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Se eu podia acordar em um lugar diferente em uma hora diferente, será que eu podia acordar como uma pessoa diferente? — Clube da Luta


Parte II — The Silence of the Lambs





Now come one, come all, to this tragic affair…

Tic. Tac. Tic. Tac. O relógio era impiedoso com . Nunca fora muito amigo dele, e não seria agora que seria diferente.
Sentia-se deslocado em relação a todos à sua volta. Era como um invasor, uma pessoa que ninguém queria por perto. Algo extra, um figurante. Não pertencia àquele lugar. Um universo paralelo o qual ele não era bem-vindo.
Desligado.
Tipos de coisa que você só pensa de madrugada.
Pegou o telefone que acabara de ter a tela acesa, e leu a mensagem de texto de que seguia:
", espero que esteja acordado. Preciso da sua ajuda. Dirija até a Singer Street, número 537. Dê um jeito de entrar. E tente não ser pego."
Algo estranho alfinetou sua mente. Doeu, e ao mesmo tempo, o fez se sentir melhor.
"Para o que precisar", ele respondeu.
A resposta veio segundos depois:
"Vá sozinho."

podia saber muitas coisas de , pois era admirador de seu trabalho como detetive. Conhecia sua técnica, e sabia o nome de seu noivo — ou ex-noivo, no caso. Não sabia coisas pessoas, como, por exemplo, qual a banda preferida dela. E também não sabia que Singer Street, 537 era seu endereço. Ou seu ex-endereço.
Chegando ao prédio abandonado, não viu vestígio algum de alguém lá. Estacionou o carro distante o suficiente para que não chamasse a atenção de ninguém. Vestiu um casaco, já que o frio já estava começando a se mostrar presente. A Singer Street estava deserta e escura.
Conferiu o relógio. Onze e meia da noite.
Chegou à porta do prédio. Não podia tocar a campainha, nem bater na porta. tinha instruído para que ninguém soubesse que ele estava ali.
Espera.
Se estivesse lá dentro esperando-o, ela teria deixado a porta aberta.
?
Olhou pelas janelas. Nenhuma luz acesa. Nenhum vestígio de qualquer coisa.
Nenhum vestígio de qualquer pessoa.
A casa estava morta, mas ainda respirava firme e forte, como o bafo do carrasco.
Tem alguém aí.
lembrou-se de que em momento algum ouviu a voz de , desde que ela deixou a delegacia. Aliás, não ouvia nenhuma notícia dela há horas. Não sabia nem se ela tinha ido para casa.
Esse alguém não é .
soube que tinha que entrar na casa. Se tivesse alguém lá, era . E não sabia garantir se ela estava sozinha. Nem se quem a acompanhava era uma pessoa boa.
Era realmente alguém? Ou era um fantasma?
não está sozinha, eu preciso entrar nessa casa.
Vozes, suspiros, gritos abafados. Nada inesperado no esqueleto da casa da . Nada que pudesse surpreender .
Um grito cortou a calada da noite. Talvez fosse imaginação. Talvez fosse paranoia.
olhou para o prédio, sem muro. Olhou para a janela do segundo andar. Precisava subir ali, de algum jeito.
No terreno ao lado havia uma macieira alta o suficiente, mesmo longe do prédio de . Andou até a macieira, e apoiou a mão no primeiro galho. era magro suficiente para que a árvore o segurasse, e parecia disposta a fazê-lo. segurou a ramificação, e apoiou-se em outra para tentar ficar de pé.
Ok. Você está a cerca de um metro do chão. Não é um precipício, .
Apoiado no galho em cima de si, andou com um pé na frente do outro, chegando próximo ao prédio. Mesmo assim, estava baixo demais. Como não tivera problema em subir no primeiro galho, apoiou-se novamente em outro e subiu mais uma vez, ficando na altura do segundo andar do prédio.
Puta que pariu, é quase como se eu estivesse no Grand Cânion.
Apoiado em um galho, este se quebrou aos seus pés. não chegou a cair, apoiado em um ramo mais grosso perto de si.
Do chão eu não passo. Você está chegando perto.
Um metro e meio adiante, estava a janela do quarto de .
Ao longe, na rua, um carro preto ia se aproximando lentamente da casa. Se alguém visse um homem, no meio da noite, escalando uma macieira perto da janela de um prédio, certamente esse homem estava fazendo algo ilícito, ilegal ou imoral.
E só queria proteger .
Deu um salto, um tiro no escuro, tentando ao máximo calcular para cair bem na janela. Apoiou os braços na janela e conseguiu apoiar um dos pés na parede do prédio, que tinha um pequeno "andar", um nível saliente na parede. O outro pé escorregou, e para se manter firme, segurou mais forte o alumínio da janela. Sentiu o atrito de suas mãos no metal e sua pele sendo lentamente rasgada. Não podia gritar, se queixar, ou muito menos soltar. Estava ali por um motivo, e deveria cumpri-lo.
deveria proteger .
Apoiou o pé que tinha escorregado e juntou o corpo a parede, com um esforço que não imaginava que fosse precisar. O sangue escorria de suas mãos em filetes. A janela estava aberta, o que facilitava um pouco seu trabalho. Ergueu um pé e passou-o pela janela, apoiando-o a seguir no chão. Estava escuro, e silencioso, como se fosse um lugar fantasma. Assim que conseguiu entrar por inteiro no quarto, suspirou com alívio.
A respiração trancou-se quando se lembrou de um nome que pairava em sua mente desde muito tempo: Ramona. Esse nome era o que mais o assombrava. comentava essa moça, e sabia que ela era perigosa.
Ramona.
Ramona.
Houve o som de porta sendo arrombada no primeiro andar.
! — gritou ele, desesperado.
Não houve resposta. O som de rápidos e pesados passos foi ouvido subindo a escada, como se um esquadrão subisse apressado.
precisava proteger .
Passou pelo corredor e subiu pelas escadas de madeira, tropeçando em um dos últimos degraus, mas conseguindo chegar ao porão. Assim que o fez, acendeu a luz do interruptor.
Paralisou-se por um instante ao ver o que tinha escrito na parede.
Não pode ser verdade.
Sentiu seu corpo ser jogado contra o chão, e ficou de joelhos.
— Renda-se, não tente resistir!
Isso é mentira.
Um homem segurou as mãos de em suas costas, e empurrou-o até colocar seu rosto contra o frio chão.
Eu não deveria ter vindo.
— Renda-se! Para o chão!
— Já estou no chão, porra — murmurou , lendo uma frase escrita no chão, que só poderia ser lida se vista do lugar exato que ele estava na sala.
“Já foram dois, falta uma.”
não estava ali. Não mais. E não fora ela quem mandou as mensagens. Foi aquela pessoa, aquela mesma pessoa que o chamou lá, que chamou aqueles homens.
Dois? Que dois?
, o senhor está preso por invasão de domicílio. Tem o direito de permanecer calado, e tudo que você disser pode ser usado contra você.
fechou os olhos e desejou que fosse tudo sua imaginação. Mas essas coisas não costumavam ser muito amigas dele, e não seria agora que seria diferente.
E ele só queria protegê-la...

— chamou um policial. estava sentado em um banco de madeira, sozinho em uma cela, tendo como única diversão um pedaço de giz. Estava com a cabeça abaixada e colocou os cabelos para trás quando o chamaram.
Dormiu na cama dura daquela cela, e depois de acordar, mal tinha mudado de posição. Estava imerso em pensamentos.
me mandou aquelas mensagens... Ou foi Ramona?
Ramona me atraiu para uma emboscada... Ou foi ?

Aquilo não importava. Só soube que não precisava dele como ele imaginava.
Deviam ser oito da manhã do dia seguinte.
não olhou para o policial. Este insistiu e chamou-o novamente.
— Querem te ver.
— Quem quer?
— Não é sua namoradinha.
— Então fala que eu morri.
— São oficiais da polícia.
mordeu o lábio.
— Um deles atende por ?
O policial ergueu um dos cantos dos lábios.
— Estou indo.
levantou lentamente e andou a passos longos até a porta de sua cela, onde foi levado até uma sala vazia. Sentou-se a uma mesa e aguardou, vendo uma porta se abrir do outro lado do vidro à sua frente.
O mundo dá voltas.
e entraram na sala com rostos apreensivos. O oficial parecia não saber o que fazer, e queria manter tudo sob controle. A química, por sua vez, parecia surpresa.
deu de ombros, levantando as mãos na altura do rosto.
— Surpresa — ele falou, sem animação e evitando os olhares.
— Fala sério, novato — falou , sentando na cadeira do outro lado do vidro — O que você tinha na cabeça?
— As mensagens que tinha me mandado.
— Mensagens? perdeu o celular dela — falou , franzindo o cenho e colocando os cabelos para trás.
comprimiu os lábios. Estava irritado demais para ser contrariado, e era a última pessoa que ele gostaria de ver.
— Eu recebi duas mensagens de texto ontem à noite. me pediu para ir até a casa dela.
— Ela não estava morando com você? — interrompeu , de braços cruzados.
— Continua — afirmou — Eu fui na Singer Street.
e se olharam, com o mesmo nível de apreensão nos olhares.
— O que diziam as mensagens?
— Não lembro direito. Ela queria minha ajuda, e pediu para eu tomar cuidado para não ser pego. E ir sozinho.
O silêncio pesou por alguns segundos.
— Onde que ela está? — perguntou , enfim.
— Na sua casa, dormindo depois de se entupir de remédios — falou — Está totalmente perturbada.
— Com o quê?
— Tyler sumiu. Ele não deu sinal de vida desde que saiu da delegacia ontem.
— Quem foi o último a vê-lo? — perguntou de novo.
— Eu — disse — Acompanhei o até fora da delegacia. Ele disse que iria para casa.
— O porteiro do prédio disse que Tyler não chegou a aparecer.
— E alguma câmera de segurança registrou algo?
— Nenhuma. Ele saiu daqui e foi embora, e nenhuma câmera registrou qualquer coisa suspeita.
— O caminho dele foi todo monitorado?
— Não em certo trecho. Passamos a noite procurando por ele, e não temos nenhuma pista de onde ele possa estar.
colocou as mãos no rosto, claramente cansado.
— Eu fui atraído para lá por algum impostor. Se conseguirem provar que fui para a casa da com um propósito, posso sair daqui.
— Já providenciei isso — falou , levantando — Estamos com o seu celular. Vamos rastrear de onde a mensagem foi mandada, para podermos te inocentar. É capaz de conseguirmos te tirar daí hoje.
— Obrigado — agradeceu , querendo se mostrar mais animado.
— E, novato — continuou , abrindo a porta para que ele e saíssem da sala — Tome mais cuidado. Não vou poder salvar sua pele mais algumas vezes.
E deixou sozinho na sala novamente.
Salvar minha pele, pois sim...
Quando o jornalista ia se levantar para poder sair da sala, o policial indicou para que ele permanecesse sentado.
— Temos mais uma visita.
E abriu a porta meio minuto depois.
? — ele perguntou, surpreso.
Os olhos dela pareciam inchados, mesmo maquiados para disfarçar isso.
— Agora eu sei o que é estar do outro lado do vidro.
— O que foi que você fez, novato?
— Você me mandou uma mensagem e texto para que eu fosse à sua casa, lembra?
— Eu não te mandei nada.
O silêncio pesou na sala.
— O que aconteceu ontem à noite, ?
Não era necessário ser um vidente para perceber que a mente dela funcionava a todo vapor.
— Ramona me ligou e me fez subir as escadas da minha casa. Eu cheguei lá e li o que você leu.
— E o que eu li?
franziu o cenho.
— “Joe Durden vive, queime até o chão os , queime Tyler até os ossos”.
ficou sem palavras, chegando até a balbuciar.
— Não foi isso que eu li.
— O que você leu então?
— “Já foram dois, falta uma”.
franziu novamente o cenho, parecendo pensativa.
— Dois, quem?
— Não faço ideia. Provavelmente os Durden.
— Não foram os Durden. E... Por que “uma” está no feminino?
mordeu o lábio inferior, enquanto ela continuava com uma expressão pensativa.
— Não sei também. Continue.
— Ah, sim. Eu desmaiei.
Desmaiou?
— Não sei o que aconteceu. Eu senti alguém colocando a mão em volta do meu rosto e um pano diretamente na minha boca e no meu nariz. Desmaiei e, quando acordei, estava no sofá da casa do .
recuou um pouco, quase evasivo. A cadeira chegou a arrastar no chão, e ele realmente esperou que não tivesse ouvido aquilo.
— No sofá da casa do oficial ?
— Ele disse que me achou na rua. Eu estava desmaiada em cima de um banco.
— Que horas foi isso?
— Meia noite e meia, mais ou menos. Acordei e contei para ele tudo. Ele me acalmou e me mandou ligar para você, mas eu estava sem celular. Quando ele ligou, não adiantou. Você não atendeu.
— Eu já estava aqui dentro.
— Prepare-se para ouvir muito de quando encontrá-lo.
— Eu já ouço muito dele naturalmente. Parece até minha mãe. Aquele cara me ama.
Ela deu uma risadinha, entretanto, logo voltou a mirar o vazio. estava ciente que, quando ela ficava assim, era porque havia algo muito importante em sua mente. Ela pensava em tudo. E nada escapava.
Ramona não pode estar nessa sozinha. E colocar o jornalista nisso é covardia.
, se não for incômodo, você poderia mandar minha matéria para o jornal? Está em cima da minha mesa, no escritório.
— Sem problemas, . já passou por aqui?
— Já. Ele vai tentar me tirar daqui.
— Pode confiar nele. Qualquer novidade, vou ser a primeira a ficar sabendo.
— Isso se não for a que faz a novidade.
se levantou com um pequeno sorriso.
— É. Ou isso.
E se despediu de com um aceno.
foi levado de volta para sua cela. Não era nada decadente, mas, para um jornalista, aquilo era lamentável.
Havia, lá dentro de sua mente, enterrado, algum tipo de pista sobre aquilo tudo. Ele sentiu que estava lá dentro, em algum lugar. Um pequeno detalhe puro, que tinha escapado de sua atenção na hora. Quando entrou naquele escritório, na Singer Street, 537, havia algo lá esperando para ser visto.
deitou na dura cama que lhe foi improvisada, e dormiu. Afinal, não tinha mais nada para fazer.

Dois dias tinham se passado desde que Tyler tinha sumido. Dois dias que continuava preso. Dois dias que não deu sinal de vida. Dois dias que estava em estado quase de histeria.
Silenciosa, claro.
Lembrava-se de um dos maiores laços com seu irmão. Ele costumava usar um anel no polegar, de ferro, escrito ‘Moon’. também usava um desses, como tornozeleira. Queria saber se, algum dia, Tyler já tinha tirado o anel. Porque se havia algo que odiava, era pessoas que tinham vergonha de admitir que gostavam de algo.
, e Marla continuaram trabalhando no caso Fox, mesmo sem conseguir progredir muito. O oficial e suas parceiras já estavam realizando vários interrogatórios. Sem , não chegariam tão longe.
Ah, ...
Ramona tinha passado dois dias distante. Não ligara para , já que a detetive estava sem telefone. Pensou que talvez fosse por isso, e, se fosse, perder o celular tinha sido a melhor coisa que tinha acontecido.
Estava sentada em sua mesa, em sua sala com , quando percebeu que, recentemente, estava dependendo demais dos outros. Compartilhava sua sala de trabalho e o teto sob o qual dormia. E nenhum dos dois era dela.
imaginou que estava indo contra seus próprios princípios, contudo, ia pensar mais sobre aquilo mais tarde.
“Joe Durden vive, queime até o chão os , queime Tyler até os ossos”.
“Já foram dois, falta uma”.

Aquilo significava mais. E pior... Quem havia escrito a segunda frase?
O telefone tocou gritante ao seu lado.
— falou , prontamente.
? Aqui é Jacqueline Durden!
Jacqueline Durden. Atriz. Trinta e dois anos. Tentara visitar no Manson nove vezes, todas sem sucesso. E, junto com e , era uma das melhores amigas da detetive.
— Jackie! Quanto tempo! Novidades?
— Os processos da família estão cada vez piores, amiga — disse Jacqueline, com a voz um pouco pesada — Às vezes, queria nem ter nascido uma Durden.
mordeu o lábio.
— Não fale assim, Jackie.
— Não mesmo, não te liguei para isso! Como está, desde que saiu daquele inferno?
Levei um toco do meu noivo.
Minha casa pegou fogo.
Minha melhor amiga foi embora sem se despedir.
Meu irmão me odeia.
Meu irmão sumiu.
Estou dividindo apartamento com dois caras que mal conheço.
Um foi preso por minha causa.
Minha mãe esqueceu que tem filha.
Três pessoas morreram, e não tenho ideia de quem possa ser o assassino.
Nenhum desses casos é oficialmente meu.
E de quebra, tem um jornalista e um oficial que não saem da minha cabeça.

— Bem, eu estou bem. E você?
— Também. Está com um caso?
Alguns. Mas ninguém sabe.
— Impressionantemente, não.
— Então preciso da sua ajuda, . De amiga para amiga. Deve saber que não vivo mais no Palácio da Cerejeira.
A casa dos Durden, a mansão mal assombrada de Longview. O castelo encantado.
— Já tinha esse palpite.
— Pois sim. Acho que tem coisa feia por lá ultimamente.
— Que tipo de coisa feia? Drogas?
Jackie pareceu medir as palavras e o tom de voz para sussurrar:
— Clãs. E tortura. Acho que até estupro, ou sei lá que merda.
Tyler.
— Sei. Onde eu entro na história?
— Queria tentar descobrir o que tem acontecido por lá, mas ligar para uma emergência não é uma opção. Estou tentando evitar mais escândalos Durden, ainda mais depois que James foi preso por... Aquilo. Aliás, me desculpe.
— Não foi você, Jackie. Não precisa se preocupar, relaxe.
— O James virou um monstro depois do Joe. Ele está desolado. Mal falo com ele desde que... Enfim, . Sei como posso me desculpar. Que tal aparecer mais tarde na minha casa, para jantarmos? Aprendi com meu marido a fazer uma massa que até italianos parabenizam.
— Marido, Jackie?
— Ah, você não conheceu meu marido ainda. Casamos faz dois meses. Ele está viajando, no momento. Mesmo assim, seria uma honra receber a Serpente Vigilante na minha nova casa.
Nem sei se ainda posso receber esse título...
— Vamos passar pelo Palácio da Cerejeira, daí você vem para cá — finalizou Jacqueline.
— Hey, hey, é assim que você se desculpa? — perguntou , rindo — Me levando para a possível sede de um clã?
— Você curte uma boa descarga de adrenalina. Isso é quase um presente de natal.
riu.
— Você realmente me conhece, Jackie. Me encontre mais tarde.

entrou na sala de Julie Stoner, assim que foi chamado para tal. Quando abriu a porta, surpreendeu-se com , que estava sentada na cadeira de frente para a delegada.
— Sr. . Ouvi coisas sobre o senhor, oficial. Sente-se.
deu um olhar incisivo para , que respondeu erguendo as sobrancelhas.
— Claro, Sra. Stoner.
Ele sentou-se lentamente, como se estivesse tentando andar em cima de ovos, ou de bombas.
— Alheios me informaram que você, Srta. , está revendo e reinvestigando o caso Durden.
engoliu em seco, e teve a mesma reação.
— Julie, eu...
— Aqui eu não sou Julie. É delegada Stoner — ela retrucou duramente, ficando de braços cruzados em cima da mesa — Eu não queria fazer isso, . Mas você andou abusando um pouco do poder que lhe restou.
mordeu forte o lábio.
— Falou do caso Durden com James — Julie começou a contar no dedo indicador —, a pasta do caso foi encontrada no seu escritório, e insiste em uma correção do caso. , você foi chamada de volta para ajudar no caso Fox, e não é isso que você andou fazendo. Se não contribuir, , temo que terei de mandar você de volta para...
— Sam estava grávida — disse rapidamente.
Merda. vai me matar.
— Como é? — perguntou Julie, semicerrando os olhos e inclinando o corpo para chegar mais perto de . , que estava do seu lado, passou os olhos rapidamente pelas duas mulheres, repousando os olhos na mais jovem, surpreso.
— Samantha. Samantha Fox — parecia gaguejar. Sentiu algo tomar conta dela, um tipo de ser desconhecido.
Algo no fundo da alma de , que respirava e falava em suspiros.
Algo escondido, que parecia ter medo de se expor.
Parabéns, . Você está de volta com o medo.
Não era medo. Era outro alguém.
— Sam estava grávida quando morreu. Por isso a mataram daquele jeito brutal. Não tem como analisar um feto depois de todos os órgãos serem queimados com césio.
— Como você sabe que foi césio? — perguntou , se intrometendo.
— Eu... Eu deixei escapar uns dias atrás — disse Julie, olhando para o oficial, tentando não vacilar.
passou os olhares por Julie e .
— O césio reagiu com o suco gástrico da Samantha. Queimou os órgãos vitais e deu cabo do bebê que nem nasceu.
Julie e continuaram fitando , esperando-a continuar.
? Quem é ? Sua medrosa de merda.
Olhou fixamente para Julie e manteve seu corpo rígido.
— Meu palpite é que o pai da criança tenha matado. Acredito que ele fosse casado, e que a mulher do traidor também é um bom palpite. Passem pelo escritório de advocacia dela. Procure em bares. Esse cara deve estar em algum lugar.
Levantou-se com a cadeira arrastando, e andou até a porta sem dizer mais nada, saindo logo a seguir.
— Julie, eu queria saber se...
— Não terminei com o senhor, .
coçou o nariz e ajeitou a postura na cadeira.
— Não tem nada a ver com nenhum caso.
— Não? — perguntou , confuso.
— Não com algum caso de polícia.
Ele engoliu em seco.
— Fique de olho. A garota estava noiva.
levantou e foi até a porta, mas antes de sair, recuou.
— Você sabe de algo que não sabemos, Julie?
A delegada suspirou.
— Muitas coisas. Dispensado.
saiu da sala mecanicamente. Mal prestava atenção nas coisas à sua frente. É claro! Aquilo sim era notícia.
Samantha, Sam Fox grávida! Óbvio, demoraria um tempo para ter certeza de que ela estava grávida. Afinal, mal sobrara barriga, que dirá vestígios de um feto.
Entrou no escritório vazio. Sempre vazio. Sentou-se à mesa e piscou os olhos, balançando a cabeça levemente. Aquilo era difícil de encarar. Mudaria totalmente o rumo das investigações.
Se pudesse, interrogaria o principal suspeito. Tarde demais: ele já estava morto. Ou pior, ele tinha se matado.
Deu um sorriso torto. Se estivesse do seu lado, seria muito mais fácil. Ao mesmo tempo, seria uma experiência incrivelmente desagradável.
— Alô? — ele perguntou, atendendo ao telefone ao primeiro toque.
— Oi — respondeu a voz fraca de .
olhou em volta. Ainda estava sozinho.
? Por que está me ligando?
— Porque... Porque... Porque eu quero te perguntar coisas que eu não posso perguntar pessoalmente.
— Está falando com quem? — perguntou a voz doce de .
— Com a minha mãe — respondeu .
suspirou.
— Pode perguntar.
— Teve notícias do Tyler?
, você o conhece. Ou melhor, não conhece. Ele já sumiu assim antes. Não vai ser a última vez. Antes de ele ter aparecido dessa vez, ele sumiu e ficou quanto tempo sem dar notícia?
— Um mês, mais ou menos.
— Viu? Relaxe. Logo, logo, ele aparece. Não vamos parar de procurá-lo, mas tente se acalmar.
— Ok. Obrigada.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Claro.
respirou fundo antes de falar:
— Por que você está assim?
desligou. não se irritou com essa reação. Sabia e compreendia o lado de .

— É bom saber que posso contar com você, — disse .
— Claro. Sempre. Quer alguma coisa?
Tiques. Cliques. Muitos tiques, muitos cliques.
— Café.
— Copo grande, ou pequeno?
— Pode ser balde?
riu e saiu da sala.
Não era uma piada.

Jacqueline estacionou o carro na frente da delegacia. Era um dos mais caros que já vira, e não era novidade que Jackie ainda tinha um pouco de dinheiro. Apesar de não ter tido sucesso como atriz, ela o obteve como empresária e agente.
Entrou no carro, no banco da frente. Jackie e ela falaram de família, amigos e homens. Riram e fizeram rostos entristecidos. Quando se aproximaram do Palácio da Cerejeira, Jacqueline parou o carro do outro lado da calçada. Podia ver por cima do muro, como se tentassem aparecer, os telhados da casa rosada.
A Soap Street tinha o nome de rua mais idiota de Longview, mas foi palco do maior acontecimento da história da cidade. Ali começou a família Durden e sua ruína. De tijolo em tijolo, um palácio foi reduzindo seus donos a cinzas. Quando pequenos, e Tyler costumavam andar pelas ruas e quarteirões próximos de sua casa. A mansão dos Durden era o Palácio da Cerejeira, e recebia esse nome por ser uma casa de três andares rosada e com cerejeiras na entrada. O portão que separava a propriedade da calçada dava quase que uma impressão de fortaleza, como se o Palácio da Cerejeira fosse, na verdade, um castelo encantado, o tesouro perdido, e uma terra restrita.
Os grandes portões de ferro eram encontrados quase sempre fechados.
Frequentemente, Tyler e entravam no Palácio da Cerejeira.
Desde que James passou por dificuldades pela bebida e Jacqueline perdeu dinheiro investido, a mansão despedaçou-se aos poucos. Era como se cada Durden tirasse um pouco dela para si próprio.
Puro egoísmo, nada inesperado de um Durden.
E o que antes era um refúgio, agora era um lugar que repelia.
"Aqui é Wonderland. Venha, coelho branco."
"Eu sou o Peter Pan. Aqui é Neverland."
Aqui é um mausoléu.

Os Durden amaldiçoaram o Palácio da Cerejeira, ou o Palácio da Cerejeira amaldiçoou os Durden?
Visitar a mansão era ressuscitar fantasmas do passado, e rever lembranças de esperanças do futuro. Era um lugar morto e, acima de tudo, assombrado.
Enterre coisas, não desenterre lembranças de uma ilusão futurística.
Era como se o fantasma de Joe Durden estivesse guiando-os até a entrada da mansão.
"Cuidado com o degrau. E não olhem para trás."
"O caminho percorrido não possui luz. Estão olhando para suas próprias sombras. Olhem sempre adiante."
Soaria bonito, se não fosse dito pela voz rouca e acabada de Joe Durden.
— Eu sei que você não gosta daqui — falou Jackie, observando , que mirava fixamente o Palácio da Cerejeira, sonhadora — Estou vendendo a casa, porque eu mesma não gosto mais. Mas eu realmente preciso da sua ajuda.
— ‘Tá brincando? Eu amo esse lugar. Sempre amei.
— Quer entrar?
— Não — respondeu rápida — O portão de ferro está com o cadeado, não foi corrompido. Os portões não mostram sinais de desgaste, e subir por eles é impossível. É vertical, os apoios estão altos demais, e qualquer tipo de corda deixaria marcas nas estacas. Se alguma coisa acontece por aí... É com alguém que tem a chave.
Jacqueline não se moveu. disse tudo aquilo só olhando do carro.
— E... Os portões e a mansão Durden são vigiados. Nada lhe pareceu suspeito?
— Não gravamos nada, além... Além de pessoas que querem visitar a casa para comprá-la. Não parecia suspeito.
Ficou em silêncio por alguns segundos. Ela era uma Durden. Tudo era suspeito.
— Obrigada, . Você merece a melhor massa italiana que eu consigo fazer.
Deu a partida no carro e foi para sua casa.

e Jackie entraram no terreno da casa, e pararam o carro. Assim que saíram deste, Jacqueline trancou o portão com o cadeado. Precaução. Entraram na casa, e sentiu totalmente o clima de prisão que se instalara.
Todas as janelas, todas as portas, fechadas.
Tudo se fecha, a corda em volta de seu pescoço se aperta cada vez mais.
A casa de Jacqueline era aconchegante, com cores claras. Uma típica casa de casal recém-casado, toda mobiliada. E em perfeita ordem.
Espera. Nem quando eu morava com era tudo assim.
Perfeito.

— Jackie... Onde é o banheiro?
— Segundo andar, terceira porta à direita. Meu marido está fora há alguns dias, então pode usar nossa suíte. E ... — disse, já da cozinha — Deixe a janela fechada.
lembrava-se de que Jacqueline costumava ter transtorno obsessivo compulsivo com limpeza. Achou estranho que ela, mesmo bem mais velha, ainda sofresse disso.
Estranhou ainda mais o modo com que Jackie tinha dito aquilo. Era com um meio-sorriso, como se estivesse feliz, no entanto, tivesse que esconder essa felicidade.
Subiu pelas escadas e chegou até o quarto de Jacqueline. Abriu a porta lentamente, sentindo a maçaneta gelada. Não havia nenhum ruído a não ser de um relógio de parede.
Também há suspiros. Respirações. Gritos de socorro.
Entrou no quarto e lavou o rosto. A imagem de Tyler não saía de sua mente, a face de seu irmão, límpida, serena. A água foi contra sua pele e levantou a cabeça, olhando-se no espelho.
Não havia vestígio nenhum de outras pessoas na casa, além de Jacqueline. focalizou seus olhos e viu apenas uma toalha no banheiro.
Que marido é esse, que parece que não vive aqui? Não tem sapatos no quarto. Não tem toalha no banheiro. Não parece que vive aqui.
Não... Não vive.
Não há marido.

Olhou para o quarto, de novo. Rápida e tentando ser silenciosa, entrou ali. A água jorrava pela torneira da cozinha, e ela ouvia o assobio de Jacqueline.
O lugar parecia que iria implodir. A casa era uma grande cela, uma ratoeira.
Foi para o quarto e olhou para a cama. Procurou no chão, no armário, na mesa. Em um canto, estava o anel de Tyler escrito ‘Moon’. Então, olhou em volta, e falou baixo:
— Puta merda.

I encourage your smiles, I expect you won’t cry!




And let the spirit come on through ya, we got innocence for days!

Tic. Tac. Tic. Tac. O relógio era impiedoso com Tyler. Nunca fora muito amigo dele, e não seria agora que seria diferente.
Como foi que entrara naquela, mesmo? Ah, claro. Para variar, tinha sido burrice sua.
A maldita Durden fez o dever de casa.
Há cerca de um mês, ela vinha falado com ele, se encontrando, e eles conversavam sobre e Joe, inicialmente. Então, começaram a falar de Tyler e de Jacqueline. Então, de Tyler e Jacqueline.
No mesmo lugar. No mesmo momento. Fazendo a mesma coisa. Quase dividindo o mesmo corpo.
Sem compromisso. Só sexo.
E agora, pensando assim, ele se sentiu usado. Inocente e inconscientemente, tinha caído na teia da aranha, e atraíra sua irmã para lá também.
Jacqueline tinha avisado aquilo... Avisara que era por causa de ...
“Vocês dois mataram meus irmãos. E agora, vocês vão ver o que eles sofreram.”
“Vão sentir o que eles sentiram.”
Depois do incidente com James Durden, Tyler tinha ido para um pub onde costumava ir. Não chegou a beber quase nada, ou sequer assistiu o jogo que passava na televisão. Argh, como odiava basquete. Depois de certa hora, foi para o lado de fora do pub, e tirou um cigarro do bolso. Acendeu-o e tragou, olhando para cima. O crepúsculo se anunciava, e, com ele, aquele mesmo pensamento.
Será que é possível que...?
Não, não podia ser.
Mas e se for?
Uma mulher cruzou a esquina. Mesmo vendo-a de longe, Tyler reconheceu, e sorriu. Não era Jacqueline. Depois de alguns passos, ele viu um sorriso estranho em seus lábios.
Um sorriso que não costumava aparecer, não era dela.
Não era ela.
Queria ir até ela para saber o que estava acontecendo. E quando ela chegou perto demais, abraçou-o.
— Achei que fosse cedo demais para nos vermos.
Ela sorriu fraco. Rodeou-o, deixando-o contra a parede.
— Fiz o que pude para sair cedo.
Não era ela.
Rapidamente, a mulher espetou-o com uma seringa, no braço. Tyler sentiu seu corpo pesar, e sua visão ficar turva. Tentou manter-se firme e tirar a seringa de si. Obteve sucesso, mas não em sua fuga.
— Socorro! — ele tentou dizer, embora sua voz tenha saído baixa demais. Outra pessoa, um homem, pareceu tentar ajudá-lo. A única coisa que fez, entretanto, foi dar um soco no rosto de Tyler.
Quando o caiu no chão, sentiu o sangue escorrer por seu nariz.
— Que péssimo momento para nos vermos de novo, Tyler.
Ele incrivelmente não conseguiu reconhecer qual dos dois tinha falado aquilo, e mesmo assim, ele sabia que não fazia diferença. A frase encaixava perfeitamente nos dois.
— Putz, acho que arranquei um pedaço do nariz dele — observou o homem.
— Ele provavelmente não vai precisar do nariz daqui a algumas horas — comentou a mulher, com um pequeno sorriso no canto dos lábios — Não mais.
Fraco, Tyler alcançou o nariz e sentiu a pele cortada, e o sangue.
— Shhh — falou a moça, segurando a mão dele delicadamente, e repousando-a em cima de seu peito.
Bons sonhos, Tyler. Pois eu serei o pior dos seus pesadelos.
Agora, trancado em um porão, com sua última fagulha de esperança se apagando, ele sabia quem era ela. Quem realmente era ela.
Ela... Ela está aqui.
Era Ramona.

andou hesitante pelo quarto de Jacqueline, guardando o anel do irmão no bolso dos jeans. Saiu tentando manter-se firme e desceu as escadas de madeira da perfeita casa de bonecas que era.
Não mais. Agora era um campo minado, quase como andar sobre bombas.
? — chamou Jacqueline — Pode me ajudar?
comprimiu os lábios. Cada passo era meticulosamente medido, calculado e orado.
— Claro — respondeu , com um pequeno sorriso carismático.
Jackie estava apoiada na bancada, esquentando molho de tomate para fazer a tal massa.
— Demorou lá em cima — observou a Durden, com um meio sorriso, realmente parecendo achar graça.
— Estava retocando o lápis.
— Você estava com lápis?
— Viu? Estava tão mal colocado que você nem percebeu! — retrucou , rindo.
Jacqueline franziu o cenho com um sorrisinho.
Boa, . Ainda bem que você não vive de piadas, senão, ia passar fome.
— Aqui, mexa o molho até ferver. Enquanto isso, preparo o tempero. Cuidado aqui — apontou para o tempero em uma panela —, se respingar em você, pode te queimar.
segurou a colher de plástico e fez movimentos circulares com o molho vermelho. Suava frio, por mais que tentasse se manter firme, sem demonstrar qualquer tipo de medo. Teria que pensar rápido.
Jackie trancou o portão. Não poderia fugir.
Jackie trancou todas as janelas.
Jackie fechou todas as portas.
Era um cerco totalmente fechado. Uma casa de lobos.
— Então, Jackie... Você e seu marido... Casaram quando?
— Foi há dois meses. Passamos um tempo em lua de mel, e voltamos há algumas semanas. Fomos para Paris. , você teria amado Paris! É a sua cara. Bebida, guerras, artes. É incrível.
Paris. Julho. Verão. Torre Eiffel.
Pense, , pense.

— Provou a massa maravilhosa do restaurante da torre Eiffel? Tem uma vista maravilhosa lá do topo!
Jacqueline virou um pouco o rosto, ficando de perfil. Deu um pequeno sorriso, que praticamente dizia “você acha que sou idiota?”.
— Não passamos na hora do almoço pela torre Eiffel.
Mierde. Ela deve saber que o restaurante não fica no topo.
— Ah, sim — disse, desistindo, quase que com um suspiro de cansaço. Convenceu-se de que poderia estar simplesmente preocupada demais com seu irmão. Sim, era isso. Era excesso de preocupação.
Tyler.
Um último teste.

