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Última atualização:19/12/2025

Capítulo 17 — Ace of Spades


“If you like to gamble
I tell you, I'm your man
You win some, lose some
It's all the same to me”
— Ace of Spades, Motörhead
.

— Eu ainda não acredito que deixei vocês me convencerem a fazer essa viagem idiota — bufou , cruzando os braços com uma expressão de desgosto.
No fundo do ônibus, Tony e faziam um dueto desastroso, cantando desafinados e rindo como se tudo não passasse de uma piada que só os dois podiam entender. precisou se esforçar para não revirar os olhos, mesmo que nunca, nunca, fosse admitir que estivesse começando a se acostumar com as brincadeiras dos dois. Havia algum conforto na cumplicidade de ambos que parecia trazer algum senso de estabilidade e rotina em meio a vida louca que levavam juntos enquanto banda.
— Como se você fosse perder uma oportunidade de ir para Vegas — comentou Kalil, com um sorriso de quem sabia exatamente onde cutucar.
observou o deserto que se estendia através das janelas do veículo.
— Não é como se eu fosse poder voltar para casa depois — resmungou o vocalista, lançando um olhar de lado para o amigo.
Kalil deu de ombros, divertido.
— Não mesmo, já que você não está ficando na sua casa — provocou ele, a voz carregada de implicância.
cerrou os dentes, desviando o olhar para a paisagem que passava rapidamente pelos vidros escuros com insulfilm. Já fazia algumas boas semanas que o vocalista estava ficando na nova residência de em Hollywood Hills, enquanto um Doc procurava um novo lugar para ele se estabelecer longe dos gritos dos fãs e do assédio da imprensa. Ao menos a guitarrista ainda estava em seu apartamento em qualquer lugar que ele fosse. se fixou nas sombras alongadas das montanhas, tentando encontrar algum conforto no fim de tarde que se desenhava.
Kalil, sem perder o ritmo, juntou-se a Tony e no dueto improvisado. O som só piorou, arrancando do vocalista um gemido de descontentamento.
— Você parecia bem confortável com a ideia na entrevista semana passada — alfinetou , quando parou de cantar entre um verso e outro para recuperar o fôlego.
franziu o cenho.
— Como você poderia saber? — ele debochou, seus lábios curvados por um sorriso ácido. — Você não estava lá.
Tony explodiu em uma gargalhada alta, inclinando-se para frente.
— Ele estava ocupado demais olhando a saia curta da Jennie Mizu — zombou Kalil, com um sorriso de puro escárnio.
Tony não perdeu a deixa.
— Acho que ele fez muito mais do que olhar...
A risada do baixista ecoou pelo ônibus, enquanto fechava os olhos e respirava fundo, jurando que sobreviver até Las Vegas seria um feito digno de um disco platinado.
Quando o ônibus parou suavemente na Las Vegas Boulevard, a noite já havia caído, e o céu brilhava com as luzes vibrantes da cidade que nunca dorme. O letreiro luminoso de Welcome to Fabulous Las Vegas brilhava à distância, piscando como um convite irresistível.
, Kalil, Tony e desceram do veículo, sentindo a brisa fria e seca do deserto que envolvia a cidade. O contraste entre o ar gelado e a energia pulsante das ruas era quase hipnotizante.
Tony, com as mãos nos bolsos, deu um assobio baixo enquanto observava os neons piscando ao redor.
— O que vocês acham de um jogo? — perguntou ele, com um sorriso travesso.
— Eu passo — respondeu Kalil, balançando a cabeça. — Eu estava pensando em ficar em algum bar.
— Não pode beber em uma mesa de cassino? — Tony arqueou uma sobrancelha, provocador.
— Para ver vocês torrarem o dinheiro de vocês e depois irem atrás de mim como a porra de uma máquina de ATM? — retrucou Kalil, seco. — Não, obrigado.
— Eu bem que estava querendo fazer uma graninha — comentou , com um olhar calculista.
? — perguntou Kalil, desviando o foco.
deu de ombros, exibindo um sorriso ligeiramente felino.
— Eu não sei, Casablanca, sinto que a sorte está ao meu favor hoje.
Kalil riu, incrédulo.
— Eu não vou vir buscar vocês quando as coisas derem errado — zombou Kalil.
— Acho que podemos passar uma noite sem você como cão de guarda — brincou , dando um sorriso desafiador.
O baterista sustentou o olhar dela por um momento longo demais para ser casual, fazendo com que mudasse o peso de uma perna para a outra em um gesto de desconforto. Ele tinha que parar de reparar nessas coisas.
Tony passou o braço sobre os ombros dela, reforçando o tom provocador.
— A aqui pode lidar com caras com o dobro do seu tamanho.
Kalil apontou para Tony e .
— É com você e com que eu estou preocupado — disse ele, estreitando os olhos para os amigos.
— Eu nunca perdi uma briga — respondeu com uma risada curta, exibindo um sorriso confiante.
— Mas também nunca venceu uma — murmurou Kalil, já se afastando.
— Empate também é uma forma de vitória — retrucou , impassível.
— Claro, , o que te fizer dormir a noite — respondeu Kalil, rindo enquanto seguia pela calçada.
Tony ergueu a voz, gritando enquanto o baterista já se afastava.
— Diga à Cassie que mandamos lembranças!
Kalil não se virou, apenas ergueu o dedo do meio, arrancando risadas dos outros.
franziu o cenho, confusa.
— Quem é Cassie? — perguntou ela.
— A garota de Vegas — respondeu , como se fosse óbvio.
A guitarrista olhou para ele com uma cara de interrogação.
— Kalil a conheceu na primeira vez que viemos para Las Vegas — explicou Tony. — Foi uma confusão. Ficamos tão loucos que, quando acordamos no outro dia, descobrimos que ele tinha se casado com ela.
— Casado? — piscou, surpresa.
— Sim, mas eles levaram numa boa e se divorciaram no dia seguinte — continuou Tony. — Desde então, toda vez que estamos em Vegas, eles acabam se encontrando.
deu uma risada baixa.
— O que acontece em Vegas fica em Vegas.
— Repetidamente — completou Tony, com um sorriso de canto.
— Ah — foi tudo o que conseguiu dizer, parecendo imersa em pensamentos.
deu de ombros, com o semblante despreocupado de quem estava prestes a fazer algo impulsivo, e tomou a frente, guiando o grupo em direção ao Paris Las Vegas. A Strip fervilhava ao redor deles, luzes piscando, pessoas rindo, carros engarrafados movendo-se lentamente entre táxis e limusines. Cada detalhe parecia conspirar para lembrá-los de que estavam no coração do excesso.
A brisa do deserto soprava com um frio cortante que contrastava com o calor emanando das multidões e dos letreiros. A réplica da Torre Eiffel projetava sua sombra grandiosa, quase surreal, sobre as ruas apinhadas de turistas, como se desafiasse a cidade a superar o espetáculo que ela mesma havia criado.
Lá dentro, o som das fichas e das máquinas era quase ensurdecedor, mas também estranhamente hipnótico. parou no meio do saguão e abriu um sorriso de canto, aquele sorriso cheio de intenções que ninguém conseguia decifrar. Estava pronto para causar prejuízo, só não sabia ao certo para quem ainda.
— Que tal um pouco de gacha antes de nos perdermos nas cartas? — sugeriu Tony, com um sorriso animado.
Nem fodendo — responderam e em uníssono, com firmeza.
Os dois trocaram olhares logo em seguida. franziu o cenho, desconfiada.
— Não sabia que você jogava cartas — disse ela, cruzando os braços e estudando-o com atenção.
deu de ombros, o sorriso ladino surgindo no rosto.
— Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim.
Tony suspirou, teatralmente derrotado.
— Não tem graça, é impossível vencer você no pôquer — reclamou ele, apontando para .
— Não pode ser tão difícil assim — comentou , com o tom casual de quem queria testar o terreno. Como se ele mesmo já não tivesse sido derrotado por ela. Mas ela não precisava saber disso.
Tony lançou para um olhar afiado, cheio de implicações silenciosas, como se soubesse mais do que deveria. Ele sabia, mas o vocalista não o daria a satisfação de reconhecer isso.
— Eu não contaria com isso, bonitinho — provocou , com um sorriso ligeiramente desafiador.
— Eu não tô muito a fim de perder todo o meu dinheiro logo no início da noite — disse Tony, cruzando os braços e balançando a cabeça.
— Não seja um chorão, La Rocha — rebateu , revirando os olhos. — Vamos procurar uma mesa mais vazia. Sentamos juntos, e vocês me cutucam quando acharem que têm chance de ganhar a rodada.
arqueou uma sobrancelha, surpreso com a sugestão dela.
Ela estava tentando ser... Gentil?
— Não é como se você pudesse ganhar todas — disse ele, estreitando os olhos.
deu uma risadinha, inclinando a cabeça para o lado como quem guarda um segredo valioso.
— Digamos que eu não perco numa mesa de pôquer há uns bons cinco anos.
se esforçou para não reagir, mantendo a expressão neutra, embora estivesse intrigado. Cinco anos era um bom tempo.
— Você fala como uma trapaceira — provocou ele, um sorriso insinuante voltando ao rosto.
— Acho que você vai ter que descobrir — devolveu ela, lançando lhe um olhar que o desafiava a provar o contrário.
O trio caminhou pelo salão do cassino, passando por mesas lotadas, máquinas tilintando e o zumbido constante das conversas e risadas ao fundo. liderava, seus passos confiantes como se estivesse em território familiar. Finalmente, ela parou ao lado de uma mesa de pôquer com três jogadores já instalados, onde havia espaço suficiente para eles se juntarem.
— Essa aqui parece boa — puxou uma cadeira e sentou-se, lançando um olhar tranquilo para os outros dois. — Se acomodem, garotos. Vamos começar.
hesitou por um segundo antes de ocupar uma cadeira ao lado dela. Tony, por sua vez, sentou-se do outro lado, esfregando as mãos como se isso fosse o suficiente para aquecer a sua sorte.
— Vocês querem fichas de quanto? — perguntou o dealer, sua expressão neutra, mas os olhos atentos aos novos jogadores.
— Eu começo com quinhentos — disse , empurrando uma nota para ele.
— Quinhentos? Perdeu a confiança? — provocou Tony, colocando cem.
pegou sua carteira e, sem hesitar, puxou uma punhado de dólares também.
— Vamos ver se essa sua sequência de vitórias sobrevive a mim, trapaceira.
Ela apenas ergueu uma sobrancelha e sorriu. O vocalista não pôde evitar o arrepio que subiu pela sua nuca em resposta.
Enquanto as fichas eram distribuídas, um garçom apareceu, segurando uma bandeja repleta de drinques coloridos e taças reluzentes.
— Alguma coisa para vocês? — perguntou ele, com um sorriso profissional.
— Um uísque duplo — disse sem hesitar.
— O mesmo pra mim — pediu , ajeitando os cabelos.
— Eu fico com uma cerveja, qualquer uma gelada tá bom — completou Tony.
— Certo, trago já — o garçom desapareceu tão rápido quanto tinha chegado, e o dealer começou a distribuir as cartas.
pegou sua mão e examinou-a sem revelar nada, seus olhos tão afiados quanto lâminas. Tony, por outro lado, já parecia inquieto, ajustando-se na cadeira e olhando de soslaio para os outros jogadores.
— Primeira rodada — anunciou o dealer.
As apostas começaram, e observava, mais interessado nos rostos ao redor da mesa do que nas cartas. estava focada, sua expressão impenetrável. Tony, por outro lado, era um livro aberto, olhando para suas cartas e depois para os outros jogadores, claramente tentando calcular suas chances.
foi a primeira a apostar, empurrando fichas para o centro da mesa com a tranquilidade de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— Subo para sessenta — disse ela, com um leve sorriso.
Tony suspirou, franzindo a testa para suas cartas.
— Tá blefando? — perguntou ele em um sussurro desconfiado.
— Talvez. Mas isso não é parte do jogo? — respondeu ela, girando uma ficha entre os dedos.
— Coragem, La Rocha — provocou , enquanto empurrava suas fichas para o centro. — Eu acompanho.
Tony fez uma careta e o vocalista soube imediatamente que o amigo não tinha um bom jogo em mãos.
O garçom voltou, depositando os drinques na mesa com precisão. pegou o copo de uísque, girando o líquido âmbar antes de tomar um gole.
— Isso sim melhora o jogo — disse ele, colocando o copo de volta na mesa.
ergueu seu copo em um brinde irônico e também se serviu, enquanto Tony, com sua cerveja, parecia mais interessado no seu colarinho do que nas cartas.
— Ok, vou entrar nessa — disse Tony, finalmente empurrando algumas fichas para o centro.
A rodada prosseguiu, com liderando as apostas e observando atentamente seus movimentos. Quando as cartas finais foram reveladas, abriu um sorriso vitorioso e mostrou sua mão.
Full house.
Tony soltou um gemido derrotado, jogando suas cartas na mesa.
olhou para a mão dela, depois para a própria, e sorriu de canto antes de reaproximar o copo de uísque nos lábios.
— Parece que você não tava blefando, afinal.
— Eu avisei — recolheu as fichas com calma, tomando mais um gole do seu próprio copo.
inclinou-se para frente, encarando-a diretamente.
— Tudo bem, . Vamos ver se você consegue repetir isso.
Ela apenas deu de ombros, o sorriso enigmático nunca deixando seu rosto.
— Sempre que quiser, — disse ela com uma piscadela.
Tony, que já tinha esvaziado metade da cerveja, suspirou dramaticamente.
— Eu deveria ter ficado nas máquinas de gacha — resmungou ele.
riu, empurrando uma ficha para o baixista.
— Aqui, pra você apostar na próxima. Vamos ver se consegue pelo menos durar mais do que uma rodada.
Tony aceitou a ficha, mas sua expressão já entregava que ele não tinha grandes esperanças.
dominou as próximas três rodadas com a mesma confiança implacável, acumulando fichas de forma quase ofensiva. Cada vitória era marcada por um sorriso discreto e um gole de uísque, enquanto Tony e alternavam entre provocações e suspiros frustrados. Tony chegou a tentar blefar uma vez, mas o desmascarou sem esforço, arrancando risadas do dealer. , por sua vez, jogava com mais cautela, mas mesmo suas apostas bem calculadas não eram páreo para a leitura precisa e a estratégia impecável de . No final da terceira vitória consecutiva, ela empilhou as fichas diante de si como uma rainha em seu trono, lançando um olhar tranquilo para os dois.
— Não disse que não perco há cinco anos? — provocou ela, girando uma ficha entre os dedos antes de jogá-la casualmente na pilha.
Na quarta rodada, algo mudou no ambiente. , normalmente infalível, parecia estar se divertindo mais com o jogo do que com as vitórias. Ela olhou para Tony, que parecia um pouco derrotado após tantas perdas, e um sorriso travesso surgiu em seu rosto. observou, curioso, enquanto a guitarrista fazia uma aposta consideravelmente baixa quando comparada às suas jogadas anteriores.
Tony, que estava de olho nas fichas de , franziu a testa, desconfiado. Ele olhou para suas cartas e para as de , então, com uma hesitação momentânea, colocou todas as suas fichas no centro da mesa.
— Tudo ou nada, então — disse ele, tentando parecer confiante, mas a dúvida em seus olhos não passava despercebida.
olhou para ele, mantendo sua expressão tranquila, mas com uma leve risada brincando em seus lábios. Ela empurrou mais algumas fichas para a mesa, quase como se estivesse deliberadamente mantendo sua vantagem.
— Aposta alta, La Rocha. Você realmente acha que pode me vencer? — ela provocou, mas a provocação não estava tão afiada quanto de costume. A guitarrista estava aprontando alguma coisa.
levantou uma sobrancelha, reconhecendo o movimento dela, mas não disse nada. Ele já tinha entendido que era uma estrategista nata, e não estava acostumada a fazer concessões.
Tony estava com uma mão razoavelmente boa, mas ele também sabia que poderia ter uma mão muito mais forte. O baixista hesitou, olhou para as cartas e, finalmente, empurrou suas últimas fichas.
O dealer levantou as cartas. Tony revelou uma sequência baixa, que era boa, mas não excelente. , com um sorriso disfarçado, revelou sua mão — um par de damas, que teoricamente não deveria ser suficiente para vencer. Ela olhou para Tony e, sem mais nem menos, inclinou a cabeça para ele, como se estivesse tirando o chapéu para ele.
— Parece que você ganhou essa, La Rocha — disse ela, com um tom quase caloroso.
Tony ficou em silêncio por um momento, processando o que acabara de acontecer. Ele olhou para ela, perplexo, e depois olhou para as fichas que agora estavam empilhadas diante de si.
— Você deixou? — ele perguntou, a incredulidade evidente em sua voz.
deu de ombros, um sorriso irônico no rosto.
— Parabéns, La Rocha!
observou tudo em silêncio, com um olhar curioso, sem entender totalmente a jogada de . Mas uma coisa era certa: tudo parecia acontecer conforme o plano dela. Tony, por sua vez, parecia incapaz de decidir se estava mais feliz com a vitória ou desconcertado pelo gesto de .
— É, acho que realmente venci — Tony finalmente disse, um sorriso largo aparecendo no seu rosto. Ele levantou o copo de cerveja em um brinde. — Valeu, .
apenas assentiu, pegando outro gole do uísque, seu olhar agora mais distante.
Na rodada seguinte, estava mais focado. Ele não sabia se era o uísque de ou o fato de ela estar tão perto, mas sentia algo o ambiente ao redor mais quente a cada segundo. Os olhares entre eles estavam mais carregados, as alfinetadas se tornando mais afiadas, mas com uma tensão estranha e sutil, quase como se eles estivessem jogando outro tipo de jogo.
— Aposto o dobro — disse , empurrando uma boa quantidade de fichas para o centro da mesa com um sorriso confiante.
o olhou por um instante, quase desinteressada, e então soltou uma risadinha leve.
— Aposto o triplo, só para ver até onde você vai, — ela respondeu, seus olhos fixos nos dele, com um brilho travesso que fez perceber que talvez ela estivesse mais interessada no jogo entre eles do que nas cartas em si.
Por um segundo, sentiu o sangue esquentar mais do que o normal. Não sabia se era raiva, adrenalina ou... Outra coisa.
— Você joga como uma garota — provocou ela, inclinando-se ligeiramente, os lábios perto demais do copo de uísque.
Ele deixou escapar um sorriso enviesado.
— E você joga como se estivesse tentando impressionar alguém.
Ela não hesitou nem um segundo.
— Estou conseguindo?
segurou o olhar dela por tempo demais. E talvez aí estivesse o primeiro sinal de que estava perdendo o controle que tanto se orgulhava de ter.
Ele se inclinou também, os cotovelos apoiados na mesa, a voz baixa, carregada.
— Se você acha que pode me impressionar com isso, você está enganada, ele, seus olhos nunca deixando os dela. A proximidade parecia gerar uma corrente elétrica entre os dois, tornando tudo mais intenso. Ele não queria perder o foco, mas havia algo irresistível nela, algo que ele não podia ignorar.
Ela sorriu.
Aquele sorriso.
Que não prometia nada.
Que ameaçava tudo.
Tony, percebendo a crescente tensão entre os dois, rolou os olhos e deu um pequeno sorriso. Ele estava mais interessado na cerveja do que em qualquer coisa agora.
— Vai, La Rocha — disse para Tony, sem tirar os olhos de . Ela sabia que ele a desafiaria, e ele fez exatamente isso, aumentando ainda mais a aposta.
A rodada continuou com e trocando olhares desafiadores, cada um tentando descobrir o que o outro estava pensando. As apostas subiram até que ambos estavam com a mão cheia de fichas.
Quando chegou a vez de revelar as cartas, abriu sua mão com uma expressão quase indiferente, mas notou que ela não tinha nada muito impressionante. Ela tinha feito sua jogada, e ele sabia que ela não estava desesperada para vencer. Ao contrário dele, que tinha uma mão melhor, ela parecia relaxada, como se estivesse apenas se divertindo.
sorriu, olhando para suas próprias cartas, convencido de que tinha a vitória nas mãos. Ele estava prestes a colocar mais fichas no centro, quando , com um sorriso enigmático, puxou suas próprias fichas de volta e se recostou na cadeira.
— Eu passo — ela disse com calma, e foi o suficiente para fazer parar por um segundo.
Ele a observou, sem saber o que pensar, enquanto ela o encarava com um olhar que dizia tudo. Era como se ela tivesse lhe dado a rodada de bandeja, mas de um jeito que fazia parecer que ele havia conquistado mais do que apenas um simples jogo.
pensou por um momento, então empurrou suas fichas para o centro, decidido a seguir em frente, sem perceber que havia deixado o jogo acontecer do jeito que ele queria. Ela deu de ombros, como se nada fosse mais natural do que isso.
— Bem jogado, — ela disse suavemente, mas com um brilho nos olhos, como se houvesse algo mais por trás daquela vitória.
, surpreso pela mudança de atitude, pegou as fichas, mas uma parte dele sabia que essa vitória não era algo que ele teria alcançado sem a ajuda dela, mesmo que ela tivesse jogado seu próprio papel de forma discreta.
— Não sei se deveria comemorar... — começou, olhando para ela de forma mais introspectiva. — Acho que você fez mais do que eu percebi.
riu suavemente, levantando seu copo de uísque, como se brindasse a algo.
— Às vezes, é mais divertido deixar você achar que ganhou — ela disse, e o sorriso travesso dela falou mais do que palavras poderiam expressar.
sorriu de volta, ciente de que, no fim, a noite estava apenas começando.
O grupo perdeu a noção de quantas rodadas haviam jogado, mergulhados na diversão e nas apostas. Quando a energia da mesa começou a diminuir, se levantou e caminhou até o caixa do cassino. Lá, ela deixou o dinheiro que havia ganho em troca de uma transferência bancária. Depois de pegar o recibo, ela guardou rapidamente e, com um olhar atento ao redor, retornou ao grupo, parecendo renovada pela animosidade das cartas.
Após saírem da mesa de pôquer, os músicos se misturaram ao fluxo de pessoas que circulavam pelo cassino. O ambiente vibrante estava cheio de luzes piscantes, o ruído das fichas e o som distante das máquinas de caça-níqueis.
O ar estava pesado com a mistura de excitação e a promessa de mais diversão, mas para , um pensamento parecia rondar a sua mente de tempos em tempos.
— Como você faz isso? — perguntou, ainda impressionado com a habilidade da guitarrista na mesa ainda há pouco.
— Eu joguei profissionalmente dos dezesseis aos vinte e três anos de idade — respondeu, dando de ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
parou por um momento, surpreso.
— Você tá de brincadeira — ele disse, sem acreditar completamente.
— Não — a guitarrista riu, já se divertindo com a incredulidade dele.
soltou um suspiro e se recostou em uma das colunas do cassino, olhando para os outros jogadores ao redor, como pensasse sobre o assunto.
— Eu queria ter pais que me deixassem fazer isso — ele murmurou.
o observou com uma expressão mais suave, sabendo o que ele queria dizer, e devolveu uma piscadela.
— Pelo menos os seus pais apoiaram o seu sonho de viver da música — ela disse, provocando-o com leveza. forçou um sorriso, mas a suavidade do comentário não conseguiu dissipar a imagem que se formou em sua mente.
Tony, que vinha ao lado de guitarrista, levantou a cabeça e comentou com um tom pensativo.
— Você era muito nova pra estar numa mesa cheia de marmanjos — ele observava a maneira como a amiga se comportou com naturalidade entre os jogadores mais velhos.
deu de ombros, como se não fosse nada demais.
— Eu tinha que juntar dinheiro pra sair do orfanato de algum jeito — respondeu ela, enquanto seus olhos brilhavam com um toque de travessura. Ela então se virou e caminhou em direção a uma máquina de gacha próxima, ainda com a mesma energia descontraída.
ficou ali por mais alguns segundos, com os olhos ainda presos nas costas de , enquanto ela se afastava para uma máquina de caça caça-níqueis. Ele nunca tinha pensado nela dessa forma e, por um momento, ficou em silêncio, processando o que a guitarrista acabara de revelar. Era engraçado. Ela andava daquele jeito despretensioso, meio largada, como se não devesse nada pra ninguém. Como se o passado dela não pesasse coisa alguma.
Mas pesava.
Pesava pra caramba.
Ele percebeu isso agora.
— Orfanato? — o vocalista perguntou, confuso, como se a palavra tivesse um gosto estranho na boca.
Tony trocou um olhar silencioso com , notando a surpresa do amigo.
O cassino estava cheio. Risadas altas, tilintar de fichas, música ambiente, cheiro forte de cigarro e bebida. Tudo aquilo deveria manter distraído. Mas não conseguiu. Na cabeça dele só rodava uma imagem: uma garota de dezesseis anos, sentada numa mesa de pôquer, cercada de adultos, apostando dinheiro pra tentar comprar a própria liberdade.
Era surreal.
Era triste.
Era muito .
— Eu não sabia disso — comentou, a voz saindo mais baixa do que ele esperava.
Tony deu um meio sorriso, paciente.
— Ela não conta. Só solta uns pedaços assim... Quando acha que não vai fazer diferença. Quando acha que ninguém vai se importar de verdade.
franziu o cenho, irritado com aquela ideia.
— Por quê? — ele indagou, como se precisasse entender mais.
O baixista balançou a cabeça levemente, como se sinalizasse que aquele não era um assunto para ser discutido ali, no meio do cassino lotado.
— Isso não é uma história minha pra contar — Tony respondeu, o tom firme, deixando claro que ele respeitava a privacidade da amiga.
deixou escapar um ruído de protesto, indignado.
— Ah, ótimo. Igual quando vocês não contam os meus podres pra amiguinha de vocês na mesa do bar? Pensei que aqui não tivesse segredo — ele resmungou, emburrado.
Tony arqueou uma sobrancelha, com um meio-sorriso debochado.
— Tipo quando você finalmente admitiu que era o Grinch no Halloween?
sentiu o estômago revirar e desviou o olhar, resmungando algo incompreensível.
Tony riu baixo e deu um tapinha nas costas dele.
engoliu em seco e desviou o olhar.
— Você deveria falar pra ela — aconselhou o baixista, sério agora.
ficou quieto. Não respondeu. Mas a ideia ficou ali, plantada em sua mente.
Eles seguiram em silêncio por alguns passos, as luzes do cassino passando ao fundo, como se o ambiente tivesse engolido a conversa e as emoções que a acompanharam.
Mais adiante, enquanto caminhavam pela calçada, parou subitamente. Ficou imóvel, os olhos grudados em um outdoor gigante iluminado por luzes pulsantes.
Tony e pararam alguns passos à frente, notando o silêncio repentino.
— Mentira que o Santana vai tocar aqui hoje — disse ela, quase num sussurro, como se tivesse visto um fantasma.
Tony olhou para onde ela encarava, depois puxou o celular do bolso.
— Daqui a duas horas, aparentemente.
soltou um palavrão baixinho, levando a mão à testa.
— Merda... Os ingressos estão esgotados — sua voz saiu carregada de frustração. — Sempre sonhei em ir num show dele.
Tony deu de ombros, tentando suavizar.
— A gente pode se organizar pra uma próxima vez, não precisa ser hoje.
soltou um suspiro profundo, olhando uma última vez para a propaganda, antes de guardar o celular com um gesto rápido e retomar a caminhada cabisbaixa para o ônibus. Aquilo era estranho.
, que estava um pouco atrás, observava os dois em silêncio. Havia algo pensativo em seu olhar.
— Com licença — murmurou ele, já se afastando. — Preciso dar uma passada no banheiro.
Sem esperar resposta, virou-se e se afastou pela rua lateral. Assim que sumiu da vista deles, parou, encostou-se à parede de uma farmácia fechada, e tirou o celular do bolso. Digitou rapidamente uma mensagem. A tela se iluminou brevemente com a resposta — curta, direta. Ele leu, apagou a conversa inteira, guardou o celular no bolso e voltou caminhando com a expressão impassível de sempre.
Minutos depois, todos já estavam de volta ao ônibus, com o ar-condicionado zumbindo baixo e o barulho da cidade ficando para trás.
— Devemos buscar o Kalil? — perguntou , ainda com um tom distraído, os olhos perdidos na janela.
Tony respondeu com um gesto preguiçoso.
— Ele deve aparecer por volta da hora do almoço. Sempre dá um jeito.
Com um gesto impaciente, alcançou a guitarra jogada ali perto e, sem pensar muito, começou a dedilhar algumas notas, os acordes suaves quebrando o silêncio de forma descuidada.


Capítulo 18 — Smooth


“And if you say this life ain't good enough
I would give my world to lift you up
I could change my life to better suit your mood”
— Smooth, Santana ft. Rob Thomas
.

