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Última atualização: 24/06/2021

Prólogo

QUATRO DE AGOSTO DE DOIS MIL E DEZOITO, MOUNTAIN VIEW, CA

Pessoas não paravam de chegar ao Shoreline Amphitheatre quando o evento já estava prestes a começar. Muitas meninas vinham ás pressas acompanhadas dos pais, grupos de adolescentes se perdiam na multidão e vários deles tinham celulares nos ouvidos a fim de tentarem se encontrar e falharem.
Eu já sabia desde o começo que estaria lidando com um anfiteatro lotado e agradeci em silêncio ao crachá exclusivo em meu pescoço, que me permitia ir e vir como bem entendesse sem precisar passar pela massa excessiva de fãs. A revista dedicada ao universo musical onde eu era colunista havia conseguido uma entrevista exclusiva com o cantor após o show. Não pude deixar de me sentir animada, uma vez que secretamente ainda tinha um discreto crush pelo artista.
Eu já não era mais grande fã de Niall Horan que fui um dia, mas estaria mentindo se dissesse que não acompanhei o mesmo (com fervor) na tão distante época de One Direction. Acontece que seis anos haviam se passado desde o último show em que o vi no palco, e muitas coisas haviam mudado: faculdade, sair da casa dos pais, mudar de cidade, me formar. Eu já não era a mesma que havia se apaixonado por cinco adolescentes bobos há quase dez anos atrás. Então não cheguei a acompanhar a carreira solo de nenhum dele e apesar de ainda sentir um certo carinho por eles, principalmente por Niall, minha vinda até esse show era extremamente profissional.
O objetivo era fazer uma matéria sobre o primeiro tour mundial de Niall Horan como cantor solo. Muitas pessoas no nosso setor estavam empolgadas com os acessos que a revista receberia, mas não sabia ao certo se compartilhava dessa opinião. Escrevia uma coluna voltada para o público adolescente, mas as revistas adolescentes pararam de fazer sucesso uns anos atrás. E, mesmo que ninguém tivesse me avisado, eu sabia que essa matéria era tão somente uma tentativa de salvar o quadro teen que a revista possuía antes de fechá-lo para sempre. E com isso ia embora também o meu emprego.
Estava fazendo cerca de vinte e três graus, e pelo menos desde o meio dia o sol estava mais ameno e o clima mais frio. Já eram quase oito da noite e o sol estava começando a ir embora, quando o palco se acendeu e eu soube que o show iria começar. De onde estava sentada, peguei meu bloco de anotações e me pus a escrever todas as minhas observações, desde a artista que abriu o show, o tempo que Niall levou para substituí-la no palco, o show de pirotecnia, as imagens que se passava nos telões, qualidade do som e empolgação dos fãs.
Entretanto, sem que eu sequer percebesse, quando Niall começou os acordes de This Town, eu cantei junto. A música toda. E como notei no fim do show, depois dessa música esqueci completamente de todas as minhas anotações, ouvindo todas as músicas de Niall Horan e me perguntando porque eu nunca havia tido o interesse de ouvi-las antes. Deixei que todas as canções embalassem a adolescente que existia dentro de mim, olhando para a multidão de fãs e lembrando de quando tinha dezoito anos e sonhava em estar exatamente onde estava agora: prestes a conversar com Niall cara a cara.
Uma hora e meia depois, e ao som de muitas lamentações, Niall deixou o palco. A minha recomendação foi essa: quando o cantor se despedir dos fãs, avise o segurança imediatamente. Pelo que entendi, ele teria um show próximo a Los Angeles ainda amanhã.
Guardei meus pertences e ajeitei meus óculos, tentando forçar minha face a transparecer a menor quantidade de emoção que me fosse possível.
— Com licença. – Chamei o segurança da ala em que me encontrava, mostrando meu crachá a ele. – Meu nome é , venho em nome da PlayList¹ para a entrevista.
O segurança analisou meu crachá e sussurrou um código através de seu walk talk.
— Um momento, senhorita .
Aguardei pelo que pareceu uns cinco minutos, até que a porta abriu e outro segurança igualmente uniformizado apareceu pela porta.
— Paul irá te acompanhar até o camarim. – Disse o primeiro segurança. Concordei com a cabeça, seguindo o segundo segurança porta adentro.
Andei com toda a dignidade que me restava até o camarim de Niall Horan, como pude verificar a placa na entrada. O segurança deu três batidas, que foram atendidas prontamente por uma mulher robusta de cabelos escuros.
— Deve ser da revista! Entre, por favor.
A primeira visão que tive do camarim foi que ele parecia bem confortável, mas nada luxuoso. Havia uma mesa com algumas frutas, um sofá bem normal, um tapete peludo e uma arara com as roupas que ele usou durante o show. Havia também duas poltronas no fundo, para onde a mulher, que depois de ler o crachá dela descobri que se chamava Lucy, estava me levando. E bem na poltrona da direita estava Niall James Horan, com seus cabelos levemente bagunçados, o suéter deixado de lado, os olhos azuis cansados, mas o sorriso brincando em seus lábios com uma expressão satisfeita. Estava bebendo água, mas abaixou-se para pousar a garrafa no chão quando me viu, e se levantou vindo em minha direção.
— Seja bem-vinda... – Começou, deixando a frase no ar.
. , prazer. – Terminei, apertando a mão que ele levantou, à guisa de um cumprimento.
— Niall. Acho que já sabia disso. – Falou, em tom de brincadeira.
— Tenho certeza que já ouvi em algum lugar, mas pode reforçar minha memória?
Niall riu, com aquela risada tão única dele.
Slow, slow hands, like sweat dripping down our dirty laundry. – Respondeu, cantando a última música da setlist de hoje.
No, no chance – Cantei por fim os versos que me lembrei, fazendo ele rir um pouco mais.
— Temos uma fã me entrevistando aqui? – Perguntou, me deixando bem sem graça. Era o que tentei evitar o tempo todo, queria passar mesmo uma imagem profissional. Mas Niall não pareceu se importar.
— Estou mais para... one direction? – Tentei, vendo o sorriso vacilar em seu rosto. – Não se preocupe, não farei nenhuma pergunta relacionada.
Eu sabia o quanto ele não gostava de tocar no assunto, então talvez não fosse mesmo uma boa ideia. O rapaz ficou um pouco mais aliviado.
— Bom, que bom, porque eu não iria responder nenhuma, de qualquer jeito.
Dessa vez quem riu fui eu mesma.
— Certo, hm, se importa se eu ligar o gravador? Vai ser melhor para transcrever depois.
— Não, pode ir em frente.
Ele me acompanhou até a poltrona, para nos acomodarmos. Pelo contrato eu tinha quarenta minutos de entrevista sem interrupção, e tinha perdido pelo menos cinco com gracinhas. Lucy, a mulher que estava ali conosco havia saído da sala, uma vez que a entrevista era exclusiva de verdade, então estávamos somente Niall e eu naquele camarim. Peguei o gravador, meu bloco de anotações e as perguntas que iria fazer. Liguei o pequeno aparelho, colocando no braço da poltrona.
— Hora de abrir se coração, Horan. – Falei brincando. – Bom, como está sendo essa turnê para você desde que começou sua carreira solo?
— Você disse que não iria fazer perguntas relacionadas.
— Não mencionei a banda. – Lembrei, dando de ombros. – A entrevista é totalmente focada na sua carreira solo.
Niall suspirou.
— Certo. Eu costumava gostar muito da bagunça pelo caminho, ter gente sempre por perto também era divertido. Mas parece que agora que estou mais maduro prefiro ficar sozinho. Então a turnês está bem divertida, as fãs são sempre muito gentis, e sou sempre muito bem recepcionado.
— Dos países que visitou até agora, onde teve a experiência mais inusitada? – Perguntei, checando a lista. Niall riu, provavelmente se lembrando de uma piada interna.
— Japão, eu diria. É sempre diferente visitar um país oriental.
— Deseja compartilhar a piada?
Ele riu ainda mais.
— Vamos deixar para a próxima, .
Eu também ri, apesar de não fazer a menor ideia da graça.
— E quando está nesses países, como o Japão que é tão longe, como lida com a saudade de casa?
— Bom, a saudade de casa é algo com o qual tenho que lidar há mais de oito anos, então não faz muita diferença. Sinto muitas saudades da minha família, mas tentamos o máximo manter-nos perto um do outro. – Ele fez uma pausa, aparentemente refletindo. – Temos planos de nos ver em breve, o que me deixa feliz.
— Prefere morar na Irlanda, Londres ou nos Estados Unidos?
— Apesar da saudade, prefiro morar em Los Angeles. É mais fácil para mim por conta do trabalho e eu não gosto de pegar avião o tempo todo. Minha vida é o oposto do que era antes. Eu vivo entre Londres e Los Angeles. No ano passado, acho que passei menos de seis dias na Irlanda, o que é louco. Passei os dezesseis primeiros anos da minha vida lá e agora eu mal passo uma semana².
— Isso é incrível. Acho que nunca nem saí da Califórnia. – Deixei escapar, devido minha grande admiração.
— Você mora aqui?
— Não, moro em São Francisco.
Niall se encostou na poltrona.
— Quantos anos você tem?
— Hm, acho que sou eu quem estou fazendo a entrevista, engraçadinho. – Ele riu, mas se recompôs. – Certo, se tivesse que escolher entre Sign Of The Times, de Harry Styles, Strip That Down, de Liam Payne, e Just Hold On, de Louis Tomlinson com Steve Aoki, qual escolheria?
!
Eu não mencionei a banda! – Frisei, segurando o riso. Além de que ele aparentemente gostou da pergunta. E pensou muito sobre ela.
— Hm, vou escolher Just Hold On. Eu realmente amei a de Louis. É muito, muito boa.³
A entrevista seguiu sem problemas. Conversar com Niall era muito fácil e confortável, me fez esquecer completamente que eu estava conversando com um popstar. Ele também pareceu bem à vontade, provavelmente porque não fiz qualquer outra pergunta que se remetesse a banda. Vinte minutos depois, a cabeça de Lucy surgiu na porta do camarim, que foi aberta.
, espero que tenham conseguido terminar. O tempo da entrevista acabou, e Niall precisa pegar um avião para o norte em duas horas.
Suspirei, desligando meu gravador.
— Sim, tudo certo, tenho material o suficiente para uma boa matéria! Peço para te entregarem uma, se quiser.
Niall concordou.
— Essa eu vou querer ver.
— Essa? – Questionei. Ele deu de ombros.
— Não costumo ler as minhas próprias entrevistas. Acho até um pouco narcisista querer me ver em uma revista.
— Sorte sua que desliguei meu gravador. Iria perder muitos patrocínios. E eu ficaria milionária pelo furo.
Ele apenas riu. Niall era uma pessoa um tanto engraçada. Era muito divertido e gostava de dar respostas espertinhas. Eu não era lá uma grande expert, mas tinha quase certeza que ele tinha flertado comigo vez ou outra. Tenho um gravador como prova!
Nos levantamos da poltrona ao mesmo tempo, onde me espreguicei de uma maneira sutil devido a todo tempo que passei sentada.
— Obrigada pela entrevista, Niall Horan! Adorei saber mais sobre você, tenho certeza que nossos leitores também amarão!
Ele esticou a mão, que eu apertei.
— Eu quem agradeço, . Deixou minha noite muito menos tediosa. Foi bem divertido. – Sorri para ele.
Ao contrário do que pensei, conversar com Niall Horan reacendeu a chama adolescente dentro de mim que sempre foi louca pelo artista. Perguntei-me em que momento da minha vida perdi essa conexão com ele e fiquei triste quando não consegui me lembrar. A adolescente que eu fui me deixara muitas lembranças tão lindas e ingênuas e me partiu o coração ter a consciência de que, por mais que a admiração fosse real, eu não sentia mais aquele amor platônico por Niall Horan.
— Eu também gostei muito. A de dois mil e doze está pirando agora, só para você saber.
— Não precisa ficar com saudades. Tenho a impressão que ainda nos veremos no futuro.
Dei uma gargalha.
— Então até a próxima, Niall Horan.
— Até a próxima, . – Repetiu.
Dei um último sorriso, pegando minhas coisas e deixando o jovem cantor para trás. ¹ PlayList é um nome fictício de revista criado por mim, exclusivamente para essa história. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.



Capítulo 1

DEZENOVE DE SETEMBRO DE DOIS MIL E DEZOITO, SÃO FRANCISCO, CA

Estava finalizando minha matéria sobre Billie Eilish, quando Rachel Palm estacionou ao lado da minha baía.
— Posso saber porque Niall Horan te enviou uma encomenda? – Questionou minha amiga, me entregando um envelope.
Endireitei-me na cadeira, alarmada, e abri o envelope, que tinha o tamanho de uma folha A4 e pesava um pouco. Havia uma foto do próprio Niall sorridente ao lado de uma revista. Demorei dez segundos para notar que ele segurava a capa da própria PlayList, apontando para ele mesmo e com o dedo indicava a entrevista que eu fizera com ele no começo do mês passado. Meu nome aparecia logo embaixo, em uma nota colada com fita adesiva.

Olá, ! Amei a entrevista e quero que saiba que comprei a revista, eu comprei! Estou te enviando uma cópia autografada porque sei que no fundo você queria uma.
Ah, sei que não tem twitter então me segue no instagram para eu poder ver seu ig e te seguir de volta, procurei por e não te achei: @niallhoran (Como se você não soubesse)

Abri o pacote e lá estava a nossa revista comprada por ele e autografada. “Para toda a equipe da PlayList, em especial para . Obrigado pelo carinho!”. Rachel tomara a nota da minha mão, junto com a revista, e estava rindo há uns cinco minutos, descrente.
— Não acredito nisso, ! Você nem é tão legal assim!
A Rachel era uma ótima pessoa, só para deixar claro. Peguei a nota da mão dela, guardando fora de sua vista dentro de um dos meus cadernos.
— Você não tem nada para revisar, não? – Perguntei, fazendo um gesto com a mão para ela sair.
— Não precisa ficar nervosa, só vim dar os parabéns pelo seu bom trabalho que fez Niall Horan pagar trinta dólares por um exemplar da revista. – Comentou, colocando a revista em cima da minha mesa.
— Exatamente, eu só fiz um bom trabalho, só isso. – Resmunguei, pegando meu celular.
— Sei, sei... – Comentou, ainda parada. Por cima do ombro conseguia perceber que Rachel ainda estava observando atenta eu desbloquear meu celular com o polegar.
— Sei que está esperando eu seguir ele no instagram, mas não vou fazer isso. – Resmunguei. – Porque eu já sigo.
Rachel riu, mas me deixou em paz indo em direção a própria mesa. Essa garota não fazia bem para minha sanidade mental e emocional.
A matéria de Niall havia saído no começo desse mês e devido ao meu bom trabalho, realmente conseguimos salvar o quadro teen da Playlist. Desde então estava me dedicando para artistas adolescentes em ascensão, como Billie Eilish, e tinha quase esquecido completamente de minha agradável conversa com Niall Horan.
A verdade é que não esqueci, e pronto. Quando cheguei em casa naquele dia, procurei Niall no Spotify e ouvi todo o álbum, em looping, infinitas vezes e resisti ao impulso adolescente e idiota de ir até Los Angeles somente para assistir o próximo show. Não estava em meus planos ficar obcecada por uma celebridade, realmente não estava.
Óbvio que quando Rachel parou de me espiar eu rapidamente deixei de seguir Niall e segui novamente, pelo menos umas três vezes. Faria mais vezes, mas notei que parecia bem desesperada.
Ele não me seguiu de volta, claro, e eu sei disso porque fiquei de plantão no meu celular pelo resto do dia. Não tinha nada quando saí do trabalho e nem quando cheguei em casa. Antes de jantar verifiquei meu celular novamente e ainda nenhuma notificação fora do normal. Suspirei, sem saber ao certo porque me sentia tão triste. Provavelmente porque era a única chance de nos falarmos de novo e não tínhamos nenhuma forma de termos contato. O que leva de volta a questão do: o que Niall Horan poderia querer comigo, a zé ninguém de São Francisco?
Foi quando coloquei meu prato na pia que a notificação tão esperada chegou.

@niallhoran começou a seguir você
@niallhoran
Hey, ! Segui umas vinte garotas com esse nome hoje, mas pelo menos te achei lol Estou tentando te achar faz um tempão.

Ok, então Niall Horan tinha me enviado uma mensagem. Li e reli o user umas cinquenta vezes, mas por mais que eu estivesse aguardando desde o começo do dia, esse tipo de situação ainda era muito, muito irreal. Não importava o quanto eu olhasse, o símbolo de conta verificada continuou por lá.
As fanfics que lia sobre fã e ídolo sempre muito me iludiram conforme eu crescia, mas eu gostava de pensar que era uma garota bem pé no chão. Sabia como as coisas acabariam antes que ficassem sérias demais, e deve ser esse o motivo pelo qual minha vida amorosa era uma droga. Não era a louca dos signos, apesar de querer muito culpar meu ascendente com o sol entrando não sei aonde para explicar o motivo de ser tão fracassada no amor. Vinte e quatro anos nas costas e nem mesmo um único namorado para apresentar para a família. Bom, claro que tinha outras prioridades agora, como minha carreira. Adorava a coluna teen e amava mais ainda a PlayList, mas queria muito escrever sobre coisas mais sérias do que música pop. Queria escrever sobre fome, sobre política, sobre pobreza e problemas do mundo. Quando eu estivesse bem consolidada na minha carreira, conseguiria pensar em flertes.
O que me levava de volta a Niall Horan e a mensagem que ele tinha enviado. Quer dizer, ele me procurou, e daí? Aposto que ele tinha feito vários amigos dessa forma. Aposto como ele realmente só me achou levemente divertida. Eu poderia me contentar com o fato de que ele só queria me conhecer melhor e ser meu amigo, o dia da entrevista foi a tanto tempo que duvidava ter sido o que levou ele a me procurar. Decidi responder à mensagem.

@
Hey! Ah eu te garanto que essas vinte garotas não se importaram nenhum pouco!

@niallhoran
Espero que tenha razão. Odeio incomodar
@niallhoran
E desculpa a demora, estou saindo de um show nesse exato momento. Vi sua notificação, mas estava um pouco ocupado.

@
Não precisa se desculpar. Deve estar cansado, podemos nos falar outro dia.

Queria fingir para mim mesma que não estava feliz por ele ter se lembrado de mim, mesmo naquela rotina maluca dele, mas me contive. Sentei-me no sofá para conversar com ele, empolgada como se estivesse de novo com dezessete anos. Tentei não surtar, mas não é todo dia que você se pega conversando pelo instagram com meu ídolo de longa data. Mesmo que não conheça tão bem seus trabalhos mais recentes e sequer pensasse nele tanto assim antes de assistir aquele show.

@niallhoran
Não faz mal, sério. Gostei de conversar com você aquele dia.

@
Está me procurando só porque gostou de conversar comigo aquele dia?

@niallhoran
Estou te procurando
desde aquele dia. Não deu certo hahaha Imaginei que minha única chance fosse mandando uma revista direto para sua editora. O correio atrasou muito essa conversa!

@
Hahaha atrasou? E caramba, que moral. Eu te sigo no instagram desde 2011

@niallhoran
Ah, eu não ia te achar nunca. Tentei procurar olhando
todos os meus seguidores.

@
Ok
, agora estou me achando de verdade!

Se passaram cinco minutos sem que houvesse respostas dele. Olhei no relógio, eram onze e quarenta. Relativamente cedo para mim, mas talvez ele estivesse cansado. Devo dizer que a aproximação dele e seu interesse por mim mexeram comigo, mas não sabia dizer o que em mim havia chamado tanto sua atenção.
Vinte minutos mais tarde, meu celular vibrou.


@niallhoran
Desculpa a demora de novo. Estava me arrumando aqui no hotel.

@
Ainda falta muito para acabar a turnê?

@niallhoran
Apenas mais três dias de shows e acaba. Mas as férias só começam mesmo na próxima terça.

@
Achei que seu último show fosse domingo.

@niallhoran
Bom, a questão é que fui convidado para gravar o SoundTrack SanFrancisco¹ na segunda. E já que estarei em São Francisco de qualquer jeito, queria saber se a gente podia se ver

Um barulho seco ecoando no chão da minha sala informava que havia deixado meu celular cair. Não era possível que ele fosse tão direto assim no flerte. Quer dizer, ele nem me conhecia direito, e nosso último encontro havia sido há mais de um mês atrás. E pelo menos que eu me lembre, todas as versões do Niall que eu via na internet era de um garoto tímido, e ele nunca apresentou uma namorada sequer para a mídia. Pois é, como já dizia o ditado: quem come quieto, come sempre. Acho que ele percebeu que eu tinha ficado perplexa, porque chegou outra mensagem.

@niallhoran
Retificando: sair comigo como amigos. Sabe, me mostrar a cidade, os pontos turísticos mais escondidos, coisas assim. Só queria aproveitar minhas férias sem precisar pegar um avião tão cedo.

Bom, agora estava quase tudo mais ou menos esclarecido. Ele havia mesmo comentado que não curtia pegar avião tanto assim. Seria esse o único motivo? Mesmo?

@
Seria muito legal guiar Niall Horan pela minha cidadezinha. Só me chamar no dia que você estiver livre 😊


Não conversamos muito depois disso. Ele falou um pouco sobre o SoundTrack e eu aproveitei a deixa para informar que nunca perdia uma única entrevista, como a amante de música que era. Alguns minutos depois Niall aparentemente usou uma desculpa qualquer para terminar a conversa e eu apenas curti a última mensagem que ele enviado, não me permitindo ficar feliz com a sugestão de me encontrar com ele.
Apesar de ser realmente bem pé no chão, eu era mestre em criar histórias de coisas que jamais aconteceriam na minha cabeça. E quantas dessas histórias já não envolveram Niall Horan? O simples fato de ele ter perdido seu precioso tempo me procurado já me deixava tonta.
Respirando fundo, lavei a louça que se formara em minha pia desde a noite anterior e varri o chão do apartamento. Ele era bem pequeno, tinha apenas quatro cômodos, mas o prédio era moderno, bem localizado e o valor do aluguel também era ótimo. Arrumei minha cama, guardei umas roupas espalhadas, por fim, e coloquei meu pijama, pronta para ir dormir. O relógio apontava que era quase uma da manhã, e eu ainda teria que acordar cedo no dia seguinte.
Não queria pensar muito no que poderia acontecer na próxima semana, e repeti para mim umas mil vezes que ele mesmo disse que queria me encontrar como amigo. Avistei o gravador da entrevista em minha cama de cabeceira, lugar onde ele tem estado desde aquele dia.
Inconscientemente e antes que pudesse me parar, dormi ouvindo a voz de Niall Horan através do gravador.

¹ SoudTrack SanFrancisco é um nome fictício de Talk Show criado por mim, exclusivamente para essa história. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


Capítulo 2

O mar estava calmo e era um dia claro e sem nuvens no céu, o que por um lado era ruim, pois quase sempre significava um sol ardente. Mas logo depois já relevei a informação, pensando em como o dia parecia bonito visto do píer. Para alguém que morava em São Francisco há uns bons dois anos, me considerava bastante especialista nos pontos turísticos da cidade porque eu basicamente fugia de todos. Era até legal sair com meus amigos no começo da faculdade, mas eu era mais do tipo antissocial, então não vinha muito para São Francisco na época, ficava mais em Berkeley. Por isso nunca me ocorreu visitar a Prisão Federal de Alcatraz antes, mas aqui estava eu, aguardando no Píer 33, sentada em um banco de metal que queimava um pouco por causa do contato com o sol.
Ao meu lado uma mulher antipática ficava toda hora perguntando ao homem que estava com ela se ia demorar muito. Pude observar que assim que questionou pela vigésima vez, uma família de chineses olhou para trás, e um homem particularmente bravo e baixinho a encarou com repreensão. A mulher cruzou os braços e virou para o outro lado, enfurecida, mas pelo menos parou de perguntar. Agradeci em silêncio ao homem miúdo e olhei para o relógio.
A saga da mulher irritante me fez lembrar que Niall estava atrasado. Ele disse que chegaria pontualmente no horário de embarque do ferry, mas só faltavam quinze minutos para a partida e sem nenhum sinal dele. Fiquei com pena de mim mesma antecipadamente, nada pior que levar um bolo. De um cara famoso.
Depois do fiasco que foi nossa primeira conversa, com todo o episódio do mal-entendido, ele pareceu interessado de verdade em renovar nossa precoce amizade. Conversamos com muita facilidade sobre tudo: casa, família, carreira, planos, sonhos. Nenhum dos dois tocou no assunto de namoro, então supus que ele estava passando por algo. Mesmo depois que começou os boatos entre ele e Hailee Steinfeld no começo do ano, Niall não havia afirmado e nem desmentido a relação, o que tornava tudo mais confuso, já que ela estava promovendo um filme e ele estava em turnê há seis meses. Não teriam tempo para namorar, teriam?
Minhas conversas secretas no Instagram com um popstar não passaram batidas, é claro. Durante o resto da semana Rachel ficou me enchendo incansavelmente, sobre como eu era sortuda e como estava com inveja de mim. Precisei dizer a ela incontáveis vezes que Niall e eu éramos apenas amigos. Não, na verdade nem amigos, pelo menos não ainda.
O barco atracou no píer, o que me preocupou. Mais cinco minutos e Niall não poderia mais embarcar. Quando estava quase mandando uma mensagem por conta da demora, vi Horan atravessando correndo a The Embarcadero e vindo em minha direção. Ele estava com um suéter azul claro, óculos escuros e um boné cinza. Ainda estava muito longe para que ele me visse, mas veio andando em direção ao ferry e quando chegou no final do tablado conseguiu me encontrar.
— Você sabe que ainda dá para saber que é você, certo? – Perguntei quando ele chegou até mim. Ele olhou para o próprio disfarce, tirando os óculos e os pendurando na gola do suéter.
— Oi, . – Cumprimentou, me dando um beijo no rosto. – É, eu sei. Mas não sou mais assediado como era antes. As pessoas só apontam, é muito difícil ser abordado hoje em dia. Acho que têm vergonha.
Dei uma risada irônica, porque pelo menos todas as pessoas que eu conhecia não teriam vergonha.
Será?
Ele olhou para as pessoas ao nosso redor.
— Bom, mesmo assim, a maioria dessas pessoas devem ter mais de quarenta anos. Tenho certeza que nem me conhecem.
E ele estava coberto de razão, é claro. Cerca de cem por cento de todo o nosso grupo nos ignorou completamente, porque de fato éramos os mais jovens ali, com exceção das crianças chinesas.
— Aliás, quando saímos?
— Nesse exato momento. Você está atrasado – Lembrei.
Niall deu de ombros, mostrando as horas no celular.
— Eu disse que estaria aqui pontualmente. Olha, dez e vinte e oito. Ainda cheguei com dois minutos de antecedência. – Gabou-se, rindo da própria piada em seguida.
Andamos lado a lado em direção ao interior do ferry. Pela sua demora não havia mais nenhum assento, mas não liguei muito, até onde eu sabia a viagem de barco era bem curta. Apoiamo-nos nas barras que se encontravam na lateral da embarcação, com uma vista para o norte. Depois de cinco minutos conseguimos ver a Golden Gate Bridge e Niall me olhou um pouco tonto.
— Está enjoado? – Perguntei, sem estar preocupada de verdade. Acho que ele percebeu que só estava curtindo com a cara dele.
— Não. Por que, engraçadinha?
— Só parece que não curte muito barcos.
— Bom, nunca andei em muitos.
— É, nem eu.
No começo foi esquisito porque só tínhamos começado a conversar há pouco tempo, mas depois eu fui me soltando e conversávamos como se fôssemos amigos há muitos anos. Ele me contou sobre a infância, o desejo de produzir o próximo álbum e sobre sua família. Hesitei em perguntar algo sobre seus pais e seu irmão temendo que fosse um ponto delicado para ele, mas o assunto fluiu bem. Aproveitei para dizer que era filha única de pais superprotetores e desisti de pedir irmãos aos treze anos. Em todo caso, Niall alimentou a maior parte da conversa, o que foi ótimo, porque eu mesma não tinha uma vida tão interessante quanto a dele. Foi quando finalmente fez a pergunta que ambos estávamos tentando evitar. Provavelmente porque ela era tão inevitável.
— E aí, você tem namorado?
Senti que ruborizei, apesar de não ter nenhum motivo para isso. Olhei para baixo, mordendo os lábios.
— Podem descer, com cuidado. Os guias estão espalhados pela ilha, e naquele portal poderão visualizar os horários de saída dos ferries. Podem sair em qualquer ferry até às 18h. Precisam pegar uma fila. A ilha é aberta e as atrações são livres. Tenham um excelente dia. – Bradou um guia uniformizado que estava na margem da ilha.
Respirei fundo, me achando o máximo por ter me livrado de responder à pergunta.
— E agora, para onde vamos? – Perguntou Niall.
— Sou tão turista nessa ilha quanto você, Niall. – Avistei um grande grupo subindo a ilha, e decidi ir na direção oposta que era rumo às docas, para onde um grupo menor se dirigiu. – Vamos por ali.
— Então, namorados? – Insistiu ele, depois de um tempo andando.
Eu não ia escapar, pelo visto.
— Bem, durante a adolescência passava mais tempo estudando do que saindo. E na faculdade eu era... exatamente da mesma forma. Então eu meio que nunca tive um namorado. – Confessei, para minha própria surpresa. Eu poderia ter fingido ter uma vida interessante pelo menos.
— Poderia dizer o mesmo sobre mim.
Revirei os olhos, tropeçando em uma pedra no caminho.
— Só que seria mentira. Sua vida é pública, esqueceu?
Niall deu uma sonora gargalhada.
— Se achar um único tweet, uma única postagem onde eu mesmo disse que tenho uma namorada, aí podemos continuar essa conversa.
— Amy Green?
— Você era fã de One Direction, tinha esquecido. – Comentou, ainda sorrindo. – Não chegou nem perto.
— Hailee Steinfeld? – Tentei.
O sorriso em seu rosto murchou.
— Eu acho que gostava dela, mas a gente não namorava. – Comentou, um pouco triste. – Problemas na agenda, sabe como é. Mas, ei, você não conseguiu provar!
Dei risada.
— É, parece que não.
Encontramos um outro guia nas docas que nos daria um passeio guiado pela floresta, onde ele nos contaria a biografia de alguns presos famosos que estiveram reclusos na ilha. Sendo bem sincera parei de prestar atenção depois de uns minutos. Niall parecia ter mais coisas a dizer, e por mais que não quisesse ser desrespeitosa atrapalhando a explicação do guia, era até seguro conversar em voz baixa porque estávamos um pouco afastados do grupo.
— De verdade, eu não tive nenhuma namorada que eu amasse, amor do tipo que faz a gente pensar em casar e ter filhos.
Suspirou, e a sinceridade em sua voz acabou comigo.
— Deve ser muito ruim cantar e escrever sobre algo que você não sente de verdade.
— Nem tanto, . Eu só preciso fingir que sinto. É isso que um artista faz.
— Então você é um bom artista.
Horan sorriu, se virando de frente para mim.
— Gosto de pensar que sim. – Disse, debochando do meu elogio.
— É sério. No seu show, eu... não sei explicar. Quando você cantou This Town eu parei tudo que estava fazendo para te ouvir cantando. Você expressa um sentimento através da música que emociona de verdade, Niall. – Falei, mordendo os beiços involuntariamente. Era algo que fazia sempre que ficava nervosa, o que me irritava muito. Niall deu um sorriso mínimo, aparentemente constrangido com o elogio.
— Foi a primeira vez que ouviu This Town?
— Não... eu tinha ouvido falar dessa música nova e gostei dela. O resto do álbum só descobri que existia no dia que a minha chefe disse que eu faria uma entrevista.
— Outch.
Dei risada.
— Mas se serve de consolo, eu já sei de cor todas as suas músicas. Você, bem...
— Eu o quê?
Hesitei por um momento.
— Você era o meu favorito. Na banda.
, você sabe mesmo como fazer um homem feliz. Quase todas preferem o Zayn e ele nem está mais na banda!
— Se for te consolar mais ainda, eu não gosto do Zayn.
Niall riu, e eu ri logo em seguida. Ouvimos o resto da explicação do guarda florestal, que sem que eu percebesse acabou nos levando para onde eu queria evitar ir: a prisão propriamente dita. Ficava no topo da ilha, e não pude deixar de pensar que de uma maneira trágica os presos que aqui ficaram ainda tiveram a dádiva de poder olhar uma linda vista. Pelo menos tanto quanto fosse possível, já que a cela não tinha janelas, algo que reparei somente quando entrei. Eu estava realmente prestando atenção, ali haviam muitos fatos interessantes, mas Niall estava apreensivo, olhava para trás toda hora e parecia estar sendo perseguido por alguém.
— Niall Horan está... com medo? – Perguntei, rindo quando percebi qual era o problema.
— Lugar... interessante para se visitar. Estava pensando em um parque ou algo assim. Sabe, ao ar livre. Não é muito pesado essa... energia negativa ou sei lá? – Perguntou, segurando os ombros, como se sentisse frio. Deixei escapar um riso pelo nariz.
— Se a energia está assim tão negativa, quer sair daqui?
— Bom, eu certamente não te impediria se quisesse ir embora, . – Disse, como se eu estivesse com medo.
O sotaque irlandês fofo foi ficando mais forte à medida que nos aproximávamos do centro do edifício.
— O problema não é a energia negativa, é?
Niall pareceu rendido.
— Eu sou meio... claustrofóbico – Admitiu, um pouco envergonhado.
Eu estava mesmo interessada no tour, mas Niall parecia tenso de verdade, então decidi que o passeio foi uma péssima ideia e resolvi nos tirar dali. Ele agradeceu com um sorriso engraçadinho e colocou seus óculos de sol quando saímos do prédio de novo.
— Eu não vou dizer que não gostei, mas sei lá, da próxima vez a gente podia tomar um sorvete, de repente.
Visitar uma prisão fazia parte do meu plano somos só amigos. Provavelmente foi por essa razão que estávamos onde estávamos, qualquer coisa que impedisse uma aproximação romântica. Como sempre frisei, o crescimento profissional era meu foco no momento, sempre escolheria minha carreira. Eu ainda era bem nova e por mais que a aproximação de um astro em ascensão – ainda mais um astro em ascensão que eu um dia fui fã – mexesse muito com minha cabeça, não tinha nenhuma condição de começar um relacionamento agora. A confusão em minha mente se formou no dia da entrevista. Alguma coisa fez com que Niall decidisse que eu valia a pena e eu precisava saber o que era.
Para nossa total sorte, a fila estava bem pequena e o próximo ferry chegaria em quinze minutos. A viagem da volta foi mil vezes melhor que a da ida, conversamos e rimos muito; depois de prometer não postar em nenhuma rede social, Niall deixou eu tirar fotos dele enquanto o vento batia em seus cabelos, levantando os fios para todos os lados, uma vez que estava sem o seu boné.
— Está parecendo um Golden Retriever. – Comentei rindo, depois de bater a décima foto dele com a língua para fora. Niall riu quando viu o resultado, e saímos da embarcação após atracarem novamente no píer 33. Uma mulher também uniformizada estava na porta distribuindo panfletos para que pudéssemos avaliar nosso passeio.
— Me dê um – Disse Niall, chegando próximo ao stand da mulher e destampando uma caneta que havia ali. Tirou os óculos escuros e escreveu algumas coisas. – Nome? – leu no formulário, conforme escrevia. – Niall Horan. Idade? Quinze anos.
— Quinze?
— Não posso admitir minha verdadeira idade porque – ergueu o papelzinho onde tinha as informações que escreveu e leu – Como foi a sua experiência? Terrivelmente assustadora, não recomendo o passeio para menores de trinta anos.
— Como se alguém não fosse jogar Niall Horan no Google para verificar a sua idade.
— As pessoas geralmente têm mais o que fazer, .
Ele estava certo, então não insisti. Saímos do píer 33, de onde andamos em direção à avenida por um tempo. Niall viu alguma coisa que o fez sorrir e pediu:
— Fica aqui, já volto.
Aguardei em frente a uma Starbucks por quinze minutos até o retorno do meu mais novo amigo, quando o avistei com duas casquinhas enormes de chocolate.
— Por favor, diz que gosta de chocolate? É universal. – Declarou, me entregando a minha.
— Eu gosto. – Não era meu sabor preferido, mas eu realmente gostava.
Guardei o celular que tinha usado para me distrair até seu retorno no meu bolso e nos acomodamos em um dos muitos banquinhos que tinha no píer 33 para comermos a casquinha. Era quase uma da tarde de um domingo, as ruas estavam mais vazias do que de costume e eu ainda estava um pouco tonta por ter ao meu lado Niall Horan comendo uma casquinha de chocolate barata.
— Por que tentou me achar? – Perguntei, em um momento. Ele demorou um pouco para responder.
— Eu te achei legal. Teve muitas oportunidades de me perguntar sobre a banda, mas não fez isso. Você... você realmente quer me conhecer. É curiosa, mas no bom sentido. Acho que faz parte do papel de jornalista. – Riu. – Você também é baixinha, engraçada e gentil. Como minha mãe.
Dei risada, fazendo uma careta.
— Está me comparando com a sua mãe? E eu não sou baixinha, tenho mais de um metro e sessenta.
— Ei, a comparação foi um elogio! – Eu sorri. – E quanto a sua altura, bom, você é mais baixa que eu.
— Mas não muito.
— Em comparação as outras coisas, a altura não importa, na verdade. – Ele disse, envergonhado.
— Sabe, você também é uma pessoa diferente do que pensei que seria. – Ri, lambendo meu dedo onde havia escorrido sorvete. – Tem tanto do Niall que inventei na minha cabeça que não é verdade.
— Tipo o quê?
— Tipo você é um bunda mole.
— A energia lá era mesmo muito péssima, . E eu tenho uma fobia. – Repetiu, pausadamente, com o sotaque irlandês um pouco mais forte.
Jamais pensaria que ele era assim tão sensível, e por um motivo essa informação me deixou mais leve, como se fosse apenas a partir daquele momento que percebi que ele era mesmo gente como a gente.
— Ok, desculpe. – Disse, sinceramente. Terminei minha casquinha antes de falar novamente – Posso fazer uma pergunta?
— Eu vou gostar dessa pergunta?
Pensei por um momento.
— Talvez não muito.
— Bom, acho que não existe nada que você me pergunte que eu não possa relevar.
— O que houve entre você e a Hailee?
— Que Hailee? – Como previsto, seus olhos azuis se fixaram nos meus ardentemente, em uma falha tentativa de se fazer de idiota.
— Hailee Steinfeld? Morena, alta, linda para caramba, aquela atriz que fe...
— Ok, ok, eu sei quem é Hailee. – Interrompeu, sorrindo de um modo um pouco triste. – , sei que hoje fomos totalmente sinceros um com o outro, mas gostaria de... não falar sobre ela. Pelo menos não hoje.
Eu compreendia. Claro que sim. Mas o fato de ele não querer falar sobre Hailee Steinfeld só confirmava no mínimo que alguma coisa aconteceu entre eles, e por mais que não quisesse nada com Niall agora, não sabia se estava pronta para me envolver na vida dele sabendo que existia um rolo.
— Tudo bem, Niall. Respeito isso. – Garanti, com um sorriso. – Espero que com o tempo veja em mim uma amiga com quem pode contar.
Ele também sorriu, aquele sorriso que a fã dentro de mim tanto amava.
— Obrigado.
Niall terminou o próprio sorvete e depois de limpar as mãos nas calças, se levantou, estendo as mãos para mim. Aceitei a ajuda, me levantando do banco.
— Gostaria de te ver amanhã. – Disse, sem rodeios. Sorri, pensando na melhor maneira de reclinar o convite sem chateá-lo.
— Amanhã é segunda, vou trabalhar.
— Depois do trabalho, então.
— Tenho certeza que estarei cansada. – Informei, com uma falsa cara de pesar.
Niall riu, colocando as mãos no bolso.
— Eu não acredito que estará. – Disse apenas.
Decidimos encerrar o passeio e nos despedimos ali mesmo, já que o hotel dele e o meu prédio ficavam em direções opostas. Vi o cantor sumindo pela grande avenida, virando-me na direção contrária, onde um uber me encontraria. Durante todo o meu percurso para casa filtrei tudo que Niall me contou sobre sua vida e a conclusão que cheguei foi que eu queria de verdade conhecê-lo melhor. Desejei que ele insistisse para nos encontrarmos amanhã, e a resposta veio minutos depois de tal desejo.

@niallhoran
Tudo resolvido, . Achei um lugar ao ar livre dessa vez.
@niallhoran
Vou te buscar no trabalho. Use uma roupa confortável amanhã.

Capítulo betado pela Letty. Qualquer problema nesse capítulo, entre em contato por e-mail.


Capítulo 3

Levantei-me na manhã seguinte antes do despertador tocar. Abri as janelas do meu quarto e da sala a fim de arejar o pequeno imóvel, me deparando com um céu azul e pontilhado de nuvens. O verão estava quase acabando e quanto mais ao norte, mais era possível ver a névoa que cobria a cidade pela manhã.
Coloquei a roupa que tinha separado na noite anterior e me arrumei, passando meu protetor solar, um rímel e um batom discreto. Passei pela sapateira e coloquei um par de tênis confortáveis em minha bolsa para substituir pelos sapatos de salto mais tarde. Queria chegar no trabalho mais cedo hoje para terminar minhas tarefas mais cedo também. Por mais que não quisesse admitir estava muito ansiosa para saber para onde Niall me levaria mais tarde, e não queria me enrolar com os textos.
Uma hora depois já estava descendo as escadas que me levariam do primeiro andar até o térreo, equilibrando meu celular e minha bolsa na mão direita, enquanto tentava guardar minha chave com a outra mão. E tudo que eu não imaginava encontrar do lado de fora do prédio, eu encontrei: dei de cara com Niall Horan na minha calçada.
— Oi, . – Saudou, colocando as mãos nos bolsos.
Fiquei totalmente confusa.
— A gente combinou de se encontrar aqui?
— Não, só queria te ver.
— E como sabe onde eu moro? – Questionei, arrumando minha bolsa no ombro e fechando o portão do prédio.
Saí da sombra debaixo das árvores e cumprimentei com um aceno as meninas que já tinham chegado para abrir o salão de beleza, situado no térreo do meu edifício.
Encarei Niall, questionando com o olhar, e ele deu de ombros.
— Tenho os meus métodos.
Olhei para o rapaz, totalmente desconfiada.
— Não vou precisar ficar preocupada com você me seguindo por aí, vou?
Niall riu, desencostando do carro e se aproximando de mim.
— Você me disse ontem que morava aqui.
Ele tinha razão, realmente mencionei, mas mesmo assim fiquei surpresa que ele tivesse se lembrado.
— Bom, vou ao trabalho. – Sei que pareci rude, mas ainda estava um pouco mal por ele ter me surpreendido daquela maneira. Quer dizer, não era um comportamento exatamente normal, a gente ainda nem se conhecia direito.
As feições do cantor murcharam e me senti péssima na hora pela má educação.
— Ah... desculpa te pegar de surpresa, imaginei que a gente pudesse tomar um café antes de você ir. Quer dizer, eu achei que entrava as nove, então vim mais cedo. Não queria te atrapalhar, nem nada. – Comentou, tão sem graça que me deu até pena. Tinha como esse homem ser mais fofo?
— Me desculpa... quer saber, tem uma cafeteria ótima ali na esquina, podemos comer lá se quiser. – Ofereci, abaixando um pouco a guarda. Deu certo, ele ficou feliz de novo.
— Eu adoraria.
— Mas saiba que talvez me atrasarei para nosso passeio. – Avisei.
— Certo. – Disse, destrancando a porta do carro com um botão. Analisei o veículo.
— E qual é a do carro?
— Aluguei ontem. Nada contra sua cidade, mas odeio andar de ônibus. Prefiro dirigir.
— Bem pensado. Mas é tão perto que acho melhor irmos a pé, deixa seu carro estacionado aqui.
Niall balançou a cabeça ignorando meu apelo e abriu a porta do carro.
— Entra, . Vou te dar uma carona para o trabalho depois.
Rolei os olhos, rendida, e, depois de conferir se tinha fechado o portão corretamente, sentei no banco do passageiro ao lado de Niall, por mais que achasse ridículo ir de carro até a esquina. Alguns minutos depois, Niall encontrou uma vaga para estacionar próximo a cafeteria, e descemos em frente ao Sweet Maple, a melhor cafeteria de São Francisco. Um vento mínimo tocou meus braços, e notei que o dia estava um pouco mais frio do que parecia estar quando saí de casa, fazendo com que me arrependesse de estar usando um vestido. Meu único consolo era uma blusa fina que eu tinha certeza que deixei pendurada na minha cadeira na sexta-feira anterior.
Entramos no estabelecimento, onde a dona, que já me conhecia devido minhas longas horas escrevendo na mesinha do canto, me recebeu com um sorriso.
Xruṇ s̄wạs̄di̒, ! – Saudou Malai com seu recorrente “bom dia” em tailandês. – Pode se sentar na mesa de sempre se quiser.
— Bom dia, Malai! Obrigada. – Agradeci, indo para a mesa mais afastada, com Niall atrás de mim.
Malai e seu marido, Khalan, vieram há muitos anos da Tailândia para os Estados Unidos, e se encontraram na cafeteria, nesse lugar que chamo de pedacinho do céu. O café da manhã já era incrível e depois de muita batalha, eles ainda abriram um restaurante tailandês na frente da cafeteria, que era gerido por Khalan. Estou dizendo isso porque eles se tornaram parte importante da minha vida quando me mudei para São Francisco e não conhecia absolutamente ninguém na cidade. Perdi as contas de quantas vezes Malai me levou um almoço de graça porque muitas vezes trabalhava tanto que me esquecia de comer.
— Acho que você é bem famosa por aqui. E eu não. – Niall brincou, se sentando na minha frente.
Dei risada, puxando o cardápio do centro da mesinha.
— Malai é um amor. Cuida de mim desde que me mudei. E então, o que vai querer?
Niall leu o cardápio, arregalando os olhos.
— Não imaginei que teria alimentos tão...
— Americanos? – Tentei, fazendo ele rir. – Comida tailandesa ainda não era tão procurada. Eles tiveram que se adaptar à sua maneira.
— Achei bem legal.
— Se está decepcionado, eles têm um restaurante tailandês, poderia dar uma chance.
— Comida tailandesa de verdade?
— Cem por cento autêntica. – Garanti, sorrindo.
— Talvez eu dê uma chance.
Depois de muito ponderar e vários avisos de que chegaria atrasada no trabalho, nosso pedido finalmente chegou até nós. Já tinha perdido o costume de comer coisas muito pesadas de manhã, então só pedi uma vitamina. Niall, por sua vez, tinha alimento o suficiente para valer por um almoço.
— Sua fama te procede, Niall Horan. – Afirmei, rindo para quantidade de comida.
O irlandês fofo me ignorou totalmente, e parecia excepcionalmente feliz comendo a melhor omelete de São Francisco.
— Como é que nunca vim aqui antes? – Murmurou, entre uma garfada e outra.
— Não é sua primeira vez em São Francisco?
— Não. Já vim outras vezes. Aliás, fiz um show aqui no final do ano passado.
Bati na minha testa com a palma da mão, envergonhada.
— Que péssima fã eu sou. Não sabia disso.
O cantor ainda tentou me consolar da gafe, e depois de avisá-lo pela vigésima vez que precisava me apressar, Niall decidiu pedir à Malai embalar para viagem. Minha vitamina de morango estava no fim, e mesmo assim já me sentia cheia.
Voltamos para o local onde ele estacionou o carro, e fui direcionando Niall até o centro da cidade, onde ficava o prédio da editora. Estava até um pouco assustada já que em sete meses jamais me atrasara um minuto sequer e já se passaram mais de vinte e dois minutos do horário que deveria estar lá.
Apesar disso, não reclamei.
Aquela manhã tinha sido tão surreal que nem parecia ter acontecido de fato. Niall me tratava não como fã, mas como uma amiga, e ainda que fizesse pouco menos de uma semana que tínhamos tido contado, senti que ele seria alguém importante na minha vida. Sempre imaginei Niall como alguém gentil, engraçado e simpático, e fiquei feliz quando notei que ele era exatamente do jeito que parecia ser.
O cantor estacionou na frente do prédio e sorriu para mim, cúmplice, com um sorriso que me pedia desculpas.
— Bom trabalho, . Até mais tarde! – Disse, quando abri a porta do carro para descer.
— Estou atrasada demais para brigar com você. – Respondi, sorrindo. – Até!
Atravessei a rua apressadamente, puxando o crachá dentro da bolsa. Educadamente cumprimentei o segurança, correndo até a catraca que permitiria minha entrada e chamando o elevador, que ainda demorou uns cinco minutos para descer. Quando finalmente cheguei até minha baía, já acumulava um total de trinta e três minutos de atraso, o que me fez congelar. Pelo menos minha blusa estava mesmo na cadeira, o que me deixou feliz por dez milésimos de segundos.
! – Sussurrou Rachel na baía ao lado. Coloquei minha bolsa no suporte que havia na parede. Liguei meu computador rapidamente, olhando para sala da minha supervisora e tentando passar despercebida. – ! – Chamou Rachel de novo, um pouco mais alto.

@niallhoran
Desculpa ter te atrasado. Aposto que nunca mais vai querer tomar café da manhã comigo de novo hahaha

Virei me para frente, onde nossas baías se encontravam, e sorrindo por conta da mensagem, encarei os olhos escuros dela.
— Oi, Rach.
Ela fechou a cara.
— Olivia está te procurando desde as oito e meia. – Informou apenas. – E eu disse que teve problemas de saúde.
— Rach, mas o que vo...
— E é bom você ter uma boa desculpa porque ela vem vindo. – Me interrompeu, ainda sussurrando, antes de virar a cadeira em direção a sua própria mesa.
Imitei seu gesto, onde meu computador já ligado aguardava minha senha de acesso. Digitei minha senha e Olivia chegou no exato minuto em que minha tela foi desbloqueada.
— Bom dia, . – Disse, cordial.
— Bom dia, Olivia.
— Rachel disse que teve problemas pela manhã.
Engoli em seco.
— Hm, sim, problemas femininos, sabe como é. – Informei, não soando sincera nem para mim mesma. – Mas consegui resolver.
— Que bom. – Mas não pareceu muito sincera. – Preciso de você na minha sala as duas da tarde.
Assenti, esperando ela me dar as costas para pensar o óbvio: vou ser demitida. É isso. Olivia vai me dar pessoalmente a notícia de que o quadro teen morreu.
— Fala a verdade, onde você estava? – Perguntou Rachel quando Olivia já estava longe demais para nos escutar.
Olhei em volta, observando o movimento anormalmente eufórico do andar. Assistentes saíam de todos os lugares com cópias nas mãos, estagiários mantinham o contato telefônico constante, e mesmo os editores pareciam estar mais ansiosos e apreensivos do que de costume. Tinha uma energia diferente na editora hoje, isso era fato.
Até perguntaria para minha amiga, mas a expressão preocupada de Rachel chamou minha atenção para o verdadeiro motivo do atraso.
— Estava tomando café da manhã. Perdi noção do tempo. – Respondi, na defensiva.
Rachel fez uma careta, indignada.
— Você não toma café da manhã há meses.
— Bom, quis tomar hoje.
— Malai jamais deixaria que você perdesse a hora. – Conjecturou, cruzando os braços por cima do peito, em uma clara posição de desconfiança.
— Mas hoje aconteceu, está bem? – Insisti, encerrando o assunto e me virando de frente para o monitor novamente.
— Hoje é mesmo um dia estranho. – A ouvi dizer, mas tinha tantos e-mails em minha caixa de entrada que nem me dei o trabalho de perguntar o que aquilo significava.
Após passar mais tempo do que deveria resolvendo problemas com o fotógrafo que não queria liberar as fotos para revista sem autorização de Olivia, mesmo que a autorização já tivesse sido enviada, com um designer gráfico que parecia desconfiar da minha formação, com uma mulher irritante que não parava de me pedir revisões sendo que essa nem era minha responsabilidade e com um tempo de almoço reduzido devido a tantos acertos de última hora, finalmente chegou o horário da minha reunião com Olivia.
Para compensar meu atraso pela manhã, bati na porta da sala dela cinco minutos antes do horário combinado, só para garantir.
— Entre, .
A sala de Olivia claramente era o ambiente mais iluminado e confortável de todo o andar. Em todos os lugares tinha aquela decoração minimalista da qual ela parecia gostar e muito embora eu também achasse lindo, se tentasse fazer o mesmo jamais chegaria a este resultado sofisticado. A sala só não era mais sofisticada do que a própria Olivia Hillton. Devia ter já seus quarenta anos e era mãe solo de uma menina de treze anos, que sempre mandava cartinhas respondendo minhas colunas. Olivia não era lá a mulher mais divertida do planeta, mas nos dávamos bem no quesito profissional. Na vida, bem, acho que ela era séria demais para sermos amigas, jamais combinaria com minha personalidade impulsiva, mesmo que eu não fosse muito social.
Sentei na poltrona creme que estava defronte à mesa que ela ocupava.
— Bom, o anúncio já foi feito, mas já que estava atrasada graças a seus...
— Problemas femininos. – Completei.
— ...problemas femininos, bom, vamos lá. – Retirou os óculos. – A PlayList foi vendida.
— Vendida? Para quem? – Perguntei, aflita. Era muito pior do que pensei, todo mundo iria perder o emprego.
— Para Billboard.
A encarei, em choque.
A Billboard?
— Sim. – Confirmou. – Veja, no momento estamos todos bem. Mas se um belo dia quiserem demitir todos nós e fazer substituições, então farão isso. Não foi só por isso que te chamei.
— Certo. – Disse, ainda tentando absorver o choque de termos sidos vendidos para nada mais nada menos que a Billboard.
— Você mantém seu cargo, mas a partir do mês que vem, não venderemos mais exemplares físicos, apenas digitais. Teremos uma série de novos padrões e regras, e por isso virá um representante da Billboard nos próximos meses para gerir essa unidade e nos ajudar nessa parte.
Pude perceber que as últimas palavras saíram amargas, e por mais que não a considerasse minha amiga, tinha grande respeito por ela e poderia imaginar o quão desgastante deveria ser ter que dividir a gestão da unidade com alguém que não sabia nada sobre ela. Me senti mal por Olivia, e por mim também, já que esse homem provavelmente seria meu novo chefe.
Terminamos nossa conversa com todos os pormenores esclarecidos, e voltei para minha baía, onde imediatamente uma mensagem piscou na tela. Era da minha mãe, mas uma notificação no instagram me lembrou que não respondi a mensagem de Niall mais cedo.