— Jackie, você andou vendo Tyler ultimamente?
Jacqueline virou o corpo e passou para o outro lado de . Tinha uma grande faca na mão esquerda.
— O Tyler? Eu o vi sim. Amiga, aquele corte no nariz dele está realmente feio! Já foi em um médico ver aquilo?
engoliu em seco.
— Ah, sim.
Jackie vacilou por um segundo. Parou de se concentrar na comida, no tempero que cortava milimetricamente com a faca, no chiado do que estava quase frito dentro de uma panela no forno. Segurava firmemente a faca na mão, com o polegar virado para a lâmina. Todo mundo sabe que essa não é a posição certa para se fazer um ataque — ou uma defesa — com faca.
É uma faca de cerâmica. Corta até a alma.
Para se atacar, deve-se segurar a faca com o polegar para fora. Como no filme Psicose.
deu as costas para Jacqueline, sabendo que aquilo poderia ser arriscado. Embora algum lugar dentro dela soubesse que Jackie nunca a atacaria com uma faca, não queria ficar muito tempo para ter certeza disso.
Precisava arrumar um jeito de sair dali. Alguma porta tinha que estar destrancada, alguma janela tinha que estar aberta. E alguém não tinha que estar observando do lado de fora.
— Ele se machucou jogando basquete. Deram uma cotovelada no rosto dele — ela se apressou para justificar-se.
sentiu a respiração travar. A gota de suor que escorria por sua testa podia ser ouvida caso caísse no chão.
Jacqueline não poderia ter matado Tyler. Se tivesse, a primeira coisa que teria feito seria mostrar o corpo, ou deixar óbvio que o matara. Tyler tinha sido apenas uma isca, um jeito de deixar vulnerável.
E ela conseguiu.
Sabia como defender-se. Mas, de alguma forma, teria que sair daquela casa. Daquela toca.
era o coelho, e Jackie se mostrara a raposa.
Sabia que havia alguém que andava observando-a, e, sinceramente, não queria descobrir quem era.
— Interessante — Jacqueline cortou o silêncio, com a voz relaxada e serena — Achei que Tyler não soubesse jogar basquete. Afinal, ele nunca gostou desse esporte.
Travou a respiração. Travou o olhar. Travou tudo por um segundo. Toda sua amizade com Jackie passou por sua mente como em um filme. Desde o começo, desde Joe e Justin.
Joe e Justin. Suas carnes agora apodreciam abaixo chão.
Com um movimento rápido, virou o corpo para trás. Jacqueline estava a alguns centímetros de seu rosto, com a faca apontada diretamente para o pescoço de . agilmente desviou, o que fez Jacqueline investir contra a mesa da cozinha. Bateu a parte da frente do quadril na mesa, deixando-a levemente perturbada. Achava que poderia acertar a de primeira, e quando não o fez, percebeu que teria de improvisar.
— Mas que porra você está fazendo?! — gritou , que tinha se apoiado na bancada, sem ter para onde fugir.
Jaqueline tinha soltado a faca, que escorregou para o centro da mesa. rapidamente procurou outra faca para se armar, porém, não encontrou nenhuma. Aquele cenário perfeito merecia esse adjetivo. Afinal, não parecia favorecer a detetive.
Ela percebeu, então, que não tinha como fugir. Não tinha como se salvar. Só podia adiar um pouco, quem sabe conseguir tempo para que a encontrassem. Conseguir tempo para Tyler.
Jackie jogou seu corpo contra o de assim que esta tinha voltado a olhar para ela. O que tinha levado a Durden à loucura? O que a fizera atacar daquela forma tão brutal?
Apertou o pescoço de com a mão esquerda, e enquanto esta tentava se defender, empurrou o corpo dela para o lado. Os joelhos da detetive cederam, e ela caiu de lado, batendo o quadril e a cabeça no chão. Jacqueline circundou o quadril da ‘amiga’, não a deixando se mover muito, e com a faca na mão direita. As mãos de sua vítima seguravam seu antebraço direito, tentando ao máximo manter a faca longe de si.
— Jackie! — gritou a detetive, desesperada.
A Durden tinha o pior tipo de loucura em seus olhos verdes. Era uma loucura vazia. Puramente loucura, como se estivesse sendo possuída.
E estava. Por Joe Durden.
— Não finja que eu sou a porra da sua amiga! — gritou Jacqueline, com a voz arranhando a garganta, e a faca tremendo em sua mão, como se tentasse retomar o controle sobre si — Não finja que um dia já confiou em mim! Que um dia eu realmente fui a única Durden para você!
— Jack... — a voz de se perdia, ficava presa na garganta que Jackie pressionava.
— Você matou meus irmãos! Você matou meus dois irmãos!
Havia três sons na cozinha. Um deles eram os barulhos indecifráveis que saíam desesperados pelos lábios de . O segundo era Jacqueline fungando, parecendo em dúvida do que faria.
O terceiro era o som da esperança sussurrando no coração de , disfarçada em temperos que fritavam em uma panela no fogão.
— Eu... Eu não matei ninguém... — choramingou , tentando tirar a mão de Jackie de seu pescoço.
Aquele era seu momento de ser a heroína. De voltar a ser a Serpente Vigilante. E não podia desperdiçar aquilo.
— Não, não matou. Joe já estava morto há muito tempo, eu sei — ela riu histericamente, enquanto calculou a distância entre elas e a panela — Mas Tyler tirou de mim meu maior anjo...
Fez uma pausa dramática, elevando o canto do lábio e erguendo mais a faca.
— Agora vou livrar de Longview seu maior demônio.
— Justin se matou e você sabe disso! — gritou , dando uma surra no rosto de Jacqueline. Se Tyler estivesse realmente ferido, agora a Durden também estava, e provavelmente com o nariz quebrado.
Nunca fale mal de um , ainda mais quando você sabe do que eles são capazes.
Ou, melhor dizendo, não sabe.

— Seu monstro! — retrucou Jacqueline, protegendo o nariz ensanguentado. Tinha soltado a faca, que agora tinha escorregado pelo chão e ido parar longe.
— Você ainda não viu nada — sussurrou , levantando rapidamente.
Quando Jackie se virou, não viu nada além de um borrão, e não sentiu nada além de fogo. Muito fogo. E sua pele em carne viva, em chamas, e em seguida, morta.
Sua pele, não a própria Jacqueline.
Sentia o inferno de materializar em sua pele, o inferno que tinha criado para . O inferno que matava cada uma de suas células do rosto, que consumia cada vestígio de sanidade.
Quais são as coisas que te prendem à sanidade?
— Você é uma mulher morta, ! — foi o último berro que Jacqueline deu e ecoou pela casa.
largou a panela no chão e correu pela cozinha até chegar ao corredor. Não havia janela alguma aberta, porta alguma destrancada. Aquilo era uma gaiola.
— Socorro! — ela gritou, olhando para o lado de fora da janela e batendo no vidro.
Correu até a escada e subia dois degraus de cada vez, querendo encontrar uma única brecha. Percorreu todo corredor, chegando ao escritório de Jackie. Imediatamente jogou o corpo contra a janela e tentou empurrá-la, forçá-la para frente.
— Vai, anda, abre logo, merda! — dizia desesperada, com pausas.
O palavrão pareceu ter sido a palavra mágica — como sempre era — para que desse certo. A janela abriu-se com um estrondo. Um sorriso esperançoso e pequeno desenhou-se nos lábios de .
Ela olhou para trás, procurando Jacqueline. Não a encontrou, e a chama de esperança pareceu mais acesa dentro de si, quando colocou o pé para fora da janela e apoiou-o no parapeito. Quando colocou o outro e segurou a janela para calcular o salto, sentiu seu corpo ser jogado a uma queda livre, diretamente para o gramado de Jacqueline. Seu rosto bateria na terra. A morte não seria nada comparada à dor do impacto.
O som de vidro se quebrando foi ouvido, vindo da garagem.
Seu corpo foi empurrado para a queda, mas que isso se concretizasse, já tinha apagado.

sabia que não estava tudo bem. Ela sentia, de alguma forma, que havia algo errado.
não estava bem.
Tinha ligado para e ninguém atendeu. Ela sabia que nunca ficava longe de seu celular, e ainda mais, que nunca recusaria uma ligação de . Mesmo que não merecesse, aquilo era para o bem de .
Não podia dizer o que estava havendo, pois se sua teoria estivesse correta, qualquer segundo próxima a era totalmente arriscado.
Pelo que ela vinha percebendo, teria que manter o mais longe possível de . E não poderia fazer isso facilmente.
estava perdidamente apaixonado por . De um modo quase que curioso, ele queria se manter perto dela e poder observá-la. Queria mantê-la por perto.
Era fascinado por ela, e se aquilo estivesse acontecendo mesmo, sentia pena do jornalista.
Pegou o telefone mais uma vez e, por um instante, vacilou. Sentou-se em uma poltrona da casa de sua irmã e encarou os números na tela.
Selecionou para discar e logo uma voz masculina atendeu... Era hora do crepúsculo.
— Alô?
— Hey, a está por perto? Aqui é a .
— Srta. ! — disse a voz do outro lado, mais amigável, mesmo que eles nunca tivessem sido propriamente amigos — Como está? Não deu notícias.
— Passei alguns dias fora... Só isso. está?
— Não, ela já saiu daqui da delegacia... Já tentou a casa do ? Se bem que não sei se estará lá para atender.
— Ué? não vai poder atender?
Seu coração ficou do tamanho de uma uva passa, assim como seu estômago.
está detido há dois dias por invasão de domicílio.
Se já não estivesse sentada, com certeza estaria caindo naquele exato momento.
, está tudo bem? — ele perguntou.
— Mais ou menos, . Tente saber onde está ... Vou tentar procurá-la. Até logo.
— Até...
E ambos desligaram. era capaz de ouvir fungar, depois daquele escuro dia de julho. A cela se fechava atrás da jovem , trancafiando seus sonhos em uma ampola e guardando-os em uma prateleira.
Está acontecendo como tinha dito...
Apenas esperando o dia em que a ampola seria aberta, enfim, ou que a ampola se quebraria para sempre.

? — perguntou , entrando de surpresa na sala da química quando ela estava prestes a sair desta.
! — ela retrucou, com um susto — Meu Deus. O que houve? Quem morreu?
— Alguma notícia do Tyler?
— Do ? Não.
— E da irmã dele?
franziu o cenho.
— Da ? Ela saiu mais cedo. Estava com dor de cabeça, para variar.
— E ela saiu sozinha?
fez uma careta pensativa, olhando para cima.
— Não tenho muita certeza. Era um carro... Ãhn... Acho que um Chrasley 200. Não é esse o do noivo dela?
— Não. É um Porsche.
recuou com a cabeça. Ergueu a sobrancelha direita.
— Então, quem estava naquele carro?
— Estava me perguntando isso agora.
— E a sumiu? — Eu não disse isso. acabou de me ligar, e me perguntou se sei onde está. Bem, nem eu, nem ela, nem você sabemos.
— Mas , para ser sequestro ou desaparecimento, tem que ter mais de vinte e quatro horas de sumiço.
— Tenho medo do que possam fazer com ela em vinte e quatro horas.
engoliu em seco.
— O que você pretende fazer?
— Vou usar do meu poder para descobrir onde ela está.
— E como vai fazer isso?
— Primeiro, vamos falar com o novato. Ele vai ser importante. Você vai me acompanhar, ?
— Claro, se formos atrás da e do Tyler.
suspirou.
— Não faremos nada que não tenha feito. E ela está inteirinha.
— Está sumida.
— Acontece.

Não há vozes. Não há ar. Não há luz.
Vazio. Vazio como eu.

chegava ao quarto em câmera lenta. Sua memória fotográfica o ajudava bastante, e em cada ângulo, era como se imagens novas se projetassem.
Só porque você não pode ver assombrações, não significa que elas não sejam reais.
A maior conquista delas foi convencê-lo disso.

Um som doce, baixo, ecoava pela casa naquele momento. Não tinha prestado atenção no momento, afinal, a última coisa que queria saber naquela hora era qual era a trilha sonora de seu filme de terror.
Querem me levar para algum lugar...
Eu sei quem é ‘uma’.

Uma mão puxou-o pelas costas, repetindo o que acontecera antes. Não era claro o suficiente.
Abriu os olhos quando o som do ferro se abrindo irritou seus ouvidos.
— Novato — chamou .
— Presente — respondeu , com a voz baixa.
— Faça as malas.
arrumou os cabelos bagunçados, sem sucesso, e apertou os olhos.
— Fiz — retrucou, pegando o giz na parede e colocando no bolso. Todos olharam para as paredes, e viram riscos e desenhos, nenhum com continuidade. Esboços, traços fortes e bruscos.
— O que é isso? — perguntou .
— Tentei lembrar algo sobre quando fui à Singer Street. Tem alguma coisa me atrapalhando.
fala exatamente assim — observou .
Diante do comentário, sorriu radiante.
— Vamos tentar achar a — anunciou , abrindo a porta da cela para que saísse — Achei que você talvez soubesse onde ela pode estar.
— Não leio mentes.
— Óbvio que não — retrucou , fazendo sinal para que se levantasse — Quando vocês se falaram, ela ainda estava entre nós. Ela não deu pista alguma de onde queria ir?
— Se ela está lá até agora, e sem dar sinal de vida, querer ir ela não queria.
está enlouquecendo — disse , sentando no chão, parecendo finalmente dizer algo que queria muito — Me falou da tal da Ramona, do Tyler ter sumido... Parece uma maluca.
e se entreolharam com as sobrancelhas levemente erguidas.
— Ramona? — perguntou o primeiro.
— É — prosseguiu a química — Ela falou dela uma vez. Disse que ela pôs fogo em sua casa, foi tudo que disse. Marla ouviu a descrição da e procurou pela Ramona, e não achou nada suspeito... Nenhum registro criminoso.
— Ramona... — interrompeu — Alguém já falou dela para você, novato?
— Não me lembro da ter comentado qualquer coisa. — mentiu Leo.
— Nunca vi essa mulher que ela descreve. Nunca se manifestou comigo nem nada — finalizou .
As mensagens. Era Ramona que me mandava àquelas mensagens.
— Talvez a gente consiga achar a — disse .
— Pode nos ajudar?
— Claro. Mas não à distância.
ergueu a sobrancelha direita, enquanto levantava o canto esquerdo dos lábios.
— Quer sair daqui?
— Bem, é o que eu mais gostaria. Aqui não é exatamente um hotel cinco estrelas. Se pegarem meu celular, podem ver as mensagens que recebi de .
— Já rastreamos de onde elas vieram. já estava sem celular, pode ter sido qualquer um.
— Me deem o celular, que eu mostro as mensagens antigas.
pediu a um guarda que levasse o celular a . Assim que o recebeu, um alerta brilhou na tela, avisando a chegada de uma nova mensagem de texto:

“Quem lhe ergue, quem é sua fonte de forças... Vai te reduzir a cinzas.”

— Quem mandou isso? — perguntou , se inclinando para ler melhor.
— Ramona! Só pode ter sido essa Ramona. Ela me manda mensagens desde o dia do incêndio.
— Mas a Marla disse...
— Você acredita na ou na Marla? — retrucou , o que fez se impressionar e calar a boca.
— E no dia que você foi à casa da ... Você tem alguma pista?
— Estou te falando, cara. Tinha uma música tocando, e não consigo me lembrar de nenhum detalhe.
— Música? Que música?
coçou a parte de trás da cabeça e pareceu se concentrar.
— Era uma antiga, de filme... Dancing in the rain, acho.
Singing — corrigiu Singing in the rain. — Ou isso. Parecia que tocava em uma caixinha de músicas ou algo assim, bem baixinho. Todos começaram a ponderar a tal música. Mesmo que ela não fosse importante, o fato de ter algo tocando já era uma pista.
I'm singing in the rain... Just singing in the rain... — cantarolou .
What a glorious feeling... — continuou .
Todos olharam para o oficial .
I'm happy again! — ele finalmente disse, levantando as mãos na altura do rosto, fazendo e rirem.
Singing in the rain? Isso não me é estranho.
Não foi só em Cantando na Chuva que essa música tocou...

I walk down the lane... With a happy refrain... pulou para o final.
Claro que não.
Just singing... Singing... — cantarolou .
Em Laranja Mecânica, o personagem canta isso antes de estuprar uma mulher.
In the rain! — finalizou , ficando de pé e com um sorriso no rosto — Era um Durden. Era um Durden que estava com no carro.
— Um Durden? Por que pulou para essa teoria?
— Joe usou essa fantasia um dia. me contou. Se Laranja Mecânica a remete algo, esse algo é Joe Durden.
— Então, se foi um Durden... Foi Jacqueline Durden — continuou — Porque nunca entraria no carro de James.
— Ela e a Jacqueline ainda são amigas? — perguntou .
— Se estivermos certos, não mais — respondeu .
— Sua ajuda foi valiosa, novato — disse , saindo da cela — Agradeço em nome de .
— Whoa, espera aí. Eu vou junto.
— Quem disse?
— Eu, o que descobriu onde pode estar.
comprimiu os lábios e, desistindo, deixou passar.
— É bom estar bem, porque isso não é nem um pouco confortável — o oficial murmurou.
Incomodado, e com algum tipo de coceira incômoda no subconsciente, também murmurou:
— Mata chamar a garota de ?
Talvez, em um lugar bem estranho e deserto dentro dele, a coceira podia ser apelidada de "ciúmes". Mas, para ele, o nome verdadeiro dela era "orgulho masculino".
Tinha feito uma leve careta ao fazer aquela pergunta, que chegou a ser engraçada, coisa que passou despercebida por . Mas percebeu.
Isso tem que parar.

pôs seu casaco de couro e a pistola na parte de trás do jeans, conferindo se estava com carga. tinha dado-a, para caso ele precisasse se defender.
Entrou em seu carro, escorregando para o banco do motorista. e vinham andando da delegacia, um ao lado do outro.
Nesse momento, aproveitou para observar os dois. devia corresponder todas as expectativas de um homem perfeito. Musculoso, bonito, com feições de estátuas gregas. Seu sorriso faria qualquer mulher se ajoelhar aos seus pés. Não era exatamente isso que acontecia?
Quem era para competir contra um homem como ? Ele era um oficial, era inteligente, tinha dinheiro e, sem sombras de dúvidas, devia provocar gemidos incríveis em qualquer mulher.
fazia o que podia. Agradara cada mulher que tinha levado para cama. Ele as valorizava. Pelo jeito, cada mulher que piscava o olho para , era mais uma que deixaria uma calcinha pendurada no chuveiro.
parecia ser uma dessas mulheres. deixava bem claro que não gostava dela. era a típica mulher que se finge de santa, mas, na verdade, é a pior das vagabundas.
Tudo que queria era que percebesse aquilo.
— Ei, novato — disse , batendo no vidro — Eu dirijo.
— Wow, cara, o carro é meu — lembrou , como se o oficial não tivesse consciência disso.
— Eu não pedi, eu mandei.
— ‘Eu não pedi, eu mandei’ — imitou o jornalista, com a voz como de um débil mental. deu uma risadinha, enquanto saía do carro e dava a volta, para sentar no banco do carona.
— Achei que isso fosse algo sério, — reclamou , com a voz firme e dando a partida no carro.
— Achei que viveria como um John Watson trabalhando em uma delegacia na parte de homicídios. E que meu superior fosse que nem o Sherlock Holmes. A gente acha muita coisa, oficial.
— Ouch — sussurrou , provocando os dois.
riu ao ver o rosto irritado de . Nada mais agradável do que irritar quem te irrita.
— Ir para o Palácio da Cerejeira é óbvio demais — disse , cruzando os braços e chegando o corpo para trás, parecendo se achar a única a pensar daquela forma — não está lá, muito menos Tyler. Mas se há algum Durden envolvido, essa linha de pensamento não parece nos levar para um beco sem saída.
te conta tanto — disse , olhando para frente, para a rua — Ela não te deu nenhuma outra pista?
Ignorou totalmente o comentário de seu oficial e começou a pensar.
era bem próxima dos Durden. Claramente, não de James. Quem sobrou?
tentou se lembrar da matéria que leu. Não conhecia bem a família Durden.
— Justin, falecido... Jacqueline... E, claro, Joe.
— A não ser que ela veja gente morta, acho que é essa Jacqueline.
— Jacqueline é amiga de — lembrou — Ou, pelo menos, era. E, mesmo assim, não sabemos onde ela pode estar.
— Ela comprou uma casa nova. Um amigo meu é o novo vizinho dela. Me disse que ela mal sai de casa.
— Vamos para lá. Se encontrarmos um Chrasley 200, estamos na pista certa.
andou com o carro rua acima, até finalmente chegar à esquina de Jacqueline. Viram o carro estacionado na garagem e não tiveram dúvidas de que Jacqueline tinha algo a ver com o que tinha acontecido.
— Como vamos entrar na casa sem sermos percebidos? — perguntou .
Ela e olharam imediatamente para .
— Uma vez para nunca mais — ele avisou — Ou, pelo menos, não até termos certeza que está lá.
— Quer uma certeza melhor do que o Chrasley estacionado na casa dela?! — perguntou .
— Não significa que ela esteja lá — comentou , fazendo uma pausa e com o cenho franzido, pensativo.
Por mais idiota que aquela ideia fosse, tinha total certeza de que daria certo.
— Tenho um plano. Fiquem longe da linha de visão da casa.
— O que vai fazer, novato? Da última vez que teve uma ideia brilhante, acabou preso — lembrou .
— É, mas da última vez que tive uma ideia brilhante, te ajudei a descobrir onde estava — disse, saindo do carro e acrescentando com a voz baixa — Seu mal agradecido.
Bateu a porta e tirou a pistola do bolso, da parte de trás. Conferiu o relógio. Se tivesse ido para a casa de Jacqueline, levando em conta a hora que disse que ela tinha ido embora, era bem capaz que ainda estivesse lá. Se a Durden a tivesse matado, não teria tido tempo de se livrar do corpo tão rápido.
Não queria pensar daquela forma, mesmo que fosse obrigado.
As luzes estavam acesas, e havia uma sombra na janela. Era de uma mulher que nunca tinha visto na vida.
Ouviu um grito de horror vindo do interior das quatro paredes de madeira.
Jacqueline Durden. Mais uma Durden.
Era mais um início de noite na cidade de Longview, normal como qualquer outro. Não para os conhecidos de . Não, não mesmo.
Porque enquanto alguns queriam salvá-la, outros queriam vê-la desmoronar.
esticou o braço segurando a pistola, coisa que deixou e em pânico. Os dois foram capazes de sentir o sangue em seus lábios rasgados, de tão forte que tinham mordido-os. O tiro a seguir não ecoou pela rua. O silenciador fez seu trabalho, e o único som ouvido foi do vidro da lanterna do carro se espatifando. Pequenas peças de lanterna traseira caíram no chão.
— Filhos da puta! — gritou , xingando a própria brisa.
A porta da casa não tardou a se abrir. Ele apressou-se a guardar a pistola atrás do jeans novamente.
Quem estava na porta era uma mulher com uma toalha no rosto, parecendo sentir muita dor.
— O que houve aqui? — ela tentou dizer, bem baixo.
— Alguns pivetes passaram por aqui, Sra. Durden. Eles jogaram pedras e quebraram sua lanterna traseira.
— Quem você é?
— Sou o policial Steve Rogers.
Wow, eu sou o Capitão América.
— Vou atrás desses moleques. Não se preocupe, Sra. Durden, vamos cuidar do seguro do seu carro.
Por um momento, Jacqueline pareceu hesitar. Ela podia blefar, e dizer que não era a Sra. Durden. E pior que realmente não teria como confirmar, afinal, não pôde manter ou próximos. Se tivesse mantido, eles poderiam reconhecê-la.
E vice-versa, o que não podia acontecer em hipótese alguma.
— Você chegou rápido demais para um barulho que acabou de soar.
— Eu estava nas redondezas.
— Nunca ouvi falar do senhor aqui em Longview.
— Então, somos dois.
— Mas sabe que sou uma Durden.
Obrigada pela confirmação, Jacqueline. Agora, já posso ir embora.
— Quem não reconhece um Durden em Longview?
Eu.
Jacqueline tirou a toalha do rosto. Não tinha mais rosto.
— Ninguém mais vai reconhecer.
— Cristo! — exclamou — Desculpe, não quis... Quer que eu chame uma ambulância?
— Já chamei, vai chegar em qualquer instante.
— Dói?
— Já tive dores piores. Caia fora, seu intrometido.
— Já ‘tô caindo, já ‘tô caindo! — se apressou, fingindo querer sair logo de perto da presença perturbadora de Jacqueline Durden.
Entretanto, quando andava de volta para o carro de , e ouvia a porta da casa batendo, ele sorria.
— Agora, colegas, é só esperar — ele anunciou, entrando no carro, no banco do carona.
deitou-se no banco de trás. Acariciava as próprias pernas, e brincava com os cabelos, como uma criança. Provocativa. parecia imerso em pensamentos, preocupado, de certo modo.
Previa o que poderia acontecer.
Uma hora depois, a porta da casa se abriu, já na escuridão. Não puderam ver nada, além de três pessoas entrando no carro de Jacqueline. Não viram quem era, não tiveram nem oportunidade de saber o sexo dos três indivíduos.
— Por que fez aquilo, novato? — perguntou , com cansaço na voz.
— Porque agora vai ser fácil seguir um carro com só uma lanterna traseira acesa por Longview.
não resistiu a um pequeno sorriso torto ao dar a partida no Audi e começar a seguir o Chrasley 200.
Até o inferno, se fosse preciso.

Tell me I'm a bad man, kick me like a stray. Tell me I'm an angel, take this to my grave…




I can't believe the news today… I can't close my eyes, make them go away…

Não há terapia no mundo, não há válvula de escape criada que supere o prazer de dar uma bela surra em quem você odeia. Nada se compara, em todo o universo, à majestosa ultraviolência.
Ou, pelo menos, esse era um conceito muito respeitado pela família Durden.
James não podia estar mais radiante. Tyler merecia aquilo, não merecia? Era olho por olho, dente por dente. Dois s deram cabo de dois Durdens, e agora, pelo menos Tyler eles tinham que dar cabo.
Ainda se lembrava daquela noite, tão fria, tão silenciosa, que teve sua tranquilidade partida pelo grito de horror, o último grito de Justin Durden.
Um grito? Era essa a última coisa que tinha vindo do corpo com vida de Justin? A última lembrança de Justin, um homem tão correto, tão doce, gentil, era seu grito agoniado por piedade?
— Jackie? — perguntou a voz fraca de Tyler , do canto do porão.
— Não sei qual de nós seria pior para você, . Você, realmente, está na merda.
Podia ouvir o som das lágrimas de Tyler rolando por seu rosto. O ambiente em que estavam era escuro e hostil, era sujo e estranho. Como entrar em um túnel do tempo. Ali dentro, não era novembro. Era outra época, era... Era quando Justin Durden foi morto.
— O que quer comigo, Durden? — perguntou Tyler, girando o corpo e sentando no chão — Já não me deu muita surra por esses dias?
— Surra? Cara, eu podia ter quebrado sua coluna, se quisesse — falou James, rindo — Mas diga aí, como você se sente, ?
Tyler não tinha reação. Não conseguia nem se mexer direito, que dirá pensar em algo para responder. Sua mente vagava em confusão. Vultos se espalhavam pelo quarto já escuro, em uma cena macabra. “Você está bem? Precisa de ajuda?” era o que dizia um deles, o mais doce.
Por que eu não te ajudei, Justin? Por que eu não te salvei? Por que você não pode ir embora?
Porque, meu caro Tyler, fantasmas sempre ficam para assombrar quem os criou. Você fez do anjo, um monstro. Você cortou as asas de quem já sabia voar, e agora, tem que arcar com essas consequências.
Eu devia saber. Eu devia ter aprendido mais cedo que não se vive para sempre. Que eu sou mortal, assim como você era, Justin.
Você sempre nos protegeu.

— Como você se sente? — perguntou novamente, gritando dessa vez.
A resposta de Tyler veio com o som baixo de seu nariz fungando. James deu uma risada baixa. Ouviu-se o som de um isqueiro sendo riscado, viu-se uma pequena chama ser erguida e, segundos depois, sumir.
— Responde a merda da pergunta, seu verme — murmurou James, dando um chute certeiro na barriga de Tyler. O contraiu-se, quase em posição fetal.
— Fraco — respondeu, baixo — Me sinto quebrado.
James tateou o ar até encontrar a mão de Tyler.
Me salve, Justin. Ainda há tempo? Ainda posso me arrepender? Ainda sou...
Humano?

— Você sabe por que fiz isso? Por que você está aqui? Você e sua irmã?
— Vocês trouxeram também?
— Não íamos querer que ela perdesse esse espetáculo. Sabe, , ela poderia ter se salvado. Você também. Você sabe por que está aqui.
A mão de Tyler tinha as costas viradas para cima. James massageava-a enquanto tragava seu cigarro.
— Eu sei. Assim como .
— E por que não trouxemos só você, Tyler? Afinal, o caso dela não foi totalmente solucionado. Talvez ela não tenha matado o Joe.
— Vocês trouxeram ... — murmurou Tyler, engolindo em seco — Porque se não trouxessem, não teriam que me trazer também.
Tyler usou a outra mão para dar um soco no nariz de James e tentou se re-erguer com velocidade.
— Nenhum de nós matou um Durden — declarou, tentando alcançar a porta.
Tinha alguém do outro lado. Uma moça.
James rapidamente deu um chute em seu calcanhar e o fez cair.
— Diga, . O que foi que ele disse? — perguntou James. Forçou a cabeça dele contra o chão, fazendo seu rosto ferido ir com força contra o carpete. Pegou as mãos de Tyler e virou-as contra as costas dele, deixando-o sem qualquer chance de se levantar.
— Ele? Disse o quê? Quando? — perguntou Tyler, sem nem parar para respirar. Tudo que mais queria era sair dali. Suas pernas fraquejavam, seu nariz novamente, e outras partes de seu corpo doíam tanto que ele nunca conseguiria se imaginar em situação semelhante algum dia.
— Justin — disse James entre dentes, com o cigarro pendurando entre os lábios — O que foi que Justin disse, seu bastardo? O que foi que ele disse?!
Dessa vez, torceu mais os braços de Tyler nas costas dele.
— Pare, por favor! Eu não aguento mais, James! Eu sinto muito!
James aliviou um pouco as mãos de Tyler. Este falou, mais baixo, com a voz fraca e pedindo por piedade:
— Eu não posso trazer seu irmão de volta, mas posso tentar trazer você e Jackie. Vocês não são assim.
— Não finja que me conhece, .
— Você não é assim, James. Joe era assim.
Um único ponto do corpo de Tyler pareceu concentrar todos seus nervos, de uma única vez. Quando sentiu a ponta do cigarro em sua nuca, nada mais pareceu existir. Era como se aquela situação extraordinária realmente se fosse, e nada daquilo fosse real. Era tudo um sonho.
Eu me recordo do final, eu o odeio. Mas tudo começou tão bem... Sempre começa.
— O que foi que Justin disse, ?! Quando você o matou! — gritava James. Se a dor da ponta do cigarro não fosse tão absurda, Tyler poderia sentir as lágrimas do Durden pingarem em suas costas nuas.
Era isso. Nunca tinha se sentido assim. Totalmente nu. Vulnerável.
Hey, Justin. Eu sei que você provavelmente não vai me ouvir. Mas, por favor, me salve. Eu preciso de você.
— Ele pediu para eu fugir — sussurrou Tyler.
— Mais alto! — gritou James — Eu quero que esse hotel todo ouça! Eu quero que o fantasma de Joe Durden ouça! Eu quero que você mesmo se ouça, , que os demônios e monstros que vagam por aqui ouçam!
— Ele pediu para eu fugir!
James levantou-se rapidamente. O cigarro, que agora jazia no chão, sozinho, pareceu não ser apenas um elemento da cena. Tudo era perturbador.
Quem sou eu? Em que eu me tornei?
— Ele pediu para que eu fugisse, para eu não me ferir. Até o final, James. Até o final, Justin foi quem ele sempre foi. Ele morreu sendo o mesmo Justin Durden. E você? Quem vai ser?
Que Durden eu vou ser quando tiver que bater no portão do paraíso, ou no portão do inferno?
Será que Justin se lembrará de mim, será que ele se recordará do meu nome, e me ajudará a ficar de pé, se eu o vir no paraíso?
Atrás dos portões, haverá paz finalmente, e nos livrará para sempre das lágrimas no paraíso?

James levantou rapidamente. Passou a mão pelos cabelos e suspirou. Olhou para a televisão do porão e foi até ela, ligando-a e o aparelho de DVD embaixo dela.
— O céu está farto de pessoas com boas intenções, Tyler... — disse James, colocando o canal certo — E mesmo se não estivesse, todas as almas iriam para o inferno.
Tyler levantou a cabeça para olhar quem estava do outro lado da porta do porão. Não conseguiu ver nada. James o levantou de novo, pelo braço, e o sentou em uma cadeira de madeira. Sua cabeça foi posicionada entre dois apoios também de madeira, de jeito que ele não poderia movê-la para os lados. As mãos foram amarradas nos apoios, assim como seus pés nos pés da cadeira.
— O que vai fazer comigo? Estou achando que você está ficando sem opções.
— Agora é a cartada final, Tyler. Meu ás.
James levantou a cabeça do e pingou uma gota de alguma coisa em cada olho dele. O DVD foi ligado e começou a passar o filme que estava programado. Era um quarto escuro, onde não se via nada além de dois vultos em cima de uma cama.
‘Não... Não’ disse um deles.
— O quê...? — perguntou Tyler, por um momento. James tinha colocado-o para ver um filme pornô? Uma cena de sexo?
Não era sexo.
Os gritos de horror de Tyler superavam qualquer um dos gritos dados anteriormente. Esse, sim, era o pior jeito de torturar uma pessoa.
— James, seu monstro! Eu vou matar você! Eu vou matar você por ter feito isso!
— Não fui eu, Tyler. Não sou eu nesse vídeo.
Tyler não podia fechar os olhos para evitar aquelas imagens; o que quer que James tivesse pingado neles, fazia-os arder quando fechados. Ele teria que ficar ali, vendo aquela cena de novo.
E de novo.
E de novo.
E de novo.
Não querem mesmo fazer eu me esquecer disso. A família Durden tem hotéis, mas parece viver como de museus.
Gritos de Tyler.
James abriu a porta do porão e viu, parada no fim das escadas, no meio da recepção, uma mulher. Fechou a porta e subiu as escadas ao seu encontro.
Tyler ficou sozinho no sótão. Ele e aquela cena de estupro.