O som de era tudo o que se podia ouvir.
Cada nota uma porção individual de caos, sem planos, sem moldes — apenas sentimento puro transformado em som. Os dedos dela dançavam sobre as cordas em notas rasgadas, errando aqui e ali, mas sem nunca perder a verdade que existia em cada deslize.
observou tudo com o cenho franzido, mas não disse nada. O que ele poderia dizer? Ele virou-se para Tony, esperando algum tipo de explicação, mas o baixista apenas deu de ombros com um suspiro e se jogou em sua cama nos fundos do ônibus.
A guitarrista não parou de tocar, o som fluindo mais como se fosse uma maneira de aliviar a mente do que realmente criar algo. respirou fundo, observando a cena por um momento. Com o celular em mãos, ele se sentou em frente a , que interrompeu a melodia suave que tocava com o rosto inexpressivo.
— Torneios profissionais de pôquer? — arriscou ele, sem tirar os olhos da tela.
A guitarrista, que estava deitada no sofá, tocando, olhou para ele com um sorriso irônico.
— Por que eu tenho a impressão de que você está me perguntando sobre o orfanato e não sobre pôquer? — perguntou ela, a voz carregada de uma provocação sutil.
levantou os olhos do celular por um segundo e, com um sorriso de canto, respondeu despreocupado:
— Você é quem está dizendo.
rolou os olhos, ainda dedilhando as cordas como se fosse o movimento mais natural do mundo.
— Eu não quero saber sobre o seu passado sombrio, , não me pergunte sobre o meu.
O vocalista deu uma risadinha baixa e voltou sua atenção para a tela do celular.
— Se vale de alguma coisa, o meu está na internet pra quem quiser saber — disse ele, com um tom quase desafiador.
— Eu não sou um deles — ela retrucou, com um tom firme, desviando o olhar enquanto continuava a dedilhar sua guitarra, como se nada estivesse acontecendo.
O silêncio caiu por um instante, quebrado apenas pelos acordes despreocupados da guitarrista. , ainda a observava atentamente, os dedos inquietos, a melodia crescente, o cenho franzido em concentração.
Por algum motivo aquilo parecia tão natural para ela.
À cada nota as cordas ganhavam peso, e a harmonia se tornava mais densa, quase sufocante. Graves vibravam com intensidade, reverberando no chão como passos de algo grande se aproximando. Agudos estalavam no ar como estilhaços — desafiadores, cortantes, belos. Era uma música que não pedia licença, mas também não implorava por atenção: ela simplesmente existia, crua, imprevisível, viva.
mal conseguiu se conter.
— Eu gosto disso — disse ele, e pensou que talvez nunca tivesse sido tão sincero quando se tratava dela. — Você anotou o arranjo em algum lugar?
parou de tocar por um breve momento, olhando para ele com um sorriso travesso.
Ah, aquela maldita boca.
— Eu não preciso anotar — respondeu ela, atrevida como sempre, fazendo soltar o fôlego que não sabia que estava segurando. Ele nunca sabia o que fazer quando se tratava dela. Principalmente quando se tratava das suas trocas de humor.
O vocalista se levantou rapidamente, para que ela não pudesse ver o sorriso aliviado que escapou de seus lábios, caminhando até o motorista com passos silenciosos. Ele se inclinou ligeiramente para a frente e, em um tom baixo, cochichou algo que não foi ouvido pelos outros. O motorista, sem fazer perguntas, apenas assentiu e, com um leve movimento, acionou os controles.
voltou ao seu lugar com passos lentos, envolto por um silêncio quase confortável. Seus olhos, no entanto, permaneciam cravados na guitarrista, que continuava a derramar sua melodia melancólica sem notar o espaço que ocupava. Por dentro dele, algo vibrava — talvez fosse a música, talvez fosse ela. Desviar os olhos nunca pareceu tão difícil.
Ele poderia olhá-la tocar a noite inteira.
Foi quem quebrou o silêncio, sua voz curta e direta.
— Posso te ajudar em alguma coisa? — ela não olhou para ele, mantendo o foco no instrumento, mas sua pergunta estava impregnada de uma certa ironia.
, mal conseguir segurar o sorriso.
— E quanto ao Santana? — ele se inclinou ligeiramente para frente, com um tom provocador, os lábios puxados para cima.
, que até então estava concentrada em seus acordes, arqueou uma sobrancelha e parou por um momento, como se absorvesse a pergunta antes de responder com uma leveza descomplicada.
— Ele é o meu guitarrista favorito — a resposta dela tinha uma sinceridade que ele não estava acostumado.
Uma risada curta escapou dos lábios dele.
— Eu não esperava por isso — pontuou , quase se divertindo com a revelação.
Ela deu um sorriso ligeiramente irônico, ainda sem parar de tocar.
— O que você esperava? — perguntou a guitarrista, desafiando-o com um olhar, seus dedos deslizando sobre as cordas.
, agora mais à vontade, riu novamente.
— Slash, Ozzy Osbourne, ou algum outro maluco — ele brincou, com uma expressão engraçada no rosto.
— Eu não desgosto deles — ela disse, com um sorriso enigmático. — Desde quando consideram Ozzy guitarrista?
— Mas por que o Santana? — insistiu , sem conseguir se conter. A curiosidade tirou o melhor dele.
suspirou suavemente, suas mãos pararam por um momento na guitarra, e ela parecia refletir sobre a resposta, como se estivesse ponderando o que iria revelar. Se é que ela iria dizer alguma coisa para ele.
— Porque eu era uma garotinha solitária filha de pais imigrantes e apaixonada por música — ela respondeu, os olhos voltando à guitarra, em um olhar perdido, como se o passado não fosse assim tão distante.
a observou atentamente.
— Então ele é o seu ídolo? — a suavidade da pergunta pegou até ele mesmo desprevenido. Onde ele achava que iria chegar com essa conversa?
deu um sorriso melancólico, quase imperceptível, mas que dizia mais do que qualquer palavra que ela parecia disposta a oferecer.
— Algo assim — disse ela, voltando a tocar, como se aquilo fosse resposta o suficiente.
O ambiente dentro do ônibus ficou mais quieto após isso, como se ambos estivessem pensando sobre aquela conversa, mergulhados nas notas da guitarra que preenchiam o espaço. permaneceu em silêncio, completamente imerso na melodia, enquanto a guitarrista, com seus dedos inquietos, continuava a dedilhar, deixando a música preencher as lacunas do que ela não queria colocar em palavras.
Las Vegas passava pelo vidro como um delírio noturno — letreiros em neon pulsando, cassinos brilhando como joias, filas nas calçadas, buzinas, risos e luzes dançando à cada esquina. A cidade parecia desperta demais para lembrar que era noite.
Algum tempo depois, o ônibus parou com um rangido suave em frente a um estádio, iluminado por milhares de luzes que refletiam na fachada imponente. , que antes parecia reflexiva, fechou a cara assim que olhou em um piscar de olhos.
— O que estamos fazendo aqui? — Tony perguntou, desconfiado, reaparecendo do seu descanso para espiar pela janela.
A guitarrista resmungou, emburrada, os olhos fixos na multidão que já se formava ao redor do local.
— Fala sério, — ela disse, a voz carregada de desdém. — Isso é baixo demais, até mesmo pra você.
, com um sorriso irreverente e sem dar muita atenção ao comentário, respondeu de forma descontraída:
— Cala a boca, vamos dar uma olhada — ele já estava se levantando, como se a situação fosse apenas mais uma obra do acaso.
Eles avançaram pela multidão que se apertava na entrada do estádio, o som abafado de vozes e passos apressados se misturando como um fundo distante. Mas enquanto o mundo ao redor se movia em ritmo acelerado, entre eles, o silêncio se estendia, desconcertante e denso. Ao menos a comoção ao redor foi o suficiente para desviar olhares curiosos que poderiam ser atraídos em sua direção.
Com algum esforço, alcançaram uma portaria lateral onde se aproximou do segurança com um sorriso amigável que guardava apenas para situações extremas.
— Boa noite! — disse o vocalista, projetando sua voz para sobressair à multidão.
O que você está fazendo? — sussurrou , com um olhar desconfiado.
apenas fez um gesto de desdém com a mão, como se aquilo não importasse de fato.
— O Carlos colocou o nosso nome na lista — disse ele para o segurança, sem parar de sorrir.
O segurança cerrou os olhos, analisando o grupo minuciosamente.
— Posso ver a identidade de vocês?
Sem questionar, os três entregaram seus documentos.
sentiu o olhar de queimando em sua pele, mesmo mantendo o foco no funcionário a sua frente. Ele quase podia sentir o peso dos olhos dela sobre ele.
A guitarrista parecia lutar uma batalha interna entre deixar acontecer e aquela boca grande dela. deixou um sorrisinho brincar em seus lábios, se divertindo com a situação.
Após um momento analisando atentamente os documentos, o segurança levantou a cabeça e fez um sinal.
— Um momento, vou buscar suas credenciais — ele se afastou em direção ao interior do estádio, deixando os três sozinhos na portaria, o som das pessoas ao redor criando uma espécie de expectativa no ar.
O silêncio entre os três não durou. Jamais duraria enquanto Anthony de La Rocha pudesse evitar.
— Você falou com o Santana? — perguntou o baixista, a animação clara em sua voz.
olhou para ele, dando de ombros com um sorriso descontraído.
— Eu posso ter enviado uma mensagem — disse ele, sem dar muitos detalhes, como se aquilo não fosse nada de mais.
— E por que não disse nada? — Tony perguntou, mais direto agora. Claro que ele não iria deixar por isso mesmo.
— Eu não tinha certeza se daria certo — ele disse, com um tom despreocupado, como se aquela explicação fosse o suficiente.
O baixista estreitou os olhos, demonstrando sua insatisfação, mas não iria entrar naquela conversa.
Eu não disse nada, porque eu não sei o que deu na minha cabeça, seu idiota.
O silêncio se instalou de novo, até que o segurança retornou, segurando as credenciais em mãos. Ele entregou os cartões para o vocalista, e, sem mais palavras, indicou a entrada.
Juntos, eles adentraram o estádio.
avistou em sua visão periférica que, por um momento, parecia sem palavras. Seus olhos brilhavam discretamente enquanto observava o ambiente ao redor, a grandeza da arena, a iluminação suave que desenhava sombras por toda parte, a movimentação das pessoas que passavam sem se importar com eles. A surpresa e a fascinação eram visíveis, mesmo que ela tentasse manter sob controle.
O trio pegou algumas bebidas e se dirigiu até um mirante envidraçado que oferecia uma vista privilegiada do palco. O som da música ao vivo continuava a fluir suavemente, criando uma espécie de corrente elétrica no ambiente. Todas as outras pessoas pareciam imersas na energia do show, mas, entre eles, o silêncio se arrastou por um momento de admiração.
— Então você conhece o Santana — quebrou o silêncio, a voz casual ainda denunciava uma pontada de curiosidade. Ela não olhava para ele, os seus olhos estavam fixos no palco, como se tudo pudesse desaparecer em apenas um piscar de olhos.
deu um gole na sua bebida, uísque de sempre, observando o palco enquanto respondia com um sorriso tranquilo.
— Nos conhecemos em uma festa, há alguns anos — ele disse simplesmente.
— Como isso aconteceu? — perguntou ela, ainda sem desviar o olhar para ele.
riu, lembrando-se da situação.
— Gus meio que me convenceu a perseguir o cara — ele riu de novo, não acreditava que estava contando isso.
Tony, que estava ouvindo a conversa, se juntou de repente, interrompendo com um tom meio indignado.
— Eu nunca vou perdoar vocês por terem feito isso sem mim.
— Aquele desgraçado amava o cara, eu não tive escolha — respondeu , o sorriso ainda no rosto com a memória.
É claro que o seu melhor amigo e sua pior inimiga idolatravam ao mesmo guitarrista. Ele nem se surpreendia mais.
não disse nada, apenas ergueu uma sobrancelha, parecendo levemente intrigada.
— Eu nunca vou sair de férias com a Rosa de novo — Tony decretou, dramaticamente, como se ressentisse o ocorrido até hoje.
Os amigos riram apesar de tudo. Era estranho lembrar de August assim, tão... Saudosamente. Sem a mágoa, sem os arrependimentos, sem a culpa. Pela primeira vez, se sentiu apenas confortado pela memória do amigo, quando tudo parecia certo. Ele finalmente viu aquilo como o que realmente era, uma lembrança boa.
No entanto, mesmo com o riso, o vocalista ainda sentia o olhar de sobre ele. Era algo sutil, mas difícil de ignorar. Ele sabia que ela estava mais atenta do que demonstrava.
— Ah, eu amo essa música! — Tony exclamou, se virando para a guitarrista. — Vamos, !
O baixista estendeu a mão para a mulher, e, sem hesitar, ela a pegou.
Os dois começaram a dançar ali mesmo, no pequeno espaço à frente do mirante. Era algo como salsa ou cha-cha-cha, não sabia muito bem identificar a diferença. Os movimentos deles eram sensuais, mas ao mesmo tempo pareciam… Descomplicados, quase brincalhões.
Ver dançando com Tony era completamente diferente de vê-la com Kalil. Às vezes parecia que estavam quase brigando, em uma espécie de dança competitiva, e outras vezes, estavam simplesmente aproveitando o momento, rindo um do outro. Havia algo sobre a parceria dos dois que simplesmente parecia certo.
se pegou olhando alternadamente para o show, que continuava com a energia de Santana dominando o palco, e para a dança de seus amigos. Não conseguia decidir qual das duas cenas era mais confortante.
Algo parecia diferente em . Pela primeira vez, o sorriso dela não tinha aquele toque provocador ou malicioso. Ela parecia… Feliz. A alegria que transparecia era pura, sem segundas intenções, e, por algum motivo, gostou disso. Algo dentro dele se aqueceu com a visão, uma sensação que ele não sabia exatamente como descrever. Não ousaria.
Em algum momento, , ainda dançando, girou na direção de e, com um sorriso brincalhão, pegou a mão dele. O vocalista a encarou por um momento, sem saber exatamente o que dizer. Ela sustentou o seu olhar, os olhos brilhando em diversão, a expressão desafiadora, o sorriso provocante.
Por algum motivo, ele não conseguiu se afastar.
— Aposto que você sabe dançar — murmurou ela, a voz suave, mas cheia de certeza.
apenas sorriu como resposta, e se permitiu ser arrastado por ela.
A iluminação suave do lounge criava um ambiente intimista, com as luzes coloridas refletindo-se nas paredes. reconheceu a melodia de Black Magic Woman ao fundo e antes que pudesse dar a direção à dança, , com um movimento rápido e inesperado, puxou o corpo dela contra o seu.
Por um momento, ela pareceu perder a pose, a surpresa estampada em seu rosto. sentiu o peito vibrar com uma risada descontraída, à medida que o olhar da guitarrista parecia flutuar entre a curiosidade e algo a mais, talvez desconfiança, talvez desafio.
pressionou o corpo de ainda mais contra si, até que o calor dela fosse tudo o que pudesse sentir.
Até que ele pudesse queimar.
Ele deu um passo para trás, mas , como se estivesse esperando por isso, deu um passo à frente, fazendo com que o vocalista erguesse suas sobrancelhas para ela em fascínio. Ela manteve os olhos fixos nos dele com uma expressão que o vocalista não soube decifrar.
Havia algo quase elétrico na troca de olhares entre eles, como se cada um desafiasse o outro a ceder primeiro. Ela não parecia disposta a se deixar conduzir sem mais nem menos. Em resposta, sustentou o olhar dela, a expressão séria, mas com uma ligeira provocação que ele sabia que ela reconheceria.
Ele começou a contar mentalmente, os números ressoando em sua mente como um compasso invisível. No três, foi o momento decisivo. Ele avançou com um passo firme, puxando-a mais uma vez, agora para frente, enquanto ela, com a mesma determinação, se afastou com um passo para trás. Sincronizados.
Pela primeira vez, eles pareciam estar na mesma página.
Não demorou muito para que a dança se transformasse em um jogo de ritmos e contradições, uma troca de poder e controle que parecia seguir um ciclo próprio. sentia a tensão crescente, a afronta em cada movimento dela alimentando uma chama invisível entre os dois. Ele não conseguia evitar o sorriso que se formava em seus lábios, como se os movimentos deles fossem mais do que apenas a dança em si.
A cada vez que a puxava, seus corpos ainda colados um ao outro, ele podia sentir o calor dela pulsar através dele. A leve pressão do seu peito contra o de o fez perceber o quanto a proximidade dela afetava os seus sentidos, de uma maneira que ele não esperava.
A suavidade de cada movimento parecia entrelaçar seus corpos. podia sentir cada sensação. O toque de suas mãos era sutil, mas parecia carregar um peso que transcendia o simples contato físico. Ele sentia a leveza de sua cintura, a firmeza de seus ombros, tudo como se o toque fosse uma comunicação silenciosa entre eles.
Eles pareciam se entender muito bem quando não havia palavras envolvidas.
Talvez fosse isso.
Tudo parecia tão natural, a troca de liderança e cederes, a cumplicidade. A dança deles era como uma coreografia de provocações e entendimento mudo, onde as ações falavam mais alto do que qualquer diálogo. Como uma conexão com magnetismo próprio, na qual passos e olhares pareciam ditar o ritmo de algo muito além disso.
Quando se movia, seu corpo deslizando com o compasso da música, a leve pressão contra seu corpo só intensificava o poder involuntário que ela exercia sobre ele. Era impossível não ser arrastado pela dança, mas, ao mesmo tempo, ele sabia que estava imerso nas sensações provocadas por ela.
A respiração de , agora um pouco mais acelerada, somava-se ao som delicado dos pés tocando o assoalho de madeira. Era um compasso sutil, quase imperceptível, mas cheio de uma intimidade avassaladora. Tudo nela parecia seguir uma mesma cadência silenciosa, e ele, sem saber explicar por quê, não conseguia interromper aquilo. Não queria interromper aquilo.
sentiu o olhar dela pesar ainda mais sobre si, diferente de todas as vezes antes. Era algo mais leve, mais curioso, quase cativante. Como se ela também pudesse ver através da parede invisível que normalmente parecia se erguer entre eles. Como se ela o visse de verdade.
Ele não sabia como reagir. Era como se um turbilhão estivesse passando por sua cabeça. Ele não sabia o que pensar, o que sentir. Ao mesmo tempo, dentro dele, algo que estivera adormecido — ou convenientemente esquecido — começou a se mover.
Talvez fosse por vê-la ali, longe da persona que costumava usar como armadura: a guitarrista imponente, segura, indomável. Talvez fosse o jeito como ela se entregava ao instante, desarmada, presente, sem reservas, que o fazia perceber o quanto ele estava perdido.
Quem ele queria enganar?
Ele estava completa e absolutamente fodido.
— Onde aprendeu a dançar o mambo? — perguntou , com o rosto a milímetros do dele. As suas respirações entrecortadas se misturando no ritmo da batida acelerada de suas pulsações.
Por um breve momento, o vocalista se viu sem palavras. A proximidade entre eles era desconcertante. O corpo dela colado no seu, a respiração dela tocando sua pele, tudo sobre ela parecia inebriante ao ponto de deixá-lo tonto.
forçou sua mente a focar, tentando desviar o pensamento do efeito avassalador que ela tinha sobre ele. fez uma pergunta, bastava respondê-la.
— Eu dancei com a prima do Tony na quinceañera dela — ele disse, quase como um sussurro, esperando soar casual. O vocalista só podia torcer para que aquilo fosse o suficiente para disfarçar o quanto ela o afetava.
não pareceu perceber, jogando a cabeça para trás em uma gargalhada tão espontânea que o pegou de surpresa. Uma risada leve, carregada por um toque sutil de admiração. sentiu seus próprios lábios se curvarem como resposta, como se fosse impossível não sorrir junto. Havia algo nela que era simplesmente contagiante.
O vocalista balançou a cabeça em negação, a diversão ainda estampando o seu rosto. Ele girou o corpo de com um movimento ágil, respondendo à risada dela com mais um giro, esperando que a sua técnica improvisada de distração não fosse assim tão perceptível. Ele se sentia um pouco estúpido.
Os passos da dança os levaram de novo um ao encontro do outro, como se o destino insistisse em colocá-los lado a lado. O calor dos corpos tão próximos, a respiração quase sincronizada, e aquele silêncio denso — cheio de significados — criaram um novo tipo de tensão.
, com aquele sorriso de canto que sempre anunciava encrenca, ergueu os olhos para ele. Não recuou nem um centímetro quando o olhar dele encontrou o seu. Ao contrário, se aproximou só o suficiente para que sua voz fosse ouvida apenas por ele, rouca de provocação:
— Isso não se parece nada com você.
A frase veio como um estalo, cortando o ritmo suave da música e atingindo em cheio. Ele franziu a testa por um breve segundo, os passos não vacilando, mas a mente, sim, tentando decifrar aonde ela queria chegar com aquilo.
— Por quê? — perguntou ele, sem conseguir esconder o leve endurecimento da voz. Não era defensiva. Era o cuidado de quem sabe que cada resposta pode ser usada como munição.
deixou escapar um sorriso que beirava a insolência. O que não era exatamente gentil, mas tampouco cruel. Era um sorriso que dançava entre o sarcasmo e o flerte, entre o escárnio e o interesse. Um aviso. Um convite. Uma ameaça doce.
— Porque você é todo sério e cheio de não me toques — disse ela, como se fosse algo óbvio, o tom carregado de uma leve ironia e diversão genuína.
riu baixo, balançando a cabeça. Ele se sentia desafiado, mas, ao contrário do que normalmente acontecia, a provocação dela só o fazia se soltar mais.
— As mulheres não costumam reclamar — rebateu com um meio sorriso, tentando manter a armadura intacta, esconder o leve descompasso que aquela conversa provocava dentro dele.
levantou uma sobrancelha, os olhos dela mais intensos, mais focados.
— Suponho que o problema seja eu então — ela disse, com um tom suavemente sarcástico.
hesitou por um segundo. Só um segundo. Depois, inclinou-se um pouco mais, o rosto próximo demais do dela para que aquela troca de palavras parecesse casual.
O vocalista passou a língua brevemente pelos lábios, um gesto inconsciente, antes de sussurrar, quase num tom de rendição:
— Você é sempre o problema, bonitinha — disse ele, quase num sussurro, o sorriso voltando, mas agora com algo indefinido, uma sombra atrás da provocação.
Ela devolveu o sorriso com a mesma ousadia de antes, mas havia algo novo em seu olhar — uma centelha de satisfação. Como se soubesse que, pela primeira vez, ele não estava tentando resistir a ela. O vocalista não podia ao menos tentar negar, ele estava adorando aquilo.
não lutou contra a sensação. Pelo contrário. Girou novamente, agora com mais firmeza, mais precisão — como se a hesitação tivesse ficado para trás com o compasso anterior. Quando a puxou de volta, o gesto foi seguro, direto, quase íntimo. O toque entre eles já não carregava dúvidas, só ritmo e intenção.
Ela se entregou à condução com naturalidade, o corpo fluindo como se fosse parte da música, como se sempre tivesse pertencido àquele espaço entre os braços dele. Os pés dos dois deslizavam com uma harmonia quase instintiva, e os corpos — antes medindo distâncias e provocando limites — agora se encaixavam como peças de um quebra-cabeça, reencontradas por acaso. Mesmo com a mente povoada por ruídos e incertezas, sentia, no fundo, que aquilo fazia sentido. Que era certo.
A guitarra de Santana começou a se apagar aos poucos, as últimas notas vibrando no ar como ecos de algo que não queria chegar ao fim. A melodia suavizou, desacelerando, como se o próprio tempo estivesse cedendo um pouco mais àquele momento.
girou uma última vez, o movimento elegante, quase etéreo — os pés deslizando pelo chão como se o som ainda estivesse vivo. Ao voltar, seus olhos estavam cravados nos dele, e havia ali um brilho que dizia mais do que palavras jamais poderiam.
Ela se aproximou devagar, como se não quisesse assustar o instante. E ele, no exato segundo em que seus corpos se tocaram de novo na última batida da canção, a puxou para mais perto. Um gesto simples, como se não quisesse que esse momento acabasse.
Quando a última nota se dissipou no ar, dando lugar ao som das palmas e dos gritos entusiasmados da plateia, era como se o mundo tivesse voltado a existir ao redor deles. Mas ali, no centro daquele turbilhão de aplausos, os dois permaneceram imóveis, suspensos num silêncio só deles.
As mãos ainda entrelaçadas, o calor do toque persistia como uma âncora, nenhum dos dois parecia disposto a soltar primeiro. o encarava com intensidade — um olhar firme, mas carregado de algo mais brando, quase vulnerável. E , por um raro instante, não desviou.
Era como se o tempo tivesse dado uma pausa só para eles. Como se, naquele breve espaço entre o fim da música e o começo de qualquer outra coisa, tudo o que existisse fosse aquele olhar, aquela proximidade, aquele silêncio. O resto — o salão, o público, o mundo — parecia distante. Irrelevante.
E naquele momento, nenhum dos dois parecia ter pressa para que isso mudasse.
— Você não precisava ter falado com o Santana — disse , e o vocalista sentiu que aquilo não era tudo o que ela queria dizer.
olhou para ela, os olhos atentos, como se quisesse entender melhor o que ela realmente queria dizer. Ele respirou fundo, ciente de que estava em um território perigoso.
Ele analisou lentamente o rosto dela. O jeito como ela mantinha o olhar fixo, sem piscar, sem desviar, como se esperasse algo que ele ainda não havia entendido, o deixava desconfortável. E atento.
hesitou por um segundo antes de responder. Sentia as palavras pesarem antes mesmo de serem ditas.
— Eu sei — foi o que ele respondeu, mais simples do que realmente queria. Não sabia o que mais poderia dizer, mas havia algo na maneira como ela o olhava que o fazia querer explicar mais, mesmo que ele não tivesse uma resposta melhor.
Os dois ficaram ali, em um breve silêncio, o peso daquelas palavras flutuando ao redor deles. o observava, com uma expressão que não sabia bem decifrar, mas que ele sentia de alguma forma tocá-lo profundamente. Ele queria dizer algo mais, mas estava preso, como se as palavras tivessem se esgotado.
E então, sem aviso e sem pressa, se aproximou mais. O gesto foi pequeno, quase imperceptível, como se estivesse apenas seguindo o fluxo do momento — mas havia algo deliberado ali, algo ousado e íntimo que escapava da superfície.
Com uma delicadeza que parecia calculada, ela se inclinou e encostou os lábios no canto da boca dele. Foi um toque rápido, quase etéreo, mas intenso o suficiente para fazê-lo esquecer por um segundo onde estavam. O mesmo tipo de calor que ele sentira no Halloween percorreu seu corpo — mas dessa vez, era diferente. Mais verdadeiro. Porque agora não havia máscaras. Não eram Grinch e Lilith. Eram e . Sem disfarces.
O impacto foi imediato. O corpo de reagiu antes da mente. Ficou completamente imóvel, como se tudo dentro dele tivesse travado. Os sentidos embaralhados, o coração acelerado, e a respiração presa em algum lugar entre o susto e o desejo de manter aquele instante para sempre.
Quando ela se afastou, foi com a mesma suavidade com que se aproximara. Não houve pressa. Não houve desculpas. O sorriso dela, antes tão cheio de ironia e distância, agora era tranquilo. Não doce, mas algo mais sincero. Algo mais vulnerável. E, por um segundo, viu nos olhos dela uma suavidade que jamais tinha visto antes. Como se ela tivesse dado algo de si naquele toque, algo que ele não sabia como pegar, mas que sentia a falta.
se afastou com a mesma rapidez que se aproximara, deixando-o sem palavras, ainda absorvendo a intensidade do que acabara de acontecer. O sorriso dela, agora mais gentil do que nunca, estava lá, mas seus olhos tinham uma suavidade diferente, quase como se tivesse dado algo de si e, ao mesmo tempo, se distanciado.
— Obrigada — ela disse, e sua voz soou como uma última nota de uma música que ele não teve certeza de que tivesse acabado de ouvir.


Capítulo 19 — Prayer Of The Refugee


“Don't hold me up now
I can stand my own ground
I don't need your help now
You will let me down, down, down!”
— Prayer Of The Refugee, Rise Against
.