@
Fiquei com trauma de cafés da manhã

Digitei rapidamente, antes de voltar ao trabalho. Maçantes horas depois, finalmente pude me desconectar e pensar no quanto minha vida poderia mudar agora que a PlayList estava associada a maior revista do ramo musical. Seria a chance para decolar minha carreira nessa área? Poderiam surgir novas oportunidades, e não eram poucas. Me peguei nesse mantra enquanto ia ao banheiro trocar meus sapatos por tênis confortáveis, como a mensagem de Niall havia solicitado. Estava cerca de uma hora atrasada para nosso passeio, mas ele não pareceu se importar.
Segui suas orientações e depois de sair do prédio onde trabalhava, atravessei a rua e fui até a esquina, onde Niall havia estacionado o carro.
— E você está... muito atrasada. – Informou olhando para o relógio, assim que abri a porta.
O perfume misturado com o cheiro de banho recém tomado me deixou tonta, e dei um sorriso sem graça, me arrumando no banco e colocando o cinto.
— Você me sequestrou de manhã.
— Ok, justo.
Niall deu partida no carro, seguindo a rota estabelecida pelo GPS. Não consegui ver para onde estávamos indo, mas decidi que confiava em seu bom gosto. Guardei meus óculos dentro da bolsa, uma vez que não precisava mais deles, e o gesto chamou atenção de Niall.
— Agora que reparei que estava sem óculos ontem. – Comentou.
— Geralmente só uso para trabalhar.
— Não precisa deles?
Dei um muxoxo, não acreditando que eu ia admitir isso logo para ele.
— Na verdade, não. São os óculos da minha avó. Ela morreu tem uns oito anos, e quando encontrei esses óculos troquei as lentes de grau por lentes normais. – Ele olhava para frente, mas sabia que estava prestando atenção. – Eu sempre uso quando estou fazendo algo para o trabalho. Ela costumava usar esses óculos para escrever e acho que é desse jeito que me sinto próxima dela.
O rapaz parou no sinal vermelho segurando em minha mão esquerda, como um pequeno consolo. O gesto me assustou, não tínhamos trocado contato físico até então.
— Parece ridículo, eu sei. – Continuei, quando ele não respondeu, tentando inutilmente controlar o formigamento que estava sentindo por causa de sua mão na minha.
— Não é nada ridículo, . E eu acho que fica linda de óculos. – Falou apenas, soltando minha mão para voltar a dirigir.
Fiquei tocada com o elogio, me lembrando de minha finada avó e no quanto me apeguei ao objeto. Mais uns quinze minutos depois, conseguimos chegar ao nosso destino. Desci do carro, incrédula.
— Minigolfe?
Niall sorriu, orgulhoso de si mesmo.
— Ao ar livre.
— Sério, mas minigolfe?
— Qual é o problema com minigolfe? Ah, , é divertido! – Questionou, encarando a fachada do estabelecimento.
— Divertido para uma pessoa de dez anos, talvez?
Ele revirou os olhos, me cutucando com o cotovelo para me provocar.
— Qual a última vez que veio a um desses?
— Quando eu tinha dez anos, provavelmente.
— Bom, tenho certeza que vai valer muito mais a pena do que visitar uma prisão cheia de péssimas energias.
Foi a minha vez de revirar os olhos, o seguindo para o centro do estabelecimento. O dia estava começando a escurecer, e as sombras alaranjadas do pôr do sol deixavam o lugar mais aconchegante e especial. Pequenas lâmpadas flutuantes já acesas decoravam alguns pontos e notei uns três ou quatro foodtrucks mais adiante. O lugar era realmente casual e um ambiente bem familiar. Eu não queria chamar aquilo de encontro, mas apesar de tudo estava muito parecido com um. Qual parte de “sair como amigos” eu tinha entendido errado?
Obviamente eu não me lembrava absolutamente nada sobre minigolfe, então Niall me ensinou de maneira simples a maneira correta de segurar em um taco de golfe e como eu devia mirar na bolinha. Os trajetos eram infantis, e ainda assim eu estava achando difícil. No fim de tudo acertei um total de zero buracos, o que fez o rapaz ficar zombando da minha falta de mira por umas boas horas.
E ele tinha razão, o passeio foi mesmo divertido. Senti que com ele estava me soltando mais, sendo mais social e conversei mais do que da primeira vez que nos vimos. Niall ria de tudo com muita facilidade, era um bom ouvinte e mesmo depois de sairmos duas vezes ainda estava surpresa com o seu interesse em mim. Mas não questionei. A conversa tampouco ficou séria o bastante para que ele tocasse no assunto de Hailee de novo. Ele me levou para casa e ficou me observando até que estivesse segura do lado de dentro do portão.
Quando fui até a janela aberta da minha sala para observar a rua, Niall Horan já tinha partido.

Capítulo 4

— Você não me engana, sabe. – Informou Rachel com a mão direita apoiando o queixo. Ela tinha passado os últimos cinco minutos me encarando, ainda que eu fingisse não fazer a menor ideia do que ela estava falando.
Ignorei, evitando seu olhar astuto. Estávamos almoçando no shopping em paz pela última vez antes de um tal de Jesse Curtis, representante da Billboard, invadir nossa editora com as suas frívolas regras.
— Tentar me ignorar não vai me fazer calar a boca, . – Insistiu Rachel, tomando da minha mão a nota fiscal que estava usando para me distrair.
Revirei os olhos.
— Está bem. Você venceu. Do que está falando?
Minha amiga me olhou cética.
— Você está diferente. Feliz, sabe? Durante esse último mês mal conversou comigo.
— Eu estou conversando com você agora.
— É, mas sou sua amiga e você não me contou sobre Niall.
Certo, era disso que ela estava falando. A questão é que não havia o que contar. As últimas semanas foram divertidas, mas não passou muito disso, também. Niall e eu éramos amigos, bons amigos, mas no quesito de manter amizade com uma celebridade, eu preferia ser discreta. Isso envolvia não contar nada a ninguém, muito menos a Rachel, a pessoa mais fofoqueira da cidade. Porém eu a adorava, e de fato ela era minha amiga mais próxima em São Francisco, por isso quis de verdade compartilhar essa parte da minha vida com ela, principalmente porque nada havia acontecido.
— Não tenho o que contar, Rach.
Os olhos dela brilharam quando não neguei.
— Ele é legal?
— Ele é legal, sim.
— Você saiu com ele todos esses dias?
— Claro que não. Só durante o final de semana. Não estamos namorando nem nada.
Ela fez uma careta de compreensão.
— Certo, sexo casual então.
— Não! Não estamos transando, Rachel! – Repreendi.
— Se beijaram, pelo menos?
Eu estava cem por cento arrependida de tentar abrir meu coração.
— Nem perto! – Resmunguei.
— Espera, isso nos seus olhos é tristeza por não ter dado nenhum beijinho?
Levei as mãos à cabeça, exasperada com a pressão.
— Meu Deus, Rachel, Niall e eu não nos beijamos, não transamos, nem ao menos conversamos sobre isso, e até onde eu sei ele tem namorada, ok? – Explodi, finalmente, pegando de volta minha nota fiscal da mão dela com força.
— Não precisa ficar tão sentimental, só estava curiosa.
— Certo. – Suspirei. – Já acabou?
Ela sorriu, sapeca.
— Nem perto. Mas estou com medo de ser assassinada se fizer mais uma pergunta, então por enquanto estou feliz.
Dei risada, chamando ela de ridícula, e jogamos o lixo fora para irmos embora.
O clima da editora nos últimos dias foi conturbado. Dava para notar que as pessoas estavam mais tensas, todos ficaram muito mais rígidos e até as conversas rotineiras durante o expediente pareciam ter se dissipado. Eu não conhecia Jesse, mas Olivia conhecia e mesmo ela não estava muito melhor que o resto de nós. Ela passou a nos tratar com mais formalidade que antes, e em sua defesa devo acrescentar que eu provavelmente faria o mesmo. Olivia queria que Jesse não encontrasse nenhum efeito na PlayList.
Apesar de ainda ser uma e meia da tarde, era a primeira sexta-feira de outubro, por isso só trabalhamos até o horário do almoço. Foi ideia de Olivia que em toda primeira sexta-feira do mês poderíamos trabalhar por meio período, o que eu achava totalmente ótimo, pois, depois de uma semana particularmente exaustiva de trabalho, só queria entregar minhas roupas para a lavanderia e não fazer mais nada pelo resto do dia.
Rachel provavelmente ainda tinha esperanças de arrancar mais informações sobre Niall, pois me acompanhou até em casa para a “tarde das garotas”.
— Podemos assistir um filme, comer besteiras e falar de homens. – Disse empolgada enquanto entrava no meu apartamento.
— Tenho certeza que vai bem legal. – Comentei indo em direção ao meu quarto. – Estava mesmo precisando disso, Rach, só Deus sabe o quanto.
— É, eu também. A situação no trabalho está bem bleh ultimamente.
— Nem me fale. – Suspirei. – Que filme quer ver? – Perguntei, sentando-me no sofá depois de colocar uma roupa confortável.
— Me dá o controle, deixa eu ver.
Deixei Rachel monopolizar o acesso aos serviços de streaming da TV para procurar um filme, enquanto eu mandava mensagem para o Sr. Lopez avisando que minhas roupas já estavam prontas para serem retiradas. Cerca de vinte minutos depois, com Rachel ainda indecisa sobre o filme, o Sr. Lopez tocou o interfone anunciando sua chegada.
— Rach, vou levar minha roupa, já volto. – Avisei, pegando o saco de roupas que eu havia deixado separado na noite anterior.
Para ir mais rápido, desisti do elevador e desci as escadas correndo para que o Sr. Lopez não precisasse esperar por muito tempo. Abri o portão, entregando o saco a ele, que prometeu que estariam lavadas e passadas até segunda-feira à noite.
Quando retornei ao meu apartamento, Rachel já havia escolhido um filme. O título indicava que era o segundo filme da franquia, o que achei péssimo porque ainda não tinha assistido o primeiro, mas ela tinha demorado tanto tempo para escolher que preferi não comentar nada. No fundo eu achava que Rachel precisava relaxar mais do que eu, e não queria estragar essa tarde para ela, especialmente porque, como ela mesma mencionara, depois que Niall apareceu em minha vida realmente a deixei um pouco de lado.
Sorri para ela diante da escolha, e satisfeita deu play no filme, Escolha Perfeita 2. Estava tudo indo muito bem, até que algo me chamou atenção. Aquela não era...?
— Rachel, pausa o filme. – Pedi, sacando meu celular que estava em cima do braço do sofá.
Pesquisei o nome do filme no Google e em seguida cliquei em elenco. E lá estava: Hailee Steinfeld. Tive que rir da minha falta de sorte. De tudo que eu mais precisava, e entenda minha ironia aqui, era um lembrete de que Niall escondia alguma coisa. Claro, eu não era ninguém para cobrar isso dele, e lembrei a mim mesma várias vezes que não podia me envolver. O cara estava de férias e eu estava apenas fazendo companhia. Ele não gostava de mim nesse sentido, pelo menos não parecia que gostava. E eu? Gostava?
Era frustrante desconhecer a natureza dos meus próprios sentimentos por ele. Em primeiro lugar tinha a admiração e o respeito que foram adquiridos durante meus anos de fã. Isso não tinha mudado. Mesmo que não tenha acompanhado o início de sua carreira solo, esses sentimentos estavam muito bem guardados, e vieram à tona quando conversei com ele pela primeira vez. Mas não podia negar para mim mesma que haviam novos sentimentos, que inclusive eu não gostava. A ânsia de esperar por uma mensagem, o frio na barriga sempre que ele sorria para mim, a eletricidade viciante que percorria pelo meu corpo sempre que ele me tocava, mesmo se fosse sem querer. Eu não podia me permitir pensar assim, porque eu gostava. Eu realmente gostava. Por isso balancei a cabeça umas três vezes para espantar a emoção que começava a me dominar e encarei Rachel, que, com os olhos, esperava uma explicação.
— É Hailee Steinfeld. – Disse, apontando a garota congelada na tela. – A namorada.
Com um aceno de que total entendeu o recado, Rachel olhou para a TV, analisando a menina.
— Ela tem o que? Vinte anos?
Revirei os olhos, desprezando o argumento.
— Vinte e um, acho. Não é uma diferença tão grande assim e você sabe.
— Me empresta seu celular.
Entreguei o aparelho em suas mãos, que digitou algo que não pude ler na barra de pesquisa.
— Além dos rumores, você leu alguma notícia que confirmava o namoro deles?
— Não. Nada. Só li as fofocas da PlayList que apareciam pela minha barra de notificação.
Não era novidade para ninguém que eu era assinante da nossa própria revista, mas mesmo assim Rachel pareceu confusa por um momento.
— Muito bem, vamos desvendar o mistério. – Disse, apertando o enter.
Rachel leu a notícia rapidamente, e em seguida olhou para mim, com uma careta.
— É melhor você ver de uma vez.
Peguei meu celular vendo a fonte, que não era lá muito confiável. Notei que a notícia era de dois meses atrás.

NIALL HORAN E HAILEE STEINFELD ESTÃO FICANDO REAL OFICIAL

Você quer romance? Pois nesta semana tivemos vários novos ships incríveis! Primeiro foram as divas Ashley Benson e Cara Delevingne formando o casal mais lindo deste planeta, depois tivemos Liam Payne seguindo o baile e beijando uma modelo italiana, agora, Hailee Steinfeld e Niall Horan foram vistos fazendo compras juntinhos e dando beijos, bem românticos!
Hailee Steinfeld é uma cantora cheia de músicas girl power, como Love Myself e Most Girls. Ela também é a BFF do Justin Bieber que a gente respeita (teve uma época em que chegaram a achar que eles ficavam, mas isso foi desmentido). No começo deste ano, ela e Niall já haviam sido vistos juntos em um show do Backstreet Boys em Las Vegas.
E aí, aprovou o casal Hailee Steinfeld e Niall Horan? Nós amamos!

Veja as fotos em que eles aparecem juntos!:¹


E haviam quatro fotos na tela. A primeira delas mostrava os dois abraçados, em duas eles pareciam estar conversando e na última estavam aos beijos. Bem no meio da rua. Não sei dizer porque fiquei chateada, se foi porque queria estar no lugar dela ou porque Niall estava me escondendo isso. Provavelmente porque ele não gostava de mim desse jeito. Ou ainda não confiava em mim o bastante e talvez estivesse tentando proteger seu relacionamento com a atriz tendo em vista minha profissão e o local onde eu trabalhava.
De qualquer forma, não importava. Principalmente porque depois de dar play no filme novamente, Niall me mandou uma mensagem perguntando se podia me ver no dia seguinte.
Não era o bastante, mas foi o suficiente para eu voltar ao meu bom humor e assistir o resto do filme sorrindo.

✈✈✈


Na manhã seguinte, Niall me esperava em frente ao portão do prédio, mas dessa vez eu havia tomado nota disso olhando pela janela da sala antes de descer. Quando abri o portão, ele desceu do carro para me cumprimentar e por isso pude analisar suas roupas, dando uma risadinha.
— O que foi? – Perguntou, olhando preocupado para si mesmo.
Sorri, educadamente.
— Estamos combinando. – Respondi sem graça, apontando para minha blusa rosa clara e minha calça jeans, idêntico ao look dele.
Niall pareceu aliviado em rir disso também, se aproximando para me dar um beijo no rosto.
Para ele pareceu um ato inofensivo e talvez até corriqueiro, como se fizesse isso o tempo todo. Porém assim que se aproximou o suficiente, a insistente eletricidade que eu sentia com seu toque tomou conta de mim e eu senti o tempo parar, mesmo que o cumprimento em si tivesse durado no máximo dois segundos. Lábios macios tocaram meu rosto e o cheiro de perfume e sabonete me envolveu de novo, fazendo com que subitamente desse um suspiro. Quando se afastou de mim, o tempo pareceu voltar ao normal e eu pisquei confusa. O gesto me chocou de certa forma, mas consegui fingir costume a tempo para não demonstrar que fiquei desnorteada com seu toque.
— Onde vamos?
Ele demorou um pouco para me responder.
— Acho que vamos só andar um pouco. – Respondeu balançando as chaves do carro distraidamente e indo até o lado do motorista. – O clima está bom hoje, então acho que está fora de cogitação irmos até a praia.
— Melhor evitarmos locais muito cheios. – Concordei, entrando no carro atrás dele.
Entendi o que ele quis dizer, e minha mente tinha várias teorias. Não ter nenhum plano em mente e mesmo assim ir me buscar apenas porque queria passar um tempo comigo era minha teoria favorita no momento, e sorri tão largo que Niall percebeu.
— Porque está sorrindo? – Claro que assim que foi notado, o sorriso basicamente sumiu do meu rosto, dando lugar, tenho certeza, a bochechas levemente coradas.
— Olha para a rua, Niall! – Disse, fazendo ele prestar atenção para onde ia e ignorar totalmente minha alegria repentina, que eu mesma nem sabia de onde vinha.
Ele deu uma risadinha e, para o meu alívio, não insistiu.
— Como foi sua semana? – Perguntou, enquanto virava uma avenida que, estranhamente, eu não conhecia.
— Bom, todo mundo está nervoso agora. Segunda-feira vai ser um dia decisivo por lá.
Ele concordou com a cabeça.
— Vai ficar tudo bem, você vai ver. É uma excelente profissional.
Sorri em agradecimento.
— E quanto a você, aproveitando as férias?
— Olha, sinceramente, estou ficando entediado de ficar sem fazer nada. Comentou, com uma careta. – Ficar no hotel azarando as gatinhas não é mais tão legal.
Eu achei engraçado.
— Então é isso que faz durante a semana enquanto estou me ferrando no trabalho? Fica azarando as gatinhas do hotel? – Claro que por trás do tom de piada, minha pergunta tinha um que de verdade.
E Niall não percebeu.
— Bom, alguém precisa fazer o nobre trabalho. – Disse, dando de ombros.
— Flerta e não as chama para sair? Que coisa feia, Horan...
— Nah. Elas só podem sair de final de semana. – Concluiu, com o semblante divertido. Parou no sinal vermelho para olhar para mim, dando uma piscadinha. – E você sabe que nos finais de semana já tenho compromisso.
Dei risada, tentando, sem sucesso, disfarçar meu sorriso sem graça.
Niall dirigiu por mais dez minutos, até estacionar em uma rua arborizada e claramente residencial. Descemos do carro e eu percebi que realmente não sabia onde estava. O local era tão diferente do resto do São Francisco que eu conhecia, que parecia que de repente tinha ido parar em outra cidade. Respirei fundo o ar de sal e maresia, e percebi que estávamos próximos da praia. A oeste, talvez?
— Onde estamos? – Perguntei a um Niall sorridente. Ele trancou o carro vindo se juntar a mim na calçada.
— Eu não faço a menor ideia. – Anunciou, olhando em volta com as mãos na cintura. Algo em sua expressão dizia que ele estava se divertindo muito.
— Saiu dirigindo sem rumo? – Questionei, sem saber como me sentia sobre a situação.
— Sempre quis fazer isso. – Sorriu. – Você não?
Pensei por uns minutos, Niall queria uma resposta séria. Tínhamos nossos celulares carregados, o que garantia GPS, um carro, o dia ainda estava claro e o bairro parecia bem seguro para mim. Concluí que não importava o lugar, eu estava com ele e então não precisava me preocupar.
— Na verdade, eu gostei.
O sol já não estava mais brilhando no céu, sendo substituído por nuvens levemente acinzentadas. Niall e eu andávamos lado a lado conversando amenidades.
Estávamos em um parque que tinha no final da zona residencial e o comércio mais próximo ainda estava há umas duas quadras a frente. Niall estava explicando a diferença entre guitarra e baixo quando uma gota caiu no meu ombro.
— ... então concluindo: a grosso modo, a diferença está no número de cordas. – Dizia ele, absorto em sua explicação. – Uma guitarra tem seis cordas e o baixo apenas quatro. Lógico que depende de vários outr... – Interrompeu o que dizia, olhando para o céu.
— Sim, isso foi uma gota. – Afirmei, olhando para o céu também. Bem a tempo de uma segunda gota cair na minha testa. Niall riu.
— Tudo bem, vai dar tempo. – Garantiu, avistando o comércio adiante. Estávamos bem longe de seu carro para nos abrigar lá, por isso era mais certeiro correr até onde estava o comércio local.
Soltei uma risada pelo nariz, que mesclava descrença e desespero.
— Você está subestimando a velocidade da chuva de São Francisco.
— Não pode ser mais rápido que em outras cidades.
— Pode, se a cidade em si for praticamente uma ilha, banhada de água por todos os lados. – Retruquei, apertando o passo.
— Tenho quase certeza que essa informação não fez o menor sentido. – Rebateu, andando mais rápido ao meu lado.
E eu tinha razão, é claro. Não sobre a ilha, também não fazia ideia do que estava falando, mas enquanto andávamos muito mais gotas começaram a cair, a princípio tímidas e depois já gordas e grossas.
Tivemos tempo o suficiente apenas para olhar um para o outro quando as gotas se transformaram em um chuvisco mais pesado.
Vai dar tempo? – Perguntei ironicamente, correndo com as mãos na cabeça, como se minhas mãos pequenas pudessem me proteger da chuva.
Niall riu, correndo atrás de mim.
— Desculpa se eu não sou o melhor consultor meteorológico da cidade. – Gritou atrás de mim.
O chuvisco ainda não era o suficiente para nos encharcar, mas eu mesma percebi que subestimei as nuvens acinzentadas quando uma verdadeira chuva desabou sobre nós. Agradeci em silêncio por não estar usando maquiagem, ou então seria obrigada a exibir delicados olhos de panda para o cantor. Fiquei incomodada, não gostava de tomar chuva assim. Percebi que fechei a cara, ainda correndo em direção ao toldo – que ainda estava há uma quadra e meia de distância – e quando notei um silêncio percebi que Niall não me seguia com pressa.
Analisei o homem, que estava zero preocupado por se molhar. Na verdade, encarava o parque, o céu, e a mim com um certo deslumbre. E mesmo de longe, quando ele sorriu assim para mim não pude fazer nada a não ser sorrir de volta. Com apenas um olhar de despreocupação, sem me falar nada, Niall havia me convencido a apenas aceitar o momento. A rua estava deserta a não ser por nós dois, e assim que fechei os olhos e deixei a chuva me inundar, pela primeira vez em muito tempo senti... paz. A correria do meu dia a dia nunca tinha me incomodado, até aquele momento. Percebi que estava elétrica e ansiosa há tanto tempo que tinha me esquecido como era relaxar. Meu cabelo e minhas roupas já estavam ensopadas, e estava tão concentrada que nem deu tempo de me sentir envergonhada por causa da camiseta rosa clara encharcada que revelava os detalhes de renda do meu sutiã.
Não fiquei debaixo da chuva nem por cinco minutos inteiros, e o cantor chegou próximo a mim, segurando meu cotovelo. Abri os olhos lentamente, vendo sua expressão serena.
— Acho que já chega de banho de chuva por hoje, . – Disse divertido, por cima da chuva. – Vai ficar doente.
Ele tinha razão, é claro. Tinha grandes chances de ficar doente, mas eu não ligava, porque estava com ele. Mesmo assim concordei, deixando-me levar pelo seu eletrizante toque em minha pele, correndo em direção ao toldo que nos protegeria da chuva. Tirou as mãos do meu cotovelo para segurar minha mão, e fomos rindo pela calçada enquanto a chuva apertava atrás de nós.
Quando chegamos a uma cobertura segura para nos proteger da chuva, eu estava arfando de tanto correr. Minha roupa estava tão molhada que precisei torcer minha camiseta e meu cabelo. Niall passava pela mesma situação, mas ao contrário de mim, que estava toda desgrenhada, ele mais parecia um modelo. Um vento acompanhou a chuva, e estremeci. Ele parou de sorrir por um momento ao me encarar, preocupado.
— Desculpa por isso.
Eu ri.
— Está se desculpando pela... chuva? – Perguntei, para que ele visse que suas desculpas eram ridículas.
— Bom, sim. – Deu certo, ele voltou a sorrir.
Ao olhar para a fachada do estabelecimento, seus olhos brilharam.
— Quer entrar?
Acompanhei seus olhos para ver porque ele tinha ficado tão excitado, e percebi que estávamos em frente a um bar de karaokê. Assenti. Ele era um cantor, não perderia sua empolgação por nada.
— Você vai cantar? – Perguntei.
— Só se você cantar também. – Propôs, com uma piscadela. Levei apenas cinco segundos para pensar nessa condição, mas não precisava pensar muito para ganhar um show de Niall Horan de graça.
— Feito. – Concordei, acompanhando Niall até o interior do local.
Era um estabelecimento com uma iluminação baixa e talvez até um pouco precário. Havia um bar com um pequeno balcão que abrigava umas dez pessoas, até onde pude contar, e várias mesinhas estavam distribuídas na frente de um palco improvisado. Havia um microfone estacionado bem no centro e uma TV pequena pendia ao lado. Ladrilhos pretos e brancos pelo chão davam até certo charme ao local, que, provavelmente pelo horário, não estava cheio. Algumas pessoas ergueram as cabeças quando Niall e eu entramos, mas o resto apenas nos ignorou. Escolhemos uma mesinha bem no centro do bar, e Niall foi até o balcão ver como funcionava as coisas por ali.
— É só ir até o centro, escolher uma música e dizer o número para aquele homem. – Disse, apontando para um homem baixinho de camiseta vermelha nas laterais do palco.
— Certo.
Levantei-me da cadeira, munida com uma coragem que não tinha, e fui até o centro do palco escolher uma música. Achei uma que, mesmo com nossa recente aproximação, Niall iria achar graça da escolha.
— Número três-cinco-nove – Informei ao homem. Ele ligou o microfone e digitou o número que escolhi. As letras saltavam na pequena TV, mas eu as ignorei, pois sabia a música de cor.
Nas três primeiras palavras, Niall já tampou a cara, rindo. Escolhi Stereo Hearts, a música que ele cantou na turnê de Up All Night.

My heart's a stereo
It beats for you, so listen close
Hear my thoughts in every note oh oh
Make me your radio
Turn me up when you feel low
This melody was meant for you
To sing along to my stereo.


Estava tímida, praticamente cantava olhando somente para ele. Por ter achado minha escolha engraçada, ele me incentivava cantando junto comigo com os lábios. As pessoas que antes ignorava agora olhavam para mim, e depois que me soltei olhei para elas também. Estava horrorosa: ensopada, meu cabelo deveria estar desesperadamente descontrolado, mas olhando para aquelas pessoas naquele lugar que eu não conhecia, o sentimento de relaxamento que senti na chuva a pouco voltou com toda a força. Consegui me soltar, cantando como se fizesse isso sempre e foi tão fácil quanto respirar. Eu sabia que não cantava mal, mas não sabia se no fim das contas iria conseguir surpreender um cantor de verdade. Foi legal me sentir uma verdadeira popstar para variar e receber uma salva de palmas de todos os poucos presentes do bar.
Niall levantou-se para aplaudir, me recebendo com um high five.
— Adorei a escolha da música. Cantou bem melhor que eu na época. – Brincou, rindo.
— Que comentário lisonjeiro. – Disse, entregando a lista de músicas para ele. – Mas agora é sua vez.
Niall titubeou, cerrando os olhos para mim e olhando objetivamente ao redor de si mesmo. Inclinei a lista em sua direção insistindo com o olhar e ele suspirou, aceitando.
— Se chegar algum paparazzi aqui, lembre-se de que a culpa é sua. – Disse, indo até o palco. Passou poucos minutos escolhendo e sussurrou um número para o homem de vermelho. – Hora da vingança. – Disse para mim, só mexendo os lábios.
Quando começou a cantar, ri, reconhecendo a música. Era Valerie, a música que Louis tinha cantado na mesma turnê.

Since I've come home
Well, my body's been a mess
And I miss your ginger hair
And the way you like to dress
Oh, won't you come on over?
Stop making a fool out of me
Why don't you come on over, Valerie?”


Niall tinha presença de palco e era confiante no que fazia e por isso, obviamente, todos estavam prestando atenção, deslumbrados. A escolha da música de Amy Winehouse foi totalmente para me provocar, então também acompanhei Niall cantando a música. Durante a cantoria de Niall, mais pessoas tinham começado a chegar e se instalaram ao fundo, observando o show. Alguém começou a bater palmas no ritmo da música, e de repente todo o bar estava embalado na performance de Niall – totalmente grátis. Será que tinham reconhecido Niall Horan, o ex-one direction? Dei uma furtiva olhada para trás, mas não notei nada de estranho.
Quando ele terminou a música, todos estávamos de pé, aplaudindo. O cantor agradeceu, educado, colocando o microfone no local correto e vindo até mim. Tentando ser engraçadinha, também o recepcionei com um high five.
— Why don't you come on over, ? – Disse, em tom de brincadeira.
— Muito bem jogado, adorei. – Comemorei.
Ele sorriu.
— Longe de mim querer me livrar de você, mas acho melhor irmos embora. Você ainda está molhada e estamos perdidos. Não quero que fique doente.
Achei sua preocupação fofa e por mais que realmente não quisesse ir embora, concordei, seguindo Niall para fora do estabelecimento. Descobrimos que seu carro estava há vinte minutos de onde estávamos, e por isso ele decidiu pedir um uber até lá. Sinceramente não me lembrava de ter andado tanto.
— Desculpe por não ter nada planejado hoje. – Começou, enquanto esperávamos. – Tenho uma semana inteira para isso e não consigo fazer o mínimo.
— Eu quem deveria ter planejado algo, eu que moro aqui!
, não me leve a mal, mas nunca mais vou deixar você planejar nada.
Dei risada, dando um soquinho amistoso em seu braço.
— Eu gostei de hoje. Foi muito divertido. Eu não me sentia em paz assim desde... Bom, faz muito tempo.
— Que bom. – Suspirou, virando-se de frente para mim. Sua voz não passava de um sussurro, como se me contasse um segredo. – Porque eu gosto de você.
Encarei Niall inexpressiva, ao mesmo tempo animada e com medo da declaração. Ele passou seus dedos pelas minhas bochechas, e seu olhar em mim ardia tanto que cheguei a ficar tonta. Eu via tantas coisas e tantas emoções diferentes em seus olhos e em sua face e para mim não parecia possível eu, sendo a antissocial que era, ter uma conexão tão forte com alguém em tão pouco tempo.
Niall se aproximou devagar, se inclinando em minha direção. Deixou que a cabeça pendesse para o lado e eu não ousei fazer um mínimo movimento enquanto ele se aproximava. Estava tão perto de mim que sentia seu hálito suave e tive certeza que ia me beijar. Niall Horan estava a centímetros do meu rosto e ia me beijar.
Mas então toda emoção deixou sua face e no último segundo ele olhou para baixo, balançando a cabeça. Meu choque se dissipou e eu pisquei confusa várias vezes. Fiquei chateada, e também aliviada. Não sabia com certeza se queria esse beijo. Eu me sentia em paz quando estava com ele, me envolver agora seria um pequeno preço a se pagar por isso?
Eu não sabia.
Niall fez uma gracinha para espantar o constrangimento, mas, como eu, logo percebeu que não havia nenhum constrangimento. Éramos apenas Niall e , dois bons amigos. Bom, não foi isso que ele disse.
Mas foi o que fiquei gritando na minha mente para mim mesma até o resto da noite.

¹Trecho de reportagem retirado do site https://todateen.uol.com.br/hailee-steinfeld-niall-horan-beijando/

Capítulo 5

Duas semanas se passaram e as cenas do quase beijo ainda não tinham deixado minha memória. Se tivesse que conviver apenas com a lembrança desse acontecimento talvez não estivesse tão eufórica; o problema eram os sentimentos novos que acompanhavam essa lembrança. Toda vez que eu me lembrava de Niall se inclinando em minha direção meu coração começava a bater mais depressa e eu prendia a respiração, mesmo sabendo que nada aconteceria.
E indo contra tudo que jurei não sentir, resmungava, frustrada. Porque sim, no final das contas eu precisava que ele tivesse me beijado. Não que eu tenha certeza sobre como eu me sinto, porque não tenho. Mas pensei comigo mesma que, se ele não desistisse da ação e fosse até o fim, poderia me ajudar a descobrir a profundidade dos meus sentimentos por ele.
Estava em conflito com minhas emoções havia dias. Rachel percebeu, é claro, mas tentava não demonstrar muito no trabalho, principalmente depois da chegada de Jesse. Pensar nele me fez desviar de Niall para o meu problema no trabalho.
Jesse... Ele era um problema. Era um homem que não passava dos trinta anos, de porte sério e assustador. Só sua entrada foi pensada para intimidar todo mundo, e deu certo. O clima leve e descontraído que costumava gostar se dissipou e trabalhar sob sua vigilância era tortura, por isso tentava ao máximo não chamar atenção para me passar despercebida.
A princípio ele só observou e, então, uns dias depois solicitou uma reunião geral explicando como as coisas iriam funcionar dali para frente. Não é novidade dizer que ele ficou com a sala de Olivia, que precisou sentar em uma baia como o resto de nós, e que a mesma perdeu todas as regalias que usufruía antes. Além de atroz e arrogante, ele também assediava assistentes e estagiárias. Testemunhei uma cena horrível no banheiro entre duas assistentes se consolando e confidenciando o assédio do homem.
Quando me meti para perguntar porque não o denunciavam, argumentaram que tinham medo de serem despedidas. Elas eram bem mais novas do que eu, pareciam ainda estarem no começo da faculdade, e naquele momento não me ocorreu nenhuma forma de ajudá-las, pois também fiquei com medo de deixar as coisas piores.
Nem por isso deixei para lá. Contei a Rachel e juntas pensamos em uma forma de coletar provas para impedir que ele continuasse com essas ações sem precedentes. Enquanto as provas não vinham, só pensei que daquele dia em diante, no que dependesse de mim, nunca mais deixaria menina nenhuma entrar no escritório dele sozinha. Talvez tenha tido uma motivação extra quando fez questão de ficar com a sala privada. Estremeci de pavor quando pensei nisso.
Quanto a mim, bom, eu era a única responsável por uma coluna inteira, então ele não tinha com quem falar a não ser comigo. Não me deu muita bola, mas exigiu que eu entregasse a ele uma lista de novos talentos que ele mesmo iria verificar sobre quem eu poderia escrever. Fiquei brava, escolher era justamente minha parte preferida. Mas não contestei, se quisesse um futuro na Billboard teria que fazê-lo confiar em mim, por mais desumano que ele fosse. No começo me senti mal por usar Jesse para isso, mas depois pensei que, caso não desse certo, pelo menos poderia achar alguma evidência de seu comportamento sexista para usar contra ele e fazer com que fosse embora dali.
Era quarta-feira à noite, tinha acabado de pisar no meu apartamento e me jogar no sofá. Geralmente tomaria um banho antes, mas, francamente, estava tão cansada que poderia dormir ali mesmo. A minha responsabilidade interior não deixou, é claro, então me arrastando fui até o banheiro me lavar e substituir minhas roupas sujas por outras mais confortáveis. Aproveitei para lavar meu cabelo e durante o banho notei como ele havia crescido. Fiz uma nota mental para me lembrar de marcar um horário no salão lá embaixo, fazia tempo que não cortava o cabelo.
Uma vez limpa e vestida, fui até a cozinha preparar meu jantar. Tinha deixado umas coxas de frango marinando na geladeira ontem à noite, então apenas coloquei em uma travessa e coloquei tudo dentro do forno. A bateria do meu celular estava quase acabando, mas antes de colocar para carregar temporizei uma hora no meu celular, e uma mensagem de Niall piscou na tela.

@niallhoran
Hey,
@niallhoran
Já está em casa?

Sorri, ativando o temporizador antes de respondê-lo.

@
Siiim, já cheguei.
@
Estou fazendo meu jantar

@niallhoran
Talvez eu vá aí jantar com você

@
Pode vir, se quiser

@niallhoran
Feito!

E assim que li a mensagem escutei duas buzinas ritmadas do lado de fora da janela. Sem acreditar no que ouvia, deixei meu celular na mesa de centro e fui até o parapeito e olhei para baixo. E lá estava Niall Horan, invadindo meu espaço pessoal pela milésima quinta vez. Dei um sorriso de felicidade pela visita inesperada.
— Pode abrir para mim? – Gritou de lá de baixo.
— Só porque senti sua falta, Horan! – Gritei de volta, arrancando uma risada do artista.
Corri para trocar meus shorts curtos por uma calça mais comportada e verifiquei meu cabelo, que obviamente ainda estava molhado. Dando uma última conferida no espelho em busca de qualquer dano comprometedor e não encontrando nada, abri o portão apertando o botão próximo a bancada da cozinha.
Niall bateu a minha porta nem dois minutos depois, então concluí que subiu de escada. Essa informação não era tão relevante assim, mas a parte mais romântica de mim queria acreditar que era porque ele queria me ver mais rápido. Abri a porta sorrindo como uma idiota por ter dito tal pensamento.
— Olá, popstar! – Cumprimentei, ao me revelar depois que a porta foi aberta. Estava tentando ao máximo fingir que não era a primeira vez que Niall via meu apartamento, ou que ficávamos a sós em um ambiente tão particular.
— Oi, . – Disse, beijando meu rosto. A essa altura deveria ter me acostumado com isso, então disse a mim mesma que estava tudo bem e dei um passo para trás, convidando ele para entrar.
Meu apartamento não estava uma zona total, mas também não estava dentro dos padrões que eu normalmente deixava quando recebia uma visita. Havia alguns copos e talheres acumulados na pia ainda por lavar, e uma coberta aleatória que havia tirado do armário para me cobrir ontem à noite ainda estava em cima do sofá. A toalha que me enxuguei depois do banho ainda estava na porta, uns sapatos teimosos estavam fora da sapateira e, já que o apartamento era tão pequeno e a porta do meu quarto estava aberta, dava para notar que a cama estava bem bagunçada.
Dei de ombros, indo até o sofá e dobrando a coberta para guardá-la no lugar.
— Eu não sou tão desorganizada, se é isso que está pensando. – Falou em tom de brincadeira. – Alguém se esqueceu de avisar que vinha.
Os olhos dele brilharam, sorrindo de repente ao ouvir minha defesa.
— Faz de conta que não estou aqui. O que faria agora?
— Arrumaria a casa. Lavaria a louça, colocaria as coisas no lugar, algo do tipo. – Respondi, colocando a coberta no armário que tinha no corredor. Era lá que eu deixava minhas roupas de inverno e cobertores extras, mesmo que não fizesse um inverno tão rigoroso em São Francisco.
— Então faz de conta que não estou aqui. Faça suas coisas normalmente. – Pensei que ele parecia já bem à vontade quando percebi que ele tirava os sapatos. – Não se preocupe, eu não tenho chulé.
Soltei um som engraçado pelo nariz.
— Não dá para te ignorar aqui. Para começar, se não estivesse aqui eu ainda estaria usando meu shortinho super curto e confortável da Tinker Bell. – Me referia ao shorts que usava antes.
Porque você tirou ele? – Reclamou, olhando para a minha calça de moletom cinza e sem graça.
— Está tentando ser engraçadinho, Horan? – Perguntei, dando risada da cena.
Ele deu de ombros me seguindo até a cozinha, onde lavei os utensílios que se acumulou.
— Não tem lava louças? – Perguntou, vendo meu trabalho manual.
— Não. Aluguei o apartamento quase totalmente mobiliado, só tive que trazer minha cama. – Esclareci, secando minhas mãos em um pano. – E, como essa cozinha é planejada, não tem um espaço para a máquina, mesmo se eu quisesse.
Niall encarou o pequeno cômodo, constatando o óbvio.
— Tem razão.
O guiei de volta para sala e entreguei o controle na mão dele, dizendo que preferia cuidar do resto sozinha. Ele revirou os olhos, mas aceitou sua condição de hóspede e ficou zapeando os canais da TV enquanto eu recolhia o lixo, minhas roupas sujas e estendia minha toalha em um varal improvisado nos fundos da cozinha. Por último coloquei os sapatos no lugar, arrumei minha cama e ajeitei os tapetes desalinhados. Tudo não deve ter demorado nem meia hora, e depois de levar o lixo até o depósito do andar, voltei para a sala, me sentando no sofá ao lado dele.
— E nesse exato momento eu me sentaria aqui na sala, pegaria meu controle para assistir um filme e então sentiria frio. – Falei, quando ele se virou para me olhar. – Aí eu iria no armário do corredor de novo pegar uma coberta, depois iria dormir deixando ela jogada no sofá e desarrumando a casa gradativamente mais uma vez. E amanhã quando chegasse do trabalho faria tudo de novo.
— Acho impressionante sua paciência. Minha casa em Los Angeles fica desarrumada por uma semana antes que eu crie coragem.
— Sim, eu adoro minha persistência. – Confidenciei. – Mas adoraria mais ainda ter uma empregada, se quer saber.
Um cara famoso e rico deveria ter uma, até onde eu sabia.
— Eu tenho uma. – Bingo. – Mas ela só limpa mesmo, então a bagunça sobra para mim de qualquer jeito.
— Bom, você é um bagunceiro, Niall Horan.
— Você não está errada.
— Eu sei que não. Assisti todos os vídeos diários. E você sempre estava bagunçando.
— Eu? – Questionou, incrédulo. – Eu era o mais quieto! Quase ninguém me notava.
Fiquei com pena porque era bem verdade. Niall no começo da banda quase não aparecia e era bem raro ouvir sua voz. Talvez seja por isso que ele virou meu favorito, sempre fui ótima em torcer para os menos favorecidos.
— Ok. – Cedi, colocando uma almofada no colo. – Mas você ainda é bagunceiro.
Ficamos conversando por longos minutos, até que Niall virou sua cabeça em direção a cozinha, inalando o ar com força. Logo em seguida ele franziu o nariz.
, tem alguma coisa queimando na cozinha.
— O jantar! – Bradei, saindo do sofá em um pulo para ir até a cozinha. A maior parte da fumaça saiu pela janela, mas ainda tinha bastante quando cheguei. Me ajoelhei e abri o forno só para me decepcionar: o frango estava terrivelmente carbonizado. Niall chegou alguns minutos depois, observando a desgraçada alheia.
— Queimou muito?
— É, queimou totalmente. – Suspirei, frustrada, levantando-me para olhar para ele. – Sinto muito, Niall.
— Ei, não foi nada.
— Eu arruinei o jantar. – Frisei, como se ele tivesse uns cinco anos de idade.
O cantor apenas sorriu.
— Se quiser mostrar seus dotes culinários, pode me chamar para jantar em uma próxima vez. Sempre pode tentar de novo, certo?
Sorri, concordando.
— É, pode ser.
Ele colocou as mãos no queixo, pensativo.
— Agora eu preciso salvar o jantar... – Murmurou consigo mesmo. Em seguida deu um sorriso de quem entendeu tudo. – Pode esperar uns minutos aqui? Eu volto em um instante!
Não tive tempo de protestar, o rapaz já estava na porta calçando os tênis. Joguei minhas chaves para que ele não precisasse ficar esperando do lado de fora de novo e, não havendo nada a fazer, fui até o sofá. Na mesa de centro avistei meu celular abandonado e percebi que a bateria tinha acabado de vez. Dei um murmúrio de frustração, me lembrando que quando Niall chegou eu não tinha colocado ele para carregar e por isso o alerta do timer não havia anunciado que o frango estava pronto.
Coloquei o celular para carregar e cerca de vinte minutos depois Niall havia retornado com duas sacolas cheias de comida. O logo exibido na sacola indicava que ele havia pedido comida no restaurante de Malai e Khalan: Sweet Lime.
Arqueei as sobrancelhas, surpresa.
— Alguém me disse que a experiência iria ser cem por cento autêntica.
Com um sorriso de satisfação fui até ele pegar as sacolas de suas mãos, enquanto Niall tirava os sapatos de novo. Não queria usar a mesa, achei que seria mais especial se comêssemos na mesa do centro, e Niall não iria desconfiar que eu queria que fosse especial.
Sabendo que Khalan sempre me mandava talheres descartáveis, fui até a cozinha e peguei dois jogos de toalhas, dois pratos e dois copos, e voltei para a sala. Abri os potes e dispus os pratos na ordem em que eles deveriam ser apreciados. Percebi que Niall não fazia a menor ideia do que pediu: era exatamente o mesmo pedido que eu sempre fazia.
— Eu disse que era seu amigo e que não sabia o que pedir. – Justificou, provavelmente notando meu olhar atento.
— Bom, você acertou em cheio. Vem. – Chamei, sentando no chão ao redor da mesinha. Ela não era tão grande, de modo que ele poderia tocar em mim sem querer. Estremeci.
Apontei para o primeiro prato que tinha separado.
— Vamos começar pela entrada. Isso é spring roll. – Expliquei, colocando um em meu prato e sendo imitada por ele. – É um rolinho como aquele chinês, só que o recheio é diferente. Esse tem shitake, carne de porco, repolho, cebola roxa e temperos.
Um Niall um pouco relutante aproximou seu spring roll para uma mordida com uma certa desconfiança. Na primeira mordida eu soube que Malai e Khalan haviam ganhado seu coração. Satisfeita, comi meu próprio rolinho. Estava com muitas saudades mesmo do restaurante, e não conseguia nem me lembrar da última vez que estive por lá.
— E esses? – Perguntou apontado para os quatro espetinhos. Notei que ele já tinha terminado sua parte dos rolinhos. – O que são?
— Espetinhos de porco servido com molho satay. Não me pergunte o que tem aí, porque eu nunca soube – Ri. – Só sei que é gostoso.
Sem a desconfiança e a relutância de antes, Niall pegou o espetinho e novamente aprovou o sabor.
. – Chamou, entre uma mastigada e outra. – Hoje vai ser exibido minha entrevista do SoundTrack.
Arregalei os olhos.
— Não acredito que me esqueci disso! Que horas?
— Umas dez e meia, acredito.
Olhei no relógio: dez e trinta e seis.
— Vou dar uma olhada.
Abandonando o jantar, sai trôpega em busca do controle da TV, que encontrei no sofá. Liguei a TV e procurei a emissora que iria exibir o programa, que já tinha começado.
— Deixa eu adivinhar, você também não assiste suas próprias entrevistas?
Ele me mostrou um sorriso envergonhado.
— Não. Não pelo mesmo motivo da revista. – Arqueei as sobrancelhas, e ele continuou. – É esquisito me ver na TV, de uma certa forma nem parece eu. Olha aquilo! – Exclamou, apontando para a tela.
E eu olhei. Vi um Niall educado, sentado na poltrona e sorrindo amigavelmente. Ele estava sentado em uma posição que queria indicar que estivesse confortável, mas para minha surpresa notei que ele não estava. O Niall confortável estava bem ao meu lado, sentado de qualquer jeito no chão da minha sala, sem os sapatos e com molho satay nos cantos da boca. Aquele cara da TV só queria sair dali o mais rápido possível.
Fiquei pensando se ele detestava seu estilo de vida. Não era mentira que, de uns tempos para cá, já vi muitas fãs tendo experiências ruins com Niall Horan, a maior parte de outros países. Diziam que era rude, o que na minha mente já era uma grande besteira. Niall não poderia ser rude já que era simplesmente o cara mais fofo que já conheci. Porém não podia chamar aquelas garotas de mentirosas, alguma coisa com certeza deve ter acontecido. E por que? Ele estava de saco cheio de ser famoso? Queria voltar ao anonimato?
Desviei para olhar o Niall ao vivo que estava ao meu lado, e fiquei surpresa quando vi que ele também estava me olhando. Não, respondi minha própria pergunta. Ele amava seus fãs e amava sua carreira. O problema não era esse.
— Você não parecia muito confortável ali. – Constatei.
— E não estava. – Concordou, limpando o molho do canto da boca. Inclinou-se para pegar seu último espetinho, quando percebeu que já tinha comido todos. Sorrindo, ofereci o meu último para ele, que aceitou. – Obrigado. Bem, eu já deveria ter me acostumado. Quer dizer, como disse, não sou mais tão assediado como na época da banda. Nem se compara! Antes tinham sei lá, milhares de garotas na frente dos hotéis em que ficávamos.
Fiquei sem graça.
— Provavelmente eu era uma delas. – Confessei.
— Queria ter te conhecido naquela época.
— Ah, eu bem que tentei, Niall Horan. – Ri. Ele aproveitou para dar uma mordida no espetinho. – Deus está de prova que eu tentei.
Lembrei quando a banda estourou nos Estados Unidos, e eu e minhas amigas de minha cidade natal nos viciamos nas músicas e nos integrantes. Acampamos na fila no primeiro show e consegui combater a timidez mais de uma vez para segui-los pela cidade. Foi com certeza o maior e melhor fandom ao qual pertenci e mesmo que já fizesse uns bons anos que não escutasse uma música sequer, sentia que ainda pertencia a ele.
Niall estava sorrindo quando olhei para ele de novo.
— Era frustrante ser minha fã, imagino.
— Era bem frustrante ser sua fã. – Concordei. – Desculpe, te interrompi. Continue.
— Certo. O caso é que de milhares de fãs na porta do hotel, agora me deparo com menos de trinta. One Direction não podia ir para nenhum lugar público e agora as pessoas não me param mais na rua. Aqui mesmo em São Francisco consigo contar nos dedos de uma mão quantas vezes fui parado. Entrevistas... eu já fiz quinhentas entrevistas! Depois de oito anos de fama eu com certeza deveria ter me acostumado. – Ele olhou para a TV, pensativo. – Mas eu ainda não me acostumei. Não consigo ser eu mesmo. Nunca sou eu mesmo ali.
— Sinto muito. – Murmurei, sem saber realmente o que dizer.
— Eu sou eu mesmo quando estou com você. Gosto disso. Acho que é por isso que te persigo tanto.
Dei risada.
— Sua vez de ser tiete, famoso Niall.
— Eu já fiz minha parte! Te segui no instagram, te segui na sua casa, te segui no seu trabalho. – Falou, enumerando os itens nos dedos das mãos. – Não aguento mais ser stalker, quando a gente vai chegar na parte que eu conquisto a garota?
Ele falou em tom de brincadeira, mas eu gostaria que ele não estivesse brincando, principalmente estando tão confusa em relação a ele.
— Ah, já chegou nessa parte. – Afirmei. – Mas daqui duas semanas a garota vai te dar um pé na bunda e você vai escrever uma música triste para se lembrar dela. Quem sabe o término não te ajuda a escrever as músicas do próximo álbum.
Ele riu.
— Pena que eu não escrevo músicas assim.
— Deveria tentar. Sua vida amorosa é um ótimo exemplo disso. Daria músicas incríveis. – Argumentei, fazendo ele me olhar indignado.
— Não tem como saber nada sobre minha vida amorosa.
— Bom... eu sei que ela existe. – Eu disse, sem pensar. Niall ficou sério de repente. Droga, !
— É, ela existe. – Concordou Niall. – Quer dizer, mais ou menos.
Não sabia como responder, então só olhei para a TV e assistimos juntos o resto da entrevista. Como ele mesmo havia mencionado, não estava nem um pouco confortável de estar ali. As respostas em sua maioria eram curtas e ensaiadas, como se ele já soubesse o que seria perguntado e tivesse sido orientado de como responderia. Ainda era emocionante para seus fãs que não o conheciam pessoalmente, mas para mim aquele Niall não era o meu Niall. Então não demos muita bola para entrevista e logo depois ficamos no sofá conversando. Nunca imaginei que um dia estaria batendo papo na sala do meu apartamento minúsculo com Niall Horan, nem que acharia isso tão normal. Quer dizer, depois de praticamente um mês que o conheci, sentia que ele era apenas um cara normal. Com inseguranças, problemas, medos e tudo que uma pessoa normal carregava. Conversamos tanto que quando olhamos no relógio já eram quase três da manhã.
— Meu Deus, são três da manhã. – Murmurei, sonolenta.
— Ah, não... desculpe, . Amanhã você trabalha, eu esqueci totalmente. – Desculpou-se já se levantando.
Eu precisava mesmo dormir, mas realmente não queria que ele fosse embora.
— Sem problemas... pode dormir aqui, se estiver com sono. – Ofereci. Estava tarde e eu não morava exatamente no bairro mais seguro da cidade. Eu não era tão ousada quanto ele provavelmente estava pensando, e por isso fiquei com medo que ele entendesse errado. Niall podia ser fofo, mas ele ainda era um homem no fim das contas.
— Se realmente estiver tudo bem, o sofá está ótimo para mim. – Disse, sorrindo. Um alivio sem tamanho percorreu meu corpo, principalmente porque se ele tinha aceitado ficar, era porque também queria minha companhia.
Assenti e fui até o armário do corredor e peguei uma coberta limpa e um travesseiro extra. Como meu apartamento era pequeno e não tinha quarto de visitas, o sofá aumentava de tamanho até virar uma cama. O sofá-cama foi o que levou minha mãe a ser a primeira grande apoiadora desse apartamento na época que eu estava escolhendo um, assim poderia me visitar sempre.
Niall também pareceu surpreso com a engenhoca, e eu mostrei um sorriso debochado para ele.
— Nada igual sua cama queen size, hein. – Zombei, apontando para o sofá.
— É king size, mas enfim. – Alfinetou de volta, rindo. – Estou brincando.
Dei um soquinho de brincadeira em seu braço e fui ao banheiro e, depois de escovar meus dentes, fucei minha gaveta até achar um pote de escovas de dentes descartáveis que meus pais acumulavam dos hotéis que iam e depois trazia para mim. Entreguei uma para ele, que ficou surpreso.
— Você é uma excelente anfitriã. – Agradeceu.
— É, eu tento. – Disse, dando de ombros. – Boa noite, Niall. – Desejei.
— Boa noite, . Pode deixar que eu me viro.
Concordei, indo para o meu próprio quarto e fechando a porta atrás de mim. Foi difícil achar uma posição confortável sabendo que Niall dormia no cômodo ao lado, mas consegui depois de um tempo. Repassei em minha mente nossa conversa da noite anterior e depois repassei todas as nossas conversas. Ele parecia bem interessado em ser meu amigo, era bem verdade. Mas tinha um algo a mais. Ele flertava comigo de vez em quando, desde a entrevista que fiz com ele. E foi então que lembrei. O Niall que assisti no SoundTrack não tinha nada a ver com o Niall que eu entrevistei em agosto. As respostas não eram ensaiadas nem iguais e ele estava bem tranquilo, do jeito que eu conhecia. Quer dizer então que ele gostou de mim porque eu dava a ele a mesma paz e tranquilidade que ele dava para mim? Porque na correria do nosso dia a dia tão diferente, mas ao mesmo tempo tão igual, nós fazíamos bem um ao outro e por isso ele insistia em me ver sempre? Fazia sentido na minha cabeça, pelo menos.
Mas tinha um porém. Ele confirmou, com as palavras exatas, que havia uma vida amorosa, então fosse o que fosse, ele estava sim envolvido com a Hailee. E mais, percebi que ele também estava confuso e que provavelmente por isso tinha desistido daquele beijo. Mas, quando me lembrei disso, a sensação de confusão que senti por dias instantaneamente se foi. Analisei cada ponto da nossa precoce amizade e comecei a sentir um misto de pavor com felicidade quando me dei conta do que estava acontecendo comigo pela primeira vez na vida. Revirando-me na cama uma última vez com o frio na espinha, as borboletas no estômago e a boca seca, sorri, percebendo que estava muito encrencada.
Eu estava total e completamente apaixonada por Niall Horan.