Dizem que, em sua vida, existirão sempre dez pessoas que você nunca vai esquecer. Serão essas as pessoas mais especiais, as que você vai sorrir quando ver, que vai lembrar a cada conquista. As pessoas que você não vai querer nunca deixar ir embora, que você quer fazer se sentir em casa, que você quer levantar no colo cada vez que conseguem algo.
De vez em quando, as tais pessoas nunca sabem que são isso tudo para sua vida. De vez em quando, é recíproco. No caso de Jacqueline Durden, as dez pessoas podiam ser resumidas em uma pessoa só: Justin Durden.
Foi pensando nisso que ela estacionou seu carro em um dos maiores legados da família Durden. Era lá, naquele santuário, que tudo deveria acontecer. tinha sido esperta o suficiente para não sair do carro e investigar o Palácio da Cerejeira mais cedo, onde teria uma emboscada. Mas, agora, não teria sorte alguma. Ela e Tyler teriam seu merecido castigo. Sabia que Justin não ia querer que ela fizesse aquilo, mas quem se importava? Ele estava morto. Justin e Joe Durden estavam mortos.
Justin apanhara até morrer, e Joe tinha entrado em chamas.
James tinha se perdido, e Jacqueline também. E não se arrependia daquilo.
A placa e as correntes lacravam a porta, indicando que não era permitida a entrada. Que grande mentira era aquilo... Toda uma estrutura, inquebrável, que permanecia forte. Por dentro, era frágil. Era sensível.
Era o lugar perfeito, o Hotel Tate. Era território Durden, onde s não teriam chance alguma.
Havia fantasmas naquele lugar. Havia aura ruim, naquelas paredes.
O carro invadiu o estacionamento do hotel. Jacqueline esticou a mão para fora da janela e colocou a chave em um espaço, que imediatamente abriu a cancela. Apenas Durdens tinham aquela chave.
O Chrasley 200 foi estacionado. Não havia nenhuma luz acesa, a não ser a do escritório. Do estacionamento, era possível ver grande parte do térreo do Hotel. Longview era conhecida por ser uma cidade quente, por isso, o Hotel Tate era quase como um resort: SPA, piscina, quadras de esportes... Um verdadeiro paraíso.
Até fazerem churrasquinho de Joe Durden.
— Mas já? — perguntou Jackie para si mesma, irônica, olhando para cima, para o céu escuro.
Não ouvia nada além de gritos de Tyler em algum lugar abaixo do chão. Do inferno, talvez. O hotel não funcionava fazia alguns meses, desde que Joe morreu. Era um desperdício deixar um lugar daqueles sem qualquer pessoa para poder aproveitá-lo.
Deixou a porta do motorista do carro aberta, e tudo destravado. Saiu e foi até um dos prédios do lugar.
Para o quarto 1996. Era lá que tudo deveria acontecer.
Saiu do carro.
— Hey — falou uma voz feminina atrás dela, que a fez dar um pequeno pulo de susto.
— Ramona — Jackie disse, virando-se para a tal mulher — Eu... Preciso resolver algumas coisas.
— Que tipo de coisas?
Jacqueline fez com a mão um sinal para que Ramona a seguisse até a recepção. Em cima do balcão, James tinha deixado uma garrafa de vinho e três taças limpas. Para os três vitoriosos.
— Vou para o quarto onde Joe tinha ficado — respondeu Jackie — E você, me espere. Devo demorar dez minutos para conferir tudo e ver se não tem ninguém nos observando.
— Posso me servir? Servir James?
Jackie franziu o cenho. Estava inquieta.
— Pode, pode sim. Aqui, pronto — disse Jacqueline, já abrindo a garrafa e derramando o líquido em duas das taças. Pegou cada uma com uma mão e quase as soltou nas mãos de Ramona, que, por sua vez, ergueu as sobrancelhas para demonstrar sua surpresa — James está no terceiro prédio, no porão.
Jacqueline saiu apressada em seguida. Demoraria cerca de dez minutos ou mais para conferir tudo. Enquanto isso, James torturava Tyler no porão do terceiro prédio.
Ramona foi até o terceiro prédio e abriu a porta com um chute leve, já que esta estava encostada. Deixou as taças no balcão e abriu a maçaneta da porta que levava ao porão, olhando a porta entreaberta no fim das escadas que desciam.
Era um calabouço. Tyler estava do outro lado.
Tyler a viu.
Aquela noite seria da caça, e não do caçador.

Quando saiu do porão ao terminar o que tinha que fazer, James subiu as escadas e viu Ramona o esperando na sala de recepção do prédio com duas taças de vinho nas mãos.
— Um brinde — disse James, pegando a taça que Ramona o estendera — À essa história de terror. Para os homens bons, maus, para os monstros que eu já fui.
— E apesar disso tudo — completou Ramona, fazendo uma pausa para tomar seu gole — Um brinde à vitória.
De início, qualquer pessoa que odiasse não confiaria em Ramona.
A diferença era que Ramona era explosiva. Contra .
— Foi brilhante, Ramona. Incrivelmente brilhante a ideia do filme. Você entregou-o à Jacqueline no dia que sequestrou Tyler, não foi? Onde conseguiu aquilo?
Ramona bebeu mais um gole do vinho e sorriu radiante, em seguida molhando lentamente os lábios com a língua.
Eram três prédios do Hotel Tate: o primeiro era dos presidenciais e das salas especiais, como de jogos e academia, o segundo e central era dos quartos normais, e o terceiro era dos quartos para solteiros, restaurantes e o porão.
Atrás de Ramona e James, tinha um corredor dos quartos para solteiros.
— Isso não é importante.
— Bem, de qualquer jeito, estamos quase lá. Com certeza, é tarde demais para alguém conseguir nos deter.
— Tem alguém olhando?
— Acho que não tem nenhum policial por perto, Jackie já deve estar cuidando disso...
— Não — disse Ramona, sorrindo encantadora e hipnotizante — Se tem alguém nos olhando. Agora.
Ele franziu o cenho com um meio sorriso.
Whoa.
— Acredito que não tenha — ele disse, conferindo e olhando para trás, dando um sorriso quase que sem graça.
Ramona virou os olhos, com um sorriso torto.
— Você é lentinho, James.
Espera. Lentinho não. Eu só não consigo acreditar que isso está realmente acontecendo.
James fez uma careta e olhou para trás, para um dos quartos.
— Ah, ‘tá — e foi até a porta, abrindo a maçaneta.
Ah, ‘tá? Como você está enferrujado, James.
Ramona foi bem doce em relação a isso. Percebeu como James deveria estar nervoso, e por isso apenas entrou no quarto com um pequeno sorriso, que seria incapaz de deixá-lo sem graça.
— Só teve uma coisinha nesse plano que me incomodou — observou Ramona, repousando a taça em cima da mesa do quarto. James fechou a porta atrás de si, fazendo alguns breves segundos de silêncio. Entre aqueles dois, havia tantas faíscas que manter qualquer coisa em ordem era um desafio.
Era como se James fosse o barril de pólvora, e Ramona, a chama inicial.
— Diga — ele pediu, também colocando a taça na bancada.
Ramona abraçou os próprios braços, parecendo pensar, e virando o corpo para a janela.
— Jackie nos deu o trabalho braçal. Isso é tão injusto. É como se não fôssemos capazes de ficar no posto dela.
— No controle. Jackie é assim — James foi para trás de Ramona, que observava o céu escuro — Gosta de ficar no comando. Não que ela não seja boa nisso, ela só... Se garante mais.
— Mesmo assim, é injusto. Você é tão bom quanto ela.
— Eu? Ramona, menos — ele disse, rindo.
— Estou falando sério, deixe de ser tão modesto, James! Seríamos brilhantes se fôssemos só nós dois.
— O que quer dizer com isso?
Ramona ergueu a sobrancelha direita. James repousou a mão na cintura da mulher, acariciando-a de leve. Como ela não pareceu querer que ele parasse, ele continuou.
— Nós dois podíamos fazer esse plano juntos, eu e você. Você é genial.
Cuidado, James. Ela é uma víbora.
— É, acho que sou. Acho que conseguiria...
— Ok, já pode voltar a ser modesto — ela interrompeu, virando o corpo e ficando cara a cara com ele.
Os dois riram ao mesmo tempo, uma risada bem diferente da que andavam dando desde que tinham sequestrado Tyler. Era algo casual.
Glória. Era o que aquilo representaria. James e Ramona seriam superiores a tudo.
James e Ramona.
Por alguns segundos, enquanto as risadas diminuíam, os olhares dos dois se alinharam.
O caos era o que aquilo representaria. Era um acordo de ouro.
Os rostos dos dois se aproximaram, e o Durden não podia mirar qualquer coisa além dos lábios de Ramona.
— Ora, vamos, Durden. Você sabe como seríamos melhor que todos eles juntos.
James ergueu o canto dos lábios, enquanto Ramona também se aproximava, com um pequeno sorriso que ele já conhecia.
Aquele sorriso. De um animal prestes a atacar.
— Você não vai me fazer de otário, Ramona — ele murmurou, selando seus lábios com os dela.
De início, era algo pequeno, sutil. Quando a mulher chegou o corpo mais perto do dele, aí sim, a situação pareceu realmente imprópria. As mãos de Ramona foram imediatamente para a calça de James, perto dos bolsos, e quando ela rapidamente colocou a mão direita dentro de um deles, o Durden não conseguiu conter um pequeno sorriso.
Meu Deus, que mulher é essa?
A língua de James era lenta, aproveitando cada segundo do beijo. Sua mão esquerda puxava a nuca de Ramona para si, e a direita fazia o mesmo com a cintura da moça. As coisas estavam começando a esquentar quando ele sentiu a mão dela alcançar um lugar no fundo de seu bolso.
Ramona partiu o beijo por um instante, mas James não cessou e passou a dar beijos espalhados por seu pescoço. Ela colocou a mão direita dentro do bolso de trás de sua própria calça, e mordeu de leve o lóbulo da orelha esquerda de James. Devagar, encaminhou o Durden para a cama de solteiro, quando ele levantou a cabeça e os dois voltaram a se beijar.
— Deite-se — ela falou, esticando a mão para o abajur e diminuindo as luzes.
James obedeceu e subiu na cama, deitando o corpo em seguida. Viu Ramona subir também, porém, ficando de joelhos e com uma perna de cada lado do quadril de James, prendendo-o. O Durden começou a sentir uma sensação boa que subia por suas veias, uma sensação incrivelmente relaxante que o dominava e colocava em estado de quase hipnose.
Bem, talvez não fosse só a sensação que estivesse subindo.
Ramona deitou o corpo lentamente em cima do de James, espalhando beijos por seu pescoço.
— Feche os olhos — sussurrou ela, levantando a cabeça e aproximando os lábios da orelha dele.
— Por que no escurinho é mais gostoso? — ele perguntou, quase em uma afirmação.
— Porque o que vou fazer você não precisa nem olhar para gostar.
James deu um sorrisinho e obedeceu. A moça então segurou seus pulsos delicadamente e posicionou-os em cima do peito do homem, um paralelo ao outro. James sentiu as mãos de Ramona passarem por sua barriga, levantando a blusa, até chegarem ao cós da calça. Por alguns segundos, ela parou, mas logo voltou a distribuir beijos pelo corpo de James.
Mais baixo, mais baixo.
Os olhos continuavam fechados e sua imaginação fazia o resto. Ela passou a mão delicadamente pelos pulsos de James, quase como que os acariciando, até que parou.
Pressão. Pressão.
Nylon?
Mas que porra?
Ramona?

James abriu os olhos e sentiu as mãos firme e fortemente presas com uma tira de nylon, como um zíper, de modo que não poderia ser retirada a menos que cortassem. Ramona estava de pé, limpando os lábios com as costas da mão e girando duas chaves na outra.
— Eca — ela murmurou com nojo na voz, virando de costas e recolhendo as duas taças.
— Ramona, sua vagabunda! — gritou James — Sua filha da mãe, Jackie vai me tirar daqui.
— Neh — ela fez uma careta, com o nariz torcido — Acho que você não deve contar com isso.
— Você é uma mulher morta — ele anunciou.
— E você é otário — ela retrucou, rindo. Saiu do quarto e fechou a porta atrás de si.
Ok. Agora, preciso procurar os registros.
Essa garota precisa me agradecer terminalmente por salvar a vida dela toda hora.

Os passos de Ramona eram silenciosos pelo corredor estreito do hotel. O chão de carpete hexagonal, marrom e alaranjado, que combinava com as paredes claras, só servia para deixar tudo mais sinistro.
Luzes fracas.
Imagens turvas.
Preto e branco. Sépia.
Sim, mundo real.
Ou apenas imaginação? Apenas ilusões?
Não, lembranças.
Olhou para trás. Estava sozinha.
Sempre está. Sempre esteve.
Ramona saiu do prédio. Esperou alguns segundos, espreitou, e vendo que Jacqueline não parecia estar por perto, foi até o segundo prédio. Abriu a porta entreaberta com o pé e entrou na recepção.
Registros. Onde estão esses registros?
Deixou as duas taças em cima do balcão e colocou todo o vinho que restou das duas em apenas uma taça. Foi até atrás da recepção e olhou para os armários atrás dele. Abaixou e abriu o cadeado com outra das chaves, a menor do molho em que a chave da porta estava. Havia, dentro do armário, uma série de catálogos organizados por ano. Passou os dedos até encontrar o que correspondia ao dia da morte de Joe Durden. Era um azul. Segurou-o e levou-o para o balcão, abrindo sua capa e vendo as páginas de fichário. Trancou o cadeado do armário novamente, e então folheou o fichário até encontrar a tal data. Com o indicador, guiou-se desde o começo da página até encontrar o que queria.
O livro de registros de quem entrava ou saía dos quartos.
Bingo.
Com a outra mão, abriu a gaveta e pegou uma régua de ferro que estava à vista. Posicionou-a no meio da página, na vertical.
Tossiu alto ao mesmo momento em que rasgou a coluna do canto da folha.
— Ramona? — perguntou Jacqueline, abrindo a porta da recepção — O que houve?
— Resfriado houve — ela respondeu, fechando o fichário de registros com a régua dentro — Não sou imortal.
— Percebi. Quis saber o que estava fazendo.
Ramona deu a volta no balcão.
— Nada. Eu estava olhando como deixaram o hotel.
— Os registros estavam todos guardados — observou Jackie, quase que cobrando e desafiando Ramona.
Esta olhou para o balcão e riu, chegando perto da Durden.
— Não, não estavam. Acha que eu peguei esse livro? Com que chave?
Jacqueline debruçou-se no balcão e viu o cadeado que trancava o armário dos fichários de registros.
Fechado. Não violado.
— James já tomou todo o vinho dele? — continuou a perguntar, olhando para uma das taças, vazia.
— Sim, ele bebeu tudo e voltou a trabalhar com Tyler. O garoto não vai ter um descanso sequer.
Jacqueline pareceu ponderar cada palavra de Ramona, questionando-as.
— Está pronta? — perguntou, desistindo da insistência.
Ramona deu de ombros.
— Não se fica pronta para esse tipo de coisa.
Jacqueline foi obrigada a concordar. Indicou o caminho do corredor para que Ramona fosse na frente, e completou:
— Foi a melhor resposta que podia dar.

— Eu estou morrendo de fome — reclamou .
— Fica quietinha aí que eu te dou um sorvete mais tarde — retrucou , depois de ter estacionado o carro a uma quadra do hotel — Precisamos dar um jeito de falar com alguém. Sabe, entrar em contato de uma maneira sutil.
— Inventaram uma coisa para isso. É genial, se chama celular — retrucou .
— Podemos chamar a polícia — disse , com a voz cheia de sarcasmo — Ei, espera. Nós somos a polícia! — ela prosseguiu com uma careta — Temos duas pistolas carregadas, e um de nós é oficial. Podemos pedir reforços.
— Jacqueline e James Durden podem não ser gênios do crime, mas não são idiotas. Com certeza tem mais gente envolvida nisso. Não temos como saber quantos. Nem se estão armados.
— Eu não acho que seja uma boa ideia planejarmos tanto — comentou — Há uma chance grande de não dar certo, e termos de improvisar. Chamar reforços seria o melhor jeito.
— Para Jacqueline e James verem e darem cabo da e do Tyler? Brilhante, . Nem parece amiga dela.
recuou, mordendo o lábio e olhando para baixo.
— Ok, qual é a sua melhor ideia?
Ele suspirou.
— Não temos muitas opções. O hotel pode até estar cercado, mas tem que haver algum jeito de entrar. Qualquer que seja.
— Excelentes, os dois — disse , olhando para , e, em seguida, para — Quer mesmo entrar no Hotel? Dá para perceber porque não são promovidos nunca.
— Olha, cara, você podia nos dar algum crédito — retrucou , claramente irritado, porém, tentando se conter — Não estaríamos aqui se não fosse por mim ou pela . Nossa voz também merece ser ouvida.
— É, eu ouviria se não tivessem ideias tão estúpidas — falou com sarcasmo na voz, voltando a cabeça para frente e apoiando-a na mão esquerda, com os olhos fechados, aparentando cansaço.
— Minha ideia estúpida nos trouxe à frente de onde e Tyler possivelmente estão, ‘senhor’ — retribuiu todo o sarcasmo.
— E não consegue nos fazer dar mais um passo.
— E você parece querer nos fazer andar para trás! — aumentou um pouco o tom de sua voz, com o rosto virado para e revoltado — e eu só te ajudamos, e você nos trata como merda!
— Pelo menos para isso você serve! — gritou, fazendo ficar surpreso — Porque parece que foi para a delegacia só para babar ovo da ! Você não faz diferença alguma, novato! Não percebe isso? Você não é importante, e aceitar isso vai doer menos. Acredita nessa historinha, nessa tal Ramona, sendo que ninguém viu a mulher. Por que você não finge que é invisível e deixa o pessoal trabalhar de verdade?
“Por que você não finge que é invisível?”
Talvez seja porque eu sou invisível.

— Cala a boca, ! — gritou — Se é para falar merda, por que não cala a droga da boca? Qualquer um de vocês parou para pensar, por acaso, que se James estiver vigiando, ele pode facilmente nos reconhecer, já que nós três nos mostramos livre e espontaneamente para ele? Vocês se lembraram disso? Claro que não, porque os dois estão focando a parte fútil disso tudo. Nunca vamos chegar a algum lugar pensando assim. Se pararmos e tentarmos fazer o que realmente tentamos fazer, que é trabalhar juntos, talvez cheguemos a algum lugar, se os dois deixarem de agir como crianças e cooperarem.
Todos dentro do carro ficaram em silêncio. abriu a trave do carro e ergueu as sobrancelhas, dizendo:
— Quer saber? Mesmo que a seja quem tem a reputação de detetive temperamental, minha experiência ‘inútil’ diz que o oficial com TPM eterna é o senhor.
E abriu a porta do carro, pronto para colocar seu plano —ou diria improviso? —em ação.
— Filho da mãe — xingou , abrindo a porta do carro.
— Ei, esperem por mim! — reclamou .
— Não, você fica. Se precisarmos de ajuda, você chama reforços. Fique aqui para ser nosso porto seguro.
Fechou a porta e acompanhou , que estava parado na frente do carro com os braços cruzados. Suas feições sarcásticas faziam o sangue de ferver.
— Veio fazer o quê, ‘oficial’?
— Vim te acompanhar. Eu que dou as ordens.
fez a coisa que mais poderia irritar naquele momento. Ele podia ter retrucado, ter ficado pé e não ter saído dali, porém, ele acompanhou o oficial , limitando-se apenas a rir.

Não há vozes. Não há ar. Não há luz.
Vazio. Vazio como eu.

não conseguia correr. Não conseguia controlar seus movimentos. Tudo que conseguia fazer era andar em frente, em linha reta, em direção ao centro da sala.
Um corpo jazia pendurado. Os pés estavam a cerca de um metro do chão. Perto deles, uma escadinha.
Quem é você?
Quando se aproximou demais do corpo, não conseguia ver seu rosto. Estava escuro demais.
Quem sou eu?
Rodeou o corpo, e quando ficou aos pés da escada, teve certeza. Era destinado a ser aquilo. Todos seus piores pesadelos se materializavam naquele momento.
Deu o primeiro passo no primeiro degrau.
Negação.
O outro pé acompanhou-o, parando ao seu lado no primeiro degrau.
Irritação.
Subiu mais um degrau.
Depressão.
Estava atônita. Dessa vez, o outro pé foi direto para o terceiro degrau.
Aceitação.
Quais são as coisas que te prendem à sanidade?
Teve que ficar na ponta dos pés.
O rosto do homem estava direcionado para o chão, suas mãos estavam soltas, seus pés estavam largados e balançando.
Desistência. Isso que significava.
À procura por um lugar melhor.
ergueu as mãos enquanto soluçava, deixando as lágrimas escorrerem. Vão, podem ir. Colocou-as em cada lado do rosto do suicida.
Que terrível era chamá-lo de ‘suicida’.
Ficando na ponta dos pés, e abaixando um pouco a cabeça do morto, examinou seu rosto. Ainda tinha vida, mesmo que ela parecesse sair de seu corpo aos poucos. Tirou o cabelo do rosto dele, e fechando os olhos lentamente, uniu seus lábios e os de .
Você era tudo que eu queria.
Ele parecia retribuir.
Nós podíamos ser tudo. Esse era nosso final feliz.

Abriu os olhos quando sentiu seus pulsos serem fortemente presos por algemas. Eles ardiam, e teve que apertá-los para conferir se aquilo era realidade. As pernas doíam, os jeans pareciam mais apertados que o normal, e a blusa apertava suas costas. As roupas pareciam pregadas ao seu corpo, com o exclusivo intuito de reter o calor e deixar cada vez mais agoniada. As mãos estavam presas ao criado-mudo, e estava sentada no chão na posição mais desconfortável possível.
Jacqueline afundou o rosto no pescoço de , para murmurar em seu ouvido com a voz mais grave, como se estivesse possuída:
— Venho pensando nesse momento, . Eu e você, frente a frente. Venho fantasiando isso. Mesmo que isso não vá trazer meus irmãos de volta. Joe e Justin... Vocês dois os deixaram lá, sozinhos, para morrer.
engoliu em seco, sentindo a garganta dar um nó. Murmurou praticamente sem forças:
— Eu não matei Joe Durden. Eu não... Eu não mataria. Nem ele, nem ninguém.
Jackie deu um tapa no rosto de , que soluçou e pigarreou.
— Eu vou matar Tyler . Vou matá-lo logo — levantou do chão e deu as costas para , indo para o meio do quarto — E você, querida, vai assistir. Vai ver seu irmãozinho morrer bem devagar, como eu vi o declínio da minha família, quando Tyler deixou Justin morrer.
Os cabelos suados de estavam em seu rosto, colados. Com esforço, ela virou-o para Jackie.
— Tyler não se envolveu na morte de Justin, você não tem como saber. E Joe se matou.
Silêncio.
— Repete isso se tiver coragem — a Durden desafiou.
— Joe se matou. Joe pediu para morrer, você tem mais certeza disso do que Tyler ter matado Justin.
Jacqueline comprimiu os lábios, parecendo prestes a explodir. Girou o corpo, saiu do quarto e fechou a porta atrás de si.
Não havia vozes. Só uma luz de abajur. Desarmada.
Um quarto vazio.
gritou com todo ar que restava em seus pulmões. Chutou a cama, que mal se moveu. Abaixou a cabeça e chorou.
E chorou, pensando em , e .
E chorou, pensando em Tyler.
E chorou mais ainda pensando em si mesma.
Moon river, wider than a mile... — cantarolou uma voz vinda do banheiro.
ergueu a cabeça.
I’m crossing you in style... — continuou, e agora, uma pessoa apareceu na porta do banheiro. Era uma mulher loira, que vestia uma calça preta e uma camiseta branca, com tênis brancos — Someday.
Ramona.
— O que você quer de mim agora? — perguntou , com o corpo fraco, desistindo de lutar.
Oh dream maker, you heart breaker — ela prosseguiu, dando passos longos até a escrivaninha — Wherever you’re going, I’m going your way...
Girou a cadeira e sentou-se virada para , cruzando as pernas e apoiando o cotovelo esquerdo no joelho, para então apoiar a cabeça na mão esquerda.
— Sempre foi você, não foi? — tentava evitar o choro — Você me persegue. Você quer acabar comigo, não quer? Isso não é suficiente para você?
Two drifters off to see the world, there’s such a lot of world to see... — Ramona continuou, erguendo uma sobrancelha e o canto do lábio, apenas olhando fixamente para .
soluçou de novo.
— O que você quer de mim?! — gritou .
Ramona ficou de pé e colocou as mãos nos bolsos.
We’re after the same rainbow’s end...
Andou até chegar perto de , que tentou recuar.
Waiting around the bend...
Tirou uma pequena chave do bolso da calça preta, e colocou-a no bolso de .
My huckleberry friend...
Sem tirar os olhos de Ramona, acompanhou a mão dela colocar a chave em seu bolso.
Moon river...
Lentamente, ela própria pôs a mão no bolso e alcançou a chave.
And me — finalizou Ramona.
Não teve dificuldades em girar a chave entre os dedos e achar a fechadura da algema. Era treinada para se livrar desse tipo de situação. Quando ouviu o clique delas se destravando, fechou os olhos e suspirou em alívio.
Ramona fez uma reverência e fingiu tirar um chapéu imaginário.
— Por que fez isso? — perguntou, baixo e devagar, conferindo os pulsos machucados pelas algemas fortemente apertadas.
A loira ficou de pé novamente e fechou a cara, irritada e com as mãos na cintura.
— De nada, sua chata. Eu estou te ajudando. Quer dizer, eu sempre estou. E você vive desconfiando de mim. Isso não é legal, sabia?
— Você me trouxe até aqui, Ramona.
— Tecnicamente, não, não trouxe. E mesmo se tivesse trazido, ninguém aqui vai te matar. Eles não podem.
— O que te faz ter essa certeza?
— Porque eles precisam de você. Mas não precisam do Tyler, então acho bom corrermos se quisermos salvar seu irmão.
— Espera, é o quê?! — se levantou — ‘Quisermos’? Você é louca.
Ramona ficou boquiaberta e incrivelmente impressionada.
— Eu sou louca? E você, sabe o que você é? Uma mal-agradecida. Eu salvei você e só quero que você aceite minha ajuda de novo.
— Você não provou que merece confiança minha ou de qualquer outra pessoa.
— Bem, se o seu raciocínio é esse, o novato também não merece a confiança de ninguém.
engoliu em seco. Ramona cruzou os braços e sorriu.
— Touchè, mon amour — disse.
— Ok, que seja. Precisamos chamar alguém para nos ajudar.
— Espera, como é que é? — Ramona semicerrou os olhos e deu um passo à frente — Você quer pedir ajuda? Não foi para isso que eu te salvei.
— Então o que você espera que eu faça? — finalmente perguntou, impaciente.
Ramona mordeu o lábio e ergueu o canto do lábio.
— Eu posso te ajudar, . Como sempre ajudei. Só que... Você tem que parar para ouvir os conselhos certos.
cruzou os braços e bufou. Era inaceitável perceber que ela precisaria da ajuda de Ramona. Quer dizer, logo de Ramona? A pessoa menos confiável que conhecia?
Mas ela precisava de qualquer tipo de ajuda. Em sua situação, não podia ter orgulho. Não era , a Serpente Vigilante.
Era , uma garotinha que precisava da ajuda de alguém para salvar sua própria pele e de seu irmão.
— Se abrir a porta, Jacqueline vem ver onde você está. Ela colocou um alarme lá fora — disse Ramona, apontando para a porta a alguns metros atrás dela — Não tem nenhuma câmera ligada, porque isso gasta energia e o Hotel, supostamente, está abandonado. Esses abajures não contam como gasto de energia tão alto. A melhor maneira de chamar a polícia seria usar um celular, ou arrumar um jeito de acender muitas luzes. Assim, isso vai para a central de polícia que monitora isso aqui, e eles vão suspeitar e vão nos salvar.
— Temos que achar Tyler antes que Jackie faça qualquer coisa.
— Temos que sair daqui antes que qualquer coisa aconteça.
— Ok, sabichona, qual é o seu melhor plano?
Ramona virou os olhos e foi até a janela. Abriu-a e olhou para a fora. A vista era para a piscina, e Jacqueline não parecia estar por perto.
— Você só pode estar brincando.
— Cara, eu sou maluca, lembra? — Ramona retrucou, com sarcasmo, colocando um pé para o lado de fora da janela — Você espera que eu faça algo normal?
— Eu perguntei qual era seu melhor plano, não seu único plano!
— Porra, dá para você calar a boca?
Ramona colocou o outro pé do lado de fora. O vento batia forte contra seus cabelos loiros, e isso não impedia que eles ficassem incrivelmente bonitos. Teve dificuldades de se equilibrar, e por isso segurou o parapeito da janela, para tentar ficar de pé.
— Está esperando o quê?
engoliu em seco. Realmente. Estava esperando o quê?

Jacqueline precisava achar James. Ele não estava em lugar nenhum, inclusive no porão, onde Tyler estava.
O não teria mais do que cinco minutos de vida, da forma que estava.
Assim que saiu do porão, ouviu gritos vindos de um dos quartos. Desconfiada, pegou a pistola que tinha atrás da calça e segurou-a firmemente. Era a pistola de .
Colocou a mão na maçaneta e girou-a lentamente.
— Jim?! — falou alto, vendo o irmão preso na cama com nylon envolvendo seus pulsos. Estava sentado na cama, parecendo exausto por tanto ter gritado por ajuda.
— Achei que eu precisava explodir qualquer coisa para você me ouvir — ele murmurou.
Jackie colocou a pistola no cós da calça e foi socorrer o irmão. Colocou a mão no bolso e tirou seu canivete, arrebentando o nylon sem muita dificuldade.
— Quem fez isso? — perguntou, assim que o nylon se rompeu.
James massageou os pulsos cortados de tanto que tentara resistir.
— Foi a Ramona. Não temos tempo para eu explicar. Ela pegou as chaves, e, a essa altura, já deve ter se soltado e saído do quarto.
— O alarme iria soar.
— Por Deus, Jackie! — James se irritou — Esqueceu que existem janelas?
— A não vai chegar à tempo. Vamos, aqui, tome — Jacqueline disse, ajudando o irmão a se levantar e entregando a pistola a ele, armando-se apenas com o canivete.
— Quer fazer o quê? Matá-la?
— Não. Agora que ela está solta, não é mais versus Durden. A essa altura, os fiéis escudeiros dela já devem estar por perto.
James riu, acompanhando a irmã a saírem rapidamente do quarto.
— Eu não quero perder a chance de enfiar uma bala no meio da testa daquele jornalista merdinha.

e estavam do lado de fora do muro do Hotel Tate.
— Não estão com nenhuma câmera ligada — disse , olhando para cima — Mas também não vai ser fácil como entrar pulando o muro ou algo assim.
— Como pode saber?
— Se usarem as câmeras, o gasto de energia vai avisar à polícia local que tem alguém aqui. Estão de olho nesse lugar, principalmente de noite, desde que o Durden morreu — fez uma pausa, olhando para — Estava tudo no relatório, oficial. Que o senhor mesmo disse ter escrito.
sentiu seu rosto corar.
— A piscina era alimentada por uma caixa d’água que ficava do lado de fora dos muros do Hotel. Os Durden não gostavam que algo tão feio ficasse tão aparente. Frescura pura, mas se acharmos a caixa d’água, provavelmente acharemos algum portão do muro que possamos tentar entrar.
Os dois deram a volta no muro, sumindo da vista de .
, acho que posso ser sincero com o senhor... Não gosto muito da .
— Cara, você é gay?
— Não, não foi isso que eu quis dizer — não aguentou a risada — Eu só... Não confio nela.
— Ali está a caixa d’água — apontou , ignorando o comentário em relação à química — O portão é aquele ali, de ferro. Tem alguma ideia de como podemos abrir sem dar um tiro?
— Não vamos abrir. Se abrirmos, ele deve ranger, ou ter algum tipo de alarme, que vai avisar que estamos aqui. A gente vai escalar.
olhou para ele e riu, entortando a boca.
— Você só pode estar brincando.
— Eu? Olha, eu sou jornalista. Quando aceitei esse emprego, achei que meu maior desafio fosse aguentar a chatice desse trabalho. Não achei que fosse virar um Indiana Jones da selva de pedra.
colocou a mão nos ferros e olhou para o lado de dentro do Hotel. Apoiou o pé em um dos ferros da porta e segurou-se em um mais alto para pode escalar. acompanhou-o. Fez isso mais uma vez e alcançou o topo, girando o corpo com dificuldades para poder entrar. Pulou e caiu de pé do lado de dentro do hotel. , por outro lado, tombou um pouco ao chegar ao chão.
— Nos separamos. Você procura o Tyler e eu vou atrás da — instruiu .
— Me dá uma pistola, pelo menos — disse , esticando a mão.
recuou e comprimiu os lábios.
— Você sabe atirar?
Eu vou dar um tiro é em você se não me der logo a pistola.
— Sei. Treinei isso por dois meses, quando assumi o trabalho na delegacia.
— Quer dizer que você não treina faz um mês?
A janela de um dos quartos foi aberta. e logo foram para trás da sauna, onde quem quer que estivesse na janela não poderia vê-los. O oficial colocou a pistola na mão de , e cochichou:
— Não me faça me arrepender de ter te dado isso. Boa sorte.
assentiu com a cabeça e deu a volta na sauna, indo em direção ao primeiro prédio, onde a janela tinha sido aberta.
olhou para a janela aberta em um dos quartos e esperou alguns segundos, até que a pessoa virasse o corpo de costas, para que pudesse sair de trás da sauna. Correu até atrás de outra pequena casa do pátio, que era um SPA.
Silêncio. A pessoa começou a andar, bamba, pelo telhado da academia.
Três...
Dois...
Virou o corpo rapidamente e mirou o tiro na pessoa em cima do telhado da academia, apesar de não poder ver quem era. A pessoa cambaleou, escorregou e caiu nas telhas, apoiando o pé no final do telhado para não cair.
Espera, aquela é a .
olhou para , que estava quase catatônica em cima do telhado, a três metros do chão, querendo por toda sua vida continuar equilibrada. Não tinha como sair dali, a menos que caísse.
sentiu o arrependimento em sua mente. Seu mentor, em seu primeiro ano na delegacia, frisava a mesma frase sempre.
‘Nunca atire quando não se tem certeza de quem é, mesmo que seja só você contra seus inimigos.’
Era um tiro no escuro, literalmente.
Se continuasse ali, parado e seguro, cairia. Se fosse ajudá-la, ficaria exposto.
Quando espiou para conferir se ainda estava equilibrada, um tiro foi ouvido, e sentiu o corpo ser jogado para trás. Seu ombro esquerdo começou a sangrar, e a vontade de gritar era imensa.
Não podia. Não podia.
Aguente.
Correu para mais longe ainda da área exposta, ainda atrás do SPA, perto do muro.
Aguente.
Ouviu passos de quem corria em direção ao seu esconderijo.
Com o ombro sangrando, deitou de costas para a grama, perpendicular à parede. A arma estava em sua mão direita, tão firme quanto nunca esteve.
E esperou.
Olhava as estrelas lá no alto. As mesmas estrelas que Joe Durden viu um dia. As mesmas estrelas que viu quando era criança.
O céu está tão lindo essa noite... É uma bela noite para morrer. Nobre.
Nunca, em nenhuma vez que precisou se arriscar, imaginou-se morrendo na cena do crime. Aquela era a primeira vez que esse pensamento o assombrou, e, incrivelmente, não fez ele se sentir mal. Seria nobre morrer assim.
Afinal, sempre que acontecia algo daquele estilo, alguém morria. E ele tinha o sério pensamento que fosse ele.
Um homem apareceu de seu lado direito, junto à parede do SPA, dando um tiro reto para frente. Certamente, ele esperava encontrar alguém de pé atrás do SPA. Não contava que fosse estar deitado na grama.
deu um tiro que o atingiu na perna. Quando o homem caiu no chão, largou a arma. O oficial levantou o mais rápido que pôde, com o ombro ferido, e rendeu quem quer que tivesse atirado nele. Abaixou com força a cabeça do homem contra o chão, e apoiou a perna em suas costas.
— Se tentar se mexer, eu arranco seu braço — ameaçou.
James riu. alcançou um par de algemas no bolso da calça e prendeu os pulsos de James.
Não poderia ir muito longe agora, com o braço ferido.
Pela primeira vez que se lembrava, rezou para que desse tudo certo.
não estava mais em cima do telhado.

Em certo momento, teve a certeza de que precisaria sair dali, da maneira que fosse. Abriu a trava do carro e correu alguns metros até chegar à frente do hotel.
Olhou para as folhas e galhos que enfeitavam o muro, e, agora, só pareciam deixá-lo mais antigo.
Minhas calças Calvin Klein que me perdoem, mas hoje vou sacrificar vocês.
A essa altura, cada segundo parecia ser absurdamente curto. Não tinha tempo nem para respirar.
Tiro um.
Escalou o muro, escorregando, por vezes. Um espinho chegou a penetrar sua pele, contudo, ela nem percebeu.
Precisava subir.
Tiro dois.
Quando chegou ao topo, girou o corpo e pulou, caindo de pé na grama.
Tiro três.
Assustada, correu para o lugar mais perto dela.
O terceiro prédio.
Escondeu-se no corredor escuro dos quartos, com medo.
Por favor, por favor, não prestem atenção em mim.
Rezou para durar mais do que aquela noite.

