ninguém te falou nada ainda, . Lida um dia de cada vez, você fica nervosa com coisas que não pode controlar.
- Por isso que eu fico nervosa, se fossem coisas que eu pudesse controlar, eu não ficaria assim... — Ela ficou em silêncio por um tempo.
- Bom ponto! — Rimos juntos.
- Está quase na hora, Ama. A gente se fala mais tarde, ok?!
- Eu estarei aqui. — Ela disse ainda.
- Beijo, Edu! — Falei.
- Beijo-o-o-o! — Ele disse, me fazendo rir e desliguei o celular.
Respirei fundo, tombando a cabeça para trás e segui para dentro do prédio. Tentei manter um sorriso no rosto, mas por dentro eu sentia que estava borbulhando, talvez fossem gases, mas não podia pensar nisso agora.
Acenei para a recepcionista, seguindo o caminho de sempre e nem me surpreendi quando encontrei Claire sozinha na sala, na ponta da mesa. Engoli em seco e entrei devagar.
- Buongiorno, Claire...
- Ciao... — Ela disse desanimada.
- Acho que não deu certo, né?! — Me aproximei dela, puxando a cadeira ao seu lado.
- Pelo visto eu fui empolgada demais com isso... — Ela disse.
- Sinto muito, Claire. Estou acostumada com isso, até quando as pessoas querem, elas desistem pelos mais variados motivos, imagina sem querer... — Ela suspirou.
- Eu odeio isso! Eu nunca pedi nada, eles não podiam ter feito um favor para mim? — Notei sua voz mais irritada e Claire tinha uma figura tão calma que era difícil imaginar ela irritada.
- Sinto muito... — Suspirei, sabendo que as próximas palavras me ferrariam, mas o que é certo, é certo. — Se você quiser rescindir o contrato, podemos...
- NÃO! — Ela falou rapidamente. — Não, não! Nada de rescindir, eu ainda preciso de você. Eles podem não me ajudar, mas eu preciso disso! Eu não vou deixar meu sonho morrer por um bando de velhos. — Ri fracamente.
- Feliz que está animada. — Falei e ela assentiu com a cabeça.
- Creio que a gente só precise mudar nossa tática... — Ela ponderou com a cabeça.
- Claro, o que ficar melhor para você, alguma ideia? — Perguntei e ela deu um curto sorriso.
- Acho que tenho algumas. — Ela disse, me fazendo sorrir com ela.


Capítulo 2

- Tem certeza de que é aqui? — O motorista do Uber perguntou e olhei pela janela.
- Creio que sim... Por quê? — Perguntei.
- Hum... Essa é a casa do Lawrence Stroll... — Ele disse e pressionei os lábios.
- É aqui mesmo. — Suspirei. — Obrigada!
- De nada. — Ele disse rindo e empurrei a porta do carro, ajeitando minha mochila nas costas.
Realmente, entendia a surpresa do cara, quem iria na casa do cara mais rico de Montréal, né?! Pois é! Creio que a separação de Claire e de Lawrence era a mais saudável que eu vi em toda minha vida, eles ainda moram na mesma casa, apesar de ele ficar longe boa parte do ano, e parecem possuir uma relação de respeito. Ao menos nunca ouvi Claire falar mal dele na minha frente.
Depois do primeiro mês de aulas completamente fracassado, Claire decidiu mudar as aulas para casa dela. Ela ainda quer continuar com as aulas, meu pagamento será exatamente o mesmo, ela só pediu se podemos fazer na sua casa, para que nós duas possamos ter conforto.
Confesso que até prefiro, é mais perto de casa do que o lado corporativo de Montréal, mas não esperava ser uma mansão enorme como essa, com grandes e lindos portões de ferro, que de fora parece que era só uma casa normal.
Me aproximei da campainha, respirando fundo antes de apertá-la. Esperei alguns segundos, olhando para o céu azul. Maio estava começando um pouco mais quente e eu agradecia, estava cansada do frio desse país. Às vezes eu penso se não deveria ter ido para Austrália, mas não podia negar que o Canadá estava me dando boas opções.
- Quem é? — Ouvi uma voz masculina.
- , vim a pedido de Cla…
- Pode entrar! — Disse e o portão duplo se abriu, me deixando surpresa.
Entrei assim que tive espaço o suficiente para uma pessoa passar e segui pelo caminho. Passei pela entrada curva de carros até ver a mansão aparecer em minha frente. Ela é branca com os telhados cinza, chama bastante atenção, devo dizer. A rua seguiu para a direita, mas um homem me esperava em uma porta.
- Seja bem-vinda, senhorita .
- Oi! — Me aproximei.
- Eu sou Sebastien, responsável pela casa e criadagem... — Assenti com a cabeça.
- Prazer, eu sou . — Dei um sorriso e o homem confirmou mais uma vez.
- Venha, senhora Claire já está te esperando. — Ele indicou e entrei, notando que estava entrando em uma cozinha. Tudo era claro, com granitos brancos e decoração discreta. Eu gostava de inventar um pouco na cozinha, então aquele local era incrível para mim. — Venha, por favor. — Sebastien disse e o segui.
Saímos da cozinha, descendo alguns degraus e passamos por uma sala de jantar ligada à cozinha e por outros cômodos menores. Tudo era muito claro e bonito, eu estava evitando não parecer surpresa demais.
Descemos mais algumas escadas e chegamos num largo hall com uma sala à frente, uma longa escadaria à esquerda e portas de vidro incrivelmente limpas do lado direito. Notei que havia entrado pela lateral da casa. Talvez a entrada de serviços mesmo.
- A Claire logo estará aqui. Fique à vontade. — Ele disse e assenti com a cabeça.
- Obrigada. — Ele disse, se retirando por baixo da escadaria e dei uma olhada em volta. O pé direito deveria ter uns cinco metros de altura, tudo era muito claro, eu me sentia minúscula aqui, mas não tinha um quê de coisa chique, só grande demais mesmo.
Ouvi um latido fino e virei o rosto, vendo o que parecia ser um filhote um pouco maior de Golden, descer as escadas todo atrapalhado, soltando vários latidos.
- Ah, que coisa linda que você é! — Ele veio direto em meu pé, fazendo seu latido fino ecoar na sala vazia e começou a cheirar os cadarços do meu tênis. — Oi, sua coisa fofa. — Me abaixei, deixando-o me cheirar antes de afagar os pelos brancos deles.
- , não! — Ergui as mãos, vendo Claire na minha frente. — Ela é pequena, mas ela morde forte.
- Opa! — Olhei para a bolinha de pelos que insistia em me cheirar. — Ela não parece querer me morder.
- Ah, ela é chata, , se você soubesse. Ela me morde, se quer saber.
A bolinha de pelos continuou cheirando meu All-Star até começar a brincar de cabo de guerra com meu cadarço, continuando a soltar finos latidos, como se meus sapatos fossem atacá-la.
- Ela não parece perigosa, Claire. — Disse, me atrevendo a acariciar a cabeça da cachorra de novo, vendo-a se assustar.
- ... — Claire me avisou e desci o carinho para o pescoço dela, vendo-a começar a se aninhar em mim.
- Acho que ela gosta de mim, Claire! — Falei rindo, parando o carinho segundos depois, ouvindo a cachorrinha latir agora por eu ter parado de fazer carinho. — Ah, folgada, agora gostou?
- Isso é realmente estranho, . — Claire desceu as escadas. — Ela odeia mulheres no geral.
- Talvez ela saiba de algo que eu não sabia. — Rimos juntas e Claire me deu dois beijos.
- Essa é a Kenya, meu filho deu ela para sua ex-namorada, quando eles terminaram, ele ficou com ela, então ela não gosta de nenhuma mulher, só da Sarah. — Ela disse e imaginei que Sarah fosse a ex-namorada de seu filho.
- Bom, ao menos ela não parece querer me matar. — Falei rindo.
- Talvez seja um bom sinal. — Ela disse e ri fracamente.
- Ela é filhotinha ainda, para que tanto ódio no coração? — Brinquei, sentindo Kenya ainda me cheirar.
- Ela não é filhote, ela é só pequena mesmo. Tem uns três anos. Meu filho e a Sarah terminaram tem um ano, mais ou menos. Como ele viaja muito, ela fica aqui me enchendo o saco. — Claire disse rindo. — Olhe! — Ela indicou os dedos com marcas de dente.
- Kenya? — Ela assentiu com a cabeça. — Se ela não desmontar meu apartamento, posso cuidar dela, se quiser. — Falei.
- Não brinca que eu aceito. — Claire disse, me fazendo rir. — Bom, vamos?
- Claro! Vim preparada, trouxe várias coisas extras para gente trabalhar um pouco mais de conversação. — Falei.
- Ah, perfeito! — Ela disse. — Vamos aqui na sala... — Ela indicou a sala à frente. — Já deixei minhas coisas aqui embaixo, podemos pegar mais claridade do sol.
Segui com ela até a outra sala e tinha uma mesa redonda com umas oito cadeiras, e atrás tinha uma sala de TV com três sofás que pareciam ser muito confortáveis. Tudo mantendo as cores pastéis de branco e bege.
- Fique à vontade. — Ela disse e apoiei minha mochila na mesa, tirando os materiais.
- Como será somente nós duas, não trouxe o note. Podemos fazer algo mais dinâmico.
- O que achar melhor. — Ela disse e tirei os materiais, meu estojo e a pasta com a tarefa dela.
- Vamos começar na tarefa, notei que você ainda está com um pouco de dúvidas na conjugação do futuro no plural. — Abri a pasta, tirando as tarefas dela rabiscadas.
- Muita dificuldade, pelo jeito. — Lhe entreguei.
- Isso é normal, você está tentando absorver muita coisa em pouco tempo, é normal essas confusões. — Peguei outra folha. — Trouxe textos para gente trabalhar, e um livro, se te interessar.
- Ah, eu adoro O Pequeno Príncipe. — Ela disse.
- Imaginei que já tivesse lido, por isso talvez a leitura seja mais fácil para você. — Lhe empurrei o livro usado que tinha achado na Biblioteca Municipal de Montréal.
- Obrigado, vai ser ótimo! — Ela disse.
- Vamos dar uma repassada? — Perguntei.
- Vamos lá! — Ela disse, abrindo seu caderno.

- Ai, minha cabeça dói! — Ela disse e ri.
- Ah, Claire... — Parei a caneta antes de erguer o rosto para ela. — Você não tem noção como está sendo guerreira nisso tudo...
- Por que diz isso? — Ela perguntou.
- Porque você está tentando aprender um conteúdo de pelo menos dois anos, em um período de quatro meses. — Falei. — Os alunos dificilmente fazem cinco aulas semanais, quiçá mensais. — Adicionei um pouco de drama na voz. — Você está sendo uma verdadeira guerreira...
- Não é você que diz ajudar a realizar os sonhos?
- Exato! — Dei um curto sorriso. — Você está se esforçando para realizar seus sonhos, fazendo sacrifícios e dificuldades... — Dei de ombros. — E tem ido muito bem com isso... — Lhe estiquei o papel em que corrigia. — Parabéns. — Ela sorriu ao ver o número 10 no papel.
- Ao menos algumas coisas valem à pena. — Ela disse e sorri.
- Exatamente. — Estiquei a mão para ela na mesa. — Vai valer à pena, Claire. Tudo dá certo no final.
- Que você esteja certa. — Sorri.
- Eu não sou a melhor professora do mundo, mas eu sei das dificuldades que eu tive para aprender, então poder passar essas dificuldades para os outros e inspirar eles, é demais!
- Você é uma brasileira, que fala português, morando em um país que fala inglês e francês, dando aula de italiano... Você é meu deus, ... — Ri.
- Não se esqueça que não falo francês. — Disse.
- Ainda... — Ela disse e ri fracamente.
- Talvez eu nunca aprenda essa, eu não consigo gostar...
- Meu filho também não, acredita? E nascido e criado aqui! — Ri fracamente.
- Eu provavelmente vou gostar dele. — Rimos juntas.
- Falando nisso, que horas são? — Cheguei meu relógio.
- Três e quarenta e cinco. — Falei.
- Ah, meu Deus. Podemos fazer um intervalo? Está na hora da classificatória...
- Hum... Claro! — Não entendi muito, mas estava na casa dela, ela que mandava.
- Sebastien! — Ela chamou o homem que me atendeu anteriormente.
- Sim, senhora. — Ele apareceu rápido.
- Poderia providenciar um café para mim e para a , por favor? — Ela pediu fofa.
- Claro, senhora. Em alguns minutos. — Ele disse. — Ligo a TV para ver o senhor Lance?
- Eu cuido disso, não se preocupe. — Ela disse e ele assentiu com a cabeça.
- Bom, , você vai conhecer meu filho agora. — Ela disse animada. — Metaforicamente, é claro. — Assenti com a cabeça. — Venha, vamos na televisão um pouco. — Ela disse já se levantando e deixei meus materiais à mesa para segui-la. — Fique à vontade.
Ela começou a ligar a grande televisão e se sentou no sofá bege, colocando os pés para cima. Ela procurou o canal de esportes e logo identifiquei a Fórmula Um. Eu não sou a mais conhecedora de Fórmula Um, mas agora eu entendi a classificatória que ela disse. A que definia o grid da corrida de amanhã.
Me sentei no outro sofá, somente cruzando as pernas e observei a televisão. Agora tudo ficou claro! Todas as informações que procurei sobre a família finalmente fizeram sentido. Lawrence Stroll é dono de uma equipe de Fórmula Um e seu filho mais novo, Lance, é piloto da equipe. E eu dou aula para mãe dele! Que louco!
- Ah, ele aí! — Claire disse como a verdadeira mãe orgulhosa.
Olhei para a televisão e uau! O filho dela é realmente bonito! A foto do Wikipedia com certeza está desatualizada. Os cabelos escuros e as grossas sobrancelhas faziam sua pele clara se destacar mais. Os lábios finos e fechados, junto do seu semblante sério, deixavam-no bem gat...
- Você acompanha Fórmula Um, ?
- Oi?! — Virei rapidamente para Claire.
- Fórmula Um, você acompanha?
- Ah, não! — Olhei para a TV, vendo que a imagem mudou para o circuito. — Meu pai e avô assistem, mas confesso que não presto muito atenção... Seu filho corre?
- Ah, o Larry é fogo, viu?! Ele sempre foi ligado em corridas e carros desde que namorávamos. Quando o Lance nasceu, ele logo foi colocando o menino em corridas, equipes juniores, até que ele decidiu começar a investir em equipes, primeiro com a Williams, depois a Force India, até que veio a oportunidade com a Aston Martin e ele como CEO... — Uau. — E o Lance adora...
- Há quanto tempo na F1? — Perguntei.
- Desde 2017, ele recebe muitas críticas, sabe? Dizem que só pilota porque o Larry é dono da equipe, mas ele tem melhorado bastante, poxa... — Ela disse com um verdadeiro aperto no peito. — E tem tudo para o carro ficar melhor ainda ano que vem, estamos esperançosos que venha ao menos uma vitória...
- Ele não ganhou ainda? — Perguntei, tentando tomar cuidado com as palavras.
- Ainda não, mas já tem pole, pódio, estamos esperançosas pela vitória.
- Legal! Então mesmo que digam alguma coisa, ele tem as glórias dele. — Dei um curto sorriso e ela assentiu com a cabeça, em agradecimento. — E ele está em terceiro! — Indiquei a televisão.
- Ah, é só o começo, tem tempo, ele precisa ficar ao menos entre os 10 primeiros. — Ela disse.
- Com licença... — Sebastien apareceu com uma bandeja com muito mais do que só um café e colocou na mesa de centro.
- Obrigada! — Claire disse e dei um aceno de cabeça.
- Quer que eu sirva? — Ele perguntou.
- Não se preocupe. — Falei, deslizando o corpo para frente para pegar o bule. — Posso?
- Por favor. — Claire disse e servi café para as duas, depois coloquei um pouco de leite em cada um.
- Açúcar?
- Para mim não. — Ela disse e lhe entreguei a xícara com o pires. Peguei o meu, colocando duas colheres de açúcar antes de roubar um biscoitinho.
- Deve ser legal, não? — Comentei, puxando minha xícara para mim.
- O quê? — Ela perguntou.
- Sabe... Viajar o mundo. — Indiquei a televisão novamente.
- Ah, é cansativo, viu?! Além da distância, o Lance mora na Suíça para ficar mais fácil. A Europa acaba sendo mais foco para essas coisas, sabe? Então ele fica lá, e o Larry fica muito na Inglaterra, que é a base da equipe. Eles adoram a vida agitada, mas adoram voltar para casa por um tempo. — Assenti com a cabeça. — Eles precisam abrir mão de muitas coisas por isso, cada semana está em um lugar diferente, cuidar bem da saúde... — Ela negou com a cabeça. — Mas se meu menino está feliz, eu também estou. — Assenti com a cabeça.
- Eu sempre quis viajar o mundo, mas imagino que uma vida corrida dessa não seja tão prazeroso.
- Ah, que nada! Tem todas as vantagens, eles possuem uma ótima estrutura em todo lugar, desde moradia até comida, mas....
- Nem tudo que reluz é ouro. — Falei e ela assentiu com a cabeça.
- Exatamente. Adoro quando o Lance vem e fica um pouco em casa, parece que é criança de novo. — Dei um curto sorriso.
- Parece que está sentindo saudades, Claire. — Falei e ela riu fracamente.
- Ah, estou! Não o vejo desde março quando a temporada começou, mas estou ansiosa pela corrida no Canadá, vai ser no meio de junho e é aqui em Montréal, vou poder passar uma semaninha com ele.
- Que gostoso! — Falei, tomando um gole do café e vi o sobrenome STR em sexto lugar, fora da zona de risco.
Não acompanho Fórmula Um, mas creio que não precisa ser tão expert para entender. A classificatória era dividida em três partes. Nessa primeira parte, Lance acabou se mantendo em sexto lugar. Pilotos como Magnussen, Zhou, Albon, Latifi e Ocon ficaram de fora.
- Ah, que pena, o Estie ficou em último, que droga! — Claire disse.
- Oi? — Virei para ela.
- O Ocon, Esteban, é um grande amigo do Lance. — Ela disse e assenti com a cabeça.
- Ele não teve tempo. — Comentei.
- Algo pode ter acontecido no terceiro treino e ele não conseguiu sair. — Ela disse, pegando seu celular e assenti com a cabeça.
A segunda parte da classificatória começou sem os pilotos anteriores, e voltou com todos eles fazendo voltas rápidas — como o narrador dizia — para ver quem fazia o menor tempo. Lance — ou o filho de Claire — começou mal essa parte, em décimo primeiro, não teve nenhum avanço por quase todo o tempo do relógio, mas em sua última volta ele conseguiu ficar em oitavo.
Ver os pilotos finalizando suas voltas e ver quem ficaria em cima ou embaixo, era realmente empolgante. O tempo finalizado e eles lutando para ver quem ficaria com as últimas vagas.
- Dá um frio na barriga, né?! — Comentei e Claire riu.
- Acho que alguém vai começar a se interessar por Fórmula Um. — Ela disse e ri fracamente.
- Quem sabe? Ainda mais tendo a companhia de quem entenda. — Falei e ela sorriu.
- Ah, é muito gostoso, você vai ver! — Ela disse sorrindo, virando para a televisão novamente. — Vettel em décimo terceiro, coitado... Não está sendo um ano fácil para ele.
- Vettel em Sebastian Vettel? — Perguntei.
- Viu?! Conhece até alguns nomes...
- Tem alguns que é impossível não saber. — Falei rindo.
- Ele é da nossa equipe, boatos que quer se aposentar no fim do ano. É uma pena, ele é uma ótima pessoa e um ótimo piloto, só tem tido azar...
- Não deve ser fácil... — Comentei e ela somente negou com a cabeça.
Além de Vettel em décimo terceiro lugar, Alonso — outro nome que eu conhecia — Russel, Ricciardo e Schumacher, ficaram de fora também.
- Schumacher? — Perguntei confusa para Claire. — Mas ele não...
- Boatos que está vegetando há quase 10 anos. — Ela disse, assentindo com a cabeça. — É o filho dele, Mick, grande amigo do Lance também, mas também não tem tido sorte. — Ela disse.
- Deve ser complicado...
- Ah, bastante. A pessoa pode ser ótima, mas se o carro não está bom, não tem o que faça ser bom... — Assenti com a cabeça. — Esse ano não estamos tão ruins, mas não bons o suficiente para competir por alguma coisa... — Ela disse.
- Sinto muito.
- Sempre tem o próximo ano e sempre tem a próxima corrida. Falo isso para o Lance quando ele está desanimado... — Confirmei com a cabeça.
- Ao menos entre os 10 primeiros ele já está... — Comentei aleatoriamente, para mudar de assunto.
- Sim, ao menos isso! — Ela deu um curto sorriso.
E foi exatamente em décimo lugar que Lance finalizou. Ele até fez algumas voltas que o deixaram em novo e oitavo, mas foi em décimo que ele iria largar amanhã.
- Não é perfeito, mas ele já conseguiu chegar até a Q3, está ótimo. — Claire disse orgulhosa novamente e sorri.
- Sim, ao menos tem 10 atrás dele. — Falei.
- Acompanha a corrida amanhã, . — Ela disse. — Vai ser as 16:30 da tarde. — Ela disse.
- Ah, eu não... Eu acho que só passa na TV a cabo. — Falei.
- Ah, acompanha pelo app. — Ela disse, se levantando. — Espera aí! — Ela falou, sumindo pela sala e ouvi os latidos serem ouvidos novamente.
- Oi, Kenya. — Falei, vendo a bola de pelos tentando subir no sofá. — Por que você quer ser minha amiga, hein?! — Me abaixei para acariciar sua cabeça, mas não sabia se podia colocar ela no sofá. — Eu sou legal, mas se a Claire disse que você odeia mulheres... — Ela latiu mais uma vez, me fazendo rir.
- Aqui, . — Claire me esticou um cartão, estilo de crédito, verde, com o nome Aston Martin escrito. — Nós temos algumas cotas do app da Fórmula Um. Só entrar em F1 TV, aí você raspa as informações e faz login. Pode usar à vontade. — Ela disse.
- Ah, obrigada! Vou acompanhar sim. — Falei sorrindo.
- Vou adorar ter com quem conversar. — Ela disse e assenti com a cabeça.
- Bom... Vamos voltar ao italiano? — Ela bufou alto.
- Vamos! — Ela disse rindo.

- Hoje a gente perdeu um tempinho pela Fórmula Um, mas a gente compensa na semana que vem. — Falei, fechando meu livro.
- Ah, nem se preocupe com isso, ! Eu te tenho toda para mim agora, podemos fazer as coisas com mais calma. — Claire disse, imitando minha ação. — E foi por um pedido meu, você não vai ser prejudicada por isso. — Assenti com a cabeça.
- Agradeço, Claire. — Sorri. — Foi um dia divertido e produtivo, eu diria.
- Foi, eu gostei muito! — Ela disse sorrindo. — Melhor ainda por estar finalmente entendendo o que é a “particella ci e ne”. — Rimos juntas.
- Quando você perceber, não vai parar de usar ele. — Ela disse e abri minha pasta plastificada.
- Você pode fazer essas duas folhas de lição de casa... — Puxei as folhas grampeadas. — E como está o livro? — Perguntei e ela riu fracamente.
- Está indo... — Ela disse. — Por saber a história, fica mais fácil, mas ainda tem muita coisa que eu não conheço.
- Que tal um jogo para semana que vem? De soletração?
- Ah, ! — Ela disse em um gemido, me fazendo rir.
- Vamos! Vai ser legal! — Ela suspirou, jogando a cabeça para trás.
- Ai, vamos! Mas não fica brava se eu não souber, hein?! — Rimos juntas.
- Vai dar tudo certo. — Falei, vendo-a sorrir. — Deixa eu organizar minhas coisas e te deixar à vontade.
- Ah, que nada, menina! Ficar sozinha nessa casa enorme é chato. Minha filha disse que apareceria mais tarde, mas acho que ela esqueceu... — Chequei o relógio e vi que passava das seis da tarde.
- Ela vive aqui?
- Chloe? Mais ou menos. Ela namora um snowboarder, ele vive em competições, então eles sempre estão juntos, mas ela está aqui essa semana. — Ela disse.
- O que ela faz? Pilota também? — Perguntei.
- Ela está tentando fazer a vida de cantora, não é fácil também, mas uma hora sai. — Ela disse e assenti com a cabeça.
- Uma hora sempre sai. — Ouvi uma terceira voz e vários latidos de Kenya que estava quieta no sofá.
- Ah, filha! — Claire disse, abraçando-a e a semelhança entre ambas é incrível. Elas são muito parecidas.
- Oi, mamãe! — Chloe a abraçou animada.
- Que bom te ter aqui. — Guardei minhas coisas delicadamente enquanto elas aproveitavam o abraço.
- Deixa eu te apresentar minha salvadora, filha. — Claire disse. — Essa é , minha professora de italiano.
- Ah, ouvi muito sobre você! — Ela me deu um grande abraço, me fazendo retribuir. — Você está virando uma santa para minha mãe.
- Ah, que isso! Só fazendo o que posso com o que me foi dado. — Falei sorrindo.
- Cada um com seu talento, certo? — Ela disse, me fazendo rir. — A gente nem sempre consegue, mas tentamos sempre. — Sorri.
- Com toda certeza. — Claire disse. — Gostaria de ficar para jantar, ?
- Ah, não, senhora, que isso. Vou deixar vocês aproveitarem. — Falei, guardando o estojo na bolsa. — Aproveite seu momento com ela.
- Que isso! , certo?
- Isso! — Sorri.
- Quanto mais melhor. — Ela disse.
- Ah, não se preocupem, hoje o dia foi cheio, acho que eu preciso de banho e cama...
- Estou tirando todos os horários livres dela... — Claire brincou, me abraçando de lado.
- É por uma boa causa, só quero ver seu sucesso. — Falei e ela assentiu com a cabeça.
- Eu agradeço muito por isso, esse apoio é incrível. — Claire sorriu.
- É mesmo, fazia tempos que minha mãe não se empolgava com alguma coisa, . Vê-la animada assim é demais. — Chloe disse, me fazendo sorrir.
- Que bom, fico feliz! — Sorri, colocando a mochila nas costas. — Nos vemos na semana que vem, então?
- Claro, ! Eu te acompanho... — Claire disse.
- Não se preocupe, aproveite sua filha, eu sei o caminho. — Sorri e ela assentiu com a cabeça.
- Então até semana que vem, ! — Ela me abraçou e sorri, retribuindo fortemente. — Obrigada por mais um dia.
- Que isso. — Falei sorrindo. — Bom te conhecer, Chloe.
- Você também, ! — Ela disse sorrindo e dei um aceno. O latido fino foi ouvido de novo e virei o rosto, vendo Kenya vir em minha direção.
- Kenya, não! — Chloe disse.
- Olha só! — Claire disse e acariciei a cabeça de Kenya quando ela chegou em mim.
- O quê? — Chloe falou surpresa para a mãe.
- Pois é! — Claire disse e ri fracamente.
- Acho que o problema são vocês, meninas. — Brinquei, ouvindo elas rirem.
- Não, não, o problema é definitivamente você! Acredite! — Chloe disse dramática. — Endoidou, Kenya. — Rimos juntos.
- Brinquei que ela deve saber algo que eu não sei. — Falei, ouvindo-a rir.
- Talvez... — Chloe riu.
- Bom, gente, eu estou indo! Tchau e até semana que vem! — Acenei, seguindo para fora da sala.
- Tchau, boa semana! — Claire disse.
- Eu vi o que eu acabei de ver? — Ouvi Chloe comentar.
- Pois é! Estou em choque há cinco horas. — Ela disse e sorri, seguindo pela porta da frente, para o sol se pondo da área rica de Montréal.

- E menos um capítulo... — Falei sozinha, feliz por terminar mais um capítulo da minha história.
Podem falar o que quiser, mas é muito bom poder escrever minha fanfic em paz e ninguém para julgar. É uma ótima forma de distrair e ainda ocupa a cabeça. Especialmente nesses momentos sozinha e de saudades de casa.
Suspirei e vi uma notificação subir no WhatsApp do computador.
“A corrida começa em 10 minutos... Vai ver?” Era uma mensagem de Claire.
Virei o rosto para a televisão, vendo o relógio ao lado dela e ponderei com a cabeça. Apoiei o note no sofá / cama e me levantei dele, indo até minha mochila. Abri alguns bolsos laterais e peguei o cartão que Claire havia me dito, virei o mesmo, vendo a área para raspar e peguei a chave para fazer isso, vendo um e-mail e um PIN aparecer, quase como se fosse um cartão de celular.
Voltei para o sofá, colocando o note no colo e digitei “F1 TV” no Google, vendo os resultados e abri o primeiro. Coloquei o login e a senha do cartão, vendo a conta aparecer. Logo apareceu “2022 Grande Prêmio de Miami”. Cliquei no mesmo e cliquei na opção em assistir ao vivo, vendo a imagem carregar e mostrar imagens do circuito igual ontem.
- Vamos ver o que é isso. — Falei, vendo as organizações ainda e me levantei novamente.
Peguei um saco de pipoca, colocando no micro-ondas e coloquei três minutos. Fiquei um olho no computador e outro nas minhas coisas e peguei um pote de pipoca e sal, deixando tudo pronto para a pipoca que logo ficou pronta.
Puxei a mesinha para perto do sofá / cama e coloquei o note ali, vendo que a volta de formação estava rolando já. Enchi a mão de pipoca e coloquei na boca, observando as imagens.
Deve ser louco esse mundo de Fórmula Um. Viajar toda semana, estar em um lugar diferente sempre, além de todo o luxo e caos que se misturava. Loucura!
Pelo que os narradores falavam, é a primeira vez que tem essa corrida em Miami, e tinha tudo para ser eletrizante. Ao menos seria uma boa forma para me entrar nesse mundo.
Os carros chegaram no grid, se alinhando em suas posições e vi o carro verde escuro da Aston Martin e do filho de Claire do lado, fora da pista principal. Não entendi o que o narrador falou, mas imagino que fosse alguma punição por algo, especialmente que os dois carros estavam lá.
- E vamos lá! E vai começar o GP de Miami! — O narrador disse animado. — LIGHTS OUT AND WAY WE GO!


Capítulo 3

- Só os 10 primeiros colocados ganham pontos, e aí tem a diferença equivalente de cada posição. — Clair me explicava...
- Eu já vi algumas corridas antes, então não sou uma completa tonta sobre o assunto... — Bebi um gole da Coca-Cola gelada.
- É fácil, só a parte de tempo entre os carros, quantas voltas demoram para eles ultrapassarem que me deixa um pouco confusa... — Ela sorriu. — Mas eu gosto.
- É seu filho, Claire. Quem não gostaria?! — Dei de ombros e ela riu.
- Você está certa. — Ela suspirou. — Ai, eu sou uma mãe coruja, .
- Não julgo, se um dia eu tiver filhos, provavelmente serei também. — Ri sozinha. — Ainda mais com as condições que podem oferecer para eles.
- Falando neles, o Lance vai passar essa semana aqui. — Ela disse, se ajeitando na poltrona. — Vamos fazer um churrasco amanhã, por que não vem? O Larry vai estar aqui, a Chloe, seu noivo, aposto que algum dos amigos do Lance...
- Ah, não, Claire, é algo de família...
- Acredite, querida, quando os amigos do Lance estão envolvidos, nada é “de família”. — Ela disse rindo e a acompanhei, suspirando em seguida.
- Sério, eu não quero atrapalhar... — Falei.
- Você não vai. — Ela disse. — Sei que talvez queira um descanso da sua aluna mais necessitada...
- Que isso, Claire, você é ótima. — Ela abanou a mão.
- Mas! — Ela frisou. — Também sei que não tem muitos conhecidos na cidade. E Chloe gostou de você... Vai! Pode ser uma oportunidade para fazer amigos. — Suspirei, pensando na proposta. Não seria nada mal fazer amigos além dos professores da escola e dos alunos que rotacionavam demais.
- Com uma condição! — Falei firme, vendo-a bater palmas animada. — Duas, na verdade.
- Diga! — Ela disse rindo.
- A primeira é você me garantir que eu não vou atrapalhar. — Falei e ela riu.
- Você não vai! — Ela disse rindo. — Confie em mim. — Suspirei, assentindo com a cabeça.
- Ok.
- E a segunda? — Ela disse e ri.
- Você terminar essa lista de exercícios para amanhã e eu corrigir. — Ela riu fracamente, suspirando.
- Combinado! — Ela sorriu. — Vou terminar logo depois daqui e deixo prontinha para amanhã.
- Vou cobrar, hein?! — Rimos juntas e terminei a Coca-Cola.
- Pode cobrar, promessa é dívida. — Ela riu comigo.
- Combinado! — Fechei minha pasta. — Agora deixa eu ir, que eu preciso passar no mercado. — Falei, colocando tudo na mochila.
- Combinado! — Falei rindo. — A gente se vê amanhã, então.
- Meio-dia, combinado? — Ri fracamente.
- Combinado, Claire. Não vou faltar.
- Eu sei onde você mora, , eu tenho seu contrato. — Rimos juntas.
- Tentarei não dormir tanto. — Ouvi os latidos e Kenya saiu do sofá, vindo para perto de nós novamente. — Te vejo amanhã, sua fofa. — Me abaixei para fazer carinho nela que se aninhou rapidamente ao meu lado.
- Ainda vou entender os motivos de ela gostar de você. — Ela disse.
- Eu já falei, provavelmente ela sabe de algo que eu não sei. — Rimos juntas.
- Bonita do jeito que é, acho muito difícil. — Rimos juntas.
- Nos vemos amanhã?
- Claro! — Ela se levantou.
- Se tiver alguma dúvida, pode me mandar mensagem, ok?!
- Eu te vejo amanhã, posso deixar você descansar ao menos por 18 horas. — Rimos juntas.
- Combinado! Eu peço para o Sebastian abrir para mim. — Coloquei a mochila nas costas. — Até amanhã.
- Até, meu anjo! — Trocamos um rápido beijo. — Se cuida!
- Vocês também! — Acenei e ela acenou enquanto saía da mansão dos Stroll.

A ideia de fugir do almoço com a família Stroll ficou martelando literalmente desde o momento em que eu falei para Claire que eu iria. Não me leve a mal, mas eu não estava muito a fim de fazer parte de um momento tão família quanto o encontro deles. Claire estava tão empolgada com a chegada do filho e eu não queria atrapalhar.
Mas quando eu acordei tarde domingo, já tinha várias mensagens dela perguntando o horário que eu chegaria. Eu só consegui respirar fundo, jogar as pernas para o lado e ir direto para o banho.
Já passava das 11, então eu não tinha muito tempo para me arrumar. Tomei banho, sem lavar os cabelos, escovei os dentes e coloquei uma calça jeans, camiseta tradicional, meu All-Star mais limpo e peguei a jaqueta jeans escura. Penteei os cabelos para fazer um rabo de cavalo alto e firme, e passei um lápis de olho e um batom nude.
Enquanto eu lavava as louças de ontem, procurei sobre os horários do ônibus, mas o mais próximo passaria em meia hora, eu chegaria atrasada, mas não poderia chegar tanto. Pedi um Uber e em 15 minutos eu já estava parando nos portões dos Stroll novamente.
Respirei algumas vezes antes de tocar o interfone. Sabe quando você é a última a chegar na festa? Em que você se sente obrigado a cumprimentar todo mundo? Então, era como eu estava me sentindo. E eu odiava ser a última a chegar em festa!
- Sim? — Ouvi Sebastian.
- Oi, Seb, é a !
- Entre! — Ele disse, liberando minha entrada.
Passei pela fresta quando os portões de metal abriram e andei pelo caminho do carro. Já vi alguns carros distribuídos no gramado. E do outro lado um... Helicóptero? Deus, o que eu estou fazendo aqui?
- Seja bem-vinda, ! — Vi Sebastian na porta e sorri.
- Oi, Seb! Quanto tempo! — Brinquei e ele riu comigo, me cumprimentando com um aceno.
- A senhora é hilária. — Ele disse num tom sério, me fazendo rir. — Venha, vou te levar para o pessoal.
- Seb, poderia me dar uma informação privilegiada? — Perguntei enquanto andava ao seu lado.
- Creio que sim, senhora. O que quer saber? — Ele perguntou.
- Quem tanto está aí?
- A família Stroll completa, o noivo da senhora Chloe, alguns amigos do senhor Lance e alguns colegas de Lawrence. — Respirei fundo. — Senhora Claire está ansiosa em te receber.
- Que bom... — Falei aleatoriamente, não querendo demonstrar meu nervosismo em conhecer várias pessoas novas.
Segui Sebastian pela entrada em que estava acostumada, mas diferente de irmos para a sala aonde eu ia sempre, seguimos pelo outro lado da cozinha, passando por um corredor que parecia de serviço, já que encontrei outros dois funcionários enquanto andava por ali.
Quando saímos pelo outro lado, se abriu um jardim bonito com piscina e algumas mesas espalhadas, e foi lá que eu vi o restante do pessoal. Tentei parecer menos surpresa de quando vi o helicóptero, mas parecia aqueles jardins de filmes, muito verde e muito colorido. Quase como uma Riviera francesa dentro de uma casa.
As mesas estavam num deck com o estilo clássico, depois desciam as escadas para a piscina que ficava coberta pelas árvores, mas não tinha nenhuma folha dentro dela. É assim que vive a outra metade do mundo.
- Senhora Claire! — Sebastian chamou atenção de Claire que falava com Chloe e arregalei os olhos. Não tinha dado tempo de eu analisar o território.
- Ah, ! — Claire se levantou de onde estava e vi os olharem virarem para mim.
Vai, . Simpática! Você é professora e troca de alunos quase toda semana. Vamos!
Segui por entre o jardim, até encontrar Claire nos primeiros degraus do deck, sentindo-a me abraçar fortemente.
- Que bom que não fugiu! — Ela disse próximo ao meu ouvido.
- Desculpe, eu dormi demais. — Falei e ela riu.
- Não se preocupe, você merece descansar. — Assenti com a cabeça. — Venha, venha conhecer o restante do pessoal. — Ela me abraçou pelos ombros, me puxando escada acima e Chloe já estava lá.
- Oi, . — Ela disse animada.
- Oi, Chloe! — Nos abraçamos rapidamente.
- Que bom te ver novamente! — Ela disse sorridente.
- Bom te ver também!
- Venha! — Ela disse.
Claire me puxou à frente e fui com ela, vendo-a se aproximar de três homens mais velhos. O mais velho identifiquei ser Lawrence, de várias fotos que eu já havia visto, agora os outros dois deveriam ser seus colegas.
- Larry! — Claire o chamou e ele se levantou, dando alguns passos até ela. — Gostaria de te apresentar a , ela é quem está me ajudando com o italiano.
- Ah, olá, ! Prazer em te conhecer. — Ele disse em um forte sotaque canadense, enquanto esticava a mão.
- O prazer é meu! — Seu aperto de mão era forte, mas ele tinha um sorriso amigável.
- Claire disse que é brasileira. Acabou gostando daqui de Montréal? — Ele perguntou.
- Sim! Eu vim para fazer um curso, acabaram me contratando e eu fiquei... — Sorri.
- Espero que essa cidade esteja te recepcionando bem.
- Sim, está, agradeço muito. — Sorri.
- O que precisar, , pode contar conosco. Claire gosta muito de você! — Assenti com a cabeça.
- Pode deixar! Agradeço muito! — Ele assentiu com a cabeça.
- Venha! — Claire me puxou pelo braço e imaginei que os outros dois não eram nada relevantes. Claire me levou mais para perto da piscina, onde tinha cinco homens, incluindo seu filho, em que evitei regalar os olhos. Ele ficava mais bonito sorrindo.
- Filho! — Claire o chamou e ele segurava Kenya em seu colo.
- Ei, mãe! — Ele se aproximou alguns passos.
- Quero te apresentar minha salvadora.
- A famosa ! — Ele disse e ri fracamente.
- Estou com fama demais para o meu gosto. — Brinquei e rimos juntos.
- Eu sou Lance, . — Ele disse.
- Prazer em te conhecer, sua mãe também disse muito sobre você. — Ele ponderou com a cabeça.
- Medo do que ela disse. — Rimos.
- Só coisas boas! — Falei. — E parabéns pela carreira, estou acompanhando um pouco por causa dela agora.
- Ah, finalmente alguém que não é viciado em Fórmula Um. — Ele disse rindo, então não soube dizer que era brincadeira ou para valer.
- Ainda. Eu não consigo gostar de nada na superfície. — Ele riu.
- Droga! Durou pouco. — Ri e ouvi o latido de Kenya.
- Oi, sua chata. Não estou te ignorando. — Falei para ela.
- Desculpe, , ela é chata... — Lance disse.
- Não comigo.
- Não com ela. — Claire disse comigo.
- Sério? — Lance achou estranho e levei a mão até a cabeça de Kenya, acariciando devagar, vendo-a tentar se aninhar.
- Viu?! — Falei.
- Estranho! — Lance disse.
- Já me disseram. — Rimos juntos. — Ela sabe de algo que eu não sei. — Cochichei, vendo-o abrir um sorriso.
- Espero que não. — Ele disse, entendendo a piada e sorri.
- Bem, , aqueles são Stephan, Donato, Kimon e David, amigos de infância do Lance. — Os quatro ergueram as mãos e fiz o mesmo em um aceno.
- Oi! — Sorri.
- Agora que todos se conheceram, vou pedir para Nicka servir o almoço. — Claire disse. — Ah, , esqueci de te falar, comemos kosher, tudo bem para você? — Ponderei com a cabeça.
- Eu não sei o que é exatamente, mas eu como de tudo. — Falei.
- A refeição kosher segue alguns princípios do judaísmo. — Lance cochichou para mim. — Alimentos permitidos ou não, combinações, forma de preparo, ocasião de consumo, até modo de abate de animais... — Assenti com a cabeça. — Mas o principal é não misturar carne e leite na mesma refeição...
- Ah, creio que já ouvi falar. — Assenti com a cabeça.
- Hoje é peixe assado. — Ele sussurrou.
- Está seguro, então. — Falei rindo.
- Venha! — Ele indicou com a cabeça, colocando Kenya no chão que já queria se aninhar em meus pés.

Me sentei entre Chloe e um dos amigos de Lance, Kinon, Kibon? Não sei. A comida servida era salmão assado e o outro era quase da mesma cor, mas menor, poderia ser truta. A comida visualmente era simples. O salmão estava em uma cama de limão e tinha tomilho em cima. Agora o outro estava em uma cama de tomates e azeitonas. Fora isso, tinha várias opções de saladas cruas e cozidas, inclusive uma caponata de berinjela que estava sorrindo para mim, carpaccio de peixes e alguns bolinhos com um molho levemente amarelado, imaginei ser falafel com homus, mas só por já ter comido vários aqui no Canadá.
Apesar de estar na família dos “donos” de Montréal, era um verdadeiro jantar em família. Lance, seus amigos e o noivo de Chloe, além do próprio Lawrence, eram como quaisquer homens quando se juntavam. Os colegas de Lawrence foram embora assim que o almoço foi servido, então eu era realmente a única de fora do grupo.
Os assuntos passaram de piadas, viagens, carros, passando bem rapidamente pelo trabalho de corredor de Fórmula Um quando Claire perguntou um pouco em particular para Lance, mas no geral eram só familiares conversando. E a comida! Hum, que coisa deliciosa.
Não descobri muito o que os amigos de Lance faziam, mas acho que a maioria trabalhava em trabalhos convencionais em Montréal mesmo. Scotty era um snowboarder profissional, ele até tinha jeito de quem não parou de usar as roupas de skatista do ensino médio, agora Chloe tentava a sorte como cantora.
Na hora da sobremesa, enquanto comia as tortinhas de amora-limão e as peras escaldadas com calda de laranja, eu me senti até confortável em deslizar o corpo um pouco na poltrona e só aproveitar a companhia. Observando eles, eu senti falta da minha família.
- Gostou da comida, ? — Saí de meus devaneios, olhando para Claire.
- Sim, estavam deliciosas. — Falei em um sorriso, sentindo que a atenção tinha sido voltada para mim.
- Então, , há quanto está no Canadá? — Virei para o lado, notando que a pergunta veio de Lance.
- Quase um ano. — Falei.
- Minha mãe disse que você decidiu ficar... — Assenti com a cabeça.
- É... Foi um misto de coisas, vim passar três meses, mas a escola me ofereceu um emprego, então eu acabei ficando...
- E acabou se adaptando?
- Eu odeio o frio. — Ele riu fracamente. — Mas fora isso, eu gosto da cidade, o pessoal me recepcionou bem...
- Talvez você só não tenha tido experiências boas no frio... Certo, Chloe? — Lance virou para irmã que riu.
- Não começa, Lance! Ela odeia frio. Ela não vai querer esquiar em dezembro! — Chloe disse, fazendo todos rirem.
- Espera... Se você odeia o frio... — Um dos amigos do Lance perguntou. — Por que sair Brasil... Brasil, certo? — Assenti com a cabeça. — E vir para Canadá? — Ri fracamente.
- Eu queria uma experiência internacional, e estava na hora de sair da casa da minha mãe, então vir para o Canadá foi a escolha mais barata... — Dei de ombros. — Eu queria ir para Itália, mas...
- Você ainda vai realizar seus sonhos, querida. — Claire falou do outro lado da mesa e assenti com a cabeça. — E vai colocar todos os italianos no chinelo. Ela fala melhor do que eles, Larry. — Ela cutucou o ex-marido e sorri.
- É... Eu espero por isso... — Dei um curto sorriso.
- Claire tem falado muito bem de você, . — Larry disse e sorri.
- Eu preciso de alguma companhia, né?! — Claire cutucou Lawrence, se levantando da mesa, o que causou uma debandada dos amigos de Lance.
- Então, quem quer ir para a piscina? — Arregalei os olhos. Não estava frio para que eu colocasse a jaqueta, mas aposto que a água não estaria quente.
- Nada de ir para água depois de comer. — Claire falou séria.

