Prólogo
Os momentos felizes costumam passar rápido. Bastava apenas aproveitar cada segundo e se entregar para a diversão, e tudo depois não passaria de lembranças que ficariam gravadas na nossa mente, guardando o dia em que fossem reveladas ao mundo. No entanto, aquela noite demorou uma eternidade e ela não entrou para o grupo de momentos felizes que gostaria de relembrar.
Nunca pensei que pudesse acontecer comigo, na verdade, achei que apenas filmes possuíssem um roteiro tão doloroso.
A chuva caia como uma imensidão, molhando cada partícula das minhas roupas, enquanto dirigia em direção ao último lugar que gostaria de ir. Manobrei a moto no estacionamento, retirando o capacete durante a corrida que fiz até a porta de entrada da delegacia, sendo iluminada pelas constantes luzes azuis e vermelhas que piscavam freneticamente sob o teto dos carros ali estacionados.
Eu sempre odiei dias chuvosos, mas naquela noite tive que engolir os meus insanos demônios internos, trancados a sete chaves a fim de suportar as próximas horas que teria de enfrentar.
Meu par de tênis estavam encharcados e meu corpo brigava para se manter aquecido. Só que nada importava, meu coração batia tão rápido contra as costelas, despedaçando-se a cada segundo que passava, a dor e o choque eram tão intensos que achei que fosse desmaiar, me recusando a acreditar no que havia ouvido pelo telefone.
Empurrei as portas de vidro e adentrei a delegacia, sendo surpreendida por um grupo de policiais, que gesticulavam e conversavam sobre algo importante que não consegui ouvir, na verdade me recusei a ouvir, porque sabia que tinha a ver com o motivo que me causava aquele aperto na garganta, como se estivesse sendo enforcada pela minha própria consciência.
O tempo passava rápido demais. Em um momento estava deitada na cama prestes a dormir, quando a ligação aconteceu. E aqui estava, adiante do delegado da polícia de Nova Jersey. O uniforme colava ao seu corpo e o distintivo pendurado a uma corrente prata completava o visual, seus músculos eram tão aparentes que desconfiei quando analisei o homem de 1,70m de altura, com o rosto tão envelhecido que denunciava sua idade avançada de 52 anos. Em outras circunstâncias o denominaria muito bonito para servir a polícia local, mas em meio a recepção, tudo que desejava era que sua boca carnuda dissesse o contrário e desmentisse a informação que me levou até ali.
Minhas mãos tremiam e não conseguia conter a agitação dentro do peito, a reviravolta no estômago estava me deixando enjoada e a inquietação presente em minha mente, me impedia de ficar calma, gerando pânico e tanto desconforto que cheguei a pensar que a morte fosse mais reconfortante que passar por aquilo. Eu queria que fosse mentira. Queria que tivesse sido um engano. Eu queria que fossem adolescentes rebeldes e desocupados que se divertiam passando trotes para os moradores.
Não estava preparada para ouvir a verdade.
E o semblante abatido do delegado não alimentou minhas súplicas. As palavras saíram da sua boca com tanto peso que sentia meu corpo sendo golpeado e minha alma sendo dilacerada. Não conseguia acreditar, não era capaz de suportar a dor que se espalhou, me invadindo, me machucando, me despedaçando e tudo que eu poderia fazer era negar.
Era mentira, tinha que ser.
Não conseguia acreditar que havia acontecido comigo, com bilhões de pessoa ao redor do mundo, por que o destino escolheu a mim para tanto sofrimento? O que eu tinha feito ao universo?
Balancei a cabeça, negando o improvável. O homem, que descobri pelo uniforme se chamar Brandon, me amparou quando minhas pernas fraquejaram. Sua voz grossa e firme gritou por ajuda, enquanto me acomodava no sofá de couro e começava a chamar pelo meu nome, tentando me manter acordada. Minha mente girava, remoendo lembranças que quebravam meu coração em milhões de pedaços. Eu estava em choque, não conseguindo me mexer, completamente paralisada, havia esquecido até mesmo como se respirava, entregando-me aquela sensação obscura que rasgava meu interior.
Eu queria gritar, mas a voz não veio.
Eu queria chorar, mas as lágrimas não existiam.
Eu queria vê-los por uma última vez...
A última lembrança que tinha era de um ano atrás. O primeiro aniversário da sua filha.
Noah e Lily estavam tão felizes e radiante, enquanto observavam a pequena Mia em meus braços, em frente ao bolo de dois andares. Amigos e familiares cantavam a melodia festiva, parabenizando a pequena pelo seu primeiro aniversário. As crianças brincavam ao redor, os adultos gargalhavam e contavam piadas, enquanto eu assistia a tudo segurando minha sobrinha.
Eu amava tudo neles. Noah e Lily eram a minha família. As únicas pessoas nesse mundo que não queria perder...
Mas eu tinha perdido...
Depois de algumas horas, Brandon e os agentes saíram após receberem um chamado. Estava sentada no mesmo sofá de couro, sentindo meu peito clamar por uma pausa das lágrimas compulsivas que rolavam dos meus olhos. Os ombros subiam e desciam acompanhando os soluços, ignorando a dor que invadia meu coração e se espalhava por todo o corpo. Inclinei-me para a frente, ficando com os cotovelos apoiados nos joelhos enquanto cobria o rosto com as mãos, deixando tudo me dominar, a angústia, a tristeza, o medo.
Eu estava sozinha.
Não tinha ideia do que fazer para seguir em frente. Não conhecia ninguém em Nova Jersey. Não tinha amigos e nem parentes que pudesse ligar e pedir ajudar. Noah era meu irmão, a única família que eu tinha.
Há anos não me sentia assim, com essa dor que consumia cada pedacinho da minha alma, se deliciando com minha agonia. Eu tinha ele para me ajudar, segurar minha mão e me fazer viver. Noah era a minha luz, o homem mais bondoso e carinho que já conheci. Eu nunca ficaria sozinha, enquanto ele vivesse, até aquela noite…
Estava desolada, perdida e sozinha.
As portas da delegacia se abriram e pude ouvir o som da chuva molhando a cidade com suas lágrimas, como se também chorasse pelo o que aconteceu. O vento gelado invadiu a recepção e me encolhi contra o estofado, tentando me aquecer, uma tentativa inútil, mas a única que restava. Descobri o rosto, envolvendo os braços ao meu redor, querendo que o tremor parasse, os dentes batiam involuntariamente denunciando meu estado. Gelada, fria, abandonada.
Ergui os olhos quando tênis pretos de solados encardidos, que um dia deveria ter sido brancos, invadiram meu campo de visão. As lágrimas me cegaram ao reconhecê-lo. Ele estava diferente, mas ainda o acharia em meio à multidão. Seus olhos amendoados pigmentados de uma coloração azul tão clara quanto o céu, se encontravam escuros e sem brilhos, apagados, perdidos, roubados pela fatídica noite. A barba preenchia o maxilar quadrado, mais cheia que da última vez que o vi. Os cabelos estavam molhados e desgrenhados, a coloração loura escura se perdendo entre os fios avermelhados, puxados para o tom cobre e dourado.
Seu corpo estava maior do que me lembrava, os ombros largos ligavam-se aos bíceps definidos apertados pela camiseta azul marinho, sem estampa. O tronco robusto e as pernas grossas completavam a estrutura, junto com a calça jeans escura e ensopada. Ele não era mais o adolescente rebelde que conheci há 13 anos, havia se tornado um homem alto e vistoso, e foram os traços tão semelhantes a irmã que o tornaram a minha última esperança...
Levantei-me num salto e solucei, sendo envolvida pelos seus braços fortes. Agarrei o tecido molhado e macio da camiseta, deixando as lágrimas rolaram desenfreadas enquanto seu aperto me amparava. Não era preciso dizer nada, compartilhávamos a mesma dor. Ele era o único que poderia me entender, porque apesar do semblante sereno, eu sabia que por dentro estava mais dilacerado do que eu...
Lily era a sua irmã gêmea, a outra parte da sua alma.
Noah era meu irmão, a minha luz para viver.
Mia era a união dos dois mundos, a junção do carinho e a bondade de Noah, com a delicadeza e determinação de Lily.
E ali, nos braços de , presos na bolha invisível isolados do mundo, eu só conseguia pensar na reviravolta gigantesca que nossas vidas teriam quando saíssemos da delegacia. O que faríamos? Por onde começar? Como Mia cresceria sem os pais? Ela passaria a vida inteira presa em um orfanato esperando para ser adotada? Noah e Lily tinham um plano para caso isso acontecesse?
Eu não tinha respostas para tantas perguntas, e não fazia nem ideia de como respondê-las. Do fundo da minha alma, gostaria muito que tivesse a solução para todos os nossos problemas, mas a julgar pela tensão em seus músculos, estávamos unidos dentro do mesmo barco, afundando juntos direto para a escuridão mais fria e sofrida do luto.
Teríamos que unir nossas forças se quiséssemos encarar a realidade que nos aguardava...
Capítulo 1
Quando acordei naquela manhã, com os olhos ardendo pelas lágrimas derramadas nas últimas 48 horas e o corpo dolorido clamando por descanso, não imaginei que acabaria o dia com o medo me consumindo, tomando cada partícula da minha alma e me sufocando para a realidade.
Encarava o reflexo no espelho do quarto minúsculo do meu apartamento alugado, localizado no centro de Nova Jersey. Percorri cada centímetro da escolha de roupa preta, que não achei que um dia se tornaria a cor mais repugnante do guarda-roupas. O vestido simples com mangas longas, sem detalhes ou qualquer marca de uso, foi escolhido a dedo para aquela ocasião.
Nunca imaginei que um dia entraria dentro do táxi a caminho para a cerimônia de despedida do meu irmão. Ele era tão jovem, com a vida inteira pela frente, a última coisa que pensei fosse vê-lo pela última vez para sempre, ainda mais da maneira cruel que foi arrancado desse mundo.
O delegado Brandon nos apresentou o caso, explicando que havia sido uma colisão inevitável. O carro de Noah percorria a via principal a caminho da sua casa quando tudo aconteceu. Segundo a investigação, no exato momento que atravessavam por uma ponte estreita, um caminhão em alta velocidade e completamente desgovernado invadiu a contramão, colidindo com o veículo do casal e causando a tragédia. O motorista do cargueiro também não sobreviveu e graças a autópsia, descobriram que estava sob efeitos de anfetamina para se manter acordado.
Uma imprudência levou a vida das duas pessoas mais importantes da minha vida.
E ali estava eu, descendo do táxi amarelo em frente ao local que aconteceria a cerimônia. Respirei fundo, me preparando para ouvir todos as condolências da família e dos amigos de Noah. O local estava razoavelmente cheio e fui o centro das atenções quando cruzei o salão, na direção da sala de despedidas, ficando ao lado do corpo sereno e tranquilo do meu irmão, não conseguindo forças para encarar ninguém.
Fiquei isolada, longe dos olhares piedosos, odiando quando era sinônimo de pena e assim permaneci até o final, conversando com poucas pessoas. Acompanhei quando chegou na cerimônia, descendo do Hyundai Creta preto e arrumando a gravata em seu pescoço como se o estivesse o sufocando. Seus olhos estavam escondidos pelo óculo escuro, possivelmente escondendo as olheiras e a vermelhidão dos últimos dias.
Ele estava impecável, mas ao longe era nítido o seu desconforto, possivelmente havia sido forçado pela mãe a comparecer de smoking requintado e visivelmente muito caro. Ao seu lado estava um homem e uma mulher, ambos também vestidos elegantemente. Eu não os conhecia, assim como a grande maioria das pessoas, estava tão descolada que nem fiz questão de saber o nome de ninguém.
foi recebido por diversos abraços calorosos e palavras consoladoras e ao contrário de mim, preferia se misturar em meio à multidão, não se importando com a atenção que era direcionada a si. O agradeci por isso, já que sua presença me ajudou a se livrar das pessoas que insistiam em ficar ao meu lado como se esperassem que a qualquer momento eu fosse desabar.
Eu gostava da minha privacidade e queria ficar sozinha.
— . — levantei o olhar assim que o calor se fez presente.
estava mais radiante de perto, a escolha de roupas socais moldava ao seu corpo, deixando-o mais alto e sério. Deixei que meus lábios se curvassem em um sorriso tímido e pequeno, em um cumprimento silencioso.
— Como você está? — perguntou, sentando-se ao meu lado no banco de concreto.
Tinha escolhido o primeiro assento isolado do lado de fora do salão, mas não achei que ele fosse me encontrar ali e fazer a mesma pergunta que ouvi tantas vezes naquele dia. Ninguém de fato queria saber como eu estava, era apenas um pretexto para dizer que havia prestado suas condolências. As pessoas naquela cerimônia não se importavam se eu havia perdido a única família que tinha.
— Estou bem... — menti e soltei o ar pela boca. — Tantas pessoas já me perguntaram isso hoje. — abaixei o olhar, olhando perdidamente para as folhas no chão.
Ele jogou a cabeça para trás e fechou os olhos, parecendo compartilhar da mesma opinião que a minha.
— Meu maxilar dói de tanto responder a mesma coisa. — revelou e um sorriso brotou em sua boca. — É uma pergunta tola no final das contas.
— Não tem como ficar bem.
O silêncio pairou sobre nós e ficamos submersos nele, parecendo ser a única válvula de escape. As pessoas conversam dentro do salão e se espalhavam ao redor, mas nenhuma estava preocupada de fato conosco. Queríamos ficar sozinhos, encontrar consolo na nossa própria solidão.
No entanto, o momento durou pouco, logo Stephen, o pai de nos chamou para finalizar a cerimônia. E não tivemos escolhas a não ser seguir a favor da correnteza, nos despedindo pela última vez de Noah e Lily, nunca mais os veríamos outra vez.
As lágrimas rolaram pelo meu rosto, não conseguindo conter o aperto em meu peito quando enfim, tudo acabou. Fiquei alguns minutos em frente ao grande túmulo, encarando as placas de pratas que eternizariam os nomes de Noah e Lily para sempre. Eu nunca mais os veria, nem mesmo escutaria suas vozes.
Eles seriam apenas lembranças.
Senti quando o braço forte envolveu minha cintura e ao erguer o olhar, deparei-me com o rosto de . Solucei e o abracei com força, sentindo o calor do seu corpo em acolhendo, aconchegando-me em seus braços. Era estranho saber que a única pessoa que me confortava era o homem que há anos atrás tanto odiava.
Talvez fosse o luto, eu não sabia dizer.
Sua mão acariciou meu cabelo enquanto me deixava esconder o rosto na curva de seu pescoço. O cheiro do perfume amadeirado com notas de cedro e pimenta preta, invocavam a sensação de aconchego e masculinidade. Os batimentos do meu coração se acalmaram, ficando embriagada com o aroma delicioso que emanava da sua pele.
Nunca estive tão calma nos braços de um homem antes, exceto por Noah. Era como se fosse o raio em meio a minha tempestade, possuindo o poder de afastar toda a minha dor. Ele me amparava apenas com seu toque, sem precisar de palavras. E estava gostando do modo como fazia isso, eu queria passar o resto da minha vida ali, em seus braços, longe de tudo e de todos.
Eu estava ficando louca, tinha certeza.
A parede invisível ao nosso redor desmoronou quando a voz aguda e firme se fez presente. Ainda unidos, nos virando em direção ao homem de terno, engomadinho e impecavelmente sério que nos observava a poucos metros de distância atrás do óculo de grau de armação fina e requintada. E se não fosse pela presença de , diria que estava diante de um ceifador.
— Sr. e Srta. , sinto muito atrapalhar o momento de vocês. — ele se aproximou. — Mas tenho um assunto pendente que tenho de tratar com os dois. — retirou um envelope de dentro do paletó, entendendo em nossa direção.
o pegou e juntos encaramos a assinatura, era uma carta judicial, remetida a nós e assinada pelo juiz de Nova Jersey, Theodore Meyer.
— Desculpe-me não me apresentei, meu nome é Jeremy Clack, era o advogado de Noah e Lily. — apresentou-se atraindo nossa atenção.
Afastei-me de para que pudesse abrir o envelope e retirar a carta. Era um convite para comparecermos ao tribunal de justiça para tratarmos em particular sobre um assunto importante envolvendo a vida da pequena Mia. Arqueei a sobrancelha, encarando o advogado, tentando identificar algo em seu semblante que justificasse aquelas palavras.
— Por que estão nos convocando juntos? — questionou, desviando o olhar do papel.
Jeremy limpou a garganta.
— Podemos conversar em outro lugar em particular? — pediu, olhando ao redor.
Só então notei que ainda havia muitas pessoas da cerimônia caminhando pelo cemitério e um casal de vizinhos passou por nós, nos cumprimentando e prestando homenagens no túmulo de Noah e Lily.
— Eu sei que não é o melhor momento, mas preciso que saibam a verdade. — continuou a explicação. — Podemos nos encontrar na casa do Noah e da Lily em 20 minutos? — sugeriu, retirando o óculo e limpando a lente.
e eu concordamos em um uníssono e seguimos o advogado até a saída do local. Seja lá o que ele tinha a dizer, sentia meu estômago revirando somente de pensar em Mia, desde que recebi a ligação da polícia me preocupava sobre qual seria o destino dela, e talvez estivesse prestes a descobrir o que aconteceria.
Há dois dias, não imaginei que minha vida fosse dar uma reviravolta tão intensa e inesperada, e agora sentada em frente a Jeremy, com ocupando a cadeira ao meu lado, soube que o universo estava mesmo disposto a mudar tudo o que conhecia.
A casa de Noah e Lily era aconchegante, grande e o leve aroma de lavanda tomava o lugar. Todos os móveis, desde o tapete cobrindo o chão da sala e as persianas em frente as janelas, cada detalhe, tudo lembrava a eles. E isso só ajudava a aumentar cada vez mais o aperto em meu peito, o nó na garganta e a vontade imensa de desabar em lágrimas em posição fetal no meio do carpete.
Eu odiava me sentir assim. Tão frágil e vulnerável.
— Sr. e Srta. , os chamei aqui para tratarmos desse assunto em particular. — Jeremy abriu a maleta sobre a mesa e tirou alguns papéis, colocando em nossa frente. — Como sabem, como advogado da família sou responsável por cuidar e tomar as devidas providencias para casos como esses. — explicou e ainda não conseguia entender aonde ele queria chegar com o discurso.
Olhei de relance para ao meu lado, sua mandíbula estava tencionada e os olhos atentos no homem a sua frente.
— Eu gostaria de esperar para dar essa notícia a vocês, mas a justiça não espera. — apoiou os cotovelos da mesa, estralando os dedos e prosseguiu: — Há alguns meses, Noah e Lily me procuraram para fazer um pequeno testamento sobre a filha, Mia. Disseram que queriam garantir o futuro dela caso algo acontecesse com eles, e como desejado deixaram por escrito esta carta para caso esse dia chegasse. — retirou um envelope amarelo da maleta, já sem o lacre. — E eles me pediram que entregasse isso a vocês. — estendeu em minha direção.
E com os dedos trêmulos peguei o envelope, retirando o papel dobrado de dentro. Meu coração acelerou quando reconheci a caligrafia do meu irmão, desenhada pelas linhas, o traço tão suave quanto a correnteza de um rio. Os olhos marejaram e tive que conter as lágrimas caso quisesse lê-lo, engoli em seco e com o aperto no peito quase me sufocando comecei a revelar o conteúdo da carta.
Minha doce irmã, , eu queria que esse dia nunca chegasse, mas se está lendo isso é porque infelizmente não podemos mais nos ver. Eu sei que está sofrendo, que está doendo e não quero que fique desse jeito, o mundo pode parecer cruel, às vezes, mas não escolhemos o nosso destino. Você precisa ser forte, encarar os obstáculos e conquistar o seu êxito. E através dessa carta quero que me prometa apenas uma coisa. Mia precisará de alguém que a ajude a seguir em frente, e quero que cuide dela por nós como nosso último desejo.
É pedir muito, eu sei, mas não estará sozinha. Lily me pediu para dizer que gostaria que assumisse as responsabilidades e cuidados de Mia ao seu lado. Sabemos que ele nunca se recusaria a esse pedido, e sei também que cuidará de vocês, duas. Ficarei em paz sabendo que estarão com ele.
Jeremy os ajudará com a papelada, então não há com o que se preocuparem. Sabemos que farão de tudo para protegê-la.
Encarei as palavras a minha frente, perplexa e sentindo a leve vertigem assumir o controle do meu corpo, era como levar um golpe no estômago. Meu coração batia tão rápido que achei que seria capaz de saltar pela boca e me abandonar naquele momento tão delicado. Entreabri os lábios tentando respirar, mas o ar da cozinha não era o bastante, precisava sair, ir em busca de um lugar vazio. Minha mente estava tão confusa que não conseguia pensar com clareza, estava em absoluto estado de choque, não sabia como reagir aquela carta.
E pelo semblante de , eu sabia que não era a única.
Como Noah e Lily tiveram a coragem de arremessar aquela bomba em nossas mãos? Sem nunca sequer falarem nada a respeito?
Esfreguei o rosto, deixando o papel sobre a mesa e abandonando o cômodo com toda a agilidade que tinha, precisava de um momento sozinha, longe de todos. Eu queria protestar, gritar, entender como isso foi acontecer. Precisava saber o porquê acreditaram que dois adultos, solteiros e desconhecidos, fossem conseguir cuidar de uma criança de 2 anos. Não estava pronta para ver minha vida desmoronar sem que pudesse fazer algo para impedir, esperava que Jeremy fosse tratar de qualquer outro assunto, mas isso me pegou completamente desprevenida.
Eu não conhecia . A última vez que nos falamos foi há 13 anos quando ainda éramos adolescentes e gostávamos de passar o dia inteiro nos odiando pelos cantos. Pensar em dividir uma vida com ele me assustava. Não sabia nada sobre ele. A sua cor favorita, a comida preferida, as manias, os defeitos. Éramos dois completos desconhecidos, como isso poderia dar certo? E ? Será que concordava com tudo isso? Lily sabia que nunca se negaria a realizar o pedido, mas será que estaria disposto a abandonar tudo e dividir sua vida comigo e com uma criança?
A dúvida consumia cada pedacinho do meu ser, me estrangulando, incomodando, arrepiando os pelos e obrigando-me a roer as unhas de aflição. Eu não entendia o que se passou pela cabeça de Noah e Lily quando acharam uma boa ideia nos unir e jogar a responsabilidade em nossas mãos.
Levei as mãos para os cabelos e puxei os fios, soltando o peso do corpo para que caísse sentada no sofá da sala, não conseguindo pensar em mais nada que não fosse Mia. Ela merecia uma família e ficar perto de pessoas que realmente a amavam. Não queria abandoná-la, uma parte de Noah ainda estava viva dentro dela e pelos anos que passamos juntos, lutando para viver, eu devia isso a ele e precisava pagar a dívida.
Puxei e soltei o ar repetidamente por alguns minutos, acalmando a palpitação desfreada do meu coração. Minhas mãos estavam tão trêmulas e geladas que achei que estivesse à beira de um colapso. Eu precisava ser forte para encarar todos os desafios que ainda estavam por vir. Prometeria a Noah que cuidaria da sua filha da melhor maneira possível, me tornaria seu porto seguro, o seu lugar de paz e tranquilidade, seria em meus braços que encontraria a calmaria.
Mesmo que para isso tivesse que suportar pelo resto da minha vida.
Eu faria tudo por ela.
Retornei para a cozinha e notei que estava tão ofegante quanto eu. O estudei em silêncio, encostado contra a pia da cozinha, curvado sobre o mármore, seus ombros inclinados para frente subiam e desciam freneticamente. Seus músculos das costas estavam contraídos e a cabeça abaixada só confirmava o quanto lutava para processar toda a informação.
Queria poder abraçá-lo e oferecer algum conforto, ajudá-lo a encontrar o caminho pela linha tênue que nos rodeava.
— Eu sei que é um momento difícil para assimilar toda essa informação de uma vez. Eu realmente peguei os dois desprevenidos e me desculpe por isso. — Jeremy quebrou o silêncio. — Mas foram escolhidos e agora possuem a missão de cuidar dela.
— E se não aceitarmos, o que vai acontecer? — encostei-me ao batente da porta, cruzando os braços em frente a barriga.
virou-se e me fuzilou com o olhar incrédulo, surpreso com minhas palavras, mas no fundo, mais interessado nisso do que eu.
— Bom, vocês têm duas opções. — Jeremy começou. — Podem aceitar o pedido de acordo da tutela e realizar o último pedido de Noah e Lily. Mas também podem recusar, porque estamos falando de uma criança, é um compromisso muito sério. — girava uma caneta entre os dedos. — Se recusarem a tutela poderia passar para os avôs paternos ou maternos, no entanto, devido à idade avançada o juiz não acha que seja uma boa ideia. Então ela seria encaminhada para um orfanato, como uma criança órfã, e ficaria na espera de uma família para adotá-la e assim...
— Não! — interrompi e só então notei que estava ofegante. — Ela não vai para um orfanato. — enfatizei, direcionando o olhar para .
— Tudo bem, então estão dispostos a assumir esse compromisso, pela Mia?
Abri a boca prestes a concordar, hesitando no meio do caminho. E se ele não aceitasse? Será que eu conseguiria criar uma criança sozinha?
— Jeremy, nós aceitamos. — disparou, atraindo minha atenção. — Mas como isso irá funcionar? — estreitou os olhos, cruzando os braços em frente ao peito.
— O Conselho Tutelar pede que assinem os termos de responsabilização e podem buscar a Mia ainda hoje que entrará em custódia temporária. — indicou os dois papéis que havia colocado sobre a mesa no início da conversa. — Amanhã terão uma audiência com o juiz, somente para concretizar o acordo. Vocês passaram por uma avalição mensal durante três meses pela Assistente Social que irá avaliar se os dois estão aptos para receber a tutela definitiva.
Jeremy continuou explicando e tirando nossas dúvidas com paciência durante longas horas, até assinarmos os termos de responsabilização. Eu não sabia ao certo onde estava me metendo quando aceitei honrar o último desejo de Noah e Lily, só sabia que era o certo a fazer.
Durante a tarde, e eu fomos buscar a pequena Mia, na unidade do Conselho Tutelar, o advogado nos acompanhou durante todo o percurso, garantindo que nos ajudaria com a burocracia. Estava tão ansiosa que não conseguia manter as mãos paradas, enrolando os fios de cabelo no dedo indicador, ao mesmo tempo que roía a unha parecendo uma criança prestes a ganhar o presente mais esperado do ano.
E quando Mia atravessou pela porta, junto da Assistente Social, não hesitei em ir até ela e pegá-la em meus braços, sentindo o cheiro indescritível dos seus cabelos penetrando meus pulmões, apaziguando todos os conflitos internos. A delicadeza dos seus olhos azuis e o sorriso alegre que se fez presente quando nos viu, adoçavam o meu dia.
Ela era tão pequena, tão frágil que me doía pensar em outra família a adotando. Mia merecia o melhor e nos adorava, eu a amava com tanta força que era doloroso.
— Oie, querida. — sussurrei contra sua cabeça, depositando um beijo no local. — É tão bom ver você, minha linda. — sorri, segurando as lágrimas quando o aperto me atingiu. — Vai ficar tudo bem, Mia... Eu prometo. — disse, mas as palavras pareceram ser mais para mim mesma.
O calor surgiu, percorrendo minhas costas e arrepiando a espinha. Virei-me e levantei o olhar para me deparar com os glóbulos azuis de nos olhando, esperando sua vez de se aproximar. Ele parecia tímido, retraído, talvez, até mesmo com medo da reação da pequena.
— Olha, Mia! — fingi entusiasmo, indicando-o com o dedo. — Olha quem também veio. É o tio . — acariciei seus cabelos macios, depositando outro beijo.
— Oi, pequenina. — murmurou, o tom baixo e gentil.
Mia sorriu, imitindo um som tão fofo quando o reconheceu pela voz, estava tão feliz e confortável com nossa presença. levou a mão até o rosto dela, fazendo um leve carinho que resultou nela clamando por seu colo, esticando os braços em sua direção. Tão fofa.
— Quer ficar com o tio ? — a levantei para que pudesse pegá-la.
Ele a envolveu em seus braços, aconchegando-a em seu peito. Era um alívio vê-la tão calma e confiante, completamente entregue ao nosso carinho, sendo o suficiente para percebermos que não tinha mais volta. Teríamos que cuidar dela, era o nosso dever, a nossa promessa. Iríamos superar os medos juntos e deixar as inseguranças, somente para priorizar o bem-estar dela.
Capítulo 2
Empurrei a porta do apartamento com o pé, abrindo caminho entre as bagunças para arremessar mais caixas pelo chão. Coloquei as mãos na cintura, olhando o cenário ao meu redor. Parecia que a minha casa havia sido invadida por um exército de ratos que fizeram uma festa, revirando cada metro do lugar em busca de comida. Uma verdadeira zona para alguém que era acostumada a viver em um ambiente organizado e limpo.
Olhei ao redor, sentando-me no meio da antiga sala que gostava de usar para ver filmes de romance e desvendar os crimes policiais das séries que tanto adorava assistir. Peguei os diversos livros que havia espalhado no chão, começando a organizar com cuidado dentro da caixa, calculando cada centímetro para que nenhum amassasse no caminho. Ainda não sabia onde os colocaria na nova casa, por isso precisava ser cautelosa na hora de empacotá-los.
Nova casa. Novo ambiente. Lembranças de Noah e Lily por todos os lados.
O livro de romance de capa clara era o próximo a adentrar a caixa. Passei o dedo pela ilustração, delineado cada detalhe da arte. Fechei os olhos e suspirei, abraçando o objeto contra o peito, sentindo o nó na garganta outra vez. Noah havia me presenteado com o Como Eu Era Antes de Você no meu aniversário depois de passar quase um ano implorando para ele.
As lembranças me assolaram e deixei os olhos marejarem.
Era meu aniversário de 18 anos e como sempre, Noah e eu comemoramos com um bolo que compramos na primeira confeitaria que achamos. Passeamos no shopping, compramos roupas e muitas besteiras para comer, nos divertimos no parque de diversões como duas crianças, havia sido um dia incrível.
— Aqui, . Esse é para você. — disse, pegando o pequeno embrulho de baixo do meu travesseiro. — Não é muito, mas sei que irá gostar. — estendeu em minha direção com um brilho intenso nos olhos.
Eu sorri, agradecendo o presente e me sentando ao seu lado na cama, começando a puxar o laço e rasgando a embalagem de papel. A capa branca com detalhes precisos em rosa desenhava a arte que namorava todas as noites antes de dormir. Era o meu sonho ler aquela história, depois do lançamento do filme tudo que mais queria era conhecer a trajetória de Will Traynor e Louisa Clark, e me sentir mais próxima dos personagens.
— Obrigada, Noah! Eu adorei! — joguei o corpo contra ele, o puxando para um abraço apertado e cheio de gratidão.
Tinha sido o melhor presente da minha vida.
Sempre fomos unidos, desde quando nossos pais morreram e tivemos que lutar juntos para sobreviver naquele mundo tão complexo. E agora, pensar que estava me mudando para sua casa, era estranho, ainda mais sabendo que nunca mais o teria por perto para abraçá-lo e sentir o seu carinho.
Depois da audiência bem-sucedida com o juiz de Nova Jersey, Jeremy sugeriu que eu e nos mudássemos para a residência de Noah e Lily. Segundo ele, a adaptação de Mia com os novos “pais” poderia ser mais fácil se ela estivesse em um ambiente que já conhecia. Além disso, todas as coisas dela estavam na casa, o que facilitaria os cuidados diários que teríamos que aprender a ter com a pequena.
Confesso que convencer não foi uma tarefa fácil, mas depois de muita insistência e ouvir uma palestra gratuita de Jeremy sobre os benefícios que isso traria a Mia, ele concordou. O semblante marrento e sério deixava implícito sua apatia com a decisão, chegando a me fazer pensar que desistiria em algum momento. Ele era calado demais para um homem que quando mais novo vivia em baladas e saindo com cada garota que cruzasse o seu caminho.
Talvez fosse o choque recente do luto ou a sua indignação pelo fato de dividir uma casa comigo. , a única mulher que nunca se deixou cair em seus encantos baratos, desde que era uma adolescente. E não foi por falta de tentativa, já que até mesmo Noah e Lily tentaram nos unir em um encontro arranjado há 13 anos. Havia sido um desastre e me lembrava perfeitamente daquele dia.
Tinha escolhido o vestido longo e deslumbrante confeccionado em seda pura, um tecido nobre que conferia o caimento leve e fluido. A silhueta sereia realçava minhas curvas, enquanto o decoto em V era profundo e as mangas longas adicionavam um toque de sensualidade e sofisticação. A cor vermelha rubi vibrante era o que o tornava perfeito para o evento da empresa de contabilidade em que Noah trabalhava.
Escolhi uma combinação de joias pratas e detalhadas que combinaram com o vestido, o salto alto preto de ponta fina e a maquiagem leve, considerando que não precisava de muito para ficar bonita, já que minhas curvas moldadas ao tecido vermelho davam o toque especial.
Eu estava linda, e mesmo assim não foi o suficiente para .
Tudo começou a desmoronar quando fiquei plantada por 2 horas na frente da recepção do meu prédio que dividia com Noah, esperando até que aparecesse para me levar. Tinha apenas 17 anos na época e ainda não possuía carteira de motorista, então ficou combinado que me levaria e entraria comigo no evento, sendo uma grande armação de nossos irmãos.
No entanto, quando o SUV preto finalmente dobrou a esquina e estacionou, tive vontade de subir de volta para o apartamento e fingir que nunca havia concordado com aquela loucura. Entrei no veículo sentindo o cheiro de álcool predominando o interior e tinha os cabelos desgrenhados, assim como a gravata completamente desalinhada com o smoking. Eu sabia que era uma adolescente que o odiava, mas não achei que precisaria de uma boa dose de bebida para me suportar.
— Você foi atropelado por uma carreta no caminho? — disparei, prendendo o cinto de segurança.
— Esse é o preço que tenho de pagar para aguentar você a noite toda. — a voz embargada denunciava seu estado, enquanto tentava desajeitadamente arrumar a gravata.
Apertei a ponte do nariz com os dedos.
— Ah, , você está bêbado! — franzi a testa, não acreditando no que estava vendo.
— Ainda não, . — era um tremendo irresponsável dirigir naquele estado.
Será que seria mais imprudente eu dirigir sem a carteira de motorista ou ele alcoolizado?
Rolei os olhos, tomando a decisão de ajeitar a gravata que lutava com todas as forças para amarrar. Inclinei-me em sua direção e o cheiro forte de tequila estapeou meu rosto, ardendo os olhos até que lacrimejassem. E quando minhas mãos tomaram o tecido que envolvia o seu pescoço, me controlei para não o enforcar e acabar de vez com aquele pesadelo. Eu poderia inventar uma desculpa esfarrapada depois para justificar o ocorrido e todos iriam acreditar.
Portanto, a maior surpresa surgiu assim que comecei a fazer o nó em volta do colarinho e encontrei a marca de batom fortemente vermelho na gola da camiseta social. Fechei os olhos e prendi o ar, tentando acalmar a raiva que surgia em meu interior, queimando o estômago e se espalhando pelas veias. Queria mais do que tudo acertar um soco naquele rostinho delinquente, porque enquanto esperava como uma idiota, sentindo os pés doloridos reclamando pelo salto, ele estava ocupado transando com alguma prostituta barata.
Eu sabia que a fama de mulherengo de o prescindia, mas não imaginei que era um cafajeste de primeira.
— Você não tem vergonha de ter transado com uma mulher antes de me buscar? — pensei alto demais e deixei escapar pelos lábios.
Ele gargalhou tão estridente e irônico que meus ouvidos quase explodiram.
— Desde que a mulher em questão não seja você, por mim, está tudo bem. — os cantos da sua boca curvaram-se em um sorriso cínico, aumentando cada vez mais a vontade de acertar um soco nele.
— , você é um delinquente! — cuspi com ódio.
— Oh, , eu sou muitas coisas, bonito, charmoso, extremamente gostoso. — convencido feito uma mula. — Mas delinquente não está entre as minhas qualidades. — abaixou o quebra-sol, arrumando seu cabelo de maneira que ficasse alinhados.
— É porque você ainda não se deu conta disso. — terminei o nó e cruzei os braços em frente ao peito, notando que seria uma noite longa. — Dirige logo a porra desse carro, antes que eu te jogue pela janela.
O imbecil riu, girando a chave na ignição.
— Vamos, , não seja tão dura. — girou o volante finalmente colocando o veículo em movimento. — Nós dois sabemos que você não vive sem mim.
Eu quis me atirar do carro e acabar de vez com aquela tortura. Lembro-me de nunca ter perdoado Noah e Lily por terem me feito passar por aquele estresse gratuito.
No entanto, a noite havia apenas começado, no evento, conseguiu tirar ainda mais a minha paciência, me fazendo passar mais raiva com as suas piadas sem graças e o comportamento convencido. Ele me apresentava a cada pessoa que conhecia como se eu fosse uma pirralha mimada, um fardo que era obrigado a tomar conta. E como se não bastasse passar por tudo isso, teve a audácia de me largar sozinha no meio da festa, porque encontrou uma loira bonita e gostosa para entreter o seu pau no banheiro.
Uma noite digna de um Oscar, se fosse uma premiação de piores encontros da vida.
E desde aquela desastrosa noite não nos vimos mais, seguimos caminhos diferentes. Ele ingressou na faculdade de medicina veterinária em outra cidade e eu, comecei a cursar direito e abandonei o curso antes do primeiro semestre. Quando iniciou o estágio, raramente aparecia nas festas de família, sendo assim, nossas vidas foram apenas se cruzar novamente no casamento de Lily e Noah em um evento bem minimalista onde não trocamos nenhuma palavra e depois no aniversário de 1 ano de Mia, agindo como dois desconhecidos que nem mesmo se cumprimentavam.
E apesar de estar completamente diferente, gostava de pensar que não só seu físico havia mudado, mas também a sua mente. Seu corpo magro ganhou tantos músculos nos últimos anos que não era capaz nem de nomeá-los. A barba cheia e desenhada destacava o maxilar, abandonando seu rosto de garoto jovial. Diria que apenas os olhos azuis claros permaneceram os mesmos, apesar de ter notado que o brilho de adolescente desapareceu, abrindo caminho para um olhar mais maduro e sazonado.
era um homem e espero que tenha largado seus modos inconsequentes de lado.
Ah, como eu criaria uma criança com ele? Nós mal nos falamos nos últimos dias, como construiríamos uma relação saudável desse jeito? Eu estava perdida, não sabendo nem por onde começar, depois de anos sem vê-lo, percebi que não sei mais nada a seu respeito.
Balancei a cabeça, voltando a empacotar meus pertences, tinha que acabar tudo até às 16h00 da tarde, antes de pegar Mia na creche e não poderia deixar que as lembranças e inseguranças me atrapalhassem desse jeito. Ainda assim não conseguia parar de pensar que o maior obstáculo da minha vida agora, não era aprender a como cuidar de Mia, mas sim a como me aproximar do homem que viveria ao meu lado e que nem sequer sabia mais quem era.
O cheiro adocicado e revigorante preenchia o ambiente, lembrando-me a um jardim florido, recheado por flores frescas e radiantes. Fui envolvida em uma atmosfera calma e relaxante, sendo arremessada para outro mundo onde o estresse e a ansiedade não existiam. Li uma vez que o aroma era muito usado como técnicas terapêuticas buscando promover a saúde do corpo e da mente.
E era assim que me sentia. Relaxada, calma, acolhida.
Empurrei a porta com a mão livre, a fechando, segurando Mia nos braços, observando os detalhes e os móveis posicionados na sala. Ao lado da entrada, tinha um vaso branco habitando uma Monstera, as folhas grandes e verdes chamando a atenção de tão belas, e na companhia de uma cortina branca ficava a enorme janela feita de vidro que dava vista para o jardim. Logo a frente ficava o sofá-cama retrátil, o estofado em coloração preta magnífica, o formato em L virado para a televisão pendurada na parede, localizado acima de um rack claro, a tonalidade em creme constatando com os detalhes castanhos que formavam as prateleiras, combinando com os porta-retratos. Havia também uma mesinha de centro, a madeira rústica delicada no centro e alguns vasos de plantas ao redor.
Beijei o topo da cabeça de Mia, colocando-a dentro do cercadinho em frente à televisão, havia acabado de pegá-la na creche, então teria a tarde toda livre para ficarmos juntas, além de arrumar um tempo para desempacotar as caixas que estavam espalhadas pela sala. Sentei-me no chão, sentindo o tecido macio do tapete acomodar minhas pernas, agarrando o controle remoto e ligando a TV no programa favorito da pequena, era o desenho de um dinossauro roxo que ensinava as crianças a cantarem músicas infantis.
Enquanto ela se divertia, puxei a caixa ao meu lado, começando a retirar a pilha de porta-retratos, pensando em onde iria colocá-los. Olhei ao redor buscando pelo melhor lugar, mas abandonei a ideia quando meu estômago revirou e senti o nó na garganta. A casa de Noah e Lily era um santuário de fotografias que eternizavam as memórias em família, um lugar onde a felicidade e a tristeza se entrelaçavam. E eu era uma intrusa, profanando o espaço sagrado.
Os quadros nas paredes brancas e em cima do rack contavam a história da família. Noah e Lily em seu lindo e perfeito casamento; o nascimento de Mia; a pequena, desajeitadamente, dando seus primeiros passos; os três juntos em um parque de diversões, com Mia sobre os ombros do pai. A cada fotografia era como recebesse um golpe em cheio no estômago, meu coração ficando cada vez mais apertado. As molduras deveriam ter sido escolhidas a dedo para combinaram com a mobília, e o modo como foram penduradas nas paredes destacava as horas que passaram analisando os melhores lugares.
A cada imagem era uma lembrança dolorosa da vida que haviam construído, e eu nunca faria parte disso.
Não sabia dizer ao certo em que momento me levantei, mas sentia as pernas fraquejarem a um ponto que precisava urgentemente me sentar, antes que caísse no chão. Por sorte o sofá estava logo ao meu lado para acomodar meu corpo. O estofado me envolveu em um abraço de consolação, puxei os joelhos e os apertei contra o corpo. As caixas de papelão espalhadas pela sala pareciam zombar de mim, estapeando meu rosto em um lembrete constante de que estava invadindo um espaço que não me pertencia.
O que eu estava pensando? Pegaria minhas coisas e mudaria toda a casa como se fosse minha?
A onda de culpa e inadequação me consumiu. Olhei pela janela em busca de algo para aliviar a pressão em meu peito, mas tudo que consegui foi intensificá-lo, as lágrimas surgindo no canto dos olhos. O sol da tarde iluminava o jardim, o lugar preferido de Mia, a grama verde e macia era onde costumava brincar com seu pai. Conseguia ver a imagem deles juntos, entre risos e muito carinho, enquanto ela tentava pegar a bola de futebol que ele havia chutado, e ao lado, Lily observando a cena com o rosto iluminado e encantada pela ternura do momento.
As lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto, desenhando caminhos tortuosos pela pele. Cruzei os braços sobre os joelhos e escondi o rosto neles, deixando que a dor me atingisse, como as ondas do mar se chocando com as rochas. Sentia-me como um barco à deriva, perdida em um oceano de incertezas. O peso da responsabilidade era insuportável, como uma âncora me puxando para o fundo.
Olhei para Mia, que dançava alegremente com a melodia do dinossauro roxo. Seu riso infantil preenchia a sala, me atingindo como uma afronta a realidade. Como poderia dar a Mia tudo o que precisava? Como poderia ser a mãe que ela merecia? Como poderia fazer isso, sem ter ideia de por onde começar?
A dor de perdê-los seria por um longo tempo uma ferida aberta. E eu queria tanto que Noah estivesse ali, ele saberia me dizer o que fazer. Solucei e o meu peito dilacerou com as lâminas afiadas. Nunca mais o veria, não ouviria mais a sua voz sábia. Eu estava sozinha com a responsabilidade de cuidar de sua filha e de preservar a memória de uma família que nunca mais seria a mesma.
Mas tinha uma única certeza e me apegava a isso: eu faria de tudo para proteger e garantir que Mia tivesse uma vida feliz e cheia de amor.
Capítulo 3
O relógio era meu pior inimigo. Uma criatura tão incompetente que nem sequer poderia atrasar as horas pelo menos naquele dia. O horizonte já pintava os últimos raios solares envolta da enorme bola laranja que desapareceria aos poucos entre os prédios, dando caminho para a lua radiante e brilhante dominar o céu. Minha jornada de trabalho estava no fim, sendo obrigado a encarar todos os problemas que tanto lutava para evitar.
Sentia falta de quando conseguia comandar minha própria mente com maestria. Porque agora, quando a penumbra chegava, as sombras da noite me aprisionavam, roubando minha autonomia e me deixando a deriva de um mar de incertezas.
Atravessei o corredor, empurrando a porta da sala de internações, sendo recebido pelas luzes ofuscantes que brilhavam intensamente, iluminando cada centímetro do local. Procurei pelo prontuário sobre a mesa metálica encostada na parede ao lado da porta e do armário de medicamentos, de frente para as quinze baias empilhadas e enfileiradas. Meu paciente estava ótimo e já poderia voltar para casa, li as últimas observações que anotei mais cedo, antes de procurar pela baia desejada.
O número três clamava por atenção, através do vidro conseguia ver a agitação do filhote ao me ver, ele sabia que havia recebido alta. O balançar de sua pequena cauda em contraste com os olhos castanhos brilhantes, já me bastavam como o agradecimento mais sincero. O latido agudo e curto mostrava seu entusiasmo assim que meus dedos abriram a tranca.
O pequeno Poddle veio em minha direção, saltando sobre meus braços estendidos. Acariciei sua cabeça, os pelos macios e cacheados como uma ovelha era o charme da raça. Ele tinha a pelagem mesclada de um mel e o branco, tornando-o único. Fechei a portinha e rapidamente percorri os olhos sobre as outras baias para me certificar de que todos estavam bem e confortáveis na ala de internações.
Não consegui conter o sorriso quando o filhote alcançou meu rosto e disparou lambidas molhadas e rápidas. Acariciei seu focinho, tentando calmar sua euforia, sendo uma tentativa inútil já que assim que deixei a sala, voltou a lamber como se estivesse agradecendo por tê-lo salvado de uma virose.
Atravessei o corredor, conversando com o pequeno como se ele me entendesse. E assim que pisei na recepção uma garotinha, com seus sete anos, os cabelos ondulados e castanhos, correu em minha direção, saltitando e gritando pelo nome do cãozinho. Abaixei-me até ficar na altura dela, observando quando o filhote a reconheceu e não hesitou em abandonar meus braços para pular sobre ela.
A gargalhada da menina preencheu a recepção e forcei meu melhor sorriso amarelo, voltando a endireitar o corpo, enquanto ela corria com o filhote em mãos para mostrar aos pais. Enfiei minhas mãos dentro do bolso do jaleco, notando que o tecido branco estava decorado por pelos pretos, alguns laranjas e outros cinzas, típico de um veterinário.
— , está tudo bem com ele? — o homem se aproximou, não era comum os tutores me chamarem de “doutor”.
— Está ótimo. — respondi, ainda olhando para a menina saltitando com o filhote. — Ele só terá que voltar em três semana para tomar a última dose da vacina. Até lá, sem passeios para ele.
— Agradeço por todo o carinho que teve com ele. — agradeceu, estendendo a mão em minha direção.
Aceitei o aperto, ainda com o sorriso estampado no rosto, mas bastou apenas a família atravessar a porta para que desaparecesse e minha boca transformar-se em uma linha fina e endurecida. Minha atenção decaiu sobre um ponto qualquer e suspirei, como se isso bastasse para retirar o peso sobre os ombros, o brilho em meus olhos escureceu e senti a pontada tão familiar no peito.
Os últimos dias estavam sendo sempre assim, na frente dos tutores e funcionários colocava o melhor sorriso no rosto e depois, quando estava sozinho, poderia deixar meu corpo agir livremente. Não havia lugar para sentimentos dentro da clínica, passei anos construindo cada pedacinho dela, sendo cobrado pelas responsabilidades, e gostava da minha posição de chefe, então não havia tempo para me distrair com a dor e também não queria que ninguém a visse pelos corredores.
— ... — a voz feminina, fina e calma, me despertou. — Está tudo bem com você?
Fechei os olhos por um instante, tentando me recompor. Ao me virar e abri-los, encontrei os glóbulos verdes de Yelena cravados em mim, tão atenta que parecia sondar a minha alma. Ela era uma das poucas pessoas na clínica que sabia me ler através da fachada de veterinário, seus conhecimentos em psicologia davam liberdade para saber todos os meus defeitos e qualidades. E por algum motivo, sabia que se me abrisse com ela, o fardo pesado em meu peito diminuiria, mas não queria falar sobre Lily com ninguém.
— Estou tentando ficar bem. — não era de tudo mentira.
Ela colocou as mãos na cintura e me fuzilou, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. Evitei qualquer contato visual.
— Sabe que um dia terá que falar sobre isso com alguém. — às vezes, ela agia como uma psicóloga já formada.
— Eu não tenho que falar sobre nada. — fui ríspido, atravessando a recepção como um raio para sair do seu campo de visão.
Conhecia Yelena. Sabia que ela tentaria me arrastar para uma conversa profunda, insistindo em soluções e conselhos. Mas era justamente o oposto do que eu precisava naquele momento. Queria apenas um pouco de paz e silêncio, um tempo para digerir tudo sozinho, e não alguém cutucando minhas feridas em uma sessão de terapia forçada, isso me sufocava. Precisava de espaço, de tempo para que as coisas se encaixassem na minha cabeça, longe de qualquer boa intenção que viesse disfarçada de preocupação.
O corredor era calmo e frio, o melhor lugar para ficar quando se buscava o silêncio e a solidão. Passei a mão pelos cabelos, bagunçando os fios e descendo para o pescoço, continuando a caminhar até a minha sala. Era hora de pegar minha mochila, o Hyundai Creta e desaguar pelas ruas de Nova Jersey, em busca de algum lugar aberto para comprar a minha janta e depois me afogar no oceano que era a solidão do meu apartamento.
Passei o dia todo na clínica, ocupando-me com cirurgias e consultas apenas para evitar ir para casa. Gostava do modo como o trabalho conseguia me distrair e desde que perdi Lily, era o jeito que encontrei de não pensar na minha dor. Além disso, também estava fugindo de e da responsabilidade que Jeremy jogou em minhas costas, morar com uma mulher que não via e falava há 13 anos e com uma criança, era a última coisa que desejei na vida.
E sabia que Lily estava rindo de mim, se divertindo com a situação. Ela sempre sonhou em me ver casado, construindo uma família, dizendo que a minha vida de solteiro tinha que acabar e deveria me apaixonar por alguém, assumir um compromisso sério e ser pai de vários filhos. Mas ao contrário dela, não conseguia me ver amarrado a um casamento, gostava da minha liberdade e da diversão.
Eu era um homem de apenas uma noite, e não de uma vida inteira.
No entanto, Lily conseguiu o que queria, planejando pelas minhas costas e jogando-me nos braços da única mulher que sempre me odiou. Era como se minha irmã estivesse me punindo, me forçando a conviver com a pessoa que mais me tirava do sério. , desde a adolescência, tinha um prazer doentio em me irritar, e eu, em troca, adorava provocá-la, criando um jogo de gato e rato que nos divertia quando éramos jovens. Agora, como adultos, não sabia dizer como seria a dinâmica entre nós, ainda mais com um bebê no meio.
E como se não pudesse piorar, ela havia se transformado em uma mulher... Linda e muito atraente.
Se antes era uma garota gordinha e desengonçada, agora era uma mulher belíssima e confiante. Suas curvas eram perfeitas, suaves e femininas, e a pele tinha aparência macia e luminosa. Os olhos castanhos, antes resguardados, agora brilhavam com uma intensidade que me deixava sem fôlego. Seus cabelos negros, sempre presos em um rabo de cavalo desleixado, caíam em cascatas sedosas sobre os ombros, emoldurado por um rosto que exibia um sorriso radiante.
Lembrava-me das nossas provocações constantes, das suas reações explosivas, e não tinha ideia de como seria dividir o mesmo teto com ela, por isso estava adiando o inevitável, ainda buscando alguma saída para não ser obrigado a conviver com as consequências de um plano arquitetado por alguém que já não estava mais entre nós, como uma magnífica ironia.
Ah, se eu soubesse que Lily acabaria com a minha vida me colocando em uma coleira contra minha vontade, nunca teria sido padrinho do seu casamento.
Empurrei a porta, indo em direção a janela sentindo uma força magnética me atraindo até ela. Minha sala ficava no segundo andar da clínica e era possível observar as ruas movimentadas com a caída da noite, os carros com os faróis intensos iluminando o caminho, da mesma maneira que a luz da lua refletia em meus olhos, revelando os turbilhões de emoções. Suspirei, concentrado nos sons da cidade, sentindo a pontada de dor me dominando ao pensar em Lily. Sentia tanto a sua falta que me dilacerava, rasgando meu peito e abrindo feridas que não cicatrizariam tão cedo.
Eu a amava como parte da minha alma. E por mais que sentisse raiva pelo que fez com a minha vida, no fundo havia uma chama de esperança tímida de que junto com , pudéssemos construir um lar para Mia. Eu nunca seria como o Noah, mas estava disposto a me esforçar para ser a figura masculina que a pequena precisaria em seu crescimento.
— Você pretende criar raízes nessa clínica, ? — a risada zombeteira acompanhou a voz.
Revirei os olhos antes de me virar para encará-lo, ficando com as costas encostando ao parapeito da janela. Cruzei os braços em frente ao peito, observando o homem de cabelos castanhos, alguns cachos escuros caindo sobre a testa, o corpo magro e esbelta se acomodando em minha cadeira e a girando feito um moleque travesso. Eu sabia que deixá-lo trabalhar na clínica era uma péssima ideia, mas tinha que admitir, sua especialidade com os felinos era de ótima excelência.
Aidan era meu melhor amigo, cursamos medicina veterinária juntos e sempre foi nosso sonho construir uma clínica onde pudéssemos exercer nossas profissões, eu só não contava que no meio do caminho ele jogasse toda a responsabilidade burocrática nos meus ombros, o que resultou a chefia em meu nome, e desde então passou a viver como se fosse a minha sombra.
— Se quebrar essa cadeira, terá que comprar uma nova. — alertei, observando-o abusar do objeto.
— Você está pior do que um velho ranzinza. — colocou os pés sobre a mesa, sentindo-se o dono da sala. — O que aconteceu? A desconhecida não é tão gostosa assim? — jogou a cabeça para trás e gargalhou.
Apertei a ponte do nariz e fechei os olhos por um instante, o arrependimento estapeou meu rosto com tanta força que tive vontade de dar um tiro em Aidan e acabar de vez com o tormento. Eu sabia que assim que falasse para ele o que tinha acontecido, me resultaria em diversos momentos estressantes como esses.
— Ela não é uma desconhecida. — enfatizei, gesticulando com uma mão.
— Vocês não se veem há 13 anos. — só então notei que girava uma caneta na mão. — Tem alguma foto dela para eu ver se é bonita? — o sorriso travesso curvou em seus lábios, os olhos verdes cintilavam. Era um demônio mesmo.
— Por que teria uma foto dela, Aidan? — franzi as sobrancelhas.
— Porque você vai praticamente se casar com ela, o mínimo é ter uma foto, cara. — abriu os braços como se estivesse falando algo óbvio. — Mas... Você não negou se ela é gostosa.
— Eu não sei se ela é gostosa. — era bonita, mas gostosa eu não sabia dizer, não havia tido tempo o suficiente para notar isso, e nem era minha intenção.
— Você a viu mais de uma vez e não reparou se é gostosa? — seu semblante franzido expressava sua indignação.
— Eu não sou um tarado compulsivo como você.
Voltei a olhar para as ruas movimentadas, analisando o sinaleiro mudando da cor vermelha para a verde.
— Eu sou analista, é diferente. — defendeu-se, ainda brincando com a caneta.
Lancei um último olhar para as ruas, antes de me virar e focar minha atenção nele.
— Nós iremos criar uma criança juntos. E eu não sei nada sobre ela, só sei que há 13 anos me odiava. — soou como um desabafo.
— Cara, ainda acho uma loucura essa história de morarem juntos, vocês são desconhecidos. Como isso vai funcionar? — girou a caneta entre os dedos, com o olhar distraído.
— É uma loucura, mas o advogado disse que será o melhor para a adaptação da Mia. — e tinha razão, a pequena havia acabado de perder os pais, não deveria ficar pulando de casa em casa com uma guarda compartilhada.
— Eu acho que você perdeu a cabeça, . — disparou e me encarou com o cenho franzido.
— Não fui eu que perdi a cabeça, a Lily armou para cima de mim! — defendi-me, apontando meu peitoral com as mãos.
— Não culpe a Lily, você perdeu a cabeça, cara, só não quer admitir para si mesmo. — acusou.
Tencionei o maxilar, sentindo a raiva crescer cada vez mais em meu interior. Eu odiava quando as pessoas me acusavam daquele jeito.
— Qual o seu problema? — largou a caneta e cruzou os braços. — Sobre cuidar da Mia, eu entendo. Mas se submeter a viver na mesma casa com uma estranha, que aliás, nem gosta de você...
— Ela não é uma estranha, Aidan. — corrigi, o interrompendo — Nós crescemos juntos por um tempo, só nunca nos demos bem.
— Mesmo assim, cara. Por que aceitou isso?
— Foi pela Mia. É para preservar as lembranças que ela tem do lar.
E no fundo, gostava de acreditar que fosse pela pequena que aceitei o acordo. De fato, seria bom que ela crescesse na mesma casa em que sempre viveu, era onde estava as lembranças de seus pais, além de ajudar na adaptação dela conosco. Mas o fato de dividir minha vida com a única mulher que me rejeitou e odiou ainda era uma incógnita.
— Não deixo de achar tudo um absurdo. — Aidan quebrou o silencio, retirando os pés da mesa.
— É um absurdo, mas não tenho como fugir das minhas responsabilidades. — encarei o relógio no pulso, decidindo que era uma boa hora para ir embora.
— Eu nem te reconheço falando assim. — colocou a mão no peito, fingindo surpresa. — Já contou para a Madison?
— Não, fique à vontade para fofocar sobre a minha vida com ela. — desencostei do parapeito, pegando a mochila sobre a mesa e guardando o notebook.
— Ela vai rir muito quando souber que virou um homem de família. — zombou.
Rolei os olhos com o seu comentário, jogando a alça da mochila sobre o ombro.
— Tenho que empacotar as coisas da minha casa, então fecha a clínica hoje. — joguei o molho de chave em sua direção.
Não esperei que respondesse, para desaparecer pelo corredor. E conhecendo Aidan, como conhecia, sabia que o infeliz já estava mandando uma mensagem de áudio explicando todos os detalhes para Madison e passariam horas fofocando sobre a minha vida. Passei a mão pelos cabelos e suspirei, por mais que odiasse ser o centro de uma conversa, eu sabia que eles adoravam isso. E não havia nada que pudesse fazer para evitar.
Abri a porta do SUV, jogando a bolsa no banco do passageiro e sendo rápido em ocupar o lado do motorista, desbloqueando o celular e pedindo a comida mais gostosa para ser a minha janta da madrugada. Seria uma longa noite e precisaria de uma boa dose de álcool também se quisesse sobreviver, por sorte tinha uma garrafa cheia de vodka me esperando. Girei a chave na ignição e manobrei o veículo, torcendo para que minha mente decidisse ficar calada e me deixasse sozinho, usufruindo do completo silêncio do mundo.
Tudo que menos precisava era ser atormentado por um pesadelo do qual não consigo acordar.
Durante um tempo, não imaginei que estaria sentado no meio da sala do apartamento, com uma caixa fechada de pizza sabor calabresa disposta ao meu lado e uma garrafa grande de vodka me fazendo companhia. Eu havia oficialmente chegado no fundo do poço. A escuridão reinava ao meu redor, as luzes apagadas do cômodo deploravam a minha existência.
O álcool desceu queimando cada partícula da minha garganta, deixando o rastro ardido pelo caminho. Fechei os olhos e balancei a cabeça de um lado para o outro, batendo a garrafa no chão. Meu estômago reclamou, se retorcendo, contraindo as paredes pela falta de alimento. Eu queria ficar bêbado e acabar o dia dormindo tão pesado que só acordaria no dia seguinte com uma puta ressaca, mas ao invés disso tinha que controlar as doses.
Puxei o chaveiro do bolso da calça e o girei no dedo, dando outro gole na bebida. A chave prateada era o tormento da minha noite. As caixas estavam prontas, embaladas no canto perto da porta de entrada, esperando para serem movidas para o novo lar. A casa de Lily e Noah. E precisava fazer isso nas próximas horas ou não teria mais coragem em fazê-lo, a ideia de morar com ainda me incomodava, mas não tinha escolhas, era a vontade da minha irmã e tinha que honrar com a minha palavra.
Joguei a cabeça para trás, sentindo o impacto com a parede, a pequena dor não era nada comparada a aquela que me atormentava todos os dias. Peguei o celular que deixei em cima da caixa da pizza ao meu lado, deslizei os dedos por alguns minutos até parar na galeria de fotos, gostando de me torturar ao ver a imagem do segundo mês de vida de Mia, onde Lily e Noah a seguravam em frente a um a pequeno bolo e sopravam a vela. Naquele dia, tentei fazer o possível para comparecer a celebração, mas estava preso no Canadá sendo responsável pelo parto de uma égua que carregava dois filhotes.
Analisei a fotografia, eles eram tão felizes juntos. Duas pessoas tão compatíveis, que acho que todos gostariam de viver a vida deles.
Arrastei para o lado, sentindo um aperto na garganta me sufocando quando o vídeo da formatura de Lily em Administração, começou a rodar, deixando o barulho da comemoração preencher o ambiente vazio do meu lar. Ela gritava junto com os outros alunos, tendo o maior sorriso de felicidade nos lábios, jogando o capelo para cima. Tomei um grande gole da vodka, passando para mais uma foto.
E aquela socou meu estômago com tanta força que precisei me conter para não jogar o aparelho longe. Lily estava radiante na festa de formatura, os cabelos louros escuros se perdiam entre os fios avermelhados caindo sobre os ombros em ondas. O vestido azul, longo com brilhantes destacava a cor dos seus olhos, sua mão estava em meu rosto, apertando minhas bochechas, enquanto fazíamos caretas para a câmera, na frente de um arranjo de flores brancas. Lembro-me de ela ter acabado com a minha raça porque queria que usasse um conjunto smoking bonito e me comportasse com as mulheres, dizendo que aquela noite era o momento dela.
Minha boca se curvou em um sorriso de saudade, sendo invadido pelas lembranças do momento daquela foto. Lily brigou comigo na frente de todos, porque havia me recusado a fazer a careta, acabando me obrigado, não restando escolha a não ser ceder. Além disso, ficou no meu pé a noite inteira, depois de ver uma das amigas delas dar em cima de mim descaradamente, e a culpa ainda foi minha.
Eu não tinha culpa das mulheres se derreterem quando usava smoking.
Bloqueei o aparelho e o joguei ao lado do corpo, apoiando os cotovelos sobre os joelhos dobrados, esfregando o rosto com as mãos e o escondendo ali. Fiquei imóvel por alguns minutos, lutando com a dor que insistia em me consumir por inteiro, despedaçando cada sentimento do meu coração. Eu não queria me sentir assim, sempre fui o homem forte, rude e petulante, então por que doía tanto? Por que parecia que garras enormes e afiadas me rasgavam por dentro apenas por me lembrar dela?
Eu a amava, mas nunca pensei que perdê-la me afetaria tanto.
Olhei ao redor da sala, não conseguindo pensar em mais nada que não fosse Lily e minha dor. Eu queria que tudo parasse, que voltasse a ser o que conhecia. E morar na casa dela não me ajudaria em nada, mas pela pequena eu tinha que tentar, não se tratava mais de mim, tinha que pensar em Mia acima de qualquer coisa.
Meus devaneios foram interrompidos quando ouvi o ronronar do felino que esfregava o corpo pelas minhas pernas. Levei minha mão para acariciar suas costas, assistindo-o ronronar mais alto e amolecer o corpo, entregando-se ao carinho. Sky era um bichano insolente, que não se preocupava em me consolar, só estava atrás de comida. Continuei o afago, até que ele caísse no chão e rolasse, ficando com a barriga exposta para cima, em uma armadilha, já que assim que me aproximasse sairia correndo como se estivesse ofendido.
Os cantos da minha boca transformaram-se em um sorriso divertido. Eu gostava de como Sky tinha o poder de acalmar os meus piores demônios apenas com sua presença. E como veterinário sabia que os animais tinham o dom de curar nossas feridas mais profundas, e foi o que aconteceu nos últimos dias, com o gato preguiçoso e gordo sendo o único a presenciar as minhas fraquezas, soube o quanto era verdade.
— Ah, Sky... No que a Lily foi me enfiar? — falei para o bichano, esperando que me entendesse.
No entanto, o que recebi em resposta foi o som alto vindo do fundo da sua garganta em um miado estridente e depois um ronronar, pulando sobre a mesinha de centro logo a minha frente, acomodando os pelos pretos ao me encarar com os olhos amarelos intensos e brilhantes, me julgando por ainda não ter levantado para alimentá-lo com sachê de Salmão, os seus favoritos.
Capítulo 4
Balancei a cabeça e levei a mão em direção ao nariz, esfregando a palma em um movimento urgente. Engoli em seco, a garganta arranhando como um disco antigo. A sensação era incômoda e parecia que o universo me pressionava, fazendo uma pressão pesada em meu peito. Fiz uma careta, e era como se minúsculos fios, macios e finos, invadissem minhas narinas, causando a irritação que coçava insuportavelmente.
Entreabri os olhos, sendo atingida por uma parede escura que bloqueava minha visão turva, não consegui tempo para ver ao certo o porquê havia uma barreira negra na minha cabeça, quando um espirro estrondoso se sucedeu, obrigando-me a virar o rosto e cobrir a boca com o antebraço. A queimação dominou minhas vias aéreas, bloqueando qualquer passagem de ar e rasgando cada pedacinho que percorriam, meus lábios se abriram em uma fenda estreita, possibilitando a respiração acompanhada de rangidos do fundo dos brônquios.
Tentei puxar o ar e meus pulmões reclamaram, transformando a tarefa simples em um campo de batalha, continuando a sentir o peito doendo e a estrutura pesada ainda repousava sobre ele. Será que o universo decidiu se vingar de mim e agora levava minha alma para o submundo?
Forcei as pálpebras pesadas a se arrastarem, deixando que a maré de lágrimas se formasse no canto dos olhos. Soltei o ar pesadamente pela boca e não havia palavras para definir a onda de desespero que me tomou quando encontrei com círculos gigantesco e dourados, brilhante e faiscantes, me encarando como se fossem me devorar. As pupilas minúsculas pareciam ler a minha alma.
Engoli em seco, levantando-me abruptamente em um movimento tão rápido que o felino pulou contra o estofado com as perfeitas quatro patas e continuou a me encarar, me analisando minuciosamente. Outro espirro me acometeu.
— O que caralhos você está fazendo aqui? — disparei, olhando para o gato como se fosse uma bomba relógio prestes a explodir.
Esfreguei as mãos no rosto com desespero, sentindo a pele ardendo. Levei os punhos em direção aos olhos e os cocei, não conseguindo suportar o nariz bloqueado clamando por socorro. Minha rinite alérgica não me atacava há anos, mas bastou apenas aquela coisinha peluda se aproximar para minha respiração fazer as malas e balançar a mão em uma despedida solene para o quinto dos infernos.
Olhei ao redor, com os olhos marejados e provavelmente vermelhos como o fogo, percebendo que tinha apagado na noite anterior no sofá, depois de organizar as caixas no quarto de hóspedes, tomar um banho e colocar Mia para dormir, deveria ter colocado um filme qualquer para assistir no canal de streaming. E lembro-me de ter esperado por algum sinal de antes de ser vencida pelo sono com a consciência confusa ao pensar que ele provavelmente fugiria das responsabilidades.
Mas agora tinha um gato no meio da sala, me fuzilando em um julgamento silencioso. O que ele estava fazendo ali, sendo que Noah e Lily não tinham animais de estimação?