Quando arrastou o corpo pelas telhas, desejou do fundo de seu coração para que o tiroteio em sua frente acabasse logo. Um dos envolvidos era James. O outro, não conseguiu reconhecer.
Quando chegou ao fim do telhado da academia, girou o corpo, ficando com a barriga contra as telhas. Com cuidado, tirou os pés do final do telhado, abaixando-os no ar, e deixou o corpo cair ao ar. Segurou o telhado pelas mãos, e quando o corpo estava pendurado apenas por suas mãos, deixou-se cair.
E caiu de pé.
Girou o corpo mais uma vez, ficando de trás para a academia. Ao seu lado esquerdo, era o primeiro prédio. Do outro lado do pátio, era o restaurante. Do lado do restaurante era o SPA, provavelmente onde o tiro tinha vindo.
— chamou Ramona, em sussurro — Você está bem?
— Eu estou inteira.
Ramona riu torto.
— Sem ressentimentos.
Os tiros tinham cessado. Ramona estava ainda perto da janela do quarto onde estavam antes, junto à parede, onde estava desde que o primeiro tiro soou. Ela sentou-se no parapeito e pulou, caindo de pé.
— Onde está o Tyler? — perguntou .
— Estava no porão. No terceiro prédio.
Sem deixar Ramona falar qualquer coisa, foi em direção ao prédio.

Tinham sido três tiros totais.
Quando finalmente chegou ao terceiro prédio, queria na verdade se proteger. Para ter mais certeza de que estava seguro, após ouvir o primeiro tiro, entrou na primeira porta que avistou. Assim que a abriu, olhou para baixo, para a escada escura que descia.
Mais um tiro soou.
Um porão.
Por que cenas de filmes de terror não saem da minha cabeça?

Ouviu murmúrios vindos de dentro do porão. Desceu os degraus lentamente, usando a lanterna do celular. Quando chegou ao último degrau, ouviu mais um tiro, que assustou e obrigou a virar o corpo para o lado, e ver algo no chão.
Era uma pessoa, com as mãos algemadas atrás de si, e um saco plástico em volta da cabeça, sufocando-a. A pessoa parecia já ter desistido de respirar.
Desistência. Era aquilo que significava.
caiu de joelhos no chão e arrebentou o saco plástico.
— Tyler? Tyler! Responde!
Deu tapinhas no rosto do , que não respondia.
— Tyler! — gritou, dando um forte tapa dessa vez.
Os olhos castanho-esverdeados de Tyler se abriram por completo, como se ele tivesse levado um susto. arrancou a fita isolante que tapava sua boca com força, e o som que Tyler fez ao puxar o ar para seus pulmões foi satisfatório.
— Eu sonhei... Eu sonhei que morria. Que me salvavam... Que Justin me salvava.
Um rangido de madeira foi ouvido. imediatamente empurrou o corpo de Tyler para o lado, fazendo Jacqueline errar o golpe com seu canivete. Não por muito, pois seu verdadeiro alvo tinha sido o próprio , ao contrário do que os dois homens deviam achar.
caiu de barriga contra o chão de madeira do porão. Jackie envolveu as costas de seu refém, deixando-o sem poder se mover muito, e segurou a cabeça dele contra o chão com a mão livre.
— Não gosto de intrometidos — ela murmurou em seu ouvido.
rapidamente virou o corpo e fez Jacqueline tombar para o lado e cair. Antes que ele pudesse imobilizá-la, Jacqueline segurou o canivete e cravou-o na cintura de , passando perto das costelas altas que protegiam o pulmão. gemeu de dor e caiu, mordendo forte o lábio e protegendo o corte com a mão, virado de barriga para cima.
Jackie levantou-se e olhou para , caído no chão. Segurou melhor o canivete e ajoelhou-se, dizendo enquanto pegava a pistola no cós das calças de :
— Se eu toco coisas, elas morrem.
Cravou a lâmina do lado externo do antebraço do jornalista, rasgando sua pele até o pulso. gritou de dor.
— Meu problema não é com você — ela continuou, levantando — Se tentar me seguir, eu rasgo você em um lugar que você não vai conseguir costurar.
Tyler fingia-se de morto no canto da sala.
— Um já foi — disse Jackie, quando o viu ali.
E saiu, indo em direção à escada, subindo e fechando a porta.
permaneceu lá, deitado, rezando para que aquilo acabasse logo.

Quando ouviu o grito de horror de , teve certeza de que deveria fazer alguma coisa.
Virou o rosto para onde ficava a porta para ida ao porão. Jacqueline estava fechando-a, de costas para , com uma pistola em uma mão e um canivete ensanguentado na outra.
Esperou Jackie sair do prédio, o que não custou a acontecer. Assim que ela a fez, correu até o porão e abriu a porta, descendo correndo os degraus.
! — ela gritou, quando o viu deitado no chão — O que aconteceu?
— Jack... Tyler... — e tentou puxar ar.
estancou o sangue usando a camiseta de , esperando que o morto naquele caso não fosse o jornalista que nunca teve nada a ver como isso.

Um pouco antes de entrar no terceiro prédio, Jacqueline saiu dele. Quando isso aconteceu, a respiração de cessou e ela juntou as costas à parede mais próxima.
Eu vou matar essa mulher. Vai ser a única Durden que eu matei.
Essa mulher matou meu irmão. Eu vou arrebentá-la como eu podia ter arrebentado Joe.
Como acham que eu arrebentei Joe.
Aí, sim, vão valer os três meses que passei no inferno do Manson.

... — murmurou Ramona, que estava ao lado de .
— Ah, cala a boca.
Jackie andou para fora do prédio e entrou no restaurante. Não havia nenhuma luz acesa, e aquilo seria um tiro no escuro.
Literalmente.
— Preciso de uma arma — comentou, praticamente para si mesma.
— Não tem nenhuma no meu bolso.
andou em direção ao restaurante.
— Você não é boa quando age sob pressão.
— Cala a boca, Ramona.
— Calar a boca? — Ramona puxou pelo ombro e virou-a para si — Olha, eu não sou detetive nem nada, mas se você entrar nesse restaurante, é morte certa. E você não pode morrer.
— Por que tanta preocupação comigo?
Ramona bufou.
— Quer saber? Quer ir, vai. E eu vou atrás de você. Se você morrer, e eu também, a culpa é sua.
deu as costas para Ramona. A loira, ainda sem se convencer, puxou pelos pulsos, virando-a para si de novo.
, você está exaltada... — começou Ramona, mas foi interrompida por um rugido de , quase irado, pedindo liberdade, mascarado em sua serenidade, uma máscara que ela podia sentir sendo arrancada de seu rosto.
— Não me faça sentir como se eu fosse louca!
As duas ficaram caladas, olhando uma para a outra.
— Eu vou lá — levantou o indicador, fazendo uma pausa — Você não faz ideia do que é passar por um inferno para pagar por um crime que não cometeu. E, agora, vou fazer todos aqueles três meses valerem à pena.
— O que tinha de tão ruim no Manson?
deu as costas para Ramona enquanto falava quase que sozinha:
— Eles me tratavam como se eu fosse uma doente.
seguiu seu caminho, deixando a loira para trás. Quando estava se aproximando do restaurante, uma figura surgiu das sombras.
, — chamou , apoiando-se na parede do terceiro prédio para conseguir manter-se de pé.
, o que aconteceu? — ela perguntou, tentando erguê-lo e vendo o machucado ensanguentado em seu ombro.
— Foi um acidente, com James. Podemos ir embora. Está tudo bem.
— Preciso acertar as contas com Jacqueline.
suspirou, derrotado.
, por favor, ninguém aqui está aguentando isso. Essa brincadeira de gato e rato já nos feriu o suficiente.
— Não peço mais nada, . Por favor, essa mulher matou meu irmão.
... Eu não vou te dar nenhuma arma, como você deve estar me pedindo.
— A Ramona vai me ajudar... — quando se virou para onde Ramona estava, não tinha ninguém ali. abaixou a cabeça, fazendo todo esforço do mundo para ficar em pé.
— Cadê ela? — ele olhou para a direção que apontara.
— Ela... Ela... Saiu.
— Vamos seguir o exemplo dela?
— Oops — falou , puxando a mão do lado do quadril de , segurando sua pistola — Acho que não.
, por favor...
, vai ser um mano a mano. Entre em um lugar seguro.
— Promete que vai sair viva?
— Não prometo nada.
E foi para o restaurante, deixando perto da entrada para o terceiro prédio. E rezava para que conseguisse sair do restaurante de qualquer jeito, menos em um saco preto.

Retrocedendo.
Jacqueline Durden no dia da morte de Joe. Fantasmas.
Vingança.
Tyler estava morto.
Supostamente.
não morreria. Jackie precisava dela.
Mesmo assim, queria vê-la sofrer.
Retrocedendo.
no dia da morte de Joe. Assombrações.
Arrependimento.
Tyler estava morto.
Supostamente.
Jacqueline morreria. queria livrar-se dela.
Mesmo assim, não queria ter que matar alguém.
Retrocedendo.
Jackie e .
Era isso que tudo levava?
A tempestade estava prestes a começar, silenciosa.
O som de porta fechada foi ouvido.
Jackie tinha passado por todo salão de mesas, e, como estava vazio, ela seguiu direto para a cozinha. Estava terminando de revistá-la quando ouviu o som de alguém entrando no salão.
Passo.
Passo.
Madeira rangendo.
Olá, .
tinha a arma em punho, junto ao corpo, enquanto andava junta à parede. Atravessou todo o salão de mesas, e se aproximou da cozinha.
Era uma bomba relógio. Tic tac, tic tac. Quem vai ser a última de pé?
— Venho pensando nesse momento, Jacqueline — falou , provocativa — Eu e você, frente a frente. Venho fantasiando isso. Mesmo que isso não vá trazer meu irmão de volta. Tyler... Você o deixou lá, sozinho, para morrer.
A adrenalina, ah, era imensurável.
— Olho por olho, dente por dente — Jackie falou, juntando o corpo aos ladrilhos da parede da cozinha. Tinha um grande guarda-bandeja na sua frente, o que dava o privilégio de poder ver antes que esta a visse.
Viu, do outro lado, mesmo estando um pouco escuro, metade do corpo de pelo portal que levava à cozinha.
— Peguei — ela falou bem baixo, apontando a arma para .
Bem quando ia puxar o gatilho, um grande estrondo de tiro foi ouvido, e Jackie foi ao chão. O joelho latejava, e ela deu um gemido alto de dor.
Quando caiu, não soltou a arma.
entrou na cozinha, ainda com a arma apontada. Jacqueline estava caída do outro lado, atrás de um porta-bandeja? Foi fácil assim?
Um tiro foi ouvido, e, dessa vez, tombou, sentindo dor pela bala que raspara em sua perna. Quando caiu, viu Jacqueline sentada no chão e com a arma apontada para ela. Rapidamente, juntou as costas à parede e uma série de tiros foi ouvida.
Bam. Bam. Bam. Bam. Bam. .
Bam. Bam. Bam. Jacqueline.
Nenhuma das duas tinha cartuchos sobrando.
estava atrás de um armário de mantimentos, que tinha agora um buraco de bala. Devagar, ela olhou através do buraco.
Bam. Mais um tiro. Jacqueline.
Preciso chegar perto do gás.
Estava encostada na parede da esquerda. O gás ficava na da direita.
— Ainda está viva? — perguntou Jackie, com sarcasmo.
Tinham sobrado cinco balas.
levantou e apoiou-se no armário, dando um tiro no escuro e recebendo dois como troco. Quando Jackie disparou, já tinha jogado o corpo para o meio da cozinha, e dado mais um tiro. Depois deste, girou o corpo e rolou até conseguir chegar perto do gás.
Tinha mais três balas.
Esticou a mão para o gás e liberou-o. Um chiado foi ouvido.
— Se der mais um tiro, tudo explode.
Jacqueline deu uma risadinha e ouviu o som da arma sendo jogada no chão. Também soltou a sua, e esticou a mão para cima, para o faqueiro.
Não estava mais tão escuro. A luz da lua iluminava um pouco o ambiente.
Teve medo do que poderia acontecer. Aquela mulher não era ela.

Quando entrou no porão, surpreendeu-se ao ver que Tyler ainda estava vivo.
— Uma ajudinha? — ele murmurou, se referindo às algemas, tentando se levantar.
cuidava do machucado de , algo que deixou quase que aliviado. Pelos motivos mais inesperados.
! — falou , levantando e indo até ele — Graças a Deus você está vivo. Viu o James?
— Ele está... Relaxando.
Ele tinha sido quase chutado para dentro do SPA.
— E... Cadê a ?
— Ela acha que Tyler está morto. Quer acertar as contas com Jacqueline.
— Me soltem! — pediu Tyler, alto.
foi até atrás dele, quase torcendo seu braço de tanto puxá-lo para trás. Pegou um grampo da parte de trás de seu cabelo e tentou abrir as algemas. Alguns segundos depois, conseguiu libertar Tyler, que se levantou com as mãos machucadas.
— Alguém precisa ir atrás da minha irmã — ele falou, com a voz fraca — , me dá a arma.
— Tyler, você não consegue nem ficar de pé direito. Eu vou.
— Você? Eu não sei nem lavar meu cabelo direito, você tem que ficar e cuidar dos dois. Eu vou.
— Tyler...
— Eu já fiz merda suficiente por um dia, pode, por favor, me deixar fazer uma coisa certa?
tossiu nessa hora.
olhou para , em seguida, para Tyler. Colocou a pistola na palma da mão do e disse:
— Não me faça me arrepender de ter te dado isso. Boa sorte.
Tyler assentiu com a cabeça e ficou de pé, indo em direção às escadas e subindo-as.

O único som da cozinha era o chiado do gás escapando.
olhou pelo canto do armário, espiando Jacqueline. Ela não estava olhando. Rapidamente, ela correu até atrás da pilastra do centro da cozinha.
Mais alguns metros, e alcançava Jackie.
Não, agora não.
A cabeça começou a doer, latejar. A faca de açougueiro em sua mão tremia. apoiou as costas na pilastra, de pé, com as mãos juntas ao corpo, a faca na direita.
Levantou a cabeça e engoliu em seco. Quis vomitar. Quis ir embora. Não se render, simplesmente fugir.
Queria ir embora, acabar com aquilo tudo. Livrar-se dos fantasmas.
Virou o corpo para o lado, observando Jacqueline. Ela não estava mais atrás do porta-bandeja.
Ela parecia estar em todo lugar. Sua respiração parecia soprar contra a nuca de . Sua voz parecia não sair de sua mente.
Era uma armadilha, a mente de . Parecia sempre querer enganá-la.
Saiu de onde estava na pilastra, indo para o outro lado, mais perto do porta-bandeja.
Não.
É uma cilada.
Era como em um filme de terror. A cozinha estava escura, e, inicialmente, vazia. Era sua imaginação, certo?
Errado.
Jackie estava bem atrás de , com uma faca apontada diretamente para seu coração.
Fechou os olhos. Podia ouvir a faca cortando o ar.
Ouviu Jacqueline gritar de dor.
! — gritou Ramona.
Eram sons demais, era confuso demais.
Quando virou o corpo para trás, viu Ramona colocando Jacqueline contra a parede. A mão da Durden que segurava a faca estava cortada no pulso, o que a obrigou a soltar a arma.
A faca estava agora no chão. Ramona prendia o pescoço de Jackie contra a parede, usando seu antebraço, quase a enforcando.
— E, para variar, eu te carrego nas costas — finalizou a loira.
O sangue jorrava do pulso de Jacqueline. olhou para a faca em sua mão, e soltou-a, apenas ouvindo seu som quando ela caiu no chão. Segurou o braço de Ramona e puxou-a em direção à saída.
— Vamos embora.
Assim que Ramona deixou Jackie livre, a Durden caiu no chão. O símbolo da desistência.
— Como fez aquilo? — perguntou , andando rápido ao lado de Ramona, saindo da cozinha — Você apareceu do nada.
— Te conto outro dia. É um dos meus super poderes.
— Do jeito como você aparece e desaparece do nada, posso acabar acreditando nisso.
Ouviram o som de algo sendo arrastado pelo chão. Uma arma.
Tyler?
Era Tyler do lado de fora do restaurante?
— Tyler? — perguntou , andando mais rápido e chegando perto do irmão.
— Eu a matei — gritou Jacqueline, do fundo da cozinha — Eu matei Samantha Fox. Eu matei um homem no Halloween — pausa — Fui eu.
Virou para trás uma última vez, e viu Jackie ajoelhada no chão, perto do gás que ainda vazava.
— Eu sou a culpada.
Podia quase ler seus pensamentos.
Nunca deixe seu inimigo saber que te venceu.
A arma estava apontada dentro de sua boca.
Eu venci. Eu me venci.
Piscou um olho para .
Tyler permanecia atônito. Ramona olhou para ele e, com um sorrisinho torto, piscou um olho para ele.
— Cuidado! — gritou , correndo mais e empurrando Tyler para o chão.
Adeus, . Te vejo em outro andar.
E Jacqueline apertou o gatilho.
Tudo em seguida se resumiu a barulho. Fogo, fogo, fogo. E mais barulho.
E foi assim que aquele dia acabou.

And the battles just began… There’s many lost, but tell me who has won?




You’re never gonna fit in much, kid...

Era estranha a sensação.
Paz. Estava tudo em ordem.
Tudo certo.
O corredor branco parecia não acabar. Estendia-se, para a direita e para a esquerda.
tinha as pernas cruzadas, usando uma calça jeans e um suéter cor de creme. Um cachecol cinza em volta do pescoço e um gorro também cinza. Tinha bebido chocolate quente naquela manhã.
Fazia duas semanas que não bebia café.
Segurava a cabeça com a mão direita, com o cotovelo deste braço apoiado na cadeira do corredor de espera. A outra mão estava inquieta e arranhando de leve a própria coxa.
Devaneios, leves devaneios.
Tinha pensado bastante sobre o dia da morte de Jacqueline Durden. Passaram-se duas semanas desde que ela cometera suicídio. Quando houve a explosão, só conseguia se lembrar de cair em cima de Tyler, e desmaiar. Quando acordou, já era o dia seguinte.
E estava tudo bem.
Em um hospital. Tudo bem.
Duas semanas de tratamento intensivo, passando por pequenas cirurgias para cuidar de ferimentos do acidente. Tudo bem.
passara por uma cirurgia, na qual teve seu abdômen costurado no lugar do corte. Seu braço também passou por pontos, porém, ainda precisava colocar curativos no ferimento. Tudo bem.
estava afastado do cargo. Reagiu bem ao tratamento do tiro. Tudo bem.
James foi preso, e esperaria julgamento. Tudo bem.
Tyler? Bem, Tyler não falava com havia duas semanas. O médico que o examinou mandou-o para um hospital, pois concluiu que ele estava ‘traumatizado’. Ele aceitava visitas, mas quando a irmã chegava, ele negava-se a sair do quarto. Tudo bem, ela não estava exatamente com paciência para o melodrama de Tyler.
Tudo bem.
Agora, tudo parecia estranho, como se, na verdade, fosse naquele momento que abriu os olhos pela primeira vez desde a explosão.
Não era acordar, era renascer.
Uma senhora saiu da porta branca à sua frente. Era baixinha, e segurava uma pasta grossa em uma mão, e uma fina na outra.
— O doutor já vai atendê-la, senhorita — avisou ela, simpaticamente.
deu um pequeno sorriso. Na verdade, estava com medo. Era a primeira vez na vida que ia a um psicólogo. Julie tinha encaminhado-a para um, depois do ocorrido. Disse que era a melhor coisa para se fazer. Tinha passado por um trauma.
Mandou para o psicólogo no dia seguinte ao acidente, porém, ela continuava adiando, até passarem-se duas semanas.
Tudo bem.
Sentiu a mão fria de segurar a sua, e apertá-la com força.
— Relaxa, não é nenhum bicho de sete cabeças — a amiga falou, fazendo dar um pequeno sorriso sem graça — Você andou bem tensa ultimamente.
— É, eu... Eu nunca fui a um psicólogo antes.
— Ei, . Sabe o que você precisa? — perguntou, sentando de lado na cadeira, do seu jeito criança de ser.
— Silêncio?
— Não. Um mozão. Desde o , você ficou assim. Você precisa de um macho, e eu vou te arrumar um.
, agradeço sua gentileza, mas dispenso a...
— Qual é o seu tipo? É tipo o ? Sempre o achei meio magricela. Sei lá, não faz o meu estilo. Gosto mesmo daqueles caras que parecem que vão te quebrar a cada abraço. Meu Deus, eu fico doida. Acho que você ia combinar mais com o , sabia? Não, o não. Ele é meio lesado demais para você. Já sei! Seu estilo é o oficial . Ah, que homem é aquele! Me enrola na cama e me chama de rocambole.
, sossega esses hormônios.
— Fica falando assim porque tá com abstinência. Vou te arrumar um mozão. Já pensou no ? Falando sério, aquilo sim é uma escultura grega.
— Dispenso.
suspirou.
, eu quero te ajudar! Falando sério, você precisa ficar com alguém. Vai reduzir seus problemas.
— Ah, tem o... Não sei.
— Sabe sim! Vai, me diz. Vai esconder algo da sua amiguinha ? Eu nunca te escondo nada. Nem aquela vez que eu comi um daqueles sabõezinhos bonitinhos achando que era bala.
— Não me lembra desse episódio. Você ficou meia hora bebendo água porque achava que tinha prendido na sua garganta, e ia virar espuma.
— Álcool-nteceu. Mas não enrola. Quem é o felizardo que corrompeu esse coração de gelo?
— Srta. ? — chamou a senhorinha, interrompendo as duas mulheres, que olharam imediatamente para ela — O doutor já pode atendê-la.
levantou da cadeira, puxando o cachecol e tirando-o do pescoço, e pegou sua bolsa nude ao seu lado. Foi até a porta, mas antes de abri-la, olhou para trás e comprimiu os lábios, olhando para .
— Vai lá, garota — disse a química, sorrindo torto — Vou embora, mas me ligue se tiver qualquer problema.
A detetive olhou para o lado, querendo relaxar, para a mesa que ficava no meio do corredor, repleta de cartões de psicólogos do hospital. esticou a mão e, sem que a senhora olhasse, tirou uns cinco cartões de uma médica qualquer e colocou-os na bolsa. Em seguida, girou a maçaneta e olhou para dentro da sala. Era pequena, mesmo assim parecia grande o suficiente. Aconchegante. Mais ainda, era o doutor que a examinaria.
— Hey, — chamou , sentado do outro lado da mesa e convidando-a para se sentar.

— Então, ãhn... Não sei bem como começar — falou , mexendo nos cabelos e um pouco confuso, sorrindo — Nunca atendi nenhuma conhecida.
cruzou os braços e não falou nada, apenas olhando nos olhos de .
— Tem alguém lá fora? Quer que eu peça para entrarem? — ele voltou a falar, apontando para a porta e dando cliques contínuos e repetidos na caneta — Ok, você não quer mais ninguém. Então... Você quer começar, ou posso fazer minhas perguntas?
bufou dessa vez, sem paciência alguma. Olhou séria para o lado, com os lábios comprimidos.
, eu quero te ajudar. Não como psicólogo, não sendo obrigado pela sua chefe, mas como seu amigo.
— Então finja que eu falei alguma coisa e vamos embora para casa — finalmente falou, com a voz firme e grave, olhando para ele de novo.
... Eu realmente quero saber o que está acontecendo com você.
— Não finja que está preocupado — ela voltou a falar, alto, e inclinando o corpo para frente —, porque enquanto eu estava no Manson, ninguém se importou comigo!
! — gritou , levantando o corpo rapidamente e batendo com as duas mãos na mesa, inclinado para frente, com o rosto perto do de — Você quer ir embora? Pode ir. Diga à sua chefe que eu te liberei, que você está bem. Se quiser, eu mesmo escrevo um bilhete para ela. Mas eu já cansei de receber garotas como você nesse consultório.
chegou para trás e afundou na cadeira. ficou de pé e diminuiu um pouco o volume da voz, ainda parecendo irritado, para continuar falando enquanto dava a volta na mesa:
— Você não faz ideia de quantas pessoas como você eu costumo receber. Mulheres seguras, que se negam a colaborar comigo. E eu sempre as ajudo, eu sempre consigo descobrir a raiz de seu problema. Eu posso te ajudar e você sabe disso.
— Eu não sou como suas outras pacientes — ela disse, baixo e entre dentes.
— Você não chega nem perto da minha paciente mais difícil — concordou, sentando perto de , em cima da mesa, o que a fez dar um pequeno sorriso torto — E eu não quero que pense que estou querendo te ajudar por obrigação. Você intriga a todos, não só a mim, e te tratar vai ser um desafio que quero aceitar. Eu quero te conhecer melhor, .
olhou torto para , e descruzou os braços. Apoiou-os do lado da cadeira, discretamente apertando em cada lado.
— Sem perguntas que eu não queria responder?
— Se não quiser, é só dizer que eu pulo. Mas me promete que vai fazer um esforço?
Ela ergueu a sobrancelha direita.
— Eu não quero ter que fazer birra, ...
— Não faça, não faça — ela falou, fazendo com as mãos sinais para que ele parasse, rindo — Não precisa da birra do .
— Ok. Você quer falar comigo alguma coisa específica? — ele perguntou, voltando para sua cadeira.
— Essa blusa é horrível.
— Foi bem cara, ok? — ele disse, rindo, apontando para a roupa e fazendo uma careta.
riu dessa vez, de verdade. Mexeu no cabelo, tentando disfarçar, e depois colocou a mão na frente da boca.
— Está melhor? — perguntou, com um sorrisinho.
— Você é um idiota.
— Pelo menos sirvo para isso. Mas fala, você se lembra de alguma coisa no dia do acidente? Alguma coisa estranha?
— Do acidente...?
Ramona. Ramona ter me ajudado.
— Além do acidente em si, nada muito específico.
— E depois disso? Com Tyler, por exemplo?
— Ele... — teve que pensar dessa vez — Ele está bem. Sem machucados, está em um hospital tratando de seu ‘trauma’.
— Você entendeu o que eu quis dizer. Você e Tyler.
— Tyler... — ela calou-se, coçando a nuca. parou de mexer na caneta e inclinou-se em cima da mesa, apoiando o cotovelo.
— Pode falar, .
— Ele não quis falar comigo desde aquele dia. Quando fui ao hospital, para ver como ele estava, ele...
Ela apontou para o rosto, para a marca perto da orelha.
— Ele te bateu?
— Não foi como uma surra, sabe? — ela apressou-se a justificar — Foi mais um tapinha... Forte.
— Entendi. Continua.
já está bem melhor, o braço está bom. Mesmo assim, ele tirou licença. Julie também ia me dar licença, mas isso vai depender do que você resolver.
— Sim... E ? Ele está bem, na sua opinião?
— Ele se machucou, mas ainda não sei bem o que aconteceu. Evito falar do acidente, e ninguém puxa esse assunto comigo.
— Você sabe que foi ele quem salvou o Tyler?
atropelou-se em suas próprias palavras.
— Como foi?
— O salvou o Tyler. Pelo menos, foi o que eu ouvi. No porão, o Tyler ia sufocar, aí o o salvou e até lutou com a Jacqueline. Quando ela o esfaqueou, ia matar Tyler, mas achou que ele tivesse morrido. Daí ela foi para o restaurante.
— O ... Salvou meu irmão?
Julie também disse que o que me achou. Foi por causa dele que todos foram me salvar. Ele que soube onde me encontrar.
Foi o .

— Sim, foi ele. Mas voltando... Você disse que todos evitam puxar esse assunto contigo. Acha que tem algum motivo especial para isso?
pensou um pouco.
— Não, na verdade, acho que só não querem fazer eu me sentir desconfortável.
Realmente, estão a fazendo acreditar que é por isso.
, voltando ao seu irmão... Ele... — tomava cuidado com suas palavras — Vocês dois brigaram? Quer dizer, por que ele te deu um tapa?
— Eu fui até o hospital e perguntei o que ele se lembrava da noite do acidente. Ele não quis falar comigo. Eu o forcei a falar, nós começamos a gritar, e ele me bateu... Eu puxei o cabelo dele, e precisaram de três homens para nos separar.
— Me deixa adivinhar — brincou — Dois para segurar você, e um para o Tyler.
riu e concordou com a cabeça.
, essa sua relação com o Tyler... Podemos entrar melhor nesse assunto?
— Bem, sim, acho que podemos.
deu um último clique na caneta, pronto para começar a anotar.
— Você parece ter uma relação distante e próxima com seu irmão, ao mesmo tempo.
— Como assim?
— Enquanto vocês estão sempre distantes, por parte de Tyler, você tenta ao máximo ajudá-lo com tudo. Sempre que pode, quer vê-lo.
— Acho que é isso que irmãos fazem, .
— Viu só? — ele disse, rindo — Você sempre tenta justificar. Você justificou logo o machucado como ‘só um tapinha forte’. Quer sempre defender o irmão, mesmo que ele não mereça.
— E o que tem isso? Qual é o problema? — cruzou os braços, voltando a se irritar.
— Não acho que isso seja saudável. Digo, você só acabou se envolvendo no acidente por uma besteira que ele fez. Não estou falando que você não deveria ir atrás dele, salvar sua vida. Só estou dizendo que ele pode te controlar, e controla.
franziu o cenho. Ele parecia estar certo.
— Tyler sabe que pode sempre contar com você. Sabe, , eu acredito que todo mundo pode até ter um escudo, mas sempre haverá uma pessoa que será nossa fraqueza. No seu caso, é Tyler, estou certo?
— Acho que está. Tyler já me chateou muito. Ele me procura quando bem quer, e eu vivo atrás dele para ele não fazer besteira.
— Como com Justin Durden?
comprimiu os lábios e, em um leve lapso, apertou a própria pele do braço.
— Não quero falar disso.
— Ok, desculpa. Mas você me entendeu? Se essa atitude de Tyler lhe incomoda tanto, evite deixá-lo se sentir tão ‘rei do mundo’. As coisas não giram ao redor dele.
— Entendi, .
As coisas pareciam estar caminhando corretamente.
— E além do Tyler? Algum nome especial que você possa citar? Da família, quer dizer. Sua mãe, por exemplo, ou pai.
— Não quero falar disso.
— Ok, ok — logo a acalmou, percebendo que parecia irritada quando se tocava no assunto ‘família’ ou ‘Durden’ — Acho que estamos quase acabando. Só mais uma coisinha: o que foi isso no seu braço?
abaixou os olhos e viu a marca de unhas no antebraço.
— Eu faço isso quando fico nervosa, ou irritada.
— Como quando você entrou aqui? Irritada?
Ela olhou para o chão.
— Você sempre reage assim quando faz algo novo?
— Na maioria das vezes.
— É sua postura quando interage com o desconhecido? Porque em casa você não é assim.
, por favor, eu sou policial. Não posso ser que nem uma princesa de desenho.
— Também não precisa ser o lobo mau.
Ela levantou o olhar e uma sobrancelha.
— Não, a sobrancelha não, por favor — falou, colocando as mãos nos olhos — Ela me dá arrepios.
não aguentou uma risada.
— Você mantém uma aparência intimidadora, cabeça dura, quando tem medo. Quando está em um meio desconhecido. Essa é sua defesa.
— E daí?
— Daí, , que você não é assim. Você é bem diferente. Essa é sua defesa, e isso afasta pessoas. Você pode contar nos dedos as pessoas que confia, não pode?
— Acredito que até você, todo piadista, também pode.
deu de ombros.
— Não seria da maneira que você age que eu conseguiria mais pessoas em quem confiar. Isso repele, , e na minha opinião, isso não é saudável.
quis retrucar. Conseguiu se conter.
— E, pela minha experiência, isso veio de algo bem mais antigo do que parece.
— Você fala como se fosse um ancião chinês.
— Olha, eu sou um pouco mais velho que você, sim, mas ancião chinês já é exagero.
Ela sorriu. abriu uma gaveta e pegou uma caixinha azul, do tamanho da palma de sua mão. Colocou-a no centro da mesa.
— De qualquer jeito, essa maneira que você fica ao encarar novas experiências é algo bem perto do que posso chamar de bipolaridade. Claro que, para concluir isso, tenho que fazer exames e mais consultas. Por enquanto, pode tomar isso aqui. Vai ajudar.
suspirou.
— Mas você não precisa tomar se não quiser — ele completou.
— Olha, eu só quero poder trabalhar. Só preciso da sua autorização.
— Não posso autorizar se achar que você não está pronta para o trabalho.
— Mas, ...
, eu sou seu amigo. Pode me falar qualquer coisa.
Ela colocou a mão atrás da cabeça e suspirou, derrotada.
— Às vezes, eu vejo pessoas que eu amo morrerem.
— Como é? — ele perguntou, franzindo o cenho.
— Não é como se eu assistisse. É meio que... — ela tentava fazer gestos, até algumas caretas, mas parecia que não havia palavra certa para aquilo — É como se fosse um aviso. Para eu cuidar dessas pessoas, para eu aproveitá-las.
— E quem você já viu morrer?
— Eu não vejo. Quer dizer, não sou o garoto d’O Sexto Sentido — riu quando ela falou isso — Na verdade, são sonhos. — E você sonhou com quem?
— Com... Com o .
chegou o corpo para trás, apoiando no encosto cadeira. E, nesse momento, um alarme do canto da mesa tocou.
— Nossa consulta acabou.
— Pode fazer meu relatório?
— Levando em conta que você só realmente foi analisada há uns trinta segundos, posso tentar. Você vai voltar? Precisa fazer um tratamento mais longo, como a delegada me informou.
ajeitou-se na cadeira.
— Vou tentar — ele disse, derrotado, e com um pequeno sorriso.
— Tem algo... — murmurou, evitando olhar nos olhos — Estranho que eu posso te mostrar.
— Claro, pode mostrar — ele disse, curioso e se inclinando para ver melhor o que ela ia pegar na bolsa.
pôs a mão no bolso e puxou, lentamente, um papel de fichário dobrado. Quando ia abrir a mão, para vê-lo cair em cima da mesa, recuou e levantou-se da cadeira rapidamente, deixando claro que estava minimamente perturbada. De costas para o psicólogo, e segurando a maçaneta, ela disse:
— A consulta acabou. Semana que vem, eu te mostro. Preciso ir para a delegacia.
... — falou , rindo, enquanto tirava o jaleco — É sexta-feira, e são seis da tarde. Relaxa.
Ela devolveu ao bolso o papel que ia entregar a .
— Vamos para casa, hoje é sessão de cinema.
Quando o psicólogo deu a volta na mesa para sair da sala, se aproximando de sua amiga, voltou à mesa e pegou a caixa de remédios azul e enfiou-a na bolsa. Deu um sorriso torto para , que, por sua vez, confirmou com a cabeça.
Ramona não dava as caras há duas semanas. Seu último ato tinha sido deixar no bolso de um papelzinho dobrado, que vinha do livro de registros do Hotel Tate, e que, incrivelmente, parecia ser a chave de para a liberdade, para o fim das desconfianças.
Aquele pedacinho de papel livrava-a de todas as suspeitas de que teria assassinado Joe Durden.

Boa noite. Faz cerca de duas semanas que uma tragédia aconteceu na pequena cidade de Longview. Dois dos herdeiros da conhecida família Durden, Jacqueline e James, sequestraram a detetive , e seu irmão, Tyler. Jacqueline foi morta, segundo , por suicídio, pouco depois de assumir a culpa pela morte de Samantha Fox, assassinada há alguns dias, e por um desconhecido assassinado no último Halloween. Um dos envolvidos no resgate de e Tyler foi o jornalista , e o oficial . Já marcamos para daqui a alguns dias um debate com algum deles, e teremos qualquer informação logo sobre isso. Agora, neste fim de semana, o frio vai chegar com força em boa parte do país...
A rua parecia escura demais para que andassem lá. Se já ao claro do dia a Soap Street não era o lugar mais indicado para se andar, os demônios daquela rua pareciam voltar à vida quando o sol se punha.
A pessoa saiu andando, praguejando, irritada. merecia todo aquele mérito? O máximo que ela fez foi ser sequestrada. E ? Nem chegaram a falar dela na matéria.
Virou a esquina. Beco sem saída.
Sem saída. Não era a primeira vez que ouvia aquilo, que aquelas duas palavras cruzavam seu caminho.