Obrigada.
nunca imaginou que um dia ouviria aquela palavra da boca suja de . E agora que tinha ouvido, simplesmente não conseguia parar de pensar nela.
O que isso queria dizer?
Mesmo dias depois, o som ainda ressoava na mente de como o eco de um acorde em um anfiteatro vazio.
Eles haviam cruzado diversas cidades de Nevada, mantendo o mesmo padrão autodestrutivo: bebendo, fumando e se metendo em confusões. Nada que fugisse do normal, embora não conseguisse lembrar exatamente quando a guitarrista começou a fazer parte desse conceito. Talvez tivesse sido aos poucos, como uma melodia que começa com um arranjo simples e, sem aviso, se transforma em um caos harmônico.
O grupo estava tentando trabalhar no novo álbum da banda Disclaimer, mas a palavra trabalho parecia uma descrição generosa para o que realmente faziam. Cada um escrevia trechos de letras ou experimentava arranjos de forma individual, como se a ideia de se reunir para criar algo novo fosse estranha. O que de fato era. Não que eles se recusassem a colaborar, mas, para os caras, fazer isso sem August parecia simplesmente errado. Então eles passaram alguns dias assim, pulando de cidade em cidade, fingindo que estavam fazendo alguma coisa sem realmente se dar ao trabalho.
estava o tempo todo com sua fiel caderneta em mãos, rabiscando pensamentos desconexos que poderiam ou não se tornar algo. O que não adiantava de muita coisa, considerando que sempre que os versos começavam a flertar com os seus pensamentos mais sombrios ele tinha que resistir ao impulso de atear fogo ao objeto e todas aquelas lembranças que ele queria esquecer.
E o seu psicólogo ainda tinha a cara de pau de dizer que ele estava indo bem apesar de tudo. Era quase tão engraçado quanto a imagem de Gus dentro daquele caixão ridículo. Quase.
Vez ou outra se pegava considerando a possibilidade de escrever sobre . Mas assim que a ideia aparecia, repetidamente, ele fazia o possível para enterrá-la na parte mais obscura da sua mente junto com todos os pensamentos que não deveriam ser revisitados. Uma coisa era se esforçar para ser um pouco menos desagradável com ela depois de Vegas, mas dar a ela o poder de ocupar aquele espaço no seu processo criativo já era demais.
Era normalmente nessas horas que ele começava a beber até acordar no outro dia e encontrar alguns versos rabiscados dos quais ele não tinha memória alguma. Era mais fácil assim.
Enquanto isso, os demais pareciam se ocupar em criar melodias que mais pareciam competir umas com as outras em vez de se complementar. e Tony pareciam especialmente dedicados a fazer o máximo de barulho possível, o que era extremamente desagradável para o vocalista, mas não tanto quanto os olhares carregados de preocupação que Kalil o lançava de tempos em tempos quando achava que ele não iria reparar.
A decisão de finalmente se reunir para compor como uma banda veio no caminho para Virginia City. Era uma escolha inevitável, considerando que até então não tinham avançado nada significativo. Até que, em algum momento em que o desconforto parecia ter atingido seu pico, , que já vinha dedilhando sua guitarra com uma concentração quase agressiva até então, pareceu perder a pouca paciência que lhe restava ao encurralar o grupo no meio da estrada.
— Isso não está funcionando — disse ela, a voz firme, como uma lâmina cortando o clima descontraído que pairava no ambiente.
Nenhum dos caras reagiu imediatamente. Todos estavam concentrados em seus próprios pensamentos, hesitantes, como se o simples ato de falar pudesse desencadear um confronto mais profundo do que estavam dispostos a enfrentar.
— Eu sei que vocês não querem que eu apareça com uma lista de ideias para dar o pontapé inicial — olhou diretamente para . Não era segredo pra ninguém que ele era a única pessoa que se opunha à influência da nova guitarrista sobre o som deles. — Então, o que vocês querem fazer?
Tony foi o primeiro a quebrar o silêncio, como se já tivesse uma resposta pronta:
— Um riff pesado, com certeza.
— Isso é óbvio — retrucou, desinteressada na simplicidade da sugestão. — Mas e quanto às letras?
, recostado em sua cadeira e olhando para o chão, respondeu sem entusiasmo, como se as palavras saíssem de sua boca sem qualquer peso real.
— Eu tenho certeza de que você tem algo na manga — disse ele.
não se deixou abater.
— Infelizmente, isso não é sobre mim — ela disse, impaciente. — Eu posso até ser uma novidade para o público, mas todos os olhos estão em você, .
Tony, fez um barulho com a boca, estreitando os olhos para aquela constatação que de inédita não tinha nada.
— Ele é o vocalista.
A guitarrista soltou o fôlego exasperada, pressionando os dedos entre os olhos.
— Eu estava analisando a discografia — suspirou, a paciência se esvaindo. — E com exceção de King For A Day, o público parece se atrair mais pelas músicas que falam sobre as experiências reais de vocês.
— Você está falando de Drown — Kalil pontuou casualmente.
— Não só dela — corrigiu, cruzando os braços. — A questão é que, depois de tudo o que aconteceu, os fãs querem saber o nosso lado da história, não apenas o que é contado pela imprensa.
Tony soltou um murmúrio quase imperceptível, mas ainda assim, carregado de significado.
Alguém não vai gostar disso.
o ignorou completamente, seus olhos fixos em agora, como se pudesse forçar alguma reação dele.
— Alguma chance de você escrever sobre Gus? — perguntou ela, com um tom que não permitia evasivas.
cerrou os punhos, tentando ignorar o crescente ruído em seus ouvidos, uma mistura de angústia e irritação. É claro que iria sobrar para ele. E pensar que ele estava considerando escrever sobre ela.
— É muito cedo — Kalil interveio rapidamente, como se tentasse proteger o amigo de algo que ele não estava pronto para enfrentar. não sabia mais se ficava grato ou irritado por conta daquele tipo de atitude.
Mas não cedeu.
— Então escrevam sobre o que a banda está vivendo agora — insistiu ela, sua voz firme como se fosse um esforço se fazer ser ouvida. — O que está acontecendo com vocês, com a gente.
— Nós podemos fazer isso — concordou Tony. Tudo era tão simples para ele.
Kalil acenou com a cabeça, sem hesitar.
? — insistiu, olhando diretamente para ele, sua voz se tornando mais suave, quase uma súplica disfarçada.
, no entanto, parecia alheio ao que a banda estava dizendo. Ele estava distante, como se estivesse em outro lugar, dentro de sua própria mente.
Como ele poderia escrever sobre tudo o que estava passando se nem mesmo ele entendia?
— Vocês já parecem ter entrado em um consenso — disse ele com um suspiro, como se não tivesse muito a acrescentar.
A guitarrista não se deu por vencida. Ela se aproximou um passo mais, e sua voz, agora mais dura, cortou o espaço entre eles.
— O público não quer saber o que a gente acha, . Eles querem saber de você. De quando você desapareceu depois do funeral. De quando alguém substituiu seu melhor amigo. De quando você e Margot terminaram. De quando você bateu o carro... — as palavras dela saíram, pesadas, sem filtro.
parecia paralisado por um momento, suas palavras presas na garganta.
Eu queria escrever sobre você.
— Eu... — ele começou, mas não conseguiu terminar. O peso das lembranças o sufocava, e ele se calou.
não desistiu, e sua voz ficou mais forte, mais autoritária.
— Você é o líder da banda — ela disse, sem rodeios.
— E o rosto — Tony completou, como se tentasse aliviar o clima da discussão.
praguejou, a frustração transbordando em seu rosto.
Merda — ele murmurou, como se estivesse cansado de toda aquela pressão.
O silêncio caiu sobre o grupo novamente, agora mais denso, mais tenso. Cada um parecia absorver o peso do momento de forma diferente. O que deveria ser uma reunião de trabalho estava se tornando um ponto de ruptura.
Foi Kalil, sempre mais tranquilo, quem quebrou o silêncio com uma sugestão inesperada.
— Eu acho que poderia fazer um rap — ele disse, meio brincando, meio sério.
fechou os olhos, tentando colocar a cabeça no lugar. Ele estava querendo fazer isso nas músicas há algum tempo, mas depois de tudo o que tinha acontecido a ideia acabou ficando em segundo plano. Kalil lembrou disso no momento certo, ele sempre lembrava.
— Acho que eu posso fazer isso — respondeu ele com um suspiro derrotado.
A guitarrista levantou uma sobrancelha, não parecia totalmente convencida.
, com um sorriso forçado, respondeu à sua expressão com sarcasmo.
Por favor, , eu sou um compositor.
Ela o olhou de volta, um sorriso pequeno nos lábios, como se estivesse testando-o.
— Você sabe o que eu quis dizer.
— Nós entendemos — Tony interrompeu, tentando aliviar a tensão.
Kalil, por sua vez, não deixou a oportunidade passar.
— Anda, , pega o seu caderno. Eu sei que você tem alguma coisa.
O vocalista fez uma careta.
— Não está bom ainda — resmungou ele, visivelmente irritado.
— É por isso que a está aqui — Kalil revirou os olhos, fazendo todos rirem de leve, embora a tensão ainda estivesse no ar.
olhou para eles, o caderno à sua frente, e sabia que aquilo não ficaria por isso mesmo. Eles iriam torrar a sua paciência até colocar as mãos naquele conjunto de palavras odiosas que mais pareciam grafite sobre as páginas do papel. O vocalista pegou o caderno com um movimento brusco e, com um gesto rápido, o lançou na direção de .
Ela o pegou com facilidade, como se já soubesse o que estava por vir, e não disse uma palavra ao se jogar no sofá em frente a ele. A guitarrista olhou para as páginas, os olhos percorrendo os rabiscos incompletos, as palavras rasgadas que pareciam não fazer sentido.
Isso é estresse pós-traumático ou estou suprimindo minha raiva? E meu médico tenta me dizer que estou passando por uma fase — murmurou , os olhos fixos nas palavras tortas, cada uma delas trazendo consigo uma dose amarga de verdade que , obviamente, não estava pronto para enfrentar.
O vocalista bufou, o desconforto aumentando à medida que ela dava vida àquelas letras. Ele odiava o fato de que algo tão pessoal fosse lido em voz alta, especialmente por ela, especialmente agora.
— Não leia em voz alta — resmungou ele, tentando esconder a raiva que se acumulava em sua garganta. As palavras dele saíram mais secas do que ele gostaria, mas ele não sabia como impedir aquilo.
levantou uma sobrancelha e, com um olhar carregado de ceticismo, revirou os olhos, uma expressão quase desafiadora.
— Você e o seu terapeuta parecem estar se dando bem — Tony comentou com um sorriso irreverente, engraçadinho como sempre, mas sem perceber o peso das palavras que acabava de lançar.
— Não fode — resmungou, a voz carregada de rancor. Ele não sabia se estava mais frustrado com Tony ou consigo mesmo, mas aquele comentário, no meio de tudo, parecia uma provocação barata.
Tony levantou as mãos em sinal de rendição, embora não conseguisse esconder um sorriso ainda estampado no rosto.
— Isso não vai dar certo pra mim — falou, jogando-se no sofá gasto da sala improvisada no fundo do ônibus. Ele passou as mãos pelo rosto, claramente frustrado, virando-se para a frente do veículo. — Brad, encosta no primeiro bar de beira de estrada que você encontrar!
— À caminho — o motorista respondeu sem nem olhar para trás, já acostumado com os pedidos pouco convencionais da banda.
— Fala sério, ! — Tony largou o jogo de cartas que tinha na mão e girou na cadeira, encarando o amigo. — A gente tá no meio do nada, e você acha que encher a cara vai resolver alguma coisa?
— Eu preciso de uma bebida pra conseguir falar sobre isso — retrucou, a voz carregada de irritação, mas com aquele tom de sarcasmo típico. Ele pegou uma garrafa d'água na mesinha de centro, mas nem a abriu.
— Ah, claro, porque sua capacidade de conversar depende de álcool — falou, com o mesmo tom de desdém que ela sempre reservava para ele. Apesar da provocação, um leve sorriso puxou o canto de seus lábios.
— Você fala como se fosse diferente... — respondeu ele, revirando os olhos.
O ônibus estacionou em frente a um bar de aparência decadente, o letreiro piscando Joe’s Place em néon instável. foi o primeiro a descer, seguido por , Tony e Kalil, que parecia o único realmente tranquilo entre os amigos. Eles entraram em silêncio, cruzando o espaço mal iluminado até o balcão, onde o barman os avaliou com um olhar estranho.
— Whisky, duplo — pediu, largando-se em um dos bancos.
— Cerveja pra mim — falou casualmente, ainda analisando o lugar.
— Água — Tony suspirou, visivelmente desconfortável.
— Um rum, puro — Kalil completou, dando um leve sorriso para o barman, que retribuiu com um aceno.
As bebidas chegaram rapidamente, enquanto o grupo observava os arredores. A jukebox começou a tocar um blues arrastado, e o clima no bar parecia pesado, mas, de certa forma, apropriado para o silêncio carregado que pairava entre eles. Eles encontraram uma mesa mais afastada, onde decidiram se acomodar para dar continuidade àquele show de horrores que eles chamavam de trabalho.
— Sabe o que é engraçado sobre o seu rascunho? — perguntou, se ajeitando na cadeira e olhando para o caderno em suas mãos com um sorriso debochado.
— Não, , por favor, nos conte — respondeu, o tom irônico evidente na voz, claramente sem paciência para os joguinhos dela.
A guitarrista riu baixinho, o som escapando de seus lábios sem aviso, como se estivesse se divertindo com a reação dele.
— Ah, eu não sei vocês, quando eu ainda estava no orfanato e comecei a pegar gosto por rock, pop rock e nu metal a coordenadora sempre falava que era só uma fase — ela disse, dando um gole na cerveja, um sorriso nostálgico dançando nos lábios.
Kalil e Tony trocaram olhares e soltaram uma risada conjunta.
— A minha mãe, e a de , diziam exatamente a mesma coisa — Kalil disse, rindo de leve enquanto olhava para o amigo, que parecia ainda pensativo.
soltou um suspiro, como se o peso da lembrança o tivesse atingido de uma vez. Ele balançou a cabeça com um sorriso contido.
— Nós poderíamos brincar com isso, sabe? — sugeriu a guitarrista, as palavras saindo com uma pontinha de malícia.
O vocalista franziu a testa, ainda um pouco desconfiado.
— Você está realmente levando essa letra a sério? — ele perguntou, sua voz mais grave agora.
— Por que não? — respondeu ela, a questão pendendo no ar.
não sabia como argumentar contra. O silêncio pairou por um momento, enquanto ele olhava para o copo de whisky, virando-o lentamente, como se buscasse uma resposta no sabor agridoce da bebida.
sacou o celular do bolso com um movimento ágil, os dedos deslizando decididos sobre a superfície do objeto. Ela tocou na tela algumas vezes, com a expressão concentrada, antes de finalmente entregar o aparelho para , a tela do bloco de notas brilhando em sua direção.
Eu continuo estressada e cada segundo que eu perco é um segundo mais perto de algo que não vou conseguir — ele leu as palavras em voz baixa, seu tom profundo quase fazendo a frase parecer ainda mais pesada do que era.
A guitarrista o observou atentamente, os olhos brilhando com um misto de curiosidade e uma leve provocação.
— Você acha que isso tem a ver com o que você estava pensando quando começou a escrever esse rascunho? — perguntou ela, seu tom suave, mas com a percepção afiada de quem reconhece as contradições que ele tenta esconder.
respirou fundo, o olhar fixo na tela do celular, como se estivesse procurando algo além das palavras. Ele não estava muito inclinado a dar o braço a torcer, ainda mais para ela. Não quando ela estava se metendo em algo tão... Íntimo.
Talvez — ele disse, estreitando os olhos, como se estivesse tentando ver mais claramente a pergunta dela. Seu tom não era convencido, mas também não era defensivo. Ele estava, de algum modo, no limbo entre a dúvida e a aceitação.
balançou a cabeça devagar, um sorriso divertido escapando de seus lábios.
Tony deu um gole longo na cerveja, espreitando a letra que ainda estava sendo discutida. Como se estivesse tentando juntar peças que ainda não faziam sentido entre si. Exatamente como quando se sentava em uma mesa de pôquer.
— Onde vai entrar o screamor? — perguntou ele, sua voz baixa e cheia de curiosidade. Ele balançou a garrafa de plástico, como se ainda tentasse entender aquele enigma com as suas próprias mãos.
deu de ombros, sorrindo deliberadamente. Ela estava claramente se divertindo com o processo, a animação no ar quase palpável.
— Provavelmente no refrão — disse ela, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Que seria, exatamente? — ele perguntou, dando outro gole na água, a dúvida claramente estampada em seu rosto.
Kalil riu, recostando-se na cadeira, balançando o seu copo em mãos.
— Acho que nós ainda vamos descobrir, meu amigo — disse o baterista, erguendo o seu copo em um brinde debochado.
Naquele momento, um homem velho, de cabelos grisalhos e uma expressão curiosa se aproximou da mesa. Ele vestia o uniforme do bar e ofereceu um sorriso culpado quando percebeu a atenção do grupo se voltar em sua direção.
— Desculpem interromper — ele disse, a voz rouca que não deixava dúvidas sobre os anos de cigarro que ele carregava nas costas.
Kalil levantou o olhar, ainda sorrindo, sem se preocupar em esconder a curiosidade.
— O que foi, chefe? — ele perguntou, a diversão clara em sua voz.
Mas o homem não pareceu prestar atenção ao que o baterista disse, seus olhos estavam fixos em , como se tentasse encontrar algo na expressão do vocalista que esclarecesse alguma dúvida que ele poderia ter. sorriu em resposta, deixando o seu carisma fazer o trabalho sujo.
Mal sabia como agradecer pela chegada do homem que o salvou do que quer que aquela composição pudesse se tornar.
O homem velho, com os olhos ainda fixos nele, inclinou-se ligeiramente para frente e perguntou com um sorriso curioso, mas meio desconfiado:
— Você é aquele cara da televisão?
arqueou uma sobrancelha, divertido com a pergunta. Ele deu um gole na bebida e, com o sorriso tranquilo que sempre carregava, respondeu de forma descontraída:
— Qual deles? — perguntou o vocalista, a voz suave e cheia de humor.
O homem não pareceu se abalar com a resposta brincalhona. Ele continuou com o olhar atento, como se tentasse entender algo mais profundo em .
— O que está sempre metido em confusão — o homem disse, com um tom que misturava curiosidade e leve reprovação.
— Ah, você vai ter que ser mais específico, senhor — disse Tony, com um sorriso malandro.
O homem soltou uma risada baixinha, divertindo-se com a troca de palavras rápidas e afiadas. Ele parecia gostar de dar corda para a conversa.
— O da banda — o homem explicou. Se é que aquilo poderia ser considerado uma explicação.
se recostou na cadeira e, com um sorriso ainda mais malicioso.
— Depende — disse ele, jogando o olhar entre os amigos, como se quisesse provocar ainda mais. — Por quê?
A tensão no ar foi quebrada por Kalil, que gargalhou, visivelmente se divertindo com a situação.
— Não ligue pra ele, chefe — o baterista disse, rindo. — Ele adora fazer gracinha.
se soltou na risada e o homem também. Era a primeira vez naquela noite que o ambiente parecia relaxar um pouco.
— Meu garoto é muito fã da sua banda — o homem disse com um sorriso orgulhoso, os olhos brilhando com algo genuíno.
Tony, sempre afiado, ergueu a garrafa d’água e, com um sorriso maroto, disse:
— A banda agradece! — ele falou com a leveza de quem está sempre pronto para uma boa piada.
Mas Kalil, com um sorriso mais sério e caloroso, completou, com um tom de gratidão:
— O que o meu amigo quis dizer é: muito obrigado. Significa muito pra gente.
O homem pareceu ficar um pouco mais à vontade com a resposta, e o olhar que ele lançou para cada um dos membros da banda parecia um pouco mais leve do que antes.
— Vocês são todos da banda? — o homem perguntou, a curiosidade ainda em seus olhos.
, que estava observando a troca com uma mistura de divertimento e sarcasmo, deu um sorriso de canto e respondeu com um tom debochado:
— Ah, não, não se preocupe com a gente, é o que você quer — ela fez um gesto, indicando o vocalista com a cabeça, brincando com a situação.
balançou a cabeça, rindo da resposta rápida da guitarrista, mas manteve o olhar fixo no homem.
— Seu garoto está aí? — ele perguntou, com a expressão mais suave e interesse genuíno na voz.
O homem sorriu, claramente tocado pela curiosidade e pela atenção do grupo, e deu uma leve risada antes de responder.
— Ele está cuidando do bar, mas não pode vir até aqui até terminar o turno dele, sabe como é, adolescentes... — ele disse isso com um tom meio divertido, daquele jeito que apenas os pais dizem. — Por isso, vim falar com vocês por ele.
Eles olharam em direção ao bar e viram um rapaz no lugar do barman que os atendeu quando chegaram. Ele parecia ter cerca de dezessete anos, tinha cabelos pretos e vestia uma camisa do Megadeth. Ele estava parado, estático, observando-os com atenção, seus olhos fixos nos membros da banda.
— Não seja tão duro com ele, senhor —Tony disse, sorrindo de maneira descontraída.
O homem mais velho, que estava com um semblante sério, fez um gesto vago com a mão, como se estivesse fazendo pouco caso da fala do baixista. quis rir da situação. Parecia... Os velhos tempos.
— O garoto tem que aprender um pouco sobre responsabilidade — disse ele, a voz grave e determinada.
Kalil se inclinou um pouco para frente, observando o rapaz pelo canto do olho com simpatia.
— Ele pode ser responsável e, ao mesmo tempo, conhecer o ídolo dele — disse o baterista, com um sorriso compreensivo no rosto.
O homem pareceu ponderar por um momento, seus olhos estreitados enquanto refletia sobre as palavras de Kalil. Os velhos sempre ouviam ele, era impressionante.
Finalmente, o homem fez um gesto leve com a mão, como se estivesse fazendo uma concessão.
— E se vocês tocassem pra gente? — sugeriu ele, o tom de voz calmo, mas carregado de uma certa expectativa.
ia responder, mas , com seu humor afiado, foi mais rápida.
— Eu não sei... Quer dizer, bebidas por conta da casa? — ela perguntou, levantando uma sobrancelha, o sarcasmo evidente, mas com aquele leve toque de vai que cola.
O homem sorriu e fez um aceno afirmativo.
— Temos um trato — ele parecia mais relaxado agora, como se a situação fosse se desdobrar exatamente como ele esperava.
Por sorte, o bar tinha uma bateria velha já montada no palco improvisado. , Tony e trocaram olhares rápidos, uma mistura de diversão e desafio. Eles buscaram seus instrumentos no ônibus, enquanto o bar começava a se movimentar com a energia dos locais que estavam pareciam perceber que algo estava acontecendo.
Quando voltaram, o homem fez questão de lhes oferecer um shot cada, uma espécie de boas-vindas àquela noite inusitada. Eles se posicionaram no palco com a energia de quem não estava ali apenas para agradar, mas para aproveitar o momento.
Eles acabaram decidindo tocar covers, aproveitando a interação com a plateia para formar um setlist inusitado com os pedidos da galera. Não demorou muito até que o bar estivesse cheio de jovens que moravam nas redondezas, atraídos pela música que ecoava pelo local. O som de guitarras e da bateria misturava-se ao barulho da conversa animada dos frequentadores, e logo a energia no bar tomou uma nova dimensão.
nem percebeu em que momento começou a se sentir à vontade. Era algo diferente, sem os holofotes brilhando sobre ele, sem a pressão de uma superprodução. Ele gostava daquela sensação — a música estava viva ali, sendo compartilhada de forma mais pura, mais verdadeira. Ele sentia falta disso. A interação com os fãs era mais genuína, sem o peso da mídia ou da expectativa.
Era só a música e o momento.
A apresentação terminou, mas ninguém quis ir embora. O tempo simplesmente escorregou entre conversas, risadas e copos cheios. Acabaram ficando no bar até tarde, quase sem perceber. Beberam demais, falaram besteiras, conversaram com os fãs, celebraram como há muito não faziam. Conheceram Paul, o filho do dono do bar — o verdadeiro motivo de terem sido convidados a tocar ali — e acabaram ficando mais e mais.
acabou ficando boa parte da noite conversando com uma groupie loira que ficou na sua cola. Ele não tinha achado ruim. Ela era bonita e divertida, talvez até a levasse para a cama se não estivesse dormindo em um beliche improvisado dentro do ônibus com todos os outros membros da banda. Não queria dar motivo para que os outros tomassem a liberdade de fazer o mesmo enquanto ele tentava descansar. Estava cansado de testemunhar os outros no meio do ato.
Depois de um tempo ele percebeu que a loira não iria desistir tão fácil e acabou inventando uma desculpa sobre estar cansado para ir para o ônibus dormir e evitar as investidas dela. Ele se conhecia bem, não poderia resistir aos charmes da mulher por muito tempo, afinal ele era apenas um homem.
Mas foi só abrir a porta do veículo que aqueles sons característicos tomaram os seus sentidos.
Porra, será que ele não poderia ter ao menos um momento de paz?
Ainda assim, ele adentrou o ônibus. Apenas para encontrar ofegante, rebolando obscenamente no colo de um cara. Ela tinha a cabeça tombada para trás, os lábios entreabertos. O suor reluzia em sua pele sob a pouca luz do corredor. O corpo dela se movia com naturalidade cruel, como se nem ao menos tivesse percebido a chegada dele.
— De novo não — praguejou , incrédulo.
Ela virou o rosto. O cabelo grudado à testa, a respiração ainda irregular. Ela o encarou por um segundo que pareceu longo demais. Então por que motivo ela não parou aqueles malditos quadris?
— Ah, é você — disse ela com um sorriso enviesado, quase debochado. E então voltou a se concentrar no parceiro, como se nada tivesse acontecido.
fechou os olhos, tentando bloquear o som da respiração dela. Seus punhos se cerraram por instinto, e ele se obrigou a não dizer nada, a não gritar, a não agir.
Mas aí ele viu.
Viu as mãos do sujeito deslizarem pelas coxas de , a saia subindo, revelando mais do que ele gostaria. sentiu algo dentro dele se remexer com a cena. Algo entre a excitação e a repulsa. Talvez os dois.
O casal se separou um pouco em busca de ar...
Foi quando ele reconheceu Paul.
O filho do dono do bar.
Um garoto de dezessete anos.
Caralho.
Ela não tinha limites!
Antes que ele pudesse pensar duas vezes sobre o assunto ele já estava indo em sua direção. A raiva fervia sob a pele, quente, impulsiva. Ele avançou pelo corredor estreito do ônibus, a respiração pesada, os passos firmes. Ele podia ouvir o som do seu coração acelerado pela adrenalina e algo que ele não queria reconhecer.
— Na merda do meu ônibus, não — rosnou ele, sua voz vibrando com o peso de um turbilhão de emoções que ele não conseguia descrever.
Sem hesitar, segurou pela cintura e a puxou de cima do garoto. Ela não resistiu, só arqueou uma sobrancelha enquanto ajeitava a saia e se jogava com preguiçosamente no sofá ao lado, como se aquilo tudo fosse uma grande piada.
Nosso ônibus, você quis dizer — rebateu com um sorriso malicioso, limpando os rastros de suor de seu rosto brilhante.
mal olhou para ela. Seus olhos estavam fixos no garoto, que agora tentava, desajeitadamente, vestir a camisa e ajeitar a ereção sob o tecido de sua calça jeans.
Paul. Dá o fora daqui. Agora. Antes que eu vá chamar o seu pai.
O garoto empalideceu na hora. Levantou-se com pressa, o rosto vermelho de vergonha e confusão, e saiu quase correndo do ônibus, ainda tentando fechar o cinto, e desapareceu porta afora sem dizer uma palavra.
O baque surdo da porta foi o suficiente para dar início a mais um dos desentendimentos entre e .
Estraga prazeres — resmungou a guitarrista, cruzando as pernas com um estalo leve. Ela puxou um cigarro do bolso da jaqueta, acendeu com calma, e tragou profundamente.
passou a mão pelos cabelos, frustrado, os dedos cravando no couro cabeludo como se aquilo pudesse aliviar a pressão na sua cabeça.
— Eu não estou fodendo no ônibus, você não vai foder no ônibus — disse ele, entredentes.
O vocalista andou de um lado para o outro, como se precisasse mover o corpo para não explodir por dentro.
— Não seja por isso, vamos buscar a loira do bar, vamos todos foder no ônibus — provocou com um brilho cínico no olhar.
Ninguém vai foder no ônibus, — retrucou ele, a voz subindo meio tom.
Ela soltou uma risada breve, sarcástica, a fumaça escapando por aqueles malditos lábios.
— Nossa, quem diria. O grande , guardião da moral e dos bons costumes. Vai me pregar um sermão agora?
— Pelo amor de Deus, — ele disse, já com a voz rouca de raiva — O moleque tem dezessete anos! Dezessete! Você tem noção do que está fazendo?
soltou uma lufada lenta de fumaça.
— Não é como se ele não quisesse, você viu muito bem — retrucou ela, dando de ombros como se fosse óbvio.
— Isso não importa! — estourou. — Você tem noção do tamanho da merda que isso pode virar? Da imagem da banda, da porra do escândalo, da polícia se aparecer aqui?
arqueou uma sobrancelha, impassível.
— Minha vida sexual não é da sua conta, .
— É da minha conta quando o que você faz pode arrastar a banda inteira pro buraco! — disparou, se aproximando com os olhos cravados nos dela. — Por que você não fode alguém do seu tamanho?
Os olhos de brilharam. Por um momento, o ar entre os dois pareceu mais denso, mais carregado. Um campo elétrico prestes a romper.
— Eu não acho que você daria conta.
Ele a encarou firme. Muito perto. Muito quente. Muito tudo.
— Tenta a sorte, bonitinha.


Capítulo 20 — Poison


“I wanna hold you, but my senses tell me to stop
I wanna kiss you, but I want it too much
I wanna taste you but your lips are venomous poison”
— Poison, Alice Cooper
.