- Ei, , se aproxime-se! — Chloe falou na beira da piscina — que descobri ser aquecida — e onde os Lance e seus amigos faziam um tipo de polo aquático. A visão era boa, pelo menos.
Me levantei da mesa, onde eu ainda estava, somente com Lawrence e Claire conversando na outra ponta. Quem olhava para os dois assim, poderia jurar que eles estavam juntos ainda como um feliz casal. Fui até Chloe, me sentando na beirada da piscina, mantendo as pernas dobradas.
- Não se isole. — Ela disse e ri fracamente.
- Só aproveitando o momento. Aqui é bem gostoso. — Chloe sorriu.
- É, certo? Eu tenho um apartamento em Laval com o Scotty, mas eu gosto muito daqui.
- Nem parece que está no caos de Montréal, né?! — Comentei e ela assentiu com a cabeça.
- E você? Onde você mora aqui?
- Eu vivo em Petite-Bourgogne... Desculpe meu francês, não é um idioma que eu domino. — Falei e ela riu.
- Acredite, eu também não. — Ela disse rindo. — Devido as viagens dos meus pais, acabamos sendo criados mais no inglês. — Ela deu de ombros. — Minhas notas do francês sempre ficavam em C- ou C+. — Ri com ela.
- Eu nunca gostei muito do idioma, e acabei caindo na área do Canadá que fala francês. — Ouvi algumas risadas mais do que Chloe e vi Lance se aproximar pela piscina.
- Você acaba gostando... Ou suportando. — Ri, concordando com ele.
- Suportar! Essa é a palavra! — Levantei o indicador e eles riram.
- Bem, as pessoas odeiam quando eu dou entrevistas em francês, só sai palavrão... — Eles riram.
- Pardon pour mon français. — Falei e ele riu.
- É isso aí.
- Ei, amor! Pega uma toalha para mim? — Scotty pediu para Chloe que se levantou do meu lado.
- Vamos fazer uma partida de futebol depois, quer participar? — Lance ofereceu.
- Chloe vai participar? — Perguntei.
- Só quando os porcos voarem. — Ele disse, me fazendo rir.
- Seis homens e eu? Acho que eu passo! — Brinquei, vendo-o rir.
- Mas você gosta, certo? Futebol? Brasil? — Ele perguntou.
- Sim, eu adoro! Uma das minhas paixões pela Itália é devido ao futebol. — Sorri.
- Sério? Demais! — Ele abriu um bonito sorriso.
- É... Acho que minha professora não aguentava mais ouvir eu falar de Juventus... — Ele riu.
- Soccer? — Ele perguntou e virei para ele.
- Ah, não! — Tombei a cabeça para trás. — Você está falando de american football?
- Football! — Ele disse firme.
- Não! Football é jogado com os pés. — Ele riu comigo.
- Isso é soccer! — Ele disse firme.
- Ah, não! Achei que só os americanos falassem assim. — Tombei a cabeça para trás.
- É football e não se fala mais isso. — Ele disse.
- Não! Nem vem! — Rimos juntos. — Football, pé, bola. Soccer vem de meiões, qual o sentido?
- O que você usa para proteger a canela? — Ele perguntou ironicamente, fingindo seriedade.
- Caneleira! — Falei, fazendo-o rir.
- Quem é seu jogador favorito de soccer? — Ele perguntou.
- Eu jogador favorito de football é o Buffon da Itália. — Falei, vendo-o sorrir.
- Não o melhor goleiro do mundo.
- Retire o que disse! — Falei rindo de nervoso.
- Não! Por acaso ele tem uma Champions? — Ele disse, me fazendo negar com a cabeça.
- Isso não quer dizer nada. — Falei.
- Ah, quer! Totalmente! — Ele disse rindo.
- Quem é o melhor goleiro do mundo para você? — Perguntei.
- Neuer, com toda certeza. — Ele disse e fingi vomitar, colocando a língua para fora e ele riu. — O melhor.
- E eu ia torcer por você, Lancelot. — Falei, fazendo-o rir.
- É só Lance. — Ele disse.
- Lancelot é mais legal. — Fiz um pequeno bico e ele riu.
- Eu deixo você me chamar assim. — Ele disse e dei um curto sorriso, vendo-o retribuir.

O tal jogo de futebol que eles falaram, era o american football. E não, eu realmente não queria participar disso. A cada dois minutos, Claire gritava para eles tomarem cuidado, já que um derrubava o outro, ou os barulhos dos encontrões eram mais altos do que o esperado. Lawrence por outro lado, só gritava para Lance e Scotty, já que ambos tinham competições vindo por aí. Eu acabei ficando próxima à mesa novamente, somente observando.
- ! — Virei para o lado, vendo Claire aparecer com algumas folhas. — Olhe o que eu fiz!
- Ah, os exercícios! — Virei o corpo na cadeira.
- Eu fiquei a noite toda estudando ontem... — Ri fracamente.
- Fico feliz pela insistência, mas você precisa aproveitar seu dia, Claire. Seus filhos estão aqui!
- Xí! — Ela disse, abanando a mão. — Eu fico feliz por vê-los, eles pegam qualquer oportunidade para ficar com os amigos. — Ri fracamente.
- Ah, Claire. — Neguei com a cabeça. — Deixa eu pegar uma caneta que eu já vejo agora.
- Não, aproveite!
- Deixa disso! Faço isso em dois minutos! — Me levantei, seguindo para área interna da casa, abrindo minha bolsa que estava em cima de um banco e peguei meu estojo, voltando para a larga mesa montada do lado de fora.
Claire falava algo com Chloe, então me sentei à mesa novamente e peguei os exercícios de Claire, colocando vários corretos seguidos ou corrigindo poucas doppias erradas. Não julgo, a letra dupla do italiano sempre me pegou.
- Achei que domingos fossem para descansar. — Virei para o lado, vendo Lance parado ao meu lado, se enxugando com uma toalha.
- Você trabalha aos domingos. — Falei e ele riu, puxando a cadeira ao meu lado.
- Touché! Você não deixa passar uma, né?! — Ri.
- Eu não aceito perder sem lutar. — Dei de ombros.
- Ah, imagina você em um carro de Fórmula Um. — Ele riu, apoiando a toalha na mesa.
- Melhor não... — Ele riu.
- Não gosta de velocidade?
- Só de assistir. — Dei de ombros. — Gosto de ser uma lesminha para dirigir... — Ele riu.
- Depois de andar rápido sempre, a gente acaba preferindo algo mais lento também. — Assenti com a cabeça.
- Mas parece legal! Confesso que nunca tinha acompanhado de verdade antes de semana passada. — Fiz uma careta.
- Sério? Você é brasileira, Senna...
- Eu conheço Senna, e admiro muito sua história, mas eu nasci pouco depois de ele morrer, não acompanhei sua carreira. — Ele ponderou com a cabeça.
- Faz sentido. Qual sua idade? Se eu puder perguntar.
- 29. — Falei e ele assentiu com a cabeça.
- Gosta de mais novos? — Ele disse e senti meu rosto esquentar, me fazendo rir.
- Você diz que meu jogador favorito é ruim, depois flerta comigo? — Ele riu.
- Estou indo bem?
- Nenhum pouco. — Rimos juntos.
- Eu vou melhorar... — Assenti com a cabeça. — Você estava dizendo sobre Fórmula Um...
- Certo! Eu nunca acompanhei 100%, meu pai e avô deixavam a TV ligada no domingo, então a gente acabava assistindo, mas torcer por alguém faz toda diferença.
- Para quem você está torcendo? — Virei para ele.
- Se não for para você, sua mãe me demite! — Rimos juntos.
- E como ela está indo? — Ele indicou o papel.
- Muito bem... — Lhe estendi a primeira folha. — Quase sem erros. — Suspirei. — Ela é esforçada, ela realmente quer isso...
- Eu sei... Fico feliz de ela ter te encontrado, ela está aprendendo e ficando um pouco mais relaxada, porque com os acionistas da empresa... — Ele negou com a cabeça.
- É... Tive uma experiência com eles... — Arregalei os olhos e ele sorriu.
- E você? Seu sonho é Itália? Por quê? — Suspirei.
- Ao contrário de Fórmula Um, sou muito apegada ao futebol, então o amor acabou crescendo por isso. — Dei de ombros. — Apesar dos meus ídolos já terem quase todos se aposentado ou saído do meu time, quero muito ir, ver um jogo, curtir a cultura, comer a pizza... — Ele assentiu com a cabeça.
- A pizza italiana é a melhor do mundo. — Sorri.
- Eu imagino. — Suspirei. — Não penso em morar lá, me satisfaria só com uma viagem calma, sem pressa, para realmente curtir a cultura.
- Quão perto está de realizar? — Ele perguntou e ponderei com a cabeça.
- Por causa da sua mãe... Mais perto. — Ele assentiu com a cabeça.
- Bom saber. — Ele deu um sorriso.
- VAMOS, LANCE! — Viramos o rosto para o campinho, vendo um dos amigos chamá-lo.
- Vai lá, trabalho chama! — Falei e ele riu.
- Você também! — Ele indicou enquanto se levantava.
- Alguns mais legais do que outros. — Falei.
- Vamos trocar, eu corrijo as tarefas e você enfrenta a imprensa... — Ele disse.
- Eu sou boa em falar. — Falei e ele riu.
- Eu sou péssimo em italiano. — Sorri.
- Melhor cada um ficar no que sabe fazer melhor. — Disse e ele assentiu com a cabeça. — Mas também posso te ensinar...
- É, quem sabe? — Ele sorriu e se virou. — Hum, ...
- Sim?! — Virei para ele.
- Minha vida é um pouco louca, semana que vem estarei na Espanha, depois em Mônaco e Baku, e devo voltar para o Canadá só daqui um mês, mas... Poderia me dar seu número? — Sorri. — Assim, se você gostar de novinhos... — Ri fracamente.
- Por que não? — Dei de ombros, escondendo um sorriso no rosto.
Virei as folhas de Claire e rasguei o rodapé de uma delas, anotando meu número e entreguei a ele. Um sorriso dançava em seus lábios, me fazendo corar cada vez mais.
- Não guarda no bolso... Suor mancha tinta. — Ele riu.
- Vou guardar em um lugar bem seguro. — Ele disse, me fazendo sorrir.
- VAMOS, LANCE! CHEGA DE NAMORAR! — Outro amigo gritou, nos fazendo rir.
- Inconveniência... — Lance ralhou, revirando os olhos.
- Não, não, Lance... Isso são amigos! — Falei e ele assentiu com a cabeça.
- Bom ponto. — Ele disse e se afastou de volta para o campinho.
Ouvi um latido alto e vi Kenya correndo em minha direção. Sorri, me abaixando para pegá-la e fiz um carinho em sua cabeça. Ela tentou me escalar e ri fracamente, vendo-a tentar me lamber.
- O que você sabe, hein?! O que sabe? — Falei, tentando me esquivar dela.


Capítulo 4

Entreabri os olhos quando o despertador tocou e só consegui abrir um bocejo enorme, do qual me deixaria com vergonha se eu estivesse em público. Dei um suspiro, antes de virar o corpo no sofá-cama e deslizei o dedo na tela do aparelho, vendo o horário das sete horas de sempre.
Joguei as pernas para fora da cama, coçando os olhos e tirando os cabelos armados do rosto. Peguei o celular, ligando o Wi-Fi e esperei as notificações carregarem, como eu fazia todas as manhãs. Não demorou cinco segundos para um sorriso aparecer em meu rosto, tinha mensagem de Lance. Da mesma forma que tinha quando fui dormir ontem à noite.
“Bom dia! Você sabe o quão difícil é dar entrevistas depois de ter dormido somente quatro horas essa noite? Você gostaria daqui, o tempo está bom. Tenha um ótimo dia, !”.
Suspirei, fazendo as contas e era uma da tarde para ele. Fazia duas semanas que estávamos conversando todos os dias por WhatsApp, de manhã até tarde da noite. Os únicos momentos que não conversávamos era quando ele estava em seus compromissos e na fábrica da Aston Martin, ou quando eu estava nas minhas aulas. Mas ele acabava se dando pior do que eu. Ele sempre estava fusos à frente, então enquanto eu dormia as dez da noite, ele dormia as quatro da manhã.
“Bom dia, Lancelot! Acordando agora, inveja das minhas nove horas de sono? Hahahah! Imagino que Mônaco deva ser um lugar lindíssimo. Hoje é quinta, dia cheio, mas tem café na escola, dia de comer bannock e buttertarts*! Tenha um lindo dia e não vá levar multa de velocidade!”
Fui para o banheiro saltitante e respirei fundo. As coisas mudaram muito rápido nessas duas semanas. Eu não sei explicar, mas é uma situação que eu nunca tinha passado antes. Os papos começavam, a gente trocava meia dúzia de palavras e era isso. Agora com Lance o papo simplesmente não acabava. Era como se uma chave tivesse virado na minha cabeça e eu não conseguisse mais parar de pensar nele.
E quando ele perguntou se eu gostava de “novinhos”, minha cabeça imediatamente foi para “não”.
Que loucura! Eu sempre procurei por homens mais velhos do que eu, agora estava caidinha por alguém seis anos mais novo do que eu... E eu quero saber muito o que isso vai dar. Ele ainda tinha uns 20 dias para voltar para Montréal, e eu ansiava cada minuto por isso.
Deus! O que está acontecendo comigo?
Me arrumei para ir para a escola da mesma forma de sempre, somente pulando o café da manhã de hoje. Todas as quintas-feiras tinha uma confraternização na escola, já que muitos alunos finalizavam seus cursos na sexta e terminavam seus intercâmbios. Eu não perderia nenhum aluno, nem com a turma da manhã e nem da tarde, mas eu adorava me esbaldar.
Fiquei de olho no WhatsApp enquanto eu finalizava, vendo outra mensagem aparecer de Lance.
“Há, há, há, muito engraçadinha você! Ainda me faz vontade com bannock e buttertarts, que ultraje!” Ri fracamente, jogando a mochila nas costas e respondi enquanto descia as escadas do prédio de dois andares.
“Eu ainda não te fiz vontade, mas logo estou na escola e faço com todo prazer. Mas aposto que tem algo mais gostoso para comer em Mônaco do que buttertarts, vai!”
“Bem... Eu não sou o maior fã de comida francesa, mas o melhor sorvete que eu tomei na vida vem daqui.”
— Sorri, puxando a porta para sair para a rua e tomando cuidado para não ser atropelada por nenhuma bicicleta.
“Melhor do que Itália?” — Desviei o olhar do celular para ver se o ônibus não estava aparecendo no final da rua.
“Não dá para generalizar, mas das minhas experiências, sim...” — Sorri.
“Ah, meu sonho tomar um gelato e falar que o de Mônaco é melhor, hahaha.”
“Você vai, , tenho certeza.”
— Dei um sorriso, parando embaixo do ponto de ônibus, me escondendo atrás de duas adolescentes que sempre paravam na frente de uma.
Mordisquei o lábio inferior, suspirando e peguei o bilhete do ônibus no bolso externo da mochila. Apesar da constante vontade de responder Lance, mudei de conversa, mandando a mensagem tradicional de bom dia para minha família no Brasil, já vendo a mensagem de minha mãe ali.
“Bom dia, meu amor. Hoje acordou chovendo muito forte aqui, decidi não ir na academia, está com vários pontos de alagamento na cidade. Tomara que dê para ir no aniversário da Cida mais tarde. Tenha um lindo dia”.
“Bom dia, mãe! Aqui está um pouquinho mais gelado, estou indo de ônibus porque choveu ontem à noite. Nada alagado, mas o tempo gelado não colabora com a respiração. Nada de aniversário se o tempo estiver ruim. Não inventa moda! Amo vocês!”
Ouvi o barulho do ônibus e me coloquei na curta fila para conseguir lugar. Esse é o mesmo ônibus que para em uma escola de ensino médio há alguns quarteirões daqui, então ele já chega cheio, mas esvazia antes de chegar na ponte.
Me ajeitei em um canto perto de uns adolescentes e peguei o celular novamente, mudando para a conversa de Lance novamente.
“Depois de comer gelatos em Mônaco, o que se faz aí?” — Enviei, esperando retorno.
“Depende do seu estilo, festas é o que não falta, pode tentar a sorte em alguns casinos também”. — Sorri.
“Já vi que Mônaco não é para as caseiras!”
“Nesse caso, eu gosto de observar a cidade do topo dos morros ou do iate mesmo. Dá uma sensação de paz”.
“Ainda complicou, não sou esportista e nem tenho um iate”.
— Brinquei, vendo um assento esvaziar, mas vi que era vago por uma senhora.
“Talvez eu possa te ajudar com os dois...” — Sorri.
“Vou comprar minha passagem para Mônaco agora, então”. — Respondi rindo.
“Eu te pego na estação!” — Ele disse e suspirei.
“Quem sabe um dia?” — Enviei alguns emojis de coração junto. — “Nunca pensei nessa possibilidade, ir para Mônaco me parece irreal”.
“Não é, é um lugar como todos, cheio de turistas, coisas caras, acessíveis e bastantes pontos turísticos... Só é mais fácil encontrar carros de luxo”. — Dei um curto sorriso.
“Se tiver ônibus, eu estou feita!” — Me esgueirei para um assento quando os alunos desocuparam o ônibus.
“Tem... Mas você não vai precisar dele”. — Sorri, mordiscando o lábio inferior.
“Talvez um dia...” — Suspirei, emendando outro assunto. — “Sem reuniões hoje?”
“Em breve, Mônaco é um pouco mais caótico”.
“Estou perto da escola, logo começa o meu caos”.
— Respondi.
“Aceito o café da manhã caótico daí”. — Ri fracamente.
“Aposto que encontra melhores aí em Mônaco”. — Respondi.
“Não com você”. — Sorri, mordiscando o lábio inferior.
“É... Não... Isso é exclusivo daqui”. — Respondi.
“É a melhor parte!” — Ele respondeu, me fazendo suspirar.
*Bannock e buttertarts: São duas comidas típicas canadenses. Bannock parece um salgado e buttertarts empadinhas com recheios doces.

“Fique com inveja!” — Enviei para Lance junto da foto da mesa de comidas na escola e vi que só deu um tique. Ele deveria estar em reunião.
- Uh, quem é?! — Me assustei, me virando para o lado e encontrei Carly ali.
- Ei, Carly! — Falei, bloqueando o celular rapidamente.
- É aquela cara ainda? — Ela perguntou.
- Que cara? — Franzi a testa, não tinha falado sobre Lance para ninguém. Por vários motivos: primeiro que eu ainda tinha receio de isso não dar certo, fazendo com que minha ansiedade atacasse um pouco; segundo que ele é Lance Stroll, além de ser piloto de Fórmula Um, sua família é dona de Montréal; e terceiro que... Voltamos para o primeiro motivo, minha ansiedade atacava de vez em quando só de pensar que tudo podia passar de uma brincadeira.
- O do Tinder! — Ela disse.
- Ah, não... — Ri fracamente. — Não deu certo... Eu conheci alguém a estamos conversando...
- Em MTL? — Ela usou o apelido da cidade.
- Sim... Eu estava... — Travei um pouco. — Ah, certo! — Fingi lembrar. — Estava saindo do trabalho lá com Claire Stroll. — Falei. — Ele trabalha na empresa.
- Uh! Parece bom, então! — Ela disse.
- Parece promissor, mas muitos parecem, não? — Falei.
- Ai, , um pouco de ânimo. — Ela disse.
- Eu estou animada! — Falei rindo. — Mas também não quero parecer mu-u-u-uito animada e não dar nada como das outras vezes.
- Às vezes só precisa de uma vez para dar certo. — Ela disse e assenti com a cabeça.
- É... Talvez você esteja certa. — Suspirei, vendo-a piscar e neguei com a cabeça.
Peguei o celular novamente, desbloqueando e reduzindo a iluminação quase a zero, mas não tinha resposta de Lance ainda. Me desviei de alguns alunos, dando bom dia e tirei algumas moedas do bolso. Contei 60 centavos e coloquei na máquina, selecionando capuccino. Esperei a máquina fazer seu trabalho e tirei a bebida quente dali de dentro.
Passei pela mesa novamente, pegando mais um bannock e coloquei-o na boca antes de entrar na minha sala. Me sentei à mesa, apoiando o café e vi a sala vazia. Peguei o celular novamente, vendo a notificação que me fazia sorrir há duas semanas e deslizei para ver que ela Lance.
“Não é só você que faz inveja!” — E uma foto junto.
Desbloqueei o celular, abrindo a conversa e era uma selfie dele segurando uma casquinha, um sorriso largo sem mostrar os dentes e a boca suja de algum sorvete branco, neguei com a cabeça, colocando os dedos para digitar.
“Você está só se complicando. Eu posso te levar para comer bannocks quando você quiser. E o contrário?” — Enviei.
“Eu posso te trazer para cá também... É só você deixar”. — Suspirei, dando um curto sorriso. Isso fazia meu coração palpitar, não poderia ser só empolgação.
“Um dia eu vou gostar... Mas aposto que tem cooler em Mônaco”. — Escrevi, rindo comigo mesma.
“Ter, até tem, mas ainda temos Baku antes de eu voltar, não acho que vá sobreviver até lá...” — Sorri.
“Achei que você tinha me dito que precisava de uma dieta perfeita!”
“Ah, temos! Kakaka! Mas também podemos perder de três a seis quilos por corrida. Te garanto que perco rapidinho!
— Ri fracamente.
“Que sonho! Acho que eu preciso de umas duas ou três corridas para ficar em forma!” — Ri sozinha, apesar de ser verdade.
“Você é perfeita do jeito que é!” — Ele escreveu e meu peito palpitou, me fazendo suspirar.
“Você me deixa encabulada assim...” — Escrevi.
“Bom!” Foi sua resposta, me fazendo suspirar.
Bom, agora ele sabe o efeito que tem sobre mim...
Droga!
- Teacher? — Virei o rosto, vendo a aluna espanhola ali.
- Oi, Majo! Posso te ajudar?
- Sim, queria tirar uma dúvida, posso voltar depois se preferir...
- Não, não! Puxa uma cadeira e venha! Qual a dúvida? — Falei, bloqueando o celular, ansiando nossa próxima interação.

Cheguei na casa de Claire como todo sábado, mas dessa vez eu estava acompanhada de um lindo sol! Dei a liberdade de colocar short, uma camiseta regata e uma rasteirinha. Espero que Claire não se importe. Antes de tocar a campainha, como todo sábado, dei uma olhada no celular novamente.
“Não tem o que falar, , o dia foi péssimo. Pior que em Mônaco a gente sabe que a corrida vai ser tão ruim quanto”.
“Tente se distrair um pouco, aposto que isso não falta em Mônaco. Acabei de chegar na casa da sua mãe, devo sumir um pouco”.
— Enviei de volta.
“Baladas é o que não falta, mas não estou com pique para isso. Yey! Passatempo favorito da dona Claire!” — Sorri.
“Achei que fosse mais animado, Lancelot”. — Enviei.
“Eu até sou... No tempo certo e com a companhia certa...” — Suspirei, mordiscando meu lábio inferior.
“Está dizendo que eu sou a companhia certa?” — Engoli em seco.
“Não poderia ser mais claro do que isso”. — Ele disse e suspirei, checando o relógio.
“Eu tenho que ir... Nos falamos depois?” — Perguntei, mordiscando o lábio inferior.
“Levando em conta que sua aula com minha mãe dura umas quatro, cinco horas, talvez eu aproveite esse tempo para dormir mais cedo hoje. Vou fugir de você!” — Ri fracamente.
“Você deveria fazer isso. Amanhã o dia é cheio!” — Suspirei.
“É... Talvez eu faça...” — Esperei mais resposta, mas não veio.
“Se você for, tenha uma boa noite, Lancelot”. — Suspirei.
“Você também, ”. — Bloqueei o celular, apertando o botão da campainha.
- Bem-vinda, senhora ! — Me assustei com a rápida resposta de Sebastian.
- Ei! Você está... — Me calei quando os portões se abriram e olhei o relógio, vendo que passava uns três minutos das duas da tarde. Será que ele me esperava?
Fiz o caminho de sempre para dentro da mansão dos Stroll, encontrando Sebastian na porta com seu semblante sério de sempre. Ele me parecia alguém... Só não conseguia perceber quem... Um dia vai vir.
- Boa tarde, Sebastian! — Falei animada como sempre.
- Boa tarde, senhorita ! — Ele disse sério.
- Você estava me esperando? — Perguntei.
- O celular me parece uma ferramenta bem empolgante, senhorita. — Ele disse, dando a volta para dentro da casa e mordisquei meu lábio inferior.
O segui em silêncio, fazendo o mesmo caminho que eu estava acostumada a fazer todos os sábados. Ouvi alguns burburinhos antes mesmo de chegar à sala onde mim e Claire fazíamos as aulas. Lá encontrei-a com Chloe, além de uma terceira mulher, todas sentadas à mesa, claramente almoçando ainda.
- Acho que cheguei cedo! — Comentei.
- ! Que surpresa! Não, que isso, nós que nos atrasamos mesmo! — Claire limpou sua boca antes de se levantar.
- Posso esperar se quiser...
- Não, não, por favor, venha! — Ela me encontrou, enquanto ia em sua direção e trocamos um rápido abraço. — Como foi sua semana? Tudo bem?
- Sim, feliz porque o calor voltou! — Sorri, seguindo-a e Chloe também já estava em pé.
- Ah, nem fala! Está perfeito! Espero que continue assim até outubro agora! — Ela disse, me fazendo rir, pois sabia que não era be-e-e-em assim que funciona esse país, mas sorri.
- Oi, ! — Chloe disse, me abraçando e eu retribuí.
- Oi, Chloe, tudo bem? — Ela sorriu.
- Tudo ótimo! Adorei seu cabelo! — Ela disse e sorri, colocando uma mecha solta atrás da orelha.
- Obrigada. — Falei, me distraindo para a terceira mulher.
- , essa é Beatrice, ela é assistente de marketing da empresa, ela ficou sabendo que ainda estávamos tendo aula e perguntou se podia participar. — Claire disse.
- Claro! — Falei animada, vendo que mais alguém havia se interessado. — Você já tem algum conhecimento?
- Pouquíssimo. — Ela disse, se levantando e trocamos dois rápidos beijos. — Meu avô é italiano, então ele fala um pouco em casa, mas nada o suficiente para que eu pegue.
- Não sei se tem algo que possamos fazer. — Claire disse.
- Será um pouco mais complicado, mas não é impossível. — Falei, tirando a mochila das costas e apoiei na cadeira mais perto. — Será quase como nivelar uma sala de aula, eu dedico uns minutos para cada uma de vocês, enquanto passo teoria para uma, a outra faz exercícios e vice-versa! Se tiver tudo bem para você, Claire.
- Claro! Nossa, o que eu mais quero é isso! Você sabe, , isso é muito importante para mim! Esse projeto é muito importante para mim. — Assenti com a cabeça.
- Vai dar tudo certo, Claire! Confie em si mesma! — Falei, vendo-a sorrir.
- Bom, me dá dois minutinhos, , já estou finalizando. — Ela disse.
- Sem pressa. — Falei.
- Você gostaria de almoçar? — Ela ofereceu.
- Não, obrigada! Já almocei. — Falei. — Eu faço companhia.
- Mas aposto que vai aceitar um pedaço de torta de chocolate, não? — Claire ofereceu e pressionei meus lábios.
- Ah, Claire! Assim não resisto! — Falei, ouvindo as outras mulheres rirem.

- Então, , você chegou a ver o treino hoje? — Claire perguntou, durante a pausa das quatro horas.
- Sim, sim, eu vi. Sinto pelo seu filho. — Falei.
- Ah, nem fala. — Ela suspirou. — Mônaco já é difícil, pequena, minúscula, aí eles ficam dando de tudo com o carro e já viu, né?! — Ela negou com a cabeça. — Ao menos ele está bem e o carro conserta até amanhã.
- Ele-eu ouvi falar que é uma pista difícil... — Falei, engolindo em seco quando quase o mencionei.
- Sim, ela é muito estreita e cheia de curvas, é muito difícil a ultrapassagem. — Ela disse e assenti com a cabeça.
- Vamos ver como vai ser amanhã, né?! — Falei e ela assentiu com a cabeça.
- E você? Tem falado com Lance? — Engoli em seco, evitando arregalar os olhos.
- Hum...? — Virei para ela? — Ah, Lance? Não... Não... — Falei.
- Ah, meu filho é lento... — Ela revirou os olhos.
- Senhora? — Franzi a testa.
- Eu vi que ele pediu seu telefone, achei que... Enfim! — Ela abanou a mão e evitei dar um sorriso.
Será que Claire estava dando uma forcinha em um possível relacionamento entre mim e Lancelot?
- Eu vou pedir para Sebastian algo para bebermos, com licença... — Ela disse, se levantando e ouvi Kenya latir para ela quando a mesma passou em sua frente.
- Ah, sua chata! — Falei para Kenya, chamando-a com a mão. — Vem aqui! — Ela veio saltitante até mim e peguei-a com uma mão, acariciando-a. — Sua chata! Chata! Chata! — Ela deu uns latidos, mas sabia que eu estava imune a ela.
- Então, ... — Ergui o rosto, vendo Chloe aparecer por cima do sofá.
- Sim... — Falei.
- Então, você não está mesmo falando com Lance, certo? — Ela disse, dando um sorriso de quem sabia e senti meu rosto esquentar. — Tipo... Não tem nenhum motivo para as noites mal dormidas dele? Tipo... Quatro da manhã?
- Chloe! — Falei e ela gargalhou alto, assim como Beatrice.
- Ele é meu irmãozinho, falamos tudo para o outro. — Ela disse e ri.
- Não fala nada para sua mãe! — Pedi em tom de voz baixo.
- Por que não? Ela está superanimada com um possível relacionamento. — Ela disse e suspirei.
- Exato. Um possível relacionamento! — Falei firme. — Estamos nos falando há somente duas semanas, não quero me empolgar demais...
- Por que não? Ele está animado, .
- Porque eu... Eu nunca fiz isso antes. — Suspirei.
- O quê? — Ela perguntou.
- Estive em um relacionamento. — Falei, suspirando.
- Não?
- Não... — Dei de ombros. — E é a primeira vez que eu passo do “oi, tudo bem?” — Suspirei. — Tenho medo de dar tudo errado.
- Não, ! Não! Não pensa assim. Meu irmão é meio lento, mas não é babaca! Se ele está indo atrás de você, confia que as intenções dele são as melhores. — Ela disse e assenti com a cabeça.
- Eu tenho ansiedade... Eu...
- Vá atrás de uma psicóloga, então. — Ela disse. — Não tem por que ficar mal por coisas boas... — Suspirei.
- Mas será que são coisas boas mesmo? — Falei.
- Ai, eu vou te bater! — Ela disse, fazendo com que eu e Beatrice ríssemos. — Para de apressar as coisas, aproveite! Curta esse momento! Você o terá por diversos momentos, mas as primeiras vezes só acontecem uma vez... — Ela disse e assenti com a cabeça.
- Eu vou tentar... — Falei, sabendo que minha cabeça só surtaria mais após essa conversa.
- É bom mesmo, porque senão...
- Por que não combinamos uma noite das mulheres? — Claire sugeriu, fazendo Chloe se calar e se esconder atrás do sofá novamente. — Assim, se não se importarem em sair com uma mulher do dobro da idade de vocês... — Ri fracamente.
- Não acho que tenha idade para se divertir. — Falei. — Eu adoraria.
- Eu só não posso hoje, mas super topo. — Chloe disse.
- Hoje eu tenho algumas reuniões após aqui também. — Claire disse. — Mas podemos combinar para semana que vem.
- Para mim está combinadíssimo! — Falei.
- Eu também topo, depois que saí da faculdade, mal tenho amigas. — Beatrice disse.
- Pode me chamar, viu?! — Falei. — Eu trabalho a maior parte do tempo, mas sábado à noite e domingo eu costumo estar entediada.
- Eu também! — Chloe disse. — Eu namoro, mas Scotty viaja muito e eu fico sozinha na maior parte do tempo. — Ela disse.
- Então está combinado! — Claire disse. — Semana que vem, vamos sair nós quatro.
- Combinado! — Falamos quase juntas.

Cheguei em casa chutando a rasteirinha para longe e deixando as coisas na minha mesinha de jantar. Apesar de não termos combinado de fazer algo, acabei saindo de lá quase oito horas da noite. Fazia tempo que não juntava tanta mulher assim. A gente realmente não ficava quieta. Só esperava que Claire pudesse ainda fazer suas reuniões.
Tomei um longo banho enquanto deixava uma lasanha congelada no micro-ondas. Saí do banheiro enrolada na toalha e me troquei no meio da minha sala-quarto-cozinha. Soltei os cabelos, secando-os ao máximo com a toalha e depois penteei. Não estava com pique de secar agora. Até eu jantar, assistir um episódio de alguma série atrasada, ele já teria secado para eu poder dormir.
Peguei minha lasanha um pouco menos pelando, colocando num prato e peguei os talheres, colocando tudo em um canto da mesa e me sentando do mesmo lado. Peguei o celular, desbloqueando e fui direto na conversa de Lance, que eu tinha deixado de lado durante todo tempo na casa de Claire. Confesso que não queria ninguém espiando por cima do meu ombro.
“Durma com Deus, !” — Logo após a minha mensagem.
“Sabe, tem um problema com Mônaco, o barulho é muito alto, talvez seja difícil dormir”. — Essa última tinha umas duas horas.
“Acho que você vai dormir na minha casa hoje, pena que eu não estou aí!” — Há uma hora.
“Ei, , a brincadeira acabou, tá tudo bem?” — Há menos de 20 minutos. Me surpreendi com o horário. São seis horas de diferença, são duas da manhã para ele.
“Achei que a ideia fosse dormir, senhor Lancelot!” — Enviei para ele, rindo fracamente.
“Ah, finalmente apareceu!” — Sua resposta foi imediata.
“Lancelot! O que faz acordado?” — Perguntei, encarando o celular.
A resposta demorou um pouco, então apoiei o aparelho em um copo, olhando para ele fixamente enquanto comia pedaços pequenos da minha lasanha. De repente a foto do WhatsApp de Lance apareceu em uma chamada de vídeo e arregalei os olhos.
Meu Deus!
Atender ou não atender?
Fiquei o que pareceu cinco minutos decidindo o que fazer, mas acho que foi coisa de trinta segundos. Eu estou de pijama, com os cabelos totalmente bagunçados e a boca suja de molho de tomate, mas ainda assim eu deslizei o dedo aceitando a chamada.
- Achei que não fosse atender. — Sua voz chegou antes de seu rosto aparecer e somente deu tempo de deixar o decote do pijama menos evidente.
- Não sabia se era para atender... — Falei, ajeitando o decote do pijama, tentando deixar menos em evidência.
- Claro que é! — Ele disse e vi seu rosto aparecer em um ambiente com pouca luz, creio que um abajur.
- O que faz acordado? — Perguntei.
- Acho que me acostumei a dormir tarde... — Ele disse e dei um sorriso. — Conversar contigo virou parte da minha rotina.
- E o que quer conversar? — Perguntei e ele riu.
- O que está comendo aí? — Ele perguntou e ergui meu prato, mostrando a ele.
- Lasanha congelada. — Falei, ouvindo-o rir.
- Que banquete, não?
- Nem sempre dá para correr, né?! — Dei de ombros, cortando mais um pedaço e colocando na boca.
- Não, não dá... — Ele disse rindo. — E como foi na minha mãe?
- Foi bom! — Sorri. — Tem uma nova assistente de marketing que quer participar das aulas, agora são quatro Marias Fifi para ficar fofocando.
- “Maria Fifi”? — Ele perguntou e eu ri.
- Uma expressão para mulheres que gostam de fofocar. — Falei rindo.
- E que tanto fofocaram? — Ele perguntou e ri.
- Uma mulher nunca conta as fofocas. — Falei e ele riu.
- A Chloe pelo visto não passou no teste... — Neguei com a cabeça.
- Ai, vocês dois... — Neguei com a cabeça.
- O quê? Preferia que a gente não compartilhasse? — Ele perguntou e eu ri.
- Não, mas eu fui pega desprevenida mais cedo. Você podia ter me falado que falou de mim para Chloe. — Falei.
- Não achei que fosse segredo. — Ele disse.
- Não é... É só... — Suspirei. — Eu sou ansiosa, Lance. — Falei. — Tenho medo de me empolgar demais e as coisas darem errado.
- E por que as coisas dariam errado? — Ele disse sério, encarando a câmera do celular.
Não soube responder.
Na verdade, não quis responder. Porque falar “porque já deu errado antes” estava na ponta da língua.
- Só preocupação... — Suspirei.
- Não precisa ter, garanto que minhas intenções contigo são as melhores... — Ergui o rosto para ele.
- Quais suas intenções comigo? — Perguntei, vendo-o sorrir.
- Nada menos que tudo, senhorita . — Ele disse sério e dei um curto sorriso.
- O que seria “tudo”? — Perguntei.
- Tudo que puder imaginar. — Ele disse e assenti com a cabeça, escondendo um sorriso nos lábios.


Capítulo 5


Acordar nesta segunda-feira e ir trabalhar foi uma das situações mais difíceis que fiz em muito tempo. Lance estava vindo. Depois da corrida de Baku ontem, sabia que ele estava a caminho.
Não sei exatamente quando ele viria, mas sei que a corrida de Montréal será no próximo fim de semana, então até quinta-feira ele estaria aqui. E a ansiedade começava a falar mais alto.
Assim que me levantei esta manhã, corri para o banheiro. Dor de barriga foi o primeiro sinal, seguida pela falta de apetite e, por fim, o medo do celular. Qualquer notificação me fazia pular, mas ironicamente, nenhuma era de Lance.
O dia foi relativamente tranquilo. As segundas-feiras sempre trazem algo novo, já que recebo alunos iniciantes nas turmas. É a mesma rotina de apresentações: falar sobre suas motivações, por que escolheram Montréal, entre outras coisas. Motivos que, provavelmente, não eram muito diferentes dos meus.
Apesar da falta de apetite, segundas são dias em que não atendo alunos fora da escola. Aproveito para adiantar tarefas domésticas. Depois do expediente, passei no mercado para comprar o básico: temperos, carne, massa fresca e muitos tomates para o molho caseiro. Como recebo semanalmente, minhas compras seguem o mesmo ritmo.
Chegando ao apartamento, fiz o sinal da cruz ao passar pela igreja do bairro e segui até os fundos para guardar a bicicleta e prender o cadeado. Subi as escadas para o segundo andar com a sacola retornável em um ombro e a mochila no outro.
Eu adoro este apartamento, mas ele me faz reclamar duas vezes ao dia que eu preciso voltar para uma academia urgentemente.
— Oi, !
— AH! — Me assustei, erguendo o rosto. — LANCELOT?!
— Surpresa?
— É claro! — Ri, largando as bolsas no chão antes de abraçá-lo. — Oh, meu Deus! O que está fazendo aqui?
— O próximo GP é aqui. Você sabia que eu viria... — Ele me apertou forte, me fazendo suspirar.
— Eu sabia, mas achei que chegaria mais tarde! — Afastei-me um pouco, segurando seus braços e olhando em seus olhos por baixo da aba do boné.
— Não, eu não perderia a oportunidade de passar mais uns dias contigo. — Sorri nervosa, ainda incrédula.
— Oh... Você é real? — Ele riu fracamente. — Vem, vamos entrar e... Cadê minha bolsa...? — Olhei ao redor.
— Eu pego! Eu pego! — disse Lance, se inclinando para pegar a sacola e mochila.
— Não, deixa que eu pego. — Peguei a mochila, tirei a chave e abri a porta, hesitando. — Ah, espera... — Fiz uma careta. — Não é muito grande, sabe?.
... — Ele revirou os olhos.
— O quê? É uma quitinete, é... Menor do que a sala da sua casa...
! — Seu tom foi repreendedor.
— Tá bom, tá bom. Só estou avisando! — Ergui as mãos e finalmente abri a porta, entrando primeiro.
Deixei a mochila no cabideiro e dei alguns passos até minha cozinha-quarto-sala, um espaço compacto que não passa de dez passos de comprimento.
— Bem-vindo ao meu cantinho! — Fiz uma careta enquanto Lance fechava a porta e caminhava na minha direção.
— É fofo! — comentou Lance, e eu tirei a sacola de sua mão, colocando-a sobre a mesa com duas cadeiras. — Bem fofo mesmo. — Ri com ele.
— Eu gosto daqui. É quente no inverno, fresco no verão, e eu me sinto bem.
— Acho que isso é o que importa — disse ele.
— enta aí, Lance, eu só vou organizar as coisas. — Falei, e ele se sentou no meu sofá-cama.
— Onde você dorme? — perguntou Lance.
— Exatamente onde você está! — respondi, rindo, enquanto tirava as coisas da sacola.
— Uh! Então é aqui que a mágica acontece? — ELance abriu os braços no encosto do sofá e cruzou a perna. Lancei-lhe um olhar sério, revirei os olhos e voltei a me concentrar no que fazia. — Ah, eu gosto dessa cara, ! — disse ele, me arrancando uma risada.
— Você é tonto demais! — Guardei as coisas na geladeira e depois no armário. — Quer alguma coisa? Algo para beber ou comer? Você veio direto do aeroporto?
— Eu comi no jatinho, não se preocupe — respondeu Lance. — Você tem algum compromisso agora? Estou atrapalhando?
— Uh, "eu comi no jatinho" — imitei-o, com uma voz fina, fazendo-o rir. — Pois eu não comi no jatinho, então vou fazer molho de tomate para comer com ravioli. — Falei, e ele riu mais.
— Não se incomode comigo. — Lance ergueu as mãos. — Mas posso usar o banheiro? Onde fica?
— Na outra porta que não seja a saída! — respondi, sorrindo, e ele riu. — Tem certeza de que não quer comer? Eu cozinho bem, de verdade.
— Hum... Já que faz tanta questão! — Ri junto com ele.
— Deve ser esfomeado para caramba! — comentei, rindo, enquanto procurava pela tábua de carne.
— Só estou repondo as energias depois da corrida — disse Lance, já na porta do banheiro.
— Falando nisso, como você está?
— Ah, foi ok — respondeu Lance, fechando a porta do banheiro.
— Ei! — Segui até a porta. — Você disse que estava bem.
— E estou, ! Por isso não quero falar sobre isso — sua voz saiu abafada, me fazendo suspirar.
Estávamos conversando há um mês, cada vez mais íntimos mesmo com a distânciaAinda assim, era difícil fazê-lo falar sobre as partes complicadas do esporte. Eu entendia sua frustração. Lance era rotulado como "filho do dono", mas parecia que ninguém dava valor ao seu talento — e eu sabia disso, porque pesquisei. Claire era uma ótima fonte. E o carro não estar nas melhores condições também não ajudava.