Assim que ela e saíram do hospital, um Audi estava parado na rua, com as lanternas acesas, apenas esperando para que os dois entrassem. foi para o carona, enquanto abriu a porta e acomodou-se nos bancos de trás.
— Eu dirijo, garoto, você está com uma mão só — avisou .
olhou para o antebraço enfaixado de .
— Enquanto meu braço ainda estiver no ombro, eu cuido do volante. Garanto que sou um perigo menor — retrucou, sorrindo — Já sabe o que vamos assistir hoje à noite?
— O filme que eu escolhi, você quer dizer?
— Não, o filme que eu escolhim porque da última vez eu tive que ver maratona Batman — retrucou , tirando o carro da vaga — O antigo, aquele bem tosco.
— Quer deixar para a escolher? Ela vai ser mais justa — perguntou, já nem parecendo querer ouvir a resposta — , que tal: um filme clássico de ficção científica, sobre um dilema de um adolescente, que é obrigado a ir para um lugar distante, sem alterar qualquer tipo de elemento vital de sua nova realidade, para que sua realidade antiga não fosse mudada, e assim não acabar gerando um paradoxo no tempo-espaço contínuo que impossibilitaria sua geração?
— Em linguagem de gente, é De Volta Para o Futuro resumiu.
— É, e o primeiro! — defendeu o filme — E levando em conta a cena do solo da guitarra no baile, eu ganho vantagem sobre qualquer filme do .
— E a segunda opção? — perguntou .
— Um filme sobre um cara que gosta de porrada e de sabonetes — falou , sem dar muito crédito ao filme escolhido por .
— Você decide, — falou , olhando para ela, pelo retrovisor — Um filme genial sobre a sociedade americana e seu consumismo, e sobre bases psicológicas de um universo onde não há valorização do indivíduo... Ou um filme que todos nós já sabemos o que vai acontecer no final?
— Cala a boca, Clube da Luta é um saco. A maior arma do seu herói é um sabonete.
— Cala a boca você e nunca subestime o poder do sabonete.
— Ok, ok, garotos — interrompeu, cruzando os braços e olhando para um, e depois para o outro — Hoje eu vou ter que escolher... — ela fez suspense, apenas para provocá-los — Desculpa, , mas o do tem o Brad Pitt.
— Há! Ganhei — comemorou , rindo e voltando a andar com o carro, que tinha parado em um sinal.
— Isso é tão injusto! O meu tem o Michael J. Fox!
— Há uns trinta anos, quase — argumentou, rindo — Ah, meninos... Podem parar aqui rapidinho? Preciso resolver uma coisa.
— Ãhn... — disse , enquanto encostava o carro — Ainda precisamos parar para comprar nossa comida.
— Vão na frente, depois encontro vocês.
— Tem certeza de que vai ficar sozinha? Não é perigoso?
— Não, , eu sei me virar.
— Onde você vai, ? Posso ficar mais perto, se quiser — falou .
— Não, eu estou bem. Podem ir na frente.
Ela abriu a porta e, rindo sem graça, saiu do carro. Bateu, e e observaram se esgueirar entre os carros e desaparecer por alguns instantes. Logo depois, reapareceu, comprando uma rosa branca. e se olharam, curiosos para saber o que viria a seguir.
entrou em um cemitério no fim da rua.
— É isso mesmo? — perguntou , surpreso — Ela nos deixou para ir a um cemitério?
— Você sabe, . Ela foi "falar" — fez questão de fazer as aspas com os dedos — Com o Durden.
— Com a Jacqueline? Acho improvável que esteja querendo tanto assim "falar" com ela.
— Não esse Durden.
voltou a olhar para , com o cenho franzido.
— Todo mundo aqui em Longview sabe.
— Então me explica, eu sou novato na região.
— Eu? Te explicar? Cara, eu nem conhecia a antes de você. Eu só sei que essa garota nunca mataria Joe Durden. E veja só no que deu.
não fez isso, ela nem matou a Jacqueline! E olha que teve chance.
— Encare os fatos. fez churrasco de Joseph Durden, essa é a verdade.
— Não acho que tenha uma verdade nessa história. Só muitos pontos de vista.
— Que seja. Eu só sei que essa história vai demorar a terminar. Agora, se me dá licença... — destravou a porta do carro.
— Ei, ‘tá indo onde? — perguntou , incrédulo por estar sendo deixado sozinho.
— Comprar comida. Fica aqui, daqui a pouco eu volto — ele saiu nessa hora.
— Que você volta, eu sei, eu não quero ficar aqui...
Mas o interrompeu, batendo a porta e deixando falar sozinho.

Algumas pessoas odiavam Joseph Durden. Alguns diziam que ele era a pior influência que se podia ter. Outros afirmavam que Joe era um dos homens mais inteligentes que já pisara em Longview. Ele era os dois, na verdade... Era perigoso, era genial, e acima de tudo, era humano. E como era, errava. A diferença era que Joe Durden gostava de errar, , de vez em quando, errava de propósito. Ele afirmava que o erro para todos era seu maior aceito e satisfação pessoal. Muitos também tinham medo dele.
viveu sua vida inteira ao lado de Joe Durden.
O casaco preto pesava em seus ombros. A cada passo dado com suas botas, parecia prendê-la ao chão. O vento frio soprava do horizonte, parecendo as respirações das almas perdidas do cemitério de Longview.
comprou uma rosa branca antes de entrar no cemitério, o terreno macabro era todo circundado por uma antiga e bela série de lanças apontadas ao céu. Aquilo devia ter algum tipo de conotação positiva, porém, sabia que alguns dos mortos daquele lugar jamais poderiam ascender. Por exemplo, Joseph William Durden.
parou com as mãos nos bolsos, a cabeça abaixada, olhando para o mausoléu à sua frente. Finalmente, um momento para descansar. Jacqueline também ficara no mesmo lugar, atrás do mausoléu de Joe, assim como Justin.
Era bem óbvio o motivo pelo qual apenas Joe foi cremado.
esticou a mão e colocou a rosa na frente da urna de Joe. Talvez, aquilo representasse a paz. A paz que ela nunca teve, que nunca conseguiu ter. Sua mente era um caos, uma guerra onde ela lutava dos dois lados.
— Hey, Joey — ela murmurou — Eu sei que você não vai me ouvir. Não porque você está morto, mas, bem, porque você não ouvia nem em vida. Mas eu sinto sua falta, Joe. Você ter ido causou muitas coisas. Desde Justin, na verdade. Eu não queria ser parte disso... — as lágrimas começaram a aparecer — Não assim.
Fez uma pausa. Aquilo parecia paz.
Era silêncio. Equilíbrio.
Só parecia.
— Isso era o que chamava de confiança? Talvez um dia... Eu tinha uma imagem totalmente diferente disso. Eu escrevi nossa história sozinha.
Um som de gravetos se quebrando.
— E vou vivê-la nas linhas tortas. Eu só quero esquecer.
Outro som.
Um casaco preto pesado, uma pequena pessoa de touca. Tinha cabelos loiros e sutilmente cacheados nas pontas. Corria. Corria para longe. E tinha observado .
— Hey! Hey, você!
Sabia que já tinha visto aquela pessoa antes.
A pessoa que acompanhara a matéria do jornal, há alguns minutos, da vitrine de uma loja qualquer, em uma rua qualquer, de um dia qualquer.
Correu atrás dela, para fora do cemitério, e teve a certeza de que deveria parar aquela garota o mais cedo possível.

I can change the world
I would be the sunlight in your universe
You would think my love was really something good
Baby if I could...

— CHAAAAAAAAAAAAAANGE THE WOOOOOOOOOOOOOOORLD... — cantou , ainda esperando qualquer um dos dois, ou , aparecer.
Aquilo que dissera... Que não era importante.
Talvez ele estivesse certo. Talvez ele fosse só uma peça de um enorme jogo. Só um peão no xadrez.
De repente, seus devaneios foram interrompidos quando viu atravessar a rua com pressa, quase sendo atropelada por um carro, tentando alcançar uma jovem à sua frente.
conferiu o lado de dentro do casaco. Com certeza, procurava por sua arma.
Que, claro, estava descarregada.
Se eu estou no jogo, vou jogar com as minhas regras.
desligou o carro e saiu, andando normal e lentamente até onde tinha ido. Um beco não muito limpo, mas também não perigoso, da cidade de Longview.
Entretanto, sabia que não adiantava: viver perto de era um perigo eminente. Um perigo que ele gostava de viver.
Fazia ele se sentir especial.
Vivo.

De todas as lojas da rua, de todos os prédios do bairro, era óbvio que a menina entraria em um beco.
Era claro como a água.
Afinal, era a vida de . Mais confusa que um filme do Stanley Kubrick, mais violenta que um filme do Quentin Tarantino, mais perigosa que um filme do Martin Scorsese, e mais dramática que um filme do Steven Spielberg.
Assim que a garota entrou no beco, ficou atrás de uma parede, sem entrar com a menina. Não seria tão impulsiva.
Checou a arma dentro do casaco, descarregada. Perfeito. Afinal, só queria afugentar qualquer possível atacante.
A adrenalina corria por suas veias, abastecendo como oxigênio. Era sua fonte de energia, esse hormônio tão estimulante.
Cada respiração parece a última, cada passo parece não ter volta, e a vida é única.
Todos têm duas vidas, e a segunda só começa quando você percebe que a primeira tem fim.
Quem precisa de paz, quando se tem adrenalina?
— Você viu? Viu? — perguntou uma voz masculina.
virou um pouco a cabeça para dentro do beco.
— Eu... Ela estava armada, eu não consegui... — a menina disse, vacilante.
ouviu um som de tapa no rosto, e em seguida, água esguichando. A menina tinha sido agredida, e caíra em uma poça.
Um dos treinamentos para era justamente parar esses tipos de coisa. Quer dizer, ela era policial! Policiais protegem civis.
! — chamou , atrás de .
— Ah, , que susto — ela virou para ele, assustada.
— O que está fazendo?
— Perseguindo um suspeito.
— Você foi bem discreta — ele falou, sarcástico.
Outro som de tapa foi ouvido. Dessa vez, um som abafado de grito também soou.
— Merda! Não é possível. Nem para isso você serve.
Ouviram um forte soco.
— Não gosto de pessoas inúteis. Tomam meu tempo.
Nesse momento, caída no chão, a garota olhou para trás. Para , para . Antes, estava de costas para eles.
Era como ela pressentisse que eles estavam ali. Como se soubesse que iria segui-la, que iria ficar ali até o final para protegê-la de um eventual perigo.
Mas não protegeu.
e olharam bem para o rosto da menina. Era impossível que tivesse mais de dezoito anos. Seu rosto era angelical, os olhos tinham um tom de verde musgo, e os cabelos eram dourados. Suas roupas não eram as mais caras, sequer as mais limpas. Não parecia uma moradora de rua, e sim uma pessoa esquecida. Deixada à mercê de sua própria sorte.
Por muito tempo, também foi assim.
— Ali! — a menina apontou para onde eles estavam, e assim que o fez, ambos se esconderam atrás da parede — Quem você quer.
As respirações de e se tornaram muito mais rápidas ao ouviram isso.
— Volta para o carro — instruiu , entre dentes.
Assim que os dois tentaram correr de volta para o veículo, um dos homens (eram quatro) os atacou. apostaria tudo que tinha dizendo que eles estavam atrás dela.
Mas errou. Era o couro de que aqueles cães famintos procuravam.
Um dos homens o imobilizou, dando-lhe uma gravata. Um dos outros rapidamente deu-lhe uma certeira surra no rosto, que o acertou no olho. Os outros dois estavam perto da menina, o "chefe" com as mãos na cintura, enquanto o que sobrou erguia a garota com violência.
Nenhum rosto podia ser visto. Todos usavam máscaras de palhaços.
E se tinha algo que temia, isso era palhaços.
Assim que o soco atingiu o rosto de , podia ter fugido. Ficou, tirou a arma descarregada do casaco e, percebendo que estava quase invisível ali, bateu com toda sua força com a arma contra o latão de lixo mais próximo.
O estrondo foi incrível. Parecia um tiro de verdade. Quando o som interrompeu os dois palhaços que atacavam , ambos o soltaram e bateram em debandada. Os dois que estavam próximos da menina também, mas apenas dois olharam para trás. O chefe, e a menina.
, você está bem? — perguntou , ajoelhando-se e tentando ver o rosto do jornalista. estava caído no chão, com a mão na frente do rosto, os cabelos caindo em sua face.
— Tem sangue aí?
Ele tirou a mão do rosto, e um simples "sim" não seria suficiente para responder a pergunta. Tinha um corte na sobrancelha, o nariz escorria um filete de sangue e o olho mal abria de tão inchado.
— Vamos embora. Não encosta no seu rosto — segurou a mão dele e o ajudou a levantar. acompanhou-a pela rua, guiando-se pela mão de .
— E o ?
— Ele pega um táxi, eu pago depois. Você precisa de um belo curativo, talvez alguns pontos nessa sobrancelha.
— O hospital deve estar cheio.
destravou a porta do carro com a chave que estava pendurada no bolso de .
— Quem falou de hospital?

— Ainda dói? — perguntou, depois de dizer para que se sentasse no sofá, e enquanto procurava o kit de primeiros socorros.
— Um pouco.
Ela voltou logo depois, já com uma gaze úmida na mão. Enquanto ficara sentado no sofá, ela preferiu ficar de pé na frente dele. Delicadamente, levantou o rosto de , para que ele olhasse para ela.
— Mas ainda vou querer minha enfermeira — ele falou.
sorriu sem graça e encostou de leve a gaze na sobrancelha de . Ele puxou um pouco de ar com a boca, entre dentes, produzindo um pequeno ruído característico de dor.
— Você conhecia aquela menina? — perguntou .
— A garota? Não. Achei que você conhecesse.
— Não conheço... Acho que você não vai precisar de pontos. Foi um corte pequeno na sobrancelha.
— Onde você aprendeu a dar pontos?
— Eu não aprendi.
tinha os dois olhos fechados. Por um momento, abriu os dois ao mesmo tempo, olhando fixamente para , quase que com medo.
— Brincadeira! A me ensinou — voltou a colocar a gaze no machucado da sobrancelha dele — ... Para cuidar desse olho, você vai ter que deitar no meu colo.
— Como é?
sentou-se ao lado dele e alcançou a caixa de primeiros socorros em cima da mesa de centro. Molhou um algodão com soro fisiológico, e quando este estava encharcado, deu dois tapinhas leves na própria coxa, convidando para se deitar nela.
Wow.
Lentamente, e até com certo receio, deitou o corpo e encostou a cabeça nas coxas de . Eram macias, confortáveis.
Por um momento, parou para pensar como era um cara de muita sorte.
— Feche os olhos — ela instruiu. Assim que ele obedeceu, ela repousou o algodão em cima de sua pálpebra inchada. Massageou um pouco a região, e o soro gelado teve um papel revigorante. deu um pequeno suspiro, que acabou soando quase que como um gemido. Ele achou que não tivesse prestado atenção nisso.
— Ainda dói? — ela repetiu, parando de massagear o local e apenas repousando a mão em cima do algodão para mantê-lo em contato com o olho de .
— Não mais.
O silêncio permaneceu por alguns segundos. Se havia algo que pairava sobre o ar, era a inocência.
Pare de agir como um garoto, aja como um homem.
— Admito que não era assim que eu imaginava um dos meus momentos sozinho com você.
Não é a inocência que separa um garoto de um homem?
— Como você imaginava? — ela perguntou, com um sorriso envergonhado.
levantou uma mão e tirou uma mecha do cabelo de de seu rosto. Ele estava trançado de lado, até um pouco bagunçado, mas um pequeno conjunto de fios escapou dos demais. E ele queria ver o rosto da moça.
Poderia escolher aquele sorriso envergonhado uma de suas vistas preferidas.
— Em um restaurante. Cinema, sei lá.
— Isso me soou muito como uma cantada.
— Só foi se tiver dado certo.
riu.
— Ah, fala sério, ! Eu tive que machucar um braço para ficar perto de você, vou ter que machucar o outro para fazer você sair comigo?
— Não, , não precisa. Não quero ver meu amigo mais machucado ainda, e isso é um talento seu.
— Ouch — ele reclamou, o que fez se assustar por um instante, e tirar o algodão de seu olho já quase totalmente desinchado — Bem na friendzone.
— Não foi friendzone... — ela justificou-se, rindo.
— Fui chutado direto para a friendzone, isso sim. Mas, olha, eu sou bonitinho, não sou?
— Dá para o gasto — ela falou, com uma careta metida.
voltou a olhar diretamente para ela, torcendo o lábio em uma careta. Os dois riram com essa reação.
— Pronto, já está bem melhor agora — ela declarou, tirando o algodão. se levantou, e ficou sentado no sofá. levantou-se e foi até a mesa de jantar, que tinha uma sacola — Vai contar para o sobre o machucado?
— Não, ele vai ficar me enchendo querendo saber que impacto traumático isso teve na minha vida. Não, obrigado, eu dispenso — olhou para onde estava, de pé com três sacos de bala na mão, olhando para eles com um olhar de quem planeja algo minimamente proibido — O que foi?
— Já sei nossa sobremesa... Posso pegar a vodka do ?
— Pode sim, ele não se importa. Vai fazer o que com isso?
— Surpresa. Quer ir adiantando o filme? Podemos começar a ver sem o , eu nunca vi aquele filme.
— Espera — disse, abrindo mais os olhos e surpreso — Você nunca viu Clube da Luta?
— Não... Mas já me indicaram.
— Cara, é muito bom. Você vai gostar.
foi em direção ao corredor e entrou em seu quarto. O filme era o primeiro na prateleira de filmes, como sempre foi, afinal, era o filme que mais assistia. Pegou o DVD e voltou para a sala. Enquanto estava na cozinha, colocando algo na geladeira, viu seu celular tocar no bolso.
— Alô? — ele perguntou.
, é o seu bro. Vou demorar a chegar, a fila aqui está um tanto quanto enorme.
— Tranquilo, cara.
— Você beijou a ?
fez uma careta, mesmo sabendo que não poderia vê-la.
— Que pergunta é essa?!
— Sei lá, foi o jeito que você falou. Enfim, não façam na cozinha.
— Cala a boca.
— E não comecem o filme sem mim.
— Pode deixar.
desligou. surgiu no corredor quando terminava de passar por ele.
— Vou trocar de roupa, rapidinho.
— Ok, eu vou adiantando o DVD enquanto isso.
assentiu e entrou no escritório. foi para a sala com um sorriso bobo. Quer dizer, tinha alguma esperança com ... Mesmo sabendo que homens como eram bem mais o tipo dela. parecia muito transparente à maioria das pessoas à sua volta.
Uma mulher inesquecível, mas que se esquece dos outros.
Não queria pensar assim, porém, era isso. se importava com certas pessoas e ponto final, mesmo que tais pessoas se importassem com ela, isso nem sempre era recíproco.
Pelo menos, era assim que pensava que ela fosse. Ela era incrivelmente imprevisível.
Ligou o DVD e a televisão. Colocou o disco no lugar e selecionou o play.
Carregando.
Carregando.
Carregando.
A primeira cena, supostamente, era uma abertura de um caminho nos neurônios do protagonista, mas não foi isso que viu.
‘Pare. Por favor, pare.’
Era um ‘pare’ com gosto de ‘continue, por favor, não pare.’
Era um lugar escuro, mas mesmo assim, duas silhuetas eram visíveis. Uma delas foi facilmente reconhecida. Uma mulher, uma jovem de cerca de quinze anos, usando um vestido.
— O que eu per... — ia perguntar, entrando novamente na sala, usando um short e uma camiseta do Star Wars. Quando viu as imagens na televisão, ficou paralisada.
Fantasmas, assombrações.
, o que...
Há alguém na minha cabeça que não sou eu.
correu para frente da televisão e desligou o monitor.
Aquilo estava registrado. Alguém ainda tinha aquilo.
Por que você não pode simplesmente me deixar em paz?
! — gritou , ainda quase catatônico. Não acreditava que tinha visto aquela cena.
Estupro.
A mesma cena que Tyler foi obrigado a ver.
— Acho que eu já posso te contar, ...
E ela foi cabisbaixa até o sofá, sentando-se a seguir.
Uma garotinha. Inocente. Não era uma mulher.
Era uma menininha.

Eram muitas as perguntas que pairavam naquele momento.
Se aquela era , no vídeo, quem era o homem?
Qual era o conteúdo do vídeo? Comercial ou simplesmente uma recordação?
sabia que estava sendo gravada? Quem foi que gravou?
Onde aquilo tinha acontecido?
Como colocaram?
Não seria algo difícil de responder, essa última pergunta. Aquele filme era o primeiro entre os seus na prateleira, então, provavelmente era um que ele costumava assistir. Então, quem quer que fosse o colocou ali, pois sabia que iria assisti-lo logo.
Mas a pior pergunta era: quem colocou aquele filme no lugar do DVD de ?
sentou-se ao lado de , não sabendo realmente que tipo de rosto deveria fazer. Antes, há alguns minutos, assumira uma feição surpresa, e depois, uma careta. Agora, ele não fazia uso de máscaras.
Era surpresa a roupa que ele usava. Enquanto ela, por outro lado, pareceu algo entre o ‘arrependida’ e o ‘não quero falar sobre isso’.
Assim como tinha feito antes, colocou uma mecha do cabelo de atrás da orelha dela. Ela ergueu a cabeça, e também um canto dos lábios.
Se for a inocência que separa um garoto de um homem, aquela do vídeo era uma garota. E quem estava ali, preparando-se para contar a história, era uma mulher.
— Acho que você já merece saber — declarou, limpando o rosto com as costas das mãos. Ele tinha sido cruzado verticalmente por duas lágrimas, uma abaixo de cada olho. E mais provavelmente estariam por vir.
Frágil.
— Novato... — ela começou, sentando em cima do sofá ajoelhada, e olhando para baixo — Você acha que eu matei Joe Durden?
precisou limpar a garganta para responder.
— Não.
voltou a olhar para ele. Para seus olhos que esperavam, pacientes, o resto da história. Uma criança curiosa.
Eram crianças. Eram os dois, apenas crianças.
e .
e Joe.
Paz.
— Eu nunca poderia ter matado Joe Durden... Porque, por muito tempo, ele foi a pessoa mais especial da minha vida.
— Como assim?
Então, ela começou a contar.

Quando eu nasci, minha mãe já não passava pelas melhores situações financeiras do mundo. Ela morava em uma parte mais pobre da cidade, e trabalhava como empregada doméstica. Foi nessa época que ela arrumou um emprego na casa da família Durden, como babá do filho mais novo deles. Desde essa época, eu me aproximei de Joe. Ele era dois anos mais velho do que eu, e desde que tenho três anos, já éramos inseparáveis. Eu sempre ia para o trabalho da minha mãe, para brincar com Joe. Quando Tyler nasceu, eu tinha quatro anos, e o Sr. e a Sra. Durden deixaram minha mãe dormir na casa, para ter mais facilidades com o cuidado do bebê. Quando eu tinha medo de algo, fosse de monstros debaixo da cama, ou de minha mãe levantar a mão para mim mais um dia, eu fugia para o quarto da Jackie e do Joe. Eles eram meus melhores amigos.
Minha mãe nunca foi o verdadeiro exemplo de protetora. Era viciada em jogos de azar, e, às vezes, bebia mais do que o recomendado. Estar na casa dos Durden representou algo bem mais além de amizade, para mim. Era uma salvação, eles eram anjos.
James era o mais velho. Era o mais estudioso da família, e bem mais velho do que eu. Justin era o segundo filho, cuidadoso, carinhoso e atencioso. Sempre cuidava de nós, e agradava todos. Jackie era a ‘líder’, com um espírito de mãe mandona, sempre fazendo as decisões. E eu e Joe éramos os caçulas... Eu era praticamente uma Durden.
Joe sempre foi meio moleque. Gostava de fazer uma besteira de vez em quando. Quebrava pratos, saía de casa escondido... Essas coisas. O problema foi que Joe sempre foi mimado.
Eu queria mais do que tudo viver no Palácio da Cerejeira. Durante os anos de colégio, mal esperava a hora de voltar para casa, para passar a tarde na companhia de todos os Durden. Lentamente, eu via a ruína começar a nascer naquela família.
James fazia furtos ao armário de bebidas da família.
Justin era o único certo daquela família. Entrou na faculdade, como o melhor da turma.
Jacqueline largava os estudos para dedicar-se à carreira de atriz.
Eu e Joe tínhamos uma amizade incomparável. Ninguém nunca vira pessoas tão amigas quanto eu e ele. Quando eu tinha uns catorze anos, todos estranhavam isso. Diziam que Joe e eu ainda iríamos casar.
Joe dizia sempre que só tinha garotas à sua volta, porque queria se preparar para mim. Não me desapontar.
Ele tinha o cabelo loiro escuro, nessa época. Os olhos eram bem verdes, e eu não tinha noção alguma do mundo. Para mim, aquele era meu mundo. A casa dos Durden. Eram as pessoas que eu amava.
Eu amava Joe Durden, e foi aos quinze anos que percebi isso.
Nessa época, Joe já estava perdido.
Ele tinha dezessete, e frequentava festas quase todos os dias. Faltava a escola, e eu, uma idiota apaixonada, sempre entregava suas lições, colocava seu nome nos trabalhos em grupo... E não conseguia dormir enquanto não ouvisse o som da chave girando na fechadura, os pés arrastando pela sala e o tropeço no pé da escada.
Era assim que Joe costumava chegar ao Palácio da Cerejeira. Só faltava cheirar o pó de sujeira no chão.
Foi nessa época que ele me chamou para ir a uma dessas festas. Meus olhos brilharam como diamantes, e o que eu mais queria era finalmente poder ficar com Joe. Tinha tido um ou dois namorados até aquela idade, nada muito importante. Eu queria Joe Durden, e sabia que ele também queria.
Nós nos completávamos.
Quando fui à festa, logo começaram a me empurrar bebidas das mais estranhas. Eu negava a maioria, mas, como uma hora tinha que ceder, para me sentir realmente na festa, eu o fiz.
E não demorou para que eu perdesse o controle.
Levaram-me para o segundo andar, e deixaram-me e Joe no quarto, sozinhos. Ele sabia o que estava fazendo. Foi aos poucos, com a mão boba, e eu não queria parar. Eu gostava do Joe. Esperava aquilo há muito tempo. Os beijos eram lentos, aquele cara sabia o que fazia. Quando avançou demais, eu não tinha mais controle da situação. Tudo era um borrão de cores, e eu só conseguia me lembrar da dor.
Sem imagens, só dor.
Eu não me lembrava de nada depois de ter beijado Joe.
Quando ele saiu do quarto, eu devo ter ficado uns dez minutos ali. Praticamente catatônica. Sem qualquer reação.
Pensava nos dias anteriores, onde Joe falava comigo de um jeito tão diferente. Ele parecia planejar aquilo. Ele me tratava como se eu não fosse mais a , a melhor amiga de infância dele. Para ele, eu era uma garota qualquer naquele dia.
Uma pessoa entrou no quarto, me tirou da cama, apoiando meu braço em volta do pescoço dele. Saiu da casa, xingando quem quer que perguntasse alguma coisa, ou fizesse alguma piadinha suja.
Eu percebi que todos daquela casa sabiam. Todos sabiam, e todos achavam graça disso.
Eu era o prêmio de Joe. A ‘difícil’ que ele corrompeu.
O garoto me levou para o carro, me sentou no banco do carona e me esperou acordar de verdade. Isso não demorou a acontecer. Ele disse ‘desculpe pelo que houve. Eu queria poder ter tirado você de lá antes mesmo que acontecesse’. Eu não conhecia o menino. O nome dele era .
Depois disso, virou meu novo melhor amigo.
Eu e Joe nunca mais fomos os mesmos. Eu ainda falava com a Jackie, com o Justin, mas não mais com o Joe. Ele já estava solto no mundo. Não era mais nosso pássaro na gaiola.
Era uma águia à espreita.
Eu tinha descoberto que a festa desse vídeo foi planejada por Joe. Os convidados eram todos de Joe. E eu era a aposta de Joe.
Não podia contar a ninguém sobre o estupro. Minha mãe não reagiria bem a isso, ela tinha cada vez mais problemas com álcool, e eu era quase que filha dos Durden. Se eu contasse a eles, em quem acreditariam? Eu tentei deixar claro o que tinha acontecido, mas cada vez que eu tentava, Joe me olhava frio na mesa de café. Era o claro sinal dele do que podia acontecer.
Ele não era mais meu amigo Joe, meu futuro noivo, o garoto que jurava que nunca me deixaria.
Eu tinha dezessete anos quando fiz o possível e o impossível para ir logo para a faculdade. O Sr. e a Sra. Durden me ajudaram a bancar o que precisasse, o que não era muita coisa. Tinha conseguido uma bolsa de estudos. O que eu mais queria era fugir.
Um dia, quando eu encontrei Jacqueline e Justin em uma festa, eles tinham me contado que Joe tinha quebrado o braço. Ele me culpava por isso, dizia que tinham ido ‘cuidar de mim’. Imaginei que fosse , mas acho que ele estava ocupado demais com a faculdade dele para fazer algo assim. De qualquer modo, Joe não queria mais falar comigo. Eu tinha passado pela vida dele.
Conheci como a namorada do durante a faculdade. Eu não precisava mais de Joe Durden. Joe também não precisava mais de mim.
Éramos poeira um para o outro.
Tyler não chegou a fazer a faculdade, quando eu estava quase saindo dela. Minha mãe tinha se afundado tanto no jogo, que ele se considerava praticamente um Durden àquela altura. Ela ainda trabalhava no Palácio da Cerejeira, mas não era a mesma coisa.
Tudo começou a ficar difícil quando o Sr. e a Sra. Durden morreram em um desastre aéreo. Eu tinha vinte e um anos. Tyler tinha dezessete.
Jacqueline tinha fracassado em sua carreira como atriz, mas sabia mais sobre cocaína e heroína do que seus fornecedores.
James conseguiu certo dinheiro como biólogo, até fez importantes contribuições para essa ciência, o que lhe garante certa renda de direitos autorais até hoje. É o que lhe salva. Ele chegava a dormir na rua nas piores noites de bebedeira.
Todos eram filhinhos de papai. Foi o que destruiu todos, quando os pais morreram. Todos ficaram sem rumo.
Eu tinha meu rumo, afinal, o que menos interferia o meu caminho era minha mãe. Todo espaço paternal ou maternal em mim foi preenchido por Johnny e Johanna Durden. Quando eles morreram, eu já sabia como prosseguir.
Justin também.
O garoto era um gênio. Ele sabia absolutamente tudo sobre política. As leis, os direitos e deveres, tudo. E ainda continuava sendo o mesmo Justin de sempre.
Tyler nunca tinha deixado de ser amigo de Justin, muito menos eu.
Foi quando eu tinha uns vinte e três anos, um ano depois da morte do Sr. e da Sra. Durden, Justin tinha passado em algum concurso para diplomata, que era o que ele mais queria na vida.
Chamou todos nós para sairmos com ele, jantar em um pub que ele gostava de frequentar. Eu não pude ir, tinha um concurso para fazer, o daqui da delegacia. Tyler e Joe foram com Justin.
Estava bem frio no dia. Eu avisei para que Tyler ficasse em casa, mas ele insistiu. No dia seguinte, descobri sobre uma briga no pub. Foi feia, e culpavam o Tyler. Meu irmão tinha se desentendido com outro cara de lá, do lado de fora, e os dois grupos saíram na porrada. Tyler, Joe e Justin, todos no mesmo grupo. Justin tentou ao máximo acabar com aquilo.
A briga foi muito feia. Quando o frio piorou, e alguns caras estavam começando a se quebrar de vez, desde narizes quebrados até mandíbulas desviadas, começaram a desistir.
Um dos caras do outro grupo não. Ele deu tanta surra no Justin que o Durden nem conseguia se mexer direito.
Quando a polícia chegou, alguns ainda estavam se matando atrás do pub. Tyler tentou tirar o Justin dali, quando os outros caras fugiram ao ver os policiais. Segundo ele, o Justin pediu para que Tyler fugisse... Podia ficar ainda mais feio caso meu irmão continuasse lá.
Paralelamente, eu consegui entrar na delegacia, exatamente no dia em que a morte de Justin por hipotermia.
Ele tinha sido deixado lá, para morrer. Mas não por Tyler.
O julgamento foi logo depois. Algumas testemunhas do lugar, envolvidas na briga, empurraram a culpa para meu irmão, já que tinha sido por ele que a briga tinha começado. Falaram que ele tinha ficado para trás, e, por isso, foi o último a não prestar socorro.
A advogada de Joe contra o Tyler foi Samantha Fox. Aquela desgraçada. Ela extorquiu muito dinheiro de nós, mas não conseguiu fazer Tyler ser preso. Por isso eu não gosto tanto dela, mesmo ela sendo conhecida do , meu namorado na época.
Ele se livrou da cadeia, mas carregou uma péssima reputação sobre a família . E, nisso, começou a rivalidade e Durden.
Samantha e Joe devem ter ficado bem próximos, como o James disse na delegacia. ‘Samantha Durden’, ele disse. Os dois devem ter tido um caso, de qualquer modo.
Enfim. Depois da morte de Justin, as coisas ficaram realmente horríveis entre todos nós. Porém, Joe ainda me considerava um assunto inacabado. Ele cuidava de uma das únicas coisas que lhe dava renda: os Hotéis Tate. Ele, Jackie e James cuidavam desses hotéis, mas era Joe quem sempre frequentava os hotéis. Em uma dessas vezes, ele me chamou para ir lá.
Fui para o Hotel, com certa esperança que fôssemos finalmente nos entender. Não deu muito certo. Eu e Joe gritávamos, nos xingamos até, e ele soube do meu noivado, o que foi até pior. Saí de lá arrasada, tendo a total certeza de que perdera de vez uma grande parte da minha vida.
E Joe sumiu. Ninguém via Joseph Durden por um tempo. Até acharem o cadáver carbonizado em uma lixeira. Eu fiquei pior do que já estava... Passaram o caso para mim, eu não tive coragem de assumir.
Não conseguiria, nunca.
A última pessoa a ver Joe tinha sido eu. Chegaram a me interrogar, e claro que eu neguei. Isso só me fez ficar pior. Eu subia cada vez mais na lista de suspeitos.
Não conseguiram achar ninguém pior do que eu. Todos tinham álibis... Eu tinha apenas sido a última a ir até o Hotel. Tinham testemunhas contra mim. Eu saí do Hotel, claro, mas se alguém viu? Não.
O Manson não é um hospital, ou uma prisão. Apesar de parecer os dois. Eu, pelo menos, me senti uma doente, e uma prisioneira. Eles nos fazem nos sentir assim. Aquele lugar, na verdade, era apenas para manter pessoas como eu, longe. Um lugar para afastar pessoas potencialmente perigosas de pessoas potencialmente idiotas.
Desculpe. Eu não quis dizer isso. Ninguém é idiota. Deixe-me continuar.
Eu fiquei no Manson apenas pensando, na maioria das vezes. Pensando em Joe, como conseguiram me culpar pela morte dele. E Justin... Como eu sentia falta de Justin.
Tyler tinha que pagar algumas semanas de trabalho voluntário. E depois que ele terminou, saiu da cidade por um tempo. Ele fazia isso. Sumia por alguns dias, me mandava mensagens dizendo que estava tudo bem.
Ele se distanciou de mim. Sabia que eu não poderia ter matado Joe, mas, também, não tinha tanta certeza.
Todos reagiam assim. Todos diziam que eu nunca poderia ter matado Joe, entretanto, ninguém ficava do meu lado.
Três meses no Manson me serviram para refletir. Eu pensava em , e , em meus colegas de trabalho. e Marla, que me colocaram no Manson. , a única que ficou do meu lado da delegacia. Julie, que propôs a ida para o Manson, caso contrário, eu iria ficar na cadeira até terem alguma certeza no caso Durden.
Quando você e foram me buscar, eu tinha uma mentalidade totalmente diferente. Não queria, e seria melhor, se eu não me apegasse a algumas coisas. Tudo é instável para mim. Tudo cai, se quebra.
Isso ficou cada vez mais certo quando percebi que tudo começou a acontecer quando eu cheguei. A morte do Halloween, o incêndio... Ramona.
Ramona é uma mulher que eu já comentei com você, no dia que vim para cá. Ela é loira, tem cabelos ondulados e curtos, olhos bem azuis, pele bem clara, nariz fino, é magra e é... Perfeita. Ela me perturba desde o incêndio. Ela, inicialmente, me pareceu perigosa. Colocou fogo na minha casa, participou no sequestro de Tyler, mas... Ela me tirou disso. Ela me salvou, me ajudou a salvar meu irmão.
Eu não sei bem como classificá-la. Não confio nela, por enquanto, pelo menos.
Aliás, são poucas as pessoas que eu realmente confio hoje. Você, , ... Ninguém mais. Todos me deixaram para trás. E, por isso, eu procuro seguir em frente sozinha.
De qualquer modo, eu voltei por um motivo. Desculpe o termo, mas eu estou cagando para o caso Fox. Eu, na verdade, voltei para rever o caso Durden. Ele também anda me perseguindo... A pasta apareceu na minha mesa, eu tenho uma pista que prova minha inocência.
Tem alguém, ... Tem alguém que parece querer me prejudicar, ou me ajudar.
E essa pessoa é Ramona.