Capítulo 6

Considerei estar ficando louco quando aceitei dormir na casa de . O sofá-cama não era desconfortável, mas também não se comparava com a cama do hotel onde estava ficando nesse período de férias. Escutei se remexendo em sua cama várias vezes até conseguir dormir, e eu mesmo estava longe de pregar os olhos. Bufando, encarei meu celular para ver as horas: um pouco mais de cinco e meia da manhã. Levantei-me sem fazer barulho e me permiti ir até a cozinha para beber um copo d´água. O leve cheiro de queimado ainda pairava no cômodo e a lembrança do rosto chateado de quando percebeu que tinha queimado seu jantar me fez sorrir. Passei pelo banheiro para lavar meu rosto, aproveitando para tirar minha camiseta, e voltei para o sofá-cama, que devido a todo meu cansaço mental me parecia mais atrativo que nada.
Mas não consegui dormir. Não que fosse um grande problema já que, em aproximadamente duas horas, acordaria e eu iria para o hotel e dormiria a tarde toda.
Fiquei olhando para frente, encarando uma pintura abstrata um tanto interessante. As cores foram usadas aleatoriamente e apesar de parecer mesmo um quadro amador tinha um que de personalidade nele. Tinha amor, respeito, sinceridade. Eram as sensações que o quadro passava para mim.
Infelizmente, nem o humilde quadro abstrato foi capaz de me apagar. Suspirei e peguei meu celular novamente, checando minhas poucas redes sociais e respondendo umas pessoas que tinha deixado no vácuo. Uma das mensagens, enviada ainda ontem à noite, novamente chamou minha atenção. E, novamente, preferi não responder. Checar minha caixa de mensagens me lembrou que ainda não tinha o telefone de , o que achei um tanto engraçado.
Liguei a TV em um canal qualquer e deixei o volume bem baixinho para não acordar que, como previsto, acordou pouco mais de duas horas depois. Escutei ela se levantando e abrindo o guarda-roupas, então aproveitei para arrumar a bagunça que estava na sala, já que ela era tão organizada. Dobrei a coberta e a deixei empilhada junto com o travesseiro. Coloquei minha camiseta novamente e tentei, sem sucesso, colocar o sofá-cama no lugar. Antes que ficasse devendo um sofá novo para ela, desisti, arrumando o tapete que tinha saído do lugar e desliguei a TV. Meu celular piscou mais uma vez, com uma mensagem curta de Mark. Em anexo tinha uma passagem de avião. Tive tempo apenas de ler a mensagem e olhar a passagem até ouvir uma porta se abrindo.
— Bom dia. – Escutei a voz sonolenta dela atrás de mim. Usava um shorts curto e a mesma blusa da noite anterior. Percebi que era o tal shorts da Tinker Bell e sorri, me aproximando.
— Não devia ter trocado de roupa ontem à noite. Adorei o conjuntinho. – Provoquei, apontando para ela. No braço carregava duas peças de roupa e uma toalha, e quase deixou tudo cair quando venceu a distância que nos separava para acertar um tapa fraquinho no meu braço.
— Você, se comporte! – Retrucou, de mau-humor.
Dei uma risadinha.
— Alguém acordou com o pé esquerdo.
Ela sorriu também, tímida.
— Vou melhorar assim que eu tomar um banho. Já volto.
Deu para notar que ela ficou feliz em ver que eu tinha arrumado a pequena bagunça que tinha feito. De certa forma era muito mais confortável ficar com , naquele bairro monótono de São Francisco, do que enfrentar a dura realidade que me esperava em Los Angeles. A mídia, as cobranças, o novo álbum... e a namorada.
Hailee.
Uma peça tão importante na minha vida, mas ao mesmo tempo tão deliciosamente complicada. Hailee era, acima de tudo, minha amiga, e nunca planejei me apaixonar por ela. Para ser sincero, nem sabia se era isso mesmo que estava sentindo. Éramos amigos há tanto tempo que não percebi quando a admiração virou algo mais. No entanto, a garota não parecia querer assumir um namoro, e me pediu espaço. Espaço esse que venho cumprindo há semanas, me aproximando tanto de que nem lembrava mais o motivo de estar ali, no sul da Califórnia. Até a mensagem de Hailee da noite anterior, me pedindo para voltar para casa porque tinha tomado uma decisão sobre nós.
E eu não respondi, porque estava confuso.
Confuso porque gostava de ou porque gostava de sair com ela. Adorava conversar sobre coisas que realmente importavam, e ela era inteligente e sempre tinha opinião sobre absolutamente tudo. Estava confuso porque meu coração era uma droga para sentir verdadeiras emoções e minhas intuições eram piores ainda.
Era de se esperar que ficasse feliz com a situação. Não era isso exatamente o que eu queria? Naquele momento já não tinha mais tanta certeza. A simplicidade e a energia boa de haviam me conquistado e depois de quase tê-la beijado aquele dia, parecia não fazer mais nenhum sentido continuar tentando uma relação sem futuro com Hailee, que apesar de ser uma ótima amiga, engraçada e gentil, em termos de relacionamento me decepcionava muito.
Suspirei, frustrado, tentando novamente voltar o sofá para o lugar. Não muito tempo depois, e enquanto ainda estudava o móvel pensando em como consertaria, saiu do banho, vestindo uma blusa branca e uma calça social cinza. Veio em minha direção, sorrindo, com os olhos cravados no meu. Ainda olhando para mim, colocou a mão debaixo do sofá, que fez um clique, voltando para a posição original.
— Obrigada por tentar, Niall. – Disse, jogando a roupa com que tinha dormido em cima da cama. Apareceu na sala novamente e notei que seus cabelos estavam molhados. Percebi que achava ela bonita com os cabelos molhados.
— Disponha. – Respondi, cruzando os braços. Ela foi até a cozinha e franziu o nariz quando descobriu que o cheiro de queimado ainda não tinha evaporado.
— Você quer tomar banho? – Perguntou, pegando uma garrafa de leite na geladeira. Colocou leite no copo e olhou para mim. – Desculpe, quer tomar leite também?
Sorri para mostrar que estava tudo bem.
— Não estou com fome. – Menti. Sabia que ela não tinha nada de café da manhã e também sabia que o novo chefe não iria gostar nadinha se ela se atrasasse. Quando voltasse para o hotel cuidaria de mim. – E tomo banho no hotel.
— Eca. – Brincou, colocando o dedo no nariz como se sentisse algum fedor.
— Eu sou limpinho, ok?
riu, bebendo todo o leite em uma golada só.
— Já volto. – Disse, deixando o copo na pia.
Lavei o copo que ela tinha usado, bem como a louça que tínhamos usado na noite anterior, deixando sua pia limpa e aproveitei para guardar a coberta que tinha usado no mesmo armário do qual a vi tirando. Escutei um barulho vindo do quarto dela e, cerca de vinte minutos depois, abriu a porta, revelando cabelos secos e alinhados e um perfume doce delicioso. Esse cheiro... Balancei a cabeça.
— Você é um excelente hóspede, Niall. – Elogiou, vendo a casa mais ou menos arrumada. Foi a mesma coisa que eu disse ontem, antes de ela entrar no quarto. Não consegui evitar sorrir.
— É, eu tento. – Respondi, colocando a mão nos bolsos.
— Lavou a louça? – Perguntou, incrédula quando viu a pia limpa. Pela forma como disse isso deu a entender que era a primeira vez em muito tempo que alguém fazia isso por ela.
— Só economizei seu tempo. Assim vai poder ficar conversando comigo quando chegar hoje à noite. – Brinquei.
Ela sorriu, se virando para procurar sua bolsa e escolher um sapato, então também me adiantei, procurando o meu próprio e o calçando. Ela escolheu um salto preto que a deixava quase do meu tamanho, o que me permitiu enxergar seus olhos bem mais de perto.
Era fácil deixar feliz. Ela era simples, modesta e carinhosa. Não mentia, não fazia joguinhos e mesmo me conhecendo há um tempo tão curto, dava para notar que não estava sendo gentil comigo por interesse, nem porque eu era ex-membro de sua banda favorita e nem porque queria furtivamente descobrir algo sobre mim para lançar naquela revista onde trabalhava. Eu confiava em um tanto que nem deveria, e sentia que ela confiava em mim também. Não era segredo para nenhum dos dois que nossas intenções de uns dias para cá não tenham seguido exatamente a linha da amizade, a ansiedade dela em me perguntar se queria dormir lá deixou isso muito claro. Mais do que isso, a tristeza transparente quando desisti de beijá-la no outro dia me fez perceber que o que quer que a gente esteja sentindo era quase recíproco. Pelo menos a confusão.
Eu gostava de . Realmente gostava, mas toda vez que pensava em Los Angeles, na minha turnê, nos beijos secretos, nas mensagens escondidas... Hailee vencia, de novo. Era ridículo comparar as duas o tempo todo, mas o que eu poderia fazer quando estava tão confuso com duas mulheres tão incríveis na minha vida? O mais correto parecia conversar com , sendo sincero com ela. Muito me surpreendeu que, desde o dia que fomos em Alcatraz quando eu disse que não queria falar sobre Hailee, ela tenha respeitado minha decisão tão rapidamente. Desde então não havia me perguntado nada sobre Hailee, mas eu sabia que merecia saber.
Depois de oficialmente pronta, descemos de escada para o térreo e me acompanhou até meu carro, já que eu havia dito que daria uma carona a ela.
— O que é aquele quadro na sala? – Perguntei antes que me esquecesse.
suspirou, sorrindo.
— Eu gosto de arte. Qualquer coisa relacionada a artes. Tenho uma leve tendência a artes plásticas. Quando eu era adolescente costumava montar scrapbook. – Confidenciou, sorrindo. – Tinha um dedicado a One Direction. Juro!
Dei risada com ela.
— Preciso ver isso.
— Quem sabe um dia. – Falou, tímida. – E sim, tinha uma página só sua. Rasguei a do Zayn no dia que ele saiu da banda.
Dei um sorriso, que não pareceu confortar muito.
— Não fica com raiva do Zayn. – Disse, olhando para os dois lados antes de atravessar um cruzamento. – Ele teve seus motivos para sair, e acredite em mim, foi bem melhor assim.
— É, eu sei. Não penso nisso há um tempo, na verdade. Ninguém deveria ser obrigado a fazer algo que não gosta. – Parou de falar por um momento, e pelo canto do olho vi que ela observava a janela. – Quer dizer, dava para perceber que ele não estava mais curtindo aquela atenção toda.
Eu não falei mais nada sobre o assunto, porque eu não podia. Mesmo que eu confiasse nela mais do que deveria, ainda era colunista do quadro teen da revista, exatamente onde uma notícia sobre Zayn se enquadraria. Sentia-me péssimo quando pensava assim, mas não a conhecia verdadeiramente.
— Bom, o quadro. Eu fiz quando tinha oito anos para dar de presente de aniversário para o meu pai. Ele também adora pintar, embora faça isso com muito mais profissionalismo que eu. – Continuou, saudosa.
— Ele...?
Ela riu.
— Niall, não! O velho está muito bem vivo. – Fiquei envergonhado, mas ela não pareceu chateada. – E ainda pinta!
— Me desculpe. Bem, eu gostei do quadro.
Ela sorriu com o elogio.
— Faz muitos anos que não pinto um. – Confessou.
— Deveria voltar.
Paramos em frente ao prédio onde ela trabalhava, mas diferente das outras vezes procurei um lugar para estacionar. não percebeu que ia acontecer algo. Porque ia, não é mesmo? Não podia ignorar minha vida achando que nada do que eu passei aqui iria intervir de alguma coisa no futuro.
Eu precisava ser responsável.
Me acertaria com Hailee, eventualmente. E gradativamente me esqueceria de e da vida quase normal que eu tinha vivido em São Francisco.
Era isso, finalmente tinha me decidido. Eu não queria, mas precisava voltar para casa.
tirou o cinto e saiu do carro, se preparando para se despedir de mim. Abri minha porta também e fui até o lado dela na calçada.
— Ei, me empresta seu celular. – Pedi. Desconfiada com o meu comportamento, passou seu celular para mim. Estendi ele em sua direção para que ela o desbloqueasse e assim que o fez, digitei meu próprio número e liguei para que ficasse gravado no celular dela. – Esse é meu número de telefone. Pode me ligar ou mandar mensagens quando quiser.
Ela fez uma careta, confusa.
— Porque isso agora?
Suspirei.
, eu adorei tudo que fiz nessas últimas semanas, mas...
— Você precisa voltar. – Completou, finalmente entendendo. Ela cruzou os braços em cima da blusa branca, como se estivesse se protegendo.
Encarei seus olhos brilhantes, mas ela olhou para baixo.
— Eu preciso voltar. – Confirmei. – Eu prometo que volto para São Francisco assim que der.
Ela riu, nervosa, chutando umas pedrinhas na calçada com o sapato.
— Claro, pode voltar sempre que quiser. Tipo, foi uma experiência bem legal ser sua guia e tudo mais.
Ri com ela, sarcástico, o que fez olhar para mim de novo.
— Você mal foi uma guia. Te levei para lugares que nem você mesma conhecia.
deu de ombros.
— Me deixe pensar que eu fiz isso, ok? – Pediu, irônica.
— Você foi muito mais que uma guia para mim, . Foi a melhor fã que conheci. Você foi uma das melhores pessoas que conheci. – Disse a ela. Deu para ver que ela baixou a guarda e corou rapidamente conforme me aproximava. – Eu vou sentir sua falta.
A sinceridade em minha voz entregava tudo e ficou me encarando com a boca entreaberta, sem conseguir me responder. Aproveitei sua distração e com calma me aproximei para estalar um beijo em sua bochecha direita. Como se fosse possível, ela corou mais ainda.
Dei risada.
— Está corada.
Ela levou as mãos para as bochechas, sem graça.
— Você não pode dizer esse tipo de coisa e esperar que eu não fique. – Sussurrou. Uma ruga de preocupação surgiu em sua testa. Em que será que ela estava pensando? – Quando você vai?
— Hoje à tarde. As três.
pareceu se recompor, com o sorriso carismático de sempre.
— Bom, acho que isso é uma despedida então, certo?
— Por enquanto, sim. – Concordei, tão chateado quanto ela parecia estar. Por favor, não chore, não chore! Pedi internamente. – Acho melhor você ir, não pode se atrasar.
olhou para o relógio, assentindo.
— Adeus, popstar. – Falou por fim, se virando para entrar no prédio.
Encerrando um ciclo incrível de dias maravilhosos que tinha passado naquela cidade, naquele bairro tão normal. Isso estava errado. Não podia acabar assim, com um aceno e um sorriso.
? – Chamei, andando até ela.
— Sim?
Nem esperei ela responder direito. Assim que se virou ao som da minha voz, tomei seu corpo em um apertado abraço, como se nunca mais na minha vida fosse vê-la, o que era possível. Depositei tudo que eu sentia por ela naquele abraço, que foi tão rápido, mas que na minha cabeça pareceu durar uma eternidade. O cheiro de seu cabelo recém lavado invadiu minhas narinas e não consegui evitar dar um suspiro. Eu estava sabotando a mim mesmo, sabia disso.
Mas no momento não tinha outra escolha, tinha que voltar para casa.
Me separei dela, vendo que haviam pontinhos brilhantes de lágrimas em seus olhos, mas ela não estava chorando ainda. A visão de chorando por causa da minha partida quebrou meu coração.
— A gente se vê, Niall Horan. – Finalmente disse, alinhando a roupa. Olhou para mim com um sorriso claramente falso, na esperança que eu fosse embora de uma vez e acabasse logo com isso.
— Até a próxima, .
Ela deu um último sorriso, arrumando a bolsa no ombro e virando em direção ao prédio.
Fiquei olhando entrar, na esperança que ela olhasse para trás. Se ela olhasse para trás só mais uma vez, adiaria meu voo por uma semana. Diria a ela meus reais sentimentos, contaria sobre minha confusão, sobre meu trabalho e o motivo de estar aqui. Seria sincero com ela como deveria ter sido desde o começo. Só uma olhada para trás e eu seria a pessoa que ela precisava conhecer, sem receio de que fosse lançar qualquer coisa sobre mim naquela revista. Eu queria que ela olhasse para trás e me impedisse de ir. Que dissesse que seus sentimentos eram tão confusos quanto os meus, ou que eles pelo menos existiam. Observei até onde pude, a esperança se remexendo dentro de mim como um animal furioso.
Mas não olhou para trás.
Suspirei, voltando para o carro e fazendo uma lista mental de tudo que eu precisava fazer antes de ir embora.
São Francisco tinha se tornado, naquele instante, um pedaço do meu paraíso na Terra. E não era por causa do karaokê, do minigolfe, de um sofá-cama ligeiramente desconfortável, da prisão em Alcatraz ou da deliciosa comida tailandesa.
E sim porque São Francisco era a única cidade do mundo onde eu encontraria .

Capítulo especial escrito do ponto de vista de Niall.

Capítulo 7

REAÇÃO AO NOVO ROMANCE DE NIALL HORAN NÃO TEM SIDO POSITIVA


Não é novidade para ninguém que Niall Horan estava se escondendo na graciosa São Francisco, Califórnia, durante suas férias. Porém, fontes fortíssimas informam que ele não estava sozinho!
Ao que parece, nosso ex-One Direction está saindo com , a responsável pela coluna iTeen da revista PlayList, que recentemente foi comprada pela Billboard.
Ainda não houve nenhum posicionamento oficial de Niall Horan, ou equipe de comunicação do possível novo casal, mas os dois deixaram claro para o mundo todo que sim, estão namorando! Após diversos motivos mostrando que estariam juntos, o cantor e a jornalista foram fotografados um do lado do outro em várias ocasiões. Apesar de o clima romântico estar no ar, alguns fãs não têm reagido bem ao relacionamento do astro, e desde então teorias de que Horan está infeliz no relacionamento começaram a circular pela web.
Na última quinta, os dois foram flagrados no centro de São Francisco, e a foto publicada pelo papparazzi não mostra o melhor ângulo de Niall. Sendo assim, os fãs se preocuparam com a cara de tristeza, dizendo que poderia não estar fazendo nosso cantor preferido feliz.


Eu não consegui terminar de ler. Encarava meu celular com as mãos trêmulas, sem conseguir respirar, sem nem ousar respirar. Rolei a tela só para me decepcionar: haviam mesmo fotos nossas. Encontrei uma na prisão de Alcatraz, pelo menos duas no minigolfe e o registro atemporal do nosso abraço também estava naquele dossiê de maldade.
Sempre me perguntei como os famosos lidavam com aquela loucura de fã e fama, pessoas perseguindo para todos os lados, satisfações que teriam que ser dadas... e mesmo assim a pergunta passava direto pela minha cabeça, porque nunca na minha vida achei que fosse passar por uma situação como essa. Mas aqui estava eu: sem fama, totalmente desconhecida, fotos minhas em vários sites de fofoca e um total de duzentos mil seguidores a mais no meu instragram flopado.
Quando consegui olhar para cima de novo, notei que Rachel me olhava preocupada.
... não é tão ruim.
– Não é ruim? – Explodi, me levantando da tampa da privada. Espiei para ver se ninguém tinha entrado no banheiro nesse meio tempo e voltei a encarar Rachel. – Sabe o que isso significa para minha carreira? Meu Deus, isso é... muito ruim! Eu preciso falar com a Madie agora, não podemos deixar que a PlayList publique essas coisas sobre mim!
Rachel encarou o chão.
– Ah, não... você não está me dizendo que...
– Sinto muito, . Quando eu vi já estava na internet.
– Ok. Vamos pensar, um passo de cada vez. – Respirei fundo, indo até a pia do banheiro e jogando uma água na cara. – Não posso tirar a notícia de todas as páginas, mas na PlayList posso dar um jeito. Certo?
– Claro, . Vou te ajudar no que eu puder. – Tentou me acalmar, me abraçando de lado. – Vem, precisa falar com Madie.
Saí do banheiro mais calma. Tentei não reparar que o andar inteiro estava me acompanhando, tentei fingir que nada daquilo era sobre mim. Ouvi fofocas e sabia que estavam fazendo suposições, mas eu não iria permitir ser assediada dessa forma no meu próprio trabalho, ainda mais sobre uma notícia falsa.
Fui até minha mesa e peguei uma pilha de papéis aleatórios para o caso de Jesse espiar pela persiana e notar que não estava trabalhando como deveria. Olhei para Rachel uma última vez, e pelo olhar dela entendi que teria que ir sozinha. Iria mesmo ser estranho se saíssemos juntas ao mesmo tempo para falar com a mesma pessoa, então fiz uma careta de compreensão seguindo para o final do nosso andar a passos firmes e tentando não chamar atenção para mim mesma.
Fui até a janela, onde sabia que encontraria o setor de Comunicação I, também chamado de “setor de fofoca”. Nunca precisei falar com Madie antes, apenas sabia que ela era a responsável, então não sabia nem mesmo sua aparência. Parei a primeira pessoa que eu vi.
– Com licença, sabe onde posso encontrar Madie? – A pessoa que eu parei estava mais preocupada em mexer no Instagram do que trabalhar de fato, e o rapaz se assustou com a abordagem.
– Quem? – Perguntou.
Respirei fundo, tentando me acalmar.
– Madie.
Não podia enrolar muito, não sabia se Jesse ainda estava em sua sala ou se ele já tinha conhecimento da fofoca que me envolvia e não queria que ele me visse em uma baía tão longe da minha.
– Vou ver se ela está. – Disse o rapaz, se recuperando do susto e se endireitou na cadeira.
O rapaz, que o crachá dizia se chamar Daniel, guardou o celular e desbloqueou a tela do computador. E, nossa, que momento maravilhoso para dar de cara comigo mesma no computador dele. Daniel foi para trás, confuso por um momento, e depois sorriu quando me reconheceu.
– Ei, ! Você é a da PlayList! – Disse, afobado. – Da nossa PlayList!
– Shiiii. – Pedi, olhando para os lados e vendo se alguém tinha notado. – Por favor, preciso muito falar com Madie.
Ele assentiu.
– Certo, ela geralmente fica ali no canto. É uma loira. – Comentou, me orientando.
Agradeci a Daniel com um sorriso e torcendo imensamente para que ele não dissesse nada aos colegas. Já era ruim o bastante que a notícia tenha se espalhado na minha área. Segui na direção que ele tinha me apontado e, para minha grande sorte, Madie estava na mesa dela.
– Madie? – Chamei. Ela olhou para mim, os olhos azuis tão claros que quase se fundiam com o branco do globo ocular. – Meu nome é , escrevo a iTeen.
Ela ergueu uma das mãos para me cumprimentar.
– Oi, ! Coordeno essa área de Comunicação I. Em que posso ajudar?
– É uma situação muito muito delicada, eu...
– Espera aí. – Pediu, me interrompendo. – Você é a mesma da notícia que vazou hoje de manhã?
Murchei na cadeira.
– Como assim, vazou?
Madie passou as mãos nos cabelos extremamente lisos, nervosa.
– A notícia chegou até mim, e eu deveria passar o caso para o jurídico para confirmar a informação e por fim barrar a notícia e impedir a publicação, até porque ela te expõe totalmente, assim como a PlayList.
– E então? – Perguntei, ansiosa.
– Vazou, . Alguém publicou sem minha autorização e como todos usamos a mesma base, é impossível identificar quem foi. – Ela olhou ao seu redor, tentando inutilmente procurar um rosto culpado. – Pode ter sido qualquer um aqui.
Como se fosse possível, desmoronei mais ainda, sem entender porque absolutamente da noite para o dia minha vida tenha virado de ponta cabeça por causa de um simples abraço.
– E o que eu faço? – Questionei.
– Vamos tirar a notícia do ar. – Respondeu Madie. – Na verdade, estamos tentando isso há uma hora. Acho que vamos precisar de uma pessoa mais influente se quisermos resolver isso mais rápido.
– Tipo quem? Olivia?
Madie suspirou.
– Acho que nem Olivia vai conseguir resolver isso. Você vai precisar pedir ajuda ao Jesse.
– Ah não...
– Desculpe, , eu realmente sinto muito. Mas, sem falar com ele, a notícia vai ficar no ar pelo menos durante todo o fim de semana.
Levantei da mesa, ainda brava, porém não com Madie. Estava brava com Niall. Sabia que não era totalmente culpa dele, mas o que eu tinha na cabeça quando pensei que ele não era mais tão famoso? Sério que eu pensei mesmo que ele era uma pessoa normal, como eu? Acho que eu, na minha bolha de fanfic, acreditava piamente que me envolver com ele não daria em nada, que seria um mar de rosas, ele escreveria músicas sobre mim e eu estaria na primeira fila de todos os seus shows. Claro que não seria assim tão fácil.
Notei que Niall tinha me mandado mensagem, mas eu não respondi, e nem iria. Agradeci a Madie pelo seu tempo e me peguei pensando no plano B, caso Jesse não colaborasse. Teria que acionar um advogado, certo? Mas isso envolveria processar a empresa que me empregava, o que seria conflito de interesse. E então eu teria que ser demitida para abrir esse processo. Valia a pena passar por isso?
Estava tão confusa que andei até a sala de Jesse no piloto automático, sem me importar em verificar com a secretária se eu poderia falar com o homem. Simplesmente bati na porta, assustando todas as pessoas no raio de um metro, que me encaravam, chocados com a minha ousadia.
Jesse abriu a porta na terceira batida. Se aquele homem me intimidava de longe, de perto era ainda pior. Ele me encarou com toda a arrogância que seu grande ser permitia sentir.
– Em que posso ajudar?
– Desculpe te incomodar, Sr. Curtis, mas estou com um problema e preciso da sua ajuda.
Ele sorriu, presunçoso. Abriu espaço para mim, se afastando da porta. Eu senti minha espinha gelar, não queria de jeito nenhum entrar ali, porém até onde constava eu não tinha outra escolha.
Foi até sua mesa, mas não deu a volta para sentar-se na cadeira. Ao invés disso, se apoiou na mesa, me convidando para sentar. Só porque queria muito acabar com aquilo, me sentei, colocando os meus papéis no colo e percebendo tarde demais que tinha sido uma péssima ideia.
Não seja idiota, . Você está a uma porta de centenas de testemunhas. Ele não pode fazer nada.
– Porque não começa me dizendo o que aconteceu? – Perguntou cruzando os braços.
Passei as mãos pelo meu rosto, impaciente. Contei a ele tudo que eu sabia, desde minha chegada ao trabalho, até o incidente daquela manhã, onde aparentemente a notícia tinha vazado. Jesse ouviu tudo com atenção e quando acabei ele se aproximou de mim.
– Sabe, , eu sou muito influente. Tenho que usar isso de alguma forma, tenho que proteger os meus funcionários. – Ele estava perto de mim de uma maneira que chegava a ser bem antiprofissional, mas estava tão tensa que não ousei respirar. – Ainda mais você, uma moça tão bonita, sendo exposta.
Ele passou o dedo no meu rosto e, mesmo no automático, levei um susto e me recostei na cadeira, indo para trás a fim de me afastar dele.
Ele estava mesmo assediando mulheres.
– Sabe, e você vai conseguir me ajudar? – Perguntei, cruzando os braços em cima do peito.
Ele sorriu, um sorriso nada bonito.
– Pode ir, . Farei o possível.
Assenti.
– Obrigada, Sr. Curtis.
Nem esperei sua resposta, me levantei da cadeira o mais depressa possível com cuidado para não derrubar o chumaço de papéis. Já estava quase na porta quando ele me chamou de novo.
– Sim?
– Você está muito nervosa. – Disse. – E com razão. Pode ir para casa, tira o resto do dia de folga.
Eu ia bem negar, mas na verdade concordava com ele. Estava com zero disposição para fofocas, exposição e pessoas falando sobre mim. Além de que, mesmo que com raiva, eu gostava muito de Niall e queria descobrir o quanto ele sabia e de que forma poderia me ajudar.
Expliquei resumidamente para Rachel o que tinha acontecido antes de pegar minha bolsa e sair da mira de todas as pessoas que me apontavam. Não me sentia segura deixando meu destino nas mãos de Jesse Curtis, mas até onde constava eu não tinha muita escolha. Uma notícia sobre mim já era ruim, uma notícia negativa, pior ainda. Vi mais uma mensagem de Niall, mas ainda estava com muita raiva e não gostava de resolver as coisas com a cabeça quente. Sai do elevador suspirando, pensando que ironicamente a situação só tinha acontecido por causa da própria PlayList, em primeiro lugar, quando aceitei fazer aquela entrevista.
✈️✈️✈️

Óbvio que eu não era tão importante assim, então a chuva de notícias se limitou a existir na parte da manhã. Durante a tarde até o início da noite, a internet tinha se acalmado em um geral, mas as pessoas ainda estavam me seguindo no Instagram e pela primeira vez na vida fui mencionada tantas vezes que era impossível ver em tudo que me marcaram. Seguindo os conselhos da sábia Rachel, me desliguei das redes sociais. Ainda encarava as cinco mensagens de Niall e a única chamada não atendida na barra de notificações do meu celular. Resolvi que iria falar com ele, não tinha muita escolha. Abri minha caixa de mensagens, e cliquei no nome de Niall. A primeira mensagem era da noite anterior, seguindo em ordem cronológica até duas horas atrás. Suspirei, achando o desespero até que fofo e me sentindo uma babaca por ter ignorado Niall o dia todo.

Niall

Acabei de chegar em Los Angeles e já estou em casa.
Tudo certo por aqui. – 19:37

Bom dia, flor do dia! – 07:58

, está tudo bem? Acabei de ver. Juro que não tenho
nada a ver com isso, nem sabia que tinha sido fotografado.
Me liga, por favor. – 09:25

Seu silêncio está me matando, mas imagino que tenha
outras coisas para resolver agora. Assim que puder liga
para mim, sério. – 13:17

Oi, . Conversei com um monte de pessoas
para tentar resolver isso, vai dar tudo certo. Me
atende, precisamos conversar. Não me ignora – 18:40



Oi, Niall. Desculpa não ter respondido, estava mesmo tentando
arrumar essa bagunça. Pode me ligar agora, se quiser. – 20:54



Cinco minutos separaram minha última mensagem da ligação de Niall. Atendi o telefone, meio sem saber o que fazer.
– Oi, Niall.
Oi! Como você está? – Perguntou. Ele queria dar a impressão de que estava calmo, mas eu o conhecia mais do que deveria para saber que ele estava nervoso do outro lado da linha.
– Estou bem. – Disse, me sentando no sofá por cima da minha perna. – A confusão foi só quando cheguei no trabalho mesmo, aposto que segunda feira as coisas já estarão melhores.
Ele bufou.
Me desculpa, mesmo.
– Tudo bem, a culpa foi minha. – Respondi, seca, surpreendendo até a mim mesma com o tom da minha voz. – Eu fui idiota de achar que passaria despercebida ao lado de um cara famoso durante tanto tempo.
Eu tomei tanto cuidado! Tentei não ir para os pontos turísticos mais cheios, você sabe disso.
A lembrança do dia em que ele me levou a uma rua residencial qualquer apenas porque queria passar um tempo comigo veio à minha memória. Mas sacudi a cabeça, espantando o que quer que fosse.
– Eu sei, Niall. Eu sei. Só...
Ei, somos amigos. Desde o começo, somos só amigos. Não somos? – Perguntou, partindo meu coração.
Claro, . Ele era apenas seu amigo. isso.
Nesse momento a gente percebe o quanto estar apaixonada por alguém é decepcionante, ainda mais se esse alguém for seu ídolo da adolescência. Nossas conversas, risadas e piadas apareceram na minha cabeça no formato de looping e eu não consegui evitar a sensação de que meu coração parecia esmagado.
Percebi que estava há tempo demais olhando um ponto fixo da parede quando meus olhos arderam de tristeza e agradeci por estarmos pelo telefone e ele não poder ver as lágrimas que escorreram pelo meu rosto.
– Claro, Niall. – Tentei sorrir, limpando as bochechas. – Amigos.
Eu não vou conseguir voltar esse final de semana porque...
– Nem precisa. – Interrompi. – Não precisa voltar por um tempo, é melhor. Espera as notícias se acalmarem. Ficando aí você impede que novas notícias surjam.
Ouvi ele respirando fundo do outro lado da linha.
Mas ainda somos amigos, certo? Você ainda vai conversar comigo?
Prendi a respiração antes de responder.
– Olha, eu...
Ah, não, . – Murmurou. – Isso não tem nada a ver com nós dois, eu juro que não é sempre assim.
– É sim!
A situação está muito pior para mim, acredite. Estou sendo acusado de traição.
E pela primeira vez percebi que toda essa história também afetava Niall e seja lá qual fosse sua relação com Hailee. Como eu era egoísta! Fiquei com pena e por um momento quis ajudar, mas eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer.
– Sinto muito que isso também tenha te afetado. – Comecei. – Mas acho melhor darmos espaço.
Ele demorou um pouco antes de responder.
Isso é mesmo necessário?
– Minha carreira está prestes a acabar antes mesmo de começar, Niall. Entendo que nada disso é culpa sua, mas precisamos nos afastar por um tempo.
Quando... quando vamos nos falar de novo?
Sorri, mesmo que ele não pudesse ver.
– Você vai ser o primeiro a saber. Paciência, Niall. – Pedi. – Só um pouco de paciência.
Tudo bem. – Concordou.
– Boa noite, popstar.
Ele riu, ainda que meio triste.
– Boa noite, .
Desliguei o celular me sentindo mil vezes mais leve e ao mesmo tempo... dez mil vezes mais vazia. Não sabia o quanto gostava de Niall até que tive que pedir um tempo para ele, estando frente a frente com o primeiro final de semana em meses que eu passaria sem sair com o meu cantor preferido. Afastei o pensamento saudoso da minha cabeça, fazendo uma lista de coisas que eu poderia adiantar agora que estava finalmente em casa por um tempo mais longo. Talvez eu voltasse a pintar, ou saísse com Rachel.
É, seria um longo final de semana.

Capítulo 8

Azul, amarelo, rosa claro. A falta de prática era visível, afinal já se passaram anos desde que tinha tocado em uma tinta. A técnica infantil tinha começado a me irritar, mas as pinceladas eram tão precisas quanto sempre foram. Tinha começado o quadro naquela manhã, após uma noite insone, e decidir que sentia falta de pintar. Estava pintando de maneira aleatória, mas quadros abstratos tinham uma finalidade muito grande para mim. Um quadro abstrato nunca mentia as emoções do pintor.
Quando o declarei pronto, dei um sorriso para mim mesma, me levantando da cadeira e dando dois passos para trás. Sorriso esse que murchou totalmente quando notei que aquela curva amarela condizia perfeitamente com o cabelo de Niall e os pontos azuis eram traços perfeitos que lembravam seus olhos.
– E aí, posso ver como ficou? – Insistiu meu pai do outro lado da linha.
Arregalei os olhos, mas tentei disfarçar para que ele não percebesse que tinha algo de errado. Ele tinha pedido para me ver pintando, enquanto tocava no violão as notas de quase todas as músicas que eu pedia. Nada como matar as saudades do meu pai com pintura e um rádio ao vivo. Cocei a cabeça, indo até onde deixei meu celular e peguei o aparelho, aproximando ele da minha cara. Eu não podia nunca mostrar esse quadro para ele, surgiriam perguntas demais.
– Não está pronto, desculpe. – Respondi, enfaticamente.
– Você foi para trás admirar sua obra de arte, as pessoas só fazem isso quando está pronto, . – Disse divertido, abandonando o violão. – Vai por mim, eu entendo de obras de arte.
– Exceto que não está pronto mesmo. Você não pode ver, pai, dá azar.
– Mas, ...
Fingi que tinha recebido uma mensagem pela barra de notificações.
– Ah, vou ter que desligar. Minha... chefe quer falar comigo. Urgente. – Ele arqueou uma sobrancelha, desconfiado da minha desculpa esfarrapada. – Assunto do trabalho. – Tentei de novo.
O homem não se deu por convencido, mas mesmo assim assentiu, concordando.
– Tudo bem, então, Van Gogh.
– Obrigada por ficar comigo na linha! Tchau, pai! – Me despedi, por fim, desligando a câmera.
Encarei o quadro com o coração apertado de saudade. Nunca pensei que apenas quarenta e oito horas sem Niall me deixaria tão mal. Mesmo que o quadro não me passasse a melhor das emoções, fiquei feliz com a ligação do meu pai quando percebeu que eu estava online e perguntou se eu queria companhia. Sentia saudades dele e da minha mãe; tinha que me programar com urgência para visita-los em breve.
Depois de olhar as horas, decidi reunir a bagunça que tinha feito na sala para começar a me arrumar para o trabalho. Apesar de não ter dormido, me sentia mais desperta do que deveria, provavelmente apreensiva com o que aconteceria no trabalho depois de toda a repercussão da notícia que, devo admitir, foi quase nula no fim de semana. Quando verifiquei direito, notei que a notícia tinha caído em vários sites e tomado uma proporção menor. Fiquei receosa de Jesse ser o responsável e me cobrar alguma coisa; talvez por isso estava com medo de ir trabalhar naquele dia.
Minha conta do Instagram estava uma loucura e Rachel havia insistido, mais de uma vez, que eu criasse um Twitter também, mas neguei. Primeiro porque minha vida é zero interessante, segundo porque meu interesse em Niall não tinha nada a ver com a fama que me acompanharia, e para falar a verdade eu nem tinha pensado nisso.
Pensar em Niall, de novo, me lembrou das duas chamadas perdidas dele no meu celular, que eu ignorei. Odiava essa situação e estaria mentindo se dissesse que não sentia falta dele, mas o que mais poderia fazer?
Arrasada e com o coração mais apertado do que nunca, finalizei a limpeza da sala e fui me arrumar para trabalhar. A reunião de hoje seria a primeira que envolveria Jesse e eu não poderia falhar de maneira nenhuma.
✈✈✈

A boa notícia é que as pessoas estavam me encarando menos. Bem menos. Sentei em minha cadeira, sutilmente olhando ao meu redor e notando que realmente me fazia menos presente que na sexta passada.
Finalizei e ajustei os detalhes de toda a minha apresentação no prezi, que seria apresentada para Olivia, Jesse e mais algumas pessoas que cuidavam da parte de relacionamento e comunicação. Eu queria escrever o antes e depois de cantores e bandas que já não eram tão novidades assim, por exemplo Demi Lovato, Jonas Brothers, Miley Cyrus, Big Time Rush e até One Direction. A ideia era falar um pouco sobre cada um deles e o que estariam fazendo agora. A pesquisa tinha fundamento, além de apresentar cantores passados para uma geração mais jovem, essa coluna poderia também atrair atenção dos nostálgicos de plantão. Minha ideia poderia não ser a melhor que eu tive, mas ainda era boa, visto que tinha grandes chances de ampliar as vendas da revista, chamando atenção de um público alvo diferente do comum. Tinha dedicado semanas para essa pesquisa e me sentia orgulhosa de mim mesma.
A reunião tinha sido marcada para o fim do dia, então passei toda a segunda pulando na minha cadeira de ansiedade.
– Está pronta, ? – Chamou Olivia a minha direita, quando chegou a hora. Sorri para ela.
– Totalmente. Você vai adorar.
Ela me olhou meio torto, muito provavelmente emburrada por conta da notícia da sexta anterior, mas não deixei isso abalar meu bom humor. Peguei meu notebook em cima da mesa, e segui Olivia até a sala de reuniões. Tivemos que esperar um atraso de quinze minutos de Jesse Curtis, mas logo depois ele surgiu, seguido de uma assistente que vinha se esforçando para acompanhar seus passos rápidos com uma prancheta na mão.
Eu já estava posicionada na frente da sala, um total de sete pessoas me encarando ansiosamente. Pelo canto do olho vi Rachel colocar a cabeça dentro da sala para me dar boa sorte com um sorriso e saindo logo depois, mas mesmo assim me deu mais confiança na apresentação.
– Boa tarde a todos. – Comecei. Com o atraso de Jesse já tinha deixado a apresentação na TV para que os participantes pudessem me acompanhar, então apertei o play para que a tela mudasse. – Minha proposta para esa edição de aniversário é um pouco diferente do usual. Eu queria trazer à tona artistas que já tiveram seus momentos de fama conosco e...
– Isso não faz o menor sentido. – Cortou Jesse, cruzando os braços. – Se eles já tiveram seus momentos de fama, o que você quer fazer noticiando eles? Falir a revista?
Sorri, nervosa.
– Boa pergunta, mas se me deixasse terminar veria... – Mudei a tela rapidamente até chegar no slide que eu queria. – Olha, se ver esses gráficos com atenção, as pesquisas mostram que...
– Quem fez essas pesquisas, ? – Interrompeu novamente.
– Eu. – Respondi nervosa. – Veiculei as pesquisas online nas minhas redes sociais e...
– Você quer tomar uma decisão com base em uma pesquisa de rede social? – Jesse riu, limpando o suor de sua cabeça careca. – Olha, , esperava mais de você.
Constrangida, tentei retomar a reunião, onde já via as pessoas que mais me interessavam claramente impacientes.
– Sr. Curtis, você está equivocado. – Tentei. – Hoje em dia as redes sociais são uma grande fonte de...
– De acordo com quem, ?
Se Jesse continuasse me interrompendo a cada palavra que eu dissesse, essa reunião não iria terminar nunca. Eu não podia deixar ele passar por cima de mim assim, seja o chefe de quem fosse. A apresentação era minha, a reunião tinha sido solicitada por mim e eu nem tinha convidado ele. Se eu não tomasse uma atitude agora, mostrando o tipo de mulher que eu era, esse homem machista e sexista nunca saberia qual era o lugar dele.
Cruzei os braços, respirando fundo e fingindo que era a pessoa mais calma e tranquila desse mundo.
– Essa apresentação se refere a uma edição especial que desenvolvi com muita atenção durante as últimas três semanas, tomando o cuidado de consultar todo mundo que fosse pertinente, ent...
, está claro que está nos fazendo perder tempo.
– Sr. Curtis. – Se pronunciou Olivia pela primeira vez. – Os interessados da publicação estão bem aqui: , a escritora, eu, como aprovadora e as áreas de comunicação e relacionamento, que estão ao seu lado. Você é um convidado nessa reunião, e, se não deixar terminar, terei que pedir que se retire.
A voz cortante de ódio de Olivia me fez prender a respiração. Fiquei feliz por ela ter me defendido, mas ao mesmo tempo com medo de que Jesse poderia incluir Olivia em seu mundo machista também. Para nossa sorte, o homem sorriu, claramente envergonhado.
– Tudo bem. – Concordou, olhando para mim, os olhos ardendo de raiva. – Não está mais aqui quem falou.
Agradeci a Olivia com um aceno, sentindo minha admiração por ela crescer cinquenta vezes mais, e retomando a minha apresentação. Quando cheguei ao final, algumas pessoas levantaram as mãos para tirar dúvidas e devo dizer que a maioria gostou da proposta, fazendo Olivia me dar uma piscadinha orgulhosa.
Mas, como a vida gosta de me sacanear, uma ligação de Niall através do FaceTime começou a tocar no meu notebook, chamando uma atenção desnecessária para mim novamente.
– É, desculpa, eu esqueci de sair ontem à noite. – Murmurei, vendo Jesse dar um sorriso muito estranho no fundo da sala.
Desliguei a chamada e desconectei o meu notebook do cabo que o ligava a TV, para o caso de Niall resolver ligar de novo. O que já estava começando a me irritar, eu tinha pedido um tempo, não tinha?
Com todas as coisas que estavam acontecendo na minha vida, tinha que admitir que Niall era o menor dos meus problemas, e para ser honesta eu sabia que tinha exagerado em me afastar dele. Mas primeiro eu precisava consertar minha bagunça no escritório, depois eu veria o que faria a respeito de Niall.
Encerramos a reunião pouco tempo depois do meu deslize e, agradecendo a todos pela presença uma última vez, saí da sala indo em direção a minha mesa para buscar minhas coisas. Com as constantes interrupções de Jesse, a reunião tinha durado mais tempo do que eu pretendia e por isso, claro, Rachel já tinha ido embora, assim como a maior parte do meu departamento.
Quando cheguei ao térreo, tarde demais me lembrei da tempestade incomum para essa época do ano com a qual fui recebida. Várias pessoas estavam esperando a chuva passar no hall, mas eu estava tão desesperada que pedi um uber, mesmo que o preço estivesse três vezes maior que o normal. Devido ao trânsito, meu motorista ainda demorou quinze minutos para chegar.
Sai na chuva para entrar no carro, me molhando completamente. Sorri com isso, me lembrando de como me senti na chuva com Niall uns dias atrás. Foi o motorista que não gostou muito de me receber toda molhada no banco traseiro de seu carro, e seguiu a viagem toda sem falar comigo.
Ainda pegamos trânsito para seguir a caminho de casa, e o humor do motorista não tinha melhorado muito. Quando chegamos ao destino, ele nem me desejou boa noite, arrancando com o carro logo que fechei a porta.
Não me importei muito em dar a devida educação ao moço, e com a chave em mãos, corri até o portão a fim de escapar da chuva. Tinha uma pessoa ali, tão molhada que achei que fosse um morador de rua, apesar de não ver muitos nessa região.
– Com licença, eu preciso...
E então o homem se virou para mim, sorrindo e tremendo. Dei um suspiro, sem saber se era de alivio ou de raiva, ou de saudade ou de desespero; não sabia nem por onde começava a nomear os sentimentos que me envolveram.
. – Sussurrou Niall, se levantando e vindo em minha direção. – Estou te esperando há uma hora.
– Eu tive uma reunião e me... atrasei. – Murmurei, ainda sem saber como agir.
Ele já tinha me conquistado e no fundo ele sabia disso. Ele tinha que saber. E se Niall estava aqui, ele tinha se decidido? Ele gostava de mim? Por que mais um homem esperaria na chuva por uma hora se não gostasse de você?
Estávamos completamente ensopados e eu estava tão tocada com a aparição de Niall em São Francisco que travei completamente.
– Você estava certa. – Falou, mais alto que a chuva.
– Sobre o que?
– Consegui escrever uma música quando a garota me deu um pé na bunda, como você disse. – Sorriu, de um jeito triste. – Estou atrasado, é isso? Não vou mais ter você de volta?
– Do que você está falando, Niall? – Gritei de volta. – Foi você que disse que éramos apenas amigos. Eu fiquei na friendzone!
– Me deixa falar, por favor!
– ... então sim, Niall, você está totalmente atrasado! – Falei brava, não notando até aquele momento que eu estava mesmo brava com Niall, principalmente por não ter sido correspondida.
– Eu escrevi uma música, ! – Disse, chacoalhando a cabeça. – Por sua causa!
Lembrei-me das nossas primeiras conversas.

– Deve ser muito ruim cantar e escrever sobre algo que você não sente de verdade.
– Nem tanto, . Eu só preciso fingir que sinto. É isso que um artista faz.”


– Você me ouviu? – Disse, chegando mais perto de mim e tomando minhas mãos. – Minha volta para Los Angeles não fez o menor sentido e só percebi isso quando cheguei lá. Você não só faz sentido, você coloca sentido em tudo!
– Niall, não estou entendendo onde quer chegar! – Exclamei, ao mesmo tempo que um trovão ecoou no céu escuro por conta da chuva.
– Na sexta à noite fui com... uns amigos para o karaokê. Eu não gostei e quis ir embora mais cedo. No sábado pedi comida tailandesa, mas não me lembrei do que eu comi da última vez e fiquei bravo. Ontem eu recebi um convite que irá ser ótimo para minha carreira e tudo que eu mais queria fazer era vir até sua casa para te contar, mas me lembrei que não estava mais em São Francisco. – Disse, chegando mais perto. – , você me pediu paciência, e eu tentei ter. E escrevi uma música sobre isso. Quando ela ficou pronta, foi então que eu entendi tudo.
– Tudo o que?
– Eu ainda adoro karaokê e comida tailandesa, mas você não estava comigo e eu odiei isso. Eu quero continuar com você e me sinto estupido por não ter percebido isso antes.
Eu queria entender o que ele estava me dizendo, mas minha cabeça estava confusa demais.
– Percebido o que, Niall? – Gritei, quando mais um trovão ecoou.
– Eu estou apaixonado por você, ! – Falou alto, com a face cheia de emoção. – Estou apaixonado por você talvez desde o nosso primeiro encontro!
Niall estava assustado. Ele não estava assustado porque tinha medo que não fosse correspondido. Niall Horan estava assustado porque, assim como eu, também tinha se apaixonado pela primeira vez.
E era lindo.
Era poderoso.
E... assustador na mesma medida.
Não consegui evitar um sorriso.
– Você o que?
. – Ele beijou minhas bochechas, com o rosto tão perto de mim. – Eu.. eu achei uma razão para cantar sobre amor quando conheci você.
Niall hesitou de novo, mas foi diferente.
Ele não hesitou porque tinha dúvidas, ele hesitou porque me olhava, querendo gravar cada centímetro do meu rosto em sua memória. E eu sabia disso porque fazia o mesmo. Gravava cada detalhe de suas pintas espalhadas pelo seu rosto em minhas melhores lembranças. Ele passou os dedos pelas minhas bochechas lentamente, de um jeito tão íntimo que fez eu me sentir linda e desejada. Nossos corpos molhados colaram um no outro como ímãs, e meu coração batia tão alto que abafava o barulho forte da chuva. A mão esquerda se afastou do meu rosto para colocar um fio teimoso do meu cabelo molhado atrás da orelha, e se manteve ali, no meu pescoço. Nossos olhares ardiam tanto que não deu para resistir: lancei-me contra Niall e nossos lábios se encontraram, desesperados para sentirmos um ao outro. Assim que minha boca encostou na dele, tudo mudou. Era clichê e previsível, mas era lindo. O beijo de Niall era tão bom quanto imaginei que seria, e ele me beijava devagar, com cuidado, como se tivesse medo que eu fosse sair correndo de seus braços. Como se fosse possível, o beijo calmo e sereno só meu deu mais vontade dele e, ainda como um imã, quis me fundir ao rapaz que me segurava em seus braços. Apesar de estar molhada e com a chuva e o vento forte, não sentia frio, muito pelo contrário.
Tive a certeza de que estava apaixonada por ele há muito mais tempo do que eu pensava, e a cada segundo naquele beijo que eu não queria que parasse nunca, me sentia mais segura no melhor abraço do mundo. A água salgada da chuva escorria por nossas faces e, mesmo assim, ainda era o beijo mais doce que recebi. Emocionada com o beijo e a descoberta do primeiro amor, me desprendi das coisas que me preocupavam, entregando-me para o momento.
Ainda feliz demais para fazer qualquer outra coisa, só me rendi de corpo e alma para Niall Horan, deixando que esse beijo tivesse a chuva diante de nós como nossa única testemunha.