— Ok, esse é o melhor molho que eu já comi na minha vida — disse Lance, procurando por um guardanapo na minha mesinha quadrada.
— Uhum, tá! — falei, rindo.
— Não, sério! É delicioso!
— Agradeço, mas não é o melhor molho de tomate do mundo.
— Como não? — perguntou Lance, chocado, enquanto raspava o pão italiano no prato.
— Você tem acesso aos restaurantes mais sensacionais de Montréal e do mundo, e vai dizer que o meu molho de tomate feito em casa é o melhor? — Olhei para ele sugestivamente.
— Exatamente! Eu tenho propriedade para falar. — Ele cruzou os braços, encostando na cadeira. Só consegui assentir com a cabeça.
— Obrigada, então. Apesar de ainda achar que você só está sendo gentil. Aposto que na Itália têm muitos melhores. — Ele riu fracamente.
— Você vai ter que descobrir — disse Lance, e eu assenti.
— Um dia! — falei esperançosa, mas suspirando em seguida.
— Mas temos ótimos restaurantes italianos aqui em MTC. Você está aqui há o quê, um ano?
— Quase...
— Já teve ter ido em alguns... — Lance comentou, e ponderei com a cabeça.
— Mais simples... As coisas começaram a ficar mais fáceis agora com o trabalho com sua mãe, mas eu tenho vontade de ir a alguns.
— Quais?
— Ah, tem vários aqui em volta da baía Rei Edward — falei.
— Fala o nome de um! — Ele pediu.
— Por quê? — Perguntei, cruzando os braços enquanto o encarava.
— Para saber se eu já fui... — Lance deu um sorriso engraçado, e eu revirei os olhos.
— Ok, o que eu mais tenho vontade de ir é no Mangiafoco — falei.
— Já estive, é muito bom! — disse ele. — É perto da Basílica Notre-Dame, não?
— Exatamente! Atrás, se eu não me engano — respondi.
— Eu conheci o dono, supersimpático, toca guitarra em uma banda...
— VOCÊ CONHECEU O JEFF?! — Minha voz saiu mais alta do que eu esperava, e coloquei as mãos na boca rapidamente.
— Não era esse o nome, Jean... Jean-Franç...
— JEFF! — falei, exaltada, me levantando. — Meu Deus, você conheceu o Jeff! — Apertei as mãos no rosto.
— Você o conhece, ?
— É! É só o guitarrista da minha banda favorita! — Falei, animada.
— Ok, então está marcado — disse Lance, se levantando.
— O quê? — Perguntei.
— Vamos no Mangiafoco e em um show da banda. Sabe se eles estão em turnê? — Sacudi a cabeça.
— Eu não tenho essa informação, mas você não precisa fazer isso...
— Por que não? Vamos ter encontros, não?
— Isso é o quê? — Indiquei os pratos, me aproximando da mesa de novo.
— Um encontro. Podemos ter outros — disse ele. — Deixa eu te ajudar.
— Eu lavo! — falei.
— Você cozinhou, eu lavo. E sim, eu sei lavar louças, eu moro sozinho. — Ri fracamente, colocando os pratos na pia.
— Toda sua! — Ergui as mãos, me sentando no meu cama-sofá.
— Prometo não quebrar nada — disse Lance, e eu ri fracamente, sem acreditar que aquele homem bilionário lavando a louça no meu micro apartamento.
— Então, como foi ontem? — Perguntei.
— Ah, você sabe, abandonei no final, nenhum ponto, nada de muito novo.
— Não! Não fala assim. — Ele se virou para mim.
— O quê? Só estou dizendo.
— Se lamentando! — falei. — Não faça isso.
— Ah, qual é. Participar é legal, estar entre os 20 melhores pilotos do mundo é legal, mas não tive sorte este ano. Minha melhor posição foi décimo.
— Mas você comentou que Vettel está indo tão ruim quanto.
— Sim, mas vamos ser honestos, ele é Vettel. Tetracampeão, adorado por todos, senhor "Salve as Abelhas". Ninguém vai falar que ele está tendo um péssimo desempenho porque é filho do dono da empresa. — Suspirei.
— Isso te incomoda muito, né?! — Perguntei, e Lance suspirou.
— Eu sou muito grato por tudo que meu pai fez por mim, e sei do meu talento, antes que você comente isso. — Assenti com a cabeça, vendo-o secar as mãos num pano de prato. — Mas eu gostaria de não ter essa pressão em cima de mim, .
— Você faria algo diferente se tivesse a chance? Sairia da F1, faria outra coisa? — Perguntei.
— Eu não sei. Eu gosto de esportes, mas... não sei — respondeu Lance. — Independente do que falam, eu sei que lutei muito por isso. Ganhei na Fórmula 4, Fórmula 3, outras categorias quando mais novo. Tenho pódios, poles, mas é difícil ignorar algumas coisas.
— Você é bem quieto fora do âmbito F1 mesmo.
— As pessoas já falam de mim mesmo sem eu dar motivos, imagina se eu abrir a boca... — Lance comentou, sentando-se ao meu lado.
— É, você não está errado... — respondi, virando uma perna para dentro da cama-sofá.
— Mas vamos mudar de assunto — disse ele. — O fim de semana do GP começa quinta. Sei que você tem seus compromissos, suas aulas, mas gostaria que estivesse lá, . — Ele disse.
— Eu? — perguntei surpresa.
— É claro! — respondeu Lance, rindo. — Não fique surpresa, eu disse que eu quero tudo contigo. — Sorri.
— Eu sei, mas eu tenho meus receios, você sabe...
— Você nunca namorou, , eu sei. Mas prometo que não vou te machucar, ok?! — disse ele, olhando nos meus olhos. Assenti com a cabeça, dando um pequeno sorriso.
— Ok... — Ele sorriu.
— Quinta é puramente coletiva e visitas. À noite vai ter um evento beneficente, e eu gostaria que fosse. Chloe vai estar lá, meus pais, você não estará sozinha.
— Que tipo de evento beneficente? — perguntei.
— Cuidados com o câncer de mama.
— Uau, eu vou! Eu consigo mudar umas aulas! Pode deixar! — respondi, animada. Lance sorriu satisfeito.
— Perfeito! Vai ser um leilão e tal. Terão outros pilotos, mas é um coquetel, nada muito longo...
— Eu preciso dar um lance? — perguntei.
— Não, é claro que não! Só quero sua companhia. — Sorri.
— Ok... E qual roupa eu vou nesses lugares? — perguntei, um pouco insegura.
— Ah, nada muito chique... — respondeu Lance, mas eu o encarei desconfiada.
— Eu já vi os filmes, Lance! — Ele riu.
— Ok, gala! — Lance suspirou. — Mas posso ver com a Chloe, ela pode te emprestar algo.
— A Chloe é uns 10 centímetros mais baixa do que eu, Lancelot — falei, sacudindo a cabeça. Ele riu. — Eu dou um jeito.
— Eu posso enviar um vestido para você — sugeriu.
— Não, não! Não se preocupe! — Falei, indicando-o. — Sua mãe me deu bastante dinheiro para trabalhar com ela.
— Achei que o dinheiro fosse para sua escola.
— É! Mas seria egoísmo eu não tirar um pouco para eu comprar um vestido e te acompanhar. Um vestido, não gastar tudo. Nem tudo vai para escola, a ideia de trabalhar além de estudar é ter uma vida mais confortável aqui.
— Pretende mudar para um lugar maior? — perguntou Lance.
— Ei, não fale mal do meu apartamento! — Empurrei-o, fazendo rir. — Eu gosto daqui.
— Eu estou brincando! É até legal! — disse ele. — A cama é pequena, mas...
— E você está pensando muito nela! Para! — Rimos juntos.
— Não, sério! É pequena até só para dormir.
— Eu estou acostumada a ela — dei de ombros , vendo-o sorrir.
— Você não tem aula hoje? — perguntou Lance.
— Não, não — respondi. — Segundas são os dias de eu organizar as coisas para a semana.
— E o que você fez para adiantar isso? — Ele deu um sorriso sarcásticos, e eu suspirei, pressionando os lábios.
— Molho de tomate! — falei, rindo.
— Que eu raspei da panela...
— É... — Rimos juntos. — Não se preocupe, eu peço take out essa semana. — Ele riu novamente. — E sempre tem lasanha congelada.
— Não é ravioli com molho caseiro, mas ei... — Rimos juntos.
— Para, seu chato! — Empurrei Lance, fazendo-o rir ainda mais.
— Mas você trabalha amanhã, não? É melhor eu ir! — Olhei o relógio, vendo que passava das dez.
— Você pode ficar. Tem uma ótima cama aqui embaixo — sugeri, chutando a bicama, enquanto Lance ria.
— Há, há, há, engraçadinha!
— Não convido mais, então... — Mostrei a língua para ele.
— Talvez outro dia, na minha cama... — disse Lance, e eu ri fracamente.
— Você é cara de pau mesmo, hein?!
— O que seria isso? — perguntou Lancelot, confuso pela expressão.
— Atrevido, sem-vergonha! — expliquei, fazendo-o rir.
— Só sendo honesto! — Ele ergueu as mãos. — Mas é melhor eu ir. Vim direto do aeroporto, nem fui para casa ainda.
— Você deve estar cansado também. Voo direto? — perguntei.
— Sim, de jato é mais confortável, mas o fuso-horário ainda é chato — Lance ponderou.
— Não, é melhor você ir. Eu não tomei banho ainda, tenho que revisar a aula de manhã e você precisa ver sua mãe. Ela me mata se souber que você passou aqui antes. — Ele riu.
— Contou para ela?
— Claro que não! — Falei, rindo. — Agora não sei se a Chloe falou algo.
— Ah, não, ela provavelmente não vai querer encarar a responsabilidade — disse Lance, rindo. — Eu faço isso... Depois.
— Eu te levo até a porta.
— Porque é mu-u-u-uito longe mesmo — ele brincou, rindo.
— Chato! — Empurrei-o um pouco, vendo-o dar três passos até a porta . Lance deixou espaço para eu abrir. — Eu estarei no WhatsApp.
— Se eu demorar um pouco para aparecer, é o caos de chegar em casa. — Disse ele.
— Não se preocupe. Se eu demorar, é porque eu dormi.
— Tenha uma boa noite, ok?! — disse Lance, dando um beijo em minha testa, me fazendo sorrir.
— Você também! — falei, retribuindo o sorriso. Ele assentiu com a cabeça e se afastou devagar. — Me dá um sinal de vida quando puder.
— Pode deixar, ! — Ele sorriu, afastando alguns passos.
— Até mais.
— Até! — Lance sorriu, acenando.
— Vai logo! — falei, rindo.
— Sabe... Eu não contei para minha mãe, mas meu pai sabe de tudo! — disse Lance, parando no corredor.
— Lance! — falei, vendo-o rir.
— Boa noite! — disse ele, sumindo pelo corredor.


Capítulo 6


— Ai, meu Deus! — bufei, rolando o mouse para baixo.
— Estou atrapalhando? — ergui o rosto para a porta, vendo Carly.
— Oi, Carly. Não, pode entrar — ela se aproximou com algumas folhas nas mãos.
— As provas de nivelamento dos alunos que começam na próxima semana.
— Ah sim, por deixar aí. Te dou um retorno até o fim do dia — disse, e ela assentiu.
— Belo vestido! — ela indicou o vestido verde na tela.
— É... Só que eu não tenho ideia de onde encontrar um parecido, e o prazo é de quatro dias. Preciso para amanhã — respondi com um suspiro.
— Uau, é um vestido chique, não?! — Observou ao notar o valor de quase cinco mil dólares. — E caro também.
— É, mas é para um evento importante... — suspirei novamente.
— Posso perguntar qual? — ela virou-se para mim, olhando sugestivamente.
— É complicado...
— É aquele cara que você tinha falado? — perguntou ela.
— Sim... — Confirmei, virando para ela. — Eu posso confiar em você!? — Falei em um tom confuso.
— Espero que sim...
— Não! Foi uma afirmação! — Ri. — Desculpe... É... Eu não sei como falar isso.
— Conta! O que te aflige? — ela puxou uma cadeira para perto, e eu me inclinei para trás, apoiando na cadeira.
— O cara com quem eu estou saindo é o filho da Claire... — falei, e sua boca entreabriu.
— Espera! Lance? — Ela falou baixo, e eu assenti. — Mentira! — Ela colocou as mãos na boca. — Mentira! — Ri fracamente. — Ele é dono de Montréal... E piloto de Fórmula 1!
— Eu sei, eu sei. Por isso que não falei muita coisa... — Passei as mãos nos cabelos. — Estamos conversando há um mês. Sei que vai acontecer, mas ainda não estou pronta para dividir isso com todo mundo...
— Nem com o mundo, né?! — disse Carly.
— Estou evitando pensar nessa parte — Ri com ela. — E tem o GP aqui neste fim de semana. Ele já me convidou, e vai ter um evento beneficente para o qual ele me chamou...
— É por isso o vestido? — ela indicou.
— Sim. Nunca fui a um evento assim. Tirando algumas formaturas, então pensei em um vestido bonito, mas discreto... — Suspirei. — Só que não chega no prazo e ainda tem chances de não servir... — Suspirei mais uma vez.
— Por que você não compra aqui? — sugeriu Carly.
— Porque eu não tenho a mínima ideia de onde comprar um vestido assim que não seja em lojas de marca. Cinco mil já seria caro, mas cabe no meu orçamento... — respondi.
— Bem... Você não é daqui, mas eu sou — Ela sorriu. — Podemos ir depois do trabalho — Disse ela.
— Droga, vou ter que cancelar algumas aulas... — Suspirei. — E já cancelei as de quinta, sexta e sábado...
— Às vezes, você precisa fazer um investimento se quiser que dê certo — Disse ela. — Então...
— Ok, vou mandar mensagem para os meus alunos... — ela riu.
— E te garanto que vai pagar mais barato do que na internet! — sorri.
— Já vi vantagem, então! — rimos juntos.
— Vou te deixar finalizar aí — Carly se levantou.
— Obrigada! Até mais! — respondi, vendo-a sair com um sorriso.

Carly disse que o local era perto da escola, então pegamos as bicicletas e seguimos pela cidade. O sol começava a se pôr, mas estávamos em maio, então o tempo estava mais fresco, embora o trânsito continuasse caótico.
Chegamos a uma área da cidade que eu não conhecia. Havia muitos galpões grandes e várias placas de outlets, de marcas famosas e desconhecidas. Carly guiou à frente, virando à esquerda, até uma loja de vestidos de festa.
— Vem, isso vai te ajudar! — Ela desceu da bicicleta e foi para o bicicletário. Segui atrás, e prendemos nossas bicicletas antes de entrar na loja. — Minha tia trabalha aqui, ela vai saber te ajudar.
— Oi, Carly! — disse uma moça assim que entramos.
— Oi, Sandy! Minha tia está aqui? — perguntou Carly, enquanto eu me surpreendia com a quantidade de vestidos ao nosso redor, de todos os estilos possíveis.
— Claro, ela está no caixa, deixa eu chamar! — respondeu Sandy, saindo pela loja. Aproveitei para me aproximar dos vestidos ali perto.
Separei um vestido dos outros, examinei a etiqueta e fiquei surpresa ao descobrir que custava 800 dólares... e estava à pronta entrega.
...
— Eu te amo! — virei para Carly, vendo a moça ao seu lado rir.
— Você me ama! — disse Sandy, divertida. — Eu sou Sandy.
— Oi, Sandy. ! — falei, esticando minha mão, cumprimentando-a.
— Carly disse que precisa de algo meio urgente...
— Sim, preciso — suspirei.
— Conte-me o problema — Sandy cruzou os braços.
— Eu tenho um evento beneficente com... — respirei fundo. — Minha chefe. Ela é Claire Stroll...
— Espera, Stroll de...
— Sim, ex do Lawrence Stroll e tudo mais — Suspirei novamente. — Comecei a trabalhar com eles há pouco tempo, e me chamaram para o evento. Mas eu não tenho nenhum vestido à altura disso... Nem sou daqui, não trouxe um vestido de gala na mala. — Sandy riu.
— Não se preocupe, vamos resolver isso! — disse ela. — O que você tem em mente?
— Uma cor escura, para eu ficar o mais invisível possível — fiz uma careta.
— Vamos por aqui, então... — Sandy indicou uma parte do amplo galpão. — Algum estilo específico?
— Nada vulgar, nem mostrando muita pele.
— Você vai acompanhada ou sozinha? — perguntou ela. Olhei para Carly, que ficou quieta.
— Eu vou com a família... — respondi, sem pensar muito.
— Bom, sendo convidada de convidados, você não precisa chamar muita atenção, mas também não deve passar despercebida
— Vão estar lá vários ricos e famosos. Vai que você não arranja um namorado com um amigo? — Carly sugeriu, me fazendo rir.
— Ela está certa! Não dá para ficar completamente apagada — ponderei com a cabeça.
— Ok... Meu orçamento é cinco mil dólares, mas eu adoraria que fosse metade disso, porque ainda preciso pagar cabelo e maquiagem — fiz uma careta.
— Consigo algo sensacional por até um quinto disso — Sandy garantiu.
— Eu te amo! — falei, ouvindo-a rir.

Olhei-me no espelho, vendo o bob preso na franja, e dei duas batidinhas de blush nas bochechas. Não sou muito fã das bochechas rosadas, mas como dizia minha avó: para dar uma cara de saúde. Deixei o pincel de lado, vendo-o causar um dominó e derrubar todos os outros itens na pia, mas ignorei.
Tirei o bob da franja, ajeitando-a bonitinha e suspirei. Carly foi minha verdadeira fada madrinha, ela e sua tia. Ambas me ajudaram na escolha do vestido preto de uma manga só, com glitter e uma fenda na perna esquerda. Além disso, indicaram uma conhecida de outra vendedora do outlet para fazer meu cabelo. Virei-me na maquiagem. Apesar de já ter feito um curso de automaquiagem, sabia que provavelmente não estava à altura de um evento desse porte, mas...
Me assustei quando ouvi dois toques na porta e me arrependi de não ter um porteiro.
— Espera! — falei um pouco mais alto, enquanto guardava as coisas bagunçadas dentro da nécessaire de maquiagem.
Olhei no espelho novamente, esbarrando no box do banheiro ao me afastar, e suspirei. Corri de volta para o quarto, colocando o sapato preto de salto, que já tinha comprado há algum tempo. Olhei-me novamente no reflexo da TV e suspirei.
Era agora ou nunca.
Fui até a porta, entre uma bufada e outra, e suspirei antes de abri-la. Me surpreendi e, pelo visto, causei surpresa. Lance usava um terno verde-escuro, talvez preto na luz opaca do corredor. Os cabelos estavam bagunçados propositalmente.
— Uau! — falamos juntos, rindo em seguida.
— Você está linda, ! — disse ele rapidamente, me fazendo sorrir.
— Espero que esteja apropriado...
— Está mais do que apropriado. Você está incrível — dei um pequeno sorriso quando ele pegou minha mão.
— Você também está bonito — falei, e ele beijou minha mão, me causando um arrepio.
— Você está pronta? — perguntou ele, e assenti com a cabeça.
— Um pouco nervosa...
— Não se preocupe. Minha família estará lá, Chloe, Scotty... que é um evento à parte... — Rimos juntos. — Vai dar tudo certo... — Assenti novamente.
— Espero que sim... Me dá um segundo... — Voltei para dentro do apartamento, pegando minha bolsa e a chave na bancada e voltei para a porta. — Podemos ir.
— Damas primeiro... — ele indicou, e eu desliguei as luzes antes de puxar a porta, pendurando a alça no ombro.
Segui um pouco à frente, sentindo-o apoiar a mão na base das minhas costas enquanto descíamos os dois lances de escada. Ele passou à minha frente para abrir a porta do prédio. Senti um leve vento, mas minha distração durou dois segundos até eu ver o carro esportivo na minha frente.
— Uau! — saiu no automático.
— Gostou? — perguntou ele.
— Ele é lindo! — falei, rindo.
— Ela! — virei para ele.
— Qual o problema dos homens? Vocês querem “dirigir” a mulher? — Ele gargalhou alto. — Não é fácil assim na prática, tá?!
— Desculpe, é força do hábito! Pensando com clareza, fica um pouco estranho.
— Você sobe em mim e faz “vrum vrum”? — ele gargalhou, e eu o acompanhei nessa.
— A ideia não é ruim... — disse ele, ainda rindo, e bati a mão no rosto.
— Ai, as besteiras que eu falo e você ainda ri! — ele sorriu.
— Estou me divertindo, não posso negar! — rimos juntos.
— Uma coisa é certa, você não vai se entediar nunca! — Dei de ombros.
— É assim que eu quero mesmo! — disse Lance, abrindo o lado do passageiro.
— Então acho que encontrou a pessoa certa — ele me deu um sorriso largo, e eu entrei no carro.

Seguimos por cerca de dez minutos até o local do evento. O carro conversível e o ronco do motor não me permitiam entender a música que tocava no sistema de som, mas não me importei. Analisar Lance dirigindo era muito melhor e muito sexy.
O evento era perto do Cais Rei Edward e da Basílica de Notre-Dame, um local com o qual eu já estava familiarizada. A rua estreita causava um pequeno caos, com carros chegando e alguns fotógrafos posicionados. Instintivamente, levei a mão ao rosto, sem saber exatamente como agir. Estava um tanto perdida.
— Assim que eu parar, você entra pela porta ao seu lado, ok?! — Lance falou, e assenti com a cabeça.
Havia alguns carros à nossa frente, o que tornava o trânsito lento, já que os convidados desciam de seus veículos esportivos. Quando chegou a nossa vez, Lance fez um leve aceno de cabeça, e a porta ao meu lado foi aberta. Um segurança me ofereceu a mão para sair, e eu segui rapidamente para dentro do evento, tentando não tropeçar nos meus pés nem me cegar com os flashes dos fotógrafos.
Assim que entrei no local, notei que a decoração era escura, mas a iluminação era bem clara. Aproximei-me um tanto receosa, tentando sair do caminho da entrada. Observei o espaço: um local para fotos logo ao lado, um palco ao fundo com o logotipo do centro beneficente, algumas mesas altas espalhadas pelo salão e garçons circulando com taças de champanhe.
Será que tem comida? Eu não jantei.
! — Virei ao ouvir meu nome e vi Chloe se aproximando apressada, com Scotty logo atrás.
— Ei! — falei, sentindo-a me abraçar e retribuí o gesto.
— Como você está? — perguntou ela, soltando-me.
— Um pouco nervosa... — falei rindo, abraçando Scotty rapidamente.
— Você está linda! — disse Chloe, me fazendo sorrir.
— Estou à altura do seu irmão? — perguntei em tom de brincadeira.
— Mais fácil perguntar se ele está à altura de você! — disse Scotty, inclinando a cabeça na direção da entrada. Virei-me e vi os fotógrafos focando suas lentes em Lance, que havia acabado de entrar e se posicionava no espaço reservado para as fotos.
Lance alternava entre sorrisos e poses mais sérias para os fotógrafos, até que seu pai apareceu ao lado dele, dividindo os flashes. Suspirei, sentindo-me um pouco perdida — tanto no espaço físico quanto na situação em que estava me envolvendo. Chloe me abraçou de lado, e eu sorri.
— Ele merece você — disse ela, com sinceridade.
— É... Espero que eu o mereça também — respondi, tentando disfarçar o nervosismo.

— Ah, querida! — sorri ao ver Claire vir em minha direção, de braços abertos.
— Oi, Claire! — Cumprimentei, sentindo-a me abraçar fortemente. — Você está maravilhosa! — Comentei, admirando seu vestido prateado.
— Eu? Olhe você! — ela segurou uma mão, me obrigando a virar, me deixando envergonhada quando outras pessoas olharam para mim.
— Não está? Eu falei! — Chloe se aproximou, me fazendo rir.
— E o que está achando do evento? — perguntou Claire, enquanto eu tentava sorrir educadamente.
— Um pouco fora da minha realidade... — tentei falar da forma mais delicada possível, o que a fez rir.
— Não julgo, pois também acho chato e um pouco entediante — Claire falou ao aproximar o rosto do meu e ri. — Mas acaba sempre surgem umas pérolas.
— A começar pelo nosso amigo Lance, certo? — Um homem se aproximou, e o identifiquei do almoço na casa de Claire no dia em que conheci Lancelot. — Olá, !
— Stephan, certo? — conferi, e ele piscou em afirmativa.
— Donato também está aqui, mas... Ele é irrelevante — Stephan apoiou o cotovelo no ombro de Claire, que revirou os olhos.
— Nunca dê intimidade a eles, . Eles não sabem a hora de parar — disse Claire, tirando o braço dele de seu ombro. Eu ri.
— Uma amiga sempre disse que é melhor dar dinheiro do que intimidade — falei, dando de ombros, e todos riram, menos Stephan.
— Ela não está errada — Scotty cochichou.
— Você também, seu inconveniente! — Chloe repreendeu, enquanto ele revirava os olhos, me arrancando um sorriso.
— Vamos dizer que eu sou o único normal nessa família — virei para o lado, vendo Lance se aproximar.
— Você? — Chloe e eu falamos ao mesmo tempo.
— Ei, até você? — ele exclamou, fingindo indignação, me fazendo rir.
— Qualquer pessoa que tenha coragem em andar em um carro há 350 quilômetros por hora, não é normal, Lancelot — respondi.
— Ai! — disse ele.
— Gostei dela. — A voz do pai de Lance surgiu, enquanto ele se posicionava ao lado do filho. — Olá, !
— Oi, senhor Stroll! — falei.
— Lawrence ou Larry está bom! — ele corrigiu, esticando a mão, e apertei-a.
— Você gostaria de beber algo, ? Champagne, vinho? — Lance ofereceu.
— Água? — Perguntei e ele assentiu com a cabeça, indicando para um garçom que deu um aceno de cabeça. — Para voltar dirigindo a Aston Martin na volta. — Acrescentei, brincando. Ele riu.
— Eu deixo, se quiser! — Lance falou, me deixando assustada.
— Não, não! Está tudo bem — ele riu.
— Saiba que o convite está aberto para quando quiser — ele reforçou, e assenti com a cabeça.
— Aqui está, senhorita — o garçom apareceu com uma taça sozinha em uma bandeja e vi que o líquido não tinha bolhas antes de pegar. Queria minha Coca-Cola, mas não achei que fosse à altura desses lugares.
Mercí. — falei e ele assentiu com a cabeça.
— Lance... — uma mulher o chamou e ele pediu dois segundos a ela.
— Com licença, , preciso fazer um social — assenti com a cabeça.
— Não se preocupe, eu ficarei bem.
— Eu farei companhia para ela — disse Chloe, me abraçando de lado.
— Me chame qualquer coisa — disse Lance antes de se retirar.
— Não chamo. Assim podemos fofocar em paz — Chloe falou, me fazendo rir.
— De quem vamos falar hoje? — perguntou Scotty, colocando a mão no queixo e piscando os olhos.
— Cai fora! — Chloe retrucou, enquanto ele se afastava com Stephan e Donato, que acabara de chegar.

Lance realmente foi fazer seu social, conversando com outros famosos. Pelo meu recente conhecimento sobre Fórmula 1, reconheci Esteban Ocon e Mick Schumacher, amigos íntimos de Lance, além de George Russell. Além deles, ele também falava com empresários, filhos de grandes magnatas e pessoas mais velhas, cuja aparência transparecia um nível de riqueza muito superior ao meu.
Ele levou quase uma hora nesse "social". Durante esse tempo, fiquei na companhia de Chloe, Scotty e dos amigos de Lance, com Claire aparecendo de tempos em tempos. Chloe aproveitou para me fazer algumas perguntas sobre mim e Lance, mas a conversa não se estendeu muito, já que eu realmente não tinha muito a dizer. Nos encontramos apenas no dia em que ele chegou e hoje. A vida de quem precisa trabalhar não é tão empolgante assim.
Depois de cumprir suas obrigações, Lance voltou a ficar ao meu lado. Apesar de ainda ser abordado por várias pessoas, ele permanecia próximo a mim, o que resultava em flashes frequentes. Não estávamos exatamente em uma pose de casal, mas ele claramente fazia questão de me manter segura ao seu lado. Ainda assim, a quantidade de câmeras me deixava desconfortável; até beber água se tornava um desafio. Eu torcia para que os fotógrafos estivessem apenas focados em Lance, mas minha curiosidade sobre o mundo dos famosos não podia ser ignorada. Afinal, quem não gostaria de saber com quem seu ídolo está namorando?
Com o passar da festa, percebi os preparativos para o leilão. Algumas plataformas começaram a ser montadas no palco, onde colocaram baús ornamentados.
— Como funciona? — perguntei, dando um gole da água, observando os organizadores arrumando o palco.
— Fizemos cestas, cada uma com um tipo de encontro diferente, comida, lugar, diversão... — Lance falou olhando para mim. — As pessoas, em geral mulheres, dão lances nas cestas. Depois, saímos com quem arrematou. Nada romântico, já adianto — Ele piscou para mim e ri fracamente.
— Ah, vai saber quem pode dar um lance na cesta — brinquei.
— Não! Você não vai fazer isso! — ele protestou, parecendo sério.
— Por que não? — franzi a testa.
— Os lances costumam ser muito altos. Não vale a pena, e eu não vou deixar você gastar assim.
— Ah, qual é, o que são mil dólares? Posso usar o dinheiro da sua mãe — dei de ombros.
— Não! — Ele repetiu, sério, e eu revirei os olhos. — É sério!
— Sou mais velha do que você, sabia? Você não manda em mim! — respondi, sorrindo.
— Só você mesmo! — disse ele, me fazendo sorrir.
— Senhoras e senhoras, em nome do Centro de Recuperação Contra o Câncer de Mama, gostaríamos de agradecer à família Stroll pelo seu apoio há 16 anos e por organizar esse evento há sete — Uma mulher falou e todos aplaudiram. — E agora, nosso tão esperado leilão! Hoje temos cestas de 10 dos homens mais cobiçados aqui.
— Uhul! — algumas mulheres gritaram e parabenizaram, nos fazendo rir.
— Como sabem, as cestas são secretas, mas podemos revelar quem são os nossos pretendentes da noite. Por favor, senhores, venham ao palco — a apresentadora anunciou, e os quatro pilotos, junto com outros seis homens, subiram ao palco. Eles se alinharam, recebendo aplausos calorosos. Realmente, havia outros homens tão bonitos quanto Lance ali.
“Vamos lembrar como funciona! Cada cesta é de um desses pretendentes, nelas contém itens para vocês aproveitarem um café da manhã, uma tarde ou uma noite com nossos pretendentes. Esse encontro inclui comida, música, diversão e todo melhor tratamento que nossos meninos podem dar para vocês! Elas foram feitas por eles pessoalmente, com seus gostos e suas personalidades. Mas não pensem que será fácil, nossos pretendentes foram bem minuciosos em esconder!”
— A do Lance é fácil, é só ver o que tem comida italiana — Comentei com Chloe, que riu — Ou hambúrguer!
— Você não está errada! — ela riu.
— Sei que sou convidada igual a todos, mas eu posso dar um lance? — perguntei.
— Sim... Eu só não indicaria...
— É para caridade, qual seria o problema? — questionei, curiosa.
— Primeiro que você pode acabar comprando a cesta de alguém que não é o Lance...
— Você não pode me falar qual é?
— Pior que eu não sei! — ela fez uma careta, me fazendo rir.
— Ok... E o outro problema?
— Lance não gostaria que você gastasse com isso. Ele te leva para qualquer jantar que você queira...
— Eu sei, mas... É só diversão, e é por uma boa causa! Eu ajudava um lugar assim na minha cidade, mas o foco deles era geral, e uma ajuda mais física, transporte, remédios, se a pessoa precisasse de uma cama hospitalar, uma cadeira de rodas, ou até roupas...
— Legal! — Chloe comentou, impressionada, e eu sorri. — Mas eu ainda não indicaria, depois você pode entrar no site deles e doar quanto quiser... — Ponderei com a cabeça.
— É... Vamos ver!
— Vamos começar? — a apresentadora anunciou, causando aplausos do pessoal.

O leilão começou, e finalmente entendi o que Lance quis dizer sobre eu não dar um lance — ba dum tss. O primeiro começou em cinco mil dólares e terminou em inacreditáveis 37 mil. Fiquei em choque. Tá, talvez eu conseguisse dar um lance inicial de cinco mil, mas duvido que o valor parasse por aí. Afinal, tínhamos quatro pilotos de Fórmula 1 no palco. Lance podia não ser o mais popular mundialmente, mas aqui ele definitivamente era uma grande estrela. Quando foi anunciado que a cesta de comidas francesas era de um empresário de 57 anos, foi hilário ver a “tristeza” de uma senhora de uns 60 anos ao descobrir que não havia romance no prêmio.
Mesmo percebendo que minhas chances eram praticamente nulas, decidi prestar atenção nas cestas. As escolhas eram bem elaboradas, e o regulamento exigia que as comidas fossem escolhidas pelos próprios “pretendentes”. Nada de restaurantes: eles podiam encomendar, mas sem levar o encontro ao local.
Minha suspeita sobre a cesta de Lance cresceu quando anunciaram uma com comida italiana, vinho e um jantar à luz de velas. Mas foi o item de diversão que entregou: um passeio de Ferrari pela Toscana. Eu ainda estava começando a entender sobre Fórmula 1, mas ficou óbvio que era do Mick. Essa cesta chegou a impressionantes 60 mil dólares, me deixando boquiaberta com a facilidade com que as pessoas ofereciam valores tão altos.
Ok que vai para caridade, mas ai, doeu.
Lance ficou em penúltimo. Restavam ele e um jovem empresário de uns 30 e poucos anos. Deveria ter imaginado que guardariam o “melhor” para o final, mas sem deixar óbvio demais. Eu não conhecia nada da elite de Montréal, mas o empresário parecia pouco conhecido.
— Agora só faltam dois, hein, senhores?! — A apresentadora anunciou, arrancando risadas. — Temos mais uma cesta mais do que especial. Essa daqui vem recheada com comida italiana! — O pessoal comemorou. — De entrada, temos uma degustação de embutidos e queijos italianos direto da região da Emilia-Romanha... — Dei um curto sorriso, meu maior sonho é comer comida italiana em Parma. — De prato principal, temos Tortelli d’Erbetta, um prato muito famoso na cidade de Parma... — Ergui meu olhar para Lance, vendo-o com um curto sorriso nos lábios, mas sem olhar diretamente para mim. — De sobremesa, só o melhor, Tiramissù.
— Uuh! — as mulheres comemoraram.
— O jantar será servido aqui em Montréal, no Chalet du Mont-Royal, com uma vista linda da cidade ao anoitecer. A chegada até lá é uma caminhada generosa, mas a vista é de tirar o fôlego! — As mulheres riram. — Para diversão, que tal uma patinação no gelo? Precisaremos de coordenação enquanto vão para o Patin Patin. Ao final da diversão, será servido sfogliatelle com chocolate quente do Tim Hortons.
— Uaaau! — as mulheres suspiraram e aplaudiram. Eu senti um calor gostoso no peito.
— É a do Lance — murmurei para Chloe, que me olhou curiosa.
— Tem certeza? — perguntou ela.
— Absoluta — sorri, suspirando
— Os lances começam com 10 mil dólares — a apresentadora anunciou.
— Vai dar um lance? — perguntou Chloe.
— Não... Mas eu gostaria muito — Suspirei. — É o encontro perfeito... — Ela deu um sorriso.
— Como sabe que é dele?
— Acho que ele fez pensando em mim — Suspirei. — Ele sabe que eu morro de vontade de ir para Parma comer... — Chloe riu. — A vista do Mont-Royal é a mais linda e romântica, mas ele sabe que eu odeio fazer exercícios... — Nós duas rimos. — E ele ama hóquei, e a patinação se assemelha a isso, acho que seria mais fácil que futebol. E quem não gosta do chocolate quente do Tim Hortons? É um tesouro nacional, com sfogliatelle, fica perfeito.
— Bingo...
— 30 mil aqui! — falou uma mulher.
— É... Mas eu sou alguém normal, não consigo competir com elas... — mordi meu lábio inferior, voltando a prestar atenção no leilão.
Voltei a prestar atenção nos números que continuaram subindo.
— 159 mil dólares...
— Dou-lhe uma... Dou-lhe duas...? — A mulher esperou. — Vendido para a mulher de vermelho, número 37.
Engoli em seco ao observar a mulher vencedora: linda, elegante, provavelmente na casa dos 35 ou 40 anos. Idade não importa, certo? Essa era a minha nova visão de mundo.
Suspirei ao som dos aplausos e soube que era minha deixa para ir embora.


Capítulo 7


— Você está quieta — foram as palavras de Lance ao estacionar em frente ao meu apartamento após a festa.
— Só cansada... — virei para ele, dando um curto sorriso.
— Eu sei que não é — Ele rebateu, direto. — Você ficou assim logo após o leilão.
— Foi um pouco demorado, bateu o sono... E eu trabalhei hoje, trabalho amanhã... Nada que um sono não resolva... A gente se vê sexta... — falei.
— Eu te acompanho até lá — Ele saiu do carro sem esperar resposta, dando a volta até o meu lado. Enquanto eu me enrolava com a porta que abria para cima, ele já esticava a mão. — Aqui.
Peguei sua mão e, com sua ajuda, saí do carro, segurando os saltos na outra mão. Caminhei descalça para dentro do prédio, sentindo o chão frio sob meus pés, enquanto Lance me seguia de perto, seus passos firmes ecoando pelo corredor.
Subi as escadas do segundo andar com ele logo atrás. Encontrei minha chave dentro da bolsa e destranquei a porta do apartamento. Quando me virei, ele já estava ali, encostado na parede, me observando atentamente.
— Você está chateada por causa do leilão? É porque eu falei para você não dar nenhum lance?
— Não, não é isso. É... — suspirei, desviando o olhar
— O quê? — ele insistiu, a voz baixa, mas carregada de preocupação.
— Eu me senti um peixe fora d' água — Confessei, dando de ombros. — Achando que eu podia dar um lance em você... — Ri sarcasticamente. — Que idiotice minha.
— Não é idiotice, — respondeu ele com um suspiro.
— É, sim! — Falei firme. — Eu fiquei feliz por sua mãe me pagar 100 mil dólares por um trabalho que eu vou levar quatro meses para fazer, com muito esforço, noites mal dormidas... E aí vejo pessoas gastando isso em uma única noite, como se não fosse nada — Ri de forma amarga, sentindo meus olhos arderem. — Eu não sei o que você viu em mim, Lance. É tão claro que eu não faço parte do seu mundo...
— Eu vivi nesse mundo a minha vida inteira, — Ele continuou, aproximando-se devagar. — E nesse último mês, você me mostrou uma perspectiva completamente nova. Algo que eu nunca tinha experimentado. Se eu tenho alguma vantagem no meu mundo, quero usá-la para ajudar os outros ou... — Ele fez uma pausa, sorrindo de leve. — Para te dar algumas regalias — Dei um curto sorriso. — Você tem seus sonhos, deixe-me realizar eles...
— O que eu posso fazer pelos seus sonhos, Lance? Eu não posso oferecer muito. Sou uma boa pessoa, venho de uma boa família, tive boas condições, mas... o normal, sabe?
— Eu preciso de um pouco de normalidade na minha vida — Ele sorriu, acariciando meu rosto. — E eu encontrei...
— Em mim? — perguntei rindo e ele assentiu com a cabeça.
— Sim. — Sua resposta foi tão direta que meu coração pareceu parar por um instante.
Lance deu mais um passo à frente, sua mão ainda acariciando meu rosto, e sua voz soou baixa, quase íntima:
— Você, ...
Dei um sorriso ao sentir seus lábios tocarem os meus. Ele inclinou o corpo para mais perto, fazendo com que eu me endireitasse contra a porta. Trocamos alguns selinhos antes de suas mãos envolverem minha cintura. Meus sapatos foram ao chão junto com a bolsa, e levei as mãos até seu pescoço, apoiando os braços nos dele.
O beijo foi lento, mas firme. Sua mão apertava minha cintura, me causando pequenos arrepios. Dentro de mim, tudo estava explodindo. Esperei por isso durante o último mês inteiro, e foi ainda melhor do que eu imaginava.
Nossos lábios se afastaram devagar, fazendo com que nossos narizes se encostassem. Um largo sorriso se espalhou pelo meu rosto. Percebi que Lance também sorria quando abri os olhos e encontrei seu rosto colado ao meu. Rimos juntos e nos abraçamos novamente, me fazendo suspirar.
— Você quer entrar? — Sugeri. — Não com essa intenção, mas...
— Nem daria para fazer algo nessa sua cama... — ele brincou.
— Ai! — brinquei, empurrando-o de leve.
— Você precisa acordar cedo amanhã e eu tenho media day, é um saco — Ri fracamente. — A gente se vê na sexta.
— Ok, me passa as informações para eu ir lá...
— Peço para a Chloe te buscar. Assim, você não precisa sair tão cedo nem pegar o caos da imprensa chegando comigo... — Assenti. — Não que eu não queira que você seja vista, só...
— Eu entendo, Lance, não se preocupe. Eles já estavam em cima de mim hoje. Chegar no GP juntos talvez não seja a melhor ideia tão cedo...
— É... — rimos juntos, e ele segurou minhas mãos.
— Mas eu quero você lá comigo.
Assenti com a cabeça e nossos lábios se tocaram novamente.
— Eu estarei lá — Sorri. — Não vou perder a oportunidade de ir no meu primeiro GP.
— De dentro do paddock...
— No paddock! — rimos juntos, trocamos outro beijo e eu o abracei novamente, suspirando. É muito bom ficar nos braços dele.
— Tenha uma boa noite, ok?! — disse ele quando nos separamos.
— Você também. Dorme bem!
— Vou dormir. — Ele sorriu, colando nossos lábios novamente e, então, se afastou devagar.
Acenei enquanto ele seguia pelo corredor até desaparecer pelas escadas. Fechei a porta, sentindo meu corpo leve, e ri sozinha, dando pequenos pulinhos de animação. Eu não ia parar de sorrir nunca.

Dei um passo para trás e esbarrei no box do banheiro, ouvindo um barulho alto quando bati nele. Suspirei. O banheiro era minúsculo!
Fiquei na ponta dos pés para tentar ver meus tênis brancos, combinados com a calça jeans pantalona e a camiseta de botões branca com corações pretos. Eu estava de , mas... isso era suficiente para a Fórmula 1?
Passei os últimos dois dias pesquisando fotos, e as mulheres se vestiam de forma muito estilosa. Algumas eram totalmente sem noção, se quer saber. O problema é que eu não sei ser estilosa. Sou tradicional! Uso jeans, regata e tênis. Sou professora, ando de bicicleta, não sou uma Kendall Jenner da vida. Ou sei lá quais famosas esses caras namoram.
! — ouvi um chamado, seguido de algumas batidas na porta. Suspirei, saí do banheiro e imediatamente a abri.
— Eu preciso de um minuto! — falei, vendo Chloe e Scotty do lado de fora.
— Uau! Você está fofa! — disse ela e suspirei.
— Ah, fofa? — voltei para o quarto, abrindo meu armário.
— O quê? Não é uma forma ruim! — ela me seguiu.
— Ela diz isso para todo mundo — comentou Scotty.
— Ah, que lugar fofo! — disse Chloe, olhando ao redor.
— Viu?! — disse Scotty, me fazendo rir.
— Não está ruim? — virei-me de frente para eles.
— Você está ótima! — Chloe garantiu. — É cansativo, então é melhor ir o mais confortável possível.
Ela vestia um macacão caramelo com um casaco por cima.
— Só acho que você vai passar frio.
— Ah, isso... — peguei minha jaqueta jeans.
— Você tem algum moletom? — perguntou ela.
— Sim, mas não vai ficar legal...
— Vai sim, acredite! — Chloe falou. — Faz muito frio lá.
— Muito! — concordou Scotty.
— Virou ventríloquo agora?
— Desculpe! — ele riu, e eu peguei um moletom rosa escuro da GAP.
— Ah, linda! — ri fracamente.
— Eu estou nervosa.
— Nem dá para notar — comentou Scotty sarcasticamente, e eu revirei os olhos.
— Relaxa, . Vai dar certo — Disse Chloe. — Não prometo que não vá ser caótico, mas é como criança. Adora o brinquedo novo por dois minutos, depois já larga...
— Bem, não é bem assim...
— Xi! — Disse Chloe e suspirei. — Vai dar certo.
— Por favor, não me deixem sozinha — pedi em um gemido.
— Não vamos — Ela sorriu. — Vamos arrasar, garota. E eu quero saber tudo sobre o beijo.
— Como? — Perguntei, e ela deu de ombros. — Lance! — Eles riram.

O clima estava menos frio do que Chloe havia mencionado, mas meu corpo tremia, provavelmente de nervosismo. Eu não sabia exatamente o que esperar. Lance estava me deixando bem relaxada, mandando fotos como fazia nas últimas corridas que eu não pude ir, mas, ainda assim, algo me deixava inquieta.
Ontem, senti um pouco do que é o caos da Fórmula 1: fotógrafos a cada centímetro quadrado, pessoas com milhões de dólares sobrando na carteira e um ambiente onde tudo respira dinheiro, fama e publicidade. Eu não faço parte disso. Minha escola é pequena, crescendo aos poucos. Meu maior momento de destaque foi no discurso de formatura do terceiro ano.
Afinal, fui a única a tirar 10 em inglês e português... O resto é história!
— Não se preocupe, vai dar tudo certo — disse Chloe.
— Eu não sei por que eu estou nervosa — falei.
— Você está entrando em um mundo totalmente novo. E não estou falando apenas da F1, mas também do Lance — Ela sorriu. — Um relacionamento gostoso, algo saudável...
— Totalmente fora da minha realidade em vários sentidos — suspirei.
— Então, acho que é a oportunidade perfeita para ignorar esse nervosismo e deixar a vida acontecer... — comentou Scotty, e eu o encarei pelo retrovisor do carro.
— O quê? — Ele riu. — Não dá para ficar nervosa com algo que você nem conhece.
— Isso se chama ansiedade, Scotty, e dá sim — respondi, e ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Se eu disser que você vai comer e beber de graça te deixa mais feliz? — ri fracamente.
— Pior que sim! — sorrimos.