— Bom dia, . — a voz máscula, grossa e mais rouca do que me lembrava invadiu a sala.
Fiquei surpresa e meu coração quase pulou pela boca quando virei o rosto e me deparei com encostado ao batente da porta da cozinha, vestido uma calça jeans, uma camiseta preta de linho com os primeiros botões abertos que delineavam os seus músculos, tênis brancos impecáveis e os cabelos bagunçados, parecendo não ter tido tempo para ajeitá-los. Como um adolescente magro e desprovido de beleza tinha se transformado um homem tão atraente? Quando sua voz estridente e irritante havia adotado um tom firme e sexy?
— Vejo que já conheceu o Sky. — apontou o bichano com a xícara que segurava em mãos.
Franzi o cenho e apontei para o esquilo peludo ao meu lado.
— Essa coisa se chama Sky? — o gato pulou do sofá, caminhando como um lorde na direção de , esfregando os pelos contra a calça dele.
— Não é uma “coisa”, é um gato. — ele disse calmamente, bebericando a bebida que pelo aroma era café.
— Sério? — usei meu melhor tom de surpresa. — Nossa, achei que fosse um babuíno! — bati as mãos nas coxas, levantando-me e indo em direção a cozinha.
só poderia estar de brincadeira comigo. Um gato? Um ser que se achava superior a todos os outros morando debaixo do mesmo teto que eu?
— Por que trouxe um gato para esta casa? — eu tinha que saber.
E enquanto esperava a resposta para o meu protesto, lavei as mãos, jogando água no rosto e depois esfregando as roupas com a umidade, retirando qualquer requisito de pelo que houvesse nas roupas. Se não tomasse o antialérgico, passaria o dia sofrendo com os sintomas da rinite, e como entendedora no assunto, sabia que não era nada agradável ficar espirrando a cada cinco minutos e ter que ficar lubrificando as vias aéreas com soro para afastar um pouco do incômodo rotineiro que causava.
— Não é óbvio? — disparou e mesmo de costas, sabia que tinha um sorriso infeliz nos lábios.
Fechei as mãos em punho, clamando por paciência.
— O que é óbvio, ? — virei-me, o fuzilando. — Um gato preto se chamar Sky, sendo que o significado desse nome é Céu? — era muita ironia para começar o dia.
— Qual o problema com o nome do meu gato? — encostou o corpo contra o balcão que dividia a cozinha, inclinando-se para frente, apoiado nos cotovelos.
— Seu gato? — arquei as sobrancelhas e cruzei os braços em frente ao peito. — Trouxe um gato para esta casa, sabendo que tenho alergia a pelos?
O felino pulou no balcão da cozinha a sua frente, imitindo um grunhido que pareceu indignação. Sentou-se e os pelos se acomodaram como um lorde, marcando sua ilustre presença, como se soubesse que estávamos falando dele. acariciou a cabeça do bichano.
— Eu não sabia que tinha alergia, na verdade não sei nada sobre você. — deu de ombros, levando a xícara aos lábios com a mão livre. — Mas não precisava fazer uma tempestade no copo d’agua, sabia que existe antialérgicos para isso? — contou como se tivesse acabado de fazer uma descoberta incrível.
— Antialérgicos são feitos de corticoides e essas merdas me deixam inchada. — da última vez que usei os comprimidos continuamente, meu peso na balança subiu tanto que fiquei abismada.
Acompanhei quando deixou a xícara no balcão e abriu o armário acima da geladeira, localizada ao seu lado, relevando um estoque de sachê de Salmão, petiscos e muita ração Premium para gatos. Revirei os olhos, mas era só o que me faltava, ia ser mesmo obrigada a aceitar a presença do felino. Eu deveria estar sendo muita castigada para isso.
— Nem todos os antialérgicos possuem corticoides, posso recomendar alguns, aliás, eu sou médico. — quando voltou a me encarar, segurava um pacote de sachê e o rasgava, enchendo o pote do gato, e este por sinal miava parecendo desesperado.
— Você é veterinário, é médico de animais! — talvez, ele estivesse me enxergando como uma mula alérgica.
— Sabia que a maioria dos medicamentos de humanos, agora servem para animais? Então tecnicamente estou por dentro da indústria farmacêutica. — o modo como falava, parecia que havia feito uma descoberta histórica.
— Isso não substitui uma consulta com o especialista em humanos. — cruzei os braços.
— Vá em frente. — balançou os ombros em desdém, dando outro gole no café. — Gaste horrores com consultas e exames caros, só para no final receitarem um anti-histamínico barato que nem precisa de prescrição médica. — arqueou uma sobrancelha, o olhar fixo em mim com um desafio mudo.
E como imaginei, poderia ter mudado da água para o vinho no quesito beleza, o corpo de deus grego, com direito a tanquinho e tudo, mas a mentalidade continuava a de um adolescente mimado que adorava me provocar.
— Eu não estaria tendo que passar por isso se tivesse me comunicado que traria um gato para morar comigo! — venci o espaço até o balcão, não segurando o espirro por causa do felino.
— Conosco, é o termo correto. — corrigiu com o sorriso cínico nos lábios.
Pressionei a ponte do nariz e fechei os olhos com força.
— E já que prefere uma apresentação formal. — indicou o esquilo peludo. — , este é o Sky, e será a nossa mascote. — acariciou as costas do gato, e o ouvi ronronar. — Ele é um gato castrado, gordo e preguiçoso que é carente, gosta de colo e lugares quentinhos para dormir. — deu mais um gole, indo até a mesa da cozinha e enchendo a xícara com mais café. — E uma curiosidade sobre ele, Sky tem problemas com continência urinária, então tudo o que pode comer é restrito e está naquele armário. Não o alimente com comida ou qualquer outra coisa que não seja a ração e o sachê especial.
Franzi o cenho.
— Então além de eu ter que lidar com você, terei que me preocupar com a taxa de sódio dessa coisa? — olhei para o gato que me encarava com os olhos dourados me julgando.
— Deixe que eu o alimente, se preocupe com a sua vida e pare de chamar meu gato de coisa. — disse, sentando-se a mesa e servindo seu prato de pão, ovos e muito bacon, um café da manhã nada saudável.
— Você vai comer isso? — questionei, olhando para os ovos fritos e o bacon. — Não é nada saudável.
revirou os olhos.
— , quando eu pedir a sua opinião sobre o meu café da manhã, aí você poderá compartilhá-la comigo. — deu uma garfada tão generosa na comida, parecendo ser a última maravilha do mundo.
— Ah, que ótimo... Agora vou ter que dividir a casa com um gato preguiçoso e com uma pessoa que não liga para a própria saúde. — quando morresse a primeira coisa que faria, seria procurar pelo meu irmão no reino divino e estrangulá-lo por me fazer passar por tudo aquilo.
— Não tenho culpa que o coelhinho gosta de comer salada no café da manhã. — ainda era cedo para dizer que morar com ele era uma péssima ideia?
— Eu priorizo minha saúde, algo que você deveria fazer. — acusei, pegando o celular para conferir a meteorologia, meu ritual sagrado de todas as manhãs.
bateu as mãos na mesa e se levantou em um salto, vindo em minha direção como um raio. Seus olhos azuis estavam escuros e havia uma pequena faísca no fundo das íris, onde consegui ver perfeitamente o meu reflexo. Com certeza, não era a única a pensar que era uma tremenda perda de tempo dividirmos uma casa.
— Isso nunca vai dar certo, se você continuar sendo a garota mimada de sempre. — esbravejou, me fuzilando com tanta intensidade que achei que fosse me matar somente com o olhar.
— E você continua sendo o garoto arrogante e irritante de sempre! — retruquei, levantando as mãos para o alto. — É mais do que óbvio que isso não vai dar certo! Não precisa ser especialista no assunto.
— Por que nossos irmãos nos colaram nessa cilada? — seu tom estava alterado, mais firme e rude.
— Eu não sei o que pensaram quando acharam que uma mulher, como eu, gostaria de morar com um homem insuportável, como você!
— Acha que eu concordei com isso? A última coisa do mundo que eu queria era dividir uma casa com uma mulher teimosa e egoísta como você! — praguejou, levando as mãos para os cabelos, desarrumando mais os fios.
Eu iria retrucar, fazê-lo pagar pelas palavras malcriadas, mas foi o barulho baixo e quase perceptível do choro da pequena Mia que me impediram de fazer isso. Suspirei, recuperando a compostura antes de ir vê-la e deixar o imbecil ali, sozinho, com a companhia do gato que era o único ser que o suportava.
A pequena banheira rosa estava quase pronta. Mergulhei a mão na água, sentindo a temperatura morna aquecer minha pele. Desliguei a torneira e passei pela porta atravessando a suíte do quarto de Noah e Lily. A pequena estava deitada com uma chupeta, sobre a enorme cama do casal, mexendo os olhos brilhantes e curiosos ao redor, investigando o cômodo nos mínimos detalhes.
— Vamos tomar um banho quentinho, princesa? — a peguei em meus braços, analisando o quarto. — Você gosta de ficar aqui, não é? — beijei o topo da cabeça dela. — Eu também sinto falta deles. — a dor preencheu meu peito.
Os perfumes ainda estavam nos lençóis, em cada fio de seda. E apesar de cada canto que olhava me lembrar deles, de certo modo me sentia confortável, Mia também estava mais calma de um jeito indecifrável como se estivesse sendo abraçada pelos pais. Ela havia parado de chorar quase instantaneamente quando entrei no quarto, não sendo minha intenção já que procurava a porta do banheiro.
— Vamos para o banho, pequena. — a balancei nos braços, indo em direção a suíte e a colocando na banheira.
Mia sorriu e brincava com o patinho de borracha que apitava quando apertava, batendo as mãos na água e me molhando inteira. A acompanhei na risada, com a leveza dominando meu ser, vê-la se divertindo, enquanto esfregava o sabonete em sua pele delicada, deixava meu coração quentinho.
O banho foi rápido, calmo e sereno. Enrolei o corpinho em uma toalha macia e a sequei, coloquei a fralda, passando a colônia com notas florais de rosa e baunilha deixando sua pele perfumada e refrescante. Havia escolhido um vestido verde-claro com flores e sapatinhos brancos, transformando-a em uma princesa linda e cheirosa.
A peguei no colo e nos despedimos do quarto, indo em direção ao dela, levando o patinho junto. Arrumei o berço antes de colocá-la por alguns minutos, sendo o tempo que levei para ajeitar a bolsa com os pertences para sairmos. Seus pais haviam optado pela introdução dela na creche desde cedo, acreditando que isso ajudaria a desenvolver os sentidos, além de conseguirem organizar a rotina de trabalho no período da manhã.
Mia já tinha completado 2 anos e estava se aventurando com os primeiros passos que foram presenciados pelos pais, sendo cruel pensar que não estariam presentes para vê-la dizer a primeira palavra. Será que seria ? Ou seria ? Talvez o nome do gato?
Desci as escadas assim que troquei as roupas molhadas, com a alça da bolsa no ombro e a segurando nos braços, brincando com o patinho junto com ela. A recepção foi calorosa, já que quando chegamos nos últimos degraus, apareceu da cozinha com um sorriso largo estampado nos lábios.
— Olha quem acordou! A minha bebê favorita! — aproximou-se, depositando um beijo na testa da pequena.
Ele a pegou no colo e Mia não perdeu tempo, pressionando o brinquedo contra a bochecha dele, imitindo o som do apito, arrancando gargalhadas do homem. Observei a cena e sorri, percorrendo os olhos pela sala até pairar sobre Sky deitado no sofá, o felino levantou a cabeça para olhar a agitação, rapidamente retornando a dormir, ignorando tudo ao redor. Neguei com a cabeça, qual era a graças que as pessoas viam em gatos?
Mia ficou agitada quando notou que tínhamos um animal de estimação, apontando o bichano e ficando eufórica no colo de . Cruzei os braços e optei por apenas observar a cena dele aproximando-se do gato com a pequena balançando os braços, ansiosa para tocar os pelos longos e macios.
— É, Mia, agora temos um gatinho. — murmurou.
E como um perfeito delinquente, Sky levantou a cabeça e arregalou os olhos dourados, a pupila dilatou, disparando em uma corrida desesperada em direção da cozinha, deixando claro que odiava crianças perto dele. Cobri a boca com a mão, tentando segurar o riso zombeteiro que me atingiu.
— Ainda... — ri, não me contendo. — Ainda acha que o seu gato é uma boa ideia? — provoquei, atravessando a sala, me rendendo a risada.
endireitou o corpo e me acompanhou até a porta, seu semblante fechado e abatido, enquanto Mia puxava os botões da sua camiseta, ignorando o comportamento do gato.
— Ele vai se acostumar, não é todo dia que é acordado por uma maluca histérica o chamando de “coisa”. — retrucou, segurando a porta.
Rolei os olhos e passei pela saída, trancando a fechadura. Descemos os dois degraus da varanda em silêncio e olhei para os lados em busca de um táxi para nos levar até a creche. No entanto, quando estava levantando a mão para sinalizar, pensei que a figura imponente ao meu lado poderia fingir ser um bom cavalheiro e me poupar de gastar dinheiro.
— Vai me acompanhar até a creche? — disparei, tentando não soar oferecida. — É importante para a Mia que fôssemos juntos como uma família, já que somos os pais dela. — contive o sorriso pilantra que queria curvar em meus lábios.
— Nós somos os tios dela. — corrigiu, colocando a mão no bolso da calça.
— Nós recebemos a guarda temporária dela, então temos que agir como figuras paternas. — gesticulei.
— Se quer gastar a gasolina do meu carro a levando para a creche, é só dizer, . — deu uma piscadela em minha direção, retirando a chave do veículo do bolso. — Depois preciso ir para a clínica, consigo deixá-la em casa. — falou por sobre os ombros, cumprimentando os vizinhos curiosos com nossa presença.
— Pode me deixar no mercado na volta, tenho que comprar algumas coisas para a casa e para minha dieta. — ajeitei a alça da bolsa, ficando em seu encalço.
— Combinado, . — concordou, apertando o botão do alarme.
Meus olhos caíram sobre o carro quando as luzes piscaram indicando que havia sido destravado. O modelo SUV era de uma pintura negra, profunda e brilhante com linhas perfeitas e musculosas que constatavam com a suavidade das curvas. A grade frontal imponente parecia como um felino pronto para saltar. Seus faróis desenhados iguais aos olhos de um gato cortariam qualquer escuridão, as rodas de liga leve eram envoltas em pneus largos denunciando sua potência latente, expondo a capacidade off-road surpreendente.
O Hyundai Creta é a combinação perfeita de beleza.
— Achei que tivesse um carro. — quebrou o meu momento, abrindo a porta do passageiro traseiro.
Adentrei o veículo, sendo abraçada pelo banco confortável, colocando o cinto de segurança. Estendi os braços, recebendo o corpo pequeno e delicado de Mia, a sentando sobre minhas pernas, já que não tínhamos tido tempo para instalar a cadeirinha infantil, teríamos que fazer do modo tradicional. Não era tão seguro, mas era nossa única opção.
— Eu tenho uma moto, ainda não tive dinheiro para comprar um carro. — respondi, prendendo os olhos no interior do veículo.
Tudo era envolto em uma elegância escura, denunciando o convite para o conforto, o relaxamento, os detalhes cromados nos bancos de couro eram os responsáveis por dar o toque final de sofisticação.
— E como irá voltar para casa com as compras, voando? — quis saber, ocupando o lado do motorista.
Rolei os olhos, notando quando ele acomodou o óculo escuro no rosto, realçando sua beleza. Como era possível o carro combinar tanto com o condutor?
— Eu chamo um táxi ou peço para o mercado entregar a compra, ainda não desenvolvi minhas habilidades voadoras. — olhei para os lados, tentando ocupar minha atenção com qualquer coisa que não fosse o retrovisor interno refletindo a imagem do cretino.
Mia riu, atraindo minha atenção.
— Está vendo Mia, o que seus pais fizeram comigo? — brinquei, segurando sua mão que tocou meu rosto. — Condenaram os meus últimos neurônios saudáveis a queimarem por ter de conviver com esse imbecil. — ergui o olhar, mirando .
Ele deu a partida no veículo e curvou o sorriso irônico no canto dos lábios.
— E os meus neurônios não estão em risco, ? — disparou. — Você tem alergia a gatos e ainda come pior do que um coelho, se dependêssemos da sua dieta o mundo passaria fome. — ele só estava daquele jeito, porque a geladeira estava cheia de frutas e alimentos saudáveis.
— E se dependesse da sua, todos nós teríamos obesidade mórbida e morreríamos antes dos 40 anos. — acusei, ouvindo Mia se divertindo com nossa discussão.
— Comer açúcar e carboidratos no café da manhã é uma forma de deixar o meu dia mais produtivo.
— Sério? Comer dois ovos fritos e uma pilha de bacons é ser produtivo? — de onde aquela mente fértil tirava tantas asneiras?
— A Mia aprovaria minha ideia, ao contrário de você que prefere começar o dia comendo frutas e café sem açúcar. — provocou, parando o veículo no sinaleiro e virando o corpo para me encarar. — Por isso é tão reprimida. — abaixou um pouco o óculo e estralou a língua no céu da boca.
Deus que me ajude, porque eu ia matar aquele homem antes da primeira visita da Assistente Social.
— Você é o imbecil dessa conversa, , o reprimido aqui é você! — esbravejei, com os olhos ardendo em fendas faiscantes. — Agora dirige a droga desse carro!
— Mia, ela falou uma palavra feia, agora está devendo um dólar para o Cofrinho dos Impropérios. — e foi a última provocação dele, retornando a atenção para a estrada.
O Cofrinho dos Impropérios era um recipiente que Noah e Lily criaram para controlar o uso de palavrões, sendo uma técnica lúdica e educativa. A ideia era ser uma penalidade para cada palavra feia que fosse proferida tornando-se uma brincadeira engraçada. E levando em consideração minha situação atual, sabia que faltaria potes no mundo para encher morando debaixo do mesmo teto com .
Ele era tão insuportável que não sabia até quando aguentaria ficar sem acertar um tapa na sua cara.
Capítulo 5
Eu estava decidido a arrumar as malas, me mudar para o outro lado do mundo, fazer uma nova identidade e começar uma vida do zero sem nenhuma mulher me importunando. Seria feliz e esqueceria que tive um passado tão conturbado que me levou a fazer essa loucura.
A única coisa que me impedia de desaparecer era a pequena Mia, que não tinha culpa dos pais terem achado que me unir com uma criatura abominável seria uma ótima ideia. Ela me odiava com tanta força que não achei que fosse capaz uma mulher de 1,66m de altura suportar tanto ódio, nem parecia a mesma que encontrei aos prantos na delegacia e me abraçou como se fosse a sua última esperança.
me tirava do sério de um jeito que ninguém jamais conseguiu e se dependesse de mim, o Cofrinho dos Impropérios encheria tão rápido que a Mia conseguiria comprar uma casa antes de completar a maioridade.
Depois de passar o dia preso na clínica monitorado uma gata com oitos filhotes – preenchendo relatórios das suas reações após a cesariana de emergência – tudo que mais queria era me deitar em uma estrutura macia e adormecer até o amanhecer. No entanto, o universo achou uma ótima ideia acabar com a minha noite quando cheguei em casa e me deparei com sentada no sofá, assistindo a um filme de romance clichê, chorando por causa do casal principal.
Rolei os olhos com a cena e subi as escadas em silêncio, imaginando que depois de um longo banho, quente e relaxante, teria terminado de derramar suas lágrimas com um casal fictício e deixaria o sofá-cama livre, mas em nenhum momento imaginei que a noite estava apenas começando. Como ela havia ficado com o quarto de hóspedes, tudo que me restou foi a sala, como um perfeito homem “casado”.
Mas ao descer a escada, só consegui cruzar os braços e parar no último degrau para olhá-la ainda chorando, aumentando o volume do filme. Ela estava enrolada na coberta que havia deixado dobrada no estofado na noite passada, abraçada ao meu travesseiro e mais duas almofadas. Olhei para cima com um suspiro de frustração, desejando que os deuses me concedessem paciência extra para lidar com aquela mulher depois de um dia tão estressante.
— Se pretende ficar na sala a noite toda, então pelo menos libera o meu lugar. — quebrei o silêncio, atravessando a sala e ficando na frente dela.
, sem dizer nenhuma palavra, apenas arrastou-se para o canto do sofá deixando o espaço ao seu lado livre, arremessou o travesseiro contra o estofado e abraçou uma almofada. Ela não fez questão de me olhar, concentrada no filme e em limpar as lágrimas. Talvez fosse melhor assim, sem diálogos resultaria em uma noite calma e sem desavenças, que era tudo o que mais precisava.
Sentei-me na beirada no sofá, soldando o televisor pela primeira vez, tendo que controlar minha vontade de voltar para a clínica assim que identifique o filme. só poderia estar de brincadeira. O grande navio britânico estava se partindo ao meio no grande oceano, os tripulantes se agarravam na estrutura, outros pulavam na água e a grande maioria corria tentando salvar suas vidas, a cena era insano retratando toda a emoção e o desespero que deveria ter sido viver o momento real da tragédia.
O casal principal lutava para sobreviver, enquanto as pessoas ricas observavam horrorizadas ao longe nos botes salva-vidas. Metade do Titanic afundou, deixando a outra parte submersa por alguns minutos antes de seguir pelo mesmo caminho. Joguei o corpo para trás, desistindo de assistir ao filme para finalmente dormir, sendo embriagado pela fragrância vibrante, frutada que as notas de romã e verbena exalavam daquela mulher. Conscientemente, virei as costas para ela, ficando de bruços como se assim conseguisse impedir que me tocasse com o toque cítrico, quente com sua doçura suculenta.
Fechei os olhos, achando que finalmente descansaria quando começou a suspirar e a soltar pequenos soluços que penetraram meus ouvidos, espalhando a irritação por todo meu corpo, o aquecendo ao ponto da camiseta verde-mar incomodar com o calor que se irradiava. Tentei ignorar por alguns minutos, torcendo para o sono me dominar, mas bastou apenas ser torturado pelo seu choro para não aguentar mais.
Virei-me, encarando a televisão que transmitia a famosa cena do casal, com Rose em cima da porta, enquanto Jack estava dentro da água gelada. Franzi a testa, negando com a cabeça, era nítido o quanto tudo não se tratava de uma mentirada do cinema, olhei para o lado, encontrando absorta no filme com os olhos marejados, abraçando a almofada com força.
— Você está de brincadeira, . — apoiei-me nos cotovelos, encarando a televisão. — Isso é a maior mentira, a porta nunca aguentaria o peso de uma pessoa.
— Você não ia dormir? — esfregou as mãos no rosto. — Por que está julgando o meu filme? — aumentou o volume.
— Eu quero dormir, mas não dá para fazer isso com você chorando por causa do Titanic. — despenquei o corpo, alcançando o travesseiro. — Não acha que já assistiu filmes românticos o suficiente por hoje? — disparei, pressionando o travesseiro no rosto, pensando seriamente em me sufocar com ele.
— Você é tão amargo, . — ela comentou, fazendo uma careta.
Retirei o travesseiro e esfreguei as mãos no rosto. Meu peito borbulhando de raiva.
— Eu não sou amargo, só estou cansado. — gesticulei, olhando para o teto da sala. — Porque ao contrário de você, eu passei o dia inteiro trabalhando.
— Eu não deveria te dar satisfações sobre a minha vida, mas para a sua informação, eu trabalho tanto quanto você. — bateu as mãos na almofada.
— Você fica em casa o dia todo, em que momento que trabalha? — zombei, expressando um sorriso cínico.
— Não é da sua conta! — cuspiu, aumentando o volume mais uma vez.
— , por favor! — exclamei, tomando o controle da sua mão e pausando o vídeo. — Eu só quero dormir e se continuar aumentando essa porcaria vai acordar a Mia. — endireitei o corpo, ficando sentado e encostando a cabeça no estofado.
— É a melhor cena do filme, só que o áudio está muito baixo. — apontou a tela. — O Jack está se declarando para a Rose.
Ela tentou pegar o controle, mas com rapidez o ergui, deixando fora do seu alcance.
— Esse filme é de 1997, você já deve tê-lo visto milhares de vez. —estava me divertindo com suas tentativas falhas de pegar o controle. — Ou seja, até decorou as falas.
— Isso não quer dizer que não posso ver de novo. Não há uma regra para isso. É um país livre! — esbravejou, cruzando os braços em frente ao peito. — Me devolve o controle, ainda não terminei de assistir! — estava irada.
— Eu trabalhei o dia todo e preciso descansar. — joguei a cabeça para trás. — Não pode pegar o notebook e terminar no quarto?
Ela apertou a ponte do nariz, parecendo pensar em uma solução.
— Eu abaixo o volume e assim você consegue dormir. — sugeriu, estendendo a mão em minha direção.
— A hora que esse filme acabar você vai dar o fora daqui?
— Claro, acha que dormiria junto com você? Nem se o mundo dependesse disso. — sorriu com o canto dos lábios, balançando a mão em um lembrete. — Agora, o controle.
Soltei o ar pela boca, entregando como o combinado, permitindo que meus dedos roçassem em sua pele quente e macia por um instante. Uma corrente elétrica percorreu meu corpo, arrepiando os pelos pelo caminho e acendendo uma chama incômoda em meu interior. não pareceu sentir o mesmo. Rapidamente, desviei minha mão a observando dar o play e voltando a se aconchegar no sofá, presa novamente o filme.
Passei as mãos pelos cabelos, deitando o corpo no sofá, cobrindo com o pedaço da coberta livre, ignorando a sensação que me consumia. A tensão era palpável, parecendo carregar o ar de eletricidade. Será que estava alucinando ou o ódio entre nós era tão forte ao ponto de causar um choque físico? Isso era loucura.
Eu me sentia estranho e como previsto, quando o sono e o cansaço finalmente me venceram, continuei sendo atormentado por . Sonhei que ela me estrangulava por ter atrapalhado sua maratona de filmes românticos, me torturando, enquanto falava que eu não passava de um homem amargurado que precisava de um pouco de amor para ser feliz, além de bater sucessivamente minha cabeça no chão, repetindo diversas vezes a pergunta do porquê eu não era como os príncipes encantados.
Na manhã seguinte, acordei ao som de um gato escaldado vindo da cozinha. Olhei o horário no celular, querendo achar o primeiro assassino que estivesse disposto a me matar com um tiro no peito e depois mais três somente como garantia de que nunca mais voltaria para esse mundo. Os números marcavam exatamente 6h35min da matina. Quem caralhos ousava acordar tão cedo?
Sonolento, os olhos ardendo pela péssima noite de sono e o corpo reclamando por ter sido acordado pelo barulho dos infernos, o máximo que consegui fazer foi afundar o rosto no travesseiro, sendo inevitável não prestar atenção ao som incomum. Se eu não fosse um veterinário, diria que havia uma cabrita grunhido de dor na cozinha.
— Porra! — xinguei, pressionando uma almofada na cabeça.
Eu não ia aguentar essa tortura. Morrer, era sem dúvidas, a melhor opção.
Apoiei o corpo sobre os antebraços, desistindo da morte lenta que planejava em meio aos tecidos. Lily me buscaria no submundo se fizesse isso. Estreitei os olhos, erguendo a cabeça, parecendo levar uma pancada com a dor que me assolou, eu estava péssimo como se estivesse de resseca sem nem ter tomado uma gota de álcool.
— You madeeee me a, you madee me a belieeeverrrr, belieeeverrr.
O som ficou mais intenso. Apertei os olhos com o incômodo que as palavras me causaram ao espancarem meu crânio, esmagando o cérebro até não restar nada. Sentei-me no sofá, fechando as mãos em punho quando reconheci a quem a voz insuportável pertencia. cantava mal demais, capaz de quebrar todos os vidros da casa se continuasse com o seu show particular horrível.
— My lifeee, my lovee, my drivee it came frommm. Painn! — ela não gritou, mas xingou em outra língua.
Saltei do sofá decidido a enterrar a minha cabeça dentro de um buraco. O que eu tinha feito de tão ruim para ter que aguentar isso? Como infernos moraria com uma cabra engasgada? E o pior, como conseguiria dormir com tanto barulho?
Sky me saldou com miados, esfregando o corpo contra minhas pernas, totalmente alheio à vontade que estava de arremessar do vigésimo andar de um prédio. Curvei-me, coçando atrás da sua orelha, o felino era o único ser na Terra que me trazia paz, concedendo paciência para lidar com o mundo, mas bastou o próximo “Belieeeverrr” invadir meus tímpanos, para acabar com toda a minha esperança.
— Oh, céus... — endireitei o corpo, apertando o canto dos olhos.
Como se não bastasse ter que lidar com todo o estresse que a morte precoce de Lily me acometia, os deveres que tinha com a clínica e a responsabilidade de cuidar de Mia, ainda tinha que suportar a mulher mais complicada de todos os tempos tentando me matar aos poucos, e não era nem com veneno. Talvez, jogar ácido nos meus ouvidos fosse menos sofrido.
Perdi o controle quando mais uma nota desafinada balançou a casa. Fiquei surpreso ao ver como atravessei a distância até a cozinha tão rápido, Sky me seguiu como um bom interesseiro em sachê. Parei no batente, observando a cena a minha frente com incredulidade, segurava uma enorme bacia azul contra o antebraço e com a mão realizava movimentos rápidos e circulares com um batedor de claras, concentrada na mistura, não notando minha presença. Ao redor, o balcão da pia estava sujo com farinha e leite, além de ter uma panela no fogo borbulhando sem supervisão.
— O que caralhos você está fazendo, ? — esbravejei tão enraivecido que nem reconhecia minha voz.
Ela deu um salto no lugar de susto, me fuzilando. Acompanhei quando o semblante calmo e sereno se transformou em linhas de expressões desagradáveis e odiáveis. Contive o sorriso malicioso, apesar dela ficar estranhamente fofa com as bochechas rosadas de raiva, no fundo estava adorando saber que minha presença a incomodava tanto.
— Você não sabe começar o dia com um simples “bom dia”? — bradou, voltando a bater a massa.
Cruzei os braços em frente ao peito, encostando-me no batente e não conseguindo parar de observá-la, controlando o sorriso que brincava em meus lábios.
— Não quando sou acordado com o som de uma cabra agonizando. — rebati.
— O seu gato me acordou ontem e nem por isso fiquei tão ranzinza. — então era uma vingança?
Olhei fixo para Sky que havia subido em cima do balcão, ao lado do seu pote de ração, me encarando com os olhos amarelos espertos e os bigodes longos. Precisava lembrar de deixá-lo sem petisco de Salmão por uma semana por ter me feito passar por aquela humilhação.
— O Sky é um anjo, ele tem a inocência de uma criança de 2 anos. — defendi, ainda olhando para o felino. — E você, tem a teimosia de uma mula. Não poderia ter esperado um pouco mais para começar a fazer esse... O que está fazendo? — arquei a sobrancelha.
suspirou e revirou os olhos, puxando uma assadeira retangular de alumínio em cima da mesa.
— Estou fazendo bolo de cenoura com cobertura de chocolate. — deu de ombros, despejando a massa amarelada na forma, salpicando raspas de chocolates no meio.
— E precisava ser tão cedo? Não poderia esperar até todos acordarem? — gesticulei, sem descruzar os braços.
Ela suspirou, parecendo cansada.
— Ah, ... — sorriu travessa. — Você estava tão engraçado babando no travesseiro quando acordei, que seria um pecado acordá-lo tão cedo. — provocou.
E em seguida, o que ela fez ultrapassou todos os meus limites. A desgraçada levou a colher até os lábios e lambeu em um movimento lento, que achei tremendamente sexy. Os olhos castanhos me encaravam, fixos nos meus, com a intensidade de um desafio, querendo me enlouquecer.
Mulher dos infernos!
— Quer me ajudar com a cobertura? — passou a língua nos lábios, lambendo os resquícios de massa.
— Você é tão irritante. Ainda é cedo para dizer o quanto quero te matar? — sorri cínico, tentando controlar os batimentos do coração com sua provocação atrevida.
— , admita, não conseguiria viver nem um mês sem mim. — disse sobre o ombro, colocando a assadeira dentro do forno e ajustando a temperatura.
Suspirei, desistindo de ter uma manhã serena. estava disposta a me enlouquecer, então a melhor decisão que poderia tomar era ir para a clínica, por mais que isso significasse chegar uma hora mais cedo. Eu tinha que ficar longe dela, antes que fizesse uma besteira e me jogasse sobre seu corpo, envolvendo o pescoço magro com minhas mãos e apertasse até me deliciar com a falta de ar que a causaria.
Minhas manhãs costumavam ser pacíficas, entre atendimentos de rotinas e pequenas cirurgias que conseguia realizar com os olhos vendados, sendo quase entediante, o que melhorava era saber que havia tido uma ótima noite de sono, me deixando produtivo e ansiando pela tarde que sempre era surpreendido por uma ligação de emergência ou um resgaste que exigia a ajuda da equipe veterinária inteira. Ensinava os estagiários a como driblar um felino agressivo que passou a vida inteira sendo maltratado por pessoas cruéis e deploráveis. Uma tarefa bastante difícil, precisando de muita paciência para não levar o animal a um estresse maior.
E quando não conseguia dormir, possuído pela insônia, passava o dia me arrastando, torcendo para que as pessoas se esquecessem da minha existência, além de ficar um tanto quanto irritado. Sempre fui dedico a minha profissão e desde que tive a ideia de construir o Institute of Veterinary Medicine, fui considerado o melhor na minha área, garantindo prêmios de destaque para a clínica, então não existia cansaço que não me prendesse a uma cama a noite toda.
Tinha 24 anos quando comecei a assumir as responsabilidades que as paredes grossas exigiam, era muito jovem e aprendi a deixar o adolescente irresponsável para trás. As vidas de diversos animais dependiam dos meus conhecimentos e os anos que dediquei estudando medicina veterinária, abracei cada caso, me desdobrando ao máximo para salvá-los. Perdi pacientes, alguns tive que ser profissional para tomar a melhor decisão e também tive momentos felizes quando acompanhava o pequeno ser debilitado se agarrando a vida, quando já não tinha mais esperanças.
A minha trajetória não tinha espaço para falhas e noites mal dormidas, mas bastou apenas a pequena criatura invadir a minha vida sem permissão para tudo desmoronar. era o animal selvagem que nunca conseguiria domar, tendo o dom de me atormentar até mesmo de longe. Aquela mulher seria a minha ruína, me obrigava a dormir ao som de filmes românticos, me provocava com sua língua maldita e malcriada e sabia me levar ao delírio apenas pelo modo como pronunciava meu nome. E estava por um fio de acabar de vez com o seu privilégio de ficar viva para ousar contar a história.
Passei a mão pelo rosto, observando Aidan e o estagiário consultando os dois filhotes de gato, recém-nascidos, que foram deixados na frente da clínica na noite passada. Minha cabeça latejava e meus olhos não paravam de doer, não conseguindo me concentrar em nada que não fosse o plano maligno que insistia em tentar me convencer de que o mundo seria um lugar melhor sem uma mulher irritante e teimosa como . Conseguia sentir os músculos tensos e minha mandíbula travada, assombrado pelos poços castanhos, com traços dourados, me estudando como uma felina prestes a fazer sua próxima presa.
— Problemas no paraíso, chefe? — Aidan disparou, guardando dois frascos de amostras em uma maleta.
Devido as condições precárias que recebemos os filhotes, era de grande importância realizar exames para detectarmos quaisquer doenças infecciosas e fatais, como a FIV e FeLV, que nos obrigaria a entrar com os tratamentos específicos.
— Não estou com paciência para lidar com as suas brincadeiras hoje. — balancei as mãos com as sobrancelhas franzidas.
Aidan abriu o sorriso debochado, entregando os frascos para o estagiário levar para análise, nos deixando sozinhos em uma sala de atendimentos, tudo que menos precisava.
— , você é meu amigo, meu irmão, pode me contar tudo. — apoiou os cotovelos na mesa metálica, acariciando a cabeça de um dos filhotes que estavam enrolados em um pequeno cobertor.
— Não tenho nada para contar. — remexi os ombros, sentando-me na cadeira em frente ao computador, pegando a xícara de café que havia deixado ao lado do teclado.
— Você já deve ter tomado dois litros de cafeína hoje. — às vezes, eu odiava o quanto Aidan era observador. — Já que não vai me contar, posso tentar adivinhar. — sugeriu, adorando a ideia.
Girei a cadeira e o fuzilei, dando um longo gole na bebida.
— Você não cansa de ser insuportável? — cuspi, apertando o canto dos olhos, em uma tentativa falha de parar a ardência.
— Eu sou o seu melhor amigo, é meu dever ser insuportável. — ele fez uma mensura rápida. — Deveria colocar colírio, ajuda na ardência dos olhos. — gesticulou com o dedo.
Levantei rapidamente as sobrancelhas, engolindo mais uma dose de café, enchendo a xícara com mais da bebida, havia garantido uma garrafa enorme apenas para me ajudar a suprir o dia intenso e longo que me esperava.
— A não me deixou dormir à noite. — resolvi contar, ele não iria parar de me importunar enquanto não soubesse a verdade, e a sua voz estava começando a me irritar.
Aidan riu, ainda acariciando os filhotes.
— E como ela conseguiu fazer isso? Você dorme feito uma pedra.
— Assistindo filmes de romance. O Titanic. — revirei os olhos, ficando enjoado por lembrar da cena de Rose e Jack se declarando em cima da porta.
— Cara, o Titanic é um clássico, mas um filme tão maçante, como não dormiu com ele? — sorriu para o gatinho laranja que agarrou a ponta do seu dedo com fome. — Me ajuda a dar a mamadeira para eles.
Aidan pegou a garrafa térmica aquecida, como especialista em gatos, conhecia uma fórmula caseira que servia como um substituto do leite materno, servindo também para cachorros e outros animais. Usávamos bastante a mistura com os filhotes recém-nascidos que regatávamos e os que ficavam órfãos. Ele despejou o líquido nas duas mamadeiras, conferindo a temperatura com uma gota sobre a pele.
Forcei meu corpo a se levantar, ficando do lado oposto da mesa, esfregando e soprando as mãos para que ficassem quentes e confortáveis para os filhotes. Aidan envolveu o gatinho laranja, me deixando com o branco. Eles eram tão pequenos que entre nossos dedos desapareciam, os miados famintos tomaram a sala, cessando assim que agarraram o bico de borracha da mamadeira, aliviando a fome que tanto sentiam.
— A minha cama é o sofá da sala e gosto de dormir no escuro. — respondei a pergunta de Aidan, atraindo sua atenção.
— Por que não levou a sua cama do apartamento?
— Aluguei o apartamento mobiliado, tudo que me pertenciam eram apenas as roupas e objetos pessoais. — concentrei os olhos no filhote, garantindo que não se engasgassem.
— Então... Você dormiu junto com a ? — quis saber, curioso.
— Não exatamente, cada um ficou com um lado do sofá-cama. — expliquei, sentindo uma pontada na cabeça devido à falta de sono. — Mas a questão é que depois de assistir o Titanic, ela começou a assistir Diário de uma Paixão, não se importando comigo.
— E por que não explicou para ela que precisava dormir?
— Acha que não fiz isso? A garota é mais teimosa do que uma mula. — suspirei de nervoso. — E como se não bastasse atrapalhar a minha noite, acordei com ela berrando, enquanto tentava cantar uma música, ao mesmo tempo em que preparava um bolo. Isso às 6h35min da manhã!
— E você não foi muito agradável com ela, suponho.
— Você seria Aidan? — disparei, tentando não lembrar da provocação dela na cozinha. — Ela é insuportável. — disse entre os dentes. — Eu gostaria de matá-la, só para me livrar desse pesadelo.
Aidan sorriu com o canto dos lábios, parecendo se divertir com a minha situação
— Precisaria ter motivos para isso.
— E não tenho o suficiente? Ela me odeia, tem alergia a gatos, gosta de filmes românticos clichês e parece querer fazer da minha vida o verdadeiro inferno.
— Está sendo muito radical, . — riu, envolvendo o gatinho na manta assim que terminou de alimentá-lo.
— Quer trocar de lugar comigo, Aidan? E então, veremos quem está sendo radical. — bufei, colocando o filhote junto do irmão.
Aidan gargalhou, divertindo-se com a minha vida. acabou com a minha noite, me acordou cantando feito uma cabra agonizando e eu que estava sendo o radical?
— Lembre-se que você aceitou isso pela Mia. — pontuou. — Não tem como escapar dessa responsabilidade e você não quer que a Mia vá parar em um orfanato.
Cruzei os braços em frente ao peito, com o semblante carrancudo.
— Veja o lado bom, cara, até alguns dias não conhecia nada sobre a garota, agora já sabe até o gênero de filme favorito dela. — zombou, rindo em seguida.
— Eu achei que fosse meu amigo, Aidan.
— E sendo seu amigo, sugiro que tente uma boa convivência com a . — voltou a apoiar os cotovelos na mesa. — Ela não conhece você, tudo o que tem é uma imagem de 13 anos atrás. Se mostrar que mudou, talvez, ela veja que não há motivos para odiá-lo. — gesticulou, torcendo os lábios. — Você disse que a tem alergia a gatos, e o que fez quando ela conheceu o Sky?
Engoli a saliva e passei as mãos no rosto, não era possível que estava recebendo conselhos do maior mulherengo da cidade.
— Pela sua falta de resposta, irei entender que não fez nada.
— O que você queria que eu fizesse, Aidan?
— Compre um antialérgico e leve para ela. Abaixe as armas e mostre que se importa. — sugeriu, endireitando o corpo — , você vai passar o resto da sua vida cuidando da Mia ao lado da , não tem como dar um bom exemplo, sendo que não consegue nem conviver com a mulher que será a nova mãe dela. Pense nisso, cara. — ele saiu logo em seguida da sala, indo buscar o resultado dos exames.
Joguei o corpo contra a cadeira do computador e esfreguei os dedos no maxilar, assimilando o conselho. havia perdido o irmão e assim como eu, não teve tempo para viver o luto, caindo no abismo caótico que nos obrigou a cuidar de uma criança. E se eu tentasse ser mais sensível? Será que ela pararia de implicar comigo? O que eu tinha que fazer para ser mais agradável?
Fechei os olhos e suspirei. não era como as mulheres que estava acostumado, ela era como um labirinto que eu estava disposto a me perder, somente para dar a família que Mia tanto merecia. Eu sabia que me perderia nos mistérios daquela mulher, e era errado me sentir ansioso para embarcar nessa jornada?
Capítulo 6
O mercado estava vazio. A noite caia e ainda tinha que planejar qual seria o cardápio para o jantar. Pensava em algo simples que não exigisse um preparo complexo que me prendesse por horas na frente do fogão. Estava exausta, passei o dia inteiro correndo atrás de Jeremy que me ajudou com a burocracia da casa. Segundo ele, a residência deveria ser passada judicialmente no meu nome e no de , já que havia sido uma herança deixada por Noah e Lily.
A papelada esperava em cima do balão da cozinha para ser assinada por , assim o advogado poderia dar seguimento para o reconhecimento do imóvel. Contas de água e luz também teriam o remetente alterados, passando a serem registrados em meu nome, já que bastava apenas um responsável para assumir a dívida.
E por isso era exatamente 17h20min e estava vagando pelos corredores com Mia no bebê conforto do carrinho, comendo os pedaços de bolo de cenoura que havia levado para ela. Depois que a busquei na creche, não tive outra escolha a não ser levá-la para me acompanhar nas compras. A sombra de nem ousou aparecer durante o dia, e provavelmente não apareceria tão cedo. E eu estava achando isso uma maravilha, depois de ter me irritado no dia anterior ao ponto de desistir de ir no mercado, depois ouvi-lo reclamar do aclamado Titanic e do meu pequeno ataque de ansiedade pela manhã, tudo que mais queria era conseguir aproveitar o dia sem ter de olhar na sua cara.
O cretino tinha o dom para ser insuportável.
Depois que terminei de ver Titanic e em seguida Diário de uma Paixão, subi para o quarto de hóspedes, rolando na cama pelas próximas horas, sem nenhum sinal de sono. Meu coração palpitava e minha garganta estava trancada, sendo assombrada por pensamentos repulsivos. Não conseguia parar de me sentir uma intrusa na casa de Noah e Lily. Tentei fazer as técnicas de relaxamento que aprendi com a psicóloga, mas nada diminuiu minha ansiedade, restando apenas tentar a última opção que era cozinhar. A minha segunda paixão depois da escrita.
Mas apesar de liderar o meu ranking de pessoas mais destetáveis do mundo, uma faísca me acendia no interior, pesando na consciência de modo tão apertado que meu peito corroía. O nó na garganta, dificultava a respiração sempre que era atingida pelas lembranças da noite anterior, e só começaram a aliviar quando passei pela porta do supermercado, imaginando que poderia cozinhar algo como um pedido de desculpas. Ele não tinha culpa de eu estar sobrecarregada com estresse.
Escrever um poema para me livrar da culpa seria mais fácil, no entanto, estava decidida a cozinhar para . Eu só não sabia ainda o que faria. Não o conhecia para saber dizer suas preferências. Será que ele gostava de massa? Ou preferia um prato com carne? Tinha alergias? Restrições alimentares? E se fosse vegano? Balancei a cabeça e sorri, para quem comia bacon e ovos cheios de gordura no café da manhã, era óbvio que não se importava muito com o que comia.
Um risoto de camarão seria uma esplêndida ideia, sofisticado e digno de um pedido de desculpas, além de ter visto um prato fundo belíssimo no armário, os detalhes em dourados combinariam na hora de elaborar o prato. Já conseguia sentir o cheio da riqueza, quando fui sacudida, levando o tapa mais ardido do universo ao ver a embalagem de plástico dentro do freezer, marcando os três dígitos por apenas 800g do crustáceo.
Se a pobreza fosse uma pessoa, estaria me processando por danos morais naquele momento.
Fiz uma careta involuntária, Mia gargalhou no carrinho e não pude evitar de fazer cócegas em sua barriga. Até a pequena estava zombando de mim.
O risoto era um prato relativamente fácil de fazer para as poucas horas que possuía e que agradava a maioria das pessoas, mas fazer isso, significaria levar a minha situação financeira para o abismo e não merecia tanto. Empurrei o carrinho, me sentindo uma idiota por ter agido daquela forma na noite passada, queria mostrar a ele que eu não era tão irritável como pensava.
— E por isso você está aqui, vagando como uma assombração em busca de algo interessante, nem sabendo se ele vai gostar. — pensei alto demais, notando que duas mulheres me encaravam e sussurraram entre elas. — E ainda vou ser considerada uma maluca. — revirei os olhos, guiando o carrinho para a parte do açougue. — Mia, me ajuda, do que ele gostaria? — a que ponto cheguei para pedir ajuda a uma criança de 2 anos?
Peguei a embalagem de carne bovina e mostrei para a pequena que não esboçou reação.
— Sério? — arquei a sobrancelha. — Eu poderia fazer tantas coisas. — devolvi para a prateleira, pegando a próxima opção, uma fonte rica em proteína.
Mia abriu um sorriso, parecendo concordar com minha escolha. Encarei o pacote, franzindo o cenho ao tentar pensar em uma receita para fazer com a carne de frango, eram tantas opções que não sabia qual seria a melhor para a ocasião. Eu poderia temperar com ervas frescas e limão, depois levar ao forno para assar com batatas, ficaria uma delícia, mas me custaria muito tempo de preparo e não tinha horas o suficiente para isso. Bufei, estava tão acostumada a cozinhar bovinos e crustáceos que me encontrei dentro de uma bolha fria e vazia.
Coloquei o pacote no carrinho, bastante pensativa. Mia me observava com curiosidade, enquanto caminhávamos por entre a seção de frios.
— Mia, temos o ingrediente principal para o jantar. — disse, analisando as opções na prateleira. Requeijão, queijo parmesão, muçarela, manteiga. — Agora, vamos ver o que mais precisamos para fazer um prato delicioso. — peguei a embalagem de queijos e coloquei no carrinho, ainda em dúvida do que faria.
Percorri os corredores, pegando alguns ingredientes pelo caminho, como arroz, latas de milho e ervilha, e mais alguns tipos de queijos diferentes. Estava pensando em uma ideia específica e arriscada, que se consolidou quando adentrei a parte dos legumes frescos. Sorri, embrulhando as opções que listei na minha cabeça, sendo minuciosamente inspecionada por Mia.
— Acho que isso vai ser o suficiente. — pensei e depositei um beijo no rosto da pequena. — Vamos, Mia, temos um jantar para preparar! — ditei, o estômago agitado pela ansiedade da escolha.
Enquanto pagava no caixa do mercado, pude notar que minhas mãos estavam levemente trêmulas. Não era de costume ficar tão nervosa por conta de um simples jantar, havia feito milhares de vezes a receita durante a vida, não tinha segredos. Eu sempre fui uma cozinheira excelente, no entanto, algo lá no fundo me incomodava, poderia me tirar do sério, me irritar profundamente, mas somente de imaginá-lo odiando minha comida, me causava calafrios na espinha.
Eu queria que ele gostasse.
Sacudi a cabeça, tentando afastar qualquer pensamento que roubasse minha concentração. Não poderia deixar me afetar daquela maneira por uma situação que estava completamente fora do meu controle, poderia simplesmente fingir que não gostou apenas para me provocar, então não tinha porque esperar algo dele. Respirei fundo dentro do táxi a caminho de casa, tentando manter minha mente calada por todo o trajeto, enquanto me distraia rolando o dedo pela tela do celular.
Ajeitei Mia adormecida em meus braços e beijei sua testa, ela ficou tão cansada que assim que saímos do mercado não hesitou em dormir em meu colo, tão tranquila e serena. Afastei o celular, alargando um sorriso, a observando, apreciando os traços da pequena que tanto lembravam ao pai, sendo uma miniatura delicada de Noah. Acariciei sua bochecha com o polegar, a ponta de saudade perfurando meu peito, eu daria tudo para estar com meu irmão naquele momento.
Se Noah estivesse vivo, nunca estaria passando pela indecisão de cozinhar para .
O celular vibrou no banco do carro, encarei a tela, notando a mensagem pulando no topo, revelando o nome já tão conhecido. Massageei a testa com os dedos, fechando os olhos e deixando o suspiro de cansaço escapar por entre os lábios. Havia me esquecido completamente de que tinha marcado uma consulta online com a psicóloga às 19h00min, dali há exatamente 30 minutos. Como pude esquecer de algo tão importante quando estava planejando um jantar de desculpas? , a mulher mais organizada no mundo, esquecendo-se de abrir a agenda por um minuto para verificar seus compromissos.
Era o fundo do abismo.
O motorista parou assim que chegamos ao endereço e reconheci o pequeno jardim de flores e o caminho de pedra até a varanda. Por sorte, quando desci do carro, o homem me ajudou com as sacolas do mercado, levando até deixar próximo a porta de entrada. Agradeci e paguei a corrida o desejando boa noite, equilibrando Mia nos braços com cuidado para não a acordar, a pequena quando dormia a noite inteira era o verdadeiro paraíso, mas quando acordava no meio da madrugada chorando e berrando, tornava-se um pesadelo.
Li uma vez que os bebês possuem a energia triplicada de um adulto normal, então não precisavam de exatas oito horas de sono para estarem novas em folhas para brincar e se divertirem. E com Mia não era diferente, alguns dias era uma luta intensa para fazê-la dormir, e quando conseguia tinha que ser cautelosa para colocá-la no berço antes que acordasse e o ciclo vicioso começasse outra vez. Ali em meus braços, a calmaria me atingia, ela dormia tão serena que imaginei que ficasse as próximas horas assim.
Girei a chave na fechadura, empurrando a porta com a ponta do pé, tomando todo o cuidado do mundo, parecendo que carregava uma bomba relógio que em qualquer momento fosse explodir e destruir toda a Nova Jersey. Deixei as compras na varanda e adentrei a casa, não me preocupando em acender as luzes, notando que apenas a cozinha estava iluminada, cheguei nos primeiros lances de escada e passei a subi-los, não conseguindo desviar a atenção do rosto de Mia, temendo que os olhos verdes esmeraldas despertassem.
— Srta. . — escutei meu sobrenome ser pronunciado contra minhas costas.
Paralisei na escada, a garganta seca pelo susto que quase me desequilibrou. Olhei por sobre o ombro e encontrei a mulher de meia idade, parada no final dos degraus, com um guardanapo em mãos, enxugando os braços e dedos molhados. Não consegui enxergar direito as feições da estranha, devido à pouca iluminação, mas algo em sua voz me soava familiar, um timbre de conforto e aconchego. Notei brevemente as vestimentas pretas com detalhes minuciosos em brancos nas mangas e barras, o avental amarrado na cintura me dava a ideia de quem ela era.
— Hum... Oi. — virei-me lentamente, tentando comportar os pés no pequeno degrau.
— Olá! Posso chamá-la de ? — ela abriu um sorriso simpático.
— Sim... Pode sim... — falei rápido, tentando espantar o nervosismo. — Desculpe-me, foi o que chamou você?
Ela riu, balançando a mão.
— Oh, não. Eu trabalhava para o Noah e a Lily, era a empregada doméstica da casa antes deles... Bem, você sabe. — notei um finco de tristeza transparecer em seu rosto. — Me chame de Greta.
Assenti e passei a língua nos lábios ressecados.
— Greta, é um prazer. — sorri amável. — Podemos conversar depois, só vou colocar a Mia no quartinho. — indiquei a pequena com a cabeça, passando a olhá-la.
— Claro, , a casa é sua. — sorriu, mexendo as mãos com o guardanapo.
A casa é sua.
— Gostaria que eu fizesse alguma coisa enquanto isso? Posso preparar o jantar. — sugeriu, indicando a cozinha.
— Ah, eu... Poderia pegar as sacolas de compras na varanda? não consegui carregá-las. — disse, sem jeito. — Eu iria preparar o jantar, deve chegar daqui a pouco, se não se importar em adiantar algumas coisas. — falei com receio dela me achar uma completa inútil.
— Não se preocupe, estou aqui para ajudá-la em tudo o que precisar. — deu as costas, abrindo a porta de entrada e pegando as sacolas.
Meneei um aceno, voltando a subir os degraus das escadas a caminho do quarto de Mia. Então Noah e Lily tinham uma empregada doméstica e eu nem sequer sabia da existência dela? Sacudi a cabeça, confusa e ainda em choque pelo pequeno susto que tomei, não estava acostumada a lidar com estranhos invadindo a minha privacidade, já bastava ter que aguentar a presença imponente de pela casa.
Entrei no quarto de Mia, pressionando o interruptor com o cotovelo e me guiando até o berço, colocando a pequena sobre os lençóis macios. Puxei a cobertura para cobri-la e fiquei ali, parada com as mãos apoiadas nas grades de madeira, sendo invadida por pensamentos que pareciam ter adquirido vida própria. Respirei fundo, massageando as têmporas, precisava de espaço para assimilar tudo o que estava acontecendo, comecei a numerar a lista de afazeres invisível, atropelando os pensamentos intrometidos, precisava urgentemente retomar o controle da minha vida.
A cor verde sempre foi a minha favorita. Brilhante, cheia de vida e clorofila. A água fria descia pela torneira, limpando as folhas macias e suaves, levando todos os resquícios de sujeira que pudessem. A textura delicada exigia toda a minha delicadeza, dedos leves e uma calmaria sem fim. A bacia azul, rasa, ao meu lado repousava a alface que esperava para se transformar em uma salada rica em vitaminas e minerais.
me chamava de coelhinha e quando o assunto era verduras e legumes, tinha que concordar com ele. As chances de eu me perder e ser encontrada saltitando em uma horta cheia de fontes de fibras e pobres em calorias – que ajudavam a promover a saciedade e ajudar a controlar o peso na balança – eram altíssimas. O primeiro apelido que combinava comigo.
Desliguei a torneira, abrindo o forno levemente para verificar a coloração do queijo que gratinava. O cheiro estava inebriante, envolvendo a cozinha em um aroma tão delicioso que revirava meu estômago, roncando e me fazendo salivar como um cachorrinho faminto. Fechei o forno e era como se tivesse me tornado um desenho animado, flutuando pelo cômodo, enquanto inspirava a fumaça no ar.
Cozinhar me fascinava e nem notei quando o sorriu satisfeito preencheu meus lábios. Se não gostasse do meu sumptuoso arroz de forno com frango, eu mesma o jogaria do primeiro abismo que encontrasse, porque o mundo ficaria melhor sem um homem tão frio vagando pelas ruas. Até Greta ficou impressionada com meus dons culinários, pedindo que guardasse um pouco para almoçar no dia seguinte, então não tinha como alguém renegar o meu talento.
E precisava lembrar de agradecer a Greta pela ajuda. Sem ela, não conseguiria terminar tudo a tempo. Enquanto me consultava com a psicóloga, a mulher se encarregou de cortar os legumes e preparar o frango, deixando para mim apenas a finalização, que era a montagem do prato e o tempo de preparo no forno. Também tivemos tempos para nos conhecer melhor, apesar dela ter tido que ir embora, dizendo que tinha passado apenas limpar a casa e aproveitar para me conhecer depois que Jeremy a procurou e contou sobre a guarda da pequena Mia.
Greta era uma mulher com seus 50 anos, tinha os olhos castanhos, caramelos, a pele levemente enrugada com sardas espalhadas pelas bochechas e nariz. Os cabelos pretos se misturavam a alguns fios brancos e caiam em ondas até os ombros. Além de possuir um conhecimento gigantesco com crianças, chegando a me dar algumas dicas para lidar com Mia – dicas que havia me esquecido de anotar, mas a teria por perto para me lembrar.
E a maior surpresa que tive, foi quando contou que Lily a trouxe para trabalhar em sua casa, quando se conheceram no haras da família . Greta foi a babá dos gêmeos e ajudou a criá-los, tendo que ter muita paciência para controlar um pequeno , inconsequente e sem limites, correndo entre os estábulos e assustando os cavalos. Eu ria conforme me contou as travessuras dos dois que quase a deixaram maluca, não conseguindo imaginar que minha cunhada tinha sido uma garota tão travessa quanto o irmão.
A relação das duas apenas ficou mais forte com o tempo e quando Lily se casou com Noah, não pensou duas vezes antes de trazer Greta para trabalhar em sua casa.
— Lily, era como minha filha. — confessou, com os olhos marejados. — sempre foi arrisco, não gostando dos cuidados de uma babá. — ela riu, tentando espantar o semblante carregado de tristeza. — E quando eu soube do acidente, fiquei tão devastada... Eu só conseguia pensar na pequena Mia. — segurou minha mão e a apertou, buscando consolo.
Cobri sua mão com a minha, tentando confortá-la com o meu calor. Seu olhar estava estranho, os glóbulos oculares tão apagados que transpareciam a sombra da sua tristeza que despertou uma dor intensa em meu peito. Eu poderia ter perdido o irmão, mas Greta perdeu algo maior, uma filha, a menina que viu crescer por toda a vida.
Mas apesar de tudo, ela estava feliz e aliviada por saber que eu e fomos os escolhidos para ficar com a guarda de Mia, afirmando que não existia pessoas melhores do que os tios da pequena. Segundo Greta, era como se Noah e Lily, por menor que seja, vivessem em nós.
Cortei as folhas de alface em pequenos pedaços para ficarem melhores na apresentação do prato. Manuseei a faca com cuidado, desviando os olhos por alguns minutos para encarar a tela do celular que reproduzia mais um episódio da minha série criminal favorita. Chicago P.D. era meu vício, depois dos filmes de romance, gostando de assistir os episódios sempre que cozinhava, realizava atividades domésticas ou tinha um tempo livre.
Finalizei a salada, temperando com os temperos favoritos. Coloquei as luvas de silicone, abrindo e retirando a travessa de vidro do forno, acomodando sobre a mesa organizada com os pratos e talheres, junto com a jarra cheia de suco de laranja. Afastei-me da mesa em dois passos e uni as mãos em frente ao rosto, mordiscando as pontas dos polegares, tentando raciocinar se estava tudo no seu devido lugar.
Esfreguei o rosto com as mãos e suspirei, encarando a mesa novamente. Meu coração batia acelerado, parecendo prestes a correr uma maratona e um frio na barriga me impedia de respirar fundo. Por que estava sentindo minha pele fervendo como se estivesse prestes a entrar em colapso? Era só um jantar de desculpas, apenas isso, então por qual motivo estava tão nervosa pela presença de ?
Havia algo inexplicável acontecendo, me deixando inquieta e confusa. Ouvi a porta da frente se abrindo e fechei os olhos por um instante, tentando acalmar os batimentos descompassados que batiam em meus ouvidos. O que estava acontecendo comigo? Eu nunca tinha perdido o controle daquela maneira e era essa falta que estava me assustando, no fundo, era como se o destino estivesse me avisando que algo estava prestes a mudar.
Capítulo 7
Pisquei algumas vezes, jogando a cabeça para trás até que o encosto do banco do carro me acertasse com um solavanco brusco. Apertei os olhos, implorando para os deuses que a ardência concedesse uma trégua de paz pelo menos uma vez no dia inteiro, as horas se arrastaram em uma tortura tão lenta e torturante me carregando para o abismo. A cada minuto temia entrar em colapso, meu corpo insistindo em me lembrar da exaustão e aproveitando para aplicar uma lição de moral. Cheguei ao ponto de que dormir não era mais uma obrigação, mas sim uma necessidade urgente
A irritação dominava cada partícula do meu corpo, enfurecendo e fazendo com que nem mesmo Aidan e Madisson conseguissem aguentar o mau humor infernal. Estava completamente fora de controle, capaz de atirar a primeira pessoa que me irritasse do penhasco mais alto que resultasse em uma queda dolorosa e mortal. Era impressionante o quanto me tornava psicótico pela falta de sono.
O dia inteiro passei preso atrás de uma mesa, revisando os casos de internações, deixando claro para Madisson que ficaria encarregada de atender todos os pacientes que chegassem à clínica. Mas ao invés de me concentrar no trabalho, só conseguia pensar nas diversas maneiras de torturar por ter me feito passar por aquele tormento. Imaginei-a pendurada no lustre da sala enquanto a obrigava a assistir filmes de terror. Invocação do Mal seria um belíssimo castigo.
A vingança perfeita.
Mais cedo, quando estava sentado à mesa da minha sala na clínica, girava uma caneta entre os dedos, olhando para um ponto fixo na parede. Os cotovelos estavam apoiados na madeira, enquanto minha mente planejava os passos para meu plano de retaliação. Até a porta se abrir, atraindo minha atenção e me puxando do abismo cruel, frio e desequilibrado no qual mergulhei de cabeça e me afogava.
Madisson jogou os cabelos ruivos por sobre os ombros, colocando a mão na cintura, ficando apoiada com a outra na maçaneta da porta. O rosto fino, o queixo em triângulo destacava as feições delicadas, mas que naquele momento ofuscaram quaisquer sinais da mulher calma e empática que conhecia. Os lábios pequenos estavam torcidos em um bico tenebroso, os olhos verdes me fuzilavam como se estivesse prestes a me queimar na sua frente, as sardas ao redor do nariz empinado pareciam mais aparentes com a sua raiva.
— Posso saber o que está acontecendo com você? — ela invadiu a sala, batendo a porta atrás de si.
— O que você quer, Madisson? — estava impossível controlar o temperamento.
— Eu quero saber que bicho te mordeu hoje, porque com certeza foi venenoso. — cruzou os braços.
Soltei a caneta e esfreguei o rosto com as mãos, era só o que me faltava.
— Está todo mundo falando que você dormiu desacompanhado ontem, por isso está com esse mau humor dos infernos! — acusou, apontando para a porta.
Sorri com o canto dos lábios, as pálpebras pesavam e os músculos tensos.
— É tão bom saber que os meus funcionários não têm nada melhor para fazerem, além de falarem da minha vida pessoal. — franzi as sobrancelhas em uma expressão retorcida.
— É claro, com o jeito que os tratou mais cedo no resgate do cãozinho, você deu motivos para falarem. — Madisson venceu a distância até a mesa, espalmando as mãos na madeira e me encarando com os olhos intensos.
— Eles não sabiam se deveriam segurar o cachorro ou pegar a focinheira. — dei de ombros, unindo as mãos em frente ao peito e as apertando com força.
— Qual o seu problema, ? A maioria deles são estagiários. — como uma boa puritana saiu em defesa dos estudantes.
— Eles estão aqui há cinco meses, deveriam saber que um cachorro em situação de maus tratos iria reagir agressivamente com o contato humano. — mostrei os dentes, pronunciando cada palavra.
— Igual a você? — arcou as sobrancelhas, torcendo os lábios.
— Está me chamando de vira-lata?
— Você é um vira-lata, . — confirmou, tomando distância da mesa. — Está espalhando ódio gratuito por essa clínica o dia inteiro, mas ao contrário de um cachorro, sabemos que é porque tomou um fora ontem.
Ri, não conseguindo segurar a risada que escandalizou do fundo da minha garganta, ela não poderia estar falando sério.
— Foi isso que o Aidan te contou? — suspirei pesadamente. — Querida, Madisson, eu não tomei um fora, eu nunca tomo um fora.
Ela revirou os olhos.
— Ele me contou que a te fez virar a noite, e pelo seu estado, digamos que o “entretenimento” foi intenso. — riu com sarcasmo.
— Madisson, se veio aqui para encher a minha paciência, a porta fica logo ali. — apontei com sutileza para a saída, apertando os olhos com força por causa da dor de cabeça que me apossou.
— Ahh... Então é mesmo esse o motivo do seu tormento. — ela gargalhou jogando a cabeça para trás, se deliciando com a minha desgraça. — Eu vivi para ver o poderoso perder o controle para uma mulher.
Apertei a ponte do nariz, cerrando o punho, a fúria me consumindo.
— Você e o Aidan se banqueteiam com a minha miséria. Um verdadeiro espetáculo de crueldade.
— Não seja dramático, . — disse com um sorriso sarcástico.
Recostei o corpo na cadeira, esfregando a testa com os dedos, não conseguindo desviar os olhos da ruiva à minha frente. Eu não sabia o porquê todas as mulheres resolveram que seria uma ótima ideia me enlouquecer.
— Então, também veio aqui para me dar conselhos? — disparei, a assistindo se acomodar na cadeira à minha frente. — Como já sabe não me dou muito bem com mulheres.
— Eu sou a única que ainda tenta colocar um pouco de juízo em você.
— Olha para você, Madisson, parece a minha mãe. — zombei, fazendo uma careta e torcendo os lábios.
— , o que você precisa é de uma boa dose de whisky. — bateu na mesa e se levantou, caminhando até o meu armário onde sabia que eu escondia uma bela garrafa de Whisky Johnnie Walker Blue Label.
— Eu não acho que beber, vai ajudar a resolver os meus problemas. — girei na cadeira e cruzei os braços, a observando abrir a garrafa e pegando dois copos.
— Se você não quer beber, ótimo, eu bebo por você. — o sorriso sem vergonha que a iluminou revelava suas verdadeiras intenções.
— Não vai beber o meu whisky caríssimo. — levantei-me e tomei a garrafa das suas mãos, fechando a tampa, a segurando longe das mãos atrevidas. —Sabe o quanto foi difícil arrumar uma garrafa dessas?
— Você precisou apenas salvar o Shih Tzu de um escocês riquíssimo. — ela revirou os olhos.
— E lembra como foi difícil salvar aquele cachorro da Dermatite Atópica?
Havia sido um caso tão complexo que cheguei até a duvidar das minhas capacidades de salvar o pequeno animal de um destino tão cruel. O sofrimento do coitadinho era evidente, o tratamento exigiu que ficasse quase um mês internado sob os meus cuidados, sendo tratado com antibióticos e diversos cremes dermatológicos. E quando finalmente o alívio da recuperação completa chegou, a gratidão do tutor se materializou com a garrafa caríssima do whisky, dizendo que era um presente por toda a dedicação e o carinho que tive com seu cachorro.
E desde aquele dia a bebida se tornou meu consolo amargo, um elixir que só ousava tocar quando o estresse me esmagava ou tormentos colossais me assombravam.
— Em compensação, este whisky é um veneno maravilhoso. — Madisson alargou o sorriso interesseiro no canto dos lábios.
Rolei os olhos.
— E você e o Aidan gostam de se aproveitar do meu presente.
— , é o preço que cobramos para ter que aguentar você. — ergueu os olhos em uma expressão de inocência.
Fechei os olhos por um instante e suspirei.