Capítulo 9

Na manhã seguinte eu não consegui abrir meus olhos. Estava com uma dor de cabeça absurda e precisei me virar para o lado porque notei que uma das minhas narinas estava entupida. Sentia muito frio, o que era esquisito porque eu conseguia sentir a claridade do sol. Com muito esforço, recuperei minha visão, ainda que um pouco embaçada. Tateei o espaço ao lado da minha cama e o encontrei vazio: Niall não estava mais lá. Suspirei, chateada, deixando-me levar para os acontecimentos da noite anterior. A noite em que tudo tinha acontecido. Ou quase tudo, completei meu pensamento.
Não é que eu fosse careta ou algo do tipo, mas acho que não queria ter esse tipo de intimidade com Niall Horan, pelo menos não ainda. Ele pareceu entender e respeitar o meu espaço, o que aqueceu meu coração, e talvez foi por isso que eu tinha me permitido a deixar que ele dormisse comigo. Se alguém me contasse, naquela entrevista, que três meses depois Niall Horan estaria dormindo ao meu lado, eu jamais teria acreditado.
Estava fraca demais para me mexer, então não conferi se Niall de fato tinha ido embora, apenas me deitei novamente. Eu tinha apenas julgado ele mal, claro, porque uns cinco minutos depois, escutei a porta se abrir. Tão rápido quanto eu pude, me sentei ereta.
E Niall não deixava de me surpreender, nunca. Lá vinha ele segurando uma bandeja com refeições leves e remédios. Ele sorriu quando me viu acordada.
— Bom dia, . – Falou, se aproximando para beijar minha testa e pousou a bandeja na minha frente. – Ainda está com febre. Como se sente?
— Parece que fui atropelada por uns três caminhões. – Falei, percebendo tarde demais que minha voz estava bem nasalada.
— Você está resfriada, pegou muita chuva ontem. Você tem alergia a algum remédio? – Questionou, me apontando o que estava na bandeja. – Eu trouxe mais de um, caso tenha.
Antes de responder, tive uma crise de espirros, e Niall prontamente me estendeu a caixa de papel, os jogando no lixo logo em seguida. Consegui dar risada.
— A gente nem teve um encontro e você já está limpando meu catarro.
Ele fez uma careta de novo, seguida de um sorriso.
— É, não se acostume.
— Eu não tenho nenhuma alergia. – Respondi finalmente.
Ele me deu dois comprimidos e um copo d’agua garantindo que ficaria melhor em poucos minutos. Me ajudou a comer o que ele tinha trago para mim, coisas leves, mas que raspavam na minha garganta, por isso só tomei o suco de laranja. Niall recolheu tudo, ajudando-me a deitar novamente.
— Niall. – Chamei, quando ele já estava saindo. – Obrigada por fazer isso.
— Você não precisa me agradecer. Não foi nada. – Meu cantor favorito no mundo sorriu para mim, me deixando sozinha.
Estar apaixonada por ele era como o céu estrelado a noite, a brisa matutina na praia, um raio de sol tímido ao amanhecer e um chuvisco suave no fim de uma tarde de verão. Estar apaixonada por Niall me deixava leve, menos tensa, fazia eu sentir que eu não precisava carregar o mundo nas costas, como sempre achei que fosse. Eu nunca achei que pudesse me sentir dessa forma, e sempre que pensava nisso, sorria, boba.
Mas eu não era tão boba. Tinham muitos problemas. Niall era famoso, e eu já tinha sido mais exposta do que deveria. Em primeiro lugar viveríamos escondidos. Sem passeios pela orla, sem jantares românticos e nada que envolvesse estar em multidão. E além de tudo ele morava em outra cidade. Se for parar para pensar, ele morava mesmo era em outro país, Los Angeles não era a sua casa favorita no mundo. Era apenas conveniente.
Não gostava de pensar assim, mas era inevitável.
Niall voltou para o meu quarto, sentando na ponta vazia ao meu lado.
— Você ficou na chuva bem mais tempo que eu. Porque não ficou doente?
— Sabe como é, eu sou realmente resistente. – Respondeu, fazendo graça.
— Se quer saber é a primeira vez que fico doente desde que me mudei.
Ele estreitou os olhos.
— Eu acredito. Você não tinha nenhum remédio aqui, por isso fui na farmácia.
— Obrigada de novo.
, não precisa me agradecer! – Repetiu. – Que tipo de pessoa eu seria se deixasse minha crush doente sozinha?
Eu ri.
— Eu sou sua crush?
— Porque, já quer ser minha namorada? – Questionou, me cutucando com o cotovelo.
— Vamos com calma aí, popstar. – Niall riu, se deitando ao meu lado e se virando de frente para mim.
— Toma seu celular. – Falou, estendendo o aparelho para mim. – Acho que não vai conseguir trabalhar hoje.
Suspirei, frustrada. Não gostava de faltar do trabalho. Tinha certeza que o remédio logo faria efeito, então decidi que iria para o trabalho depois do horário de almoço. Peguei o aparelho da mão de Niall, constando que faltavam quinze minutos para as oito e liguei para Olivia. Ela me atendeu segundos depois.
Oi, .
— Olivia, queria saber se tudo bem eu chegar mais tarde hoje. – Niall fez uma cara confusa, mas eu fiz um gesto pedindo para ele ficar quieto. – Tomei chuva ontem à noite e acho que estou com um resfriado.
Tudo bem, , mas se não estiver bem pode ficar em casa hoje.
Eu não podia dar a chance de Jesse sabotar meu projeto, então tinha que ir, mesmo se fosse preciso passar um quilo de maquiagem para disfarçar minha cara de doente.
— Não, está tudo bem, eu me recupero rápido.
Tudo certo, então.
Desliguei o telefone, colocando ele ao lado da minha mesa de cabeceira.
— Vai trabalhar? Você mal consegue ficar em pé. – Niall disse, preocupado.
Mordi os lábios, resolvendo ser sincera com ele.
— Tem um cara no trabalho, Jesse, ele é bem ridículo. Eu acho que se eu não for hoje ele vai dar um jeito de sabotar o meu projeto.
— Aquele das antigas?
Sorri.
— Exatamente. Acho que ele não gostou muito e tem muita influência por lá. Preciso ir se quiser me defender.
Dei de ombros, me forçando a melhorar.
— Admiro isso. Mas precisa conhecer seus limites.
— Não precisa se preocupar. – Tranquilizei. – Eu posso me cuidar. E se eu piorar prometo que envio uma mensagem. Pode ser?
— Eu estarei lá se precisar.
— Eu sei disso.
Meu celular apitou, o que chamou minha atenção para o aparelho. Bufei, nervosa.
— O que foi?
— Só estressada com minha fama repentina. – Disse, mostrando a página inicial do meu Instagram que mostrava quase quinhentos mil seguidores.
— Tem bastante gente interessada na sua vida.
— Não estão interessadas em mim, estão procurando motivos para estarmos ou não juntos. – Resmunguei.
— Isso não é bom para você?
— Deveria ser, mas... eu não sou blogueira, eu sou jornalista. – Falei, simplesmente.
Niall pegou o meu celular, abriu a câmera e escolheu um filtro em preto e branco. Em seguida, segurou minha mão junto com a sua e tirou uma foto. Na legenda, escolheu um coração bem tosto e escreveu “meu amor”.
E postou nos stories.
— Você ficou maluco?
Niall me olhou com uma cara divertida.
— Se não pode com eles... junte-se a eles. – Respondeu. – Vai por mim, isso vai dar no que falar.
— Só vai atrair mais pessoas.
— Talvez. Mas eu consegui tirar as notícias do ar, então isso vai sumir em breve. Eu prometo.
— Espera, você quem tirou as notícias do ar?
— Não literalmente eu, mas foi sim.
Suspirei de alivio.
— Achei que tinha sido outra pessoa.
— Isso seria ruim? Se fosse essa pessoa?
Acho que demorei uns cinco segundos para responder.
— Seria bem ruim sim.
Estava aliviada com o fato de não estar devendo nada a Jesse, e voltei a me apoiar em Niall, me aninhando a ele. Nunca achei que fosse encontrar lar em um homem que achava tão inalcançável, mas eu pensava nisso cada vez menos. Fiquei quietinha enquanto esperava passar o efeito do remédio, e Niall ficou cantando baixinho no meu ouvido até eu dormir.
E eu queria poder dormir desse jeito todos os dias.

✈✈✈


Não estava realmente bem para trabalhar, mas disse a Niall, cinquenta vezes, que estava tudo certo e que conseguia trabalhar normalmente. Como ele tinha vindo de surpresa para São Francisco na noite anterior, não tinha nenhuma reserva de hotel. Deixei minha chave com ele e disse que ele poderia ficar por lá até um lugar.
Para quem estava com febre, eu estava conseguindo disfarçar bem. Algumas pessoas me olharam torto quando cheguei, outras sorriram para mim, mas o mais importante foi chegar em minha mesa.
— Oi, ! – Cumprimentou Rachel na mesa ao lado.
— Oi, Rach.
— Você não está bem mesmo, né? – Comentou, parecendo preocupada. – Olivia me contou o que aconteceu.
Coloquei meu casaco ao redor da cadeira, me sentando e ligando meu computador.
— Eu estou resfriada. Peguei um resfriado na chuva de ontem.
— O que estava fazendo na chuva?
Olhei para os lados para ver se não tinha ninguém nos observando.
— Ok, não surta.
, fala logo. – O modo fofoca de Rachel entrou em ação e eu quase consegui ver sua mente trabalhando todas as teorias possíveis.
— Promete que não vai surtar.
Rachel revirou os olhos, impaciente.
— Tá, eu prometo. Anda, fala!
— Eu cheguei em casa, vi Niall na rua, ele disse que está apaixonado por mim e nos beijamos.
— Não acredito que meu casal está vivo! – Gritou, colocando as mãos na boca.
— Rachel! – Repreendi, pedindo para ela falar baixo. – Você prometeu que não surtaria!
— Você não me disse que iria envolver uma fofoca desse nível. E onde estão os detalhes?
— Ok, em primeiro lugar não é uma fofoca, é um segredo. E em segundo lugar, se você se comportar, eu te conto detalhadamente depois. – Disse, virando de frente para o meu computador.
— Droga, eu odeio segredos. – Ouvi ela murmurando. – E odeio esperar.
Sorri, apesar de tudo. Eu confiava em Rachel o bastante para saber que ela iria guardar meu segredo, e, sinceramente, eu precisava de alguém para compartilhar o que estava passando.
Abri minha caixa de entrada pronta para o trabalho. Como não tinha uma assistente, precisava lidar eu mesma da burocracia. Tinha deixado para cuidar dos estúdios de fotografia hoje, então fiquei veiculando orçamentos e pagamentos, cobrando fotos, aprovando layouts e isso me levou quase duas horas e meia. Estava terminando meu último e-mail quando meu telefone tocou.
— Alô?
, o Sr. Curtis está te chamando na sala dele. – Informou a secretária, tímida.
— Certo, já estou indo.
Não gostava de voltar nada de ir para sala de Jesse sozinha, mas eu não tinha escolha. Por via das dúvidas, levei meu celular, deixando o gravador ligado. Eu sabia que estava infringindo alguma lei, talvez, ao gravar Jesse sem seu consentimento, mas em minha defesa, eu estava assustada. Bati na porta três vezes e escutei sua voz pedindo para que eu entrasse.
O ambiente parecia ainda pior que antes, se é que isso era possível. Jesse estava casualmente apoiado de costa para sua mesa e seu perfume era tão forte que irritou meu nariz, que já não estava muito bom.
— Em que posso ajudar? – Perguntei, formal. Estava parada a uma distância segura dele, ainda em pé.
— Sente-se, por favor. – Pediu, indicando a cadeira em sua frente.
Com um ódio gritando dentro de mim, me sentei, sutilmente afastando a cadeira de perto dele.
— Então, seu projeto foi aprovado. – Informou, sem parecer muito feliz com isso.
— Que maravilha!
— É, eu não comemoraria tão cedo. – Suspirou, cruzando os dedos. – Estou pensando em te tirar do iTeen.
Ele podia fazer isso?
— Porque?
— Bom, , eu não sou lá uma pessoa muito alienada nessas fofocas adolescentes, mas a repercussão da notícia da semana passada foi grande. – Começou, se aproximando de mim. – Sabe, enquanto eu lia ficava pensando quem será que queria ferrar com a sua vida assim. Quer dizer, da onde você poderia conhecer Niall Horan. Mas eu não sou burro também. E vi nas edições passadas das suas colunas, uma entrevista com o próprio em agosto desse ano.
— Sim, isso é verdade. – Concordei, pensando o que tinha a ver uma coisa com a outra.
— Por isso a melhor saída é encontrar um novo quadro para você. Não foi muito profissional, misturar seu trabalho com a vida pessoal.
— Eu não misturei nada! Eu fiz meu trabalho e depois Niall quis se aproximar de mim por conta própria.
— Calma, ei! – Falou, segurando meus ombros, com um sorriso horrível. – Não precisa se preocupar. Eu não vou fazer nada, se me prometer que vai ficar bem... quietinha.
Jesse afagou minha perna esquerda, a que estava mais próxima dele. Senti uma raiva tão grande que meus olhos marejaram. Eu nunca tinha passado por uma situação assim na vida, mas decidi que, doente ou não, eu tinha que lidar com isso.
— Tira sua mão da minha perna.
Ele riu.
— Ui, vai ser assim então.
Levantei-me, cruzando os braços.
— Quer saber, você vai me deixar em paz.
— Ah, eu vou? – Debochou. – Você descumpre regulamentos, é antiprofissional e eu vou simplesmente deixar... você em paz?
— A única coisa antiprofissional aqui é o seu assédio. – Murmurei, sacando meu celular. – E você vai me deixar em paz ou eu vou expor todo o conteúdo dessa gravação, e eu nem ligo se receber um processo por isso!
Jesse ficou pálido, seus olhos se turvaram à medida que sua raiva crescia.
, não me provoca.
— Se não o que, Jesse Curtis? – Falei, um tom mais alto do que deveria. – Vai em frente, eu não tenho medo de você.
Dito isso, saí de sua sala, com o olhar de todos em mim. Esperava, para o meu próprio bem, que ninguém tivesse ouvido.
— E então, você estava mesmo doente hoje de manhã? – Perguntou uma assistente, debochada.
— Do que você está falando?
A amiga chegou perto rindo.
— Ah, ela se faz de desentendida. – Ela mostrou meu storie com o Niall em uma montagem no Twitter. – Parabéns, você está nos trending topics
— Ela disse que estava doente, mas estava namorando com o Niall na cama. – Sugeriu a primeira, fazendo a outra rir.
— Você não tem como provar que essa foto é de hoje e nem que essa mão é do Niall. – Respondi, com o pouco de paciência que me restava.
Olivia estava de costas para gente, e se aproximou da roda.
— Vocês não deviam estar na manutenção? – Perguntou, reprendendo as garotas.
Elas pediram desculpas, indo em direção aos fundos. Olhei para Olivia, agradecida.
— Eu não sei o quanto ouviu, mas, eu juro, estou mesmo doente.
Olivia sorriu.
— Eu sou mãe, . Uma mãe conhece um resfriado de longe. – Ela olhou para o seu relógio. – Pode ir para casa, você ainda está mal. Eu sei porque está aqui e eu te prometo que nada vai chegar perto de estragar sua próxima coluna.
Minha admiração por Olivia só crescia, e eu estava realmente mal, então aceitei a folga. Despedi-me de Rachel e pedi um uber para voltar para casa. Estava procrastinando a compra de um carro há mais de um ano, mas colocando na balança, acho que eu preferia um uber. Precisava pensar mais no assunto se mantivesse a minha decisão de morar em São Francisco a longo prazo.
Niall ainda estava em casa quando cheguei, a única mala encostada no canto da sala.
— Oi. – Falei, tirando meu casaco.
— Achei que ia me manda mensagem. – Debochou. – Oi, .
— Eu vim de uber, está tudo bem. – Apontei para a mala. – Achou um lugar para ficar?
Niall coçou a cabeça, sem graça.
— Sobre isso...
— Ah, não. – Murchei, chateada.
— Eu preciso ir para L.A. – Falou. – Eles queriam que eu voltasse hoje, mas vou só amanhã. Sabe, para garantir que você está bem.
Sorri.
— Niall, eu sei me cuidar.
— Eu sei que você sabe, mas me sentiria melhor se pudesse ter certeza que melhorou. Tomou seus remédios?
Concordei com a cabeça, fazendo uma continência desajeitada.
— Sim, general.
Niall veio até mim, me abraçando delicadamente. Ele sentou no braço do sofá para ficarmos da mesma altura.
— Eu não sei o que é isso que a gente tem, e não sei como vamos fazer isso funcionar, mas... , eu quero tentar. Não vai ser fácil. Eu sou uma figura pública com uma agenda lotada, posso te expor sem querer e moramos em cidades diferentes. Mas eu quero isso, eu quero você. – Falou, passando a mão pelo meu rosto. Seu olhar atravessou minha alma e fez eu me arrepiar com a declaração tão direta. – Preciso saber se está disposta a tentar também.
— Certo, eu... – Larguei sua mão, me juntando a ele no sofá.
Realmente era tudo muito novo, eu nunca tive a intenção de me aproximar de Niall, muito menos de me apaixonar por ele. Sim, eu queria tentar. Mas estava com medo. O que vi isso no escritório foi apenas uma prévia do quanto minha vida pessoal estava exposta. A distância seria de longe nosso maior problema, mas quando olhei para Niall e vi seu olhar de esperança, decidi que ele valia a pena. Eu nunca tinha conhecido ninguém como ele, achava que esse tipo de homem só existia em conto de fadas. Ele devia ter algum defeito, todo mundo tinha, e curiosamente me peguei querendo descobrir quais eram. Queria saber se tinha medo de insetos, qual estação do ano favorita e se sonhava em formar uma família. Queria saber se gostava de esquiar, se lia com frequência ou mais ou menos, se gostava de cantar para si mesmo quando estava sozinho ou preferia uma plateia.
Quando me dei conta do que estava pensando, percebi que queria saber tudo sobre ele. E eu só conseguia pensar em uma forma de descobrir.
Dei um sorriso tímido, segurando sua mão novamente.
— Sim, Niall. Sim, eu quero muito tentar.

Capítulo 10

O mês de novembro ia embora depressa conforme dezembro chegava, trazendo consigo um clima mais frio. E com isso, vinha também o natal, a melhor época do ano. Era fácil caminhar por São Francisco e notar os apressados de plantão fazendo suas compras natalinas com uma certa antecipação, e tinha que lembrar a mim mesma, sempre que via essa cena, de comprar o presente dos meus pais, que eu já não via há uns bons meses.
Minha mãe ficou preocupada com a história de eu estar envolvida com um cantor famoso, mas para não fazer um alarde desnecessário dessa situação, preferi dizer que Niall era apenas meu amigo e que os sites de fofoca estavam imaginando coisas. Meu pai não acreditou muito nessa história, mas isso já era esperado: eu não conseguia esconder nada dele. Apenas me fiz de sonsa durante todo o tempo que durou a ligação de vídeo, torcendo para ele parar de me olhar daquele jeito de quem sabe de tudo. No fim das contas, ele não disse nada, porém eu achava que não iria escapar disso em uma próxima conversa.
Era sexta-feira e eu estava bufando dentro do Uber a caminho de uma festa que eu não queria ir, com uma roupa que não gostava de usar. Rachel estava radiante ao meu lado, tagarelando sobre como queria me apresentar o DJ gatíssimo que tinha conhecido no Tinder.
Quando cheguei do trabalho naquele dia, não estava em meus planos socializar. Mas sem ser convidada, é claro, Rachel havia me surpreendido em meu apartamento enquanto eu assistia um filme de pijamas no meu sofá. Minha amiga vinha insistindo, há uma semana, para que eu fosse com ela em uma boate nova que tinha inaugurado em Palo Alto, uma cidade vizinha que ficava pelo menos há trinta e três milhas da minha casa. A morena não se deixou levar pela minha negativa, enfiando em meus braços um vestido calorento demais para a temperatura do dia. Não satisfeita, ainda fez minha maquiagem e arrumou meu cabelo, com ondas bem marcadas que normalmente eu não usaria. Não vou mentir e dizer que odiei o que vi no espelho antes de sair de casa, só que estava frio demais para aquela animação toda, e certamente estava frio demais para aquele vestido que mal cobria minhas coxas.
Ainda estava brava por estar ali contra a minha vontade, mas Rachel parecia tão feliz em sair da cidade que decidi que poderia muito bem me divertir também, pelo menos naquela noite. Eu ainda era jovem, afinal de contas, e merecia viver como uma. No meio de sua falação, realmente me empolguei com a boate, e todos os trinta minutos no carro foram dedicados a Dean, o DJ que eu nunca nem tinha visto, mas já conhecia, de tanto que Rachel falou sobre ele.
O motorista nos deixou em frente a uma construção bem moderna, com um festival de luzes que indicava uma inauguração espetacular. Parecia um local bem amplo, e mesmo do lado de fora já conseguia ouvir as músicas que estavam tocando. Não era o tipo de música que eu escolheria ouvir se estivesse em casa, mas com certeza era bem animada, e eu gostava de dançar. Haviam muitas pessoas em uma fila do lado de fora, e deixei escapar um lamento enquanto Rachel pagava ao motorista.
— Você vai adorar, temos passagem VIP. Vamos! – Disse Rachel eufórica, apertando seu casaco de pelos sintéticos contra o corpo. Segurou em minha mão e me guiou por todo o percurso até o primeiro da fila.
Diferente do que mostravam os filmes, não tinha nenhum segurança fortão e nojento que só deixava passar garotas gostosas e com o cérebro do tamanho de uma ervilha. Tinha toda uma equipe uniformizada consultando nomes em uma imensa lista, o que só podia significar que a festa de inauguração era privada. Já fiquei mais confortada: festas privadas sempre concentravam menos pessoas.
— Oi, Rachel Palm. – Identificou-se Rachel, arrancando uma bufada da próxima pessoa da fila, uma garota de cabelos roxos. Dei um sorriso amarelo para ela, como se estivesse me desculpando. – Estou na lista VIP.
A mulher a quem Rachel se dirigia ergueu seus olhos da lista para nos encarar.
— Você precisa pegar a fila.
Rachel fez uma careta confusa, e como bem conheço minha amiga, sabia que ela iria começar um show em poucos minutos.
— Rachel, deixa para lá, a fila não está tão grande. – Disse, tentando leva-la para o fim da fila.
— Não, eu vim como acompanhante do DJ, não vou pegar fila. – Reclamou, olhando feio para a mulher.
A fala dela, porém surtiu um efeito imediato: a moça olhou a lista novamente e notei que suas bochechas queimavam em um rosa vivo.
— Desculpe, como disse que se chamava?
Rachel sorriu.
— Rachel Palm. – Repetiu. Em seguida me puxou para que eu ficasse bem ao seu lado. – E essa é .
A mulher sorriu de volta.
— Pode entrar, Rachel. – Rachel já estava entrando, feliz, quando a mulher colocou a mão na minha frente. – Você não está na lista, desculpe.
Acredito que nenhuma cara de ódio seria o suficiente para dizer o quão irritada eu fiquei por ter saído do meu sofá só para ser barrada na porta da festa. Olhei para Rachel, cruzando os braços.
— Desculpe, , eu falei para ele colocar você. – Disse, parecendo muito abalada.
Eu sabia que não era culpa dela, então tentei não demonstrar que estava irritada.
— Sem problemas, Rach, eu peço um Uber.
— Deixe a moça entrar, Sophia. – Disse um homem atrás da moça com quem estávamos falando.
— Jude, ela não está na lista. – Contestou.
Chegou até nós um homem alto e de brilhantes olhos verdes, com uma aparência muito simpática, e parecia não ser muito mais velho que eu. Seu cabelo estava arrumado em um topete perfeito e ele estava extremamente bem vestido para a ocasião. Ele sorriu quando se aproximou, uma fileira cheia de dentes brancos e perfeitos.
, sou um grande fã. – Falou Jude, beijando minha mão direita.
Olhei para Rachel, que tinha um ar tão confuso quanto o meu. – Será sempre bem-vinda em minha boate.
Se a boate era dele, fazia sentido aquele alvoroço todo. Demorei três segundos para pensar de onde ele poderia me conhecer, mas logo me lembrei do meu maldito Instagram. Jude nos convidou a entrar, e Rachel o seguiu para o interior do estabelecimento. Só me restou fingir costume e acompanhar Jude e Rachel como se eu fizesse aquele tipo de coisa o tempo todo.
A boate estava começando a encher, a música não estava muito alta, ressoava em uma altura que eu gostava, você podia se divertir dançando, mas também dava para conversar, se quisesse. Jude nos levou até o mezanino, um lugar confortável, com sofás, alguns pufes e uma grande mesa de forma circular. Tinha umas luzes de LED que faziam transições de cores variadas. Um grupo de pessoas se amontoava em um dos cantos.
— Divirtam-se, meninas. – Jude disse quando nos deixou ali. – Vou pedir para que cuidem bem de vocês.
Assim que ele saiu, Rachel me olhou boquiaberta.
— Amiga, você vai ter que usar essa sua fama não solicitada mais vezes.
Revirei os olhos.
— Eu vou pagar, ok?
Rachel riu, me puxando pela mão a fim de procurarmos o DJ. Aparentemente ele estava ali mesmo no mezanino, rodeado por um pequeno grupo de mulheres. Como a mulher incrível que Rachel era, não demonstrou nenhum tipo de ciúmes, apenas apareceu como se a festa fosse para ela.
— Dean! – Gritou, chamando o rapaz. Ele se levantou, indo ao encontro dela, e eu me aproximei deles.
Dean era ruivo e alto, tinha uma barba bem elegante, e mesmo sabendo que amanhã Rachel nem iria mais se lembrar do nome desse cara, shippei os dois.
— Essa é minha amiga, . – Ela disse. Dei um sorriso educado para Dean, que apertou minha mão.
— Eu sou Dean Jordan. – Apresentou-se. – Mas pode me chamar de...
— DJ! – Interrompeu Rachel, dando risada. – Não é sensacional?
Dei uma risadinha apenas por educação, se eu tivesse tomado uma dose mínima de álcool também teria achado o trocadilho engraçado. Achei melhor forrar o estômago antes de beber, mas para o meu azar não tinha comida de verdade no local. A taurina dentro de mim reclamou, mas mesmo assim estava decidida a beber e me divertir.
Depois de uns drinks, comecei a me soltar mais. Sempre ficava impulsiva quando bebia, mas ironicamente era quando eu mais gostava de mim. Descemos até a pista de dança, onde eu realmente fiz jus ao ditado de dançar como se ninguém estivesse olhando. Não estava bêbada o suficiente para não me lembrar da situação no dia seguinte, mas com certeza bêbada o bastante para saber que não faria nada daquilo sem a influência do bom e velho álcool.
Dancei, brinquei, conversei com desconhecidos e me aventurei em vários drinks novos. Fiz uma coisa que nunca tinha feito desde que ganhei novos seguidores: gravei muitos stories. Eu não era do tipo que iria em festas desse tipo, mas essa estava realmente boa, não podia perder a chance de gravar a noite! Me peguei pensando, mais de uma vez, que deveria sair com Rachel com mais frequência.
— E então vocês já sabem, as melhores boates estão em...
— Palo Altoooo! – Ia dizendo para a câmera, que enquadrava eu mesma e Rachel com os rostos bem colados.
— Não esquece de marcar a boate! – Lembrou Rachel.
Como previsto, não fiquei bêbada a ponto de não conseguir andar com os meus próprios pés. Eu estava tonta e alegre, mas ainda tinha plena consciência do que acontecia. Bem ao contrário de Rachel, que já estava descalça e chamava o bartender de DJ, pedindo para levar ela para casa dele. Eram três e meia da manhã, Rachel estava destruída e eu já estava exausta. Livrei o cara de Rachel e a fiz se despedir do verdadeiro DJ, enquanto caçava minha carteira para pagar a conta dos muitos drinks que tinha bebido ali. Quando fui realizar o pagamento, entretanto, uma funcionária me informou que eu não precisava pagar aquela conta, e que tinha sido um presente. Agradeci, com minha amiga ainda pendurada em meu ombro, e pedi um Uber para voltarmos para casa.
Por conta do horário e de todo mundo que estava indo embora ao mesmo tempo, demorou um pouco para conseguirmos pedir um, mas ele chegou. Assim que Rachel encostou a cabeça no carro, caiu em um sono tão profundo que depois de uns segundos já estava roncando. Com medo que ela vomitasse em mim por conta do sacolejar do veículo, pedi ao motorista para viajar no banco da frente. Ele também ficou com medo que ela vomitasse.
Encostei a cabeça no vidro durante a viagem de quarenta minutos de volta para São Francisco. Tocava uma música baixinha pelo rádio e a estrada estava tão tranquila que suspeitava que chegaríamos antes do esperado. Eu não podia devolver Rachel nessa situação para a mãe dela, então decidi que ela dormiria na minha casa mesmo, seria mais fácil dessa forma.
No meio do caminho, notei que recebi uma mensagem de Niall, e pela barra de notificações, vi que era um link. Eu sabia que se abrisse a mensagem teria que conversar com ele, mas estava cansada demais para isso.
Quando paramos na frente do meu prédio, Rachel colaborou comigo para irmos até meu apartamento, onde ela desmaiou, de roupa e tudo, em cima do sofá. Fui até meu quarto arrancando o vestido pequeno e coloquei uma camiseta que estava jogada no chão, finalmente deitando em minha cama.
Sem pensar, sorri. Mesmo que eu não fosse o tipo de pessoa que ia para festas, tinha que concordar que essa noite tinha sido, de longe, uma das mais divertidas que tive em muito tempo.
✈✈✈

Acordei com o barulho do meu celular tocando. A dor de cabeça já estava me dominando, mas pelo menos não sentia nenhum outro sintoma da ressaca. Tentei me orientar depois de desligar o aparelho sem nem identificar quem era, e vi que já era quase uma da tarde. Espreguicei-me, derrotada, levantando da cama para mais um dia. Abri a porta do meu quarto e percebi que Rachel estava tomando um banho, por isso segui até o sofá para espera-la. Enquanto aguardava, arrumei algumas coisas que estavam jogadas pelo local.
Cinco minutos depois minha amiga saiu do banheiro, seu sorriso morrendo assim que me viu.
— Bom dia, Rachel. – Murmurei, indo até o corredor para pegar uma toalha limpa. – Vou tomar banho.
— Oi, . – Respondeu, com uma animação forçada. – Certo, vou te esperar.
Achei bem estranho o comportamento dela, mas não me liguei, apenas fui até o banheiro, deixando a água quente cair em meu corpo cansado por mais tempo do que o normal. Escutei algumas vozes no meu apartamento quando desliguei o chuveiro, mas podia ser apenas a TV. Me enxuguei lentamente, aproveitei para pentear meus cabelos molhados e escovar os dentes. Quando fiquei pronta, me enrolei em meu felpudo roupão, abrindo a porta do banheiro.
— Desculpa, , eu tentei avisar. – Disse Rachel assim que abri a porta.
— O que? – Respondi, até ver Niall Horan parado na sala com uma expressão bem tensa. – Ah, oi!
Ele deu um sorriso mínimo.
— Oi, .
— Achei que só poderia vir na semana que vem. O que te traz aqui?
Rachel e Niall se encararam, o que achei bem suspeito, mas Niall deu um sorriso mais convincente.
— Vim te ver. E nós vamos dar um passeio, vista uma roupa confortável.
Revirei os olhos.
— Ah, não, hoje vou ficar aqui. Ressaca.
Niall veio até mim, segurando minha mão.
— Por favor, confie em mim.
Completamente a contragosto, bufei, indo até meu quarto me vestir. Acabei com uma legging preta, uma blusa creme, um sobretudo rosa claro, um cachecol e umas botas velhas que eu adorava. Sequei meus cabelos, que já estavam cinco dedos mais curtos que antes, e bem mais fáceis e rápidos de secar.
Quando me declarei pronta, fui até a sala novamente, onde Niall e Rachel se entreolhavam, com um silêncio constrangedor no ar. Percebi que era a primeira vez que eles se viam, e sorri.
— Desculpa, eu nem apresentei vocês. – Falei, chegando mais perto deles. – Rachel, Niall e Niall, essa é Rachel.
Niall sorriu, educado.
— Tivemos a chance de nos conhecer enquanto se arrumava. – Mesmo assim se virou para Rachel. – Em todo caso, prazer em conhece-la e obrigado pela ajuda.
Rachel, que normalmente era elétrica e falante, estava estática no lugar.
— O prazer foi meu. – Respondeu, tímida. Ver minha amiga tímida era mesmo o fim do mundo, e achei uma pena não conseguir registrar a cara dela em uma foto sem parecer estranho.
Rachel decidiu ficar em meu apartamento enquanto eu seguia Niall, então me despedi dela, seguindo o cantor para seu carro. Ele não falou muito durante o caminho, mas eu percebi que tinha alguma coisa errada. Também não toquei no assunto, porque apesar de tudo ele parecia ter um plano.
Depois de uns minutos na cidade, pegamos uma estrada de terra que nos levou a um parque de área preservada. Eu gostava de lugares tranquilos, de estar na beira de uma praia deserta ou no meio de um monte de árvores. Sorri pensando nos opostos que tinha vivenciado em menos de vinte e quatro horas: a multidão e o barulho na festa de ontem com Rachel e o silêncio e a pureza de estar na floresta com Niall.
Ele deixou o carro em um estacionamento primitivo, e eu o segui até a entrada da reserva. Havia uma trilha bem clara marcando o caminho, e algumas pessoas ainda transitavam por ali, por isso não fiquei com medo de me perder no meio do nada.
— Como sabia sobre esse lugar? – Perguntei, conforme andávamos entre as árvores. Era tudo muito lindo, a natureza, o verde das árvores, as flores que se esparramavam no caminho.
Niall riu.
— Eu não me conformo com o tanto que desconhece da própria cidade.
— Moro aqui somente há dois anos, ok? – Rebati, cutucando ele com meu cotovelo.
— Eu só precisei de uma semana para conhecer vários lugares legais. – Respondeu. – Mas se te consola, eu também nunca tinha vindo aqui, pesquisei no Google. Depois de ontem eu achei que você iria querer um lugar mais tranquilo.
Parei de andar, olhando para ele desconfiada.
— Como assim, depois de ontem? – Questionei. – O que não está me contando?
Niall me olhou com pena, talvez, colocando as mãos dentro de seu casaco.
— Você ainda não viu o link que te mandei, pelo visto.
Neguei com a cabeça, puxando meu celular do bolso. Realmente tinha recebido uma mensagem dele ontem, e como o tinha visto hoje de manhã nem tinha me lembrado dessa mensagem.
— Eu vou deixar você ler. – Murmurou, me dando um espaço.
Ainda mais desconfiada, abri o link, desejando ardentemente ter algum lugar para sentar. Levei minhas mãos a boca, me sentindo invadida e humilhada, tão exposta quanto eu poderia estar.

NAMORADA DE NIALL HORAN: AMOR OU FAMA?

Notícia urgente! Namorada de Niall Horan, a colunista , já citada aqui algumas vezes, foi vista ontem na inauguração da nova boate de Jude Francis, em Palo Alto. A jornalista, que parecia ser amiga do DJ, se divertiu muito enquanto dançava, conversava e bebia. Fez vários vídeos em seus stories, levando seus seguidores a loucura.
Não há nada de errado em se divertir com os amigos, mas Jude Francis comentou com uma fonte que prefere não ser mencionada que não aceitou pagar pela conta, alegando ser um nome de peso, sugerindo que como namorada de Niall Horan, merecia algumas regalias. Aceitando a permuta, Jude permitiu que fosse embora sem pagar, desde que promovesse a boate. Em seu Instagram é possível ver vários vídeos de realmente promovendo a boate.
há alguns meses era uma anônima e agora está se oferecendo para promover marcas. Qual será seu real interesse em Niall Horan: o amor ou a fama?


? – Escutei Niall me chamar, depois de ter ficado minutos encarando aquela matéria.
O site não era confiável e a pessoa que escreveu deveria ser um adolescente sem ter o que fazer, mas o link já tinha recebido milhares de acessos. Milhares de pessoas lendo coisas sobre mim que não eram reais.
Encarei Niall, notando que pelo menos eu não estava chorando. Eu gostava de verdade dele e não queria que ele pensasse que eu não poderia lidar com isso. Niall me avisou. Eu sabia os riscos de me envolver com ele, eu escolhi isso. Ser perseguida pela mídia já era algo certo se considerar a maneira como fui apresentada na internet.
Suspirei, derrotada, guardando o celular no bolso de novo.
— Você não acredita nisso. – Não era uma pergunta.
— Não. Eu não acredito. Queria saber se pretende fazer algo a respeito, ou só deixar falarem.
Refleti por um momento.
— Eu vou deixar falarem. Por enquanto.
Ele sorriu, me puxando para um abraço, que eu retribuí.
— O que foi? – Perguntei, quando vi ele me olhando de um jeito diferente.
— Lembro que me disse que nunca nem saiu da Califórnia. – Comentou, se referindo ao dia em que fizemos a entrevista.
— É verdade.
— Por um acaso não tem passaporte, então?
Fiz uma careta, pisando em uma folha seca que estava no caminho.
— Bom, eu tenho um passaporte, apenas nunca usei.
Niall sorriu mais ainda.
— Eu sei que ainda está cedo para te pedir isso, mas queria saber...
— Sim? – Encorajei quando ele parou de falar.
— Você quer passar o natal comigo em Londres?
Ele estava me chamando para viajar com ele? Para outro país? Honestamente não sabia se estava pronta para isso e com certeza era sim rápido demais, só nos conhecíamos há quatro meses. Mas como eu poderia negar ir para Londres no natal com Niall Horan, principalmente se eu queria tanto?
Sorri para ele de volta, me animando de repente.
— Obrigada pelo convite. – Disse, sincera. – Eu vou com você.
Ele comemorou de um jeito bem bobo, me fazendo rir.
Seguimos andando pela trilha, tirando fotos pelo caminho, namorando e conversando, os planos para o natal como trilha sonora do resto da tarde. Sentia tanta falta dele que até me esqueci da notícia que ele me trouxe e passei a aproveitar todos os minutos que ele tinha dedicado para mim naquele dia, vindo de Los Angeles a São Francisco, apenas porque eu talvez pudesse precisar dele para passar por isso.
Encontramos uma cachoeira quase vazia, e descobrimos que era própria para banho. Sentamos em uma das pedras que haviam por ali, um pouco mais afastados da cachoeira por que o barulho da queda d’água não nos deixava conversar. Fizemos planos de retornar no verão, e a ideia partiu dele. Fiquei feliz quando me chamou para passar o natal com ele, e fiquei mais feliz ainda que ele nos visse juntos no verão, daqui há tantos meses. Dava-me a sensação de que Niall estava realmente me levando a sério, o que não parecia ser comum nos relacionamentos dele.
A notícia de hoje era só o começo de muitas outras. Eu sabia onde estava me metendo e sabia o que eu queria, pela primeira vez na vida. Haveriam publicações escandalosas, páginas que fariam eu duvidar de mim mesma em algum momento, mas eu não desistiria.
Não desistiria do jeito que ele fazia eu me sentir, de como ele procurava florestas remotas para me dar uma notícia ruim só para me tranquilizar, dos seus sorrisos tão lindos e sua risada escandalosa que era absolutamente a risada mais esquisita e mesmo assim tinha se tornado o melhor som do mundo para mim.
Eu jamais desistiria, porque eu tinha certeza que Niall Horan valia a pena.

Capítulo 11

Uma piscada seria o fim de tudo. Eu o encarava com os olhos ardendo, podia sentir que uma lágrima iria se formar a qualquer momento. Mesmo estando muito concentrada, precisava tirar o chapéu para o meu inimigo, que mantinha os olhos abertos por mais tempo do que achava possível. Eu podia lidar com a possibilidade de existir alguém melhor do que eu nesse jogo e, de fato, estava quase desistindo, quando meu adversário cometeu um grande erro. Ele piscou.
Sorri, vitoriosa.
— Você piscou. – Acusei, voltando a piscar novamente e secando os olhos por causa das lágrimas que tinham se formado.
Niall revirou os olhos, se ajeitando na poltrona.
— Eu entreguei o jogo. – Falou. – Dava para ver que você ia perder e eu não queria que ficasse triste.
— Ah, tudo bem, fala isso mais algumas vezes até você mesmo acreditar nisso. – Respondi, irônica, aproveitando o momento para fazer um coque com o meu cabelo, declarando a brincadeira como encerrada.
Era dia vinte e cinco, dia de natal. Estava no avião com Niall, saindo dos Estados Unidos pela primeira vez na vida. Não apenas isso, estava viajando de classe executiva, algo que nunca imaginei que me daria o luxo. Ou que meu peguete riquíssimo me daria porque, honestamente, só a passagem da ida custava praticamente todo o meu salário.
Certo, eu não era esse tipo de pessoa. Não abusava dos outros assim, e não gostava que as pessoas pensassem que eu estava querendo ter vantagem sobre algo. Mas era uma viagem de última hora e Niall havia insistido muito para pagar tudo. E eu só concordei porque prometi que o compensaria, de alguma forma. Algum dia.
Faltavam vinte minutos para o nosso avião pousar, e Niall já havia me explicado que, graças ao abençoado fuso horário, eu tinha perdido exatamente oito horas da minha vida. Teoricamente eu deveria chegar em Londres as duas da manhã, mas chegaríamos as dez. Eu estava completamente um trapo, mas como uma pessoa que realizou muitas viagens, ele me orientou a não dormir. Quando ameacei fechar os olhos, o homem voltou a ter treze anos e me desafiou a encará-lo sem piscar.
As pessoas deveriam saber o que acontece quando eu sou desafiada. A tenacidade faz parte do meu DNA, não posso evitar não ser competitiva.
Depois de trocar mais alguns sábios conselhos comigo, finalmente pousamos. Tentei não demonstrar que era turista e total fingi costume quando saímos do avião. O aeroporto Heathrow estava bem cheio, e segui Niall que andava apressadamente até um homem robusto de porte elegante.
A directioner dentro de mim reconheceu Mark Jarvis, e eu precisei me segurar muito para não ir saltitando até onde ele estava.
— Ei, Mark. – Disse Niall, e eles fizeram um high-five no ar. – Essa é .
— Muito prazer. – Falei, erguendo minha mão direita, que ele apertou. Notei que minha voz ficou cinco vezes mais fina de empolgação, e esperava que nenhum dos dois tivesse notado.
— Ouvi muito sobre você. – Ele disse, a voz grossa.
— Coisas boas, espero.
— Ah, claro, coisas muito boas. – Parecia que ele ia dizer mais alguma coisa, mas Niall pigarreou, o interrompendo.
— Que legal que vocês se deram bem, ótimo. – Murmurou, fazendo Mark dar uma risadinha.
Bem queria saber o que tinha sido tudo aquilo, mas deixei para lá, dando um leve sorriso sem graça. Niall tinha uma casa em Londres, mas quando perguntou o que preferia, precisei escolher me hospedar em um hotel. Quer dizer, seria estranho demais ficar com Niall na casa dele, mesmo que ele tenha ficado na minha. Não era a mesma coisa e eu precisava do meu espaço. Por esse motivo, ele me acompanhou até o The Dorchester, onde eu ficaria hospedada até amanhã.
Fizemos o check-in e nos despedimos. Eu tinha pedido para ele subir um pouco, mas como Mark estava esperando no carro, ele preferiu ir embora. Mais tarde nos encontraríamos de novo, visto que ele estava em Londres apenas porque tinha um compromisso por aqui; entretanto, como queria passar o feriado comigo, me chamou para vir junto.
— E não dorme. – Orientou, me dando um beijo no rosto.
— Ok, até mais tarde! – Respondi, rindo.
Niall já estava na porta quando virou para trás de novo e gritou.
— Não dorme! – Repetiu, me fazendo rir mais ainda.
Encarei as costas dele até que sumisse completamente de vista, e segui para o interior do hotel, com meu cartão de passagem na mão. Logo na entrada havia uma imensa árvore de natal, que deveria ter pelo menos uns cinco metros de altura. Observei o local enquanto andava; era aconchegante e elegante ao mesmo tempo e, empurrando minhas duas malas de rodinhas, parei em frente ao elevador. Enquanto aguardava, pude observar um enorme salão, ricamente decorado, com tons de madeira e dourado, o que dava um ar um tanto nobre para o edifício.
Meu quarto, obviamente, era maior que meu humilde apartamento em São Francisco. Quase não era um quarto, de tão espaçoso. Dividia-se em quatro espaçosos cômodos, sendo uma sala de estar, um closet, um quarto enorme e um banheiro com uma majestosa banheira pronta para ser usada.
A primeira coisa que fiz foi verificar se tinha algo comestível no frigobar, mas o quarto não tinha um. Ao invés disso, havia um cardápio com vários itens. Franzi o cenho, melhor não tomar meu café da manhã agora. Tentando permanecer acordada, uma vez que estava mesmo cansada, desfiz minha mala, arrumando toda minha roupa no closet que havia ali. Eu sabia que iria embora na tarde seguinte, mas precisava arrumar minhas roupas nesse closet e me sentir chique.
Alguns minutos haviam se passado quando eu finalmente me rendi para a banheira. Arrumei a água na temperatura que eu gostava e, indo contra todos os meus princípios, arranquei minha roupa e me enfiei debaixo da espuma cheirosa.
Eu estava tomando banho de banheira em Londres!
Tirei uma selfie e mandei para Rachel pelo direct, achando que ela provavelmente não iria responder porque eram duas da manhã em São Francisco, mas a danada estava online. Visualizou minha foto e minutos depois recebi sua ligação pelo FaceTime.
Sua burguesa, olha só para você! – Exclamou, quando atendi. – Estou morrendo de inveja. Por favor, encontre um membro dessa banda para mim também, eu exijo!
Dei risada.
— Vou ver o que posso fazer por você! – Brinquei. – E o que está fazendo acordada?
A pergunta seria o que você está fazendo acordada! – Devolveu. – Viajou por treze horas.
— Rachel...
O sorriso dela sumiu, sendo substituído por uma careta.
Sabe como é, problemas no paraíso.
Revirei os olhos.
— Você nunca insiste no mesmo cara mais de uma vez. Você é Rachel Palm, superior a tudo isso! – Lembrei. – O que esse Dean tem, hein?
Rachel resmungou e demorou um pouco para responder.
Eu não sei! Eu não sei, só sei que gosto dele. Eu acho que ele me bloqueou.
Depois da festa no outro dia, DJ e Rachel saíram mais vezes, o que me surpreendeu. Não era todo dia que a maior namoradeira que eu conhecia sossegava com um cara só. Foi tudo lindo e eu realmente achei que ia dar uma coisa mais séria, até o cara simplesmente sumir, na semana do natal. Eu estranhei o sumiço repentino do homem, mas estranhei mais ainda que minha amiga tivesse se apegado tanto a ele.
Eu estava em Londres e Rachel estava sozinha, o que me partia o coração.
— Ele não sabe o que está perdendo.
Dãa! – Resmungou de novo, como se a afirmação de que ela era um ótimo partido fosse uma coisa totalmente óbvia.
— Você é muito melhor que isso, Rach. – Disse a ela. – Onde está a mulher poderosa que eu tanto admiro?
Ela deu um sorrisinho.
Fácil para você dizer. Uma celebridade está te dando a maior moral e te levando para Londres.
— Já era minha vez de ter um pouco de sorte. Ei, quem sabe você não fisga um príncipe?
Ela ficou animada de repente.
Consegue trazer o Harry para mim?
— Ele já tem namorada, mas se esperar uns... quinze anos, talvez o príncipe George ainda esteja disponível. E ele é o príncipe herdeiro!
Ela pareceu pensar de brincadeira.
Ok, tudo bem. Vou esperar por ele. – Concordou. – Se for para ser a futura rainha da Inglaterra então tudo bem ser uns vinte anos mais velha que meu marido.
Continuamos nos falando até Rachel ficar com sono demais para continuar a conversa. Ela pareceu melhor no final da ligação, o que era bom. Quando encerrei a chamada, meu celular voltou para o Instagram, e uma foto minha andando no aeroporto me chamou atenção.
Principalmente porque não tinha sido postada por mim.
chega a Londres acompanhada de Niall Horan. Parece que o namoro está sério, mas ainda não foi confirmado por nenhum dos dois. dizia a legenda.
Bufei, bloqueando a tela e me preparando para sair da banheira; meus dedos dos pés já estavam enrugados. Eu já sabia que teria algo sobre mim quando chegasse à cidade, mas mesmo assim me sentia invadida; meu espaço pessoal era tudo que eu tinha. Em todo caso, repensei a situação na minha cabeça. Poderia ter sido pior.
E pelo menos dessa vez não envolvia nenhum escândalo e nenhuma notícia negativa.
✈✈✈
Niall tinha me falado que a festa de natal iria ser muito chique, por isso caprichei no meu visual. Já que eu era “namorada de Niall Horan”, não poderia aparecer de qualquer jeito. Afinal de contas, se for para falar de mim, prefiro que falem bem. Meu vestido era marsala, cinturado e com alcinhas delicadas. A saia tinha detalhes em tule, o que deixou o vestido bem menos sem graça. Apesar de eu ter investido uma boa quantia por ele, sabia que ainda seria muito simples se comparado ao das outras mulheres da festa, que com certeza estariam usando vestidos de grifes famosas. Mesmo me sentindo ligeiramente desconfortável quando pensava nisso, apenas finalizei minha maquiagem, completando com um batom da mesma cor do vestido e um colar que deu todo o ar nobre que estava faltando. No cabelo, fiz um penteado simples com a ajuda de uns grampos e do Youtube. Como eu tinha comprado o vestido de última hora, a barra ainda estava por fazer, mas o salto alto compensou a altura para que o vestido não ficasse se arrastando no chão. Com o frio violento que estava fazendo do lado de fora, não tive outra alternativa a não ser usar o meu sobretudo branco de pelo sintético que roubei da Rachel, pelo menos até chegar lá. Torcia para ter aquecedor no local, porque as peças realmente não combinavam muito entre si.
Niall me mandou mensagem dizendo que havia chegado bem no horário combinado, então peguei minha bolsinha de mão que combinava com o dourado do meu sapato e segui para o saguão do hotel.
Achei o carro sem muita dificuldade, e mesmo que não precisasse fazer isso, Niall saiu do veículo para abrir a porta para mim.
— Você está linda. – Comentou, me dando um beijo superficial nos lábios.
Sorri com a demonstração de afeto pública, sem nem me importar com quem estivesse vendo. Entrei no carro, esperando ele aparecer do outro lado.
— E você está parecendo um príncipe. – Comentei, porque estava mesmo.
— Como sempre. – Respondeu, debochando do meu elogio.
Apenas revirei os olhos, o que fez ele sorrir a viagem toda até o local.
Não podia acreditar que estava indo para uma festa cheia de famosos em Londres com Niall Horan, ainda era demais para minha pequena cabecinha anônima. Principalmente quando o carro foi parando e bem em frente tinha... uma horda imensa de pessoas com microfones e câmeras. E eu estava com duas peças que não combinavam, queria morrer!
— Está tudo bem? – Questionou, percebendo minha inquietação.
Cocei a cabeça com cuidado para não tirar os grampos do lugar.
— É aquecido lá dentro, certo?
— Sim, claro.
Soltei um murmúrio de alívio.
— Suponho que essa seja a única maneira de entrar...? – Perguntei, apontando para as pessoas que aguardavam o carro, ansiosas.
Niall me olhou como quem se desculpa.
— Eu sinto muito. – Confirmou. – Mas se te assusta, não precisamos ir para essa festa.
Tratei de colocar um sorriso no rosto. Meu lado covarde e inseguro não iria de maneira nenhuma impedir que Niall Horan não comparece a essa festa. Precisei lembrar a mim mesma, mais uma vez, que eu sabia onde estava me metendo.
— Precisamos sim. – Falei, soltando o cinto de segurança. Niall assentiu, saindo do carro e dando a volta para abrir a minha porta.
— Vai ser moleza. – Falou, piscando.
Lentamente ele me guiou para a entrada do hotel onde seria a festa. Ao contrário do que imaginei, a bagunça era bem organizada e Niall me disse que eu não precisava responder ninguém se eu não quisesse, mas que seria legal que eu entrasse sorrindo e depressa. Não que ignorá-los fosse uma tarefa fácil, porque não era. Meu nome ecoou por toda a distância da saída do carro até a porta, e em nenhuma circunstância as perguntas foram direcionadas a Niall.
, qual sua relação com Niall Horan?
— Srta. , poderia dizer de qual grife é seu vestido dessa noite?
, o que a PlayList pensa sobre sua exposição na mídia?
— Isso pode atrapalhar sua carreira, ?
Segui os conselhos de Niall e percorri o caminho todo sem fazer nada a não ser sorrir. Chegamos no interior do hotel sãos e salvos e meu casaco incombinável foi retirado de mim, fazendo eu me sentir melhor e mais confiante.
— Você está linda mesmo, . – Disse Niall com um sorriso bem bobo.
? – Eu sabia que ele tinha me elogiado, mas também fiquei um pouco preocupada com a introdução de apelidos.
— Não posso te chamar assim?
— Pode, mas de onde saiu isso?
— Sei lá, acho meio ridículo te chamar pelo nome inteiro a essa altura do campeonato. – Argumentou, com razão.
— E o próximo passo é o que, “amor”? – Zombei.
Ele arregalou os olhos, me fazendo corar com a brincadeira.
— Hm... quer que eu te chame de “amor”?
está ótimo.
— Perfeito. – Ele disse, sorrindo.
Fiz uma careta, me perguntando porque o nome dele era tão difícil de apelidar.
— Espera, eu não tenho nenhum apelido para Niall.
— Nialler?
Revirei os olhos.
— Literalmente o fandom inteiro te chama assim.
— Você pode me chamar de “amor”. – Sugeriu, travesso.
Eu ri.
— Ok, vou continuar com Niall.
Niall me acompanhou na risada, segurando sua mão na minha para avançarmos juntos pelo salão. Parecia um baile de formatura, porém cem mil vezes mais chique e com adultos ao invés de adolescentes. Reconheci vários rostos, mas até que me comportei bem considerando o mundo da mídia ao qual eu pertencia. O salão estava com uma luz baixa e algumas mesas estavam vazias devido aos dançarinos de plantão na pista de dança. No palco, um DJ animava a festa com as músicas mais ouvidas do ano, e foi impossível não rir quando o cantor ouvia a própria música e era convidado a se apresentar na pista sob o som de aplausos animados. Niall precisou me dar um puxão porque havia estacado no lugar quando reconheci Taylor Swift – meu Deus a Taylor Swift! – sorrindo ao lado de um homem que não identifiquei.
Ao longo do caminho até nossa mesa, que aparentemente tinha identificação, Niall foi me apresentando a várias pessoas, que esquecia o nome assim que eram pronunciados. Mas mesmo assim gostei que ele tenha feito isso, fez eu me sentir incluída. Chegamos a mesa que era ocupada por duas mulheres mais velhas e um homem muito familiar que parecia estar sempre sorrindo.
— Ei, Niall! – Cumprimentou o homem, sorrindo por trás dos imensos bigodes. Ele se virou para mim. – Você deve ser .
Devolvi o sorriso, apertando a mão que ele tinha levantando.
— Sim, prazer.
— Kevin Rankin. – Se apresentou, sentando-se novamente.
Niall arrastou a cadeira para mim, em seguida sentou-se ao meu lado.
— Essas são Annette O'Toole e Angela Kinsey.
Elas pararam de conversar para acenar para nós, e eu sorri devolvendo o aceno. Apesar de Niall saber o nome de todos, ele não parecia ser exatamente amigo de ninguém ali, com exceção talvez de Kevin, de quem parecia gostar. Entrei na conversa dos dois em algum momento, e foi tão fácil que parecia que eu fazia esse tipo de coisa sempre. Niall me convidou para dançar e fomos juntos para a pista de dança. Senti novamente a mesma liberdade que eu tinha sentido naquela festa em Palo Alto. Até aquele momento, tinha sido o melhor natal da minha vida, e não por causa de Niall ou de Londres, eu só sentia que estava me descobrindo, testando coisas novas em lugares diferentes e que se encontrar não era tão terrível quanto eu pensei que fosse.
Pela primeira vez me sentia livre. Não tinha mais que me preocupar em ser a primeira aluna da escola, como sempre tinha feito, ou em deixar de sair com meus amigos no fim de semana para estudar para uma prova que seria dali há um mês. Eu não precisava provar nada para ninguém, nunca precisei.
Depois que o sapato começou a me machucar, arrastei Niall de volta para nossa mesa, agora vazia, para poder descansar um pouco.
— Estou impressionado. – Comentou depois de se sentar.
Massageei meus pés sutilmente.
— Com o que?
— Você se saiu muito bem. – Continuou. – Para alguém que nunca esteve em uma festa assim.
Dei de ombros, colocando de novo meu pé machucado no chão.
— Sabe, acho que nasci para ser uma estrela. – Brinquei.
— Eu não tenho a menor dúvida!
Um garçom se aproximou com uma bandeja de champanhe, que eu aceitei. Ainda não tinha bebido nada alcóolico, mas estava com sede.
— Obrigada mesmo por ter me convidado, Niall. – Agradeci entre um gole e outro.
Ele arrumou a alça do meu vestido que estava caída para o lado.
— Eu que agradeço por ter vindo. Essa festa ia ser um saco sem você.
Já ia fazer uma piadinha bem inconveniente, quando escutei alguém se aproximando atrás de mim.
— Oi, Niall. – Disse a voz. Macia, calma, aveludada.
Olhei para trás apenas para dar de cara com Hailee Steinfeld. Apesar de ser mais velha que ela, a garota me intimidava. Usava um vestido tomara que caia vermelho, com uma fenda gloriosa, delineando cada curva que ela possuía.
Uma coisa é ver notícias sobre ela. Outra completamente diferente é me encontrar com ela cara a cara. Dei uma engasgada com a bebida, que não passou despercebido aos olhos da garota, que sorriu.
— Oi, . – Cumprimentou, como se já nos conhecêssemos. Senti Niall ficar rígido do meu lado, a tensão começando a surgir.
— Oi. – Respondi, olhando avidamente para Niall.
— Desculpe a má educação, mas será que eu poderia bater um papo com o Niall? – Perguntou Hailee, olhando para ele, antes de se virar para mim novamente. – Em particular?
Niall segurou minha mão, provavelmente tentando impedir que eu me levantasse, mas eu não queria causar uma cena no meio da festa.
— Tudo bem.
Saí da mesa sem olhar para trás, mas pelo canto do olho vi que ela tinha sentado na cadeira que eu tinha acabado de desocupar. Aproveitei a deixa para utilizar o banheiro; tinha bebido muita água.
O banheiro ficava fora do salão, atravessando o saguão do hotel e o local estava vazio quando cheguei. Foi particularmente difícil fazer o que eu precisava fazer com aquele vestido, mas por fim consegui. Quando estava atravessando o saguão do hotel, porém, um movimento no canto me chamou a atenção. Tinha um casal se beijando. Eu tinha visto casais se beijando a minha vida toda, não tinha porque aquela visão ser mais importante do que qualquer outra.
Mas tinha.
Porque quando o casal se separou eu vi claramente o rosto do DJ. Não o DJ daquela noite, o DJ da Rachel, Dean Jordan. Beijando outra garota.
Levei a mão a boca, saindo de lá rapidamente antes que ele me reconhecesse. Encontrei minha mesa com facilidade e para meu alivio Niall já estava sozinho de novo.
— O que aconteceu?
Levei um tempo para responder.
— Eu vi o cara com quem Rachel está saindo. Ela disse que ele simplesmente desapareceu e não mandou mais notícias. A pior parte é que ela está esperando ele voltar.
— Não entendi.
— Ele estava beijando outra garota, Niall!
— Espera. O DJ de Palo Alto? Aqui? Em Londres?
— Beijando outra pessoa! Sem dar satisfação nenhuma para Rachel!
Ele fez uma careta.
— Você tem certeza do que viu? Poderia ser só uma amiga.
Encarei Niall com raiva.
— Eles estavam com a língua na boca um do outro. Se você trata suas amigas assim é melhor me dizer, senão teremos problemas. – Falei, na defensiva.
Ele tentou amenizar a situação colocando sua mão na minha.
— É melhor ela descobrir isso sozinha.
— Você quer que eu simplesmente não fale nada?
— Ela vai ficar arrasada descobrindo isso por você. Você sabe disso. Não estrague isso para ela.
Será que ele tinha uma boa intenção falando aquilo? Ou só estava seguindo seu extinto natural para proteger outro homem? Eu não precisava ficar ali ouvindo aquelas coisas.
— Estragar? Porque não diz isso para aquele traste? – Engasguei, tirando a minha mão da dele. – Eu não fiz nada de errado para estragar as coisas para ela! Rachel precisa saber, Niall. Ela acha que encontrou o homem da vida dela e eu seria uma amiga horrível se deixasse ela se apaixonar por aquele idiota.
Levantei da mesa com mais classe do que possuía, indo em direção ao saguão do hotel procurar a saída. Não podia e nem queria chamar atenção para mim mesma, então segui com toda calma e paciência que consegui reunir, recuperando o casaco que Rachel havia me emprestado, o que só me deu mais nó na barriga.
Niall apareceu atrás de mim.
— Onde você vai?
— Vou voltar para o hotel. – Murmurei. – Já são duas da manhã, estou realmente cansada.
— Espera, eu te levo.
— Não precisa. Eu peço um uber.
— Está maluca? É natal. – Contestou. – Fica aqui.
Mesmo não querendo, esperei. Ele tinha razão e eu não podia ficar esperando na calçada por motivos de câmeras. Niall voltou cinco minutos depois, com seu sobretudo preto e o celular no ouvido.
— Vamos. – Ele tentou pegar minha mão, mas eu gentilmente a afastei. Tentei não olhar para a faísca de decepção que surgiu em seus olhos e fizemos o percurso da volta.
Tinham muito menos pessoas, mas não ficou mais fácil. Principalmente porque nós dois estávamos exibindo uma carranca horrível. Niall não abriu a porta para mim dessa vez, e apesar de não ter sido uma briga de verdade, me senti mal pela frieza do tratamento, por mais que eu tenha feito exatamente a mesma coisa.
Ele não falou comigo durante todo o caminho até o hotel, o que me deu tempo para pensar. Talvez eu tenha chegado no ponto do relacionamento que realmente descubro quem Niall é: um homem como todos os outros. Perguntei a mim mesma quantas vezes durante os últimos quatro meses havia romantizado seu comportamento por convicções que eu tinha por ser fã dele. Perguntei se eu por um acaso tinha feito um mal julgamento e odiei a mim mesma quando descobri que sim, eu provavelmente tinha pintado o ídolo perfeito em minha mente, e Niall não era assim.
Niall mentia. Ele escondia coisas. Eu achava Niall maduro, mas ele tinha comportamentos infantis, às vezes, e quase sempre gostava de estar certo. Mesmo que tenha dito que não, eu achava Niall meio narcisista. Memórias do nosso tempo juntos pipocaram na minha cabeça, me levando para situações reais que eu não tinha percebido antes. Ele não gostava de perder. Ele não gostava de ficar em segundo lugar. Talvez não fosse tão teimoso quanto eu, mas era teimoso. Fazia piadas em momentos onde não tinha necessidade de piadas. E, olhando em retrospecto, nem eram engraçadas.
Doeu passar por isso. Doeu muito desmistificar um homem que romantizei por tantos anos e foi extremamente doloroso perceber que ele era só uma pessoa, uma pessoa que não é perfeita. Me senti tão burra por ter sido cega sobre isso, por ter me deixado levar por histórias criadas por adolescentes, que quando finalmente pousei no mundo real, meu coração pareceu rasgar.
Talvez tudo que eu tenha conhecido do Niall até agora foi uma cortina enfeitada de glitter cor-de-rosa e tudo que eu realmente precisava saber sobre ele estava por trás dessa cortina.
Mas o que mais doeu foi que mesmo chegando a essa conclusão sobre meu próprio julgamento incorreto, eu ainda estava completamente apaixonada por ele. Pensar nisso só me deu mais dor de cabeça ainda.
Apoiei minha cabeça na janela do carro, segurando tudo que eu estava sentindo, respirando fundo para não entregar minha tristeza. Mesmo quando é correspondido de todas as formas possíveis, amar dói muito.