— Isso aqui não vai dar certo — murmurou , encostado no batente da locadora de carros com os braços cruzados.
O calor seco de Sacramento colava a camisa na pele, e a fachada branca e azul da FastRide Rentals parecia mais um posto de gasolina falido do que uma empresa legalizada. Tony saiu de dentro do prédio abanando um contrato e sorrindo como se tivesse comprado uma Ferrari. Na verdade, se parasse para pensar, o valor que foi debitado de sua conta bancária não era muito diferente disso.
— Bom, tenho uma boa e uma má notícia — anunciou ele, jogando os papéis no capô de um Mustang GT preto estacionado na frente.
pegou os documentos antes que pudesse contestar. Leu tudo com uma sobrancelha arqueada.
— A boa é que você conseguiu um carro. A má é que é em nome falso? — ela perguntou como quem já sabia a resposta.
Tony fez um gesto de mais ou menos com a mão.
— Vamos dizer que o senhor Henry Smith Jr. agora é piloto de corrida nas horas vagas.
Kalil soltou uma gargalhada curta e foi até o lado do motorista do carro alugado com poucos quilômetros e cheiro de carro novo.
suspirou, analisando o veículo com um olhar cético.
— Corrida clandestina em Sacramento. Com um carro alugado e documentos falsos. O que poderia dar errado?
jogou os papéis dentro do porta-luvas, fechando a porta com um baque antes de responder:
— Tudo, se você dirigir.
O relógio marcava 18h47 quando os quatro saíram da FastRide Rentals, cada um com a chave girando no dedo e um sorrisinho de quem sabia que estava se metendo em problema.
— Isso aqui parece o início de um filme ruim — resmungou , encostando o ombro no capô fosco de um Chevrolet Impala SS 1996. Preto, com rodas discretas e motor que ronronava como um animal velho e perigoso. — Pelo menos esse aqui tem história.
passou por ele com os óculos escuros nos cabelos e um chiclete estalando entre os dentes. A guitarrista escolheu um BMW M2 azul marinho, baixo e reluzente, que nada tinha a ver com a motocicleta da qual ela tanto se orgulhava.
franziu o cenho.
— Eu pensei que você fosse fiel àquela sua lata-velha.
Ela sorriu. Aquele tipo de sorriso que vinha cheio de segundas intenções e nenhum aviso prévio.
sentiu as palmas das mãos suarem, mas resistiu ao impulso de limpá-las nas calças.
— Não estou vendo ela por aqui — respondeu , piscando com uma malícia que quase fez o coração dele perder o compasso.
Controle-se.
precisou se esforçar para lançar a ela um sorriso preguiçoso.
Porra, ele se sentia patético.
— Ela ficaria arrasada... — provocou ele, apesar de tudo.
— Você deveria se preocupar com a sua própria pilha de sucata — rebateu ela, os olhos faiscando como sempre que sentia cheiro de provocação.
O vocalista jogou a cabeça para trás e riu alto, fazendo semicerrar os olhos, desconfiada.
— Você está brincando — disse ele ainda sorrindo.
nem ao menos sabia dizer quando ficou assim tão fácil sorrir para ela.
— Aposto que esse banco já viu um cadáver — disse ela, olhando o Impala com superioridade. — Combina com você.
Tony gargalhou, sorriso maior que a conta bancária, enquanto girava a chave do Nissan entre os dedos. Kalil deu de ombros, entrando no Mustang, clássico e imponente. Ele deu partida e o ronco do motor virou todas as cabeças mais próximas.
A zona industrial de Sacramento parecia o cenário esquecido de um apocalipse mal resolvido. Galpões abandonados, trilhos cobertos de ferrugem, vagões desmantelados apodrecendo sob a noite. Fios pendiam como teias, e o concreto rachado formava um labirinto sombrio, praticamente livre de câmeras. Uma terra de ninguém.
segurava o volante do Impala como quem segura uma lembrança ruim, com um apego quase sadomasoquista. O carro velho roncava baixo, quase timidamente, enquanto ele mantinha o pé leve no acelerador. A pista improvisada se estendia à frente como uma cicatriz aberta entre as ruas abandonadas.
Ao redor, o mundo vibrava.
LEDs em roxo e verde tremeluziam nos muros grafitados. Motos rugiam ao fundo. Gente demais nas bordas da pista. Celulares filmando. Cervejas geladas na mão. Cigarros acesos. Gritos. Risadas. Expectativa. Um formigueiro humano, faminto por velocidade.
tragou o cigarro que fumava durante o trajeto até o filtro e o jogou a ponta pela janela. A brasa desaparecendo no escuro da noite.
À sua esquerda, Tony fazia o 370Z dançar de leve, como quem precisa manter o corpo em movimento pra não explodir por dentro. Era puro nervo e juventude. Kalil, no Mustang, era o oposto: o rosto calmo, olhos fixos, postura de quem já sabia exatamente o que ia fazer e quando.
Entre eles, outros corredores se alinhavam na penumbra — rostos desconhecidos, olhos escondidos pelas sombras. Máquinas turbinadas com adesivos improvisados, escapamentos cuspindo fogo, faróis piscando como avisos silenciosos.
Do outro lado, , no BMW azul, não se movia. Não piscava. Brilhava como uma arma recém-lustrada. Fria. Ameaçadora. Implacável. Linda.
A voz do organizador saiu rouca pelos alto-falantes:
— Duas voltas. Três checkpoints. Vale tudo menos arma de fogo. Os quatro da frente alinham. Quando a luz piscar, corre.
Concentre-se.
deu uma última olhada para o painel do Impala. Não confiava no velocímetro, nem precisava. Confiava no ronco do motor, na leveza da direção, e no fato de que já tinha dirigido em coisa muito pior.
A luz ficou vermelha. Depois piscou azul. Depois sumiu.
acelerou.
O Impala não saiu rápido. Saiu denso. Como uma avalanche — devagar, mas impossível de parar. Não era um carro feito para voar. Era feito para atropelar.
O BMW de disparou logo à frente, nervoso, limpo, devorando o chão. Tony veio logo atrás, o Nissan derrapando, gritando, testando os limites com uma alegria quase suicida. Kalil ficou ao lado de , o Mustang estável, silencioso, controlado como o condutor.
E atrás deles, vieram os outros.
— Bela noite pra quebrar alguma coisa — murmurou , sentindo a adrenalina pulsar em suas veias à medida que um sorriso surgia em seu rosto.
A pista era nua e crua: buracos, rachaduras, pneus marcando o traçado. Fogueiras acesas nos cantos, bandeiras tremulando nas mãos suadas de adolescentes. Era mais arena que circuito.
os viu pelo retrovisor. Um dos outros competidores quase tocou o seu para-choque. Outro passou raspando por Tony como se a lataria alheia fosse descartável.
Na primeira curva, o baixista testou a sorte. A lateral do Nissan beijou o ferro. Um RX-7 passou por fora, sem perder velocidade, como se estivesse em outro tipo de corrida. viu de relance: o carro parecia planar. já sumia. Um cometa metálico desaparecendo na frente.
O vocalista cortou por dentro da curva. O Impala rangeu, mas respondeu. Kalil ainda estava lá, grudado nele como uma sombra. Um dos outros competidores tentou forçar por fora, mas recuou no último instante. Quase houve contato. mal conseguiu conter o riso sádico que escapou da sua garganta seca.
No segundo checkpoint, a torcida jogava notas de dinheiro no ar. Fogos estouravam num canto. Alguém gritava palavras de incentivo. não se deu ao trabalho de processar a informação. Sua mente se resumia ao cheiro de óleo queimado e ao rugido ensurdecedor dos motores competindo entre si.
De repente, o RX-7 cortou caminho por uma curva mal demarcada. Um atalho. Definitivamente ilegal, mas ninguém se importava. A plateia enlouqueceu ao ver o adversário surgir do nada à frente de .
Ela tentou recuperar. Forçou na reta. Mas o piloto respondeu com uma aceleração que parecia sobrenatural — como se o carro tivesse guardado tudo para aquele momento. viu o brilho nos olhos dela pelo retrovisor. Não de raiva. De incredulidade.
No último checkpoint, alguém lançou papel picado e gritou por cima da música:
— Ele vai ganhar!
e Kalil vinham lado a lado. Tony tentava não rodar. chutava o chão com o BMW, buscando um último milagre.
Mas já era tarde.
O RX-7 cruzou a linha de chegada primeiro.
veio em segundo, o maxilar travado.
Kalil e disputaram centésimos.
Tony cruzou por último, sorrindo sem saber se devia.
desligou o Impala. O chiado dos freios ainda nos ouvidos. Quando saiu do carro, só conseguiu dizer uma coisa, baixo, quase com humor:
— Merda.
passou por sem dizer nada. Jogou o chiclete fora com força. Ele acendeu um cigarro com um sorriso, encarando a fumaça subir como se ela tivesse todas as respostas.
— Isso foi foda! — gritou Tony, gargalhando histericamente como se tivesse vencido.
— Eu jurei que ia ter que parar pra te arrastar pelos cabelos até o hospital mais próximo — disse , soltando a fumaça com gosto de provocação.
— E eu teria deixado! — Tony respondeu, rindo. — Seria incrível também.
— Vocês tem um problema sério com hospitais — murmurou , cruzando os braços.
— Eu quem o diga — completou Kalil, tirando as chaves do bolso com calma, como quem já tinha passado por coisa pior.
— Tanto faz — Tony fez um gesto amplo com a mão, como quem dispensava formalidades. — Vamos, isso foi só o esquenta!
— Tem mais? — arqueou uma sobrancelha.
— Nós não estamos aqui pela corrida, bonitinha — disse , jogando a bituca no chão e pisando nela com o calcanhar.
— Estamos aqui pela festa! — gritou Tony, abrindo os braços para os gritos e a música que ecoavam de um dos galpões mais ao fundo.
A noite estava só começando. E ninguém ali parecia pronto para ir embora.
O galpão parecia engolir o som da cidade. Um bunker sem teto, onde fumaça, luz e suor se misturavam num caldo pegajoso de gente que exalava excesso. ficou ali por alguns segundos, apenas ouvindo o grave abafado que vinha de dentro.
Tony foi primeiro, animado como quem esperava a festa mais do que a corrida.
— Isso aqui, meus senhores... E senhora — disse o baixista, com um sorriso já meio bêbado antes mesmo de começar a beber. — É onde o pós começa de verdade. A corrida é só formalidade.
Kalil seguiu o amigo com as mãos nos bolsos, olhando em volta como quem já estava calculando a rota de saída antes mesmo de entrar.
— Se for como o ano passado, vai acabar com alguém no hospital — murmurou ele.
— Ou na cama de alguém — Tony respondeu, saltitando.
apenas ajeitou o cabelo e seguiu junto, passos firmes. foi por último, acendendo um cigarro sem dizer nada.
Lá dentro, o galpão era um caos de luz e concreto. Barris cortados como fogueiras, DJs alternando entre hip hop e batidas industriais, gente dançando como se o chão estivesse em chamas. Mas o olhar de não era puxado pela música — era pelos cantos. Pelas mesas onde as conversas eram mais baixas. Pelos grupos que não dançavam, só observavam.
Tony já tinha dois copos nas mãos, Kalil pegava uma garrafa de água, e se encostava numa pilastra de concreto, braços cruzados, observando o caos ao redor.
— Então — começou Tony, girando um copo de bebida colorida nas mãos como se fosse um troféu. — Quem aqui já foi a uma festa dessas sem acabar no meio de alguma merda?
— Eu — respondeu Kalil, com um meio sorriso.
— Você não conta.
riu com o canto da boca, pegou um dos copos da mão dele sem pedir permissão.
— Parece o meu tipo de lugar — disse ela, dando um gole generoso na bebida antes de fazer uma careta. — Isso é muito doce.
— Assim como você, querida — soltou Tony, com um brilho debochado nos olhos.
A guitarrista revirou os olhos e deu mais um gole, um pouco mais contido dessa vez.
— Boa menina — provocou ele, satisfeito.
e Kalil engasgaram de rir, abafando as gargalhadas com as mãos.
Mas nem a música alta ou a conversa foram suficientes para abafar o grunhido de dor de La Rocha quando o atingiu na costela. Os amigos riram ainda mais do que antes.
Porra, ! — gemeu Tony, curvando-se como se tivesse levado um tiro. — Eu tava brincando!
— E eu também — respondeu ela com um sorrisinho frio, voltando a encostar na pilastra como se nada tivesse acontecido.
As risadas aumentaram. Tony massageava o tronco, fingindo indignação.
— Não é tão engraçado agora, não é? — cutucou , levantando a sobrancelha.
— Ao menos eu vou morrer jovem e bonito — respondeu ele, dramático.
— Eu não teria tanta certeza — murmurou , tragando fundo.
— Você deveria controlar a língua, meu amigo — disse Kalil, com um meio sorriso. — Nossa garota tem reflexos.
— Ela deveria guardar isso para usar entre quatro paredes — resmungou Tony, ainda massageando as costelas.
O sorriso de desapareceu instantaneamente.
Ele não queria pensar em entre quatro paredes. Apenas a ideia o fazia ficar enjoado, enquanto o seu corpo traidor mandava o sangue para todas as direções erradas.
— Por que eu faria isso se eu posso usar em você? — a guitarrista rebateu, oferecendo ao amigo uma de suas piscadelas charmosas. Charmosas?
balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento.
— Você é um problemão — comentou Tony, rindo como se não tivesse acabado de quase morrer.
— Você sabe que eu não perco a oportunidade de causar um — respondeu ela, soltando o copo vazio em cima de uma caixa de som velha.
— Falando nisso — Kalil se intrometeu, e o tom dele fez os três virarem o rosto. — Você poderia tentar evitar isso. Só por hoje.
— Hum, não — respondeu , categoricamente.
— Eu tô falando sério — insistiu o baterista, cruzando os braços. — Brad não tá por perto dessa vez. Não é como se nós pudéssemos simplesmente dar o fora.
— Às vezes eu esqueço o quanto você consegue ser sem graça — ela retrucou, jogando o cabelo para trás com um suspiro dramático.
— Você poderia ouvir alguém de vez em quando, sabe? — provocou Tony. — Esse lugar é mais barra pesada do que os que nós costumamos frequentar.
— Diga por você — murmurou , entediada.
, até então calado, soltou a fumaça do cigarro e cortou:
— Por que vocês estão perdendo tempo? Não é como se ela fosse ligar de qualquer forma.
Obrigada, .
Aquela palavra de novo.
Ele sentiu um calafrio subir pela espinha. Como veneno se espalhando pelo seu corpo.
Mais um gole. Uma nova música começou. Os graves sacudiam o chão.
checou o relógio. Kalil ajeitou o casaco, tenso. acendeu outro cigarro, mais por hábito do que por necessidade.
— Dez minutos — anunciou o baterista. — Se ninguém tentar vender alguma arma, droga ou serviço, a gente fica. Senão, rua.
— Justo — concordou .
— Mas nós amamos drogas! — protestou , arrastando a voz num fingimento infantil.
Tony soltou um suspiro derrotado.
— Vocês deviam beber mais. Ia aliviar esses ombros pesados.
se afastou em direção ao banheiro. Kalil foi até uma mesa conversar com alguém que os demais não conheciam. Tony sumiu entre os corpos dançantes.
ficou ali, sozinho por um instante, observando tudo.
As luzes piscavam como se tentassem acompanhar os batimentos acelerados da multidão. A música vibrava no concreto, nos ossos, no ar saturado de fumaça e calor. E, como acontece em toda boa bagunça, o tempo escorreu — e os amigos se perderam uns dos outros sem nem perceber.
Algum tempo depois, encostava a bota no asfalto rachado do pátio, o corpo meio inclinado para frente, como se pronto para sair andando a qualquer momento. Mas não ia.
A fumaça de cigarro passava por perto, trazida por algum sopro de vento do galpão onde a música seguia grave e abafada. Ele assistia ao vai e vem das pessoas sem prestar atenção de verdade. Estava ali mais por inércia do que por vontade.
surgiu do lado esquerdo, andando como se não estivesse com pressa, mas também sem o menor interesse em parecer casual. Trazia duas garrafas de cerveja, o rótulo suando nas mãos. Parou ao lado dele e estendeu uma sem dizer nada.
Ele pegou, erguendo uma sobrancelha.
— Sabe que seu carro fazia um barulho ridículo, né? — ela soltou, olhando em frente, como se comentasse o clima.
deu um meio sorriso e destravou a tampa da garrafa com o abridor preso no chaveiro do cinto.
— E o seu parecia mais enfeite de Natal do que uma máquina.
Ela virou o rosto devagar para ele, como quem acabava de ouvir uma blasfêmia.
— Azul petróleo é elegante.
— Azul petróleo parece nome de esmalte — ele deu um gole. — Seu carro tinha cara de influencer vegana.
— E o seu tinha cara de pai divorciado no meio de uma crise de meia idade. Aquele sedã… Sério, . Que fase.
Ele riu de verdade dessa vez, rouco e direto, meio sem jeito após uma boa quantidade de cervejas.
— Era um V8, . Pelo menos ele tinha estilo.
— Estilo agora é algum código para barulhento e sem direção hidráulica? — ela ergueu a sobrancelha.
— Você é crítica demais. Se seu carro falasse, teria desistido de correr antes da largada.
Ela riu também, o som leve e real, como se tivesse escapado sem querer. Ela balançou a cabeça, ainda olhando à frente.
não conseguiu ignorar aquele som.
— Você é um péssimo perdedor — murmurou ela, os olhos anuviados brilhando sob as luzes da festa que insistiam em escapar do galpão.
A luz da festa estourava contra o rosto dela em tons quentes, fazendo brilhar os olhos, as maçãs do rosto, a garrafa na mão. a olhou de soslaio, e por um instante, o silêncio entre eles pareceu quase confortável. Quase perigoso.
Ele desviou o olhar antes que fosse tarde demais. Deu mais um gole.
— E você — disse , com a voz mais baixa — É uma péssima vencedora.
Ela sorriu. Um daqueles sorrisos pequenos, quase imperceptíveis. Mas reais.
— Sorte sua que eu não ganhei dessa vez — brincou ela, como quem deixa uma ameaça pairar no ar.
— Vamos precisar organizar uma revanche pra resolver isso — respondeu , mantendo o tom neutro, mas com um brilho nos olhos.
— Pra você comer poeira outra vez? — ela provocou, sem olhar diretamente, mas ciente de cada reação dele.
virou o rosto devagar, com um meio sorriso no canto da boca, como se tentasse esconder que estava se divertindo mais do que deveria.
— Eu estava distraído com a sua árvore de Natal, bonitinha. deu um gole longo na cerveja, depois cruzou os braços, ainda com a garrafa na mão. Os olhos dela passearam pelo pátio antes de voltarem para ele.
— Eu amo quando você foge do assunto. É charme natural ou treinamento militar?
Ele soltou um riso pelo nariz, baixo, olhando para frente.
— Se você acha que isso aqui é charme, deve estar bebendo mais do que parece.
— Talvez eu esteja — disse ela, sem pestanejar.
a olhou de soslaio. Teve um arrepio rápido, involuntário.
— Você tá realmente bêbada.
— Apenas o suficiente pra aguentar você — respondeu ela com uma piscadela.
O coração dele falhou um compasso.
girou a garrafa nas mãos, observando as gotas descerem pelo vidro como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Ficou em silêncio por alguns segundos.
— Melhor eu beber mais, então — disse, num tom seco que tentava esconder o nervosismo. — Já que você veio preparada pra me atormentar.
— Parece que você ganhou na loteria, Doc não está aqui para me dizer o que fazer — brincou ela, em tom quase alegre.
— Que sorte a minha! — ironizou o vocalista.
o fitou de lado, com um sorriso enviesado.
— Você pode admitir que gosta da minha companhia. Eu não vou dizer aos outros.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Mais fácil eu admitir que gosto de perder pra você do que admitir isso.
sorriu, lento, como se aquilo tivesse confirmado algo que ela já suspeitava há muito tempo.
— Então tá quase admitindo os dois.
deu um gole mais demorado, o sabor da cerveja parecendo ter mudado no meio do caminho.
— Você é insuportável, .
— E você continua conversando comigo — ela respondeu, encostando levemente no ombro dele com o braço. — Vai entender.
O vento passou de novo, mais fresco agora. E por um momento, o barulho da festa virou só ruído — o tipo de fundo que não distrai, só preenche. Eles ficaram ali, lado a lado, sem encostar, mas perto o suficiente para estarem atentos um à presença do outro.
ficou ali, próxima demais para ser casual, longe demais para ser outra coisa. A luz amarelada do poste recortava o contorno do rosto dela, projetando sombras suaves na lateral da bochecha. A expressão era um misto de desafio e expectativa, como se estivesse esperando que ele finalmente tomasse alguma iniciativa.
sustentou o olhar por alguns segundos.
— Por que você ainda continua com isso? — ele perguntou, a voz mais baixa agora, como se qualquer passo em falso pudesse estragar o que quer que estivesse acontecendo ali.
inclinou levemente a cabeça, com um sorrisinho enviesado.
— Porque é tão fácil entrar na sua cabeça.
— Você pensa muito de si mesma.
— E você disfarça mal.
Ele mordeu de leve o canto do lábio, um gesto involuntário. Sabia que ela estava provocando, mas havia algo no tom... Menos agressivo. Como se estivesse testando o quanto podia se aproximar sem que ele recuasse.
— Por que você tá tão interessada? — perguntou ele, sem encará-la agora. — Nunca entendi o que exatamente te diverte tanto em me provocar.
soltou uma risada baixa, quase surpresa.
— Porque você nunca reage como os outros. Você finge que não se importa, mas cada músculo seu entrega o contrário.
— Talvez eu só seja ruim com atenção.
— E ainda assim, você é um dos maiores vocalistas do nosso tempo. — ela arqueou a sobrancelha.
— Isso foi um elogio? — perguntou , sem conter o sorriso que surgiu no canto dos lábios.
— Não se acostume com isso — ela respondeu com uma careta divertida.
desviou o olhar por um instante, respirando fundo. O ar da noite parecia mais leve ali fora, mas a presença dela bagunçava isso. Como se o mundo ficasse alguns graus fora do eixo sempre que ela se aproximava — e ele não soubesse se queria corrigir ou deixar assim mesmo.
estava a poucos passos, encostada na mureta com os braços apoiados, olhando a festa como quem observa uma pintura abstrata, procurando sentido. Ainda assim, ele sabia que ela não estava realmente ali. Não com o pensamento. Talvez nem com o corpo inteiro.
— Você sempre foi assim? — a pergunta veio do nada, solta, sem que ela sequer desviasse o olhar.
piscou devagar.
— Assim como?
— Quieto.
riu baixo, sem humor. Um som mais cético do que divertido.
— Achei que você gostasse disso. Dos tipos calados, meio misteriosos.
O vocalista não conseguiu deixar de pensar em Kalil.
E, por um momento, aquela interação entre os dois pareceu simplesmente errada. Principalmente por conta do efeito que tinha sobre ele.
Mas sorriu antes que ele pudesse se prender àquilo. Um sorriso pequeno, quase preguiçoso, fazendo com que o ar faltasse em seus pulmões.
— Gosto quando é charme — respondeu ela. — Não quando parece... Mecanismo de defesa.
Ele virou o corpo um pouco mais na direção dela. A testa franzida, umedeceu os lábios antes de responder.
— Isso foi sua forma delicada de perguntar se eu tive uma infância de merda?
finalmente olhou para ele. Havia algo nos olhos dela, um brilho brincalhão tentando esconder a atenção real. Os lábios curvaram, segurando uma risada.
— Eu nem ia perguntar. Mas obrigada por confirmar.
Ele bufou e olhou para o céu — escuro, sem estrelas.
— E você? Sempre foi assim também?
— Assim como?
— Afiada.
Ela ergueu uma sobrancelha com calma, como se ponderasse se valia a pena responder ou se deveria apenas ignorá-lo.
— Você quer dizer irritante?
— Eu ia dizer desconfiada. Como quem cresceu esperando ter que se defender antes de ser atacada.
— Você sabe sobre o orfanato — ela revirou os olhos, como se isso explicasse tudo.
— Algo me diz que não é só isso — a voz dele saiu quase num sussurro, como se aquilo fosse mais revelador do que ele queria admitir.
deu mais um gole na cerveja, mas, dessa vez, ao olhá-lo de volta, havia algo diferente no olhar. Menos provocação. Mais atenção.
— Depois de todos esses meses, por que toda essa curiosidade repentina?
hesitou. Passou o polegar pelo gargalo da garrafa, depois deu um gole também. Evitou o olhar dela por um segundo.
— Porque... Eu tô começando a achar que você não faz isso com qualquer um.
— Isso o quê?
— Ficar. Me cutucar desse jeito. Me testar sem me afastar.
riu, mas sem ironia. Foi um som mais suave, quase tímido, como se ela não esperasse gostar da frase.
— Talvez você seja mais intrigante do que eu queria admitir.
Ele virou o rosto devagar. Observou a linha do maxilar dela, o brilho sutil da pele sob a luz do poste.
— O que você queria admitir, então?
— Que você era só mais um com cara de problema. Alguém fácil de esquecer depois que tudo der errado.
— E agora?
girou o corpo levemente, de modo que o ombro quase roçava o dele.
— Agora você é difícil de ler.
— Isso é bom?
— Ainda não decidi.
Silêncio.
A música da festa vinha abafada, como se tocasse debaixo d’água. As luzes piscavam lá dentro, mas nenhuma delas importava onde estavam. A mureta, o poste, o calor leve entre eles. Aquilo parecia real.
— Sabe o que é curioso? — ela perguntou, com a voz mais baixa.
— Fala.
— Você tem jeito de quem quer fugir de tudo e de todos. Mas nunca faz isso de verdade.
deu um riso sem som. Acompanhado de um meio sorriso, cansado.
— Eu faria se eu pudesse.
Ali estava.
A verdade.
E de todas as pessoas, ele nunca esperou que fosse ela quem o ouviria dizer isso.
virou o rosto na direção dele. Agora os olhos dela estavam fixos nos dele.
— Então por que ainda tá aqui?
Ele demorou. Não fingiu pensar. Apenas sentiu.
Depois respondeu, num tom quase íntimo demais para o que quer que havia entre eles.
— Porque, às vezes, vale a pena ficar mais um pouco.
não respondeu de imediato. Mas o que quer que estivesse nos olhos dela naquele instante… Era diferente. Menos escudo, mais presença.
Ela não sorriu, mas também não se afastou.
O olhar entre eles se estendeu. Longo demais para ser apenas casual. Como se ambos esperassem que o outro quebrasse o silêncio primeiro — mas nenhum deles o fazia.
Eles ficaram ali, no meio do pátio, a festa continuando ao fundo como um mundo distante. Só eles dois naquele intervalo em que o tempo parecia desacelerar.
baixou o olhar por um segundo. Depois o ergueu de novo, com um sorriso mais suave.
— Você quer voltar lá pra dentro?
a observou por um instante. A pergunta parecia simples, mas ele sabia que não era. Havia um peso disfarçado nela.
Ele negou devagar com a cabeça.
— Ainda não.
Ela assentiu, como se já soubesse. Então, ficou ali. Por perto. Sem o tocar. Sem se afastar.
E por um momento, isso bastou.


Capítulo 21 — Casualty


“But I'm not runnin'
'Cause something's comin'
It's only a matter of time
Let me out, set me free
I know all the secrets you keep”
— Casualty, Linkin Park
.