— Você vai me dizer o que veio fazer aqui ou vai continuar jogando seu charme barato para cima do meu whisky?
— Eu quero que faça amizade com a . — revelou com uma serenidade absurda.
Sorri com o canto dos lábios e gargalhei em seguida. Era uma piada, tinha que ser.
— Perdeu seu tempo, Madisson. — erguei as sobrancelhas.
Olhei para a garrafa, o líquido âmbar agitado. Refleti se realmente não era uma boa ocasião para afogar minhas angústias no bálsamo delicioso. Eu precisaria de forças do submundo para aguentar aquela conversa, a ruiva teimosa não estaria disposta a desistir até me convencer de que me aproximar de resolveria os meus problemas. Uma boa dose de álcool me ajudaria.
— Nem pense em abrir essa garrafa, . — Madisson fuzilou meus pensamentos. — Eu quero você sóbrio para falar sobre a .
— Você queria beber até alguns minutos atrás.
— Mudei de ideia, se você ficar bêbado vai esquecer de tudo o que eu disser.
— Talvez eu quisesse esquecer. — soltei o ar pela boca. — Não vai me convencer a virar “amiguinho” da .
Madisson crispou os lábios, negando com a cabeça.
— E qual o problema nisso, ?
— Ela é atrevida, respondona e extremamente certinha, e o pior, romântica até o último fio de cabelo. — pontuei, abandonando a garrafa no armário. — Somos opostos, isso nunca daria certo. — retornei a me sentar na cadeira. — Me peça para caminhar pelo inferno que será mais fácil.
— Não seja deprimente. — Madisson zombou. — A não parece ser tão ruim assim, só precisa conhecê-la melhor.
— Tenho certeza de que vocês seriam melhores amigas.
Madisson e tinham o mesmo gênero romântico para filmes e livros, ambas estavam em busca do perfeito príncipe encantado. Elas se entenderão tão bem, que ninguém mais poderá separá-las.
— , se continuar agindo dessa maneira, a clínica sofrerá com o seu mau humor. — ela estava preocupada, conseguis ver em seu tom de voz. — Todos estão preocupados, não vemos você assim desde o...
— Desde o término com a Nora, não precisa me lembrar disso. — falei em tédio, aquela mulher era algo que queria poder queimar do meu passado.
— Você é nosso chefe, o respeitamos e o admiramos, não queremos vê-lo resmungando pelos cantos, incomodado com algo que é tão simples de resolver.
— A não é um filhotinho de cachorro que consegue confiar só porque ofereço carinho e ração de qualidade. — esfreguei o polegar no maxilar.
— Mas assim como os cães, a confiança é conquistada. — gesticulou. — Se for gentil, poderá ver que não é tão difícil conviver com ela. — eu suspeitava muito disso. — As mulheres gostam quando são respeitadas, demonstre isso e seus dias serão menos turbulentos. — ela se levantou, apoiando as mãos no encosto da cadeira.
— Madisson, eu nunca morei com ninguém na vida, não sei como fazer isso. — revelei, o tom de voz beirando ao desespero.
— Tenha em mente que uma relação é construída com base na confiança e no respeito. — ela falava com tanta naturalidade e calma, que nem sequer imaginava que eu não tinha ideia de como colocaria em prática com a coelhinha.
— Como eu posso fazer isso?
— , eu vejo você controlar essa clínica e possuir o respeito dos funcionários há anos. — emanou um aceno. — Será uma tarefa fácil para você.
Era diferente, comandar a Institute of Veterinary Medicine e manter os funcionários e estagiários caminhando na linha, não era nada comparado ao furacão que era. Aquela mulher era a fera que nunca conseguiria domar, seu temperamento e o modo de vida que levava não eram nem um pouco normais perto das experiências que eu vivenciava. Preferia mil vezes lidar com um guepardo selvagem e agressivo do que com ela.
O felino, ao menos, tinha regras claras: respeito ao território, cautela nos movimentos e a promessa de uma mordida rápida e fatal se ultrapassasse os limites. , por outro lado, era um labirinto de emoções e reações imprevisíveis, um enigma que me desafiava a cada instante. Não havia manual de instrução, apenas a certeza de que a cada passo em falso poderia desencadear uma tempestade de proporções épicas.
E para um homem como eu, que sempre prezou pelo controle, essa falta de previsibilidade era aterrorizante.
Depois que Madisson saiu da sala, não hesitei em pegar minha mochila e ir embora, não conseguiria passar mais nenhum segundo na clínica. Nada me faria concentrar nos arquivos, porque tudo que conseguia fazer era me deixar ser contaminado por toda onda de sentimentos insuportáveis que vinha somente por pensar na coelhinha.
Porra, eu estava completamente irritado!
Madisson e Aidan me encheram de conselhos durante o dia inteiro e por mais que minha língua coçasse para mandá-los para o inferno, sabia que só queriam me ajudar. Estava ciente do quão insuportável me arrastei pela clínica e tinha que admitir que precisava resolver isso, antes que a situação saísse do controle. Os estagiários não deveriam sofrer por causa da minha falta de sono e controle, a clínica não poderia correr o risco de ser prejudicada porque não sabia lidar com uma mulher.
É claro que era mais fácil ignorar a presença de e fingir que ela sequer existia, mas com uma bebê no meio, tornavam a situação mais complicada. Era minha obrigação conviver com , por mais que isso me perturbasse, eu tinha um dever com Mia e deveria cumprir com maestria. Mas olhando agora através do vidro do carro, estacionado em frente à minha nova casa, estava começando a me deixar ser corroído pela irritação outra vez.
Era uma péssima ideia forçar uma amizade com , mas tinha que tentar, pelo menos, assim teria como argumentar contra Madisson e Aidan pelos próximos dias.
Peguei a sacola e a mochila no banco do passageiro, me preparando psicologicamente para enfrentar o furacão que me aguardava quando finalmente passasse pela porta. Desci do veículo, ativando o alarme e venci a distância até a entrada, toquei a maçaneta prestes a abri-la, mas hesitei, olhando por sobre o ombro pelas ruas escuras e desertas de Nova Jersey. As grandes árvores balançavam acompanhando a direção dos ventos, as luzes brancas dos postes iluminavam porcamente o asfalto e o silêncio que dominava o ambiente parecia me puxar como uma corda invisível presa ao meu pescoço.
E se eu não entrasse e passasse a minha noite se embriagando no primeiro pub que encontrasse?
Balancei a cabeça, afastando a ideia absurda que parecia mais tentadora que o comum. Abri a porta, sentindo-me pronto para enfrentar qualquer coisa, menos o cheiro inebriante e envolvente que me abraçou assim que avancei o primeiro passo. Estreitei os olhos, olhando ao redor da sala, encontrando as luzes amarelas dos abajures acesas e a televisão desligada, sendo a cozinha o único cômodo iluminado da casa.
Fechei a porta com lentidão, desconfiado do silêncio perturbador que pairava sobre o lugar. Meu estômago traiçoeiro roncou quando uma nova onda do aroma salgado e delicioso me atingiu em cheio, e fui obrigado a ser conduzido até a cozinha para descobrir o que estava acontecendo. E nada me preparou para a cena intrigante que encontrei, meus olhos se abriram e entreabri os lábios, impressionado com o tamanho esforço que estava disposto logo a minha frente.
— , boa noite! — exclamou com um entusiasmo desconhecido. — Espero que esteja com fome, fiz arroz de forno para o jantar. — era brincadeira, talvez, um sonho.
segurava a espátula na mão direita, cortando uma generosa porção da comida dentro da travessa de vidro localizada ao centro, servindo o prato branco e sem detalhes. O queijo gratinado por cima esticou com o movimento e a cena remexeu meu estômago de uma maneira que me incomodou. A mesa da cozinha estava coberta por uma toalha azul-bebê com detalhes em brancos, acomodando um copo ao lado de uma jarra cheia de um líquido laranja e ao lado estavam os talheres de prata junto com duas folhas de guardanapo. Uma bela mesa de jantar para apenas uma pessoa.
Engoli em seco, e fiquei ali, paralisado ao lado do batente da cozinha, tentando assimilar a situação surpreendente, enquanto encarava servindo o prato com toda a delicadeza e calma do mundo, enchendo o copo com o suco desconhecido. Comecei a me perguntar o que tinha acontecido para ela cogitar cozinhar para mim sem motivo, depois de tudo o que aconteceu na noite anterior. Ela me odiava, então o que era tudo aquilo?
Trinquei o maxilar ao pensar que poderia se tratar de uma armadilha, não era possível que tinha cozinhado de pura e espontânea vontade para o homem que jurava odiar eternamente. Eu nem sabia que ela sabia cozinhar.
— É melhor comer logo, , senão poderá esfriar. — ela endireitou o corpo e apontou para a cadeira em frente ao prato cheio de comida.
Pisquei, saindo do devaneio, atravessando a cozinha até ficar ao lado da mesa, ainda encarando tudo.
— O que significa tudo isso, ? — perguntei, a voz carregando minha desconfiança.
Passei o dedo indicador na toalha e a mirei aguardando uma explicação, ela remexeu as mãos, embolando os dedos em uma atitude claramente nervosa e muito suspeita.
— E-eu... Queria pedir desculpa pelo que houve ontem e hoje de manhã. — gaguejou, parecendo não familiarizada com as palavras.
Arquei a sobrancelha ao notar que fugia do meu olhar, não querendo encará-los.
— Não seria mais fácil apenas me dizer isso?
— Sim, mas... — ela então finalmente me olhou, ficando presa no enlaço dos nossos olhos. — Eu sempre tive a mania de cozinhar para o Noah quando tinha que pedir desculpas, é uma peculiaridade minha. — explicou-se e meneei um aceno, percebendo a sinceridade em sua fala.
Analisei suas feições por mais alguns minutos, em busca de algo que pudesse revelar algo a mais por trás daquele jantar. Eu não confiava em o suficiente para arriscar empurrar a comida pela garganta do meu precioso corpinho musculoso.
— Então, por que está tão nervosa? — questionei, atípico, atento a suas reações.
— Eu não sei se vai gostar. — ela respondeu rápido demais, o que aumentou ainda mais a minha desconfiança.
Ponderei por um momento, desviando o olhar para analisar a mesa novamente. Ajeitei a alça da mochila no encosto da cadeira e deixei a sacola ao lado do prato. Meu olhar levantou até o rosto de , prendendo-me aos olhos castanhos que revelavam o poço de ansiedade, curvei um sorriso alinhado, disfarçando o deboche nos lábios, acomodando o corpo na estrutura de ferro, os músculos relaxando contra as almofadas macias do assento e encosto.
— Jante comigo, . — indiquei o lugar vazio à minha frente.
Ela analisou a ideia, olhando para a cadeira.
— Tem muita comida aqui, tenho certeza de que poderá me ajudar a comer tudo isso. — ofertei.
— Estou sem fome, a comida é toda sua. — desconversou, coelha esperta.
— Então... — apoiei os dedos ao lado da cerâmica do prato e o empurrei em sua direção. — Não vai se importara de experimentar. — sorri malicioso. — Eu não vou comer a sua comida sem que você prove antes. — estreitei os olhos, a fuzilando.
Acompanhei quando os glóbulos castanhos adotaram o tom escuro e sombrio, destroçando qualquer brilho que ousasse aparecer. Ela poderia ser esperta, mas eu era mais experiente nesse jogo. Cerrou os punhos, soltando o ar pesadamente pelos lábios e poderia jurar que estava prestes a pegar o garfo e enfiar fundo na minha garganta.
— Está insinuando que armei esse jantar para te matar? — arcou uma sobrancelha, apertando a ponte do nariz. — , você é... Você é um cretino, sabia? — cuspiu e percebi o tamanho do seu ódio.
— Eu não sou idiota, . — devolvi. — Quer mesmo que eu acredite que de repente, do nada, você passou a ser boazinha comigo? — ergui o queixo, entrando na afronta.
— Você não é capaz nem de aceitar um simples pedido de desculpa, sem fazer o inferno antes? — eu a irritei e estava me deliciando com isso.
— Não quando o pedido vem de você. — lambi os lábios em uma provocação ousada.
E apesar da minha segurança e o glorioso deleite, não esperava pela reação repentina de . Sua mão direita apertou o encosto da cadeira, queimando minha pele através da camiseta, enquanto a esquerda apoiava sobre a mesa. Seus ombros rígidos se inclinaram para frente, e seu rosto se aproximou tanto do meu que nossos narizes poderiam facilmente se resvalar. Sua respiração quente e firme aqueceu meus lábios, e as sobrancelhas arqueadas acompanhavam a intensidade dos olhos cruéis e abismados.
Curvei os lábios em um sorriso malicioso, sabendo que a tiraria do sério, e deslizei o olhar até pairar sobre a boca carnuda e rosada em uma provocação descarada.
— Acha mesmo que me intimida, ? — sussurrei, a voz rouca e baixa, o olhar fixo no dela. — Você está jogando com fogo.
Ela engoliu em seco, mas não desviou o olhar.
— Eu não tenho medo de você, . — o desprezo como pronunciou meu sobrenome, era como um veneno que me consumia.
— Deveria ter. — aproximei mais nossos rostos. — Porque eu adoro brincar com fogo.
— Mas eu posso ser mais perigosa. — seus olhos se transformaram em fendas crispando fogo para todos os lados. — Agora, coma essa comida antes que eu enfie na sua goela abaixo. — ordenou e notei um leve tremor em sua voz.
Afastei nossos rostos e quebrei o contato visual por tempo o suficiente para pegar o garfo, espetando o arroz de forno, pescando uma porção generosa. Levei a mão até a altura de nossas bocas, posicionando próximo a dela, recebendo a faísca intensa dos seus olhos me fuzilando, possuída pela raiva.
— Só depois de você. — sorri malicioso, a desafiando. — Como posso saber se não está realmente tentando me envenenar, ? — torci os lábios em um apelo silencioso.
— Não seja dramático, . Eu não me prestaria ao trabalho de esconder o seu corpo. — respondeu, irritada.
— Então me mostre que posso confiar em você. — mexi o garfo.
— Você é muito inseguro. — ela negou com a cabeça.
estreitou os olhos em desdém, pegou o garfo com raiva e levou a comida à boca, cada movimento sob minha supervisão. Mastigou com relutância, parecendo não apreciar o gosto, por mais que estivesse uma delícia. Seus olhos voltaram a se fixar nos meus.
— Satisfeito? — largou o talher, sentando-se na cadeira vaga.
— Ainda não. — resmunguei, o cenho franzido.
— Deveria parar de ser tão teimoso, está uma delícia. — ela cruzou os braços, servindo o copo de suco de laranja e tomando a bebida como se fosse a última maravilha do mundo.
Torci os lábios quando vi lamber os lábios, tirando qualquer resquício do suco. Como ela poderia gostar tanto de uma bebida tão sem graça? Coca-Cola era mil vezes melhor.
Olhei para a mesa arrumada e encarei os talheres, depois a travessa cheia de arroz de forno. Não costumava ter uma mulher cozinhando para mim, sendo tudo novidade. Sempre me virei sozinho, comprando uma pizza, um lanche e passava a noite sozinho, na companhia de algo gorduroso. A última vez que tive alguém cozinhando na minha cozinha foi quando minha mãe foi me visitar e fez questão de preparar um banquete.
O queijo gratinado, dourado, parecia me chamar, exalando uma fumaça quase transparente, invadindo minhas narinas com o aroma mais delicioso que já tinha sentido. Decidi provar, já que era nítido o esforço de para preparar o jantar, e apesar de tudo, a coelhinha parecia cozinhar muito bem.
Segurei o garfo, notando que estava na mira do olhar atento de , ansiando pela minha reação. Provei o arroz de forno e tive que conter o gemido de puro prazer ao sentir o sabor arrebatador que explodiu em minha boca. A textura macia do queijo contrastava com o arroz e o frango, formando aquela combinação deliciosa. Salgado, quente, maravilhoso e tinha gosto de lar. Era como se cada ingrediente tivesse sido escolhido a dedo, cada tempero adicionado com precisão.
— O que achou? — perguntou, os cotovelos apoiados na mesa e o queixo sobre as mãos.
— Não é tão ruim. É até comestível. — retruquei, não daria o braço a torcer.
revirou os olhos.
— Você não confia em mim nem para comer um simples arroz de forno? — o tom baixo, parecia ofendido.
— Com você, nem para atravessar a rua. — zombei, tentando descontrair o clima tenso que nos sondou. — Por que está sendo tão gentil comigo? — soltei, me dando conta de que já tinha perguntado, mesmo sabendo que não era um crime saber a verdade.
encheu o copo novamente, bebericando a bebida.
— , eu atrapalhei a sua noite ontem. Você só queria dormir e eu não respeitei o seu espaço. — confessou, parecendo difícil para ela confessar em palavras. — Eu queria pedir desculpas, mas achei que só dizer não fosse o suficiente.
— E pensou que o jantar fosse completar o pedido? — quis saber, enchendo o prato com mais comida.
Ela meneou um aceno, não conseguindo sustentar o meu olhar, as bochechas coradas.
— , eu trouxe isso para você. — empurrei a sacola da farmácia em sua direção. — Tome um comprimido por dia, irá ajudar com a alergia. — orientei, voltando a me deliciar com o arroz de forno, enquanto ela abria a embalagem.
— Por que comprou um antialérgico? — ela olhou a caixa, lendo o rótulo.
— Pelo menos motivo do seu jantar. — confessei, dando uma chance para o suco de laranja. — Ah! E não tem corticoides. — encarei o líquido no copo, dando um longo gole e ficando mais uma vez impressionado com o sabor.
Foi o melhor suco de laranja que já tomei em toda a vida.
— Obrigada, . — ela sorriu pequeno, desviando o olhar dos meus.
— Aceito suas desculpas, . — um sentimento de alívio pairou sobre meus ombros, como se finalmente eu e a coelhinha estivéssemos nos entendendo pela primeira vez em anos.
Tinha acabado de beber a última gota do suco mais saboroso que já tinha bebido, quando escutei o som estridente e distante do choro de Mia.
Estreitei os olhos, olhando para cima instintivamente, ouvindo soltar o ar ao meu lado parecendo cansada.
— Eu sabia que ela ia acordar. — quebrou o silêncio em um desabafo. — É tão difícil fazê-la dormir. — levantou-se indo em direção às escadas.
— Eu vou com você. — decidi, seguindo-a.
Sky pulou no balcão e miou, no mesmo instante em que sai da cozinha. O ignorei, o sachê de Salmão poderia esperar e o felino estava gordo o suficiente para não morrer de fome. Mia precisava mais de mim agora.
Capítulo 8
A porta do quarto estava entreaberta, a pequena fresta iluminava o corredor. O choro estridente se espalhava pela casa, preenchendo cada cômodo e causando uma sensação estranha em meu peito, a fisgada incomum e latente. Não era especialista em bebês e acho que nunca seria, mas estava disposto a mover céus e terras para ver minha pequena calma e tranquila.
Entrei no quarto, encontrando em frente ao berço, balançando os braços de um lado para o outro. Os ombros rígidos acompanhavam os músculos das costas retesados, dizendo palavras desconexas, sendo a grande maioria uma imploração desenfreada. A voz falha e rouca me dava claros sinais do rosto que encontraria quando pairasse ao seu lado, escutei quando fungou e não consegui conter as sobrancelhas teimosas que arquearam.
Por que a estava chorando? Qual era o problema com as duas?
— Por favor, Mia... — clamou. — Eu não sei o que está acontecendo... — fungou, derramando lágrimas desesperadas.
Venci a distância até elas, posicionando o corpo ao seu lado, olhando da pequena para . As duas mulheres que insistiam em permanecer na minha vida estavam aos prantos na minha frente e não tinha ideia do que fazer para ajudá-las. Engoli em seco, tentando raciocinar no meio do caos que habitava minha mente, o barulho me desconcertou, mas precisava pensar. Eu era o único que poderia fazer alguma coisa.
— ... — chamei, a voz baixa, tentando não a assustar.
A coelhinha soluçou e me encarou com os grandes círculos castanhos, os pequenos pontos dançando ao redor da pupila dominados pelo aspecto terroso. Sua pele clara estava tingida pela vermelhidão, a pontinha do nariz parecendo uma cereja silvestre gigante e as pálpebras levemente inchadas, formando a visão mais delicada que já vi.
— Deixe-me pegá-la. — estiquei os braços e só então notei que minhas mãos estavam trêmulas, os batimentos levemente acelerados.
— E-eu não sei o que ela tem, ... — as lágrimas marcavam um rastro pelas maçãs do rosto dela. — E-ela... E-eu... — embolou as palavras, sufocando nos próprios soluços.
— Eu sei, , está tudo bem. — tentei acalmá-la, sentindo algo se retorcendo em meu peito por vê-la tão desesperada. — Só preciso que fique calma. Vamos resolver isso juntos, mas duas mentes funcionam melhor do que uma. — pisquei, preso no contato visual de nossos olhos.
Fiz menção com as mãos, acompanhando a hesitação de que pendurou por alguns instantes, antes de ceder e entregar Mia em meus braços. A pequena continuava a chorar, as mãos cerradas em punho, as pernas retraídas e o rosto tão vermelho que temi por alguns segundos. A garganta secou ao me lembrar de um artigo que li, que explicava sobre a facilidade dos bebês se engasgarem durante uma crise de choro. Senti um aperto no peito ao vê-la tão aflita.
— O-o que... Você acha que ela tem? — perguntou, a voz afetada e trêmula ao meu lado.
A verdade? Eu não tinha nem ideia.
— Vamos descobrir. — respondi, começando a balançar Mia suavemente. — E você trate de se acalmar. — ordenei, não conseguindo me concentrar com fungando e roendo as unhas.
Comecei a observar Mia com atenção, buscando sinais que pudessem indicar algum sinal de desconforto. Franzi o cenho, acariciando os fios loiros que enfeitavam a pequena cabeça, esfregando os dedos delicadamente ao verificar a temperatura corporal. Ela não parecia ter febre, um fato que retirou uma tonelada das minhas costas. Sua pequena mão envolveu meus dedos em um aperto firme, movendo livremente os membros, aumentando a intensidade do choro.
Descartei a possibilidade de dor física. As lágrimas persistiram e a agitação me levaram a ter uma suspeita, algo que presenciava todos os dias na clínica veterinária. Fiz uma careta e neguei com a cabeça, não era possível que estava pensando em algo assim, passei anos estudando o comportamento dos animais, entre eles, cães e gatos, e nunca associei suas reações com os humanos, até aquele momento...
— Quando foi a última vez que ela comeu? — perguntei, erguendo a cabeça, buscando por .
Ela estava ao lado do berço, roendo a unha do dedo indicador, os olhos nublados e sem brilhos, completamente fora do planeta terra. precisava urgentemente ir atrás de tratamento para conseguir controlar suas emoções, não tinha como uma pessoa viver desse jeito, entrando em pânico sempre que a situação saísse do controle. E conhecendo o caos que nos enfiaram, o descontrole seria um intruso atrevido em nossas vidas. Franziu a testa quando perguntei novamente, tentando formular uma resposta em meio a mente turbulenta.
— Foi antes de irmos no mercado... — olhou para cima, calculando alguma coisa. — Umas três horas atrás, eu acho. — concluiu.
Arregalei os olhos, minha garganta arranhou de surpresa.
— Não pode estar falando sério, . — retruquei. — Três horas?
A coelhinha me olhou, o semblante confuso, ainda roendo as unhas.
— Acha que ela pode estar com fome? — questionou, o fio de voz em dúvida.
— Tenho quase certeza. — e então caminhei em direção ao corredor.
Desci as escadas, o choro da pequena escoando pela casa inteira. vinha logo atrás, o barulho dos seus passos tentando ficar em meu encalço era inconfundível. Mordi o lábio inferior assim que atravessei a sala, chegando na cozinha e olhei ao redor, perdido, pensando em algo que Mia pudesse comer. Sky arregalou os olhos quando me viu e saiu correndo como se tivesse sido disparado de um canhão, ele nunca esteve tão perto de uma criança antes e não o julgava, também era minha primeira experiência com um bebê berrando em meus braços.
Minha mente trabalhava a mil por hora, rodando as engrenagens em busca de uma solução. Encarei a mesa abandonada do mesmo jeito que a deixamos, torci o nariz, aquele arroz de forno não seria uma boa opção para uma criança de 2 anos se alimentar a noite. Ela poderia passar mal e ter indigestão pelo alto teor da gordura dos queijos. Baguncei os cabelos com os dedos, a garganta tão seca quanto o deserto e meu coração palpitando como o inferno, preocupado, confuso e com medo.
Fazia anos que não me sentia desse jeito, o medo se tornou um sentimento que aprendi a dominador depois que comecei a faculdade. Aquilo tudo era culpa da minha irmã e da sua cria, que fez questão de jogar nos meus braços. Começou quando Jeremy decidiu me arremessar para o fundo do abismo, anunciado que a guarda da bebê estava nas minhas mãos junto com a mulher mais insuportável do mundo. Eu morreria antes de confessar isso, mas senti medo de não ser o suficiente para as duas.
E agora, estava apavorado, perdido, quase entrando em pânico.
Balancei a cabeça, não querendo perder o controle dos meus próprios pensamentos. me pagaria muito caro por me abandonar, sozinho, naquela situação. Fui até os armários, abrindo as portas em busca de algo saudável, e por mais que não soubesse quase nada do que isso significava, tinha consciência de que uma criança precisava de algo melhor do que enlatados e bebidas alcoólicas.
— Que droga! — resmunguei sozinho, buscando pela única pessoa que, talvez, pudesse me ajudar.
Os olhos vermelhos e inchados, a preocupação estampada em seu rosto, as mãos inquietas, o leve rubor nas bochechas. A imagem me atingiu com força, causando um nó na garganta, será que era mesmo uma boa ideia? Sendo ou não, era a última esperança para um homem solteiro que nunca teve que cozinhar ou fazer uma lista de compras com produtos saudáveis para bebês.
— O que crianças comem, ? — disparei, a voz carregada de pânico.
Ela fixou meu olhar, entreabrindo levemente os lábios, ponderando uma resposta.
— Como assim o que elas comem, ?
— Qual é a parte do supermercado que é exclusiva para a alimentação de crianças? — perguntei, alargando um sorriso sem graça.
arqueou as sobrancelhas e por mais que tentasse, não resistiu em explodir em uma risada alta, tampando o rosto com as mãos em seguida. O riso estridente misturou-se ao choro da bebê.
— Do que você está rindo? — franzi o cenho, a pontada de uma raiva explodindo em meu peito.
— Desculpa, é que... Eu estou tão nervosa, mas você... — caiu em outra crise de risos. — não existe uma seção específica no supermercado. As crianças não comem ração como os animais.
— Então o que elas comem? — a mirei, começando a ficar mais preocupado. — Ovos cozidos? Batata doce? Frango? Isso é saudável, não é? — disparei sem reconhecer a própria voz.
— Sim, claro. Se você quiser que a Mia vire uma parede de músculos com 2 anos, acrescente Whey Protein na dieta. — gargalhou em outra crise.
Tencionei o maxilar, faltando apenas um fio da minha paciência para esganar aquela coelha dos infernos.
Ela respirou fundo, passando as mãos no rosto e limpando as lágrimas teimosas que acumularam no canto dos seus olhos.
— Já acabou com a sua crise de risos? — disparei, balançando Mia que começou a chorar mais alto e desesperador.
— Desculpa... — murmurou, não conseguindo conter os sorrisos atrevidos.
Revirei os olhos, voltando a estudar as feições de Mia como se a qualquer momento a solução para os meus problemas saltasse na testa da pequena. Engoli em seco, era um choro tão insistente, agudo, que só conseguia me lembrar dos filhotes famintos que cuidava na clínica.
— A Mia ainda toma fórmula. — a coelha indagou depois de alguns minutos de recuperação. — Apesar de já estar em introdução alimentar.
— É como o leite que preparamos na clínica para os filhotes. — comentei alto demais. — Temos isso aqui?
assentiu, indo em direção ao armário em cima do micro-ondas na bancada, pegando a enorme lata de alumínio com o rótulo azul indicando as diversas vitaminas que o leite artificial concentrava. A embalagem era diferente da qual estava acostumado, apesar de possuírem a mesma função no final das contas.
— Como tem tanta certeza de que é fome? — quis saber, preparando a mamadeira.
— Bebês precisam comer com frequência, estão em fase de pico de crescimento. — beijei o topo da cabeça de Mia, desejando de alguma forma retirar todo seu incômodo.
— Pico de crescimento? — arqueou a sobrancelha, levando a mistura ao micro-ondas.
— Acontece com os filhotes também, é quando tem um aumento repentino no apetite, geralmente acompanhado de irritabilidade e choro. — expliquei, encarando o cronômetro no pequeno visor. — É como se o corpo deles estivesse pedindo mais combustível para crescer.
sorriu com o canto dos lábios.
— Aprendeu isso na faculdade de veterinária?
— Na verdade, foi na prática. — acompanhei, ansioso, enquanto ela retirava a mamadeira do micro-ondas, jogando os cabelos sobre os ombros. — A clínica recebe muitos filhotes todas as semanas e cuidamos deles até serem adotados.
— Então, aprendeu a ler os filhotinhos? — quis saber curiosa, testando a temperatura do leite em seu pulso.
— Cada choro tem um som diferente, alguns são estridentes, agudos, baixos, sôfregos. — expliquei. — Com o tempo, você aprende a diferenciá-los.
me observou com atenção, enquanto estava empolgado em explicar as maneiras de identificar os diferentes tipos de choro dos filhotes e o quanto são parecidos com os bebês. Ela absorvia cada palavra, os olhos brilhantes em surpresa, assemelhando-se a uma garotinha nerd, concentrada em aprender mais sobre a lição de casa.
— Acha que os bebês são parecidos com os filhotes? — estendeu a mamadeira em minha direção.
— Talvez.
Peguei o leite, sentando-me em uma cadeira na mesa da cozinha, ajeitando Mia em meu colo e oferecendo a mamadeira para a pequena. No início, ela hesitou, relutando, mas bastou apenas um pouco de insistência para agarrar o bico, mamando com voracidade, sugando o líquido com força. O choro diminuiu gradualmente, dando lugar a pequenos suspiros de satisfação, o som suave da sucção preenchendo a cozinha, um ritmo reconfortante que me acalmou instantaneamente.
Os bracinhos agitados se acalmaram, as mãozinhas delicadas encontrando meu braço em um aperto suave aquecendo minha pele, enquanto as perninhas balançavam em um ritmo feliz. Observei Mia, os olhinhos fechados, o rosto relaxado, e uma onda de ternura me invadiu. Um suspiro cansado escapou por entre meus lábios, aliviando a tensão que se acumulava em meus ombros. Era incrível como um ser tão pequeno podia despertar sentimentos tão intensos, uma mistura de proteção, admiração e um calor inexplicável no peito.
E no fundo, minha teoria se confirmava: os filhotes e os bebês compartilhavam mais semelhanças do que eu imaginava.
— Graças a Deus! — exclamou.
Um sorriso involuntário brotou em meus lábios, um reflexo do alívio que sentia.
— Ela estava faminta! — constatou, aproximando-se e observando Mia por cima dos meus ombros.
— É incrível como um simples copo de leite pode acalmar um bebê tão rápido. — murmurei, sem conseguir desviar os olhos da pequena.
A cena me transportou para a clínica, para os filhotes famintos que encontravam conforto e saciedade em uma mamadeira. A diferença era que Mia, com seus olhinhos fechados e a expressão serena, despertava em mim um sentimento muito mais profundo, uma conexão que eu não sabia que era capaz de sentir.
— Você sabe lidar bem com bebês. — comentou, um tom de admiração.
— Eu não sei lidar com bebês. — fiz uma careta. — Eu sei lidar com animais. E a Mia é como um cachorrinho faminto que chorou porque estava com fome.
riu, um som suave e melodioso que me fez sorrir também.
— Ela não é um cãozinho, .
— Funcionou, , é o que importa. — respondi, dando de ombros.
O silêncio reinava na cozinha, quebrado apenas pelo suave som das nossas respirações. Mia terminou de mamar, soltando um arroto alto e fofo. Seus olhinhos, antes marejados, brilharam brevemente antes de se fecharem por completo, entregando-se ao sono. Aconcheguei-a em meus braços, depositando um beijo no topo da sua cabeça, balançando os braços devagar em movimentos lentos, cuidadosos, como se ela fosse feita de porcelana. Um calor estanho invadiu meu peito, uma sensação de proteção que nunca havia experimentado se apossou do meu corpo.
Ela era tão pequena, frágil, que o medo de levantar da cadeira e acabar a derrubando, me aterrorizava. Passei a calcular cada movimento e notei que até mesmo controlava o ritmo da minha respiração. Estava paralisado, como se um passo em falso pudesse quebrar a pequena delicadeza em meus braços. E eu, que sempre me considerei forte e capaz, me sentia completamente impotente diante daquela criaturinha.
Os traços delicados e o semblante sereno da bebê, abriram espaço para as palavras de minha mãe e de Lily que ecoarem em minha mente, relembrando os momentos de um passado distante no haras dos . Elas sempre diziam que eu seria um pai maravilhoso, observando-me cuidar dos cavalos com paciência e carinho, enquanto as crianças me seguiam para todos os lados, curiosos e gostando de imitar os meus passos. Na época, eu apenas sorria, incrédulo, e tentava relevar, já que se tratava dos filhos de nossos clientes, mas nunca imaginei que segurar um bebê de verdade pudesse despertar tamanha apreensão.
Um medo irracional de que meu toque, por mais leve que fosse, pudesse causar algum dano irreparável.
Toda a minha vida, não soube lidar com crianças. Meus conhecimentos se limitavam aos animais, às suas necessidades e comportamentos. Bebês, por outro lado, eram um mistério completo, um território desconhecido que me deixava completamente inseguro. A fragilidade de Mia, a dependência total que ela tinha de mim, me assustava e encantava ao mesmo tempo. Era como segurar uma responsabilidade imensa que eu não sabia se estava preparado para assumir.
Controlei os tremores das mãos, respirar era uma tão tarefa difícil perto de Mia.
— Ela dormiu? — sussurrou, tocando o encosto da cadeira, me tirando dos devaneios.
— Para a nossa sorte, sim. — senti um calor estranho nas costas e no peito. — Acho melhor levá-la para o quarto.
acomodou-se na cadeira ao meu lado, enchendo o prato vazio com uma porção tão grande do arroz de forno que me perguntei para onde iria parar tanta comida em uma mulher tão pequena. A forma como seus ombros se movia, a curva do seu pescoço, tudo parecia amplificado sob a luz quente da cozinha. A delicadeza de suas mãos enquanto segurava o garfo, a maneira como seus dedos longos se curvavam ao redor do cabo, despertavam um fascínio estranho em mim.
— Ela parece tão tranquila no seu colo, vamos esperar mais um pouco. — espetou o garfo, levando-o à boca, me prendendo de uma maneira hipnotizante quando gemeu em puro desleite, fechando os olhos em apreciação. — Isso está divino! — murmurou, apreciando o sabor de outra garfada, o som escapando por entre seus lábios reverberando estranhamente em meus ouvidos.
Desviei o olhar dos seus lábios carnudos, onde um brilho sutil de queijo derretido realçava o movimento da língua que limpava os cantos da sua boca. Um gesto tão simples, tão cotidiano, que carregava uma sensualidade que me perturbou profundamente. O calor estranho se espalhou pelo meu corpo, um formigamento percorrendo pela minha espinha e se concentrando em um ponto específico do meu ser.
Tencionei o maxilar, engolindo em seco, tentando controlar a onda de desejo que me invadia sem permissão. A mandíbula tiqueou nervosamente, denunciando a luta interna. saboreava a comida com uma expressão de êxtase, os gemidos baixos, a maneira como fechava os olhos, como se a cada garfada fosse uma experiência transcendental, me hipnotizando, enfeitiçando em uma loucura assustadora e incomum.
— Você come como se estivesse em um comercial de comida. — murmurei, limpando a garganta, tentando afastar qualquer pensamento obsceno que insistia em me consumir.
me encarou, intensificando o calor quando vi o brilho travesso dançando em seu olhar.
— Isso está realmente delicioso. — serviu o copo de suco. — Deveria ser um crime pensar que envenenaria uma maravilha dessas. — brincou, encostando-se na cadeira.
— Precisamos conversar sobre isso. — disparei, percebendo que havia falado demais.
Conversar sobre a sua sincera falta de confianças nas pessoas? — zombou, rindo em seguida.
— Engraçadinha, mas não, . — rolei os olhos, notando que a tensão havia se dissipado do meu corpo. — Sobre nós, sobre tudo isso que está acontecendo. — as palavras de Madisson me atingiram em cheio, a ruiva estava certa, precisava tentar ter uma boa convivência com a coelhinha. — Acho que precisamos de um acordo de paz.
— Um acordo de paz? — ela repetiu, arqueando a sobrancelha em confusão.
— Todo lugar precisa de regras básicas de sobrevivência, é assim que mantemos a ordem. — uma pequena gota de suor escorreu por minha testa e só então notei o quanto estava nervoso.
Os olhos castanhos me encaravam com uma intensidade desconhecida, vidrados e atentos a cada palavra que ousava pronunciar. me estudava, concentrada nas minhas reações e julgando pela expressão serena em seu rosto, sua cabeça estava rodando as engrenagens, buscando descobrir onde eu queria chegar com aquela conversa. E apesar de achar o que Madisson me propôs um tremendo absurdo, tinha que tentar, talvez fosse a solução para os nossos problemas.
Um acordo de paz cairia perfeitamente como uma pluma entre nossos conflitos.
— Você quer dizer, como não invadir o espaço um do outro? — gesticulou, bebericando a bebida.
— Exatamente. — concordei. — Vivemos na mesma casa, podemos dividi-la como um condomínio.
— Quais as chances de isso dar muito errado? — cruzou os braços em frente ao peito.
Eu sabia que tinha de tentar, mas não possuía nenhuma esperança que fosse dar certo.
— , as coisas não estão fáceis para mim, e imagino que para você também não. — comecei olhando para Mia. — Nossas vidas viraram de cabeça para baixo. De repente eu tinha a minha liberdade e agora me sinto sufocado em uma coleira com um bebê em meus braços.
A minha vida era perfeita e acredito que a de não fosse muito diferente. Fomos arrancados a forças do nosso comodismo e obrigados a cuidar de uma criança da noite para dia, não conseguindo tempo nem para vivermos o luto por nossos irmãos. E apesar de gostar da ideia de ver abandonando a sua responsabilidade e desaparecendo de vez da minha vida, no fundo, tê-la ao meu lado me ajudando a cuidar de Mia me causava um certo alívio.
Eu não sabia nada sobre crianças e , de certo modo, tinha uma bagagem maior que a minha, já que pelo menos ela parecia saber segurar um bebê sem medo de derrubá-lo.
— O que você sugere, ? — perguntou, depois de um tempo em silêncio, olhando para Mia, evitando me encarar.
— Vamos dividir a casa, seremos como vizinhos em um condomínio. — ela finalmente me encarou, interessada na ideia. — Você pode ficar com o quarto de hóspedes, suas coisas já estão nele. A sala é toda minha, o sofá será a minha cama e nada de você o invadindo na madrugada. — pontuei, sentindo meu coração bater rápido, nervoso com a sua possível reação. — Os outros cômodos da casa serão comunitários.
Ela soltou uma risada seca.
— Então iremos dividir a casa como dois estudantes universitários?
Meneei um aceno em concordância.
— É melhor do que vivermos como inimigos, . Não podemos nos mudar, isso afetaria o crescimento da Mia, então que tenhamos uma convivência agradável e saudável.
Ela mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça em um aceno. Finalmente concordávamos em alguma coisa.
— Precisamos estabelecer alguns detalhes. — pressionou os lábios, refletindo. — Você vai tirar o lixo, porque eu me recuso a acordar cedo para isso. A Mia terá horários para dormir. E gosto de assistir filmes aos sábados até tarde, então você... Não sei, dorme na casa de alguma mulher, ou simplesmente desaparece, quero a sala para mim. — foi levantando os dedos conforme pontuava.
— , eu não dormia na casa de mulheres, elas que dormiam na minha. — curvei um sorriso sarcástico.
Ela estralou os dedos, apontando em riste em minha direção.
— Ah, e você não irá trazer nenhuma delas para cá, não sou obrigada a acordar e me deparar com a visão do inferno no meio da sala.
Apertei a ponte do nariz, isso seria mais difícil do que eu imaginava.
— Mais alguma coisa, coelhinha? — perguntei, começando a sentir a leve irritação surgir.
Esfregou o queixo, torcendo os lábios em um beicinho.
— Nada de flertar. — disparou, pegando-me de surpresa. — Não quero que ache que quero algo com você só porque estou sendo gentil ou quero outras coisas. — suas bochechas coraram levemente. — Quero manter nossa relação profissional. Amamos a Mia e é isso que importa. — a vergonha explícita em seus olhos deixava claro suas intenções e me sentia ofendido em saber que ela achava que iria tocá-la ou me atirar como um maníaco.
— , eu não faço ideia do que acha sobre mim ou sobre os homens, mas acredite, eu não sou esse monstro que você pensa. — por que eu sentia que havia algo muito maior por trás daquele pedido?
Ela suspirou e pressionou os lábios, parecendo aliviada, ao mesmo tempo em que algo a afligia já que não conseguia retribuir o meu olhar. Sua respiração ofegante chamou minha atenção, a gota do suor frio surgindo em sua testa. Tentei tocar a mão pousada sobre a mesa e fui surpreendido com o movimento brusco e repentino, afastou-se e se encolheu contra a cadeira como se eu fosse machucá-la de alguma forma, os olhos arregalados e perdidos estavam tingidos de pavor, meu peito se retorceu assim que assisti os dedos agitados, se remexendo sobre o colo e os olhos perdidos, presa dentro de um pesadelo. O que tinha acontecido com ela? Ela parecia ter medo de um simples toque.
— Você... — a voz falha me despertou. — Você tem algum requisito que eu deveria saber? — notei a súbita vontade de mudar de assunto. Neguei e ela franziu o cenho.
— Não tem nada que queira colocar no nosso acordo?
— Só que as duas fiquem segura. — revelei, beijando a cabeça de Mia. — Ah! E nada de me obrigar a assistir filmes românticos. — sorri sarcástico.
— Tudo bem. — ela concordou. — Mas se você me irritar, vou te jogar pela janela. — ameaçou e riu em seguida, ali estava a que eu conhecia.
— Temos um acordo? — quis confirmar.
— Sim. — concordou, levantando-se da cadeira e indo em direção da pia para lavar os pratos e copos que usamos no jantar. — Ah! Não se esqueça de assinar a papelada em cima do balcão.
O peso pareceu abandonar de vez os meus ombros e me peguei sorrindo em silêncio e sozinho, enquanto subia as escandas com cuidado para não acordar a criaturinha minúscula em meus braços. Empurrei a porta do quarto com o pé e acomodei a pequena no berço, me surpreendendo com a calmaria que a envolvia no sono mais confortável que já tinha visto.
Por mais difícil que fosse aceitar o meu destino e continuar morando debaixo do mesmo teto para cuidar de Mia, nunca desistiria, ela não era capaz de abandonar a sobrinha nas minhas mãos e viver a vida com a consciência limpa. E eu também não. Então no final, Madisson e Aidan tinham razão, nenhum dos dois poderia desistir, a pequena dependia de nós e éramos tudo o que ela tinha.
O melhor era unir nossas diferenças, ao menos para facilitar uma boa convivência. Eu tinha uma clínica para administrar, uma profissão que tinha de honrar com perfeição e para isso precisava de paz e tranquilidade na minha vida, mesmo que morar com pudesse desencadear um incêndio incontrolável, eu estava disposto a ceder a faísca que nos prenderia para sempre a pequena Mia.
Capítulo 9
A dor é o sinal de vida.
O medo é o eco da alma.
E o trauma é a encruzilhada onde a dor e o medo se encontram, definindo o rumo da nossa existência...
O calor irradiou por minha pele, os dedos longos me tocavam de maneira grotesca. Espalmei as mãos contra o peito duro, unindo forças do submundo para empurrá-lo, o queria longe de mim, o seu toque me enojava, a sua boca forçando contra a minha, implorando a passagem que nunca teria. Solucei quando minhas costas encontraram a parede com tanta força e brutalidade que fiquei sem ar, tentei lutar, me debati com desespero quando o brutamonte veio para cima, puxando minha camiseta com tanta fúria, rasgando o tecido em milhões de pedaços.
Encolhi-me quando ele se afastou, tentando cobrir meus seios expostos com os pequenos braços. As lágrimas insistiam em rolar e não conseguia controlar, a dor me dilacerava, a ardência na lateral do meu rosto e o gosto metálico invadindo meu paladar me causaram calafrios, assim como a breve visão dos três homens parados a minha frente, me encarando, analisando, os olhos tão obscuros como os aterrorizantes demônios. O medo estampava o meu rosto e por um momento implorei que a morte me encontrasse, seria um destino menos doloroso.
— Por favor, Kaleb... — implorei, a voz trêmula, os olhos cheios de água. — Eu confiei em você...
— Não se preocupe, . — o homem esguio, cabelos negros como a noite e olhos tão obscuros, se aproximou, tocando meu queixo e o levantando. — Eu e meus amigos vamos pegar leve com você, sabemos que é a sua primeira vez. — seus dedos apertaram as laterais da minha bochecha, pressionando a pele contra os dentes, o gosto metálico me invadindo mais e mais. — E você vai adorar ser a nossa putinha. — eles disparam em risadas, causando náuseas.
Arregalei os olhos, sentindo o aperto firme da mão de Kaleb ao redor do meu braço e me puxando para si, colando nossos corpos. Eu reagi, debatendo o corpo com desespero, os outros dois se aproximaram, os sorrisos demoníacos estampados em sua face, deliciando-se com meu choro, o medo e a resistência, a minha ânsia de lutar.
— NÃO! POR FAVOR, NÃO ME TOQUEM! — rugi entre soluços, tentando me livrar das mãos de Kaleb que seguravam sem piedade as laterais dos meus braços.
O incômodo se apossou do meu corpo conforme me debatia, mas a força de Kaleb não foi o suficiente para conter meus olhos de se abrirem em completo pânico quando percebi que um dos seus amigos puxava o cinto da calça. Prendi o ar com as gargalhadas estridentes, imaginando que primeiro planejavam me espancar até que cedesse as investidas ou ficasse inconsciente para fazerem o que quiserem comigo. No entanto, entendi quais eram as suas verdadeiras intenções assim que começou a desbotoar os botões e descer o zíper, ao mesmo tempo em que fui arremessada contra o chão com tanta brutalidade, batendo a cabeça na parede.
Os músculos reclamaram, a mente rodou e não tive tempo para pensar. Kaleb caiu sobre mim, tentando rasgar o resto das roupas que ainda me cobriam com uma faca e foi quando tudo ficou em câmera lenta. A lâmina encontrou a lateral do meu abdômen, perfurando a região com grosseria, rasgando a pele e perfurando minha alma para sempre. A dor não era nada comparada ao medo que estava sentindo, eu queria morrer só para não ter que viver para relembrar aquele dia tão cruel.
Mordei os lábios para evitar o grunhido de dor, levando as mãos para estancar o ferimento. A textura quente e viscosa em contato com dedos foram o suficiente para fazer minha mente reagir, calculando as chances que ainda me restavam. As memórias invadiram em cheio o meu cérebro, o rosto de Noah sorrindo e beijando minha testa, proferindo palavras doces se tornaram meu alicerce para continuar a viver. E foi entre o medo e o desespero em que lutei, arrancando forças da onde nem sabia que existiam.
Olhei para a faca, a lâmina e o cabo ensanguentados, brilhavam me atraindo em uma armadilha audaciosa, enquanto os três homens riam e se vangloriavam sobre suas ideias do que iriam fazer comigo.
Eu não pensei muito antes de agir, agarrei a mão de Kaleb e mordi o seu pulso com tanta força que o fez soltar a faca e se afastar, levantando-se em um salto, cambaleando. E sendo a minha última esperança, me agarrei a ela com força, urgência, peguei o cabo e apontei para eles, forçando o corpo a reagir, obrigando as pernas a se moverem, sustentando meu peso. Minhas mãos sentiram a textura do meu sangue retalhado na madeira.
— Não se aproximem de mim! — gritei, o corpo levemente curvado devido ao ferimento.
Eu tremia dos pés à cabeça. Não tinha ideia do que seria capaz de fazer para sair viva daquele estacionamento frio, gelado e recheado da energia impura que aqueles imundos exalavam. Eles caíram em uma gargalhada intempestiva e em seguida me encararam, não expressando medo algum perante a mim, era como se eu fosse a criatura mais frágil do mundo e que estavam doidos para chutar.
— Você me mordeu, sua vadia. — Kaleb cuspiu, esfregando a mão na região onde estava perfeitamente a marca da minha arcada dentária. — Vou ensiná-la a como respeitar o seu homem! — e veio para cima de mim com tudo.
Não pensei duas vezes antes de cravar a faca em seu estômago, tentando segurar as lágrimas para não me cegarem, queria vê-lo sofrer por tudo que tinha me feito. O sangue quente e fresco jorrou em minhas mãos, e por mais doentio que fosse, o líquido vistoso em contato com a pele me confortou, agradeci aos treinos intensivos de superiores da academia.
— VADIA DESGRAÇADA! — ele urrou. — Eu vou matar você!
A ameaça retumbou em meu peito, e vi em seus olhos fundos e escuros que nunca mais desistiria de me caçar. O empurrei na direção dos outros dois e ele caiu de lado no chão, não hesitei em disparar a correr para fora do estacionamento da boate. Todo o meu corpo doeu, solucei com tamanho desespero, enquanto a água gelada da forte tempestade me envolvia assim como tudo pelas ruas de Nova York.
Meus lábios tremiam e minha pele ficava cada vez mais fria conforme adentrava a tempestade, correndo sem rumo, querendo chegar em casa. Um relâmpago cortou o céu logo a minha frente, iluminando brevemente as construções ao redor. Eu parei no meio fio, apavorada, o coração batendo em meus ouvidos, caindo em um choro compulsivo, sofrido, dolorido, ciente de que daria qualquer coisa para sair daquele pesadelo que me assombraria para toda a eternidade.
Cai de joelhos no asfalto, não conseguindo mais ser forte. O choro me sufocava, as lágrimas de angústia e medo se misturando em meio as gotas da chuva. Os raios cortavam o céu, pintando a escuridão com sua claridade assustadora. Eu me encolhia cada vez mais a cada estrondo, tapando meus ouvidos em uma tentativa inútil de encobrir os sons. Meu corpo estava nojento, coberto com as marcas dos toques mais imundos do mundo.
Toques que, um dia, pensei que não fossem capazes de me machucar...
E por isso encarava a tela do celular, a respiração falha e o coração batendo querendo explodir dentro do peito. A notificação da meteorologia alertava que uma forte tempestade atingiria Nova Jersey pelas próximas horas, e já conseguia ouvir o balançar das árvores e as pequenas gotas atingindo o telhado da casa.
Fechei o notebook, levantando-me da cadeira em frente a escrivaninha e indo em direção da janela, observando as ruas desérticas, escuras, começando a serem varridas pela água que aumentava a cada segundo. Mordi o dedo indicador, puxando a pele do canto da unha, sentindo a garganta se fechando lentamente com a corda invisível ao redor do pescoço.
Eu odiava chuva. Odiava como conseguia me arremessar de volta para aquela noite de tortura.
O estrondo, acompanhado do gigantesco raio que cortou o céu, me fez saltar para longe da janela. As gotas ficaram mais fortes, atingindo o vidro e escorrendo até que desaparecesse, inundando minha consciência, me forçando a lembrar do momento em que meus joelhos encontraram o asfalto e rezei para que uma alma caridosa me ajudasse em uma cidade tão grande e desconhecida como Nova York.
Engoli em seco, desviando os olhos da claridade. Senti quando a angustia dominou cada célula do meu corpo, ao mesmo tempo em que o ar me abandonou, esvaziando meus pulmões sem permissão. Cambaleei em desespero, tratando de fechar os olhos com forçar e morder os lábios quando outro trocar estourou, funguei, sendo incapaz de encarar a tempestade que ganhava forças a cada instante.
Fechei as cortinas e corri para fora do quarto, tentando fugir da obscuridade que me afligia. Desci as escadas, não me preocupando em tropeçar pelos degraus. Parei na sala, ofegante, observando as janelas abertas, e estava prestes a cair em um precipício quando passei os olhos pelos móveis e fui empurrada de uma vez em direção a ele, o sofá estava bagunçado e sem o corpo masculino que deveria estar dormindo ali. Meu corpo tremeu, as mãos ficaram frias e a garganta se fechou de um jeito sufocante. A claridade penetrou o ambiente, reforçando o meu apavoro, a enxurrada do lado de fora ganhava forças e pareceu invadir a casa para me machucar.
Puxei o ar, ofegante, não conseguindo controlar a pressão e o desespero que me tomavam. Bruscamente virei a cabeça na direção da cozinha quando o som de utensílios se tornou rarefeito, encontrei a luz acesa e minha boca ofegou, conseguindo ouvir os batimentos descompassados do meu coração batendo nos ouvidos. Eu não tinha para onde fugir, se corresse para a porta ele poderia ver o meu vulto, e então me caçaria pelas ruas até me alcançar e acabar de vez com a minha vida.
Tateei o nada, encontrando o corrimão da escanda, onde apoiei o peso do corpo, com medo das pernas fraquejarem de tão bambas que se encontravam e acabar sendo flagrada por . Ele não seria capaz de fazer nada comigo, seria? A dúvida me corroeu, a incerteza, paralisando-me no lugar. Eu queria gritar, correr, me esconder, mas o medo me prendia com correntes invisíveis, a incerteza consumindo cada pedacinho do meu ser.
Solucei de nervosismo, tapando a boca com as duas mãos imediatamente. E com os olhos marejados, observei a luz fraca da cozinha, os pelos enrijeceram e o arrepio tomou conta da minha espinha, imaginando-o ali, observando-me na espreita, em silêncio, esperando o momento certo para atacar. A visão de Kaleb se sobrepôs à de e veio em minha direção, os olhos escuros, cruéis, encarando-me com desprezo, as mãos imundas ansiando em me tocar.
Fechei os olhos e balancei a cabeça, não era Kaleb, eles eram diferentes. Ele me ajudou com Mia, cuidava de nós duas, até mesmo se preocupava comigo. Mas, e se tudo não passasse de uma farsa? E se ele estivesse fingindo assim como Kaleb fez durante os dois anos que namoramos? E se fosse o monstro com quem eu compartilhava a casa?
Eu não deveria ficar ali para descobrir. Engoli em seco, sentindo o estômago revirar e em passos trêmulos comecei a subir as escadas, cada degrau sendo um esforço agonizante. O medo me perseguia, sussurrando em meu ouvido, distorcendo a realidade. Cheguei ao quarto e só quando tranquei a porta que consegui respirar em alívio. Meu corpo ainda tremia, o coração batia forte, mas por um lado me sentia segura.
— É só uma chuvinha, ... — disse baixo, enfiando-me debaixo das cobertas. — É só uma chuvinha... Só... — resfoleguei, abraçando os travesseiros.
Encostei o corpo contra a cabeceira da cama, soluçando, tentando respirar. Eu estava segura, ninguém iria me fazer mal... Arregalei os olhos quando olhei para a parede e a imagem de Kaleb surgiu em meio a escuridão, no mesmo instante em que o trovão reverberou, o sorriso demoníaco estampado em seus lábios e a faca envolta nos dedos ensanguentados. Joguei a coberta sobre o corpo e me encolhi, deixando as lágrimas saírem, me sufocando como sempre fizeram todas as vezes que chovia.
— Alguém me ajuda, por favor... — implorei, desabando no choro sofrido e dolorido. — Por favor...
Funguei, apertando os travesseiros com força querendo me agarrar a alguma coisa real, para não ser sugada para dentro do buraco negro, carregado de dor, desespero, medo e pavor. Desejava que um dia ficasse livre desse tormento, que não precisasse mais me sentir como se estivesse sendo puxada para dentro de um abismo. Eu queria ser apenas uma mulher comum, que gostava de dormir com o som da chuva e não, passar a noite em claro, chorando com medo de que as nuvens ganhassem vida, braços imundos e me agarrassem.
Eu sabia que estava sujeita a ser sempre destruída, nunca mais seria capaz de confiar em um homem de novo, exceto em Noah, o único que eu sabia que nunca levantaria um dedo para me machucar, sendo o resto apenas uma ameaça em potencial.
Massageei a nuca, puxando o ar como se a minha vida dependesse disso. Obriguei o corpo a se virar, ficando com as costas tocando o estofado macio e aconchegante, enquanto abria e fechava os olhos lentamente, tentando me acostumar a claridade constante que iluminava a sala como enormes holofotes girando, projetando poderosos feixes de luz em frente à casa, tentando revirar a minha alma adormecida.
Porra! Por que caralhos o universo adorava caçoar do meu sono?
Havia chegado tarde, já que acabei tendo uma cirurgia de emergência para realizar. Um cachorro foi atropelado, acabando por sofrer fraturas múltiplas, o condutor do veículo o levou às pressas até a clínica, faltando alguns minutos para o meu expediente acabar. Por sorte, Madisson e Aidan estavam comigo organizando a documentação dos medicamente que tínhamos que entregar no dia seguinte, eles me ajudaram a sedar o animal para realizar os exames, e acabamos descobrindo que além das fraturas, estava com hemorragia interna, o que poderia levá-lo a óbito.
Felizmente conseguimos controlar a hemorragia, mas ainda estava em estado crítico, então o deixamos em observação, Madisson ficaria de plantão para que eu pudesse descansar, e me avisaria caso acontecesse algo fora do esperado. Estava torcendo para que ele ficasse bem e para minha surpresa, o condutor se voluntariou para pagar todas as despesas e adotar o cãozinho quando recebesse alta. Um gesto bastante solidário.
Levantei-me do sofá, me arrastando até a cozinha, esfregando as mãos no rosto pelo caminho. A pequena brisa fria atingiu minha pele desnuda do tórax, causando pequenos arrepios. A temperatura despencou de uma maneira tão drástica, quando sai da clínica havia recebido um alerta da meteorologia que uma forte tempestade atingiria Nova Jersey nas próximas horas, mas não imaginei que fosse verdade, já que ultimamente as previsões estavam um pouco imprecisas.
E eu adorava ouvir o barulho da chuva, a intensidade e a força que o vento batia contra as árvores, a água varrendo tudo o que via pela frente, ocasionando uma terapia muito relaxante. Era o meu fenômeno meteorológico favorito.
Abri a geladeira, pegando a primeira garrafa de água que encontrei, enchendo um copo logo em seguida, precisava de algo para molhar a garganta seca e arranhada. Encostei as costas no mármore da pia, arrepiando com a temperatura fria, apreciando o som das gotas de chuva batendo no telhado da casa. Beberiquei a bebida e Sky adentrou a cozinha, com sua cauda longa e peluda balançando, os passos delicados como um belíssimo lorde, pulando em seguida no balcão a minha frente.
O felino miou, me encarando com os grandes olhos amarelos. Alarguei um sorriso com o canto dos lábios, deixando o copo de vidro vazio sobre a pia, tratando de obedecer às ordens do mini chefinho de quatro patas. Peguei um pacote de petisco de Salmão e despejei na tigela, acariciando o pelo macio e sedoso, o observando se deliciar com as guloseimas. Sorri quando Sky tentou morder meus dedos, não gostando de ser incomodado no seu momento mais precioso.
A janela da cozinha refletiu a claridade dos relâmpagos silenciosos, sincronizações como se tocasse uma melodia divina e tranquilizadora. Fechei os olhos, inspirando profundamente tentando apreciar o cheiro petricor que exalava da chuva, quando o som abafado de um soluço escoou baixo, quase imperceptível. Franzi o cenho, abrindo os olhos e largando o pacote de petisco ao lado do pote de ração de Sky. O barulho de passos rápidos e velozes logo surgiram, batendo contra o assoalho com precisão, me deixando com a interrogação pairando no ar.
Venci a distância até a sala em passos largos, movido por uma inquietação que não conseguia ignorar. Ao alcançar o batente da cozinha, flagrei um vulto esguio, ágil, subindo os últimos degraus da escada, desaparecendo no corredor. A escuridão da noite engolia os fios negros que escapavam de um coque frouxo, e o azul pálido do pijama contrastava com a sombra, confirmando minhas suspeitas.
Arqueei uma sobrancelha, cruzando os braços, os olhos fixos na escadaria. Por que estava correndo daquela forma, desesperada, como se fugisse de um fantasma?
A pergunta ecoou em minha mente, enquanto me esforçava para encontrar uma resposta. O estrondo de um trovão cortou o silêncio e assustou a pequena Mia que começou a chorar estridentemente, um grito agudo e desesperado. Sem hesitar, subi os degraus com pressa e corri para o quarto da pequena, encontrando com os olhos azuis arregalados, marejados, um soluço preso em seus lábios rosados. Outro lampejo cortou a cidade no instante em que me aproximei do berço, a acolhendo em meus braços, acariciando sua bochecha macia e os fios finos de cabelo.
— Shhh. — sussurrei, a embalando na pequena coberta. — Está tudo bem, pequena. É só uma chuva. — a aconcheguei em meu peito. — Estou aqui para proteger você. — o rosto delicado parecia aliviado em encontrar um rosto familiar em meio ao caos da tempestade.
Balancei os braços suavemente, a acalentando, caminhado em direção ao corredor, cantando uma melodia infantil para distraí-la do temporal. Mia se aconchegou em meu peito, buscando segurança no calor do meu corpo. Para ela, tão pequena e indefesa, os trovões eram monstros aterrorizantes, um gatilho para emoções avassaladoras. E não me importava de passar a noite inteira interdito com filmes, se minha pequena encontrasse em mim um lugar de proteção.
Parei perto da escada, observando os olhos azuis começando a fecharem lentamente. Depositei um beijo em sua bochecha, acabando por ficar com a mente livre para ser atormentado pelo furacão . A imagem dela correndo escada acima, o desespero em seus passos, me perturbava. Ergui os olhos para o corredor, uma sensação estranha e quente se espalhando pelo meu peito, minha consciência ficando confusa, remexida e perturbadoramente, preocupada.
Será que ela estava bem? Precisa de ajuda com alguma coisa?
A resposta veio em forma de soluços abafados que me guiou até me encontrar parado em frente ao quarto da coelhinha. O choro angustiante atravessou a porta, agarrando meu pescoço com fúria, me enforcando, prendendo em um nó sufocante, causando uma profunda dor e impotência em meu peito. Encostei a orelha na porta, tentando decifrar o que estava acontecendo, as palavras sussurradas.
— Por favor… Alguém me ajuda… — ela desabou, engasgando-se em uma crise. — É só uma chuva… Só isso, uma chuva…— fui atingindo com um soco no estômago.
A tempestade que tanto me confortava, para ela era um gatilho imenso, dolorido, que a rasgava profundamente.
Um conflito se instalou em meu peito, preso entre a angústia e a preocupação. Eu queria entrar, arrombar aquela porta para confortá-la, embalar seu corpo frágil e pequeno em meus braços, protegê-la de alguma forma dos demônios que tanto me atormentavam. Mas a porta trancada, criava a barreira entre nós, a linha tênue que não poderia ultrapassar. Era o lembrete do nosso acordo, que apesar de morarmos sob o mesmo teto, não tínhamos o direito de invadir a privacidade um do outro, nem mesmo para descobrir os mistérios que a coelha tanto escondia.
Outro estrondo caiu sobre a cidade, emitindo um estouro ensurdecedor que sacolejou as paredes e acabou com a energia elétrica da casa. Olhei ao redor em meio a escuridão, sendo agarrado novamente pelos soluços de que ganharam intensidade e força, sua voz implorando por ajuda e tentando se convencer de que era apenas uma chuvinha. A imagem dela frágil, sozinha e assustada, me perturbou, e pensei seriamente em arrombar a porta de uma vez, sendo impedido apenas pelo único fio de consciência: nunca confiaria em mim para me deixar entrar em seu mundo.
Sentei-me no chão, encostando o corpo contra a porta, Mia se remexeu e graças aos deuses permaneceu adormecida, enquanto fiquei ali em silêncio. não enfrentaria seus demônios sozinha, eu estaria ali, mesmo que não soubesse da minha presença. Respirei fundo, virando-me o suficiente para encostar a mão na madeira fria, o choro alto ecoando em meus ouvidos. Eu cuidaria dela, mesmo que tivesse que ficar ali a noite inteira até se acalmar ou a última gota de chuva caísse do céu.
— Você não está sozinha, coelhinha. — sussurrei. — Eu estou aqui…
De algum modo, desejei que as minhas palavras a alcançasse, que a confortasse de alguma maneira. Ela não merecia sofrer tanto com um fenômeno tão belo como a chuva.
Capítulo 10
O medo, por vezes, nos aprisionava em uma dança paralisante, onde a fuga se tornava a única coreografia que conhecíamos. Por um longo tempo, acreditei, ilusoriamente, que a dor se dissiparia, como se o passado fosse apenas uma sombra que desaparecia ao amanhecer. No entanto, passei anos me convencendo de que se a dor fosse uma pessoa, seria pura teimosia, que insistia em se enraizar nas minhas células, sendo o único jeito de enfrentá-la era a confrontando.
Respirei fundo, preenchendo os pulmões com a promessa de coragem, enquanto meus dedos seguravam o corrimão da escada. O aroma adocicado pairava no ar, um convite cativante para a cozinha. Meu estômago roncou, um lembrete de que a vida tinha de continuar, apesar dos fantasmas que me assombravam. Fechei os olhos, fazendo uma contagem silenciosa, imaginando as ondulações dos números em minha mente, tentando evitar que o coração disparasse.
Eu sabia, em algum lugar profundo e inexplorado, que precisava encarar meus medos, desfazer os nós que me prendiam ao passado. Encontrar a cura para as feridas que me definiam.
Naquela manhã, passei horas a fio deitada na cama encarando o teto, envolta em uma conversa interna com os próprios pensamentos. A cada reflexão, a coragem brotava, tímida, persistente. Precisava encarar , mas não como o monstro a ser temido, tinha que o ver como o homem, que por mais estranho e irônico que fosse, dividia o mesmo tento que eu.
E não deveria permitir que o medo, um fantasma criado pela minha própria mente, me impedisse de seguir em frente.
não era Kaleb, e eu não era mais a mesma , inocente e indefesa.
Era hora de reescrever a minha história, de enfrentar os demônios e torcer para, talvez, finalmente encontrar a paz que tanto almejava. Então começaria encarando o homem, que desde o início, nunca demostrou sinais de que queria me machucar, apenas que tinha como único objetivo tornar a minha vida o verdadeiro inferno. E eu conseguiria viver com isso.
Desci os últimos degraus da escada, concentrada em inspirar e expirar o ar a cada passo que dava até a cozinha. O bolo que bloqueava minha garganta parecia aumentar cada vez mais, prestes a me sufocar. Venci a distância, pegando a coragem no submundo para adentrar o cômodo de onde o delicioso cheiro de panquecas, doce, açucarado me envolveu em um abraço apertado.
Aliviei a pressão em meu peito, vasculhando cada centímetro da cozinha e não encontrando nenhum sinal de , apenas do esquilo peludo que estava sentado no balcão, escovando a pelagem preta, sedosa e brilhantes com a língua, os movimentos sincronizados, esbaldando a sua beleza. O fogão estava desligado e ao lado, em cima do mármore, estava um enorme prato de vidro com as panquecas castanhas, a textura parecendo firme e macia.
— Oi, Sky. — aproximei-me do balcão, sendo recebida com um miado curto, o pescoço do felino alongando para encontrar minha mão estendida.
Acariciei atrás da orelha dele, o escutando ronronar, levantando-se e esfregando o corpo contra meus dedos, em uma clara demonstração de interesse.
— Você quer sachê? — sorri, o acariciando na lombar. — Só tem que me prometer que o não pode saber disso. — falei baixinho, como se ele conseguisse me entender.
Desde que a bola peluda invadiu a minha vida, nossa convivência se baseou em um exercício de diplomacia felina. No início, a alergia e o gato disputavam território, com Sky invadindo minhas sessões de escrita durante a tarde na cozinha ou na sala. Ele com sua audácia, me afrontava, escalando o notebook e aninhando-se sobre o teclado, me encarando com aqueles penetrantes olhos amarelos, como se emitisse uma ordem clara e direta.