Eu confesso que, mesmo vendo fotos e vídeos, não sabia o que esperar. E, na realidade, nada era parecido com o que eu imaginava.
A entrada do paddock nada mais era do que um estacionamento, e os fãs e fotógrafos se espremiam para tirar fotos das pessoas que chegavam. Eu não reconheci ninguém, mas os fãs gritavam animados.
Mas eu sou brasileira, sei que a gente grita até para helicóptero no céu. Acho que a palavra “fã” não tem nacionalidade.
Scotty me entregou um passe, e eu o copiei ao passarmos pela catraca. Fiquei surpresa ao ver minha foto do perfil do Instagram aparecendo na tela. Loucura.
Assim que entramos, nos deparamos com um largo corredor, repleto de tudo que você pode imaginar. Logo na entrada, havia diversas barracas de marcas famosas, mulheres sorridentes posando como modelos e uma quantidade absurda de pessoas. Algumas caminhavam apressadas, outras estavam atrás ou dentro das barracas, e jornalistas e fãs circulavam por todos os lados. A maioria vestia roupas que representavam suas equipes favoritas, e as cores das escuderias dominavam o ambiente.
Alguns fotógrafos se aproximaram para tirar fotos de Scotty e Chloe, e alguns flashes foram disparados em minha direção. Não sei se foi intencional, mas tentei agir como eles, ignorando e apenas continuando a andar. Depois de alguns passos, paramos. Mais alguns passos, e chegamos à área dos motorhomes.
Eu já tinha visto algumas fotos, mas não esperava que fossem tão enormes. Para mim, um motorhome já era grande... Mas esses pareciam seis motorhomes empilhados! Quando chegamos ao da Aston Martin, percebi que provavelmente minha expressão estava incrédula.
! — foi a primeira coisa que ouvi ao entrar no motorhome, ainda tentando entender como aquilo tinha três andares e viajava entre países.
— Oi, mãe! — desviei o rosto ao ver Claire.
— Oi, Claire! — sorri, abraçando-a.
— Ah, querida! Que bom te ver! Nem tivemos tempo de conversar direito depois de quarta-feira.
— Ah, não se preocupe. Trabalhei normalmente ontem.
— E o que está achando de tudo? — perguntou ela animada.
— É tudo tão grande! — Falei rindo. — Não estou acostumada.
— Você se acostuma com o tempo — Vi o pai de Lance aparecendo atrás dela. — Venha ver quem chegou, Larry.
— Ei, pai! — Chloe deu um abraço no pai.
— Fala, sogrão! — disse Scotty, cumprimentando-o com um abraço.
— Oi, .
— Oi, senhor Lawrence — trocamos um rápido aperto de mão.
, essa é Raquel, esposa do Larry — disse Claire, como se estivesse apresentando uma grande amiga, o que tornou difícil disfarçar minha surpresa.
— Oi! — sorri, estendendo a mão.
— Ela é brasileira também!
— Ah, mesmo? — falei, surpresa. Mas, apesar do leve sorriso que ela deu, não houve muita reciprocidade.
— Sim, mas estou fora do Brasil desde os 19 anos — assenti com a cabeça, pensando quanto tempo fazia, pois ela deveria regular com minha idade.
— Então... Pai! Onde está Lance? — perguntou Chloe, quebrando o clima estranho que a nova loira de Lawrence havia trazido.
— Ele está finalizando o briefing com a equipe — Disse Lawrence, e assenti com a cabeça. — Fique à vontade, . As comidas da cantina são todas gratuitas...
— Obrigada, senhor Lawrence — assenti, e ele logo se afastou com a esposa, que já estava ao telefone.
— Bem, isso foi desconfortável — murmurou Scotty.
— Sempre é... — comentou Claire.
— Mesmo? Achei que vocês se davam bem.
— Ela não é de falar muito, falta um pouco de tato — Explicou Chloe. — O assunto acaba rápido com ela.
— Qual a idade dela? Achei ela bem jovem... — perguntei, tentando não soar rude.
— 36 — Respondeu Chloe. — E não podemos nem ficar bravas com ela, porque meus pais terminaram antes de eles se conhecerem.
— Ela devia ter uns 20 na época — Scotty zoou e Claire deu um tapa nele. — É brincadeira, sogrinha! — Ele riu, e eu também.
— Te cuida, Scotty, vocês não casaram ainda! — eles riram.
! — virei o rosto ao ouvir a voz de Lance. Ele descia as escadas acompanhado de algumas pessoas, e me contive para não sorrir demais.
— Ah, ! — reconheci Sebastian Vettel ao seu lado e Lance imediatamente ficou vermelho.
— Oi, maninho! — disse Chloe, e ambos vieram até nós.
— Chloe, Scotty, oi! — ele cumprimentou-os.
— Oi, Seb! — Respondeu Chloe, enquanto Lance parava ao meu lado. — Essa é , a futura namorada.
— Chloe! — falei firme.
— Ah, só agilizando o processo — Lance apertou meu braço de leve.
— Oi... — falei para ele, vendo-o sorrir.
— Oi — Ele sorriu, dando um beijo em minha bochecha e senti meu rosto esquentar. — Oi — Rimos juntos.
— Somos invisíveis — disse Scott, me fazendo rir.
— Seb, essa é a , a mulher que eu disse — disse Lance.
— Oi, , eu sou Sebastian — Ele estendeu a mão. — Prazer em te conhecer.
— Prazer em te conhecer também — sorri, apertando sua mão.
— Seja bem-vinda! Se precisar de algo, pode falar comigo — disse Sebastian gentil.
— Obrigada! — sorri.
— Se me dão licença... — disse Sebastian, acenando antes de se afastar.
— Eu tenho alguns minutos, quer subir comigo um pouco? — Lance ofereceu. — Não desse jeito...
— Eu entendi — rimos juntos.
— Mostre o local para ela, filho. Nos encontramos na garagem.
— Combinado! — respondeu Lance, estendendo a mão para mim. Segurei-a e segui atrás dele.

— Venha! — disse ele. Fomos até o último lance de escadas e saímos num balcão aberto, parecendo uma varanda de apartamentos com dois andares.
— Uau! — foi o que falei ao ver tudo de cima. O local parecia um bar, com sofás, cadeiras e até uma piscina. Algumas pessoas estavam andando por ali, todo mundo com a mesma camiseta verde da Aston Martin.
— Gostou?
— É legal! — Falei rindo, me aproximando da beirada e apoiando a mão. — É aqui que você vem para relaxar?
— Ah, não, eu me escondo no meu vestiário — ele abanou a mão.
— Mas ninguém é mal contigo aqui, certo?
— Ah, não. Todo mundo é bem legal, na verdade — Disse ele. — Talvez porque precisem...
— Lance! — suspirei.
— Não, brincando! As equipes, os pilotos, é legal — Disse Lance. — Eu só fujo de comentários online, apareço pouco no Instagram e tudo mais...
— Não acho que esteja errado — Dei de ombros, virando para a vista e olhando para a rua embaixo. — Aqui é legal. Um pouco frio, mas...
— Sim, é legal! — Ele se debruçou ao meu lado. — Obrigado por vir. — Virei para ele.
— Eu disse que eu viria! — sorri.
— Eu sei, mas... — Ele ponderou com a cabeça e me aproximei dele. — Você tem seus compromissos, é isso que eu estou dizendo.
— Não dizendo que eu vou poder viajar o mundo contigo, mas eu posso pedir uma folga — ele riu.
— Como foram suas aulas ontem?
— Foi legal! Fiquei um pouco ansiosa, mas tudo bem — falei.
— Por quê?
— Ah, de vir aqui, ver sua vida de dentro, te ver...
— É um pouco caótico, os fotógrafos são invasivos no começo, mas tudo dá certo — disse ele.
— E quando eu vou te ver mostrando seu talento? — ele riu.
— Eu tenho treino às 13:30, coletiva às 15:30 e depois treino às 17h — Chequei o relógio e era pouco mais de 10:30. — Logo o almoço é servido, e lá pelo meio-dia eu já começo meus protocolos.
— Tudo bem, eu me viro.
— Se você quiser ir para a pista, temos vários outros eventos lá, não é só F1.
— É? — perguntei curiosa.
— É! Tem outras categorias...
— Legal! Vá fazer suas coisas, eu peço para Chloe ou sua mãe ir comigo — falei animada.
— Ei, não se livre de mim tão rápido assim! — Ele me abraçou pela cintura. — Ainda temos um tempo juntos. — Ri fracamente.
— E é seguro você me abraçar assim? — perguntei, e ele riu.
— Só tem fotógrafos da AM aqui, eles não postariam nada — Sorri, vendo-o se aproximar. — Dá até para eu te beijar. — Ri fracamente.
— Então, beija! Faz tempo desde o último. — Sorrimos e ele colou nossos lábios, fazendo-me passar os braços pelos seus ombros, colando nossos corpos mais perto.

— Uau! É alto! — falei, rindo, vendo algumas Ferrari passando pelo circuito.
— Na hora do treino a gente te leva lá na garagem — Disse Chloe. — Tem os fones, mas o legal é o barulho dos carros.
— Estou animada para ouvir! Na televisão é incrível!
— E de pensar que dois meses atrás ela não tinha ideia do que era Fórmula 1! — disse Claire.
— Ei, também não é assim! — Rimos juntas. — Ayrton Senna é brasileiro, não se esqueçam! Eu só nunca prestei atenção. É legal! — Ela riu.
— Eu adoro a adrenalina, mas fico receosa com alguma batida ou algo assim — disse Claire.
— Você poderia não ter me lembrado disso, eu já sou ansiosa de graça — ela riu.
— Bom, há o perigo, eles andam há mais de 300 quilômetros por hora... — Disse ela. — Mas é o sonho, então se a gente conseguiu ajudar a realizar os sonhos, então que vamos.
— E o esporte é muito mais seguro hoje em dia — disse Chloe, acenando para Scotty que falava com outra pessoa.
— Quem é? — perguntei, curiosa.
— Ah, é o Daniel Ricciardo…
— McLaren, certo? — perguntei.
— Isso! Ele é australiano também, grande amigo do Scotty. Eles fazem algumas propagandas juntos... — assenti com a cabeça quando Scotty se aproximou de nós.
— Meus amores, eu cheguei! — disse ele rindo, passando o braço pelos ombros de Chloe.
— E como ela está? — perguntou Chloe.
— Elas estão muito bem! — Ele sorriu. — Acharam melhor ela não vir para cá, mas ela vai estar na Inglaterra. Pelo menos o bebê vai estar com um mês completo.
— Ah, que bom! Eu mandei uma mensagem pelo Instagram, mas acho que ela deve ter recebido milhares e ficou perdido.
— Ele agradeceu o presente. Falou que chegou certinho — disse Scotty.
— Do que estão falando? — Claire tirou minha vontade de perguntar.
— Da Harper, esposa do Daniel...
— Noiva! — disse Scotty.
— Que seja! — Disse ela rindo. — O bebê deles nasceu dia três de junho.
— Sério? Que bênção! — Claire falou sonhadora.
— É um menino! Falaram que um meninão! Ela está com a mãe do Daniel lá em Mônaco. Vai tentar ir em Silverstone.
— Ah, que delícia! E estão bem?
— Sim, mamãe e bebê bem — disse Scotty.
— Ah, que bênção! — ela sorriu.
— Só falta o Daniel amadurecer agora, mas não vamos nos apressar — disse Chloe, fazendo-os rir.
— Não, sem pressa — eles riram.
— Bom, vamos almoçar? Estou com fome! — disse Scotty, me fazendo rir.
— Não é nem novidade! — Claire foi irônica, me fazendo rir.
— Eu não tomei café, então estou faminta! — falei, fazendo as risadas continuarem.
— Você pode se servir à vontade em qualquer lugar dentro do motorhome, tá? No bar, no restaurante, fique à vontade.
— Ah, o senhor Lawrence falou — Afirmei com a cabeça. — Eu vou me soltando aos poucos, não se preocupem. — Eles riram.
— Logo vai se sentir uma verdadeira WAG — disse Scotty.
— Uma o quê? — franzi a testa.
— Deixa quieto! — disse Claire, abanando a mão.


Capítulo 8


WAG: wives and girlfriends de famosos. Ou seja, esposas e namoradas. E sim, pelo visto eu já estava virando uma.
Uma das coisas que eu mais odeio neste país é que aqui não existe aquela cultura de primeiro ficar, depois pedir alguém em namoro e, então, deixar o futuro seguir seu curso. Mas eu não queria que o mundo me rotulasse assim antes mesmo de Lance me considerar dessa forma. Era loucura!
Durante o fim de semana, não saí para muitos lugares além da garagem, na hora dos treinos e da classificatória de sábado. Mas, sempre que eu estava fora do motorhome, sentia olhares sobre mim. Os fãs, o pessoal da garagem... Pelo menos Lance não parecia ser muito popular, então, ao menos, os fotógrafos não ficavam me procurando por aí. Ainda assim, era estranho.
No dia da corrida, parecia que tudo tinha mudado. Onde antes estavam X pessoas, agora havia 3X no domingo. Mais gente, mais fotógrafos, mais famosos e mais caos — se é que a língua portuguesa me permite falar assim.
Tive pouco contato com Lance. A parte de marketing da Fórmula 1 é incrível e totalmente fora da realidade; até sentia falta dos meus tempos na área de comunicação. Ele me encontrou logo que cheguei com Chloe e Claire. Tomamos café junto com toda a sua equipe e funcionários, e logo depois ele sumiu.
Me ocupar num lugar sensacional como aquele é fácil, mas fica um tanto chato quando você não tem tanta intimidade com ninguém.
Quando chegou o horário da corrida, segui o pessoal até a garagem. Nos deram headphones iguais aos que a gente vê na televisão e me indicaram um canto para ficar sentada em uma banqueta alta. Quando eram próximas das duas da tarde, Lance e Sebastian apareceram, cada um seguindo para um lado da garagem.
Apesar de as câmeras da Fórmula 1 e da AM estarem em cima da gente, isso não impediu que Lance fosse cumprimentar toda sua família e a mim.
— Já cansou? — rimos juntos, e neguei com a cabeça.
— Não, acho que é impossível cansar — brinquei, e ele sorriu. — Toma cuidado, tá?
— Pode deixar. — Ele apertou uma mão nas minhas costas e colou seus lábios em minha bochecha em um curto beijo, me deixando envergonhada com a atenção. — Te vejo depois.
— Até depois. — Acenei, e ele seguiu para fazer seus protocolos com a equipe.
Vi uma câmera em meu rosto, mas tentei não expressar muita coisa. Apenas mantive a expressão fechada, mas aposto que minhas bochechas estavam roxas.
Os dois carros da AM saíram junto com outros que passaram pelo paddock, e o caos que a gente vê na TV começou. Lance largaria em décimo sétimo; isso é péssimo. Sei que Lance não é competitivo para vitórias e campeonatos, mas eu estou aqui, torcendo para que ele tenha um bom resultado.
Após o hino do Canadá, tivemos o “Light out and away we go”.

— Ah, cara, eu quero minha cama! — disse Lance ao sair do banheiro, vestindo jeans e um moletom cinza.
— Imagino. — Ri. — Quantos quilos você perde de uma corrida para outra?
— Uns três... quatro, depende do dia... — sentou-se ao meu lado. — Mas nem é a corrida que cansa, é o entorno. Se fosse só correr e ir embora, não ficaria assim.
— E agora? O que vai fazer? — perguntei.
— Pensei em irmos para minha casa, pedimos uma pizza e conversamos até dormir... — respondeu. — Porque, honestamente, é só o que tenho pique para hoje, . — Ri com ele.
— Não se preocupe, Lancelot, sei que não fará nada que eu não queira.
— Exatamente. — assentiu, deixando um beijo em minha bochecha. Sorri. — Topa?
— Tenho que trabalhar pela manhã... — gemi. — Na escola.
— Podemos passar na sua casa, você pega uma troca de roupa e, amanhã cedo, vai direto.
— Você não vai embora amanhã, vai? — perguntei.
— Não se preocupe. Ficarei aqui mais uma semana. — negou com a cabeça.
— Bom! Podemos fazer assim, então. — assenti.
Ele piscou e se levantou, terminando de arrumar suas coisas. Logo seguimos para baixo. Lance cumprimentou algumas pessoas, Vettel nos abordou mais uma vez, feliz por me conhecer, e seguimos pelo paddock.
— Onde estão seus pais? — perguntei.
— Meu pai deve estar em reunião, minha mãe e a Chloe já foram.
— Eu poderia ter ido com eles, não quero atrapalhar.
— Você não atrapalha, . — garantiu, me fazendo sorrir. — Estou feliz por te ter aqui.
— Sou feliz por me permitir viver isso.
— Espero que viva muito mais. — sorriu.
— Tomara!
O paddock já estava bem mais vazio do que ao longo da corrida. Alguns funcionários ainda passavam de lá para cá, carregando pneus, partes de carro ou apenas pastas nas mãos.
— Ei, Estie! — gritou Lance para alguém. Identifiquei Ocon quando ele se virou.
— Ei, Lance, já está indo? — falou Ocon.
— Sim, aproveitar um pouco com a família.
— Não só a família, imagino! — brincou Ocon, e fiquei vermelha pela milésima vez naquele dia.
— Sutil, cara! — Lance riu, e os dois estalaram as mãos em um aperto.
— Prazer em te conhecer, ! — cumprimentou-me Ocon, e trocamos um aceno mais discreto. — Se cuidem!
— Você também! — respondemos juntos, e Lance esticou a mão para mim. Segurei-a.
— Quer andar assim? — perguntei.
— Não tenho por que não — respondeu. — Estamos juntos, não?
— É o que todo mundo está dizendo, aparentemente... — murmurei.
— E você quer isso?
— Quero, mas... — franziu a testa. — Eu quero que você me peça.
— Te peça?
— Sim! Para ser sua namorada — expliquei. — É comum no Brasil, sabe? É algo importante...
— Ok... — ponderou. — Mas não vou fazer isso agora, aqui, no meio do paddock, no fim do dia. — Ri com ele. — Vou planejar e fazer em um momento mais apropriado, que tal?
— Acho que vou gostar disso. — sorri.
— Combinado! — esticou a mão novamente, e rimos, voltando a caminhar pelo paddock.

Nós caminhamos pelo paddock até passarmos pela mesma catraca de entrada. Um fã ou outro ainda estava perdido ali, mas não houve gritos da parte dela, então Lance não deu muita atenção. Eu evitava pesquisar sobre o Lance corredor, porque muita gente não gostava dele, mas isso não era motivo para xingar os outros.
Andamos um pouco até chegarmos ao estacionamento privativo, onde o Aston Martin em que andei no dia do leilão estava estacionado. Ele abriu as portas com a chave, e eu entrei ao lado do motorista. Dirigimos pela cidade, passando em casa para pegar uma roupa, e devo dizer que senti vontade de entrar no meu chuveiro. Depois, seguimos por Montréal, pegando um pouco de trânsito até chegarmos à sua casa. Alguns carros estavam estacionados no jardim.
— Vem, ! — disse ele antes de se aproximar do espaço entre os dois bancos.
— Onde? — perguntei, e ele segurou meu rosto.
— Aqui — ele sorriu, me fazendo rir junto com ele quando entendi, e trocamos alguns beijos.
— Tentando fugir da sua família? — perguntei, e ele riu.
— Não é isso, é que talvez demore um pouco para termos privacidade.
Assenti com a cabeça.
— Vamos lá. — Dei um longo suspiro, e confirmamos antes de sair por lados opostos.
Ele abriu o porta-malas para tirar nossas mochilas e saiu mais carregado do que eu. Demos a volta pela casa e, em vez de entrarmos pela porta de serviço, fomos até a área da piscina e entramos pela porta principal, onde aconteceu o primeiro almoço em que conheci Lance. De fora, já dava para ver algumas pessoas lá dentro.
— Minha tia está aqui! — disse Lance, abrindo a porta, e eu suspirei. Mais parentes para conhecer.

— Bem, acho que minha bateria social já era — disse Lance, afastando-se na cadeira.
— Vá dormir, filho. Você já passou da sua hora — disse Claire, e vi que já passava da uma da madrugada. Se eu estava cansada, imagine Lance.
— Eu vou aproveitar a deixa também! — disse Chloe, bocejando logo em seguida.
— Boa noite, galera! Obrigado pelo apoio! — disse Lance ao se levantar, e eu e Chloe o acompanhamos.
— Parabéns, filho! Vamos evoluir juntos — disse Lawrence, e Lance deu um curto sorriso.
— Bom te ver, tia! — Lance deu um beijo em sua tia, Vanessa, e, ao passar por sua mãe, ela o puxou pela cabeça, encostando a testa na dele e sussurrou algo:
Yesimecha Elo-him kê Efraim vechi-Menashe. — Imaginei que fosse algo relacionado ao judaísmo.
— Boa noite para vocês! — disse ele.
— Boa noite! — falei fracamente.
— Boa noite, queridos sogros! — Scotty falou pomposo, como sempre.
— Comportem-se! — disse Claire, nos fazendo rir. Ouvi Claire sussurrar algo semelhante para Chloe antes de ela nos seguir com Scotty.
— O que sua mãe te disse? — perguntei, subindo os degraus.
— É uma bênção judaica, basicamente significa "Que Deus te abençoe como Efraim e Menashe". — assenti com a cabeça.
— E o que isso quer dizer? — ele suspirou, rindo fracamente, e Chloe riu.
— Vai! Explica! — ela o provocou.
— A história é meio longa, mas, basicamente, Yaacov, que fez essa bênção originalmente, teve doze filhos. Um deles, Yossef, permaneceu justo durante toda a provação no exílio. Então, Yaacov chamou os filhos de Yossef e lhes deu uma bênção especial, para que se tornassem modelos para os filhos judeus do mundo todo.
— Legal! — falei, sorrindo.
— Nota 10 em Estudos Bíblicos, Lance! — disse Chloe, esticando a mão para ele.
— Ufa! — ele brincou, fazendo-nos rir e estalarmos os dedos.
— Boa noite, galera! — disse Scotty.
— Boa noite! — falei.
— Não façam tanto barulho, por favor! — Lance o empurrou, fazendo-o sair gargalhando, e seguimos em frente.
— Idiota! — Lance falou, rindo, e sorri.
Acho que era a primeira vez que eu subia para o segundo andar. Era bem largo; eu me sentia no corredor dos quartos da casa da Cinderela. As portas eram altas, talvez com uns cinco metros de altura, e bem largas. Ele abriu uma porta no começo do corredor e deu espaço para que eu entrasse.
Apesar da decoração clássica do lado de fora, por dentro era igual ao quarto de um adolescente… Bem, com um toque de um designer de interiores, é claro. A cama ficava no meio do quarto, literalmente. Atrás dela, havia um pequeno deck onde estavam a escrivaninha, os computadores e os videogames. Na frente da cama, uma televisão pendia do teto. Em um dos lados, havia uma poltrona com uma mesa de centro, uma cadeira reclinável e uma prateleira com alguns livros. Um corredor seguia perto da ampla janela, que ia do chão ao teto, permitindo-me ver um pouco das luzes de Montréal ao fundo.
— O banheiro fica pelo corredor, fique à vontade — disse ele.
— Deus! — falei, e ele riu.
— O quê? — ele perguntou.
— Esse quarto é maior do que minha casa — comentei.
— Qualquer coisa é maior do que sua casa, ! — ele falou, e eu lhe dei um soco no ombro, fazendo-o rir.
— Falei da do Brasil.
— Ah, certo! — Lance riu com ironia, e eu lhe mostrei a língua.
— Não quer ir primeiro? Você está mais cansado do que eu.
— Não se preocupe, me troco no closet e depois só escovo os dentes.
— Combinado!
E assim foi feito. Enquanto eu tomava banho e cuidava da minha higiene pessoal no banheiro, Lance se trocou e organizou alguns de seus itens na mochila. Quando saí pronta para dormir, ele entrou apenas para escovar os dentes.
— Se importa de dividir a cama? — ele perguntou.
— É claro que não — respondi, e ele assentiu com a cabeça.
— Qualquer coisa, é só me falar, está bem?
— Não se preocupe!
Fui até a cama e comecei a tirar o grande edredom que a cobria, já que seria usado para o tempo mais frio à noite. Lance se aproximou da janela e apertou um botão, fazendo baixar um blecaute, deixando o quarto iluminado apenas pelas luzes amarelas.
— Legal! — falei, rindo.
— Prático! — disse ele, rindo também.
Me ajeitei na cama, e ele logo se deitou ao meu lado, puxando o edredom para cima de nós. Nos encontramos no meio do caminho. Ele me abraçou pela cintura, e eu apoiei minha mão em seu peito, sentindo nossos lábios se encontrarem logo em seguida. Os beijos não eram apressados, e nem chegamos a suar, pois nossos corpos estavam completamente exaustos.
— Você gostou do fim de semana? — ele perguntou.
— Sim, eu amei! — sorri. — Podia ter um desse por semana.
Lance riu.
— Ah, não, eu preciso descansar!
Sorri.
— Então descanse, Lancey. Descanse! — comentei.
— Boa noite, ! — ele falou.
— Boa noite, Lancelot! — sorri, sentindo mais um beijo em meus lábios.
— Alexa, desligar as luzes! — disse ele.
— Tudo bem! — respondeu a voz eletrônica, e as luzes se apagaram.
Em menos de dois minutos, Lance já estava roncando.
Que inveja!


Capítulo 9


— Não é justo! — Meu beicinho já estava doendo pelos últimos dez minutos de insistência.
— É um leilão! Ela venceu! — Lance insistiu. — Não vai acontecer nada, ! Eu prometo! — disse firme, pela milésima vez.
— E quem disse que estou achando algo de você? É nela que estou pensando! — falei, desfazendo os braços cruzados e o beiço.
— É um leilão, ... Não é o primeiro, e provavelmente não vai ser o último. — Suspirei, notando que ele tinha parado de brincar e agora falava sério.
— É estranho...
— Talvez... É um estilo de vida um pouco estranho, mas não estou pensando nisso. Estou pensando na causa. — Suspirei, lembrando da amiga de infância da minha mãe que faleceu após uma dupla mastectomia. — Você confia em mim?
— Sim, eu confio — falei, e ele assentiu com a cabeça.
— Ótimo! — Ele vestiu o casaco de volta. — Nos vemos amanhã? — Suspirei, checando o relógio e vendo que ainda tinha uns dez minutos até minha próxima aula.
— Sim... — Tentei novamente a tática do beicinho, e ele me deu um selinho, me fazendo suspirar.
— Divirta-se — falei, e ele assentiu com a cabeça.
— Eu vou, na verdade, porque esses jantares costumam ser bem chatos para quem leva para jantar. — Suspirei.
— Vocês deveriam ter me deixado dar um lance — falei, e ele revirou os olhos.
— Tchau, ! — disse.
— Tchau — suspirei. — Boa noite.
— Boa noite! — Ele estalou um beijo em minha bochecha antes de sair pela porta, me fazendo suspirar.

Apesar de ter quatro aulas com uma hora de intervalo, a noite passou muito devagar. Eu só conseguia pensar em Lance com sei lá quem. Confesso que, na hora, não percebi quem foi que ganhou o lance — acho que uma mulher entre os seus quarenta anos. Não podia falar nada, pois, atualmente, não tem isso de idade, e, na minha cabeça, uma mulher que dava um lance aleatoriamente para ter um piquenique com um famoso só tinha uma intenção.
— Você confia nele, você confia nele! — Esse era o mantra que eu repetia enquanto comia meu miojo na hora do jantar, e o mesmo que minhas alunas falaram para mim durante as aulas.
Fechei o notebook às 22h30, só querendo esquecer de tudo para que a ansiedade passasse. Tirei rapidamente a roupa que usava e fui para o banho. Queria um banho completo, com direito a lavar o cabelo e tudo, mas não estava a fim de secar o cabelo àquela hora. Saí do box enrolada na toalha, ficando assim enquanto escovava os dentes e passava hidratante no rosto.
Franzi o cenho ao ouvir batidas na porta e chequei o relógio novamente ao ver que já passava das onze. Aproximei-me da porta, encostando a orelha.
— Quem é? — cochichei.
O amor da sua vida. — Ouvi a voz de Lance e ri fracamente, destrancando a porta. Ele estava com a mesma roupa de quando saiu. — Uau, que bela recepção!
— Espera um pouco, vou me trocar! — Ele riu, e eu me tranquei no banheiro para colocar o pijama.
Você viu?! Eu estou vivo! — ouvi Lance, e revirei os olhos, pendurando a toalha no box.
— E espero que sem nenhuma marca de batom! — falei, abrindo a porta do banheiro e dando de cara com ele. — Filho da mãe! — Ele riu.
— Sem marca de batom! — Ele esticou as golas da camisa para cima, me fazendo sorrir.
— Você não tem ideia de como eu fiquei. — Ele me abraçou pela cintura. — Como foi? E nem precisa falar empolgado! — Ele riu.
— Foi ok — disse. — Depois dos primeiros minutos de surto, só fiz o passeio que tinha programado. — Deu de ombros.
— Ela não era su-u-u-u-u-u-per fã? — Revirei os olhos, e ele riu.
— Ela é, na verdade. — Suspirei. — Mas foi nada demais, . Está tudo bem! — Suspirei novamente.
— Ok, ok, vou acreditar! E só de você estar inteiro aqui já me deixa mais feliz. — Ele sorriu.
— Vai dormir aqui? — perguntei.
— Dormir na sua cama minúscula ou ir pra minha e dormir sozinho?
— Não fale mal da minha casa! Ela é boa! — Fiz um bico, e ele me deu um beijo.
— Eu vou dormir aqui por você! — disse, e eu sorri.
— Bom! — Dei um pulinho para o quarto/sala/cozinha e puxei a cama de baixo, vendo que já estava com o lençol posto. — Você quer dormir na de cima ou na de baixo?
— Na de baixo. Não vou te deixar dormir na pior cama. — Suspirei, pegando um lençol e uma coberta no armário.
— Mas você é um atleta, precisa dormir bem — falei.
— Eu gosto de acampar, já dormi mal antes. — Ele disse, e eu ri fracamente.
— Eu vou me trocar. — Ele foi para o banheiro, enquanto eu tirava a proteção da minha cama.
Aproveitei para fechar a cortina e já me deitei, fazendo minhas orações diárias. Lance saiu do banheiro mais cheiroso do que entrou, e eu sorri ao finalizar as orações.
— Pronta? — ele perguntou, e assenti com a cabeça.
— Vamos ver se é gostosa mesmo! — Ele se deitou ao meu lado, me fazendo rir.
— Idiota! — Virei o rosto para ele, vendo-o se ajeitar na caminha.
— É bom... até... — Revirei os olhos e bati a mão no disjuntor.
— Idiota! — Ele riu.
— Adoro seus elogios! — Sorri, vendo-o se virar de novo, me olhando da cama mais baixa.
— Chato! — Ele sorriu.
— Vem aqui! — Ele indicou com a cabeça.
— Não cabem duas pessoas aí! — falei.
— Vem... — disse de novo, e eu inclinei meu corpo para a cama dele. Ele me puxou, me fazendo cair parcialmente em cima dele. — Viu? Cabe! — Ri fracamente, vendo seu sorriso à pouca luz que entrava.
— Depois reclama que eu te chamo de idiota. — Ele me apertou pela cintura.
— Seu idiota! — disse, e ele colou nossos lábios novamente.
Os pequenos selinhos logo começaram a se intensificar. Meu corpo começou a esquentar, e nossas línguas se encontraram, me fazendo suspirar.
— Se eu não sair daqui agora, você vai... — sussurrei.
— Você não quer? — Ele sussurrou de volta.
— Quero... — falei. — Aqui? — Ele riu fracamente, tirando o cabelo do meu rosto.
— Quem sabe você me convence de que aqui é gostoso? — Rimos juntos, e ele voltou a colar nossos lábios.
Ele inclinou o corpo, me colocando por baixo, e eu ri ao bater a cabeça na quina da cama. Logo, seu corpo estava sobre o meu.
— Eu te amo, — disse, fazendo meus olhos se arregalarem de surpresa.
— Eu te amo, Lancelot — repeti com facilidade, fazendo-o sorrir e colar nossos lábios de novo.
O beijo se tornou mais intenso, e a ereção de Lance logo se tornou evidente, fazendo meu corpo se arrepiar a cada toque. Nossas roupas começaram a ser jogadas no chão, e suspirei quando ele me preencheu, mantendo nossos corpos colados, o suor deslizando por nossas peles.

— Lance, cala a boca! — falei, ouvindo sua gargalhada em seguida, enquanto ele se escondia atrás do sofá novamente. — Eu estou aqui como professora da sua mãe, não sua... sei lá o que somos! — completei.
— Ainda não oficializaram nada? — Claire voltou da cozinha. — Faz tempo que estão juntos.
— Ela quer que eu peça — ele falou de trás do sofá.
— Como assim? — Claire perguntou, colocando alguns salgadinhos na nossa mesa.
— É comum no Brasil pedir formalmente alguém em namoro, e essa cultura de que, depois de alguns beijos, já estão em um relacionamento não me agrada — expliquei.
— Hum, interessante. Precisa ser algo pedido para os pais ou...?
— Não! — falei. — Bem, não necessariamente. Casais mais novos acabam pedindo, mas os mais velhos não. — Ela assentiu, compreendendo. — É um gesto...
— É um gesto bonito! — Claire disse. — Eu super aprovo, Lancey.
— Eu vou preparar algo, mas vai ser surpresa! — ele disse, se levantando. — Preciso voltar... — Suspirei.
— Não fala sobre isso! — falei quase em um gemido. — Não quero saber.
— Eu tenho, ! — ele disse, e suspirei. — Mas não hoje.
— É, amanhã... graaande diferença — falei ironicamente, e ele suspirou.
— Por que vocês não saem hoje? — Claire sugeriu, comendo uma batatinha. — Aproveitam a noite, a dorme aqui e, amanhã cedo, ela vai contigo para o aeroporto.
— Não tenho nada melhor pra fazer — falei.
— Combinado! Mas depois! — falei firme. — Vamos voltar, Claire?
— Vamos! — Ela ajeitou a postura na cadeira.
— Vamos falar sobre o verbo imperfeito! — Ela deu um longo suspiro.
— Vamos... — disse rindo, enquanto colocava uma batatinha na boca.

— Ok, estou pronta! — Saí do banheiro do Lance, dando uma batidinha nos cabelos. Não tinha trazido muitas roupas para passar o fim de semana na casa dele, então optei por uma calça jeans, botas e um suéter larguinho. Costumava usá-lo em casa no frio, mas era o que eu tinha por enquanto, para evitar voltar só para trocar de roupa.
— Você está linda, ! — ele disse, usando uma calça jeans escura, uma camiseta cinza e um blazer de outro tom por cima.
— E você está todo bem-vestido. — Ele negou com a cabeça, vindo em minha direção.
— Não estou! Chegando lá eu tiro, e ficamos iguais! — Suspirei. — Vou te levar para um lugar legal! — Ri fracamente.
— Eu gosto de lugares legais! — Caminhei até ele, segurando sua mão.
— E gosta de comer também? — ele perguntou, e ri fracamente.
— Sim! — Abri um largo sorriso, e ele riu, colando nossos lábios rapidamente.
— Então vamos! — Ele indicou com a cabeça, e eu ri, seguindo com ele.
Kenya latiu quando saímos do quarto, e acariciei-a rapidamente antes de descer as escadas. Acenamos para Claire, que estava na sala de leitura, e para Sebastian, que estava na cozinha, a caminho da garagem. Entramos na larga garagem, onde diversos carros de luxo da família Stroll estavam estacionados, e fomos no mesmo Aston Martin de sempre.
Chegamos perto da baía King Edward e seguimos em direção à Basílica de Notre-Dame. A rua começou a ficar movimentada por causa do sábado à noite, fazendo Lance dirigir mais devagar devido às pessoas andando, até que ele parou.
— Chegamos! — disse ele, já abrindo a porta. Virei o rosto para o lado e vi “Mangiafoco” no vidro, arregalando os olhos ao mesmo tempo que um valet abria a porta, e Lance aparecia ao seu lado.
— É o restaurante do Jeff! — falei animada. — Obrigada! — Agradeci ao valet, que assentiu com a cabeça.
— Sim! Achei que você gostaria de comer pizza! — Ele riu, me segurando pela cintura.
— Pizza italiana, com você, e no restaurante do Jeff?! Si-i-i-im! — falei animada, saindo da rua e oficialmente entrando no restaurante.
— Vem! Não garanto que ele esteja aqui, mas podemos aproveitar. — Ele disse. — Mesa para dois, por favor — disse ao garçom.
— Me sigam! — respondeu o garçom.
— Ah, Lancelot! É incrível aqui! — Segui atrás dele, olhando todos os cantos do restaurante.
O local tinha uma iluminação mais baixa, apenas com alguns spots de luz. A maioria das mesas por onde passamos era para duas pessoas, mas, do outro lado, era possível ver mesas maiores, para grupos. O garçom indicou a mesa e puxou a cadeira para que eu sentasse.
Merci! — falei, e ele nos entregou os cardápios.
— Logo volto para anotar os pedidos.
— O que achou? — Lance me perguntou.
— É demais! — Suspirei.
— Nunca tinha vindo aqui?
— Nunca entrei! — Falei. — Passei na frente algumas vezes logo que cheguei aqui, mas, na época, estava como turista, então não gastava caro com comida... — Ele assentiu com a cabeça. — Depois, a rotina acabou impedindo que eu viesse — falei, passando os olhos pelo cardápio. — E os valores nem são tão caros.
— Que tal um vinho suave e uma tábua de frios para começar? — ele perguntou.
— E depois pizza? — Ele riu.
— E depois pizza! — disse eele, e assenti com a cabeça, vendo-o sorrir comigo.

— Acho que nunca te vi tão feliz! — Lance disse, rindo, enquanto eu engolia o último quarto de pizza.
— É pizza! — Suspirei, fechando os olhos enquanto mastigava. — Melhor! Pizza italiana! — Ele riu.
— Bom! Agora já sei como te ganhar se estiver brava! — Revirei os olhos, limpando as mãos no guardanapo.
— Por que me trouxe aqui? — Perguntei, e ele riu.
— Porque foi uma das primeiras coisas que me disse quando nos conhecemos... — Assenti com a cabeça. — Eu gosto de agradar as pessoas.
— É fácil pra você agradar as pessoas... — Ele revirou os olhos.
— Nem sempre é tão fácil... — Ele deu uma risadinha.
— Quanto as críticas te incomodam? — Perguntei, apoiando os cotovelos na mesa.
— Depende... — Ele ponderou, mexendo a cabeça. — Alguns dias são piores. E eu não estou podendo contar muito com a sorte. O carro não está bom! Até o Vettel, que é tetracampeão, não consegue fazer milagre com o carro... imagina eu.
— E como você lida com isso? — Perguntei.
— Nós temos psicólogos na equipe — ele respondeu. — Meu pai sempre se preocupou com isso desde meus anos no kart... — Assenti com a cabeça. — Mas brincadeiras maiores, problemas maiores... — Confirmei com um gesto.
— Só me promete que não vai deixar isso te afetar... — Ele segurou minha mão sobre a mesa.
— Não se preocupa com isso — ele disse. — É por isso que eu me mantenho discreto na vida pessoal. Venho pra cá nas pausas, nas folgas. Fico com meus amigos de verdade, com minha família... — Assenti. — E agora você! — Dei um curto sorriso. — Tenho que admitir que é muito chato vir da Áustria pra cá... — Rimos juntos. — Encarar pelo menos 10 horas de viagem...
— Faz muito tempo que eu não faço um voo longo, mas imagino... — Ele riu.
— Mas vale a pena por você. — Confirmei com a cabeça.
— Eu te amo, Lancelot... — falei, vendo-o arregalar os olhos por uns segundos antes de relaxar, aliviado.
— Ainda não me acostumei com isso... — Sorri.
— Eu também te amo, ! — disse ele, rindo, e meu sorriso se alargou. — Eu nem fui e já quero voltar... — Me inclinei sobre a mesa, e ele fez o mesmo, tocando nossos lábios rapidamente.
— Só mais duas semanas — falei, e ele suspirou.
— Só mais duas semanas! — Ele repetiu, e peguei o último pedaço da pizza, dando uma mordida.

— Vai ficar tudo certo, ok?! — disse ele, e suspirei.
— Eu sei... — suspirei, sentindo-o me abraçar fortemente.
— Eu volto depois do GP da Áustria. — Ele deu um beijo em minha cabeça, voltando a olhar nos meus olhos. — Menos de duas semanas.
— Menos de duas semanas — repeti, assentindo com a cabeça.
— Tem certeza de que não pode ir comigo? — Ele segurou meu rosto.
— Não posso. Eu tenho a escola, meus alunos... sua mãe! — Ele assentiu com a cabeça.
— Ela precisa de você. — Assenti com a cabeça.
— Sim! — Ele colou os lábios nos meus novamente, me fazendo suspirar. — Vou sentir saudades.
— Eu também. — Ele suspirou, colando nossas testas.
— Você vai estar aqui quando eu voltar?
— Não prometo nesse local, mas estarei em Montréal! — Ele assentiu.
— Vem cá! — Ele me abraçou novamente, deu um beijo em minha testa e colou nossos lábios num selinho. — Eu tenho que ir.
— Ok... — falei fracamente, assentindo.
— Eu te amo!
— Eu te amo! — repeti, vendo-o sorrir.
— Nos falamos assim que possível.
— Combinado! Boa viagem. — Ele confirmou com a cabeça e deu um aceno antes de se virar para o jatinho.
Me afastei alguns passos, ficando ao lado de Chloe e Claire. Lance deu outro aceno antes de entrar no avião. Acenei rapidamente enquanto a porta se fechava e os funcionários de solo começavam os procedimentos de saída.
— Uh! Chegaram finalmente no "eu te amo"? — Chloe comentou, e ri fracamente.
— Sexta! — senti meu rosto esquentar.
— Ah, eu estou tão feliz por vocês! — disse Claire, enquanto Chloe me abraçava.
— Ah, eu vou ter uma irmãzinha, finalmente! — Ela foi dramática.
— Eu sou mais velha do que você! — falei, fazendo-a me soltar.
— Não importa, ainda é uma irmã. — Rimos juntas.
Nos afastamos até a cobertura do hangar, e fiz um discreto sinal da cruz enquanto o avião taxiava na pista do aeroporto de Montréal. Esperamos em silêncio até o avião correr pela pista e subir aos ares.
— Bom, voltamos à rotina! — disse Chloe.
— Vai pra onde agora, ? — Claire perguntou, e suspirei.
— Acho que vou pra casa. Não apareço por lá desde sexta, preciso fazer uma faxina. —
— Está certo — ela confirmou. — Se precisar de qualquer coisa, estamos aqui.
— Não se preocupem, eu vou ficar bem! — Sorri. — Tenho bastantes aulas para me ocupar. — Rimos juntas. — Inclusive, sábado continuamos a sua saga com o italiano.
Andiamo! — disse ela, me fazendo sorrir.
— Bem, ao menos você aceita uma carona? — Chloe sugeriu.
— Não vou negar! O táxi do aeroporto é caro demais! — Elas riram, e seguimos em direção ao carro que estava dentro do hangar de voos privativos.