Já fazia alguns dias que tomava banho frio no minúsculo banheiro do ônibus de turnê. Não podia nem ao menos se enganar dizendo que a vida na estrada era assim mesmo. Não era. Não quando a gravadora tinha fretado um ônibus tão luxuoso quanto aquele para a nova queridinha deles. O banheiro poderia ser pequeno, mas estava longe de ser o problema.
O problema era a o mesmo de sempre. Tinha nome e sobrenome. E a porra de uma bunda que parecia chamá-lo dia após dia.
Mulher do capeta, era isso que ela era.
Quanto mais tempo passava com ela, mais azul suas bolas pareciam ficar. Porra, como ele sentia falta do seu espaço pessoal.
O fato de flagrar a guitarrista repetidamente durante o ato não ajudava em nada. só poderia ser algum tipo de ninfomaníaca. Não que não gostasse de sexo, ele gostava, ,muito. Mas não quando a sua mente pervertida insistia em imaginar aquilo com ela. Ele a odiava. Ao menos era o que ele teimava em dizer para si mesmo.
Por favor, ele era homem!
Um homem parcialmente congelado depois de mais um banho frio, mas ainda assim um homem.
E, como nos últimos dias, a lufada de ar gelado que o acertou no instante em que abriu a porta do banheiro foi o suficiente para fazê-lo se arrepender de cada pensamento sujo que já teve na vida. Porra, ele esperava que isso pelo menos servisse para alguma coisa.
Tremendo dos pés à cabeça, o vocalista cambaleou pelo corredor do ônibus, esbarrando em Kalil a caminho da sua cama.
— Você sabe que nós temos água quente, não sabe? — provocou o baterista, com um sorriso sacana.
— Eu não acho que isso seria uma boa ideia agora — murmurou , batendo os dentes de frio.
— Você deveria ter pegado aquela fã em Virginia — continuou Kalil, rindo. — Talvez fosse ajudar um pouco com esse mal humor todo.
— Nem tudo é sobre sexo, meu amigo — resmungou , revirando os olhos impaciente.
Kalil deu uma gargalhada.
— Bem, não pode ser sobre a , ela me disse que vocês estão se dando bem desde Vegas — falou Kalil. — Já era hora, vocês são dois competitivos filhos da puta.
— Ela te contou? — perguntou , desconfiado.
— Claro. Contou até sobre o show do Santana — respondeu Kalil, abrindo um sorriso. — Se eu soubesse que vocês iriam, teria levado a Cassie comigo.
— Eu duvido que fosse gostar disso — retrucou , arqueando uma sobrancelha.
— Nós só estamos nos divertindo, você sabe que eu não gosto de nada sério. E a Roni sabe também — disse o baterista, dando de ombros.
— Claro, Kalil, o que te fizer dormir a noite — o vocalista murmurou, sarcástico.
Casablanca soltou uma risada leve, mas havia algo no olhar dele — uma curiosidade que o vocalista preferia ignorar.
Aliás... — Kalil falou, como quem joga uma isca — O que tá rolando entre vocês dois?
parou no meio do movimento de se vestir, a camisa a meio caminho do ombro. Por um segundo, o silêncio entre eles pareceu mais pesado do que o ônibus inteiro.
— O que você quer dizer com isso? — retrucou ele, a voz mais defensiva do que pretendia.
O baterista ergueu as mãos, como quem não queria confusão.
— Relaxa, cara, eu não estou tentando dizer nada. Só estou fazendo uma pergunta — respondeu Kalil, com um sorriso no rosto.
puxou a camiseta com força, como se aquilo fosse resolver alguma coisa.
— Eu não sei o que ela anda te dizendo, mas pode ter certeza de que...
— Não precisa ficar na defensiva, — interrompeu Kalil, rindo de leve. — A Roni não falou nada. Ela é tão cabeça dura quanto você nesse ponto.
bufou alto, o corpo todo tenso.
— Foi mal, cara. Eu só... Tô com a cabeça cheia ultimamente.
Kalil deu de ombros, como se dissesse que aquilo era mais do que óbvio, arrancando do amigo um balançar de cabeça em silenciosa reprovação.
— Eu disse que você deveria ter pegado a loira — Kalil respondeu, apoiando o cotovelo no joelho, a postura relaxada demais para alguém que faz aquele tipo de pergunta. — Gozar um pouco não te faria mal.
— Será que a gente pode pular essa parte da conversa? — resmungou , já perdendo a paciência.
— Só não diga que eu não avisei... O vocalista parou o que estava fazendo e lançou para o amigo um olhar atravessado.
— Como você quiser — respondeu Kalil, dando de ombros.
Sem dizer mais nada, Casablanca se jogou na cama de , o observando com um sorriso curioso enquanto o amigo se vestia.
Pelo visto, o baterista não ia simplesmente deixar o assunto morrer.
soltou uma respiração pesada, derrotado.
— Tá... O que você quer saber? — perguntou ele, encarando Kalil.
Kalil deu um sorriso vitorioso, mas se conteve.
— O Tony comentou que vocês se divertiram no show — disse ele, casualmente.
— Sim, claro — respondeu , meio impaciente. — Mas e daí? Já vimos o Santana antes. Você sabe como é.
Kalil não respondeu de imediato. Deixou o silêncio trabalhar por ele, esperando que preenchesse o espaço vazio.
E quase deu certo.
O vocalista desviou o olhar, ajeitando a camisa como se ela fosse o maior problema do mundo. A verdade é que o show tinha sido bom. Bom até demais. E não só pela música.
Tinha sido pelas risadas fora de hora. Pela forma como tinha agarrado a mão dele durante Black Magic Woman, como se esquecesse que o odiava. Pelas trocas de olhares que ele se esforçava para ignorar. Pela forma como ela envenenou todo e qualquer pensamento dele.
Ele odiava admitir, mas ali, naquele show, ele não tinha se sentido tão sozinho quanto estava acostumado a se sentir.
— Então, nada demais, né? — insistiu Kalil, com uma sobrancelha arqueada.
deu de ombros.
— Nada demais.
Mas a maneira como ele disse isso fez Kalil sorrir como quem sabe exatamente o que está acontecendo — mesmo que ainda estivesse tentando se convencer do contrário.
O baterista abriu um sorriso travesso.
— Ele também disse que vocês dançaram juntos — comentou ele, como quem fala sobre o clima.
Maldito Anthony.
limpou a garganta, tentando disfarçar o desconforto, antes de forçar um sorriso folgado.
— La Rocha devia estar chapado para um caralho, eu e o cara estávamos a uns bons metros de distância — disse ele, dando de ombros.
Kalil soltou uma risada curta.
— Você está tentando me distrair — acusou o baterista, divertido. — Você e realmente dançaram juntos.
— Não tem nada de especial nisso — retrucou , impaciente. — A gente dança junto o tempo todo. No palco, nas festas, na casa de alguém quando ficamos doidos o suficiente.
— Não precisa se explicar, cara. Eu já entendi — respondeu Kalil, ainda sorrindo de canto.
Merda.
sabia que Kalil não tinha entendido. Ou pior, tinha entendido exatamente da forma errada. Do jeito torto que Tony vinha tentando enfiar na cabeça deles desde o dia que apareceu com aquele terno ridiculamente ajustado em todos os lugares certos na gravadora.
Merda. Merda. Merda.
— Só... Não entra na onda do Tony, beleza? — disse , tenso. — Eu não tô tentando furar o teu olho. Eu nem ao menos gosto dela.
Kalil ergueu uma sobrancelha, como se aquilo não fosse necessário, mas deixou falar.
— Tá tranquilo, velho. Eu não tô preocupado.
— Ótimo — o vocalista respondeu rápido demais. — Porque não tem nada. Nem nunca vai ter.
Kalil cruzou os braços, encostado na parede estreita do corredor, observando o amigo como quem vê um animal enjaulado tentando escapar.
— Cara... — começou ele, mais sério — Se tiver alguma coisa, tá tudo bem. Ninguém aqui é idiota. A gente entende.
riu sem humor, passando a mão pelo cabelo ainda úmido.
— Não, não tá tudo bem — disse ele, num tom tenso. — Porque agora você vai achar que eu quero comer a sua garota. E isso é errado pra caralho.
Kalil soltou uma risada baixa.
não é minha garota. Nunca foi.
O vocalista encarou o amigo por alguns segundos, como se quisesse ter certeza de que ele estava falando sério. E Kalil estava. Porra, ele não sabia como se sentia em relação à essa informação.
soltou o ar lentamente, sentindo a tensão nos ombros diminuir um pouco, mas não o suficiente.
— Seja lá o que for que esteja rolando... — continuou ele, a voz rouca de desgaste — Eu nunca faria isso com você. Nem com o Tony. Nem com o Gus. Eu não sou tão ruim assim.
Kalil sorriu, genuíno dessa vez.
— A gente sabe disso, .
O vocalista assentiu, engolindo o amargo que subia na garganta.
— Ainda bem — murmurou ele.
Kalil deu um passo à frente e bateu levemente no peito de com a ponta dos dedos.
— Estamos bem? — perguntou o baterista.
— Estamos bem, cara — confirmou , soltando o ar devagar.
O baterista soltou uma risada leve e acabou rindo junto, a tensão entre eles finalmente se dissipando.
— Certo — disse , erguendo as mãos em rendição — Talvez eu esteja mesmo precisando de um boquete.
— Você sempre pode pedir pro Tony — retrucou Kalil, com um sorriso sacana.
— De jeito nenhum eu vou brincar com os sentimentos dele de novo! — respondeu, rindo.
Kalil soltou uma risada e abriu a boca para retrucar, mas foi interrompido por uma batida tão forte na porta que parecia querer derrubá-la. Os dois se viraram ao mesmo tempo, quase como se tivessem coreografado aquilo.
— Vocês podem parar de se agarrar aí dentro? — gritou do lado de fora, a voz transbordando provocação.
fechou os olhos por um segundo, respirando fundo para não se deixar levar pela irritação.
Por que ela tinha que ser tão...? Tão.
— Um dia essa mulher ainda vai me deixar louco — resmungou ele, passando a mão pelos cabelos.
Casablanca nem ao menos teve a chance de fazer um comentário espirituoso. A porta se escancarou antes disso, revelando Tony, encostado no batente com a habitual despreocupação de quem nunca chega na hora errada.
— Vocês vêm ou querem que eu busque um buquê de flores pra oficializar o noivado? — perguntou o baixista, com aquele tom desgraçadamente divertido.
Kalil deu uma risadinha, já se colocando em movimento.
— Já estamos indo — disse ele, jogando um olhar de cumplicidade para .
O vocalista demorou um pouco mais, ajeitando a camiseta de qualquer jeito e descendo os degraus do ônibus com a expressão fechada.
Do lado de fora, estava parada de braços cruzados, sorrindo como quem sabia exatamente o quanto estava estava lhe dando nos nervos.
passou direto, ignorando o olhar dela como quem ignorava uma brasa acesa jogada no próprio caminho.
Sabia que, se trocasse qualquer palavra naquele momento, ia perder a pouca paciência que ainda lhe restava. Ou pior, o controle.
E, para ser sincero, ele não sabia se conseguiria lidar com outra guerra naquele dia. Nem mesmo com a falta dela.
respirou fundo enquanto caminhava pela calçada, sentindo o vento gelado da manhã atingir o rosto. A cidade ainda parecia meio adormecida, as ruas com aquele silêncio quebrado apenas pelo som distante de carros e o farfalhar de folhas secas empurradas pelo vento. A cafeteria estava logo ali, só mais uma esquina e uma porta de vidro com a promessa de bebidas quentes e o estranho conforto de um lugar que já vira muita gente passar sem pedir nada em troca.
Ao lado do baixista, liderava o caminho, com seu violão nas costas, jogando um olhar despreocupado para Kalil, que se distraía fazendo malabares com as baquetas. ficou um pouco para trás, quase como se quisesse garantir que ninguém o seguisse muito de perto. Estava começando a pensar demais.
Quando chegaram na porta do estabelecimento, ela se abriu sozinha, e o barulho do sino tocou levemente — aquele som familiar de lugar simples e sem pretensão. Dentro, o cheiro de café misturado com o som suave de uma máquina trabalhando no fundo fazia tudo parecer um pouco mais acolhedor, ainda que nada fosse realmente confortável.
Tony foi o primeiro a entrar, jogando um sorriso largo para o atendente, como se tivesse todo o direito do mundo de ser tratado como VIP. seguiu logo atrás, ajustando o violão em um gesto despojado. hesitou por um momento, observando as costas do baterista que andava a sua frente. O local estava vazio, com algumas poucas mesas ocupadas por pessoas que pareciam tão perdidas quanto ele, mas, ao mesmo tempo, mais tranquilas com suas rotinas comuns.
No momento seguinte, a guitarrista já estava se acomodando na mesa do canto, jogando o instrumento de lado, como se o lugar sempre tivesse sido seu.
seguiu até lá e se sentou, colocando sua caderneta sobre a mesa.
— Por que demoraram tanto? — cobrou , de braços cruzados e cara fechada.
— Nem foi tanto tempo assim — respondeu Kalil, dando de ombros.
— Eu já estava pronta há séculos. Minha maquiagem quase derreteu de tanto esperar — a guitarrissta bufou, dramática.
— Isso não aconteceria se você ficasse quieta por um minuto — provocou Tony, revirando os olhos.
— Olha quem fala — retrucou , arqueando uma sobrancelha.
, que tinha acabado de se acomodar, interrompeu, com um sorriso preguiçoso:
— De qualquer forma — ele lançou um olhar para a guitarrista. — Nós não temos nada a ver com o fato de você precisar tomar o seu banho primeiro por causa do seu cabelo, maquiagem, ou dos seus chifres.
lançou um olhar fulminante para ele.
— Muito engraçado, — disparou ela, sarcástica.
Ele apenas deu de ombros, divertido.
— Estamos aqui, não estamos? — disse o vocalista, sorrindo de canto.
Bem naquele momento, uma garçonete apareceu para anotar os pedidos. Assim que seus olhos pousaram em , ela pareceu congelar no lugar. Tinha uma franja curtinha pintada de verde e piercings espalhados pelo rosto todo. Se aquela garota não fosse uma fã, não saberia dizer o que era.
— Meu Deus, — ela conseguiu dizer, quase num sussurro.
Claro que ela era uma fã.
O vocalista respondeu com um sorriso descontraído, daqueles que só pioravam a situação. A garota piscava rápido, como se tentasse acordar de um sonho.
— Sim — ele disse, inclinando a cabeça para ler o crachá preso à blusa dela. — Lizzie, certo? Como você está?
Por um segundo, parecia que o cérebro dela tinha dado um curto-circuito.
— Eu... tô bem? Quer dizer... Merda, você tá aqui! — ela olhou ao redor, claramente tentando ter certeza de que aquilo não era uma miragem. Quando seus olhos bateram nos outros membros da banda, ela empalideceu. — Merda, vocês estão todos aqui.
Eles se entreolharam, rindo da reação.
— Que porra vocês estão fazendo aqui? — exclamou Lizzie.
Os quatro riram.
— Trabalhando — respondeu Kalil, erguendo uma baqueta como se fosse uma taça.
Lizzie, ainda sem acreditar, deixou o olhar correr pela mesa: viu as baquetas nas mãos de Kalil, o violão largado ao lado de , e o caderno cheio de rabiscos e letras na frente de .
— Caralho, vocês estão escrevendo o próximo álbum! — a atendente estava boquiaberta. — Eu posso tirar uma foto com vocês? Puta que pariu, eu preciso registrar esse momento.
riu alto, se divertindo com o entusiasmo.
— Claro, mas será que dá pra deixar pra depois que a gente terminar aqui? — sugeriu ela, gentil, mas firme. — Estamos tentando ser discretos.
— Claro, — Lizzie respondeu rápido, mordendo o lábio inferior para conter um sorriso que parecia querer rasgar o rosto dela. — Ah, merda, eu tenho que dizer. Você é o maior acontecimento do metal desde que Emily Armstrong entrou para o Linkin Park.
soltou outra gargalhada.
— Nem exagera — disse ela, acenando com a mão. — Não faz tanto tempo assim.
— Não, sério, você é foda, não ligue para o que estão dizendo na internet — insistiu Lizzie, com os olhos brilhando de admiração.
— Eu não ligo — respondeu , com um sorriso que parecia verdadeiro... Mas, por algum motivo, viu a rigidez em seus ombros, o aperto discreto no maxilar.
Ele franziu o cenho, observando-a em silêncio.
Algo nela dizia que não era bem assim.
Vê-la assim, tentando esconder a tensão por trás de um sorriso, apertou algo dentro dele que ele preferia ignorar.
Talvez ele estivesse errado. Talvez todos eles estivessem. Era fácil demais olhar para e vê-la como invencível — cheia de atitude, respostas afiadas e aquele jeito irritante de não abaixar a cabeça para ninguém. Só que agora, sentada ali na cafeteria, tentando parecer relaxada enquanto uma fã deslumbrada tentava animá-la, ela parecia mais humana do que queria admitir.
Ele passou a mão pela nuca, desconfortável.
Talvez devesse dizer algo. Fazer algum comentário idiota, provocar uma risada — qualquer coisa que a fizesse relaxar. Mas a língua parecia presa à garganta, pesada como chumbo, enquanto a garçonete, vulgo fã, falava, falava e falava.
Em vez disso, apenas anotou mais uma linha no caderno à sua frente, fingindo se concentrar em outra coisa.
Lizzie, ainda empolgada, anotou os pedidos com as mãos trêmulas: café preto para , chá gelado para Kalil, cappuccino com chantilly para Tony e um latte de baunilha com duas fatias de bolo red velvet para , que ainda parecia um pouco sem jeito.
rabiscou mais algumas palavras no caderno, mas nem sequer estava vendo o que escrevia. A sensação incômoda crescia no peito, como um nó.
— Ei, — chamou ele, sem erguer a cabeça.
, que distraidamente brincava com o canudo um canudo de plástico que tinha retirado do suporte da mesa, ergueu uma sobrancelha, desconfiada.
— O quê?
respirou fundo, expressando um tédio que ele definitivamente não sentia.
— Só queria avisar que, se você começar a chorar, a gente vai ser obrigado a dedicar o próximo álbum pra você — disse, com aquele sorriso torto que era quase uma marca registrada.
apenas o encarou por um segundo... E então riu também. Não aquela risada barulhenta e provocativa de sempre — mas uma risada pequena, verdadeira, quase aliviada.
— Merda, nós teríamos que recomeçar todo o processo criativo pra construir melodias para ela é tão bonita quando chora — Tony entrou na conversa, rindo também. — nunca te perdoaria, ele odeia esse tipo de som.
— Eu odeio — murmurou , assentindo com um meio sorriso.
— Pode ficar tranquilo, — ela respondeu, se recostando na cadeira. — Eu não vou arruinar a sua imagem de monstro insensível.
— Ainda bem — retrucou ele, piscando para ela. — Meu trabalho aqui é ser o babaca da banda, sabe como é. Não posso dividir o título.
balançou a cabeça, divertida, e voltou a mexer no canudo.
O clima na mesa pareceu finalmente relaxar um pouco.
não disse mais nada, mas, de canto de olho, continuou observando-a.
Só para ter certeza.
Ou, pelo menos, era o que ele tentava dizer a si mesmo.
ainda sorria, mas havia algo de distante naquele gesto. Mexia no canudo distraidamente, como se precisasse ocupar as mãos para não pensar demais. Ainda assim, o vocalista a observava em silêncio, atento aos detalhes que os outros pareciam não notar — o leve apertar dos lábios, o jeito contido de respirar.
E, por algum motivo, algo o fez voltar a falar.
— E se a gente usasse aquele riff que você tocou na casa depois que a foto de vocês dois vazou? — sugeriu, como se fosse uma ideia que tinha acabado de surgir. Mas, na verdade, ele já estava pensando nisso há algum tempo.
A guitarrista parou o que estava fazendo, os dedos ainda apertados em torno do pobre objeto. Ela o olhou com uma expressão indecifrável, os olhos escuros quase desafiadores.
— Você realmente está sugerindo usar algo que eu compus? — perguntou, a voz baixa, em um misto de provocação e incredulidade. Ela o observava com um olhar fixo, como se tentasse decifrar se ele estava brincando ou falando sério.
a encarou, sem desviar o olhar.
— Por que não? — ele respondeu com um sorriso de canto, tentando esconder o desconforto que sentia com o assunto. — Foi um bom som.
ficou em silêncio por um momento, largando o canudo frouxo sobre a mesa enquanto ela processava as palavras dele. O ambiente ao redor parecia calmo, como a calmaria que antecede uma tempestade.
— Eu fiquei pensando sobre isso — disse, a voz mais séria agora. — Fiz um arranjo que acho que vai combinar.
o observou enquanto ele se debruçava sobre a mesa para pegar o violão, seu olhar um pouco mais atento. Ele ajustou a posição do instrumento, os dedos já se posicionando nas cordas com familiaridade. Não era um improviso qualquer. Havia um propósito no jeito como ele tocou o primeiro acorde.
Quando começou a tocar, tudo pareceu desaparecer por um instante.
A melodia era simples, mas tinha algo de pesado, de profundo, espreitando entre um arranjo e outro. se recostou na cadeira, observando-o, o olhar dela se suavizando à medida que o som preenchia o ambiente.
Ele estava levando o tempo necessário para construir cada nota, quase como se estivesse tentando encaixar um pedaço de si na música. Cada acorde parecia ter sido pensado com cuidado, sem pressa, mas com uma leveza que envolvia quem o ouvia.
Quando ele terminou, ficou em silêncio por um momento, a respiração um pouco mais pesada, como se também tivesse se perdido naquilo. Enquanto parecia não saber o que dizer.
— Isso parece pessoal o suficiente pra você? — perguntou, a voz baixa, quase como se estivesse sondando algo mais profundo do que simplesmente a música.
A guitarrista ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos em enquanto ela refletia sobre o que ele poderia querer dizer com aquilo.
— Eu acho que isso poderia ser... Mais, se você deixar — ela disse, a voz mais baixa do que o normal, como se estivesse dizendo algo que não deveria.
franziu a testa, mas não desviou o olhar do violão. Ela sabia o que ele queria dizer. Sabia o que estava implícito naquela frase, mas não estava disposta a ceder a isso tão facilmente.
— Você sempre quer mais, — ele respondeu, com um sorriso torto, observando-a deslizar os dedos em direção à sua caderneta.
— Eu sou uma mulher de excessos — disse ela, com uma risada baixa, passando as páginas, como se estivesse procurando algo específico.
sentiu um frio na barriga. Ela não parecia estar apenas falando da música.
Ele sentia como se estivesse sendo avaliado, como se ela estivesse falando sobre ele sem dizer uma palavra. Mas, ao mesmo tempo, algo nele queria mais daquilo. Queria mais dessa atenção, queria saber o que ela realmente pensava. Mas ele não sabia como lidar com isso. Como lidar com o fato de que, em um simples gesto dela, ele estava se desestabilizando por completo.
Kalil, que estava observando a cena, riu baixo.
— Ah, , você está com a cabeça fora do lugar hoje, hein? — ele provocou, balançando a cabeça enquanto olhava para .
O vocalista não respondeu, apenas forçou um sorriso e continuou a tocar. Ele estava tentando não pensar no que Kalil tinha dito. Não queria pensar no que fazia com ele. Mas, enquanto os acordes saíam do violão, ele não conseguia mais esconder o fato de que a música ficou em segundo plano.
Um momento depois, virou o caderno para mostrar o que tinha escrito. Mas quando seus olhos encontraram os de , ela ficou parada por um instante, como se tivesse notado a intensidade do olhar dele. Algo no ar parecia ter mudado, mas nenhum dos dois se atreveu a mencionar. A conversa seguiu de forma forçada, como se ambos estivessem tentando esconder algo que não podiam mais ignorar.
Kalil e Tony trocaram um olhar, mas não disseram nada. Eles mereciam crédito por isso, porque estava mais do que claro que ambos estavam se divertindo em observar o silêncio desconfortável entre os dois.
— Então, o que acha disso? — finalmente perguntou, quebrando o silêncio, enquanto aguardava a resposta dele.
olhou para ela, o coração batendo mais forte do que deveria, e se forçou a encontrar palavras.
— Você quer escrever sobre o acidente? — ele perguntou, a voz rouca.
manteve os olhos fixos no caderno, a caneta parada por um instante, como se refletisse sobre a pergunta.
— Acho que combina com a melodia — ela respondeu, a tranquilidade em sua voz contrastando com o peso do que estava dizendo.
Tony, que estava mais distante, se aproximou um pouco, colocando-se ao lado de . Ele olhou por cima do ombro dela, observando as anotações no caderno.
— Parece bom — ele disse, com um tom de aprovação, acompanhado de um sorrisinho no rosto.
ofereceu a caderneta de volta para o vocalista com uma expressão séria no rosto. Quando ele folheou o objeto, seus olhos logo se fixaram em uma página marcada por uma partitura rascunhada, com linhas que pareciam desenhadas à pressa, mas com uma precisão quase obsessiva. Era a melodia que ele acabara de tocar — as notas cuidadosamente intercaladas com o riff que a guitarrista havia improvisado há algum tempo. E no meio disso, havia um esquema de marcas riscadas, como se fossem sinais de algum tipo de marcapasso musical, uma marcação de ritmo própria, única.
— Os screamors vão nos travessões, as setas marcam a crescente... — explicou com um olhar atento, como se estivesse explicando uma linguagem secreta. Cada palavra dela parecia carregada de um significado que não conhecia.
ficou ali, hipnotizado pelo modo como ela parecia dar vida àquela partitura, quase como se fosse capaz de ler o fluxo da música diretamente do papel, entendendo cada nuance. Ele a observou mais de perto, como se fosse a primeira vez que realmente notava o quanto ela se entregava àquele processo criativo. Ela não estava apenas compondo uma música; ela estava criando algo que refletia cada pedaço dela mesma, e não podia deixar de admirar isso.
— A melodia guia a letra... — ela murmurou.
Ele olhou para ela, agora sem tentar esconder o quanto estava fascinado. Ela estava ali, com uma leve concentração nos olhos e a mão sobre a caderneta, e ele sentiu uma onda de admiração — mais do que pela música, pela forma como ela parecia dar vida aos rabiscos no papel.
— Definitivamente não é o que eu esperava — falou baixo.
não pareceu se deixar abalar pela intensidade de sua admiração. Ela deu um sorriso discreto e passou a mão pela caderneta, ajeitando as páginas, mas sem tirar os olhos de .
— Eu não sou muito boa em fazer isso de forma fácil — ela disse, como se fosse algo óbvio.
— É por isso que as suas orelhas são tão grandes? — Tony perguntou, com um sorriso travesso enquanto observava .
Ela virou a cabeça lentamente, encarando Tony com uma expressão que misturava curiosidade e leve ironia.
— Vou tomar isso como um elogio — respondeu, arqueando uma sobrancelha e não se deixando abalar pela provocação.
Kalil e Tony continuaram com suas piadas, mas mal ouviu. Ele estava imerso na sensação de estar perto dela, mas ao mesmo tempo tão distante. Quando ela mexia no caderno, ou se ajeitava na cadeira, ele não conseguia evitar o olhar.
parecia tão calma, tão imperturbável. Era como se ela estivesse em outra dimensão, completamente fora do alcance de qualquer coisa que não fosse sua música. Ele a observava enquanto ela anotava mais alguma ideia, sua mão ágil, e a leveza de seus movimentos.
Ela olhou para ele de repente, talvez sentindo sua atenção, mas não disse nada. Apenas o olhou com aqueles olhos misteriosos, como se estivesse esperando que ele falasse alguma coisa. Algo em seu olhar o fez parar. Ele estava acostumado a manter a distância, a não se deixar afetar pelas pessoas ao seu redor, mas parecia ser a exceção. E isso o irritava mais do que ele gostaria de admitir.
— Você tem alguma sugestão para essa parte? — ela perguntou, interrompendo seus pensamentos. A voz dela era suave, mas tinha uma confiança que ele não podia ignorar.
Ele respirou fundo, tentando se recompor. Quando ele olhou para o caderno, parecia que estava tentando se concentrar na música, mas o que ele realmente queria fazer era se afastar daquela tensão crescente entre eles.
— Eu... — ele parou, sentindo um nó na garganta. — Eu acho que podemos adicionar um pouco mais de intensidade aqui. Um acorde mais pesado, talvez.
Ela assentiu, dando-lhe a oportunidade de continuar. Mas ele estava tão focado em cada movimento dela, em cada gesto simples, que mal conseguia se concentrar na melodia. Tony e Kalil estavam discutindo sobre como ajustar o ritmo quando o pedido deles chegou à mesa.
A música continuou, mas, para , tudo o que ele conseguia ouvir era o som do coração batendo mais rápido.


Capítulo 22 — Make Me Wanna Die


“You make me wanna die
And everything you love will burn up in the light
Every time I look inside your eyes”
— Make Me Wanna Die, The Pretty Reckless.


Todos os sentidos de estavam em alerta.
O sol castigava sem piedade, fazendo o asfalto brilhar como se estivesse prestes a derreter. O cheiro de cerveja derramada, comida de rua e suor pairava no ar. A música alta estourava nas caixas de som improvisadas, vibrando nos corpos que dançavam, riam, se empurravam.
Era impossível não se deixar levar. O ritmo, os corpos, os risos — tudo pulsava como se o mundo estivesse prestes a acabar naquela esquina, e todos soubessem disso.
A boca de se encontrou com outra. Não houve aviso. Nenhum flerte, nenhum convite. Foi um choque direto, elétrico, quase selvagem. Salgada pelo calor, a boca trazia o gosto amargo de cerveja quente, o defumado do cigarro e algo mais — uma carga intensa, algo que não era só físico. Era desejo denso, acumulado, talvez até raiva disfarçada de fome. As mãos do outro apertaram seu rosto com firmeza, como se quisessem sentir o osso por baixo da pele. A língua veio com pressa, sem elegância, apenas urgência. Descompassada. Sem dança, só colisão.
gemeu contra a boca alheia. Não de prazer — não só de prazer. Era o alívio de não estar pensando. De não estar lembrando.
Porque, embora seu corpo respondesse com precisão, sua mente estava longe dali. Vagava por entre a multidão, procurando aqueles olhos. Aqueles malditos olhos que o perseguiam até nos dias em que tudo parecia fazer sentido. O olhar que o fazia querer morrer, dia após dia.
Só de pensar nela...
Ficou sem ar. Literalmente. Precisou romper o beijo para respirar. Um segundo, talvez dois — o suficiente para Anthony jogar a cabeça para trás numa gargalhada escandalosa.
— Você nunca decepciona, porra! — disse o baixista, com aquele sorriso que parecia engolir o rosto inteiro.
riu também, sem muita convicção, enquanto afastava os fios grudados da testa. O suor escorria pelas têmporas e pelo pescoço, como se seu corpo também tentasse escapar de si mesmo.
— Aproveita, Tony. Esse circo só monta uma vez por ano — disse, tentando parecer despreocupado.
Tony fez um beicinho teatral, e não resistiu. Puxou o amigo pela nuca e mordeu seu lábio inferior devagar, quase com carinho, mas com uma intensidade calculada, como quem avisa: não se acostuma.
La Rocha fechou os olhos e riu, encostando a testa na dele, os dois suados, ruidosos, bêbados de tudo.
— Eu amo San Francisco — sussurrou ele, como quem faz uma confissão ao vento.
— Acho que eu preciso de outra bebida — respondeu com um riso rouco.
— Ou de algo mais forte — retrucou Tony, com uma piscadela que já dizia tudo.
— Você é tão aliado, — ouviu-se a voz bem-humorada de Kalil, vindo logo atrás deles.
e Anthony se viraram para vê-lo surgir no meio da multidão como uma miragem refrescante. O baterista trazia duas long necks mornas equilibradas em uma única mão, como se acumulasse grammys.
estendeu o braço, pegando as garrafas uma a uma, abrindo-as com o chaveiro preso no cós da calça. Entregou uma a La Rocha antes de beber um gole generoso da outra. Já não sentia mais o gosto de nada, mas o ritual ainda funcionava.
— Você devia tentar, sabia? — disse a Kalil, ainda com a garrafa nos lábios.
— Eu até poderia — respondeu o baterista, com um sorrisinho — Mas se eu me jogar na bagunça, quem vai cuidar de vocês?
A gargalhada dos dois veio rápida, descompassada, como se aquilo fosse realmente a piada do século. Talvez fosse. Ou talvez só fosse álcool falando por eles.
— A banda tem mais gente, você sabe disso, né? — provocou Tony, apertando os braços de Kalil como se fosse marcar território.
Kalil o abraçou de lado, rindo com gosto.
— Ela é tão refém desse feriado quanto vocês dois — respondeu ele, balançando a cabeça.
— E por falar nela... Cadê? — perguntou Tony, tentando recuperar o fôlego entre uma risada e outra.
não respondeu de imediato. Apenas virou o rosto para o lado, os olhos escaneando a multidão. Mas era inútil. A avenida parecia uma pintura viva: gente demais, cores demais, ruído demais. Tudo se misturava — bandeiras tremulando, corpos suados colados uns nos outros, glitter no ar como poeira cósmica. Se ela estivesse ali, teria desaparecido no caos. Ou, pior, ditado o ritmo, como sempre fazia.
Kalil deu de ombros, bebendo com a calma de quem já vira aquela cena antes.
— Eu não sei, ela estava rodeada de mulheres não tem muito tempo.
Tony riu.
— Só podia.
Mas permaneceu calado, a garrafa na mão quase esquecida. O nome dela não precisava ser dito. Bastava pairar no ar. Bastava o vácuo deixado pela ausência dela. Era como uma falha na música, um instante de silêncio entre os graves — ele sentia antes mesmo de saber que estava sentindo.
Tony o olhou de canto, parecendo perceber isso. Não precisava de muito para ler .
— Já vai começar, é? — disse ele, com um meio sorriso.
— Não tô começando nada — disse , seco, sem tirar os olhos do horizonte.
— Você nunca termina também.
soltou uma risada breve, quase sem som, e passou a mão na nuca. O suor escorria como se seu corpo estivesse tentando expulsar algo de dentro — uma febre, talvez o álcool.
— Ela nem deve lembrar que eu existo hoje — murmurou o vocalista, mais para si mesmo do que para os outros.
— Ah, claro — ironizou Tony. — Porque é possível esquecer o grande , rei dos palcos e dos dramas internos.
Dessa vez, a risada foi um pouco mais sincera.
— Vai se foder — disse ele, sem rancor.
— Depois de você, meu amor — respondeu o baixista com um brinde imaginário.
Kalil deu um gole longo, sacudindo a cabeça.
— Vocês são tão gays...
— Você é a minoria agora, mano — provocou Tony, com um sorriso.
— Segundo o , só por hoje — rebateu Kalil, piscando para o vocalista, que caiu na gargalhada.
— Então peraí — disse Tony, voltando ao assunto com a voz já carregada de malícia — Você deixou a cercada de mulheres e… Fugiu?
— Elas não pareciam muito interessadas no que eu tenho entre as pernas — respondeu Kalil, dando de ombros com a serenidade de quem já aceitou o destino.
riu.
— Então a sua solução foi abandonar a nossa guitarrista pirada sem vigilância?
— Ela nem é tão pirada assim — retrucou Kalil, com uma risadinha cúmplice.
— A gente literalmente implorou pra ela se comportar em Sacramento — lembrou Tony, apontando com a garrafa.
— E ela se comportou!
— Só porque estava ocupada testando a minha paciência — resmungou, revirando os olhos.
tem um ponto — Tony deu razão, balançando a cabeça.
— Merda — murmurou Kalil, resignado, bebendo mais um gole.
Os três riram juntos, um riso leve, quase infantil, como se o peso do mundo escorresse junto com a cerveja quente.
— Vamos ter que rever o seu salário, Kalil — brincou , dando um tapinha no ombro do amigo.
Kalil franziu a testa, pensativo por um segundo.
— Vocês acham que ela seria presa no meio da Parada?
— Se eu fosse você, deixava as notificações do celular ativadas — disse Tony, rindo.
— E se ela fizer merda, quem vai contar pro Doc é você — completou , apontando o dedo para Kalil como quem decreta uma sentença.
Kalil ergueu as mãos, rendido.
— Tá, tá…
— E ela é um problema de relações públicas ambulante — Tony emendou, dando outro gole.
— Um problema com talento — corrigiu , agora com um leve sorriso no canto da boca. — E isso é o que mais irrita.
O trio caiu no riso mais uma vez, e por um breve instante, o vocalista quase se permitiu esquecer dela.
Quase.
Mas a maré baixou rápido. E quando recuou, deixou o vazio exposto de novo — uma pressão no peito, silenciosa e insistente. Como uma corda fina amarrada entre as costelas, puxando para longe dali.
Ele lançou outro olhar pela multidão, varrendo rostos, cabelos coloridos, bandeiras vibrantes, corpos entrelaçados. Nada. Nenhum sinal dela. Mas ainda assim, ele sentiu.
O buraco.
A ausência.
A vontade.
— Eu vou ali… Ver se acho um banheiro — disse o vocalista, a desculpa soando esfarrapada até para ele mesmo.
Kalil arqueou a sobrancelha.
Banheiro. Claro.
Tony não disse nada. O que era um milagre, na verdade. Apenas tocou de leve no ombro do amigo, o gesto silencioso dizendo mais do que qualquer piada.
se afastou com passos lentos, como se cada um deles exigisse esforço. À medida que mergulhava de novo na multidão, sentia o mundo vibrar ao redor: risos, beijos, gritos, dança. Tudo vivo. Tudo pulsante.
Mas dentro dele, o silêncio era cada vez mais alto.
E mesmo que não soubesse exatamente onde ela estava, uma parte dele já se movia em direção a ela. Como se fosse inevitável. Como se, mesmo sem se verem, eles estivessem presos no mesmo fio — fino, cortante, impossível de romper.
O tipo de coisa que nem o orgulho, nem o álcool, nem o calor conseguiam apagar.
E então ele parou.
Não porque a viu.
Mas porque a sentiu.
Era um arrepio leve na espinha. Um silêncio entre uma música e outra. Um cheiro que atravessava todos os outros — doce, ácido, um pouco amargo. Inconfundível. Quase como uma provocação do destino.
virou devagar. Como quem teme confirmar o que o corpo já grita.
E lá estava ela.
.
Sentada na mureta de concreto meio grafitada, com uma garrafa de alguma coisa forte na mão e as pernas cruzadas como quem não tem pressa de nada. O cabelo preso de qualquer jeito, o delineado um pouco borrado — mas nem isso conseguia tirar a força da presença dela. parecia parte do cenário e, ao mesmo tempo, fora dele. Como se a cidade tivesse construído aquele canto só pra ela.
Ela não o viu de imediato. Estava ocupada demais rindo de algo que uma das garotas ao lado havia dito. Um riso seco, bonito, que explodia sem pedir permissão. O tipo de riso que conhecia. O tipo de riso que ela nunca soltava perto dele.
ficou ali por um momento, parado, observando. Podia ir embora. Fingir que não viu. Voltar para os amigos e para o álcool morno. Deixar a lembrança dela derreter junto com o asfalto.
Mas ela já estava dentro dele, como uma queimadura que nunca cicatriza direito.
Ela iria matá-lo sem nem ao menos tentar.
E então, como se o universo não permitisse esse tipo de solidão por muito tempo, uma voz familiar soprou ao seu lado:
— Encontrou o banheiro?
Tony.
não respondeu. Só continuou olhando.
Ela estava cercada. Gente demais, sorrisos demais, toques demais — e mesmo assim, era como se estivesse sozinha.
Ou esperando.
Os olhos dela, de repente, encontraram os dele. Como se sempre soubessem onde ele estava. E naquele instante, não houve choque. Nem hesitação. Só uma confirmação muda, serena, quase cruel:
Ah. Você está aí.
E ele estava mesmo.
Porque fugir dela nunca foi uma opção real.
?
O vocalista parou de fingir que não olhava quando percebeu que ela também o encarava. Ela tinha aquele olhar de sempre — afiado, faminto, perigoso. Nem um sorriso, nem um aceno. Só os olhos presos nos dele.
a olhava como quem reconhece uma fome que nunca matou. O calor grudava a roupa no corpo dela e realçava cada curva que ele nunca tocou, mas conhecia de tanto imaginar. E odiava o quanto ainda queria descobrir o resto.
Ele engoliu em seco.
— Você está comendo ela com os olhos — gritou Anthony ao pé do seu ouvido para se fazer ouvir no meio da barulheira.
se forçou a desviar o olhar e estreitou os olhos para o amigo.
— Eu não estou fazendo isso.
— Até Kalil já percebeu. E olha que ele mal presta atenção nas coisas — provocou o baixista, arqueando uma sobrancelha com aquele sorrisinho insuportável de quem sabe demais.
O vocalista soltou um suspiro impaciente, mas sem perder a compostura.
— Você não tem alguma viadagem pra fazer, não? — disparou ele com um meio sorriso cansado, tentando desviar o foco.
Tony apenas riu alto, impassível.
— O que poderia ser mais gay do que me meter na sua vida amorosa? — brincou ele, erguendo o copo num brinde imaginário.
Kalil apareceu do nada, como sempre, acendendo um cigarro com a tranquilidade de quem não estava nem aí — mas estava.
— Do que estamos falando? — perguntou o baterista, soprando a fumaça para o lado.
está com bolas azuis — Tony respondeu sem hesitar.
balançou a cabeça, mas não conseguiu segurar o sorriso.
— Eu não estou com bolas azuis.
— Você definitivamente precisa transar com alguém — Kalil acrescentou, como quem fala sobre o clima.
— Eu transei com a Jennie — rebateu , soltando um suspiro leve, mais de cansaço do que de impaciência.
— Há semanas atrás! — exclamou Tony, como se estivesse listando um problema grave de saúde pública.
rolou os olhos e tomou um gole da cerveja antes de retrucar:
— Eu não vou transar no ônibus só pra vocês poderem transar no ônibus.
Tony riu e piscou para ele.
— Sorte sua que estamos hospedados em um hotel pelo fim de semana então.
Kalil, sempre mais direto, inclinou a cabeça, estudando o amigo com aquele olhar tranquilo e atento.
— Nós sabemos que você está estressado com a composição do álbum — disse ele, num tom que era mais constatação do que cobrança.
suspirou, pressionando os dedos contra a ponte do nariz.
— Eu não estaria estressado se a não ficasse testando os meus limites.
— Está funcionando, não está? — Kalil ergueu uma sobrancelha.
não respondeu. Apenas bebeu mais um gole longo, deixando o gosto amargo da cerveja encontrar o amargor dentro dele.
— Você precisa relaxar — insistiu Tony, mais gentil dessa vez.
— Eu só preciso de algo mais forte — murmurou , sem se incomodar em disfarçar o cansaço. — Não precisam se preocupar comigo.
Tony sorriu de canto, malicioso.
— Você pode falar com a , então.
desviou o olhar, estreitando os olhos em direção ao amigo.
— Vocês dois já foram melhores.
Kalil deu de ombros, divertido, oferecendo um cigarro para o amigo que aceitou sem desmanchar a carranca ou ao menos murmurar um agradecimento.
— Ela gosta de fazer o corre — disse Kalil. — E os contatos sempre dão um agrado quando é ela que aparece.
soltou um riso baixo, sem humor, e balançou a cabeça.
— Claro que gostam — resmungou antes de deixar a cerveja de lado e desaparecer na multidão.
A música vibrava sob os pés. estava no meio da rua, agora dançando como se o mundo não tivesse pressa. O sol batia em cheio nos ombros dela, e o suor fazia a camiseta colar na pele como uma segunda camada. Ela girava devagar, os quadris acompanhando o ritmo pop com naturalidade preguiçosa, quase indecente.
respirou fundo, tentando resistir à visão hipnotizante à sua frente. Tinha as palavras na ponta da língua para abordá-la com alguma observação sarcástica ou simplesmente uma crítica infundada para chamar a sua atenção. Mas antes que pudesse decidir entre o impulso e o bom senso, alguém chegou primeiro.
Aconteceu muito rápido.
Num segundo, ele ainda pensava em atravessar a calçada. No seguinte, uma mulher já havia tomado o espaço entre eles — e não hesitou. Claro que não.
Ela deixou que a outra a puxasse pelo braço, e em vez de recuar, encaixou as mãos na cintura da desconhecida como se aquilo fosse habitual. Natural. Um gesto íntimo demais para ser novo. O sorriso que escapou dos lábios de — amplo, sincero, sem vestígio de sarcasmo — fez algo dentro de encolher.
Ele parou no meio do caminho, o cigarro esquecido entre os dedos. O som ao redor virou ruído, um borrão abafado de vozes, música e calor. Nada competia com a imagem que tinha diante de si.
riu. Não aquela risada seca e afiada que costumava oferecer a ele. Mas uma que parecia solta, limpa, quase bonita. A mulher à sua frente tocou-lhe o rosto, os dedos seguindo uma mecha de cabelo até prendê-la atrás da orelha com delicadeza demais.
desviou o olhar por um instante, como quem encara o sol por tempo demais. Era ridículo. Sabia disso. Não tinha direito algum de se sentir daquela forma — revirado por dentro, por causa do que ela fazia ou deixava de fazer. Eles mal se suportavam.
Ainda assim, o incômodo estava lá, queimando sob sua pele.
Quando voltou a encará-la, a guitarrista já o olhava de volta. Os olhos dela o encontraram com precisão. Não havia surpresa. Nem desconforto. Só aquele brilho firme, de quem reconhece a presença do outro. Nada mais. Nada menos.
E então a mulher puxou para um beijo.
não desviou o olhar dessa vez, mas sentiu a mandíbula se contrair. Era só um beijo. Ele já tinha visto com outras pessoas antes. Já tinha visto até demais. Mas havia algo naquela cena — na naturalidade dela, na falta de pressa, na forma como continuava linda depois do beijo — que bateu mais fundo do que ele gostaria de admitir.
O beijo durou apenas um instante antes de se afastar suavemente, como se não fosse nada demais. A expressão dela permaneceu tranquila, e, com um sorriso atencioso, ela dispensou a desconhecida com um aceno quase delicado. A outra mulher retribuiu o gesto, tocando de leve o braço de antes de desaparecer na multidão.
E então restou apenas ele.
ainda a observava, tentando decidir se ia dizer algo ou apenas virar as costas e fingir que não se importava. , por sua vez, ergueu uma sobrancelha, como se esperasse alguma reação dele.
O problema era que ele não sabia qual reação ter.
Pelo menos a guitarrista nunca pareceu precisar dele para fazer alguma coisa. Então ela se aproximou, passos lentos, calculados, com o mundo todo girasse ao seu redor.
E talvez girasse mesmo.
— Aproveitando o show, ? — disse ela, a voz nítida apesar do barulho, como se só falasse para ele.
forçou um sorriso enviesado, inclinando levemente a cabeça.
— O que eu posso fazer se você insiste em fazer uma performance?
Ele tragou o cigarro e o soltou entre os lábios, sem tirar os olhos dela. riu, aquele riso solto e debochado que sempre o deixava um pouco desarmado.
— Talvez eu seja uma exibicionista — disse ela, os olhos cintilando de diversão.
fez uma expressão engraçada, como se ponderasse a possibilidade.
— Não faz muito o meu tipo — provocou ele, franzindo o cenho divertidamente.
— E mesmo assim, você continua observando. Todas as vezes — ela chegou mais perto, pegou o cigarro dos dedos dele sem pedir, e deu uma tragada lenta, quase preguiçosa.
soltou uma risada curta, bagunçando o próprio cabelo num gesto distraído.
— Eu sou apenas um homem — o vocalista deu de ombros. — Nem mesmo o melhor de nós consegue desviar o olhar quando tem lésbicas envolvidas.
estreitou os olhos, a fumaça escapando entre os dentes num sorriso torto.
— Ah, eu amo bifobia recreativa.
— Sabe como é, eu sou um aliado — disse ele, erguendo as mãos em rendição.
Ela riu baixo, balançando a cabeça.
— Eu vi você sendo aliado com o Tony lá atrás.
— Eu disse — respondeu ele, dando de ombros. — Aliado.
arqueou uma sobrancelha, encarando-o com um meio sorriso curioso.
— Não sabia que você...
— Não é como se eu precisasse ficar falando — cortou ele, tranquilo. — Mas você conhece o La Rocha...
— Ele leva tudo ao pé da letra — completou ela, sorrindo.
— Isso.
— Aquele boiola!
— Homofobia recreativa é inevitável de vez em quando — brincou , com a voz embriagada de ironia.
Ela riu baixo, balançando a cabeça.
— Cuidado para não apanhar de alguma gay padrão com esses comentários. Eu adoraria ver uma das suas performances hoje.
pegou o cigarro de volta das mãos dela, tragando com calma.
— Eu já disse — murmurou ele, soltando a fumaça em espirais preguiçosas. — Nunca perdi uma briga.
cruzou os braços e inclinou a cabeça, examinando o rosto dele com olhos afiados.
— Isso porque nunca brigou comigo.
Ele soltou o ar pelo nariz, num riso baixo.
— Você acha mesmo que me venceria?
— Eu acho que seria humilhante pra você perder pra mim — ela se aproximou mais, o cheiro cítrico da pele dela se misturando ao de nicotina e cerveja.
a observou em silêncio. O sorriso dela era um convite e uma armadilha. Ele sabia. E, ainda assim, sempre caia.
— Se um dia a gente brigar de verdade, , eu não vou pegar leve.
— Nem eu — ela estreitou os olhos, a voz baixa, rouca. — Mas a gente sabe que a nossa briga não ia ser como as que você está acostumado.
O sorriso dele vacilou por um segundo. Aquilo atingiu fundo, num ponto que ele nem sabia que estava exposto.
Eles ficaram assim por um momento, apenas se encarando, as palavras não ditas pairando entre os dois como uma ameaça silenciosa.
Então, pegou o cigarro de novo. Simples assim.
— Acho que você me deve uma música, — disse ela, a voz rouca, carregada de fumaça e álcool.
soltou o ar pelo nariz, rindo de leve, recuou um passo.
— Acho que sim — ele estreitou os olhos. — Podemos fazer uma troca.
A guitarrista franziu o cenho, a diversão abandonando suas feições.
— O que você quer, ? — perguntou ela, a voz arrastada pelo álcool.
passou a língua pelos lábios, hesitante por um momento.
— Preciso de um favor.
inclinou a cabeça, desconfiada.
— E o que eu ganho com isso?
— A minha eterna gratidão — disse ele, forçando um sorriso cínico.
Ela riu, tragando o cigarro com calma antes de soprar a fumaça na direção dele.
— Ah, … Isso não paga minhas contas.
suspirou, arrastando a mão pelos cabelos, já se arrependendo de ter puxado assunto.
, eu só preciso de um sintético. Pode ou não pode me ajudar?
Ela não respondeu de imediato. Ficou ali, encarando-o em silêncio, os olhos semicerrados como quem calcula riscos, os lábios brincando com o canto da boca, distraída — ou fingindo estar.
Então deu um passo à frente. Rápido. Sem aviso. Ficou perto o bastante para que ele sentisse o calor que vinha dela e aquele cheiro cítrico misturado à nicotina que sempre a acompanhava, como uma marca.
— Por que não começou por aí? — disse ela, num tom baixo, quase íntimo. — Eu adoraria te ajudar com isso...
sustentou o olhar por um momento, depois arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— E o que você quer em troca?
inclinou a cabeça levemente, como se estivesse refletindo a sério, mas o brilho nos olhos denunciava a provocação.
— Em troca? — repetiu ela, fingindo surpresa. — Achei que nós fossemos... Amigos.
— Nós nunca poderíamos ser amigos.
— Por quê?
Ela não poderia estar falando sério.
— Não vem com essa — rosnou ele. — Eu posso conseguir com qualquer um desses drogados por aqui.
— Então por que você não vai? — retrucou ela, com uma sobrancelha arqueada.
bufou, cansado. Passou a mão nos cabelos e girou nos calcanhares, pronto para ir embora.
— Eu devia ter imaginado.
A risada dela o alcançou antes mesmo de dar dois passos. Depois, a mão puxando seu braço com firmeza.
— Que pena do astro do rock estupidamente famoso! — zombou ela, sem soltar o braço dele.
... —ele advertiu, num tom baixo.
Ela sorriu. Aquele sorriso que ele passou o dia inteiro tentando evitar. E isso o desmontou por completo.
— O que vai ser? — perguntou ele, derrotado.
Ela ficou séria, por um segundo apenas.
— Eu quero um dueto.
Ele piscou, lento.
— Você não pode estar falando sério.
— Eu estou.
Ele hesitou, os olhos presos nos dela. Havia algo ali — provocação, sim, mas também um desejo verdadeiro, incômodo, quase apreensivo.
— Não precisa entrar pro álbum — insistiu ela.
— Você não me engana — disse o vocalista, cruzando os braços em uma postura defensiva. — Eu sei que você quer um single.
— Não vou mentir...
fechou os olhos por um momento. Suspirou. E então estendeu a mão, com a palma aberta entre os dois. Implorando mentalmente para que ela entendesse o recado. Dizer em voz alta era demais.
deu uma risadinha e enfiou a mão no bolso da jaqueta surrada. Tirou uma pequena pílula envolta num pedaço de papel dobrado e a depositou na mão dele com uma delicadeza quase teatral.
— Obrigado — murmurou ele, fechando a mão em torno do comprimido.
— Você pode passar no meu quarto mais tarde — foi tudo o que ela respondeu.