Capítulo 12

Estava aguardando meus pais no estacionamento do aeroporto de San Diego. Eram aproximadamente três horas da tarde e, apesar do sol tímido que aparecia entre as nuvens, eu estava agasalhada talvez mais do que o necessário, com preguiça de tirar o suéter grosso que me cobria. Respirei o ar puro da cidade que um dia chamei de lar, sabendo que jamais voltaria a ser. No começo me ressenti com a ideia de que talvez nunca voltasse para San Diego, mas bastou uns poucos meses para me apaixonar pela cidade cheia de vitalidade e cultura que era São Francisco. Meus próprios pais jamais acreditaram que eu retornaria e, como bons aposentados, venderam a casa onde cresci e se mudaram para El Monte¹, uma cidade minúscula próxima a San Diego.
Eu gostava de cidades pequenas, mas não conhecia ninguém por lá. Se pelo menos minhas tias maternas pudessem passar o ano novo conosco com certeza não seria um tédio total os três dias que eu passaria na cidade. Não que eu estivesse reclamando, eu realmente queria estar ali. Sentia saudades dos meus pais e como filha única tinha a total obrigação de visitá-los com mais frequência do que estava costumada a fazer.
— Por que está encarando o arbusto com essa cara feia? – Questionou meu pai em algum ponto atrás de mim.
Virei-me de frente para ele, sorrindo. Na verdade, eu corri, abandonando completamente minha mala na entrada do aeroporto.
— Pai! – Gritei, pulando no colo dele. Ele me abraçou com toda força que tinha, no que a gente chamava de “abraço de ogro”.
Na frente de todo mundo.
Comigo prestes a completar vinte e cinco anos.
Mas decidi procurar pela minha dignidade depois, já que naquele momento só queria me concentrar no fato de que não abraçava meu pai desde julho e sentia mais sua falta do que tinha imaginado anteriormente. Meu pai era minha pessoa favorita no mundo.
Ele finalmente me colocou no chão, e eu fui buscar minha mala.
— Como você está magra, . – Observou. – Tem comido direito?
— É claro que sim. – Retruquei, seguindo-o até o carro, onde minha mãe aguardava pulando de ansiedade. – Reservei um espaço enorme para o banquete de ano novo da mamãe.
Ele riu, o rosto cheio de pés de galinha.
— Ah, ! – Murmurou minha mãe, me abraçando, enquanto meu pai colocava a minha mala na parte de trás do veículo. – Quanta saudade!
Sorri para ela.
— Também senti muito a sua falta, mãe.
Eram apenas quarenta minutos de carro de San Diego até a casa deles em El Monte, mas a viagem pareceu durar uma eternidade. Minha mãe queria saber tudo sobre meu emprego, meu novo chefe e deixou escapar nas entrelinhas, mais de uma vez, que gostaria de conhecer meu namorado. Em todas as três vezes eu fiz questão de responder que não tinha um.
— Mas e aquele moço que ia vir com você? – Insistiu depois da terceira negativa.
Suspirei. Falar sobre Niall era algo que eu não estava realmente a fim.
— Eu já te expliquei. – Comentei. – Ele teve um problema no trabalho ou algo assim.
Mas pelo retrovisor pude ver os olhos penetrantes do meu pai que, mais uma vez, queria dizer que não tinha acreditado em mim nenhum pouco. Meu pai teria sua conversa e ele iria arrancar a verdade de mim em algum momento, porém iria me dar o luxo e manter minha ignorância de que todos tinham acreditado em mim.
A casa era muito fofa, só dava a impressão de que eles tinham uns sessenta anos e meu pai, por exemplo, não tinha nem cinquenta. Eu apostava que a melhor parte da casa era o famoso ateliê de Richard , por isso sorri, deixando minha mãe me apresentar todos os cômodos como se fosse minha primeira vez ali.
Eu só tinha visto a casa nova uma vez, no dia da mudança, e tudo estava pelos ares e, dessa vez, com a casa toda arrumada percebi que gostava dela. Se tivesse filhos um dia, podia imaginá-los correndo pelos largos corredores e destruindo o jardim que havia no quintal. Minha mãe confidenciou que meu pai tentou fazer uma horta, mas desistiu um mês depois; de fato, não tinha a menor paciência para cultivo.
Fui deixada em um quarto de hóspedes com paredes em tons frios e os mais variados quadros que meu pai nunca tinha vendido. Uma antiga e minúscula natureza morta estava pendurada próxima a porta, mesmo não combinando com o restante da decoração. Eu sorri quando descobri o motivo de o deixarem pendurado: foi meu primeiro, e único, quadro de natureza morta.
Um bipe no meu celular me fez voltar a realidade. Era uma mensagem de Niall.

Niall
Chegou? Como está? – 16:07


Cheguei, estou bem – 16:08



Niall
Desculpa de novo por não poder passar o Ano-Novo com vc – 16:08


Está tudo bem – 16:08
Meu pai está me chamando, te chamo depois – 16:09



Fui até o ateliê que minha mãe tinha mostrado mais cedo e meu pai estava sentado lá, com seu inseparável violão no colo.
— Me chamou? – Perguntei.
Ele parou de tocar sorrindo para mim.
— Vá vestir uma roupa que possa sujar. – Recomendou, apontando para meus trajes comportados. – Você e eu temos um assunto a tratar.
Revirei os olhos, mas sorri, voltando ao cômodo cinco minutos depois com uma roupa velha que encontrei com minha mãe. Meu pai me deu uma tela branca e uma paleta gasta com seis tons de tinta fresca.
— Pinte o que está sentindo enquanto conversamos.
Fiz o que ele pediu, usando o amarelo mais ofuscante dentre as minhas opções para fazer um x na tela.
— Sobre o que quer falar?
— Ah, . – Suspirou, voltando a tocar seu violão. Reconheci os acordes de Patience, do Gun’s and Roses. – Primeiro que eu não sou tão velho assim, sabe. Sei mexer em redes sociais. E seria um pai horroroso se não soubesse porque minha filha de repente é famosa.
Bufei.
Você é famoso. – Retruquei. – Grande coisa.
Ele riu.
— Uau, eu sou famoso por pintar uns quadros?
— Não se menospreze, pai! Tem até uma página sobre você no Wikipédia, sabia?
Ele bufou de brincadeira, errando uma nota da música.
— Só se foi você quem escreveu.
— Juro que não foi. – Ri, suspirando em seguida. – Bom, você já sabe que meu emprego envolve entrevistas com famosos. Certo?
— Certo. – Respondeu, provavelmente surpreso por eu estar resolvendo falar a verdade. Eu não podia esconder as coisas dele, eu disse.
— Bom, em agosto eu entrevistei o Niall. – Informei, enquanto usava o vermelho para fazer um grande círculo. – E em setembro ele resolveu que queria ser meu amigo. Passeamos muito por São Francisco, o que foi bom para mim, acho. Tenho me achado um pouco antissocial de uns tempos para cá e sair com ele foi bom.
Fiz uma pausa, relembrando como tinha sido leve e perfeito o início dos nossos encontros. Fazia-se apenas quatro meses, mas parecia que uma eternidade tinha se passado.
— Eu também acho. – Concordou meu pai, mudando a música, que não reconheci.
— Bom, o caso é que... eu comecei a ter sentimentos por ele. Não deveria ter acontecido, mas aconteceu e eu me apaixonei por ele. E tive a sorte de ser correspondida. Estava sendo tudo lindo, mas então...
— Então o que?
Furiosamente pincelei o preto na tela quase completamente destruída agora.
— Então apareceram os problemas. Ele é famoso. A mídia, as fãs, minha fama repentina. Ainda tenho a preocupação e o cuidado de não me expor demais por conta da minha carreira e o medo de perdê-la de vez se fizer algo errado. – Confessei. – E eu não sei lidar com isso tudo ao mesmo tempo. Além disso, nós...
— O que foi? – Quis saber, quando me interrompi. Lancei um olhar reprovador quando reconheci os acordes de Little Things.
— Está tocando One Direction agora? É sério?
Ele sorriu, terno.
— É a única que eu sei. Geralmente te acalmava.
— Sim, mil anos atrás. – Resmunguei, revirando os olhos.
— O que está te incomodando de verdade, ?
Refleti por um momento antes de responder
— A situação está estranha. Nos falamos, mas não é como antes. Está meio... – Pensei em uma palavra que definisse nosso relacionamento, respingando a tinta azul na tela de pintura. – frio.
— Aposto que vão se resolver rápido. – Disse apenas, atento ao que eu fazia na tela.
— Talvez. Mas aí chamei ele para passar o ano novo aqui e conhecer vocês. E ele disse que vinha e então mudou de ideia e tenho quase certeza que aceitou trabalho de propósito apenas para não vir.
Para minha grande surpresa, meu pai parou de tocar e começou a rir muito alto. Eu estava literalmente abrindo meu coração e ele estava rindo da minha cara. Nervosa, bufei, pingando a tinta azul remanescente do meu pincel na roupa dele.
Ele se apoiou no violão, o fantasma da risada ainda em sua face.
— Niall pode ser o famoso que for, mas ele ainda é um homem, meu amor. – Esclareceu. É, pai, eu já tinha percebido isso. – Vocês nem formalizaram um namoro ainda. Certo?
— Certo. – Confirmei, sem entender aonde ele queria chegar.
— Então você não pode esperar que ele esteja pronto assim para conhecer seus pais, . Dá um tempo para ele. Vocês vão ficar bem. – Aconselhou por fim, voltando ao seu violão.
Ah. Ah! Meu Deus, eu era muito burra!
É claro que essa possibilidade não tinha passado pelo meu pequeno cérebro emocionado. Mesmo chocada com a informação, consegui sorrir em meio a indignação. Então era esse o problema. Era fácil de resolver e com sorte nossa relação iria voltar ao normal.
— Caiu a ficha? – Perguntou meu pai quando viu que eu estava sorrindo.
Assenti.
— Licença. Eu preciso fazer uma ligação.
Ele concordou com a cabeça enquanto eu me levantava. Já estava na porta quando ele me chamou.
— Sim?
Ele apontou para o quadro.
— Gostei desse.
Não imaginava como aquela bagunça de tinta por todos os lados poderia tê-lo agradado, mas sorri com o elogio mesmo assim, deixando o ateliê e indo para o quarto de hóspedes onde meu celular estava.
Niall não respondeu minha última mensagem, mas atendeu no terceiro toque.
Oi, ! Está tudo bem? – O local estava bem barulhento, mas estava dando para ouvir.
— Sim. Pode falar agora?
Ele ficou uns segundos sem falar e uma porta se fechou. O barulho do ambiente diminuiu bastante.
Agora eu posso.
Suspirei.
— Certo. Então. – Como eu começava essa conversa? – Não é o tipo de coisa para tratar por telefone, mas precisava falar com você. Eu só queria pedir desculpas, entendi tudo errado.
Niall pareceu confuso.
Como assim, ?
— Você me chamou para ir para Londres com você. Para Londres! E foi incrível, a experiência foi incrível, o hotel era lindo, a festa foi perfeita e você... você foi fantástico comigo.
...
— Não, espera, me deixa terminar. – Pedi. – O que estou querendo dizer é que... eu não pude oferecer nada que você já não tivesse. Então pensei que uma folga da mídia pudesse ser bom para você. E em troca de Londres, te convidei para vir para El Monte. – Ri, soltando o ar pelo nariz. – Não tinha pensado nos meus pais, Niall. Eu juro que não estou tentando apressar nada, nem te forçar a conhecê-los ou algo do tipo. Eu simplesmente não pensei por esse lado.
Niall ficou tanto tempo em silêncio que até tirei o celular da orelha achando que ele tinha desligado. Mas o suspiro aliviado do outro lado da linha me garantiu que ele ainda estava por ali.
É, não posso mentir para você – Começou. – Eu não me senti pronto para essa parte. Os pais, quero dizer.
Fechei a porta do quarto e me sentei na cama, deixando o aparelho no viva-voz.
— Me sinto tão envergonhada. Você devia ter me falado.
Ele deu uma risadinha sem graça que me aqueceu.
Está tudo bem agora.
O clima estava melhor, pelo menos melhor que antes.
Lembrei do que aconteceu naquela noite de natal depois da nossa pequena discussão. Niall ficou emburrado, mas não ao ponto de me ignorar nem nada assim. Deu para perceber na hora que tinha alguma coisa errada, mas nenhum dos dois quis falar a respeito. Ele subiu no meu quarto naquela noite, e ficamos conversando por horas deitados na cama. Quando o dia estava começando a clarear, ele foi embora e mais tarde nos encontramos no aeroporto. Eu voltei para São Francisco e ele foi direto para Los Angeles. E isso foi tudo, temos mantido contado apenas por mensagens desde semana passada. Hoje foi a primeira vez que liguei para ele assim.
— Que bom. – Eu disse, por fim.
Continuamos na linha por mais alguns minutos, até ele me dizer que estava no banheiro a um tempo considerado pouco elegante. Dei risada e encerramos a ligação, com a promessa de que eu ligaria de novo quando ele estivesse mais tranquilo.
Relacionamentos são como uma montanha russa. Antes eu não parava de sentir que a gente ficava dando voltas e voltas, mas quando me peguei sorrindo igual uma boba encarando o teto, me senti mais no alto do que nunca.
✈✈✈

Era o último dia do ano, e eu estava com minha mãe na sala assistindo a um filme enquanto o frango estava no forno, quando escutei uma pequena comoção do lado de fora. Curiosa, abandonei a sala e abri a porta da frente, só para dar de cara com Harriet saindo de seu lindo corolla branco.
— Harriet! – Exclamei, indo ao seu encontro.
A mulher estava cheia de sacolas, mas soltou todas no chão para me abraçar.
— Como anda minha prima favorita? – Perguntou, depois de me soltar.
Dei de ombros, ajudando-a com as sacolas ao mesmo tempo em que ela pegava uma malinha de mão no banco do passageiro.
— Achei que Georgia era sua prima favorita.
— Bom, Georgia não é famosa.
Rimos, e eu a acompanhei para dentro da casa dos meus pais. Harriet sempre tinha sido um grande modelo para mim, desde quando eu era criança. Ela era quatro anos mais velha que eu, mas nunca tinha me rejeitado nas conversas “de adolescentes” como minhas outras primas mais velhas faziam. Sempre batalhou muito para ter o que quisesse, e hoje administra a própria marca de roupas. Tenho muito, muito orgulho dela.
Claro que isso não significava que Harriet fosse lá muito responsável e madura, porque não era. De fato, deveria ser a pessoa mais fofoqueira que eu conhecia. Sorri, pensando de repente no fato de que Harriet e Rachel pudessem ser melhores amigas; uma se veria na outra logo de cara.
Como sentia saudades dela, minha prima aceitou dividir o quarto comigo, recusando o segundo quarto de hóspedes que minha mãe tinha oferecido a ela. Deixamos suas coisas no chão e nos jogamos na cama.
— O que você está fazendo nesse fim de mundo, Hettie?
Ela riu.
— Vim ver você, é claro. Tia Maria disse que estava muito desanimada e eu não estava a fim de aturar meus pais agora.
Virei-me de frente para ela, curiosa.
— E por que não?
Harriet suspirou, ainda olhando para o teto antes de se virar para mim.
— Porque eu achei que seria uma boa ideia me aproveitar do feriado de natal para anunciar para eles que sou bissexual.
Eu já suspeitava, mas me deixou feliz que ela tivesse me contado, de qualquer maneira. Sorri para ela.
— E você está saindo com alguém agora?
Minha prima riu de nervoso, pegando uma almofada e jogando em mim.
— Você está muito enxerida, !
— Você foi enxerida com todo mundo sua vida toda! – Acusei. – Desembucha!
— Ok, ok. O nome dela é Rebeka e estamos só nos conhecendo. Não se empolgue! – Acrescentou quando viu que eu estava prestes a fazer um escândalo.
— Tudo bem, zero empolgada. Me avise quando eu puder escolher meu vestido de dama de honra. – Suspirei de uma maneira exagerada.
Harriet cutucou minha barriga, me fazendo rir.
— Você é muito emocionada, meu Deus!
— E...
— Chega de falar de mim, Srta. ! Ou devo dizer... Srta. Horan?
Foi a minha vez de dar gritinhos como uma adolescente.
— Estava tão bom quando eu achava que você não tinha vindo por isso.
Hettie revirou os olhos e se levantou, os cabelos lisos, longos e pretos brilhantes pendurando-se em seu ombro.
— Você sabe que eu não perderia uma boa fofoca. – Admitiu, dando de ombros e sorrindo. – Ele já disse que te ama?
Coloquei as mãos na cara.
— Pelo amor de Deus! É claro que não!
Eu nem mesmo sabia se ele ainda gostava de mim. Estava tão insegura que não conseguia suportar, mas eu não podia contar isso para ela. Do jeito que eu bem conhecia a mulher, seria capaz de fazer eu ligar para Niall nesse exato instante até ele admitir, talvez contra sua vontade, que me amava e desejava fazer bebês em mim e ficar comigo para o resto da vida.
Harriet bufou e eu me levantei também.
— Estamos só nos conhecendo. – Disse, irônica.
— Você é ridícula. – Afirmou, sacando o meu celular desbloqueado e acessando minha conta do Instragram. – Quase um milhão de seguidores, ! Isso não assusta você?
— Mais do que imagina. – Admiti. – Mas eu nem uso, eles vão se enjoar de esperar e vão me deixar de seguir em algum momento.
— Estão sedentos, garota. Vão ficar até você fazer alguma coisa. Bem-vinda ao mundo das fofocas.
Estava tentando muito não focar nas mais de quinhentas solicitações de mensagens que aparecia no canto direito da tela, mas Hettie resolveu que era um bom momento para abri-las.
— Vejamos... “Tentando descobrir o que Niall viu em você. Muito sem graça”. Hmm... “Niall estava melhor com a Hailee. Ele até parou de fazer música por sua causa”. – Harriet olhou para mim em busca da minha reação, mas não era nada que eu já não estivesse esperando. – Algumas são bem maldosas aqui. Não vou ler.
— Deixa isso para lá. – Mas ela me ignorou e continuou olhando.
— Ah, essa é boa, olha “Oi, ! Por que você não posta o seu dia a dia na revista? Morro de vontade de trabalhar nesse ramo!” – Concluiu. – É uma boa sugestão.
— Com certeza eu não seria demitida.
— Meninas, se importam de me ajudarem com o jantar? – Disse minha mãe, aparecendo com seu inseparável avental na porta do quarto.
Agradeci minha genitora em silêncio, e Hettie devolveu meu celular. A verdade é que aquela sugestão não era tão ruim, e me senti tentada a ler mais mensagens mais tarde, antes de dormir.
Descemos as escadas para ajudar minha mãe na cozinha e como ontem já tínhamos feito bastante coisas, não demorou muito tempo para estar tudo pronto. Hettie finalizava uma sobremesa antes de colocá-la na geladeira enquanto eu arrumava a mesa para quatro pessoas.
Tivemos um jantar agradável, Harriet sabia mesmo trazer o melhor de nós e fez de tudo para levantar meu ânimo depois de lermos algumas daquelas mensagens horríveis. Minha mãe mais uma vez focou a conversa em mim e Niall e eu quis morrer aos poucos a cada vez que precisava dizer que éramos apenas amigos. Para se safar de ser ela própria o alvo no quesito amoroso e revelar seus segredos, Harriet ficou mexendo no seu celular. Felizmente, minutos depois meus pais quiseram saber como Harriet estava e como andava a marca dela, e fiquei feliz por um momento por sair do foco da conversa.
— Vão sair? – Quis saber meu pai, se servindo pela segunda vez.
Eu não tinha planos de sair, então não disse nada.
— Eu vou para uma festa em San Diego, entrada as dez. – Comentou Hettie, me mostrando em seu celular o banner da festa no Instagram. – E também vai, é claro.
Meus pais se entreolharam, já sabendo de como eu gostava de ficar em casa e ficaram mais surpresos ainda quando concordei com ela.
— Claro! Estou mesmo precisando de um lugar barulhento com músicas péssimas e bebidas de origens duvidosas.
Hettie riu, voltando para seu celular, e deu para ver que meu pai ficou feliz por mim, embora não fizesse muito sentido.
Terminava meu frango, que inclusive estava muito bom, quando meu celular tocou e o visor dizia que era Niall.
— Oi! – Disse apenas, a fim de não revelar para minha família toda com quem eu estava falando.
. Não creadita na ternet! – Ele disse, tudo enrolado. Estava obviamente bêbado.
— Você bebeu?
Um pouquinho. – Admitiu. – Mas não creadita na ternet, tá?
Eu não estava entendendo nada, e me irritou que ele estivesse me ligado sem dizer coisa com coisa. Meus pais me olhavam com ponto de interrogação e eu preferi encerrar a conversa.
— Olha, preciso desligar. Depois a gente conversa. – E desliguei sem esperar sua resposta. Meus pais continuaram me encarando e eu dei de ombros. – Era Rachel.
— Merda! – Gritou Hettie, em seguida colocou a mão na boca, olhando para meus pais. – Me desculpem, mas merda!
— O que aconteceu? – Perguntei, querendo saber o que ela tinha visto de tão horrível.
— Vocês só estão se conhecendo, não é? – Disse, antes de me passar o celular.
A princípio não vi muita coisa nas fotos. Li o post por cima, e parecia se tratar de uma festa para famosos em Los Angeles, com alguns cliques aleatórios aqui e ali. Passei as fotos para a esquerda e foi a terceira foto que me fez ficar sem reação.
Niall e eu não tínhamos nenhum compromisso. Nunca chegamos a ter uma conversa séria sobre nosso rolo e o fato de estarmos apaixonados um pelo outro não significava exclusividade para nenhum dos dois. Até onde eu sabia ele poderia estar com quem quisesse, então eu não deveria ficar tão chocada, e nem tão profundamente magoada, quando o vi beijando outra pessoa nas fotos.
Mas eu fiquei.
Porque de todas as pessoas que ele poderia estar beijando em uma festa de ano novo, nenhuma iria me ferir mais do que Hailee Steinfeld.

¹ El Monte é uma cidade fictícia criada por mim, exclusivamente para essa história. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Capítulo 13

Cheguei em casa na quarta-feira à tarde, dois dias depois da noite de ano novo. Harriet tinha ido embora de El Monte na noite anterior, e eu não quis contar para os meus pais o que tinha visto nas redes sociais. Eles, pela primeira vez, respeitaram minha privacidade e não insistiram. Com um aperto no coração, me despedi dos dois mais cedo antes de pegar o avião, prometendo que ligaria com mais frequência.
Obviamente eu não estava falando com Niall, por mais infantil que isso pudesse soar. Eu sabia tudo sobre manipulação da mídia. Eu trabalhava em uma revista cuja principal fonte de renda era notícias desse tipo, então sim, eu sabia como algumas notícias podiam ser distorcidas.
A questão não era uma notícia aleatória que eu tinha lido em algum lugar. Eram fotos e mais fotos de Niall e Hailee se beijando, fotos que apareciam em todos os lugares onde eu olhava, algumas legendas até me citavam e ser envolvida nessa história era algo para o qual eu não estava tão preparada assim. Abandonei as redes sociais por um tempo para não precisar ver; aquilo ainda me machucava.
Niall continuava me ligando e eu continuava ignorando. Acabei me lembrando do último conselho que Harriet me deu antes de voltar para San Diego, dizendo que eu deveria ouvir a versão dele.
Mas não tinha outra versão senão a óbvia! Niall ainda tinha sentimentos por Hailee e preferiu omitir de mim essa informação. E pior: eu não podia cobrar isso dele, porque a decisão de ir devagar foi minha.
Depois de me estabelecer em casa e arrumar as minhas coisas, me lembrando de separar as roupas sujas para o Sr. Lopez retirar amanhã, sentei-me no sofá da sala para trabalhar na coluna especial de dez anos da PlayList.
Minha proposta tinha sido aprovada com sucesso e estava planejada para ser lançada em março, no mês do aniversário, e mesmo assim eu já me considerava atrasada. Já tinha pedido a Olivia, mais de uma vez, um assistente para cuidar de toda a parte administrativa para mim, mas nada foi feito até então.
A verdade era que se uma vez alguém pensou em cortar a iTeen, essa sugestão tinha sido completamente vetada. Depois da minha entrevista com Niall no ano passado e a nossa suposta relação, a coluna começou a fazer mais sucesso que nunca. Eu mesma nunca havia recebido tantos e-mails de assinantes antes.
Só que nem tudo era maravilhoso. Conforme a coluna crescia, minhas responsabilidades também. Então para ter um trabalho perfeito para entregar no aniversário, precisava adiantar a matéria, conciliando tudo isso com as minhas colunas mensais. Para janeiro por exemplo, minha revelação do mês era a Now United. Rachel, a maravilhosa, tinha conseguido uma entrevista com o americano do grupo, Noah Urrea, que estava marcada para daqui duas semanas.
Suspirei antes de começar minhas pesquisas e liguei meu notebook. Decidi pegar somente os cantores e bandas de maiores sucessos entre 2009 e 2011. Entre eles tinham os destaques: Selena Gomez, Demi Lovato, Hannah Montana, Justin Bieber e One Direction. Senti uma vontade neandertal de tirar esse último da lista, principalmente porque Niall havia me garantido uma entrevista com algum outro membro da banda, provavelmente Liam Payne, e eu não queria nada que viesse de Niall agora, mas lembrei que meu trabalho não tinha nada a ver com minha vida pessoal e continuei as pesquisas.
Depois de algumas horas pesquisando, parei um pouco o trabalho para tomar um bom banho e me alienar com alguma coisa qualquer na TV, porém antes mesmo que eu pudesse me levantar a campainha tocou. Espiei pela janela e vi Rachel, com quem eu não falava pessoalmente desde antes do natal, quando começou nosso feriado de recesso. Isso inclui dizer que ela não sabia sobre eu ter visto DJ no natal com outra garota.
— Oi, Rach. – Cumprimentei a morena, quando ela entrou em meu apartamento.
— Oi, .
Para uma pessoa cheia de energia, a mulher estava horrível. Os cabelos longos quase sempre impecáveis estavam presos em um coque bagunçado, e as roupas coloridas e criativas combinadas com perfeição foram trocadas por um conjuntinho de moletom preto e sem graça. Na verdade, ela parecia estar vestida com aquelas roupas há dias. Parecia mais magra, de alguma forma, e a pele levemente acinzentada tirava todo o bronze natural de Rachel. Sem contar as olheiras e a face claramente perturbada.
Entrei em estado de alerta, fazendo o possível para não a constranger pela sua aparência.
— Como você está? – Perguntei, enquanto nos guiava para o sofá da sala.
Coloquei meu notebook na mesa de centro para que ela pudesse se sentar.
— Como você disfarçou tão bem, estou péssima, claramente. – Retrucou, me fazendo corar pela minha falta de sutileza.
— Desculpe, só estou preocupada. O que aconteceu?
— Dean Jordan McCullen aconteceu. Esse homem é um inferno na minha vida!
— Calma, Rach.
— Não dá para ficar calma! – Murmurou, com pequenos pontos de lágrimas querendo se formar no canto dos seus olhos.
Segurei suas mãos, antes que ela resolvesse entrar em prantos bem na minha frente. Por causa de um cara. Não fazia o menor sentido.
— Por que você se apegou a ele desse jeito? Sabe que tem coisas melhores para você.
Ela soltou um riso estranho pelo nariz, ao mesmo tempo que eu ignorava mais uma ligação de Niall Horan. Rachel não pareceu notar.
— Acredite em mim, eu não me apeguei a ele. Mas preciso falar com ele. Urgente.
Suspirei. Eu precisava contar a ela sobre DJ, precisava dizer o que ele tinha feito. Afinal de contas, estava um clima tenso entre Niall e eu até hoje por conta dessa discussão besta e eu não podia deixar que tivesse sido em vão. Rachel precisava cair na real e desapegar desse homem e infelizmente seria eu quem deveria passar o recado.
— Rach, eu vi Dean no natal, em Londres. – Ela se virou para mim, os olhos arregalados. – Ele estava beijando outra garota.
Eu esperava que ela começasse a chorar, de tristeza ou de ódio, ou que ela dissesse que eu estava mentindo. Esperava que ficasse em silêncio sem dizer nada por uns minutos enquanto processava a informação ou que magicamente se recuperasse de sua decepção amora. Mas Rachel não fez nada disso. Ela só relevou a informação com um sorriso claramente forçado.
— Ah, , eu teria que ser muito trouxa para acreditar que ele não ficava com outras pessoas. Não é esse o problema.
Pela primeira vez desde que começou essa história, fiquei preocupada. O que poderia ser pior que isso?
Minha amiga soltou o longo cabelo só para prendê-lo novamente, mas pelo menos o coque ficou mais arrumado. Niall ligou mais uma vez, e o olhar atento de Rachel não deixou essa informação passar.
— Então qual é? – Perguntei, antes que ela me dissesse qualquer coisa. – Qual é o problema?
Rachel abaixou os olhos, aparentemente sem saber ao certo como me contar o que tanto a afligia. Arrumou-se no sofá e respirou fundo antes de falar.
— Não fique tão chocada, tá bom?
— Okay.
Niall ligou mais uma vez, finalmente deixando Rachel impaciente.
— O que deu em você? Atende!
Ela não tinha lido nenhuma notícia recentemente? Tudo bem que em seu estado eu não achava mesmo que ela estava se informando em redes sociais e é verdade que as notícias deram uma amenizada, mas realmente viralizou. Bom, não seria eu quem contaria a história a ela, muito menos agora.
— Isso pode esperar. – Desconversei, ignorando mais uma ligação. – Continue, por favor.
— Estou grávida, . E tenho certeza de que Dean é o pai. Estou surtando porque não o encontro e minha mãe vai me matar.
Ok, isso era importante. A perseguição de Rachel pelo ruivo de Palo Alto fazia bem mais sentido agora, e me senti mal por ela. Principalmente porque sabia que a maternidade, ainda uma maternidade sem pai presente e uma mãe excessivamente religiosa, não era o sonho da vida de Rachel Palm.
— Rach, sua mãe não vai te matar. – Comecei, sem saber como poderia deixar a situação melhor. – Quando muito vai te dar todo o suporte que você precisar. Vai ficar tudo bem com você e com o bebê também.
Rachel fez uma careta quando ouviu a palavra “bebê” e finalmente começou a chorar.
— Mas eu não quero ser mãe, ! Eu não quero ser mãe de jeito nenhum, eu nunca quis! – Sussurrou, desolada.
O som irritante do meu celular vibrando nos interrompeu novamente, e, antes que eu pudesse impedir, a mão de Rachel avançou até ele.
— Já chega. – Disse, secando as lágrimas e atendendo o aparelho. – Alô?
A expressão de Rachel foi da tristeza à confusão, mas não me deixei levar pelo interesse, fazendo, de propósito, uma cara de tédio.
— Ele disse que quer falar com você. – Falou, incerta, me estendendo meu celular.
— Diz que eu ligo depois.
Rachel levou o aparelho à orelha novamente.
— Ela disse que... – Houve uma pausa. – , ele hmm... Niall disse que não vai sair da sua porta até você falar com ele.
— Porta? Mas o que...? – Rapidamente avancei até a janela, assistindo um Niall cabisbaixo encostado na parede ao lado do portão.
Inferno! Eu não podia deixar Rachel sozinha nesse momento e não podia mandar Niall embora se ele tinha vindo de Los Angeles a São Francisco só para falar comigo. Esse homem iria me enlouquecer qualquer dia.
Furiosa, olhei para Rachel que ainda sustentava meu celular e uma expressão de confusão pelo meu pequeno drama.
— Diz para ele esperar porque eu estou ocupada agora.
Rachel, hesitante, repassou o recado.
— Ele falou para...
— Ah, me dê isso. – Retruquei, arrancando o meu celular da mão dela. – Niall, por favor, me dê um tempo. Agora que está aqui não faz sentido ir embora, mas me dê um tempo. E pare de me ligar.
, eu...
E, sem esperar pela sua resposta, desliguei o aparelho. Me dei três segundos para me sentir mal por ter desligado na cara dele, mas logo em seguida percebi que não me sentia mal por isso. Na verdade, me sentia ótima. Sorri, me virando para Rachel, logo me lembrando do que ela estava passando.
, está claro que tem outras coisas para resolver agora. – Disse, encarando os sapatos.
— Você é mais importante! – Falei, segurando suas mãos e tentando levar ela para o sofá outra vez.
Rachel sorriu, um diminuto sorriso que me deu esperanças.
— Eu não quero mais falar sobre isso hoje, de qualquer forma. Foi bom dividir isso com você, ninguém mais sabe. Não conta para o Niall, por favor.
Bufei.
— Não contaria nem que você quisesse.
A expressão confusa voltou.
— Mas o que aconteceu com vocês?
— Nada que eu não possa resolver. – Garanti. – Eu gostaria mesmo que você ficasse. Mas não vou te forçar. Estarei aqui quando estiver pronta para falar sobre... sobre o que você quer fazer.
Não mencionei a palavra “aborto” em voz alta, mas pela maneira que Rachel assentiu dava para ver que era exatamente esse o motivo que estava tirando seu sono e minando toda sua vitalidade: se queria ou não levar a gravidez adiante.
Desci com Rachel pelo elevador para acompanhá-la até a porta e, como prometido, Niall ainda estava do lado de fora, segurando uma sacolinha de papel com o logo da Sweet Maple.
Abracei Rachel dizendo que ela poderia contar comigo para qualquer coisa que precisasse e minha amiga andou até a avenida para tentar pegar um táxi. Virei-me para Niall, olhando dele para a sacolinha.
— Não vai funcionar. – Murmurei, apontando para ela. – Não sou comprada com comida.
Niall deu de ombros.
— Que bom, já comi quase tudo mesmo.
Não queria, mas droga, eu dei risada. Acho que ele pensou que estava tudo bem, porque se aproximou para beijar meu rosto. Consegui me afastar sem deixá-lo constrangido e com a cabeça pedi que ele entrasse.
Quando chegamos ao meu apartamento, Niall tirou os sapatos, me acompanhando até o sofá, onde minutos antes estava Rachel. Deixou a sacolinha quase vazia na mesa de centro e percebi como ele estava tenso.
— Rachel está diferente. O que ela tem? – Perguntou, tentando começar uma conversa, acho.
— Nada que seja do seu interesse. – Cortei. – Porque está aqui, Niall?
Ele suspirou.
— Para começar, principalmente porque me ignora há dois dias e eu merecia uma chance de me explicar.
— Ah, certo, uma explicação. Vai me dizer que ela te beijou e você não correspondeu e bem na hora os paparazzi apareceram. Logo em seguida você me ligou, bêbado as oito e meia da noite, pedindo para eu não acreditar na internet. Era essa a explicação?
Niall corou.
— Não. Eu gostaria que fosse. – Ele abaixou a cabeça. – Eu beijei Hailee porque eu quis.
Arfei, ao mesmo tempo surpresa e magoada com a confissão dele.
— Você... quis?
— Veja, não era para eles terem nos flagrado. Eu me certifiquei disso antes de qualquer coisa.
Ri, sem humor nenhum.
— Ah, era para ser um segredo. Aposto que você não teria me contado se eu não tivesse visto.
— Não. – Confessou. – Provavelmente não teria.
Ele pelo menos teve a decência de parecer envergonhado.
Suspirei.
— Então... você gosta dela?
— Estou confuso, ! – Exasperou-se. – Quando estou com você, sinto tudo que eu gosto de sentir. Sua calma me atrai, sua vida normal me reconforta e eu adoro que seja tão fácil quando estamos juntos. Adoro jogar na sua cara que é uma péssima guia, adoro que seja uma péssima cozinheira, adoro sua voz levemente desafinada e irresistivelmente doce. Eu poderia viajar de Los Angeles a São Francisco todos os dias só para estar com você.
A explosão emotiva dele me chocou. Ele não costumava ser impetuoso, confuso, nem mesmo costumava falar sobre seus sentimentos de forma tão clara. Fiquei tão chocada que nem pude falar nada, nem retrucar, nem fazer nenhum comentário irônico.
Ele balançou a cabeça.
— Hailee é o contrário. É caos, chantagem, jogos e mentiras. São festas regadas a bebidas alcóolicas sem hora para acabar. É perseguição, adrenalina, emoção e zero pudores. Eu não amo Hailee, . Eu achava que era apaixonado por Hailee, mas com você, vi que o que eu sentia não tinha como ser amor. – Ele olhou para mim, os olhos em um azul tão intenso que me desarmou. – Meu problema é que sou apaixonado pelo caos. É com ele que estou acostumado, é ele quem me segue a quase dez anos. Quando estou com ela, é o caos que eu vejo.
— Então você beijou Hailee por que eu sou monótona?
— Não, não foi isso que eu disse! Ser calma não tem nada a ver com monótona. Eu estou apaixonado por você, . Eu sei disso tanto quanto sei meu nome. Mas não somos nada. Não temos nada.
— Ah, então preciso decidir agora? Nesse instante?
— Eu não estou te pedindo em namoro! – Ele falou um pouco mais alto e minha bochecha ardeu. – Eu não...
— Está tudo bem. – Interrompi. – Acho... eu acho melhor você voltar para o caos de Los Angeles.
— Isso que ganho por ter sido sincero? – Niall parecia chateado, mas eu estava mais.
— Obrigada pela sinceridade. Mas ela me provou o que eu já sabia. O que tentei evitar desde o começo.
— O que?
Eu me levantei, caminhando até a porta.
— Um rolo, Niall. Eu perguntei sobre Hailee e você nunca se importou em me contar. Deduzi que estava tudo bem.
Lembrei-me do natal, quando Hailee foi até a nossa mesa.
— No natal, quando ela foi até nossa mesa. Foi para te convidar para essa festa, não foi?
Talvez com medo de dizer em voz alta, Niall assentiu. Finalmente ele se levantou e calçou os sapatos, claramente chateado.
— Eu nunca quis ficar tão bêbado a ponto de precisar pegar um avião para me resolver com você.
— Ninguém nunca quer.
Abri a porta para que ele pudesse sair, indo rapidamente até a cozinha para apertar o botão do interfone que liberaria seu acesso para a rua. Niall estudou minha expressão antes de sair, talvez tão chateado quanto eu pela nossa situação. O que eu podia fazer? Não tinha como voltar ao normal, estava confuso demais, caótico demais e denso demais. Só o tempo poderia nos ajudar agora.
— Você ainda não me perdoou, não é?
Eu não respondi. Baixei a cabeça esperando que ele saísse e fechei a porta. Voltei para a sala lentamente, encarando a sacolinha de papel esquecida da Sweet Maple e pensando em todo o meu drama do dia. O trabalho inacabado, a gravidez de Rachel, a confusão de Niall.
Sentindo-me pesada para resolver qualquer uma dessas três coisas, fui direto para o banho, desejando, ardentemente, que a água quente do chuveiro lavasse para longe toda frustração acumulada que eu sentia.


Capítulo 14

, porque você não me contou que aquele canalha tinha aprontado?
Foi assim que Rachel me recepcionou na segunda-feira de manhã quando cheguei na PlayList. A parte boa é que o cabelo estava arrumado de novo e ela vestia um vestido fofo por cima de uma meia calça para lá de criativa com uma botinha. Fosse o que fosse, parecia melhor que na quarta passada e isso era motivo o suficiente para que eu ficasse feliz.
— Bom dia, Rach.
— Eu jamais teria atendido o telefone, teria deixado aquele idiota apodrecendo na calçada para sempre. Que ódio! Quem ele pensa que é? – Continuou ela, me acompanhando com o olhar conforme eu me sentava em minha baia.
Aparentemente Rachel também tinha sido enganada com a aura príncipe encantado que Niall Horan exibia inicialmente. Claro que ele não era uma má pessoa. Eu adorava Niall, mas era complicado. O homem tinha mais coisas para resolver do que imaginei e eu tinha aceitado me envolver com ele mesmo assim, mas isso não significava que precisava aceitar tudo que ele fazia.
— Estamos tentando resolver. – A gente estava muito longe de resolver qualquer coisa, mas Rachel não precisava saber disso. Para acalmá-la, ofereci um sorriso. – Vai ficar tudo bem.
— Não. Não vai! Aquele... One Direction me paga!
Ri discretamente do ódio dela, me sentindo até aliviada, como se agora eu tivesse respaldo para sentir raiva dele e que essa raiva era totalmente justificada.
— Como você descobriu?
Ela revirou os olhos.
— Depois de ver a cara de enterro de vocês sabia que tinha alguma coisa errada, mas não fui atrás. Até que hoje de manhã digitei Niall Horan e no Google e apareceu tudo. Por que você não me contou? – Repetiu, mais calma dessa vez.
— Você já está passando por algo difícil o suficiente sem precisar se envolver no meu drama.
— Eu gosto do seu drama justamente porque me faz esquecer do meu. – Disse, virando-se para frente, uma vez que Jesse vinha vindo.
Ele não sorriu quando passou por nenhum de nós, e é claro que não disse bom dia nem um leve menear de cabeça que significasse alguma coisa. Na verdade, ele parecia bem bravo. Sua secretária se levantou para entregar uma pasta verde, que ele pegou de qualquer jeito e entrou em sua sala. A frágil porta tremeu quando ele a bateu, assustando uma porção de pessoas que não estavam prestando atenção na cena que se desenrolava.
Olivia, por outro lado, era a imagem da paz e da calma. Passou por nós com um bom humor anormal e foi sorrindo até sua mesa, fazendo eu e Rachel olharmos com cara de interrogação uma para outra. Antes que eu pudesse fazer qualquer comentário, meu telefone tocou.
Chegou uma caixa para . – Informou o recepcionista.
Sabendo que se tratava das primeiras edições da PlayList que eu tinha pedido nos arquivos, sorri.
— Muito obrigada, estou descendo.
Descansei os óculos em cima da mesa e peguei meu crachá, o colocando ao redor do meu pescoço. Cheguei ao térreo em poucos minutos para receber a minha tão aguardada caixa, que para o meu alívio não estava muito pesada. Assinei o termo que o motoboy tinha me entregado e andando com uma caixa de papelão e sapatos de salto, andei o mais elegantemente possível em direção ao elevador.
— Segure a porta! – Ouvi alguém gritando.
No reflexo, soltei uma das minhas mãos debaixo da caixa e segurei a porta para o que percebi ser um homem entrar, ofegante.
Ele devia ser uns poucos anos mais velho que eu, tinha olhos cinzas quase transparentes e um maxilar quadrado que, tinha certeza, o fazia ser mais velho do que realmente era. Além do cabelo loiro, arrumado de um jeito certinho demais, e um terno azul escuro que fazia seus olhos ficarem ainda mais destacados. Era um homem muito bonito, e mesmo que eu não o tenha encarado por mais de cinco segundos, corei por ter me dado o trabalho de fazer essa avaliação.
Ele sorriu para mim em agradecimento, um sorriso muito familiar, e fez menção de apertar o botão do quinto andar. Quando percebeu que já estava aceso, voltou para trás novamente.
Estava tão absorta nas minhas considerações pelo homem que esqueci completamente da frágil caixa que eu ainda segurava com apenas uma das minhas mãos e, de maneira imprevisível, o fundo se abriu revelando dezenas de revistas espalhadas pelo chão do elevador.
— Merda. – Murmurei, já me abaixando para pegá-las.
— Aqui está. – Disse o estranho, me entregando um bolinho que ele mesmo havia empilhado. Quando viu meus braços cheios, porém, tomou uma parte das revistas para si mesmo, encarando a capa de uma delas. – Acho que estamos indo para o mesmo lugar.
— Suponho que sim. – Respondi, sorrindo, apontando para o crachá dele. Não pude ver seu nome, uma vez que o crachá estava ao contrário.
Quando chegamos ao nosso andar, o guiei até minha mesa, onde ele abandonou a pilha que tinha me ajudado a carregar. Coloquei a caixa inútil no chão e me virei para agradecê-lo.
— Muito obrigada pela ajuda.
— Era o mínimo, foi culpa minha você ter precisado segurar o elevador. – Respondeu, parecendo envergonhado.
Balancei a cabeça, mostrando que estava tudo bem.
— São só umas revistas velhas.
— Já causando uma ótima primeira impressão no meu primeiro dia. – Eu dei risada e ele me acompanhou. Eu conhecia esse sorriso, eu tinha certeza que sim. – Eu sou Chase, aliás. Chase Collins.
Nada. Não reconheci nem o nome e nem o sobrenome.
— Eu sou . Prazer, Chase.
Eu acho que ele iria dizer mais alguma coisa, mas quando avistou Olivia o chamando, assentiu para ela.
— Tenho que ir. E me desculpe mais uma vez.
Chase se afastou, e eu caí sentada na minha cadeira, analisando as muitas revistas que estavam ali. O jeito era pedir uma caixa nova para a manutenção se eu quisesse minha mesa de volta para trabalhar.
— O que foi isso? – Perguntou Rachel.
— O que?
— Você estava flertando! – Acusou.
Dei uma risada de nervoso.
— Flertando? Meu Deus, eu já tenho um rolo complicado o suficiente para resolver, está lembrada?
Ela revirou os olhos.
— Um é bom, dois é demais...
— Rachel!
Ela só riu antes de se virar para frente novamente.
Balancei a cabeça, voltando para os meus próprios afazeres. A mesa agora estava abarrotada de revistas velhas e mofadas, e não conseguiria nem mover meu mouse se não as tirasse de onde estavam. Enquanto a caixa nova não chegava, amontoei tudo em um canto, e comecei a escrever as perguntas para a entrevista que já se aproximava. Olívia ainda precisava aprovar as perguntas e sabendo como ela demorava com autorização preferi me adiantar para não ter surpresas. No meu horário de almoço, Rachel me chamou para irmos a um sushi bar perto de onde estávamos porque ela estava com vontade. Bom, eu que não ia desmentir os desejos de grávida.
Esfomeada como só, ela já tinha reservado uma mesa para nós duas, então quando chegamos lá não tivemos que esperar muito tempo para fazermos o pedido. Eu era uma pessoa totalmente versátil a várias culinárias, algo muito comum em São Francisco. Não tem como morar nessa cidade e comer sanduíche todos os dias, a comida é uma cultura.
Entre um sashimi e outro, Rachel começou a ficar muito quieta, como se estivesse ensaiando o que ia dizer. Sabendo que dessa vez não seríamos interrompidas por um ser humano sem escrúpulos que atendia por Niall Horan, resolvi me convidar para a conversa que ela não queria ter.
— Você quer me contar o que aconteceu?
Rachel suspirou sem olhar para mim, brincando distraidamente com a embalagem do hashi.
— Eu conheci o Dean no Tinder e saímos algumas vezes, mas não rolou nada além de uns beijos. – Se defendeu, desviando o olhar do papel para me encarar. – Depois daquela festa na boate ele ficou me mandando mensagens. Eu não estava mais ligando, sério.
— Parecia mesmo. – Ironizei, sabendo que ela ia dar risada. Rachel me deu um soquinho de brincadeira no braço que ela alcançou.
— Idiota. Bom, parando para pensar agora, eu acho que ele só ficou atrás de mim por sua causa. Porque você é famosa e tal.
— Eu não sou famosa. – Resmunguei, cruzando os braços ao redor do meu peito. – Continue. O que aconteceu depois da festa?
Minha amiga corou.
— Aí, , me poupe de entrar em detalhes... Uma coisa levou a outra e eu cometi a burrice de dizer para ele, no começo da semana do natal, que minha menstruação tinha atrasado.
— E ele?
— Ele pediu para eu fazer um teste. E nunca mais me deu sinal de vida.
Refleti por um momento, entregando meu celular para ela.
— Toma, tenta ligar para ele pelo meu celular.
— Eu já tentei ligar de um número diferente. – Ela suspirou, abandonando a embalagem do hashi para segurar minha mão. – Mas se tem alguma coisa mais importante do que não achar o pai, é só a gravidez em si.
— E o que você quer fazer? Vai continuar grávida?
— Por mim eu não ficaria. – Confessou. – Mas minha mãe não vai aceitar isso tão bem. Ela vai me odiar para sempre se eu abortar esse bebê, .
Assenti. Rachel foi criada na igreja católica. Sua mãe era extremamente fervorosa no que se diz respeito a moral e aos bons costumes e dificilmente aceitaria um neto assim. Mesmo se Dean não estivesse desaparecido, a primeira coisa que a mãe de Rachel faria seria intervir com um padre e casar os dois onde quer que estivessem. Não podia que entendia, porque minha mãe sempre foi mais liberal. Eu não entendia, mas queria poder ajudar. Queria ser o consolo que Rach precisava que eu fosse. E talvez ela nem quisesse uma solução, talvez ela quisesse apenas ser ouvida.
— Rachel, acho que você precisa conversar com ela. Sue é sua mãe e te ama muito, mas é só isso. Você tem vinte e seis anos e a vida é sua. Não é justo que ela imponha uma responsabilidade dessas para você, principalmente quando o pai pôde escapar impune disso tudo! – Acariciei a mão que ela ainda segurava, olhando-a do modo mais terno que pude. – Não é uma coisa temporária, Rach. Um filho é para o resto da vida, da sua ou da dele.
— Está sugerindo que eu aborte? – Questionou. – Ela nem precisaria ficar sabendo. Mas a culpa... a culpa iria me destruir.
Bebi um gole do meu refrigerante aproveitando para pensar. Não podia dizer o que ela queria ouvir e nem dizer a ela o que fazer. A decisão tinha que ser dela e não podia ser influenciada por ninguém.
— Estou sugerindo que pense no que é melhor para você, em primeiro lugar. Mas antes de qualquer coisa, converse com a sua mãe. Se ela é mãe, ela vai te entender mais do que ninguém.
Rachel agradeceu a conversa e estava tão abalada que eu paguei a conta por nós duas para que pudéssemos voltar para a PlayList.
A tarde passou rápido e, mesmo perto do expediente terminar, Olivia continuava com seu bom humor exemplar, o que achei no mínimo suspeito. Faltando poucos minutos para ir para casa, Olivia chamou eu e Rachel, que, mesmo confusas, seguimos a uma sala privada, onde também estava o recém conhecido Chase Collins, Cristine, uma outra colunista e Uriah, um assistente.
— Bom, quero apresentar e Rachel para Chase, nosso mais novo transferido do escritório de Nova York.
— Prazer, as duas. – Disse o homem, sorrindo para nós respeitosamente. Sorri de volta.
— A iTeen tem passado por diversos altos e baixos desde que começou a escrever. – Começou Olivia. Estava com um pressentimento estranho. Apenas eu trabalhava na iTeen. – Posso atestar isso por experiência própria. Minha filha, Sabine, adora a coluna e sempre pede para eu trazer cartinhas para .
Sorri com a lembrança das cartinhas de Sabine. Olivia assentiu para Chase, que pigarreou.
— Tivemos uma reunião com os três escritórios, São Francisco, Nova York e Seattle, e gostamos tanto das suas colunas, , que queremos que seja semanal, e não mensal.
— O que? – Perguntei, antes que pudesse me conter. Mal dava conta de uma por mês e eles queriam que eu fizesse uma por semana. Eu era a máquina da criatividade eterna, por um acaso?
Mas Chase apenas sorriu.
— Montamos uma equipe para isso. e Cristine dividirão as colunas de modo que cada uma faça duas por mês. Rachel foi escalada para revisão e edição, Olivia te elogiou muito. – Disse para a editora, que corou. – Olivia comentou comigo sobre a parte administrativa que tem sido um fardo para , então integramos Uriah na equipe só para ajudar vocês três com isso. – Uriah fez um joinha como uma apresentação para o grupo – E eu vou supervisionar. Toda dúvida que tiverem basta falar comigo, posso conseguir quase qualquer coisa!
— Sentimos a necessidade de fazer isso porque era a única responsável e era claro para todos que estava sobrecarregada. – Olivia explicou. – Com o crescimento da coluna, acredito que a quantidade de pessoas que trabalham por ela precisa aumentar também.
Olivia finalizou com uma piscadinha para mim, me fazendo amar cada pedacinho dela. Eu não queria nem saber a quantas reuniões com Jesse ela precisou ir para montar essa equipe que, tenho certeza, Jesse acha insignificante, então mesmo que fosse obviamente para fins profissionais e lucrativos, fiquei comovida com a ação.
Estava chocada demais para engolir a grande novidade, então só comemorei junto com os outros. A iTeen finalmente estava crescendo! Talvez minha fama infundada tivesse algo a ver com isso, mas dessa vez ela tinha servido para um propósito que realmente valia a pena e agora uma equipe inteira estaria trabalhando para tornar essa coluna ainda melhor. Foi para isso que me empenhei tanto na PlayList, onde eu já trabalhava há quase um ano. Fiquei feliz que o meu trabalho estivesse começando a ser reconhecido e acabei deduzindo que era esse o motivo de Jesse parecer mais bravo que o normal hoje pela manhã. Uma pequena e insegura parte de mim, no entanto, ficava se perguntando se a iTeen estaria fazendo esse sucesso se eu não tivesse conhecido Niall Horan naquele dia. De um modo egoísta, espantei o pensamento curioso para o fundo da minha mente, me permitindo saborear o momento.
Provavelmente sabendo a hora que eu costumava chegar em casa, Niall me ligou poucos minutos depois de eu fechar a porta. Estava cansada de discutir com ele, e não gostava de ignorá-lo. Só por isso resolvi atender.
— Oi, Niall. – Falei, aproveitando para me jogar no sofá.
Oi! – Ele parecia feliz demais para quem estava tão abalado emocionalmente, mas eu relevei.
— O que posso fazer por você?
Olha, não vou tomar muito do seu tempo – Prometeu. – Mas estou muito frustrado com a situação em que nos coloquei e quero fazer isso direito.
— Certo... O que tem em mente?
Podemos nos encontrar? No sábado? Eu prefiro ter essa conversa pessoalmente.
Eu não tinha nada para fazer no sábado, mas estava apreensiva com o assunto da conversa. Realmente sentia falta de conversar com Niall sem ser para discutir a relação, e talvez nessa conversa ele fosse terminar comigo ou dizer que mudou de ideia e que não gosta mais de mim. Talvez ele fosse dizer que não gosta de compromisso e que eu o pressiono. Eu ainda gostava muito, muito dele, e me magoaria, mais ainda, qualquer passo para trás que ele viesse a dar. Mas eu não poderia ser covarde e fugir dessa conversa. Eu tinha que fazer isso, simplesmente tinha.
— Claro, Niall. A gente vai combinando certinho. – Concordei, de olhos fechados.
Ele deu uma risadinha. Que saudade dessa risadinha despretensiosa, do olhar metidinho e da simplicidade que era ser só amiga dele!
Eu tenho que ir agora, mas... estou muito ansioso para te ver, . Acho que nem vou dormir.
Eu dei risada.
— Te vejo no fim de semana, Niall!
Até!
Encerramos a ligação juntos. Estava quase me levantando do sofá quando me lembrei da promessa que tinha feito para os meus pais, de ligar com mais frequência. Aproveitando que já estava sentada e com o celular na mão, liguei por vídeo para o meu pai, que tinha mais chances de atender. Richard atendeu segundos depois.
— Vejam se não é minha filha favorita! – Exclamou, com um sorriso.
Revirei os olhos de brincadeira.
— Tenho uma irmã perdida e não estou sabendo?
Ele encostou a cerveja que estava bebendo no apoio do sofá, segurando o celular mais próximo do rosto.
— Como você está, filhota?
Eu me sentia acolhida quando ele me chamava assim. Fazia eu me sentir mais infantil, mas ao mesmo tempo abraçada, querida e... amada. Ah, eu estava tão carente.
— Estou bem. Acredita que fizeram uma equipe para minha coluna? – Contei, empolgada.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Ah, eu disse que ir para São Francisco foi sua melhor decisão!
Ele não disse. Na verdade, o homem ficou dias chateado sem falar comigo quando contei que não voltaria para San Diego. Mesmo assim eu sorri, esfregando os olhos.
— Tenho um bom pressentimento. Talvez eu queira crescer nessa área no fim das contas.
— Fico feliz por você, . – Falou. – E você já se resolveu com o seu namorado?
Senti minhas bochechas ardendo.
— Eu já te disse que...
Ele não é meu namorado! – Interrompeu meu pai, fazendo um falsete afetado da minha voz. – Ah, conta outra, para.
— Em todo caso, não. Não nos resolvemos. – Suspirei. – Eu acho que ele está apaixonado por outra pessoa.
— Então é fácil, não é?
— O que?
— Desencana, . Se ele não te quer, desencana.
Bufei.
— Desencanei por vinte e quatro anos e sigo solteira.
Meu pai sorriu para minha cara emburrada e tenho a impressão de que se eu estivesse por lá, ele teria me abraçado. Pegou de novo a lata de cerveja, agora aparentemente quase vazia e esboçou um sorriso.
— E quão bom é isso? Se apoiar em alguém só por um status de relacionamento? – Questionou, bebendo.
— Eu não quis dizer isso...
— Se apaixonar é lindo, . – Disse, olhando por cima do celular, talvez para minha mãe, antes de se virar para mim de novo. – Desde que a outra pessoa te ame também. Se for uma paixão unilateral só vai te machucar.
Olhei para baixo, cutucando os fiapos da barra da minha calça. Eu sabia que meu pai tinha razão. Niall e eu estávamos tão longes um do outro que a distância emocional superava a física. Eu ficava insegura em relação a ele o tempo todo.
— Você está certo, é claro que...
Meu pai levou as mãos para o coração, os olhos esbugalhados e uma fina camada de suor apareceu em sua face. Ele começou a arfar e respirar com dificuldade com as mãos no abdômen, aparentemente sem conseguir falar e, eu tenho certeza, poderiam se passar milênios desse dia, eu nunca iria esquecer a expressão em seu rosto enquanto tentava inutilmente falar comigo. Eu estava petrificada com a cena, sem saber o que estava acontecendo e como poderia ajudar, só voltando a mim quando escutei o metal da lata de cerveja batendo contra o chão de madeira. Ele finalmente perdeu o controle da mão e o celular deve ter caído também, porque estava vendo apenas o teto.
— Pai!? – Chamei, inutilmente. – Pai!
— Richard! – Escutei a voz da minha mãe se aproximando. – Richard, fala comigo! Richard!
E então a tela do meu celular ficou complemente escura, indicando que a chamada tinha sido encerrada.
— Pai!