Um chefe exigente, persuasivo.
E diante do impasse, tivemos que entrar em um acordo mútuo. Sky receberia sachê a vontade e em troca, eu receberia minha privacidade. Ele aceitou prontamente e acabou se transformando em um companheiro silencioso e leal, passando horas dormindo ao meu lado ou no colo, sendo o guardião felpudo que me acompanhava nas divagações literárias. O problema era que não tinha ideia do que selamos em segredo.
— Vai me acompanhar na leitura hoje? — sorri, enchendo o pote de sachê. — O não pode saber disso, se não, estarei morta. — murmurei, observando-o devorar a iguaria como se fosse a última maravilha do mundo.
— O que eu não posso saber? — a voz irrompeu na cozinha, um eco distante que me fez estremecer.
Arregalei os olhos, sentindo o arrepio gélido percorrer por minha espinha, como se o mármore frio do balcão tivesse se infiltrado em minha alma. A surpresa me paralisou, o coração batendo acelerando contra as costelas, ameaçando saltar para fora do peito e cair no abismo da vergonha. O flagra me pressionando contra a superfície fria, o rubor tingindo minhas bochechas. Forcei-me a girar, encontrando encostado no batente da porta, tentando conter os meus olhos atrevidos que descaradamente engoliram a imagem a minha frente, me deixando sem fôlego.
Os braços cruzados contra o peito nu realçavam o seu corpo grande, musculoso e torneado. A maldita bermuda preta era a única peça que o cobria. A pele bronzeada, o peitoral rijo e esculpido, se exibia como uma obra de arte prefeita, e me peguei imaginando a sensação de deslizar os dedos por cada músculo, explorando cada curva e contorno. havia se transformado em um completo deus grego.
Engoli em seco, desviando o olhar, lutando contra o impulso de admirar cada detalhe daquela visão. Não queria parecer uma tola babando, especialmente com as lembranças da noite anterior ainda frescas em minha mente. O medo que ele me causara ainda pairava no ar, tornando a situação ainda mais confusa. Como conciliar o homem que me aterrorizava com essa visão que me deixava sem ar? Era como se duas pessoas completamente diferentes habitassem o mesmo corpo, e eu estava presa no meio desse paradoxo.
— O que eu não posso saber? — repetiu, a voz carregada de curiosidade e um toque de diversão.
Abri e fechei a boca, tentando encontrar uma mentira convincente.
— Não é nada demais. — menti, remexendo as mãos.
Ele me sondou, aproximando-se como um predador. Engoli em seco, tentando manter a calma e os olhos longe dele.
— Está alimentando o meu gato? — perguntou, erguendo uma sobrancelha e um sorriso malicioso brincando em seus lábios. — Então, além de ter que lidar com uma bebê e uma garota mimada, ainda terei que conviver com um gato traidor? — fingiu um tom ofendido.
— Eu não sou uma garota mimada. — bufei, revirando os olhos. — Eu e o Sky temos um acordo: eu o alimento com sachê e ele me deixa em paz.
— Você sabe que ele sofre com continência urinária, não sabe? — estreitou os olhos.
— Mas, pelo que me lembro, você disse que tudo o que está naquele armário, a bola peluda pode comer, então não tem problema. — gesticulei, dando de ombros.
— Moderadamente, . — atravessou a cozinha, abrindo a geladeira e pegando uma sacola de mercado. — Se os níveis de sódio do Sky subirem, terei que interná-lo para estabilizarem. A ração, o sachê e os petiscos são os mais recomendados do mercado, controlando o sódio, e...
— Eu já entendi, . — o interrompi, coçando atrás da orelha de Sky. — A bola de pelos não pode comer em excesso.
— Isso quer dizer que o acordo de vocês tem que acabar. — fechou a geladeira, deixando a sacola sobre a mesa e pegando o prato com panquecas.
— E o que você ainda está fazendo aqui? Achei que já tivesse saído. — mudei de assunto, sabendo que romper meu acordo com o felino estava fora de questão. Apenas diminuiria a quantidade de sachês.
— Greta me pediu para ficar, ela teve que sair para resolver algumas coisas na cidade. — explicou, retirando alguns potes de frutas da sacola.
— E por que não me acordou?
— Ouvi você chorando ontem à noite, então pensei que não deveria ter dormido nada. — revelou com naturalidade, como se pedisse um copo d’água.
O receio me dominou e tive que pensar em uma resposta rápida, não tendo muito tempo para pensar.
— E-eu estava lendo um livro... O casal principal morreu no final. — gaguejei, esfregando a nuca.
sorriu de lado, os lábios curvados com sarcasmo.
— Já não está muito grandinha para ler Romeu e Julieta? — eu esperava qualquer coisa, menos que citasse a maior história de amor trágica.
— É um clássico da literatura, e posso ler onde e quando quiser. — fui ríspida, sentindo minhas bochechas corarem.
— Estava realmente chorando por causa de um livro? — apertou os olhos, espalmando as mãos na mesa, as veias do seu braço saltando em um pedido descarado por atenção.
— Sou emotiva. — fui indiferente, esfregando o indicador na cabeça do felino que ainda se deliciava com o sachê de salmão.
Espiei por cima do ombro, curiosa para ver a reação de , mas o encontrei absorto em suas tarefas. Com a precisão de um cirurgião, ele ajeitava a calda caramelizada na mesa. Abriu o pote de geleia de morango, o cheiro doce e frutado se espalhando pelo ambiente, revelando em seguida as embalagens de framboesas e mirtilos, junto com os morangos vermelhos e brilhantes. Seus dedos habilidosos selecionavam as frutas como se escolhesse pedras preciosas, antes de cortá-los em pequenos cubos minúsculos.
Sorri com os cantos dos lábios, não conseguindo acreditar na cena a minha frente.
— Por que está cortando frutas? Você nem come isso. — disparei, curiosa, tentando ignorar a visão do seu corpo escultural.
ergueu a cabeça, um sorriso encantador iluminando seu rosto.
— Não são para mim, . São para você. — revelou e um calor estranho se apossou do meu peito, as bochechas esquentando.
— E que tipo de veneno você escolheu para me envenenar? — zombei, tentando disfarçar a súbita onda de nervosismo.
— A falta do seu senso de humor. — respondeu, voltando a cortar as frutas com precisão. — Mas não acabamos de conversar. Tem certeza de que estava chorando por causa de um livro? — havia algo em seu tom de voz, um fio de preocupação que não estava ali antes.
Engoli em seco, ajeitando o cabelo atrás da orelha, até onde ele me escutou ontem à noite?
— Por qual outro motivo seria? — rebati, sentindo a garganta seca.
Ele ajeitou a postura, soltou o ar em um suspiro, lançando um mirtilo na boca.
— Você estava gritando e parecia tentar se convencer de que era só uma chuva. — ok, por essa eu realmente não esperava.
— Ficou escutando atrás da minha porta? — acusei, sentindo um arrepio percorrer minha espinha, será que estava gritando tão alto assim?
Ele fez uma careta.
— Na verdade, eu tentei entrar. Você parecia estar precisando de ajuda. — revelou, me deixando tensa só de imaginá-lo em meu quarto, sozinho, comigo.
— E-e por que achou que deveria? — gaguejei, limpando a garganta que arranhava.
— Porque prometi ao Noah que cuidaria de você e da Mia. É minha obrigação que as duas estejam bem.
Rolei os olhos, me sentindo uma garotinha de cinco anos que precisava de uma babá.
— Como você é protetor, . — fui irônica, cruzando os braços.
Aproximei-me da mesa, acompanhando a movimentação sinuosa dos dedos dele.
— Mas, há uma coisa que você deveria saber: não precisa ficar se preocupando comigo, eu sei me cuidar sozinha.
curvou um sorriso divertido com traços de zombaria, enquanto movimentava sua parede de músculos em direção a geladeira.
— Não foi o que me pareceu ontem. — deu de ombros, guardando as embalagens de frutas.
Apertei o canto dos olhos quando me peguei novamente presa em seu corpo estrutural. A estrutura forte, os músculos das costas se movendo sob a pele, um ritmo que me aprisionava em um fascínio mudo. Desviei os olhos, sentindo a cor da vergonha tingir minhas bochechas. Precisava parar de agir como uma descarada. Além disso, deveria ser um crime que aquele homem andasse pela casa apenas de bermuda.
— Não deveria ficar me bisbilhotando. — disse, recuperando minha compostura.
— Eu não estava. A Mia ficou assustada com a chuva e pensei que seria uma boa ideia te chamar para me ajudar com a pequena, mas pelo visto, a sua situação era muito mais delicada. — voltou-se para a mesa, sentando-se em uma das cadeiras.
— Eu tenho medo de chuva, melhorou para você? — levantei as mãos em um gesto de irritação crescendo em cada palavra.
— Continue mentindo, . Uma hora, toda a verdade irá aparecer. — sua voz fria me causou um calafrio.
Inspirei profundamente, tentando desesperadamente acalmar a mente e dominar a fúria que me consumia. A loucura parecia um caminho tão tentador: agarrar aquele infeliz e sentir o metal de um garfo perfurando sua traqueia. Que audácia a dele em tentar me confrontar daquela forma!
Sentei-me na cadeira a sua frente, servindo o prato com algumas panquecas e frutas.
— Acredita mesmo que Romeu e Julieta pode ser real? — ele quebrou o silêncio.
— Já vai zombar dos meus livros de romance? — entrei na defensiva, não estando com muita paciência para as suas gracinhas.
— Só quero saber se acredita que um homem estaria disposto a morrer por você de pura e espontânea vontade. — deu ombros, mastigando um pedaço da panqueca com muito melado.
— Romeu e Julieta se amavam e preferiram morrer a viverem separados para sempre.
— A Julieta poderia ter escolhido viver e encontrado um novo amor, você não acha? — recostou contra a cadeira, deixando os músculos do peitoral contraídos e com a visão do paraíso.
Fechei os olhos por alguns instantes e balancei a cabeça, começando a comer meu café da manhã. Homens realmente não entendiam nada sobre romantismo.
— , você é tão amargurado, quem foi a responsável por todo esse amargor? — não o encarei, saboreado as frutas doces.
— Então, realmente acredita que alguém prefira morrer, por que não suportaria viver sem você? — fugiu da pergunta descaradamente.
— O amor é assim, se abrisse o seu coração para alguém saberia o verdadeiro significado do amor. — apoiei o cotovelo na mesa, mordendo um morango.
Ele riu com escárnio, o sorriso cínico no canto dos lábios.
— Da última vez em que estive disposto a beber veneno por uma mulher, ela não poupou esforço para esfregar na minha cara que não me amava.
Suas palavras soaram tão sinceras e ao mesmo tempo, tão amargas, como uma ferida cicatrizada que ainda doía profundamente em sua alma.
— É por isso que prefere viver mergulhado na escuridão da amargura? Por que não consegue superar as dores do seu passado? — quis saber, curiosa.
— Me diga você, chorou ontem porque realmente tem medo da chuva ou de alguém que a machucou para o mundo? — disparou, fixando os olhos intensos em meu rosto, atento a cada reação minha.
O embate entre nós era palpável, mas no fundo não passávamos de duas almas feridas que lutavam com seus demônios internos.
— Não vou falar dos meus medos com você. — declarei, mordendo um pedaço da panqueca, tentando afastar as lembranças da noite passada.
— As pessoas não querem viver em um conto de fadas, . O mundo real é cruel, frio, e não existe amor verdadeiro.
— Existe, mas estamos tão concentrados em pensar o contrário que não vemos a paixão e o amor no dia a dia. O amor das nossas vidas pode estar caminhando na rua nesse exato momento, enquanto estamos aqui, discutindo sobre uma teoria e nos escondendo dos nossos traumas. — meu lado escritora estava inspirado.
— Isso foi profundo. — comentou, erguendo uma sobrancelha. — , o que aconteceu com você, de verdade?
Tive minha confiança traída pelo homem que deveria me proteger? Fui agredida e ameaçada em um estacionamento imundo de boate? Os dois melhores amigos do meu namorado eram tão frios e cruéis ao ponto de me verem machucada e não fazerem nada? O lançamento do meu primeiro livro se tornou uma lembrança dolorida por causa daquela noite? Ou, , queria saber sobre a parte da minha vida em que perdi o único homem em quem era capaz de confiar?
— Tive um pesadelo com o Romeu. — desconversei, não querendo adentrar aquele assunto com ele e nem ser atormentada pelos demônios.
— Não seja ridícula. — sorriu sarcástico.
— Eu conto, se me contar o que aconteceu com você. — as palavras saíram tão rápido, que só me dei conta da merda que havia dito quando o semblante de se fechou.
— Não há nada para contar. — o tom de voz era baixo, frio e levemente, ferido?
— Existia uma mulher que te quebrou. Quem era ela? Qual o nome dela? — quis saber, mas não como uma forma de provocá-lo, no fundo ele parecia que precisava desabafar para se desprender das amarras.
— , coma a sua panqueca, eu não quero falar sobre isso. É passado. — um passado que o feria até hoje.
— O passado sempre encontra um jeito de nos alcançar, . — hesitei em esticar a mão para consolá-lo. — Ao menos, que encontremos uma maneira de lidar com ele.
bagunçou os cabelos, massageando a nuca.
— , prometemos que íamos compartilhar a casa e não, invadir o espaço um do outro, a nossa vida pessoal entra nesse requisito. — bradou, levantando-se da cadeira.
Observei se afastar, procurando alguma coisa nos armários, a tensão na musculatura dos ombros e a mandíbula marcada indicava a turbulência que deveria estar na sua cabeça no momento. Deixei o garfo de lado, pegando alguns pedaços de fruta do potinho, não conseguindo desviar os olhos dele, como se estivesse enfeitiçada. Uma mistura de fascínio e curiosidade que me prendia.
O que aconteceu para ele ter parado de acreditar no amor? A mulher do seu passado, foi a única que o machucou tão profundamente para deixá-lo amargurado, ou haveria outros fantasmas que o assombravam? E por que eu estava tão intrigada com isso?
Talvez fosse a fragilidade que ele escondia sob a armadura de sarcasmo e indiferença. Ou talvez, no fundo, eu estivesse apenas começando a enxergar o reflexo da minha própria dor em seus olhos, uma sombra do passado que também o assombrava. E a curiosidade estava me impulsando para desvendar os mistérios que envolviam o homem que dividia o mesmo teto que eu.
— Você deixou isso no sofá ontem. — a voz de me despertou.
Abaixei os olhos, ficando hipnotizada com as veias saltadas que descoravam o antebraço em movimentos silenciosos e desciam, espalhando-se pela mão que segurava o meu notebook. Fixei a atenção no objeto, o pegando e colocando ao lado do prato com panquecas, quando passos escoaram pela cozinha e a voz suave, doce e aveludada, contagiou cada pedacinho do ambiente com sua alegria e simpatia.
— Humm. Esse cheiro de panquecas está incrível! — Greta colocou as sacolas sobre o balcão da cozinha, depositando um beijo carinho no rosto de . — , estou surpresa que ele não tenha colocado fogo na casa. — zombou, aproximando-se e beijando o topo da minha cabeça, um gesto carinhoso e afetuoso, exclusivo dela.
— Muito engraçado, Greta. — fez uma careta, pegando a xícara na mesa e enchendo de café. — Fico ofendido que subestime meus dotes culinários.
— Ele não sabia nem fazer um ovo frito. — a mulher sussurrou, rindo em seguida.
Alarguei um sorriso, acompanhando quando Greta deu um empurrão divertido no corpo do homem, o afastando, enquanto anunciava sua necessidade de espaço para organizar as sacolas de compras no balcão. pegou a xícara, trocando provocações com a senhora, pairando ao meu lado, completamente envolvido na brincadeira deles, arrancando minhas melhores risadas. Era incrível como a sintonia dos dois beirava a calmaria, quase a mesma que eu sentia com Noah.
— , querida, quer mais alguma coisa para o café da manhã? — Greta ofereceu, enxugando as mãos no guardanapo. — Posso fazer uma vitamina de frutas ou um bolo de banana saudável. — ela se adaptou com facilmente às minhas preferencias culinárias, sempre me incentivando na dieta.
— Não precisa se preocupar, Greta, as panquecas estavam ótimas. — agradeci com um sorriso, abrindo o notebook.
Ela colocou as mãos na cintura, o olhar divertido e um brilho travesso nos olhos castanhos fixando-se em .
— Então, quer dizer, que você realmente aprendeu a cozinhar. — zombou novamente.
— Eu sou perfeito em tantas coisas, Greta, que você se surpreenderia. — ele respondeu, com um sorriso de canto e um tom de voz que bebia da própria convicção, enquanto dava um gole no seu café.
Greta gargalhou, uma risada sonora e contagiante que a fez cobrir a boca com a mão. Os ombros balançando para frente, iniciando uma conversa animada com . Tentei acompanhar as lembranças que fluíam com naturalidade conforme relembravam os velhos tempos, a imagem daquele homem enorme, uma verdadeira muralha de músculos, completamente perdido ao tentar acender o fogão, transformando uma tarefa simples em uma missão quase épica.
Mas a voz de Greta se tornou um murmúrio distante quando reviveu outra lembrança. Minha atenção se fixou na tela do notebook, abrindo o editor de documentos, observando a barra de carregamento avançar lentamente. Passaria o dia ocupada, mergulhada nas palavras do meu livro, revisando o capítulo anterior e iniciando um novo, justamente na parte mais emocionante que era o tão esperado envolvimento do casal principal.
A ansiedade borbulhava, me consumindo, as pontas dos dedos queimando em antecipação, implorando para começarem a digitar.
Enquanto o arquivo carregava, aproveitei para pesquisar a previsão do tempo, tinha muito trabalho a fazer no livro, então chover estava fora de questão, além disso, se havia me escutado na noite passada, teria que tomar mais cuidado com as crises. Ele deveria estar me achando uma louca, e por mais insano que fosse, não tirava sua razão. Uma pessoa berrando no meio da madrugada era cenário de filme de terror.
Rolei a página da meteorologia, soltando o ar pela boca, os ombros relaxando e querendo dançar em comemoração quando vi o sol desenhado ao lado da data do dia. A tempestade da noite anterior havia sido apenas uma grande nuvem que passou por Nova Jersey, a caminho do sul do país, então tudo indicava que não haveria dias chuvosos tão cedo, sendo assim, teria muito tempo para revisar e trabalhar em meu livro.
Finalmente comecei a ler, revivendo a cena do jantar de Joshua e Elisa, unidos por um contrato, se beijarem sob os olhares da família. A tensão entre eles era palpável e acabariam sucumbindo ao desejo que tanto os envolvia. Elisa não estava muito segura de conhecer todos os parentes do marido, aliás, o casamento havia sido apenas para salvar a sua vida, já que como tinha se envolvido em uma investigação sigilosa, ninguém se atreveria a tocar na esposa de um guarda-costas poderoso.
Elisa era uma jornalista investigativa que estava prestes a alavancar a sua carreira, quando se deparou com um caso policial em andamento. E junto com o amigo da polícia local, começaram a investigar o assassinato, mas quando ela descobriu que os possíveis responsáveis trabalhavam dentro da própria base da polícia, foi obrigada a se afastar e pedir ajuda para o guarda-costas, o único em quem poderia confiar.
No entanto, o romance consistia em fazer Joshua e Elisa dividirem a mesma casa para mantê-la segura, eles só não imaginavam que essa convivência poderia gerar sentimentos que nunca imaginaram florescer.
Percorri os olhos pelas linhas, devorando cada palavra, corrigindo a pontuação e alguns deslizes gramaticais. A história estava ficando incrível, fervilhando e pulsando com a vida, e logo seria meu quarto lançamento na Amazon. A excitação me inundava, um turbilhão de ideias e expectativas, estava tão animada que não conseguia parar de pensar no meu livro estampado no site e os leitores enlouquecendo com cada capítulo. Eu amava tudo isso, ser escritora, criar mundos inteiros com palavras, era a mais pura magia.
Greta gargalhou, contagiando o ambiente.
— E como vocês estão lidando com todo o caos que é cuidar de uma criança? Os piores momentos são as madrugadas em claro. — questionou e nem sequer prestei atenção.
— Com maestria. — ouvi responder. — Afinal, quem precisa de sono quando se tem uma bela mulher para cuidar?
O arrepio percorreu pela minha espinha, engoli em seco sentindo a garganta arranhando. A mesma fala do personagem ecoando em minha mente. Ergui o olhar, mirando o homem ao meu lado, perto o suficiente para conseguir ler tudo o que havia escrito. Cretino dos infernos. Agora estava se divertindo com a sua provocação barata, esfregando na minha cara o sorriso cínico em seus lábios, não restando dúvidas de tinha lido cada parágrafo e não consegui evitar o calor subindo pelas minhas bochechas, uma onda de vergonha e desejo que me fez querer sumir, que além dele ter descoberto meu segredo, ainda teve a audácia de dizer aquilo na frente de Greta.
A senhora riu, e notei um brilho de curiosidade em seus olhos.
— Então, vocês estão se dando bem? — perguntou, como se quisesse confirmar, olhando de mim para o imbecil ao meu lado.
— Greta, como cão e gato. — respondi, tentando controlar a situação, não queria que ela pensasse algo errado de nós. — Mas estamos sobrevivendo.
— Sobrevivendo? — repetiu e tive vontade de pular contra ele e arrancar a sua língua. — Eu diria que estamos prosperando.
Franzi o cenho, o fuzilando, desejando que começasse a entrar em chamas para queimar o sorriso cretino estampado no rosto.
— Não é, ? — arcou a sobrancelha em minha direção, inclinando o corpo para mais perto.
O calor se espalhou, me dominando, consumindo cada partícula do meu ser. O cheiro da colônia amadeirada, máscula, me deixando tonta. estava tão próximo que conseguiria o enforcar se quisesse. Seus braços estavam ao meu redor, as mãos apoiadas contra a mesa, me prendendo no meio. Sua cabeça perto demais do meu ombro. Minha mente gritava para que eu o empurrasse, acertar o cotovelo naquele rosto insolente, mas meu corpo implorava para que ele ficasse, a consciência indo para o inferno e desejei que chegasse mais perto, que me embriagasse com seu perfume.
Malditos hormônios.
— Nós... Nós estamos... É... — merda, a respiração dele roçava meu pescoço, quente e provocante, tendo o poder que me fazer esquecer de como se falava.
— Nós estamos aprendendo a conviver. — o cretino completou, afastando-se lentamente.
Segurei firme as bordas da mesa, tentando acalmar o calor que insistia que se irradiar em meu peito e descer para zonas desconhecidas do meu corpo. Droga, eu não conseguia nem respirar.
— Isso é um grande avanço! — Greta comemorou, batendo as mãos. — Fico tão feliz em ouvir isso. A Mia sempre estará em boas mãos. — o sorriso satisfeito dançava em seus lábios. — , querida, quer me fazer companhia hoje? Terei que ir ao supermercado e levar a Mia na creche. — terminou de guardar as compras de mais cedo nos armários e caminhou em direção a saída da cozinha.
— Claro, será ótimo. — meneei um aceno.
E enquanto Greta se despedia, dizendo que iria acordar a pequena para sairmos, senti o peso daquele olhar, um arrepio incômodo percorrendo minha espinha. me analisava em silêncio, minuciosamente como se fosse capaz de ler meus pensamentos mais profundos. Assim que Greta saiu da cozinha, fixei meus olhos nele, arqueando as sobrancelhas, determinada a acabar com a tensão que pairava no ar.
— O que você pensou que estava fazendo? — disparei, a voz controlada, mas carregada de irritação.
— Fazendo o quê? — fingiu inocência. — Contar em como estamos “prosperando”? — curvou os lábios, o sorriso irônico.
— Você estava flertando comigo na frente da Greta! — acusei, o rosto ardendo em vergonha. — Prometeu que nunca faria isso.
— Só fiquei inspirado com o que estava escrevendo. — ergueu os ombros em desdém, mas havia um brilho travesso em seus olhos. — Aliás, o que é isso? — apontou para o notebook, aproximando-se com curiosidade.
Rapidamente em um reflexo quase violento, fechei a tampa do aparelho, protegendo as palavras que ele jamais deveria ter lido. me encarou, os olhos estreitos e penetrante, tentando desvendar o que desesperadamente eu tentava esconder.
— Não é nada demais. — respondi, tentando parecer casual, mas a voz saiu mais aguda do que imaginei. — É apenas um conto. — menti.
— Um conto de fadas? — perguntou, arcando uma sobrancelha.
— Talvez. — murmurei, desviando o olhar.
— Estava mais para um roteiro de filme... adulto — disparou, a expressão impassível, mas com um toque de diversão. — Não existe trabalho, não é? Você é escritora.
Prendi a respiração, o coração disputando uma maratona. Além das paredes do quarto, ninguém mais sabia do meu segredo.
— Eu... Eu nunca contei isso para ninguém. — gaguejei, o rubor em minhas bochechas aumentando. — E-eu... Tenho vergonha.
— Claro, você escreve putaria.
— Não é putaria, ! — defendi, a voz tremendo. — Eu escrevo romance, e caso tenha sofrido uma lavagem cerebral, casais fazem sexo.
— E já fez tudo isso que escreveu? — quis saber, ignorando tudo o que disse.
A curiosidade brilhava em seus olhos. Ele parecia se divertir assistindo minhas reações, como um gato brincando com um novelo de lã. Apertei a ponte do nariz, ele não poderia estar falando sério.
— O quanto você leu? — perguntei, puxando o ar. — Achei que estivesse conversando com a Greta.
— Eu consigo fazer as duas coisas. — deu de ombros, indiferente. — Mas você ainda não respondeu à minha pergunta.
O desconforto me invadiu como um arrepio. Levantei-me, peguei o notebook e o abracei contra o peito, como se fosse um escudo.
— Eu... — engoli em seco. — Greta deve estar me esperando para sairmos. É melhor eu ir.
Tentei fugir, mas o nervosismo me paralisou quando ouvi a voz de .
— , você nunca... — o cenho franzido denunciava sua surpresa.
— , nós combinamos em dividir a casa, nada de assuntos pessoais, lembra? — dei as costas, não esperando que ele dissesse mais nada, e saí da cozinha, o coração batendo nas costelas.
Minhas mãos tremiam, a garganta seca, o medo me abraçando. O que um homem como pensaria se soubesse do meu segredo? Como reagiria se contasse que era virgem, inexperiente, uma fraude que criava mundos de romance, sem nunca sequer ter experimentado um beijo de verdade? Será que ele me olharia com desprezo ou como um depravado como todos os outros homens que já conheci?
Subi as escadas correndo, buscando refúgio no meu quarto. Pressionei a testa contra a porta fria, as lágrimas quentes se formando no canto dos olhos. O segredo que tanto guardava parecia ter ganhado vida própria. E junto com ele, o pesadelo que tanto lutava para enterrar pulsando como um animal selvagem, ameaçando escapar.
não era o homem que me machucou, mas tinha medo de que acabasse se tornando mais um a me assombrar em meio as tempestades.
Capítulo 11
A luz no horizonte era quente, reconfortante, a minha fonte natural da inspiração. Eu amava dias ensolarados, o calor, o brilho que raiava no céu, pintando em delicadas pinceladas o grande quadro azul. Minha criatividade se transformava graças ao combustível natural, trazendo ideias que nunca poderia pensar em dias chuvosos ou nublados. Era cientificamente comprovado que a maioria dos escritores adoravam escrever sob o som da chuva, conseguindo inspiração nas gotículas que tocavam o mundo.
E como uma ótima criatura obstinada, eu fugia a tradição.
A tinta da caneta desenhava as letras discursivas, maltratando o papel quando rabisquei a frase com força, criando uma enorme e grotesca mancha preta na folha do caderno. Apesar do astro solar ser meu companheiro constante, naquele começo de tarde, não estava me ajudando em nada, já que não conseguia descrever uma parte crucial da história, a parte que todas as leitoras adoravam imaginar. O físico perfeito do protagonista.
De todos os personagens masculinos que construí, o Joshua conseguiu superar o marco da dificuldade. Nunca enfrentei desafios para descrevê-los, sempre seguindo inspirada em avatares que salvava na internet, adicionando alguns detalhes sagaz na história que sempre faziam a diferença. Era como se tivesse perdido a capacidade de escrever, e isso estava começando a me irritar.
Além de tudo, ainda tinha que lidar com a mente traiçoeira que insistia em reviver o pequeno espetáculo que fez na cozinha. As costas torneadas, o peitoral esculpido e definido, carregado de curvas, músculos marcados, desenhados na medida certa. Mordi o interior da bochecha, jogando a cabeça para trás, mas que merda de feitiço era aquele? Por que não conseguia parar de pensar nele quando deveria manter distância?
Torci os lábios e suspirei, ajeitando-me na cadeira de balanço na varanda, esticando as pernas e pressionando os pés contra a cerca delicada que envolvia toda a entrada da casa. Virei a folha no caderno, determinada a começar de novo, dessa vez com mais concentração. Eu conseguiria e não seria um veterinário com corpo de deus grego que me impediria. A caneta começou o seu trabalho, delineado as palavras quando a ideia mais insana que tive em anos me arrebatou.
E se eu... Não!
Balancei a cabeça, tentando espantar os pensamentos absurdos e teimosos que insistiam em criar o cenário perfeito. Eu já tinha roubado o perfume amadeirado com notas de cedro e pimenta preta depois de ficar embriagada com o cheiro na noite em que o perturbei com os filmes românticos. Levei a caneta aos lábios, mordiscando a tampa, fechando os olhos em vergonha ao lembrar que havia me aproveitado da noite para invadir o banheiro principal da casa onde eu sabia que guardava a colônia inebriante.
Tirei uma foto do rótulo e pesquisei mais sobre a fragrância, decidida a colocar como o perfume marcante de Joshua, então eu já havia atingido minha cota de roubos, não poderia pegar mais nada de e usar como se fosse o avatar do protagonista. E mesmo que o veterinário se encaixasse perfeitamente nos traços o guarda-costas, seria um problema se algum dia deixasse meu notebook desprotegido pela casa e ele acabasse descobrindo toda a verdade.
O ego de ficaria tão inflado que nem mesmo a queda de um meteoro poderia pará-lo.
Mas como nunca fui uma boa garota em seguir regras e adorava um desafio, eu roubaria mais uma coisa do meu “colega de condomínio”. Só torcia que ele nunca descobrisse, isso preservaria o mundo e todos os meros mortais da sua arrogância e egocentrismo.
Sorri com o canto dos lábios, notando que minha mão dançava sobre o papel em uma valsa hipnotizante. Era incrível como as palavras fluíam muito mais fáceis quando se tinha uma inspiração real, viva e em cores ocupando cada canto da minha mente. poderia ser um cafajeste, especialista em jogar um jogo bastante irritante, cujo único objeto era me tirar do sério, mas não poderia negar sua presença sedutora, um homem que se destacaria em qualquer multidão.
Se os deuses decidissem esculpir um mortal em forma de estátua, seria, sem dúvida, o modelo perfeito. A musculatura definida, a postura altiva, o olhar intenso que escondia mistérios e dores profundas. Era como se cada traço de seu corpo e alma fosse uma obra de arte, esculpida com precisão e paixão. A forma como ele se movia, a força e a delicadeza em seus gestos, a forma como seus olhos suavizavam ao cuidar de Mia.
Era uma combinação perfeita que me intrigava e me fascinava. Ele era um enigma, um labirinto de emoções e segredos que me atraía como uma mariposa para a chama.
— Ooi! — uma voz animada, alegre me despertou.
Mas que...
Fechei o caderno em pânico, um impulso mal calculado derrubou a caneta pelo caminho. Olhei para cima e encontrei com o par de olhos azuis claros, vibrantes e penetrantes. Engoli em seco, molhando a garganta que arranhava com o susto repentino. A mulher sorriu para mim, movimentando o braço e a mão em um aceno amigável. Os cabelos loiros claros caiam sobre os ombros tão majestosamente que se assemelhava a de uma princesa.
— Desculpa, acho que te assustei. — riu, fazendo uma careta simpática. — Sou a Bethany, sua nova vizinha. Moro na terceira casa à direita.
Apontou para a residência simples de linhas modernas em tons escuros, sóbrios de bronze, com uma passarela de concreto polido guiando até a garagem e um jardim frontal meticulosamente cuidado e aparado. A casa que há poucos dias exibia uma placa de “vende-se”, agora ostentava um ar de recém-habitada, como se um novo capítulo estivesse prestes a começar.
— , é um prazer. — sorri de volta, o canto dos lábios tremendo ainda surpresa com a visita inesperada.
— Eu não queria te interromper, mas vi você e não resisti. Queria me apresentar. — apoiou as mãos no parapeito da varanda.
— Não se preocupe, já estava quase terminando aqui. — inclinei o corpo para pegar a caneta, ajeitando minhas pernas.
Ela se sentou no degrau da escada, passando as mãos pela barra do vestido branco com a estampa delicada de rosas vermelhas.
— É tão bom finalmente conhecer alguém nesse bairro. — confessou. — Você deve saber, mudar sempre é uma coisa tão pesada. Tudo é novo, eu estou meio perdida.
— Eu sei como é isso. — se tinha alguém que entendia sobre mudança, esse alguém era eu.
— Moro com meu irmão e o Woody. — ela gargalhou ao falar o nome. — É um husky siberiano. Quando ele era filhote comprei um brinquedo do xerife de Toy Story para a minha filha, e ele odiava o boneco. — contou animadamente.
— Ah, você tem uma filha? — perguntei, remexendo as mãos, sem saber como lidar com pessoas novas.
— Tenho, a Jessy. Foi por ela que quis conhecer você. — afastou alguns fios do cabelo do rosto, o sorriso ainda ali. — Vi que tem uma menininha também e pensei que elas poderiam ser amigas!
— A Mia... Ela não é minha filha, sabe... Não de verdade. — como explicar todo o turbilhão que bagunçou a minha vida?
— Vocês a adotaram! — deduziu, gesticulando.
Como era possível alguém ser tão animada e possuir uma energia contagiante desse jeito?
— É... Meio que sim. — respondi. — Ela era filha do meu irmão e da irmã do , e ficamos com a guarda dela quando eles... — a voz falou e senti a pontada certeira no coração.
Por que era tão difícil de dizer?
— Eles sofreram um acidente de carro.
Bethany desfez o sorriso, os olhos expressando compaixão, estendendo a mão para pegar a minha em um consolo silencioso.
— Sinto muito, .
— Obrigada. — contive as lágrimas de saudade que apertava meu peito, forçando um sorriso. — Faz quase três semanas que estamos cuidando dela, e está tudo uma maluca. — tentei soar divertida.
— Criar um bebê não é fácil, mas acredite, é bem mais difícil quando temos de criar sozinha. — suspirou, um toque de melancolia em sua voz. — O pai da Jessy não quis participar da minha gravidez e nem da criação dela. Sabe, foi o clássico: “não quero estragar a minha vida”. — alargou um sorriso, o brilho nos olhos voltando apesar da tristeza em seu olhar. — O melhor de tudo é saber que posso contar com a ajuda do meu irmão. Ele é incrível com crianças.
— Ele é só um babaca. — exclamei, sentindo uma onda de raiva me invadir. — Como ele pode ser tão... Insensível?
Bethany deu de ombros.
— Homens, . — rolou os olhos. — Mas, como eu disse, meu irmão é diferente. Ele sempre me ajudou com a Jessy em tudo. E sou muito grata por isso.
Nossa conversa fluiu naturalmente, como se nos conhecêssemos há anos. Rimos, compartilhamos histórias e descobrimos que tínhamos muito em comum. Ela até me contou das diversas atrocidades que seu cachorro, Woody, fez quando era filhote e quase deixou o irmão dela louco por ter comido as pastas de relatórios de treino da academia que ela trabalhava. Bethany também era uma mulher forte e inspiradora, além de animada ao extremo, possuindo um espírito divertido que contagiava o ambiente.
— ! — chamou com entusiasmo. — Poderíamos marcar de jantar na minha casa, assim a Mia pode conhecer a Jessy! — bateu palmas, comemorando.
Hesitei por um momento, pensando sobre o convite. A ideia de passar uma noite fora de casa, longe das paredes que se tornaram meu refúgio, sendo tentador pensar em recusar para passar horas e horas digitando no notebook, como um gênio do mal. No entanto, a breve imagem de ver Mia brincando com outra criança era irresistível e foi o que me convenceu.
Seria maravilhoso para a pequena e eu poderia usar da oportunidade para socializar um pouco. Talvez, fazer uma amiga.
— Iríamos adorar, Bethany. — respondi, um sorriso tímido surgindo em meus lábios.
— Perfeito! — exclamou em êxtase. — Pode ser amanhã à noite, o que acha?
— Preciso confirmar com o . Ele trabalha até tarde na clínica veterinária, e não sei quais são seus horários livres.
— Não tem problema, podemos combinar outro dia. Um que ficará melhor para todos! — se levantou, sacudindo a poeira invisível do vestido. — Do que vocês gostam de comer? Gostam de frutos do mar?
Sorri para ela, apreciando o entusiasmo em sua voz enquanto listava as opções que poderia fazer para o jantar. Risoto de camarão, fettuccine com cogumelo, salmão ao molho, ravióli de carne. A sofisticação em suas palavras me impressionou, e não consegui me conter, começando a falar sobre o assunto, explodindo em êxtase por encontrar uma conhecedora culinária tão apaixonada quanto eu.
Era animador encontrar alguém com quem pudesse falar sobre qualquer assunto sem medo de ser julgada por isso. Nunca tive uma melhor amiga que pudesse me abrir completamente, mas com Bethany me sentia livre para comentar sobre tudo, até mesmo da folha seca no chão. Era como se nos conhecêssemos há anos, um encontro de almas. Ela me entendia até nas entrelinhas e não havia necessidade de esconder minhas opiniões e paixões.
Pela primeira vez, depois da partida de Noah, sentia que poderia ser eu mesma de novo.
Acompanhei quando o carro preto, o imponente e reluzente SUV, estacionou na rua, fazendo um frio estranho revirar meu estômago. A porta do motorista se abriu e surgiu, seu corpo se destacando na camiseta branca parecendo reverenciado pelo próprio sol. Franzi o cenho, revirando minha mente em buscar de algum compromisso que o levou a almoçar em casa e que eu poderia ter esquecido, mas nada surgiu. Então o que ele estava fazendo ali? Será que, pela primeira vez em três semanas, minha tarde seria preenchida por algo além da minha própria companhia, a solidão e o gato preguiçoso viciado em sachês?
Seus ombros pareciam carregados de um peso invisível, os passos pesados, as mãos dentro do bolso e a habitual luz em seu olhar havia se apagado, restando apenas um homem diferente do que estava acostumada, causando uma ruga de preocupação na minha testa.
— ! — o chamei, tentando disfarçar minha preocupação. — Eu não sabia que vinha almoçar hoje.
Ele meneou um aceno, parando ao nosso lado, cumprimentando Bethany com um sorriso forçado nos lábios.
— Desculpe, não queria interrompê-las. — sua voz estava rouca, baixa, carregada de exaustão. — Vejo você lá dentro, .
E simplesmente se virou, empurrando a porta da frente e desaparecendo, deixando o ar carregada da sua energia abatida. Arqueei as sobrancelhas e Bethany fez uma careta, mordendo o lábio inferior, eu sabia que ela também tinha notado a tensão que o rodeava.
— O seu namorado não é de falar muito... — disse, o tom suave.
— Ele não é meu namorado. — fui rápida em corrigir.
Ela me lançou um olhar confuso.
— A gente... Só está compartilhando a guarda da Mia. — expliquei. — Moramos junto porque o advogado disse que seria... Melhor para ela.
Bethany assentiu, olhando para a porta por onde entrou. Ela alargou um sorriso.
— Ele é interessante, .
— Interessante? — repeti, o cenho franzido.
— É... Sabe, ele tem um ar de mistério e tem a elegância de um protagonista de livro. — ela corou levemente, enrolando o cabelo no dedo indicador. — É um homem bonito.
Senti um calor subir pela base do meu pescoço, aquecendo a região de uma maneira ardente. Uma sensação estranha e desconhecida me invadindo.
Limpei a garganta arranhada.
— É melhor... Eu ir ver como ele está. — desconversei, sentindo a ponta de preocupação ainda me assolando.
— Depois combinamos sobre o jantar. — ela sorriu, me puxando para um abraço caloroso. — Eu adorei conhecer você, . E tenho certeza de que meu irmão e a Jessy também irão te adorar! — despediu em um aceno, seguindo pela calçada, cumprimentado todos que encontrava pelo caminho.
Rolei os olhos, entrando de uma vez na casa. Minha mente tentando processar a cena que acabara de ver e buscando algum significado para o que as mulheres tanto viam em . Desde novo ele atraia os olhares femininos, mas nunca concordei que era para tanto, elas pareciam ficar cegas, enfeitiçadas. Fechei os olhos e massageei a testa, suspirando ao mesmo tempo em que me punia mentalmente pelo que iria dizer, algo que nunca na vida imaginei pensar ou concordar.
é um homem atraente.
Ele tinha o charme de um deus grego, mas era só isso.
Seu físico poderia convencer a maioria das mulheres que ficavam hipnotizadas com a sua beleza, no entanto, eu como sempre conseguia fugir a curva. E apesar de usá-lo como inspiração na construção do meu personagem, a personalidade e as atitudes de Joshua nunca seriam como as de . O veterinário era convencido, arrogante e egocêntrico, e o guarda-costas era romântico, protetor e cavalheiro.
Os dois opostos perfeitos no mundo da literatura.
Balancei a cabeça em negação quando os pensamentos começaram a ganhar forças, trilhando uma batalha entre a realidade e a ficção. Eu ficaria louca se continuasse deixando que me consumisse desse jeito. Decidi tomar um rumo na minha vida e ir me arrumar para buscar Mia na creche dali uma hora, quando passei na frente da entrada da cozinha e me deparei com a imagem mais inusitada que já tinha visto. Olhei ao redor verificando a sala como se buscasse algum motivo invisível que justificasse o que meus olhos viam, mas algo mais forte do que eu, me obrigou a vencer a distância que nos separava.
Em passos sinuosos me aproximei, estudando curvado sobre o balcão da pia, os cotovelos apoiados contra o mármore enquanto as mãos estavam em sua cabeça, os dedos enroscados em seus cabelos. Tão cabisbaixo, os ombros retraídos. Senhor, ele estava péssimo. Completamente diferente do homem que estava acostumado a ver espalhando sua prepotência e petulância todos os dias.
— ? — chamei, o tom beirando a confusão.
Seu corpo contraiu e por um momento ficou tenso, levantou a cabeça, olhando através da janela de vidro da cozinha que dava vista para os arbustos da casa vizinha. Seu olhar distraído, perdido.
— Está tudo bem? — toquei seu ombro, o músculo enrijecendo ao meu toque.
Ele suspirou.
— Não, não está, mas vai ficar... — disse mais para si mesmo.
— Pode conversar comigo, se quiser. — mexi os dedos em um carinho sinuoso.
— Eu não sou de falar sobre os meus problemas com as pessoas, . — e então ele me encarou.
E, por mais que pudesse julgá-lo como arrogante, notei o cuidado com as escolhas de palavras e o tom de voz baixo, quase falho. Mas não foi isso que me surpreendeu, e sim seus olhos azuis. O oceano, antes tão reluzente e cheio de brilho, agora se encontrava devastado em meio à escuridão, um abismo opaco.
— Não precisamos falar dos seus problemas. — virei-me para subir no balcão, o mármore frio encontrando minha bunda. Fiz uma careta. — Podemos falar sobre o que vamos comer, eu não fiz almoço e a Greta não deixou nada pronto.
— Você não almoça? — mudou de assunto.
— Eu almoço, às vezes. — passei as mãos nas coxas, puxando a barra do short de algodão. — Hoje eu ia pedir burritos, estou morrendo de vontade. — sorri, já imaginando o sabor da tortilha e da carne invadindo minha boca.
— Não sabia que coelhos gostavam de burritos. — riu com o canto da boca.
— Uma lebre não vive só de alface e cenoura. — brinquei.
— Você sabe que lebres e coelhos são animais diferente, né? — ali estava uma ponta do veterinário cheio de convicção que conhecia.
— Os dois tem orelhas pontudas e gostam de cenoura, é a mesma coisa. — dei de ombros.
— Na verdade, as lebres são maiores e solitárias, já os coelhos são menores e gostam de viver em grupo. — explicou, o sorriso ainda brincando em seus lábios. — E pelo seu tamanho, você é uma coelhinha, nunca seria uma lebre. — disse, o tom de provocação.
Fiz uma careta.
— Argh. Não gosto de pessoas, prefiro a solidão do meu quarto. — revelei. — Talvez, eu seja uma hibrida de lebre com coelho.
— Nossa, que imaginação fértil, . — rolou os olhos, não contendo o sorriso de divertimento. — Realmente, gosta de passar todos os dias trabalhando sozinha, sem contato com pessoas ou o mundo afora? — perguntou depois de um tempo em silêncio.
— É relaxante, sem ninguém te dizendo o que fazer ou querendo te punir porque fez algo errado. — inclinei o corpo para trás, buscado uma posição confortável. — Não é tão ruim assim. Eu só precisei aprender a lidar comigo mesma, criar uma rotina e seguir os compromissos à risca. Depois de um tempo, me acostumei com isso, não sinto falta de conviver com as pessoas. — olhei fixo para um ponto qualquer na cozinha, refletindo que havia me fechado depois do que houve em Nova York.
— Não sente falta, nem por um momento?
Neguei com a cabeça.
— As pessoas não sentem falta daquilo que um dia a machucaram, . — abaixei os olhos, evitando que minha mente se perdesse nas lembranças daquela noite terrível.
— E nunca mais tentou de novo? — quis saber, parecendo realmente interessado.
— Eu me encontrei no mundo da escrita, mas quando sinto falta de calor humano, vou para a academia ou saio para passear no parque. Mas isso se tornou menos frequente agora, porque tenho a Mia e o Sky.
— O meu gato? — arcou a sobrancelha.
— Ele é um preguiçoso, mas um ótimo companheiro. — ri. — É claro, se depois ganhar um sachê como pagamento em troca da sua companhia, ele se torna bastante amigável.
riu, o brilho levemente voltando no fundo dos olhos.
— É bom ver que ele se adaptou bem a mudança. — ele fez uma pausa, pressionando os lábios. — Eu acho que não conseguiria fazer isso.
— Isso o quê? Se vender por um pacote de sachê? — brinquei, mas no fundo curiosa, estudando suas feições.
— Estou falando de me privar do mundo. — ele me encarou, seus olhos intensos como o oceano agitado. — Eu nasci no meio de tantas pessoas que nem me lembro dos nomes direito, e acho que se ficasse preso dentro de quatro paredes por muito tempo ficaria louco.
— Mas não existe uma teoria de que veterinários escolhem a profissão, por que odeiam pessoas?
Ele fez uma careta divertida.
— Não é uma teoria muito válida, já que ainda temos que lidar com os tutores. Os animais são nossos pacientes, mas sem os tutores não temos dinheiro.
— E você prefere lidar com animais ou com pessoas?
— Se realmente gostasse de pessoas teria me tornado médico, e não veterinário. — respondeu, afirmando que a minha teoria não estava tão errada assim.
Nós rimos, como se fôssemos apenas dois amigos falando sobre seus problemas e as teorias da conspiração. E só então percebi, que apesar de vivermos em mundos opostos, tínhamos mais em comum do que imaginava.
No entanto, bastou apenas alguns minutos para voltar a adotar o semblante abatido, parecendo ser atingido por uma onda de melancolia ou por um pensamento doloroso que o transportou para um lugar distante, onde as sombras o assombravam.
— Está tudo bem com você? Parece tão... triste. — a pergunta escapou dos meus lábios antes que pudesse detê-la.
Ele parecia tão... distante, perdido em pensamentos que obscureciam o seu olhar. Havia algo de errado, tinha quase certeza. Os sinais eram claros: os ombros tensos, o olhar perdido, a ausência das provocações que tanto me irritava.
Ele suspirou, abaixando o olhar.
— Aconteceu, mas não quero falar sobre isso. — por que eu sentia que existia um bloqueio que o impedia de se abrir?
Mordi os lábios, pensando em uma maneira de quebrar a tensão que se formou entre nós. E a ideia que tive provavelmente ele recusaria.
— Sabe o que eu faço sempre que estou com problemas? — disparei, prendendo sua atenção.
— Por favor, me diga que não é cantar.
Revirei os olhos, descendo do balcão.
— Eu não canto tão mal assim. — retruquei, fazendo uma careta.
— Só parece uma cabra agonizando.
— Agora, só por causa dessa ofensa, terá que fazer o que irei te mostrar. — desafiei, uma pontada de emoção subindo pela base do meu pescoço.
— Nada comparado a sua melodia estridente, pode ser tão ruim assim. — concordou, endireitando o corpo, parecendo realmente disposto a cumprir sua promessa.
— Eu não teria tanta certeza se fosse você. — soltei no ar, saindo da cozinha e indo até o sofá da sala.
Acomodei o corpo nas almofadas macias, aconchegando contra o encosto, enquanto apertava o botão da televisão, assistindo a tela iniciando. Meu coração estava levemente acelerado, ansiando pela reação dele quando finalmente entendesse o que estava prestes a fazer. Abri o aplicativo de streaming, arrastando o comando para a aba de filmes.
invadiu meu campo de visão, concentrado em observar. Os braços cruzados em frente ao peito, deixando os bíceps mais aparentes.
— Prefere uma comédia romântica ou um clichê água com açúcar? Deixarei você escolher. — falei, soando como uma criança travessa.
Ele apertou a ponte do nariz, parecendo finalmente ter caído a ficha.
— Não vai me obrigar a assistir filmes românticos com você, . — resmungou, virando em minha direção.
Puxei as almofadas para o lado, batendo a mão no espaço vago do sofá.
— Você não tem escolha. Deveria ter pensado nisso antes de ter me chamar de cabra agonizante. — sorri atrevida, folheando as diversas capas dos filmes na categoria de romance.
— Eu não estava pensando direito.
— , pare de ser teimoso e se entregue de uma vez ao romance. — bati mais uma vez no estofado. — Você pode escolher ou podemos ver o filme que sempre vejo em dias ruins.
— Eu tenho até medo de perguntar: qual seria esse filme? — franziu o cenho, sentando-se na beirada.
— Cartas para Julieta. — respondi, pesquisando o filme e deixando a tela fazer o seu trabalho em exibir a capa do filme com a lindíssima Amanda Seyfried.
— Acho que não pode ser tão ruim assim.
— É o meu favorito. — iniciei o filme, abraçando uma almofada.
— Apesar de que já estou sentido meus neurônios sendo queimados um a um por ter de assistir a isso.
Um sorriso cínico curvou-se em meus lábios, deixei o controle de lado, o trocando pelo celular, querendo vasculhar o aplicativo de comida em busca de alguma coisa que pudéssemos almoçar e acompanhar o filme. O estofado ao meu lado afundou, ainda receoso se acomodou, colocando seu travesseiro atrás da cabeça, apoiada contra o encosto, e uma almofada em cima da barriga com suas mãos sobre ela. Seu corpo era largo e robusto, quase o dobro do meu, ocupado metade do sofá.
— Sempre vê esse filme quando seus dias são ruins? — quis saber, curioso, os olhos concentrados na televisão.
— Eu assisto vários, mas esse é o meu favorito. — respondi, rolando a tela, em busca do meu restaurante de burritos favorito.
— E isso acontece com quanta frequência? — relaxou, tirando os tênis com os próprios pés.
— Em todos os dias chuvosos. — abaixei o celular, virando-me para ele. — E com você?
— Quando decidi que queria ser veterinário, sabia que viveria rodeado de pelos e salvaria vidas inocentes, mas com isso, veio o lado ruim também. — respirou fundo em uma pausa, remexendo o corpo. — Um animal de estimação não é só um paciente, ele é o amor de alguém. E a responsabilidade de ter uma vida nas suas mãos é uma tarefa enorme... E às vezes, a gente perde.
Soltei o ar pela boca, a garganta ficando embargada com a confissão dele.
— , eu sinto muito. — toquei sua mão sobre a almofada, apertando em um consolo.
— Recebemos uma denúncia anônima e resgatamos um cachorro, vítima de maus tratos. — continuou. — Sabe, , o amor que um animal sente pelo seu dono é indescritível, são leais, nossos melhores amigos. E ver aquele cachorro na situação que o encontramos é muito... cruel. Saber que alguém tem a coragem de maltratar um ser tão puro e inocente, que vem ao mundo querendo apenas ser amado.
As palavras me atingiram com uma força inexplicável, um golpe certeiro em meu peito. , o homem de fachada inabalável, dono do sarcasmo e da autoconfiança, estava ali, a vulnerabilidade transparecendo em seu rosto. Havia uma dor profunda em seus olhos, a dor da perda o dilacerando e eu não sabia como ajudá-lo.
— Nem tudo está no nosso alcance, . — apertei os dedos ao redor da mão dele.
Ele suspirou pesado, seu olhar se encontrando com o meu.
— Eu perdi um paciente hoje, . E me sinto estranho por estar dizendo isso a alguém. — um sorriso tímido brincou no canto dos seus lábios. — Ele era apenas um filhote com 10 meses. — piscou, tentando conter as lágrimas não derramadas. — Não teve tempo de conhecer como é ser amado de verdade, ter um dono e encontrado um lar.
Coloquei o celular de lado, deitando o corpo ao lado dele, virando a cabeça para encará-lo, não conseguindo desviar o contato visual, nossas mãos ainda enlaçadas.
— Se ele teve a sorte de conhecer você, então deve ter se sentido grato por ter tido alguém que lutou por ele até o último minuto. — falei, com uma vontade imensa de abraçá-lo, perdida dentro dos olhos azuis. — Tem algo que te ajude nesses momentos? Eu gosto de comer burritos e assisto filmes românticos. — sorri, arrancando uma risada divertida dele.
— Acredito em uma teoria. — disse, dobrando o braço, apoiando a cabeça na mão sobre o cotovelo.
— E qual seria?
— Na faculdade, li um artigo que dizia que quando os animais morrem, existe um paraíso reservado somente para eles, onde encontram a paz e brincam entre as nuvens, esperando pelos seus donos que ficaram na terra. — revelou, olhando para nossas mãos unidas. — Gosto de acreditar que meus pacientes estão nesse paraíso e a dor desaparece, abrindo caminho para a alegria.
— Deve ser um lugar tão lindo. — sorri, a imagem do paraíso que descreveu me aquecendo. Os animais se divertindo, correndo de um lado para o outro, brincando entre as nuvens que pareciam algodão doce, a felicidade transbordando em cada movimento.
Fomos abruptamente interrompidos quando Sky, com um salto elegante, aterrissou no sofá, aninhando-se entre nós, nos obrigando a abrir passagem para vossa majestade e separar nossas mãos. O ronronar alto e constante vibrou, uma serenata felina que preenchia o silêncio, em um gesto automático, acariciou o pelo macio do gato, um toque que pareceu dissipar um pouco a rigidez em seus ombros.
O felino miou em um tom meloso, satisfeito por ser o centro das atenções. Não consegui conter o riso, acompanhando quando ele se virou, esticando-se preguiçosamente, como se reivindicasse o espaço, a barreira peluda nos separando como uma pausa no meio da tempestade de emoções que nos envolvia.
— Vamos pedir algo para comer, estou faminta. — anunciei, sentando-me e procurando pelo celular entre as almofadas. — Eu preciso de burritos. — praticamente implorei.
— Peça também um cheeseburger com muito queijo e bacon. — pediu com um sorriso, cutucando o bichano que agora estava com a barriga para cima e tentando pegar a mão dele.
— Você tem que parar de comer essas porcarias. Sabia que a cada embutido que comemos perdemos anos de vida?
— , meus exames estão ótimos, faço exercícios físicos todos os dias, além disso, sou incrivelmente gostoso. — e convencido feito uma mula.
Soltei uma gargalhada, voltando a me deitar no sofá, enquanto decidia se finalizava ou não o pedido de comida no aplicativo.
— É tão presunçoso, . — balancei a cabeça, tentando conter o sorriso irônico. — Realmente, você e o Sky se merecem.
— A sua amiga loira concordaria comigo. — retrucou, a fala retumbando como uma alfinetada, carregada de malícia.
O calor se formou na base do meu pescoço, descendo pela garganta e se instalando em meu peito com uma pontada intensa, aguda, assim que assimilei as palavras. Então o cretino havia notado o interesse descarado de Bethany.
— Ela tem uma doença, um problema de visão, então é esperado essa reação. — desconversei, desviando o olhar, qualquer lugar era melhor do que encarar aqueles poços azuis provocantes.
— Que tipo de problema? Talvez eu possa ajudá-la. — sua voz se tornou um sussurro rouco, perigosamente perto demais.
Engoli em seco e suspirei, sentindo uma vontade imensa de abrir um buraco e enterrar aquele homem ainda com vida para sofrer pela sua audácia.
— É a doença que faz com que todas vejam algo em você que simplesmente não existe. — o sorriso cínico se curvou em minha boca. — Elas ficam cegas e começam a te ver como um deus grego da medicina veterinária. Um objeto para os seus desejos mais impuros e tudo o que querem é encontrar um jeito de descobrirem o que você tanto esconde embaixo das roupas cheias de pelos e cheiro de cachorro molhado.
riu, um som baixo e rouco que fez meu coração acelerar, reverberando em cada fibra do meu ser.
— E você não concorda com elas? — disparou, me puxando para uma armadilha perigosa.
Virei o rosto, e deixei que seus olhos encontrassem os meus em uma luta dançante. A batalha silenciosa entre as chamas e a razão. Por um instante, o mundo ao nosso redor desapareceu e me vi presa na teia invisível que ele tecia com seu charme perigoso. O oceano azul estava agitado, as pupilas se movendo como ondas fortes e traiçoeiras, revelando uma intensidade crua, uma vulnerabilidade que me atraia como um imã.
Pressionei os lábios um contra o outro, reprimindo o impulso súbito de me aproximar, de preencher o espaço que nos separava. Eu queria queimar no fogo que o envolvia, sentir o calor do seu corpo contra o meu, ser consumida pelas chamas em seus olhos. Queria desvendar o mistério que tanto fascinava as mulheres. Experimentar o gosto dos seus lábios, sentir seu toque aquecendo a minha pele, apertando com firmeza, me devorando aos poucos e me fazendo arfar por isso.
Queria saber como era ser beijada por ele, um beijo de verdade.
Mas o som estridente do meu celular vibrando me trouxe de volta à realidade, como um balde de água fria. Abaixei o olhar, o coração batendo contra as costelas em um protesto doloroso. Peguei o aparelho, desligando o alarme que havia colocado para não me esquecer do horário.
— Preciso ir buscar a Mia. — anunciei, a voz tremendo levemente.
Engoli em seco e me levantei em um salto, sentindo minhas bochechas arderem em um rubor intenso. assentiu, sem dizer uma palavra. Seus olhos escuros, me seguindo enquanto subia as escadas até o quarto. Ele parecia me desafiar, criando um abismo tentador que me chamava para o fundo. E a cada passo que dava, era dominada pela voz que sussurrava em minha mente, implorando para que fugisse, que se afastasse do magnetismo que me atraía com uma força inexplicável.
Mas como negar as chamas que insistiam em me puxar para mais perto do fogo que ameaçava me consumir? E eu, como uma tola, ansiava pela dor da queimadura, disposta a me queimar e ceder ao desejo que tanto me assustava.
Capítulo 12
A água quente deslizou pela pele, uma dor prazerosa que reagia tentando em vão acalmar a tempestade que rugia pela minha alma atormentada. Afundei o rosto no jato, afogando as lembranças e o pulsar insistente do coração sempre que a imagem das esferas castanhas insistia em me perseguir, cada olhar sendo uma tortura. Eu queria que o banho me ajudasse a esquecer, mas quanto mais tempo passava sob a água, mais o calor se intensificava, os pelos enriçando em resposta aos turbilhões de emoções.
Inclinei-me, os antebraços apoiados contra o azulejo branco, frio, o contraste da temperatura aguçando meus sentidos. Fechei os olhos, abaixando a cabeça. A água caiu sobre os ombros e desceu pelas costas, levando tudo para o ralo, mas se esquecendo daquela visão em meio a corrente torrencial. Perdi a noção do tempo, a percepção da existência e tudo que me restava era ela.
Os olhos caramelos tão intensos percorrendo meu rosto, estudando os traços másculos, demorando-se em minha boca, parecendo tentar gravá-la a ferro e fogo em sua memória. Os lábios entreabertos, carnudos, imploravam em um convite silencioso para que os deixassem vermelhos e inchados. As bochechas rosadas, a respiração acelerada, denunciavam seu nervosismo, o desejo pulsando nas veias, ansiando pelo meu toque.
Ela me queria. E eu me sentia sujo por desejá-la.
Passei a mão no rosto, retirando a água dos cabelos, os dedos afundando contra a nuca, não ousando abrir os olhos. Torci o pescoço, o peso em meus ombros aumentando conforme a culpa me corroía a cada instante em que pensava na coelhinha. era o fruto proibido, a irmã de Noah, a mulher que eu jamais deveria desejar. Tinha uma dívida com o cunhado, a promessa de protegê-la, a de ajudá-la a cuidar de Mia, e não de sucumbir aos desejos mais impuros.
Um sorriso amargo curvou-se em meus lábios, imaginando a reação de Lily que provavelmente estava acotovelando o marido naquele exato momento, ainda sonhando em me ver dentro de um casamento, a aliança de ouro decorando o dedo anelar. Ela sempre seria a eterna casamenteira, acreditando fielmente que a solução para todos os meus problemas era uma mulher que controlaria meus impulsos e curaria a ferida do amor aberta no meu coração
— Não será tão fácil assim, irmãzinha. — sussurrei sozinho, a voz rouca, usando o diminutivo que tanto adorava para provocá-la. — Escolha outra vítima para os seus planos, menos a .
Seus braços provavelmente estariam cruzados, o nariz empinado e o bico gigantesco adornando sua boca, típica pose da minha irmã que nunca soube lidar com frustrações. E conhecendo-a bem, tinha certeza de que essa obsessão doentia que me fez fugir para a clínica assim que foi para o quarto, era mais uma das suas ideias malucas que estavam sendo arquitetados seja lá em qual demissão paralela estivesse.
Ah, eu estava enlouquecendo, à beira do precipício da loucura.
A música estridente do toque do meu celular sacudiu as paredes do banheiro, invadindo o vapor quente, arrancando-me do estado vegetativo em que me encontrava. Fechei o registro do chuveiro, passando as mãos nos cabelos encharcados, espremendo o excesso de água, o silêncio repentino atingindo o espaço. Deslizei a porta do box suavemente, revelando o chão frio sob meus pés descalços, alcancei a tolha branca e felpuda, pendurada no suporte cromado e a envolvi ao redor da cintura, formando uma ilha de maciez em meio a umidade.
Arrastei-me pelas grandes placas de porcelanato, cada passo um eco abafado naquele santuário de cores terrosas e toques de branco. O banheiro principal da casa era enorme, conseguindo facilmente engolir o espaço apertado do meu antigo apartamento. A porta de madeira rústica ficava no meio do corredor, se abrindo para um ambiente que exalava elegância e calmaria.
Parei diante do imponente espelho quadrado que escalava a parede até o teto, encontrando meu reflexo escondido pela pequena nuvem de vapor que manchava o vidro. A pia espaçosa repousava sobre um balcão de mármore branco, sua superfície lisa dividida entre a cuba e discretos vasos de plantas artificiais que davam um toque de verde em meio à paleta neutra. Abaixo, duas gavetas embutidas guardavam um universo de amenidades: sabonetes perfumados, frascos de shampoo e condicionador alinhados, refis de sabonete líquido e pilhas de toalhas macias. No canto esquerdo, uma prateleira estreita abrigava dois cestos retangulares de fibras naturais, repletos de objetos para higiene pessoal.
À direita, o vaso sanitário branco contrastava com a parede de tom mais escuro, enquanto no lado oposto, o box de vidro do chuveiro se unia a banheira dupla com hidromassagem em um convite silencioso ao relaxamento. As luzes suaves que emanavam dos spots embutidos no teto acariciavam as superfícies, realçando a textura dos materiais e a sensação de serenidade que permeava o ambiente.
Peguei o aparelho celular largado em cima das roupas, a notificação de chamada perdida e as incontáveis mensagens de Aidan e Madisson decorando a tela me fizeram revirar os olhos. A dupla dinâmica usara dos seus únicos neurônios quando concluíram que o chefe da clínica andou mal-humorado o dia inteiro e precisava afogar as mágoas no álcool. Segundo eles, eu precisava acabar dentro de um dos quartos privados da The Obsidian Club com alguma desconhecida gostosa.
Pobre almas iludidas.
Mal sabiam a verdadeira intenção por atrás da minha aceitação: uma tentativa de expulsar a imagem persistente da minha linda e infernal coelhinha da cabeça.
Digitei, os dedos voando pelo teclado, respondendo às enxurradas de mensagens diretas dos impertinentes que queriam garantir a minha ilustre presença, e é claro, se divertiam debochando sobre minha repentina “vida de casado”. Virei o celular com a tela para baixo sobre o mármore não querendo mais ser incomodado. Peguei outra toalha, terminando de secar as últimas gotículas de água que insistiam em adornar minha pele e os fios ainda úmidos do cabelo, antes de sair e seguir para o quarto, iniciando o ritual de vestimentas.
Abotoei a camiseta de linho preta com manga comprida, o tecido se acomodando suavemente a pele. Dobrei o tecido até a altura dos cotovelos, dando um toque de informalidade, deixando os dois últimos botões de cada punho propositalmente abertos, revelando um vislumbre do interior dos pulsos. Revirei o guarda-roupas, escolhendo uma calça jeans cáqui de corte reto que oferecia um equilíbrio entre o casual e o arrumado. Nos pés, calcei o par de tênis pretos com discretos detalhes em branco nos cadarços e na linha da sola de borracha.
O único acessório que adicionei foi o relógio de pulso, um modelo clássico com pulseira de couro preto e mostrador minimalista. Encarei o espelho de corpo na porta do guarda-roupas, passando os dedos entre os fios louros escuros, arrumando-os para trás. Guardei o celular e a carteira no bolso da calça, não demorando para me lançar no corredor e descer as escadas, pronto para aproveitar a minha noite.
No entanto, o universo adorava brincar comigo...
Os soluços me atingiram como uma onda impetuosa, esmagando o ar dos meus pulmões. Na penumbra da sala, sendo a tela da televisão a única fonte de luz, a atmosfera carregada me dava uma amostra do que meus olhos estavam prestes a testemunhar. Respirei fundo, olhando para cima institivamente, clamando para que o universo fosse bonzinho e concedesse apenas alguns minutos de paz e sossego, pelo menos uma vez desde que a Lily me amarrou aquela criatura chorona no sofá.
Ocupei os dedos, mexendo na pulseira do relógio, enquanto vencia a distância até a mesinha de centro, onde estava a chave do carro. Deixei que a atenção caísse sobre o filme, a cena retratava um acampamento militar alojando as tropas durante a operação. Dois soldados conversavam sobre alguma coisa que não consegui identificar, enquanto um deles queimava cartas em um tambor alto de alumínio. Franzi a sobrancelha, mirando a coelha abraçada a uma almofada, os olhos vermelhos de tanto chorar, com uma caixa de chocolate no colo e outra ainda fechada ao seu lado, pelo chão se acumulava diversas embalagens vazias de doce.
Mas o que caralhos estava acontecendo ali? Ela conseguiria facilmente desidratar desse jeito.
— Você está bem, ? — minha voz possuía um fio de preocupação. Se aquela mulher passasse mal de tanto chorar, eu seria o responsável por levá-la a um médico.
— Ela não tinha o direito de fazer isso! — desabou em lágrimas, enfiando um chocolate inteiro na boca.
— Quem? O que ela poderia ter feito que foi tão ruim assim? — engoli em seco, começando a ficar realmente assustado. Que droga!
— A Savannah! — apontou para a televisão, a voz embargada pelo choro — O John... Ele foi para a guerra e quando voltou... Ela tinha se casado com outro. Nem sequer esperou por ele. — contou entre soluços.