Capítulo 10


— Vamos falar da ! — Chloe disse antes de virar o restante da cerveja.
— Ah, lá vai... — suspirei, virando uma dose de tequila, fazendo ela e Beatrice rirem.
— Ah, fala sério! Faz quase uma semana que o Lance foi embora e você parece que está aguentando bem! — Chloe comentou.
— É verdade! — Beatrice concordou, e suspirei.
— É até que fácil lidar com a saudade quando você se entope de trabalho. — Dei de ombros, roubando um nacho do prato, mastigando antes de continuar. — Qual é! Ele foi embora no domingo, eu limpei meu apartamento, passei o dia lavando roupa... Durante a semana trabalho o dia todo na escola e ainda tenho mais quatro aulas em casa. E hoje passei o dia na sua casa... — Apontei para Chloe. — A gente se fala bastante por mensagem, faz uma chamada de vez em quando, mas ele está cinco horas à frente. Quando eu termino de trabalhar, já são três da manhã pra ele...
— Bem, a corrida é amanhã. Depois vai faltar só mais uma — disse Chloe.
— É... Vamos ver como ele se sai. — Dei de ombros.
— Querem ver juntas? — Beatrice sugeriu.
— É às 10 da manhã... — eu e Chloe falamos quase juntas, fazendo Beatrice rir.
— Não somos nós que acordamos às seis da manhã pra correr. — Chloe completou, nos fazendo rir.
— E cadê sua mãe? — perguntei. — Ela disse que viria conosco.
— Reunião de emergência da empresa. — Foi Beatrice quem respondeu. — Até seu pai estava lá...
— Vish! — Chloe suspirou. — Ela não chega em casa antes das duas da manhã...
— O que isso significa? — perguntei.
— Geralmente, algo monetário. — Beatrice explicou. — Às vezes é alguma coisa boa, alguma novidade... Mas, no geral, são só contas. Todas as contas da Holding...
— Você não deveria estar lá? — perguntei.
— Ah, não. Só o pessoal do alto escalão. Eu só sou uma assistente. — Ela ergueu as mãos, brincando. — Mas é legal! Eu gosto das coisas que o marketing faz... — Chloe comentou.
— E você? — Virei para Chloe. — Quando oficialmente vamos ouvir sua voz maravilhosa? — Ela riu.
— Estamos movimentando os pauzinhos. Talvez no ano que vem eu tenha algo. — Ela ponderou com a cabeça. — Meu pai acha que é melhor tentar algo sem gravadora... Talvez seja a escolha certa por agora.
— Você parece incerta...
— Sim, eu sinto isso — disse ela. — Estou escrevendo músicas, compondo... — Ponderou novamente. — Mas eu aviso vocês... — Rimos juntas.
— Bem, eu agradeço por ter vocês! Foi o melhor presente dessas últimas semanas. — disse Beatrice, nos fazendo sorrir.
— Bem... Eu tenho o Scotty, a está toda de coraçõezinhos com meu irmão, e você...? — Viramos para ela. — Você nunca falou de nada nesse departamento. — Ela riu fracamente.
— É complicado... — suspirou.
— Bem, descomplique e conte pra gente! — falei.
— Eu sou gay... — Ela nos olhou, e continuamos encarando-a.
— Então...? — falei, mostrando que não nos importávamos.
— Eu tive uma namorada por cinco anos — ela suspirou. — Eu estava pronta pra dar o próximo passo... Comprei flores, me vesti direitinho, comprei o anel e fui pedir a mão dela pra mãe... — suspirou novamente.
— A mãe não deixou? — Chloe perguntou.
— A mãe nunca soube sobre mim... — Ela pressionou os lábios. — Foi um milagre ela ter me dado o endereço certo. Ela é do Norte de Alberta...
— Wow! — falei. Até eu sabia o quão longe era.
— É... Aproveitei um fim de semana que ela disse que ia visitar a mãe, fui no dia seguinte. Chegando lá, eles estavam com aquela família feliz, e ela tinha um pseudo-namorado só pra enganar a mãe...
— Oh! — disse Chloe. — Ela não era assumida pra família.
— Não... — Beatrice respondeu, num suspiro.
— O que aconteceu quando você bateu na porta? — perguntei.
— Percebi o que estava acontecendo no minuto em que abriram. — Ela disse. — Fingi que era a casa errada, mas uma tia me reconheceu de umas fotos no Instagram. Ela disse: "você não é a amiga da Dominique?" e eu fiquei três horas fingindo que era só bestie da Dominique, sem trocar uma palavra com ela.
— E então? — Chloe quis saber.
— Consegui escapar quando um vizinho chegou. Usei a desculpa de que estava tarde e que precisava trabalhar — disse ela. — Dominique até veio atrás de mim, mas eu não quis conversar. E ela continua tentando até agora... — Assenti com a cabeça.
— Há quanto tempo isso foi?
— Um mês... — Franzimos a testa.
— Ah, Deus! — Seguramos sua mão sobre a mesa imediatamente.
— E você não nos contou nada? — Chloe foi mais rápida. — Você deve estar sofrendo sozinha...
— É como a disse, é fácil ignorar o resto quando está trabalhando...
— A cabeça não... — falei, e ela concordou com a cabeça.
— É... Mas eu sou a mais nova de cinco irmãos, então é fácil me distrair no fim de semana! — Sorrimos.
— Ah, legal! Quais as idades? — perguntei.
— O mais velho já tem 50, eu sou a raspinha... — rimos.
— Ah, legal! E você pode contar com a gente. — Chloe sorriu. — Acho que precisamos de outra dose de tequila.
— Eu poderia reclamar que não sou boa com bebida, mas depois dessa conversa, merecemos. — Rimos. — E eu não me importo em fingir ser sua namorada se for preciso! — Ela sorriu, apertando minha mão e a da Chloe.
— Obrigada, meninas! Vocês estão sendo uma grande distração.
— Ah, você não viu nada! — disse Chloe. — Vamos almoçar no meu apartamento amanhã. Scotty está viajando, então só nós.
— Depois da corrida? — sugeri.
— É, , você pode dormir um pouco mais e ver a corrida da sua cama! — Rimos juntas.
— Até parece. Gosto de ir na missa das oito. É do lado de casa, bem mais prático — falei. — Além disso, parece que a vida sabe quando a gente pode dormir mais no domingo... Acorda a gente antes das sete! — Elas riram.
— Ah, eu odeio isso — disse Beatrice, nos fazendo rir ainda mais.

Manter minha agenda cheia não era difícil. Acordar pouco depois das seis e meia, me arrumar, ir de bicicleta ou pegar o metrô até a escola. As aulas começavam às oito e iam até o meio-dia. Uma hora rápida de almoço, depois voltava às treze e seguia até às cinco. Corria pra casa, tomava um banho e me preparava para mais aulas — das 18h30 às 23h, com uma pausa de meia hora para jantar.
O problema era fazer minha mente parar de pensar no Lance.
Conversávamos bastante durante nossos intervalos, mas enquanto ele estava na Inglaterra, havia uma diferença de cinco horas. E, quando foi para a Áustria, passou a ser seis. Eu conseguia mandar mensagens nos meus intervalos, mas era quando ele estava trabalhando. E, quando ele estava livre, eu estava dando aula. Depois das 23h, então... ele já estava dormindo há tempos.
Em Silverstone e na Áustria, as coisas não foram muito boas para o Lance.
Na Inglaterra ele ficou em décimo primeiro lugar, e na Áustria, em décimo terceiro. Pelo menos conseguiu terminar as duas corridas. Mas, como ele disse, o carro não estava ajudando nem mesmo o Sebastian Vettel, que era tetracampeão — e que terminou em nono e depois em décimo sétimo.
O que me conforta é saber que, em menos de 48 horas, o Lance estará de novo aqui, em Montréal. E vamos passar mais dez dias juntos. Até o GP da França...
...
...
Acho que eu preciso parar de surtar por antecipação.
E voltar pra terapia.

Era perto da hora do almoço quando vi o nome de Lancelot piscar na tela do celular em cima da mesa. Percebi que até perdi o foco no meio da explicação de used to x would para a turma do avançado.
— Desculpem, perdi o fio da meada! — falei, arrancando risos dos doze alunos. — Vamos fazer os exercícios da página 74? Dou uns minutos pra vocês e depois a gente corrige antes do fim da aula.
Eles abriram o livro e se concentraram. Me sentei à mesa do professor, mudei a aba na tela do notebook e vi uma mensagem do Lance no WhatsApp:
Lance
online

Olhe pela janela!



Arregalei os olhos.
Olhei ao redor — todos estavam imersos nos exercícios. Levantei disfarçadamente, escrevi algumas palavras na lousa para me fazer de ocupada e me aproximei da janela, espiando pela fresta da persiana.
Os olhos e o sorriso do Lance apareceram entre as listras, me fazendo abrir um pequeno sorriso. Ele está aqui!
Fazer aqueles vinte minutos passarem foi tortura. Felizmente, uma dúvida de uma aluna me distraiu e, com a correção dos exercícios, o tempo voou.
— Bom, gente! Por hoje é só! Aproveitem o dia e nos vemos amanhã! — disse, já empolgada. — E não se esqueçam de se inscrever pra visita ao Museu Redpath na sexta!
— Tchau, teacher!
Bye!
Addio! — disseram, rindo. Acenei, ainda sorrindo, até o último aluno sair da sala.
Bye, bye! — suspirei, assim que fiquei sozinha.
Corri para o notebook, desliguei tudo, guardei os materiais no armário, joguei o essencial na bolsa e saí, apagando a luz e puxando a porta.
— Tchau, gente! Vou sair pra almoçar! — acenei para a secretária.
— Até mais, ! — ela respondeu, enquanto eu acenava para mais alguns alunos na recepção.
Ao sair do prédio, dobrei a esquina às pressas... e parei ao ver Lance cercado por umas quatro fãs, sorrindo enquanto tirava selfies.
Merci! Merci! — ele falou, rindo, enquanto o grupo se dispersava, animado.
— Tchau, tchau! — as meninas disseram, saindo apressadas. Visivelmente animadas pela foto que acabaram de tirar.
Bonjour! — disse ele, virando-se pra mim com um sorriso que me fez correr até ele e abraçá-lo.
— Ah, Lancelot! — falei entre risos, sentindo seus braços me apertarem. — Que bom que você tá aqui!
— Sentiu saudades? — ele murmurou no meu ouvido.
— Bobo! — respondi, me afastando só o suficiente para encará-lo. Aqueles olhos escuros e as sobrancelhas grossas.
— Também senti saudades! — ele disse, antes de colar nossos lábios por alguns segundos.
— Como você tá? Cansado?
— Tô bem, dormi no avião. E você?
— Agora? Bem feliz! — sorri.
— Quando vi que ia chegar por volta das onze, pensei em te levar pra almoçar. Sei que você só tem uma hora, então pensei em algo rápido.
— Ah, eu vou adorar! — suspirei, e ele me deu outro beijo.
— Onde você costuma almoçar por aqui?
— Shelby's! — falei empolgada, e ele riu.
— Ah, você adora o Shelby's! — ele segurou minha mão. — Pra onde é?
— Dá pra ir a pé? — perguntei.
— Meu pai me largou aqui, então depois pego um táxi. — Assenti.
— Vamos, então! São só três quarteirões.
— Eu sou atleta, sabia? — ele riu, entrelaçando nossos dedos.
— Sei... Mas também sei que você não anda muito a pé! — brinquei.
— Tá tudo bem, — disse, rindo.
— E o Shelby's é bem famoso aqui em Montréal!
— É bom estar em casa — ele suspirou, enquanto seguíamos juntos pela calçada.

— E como foram as corridas? — perguntei, colocando mais uma garfada do meu shawarma biryani na boca.
— Você sabe... — ele respondeu, e assenti com a cabeça.
— Eu sei, eu assisti. Mas quero saber como você se sentiu. — Ele riu, baixo.
— Bom, eu pessoalmente gosto muito de Silverstone, mas aquela batida do Zhou deixou todo mundo em alerta... — ele ponderou com a cabeça. — A parte boa é que o Daniel levou o filho dele pra conhecer o paddock.
— É?! — me surpreendi. — E como ele é?
— Uma graça! — disse ele, sorrindo. — Mas ainda é recém-nascido, tem aquela carinha de joelho, sabe? — rimos juntos. — Tão pequenininho que nem ficou na corrida. Pelo menos eu não vi os dois por lá.
— Ah, faz sentido. Muito novo ainda — sorri. — E o Zhou? Tá bem?
— Tá ótimo! Já correu na Áustria.
— É impressionante a segurança da Fórmula 1... — comentei.
— É... Essa é uma vantagem. — disse ele com um aceno. — Nunca passei por nada parecido, mas é bom saber que temos essa estrutura.
— E a próxima? — perguntei, limpando os dedos num guardanapo.
— França. Le Castellet... — ele respondeu, meio pensativo. — É uma pista boa.
— Sua empolgação me dá inveja — falei com sarcasmo, arrancando uma risada dele.
— Ah, eu não quero ser o Lance piloto aqui... quero ser seu Lancelot. — Sorri, colocando um pedaço de falafel na boca.
— Então, sobre o que você quer falar? — Ele terminou o shawarma e me olhou com um sorrisinho.
— Quais são seus planos pra hoje à noite?
— Trabalhar... — respondi, e ele fez uma careta.
— Hum... não contava com essa. — ele riu. — E amanhã? Quinta?
— Também. — suspirei. — Na sexta eu paro uma hora mais cedo, mas...
— Ah, merda... — ele resmungou. — E sábado tem minha mãe...
— Uhum. — sorri de leve.
— Tá... — ele respirou fundo. — Domingo! No domingo a gente sai. — Assenti.
— Ok, domingo. — ri. — Mas você vai ficar comigo esse tempo?
— Eu vou! — ele falou, animado. — Já tô me acostumando com seu cafofo!
— Ei! Não fale mal do meu apartamento! — brinquei, ouvindo sua risada gostosa.
— Te pego na escola e a gente vai junto. Pode ser?
— Pode! — concordei. — Mas aproveita e pensa no jantar também.
— Hum... Hortons?
Sorri.
— Viciado no Tim Hortons...
— E você no Shelby's. — ele rebateu, me fazendo rir.
— Se me trouxer um milkshake deles, até deixo passar.
— Caramelo?
— É claro! — Olhei pro relógio e arregalei os olhos. — Droga! Tenho 10 minutos pra voltar!
— Deixa que eu pago e te acompanho até lá — disse ele, já se levantando.
— Não posso ser parado por fãs — falei, divertida.
— Você? — ele fingiu surpresa.
— Claro! — rimos juntos, enquanto saíamos do restaurante.

— Que roupa eu coloco? — perguntei, colocando a cabeça pra fora do banheiro.
— O que você quiser, — Lance respondeu, desviando o olhar da TV.
— Mas o que vamos fazer?
— Não vou te contar! — disse pela milionésima vez desde que chegou em Montréal na terça-feira.
— Se eu estiver malvestida, a culpa é totalmente sua! — falei antes de fechar a porta novamente.
Terminei uma maquiagem leve e saí do quarto usando só a calça jeans. Fui até o armário, peguei uma blusa de manga comprida fininha e joguei meu tradicional suéter bege de gola larga por cima. Calcei minhas botas de salto baixo, voltei pro banheiro só pra ajeitar o cabelo e finalizar com um batom discreto.
— Estou pronta! — anunciei, pegando a bolsa em cima da mesa.
— Linda! — ele sorriu, se levantando. — Vamos lá.
Ele apoiou a mão nas minhas costas enquanto saíamos do apartamento e descíamos as escadas até o térreo. A Aston Martin estava estacionada atrás do prédio e, cavalheiro como sempre, ele abriu a porta pra mim antes de dar a volta até o lado do motorista.
— Onde vamos? — perguntei, assim que ele entrou no carro. — Ele só revirou os olhos. A resposta padrão. — Você é irritante demais, sabia?
— Ah, eu sou, né? — ele respondeu com aquele tom debochado que me fazia rir.
Saímos do bairro, pegamos a Avenida Lionel-Groulx, depois a Atwater e seguimos pela Sherbrooke Ouest, até começarmos a contornar o Parc du Mont-Royal. Quando ele entrou no estacionamento, a ficha caiu.
— Vamos pro Chalet du Mont-Royal, certo? — perguntei, desconfiada.
— Seu francês tá melhorando. — ele comentou, e eu suspirei.
— Ainda bem que eu vim de botas... — comentei, tombando a cabeça. Ele riu.
— Ei, é um encontro romântico!
— Eu sei, mas eu sou péssima com caminhadas...
— Vai ser divertido! — disse, descendo do carro. Suspirei e empurrei a porta do meu lado. — O GPS diz que são só 12 minutinhos.
— Seu espírito me dá até inveja — resmunguei. — Tem como ir de carro, não?
— Tem... Mas eu não quero — ele esticou a mão pra mim, e eu assenti, segurando-a. — E sei que você vai gostar das fotos. — Sorri.
— Ok, ok! — o puxei, andando um pouco à frente.

— Eu vou te matar! — resmunguei, sem fôlego, quando finalmente vi o Chalet surgir à minha frente.
Já tinha tirado o suéter e sentia as axilas suando. Enquanto isso, Lance parecia ter saído direto de um catálogo de roupas esportivas.
Talvez no GPS fossem só doze minutos… mas pra mim, foi uma eternidade! As escadas até aqui são absurdamente íngremes, tinha gente pra todo lado fazendo o mesmo percurso, e Lance nem tentava se esconder. Pior: ele parava em toda curva pra tirar foto da vista da cidade. No começo era fofo. Depois, virou tortura. Meus cabelos armaram, o suor começou a marcar minha blusa e minha dignidade ficou no primeiro lance de escada.
— Respira, . Respira — disse ele, rindo, enquanto acariciava meus ombros.
— Ah, eu te odeio... — suspirei, curvando as costas pra trás e tentando puxar o ar com dignidade.
— Vem. Vou pegar água pra você — disse ele, já indo em direção ao prédio.
Demorei alguns segundos pra me recompor antes de segui-lo. Entramos pela porta principal do salão e logo o vi no café, comprando uma garrafinha de água. Ele me esticou e eu praticamente virei inteira num gole só. Senti meu corpo aos poucos voltando ao normal.
— Melhor? — ele perguntou.
— Sim... — respirei fundo, ainda suando.
Ele assentiu e esticou a mão de novo. Segui com ele, ainda um pouco cambaleante.
Subimos para o segundo andar. Algumas pessoas tiravam fotos perto das janelas, mas ele me guiou direto até o restaurante. Um discreto aceno de cabeça e o garçom se mexeu rapidamente — Lance Stroll, senhoras e senhores.
— Vem. — ele disse, me conduzindo por uma porta até uma sacada ampla, com vista panorâmica da cidade.
— Uau... — murmurei, encantada com a paisagem. Ele sorriu.
— Gostou?
— É lindo... — falei, me sentando na cadeira que ele puxou pra mim. Ele sentou à minha frente. — O que é tudo isso?
— Um encontro. — ele disse, e nós dois rimos.
O mesmo garçom apareceu com duas taças de vinho tinto e uma tábua caprichada de queijos e embutidos. Minha boca salivou só de olhar.
— Ah, isso é incrível! — falei, encantada, e ele riu.
— Um brinde? — ele sugeriu, levantando a taça.
— A quê?
— A nós — respondeu com um sorriso. Nossas taças se tocaram suavemente antes de eu dar um gole. — Espere até ver o restante do jantar — rimos juntos.
O jantar foi impecável — como se ele tivesse encomendado diretamente do meu coração. Começamos com uma tábua generosa de embutidos, prosciutto e queijos variados que me fizeram suspirar. Depois, um Tortelli d'Erbetta com espinafre e ricota, coberto com um molho de manteiga tão divino que eu derrubei um pouco no meu suéter — que já tinha voltado para o meu corpo assim que o sol começou a sumir. E pra fechar, meu favorito: tiramisù!
— Ah, Lancelot... Eu poderia comer isso pra sempre — falei, completamente satisfeita. Ele riu.
— Eu sei! Por isso escolhi isso.
— Tentando me agradar?
— O máximo que puder — respondeu, com aquele sorriso torto.
— Só seja você mesmo — falei, sincera. — É por isso que eu te amo.
— Só por isso?
— Só por isso — dei de ombros, fingindo desdém. — O resto é consequência do seu trabalho — Ele sorriu com os olhos.
— Eu te amo por me dar essa oportunidade — disse Lance. — De ser eu mesmo.
— Sempre — respondi, e trocamos um beijo leve, mas cheio de significado.
— Bem, vamos? — ele perguntou.
— Eu quero aproveitar um pouco mais — gemi.
— Temos mais coisas pra fazer! — ele disse animado. — Isso aqui não é o fim!
— Sério? — levantei uma sobrancelha e ele assentiu.
— E você ainda queria tirar umas fotos ali na vista da frente.
— Sim! Eu provavelmente nunca mais volto aqui — falei, me levantando.
— No inverno é tão bonito! — ele comentou.
— Eu pago um táxi. — respondi sem hesitar, e ele riu.

Seguimos para fora do Chalet, indo até a beirada do mirante e tiramos várias fotos juntos. O sol já estava quase desaparecendo no horizonte, tingindo o céu com tons de laranja e rosa, o que deixava o local mais vazio. Somente os que jantariam no Chalet ainda estavam por ali, aproveitando o silêncio e a vista.
A descida não foi tão ruim, como dizem no Brasil: pra descer, todo santo ajuda. Quase ajudou, pelo menos... até eu escorregar e descer um dos degraus de bunda, graças à umidade. Lance praticamente chorou de tanto rir.
— Se eu te levar pra casa em segurança, vou me sentir no lucro — disse ele, me ajudando a levantar.
— Ah, vou acordar toda dolorida amanhã! Devíamos ter feito isso ontem...
— Você que não quis! — ele rebateu, me fazendo rir.
— Eu não podia abandonar sua mãe... Foi você mesmo que disse!
— Eu sei, eu sei. Mas também sei o quanto você detesta caminhar. Teria sido melhor, você teria o domingo inteiro pra descansar.
— Eu tomo um analgésico e rezo pra ter um monte de provas amanhã. Que tal?
— Seria perfeito! — ele respondeu, arrancando outra risada minha.
Terminamos o trajeto até o carro e seguimos de volta pela cidade. Dessa vez, o caminho nos levou até a beira do Rio São Lourenço, passando por Chinatown e seguindo em direção à roda-gigante La Grande Roue, no Pier Jacques-Cartier — ponto famoso, também por sediar o Cirque du Soleil. A tenda não estava lá dessa vez, mas a área estava cheia. Talvez por causa do horário, ninguém reconheceu Lance.
Achei que iríamos na roda-gigante, mas ele me surpreendeu ao contornar o local. Paramos em frente ao rinque de patinação — que, no inverno, funcionava no lago atrás da roda, mas agora ocupava um prédio logo atrás dela.
— Onde vamos? — perguntei, confusa.
— Patinar! — ele disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, me puxando pela mão.
Segui animada, quase pulando. Patinar era uma das poucas coisas em que eu realmente era boa — ironicamente, já que antes de me mudar pra Montréal, eu nunca tinha visto neve de perto.
— Vamos lá! — falei empolgada.
Deixamos nossas coisas no guarda-volumes e trocamos os sapatos pelos patins. Caminhamos desajeitados até a entrada da pista, mas assim que pisei no gelo, me impulsionei para frente com facilidade, deslizando até o outro lado. Olhei por cima do ombro e vi Lance vindo, mais cauteloso.
— Vem! — falei, rindo.
— Eu não sou bom nisso — ele respondeu, hesitante.
— Como assim?! Você esquia!
— Exatamente. Eu esquio. Snowboard, aliás. Patins são outra história.
— Ah, mentira! A menina que veio de um país tropical é boa e você, não? — Rimos juntos enquanto ele me alcançava e me segurava pela cintura, girando comigo no meio da pista.
— Quero ver você em cima de um snowboard — provocou ele.
— Nem pensar! Muito menos com esquis. Isso seria um desastre.
— Ainda mais em cima de uma montanha! — disse Lance, rindo alto, e continuamos a deslizar juntos, lado a lado.
— Você pega o jeito! — ele falou.
— E você também pode! — falei, puxando-o pelas mãos.
— Vai ser lindo se eu levar um tombo aqui — respondeu, rindo.
— Se isso acontecer, faço questão de pedir a gravação da câmera de segurança e colocar na internet! — provoquei, e ele riu, me abraçando pela cintura.
— Ah, não! Nem vem! — rimos juntos, e eu o abracei com força, nossos rostos bem próximos.
— Eu amei hoje. — falei com sinceridade, sentindo meu peito aquecido.
— Eu sabia que você ia gostar. — ele disse. — Planejei tudo pensando em você.
— As comidas de Parma... A patinação... — sorri. — Foi perfeito.
— Ainda tem mais uma coisa... — ele disse, e eu arregalei os olhos.
— Mais? — perguntei, surpresa. — Que horas são? — olhei para o grande relógio do rinque e era quase dez da noite.
— O último podemos fazer na sua casa — disse Lance com um sorriso nos lábios.
— Qual é o último? — perguntei curiosa.
Sfogliatelle e chocolate quente do Tim Hortons — respondeu, meio sem graça. Sorri, colando nossos lábios rapidamente.
— Você é incrível! — falei, e ele riu. — Parece que já ouvi isso antes...
— O quê? — ele perguntou.
— O Chalet, a patinação, o chocolate quente... — lembrei, e vi o brilho no olhar dele.
— O leilão — disse Lance. — É a minha caixa.
— Oh, é verdade! — falei, surpresa. — Sua caixa que não me deixaram dar um lance. — Ele riu, e eu suspirei. — Oh, Lance... Obrigada! — sussurrei, sentindo os olhos marejarem. — Foi tudo perfeito.
— Eu fiz aquela caixa pensando em você. Nada mais justo que a gente aproveitasse juntos — sorri, emocionada. — E, olha, você cansou menos que a ganhadora — rimos juntos. — Foi uma tática pra gente não precisar conversar tanto. — disse ele, me fazendo gargalhar.
— Ah, só você mesmo! — falei, dando uma volta alegre ao meu redor.
— Mas o seu tem algo que o dela não teve... — comentou, colocando a mão no bolso e tirando algo de lá. Abriu a palma diante de mim.
Era uma pulseira de prata simples, de argolinhas pequenas, e no meio tinha minha inicial e a dele. Delicada, discreta, exatamente o tipo de joia que carrega significado sem precisar chamar atenção.
— Ah, Lance... É linda! — falei, esticando o braço para ele colocá-la.
— Fico feliz que tenha gostado... — ele murmurou, encontrando meu olhar. — Eu te amo, .
— Eu também te amo, Lancelot — falei com um sorriso emocionado, vendo o dele se abrir logo em seguida.
— Quer ser minha namorada? — ele perguntou, me fazendo gargalhar, abrindo um largo sorriso.
— Sim! Com toda a certeza, sim! — respondi, rindo, apertando-o próximo de mim e colei nossos lábios.


Capítulo 11


Esperar pelas corridas da França e da Hungria não foi nenhum sufoco, pois as férias de agosto do Lance coincidiam com as minhas férias escolares. Então, eu poderia tirar esse mês inteiro para fazer um último intensivo com a Claire e a Beatrice antes da viagem delas para a Itália, no começo de setembro. Mal vejo a hora de aqueles engravatados que esnobaram a minha aula se ferrarem com o quão incrível a Claire está. Ela realmente tem se esforçado e merece todo o sucesso.
Outro motivo para eu me animar, é que minha família sempre vem me visitar em agosto! Então eu tinha três motivos para me animar: minhas férias, as férias do Lance e a visita da minha família. Mas, claro, que tinha outra questão: minha família e o Lance iriam se conhecer. Mal consigo imaginar o que vai acontecer quando ele conhecer minha família.
Agora que eu e Lance oficializamos nossa relação, parece que muita ansiedade sumiu. Ele é meu, e eu confio nele, então não tinha mais aquele receio de ele estar com outra pessoa, ou até minha ansiedade normal de cada dia, só as saudades mesmo, que, essa sim, parecem que ficaram maiores.
Nossa rotina continuava a mesma: conversávamos por mensagens sempre que possível, fazíamos chamadas esporadicamente — normalmente fora dos quatro dias de GP — e trocávamos declarações de amor sempre que dava. Era estranho ver o Lance das pistas e o Lance comigo. O Lance piloto era quieto, tenso, discreto, evitava ao máximo ser o centro das atenções. Já comigo, ele era leve demais. Estava sempre com aquele sorriso feliz no rosto, fazia de tudo para me agradar, para se divertir, e evitava ao máximo falar do Lance piloto.
Mas, falando um pouco sobre o Lance piloto, estávamos a cinco horas de diferença de fuso, tanto quando ele estava na França quanto na Hungria, o que tornava quase impossível fazer chamadas.
As corridas não foram tão incríveis, mas na França ele ficou em décimo lugar, entrando na zona de pontos, e na Hungria terminou em décimo primeiro — por pouco. Agora seria um mês inteiro de férias... ou menos, três semanas, considerando a volta dos treinos. Mas eu queria aproveitar o máximo possível.

, que horas seus pais chegam amanhã? — Claire perguntou.
— Eles vão chegar super cedo, a previsão do voo é 06h15 — falei. — Vou madrugar no aeroporto.
— Já falei que te levo — Lance disse.
— Você não precisa...
— Eu sei que você está ansiosa com a ideia de eu conhecer seus pais, mas prefiro conhecê-los logo no primeiro dia do que deixar você ir sozinha às cinco da manhã até o Pierre Elliott. — Suspirei, acariciando Kenya em meu colo.
— Ok, ok! Você pode vir comigo — bufei. — Mas vai ter que lidar com a minha irmãzinha.
— Treze anos? Fácil! — disse ele, me fazendo rir. — Elas me amam. — Rimos juntos.
— Eles vão ficar no seu apartamento? — perguntou Claire.
— AH HÁ! — riu Lance.
— Cala a boca! — falei.
— Não cabe, Claire. Eles vão ficar em um Airbnb ali perto — continuei.
— É espaçoso o suficiente? — ela quis saber.
— Minha casa não é espaçosa o suficiente, então... — ri fracamente. — Está tudo certo.
— Lance, por que não os colocamos no L'Hotel Particulier Griffintown? — sugeriu Claire. — Aposto que eles terão mais conforto. E é no mesmo bairro da .
— Não se preocupem, gente! — falei.
— Não, é uma boa ideia, mãe! — disse Lance, e eu suspirei.
— Eu já paguei, gente! — falei.
— Mas tem algumas cláusulas de cancelamento, tem mais de 12 horas ainda, pode dar tempo — Ergui os olhos para Lance, fuzilando-o com o olhar. — Não vai funcionar, não sei como eu não pensei nisso antes — Revirei os olhos. — Eu vou ligar para o hotel, ver se tem disponibilidade — Ele se levantou do sofá e Kenya pulou de meu colo, indo atrás dele.
— Aceita, . Só aceita — disse Chloe, e eu ri fracamente.
— Eu não gosto! — falei firme.
— Desculpe, querida. Eu não queria atrapalhar... — disse Claire, e neguei com a cabeça.
— Não se preocupe — falei. — Agradeço. — Ela assentiu com a cabeça.
— Bem, voltando ao meu ponto — continuou ela. — Por que não fazemos um almoço para eles? Nada muito cedo, por volta das duas. Eles terão um tempo para descansar da longa viagem, depois vocês vêm almoçar aqui.
— Eu não quero atrapalhar — falei, e Claire abanou a mão.
— Não vai. Vou pedir para Sebastian preparar alguma coisa. Elaborar alguns pratos com carnes, que eu sei que vocês gostam mais...
— Não se preocupe, Claire. O que vocês fizerem, vamos amar! — falei. — Minha mãe ama peixe, falando nisso. — Ela assentiu com a cabeça.
— Mesmo assim, nem todos precisam comer kosher, se não quiserem — disse ela, e assenti com a cabeça.
— Obrigada — agradeci, mesmo já estando acostumada a comer na dieta kosher. Pessoalmente, estou adorando. Eles comem muito peixe e é algo que eu comia pouco no Brasil, mesmo amando.
— Eles têm disponibilidade — disse Lance, voltando. — Reservei um quarto família: duas camas de casal, banheiro e um hall.
— Não precisava ser tanto! Um quarto normal já estava ótimo. A Marina dormia num sofá-cama, tava tudo certo.
— Agora está! — sorriu ele, voltando a se sentar ao meu lado. Kenya pulou no sofá novamente. — E você pode ficar com eles também, aposto que vai querer... — Ponderei com a cabeça.
— É... — Ele sorriu.
— Agora me dá seu celular. Vou cancelar o Airbnb. – Suspirei, peguei o aparelho na mesinha e entreguei a ele. — Viu? Ela nem briga mais! — disse ele com um sorriso vitorioso, e ri fracamente.
— Ai, seu chato! — falei firme. Ele me deu um beijo na bochecha. — Eu tenho outros motivos agora...
— Ah, português — suspirou ele. — Onde é...?
— Se vira! — falei com o mesmo sorriso que ele tinha dado antes. Ele revirou os olhos, voltando a atenção para o meu celular. — Bem, vamos voltar, Claire? — falei, me levantando.
— Vamos lá! — Ela se levantou também, seguindo até a mesa com os materiais de estudo e me sentei ao seu lado, puxando meu lápis e caderno para perto.
Andiamo parlare di... — Pensei. — Moda!
Moda! Uh! Mi piace tantissimo! — Rimos juntas.
Che ne pensi di moda? — perguntei, voltando para aula.

— Acorda! — bati a mão na barriga do Lance enquanto ele bocejava.
— Ah! — Ele sacudiu a cabeça. — Desculpa! Está demorando demais.
— Bom, são seis da manhã. É a hora dos voos internacionais! — Inclinei o rosto para o lado, vendo a porta do desembarque se abrir pela milésima vez e outro grupo de pessoas sair. — Você dormiu mal?
— Não muito, mas você se mexe demais! — disse ele, me zoando. Revirei os olhos.
— Há, há, há! Falou o quietinho! — Ele riu.
— Mais quieto que você! — Rimos juntos e ele me abraçou de lado. — Nervosa?
— Ansiosa. E você? — falei.
— Um pouco — assumiu. — É a primeira vez que eu conheço o pai de uma namorada.
— Como assim? — perguntei.
— A maioria eram filhas de amigos do meu pai.
— Ah, verdade! Eu sou a primeira pobretona que você namora! — Sorri, e ele revirou os olhos.
! — ouvi um grito que me distraiu. Virei o rosto e vi meus pais passando pelas portas, mas Marina já corria à frente deles.
— A-A-A-AH! — gritei, soltando o Lance e dando alguns passos para alcançar minha irmã, que me impulsionou num abraço. — Ai, meu amor!
— Mana! Mana! Mana! — Ela me abraçou fortemente, me fazendo sorrir. Senti algumas lágrimas escorrerem pela bochecha. Não nos víamos desde o Natal do ano passado.
— Ai, Mari! Que saudade de você! — Segurei seu rosto, colando nossas testas. — Como você cresceu! — falei rindo, vendo a blusa dela quase mostrando a barriga.
— Você sabe, menstruei! — Ela deu de ombros. — E você tá mais bonita! — disse, me fazendo rir.
— Boba! — Abracei-a de novo, dando vários beijos em sua cabeça. — Ah, que saudade eu estava!
— Oi, meu amor! — disse minha mãe, se aproximando.
— Mamãe! — Soltei Marina e a abracei.
— Ah, meu amor! Que saudade de você! — Ela acariciou minha cabeça. — Que saudade!
— Também estava, mãe — falei fracamente, sentindo-a me apertar cada vez mais. Suspirei, me sentindo bem nos seus braços.
— E eu? — perguntou meu pai. Ri fracamente e fui até ele, apertando meu careca com força. — Ah, meu amor! Que saudade! É tão bom te ver!
— Também é, pai! — suspirei, observando o contraste entre o bigode e a cabeça careca. — Deixou uns fiozinhos crescerem? — brinquei, ouvindo-o rir.
— Só pra você! — brincou ele. Beijei sua cabeça com um largo sorriso no rosto.
— E esse é o famoso Lancelot? — perguntou minha mãe, arriscando o inglês que aprendeu comigo.
— Oi, senhora! — disse ele, com as mãos atrás das costas. — Lance. Prazer em te conhecer.
— Ah, o prazer é nosso! — Ela abraçou o Lance, pegando-o de surpresa por alguns segundos. Depois, ele retribuiu.
— Garoto! — disse meu pai, estendendo-lhe a mão. — Saiba que eu sou McLarista. — Lance assentiu com a cabeça.
— À vontade, senhor. Não estou merecendo muita torcida ultimamente — disse ele, e meu pai riu.
— Para! — Dei um tapinha nele.
— Você tem talento, mas uma carroça como carro — comentou meu pai.
— Aposto que você aprendeu "wagon" só pra falar isso, né?! — falei, e meu pai riu.
— Bem, fizemos muito bom proveito das suas aulas — riu ele.
— Você deve ser a Marina — disse Lance.
— Oi! — sorriu ela. — Cuida dela ou eu brigo contigo! — disse, fechando a cara.
— Pelo menos ela disse “brigo” comigo — comentou Lance, e ri.
— Pelo menos — brinquei.
— Vamos? — perguntei.
— Vamos! Eu estou cansadão! Um cara ficou chutando minha poltrona o voo todo — disse meu pai.
— Tem sempre um! — falei.
— O check-in do Airbnb é só mais tarde, Miguel — falou minha mãe. — Vamos ter que fazer hora.
— Na verdade... — falei. — Mudança de planos. — Fiz uma careta. — Vocês vão ficar em um hotel.
— E o Airbnb? — perguntou Marina.
— Mudança de planos! — Inclinei a cabeça em direção ao Lance. — É um hotel perto do meu apartamento, maior, melhor... E com um horário de check-in mais flexível — expliquei. — Patrocínio deles. — Falei a última parte em português, e Lance olhou para mim, franzindo a testa.
— Não queremos atrapalhar! — disse minha mãe para Lance.
— Não estão — respondeu ele. — E minha família quer conhecê-los...
— Então vamos almoçar na casa deles mais tarde — falei, e minha mãe me olhou sugestivamente.
— Mas não precisa ser tão cedo. Sabemos que estão cansados e queremos que descansem — garantiu Lance.
— Meu garoto, eu não posso deixar que vocês...
— Pai, não — falei, negando com a cabeça. — Eu já perdi essa briga ontem!
— Mas precisamos compensá-los de alguma forma — disse ele, em português.
— A gente pensa nisso depois, pode ser? — falei.
— Ok... — disse ele, se dando por vencido.

— Quer que eu venha buscar vocês? — perguntou Lance na porta do quarto.
— Não se preocupe — falei firme. — Pegamos um táxi.
— Me avisa quando estiverem vindo.
— Pode deixar. — Trocamos um rápido selinho e ele seguiu pelo corredor. Esperei que virasse antes de fechar a porta.
— Mana do céu! Ele é demais! — disse Marina, rindo.
— Ele é normal. A única diferença entre nós e ele são alguns zeros na conta bancária — falei, ouvindo meu pai rir.
— Muito mais do que só alguns — disse ele.
— O que vocês acharam? Muito? — perguntei.
— Ah, meu amor... — disse minha mãe, se aproximando. — Eu sei que você não está nessa por dinheiro.
— Não, mãe, eu juro. Só aconteceu — falei, e ela assentiu com a cabeça.
— Então o que importa é se você está feliz — disse ela. — E se ele te trata bem e te respeita, é claro.
— Trata, mãe. E me faz feliz também. — Ela sorriu.
— Então é o que importa — repetiu.
— É um pouco difícil por causa das corridas, mas estamos tentando fazer dar certo.
— Não pensa em morar mais perto dele? Digo... a maioria das corridas é na Europa, não? — perguntou meu pai.
— Ele tem uma casa na Suíça — falei. — Mas não falamos sobre isso ainda, é muito recente. — Dei de ombros. — Nos oficializamos tem umas três semanas.
— Eu sei, mas é tão distante... — disse meu pai, e assenti com a cabeça.
— E uma via de mão única, né?! Não posso simplesmente ir encontrá-lo nos lugares.
— E o dinheiro que a mãe dele te pagou? Cem mil dólares não é pouco — disse meu pai.
— Eu sei que não. Mas eu não quero mexer tanto naquele dinheiro — falei. — Eu tiro 600 euros por mês pra ter um pouco mais de conforto, mas aquele dinheiro vai ser pra quando eu montar uma escola.
— E você pensa em fazer isso? — perguntou meu pai. — Você sempre quis isso, sempre falou que abriria no Brasil, mas agora... — Suspirei, sentando no sofá ao lado de Marina. — Sua meta era cinco anos...
— Eu sei... Agora tudo mudou — suspirei. — Ou não. Eu não sei...
— Você não tem que decidir isso agora, querida. Estamos bem! Você sabe disso — disse minha mãe.
— Eu sei — suspirei. — Acho que está cedo pra essas perguntas mais importantes. Eu estou feliz. Deveria bastar agora, não?
— E basta! — disse meu pai. — Sentimos sua falta, mas você precisa viver sua vida. — Assenti com a cabeça. — Passos de formiguinha, ok?!
— Ok! — Sorri, sentindo-o acariciar minha cabeça.
— Por que não descansam? — sugeri. — Lance disse que podemos aparecer lá a hora que for, mas acho que no máximo até uma da tarde.
— Claro! Não quero deixar os pais dele esperando — disse minha mãe.
— Tenho nem roupa pra esse evento — disse Marina, me fazendo rir.
— Eu perdi o sono — comentou meu pai.
— É, não estou com sono agora — disse minha mãe.
— Tô com fome — disse Marina.
— Podemos tomar café. Que tal? — falei, checando o relógio. — São quase oito e meia.
— Nós temos acesso? — perguntou meu pai.
— Claro! — falei. — Eles se certificaram de incluir tudo. Inclusive as coisas do frigobar já estão inclusas.
— Já? — perguntou ele.
— Já — suspirei. — Eles não são de ostentar muito, mas o pai dele é praticamente dono de Montréal, entã-ã-ã-ão... — Arregalei os olhos.
— Entã-ã-ã-ão... estamos em enorme desvantagem — disse Marina.
— Isso não é uma competição, Mari — falei. — Eles não são esse tipo de pessoas... pelo menos não comigo.
— Vai dar certo! — disse meu pai, e sorrimos juntos.

— Isso não vai dar certo — disse meu pai, ao sair do táxi em frente à casa dos Stroll, me fazendo rir.
— Você disse que eles moravam em uma casa — comentou minha mãe.
— Bem... é uma casa, com mais espaço do que a nossa — dei de ombros, tocando a campainha.
— Oi, Sebastian! — falei.
Oi, senhorita — respondeu ele, enquanto um dos grandes portões se abria.
— Vamos! Vai ser divertido! — dei de ombros, atravessando os portões com a naturalidade de quem já estava acostumada.
— Vamos! — disse Marina, rindo e me seguindo.
Atravessei a longa entrada, percebendo minha mãe tentando disfarçar a surpresa com a casa dos Stroll. Eu conhecia bem aquele sentimento. Segui pela lateral da casa, já sabendo onde os eventos costumavam acontecer, e vi a mesa montada — dessa vez um pouco menor que da primeira vez que estive aqui.
Avisei Lance vindo em nossa direção e abri um sorriso. O abracei assim que nos aproximamos. Notei que, além dele, estavam seus pais, Chloe, Scotty e sua madrasta.
— Descansaram? — ele perguntou.
— Não muito, mas tudo bem! — falei, e ele beijou minha bochecha.
— Sejam bem-vindos! — disse Lance. — Senhor Miguel, dona Jussara, Marina... esses são meus pais, Claire e Lawrence — ele completou, quando meus pais se aproximaram.
— É um prazer! — disse minha mãe, esticando a mão.
— O prazer é meu! — respondeu Claire, primeiro. — Sua filha é um amor — sorri, fazendo Lance rir.
— Olá, tudo bom? — Lawrence foi mais contido.
— Essa é minha irmã Chloe e seu noivo, Scotty — continuou Lance. — E a esposa do meu pai, Raquel.
— Mais brasileiros pro meu lado — disse Raquel, com um ar simpático que até me surpreendeu.
— Você é brasileira? — perguntou minha mãe, e Raquel assentiu com a cabeça.
— Venham, gente! Sintam-se em casa! — disse Claire, apoiando as mãos nas costas da minha mãe e a conduzindo até a mesa.
— Não precisavam fazer tudo isso por nós — comentou minha mãe.
— Não se preocupem! Já estava ansiosa para conhecê-los desde que conheci a . Agora que eles começaram a namorar, achei ainda mais importante — respondeu Claire.
— Fico feliz! Tem um ditado brasileiro que diz muito sobre isso — disse minha mãe. — Como que é, filha?
— Não sei se tem uma tradução literal, mas seria algo como: "quem meu filho beija, minha boca adoça" — falei, dando de ombros.
— Venham, venham! — chamou Lawrence, e deixei que as coisas seguissem seu rumo.
O começo foi meio silencioso. Era possível ouvir mais a voz de Claire conversando com a minha mãe. Depois, Marina perguntou algo sobre Chloe e engatou um papo animadíssimo com o Scotty. Bem, os dois têm a mesma idade mental. E, por último, percebi que você pode ser milionário ou mais humilde, o assunto entre os homens vai ser sempre o mesmo: esporte. Meu pai e Lawrence começaram a falar sobre isso, e Lawrence claramente estava tentando converter meu pai ao hóquei.
No começo eu fiquei meio tensa. Não que tivesse algo "de errado" para falar, mas nas poucas experiencias românticas que eu tive, eu nunca nem cheguei a ter relação com os pais do meu peguete, ou seja, minha família nunca os conheceu, então era algo que eu estava esperançosa demais para que desse certo, especialmente por Claire estar cuidando muito bem de mim aqui.
O dia foi passando e tudo estava indo melhor do que o esperado. Primeiro, almoçamos. Claire confiou no paladar da minha família e manteve a tradicional comida kosher. Eu já estava acostumada — e era deliciosa. Os funcionários da casa Stroll cozinhavam muito bem.
Depois que o gelo foi quebrado, começaram algumas brincadeiras. Lawrence levou meu pai para conhecer sua coleção de carros, Raquel se aproximou do papo com a minha mãe, e foi a vez de Lance ser “alugado” pela minha irmã. A diferença entre nossas vidas era realmente curiosa pra nós, mas tudo foi conduzido com tanta leveza que essa diferença nem se fazia notar.
Serviram uma cheesecake maravilhosa de sobremesa, e o papo seguiu até o fim da tarde. Quando minha irmã reclamou de sono pela primeira vez, aproveitamos a deixa para encerrar o dia.
— Vocês estarão aqui o mês todo, então vamos combinar outras coisas — garantiu Claire.
— Claro! Com toda certeza — disse minha mãe.
— Foi um prazer conhecê-los — falou meu pai.
— Nos vemos amanhã? — perguntou Lance em voz baixa, e ponderei com a cabeça.
— Vou ver como vai ser o dia e te aviso, pode ser?
— Combinado! — Ele me deu um rápido beijo. — Dorme bem!
— Você também — pisquei. — Amo você.
— Amo você! — respondeu ele.
Ele e Lawrence nos acompanharam até a entrada novamente, e o Uber já nos esperava. Nos despedimos uma última vez e nos apertamos no carro.
— Tchau! — Acenei, vendo o carro se afastar, e suspirei, me sentindo satisfeita. — Acho que deu tudo certo — falei.
— Também acho! — disse meu pai, do banco da frente, e sorrimos juntos.