Capítulo 15

Nunca pensei no que eu faria sem meu pai. Nunca precisei pensar. Tampouco parei para refletir realmente o quão conectada a ele estou e como ainda sou completamente dependente de seu afeto. Nenhum espaço de tempo pareceu tão longo quanto aqueles três dias de silêncio do homem que eu amava mais do que a mim mesma.
Os meus pensamentos me levaram para memórias que com o tempo iam se desvanecendo. A primeira – e única – vez que meu pai arrancou meu dente de leite pendurado, quando me explicou várias vezes porque eu não podia ter um irmãozinho e quando tinha folga nas encomendas dos quadros e ia com sua calça suja de tinta me buscar na escola. Algumas crianças podiam sentir vergonha disso, mas eu adorava ver meu pai sujo de tinta, porque significava que quando voltássemos para casa iríamos pintar juntos. Também me lembro quando me levou para minha primeira festa no ensino fundamental e quarenta minutos depois foi me buscar porque liguei para ele chorando, quando decidi que queria fazer jornalismo e quando passei na UC Berkeley. Lembro que ele ficou arrasado por me deixar no alojamento sabendo que nossas interações seriam menos frequentes. E eu também me lembro que não liguei muito para isso, porque queria ser independente, mas era para ele que eu ligava sempre que precisava de um conselho importante.
E, agora, talvez essas memórias fossem tudo que eu tivesse.
Meu pai teve uma parada cardíaca absolutamente do nada; eu nem sabia que ele tinha problemas cardíacos. Minha mãe estava com ele no hospital em San Diego desde segunda-feira e pediu para que eu ficasse em casa, me consolando e garantindo que ele logo estaria melhor.
E aqui estava eu. Em São Francisco. Sentada no sofá, ainda de pijamas, encarando, sem ver, a televisão desligada e aguardando a próxima ligação da minha mãe – a ligação onde ela me informaria que ele estava bem. Ele tinha que estar. Não comia nada há horas e para ser bem sincera eu devo ter passado algumas noites em claro. Rachel veio na terça à noite para descobrir por que eu não tinha ido trabalhar sem fornecer nenhuma justificativa, porém eu não consegui contar nada. Só chorei muito enquanto ela, confusa, alisava meu cabelo.
Depois de um tempo que pareceu bem longo para mim, meu celular finalmente tocou, e pelo identificador de chamadas vi que era minha mãe.
— Mãe? Alô? Como ele está? – Perguntei, rouca por ter ficado tanto tempo sem falar.
Eu estou ótimo, . – Foi meu pai quem respondeu. Dei um grito de alegria, sem conseguir disfarçar como temi, de verdade, pela vida dele. – Meu celular quebrou, por isso estou ligando por aqui.
Uma vaga lembrança do celular caindo confirmou a informação que ele estava me passando.
— Não importa, pode me ligar de um orelhão a cobrar, mas me liga, ‘tá bom? – Falei, a voz embargada. – Promete que vai me ligar, de onde quer que seja. Promete.
Ele ficou um tempo em silêncio.
Eu prometo. – Respondeu, por fim. – Sempre. Oh, , não chore.
— Eu tive tanto medo, pai. Fiquei tão assustada. – Sussurrei, limpando as lágrimas.
Já volto a ficar inteiro de novo. – Tentou me tranquilizar. Escutei uma porta se abrindo a algumas vozes no quarto. – , preciso ir, querem fazer uns exames agora.
Assenti, mesmo sabendo que ele não estava podendo me ver.
— Sem problemas. Faça todos os exames que eles pedirem. E se cuida.
Sim, general!
— Te amo, pai.
Amo você, filhota.
Sorri, por fim desligando o telefone. Parecia que cinquenta quilos de preocupação tinham saído de cima de mim e por mais que escutar sua voz tenha sido ótimo, eu só ficaria cem por cento tranquila quando ele estivesse em casa, tocando seu violão e pintando seus quadros.
Finalmente sentindo o cansaço de passar a noite em claro, decidi tomar um banho mais gelado para despertar e arrumar meu cabelo. Era uma atividade minuciosa e entediante, mas me manteria acordada, o que era meu objetivo já que ainda precisava ir para a PlayList. Ainda que já fosse sexta-feira, não pegaria bem eu ter me ausentado a semana inteira.
Tomei meu banho e escolhi uma roupa que sustentaria os oito graus que estavam fazendo naquela manhã: uma calça jeans escura com uma blusa creme, sem muitos detalhes. Como tinha certeza de que o grosso sobretudo vermelho me deixaria com calor por causa do secador, deixei-o esticado sobre o sofá, junto com meu cachecol. Com os cabelos ainda molhados, me dirigi para o banheiro novamente armada com meu secador e uma escova, sabendo que perderia pelo menos uma meia hora inteira nessa tarefa.
Entretanto, ao olhar o relógio, percebi que não tinha tanto tempo quanto parecia. Desistindo de fazer um penteado caprichoso demais, apenas me arrumei para que não fosse descabelada para o trabalho. Espirrei meu perfume favorito e terminei de me vestir, completando o visual com minha bota preta de cano alto. Coloquei meu cachecol e saí de casa, pronta para enfrentar o dia.
Assim que cheguei na PlayList fui direto para a baía de Chase, para quem agora eu tinha que me reportar. Não tinha dado nenhum tipo de satisfação do porquê fiquei sem aparecer por lá durante três dias inteiros e me pareceu errado começar o trabalho do dia sem me explicar. Queria que ele soubesse que eu era profissional e muito boa no que fazia. Precisava de pelo menos uma estabilidade na minha vida.
— Bom dia, Chase.
Ele tirou os olhos do computador para olhar em minha direção e ao contrário do que eu pensei que fosse acontecer, Chase sorriu.
— Bom dia!
— Eu só quero dizer que sinto muito pelo sumiço, sou sempre muito profissional. – Falei, rapidamente. – Garanto que isso não irá se repetir.
Ele girou a cadeira até ficar de frente para mim, sorrindo de uma maneira compreensível.
— Obrigado por ter vindo se justificar. E que bom te ver bem, . Rachel me contou o que aconteceu. Eu sinto muito.
Tentei não fazer uma careta confusa. Como Rachel poderia saber se não contei a ela? Precisava ter certeza qual história minha amiga usou para justificar minha ausência, ou então eu daria uma bola fora com o novo chefe.
— Sim, estou bem. E muito obrigada por entender! – Respondi, quase mecanicamente. A fim de convencê-lo, sorri, logo em seguida lhe dando as costas e me dirigindo à copa a fim de preparar um café.
. – Chamou Jesse Curtis no fim do corredor antes que eu alcançasse o cômodo, onde um pequeno grupo de colaboradores estava aglomerado. Veio a passos largos até mim, ignorando totalmente as outras pessoas que poderiam estar vendo a cena.
— Bom dia, Sr. Curtis. – Desejei, formalmente. Ele fingiu não ter notado a sutileza com a qual eu apertei meu sobretudo contra o corpo.
— Quando você precisar se ausentar do trabalho por três dias novamente, pelo menos tenha a decência de avisar seus superiores. – Falou, ali mesmo, na frente de todos.
— Me desculpe, eu realmente não tin...
— Desculpe? – Ele esfregou as mãos na cabeça com tanta força que eu tive certeza de que ele arrancaria uns tufos de cabelo se não fosse careca. – Senhorita , era para você ter entregado uma coluna ontem.
— Hm... minha próxima coluna é para o fim desse mês. Está no calendário.
— É, mas o calendário mudou.
— Quando, por favor?
Ele esboçou um sorriso maldoso.
— Você teve uma reunião com Olivia na segunda, suponho.
— Sim, tive. – Respondi. – E mesmo que as mudanças tivessem efeito imediato é impossível escrever uma coluna dessas em dois dias.
— Olivia me prometeu que eu teria colunas quinzenais e ontem completou-se quinze dias da sua última publicação. E faz mais de um mês que eu falei com ela. – Ele ergueu meu queixo para que eu o encarasse. – Acredite, senhorita , estou no meu direito de cobrar.
Puxei meu rosto, abrindo e fechando a boca umas três vezes. Os poucos curiosos que estavam no corredor se dispersaram e agora estava sozinha com ele. Não teria Olivia para me salvar dessa vez, nem ninguém. Rachel ainda não estava em sua mesa quando cheguei, mas duvidava de que até mesmo ela pudesse fazer alguma coisa por mim.
— Eu não assinei nenhum documento que alterasse minhas condições de trabalho até o momento. – Respondi, com toda a calma que eu ainda tinha. – Você, por um acaso, tem ele aí?
O sorriso maldoso de Jesse Curtis sumiu, dando lugar a uma expressão ansiosa – e perigosa.
— Cuidado, . – Disse, muito baixo, quase rouco. O modo como me chamou pelo meu primeiro nome me deu arrepios. – Você não vai querer outra fofoca sua nos tabloides, vai?
Um flash de uma matéria vazada pela própria PlayList no início de novembro passou pela minha cabeça. Na época disseram que não tinham como identificar o culpado, mas e se tinham? E se o culpado não pudesse ser acusado porque estava bem aqui na minha frente, como o CEO da companhia? Eu tinha pedido sua ajuda, mas foi Niall que tirou as notícias do ar. Claro que sim, se Jesse tinha vazado a notícia obviamente também não tinha intenção nenhuma de removê-la. A confissão em formato de ameaça ainda latejava na minha cabeça e quanto mais assustada eu ficava, mais Jesse sorria diabolicamente.
— Você fez isso. Você vazou a notícia.
— E faria de novo. Mas não serei tão legal dessa vez, então coopere comigo. A não ser que queira ver seu namorado mal na internet.
Quando a ameaça passou de mim para Niall, minha postura mudou. Deixei toda minha boa educação de lado.
— Você é um cretino.
— E você nunca vai conseguir provar. – Sussurrou, se aproximando de mim.
Vendo que um outro grupo de pessoas se aproximava, ele colocou o sorriso de volta no rosto. – Ah, e eu aguardo uma coluna sua para quinta que vem.
— Quinta que vem? – Questionei, inquieta.
Ele não me respondeu, o contrário, me ignorou completamente. Antes de abrir a porta que o levaria de volta as baias, Jesse virou-se de frente para mim.
— E espero ver essa coluna no prazo estipulado, . Eu não dou segundas chances. E seria uma pena desmanchar sua equipe por causa de um erro seu.
Espumando de raiva, me guiei até a copa, porque definitivamente apenas um café me salvaria naquele momento. Era uma injustiça enorme e eu queria vencer. Eu sabia que ele estava sendo abusivo, sabia que se eu reportasse a Olivia ou até mesmo ao RH alguma coisa seria feita, porque eu também sabia que a lei estava do meu lado. Porém queria provar para esse cretino que era capaz de fazer qualquer coisa, incluindo uma coluna para iTeen em menos de uma semana. Isso significava que passaria o final de semana trabalhando, mas, pela primeira vez em muito tempo, estava tão irritada que não me importei com o trabalho extra.
Voltei para minha mesa, usando as revistas velhas que já estavam na caixa nova para que eu pudesse me inspirar em algo que fosse rápido o bastante. Em uma dessas revistas antigas, encontrei uns testes adolescentes bem bobos, o que me deu uma ótima ideia. Se Jesse não gostasse, o problema era todo dele. Muito mais confiante, inspirada e determinada a entregar o texto um dia antes do prazo final, liguei meu computador, concentrando-me em minha pesquisa.
Uma sombra rocha e verde passou por mim rapidamente, e sentou-se na cadeira próxima a minha. As feições de Rachel estavam mais positivas que antes, mas contraídas de preocupação. Percebi que era por minha causa e me lembrei de que ela não sabia sobre meu pai.
— Você está melhor, ? – Perguntou, com carinho. – Eu sinto muito pelo seu pai. Espero que ele fique bem.
Pisquei, confusa novamente.
— Ele está bem, falei com ele hoje. Mas como você sabe?
Ela me olhou com descrença enquanto retirava suas coisas da grande bolsa verde água.
, você chorou no meu ombro por horas, contando em detalhes tudo que tinha acontecido com Richard. Niall te ligou pouco antes de eu ir embora na terça-feira e você repetiu toda história. Com os mesmos ricos detalhes.
Fiquei paralisada com a revelação. Cocei a cabeça e fechei os olhos, tentando me lembrar. Eu não lembrava de ter conversado com Rachel, muito menos de ter entrado em detalhes. E eu definitivamente não me lembrava de ter conversado com Niall Horan pelo telefone. Como eu poderia não me lembrar disso?
— Rachel, eu não me lembro. Sinto muito, não queria ter ficado tão mal.
Ela sorriu.
— É o seu pai, . A sua pessoa importante. Foi totalmente natural.
— Bem, obrigada por ter passado aquelas horas comigo. Eu posso não me lembrar de nada, mas o consolo deve ter me aquecido de alguma forma.
— Sempre que precisar, amiga. – Rachel olhou para a baia de Chase e falou mais baixo. – Ah, aliás, não sei se já falou com nosso novo chefe, mas expliquei a situação para ele. Ele entendeu.
Revirei os olhos me lembrando de Jesse, bufando com raiva.
— O que aconteceu, ? Parece incomodada. Preferiria que eu não tivesse falado com Chase? – Disse Rachel.
Soltei um resmungo pouco audível.
— Não, não é isso. É Jesse. Jesse Curtis, a pior praga que já aconteceu com essa unidade. Vou me mudar para Nova York. – Murmurei. – Ou talvez para a China.
Ela fez uma careta, provavelmente tentando imaginar a cena.
— Não pode ter sido tão ruim.
Encarei minha amiga por cima dos meus falsos óculos.
— Rachel, Jesse praticamente admitiu que foi ele que vazou aquela matéria sobre mim na PlayList.
Rachel levou as mãos a boca, chocada com a revelação.
— Não acredito!
— E ele ainda me ameaçou dizendo que vai fazer de novo se eu não cooperar com ele.
Contei para ela todo o episódio do corredor enquanto ela tirava seu casaco, apesar do ar ainda estar frio para mim. Quando finalizei, o pendurou nas costas da cadeira, aproveitando para vir até mim, muito séria, e colocou as mãos nos meus ombros.
, você precisa fazer alguma coisa.
Assenti, voltando meus olhos para o monitor à minha frente.
— A gente precisa livrar o escritório desse imbecil.
✈✈✈

Como semana passada teve um recesso, essa contava como nossa primeira semana trabalhada. Sendo assim, todo o expediente se encerrava no horário de almoço, o que para mim era ótimo. Estava ansiosa para chegar em casa e falar com meu pai de novo. Rachel finalmente tinha decidido conversar com a sua mãe sobre a gravidez e iam almoçar juntas no centro da cidade por hoje, então fui poupada de fingir estar cheia de energia e felicidade para o resto do dia, porque a verdade é que já estava esgotada, especialmente por ter ficado sem dormir.
Porém, como se o destino gostasse de tirar uma com a minha cara sempre que possível, encontrei Niall Horan na calçada da PlayList, com o ar preocupado em sua face contrastando de todo o resto. Eu já ia fingir que não o vi e ir embora, mas quando olhei em suas írises azuis claras cheias de preocupação, alguma coisa me deteve. Por mais estranha que estivesse nossa relação agora, seu olhar transmitia mais do que uma preocupação com a mulher que ele poderia ou não gostar. Transmitia carinho, cuidado... e amor. Nenhuma palavra que ele me disse até agora nunca foi tão sincera quanto aquele olhar.
Andei em sua direção o mais rápido que consegui e, sem nem pensar, me joguei em seu abraço. Niall não foi pego de surpresa, me abraçando tão forte quanto eu, ali mesmo, no meio da calçada. Ele me puxou para trás para que estivéssemos encostados em seu carro alugado e beijou o topo da minha cabeça, esperando pacientemente que eu me afastasse quando quisesse.
— Obrigada por vir, Niall. – Falei baixinho contra seu peito. Inspirei seu perfume, renovando em mim esperanças para nós dois no fim das contas.
Ele pegou minha cabeça com as duas mãos e beijou minha testa, duas, três, quatro vezes seguidas. Por mais que tenha sorriso logo em seguida, seus olhos ainda denotavam preocupação.
— Combinamos um encontro, lembra?
Eu ri, só um pouquinho.
— Era só amanhã. – Brinquei, sorrindo para ele.
Niall arqueou as sobrancelhas.
— Acho que errei o dia. Provavelmente de propósito.
— É mesmo?
— E eu não tenho lugar para ficar. Se eu tivesse pelo menos uma grande alma bondosa pela cidade hoje...
Cruzei meus braços por cima do sobretudo, afastando-me dele pela primeira vez.
— Em minha misericórdia, concedo a você o passe livre por São Francisco excepcionalmente hoje, onze de janeiro de dois mil e dezenove.
— Ufa, seria péssimo ser deportado da cidade logo hoje.
— Não dá para ser deportado de uma cidade, Niall.
— Eu não terminei a escola, me dê um desconto.
Achando graça de si mesmo, ele deu uma risadinha gostosa e foi impossível não rir junto. Mesmo que eu não o tivesse convidado, gostei que tenha vindo um dia antes do combinado.
— Vamos almoçar? – Convidei.
Ele concordou.
— Claro.
Entramos no carro que ele tinha alugado e sugeri um restaurante que já conhecia relativamente próximo ao meu apartamento. Era um restaurante simples de comida indiana, mas vendia alguns sanduíches normais caso Niall não se interessasse. Podia quase dizer que não seria o caso, o homem parecia estar apreciando conhecer novas culinárias.
Estacionamos na rua mais perto do restaurante North India e entramos. Como era horário de almoço e tinham muitas pequenas empresas por aqueles lados estava um pouco cheio, mas pelo menos conseguimos uma mesa em um canto discreto, para que Niall não precisasse chamar muita atenção. Isso e o gorro preto que ele usava, que por coincidência se disfarçava com a mobília.
— Como ele está? Seu pai?
Dei um longo suspiro.
— Está melhorando. Falei com ele hoje pela manhã.
Ele franziu o cenho.
— E por que parece tão magoada ainda?
— Porque a parada cardíaca em si não é a doença, Niall. É só a manifestação de algo pior. Ele está sim melhor do que sofreu segunda, mas tem alguma coisa errada com meu pai. Eu sei que tem.
O cantor passou o braço por cima da mesa para encostar na minha mão. Fez um carinho suave antes de entrelaçar nossos dedos.
— Se seu pai estiver com algum problema, eu sei que ele vai compartilhar com você. Por ora, não se preocupe. Ele ainda é jovem, vai ficar tudo bem.
Sorri com as suas palavras, mas no fundo desejei que ele fosse direto ao assunto. Tínhamos coisas para resolver, era para isso que ele estava aqui, e eu não queria mais falar do meu pai. Queria me concentrar que era apenas uma tarde normal e que o homem pelo qual estava apaixonada também era normal.
Antes que eu tomasse iniciativa para começar a conversa, passamos quinze minutos analisando um menu trago por uma garçonete, que para a tristeza de Niall não estava usando o famoso sari e sim uma roupa preta e branca normal. Era engraçado observar a desconfiança de Niall ao experimentar algo novo, mas ele sempre experimentava. Ele pegou algumas coisas que já tinha comido em outro lugar e mais alguns pratos que sugeri a ele.
E quando esperávamos a comida ficar pronta e chegar até nós, logo me prontifiquei a falar primeiro.
— E então... tem algo a dizer?
— Sobre o que?
Bufei.
— Ah, Niall... sobre mim, você, Hailee, Los Angeles e essa confusão cada vez mais maluca em que estou me metendo.
Niall Horan se arrumou na cadeira, aparentemente desconfortável e magoado pela maneira como abordei o assunto. Por um momento fiquei me sentindo mal por tê-lo ofendido de alguma forma, talvez ele pretendesse fazer diferente disso. Mas a sensação passou segundos depois; eu merecia uma explicação.
— Não era bem assim que esperava começar falando sobre isso. – Disse com um sorriso fraco, confirmando minhas suspeitas. – Mas em primeiro lugar quero me defender dizendo que nunca te pedi em namoro e nunca disse que tínhamos alguma coisa exclusiva.
— Só porque mora em outra cidade? – Questionei.
— Principalmente porque moro em outra cidade!
Abaixei a cabeça, surpresa com o rumo que a conversa estava tomando.
— Você disse que queria tentar, Niall. – Murmurei, baixinho. – Disse sabia que não seria fácil. Você disse que me queria.
Olhei em seus olhos o mais profundamente que eu pude, forçando-o a se lembrar desse dia. Pelo rubor em sua face, acredito que tenha conseguido.
— Eu disse, eu sei o que eu disse. Mas eu ainda estava confuso até então.
— Nada disso faz sentido! Se me queria como disse aquele dia, porque pagar de macho solteiro e desimpedido para cima de mim, agora? E se estava tão confuso, porque decidiu ali, naquele momento, que me queria?
— Porque me apaixonei por você, . Só por você. Eu não estou e nem nunca estive, desde aquele dia, confuso sobre como me sinto em relação a você. Você é a única constante na minha vida. É a única pessoa que me enxerga como eu sou, como eu realmente sou.
Mordi minhas bochechas, sem saber ao certo o que fazer com a declaração, claramente contraditória.
— Então por que...?
Ele suspirou.
— Moramos longe um do outro e tento não me comprometer tanto para que isso não seja ruim para você no futuro. – Ele apontou para meu celular em cima da mesa. – Mais de um milhão de pessoas já descobriram você nas redes sociais. Um milhão, ! Você não pode fazer nada comigo em público sem que apareça foto sua em algum lugar e eu odeio isso. Eu não estou confuso em relação a você, mas em relação a te trazer para a minha vida bagunçada. Cheia de agendas, shows, reuniões e festas.
— Mas.. e Hailee? Naquele dia você disse que beijou ela porque quis. – Acusei, como se essa declaração derrubasse todos os pontos que ele tinha declarado até agora. E, na minha cabeça teimosa de taurina, derrubava mesmo.
— Eu sei o que eu disse e... na hora aconteceu. – Ele olhou para mim, arrependido. – Eu não posso te pedir desculpas por uma coisa que não tem nada a ver com a gente. Não posso, . Hailee e eu temos um passado e uma história, mas é só isso.
— Talvez fosse mais fácil de entender se não a tivesse omitido de mim desde o começo.
— Como assim?
Enrolei distraidamente meus cabelos com os dedos enquanto falava.
— Você nunca me disse seu passado com a Hailee. Eu te perguntei, mas você preferiu esconder de mim a informação. – Olhei para ele de novo. – Se tivesse me contado, poderia ter mudado tudo. Talvez estivéssemos fazendo uma outra coisa agora. E se eu soubesse do rolo, talvez nem estivéssemos juntos.
Niall se remexeu, desconfortável.
— Então se eu dissesse que tinha sentimentos por Hailee na época, nada disso estaria acontecendo entre nós?
Pensei um pouco antes de responder.
— Acho que não, Niall. Eu não queria me envolver em um rolo, então provavelmente nada disso estaria acontecendo.
Ele pareceu triste, mas o que mais eu poderia fazer? Ele estava ali para termos uma conversa sincera.
— Então não me culpe por tentar ter você mesmo estando confuso.
Dei um sorriso frouxo.
— Não tente me ganhar com uma cantada barata!
Ficamos um tempo em silêncio. Não foi um silêncio constrangedor: ele foi necessário. Parecia que ambos estávamos refletindo sobre algo e precisávamos tomar uma decisão que seria benéfica para os dois. Eu não podia abrir mão dele. Não ainda. Apesar de sim, estar apaixonada por ele, não era uma paixão avassaladora e eu provavelmente não sofreria horrores se desse um fim no que quer que existisse entre nós naquele instante, mas seria loucura ficar sem saber onde esse romance nos levaria. Quantas outras vezes na vida eu estaria de rolo com uma estrela em ascensão? Tentei não rir pelo pensamento bobo, mas Niall percebeu mesmo assim, o que chamou sua atenção para a continuação da conversa.
— E então, tenho que te conquistar de novo?
Dei risada, apesar da perguntar ter tido um que de preocupação.
— É claro que não. – Aceitei sua mão esticada, permitindo que ele a acariciasse.
— Sabe, tem chances de a gente voltar para a noite de natal? Antes de tudo dar errado? Pelo menos a parte que nós éramos amigos e não brigávamos o tempo todo. – Perguntou, apertando minha mão com carinho. – Você dançando a noite toda, se misturando com os artistas como se fizesse esse tipo de coisa sempre, eu precisando te arrastar para não pular na Taylor Swift várias vezes por hora...
— A Taylor te olhando com cara de poucos amigos, e inclusive vou querer ouvir essa história uma hora, o Ed Sheeran quase voando no seu pescoço, aliás, quantos inimigos musicais você tem?
Niall riu, prestes a me contar, mas nossa comida chegou antes que eu pudesse saber a resposta. A garçonete colocou todos os alimentos na mesa em vários bowls, com exceção do nosso prato principal, que estava em um prato preto no formato de uma cuba rasa de barro. Meu cantor favorito inalou o cheiro da comida com gosto quando a garçonete saiu, o que me fez rir dele. Eu amava esse seu lado mais espontâneo, onde não existia nada além de nós dois no mundo. Além da curiosidade que eu sentia para saber o desfecho da nossa história, eu percebi que também amava estar perto dele. E foi por isso que peguei meus talheres e o encarei sorrindo.
— Tem sim, Niall. Tem chances sim.

Capítulo 16

Cheguei na PlayList decidida a ter um bom dia. Depois de um final de semana leve e sem problemas, sentia que merecia pelo menos uma semana tranquila, para variar. Niall foi embora no sábado à noite, não sem antes me levar para jantar em um restaurante caríssimo no centro da cidade, o que, confesso, me fez esquecer um pouco de suas recentes gafes. Foi incrível, com direito a vestidos bonitos, fondue de chocolate como sobremesa e chamas de velas dançando a nossa frente. Apesar de romântico e fofo, eu sabia que as coisas ainda não estava cem por cento resolvidas entre ele e Hailee. Por esse motivo decidimos que iríamos continuar sem nenhum tipo de compromisso, pelo menos até ele se resolver com ela e decidir o quanto valia a pena me arrastar para sua conturbada vida.
Niall e eu sabíamos que eu tinha perdido meu anonimato quando fui identificada na reportagem que Jesse Curtis tinha vazado. Se não fosse por ele eu ainda seria anônima, e esse era só mais um item da lista que me fazia odiar Jesse com tanta intensidade. Por esse motivo, a coluna que ele tinha pedido para quinta-feira já estava pronta na segunda de manhã. Meu orgulho não deixaria que fosse diferente, de qualquer forma.
Rachel ainda não tinha chegado quando parei na minha baia. Pendurei minha bolsa preta no gancho debaixo da mesa, estiquei meu casaco na cadeira e, assim que meu computador ligou, acessei meus dados e enviei o arquivo da coluna direto para a impressora. Coloquei as duas folhas em uma pasta L e levei diretamente até Uriah, que estava ansioso para começar o trabalho.
— Bom dia, Uriah. – Desejei para o garoto a minha frente.
Ele me lançou um sorriso sedutor, o que me fez sorrir também.
— Oi, . – Ele apontou para a pasta. – Suponho que isso seja para mim.
— Bem-vindo a equipe! – Comemorei, de uma maneira irônica. – Preciso que anexe nessa pasta umas fotos que vou te mandar por e-mail. A impressora daqui não imprime colorido, por isso vai precisar ir ao setor C.
— Sem problemas.
— Quando anexar as imagens, deixe a pasta com a secretária de Jesse. Já identifiquei a pasta, ele vai saber o que é.
— Perfeito, deixa comigo.
Ele me deu uma piscadinha, e eu voltei para minha mesa, já mandando o e-mail para que Uriah pudesse imprimir minhas fotos. Já passava de vinte minutos do horário de entrada e Rachel ainda não tinha aparecido, o que estava me deixando nervosa. Tudo bem que ela não estava grávida há muito tempo, mas cuidado nunca é demais. Meia hora mais tarde, Rachel finalmente sentou-se em sua baia, o rosto verde e uma testa levemente luminosa, denunciando o suor. Fui até ela, sutilmente, esperando que ninguém tivesse notado seu atraso de praticamente uma hora.
— Você está bem? – Questionei, preocupada.
Ela desconsiderou minha preocupação com um gesto de mãos.
— Acho que os enjoos matinais começaram. – Explicou, olhando apreensiva para onde Chase estava. – Acha que eu já devo contar a ele?
Pensei por um momento.
— Acho que sim. Só para ele, pelo menos. Assim, se acontecer de novo, Chase já vai estar por dentro do assunto.
— Bem pensado. – Ela passou a mão na testa, fazendo uma careta de nojo. – Argh, odeio estar grávida. Preciso ir ao banheiro.
— Quer que eu vá com você?
— Não precisa. – Rachel se levantou sem dificuldade e se colocou a caminho do banheiro, enquanto eu voltava para minha mesa.
Mal havia sentado quando Uriah veio até mim.
— Deu tudo certo? – Perguntei quando ele chegou.
— Sim, já deixei com a secretária. Mas temos um problema maior.
Girei minha cadeira para ficar de frente para ele.
— Aí não. O que houve?
— Não estão conseguindo encaixar a entrevista dos Jonas para a data que a gente precisa. Falam que eles só têm agenda para abril.
— Abril? Precisamos dessa entrevista para pelo menos mês que vem!
— Eu disse que era um problema maior. – Resmungou Uriah, bufando.
Senti pena dele, porque até ano passado era eu quem cuidava dessas questões administrativas e burocráticas. Suspirei, tentando não demonstrar meu descontentamento. Tinham outros grupos para entrevistar para o especial de dez anos da PlayList, mas nenhum deles tinha planos de voltar depois de seis anos, como era o caso dos Jonas Brothers. A PlayList tinha que conseguir divulgar isso. Acreditava que parte do fechamento de agenda para entrevista era justamente para não vazar nenhuma notícia do retorno antes da hora, e eles iriam retornar, possivelmente ainda esse ano. Os boatos do retorno tinham muitos fundamentos e minha intuição nunca falhava.
— Eu precisava muito dos Jonas, mas se não conseguir de jeito nenhum, tenta os planos B. Vou te mandar um e-mail com a lista atualizada, está por ordem de preferência.
Uriah fez uma continência para mim.
— Sim, chefe.
Dei risada.
— Eu não sou sua chefe, Uriah. Sou só a .
Ele sorriu para mim.
— Pode deixar, chefe . – De brincadeira rolei os olhos, desistindo, e o dispensei para que pudesse finalizar seu trabalho.
Depois de um tempo digitando, decidi ir até a copa me servir um copo de café. Saí pela porta que levava ao mesmo corredor onde Jesse tinha me interceptado da outra vez e segui em direção a nossa pequena copa. Pelo horário achei que estava sozinha, mas encontrei Chase com sua xícara na mão misturando açúcar quando cheguei lá.
— Bom dia!
Ele se virou para mim, desengonçado, o que fez algumas gotas de café caírem no chão.
— Está para nascer alguém mais desastrado que eu. – Respondeu, sem graça, me encarando com um sorrisinho.
Dei risada, pegando umas folhas de papel para secar as poucas gotas que tinham se espalhado.
— Obrigada, .
— Tudo bem, foi minha culpa. Não queria ter te assustado.
Ele balançou a cabeça.
— Achei que só eu apreciava um bom café tão perto do meio-dia.
— Eu não aprecio. – Retruquei. – Mas esse ano está cheio de surpresas.
Fui até a máquina de café, colocando uma xícara limpa no compartimento vazio, apertei o botão para que a bebida saísse e assim que a máquina apitou, retirei a xícara. Cheguei até onde Chase estava a fim de colocar açúcar em meu próprio café e me apoiei na bancada ao lado dele, para fazer companhia. Ele não conhecia ninguém ali, e era bom ter um rosto amigo, mesmo se essa pessoa fosse sua subordinada.
— Desculpa a pergunta, mas te acho muito familiar. – Soltei, quando o silêncio se tornou estranho.
Além de que eu queria saber de onde conhecia esse homem, especialmente o sorriso dele.
Ele deu um gole em seu café antes de responder.
— Talvez seja meu irmão mais novo. – Disse, acanhado. Ergui uma de minhas sobrancelhas ainda confusa. – Oliver Collins? Surfista?
Procurei em minha mente de onde eu poderia conhecer um surfista já que eu não acompanhava esse tipo de esporte, porém não encontrei nada. Mas encontrei uma coisa: uma lembrança muito específica da época da faculdade onde alguém mencionava Oliver Collins e eu deixava a pessoa sem graça por não saber quem ele era.
Sorri envergonhada para Chase, finalmente me lembrando de onde o conhecia.
— Não é Oliver, é você.
— Eu?
Suspirei, sem conseguir segurar o riso.
Chi Psi? – Questionei, me referindo a fraternidade a qual ele pertencia.
— Você está brincando!
Dei risada, quase deixando minha própria xícara de café tombar.
— Juro! Me lembro de você da Berkeley.
— Aquela festa!
— Sim! Eu era caloura, você era veterano.
— Caramba, que mundo pequeno!
Ele sorriu e fiquei constrangida, principalmente porque me lembrava claramente do beijo bêbado que ele tinha dado em mim. Estava torcendo em silêncio para que essa lembrança também não estivesse passando pela cabeça dele, mas pelo modo como o sorriso vacilou em seu rosto, ele provavelmente também tinha se lembrado.
— Não acredito que não me lembrei de você.
— Já faz muitos anos. – Desconversei. – E eu era uma pirralha.
— Sua blusa xadrez vermelha e seu inseparável all star branco – Falou baixinho.
— Aí meu Deus, você lembra disso? – Tanta coisa para lembrar e tinha que ser meu estilo absolutamente infantil que usava nos dois primeiros anos da faculdade? – A gente só se viu uma vez!
Ele riu, colocando a xícara vazia na mesinha atrás dele.
— Não exatamente. Bom, você só me viu uma vez. Na festa quando...
— Certo, claro! – Cortei, antes que ele mencionasse aquele beijo.
Parte de mim achava que ele só tinha falado disso para ter certeza de que eu me lembrava também, e pela sua expressão eu não o tinha decepcionado. Eu normalmente não teria problema em fazer piada com o acontecimento para espantar o constrangimento, mas seria bem estranho tocar nesse assunto agora, na copa da PlayList, sendo ele meu chefe e tudo mais.
— Eu meio que... te stalkeava.
— Chase! – Repreendi, de brincadeira.
— Fazíamos as mesmas aulas! – Defendeu-se.
Revirei os olhos.
— Devia ter me falado antes, assim eu poderia dizer que aconteceu alguma coisa legal na faculdade.
— Ter me conhecido? – Falou, galante.
— Não, ter um perseguidor maluco.
Ele riu, os dentes brancos faiscando.
— Vou fingir que isso não me magoou.
Bem quando ia pensar em uma resposta a altura, a porta da copa se abriu, revelando não apenas Jesse furioso, mas Jesse furioso com a minha pasta na mão.
— Posso saber o que é isso? – Questionou, sacudindo a pasta na minha cara.
Chase fechou a cara, pronto para entrar em minha defesa, mas eu acabei falando antes dele.
— É o que você me pediu na sexta. Uma coluna nova.
Jesse, vermelho de raiva, virou-se para Chase.
— E você, novato, leu a coluna absurda de antes de enviar ela para mim?
E agora que as coisas ficavam complicadas. Já estava tão acostumada em mandar as colunas direto para Jesse que me esqueci completamente que deveriam passar por Chase primeiro. Encolhi os ombros, pronta para ser engolida ao vivo por Jesse em plena segunda-feira.
— Li sim. – Disse Chase, para minha surpresa. – Inclusive achei incrível.
Jesse abriu um sorriso maligno, folheando a pasta.
— Então você acha incrível que... – Começou, procurando algo na página. – Ah, que “as meninas de hoje em dia que consomem conteúdos voltados para sua faixa etária, em sua maioria pré-adolescentes, não querem mais testes bobos que lhes digam quem será seu marido respondendo uma série de perguntas aleatórias. Querem uma verdade, querem ser levadas a sério.”, etecetera, etecetera, blá, blá, blá.
Admirei a cara de paisagem de Chase, fingindo que sabia daquilo o tempo todo, e tentei controlar a minha própria para esconder o fato de ter me esquecido de pedir aprovação para essa coluna.
Jesse nos olhou com ódio, a mim mais do que a Chase, aguardando uma opinião.
— Eu achei brilhante. E concordo com esse ponto de vista.
— Obrigada, Chase. – Agradeci baixinho, mesmo sabendo que ele não tinha lido o texto todo.
Jesse grunhiu.
— Não importa o que você acha, novato. Isso precisa vender. Nenhuma menina de doze anos vai pedir uma assinatura para a mãe para ficar lendo essas ladainhas feministas.
— Chase.
— Desculpa?
— Meu nome é Chase Collins. – Disse meu chefe, com firmeza. Pude notar que Jesse vacilou um pouco. – E eu acredito que é disso que as meninas precisam. Elas precisam de .
Jesse fechou a cara mais ainda e deixou a pasta na minha mão, com uma força um pouco maior do que a necessária.
— Refaça. – Disse simplesmente, saindo da copa sem aguardar meu protesto.
Assim que ele saiu, virei-me para Chase, olhando com súplica.
— Chase, eu... eu realmente lamento por ter te colocado nessa posição. Não lembrei que agora você também precisa aprovar as colunas.
Chase me olhou por alguns segundos e em seguida encarou a porta.
— Não gosto desse cara, sabe. – Apontou para minha pasta. – Posso ficar com isso?
Estendi a pasta para ele.
— Claro, fique à vontade.
— Preciso voltar agora, mas obrigado pela companhia no café. – Agradeceu, sorrindo.
— Por nada!
Ele se foi e fiquei encarando a copa, agora vazia. Eu estava no meio de uma guerra, sabia disso. Minha popularidade significava dinheiro, eu não era burra. Provavelmente poderia sair da PlayList e viver de internet que com certeza ganharia bem mais do que recebo na revista. Mas não seria eu. Não seria a carreira que eu sempre quis para mim.
Com um pesado suspiro, eu soube. Para conseguir o que queria, eu precisava enfrentar Jesse querendo me sabotar sempre. Eu precisava vencer a guerra.
✈✈✈
Cheguei em casa exausta, mas corri para tomar banho já que Niall e eu tínhamos combinado uma ligação por vídeo. Depois de limpa, coloquei uma roupa confortável e soltei meu cabelo, indo para minha cama e aguardei a ligação. Cerca de vinte minutos depois meu celular tocou.
— Olá, popstar. – Cumprimentei, acenando com a mão livre.
Que ódio desse homem estar tão lindo sempre que a gente estava longe um do outro! Ele estava com o cabelo grande e tinha colocado um brinco que ao invés de o deixar feminino só o deixava mais sexy. Quis passar a mão pelo seu cabelo e nesse momento senti uma saudade tão absurda que meus olhos quase marejaram.
— Antes de tudo, o texto está ótimo! – Exclamou, se referindo ao texto da coluna de mais cedo. – Estou indignado.
Suspirei.
— É, todos estão. Jesse é um grande filho de uma... argh! – Grunhi, socando o travesseiro ao meu lado.
— Puta, . – Niall disse, sorrindo malicioso. – Ele é um grande filho da puta, você pode dizer essa palavra.
Sorri, mas por dentro ainda sentia ódio.
— Arrogante, idiota, babaca, estúpido!
Niall gargalhou.
— Adoro seu jeito de xingar, você xinga com carinho. Parece que está xingando um... marido.
— Não é assim que eu xingaria um marido. – Retruquei.
— Como, então?
Fiquei em silêncio por uns segundos.
— Bom, não teria por que xingar, já que me casei com ele. Mas se fosse para dizer alguma coisa seria algo tipo, bobo, teimoso, bundão, coisa assim.
A gargalhada de Niall preencheu meu quarto e foi impossível não rir junto.
Bundão. Bun-dão. Ah, não, eu preciso twittar isso.
Sorri.
— Me dê os créditos, por favor.
— Pode deixar. – Prometeu, piscando para mim. – Eu não posso falar muito, mas queria te mostrar uma coisa. Vou te mandar um link, mas promete que você só vai ler depois que a gente desligar.
— Mas eu sou muito ansiosa.
Ele arregalou os olhos.
— Promete, !
— Prometo, prometo. – Falei, erguendo minha mão que não segurava o celular. Uma notificação apareceu em minha tela no formato de um link. Tenho que dizer que me segurei muito mesmo para não abrir. – Recebido.
Ele suspirou.
— Ahn, Niall... queria saber...
— Sim?
Coloquei meu cabelo atrás da orelha, ensaiando o que iria dizer.
— Lembra daquela matéria dos dez anos de PlayList?
— Inesquecível, você só fala disso.
Revirei os olhos, mostrando o dedo médio.
— Enfim, não estamos conseguindo uma entrevista com os Jonas. Será que você conseguiria ajudar?
— Os Jonas? Tipo, Jonas Brothers?
— Sim.
Ele suspirou, pensando.
— O que eu ganho com isso?
— Hm, nada?
Ele fez um beicinho atrapalhado.
— Um beijinho?
— Muito caro.
— Um abraço?
— Hmm, dois segundos de abraço.
— Dez segundos.
— Cinco segundos e ponto final.
Niall riu, jogando a cabeça para trás.
— Fechado. – Ele ficou sério de novo. – Vou ver o que consigo.
— Meu herói!
Continuamos conversando por mais alguns minutos, e quando vi Niall olhando alguma coisa em seu notebook, soube que seria hora de desligar. Eu passava o dia bem, mas depois que falava com ele a saudade só parecia aumentar. E eu o tinha visto no sábado!
— Pode olhar o link agora. Boa noite, .
Sorri docilmente.
— Boa noite, popstar.
Curiosa, segui para o link assim que desligamos. Fiquei chocada quando terminei de ler. Todas as nossas conversas sobre ela passaram pela minha cabeça e não estava acreditando que aquele pesadelo finalmente terminaria. Que eu tinha minha resposta e que Niall teve coragem para fazer o que fez, da melhor maneira possível. Meus olhos marejaram de verdade dessa vez e não pude esconder minhas emoções de mim mesma quando li até o final.