Pressionei as mãos contra o rosto, um grunhido escapando da minha garganta. O soco da frustração atingiu meu estômago. Que idiota eu fui por ter me dado ao trabalho de perguntar, por um mísero segundo cogitando a possibilidade de me preocupar com algo real. Ah... Talvez a solução para todos os meus problemas seja internar em uma ala psiquiátrica, presa em uma camisa de força.
— Você só pode estar de brincadeira. — apertei a ponte do nariz. — , isso é um filme! — bravejei entre os dentes.
— Não interessa. Ela tinha que ter esperado por ele. — enfiou outro chocolate na boca e fiquei impressionado como não conseguia se engasgar comendo feito uma morta de fome. — Você deve saber como é lutar pelo seu país e depois quando voltar para casa, a sua namorada ter se casado com outro. — limpou as lágrimas com o dorso das mãos.
Rolei os olhos.
— Eu não fui para a guerra. E nunca deixei nenhuma mulher para trás e ela se casou com outro. — eu não fazia ideia de onde ela se inspirava para conseguir pensar em tantas asneiras.
Suspirei, guiando-me até o cercadinho em frente à televisão e pegando Mia no colo. Ela me abraçou, bagunçando os cabelos que estavam perfeitamente penteado para trás, mas não me importei de depois ter de arrumá-los no espelho do carro, adorava sentir o abraço mais gostoso e carinho do mundo.
— Está vendo, princesa? — fiz uma careta e ela gargalhou. — Por favor, me prometa que não será sentimental igual a sua tia. Uma ainda consigo aguentar, mas duas, irei enlouquecer. — sorri, as mãozinhas bagunçando os cabelos e abraçando a minha cabeça.
— Eu não sou sentimental, ela só não tinha o direito! — protestou e fungou, mordendo outro chocolate.
Abaixei o olhar, mirando as embalagens no chão e ficando preocupado com a quantidade absurda de açúcar que ela estava digerindo. Uma lâmpada se acedeu sobre a minha cabeça e franzi o cenho, assimilando a ideia sobre o único motivo plausível para deixá-la daquele jeito, só poderia ser isso.
— , você está de TPM?
Ela me lançou os olhos marejados, jogando o resto do chocolate na boca.
— Sim. Qual o problema nisso? — disparou, arrisca como uma felina.
— Nenhum, só não imaginei você comendo essas duas caixas de chocolate sozinha. — sorri para Mia que segurou minha boca e o nariz, brincando com o rosto.
— A loja dos burritos não abriu hoje de noite, então sim, eu vou comer as duas caixas, sozinha. — afirmou, o tom levemente irritado.
Eu ri, não conseguindo segurar o riso cínico que me acometeu, virando-me para a pequena e depositando um beijo em sua cabeça, depois de conseguir escapar das suas mãos.
— Mia... Você é a minha única esperança. Por favor, não me decepcione. — a ergui no ar, arrancando um gritinho de surpresa.
— Você gosta de se alimentar de almas inocentes, impressionante ! — retrucou, voltando a chorar quando uma nova cena do filme começou, parecia um funeral.
— Eu gosto de pessoas normais. — provoquei, colocando Mia no cercadinho e me inclinando para pegar a chave do carro na mesinha. — Vou sair com o Aidan e a Madisson, divirta-se com o seu drama particular.
Passei pelo sofá, sendo obrigado pelo caminho a retirar o celular do bolso da calça quando começou a vibrar. Encarei a tela e neguei com a cabeça. Uma mensagem de Aidan piscava com as seguintes palavras: “Onde você está, cara? A patroa não te deixou sair?”, e depois enviou diversos emoji rindo. Eu tenho um amigo muito miserável.
— Ainda não largou essa vida de mulherengo? — zombou, jogando a cabeça para trás no encosto do sofá e rindo.
— Se fosse mais como eu, não estaria chorando por causa de um personagem fictício e seria menos amargurada. — dei de ombros, guardando o celular, não me dando ao trabalho de responder a mensagem.
— É melhor do que chorar por um homem de verdade. — gritou em protesto.
— Um homem de verdade é mais interessante, não acha?
— Se todos os homens forem como você, prefiro ficar com os meus personagens fictícios. Obrigada. — rebateu, o sorriso zombeteiro nos lábios. — Mudando de assunto... Onde está colocando as suas coisas? — questionou, curiosa.
— Greta arrumou o guarda-roupas antigo do Noah e da Lily. Ela colocou minhas roupas e pertences nele. — expliquei, enterrando os dedos nos cabelos, tentando arrumar os fios desgrenhados.
— Mas... E as roupas deles? — virou-se no sofá, o semblante franzido.
— Ela guardou nas caixas que trouxemos, e... Disse que precisamos decidir o que iremos fazer com elas. — o aperto se apossou do meu peito ao dizer as palavras.
se virou bruscamente, ficando ajoelhada no sofá, as mãos apertando nervosamente o encosto.
— Como assim “o que vamos fazer com elas”? — engoliu em seco, seu olhar perplexo causou um nó em minha garganta.
Suspirei, olhando ao redor da casa. Evitei olhar para os poços castanhos que perdiam mais o brilho a cada segundo. Eu sabia que esse era um assunto delicado, principalmente para ela.
— Talvez, ... Esteja na hora de pararmos de agir como se eles fossem voltar. — era duro admitir, mas tínhamos de seguir em frente alguma hora.
— Não acha que é muito cedo para isso? — sua voz ressoou baixa, quase rouca.
— Não sou a pessoa certa para dizer se é cedo ou não... — trinquei o maxilar, o tique nervoso revelando meu desconforto.
Ela abaixou a cabeça, virando-se de costas para mim e se encolhendo contra o sofá, abraçando aos joelhos e enterrando o rosto ali. Os ombros subiram e desceram conforme começou a soluçar, o choro me atingindo em cheio, decepando as minhas pernas, vê-la daquele jeito dilacerava meu peito de um jeito que sentia como se fosse cair de joelhos e não conseguisse mais levantar.
Me cortava a alma, era como um diamante tão frágil.
— ... — soprei, vencendo a distância até o sofá. — Não chora, por favor... — sentei-me na beirada, tentando tocar em seu braço.
O movimento brusco me pegou de surpresa, girou o antebraço e acertou minha mão, erguendo os olhos e me fuzilando, os olhos vermelhos e inchados. Eu quis puxá-la para os meus braços e segurá-la até que se acalmasse, e fiquei por um fio de fazer isso, se não fosse sua relutância e a figura assustada no fundo dos seus glóbulos castanhos.
Ela me olhava, parecendo diante de uma besta perversa e cruel.
— ... — chamei, o cenho franzido. — Eu não queria... Me desculpe...
— Quero ficar sozinha... — sussurrou, deslizando pelo estofado querendo ficar o mais longe possível de mim.
— Tem certeza de que não quer que eu fique?
— Eu não quero nada de você, . — a voz cortou o ar, fria e distante.
Ela não encontrou o meu olhar, afundando o rosto nos braços cruzados sobre os joelhos, criando uma barreira que me impedia de alcançá-la.
Soltei o ar pela boca, reconhecendo que seria inútil tentar me aproximar. Mordi o interior da bochecha, varrendo a sala com o olhar até encontrar o celular abandonado no sofá. Fui rápido em pegá-lo, notando a ausência de senha assim que a tela acendeu. Meus dedos deslizaram pelo teclado numérico emitindo o som característico, atraindo a atenção dela.
Lentamente, fungou, girando a cabeça, o nariz vermelho e os olhos marejados, fixos em meus movimentos.
— O que está fazendo? — quis saber com a voz embargada.
— Adicionando o meu número de celular. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, não hesite em me ligar. — enviei uma mensagem para o próprio contato para depois salvá-lo.
Era um absurdo pensar que, mesmo morando sob o mesmo teto, fôssemos tão desconectados ao ponto de não termos o número um do outro.
— Não vou ligar para você. — limpou as lágrimas que desciam pelas bochechas.
— Não precisa, mande uma mensagem. Um emoji já serve. — deixei o aparelho no sofá e me levantei em seguida, indo em direção da porta que me chamava como uma fuga.
Atravessei a entrada da casa, apertando o botão de alarme do carro. Ocupei o lado do motorista, colocando a chave na ignição e dando uma última olhada na casa antes de ligar o veículo. Algo me dizia que ficar longe de era a melhor opção. Ela precisava de espaço, do silêncio para refletir sobre o assunto e minha presença ali só a atrapalharia, além daquela súbita vontade de envolvê-la em meus braços até que não tivesse mais lágrimas para chorar e as batidas erráticas do coração acalmassem.
Eu estava perdendo o juízo, considerando abandonar Aidan e Madisson para ficar ao lado da mulher que, naquele momento, me odiava com todas as forças.
Tudo era precipitado, eu sabia.
Quando Greta falou sobre os pertences deles, também não reagi muito bem. A dor da perda de Noah e Lily ainda era um nó apertando em minha garganta, e a ideia de ter que decidir sobre o futuro das suas coisas era um peso insuportável. Mas acreditava – talvez sendo ingênuo da minha parte – que seria mais fácil lidar com o luto, a saudade e a ausência se não estivéssemos rodeados por lembranças materiais do casal.
O som abafado da música eletrônica e as luzes coloridas atingiram o interior do carro. Manobrei o veículo, entrando no estacionamento, me dando conta de que passei o caminho todo submerso nos pensamentos sobre e acabei dirigindo no automático, nem sequer prestando atenção na estrada. Desliguei o motor e tombei a cabeça para trás, esfregando o rosto com as mãos, enchendo os pulmões de ar antes de sair e passar pelas portas da boate.
A atmosfera carregada de testosterona, perfume barato e o cheiro de álcool impregnava cada canto da The Obsidian Club. Os seguranças menearam um aceno discreto com a cabeça assim que cruzei o estreito corredor da entrada. Entrei no imenso salão, lotando por homens e mulheres que dançavam, bebiam e se agarravam. Engoli em seco, a garganta áspera, arrumando a gola da camiseta num gesto automático, enquanto varria o mar de rostos em busca das duas criaturas insolentes.
A pista de dança se perdia entre as luzes vermelhas e azuis, circundando mesas estrategicamente posicionadas de frente para o palco que exibia estruturas de pole dance onde as dançarinas se apresentavam, os movimentos sensuais dentro de lingeries minúsculas. O bar, extenso e iluminado, ocupava a parede direita, com prateleiras repletas de garrafas cintilantes. E a direita, era o meu refúgio habitual: uma cortina de veludo vermelha, elegante como as de teatro, ocultava a entrada para os quartos privados onde casais poderiam se divertir com mais privacidade.
Avistei Aidan no camarote VIP, localizado na parte superior da boate, um lugar que sempre escolhíamos para escapar da multidão cheia de hormônios. Ele acenou na minha direção, os cabelos loiros desalinhados e o sorriso debochado, cercado por mulheres risonhas e taças de champanhe. Madisson, com seu vestido preto colado ao corpo, apoiava-se no parapeito do andar, o olhar felino estudando a pista de dança com um ar entediado.
Subi os degraus que levavam ao camarote, cruzando com casais que se dirigiam aos quartos privados, e senti um aperto incômodo no estômago. A promessa de uma noite recheada de diversão parecia vazia, os risos e a música alta soavam como um ruído distante, não sendo o suficiente para afastar a imagem dos olhos marejados de e a fragilidade que seu corpo se encontrava. Suspirei, sacudindo a cabeça, aproximando-me da mesa, sendo recebido por um abraço de Madisson.
— Olha aí, o bom samaritano resolveu dar o ar da graça! — Aidan gritou, enlaçando a cintura de uma ruiva e erguendo a taça em um brinde irônico. — Pensei que tinha nos trocados por uma noite de tricô.
Forcei um sorriso cínico.
— Ele nunca faria isso. — respondeu a ruiva, desvencilhando-se do braço de Aidan e vindo na minha direção.
Os traços delicados, quase angelicais, me atraíram em um magnetismo inesperado. Os olhos verdes eram duas esmeraldas faiscantes, cheios de lascívia pura. A boca carnuda, pintada de vermelho, entreabriu-se formando uma fenda extremamente sexy. Algumas sardas salpicavam suas bochechas, e o vestido verde, com um decote profundo, abraçava as curvas convidativas, os seios quase saltando em uma oferta descarada.
Sua mão deslizou pelo meu ombro, descendo ao peitoral, o olhar fixo em meus lábios.
— Estou louca por você, hoje... — sussurrou próximo ao meu ouvido, deslizando um bilhete dobrado no bolso da camiseta de linho. — Te espero depois do show, não me decepcione, gatinho. — sorriu, depositando um beijo rápido em minha boca.
E nem mesmo o toque quente dos seus lábios foi o suficiente para dissipar a imagem persistente de , que mais parecia uma sombra disposta a me atormentar a noite inteira. Que inferno!
— Humm... O que a “esposa” vai achar disso? — Aidan zombou quando a mulher se afastou, levando as outras dançarinas consigo.
Peguei o copo de vodka em cima da mesa e o virei, esvaziando em um único gole. Fiz uma careta, a garganta queimando e ao mesmo tempo aquecendo o corpo por dentro, tornando-se o combustível perfeito para encarar a noite.
— Ele está aproveitando que conseguiu escapar da vida de casado para reviver os velhos tempos. — comentou Madisson, a voz embargada pela bebida.
Revirei os olhos, enchendo o copo com a garrafa que estava pela metade, aproveitando para retirar o bilhete do bolso. Beberiquei a bebida, desdobrando o papel e lendo a mensagem explícita da ruiva gostosa, informando que me esperaria no quarto quatorze para uma noite quente de prazer depois do show.
— Agora ele é pai, Aidan, precisa ter responsabilidades. — ela gargalhou.
Dei mais um gole, avistando os holofotes girando em cima do palco e as dançarinas se preparando para a apresentação.
— Lily me pediu que cuidasse da Mia, não que virasse um santo. — arquei uma sobrancelha, esvaziando mais um copo.
— Melhor pegar leve com a bebida, cara. — Aidan alertou, enquanto completava mais uma dose.
— Eu preciso beber. — dei de ombros.
Aidan fez o mesmo, terminando a taça de champanhe e enchendo um copo de vodka. Madisson dançava a nossa frente, movendo o corpo em movimentos sinuosos e sensuais, enquanto olhava para a mesa ao lado, ocupada por dois homens aparentemente da nossa idade.
— E então... Como está a ? — meu amigo perguntou, meio hesitante. — Quando vou conhecê-la?
Minha boca se curvou em um sorriso frio.
— Ela não é o tipo de mulher para você, Aidan. — a frase saiu cortante, mais áspera do que imaginei.
O copo bateu na mesa em um baque surdo, uma onda de calor se apossou do meu corpo em um sentimento visceral. Sendo pego desprevenido.
Ele riu sem humor, batucando o indicador na lateral do copo, pensativo.
— Então para quem seria, ? — quis saber, o sorriso infeliz no rosto. — Sabemos que para você, ela também não é. Mal consegue pronunciar o nome dela sem beber antes.
Estreitei os olhos, enchendo a boca com a bebida amarga e queimando a garganta ao engolir. A mão esquerda, escondida embaixo da mesa, se fechou em punho tão apertado que os nós ficaram brancos. Relaxei os dedos quando assimilei melhor as palavras dele. Aidan estava certo.
— Só fica longe dela. — minha voz era um aviso baixo. — A ... Merece alguém que queria algo sério e verdadeiro. — disse, as palavras retumbando em minha mente como um corretivo para os tormentos.
— Por que está a defendendo tanto? — Aidan insistiu, um tom de curiosidade na voz. — Desde quando se importa tanto com o que ela merece? — estreitou os olhos em uma suspeita. — Tem algo a mais acontecendo? Algo que não está me contando?
Limpei a garganta, bebendo mais um gole, a acusação de Aidan atingindo um ponto sensível.
— Não há nada acontecendo. Estou apenas... Cumprindo uma promessa. — tencionei a mandíbula.
— Uma promessa que te deixa tão tenso a ponto de esvaziar uma garrafa de vodka? — Aidan rebateu, o olhar perspicaz. — Qual é o seu problema com ela, ? Ou melhor, qual é o problema com a ideia de eu conhecê-la?
Engoli em seco, a pontada característica apunhalando meu peito. E quando estava prestes a responder, Madisson chamou minha atenção. Roubou o copo já cheio que segurava, virando de uma vez. Ela fez uma careta, limpando as gotículas nos cantos da boca com a mão, aproximando-se de Aidan, mexendo os cabelos com as mãos.
— Preciso chamar a atenção daquele gostoso da mesa ao lado. — comentou, apoiando a mão no ombro de Aidan e descendo o corpo, rebolando, os olhos preso no homem que era a sua vítima.
— Quando irá parar de me usar para chamar a atenção dos homens? — Aidan retrucou, iniciando uma discussão engraçada com a mulher.
Ri com o canto dos lábios, decidido a observar a pista de dança, inclinando-me no parapeito. Os dedos batucando o copo de vidro, varrendo o palco em que a dançaria ruiva se apresentava, sendo um borrão ao lado da criatura mais deslumbrante que contemplei naquela boate inteira. Os cabelos pretos caiam sobre os ombros em ondas suaves. A lingerie escura extremamente provocante combinava com a máscara, intensificando mistério o da sua identidade.
Seu corpo se movia em sincronia com a batida hipnótica da música, girando na barra de pole dance desafiando a gravidade. A cabeça tombando para trás em um movimento sexy, enquanto as mãos percorriam as curvas atraentes, acederam minha imaginação. Beberiquei a vodka, e por um breve instante, a imagem de se sobrepôs aquela visão, dançando livre, despreocupadamente, um sorriso radiante iluminando a escuridão, olhando perigosamente para mim.
— Eu preciso dessa também. — Madissou roubou me copo de novo — Agora... Estou pronta! — anunciou, remexendo os ombros e me devolvendo o objeto vazio.
— Ela vai passar mal desse jeito. — comentei, voltando para a nossa mesa já que o show havia terminado.
— Madisson só quer aproveitar a noite, algo que deveríamos fazer. — empurrou outra bebida, acendendo um cigarro. — Ela está brava porque viu que vai chover e isso estragará a chapinha dela. — tragou, soltando a fumaça para cima.
Arquei a sobrancelha, mirando seu rosto levemente vermelho pelo álcool.
— Tem uma previsão de chuva para hoje? — quis saber, a voz quase trêmula.
— Para as próximas horas para ser exato, meu amigo. — alternou entre fumar e beber, pedindo outra garrafa de vodka para o garçom.
Peguei o celular, a garganta arranhando de tão áspera. Abri o aplicativo e verifiquei a meteorologia, o resultado confirmou o que eu temia e fez meu coração acelerar, batendo fortemente contra o peito parecendo desesperado, prestes a parar a qualquer momento. Os gritos de invadiram minha mente, a dor em cada som, o terror dos trovões a assombrando. Estremeci só pela lembrança.
— Eu preciso ir. — anunciei, guardando o aparelho e dando as costas para a mesa.
A urgência dominava meus sentidos, o nó apertado no peito.
— Mas, e a garota gostosa? — Aidan gritou, a voz arrastada.
Pesquei o bilhete que havia guardado no bolso e o deslizei pela mesa em sua direção.
— Tenha uma ótima noite com ela. — bati em seu ombro. — Vejo você na clínica amanhã. — e em seguida, sai da área VIP como um raio, descendo as escadas com rapidez, cada degrau acelerando meu pulso.
Empurrei as portas de saída, meus olhos capturando o céu nublado, a atmosfera carregada assim como as nuvens escuras. Os relâmpagos clareavam o horizonte em um brilho sinistro. Corri para o estacionamento, os passos prejudicados pelos efeitos da bebida, tentando ao mesmo tempo buscar as chaves nos bolsos da calça de maneira desajeitada.
Ergui o olhar, a visão turva dificultando a busca pelo carro, sendo tudo apenas um borrado de metais com rodas. Passei as mãos no rosto, puxando os cabelos em nervosismo, começando a me desesperar, a frustração e o pânico se misturavam com a culpa por não ter me atentado ao tempo antes de sair. Corri por entre as fileiras, olhando os veículos um por um, me perdendo nos borrões claros e escuros.
Que droga! Eu não deveria ter bebido quase uma garrafa inteira de vodka!
Um táxi seria a opção mais segura e me faria chegar em casa antes do mundo desabar em água. Balancei a cabeça, a ideia sendo uma solução plausível dentro da mente confusa e alcoólica, ao mesmo tempo que pareceu absurdo deixar meu carro naquela boate. A imagem de Mia sozinha, enquanto se afogava em uma crise de pânico me consumiu.
— Porra! — xinguei, chutando uma pedra em um reflexo de impotência.
O choque gelado das primeiras gotas na pele me paralisou, os pelos enrijeceram e senti as roupas ficaram úmidas. E foi então que a adrenalina cortou o efeito do álcool, não me restando muito tempo. Comecei a correr entre os carros, apertando o botão do alarme em completo desespero. Parecia um maníaco. O bipe do Hyudai Creta soou, os faróis piscando sendo o ponto familiar na escuridão. Agradeci aos deuses por terem amenizado a bebedeira o suficiente para conseguir dirigir até em casa, tendo somente que torcer para não cruzar com alguma viatura militar no caminho.
Entrei no carro, o medo me consumindo. A camiseta estava ensopada, colada ao corpo pela chuva que engrossava a cada instante. Girei a chave na ignição e manobrei, saindo do estacionamento com a esperança de que não fosse tarde demais. Eu lutaria contra o tempo, correria o risco de perder a habilitação tendo apenas os gritos aterrorizados de como minha única direção.
Cada segundo estava em jogo, o tempo sendo o meu pior inimigo.
Capítulo 13
Os sonhos refletem as experiências mais fantásticas, a mente é capaz de criar um mundo completamente novo e nos mergulhar nesse paraíso, tornando-se o lugar onde os desejos e a positividade se encontram em uma dança encantadora. Mas quando a escuridão invade a perfeição, construindo um reino de terrores viscerais, o nosso coração fica prestes a entrar em colapso, sendo esmagado pelo peso do medo, a perturbação o dilacerando a cada instante.
E eu estava prestes a ir de encontro com o pior pesadelo da minha vida.
Girei a maçaneta, empurrando a porta com urgência, depois de passar longos minutos com os dedos trêmulos, perdidos, no emaranhado de chaves. Maldito nervosismo. Deslizei a mão pelos cabelos, os fios encharcados assim como as roupas. Apertei o interruptor, a luz iluminando a sala escura, que estava sendo clareada apenas pela televisão exibindo os créditos do filme com uma melodia dramática.
A chuva densa cobria Nova Jersey, prometendo lavar cada pedacinho da cidade por longas horas a fim. A meteorologia anunciava que somente no dia seguinte o céu ficaria calmo e sem resquícios de tempestades. E eu deveria estar comemorando por ter o privilégio de dormir ao som das gotas tocando o chão na canção mais aconchegante do universo, mas pela primeira vez em anos, estava com medo, o gosto amargo da bile subindo pela garganta.
Os gritos insistiam em ecoar na minha mente, grudando como um chiclete pegajoso.
Caminhei pela casa, vencendo a distância até o sofá, onde encontrei as duas mulheres que insistiam em virar a minha vida de cabeça para baixo. Elas dormiam tranquilamente, causando uma sensação de alívio imediato no peito. tinha a cabeça sobre o meu travesseiro, os cabelos esparramados para todos os lados, o corpo de lado e em uma das mãos tinha um livro aberto, enquanto a outra segurava a pequena, parecendo protegê-la mesmo adormecida. Agradeci aos deuses por não terem escutado a chuva.
Cuidadosamente para não as acordar, envolvi Mia nos braços, notando que minha pele fria a incomodou já que se remexeu, fazendo uma careta fofa. Alcancei a coberta que estava entre as almofadas, a enrolando para que ficasse aquecida. Balancei os braços suavemente, os movimentos milimetricamente calculados, intercalando com os passos ruidosos e encharcados pelos degraus da escada.
Atravessei o corredor, depositando um beijo na cabeça dela, antes de empurrar a porta do seu quarto com o cotovelo. Não me preocupei em acender a luz, deixando-me ser guiado pela iluminação que entrava pela janela. Parei diante do berço e a aconcheguei no colchão macio, puxando outra coberta, substituindo a que já se encontrava levemente úmida. Deslizei os dedos pelas bochechas gordinhas, curvando um sorriso quando ela se virou, em um sono profundo e tranquilo.
Sai do quarto em silêncio, fechando a porta com um cuidado que nem sabia que existia. Encarei o corredor, a claridade iluminou as paredes quando um raio cortou o céu. O estrondo explodiu no horizonte, tremendo a cidade inteira. Cessei os passos, apoiando as mãos no parapeito de proteção atento aos sons no andar de baixo, qualquer grito ou desespero que saísse da boca de , eu estaria disposto a me jogar daquela altura para encontrá-la.
Não tinha ideia do que estava acontecendo comigo, mas só de imaginá-la chorando e implorando para que a chuva parasse, meu coração rasgava em milhões de pedaços.
Engoli em seco, ficando longos minutos parado, os batimentos descompassados nos ouvidos. Fechei os olhos e suspirei, esfregando o rosto com as mãos, decidindo seguir o meu caminho, rumo ao quarto principal para trocar as roupas ensopadas – que já começavam a colar na pele – por peças limpas e secas. Como um jato empurrei a porta, voando em direção ao guarda-roupas. Agarrei a primeira combinação que julguei aceitável para passar a noite. Uma bermuda e uma camiseta de algodão, ambas simples e pretas.
Larguei os tênis em um canto qualquer, sentindo a temperatura fria do porcelanato sobre os pés enquanto fazia o caminho de volta para a sala, a claridade dos relâmpagos iluminando meus passos. Desci as escadas, percebendo que nem sequer tinha se movido. Soltei o ar dos pulmões nem percebendo que o tinha prendido. Não demorei muito para vencer a distância até o sofá, procurando pelo controle entre as almofadas e desligar a televisão que ainda tocava a melodia dramática.
Sentei-me ao lado do corpo adormecido, afastando alguns fios teimosos do rosto dela. O semblante tão sereno me remetia a uma calmaria sem fim. Acariciei em círculos a bochecha levemente ruborizada, o calor abraçando meus dedos em uma ardência estranhamente familiar, despertando em mim uma ternura imediata. Seus lábios entreabertos exalavam um suspiro suave, e em um impulso quase incontrolável, inclinei-me, o arrepio percorrendo minha espinha com a intensidade do seu perfume, a fragrância frutada de romã e verbena hipnotizante.
— . — toquei o ombro delicado, acariciando com o polegar.
Ela resmungou algo desconexo, parecendo mais um grunhido.
Meus lábios curvaram-se em um sorriso, uma corrente elétrica que me fez levantar e cuidadosamente a envolver nos braços, aconchegando seu corpo contra meu peito. Em outro impulso aproximei o rosto dos seus cabelos escuros, macios e sedosos. Fechei os olhos, expirando o cheiro de argan e manteiga de cacau, suave e tão gostoso, que era capaz de causar uma confusão nos meus sentidos. Talvez fosse apenas o alívio de vê-la em paz, ou talvez, fosse algo desconhecido que estivesse crescendo no interior do meu peito carregado de eletricidade.
— O que você está fazendo comigo, coelhinha? — sussurrei, completamente enfeitiçado por ela.
se remexeu, esfregando a cabeça contra meu peito, como uma gata manhosa buscando calor e segurança. Não contive o sorriso ao observar a cena, hipnotizado pela beleza dela, uma doçura inesperada florescendo em meu peito. Subi de novo as escadas, dessa vez os passos no automático, não conseguindo desviar os olhos dos traços delicados suavizados pelo sono. Os olhos fechados tão entregues a inconsciência que nem parecia mesma a mulher que tem medo de chuva.
Parei em frente a porta do quarto, tão encantado por ela que nem sequer percebi para onde estava indo. Aconcheguei seu corpo contra o colchão, observando a respiração calma movendo os ombros levemente sob o cobertor amassado. Uma onda súbita de proteção me invadiu, o desejo de afastar qualquer coisa que pudesse perturbar aquela paz, e estava disposto a fazer de tudo para que o trovão que cortou o céu naquele instante não a fizesse mergulhar de cabeça nos seus pesadelos.
Encarei a janela em um movimento urgente, correndo para puxar as cortinas com força, impedindo que a claridade lancinante dos relâmpagos invadisse o quarto. O gemido torturante, carregado de terror, causou o arrepio na minha espinha como uma descarga elétrica. Os batimentos cardíacos aceleraram a um ritmo frenético quase insuportável.
Outro estrondo irrompeu no céu com uma fúria ensurdecedora, mais alto e visceral do que os anteriores, sacudindo as paredes da casa igual a folhas frágeis de papel. A chuva do lado de fora se intensificou, transformando-se numa torrente implacável, a água batendo contra o vidro da janela com força em um ataque violento, ameaçando engolir tudo ao seu redor, inclusive o meu coração.
— Por favor... Por favor, me deixem em paz! — gritou, a voz esganiçada pelo desespero, um grito cortante.
Atravessei o quarto como um raio com a visão do corpo pequeno se debatendo convulsivamente na cama. As lágrimas desciam pelo rosto, antes tão calmo, deixando rastros de puro terror. Seus olhos cerrados tentavam bloquear a visão do pior monstro do universo. Sem hesitar, subi no colchão e a puxei para os meus braços, causando uma reação imediata e desesperadora. tentou se desvencilhar, os braços e pernas se moveram em espasmos involuntários, distribuindo socos e tapas cegos que atingiam meu corpo.
E de repente, senti a dor pungente de suas unhas cravando fundo na pele dos meus antebraços. Uma agonia cortante e absurda que se intensificava a cada movimento do seu corpo, tentando escapar do meu abraço.
— SAI DAQUI! ME SOLTA! — berrou, a voz rouca e carregada de pânico, o corpo retorcendo-se em uma luta desesperadora.
— Não vou a lugar nenhum, . — a apertei mais.
Segurei seu braço antes que acertasse um soco na lateral do meu rosto, a prendendo com força quando começou a tentar me chutar, as pernas balançando em desespero. Meu coração partiu-se ao meio quando ela começou a chorar e implorar que a deixassem em paz, seus olhos ainda estavam fechados, as bochechas vermelhas e as sobrancelhas apertadas. Eu não sabia dizer se estava ou não acordada, mas tinha certeza de que estava presa em uma crise de pânico, igual naquela noite, a única diferença era que eu estava ali para acalmá-la, e não estava disposto a soltá-la nem que o mundo acabasse.
— Sou eu, coelhinha. — sussurrei perto do ouvido dela, o nó se formando em minha garganta conforme os soluços me invadiam. — Sou eu. Está tudo bem... Você tem que se acalmar.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAA. — ela gritou assim que outro estrondo estourou no céu. — Me solta! ME SOLTAAAA! — berrou entre soluços sofridos, a voz embargada.
— Sou eu pequena, sou eu... — vê-la daquele jeito estava me dilacerando. — Escute a minha voz, ... Está tudo bem... — falei no pé do seu ouvido.
— Não está... Eles... Eles... — fungou, agarrando o tecido da minha camiseta.
Se espremeu contra o meu peito e enfiou a cabeça contra o pescoço.
— Coelhinha, precisa se acalmar. Eu estou aqui. — passei o braço pela sua cintura, a trazendo para mais perto. — Eu não vou machucar você... Quero protegê-la dos seus monstros. E não irei embora, nunca irei deixá-la sozinha. — encostei o corpo contra a cabeceira, a aconchegando melhor, nos cobrindo com a coberta.
estava ofegante, a respiração entrecortada e os soluços abafados contra meu tronco. Fungava compulsivamente, um som doloroso que ecoava pelo quarto. Ela tremia de uma maneira visceral que nunca tinha visto, espasmos pequenos e incontroláveis a percorrendo, lutando com os monstros invisíveis que a assombravam há muito tempo, sempre sozinha. O medo a prendia em um nó sufocante, tornando-se difícil até de respirar.
— Me deixe te ajudar, pequena... Quero protegê-la. — colei minha boca em seu ouvido, torcendo para que conseguisse me ouvir. — Não tenha medo de mim, eu não vou te machucar. — fechei os olhos, depositando um beijo terno em sua testa e me repreendi pelo afeto no momento seguinte, mas ignorei tudo o que isso significava, não me importando com mais nada, apenas ela. — Pode chorar no meu ombro, . Estou aqui para você, e não irei a lugar algum. Ficarei aqui a noite inteira, só respire devagar, por favor. — implorei, temendo que ela desmaiasse por não conseguir puxar o ar.
Deslizei a mão para os cabelos macios, movendo os dedos em um afago lento e constante, sentindo a tensão dos seus ombros ceder aos poucos sob meu toque, mesmo com a fúria da chuva chicoteando o telhado. Se pudesse, ficaria ali a noite inteira, como um guardião contra os seus demônios. E apesar de não ter dormido com nenhuma mulher depois da Nora, com , estava disposto a fazer isso, mesmo que ela me odiasse no dia seguinte.
— O que aconteceu com você, pequena? — murmurei, a voz rouca e baixa, acompanhando o ritmo da sua respiração. — Quando foi que passou a ser assombrada desse jeito? — acariciei seus cabelos, o aroma sutil e adocicado invadindo meus instintos, fechei os olhos quando depositei outro beijo contra sua testa. Meus lábios permanecendo ali, incapazes de se afastar, buscando um conforto inexplicável no calor da sua pele. — Vai ficar tudo bem, eu prometo, coelhinha.
Ela nunca mais enfrentaria a fúria dos seus demônios sozinha. Porque eu sempre seguraria a sua mão na escuridão.
As próximas horas se arrastaram como uma eternidade. Acordei com uma insuportável dor no pescoço, a cabeça tombada para o lado ainda apoiada sobre a de , seus cabelos macios sendo o meu amparo. Minhas costas reclamaram quando ousei me mexer, implorando para me deitar em uma cama dura onde pudesse esticar o corpo. Além disso, os efeitos da ressaca chegaram, causando mais estrago.
Merda, eu estaria fodido ao amanhecer.
Lentamente deslizei pela cama, soltando os braços de que estavam ao meu redor, abraçando minha cintura como se fosse a sua última esperança. Apoiei sua cabeça sobre um dos travesseiros, puxando a coberta e a enrolando no tecido, evitando que a pequena brisa da noite a atingisse. A chuva ainda caia do lado de fora, deixando claro que não daria uma trégua para Nova Jersey tão cedo, mas pelo menos estava mais calma, os relâmpagos cortavam o céu em absoluto silêncio.
Verifiquei o celular que havia deixado sobre a mesa de cabeceira quando troquei as roupas mais cedo. 3h45min. Madrugada. Fechei os olhos e suspirei, olhando em seguida para o corpo feminino adormecido, o rosto retorcido e ainda vermelho pelo choro, os olhos inchados e os lábios carnudos entreabertos. era como um anjo, a pele clara e os cabelos pretos reluzindo com a imagem angelical, suas asas com certeza seriam sinônimo de perfeição, tornando-a a criatura mais magnífica do universo.
Como era possível um ser tão belo ser assombrado por tantos demônios?
Balancei a cabeça, massageando a nuca na intenção da dor latejante se apaziguar mesmo que fosse por apenas alguns minutos. Sai do quarto, calculando milimetricamente a intensidade dos passos para não fazerem barulho. Empurrei a porta, deixando uma pequena fresta já que o som da maçaneta poderia acordá-la. Passei rapidamente para olhar Mia, encontrando-a mergulhada em um sono profundo. Ajeitei a coberta sobre ela e deixei um beijo no topo de sua cabeça, ligando o abajur de ovelha, para caso acordasse não se deparasse com a completa escuridão.
Voltei para o corredor, descendo as escadas olhando para a tela do celular, decorado por mensagens dos meus dois amigos. Não segurei o riso quando a foto deles apareceu. Saiam da boate completamente encharcados e ela com a maquiagem borrada, os olhos pretos como um urso panda. Arrastei para o lado e me deparei com um vídeo onde ambos brigavam e Madisson o estapeava, gritando que por culpa de Aidan foi obrigada a estragar o cabelo que demorou horas para alisar. Eles formavam uma bela dupla, apesar de na maioria das vezes parecem duas crianças birrentas.
Fui para a cozinha ainda rindo, e enquanto digitava a mensagem, a mão buscou instintivamente a porta da geladeira. Precisava da caixa de água de coco que comprei no dia anterior, um investimento que sempre foi um aliado para aliviar os sintomas da ressaca. Abandonei o celular sobre o balcão e inclinei a cabeça, permitindo que o líquido gelado deslizasse pela garganta, causando o choque térmico quase imediato. Meus órgãos congelaram por um instante e fiz uma careta involuntária, os dentes cerrados em um pedido mudo por uma trégua daquela agressão.
Encarei a janela, os pingos insistentes batucando contra o vidro, clamando por atenção. As gotículas redondas reluziam a luz branca e fria florescente da cozinha, transformando a superfície em uma tela cintilante, uma paisagem linda e hipnotizante. Caminhei até a pia, levando a caixa comigo, desta vez, tomando goles pequenos e controlados, evitando que o choque repentino acontecesse novamente. O raio silencioso rasgou o horizonte quando ergui os olhos para o céu, vibrante e recheado de uma angústia que não pude evitar.
— Você sabia das crises, Noah? — outro clarão se propagou, iluminando brevemente a escuridão.
Deixei a bebida de lado, apoiando as mãos na beirada fria do mármore. Fechei os olhos, um suspiro cansado escapou por entre os lábios, o ar se esvaziando dos pulmões de um jeito quase dolorido. Uma fisgada brutal atingiu o meu peito, o arrepio gélido percorreu pela espinha, a sensação lancinante me dominando, como se o meu coração estivesse sendo esmagado por uma força invisível somente por pensar nela.
— Eu não sei o que fazer para ajudá-la, cara... — murmurei sozinho, a voz rouca ecoando no silêncio, esperando que de alguma forma, Noah pudesse me dar as respostas que tanto precisava. — O que você faria no meu lugar? — mirei o céu escuro, as gotas caindo com intensidade melancólica.
No entanto, em resposta a minha súplica, tive a textura felpuda, macia e calorosa se esfregando contra os braços estendidos. Encarei a criaturinha preta, seus olhos amarelos brilhando em duas esferas cheias de brasas, enquanto se sentava a minha frente, a cabeça inclinada, analisando meu rosto com interesse. O focinho minúsculo e úmido se movia com uma calma infinita, e o ronronado profundo tinha o poder de absorver todos os meus medos. A angústia diminuiu, sendo roubada pelo felino.
— Como ela enfrentou tudo isso sozinha, Sky? — acariciei sua cabeça, distribuindo o carinho lento atrás das orelhas pontudas.
Uma corda invisível apertou ao redor do meu pescoço, o nó no fundo da garganta me sufocando. Não conseguia pensar na possibilidade de ter escondida as crises até mesmo do seu irmão, passando por tudo sozinha, tendo como sua única companhia a solidão do quarto. E o que tanto a assombrava? O que aconteceu para um fenômeno tão belo como a chuva a assustar desse jeito?
Ela sempre foi uma mulher forte, mas não tinha que passar por isso sozinha.
O estrondo do trovão explodiu no lado de fora, arrancando-me dos devaneios. As gotas, agora, batendo com mais força contra a janela, a chuva aumentando mais uma vez. Olhei para o felino que ainda me estudava e alarguei um sorriso, o delinquente ansiava por um pacote de sachê, mas estava tarde demais para comer, além disso, o alimentava sempre que miava, deixando possivelmente sua taxa de sódio nas alturas.
O peguei no colo, acariciando sua cabeça, enquanto se aconchegava em meus braços. Seguimos para a sala, onde o deixei entre as almofadas e subi para o quarto, ouvindo o som da água correndo pelo telhado com agressividade. Eu estaria lá quando acordasse. Passaria a noite inteira ao seu lado se fosse preciso, sendo incapaz de me afastar, mesmo que isso me custasse a cabeça no dia seguinte. Seria o seu protetor naquela noite. Cuidaria dela enquanto estivesse chovendo.
Capítulo 14
Os primeiros raios solares começavam a decorar o horizonte. A claridade entrou pela janela, batendo em cheio no meu rosto. Obriguei os olhos a se apertarem, ao mesmo tempo em que puxava o ar profundamente. Havia uma pequena ardência na ponta do nariz, resultado de mais uma noite de chuva presa na crise de pânico.
No entanto, dessa vez tinha sonhado que braços fortes me envolviam. Os músculos criando uma barreira contra os demônios de uma maneira que consegui dormir tranquila por longas horas. E até tentei ver o rosto do meu salvador, só que tudo o que encontrei foi um grande e reluzente círculo branco escondendo sua identidade.
Senti a estrutura firme e quente tocando suavemente a palma da minha mão. Tateei por cima do tecido, os músculos do peitoral sendo delineados pelos dedos. Sorri inconscientemente, aconchegando a cabeça no travesseiro macio, sendo abraçada pelos lençóis quando o cheiro alcoólico forte se misturou as notas de cedro e pimenta preta, estapeando meu rosto.
Fui puxada tão bruscamente para a realidade, que o coração errou uma batida ao encontrar o rosto adormecido ao meu lado.
Arregalei os olhos, reconhecendo o perfume que tanto usava para os personagens nos livros. Mirei o homem completamente imerso em um sono profundo. O queixo sobre meus cabelos e os braços musculosos envolviam a minha cintura, do mesmo modo que eu o abraçava parecendo com medo que fosse se afastar. Meu rosto se encontrava a centímetros de distância do seu peito, ansiando pelo toque quente da pele nua se não fosse pela camiseta preta que usava.
Foi então que as peças se encaixaram. Pequenas lembranças distorcidas passaram como borrões em minha mente. As mãos imundas de Kaleb me tocando quando de repente alguém aparecia no pesadelo e o empurrava, golpeando o homem com violência. Pisquei astuta, lembrando de ser envolvida pelos seus braços, com ele sussurrando palavras doces que me deixavam amparada, calma, relaxada.
Dei um salto, querendo distância, parecendo diante de uma cobra peçonhenta que se preparava para dar o bote. Cambaleei para fora da cama, quase me desequilibrando ao escorregar no azulejo. Engoli em seco, arrastando os pés para trás com destreza, a garganta seca igual ao deserto. Minha respiração estava acelerada, emparelhando com o coração que esmurrava contra as costelas. O órgão queria saltar e correr para qualquer lugar que fosse o mais longe daquele quarto e se esconder.
Balancei a cabeça quando o cérebro traiçoeiro uniu as peças e formou o rosto do desconhecido. As sobrancelhas grossas emolduravam os olhos azuis amendoados; os cabelos loiros escuros se perdiam entre as mechas avermelhadas, puxando para um tom cobre e dourado; a barba por fazer delineava o maxilar forte e marcado; e a boca era uma linha fina perfeita, sempre pronta para lançar um sorriso malicioso.
O desconhecido agora tinha nome e sobrenome. Que maravilha!
Obriguei as pernas a se moverem, tropeçando nos próprios pés e esbarrei contra a cômoda. O estrondo foi quase ensurdecedor. Milhares de pedacinhos do vidro voaram pelo quarto, nadando na água que escorria pelo azulejo e agora molhava minhas roupas. As belíssimas rosas encontraram o chão em um baque seco, as pétalas se soltando do receptáculo de maneira agressiva. Ergui os olhos arregalados para a cama e a garganta fechou ao ver o corpo do homem se espreguiçando.
Rapidamente agarrei o abajur em cima da cômoda e segurei como se fosse a arma mais letal do universo.
— O que, caralhos, significa isso? — gritei, a voz esganiçada.
apertou os olhos com os dedos, fazendo esforço para levantar o tronco e se sentar na cama. Os cabelos bagunçados davam um charme que me amaldiçoei por ter notado.
— Será que você pode, por favor... Falar um pouco mais baixo? — seu pedido soou como um sussurro arrastado. — E as cortinas... — espremeu os olhos, indicando a janela. — Se importaria de fechar? — suspirou, cobrindo o rosto com as mãos.
Franzi o cenho, atendendo ao seu lamento. Soltei o abajur ao notar que ele não seria ameaça nem para uma mosca naquele momento.
— Você se torna um lorde de ressaca. Incrível! — zombei, puxando as cortinas com precisão.
— E você precisaria tomar um barril de álcool para se tornar uma princesa. — resmungou e em seguida, xingou quando puxei os tecidos. A luz do sol invadiu com brutalidade. — ! — berrou, o corpo curvado.
— Você virou um vampiro das trevas, ? — pressionei os lábios, segurando o riso. — A luz do sol é vitamina pura.
— Eu estou com uma puta ressaca e com zero ânimo para discutir com você! — jogou-se na cama, espremendo o travesseiro sobre o rosto.
— Só vou fechar, porque quero que me diga o que está fazendo na minha cama. — tentei soar controlada, apesar da curiosidade estar me matando.
Puxei as cortinas e certifiquei que nenhum milímetro dos raios solares atrapalhasse nossa conversa. O cretino me devia respostas.
— Sua cama?
Ele jogou o travesseiro longe encarando o teto por alguns segundos, antes de se levantar bruscamente, com a expressão de quem viu um fantasma, e olhar ao redor. Massageou a têmpora quando provavelmente foi atingido por uma pontada aguda na cabeça. Grunhiu, ainda analisando os detalhes do quarto.
Revirei os olhos, para no instante seguinte ser consumida por uma onda de euforia e surpresa somente por olhar ao redor.
— Esse quarto... — murmurei. Pairei os olhos sobre os móveis perfeitamente arrumados.
A cama de casal imensa tinha os lençóis brancos que perfeitamente combinava com a cabeceira cinza claro. Os travesseiros grandes eram reconfortantes e o edredom macio como pluma. Havia uma mesa de cabeceira onde estava o abajur que usei como arma, e era lugar do vaso de rosas, junto com alguns livros – que provavelmente pertenciam a Noah. Depois em frente a janela tinha um pequeno sofá retrátil com almofadas em tons claros.
Ao lado da porta ficava a cômoda com um espelho que servia para auxiliar na hora de arrumar os cabelos ou fazer uma impecável maquiagem. E o guarda-roupas ocupava o restante da parede ao lado da janela, luxuoso e imenso. Os espelhos nas portas quebravam completamente o ar de privacidade. E por fim, em frente a cama, tinha uma televisão de 50 polegadas que deveria ficar incrível exibindo um filme romântico.
Lily e Noah não mediram esforços para criar o ambiente mais aconchegante da casa. Tudo cheirava a luxo e tranquilidade.
— É o quarto deles. — constatou, o rosto incrédulo.
E foi com as expressões dele que a fúria começou a consumir meu âmbito aos poucos. O cérebro pareceu ter levado uma injeção de esquecimento, já que não conseguia nem formular imagens claras da noite anterior. Tudo que me lembrava era de estar assistindo Querido John com Mia e o resto se tornava borrões. Então como acabei dormindo na mesma cama que aquele homem, no quarto dos nossos irmãos? Será que ficamos tão bêbados ao ponto de esquecer os próprios nomes e sucumbimos a um desejo inexistente? Mas, então, por que só ele sofria com os efeitos da ressaca?
Balancei a cabeça, decidida a arrancar qualquer mínima informação da boca de , nem que para isso tivesse que fazer suas retinas fritarem com o sol.
— O que aconteceu ontem à noite? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Quer mesmo perguntar isso a uma pessoa de ressaca? — apertou os olhos com os dedos. O suspirou escapou dos seus lábios.
— Você é a minha única esperança sobre o que houve nesse quarto. — apontei o dedo em riste.
— Sinto em te decepcionar, coelhinha. — curvou a boca em um sorriso de canto. — Mas apenas me lembro das garotas gostosas da boate.
Era um pesadelo. E eu precisava acordar nos próximos minutos, se não ia enlouquecer.
— Você é nojento, . — grunhi, enraivecida. — E não me chama desse jeito!
Ele riu irônico.
— Não se importou das outras vezes. — passou as mãos pelos cabelos, desgrenhando mais os fios. — Por que está tão na defensiva?
— Não estou na defensiva, eu só quero saber o que houve entre a gente. — engoli em seco, impedindo que começasse a imaginar qualquer coisa com ele.
— Não houve nada. — levantou-se da cama, cambaleando. — Ah… Preciso de um banho. O seu perfume está me deixando enjoado. — fez uma careta, massageando a nuca.
Rolei os olhos, os braços cruzados em frente ao peito. estalou o pescoço, indo para o banheiro da suíte do quarto, se arrastando como se estivesse preso a uma pedra, mas antes que fechasse a porta, gritei:
— Aproveite e tira esse cheiro de álcool que está poluindo a casa! — jurei que o ouvi me xingando, mas a batida brusca da porta ofuscou a sua voz.
Sentei-me na cama, o corpo exausto, cobrindo o rosto com as mãos. Esforcei o cérebro ao máximo para preencher o vazio que pairava sobre a noite anterior. Buscaria por respostas sozinha, já que o imbecil parecia mais desmemoriado do que eu. O som do chuveiro irrompeu brevemente a concentração, e a imagem de sob a água invadiu minha mente de maneira anormal, pegajosa, recusando-se a sair.
Engoli em seco, fechando os olhos automaticamente. Minha imaginação perversa via os ombros largos e suas costas musculosas serem engolidos pela água. Seus dedos penetraram os cabelos úmidos, puxando-os para trás, e então o corpo dele se virou. E, porra, nada em preparou para o que a minha mente projetou.
O peitoral definido e o abdômen torneado, agora molhados e brilhantes, pareciam uma obra de arte. Seus olhos, antes azuis amendoados, se tornaram um oceano de luxúria me possuindo com o brilho animalesco no fundo das pupilas. Ele me devorava aos poucos, pegando cada pedacinho para si. A mandíbula relaxada, a boca levemente aberta, e o jato de água cumpria perfeitamente o seu trabalho, escorrendo por cada curva daquele copo esculpido.
Era a visão da verdadeira perdição. A linha em V do quadril, atraía minha atenção de forma magnética, desejando que fosse mais ousada, que vencesse a distância e o tocasse… Mas fui mais forte do que isso, bloqueando o avanço da própria fantasia.
Levantei-me da cama como um raio. A garganta tão seca que quase me engasguei. O que estava acontecendo comigo? Como se não bastasse acordar na mesma cama que , agora tinha de lidar com os pensamentos intrometidos me desconcertando, e o pior de tudo: excitando. Meu corpo parecia ter vida própria, sendo puxada para ele. A corda invisível nos envolvia, prestes a nos jogar do abismo.
Minha mente se tornou um campo minado. Em um instante, revivia os toques imundos de Kaleb, a dor cortante e o desespero paralisante. Para no outro, fantasiar com , nu e molhado no chuveiro, um desejo que não queria admitir fervendo sob a pele. Como eu podia sentir o fogo tão intenso por um homem depois de ter sido quebrada por outro? Era uma hipocrisia cruel da minha própria biologia, um lembrete constante de que, apesar de todo o medo e repulsa, meu corpo ainda ansiava por algo, mesmo que fosse a mais pura perdição.
Soltei o ar pesadamente pela boca, decidida a fugir do quarto e ficar longe daquele homem. Tinha certeza de que eram apenas os hormônios da TPM conspirando para me enlouquecer como sempre fazia todos os meses. Atravessei o corredor, esfreguei os olhos – provavelmente ainda inchados – durante o caminho, até chegar à escadaria. Os pés se moviam no automático, enquanto ouvia o estômago roncar como um buraco negro, doido para se entupir com açúcar ou qualquer outra coisa doce que Greta tivesse preparado.
A dieta que aprendesse a perdoar, porque tudo o que mais me irritaria agora era um bolo de banana sem açúcar.
O cheiro do café preenchia cada canto da casa, inclusive minhas narinas que se embriagavam com o aroma delicioso. Foi quando uma voz diferente atingiu meus tímpanos. Fina, aveludada, carregada de uma calmaria profissional. Arqueei a sobrancelha, aumentando o passo até a cozinha e me deparei com a mulher ruiva, os cabelos cacheados caindo sobre os ombros, sentada em um dos bancos da bancada. As pernas cruzadas elegantemente denunciavam a postura controlada e notável.
Estreitei os olhos, sentindo uma pontada aguda cutucar a parede interna do estômago, ao mesmo tempo em que o calor esquentou a base do pescoço. Não era possível que teve a audácia de trazer uma das suas “amiguinhas” para a nossa casa e depois se refugiar na minha cama como um perfeito delinquente. Mordi a língua, evitando que o xingamento saísse, e optei por vestir a máscara do sorriso cínico, enquanto finalmente entrava na cozinha.
— Bom dia. — declarei, atraindo a atenção de Greta que cozinhava algo cheiroso no fogão.
— , querida! — o sorriso dela se alargou.
E enquanto isso, sentia minha pele queimando sob o olhar da ruiva misteriosa. Ela esboçou apenas um aceno de cabeça, os olhos percorrendo cada cantinho da cozinha como um cão farejador.
Disfarcei o desconforto, sendo atraída pela risada e os resmungos de Mia que brincava com a tigela cheia de salada de frutas, usando a colher como se fosse uma espada. Sorri, quando levou o pedaço de mamão até a boca para depois jogá-lo no chão, rindo em seguida. Ela olhou para baixo e encontrou Sky conferindo o minúsculo quadrado laranja. Ele o abocanhou e correu para a sala, o rabo peludo balançando em uma vitória.
— E aqui está minha pequena vilã de mamão. — venci o espaço até a cadeirinha de alimentação. — Transformando a salada de frutas em um campo de batalha, que coisa feia, Mia. — brinquei, depositando um beijo em sua cabeça.
Mia gargalhou, levantando os braços, os dedos sujos de fruta. O sorriso dela era contagiante, uma bolha de inocência em meio ao caos, sendo capaz por um breve momento me fazer esquecer que estava sendo observada. Limpei o rosto dela com o babador e puxei uma cadeira para o seu lado, tratando de pegar um pedaço de banana e imitar um avião no ar, com direito a barulho e tudo.
Ela amava quando fazia isso nas poucas vezes em que preparava o café da manhã, e desde então passei a plagiar sua técnica.
— A Mia gosta de ficar jogando a comida para o gatinho. São como parceiros de crime. — Greta comentou, enxugando as mãos com o guardanapo.
— Ela é uma graça. — a ruiva virou a cabeça, observando a cena, enquanto segurava a xícara de café. Sua expressão analítica parecia perfurar minha pele.
Respirei profundamente.
— Desculpe, acho que ainda não fomos apresentadas. — levantei-me, indo em sua direção e estendendo a mão. — Sou a , é um prazer.
Ela encarou minha mão como se fosse uma bomba relógio prestes a explodir. Seus olhos esquadrinharam meu rosto por alguns instantes antes de descer para as minhas roupas – uma camisola curta com babados de cor azul bebê –, se demorando ali por alguns minutos.
— Eu sei quem você é. — foi clara e sem rodeios, o tom neutro, enquanto bebericava a bebida.
Franzi o cenho, incomodada com sua atitude. Encarei Greta, que fez um gesto silencioso para o pequeno crachá pendurado no bolso da camiseta social da mulher. E quando estava prestes a olhar mais de perto sobre o que ela tentava me mostrar, não foi preciso muito esforço para descobrir de quem se tratava a visita a minha frente.
— Sou a Charlotte. A assistente social. — finalmente ofereceu um sorriso pequeno e voltou a olhar novamente para mim, me analisando de cima a baixo com escrutínio.
Ela tinha o dom de me fazer sentir nua mesmo vestida.
— Não acha que é um pouco tarde para estar usando pijama? — a pergunta soou causal, mas o tom possuía uma crítica velada.
Molhei a garganta com a saliva. O sorriso sem jeito preencheu meus lábios. Gostava mais quando pensei que ela fosse apenas uma “amiga” de . Seria mais fácil de expulsá-la com a vassoura.
— A Mia não me deixou dormir essa noite... — fui rápida, torcendo para que passasse despercebido por ela.
No entanto, Charlotte estreitou os olhos, parecendo buscar por qualquer sinal da mentira em meus movimentos.
— Eu vou chamar o . — desconversei, antes que pudesse dizer mais alguma coisa.
O suor frio começava a se acumular em minha testa, durante o caminho em que percorri até as escadas. Os passos lentos e os braços estendidos ao lado do corpo tentavam passar uma postura controlada – algo que estava longe de conseguir. Olhei por cima dos ombros em direção a cozinha, apenas para me certificar se ainda era o alvo daquele pastor alemão de cabelos vermelhos. E ao notar que Greta iniciava uma conversa amigável sobre como conheceu Lily e Noah, não hesitei em disparar a corrida pelos degraus.
O alívio de escapar do olhar inquisidor de Charlotte foi temporário. Subi os degraus de dois a dois, o ar quase faltando nos pulmões. Atravessei o corredor, não reconhecendo minha própria pressa ao entrar no antigo quarto do meu irmão e fechar a porta com urgência. Meu peito subia e descia em desespero, enquanto olhava para os lados, o cérebro trabalhando rapidamente para formular a melhor combinação de roupas. Apertei os olhos em frustração, contendo a vontade de me jogar pela janela. O ar invadiu os pulmões em um suspiro longo, concluindo que apenas precisava de privacidade ou de qualquer coisa que me afastasse daquela situação constrangedora.
O que Charlotte ia achar se soubesse que estava quase entrando em pânico? Com certeza, escreveria na sua ficha que eu seria uma péssima mãe para a Mia.
E antes que começasse a roer as unhas, avistei a porta do banheiro da suíte entreaberta. Ainda tinha uma pessoa que precisava estar a par da nossa situação. Não poderia correr o risco de deixá-lo descer as escadas, encontrar com a assistente social e fazer mais uma cena ridícula como a minha. Soltei o ar pela boca, caminhando até meu destino, o som da água do chuveiro se tornou mais alto conforme empurrava a madeira.
Eu sabia que estava prestes a entrar em uma zona perigosa, mas minha mente já explodia em completo colapso, incapaz de processar o aviso.
Parei no limiar do banheiro, a respiração presa na garganta. O vapor quente embaçava o ar, aquecendo minha pele, conforme criava uma aura quase etérea ao redor do homem que se banhava. A porta do box aberta revelava mais do que esperava. Detalhes íntimos demais para meu cérebro suportar sem sofrer uma pane de sistema. Uma força invisível me impedia de desviar o olhar, atraída por ele.
O jato forte da água escorria pelas costas largas, a torrente atenuava a pele bronzeada, delineando cada músculo – um espetáculo de movimento e forma. Meus olhos seguiram da nuca forte, passeando pelos ombros imponentes e pela coluna, até chegar à linha da cintura. E sem perceber, inclinei a cabeça, impressionada com a visão da bunda redonda.
jogou a cabeça para trás, a água mergulhando seus cabelos loiros escuros. Um suspiro de deleite escapou por entre seus lábios, e reagi quase automaticamente a um som que não me pertencia. O arrepio percorreu cada célula do meu corpo, o calor subindo pelas minhas bochechas, enquanto o formigamento percorreu cada fibra nervosa até o meio das coxas. E antes que fosse consumida pela perdição, cruzei os braços, cobrindo a marca dos seios na camisola fina que parecia uma provocação indecente de tão transparente.
Pigarrei e ele se virou ligeiramente, expondo seu peito esculpido. Minha mandíbula tencionou, não conseguindo desviar o olhar das gotículas que escorriam pelo abdômen definido. Fixei os olhos na linha úmida de pelos escuros que descia do seu umbigo, marcando a trilha perigosa que me convidava a seguir para baixo. Engoli em seco, mirando qualquer outra coisa que não fosse a escultura de carne e desejo a minha frente.
curvou um sorriso de canto dos lábios, lento e provocador. Encarei seu rosto e notei a faísca de surpresa junto com algo a mais – quase animalesco – acendendo em suas pupilas. E bastou apenas alguns instantes para todo o encanto deslizar pelo ralo e abrir caminho para raiva crescente em meu âmbito.
— Perdeu alguma coisa, coelhinha? — a voz, ainda rouca pela ressaca, era um sussurro sedutor que reverberou em cada célula do meu corpo.
— Sim, eu perdi. — franzi o cenho, aproximando-me do box. — Perdi a minha memória e acabei na cama com você. E ainda estou me perguntando como isso aconteceu.
— Procure um psicólogo e pague para ele te hipnotizar. — deu de ombros, segurando o vidro da porta.
Rolei os olhos, o bico se formando em meus lábios. Por um instante, mirei os olhos azuis e cada traço másculo, pensando nos diversos benefícios que ganharia se acertasse um soco naquele rosto privilegiado pelos deuses. Uma ótima maneira de aliviar o estresse e acabar com sua impertinência — ao mesmo tempo em que seria considerado um pecado.
Vozes surgiram no corredor, vindas das escadas. Olhei para a porta e rapidamente fui arrancada do transe, sendo lembrada do porquê estava ali. Corri para fechá-la, assim que ouvi o som de passos se aproximando. Greta deveria estar mostrando a casa para Charlotte, como uma forma de ganhar tempo até que nós estivéssemos prontos para descer e encarar o pastor alemão com olhos treinados, doidos para encontrar qualquer falha.
Encostei-me na madeira levemente úmida pelo vapor do chuveiro. Joguei a cabeça para trás, soltando um suspiro longo e sôfrego. Os braços permaneceram estendidos ao lado do corpo. Esfreguei o rosto com as mãos e a julgar pela sobrancelha arqueada no rosto de , eu deveria estar parecendo uma maluca que acabou de ver um fantasma ou estava me escondendo de um.
— Você parece prestes a entrar em colapso. — o cretino comentou.
Limpei o suor que se acumulava na testa, vencendo a distância até ele.
— Eu estou em colapso! — esbravejei. — Acordei na cama dos nossos irmãos; você estava do meu lado; não me lembro de nada; e agora a assistente social está lá embaixo esperando pela gente. — eram muitos acontecimentos catastróficos para se iniciar o dia.
— Não está muito cedo para a assistente social estar aqui? — retornou para o banho, dando as costas para mim.
— Já são mais de 10h00 da manhã. — e eu ainda estava de pijama.
— Hoje é sábado. Ninguém acorda cedo no sábado. — deslizou os dedos pelos cabelos úmidos, retirando o excesso de água.
— Seja lá o que pensa sobre isso, , aquela mulher está esperando por nós, analisando cada passo nosso. — gesticulava em aflição. — Então faça o possível para tirar esse cheiro de ressaca do corpo. — comecei a andar de um lado para o outro. — Se ela souber que você saiu ontem à noite, ao invés de ficar em casa com a sua filha... Ela vai nos matar e perderemos a guarda na primeira visita.
— , está se preocupando demais. Somos bons para a Mia. — tentou comentar com a naturalidade, mas as palavras soarem como se tentasse convencer a si mesmo disso.
— Para a assistente social podemos não ser e mesmo que pense desse jeito, está na hora de começar a agir como um pai responsável. — sentei-me na tampa do vaso sanitário, cobrindo o rosto com as mãos.
— Não deixe sua ansiedade te confundir desse jeito.
Era fácil falar quando não se tinha visto o pastor alemão sentado na cozinha e com quem estávamos prestes a lidar. Charlotte rapidamente puxaria o lençol que nos encobria e descobriria cada falha que tivemos com a Mia. Desde o dia em que a busquei atrasada na creche, até a noite em que não sabia o que crianças comiam.
Juntos somos péssimos pais e não era preciso ser um especialista para ver isso.
— Nos tornamos pais por acaso, . — levantei-me, roendo a unha do indicador.
Ele desligou o chuveiro, o silêncio pairando entre nós. Puxou a toalha do gancho de metal na parede e a enrolou em volta da cintura, não se importando em secar as gotículas que acumulavam em seu corpo.
— Escuta, ... — se aproximou e pegou em meus pulsos gentilmente. — A Lily e o Noah confiaram a guarda da Mia a nós. — olhei em seus olhos, encontrando o apoio que nunca imaginei precisar. — E eu… Não sei exatamente o que passou pela cabeça deles quando tomaram essa decisão, mas isso não muda o fato de que confiaram em nós de alguma forma. — os polegares acariciaram as costas das minhas mãos. — Juntos, vamos dar um jeito. Vai ficar tudo bem.
Fechei os olhos por alguns segundos e suspirei profundamente, voltando a encará-lo com o semblante cansado.
— E se perdermos a guarda? E se não formos suficientes para ela? — sussurrei, o receio presente em cada palavra.
— Temos que pensar que já somos o suficiente. — frisou, capturando meu olhar.
E foi dentro dos glóbulos azuis que me agarrei ao fio da esperança. O nó na garganta se dissipou aos poucos, a ansiedade ainda presente em meu íntimo. estava tão firme e surpreendentemente calmo, que parecia alheio ao caos que estávamos prestes a enfrentar – os sintomas da ressaca desapareceram como o vento. E nunca pensei que seria no calor do seu toque que encontraria um alicerce para me agarrar.
— Ela não parece o tipo de pessoa que vai se contentar com pouco. — observei, engolindo em seco.
soltou minhas mãos e bagunçou os fios úmidos. Levou as mãos para a cintura e encarou o chão, parecia pensar em uma solução.
— Eu cuido dela. — disparou de repente. — Não quero que se preocupe com isso, apenas se concentre em convencê-la.
Ali, parada na sua frente, estudei as suas feições e a simples ideia de “cuidando” de Charlotte me trouxe uma mistura estranha de alívio e incerteza. Mas como veterinário, com toda certeza saberia lidar melhor com um pastor alemão do que eu.
Então só me restava concentrar na minha parte do plano: pensar nas diversas maneiras diferentes de provar que era uma ótima mãe. Noah confiou sua filha a mim e tudo que poderia fazer em troca era lutar por ela. Esse é o meu dever e por mais que o medo e a insegurança insistissem em me assombrar, faria o possível para convencer o mundo de que a promessa a meu irmão seria cumprida.
— O que acha que vai convencê-la? — a pergunta saiu antes que pudesse evitar, superando meu nervosismo.
agarrou outra toalha no armário da bancada da pia, usando para secar o corpo.
— Tente ser persuasiva. — aconselhou, esfregando o tecido contra os cabelos. — Mostre que cuidamos da Mia com todo o amor e dedicação. A assistente social tem que ver que a Mia é a nossa prioridade número um, e estamos fazendo o nosso melhor para nos adaptarmos a nova realidade. — seu discurso parecia ensaiado quase perfeito, como se tivesse lido sobre isso em algum artigo de “Como ser um bom pai em 7 dias”.
Mordi o lábio inferior, enquanto ouvia as batidas aceleradas do meu coração. O tum-tum-tum sendo o único som a quebrar o silêncio que dominou o banheiro. E enquanto assistia arrumar os cabelos – de maneira desajeitada – com os próprios dedos em frente ao espelho, notei que uma onda de euforia me consumiu. Meus olhos traiçoeiros desceram para o seu peito esculpido onde algumas gotas ainda deslizavam, a toalha em sua cintura revelando mais do que deveria.
A visão do seu corpo molhado, os músculos delineados pela água, fez um calor estranho e proibido tomar conta de mim. E por um momento, o medo e a insegurança desceram pelo ralo, existindo apenas ele, tomando toda a minha atenção para si. Senti as bochechas esquentarem quando desviei o olhar e percebi que segurava a respiração. Engoli em seco, deixando um grunhido escapar, minha garganta estava mais seca que os rios do deserto.
pareceu notar o pequeno deslize, já que percorreu os olhos pela minha postura. O cenho franzido, enquanto borrifava o perfume na pele bronzeada. O aroma fresco e amadeirado encheu meus pulmões, misturando-se com as notas de cedro e pimenta tão familiar. O universo realmente zombava de mim e se deliciava com todo o meu desconforto.
— Você está bem? — perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. A preocupação em seu tom me surpreendeu.
Balancei a cabeça, recuperando a compostura.
— Sim... Estou só um pouco nervosa. — levei a mão para a nuca, olhava para qualquer ponto que não fosse ele e seus olhos pragmáticos.
— Com a assistente social? — se aproximou e o espaço do banheiro pareceu diminuir.
— Na verdade, estou pensando na melhor combinação de roupas para descer. — deslizei pela lateral do banheiro como uma lagartixa e ele fosse o meu predador.
— Não é só isso, é? — sua voz possuía uma estranha doçura. — Você ainda está agitada por causa de ontem à noite. — disparou, sem se mover.
Meu estômago revirou e a garganta secou, arranhando a parede interna. Tudo que mais queria era fugir daquele pequeno cubículo e ficar longe dele, só não imaginei que citaria nossa suposta noite juntos. E mesmo que não estivesse em condições de ficar ali – com os hormônios aflorados – o assunto me interessava. Qualquer informação útil que saísse daquela boca me ajudaria a montar o quebra-cabeça que se formou no meu cérebro.