Capítulo 23 — Killpop


“Her canvas doesn't leave a lot to fantasy
But her peace of mind can't stay inside the lines
It's so confusing, the methods that she's using
She knows she shouldn't leave a mark that I can see”
— Killpop, Slipknot.


estaria mentindo se dissesse que não passou o resto do dia esperando ansiosamente pela volta ao hotel.
Desde o momento em que tomou a pílula, algo não parecia certo. Não veio a euforia prometida, nenhuma explosão de prazer, nem a leveza que ele tanto desejava. Em vez disso, foi como acender um incêndio dentro do peito — ansiedade, pura e crua, correndo pelas veias, fazendo cada minuto parecer um teste de resistência mental.
Ele caminhou pelos corredores do hotel como quem atravessa um campo minado. O suor colava a camisa à pele, os pensamentos zuniam alto demais, e tudo nele gritava que algo o esperava dentro daquele quarto. Algo inevitável. Algo que ele talvez não estivesse pronto para encarar.
E, no fundo, ele sabia o que era.
O problema nunca foi a droga.
Era ela.
Onde estava com a cabeça quando aceitou aquela porcaria de convite? A bala nem era tão boa assim!
O vocalista parou diante da porta como quem encara uma sentença. As mãos tremiam — não de medo, mas de uma tensão antiga, mal resolvida, que parecia viver e respirar toda vez que entrava em cena.
Por que estava tão nervoso? Era só um quarto. Só uma mulher. Só .
, com a língua afiada como uma lâmina e olhos que sabiam demais.
, que fazia questão de lembrá-lo de cada erro, cada falha, cada provocação, cada sentimento ruim que já sentiu.
, que ele odiava um pouco menos toda vez que a via, e isso o deixava louco.
respirou fundo, como quem se prepara para um mergulho em águas profundas, e girou a maçaneta.
A porta se abriu com um rangido discreto, mas o que viu do outro lado gritou alto o suficiente para calar qualquer pensamento racional.
Ela estava de costas, seminua, debruçada sobre alguém — ou algo, ele não soube dizer. O que importava era a curva provocante do corpo, o contorno da cintura, e aquela maldita bunda empinada, firme e insolente, como se tivesse sido desenhada para humilhar qualquer tentativa de autocontrole.
Por um segundo, esqueceu como se respirava.
A mente — antes acelerada — parou de vez.
E tudo o que restou foi o som do sangue pulsando nos ouvidos.
Merda praguejou, a voz engasgada entre os dentes. No instante em que pisou no quarto, soube que tinha cometido um erro. Um erro enorme. Estúpido. Patético.
Mais uma vez…
— Desculpe, — disse sem se virar, a voz carregada de preguiça e provocação. — Eu quis te esperar, mas a Mia estava um pouco… Impaciente.
Ele mal registrou o nome que ela jogara no ar. Estava ocupado demais tentando convencer o próprio cérebro de que aquilo era real.
— Eu… Eu deveria ter batido na porta... — murmurou , num tom quase infantil, o desconforto o fazendo coçar a nuca como um garoto pego espiando por uma fechadura.
— Por quê? — retrucou , olhando-o por cima do ombro com aquele meio sorriso que ele conhecia bem: arrogante, venenoso e terminantemente perigoso. — Você nunca bate mesmo.
piscou, atordoado. Ainda devia estar chapado. Só podia estar muito louco mesmo. Porque nem nos delírios mais absurdos causados pelas substâncias que consumira — e olha que não foram poucos — teria previsto ouvir aquelas palavras vindas da boca dela daquele jeito.
Não que ele tivesse fantasiado com algo parecido… Bom, talvez tivesse. Talvez frequentemente. Mas aquilo? Aquilo estava além de qualquer roteiro sujo que sua mente ousara criar.
Ele deveria estar entendendo tudo errado. Mas por que caralhos ela estaria esperando por ele vestindo aquela lingerie obscena?
Porra.
sentia os pés grudados no chão, como se o carpete tivesse se transformado em areia movediça. O choque era tão completo que ele mal conseguia piscar.
— O que foi, ? — provocou , agora engatinhando lentamente sobre o colchão como uma felina preguiçosa, deliberada, letal. — O gato comeu sua língua?
E pensar que aquelas foram as primeiras palavras que ela disse a ele quando se conheceram...
engoliu em seco. Uma, duas vezes.
Patético. Era isso que ele era. O vocalista de uma das maiores bandas da atualidade, rendido por uma mulher que vivia para torturá-lo.
— Qual é, … — disse ele por fim, tentando parecer mais firme do que realmente se sentia. — Você não quer jogar esse jogo.
Ela se ergueu então, ficando de pé diante dele, e o mundo pareceu encolher. estava perto demais para o próprio bem dela.
não moveu um músculo, se parasse para pensar realmente, duvidava que até mesmo estivesse respirando.
Tudo o que ele pode fazer sem que tudo explodisse de uma hora para a outra era encará-la a alguns bons centímetros abaixo de distância e ainda assim muito mais próxima do eles já estiveram antes.
E ainda assim, ele não se afastou.
— Não sou eu quem está criando desculpas — sussurrou ela, com um sorriso malicioso que beirava o indecente. Era uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo. Um pecado pronto para ser cometido.
abriu a boca para retrucar, mas parou.
Ao invés disso ele sentiu.
Um toque.
Leve. Quase imperceptível. Mas real.
Os dedos dela em seu abdômen, frios e calculados como um primeiro gole de uísque em noite de autodestruição.
E foi nesse instante que ele percebeu:
Ou dava um passo para trás…
Ou se perderia de vez.
fechou os olhos e inspirou fundo.
Imediatamente, foi invadido por um aroma cítrico — vivo, insinuante — misturado ao cheiro inconfundível de nicotina que sempre parecia envolver como um véu invisível. Naquele quarto abafado, envolto pela penumbra e pelo torpor de uma tarde entregue ao descontrole, o cheiro dela o atingiu como um soco no estômago.
Não teve a menor chance contra os arrepios que se espalharam pelo corpo, como se sua pele tivesse reconhecido o perigo antes mesmo da mente.
Merda.
Quando abriu os olhos de novo, viu as unhas vermelhas de deslizando pelo seu torso, desenhando linhas suaves com uma precisão quase carinhosa — algo que ele jamais teria esperado dela. Era um toque doce, sim, mas também cruel. Porque aquilo era ela. não dava nada sem antes cobrar o triplo em tormenta.
mordeu o lábio inferior, tentando conter a pergunta que queimava sua garganta, mas foi em vão.
Não havia como fingir que aquele toque não o estava levando à beira.
E então ela o tocou ali.
Uma pressão lenta, vagarosa, por cima da calça. Uma carícia disfarçada de ataque.
Todo o seu corpo reagiu em um rompante. Calor, tensão, desejo e raiva — tudo junto, explodindo sob a pele como se o estivesse devorando de dentro para fora.
mal conseguiu conter o gemido que ameaçava escapar.
— O que você pensa que está fazendo? — sussurrou ele, rouco, a voz vibrando como um fio esticado prestes a arrebentar.
— Você quer mesmo que eu diga? — rebateu ela, com aquela voz baixa, provocante, como se estivesse se divertindo com o desespero dele.
Os olhos dele se fixaram nos dela, agora sombreados por algo mais denso, mais escuro.
Era desejo, sim — mas não parecia só isso.
— Me mostre — disse ele por fim, a respiração entrecortada, como um desafio embebido em rendição.
O olhar de se tornou uma promessa silenciosa.
Ela abaixou os olhos, quebrando o contato visual com um gesto quase teatral, e levou as mãos até o cós da calça dele. Desabotoou o primeiro botão com uma lentidão infernal, depois o segundo, e então o zíper, que desceu como uma sentença anunciada.
sentia cada deslizar proposital dos dedos dela como se fossem brasa sobre sua pele.
Nada em era apressado. Nada era simples. Ela sabia o que fazia, e fazia questão de prolongar cada maldito segundo.
A calça finalmente escorregou por suas pernas, caindo ao chão com um som abafado que pareceu explodir como uma bomba dentro daquele silêncio saturado de tensão.
Claro que ela não iria direto ao ponto. Nunca.
Mas quando o olhar dela voltou a se prender ao dele, soube — com uma clareza quase dolorosa — que não aguentaria muito mais daquilo.
Não com ela olhando daquele jeito.
Como se o desejasse.
Não só com o corpo, mas com a alma inquieta, carregada de toda aquela energia caótica que era tão característica dela.
Como se estivesse esperando por esse momento há tanto tempo quanto ele.
E ele esperava. Porra, como esperava.
Só não dizia. E não diria nunca.
Mas também não precisava. Aquilo devia estar estampado na cara dele, como parecia estar na dela.
Com a respiração curta, umedeceu os lábios e levou uma das mãos até a nuca de . Os dedos se enroscaram nos fios escuros quase com reverência, e ele a puxou com firmeza. Um impulso puro, cru, inevitável.
Ele mal podia acreditar que ia fazer isso.
Ia…
Mas no último segundo, antes que seus lábios se encontrassem, ela desviou.
Ao invés disso, os lábios dela tocaram o canto da boca dele — naquele gesto perverso — exato, preciso, enervante.
Como na festa de Halloween.
Como no show do Santana.
Sempre quase. Sempre por um fio.
E, por algum motivo, aquele maldito beijo no canto da boca acendeu algo bem no centro do peito de — um incêndio antigo, que ele já havia tentado apagar vezes demais.
Impiedosa, começou a distribuir beijos úmidos ao longo da mandíbula dele, explorando com paciência, como se cada centímetro tivesse sido reservado exclusivamente para ela.
Quando chegou ao pescoço, fechou os olhos sem conseguir evitar, se entregando por completo à onda de arrepios que tomou conta de seu corpo como se uma corrente elétrica corresse sob sua pele.
Ela só parou quando quis. Quando achou que já bastava.
Então, sem aviso, puxou a camisa dele pela cabeça e a lançou em algum canto do quarto.
Não sorriu.
Mas aquele olhar...
Porra, aquele olhar.
Era desafio.
Era desejo.
Era tudo, menos brincadeira.
E ele entendeu. Ela não estava provocando. Estava saboreando.
E, inferno, apenas o diabo sabia o quanto ele queria fazer o mesmo.
Que se fodam todos, ele faria isso.
Deixou que o desejo assumisse por completo, as rédeas, o controle, a razão.
Agarrou a cintura dela com força, puxando-a contra si, colando seus corpos em um encaixe brutal. Sentia o ventre dela contra sua ereção, rígida e latejante. Ele estava duro para um caralho.
enterrou o rosto no pescoço de , inalando fundo aquele perfume cítrico com resquícios de cigarro — o cheiro dela, maldito e inconfundível. E então ele quis mais.
Ele quis ouvir aqueles sons sujos que só ela sabia fazer. Aqueles sons que os assombravam nos seus mais terríveis pesadelos.
Com a língua, desenhou um caminho lento e firme pela pele do pescoço dela, sentindo os arrepios, o estremecer involuntário, a forma como o corpo dela se entregava mesmo quando a mente ainda tentava fingir controle.
jogou a cabeça para trás e ele quis morder. Quis marcar. Quis perder o juízo. Inferno, ele faria um estrago naquela pele delicada dela e ainda assim não seria o suficiente.
E então ouviu:
… — o nome dele escapou dos lábios dela em um sussurro quebrado, quase um soluço de prazer.
Apenas aquele som foi suficiente para que suas bolas doessem em desejo.
Porra, ele estava no limite.
inspirou fundo, o rosto ainda enterrado na curva do pescoço dela.
— Sim?
Ela se afastou um pouco, só o suficiente para encará-lo.
Os olhos estavam completamente dilatados, escurecidos pela luxúria mais pura — crua, urgente.
— Por favor, pare — disse ela, ofegante. — Eu quero sentir você.
Puta merda.
Aquilo.
Aquilo foi sexy pra caralho.
Mas antes que pudesse responder, um som os interrompeu: uma risada baixa, divertida.
virou-se casualmente para olhar por cima do ombro, em direção à cama.
A tal da Mia ainda estava ali, reclinada entre os lençóis, observando os dois com um olhar curioso e, de certa forma, faminto.
— Acho que a Mia também quer brincar — disse , sorrindo com aquele brilho travesso nos olhos e os lábios vermelhos comprimidos numa expressão de falsa inocência.
passou a mão pelos cabelos, tentando se manter minimamente funcional em meio ao caos de estímulos.
Merda, essa mulher ainda ia matá-lo.
— Eu sempre quero — disse Mia, com a voz doce, mas carregada de algo mais denso, quase hipnótico. Sensualidade envolta em mistério.
voltou a encará-lo, agora mais perto do que antes, e com a voz baixa, quase um sussurro contra sua boca, perguntou:
— O que você acha, ?
A pergunta ficou suspensa no ar como uma sentença.
a encarou por um instante que pareceu mais longo do que foi.
As bochechas dela estavam coradas pelo calor do momento, a pele ainda cintilava com resquícios da purpurina espalhada no evento da tarde, e a lingerie — vermelha, drapeada, maldita — revelava só o suficiente para torturá-lo.
Mas então ele desviou o olhar.
Mia.
Deitada entre os lençóis sorria como um predador que observava a sua próxima refeição.
Mais abaixo, os dedos dela se moviam com precisão sobre a sua própria intimidade, sem pressa, sem vergonha. O cabelo laranja queimado se espalhava como fogo pelos travesseiros, e seu peito subia e descia sob um sutiã chamativo, quase cômico — se não fosse tão absolutamente indecente.
Aquela visão fez um arrepio atravessar o corpo de .
Sem pensar, apertou mais forte a cintura de , como se aquilo pudesse conter o que estava prestes a explodir dentro dele.
Ele suspirou, a cabeça girando entre estímulo e desejo bruto.
— Vou entender isso como um sim — murmurou com um sorriso, antes de morder o lábio inferior, satisfeita.
Com um dedo, ela fisgou o elástico da cueca dele e começou a andar de costas em direção à cama, guiando-o com os quadris balançando como um convite vivo. O toque das mãos dele ainda na cintura a fazia parecer uma extensão dele — uma fantasia em movimento.
Quando sentiu as pernas baterem contra a cama, se sentou sem desviar os olhos, ficando cara a cara com a ereção dele, ainda pressionada contra o tecido da boxer.
Ela passou a língua pelos lábios e disse com um tom quase doce:
— Parece que você está precisando de um pouco de atenção…
Os cílios dela, pesados da maquiagem borrada, criavam uma sombra nos olhos que só deixava tudo mais perigoso.
E então veio a voz de Mia, lá do fundo, como um lembrete ardente:
— Anda logo com isso, … — suspirou ela. — Ele está tão quietinho.
Então esse era o jogo delas.
riu baixo, o som abafado e perverso.
No instante seguinte, sua mão envolveu o volume dele por cima da cueca.
fechou os olhos com força e inspirou fundo, o prazer lhe rasgando por dentro como um incêndio controlado.
Os dedos dela se moveram com domínio, quase lentos demais.
Quase.
A pressão aumentava, ritmada, certeira.
Ele sentia as bolas se contraírem, o corpo inteiro tenso como uma corda de guitarra recém afinada.
— E quanto a vocês duas? — murmurou ele, a voz rouca, baixa, entrecortada.
Olhou para , depois para Mia — bem a tempo de ver os dois dedos dela penetrarem sua própria intimidade sem cerimônia, sem piedade.
Caralho.
E então começou a masturbá-lo sobre o tecido.
Com firmeza.
Com precisão.
Com aquela cara de quem sabia exatamente onde e como apertar.
se agarrou à beirada da cama, os músculos das coxas se contraindo involuntariamente.
O corpo inteiro fervia.
Mas ele queria mais.
Precisava mais.
A boca estava seca. A mente, um borrão.
Aquelas duas iriam acabar com ele.
moveu a mão, instintivamente, para cobrir a de sobre seu pau — queria mais, queria conduzir o ritmo, intensificar a pressão. Mas no instante em que sua pele encontrou a dela, ela parou.
Simples assim.
Ele franziu o cenho, confuso, ofegante, os olhos fixos nos dela em busca de explicação.
apenas o encarou de volta com uma sobrancelha arqueada em desafio e um sorrisinho malicioso nos lábios.
suspirou, frustrado, mas vencido.
Apertou a mão de ambos ao redor de sua ereção com um único movimento lento e arrastado — um pedido mudo, um reconhecimento involuntário da autoridade dela.
Depois, afastou a mão, levando-a até os cabelos já úmidos, que grudavam em suas têmporas.
— Parece que ainda não é o suficiente — provocou Mia, a voz embargada pelo desejo.
— Eu só estou começando — devolveu , com deboche. E até isso, porra, até isso soava sensual demais.
Então ela deslizou as unhas longas da cintura dele até as coxas, traçando um caminho que arrepiou cada poro de sua pele. No mesmo gesto, puxou para baixo sua última peça de roupa.
A cueca caiu, e uma brisa fria do ar-condicionado tocou sua pele exposta, fazendo seu pau pulsar em resposta.
Ele estava completamente vulnerável.
Completamente exposto.
Completamente à mercê dela.
Os dedos esguios de envolveram seu membro com uma precisão quase cruel. O toque dela era frio, e o contraste com o calor de seu corpo fez um arrepio violento subir por sua espinha. Tudo o que pode fazer foi fechar os olhos, jogando a cabeça para trás ao soltar o ar vagorosamente.
Porra, aquilo era bom.
Mas nada se comparava à pressão sutil e intencional que ela aplicou em seguida, apertando-o levemente entre os dedos, como se afinasse um instrumento.
Um suspiro escapou dele, audível, incontrolável.
Foi então que ele sentiu.
Um calor atrás de si.
Uma presença.
Lábios.
Macios, carnudos.
Beijando suas costas com lentidão pecaminosa.
As mãos da ruiva surgiram logo em seguida, curiosas, vorazes.
Enquanto continuava com seus movimentos torturantes, Mia explorava a extensão das costas dele, descendo pela lombar com unhas leves como garras silenciosas até alcançar o abdômen contraído, os músculos tensionados sob o toque dela.
não conseguia respirar direito.
O prazer o invadia por todos os lados, como maré alta.
E ele mal conseguia segurar a onda.
intensificou o ritmo.
O toque dela agora era firme, decidido, como se estivesse ensaiando uma música que conhecia de cor.
Ela o tocava como se tocasse seu instrumento favorito: com domínio, com paixão, com fúria.
sentia as pernas ameaçarem fraquejar conforme as contrações em seu estômago se intensificavam. Cada movimento dos dedos dela o empurrava mais fundo no abismo do prazer.
E a ruiva — inferno, Mia — arranhava sua pele com unhas afiadas, enquanto o provocava com sussurros inaudíveis, respiração quente e o perfume adocicado que já se misturava com o de em seu pulmão.
O corpo inteiro de parecia feito de tensão.
Cada nervo, uma corda prestes a arrebentar.
Ele estava duro como nunca.
Ele estava rendido.
E as mãos da guitarrista, seguras e autoritárias, continuavam a compor sua melodia brutal sobre ele.
Mas antes que ele pudesse se entregar ainda mais àquela tempestade de sensações, sentiu o toque de desaparecer.
O movimento cessou.
A respiração dele se quebrou em uma lufada densa, e a cabeça tombou para frente, pesada, exausta de tensão. Seus olhos buscaram os dela com urgência — confusão, necessidade, puro desespero estampado em cada linha de seu rosto.
Por um segundo, ele achou que estivesse delirando.
Talvez tudo aquilo fosse mais um daqueles sonhos absurdos que o deixavam suando durante a madrugada.
Só poderia ser.
Porque estava ali, ajoelhada à sua frente, com aquela boca suja perigosamente perto do seu pau.
E o mundo simplesmente parou de fazer sentido.
Ele não conseguiu se mover.
Não conseguiu falar.
Ficou apenas ali, observando a cena que teria vendido a alma para viver.
Ela estava sentada sobre os calcanhares, os olhos cravados nele sob os cílios carregados daquele rímel borrado, escuros como pecado. As bochechas coradas, a boca entreaberta em um sorriso enviesado que não era exatamente um convite — era uma condenação.
não desviou o olhar.
Não conseguia.
E, se fosse ser sincero, nem ao menos queria fazer isso.
As mãos dele se moveram sozinhas, como se estivessem conectadas a um instinto primitivo e silencioso. Alcançaram o rosto dela com uma delicadeza que o surpreendeu. Ele passou o polegar sobre a bochecha quente dela, e fechou os olhos, inspirando profundamente como se estivesse absorvendo o toque.
O ar que saiu de seus lábios tocou a pele sensível da cabeça de seu pau — e estremeceu.
Ela se inclinou contra sua mão, buscando mais do toque. Ele sentiu os dedos afundarem na pele macia da bochecha dela, e ela tremeu.
A boca dela estava tão perto.
Tão malditamente perto.
Ele a encarou.
Um anjo caído aos seus pés, feito de provocação, beleza e ruína.
era tão estupidamente linda que o deixava sem fôlego.
Ela poderia ser o seu fim.
E, por um momento, ele quis isso.
Quis ser completamente destruído por ela.
Quando abriu os olhos e encontrou os dele, sentiu o chão sumir.
poderia levá-lo a qualquer lugar com aqueles olhos.
Ele sabia disso.
E talvez ela soubesse disso também, porque, no instante seguinte, ela umedeceu os lábios e inclinou a boca em sua direção.
O primeiro toque foi como o apocalipse.
A sensação da boca quente e molhada de se fechando em torno da cabeça de seu pau quase o fez cair de joelhos.
— Merda, … — gemeu, rouco, entorpecido, os olhos cravados nela como se fosse a única coisa que ainda o prendia à realidade.
Naquele momento o nome dela se tornou o seu novo xingamento preferido.
sorriu com o pau dele ainda entre os lábios, e o calor daquilo quase o fez perder o controle.
Ela era quente. Quente como o inferno.
E ele estava indo direto para lá sem pensar duas vezes.
deixou os dedos deslizarem do rosto dela até a nuca, onde se emaranharam nos cabelos escuros, à medida que ela o tomava mais fundo na garganta.
Ela o engolia com cuidado, com empenho.
E quando tentou levá-lo mais fundo, ele sentiu a garganta dela se fechar ao redor da sua ereção.
Ela engasgou — e mesmo assim não recuou.
apertou o cabelo dela em resposta, permitindo seus olhos girarem nas órbitas pela onda de prazer que se espalhou pelo seu corpo.
Ele estava tão fundo na boca dela...
Ela o engolia como se o desafiasse, como se quisesse ver até onde ele aguentava.
E então, com a mesma calma perversa de sempre, o soltou.
A boca se afastou devagar, provocando um atrito arrastado e torturante. O movimento tão instigante quanto satisfatório.
O ar frio da meia-luz tocou a pele molhada do seu pau, e ele mal conseguiu processar o choque de temperatura antes de vê-la sorrir de novo.
Aquele maldito sorriso.
O mais doce mau presságio que ele poderia testemunhar.
— Porra, … — murmurou ele, sem ar, com a certeza gravada nos ossos de que queria todas as maldições que ela podia invocar.
apertou com firmeza a base dele, sustentando o olhar de como se nada mais existisse entre os dois.
A aproximação foi lenta, carregada de intenção. Ela lambeu toda a extensão dele como quem demarca um novo território. Cada movimento da língua sobre ele parecia estudado, preciso — como se ela quisesse absorver não apenas o gosto, mas cada mínima reação do vocalista, como se observá-lo fosse parte do prazer.
Como se apenas senti-lo não fosse o suficiente.
Desceu por ele com a língua, provocando um arrepio involuntário que percorreu a espinha de . E então subiu de novo, molhando toda a trilha com beijos e toques quentes, até alcançar a ponta sensível — onde parou apenas para encará-lo mais uma vez, os olhos escurecidos pelo desejo.
Quando o tomou na boca de novo, o gesto foi deliberado, profundo, cheio de domínio.
soltou o ar em um gemido rouco, o corpo inteiro tenso, os olhos fixos nela. O rosto de , transformado pelo esforço e pela entrega, era mais do que excitante — era hipnotizante.
A boca dela era tão apertada.
Cada investida era uma tortura deliciosa, uma promessa de que ela poderia quebrá-lo a qualquer momento.
Ele sentia a língua dela firme, arrastando-se com precisão contra o ponto mais sensível de seu corpo. Os lábios de envolviam-no em um ritmo constante, marcado, que fazia o ar se tornar rarefeito ao redor. Cada novo movimento era mais fundo, mais intenso, como se ela estivesse decidida a levá-lo até o limite — e então ultrapassá-lo.
podia sentir a língua dela, pressionando-o contra o céu da sua boca. Os lábios dela brilhavam cada vez mais pelo movimento repetitivo de vai e vem ao redor da sua ereção que já começava a latejar. o chupou com força, fazendo a cabeça do seu pau doer em resposta.
Ele queria fodê-la desesperadamente.
Foi quando ela aprofundou ainda mais o movimento, masturbando-o com a ajuda da mão pada estimular toda a sua extensão. A sucção de era quase agressiva e o vocalista pode sentir a tensão do orgasmo começar a se formar sob sua pele.
Porra, ele iria fazer uma bagunça.
Mas ele não poderia se importar menos com isso.
se agarrou aos cabelos dela, guiando o ritmo sem pensar, sem racionalizar, apenas reagindo àquela espiral de prazer que já ameaçava transbordar. Estava ofegante, trêmulo, cada músculo do corpo em tensão. O calor que se acumulava em seu ventre se espalhava rápido, irrefreável.
Ele fodeu a boca dela. Mais fundo. Mais forte. Até que ele sentisse a cabeça de seu pau golpear o fundo da garganta dela, repetidamente.
Os olhos dela, fixos nos dele, queimavam. Não havia hesitação ali. Havia domínio. E desejo.
Havia apenas . E a sensação da cabeça do pau contra com o céu da boca dela.
Quando ele se deu conta ele já estava se enterrando até a base entre aqueles malditos lábios. nem ao menos se opôs. Ela apenas manteve os olhos nos dele, sedentos e desafiadores.
E foi naquele olhar, naquele instante de entrega absoluta, que perdeu o controle por completo.
Suas pernas tremeram, enquanto o suor escorria por sua pele. Ele bombeou a cabeça da guitarrista contra sua ereção, sentindo o ápice se acumular entre suas pernas.
começou a engasgar, as paredes de sua garganta se apertando ao redor do pau dele. Os sons que saíram dela eram como o mais intenso dos solos de guitarra. Como música para os seus ouvidos.
Então foi como se o coração de tivesse finalmente decidido parar de bater.
Caralho — ele gemeu, a voz mais rouca do que de costume.
O primeiro jato de porra foi acompanhado da mão de sobre a dele, em sua própria cabeça, incentivando-o a continuar. Ele não parou. A cada nova investida liberando mais e mais do seu orgasmo naquela boca pecaminosa. Até que não restasse mais nada.
Até que não fosse mais nada.
recebeu cada gota do orgasmo que lhe foi oferecida com um olhar cheio de luxúria, afastando-se apenas para engolir vagarosamente, sem nunca tirar os olhos dele.
Ele arfou, deixando o corpo cair sentado sobre a cama atrás de si. Tudo em sua mente se dissipou, menos ela — ajoelhada à sua frente, firme, inteira, recebendo tudo sem desviar os olhos dele por um segundo sequer. A sensação da boca de em torno dele ainda vívida e latente, ressoando nos espasmos do seu próprio corpo.
Foi então que ouviu a voz baixa, rouca, como uma brisa quente no ouvido:
— Me deixe sentir o gosto dele.
Com os pensamentos enevoados, o corpo em chamas e ainda latejando por dentro, tudo o que conseguiu processar foi um vulto em sua visão periférica.
Cabelos cor de incêndio, olhos como brasa. Mia.
Mas seus olhos... Ainda estavam nela.
.
Sempre nela.
viu o momento exato em que desviou os olhos dos seus, o sorriso se formando como um aviso silencioso antes que ela se voltasse para Mia.
Ela a recebeu com a boca entreaberta, como se já soubesse o que viria. A língua da ruiva buscou os lábios da guitarrista com impulso quase imprudente, como se caçasse resquícios do que tinha acontecido segundos antes. respondeu puxando-a pela cintura, colando seus corpos em um beijo que parecia mais uma batalha do que um gesto de afeto.
Porra, aquilo era pornográfico.
E tudo o que ele conseguia pensar é que ele queria mais daquela boca.
sentiu seu pau se contrair só com a ideia.
Se ela chupava daquele jeito, o beijo dela deveria ser entorpecente.
Ele mal podia esperar para estar dentro dela.
Ainda ajoelhada, conduziu Mia ao chão sem sequer interromper o beijo. A forma como ela se curvava, se empinava, como se pertencesse àquela posição… não pôde evitar que os olhos descessem pela curva das costas dela até os quadris, até aquela porra daquela bunda. Aquela visão parecia feita para ser contemplada por horas. E tocada. E fodida.
Ele se perguntou se ela gostava de ser fodida por trás tanto quanto ele queria fodê-la assim.
sentiu seu pau dar sinais de uma nova ereção. Merda, ele precisava de mais. Ele levou uma das mãos até a própria coxa, sentindo a pele arrepiar com a expectativa, e deixou os dedos deslizaram devagar sobre o próprio membro, que pulsava com a lembrança do toque dela — e com o que via agora.
traçou o interior da coxa da ruiva com os dedos, com a mesma precisão preguiçosa com que dedilhava suas guitarras. Mia suspirava, entregue, os lábios entreabertos, como se estivesse sendo tocada em câmera lenta.
observava fascinado — e faminto. Era como ver uma performance feita só para ele.
A guitarrista roçou os dedos dela contra a intimidade de Mia, que soltou um gemido sôfrego em resposta. riu, vendo a ruiva se abrir para ela, e tomou a liberdade dedilhar os lábios da boceta dela em um carinho instigante.
Mia pareceu engasgar em antecipação.
sussurrou algo contra os lábios da outra, palavras entrecortadas que ele não conseguiu ouvir, mas sentiu. O tom da voz dela, mesmo baixo, parecia capaz de provocar arrepios em qualquer um a milhas de distância.
Tudo que envolvia aquela boca parecia perigoso. E viciante.
Mia deixou o corpo se deitar por completo sobre o carpete, os cabelos espalhando-se ao redor como um halo em chamas. se inclinou sobre ela, como uma sombra envolvente — e, no instante seguinte, o corpo da ruiva arqueou em resposta ao toque daqueles lábios que ele tanto amaldiçoou.
não precisava ver os detalhes para saber exatamente o que estava acontecendo.
Ele apenas sentia.
E cada nova reação de Mia, cada suspiro contido, cada gesto de , só aumentava o nó no estômago dele.
fechou os olhos, tomado pela lembrança ainda quente do que havia feito com ele minutos antes. A sensação da boca dela, úmida e firme, ainda parecia marcada em sua pele como uma tatuagem invisível.
E agora, ouvi-la ali, tão próxima — os sons abafados de prazer, o ritmo crescente dos suspiros de Mia, o estalar sutil de beijos entrecortados — era quase insuportável.
Quase.
O ar no quarto parecia vibrar com uma eletricidade surda, carregada de desejo. Cada novo gemido era um chamado. Cada novo som vindo do canto do quarto onde as duas mulheres se fundiam era uma provocação direta à sua sanidade.
E mesmo assim, ele queria mais.
— Eu preciso de mais! — exclamou Mia, a voz rouca, crua, quase selvagem.
Era como se ela tivesse lido os pensamentos dele — ou arrancado-os diretamente da sua pele, ainda sensível, ainda febril. riu, um som breve, irônico. No fundo, aquilo tudo era insano. Ele ali, à mercê do desejo, preso entre o que ele se obrigava a odiar e o que ele começava a apreciar.
Mia não lhe deu tempo para pensar. Num piscar de olhos, ela estava sobre ele, suas coxas quentes o prendendo contra o colchão, tomando sua boca num beijo que não pedia permissão.
O beijo era tudo — molhado, firme, exigente. A língua dela invadia a sua boca com uma urgência quase feroz, como se quisesse provar algo que estava esperando há tempo demais. O sabor de Mia era doce, quente, com um fundo de luxúria descompromissada. Ela se movia com pressa, deslizando os dedos pela nuca dele, os quadris pressionando sua cintura como se ela quisesse esculpir seus desejos na pele dele.
Por um instante, ele se deixou levar.
O calor do corpo dela. O gosto. O som abafado da respiração presa entre as bocas. Tudo contribuía para o turbilhão que ameaçava levá-lo de volta ao ápice. O mundo parecia se resumir ao som de línguas entrelaçadas, suspiros abafados e a pressão deliciosa de outro corpo contra o seu.
Então ele abriu os olhos, examinado o quarto em busca de um olhar afiado, de uma risada provocante.
Mas ele não encontrou.
E quando se deu conta de que havia desaparecido, a ruiva já descia vagarosamente sobre a sua ereção.