NIALL HORAN E HAILEE STEINFELD TERMINARAM O NAMORO

Eita, gente. 2019 mal começou, e o saldo de relacionamentos que foram por água abaixo já está grande, viu? Nesta semana, quem resolveu colocar um ponto nas coisas foi o ex-1D, Niall Horan, e a atriz Hailee Steinfeld.
De acordo com fontes consultadas pelo assessor de Niall, o casal teria decidido se separar há “alguns meses”, sem dar maiores explicações.
“Hailee e Niall estavam fortes no meio do ano, mas terminaram há alguns meses e têm tentado ser discretos. Ela percebeu que tinha muitos projetos e sua agenda de trabalho estava insana. Ela estava começando a viajar para seu novo filme e percebeu que eles ficariam longe por um longo tempo. Eles realmente tentaram fazer dar certo. Definitivamente foi um ‘amor jovem'”. Juntos desde fevereiro de 2018, quando foram vistos em um show dos Backstreet Boys, Niall e Hailee terão realmente um período agitado em suas respectivas carreiras daqui em diante. O cantor deve começar a produzir seu novo álbum ainda em 2019. Hailee, por sua vez, segue em fase de promoção de Bumbleebee (mostramos o trailer dele aqui).
A gente espera que tudo esteja bem e que as coisas tenham terminado amigavelmente, né? Felicidades aos dois!
¹

¹ Reportagem adaptada para fazer sentido à história, mas foi retirada do site:https://www.papelpop.com/2018/12/niall-horan-e-hailee-steinfeld-terminaram-o-namoro/

Capítulo 17

— Como assim, ir para LA no final do mês? Tipo, ficar na sua casa? – Exclamei, surpresa.
Niall riu baixinho do outro lado da linha.
É, tipo ficar na minha casa. Eu sempre fico na sua mesmo, e você vai amar Los Angeles.
— É melhor que São Francisco?
Ah, nada é melhor que São Francisco.
Sorri, olhando as horas no meu relógio.
— Niall, preciso voltar ao trabalho. Mas aceito seu convite. – Falei. – Só precisa prometer me levar na balada mais exclusiva da cidade.
Óbvio que você vai conhecer o melhor da vida noturna. Ao contrário de certas pessoas, eu sou um ótimo guia turístico.
Revirei os olhos.
— Supera isso, Niall! Quando você vai parar de jogar Alcatraz na minha cara?
Hmm... Provavelmente nunca.
Suspirei, derrotada, ainda que sem conseguir disfarçar o sorriso bobo.
— Agora é sério, preciso entrar, a gente se fala mais tarde. Tchauzinho, popstar.
Bom trabalho, .
Triste, desliguei o telefone onde havia passado os últimos trinta e três minutos, exatamente, conversando com Niall Horan. Estava sentada em um banquinho na área externa, pela primeira vez em muito tempo não saindo para almoçar fora, e, mesmo que tenha ficado sozinha, foi bom mudar minha rotina.
Fevereiro chegou sem nenhuma boa notícia e, obviamente, e eu não tinha conseguido escrever a coluna de Jesse a tempo, mas tentei não ficar muito neurótica com essa parte. A coluna do mês estava quase pronta, e eu estava tranquila que pelo menos minha parte estava sendo feita. Afinal de contas, eu tinha plena consciência que ele precisava mais de mim do que eu dele, então tudo que poderia acontecer era só o mesmo de sempre.
Chase já estava sabendo da gravidez de Rachel, que ainda não tinha me informado o que faria a respeito dessa gestação. Eu sabia que ela tinha se resolvido com a mãe dela, mas não tinha certeza sobre como iria proceder. Quando me encontrei com Rachel e Uriah conversando próximos a minha baia já soube que aquele não era o melhor momento para perguntar.
— Ah, , escuta essa! – Exclamou Rachel animada, chacoalhando suas pulseiras coloridas. – Conta para ela, Uriah.
Uriah sorriu para mim.
— Consegui duas entrevistas para o mês que vem. Selena Gomes e Miley Cyrus.
— Oh... – Não eram os Jonas, mas pelo menos eu teria alguma coisa – Isso é ótimo, Uriah! Excelente trabalho.
Ele sorriu, tímido, apontando para minha amiga.
— Rachel me ajudou. Ela é boa em convencer pessoas.
— É, eu que o diga.
— Bom, preciso voltar. – Anunciou o rapaz. – Bom final de expediente para as duas.
Sorrimos uma para a outra e eu seria bem inocente se deixasse de notar o crush tremendo de Uriah por Rachel. Não seria por menos, Rachel normalmente já era linda. A gravidez tinha trazido um brilho mais natural a sua beleza, o que a deixava ainda mais estonteante. Era de se esperar que algo assim fosse acontecer.
— Ele gosta de você. – Falei enquanto me sentava.
Rachel sorriu, amorosa, olhando para as costas de Uriah, que se afastava.
— Ele é ótimo, mas deve ter uns vinte anos e eu estou grávida, lembra?
— Rach, idade é só um número.
— Mesmo assim me sinto uma pedófila dando moral para um cara seis anos mais novo que eu.
Dei de ombros, o cupido era ela, afinal de contas. E eu não podia forçar um romance com tanta naturalidade quanto Rachel Palm.
Jesse passou por mim mais de uma vez, mas não me cobrou a coluna, o que achei estranho. Ele normalmente não perdia a oportunidade de me humilhar em público, então o que parecia ser um alívio para algumas pessoas, na verdade me deixou aterrorizada. Não tinha me esquecido de sua ameaça e, por mais que jamais pudesse prová-la, o simples fato de tê-la feito já era o suficiente para que eu fizesse tudo que ele mandasse. Na cabeça dele, é claro, porque a realidade é que eu não descansaria até ver Jesse Curtis atrás das grades. De preferência na cadeia menos charmosa que existisse na Califórnia.
Estava quase finalizando meu trabalho do dia quando Chase me chamou. Fui até onde ele estava, mas, para minha surpresa, ao invés de simplesmente me dizer o que precisava, Chase me guiou para o que parecia uma das salas de reuniões.
— Entre, por favor, . – Pediu, dando um passo para que eu pudesse passar por ele. – Vai ser rápido.
Notei, tarde demais, que a minha pasta com a falha coluna do mês passado estava em suas mãos. Não consegui identificar sua expressão quando se sentou diante de mim, e não pude deixar de me sentir apreensiva.
— Está tudo bem?
Chase sorriu, cruzando suas mãos por cima da mesa.
— Sim, está tudo ótimo. – Ele segurou minha pasta, virando-a de frente para mim. – Fiz alguns apontamentos, que valem a pena serem alterados, ou acrescentados. Coisas mínimas, na verdade.
Abri o documento e, de fato, havia algumas anotações marcadas com uma caneta vermelha. Lembretes como “colocar a data da pesquisa aqui” ou “tente encontrar alguma testemunha com a faixa etária indicada para provar esse ponto”.
Ainda assim continuei confusa, de que adiantaria ele se dar o trabalho de corrigir meu trabalho todo se não fosse para publicá-lo? Sentei-me um pouco mais ereta na cadeira, com receio do que estava por vir.
— Suponho que tenha gostado do que leu, mas não entendi. – Falei, pouco à vontade.
— Tem razão, está muito bom. De verdade. Mas, e saiba que odeio concordar com ele, Jesse tem razão. Esse texto não é, e talvez nunca seja, o perfil da PlayList.
Minhas costas eretas murcharam completamente, mas tentei controlar minhas feições. Eu estava ali, acima de tudo, para aprender com meus erros. Achando que tudo estava perdido, aproximei a pasta para mais perto de mim.
— Bom, de qualquer forma eu agradeço por ter tirado um tempo para corrigir meu texto, mesmo que não seja publicado.
Os dentes de Chase faiscaram quando ele deu um sorriso quase infantil.
— Eu disse que não fazia o perfil da PlayList.
Cruzei os braços para ele, uma risadinha incontrolável escapando pela minha boca.
— Desculpa por falar com você assim e, por favor, não me demita, mas posso saber o que está rolando?
Meu chefe finalmente se rendeu a uma risada, me olhando com... orgulho?
— Enviei o texto para uma conhecida minha, de Nova York, que trabalha na revista Seventeen e ela também adorou. Mostrou para a editora dela, que por fim te ofereceu cinco mil dólares para publicar na revista.
Meu queixo caiu.
Cinco mil dólares por um texto? Em uma revista adolescente de verdade?
— E eu só tenho que corrigir esses apontamentos e enviar o texto?
— Então você topa? – Perguntou, com entusiasmo.
— É óbvio que eu topo!
— Bom, só tem mais uma coisinha... – Começou, coçando os cabelos loiros.
— Aí, não... O que é?
— Ela quer te conhecer. Pediu para ir até a sede em Nova York no final desse mês. – Concluiu. – E é claro que Olivia já está ciente e todas as despesas, com exceção da alimentação, serão pagas pela PlayList. Podemos conversar com o gerente da unidade de Nova York e você pode fazer seu trabalho de lá pelo tempo que durar sua estadia.
Um texto vendido por cinco mil dólares e uma viagem de graça para Nova York. Eu estava mesmo no céu e nem mesmo Jesse poderia me fazer descer agora.
Até que me lembrei para onde deveria, de fato, ir ao final do mês. Ah, não. Esqueci completamente de Niall e Los Angeles, mas eu seria muito burra se negasse essa oportunidade. Ponderando seriamente, esse seria meu primeiro trabalho externo desde Mountain View, e estávamos falando de um texto no qual eu mesma nem coloquei tanta fé assim. Realmente não tinha outro jeito de fazer isso. Niall teria outra folga e eu teria outro final de semana para conhecer Los Angeles, porém eu talvez nunca mais fosse ter uma oportunidade como essa que se apresentava diante de mim. E, de repente, a escolha pareceu certa e óbvia, como se eu já soubesse o que faria o tempo todo. Se Niall gostava de mim, então ele iria entender isso.
— Ficarei o tempo que for necessário.
— Maravilha. Estão estipulando um prazo de duas semanas. Está bom para você?
Não estava tudo bem ficar duas semanas fora da minha casa e longe da minha rotina, mas eu iria até o fim. Nunca tinha ido para Nova York e, no fundo, algo me dizia que eu iria gostar muito da experiência.
— Claro, está ótimo. – Vendo que o expediente já tinha se encerrado, apontei para a pasta. – Acho melhor eu ir para casa resolver isso o quanto antes.
— Sem problemas.
Sentindo-me oficialmente dispensada, levantei-me da cadeira, me espreguiçando sutilmente. Tinha sido um longo dia e eu estava cansada. E aquela sexta-feira em especial prometia muito café e notebook no sofá da sala. E pretendia fazer uma pipoca ou comprar um McDonald’s, de repente, eu sempre ficava mais animada trabalhando com comida do lado. Ou quem sabe pedisse uns bolinhos de Khalan; já se fazia dias que não comia no Sweet Lime.
— Hm, ? – Chamou Chase antes que eu pudesse sair da sala.
— Sim?
— Eu estava indo para casa e pensei... bom, você quer ajuda? Podemos ir para uma cafeteria agora e eu posso te ajudar com isso. – Ofereceu, apontando para a pasta.
Eu não me sentia necessitada de ajuda, mas passar o tempo em sua companhia parecia ser melhor que o plano original. Além disso, fora Chase quem fizera os apontamentos, então em sua presença possivelmente seria muito mais fácil corrigi-los.
Ofereci um sorriso amigável para ele.
— Claro, vou só pegar minha bolsa.
— Te encontro no hall.
Fui em direção a minha mesa, com Rachel também pegando suas coisas e me olhando estranho. Aproveitando que estava em cima da mesa, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Niall, tentando registrar minha tristeza em cada linha.


Hey, popstar. Desculpe, emergência no trabalho ☹ Não vou conseguir ir para Los Angeles, estarei em Nova York.
Mas depois conversamos sobre isso! Bjos – 18:02


— O que foi isso? – Perguntou Rachel, desconfiada, apontando para a sala de onde eu e Chase tínhamos saído.
Sorri para ela.
— Só a melhor coisa de todas!
— Deu para o seu chefe no trabalho?
Mostrei o dedo, de um jeito que minha mãe acharia bem deselegante.
— Alguém comprou meu texto! – Contei, entusiasmada. E claramente de qualquer jeito, porque estava tão ansiosa que não achava possível formar frases inteiras.
— Aquele texto que Jesse odiou? – Questionou, pendurando a bolsa preta no ombro e cruzando os braços.
— O próprio. – Concordei, colocando meu casaco.
Ela sorriu para mim.
— Sempre soube que você faria sucesso.
— Está pronta, ? – Perguntou Chase atrás de mim, na pior hora possível.
— Sim, vamos. – Falei para ele, encarando Rachel com o meu melhor olhar de “não pergunte nada agora”. – Até segunda, Rach.
— E o que foi isso? – Sussurrou quando Chase foi esperar o elevador no hall.
Revirei os olhos.
— Estamos indo trabalhar, Chase vai me ajudar. – Expliquei. – Só isso! – Acrescentei quando percebi que suas sobrancelhas continuavam arqueadas.
— Bom trabalho, então, workaholic. – Desejou minha amiga sugestivamente.
Dei uma leve bufada, pegando minha própria bolsa em cima da cadeira e acompanhando Chase em direção ao elevador.
Uma vez no térreo, Chase abandonou seus modos formais. Percebi como seus ombros já estavam mais relaxados e seus passos mais tranquilos. Aproveitei o silêncio para guardar meus óculos na caixinha e colocá-los dentro da bolsa que estava comigo. Eu sabia que estávamos indo para a cafeteria mais próxima do trabalho e sabia o caminho até ela, por isso caminhávamos em silêncio lado a lado, até que o silêncio ficou esquisito demais. Além disso, era a primeira vez que Chase e eu nos encontrávamos fora do trabalho e não sabia como seria conversar com ele de uma maneira mais informal.
— Você fica diferente sem óculos. – Comentou ele, com as mãos nos bolsos.
Parecia que ele tinha se obrigado a falar qualquer coisa só para nos livrar do silêncio pesado, e, apesar do comentário não render muita conversa, fiquei feliz por ele ter feito isso.
— É, estão um pouco fora de moda.
Ele riu.
— Ah, eu acho que o vintage cai bem em você.
Coloquei minhas mãos nos bolsos também, de repente tímida.
— Só os óculos mesmo.
Chegamos ao estabelecimento e, por conta do horário, estava bem vazio. O Palace Coffee era um lugar aconchegante e moderno, mas devo admitir que não aparecia por ali com tanta frequência. Raramente acordava cedo o bastante para tomar café, e, quando o fazia, obviamente Malai e o Sweet Maple já tinham minha lealdade.
Eu e Chase escolhemos uma mesa com bancos confortáveis, uma vez que eu provavelmente passaria umas boas horas ali. Eu tinha deixado meu notebook em casa, mas Chase me emprestou o dele e retirei minhas anotações, meu caderno e uma caneta da bolsa.
Como um cavalheiro, Chase se ofereceu para buscar um café para mim, que aceitei de bom grado. Mesmo que estivesse quente lá dentro, a temperatura ainda não passava de cinco graus e minhas mãos estavam congelando. Um café me ajudaria a esquentar.
— Aqui está. – Disse ele, estendendo o copo de café em minha direção.
— Obrigada, Chase. – Respondi, ao que ele devolveu com uma piscadela.
— Não há de que.
Sorri para ele, me abaixando para pegar minha borracha na bolsa, quando ele suspirou. O gesto deu a entender que eu tinha perdido um comentário importante.
— Aconteceu alguma coisa?
Chase corou; o que só provava que talvez eu não fosse gostar muito do que estava por vir.
— Olha, eu sei que agora sou seu chefe e tudo mais, mas preciso perguntar.
— O que?
— Você se lembra de mais alguma coisa da faculdade? – Questionou. – Algo mais... físico?
Ele queria saber sobre o beijo. Bem, talvez eu tenha sido despretensiosa demais com a minha própria lembrança para se referir a ela como um simples “beijo bêbado”. É claro que não foi só isso, afinal de contas, também estava bem bêbada. Como já devem saber, eu era realmente focada e mais introspectiva, porém tinha acabado de entrar na faculdade e estava doida para entrar no mundo universitário de cabeça. Nem hesitei quando minha colega de quarto me chamou para a festa da fraternidade Chi Psi, porque naquele dia em especial eu queria me divertir de verdade.
Eu estava exatamente do mesmo jeito que Chase informou, uma blusa xadrez vermelha e um all star branco. Usava uns shorts jeans simples, mas que no fim das contas acabou combinando com o resto. Ali estava eu, ingênua, novata e completamente bêbada rindo sozinha e... ali estava Chase, provavelmente muito mais bêbado que eu rindo de mim por estar rindo sozinha. Conversamos por um tempo e antes mesmo que eu me desse conta, estávamos aos beijos. Não lembro direito como aconteceu, mas lembro que fiquei lisonjeada porque Chase era mesmo lindo. Apesar de não me recordar, também tenho certeza de que os beijos não foram menos quentes do que minha mente me deixa lembrar, apesar da embriaguez.
Porém foi só isso. Um intenso beijo bêbado. Eu nunca mais vi Chase pelo campus; para ser sincera eu nunca nem o procurei. Ele estava no último ano e eu tinha acabado de entrar, era de se esperar que nossos caminhos nunca mais se cruzassem.
Mas aqui estávamos nós, anos depois, tendo a pior e mais constrangedora conversa jamais tida antes. O fato de ele querer saber disso mostrava que ele não poderia estar tão bêbado assim se lembrava desses detalhes e foi só por esse motivo que decidi ser sincera, não sem antes corar violentamente.
— É, eu lembro. Do... beijo. Na... festa. – Comentei, olhando para baixo. Um cara aleatório em um bar, tudo bem. Mas se lembrar disso com o próprio chefe? Embaraçoso total.
Até que me senti ridícula por estar constrangida. Eu era adulta ou não era? Olhei em sua direção de novo, determinada a fingir que lembrar daquilo não me envergonhava. As bochechas de Chase se coloriram de vermelho mais ainda e fiquei feliz pensando que pelo menos eu não era a única embaraçada com a conversa.
— Que bom. – Arqueei a sobrancelha. – Quer dizer, que bom que se lembra. Eu estava pensando que estava louco.
Dei risada, bebendo um gole do café.
— Está tudo bem, já faz muito tempo.
Ele estava brincando com o rótulo da sua embalagem de café.
— Sabe, eu tentei de achar no campus.
— Chase...
— Eu te achei, mas não consegui falar com você. – Comentou, rindo. – E depois eu fui embora e nunca mais te vi. Eu devia ter falado com você.
Suspirei, colocando o copinho na mesa de novo.
— Talvez? Nunca saberemos se de fato teria mudado algo.
Ele me encarou.
— Mudado algo tipo... você não estar namorando com uma celebridade agora?
— Eu não estou... como você sabe disso?
— Também leio notícias. E te sigo no Instagram. – Ele riu, mais para si mesmo. – Não que você tenha me notado por lá.
— Eu realmente não ligo mais para o meu Instagram. Está tudo uma loucura.
Bebi mais um gole de café, atenta a análise de Chase.
— Posso imaginar o que é ser famoso simplesmente por existir.
— Pode?
Ele suspirou.
— Cresci na sombra do meu irmão mais novo, Oliver Collins.
— Certo, o surfista. – Lembrei.
— E é frustrante as pessoas me conhecerem como “irmão de Oliver Collins” – Respondeu, fazendo aspas no ar. – Ou... “namorada de Niall Horan”.
Me remexi na cadeira, desconfortável, mas ao mesmo tempo não querendo negar meu título autoimposto. Niall tinha terminado com Hailee oficialmente, porém isso não poderia significar que automaticamente estávamos namorando. Deu a entender que quando quisesse ter um relacionamento sério comigo, ele diria isso com todas as letras, e o fato de não dizer estava me deixando maluca. Era somente por isso que estava na cafeteria, com Chase, meu novo chefe, claramente flertando comigo.
Eu poderia dar uma chance. Eu poderia ceder. Poderia até usar isso para Niall tomar vergonha na cara e admitir que me quer na vida dele de uma vez por todas. Esse último plano não daria certo se eu admitisse estar namorando com Niall, Chase parecia decente o suficiente para não dar em cima de uma mulher comprometida.
Mesmo assim não consegui negar. E Chase percebeu.
— Eu preciso saber.
— Sim?
— Você está namorando com ele? – Questionou, diretamente.
Eu precisava desconversar. Dizer sim seria mentira, mas negar não era uma opção para mim. Não mais, alguma coisa na maneira como eu pensava tinha mudado.
— Por que a pergunta?
Chase deu de ombros, mais interessado em encarar seu copo de novo.
— Eu conheço o cara. Ele não parece ser do tipo que namora.
Franzi o cenho, de repente assustada com o rumo da conversa.
— Conhece? Pessoalmente?
Ele me encarou de novo, se inclinando para frente.
— Pessoalmente.
Ele me desafiou com o olhar, mas não de um jeito maldoso. Chase estava me testando, queria saber o quanto me importava em saber sobre Niall para saber quais eram suas chances. E honestamente eu não queria saber as coisas horríveis que ele talvez fosse me contar sobre Niall, então só sorri para ele, tentando não demonstrar minha preocupação.
— Viemos aqui trabalhar ou discutir minha insossa vida amorosa?
Ele finalmente desistiu, me lançando um sorriso sem graça.
— Certo, desculpe.
Liguei o notebook e a postura formal de Chase foi voltando aos poucos. Imaginei que tendo conversado sobre isso, aquele silêncio do tamanho de um elefante não voltaria a nos intimidar, e estava certa. Pelo menos em relação ao nosso beijo de anos atrás; a conversa sobre Niall, porém, não seria esquecida tão cedo.
As horas se passaram tão depressa que quando olhei éramos os únicos no estabelecimento e se aproximava das onze da noite. Pelo menos fizemos um bom progresso no meu texto, que já estava praticamente uma folha maior que antes, devido aos acréscimos, inclusive excelentes, que Chase havia sugerido.
Ele se ofereceu para pagar meu café e uma carona para casa. Por conta do horário, eu não tive muita escolha a não ser aceitar, e ele insistiu que não seria problema nenhum.
Foi estranho estar em seu carro, como se fôssemos um casal, mas achei rude ir no banco de trás e trata-lo como meu motorista, quando ele claramente estava me fazendo uma gentileza. Ele estacionou na calçada paralela a minha e seria necessário atravessar a rua, mas não me importei. Chase, por outro lado, já tinha descido do carro para abrir a porta para mim, o que achei um tanto desconcertante.
Será que dava para ir para Nova York hoje mesmo e não precisar vê-lo por duas semanas?
— Boa noite, Chase. – Falei corada, já me afastando para atravessar a rua.
Ele, porém, veio em minha direção estalando um beijo no meu rosto. O cheiro de colônia pós barba e café me envolveu de maneira acolhedora e me senti flutuar, mas antes que fosse tarde demais fui para trás um pouco chocada.
Fiquei chocada porque o gesto pareceu natural demais para mim, espontâneo demais. Quer dizer, conversamos sobre coisas bastante pessoais, mas repassando nossa conversa na minha cabeça, não encontrei uma brecha onde esse tipo de comportamento seria bem-vindo.
— Me desculpa, eu realmente... – Ele pareceu se lamentar de verdade, os olhos gritando o que ele não podia dizer em voz alta.
— Está tudo bem. – Falei baixinho, mesmo que não estivesse. Eu estava ficando confusa de novo, e odiava isso. – Hm... até segunda, Chase.
Ele ainda estava corado quando colocou as mãos nos bolsos novamente, algo que notei que fazia sempre que estava nervoso.
— Se cuida, . – Disse por fim, sorrindo para mim e se afastando em direção ao banco do motorista.
Minha mente foi para um lugar onde fiquei pensando nos momentos que passei com Chase e seria mentira se eu dissesse que não me senti minimamente atraída em ter uma vida normal e confortável. Sem mídia, sem tabloides, sem namorado famoso. Imaginei como seria se tivesse cedido aos encantos do charme que exalava de Chase, fantasiando por um segundo que ele não era meu chefe e que nos conhecíamos desde a faculdade, porque ele tinha decidido falar comigo depois da festa. Agora estávamos noivos, íamos nos casar em junho e o primeiro bebê já estava nos nossos planos, assim como nosso cachorro adotivo, Scott, um Golden Retriever bagunceiro e enorme.
Então Niall voltou para os meus pensamentos com força. Mais precisamente porque assim que olhei na direção do portão da minha casa, ele estava ali me esperando.
E, aparentemente, tinha visto tudo.

Capítulo 18

Acabei decidindo pela abordagem mais madura, sorrindo tranquilamente e seguindo Niall até o outro lado da rua lentamente. Quando notou minha aproximação, ele se desencostou do carro e, para minha surpresa, devolveu meu sorriso. O carro era diferente do que ele costumava alugar e Niall parecia mais cansado do que de costume. Do banco do passageiro tirou duas sacolas enormes com o símbolo do restaurante de Khalan, e dei uma risadinha por dentro; afinal era o que eu estava planejando de qualquer forma: deliciosos bolinhos tailandeses.
Parte da minha decisão de não me explicar era justamente porque ele não quis assumir nada e, portanto, eu também poderia estar com quem bem entendesse. Me perguntei se Chase havia reconhecido Niall na porta e agido daquela forma na frente dele de propósito, mas ele parecia ser tão gentil que minha desconfiança se dissipou tão rápido quanto veio.
— Isso veio em boa hora. – Falei, apontando para as sacolas. – Faz tempo que está aqui?
Ele sacudiu a cabeça, se aproximando para depositar um beijo no alto da minha cabeça. Niall tinha cheiro de sabonete e suor, o que me fez pensar se ele teria saído de Los Angeles as pressas.
— Cheguei do aeroporto faz uns quarenta minutos. – Explicou, me acompanhando para dentro do prédio depois de travar o carro. – Peguei o primeiro voo para cá assim que li sua mensagem.
Corei, tentando mensurar o quanto ele se importava comigo a ponto de pegar o primeiro avião que apareceu na frente só para me ver no final de semana.
Uma vez dentro do apartamento, Niall depositou as sacolas em cima da mesa de centro da sala e voltou em dois passos me envolvendo em um abraço apertado. A verdade é que já se fazia muitas semanas que não nos víamos pessoalmente, e ligações e chamadas de vídeo nem sempre funcionavam para matar as saudades. Para ser sincera, nunca funcionavam. Eu sempre desligava meu celular com mais saudade dele do que antes.
E foi então que percebi o motivo pelo qual eu não consegui negar meu envolvimento com Niall, nem dar uma chance para Chase e nem ceder para o seu flerte.
Eu não estava apenas apaixonada. Não era um acontecimento bobo do qual me esqueceria daqui uns anos. Não era uma paixonite de colegial. Com o passar das semanas não notei que quanto mais me afundava no drama de Niall e sua caótica vida, mais me apaixonava por ele e mais o queria. Não, eu não estava somente apaixonada por Niall Horan.
Eu amava Niall Horan.
E parte de mim ansiava que estar presa em seu abraço sôfrego e apertado poderia significar que ele me amava também.
Nos afastamos depois de um tempo abraçados e ele tirou do meu rosto uma mexa do meu cabelo que tinha se soltado do coque improvisado.
— Senti sua falta, . – Murmurou aliviado, antes de me beijar.
Eu nem tive tempo de responder de volta, correspondendo ao seu beijo com tanta intensidade que me surpreendeu não ter cedido de uma vez. Tentávamos registrar com o tato toda a superfície do corpo um do outro, seus beijos passando da minha boca para o meu pescoço, e quando eu pensava que continuariam descendo pelo meu seio, voltavam para a minha boca, em um incitamento irritante e excitante ao mesmo tempo. Ele me levantou sem dificuldade me levando para o sofá e me sentou em seu colo, onde ignorei o desconforto da calça jeans apertada que não me permitia muito movimento e me entreguei para o momento. Vendo que ele não se daria ao trabalho tão cedo, eu mesma tirei a minha blusa, e pude ver em seus olhos que era algo que ele não estava esperando. Antes que fizesse perguntas, tirei a dele também, em uma tentativa clara de mostrar o que estava querendo.
Eu nunca tinha visto Niall sem camiseta e tive que tirar cinco segundos para apreciar a obra de arte que era o corpo dele. Ele sorriu quando notou o rubor em minhas bochechas, e se aproximou para continuar me beijando, nossos corpos se movendo no ritmo do beijo em uma provocação eletrizante de quem aguentaria mais tempo sem se render.
Eu mesma já estava quase desistindo, quando, para o nosso infortúnio, o celular dele tocou.
— Deixa para lá. – Ele rosnou, tentando puxar minha boca para a dele novamente.
Tentamos ignorar por mais uns segundos depois que o telefone parou, mas voltou a tocar logo em seguida. Niall resmungou, encostando a testa dele na minha.
— Eu fugi de LA sem falar para ninguém. – Balançou a cabeça. – Deve ser importante.
Sorri para ele, beijando sua bochecha e saindo do seu colo.
— Atende. – Falei, já em pé. – Mas não coloca a camiseta ainda.
Ele se afastou dando uma gargalhada e piscou para mim, enquanto eu mesma colocava a minha de volta.
Eu precisava mesmo era de um banho, mas tinha tomado apenas um café desde a hora do almoço e estava morrendo de fome. O cheiro da comida de Khalan instigava meu estômago como se me desafiasse a ignorá-lo. Logo que Niall encerrou a ligação e se reaproximou de mim, não preciso dizer que o clima não era o mesmo de antes e seria bem esquisito continuar de onde paramos. Por isso Niall, desconsiderando meu pedido, vestiu sua camiseta mesmo assim, vindo se juntar a mim ao redor da mesa de centro.
— Estou com fome. Mesmo. – Disse, já abrindo a sacolinha. Corri para a cozinha voltando com dois pratos rapidamente, e quando voltei Niall já tinha separado as caixinhas com os alimentos. – Me diga que tem bolinhos?
— Tem bolinhos. – Apontou para a caixa a minha esquerda, e eu a abri, pegando dois de uma vez.
Percebi que ele tinha feito uma seleção bem melhor dessa vez, com pratos que eu mesma nunca tinha provado.
— Parece que alguém andou comendo comida tailandesa em Los Angeles. – Provoquei, pegando um pouco de cada coisa antes de me sentar no chão da sala.
— É, mas nenhuma é tão boa quanto essa aqui. – Respondeu com a boca cheia de bolinho, o que foi o auge da fofura para mim. Me lembrou muito as fanarts de Niall versão desenho animado.
Meu celular emitiu um som de notificação de dentro da bolsa e, como poderia ser notícias do meu pai, me levantei para buscá-lo. Franzi a cara quando vi que, na verdade, era uma notificação do Instagram.
— O que foi?
— Achei que era meu pai. Mas é só a merda do Instagram.
— O que eles disseram dessa vez? – Quis saber, usando um guardanapo para limpar a boca.
Abri o aplicativo indo para a última notificação onde eu era mencionada. Revirei os olhos antes de ler.
— Aparentemente você foi flagrado. “@niallhoran visto há pouco no aeroporto de São Francisco”. – Li a legenda, acompanhada de cinco cliques de Niall. – “Depois da notícia no começo desse ano sobre Niall e Hailee estarem oficialmente separados, será que um romance com @ finalmente #vemaí?”
Olhei para ele como se também fizesse a pergunta e ele riu.
— Tem gente que não tem o que fazer. Deixa para lá, .
Mas eu não queria deixar para lá. Queria que ele simplesmente respondesse a maldita pergunta. Eu ia mesmo insistir, mas quando percebi que isso provavelmente renderia uma série de DR’s que eu não estava a fim de ter agora que tinha Niall comigo, relevei. Pelo menos por um momento.
— Como foi crescer com isso, Niall? Redes sociais, pessoas, ainda mais na banda que virou uma febre mundial em um nível tão gigantesco que chega a assustar.
De maneira que sempre acontecia quando eu mencionava a banda, Niall encolheu os ombros, sustentando sozinho um segredo que não podia dizer em voz alta. Ele terminou de mastigar o que estava comendo e ficou me olhando por pelo menos um minuto inteiro antes de suspirar.
— Na primeira vez que conversamos, ano passado, eu disse algo que não deveria ter dito. – Comentou, lembrando-se da nossa entrevista. – Você foi simpática comigo e disse que se eu não quisesse, você não publicaria meu relato. E você não publicou. ¹
Corei com a lembrança.
— Era o mínimo que eu poderia fazer para proteger sua vida particular.
— A gente ainda nem se conhecia, , e você foi sincera comigo e cumpriu com a sua palavra. Por isso nada, absolutamente nada, que eu te contar aqui hoje pode ir para em algum lugar, por mais bobo que seja. Você entende isso?
Ele ia mesmo me confiar segredos da banda que ninguém mais sabia a não ser os envolvidos? Os segredos que o mundo inteiro e todas as fãs queriam saber? Confiava em mim tanto assim e em tão pouco tempo?
Considerei isso um passo a mais no nosso relacionamento. Não é todo dia que seu quase namorado famoso te confia segredos mesmo você sendo quem é e trabalhando onde trabalha.
Senti que meus olhos brilharam.
— É claro que não vão sair daqui. Nada mesmo, eu juro. Pode confiar em mim.
Ele sorriu.
— Eu confio em você de olhos fechados. – Pegou mais alguns itens da mesa e colocou no prato, e eu aproveitei para pegar o último bolinho. – O que quer saber?
Eu deveria estar parecendo uma adolescente boba de novo. Tinham tantas coisas que eu gostaria de saber na época e coisas que eu queria saber agora, que simplesmente não sabia nem por onde começar.
— O lance de Harry com a touca. Verdade ou mito?
Niall riu.
— Tanta coisa interessante para perguntar e você quer saber disso?
Dei um tapa em seu braço como um meio empurrão.
— Decidi começar pegando leve. Responda!
— Ok. Mito.
— Você gosta do Nando’s de uma forma surreal?
— Mito!
— Liam tinha mesmo medo de colheres?
— Mito. – Falou, ainda rindo. – E, antes que pergunte, Louis detesta cenouras.
— Não brinca? – Perguntei, fingindo estar chateada. – Minha adolescência foi uma mentira.
— Reclame com as revistas adolescentes.
Fingi não perceber a alfinetada.
— Quem era o mais mulherengo? – Perguntei.
— Eu, óbvio.
Revirei os olhos.
— É claro que você responderia isso.
— Ok, era o Liam. – Cedeu, rindo.
— O mais rude?
— Louis.
— O mais fofo?
— Eu não sei? – Respondeu. – Harry, talvez. Ou Niall. Niall sempre foi o mais fofo.
Não consegui me impedir de revirar os olhos novamente.
— Ok, vou aceitar essa resposta. Você namorou com Amy Green?
— Mito. – Falou. – Eu era muito novo e não foi nada muito digno de nota. Nós éramos muito amigos e muito próximos, ela deixou o namorado e nós ficamos, mas não chegamos a namorar. Depois perdemos contato porque ela me achou babaca. Acho que as pessoas associam o fato de ela ser a primeira como muito importante. Mas não é.
— Coitada da Amy. – Ironizei, roubando um pedaço do espetinho do prato dele. – Você odeia quando as pessoas pegam comida do seu prato?
— Verdade. – Disse, puxando o espetinho de volta.
— Ei!
Ele bufou de brincadeira, me devolvendo o espetinho.
— Eu vou ser legal porque da última vez você me deu seu último. – Lembrou. – Mas não se acostume.
Mordi a carne de porco suculenta, contente por ter ganhado comida dele.
— Liam gosta de mulheres mais velhas?
— Ele prefere. Mas não é como se saísse procurando também.
— Hm, e Harry?
— Mito. Foi tudo uma articulação horrível da mídia e ele teve que conviver com isso. – Niall suspirou mais pesado, como se estivesse pensando no amigo. – Na verdade, acho que convive até hoje.
Larguei o palitinho agora vazio em cima da mesa, colocando no prato um pouco de arroz e mais carne apimentada. Khalan tinha mandado molho de laranja, e fiquei feliz porque ele quase nunca fazia.
— E então, Niall... Larry é real? – Quis saber, enquanto despejava molho por cima da carne.
— Ah, agora a bonita quer pegar pesado?
— Pesadíssimo. – Confirmei.
— Bom, todos nós suspeitávamos que talvez acontecesse alguma coisa ali. Mas se acontecia eles eram muito discretos, eu pelo menos nunca vi nada. Desculpa, acho que não é real.
— Então você não acha que sejam gays?
— Não, acho que não. Talvez Harry seja bi, mas ele nunca confirmou.
— E o que você tem a dizer sobre as pessoas questionando a sua sexualidade? – Falei, limpando o molho de laranja da boca com um guardanapo.
— As pessoas questionam isso?
— Bom, estou perguntando, não estou? – Alfinetei.
Ele me lançou um sorriso malicioso.
— Bom, nós estamos aqui, não estamos? – Devolveu, apontando para o sofá. – Eu aprendi a ignorar faz tempo. Ninguém tem nada com a minha vida. Mas, se você quer ter certeza, , eu sou hétero. – Provocou, acariciando minha perna mais próxima a ele.
Dei um tapa na mão dele para a gente não sair do assunto.
— Eu tinha minhas dúvidas, muito obrigada por esclarecer, Niall.
— Posso esclarecer bem melhor se quiser, de repente a gente pode ir para a ca...
— Muito engraçado. – Interrompi, fingindo não estar achando graça, mesmo que estivesse. – Zayn ficou magro porque se drogava?
O sorriso sumiu do rosto dele, que olhou para baixo, aparentemente tentando decidir como falaria.
— Ele não se drogava. Quer dizer, fumava para caramba e tudo, mas não usava drogas. – Niall olhou para mim, e em seu olhar pude notar que a situação de Zayn abalou a banda inteira. – Zayn entrou em depressão e ficou anoréxico. Não comia direito ou não dormia direito, ou os dois. Estava fraco, cansado e isso o deixava violento. Ele nunca fez nada de grave, mas já quase saiu no soco com um dos produtores uma vez. Era mesmo muito cansativo, mas foi pior para Zayn. Talvez o único de nós que realmente teve que sustentar um personagem que não tinha nada a ver com ele.
— Bancando o badboy?
Niall sorriu, terno, se arrumando no tapete.
— É, ele não era nada assim. Era mais na dele, e geralmente tímido. Mas quando estávamos só nós cinco ele era engraçado, otimista e um excelente ouvinte. Quando relatava como tinha sido seu encontro com uma garota Liam ficava zoando por ele ser romântico e sonhador até demais. – Niall riu, talvez se lembrando de algo. – Com certeza ele era o mais romântico de nós. Zayn talvez não tenha agido da melhor forma ao guardar os problemas para ele mesmo, mas nós sabemos o quanto ele sofreu. E se não foi fácil para a gente ver ele definhando, nem imagino como estava sendo para ele mesmo.
— Por isso ele quis sair. – Conclui.
Porém Niall balançou a cabeça.
— Zayn não saiu porque quis.
— Como assim?
— Ele foi convidado a se retirar.
— O que? – Gritei, em choque com a notícia.
— Acho que essa é a parte que ninguém sabe. De acordo com o Simon as atitudes dele estavam dando uma imagem ruim para a banda e ele foi convidado a se retirar depois da On The Road Again.
— Mas ele saiu antes.
— É, tente adivinhar o porquê. Eu também ficaria bravo se me tirassem de um projeto de anos depois de terem literalmente desgraçado minha cabeça. – Conjecturou. – Acho que abandonar a turnê e deixar todo mundo doido refazendo todos os arranjos vocais as pressas foi um presente de despedida de Zayn para Simon. – Completou, com um sorriso debochado.
Fiquei triste por ter julgado Zayn Malik tão mal e considerei ouvir as músicas dele para tentar compensar o fato de ser uma péssima fã. Passei anos com raiva dele por ter abandonado a banda porque, na minha cabeça de fã, o fato de Zayn ter saído contribuiu para a separação de todos.
— E então, Niall, a pergunta de um milhão de reais. – Continuei. – Vocês tinham mesmo a intenção de voltar depois da pausa?
Niall abandonou os talheres no prato, e eu notei que não tinha sobrado quase nada da comida. O cantor pareceu desconfortável, como se não soubesse como me dar uma notícia ruim.
— Não, . Depois que Zayn saiu não fazia mais sentido continuar. Então... nunca tivemos a intenção de voltar. – Confessou. – Não significa que não possa acontecer um dia, mas realmente não está nos planos.
Por mais tempo que tivesse passado e mais madura que eu fosse, foi muito difícil segurar as lágrimas quando ouvi a verdade sobre a pausa da banda.
— Minha directioner interior grita com essa confissão. E chora também. – Falei, olhando para ele.
— Estou feliz por todos, por mim, por termos conquistado o que conquistamos, e One Direction vai fazer parte da minha vida pelo tempo que eu viver. Ao contrário do que as pessoas pensam, eu tenho muito, muito orgulho disso. – Respondeu, como se o que ele disse pudesse me consolar de alguma forma.
E, na verdade, consolou mesmo. Era sim um consolo saber que ele pelo menos gostava de ter feito parte daquilo.
— A banda sempre significou muito para mim, Niall. Fazer parte dela, de alguma forma, foi o que me sustentou por toda a adolescência. A cada música nova, a cada clipe no ar e a cada álbum lançado, eu estava lá. Obrigada por ter aceitado ficar, mesmo depois do Zayn sair. Obrigada por cada vídeo aleatório que fizeram e por cada vez que me fizeram rir tanto. Até mesmo pelas vezes que me fizeram chorar. E fico feliz que a vida, Deus, o destino... fico feliz a quem quer que tenha te colocado no meu caminho para que eu possa te dizer isso.
Meu cantor preferido se arrastou pelo tapete para me dar um desajeitado abraço rápido, visivelmente emocionado com a minha declaração.
— Eu quem agradeço, , por ainda existir fãs como você.
Sentia que pela primeira vez desde Londres estávamos nos reaproximando de verdade.
— Acho que terão mais perguntas no futuro. – Avisei, me levantando.
Niall seguiu meu exemplo.
— E eu estarei aqui para responder a todas.
Me inclinei sobre a mesa para jogar na sacola todo o lixo e Niall aproveitou para comer a carne que tinha sobrado. Não achei uma boa ideia guardar o arroz que também sobrara, por isso joguei fora junto com o resto. Enquanto eu saía do apartamento para colocar o lixo no depósito, Niall lavou os dois pratos que tínhamos usado, e ficou me esperando na sala, com uma expressão confusa.
— Sabe, me abri para você essa noite. – Começou.
— Sim?
— Seria justo se fosse minha vez, agora.
Ponderei por alguns segundos, mas ele estava certo, era justo. Além disso eu não tinha nenhum segredo que não pudesse ser divulgado.
— Claro, por que não. O que quer saber?
— Quem era aquele homem que te trouxe para casa? – Perguntou, rápido demais, corando em seguida.
Niall estava com ciúmes. Controlou bem durante um bom tempo, mas pelo visto não conseguiu se segurar.
— Está com ciúmes, popstar?
Ele cruzou os braços, aparentemente incomodado.
— É óbvio.
Dei risada.
— Ninguém importante. – Admiti. – Era só meu chefe me dando uma carona. Trabalhei até tarde hoje. Ah, inclusive tenho uma novidade!
Ele semicerrou os olhos.
— Vou querer saber mais sobre seu chefe te dando caronas depois. – Bufou, o que só o deixou mais fofo. – Qual novidade?
— Aquela coluna que Jesse não aceitou. Foi vendida por cinco mil dólares para uma revista em Nova York. Por isso vou precisar ir até lá.
Niall abriu um sorrisão, me rodando pela sala.
— Isso é maravilhoso! Você merece, . – Acrescentou, quando parou de me rodopiar. – Falando em seu trabalho, também tenho uma novidade.
— Ah, não.
— Consegui a entrevista com os Jonas.
— Niall! Eu não acredito! – Gritei, pulando em cima dele. – Você. É. O. Melhor. De. Todos. – Completei, dando um beijo a cada palavra proferida.
Ele se permitiu ser bajulado, que notei ser algo de que ele gostava, e ficamos no sofá conversando por mais alguns minutos. O relógio se aproximava das duas da manhã quando conclui que já estava cansada.
— É bom ir dormir, vamos viajar amanhã à tarde. – Avisou.
— E para onde vamos?
— Surpresa. – Revelou, o sorriso lindo faiscando.
Eu odiava e amava surpresas. Fui tomar um banho e, quando voltei, Niall já tinha arrumado seu lugar no sofá-cama. A bem da verdade eu ia chamar ele para dormir comigo, mas já que ele tinha tomado essa iniciativa, deixei para lá. Joguei uma toalha limpa para ele e me aproximei para dar um beijo.
— Até amanhã, popstar. – Desejei, sorrindo.
Ele me puxou para um abraço.
— Durma bem, .
E eu dormiria bem. Ah, essa noite eu iria dormir muito bem.
✈️✈️✈️

Estávamos no carro há quase três horas de suspense e Niall não queria me dizer para onde estávamos indo. Eu não era completamente burra, então sabia que era para alguma praia, visto que ele me pediu para vestir roupas leves, pegar toalha, coberta velha, cobertas limpas e roupas limpas. Mesmo com o começo da primavera se aproximando o clima ainda não estava muito bom para um mergulho no mar, mas o dia estava ensolarado e eu tinha até conseguido me livrar da minha blusa de frio no caminho.
A viagem foi tranquila e necessária. Niall me perguntou mais coisas sobre Chase do que eu estava disposta a falar, porém acabei confessando sobre o beijo na festa da fraternidade. Ele ficou um pouco incomodado, mas bem que mereceu por ter feito o que fez quando beijou Hailee a pouquíssimo tempo atrás.
A estrada estava linda e depois de uma hora e meia de viagem paramos para comer alguma coisa na beira da estrada. O lugar era tão deserto que Niall nem precisou colocar o boné e o óculos de sol: éramos quase os únicos ali com exceção dos funcionários.
Se aproximava do fim do dia e não estava entendendo que lugar era esse onde a pontualidade em assistir ao pôr-do-sol era tão importante, mas Niall insistiu. Quando finalmente estacionou o carro no meio do nada, minha curiosidade quase entrou em ebulição.
— Não está pensando em me matar e enterrar meu corpo na floresta, está? – Perguntei, de brincadeira.
— Talvez.
Rimos, descendo do carro. Eu não via nada além de mato e me questionei se tinha me enganado sobre a praia. Pegamos as coisas no porta-malas, incluindo um violão que ele tinha trazido de Los Angeles e Niall usou seu celular para seguir uma série de coordenadas complexas. A trilha estava bem limpa e não tinha chovido por ali recentemente, então foi bem tranquilo andar de mãos dadas com ele por ali. Andamos por poucos minutos e quando finalmente saímos do mato e encontramos uma clareira que revelava a pequena praia, eu ofeguei.
O lugar era lindo. O mar tinha a cor dos olhos de Niall e a espuma parecia ser de mentira. Falésias enfileiravam o mar no formato de um arco, e a praia em si era tão surreal que deu a impressão de que eu iria direto para Nárnia se passasse por debaixo daquele arco. Os raios de sol querendo anunciar o fim do dia transpassava por ele, e me senti em um paraíso particular feito só para mim.
A praia era pequena em extensão de areia, e era muito acolhedora também, então não tinha muito para onde ir. Fui até um tronco caído, esperando Niall me deixar sentir o deslumbramento do lugar, quando percebi a cor da areia.
— É roxa! – Exclamei, rindo em seguida. – A areia é roxa!
— Bem-vinda a Pfeiffer Beach! – Anunciou, como se ele tivesse descoberto aquelas terras e a estava nomeando.
— Como descobriu esse lugar? – Questionei, ajudando Niall a arrumar nosso piquenique.
— Contatos. – Respondeu. – Consegui alugar para a gente hoje. Não vai vir mais ninguém aqui.
Niall tinha alugado uma praia inteira para nós. Eu não podia fingir costume com isso. Aliás, eu não podia fingir costume com nada que vinha dele.
Esticamos uma coberta velha na areia em frente ao tronco, colocando a caixa com as minhas coisas e o violão dele por cima. Em seguida Niall me pediu para ajudá-lo a procurar galhos secos para uma fogueira, e nos embrenhamos no meio da mata novamente para a missão. Deu um pouco de trabalho porque aparentemente não era qualquer galho que servia, mas conseguimos depois de uns minutos. Uma vez montada a fogueira, nos sentamos juntos diante dela. Estava me sentindo em um filme de romance e não queria sair dali nunca mais.
Niall tinha um plano. Ele não costumava ser cauteloso, mas também não era impulsivo a ponto de me levar para o meio do nada à toa. Como o sol estava indo embora, a possibilidade de entrar no mar se ia também, e o frio se aproximava. Niall pegou uma das cobertas para mim, enrolando-a no meu ombro, antes de se sentar na ponta do tronco caído.
— O que viemos fazer aqui, Niall? – Perguntei. – É lindo, mágico. Mas o que viemos fazer?
Ele pareceu nervoso, e se levantou para pegar o violão. Sentou-se com ele no colo, coçando a cabeça, claramente envergonhado.
— Bem, não está terminada, pensei em tocar ela para você só em Los Angeles. Mas essa música escrevi de coração. Ela é nova... e é nossa.
E ele começou os acordes de uma música lenta e serena, porém mais lindo que a melodia foram as palavras que saíram da sua boca.

My mind is complicated
Find it hard to rearrange it
But I'll have to find a way somehow
Overreacting lately
Find it hard to say I'm sorry
But I'll make it up to you somehow


Niall cantava de um jeito rústico, afinal éramos só nós e um violão em uma praia vazia. Eu já tinha ouvido ele cantar no ano passado ao vivo. Já tinha presenciado toda a emoção percorrendo uma música, já tinha ouvido cada nota voraz que escapava de seus lábios, mas isso era completamente diferente... Essa música me levou lágrimas aos olhos. Nenhuma emoção que eu senti naquele dia do show chegava perto de dizer o quanto era lindo ouvir ele cantar assim.

Did I miscalculate this?
Let's just go back to basics
Forget about what's coming on
'Cause I hate to see us like this
Breaking up on nights just like this
We should be shooting for them stars of gold

So tell me you want it
A thousand miles away from the day that we started
But I'm standing here with you
Just trying to be honest
If honesty means telling you the truth
Then I guess we lost our focus
And it's killing me that we could go to war like this
But I'm standing here with you
Just trying to be honest
If honesty means telling you the truth
Well, I'm still in love with you ²


Sim, eu também achava que tínhamos perdido o foco. Ali, no meio do caminho, alguma coisa nos tirou um do outro e não estávamos achando o caminho de volta. Não conseguíamos achar o caminho de volta, mas nós tentamos. Nós tentamos e persistimos, simplesmente porque era para ser. Não conseguia imaginar em que momento da minha vida notei que o que sentia pelo Niall era algo muito mais forte do que pensei, mas estávamos ali agora, naquele lugar lindo, onde ele estava tentando me mandar um recado.
E ali estava ele, cantando uma música para mim, dizendo que ainda estava apaixonado por mim, com uma emoção tão dolorida na voz que fez meus olhos marejados finalmente expelirem uma lágrima.
Quando ele tocou a última nota, seus olhos também estavam úmidos, apesar de ele ter os enxugado antes que chorasse.
— Essa música, ela é... Niall, ela é linda. – Murmurei, me arrastando para mais perto dele.
Niall colocou o violão no chão e deixou que eu me aninhasse a ele, seu abraço mais quente do que o fogo que nos cercava.
— Eu não devia ter falado aquelas coisas. Eu queria tentar fazer dar certo com você e não devia ter usado minha vida para te afastar.
— Niall, não...
— Espera. – Pediu. – Eu não deveria ter usado minha vida para te afastar, porque... porque ela te afastou mesmo. Ficamos completamente longes um do outro por semanas e eu odiei cada segundo. Cada vez que pensava que tinha encontrado um anjo que estava perdendo era uma tortura para mim.
Levantei a cabeça, inclinando-a para o lado.
— Você não chegou nem perto de me perder, Niall.
Ele sorriu de maneira sofrida.
— Cheguei sim. Quando aconteceu aquilo com Hailee eu fiquei... Eu fiquei tão...
Niall suspirou, sem saber como se sentia. E fiquei com pena dele por isso.
— Foi muito doloroso para mim, mas já passou. Eu perdoo você.
Levantei meu pescoço para convidá-lo, e ele aceitou, passando os dedos gentilmente pela minha face antes de me beijar. Me beijou e me abraçou ao mesmo tempo, como se tivesse medo de que eu saísse correndo dali.
— Se você ainda estiver apaixonada por mim, ...
— Eu estou. Eu estou muito – Confessei, baixinho. – E nunca deixei de estar.
— Então saiba que nada nem ninguém vai ficar entre nós. Nem Hailee, nem seu Instagram idiota, nem seu chefe e nem ninguém. Se você me aceitar agora... seremos só você e eu. Como deveria ter sido há muito tempo. – Proclamou, me olhando tão ardente e intimamente que me senti nua. – Não posso me dar o luxo de perder mais um segundo agora que encontrei a única mulher no mundo que eu amo. Porque eu te amo, . Eu amo você.
Foram aquelas três palavras que assoprou para longe toda a insegurança que eu acumulava há meses. Foram aquelas palavras que me fizeram lembrar de que o amor é o que a gente faz e que eu tinha sorte por ter um amor assim. E foram as três palavras mais lindas que alguém já me disse.
— Eu te amo, Niall Horan. – Me estiquei para selar meu sentimento em seu lábio macio e gelado. – Eu amo você.
Voltamos a nos beijar, mas dessa vez foi diferente. O céu estava mais escuro e as chamas da fogueira mais convidativas. O clima era frio, mas acho que nenhum dos dois se importou. Niall me tomou no colo para me apoiar em cima da coberta que estava no chão, me beijando com tanta avidez quanto eu correspondia seus beijos.
Carícias desinibidas e íntimas foram trocadas antes de ele, com uma delicadeza que eu não esperava, tirar a roupa que eu vestia. A necessidade de estarmos juntos era maior do que qualquer pudor. Os beijos eram distribuídos pelo meu corpo nu, enquanto analisava Niall, na sombra do pôr-do-sol, despir-se na minha frente, antes de voltar para beijar cada pedaço de mim que ele podia. Inverti nossas posições ficando por cima dele, suas mãos abandonando qualquer traço de delicadeza ao segurar meus cabelos, enquanto me inclinava para frente a fim de sentir sua boca na minha mais uma vez.
Era algo que não esperava para o fim daquele dia, e o fato de termos nos declarado acendeu em mim um amor muito maior do que eu achava que sentia. Pareceu impossível viver um relacionamento a distância agora que eu sabia que ele me amava, com todas as letras.
Deitada com Niall em cima da areia, totalmente nua, com as sombras da fogueira dançando com o vento, eu nunca tinha me sentido tão confortável, tão amada e nem tão segura.