Capítulo 12


— Vocês prometem que vão ficar bem? — perguntei pela milésima vez aos meus pais.
— Vamos! Não se preocupe! — minha mãe respondeu firme.
— Eles vão ficar bem, . Qualquer coisa, estamos aqui! Eu e sua mãe já trocamos telefones — disse Claire.
— Viu? Elas trocaram telefones! — falou Lance, e revirei os olhos.
— Vão se divertir! — disse meu pai, firme.
— É só um fim de semana — comentou Marina, entediada, e eu ri.
— Obrigada, tampinha! — dei um beijo em sua cabeça, e ela riu.
— Até domingo, querida — minha mãe me abraçou e eu sorri.
— Até, mãe! Tchau, pai! — falei, abraçando-o em seguida.
— Tchau, querida! — eles disseram, e então me virei para Lance, segurando minha mochila.
— Se cuidem! — ouvi a voz de Claire, e acenei antes de seguir com Lance pelo gramado da casa dos Stroll.
— Pronta? — ele perguntou, após alguns passos.
— Um pouco nervosa — falei, rindo, e ele sorriu.
— Vai ser legal! — disse ele, no momento em que um senhor abriu a porta do helicóptero.
— Senhora... — ele disse, esticando a mão para mim, e eu a segurei.
Subi no estribo do helicóptero — se é que posso chamar assim — e entrei naquela caixa de metal. Me acomodei no canto oposto, tirei a bolsa de tiracolo e coloquei o cinto. Lance entrou pelo outro lado e, assim que a porta se fechou, respirei fundo.
Eu não tinha medo de voar, mas não confiava muito em helicópteros. Eles pareciam não ter nenhuma estabilidade!
Lance se preparou ao meu lado, colocou o cinto e puxou um fone da parte superior, colocando-o. Fiz o mesmo.
Testando, um, dois. Testando — ouvi uma terceira voz e imaginei que fosse o piloto.
Tudo bem? — Lance segurou minha mão, e assenti com a cabeça.
Está ok — respondi. Ele assentiu, apertando minha mão.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que outro homem entrou pelo mesmo lado que eu e começou a se preparar. Ouvi os dois fazendo as checagens.
Pronto para decolar! — disse o primeiro homem.
Vamos lá! — disse Lance.
Inicialmente ouvi um barulho de vento, logo depois ele ficou mais alto e percebi as folhas das árvores sacudindo com força, então percebi que eram as hélices. Alguns segundos depois, eu apertei a mão de Lance ao sentir que saímos do chão.
Respira... — ele disse, e soltei o ar devagar. — Aproveite! — completou, e assenti com a cabeça.
Pude ver minha família e a de Lance lá embaixo enquanto o helicóptero subia. Depois, senti um leve solavanco para trás quando ele começou a se mover para frente.
A sensação era estranha — como se eu pudesse cair a qualquer momento. Não sei explicar bem. Sobrevoamos Montréal, e fiquei feliz por não estar ventando muito, o que ajudava na estabilidade. A cidade vista de cima era incrível. Acabei até suspirando.
Logo saímos da área urbana, e creio que o voo durou cerca de 40 minutos. Não conversamos muito, por causa do barulho das hélices. Quando nos aproximamos de uma área ainda coberta por neve, começamos a descer. Agora entendi por que Lance falou para eu trazer e usar roupas de frio.
Assim que o helicóptero pousou, senti um alívio enorme. Lance mesmo abriu a porta e pulou antes de mim. Esticou as mãos e eu saí, ainda com o vento forte das hélices em movimento. Ele me puxou, correndo até a parte coberta, e ficamos em silêncio enquanto o helicóptero decolava novamente. Quando ele finalmente ganhou altura, voltamos a falar.
— Ah, finalmente! — disse Lance, rindo. — Bem-vinda!
— Onde? — olhei em volta, vendo neve por todos os lados.
— Parc Omega. Vem cá! — disse ele, entrando em um grande prédio com estrutura de chalé de madeira. A primeira sala tinha uma recepção, uma sala de estar com lareira, mas o que chamou minha atenção foi a parede de vidro do lado oposto à porta.
Pude ver alguns lobos caminhando por ali. Lobos mesmo — tipo Jacob Black em Lua Nova. Eles não eram tão grandes quanto o Jacob, mas certamente eram bem maiores que um husky siberiano. Vários andavam pelo local, e ao fundo, pude ver vários chalés com grandes janelas de vidro.
— Uau! — suspirei. — É lindo, Lance.
— Aqui é um santuário para lobos... e outros animais selvagens — explicou ele. — Achei que você fosse gostar.
— Eu adorei! — sorri, e ele me abraçou, beijando minha bochecha.
— Eu sabia! — ele sorriu. — Vou fazer nosso check-in. — Assenti, vendo-o se afastar.
Dei alguns passos até a parede de vidro e me abaixei. Um lobo mesclado se aproximou, ficando a centímetros do meu rosto. Fiquei verdadeiramente surpresa. Acho que foi a coisa mais surreal que vi na vida... e talvez a mais bonita.
E estou dizendo isso depois de ter saído de um voo de helicóptero.

— Ah, isso foi incrível! — falei ao entrar de volta no chalé.
— Eu sabia que você ia gostar! — ele disse, tirando o casaco, e fiz o mesmo. Atravessei a entrada do chalé e fui até o quarto, jogando o casaco em uma poltrona.
— Foi demais! — suspirei, sentando na cama. — Eu nunca tinha visto uma rena na vida real.
— Não era o Rudolph? — ele brincou.
— Não! — revirei os olhos. — Mas era fofo! — falei, rindo e me deixando cair sobre a cama.
— E agora? O que você quer fazer? — ele se inclinou sobre mim, sentando ao meu lado. — Dormir? Comer? — Suspirei, passando os braços por seu pescoço.
— Hum... — pensei. — Eu estava pensando em um banho, e depois poderíamos comer uma fondue, que tal? — sugeri.
— Hum... — ele ponderou. — A ideia não é ruim, mas eu estava pensando em outra coisa... — Ele aproximou o rosto do meu.
— Ah, outra coisa? — perguntei, ouvindo-o rir.
— Sim, algo legal... que depois vamos precisar de banho, porque vamos suar um pouco... — Ele colou os lábios nos meus devagar. — E talvez a gente coma a fondue depois.
O beijo de Lance era calmo, como se ele estivesse aproveitando cada segundo. Ele passou a mão pela minha cintura, me puxando para mais perto. Senti seu corpo quente contra o meu, e mesmo sem pressa, havia algo nele que dizia que ele me queria ali, daquele jeito, só para ele. Minhas mãos encontraram o caminho até sua nuca, e eu o puxei com mais firmeza, sentindo a pele arrepiar de leve sob meus dedos.
Ele se deitou ao meu lado, ainda me beijando, agora com um pouco mais de vontade. Suas mãos exploravam minha cintura, minhas costas, mas sem pressa. Nossos olhares se encontraram por um segundo, e eu sorri, meio sem graça, mas feliz. Ele retribuiu com um sorriso leve e beijou meu rosto, meu pescoço, cada toque fazendo meu coração bater mais rápido.
Aos poucos, fomos tirando as blusas, sem dizer nada. Apenas seguindo o ritmo um do outro, com cuidado, respeitando o tempo. Não era sobre pressa, era sobre estar ali, juntos. Ele passou os dedos pela minha pele, me fazendo arrepiar, e me olhou de novo como se quisesse saber se estava tudo bem. Eu assenti, acariciando seu rosto com carinho, e ele voltou a me beijar com mais calma ainda, como se quisesse memorizar tudo.
Lá fora, o mundo seguia gelado e silencioso, mas ali dentro só existia calor e proximidade. Ficamos assim por um tempo, abraçados, respirando juntos, sentindo a presença um do outro. Era simples, era bom. E, naquele momento, nada mais importava.
— Eu te amo — falei.
— Para sempre — ele sussurrou.

— Eu amo isso! — falei, enchendo a boca de queijo.
— O quê exatamente? — Lance perguntou, rindo enquanto colocava um pedaço de pão na boca.
— Tudo isso! — suspirei. — O lugar, a comida, a privacidade... nós dois juntos com frequência.
— Ei, ficamos juntos o mês todo — ele disse, descansando o garfo.
— Eu sei... mas você vai embora amanhã, e eu não faço ideia de quando vamos nos ver de novo — suspirei, enchendo novamente a boca com pão e queijo.
— Setembro! — ele disse com firmeza. — No meio de setembro.
— Ah... — inclinei a cabeça.
— Pensa bem: da próxima vez que nos virmos, ficaremos duas semanas juntos, suas aulas com a minha mãe já vão ter acabado, então teremos mais tempo. E depois disso, só restam seis corridas até o fim do ano.
— E então? — perguntei.
— O quê? Vamos aproveitar as férias, vou te levar para esquiar, vamos passar o Natal com a sua família no Brasil... — deu de ombros. — O que mais você quer?
— T... tudo? — franzi a testa.
— Tudo? — ele repetiu.
— Sim! — repeti, franzindo o rosto.
— O que é tudo para você? Quais são suas expectativas para nós? — Ele ajeitou o corpo na cadeira.
disse. — Você só quer saber se tem futuro, certo?
— É... — falei, um pouco envergonhada.
— Você vai ter — ele afirmou. — Nós vamos ter. — Assenti.
— Vamos ver o que acontece... um dia de cada vez — confirmei.
— Ok...
— Ok?! — ele sorriu, e ri fracamente.
— Ok! — falei com firmeza. Ele se aproximou e colou os lábios rapidamente nos meus.
— Eu vou provar pra você que não sou o babaca que a mídia pinta ser.
— Eu nunca achei que fosse — falei. — Sua mãe me apresentou você; eu nunca acreditaria em algo diferente do que uma mãe apaixonada faria. — Ele riu.
— Ela fala muito, não?
— Ah, Lancelot, sua mãe tem muito orgulho de você e da Chloe — falei. — Minha mãe tem orgulho de mim, e eu sou só professora, imagina de vocês!
— Você não é só uma professora, . Nunca diga isso de novo. Já te vi dando aula. Você é incrível! É uma ótima professora, de verdade. — Sorri.
— Obrigada, amor! — suspirei.
— E eu só posso agradecer por minha mãe querer aprender italiano — rimos juntos. — Foi assim que eu te conheci.
— Quem diria que o Canadá teria uma vantagem contra a Itália? — falei, rindo.
— Pois é, que coisa, né? — Sorri. — Nossa comida pode não ser a melhor de todas, mas, ei, temos Tim Horton’s.
— Oh, meu Deus... — falei, ouvindo-o rir.
— Ei, você ama o Shelby's! — Pressionei os lábios.
— É... culpada! — rimos juntos, voltando a encher a boca de pão com queijo derretido.

— Quando chegarmos em Montréal, tenho duas surpresas pra você — Lance falou ao fechar a mala.
— E você me fala isso agora?! — perguntei surpresa. — Não podia esperar até a gente chegar lá? — Ele riu.
— Ah, são só 40 minutos de voo, vai! — disse, rindo.
— Exato! São 40 minutos de ansiedade! — fechei minha mochila, ouvindo-o rir.
— Bom, agora vai ter que esperar até chegar em casa. — Ele deu de ombros e revirei os olhos.
— Já falei que você é muito chato? — perguntei.
— Já! Com toda certeza já! — Ele deu de ombros, saindo do quarto.
Neguei com a cabeça, dando uma checada no quarto e no banheiro para ver se não tínhamos deixado nada. Segui logo atrás dele, deixando a mala na porta do chalé e fui novamente para perto da janela de vidro, vendo os lobos andando ali em volta.
— Tchau, seus lindos — falei. — Eu volto depois pra buscar vocês, tá?
— Você sabe que isso é um santuário de proteção animal, né? — Lance disse.
— E sua maior preocupação é eu tirar eles do habitat... e não o fato de eu enfiar um lobo desse tamanho dentro da minha kitnet? — falei, rindo.
— E você achar que ele é o Jacob do Crepúsculo, é claro — ele respondeu, rindo.
— É claro! — Ele me abraçou pela cintura. — Pronta pra ir?
— É... vamos lá! — suspirei, e ele beijou meu pescoço.
— Vamos lá — disse, me dando outro beijo, e seguimos para fora do chalé.
Ele levou nossas malas para fora e o segui. Um carrinho de golfe, similar ao que nos trouxe para cá, estava na porta. Entramos no mesmo, apertando o casaco contra o corpo, e Lance segurou minha mão do percurso entre nosso chalé e a recepção. Descemos do carrinho e o helicóptero já estava lá novamente, dessa vez desligado.
— Só vou resolver uma coisinha e já volto — ele disse, e assenti com a cabeça.
— Senhorita ? — o mesmo piloto da outra vez me chamou.
— Sim! — confirmei.
— Posso levar as malas?
— Claro! — respondi, vendo-o pegar tudo e seguir para o helicóptero. Esperei Lance retornar; ele apoiou a mão na minha cintura e seguimos para o embarque.
Entramos no mesmo, nos colocando na mesma posição da ida e coloquei os fones, depois ajeitei o cinto de segurança. Lance segurou minha mãe e se aproximou de mim.
— Nervosa? — ele perguntou.
— Um pouco menos — falei.
— Logo estaremos em casa — ele disse, e sorri.
O barulho das hélices logo começou, então não quis perguntar novamente. Mas sabia que logo que chegássemos em Montréal, ele pegaria sua mala de piloto de Fórmula Um e seguiria para o aeroporto a caminho de Londres, se preparar para a próxima corrida, que seria na Bélgica.
O voo foi tranquilo. Era no fim do dia, mas o sol ainda estava no céu. O voo teve o mesmo tempo da ida, e logo consegui ver Montréal aparecer no horizonte. O helicóptero começou a descer e pouco tempo depois estávamos pousando na residência de Lance, com sua mãe e a minha aparecendo na parte de fora.
— Obrigada! — agradeci ao piloto e fui atrás de Lance.
— Oi, crianças! — Claire disse, e abracei minha mãe.
— E aí, fizeram boa viagem? — minha mãe perguntou.
— Sim! Foi demais! Não sabia que estaria aqui! — falei.
— Bom, viramos grandes amigas — Claire disse, rindo. — Então sua mãe veio tomar um café. — Sorri.
— Onde estão papai e Marina? — perguntei.
— Foram a um jogo de hóquei com o Larry — Claire respondeu.
— Hum... os -Stroll se deram bem, hein? — falei, rindo.
— Sim, graças a Deus! — minha mãe disse, sorrindo.
— Você já tem que ir, filho? — Claire perguntou.
— Meu pai disse que está vindo pra cá, está terminando lá, pelo jeito — ele disse, olhando o celular.
— Bem, aceitam jantar, então? — Claire sugeriu.
— Claro! — falei.
— É uma boa, mas preciso dar a surpresa pra antes — ele disse.
— É, por favor! Ele me contou antes de sairmos de lá e me deixou o voo inteiro pensando nisso — rimos juntos.
— Está lá dentro... A Kenya não gostou — Lance disse, e franzi a testa.
— É óbvio que não — falei, e Lance riu. — Vem, amor! — Ele me puxou pela mão e o segui para dentro.
— Cadê você...? — ele falou baixo, e franzi a testa. — Cadê...? — Ouvi um latido e imaginei que fosse da Kenya, mas então um labrador, bem maior que ela, veio saltitando em nossa direção.
— Quem é esse? — perguntei, rindo, enquanto o cachorro vinha até mim.
— É a Kimi! — ele disse. — Minha surpresa pra você.
— O quê?! — falei, surpresa.
— É! — ele disse, rindo. — Você fica sozinha bastante tempo, então achei que precisava de companhia.
— Ela é linda, mas... como eu vou deixar ela no apartamento? — falei, rindo. — Você já viu o tamanho do meu apê?
— Bem, eu pensei nisso. Ela é adestrada, não é mais filhote... mas, se não der certo, minha mãe topou cuidar dela até resolvermos isso — ri, fazendo carinho na Kimi. — A Kenya não gostou muito, mas ela odeia todo mundo.
— Menos eu! — falei, rindo.
— É, menos você — Virei-me para Kimi.
— Oi, sua linda! — acariciei os pelos dourados dela. — Você é maravilhosa, sabia? — ri baixinho.
— Sabia que você ia gostar — ele disse, e me levantei, sentindo Kimi se aproximar.
— E qual é a segunda surpresa? — perguntei, enquanto a Kimi cheirava minhas pernas e eu mantinha os carinhos nela.
— Ah, essa você só vai descobrir daqui a uns dias — Lance disse.
— O quê?! — falei, surpresa.
— É! Minha mãe vai te dar na hora certa — ele disse.
— Lance! Isso não se faz! — reclamei, e ele riu.
— Por que não? Eu sei que você vai gostar! — deu de ombros.
— Ai, seu filho da mãe! — falei, ouvindo minha mãe e Claire rirem.
— Eu acabei de te levar pra um lugar sensacional, e você ainda está brava comigo? — disse ele, rindo.
— Chato! — bufei. — Ai, que chato você é!
— Agora você tem a Kimi pra te distrair. Pensa bem — ele disse, e revirei os olhos.
— Ai, te odeio! — falei, e ele me abraçou.
— O que vamos jantar, mãe? — perguntou Lance para Claire, completamente me ignorando.
— Vou checar com a Nicka — disse ela, rindo, enquanto Lance saía como se nada tivesse acontecido.


Capítulo 13


Depois que Lance voltou para a Inglaterra, para se preparar para o restante das corridas, eu aproveitei mais uma semaninha com meus pais, antes de eles irem embora. Marina está no oitavo ano, perder um mês de aula não era nada fácil — sorte que minha mãe vê as viagens como algo importante para ela.
Aproveitei esse tempo também para tirar uma folga da Claire e dos Stroll. Não que a presença deles fosse ruim, mas eles estavam sendo muito simpáticos e solícitos — quase todos os dias íamos jantar com eles. Então, quando Lance voltou para o trabalho, usei essa desculpa para ficar um pouco só com a minha família.
No dia 28 de agosto, minha família e a dos Stroll assistimos juntos à corrida de Spa-Francorchamps, antes de eu colocar meus pais em um avião de volta para o Brasil. Depois de derramar mais do que só algumas lágrimas, voltei para casa e fui dormir com dor de cabeça. Toda despedida é assim!
Após esse dia, tive mais alguns dias para me preparar para voltar às aulas. Eu tinha parado tanto as particulares quanto as da escola — só com a Claire eu mantive, devido à proximidade do evento dela, que seria agora em setembro.
Com esses dias de folga, com a cabeça só pra mim, com o Lance e minha família fora, e com um cachorro de 33 quilos tomando conta de metade do meu apartamento, eu tive tempo o suficiente para ficar pensando na segunda surpresa do Lance. Eu não queria parecer tão empolgada, então tentava evitar o assunto quando falava com ele — mas parecia que ele fazia questão de lembrar e dizer que estava chegando. É difícil quando se quer matar alguém à distância.
No dia primeiro de setembro, voltei a trabalhar na escola — uma quinta-feira. E no dia três, seria o último dia de aulas com a Claire. Agora fazíamos mais conversações, simulando situações que poderiam acontecer em eventos e reuniões que ela teria na Itália. Sua viagem seria logo na segunda-feira, então precisávamos deixá-la pronta.
Eu não consigo acreditar que consegui! Eu consegui! Consegui deixar uma pessoa no nível B2 em quatro meses! É loucura!
Claro que a dedicação dela e da Beatrice foram essenciais para isso.
Mas eu consegui!
— Você parece feliz, — disse Claire, me fazendo sorrir.
— Eu estou — suspirei. — Eu consegui... Vocês conseguiram! — Claire e Beatrice sorriram.
— Graças a você! — Claire sorriu, apertando minha mão. — Minha cabeça está doendo. — Sorri.
— E deveria! Eu acho que não aguentaria esse pique que você se colocou, Claire — falei, ouvindo-a rir.
— Quatro meses... — Assenti com a cabeça.
— Quatro horas por semana — disse ela.
— Pois é! — Rimos.
— Você realmente acha que estou pronta? — ela perguntou.
Troppo pronta! — falei firme. — A Itália vai ver quem é Claire Stroll e o que ela consegue fazer com essas marcas aqui no Canadá.
— Agora o trabalho de verdade começa — disse Claire. — Aqui foi só diversão. — Sorri.
— Vai dar certo. Faça suas malas e aproveite a Itália ensolarada nessa época do ano — ela assentiu com a cabeça. — Tome um gelato por mim. — Beatrice riu.
— Por que... por que você mesma não toma? — ela perguntou, e eu inclinei a cabeça, confusa.
— Co-como assim? — perguntei.
— Bem... o Lance disse que tinha duas surpresas — disse ela. — O Kimi é uma delas, e você ir comigo para a Itália é a outra. Você vai ao evento comigo e vai acompanhar o Lance no GP de Monza... — Olhei surpresa para a Beatrice, que apenas assentiu com a cabeça, como quem já sabia de tudo.
— Você está brincando! — falei, rindo, e ela negou com a cabeça.
— Não! — ela sorriu. — Arrume suas malas. Terça-feira, você vai conosco.
— Você está brincando! — repeti, rindo, mas comecei a chorar no meio da frase, me levantando para abraçá-la.
— Não, querida! — ela me abraçou forte. — Vai dar tudo certo. — Sorri. — Falando nisso... — ela tirou um papel do bolso. — Para você.
Abri o papel e o pequeno bilhete tinha a caligrafia do Lance:
"Pronta para realizar seu sonho? Estou empolgado para isso."
— Isso é incrível! — falei, rindo.
— É mesmo! — ela sorriu. — E, claro, eu talvez precise de uma tradutora... em caso de emergências. — Ela piscou com um olho só, me fazendo rir.
— Você não precisa de uma tradutora, mas vou adorar te acompanhar... como amiga. — Ela sorriu.
— Melhor ainda! — disse ela. — Bem, acho que isso merece uma celebração. Que tal um champanhe? — Ela se levantou animada, e eu me virei para a Beatrice.
— Você sabia? — perguntei, e ela riu.
— Sim! Desde as férias! — disse ela, rindo. — Você deveria suspeitar que ele faria algo assim, não? Digo... — ela abaixou o tom de voz. — Eles são muito ricos.
— Eu sei, mas... — suspirei. — Meu emprego... oh, meu Deus, meu emprego. — Suspirei.
— Vamos lidar com uma coisa de cada vez — disse Beatrice. — E, caso eles não deixem, eles que lutem. — Ela usou a expressão que repito frequentemente em português.
— Ah, cara! O Lance é louco! — falei, rindo.
— Ele te ama — disse Beatrice. — E ele pode realizar seus sonhos. Por que não o faria?
— Às vezes me pergunto se não está perfeito demais — falei, rindo.
— Bem... só o tempo vai dizer. Mas eu aproveitaria enquanto está assim — disse ela, dando de ombros e me fazendo rir.
— Aqui está! — disse Claire, chegando com uma garrafa na mão e três taças finas. — Precisamos comemorar. — Percebi que a garrafa já estava aberta, e ela serviu nas três taças.
— Ah, eu preciso entregar algo também — falei, abrindo minha bolsa e tirando dois diplomas de lá, com os nomes de Claire e Beatrice. — Achei que fosse propício.
— Ah, você é um amor! — disse Claire, rindo, enquanto pegava o dela. — Isso merece uma foto!
— Deixa que eu tiro! — disse eu, pegando meu celular. — Vou postar: "Minhas primeiras formandas de italiano".
— Em breve, em 's World — disse Beatrice, me fazendo rir.
— Ah, como se eu tivesse tempo para isso! — Elas se juntaram, segurando os diplomas, e tirei algumas fotos. — Ah, lindas!
— Um dia de cada vez — disse Claire. — Primeiro a Itália, depois focamos na escola. Que tal? — Ri, fracamente.
— Um dia de cada vez — repeti.
— Vamos! Às formandas de 's World! — disse Beatrice, animada, estendendo sua taça, e fiz o mesmo.
— Obrigada, meninas! Isso foi demais! — sorri.

— Eu quero te matar! — disse quando Lance apareceu na tela, com sua gargalhada alta ao fundo.
O quê? — perguntou ele, dando de ombros e se fazendo de desentendido.
— Lance, eu não... Uma viagem...
Ah, qual é, . Você realmente achou que eu não fosse aproveitar a pouca influência que tenho para realizar seus sonhos? — Ele olhou fixo para mim, me fazendo suspirar. — Além disso, você merece vir a mais corridas. Você gostou.
— É, eu gostei... — falei baixo, apoiando o rosto na mão.
Então! — sorriu ele. — Quero te dar tudo que eu puder.
— Mas você sabe que eu não posso te dar nem metade do que você pode me dar...
E por acaso eu pedi algo? — perguntou ele.
— E eu? Pedi algo? — retrucou.
Não. Por isso estou fazendo por livre e espontânea vontade — disse ele. — E você tem formas muito boas de me retribuir. — Ouvi uma risada alta e franzi a testa.
— Onde você está?
Ei, ! — Vi uma mão ao fundo e franzi a testa.
— Quem é? — perguntei, e Lance virou o celular para que eu pudesse ver Vettel.
— Oi... — disse, timidamente.
Oi! — respondeu ele, sorrindo, e Lance voltou a câmera para si.
— Eu te odeio — disse novamente, fazendo-o rir.
Veja como uma coisa boa, vai. Você vem realizar seu sonho, me vê, a gente curte um pouco de Milão... — disse ele, dando de ombros. — Não é muito, mas é um começo.
— É mais do que perfeito, Lance — suspirei. — Não preciso de muito.
Estou empolgado! Mais empolgado que eu te verei em dois dias. — Sorri.
— Eu preciso falar no emprego amanhã — suspirei.
Não estou preocupado com isso — disse ele, dando de ombros. — Vai dar tudo certo...
— Espero que sim — disse.
Além do mais, a ideia da viagem não foi totalmente minha — disse ele, dando de ombros. — Comentei com minha mãe que queria te trazer para a Itália, e minha mãe comentou que estava pensando em te chamar para acompanhá-la nos eventos.
— Por quê? — perguntei.
Ela está insegura, .
— É normal! — disse. — Foram quatro meses de trabalho duro, foi caótico.
Mesmo assim. E minha mãe pode te trazer para a Itália. Aí ela pensou em te contratar, com a desculpa de uma tradutora... — disse ele, dando de ombros. — Eu só juntei as oportunidades.
— Obrigada... — disse, e ele sorriu.
E parabéns para você — disse ele, sorrindo. — Você deixou minha mãe fluente — acrescentou, rindo.
— Ah, até agora eu não acredito — suspirei. — Por terminar isso! Por deixar sua mãe fluente... — Suspirei, jogando a cabeça para trás.
Você merece isso, — disse ele. — Você lutou por isso. — acrescentou.
— Foi incrível — suspirei. — E sua mãe pode parecer insegura, mas ela está muito preparada. — disse. — Sua mãe atingiu o nível B2. — Tombei a cabeça para trás, suspirando. — Sua mãe lutou para isso. Eu estou empolgada em ver isso.
Viu? Agora você vai ver — disse ele, se achando, e revirei os olhos.
— É, eu vou ver... — disse, negando com a cabeça. — Você deveria ir dormir.
Nhá, estamos esperando a reunião da equipe ainda — disse ele. — Não devo sair daqui antes das onze.
— Bem, eu preciso preparar umas aulas para amanhã e comer alguma coisa. Não almocei ainda.
Você deve comer — disse ele, sério.
— Eu vou! — disse firme.

— Ei, Caitlin! — disse, entrando devagar na sala da diretora da escola.
— Ei, .
— Estou atrapalhando?
— Não, por favor, entre, entre! — disse ela, juntando seus papéis, e eu me sentei.
— Não vou atrapalhar, serão só alguns minutos — disse, me aproximando da mesa.
— Claro, fique à vontade. Sente-se.
— Não, é rápido! — respondi. — Caitlin, é o seguinte: surgiu uma oportunidade de ir para a Itália amanhã, acompanhar uma aluna em um evento. Eu gostaria de pedir por uma semana de folga. — Ela ergueu o rosto, finalmente.
— Como assim? — perguntou ela.
— É... eu preciso de uma semana de folga.
— Assim? Eu não consigo... eu... — Ela me olhou. — Amanhã? Você deveria ter me avisado com, no mínimo, dois meses de antecedência.
— Eu só soube sobre isso no sábado — disse. — Não tinha como avisar antes.
— Me desculpe, , eu não posso. Eu tenho uma turma começando agora. A Mariah já tirou a semana por intoxicação alimentar.
— Caitlin, é uma oportunidade da vida — disse. — Eu não posso negar. Essa família me ajudou muito.
— A família Stroll? — perguntou ela. — É, eu sei que você está ensinando a Claire.
— Você a conhece? — perguntei.
— Fizemos faculdade juntas — disse ela, e notei talvez uma mágoa na forma como falou. — Enfim, não vem ao caso — acrescentou. — Sinto muito.
— Caitlin, é uma oportunidade da vida. Eu não posso negar — suspirei.
— Sinto muito, . Trabalho é trabalho. Não podemos ficar dando folgas só porque você quer ir para a Itália — disse ela, com uma risadinha irônica.
— Eu não vou negar! — falei firme, e ela descansou a caneta. — Eu me demito.
— O quê? — perguntou ela, assustada.
— Eu estou tentando ser razoável, Caitlin. A senhora Stroll me ajudou de uma forma que ninguém pôde. Sua família tem me feito crescer como pessoa. Eu gosto muito da escola, mas não estou crescendo aqui. E, pelo jeito, você não tem interesse em me ajudar também — suspirei. — Então, eu agradeço as oportunidades que vocês me deram, mas é hora de seguirmos caminhos diferentes.
— Eu estou em choque — disse ela.
— É, eu também — respondi com honestidade. — Achei que, depois de tudo que passamos, a senhora seria mais compreensiva. — Dei de ombros. — Mas vi que não — suspirei. — Eu volto semana que vem para pegar meu cheque. — Pressionei os lábios. — Mas ainda desejo tudo de bom para esta escola. Ela é boa!
— Não esperava que terminássemos assim, .
— Também não queria. Mas, se a senhora não me dá a oportunidade de realizar meu sonho de vida, eu não tenho outra escolha — disse, e ela pareceu fechar a cara.
— Está certa sobre isso? — perguntou ela.
— Absolutamente — afirmei, me preparando para sair da sala. — Ah, e obrigada, senhora, por ter me contratado e permitido que eu estivesse aqui para que outras oportunidades aparecessem. — suspirei. — Não se preocupe, eu vou finalizar meu dia. — Saí da sala sem esperar resposta.
Senti algo ruim dentro de mim. Talvez eu tivesse sido um pouco rude, mas não poderia deixar essa oportunidade passar — ela era boa demais para isso. Além disso, o valor que Claire me pagou pelas aulas e os ganhos com alguns alunos particulares dariam para eu sobreviver por bastante tempo.
Agora, eu precisava pensar no que faria depois de voltar da Itália. Tenho uma pequena lista de espera, talvez fosse necessário puxá-la para trabalhar mais.
Mas isso é um trabalho para a da semana que vem.

– Não acredito que você fez isso! – Claire levou as mãos à boca.
– Ah, Claire... Eu gosto muito de lá, mas foi o desdém dela que me irritou – suspirei. – Ela acha que minha vida é a escola dela? – Suspirei novamente. – Ah, fala sério... Foi muito importante para mim, foi o que me deu a oportunidade de conhecer você, de namorar seu filho, mas não é a minha vida. – Neguei com a cabeça.
– Bem, eu não posso negar isso – disse ela. – Eu liberaria a Carly para realizar o sonho dela. – Mencionou sua secretária, que estava no banco da frente.
– Bom, a Claire me liberou para viajar a Zurique para um curso, logo que entrei na empresa – lembrou Carly.
– Verdade! – Claire se recordou.
– E pagou a passagem – Carly completou, voltando a atenção para o trânsito.
– Eu não sei se fiz a escolha correta, mas não poderia perder a oportunidade – falei.
– Não se preocupe, querida. O problema não é você. A Caitlin sempre foi invejosa – disse Claire.
– O que aconteceu, Claire? Ela disse que te conhece.
– Fizemos faculdade juntas. Basicamente, ela flertou com o Larry e ele estava interessado em mim – ri fracamente. – Acho que ela não superou ainda.
– Acho que não! – falei, rindo.
– E hoje, nenhuma de nós duas está com ele – ri de novo, pois Claire nunca comentou se ainda tinha interesse em Lawrence e nunca apareceu namorando, então preferi não perguntar.
– Bom, sua mãe disse que seu sonho era montar uma escola. O que acha de usar o dinheiro que eu te paguei para isso? – sugeriu Claire.
– É a ideia – falei. – Mas eu não sei onde. Minha vida hoje é em Montréal, mas não sei como vai ser a longo prazo – ponderei, balançando a cabeça. – Então, estou pensando ainda. Não sei para onde a vida vai me levar, especialmente agora, depois da demissão.
– Entendo – ela disse. – Alguma ideia do que vai fazer agora? – Dei um longo suspiro.
– Não pensei muito, mas acho que vou continuar com as aulas particulares e tentar entrar em alguma escola. Eu tenho minha formação em Letras, no Brasil, que é um tipo de linguística – expliquei. – Vou ver de fazer a equivalência e talvez entrar em alguma escola. Assim, ganho tempo para pensar, porque meu visto vence em abril – falei.
– Bom, estamos em setembro ainda, você tem tempo para pensar. Além disso, qualquer coisa, posso assinar um trabalho para você; não daria nenhum trabalho – disse Claire.
– Obrigada! Vamos nos falando – respondi.
– Sim! Mas aproveite sua viagem agora – ela disse, me fazendo sorrir.
O carro entrou na parte lateral da pista do aeroporto de Montréal e seguimos para a área dos hangares particulares. O jatinho dos Stroll já estava pronto para nós, o branco reluzindo com o sol.
Saímos do carro assim que ele parou, e o funcionário de solo já foi pegar nossas malas. No carro de trás, chegaram Chloe, Scotty e Beatrice, que também iriam conosco. Seria um grande fim de semana.
– Venha, ! – Claire me chamou com a mão, e eu a segui.
Ela subiu as escadas do avião e eu fui logo atrás, cumprimentando um comissário que nos recebeu com um aceno de cabeça. Eu já tinha entrado no jatinho antes, por pura curiosidade, mas nunca havia voado nele. Claire se sentou em uma poltrona sozinha, com uma mesa entre ela e outra poltrona, e acabei ficando ao lado dela.
– Fique à vontade, – ela disse.
Sem saber ao certo os protocolos, segui os de um voo comercial: tirei o celular da bolsa, mandei mensagem para Lance e para minha mãe avisando que estávamos prontos para decolar e coloquei minha bolsa embaixo da poltrona.
Lance respondeu rápido, mas minha mãe não. Coloquei o celular no modo avião e dei uma olhada geral. Claire e Scotty estavam ao nosso lado; Beatrice e Carly, um pouco à frente.
O comissário nos ofereceu toalhas quentes e algo para beber. Todos aceitaram apenas água. Um prato com petiscos foi colocado na mesa à minha frente. Mordisquei azeitonas e tomates antes de o avião estar pronto para a decolagem.
– Nervosa? – Chloe me perguntou, e assenti.
– Sim, um pouco – respondi, sorrindo.
– Eu também estaria, se fosse realizar meu sonho – ela disse, e meu sorriso se alargou.
Lesgo-o-o-o! – brincou Scotty, me fazendo rir.
O avião fechou as portas e foi liberado. Rodamos bastante pela pista auxiliar até chegar à cabeceira. Foram bons vinte minutos de espera, devido a vários pousos.
– Respira, – disse Claire. – Solta devagar. – Fiz o que ela pediu. – Agora vamos!
Parece que o piloto a ouviu: o avião acelerou pela pista e, em segundos, as rodas deixaram o chão, levando-me na direção do meu sonho.
Ou melhor, para Londres... depois, sim, eu realizaria meu sonho.


Capítulo 14


Foi difícil dormir durante a viagem. A poltrona do jatinho é incrivelmente confortável, mas meu nervosismo e ansiedade não me deixavam dormir. Tivemos sete horas de voo até Londres. O jatinho não tinha autonomia para muitas horas de voo. Se estivéssemos mais para o lado Oeste do Canadá, talvez precisássemos parar mais uma vez, mas Montréal é perto do Atlântico.
Depois, fizemos umas três horas de pausa, para abastecer, depois em mais duas horas, estávamos em Milão. Sobrevoar aquela cidade já fez meu coração arrepiar. Mal via a hora de passar pelos pontos que eu tanto pesquisava na internet.
Não descemos em Malpensa, como eu esperava, fomos para Bergamo, uma cidade vizinha. Quase como o aeroporto de Guarulhos ser de São Paulo, mas que não fica na cidade de São Paulo. Mesma coisa com Bergamo, a cidade é outra, mas o aeroporto é considerado de Milão.
O desembarque foi calmo, não tinha ninguém muito famoso para ser parado por estranhos. Scotty talvez, mas não acho que o snowboard é um esporte muito popular na Itália. Uma van nos esperava e foi com ela que seguimos os sessenta quilômetros entre as duas cidades.
Eu estava abismada, apaixonada e curiosa por tudo que via. Chloe e Beatrice estavam rindo da minha curiosidade, mas aposto que isso rendeu muitas fotos no celular das duas.
Quando entramos na cidade, eu fiquei mais animada ainda. Não passamos em nenhum ponto conhecido, mas passamos perto da estação central de Milão, que eu me surpreendi pelo tamanho.
Fiquei mais surpresa quando a van parou na frente do Príncipe di Savoia. Um dos hotéis, senão o mais, caros de Milão. Ele é quase um palácio. Sua fama é gigantesca.
Não entrei em detalhe sobre o pagamento da minha vinda para cá, mas espero que algumas estadias no Príncipe di Savoia estejam inclusas.
— Vamos! — disse Claire, animada, ao descer da van, e fui logo atrás.
Todos seguimos para dentro do hotel e eu parecia uma tonta olhando para todos os lugares. Eu estava me sentindo em um museu, olhando para todas as obras, esculturas, tudo era lindíssimo. Carly foi em direção a recepção, mas não foi necessário, já que, o que me pareceu ser o gerente do hotel, veio até Claire.
— Senhora Stroll! — disse ele, com um forte sotaque italiano. — Que prazer tê-la conosco.
Ciao, come stai? — respondeu ela em italiano, arrancando um sorriso meu, de Chloe e de Beatrice.
— Ah, fala italiano! — comentou o gerente, mudando de postura. Cheguei um pouco mais perto para ouvir melhor.
Eles falaram rapidamente sobre a reserva e sobre alguns pedidos especiais de Claire, e outro homem nos indicou o caminho. Seguimos com ele, entrando em um elevador grande como de hospital. Subimos para o último andar e o funcionário nos indicou o caminho.
Claire parecia já conhecer o local, e os outros já a seguimos.
— Caso precisem de algo, estamos à disposição — disse o funcionário antes de se retirar.
— Bem, Chloe e Scotty ficam com o primeiro quarto, Beatrice e eu no segundo, e Claire no terceiro — disse Carly.
— E eu...? — perguntei, erguendo a mão.
— Você vai ficar perto do Duomo. O hotel do Lance é por lá — explicou Claire. — Ele logo estará aqui para te buscar. Enquanto isso, pode usar meu quarto para tomar um banho, descansar e se arrumar.
— E nos encontramos à noite para o evento — completou Chloe.
— Mal vejo a hora disso — falei, enquanto Claire me piscava.
— Vamos, gente! O evento é às oito. Qualquer coisa, falem pelo celular — disse Claire.
— Vamos! Eu preciso dormir um pouco — falou Scotty, e seguimos para nossos quartos.

Por um segundo, eu me senti mal por não ficar oficialmente no Príncipe di Savoia, mas depois eu lembrei que estava realizando meus sonhos, que essa viagem estava sendo toda no 0800, que eu tinha vindo para cá em um jatinho particular, e que eu ficaria no mesmo hotel que Lance e pilotos de Fórmula 1, o que eu duvido que fosse ruim.
Nos planos das minhas viagens, as chances de eu ficar em um hostel com oito meninas eram enormes.
Claire permitiu que eu fosse tomar banho primeiro e se sentou na grande escrivaninha vitoriana para praticar seus papeis nessa vinda para cá. Meu papel estava feito e eu poderia dar apoio moral, mas sabia que não adiantaria nada, ela estava muito nervosa. Hoje seria o dia em que ela encontraria donos e investidores de grandes marcas italianas. Até eu estava nervosa só por estar nesse evento.
Tinha que ser perfeito.
Pensando que ainda pararia no hotel em que eu realmente ficaria, eu tomei banho e coloquei shorts e uma blusinha regata, além dos meus tênis sem meia. Passei bastante protetor solar, pois o sol na Itália estava realmente queimando, e passei um lápis e batom, só para não parecer ao lado de Lance sem nenhuma maquiagem.
Quando saí do banheiro, ele já me esperava largado em um dos vários sofás da antessala.
— Lancelot! — falei animada, e ele abriu um largo sorriso quando me viu.
— Ah, ela aqui! — disse ele, se levantando para me abraçar, me fazendo rir quando me tirou alguns centímetros do chão. — Como eu senti sua falta!
— Eu também! — sorri, colando nossos lábios por alguns segundos. — E eu quero te matar! — Dei um tapinha em seu ombro, fazendo-o rir.
— O quê? O que eu fiz? — riu ele.
— Olha onde você me trouxe, Lance! — falei rindo. — Eu estou em Milão.
— Eu sei! — respondeu ele, rindo. — Só aproveitei as oportunidades. — Abri um largo sorriso.
— Você não deveria ter feito isso.
— Você está feliz? — perguntou ele, e assenti com a cabeça.
— Então, pronto! — rimos juntos.
— Ah, eu amei! Amei! Amei!
— Como assim "amei"? Você acabou de chegar! Qual é, temos muito que ver ainda. — Ri fracamente, assentindo com a cabeça.
— Ah, vocês são lindos juntos — disse Claire, virada na cadeira, me fazendo sorrir.
— Obrigada.
— Eu sei! — disse Lance, e neguei com a cabeça. — Bom, vamos? Não temos muito tempo até o evento.
— Sim! Preciso estar lá às sete — disse Claire, e olhei rapidamente no relógio.
— Bom, são quatro e meia — disse Lance.
— Sim, vamos! — Fui até minha mala e juntei meus itens de higiene nela novamente. — Você vai ficar bem, Claire? — perguntei, verdadeiramente preocupada.
— Não se preocupe, querida, eu vou! — disse ela. — Seu trabalho foi feito, . E você o fez magistralmente — completou, sorridente. — Agora o resto é comigo. — Sua última frase foi mais séria, então somente assenti com a cabeça.
— Ok! Estaremos lá às sete — falei, me aproximando dela, e ela se levantou.
— Combinado! — disse, me abraçando e me fazendo sorrir. — Divirtam-se!
— Até mais, mãe! — disse Lance, lhe dando um beijo e puxando minha mala.
Seguimos para fora do quarto em silêncio e coloquei minha bolsa na lateral. Descemos pelo elevador, onde um carregador logo veio ajudar Lance, que negou, e uma Aston Martin verde estava parada no embarque e desembarque do hotel.
— Legal! Em estilo! — falei, e ele riu.
— Vem! Vamos nos divertir um pouco — disse, colocando minha mala no porta-malas, enquanto eu entrava no lado do carona.
— Não temos muito tempo — falei.
— Não se preocupe! Nunca deixaria minha mãe sozinha no dia mais esperado do ano para ela — disse ele, ligando o carro.