Suspiro. Tudo voava pela sala. Os olhos de eram faiscantes, impressionados, curiosos, fascinados. Ele queria ouvir aquilo tudo. Como uma criança ouvindo a mais incrível história.
Maravilhado.
Ele não desistia dela. Ela se sentia especial. Novamente.
Era diferente de Joe. Não havia sentimento de inferioridade. Não era por pena que ele permanecia com ela, como Joe fazia. Não era fanatismo ou algo semelhante. Não mais.
riu, envergonhada com toda aquela atenção. Direcionou os olhos para outra direção. colocou os cabelos dela novamente atrás da orelha dela, transmitindo algo que ela não tinha há tempos.
Segurança. Aquele discurso todo a fez se esquecer da própria história que contava. Do quão ruim aquilo tinha sido.
Retrocedendo. Queimando a fita anterior.
Eu sei que parece loucura. Eu sei que nada disso parece ser real. Eu também queria que não fosse.
... Eu, sinceramente, deixei de achar qualquer tipo de coisa uma loucura — declarou, com um pequeno sorriso — Depois que passei a trabalhar em Longview, nada mais me impressionou. Eu vim trabalhar como jornalista, e acabei me envolvendo em um sequestro. Eu fui preso, dividi apartamento com uma detetive. E nenhuma dessas coisas foi, de longe, a mais estranha. A pior delas...
Uma pausa. queria continuar ouvindo.
percebeu que agora tinha que terminar. Durante um segundo, os cantos de seus lábios se ergueram.
— A pior delas foi me aproximar de alguém que nunca poderá ser minha.
Paz.
Ele era sua paz.
Era aquilo que significava?
Paz não era algo universal. Cada um tem sua própria paz.
Ele era sua paz.
não soube reagir. Os lábios separaram-se em alguns milímetros, e disfarçando a reação, ela molhou-os com a ponta da língua.
— A — finalizou .
— Oi?!
— Brincadeira! Na verdade, eu nem gosto muito dela. Nem vou muito com a cara da .
— Sério? É o primeiro homem que fala isso. A maioria fica caidinha por ela.
deu de ombros.
— Justamente, ela é meio... Meio ‘oferecida’.
riu da escolha de palavras de .
— Só por isso?
relembrou o dia em que ela chamou de louca pelas costas dela. Há algumas semanas, no dia do sequestro. Percebendo que tal adjetivo parecia ser uma palavra que incomodava a detetive, ele preferiu não proferi-la, apenas justificando-se:
— Ela não me parece confiável. Ela é meio vadia, sabe? Fica dando em cima do , e do . Não vou nem um pouco com a cara dela. E não cala a boca, nem embaixo d’água.
— Ei, calma, novato. Ela pode ser uma pessoa bem fútil, eu sei que ela é. Ainda assim, acho que ela vale alguns centavos. Foi ela quem me ensinou a fazer aquilo com as balas.
— Ah, as balas! — ele lembrou — Já está pronto?
levantou do sofá e foi até a cozinha, abrindo a porta da geladeira e pegando o pote de balas de gelatina. Experimentou uma e fez uma careta satisfeita.
— Está perfeito.
também pegou uma, quando voltou a se sentar no sofá.
— O que está fazendo como detetive? Essa receita precisa viajar o mundo! Balas de gelatina com vodka, como eu nunca pensei nisso? — ele disse, pegando mais quatro e colocando todas na boca.
Ela riu diante do comentário e pegou mais uma. O silêncio permaneceu por alguns segundos.
— Lembra-se do dia que fomos até você no Hotel Tate? — ele preferiu mudar de assunto, e depois de assentir com a cabeça, continuou — Foi Ramona que deixou a pista. Ela colocou um reprodutor da música Singing in the Rain, eu apenas juntei os fatos.
engoliu a bala olhando para baixo, para o chão.
— Obrigada — ela sussurrou, como se a palavra estivesse esbarrando em seus lábios, fugindo de sua boca.
ergueu o canto da boca e pegou mais uma bala.
— Por nada.
— Não, obrigada mesmo. Você não faz ideia de como eu precisava disso. Uma conversa dessas. É como...
É como um protetor.
Você é meu protetor, . O novato.

— E, ainda assim, você não quer sair comigo?
ergueu uma sobrancelha, brincando.
— Não force a barra, novato. Você ainda é o estreante.
— Pelo menos eu tentei — ele finalizou, rindo e pegando mais uma bala — Pense com mais carinho, por favor?
Ela levantou do sofá, desistindo, com sono. Assentiu com a cabeça e bocejou.
— Vai aonde? — perguntou .
— Acho que vou dormir, me bateu uma dor de cabeça...
— E o filme?
— Amanhã eu assisto. Já vou indo.
— Ok... Vou esperar o , então.
ia entrar no corredor, mas parou no caminho.
Chega.
Chega de se arrepender, de perder tempo.
Chega.
girou o corpo cento e oitenta graus, e voltou para a sala. estava com o celular na mão, provavelmente mandando uma mensagem para ou algo assim, sentado no canto do sofá. Ela andou até ele, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha. não tinha entendido muito bem por que ela voltara.
— Boa noite — ela disse, inclinando o troco para frente, apoiando a mão no braço do sofá. Aproximou o rosto do de , mirando a testa dele, parcialmente coberta pelo cabelo que estava baixo.
Em vez de repousar um beijo ali, ela baixou a cabeça e fechou os olhos.
E o mundo deixou de existir. Não tinha mais a família Durden, ou , , , Ramona...
deitou levemente a cabeça para o lado e abriu um pouco a boca, abrindo um espaço entre seus lábios que foi logo preenchido pelos lábios de .
custou um pouco a fechar os olhos, retribuindo o lento e simples beijo de . Um simples toque de lábios, capaz de causar a pior das confusões em cada um dos dois.
Mas eles não davam a mínima.
distanciou os lábios dos de , comprimindo-os a seguir, e abrindo os olhos com um suspiro. Ele acompanhou-a ao abrir os olhos, querendo mais do que tudo que ela voltasse a beijá-lo, dessa vez em algo mais longo e intenso.
— Era para ser na testa — ela defendeu-se, deixando o corpo rígido novamente, e girou o corpo em 180 graus para ir para o corredor.
não se lembrava da última vez que tinha feito algo arriscado daquele jeito. Claro, ela se envolvera em um sequestro, quase explodiu em um hotel, prendera alguns assassinos perigosos ao longo dos anos de carreira... Mas amor? Não, aquilo era um assunto muito perigoso.
Meio caminho do corredor já estava percorrido quando a mão quente de segurou o braço de e girou-a, e quando ela deu por si, já estava nos braços de . Uma das mãos dele estava em sua nuca, e a outra, em sua cintura.
— Você já tem muitos assuntos interminados. Não vou ser o próximo — ele declarou.
E finalizou o assunto começado no sofá. Voltou a beijar , um selinho, que logo se tornou um beijo de língua. O melhor dos gostos: roubado.
passava uma das mãos pelos cabelos de , massageando-os, e segurando-os quando o beijo avançou ainda mais. puxava o corpo dela contra o seu pela cintura, e não a deixava fugir. As línguas estavam lentas, inicialmente, até assumirem certa voracidade, de um beijo que logo poderia se consumar em algo bem mais excitante.
Os dois, sozinhos em casa.
encostou as costas de na parede, e prensou-a. parou o beijo e puxou fortemente o ar, mostrando como havia perdido o fôlego fazendo algo tão extasiada, e levantou as pernas, envolvendo a cintura de com elas. Começou a roçar os lábios nos de , de olhos fechados. A adrenalina era sua energia. Ele mordeu o lábio inferior de , roubando mais um beijo dela. As línguas dos dois estavam lentas, aproveitando cada milésimo do beijo. Os corpos um contra o outro, e contra a parede. Podiam sentir o batimento cardíaco um do outro. As respirações sincronizadas.
Um.
As mãos de subiram sem pressa, sutilmente, até os seios de , apertando-os sem muita força. Não queria ser desesperado logo no primeiro beijo. Eram macios, e o polegar estrategicamente abaixou um pouco do decote da blusa, deixando-o tocar sua pele. Era como cetim, os seios pareciam no tamanho perfeito para ele.
Ela era perfeita para ele.
Ela partiu o beijo para dar pequenos e breves beijos no pescoço de . Levantou o rosto até chegar a sua orelha, sussurrando uma frase e em seguida, chupando o lóbulo de sua orelha.
— Surpreenda-me, novato.
Aquele apelido não costumava agradá-lo, mas naquele momento, foi mais do que... Estimulante.
Voltou a beijá-lo lentamente nos lábios, enquanto as mãos de foram até as coxas de , apertando-as embaixo, mas indo depois até os glúteos da moça, por cima do short. Em um momento de pura libido, pressionou essa região de seu corpo contra o dela.
Tudo pareceu certo, naquele momento.
mordeu o lábio de , como reação.
Só podia ser aquilo.
Corpo a corpo. Pele a pele. Um.
Um.
— Ô de casa! — gritou a voz de , na porta, não podendo ver os dois no corredor — ‘Tá de sacanagem que vocês foram dormir e nem viram o filme!
afastou o corpo de , que soltou suas pernas da cintura dele, colocando o pé de volta no chão.
Suspiraram, apenas imaginando o que poderia ter acontecido.
— Era para ser na testa — defendeu-se.
Ela riu torto, sarcástica, e desafiadora.
— Aqui, , estamos aqui — disse , indo de volta para a sala.
— Vocês transaram?
— Não, pervertido! — falou , indo até o sofá e sentando-se nele.
— Senti um cheiro de libido lá do corredor. Enfim, vocês começaram a ver o filme sem mim?
— Não, o filme travou. Acho que hoje vamos ver o seu — declarou . comemorou, e colocou seu filme no aparelho.
— Viram? É o destino, tínhamos que ver o DeLorean em ação. Me dá uma dessas balas?
sentou-se entre e no sofá, o que não impediu que os dois trocassem um olhar cúmplice.
Pensavam a mesma coisa.
Isso não vai ser mais um assunto interminado.
— Wow! Que porra vocês colocaram nessas balas?! — gritou, depois de engolir uma.
— É vodka, ideia da — falou , assim que o filme começou a rodar.
— Por que a gente nunca chamou uma mulher para morar aqui antes, ? Genial, simplesmente genial. As laranjas são minhas!
E os três assistiram o filme até, um a um, adormecerem no sofá. Os três, juntos.
Nunca se sentiriam solitários.
Agora sim, a sensação.
Paz. Estava tudo em ordem.
Tudo certo.

So darken your clothes, or strike a violent pose. Maybe they’ll leave you alone, but not me!




You can’t go forcing something if it’s just not right…

— Quem é você e o que fez com a que bebia café como se fosse água? — perguntou , quando apareceu na sala com a blusa do Star Wars, mas já com a calça jeans azul.
levou aos lábios a caneca cheia de chocolate quente, do Batman.
— Ah, eu amo o Batman — foi a única coisa que ela disse, sorrindo e sentando à mesa de café americana, em frente ao psicólogo.
— Você e o novato ficaram. Eu tenho certeza, sou psicólogo. Olha, chegou o Romeu — falou ele, quando chegou até a cozinha cambaleante. Pegou sua caneca de café e sentou-se à mesa também, ao lado de .
— Bom dia — ele cumprimentou-os.
— Bom dia... Vocês ficaram, não ficaram?
esperou a reação de , qualquer que fosse. Se tinha uma coisa que ela não gostava, desde sempre, era que um homem negasse que ela ficou com ele. Era como se tivesse vergonha disso. Vergonha de ter ficado com uma mulher como .
— Ele bem que gostaria, não é, novato? — ela deu a brecha para ele negar, afinal, por enquanto não era uma boa ideia espalhar aquilo.
limitou-se a rir sem mostrar os dentes, rapidamente, e tomar um gole de seu café.
— Cara, você ‘tá bem? — perguntou .
— Eu não acordei ainda.
Na noite anterior, ele não conseguia parar na pessoa que estava do outro lado da parede. .
Relacionamentos têm mais chances de darem certo se ninguém ficar sabendo.
— Você está parecendo um zumbi — comentou , rindo.
— Está mesmo, novato. Vai sair hoje? — concordou , tomando um gole de café antes de fazer a pergunta.
— Não, acho que não — ela respondeu — E você? Vai trabalhar?
— Eu estou ‘doente’ — ele completou com as aspas — Vou fazer coisa de doente... Assistir televisão o dia inteiro e vegetar.
— Libera o Audi hoje então? — perguntou , com os olhos finalmente vivos — Vou precisar usá-lo hoje.
— É todo o seu, só alcooliza nosso alcoólatra. E... Foi isso mesmo que eu ouvi? O vai sair sozinho?
Por um segundo, sentiu uma pontada que não sentia desde Samantha e .
— Abre os olhos, — avisou , levantando e levando a caneca. Foi só então que eles viram que ele estava apenas de... Cueca.
— Puta merda, ! — xingou , tapando os olhos de , que ria — Tem mulher em casa.
— É tradição do papa aqui dormir nos fins de semana só de cuequinha. Podia ser pior, eu podia estar de meias.
— Qual o problema das meias? — perguntou .
entrou em seu quarto, e voltou apenas com a cabeça para fora, no corredor, olhando para os dois amigos.
— Só de meias — ele frisou, e fechou a porta a seguir.
fez uma careta de nojo nessa hora. riu, e tomou um gole de café.
— Aonde você vai hoje, sozinho? — ela perguntou, tentando disfarçar os ciúmes.
— Eu não disse que ia sozinho — ele retrucou, piscando um olho e fazendo-a ficar sutilmente corada — Hoje temos folga, é feriado municipal. Quer ir ao cinema?
— Pode ser... Preciso passar em um lugar hoje, se não se importar em passar lá antes de sairmos.
— Que lugar seria esse? — imaginava que fosse a casa de uma amiga, ou uma loja.
— O cartório.
— Jesus, . Que vício em trabalho.
— Mais uma semana comigo, e eu te vicio em outra coisa.
Ela levantou e deixou a caneca em cima da pia, dando um beijo na bochecha de ao passar por ele antes de ir para a sala.
— Baixaria, assim que eu gosto — ele comentou, com um sorriso — Faz a minha manhã.
Ela foi até o escritório e colocou uma blusa do Bon Jovi, e seu casaco de couro preto por cima. Aquela manhã não estava tão fria, mas, mesmo assim, colocou sua bota preta de salto fino, e um lenço em volta do pescoço.
Reparou que, ultimamente, não se vestia como antes do Manson. Depois da festa de Halloween, tivera muito mais cuidado com sua aparência. E, até o dia anterior, isso permaneceu. Naquele dia, naquela manhã, voltara ao seu estilo de antes. Pesado.
Antes de sair do quarto, imaginando que talvez já estivesse pronto para sair, ela parou por um segundo, com a mão estendida na maçaneta. Com o canto do olho, encarou a caixa de sapatos embaixo da escrivaninha do escritório.
Fotos de Joe Durden, Samantha Fox...
Quem era aquela menina do dia anterior? Ela queria , não .
Desde o dia do acidente com Jacqueline, cuidava dela. E, desde o dia anterior, ela sentia que precisava cuidar dele.
Não ‘sequestro’. ‘Acidente com Jacqueline’, foi o que aquilo tinha sido.
Pegou a caixa de sapatos e abriu-a, olhando para todas as fotos ali. Esticou a mão e pegou sua bolsa, que tinha também fotos que ela tinha... Pego emprestado da delegacia.
Segurou todas nos braços, como se fosse um bebê, algo muito valioso, e foi para o meio do escritório. Empurrou o colchão que dormia para o canto do quarto, encostando-o à estante de livros. Sentou-se no chão e espalhou todas as fotos no chão, organizando-as a seguir como vários círculos em volta de , que cresciam quanto mais longe ficavam da detetive. Fotos de Durdens em uma parte, de Samantha em outra, do assassinato do Halloween em outra...
Nada daquilo era da conta de , mas tudo pedia a ela para serem solucionados.
‘Por favor, . Precisamos de você.’
Ninguém além dela poderia cuidar do caso Durden, fosse do Joe ou do Justin, e do caso Fox.
Estava sozinha no quarto. E parecia estar sozinha no apartamento.
Isso era o que mais a atormentava.
Jacqueline Durden. Oh, merda.
Estava parada sem nem prestar atenção ao seu redor. Sentada no centro do escritório, rodeada de fotografias. Mecanicamente. Era assim que tudo andava.
Mecanicamente. Ninguém se importava. Contanto que tudo andasse nos eixos, estava tudo bem.
Que eixos? Quem determina os eixos?
Tudo caminhava bem, externamente. Porque dentro de cada um, era um caos. Sempre é.
Em , não era diferente.
Jackie matou Sam. Jackie matou na festa de Halloween.
Não interessa como. Ela confessou o crime. Eu falei isso para Julie. E o caso foi encerrado.
Pastas em uma porra de gaveta. É isso que tudo representa.
Tudo a encarava. Cobrando. Pressionando.
Eu sou uma porra de uma pasta, em uma porra de uma gaveta.
Ninguém se importa. Ninguém faz questão de saber.
Isso não está certo.
Argh.
Isso é parte de algo bem maior.
Jacqueline não matou Samantha Fox.
jogou as fotos para cima. Para irem embora.
Estava tudo errado.
Por que só era a única que enxergava isso? Por que ninguém entendia que aquilo tudo, toda aquela aparência pacata, era pura aparência?
Tudo errado.
Silêncio.
Ela esticou o corpo até recolher todas as fotografias, e ordenou-as como estavam antes.
Paz. Que bela mentira. Quem foi que inventou isso?
Mentira. Mentirosa.
— Que clima de enterro — falou , aparecendo na porta e dando um susto em .
Algumas fotos tinham pessoas em vida. Outras, nem tanto.
— Uma parte de mim não se sente desconfortável com isso. Venha, preciso de ajuda.
— Ajuda com o quê? — ele perguntou, andando até ela.
— Aquilo que a Jacqueline disse. Sobre ela ter matado Samantha. Não encaixa.
A mulher voltou a olhar para todas as fotos.
, quando eu conheci você, achei que você era estranha.
— E agora?
— Agora eu tenho certeza — disse, abaixando e segurando a mão de para fazê-la levantar — Cada um com seu próprio jeito de ser estranho. Eu nunca piso em bueiros na rua.
— Sério?
— É frescura, eu sei.
— É coisa de maricas, . De menininha.
— Vou te mostrar quem é menininha — ele ameaçou-a, puxando para perto dele pela cintura, e dando-lhe um beijo de surpresa — Vamos, moça?
Os dois saíram do escritório e do apartamento, indo logo para o Audi e ligando-o. saiu da vaga e dirigiu até o centro, onde ficava o cartório. Teve que subir uma rua íngreme, e, chegando ao seu topo, parou o carro, encostando-se à calçada.
— A rua está mais vazia do que a carteira do . Vai logo, eu te espero, não sei o que pode acontecer se desligarmos esse monstro mecânico.
pegou sua bolsa e tirou, sem que visse, o papel dobrado de seu bolso.
— Não vou demorar — ela disse, e despediu-se dele com um selinho.
Saiu do carro e entrou no cartório. Havia algumas pessoas ali, algumas senhoras, uma mulher mais jovem e um homem ao seu lado, provavelmente noivos. Ninguém no balcão, todos parecendo aguardar, e, diante disso, não tardou a ir até o balcão e falar com a atendente.
— Olá, bom dia. Eu gostaria de dar uma olhada em uma cópia de certidão de casamento, se não tiver problema.
— Bom dia — disse uma jovem carrancuda de óculos atrás do balcão, que mascava um chiclete e não parava de digitar no computador. Algo dizia a que ela com certeza era mais jovem que a própria , e não era nada relacionado a trabalho que tinha na tela daquele computador — Posso olhar isso logo para você. Quem gostaria de ver o documento?
A jovem olhou para , ajeitando os óculos e olhando sem emoção para ela. colocou a mão na bolsa, com um sorriso educado, e tirou um dos cartões de psicóloga que ela pegara no dia anterior, no hospital.
— Sou a doutora Holly Capote, e cuido da saúde mental de Kimberly Nolan. Ela anda reclamando de seu marido, mas, até onde me lembro, ela não é casada. Se importa se eu olhar o documento? Sabe como é, segurança nunca é demais nos dias de hoje — dizia enquanto a recepcionista conferia o cartão de visitas da ‘psicóloga’.
Um pouco contrariada, a jovem levantou-se de trás do balcão, e, antes de ir para uma porta na sala que provavelmente levaria aos registros, perguntou:
— Mais alguma coisa?
— Eu também gostaria de olhar um atestado de óbito.
— De quem?
— Joseph William Durden.
— Para quando quer esses documentos?
— Ontem.

Standing on the ledge, I show the wind how to fly
When the world gets in my face, I say...
— HAVE A NICE DAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAY — cantou , quase gritando, dentro do carro, logo depois que saiu.
Ele segurava o volante e ainda não tinha puxado o freio; apenas pressionava o pedal. Resolveu puxá-lo, enfim, depois de alguns segundos.
Relaxou os braços e deixou-os em seu colo, repousados, e suspirou.
. Se aquilo fosse um sonho, que não o acordassem. Pensou em um palavrão, a única coisa capaz de exprimir sua felicidade.
O carro moveu-se sutilmente. Com um leve susto, puxou mais o freio de mão.
Subiu o olhar e viu, no fim da rua, lá embaixo, o mar que se estendia quilometricamente pelo horizonte. Parecia engolir o céu, que, por sua vez, aceitava.
O carro voltou a mover-se, dessa vez, mais ainda.
— Mas que porra... — ele murmurou, dessa vez apertando forte o pedal para que o carro freasse.
Como era de se esperar em um suspense que se preze, claro que ele não freou.
O carro começou a tomar velocidade, e viu-se prestes a descer uma rua bem íngreme. Para o cais.
Já em queda, ele começou a seguir reto pela rua, cada vez acelerando mais, em direção a um mar, que não satisfeito em engolir o céu, queria engolir .
Tentou abrir a porta para fugir, jogar-se contra o chão da rua, mas as travas estavam, bem... Travadas.
Ali, sim, um palavrão viria a calhar.

A jovem do cartório reapareceu com dois papéis plastificados nas mãos, e estendeu-os a sem nem olhar para a detetive... Ops, a psicóloga.
No fim da certidão de casamento de Kimberly Nolan, uma antiga recepcionista do Hotel Tate, tinha a assinatura da própria, e, acima, alguns detalhes escritos por ela também.
pegou o papel dobrado de seu bolso, e abriu-o.

12/6 — Dia supervisionado por Kimberly Nolan
Hannah e Tim fazem o check-in, às 19h21min
Georgia e Daniel fazem o check-out, às 19h34min
entra como visitante às 20h03min
Christian e Amy saem para jantar às 20h22min


Ok, nada que ninguém soubesse. foi registrada no Hotel Tate como visitante, assinara o livro de registros e tudo, provando sua entrada. A letra de Kimberly Nolan em sua certidão era idêntica ao papel, o que provara que ele não tinha sido falsificado.
Por algum motivo, um pequeno trecho fora ocultado no inquérito sobre a morte de Joe Durden. Uma pequena linha, que tinha tido um tipo de corretivo passado por cima, querendo ocultar o que tinha embaixo da fita branca.
Alguém quis dizer que não tinha saído do hotel, mas, naquele papel, a fita tinha sido retirada, e até restara vestígios dela. Apenas uma linha.

sai às 20h49min


Ramona. Ramona quis me inocentar.
Ramona tinha provado a inocência de .
Quem é essa mulher?
Alguém queria incriminar , culpá-la pela morte de Joe, fazê-la uma suspeita.
Quem foi?
Provavelmente, o verdadeiro culpado pela morte.
— Acabou? — perguntou a jovem do cartório, interrompendo a linha de raciocínio de — Tenho mais gente para atender.
— Gostaria de uma cópia dessa certidão, por favor — disse, retribuindo a secura que lhe fora estendida pela atendente — E do atestado também.
Ela logo realizou as cópias e entregou-as para , que sorriu, radiante. Nada seria mais agradável do que esfregar aqueles papéis no rosto de , Marla...
Gritos foram ouvidos do lado de fora do cartório, apavorados.
Um carro descia a ladeira à toda velocidade, em direção ao mar.

Se paraíso realmente existisse, e não acreditava muito nesse conceito, ele implorou para que fosse para lá que ele fosse.
Segurou-se ao cinto de segurança, percebendo que a queda era o menor de seus problemas. Cair na água gelada de inverno, e afundar dentro de um carro com ela, isso sim era o problema.
O carro seguia a toda velocidade, e a única coisa que podia fazer era buzinar, para que as pessoas do cais não ficassem no caminho.
O carro correu para a cais, entretanto, apenas a metade do motorista ficou realmente em cima da madeira. A outra não subiu e pendeu no ar, só fazendo o carro cair de lado na água, em vez de mergulhar apenas no fim.
Isso fez com que o mergulho do Audi fosse, na verdade, uma capotagem.
A queda reta no final seria melhor do que a queda, que caiu de lado na água e ficou na vertical.
Não era uma praia, era um cais. Era um lugar fundo onde o carro caíra.
manteve a calma o suficiente para saber o que fazer. Não tirou o cinto, e quando sentiu a queda brusca na lateral do carro, soube que sua fuga seria mais difícil do que achava que seria.
Se conseguisse concretizá-la.
Assim que o carro caiu na água, todo o mundo que via foi torcido, agitado, e tornou-se distante. Não podia confiar em seus sentidos. Era seu instinto que mandava ali.
Destravou o cinto de segurança, que o salvou e o manteve no assento quando o choque contra a água o faria bater contra o vidro. Pulou para o banco ao lado, procurando manter o carro naquela posição, e tentou abrir a janela do carona.
Abrir a janela. Era um tiro no pé. A questão era provar que ainda poderia correr.
Ela abriu-se rapidamente, mas como o carro estava de lado, afundando, a água não entrou imediatamente. Quando o carro ia girar até ficar na horizontal, aproveitou o movimento e escapou pela janela, não antes de pegar fôlego.
A imensidão azul. O mar tinha engolido seu carro, mas não iria engolir .
Ele nadou até a superfície com pressa, receoso que não fosse ter ar suficiente. Parecia que estava cada vez mais distante.
Até que se aproximou, como o céu e o mar, divididos em uma fina linha do horizonte. E, glorioso, colocou a cabeça para fora d'água e puxou ar.
Não foi engolido pelo traiçoeiro mar.

correu até o fim da rua, mesmo sabendo que não podia fazer nada que poderia parar o carro. Quando chegou ao cais, o carro já não podia mais ser visto.
Nada na vida de parecia querer operar corretamente.
Assim que ela viu emergindo, sentiu sua pressão cardíaca diminuir em pelo menos cinco pontos.
! — gritou , apoiando o corpo na grade do cais, quase caindo no mar. nadou até a escada do cais, tremendo, segurando a escada de ferro gélida. Ele xingava mentalmente, irritado com quem quer que tivesse feito aquilo.
Parece o Titanic, puta merda.
Era totalmente óbvio que aquele carro não teve aquele problema assim.
Do. Nada.
! — gritou novamente, indo até a escada e esticando a mão para ajudá-lo a subir. Ele tremia, seus lábios estavam roxos e seus olhos quase fechavam — Você está assustador. O que aconteceu?
— O carro... O carro desceu... Ele desceu... Sozinho...! — abraçou-o diante da resposta. Uma das poucas pessoas que estavam observando-os estendeu um casaco, aceito pela detetive, que cobriu com ele.
— Querem chamar um médico? — perguntou o homem que ofereceu o casaco.
— Por favor, senhor, muito obrigada — logo emendou. Colocou a mão na testa de , gelada — Meu Deus, , você podia ter morrido.
Eles se olharam de relance nesse instante, brevemente.
Ele é o foco, agora. Não eu.
abraçou , fazendo o rosto dele afundar em seu dorso.
Ele era a isca, e agora é o prêmio final.
— O que você tem? — ele murmurou, com os dentes batendo uns contra os outros.
— Shhh — ela colocou o indicador nos lábios de , fazendo-o parar, e tirou o lenço de seu pescoço para secar o rosto e as mãos dele — Não se esforce, vamos para um lugar com aquecedor.
Ela ajudou-o a levantar, quase não aguentando o peso do homem apoiado em seu ombro, mas conseguindo levá-lo até um restaurante de esquina. O homem do casaco ajudou-os a entrar, segurando a porta. Ele também explicou ao homem do caixa sobre o acidente, que até ofereceu um café para . aceitou com um movimento com a cabeça, certamente duvidoso, já que ele não parava de tremer.
— Era para eu estar no carro quando ele caiu no mar — disse, baixo, tirando o lenço molhado do rosto dele — Era para eu estar assim, .
— Não, . Não era. Quem quer que tenha feito isso, armou para nós dois. E, agora, não temos muitas maneiras de descobrir quem fez. Vão ter que tirar o carro do mar, se acharem, e fazer todos aqueles testes. Vai ser difícil. Mas não quero que pense nisso, ok?
O café chegou nesse momento. já estava mais calmo, a ponto de conseguir segurar a caneca. Todo o calor do líquido escuro pareceu passar para cada célula de seu corpo, dando-lhe uma sensação bem melhor.
— Você conseguiu fazer no cartório o que queria fazer? — ele perguntou.
Ela voltou a sorrir, um sorriso pequeno. Tirou da bolsa dois papéis dobrados, e colocou-os na mesa.
— Eu consegui uma prova de que não tive ligação na morte de Joe. Uma prova que eu não tinha antes.
— Sério, ? Isso é incrível — ele ficou muito mais radiante, encontrando um grão de felicidade em um acidente daqueles — E o outro papel?
— Bem... Com o outro papel... Eu descobri algo sobre Joe.
— Por favor, menos suspense, já fiquei tenso demais por um dia.
— O corpo de Joe foi encontrado carbonizado. A afirmação de que era ele foi que ele estava desaparecido, e tudo indicava, pelo local e o que estava perto do corpo, que aquele era Joseph Durden.
— O que você quer dizer... É que... — não sabia exatamente que palavras usar.
— Exatamente. Talvez, só talvez, Joe Durden não tenha morrido naquele dia.
...
— Ele continua por aí, e, se está vivo, com certeza isso que aconteceu foi obra dele. Com certeza.

negou-se a sair de perto de mesmo quando os médicos chegaram. Depois de ele ser devidamente examinado, o máximo que lhe foi instruído foi que ele descansasse. disse para que ele fosse para casa, mas negou, e quis acompanhá-la de táxi para o próximo lugar que ela fosse.
Então, ambos foram até a delegacia. No táxi, ela perguntou:
— Quem vai ficar sabendo?
— Sabendo?
— É. De nós.
Ele pareceu não saber o que responder. Aquilo a deixou um pouco insegura.
— Precisamos contar para alguém? Quer dizer, as pessoas podem simplesmente descobrir.
— Você tem vergonha de mim?
franziu o cenho, dando um sorriso reconfortante. Colocou o braço em volta do pescoço de , fazendo-a deitar em seu ombro.
— De você? Você que devia ter vergonha de mim, eu sou um jornalista. Você é a Serpente Vigilante. Claro que não tenho vergonha. Eu só acho melhor não espalharmos, muito menos escondermos. O que você acha?
— É, acho que você tem razão.
— Hey, me dá um sorriso.
Ela fez um forçado sorriso. A reação de foi rir.
— De verdade, garota.
Dessa vez, ela sorriu bem pequeno.
— Isso mesmo — e levantou o queixo dela para dar-lhe um selinho.
Por alguns instantes, achava que Ramona poderia aparecer a qualquer momento. Provavelmente, ela sabia que conseguiria provar sua inocência total. E participara disso.
O papel foi de Ramona. Foi ela quem deu o papel.
Chegando na delegacia, o táxi parou e os dois saíram.
— Vou falar com a .
— Ok, eu vou ficar na minha sala. Preciso terminar uma matéria sobre as investigações, a minha última.
Ambos entraram pelas portas ao mesmo tempo e trocaram olhares um pouco nervosos antes de se separarem. não devia estar ali... Não para o que ela faria.
Parou na frente da porta de e bateu quatro vezes na porta.
— Garota! Eu já ia mandar uma viatura para te procurar. Onde você esteve? — perguntou a química, apavorada, abraçando a amiga.
— Eu fui para casa depois do psicólogo.
olhou para a maneira com que sorria. Era o sorriso pequeno, não do tipo de quem acabou de presenciar uma felicidade. Não era um sorriso simpático, ou algo assim. Era o sorriso de quem era feliz.
De quem vivia a felicidade naquele momento, como se o momento fosse só dela.
Tinha um nome naquele sorriso.
— Você ficou mesmo só em casa depois do psicólogo? Eu só fico assim, boba alegre, depois de ficar com um cara.
...
— Ok, eu fiquei assim naquele dia do pirulito. Lembra? Meus tios trouxeram uns pirulitos de viagem, e eu chupei todos. Mas esqueci de onde tinham vindo.
...?
— Eram da Holanda, e exalavam maconha de um jeito que você sente até na água. Mas olha, era bom aquele troço. Ainda bem que ninguém descobriu. Nem eu, na verdade, só depois que meus tios disseram.
! — segurou a amiga pelos ombros, fazendo-a parar de falar — Sossega.
— Ok, ok, já sosseguei. E então? Quem foi o sortudo? O , não foi? Sei o que pode rolar naquele escritório...
— Foi o , .
— Eu mesma quando fui lá fiquei doida, lembro que... PERAÍ. O NOVATO?
ficou boquiaberta como uma adolescente, e andou de costas até achar uma cadeira, para poder sentar-se.
— Que danadinha você, menina. Catando carne nova.
, que termo nojento.
— ‘Carne nova’?
— ‘Catar’.
— Eu podia ter falado ‘traçar’.
— Você não tem cinquenta anos, .
— Ok, ok, não me enrola, como foi?
Quando ia contar, o telefone na mesa foi ouvido. , contrariada e com uma careta, atendeu-o.
— Alô? Aham. Ela está... — olhou para , que fez um movimento de corte no pescoço — Ela está em casa — a detetive repetiu o movimento — Ela está na rua — mais uma vez, ela fez o movimento — Ela está na minha frente fazendo um sinal que eu não consegui entender ainda.
fez uma careta e começou a andar pela sala, em círculos.
— Ok, vou avisar. Quer que eu fale com a Julie? Ok, ok. Tchau.
— Quem era?
— O . Ele quis saber se as coisas estão todas bem aqui na delegacia.
— Não quis falar comigo?
— Ele já quis falar contigo?
concordou.
— Depois te conto melhor o que aconteceu. Vou pegar minha autorização na sala da Julie e já volto.
— Ok, vai lá, minha garota.
saiu da sala da amiga e foi para o final do corredor, para a sala que um dia já fora sua. Bateu quatro vezes na porta, até que uma voz feminina atendeu-a.
— Entre.
Lentamente, girou a maçaneta e colocou apenas a cabeça para dentro da sala.
— Marlinha, que saudades.

ficou séria depois que tinha fechado a porta de sua sala. Coçou a nuca, nervosamente. O telefone voltou a tocar, e antes que completasse o primeiro toque, ela atendeu com pressa.
— Você teve muita sorte ou azar na hora que ligou.
— Eu sei. Fez o que eu falei?
— Claro. Eu inventei que foi o .
— Perfeito, ! Você é brilhante.
— Ela me contou. Ela e o novato.
A voz do outro lado da linha ficou silenciosa por um minuto.
— Eu sei como prosseguir.
— Sabe mesmo?
— Você disse que eu era brilhante.
A voz transmitiu uma risada.
— E Zoe? — perguntou .
Desligou.