¹ Trecho relatado em 05.Arms Of Stranger, spin-off da fanfic
² Tradução da música aqui

Capítulo 19

Desci do avião com um sorriso enorme no rosto. A mensagem que eu tinha recebido antes de embarcar me fez passar todas as cinco horas de viagem saltitando de ansiedade no banco ao lado de um senhor particularmente tagarela. Acabei contando tudo para ele, o que foi bom, já que ele não conhecia Niall e muito menos eu, e devo confessar que recebi sábios conselhos. Mas depois de uma hora o remédio para dormir dele fez efeito, então eu continuei saltitando de ansiedade pelas quatro horas seguintes.
Alcancei o portão de desembarque procurando apenas uma pessoa. Pela primeira vez eu não me importava com notícias, fofocas nem nada que antes tiraria meu bom humor, e tudo isso porque se faziam mais de um mês que eu não via Niall.
E sim, hoje eu estava disposta a relevar absolutamente qualquer coisa por ele.
A primeira coisa que eu fiz foi rir da placa “ Horan ” ao lado de um buquê de flores exageradamente grande, porque isso não tinha nada a ver com o tipo de coisa que Niall faria. E a segunda foi sair correndo ignorando toda minha dignidade – mais uma vez – e indo direto para os braços dele.
— Eu não acredito que chegou antes de mim. – Murmurei, abraçando mais forte. Ele tinha o melhor cheiro do mundo, colônia masculina misturada com sabonete caseiro, e os cabelos molhados da sua nuca denunciavam um banho recente.
— Eu queria fazer uma surpresa. – Se afastou, me estendendo o buquê.
— Ah, eu estou surpresa.
Niall sorriu, vencendo o espaço que nos separava para me beijar.
— Você está amassando as flores. – Brinquei.
— Que se dane as flores. – Devolveu. – Fiquei um mês sem ver você.
— É verdade.
— Posso comprar flores novas depois. – Sussurrou, voltando a me beijar de novo.
Dessa vez não interrompi, porque realmente senti falta dele de uma maneira inexplicável. Não sei quanto tempo ficamos ali, nos abraçando na frente de todo mundo, mas depois de um tempo considerável me afastei, sorrindo para ele.
— É melhor a gente ir.
Ele concordou, corando.
— Vamos procurar sua mala.
Com a mala encontrada, nos dirigimos para o carro dele, que não reconheci, porque mais uma vez era diferente dos carros que ele costumava alugar. Era mais simples, ainda que moderno, parecia mais casual do que o normal. Eu não entendia muito de carros, então deixei para lá.
Meu retorno de Nova York estava rendendo bastante expectativas, principalmente porque foi a primeira vez que interagi de verdade com o meu Instagram, e até abri uma caixinha de perguntas. A maioria das perguntas era sobre Niall, obviamente, mas não respondi essas e isso não passou despercebido pelo público. No geral eu percebi que estava gostando de ter pessoas interessadas em mim de verdade, e pedi a Brooke, que estava cuidando de mim em Nova York, para tirar várias fotos dos nossos passeios pela cidade para publicá-las no meu feed, que outrora estava bem desatualizado. No meu tempo livre, transcrevi tudo que Niall havia me contado sobre a banda em meu bloco de anotações, simplesmente porque estava entediada o suficiente para trabalhar em uma matéria que eu jamais publicaria. O segredo dele estaria guardado comigo, para sempre.
Quando chegamos em frente ao meu prédio, Niall pegou minha mala enquanto eu me diria para o portão do prédio com um buquê com flores parcialmente amassadas.
— Tem garagem nesse prédio? – Perguntou.
— É velho, mas nem tanto. – Retruquei. – Mas você pode deixar aí na frente, como sempre.
Niall ergueu as sobrancelhas.
— E como vai proteger ele da chuva?
Interrompi o portão semiaberto para encará-lo.
— E porque se importa? Você sempre deixa ele aí na rua.
Meu cantor favorito abaixou minha mala para me dar um sorriso sem graça.
— Caso ainda não tenha entendido, eu estou te dando um carro.
Olhei para Niall e para o carro atrás dele, e para Niall de novo, sem conseguir esconder o choque em meu rosto.
— Você está me dando... o que?
O sorriso no rosto dele murchou um pouco.
— Esse carro.
Abri a boca e fechei três vezes antes de dar as costas e seguir pelo corredor em direção ao elevador. Escutei Niall lutando com minha mala e o portão, por fim conseguindo trancá-lo, até se juntar a mim no saguão.
— Você não vai aceitar, né?
Olhei para ele.
— Não, eu não vou aceitar.
— Hm, você pode considerar um empréstimo? – Sugeriu.
— Um empréstimo?
— Sim, o carro é meu e estou te emprestando. E você paga sua própria gasolina. E se quiser eu posso até cobrar umas parcelas pelo aluguel.
Ponderei a proposta. Eu não me sentiria mais tirando vantagem dele se tivesse que pagar, mas, por outro lado, os custos com gasolina e parcelas provavelmente me renderiam os mesmos gastos que pedir um Uber, no fim das contas.
Entramos no elevador que havia chegado no térreo, um de frente para o outro.
— Eu estou ouvindo o que está pensando, e a resposta é não.
— Está ouvindo?
— Sua cabeça está praticamente gritando: Uber!
Revirei os olhos, saindo do elevador e finalmente destrancando a porta para entrar em casa.
— No caso, acho que Uber vale mais a pena. Pode ficar com seu carro.
Niall colocou minha mala em um canto vindo até mim.
— Desculpa fazer isso sem te consultar. Achei que ficaria feliz com a surpresa.
Suspirei, passando a mão no cabelo dele.
— Não precisa se desculpar. Eu fiquei feliz, mesmo.
— Mas?
Sentei no encosto do sofá.
— Mas esse tipo de situação ainda é muito estranha para mim, Niall. Eu não posso aceitar qualquer coisa que não seja um presente normal. A gente se conhece a, sei lá, sete, oito meses?
Ele riu, sentando-se ao meu lado.
— Entendo.
— Só tenho medo de me acostumar com isso e... e acabar.
— Não tem porque acabar. Vamos ficar juntos enquanto formos felizes um com o outro. Não basta?
Bastava? Namorar seu ídolo de adolescência já era surto o suficiente, eu não podia esperar que a qualquer momento Niall Horan fosse me pedir em casamento, que futuramente compraríamos uma casa adorável no subúrbio de Londres quando as crianças viessem e ficássemos juntos para sempre. Eu não podia me permitir refletir sobre o quão real e sólido era nosso relacionamento, e se esse para sempre tinha mesmo possibilidade de existir. Éramos um casal recente, estávamos nos conhecendo e eu não fazia ideia do rumo que nossa relação estava tomando. Quando me lembrava que Niall morava em Londres, tudo piorava.
E isso levava a questão mais preocupante, de fato. Por quanto tempo iríamos durar? O que ia acontecer depois que ele terminasse de gravar o novo álbum? E porque nunca havíamos conversado sobre isso?
Percebi que Niall tinha razão. Ficaríamos juntos pelo tempo que fôssemos felizes assim.
Concluí que bastava.
— Basta sim, Niall. – Concordei. – E vou fingir que você não está me dando um carro só para eu não pegar mais caronas com Chase.
Disse a última parte só para provoca-lo, mas foi engraçado ver ele corando mesmo assim.
— Você sabe que eu jamais faria isso.
— Sei?
Ele balançou a cabeça, rindo, enquanto eu pedi um tempo para fazer toda minha higienização pós viagem, com direito a um banho revigorante e roupas quentes e confortáveis. Apesar da primavera se aproximando, o tempo ainda estava gelado, por isso escolhi uma calça de moletom e uma blusinha de manga longa. Já estava quase indo para a sala, quando retornei para o quarto para colocar uma meia também. Totalmente confortável.
— Sei que temos sido fiéis a Khalan nos últimos tempos, mas tomei a liberdade de pedir uma pizza, para variar. – Informou Niall do sofá, quando apareci na sala.
— Pizza. Legal. Bem americano. – Aprovei, me juntando a ele, que zapeava pelo serviço de streaming. – O que vamos assistir?
— Algo com muito sangue.
Fiz uma careta.
— Sério? Vai mesmo bancar de machão para cima de mim?
— Bancar de machão?
— É, até parece que você nunca assistiu um filme do Nicholas Sparks.
— Eu já assisti. – Retrucou. – Aos trailers.
Sorri, apoiando a cabeça em seu ombro.
— Ok, algo com muito sangue então.
Depois de um debate muito desnecessário sobre o Dwayne Johnson estar ou não muito gostoso em Skyscraper, Niall acabou decidindo que iríamos ver Deadpool 2, e eu não ousei fazer nenhum comentário sobre Ryan Reynalds ou o Senhor Ciumento acabaria desistindo de assistir esse também. Vinte minutos mais tarde, desci para pegar nossa pizza que havia chegado, me juntando a Niall no tapete para a sessão pipoca sem pipoca.
Quando o filme acabou, começamos a arrumar a bagunça que tínhamos feito com pizza, cobertas e farelos de um biscoito que encontrei no armário. Fiz um monólogo recheado de detalhes sobre meus dias em Nova York, aproveitando para comentar com Niall que Cristine amou conhecer os Jonas e curtiu muito fazer a entrevista com eles. Pensar no especial de dez anos me lembrou que haveria uma festa de comemoração.
— Niall. – Chamei, quando ele saiu do banheiro.
— Sim?
— Quero que venha comigo na festa de aniversário da PlayList. – Convidei. – Se quiser, é claro. E puder. Se a agenda estiver livre e...
. – Interrompeu, sorrindo. – É claro que eu vou.
— Mesmo?
— Preciso ver com meus próprios olhos se toda a encheção de saco valeu a pena. Estou tão feliz que finalmente acabou!
Dei um soco no braço dele.
— É o trabalho da minha vida. Mostre algum respeito!
Niall me puxou para um abraço, rindo.
— Estou muito, muito orgulhoso de você, . O mundo inteiro vai saber quem você é, escreve o que eu estou falando.
Sorri contra o peito dele.
— Você sabe mesmo levantar a autoestima de uma mulher.
Ele deu de ombros.
— Um dos meus muitos talentos.
Niall se aproximou do armário do corredor para pegar o travesseiro e a coberta de sempre, mas eu o impedi.
— Pode abandonar o sofá desconfortável para sempre, Niall Horan. E abandone os quartos de hotel também. – Garanti, estendendo as mãos para o meu quarto de um jeito teatral. – Você é sempre bem-vindo para dormir aqui.
Ele colocou a mão no queixo, pensativo.
— E você, vai dormir aonde?
— Engraçadinho.
Não queria pensar que amanhã ele iria embora de novo. Não queria pensar em como a despedida será triste e que eu não tinha decidido se ficaria com aquele carro ou não. Só deitei nos braços do meu popstar favorito, desejando que essa noite em especial tivesse mais de mil horas.
✈️✈️✈️
Acordei com a campainha e Niall não estava do meu lado. Levantei da cama meio resmungando sobre quem estaria querendo me ver as nove da manhã em pleno sábado e finalmente consegui abrir meus olhos, apesar da claridade. A porta fechada do banheiro denunciava que Niall estava no banho, por isso passei reto, indo diretamente até a janela ver quem era o abusado.
Meu sorriso brotou na face quando reconheci o cabelo falho e grisalho do meu pai.
Apertei o botão que permitiria sua subida e fiquei de plantão na porta do apartamento esperando que ele chegasse.
— Pai! – Exclamei, quando ele apareceu.
Ele deu um sorriso cheio de pés de galinha.
— Oi, filhota.
— Como você está magro, pai, está comendo direito? – Questionei depois de abraça-lo, me lembrando do que ele tinha me dito no ano novo. Acho que ele se lembrou também, porque sorriu.
— É claro que sim.
— Sinto dizer, mas acho que acabei com todo seu sham... – Niall se interrompeu quando deu de cara com meu pai no meio da sala. E acho que vale a pena mencionar, ele não vestia nada a não ser uma frágil toalha ao redor da cintura. – Hãa, oi.
Meu pai achou graça. E para alguém que sentia tanto orgulho do seu abdômen, Niall estava bastante tímido.
— Presumo que seja o Niall. Muito prazer. – Disse meu pai, colocando as mãos no bolso e zero incomodado em conhecer meu namorado praticamente nu.
— Eu acho que vou... me vestir. Com licença.
— Eu gostei dele. – Aprovou meu pai, com uma piscadinha. Porque ele não podia ser um pai normal, meu Deus?
— Não que eu não esteja feliz, mas o que faz aqui? – Desconversei.
— Consulta com um cardiologista.
— Pai?
Ele ergueu as mãos.
— Está tudo bem, . – Garantiu. – É só acompanhamento depois do que aconteceu.
O encarei por cinco segundos antes de assentir.
— Tudo bem. Que bom que está se cuidando. E cadê a mamãe?
— Eu vim sozinho, ela ficou cuidando do jardim.
Dei risada.
— Conseguiram salvar alguma coisa naquele jardim?
— Ei, eu tentei, está bem? – Meu pai circulou pelo ambiente, parando ao lado do sofá, onde um cavalete desmontado abrigava a última pintura que eu tinha tentado fazer. – Ora, o que temos aqui?
Corei, encarando o quadro que tinha feito de Niall sem perceber, na época. Parecia que tinha sido há anos.
— O último. Perdi a prática.
Niall apareceu na sala no momento exato que meu pai ergueu o quadro.
— Desculpe, Sr. . Niall Horan, muito prazer. – Disse, erguendo a mão para o meu pai.
Mas o homem se deteve em encarar o quadro e Niall repetidas vezes. E riu.
— Agora eu entendi tudo. Por isso não queria me mostrar, hein?
Niall, desistindo do aperto de mão, veio até onde o meu pai estava, encarando o quadro.
— Foi você que pintou?
Assenti.
— Foi.
— E sou eu?
Corei ainda mais.
— É.
Meu pai olhou para Niall, estendendo o quadro para ele.
— Acho que deveria ficar com isso.
— Excelente ideia. – Concordou Niall, encantado, admirando a pintura. – Ninguém nunca tinha me pintado assim antes. Tem tanta paixão, vida e... amor. – Terminou, sussurrando.
Consegui dar um sorriso mínimo.
— Que bom que gostou.
Ficamos os três em um silêncio desconfortável por quase um minuto.
— Querem ir tomar café da manhã?
— Bom plano. – Disse meu pai, já se dirigindo para a porta.
Aproximei-me mais de Niall.
— Desculpe por isso, mas tenho que ir trocar de roupa. – Disse baixinho e escapei para o quarto.
Coloquei a primeira roupa que vi na frente, para não deixar o pobre Niall ainda mais desconfortável. Fomos para o Sweet Maple devagar, comigo sustentando a maior parte da conversa, para o alívio de ambos, e para nossa sorte o local ainda não estava muito cheio.
Niall e eu nos sentamos de frente para o meu pai, enquanto Malai vinha com o cardápio.
— Xruṇ s̄wạs̄di̒, Niall! – Disse ela a um Niall radiante ao meu lado por ter sido reconhecido. – Olá, . Quanto tempo, querida.
Sorri para ela, pegando o cardápio que tinha me oferecido apesar de já saber o que eu iria pedir.
Malai olhou para o meu pai por três segundos antes de apontar para um quadro atrás dela.
— Richard ! Que prazer tê-lo em nosso restaurante. Seja muito bem-vindo.
Meu pai agradeceu o carinho com um leve aceno de cabeça.
— Eu quem agradeço por ter a honra de decorar seu restaurante.
Meu pai, sempre tão humilde. Ao meu lado, Niall parecia confuso, olhando do meu pai para o quadro de Malai.
— Espera aí. – Pediu, olhando alguma coisa no celular, em seguida virando-se para mim. – Porque não me disse que seu pai era o Richard ?
Dei risada.
— Eu disse.
— Não, não disse. – Niall frisou, olhando para o meu pai de novo. – Eu tenho um quadro seu. Na minha casa. Eu tenho um quadro do pai da minha namorada na minha casa e nem sabia disso.
Richard deu risada, como se Niall tivesse acabado de contar a piada mais engraçada do mundo.
— Sou um sonhador, Horan. – Meu pai disse. – Tive muitos nãos até abrir minha galeria em San Diego.
— Só para depois fechar tudo e se mudar para o fim do mundo. – Completei.
— Não fala assim de El Monte. É uma cidade incrível.
— Pode ser. – Tentei ser educada. – Não tive a oportunidade de passear muito.
O resto do café da manhã se passou tranquilamente, Malai vindo até nossa mesa com intervalos de tempos curtos e bem desnecessários para verificar se precisávamos de alguma coisa. Correção: se meu pai precisava de alguma coisa.
Porque essa é a minha vida, aparentemente. Fui criada por um artista famoso por dezoito anos, só para seis anos depois me apaixonar por um popstar.
Carma? Sorte? Não saberia dizer.
No fim de tudo Malai não nos deixou pagar a conta e eu achei engraçado a fama local do meu pai, faziam muitos anos que não via isso acontecendo.
Meia hora depois, Niall e eu o acompanhamos até seu carro, onde ele se despediu e agradeceu ao café da manhã, finalmente voltando para El Monte.
— Mais uma da série: despedidas que eu não queria ter que lidar hoje. – Resmunguei.
— Não fica assim.
— Fácil falar. As pessoas que eu amo tem a tendência em morar em outras cidades. – Niall em LA, meus pais no fim do mundo, Harriet em San Diego.
Niall me abraçou no caminho para casa.
— Pelo menos você tem um namorado gatíssimo que pausa a agenda só para te ver.
— Um namorado exibidíssimo, talvez.
Uma vibração chata no meu bolso me fez erguer o celular.
— Tem certeza que quer ver isso agora? – Questionou.
Tinham várias notificações do Instagram, mas, para meu alívio, a fonte de vibrações eram as mensagens de Rachel.

Rachel

Podemos nos encontrar? 11:37
Eu vou ter esse bebê. 11:37
Preciso de toda ajuda que puder 11:37
É menina 😍❤️ 11:38

Sorri para o meu celular, encantada que no fim tudo se resolveu para ela.
— Rachel vai ter uma menina. – Anunciei, respondendo a ela que iria até sua casa assim que Niall fosse embora.
Quando aceitei entrevistar Niall Horan naquele dia eu não fazia ideia da sucessão de acontecimentos malucos que iria enfrentar dali para frente. Ser exposta na internet, ganhar popularidade na coluna a ponto de precisar de uma equipe, ganhar dinheiro extra por escrever colunas em uma revista em Nova York, ser fonte de críticas, ver minha melhor amiga amadurecer e se tornar mãe, fazer novos amigos, me conhecer melhor.
Não gostava de pensar que conhecer Niall era o responsável por toda a mudança na minha carreira e nas minhas relações pessoais. Não.
Eu gostava de pensar que era por causa dele que tudo isso acontecia. Querendo ou não, conhecer a Niall foi como conhecer a mim mesma.
E eu amava ele por isso.


Capítulo 20

— Você acha que esse vestido disfarça minha barriga? – Perguntou Rachel, levantando um vestido de paetês violeta azulado.
Abandonando a tarefa de procurar o salto dourado que tinha usado no natal, encarei a barriga plana e chapada da minha amiga.
— Qual barriga?
Rachel revirou os olhos.
— Ninguém sabe que estou grávida ainda, preciso achar um pai para minha filha.
Eu dei risada, voltando a procurar o meu sapato.
— E o que vai dizer a ele quando o bebê nascer quatro meses antes?
— Eu me viro. – Falou, andando até mim. – Disfarça ou não?
— Rachel, desencana. Você ainda não tem nenhuma barriga.
Ignorando completamente minha opinião, ela foi até o espelho examinar sua silhueta, virando-se de um lado para o outro no espelho.
— Definitivamente não. – Concluiu, tirando o vestido e colocando o roupão, ao mesmo tempo que eu ia para a sala atrás da minha sapateira.
Rachel e eu estávamos no meu apartamento nos arrumando para a festa da PlayList, que aconteceria em pouco tempo. Eu não me arrumava com uma amiga provavelmente desde o ensino médio e, apesar de gostar de fazer isso sozinha, a presença de Rachel havia deixado tudo melhor.
O vestido que eu escolhi – ou seja, que Rachel escolheu para mim – era verde esmeralda completamente colado no corpo, moldando-se a curvas que eu nem sabia que tinha, e se abria em uma fenda até metade da minha coxa esquerda, com glitter em cada metro quadrado da peça. As alças eram finas e delicadas, contornando o vestido com um glorioso decote que deixava boa parte das minhas costas à mostra. Consegui combinar com vários acessórios dourados que me davam um ar de nobreza, e por isso era importante encontrar meu salto dourado. Rachel havia feito em mim uma maquiagem verde que achei que ficaria exagerada, mas ficou linda; a sombra escura ressaltou a cor dos meus olhos sem parecer artificial e, apesar de não ter o costume de usar cílios postiços, devo admitir que aquela maquiagem com certeza pedia. Eu fiz suaves ondas em meu cabelo e prendi só no topo. Acreditei que me sentiria mais à vontade com o cabelo solto para não parecer tão vulgar com toda aquela pele a mostra e estava certa.
Enquanto eu já estava quase pronta apenas procurando meu calçado, Rachel havia trago um total de seis vestidos de festa para meu apartamento pois ainda não tinha se decidido por nenhum deles. Seus longos cabelos escuros estavam cheios de bobes e ainda faltava passar o batom e colar seus cílios na maquiagem neutra que havia feito em si mesma.
— Rachel, se não se decidir logo, nós vamos nos atrasar. – Bufei, fechando minha sapateira e indo até o quarto atrás dela.
— Achou?
— Não. Talvez tenha deixado em Londres. – Murmurei, entristecida, abrindo a porta do meu guarda roupa mais uma vez. – E será que você pode se decidir? Eu juro que aquele violeta ficou lindo em você.
— E que tal esse? – Quis saber, estendendo um vestido azul royal longo diante de mim.
Analisei.
— É, acho que esse é mais bonito. Prova!
Ela me obedeceu, tirando o roupão mais uma vez.
— Eu vou me mudar. – Anunciou. – Me ajuda aqui?
Fui até ela, prendendo os botões e subindo o zíper.
— Para onde?
— Acho que vou ficar perto da minha mãe, talvez não seja boa ideia continuar morando lá agora. Quer dizer, vou ter um bebê.
Terminei o que estava fazendo antes de virar ela de frente para mim.
— Você pode morar comigo. – Ofereci, sincera. Eu queria ajuda-la.
Rachel sorriu, agradecida.
— Eu amei que você tenha oferecido, mas aqui só tem um quarto e eu não quero te sujeitar a ouvir choro de criança quando você ainda é tão nova.
Revirei os olhos.
— Você é apenas dois anos mais velha que eu.
— E isso faz toda a diferença. – Falou, dando uns passos para trás. – E então?
Sorri.
— É esse, Rach.
E era mesmo. O azul era de um tom tão bonito que fazia a pele dela brilhar e a saia rodada e brilhante de seda fazia Rachel parecer uma linda princesa indiana saída diretamente de um conto de fadas.
Rachel ficou tão feliz de ter encontrado um vestido que nem o tirou, completou a maquiagem apenas colocando o roupão por cima para não sujar.
Como uma última tentativa, resolvi investigar a mala que tinha levado para Londres.
Um sorriso apareceu em meu rosto quando encontrei o que procurava.
— Achou! – Comemorou Rachel, agora totalmente pronta, aparecendo na minha frente.
Radiante, tirei minha roupa sem graça para colocar o lindo vestido, que ficou tão perfeito quanto no dia em que eu comprei. Aproveitei para prender os acessórios e amarram o sapato, por fim aplicando o batom nude mais uma vez.
— Meu Deus, você está muito linda. – Murmurou Rachel, com admiração.
Me senti corar.
— Você está estonteante!
Uma vez prontas, corremos para fora do apartamento já que eu estava atrasada para buscar Niall no aeroporto. Seguimos para o carro que Niall havia dado para mim e Rachel me ajudou a colocar o endereço do aeroporto no GPS.
Bom, o carro. No fim das contas decidi ficar com ele. Niall e eu fizemos um acordo e eu garanti que pagaria pelo carro. E ele, na condição de “melhor namorado do mundo”, de acordo com ele mesmo, me deu cinquenta por cento de desconto e as parcelas que eu pagaria de aluguel na verdade vou pagar para comprar o veículo. Precisei concordar que a longo prazo vale mais a pena que pedir Uber para o resto da vida.
A festa aconteceria na recepção do W San Francisco e ficava perto de onde eu morava. Eu sabia que estava dando a maior volta do mundo para buscar Niall no aeroporto, mas não me importei e ele acabou concordando que preferia chegar na festa comigo.
Vinte minutos depois, cheguei na pequena rotatória da área de embarque e desembarque, onde ele disse que estaria. Avistei Niall superelegante em seu terno, com a gravata propositalmente do mesmo tom do verde do meu vestido e acenei para ele, estacionando em sua frente. Rachel aproveitou a deixa para sair do banco do passageiro e ir sentar-se no banco de trás. Apertei o botão do porta-malas para que ele pudesse colocar suas malas lá dentro e em seguida ele sentou-se ao meu lado, mas sem o sorriso que eu esperava.
O meu sumiu um pouco.
— Oi! – Falei, me inclinando para um beijo. O que recebi foi um estalo murcho e frio. – Aconteceu alguma coisa?
Niall suspirou, colocando o cinto de segurança, mas continuei parada.
— Não, tudo certo. – Ele disse, mas ainda estava com o semblante irritado. Olhei para o relógio. Tinha me atrasado cerca de quinze minutos.
— Niall, não parece estar tudo bem. – Insisti. Ele lançou um olhar nervoso para Rachel, que sabiamente estava se fingindo de surda naquele momento, e encostou a cabeça na poltrona do banco. – Fala comigo.
Uma buzina atrás de mim me lembrou que eu tinha que sair daquela área.
— É melhor a gente ir. – Ele disse, apenas.
Dei de ombros, imaginando que ele não iria falar nada naquele momento, e me pus a caminho do hotel. De acordo com o GPS que Rachel, mais uma vez, havia configurado enquanto eu dirigia, chegaríamos lá em quarenta minutos, cerca de uma hora depois do início da festa. Elegantemente atrasados.
Niall ficou cerca de vinte e seis minutos contados sem falar comigo, e eu sei disso porque ficava conferindo o relógio a todo momento.
— Fiquei te esperando um tempão. – Começou.
Lancei um olhar nervoso de relance para ele.
— Meu Deus, eu só me atrasei por quinze minutos. – Reclamei. – Eu perdi meu sapato e estava procurando. Sinto muito por ter demorado.
Ele deixou escapar um suspiro e balançou a cabeça, aproveitando o sinal vermelho para me dar um beijo de verdade na minha bochecha direita.
— Desculpa, acho que estou cansado.
Concordei.
— Tudo bem. Significa muito para mim você ter vindo mesmo assim.
Pelo canto do olho pude ver que ele sorriu.
— Foi por isso que eu vim.
O ar ficou mais leve e o caminho até o hotel prosseguiu sem problemas. Quando chegamos ao saguão, abandonamos o veículo, que seria estacionado pelo manobrista, e seguimos em direção ao salão de eventos. Uriah estava muito adulto em seu terno slim e fingi não perceber como seu rosto ficou vermelho quando viu Rachel. Parecia que ele estava ali justamente esperando por ela. A parte engraçada foi Rachel também ficar nervosa por ver ele ali.
— Uriah. Oi. Não esperava te ver aqui.
Apesar de nervoso, Uriah conseguiu sorrir.
— Bom, eu... eu trabalho aqui. Certo?
Rachel riu.
— Certo! Certo, claro.
Eu e Niall olhamos um para cara do outro tentando não rir, mas acho que fomos tão sutis que Uriah finalmente nos notou atrás de Rachel.
, uau, você está linda. – Elogiou, virando-se para o meu namorado. – E você veio mesmo! Prazer em conhece-lo, Niall.
— Ouço coisas muito boas sobre você. – Niall disse, educado. – O prazer é meu.
— Hm, Niall, que tal procurarmos Olivia? Ela estava doida para te conhecer. – Falei, mesmo que tivesse acabado de inventar a história.
— Vou junto. – Anunciou Rachel, claramente não entendendo a deixa.
— Hm, porque não procuramos um lugar para sentar enquanto isso, Rachel? – Ofereceu Uriah.
Rachel concordou.
— Pode ser, boa ideia.
Os dois se afastaram, e toda a risada que segurei durante o diálogo mais esquisito da minha vida escapou, junto com a de Niall.
— Eles se pegaram. – Falei.
— Eles com certeza se pegaram.
— Provavelmente no escritório.
— Hm, acabei de imaginar uma cena. – Falou ele, parando de rir, com os olhos brilhando de desejo. – Bem que você poderia trabalhar até mais tarde um dia desses.
— Você é um pervertido.
— É, eu tento.
Apesar do bom-humor, eu sabia que alguma coisa ainda estava incomodando Niall, mas deixei para lá. Entramos no salão, decorado de maneira bem exagerada, o que eu sabia que era obra de Jesse, e só para contrariar Olivia. Ela era a fã número um do “menos é mais”. Leds nas cores rosa e roxo oscilavam de uma abertura no teto e um espelho tomava toda a parede do salão a esquerda, fazendo ele parecer muito maior do que de fato era. Havia um palco e uma pista de dança de tamanho médio a frente, e as mesas estavam abastecidas com um aparelho de jantar completo, com todos os três garfos.
— Quando disseram que a festa era formal não estavam brincando, não é? – Niall comentou, apontando para a mesa.
! – Escutei Chase me chamar antes que eu tivesse a chance de responder. Ele estava com um smoking azul marinho que destacava e muito seus olhos azuis.
Ele não tinha notado Niall, e percebi quando notou assim que seu sorriso vacilou um pouco.
— Boa noite, Chase! – Cumprimentei, enroscando meu braço no de Niall para ele se acalmar. – Niall, esse é meu chefe, Chase. Lembra dele?
— Chama o Collins pelo primeiro nome? – Niall disse, mas não olhou para mim ao perguntar, olhou para Chase. – Ah sim, ouvi dizer que ficaram bem íntimos. Rolou até beijo de língua.
Corei da ponta da unha do dedão do pé até a raiz dos meus cabelos.
— Niall! – Repreendi.
Chase fez uma careta.
— Bom, prazer em revê-lo. – Disse ele, tentando não se constranger.
— É, não posso dizer o mesmo. – Niall resmungou, debochado.
Dei um puxão em seu braço, mas ele deve ter se esquecido que eu existo.
— Niall, se controla!
— Esse cara é um idiota. – Niall sussurrou para mim, mas não se importou em baixar o volume de sua voz. Aparentemente a intenção era que Chase ouvisse mesmo.
— Niall, eu sinto muito que tenha dado alguma impressão ruim, mas...
— Sem problemas, Collins. Diz para teu irmão que eu mandei um ‘oi’. – Interrompeu, tirando meu braço do seu. – Vou beber alguma coisa, aproveite a companhia dele.
E. Simplesmente. Foi. Embora.
O que foi isso? – Murmurei para mim mesma, vendo Niall se afastar, até olhar para os olhos gentis e preocupados de Chase. – Por favor, não me demite.
Chase, pela primeira vez na noite, riu, dando um gole na sua bebida.
— Eu não vou te demitir. Mas te aconselharia a trocar de namorado, de repente. – É claro que ele aconselha.
— Estou bem com o namorado atual, obrigada. – Falei, rindo. – Aconteceu alguma coisa entre vocês? Ele geralmente é ciumento, mas não assim.
Chase deu outro gole.
— Nada em especial, só nunca nos demos bem. Ele gosta bastante do meu irmão, mas nunca foi com a minha cara. Oliver adora ele. Queria poder dizer o mesmo.
Sorri.
— Te garanto que ele é incrível. – Meu sorriso bobo deve ter deixado Chase com náuseas, porque o gole foi maior dessa vez.
— Bom, antes de todo esse drama, e desde já desculpa atrapalhar sua festa, mas tenho um recado de Jesse.
— O que aconteceu?
O semblante dele ficou sério e eu fiquei apreensiva.
— A partir de segunda Jesse te quer no escritório de Nova York. Por dois meses. Aparentemente os diretores gostaram de você e queria que fizesse um treinamento com os colunistas de lá.
Eu tinha certeza absoluta que Jesse só fez isso para eu ficar o mais longe que eu pudesse da Califórnia, mas mesmo assim a raiva veio.
— Quem ele pensa que é? – Chiei. – Que inferno. Quem avisa na sexta à noite que você precisa mudar de cidade? Onde eu vou ficar?
Chase colocou as mãos nos bolsos.
— Bom, ele disse que era um problema seu.
— Ai, meu Deus!
— Mas, caso não se lembre, fui transferido de Nova York. Ainda não vendi meu apartamento, se quiser pode ficar lá.
Eu entendia até demais todo ataque de ciúmes de Niall. Então vamos lá. Tinha acabado de ver a parte mais feia de Niall ao vivo – o ciúme. Para depois meu chefe anunciar que eu tinha dois dias para me preparar para uma mudança que nunca pedi – para um estado a cinco mil quilômetros do homem que eu amava. Para então me dizer que eu não tinha nem casa onde ficar e, depois do meu choque, oferecer seu apartamento de graça.
— Eu não sei. – Falei, olhando para onde Niall tinha ido.
— Se serve de consolo, eu faço um contrato de locação. Você pode mudar as fechaduras e tudo. – Ofereceu, pegando outra taça quando um garçom passou por nós. Fiz o mesmo, só para ter uma desculpa para ficar sem responder.
Saboreei a bebida, que era doce e alcóolica, sentindo o olhar penetrante de Chase sobre mim. Eu sabia que era uma ideia ruim, mas como iria achar um lugar para morar em dois dias? Em contrapartida, sabia que Niall não gostaria nem um pouco desse plano, mas eu não podia depender de ele gostar de tudo que eu faço para sempre.
— Vou ficar em um hotel nessa semana. – Decidi. – E então vejo o que fazer a longo prazo. Muito obrigada por tentar resolver.
Ele sorriu.
— Aproveite a festa. – Falou, fazendo um brinde.
Festa? Eu ia atrás de Jesse Curtis para saber porque ele achou que seria uma boa ideia me tirar de São Francisco. Longe de Niall, de Rachel, dos meus pais, da minha vida chata, pacata e monótona, mas minha. Finalmente o achei, encarando o jardim do lado externo do salão.
Jesse usava terno todos os dias, então estava zero diferente do normal. Ele poderia ser bonito se não fosse tão idiota.
— Boa noite. – Anunciei. Minha expressão zangada deve ter sido boa, porque ele sorriu.
— Srta. . Está radiante. – Elogiou. Filho de uma puta. – Imagino que o Sr. Collins tenha passado meu recado.
— De fato, passou. Quero saber o motivo.
— Você é a nova estrela da PlayList, ninguém contou? – Anunciou, como quem informa a morte de alguém. – Seu showzinho na Seventeen nos colocou no topo. E agora Nova York e Seattle estão brigando por você. Deixei que Nova York a levasse. Já foi lá uma vez.
Não, ele fez isso porque Seattle ainda era perto demais. Perto demais. Nova York ficava do outro lado do país e pude ver pelo sorriso maquiavélico em seu rosto que ele sabia o que estava fazendo.
— E se eu não quiser ir? Posso me demitir. – Eu estava blefando e ele sabia. Mesmo assim se aproximou de mim, perto o bastante para me tocar, mas não o suficiente para alguém perceber alguma coisa errada. Puxou um calhamaço xerocado do terno, colocando em minha mão.
— Reconhece isso?
O conteúdo do que ele me mostrou me deixou lívida. Se não fosse o verde da minha maquiagem eu provavelmente seria feita de culpa e traição.
— Onde conseguiu isso? Estava...
— Na sua mesa. Para todo mundo ver. – Comentou. – Estava na sua mesa de trabalho e, portanto, não conta como objeto pessoal.
— Não estava, em momento nenhum eu tirei da bolsa.
Jesse suspirou, olhando para a mesa onde Niall estava com Rachel e Uriah e depois sorriu.
— Você é diabólica. Ele sabe porque ficou com ele? Sabe que você vai publicar isso?
— Eu jamais publicaria isso! – Quase gritei.
Jesse guardou o conteúdo novamente em seu terno, se afastando de mim.
— Se você não for para Nova York, vai publicar. Se você não fizer tudo que eu mandar, vai publicar. Simples assim.
— Ele não vai acreditar. – Falei, mais para as suas costas.
— Você não sabe, Srta. . – Falou. – Boa estadia, querida. – Disse educado, antes de se afastar.
Perdi o chão, esqueci meu nome e não podia acreditar que eu tinha deixado com que Jesse vencesse – de novo. Não podia acreditar que ele conseguiu mexer na minha bolsa, que ele usou aquelas mãos nojentas para investigar o que não lhe dizia respeito.
Ainda estava furiosa com Jesse, mas voltei para o salão a fim de conversar com Niall. A conversa parou no momento que aproximei deles.
— Niall, podemos conversar lá fora? – Chamei.
Ele deu um suspiro chateado e concordou, me seguindo para o jardim, do lado oposto de onde eu estava com Jesse.
— O que foi aquilo com Chase? – Perguntei.
— Eu não gosto de como ele te olha. – Foi tudo o que disse, enquanto se dirigia para um banquinho desocupado na área externa.
— Isso não é motivo para tratar os outros sem educação! – Repreendi, depois suavizei a face. – Por favor, me conta o que tem de errado.
Sentei ao lado dele, cruzando minha perna por cima da fenda aberta.
— Tudo, , está tudo errado. – Começou. – Você nunca nem viu minha casa porque sua vida é em São Francisco. Sabíamos que não seria fácil, mas parece que só eu me esforço! Você nunca vai para lá, nunca me surpreende e nunca se importa em dividir esse fardo comigo. Sempre espera que eu venha até você. E estou exausto do trabalho, fiquei no estúdio o dia inteiro e vim direto para cá, e ainda tive que esperar quase vinte minutos até que fosse me buscar.
Fiquei quieta por um momento.
— Isso não é justo. Você sabe que seu trabalho é muito mais flexível que o meu.
— Até onde eu sei você tem folga aos finais de semana, coisa que nem eu tenho muitas vezes.
— Mas eu não sou rica, Niall Horan! Como espera que eu pegue um avião para Los Angeles toda semana? Nem todos nós ganhamos milhões por mês.
Ele bufou.
— Eu não ganho milhões por mês. O novo álbum está difícil.
— Meu Deus, você trabalha escrevendo umas músicas! Pode escrever essas músicas de qualquer lugar!
Foi a coisa errada a se dizer e quis recolher as palavras de volta no momento que elas deixaram minha boca.
— É isso que você acha que eu faço? Escrevo umas músicas? – Ele sorriu, sem humor nenhum, e sua expressão não me magoaria mais se eu tivesse dado um soco nele. – Minha vida não é só glamour, . Eu também tenho problemas. Tenho problemas com o álbum, tenho problemas com estresse, tenho problemas de família. Briguei com meu irmão ontem, você sabia? Claro que não, você só sabe falar de você, da PlayList e mais um pouco do quanto sua vida é absolutamente sem graça.
Nunca na minha vida me senti tão envergonhada. Ele estava completamente certo. Eu fazia isso. Acho que nunca nem o ouvi falando sobre a mãe, a não ser para me comparar com ela na primeira vez que a gente saiu, e não foi por ele ser misterioso nem nada, realmente parecia que eu não me importava.
— Desculpa eu ter dito aquilo. – Falei. – Você sabe que eu sou sua fã número um.
— Tudo bem.
— Você está magoado. – Constatei.
— Sim, muito.
— Me desculpa? Vou melhorar. Prometo. Vou me esforçar para ir para Los Angeles, vou até para a Irlanda se você quiser. Vou para onde você quiser. Não preciso ficar te esperando, Niall. Vamos nos encontrar, juntos. É assim que fazemos. Você me perdoa?
Nem eu mesma me perdoaria, mas Niall me surpreende fazendo que sim e beijando minha boca de uma maneira respeitosa. Não tinha como eu falar de Nova York agora e eu não sabia o que dizer, mas precisava ser logo.
— Eu perdoo se mudar de emprego. Não gosto do seu chefe.
Dei uma risada alta.
— Uma pena, terá que se contentar comigo nesse emprego mesmo.
Minha risada era superficial porque eu sabia que depois que ouvisse sobre Nova York, ele com certeza me arranjaria outro emprego.

Capítulo 21

Cheguei no hospital decidida a manter a cabeça em pé, de forma madura e confiante. Como se eu fosse feita de gelo e aço e não fosse me abalar com nada que estivesse acontecendo em qualquer um daqueles quartos. Ele errou muito escondendo de mim sua doença, mas me privou de sua companhia enquanto eu vivia minha vida glamourosa em outro estado e jamais me perdoaria por ter sido tão negligente e teimosa.
Nova York era surreal de fantástica. Quem fosse para lá nunca mais pensaria em voltar. Na primeira semana me estressei com a moradia. Na segunda semana me adaptei com a moradia, um lugar simples, mas que conseguia pagar, porém me estressei com a seriedade da cidade, com os tons frios que coloriam as roupas dos transeuntes, com o sol primaveril tímido que não iluminava o suficiente, e com a comida.
Principalmente com a comida.
Mas depois de um mês no meu novo apartamento cinza e monótono comecei a gostar da vista da minha janela no Brooklyn. Comecei a gostar de tomar café todas as manhãs, e andar apressada pela calçada se tornou natural para mim. Gostei de caminhar pela cidade, e, se desconsiderar o cheiro, andar de metrô não era assim tão ruim.
Eu precisei de um mês para me apaixonar por Nova York. Ainda faltavam duas semanas para ir embora, porém já estava com saudades.
Niall não ficou feliz quando eu contei que precisaria me mudar por um tempo. Na verdade, foi o total oposto disso: ele ficou horas sem falar comigo. Mas depois ele mesmo conseguiu um apartamento para mim, o que considerei uma oferta de paz. Para não perder meu apartamento em São Francisco, Rachel se mudou para lá de forma permanente, para “treinar”, ou pelo menos era o que ela dizia.
Meu relacionamento com Niall era público, decidimos formalizar no meu Instagram quando ele veio para Nova York no final de abril, para o meu aniversário. Ficou por uma semana comigo e me levou para muitos lugares como a perfeita turista que eu era. Quando eu via ele dessa forma, feliz e leve, era quase possível esquecer o mar de distância que nos separava um do outro. Quase.
Da segunda vez que veio, ficou pouco mais de três dias e mal saímos do apartamento. Ele continuava tentando escrever suas músicas e eu não atrapalhava. Quando terminava alguma estrofe, cantava para mim com o violão que tinha trago consigo. Ele fez isso com umas três músicas, mas, mesmo que eu tenha dito que eram lindas, ele murmurava algo sobre não serem boas o bastante e descartava a letra. Até que fiz graça pedindo para ele se inspirar em mim para escrever e ele não riu.
Não toquei mais no assunto.
E agora, estava no UCSF Medical Center, em São Francisco, duas semanas antes do esperado, entrando na área cardiológica, onde meu pai havia sido internado.
Jesse Curtis não tinha deixado que eu viesse, mas não liguei para o que ele pensava porque Tom Von der Berg, o CEO da unidade de Nova York, havia permitido. Na verdade, ele havia exigido que eu viesse ver meu pai. Ao que parecia ele também me seguia no Instagram e estava ciente da situação no dia que divulguei sobre o estado de saúde dele.
Meu pai estava fraco havia dias, mesmo sendo acompanhado pelo cardiologista, até que em uma das consultas que fazia em São Francisco simplesmente não conseguiu ir embora. O médico dele, um homem que beirava os quarenta e poucos anos, Dr. Theodore Abraham, decidiu que interná-lo era a melhor opção.
Richard era tão teimoso que achou mesmo que eu não iria descobrir, mas graças a minha incrível tenacidade e capacidade de persuasão, minha mãe acabou me contando o ocorrido. E vim embora assim que soube.
Dei entrada na minha ficha de visitante, disse o nome do paciente e praticamente corri até o quarto onde ele estava. Quando entrei vi que ele estava acordado, mas levou o indicador a boca, pedindo silêncio.
Demorei um pouco para entender o motivo, até que vi minha mãe deitada sobre o colo dele, dormindo, enquanto ele, carinhosamente, lhe acariciava a cabeça.
— Ela não dormiu a noite toda. – Explicou, fazendo um gesto para que eu me aproximasse.
Cheguei perto dele, depositando um beijo em sua testa gelada.
— Como você está pai? – Quis saber, sentando-me em uma poltrona vaga próxima a janela.
Meu pai me encarou intensamente e eu tinha certeza de que ele responderia algo genérico como “estou bem”. Mas ao invés disso, falou:
— Cansado. Estou muito, muito cansado. – Murmurou, com um longo suspiro para dar ênfase as suas palavras. – Parece que... nada. Deixa para lá.
— Parece o que? Me fala.
Ele não me respondeu, continuou encarando minha mãe que dormia tranquilamente, enquanto duas lágrimas grossas escorriam pelas suas bochechas. Meu pai era um artista. Ele era sensível, conseguia interpretar coisas que ninguém mais conseguia, conseguia ver cores onde ninguém mais enxergava. Já vi meu pai explanando sua sensibilidade de forma adorável enquanto explicava seus quadros para os leigos que visitavam a galeria em San Diego, já vi meu pai ficar duas horas mexendo pacientemente potes de tinta só para que ficasse da cor exata do verde que ele precisava, já vi meu pai perder seu precioso tempo ajudando minha mãe a fazer coisas que não tinham nada a ver com seu trabalho, mas nunca, nunca mesmo, eu tinha visto meu pai chorar. Não assim.
— Pai?
— Sim.
— Me fala o que está acontecendo.
Ele olhou para mim, mas era como se não estivesse mais ali. O homem cheio de vida que eu conhecia tinha se perdido em parte do caminho e notei como ele estava realmente magro, os ossos do pescoço marcando toda sua mandíbula, as olheiras em formato de bolsas embaixo dos olhos e a pele cinza e os olhos opacos.
Era a imagem de alguém que desistiu e eu não suportava ver isso acontecendo. Não com o homem mais corajoso e otimista que eu conhecia.
— Eu estou perdendo, . – Sussurrou, voltando a fazer cafuné no rosto adormecido da esposa. – Eu sinto que estou forçando meu próprio coração a bater e isso me esgota. Eu queria ser forte, mas não consigo.
Ele não olhava para mim ao dizer isso.
— Pai. – Chamei. – Pai, você é forte. Você é a pessoa mais forte que conheço. Se tem alguém que pode fazer isso, esse alguém é você.
Os olhos castanhos do meu pai ficaram mais escuros quando ele chorou. Ele chorou de verdade. Em silêncio para não acordar minha mãe, mas chorou. Segurei sua mão porque em vinte e cinco anos eu nunca tinha visto meu pai chorar e não sabia o que fazer, mas ele segurou minha mão de um jeito forte.
, estou muito doente. – Falou, dando um beijo na minha mão antes de soltá-la. – Apenas... apenas um transplante pode me salvar agora, filhota.
Fui para trás.
— Tudo bem, pai. Tudo bem. Eu ajudo. Eu vendo tudo que precisar, eu ajudo a pagar. – Exclamei, a voz subindo uma oitava. Droga, eu venderia até a mim mesma se isso ajudasse. – Eu tenho um dinheiro guardado, sei que não é muito, mas ajuda e te...
. – Me interrompeu. – .
— O que?
— O problema não é o dinheiro.
Murchei. Se não era isso, era o que?
— Não?
Ele suspirou antes de dizer:
— Trinta e sete.
— Trinta e sete? Trinta e sete mil dólares? É o valor da cirurgia? Está barato não está?
Meu pai sacudiu a cabeça.
— Não, , trinta e sete pessoas. Trinta e sete pessoas na fila de um transplante. Como eu posso torcer para trinta e sete pessoas morrerem para que eu possa ter um coração? Como posso exigir que quase quarenta pessoas morram para que eu tenha a chance de viver um pouco mais?
E esse era meu pai. Altruísta até no único momento da sua vida que ele poderia ter sido egoísta.
— Você não estaria torcendo para as pessoas morrerem, pai. – Tentei argumentar. – Quer dizer, se chegar sua vez, você não vai querer?
Ele me olhou com seus olhos molhados mais uma vez.
— A espera é de dois anos. E eu não vou viver por mais dois anos. – Sentenciou. – Não com esse coração.
Eu estava chocada demais, triste demais e partida demais para responder de imediato, mas quando as palavras finalmente encontraram minha boca, minha mãe se levantou, assustada.
— Quem? – Perguntou, desorientada.
Sorri para ela.
— Oi, mãe.
Ela se levantou para vir até mim, tentando não chorar.
— Oi, querida. Seu pai... seu pai está bem, eu não disse? – Falou, rápido demais, se inclinando para um abraço. – Eu falei que ele estava.
Suspirei.
— Mãe, ele... ele já me contou.
Ela se interrompeu a centímetros do meu abraço, olhando para o meu pai antes de se virar para mim.
— Oh, . Oh, eu sinto muito.
Minha mãe finalmente colocou seu braço ao meu redor, e me permiti ser consolada por ela, por tudo que ela representava para mim. Em algum momento que não reparei ela nos guiou para onde meu pai chorava na cama, abraçando nós duas com os resquícios de força que ele ainda tinha. Eu não podia mensurar a ideia de que meu pai estava morrendo, não podia aceitar isso, assim como não podia aceitar não saber qual seria nosso último abraço em família.
E se esse fosse o último? E se a ceia de ano novo do ano passado fosse a última? E se meu último natal com ele já tivesse ocorrido e não soubesse disso?
Como eu poderia viver assim?
Uma vibração no meu celular me despertou do terror que estava vivendo.

@niallhoran
Deu tudo certo? Você está bem?
Estou mandando pelo instagram pq aqui não tem sinal

@
Oi, amor
Não está nada bem
Ele precisa de transplante

@niallhoran
Ah, não
Eu sinto mt,

@
Podemos conversar depois?
Preciso de vc mais tarde

@niallhoran
Me de uma boa razão para eu não ir até SF agora mesmo
De verdade

@
Não tenho nenhuma
Mas não precisa vir
Acho que preciso ficar sozinha

@niallhoran
Td bem
Até mais tarde, fica bem
Amo você

@
Amo você

Sequei os olhos, voltando para a poltrona que estava ocupando antes. Meus pais estavam abraçados silenciosamente enquanto eu falava com Niall e meu pai sorriu. Mas antes que ele pudesse falar o que estava pensando, meu celular começou a vibrar. Achando que era Niall, estava pronta para recusar, afinal ele sabia que eu estava com meus pais, mas era Rachel. Ela também sabia disso, por isso achei melhor atender.
— Oi, Rach.
. – A voz dela soava urgente do outro lado da linha. – Sei que está de folga, mas acho que gostaria de saber.
— O que houve?
Acabou de chegar dois policiais no escritório de Jesse. Estão lá dentro há uns dez minutos. Ouço gritos e ameaças e “vou chamar meu advogado”. – Ela suspirou. – Acho... eu acho que alguém processou ele.
Merda.
— Ok, Rachel, aguente firme que estou indo.
Desliguei e olhei para os meus pais, que me encaravam
— Já vai? – Minha mãe quis saber.
Levantei, pegando minha bolsa.
— Surgiu um problema no trabalho. – Olhei para o meu pai, indo até ele para beijá-lo no rosto. – Volto amanhã, está bem?
Ele concordou.
— Tudo bem.
Olhei para os meus pais da porta.
— Eu amo vocês.
Eles sorriram para mim.
— Nós te amamos, filhota. – Disse meu pai, sorrindo.
— Promete que vai estar aqui amanhã. Promete.
O sorriso dele vacilou um pouco, mas continuou lá.
— Eu prometo.
Quem sabe se eu o fizesse prometer ele conseguisse se segurar até receber um doador. Quem sabe se eu renovasse a promessa todos os dias ele não fosse embora. Quem sabe isso fosse o bastante. E, se não fosse o bastante, tinha que ser o suficiente.
Porque meu pai nunca quebrava promessas.
✈️✈️✈️

Como já estava no centro, cheguei a PlayList quinze minutos depois, a tempo de ver Rachel pulando na cadeira e Uriah cochichando ao seu lado.
Na verdade, todo mundo estava cochichando. Cada um parecia ter sua versão dos fatos e quando cheguei a minha mesa de costume, temporariamente ocupada por Cristine, a outra colunista, Rachel se levantou, vindo até mim.
— Está uma loucura. – Falou, me puxando com ela em direção a copa.
— O que aconteceu? – Ela continuou me puxando e só parou quando entrou na copa e fechou a porta. – Rachel?
Ela levou as mãos à barriga, algo que fazia quando se sentia insegura. Estava grávida de quase seis meses agora, e a barriga surgiu ainda no mês passado e do nada.
— Jesse foi processado. – Falou. – E está muito, muito bravo.
A porta se abriu, revelando Uriah, e Olivia e Chase vieram logo atrás dele.
— O que está acontecendo?
Olivia sorriu para mim. Desde o sucesso da minha coluna de especial de dez anos da PlayList acho que cresci no conceito dela.
— Nada com que precise se preocupar. – Garantiu. – Só queria saber se estava bem. Coisas estranhas aconteceram.
— Tipo o que?
Chase e Olivia se encararam, e até Uriah e Rachel ficaram quietos.
— Jesse usou recursos da empresa para que você ficasse em Nova York.
Fui para trás.
— O que? Ele pagou para me manter longe?
Chase assentiu.
— A secretária dele descobriu e contou para outra assistente. Começaram a conversar e descobriu que a assistente já tinha sido assediada por ele. No fim fizeram um processo coletivo no qual nove funcionárias declararam assédio. – Chase suspirou. – Talvez ele conseguisse se livrar de um. Mas de nove?
— Dez. – Falei.
Todos olharam para mim e me estiquei, incomodada.
— Isso não importa. O importante é que acabou. Certo? – Falei, encarando especialmente Olivia.
— Acabou, . Eles vão levar Jesse daqui e vai voltar tudo como sempre foi. A Billbord não se importa de não ter um representante aqui desde que continuemos seguindo as normas impostas. E depois desse escândalo eu duvido que eles queiram mandar mais alguém.
Fiquei triste com a possibilidade de Tom Von der Berg perder o emprego, porque na verdade ele era muito legal, mas logo me recompus.
Com a notícia do assédio e desvio de verba, talvez fosse o suficiente para manter Jesse longe. Eu sabia que se eu não tivesse provocado Jesse naquele dia, nada disso estaria acontecendo. Ele não teria colocado um alvo nas minhas costas e nem desviado dinheiro da revista.
Mas eu sabia que se não fosse o alvo nas minhas costas, Nadine nunca iria descobrir o desvio e esse processo coletivo nunca teria acontecido.
— Vamos voltar para o escritório. – Disse Olivia. – E para você dois. – Falou, apontando para Uriah e Rachel. – Depois temos que conversar. Não sei se o RH vai permitir que trabalhem juntos depois... disso. – Falou por fim, apontando para a barriga de Rachel.
Virei na direção dela, que arregalou os olhos para mim sem muita sutileza.
— Claro, Olivia.
Olivia e Chase nos deixaram e eu cruzei os braços, olhando para Rachel e Uriah.
— E então? – Questionei.
Rachel bufou.
— Minha mãe nunca me deixaria em paz se eu não dissesse quem era o pai do bebê. – Justificou-se.
Arregalei os olhos.
— E?
— E eu disse que Uriah era o pai do bebê. – Confessou, deixando Uriah com um sorriso enorme.
Encarei o rapaz.
— Você concordou com isso? Sabe que não é seu.
— Eu não ligo. – Disse. – Queria ajudar.
Era muita notícia para um dia só. Apertei a ponte do nariz.
— Olha só, não estou querendo ser rude nem nada, mas... Rachel você é indiana e Uriah, você é negro. O que vão dizer se o bebê nascer ruivo? Sabe, como o pai dele.
Rachel pensou.
— Uma deformação genética?
— Tenho certeza que vamos pensar em alguma coisa. – Disse Uriah.
Balancei a cabeça, saindo da copa. Estava fazendo uma nota mental para questionar Rachel sobre esse plano brilhante mais tarde, mas por ora, com a notícia sobre meu pai, o que Jesse tinha feito e o fato de ele ainda dispor do maior segredo da minha vida e estar prestes a revelar para o mundo, coloquei essa conversa no final da minha lista de prioridades.
E estava certa em fazer isso, porque quando abri meu e-mail mais tarde, tinha uma mensagem de Jesse, com um documento em formato word anexado.
Baixei o documento, onde estava escrito todas as palavras que Niall me disse aquele dia, do mesmíssimo jeito que eu tinha anotado em meu bloco de anotações quando fiquei entediada. Junto com o artigo tinham várias fotos do caderno, na minha própria caligrafia, para provar que tinha sido eu. Centralizado bem no centro do documento, li com um aperto no estômago:

“Zayn Malik foi expulso do One Direction?”
escrito por


E no corpo do e-mail, logo acima do documento, a mensagem mais ardilosa que Jesse Curtis poderia escrever:

Você tem certeza de que vai publicar essa notícia, Srta. ?



Continua...



NOTA DA AUTORA: Oi,leitoras queridas!
Primeiramente quero me desculpar por "pular" todo o período de Valerie em Nova York, mas foi necessário, principalmente porque ao escrever uma história precisamos filtrar o que de fato é relevante para o enredo e, o que a Valerie foi fazer por lá, não é. Apenas o fato de precisar ir, conforme descobrirão mais para frente.
E também queria posicionar vocês na história de maneira cronólogica: estamos entre maio/junho de 2019. Lembrando que a história começou em agosto de 2018!
Espero que estejam curtindo essa reta final, o clímax da história, pois só faltam apenas seis capítulos para o fim!
Beijinhos e até semana que vem!
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Outras Fanfics:
LONGFIC
Burn With You [original/finalizada]
Take Me Back To San Francisco [especial A Whole Lot Of History/ em andamento]

SHORTFIC
I Want To Write You A Song [especial A Whole Lot Of History/finalizada]

ONESHOT
Loved You First [especial A Whole Lot Of History/finalizada]
You Know I'll Be Your Love [especial A Whole Lot Of History/finalizada]


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