Ele estava parado, de costas para mim, dando o privilégio de admirar os músculos torneados. Engoli em seco. Não estava em nenhuma condição – e sanidade – de falar com ele naquele estado, sendo um crime ter apenas a toalha ao redor da cintura.
— ... — chamou por sobre o ombro. — Eu me lembro. De tudo. — revelou, jogando a bomba no meu colo.
E foi como se o ar se tornasse rarefeito.
O coração disparou. As batidas erráticas me sufocavam, os murros agressivos contra as costelas como um trovão reverberando em meu peito. Algo sussurrava para me afastar. Como se o submundo avisasse que aquela conversa nos faria cruzar uma linha do qual jamais poderíamos voltar.
Mas a curiosidade era mais forte. Do que ele se lembrava? Da minha suposta crise de pânico ou de como acabei na mesma cama que a sua?
— Não é só medo da chuva. — constatou, sem que eu precisasse confirmar nada.
Mordi o lábio inferior e cruzei os braços em frente ao peito. A cabeça baixa encarava o chão, escondendo o rubor em meu rosto. Então ele soube, e nem foi preciso palavras para revelar o óbvio. Por um instante, pensei que correr fosse a melhor opção para aquela afirmação, mas isso apenas confirmaria meu constrangimento e a verdade por trás das suas palavras.
virou em minha direção e se aproximou um passo, e senti o calor da sua presença sem precisar levantar o rosto. O silêncio que pairou sobre nós era profundo, carregado de uma expectativa que fazia meu coração sacudir no peito. A intensidade dos seus olhos pairava sobre mim, devorando cada detalhe da postura encolhida.
Naquele momento, desejei que um buraco se abrisse no chão e me engolisse. Só para conseguir voltar no tempo e correr, antes que ele percebesse a fissura na minha armadura – que há anos mantive escondida. Mas era tarde, tínhamos atravessado a linha e agora, tinha certeza de que não desistiria até que eu revelasse toda a verdade.
— E-eu não sei do que você está falando... — gaguejei, tentando fugir do inevitável.
— Sabe sim. — aproximou-se mais, sua postura ereta e analítica como um felino. — Você estava em crise, .
Levantei os olhos para encontrar os deles e o oceano azul profundo, cheio de uma compaixão que nenhum homem sequer demonstrou por mim – exceto meu irmão – me engoliu. Meu peito se apertou por não saber se deveria contar sobre os demônios. O arrepio percorreu pelo corpo, o medo de como ele reagiria gelava cada célula; a insegurança por pensar em como me trataria depois de saber que seres tão imundos eram capazes de me assombrar em todos os dias chuvosos.
— ... — chamou, levando as mãos para a lateral dos meus braços.
O seu toque aqueceu minha pele e por um momento senti repulsa, uma vontade imensa de empurrá-lo. Queria correr, me esconder no primeiro buraco que encontrasse. Mas os pés não obedeciam, presos ao chão e na intensidade de , não sendo capaz de fugir dele... Porque, na verdade, acho que não queria me afastar dos seus braços. Ele foi o único que conseguiu me tirar daquele pesadelo e amparar sem que precisasse pedir.
O único homem que me aproximava sem que sentisse medo. Ele nunca me machucaria e conseguia ver essa verdade em seus olhos tão evidentes. A proteção mesclada nos glóbulos azuis parecia prontos para me envolver em um abraço forte, disposto a qualquer coisa para que estivesse segura e longe de qualquer demônio que ousasse se aproximar.
E por um instante meus joelhos ameaçaram ceder e quis contar toda a verdade, ser protegida por ele. Despejar todo o trauma que me corroía por tanto tempo. Mas o medo da sua rejeição era maior que qualquer obstáculo. Senti as lágrimas arderem no canto dos meus olhos, quando finalmente confessei a mim mesma que não suportaria a ideia de perdê-lo para algo tão sombrio.
— Não é apenas um pesadelo ou uma crise de pânico. — suas mãos envolveram meu rosto e por um mísero segundo não desabei. — O que aconteceu com você? — percorreu meu semblante, como se a resposta fosse aparecer escrita na minha testa.
Engoli em seco, segurando as lágrimas. não merecia pagar o preço alto por esse fardo.
— Você parecia com dor. — as palavras saíram como agulhas.
Segurei seus pulsos e uma lágrima solitária escapou, escorrendo pela bochecha. Ele a capturou com o polegar. Doía reviver o passado e não poder contar a ele. Eu queria, mas tinha tanto medo, nunca contei a ninguém.
Ele tentou sorrir, querendo me confortar.
— Está tudo bem, coelhinha. — usou o apelido de maneira tão carinhosa que meu coração deu um solavanco. — Pode confiar em mim. — eu queria confiar, mas a barreira invisível me impedia de fazê-lo.
— E-eu não me lembro de nada, . — apressei-me em dizer. — Só sei que você estava lá e... Agradeço por ter me... Ajudado. — e deixei que a mentira escapasse sem que percebesse.
— Você se lembra de mim, pequena. Isso já é o suficiente. — ele deu um passo em minha direção, encurtando a distância entre nós.
Como resposta, recuei em direção a porta. percebeu minha hesitação, já que não se moveu e continuou com os olhos fixos nos meus. Uma tentativa silenciosa de me segurar. Suavemente, acariciei os punhos fortes e afastei as mãos do meu rosto, sentindo o protesto ardentemente na pele com a falta do calor. E embora ansiasse para me refugiar em seus braços, sabia que precisava afastá-lo e fazer o certo: ele não deveria se envolver desse jeito.
Forcei um sorriso pequeno, sem os dentes.
— Não importa, ... — sussurrei. — Já passou e vamos só... Esquecer tudo isso... — mas eu sabia que nunca seria capaz de esquecer.
Então, antes que ele pudesse esboçar qualquer reação ou protesto, afastei-me e corri para fora do banheiro, atravessando o corredor como um raio. Ignorei tudo ao redor e abri caminho para as lágrimas surgirem em uma avalanche desenfreada. Minhas pernas me guiaram direto para o quarto de hóspedes, onde assim que atravessei pela porta, não hesitei em trancá-la.
Joguei as costas contra a madeira fria e o corpo deslizou até o chão. Os joelhos dobrados contra o peito serviram de apoio para os braços, antes de afundar o rosto ali e deixar que os soluços abafados saíssem. O medo e a vergonha me consumiam, a incapacidade de me abrir com pesava como uma âncora em meu peito.
Eu o queria por perto, ao mesmo tempo em que sabia ser errado. A barreira entre nós era densa demais para cogitar atravessar. E ali, no escuro do meu refúgio pessoal, as lágrimas de frustração e angústia escorriam livremente como o rio de tudo o que eu não podia dizer. Mas no fundo, sabia que o peso daquela verdade que tanto guardava, agora, parecia mais pesada do que nunca.
E, conhecendo , ele nunca mais me deixaria em paz até descobrir o que tanto me assombrava.
Capítulo 15
Arrumei os cabelos com os dedos, optando por deixar os fios soltos e caídos sobre os ombros. Passei as mãos pelo vestido longo em frente ao espelho do guarda-roupas, apreciando os detalhes delicados em padrões florais e geométricos em preto. Ajeitei as alças finas sobre os ombros, o tecido branco tinha uma parte superior justa com detalhes franzidos na cintura.
Parecia uma indiana belíssima, mas isso não foi o suficiente para afastar o sentimento pesado que se apossava do meu estômago. Encarei o reflexo, os olhos sobre o rosto coberto pela camada fina de maquiagem – uma tentativa de cobrir o vermelho da pele. Suspirei, o nariz empinado e levemente inchado. Tentei sorrir, treinando as feições para disfarçar que há alguns minutos desabava no chão do quarto.
E para ser sincera, torcia que Charlotte fosse uma boa pessoa e nem sequer olhasse para mim pelas próximas horas. O seu foco era a pequena Mia e não minha péssima postura materna. Além disso, esperava que já tivesse descido e se comportado como um verdadeiro pai de família, ao contrário do homem solteiro e arrogante que gostava de passar suas noites em boates, cheias de testosterona e perfume barato.
Soltei o ar pela boca e esfreguei o rosto com as mãos, tomando cuidado para não borrar a maquiagem. Como o encararia depois do que houve no banheiro? E pior, como o convenceria a esquecer?
Maldita memória!
Ele tinha mesmo que se lembrar de tudo e ter a audácia de revelar isso ao universo? Poderia apenas ter ignorado e fingido que foi apenas uma noite complicada, mas não... Tinha que ter despertado o seu lado protetor – que eu nem sabia existir.
Ajustei os ombros, o espelho sendo uma testemunha silenciosa. Fechei os olhos e tomei uma respiração profunda, soltando conforme listava os deveres na mente. Seja gentil; conte a verdade; faça da Mia o seu foco; mostre que é uma boa mãe; e o mais importante: se esqueça de tudo o que houve no banheiro. As pálpebras pesadas se ergueram, revelando os olhos castanhos que adotavam uma leve faísca intensa.
Por Noah e Lily, eu lutaria aquela batalha. Sua filha nunca ficaria desamparada se dependesse de mim. E acredito que também estava disposto a lutar por ela do meu lado.
Quando sai do quarto e, em passos lentos, atravessei o corredor, senti o coração dar um solavanco tão brusco que poderia me causar um infarto. Meu estômago revirava e os pelos dos braços se arrepiavam a cada centímetro que avançava até a escada. Minha mente era um furacão de emoções; pensamentos pessimistas e otimistas duelando para assumir o controle. E por mais que estivesse prestes a entrar em colapso – mais uma vez – sabia que no fundo tinha que me agarrar a Mia.
Porque é por ela que descia as escadas rumo à cozinha com o medo e a insegurança fazendo um buraco negro na boca do estômago.
Cheguei aos últimos degraus e arqueei uma sobrancelha quando os risos invadiram os tímpanos. Um som divertido e ao mesmo tempo estridente. Franzi o cenho e me aproximei. Naquele momento, minha garganta secou porque nada me preparou para ver debruçado sobre a bancada da cozinha, os braços cruzados, enquanto a mulher ruiva tocava em seu bíceps, sentada no mesmo lugar e rindo como uma hiena. Ela jogava a cabeça para trás, parecendo à vontade demais.
Tensionei a mandíbula, um calor estranho crescendo pela base do pescoço. O sorriso atraente preenchia o rosto dele, reluzindo na escolha de roupas e os cabelos arrumados. Usava uma camiseta de linho cinza, bermuda e tênis brancos impecáveis. Suas vestimentas fazendo jus a imagem de pai responsável, além disso o semblante sereno contradizia qualquer sintoma de ressaca. O cretino soube esconder perfeitamente que voltou bêbado para casa na noite anterior.
Cruzei os braços em frente ao peito, assistindo a cena como se fosse um reality de show. Avistei Greta do outro lado da cozinha, com Mia nos braços. Ela balançava o corpo em uma música imaginária que só existia na cabeça dela. A pequena sorria e gargalhava, se divertindo com as caretas que a mulher fazia. Não contive o sorriso ao observá-las.
— É muita gentileza sua, . — Charlotte pousou a xícara no balcão com um estalo seco e só então me notou. — Mas se não se importa, gostaria de falar de negócios agora. — o seu humor mudou de maneira tão repentina quanto uma atriz.
Pressionei os lábios para segurar o riso sarcástico. A expressão de era de alguém que acabara de levar um fora educado e ao mesmo tempo frio. Ele realmente achou que o seu “charme” funcionaria? Apenas um ingênuo veria isso como um ótimo plano.
— E tem relação com a Mia, então... — a ruiva crispou as sobrancelhas, a pasta de documentos em mãos. — Acredito que o senhor esteja interessado nisso. — levantou-se, o dando as costas.
Ela se moveu, o aroma do seu perfume de flores silvestres me envolvendo quando parou na minha frente. Ergui a cabeça, encontrando com os olhos esmeraldas, afiados e analíticos, me corroendo como ácido.
— , podemos conversar em um lugar mais reservado?
Assenti, dando um passo para o lado.
— Podemos usar a sala. — indiquei o cômodo.
— Será perfeito. — ela sorriu sem os dentes e saiu, não deixando de olhar ao redor a cada passo.
Curvei os lábios em um bico e empinei o nariz quando voltei a olhar para o homem ainda sentado, debruçado sobre o balcão. Ele dava um longo gole em sua xícara de café, passeando o dedo indicador pelo mármore escuro em círculos imaginários. Os ombros flexionados para frente denunciaram a tensão nos músculos. Massageei a testa e olhei rapidamente para a sala, antes de vencer a distância até , acertando o dedo contra suas costelas.
— Qual é o seu problema? — indaguei, roubando a xícara das suas mãos e bebendo o café amargo. — Esse é o seu plano? — franzi o cenho, apoiando a mão na cintura.
Ele alargou um sorriso com o canto dos lábios.
— Ela é bonita. E pense pelo lado bom: — gesticulou. — Se eu a convidar para sair, a guarda da Mia está garantida. — sua boca curvada era convencida e inacreditável.
— A única garantia que vamos ter é de uma anotação sobre: “Futuro papai da Mia tentou dar em cima da assistente social em troca da sua guarda”. Esplêndido plano!
Apertei a ponte do nariz, controlando a vontade de estapear o rosto dele até que a pele ficasse vermelha e implorasse por piedade. Ele merecia cada tapa.
— Você sabe que ela está te testando, não sabe? — somente um idiota ousaria fazer tamanha burrice. — Não é assim que vamos conseguir a guarda da Mia. O Noah e a Lily nunca aprovariam uma atrocidade dessas.
— Se depender da nossa reputação... — ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Nunca provaremos que somos capazes de cuidar de uma criança. Então é um ótimo plano.
Mordi o lábio inferior.
— E você prefere provar isso fazendo sexo? — arquei uma sobrancelha. — Essa mulher está fingindo, é uma manipuladora, . Ela faria qualquer coisa para ver até onde iríamos chegar. Não percebeu o riso falso e a postura que mudou quando cheguei na cozinha?
— É uma alternativa bastante válida, estou preparado para o sacrifício. — ele ignorou tudo o que eu disse. Ótimo!
— Você não vai fazer isso! — bradei, a fúria subindo a cabeça.
Esfreguei as mãos no rosto e tive que apoiar as mãos na borda da bancada, já que a leve vertigem atingiu meu corpo.
Pânico.
Eu estava em absoluto estado de pânico.
Senti minhas forças se esvaindo como o vento, a cabeça girando em busca de uma solução racional. Passei os dedos pelos lábios – que deveriam estar ligeiramente brancos –, enquanto revirava a mente em busca de alguma solução que não fosse desaparecer com o corpo de Charlotte e ter como meu cúmplice no crime.
Além disso, Lily e Noah nunca iam nos perdoar, seja em qual dimensão celestial estivessem.
— É o último pedido deles. — respirei fundo, os pulmões implorando por ar. — Se quisermos fazer isso funcionar, precisamos fazer sem trapaças.
Enterrei as mãos nos cabelos, começando a andar de um lado para o outro, pressentindo que logo abriria um buraco no chão. Estava tão apavorada que só percebi que Greta se aproximou quando Mia soltou o riso alto em minha direção. Seus pequenos braços estendidos, almejavam pelo meu abraço. Não hesitei em pegá-la, depositando um beijo terno em sua testa.
— Então como iremos fazer isso? Tem alguma ideia? Um jeito mágico? — indagou, a voz baixa.
— Não existe “um jeito mágico”. — retruquei e olhei para Mia, que brincava com as mechas do meu cabelo. — Mas qualquer coisa é melhor do que seduzir a assistente social.
Ele rolou os olhos, claramente ofendido pela falta de apoio em seu plano mirabolante.
Comecei a roer a unha do dedo indicador, quando Greta – com sua sabedoria silenciosa de quem observava cada detalhe da vida ao redor – tocou suavemente em nossos ombros, conseguindo atrair a atenção de dois adultos desamparados. Seu olhar sereno se fixou em nós.
— Crianças, parem com essa bobagem. — sua voz suave, mas firme, cortou a tensão. — Não existe “um jeito certo” de passar por isso. — ela vagou os olhos por mim e depois para . — Nada é melhor do que a verdade.
Suspirei, o peso sobre os ombros sendo maior que uma tonelada.
— O que vocês têm em comum, é o amor por essa criança. Lily e Noah confiaram a filha aos dois, porque viram que, juntos, podem ser os melhores pais para ela. Eles os escolheram como uma dupla.
— Greta... Temo que não somos o suficiente. — a revelação de me pegou de surpresa.
E por um instante, sua imagem calma e centrada no banheiro passou pela minha mente. Ele se escondia atrás daquela armadura serena, quando na verdade, estava mais inseguro do que eu.
— A força de vocês está em serem diferentes, e mesmo assim, estarem unidos por um propósito. — ela pegou a pequena do meu colo, que a encarava, fascinada com suas palavras. — Então, parem de pensar tanto, de tentar encenar. Esqueçam o teatro e mostrem quem realmente são. A sinceridade é o que a Charlotte precisa ver. Mostrem que, apesar dos tropeços, a prioridade de vocês é a Mia. O resto... É só detalhe.
A força em cada palavra reverberou em meu peito, e o nó na garganta se afrouxou lentamente. Greta estava certa. e eu nunca seríamos perfeitos, mas compartilhávamos o mesmo amor incondicional pela Mia. E esse sentimento já bastava para superar todos os obstáculos. Ainda era cedo demais para acertamos em tudo, e por mais que tentássemos, os erros insistiriam em nos ensinar o melhor caminho.
Olhei para , que me encarava com o semblante sério e pensativo. Seus olhos azuis pareciam denunciar um brilho de conclusão, provavelmente aceitando que por trás da estatura baixa de Greta se escondia uma mulher sábia e bastante convincente. Em menos de alguns segundos, aquela senhora de meia-idade, conseguiu nos fazer enxergar além do medo e a insegurança.
— Eu confio em vocês. — Greta murmurou. — E sei que Noah e Lily também confiam. — em seguida, nos entregou nossa maior força.
Senti o calor se espalhar pelo meu peito quando a pequena, mais uma vez, estendeu os braços em minha direção. Os olhos cristalinos brilhavam de felicidade, e assim que se aproximou, o sorriso dela se alargou ainda mais. Era incrível como sempre ficava animada perto dele. Ele beijou o topo da cabeça dela antes de erguer os olhos para mim, causando um arrepio na boca do meu estômago.
E ali, na cozinha, sob o olhar sereno de Greta, envolta pelo perfume amadeirado de , e com a Mia nos olhando de perto, foi que entendi que não importava o quão desafiadora a situação fosse, eu não a enfrentaria sozinha. Porque apesar do medo, lutaríamos juntos pela família que estávamos construindo.
Repulsa? Insegurança? Antipatia? Talvez, a palavra perfeita para definir o meu estado fosse medo.
Engoli em seco, sentindo o nó se apertar em minha garganta. Observava Charlotte à minha frente, os cabelos ruivos presos em um coque perfeitamente arrumado, denunciando sua postura controlada e profissional. Ela escrevia incansavelmente na prancheta, a caneta vermelha riscando o papel com uma frieza que me fez querer extingui-la da face da terra.
O grunhido tedioso escapou por entre os lábios. , sentada ao meu lado no sofá, lançou-me o olhar de relance. Sua perna balançava freneticamente e os dedos, inquietos, tamborilavam sobre a coxa. O nervosismo dela era quase palpável, e para o meu espanto, conseguia estar mais apreensiva do que eu. Mia estava em seu colo, brincando com o ursinho de pelúcia que tanto adorava, alheia ao clima tenso que nos rodeava.
Por um momento, encarei a mão inquieta e fiquei tentado a cobri-la com a minha. Só que depois do que aconteceu no banheiro, a melhor opção seria ficar longe de . Pelo menos até ela conseguir processar tudo com calma e passarmos por aquela avalição minuciosa. Já havia sido intrometido demais, invadindo o mundo dos traumas contra sua vontade, porque pensei que contar a verdade era o certo a se fazer.
Uma péssima ideia, que poderia acabar com o pouco da confiança que ainda tínhamos.
Eu me lembrava de cada detalhe – não fiquei tão bêbado para ter esquecido de tudo. Ainda sentia o calor do seu rosto aquecendo a pele do meu pescoço quando se escondeu ali, buscando por mim na madrugada. O toque das suas mãos quando abraçou minhas costas, temendo que fosse fugir.
O som dos seus grunhidos e a testa franzida, insistiam em assombrar a minha mente. E por mais que soubesse que o certo era esquecer o que aconteceu e respeitar o pedido dela, algo em meu íntimo – intrometido e protetor – queria fazer mais. Cada célula do meu corpo clamava para descobrir a verdade; que a ajudasse a enfrentar os demônios. Não conseguiria ficar parado, enquanto sabia que ela enfrentava tudo sozinha, mergulhada na completa escuridão.
E quando olhei dentro dos seus olhos no banheiro, fui atingido pela lembrança de sua mão se fechando ao redor da minha. O grito de súplica reverberava em meu peito, tornando impossível de esquecer. Ela merecia conhecer a chuva como o fenômeno mais belo da natureza, ouvir o som calmo e ritmado da água.
Resvalei o polegar pela linha do queixo, olhando pelo canto dos olhos. Uma criatura belíssima. O rosto de traços delicados, os olhos tão intensos. Ela um verdadeiro anjo na terra. Segurei o sorriso que quase brotou nos lábios, a observando como a mais preciosa das mulheres. Meu peito retumbou, tomando a decisão de que nada me impediria de fazê-la ouvir a chuva de novo, sem dor e demônios a assombrando. Juntos corríamos em direção a tempestade, nossas roupas ficariam encharcadas e ainda arrancarei os seus melhores sorrisos.
E essa era uma promessa que estava disposto a cumprir por ela.
merecia o mundo e eu a daria o mundo.
— Então, como estão lidando com o luto? Acredito que esta seja a parte mais difícil. — ouvi a voz de Charlotte distante, enquanto ainda olhava para a coelhinha, que agora mordia o lábio inferior.
— Nós... Não tivemos tempo para lidar com o luto. — respondeu, receosa.
Ela girou a cabeça e engoliu em seco, enquanto buscava amparo em meus olhos. Não foi preciso nenhuma palavra para que entendesse a sua súplica. As sobrancelhas arqueadas e as íris castanhas, carregavam todo o peso daquela pergunta. Falar sobre Noah ainda era muito doloroso para ela, semelhante a cutucar uma ferida aberta que nem sabíamos se um dia cicatrizaria.
Anuí, deixando um sorriso cortês preencher a minha boca, assim que direcionei o olhar para Charlotte.
— Apesar do vazio que Noah e Lily fazem, estamos fazendo o possível para nos adaptar a nova rotina. — a ruiva cruzou as pernas e anotou algo na prancheta. — Ainda é cedo para falar como estamos nos saindo. Não tem nem um mês que os perdemos. — a pontada característica dominou o meu peito. Algo que sempre acontecia quando pensava na minha irmã.
Charlotte descansou a caneta e nos direcionou o olhar extensivo.
— Vejo que a Mia gosta muito da presença dos dois. — comentou, assistindo a pequena pressionar o ursinho contra a minha bochecha. — Ela não parece ter sofrido tanto para se adaptar a vocês.
Beijei a bochecha dela com carinho, ajudando-a a engatinhar para o meu colo com a ajuda de .
— Os bebês são como os filhotes, não demoram muito para se adaptarem ao ambiente. — deixei escapar, hipnotizado pelo brilho nos olhos de Mia.
cutucou minhas costelas em um aviso silencioso. Fui ingênuo em achar que o comentário passaria despercebido. Charlotte se curvou para frente, o sorriso pequeno e afiado brincando em seus lábios.
— É uma teoria bastante interessante, . — as palavras pingaram com sarcasmo e isso atraiu imediatamente a minha atenção.
Ela me analisava dos pés à cabeça, como um cão farejando por drogas.
— Então, acredita que o mesmo raciocínio que usamos para lidar com os cachorros, se aplica a uma criança? — eu não disse isso. — Acha que a mesma forma de cuidado serve para ambos? O senhor parece estar se concentrando na adaptação, mas e quanto ao desenvolvimento emocional da Mia?
A alfinetada foi direta – quase pessoal. Mirei sua expressão analítica, os olhos semicerrados me julgando com asco. Qual era o problema daquela mulher? Ela conseguiu distorcer completamente minha teoria entre filhotes e bebês.
— Em nenhum momento, disse que o desenvolvimento da Mia se compara a um animal. — não me preocupei em ser agradável. — No ramo veterinário, lido com filhotes órfãos todos os dias que precisam dos meus cuidados para sobreviver. Animais que foram abandonados à própria sorte. — certa rispidez acompanhava minhas palavras. — O que eu quis dizer é que ambos demandam cuidado, carinho e muita atenção. São seres dependentes. Os bebês e os filhotes choram quando estão com fome, com sono ou algum desconforto. — a fuzilei, na esperança de que pegasse fogo e desaparecesse da minha frente.
— ... — a voz de soou como um sussurro suave e senti sua mão tocar o meu joelho.
O contato foi leve, mas se pareceu como uma âncora me puxando para a superfície. Sua pele irradiou a corrente elétrica, dispersando a raiva que começava a se acumular em mim. Desviei o olhar furioso de Charlotte e o fixei em . O rosto dela possuía uma mistura de preocupação e súplica, se tornando o meu porto seguro. Os olhos castanhos, tão intensos, me diziam sem palavras para me acalmar, para que voltasse para ela.
E bastou apenas aquele olhar para silenciar a tempestade e toda a euforia se dissipar. Suspirei, soltando o ar pela boca.
— Essa é a minha bagagem, Charlotte. — murmurei, já sem a rispidez de antes. — Então, peço que, por favor, não distorça essa informação.
— Não quis distorcê-la, . — ela sorriu sem os dentes. — Só quis entender a sua analogia. — e voltou a rabiscar a prancheta, provavelmente escrevendo sobre sua sigila falta de senso.
Mia riu em meu colo e me distrai, segurando a pelúcia, arrancando gargalhadas da pequena. Para depois voltar a olhar para o meu anjo. Ela tinha um sorriso delicado nos lábios, se inclinando para beijar o topo da cabeça da criança. E por um momento, deixei que o aroma de verbena e romã invadisse meus pulmões, preenchendo cada lacuna pelo caminho que precisava do seu amparo.
Era como uma droga viciante, e eu estivesse em abstinência.
Charlotte limpou a garganta, atraindo nossa atenção.
— Aproveitando que estamos falando sobre rotina. — leu algo em suas anotações antes de prosseguir: — Como estão organizando as responsabilidades? Quem acorda nas madrugadas? Quem prepara as refeições? — a voz dela era monótona, fria, quase mecânica. Provavelmente eram as mesmas perguntas que fazia em todas os lares.
se ajeitou, sendo rápida em usar o reflexo para pegar a pelúcia antes que caísse no chão e Mia começasse a chorar.
— Fazemos uma espécie de... Escala. — disse, e notei um vacilo em sua voz. — Na maior parte das refeições é Greta que nos ajuda. Ela é como nosso alicerce no meio de toda a bagunça. — foi rápida em justificar.
— A cozinheira, certo? A mesma que estava na casa cuidando da Mia no momento do acidente. — Charlotte novamente moveu a caneta sobre a folha, por um instante quis saber o que ela tanto anotava, sem levantar a cabeça.
— Greta é uma governanta. Ela cuida da casa e presta serviços como babá. — adicionou, para que não restasse dúvidas.
A assistente social assentiu.
— E o que acontece quando ela não está aqui para ajudar? Suponho que o senhor saiba mais sobre dieta para filhotes do que para bebês. — suas palavras eram como um dardo envenenado.
Apertei as mãos em punhos e contive o desejo de responder com sarcasmo. apertou novamente meu joelho, ao notar o quase descontrole.
— Nós aprendemos. Juntos. — foi a minha vez de falar, com a voz calma, porém forte.
O vislumbre da noite em que Mia chorava de fome e eu não tinha a menor ideia do que fazer, passou brevemente pela minha mente. Lembrei-me do pânico e a última coisa que ela precisava saber era que, na prática, eu era tão inexperiente quanto um recém-nascido.
— E os horários? Como veterinário, imagino que tenha uma rotina bastante imprevisível. Plantões, emergências, cirurgias. — ela me olhava intensamente, almejando por qualquer sinal de fraquejo.
— Tenho uma equipe que me apoia, e a tem os horários flexíveis. — respondi, tentando soar o mais profissional possível.
— Certo. E qual a sua rotina de vida noturna, ? Você sai frequentemente? — a pergunta veio de forma suave, mas com uma malícia evidente.
Por que ela estava direcionando todas as perguntas a mim? Qual era seu objetivo?
De relance, notei que o rosto de empalideceu. Droga, ela poderia ao menos tentar disfarçar.
— Não entendi a relevância dessa pergunta, Charlotte. — intervi, crispando as sobrancelhas.
— O meu trabalho é entender o ambiente que a Mia está sendo criada. Crianças precisam de estabilidade, rotina, e a ausência de um dos pais durante a noite poder ser... Desestabilizante. — o olhar dela recaiu sobre , que se encolheu levemente.
A coelhinha engoliu em seco, as mãos se remexendo freneticamente.
— Sou a responsável por ficar com ela quando se ausenta. — maldito nervosismo... Ele tinha acabado de dar a informação que Charlotte tanto buscava.
Soltei o ar em um suspiro.
— Entendi. E em quantas noites na semana costuma se ausentar. — pressionou.
Mia se remexeu no colo, provavelmente sentindo o meu coração acelerar.
— Uma vez, no final de semana. — murmurei, me sentindo como uma criança apanhada no flagra.
— Mas também tem os dias que ele passa a noite na clínica. — lembrou.
Girei a cabeça em sua direção, a fuzilando com o olhar. De qual lado ela estava?
Charlotte silenciosamente assentiu e escreveu na prancheta.
— Como se veem daqui a 5 anos? — depois daquela conversa, acreditava que morto, porque tinha certeza de que Lily me buscaria pessoalmente.
se ajeitou no sofá, tirando a minha atenção da assistente social.
— Eu me vejo sendo promovida no meu trabalho, ganhando o suficiente para bancar uma casa e ter meu próprio carro.
— E você trabalha com o quê? — a ruiva questionou, usando sua modéstia. — Todos nós sabemos que o é veterinário, e ele deixa isso bastante claro na maneira arrogante em que se comporta e fala do trabalho. — gesticulou em minha direção com a caneta.
E tudo que pude fazer foi soltar um riso anasalado, porque se fizesse o que a minha mente mandava, provavelmente acabaria preso por homicídio e a arma do crime seria o tubo da caneta vermelha. Estava mais do que claro que Charlotte gostava de ser petulante.
— Não consigo definir uma profissão que se encaixe com o seu perfil.
embolou as mãos no tecido do vestido, possivelmente não imaginando que teria de revelar seu segredo para uma estranha.
— Trabalho prestando serviços online para plataformas como a Amazon. — um jeito elegante de descrever.
— Ah! É escritora. — concluiu, voltando-se para o papel.
— Ela escreve sobre romance eróticos. — alfinetei, em completo tédio.
arregalou os olhos.
— Não são eróticos! É apenas romance! — bradou.
Mordi o lábio inferior, a raiva por ela ter entregado minhas ausências noturnas se acumulando em meu âmbito.
— Depois do que eu li, tenho certeza de que não são só romances. — disse em completo desdém.
cruzou os braços em frente ao peito, o bico se formando em seus lábios. As bochechas rosadas ficavam incrivelmente adoráveis nela.
— Ok! Vamos voltar para as perguntas. — Charlotte indicou a prancheta, o sorriso sem graça estampado no rosto. — E... Você, , como se vê daqui 5 anos? Aposto que trabalhando na sua clínica atendendo muitos cachorros e gatos. — ela tentou soar agradável, talvez, querendo amenizar o clima tenso que nos rodeava.
— É o que gosto de fazer. — respondi, sem rodeios e ânimo.
Charlotte engoliu em seco, mudando para a próxima pergunta:
— Vocês possuem algum tipo de envolvimento amoroso?
— NÃO! — respondemos em um uníssono rápido demais e carregado de irritação.
Ela arregalou os olhos, realmente surpresa com nosso comportamento. Já Mia, olhou de mim para , e sorri, pelo menos alguém estava se divertindo com a cena.
— Então não estão envolvidos? — crispou as sobrancelhas.
— Eu preferiria perder tudo a me envolver com alguém tão insuportável. — apontou para mim e notei o quanto sua mão tremia.
E não sabia explicar, mas suas palavras causaram uma pontada aguda em meu peito. O coração deu um solavanco estranho, quase doloroso.
— E eu nunca me envolveria com alguém tão mimada. — rebatei, adotando uma postura indiferente que não passou despercebida pelas duas.
O silêncio pairou na sala e foi possível apenas sentir a euforia ao nosso redor. Até mesmo Charlotte parecia desconfortável com a situação, apesar de termos entregado a melhor performance de que não conseguimos nem ter uma conversa civilizada.
— Perfeito, já tenho o suficiente.
Ela estralou a língua e deixou a prancheta ao lado do corpo. E como se pressentisse que o clima nublou entre nós, Mia derrubou o ursinho e começou a chorar. Tentei acalmá-la, mas de nada adiantou. Seu choro reverberou pela sala, aumentando ainda mais a tensão.
— Eu preciso ser sincera. — gesticulou, pegando a pelúcia e entregando para a pequena. — A Mia gosta muito de vocês, e isso é visível. Mas... Infelizmente, não são as pessoas certas para o que ela precisa.
Eu e nos entreolhamos. E apesar da surpresa, no fundo sabíamos o que seria esperado depois da breve desavença.
— Eu sei que são pais de primeira viagem e que cuidar de um bebê órfão, não estava no plano dos dois. Só que convenhamos. — ela ergueu os ombros, buscando palavras para continuar. — Vocês não têm maturidade nem para lidar com uma situação estressante, então como pretendem cuidar de uma criança?
Minha respiração falhou e foi como ser atingido por uma rocha que não se importava em pesar no meu peito. O choque de realidade era muito pior do que esperava.
— E vamos falar a verdade. — ela apontou de mim para . — Vocês agem como duas crianças. Não tem nem uma hora que estamos conversando e se comportam como dois irmãos em uma briga de família. Disputando atenção, provocando o outro. São dois narcisistas, egoístas. — suas palavras doíam, acertando precisamente a parte do cérebro que chamava de ego. — Não existe algo mais frustrante do que encontrar duas pessoas que pensam que sabem o que estão fazendo, quando, na verdade não tem ideia de nada. Vocês precisam decidir o que são um do outro. São inimigos? Desconhecidos? Conhecidos de longa data que nunca se deram bem? Ou são apenas irmão e irmã da Lily e do Noah? Porque está mais do que claro que não existe amizade aqui e isso os torna um obstáculo.
Ela suspirou, abrindo um pequeno sorriso para Mia que havia parado de chorar.
— Sabe... O Noah e a Lily, talvez, achassem que vocês seriam capazes de fazer isso, mas sinceramente... Eu não tenho tanta certeza disso. — disse, sendo uma dura e amarga revelação.
Greta veio a nosso encontro e pegou a pequena no colo quando voltou a chorar.
Enquanto isso, Charlotte recolheu a prancheta e se levantou do sofá. Passou as mãos pelas roupas como se limpasse a poeira invisível. Suas sobrancelhas estavam arqueadas de maneira melancólica, enquanto nos observava desolados e sem reação. ainda estava parada na mesma posição em completo choque, e eu curvei o corpo para frente, cobrindo o rosto com as mãos. Meu peito mais dilacerado do que quando recebi a ligação do acidente.
— Eu preciso ser honesta, porque é melhor para os três. Não há nenhuma razão para aceitar que a Mia viva sob os cuidados dos dois. Mas ainda tenho duas avaliações para fazer e acredito que pelo Noah e a Lily, vocês darão um jeito de fazer isso dar certo. — ela se dirigiu para a saída, o barulho dos seus saltos retumbando pela casa. — Volto no mês que vem, desejo boa sorte aos dois — despediu-se e Greta abriu a porta para que saísse.
A madeira se fechou e foi como se o ar fosse sugado pela sala, transformando-se em um túmulo. O silêncio que se seguiu era mais alto que qualquer grito. Envolvi os cabelos com as mãos e me curvei. Não era capaz nem de abrir os olhos para enxergar a realidade que foi jogada sobre nós em um balde de água fria, congelando a esperança que mal tínhamos tido tempo de aquecer.
E a única certeza que ainda me restava era a de que estávamos perdidos. Fodidos. Sendo a culpa, amarga e pesada, completamente nossa.
Capítulo 16
A vida é um oceano onde muitas pessoas flutuam, recusando-se a aprender a nadar, temendo a pressão e as surpresas que o fundo reserva. Já outros se arriscam e nadam ao encontro do desconhecido, saindo da conformidade da brisa suave. Só que muitas vezes, não estão prontos para enfrentar as ondas pesadas e a correnteza agressiva que os puxa para baixo.
Eles engolem a água salgada da verdade e, de repente, o ar da superfície se torna um luxo distante. O pânico bate no peito, o coração esmurra as costelas, o cérebro envia sinais para lutar. Uma corda invisível está presa ao redor do pescoço, sufocando e arrastando cada vez mais para o fundo. O corpo se debate, tenta gritar, mas seus pulmões ardem, sem forças e tudo que o rodeia é o silêncio.
A luta é desesperadora, porque acreditamos que estamos no controle e isso nos faz afogar...
Levantei-me do sofá com a sensação de que o estofado possuísse espinhos e garras que adorariam me machucar. Minha atenção foi tomada quando vi Greta, parada ainda perto da porta, com a pequena em seus braços. O rosto pequeno e redondo vermelho pelas lágrimas recentes, ela segurava o ursinho e nos olhava, curiosa e inocente sobre o que estava acontecendo.
O choro ficou preso na minha garganta, e por um momento quis desabar sem me preocupar com o mundo ao redor. Mas eu estava nadando contra a correnteza que insistia em me arrastar para o abismo, contra as rochas pontiagudas que ansiavam por ferir cada centímetro da pele. E não sabia o que fazer para retornar a superfície e tomar o controle da situação. Tudo o que conseguia fazer era me debater até que os músculos doessem.
— Eu sinto muito, ... — Greta sussurrou, e apenas consegui forçar um sorriso pequeno e melancólico. — Tem alguma coisa que posso fazer por vocês? — ela girou a cabeça em direção ao sofá.
Segui o seu olhar e encontrei com o homem em completo estado de deploração. não tinha movido sequer um músculo depois que a assistente social foi embora. Seu corpo continuava curvado, as mãos puxavam os cabelos e os olhos fechados com tanta força que as veias em sua testa saltavam pelo esforço. Ele se crucificava e sofria, ainda assimilando as palavras duras que acabamos de ouvir. E eu não estava diferente. O choque corroía meu âmago, levando a informação que queimava como brasa.
Fechei os olhos e puxei o ar para preencher os pulmões que clamavam por ar. Adoraria que Greta pudesse nos ajudar com conselhos e conhecimentos sábios, mas ninguém deveria interferir na luta que era somente nossa. Tínhamos culpa, e juntos, precisávamos pensar em uma maneira de escapar do afogamento, se não, encontraríamos com o fundo do oceano e a pressão nos esmagaria.
— ... — comecei, a voz levemente trêmula. — Precisamos conversar.
Ele não reagiu, os ombros tencionados como rochas.
— Eu sei que não é o melhor momento para isso, mas temos que conversar. — soltei o ar anasalado. — Estarei na cozinha... Quando quiser...
Depositei um beijo sobre a cabeça de Mia e agradeci Greta por toda a ajuda, pedindo que ficasse com a pequena até resolvermos o impasse. Não queria que ela presenciasse o que quer que estivesse nos esperando, e algo gritava em meu íntimo que aquela conversa reservava uma explosão de emoções – por mais certeira que fosse.
O ar da cozinha me chicoteou. O frio dos mármores parecia reluzir com o clima tenso e sufocante que estava prestes a presenciar. Soltei o ar pela boca, inflando as bochechas quando o pequeno grunhido chamou minha atenção. Ergui os olhos para o felino que se ajeitava sobre o balcão, penteando os belíssimos pelos escuros como se estivesse prestes a participar de um concurso de beleza. Sky tinha que estar impecável em qualquer situação.
— Oi... — sussurrei e ele esticou o pescoço. — Acho que estragamos tudo, Sky. — cocei o topo da sua cabeça, o ronronar envolvendo meu coração. — Eu queria saber o que fazer... Você poderia me dar algum conselho. — ele me encarou com as enormes bolas amarelas.
Alarguei um sorriso, acariciando atrás da orelha dele, para no instante seguinte, – como se tivesse entendido o que eu disse –, ir até o pote de ração. Ele degustou os pequenos grãos redondos, os pelos sedosos caíam ao redor do corpo com elegância. Segurei o riso, pensando se seriamente meus problemas não se resolveriam se abrisse um pacote de sachê de salmão.
— Talvez, burritos me ajudariam melhor do que sachê. — debrucei sobre o mármore, resvalando o dedo na pata dele. — Comer é um ótimo conselho. — não contive o riso.
— Realmente acha que a solução vai aparecer, assediando o Sky? — estremeci, a voz estapeando o meu ser.
Girei a cabeça e encontrei entrando na cozinha, com uma postura rígida e o semblante fechado. Tão carregado que engoli em seco, me arrependendo de ter sugerido que conversássemos. As sobrancelhas grossas arqueadas pareciam prestes a saltar e enforcar a primeira pessoa que aparecesse na sua frente. O seu andar revelava mais do que palavras. E o modo como abriu a porta da geladeira, me passou a impressão de que socaria o mundo se fosse possível.
— Você... Está bem? — arrisquei-me em perguntar.
Sky levantou a cabeça e olhou para o homem, o julgando minuciosamente. E o fato do felino pular e correr para a sala em seguida, deveria ter servido como um alerta.
— Ótimo. — respondeu com ironia.
Cruzei os braços e suspirei, me preparando psicologicamente para adentrar o território proibido.
— … Precisamos encontrar uma solução. Temos que mostrar que somos capazes. — gesticulei com as mãos trêmulas. — Na próxima visita da Charlotte, precisamos ser... Sei lá! — busquei as palavras certas. — Talvez... Fingir por um tempo que somos um casal que se ama?
Ele disparou em uma risada sarcástica, enquanto ocupava as mãos com a garrafa de água, usando a força maior que o comum.
— Esqueceu que disse a ela que preferia perder tudo a se envolver com alguém tão... Como você disse? — fingiu pensar e estalou os dedos. — Ah, sim. Insuportável. — cuspiu com fagulhas de ódio, desprezo e escárnio.
Meu coração parou por alguns segundos, sendo alfinetado por diversas agulhas. O estômago revirou de modo que fiquei enjoada. Por que eu sentia que ele ficou ofendido com isso?
— Desculpa, se isso feriu o seu ego, mas você me chamou de mimada. — retruquei.
— Porque você sempre quer fazer tudo do seu jeito. — virou-se em minha direção, seu olhar me fuzilando. — Fingir ser um casal quando na frente da Charlotte não pensou o quanto poderia me prejudicar, dizendo que passo as noites fora? Casais se protegem, ! E não jogam o outro aos lobos.
Apertei os olhos com os dedos. Não era possível que ele estava dizendo isso. Tínhamos que encontrar uma solução, e não discutir sobre o que falamos para o pastor alemão.
— E o que você sabe sobre ser um casal, ? — empinei o nariz, encurtando a distância entre nós.
— Mais do que os seus livros de romance dizem. — alfinetou e senti a fúria transbordar nas minhas veias.
Rolei os olhos, segurando a vontade de acertar o soco no rosto dele.
— É impossível ter uma conversa com você. É deprimente! — meu rosto se contraiu em uma careta.
virou a garrafa, dando um longo gole. E torci para que o choque térmico da água congelasse o seu cérebro.
— A Charlotte está certa, não consegue ver isso? — arfou. — Não somos bons para a Mia. Juntos somos péssimos. Sinônimo de destruição.
Puxei o ar profundamente.
— Será que você pode melhorar o seu mau humor para tentarmos ter uma conversa civilizada?
— Porque eu deveria fingir que estou bem, quando na verdade, estou péssimo? — disse calmamente, causando-me repulsa. — Me deixa ficar péssimo, .
— Devo te lembrar que estamos aqui por uma escolha maior. — tentei soar o mais calma possível. — A Mia precisa da gente. Ela não pode entrar para adoção.
Ele suspirou, parecendo cansado.
— Então quer falar sobre o quê? O quanto acabei com a minha vida; estou morando na casa da minha irmã e cuidado de uma criança, sem ter noção nenhuma do que estou fazendo... — ele apertou a garrafa, derrubando o líquido. — Tudo isso para quê? Para ouvir da boca da assistente social que eu não sirvo para ser o pai dela?
Mordi os lábios inferior. Por um lado, entendia a sua fúria, ele largou tudo para cuidar da sobrinha e, de repente, uma desconhecida o decretou desqualificado para o cargo. Provavelmente a memória de Lily martelava em sua cabeça – assim como Noah fazia com a minha.
— Eu sei que não sou nem metade do homem que o Noah foi, . — suas palavras carregavam dores profundas. — E nunca vou ser como ele, não importa o quanto eu tente. — vi o vislumbre de lágrimas se formar no canto dos seus olhos.
não deveria se cobrar tanto, isso o consumiria para sempre.
— Eu também tive que deixar a minha vida para trás. — meu coração se apertou. — E sei que nunca serei como a Lily. Ela era uma mãe maravilhosa e uma mulher incrível.
— Acontece, , que a sua vida não mudou completamente em nada desde que se mudou para cá. — ergueu os ombros em desdém. — Agora, eu não posso cumprir com os plantões porque isso prejudica a rotina da Mia!
— Eu tinha a minha privacidade; organizava meus horários. Tinha tempo livre! — berrei, o rebatendo com maestria.
— Para fazer o quê? Ler mais livros estúpidos de romance? Ainda consegue fazer isso aqui. — suas palavras amargas atingiram em cheio o meu âmago. Como ele ousava ser tão desprezível?
— E você deixou de fazer o quê? Acabar bêbado na cama de uma desconhecida noite após noite? — arqueei as sobrancelhas, diminuindo ainda mais a distância entre nós. — Isso é nojento, !
Ele alargou um sorriso cínico no canto dos lábios, inclinando a cabeça para baixo para conseguir olhar para mim. E céus... Como meus olhos poderiam ser tão traiçoeiros para olhar a sua boca atrevida? O breve pensamento de o calar com os lábios passou como uma ideia ridícula, me causando arrepios. O que estava acontecendo? Eu deveria odiá-lo, e não desejar ardentemente.
— Pertencemos a mundos diferentes, . — disse com sarcasmo e uma leve calmaria. — Você não faz ideia de como era divertido.
— Então me diga como era. — sussurrei, não conseguindo desviar a atenção dos seus lábios.
Portanto, para a minha salvação, ele deu um passo para trás. Sua atitude me fez sentir como um inseto pegajoso.
— Escolhi a medicina veterinária para não ter que lidar com as pessoas. Eu odeio como me olham, sempre esperando algo de mim que nunca terão. — havia uma sinceridade diferente em seu tom, algo quase doloroso. — Dormia com uma mulher diferente todas as noites porque era só sexo e elas nunca esperavam nada de mim. E isso era ótimo! — ditou o final com ênfase.
Engoli em seco, recompondo minha postura. Um calor estranho se apossou da base do meu pescoço.
— É claro que era ótimo. — retorqui. — Você só tinha que se importar consigo mesmo, sempre fugindo das responsabilidades. E mesmo assim o Noah e a Lily deixaram a filha nas suas mãos! — ele tinha que entender de uma vez por todas que a sua vida egoísta foi deixada para trás. — Porque eles sabiam que seria uma pessoa próxima para ela!
Ele riu com escárnio.
— Quer saber, , retiro o que disse. Você não é tão diferente de mim. — ele se aproximou, sua presença quase me intimidando. — Fica atrás daquele notebook, se escondendo através tela e dos livros de romance que tanto gosta, porque no fundo, odeia ter que lidar com pessoas tanto quanto eu. — agora ele tinha ido longe demais com a petulância.
— Vai para o inferno, ! — xinguei com ódio, repulsa e todo sentimento desprezível.
— Vai você primeiro e nos encontramos lá.
E foi como me afogar de novo no vasto oceano, mas dessa vez, outra pessoa se debatia ao meu lado. Nossos olhos travavam uma dança eletrizante e cheia de desespero. Os glóbulos azuis estavam transparentes, revelando suas emoções mais profundas. tinha medo e assim como eu, não sabia como retornar a superfície. Juntos éramos arrastados para o fundo, sem a menor ideia de como sairíamos vivos.
Por um momento, pensei que o melhor seria se entregar ao oceano. Mas não era justo com nossos irmãos e nem com a pequena.
Suspirei, erguendo as mãos em rendição e afastei-me dele. Seu perfume embriagava todos os meus sentidos, tornando impossível pensar com clareza.
— O Noah e a Lily nos escolheram por alguma razão. E por eles, precisamos pensar em um jeito de fazer isso dar certo. — o mirei e o encontrei cabisbaixo. A mandíbula travada, como se estivesse segurando o mundo nas costas. — Mesmo que para isso tenhamos que fingir nos suportar. É pela Mia. — impus e o assisti negar com a cabeça.
— Eu não posso fazer isso, ... Não posso. — levantou a cabeça e me encarou, seus olhos azuis gerou um vazio que me fez engolir em seco. — Perdi a minha irmã, e porra... Não pude nem me despedir dela direito! — a sua mão bateu contra o balcão, um som oco e pesado.
Ele cobriu o rosto em seguida e percebi que lutava para não deixar que as lágrimas saíssem. Era a primeira vez que deixava os sentimentos transbordarem assim. sempre foi tão reservado, tão forte, que se escondia da própria dor. Então vê-lo à beira do colapso, com as emoções saindo pelas pequenas fissuras da bolha que ele mesmo criou, era novo.
No fundo, eu sempre soube que estávamos destinados a compartilhar a mesma dor.
— Você não foi o único a perder alguém naquela noite... — a vontade abrupta de envolvê-lo em meus braços me consumiu, do mesmo jeito que ele fez comigo na delegacia. Era uma necessidade profunda de dividir o fardo. — O Noah era a minha única família... — sussurrei, e senti o baú das emoções se abrir. As palavras rasgavam minha garganta, queimando como fogo. — E agora, tudo o que eu tenho é a Mia. Então desculpa se estou sendo egoísta e fria ao ponto de parecer que não me importo com os sentimentos de ninguém, porque ainda estou tentando viver o meu próprio luto, sendo atropelada pela responsabilidade que é cuidar de uma criança. — as lágrimas que segurei por tanto tempo finalmente escorreram, quentes e libertadoras.
— Me desculpa, ... — disse para o nada, a voz rouca. — Não posso ficar aqui ouvindo isso. — foi ríspido, e em seguida, saiu da cozinha.
Funguei e o segui, a tempo de vê-lo pegando a chave do carro. Cruzei os braços, na tentativa de esconder a minha fraqueza.
— Você não deveria sair de carro estressado desse jeito... Eles morreram assim, ... — minha voz saiu baixa e embargada, mal conseguindo sustentá-la, mas sabia que ele tinha ouvido cada uma das palavras.
— NÓS NÃO SOMOS ELES, ! — seu gritou rasgou a sala, a tensão dominando cada fibra do seu ser.
E mesmo através da visão embaçada, eu o vi... A fachada de dureza se quebrou. As lágrimas rolavam livremente por seu rosto, traçando caminhos silenciosos pela destruição. A instabilidade dos seus olhos foi o suficiente para me fazer entender que o oceano – que havíamos tentado conter – finalmente nos engoliu.
E não havia mais nada a fazer a não ser afundar...
Notei quando ergueu o olhar para as escadas, e sua garganta pareceu apertar em um nó de culpa. Instintivamente, também olhei, e a cena me quebrou por completo: Greta estava parada a poucos degraus de distância, com Mia em seu colo. A cabeça da pequena tombada sobre o ombro da mulher, os olhos fechados em um sono profundo, alheia ao nosso mundo em colapso. Meu peito se contorceu em uma dor lancinante e tudo pareceu desabar.
— Nós não somos eles... — repetiu, a voz agora um sussurro quebrado, e a frase, que antes era uma negação, se transformou em uma dura e amarga confissão de impotência.
Foi como ser atingida pela onda mais violenta do universo.
Ouvi o som da porta batendo, e o baque me despertou da paralisia. Corri para a cozinha, buscando apoio na lateral do mármore da pia onde me agarrei – de frente para o imenso vidro que dava visão para o vasto céu. Os raios solares ficavam alaranjados e se preparavam para o entardecer. E eu desabei em prantos, não conseguindo mais conter a dor que envolvia meu peito, esmagando-o sem piedade.
O ar me faltou e levei a mão sobre o peito em uma tentativa de me manter ainda respirando. Algo quase impossível.
— Me desculpa, Noah... Me perdoa, por favor... — supliquei entre soluços, a voz falhando e se perdendo no eco do vazio.
O mundo desabou de vez e fui engolida pelo medo. O oceano venceu a batalha, e meu corpo agora se encontrava inerte na água, as rochas afiadas colidindo contra a minha pele. E desta vez, não tinha mais forças para lutar, não me restando mais nada para me agarrar.
Estava completamente perdida à mercê do oceano de pânico, sem um bote salva-vidas ou uma ilha à vista.
A solidão era tudo o que mais precisava. Um tempo para pensar sobre os sentimentos conflitantes que insistiam em assombrar o meu peito.
Arrumei o óculo escuro com o dedo indicador, enquanto caminhava lentamente pelos corredores vazios e melancólicos. A brisa leve enrijecia os pelos da nuca, conforme me aproximava do destino. O clima e a paisagem ao redor pareciam um reflexo do meu próprio espírito: o belo entardecer abriu caminho para nuvens escuras que formaram o céu nublado, cinza, completamente silencioso.
O único som era do solado dos meus tênis pressionando as minúsculas pedras a cada passo que dava no automático. E por mais estranho que parecesse, a paz que rodeava o ambiente conseguia acalmar a minha alma. As fileiras de sepulturas, mausoléus e jazigos preenchiam cada canto, variando das mais simples ao discreto, e nelas conseguia ler os nomes e datas que contavam a história dos entes queridos.
Parei em frente a lápide de granito e olhei demoradamente cada detalhe. Meu coração se apertou em um nó sufocante assim que vi as duas fotografias intactas, do mesmo jeito que da última vez em que estive ali. Dois vasos de plantas ficavam ao lado do nome e da data, acomodando flores vivas e belíssimas. Os pequenos tons pasteis dos azulejos constatava com a lembrança deles, trazendo a memória e a dor da saudade.
Curvei o corpo, ficando com o peso sobre os joelhos dobrados. Lentamente retirei as folhas intrometidas que caíram da grande árvore atrás do túmulo. Deslizei a mão pela superfície fria, delineando as letras do nome dela. O nó se formou em minha garganta e tive que segurar a vontade de desabar. Não tinha ido até ali para chorar, só queria passar um tempo com ela.
— Oi, irmãzinha... — murmurei em um tom carinhoso. — Eu trouxe lírios brancos, sei que são as suas favoritas. — olhei para o arranjo e o coloquei ao lado do nome dela. — A mamãe nunca foi boa em saber qual a sua flor preferida. — curvei um sorriso, reparando nas rosas vermelhas que meus pais tinham colocado nos vasos no dia do funeral.
Suspirei, sentindo o peso do mundo sobre os ombros.
— Sinto a sua falta, Lily. — a voz falhou, sendo mais difícil do que imaginei. — Queria que estivesse aqui para me dizer o que fazer. — acomodei o corpo no chão, cruzando as pernas. — Mas se estivesse, a Mia teria uma família de verdade; a o irmão dela; e eu... Minha vida medíocre e sem compromissos. — o confronto da coelhinha ficaria para sempre cravado em meu cérebro.
E, talvez, eu fosse mesmo alguém que só queria fingir que tinha o controle, quando na verdade tenho medo de encarar as responsabilidades.
— Não era para ser assim... — retirei o óculo e o coloquei na gola da camiseta, arrancando a grama que crescia entre os furos do concreto — Você não podia ter me deixado. E agora tem essa mulher... A assistente social que me disse que eu não sou bom o suficiente para cuidar da sua filha. — ergui o olhar para a árvore, o nó apertou na garganta. — Desculpa, Lily… Eu não sou como o Noah, e acho que nunca serei nem metade do homem que ele foi.
A brisa suave tocou a lateral o meu rosto. O balançar dos ganhos parecia como um consolo da natureza a minha versão frágil e deprimente.
— Lembra de quando prometemos cuidar um do outro? — abaixei a cabeça, voltando a atenção para a grama. — O papai e a mamãe quase nos mataram porque pegamos aquele temporal, e você estava lá com o seu sorriso doce e divertido. — sorri, sendo confortado pela memória daquela tarde que logo se transformou em uma noite chuvosa e intensa.
A lembrança veio como uma avalanche, o filme que insistia em ser reprisado na minha mente. Voltei ao passado, no exato momento, em que tínhamos 25 anos e estávamos de férias no 's Horse Haven, ajudando nossos pais com as obrigações diárias.
— Esse foi o último. — ergui a cabeça da prancheta, assistindo o cavalo sendo manuseado para dentro do estábulo.
— Ótimo, Lennie. — caminhei, verificando as baias. — Coloque um pouco de aveia para ele. O empresário Payne virá buscá-lo amanhã, verifique que esteja tudo pronto para o embarque.
— Deixarei tudo pronto, chefe. — ele bateu continência, guiando o garanhão de pelagem negra brilhante.
Desferi alguns tapinhas leve sobre o dorso do animal, voltando a atenção para a nova hóspede que recebemos mais cedo. Puxei a ficha da porteira da baia, analisando as informações do proprietário e do cavalo. Se tratava de uma égua, de pelagem branca e cinza, que praticava hipismo e havia sofrido uma lesão recentemente, por isso estava ali. O haras foi indicado para realizar a readaptação ao esporte, assim poderíamos acompanhar o seu desempenho e oferecer o treinamento adequado.
Devolvi a documentação e abri o trinco da porteira de madeira. Atena era calma, dócil e quando me viu entrar, não hesitou em vir ao meu encontro em busca de carinho. Acariciei o chanfro, tirando uma pequena porção de petiscos secos feitos de frutas e vegetais do bolso da calça onde sempre carregava um pacotinho. Ela devorou a oferta e deu um sopro em um sinal claro de aceitação.
— Boa garota. — continuei com a carinho. — Vamos dar uma olhada nessa pata. — fui deslizando a mão cuidadosamente pelo peito, até chegar na compressa da perna direita. Ela se remexeu assim que toquei a região. — Está tudo bem. — desenrolei a faixa e olhei o local, notando que estava completamente desinchado.
Atena sofreu uma inflamação do tendão aguda, causada pelo esforço excessivo, já que há alguns meses participou de duas competições sem pausa. Desde o início, seu dono, o empresário Arnold Astor – proprietário de umas das maiores fazendas de reprodutores equinos da região – me procurou na clínica, pedindo pessoalmente que tratasse seu animal, sabendo dos meus conhecimentos com animais de grande porte. Foram longos dias de recuperação e tratamento com anti-inflamatórios para a dor.
Meu trabalho, agora, era colocá-la em um treinamento progressivo para fortalecer o tendão e os ligamentos. Atena logo voltaria a competir, se respondesse bem aos treinos, algo que acreditava acontecer mais rápido do que imaginava.
— Irmão! — a voz fina preencheu todo o estábulo. — Não vai acreditar no que aconteceu... Cadê você? — ela gritou com impaciência.
— Aqui, irmãzinha. — ergui o corpo, esticando o pescoço sobre a porta da baia.
— Pare de me chamar desse jeito. — Lily cruzou os braços, o bico maior que de um pássaro.
Ela parou e os olhos azuis me fuzilaram. Senti como se fosse pegar fogo a qualquer momento. Seus cabelos loiros escuros caiam sobre os ombros em ondas, algumas mechas vermelhas se perdiam, puxadas para o tom cobre e dourado – como os meus. O rosto pequeno e redondo sempre tinha uma camada fina de maquiagem, que combinava com as roupas elegantes e o salto.
Lily nunca se enquadrou no estilo no haras, naquele dia ela usava um vestido longo azul marinho e sandálias de santo alto que torneavam os pés pequenos. Ao contrário de mim, que sempre optava por algo mais simples, como uma camiseta de linho, calça jeans escura e botas timberland. Ela era uma princesa e eu um capataz.
— O que aconteceu? — debrucei o corpo sobre a madeira.
— Papai e mamãe brigaram de novo. — ela começou a caminhar de um lado para o outro. — Ela disse que vai se divorciar se ele vender o haras. — se tinha uma coisa que Lily temia era a venda daquele lugar.
Suspirei.
— Vai abrir um buraco no chão. — comentei e Atena cutucou meu braço com a cabeça.
— Você não entende, ? Ele não pode vender! — bateu os pés no chão em fúria.
Acariciei o chanfro e a crina da égua, ouvindo minha irmã ditar sobre todos os motivos do porquê papai não deveria vender o haras. Ela sempre dizia que deveríamos assumir os negócios e que nossos filhos mereciam viver em um lugar como aquele. A natureza e os animais estavam na nossa família há séculos e assim deveria permanecer.
— Irmã, vamos dar uma volta. — sugeri, abrindo a porteira da baia. — Cavalgar vai te ajudar a se acalmar.
— Como você pode pensar em cavalgar quando o papai quer vender o haras? — arqueou uma sobrancelha em indignação.
Curvei um sorriso, caminhando até o armário de acessórios. Escolhei entre as rédeas e as selas mais confortáveis para equipar um dos cavalos. Lily ficou em meu encalço.
— Porque esse haras só será vendido para uma pessoa. Eu. — indiquei meu próprio peito.
Ela rolou os olhos.
— Não tem dinheiro para comprar.
— Não preciso de dinheiro, sou o herdeiro das terras. — caminhei de volta para a baia. — E não se preocupe, deixo você cuidar da administração. — sorri divertido.
— Você é tão presunçoso, . — ela se aproximou, analisando enquanto colocava a sela em Atena. — Não pode montar essa égua, ela pertence ao Arnold Astor.
Dei de ombros, terminando de prender o cinto.
— Ela precisa exercitar a perna, então vamos fazer isso.
— Você faz tudo parecer tão fácil. — ela soltou o ar pela boca, sentando-se em um caixote. — Sinto falta do Noah, ele também vê a vida desse jeito. Vocês dois são tão parecidos. — notei sua voz fanhosa e isso acendeu um alerta sob a minha cabeça.
— Não falou mais com ele? — quis saber, odiava vê-la triste.
— Acho que ele não quer mais falar comigo. — seus ombros caíram
— Foi por causa do que houve com a ?
— Não. — ela respondeu de imediato e jogou a cabeça para trás. — A aranha falsa não chegou nem perto.
O alívio me dominou. Temia que um dia minha desavença com resultasse em qualquer problema no relacionamento de Lily e Noah.
Aquela garota sempre seria o meu tormento e no mês passado, não consegui me controlar quando a vi rindo depois que deixei um dos cavalos escapar do centro de treinamento. A porteira ficou aberta e precisei ir atrás do animal até a fazenda vizinha. Quando voltei, não perdeu a oportunidade de zombar do meu descuido, passando a tarde pendurada na cerca, soltando suas piadas recheadas de provocações, enquanto exercitava os equinos.
E como de costume, precisei dar o troco. Coloquei uma aranha falsa enorme no meio de um dos seus livros de romance o que causou o grito tão alto no meio da madrugada que levar uma bronca da minha irmã como punição não chegou nem perto do gostinho delicioso da vingança. Meus pais tinham saído de viagem o que deixou o caminho livre para fazer as travessuras com .
— Por que implica tanto com ela? — Lily questionou.
— Somos de mundos diferentes, é divertido. — falei, dando de ombros.
Ela soltou um riso anasalado.
— O Noah me disse a mesma coisa quando sugeri que vocês fossem juntos para o evento de contabilidade. — levantou-se do caixote. — Ele acha que podem ter algo em comum, apesar de serem tão diferentes.
Abri a porteira, guiando Atena para o corredor.
— A única coisa em comum é o nosso ódio latente e recíproco. — caminhamos juntos. — Quando que o assunto passou a ser sobre mim e a ? — ri e fiz sinal para Lennie, pedindo que selasse um cavalo para Lily.
— Eu só queria entender, vocês são sempre tão intensos. — chutou uma pedra imaginária. — Talvez, um dia, irão se entender.
— Quando o inferno congelar, Lily. — brinquei e rimos juntos. — O que houve entre você e o Noah?
Ela soltou um grunhido.
— Tem dois dias que ele não atende as minhas ligações. E quando responde as mensagens parece meio... Distante. — ergueu os ombros. — O Noah tem agido um pouco estranho.
Fiz uma careta, agradecendo quando Lennie se aproximou e entregou as rédeas para Lily.
— O Noah não é assim. — ela continuou. — Acho que está escondendo alguma coisa. Ele nem quis vir para o haras nessas duas semanas.
— Talvez, esteja planejando alguma coisa. — arrisquei-me em dizer.
— Seja o que for, irei descobrir. — disse determinada. — Vou para a cidade amanhã, irei visitá-lo e conversar sobre isso. Agora, vamos cavalgar antes que escureça. — ela subiu no cavalo e nem sequer se importou em me esperar para disparar pelo haras.
A poeira levantou e tudo que ficou foi o rastro da sua corrida. Não me preocupei em alcançá-la, já que Atena deveria executar exercícios leves. A saúde da minha paciente era o mais importante. Suas longas patas caminharam devagar, apesar de eu sentir a inquietação para forçar o tendão. Acelerei o ritmo lentamente quando atravessamos para o extenso pasto vazio de uma grama verde e brilhante. O terreno plano facilitaria os movimentos, a falta de inclinação e superfícies niveladas seriam propícias para ela.
Lily manuseou as rédeas e veio em minha direção, puxando os freios com delicadeza. Os cabelos lisos voavam conforme se movimentava. Ela emparelhou o cavalo ao meu lado e o sorriso iluminou sua face, era chocante o quanto se transformava em uma belíssima amazona quando queria.
Cavalgamos até a cachoeira que cruzava entre as terras dos e as fazendas vizinhas. Juntos embarcamos em uma conversa sobre os cavalos que chegariam no dia seguinte. Segundo as informações que recebi, entre todos hospedaríamos dois garanhões da raça Puro Sangue Inglês que passariam por treinamento de preparação para futuras corridas da região. Lembro-me também de Lily contar sobre o planejamento que seguiria quando estivesse na cidade, dizendo estar ansiosa para buscar o vestido que havia encomendado em uma alfaiataria.
Quando chegamos a clareira, deixamos os cavalos presos em uma árvore próxima a margem. A paisagem era um espetáculo de paz com a cachoeira formando uma piscina natural cristalina, um convite a calmaria. As longas e lisas rochas serviam como assentos confortáveis, aquecidas pelo sol do fim da tarde. O som dos pássaros e da correnteza tinha a magia que aliviar qualquer estresse, tornando-se o meu lugar favorito.
Observei Lily retirar os saltos e correr para sentar sobre umas das pedras. Mergulhou os pés, balançando as pernas em movimentos suaves, enquanto observava a água em silêncio. Caminhei até ficar ao lado dela, admirando a forma como a luz filtrava pelas árvores, iluminando a queda da cachoeira.
— O que acha que vai acontecer com o haras? — a pergunta veio de repente. A voz baixa, quase inaudível.
— Nada. O papai e a mamãe vivem brigando, mas no fundo, não têm coragem de vender esse lugar. — sorri, sentindo a brisa suave que nos rodeava. — Mas, falo sério, se um dia eles surtarem, estarei pronto para dar um jeito de comprar a propriedade. E você poderá cuidar da administração. — sabia que soava como uma brincadeira, mas no fundo, faria qualquer coisa para salvar aquele lugar.
— Grande altruísmo, irmãozinho.
Lily me encarou por alguns segundos, os olhos azuis cheios de um brilho travesso – que deveria ter servido de alerta. Um sorriso se alargou em sua boca e, sem qualquer aviso, uniu todas as forças para dar o impulso contra o meu corpo, me empurrando no rio.