Capítulo 24 — Nookie


“Why did it take so long?
Why did I wait so long, huh
To figure it out? But I did it
And I'm the only one
Underneath the sun who didn't get it”
— Nookie, Limp Bizkit.


tinha fodido como ele nunca havia sido fodido na vida.
Agora tudo o que ele conseguia pensar era em como retribuir o favor.
Preferencialmente entre as pernas dela, com o corpo dela dobrado sobre uma mesa, prensado contra uma parede, ou jogado de bruços em alguma cama qualquer. Não importava o lugar. Tudo o que importava era saciar o desejo brutal, quase masoquista, de se enterrar nela com toda a força que tinha.
não podia evitar, desde San Francisco, fazia com que ele tivesse sonhos eróticos mesmo acordado.
Desde então, tudo o que ele conseguia pensar era em como fodê-la com a boca até que ficassem quites.
Mas se precisasse fodê-la de outras formas também não iria recusar.
O importante era o resultado.
— Que cara é essa? — a voz debochada de Tony atravessou os ouvidos do vocalista de repente.
piscou, voltando à realidade num piscar de olhos. Estava com o celular em mãos, mas não prestava atenção em nada que passava na tela de fato.
Do que aquele idiota estava falando?
— Que cara?
Os três amigos estavam largados na pequena sala do ônibus da banda, cortando a estrada em direção a Seattle. , como sempre, dormia feito uma pedra em sua beliche no fundo. Ou pelo menos era o que o vocalista achava até alguns minutos atrás.
— Essa cara aí — Tony insistiu.
— É a minha cara — resmungou.
— Eu sei que é a sua cara, viado — Tony retrucou. — Mas você está com uma cara diferente.
O vocalista revirou os olhos.
— Não tô, não.
— Diz pra ele, Kalil — Tony pediu.
— Tá sim — o baterista confirmou com a naturalidade de quem não precisava provar nada. Como sempre.
bufou, cruzando os braços como se aquilo fosse encerrar a discussão.
— Com ciúmes depois de alguns beijos, La Rocha?
— Assim você fere os meus sentimentos, — Tony retrucou, levando a mão ao peito e arqueando as sobrancelhas num teatro barato, como se esperasse um pedido de desculpas que sabia que nunca viria.
soltou um riso breve, carregado de ironia. Finalmente levantou os olhos para o amigo e arqueou uma sobrancelha.
— Que sentimentos?
Tony respondeu apenas com um sorriso enviesado. Lentamente, mordeu o lábio inferior — não por timidez, mas por provocação, como se estivesse afiando a lâmina antes de usá-la.
— Isso foi tão queer da sua parte.
fez uma careta. Jogou o celular de lado, largando o corpo ainda mais contra o encosto do sofá.
— Também não sou tão queer assim.
— Mas também não deixa de ser — Tony retrucou no ato, com o brilho brincalhão nos olhos. Era claro que estava se divertindo.
Do outro lado da sala, Kalil bufou e largou os braços ao lado do corpo como quem finalmente se dava por vencido. Ele já tinha ouvido variações dessa conversa vezes demais para se impressionar.
— Para de encher o saco dele — disse o baterista, com a voz tranquila, mas firme. Sempre o pacificador do trio. — Você sabe que o único rótulo que ele aceita é o de canalha.
Tony deu uma risadinha curta, mas não retrucou. Não precisava. Já tinha feito o estrago.
— Você sabe que é verdade — comentou ele, apenas.
— E você sabe que o de bom humor é uma raridade — Kalil rebateu. — Não estraga isso. Nunca sabemos quando ele vai aparecer de novo.
girou os olhos e jogou a cabeça para trás, como se o peso daquela conversa estivesse esmagando a última gota de paciência que ele tinha.
— Quem disse que eu tô de bom humor?
Kalil apenas ergueu uma sobrancelha, como quem já previa a negação.
— Você.
— Não lembro disso.
— Você deu bom dia hoje cedo — Kalil disse, como se aquilo encerrasse o assunto.
se endireitou no sofá, a testa franzida.
— Não dei.
— Claro que deu — Tony confirmou, agora se aproximando um pouco com os braços cruzados. — Quando a gente se encontrou na recepção. Você olhou pra mim e disse bom dia. Eu quase gravei.
— E daí? Qual o problema?
— Você nunca dá bom dia — Kalil reforçou, apontando com o dedo como se aquilo fosse uma acusação gravíssima.
parou. Por um segundo, encarou os dois com cara de indignado, como se tivesse sido traído por si mesmo. Em seguida, olhou direto pra Tony, desconfiado, como se procurasse sinais de que aquilo era algum tipo de armadilha emocional.
Tony apenas sorriu. Lento, provocador, satisfeito. Como um gato que tinha acabado de derrubar algo da prateleira só para chamar atenção.
— Então eu tô certo em fazer isso — retrucou, cruzando os braços. — Se eu ignorasse vocês sempre, minha paciência duraria mais.
— Eu disse — Kalil comentou, sem tirar os olhos do celular.
— Tanto faz — Tony jogou o corpo pra trás no sofá.
desviou o olhar para a janela, vendo a paisagem correr no ritmo do ônibus. Mas o silêncio durou pouco.
— Você sumiu na parada ontem — Tony comentou, com a voz mais baixa.
— Não me diga que ficou me procurando — respondeu, sarcástico.
— Por favor, eu já te superei, — Tony rebateu com um meio sorriso.
— Claro — riu, curto e seco.
— Mas, falando sério, a gente quase ligou pro Doc — Tony continuou. — Ninguém te encontrava em lugar nenhum.
virou o rosto devagar.
— Você o quê?
— Ele não ia fazer isso — Kalil entrou no meio, tentando evitar o incêndio.
Eu ia sim — Tony admitiu, erguendo as sobrancelhas, desafiador.
— Cala a boca, Tony — Kalil suspirou, já prevendo o caos.
— Tony, eu juro por tudo que é sagrado... — começou, a voz grave e lenta, estava começando a ficar irritado com aquela história.
— A gente ficou preocupado, porra — Tony disse, sério agora.
esfregou a mandíbula, irritado.
— Você sabe o que o Doc vai fazer se eu me meter em encrenca de novo.
— E você pode culpá-lo? — Tony rebateu, direto.
— Vai se fo—!
— Ei! — Kalil ergueu a mão e fechou os olhos, esfregando a ponte do nariz como quem tentava se manter zen no meio de uma explosão. — Por que caralhos vocês estão brigando?
— Porque ele precisa parar de bancar o babaca preocupado — resmungou.
— Porque esse idiota não sabe conversar sem ser cuzão — Tony retrucou.
Kalil abriu os olhos devagar.
— Caras?
Silêncio. Um daqueles pesados.
e Tony cruzaram os braços ao mesmo tempo, emburrados como dois moleques, evitando tanto Kalil quanto o olhar um do outro.
O baterista os observou por um momento e respirou fundo.
— Puta que pariu... — disse ele, sem força. — Eu espero que um dia vocês tenham filhos iguais a vocês. Só pra sentirem o gosto do inferno que me fazem passar.
— Uma pena pra você que eu não vou poder estar tendo um — Tony brincou, jogando a cabeça para trás no banco com falsa leveza.
— Você sempre pode adotar — retrucou , com um sorrisinho malicioso no canto da boca.
— Quando inventarem uma garantia de vinte e um anos, quem sabe? — Tony respondeu, erguendo as mãos em rendição cômica.
soltou uma gargalhada sincera, inclinando o corpo para frente. Era raro vê-lo rir assim — sem cinismo, sem filtro.
— Estamos falando de crianças, não de animais de estimação — Kalil observou, com a voz calma e o olhar semicerrado, como quem já esperava a resposta seguinte.
— Qual a diferença? — Tony rebateu, fazendo Kalil revirar os olhos antes de sorrir.
Os três riram juntos, e por um breve momento, o ar dentro do carro pareceu mais leve. A tensão das farpas anteriores se dissipou, substituída por uma cumplicidade que só anos de amizade desgastada, porém resistente, podiam forjar.
— Você tem um ponto — Kalil admitiu, respirando fundo. — Eu devia ter ouvido o Doc quando ele sugeriu mandar vocês dois pra adestramento.
e o baixista o fitaram com falsa indignação, ofendidos de brincadeira — e logo depois, as risadas retornaram, mais soltas, mais cúmplices.
— Estamos bem? — Kalil perguntou então, com um tom sincero, quase cuidadoso, como quem sabe que precisa manter aquele frágil equilíbrio em pé.
O vocalista e Tony desviaram os olhares, como dois garotos que sabiam que tinham feito merda, mas se recusavam a admitir.
Kalil suspirou. O sorriso sumiu dos lábios por um instante, e a voz ficou mais firme:
— Eu não ia deixar o Tony ligar pro Doc mesmo. Mas, , também não é justo você desaparecer daquele jeito e depois crucificar a gente por nos preocuparmos. Você não tem sido exatamente fácil ultimamente, e a gente se importa. Não é perseguição, é só... Cuidado.
Houve um segundo de silêncio. apertou os lábios, claramente desconfortável com a franqueza. Depois, estalou a língua e respondeu, sem encarar ninguém:
— Tá, já entendi. O Dia do Orgulho já passou, pode parar com essa viadagem.
Os três caíram na gargalhada quase ao mesmo tempo, o momento de tensão dissipando-se mais uma vez. Era assim que funcionavam: entre farpas e risos, carregando lealdade entre um verso e outro.
Já sei! — Tony exclamou, com os olhos brilhando como quem teve uma epifania.
— O quê? — Kalil perguntou, franzindo o cenho.
— Que cara é essa! — Tony apontou para , com a expressão de quem tinha acabado de montar um quebra-cabeça importante.
— E lá vamos nós de novo… — o vocalista resmungou, mas o canto da boca denunciava que ele já sabia onde aquilo ia parar.
— Você tirou o atraso — Tony afirmou com toda a certeza do mundo.
— O quê? — virou o rosto, sem acreditar no rumo da conversa.
— Você transou a noite toda, por isso deu um perdido na gente — o baixista concluiu, satisfeito.
— Faz sentido — Kalil murmurou, como quem analisa um diagnóstico médico.
ergueu as mãos, exasperado.
— Por que vocês sempre voltam pra minha vida sexual?
— Porque você nunca conta nada pra ninguém — Tony disse com naturalidade. — É divertido tentar descobrir.
— Então quer dizer que você tem conversado sobre sexo com o Kalil agora? — retrucou, com um toque de malícia, mesmo que só estivesse tentando desviar a atenção.
— Não! — Tony fez uma careta automática de desgosto. — Ele tem uma psicóloga pra isso.
— Ele com certeza tá comendo a psicóloga dele, pelo amor de Deus! — o vocalista disparou, rindo com escárnio.
Não fode, ! — Kalil exclamou, fingindo irritação, embora um leve rubor tenha surgido em suas bochechas.
— Vai negar agora? — pressionou.
— Por que eu faria isso? — Kalil respondeu, dando de ombros com desdém calculado.
Tony balançou a cabeça devagar, como quem testemunhava um crime hediondo.
— Você é nojento — declarou ele, mas rindo. Rindo muito.
A risada dos três preencheu o carro mais uma vez — um som disfuncional, caótico, e ainda assim, confortável. Como tudo entre eles.
— Você quer falar de nojeira? — Kalil rebateu, ajeitando-se no banco com um suspiro impaciente. — Eu passei o dia inteiro com você naquela festa insalubre ontem.
Tony soltou uma gargalhada debochada.
— Por favor, isso não é uma competição — interveio, a voz arrastada, como quem não queria participar, mas também não conseguia resistir.
— Até porque, se fosse, você ganharia, não é, ? — a voz sonolenta, mas cortante, de preencheu o ambiente como uma lâmina envolta em veludo.
Todos se viraram.
congelou por um breve segundo. Ela estava ali, encostada à porta, os cabelos um pouco bagunçados e um copo de café nas mãos. O olhar dela estava cravado nele — meio cansado, meio afiado.
Os mesmos olhos que encararam o fundo da sua alma quando estava com a boca ao redor do seu pau na noite anterior. Merda, não seria tão fácil esquecer disso.
E então, como um maldito mecanismo de defesa, o sorriso canalha se desenhou lentamente nos lábios do vocalista.
— Eu tenho certeza que você seria uma grande concorrente ao título — respondeu ele, mantendo o olhar preso ao dela.
ergueu uma sobrancelha, mas não rebateu. Era parte do jogo: saber quando calar dizia mais do que qualquer frase.
Tony, porém, estava impaciente demais para sutilezas.
— E então? — o baixista perguntou, com um brilho malicioso nos olhos.
— O quê? — respondeu, sem tirar os olhos da guitarrissta.
— Você fodeu com um gostosão ou com uma bi de balada? — Tony disparou, direto como sempre.
sustentou o olhar de por mais um instante. Um segundo a mais do que o necessário. Um segundo que entregava mais do que qualquer palavra.
— Você sabe que eu tenho uma queda por bi’s de balada — ele respondeu por fim, com o tom de voz mais baixo e arrastado, como quem saboreava a provocação.
soltou uma risada nasalada, leve, mas a ironia era clara.
— Então você e a Mia se deram bem — ela comentou, casual, como quem atira uma bomba em cima da mesa e observa a reação.
— O quê?! — o baixista praticamente gritou, o corpo se inclinando à frente, os olhos arregalados.
— Não vou negar — disse com um encolher de ombros, provocando ainda mais.
— Você conhece a garota?! — Tony perguntou, agora alternando o olhar entre os dois como se tivesse perdido um capítulo inteiro da novela.
deu de ombros, como se fosse a coisa mais banal do mundo.
— Aposto que a arranjou os dois — Kalil comentou, com um sorriso discreto e cansado, como quem já esperava aquilo desde o início.
A guitarrista apenas sorriu, sem confirmar nem negar, enquanto pegava o cigarro do bolso e o girava entre os dedos.
Eu não chamaria isso de arranjar, mas…
— Eu ouvi vocês conversando antes — comentou, com um tom neutro demais para ser inocente. Encostou-se casualmente ao batente da porta, cruzando os braços, como quem estava só de passagem, mas prestes a deixar algo em ruínas.
virou o rosto devagar, olhos semicerrados.
— Sobre?
— Eles estavam falando sobre o quanto você andava estressado — ela disse, com um sorriso contido. — Pensei em dar uma mãozinha.
Ela fez uma pausa calculada.
— E uma chupada.
Tony engasgou com a própria saliva, e Kalil soltou um suspiro derrotado antes de sequer tentar intervir.
balançou a cabeça, sem conseguir conter um meio sorriso.
— Vocês são todos uns intrometidos — murmurou ele, embora houvesse mais divertimento do que raiva na voz.
— Considere isso como minha retribuição pelo Santana — disse , com a naturalidade de quem comentava o tempo. Mas o olhar era quente. Firme. Impossível de ignorar.
E lá estava de novo — a lembrança daquela boca. Do gosto, da pressão, do jeito maldito como ela fazia parecer que o mundo podia parar e ele não daria a mínima.
engoliu seco. Por um instante, ele hesitou.
— Eu não fiz aquilo pra receber algo em troca — o vocalista respondeu, mais sério, mais baixo.
— Então você saiu no lucro — ela devolveu, com um brilho nos olhos.
Tony abriu os braços, completamente entregue ao caos.
— Olha só pra vocês! — exclamou. — Tão... Amigáveis...
— Não força, Tony — Kalil alertou, já conhecendo bem o tom que viria a seguir.
— Qual é? — Tony insistiu, com um sorriso de orelha a orelha. — É como um sonho virando realidade. Quem diria? Esses dois, trocando farpas sem se ameaçarem de morte. Isso merece ser registrado.
apenas o ignorou, mantendo o olhar fixo em por um segundo a mais, só para garantir que ele soubesse: aquilo ainda não tinha acabado.
O vocalista desviou o olhar, mas não disse nada.
E Kalil, no meio de tudo, parecia particularmente satisfeito com o desenrolar da conversa.
— Quer brigar sobre alguma coisa? — perguntou, voltando-se diretamente para com um tom casual demais para ser neutro. Ignorava deliberadamente Tony, como se ele fosse apenas parte da mobília.
deu de ombros, recostando-se mais fundo no sofá com aquele ar blasé que ele vestia como armadura.
— Claro. Por que não?
A guitarrista sorriu com o canto da boca, como quem acabava de encaçapar a primeira bola em uma partida de sinuca.
— Espero que tenha gostado da Mia… Porque eu convidei ela pro seu aniversário.
piscou. Uma, duas vezes. Depois se inclinou ligeiramente à frente, como se não tivesse ouvido direito.
— Você fez o quê?
— Ah, você sabe… — ela disse, fingindo indiferença, mexendo distraidamente no cabelo. — Achei que seria divertido. Todas as suas exs reunidas: Mia, Margot, e, claro… A adorável Jennie.
Kalil soltou uma gargalhada tão alta que se curvou para frente, batendo a mão na própria perna.
— Você é completamente insana — comentou ele, entre risos.
— Por favor, me diga que você não fez isso — falou, mais baixo, mas com a tensão já evidente no maxilar travado.
deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles, os olhos brilhando com a satisfação de quem sabia exatamente onde estava cutucando.
— Você sabe... É a minha casa — o tom dela era doce, mas havia veneno suficiente na ponta da frase para intoxicar o ambiente.
— Nós podemos mudar isso — rebateu, firme, a voz carregada de ameaça velada.
— Não há necessidade — devolveu, serena como uma explosão contida, sem mover um músculo do sorriso.
Tony, do lado, parecia absolutamente fascinado com o espetáculo.
— Tudo bem, eu estou amando isso — ele disse, dando um gole imaginário num copo inexistente. — Vocês tinham razão. Não precisam ser amigáveis. Isso aqui tá ótimo.
— Tony, para de falar — ordenou, sem nem olhar para ele.
— Não seja rude, o repreendeu com doçura afiada. — Não foi pra isso que eu te arranjei a Mia.
cerrou os olhos, mas o sorriso que ameaçava surgir era o tipo perigoso — mais promissor do que reconciliador.
Kalil suspirou alto, segurando o riso.
Tony, por sua vez, apenas murmurou:
— Isso vai render uma puta festa.
— Você só pode estar brincando — o vocalista resmungou, apertando a ponte do nariz como se tentasse evitar uma dor de cabeça iminente.
— Isso vai ser ótimo — Tony comentou, animado demais. — Jennie com certeza vai arrumar alguma confusão. Isso se nada da festa acabar viralizando na MTV com um antes e depois do colapso emocional de .
— Nosso rei do drama merece uma comemoração à altura — acrescentou com um brilho travesso no olhar, antes de piscar para como se estivesse lhe oferecendo um presente envenenado.
, eu juro que—
Relaxa — ela interrompeu com um gesto desdenhoso da mão. — Eu fico de olho nelas. Prometo. Aliás… Eu gosto de assistir.
a encarou por um segundo, sem reação. Depois desviou os olhos, como se não confiasse em si mesmo para manter aquela troca por muito mais tempo.
— Eu não acredito em você — disse ele, a voz mais baixa, quase derrotada.
— Por que não? — inclinou a cabeça levemente, sem perder a provocação. — Sentiu minha falta ontem à noite?
O silêncio que se seguiu foi mais eloquente do que qualquer resposta.
não disse nada, mas o músculo pulsando em sua mandíbula o entregava.
Ele tinha sentido.
Sentir falta de e admitir isso em voz alta, no entanto, eram coisas estritamente opostas.
… — Kalil murmurou, como quem já sabia que estava prestes a ouvir algo que com certeza poderia ultrapassar certos limites de um certo vocalista.
, no entanto, não recuou nem um milímetro. Pelo contrário — se aproximou ligeiramente, os olhos fixos nos de .
— Eu posso ficar para assistir da próxima vez, se você faz tanta questão, — disse ela com doçura venenosa, o tipo de frase que chega como um sussurro, mas explode como um soco no estômago.
soltou um meio sorriso cínico, desafiador.
— Eu duvido muito da sua capacidade de ficar no seu lugar.
— Você não está errado — respondeu com uma risada baixa, inclinando-se ligeiramente para a frente, como se sussurrasse um segredo diante de todos. — Mas, diferente de você, eu adoraria receber algo em troca daquele favorzinho.
Ela disse aquilo como se não fosse nada de mais. Talvez não fosse mesmo.
Então por que os batimentos de soavam tão alto, como se quisessem arrebentar seus ouvidos?


Capítulo 25 — Black


“And now my bitter hands
Chafe beneath the clouds
Of what was everything”
— Black, Perl Jam.