? O que faz aqui?
entrou na sala, fazendo questão de que seu salto produzisse um pequeno estalo contra a madeira do chão.
— Vim trabalhar.
Marla parecia um pouco nervosa, ou confusa. Talvez os dois juntos.
Ou um pouco assustada.
— Achei que você estivesse afastada.
— Meio que sim. Há três meses e meio, quase. E pior que nem lembro quem foi.
Marla engoliu em seco. andou até a frente da mesa de Marla, arrastou um pouco a cadeira em frente à mesa e sentou-se.
— Caramba, Marla — ela disse, puxando um pouco de ar pelo nariz para aguçar o olfato — Quando essa sala era minha, era mais cheirosa.
— O que você quer, ?
pegou na bolsa a cópia da certidão de casamento de Kimberly Nolan e o pedaço de papel, e colocou-os em cima da mesa.
— Eu quero você e admitindo publicamente que sou inocente do caso Durden.
estava impaciente, encarando Marla, com as pernas cruzadas. Sentiu-se até um pouco culpada por atingir Marla em um dia que ela parecia tão frágil.
— Você deve estar dando pulinhos de alegria — Marla murmurou, percebendo que a letra era a mesma.
— Bem — deu de ombros —, é claro que eu não estou triste.
— Onde achou isso? — Marla ergueu os dois papéis, com os cotovelos apoiados na mesa.
— A certidão eu dei meu jeito. O papel não faz diferença.
— Fico me perguntando se você respondia questões na escola desse jeito tão... Rico.
— Eu consegui ser a Serpente Vigilante, não é?
Marla observou bem o papel do Hotel.
— Eu me lembro de ter visto essa página com corretivo.
— Eu sei, eu percebi que tinha corretivo aí — apoiou um cotovelo na mesa e apontou para o papel — Alguém ou queria se proteger, me incriminando, ou apenas queria empurrar a culpa do caso para mim.
Colocou a mão no queixo, parecendo esperar a reação de Marla.
— Algum estagiário? A própria Kimberly Nolan? — propôs .
— A Nolan foi entrevistada por mim. Ela nem tinha corretivo na mesa dela, e todas as outras recepcionistas confirmaram. Nenhuma delas costuma usar. Quando escrevem algo errado, riscam, para que possa logo ser visto o que há embaixo. Todas disseram ter visto o livro de registros já assim, depois de Joe ter sumido, e deixaram assim mesmo. E o Hotel tranca essas coisas a cadeado, e apenas recepcionistas podem tocar nisso.
— E se uma pessoa que assinou o livro aproveitasse e passasse o corretivo, mais tarde?
Marla chegou o corpo para trás, na cadeira.
— Precisaríamos ver a página inteira para isso. Que ideia boa, , aliás.
Antes que pudesse agradecer, mecanicamente, quase sem palavras pelo elogio de Marla Bronx, alguém abriu a porta com pressa.
— Marla, eu... ?! — perguntou , surpreso — O que está fazendo aqui?
— Eu pergunto o mesmo, achei que estivesse afastado — virou de costas na cadeira.
O oficial e entraram na sala de Marla, com ainda sem reação por estar ali.
, você... — ela começou, mas foi interrompida pela própria química:
— Marla, eu descobri uma coisa que pode mudar o caso.
— Que caso? Todos foram fechados — Marla afirmou, se lembrando da confissão de Jacqueline.
— Eu também queria falar sobre isso com vocês... — começou , novamente sendo interrompida, dessa vez por :
, por favor, estamos falando de um caso nosso.
— Whoa, caso não se lembre, quem ouviu Jacqueline confessando foi a detetive assassina aqui.
— Você não sai do caso Durden, não é? — ele perguntou, desafiador.
— Cala a boca, você não sabe o que esse caso significou para mim — irritou-se, ficando de pé e apontando para em um tom de ameaça.
— Claro que sei, você foi presa! — ele retrucou, aumentando o tom de voz.
— Claro que sabe, você me prendeu!
— Os dois, por favor... — Marla tentou fazer os dois pararem de gritar.
— Não se meta, Bronx — retrucou .
— O suicida! — gritou , jogando três papéis em cima da mesa de Marla. Todos ficaram calados, de pé, olhando para os papéis.
— Que suicida? — perguntou Marla.
— O que encontrou. Eu sabia! — riu e colocou as mãos na cintura — Ele não se matou, certo?
— Como assim, não se matou? — perguntou — Eu vi até a cena do crime!
— Aquilo foi uma cena armada, aquela pessoa foi morta de outro jeito, e queriam que pensasse que foi suicídio.
— Exatamente — concordou .
— Então como que ele morreu? — perguntou Marla, levantando as mãos na altura do busto, querendo ouvir logo o desfecho daquela conversa.
suspirou e sentou-se na cadeira atrás de si, parecendo cansada, querendo logo dizer e poder sair dali.
— Foi a inspiração excessiva de monóxido de carbono.
franziu o cenho.
— Descarga de carro?

Todos se entreolharam. parecia a única que não tinha se surpreendido, e realmente era. Quer dizer, ela tinha transmitido a informação.
— Isso é sério? — perguntou , boquiaberta. Pegou todos os papéis e pareciam legítimos, sem qualquer tipo de adulteração. não seria capaz de mentir sobre algo daquele tipo.
— Nem fui eu que descobri isso. A equipe toda de química estranhou.
— Como não descobriram isso antes? — ela voltou a perguntar.
— Basicamente, porque ninguém estava procurando.
— Isso não tira a possibilidade de suicídio — comentou — De repente, ele se matou entrando na garagem, abrindo as janelas e esperando.
— Não pode ser suicídio — falou, séria e impaciente — Isso arruinaria todo fio da meada.
— Que fio da meada? — perguntou Marla.
— Vocês sabem — ela fez uma pausa. Quando todos olharam para ela, esperando que ela prosseguisse, e ela o fez impaciente — Esse suicida, o morto do Halloween, Samantha Fox, Tyler sequestrado... Tudo é uma cadeia.
— Do que você está falando, ? — perguntou , dessa vez, franzindo o cenho com uma careta de quem acha que ela estava... Enlouquecendo — foi chamado para atender uma pessoa que nunca saía de casa, e achou o corpo. Ele chamou a polícia por pura reação lógica. Nem caso isso chegou a ser, o cara se matou!
— Estou falando — bufou — Que chamaram o para ver o corpo.
— Não ‘chamaram o ’ para ver porra de corpo nenhum — apelou para o palavrão — Chamaram para examinar o cara, e quando chegou lá, ele já tinha se perdido.
— Você não pode perder algo que nem se perdeu, por Deus, ‘oficial’! — se levantou e ficou cara a cara com .
— Não me ridicularize assim! — ele gritou, batendo a mão na mesa.
Todos se calaram, surpreendidos, e até com os olhos mais abertos que o normal. tentou manter a calma, olhando para sem desviar o olhar um segundo sequer.
A tempestade se formava lentamente naquela sala, os raios começando a trovejar nas íris de e .
Curto circuito.
— Então não me subestime assim — foi o que ela retrucou, falando baixo.
Pausa. As nuvens se uniam.
— Não pode ter sido suicídio porque não faz sentido algum — ela fez questão de frisar, enquanto voltava a se sentar lentamente — Ele ter se matado com descarga de carro, qualquer que seja, e ainda por cima alguém ter armado para que parecesse forca. Não faz sentido. O assassino simplesmente ganhou tempo, e, até mesmo, inocência. Porque demoramos a descobrir sobre o monóxido, e tivemos sorte de termos descoberto. Se procurarmos por digitais, duvido que vamos encontrar qualquer coisa. Ele deve ter sido esperto suficiente para usar luvas. A forca foi armada para que ele matasse alguém, e parecesse suicídio. Ele matou, deu o corpo para a gente e ainda riu da nossa cara.
Pausa.
Ele riu da minha cara.
— O que quer fazer então, ? — perguntou , em um tom de desistência — Qual a sua ideia?
— Examine os hematomas no pescoço — ela respondeu como se fosse o óbvio, desviando o olhar — Veja se batem com hematomas de estrangulamento por corda. Eu podia ver o corpo, talvez ajudasse...
— Não, você não pode ver o corpo — Marla cortou-a.
Nesse momento, em plena tempestade, Julie invadiu a sala.
— Quero os quatro na sala de reuniões.
— Agora? — perguntou , com um pouco de preguiça.
Apenas o olhar de Julie já foi a resposta. Todos pegaram os papéis em cima da mesa e foram a passos largos para a sala de reunião.

Se na sala de Marla estava acontecendo uma tempestade, na de reuniões estava se formando um furacão.
. . . . Marla. Julie.
Julie.
A delegada estava sentada na ponta da mesa. Há muitos dias, estavam naquela mesma sala, falando de Samantha Fox.
Mas agora, já era um caso encerrado. Não era? Segundo a lei federal, se alguém confessasse um assassinato, o caso era dado como finalizado.
Não.
Só que Longview nunca encarara algo daquele tipo. Uma pessoa à beira do suicídio confessando.
achava ser a única a acreditar que aquilo tinha sido mentira, porém, naquela sala, ela tinha certeza de que não.
Julie estava com seus cabelos presos em um rabo de cavalo baixo, desfiado. Os olhos estavam vivos e atenciosos, analisando cada pessoa daquela mesa. Como vítimas. Como culpados.
Acima de tudo, como suspeitos.
— Eu vou fazer uma pergunta, e quero que todos aqui me respondam com sinceridade — ela anunciou, com o corpo inclinado para frente, os cotovelos apoiados na mesa e os braços cruzados em cima desta.
parecia apreensivo, assim como Marla. estava calma, sem medo.
parecia aéreo, não querendo se importar. Vago. Alheio, distraído com uma caneta e um bloco de papel à sua frente.
A pessoa mais estranha naquela sala era . Ela, sim, agia de forma incomum.
Superior. Acima. Alheia, de certa forma. Mas, diferentemente, de , ela parecia maior.
Muito além dos outros ali.
Melhor.
— Diga, Julie — disse , pedindo disfarçadamente para que ela prosseguisse, depois da breve pausa.
Julie levantou-se lentamente, sem desviar os olhos da mesa. Cruzou os braços de pé, séria, procurando qualquer tipo de furo, de vacilo.
Tinha visto muitos. As pessoas daquela mesa sabiam de muitas coisas. Umas mais do que outras.
Aquilo parecia uma reunião de membros do exército, após um acidente em que se quisesse saber o culpado. Julie queria se sentir a força superior, entretanto, sabia que não era.
Ela sabia exatamente quem era a força superior daquela sala.
— O caso Fox e o do Halloween foram encerrados depois de Jacqueline Durden ter confessado ter sido culpada de ambos. Ela se matou com um tiro na cabeça logo depois da confissão. Correto?
Ninguém foi capaz de dizer algo, por isso apenas assentiram com a cabeça.
— Eu quero — ela começou, enquanto andava lentamente em volta da mesa, produzindo um ruído de seus saltos contra o chão a cada passo — Que me digam uma coisa. Não há resposta errada. Nem certa.
Uma pausa.
Vocês acreditam nisso?
A ênfase dada à pergunta deu a todos daquela sala a certeza de que a resposta de Julie era "não".
— Sra. Stoner — foi o primeiro a pedir permissão para falar, que foi concedida com um breve aceno com a cabeça. Ele inclinou um pouco o corpo para frente e segurou a caneta com firmeza entre seus dedos da mão esquerda — Creio que responder algo assim seja improdutivo. Quer dizer, todos sabemos que o caso é encerrado diante de confissão de um suspeito. Jacqueline conhecia as vítimas, não há muito o que suspeitar...
— Responda a pergunta — Julie cortou-o.
segurou-se para não rir.
Fico imaginando os tipos de presentes trocados em um amigo oculto dessa delegacia. O pessoal aqui parece se odiar.
pareceu se segurar para não dizer um palavrão. Comprimiu os lábios e forçou um sorriso sarcástico.
— Sim.
virou os olhos e chegou o corpo para trás na cadeira.
— Algo a dizer, Srta. ? — perguntou Julie, virando-se para . Era óbvio que era a preferida da delegada, e, naquele momento, não foi diferente. A frase não soara como uma ameaça, mas sim como uma chance. Uma brecha.
— Respondendo sua pergunta, não.
— Mais alguma coisa?
Joe Durden pode estar vivo.
E se não estiver, não fui eu quem o matou.

— Eu não tenho mais nenhuma satisfação a dar.
Julie assentiu, percebendo que não conseguiria ouvir muito além daquilo de .
? — a delegada perguntou.
— Sim. Sim, acredito que Jacqueline tenha assassinado as duas pessoas.
Ela parecia não se importar com tal afirmação.
— Algum motivo especial para achar isso? — a delegada perguntou, levantando a sobrancelha esquerda e erguendo o canto do lábio.
— Por que está perguntando isso a mim, mas não perguntou para nenhum dos outros?
Ela certamente estava alterada.
— Porque nenhum dos outros quis deixar tão óbvio que sabe mais do que os outros.
bufou como uma adolescente revoltada. Todos os olhares se lançaram para ela.
— É só minha opinião.
— Sr. ? — perguntou Julie, desviando o olhar de sem muita cerimônia.
desviou o olhar vago do bloco e olhou para a delegada.
— Não, Sra. Stoner.
— Só "não"?
— Só.
Ela olhou para a última, Marla. A ruiva parecia nervosa, temerosa.
— E você, Srta. Bronx?
Marla desempataria. Era 2x2.
— Eu...?
— A senhorita — Julie confirmou.
— Eu... — ela balbuciou — Eu não sei de nada. Não sei o que responder.
— Apenas dê seu palpite. Não há resposta errada.
Marla desviou o olhar.
— Eu... Eu acho que... Não. Ela mentiu. Jacqueline mentiu.
Julie pareceu se satisfazer com suas respostas. Deu um pequeno e disfarçado sorriso.
Todos deixaram seus corpos rígidos e prestaram atenção nas próximas palavras de Julie Stoner.
— Por muito tempo, admirei os detetives com quem ficaram esses casos. O do Halloween, o de Samantha Fox e de Joe Durden. Os resultados foram o que foram. De qualquer modo, posso perceber certa tensão quando tocamos no assunto. Por isso, não me importo que pessoas que acreditam que Jacqueline mentiu continuem lendo e pesquisando sobre esse caso. Por outro lado, por lei, ele foi fechado. Então não podemos ter mais nenhum tipo de investigação.
— Mas Julie... — protestou, interrompendo.
— Descobrimos algo novo — completou Marla.
Todos olharam para Marla, que molhou os lábios, nervosa.
— Que tipo de coisa? — perguntou a delegada.
não é culpada pela morte de Joe. Não pode ter sido.
— De onde tirou essa ideia, Marla? — Julie voltou a sentar-se, olhando fixamente para a ruiva, curiosa.
— É, Marla. Nós fizemos a investigação — completou , franzindo o cenho e olhando fixamente para a Bronx.
— Nós cometemos um erro, . Temos uma nova prova, que não apareceu antes.
Tirou as mãos de debaixo da mesa e colocou em cima desta o que tinha em suas mãos. logo pegou o papel para lê-lo, e, sem que ninguém percebesse, deu um sorrisinho torto satisfeito.
Lentamente, Marla complementou com um pequeno pedaço de papel do hotel Tate. Parecia não querer admitir que tinha cometido um erro.
Ela e o oficial tinham colocado uma inocente em uma clínica para suspeitos criminais. Se superiores ficassem sabendo daquilo, distintivos iam se perder.
— Essa pista não apareceu durante as investigações? — perguntou Julie.
— Não — Marla respondeu, com a boca semicerrada, parecendo não querer responder — Ela foi ocultada. A folha é branca, tinha corretivo branco por cima, mal dava para perceber.
— Não é falsa? — perguntou , inclinando-se para o lado.
— À primeira vista, parece legítima. Vamos cuidar disso melhor.
— Onde conseguiu isso, Srta. Bronx? — a delegada tornou a questionar.
Marla mordeu o lábio. Discretamente, trocou olhares rápidos com .
— Eu lembrei-me do corretivo e procurei a prova — mentiu. entendia perfeitamente o motivo da mentira, e de uma maneira estranha para si mesma, apoiava.
— Também tenho uma novidade, Julie — anunciou , colocando seus três papéis em cima da mesa.
— O que tem aí? — perguntou a delegada, esticando a mão para pegar os papéis.
— São os relatórios da autopsia do suicida. Todos nós, da química, tínhamos deixado isso de lado, mas preferimos fazer um exame.
— O que concluíram?
— Que temos um novo caso — respondeu .
Todos olharam para ela. Do outro lado da mesa, estava de pernas cruzadas, as costas encurvadas e apoiadas na cadeira, o cotovelo no descanso de braço e apoiando seu queixo, que, por sua vez, sustentava o mais sarcástico sorriso de .
O sorriso. As sobrancelhas sutilmente erguidas. “Eu disse. Eu sabia” era o que se lia naqueles lábios.
— Você quer ficar com ele, ? — perguntou Julie.
— Ela não pode. Não está nem liberada do psicólogo — lembrou , protestando. A outra retrucou:
— Está sim, ele me ligou esta manhã. pode trabalhar contanto que continue frequentando as consultas. , quem lhe deu a ideia de fazer os exames?
A química deu de ombros.
— Eu recebi mensagens de texto um pouco depois do incidente com Jacqueline, que não diziam nada além de sugestões para isso. Obedeci, achando que podia ser algum suspeito.
Julie pareceu ficar alarmada, diante de uma chance tão grande de capturar o suspeito.
— Mande rastrear de onde vêm as mensagens — instruiu ela, preparando-se para prosseguir, quando foi interrompida por e seu sorriso confiante.
— Já mandei. Não conseguiram achar nada, essa pessoa é inteligente suficiente para usar algum tipo de bloqueio de rastreamento. Com algumas semanas de investigação, tenho certeza de que chegaremos a algum lugar.
Julie apontou o indicador e olhou séria para , que se gelou. Ouviu as palavras frias e firmes de sua delegada, direcionadas a ela:
— Nunca mais, , faça algo relacionado a um caso sem contatar a mim ou a qualquer outro membro da equipe. Não aja como uma detetive. Você é uma química.
Aquilo fez o sorriso de desaparecer e dar lugar a um rosto sério e, de certo modo, irritado.
— Acho que sei quem pode ter enviado as mensagens — disse, depois de uma tensa pausa.
Todos olharam para ela. Muitos pensamentos tomaram conta das mentes daquela sala. Confusos, voando, como frágeis aviões de papel.
Sem rumo. Sem dono.
Diga. Diga, você sabe que pode confiar em mim. Eu vou te apoiar. Sei que é verdade.
Não diga, não diga isso, por favor, não queira parecer mais louca do que já acham que você está.
Não diga, você sabe que não é verdade.
Diga. Eu quero que você diga. Deixe claro que já passou de seu estado de sanidade, . Você sabe que está louca.

— Sabe? — perguntou Julie.
Não fale. Você sabe que ninguém vai acreditar em você.
— O nome dela é Ramona.
Uma risinha abafada tomou lugar na sala. Não foi possível reconhecer a quem ela pertencia.
— Ramona? — perguntou a delegada.
— É. Não sei o sobrenome dela.
— E quem seria ela?
deu de ombros, provocando mais uma risadinha.
— Eu sei quem é Ramona, Sra. Stoner — falou , virando o rosto para Julie — Ela quem ajudou a mim, ao oficial e à a irmos atrás da no incidente com Jacqueline.
— Vocês viram essa tal Ramona?
e se entreolharam. Apesar de ter usado a ajuda dela no dia fatídico, nem ele, nem o oficial e nem a química sequer trocaram olhares com a moça. Apenas James, Jacqueline e pareciam ter visto-a.
— Ela é loira, tem cabelos ondulados com cachos sutis e largos nas pontas. Mais ou menos nessa altura — indicou com a mão um pouco abaixo de seu ombro — Os olhos são azuis, bem azuis, ela costuma usar um sombreado preto em volta deles. É do meu tamanho, as roupas costumam ser do estilo das da .
— E não sabe o sobrenome dela? — perguntou Julie.
comprimiu os lábios.
— Não. O sobrenome eu não sei.
— Parentesco?
— Também não.
— Julie, eu mesma já fiz uma busca à essa moça quando a casa da foi incendiada — lembrou Marla — Ela já está sendo procurada por ser incendiária.
— Então ela já é do nosso conhecimento há algum tempo.
— É, ela é — concordou , se lembrando do detalhe do incêndio — Ela também me ajudou a fugir no incidente com Jacqueline.
Todos viraram o rosto para , atenciosos. Aquilo era de conhecimento geral?
Ramona... Tinha ajudado-a a fugir?
— Como assim?
— Ela me soltou. Eu estava trancada em um quarto, e ela me soltou.
— Ela estava envolvida com o sequestro?
Julie foi a primeira pessoa em muito tempo que usara aquela palavra.
— Acho que estava... — vacilou com a resposta.
— Se estava, sabemos que ela não é exatamente o tipo de pessoa confiável. Vamos continuar com as buscas. Você andou a vendo ultimamente?
— Não, faz mais ou menos duas semanas que nem ouço a voz dela.
— Se a encontrarmos, vamos prendê-la, não se preocupe, .
— Não... — ela vacilou novamente — Não prendam Ramona. Eu queria falar com ela.
— Falar com ela? Ela estava envolvida no sequestro do seu irmão! — falou .
— Eu sei que estava. Mas ela me fez descobrir algo muito importante.
— O quê? — perguntou .
apertou o braço da cadeira.
Por favor, , segure-se.
— Sobre Joe Durden.
— Ah, sim, agora você vai dizer que ele ainda está vivo — falou , caçoando de .
— Talvez — ela retrucou, tirando o atestado de óbito de Joe de dentro da bolsa — Não foi feito um exame totalmente confiável no cadáver. Só foi concluído de que é Joe porque ele tinha desaparecido, o corpo parecia ser do tamanho dele, o que restou das roupas... Mas não havia como fazer um teste de DNA em um corpo totalmente carbonizado. Não temos certeza de que foi o corpo de Joe Durden que foi encontrado naquele dia, que foi pela morte dele que eu fui para o Manson.
Todos ficaram em silêncio, por alguns segundos. achava que era para refletir, ou ao menos prestar respeito à ela. Não era. Era para que a sonora risada que tomou a sala, uma soma da risada doce de , da baixa de Marla, da alta de Julie, e da potente de .
não ria, ele apenas trocou olhares com .
— O Durden? Vivo? Por favor, .
— Eu estou falando sério, Marla.
— Mal sobrou um pedaço de pó daquele cara — comentou .
— Novato, fala sério — retrucou, parando de rir — Você nem conhecia o Durden. Não finja que sabe de alguma coisa, repórter.
— Se é assim, oficial — interrompeu, com a voz firme, fazendo todos pararem de rir e ficarem sérios —, refaça exames para reconhecimento do cadáver. Reveja, dê seu jeito. Já não fez merda o suficiente por hoje? Colocando uma inocente em uma clínica de suspeitos criminais?
Ninguém se atreveu a falar qualquer coisa durante a curta pausa de .
— Eu podia processar você e a Bronx. Ia ganhar um bom dinheiro.
— Isso é uma ameaça? — ele perguntou, desafiando-a.
— É uma previsão.
— Basta! — interrompeu Julie, falando mais alto — Todos dispensados. , novato, vocês ficam. Preciso falar uma coisa com vocês.
Todos levantaram de suas cadeiras e, trocando alguns olhares frios, saíram da sala. e foram até a ponta da mesa, onde Julie estava, e ficaram de pé um de cada lado dela, enquanto a própria delegada estava sentada.
Julie cruzou os braços, e olhou para , em seguida, para . Eles esperavam o pior.
— Admito que conheço pouco o novato, mas conheço um pouco melhor , suficiente para saber que ela não vai desistir do caso Durden. Vou instruir o oficial para revisá-lo, mas quando você desistiu do caso, , lamento dizer que você não tem direito algum de olhar os registros. Vou me encarregar de supervisionar a revisão do caso, . Mas não temos nenhuma garantia de que Joseph Durden possa estar vivo. Só esperem.
Ambos assentiram ao mesmo tempo.
— E tentem disfarçar um pouco. Esses tipos de coisa no ambiente de trabalho não costuma terminar bem.
— O que quer dizer com isso? — perguntou, sentindo o rubor subir ao seu rosto, se fazendo de desentendida.
— Por favor, . Eu já fui jovem, reconheço de longe o cheiro de libido.
Ambos seguraram uma risadinha e tentaram disfarçá-la.
— Novato, posso ter uma conversa com ?
olhou para e respondeu um breve “sim, senhora” e saiu da sala.
Alguns segundos se passaram até que Julie finalmente falou:
, você gosta de mim?
Aquilo tinha pegado-a de surpresa pior do que a palavra “libido”.
— Desculpe?
Julie era, para , a figura maternal que ela não tinha desde Johanna Durden. Mesmo assim, aquela pergunta era estranha demais.
— Quero saber se você gosta de mim. Mais do que como uma amiga.
balbuciou um pouco antes de responder:
— Você é uma pessoa importante no meu trabalho, Julie. Foi você quem fez de mim a Serpente Vigilante, no meu primeiro caso, lembra?
— Sim, eu lembro, eu lembro — a resposta não parecia satisfazê-la — Mas... Nada maior do que isso?
— Você é como um anjo da guarda para mim, Julie. Sabe disso.
— Eu sei. Enfim, pode chamar para uma conversinha particular, por favor?
Após murmurar um “pois não”, deixou a sala com Julie de cabeça baixa, parecendo pensar.
Um anjo da guarda? Só isso?
Sua linha de pensamentos foi interrompida quando entrou na sala.
— Quer falar comigo, Julie?
— Se tentar fazer algum mal à , eu arranco cada um de seus cílios com uma pinça.
Dando conta do recado, saiu da sala.

— Onde está essa merda? — perguntava-se , quase colocando sua sala da delegacia de cabeça para baixo. Para quem deveria estar se preparando para sair de lá, já que seu trabalho acabara, ele estava bem fora do prazo.
De volta para os obituários.
— Com licença? — perguntou uma doce voz vinda da porta — Eu bati, mas você não ouviu.
estava ajoelhado atrás da mesa, e parou por um segundo quando reconheceu quem era.
— Pode entrar — ele concedeu, levantando a cabeça e mantendo apenas isso visível para . Ela deu um sorrisinho e entrou, fechando a porta atrás de si.
Até o oficial , mas não a .
Colocou o indicador e o polegar no nariz, apertando levemente a ponte, de olhos fechados.
— Julie estava cobrando sua matéria. Assim que entregá-la, deixará a minha sala, e ficará com a sua.
— Meio pequena demais para a — ele comentou, não prestando muita atenção nela.
— Cabe toda essa bagunça — ela retrucou, cruzando os braços e apoiando-se do outro lado da mesa.
Ele deu uma risadinha abafada, procurando a matéria no último nível da estante imediatamente ao seu lado, ainda ajoelhado.
— É isso que está procurando? — a química perguntou, segurando um conjunto de folhas unidas por um clipe, estendendo-o para .
Ele ergueu o olhar e viu o que procurava nas mãos dela.
— Onde estava?
— Embaixo de algumas pastas. Você não deve ter procurado direito.
— Obrigado.
— Por nada. vai ter que se adaptar a essa sala — ela disse, passando os olhos pelo escritório — A minha também é pequena assim.
— Viu um envelope pardo por aí? — ele perguntou.
estendeu-o um envelope que estava na estante.
— Obrigado de novo.
— Dois “obrigados”, já está me devendo uma.
Ele deu uma risadinha forçada.
— Acho que já estou pedindo demais, reclamando da minha sala — disse, pensativa e colocando as mãos nos bolsos. Usava uma blusa rosa, com alguns babados, quase transparente. Seu sutiã branco era totalmente visível. Uma calça jeans, comprida, preta, que demarcava bem as coxas e os glúteos de quem a usava. Suas sandálias eram pretas, de tiras, que lhe davam um charme com o baixo salto fino.
— É bom reclamar de vez em quando. Assim, você consegue uma melhor.
— Eu sou só uma química, tinha que agradecer a Deus por uma sala só minha.
levantou de trás da mesa, fechando o envelope.
— Vou entregar isso amanhã, ainda estou no prazo. Preciso ir para casa.
— Algum motivo especial?
— Tive um probleminha mais cedo.
— Uma pena, novato — ela ergueu o canto do lábio, incrivelmente encantadora — Não são muitas as vezes que eu e você temos a oportunidade de ter uma conversa dessas.
Ele foi até a porta e abriu-a, olhando para a seguir.
— Acredito que não. Vai até a máquina de café? Acho que preciso de um café.
riu, levantando as mãos na altura do rosto, se rendendo, indo até a porta.
— Desculpe, eu só... — ele não queria parecer tão rude — Preciso realmente ir.
Ele fechou a porta e colocou a chave na fechadura.
— Não fale assim com mulheres. Fica feio na reputação — ela disse, fazendo bico.
limitou-se a dar um sorriso amarelo.
— Nossa, eu realmente esperava algo mais charmoso do que “me acompanhar até a máquina de café”, ainda mais vindo de você, novato — ele olhou para ela, trancando a porta da sala — Sabe, o príncipe encantado da delegacia, gentil, fofo. Não o troglodita do .
— Acho que obrigado. Eu não queria que soasse tão mal.
A maçaneta fez o sonoro clique de tranca. Ele comprimiu os lábios e ergueu as sobrancelhas. Tentava não soar mal educado. Estava exausto, e realmente precisava ir para casa. Sentia como se seus pulmões fossem desfazer-se no próximo suspiro.
Mas, é, não era a pessoa mais educada do planeta, então aquilo limpava um pouco sua consciência.
— Desculpe, eu realmente preciso ir para casa, estou péssimo.
— O que houve?
— Eu tive um acidente com o carro, mas já estou...
— Meu Deus! Se machucou? — ela perguntou, tocando o bíceps de . Ele passou a mão no lugar, claramente mostrando para não tocá-lo.
— Não, estou bem melhor, só preciso descansar.
— Mas como você não está bem, eu posso levar sua matéria para o jornal para você. Sabe, eu não sou a única dessa delegacia que faz o meu trabalho, posso me dar esse luxo de fazer outras coisinhas.
— Infelizmente, não posso dizer o mesmo. Obrigado.
— Bem, você me disse quatro “obrigados”. Já deveria aceitar meu convite.
— Que convite?
virou os olhos, mordendo o lábio, parecendo inocente. Só parecendo. Voltou com seu sorriso perfeito. Hipnotizante.
— Vamos, novato. Sei de um lugar que serve um café bem melhor que esse daqui. Vamos, podemos continuar nossa conversa.
Não posso, tenho namorada.
— Não quero, tenho namorada.
O sorriso de desmanchou-se.
— Wow. Eu não sabia.
— É — foi o máximo que ele conseguiu responder.
Ambos ficaram desviando os olhares por alguns segundos, até a voz de soar no corredor, cada vez mais próxima:
! ! Está tudo bem? — ela perguntou, quando chegou até eles, percebendo o clima tenso.
— Está, está sim — ele indicou, olhando para ela, em seguida, fixando seu olhar nos olhos de — Já vamos embora.
— Ok, já é hora do almoço — a detetive concordou.
— Estou faminta! — comentou — Vejo vocês semana que vem.
— Até mais, — cumprimentou , virando de costas quando a puxou em direção à saída, enquanto ele próprio apenas deu um meio sorriso pequeno.
— Até! — a química cumprimentou e acenou, sorrindo abertamente. Assim que os dois saíram, seu sorriso sumiu lentamente, até ela ficar séria.
Verei vocês, provavelmente não juntos.

No time to search the world around... ‘Cause you know where I’ll be found, when I come around.




Should I, could I have said the wrong things right a thousand times?

Muitas das perguntas da vida de tinham sido respondidas naqueles últimos dias. A maioria era apenas um vago jogo de “sim”, ou “não”, entretanto, poucas necessitavam respostas completas. era do tipo que preferia essas respostas. De qualquer modo, em toda sua vida, a mesma perguntava voltava, perturbadora. A resposta para ela nunca parecia se encaixar.
Como preencher os espaços vazios?
e estavam sozinhos em casa. Era o único dia que não tinham nada para fazer: domingo. Ela estava no apartamento dele e de , com uma câmera apoiada com a correia em volta de seu pescoço. Um dos poucos passatempos que admirava era a fotografia. Não era nada profissional, mas também, não era amadora. Gostava de registrar pequenos e belos momentos de sua vida.
Entrou no quarto de , pois da janela dele, era a melhor vista para a cidade. Foi até o vidro e apontou sua câmera para o lado de fora. Pôs o olho direito na direção da pequena lente, e fechou o esquerdo, fazendo uma careta com o lábio erguido de um lado. Registrou a mais bela vista que imaginava que poderia tirar de Longview.
Podia ver, daquela janela de um andar tão alto, seu prédio abandonado.
A primeira regra de convivência com era nunca, em hipótese alguma, esconder algo dela.
Algo que ela precise saber.
Muitas pessoas vinham quebrando essa regra.
deitou na cama de , com o rosto para cima. Começou a olhar as fotos que tinha tirado naquela câmera, que tinha sido comprada por ela no dia anterior. Paisagens de ruas, fotografias pintadas naquele dia, mais cedo.
Os espaços vazios pareciam estar sendo preenchidos.
Aquarelas.
Espaços de interrogações.
Pinceladas apreensivas.
Isso vai dar certo?
Pouca resolução.
Vale a pena continuar?
Falta de brilho.
Até quando deve ficar assim?
Sem foco.
Vale a pena mudar?
Espaços vazios. Em uma grande parede pendendo, ameaçando a queda.
Firme. Sólida.
Aquilo era amor? Ou apenas confiança recíproca?
nunca tinha experimentado o amor. Ela sempre confundira borboletas no estômago com outra coisa. Amizade, atração, às vezes pura prisão de ventre.
entrou no quarto e, quando a viu distraída, foi até ela. Surpreendeu-a, deitando seu corpo próximo ao dela, de lado, apoiando a cabeça com uma mão. Com a outra, acariciou o rosto de .
— Não tem desculpas.
— Desculpas? — ela perguntou, tirando a câmera do pescoço e colocando na cômoda.
— Hoje você é minha, garota. Não tem como fugir.
— Cadê o ?
— Precisou fazer plantão, por ter faltado naquele dia.
— Deus, acho que realmente não tenho escapatória. Não tenho opção.
abaixou um pouco o rosto e tocou os lábios de sutilmente com os seus, roçando-os e beijando-os lentamente, encaixando-os.
Preenchendo os espaços vazios.
— Nenhuma.
Do rosto dela, sua mão viajou por seu dorso, passou por seus seios, acariciando-os brevemente, como um carinho, até chegar no cós de seu short. A moça levantou um pouco a cabeça, a fim de avançar um pouco o beijo. Passou a língua pelo lábio inferior de , causando um leve sorriso no jornalista.
Como queria aqueles lábios em outro lugar.
tocou seu braço, dedilhando o bíceps agora rígido de , já que ele se preparava para colocar seu corpo sobre o dela.
Nunca se imaginaria nem vivendo sob o mesmo teto que , tampouco a beijando. Queria aproveitar cada segundo.
Suas pernas cercaram o corpo da mulher, não lhe dando muita opção a não ser correspondê-lo.
Ela queria.
Ela o queria.
Jornalista.
Jornalista?
Jornal.
Matéria.
Oh, merda.
— Cacete — ele murmurou, interrompendo o beijo, franzindo o cenho e fechando os olhos com força, irritado com si mesmo.
— O que foi, ? — perguntou, com seu rosto delineando bem sua confusão. Segurou os braços de , para conseguir erguer um pouco a cabeça.
Um dos tijolos que fechara um espaço se soltou.
Adeus, clima.
— Hoje é segunda, eu devia ter entregado a matéria sobre você. Meu editor vai querer arrancar meu couro.
— Eu reembolso o prejuízo com uma entrevista exclusiva — ela disse, fazendo bico e voz embargada de pedido.
— Metida — ele falou, dando um beijo na testa de antes de levantar uma perna do lado de , girar o corpo e sentar ao lado dela — Eu volto logo.
— Vou fazer uma reserva no melhor restaurante da cidade.
— Achei que íamos jantar em casa — ele comentou, colocando sua jaqueta, apoiada na cadeira da escrivaninha, e pegando o envelope pardo em cima da mesa.
— E o que foi que eu disse? Vou fazer um salmão ao molho de anchovas que você não vai querer comer mais nada na sua vida.
levantou da cama e parou atrás dele. olhou por alguns segundos para os lábios dela, e inclinou-se para dar um breve beijo nos mesmos.
— Duvido.
— Seu sujo — ela brincou, dando um leve tapa no braço de .
Gostava daquele clima. Amizade.
— Não vou demorar — ele disse, dando um selinho nos lábios de , já apressado para deixar o quarto. Quanto mais cedo saísse, mais cedo chegava.
Ela seguiu-o até a sala e, depois de mais beijo breve de despedida, deixou a casa. tinha um sorriso bobo, quando ajeitou o cabelo e colocou-o todo para o lado.
nunca imaginaria que seu muro estava caindo aos poucos.
Liberdade versus segurança.
O telefone começou a tocar quando a detetive foi até a cozinha e viu que precisaria comprar ingredientes para fazer o salmão. Andou até a mesinha ao lado do sofá, pegando o telefone no quarto toque.
— Alô?
— Boa tarde? — a voz masculina cumprimentou, em tom de pergunta. Não esperava a voz feminina do outro lado da linha — Com quem falo?
— Detetive — ela apoiou o telefone com o ombro, fazendo-o ficar pressionado ao ouvido, enquanto procurava os ingredientes nos armários.
— Ah, Srta. . Era justamente com a senhorita que gostaríamos de falar.
— Quem gostaria?
— Somos policiais encarregados de cuidar do incidente com sua residência.
— Ah, sim. Já sabem se foi incêndio criminal?
— Devido às circunstâncias, tudo indica que foi acidental. Felizmente, seu marido, Sr. , tinha estendido o plano de seguro.
— Noivo. Ex-noivo, quer dizer — corrigiu-o.
— Ex-noivo. De qualquer modo, fomos informados que um andar de sua casa foi quase completamente perdido. Entretanto, o mais superior está quase intacto. Assim que quiser, pode voltar à sua residência.
— O novo seguro cobre os móveis perdidos?
— Cobre tudo. Seu mari, perdão, ex-noivo, gastou uma boa quantia. Assim que quiser, poderá liberar o dinheiro com seu número do cartão de crédito.
molhou os lábios. Voltou a segurar o telefone com a mão, apoiando as costas no balcão da cozinha.
tinha feito um seguro tão grande assim? Ele previu que algo fosse acontecer... Ou fez acontecer?
— Alô? — perguntou o homem, mostrando um forte sotaque castelhano.
— Olá, ainda estou aqui. O senhor dizia... — ela continuou, percebendo que ainda estava com um interlocutor — Posso recuperar o valor do seguro?
— Sim, Srta. . Antes disso, tenho outro assunto a qual me referir.
— Pois não.
— A senhorita não poderá recuperar qualquer valor por algum tempo. Pessoalmente, não acho que a senhorita deva ir ao trabalho também.
— Por que acredita nisso? — ela perguntou, achando o comentário até um pouco ofensivo.
— Hoje de manhã, foi prestada uma queixa contra a senhorita.
— Queixa? Que queixa? Contra quem? Quem fez, o que dizia a queixa?
— Por favor, se acalme.
— Eu fiquei três meses presa por um crime que não cometi. Não me mande ficar calma, senhor.
O homem pareceu engolir em seco.
— Foi uma denúncia anônima, disse que a senhorita está assediando sexualmente um colega de trabalho.
— Eu? Assédio sexual?
— Sim, senhorita. Como eu próprio reconheço seu trabalho, duvido muito que isso seja verdade. A denúncia foi feita por um homem, sem dúvidas.
— Quem disseram ter sido assediado por mim?
— Este é o problema, senhorita . Se eu fosse a senhorita, iria para sua própria residência o mais cedo possível. Estão procurando evidências de que você abusa do jornalista .
O muro perdeu sua pedra-base.