Seguimos para fora do hotel e permiti abaixar o vidro, seguindo pelas ruas de Milão. Ele deu uma passada pelo das estações Milano Centrale e pela Porta Garibaldi. Andamos perto da Pinacoteca di Brera e depois passamos pelo Teatro alla Scala, onde vi a entrada do outro lado da Galleria Vittorio Emanuelle II. Lance deu uma volta um pouco maior, para chegar por trás no hotel NH Collection Milano President.
— Senhor Stroll — disse um valet, e ele assentiu quando estacionamos no subsolo.
— Obrigado, Giuseppe! — disse Lance, entregando alguns euros. — Por favor, leve o que está no porta-malas para o meu quarto. Darei uma rápida saída. — Ele esticou a mão para mim. — Vem!
— Lance! — falei, sentindo-o me puxar.
– Vem! – Ele disse rindo e subimos a ladeira do estacionamento subterrâneo, até ter o sol em nossas cabeças novamente.
Lance colocou novamente o boné e os óculos de sol pendurado na gola de sua blusa.
– Onde estamos indo? – Ele colocou a mão na boca, pedindo silêncio, quando andamos até próximo à esquina. – Não olhe para trás. – Ele me puxou e segui com ele, passando por trás de um tapume, e fui aí que vi.
O hotel tomava um quarteirão inteiro, então a entrada dele, e um pouco das laterais, estavam tomadas por fãs. Bonés de todas as escuderias tremulavam ali. Apressamos o nosso passo, seguindo pela lateral contrária do hotel, e a sombra dos prédios deve ter nos escondidos.
— Acho que pronto — disse Lance, diminuindo o passo, mas sem tirar os óculos nem o boné.
— Onde vamos? — insisti.
— Você vai ver! — respondeu, rindo.
Andamos por alguns quarteirões arredondados, então não sei ao certo quantos quarteirões andamos, mas pelo passo apressado de Lance, não demorou nem menos do que dez minutos, para eu ver a lateral do Duomo de Milão.
— Espera! Aqui é...? — minha voz falhou. — É... — disse ele. Saí correndo pela lateral da imensa catedral gótica. — ! — gritou Lance, rindo, enquanto eu corria pela lateral da imensa catedral gótica no centro de Milão.
Corri cerca de 100 metros até finalmente vê-la na diagonal, junto com o portal da Galleria Vittorio Emanuelle II à minha frente.
As emoções tomaram conta de mim, me fazendo perder as forças por alguns segundos, então apoiei minhas mãos no joelho, me fazendo respirar fundo. Algumas lágrimas deslizaram pelo meu rosto em pura emoção.
— Ela é... — suspirei, sentindo Lance me abraçar pela cintura. — Gigante! — Ele riu. — Ela é linda! — continuei, rindo. — Oh, meu Deus!
— Feliz? — perguntou ele. Assenti, ainda sorrindo.
— Muito feliz! — Suspirei, passando os dedos rente aos olhos para evitarem mais lágrimas caírem.
— Me dê seu celular — pediu. Ri baixinho e entreguei. — Não se mexa.
Ele se afastou alguns passos e fez uma sessão de fotos comigo ali, naquela posição. Depois andamos um pouco mais para o lado, repetindo as fotos, depois mais para o lado, pegando a Galleria, até que o chamei para um foto juntos. Isso certamente pedia uma foto nossa juntos. Ele é o responsável por eu estar aqui.
— Ela é incrível! — suspirei, aproximando-me das portas fechadas. A entrada lateral era paga. — Eu pensava que fosse menor.
— Incrível, certo? — disse ele. — Me lembro da primeira vez que vim aqui, também fiquei abismado.
— E pensar que eles construíram isso sem as máquinas que temos hoje... — falei.
— E ainda faziam coisas mais bonitas — respondeu, me fazendo rir.
— Beh! — dei de ombros.
— Quer entrar na Galleria?
— Sim! — falei, rindo, e ele estendeu a mão.
Seguimos para dentro da Galleria e eu não sabia o que me deixava mais surpresa. Toda a construção em si, a arquitetura e os detalhes, ou as marcas de grife que casualmente estavam lá dentro. Chanel, Yves Saint-Laurent, Prada, Louis Vitton, Dior, Swarovski, Fendi. Só senti falta da Versace ali.
Lance novamente me colocou no centro da Galleria, bem onde a cruz de encontrava e fez questão de encher de mais fotos.
— Você sabe a tradição? — perguntou.
— Qual? — perguntei e ele indicou o chão. — Está vendo aquele touro no chão? — apontou.
— Sim. — Vi o mosaico no chão.
— Dizem que, se girar três vezes com o calcanhar nos testículos do touro, você terá sorte e prosperidade.
— Bom... não custa tentar, certo? — respondi.
Esperei uma pequena fila de pessoas fazerem exatamente a mesma coisa, antes de eu fazer o mesmo. É mais difícil do que parece.
— Você deveria fazer também.
— Por quê?
— Quem vai correr domingo é você, não eu. — Ele riu comigo.
— Oh, meu Deus! – Ele bufou, mas acabou fazendo enquanto eu ria dele. — Ok, ok! Se eu não ficar pelo menos em quinto lugar, eu culpo o touro — disse Lance, rindo.
– Quem sabe? – dei de ombros. – Sempre vou torcer por você.
Ele sorriu e deu um beijo na minha bochecha.
– Vem! – indicou com a cabeça, andando na diagonal até pararmos em uma fila. Foi então que percebi que era a Savini.*
– Gelato? – perguntei animada.
– É claro! – disse, rindo.
– A-a-a-a-ah! – comemorei, fazendo-o rir mais.
– Você pede! – falou, tirando alguns euros do bolso. Vi que os preços variavam de cinco a oito euros.
– Qual peço? – suspirei.
– Pode pedir o grande, eu sei que você vai gostar – respondeu, rindo.
– E você? – perguntei.
– Sem doces pra mim até domingo. Já estou entrando em surto, triple header mata – riu, me vendo me aproximar.
Ciao! – sorri para o atendente.
Ciao, come va? – ele perguntou.
Bene, grazie! – respondi. – Per favore, un cono grande di... – pensei, olhando para as opções de sorvetes naturais – fragola e uva. – Ele preparou a casquinha de morango e uva e me entregou.
Otto euro – disse, e Lance entregou o dinheiro, pegando o troco.
Grazie! – falei junto com ele.
– Ai, que delícia! – suspirei, dando uma lambida no sorvete que já derretia.
– Não vou nem olhar, você está me dando inveja – falou, me fazendo rir. – Acho que nunca vi alguém tão feliz em tomar sorvete.
– Eu estou na Itália, realizando meu sonho, contigo. Eu vou suspirar, e muito! – falei, ouvindo-o rir.
– Aproveita, meu amor. Você merece! – disse, sorrindo.
Scusa, Lance? – virei para o lado e vi um grupo de duas ferraristas, uma mercedista e uma mclarista.
– Ah, ciao! – ele disse surpreso.
– Pode tirar uma foto com a gente? – me olhou, surpreso, e eu apenas assenti.
– Claro! – respondeu, enquanto eu me afastava alguns passos, continuando minha saga de suspiros e lambidas no sorvete, antes de terminar com a casquinha.

– Ok, o que acha? – perguntei, saindo do banheiro. Lance ficou boquiaberto.
– Uau! Você está linda! – disse. Olhei-me no grande espelho do quarto.
O vestido prata tinha sido uma escolha de Claire. Ele não era completamente longo, mas tinha uma cauda que dava a impressão de ele ser longo. Fiz somente uma escova nos cabelos, deixando-os levemente cacheados na ponta e tentei fazer uma maquiagem mais forte, mas mantendo tons terrosos nos olhos e somente um batom mais rosado nos lábios.
– Sua mãe disse que é gala, então... – Ponderei com a cabeça.
– Sua mãe disse que é gala, então... – ponderei.
– Você está perfeita – ele disse, me fazendo sorrir.
– Só vou colocar meus sapatos – falei, sentando na beirada da cama para calçar as sandálias da mesma cor. – Hum, isso vai matar meu pé daqui a algumas horas.
– O evento é rápido – garantiu, levantando-se. – E já vamos também. – Ele vestiu um paletó sobre a camisa e a calça social.
– Você está lindo também – elogiei, observando o conjunto azul-escuro e o sapato combinando.
– A Boss sabe de uma coisa ou outra – comentou, e ajeitei a gola do paletó.
– Você está incrível! – disse, trocando um curto selinho para não estragar meu batom. – Merecemos uma foto. – Peguei o celular e ele se colocou ao meu lado, em frente ao espelho. – Sorria.
– Sempre contigo! – falou, colocando a mão na minha cintura. Tirei algumas fotos e ri de como estávamos lindos. – Será que minha mãe realmente quer que a gente vá? Digo, você está gostosa! – ele disse, rindo.
– Lance! – dei um tapinha no ombro dele. – Contenha-se.
– Eu tenho, pelo jeito – deu de ombros.
– Vamos! – peguei minha bolsa, colocando o celular e o passaporte lá dentro.
Lance segurou a porta para mim e segui do mesmo. Dessa vez o corredor estava vazio, mas quando chegamos, boa parte da equipe da Aston Martin e da McLaren estava dividindo o corredor. Encontrei o pai de Lance, Vettel, Daniel Ricciardo, Lando Norris, e reencontrei o diretor da equipe de F1 da Aston Martin, Mike Krack.
Apesar da saída mais calma do quarto do hotel, a saída do hotel em si não estava tão calma assim. Mesmo que as ruas estivessem liberadas, e os policiais tivessem colocado grades para manter a frente do hotel livre, os fãs estavam em peso ainda.
Lance deu um rápido aceno quando gritaram para ele, e eu fiz questão de entrar rapidamente no carro. Quando Lance finalmente saiu do caos do hotel, tendo alguns fãs até batendo no vidro do carro, chegamos rapidamente ao nosso destino. O local eu nunca havia ouvido falar, se chama Palazzo Morando. Fica no Quadrilátero da Moda de Milão, o bairro da moda. Eu deveria esperar por isso.
Ruas fechadas, holofotes e mais famosos nos esperavam mais uma vez. Por mais que eu estivesse com Lance há alguns meses, eu ainda não consegui me acostumar com isso. Um valet abriu a porta para que eu saísse e esperei Lance aparecer ao meu lado para entrarmos juntos. O grande pôster na porta denunciava um Pré-Fashion Week. Eu deveria esperar. Não sabia exatamente quando, mas estávamos perto da semana da moda de Milão.
O local era um palácio antigo e cada sala indicava um museu, seguimos para o local onde todos estavam, e vimos um salão aberto, com teto direito alto e grandes obras de arte. Aposto que era a sala de um dos museus que deveria ter aqui dentro.
As pessoas me olharam quando eu passei, e só consegui fingir costume ao passar por elas. Alguns dos engravatados que tentei dar aula, também me olharam de cima a baixo e só pude sorrir para eles.
– Irmãozinho! – Chloe disse, abraçando Lance. Achei engraçado, pois ele é o caçula da família, mas bem mais alto do que Chloe.
– Fala aí, mana! – Eles se cumprimentaram.
– Uau! Olha como ela está gata! – Chloe comentou, me fazendo rir. Trocaram-se dois rápidos beijos.
– E então? Onde está a mãe? – perguntei.
– Com Donatella Versace – Chloe indicou, e notei a loira de Milão falando com a loira de Montréal.
– E como estão? – perguntei.
– Tudo bem, aparentemente. Vamos chegar perto – respondeu, e seguimos juntos.
Sì, chiaro, sarà un piacere cenare con te un giorno – ouvi Claire falando, o que me fez sorrir.
È troppo buono vedere donne con grinta – disse Donatella. – Italia è ancora un mondo di uomini, però stiamo vincendo piano, piano.
– Certo! – Claire respondeu, e elas nos viram. – Ah, posso introdurti alcuni personi? – perguntou.
Sì! – Donatella concordou.
Questo è Lance, mio figlio e pilota di Fórmula Uno.
Ah, ma che bello! – disse Donatella. – È un piacere.
Grazie! Anche a me – respondeu Lance.
E questa ragazza è la sua fidanzata, lei che è stata mia insegnante d’italiano – disse Claire.
Ciao! – sorri. – È un piacere.
Mah! Tu hai fatto un bel lavoro con Claire... – seu sotaque italiano soava engraçado no inglês. – Lei è meravigliosa.
Grazie, però tutto è stato possibile per lei – Claire sorriu. – Scusate.
Sì, siete confortevoli – Donatella disse, e dei um aceno para Claire, afastando-me aos poucos.
– Ela está indo muito bem! – falei sorrindo.
– Está! – Lance concordou. – Vem! Vamos beber algo.

Passar essas quase duas horas observando Claire, foi a prova de que eu precisava de que qu fazia realmente um bom trabalho. Eu estava veramente stanca, como diz os italianos, mas foi possível com dedicação, deixar Claire fluente em uma língua que falantes de inglês e francês não costumam dominar.
Claire deslizava pelo local. Sua conversa com Donatella durou bons vinte minutos, depois ela conversou com Raf Simons, diretor criativo da Prada. Descobri depois que ele é belga, igual ela, mas ambos falaram um italiano perfeito.
Depois ela conversou com Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci. Não sei ao certo que tanto eles estavam discutindo, mas Carly estava ao seu lado anotando todas as informações possíveis. Talvez telefones, contatos ou reuniões já marcadas. Não sei exatamente quando íamos embora, mas sei que ela ficaria em Milão no mínimo até domingo, que é a corrida de Lance.
Ela ainda falou com diretores criativos da Dolce & Gabbana, Valentino e Armani. Podia ver eu seu rosto que ela está feliz, os ombros relaxados mostravam que agora ela está relaxada, e o olhar positivo de Lawrence, me dizia que boas notícias viriam para a Sportswear Holdings.
Eu parei de beber no meu segundo champanhe, não tinha comida no evento. Talvez fosse pela vibe do local, vestidos de gala, pessoas deslumbrantes, e o estômago colado na barriga. Isso com toda certeza não estava nos planos do dia, mas Claire estava feliz, realizada, e a cara de merda dos outros alunos que não seguiram com o curso, eram as melhores.
Sei que vir para Itália era um sonho de vida para mim, mas poder vê-la realmente conquistando algo que falamos por quatro anos, era simplesmente deslumbrante.
– Ela foi incrível – falei, suspirando e tirando discretamente as sandálias.
– Foi mesmo – disse Lance, me abraçando de lado. – Estou orgulhoso dela.
– É? – virei para ele.
– Sim! Quando eu era pequeno, ela vivia à sombra do meu pai, mas quando eles terminaram, parece que ele passou a dar mais apoio a ela do que antes. Talvez porque a empresa tenha sido dividida, não sei... – deu de ombros. – E ela foi realmente construindo seu espaço. Estamos aqui hoje graças a você.
– Não, graças a ela! – falei, e ele sorriu, dando um curto beijo nos meus lábios.
Ecco qui! – chegou o garçom. – Una margherita... – disse, e indiquei a mão. – E una diavola. – Entregou a outra para Lance, e suspirei.
Sorri com a linda pizza italiana sorrindo para mim, com o molho vermelho vivo, as pequenas bolas de muçarela de búfala derretidas e grandes folhas de manjericão basílico. Com toda certeza o epílogo perfeito.
Buon appetito, Lancelot – falei, pegando uma fatia com a mão.
– Aproveita, , você merece! – mordi a pizza pouco antes que ele terminasse de falar, dando um longo suspiro e ouvindo-o rir em seguida.
– Ah, eu mereço! Eu veramente mereço! – falei, e rimos juntos. Ele fez o mesmo com a pizza, dando o mesmo suspiro.
– Ok, é bom! – rimos, sorrindo com os lábios sujos de molho de tomate.

*Parte do capítulo foram inspiradas nas experiências pessoais da autora.


Capítulo 15


Depois de dois dias hard de Milão, foi a vez de Lance voltar a ser o piloto de Fórmula 1 que ele é, e voltar para Monza. Depois do evento de Claire, que lhe rendeu muitas reuniões na quarta-feira, Lance passou a quarta-feira inteira passeando comigo por Milão.
Fomos no Corso Sempione, no Arco della Pace, andamos de bonde, demos uma passada em Navigli, o bairro para gays, punks e afins. Passamos pelo Bosco Verticale, vimos diversas igrejas, e ainda visitamos até o Cemitério, que é um grande centro museu a céu aberto.
Na quinta de manhã, Lance me acordou com um beijo somente para se despedir. O fim de semana oficialmente começava e era o dia de lidar com a imprensa. Retribuí com um beijo, vendo-o sair do quarto de fininho, e me deixar com aquele quarto gigantesco só para mim. Pelo menos só até ele voltar no fim do dia.
Quando saí para o café da manhã, todas as televisões mostravam que a rainha Elizabeth II havia falecido. Fiquei surpresa, pois há poucos dias, ela estava bem, inclusive recepcionou a nova primeira-ministra britânica. Além disso, sua longevidade de vida e seu reinado, foram diferentes de tantos outros.
Depois de passar o susto, eu saí com Chloe e Scotty. Beatrice e Carly estavam a trabalho com Claire, então não puderam ir conosco.
Apesar de ser uma cidade grande, Milão não tem tantos pontos turísticos, caso você seja igual a mim e não seja tão fã de museu, então você não precisa de mais do que dois dias para conhecer os pontos mais importantes, sem contar voltar diversas vezes ao Duomo de Milão.
Chloe e Scotty conheciam Itália como a palma da mão deles, então eles ainda deram um pulo no Lago di Como, cerca de uma hora de viagem. Que local sensacional! Uma pena Lance não estar aqui comigo. A água cristalina, o local, era tudo incrível. Fiz questão de tirar várias fotos.
Encontrei Lance novamente no hotel, e fomos encontrar sua família em outra Trattoria para eu me matar de comer mais um pouco de comida italiana. Dessa vez eu comi um Spaghetti alla Carbonara. O prato é romano, mas Roma não estava no meu cronograma nessa viagem, mas o macarrão estava tão incrível quanto.
Na sexta-feira de manhã, a van da família Stroll veio me buscar para seguirmos para o primeiro dia oficial de Monza. Até Carly e Beatrice iriam também. Seria bom, pois assim faríamos um fim de semana das meninas.
Quando eu entrei no paddock, entendi o que falavam dos italianos. Já tinha percebido que sim, eles falam bem altos, eles têm a melhor comida do mundo, eles se vestem bem para caramba, e que eles fumam para caramba, mas também entendi o que falavam sobre a paixão italiana. O que você mais via ali eram bandeiras da Ferrari, me senti levemente intimidada com o boné da Aston Martin em minha cabeça.
! – Lance sorriu ao me ver e me aproximei dele, trocando um abraço e um beijo. – Se divertindo?
– Bem, impossível se divertir mais do que os italianos. – Vi a braçadeira negra em seu braço esquerdo.
– Ah, eles são calorosos! – disse ele rindo. – Ei, mãe! Ei, sis! – Ele cumprimentou o resto do pessoal, depois dando um abraço em Scotty e falando rapidamente com Carly e Beatrice.
– E aí, mano, primeira vitória hoje? Com a aqui? – Chloe brincou e rimos juntos. Sabíamos que era quase impossível, mas valia a pena brincar.
– Uh, eu vou adorar! – falei rindo.
– Ei, olha quem está aqui! – Vi Lawrence aparecer do segundo andar.
– Ei, Larry! – Claire o abraçou, fazendo-o retribuir feliz.
– Oi, gente! Tudo certo?
– Oi! – sorrimos.
– Estão confortáveis? Gostariam de comer algo? Acabamos de servir o almoço, Vettel está em Hot Laps, logo tem o primeiro treino.
– Eu sempre aceito! – disse Scotty rindo, seguindo pelo restaurante.
– Eu não vou negar – Beatrice falou rindo.
– Vamos! – disse Lance e seguimos juntos. – A comida é deliciosa! – rimos juntos.
– Eu suspiro toda vez que eu como – ele riu.
– Fique à vontade – disse ele.
Lance já tinha comido, pelo jeito, então ficou só nos olhando comer, enquanto conversávamos.
– Sabe... Eu estou com uma ideia, se você topar – disse Lance.
– É? Qual? – perguntei, colocando um pouco mais de comida na boca.
– Que tal fazer Hot Laps comigo amanhã? – ele perguntou.
– O quê? – perguntei surpresa.
– É! – ele riu. – Vai ter novamente na hora do almoço.
– Eu não sei... É seguro? – Scotty riu ao meu lado.
– Não exatamente! – Scotty falou. – Brincadeira, cunhado! – eles riram. – É legal, !
– Não vamos acima de 250 quilômetros por hora – disse Lance. – Por questões de segurança.
– Oh, claro! – falei ironicamente.
– Você decide! – disse ele rindo.
– Ok, podemos fazer – sorri. – Mas antes de eu comer.
– Combinado! – rimos juntos.
– Vamos lá, galera! 20 minutos! – Vi uma mulher gordinha chamar os pilotos e vi que um piloto mais novo se levantou no lugar de Vettel.
– De Vries vai pilotar pelo Vettel no primeiro treino como parte do programa de jovens – Lance explicou.
– Bom! – falei rindo.
– Eu vou lá, nos vemos depois! – disse, dando um beijo em minha cabeça.
– Bom treino! – falei e ele sorriu, acenando para o pessoal.
Às duas da tarde, tivemos o primeiro treino. Teve um minuto de silêncio para a Rainha Elizabeth II e todos os pilotos e equipe usavam uma braçadeira similar a que Lance usava. Quando o TL1 finalmente começou, Lafiti, De Vries, Giovinazzi (que substitui Mick Schumacher, pelo mesmo programa de De Vries), Magnussen e Norris, ficaram na primeira parte.
Ficamos empolgados por Lance ir para TL2, mas ele ficou em 15º, depois Pérez, Gasly, Zhou e Albon ocuparam os outros lugares. Agora o top 10, ficou composto por Leclerc como mais rápido, fazendo os Ferraristas surtarem. Depois Sainz, Russell, Hamilton, Verstappen, Ocon, Alonso, Tsunoda, Bottas e Ricciardo completaram as outras posições.
Durante a pausa entre os dois treinos, Lance ficou focado em entrevistas, então só o vimos novamente se preparando para o TL2.
Não tivemos tanta sorte quanto na primeira, Mick foi o último, depois Latifi, Lance em 18º, Vettel e Magnussen foram os primeiros eliminados. Depois Tsunoda, Gasly, Bottas, Zhou e Ricciardo. Depois, completando o top 10, ficou com Sainz como mais rápido, Verstappen, Leclerc, Norris, Russell, Pérez, Hamilton, Ocon, Alonso e Albon no top 10.
Não foi o esperado, mas o dia foi divertido. Na verdade, era muito fácil me divertir aqui e tudo que eu vivia, estava sensacional.
Esperamos que Lance finalizasse todos seus compromissos para voltarmos para Milão, por volta das nove da noite. Já tínhamos jantado no paddock, onde comi uma deliciosa pizza de n'duja, um tipo de salame apimentado, então voltar para o hotel foi só para tomar banho e deitar, pois o dia de Lance começava cedo novamente no dia seguinte.

– Pronta? – Lance perguntou e saí do banheiro.
– Eu gostei! – falei rindo, colocando as mãos na cintura, me vendo com o macacão similar ao de Lance.
– Você está linda! – disse ele e sorri, me aproximando dele, trocando um rápido beijo.
– Vamos! – comentei e ele me entregou um capacete.
– Você vai adorar! – disse rindo e seguimos para fora da garagem, vendo um carro da Aston Martin estacionado na frente da garagem.
– É demais! – falei rindo.
– Vem! – um mecânico falou.
, esse é o Mark, meu mecânico chefe.
– Oi! – sorri, e ele cumprimentou.
– Prazer em te conhecer, senhora – assenti com a cabeça. – Algumas regras básicas. Não tire o capacete e nem o cinto. De resto, aproveite o passeio. – Ele colocou o capacete em minha cabeça.
– Acho que está fácil! – Dei de ombros.
– Uh, eu adorei a cor! – disse Chloe. – Sorria! – Virei para ela, vendo-a tirar algumas fotos.
– Lance... – Mark falou para ele, ajeitando o capacete. – Não exagere – disse ele sério.
– Vamos! – Lance foi para o outro lado e Mark abriu a porta para que eu entrasse.
Ele fez questão de prender bem os dois cintos de segurança que tinham ali, e abriu uma fresta do vidro. Lance se ajeitou do outro lado, já acostumado com o local, e ligou o carro, fazendo o motor me fazer rir.
– Ah, isso é demais! – disse rindo.
– Qualquer problema, me avise, ok?! – ele falou e concordei. – Saindo do pit, a gente acelera. – Confirmei com a cabeça.
Seguimos pelo pit, passando pelas outras garagens, e saímos devagar pela pista de Monza. Levou somente dez segundos para que ele acelerasse o carro, me dando um leve tranco quando o fez. Me segurei no apoio de mão, soltando um pequeno guincho, ouvindo Lance rir e vi o velocímetro aumentar exponencialmente.
– Tudo bem? – Lance falou mais alto, acima do barulho do vento que entrava.
– Tu-udo! – disse rindo, sentindo a primeira curva. – A-a-a-h! – Gargalhamos juntos.
Demos uma primeira volta, seguindo pela segunda, e a torcida parecia se empolgar com qualquer coisa que estivesse na pista. Comecei a me acostumar com o balanço do carro, me fazendo soltar pequenas risadas quando sentia o estômago colar nas costas. Demos uma terceira volta, antes do carro entrar no pit novamente.
– Oh, meu Deus! – falei rindo.
– E aí, gostou? – disse Lance rindo.
– Eu amei! – disse gargalhando. – Ah, meu Deus. Eu amei!
– Temos mais uma cliente satisfeita! – Mark falou, me fazendo rir.
– Cara! É demais! – comentei rindo. – Agora entendo por que vocês gostam disso – rimos juntos.
– Pronta para ser uma pilota de Fórmula 1? – Mark perguntou ao abrir a porta para mim.
– Ah, não! Deixa para eles – ri fracamente.
– Aqui! – Ele me entregou uma garrafa de água. – Respire, beba água e não se levante tão rápido. Ou você vai cair. – Confirmei com a cabeça, tirando o capacete e voltando a relaxar no banco. – Fica uns dez minutos aí. – Ele se afastou e vi Lance aparecer do outro lado.
– Ah, cara! Eu adorei isso! – falei rindo.
– Vamos repetir amanhã novamente? – Ele brincou.
– Ah, eu acho que não! – rimos juntos. – Mas talvez semana que vem?
– Combinado! – Ele piscou. – Vou pegar água, descanse um pouco aí.
– Pode deixar – disse, respirando fundo.

Mark tinha razão, eu fiquei muito grogue depois que levantei, parecia uma criança aprendendo a andar novamente, foi loucura! A ação da gravidade é louca de verdade!
Dessa vez eu assisti o TL3 do restaurante, mas Stroll não foi muito bem. Acabou ficando em último no terceiro treino. Além dele, Mick, Magnussen, Vettel e Bottas fizeram os piores tempos. Depois Ricciardo, De Vries, Latifi, Gasly e Zhou na segunda parte. Os 10 melhores foram Verstappen, Leclerc, Pérez, Sainz, Alonso, Norris, Russell, Tsunoda, Ocon e Hamilton.
Durante o intervalo do TL3, Lance foi novamente fazer trabalho de imprensa, enquanto isso aproveitei para acompanhar as outras questões em pista, o GP de Monza era realmente animado. Tinha mais coisas que o Canadá.
Na maioria do tempo, fiquei com Chloe, Scotty, Beatrice e Scotty, papeando no pátio da Aston Martin e aproveitando da hospedaria. A comida, bebida, tudo era simplesmente incrível. Além de começar a me enturmar mais com os funcionários da Aston Martin como Angelina, a gordinha que os chamou mais cedo, e Monique, assessora da equipe. Essa vida de viajar pelo mundo inteiro deve ser legal, mas parecia ser cansativo. Especialmente quando não podia turistar tanto.
Quando chegou na hora da classificatória, tudo ficou bem alvoroçado, mas todos fizeram questão de se aproximar das garagens, fazendo todos se animarem. Lance ficou em 18º e Vettel tomou a 12ª posição, tornando a classificatória rápida para a Aston Martin, mas acompanhar o pessoal, foi legal.
Latifi, Vettel, Stroll, Magnussen e Schumacher tomaram os últimos cinco lugares. Depois foi a vez de Ocon, Bottas, De Vries (que estava substituindo Albon devido a uma apendicite), Zhou e Tsunoda tomaram as outras 5 posições. Então faltou somente o top 10. Leclerc foi pole na Itália, deixando todos felizes, depois Verstappen, Sainz, Pérez, Hamilton, Russel, Norris, Ricciardo, Gasly e Alonso terminaram o top 10.
Acabei indo embora com Claire e sua família, o dia seria mais longo, então aproveitei para relaxar um pouco no hotel, tomar banho e esperar Lance chegar, mas o sono me ganhou.
Domingo começou agitado. O paddock parecia que estava bem mais lotado que nos dois primeiros dias, acho que o pessoal vinha mais para a corrida mesmo. Além dos ricos e famosos que faziam os fotógrafos ficarem mais loucos do que antes.
A corrida da Fórmula 1 era o único evento da Fórmula Um do dia, mas tinha bastante acontecia na pista. Tivemos as corridas da Fórmula 2, da 3 e da Porsche. Perto da uma da tarde, tivemos a parada dos pilotos, depois tivemos uma volta em homenagem a Emerson Fittipaldi.
– Boa corrida, ok?! – falei para Lance minutos antes de ele ir para a pista.
– Pode deixar! – Trocamos um rápido beijo. – Até mais, gente! – Ele abraçou sua família, recebendo um beijo de sua mãe. – Vamos lá!
Ele seguiu para a garagem, colocando a balaclava, o capacete e entrou no carro. O barulho do carro ficou alto e ele logo saiu, para organizar o grid do outro lado das grades. Quando todos os pilotos chegaram no grid, eles seguiram para os protocolos. Teve um minuto de silêncio para a Rainha Elizabeth II, depois tive o prazer de ver Andrea Boccelli cantando o hino nacional da Itália – junto de vários italianos efusivos – e a Frecce Tricolore e um avião da ITA, passaram voando, em homenagem aos 100 anos Força Aérea Italiana. Foi verdadeiramente emocionante.
Fiz um sinal da cruz quando os pilotos entraram no carro e respirei fundo. Várias namoradas apareciam na tela tão nervosa quanto eu. Acho que era um padrão.
Lights out and way we go!
Lance ganhou algumas posições na largada, chegando em 11º, fazendo a equipe se empolgar, além de Vettel que ficou em décimo. Faltavam mais 53 voltas, então era só o começo de roer unhas e ficar nervosa.
A corrida seguiu cheia de ultrapassagens, especialmente de Verstappen, que passava Ricciardo, que estava em quarto, depois Russel que estava em segundo, ficando uma briga entre a Ferrari e a Red Bull.
Sainz também estava com tudo, ele queria realmente ficar no pódio com a equipe italiana, passando Alonso e fazendo os Ferraristas, que lotavam o autódromo, gritarem por ele.
Na 12ª volta, tivemos nossa primeira decepção, Vettel começou a desacelerar, até precisar parar o carro e abandonar, ficando com um piloto a menos. Nessa hora, Lance se mantinha firme em 11º. Alguns minutos de Safety Car Virtual, tudo voltou ao normal na volta seguinte.
Verstappen liderou quando os pit stops chegaram, mas Leclerc logo passou novamente, voltando a pegar a liderança, e colocando uma distância de 10 segundos entre ambos. Lance não deu tanta sorte com os pit stops, voltando para a pista em 17º lugar. Hamilton e Gasly batalhavam animadamente, fazendo com que o inglês ultrapassasse o francês.
Na volta 31, foi a vez de Alonso abandonar, pelo jeito o carro tinha algum problema, mas deu para chegar no pits stop. As McLaren começaram a ter problemas, quando Norris passou Ricciardo, mas parecia um problema de decisão da equipe. Nessa hora, Verstappen tomou novamente seu primeiro lugar, fazendo os Ferraristas murcharem novamente na arquibancada.
Na 39ª volta, foi a vez de Lance abandonar a corrida, me deixando desanimada. Ele veio como quem iria trocar os pneus, mas acabou precisando abandonar o carro. Pelo jeito o problema dele foi o mesmo que de Vettel: motor.
A corrida tinha acabado para a Aston Martin, todo mundo ficou muito decepcionado com isso, fazendo com que o trabalho da equipe terminasse mais cedo. Lance voltou para a garagem e o acompanhei sair de seu carro, vendo os mecânicos começarem a cuidar do carro dele.
– Tudo bem? – Abracei-o quando ele se aproximou de mim e ele retribuiu, assentindo com a cabeça.
– Está tudo bem! – disse e confirmei com a cabeça, trocando um rápido beijo com ele. – Vou para imprensa. Aproveite o resto da corrida.
– Pode deixar – assenti com a cabeça e o vi sair com outro marketeiro.
Passado mais algumas voltas, foi a vez de Ricciardo abandonar, o carro começou a desacelerar e vazar óleo na pista, até que finalmente parou. Já eram quatro abandonados na corrida. O Safety Car foi para pista, para limpar e a corrida acabou finalizando com o Safety Car na pista, deixando todo mundo levemente decepcionado. Verstappen ganhou, mas isso não impediu que os Ferraristas invadissem a pista e comemorassem o segundo lugar de Leclerc. Russell ocupou o terceiro lugar.
Depois Sainz, Hamilton, Pérez, Norris, Gasly, De Vries, Zhou, finalizaram o top 10. Apesar da finalização da Aston Martin, foi bem divertido.
A equipe parecia estar acostumada com isso, então seguiu agindo como se nada tivesse acontecido. Eu fui com sua família de volta para o motorhome, mas aproveitei o restante da hospitalidade da equipe, antes de finalmente finalizar o fim de semana.
Lance e Vettel voltaram para o motorhome com as mesmas feições decepcionadas, e foram acolhidos pelas suas famílias. Lance foi acolhido por seus pais, e nos abraçamos quando ele terminou de cumprimentar todos.
– Está tudo bem, prometo! – ele disse. – Nada de novo – assenti com a cabeça e dei um beijo em sua bochecha. – Só vou tomar banho, depois vamos embora.
– Combinado – lhe dei outro beijo antes de ele seguir.

– Não foi o esperado, mas foi bom! – Lance falou quando saí do banho.
– Eu adorei! – falei passando a toalha no cabelo. – Assim, os dois carros da AM abandonarem foi no mínimo azar, mas eu gostei do clima de Monza, bem mais animado.
– O calor ajuda também – Lance riu, distraindo o olhar do celular. – No Canadá é muito frio, não dá para se empolgar muito.
– Acho que é algo dos italianos – comentei. – Eles são muito eufóricos. – Ri.
– Eles são! – disse rindo. – E a comida é incrível!
– Ah, que delícia! Eu quero uma quentinha do chef da Aston Martin todos os dias, para sempre – ele riu.
– Bem, do chef da AM não tem, mas a Nicka é uma chef profissional também – disse ele. – E ela não faz somente comida kosher, você pode pedir algumas coisas para ela.
– Acho que a ideia não é ruim, ainda mais que agora estou com todo tempo do mundo – falei.
– Você pode conseguir outros alunos, você sempre diz que tem uma lista de espera.
– Sim, vou começar ela, mas falei para sua mãe que quero validar meu diploma da faculdade, é linguística, talvez possa entrar em uma escola – disse. – É uma ideia.
– Parece que tem um plano – disse Lance e assenti com a cabeça, voltando para o banheiro.
Penteei meus cabelos, secando-os rapidamente, só para tirar um pouco do encharcado e pendurei a toalha, voltando para o quarto. Peguei meu celular no carregador e me deitei ao lado de Lance, vendo-o deixar o celular de lado.
– E agora? Quais os planos? Quando voltamos para casa? – perguntei, virando para ele.
– Bem... Minha mãe, Chloe, Scotty, Carly e Beatrice, voltam para o Canadá – disse Lance.
– Ok, e nós? – perguntei e ele riu.
– Bom, nós... – Ele virou para a mesa. – Agora que você não precisa voltar rapidamente para o emprego... Eu tenho outras ideias – ele falou.
– Quais ideias? – Franzi a testa e ele me entregou um papel.
Percebi que era uma passagem de trem da Frecciarosa. Desdobrei a parte que cobria o destino e olhei surpresa para onde iríamos amanhã.
– TURIM?! – gritei surpresa, fazendo-o rir.
– É claro! – ele sorriu. – Ou você achou que viríamos até aqui e não visitaríamos seu time favorito? – ele perguntou rindo. – Tem jogo da Champions na quarta. Pensei em assistirmos, depois a gente pensa no que faz – gargalhei rindo.
– Ah, meu Deus! – Pulei na cama. – Já falei que te amo? – perguntei animada, pulando nele, fazendo-o rir.
Colei nossos lábios, sentindo-o me abraçar pelas costas, fazendo nosso corpo tombarem na cama. Os beijos aumentaram lentamente, fazendo nossos corpos se enrolarem nas cobertas.
A mão dele desceu pela minha cintura, percorrendo minha pele, explorando cada centímetro. Eu me afastei um pouco para nos olharmos, e ele sorria travesso, fazendo meu corpo arrepiar.
O puxei novamente, sentindo nossos corpos se encaixarem de maneira perfeita. A mão dele deslizou pelas minhas costas, me fazendo arquear o corpo para mais perto dele, a tensão aumentando a cada segundo.
– Eu te amo – murmurei, tocando seu rosto, enquanto ele me olhava com aqueles olhos brilhando de uma maneira quase predatória.
– Eu te amo – ele respondeu, com um sorriso que parecia prometer mais do que diziam.
E então, sem mais palavras, os beijos voltaram a crescer, mais profundos, mais urgentes, enquanto a noite seguia, a tensão palpável aumentava entre nós.


Capítulo 16


Na segunda-feira, acabamos aproveitando para passar mais um dia com Claire, Chloe e o restante do pessoal. Eu não cansava em comer comida italiana, então qualquer oportunidade que eu tinha, eu aproveitava. Já tinha perdido a quantidade de gelatos que eu comi enquanto estava aqui.
Nos despedimos deles na segunda-feira à noite e voltamos a ficar em nosso hotel. O hotel ainda tinha alguns fãs na porta, porque alguns pilotos ainda estavam na Itália. A próxima corrida seria em três semanas, então eles tinham um período de descanso também.
Naquela noite eu não dormi. Fiquei virando na cama diversas vezes, acordando Lance também, tentando fazer com que a ansiedade ficasse mais calma. Nosso trem era 10 horas da manhã, mas antes das seis, eu cansei de tentar dormir e levantei. Comecei a arrumar minhas malas, preparando para viajar, e tomei banho, já me vestindo.
Lance acabou se levantando uma hora depois, pois eu já fazia barulhos e não parava de soltar suspiros e assovios nervosos. Lance era um grande mala quando ele ficava com sono e eu havia causado isso.
– Ok, ok! Chega! – disse, jogando a coberta para o lado e dei um sorriso irônico.
– Eu te amo! – falei e ele passou por mim, dando um rápido beijo em meu bico.
– Eu também – ele suspirou, fazendo cara feia. – Vou tomar banho.
Assim que ele saiu do banho, fomos tomar um rápido café da manhã e esperei Lance finalizar de arrumar sua mochila para seguirmos. A vantagem é que a equipe levava todos os uniformes que ele precisava, então sua mochila era muito pequena. Enquanto eu carregava o mundo nas costas.
Quando chegamos na estação e embarcamos no trem, eu já tinha tomado um calmante para parar de hiperventilar na uma hora de viagem entre Milão e Turim.
Lance até tentou me distrair durante esse tempo, mas eu estava mais interessada no percurso da viagem. Ok, é igual andar na estrada, não tem lá “grandes coisas”, mas é legal acompanhar o movimento.
Turim é uma cidade majoritariamente industrial, então quando o trem começou a entrar na cidade, ele seguiu pela parte periférica, onde era possível ver algumas empresas se formando ali, além da moradia um pouco mais precária. E quando nos aproximamos do centro da cidade, a linha do trem foi para o subterrâneo, então não dava para ver mais do que o céu azul.
– Chegamos! – disse Lance e sorri. Me aproximei dele, dando um beijo, fazendo-o retribuir meu sorriso.
– Obrigada! – falei.
– Acabamos de chegar! – disse rindo.
– Mesmo assim, agradeço por preparar isso – ele riu.
– Vamos lá! – Nos levantamos, vendo algumas pessoas saindo, ele colocou seu boné da Boss antes de pegarmos nossas malas no bagageiro. Cada um estava com uma mala de mão somente, além das mochilas.
Seguimos para fora do trem e já estávamos na estação. A parte da frente era larga, com cerca de 20 plataformas. Àquele horário não estava tão cheio, mas Turim é a quarta maior cidade da Itália, então talvez enchesse em um horário de pico.
Lance me deu a mão e andamos pela estação, vendo a divisão de dois andares, alguns restaurantes, cafés e lojas. Saímos pela frente da estação e vi o movimento da cidade de Turim, me fazendo suspirar.
– Eu estou aqui – ele sorriu para mim.
– Você está. – Ele abriu um largo sorriso e virei de frente para a estação Porta Nuova, vendo a linda arquitetura antiga, me fazendo suspirar.
– É exatamente como nas fotos. – Ele me abraçou pelos ombros, dando um beijo em minha bochecha e suspirei.
– Tem muito mais para você conhecer. – Ele segurou minha mão novamente. – Vamos deixar as coisas no hotel, depois saímos.
– Onde vamos ficar? – perguntei.
– Aqui do lado. – Ele indicou com a cabeça e franzi a testa. – Vem!
Ele me puxou com a mão, e seguimos para a lateral direita da estação, do lado do embarque e desembarque. Esperamos uns cinco minutos pelo semáforo abrir, fechar, passar ônibus, bonde e bastantes bicicletas, e atravessamos a rua, andando na calçada contrária a estação.
– Aqui! – Ele indicou o prédio literalmente ao lado da estação e franzi a testa ao ler Hotel Turin Palace.
– Eu nunca imaginei que isso fosse um hotel. – Franzi a testa. – Achei que fosse algum prédio do governo.
– Pois é! Nossa casa pelos próximos dias – disse Lance antes de entrarmos.
Depois de alguns meses namorando Lance, eu poderia dizer que estava acostumada com certos luxos, mas acho que nunca estaria. A decoração luxuosa, o prédio antigo, o mármore, tudo é simplesmente magnífico.
Ciao, come stai? – o homem atrás do balcão falou.
Ciao! – sorri simpática.
Riserva per Lance Stroll – Lance falou em seu italiano simplório, mas o homem claramente já sabia quem era.
Suíte con terraza – disse ele e confirmei a cabeça, sabendo que era um quarto duplo com terraço.
– Sim – Lance voltou para o inglês e lhe entregou o cartão de crédito. O recepcionista lhe entregou uma folha para assinar, pediu meu documento, e fizemos os trâmites rapidamente.
– Quinto andar, quarto 51 – ele falou, entregando duas chaves.
Grazie! – sorri.
Grazie! – ele retribuiu e segui com Lance.
Como eram poucas bagagens, subimos com ela, sem precisar de carregadores ou outro tipo de serviço extra. Subimos no elevador e nosso quarto era ao final do corredor. Como sempre, me surpreendi com o tamanho e a decoração. Tinha uma antessala, um quarto grande com uma cama gigante, um banheiro do tamanho do meu apartamento em Montréal e uma sacada que dava para a lateral do prédio.
– Eu gostei – falei.
– É bonito! – ele comentou como se dissesse algo sem importância. – Quer descansar um pouco? Tomar um banho? – perguntou.
– Aceito o banho, depois comida, aí podemos dar uma volta – assentiu Lance com a cabeça.
– Combinado.
– Tem algo planejado para hoje? – perguntei.
– Não, só amanhã – disse e confirmei com a cabeça.
– Vai me contar o que é? – perguntei.
– Você sabe o que é! – respondeu, se jogando na cama e ri fracamente.
– Eu vou tomar banho – ele riu.
– E eu vou esperar aqui! – disse rindo e neguei com a cabeça.