O choque térmico foi imediato.
Soltei o grunhido assim que emergi com os cabelos e as roupas encharcados. Tossi com força, quase cuspindo os pulmões e puxei o ar, as vias aéreas clamaram de tanta ardência, tudo sob o som da delinquente gargalhando como uma hiena.
— Eu não acredito que fez isso! — gritei, a água escorrendo pelo rosto. — Eram botas novas.
Ela gargalhou mais alto, a mão segurando a barriga. Sua cabeça tombou para trás e a risada ecoou pela clareira. E eu daria tudo para ouvi-la rir todos os dias.
— Pare de reclamar. — estendeu a mão em minha direção.
Encarei sua palma estendia e por um momento senti a súbita vontade de puxá-la, mas o som do trovão reverberando no horizonte acabou com a ideia. Mais cedo havia verificado a meteorologia e uma forte chuva estava prevista para visitar o haras durante a noite toda. Então, o mais sábio éramos ir embora, antes que os dois ficassem ensopados.
— É melhor voltarmos antes que comece a chover. — aceitei sua ajuda e encarei a escuridão das nuvens.
Lily soltou o ar pela boca, parecendo cansada. Ela agarrou minha mão assim que fiz menção de me virar para pegar os cavalos. Seus olhos contornaram o meu rosto e notei o brilho diferente ao redor das pupilas. As sobrancelhas arqueadas denunciavam seu estado de nervosismo.
— Irmão, me prometa uma coisa? — disparou, quebrando a tensão.
— O que você quiser.
De súbito Lily me abraçou, seus braços apertaram o meu corpo como se a qualquer momento eu fosse desaparecer. Sua cabeça repousou sobre o ombro encharcado e soltou uma pequena lufada. Inclinei a cabeça, depositando um beijo carinhoso em seus cabelos, enquanto retribuía ao abraço. Sentia que ela precisa do meu calor tanto quanto eu precisava do dela.
Nossa união sempre seria a mais forte e inexplicável do universo. Lily era parte da minha alma e sem ela, minha essência ficaria rachada para sempre.
— Promete que sempre iremos cuidar um do outro? — ela sussurrou.
— Não precisamos prometer isso, Lily. — afaguei os fios macios. — Nós já cuidamos um do outro. Sempre fomos nós contra o mundo, lembra? — citei a pequena frase de quando éramos criança e eu a protegi quando acabou a energia no haras.
Seu corpo se apertou mais contra o meu e jurava que ela tinha lágrimas no canto dos olhos.
— Promete, . — insistiu, com uma sinceridade rara. — Nunca sabemos o que o futuro nos reserva.
Lembro-me de um calafrio percorrer minha espinha. E por mais que naquele momento não compreendesse o porquê daquele pedido, sabia que um dia ele seria essencial para a minha alma continuar viva.
— Eu prometo, Lily. — não hesitei. — Não importa o que aconteça, eu sempre vou cuidar de você. — selei nossa promessa naquele dia, algo que ficaria talhado em mim para sempre...
O passado abriu caminho para o presente e voltei a mim com o ar faltando nos pulmões. Os olhos arregalaram abruptamente, o arrepio gelado se espalhando. Eu havia voltado para o cemitério, de frente para a túmulo frio e silencioso. Tudo não passou de uma lembrança. Um momento de ternura entre dois irmãos que agora estavam destinados a viverem separados.
Encarei o retrato dela pregado na lápide e senti a lágrima escorrer do canto dos meus olhos, molhando a bochecha. Quente, minúscula e poderosa. A pressão contra o peito foi tão intensa que achei que fosse morrer ali mesmo. A garganta arranhou e desabei em um choro sôfrego. Os ombros balançaram com a força dos soluços.
Eu não aguentava mais sentir tanta dor...
Minha alma precisava se entregar a angústia. Tinha de sentir cada pedacinho se quebrando antes de colar os cacos que restassem. Lily odiaria me ver daquele jeito e faria de tudo para eu abrisse mão de uma vez. Diria que estava na hora de aceitar e deixá-la ir. Usaria suas palavras doces e o riso travesso para convencer que o meu coração precisava ser lapidado. Suas mãos tocariam o meu rosto e sussurraria que eu precisava soltá-la, que a dor um dia passaria porque a minha vida tinha de seguir sem ela.
Mas eu não conseguia... Não, sozinho...
— Eu não consigo, Lily... — confessei em voz alta, e as palavras arrancaram mais um pedaço da minha alma. — Eu preciso deixar você ir... Eu... — segurei a lateral do azulejo e deixei que as lágrimas falassem por mim.
Eu precisava disso.
Tinha que deixar a dor sair, sentir cada pedacinho se esvair entre meus dedos, até que a alma estivesse pronta para se curar e encarar a dura realidade.
— Eu prometo cuidar delas... — disse entre soluços. — Eu só não sei como...
Ergui a cabeça e novamente olhei para a fotografia. Eu sentiria falta da minha irmã até a eternidade. E quando achei que não fosse mais capaz de raciocinar, o tremor dominou cada célula do meu corpo em uma leve vertigem e então, a imagem dela preencheu a minha mente e me resgatou do poço profundo, cheio de amargor…
O rosto da coelhinha travessa, bicuda e dona da boca mais linda que só pensava em beijar. O sorriso dela. A risada estridente. As palavras suaves e ao mesmo tempo afiadas. O medo em seus olhos castanhos, a forma como se encolhia contra mim. O modo como o seu toque acalmava a minha tempestade. Ela sempre foi a âncora que me puxou do abismo. O porto seguro que me acolheu na escuridão.
Entreabri os lábios. Puxei o ar lentamente, o peito subindo e descendo com dificuldade. Minha cabeça latejou quando finalmente o meu coração entendeu o que estava acontecendo ali… A verdade sempre esteve estampada na minha frente, como uma sombra à espreita, e eu fui tolo o suficiente para não ver…
A ignorância me fez acreditar que a lealdade e a saudade que sentia de Lily foram o que mantiveram meu corpo respirando todo esse tempo, mas a realidade era mais absoluta… Sempre foi ela… A minha doce e infernal coelhinha que fazia o meu ar se tornar rarefeito. Foi por ela que aceitei abandonar tudo para cuidar de uma criança sem ter noção do que isso significava.
era a razão da minha existência e naquele momento, percebi que precisava dela para continuar respirando.
A promessa feita a Lily ganhou camadas que nunca pensei que fosse possível. Agora, entendia o porquê do universo me unir com a mulher mais teimosa do mundo… Eu era a ponta que faltava na base do triângulo. Minha alma completava a diferença das nossas vidas. E juntos tínhamos uma razão pequena e de olhos cristalinos que nos unia. Todas as constelações eram testemunhas de que eu faria de tudo para proteger as duas mulheres mais importantes da minha vida.
Porque eu morreria para salvar a minha nova família.
Capítulo 17
Os dedos latejavam. As pontas vermelhas e sensíveis clamavam por descanso. Mas não conseguia parar. O atrito com o teclado constatava com a dor insuportável no meio das costas, os músculos retesados pela posição desconfortável. Acomodei mais uma almofada entre o corpo e o braço do sofá, ajeitando a posição do notebook sobre as pernas dobradas.
A casa se fez em completo silêncio desde que desapareceu pela porta. Passei quase duas horas desabando na cozinha, até que ficasse desidratada e não restasse mais lágrimas para sair. Greta tentou me consolar, mas nem mesmo suas palavras doces foram o suficiente para arrancar a angústia de dentro do meu peito.
Por sorte, ela cuidou da Mia e a colocou para dormir. Agradeci aos deuses por terem colocado uma pessoa tão maravilhosa para ser a nossa governanta, porque se dependesse do meu estado, passaria dias sem comer e fazer absolutamente nada. As palavras de Charlotte ficariam rodando na minha mente até que minha alma tivesse forças para se levantar de novo.
No entanto, quando pensei que me fundiria ao chão da cozinha, tive a excelente ideia de descontar as frustrações e a raiva na escrita. A solidão se tornou um aliado e as teclas já imploravam por piedade, assim como meus dedos e os braços que começavam a ficar dormentes. Queria expressar todos os sentimentos em palavras, colocar tudo para fora sem que precisasse desabafar com alguém.
A página em branco ganhou forma tão rápido que nem percebi quando finalizei o capítulo e iniciei outro. E por mais irônico que o universo fosse, escrevia uma cena difícil, dramática, que marcava a briga dos protagonistas. Elisa tinha desobedecido a ordem de Joshua e saiu com a amiga para uma festa, sem a proteção dele. Sua vida estava em jogo e mesmo assim se arriscou indo a boate.
Joshua descobriu seu plano exorbitante e chegou no local antes dela sofrer uma tentativa de assassinato. Por sorte ele conseguiu contornar a situação e agora a mocinha estava a salvo, mais uma vez. No entanto, o guarda-costas brigava com ela, expondo todas as suas facetas e os medos de perdê-la.
Levei o dedo indicador até a boca, roendo a unha quando finalmente minhas mãos pararam de digitar. Rolei o mouse, relendo os últimos parágrafos para conferir se todos os sentimentos de angústia, raiva e medo foram expressos de forma clara. Deslizei a seta e abri o arquivo que usava de rascunhos para as cenas, assimilando as ideias para o próximo capítulo onde Joshua e Elisa se reconciliariam antes da casa dele ser invadida pelos criminosos.
Narrar meus personagens foi a forma que encontrei para esquecer as próprias dores e distrair a mente, por isso escrevia como um robô enlouquecido.
Prestes a retornar para a bolha da fantasia, ouvi o balançar do molho de chave girando na fechadura da porta. Olhei por sobre o ombro, tempo o bastante para assistir e sua silhueta forte entrando na casa. Ele passou a mão pelos cabelos bagunçados, o semblante péssimo. Notei que por cima da camiseta de linho usava o jaleco da clínica, tirando qualquer dúvida sobre onde estava escondido todo esse tempo.
Tencionei a mandíbula quando seu olhar cruzou com o meu. O arrepio percorreu cada centímetro da espinha por ter sido flagrada. Engoli em seco, molhando a garganta seca que já aranhava. Desviei o contato e mordi o lábio inferior, decidida a retornar para a escrita. Mas o sexto sentido batucou contra as paredes do meu cérebro e naquele momento, soube que olhava para o notebook aberto.
Fechei a tampa e procurei pelo controle da televisão, pausei o filme romântico que até então serviu como vozes de fundo para que não me sentisse tão sozinha. Meu estômago revirou assim que fui embriagada pelo perfume amadeirado, com suaves notas de lírios. Franzi o cenho, o calor se tornou profundo e não precisei de muito esforço para saber que ele estava parado ao lado do sofá.
— Podemos conversar? — sua pergunta soou receosa.
Girei a cabeça para enfim encará-lo. colocou as mãos dentro do bolso do jaleco, provavelmente esperando que eu o enxotasse dali. Em contrapartida apenas soltei o ar pela boca. Sem dizer nenhuma palavra, deixei o computador de lado e arrastei o corpo, ficando finalmente sentada da maneira correta, com espaço vago ao lado. Automaticamente ajeitei as almofadas, enquanto ele retirava o jaleco e o deixava sobre a mesa de centro.
— Você está cheirando a cachorro molhado. — comentei quando o aroma peculiar preencheu minhas narinas.
sorriu pelo canto dos lábios, tímido, e ocupou o lugar vago no sofá.
— Passei na clínica antes de vir. Não tive tempo de tomar um banho.
Sky, que até então tinha desaparecido, resolveu dar a graça da sua presença. Sua cauda balançava conforme se aproximou e rapidamente pulou no colo de , não perdendo tempo em começar a cheirar os odores característicos nas mãos e roupas do homem. Inspecionava cada pedacinho como um cão da polícia farejando por drogas.
Não segurei o riso quando o bichano fez a famosa careta de nojo que somente os gatos conseguiam fazer.
— O Sky concorda comigo. — coloquei a mão na frente da boca, para evitar que a risada saísse alta demais.
— Desde quando, você e o meu gato estão tramando contra mim? — ele fez torceu um bico na direção do felino, que em resposta aproximou o focinho do rosto, farejando minuciosamente.
— Não estamos tramando nada, só não gostamos do cheiro de cachorro. — estendi a mão e distribui carinho atrás da orelha de Sky.
O bichano ronronou e em seguida, acomodou o pequeno corpo no espaço entre nós. Se aconchegou em cima da almofada macia e felpuda. Não perdi a oportunidade de coçar delicadamente embaixo do pescoço peludo, o ronronar alto tendo o poder de acalmar qualquer clima tenso que existia na sala.
— Sky é um ótimo companheiro para leituras. — comentei inocentemente.
Mordi a língua assim que notei ter falado alto demais.
— Gatos são os melhores companheiros para leitores. — para a minha surpresa a afirmação veio, sem qualquer resquício de sarcasmo ou ironia.
Acompanhei quando esfregou as mãos no rosto e jogou o corpo para trás, afundando contra o encosto. Os olhos se fecharam e notei que travava uma luta interna consigo mesmo. E quando o suspiro de cansaço escapou por entre seus lábios, tudo o que mais quis fazer é ajudá-lo na batalha que nem mesmo sabia quem era o inimigo.
Eu só queria arrancá-lo daquele tormento.
— , me desculpa por tudo o que eu disse... — o sussurro baixo foi quase inaudível. — Livros de romance não são estúpidos. — suas palavras pareciam retirar um peso enorme dos ombros.
Por um momento fiquei sem reação. As palavras retumbaram dentro da minha mente e me senti como uma retardada por não entender o simples significado daquelas palavras. E tudo que fui capaz de fazer foi olhar para as próprias mãos, não contendo o pequeno sorriso que curvou nos lábios. Um calor aconchegante se apossou do meu peito e a onda orgulhosa me dominou, sendo impossível de evitar.
Nunca imaginei que um dia estaria viva para presenciar o arrogante e imponente, , se desculpando por alguma idiotice que saísse da sua boca. Na verdade, depois de todas as nossas desavenças, achei que ele nem fosse capaz de fazer isso.
— Aceito as suas desculpas. — em um impulso toquei sua mão.
Rapidamente tentei recuar, mas foi mais rápido e a capturou antes que tivesse tempo de me afastar. Ele ajeitou a postura até que estivesse sentado e entrelaçou nossos dedos, o pequeno gesto me causou um arrepio na espinha. O toque das nossas peles disparou a onda eletrizante por cada célula do meu corpo e fui consumida aos poucos. Era como estar diante do encaixe perfeito, a perfeição criada pelos deuses.
Ergui os olhos até encontrar os poços azuis, por onde pequenas fagulhas dançavam ao redor das pupilas. Fui hipnotizada pelo calor, a sua força e foi como entrar em combustão, sentindo que pela primeira vez uma parte perdida da minha alma estava finalmente se encontrando. A sensação era de ser abraçada por uma áurea mágica até meu corpo se fundir ao dele e tudo ao redor se transformar em uma atmosfera paralela onde apenas nós existíssemos e o mundo se tornava colorido outra vez.
A escuridão se tornou apenas um borrão na vasta obra-prima.
— Por que gosta tanto de ler? — a pergunta veio com curiosidade.
O polegar deslizou contra a minha mão em um carinho terno e o calor abrangeu todo o meu ser.
— Os livros me fazem sair da órbita, sabe? Com eles, consigo fugir do mundo real. — olhei para nossos dedos entrelaçados.
— Isso é impressionante, mas... A realidade é tão cruel assim, para querer fugir? — ele inclinou a cabeça.
De repente, o arco íris se desfez e o peso daquela pergunta me atingiu com força, mesmo que não tivesse sido a sua intenção. Ainda havia muitas lacunas sobre o meu passado que ele não conhecia.
— ... — soltei o encaixe das nossas mãos e por um instante, nada pareceu fazer sentido. — O Noah sempre mostrou ter uma boa vida. Era apaixonado por esta casa, pelo trabalho... — olhei ao redor, querendo gravar cada detalhe da decoração na memória. — Ele acreditava nas pessoas. — proferi e umedeci os lábios secos com a língua. — Só que o mundo é cruel e por isso gosto de fugir. Desligar por um tempo e fingir que os problemas não existem.
Por um breve momento, refleti sobre a confissão. Meu cérebro foi nocauteado pelas lembranças de todas as vezes em que meu irmão enfrentou as dificuldades sozinho. Ele mesmo cansado, ainda persistia, somente para que eu não fosse afetada pelo mundo.
— O que aconteceu com você? — disparou.
A parede da memória se dissipou e sorri com o canto dos lábios. Noah sempre seria o meu maior exemplo de superação e nada tiraria esse título dele.
Puxei o ar com força e encarei o rosto de .
— Escolheu mesmo medicina veterinária, por que queria ficar longe das pessoas? — redargui.
— Escolhi porque lidar com animais é melhor do que com pessoas. — a resposta veio com naturalidade. — Quando estou na clínica e olho para os filhotes, os cachorros e gatos doentes, abandonados à própria sorte... Eu vejo que eles não esperam nada de mim, além de cuidado e compaixão. — acariciou o lombo de Sky e sorriu quando o felino ronronou. — Os animais só querem ser amados. Eles não vão te machucar ou... Te obrigar a levantar e encarar uma multidão porque é isso que esperam de você... Porque precisam extrair cada pedacinho da sua força até não sobrar mais nada... — suas palavras soaram tão profundas que notei estar se referindo a um episódio do passado.
— Dê o seu coração a um cachorro, e ele lhe dará o dele. — recitei.
— Agora dê a um humano, e veja o estrago que ele faz. — disse, deprimente.
Mordi o lábio inferir, enquanto brincava com os próprios dedos.
— É por isso que acha que não consegue cuidar da Mia? Por que o seu coração está tão machucado que não pode ser lapidado?
— E o seu não está? — disparou e fui pega de surpresa.
Virei a cabeça em sua direção e estudei os traços dele com atenção. Notei que a pele estava levemente vermelha na região do nariz e as pálpebras inchadas, apesar de se esconderem atrás dos cílios longos. Era incrível como conseguia disfarçar perfeitamente as emoções, sendo preciso um olhar bastante analítico para notar os sinais das lágrimas recém derramadas.
— … Eu acho que somos duas almas condenadas a viverem a mesma dor. Vagando pela superfície em busca de algo que nos faça voltar a ver o mundo colorido outra vez.
Ele anuiu, jogando o corpo novamente contra o estofado, ficando deitado com a barriga para cima. As mãos desgrenharam os fios loiros escuros.
— Eu a visitei hoje… — disparou e a revelação me atraiu.
Engatinhei pelo sofá, ficando com o corpo na mesma posição que a dele. Tive o cuidado para não incomodar a vossa majestade peluda que ainda dormia sobre a almofada. Olhei para o teto, esperando que continuasse.
— A última vez que fui ao túmulo deles foi no dia do enterro. E pensei que ir até lá pudesse encontrar as respostas que tanto procurava.
— E as encontrou?
girou o corpo até que estivesse deitado de lado com as mãos embaixo da cabeça.
— A Lily não apareceu de forma divina, me deu um tapa e depois disse o que eu tinha de fazer, se é isso que quer saber. — sorriu divertido.
— Se ela tivesse feito isso, acredito que o Noah faria o mesmo comigo. — virei o rosto e não contive o riso.
O som da nossa risada quebrou a tensão que nos rodeava. Acompanhamos quando Sky se espreguiçou. As delicadas patas começaram a amassar o tecido da almofada. Um mini padeiro peludo com uma gigantesca encomenda de croissants, faltava apenas o chapéu de cozinheiro.
— Talvez, eu finalmente tenha entendido o porquê deles nos escolherem para cuidar da Mia. — eu ainda olhava para o felino quando ele murmurou.
— Por que somos os únicos parentes vivos, mais jovens, que pudessem assumir a guarda? — arrisquei-me em perguntar.
Fez uma careta engraçada e deitou-se com a barriga para cima novamente.
— É um ótimo palpite, mas não acho que seja por isso. O juiz poderia eleger os meus pais como tutores legais mesmo com a idade avançada. São os avós dela. — pegou o controle da televisão e começou analisar as bordas em uma forma de distração.
Neguei com a cabeça e massageei a testa.
— Por que não deixamos...? — virei a cabeça para encará-lo. — Seus pais seriam os guardiões perfeitos.
— Não deixamos porque era o último pedido deles. — relembrou.
Franzi o cenho.
— Então, qual o motivo que os levou a nos colocar juntos?
— Você disse que somos duas almas feridas em busca de um objetivo para viver. E a Mia é o nosso objetivo. — explicou como se fosse óbvio.
A confusão deveria estar evidente no meu rosto, já que o vi apertar a ponte do nariz, enquanto parecia vasculhar a mente em busca da melhor maneira de explicar a sua teoria.
— Seja mais claro sobre isso. — pedi, com a voz baixa. A ruga queimou em minha testa em um sinal de concentração.
Ele soltou o ar pela boca, umedecendo os lábios com a língua.
— A Lily e o Noah eram as únicas pessoas que nos conheciam de verdade. Eles não eram apenas nossos irmãos, eram nossos melhores amigos, os únicos que sabiam sobre nossas falhas e segredos. — girou o controle nas mãos, igual a um brinquedo antiestresse. — Quando escreveram aquela carta, sabiam que a perda deles resultaria no imenso vazio em nossos corações. Então, nos deixaram um motivo para viver. Uma missão.
Fiz um beicinho e erguei a mão automaticamente.
— Então... A Mia é a nossa oportunidade de curar o vazio que eles deixaram e assim conseguir ver o mundo colorido outra vez? — gesticulei, como se ligasse os pontos imaginários.
— Eles não nos escolheram porque somos os mais maduros ou os mais capazes. — se fosse por isso os avôs maternos seriam a melhor opção.
— Está me dizendo que deixaram a filha nas nossas mãos porque sabiam que ela seria a solução para as nossas feridas e, no processo, nos tornaremos a família que ela tanto merece? — crispei os lábios, ainda receosa sobre aquele raciocínio.
— A Mia é a junção perfeita da Lily e do Noah. Ela é tudo o que precisamos para nos curar.
O silêncio pendurou por alguns segundos, sendo quebrado apenas pelo miado furioso de Sky. , ainda deitado, cutucava a barriga do felino e era atacado pelas unhas afiadas que agarraram em seu braço, as patas traseiras chutando o antebraço com toda a força. Sorri, não conseguindo desviar os olhos daquela cena icônica. Notei o quanto eles se divertiam, apesar do bichano estar deixando diversos arranhões na pele clara do homem.
Enquanto os dois se entendiam entre unhas e caretas, aproveitei o tempo para compreender melhor sobre a teoria de . Era estranho pensar que não fomos escolhidos por nossas qualidades, mas sim pelas falhas. E apesar de achar que o veterinário enlouqueceu de vez, no fundo, tinha de concordar com ele. O luto era como uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar, e ter aquela bebê ao nosso lado nos forçava a olhar para o futuro.
Tínhamos um motivo para viver e não deveria desperdiçar essa chance presos na escuridão do passado.
Arregalei os olhos e o pequeno susto acelerou meu coração. Sky pulou sobre minhas pernas e correu para fora da sala. E pelo peso dos seus passos, a urgência em desaparecer, estava completamente ofendido por ter sido perturbado.
— , somos a âncora um do outro e não podemos deixar o conselho tutelar tirar a pequena de nós. — enfim pronunciou. — Precisamos lutar juntos. E não podemos agir como dois narcisistas, egoístas. — ao final da frase, imitou a voz irritante de Charlotte com perfeição.
Pressionei os lábios, impedindo que o riso saísse, sendo impossível de evitar quando fingiu ser a assistente social e isso só aumentou cada vez mais minha vontade de rir. Naquele instante, percebi que finalmente estávamos tendo uma conversa civilizada e tinha de admitir o quanto me divertia com suas zombarias.
Quando paramos de rir, foi como se a realidade estapeasse nossos rostos.
— Como posso ser o pai perfeito para a Mia? — ele murmurou para si mesmo.
encarou o teto, o olhar perdido e os dedos batucando em ritmo nervoso sobre o peito duro. A cobrança transpassava pelas íris azuladas de forma tão intensa que conseguia sentir de onde estava. Desviei o olhar e mordi o lábio inferior. Minha cabeça girou para encontrar a televisão com a imagem do filme romântico congelado. E, de repente, foi como estar em um desenho animado e uma lâmpada acendesse no alto da minha cabeça.
A possível solução para aquela cobrança estava bem ali.
— Acho que sei como te ajudar. — minha voz ecoou pela quietude da sala.
Agarrei o controle remoto e deixei que meus dedos apertassem os botões como se minha vida dependesse disso. Vasculhei entre as diversas opções, tudo sobre o olhar minucioso de . Abri a aba de conexões por via USB e a imagem do pequeno pen drive confirmou minha intuição. Esperei enquanto o televisor reconhecia o dispositivo, antes de exibir as diversas pastas com filmagens e fotografias de nossos irmãos com a filha.
— Há alguns dias, sem querer, encontrei esse pen drive conectado na TV. — revelei, buscando entre os diversos arquivos de vídeo. — Eles provavelmente esqueceram ali. E como a boa curiosa que habita em mim, acabei olhando algumas filmagens.
Olhei para ele e deixei que um sorriso tímido, sem os dentes, curvasse em meus lábios. se ajeitou no sofá, ficando sentado ao meu lado. Seu corpo parecia tenso, notei que os olhos tinham um brilho de curiosidade dançando ao redor das pupilas.
— Como acha que isso vai me ajudar? — inclinou a cabeça e crispou as sobrancelhas em dúvida.
— Bom... Eu e o Noah, não fomos criados em uma família convencional. Nossos pais morreram em um acidente de carro, quando eu tinha 7 anos e ele 17. — a voz embargou, revivendo as lembranças do dia do acidente.
Fechei os olhos por alguns segundos e afastei qualquer pensamento antes que fosse consumida. Respirei fundo, sentindo a dor angustiante por pensar que meu irmão se foi do mesmo jeito que nossos pais. Abri os olhos e selecionei a primeira filmagem com o título: “Boas-Vindas ao Bebê”. A tela acendeu e meu coração deu um solavanco assim que a câmera capturou Noah segurando Mia, recém-nascida, tão pequena e delicada que até parecia uma boneca.
— Eu estou fazendo certo? — meu irmão perguntou. A voz grossa, ansiosa e cheia de medos
Ele tentava balançar os braços com cuidado, a expressão de pânico que consumiu sua face quando Mia mexeu os braços minúsculos foi cômica. Sorri com a cena, era impressionante como sentia tanto a falta dele, de olhar para seu rosto, admirar os cabelos castanhos e olhos verdes que herdou da nossa mãe. Visualmente, o porte físico era bastante parecido com o de .
— Relaxa mais os braços, amor. Ela não é de vidro. — Lily disse suave, revelando quem se encarregava da filmagem.
A câmera se aproximou e em seguida o ângulo virou, filmando o momento em que ela depositou um beijo molhado na bochecha dele e ambos olharam para a neném que remexia os braços e tinha os olhos curiosos, analisando cada canto do quarto.
— Você será um ótimo, pai. — ela sussurrou, o amor presente em cada palavra.
Uniram suas testas, roçando os narizes em um carinho terno e sorriram um para o outro, antes do vídeo terminar.
Encarei a tela escura, o silêncio profundo preenchendo a sala. A saudade era como uma doença que me corroía, obrigando a apertar os dedos até que os nós ficassem brancos. Pressionei os lábios para segurar o choro que ficou enroscado na garganta, as lágrimas insistiam em acumular no canto dos olhos.
— Ele cuidou de mim... E não teve nem tempo de viver o luto, algo que não entendia na época... — olhei para o chão e esfreguei o rosto com o dorso das mãos, capturando as gotas teimosas que escaparam.
Passei para o próximo vídeo e um sorriso frágil tremeu em meus lábios, quando a cena apareceu. Era possível escutar a risada baixa e delicada de Lily, enquanto caminhava pela sala e focou a câmera em Noah. Ele dormia no sofá-cama da sala e tinha Mia adormecida no peito. A representação perfeita para ilustrar o pai dedicado que se tornou.
— O Noah sofreu muito para ficar com a minha guarda. Fomos transferidos para um orfanato e ele lutou contra o sistema para que não fôssemos adotados separados. Mas nenhum dos casais que nos visitavam queria adotar uma criança junto com um adolescente. — lembrava vagamente daquele lar temporário. — No ano seguinte, ele completou a maior idade e assumiu a minha guarda. — funguei, cada músculo do meu corpo contraindo de saudade dele. — As pessoas diziam que ele não levava jeito; que um jovem desempregado não era capaz de criar uma criança. — puxei o ar com força, antes de prosseguir: — E então, conheceu a Lily. Conseguiu um emprego, cursou a faculdade e nunca me deixou sozinha. E uma coisa nele que sempre admirei é que tomava muito cuidado para que eu não soubesse das dificuldades e das humilhações que sofria no mundo afora.
O calor que aqueceu meu joelho me tirou a atenção do televisor. Virei o rosto e encontrei com a mão sobre a minha perna. Ele me encarava com ternura e fascínio, enquanto ouvia a história em completo silêncio, a postura mais relaxada. Parecia absorver cada palavra, processando todos os detalhes, e talvez, finalmente entendendo que a perfeição não existe.
Apertei o play no controle e um novo arquivo se iniciou – o mais importante. Desta vez, era Noah que cuidava da câmera. A imagem subiu do chão para uma Lily completamente irritada e cansada, sentada na poltrona no quarto da filha. As olheiras escuras sob os olhos denunciavam as noites mal dormidas, mas a voz doce cantarolava uma música infantil para pequena em seu colo.
— Amor, dê um sorriso. Fica tão linda quando está sorrindo. — ele disse gentil e isso irritou Lily.
Ela se levantou, colocou a bebê no berço e se virou para o marido. O baque da sua mão contra a lente tornou tudo escuro, mas ainda conseguíamos ouvir a discussão de forma clara e real.
— Não vem com essa de sorriso lindo, Noah! — ditou e seus passos ecoaram pelo corredor.
Ele manteve a filmadora abaixada, filmando o chão.
— Não fica assim, meu amor. — pediu, o arrependimento presente em sua voz.
— Você sabia que eu estava cansada! Passei o dia inteiro trabalhando e só queria dormir um pouco. Era a sua vez de cuidar dela! — gritou e desceram as escadas.
— Amor... Me perdoe, prometo que da próxima vez que ela chorar a noite, irei levantar. — e só então notei a falta de iluminação da casa, provavelmente era madrugada.
— Como você quer que tenhamos uma vida de casados, se não quer me ajudar com as tarefas dessa casa? — a discussão ficou acalorada e a câmera foi desligada.
Desconectei o pen drive e mudei para um canal aberto antes que o próximo vídeo começasse.
— Ele não era perfeito. — levantei o olhar para encarar o veterinário. — O que quero que entenda é que o Noah tinha todos os motivos para desistir. Ser um homem amargo e não acreditar mais nas pessoas, mas ele escolheu encontrar forças para perdoar e seguir em frente, buscando sempre ser melhor.
— Sinto muito, . — finalmente falou, apertando levemente a minha patela. — Não sabia que tinha perdido os seus pais tão cedo. A Lily nunca me disse nada.
— Não é um assunto que gostávamos de falar. — isso era algo que eu e meu irmão tínhamos em comum, esconder nossas dores e sentimentos das pessoas.
suspirou, olhando ao redor da sala.
— Você acha que conseguimos...Cuidar da Mia? — mudou de assunto, sua voz quase hesitante.
— Nunca seremos eles. — aproximei-me e toquei seu ombro. — Não podemos substitui-los. E acho que está na hora de pararmos de pensar que eles vão voltar. — reprisei sua fala e nossos olhos se encontraram no mesmo instante.
Havia uma faísca de reconhecimento entre nós, um entendimento silencioso que ia além de qualquer palavra. Era como se finalmente assumíssemos que estávamos presos no mesmo barco, a deriva de um mar revolto que faria de tudo para nos fazer naufragar.
Pousei a cabeça sobre o seu ombro e senti quando ele se inclinou deixando o queixo sobre meus cabelos. Nós nunca seríamos perfeitos, mas éramos tudo o que a Mia tinha. Naquele momento, as duas almas perdidas estavam se reconhecendo, um entendimento mútuo e puro. A tempestade ao redor diminuiu gradativamente e abriu caminho para a faísca que nos aquecia cada vez mais.
— Vamos prometer uma coisa, ? — disparei, sem reconhecer minha própria voz.
— Tenho medo de quando me pedem isso. — ele riu e não me contive em fazer o mesmo.
— Quero que me prometa que iremos parar de nos cobrar tanto. — envolvi sua mão com a minha e acariciei a palma com o polegar. — Eu nunca serei como a Lily. Ela era uma mãe maravilhosa, admirável. — mordi o lábio inferior. — Mas lembro de tudo o que o Noah me ensinou, e se eu puder passar metade dos ensinamentos dele para a Mia... Será a minha maior realização.
Ergui os olhos e endireitei o corpo até que estivesse de frente para ele, sem soltar sua mão. O sorriso que se curvou em sua boca foi encantador, capaz de roubar toda a minha compostura. E céus... Como eu queria experimentar o gosto daqueles lábios.
— Eu prometo, . — confidenciou e entrelaçou nossos dedos. — E se eu puder passar para a Mia tudo o que os meus pais me ensinaram, sei que um pedaço da Lily sempre estará com ela.
Nossos olhos não eram capazes de se desgrudar e foi o exato momento em que proclamamos a união de dois inimigos destinados a viverem sob o mesmo teto para sempre. O arrepiou dominou cada partícula do meu corpo, engoli em seco, sentindo que daquela vez tudo daria certo. Porque não importa o quanto escrevêssemos por linhas tortas, juntos daríamos um jeito de encontrar o caminho certo.
— E-eu sinto tanto a falta deles... — murmurei com o coração apertado.
Meu lábio inferior tremeu e tudo o que consegui fazer foi buscar refúgio nos braços de . Eu não queria mais chorar, por mais que admitir a saudade em voz alta fosse mais difícil do que pensava. Ele me envolveu, acolheu meu corpo pequeno, erguendo uma muralha ao meu redor. Quente, reconfortante e protetor.
— Eu também sinto... — confessou contra meus cabelos.
— Será que um dia essa dor vai passar? — apoiei as mãos em seu peitoral duro, a cabeça repousada ali.
— Nunca irá passar, . Só iremos aprender a conviver com ela. — ele afagou os fios escuros em um carinho terno. — Conhece o mito grego da caixa de Pandora?
— Eu sou escritora, . É claro que conheço. — sorri tímido.
— Então sabe que existe uma dentro de cada um de nós. É onde iremos guardar essa dor pelo resto de nossas vidas. — escutei o tom suave da sua voz como uma melodia. — Sabe, tentei manter essa caixa fechada tantas vezes nos últimos dias que quando ela finalmente abriu, achei que não fosse suportar.
Ergui o olhar para encará-lo e ele evitou o contato visual.
— Por isso fui até o túmulo deles. Depois do que ouvi da Charlotte e a nossa briga, fiquei completamente perdido. Não sabia mais o que fazer. — a mandíbula afrouxou , era difícil realmente difícil ele se abrir daquele jeito. — Eu chorei feito uma criança que caiu da bicicleta. Mas isso me fez ver que eu precisava deixá-la ir, porque quanto mais a segurasse mais demoraria para alcançar a paz no meu coração. — direcionou os olhos gentis para o meu rosto e notei quando encarou meus lábios por um breve momento.
Engoli em seco, temendo que percebesse que fazia o mesmo.
— Você disse que foi em busca de respostas, mas não me disse como as encontrou. — desviei os olhos para as próprias mãos, era mais seguro.
— Quando estava no fundo do poço, uma pessoa apareceu e me puxou de volta para a superfície.
Ele se aproximou. O perfume amadeirado inconfundível mexia com os meus sentidos.
— Quem apareceu? — quis saber com uma pontada de curiosidade.
— Você.
E naquele momento, descobri como uma palavra curta, simples e tão inocente conseguia desestabilizar até o ser mais controlado do universo. Minha garganta secou. Imediatamente levei os olhos para os dele, encontrando um brilho de gratidão e satisfação, ao mesmo tempo em que vi um misto de alívio e insegurança. Abri e fechei a boca com a intenção de dizer alguma coisa, mas era como se todas as palavras tivessem sido roubadas pelo ladrão mais experiente do mundo.
— Você apareceu e entendi que era hora de deixar a minha irmã ir, porque outra pessoa precisava de mim. — foi a revelação mais chocante que alguém poderia ter feito.
E o mais surpreendente era ver aquelas palavras saindo da maldita boca do homem que estava me enlouquecendo apenas por estar perto demais.
— , eu... — não sabia o que dizer. Meu cérebro entrou em combustão e queimou o vasto vocabulário.
Um sorriso lento e enigmático curvou no rosto dele e os olhos faiscaram por algo que não soube identificar. Ele se inclinou, diminuindo a pequena distância entre nós e o aroma de cedro e pimenta se tornou uma arma perigosa. O hálito quente bateu contra meu rosto e suas palavras foram sussurradas contra minha orelha, causando o arrepio por todo o corpo.
— Acontece que essa pessoa é uma escritora que odeia lidar com o mundo real e acha que vamos sobreviver sem nos matar antes. — zombou e gargalhou em seguida. — Diga, coelhinha. Algum dos seus livros românticos conta como dois inimigos podem se juntar para cuidar de uma criança? — afastou-se e me encarou em busca de uma resposta.
Arqueei a sobrancelha e neguei com a cabeça, surpresa pela completa mudança de humor tão repentina.
— Não. Nenhum deles.
— Considere como tema do seu próximo livro. — ele uniu os dedos e deu um peteleco na minha testa. — E não esqueça de adicionar um veterinário gostoso como o protagonista.
— Espere deitado em uma cama muito macia, veterinário. — retruquei. — Porque o inferno terá de congelar primeiro, para que eu escreva um personagem inspirado em você. — ele não precisava saber que as chamas do submundo estavam congeladas há muito tempo.
— Teria muitas leitoras suspirando por ele. Pense como um investimento. — deu uma piscadela e rolei os olhos.
E com a alfinetada ardendo na ponta da língua, fui interrompida pelo som alto e prolongado da minha barriga roncando feito um terremoto. O barulho constrangedor fez minhas bochechas corarem.
— Estou morrendo de fome. Será que ainda dá tempo de pedir burritos? — vasculhei o sofá em busca do celular.
Joguei as almofadas, igual uma desesperada em busca do aparelho que pareceu ter sido engolido pelo estofado.
— Com toda certeza que não, já devem ter fechado. — se levantou. — Vamos, senhorita escritora. Precisamos alimentar essa sua alma ferida antes que entre em colapso de fome. — estendeu a mão em minha direção.
— Você vai cozinhar? — arqueei a sobrancelha em desconfiança.
— Vou, aprendi a fazer uma pizza de liquidificador muito prática.
— E qual o veneno escolhido para a ocasião? — estreitei os olhos e acompanhei quando ele alargou um sorriso travesso.
Os olhos azuis se acederam com uma malícia divertida. Ele esfregou as mãos, parecendo um mafioso prestes a colocar seu plano mais maligno em ação.
— Se não levantar daí agora, vou colocar muito bacon e você será obrigada a comer.
Arregalei os olhos e estremeci, já imaginando o quanto a gordura do bacon abraçaria todos os outros ingredientes em um campo oleoso de batalha. Meu coração sofreu um pequeno infarto só de pensar na massa ensopada e brilhante de tanta gordura. Por isso, em segundos minhas pernas me obrigaram a sair do sofá e correr para a cozinha, como se a minha vida dependesse disso – e dependia.
O riso dele me seguiu, um som que por mais estranho que fosse parecia fazer parte do lugar há anos. Comecei a gargalhar quando abriu a geladeira e comemorou por ter encontrado uma embalagem fechada de bacon que Greta havia comprado naquela semana. Eu o amaldiçoei se ousasse colocar aquilo na pizza e juntos, fizemos o caos se instaurar naquela cozinha.
Eu sabia que nunca seria como a Lily, e nem ele como o Noah, mas pela primeira vez senti que mesmo assim estava tudo bem. Porque, em meio ao caos de nossas almas quebradas, encontraríamos uma nova definição de lar. Não era perfeita, mas real. E isso é tudo o que precisávamos para conseguir seguir em frente.
Capítulo 18
Inspirei devagar. O ar entrou pelos pulmões profundamente de maneira tão sutil que há muito tempo não sentia. Deixei a boca curvar-se em um sorriso pequeno, enquanto lutava para abrir os olhos que se incomodaram com a breve luz do sol que entrava pela janela da sala. Instintivamente, o rosto esfregou contra a almofada macia e só então percebi estar abraçado com o quadrado felpudo.
Espreguicei-me. Sem querer a mão esbarrou contra a estrutura quente e rechonchuda. As pequenas unhas arranharam levemente a pele, o ronronar chegando aos meus ouvidos. Virei a cabeça apenas para confirmar que Sky estava ali, a barriga escura virada para cima e as patas esticadas em total conforto. Ele dormia no canto do sofá como era de costume todas as noites.
Acariciei a barriga redonda. Ri assim que as patas peludas agarraram meu braço e cravou os dentes na região do pulso, causando apenas uma pressão pequena já que nunca usava força o suficiente para machucar. Continuei com a perturbação até que realmente fosse mordido e tivesse que intervir antes que virasse um petisco de salmão. Puxei o felino e o abracei como se fosse um bichinho de pelúcia, arrancando o grunhido do fundo da sua garganta.
Como veterinário sabia que os gatos não eram tão adeptos de contato físico igual aos cães, mas desde que resgatei Sky, tudo mudou. Esperei pacientemente até que a infecção cedesse, cuidei de cada machucado e no final o adotei porque o laço entre nós se tornou forte demais para deixá-lo ir. Então sempre que o apertava nos braços, ele grunhia de puro charme.
O bichano pulou do enlaço, passando a amassar o tecido das almofadas. Resvalei o dedo sobre a cabeça minúscula, desviando sempre que tentava me morder. Sorri de modo tão espontâneo que senti cada célula do meu corpo mais leve. Tinha acabado de acordar de um dos sonos mais revigorantes da vida.
A angústia e o peso que dominavam meu espírito abriram caminho para a leveza e o sentimento de propósito. E era incrível pensar que tudo mudou depois de uma noite desastrosa que terminou com sorvete e pizza de liquidificador. Ainda lembrava da pequena coelhinha insistindo que deveríamos colocar brócolis no recheio ao invés de bacon. Um insulto ao meu paladar.
E pela primeira vez, fomos maduros o suficiente para lidar com o problema. Tiramos no cara e coroa, quem ganhasse escolhia os ingredientes. Mas quando jogamos a moeda, ameaçou arrancar minhas bolas quando o rosto do homem caiu para cima. Isso causou uma discussão breve, onde corri o risco de ser castrado e nocauteado por uma panela. No fim, decidimos fazer dois sabores e tínhamos uma massa de metade frango com bacon e mussarela com brócolis.
Agora, o cheiro do café sendo preparado e das panquecas no fogo, tornavam o ambiente aconchegante igual a um lar. E querer estar ali não soava mais como uma obrigação, e sim, como um privilégio. A sorte pairava sobre mim, sentia as energias carregadas, pronto para explorar a casa sem medo e inseguranças me detendo.
Aquelas paredes se tornaram o abrigo da minha alma.
Levantei-me e subi para o banheiro principal. Arrumei os cabelos desgrenhados em frente ao espelho assim que terminei de escovar os dentes. Minha mente ainda vagava pelas lembranças da noite anterior, ouvindo rindo, o corpo pequeno sentado no balcão da cozinha. Balançava as pernas freneticamente, a colher cheia de sorvete – a nossa sobremesa.
Apoiei as mãos na pia e o sorriso que curvei nos lábios foi tão largo que me sentia como um adolescente na flor da idade. Meu coração acelerava só de pensar no momento em que ela roubou o pote de sorvete de baunilha das minhas mãos e correu ao redor da ilha da cozinha. A segurei com os braços, suas costas bateram contra meu tronco e a risada estridente que soltou foi o som mais maravilhoso que já tinha ouvido.
— Eu preciso disso, estou na TPM! — ela justificou e jogou a cabeça para trás, apoiada sobre meu ombro.
— Você ameaçou me castrar por causa do bacon. Agora vai se entupir com açúcar sozinha e não quer nem dividir comigo? — puxei o pote, mas ela foi mais rápida.
me acertou com a colher cheia e se soltou. Entreabri os lábios, surpreso com sua atitude, mesmo possuído pela gargalhada estridente.
— Essa é a sua parte do sorvete. — riu.
Ela deixou o pote no balcão e abocanhou mais uma porção generosa.
— Isso foi muito infantil, coelhinha! — tentei soar bravo.
Rapidamente enfiei a mão na massa gelada e mostrei o melhor sorriso travesso em sua direção.
— Não ouse, . — apontou a colher como uma arma.
— Vou ser bonzinho e darei dois segundos de vantagem. — comecei a contagem e ela correu para o outro lado da cozinha.
Logo a alcancei e pressionei a mão cuidadosamente no seu nariz e boca. A delinquente lambeu os lábios, atraindo minha atenção e me senti um felino faminto. Não conseguia desviar os olhos dos movimentos, sendo tempo o suficiente para ela revidar. Capturou o resto do sorvete em minha palma e sem hesitar esfregou no meu rosto e barba.
Ela caiu na gargalhada. Em poucos minutos a cozinha se tornou em uma guerra de sorvete de baunilha, misturado com risos e xingamentos. Naquele momento, deixamos nossas máscaras caírem por terra e fomos nós mesmo depois de tanto tempo. E quando finalmente terminamos o duelo, tivemos de nos unir para limpar tudo, caso contrário Greta nos pegaria pela orelha e exigiria que cada canto ficasse brilhando.
E agora, encarava o reflexo no espelho, me sentindo o desgraçado mais sortudo do mundo por finalmente ter encontrado o meu lugar. Durante muito tempo, pensei que não conseguiria viver o luto pela minha irmã, mas agora que finalmente a deixei ir, era como viver o que ela mais queria de mim.
Recomeço.
Minha vida tinha sofrido um reset, e construiria uma vida sem a Lily, mas com as memórias dela sempre me acompanhando pelo caminho.
O caminho até a cozinha foi como mergulhar nos primeiros passos da minha jornada. O clima ameno me envolvia com sutileza. Fiquei parado com o ombro encostado contra o batente, sendo acolhido pela cena da pequena sentada na cadeirinha de alimentação, o rosto todo sujo de frutas. Greta revezava entre ajeitar a mesa e ajudá-la com a colher, o sorriso caloroso estampado no rosto.
Observei Mia por alguns minutos, não deixando de notar os traços finos e delicados como os da mãe. A forma como os pequenos dedos tentavam segurar o talher era idêntica ao jeito da minha irmã. A risada gostosa e tão primorosa; os olhos de um azul cristalino; a boca pequena e fina, dona de um sorriso encantador. Todos os detalhes me remetiam lembranças que guardaria para sempre em um cantinho especial no meu coração.
— Garoto, nem ouse dizer “bom dia”. — Greta proclamou, sem nem me dirigir o olhar. — Eu não sei o que aconteceu aqui ontem, mas por culpa de vocês, vou ter que comprar muitos venenos para formiga.
Apertei os lábios, segurando o riso assim que vi a seringa amarela em cima do balcão com uma foto gigantesca do inseto no rótulo. Acho que nossa tentativa de limpeza acabou atraindo novas moradoras para a casa.
— Irei me encarregar disso, Greta. — passei a mão na nuca.
— O que aconteceu aqui? — finalmente se virou para me encarar, os braços abertos em indignação.
Estava prestes a responder quando estendeu a mão aberta em minha direção em sinal de “pare”. Por um instante, agradeci por ela não possuir autorização para portar uma arma, senão, eu seria um alvo fácil.
— Quer saber, ? Eu não quero mesmo saber. — balançou a palma em desdém.
Os cantos da minha boca se curvaram em um sorriso torto, antes de ser atraído pelo barulho de passos apressados na escada. apontou no corredor e correu pelos degraus, pulando de dois em dois como se competisse em uma maratona. Ela rapidamente me acalcou e acompanhei quando seus olhos se arregalaram.
Os próximos segundos ficaram em câmera lenta.
Sua perna vacilou. O pé traiçoeiro escorregou no azulejo liso e tive de acionar todos os reflexos para conseguir agarrar a cintura fina, antes que encontrasse o chão. Teria sido uma queda grotesca e hilária. Mas por que ela estava correndo feito uma maluca?
Agarrou o meu braço com força e em seguida, seus glóbulos castanhos encontram os meus. Franzi o cenho ao encontrar uma atmosfera anuviada ao redor das pupilas dilatadas, quase transformando as irís claras em um tom escuro. O rosto pálido, os lábios levemente trêmulos e a respiração acelerada.
— Como vou manter essa família viva, com você querendo se matar desse jeito? — provoquei e deixei que usasse meu corpo de apoio para levantar.
mostrou a língua e empurrou meu ombro, entrando na cozinha como se nada tivesse acontecido – atitude bastante madura.
— Tem uma aranha do tamanho dessa casa no meu quarto. — excedeu, enquanto arrumava os cabelos bagunçados.
— Se uma aranha fosse do tamanho dessa casa, ela com certeza não passaria pela porta do seu quarto. — zombei e cruzei os braços, ficando recostado no batente.
Estreitou os olhos na minha direção. O rosto enrubesceu, finalmente ganhando um pouco de cor.
— Eu sei o que eu vi, . — cuspiu com fúria.
Soltei uma gargalhada.
— Quer dizer que você quase se matou por causa de uma aranha? — crispei as sobrancelhas em provocação.
— Eu queria ver como reagiria se um dinossauro invadisse o seu ambiente pessoal! — ela pegou uma maçã na fruteira em cima do balcão e mordeu com força.
— É só uma aranha, . Não estamos no Jurassic Park. — cruzei os braços e sorri atrevido.
Mia gargalhou e sem querer derrubou a colher no chão ao balançar os braços. Fui imediatamente atraído, não resistindo a tanta fofura. Aproximei-me da cadeirinha de alimentação e depositei um beijo na cabeça dela. Os pequenos dedos agarraram o colar de prata que pulou pela gola da camiseta – um acessório que voltei a usar somente depois da noite passada.
— , tira esse negócio da mão dela. A Mia ainda é muito pequena para segurar isso. — advertiu.
Cuidadosamente, retirei o pingente em formato de cruz da mãozinha minúscula antes que levasse até a boca. A corrente simples e antiga havia sido um presente de Lily. Segundo ela, sempre que o usasse, meu espírito estaria sendo protegido por Deus. Nunca fui uma pessoa religiosa e quando aconteceu o acidente, tudo que mais queria era desaparecer com aquele objeto.
Mas depois de ontem, soube que não deveria culpar a Deus pelo que aconteceu com minha irmã e por isso tinha o colocado de novo. Além disso, somente de ver o acessório adornando o pescoço sentia uma onda reconfortante me conectasse de volta com o antigo .
Escondi a corrente dentro da roupa. Como distração, peguei a colher limpa na gaveta e abaixei o corpo até que ficasse da altura certa para ajudar a pequena a terminar de comer as frutas junto do mingau de cereais.
— , onde viu a aranha no seu quarto? Irei fazer uma faxina hoje à tarde, posso tirá-la. — Greta questionou, terminando de arrumar a mesa.
— Perto das caixas de livros. — e em seguida, fez questão de detalhar como era o pequeno inseto.
Grande, cabeluda e cheia olhos enormes. E um detalhe importante: tinha gosto por carne humana.
— Nossa, era a aranha do Harry Potter? — zombei. — Talvez, ela tenha confundido o seu quarto com a Floresta Proibida. — mordi os lábios e segurei a gargalhada.
semicerrou os olhos e fez um beicinho que a deixou linda demais. Incrível como ficava gostosa mesmo com raiva.
— Eu vou bater nele, Greta. — apontou o dedo em riste. — E juro que vou usar a panela de pressão elétrica!
— Parem vocês dois! — a senhora massageou as têmporas.
— Greta, a pode ter encontrado uma espécie de aranha falante, podemos ficar ricos. — continuei com a provocação.
E como esperado, o impacto foi certeiro. lançou a primeira coisa que viu pela frente: a mamadeira de Mia, cheia de água morna. Minha testa latejou e tive que massagear a região, sob a gargalhada da bebê que claramente se divertia com a bagunça.
Greta cobriu a boca com o guardanapo, escondendo o riso.
— É bom saber que finalmente fizeram as pazes. — confessou, a voz beirava ao alívio.
— Nunca achei que um dia apanharia com uma mamadeira de plástico. — fiz uma careta, como aquele pequeno objeto poderia causar tanta dor?
— Deveria ter pensado nisso antes de dizer que o Aragog está morando no meu quarto. — ela mordeu lentamente a maçã, com aqueles olhos lindos me fuzilando.
Por um momento esqueci de que estava ajudando a pequena e passei a observar o adorno dos lábios da coelhinha. Carnudos, delicados, com aparência de deliciosos. limpou o canto da boca com o polegar, o pequeno gesto despertando sensação que achei que nunca sentiria por ela. Minha mente se perdeu na imaginação de ser os meus dedos a tocando, resvalando a pele tão macia, enquanto a prendia contra o balcão da cozinha.
— Sabe, ... Enquanto a tarântula estiver dormindo na minha cama, nada mais justo do que eu fazer uma maratona de filmes românticos. — ela provocou.
Só então notei que eu prendia o ar.
— Greta, por favor, cace o bicho. — murmurei, enquanto tentava recuperar o fôlego que a coelhinha havia roubado.
— Sabe, enquanto vou em busca da aranha, vocês deveriam pensar em redecorar a casa. — a governanta disparou, colocando a tigela com frutas e o pote de geleia de morango sobre a mesa.
O calor subiu pela base do meu pescoço, um sinal que sabia ser perigoso, mas mesmo assim não escutei a razão que foi para o inferno. Sem conseguir evitar voltei a encarar a coelhinha. E quando cruzou os braços, o movimento por mais sutil que fosse se tornou uma cena arrebatadora. Os seios fardo se tornaram evidente, chamativos, um pecado naquela camisola fina. Engoli em seco, sentindo o nó na garganta, e cerrei o maxilar me forçando a desviar os olhos para o chão.
Céus! Precisava sufocar essa atração antes que me consumisse por completo...
— Devem deixar do jeito de vocês, afinal, essa casa agora é dos dois. — Greta continuou, sua voz doce e gentil.
— É uma ótima ideia, Greta! — exclamou, a voz tremia de excitação. — Podemos começar pela sala, confesso que aqueles quadros abstratos são assustadores. — notei o quanto estava se esforçando.
Depositei um beijo na cabeça de Mia. Observei enquanto levava a colher cheia até a boca, sozinha. Meu peito se encheu de orgulho ao ver que ela repetiu o movimento, mesmo que a mingau caísse quase todo para fora do talher. Tão independente, minha pequena.
— Já que não vou conseguir me livrar dessas duas mulheres, acho que deveríamos deixar a casa com a nossa cara. — comentei, o fio da consciência voltando lentamente.
— Mas, e o quarto deles? — ouvi a voz de questionar.
O brilho de insegurança brincava ao redor das pupilas dos olhos castanhos. O medo sibilava pelo seu corpo, querendo a todo custo fazê-la recuar. Ela esfregava os braços em uma tentativa de afastar o frio que nem mesmo existia. O peito subia e descia, a respiração irregular.
O pânico estava brutalmente estampado nela e soube que precisava agir antes que o barco afundasse. Prometemos que seguiríamos em frente, então é isso que vamos fazer.
— Pensei que você poderia sair do quarto de hóspede e se mudar para lá. — sugeri de imediato. — Podemos mudar a decoração, as roupas de cama, os móveis.
Ela ponderou por um momento, antes de apontar o dedo na minha direção.
— Consegue colocar uma prateleira de livros da parede? — perguntou com receio.
— Se eu não conseguir, chamamos um profissional. — prometi, e um sorriso sincero iluminou o seu rosto.
Foi como segurar a sua mão no meio da tempestade. Uma pontada de determinação se acedeu no meu peito assim que avançamos juntos, superando o obstáculo. A mudança por mais assustadora que pareça, é necessária. Doía ter de reviver todas as lembranças dos nossos irmãos, mudar cada detalhe que deixaram, mas se pretendíamos viver nessa casa, deveríamos nos ver dentro dela. Como uma família de verdade.
Greta pigarreou e limpou as mãos no avental que amarrou ao redor da cintura. Olhava para a mesa cheia de comida com admiração e orgulho.
— O café da manhã está pronto, podem comer e enquanto isso vou fazer a lista de compras do mercado. — ela puxou o bloco de papel em cima do balcão que sempre usava nessas ocasiões.
— Posso levá-la até o mercado. Assim consigo passar mais tempo com essa neném. — fiz cócegas na barriga de Mia, ouvindo sua gargalhada contagiar o ambiente.
— Tudo bem, mas eu dirijo! — anunciou, a curta frase com o poder de transformar os próximos minutos em uma zona de guerra.
E não fosse o meu carro no meio daquele campo minado, Greta não precisaria ter gritado quando viu dois adultos – que mais pareciam crianças – correndo até a sala como se apostassem uma corrida pela vida.
Levantei-me de uma maneira tão rápida que até mesmo duvidei das minhas capacidades. Quase escorreguei ao tentar alcançar a mulher que invadia a sala e já vasculhava todo o cômodo em busca das chaves do veículo. Estreitei os olhos em sua direção, analisando-a minuciosamente. Virei a cabeça, mirando o molho metálico em cima da mesa de centro, escondido debaixo do jaleco da clínica que tirei na noite anterior.
No entanto, quando estava prestes a pegar o que era meu por direito, pareceu relembrar os acontecimentos passados. Seu corpo pequeno e ardiloso girou, os olhos redondos cravavam sobre a mesinha, a expressão idêntica à de um predador encarando a próxima presa. A descarada me varreu de relance. Meu estômago revirou e precisei agir antes que o precioso Hyundai Creta tivesse o destino traçado.
Lancei o corpo para frente e fez o mesmo. Era possível sentir a agitação entre nós, os corações batendo pela competição. Para qualquer espectador parecíamos disputar pelo último grão de arroz do mundo. Arregalei os olhos ao vê-la estender o braço em minha direção, a mão pequena colidiu com força contra meu peito e isso me fez perder brevemente o equilíbrio.
Soube que havia perdido a disputa assim que ela começou a saltitar, balançando o molho de chave no ar. Soltei um suspiro resignado e deixei o corpo cair contra o sofá, derrotado.
— Como disse: eu vou dirigir hoje. — fez questão de relembrar.
Rolei os olhos, apoiando-me nos cotovelos.
— Você não tem carteira de motorista.
Ela fez beicinho, enquanto pescava uma das chaves. A maior e dona da ignição do SUV imponente estacionado na frente da casa.
— Na verdade, tirei a licença para os dois veículos. Mas não dirijo um carro há mais de 5 anos. — o sorriso travesso cobriu o canto dos seus lábios.
Minhas pupilas dilataram de modo que o coração quase mergulhasse em completo colapso. Os batimentos cardíacos ecoavam pela sala, esmurrando o peito com tanta força que pareciam garras, rasgando por dentro em desespero. Meus olhos esbugalhados estavam prestes a saltarem e resgatar o molho metálico daquelas mãos tão delicadas, que seriam capazes de fazer um estrago, se não fizesse alguma coisa.
O ar me faltou só de imaginar as diversas atrocidades que poderia acontecer com o meu precioso carro.
— Eu nunca vou deixar você chegar perto daquele volante. Nem se a cabeça do Sky nascesse chifres, ! — passei a língua pelos dentes, o furor dominando a voz.
— Você bebeu ontem à noite, cientificamente seus reflexos estão mais lentos. — ela sorriu endiabrada.
era a personificação das trevas mais linda que já vi.
— Foi só uma garrafa pequena de cerveja, não conta! — passei as mãos pelos cabelos.
Ela lambicou os lábios e torceu os lábios, antes de balanças as chaves. O seu olhar descrevia que tinha acabado de ter a melhor ideia do planeta.
— Vamos deixar a Mia decidir quem irá dirigir. — atravessou a sala a passos largos.
Adiantei-me em segui-la, ficando em seu encalço.
— Minha pequena é inteligente e sensata, irá concordar comigo. — entramos na cozinha.
Greta tinha a mão na frente do rosto, o riso escapando por entre os dedos.
— Pare de ser tão medroso, . Eu não vou bater o seu carro. — protestou, agachando-se ao lado da cadeirinha de alimentação. — Oi, princesa. — depositou um beijo no topo da cabeça de Mia e recebeu uma risada em resposta.
tinha um sorriso divertido tomando sua boca. O canto direto levemente mais arqueado que o esquerdo. A ponta da língua estava presa entre os dentes. Uma coelhinha muito travessa.
Eu, por outro lado, cruzei os braços e soltei o suspiro resignado. Remexendo os ombros em busca de uma posição confortável contra o batente da entrada, sendo também uma tentativa de afastar aquele magnetismo que só me fazia querer beijá-la até que a falta de ar nos consumisse e nossos lábios ficassem inchados.
— Meu amor, nos ajude a decidir quem irá nos levar para o mercado.
— Ela é muito pequena, . Quase nem consegue segurar a colher sozinha. — Greta disse, docemente. — Ficaremos nesse impasse o dia inteiro. — terminou as anotações no papel e segurou a folha dobrada.
— Coelhinha, você nem sabe onde fica o freio de mão. — comentei, gesticulando com a mão.
ergueu a cabeça e endireitou o corpo. Seu corpo cheio de curvas veio em minha direção, a travessura estampada em seus olhos. O que ela ia fazer agora?
— É aquela parte onde pegamos assim? — ela ergueu o braço e fechou a mão em punho, deixando uma pequena abertura no meio. — É o mesmo movimento que usamos para dar prazer a vocês. — sussurrou de maneira que apenas eu pudesse ouvir.
Engoli em seco. Nossos olhos se conectaram e as chamas quase nos queimavam. O oceano se mesclava com o fogo, desbravando de uma luta intensa, cheia de nuances que ainda não conhecíamos.
desviou a atenção para a minha boca, curvando um sorriso depravado, que me fez arfar. Por um instante, deixei que a imaginação criasse a cena perfeita das suas mãos me provocando de maneiras inestimáveis. Os dedos ao redor do meu pau, excetuando movimento leves e quentes em um vai e vem enlouquecedor, enquanto me lançava aquele olhar faminto e cheio de desejo.
Oh, céus.
Nunca mais ia tirar aquela imagem da cabeça...
Portanto, a distração surtiu o seu efeito e usei disso para agarrar a chave da sua mão. Em provocação, escorreguei o chaveiro no dedo e balancei na frente do rosto dela, em sinal de vitória.
— Vou garantir que chegaremos inteiros no mercado. — sorri sarcástico, ignorando o calor que insistia em se apossar do meu pescoço.
Ela rolou os olhos e bufou em frustração. A ausência da sua presença e do aroma de romã com verbena, fez meu peito se remexer em protesto. Cerrei a mandíbula, acompanhando quando sentou-se em uma das cadeiras e serviu o prato com algumas das diversas opções de comida.
— Você venceu. — declarou e enfiou a torrada na boca.
— Agora, que já resolvemos quem será o piloto, aproveitem o café da manhã. — a governanta aproximou-se de Mia e a tirou da cadeirinha. — Enquanto isso, vamos colocar uma roupa bem bonita? — disse para a bebê, esfregando o nariz contra o dela.
Assenti e me juntei a , mesmo que algo sussurrasse no pé do ouvido o quanto era uma péssima ideia ficar sozinho com ela. Ocupei a cadeira a sua frente e escolhi minha comida.
— Sairemos em alguns minutos. — e então, Greta desapareceu com Mia, cantarolando uma música infantil.
rompeu o silêncio assim que as duas saíram. Continuamos nossa breve discussão afiada, onde tagarelava sobre minha sigila falta de confiança na sua direção. O embate de olhares foi perturbador e a cada palavra que saia daquela boca carnuda, minha imaginação fluía para outro lugar. O desejo ardente de descobrir a habilidade dela com o freio de mão me consumia, mesmo sabendo ser uma grande loucura.
Apoiei os cotovelos na mesa e concordei com a cabeça a cada reclamação. Encarei seus lábios, a linha do maxilar, a base do pescoço, toda a extensão de pele exposta. Arfava só com a ideia de ter o seu corpo dançando com o meu; de explorar cada centímetro dela; de sentir o seu cheiro e o sabor dos seus lábios.
Porra, estava rendido por ela.
Sempre soube que essa mulher iria me enlouquecer, mas nunca imaginei o quanto queria me perder nos seus encantos, com a promessa de nunca mais conseguir voltar.
Capítulo 19
Ergui as mãos, balançando a cenoura e a beterraba. Mia continuou impassível, ocupada demais com o mordedor em formato de mãozinha rosa. Nem mesmo os olhos claros expressavam qual era a melhor direção. Suspirei, devolvendo tudo para a prateleira e estudei as próximas opções, em busca de algo que agradasse o paladar infantil.
Greta havia dito que deveríamos introduzir comida mais sólida para a pequena, como pequenos vegetais e até mesmo, carboidratos que pudessem ser preparados com baixo teor de sódio. E ali estava eu, um homem, que não entedia quase nada sobre alimentação saudável, preso a um bebê no carinho que parecia alheia do mundo.
Até pesquisei algumas receitas na internet, mas foi contra todas as minhas escolhas, dizendo que nada do que encontrei era saudável e com isso, comecei a suspeitar sobre o seu desejo de transformar Mia na próxima coelhinha.
— Vamos, pequena. — peguei duas opções de raízes e mostrei a ela. — Qual os dois? Você escolhe, e prometo que irei pensar em uma forma de preparar para que não fique tão sem graça. — porque se dependesse da e da Greta, essa criança cresceria traumatizada com comida sem sabor.
A minúscula mão esticou e tocou a batata doce. Um sorriso genuíno, vitorioso, brotou em meus lábios. Por um momento, desconfiei que a cor vibrante tinha sido a razão de tê-la atraído, mas pouco importava. Era bem mais fácil inventar uma receita com aquilo que já estava acostumado, do que com um nabo que nem sequer sabia definir o gosto.
— Ótima, escolha. Sei fazer um escondidinho de batata doce com frango que fica uma delícia. — essa era uma das receitas que os anos de academia me ensinaram.
Embalei boa quantidade da raiz, assumindo uma postura orgulhosa. Havia sido apenas a escolha de um tubérculo, mas para mim era o equivalente a resolver uma equação de física quântica. Meticulosamente, organizei as compras dentro do carrinho quando Mia riu, balançando as perninhas na cadeirinha. Ajeitei a franja dos cabelos loiros escuro e senti o peito ser possuído pelo sentimento genuíno e invencível de um super-herói que acabou de vencer a luta contra os legumes.
Incrível como um pequeno gesto mexia com todas as células do meu corpo.
Continuamos o percurso pelo grande hortifrúti. Parei em frente a seção de bananas e maçãs. Minha mão hesitante se preparou para escolher entre as opções mais perfeitas e brilhantes. Porque a coelhinha não merecia menos que isso. adorava comer frutas no café da manhã e à tarde, então era obrigatório que a casa estivesse repleta das suas favoritas. A ideia de abastecer o carrinho com as que ela mais gostava trazia uma paz estranha.
A lembrança de quando preparei mirtilos para ela me invadiu. Havia sido a primeira vez que escutei umas das suas crises noturnas, quando nem nos conhecíamos direito. Mas, apesar de ainda não saber o verdadeiro motivo do seu pânico, era grato por não ter me afastado. Queria ajudá-la com os traumas por mais enraizados que estivesse em seu coração. Ela merecia ver toda a beleza da chuva, e eu faria de tudo para que isso se tornasse real.
Além disso, também lembrava da conversa cheia de revelações que tivemos. Um dos poucos momentos em que deixei as dores do passado falarem mais alto. Ainda doía pensar na ironia que era Romeu e Julieta, quando estive disposto a beber o veneno por alguém e acabei sendo apunhalado pela faca mais afiada do mundo. Aquela imagem grotesca nunca saiu da minha cabeça, sendo o motivo principal de ter deixado o haras para trás, me dedicando a clínica e prometendo só retornar para aquele lugar pelos meus pais e nunca mais por ela.