O envelope pardo estava seguro por entre os dedos de , o frio fazendo o papel praticamente colar-se à pele do homem. O carro que o seguro o improvisara estava caindo aos pedaços, sem teto, mas que o ajudava em situações como aquela: pressa e trabalho breve.
E já me disseram que mulheres amam carros conversíveis. O meu não tem teto, o quão ótimo isso soa?
Foi até a delegacia e desesperou-se para achar o envelope pardo, que não achou. Estacionou na frente do prédio do Now Longview, desligou o carro e rezou para que qualquer tipo de desculpa pudesse ser convincente o suficiente. Saiu e correu até a entrada do prédio.
Lá fora, o céu cor de níquel já pintava o cenário de uma noite fora do normal.
Assim que entrou, pôde tirar sua jaqueta.
, se esqueceu dos amigos da ralé? — perguntou a moça da recepção, dona de curtos cabelos ruivos e um sorriso branco impecável.
— Se isso é ralé, nunca me deixe ficar bem-sucedido, Cathy. Como está?
— Do mesmo jeito que você me viu da última vez. E você?
— Felizmente, não posso dizer a mesma coisa — ele disse, com um sorriso, apoiando os cotovelos no balcão.
— Para quem só pegou o trabalho na delegacia para subir mais na hierarquia do Jameson, você está bem felizinho. Muitas mulheres preferiram o repórter investigativo ao escritor de obituários?
Sentia certa tristeza, ao lembrar que só tinha ido trabalhar na delegacia para cobrir a volta de . Como se ela fosse um objeto. A única razão para aceitar seu trabalho.
Nunca fora , na verdade. Claro, aquilo seria um bônus. Conhecer a melhor detetive da cidade.
Nada se comparava à honra de se aproximar dela e relatar suas investigações.
Aquilo lhe machucava, de certo modo. Mas como poderia se desculpar por isso?
Era natureza humana. Errar.
E era algo bem mais banal do que se imaginava.
A culpa faz parte do ser humano, e mais de 90% dele prefere conviver com ela a erradicá-la.
— Esqueça esse meu passado que me condena. O senhor Jameson está aonde, Cathy?
— Na sala dele, por enquanto. Logo vai embora.
— Ok, obrigado. Preciso entregar minha última matéria, para entrar no jornal amanhã mesmo.
— Vá correndo, senão, volta para cá cobrindo a parte de moda do jornal.
— Não me rogue praga, mulher. Eu convenço o Jameson a fazer você ir para os obituários.
— Garanto que é melhor do que a secretaria.
Cathy riu e fez sinal para que fosse logo para o elevador.
— Ah, , outra coisa. Tem uma moça aí, disse que te conhece.
— Uma moça? — ele perguntou, quando a porta do elevador se abriu e ele adentrou-o — Quem era?
— Eu não conhecia. Não sei o nome, mas olha, ela é linda. Parece um anjo.
A porta do elevador se fechou lentamente, no momento em que se deu conta de quem era.
Seu desfecho.
O anjo.

A segunda regra de convivência com era nunca mentir para ela. E nunca duvidar dela.
Assim que saiu do elevador, sentiu seu telefone vibrar em seu bolso. Atendeu-o apreensivo.
— Alô?
— falou a voz de , parecendo tentar manter-se firme e calma — Eu só... Queria saber como estão as coisas.
— Está tudo certo, . Por que a pergunta? — ele retrucou, olhando em volta no escritório praticamente vazio em pleno crepúsculo, o que o deixava cada vez mais nervoso.
— Eu... Recebi uma mensagem de Ramona.
Ele parou.
— Como sabe que é dela?
— Só pode ser. O número não é identificado pelo meu celular, só pode ser ela.
— O que dizia?
Ela pareceu respirar fundo para responder.
— ‘Até o mais perfeito anjo sucumbe ao pior dos pecados. Você passou do ponto de poder retornar’. O que isso pode significar?
— Não faço ideia. Por enquanto, ignore. Quando eu estiver em casa, vamos olhar isso melhor.
— Tudo bem. Vou sair por alguns minutos, vou comprar os ingredientes que faltam para o salmão.
— Achei que tínhamos tudo em casa, que estranho — ele comentou, chegando até o escritório do Sr. Jameson.
— Eu também achei. Vou tentar voltar o mais cedo possível, não quero passar muito tempo na rua.
— Ok, já vou também.
— ela falou, mais baixo, antes de despedir-se.
— Sim, ?
— Estou com medo. Do que Ramona pode estar desejando a mim. Qualquer tipo de mal.
Ele suspirou.
— Não tenha. Até logo. Eu sei que você consegue se virar sozinha.
Ela deu uma risadinha.
— Até.
E finalizou a ligação. Bateu na porta do escritório do Sr. Jameson e recebeu como resposta um animado ‘entre’.
Jameson nunca se referira a com palavras muito maiores do que murmúrios.
Quando a porta foi aberta, logo foi visto o motivo do bom humor do chefe.
— Ah, , é você. Achei que ia se esquecer do trabalho — falou , com um sorriso. Estava usando uma calça comprida vermelha, e uma bata preta transparente. Seu corpo era facilmente visto e delineado.
Era perfeito. Como uma escultura.
Os fios de seus cabelos estavam em forma para deixá-los quase cacheados, com ondas lindas como de uma atriz de Hollywood. O sorriso.
Que sorriso.
Mentirosa.
— E quase esqueceu, não foi, ? — perguntou Jameson, com a voz cobradora e alisando seu bigode grisalho, como costumava fazer.
— Tomei a liberdade de trazer sua matéria, . Como não tinha nenhum telefone seu, não pude contatá-lo.
Ela piscou um olho para ele.
— Precisamos mudar essa realidade — acrescentou.
Descrente, só teve conta de que falou a verdade quando viu o envelope em cima da mesa. O exato envelope que tinha deixado em sua sala na delegacia.
Seu trabalho estava melhor do que ele imaginava que ficaria. Sua obra-prima. Seu desfecho.
— Como pegou o envelope? — ele perguntou.
— Julie me entregou a chave mestra das salas, como eu pedi. Se acalme, novato, não fiz nada que alguém pudesse me prender.
— É, , se acalme. Você é jornalista investigativo, e não o próprio detetive.
Antes que pudesse retrucar qualquer coisa, ele percebeu.
Jornalista investigativo.
— Eu vou continuar na delegacia?
— Somente se tiver motivos para ficar — respondeu Jameson, piscando um olho sem que percebesse.
— Lá eu tenho café de graça — brincou .
— Julie liberou você desses casos, mas, até onde eu sei, pode continuar lá — retrucou Jameson, sem rir da piadinha de , ao contrário do que fez.
— Eu... Eu não vou voltar aos obituários? — ele perguntou, quase gaguejando e com a boca entreaberta.
sorriu e olhou para Jameson.
— Não. Seu trabalho, segundo essa moça, foi muito elogiado na delegacia. Se a delegada confirmar isso a mim, conforme irei conferir, você assume qualquer tipo de investigação. Vai continuar falando de gente morta, mas com certo charme — Jameson deu uma risadinha.
pensou em devolver a risada, até que percebeu que não tinha sido direcionada a ele.
— Bem... Obrigado, .
— Isso é maneira de se agradecer uma dama? — perguntou Jameson, se levantando da cadeira com o envelope na mão — Por causa de seu atraso, eu deveria te deixar cuidando dos mortos e colocar a matéria só terça. Essa moça salvou seu couro, e, por causa dela, vai poder ser colocada amanhã nos papéis dos jornais de toda cidade, com seu nome em destaque. Ah, falando nisso, pense em um sobrenome mais bonito. ‘ ’ não combina nem para nome de artista.
não tinha nenhuma reação.
— Muito obrigado, — ele corrigiu-se.
— Por nada, novato. Pode me dar uma carona para casa? Não queria ir de táxi a essa hora.
— Nem escureceu ainda, .
Jameson ergueu uma sobrancelha e lançou um olhar frio para .
— Eu... Realmente não vou poder, desculpe — ele disse. deu de ombros e levantou-se da cadeira onde estava sentada.
— Sem problemas. Também tenho coisas a fazer. Bem, vou indo. Obrigada por sua atenção, Sr. Jameson.
— Por nada, meu doce — o editor disse, segurando a mão de , levando-a até seu rosto e beijando suas costas.
indicou a saída com um sorriso amarelo e foi seguido pela química, que agradeceu com sua voz doce. Jameson fez um sinal muito feio e sugestivo para antes que ele deixasse a sala, mostrando o que ele sugeria que o jornalista fizesse com a bela mulher.
O pior dos pecados.

O telefone voltou a indicar o toque de mensagem.
‘Eu não te desejo o mal, desejo apenas o que você merece.’.
quis voltar atrás, mas não iria fazer diferença retornar ao apartamento. Estava perto do mercado, e um lugar iluminado, com seguranças, representava muito menos vulnerabilidade do que o apartamento vazio.

Quando chegou em casa, não sabia mais o que fazer.
Sempre que se despedia dele, ele não sabia como finalizar a frase. Parecia cedo demais para afirmar qualquer coisa.
Estacionou o carro perto de casa e foi até o prédio andando. A essa altura, o céu já estava escuro, e algumas gotas de chuvas arriscaram-se a cair no chão.
A terceira regra de convivência com era não esforçar-se para fazê-la sorrir. Apenas, fizesse o máximo para não fazê-la chorar.
estava prestes a quebrar esta regra.
Subiu de elevador até seu andar, sentindo como se sua cabeça fosse explodir. Não era uma dor de cabeça qualquer.
Algo como excesso de informações, abuso do banco de dados.
Se toda a história fosse um computador, ele já estaria pifando naquele momento.
A porta do elevador abriu-se e um corredor surgiu à sua frente. No fim dele, era o apartamento de e . Não de .
Não por muito tempo.
Corra.
Andou a passos largos até a porta e colocou a chave na maçaneta, abrindo-a a seguir, sem cerimônias. Colocou o braço para dentro e acendeu a luz antes sequer de adentrar por completo.
A luz já estava acesa.
Tinha alguém sentado na cadeira do balcão da cozinha. Um corpo de pé, masculino, debruçado para frente e abraçado a um outro, este esguio e feminino. A visão de demorou a se adaptar à tal visão.
e .
Argh.
— Arrumem um quarto — ele falou.
partiu o beijo tão intenso e virou para o amigo. estava bem mais aliviado àquela altura.
— Cara, não me corta. Fica na sua.
— À vontade — disse, levantando as mãos na altura do rosto, claramente se rendendo.
— Vou pegar algo no quarto e já volto. Não saia daqui — falou baixo para .
Ela ergueu os cantos dos lábios.
— Não tenho motivos para isso.
Com um sorriso bobo, deixou a sala e foi para o corredor. estava sentado no sofá de costas para os dois, distraído com a câmera de em cima da mesa.
Assim que o psicólogo deixou a sala, passou as costas da mão nos lábios, e fez uma cara de nojo.
A quarta regra de convivência com era nem sequer aparentar que faria qualquer coisa relativa a trair sua confiança. Ela custava a se apegar a alguém. Raramente, se apegava rápido. Em ambas as circunstâncias, desapegava rápido.
— Eu disse que tinha algo importante para fazer — disse, sorrindo — Você estava machucado, não estava, ? — perguntou, levantando-se da cadeira e ajeitando suas roupas amassadas pelas fortes mãos de .
Uma mulher normal abotoaria sua blusa. desabotoou-a um pouco mais, deixando visível a curvatura de seus seios.
não viu isso. Estava de costas.
— Não machucado. Eu só não estava bem.
— E conseguiu cuidar de você?
Considerando aquilo algo entre o desafio, a ofensa e a provocação, ele respondeu sem sequer olhar para ela, como sempre:
— De um jeito que nenhum médico faria melhor.
— Eu duvido.
suspirou com raiva. Sentiu o toque das mãos de em seus ombros, massageando-os lentamente. Não reagiu, pois não conseguia. Era como o toque de seres divinos.
A língua úmida e macia da química percorreu verticalmente sua nuca.
— O que está fazendo? — ele perguntou.
— Você acha que confia em . E acha que ela confia em você — ela murmurou entre gemidos perto de sua orelha — Na verdade, não faz nenhum dos dois.
— Você não conhece nem a mim, nem a ela.
— Eu conheço tão bem quanto Joe Durden.
Pronunciar aquele nome fez se estremecer. Ou será que foi chupar o lóbulo de sua orelha?
Incrível como o nome ‘’ e ‘Joe’ pareciam se encaixar tão perfeitamente em uma frase.
— Ninguém a conhece tão bem quanto Joe Durden conhecia.
tapou os olhos de e contornou o canto do sofá. Sentou-se no apoio de braço, afundando o rosto em seu pescoço.
lhe contou que abortou o filho de Joe Durden?
— O quê? — ele perguntou, franzindo o cenho.
sorriu, satisfeita.
— E foi depois que ele morreu. Pouco antes do Manson.
... Engravidou?
— Ela não poderia ter aquele filho. Era mais um para a herança amaldiçoada dos Durden.
— Não pode ser verdade.
— Vamos combinar, afastou o rosto do dele, e viu os olhos de olharem diretamente para ela, inseguro — Você achou realmente que ia contar tantas verdades para você? Um jornalista que ela acabou de conhecer?
— Mas eu achei que...
— Essa história é manjada, essa que ela conta. Foi um dos casos mais incríveis e menos famosos dela. Todo mundo morre de pena. Muitos caras já caíram nessa lábia em baladas que ela ia comigo.
— Ela não vai mais.
— Claro. Tem um homem novo encantado pelo canto da sereia. Você não vai perceber que, na verdade, ela tem presas?
balançou a cabeça.
— Você quer me confundir.
ajoelhou-se no chão, de frente para ele.
— Eu estou apenas sendo mais sincera do que ela foi.
— Não está sendo sincera com .
Ela apoiou uma mão ao lado de cada perna de , e inclinou o corpo para frente, olhando vacilante dos olhos dele para seus lábios.
— Ele foi só o caminho, . Você é o prêmio final.
O prêmio final.
lançou seus lábios contra os de , feroz, terminando de desabotoar a blusa. Não custou a colocar sua língua na boca dele, a segurar sua nuca e sentar em seu colo com as pernas abertas.
O prêmio final.
A blusa de foi jogada no chão.
A porta foi aberta rapidamente, e uma sacola caiu-se contra o chão.
Quando e ergueram o olhar, estava de pé na sala, boquiaberto. Perto da porta, estava , também boquiaberta e sem reação, com os olhos mareados.
, eu... — ele falou, tentando se explicar.
correu pela sala e foi até o corredor, com todos acompanhando seus passos com os olhos. jogou no sofá, e gritou o nome de enquanto seguia seu caminho.
Assim que chegou até o escritório onde ela estava, já saía porta afora com sua mala na mão, sua câmera com a correia para fora do zíper. Passou o braço pelo rosto, querendo secar suas lágrimas.
, me deixa explicar! — ele gritou.
Quando virou de frente para , já de frente para a porta de saída aberta do apartamento, ele quis ouvir o que ela tinha a dizer. Todos queriam.
Era a palavra dela.
— Pelo menos agora, ... — ela pigarreou — Você vai com a cara da .
E saiu do apartamento, deixando a porta aberta.
A quarta regra de convívio com era nunca, em hipótese alguma, esconder algo dela.

— Sua filha da puta — xingou — Sua vagabunda, vadia, piranha!
, eu...
— Se eu tocar em você, vai ser para te dar uma surra tão grande que você não vai se lembrar de como seu rosto era antes — ele ameaçou, apontou o dedo para o rosto dela, completamente sério — Saia da minha frente, sua cachorra. E nunca mais apareça.
Ela abaixou-se para pegar a blusa no chão, mas protestou.
— Você vai do jeito que está. A rua inteira vai ver a verdadeira você. Que nenhum de nós jamais tinha visto.
, por favor... — ela murmurou, colocando o braço na frente de seus seios.
pegou uma cadeira perto da mesa e jogou-a contra a parede, incrivelmente irado.
— Eu não estou brincando.
A passos longos, correu até a porta e deixou o apartamento. trancou o lugar e olhou para , que estava catatônico no meio da sala.
— Cara, eu não sei o que...
— Tudo aquilo valeu para você também — disse, com a voz mais baixa — Eu odeio a . Odeio para caralho. Mas você, ? Você me decepcionou. De verdade. E nem imagine a merda que você fez com a .
foi para o corredor, e, antes de entrar em seu quarto, finalizou:
— Ela é o tipo de mulher que você estende um tapete vermelho para ela passar.
Pigarreando, retrucou:
— Eu sei. Puta que pariu, eu sei.

As gotas caíam mais pesadas quando chegou até a rua. Não sabia dirigir, então não tinha opção a não ser pegar um táxi.
Usava calças compridas jeans, e uma blusa xadrez azul com as mangas arregaçadas até o cotovelo. Os cabelos presos de lado trançados estavam agora com as gotas de chuva caindo contra eles.
Violentas, impiedosas.
A iluminação precária da rua só piorava sua situação.
Solitária.
Não há ninguém em casa.
Esquecida.
Abrigou-se na porta de uma loja da rua, tentando pensar melhor no que fazer.
Ir para a casa de sua mãe estava simplesmente fora de questão.
Tyler não a queria mais.
? ? Onde estavam eles? Nem pareciam se lembrar de .
Queria-os mais do que tudo.
Marla? Julie? Jamais.
? Essa sim, nunca mais.
Só havia uma pessoa restando.
Um raio apareceu e atingiu o topo de um prédio da cidade.
Raios.
Raios sozinhos. Solitários.
Entrou no táxi que apareceu pouco depois na rua.
— Moça, que hora para sair de casa! — disse o motorista, tentando ser simpático. deu um sorrisinho.
— Eu sei.
— Está perdida? — perguntou ele.
pensou um pouco antes de responder, aérea e com os dentes rangendo:
— Estou encontrada até demais.

Encarava o celular sem nenhuma forma de emoção no rosto. O nojo, o ódio, a decepção, tudo em uma mistura. Duas pessoas importantes em sua vida. Sim, tomava um lugar na trajetória de fazia tempo, enquanto tinha acabado de tomar um lugar de destaque.
Traição. Aquela palavra parecia tão pesada, que não deveria ser usada em qualquer contexto. pensava assim.
Tudo em sua vida se resumia a engolir coisas que não suportava mais, a fingir não se importar. Era apenas algo a mais, que a fazia afundar alguns centímetros.
Drama? Talvez fosse. Somado a tudo que já tinha passado por sua vida, ela merecia ser uma princesa.
Todos acham que merecem. Poucos realmente sabem que deveriam.
Não tinha determinação. Era mecânico.
Deveria ter parado. Deveria ter dito para si mesma - e não disse, em algum momento? - que não merecia aquele tipo de dor em sua vida.
Ser deixada de lado. Desnecessária. Sempre fez seu maior esforço para ser lembrada.
Era tão clichê, mas a fuga do clichê é clichê.
Deveria se ocupar.
? — perguntou com o celular tocando sua orelha.
! — falou , no celular, parecendo ocupado e até um pouco distraído — Onde esteve? Queria te ver.
— Na merda — ela respondeu.
— Putz, não fala isso. Preciso bater em alguém?
— Não, por enquanto. Está ocupado?
Ele pareceu parar de fazer o que estava fazendo do outro lado da linha.
— Não mais.
— Pode ir lá para casa?
— Que casa?
— A nossa.
Ele pareceu pensar um pouco, e achou que o detetive tinha contatado ele também.
— Posso sim. Já está perto?
— Estou.
— E por que está indo para lá?
Ela suspirou e pensou por alguns segundos.
— Porque é a minha casa, . E sob aquele teto, eu sou a força maior.
ficou em silêncio, compreensivo.
— Pensei que você fosse dizer isso. Estou no meu caminho.
E colocou o celular no colo.
‘Eu avisei’ foi a mensagem que surgiu na tela alguns segundos depois.
‘Insegurança’ foi a palavra que surgiu em sua mente alguns segundos depois.
Controvérsia.
Uma mesma rua, cada um andava por calçadas diferentes. Sempre olhando para o lado. Sempre querendo atravessar.
Sempre tinha sido tão forte, e agora tão tola. Tinha deixado-o atravessar.
Invadi-la.
Aquilo já tinha acontecido antes, fisicamente.
Um muro.
Cada um tem seu lugar.
Fugindo do controle.
Fugindo.
Controle.
Aquilo era seu novo ponto de interrogação.
O que fazer?
Seguir em frente era algo tão ordinário, comum, que se questionava até quando contar aquela mentira iria funcionar.
Até quando seguiria em frente? Quando viraria a esquina, ou daria meia-volta?
Quando mudaria de rua, novamente, como sempre fez, para um lugar desconhecido?
Inabitada.
Porque pior do que ele despedaçá-la um pouco mais, era ele ter quebrado o que ele próprio tinha consertado.

O táxi parou na frente do número 537 da Singer Street. Um endereço tão famoso, mas, agora, que só tinha seu esqueleto. O chão sufocado pedia por ajuda, se lembrava de seus dias de glória.
Esquecido.
A alma da casa de , , e ainda estava lá. Ainda a acolheria.
Como se nunca tivesse ido embora.
Nunca foi embora.
Retrocedendo.
Um lugar sagrado. Inquebrável. Impassível.
O templo de .
O táxi parou no início da rua. pegou sua mala e tomou seu caminho na calçada, o mais próximo possível da proteção de lojas contra a chuva. Assim que se aproximou da porta, catou na bolsa o chaveiro de sua casa. Encontrou a chave no molho e colocou-a na fechadura.
Com um rápido clique, a porta se abriu.
Um lugar sagrado. Violado.
Uma silhueta estava sentada no sofá, a luz da rua invadindo a janela, os cabelos loiros refletidos sob o luar. Usava uma blusa xadrez vermelha e, por cima desta, um casaco preto de couro. Os jeans compridos e as botas de salto fino completavam o visual de Ramona.
Os cabelos agora estavam mais curtos.
— Eu avisei — ela repetiu o que tinha escrito.
— Saia daqui, Ramona. Saia agora — apontou para a porta ainda aberta, que apenas deixava algumas gotas de chuva entrar na casa — Essa é a minha casa. Você está morando aqui agora, ou algo assim? Não pode me deixar em paz?
Seu sangue fervia de puro ódio. O fogo nos olhos azuis de Ramona parecia servir apenas para aumentar suas chamas.
Agarrava-se às estrelas que contava quando tinha Joe. Hoje, só tinha Ramona.
Por que isso parecia soar tão ruim?
— Eu meio que estou morando, sim. Mas se acalma. Certamente, isso que houve não teve nada a ver comigo.
— Essa é a minha casa. E acho melhor você sair dela. Hoje, realmente, eu não estou nem um pouco bem.
— Você nunca está. Ouve isso? — Ramona perguntou, referindo-se às trovoadas — É o som do paraíso. O que houve? Aposto que quer gritar o que aconteceu para o mundo inteiro.
— Não para você.
— Não acredito que você vá ter muitas opções.
suspirou, derrotada.
Uma pessoa surgiu em frente à porta, agitando um guarda-chuva encharcado e tirando o gorro da cabeça. Olhou para , em seguida para Ramona, que continuava sentada no sofá, impassível. A aparência acabada do móvel em questão, que parecia prestes a reduzir-se a pó, não parecia abalá-la.
abraçou tão forte que ela não queria mais nada no mundo além daquilo. Retribuiu o abraço e afundou o rosto em seu ombro úmido.
— Te amo, minha menina. Nada que você faça jamais vai me fazer parar de te amar — ele falou, no ouvido dela — Agora, me diga, com todas as letras, o que aconteceu.
tirou o rosto do ombro de e olhou para Ramona, apontando para e dizendo:
— Ramona, esse é , meu melhor amigo, noivo da . , já ouviu falar de Ramona?
— Este é o famoso , então — Ramona disse, sorrindo e se levantando para apertar a mão fria de .
— Eu já ouvi falar de você, Ramona. Queixas. De — ele disse, desconfiado e retribuindo o gesto.
Mecanicamente.
— Acontece.
Ramona voltou a sentar-se no sofá. abaixou-se e sentou-se no chão, próximo à loira, mexendo no cabelo para tirar o formato da touca dele.
voltou a agarrar-se às estrelas.
Quando jovem, nos dias que Joe parecia querer cheirar até giz, costumava ficar na varanda do Palácio da Cerejeira, esperando-o. Tinha esperanças de que ele voltasse sóbrio. Quando estava no Manson, fazia o mesmo na pequena varanda de seu quarto. Tinha esperanças de que fosse tudo coisa de sua cabeça.
Naquela noite, achou que e Ramona estavam sentados na varanda, com esperanças de que chegaria e diria que estava tudo bem.
— Eu fui uma idiota — disse, fechando a porta da casa — Uma idiota! Claro que aquilo não era nada. E eu não podia perceber mais cedo, podia, imbecil? Claro que não. Ela era linda, mais esperta e disponível. Eu sou uma cega mesmo, estou fora da minha mente. Eu devia ser uma rocha. Inquebrável.
Silêncio.
e . Eu sabia que, cedo ou tarde, eu ia ser jogada para escanteio de novo. Para o fundo do poço. Nada além de um coração partido.
— Eu sabia que isso ia acontecer — foi o máximo que Ramona comentou — Outro fim de jogo.
estava de costas para Ramona, olhando para a chuva além da casa. Cerrou o punho.
Rocha. Raio. Interrogações. Muro. Queda.
Rotina.
— Cala a boca. Cala a porra da boca, Ramona — ela disse, com os dentes quase rangendo.
— Você não devia ter perdido seu tempo.
— Cala a boca — repetiu , reforçando .
— Eu sou uma idiota — a reafirmou — Eu sou tão... Substituível. Esquecível. Desnecessária.
— Bem, na verdade, você não é idiota — Ramona afirmou, levantando do sofá e ajeitando sua blusa xadrez por dentro do casaco — Você achou que ela era sua amiga. De quem é a culpa? Sua?
olhou para . Ele ficou levemente perdido e olhou para Ramona.
— Continua — ele disse, olhando para a loira.
Ramona deu um sorriso satisfeito.
— Não é sua. Aliás, nem é muito da . Porque ele também tem culpa. Ele soube de tudo sobre você, ficou por perto para fazê-la falar. Agora que ele sabe de tudo, está colocando isso contra você.
— Ramona, eu não acho...
— Cala a boca e me escuta — Ramona interrompeu-a, e apontou para a janela — Está vendo esses raios? Eles não são solitários porque ninguém gosta deles. Porque são piores que os outros. Não, esses raios são melhores do que todos.
Poderosos. Destemidos.
Temidos. Independentes.
— Você é um raio, . Você é uma rocha, inquebrável. Melhor do que todos eles.
— Toda rocha já foi um grão, um dia.
— Hey, — Ramona voltou a dizer, enquanto se levantou do chão, e os dois cercaram a detetive — Corações selvagens não podem ser quebrados. Raios não podem ser controlados. Você é superior a tudo isso.
— Eu não sou suficiente.
— Você é bem além do que eles consideram ‘suficiente’. Você é um raio, uma rocha.
limpou o rosto mais uma vez. Molhou os lábios. Estava diferente.
Era melhor.
— Para você, minha adorável , o fim é só um nível. Mas eu te garanto que assim, você está bem melhor.
As duas olharam para .
— Eu, sinceramente, concordo. Você não precisa dele.
Ramona voltou a ter a palavra:
— Ninguém pode te fazer de idiota. Você sabe quem você é? Eles sabem quem você é? Eu sei quem você é? Então ninguém pode falar nada sobre você. Eles não sabem de nada. Você é simplesmente incrível, a Serpente Vigilante.
deu um sorrisinho torto. De repente, Ramona pareceu algo bom.
— Quando eu fico desapontada — Ramona começou a recuar, voltando para o sofá —, é só no primeiro dia que as pessoas podem me fazer de boba. Porque é o único dia que eu estou triste, vulnerável. Nos dias seguintes, eu fico com raiva. E, cara, não tente me fazer de boba quando eu estou realmente irada.
— O que eu deveria fazer então? — perguntou , ignorando o que Ramona tinha dito.
— Pare de engolir isso tudo. De se engasgar, de fingir que está tudo bem. Mude essa rotina, tente ser como... Como eu.
— Como você?
— Posso ter feito minhas merdas, mas garanto que não me arrependo de nenhuma — Ramona disse, balançando os ombros e voltando ao sofá, caindo sentada nele — Sua vez de falar.
e Ramona se entreolharam. Ele pareceu querer dizer algo, porém, não estar seguro disso. praticamente lia a mente dele.
Conhecia . Ele era o garoto que saía, se divertia, bebia, ficava com várias garotas, e depois se lamentava. Nunca arrependido.
— Sinceramente, ? — ele falou, franzindo o cenho, como se estivesse se perguntando por que nunca falara aquilo antes — Eu vou chutar sua bunda para fora dessa casa. Você vai se divertir. Ir a um bar, que seja. Cansei de ver sua cara, garota. Você não pode dormir nessa casa mesmo, nem tem cama que te aguente.
— Tenho sua permissão? — ela perguntou, com um sorriso sutilmente maldoso.
— Toda — ele disse, apontando para a porta.
deu um sorrisinho. Pegou sua mala e saiu, na chuva.
Sabia exatamente onde deveria ir.
Pois ela era um raio.
— Impressionante como, hoje em dia, ser uma pessoa que gosta de ficar sozinha é loucura, e ser uma filha da puta é algo totalmente normal — Ramona comentou para si mesma.
pareceu não prestar atenção, mas sabia que era a mais pura verdade. Claro, em termos que homens como Max Weber não usariam.

Pegou mais um táxi e, quando saiu, ainda estava um pouco longe do lugar em questão. Simplesmente porque não sabia qual era, e disse ao motorista que não queria aparecer lá com o táxi. Tinha que ser sozinha.
Se eu estou no fundo do poço, estou muito bem acompanhada.
Não era um prédio, era uma casa.
Uma grande casa. Eram três andares totais, em uma das áreas mais nobres de Longview. Em uma subida de um morro, quase uma vila das pessoas ricas da cidade. Uma vista privilegiada do alto.
O topo da pirâmide.
A chuva caía violenta contra . De onde estava, na rua, não conseguia ver luzes acesas do lugar. Aproximou-se do muro e tocou o interfone, com os olhos semicerrados, tentando enxergar algo lá dentro.
Vazio.
Tocou mais uma vez, e voltou para a calçada, tentando olhar a janela do segundo andar.
— Hey! — ela gritou — Tem alguém em casa?
Era um pouco rústica, apesar de mostrar tanto aconchego para quem estava lá dentro.
Alguém chegou até a janela exatamente quando soou uma trovoada. Uma silhueta tomou lugar no cenário até escuro, a não ser por fracas luzes de postes.
— Mas que porra você está fazendo aí fora?! — gritou , com todo o ar que tinha em seus pulmões, apoiado no parapeito da janela.
... Posso ficar aqui? — ela fungou, segurando a mala pela mão direita, com a blusa xadrez encharcada e quase transparente caindo-lhe pelos ombros — Só por alguns dias.
Não. Claro que não. Certamente que não. No que estava pensando, ? Claro que não pode ficar.
O seu amado não pode mais te abrigar? Ou a finalmente aflorou toda a piranhagem dela?

, por favor. Está frio aqui fora.
saiu de perto da janela. A chuva caía barulhenta contra , por mais que ela tentasse se proteger. Piscou os olhos com força e mordeu o lábio inferior, percebendo que sim, estava sozinha.
O portão abriu-se de repente, alguns segundos depois.
— Você vai pegar um resfriado, garota. Entre de uma vez.

Segunda-feira
Cai o pano, por — o desfecho de sua cobertura da volta de

Fez-se cerca de três semanas desde que conheci , que meu trabalho na delegacia de Longview começou. Hoje ele chega ao fim. Durante três semanas, presenciei os mais diversos tipos de acontecimentos; coisas que eu imaginava pertencerem apenas a roteiros de cinema. Estou grato por ter visto uma visão privilegiada dos acontecimentos, graças à brilhantes detetives como , e Marla Bronx. E, pessoalmente, posso afirmar que a Serpente Vigilante voltou ao trabalho melhor do que já estava. Os fatos recentes...
Era isso. Era certeza. Era registro.
Seu desfecho.
Um mal-entendido.

I should have drove all night, wouldn’t have run off the lights, I was misunderstood...


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