– Ah, é linda! – ssuspirei com a vista de Turim do topo do Monte dei Cappuccini.
Aqui em cima tem uma igreja, até grande com base em várias que eu passei, mas a vista para a cidade de Turim é incrível. Dá para ver realmente tudo!
– Olha! É o estádio da Juve! – Apontei bem longe para duas antenas do estádio que ficava perto dos Alpes.
– Ah, é longe daqui! – disse Lance.
– A gente vai lá, né?! – Virei para Lance.
– O que você acha? – ele riu. – Vamos amanhã.
– Ok! – sorri igual uma criança e ele deu um curto selinho em meus lábios.
– Vai, faz uma pose! – Ele se afastou alguns passos de mim e me apoiei na murada, sorrindo para meu fotógrafo oficial.
Turim é uma cidade grande, mas creio que parte disso se dá pela área industrial e periférica, pois andar no centro é fácil. O turismo está centralizado entre as Piazze San Carlo, Castello e Vittorio Veneto, que foram um triângulo. Entre elas, estão vários pontos turísticos, como o Duomo de Turim – conhecido por ter o Santo Sudário – vários castelos antigos da época da Família Savoia – família italiana que reinou desde a unificação em 1861 – entre restaurantes, várias outras igrejas e lojas de luxo. Já havia perdido quantos gelatos eu já comi, especialmente o de Nocciola – de avelã – que é daqui de Turim.
Também havíamos ido mais cedo para a Mole Antonelliana, foi construída para ser uma sinagoga, mas hoje é o Museu Nacional do Cinema Italiano. Além da lindíssima exposição, dessa vez sobre Dario Argento, que pelo visto é um diretor de terror moderno, subimos no elevador que fica no centro do prédio, para ver a vista do topo da Mole.
– Vamos? A última subida é cinco horas – disse Lance e desencostei da beirada, suspirando.
– Vamos – respondi rindo e ele esticou a mão, me fazendo segurar.
Descemos a pé dois níveis da montanha até chegar no local onde estacionamos o carro alugado. Descemos mais alguns níveis até voltarmos para a Corso Casale, uma das ruas que cortava Turim, e seguimos até o final, passando por vários estabelecimentos, restaurantes, outras igrejas, até chegar em uma estação de trem. Lance estacionou um pouco longe, e seguimos a pé até lá.
– Ah, estou empolgada! – falei saltitando, andando.
– Acho que nunca te vi tão feliz, ! – disse Lancelot rindo.
– É meu sonho se realizando, Lance – falei rindo. – E nem vem, eu fico feliz com qualquer coisa. – Ele me abraçou pela cintura.
– Mas aqui você está mais. – Ele tirou um cabelo do meu rosto.
– É tudo junto, você me faz bem – ele sorriu.
– Você também me faz bem, . – Trocamos um rápido beijo e ouvi um sininho, vendo o trem descendo para a estação Sassi.
– Vamos para a fila! – falei, me aproximando de um grupinho de umas oito pessoas.
– Ei, Lance Stroll! – o italiano falou com sotaque forte.
Ciao! – disse Lance envergonhado.
Una foto? – ele sugeriu e Lance concordou.
Depois dele, outros três homens aproveitaram para tirar foto também. Enquanto isso, o trem chegou na estação. Entregamos nossos bilhetes para o maquinista e ocupamos um banco para dois. Após o trem encher, ele começou a subir novamente.
A subida é alta. Ela possui 672 metros, e o trem leva cerca de 20 minutos para chegar lá em cima, mas a Basílica de Superga não era vista do trem. Quando chegamos na estação de Superga, precisávamos subir um pouco mais a pé, em uma ladeira bem íngreme, diga-se de passagem, para chegar na linda basílica.
Lá em cima, tem somente ela e alguns restaurantes. Ela é lindíssima por fora e por dentro, mas eu estava mais interessada em ir atrás da basílica, onde sabia que tinha uma homenagem aos “Caídos de Superga”.
É uma tragédia similar ao que houve com a Chapecoense. Em 1949, o Torino, rival local da Juventus, era um campeão invicto, foi o único time a ganhar quatro campeonatos nacionais seguidos, e boa parte da Seleção Italiana fazia parte dela. Voltando de um amistoso em Portugal contra o Benfica, um denso nevoeiro cobria Turim, e o piloto errou a manobra de descida, batendo no muro posterior à Basílica, exatamente na parte de trás dela, um pouco abaixo.
Foi impossível não derramar algumas lágrimas ao ver as fotos dos falecidos, e do memorial logo atrás, onde também tinha várias homenagens de outros times e jogadores. Eu só tinha um boné do Brasil comigo, então o coloquei junto as outras homenagens.
Devido a esse acidente, Torino e Chapecoense são dois times muito próximos. Outras homenagens e acontecimentos emocionantes se sucederam ao cortejo de mais de 500 mil pessoas: Torino estava quase para se consagrar campeão pela quinta vez, então todos os outros times colocaram seus jogadores da base para jogar, certificando que a base do Torino também ganhasse. Outro acontecimento foi que esse acidente fez a seleção italiana – no caso a base Italiana – ir de navio para a Copa do Mundo no Brasil em 1950, temendo outra tragédia.
Infelizmente, após o acidente, o Torino entrou em decadência e só ganhou outro campeonato em 1976. Daí para frente, tem subido e descido da Serie A italiana quase anualmente.
– Eu nunca soube disso – disse Lance.
– Foi em 49, não tem por que ficar lembrando. Eu sei por causa da história de Turim. – Passei a mão no nariz escorrendo. – E da relação com a Chapecoense do Brasil.
– É bonito, . – Ele deu um beijo em minha bochecha e suspirei, perdendo mais alguns minutos naquele lugar.

– Para! Para! Para! – falei animada ao ver o estádio pela janela do carro.
– Calma-a-a! – Lance respondeu no mesmo tom desesperado, entrando em uma vaga no entorno do estádio. – Pronto-o-o-o-o!
Abri a porta rapidamente, olhando as pressas antes de atravessar a rua e caminhar pelo largo quarteirão que fica o Allianz Stadium da Juventus.
! – ouvi a voz de Lance ao longe e logo ele me alcançou, segurando minha mão.
Em volta do local tinha algumas barraquinhas de comida e souvenirs, para o jogo que aconteceria à noite. Me aproximei de uma, vendo alguns bonés e flanelas da Juve.
Ciao! – o vendedor falou.
Ciao! – respondi animada. – Quanto?
– 20 o boné, 15 a flanela – disse ele.
– Um de cada, por favor – falei, abrindo minha bolsa, mas Lance só tocou na minha mão. Não! Eu pago!
– Eu pago todos os gastos da viagem! – disse ele sério.
– E o que eu pago? – perguntei e ele deu de ombros.
Revirei os olhos, mas já enrolei a flanela no pescoço e depois o boné na cabeça, e me afastei da barraquinha, seguindo para o estacionamento, chegando mais perto do estádio e já comecei a tirar várias fotos. Lance logo se aproximou, tirando algumas fotos de longe, ou só também aproveitando, ele também é um fã de futebol.
– Feliz? – ele me perguntou, me abraçando pela cintura.
– Você nem imagina – suspirei e ele riu, me dando um beijo na bochecha.
Aproveitamos um pouco mais aquela direção do estádio, depois começamos a andar em direção ao Museu da Juve. Paramos perto do J-Medical para tirar algumas fotos da clínica médica ligada ao time, depois seguimos para a loja oficial.
Lance fez questão de comprar uma blusa oficial do time, uma blusa da linha street wear, preta com escrito “Juventus EST 1897”, e uma pelúcia do Jay, mascote do time.
– Ele é fofinho! – Abracei o Jay, vendo Lance rir.
– É! Ele é fofinho! – Ele revirou os olhos, me fazendo rir. – Deixa que eu carrego ele.
– Vai cuidar dele? – perguntei séria.
– Sim, senhora , eu vou cuidar da sua zebra de pelúcia! – rimos juntos e lhe beijei na bochecha. – Vamos entrar no museu, nosso tour é em 40 minutos.
– Vamos! – disse animada, saltitando à sua frente.
Já tínhamos adiantado a compra dos ingressos online, então só apresentamos o QR code na porta e entrei, já abismada com a entrada circular preto e branca, com o nome do time.
O museu em si não é muito grande, mas só de ter vivido todas as conquistas, prêmios, foi emocionante! Lance já tinha virado meu fotógrafo particular, ele tirou fotos minhas em todos os pontos: nas fotos, nos prêmios, nas blusas dos jogadores, nas interatividades, tudo! Além de tirar algumas comigo. Eu não sabia se era possível ficar cada vez mais emocionada.
Depois, tem um museu um pouco menor, sobre alguns famosos que são torcedores da Juventus, e doaram prêmios para o Juventus Museum.
Lance me deixou aproveitar todos os detalhes possíveis. Ele não tinha pressa nenhuma. Parecia que ele estava realmente só para mim!
Bom, ele estava aqui só para mim.

– Ai, foi lindo! – suspirei, saindo do museu, vendo uma fila para entrar no museu.
– Foi lindo sim! – Lance piscou para mim e lhe mostrei a língua. – O quê? Por que faz isso? – rimos juntos e ele me abraçou pelo ombro. – Bom, vamos?
– Sim! – respondi animada, seguindo para fora da área do museu.
Seguimos para fora da área do hotel, paramos rapidamente na frente do J-Medical para eu tirar mais uma foto, e fomos para a área aberta do estádio novamente. O local já estava cheio para o jogo que teria daqui umas duas horas.
– Onde a gente vai jantar? – perguntei, seguindo em direção ao carro.
– Lá dentro... – ele falou.
– Lá dentro onde? – Virei para ele, vendo-o parado há alguns metros de mim.
– Lá dentro! – Ele apontou para o estádio.
– LÁ?! – falei um pouco mais longe.
– O quê? Pensou que eu ia te trazer até aqui em dia de jogo da Champions League e a gente não ia ter a experiência completa? – disse Lance sarcástico. – Fala sério, , eu não sou tão mau.
– Ah, mentira! – comentei rindo, abraçando-o fortemente e ele riu. – Eu te amo! Eu te amo!
– Eu sei! – Ele disse rindo, me abraçando fortemente. – Vamos! Vamos nos divertir! – Ele me beijou e ri, andando um pouco à frente dele. – Me espera! – rimos.
Seguimos até o portão de entrada, e aproveitei um pouco do Allianz Stadium. Lá dentro tinha fotos de alguns jogadores, salas, eventos para os fãs, além de bar e restaurantes.
Lance nos encaminhou pelas placas, até entrarmos no salão Agnelli que ficava antes do camarote. Quando saí para a parte de fora, foi como se eu tivesse ignorado todos à minha volta e olhado para aquele estádio preto e branco que eu sempre sonhei em estar aqui.
Ele ainda não estava lotado, nem a parte do camarote, então pude ver os pontos vazios do estádio, os desenhos nos locais das arquibancadas, a torcida organizada do lado direito com bandeiras e imagens de jogadores antigos, tudo era lindo.
Dei uma rápida olhada no camarote e encontrei o presidente Agnelli e o vice-presidente Nedved – ex-jogador do time – isso me fez falta da presidente Serena*, que saiu em 2021 com a saída do Buffon. Pensa em uma mulher incrível? É ela! Sem contar no time, muitos dos meus jogadores favoritos já saíram ou se aposentaram, então não tinha nem ideia de quem eu veria aqui hoje. Talvez o técnico Allegri seja quem eu mais queira ver.
– Quer aproveitar e tirar umas fotos? – Lance ofereceu.
– Sim! – disse rindo e ele aproveitou para tirar mais algumas fotos minhas com a vista do estádio.
– Ei! Olha quem está perdido aqui! – Viramos e Leclerc estava lá.
– Ei, cara! – Lance o cumprimentou.
– Como vocês estão? – Ele me cumprimentou também.
– Essa é , minha namorada.
– Tudo bem? – Leclerc sorriu.
– Tudo bem!
– E aí, o que vieram fazer aqui? – ele perguntou.
é fã da Juventus, viemos passar uns dias aqui em Turim – disse Lance e sorri.
– Ah, legal! Posso fazer companhia para vocês? Vim sozinho – disse Leclerc. – Se não for servir de vela, claro.
– Não, não! – comentei rapidamente rindo. – Tudo certo.
– Claro, cara! – disse Lance. – Quer comer?
– Sim, por favor! – falei para Lance.
Seguimos para o lado interno, pegando uma mesa perto da janela envidraçada, e tivemos o jantar completo pelo chef do dia. Entrada, prato principal e sobremesa. Estava tudo perfeito, só faltava ganhar do Benfica.
Durante o jantar e tempo de espera, alguns jogadores passaram pelo camarote e me permiti tirar fotos com alguns deles, como Claudio Marchisio, Paul Pogba, Paul Nedved, ex-jogadores da Juve, além de Júlio César, ex-goleiro da Seleção Brasileira. Entre todos, o que mais me deixou feliz foi Jay, a zebra mascote do time! Ele é muito fofo-o-o!
Eu sei que é um cara vestido de zebra, me deixa!
O jogo começou bom para Juventus. Milik abriu o placar com quatro minutos de jogo, mas parou aí! Antes do fim do primeiro tempo, uma confusão com os benfiquenses, trouxe em um pênalti roubado para eles, além de vários cartões para todos os lados. A derrota veio no começo do segundo tempo, e daí para frente, não teve nada realmente relevante citar, mas vários torcedores estavam reclamando da arbitragem, e eu evitei fazer o mesmo, mas só por estar no camarote, do contrário eu estaria xingando junto.
E os xingamentos em italianos são demais! Não de uma forma boa!
– Acho que você é pé frio, ! – disse Lance e virei o rosto para ele, vendo Leclerc rir.
– Que jogo horrível! – falei, fazendo-o rir.
– É, realmente! – disse ele, provavelmente escondendo seus comentários para não me deixar mais irritada.
– Vamos embora? – perguntei e ele riu.
– Vamos, amor! Vamos sim! – ele sorriu com os lábios fechados. – Amanhã temos mais um pouco de turismo para fazer – sorri.
– Vai me deixar mais feliz! – ele riu.
Depois de despedidas e um pouco de demora para chegar até o carro, seguimos para o hotel, e nada como um banho e cama para me fazer esquecer que meu primeiro jogo da Juventus na vida foi um desastre.
Juventus 1 x 2 Benfica.

*Serena, personagem da fanfic Ciao e Arrivederci.


Capítulo 17


Depois de passar uns dias incríveis em Turim – com exceção do jogo contra o Benfica, que é melhor ficar guardado em um canto bem escuro –, eu tinha certeza de que minha viagem pela Itália tinha chegado ao fim. Afinal, Lance já tinha feito tantas coisas incríveis por mim que a opção mais sensata parecia ser voltar para casa. Além do mais, mesmo a próxima corrida sendo só em outubro, ele ainda tinha trabalho a fazer.
Mas não era bem assim.
Após nossos dias em Turim, pegamos um trem para Genebra, na Suíça. E, para ser sincera, acho que fiquei ainda mais empolgada do que em Turim. Digo... ir para a Suíça é quase como ir para Mônaco – ou deve ser. Só os mais ricos e tops vão para lá! Uma loucura.
Lance queria me mostrar onde morava, o lugar em que passou boa parte da vida enquanto tentava construir sua carreira como piloto. Eu não preciso de muito para ser feliz, ainda mais viajando e conhecendo lugares lindos. E foi exatamente assim em Genebra – sem falar na própria viagem de trem até lá.
Dizem que a Suíça é especial. E nem estávamos no inverno. O sol forte refletia na água, criando um clima delicioso no ar. Quase de cartão-postal.
Clima de rico, sabe?
— Eu moro aqui! — Lance anunciou ao estacionar diante de um prédio.
Genebra não tem arranha-céus como os de São Paulo ou Montréal. O prédio dele tinha apenas seis andares — com elevador, graças a Deus — e parecia um daqueles predinhos antigos que eu tinha visto na Itália. Mas, ao entrar, tudo era surpreendentemente moderno.
O apartamento ficava na cobertura. Não era tão gigantesco quanto a casa em Montréal, mas tinha uma sala ampla e aberta, com uma vista espetacular da cidade por quase todos os lados, e uma cozinha americana de um canto. Fui até a varanda, senti o sol na pele e me apoiei na guarda-corpo, de onde podia ver o lago Léman — e só sabia o nome porque havia placas em toda a volta.
— Vem! — Lance puxou minha mão, e eu quase tropecei nos meus próprios pés.
Seguimos para dentro. Vi dois quartos e um banheiro, além de outro maior, que só podia ser o dele. O quarto principal era simples, com uma cama e uma mesa perto da janela. Já os outros dois tinham bem mais personalidade. O primeiro parecia um quarto de visitas improvisado, cheio de prêmios da carreira, meio bagunçado. O segundo era um cinema particular, com poltronas macias, videogames, pôsteres de super-heróis e iluminação colorida.
— Eu gostei desse quarto! — falei, rindo.
— Você ia adorar ver alguns filmes aqui! — ele sorriu.
— Eu ia dormir nessas poltronas em dois minutos! — me joguei em uma delas, sentindo o corpo afundar. — Ai, que delícia! — Ele riu.
— Você está cansada? Quer descansar um pouco? — perguntou, apoiado no braço da poltrona.
— Ah, Lancey, foram só seis horas de viagem. Eu não sou tão velha assim! — ele riu comigo e deu um beijo na minha bochecha. — Eu quero conhecer a cidade!
— Que tal se você descansa um pouco enquanto eu preparo algo para a gente comer? Depois saímos para dar uma volta. — Ele acariciou meu cabelo.
— Você vai cozinhar? — perguntei, surpresa.
— Ei! Moro na Suíça há dez anos, tive que aprender a fazer fondue, raclete e rösti! — respondeu com sotaque francês. Eu sorri. — Pierre deve ter renovado o estoque de comida quando soube que eu viria.
— Quem é Pierre? — franzi o cenho.
— Tipo um concierge do prédio. Além de mim, tem outros pilotos e empresários que moram aqui. Ele cuida de algumas coisas pra gente. No meu caso, sempre deixo que ele abasteça minha geladeira antes de eu chegar. Aposto que comprou batatas.
Arregalei os olhos, surpresa.
— Eu queria um Pierre pra mim! — rimos juntos.
— Bem, temos bastante espaço para nós dois aqui — disse ele, e minhas bochechas esquentaram.
— Vamos dar tempo ao tempo, que tal? — respondi.
— O tempo que for melhor pra você. — Ele me deu um selinho e sorriu. — Então, gostou da ideia?
— Sempre! — estendi as mãos, e ele me puxou para cima. — Mas vou ficar na sala com você!
— Ótimo. Vem! — rimos juntos.

Lance realmente sabe fazer uma ótima batata rösti — e eu, sinceramente, me arrependi no segundo em que aceitei dar uma volta assim que terminamos de comer. Mais ainda: me arrependi de ter aceitado ir a pé, em vez de convencê-lo a tirar aquele carro caríssimo da garagem.
— Isso é parte da experiência suíça, — ele disse, rindo, enquanto eu me arrastava morro acima.
— Experiência suíça? Eu só queria digestão.
Nos dois dias que ficamos em Genebra, tentamos absorver tudo o que podíamos: caminhamos pelo centro da cidade, visitamos a Catedral de São Pedro, o Palácio das Nações, o Jardin Anglais… e mais uma lista interminável de museus e monumentos. Até o CERN entrou no roteiro — mas só de relance. Nossos pés já não suportavam entrar em lugar nenhum.
E eu? Comi fondue, raclette, rösti… tudo que vinha derretido, gratinado ou douradinho. Estávamos no verão, é verdade, e talvez essas comidas façam mais sentido no inverno. Mas olha… o inverno ainda estava longe, então aproveitei mesmo assim. Que me julguem.
No terceiro dia, nossa temporada suíça chegou ao fim. Lance tinha um convite da Boss para comparecer à Milan Fashion Week. Foi lá que, oficialmente, fiz minha estreia no mundo da alta sociedade — ou pelo menos foi assim que ele descreveu quando viu minha cara de pânico no avião.
— Você vai estar linda. Ninguém vai perceber que você não é de lá.
— Estou mais preocupada em perceberem que eu sou da roça. — Ele riu.
— Não se preocupe, a maioria é!
Eu já tinha participado de alguns eventos importantes com ele, inclusive nos GPs de Montréal e Monza, mas esse era um ambiente diferente. Um desfile de moda. Onde, teoricamente, ninguém sabia quem eu era. E, honestamente, eu preferia que continuasse assim.
A Boss é conhecida por seu estilo mais sóbrio, cheio de alfaiataria elegante. O vestido que Lance conseguiu para mim era um tubinho preto, sem grandes firulas — mas realçava meu corpo como se tivesse sido feito sob medida. Coloquei um sapato colorido para quebrar o preto total e, para minha surpresa, a própria marca me ofereceu maquiador e cabeleireiro.
Passei pelo tapete vermelho ao lado de Lance, que usava um terno claro da Boss, parecendo que tinha nascido desfilando. Eu, por outro lado, tentava lembrar de não demonstrar que não fazia parte daquele grupo.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o cuidado com os detalhes: a iluminação milimétrica, o silêncio ensaiado do público antes do desfile começar. Era outro tipo de espetáculo. Diferente dos paddocks, mas ainda assim coreografado à perfeição, mesmo em um espaço pequeno.
Nos receberam com sorrisos rápidos e olhares analíticos. Uma assessora da marca nos conduziu até nossos lugares: terceira fileira, lado direito da passarela. Lance cumprimentou algumas pessoas no caminho, e eu reconheci alguns rostos — modelos, editores, influenciadores. Nada que me deixasse sem ar, só curiosa sobre o que viria a seguir.
— Terceira fileira é um bom sinal, né? — murmurei, ajeitando a barra do vestido para sentar.
— Melhor que isso, só se teu nome estivesse no convite da marca. — Ele lançou aquele sorrisinho lateral que só usa quando está se divertindo às minhas custas.
— Quem sabe um dia as professoras sejam valorizadas e convidadas a desfiles de moda? — Ele suspirou, entendendo a ironia, e me beijou nos lábios.
— Elas merecem isso e muito mais. — Sorri com ele.
Antes que pudesse me provocar de novo, as luzes baixaram.
A música começou suave, depois ganhou camadas, texturas, quase como uma batida techno em slow motion. Então a primeira modelo surgiu: impecável num conjunto cinza de cortes retos, blazer oversized com lapela marcada. Elegante, quase arquitetônico.
Era bonito de ver.
A cada entrada, os tecidos ganhavam movimento, as cores oscilavam entre neutros sofisticados e tons terrosos inesperados. Nada gritante. Nada fora do lugar. A alfaiataria da Boss fazia sentido com aquela trilha sonora e com o público perfeitamente alinhado.
— Eles sabem contar uma história, né? — comentei, ainda de olhos na passarela.
Lance se inclinou, falando baixo.
— Sabem. Mas eu ainda prefiro ver você com aquele macacão de moletom do GP de Monza.
Sorri, mantendo os olhos à frente.
— Foi bom te deixar babando.
— E você faz isso com perfeição. — Ele cochichou.
— Eu sei! — rimos juntos.
O desfile terminou com um aplauso contido, mas cheio de aprovação. Nada exagerado. As pessoas ali sabiam exatamente como demonstrar entusiasmo sem parecer emocionadas demais.
Levantamos. Lance foi cumprimentar um dos estilistas da marca, e eu fiquei um pouco para trás, observando o vaivém do pós-desfile. Era engraçado: mesmo com tanta sofisticação, no fim das contas todo mundo parecia estar fazendo exatamente o mesmo que se faz num paddock depois de uma corrida — cumprimentar, analisar, planejar o próximo evento.
Quando ele voltou para o meu lado, ainda com um sorriso discreto no rosto, ofereceu o braço.
— Pronta para o jantar?
— Desde a quarta modelo — respondi, e ouvi sua risada.
— Vai dizer isso pra eles?
— Foi lindo, mas minha fome não achou o mesmo!
Ele riu de novo. E, enquanto caminhávamos em direção à saída, cercados por perfumes caros e vozes em vários idiomas, percebi que — mesmo em um desfile de moda em Milão — ainda era fácil encontrar um pouco de normalidade ao lado de Lance.

Voltar para o Canadá foi o ponto alto da viagem. Honestamente!
Pode parecer hipócrita dizer isso depois de realizar tantos sonhos, mas chegar a Montréal, receber o abraço apertado de Claire e Chloe, e ver Kimi e Kenya pulando em cima de mim me deu a sensação de ter encontrado um cantinho só meu. Não era como estar com minha família no Brasil, e nunca seria, mas era um lar.
No domingo, Nicka preparou um grande almoço em família antes de Lance voltar para sua vida de piloto. A próxima corrida seria em Singapura, mas antes ele precisava passar pela Inglaterra para resolver algumas questões.
— Me avise de todos os seus passos, ok? — pedi, ao soltá-lo do abraço.
— Sempre! — respondeu, colando nossos lábios mais uma vez.
O beijo não durou muito — a família inteira estava olhando —, mas foi o suficiente para me deixar com saudade antecipada. Depois de quatro semanas incríveis juntos, talvez eu só o visse de novo na corrida dos Estados Unidos.
— Amo você! — ele disse, me arrancando um sorriso.
— Amo você também. Sempre! — respondi.
Ele abraçou a mãe e a irmã antes de embarcar no helicóptero. Acenou para nós até a porta se fechar.
— Bem, acho que preciso voltar à rotina agora! — brinquei.
— Quer uma carona? — Claire ofereceu.
— Acho que sim. Preciso levar a Kimi comigo! — acariciei o pelo claro da cadela. — Nenhum Uber vai aceitar levar ela! — Todos riram.
— Precisa de um porta-malas grande! — Sebástien comentou no seu tom sarcástico de sempre, e sorri.
— Vem, eu te levo! — Chloe disse. — Preciso passar em casa mesmo.
Despedi-me de Claire com um abraço apertado.
— Não suma, hein?! — ela pediu. — Não é porque não teremos mais nossas aulas que não quero você sempre conosco.
— Não se preocupe. Eu pedi demissão, lembra? Vou ter bastante tempo livre até conseguir novos alunos.
— Bom, eu tenho várias amigas… e elas têm filhos e netos. Logo vamos preencher sua agenda. Você nem vai sentir falta da escola.
— Olha, nesse mês nem deu tempo de sentir falta! — rimos juntas. — Mas é, vou aproveitar esse tempo para me organizar, dar uma geral no apartamento, separar roupas, colocar as coisas nos eixos.
— Bom, precisando de algo, estamos aqui.
— Obrigada! — sorri.
Kimi tentava brincar com Kenya, mas logo correu até mim.
— Não, não! — segurei-a antes que pulasse no colo. Acariciei seu pelo. — Vamos, menina, hora de ir pra casa!
Coloquei minhas malas no banco da frente, e Chloe tirou a tampa do porta-malas para que Kimi pudesse viajar com a cabeça para cima. Recolhi sua almofada e alguns brinquedos e seguimos para meu apartamento.
Chloe me ajudou a subir com as coisas. Uma fina camada de poeira cobria os móveis, prova das semanas em que fiquei fora. Por um instante, me arrependi de ter levado Kimi junto, mas a deixei no banheiro enquanto limpava a sala. Depois arrumei sua almofada embaixo da janela, e ela logo se acomodou ali, observando a rua.
No fim do dia, estourei um saco de pipoca, coloquei um filme antigo e me joguei no sofá.
Enquanto a luz da tela iluminava a sala silenciosa, pensei no que viria a seguir. O futuro começaria no dia seguinte.


Capítulo 18


Desci do Uber e encarei o prédio à minha frente.
Merci! — falei para o motorista e fechei a porta, vendo-o sair logo em seguida.
A rua estava quieta, como sempre. O horário não era propício para entradas e saídas, mas eu ainda respirei fundo, como se segurasse isso durante a viagem. Tirei o celular do bolso, chequei se tinha alguma mensagem e vi uma de Lance.
"Vai dar certo, boa sorte!" — Sorri e empurrei a porta da minha antiga escola.
Andei alguns passos até a entrada, encontrando Carly na recepção e vendo-a olhar surpresa para mim.
! O que está fazendo aqui? — disse ela, em um cochicho.
— Só vim resolver umas pendências — falei. — Caitlin está? — Apoiei os braços no balcão.
— Está sim, mas ela não ficou muito feliz com a sua demissão — disse.
— Bom, eu não tinha um mínimo contrato de trabalho. Não conheço muito a Justiça Trabalhista canadense, mas aposto que ao menos um contrato precisássemos ter. — Dei de ombros e ela riu.
— Ah, eu te amo! — disse rindo. — Você sabe o caminho. — Assenti com a cabeça.
Segui pelo corredor, vendo as salas em aula, e acenei para um professor ou outro que me viu, causando o mesmo olhar de surpresa que Carly. Pelo visto, a forma como pedi demissão ficou famosa na escola. Vai saber o que Caitlin falou para eles.
Dei dois toques na porta, ouvi uma resposta rápida e a empurrei, colocando o rosto para dentro.
— Com licença — tentei falar de forma suave, sem parecer um filme de terror.
— disse ela, séria.
— Caitlin — repeti no mesmo tom, automaticamente franzindo o rosto em confusão.
— O que faz aqui? — perguntou, e entrei na sala mesmo sem convite.
— Caso não se lembre, você ainda me deve vinte dias de salário. — Dei um sorriso discreto.
— Ah, disso você lembra? — Ela riu, abrindo uma gaveta.
— Ah, desculpe, devo lembrar da nossa última conversa? — perguntei, vendo-a erguer o olhar para mim. — A viagem foi incrível, falando nisso. Obrigada por todas as visualizações — comentei sobre todos os stories vistos.
— Me desculpe. Sente-se! — disse ela, e assenti com a cabeça, abaixando minhas armas antes de me sentar. — Me desculpe pela forma como te tratei, eu fiquei com um pouco de ciúmes. A família Stroll...
— Eu sei a história — comentei, não achando necessário que ela mencionasse. — Eles foram importantes para mim, Caitlin, mas não quer dizer que você não tenha sido — disse. — Esse emprego foi o que me permitiu conhecê-los. Conhecer Lance... — Dei de ombros. — Uma conquista não reduz a outra. — Ela assentiu com a cabeça, esticando um envelope na mesa. — Fui honesta quando agradeci a oportunidade. E a escola é realmente boa.
— Por que você não volta? — disse, me fazendo sorrir. — Passamos uma borracha em tudo que houve e seguimos em frente.
— Agradeço a oportunidade, Caitlin — assenti com a cabeça. — Mas nossa conversa, minha saída e essa viagem me mostraram algumas vontades que eu nem sabia que tinha — falei. — Ainda não tenho nada em vista, só minhas aulas particulares, mas isso me abriu oportunidades, e quero aproveitá-las.
— Alguma ideia, pelo menos? — Ponderei com a cabeça.
— Sim e não... Eu sou indecisa, mas vai dar certo. — Ela confirmou.
— Bom, só posso te desejar sorte, então — disse, e me levantei junto dela. — Um aperto de mãos amigável?
— Eu sou brasileira, prefiro um abraço! — disse, e ela riu, saindo de trás da mesa para me dar um abraço. — Obrigada, Cait!
— Muita sorte, ! Vai dar certo. — Sorri.
— Vai sim! — Assentimos com a cabeça. — A gente se esbarra por aí.
— Com certeza! — Sorrimos, e foi com essa mensagem que peguei o envelope novamente e saí de sua sala.
Conferi o valor do cheque assim que saí, vendo meu salário residual, além de um bônus que não calculei, mas estava listado como tal. Guardei o cheque dentro da bolsa que usava e segui pelo corredor novamente, voltando para a recepção.
— A gente se esbarra por aí, Carly! — falei, vendo-a sorrir.
— Espera! — disse rindo, e saiu da recepção, me abraçando quando me encontrou à minha frente. — Sucesso, tá?!
— Para você também! — Sorrimos. — Obrigada pela oportunidade. — Afirmei com a cabeça.
— Que isso! Continuarei te indicando sempre que possível. — Sorrimos, e vi uma lágrima deslizar de seu rosto.
— A gente se vê por aí, chorona! — Ela riu. — Ainda estarei em Montréal! — Ela riu de novo.
— A gente marca um café, me manda mensagem. — Assenti com a cabeça.
— Combinado! — Sorrimos.
Dei um último aceno, olhando o local em que passei mais de um ano da minha vida, e saí, fechando a porta — e minha história com aquela escola. Apesar da sensação amarga, havia um gosto bom de encerramento.

— Xi! Xi! — Chloe falou, rindo.
— Espera! Deixa eu segurar! — falei, pegando o bolo na mesa. — Acende, Chloe.
— Fiquem quietas! — Monique, assessora da AM, nos falou, e Angelina espiou pela garagem novamente.
— Agora! Agora! — a última disse, e Chloe acendeu as velas com os números 23 e as velas faiscantes.
— Vamos! — Ajeitei o bolo e segui logo atrás delas. — Agora!
— PARABÉNS PARA VOCÊ! — puxamos o coro, e o pessoal da garagem foi junto. — PARABÉNS PARA VOCÊ! PARABÉNS PARA VOCÊ! PARABÉNS, QUERIDO LANCELOT! PARABÉNS PARA VOCÊ! — Lance abriu seu sorriso envergonhado, me fazendo sorrir também, e os mecânicos o zoaram. — PARABÉNS PARA VOCÊ! PARABÉNS PARA VOCÊ! PARABÉNS, QUERIDO LANCELOT! PARABÉNS PARA VOCÊ! — Me aproximei dele, vendo-o negar com a cabeça, e sorri.
— Assopra a vela! — falei, vendo-o se inclinar e assoprar as velas dos números, esperando a vela brilhante apagar.
— Você fez a garagem inteira me chamar de Lancelot?
— Mas é claro! — falei, rindo, e ele inclinou por entre o bolo, colando nossos lábios rapidamente, fazendo os mecânicos gritarem animados. Fiquei envergonhada, sabendo que as câmeras estavam por ali, por causa da classificatória do México, que começaria em breve.
— Eu te amo — ele disse, rindo, e sorri.
— Eu te amo, aniversariante! — Ele piscou.
— Ah, eu adoro esse casal! — Vettel passou os braços em nossos ombros, me desequilibrando pela diferença de altura.
— Seb, o bolo! — falei, rindo.
— Meu Deus! — Angelina correu em nossa direção. — Deixa eu organizar isso. — Ela tirou o bolo da minha mão, levando-o para o fundo e fazendo-o ser cortado e distribuído entre alguns convidados e familiares, enquanto os mecânicos terminavam de organizar os carros.
— Vão! Está na hora — falei, vendo Vettel rir e se afastar.
— Você e eu, jantar, mais tarde — disse Lance.
— Sua mãe não vai deixar — falei, e ele riu.
— Uma ceia, então? — Ponderei e assenti em seguida.
— Vai ter que ser — ele me puxou pela cintura, colando nossos lábios novamente.
— Vai! — Empurrei-o pelos ombros, fazendo-o rir.
— Até mais! — Ele ergueu o macacão pelos ombros, e dei alguns passos para trás, vendo seu mecânico pessoal se aproximar com o capacete. Logo ele estava paramentado. Deu uma última piscadela para mim antes de entrar no carro.
Fui na direção do bolo, vendo-o já cortado, e observei o pouco recheio dentro dele, fazendo uma careta. Achei que, pelo menos, o México teria um bolo mais recheado que os dos Estados Unidos e do Canadá. Teria que voltar para o Brasil para isso.
Os carros logo saíram para a primeira parte da classificatória, mas Lance voltou para a garagem, ocupando o 18º lugar. Apesar do mau resultado, ele não parecia bravo com isso. Chateado, claro — mas consegui fazê-lo esquecer disso alguns minutos depois, dentro de seu camarim, durante a segunda parte da classificatória. Só não foi durante a terceira, pois ele ainda precisava se apresentar para a imprensa.

— Não me solta! — falei, apertando a mão dele.
— Feche as pernas! Feche as pernas! — disse ele rapidamente, e fechei as pernas.
— A-a-a-ah! — Caí para trás, sentindo um dos skis escapar dos pés. — Ai!
— Você precisa manter suas pernas fechadas! — Lance apareceu no meu campo de visão, e eu ri. — E a bunda para cima.
— Ah, é claro! Esqueci desse detalhe! — falei, irônica, e ele me estendeu as mãos, me fazendo levantar pela quarta vez.
— Aqui! — Scotty se aproximou com meu outro ski. — Firma o pé. — Ele o colocou embaixo do meu pé, e ouvi a bota travar. — Respira — disse, e o obedeci.
— O Scotty você ouve, né?! — Lance falou, rindo.
— O Scotty é snowboarder profissional! — falei, rindo, e ele fez uma careta para mim.
— Finca os bastões no chão — Scotty disse, e fiz o que ele pediu, sentindo meu corpo ficar reto. — Bom! Agora você vai inclinar seu corpo levemente para frente — falou, e o obedeci. — Não inclina tanto; quanto mais inclinado, mais rápido vai. — Assenti com a cabeça.
— Ok! — Respirei fundo.
— Agora tira os bastões do chão, mantendo-os para trás de você e os pés próximos. Você vai ver que... — Fiz o que ele disse e senti o esqui deslizar um pouco.
— Está deslizando! — falei rapidamente.
— Eu sei! — Scotty disse. — Deixa ele ir, estamos aqui! — Ele e Lance me rondavam enquanto o esqui deslizava na pequena ladeira nevoada, ganhando velocidade devagar.
— Isso, ! — Lance disse, animado, me fazendo rir.
— Quando quiser parar, coloque os bastões no chão, na direção dos seus pés — ele disse, e eu ergui o corpo. — Não! Não! Inclina!
— Ah! — Senti meu corpo cair para trás.
— Ou isso acontece! — Scotty disse, rindo. — Você precisa frear antes, ou seu corpo vai virar um pêndulo e te jogar para trás. — Suspirei, vendo ele e Lance aparecerem à minha frente. — Achei que soubesse patinar.
— Eu sei! — Suspirei. — Mas meus pés não parecem estar concretados no chão.
— É por isso que eu prefiro snowboard, não é assim — Lance disse, e ambos me ajudaram a levantar.
— É sim! — Scotty cochichou, e rimos juntos.
— Agora eu vou! Devagar! — falei, vendo-os me entregarem os bastões novamente, e ajeitei a touca que caía da minha cabeça.
— Devagar! — Scotty disse novamente.
Finquei os bastões na neve, inclinei meu corpo levemente e deixei a gravidade fazer o trabalho na descida. Senti meu corpo descer devagar, inclinando para frente, e ri quando fluiu da forma que Scotty tinha dito. Deixei meu corpo deslizar cerca de dez metros e finquei os bastões no chão quando me aproximei de umas crianças.
— Isso! — falei, rindo, vendo Lance parar ao meu lado.
— Viu?! Eu disse que era fácil! — ele disse, rindo.
— Metido! — Ele se aproximou de mim, pisando nos esquis.
— E você me ama, que coisa, não?! — disse ele, rindo.
— Amo! Mas podia ser menos metido! — Ele aproximou o rosto do meu.
— Sim... mas não posso! — Rimos, e ele colou nossos lábios gelados.
— Pelo menos não posso dizer que não sei onde me meti. — Ele sorriu.
— É, ao menos isso! — Rimos juntos.
— Vamos subir a ladeira? — ele perguntou. — Agora eu te acompanho de snowboard.
— Vamos! — falei, animada, vendo-o rir. — Eu tiro isso? — Indiquei os esquis.
— É melhor! — Ele riu.
— Deixa que eu te ajudo! — falei, rindo, sentindo-o destravar os esquis.

— É bonitinho! — falei, rindo. — É perto de casa, então até que é movimentado, mas também não é tão grande!
— Onde é? — ele falou perto do meu ouvido.
— Sabe a padaria perto de casa? — perguntei.
— Qual?
— A da torta de damasco! — falei.
— Sei! — ele disse, surpreso.
— É do lado! — falei, rindo. — É uma oportunidade para eu sair de casa, trabalhar de outro lugar, mas ainda estarei perto de casa, perto de Kimi. Posso ir para casa se precisar, é fácil! — falei.
— Posso te ajudar na decoração e afins — ele ofereceu, e afirmei com a cabeça.
— Combinado! — sorrimos, e segurei suas mãos. — Está pronto?
— Para o quê? — ele disse, rindo.
— Segura minha mão — falei, segurando as duas, ficando de frente para ele, vendo meu rosto fazer sombra sobre o dele. — Firme!
— É! — ele disse, rindo.
HERE WE GO-O-O-O-O! JUMP! — Pierre gritou, fazendo toda a plateia pular no ritmo da música, e Lance pulou comigo, nos fazendo sorrir.
I don't wanna wake up today, 'cause every day's the same, and I've been waiting so long for things to change. — Cantava junto com Pierre, fazendo Lance sorrir comigo. — I'm sick of this town, sick of my job, sick of my friends, 'cause everyone's jaded. Sick of this place, I wanna break free...
— Pronto? — falei, rindo.
I JUST WANNA JUMP! JUMP! — Voltamos a pular com o ritmo da música.
— EU TE AMO! — Lance gritou alto, me fazendo rir, e parei de pular. — Eu te amo, ! — Ele ainda falava meu sobrenome de forma estranha, me fazendo rir.
— Eu te amo, Lancelot! — Sorrimos, e o abracei forte, sentindo seus lábios nos meus, ignorando completamente a música, as pessoas, o festival — e até minha banda favorita tocando ao fundo. — Para sempre!


Epílogo


Três anos depois

— A gente pode tentar dessa forma, dar aulas não é uma regra fixa. Seja honesta com as meninas, mas fala que será avaliado em um mês. Se for produtivo, mantemos assim; caso não, separamos novamente — falei com Christina. — E você também! Caso goste de dar aulas em trio, ótimo. Caso não, separamos. Isso está em contrato, elas podem falar o que quiserem, mas nunca vai dar certo.
Vi uma notificação de Lance subir.
"Estou aqui!"
"Me dá uns minutos!"
— respondi.
— Ok! Eu vou fazer uma reunião com elas, depois te aviso. — Assenti com a cabeça.
— Combinado! Estarei fora até segunda, mas pode me mandar mensagem se precisar de algo. — Ela confirmou.
— Obrigada, ! — disse.
— Até segunda, Christina! — falei, acenando na tela antes que ela desligasse a chamada.
Fechei o notebook rapidamente, deixando-o na mesa de centro, e me levantei. Calcei o tênis, prendi o cabelo e puxei a malinha de bordo que estava na porta. Enquanto esperava o elevador, enviei uma mensagem para Pierre pedindo que trouxesse o carro.
Desci com calma, saí do prédio e esperei alguns minutos até que o carro apareceu na rua. Coloquei a mala no porta-malas e entrei no banco de trás.
— Bom dia! — cumprimentei o motorista.
— Olá, . Como está? — perguntou.
— Tudo bem, e o senhor? — retruquei.
— Ótimo, ótimo! Para o aeroclube? —
— Sim, por favor. — Sorri, e o carro voltou a se mover.
Não demoramos mais que dez minutos para chegar ao aeroclube de Genebra. Me despedi de Jean, peguei minha mala e atravessei praticamente da rua para a pista, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho.
Saí para o sol e avistei o jatinho de Lance no pátio, com ele me esperando na pista. Aproximei-me, vendo-o sorrir para mim, e rimos quando nos encontramos.
— Oi, Lancelot! — falei, sorrindo.
— Oi, meu amor! — ele respondeu, me abraçando pela cintura. — Saudades de você.
— Também estava — suspirei, colando nossos lábios.
— Como estão as coisas? — ele perguntou.
— Tudo certo. — Sorrimos.
— Vem! — ele pegou minha mala. — Vamos lá.
Subi as escadas do jatinho, notando que éramos só nós dois hoje, e me sentei. Lance entrou logo atrás, guardou a mala no bagageiro e se acomodou ao meu lado.
— Quantas horas de viagem? — perguntei.
— Uma hora e meia — respondeu. — É rápido. Precisa fazer algo? — Suspirei e encostei a cabeça em seu ombro.
— Não. Só quero aproveitar um pouco do nosso tempo juntos. — Ele beijou minha cabeça.
— Silverstone é sempre caótico, né? — comentou.
— Não tanto quanto Mônaco — falei, rindo.
— Pensa, depois teremos algumas semanas no Canadá. Sua família vem... — ele sorriu.
— É, a gente dá uma folga do caos da Fórmula 1 e entra no caos do casamento — virei para ele, ouvindo-o rir.
— Isso que estamos fazendo algo simples — disse.
— Sua mãe e a minha estão empolgadíssimas! — ele riu. — Nossos cinquenta convidados já são motivo de sobra para elas — falei.
— Eu deixo o casamento gigantesco para a Chloe. Por mim, íamos no cartório, assinávamos e pronto — ele disse, e eu sorri. — Tiraríamos umas fotos e acabou.
— Eu ia gostar disso, mas também gosto da ideia de termos uma bênção judaica e católica — virei para ele. — É a nossa cara.
— É sim. — Ele colou os lábios nos meus. — Então, já que o assunto casamento está mais caótico que a Fórmula 1, que tal aproveitarmos o fim de semana antes do caos? — sugeriu.
— Combinado! — Apoiei a cabeça em seu ombro novamente, sentindo-o me abraçar pelos ombros. Apoiei minha mão em sua perna e vi o pequeno diamante da aliança brilhar em meu dedo — junto à pulseira que ele me dera no nosso primeiro encontro oficial, três anos atrás.




Fim.



Nota da autora: Oi, gente! Demorei, mas cheguei.
Os últimos meses foram caóticos, mas muito produtivos na minha vida profissional, então apesar do caos, compensou! <3
Mais um capítulo de Lance e , e espero que venham mais durante as férias.
Beijos e até a próxima!