Somente Aidan e Madisson conheciam a minha trágica história de amor, e se fosse preciso contá-la para que se abrisse comigo, faria isso quantas vezes fosse necessário. No fundo, torcia que ela nunca soubesse sobre Nora, entretanto, estava disposto a novamente fazer de tudo por uma mulher. E esse sentimento era assustador demais depois de tantos anos que passei recluso na dor.
Ah, coelhinha... Você ainda vai ser a minha ruína.
Os burburinhos puxaram minha alma das lembranças mórbidas. Mia se remexia no carrinho, olhando na direção da moça de cabelos castanhos que acenou para ela, enquanto passava. A desconhecida parou a poucos metros de distância, na seção de hortaliças frescas. O seu olhar pairou sobre nós, o sorriso sutil brincando em seus lábios, ao mesmo tempo que escolhia a alface. Ela piscou e desviou o olhar rapidamente, antes de desaparecer pelas prateleiras.
Concentrei-me em Mia, ajeitando o mordedor que quase caia das suas mãos. Empurrei o carrinho em direção a seção de laticínios, focado em procurar a fórmula infantil que Greta pediu. E foi preciso apenas parar, para notar mais olhares. Dessa vez de uma senhora mais velha que sorria encantada; ao lado, duas mulheres riam em uma conversa animada, ao mesmo tempo em que lançava olhares ternos para nós; e até mesmo uma funcionária de mercado que passava por ali, perguntou se Mia era minha filha e quando afirmei, ela soltou um suspiro deleitoso antes de seguir o seu caminho.
Franzi o cenho. Todas me observavam e me senti em um palco de exibições. Um pedaço de carne exótico. Algumas curiosas, outras com um brilho de admiração no olhar. O pequeno desconforto brotou momentaneamente em meu âmago, de maneira que não soube explicar. Era só estranho. Por toda a minha vida a atenção feminina sempre foi algo natural, mas agora, era diferente. Parecia um erro ser o centro das atenções.
Mas que porra estava acontecendo comigo? Em outras circunstâncias não perderia a chance de desfilar com Mia pelos corredores só para ter as mulheres me devorado com os olhos, mas agora, nem me reconhecia.
O aroma adocicado dominou meus sentidos, servindo como válvula de escape. Romã e verbena. Girei a cabeça e encontrei se aproximando no corredor. Ela estava distraída com algo no celular, os cabelos escuros caiam sobre os ombros, constatando com a camiseta branca, apertada, que realçava as curvas perfeitas. Tinha escolhido um short jeans verde militar e tênis brancos de aparência muito confortáveis.
Céus, ela era linda demais.
Levantou os olhos castanhos do aparelho e sorriu em minha direção, os lábios curvando de maneira tão encantadora que meu peito deu um solavanco. Pouco me importei em como sua presença serviu como um filtro, afastando todas as mulheres ao redor. Meu coração retumbava, a sensação de estar completo pairando no ar. era a única mulher que queria com os olhos cravado em mim, por mais assustador que esse sentimento parecesse.
— Não acredito que escolheu batata doce! — ela exclamou, com um tom de repreensão, enquanto olhava para o carrinho. — Esse é o único vegetal que você conhece, ? — cruzou os braços em frente ao peito.
Tive que lutar contra o instinto de olhar para os seios fardos que ficaram empinados e sufocados com aquele movimento.
— Foi a Mia que escolheu. Ela é uma mulher de bom gosto, ao contrário, de certos coelhinhos que preferem colocar a horta inteira na comida. — rebati, o sorriso travesso surgindo nos lábios.
revirou os olhos, mas não escondeu quando a boca se curvou. Inclinou-se em direção ao carrinho e deixou um beijo na bochecha de Mia.
— Seria mais divertido, princesa. Teria superpoderes e a saúde mais forte do que um touro de rodeio. — fez cócegas na pequena e não deixei de admirar as duas.
Era errado me sentir tão extasiado com aquela cena?
— , o que aconteceu no meio do caminho? — ela arqueou a sobrancelha, as mãos segurando a cintura — A Greta dividiu a lista em três partes. Ela cuidaria do açougue; eu dos produtos de limpeza e você da parte do hortifrúti. — pontoou e vasculhou o carrinho. — Então... Cadê os legumes e as verduras? Aqui só tem frutas e batata doce.
Mas é muita ingratidão dessa infeliz. Fiz questão de pegar as melhores frutas, só porque ela gostava e é assim que sou retribuído.
— A Mia não gostou de nada do que mostrei a ela. — defendi.
apertou a ponte do nariz, antes de tomar o carrinho das minhas mãos.
— Ela só tem 2 anos, ainda não sabe o que é comer de verdade.
— Ah, comida sem graça e sem sal, agora, ganharam um nome chique? — ironizei, seguindo-a pelo corredor.
Ela suspirou e mesmo sem conseguir olhá-la, sabia que revirou os olhos.
— Deixa que eu pego a sua parte da lista. — afirmou, enquanto entrávamos de volta no hortifrúti.
Deixamos o carrinho estacionado perto da seção de legumes. Peguei Mia no colo, sendo nocauteado pelo corpinho agitado, o dedo indicador apontava para as abóboras enrugadas, enquanto balbuciava sons desconexos. Abaixei-me e os pés minúsculos tocaram o chão, as pernas trêmulas desfilaram. Seus olhos curiosos exploravam cada cor e textura ao redor. Endireitei o corpo, supervisionando cada passo como uma águia à espreita. Era o meu dever mantê-la sob o meu campo de visão, mesmo que estivéssemos praticamente sozinhos.
Minha pequena correu para tocar a melancia que ficava na prateleira mais baixa das frutas. Meu rosto se iluminou com o brilho de curiosidade nos olhos dela. Aquela sensação de pertencimento me preencheu mais uma vez. E mesmo que não soubesse como descrever tudo isso, era como se a escuridão que tanto me engoliu ganhasse uma nova cor. Senti cada célula do corpo gritando o quanto era sortudo, o peito se enchendo de presunção.
Eu finalmente havia encontrado o meu lugar.
— Cenoura, tomate, couve-flor e batata. — pontuou ao meu lado, separando as embalagens no carrinho. — O que mais a Greta pediu?
Sem desviar os olhos, retirei o papel dobrado do bolso da calça, e entreguei a ela, sem conferir se era realmente a lista de compras que mais parecia um código militar escrito a mão.
Olhei de relance para e a encontrei com um beicinho fofo torcido nos lábios, ao mesmo tempo em que pegava uma abobrinha na prateleira. Ela encarou o vegetal igual a um detetive estudando uma pista, a seriedade em seu rosto me fez ter de apertar os lábios para não rir. Além disso, minha mente traiçoeira já tomava um rumo inesperado, imaginando-a segurando outra coisa que não fosse aquele negócio verde e sem graça.
Balancei a cabeça, espantando os pensamentos depravados, para me concentrar em pegar todas as embalagens que ela entregava com tanta naturalidade. Eu só me perguntava em quantos coelhos iríamos alimentar com o carrinho tão cheio de vegetais e legumes – sem contar as hortaliças que faltavam na lista.
Senti algo cutucar minha perna, puxando o tecido da calça jeans com sutileza. Não foi preciso muito esforço para identificar que era Mia cansada da exploração. Ela estendeu os braços em minha direção e não resisti em pegá-la. Meu rosto e cabelos foram amassados pelas mãozinhas, que me agarraram em busca de apoio. Minha pequena delinquente queria ficar no colo, mas se recusava a sentar.
Assoprei contra a barriga, emitindo o som engraçado e arrancando gargalhadas estridentes do fundo da sua garganta. Não resisti em também alargar o sorriso, enquanto continuava com os sopros altos e mais risadas ecoaram pelo mercado. Notei que algumas pessoas nos encaravam com olhares curiosos, o que pouco importava. Será que nunca tinham visto pai e filha tão unidos e brincalhões?
Um ponta pé atingiu a boca do meu estômago. Pai. Uma palavra tão nova no vocabulário, e ao mesmo tão antiga, como se sempre tivesse feito parte da minha alma.
— Ei, vocês, dois. — chamou nossa atenção. — Hoje teremos brócolis no jantar! — disse com tanto entusiasmo que pareceu ter descoberto uma mina de ouro.
Encarei aquele negócio verde e estranho que parecia ter vindo de outro planeta. O formato lembrava a uma pequena árvore com o caule grosso e copas de flores em miniatura. Ergui a cabeça e fiz uma careta para Mia, que gargalhou em resposta.
— Quem em sã consciência come isso e gosta? — franzi o cenho, nunca me imaginando comendo algo como aquilo. — Parece um buquê de flores colhido antes da hora.
Arrastei os pés para trás, em busca de ficar longe daquela coisa que mais parecia um alienígena verde. riu.
— Se já está fugindo desse jeito, imagina quando descobrir que os veganos comem girassol assado na churrasqueira. —comentou, enfiando o vegetal em um saco transparente.
— Como uma pessoa sobrevive só de plantas de pura e espontânea vontade? Olha isso. — peguei a couve-flor e fiz outra careta. — Não dá para comer esses vegetais sem sabor. — joguei de volta no carrinho. — Se um dia, eu disser que isso é gostoso, tenha a certeza de que estou com uma arma pontada para a minha cabeça. Ou internado no manicômio.
— Não seja tão dramático. Já ouviu falar de temperos? Causa animal? — resmungou e se aproximou da banca ao lado, onde eu havia pego a batata doce.
Ajeitei Mia sobre meus ombros, segurando em suas pernas pelo caminho, antes que fosse chutado. Olhei para as mãos da coelhinha e encontrei o formato cilíndrico e alongado, semelhantes as cenouras gigantes e brancas. Nabos. O que diabos ela pretendia fazer com aquilo? Aliás, por que alguém comeria isso? Eles tinham a aparência tão pálida que só de olhar me dava gastura, e imagino que o gosto seja horrível.
— Por que não aproveitou e pegou os nabos, sendo que ficam do lado da batata doce? — incrédula, ela cruzou os braços em minha direção.
— A Mia disse que não gostava.
Estreitou os olhos e me senti como uma praga, prestes a ser exterminada do jardim.
— A Mia que não gosta, ou você que não gosta?
— E o que esperava que eu fizesse? Realmente não consigo imaginar nada gostoso que vá isso aqui. — gesticulei para as cenouras anêmicas.
Ela suspirou.
— Não consegue imaginar uma sopa de legumes com nabos? — arqueou a sobrancelha, as palavras saindo como se fosse óbvio.
— A única coisa que imagino quando olho para isso é algo que não posso fazer com ele, porque já tenho outra coisa maior no lugar. — aproximei-me, os pensamentos mais sujos e proibidos se aflorando.
arregalou os olhos em surpresa.
— Então, coelhinha, o que espera que eu faça com os nabos? — levantei uma sobrancelha em desafio.
As bochechas coraram, e por um instante, um sorriso travesso desenhou em sua boca. Em seguida, estendeu o saco plástico cheio do vegetal e esmurrou contra meu peito.
— Pegue e coloque dentro do carrinho, antes que eu bata em você com eles. — ameaçou, sua voz soou risonha e tímida. Obedeci como um ótimo servo.
Os próximos minutos se resumirem em conferir os itens do carrinho com a lista de compras. Soltei um suspiro de alívio quando declarou que a parte do hortifrúti e dos produtos de limpeza tinham acabado. Agradeci aos deuses por não ter mais de ouvir qual a diferença dos pimentões amarelo, verde e vermelho. A coelhinha empenhou em contar como cada um era usado dentro da culinária, depois de eu ter tido a infeliz ideia de dizer serem todos iguais.
Desci a pequena dos ombros ao ouvir o bocejo e a aconcheguei nos braços, velando o sono que a abraçava aos poucos. Estava quase na hora da soneca da tarde. Beijei o topo da sua cabeça, acariciei o rostinho angelical com o polegar. Os olhos redondos se fecharam. Balancei o corpo com cuidado, ninando, enquanto ainda conferia a lista, em busca de alguma coisa que deixamos passar.
— ! — o grito agudo e feminino fez com que levantássemos a cabeça juntos.
A mulher jogou os cabelos longos e volumosos, os fios em tons loiro claro caíram em ondas soltas por cima dos ombros. O corpo pequeno tinha as curvas desenhadas em formato de ampulheta, de modo que a escolha de roupas causais a moldasse. Seu andar era elegante, o quadril balançava, igual a uma modelo na passarela. Mas os detalhes que mais me chamaram a atenção foram os olhos expressivos e o sorriso contagiante se destacando no rosto fino, natural e espontâneo.
Ela puxou para um abraço tão apertado que precisei conter o riso quando a coelhinha me encarou, o canto dos olhos espremidos em um pedido de ajuda.
— É muita coincidência encontrá-los aqui. — segurou pelos ombros. — Oii. — virou-se na minha direção. — Não tivemos tempo de nos apresentar formalmente no outro dia. Sou a Bethany, vizinha de vocês. — estendeu a mão e o sorriso estampou o rosto.
Meu cérebro parou e levou alguns segundos para processar a informação. Estudei as feições delicadas, tive de piscar duas vezes quando as engrenagens giraram, finalmente a reconhecendo como a mesma mulher que vi com na varanda, naquele dia em que havia perdido um paciente.
— , é um prazer. — envolvi sua palma, quase a engolindo com minha mão.
Os olhos azuis faiscaram ao me analisar de cima a baixo. Ela absorveu cada detalhe físico do meu corpo em uma análise minuciosa e demorada. Engoli e seco, endireitando a postura no automático. As fagulhas dançando nos olhos claros foram claros sinais que gostou do viu.
Mas era normal sentir um leve incômodo por isso?
Nossas mãos se soltaram e logo ela foi atraída para a bebê adormecida em meus braços. Algo que duraria pouco depois do gritinho de empolgação que explodiu pelo lugar.
— E essa deve ser a Mia. — aproximou-se, tocando a mãozinha delicada. — Ela é tão linda! — elogiou. O sorriso luminoso fez parecer estar diante de uma obra de arte famosa.
Inclinei a cabeça ligeiramente para o lado. Aquela mulher carregava algo intrigante. Nunca tinha visto uma criatura com a áurea tão leve. A alegria irradiava naturalmente através dos traços finos, como se o próprio sol a venerasse, uma raridade.
— A Jessy também veio comigo hoje. Vocês precisam conhecê-la! — disse com entusiasmo e esticou o pescoço em busca de algo. — O meu irmão está com ela, daqui a pouco devem aparecer por aqui. — riu suavemente, antes de sussurrar em tom conspiratório: — Ele odeia ficar sozinho na seção de cuidados femininos.
Curvou o sorriso simpático e divertido. O corpo inquieto, ainda procurando o homem pelos corredores. Bastou apenas alguns segundos para desistir da busca e mudar a postura de maneira espontânea.
— Então, quando vamos fazer aquele jantar? As meninas precisam se conhecer melhor. Elas vão adorar quando virem o Woody, o nosso husky siberiano. Ah! E também... — Bethany continuou listando os diversos benefícios que Mia e Jessy teriam ao conviverem juntas e, posteriormente, enfrentarem a adolescência.
Levantei as sobrancelhas, questionando-me mentalmente como uma criatura tão pequena conseguia ser tão tagarela. Olhei para de relance, que, ao contrário de mim, parecia encarar a situação com naturalidade.
— O que vocês acham? — quis saber, a empolgação presente na voz.
Eu e nos entreolhamos, nosso silêncio sendo capaz de dizer mais do que palavras conseguiriam expressar. Já tínhamos passado por tantas coisas, a dor do luto quase nos engoliu e a pequena passou todos os dias vivenciando o ar pesado entre nós. Não fomos justos com ela, mas também não tivemos como evitar.
A essa altura do campeonato, Mia já deveria estar formulando pequenas frases. Marcamos uma consulta com a pediatra na semana que vem e só de pensar que, talvez, nossa carga emocional tivesse sido pesada demais para ela, cortava meu coração em milhões de pedaços. Então, se havia a possibilidade de uma amiguinha ajudá-la, aceitaria com o melhor sorriso no rosto.
O bem-estar dela era a minha prioridade.
— , como estão seus horários na clínica? — tocou gentilmente em meu braço.
— Estou livre aos finais de semana, Aidan vai me cobrir nos plantões noturnos. — ele ainda não sabia disso, mas tenho certeza de que aceitaria as condições sem reclamar.
Bethany deu um pulo, com dificuldade em ficar parada.
— Será ótimo! Vocês não têm problema com cachorros, né? O Woody gosta de ficar pulando nas pessoas atrás de atenção. — suas bochechas coraram. — Se for um problema podemos deixá-lo preso no quarto.
— Não, sem problemas. — respondemos em uníssono.
Bethany mordeu o lábio inferior antes de tocar a mão de e encher o ambiente de animação. Suas palavras rápidas pulavam da boca de tanta ansiedade. As mãos não paravam quietas nem por um segundo e notei que as feições se contorciam em risos frequentes, denunciando uma empolgação quase exagerada.
Prestei atenção nas duas mulheres, absorvendo a cena tão cheia de entusiasmo. A loira tagarelava sobre ter aprendido uma nova receita de risoto com camarão, enquanto comentava sobre os melhores vinhos que combinariam de acompanhamento. O brilho hipnotizante dançava ao redor das pupilas, denunciando a paixão comum pela culinária. Meu peito se aqueceu e desci os olhos para a bebê adormecida, sentindo que algo novo estava prestes a surgir.
Eu só queria que e Mia fossem felizes, mesmo que para isso tivesse de socializar com estranhos. Elas me tinham na palma da mão, essa era a verdade. Faria de tudo para vê-las sorrindo e protegidas do mundo.
— Vejo que minha irmã finalmente encontrou alguém mais interessada em culinária do que ela. — a voz firme e de timbre grave surgiu ao meu lado.
Virei a cabeça e em seguida, a mão pesada tocou o ombro direto, os dedos apertando em um cumprimento silencioso.
— Finalmente vocês chegaram! — Bethany brincou e foi de encontro com o carrinho que ele trouxera.
— Bethany, eu não sei a diferença do óleo de cabelo para a máscara capilar. Não deveria ter me deixado sozinho. — fingiu um tom ofendido que fez a loira rir. — Elas nunca vão entender que nós não entendemos dessas coisas? — direcionou a pergunta para mim e apenas curvei um sorriso simpático.
Bethany iniciou a aula gratuita sobre os produtos de cabelo feminino, sendo incapaz de ficar calada sobre o assunto. Usei o tempo para analisar o homem que ainda tinha a mão segurando o meu ombro. Um certo incômodo atingiu a minha espinha quando observei que ele tinha os olhos sobre . Um misto de curiosidade e surpresa dançava em seu olhar. Ela pareceu alheia a observação, concentrada demais na amiga e sua explicação exagerada, com direto a exemplos na internet.
A primeira característica marcante foi a altura semelhante à minha e os ombros largos que o tornavam maior e mais robusto, quase uma muralha. Sua postura relaxada demonstrava desinteresse no assunto da irmã. Tinha os cabelos loiros cortados em um estilo curto, ligeiramente o tom mais escuro, algo que denunciava os laços sanguíneos. O rosto era angular com a mandíbula marcada, combinando com o porte físico.
— Eu odeio quando ela faz isso. — comentou baixo, passando a mão pela barba por fazer. — Bethany, lidar com os pesos da academia são melhores do que ter de ouvir essa palestra. — gesticulou.
A loira assumiu uma postura ofendida, a boca transformando-se em um bico gigantesco, enquanto retirava a bebê do carrinho.
— É fácil falar de academia quando se vive em uma.
Ele riu com escárnio, cruzando os braços. Os olhos ainda em cima da minha coelhinha.
Droga.
Por que incomodava tanto?
— Essa é a Jessy, diz “oi”, meu amor. — Bethany apresentou. Segurava a pequena em um dos braços, enquanto manuseava a mãozinha dela em um aceno.
A menina emitiu uma risada curta e cheia de leveza. Os cabelos claros, como da mãe, se encontravam trançados tornando-a mais delicada. Os olhos castanhos possuíam luz própria, típica de alguém curiosa com tudo ao seu redor, provavelmente herdando isso do pai. Os braços e pernas balançavam em animação.
— É o jeito dela de dizer “oi”. — o homem comentou, o sorriso orgulhoso no rosto.
Bethany beijou o topo da cabeça da filha, antes de suspirar e apontar para a muralha ao meu lado.
— E esse brutamonte que ainda chamo de irmão, é o Dante.
— Também gosto de você, maninha. — ele fez uma reverência e subiu os olhos pela coelhinha. — . — sussurrou, os olhos assumindo uma energia de reconhecimento.
Um arrepio gelado percorreu minha espinha ao ouvir o nome.
— Dante. — ela sorriu, a voz carregada de emoção, algo que beirava a ternura.
Tencionei a mandíbula quando vi avançar e jogar o corpo contra o do homem. Ele retribuiu no mesmo instante, a envolvendo com os braços fortes. Enfiou o rosto na curva do pescoço macio, os olhos fechados, apreciando o momento. Tive de reprimir a vontade agressiva de interromper aquele momento e empurrá-lo para longe dela.
Bethany fez um beicinho, perguntando antes que eu tivesse a chance:
— Vocês já se conhecem?
o soltou e o brilho em seus olhos já denunciava mais do que palavras. O sorriso genuíno revirou meu estômago. Desci os olhos e fuzilei a mão masculina sobre a cintura fina, algo que foi rapidamente retirado por ela. Engoli em seco, a garganta arranhando e um dos punhos cerrou, mesmo com Mia em meu colo. Nunca quis tanto que alguém pegasse fogo como naquele momento.
— Eu e o Dante nos conhecemos em Nova York. — explicou, as mãos gesticulando. — Estudamos na mesma universidade, eu fazia direito e ele educação física. Chegamos a dividir o apartamento por alguns meses.
A onda de euforia dominou cada célula do meu corpo ao imaginar os dois compartilhado um espaço minúsculo na época da faculdade, dividindo o mesmo ar e, talvez, o quarto.
— Depois de um tempo, ela me abandonou e se mudou para Boston. Nunca mais tive notícias. — riu e lançou outro olhar para ela. — A é um espírito livre. — suas palavras carregavam traços de devoção e admiração.
Trinquei os dentes, por pouco não rosnando para ele. Mas que porra estava acontecendo comigo?
— Muita coisa aconteceu naquela época. — ela mordiscou os lábios, assumindo uma distância segura dele.
O desconforto assumiu suas feições, as mãos esfregavam as laterais dos braços. A mera menção de Nova York pareceu remeter lembranças que a perfuravam por dentro. Uma sombra de medo atravessou as pupilas e não consegui ficar parado apenas olhando. Aproximei-me e o ar da minha presença pareceu acalmá-la.
Ela me encarou, antes de começar a gaguejar.
— Dante, esse é o . Ele é o...
— O pai da Mia. — cortei e senti um alívio no peito por isso.
Minha mente gritava que precisava reagir de alguma maneira, mostrar que não estava sozinha.
— É um prazer.
Dante estendeu a mão e a estudei minuciosamente. A tensão ao redor se formou em um embate sufocante, conforme os segundos se passavam e eu não aceitava o aperto. Porque, na verdade, queria enxotá-lo dali, para longe da minha família. E se ele tivesse algo a ver com os pesadelos da minha coelhinha, queimaria o mundo para acabar com a sua vida.
Bastou apenas cruzar com os olhos de com sinais de preocupação para recobrar a consciência e perceber que estava agindo de forma hostil. Minha boca forçou a se transformar em um sorriso amarelo e apertei a mão dele com um pouco mais de força que o necessário. Ignorei a vontade ardente de esmagar os seus ossos, soltando sua mão antes do esperado.
— Dante, estávamos pensando em fazer um jantar na nossa casa. — Bethany se intrometeu, talvez, percebendo o clima tenso. — Assim as crianças podem brincar e podemos nos conhecer melhor.
— Será perfeito. — concordou, lançando o olhar interesseiro para cima de . — Aconteceu tantas coisas desde que foi embora, quero que me conte tudo sobre a sua vida.
Ela abriu um sorriso autêntico, os olhos denunciavam certa empolgação para isso, as bochechas ganharam um leve rubor sob o olhar lascivo. Senti o gosto amargo da bile na boca, tomando o golpe mais profundo no estômago. nunca sorriu assim para mim. E a vozinha irritante insistia em sussurrar no meu ouvido que apesar de nos conhecermos há mais tempo, eu nunca seria o homem suficiente para ela.
— Podemos fazer hoje à noite, o que acham? — Bethany perguntou, passeando os olhos por todos os presentes.
— O que acha, ? — quis saber e estreitei os olhos.
O que eu achava? Que tinha sido uma péssima ideia concordar em ir naquele jantar.
— Ótimo. — respondi com a voz baixa e áspera.
— Então está combinado! — a loira disse com entusiasmo, colocando a filha no carrinho. — Dante, precisamos comprar camarão e vinho. Será o jantar perfeito!
Bethany despediu-se de todos e correu a caminho do açougue em busca do crustáceo. Já Dante envolveu a mão de e depositou um beijo casto no dorso, antes de também desaparecer. A coelhinha novamente abriu aquele sorriso lindo e cheio de luz, causando-me uma estranha pontada no peito.
Soltei o suspiro exasperado, dando as costas para ela, evitando que notasse o tamanho do meu desconforto. Coloquei a pequena no assento do carrinho e acariciei a bochecha redonda como uma forma de me distrair daquele mundo. Meu coração se contorceu ao pensar em e Dante juntos em um apartamento minúsculo, fazendo tudo o que a minha mente fantasiou nas últimas horas. A cena grotesca me enjoava e precisava arrumar um jeito de esquecer isso antes que vomitasse no meio do hortifrúti.
Encontramos Greta perdida na seção de frios e fomos embora depois de enfrentar as filas enormes nos caixas. Durante o trajeto para casa, meus dedos apertaram o volante com força sempre que mencionava sobre o jantar e o quanto estava ansiosa para rever Dante. Também descobri que se tornaram amigos logo que ela começou a morar em Nova York, se conheceram na academia de bairro em Manhattan, tornando-se inseparáveis demais para a minha sanidade aguentar ouvir.
Minha mandíbula ficou travada o percurso inteiro, os dentes rangiam, implorando por alívio. O peito queimou de tanta raiva que tive de me segurar para não socar o carro. Pela visão periférica, percebeu o meu estado, mudando de assunto assim que ouviu as respostas monossilábicas grosseiras. Não conseguia evitar, cada partícula do meu corpo se corroía feito ácido, a mera lembrança daquele abraço e o sorriso acabando comigo aos poucos.
Eu sabia que não tinha o direto de sentir ciúmes dela, então, por que parecia prestes a cair em um abismo? E no fundo, desejando ser empurrado de uma vez, só para me livrar desse tormento?
Capítulo 20
Ele passou as próximas horas estranho.
Distante.
Depois que chegamos do mercado e guardamos as compras, ficou o resto da tarde deitado no sofá da sala, os fones de ouvido o isolando do mundo, enquanto assistia ao filme de terror de uma freira assassina. Nenhuma provocação saiu por aquela boca atrevida, nem mesmo quando a Greta fingiu convocar um exército imaginário para caçar a aranha no meu quarto.
Ele estava tão diferente, calado demais, e isso começou a incomodar.
O silêncio sempre foi o meu melhor amigo, à espreita, pronto para me consolar nos dias bons e ruins. Mas depois da noite de ontem, pensei que tivéssemos dado um grande passo na nossa relação. Passei horas remoendo cada segundo do nosso dia, tentando entender o que tinha acontecido para deixá-lo daquele jeito. Meu cérebro processou cada momento com cuidado. Será que fiz alguma coisa de errado? Será que disse algo que o magoou?
Mas nada justificava aquela distância tão repentina.
Na hora do almoço, pensei que tudo voltaria ao normal, até vê-lo comer calado, sendo apenas um corpo ocupando a cadeira. Foi a pior refeição que já tive nos últimos anos, a tensão nos rodeava, esperando o momento perfeito para saltar e nos sufocar.
Queria muito entender o que estava acontecendo.
começou o dia disposto a me tirar do sério e cuidar da Mia como um verdadeiro pai faria, e simplesmente do nada, resolveu virar outro homem, completamente diferente do que conhecíamos. A cena dele e da pequena gargalhando no hortifrúti ficaria para sempre gravada a ferro e fogo na minha memória, sendo impossível de esquecer aquele momento de tanta doçura.
Agora, ele se encontrava na cozinha, preparando o leite da neném. Os lábios em uma linha fina feito tecidos costurados. Os ombros pareciam tensos, os movimentos mais cuidadosos como se esperasse um ataque iminente. Estava tão concentrado na tarefa que nem percebeu que eu o espiava por cima do livro, o corpo escondido atrás do encosto do sofá. Meus olhos percorriam cada centímetro dele em busca de algum sinal de alerta, antes que ousasse me aproximar.
Encontrei o felino sentado no balcão habitual – onde sempre fazia suas refeições. A língua escovando os belíssimos pelos negros com uma calma redundante. E a julgar pelo momento que se aproximou e coçou atrás da orelha de Sky, percebi que o único perigo estava apenas dentro da minha mente. Seus movimentos lentos e cuidadosos não mostravam nenhum sinal de tensão, pelo menos quando se tratava do bichano.
Arqueei a sobrancelha. parecia estar em completo estado de paz. Ousei pensar que tudo não passava de uma má impressão, até ser assolada pelas respostas curtas, secas, quando voltávamos do mercado e depois de como me ignorou no almoço. Era o cúmulo não soltar nenhuma piada. Então não, tinha realmente algo acontecendo e precisava descobrir.
Levantei-me, forçando cada engrenagem do cérebro a girar em busca da melhor forma de começar. Embolava as mãos pelo caminho, incapaz de ficar quieta. A camada fina de suor se formou na testa e junto o estômago revirou em completo desconforto. Deslizei os dedos pela nuca, o pulsar cardíaco aumentando gradativamente conforme vencia a distância entre nós. Pelos deuses, parecia uma porca indo direto para o abate.
Eu só queria conversar, ser madura e descobrir a causa do problema para que juntos pudéssemos resolver. Era para ser tão difícil assim? Em outro momento, nem estaria perdendo meu tempo pensando sobre isso. Só que algo me dizia que deveria tentar, mesmo que acabasse sendo enxotada como um cachorro abandonado.
O som do microondas sendo aberto quebrou o silêncio pesado da casa, meu corpo enrijeceu brevemente não esperando pelo barulho. Encarei as costas largas, os dedos longos digitaram o cronômetro no painel digital alheio a minha presença. Meus pés pareciam pregados ao chão, cada passo sendo arrastada, feito uma mula no meio do caminho, guiada pela força invisível que insistia em me empurrar para ele.
Encarei a ilha que nos separava, o mármore escuro refletiu o meu rosto em sinal de encorajamento. Segurei as laterais, usando de apoio para as pernas trêmulas. Umedeci os lábios ressecados, erguendo a cabeça para só então cair em um estado deplorável de advertência quando percebi estar sob a mira do meu caçador – e o pior, era não saber em que momento me tornei a sua presa. Arregalei os olhos, engolindo em seco com dificuldade. O corpo paralisou por inteiro, nem mesmo o ar dos pulmões ousava sair.
Naquele momento, um felino teria se arrepiado menos do que eu.
Os poços azuis, mais escuros que o habitual, me encaravam como duas esferas cheias de uma fagulha perigosa. As sobrancelhas arqueadas e a boca fechada em uma linha dura, constatava com as chamas que serpenteava ao redor das pupilas. Desci os olhos para o troco rígido, os braços estendidos e as mãos espalmadas sobre o balcão pareciam uma afronta a minha postura frouxa e acuada. As veias saltadas marcavam a pele dos antebraços traçando o caminho de volta para o rosto sério e cheio de uma intensidade controlada.
Porra!
Eu sabia que deveria fugir, mas o perigo nunca foi tão sedutor ao ponto de me fazer refém daquele fogo que sempre me queimava quando estava perto dele.
— Po-podemos conversar? — quebrei o silêncio, a voz frágil como folha de papel.
Ele me analisou, percorrendo cada centímetro do meu rosto. Algo animalesco queimou através daqueles olhos azuis que não soube explicar. Se pudesse compará-lo, seria um leão forte e grande em cima da sua vítima, não hesitando em mostrar o seu poder com os dentes ameaçadores e as patas gigantescas cheias de unhas afiadas.
Oh, céu...
Tentei molhar a garganta que arranhava como um disco velho, ansiando por uma resposta antes que entrasse em colapso.
— Não tenho nada para falar. — foi ríspido
O microondas apitou de modo a arrancar aqueles poços flamejantes de cima de mim. Dedicou-se a mamadeira e o copo de plástico com o leite morno. Meus pulmões agradeceram pela interrupção, porque assim passei a soltar o ar que havia prendido, além de receber uma visão privilegiada das costas largas.
— Então... — os lábios tremeram com receio. — Posso te fazer uma pergunta?
Sua mandíbula tiqueou e por um instante o vi vacilar. Os ombros adotaram uma postura rígida, carregados de tensão.
— Se eu negar, promete que irá me deixar em paz? — qual era o seu problema?
Franzi o cenho e tomada de uma coragem que não me pertencia, contornei a ilha. Deixei que nossos corpos ficassem próximos demais. Empinei o nariz, a cabeça levemente inclinada para cima, enquanto encarava aqueles olhos claros, que agora me fuzilavam, ofendidos pela afronta.
— O que aconteceu? — juntei todas as forças para que a voz não tremulasse. — Por que está me evitando? Eu fiz alguma coisa de errado?
— Você disse que só faria uma pergunta. — levantou uma sobrancelha em provocação e se virou para tomar distância. Fingindo interesse na mamadeira e no leite.
— Achei que tivéssemos feito progresso ontem. — murmurei, os punhos cerrados ao lado do corpo.
O silêncio pendurou entre nós por alguns segundos que pareceram uma eternidade. A mandíbula travou e os olhos se levantaram dos objetos em suas mãos, se perdendo na janela em frente a pia. Parecia lutar contra os próprios pensamentos. Ele soltou o ar, os ombros caindo como se carregassem o peso do mundo. O peito subia e descia em um ritmo irregular. Merda, cadê aquele homem que nunca poupou esforços para me irritar? O mesmo que fez da minha vida o verdadeiro inferno quando era adolescente?
— Eu não estou evitando você, . — respondeu após um longo suspiro. — Só... Preciso de um tempo sozinho.
— Por quê? Foi alguma coisa que eu disse? Aconteceu algo no mercado? — as palavras saíram antes que pudesse evitar.
Ele mordeu os lábios inferior. Suas mãos abandonaram os utensílios e passaram a apertar a borda do balcão, controlando algo intenso e quase selvagem dentro de si.
— Acho melhor, eu não ir no jantar de hoje. — sussurrou e quase não o ouvi.
Cruzei os braços, trocando o peso de uma perna para a outra.
— Eu estou preocupada com você. — revelei em um fio de voz, aproximando-me devagar. — Tem alguma coisa que posso fazer para ajudá-lo?
Toquei seu ombro, os dedos se fecharam em um carinho terno e em resposta soltou um grunhido que pareceu preso na garganta todo esse tempo. O perfume amadeirado invadiu minhas narinas, puxando meu corpo como um imã. Eu queria chegar mais perto, cheirar a curva do seu pescoço e me deixar embriagar nele. O seu cheiro tinha um dom único de acalmar toda e qualquer agitação que ousasse me assombrar.
Ele se tornou o bálsamo perfeito para a minha alma.
— Não há nada que possa fazer para me ajudar, ... — seu timbre baixo, rouco, foi capaz de mexer com partes do meu corpo que até então pensei estarem adormecidas.
— Posso cancelar o jantar e ficar com você. — sugeri, meu corpo quase roçando em seu braço estendido.
Ele curvou o sorriso sarcástico com o canto dos lábios.
— Você quer ir nesse jantar mais do que qualquer coisa. — seu tronco se ergueu e virou para me encarar. — Não posso privá-la disso.
A muralha de músculos conseguia facilmente me esconder de qualquer um que entrasse na cozinha. Os ombros largos tencionaram e pude vê-los mesmo escondidos pela camiseta azul marinho. Ele deu um passo na minha direção, o corpo imponente me prendendo contra o balcão. Ofeguei assim que as costas sentiram o toque gelado da bancada, meu peito subiu e desceu, acompanhando o ritmo acelerado do coração.
Minhas pernas tremeram. Devo ter ficado trêmula da cabeça aos pés quando se inclinou e apoiou as duas mãos no balcão, um de cada lado do meu corpo. O cheiro de cedro e pimenta me envolveu naquela dança hipnotizante, levando-me a erguer o rosto e deixar que nossos olhos se encontrassem, o choque elétrico enrijecendo cada pelinho do meu corpo. Uma onda de calor me transpassou, o arrepio subindo pela minha coluna com urgência.
A sua presença ardente e vibrante despertava algo novo dentro de mim. Uma ânsia pelo desconhecido, por algo proibido.
— Eu vi como olhou para ele no mercado. — o hálito quente bateu contra a pele do meu rosto. — Sei que está ansiosa para revê-lo. — a testa franziu e um calafrio dominou as paredes do meu estômago.
Entreabri os lábios, sem saber o que dizer quando o vi mover os olhos para minha boca e algo crepitar nas íris azuladas. Uma áurea obscura, primitiva, tomava conta daquele olhar tão penetrante, um reflexo do quanto ele tentava controlar o que estava o consumindo por inteiro. Sua mão envolveu a lateral do meu rosto, o polegar resvalando delicadamente pelos lábios, contornado ao mesmo tempo em que um rosnado baixo e rouco escapou da sua garganta.
O seu toque era quente, suave, protetor.
Outro arrepio subiu pela minha coluna e foi como ser atingida por um raio quando sua palma desceu para o pescoço. Afastou os cabelos, inclinando-se lentamente até os lábios tocaram a pele exposta com tanta devoção e cuidado que nada me impediu de fechar os olhos e contrair as pernas involuntariamente. Uma tempestade insana me consumiu, os relâmpagos se propagando em meu interior, reverberando cada célula do meu ser.
— Eu não posso contar o que está acontecendo, pequena... — disse contra meu ouvido, a respiração batendo contra o lóbulo de maneira sedutora. — Porque não quero que fuja de mim.
— E por que eu fugiria? — perguntei com a voz falha, possuída pelo seu perfume.
— Porque não imagina as coisas que quero fazer com você. — sussurrou, os lábios se fechando ao redor do meu maxilar em um beijo casto, quente. — Vê-la sorrindo para o Dante foi demais para mim...
Mordi o lábio inferior. Meu estômago se revirou, o peito retumbando como labaredas na fogueira. As palavras tão reveladoras batucaram dentro da minha mente, finalmente unindo as peças do quebra cabeça tenso. A pontada de compreensão acendeu e empurrei suavemente pelos ombros de modo que pudesse olhar dentro dos seus olhos, queria confirmar cada fagulha daquele sentimento que parecia consumi-lo.
— Está com ciúmes, ? — disparei, o calor tingindo as bochechas.
As íris azuis adotaram uma coloração mais intensa, crua, quase primitiva. Ele focou os olhos em mim, intenso e impenetráveis feito uma rocha. Sua mão envolveu o meu rosto, o polegar acariciando a mandíbula. A vulnerabilidade do carinho me desarmou, não precisando de mais nada para concretizar a dúvida. Deslizou o torso da mão pela bochecha e aproximou nossos rostos, seus lábios tocaram suavemente a testa, deixando um beijo carregado de todos os sentimentos que não conseguia expressar em palavras.
Ele ficou com ciúmes de mim...
E de um jeito estranho, isso remexeu algo dentro do meu peito.
Ao senti-lo se afastar, ergui a cabeça e levei as mãos a barra da sua camiseta. Embolei o tecido, o segurando, aproximando-me mais do seu corpo rijo.
Nossos olhos não eram capazes de se desgrudarem, sincronizados a atração que explodia naquela cozinha. Ele se inclinou, sua respiração bateu quente contra meu rosto. Seus dedos roçaram em minha pele, traçando um caminho delicioso até a nuca. Espremi os lábios e segurei o gemido que ameaçou escapar ao sentir meu corpo inteiro estremecer, ansiando por mais do seu toque.
Meu coração batia tão forte que pensei que pularia para fora do peito a qualquer momento. Desci os olhos para a boca entreaberta, convidando-o a colar ainda mais nossos corpos. Queria beijá-lo; sentir o gosto daqueles lábios atrevidos; finalmente entender como era estar em seus braços; me render ao seu perfume me empurrando para dentro do redemoinho de tensão e desejo latejante.
Ele me enfeitiçou, parte do medo se dissipando como fumaça e o resto não importava.
Oh, céus. Eu o queria tanto que doía.
roçou o nariz no meu. O toque me fez estremecer. Fechei os olhos automaticamente, esperando que sua boca me tocasse com força e possessividade, arrancando de vez a minha sanidade. Sua mão escorregou pelo meu queixo, o polegar delineando meu lábio inferior tão lentamente que pareceu querer gravar os traços a ferro e fogo.
Ofeguei quando nossos lábios quase se tocaram, meu coração esmurrou as costelas com expectativa. A proximidade se tornou um fardo insuportável. Eu só não esperava que no instante seguinte, seus dedos escorregassem e se fechassem com força ao redor ao meu pescoço.
Arregalei os olhos. O rosto tão próximo transformou-se no meu pior pesadelo. Os olhos azuis foram substituídos por esferas obscuras, maléficas, cheias de um desejo cruel, acompanhada das sobrancelhas grossas com uma falha na direita. Meu corpo entrou em desespero, o pânico e o medo correndo pelas veias quando ele curvou o sorriso diabólico cheio de dentes, carregado pela áurea negra que sempre esteve ao seu redor.
Estava diante do próprio demônio na Terra
Kaleb Ledger.
Mergulhei no passado, sendo assombrada pelas lembranças grotescas das vezes em que sua mão se fechou com mais força, sufocando-me. Tentava gritar por ajuda, só que a voz não veio, entalada na garganta. Sua boca se forçava contra a minha, a língua violenta exigindo passagem com brutalidade. Meu cérebro tentava ficar acordado, a falta de ar pesando as pálpebras, pronta para apagar.
O medo me impedia de desmaiar. Se ele era capaz de me estrangular enquanto estava acordada, temia o que faria se estivesse inconsciente.
Tentava me mover, socá-lo, empurrá-lo, mas ele sempre seria mais forte do que eu.
— Você é só minha, . E ninguém tem o direito de chegar perto do que é meu. — rosnou, a outra mão erguia meu queixo, obrigando que olhasse para ele.
E então eu via.
O rosto do demônio que me aterrorizaria até nas profundezas do inferno.
— Por favor, não... — implorei, a voz por um fio. — NÃO ME TOCA, POR FAVOR! — consegui gritar, os soluços rasgando a garganta
Minha cabeça girou, a visão turva prestes a escurecer. Grunhi em desespero, os dedos apertando mais e mais. Quanto mais tentava me soltar, mais ele me segurava. Eu tinha conseguido gritar, agora só faltava achar um jeito de escapar das suas mãos.
— ... , eu sou! — gritou e tentou tocar em meus braços, mas fui rápida em golpeá-lo, empurrando-o para longe.
— Você não é real... — segurei a cabeça, puxando os cabelos com força. — Você não é real... — continuei repetindo, as lágrimas escorrendo desenfreadas.
— Sou eu... — a voz dele era um sussurro distante em meio ao meu pânico. — Fica comigo, pequena. Ouça minha voz. — senti o calor do seu corpo se aproximar, ignorando o fato de que eu poderia machucá-lo. — Olha, escuta o meu coração, . — ele pegou umas das minhas mãos e colocou aberta sobre seu peito.
Meu corpo todo tremeu com o seu toque quente. Tentei puxar o braço, querendo me encolher.
— Escute os batimentos. — pediu, segurando minha mão com força para que não pudesse fugir.
Solucei e tentei me concentrar. Em poucos segundos, senti o tum-tum-tum acelerado bater contra minha palma. Puxei o ar, a realidade me golpeando com força.
Eu conseguia respirar, não estava sendo enforcada. E Kaleb... Ele não existia
— Está sentindo? Eu sou real. — sussurrou.
Ergui os olhos para encará-lo e o encontrei ofegante, a boca aberta em completa preocupação. Ele suava frio, a testa inundada pelas gotas grossas. Sua pele estava pálida, as mãos geladas e parecia incapaz de se mover, talvez, temendo que eu fosse fugir assustada.
— Continue escutando e respire devagar. — o polegar acariciou meu pulso, o toque suave nem se comparava as mãos nojentas que um dia deixei que me tocassem. — Está tudo bem... Eu estou aqui. — depositou um beijo casto sobre o dorso e se aproximou devagar.
— , você... Pode me abraçar? — minha voz embargou e em seguida meu rosto se contorceu, os soluços atingindo o ápice.
Joguei o corpo sem esperar por uma resposta. O puxei com força, urgência, querendo sentir seus braços ao meu redor. Soltei o ar aliviada, quando me abraçou de volta, pousando minha cabeça sobre seu peito de maneira gentil e carinhosa. Os dedos afundaram em meus cabelos, acariciando em círculos, enquanto deixava que as lágrimas molhassem sua camiseta. Meus ombros subiam e desciam como um trem desgovernado, o coração parecia prestes a explodir no peito.
— Ele nunca me deixava respirar... — confessei e segurei seu antebraço, precisava de algo para me agarrar. — Quando me beijava... Ele m-me...
— Shhh... — soprou contra meus cabelos. — Não precisa dizer nada, ... Está tudo bem.
Engoli em seco e funguei, seus braços me apertaram com força.
— Me perdoa... Eu tenho tanto medo...
— Medo do quê, pequena? — afastou os fios teimosos do meu rosto.
— Medo de nunca conseguir seguir em frente. De sempre ser machucada por ele.
deixou um beijo terno sobre minha cabeça.
— Você vai conseguir. Sabe por quê? — delicadamente segurou a lateral do meu rosto e fez com que eu olhasse profundamente em seus olhos. — Porque é uma guerreira. É a mulher mais corajosa e sensata que já conheci. Você não é machucada, minha linda, só precisa se libertar desse trauma.
Segurei firme em suas mãos, sentindo o quanto os dedos gelados eram reais. Fechei os olhos e funguei, deixando meu coração se afogar nas lágrimas. Cada gota carregava o peso da minha angústia, da dor que sentia sempre que aquele rosto aparecia para me assombrar. E por mais que nunca tivesse dito em voz alta, era verdade, eu tinha medo de nunca conseguir me curar e escapar desse tormento.
Capítulo 21
Deslizei as mãos pelo tecido da camiseta preta, retirando os minúsculos pelos brancos que insistiam em decorá-la. Levei os dedos até o colarinho e abotoei os últimos dois botões, optando por deixar o primeiro aberto. Desci os olhos pelo antebraço em busca de qualquer coisa que pudesse prender a minha atenção, antes que minha mente desviasse o rumo e me levasse de volta para reviver tudo o que aconteceu naquela cozinha.
Com o indicador e o polegar, girei ao redor do pulso esquerdo. Soltei o ar pesado pela boca, buscando o acessório pelo quarto. Abri a gaveta da cômoda e encontrei o relógio que serviria de distração por alguns segundos. E enquanto lutava para prender a pulseira com apenas uma mão, sentia que algo profundo se remexia em meu íntimo. Algo que não conseguiria ignorar por muito tempo.
Eu sabia que a qualquer momento teria de me render e parar de lutar contra as vozes irritantes que insistiam em lembrar que há muito tempo perdi aquela batalha. E por mais que tentasse me convencer de que os problemas da não eram da minha conta, já estava envolvido demais para simples ignorar.
Porra!
Por que a cada segundo que passava era como se o ar me faltasse e fosse levado de volta àquela cozinha? Por que doía tanto relembrar a forma como ela se debateu e tentou me empurrar? E por que me sentia culpado por despertar aquele pesadelo tão sombrio?
Eu só queria beijá-la, sentir o calor dos seus lábios contra os meus. Acalmar a selvageria e toda a posessividade que clamava dentro de mim, implorando que a marcasse como minha. Mas bastou minha mão deslizar pelo pescoço fino, pronto para puxá-la de uma vez pela nuca que todo o meu mundo desmoronou. Ainda conseguia sentir o impacto dos socos e das mãos me empurrando com urgência. Os olhos castanhos tão lindos se transformaram em duas esferas escuras e assustadas.
Sentei-me na cama, sabendo que a qualquer momento poderia perder o equilíbrio. Esfreguei o rosto e afundei os dedos nos fios perfeitamente arrumados, bagunçando-os, talvez pela décima vez naquele dia. Desde que subi as escadas e decidi me arrumar para o jantar, o cronômetro começou a rodar, marcando as piores horas da minha vida. Durante o banho tive de lutar contra a vontade absurda de vê-la a cada cinco minutos. Não conseguia parar de pensar nela.
Era como ser consumido por uma angústia maior que o universo. Queria saber como ela estava; se precisava de alguma coisa. Porque mesmo que estivéssemos há apenas alguns segundos de distância, queria estar por perto para ajudá-la, por menor que seja o problema.
E tudo isso estava começando a me assustar.
Suspirei pesado e deixei que o corpo afundasse na cama macia do quarto principal. Cobri a cabeça com o travesseiro, pressionando o tecido com força, como se isso pudesse ajudar a esquecer a conversa que tivemos quando finalmente consegui levá-la para a sala e aconchegá-la em meus braços. No entanto, a escuridão e o silêncio apenas serviram para me afogar na vasta lembrança, remoendo cada palavra.
Confesso que nunca fiquei tão apreensivo. Perdi as contas de quantas vezes prendi a respiração enquanto esperava que ela contasse sobre o seu passado traumático e cruel.
Lembro-me das costas se acomodarem perfeitamente contra o encosto do sofá de modo que as pernas ficassem esticadas e minha coelhinha se enroscasse ali. Meus dedos se perderam no meio dos fios escuros, afagando em um carinho lento e acolhedor. Ouvi sua respiração se acalmando devagar. A cabeça levemente tombada contra meu peito depositava toda a sua confiança. A mão agarrada ao tecido da camiseta dava a ela o ar de um filhotinho assustado.
Os ombros subiam e desciam sendo ali que me concentrei pelos próximos minutos, porque qualquer mudança que seu corpo demonstrasse, um mísero desconforto, precisava estar pronto para agir.
Deslizei o polegar pela bochecha rosada, colocando a mecha teimosa atrás da sua orelha. Inclinei-me e depositei um beijo casto sobre sua cabeça, fazendo-a se encolher mais contra mim, como se quisesse garantir que tudo realmente era real. Desci a mão e delicadamente soltei seu agarre do tecido. Entrelacei nossos dedos, apertando firmemente. Queria que ela se sentisse segura, que visse que eu não sairia do seu lado nem mesmo se alguém entrasse armado naquela casa.
Ela fixou os olhos naquele gesto simples, seu semblante apreensivo.
— Está tudo bem, coelhinha. Eu não vou a lugar algum. — sondei cada uma das suas reações e em resposta senti quando devolveu o aperto. — Podemos ficar aqui o tempo que precisar. — devagar inclinei a cabeça e repousei sobre os cabelos macios, esfregando a bochecha delicadamente em círculos. — Não precisamos falar nada, se não quiser.
Um certo desconforto me atingiu. No fundo, eu não queria escutar a verdadeira história por trás dos seus traumas. A mera possibilidade de terem feito algo de ruim contra ela já era o suficiente para a raiva borbulhar dentro do meu peito.
— Eu sinto muito... — disse em um fio de voz e soltou o ar, igual a um fardo pesado.
— Não sinta. Está tudo bem, anjo. — fechei os olhos e repeti o carinho com a cabeça, não deixando de acariciar sua bochecha com o polegar. — Não precisa se desculpar por algo que não foi sua culpa. Muitas vezes, nossos corpos reagem por impulso quando nos sentimos ameaçados.
se remexeu e deixei que se acomodasse da maneira mais confortável. Deitou-se de lado no sofá, sua cabeça agora repousava em cima da minha coxa, tomando cuidado para não soltar nossas mãos.
— Diariamente, sou mordido por animais que sentiram medo de mim. Principalmente os que foram resgatados de maus-tratos. E está tudo bem. — com a mão livre continuei o carinho em seus cabelos. — Não é culpa deles, só estavam se defendendo daquilo que os machucou.
Ela delicadamente girou meu pulso, possivelmente em busca de alguma marca. Percebi quando seus olhos se fixaram sobre a pequena cicatriz fina, levemente robusta, que se estendia pelo dorso até o meio do antebraço. A coloração pálida e a textura flácida da pele sempre a denunciaria. Uma marca antiga, cheia de lembranças dolorosas, mas que terminaram com final feliz.
— O Sky foi o responsável por essa obra de arte. — revelei, assistindo-a contornar com o polegar. — Quando o resgatei, não poupou esforços para se defender. Ele foi abandonado ainda filhote e os traumas estavam lá.
— Ele só estava assustado. — comentou baixo, quase um sussurro.
— É normal sentir medo, ainda mais quando se foi descartado como lixo em uma noite chuvosa e fria.
Acariciei a lateral do braço dela, sentindo aquela pontada característica sempre que lembrava do pequeno gatinho buscando abrigo entre as caixas de papelão encharcadas.
Pobre Sky. Era só um filhote indefeso e desnutrido que me fez correr por dois quarteirões para pegá-lo. Ele não tinha ideia de que o levaria para o calor do meu apartamento, cheio de petisco de salmão e uma cama quentinha onde passaria a dormir pelo resto da vida, longe dos perigos da rua.
— Aconteceu algo com você, não foi? — a pergunta saiu antes que pudesse evitar.
Ela assentiu e se encolheu.
— Notei que quando desci a mão para o seu pescoço e me aproximei para beijá-la, você entrou em pânico. Vi o medo estampado dentro dos seus olhos e não foi preciso muito para perceber que entrou em pânico.
— Não foi você, ... E-eu... — balbuciou, apertando com força a minha mão.
— Eu sei que não... — mordi os lábios, não sabendo se deveria continuar com aquela pergunta. — , foi o Dante? — meu coração deu um solavanco e pensei que fosse infartar antes de receber a resposta.
Ela fungou e pareceu ponderar antes das palavras saírem pela sua boca.
— Não. O Dante me ajudou quando tudo aconteceu... — ela desenhou círculos imaginários pela minha panturrilha. — Foi ele que comprou minha passagem para Boston e garantiu que... — sua voz hesitou e senti algumas gotas quentes molharem o tecido da calça.
— Não precisa falar sobre isso, anjo. — inclinei-me e capturei as lágrimas com o polegar. — O que acha de assistirmos um daqueles filmes românticos que você tanto gosta? — a onda de culpa me atingiu em cheio de modo que nem mesmo conseguia respirar.
Ela negou com a cabeça e puxou o ar com força, como se buscasse coragem para continuar a falar.
— O Dante garantiu que cuidaria de tudo. Prometeu que ele nunca mais ia me machucar. — continuou entre soluços.
— Ele tocou em você? A forçou...? — engoli em seco, quase não tendo forças para continuar respirando. Não conseguia nem pensar na hipótese de alguém tê-la ferido dessa maneira.
— Ele tentava... — confessou, a voz trêmula somente de pensar naquele demônio. — Mas não do jeito que você me toca. E-eu gosto do seu toque.
Ouvir aquelas palavras foi como cair no abismo e ser puxado de volta, antes de atingir o chão. As garras afiadas rasgavam meu peito, enlouquecidas para saírem e acabar com a raça daquele infeliz. Tencionei a mandíbula e mordi a ponta da língua, contendo a raiva que queria se apossar dos meus sentidos.
soluçou mais alto. Os ombros subiam e desciam com desespero. Sua mão se soltou da minha, se encolhendo como um filhotinho amedrontado. Em um movimento cauteloso, afastei nossos corpos o suficiente para que pudesse me deitar no sofá e puxá-la para perto. Ela afundou o rosto na curva do meu pescoço, as lágrimas saíram pesadas. Cada gota salgada carregava a carga pesada da sua dor.
— Nunca contei isso para ninguém... — sussurrou contra minha pele. — Tive tanto medo, que nem mesmo o meu irmão sabia disso.
— Me conte o que quiser, coelhinha. — beijei sua têmpora e a abracei com força. — Se não se sentir pronta, tudo bem. Podemos ir devagar.
— Tentei procurar ajuda, , mas... Eu não consigo falar sobre isso com ninguém.
— Está segura comigo, pequena. Nunca deixarei nenhum homem chegar perto de você. E aqueles que ousarem tocá-la terão as mãos arrancadas antes que consigam. — até o submundo teria medo do que eu seria capaz de fazer para protegê-la. — Pode confiar em mim. — peguei em seu rosto, olhando dentro daqueles olhos perfeitos. — Me conte tudo o que quiser.
soltou o ar pela boca e fechou as pálpebras pesadas. Aproximei-me lentamente, depositando um beijo quente e acolhedor em sua testa. Eu queimaria o mundo por ela, e todos seriam testemunhas da minha devoção.
— Decidi que queria cursar direito em Nova York, todas aquelas leis me fascinavam. E sempre desejei conhecer a cidade. — disse, após um tempo, a voz baixa e cheia de ressentimento. — Tinha acabado de publicar o meu primeiro livro. Juntei todas as economias e aluguei um apartamento em Manhattan. Vivi um sonho por alguns meses. — abriu os olhos e segurou em minhas mãos, as lágrimas já se formavam no canto dos olhos.
Engoli em seco. Porra, ela era só uma garota inocente atrás dos seus sonhos, nenhum demônio tinha o direto de transformar isso em uma memória traumática.
— Conheci o Kaleb quando comecei a trabalhar em uma livraria para pagar as contas. — então esse era o nome do desgraçado. — Ele passou a ir na loja todos os finais de semana e sempre me presenteava com buquê de rosas.
Incrível como grande parte dos babacas se escondiam por trás da imagem de príncipe encantado.
— No começo ele era gentil, romântico, mas depois de um tempo passou a querer me controlar. Sempre julgava as roupas que usava, dizia que pareciam de prostitutas. Escolhia até os meus amigos, que segundo ele não eram boas companhia. — ela ofegou e voltou a esconder o rosto no meu pescoço. — Conheci o Dante na academia do bairro. Ele foi o único que o Kaleb não conseguiu afastar, porque fazia parte do seu círculo de amizades. Por isso não disse nada quando fomos morar juntos, mas o seu silêncio não durou por muito tempo.
O nó se formou na minha garganta e tive de morder a língua para não enlouquecer com aquela revelação.
— O Dante não sabia que ele era assim, e eu também nunca contei. — encolheu-se mais em meus braços. — Até o dia, que Kaleb tentou me forçar pela primeira vez... — sua voz ficou trêmula e a abracei. — Acabei dormindo no sofá e quando acordei... E-ele estava em cima de mim e falava que se eu não me entregasse era porque não o amava... — a cada soluço que escapava da sua boca, meu coração se quebrava mais e mais. — O Dante chegou a tempo de impedi-lo, e todo o inferno começou...
— Maldito, desgraçado. — ah, como eu queria poder acabar com aquele infeliz. — Por favor, me diga que depois disso, ele nunca mais chegou perto de você.
— Não quando o Dante estava por perto para me proteger.
Por um momento, me senti imensamente culpado por ter olhado para aquele homem com outros olhos.
— Mas ter o Dante por perto nunca foi o suficiente. O Kaleb me perseguia, parecia querer me devorar a qualquer momento. — soltou o ar e senti o quanto era difícil para ela mergulhar no passado. — Todos os dias tinha medo de sair de casa. Na livraria, meu corpo gelava só de ouvir a porta sendo aberta. E na hora de ir embora, pedia para o taxista me deixar na academia que Dante estagiava e esperava até que pudéssemos ir embora juntos. Ao lado dele, sentia que nada poderia acontecer.
— Coelhinha, se eu pudesse voltar no passado acabaria com a raça desse filho da puta. O faria se arrepender de ter encostado os dedos em você. — acariciei o seu braço, deixando outro beijo em sua testa.
— Deve estar me achando uma idiota por ter tido aquele ataque. — cobriu o rosto com as mãos. — Estou com tanta vergonha. Você é o primeiro homem que aceito que me toque. O primeiro com quem me sinto segura para querer algo a mais... É irônico, pensar que depois de tudo o que passamos, você é o único que não me assusta.
— Ei... — puxei suas mãos delicadamente e beijei o dorso. — Estou aqui para o que você precisar. E não me importo de esperar até que esteja pronta para seguir em frente. Já esperei por você todos esses anos, não pretendo desistir agora.
Soldei o seu rosto e vi quando os belíssimos olhos castanhos ganharem luminosidade. Isso bastou para reacender o desejo de tomar seus lábios com os meus. Sentir o gosto da sua boca e deixar que possuísse cada pedacinho da minha sanidade.
Ansiava que ela fosse minha, que me deixasse curar suas feridas, a libertasse desses pesadelos. Mas a linha entre nós estava ali para me lembrar de que não deveria cruzar o limite. A confiança dela era tudo o que eu tinha. E se fosse preciso passar anos reprimindo o desejo, ficaria preso até o dia em que me permitisse mostrar o mundo de outra vista.
— Você disse que procurou ajuda, mas não consegue falar sobre isso. — comentei.
suspirou profundamente entre soluços, antes de acomodar a cabeça sobre meu peito.
— Faço acompanhamento com a psicóloga desde que fui embora de Nova York. Achei que com a ajuda de um profissional conseguiria superar esse trauma, mas eu...
— Não consegue se abrir com ela. — concordou em um aceno de cabeça. — Já pensou em experimentar outra profissional? Talvez, uma nova abordagem possa ajudá-la.
— Nunca vou superar, . — revelou, a voz por um fio. — Estou destinada a viver com a dor. Primeiro os meus pais, depois o Kaleb, agora o Noah...
— Ninguém é destinado a viver com dor, pequena. — sussurrei contra seus cabelos, o aroma delicioso de argan invadiu meus pulmões como calmante. — Nós aprendemos a conviver com ela. Mas no seu caso a está impedindo de viver.
Encolheu-se mais um pouco.
— A Yelena pode ajudar. — lembrei da secretária que sempre dava um jeito de fazer terapia gratuita na clínica veterinária. — Ela estuda psicologia, tenho certeza de que conhece um profissional capacitado que vai ajudá-la a superar esse pesadelo.
— Como tem tanta certeza de que mudar de profissional irá me ajudar?
— Porque dessa vez não enfrentará isso sozinha. Estarei do seu lado, mesmo que meus neurônio queimem por ouvir suas histórias de romance. — brinquei, tentando descontrair o clima tenso.
— Desde que não me mate de colesterol, acho que será uma troca bastante justa. — ela sorriu e a pequena risada aqueceu meu peito de maneira inexplicável.
Voltei a afundar os dedos em seus cabelos e em movimentos sinuosos, enchê-la com carinho e cuidado. remexeu a cabeça, aconchegando-se em meus braços, apreciando cada minuto do silêncio que compartilhamos juntos naquela sala.
Não demorou muito para escutarmos um choro baixo e quase doloroso vindo do andar de cima. Olhei para a mulher, encontrando os olhos fechados e o semblante tão relaxado que nem parecia a mesma que teve um pequeno surto de pânico. Depositei um beijo casto em sua testa e tentei sair do sofá, sendo impedido pelo seu braço fino que agarrou firme em minha cintura.
Por sorte, Greta apontou na sala vindo da lavandeira da casa e se ofereceu para socorrer a Mia da fome. Enquanto eu fiquei ali, apreciando cada detalhe da coelhinha adormecida, completamente enfeitiçado por ela, sendo naquele momento que percebi ter tomado uma decisão.
E por isso, agora, estava deitado nessa cama de casal, relembrando nossa conversa, enquanto lutava em uma guerra que já havia perdido dentro de mim. Eu queria por inteira. Queria todas as suas dores, os seus medos, traumas, até mesmo as histórias românticas açucaradas... Desejava ter o pacote completo daquele furacão que prometeu virar minha vida do avesso.
Aquela coelhinha remexeu com todos os meus sentidos, me fez cair de joelhos e por mais assustador que fosse, aceitaria o meu destino.
— Por favor, me diga que não desistiu de ir ao jantar? — a voz dela invadiu o quarto e cada pelo do meu corpo enrijeceu. — Se desistiu, prometo que o levarei amarrado.
Retirei o travesseiro do rosto e girei a cabeça para encontrá-la parada na porta. Tive de engolir seco, diante da verdadeira imagem da perdição.
Os braços cruzados em frente ao peito empinavam os seios tão apertados, tornando impossível desviar o olhar. A leve camada de maquiagem destacava as maçãs do rosto, mas não escondiam o semblante fechado. O bico adornando a boca carnuda apenas aumentou o desejo primitivo de jogá-la contra a parede. Desci os olhos pelo simples vestido preto que destacava cada curva do corpo pequeno que tanto assombrava meus pensamentos – e fazendo com que uma certa rigidez se formasse naquele lugar em específico.
Porra, maravilhosa demais.
— Você está linda. — levantei-me em um salto. — Para a segurança do Dante, é melhor que nem coloque os olhos em você. Caso contrário, seria obrigado a deixá-lo cego.
Ela sorriu com o canto dos lábios e colocou uma mecha atrás da orelha.
— Não seja ciumento, não há motivos para isso. — empinou o nariz, e não me contive, segurando sua cintura.
Meus dedos apertaram levemente por cima do tecido e senti quando ela subiu as mãos pelo meu tronco, delineando cada músculo pelo caminho. O seu toque era como a brisa suave do mar, quente e sutil. Trinquei o maxilar e segurei o grunhido gutural que ameaçou escapar quando ela subiu para meu pescoço, deixando o rastro ardente pelo caminho.
Oh, senhor... Isso era muito gostoso.
— Se continuar, vai acabar me enlouquecendo... — sussurrei em um aviso.
— Desculpe, achei que gostasse disso. — a desgraçada mordeu o lábio inferior e continuou com o carinho, de fato decidida a me enlouquecer.
Puxei seu corpo contra o meu, fazendo-a soltar um gritinho assustado. Ela riu e jogou os braços ao redor do meu pescoço. Sua pele macia me envolveu em um abraço, e tive de controlar o anseio, apenas me contentando em inspirar o perfume adocicado próximo da sua orelha. Os pelinhos da nuca se arrepiaram, causando-me uma excitação quase dolorosa só de imaginar ser o primeiro a fazê-la sentir todas essas reações.
Depositei um beijo casto na lateral do pescoço, incapaz de controlar o instinto que insistia em querer reivindicá-la.
— Gosto quando me beija assim. — sussurrou para que apenas eu pudesse ouvir.
Suas palavras baixas e íntimas, junto dos dedos que se enroscaram em meus cabelos, soaram como sinos badalando. Uma validação que vibrou em cada célula do meu ser. E incapaz de resistir, meus lábios se fecharam em torno da pele com certa urgência. Suguei suavemente, aprofundando o beijo molhado e arrancando de o incentivo que precisava para continuar.
Ela gemeu rouco e tão delicioso, me intimando a repetir o movimento, junto da língua que lambeu da base até alcançar o lóbulo da orelha, o rastro quente e úmido em completa veneração. Deixei uma pequena mordida ali e ofeguei, a respiração quente causou mais uma onda de arrepios. Em resposta, puxou os fios do meu cabelo, um suspiro deleitoso escapou por entre seus lábios.
Não contive o sorriso de satisfação. Saber que todos os seus gemidos eram só meus, fazia uma onda de possessividade me afligir com êxito.
— ... Vamos perder o jantar. — com o polegar acariciei em círculos a cintura fina. — E não vou conseguir me controlar por muito tempo. — mordisquei o seu maxilar.
As mãos pequenas e macias envolveram meu rosto. Por um breve momento ela encarou minha boca com tanta luxúria dançando em suas íris, que quase a puxei contra minha ereção endurecida, dolorosa... Eu estava louco para sentir o calor dela se misturando ao meu; o cheiro de romã e verbena me levando a perdição.
— Temos de ir. — ela murmurou.
Anuí e retirei as mãos do meu rosto com dificuldade, recuando os passos. Estava ciente de que se não me afastasse agora, não conseguiria mais responder por mim. Inspirei profundamente, arrumando a camiseta amarrotada e a ereção dolorida que marcava a calça jeans. De relance, engoliu em seco, enquanto admirava o volume.
Um sorriso lento e vulpino se curvou nos meus lábios, cheio de promessas. Ela desviou o olhar rapidamente.
Ah, coelhinha... Na próxima vez que eu te tocar, não vai ter nada nesse mundo que vai me impedir de parar.
Continuaaaa...
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