, você vem? — Tony chamou, encostado no batente do corredor que levava ao quarto improvisado do ônibus de turnê.
Do lado de fora, a cidade cinzenta de Seattle os envolvia como uma lembrança que ninguém ali queria revisitar de verdade. Tinham parado na antiga vizinhança onde cresceram, mas não queria nem pensar em olhar para o lado de fora. Não quando sabia que veria Gus em cada uma daquelas esquinas do subúrbio.
Deitado, o vocalista engoliu em seco apenas por pensar naquela possibilidade.
— Vou ficar por aqui.
— Não vai mesmo dar uma passada na sua mãe? — Anthony arqueou uma sobrancelha, apesar do seu tom de voz soar um pouco incerto.
virou o rosto para a parede, mordendo o canto da boca.
— Será que a gente pode não ter essa conversa?
O baixista suspirou, sem insistir.
— Você que sabe, cara — disse ele com um meio aceno. — Vejo vocês mais tarde.
Então, La Rocha deu as costas, e poucos minutos depois, o motor roncou fazendo o ônibus retomar o seu embalo preguiçoso pelas ruas.
O silêncio que ficou parecia mais pesado que o som do veículo em movimento. Deitado na cama estreita, encarava o teto manchado, sentindo o coração apertar sem motivo aparente — ou pelo menos um motivo que ele se recusava a reconhecer. As coisas eram mais fáceis quando não pensava naquilo.
Depois de um tempo, que o vocalista não soube dizer o quanto, Kalil apareceu, também apoiando-se no batente com cuidado, como quem se aproxima de um animal peçonhento.
— Tem certeza que não vai dar uma passada em casa?
nem se mexeu.
— E ouvir a opinião da minha mãe sobre as minhas atitudes? — fez um estalo com a língua. — Não, obrigado.
O baterista riu baixo, balançando a cabeça.
— Ainda evitando ela, hein?
— Digamos que ela não está exatamente no topo da minha lista de prioridades.
— Já faz quase um ano desde o velório, cara.
As palavras caíram como pedras no ar. O tempo não parecia ter tanto efeito assim. Principalmente ali, naquela cidade.
fechou os olhos e respirou fundo.
— Eu não quero falar sobre isso.
Kalil ergueu as mãos, rendido, e soltou um suspiro.
— Tudo bem. Só… — ele hesitou antes de mudar de assunto. — Vamos pra minha casa. Minha mãe fez torta.
abriu um olho, desconfiado.
— Que tipo de torta?
— Você sabe qual.
Ele se ergueu um pouco na cama, franzindo o cenho.
— E por que diabos a sua mãe faria a minha torta favorita em vez da sua famosa lasanha à bolonhesa?
O sorriso malicioso de Kalil entregava mais do que as palavras.
— Porque a gente não vai ficar pro jantar.
— Kalil! — sentou de vez, indignado.
— Ah, qual é! Não me diga que achou que eu ia deixar você e a sozinhos nesse ônibus, só pra se matarem enquanto eu e La Rocha estivéssemos fora — a gargalhada do baterista encheu o corredor. O som foi quase reconfortante.
— Você é um idiota intrometido.
— Isso quer dizer que eu fico com a torta?
— De jeito nenhum, Casablanca.
Eles riram juntos, e o clima pesado se dissolveu por alguns instantes.
Quando estavam prontos para sair, atravessou o corredor estreito até a sala improvisada do ônibus. estava largada no sofá como se tivesse nascido para ocupar aquele espaço pequeno e caótico, pernas esticadas, a cabeça levemente tombada, os dedos ágeis sobre a tela do celular. A luz azulada refletia em sua pele, destacando os traços finos do rosto e criando uma aura que a deixava ao mesmo tempo intocável e estranhamente próxima. Como naquela noite que o vocalista não conseguia tirar da sua cabeça.
ficou parado por um momento, só observando.
Ela parecia distraída, mas até na distração havia algo magnético nela, como se conseguisse sugar sua atenção sem fazer esforço algum. Ele odiava admitir, mas havia noites inteiras em que tinha se pegado lembrando de expressões simples como aquela — um franzir de sobrancelha, um meio sorriso escondido.
O vocalista pigarreou, em uma tentativa de cortar o próprio devaneio. O som fez a guitarrista erguer os olhos, e por um instante ele se perdeu na intensidade daquele olhar. Sem pensar muito, ele decidiu jogar a sua jaqueta sobre as mãos dela numa tentativa de escapar daquele transe inconveniente.
piscou, surpresa, franzindo a testa como se ele tivesse acabado de dizer um absurdo.
— Vamos, — a voz dele saiu mais firme do que esperava, um misto de convite e ordem, como se as palavras carregassem a mesma incerteza que ele carregava por dentro. — Essa vai ser a melhor sobremesa da sua vida.
Ela o fitou em silêncio, o celular esquecido no colo. Havia um brilho confuso em seus olhos, como se tentasse decifrar o gesto. Em seguida, olhou para Kalil, depois para e novamente para Kalil, em busca de respostas que não viriam.
Casablanca apenas deu de ombros, um sorriso maroto no rosto, e tomou a dianteira para fora do ônibus.
não foi tão rápida. Ela continuou parada por um momento, segurando a jaqueta como se o objeto tivesse outro significado além de aquecer quem o usasse do clima traiçoeiro da cidade. percebeu — porque sempre percebia — a delicadeza com que os dedos dela apertavam o tecido, quase como se quisesse devolvê-lo.
Quando a guitarrista finalmente se levantou, seus olhos permaneceram presos nele por um segundo a mais do que deveriam. desviou rápido demais, fingindo se ocupar com qualquer outra coisa, porque encarar aquela intensidade seria como mergulhar de vez em algo do qual ele não tinha certeza se conseguiria voltar.
Do lado de fora, o fim de tarde de Seattle tingia o bairro com tons alaranjados, o tipo de luz que fazia cada detalhe parecer mais vivo e nostálgico. As ruas estavam silenciosas, exceto por algum cachorro latindo ao longe e o farfalhar das folhas levadas pelo vento. enfiou as mãos nos bolsos, andando ao lado de e Kalil.
O silêncio entre eles não era hostil, chegava até a ser agradável de certa forma. De vez em quando, Kalil quebrava com algum comentário sobre a vizinhança, apontando uma casa aqui, outra ali, como se fosse um guia turístico apresentado a região para a guitarrista. escutava com interesse genuíno, soltando risadinhas ocasionais, e fingia não se incomodar com o quanto aquilo o irritava sem razão aparente.
Quando viraram a esquina, a casa dos Casablanca surgiu diante deles: uma construção simples, de madeira, pintada em tons claros, com cortinas floridas na janela e o brilho dourado do sol de fim de tarde refletindo nas paredes. O cheiro convidativo de algo doce escapava pela fresta da porta.
precisou se esforçar para não se deixar levar pelas memórias que pareciam lutar para emergir do fundo da sua mente.
Então, Kalil abriu o portão com a familiaridade de quem nunca deixou de chamar aquele lugar de lar. O rangido metálico pareceu saudá-los como um velho amigo. Um que já não estava mais ali.
— Preparados? — perguntou o baterista, teatral, girando a chave na fechadura. — Por favor, não levem minha mãe ao pé da letra.
— Engraçado — retrucou, com um meio sorriso. — Toda vez que você fala isso, eu fico com ainda mais vontade de prestar atenção no que ela diz.
Kalil soltou um suspiro resignado, mas o canto da boca denunciava a risada que ele tentava conter.
Assim que a porta se abriu, o aroma da torta invadiu o ar, quente e acolhedor. E junto com ele, a voz de Kora Casablanca ecoou do interior do imóvel.
— Kalil! — o barulho de passos apressados encheu o corredor até que uma mulher de cabelos escuros, presos em um coque bagunçado, surgiu sorridente, enxugando as mãos no avental. — Finalmente!
Ela abraçou o filho com força, e então seus olhos brilharam ao notar logo atrás.
— Então você é a guitarrista bonita das fotos?
Antes que alguém pudesse responder, Kora já tomou pelos ombros, olhando-a de cima a baixo como quem avaliava e parecia aprovar de imediato.
— Eu sabia que uma hora ele ia trazer alguém especial pra casa!
engoliu em seco. Certo, ele definitivamente não estava esperando por isso. também pareceu surpresa, porque começou a gaguejar como ele nunca tinha visto antes.
— Eu— espera— eu não—
Mas não houve tempo para explicar. Kora já a puxava mais para dentro, toda animada, falando de como era maravilhoso finalmente conhecer a sortuda que conquistou o coração do filho.
Kalil, claro, estava se divertindo horrores, rindo às escondidas da confusão, apesar das bochechas coradas pelo constrangimento.
, por sua vez, sentiu o estômago revirar. Não fazia o menor sentido aquela sensação incômoda dentro dele, mas por algum motivo ele não conseguiu ignorar aquilo. O jeito como Kora segurava , como se ela fosse preciosa demais para largar, deixava um gosto amargo em sua boca.
O vocalista ficou para trás no corredor, fingindo estudar as fotos antigas na parede só para não precisar assistir à cena mais de perto.
Ainda assim, ele não resistiu a lançar um olhar rápido. , encabulada, mordia o lábio tentando protestar com educação, e mesmo assim havia um brilho nos olhos dela que o deixava ainda mais inquieto.
E, por um instante, se perguntou — com mais raiva de si mesmo do que de qualquer outra coisa — por que aquilo o incomodou tanto.
A casa cheirava a manteiga e chocolate, o perfume doce e intenso da torta holandesa recém-retirada da geladeira preenchendo o ar. A luz dourada do fim de tarde atravessava as janelas, tingindo tudo de âmbar e fazendo o cenário parecer acolhedor demais para a cabeça inquieta de .
Apesar disso, uma Kora Casablanca radiante arrastou para a cozinha, enquanto Kalil já se acomodava à mesa.
, querido, pode se sentar na mesa, eu preparei a sua favorita! — disse Kora, empurrando para a cadeira com a gentileza de quem não aceita um não como resposta. — Você precisa provar essa maravilha.
A torta gelada estava cortada em fatias generosas, coberta com uma camada perfeita de chocolate e biscoito. Kora não perdeu tempo antes de colocar uma fatia diante de , como se entregasse um presente.
se aproximou, tentando pegar uma cadeira ao lado, mas parou, observando a cena com um misto de fascínio e desconforto.
Ele não conseguia deixar de reparar na maneira como segurava a colher, ligeiramente hesitante, e no brilho tímido que lhe enchia os olhos quando olhou para Kora agradecendo pelo gesto. Cada detalhe dela parecia irradiar algo que deixava agitado — a suavidade da mão que pegava o prato, a leve inclinação da cabeça, até o cheiro sutil do perfume cítrico dela que parecia se misturar à doçura da torta.
— Encontrei com a sua mãe no mercado esses dias — Kora comentou, assim que se acomodou à mesa, ao lado da guitarrista. O tom era casual, mas os olhos brilhavam de curiosidade. — Acredito que ela não saiba que vocês estão na cidade.
— Você não falou nada pra ela, falou? — engoliu em seco.
— Claro que não, querido — a mãe de Kalil respondeu com um gesto simples da mão, sorrindo como se a simples ideia fosse absurda. — Eu não ganhei o posto de melhor mãe da banda, fazendo fofoca.
soltou o ar num suspiro quase aliviado.
— Obrigado, Kora.
— Mas eu não deixo de ser uma das mães, mocinho — ela retrucou, firme. — Devia ligar pra ela. Está bem irritada com o Doc.
O vocalista ergueu os ombros num meio encolher.
— Todo mundo fica irritado com o Doc. É praticamente o trabalho dele.
— Mãe, dá um tempo com o , por favor — Kalil interferiu, já antecipando o sermão.
Kora revirou os olhos, mas o sorriso permaneceu.
— Você não pode me culpar por tentar.
— Está tudo bem, Kora — devolveu, conciliador, embora o desconforto estivesse visível em sua postura.. — Eu vou pensar à respeito.
Ela pareceu satisfeita com a resposta, antes de apoiar os cotovelos na mesa e se inclinar para frente, olhando com aquela intensidade de mãe curiosa demais.
— Então, … há quanto tempo você e o Kalil estão juntos?
A guitarrista engasgou com o próprio ar, corando de imediato.
— Mãe! — Kalil quase se levantou da cadeira. Enquanto , mal tinha conseguido processar o que a mulher havia dito.
— O quê? — Kora ergueu as mãos, inocente. — Eu vi as fotos. Não precisam esconder nada de mim.
— Eu… Não… — tropeçou nas palavras, sem conseguir alinhar uma frase coerente.
poderia ter rido. Sob outras circunstâncias, teria sido engraçado. Mas ali, sentado, sentiu um nó se formar em sua garganta.
Ele tentou não encarar , mas a forma como ela mexia nervosamente no cabelo, desviando os olhos, fazia cada gesto dela mais vívido na sua mente.
— Foi só um beijo, mãe. Não estamos juntos — Kalil cortou, bufando de impaciência.
O maxilar de se contraiu.
Só um beijo. Ele sabia que não era só isso.
— Besteira — Kora insistiu, convicta. — Tenho certeza que a sabe como você é um bom partido.
— Eu não namoro, mãe. Você sabe disso.
— Sempre achei que a garota certa podia resolver isso — Kora concluiu, voltando o olhar inquisitivo para a guitarrista. — Não é, ?
afundou um pouco na cadeira, sentindo o calor subir pelo pescoço. Cada palavra de Kora parecia empurrá-lo para fora do lugar, como se ele fosse apenas um intruso assistindo a algo que nunca deveria ter visto.
— Sinto muito, senhora Casablanca — disse , encolhendo-se na cadeira.
fechou os olhos por um instante, tentando se concentrar na torta holandesa à sua frente, mas não adiantava. O som da respiração irregular de , o toque desajeitado dela na colher, até a forma como ajeitava o cabelo pareciam gritar em sua direção: olhe pra mim.
— Por favor, me chame de Kora — a anfitriã corrigiu, cheia de charme.
— Kora… — forçou um sorriso amarelo. — Nós não estamos juntos.
— Que desperdício — Kora comentou, com a naturalidade de quem comentava sobre o clima.
E então, sem cerimônia, repartiu mais um pedaço de torta como se fosse um selo final no julgamento:
— Vocês deviam aprender com o . Aposto que ele e aquela loirinha vão dar netos lindos pra mãe dele em breve.
Dessa vez, foi quem engasgou com o café, tossindo alto, como se a simples menção tivesse arrancado o ar dos seus pulmões.
— Qual o problema de vocês? — Kora ergueu as mãos, inocente. — A torta ficou doce demais?
Mãe — Kalil resmungou, esfregando o rosto. — e a Margot terminaram. Podemos, por favor, mudar de assunto?
— Por que os jovens de hoje têm tanto ódio das mães? — Kora suspirou, teatral.
soltou uma risadinha nervosa, tentando aliviar a tensão.
— Não deu certo entre mim e ela, Kora. — ele forçou um sorriso amarelo. — Mas quem sabe da próxima vez.
Kora apertou o braço dele, carinhosa, como se desse a bênção.
— Isso mesmo, querido. Nunca se perde a esperança.
Um silêncio breve se instalou, cortado apenas pelo barulho das colheres contra os pratinhos.
— Já que vocês não vieram me apresentar uma namorada… — Kora voltou à carga, arqueando as sobrancelhas. — O que vieram fazer na cidade? Não aparecem aqui desde antes de…
A pausa foi curta, mas em ela se estendeu como uma eternidade. Ele sentiu o calor esvair do corpo, antecipando o peso daquela lembrança que parecia impossível de evitar.
— Estamos escrevendo um álbum novo — Kalil entrou rápido, atropelando a frase da mãe antes que o inevitável fosse dito.
Não adiantava. A palavra engasgada no ar já tinha sido suficiente. Gus. Sempre Gus. Não precisava ser falado em voz alta. Não havia para onde fugir.
afundou um pouco mais na cadeira, tentando se concentrar na torta, no café, em qualquer coisa. Mas o gosto já tinha sumido. Era sempre assim: bastava um descuido, um gesto, uma lembrança mal calculada, e a ferida voltava a se abrir, como se nunca tivesse começado a cicatrizar.
— Que notícia maravilhosa! — Kora exclamou. — Com menos gritaria, eu espero.
— Não exatamente — Kalil sorriu de canto.
Kora revirou os olhos.
— Eu ainda acho que uma garota no meio de vocês três ajudaria a colocar ordem.
— Pro azar da senhora, a também adora uma gritaria — se forçou a dizer algo, qualquer coisa. O sorriso ladino no rosto não passava de uma máscara mal colada, um escudo improvisado contra aquele vazio que se insinuava dentro dele.
— Vocês e suas músicas estranhas… — Kora sacudiu a cabeça.
— Você costumava gostar delas — Kalil provocou.
— Eu fingia melhor antigamente — Kora deu de ombros, arrancando risadas contidas dos três.
acompanhou, mas sentiu a garganta arranhar. O riso saiu seco, desconfortável, como se não tivesse nascido dele.
— Está ficando amarga, Kora — o vocalista tentou brincar, insistindo no papel do espirituoso.
— Deve ser a falta de netos — dramatizou ela, levando a mão ao peito.
— Faz sentido — respondeu, rindo baixo. Mas o riso já lhe soava estranho nos próprios ouvidos, como se não fosse dele.
Kora então suavizou o tom, quase com ternura.
— Mas eu gosto daquela que você e o Gus escreveram pra mãe dele quando ela ficou doente. É linda.
O sorriso de morreu nos lábios. O ar pareceu rarefeito.
Drown? — Kalil perguntou em voz baixa.
A simples palavra foi o bastante para desarmá-lo. E, em segundos, já não estava mais naquela cozinha. Estava de volta à beira do abismo. Gus, afogado em álcool e silêncio. Os olhos vermelhos, as ausências prolongadas, as chamadas desesperadas da mãe. O diagnóstico que pesava como uma sentença impossível de carregar.
E então Half Moon Bay. A casa alugada de última hora, o vento cortante nas janelas. Doc escondendo as chaves dos carros para que ninguém fosse embora antes da hora. As conversas que se alongavam noite adentro, as recaídas que se repetiam, as risadas estranhas que pareciam mais soluços do que alegria. E, no meio disso, confissões que os queimaram para sempre. Foi dali que nasceu Drown: não como esperança, mas como cicatriz transformada em melodia.
piscou, tentando voltar ao presente. A cozinha estava ali de novo, mas enevoada, distante, como se tivesse atravessado um túnel e retornado menor. Ele baixou os olhos para o prato, esforçando-se para esboçar um sorriso melancólico, frágil demais para ser convincente.
— Também é uma das minhas favoritas.
O silêncio que se seguiu não foi apenas desconfortável — foi sufocante. Um peso invisível que pairou sobre todos, sem nome, mas cheio de ausência. Até , sempre inquieta, preferiu escapar. Levantou-se ajeitando o cabelo atrás da orelha.
— Se me dão licença, vou fumar um cigarro lá fora.
— Claro, querida — Kora disse com suavidade, como se não tivesse percebido o estrago deixado pelas próprias palavras.
A porta se fechou atrás dela, deixando um silêncio breve no ar. permaneceu encarando a madeira, como se pudesse atravessá-la só com o olhar e seguir para fora sem precisar se levantar de fato.
— Que cara é essa, mãe? — Kalil quebrou o silêncio.
— Vocês podiam poupar as mães de vocês dessas cenas — respondeu Kora, firme, mas sem perder a ternura.
soltou uma risada curta, desconfortável.
— Sorte da senhora que ela decidiu fumar lá fora.
— E o que aconteceu com tomar um ar fresco? — Kora balançou a cabeça, desaprovando.
Ele e Kalil riram juntos, mas a risada morreu rápido, engolida pelo peso que ainda rondava a cozinha.
Ficaram ali mais um tempo, trocando amenidades com Kora, como quem estica a estadia apenas para adiar o inevitável peso do silêncio. Riram de pequenas histórias, lembraram de vizinhos antigos, falaram de nada e de tudo ao mesmo tempo. Era o tipo de conversa que servia mais como distração do que como companhia.
Quando enfim se despediram e a porta da frente se abriu, o ar do fim de tarde entrou com força, frio e luminoso. Mas o que acabaram encontrando não era o esperavam.
A varanda estava vazia.


Capítulo 26 — Perfect


“Please don't turn your back
I can't believe it's hard just to talk to you
But you don't understand”
— Perfect, Simple Plan.


A volta para casa, depois de semanas na estrada com a banda, teve um gosto agridoce.
nunca retornou do cigarro que saiu para fumar durante a visita à Kora Casablanca, em Seattle. Foi embora como um homem que larga a esposa e o filho numa noite qualquer, sem se dar ao trabalho de olhar para trás — como o pai de tinha feito antes mesmo que ele completasse dez anos. O vocalista não queria pensar nisso, mas não conseguiu evitar.
Especialmente depois de passar a noite em claro, esperando. Esperando por ela.
A confirmação só veio no dia seguinte, já depois do almoço, quando Doc ligou para informar que havia embarcado num voo de volta para Los Angeles na tarde anterior.
Nenhum dos três teve nada a dizer sobre o assunto. Não houve discussão, nem tentativas de justificar. Apenas um acordo silencioso de que era hora de voltar para casa. E foi isso que fizeram.
Foram quarenta e sete horas de estrada num ônibus silencioso. As rodas rangiam suavemente sobre o asfalto molhado, o motor ronronava constante, mas dentro do veículo, cada um parecia se isolar em seu próprio mundo. As cortinas semiabertas filtravam a luz acinzentada do fim de tarde, lançando sombras compridas nos assentos. ficava observando o reflexo dele no vidro, tentando ver algo sem enxergar de fato.
não conseguiu se livrar daquela sensação estranha na boca do estômago. Como um conjunto de memórias antigas e dolorosas demais para serem esquecidas. O frio daquela manhã em que acordou e não encontrou o pai à mesa do café. O aperto no peito quando esperou pela presença que nunca viria buscá-lo na escola naquela tarde. O pôr do sol que desenhou a silhueta de sua mãe quando ela apareceu, sozinha, no estacionamento deserto com os olhos inchados. O silêncio gritante daquela casa vazia quando jantaram naquela noite e em todas as noites que se seguiram depois.
e sua mãe também não falaram nada naquela ocasião.
Então ele deixou o silêncio se instalar ao seu redor, como tinha feito tantos anos antes pela primeira vez.
Não havia raiva, nem esperança. Apenas a familiar sensação de abandono, que ele aprendera a vestir como armadura. O ônibus avançava pela estrada, e com cada quilômetro percorrido, parecia que ele não apenas voltava para casa, mas também voltava no tempo, revivendo a criança que aprendera, cedo demais, a conviver com o vazio silencioso de quem parte sem olhar para trás.
Quando chegaram a Santa Monica, o dia ensolarado parecia tão cinzento quanto o clima patético de Seattle.
O vocalista olhou pela janela do ônibus e, por um instante, pensou que o céu refletia ao menos metade do humor que ele carregava: nada. Nem o calor do sol, nem a brisa marinha pareciam capazes de dissipar a sensação de vazio que se instalara nele.
— Não deveríamos deixar o Kalil em casa primeiro? — perguntou Tony, cortando os pensamentos de .
— Doc deve ter falado alguma coisa com o Brad — Kalil respondeu, dando de ombros, despreocupado.
— Estamos sendo abduzidos? — o baixista franziu a testa, tentando soar engraçado.
— Pode apostar — Kalil confirmou, recostando a cabeça sobre o banco.
observava os dois com um meio sorriso que não chegava aos olhos. Mal podia esperar para ficar sozinho e poder parar de fingir.
— Justo quando eu começava a imaginar minha cama… — bufou Tony, jogando os braços para o ar.
O vocalista se virou para a rua, tentando se concentrar no movimento das árvores balançando com o vento, mas a sua mente estava simplesmente fora do lugar. Pouco depois, o ônibus parou diante da fachada discreta da casa de . Da casa de .
O coração dele deu uma batida irregular. A porta parecia menor, mais modesta do que ele se lembrava. Ele respirou fundo, tentando se preparar, mas cada músculo do corpo parecia estalar de tensão.
O vocalista não se permitiu pensar se ela estaria ali dentro. Seria patético demais até para ele. Especialmente para ele.
Os três amigos atravessaram a porta, entrando em um ambiente estranhamente silencioso, quase desabitado. A luz do fim de tarde invadia a sala através das janelas, mas não chegava nem perto de iluminar .
— Doc? — chamou Tony. — ?
Silêncio.
O peito de apertou. Cada eco parecia maior, vazio demais, como se a casa estivesse rindo dele. Ele olhou para os amigos, mas eles pareciam tão alheios quanto ele mesmo se sentia.
Então, passos surgiram no corredor. O vocalista sentiu o corpo inteiro se contrair.
— Meninos — anunciou Doc, a voz calma demais para o que sentia.
— E aí, Doc? — Kalil se adiantou. — O que aconteceu?
— Eu não sei, me digam vocês — respondeu Doc, dando de ombros como se aquilo não passasse de um encontro casual.
sentiu o estômago se contorcer. Cada palavra de Doc parecia pesar sobre ele, puxando de volta lembranças que ele não queria reviver. Ele percebeu que seu olhar se fixava no chão, nos próprios pés, como se pudesse se esconder ali.
— Sério, Doc? — resmungou Tony. — Eu realmente preciso tomar um banho e me jogar na minha cama agora.
— Nada a dizer, ? — Doc cortou, e o som da sua voz pareceu atravessar a pele dele.
O vocalista inspirou fundo.
— Eu não fiz nada dessa vez — respondeu ele, mas a própria frase soou vazia, sem convencer nem a si mesmo. O aperto no peito não diminuía. O ruído em seus ouvidos não diminuía.
— Me desculpe se acho difícil de acreditar — Doc continuou, andando de um lado para o outro. — Depois de ter sido acordado no meio da madrugada por uma ligação da Marta.
— Quem é Marta? — Tony perguntou, curioso.
— Advogada da — sussurrou Kalil, em uma breve explicação.
sentiu o frio se espalhar pelo corpo. Ele sentiu os olhos arderem sem lágrimas, o coração batendo rápido demais, o cérebro trabalhando em loops de cenários possíveis e impossíveis.
— Como isso poderia ter alguma coisa a ver comigo? — murmurou ele, tentando afastar a sensação de que o mundo estava prestes a desmoronar outra vez.
— Eu não sei — o agente respondeu, os olhos fixos nele. — Quando encontrei completamente embriagada no desembarque do LAX, algumas horas depois de rastrear uma compra suspeita no cartão dela, algo me dizia que você só poderia estar envolvido.
O estômago do vocalista revirou. Um frio seco subiu pela espinha, até a nuca.
— Eu não… — tentou dizer, mas ele não tinha palavras para juntar. Apenas aquele grande vazio que o preenchia, um buraco oco que engolia toda e qualquer explicação.
— Não aconteceu nada, Doc — Kalil disse, firme, tentando resgatar algum senso de normalidade. — Não precisa pressionar o .
Doc estreitou os olhos.
Alguma coisa deve ter acontecido.
sentiu cada músculo do corpo endurecer. Ele queria gritar para que o agente o deixasse em paz, mas as palavras eram apenas sombras, sem forma, sem sentido.
— Nós estávamos na casa da minha mãe — disse Kalil, tentando explicar. — saiu para fumar e não voltou mais.
— Isso não explica por que ela está desaparecida desde a tarde de anteontem — insistiu Doc.
— O que você disse? — engoliu seco. O mundo pareceu encolher, cada segundo se esticando. O peito apertou, o ar parecia insuficiente.
— Desaparecida? — Anthony não pareceu comprar a ideia. — Sério, Doc. É da que estamos falando, não é como se ela ficasse dando satisfação pra alguém.
— Tem razão, deve haver um motivo plausível para a operadora dela informar que a linha está fora do ar há mais de 36 horas — Doc continuou, sério.
sentiu o sangue gelar nas veias.
— Tem certeza que o celular dela não está apenas descarregado? — Kalil sugeriu, o tom de voz um pouco incerto.
— Preciso lembrar vocês da última vez que nós quatro consideramos essa hipótese? — Doc falou devagar, como se explicasse alguma coisa delicada.
Mas já tinha entendido. Tinha entendido bem demais.
Gus.
Foi como estar em New York outra vez.
Ele se viu, sem perceber, caminhando sozinho, repetindo passos que já conhecia demais.
Sem pensar, ele agarrou a maçaneta da porta da frente. O metal frio contra a pele parecia um pequeno ponto de ancoragem no caos que sentia. O coração rugia nos ouvidos. Cada segundo de hesitação parecia um grito silencioso.
— O que pensa que está fazendo, ? — Doc perguntou, e a risada sem humor que cortou o ambiente fez o vocalista se enrijecer.
— O que parece que estou fazendo? — trincou o maxilar. — Indo à casa dela, só para ver se ela não se engasgou com o próprio vômito.
— Merda — Kalil praguejou.
! — Tony resmungou, repreensivo.
— Com que carro? — Doc perguntou, prático.
nem havia pensado nisso. Nem importava. A urgência simplesmente dominou sua mente por completo, anulando qualquer pensamento racional.
— Me dá as suas chaves, Doc.
— Você não deveria dirigir assim — Kalil tentou argumentar.
O vocalista fechou os olhos por um instante, sentindo a respiração acelerar. Nem queria pensar no que assim significava.
— Você nem sabe onde ela mora, cara — Tony tentou impedir.
— Me dá as chaves, Doc. Não me faça pedir de novo — disse , a voz firme, quase uma ordem.
— Ela não está lá, . Eu já verifiquei — respondeu Doc, firme, implacável.
soltou a respiração que não sabia que estava prendendo. Mas o aperto no peito não sumiu. Ela podia estar em qualquer lugar.
— Ela pode ter voltado — murmurou ele, sem acreditar na própria voz.
— Eu deixei meu pessoal esperando, não sou idiota — Doc respondeu. — Ela não está lá.
— Isso é uma coisa boa, não é? — Tony tentou animar. — Ela não se afogou em vômito em casa.
Doc permaneceu em silêncio. sabia que a verdade era mais cruel: ela poderia fazer isso em qualquer lugar.
Ele socou a porta da frente com força, a raiva misturada ao desespero explodindo por dentro.
Porra! gritou, deixando o vazio e a frustração ocuparem cada espaço dentro dele.
A dor em sua mão parecia distante, irrelevante diante do turbilhão que o consumia por dentro.
Aquela sensação estranha na boca do estômago começou a se parecer muito com algo que ele já tinha sentido. Uma sensação que ele esperava jamais sentir outra vez. E não tinha nada a ver com o pai dele.
Merda, merda, merda.
sacou o telefone procurando cegamente por um contato que ele nunca se deu o trabalho de salvar.
Merda.
Onde ela está?
— Você tentou falar com algum amigo dela? — Kalil perguntou.
— Vocês conhecem algum amigo dela? — Doc rebateu, irritado.
O silêncio que se seguiu parecia gritar dentro da cabeça de . Cada segundo se estendia demais, pesado, sufocante.
— Foi o que eu pensei — disse o agente, quase como se o peso do silêncio fosse dele também.
— Você falou com a Margot? — Tony perguntou.
— Margot disse que a última vez que elas se falaram foi no início da semana, pouco depois de vocês saírem de Sacramento — respondeu Doc, com um tom seco que parecia cortar o ar.
sentiu o peito apertar ainda mais.
— Isso não é verdade, elas trocam mensagem quase todos os dias — Tony retrucou.
— Ela mandou uma foto antes da parada em San Francisco, mas elas não chegaram a conversar — Doc respondeu, firme.
Kalil olhou para o vocalista, que já parecia à beira de um colapso. A respiração dele estava rápida, quase superficial, e as mãos apertavam o celular até sentir os nós dos dedos brancos.
Onde ela está?
— Que tal o Massacre? — Kalil sugeriu.
— O que tem ele? — Tony perguntou, confuso.
— Se ela está na vibe de ficar doidona por aí, ela com certeza falou com ele — respondeu o baterista.
agarrou o celular com mais força. Pela primeira vez desde a festa do anúncio da contratação da guitarrista, agradeceu mentalmente que tivesse salvado aquele número em sua lista de contatos sem o seu consentimento. Seus dedos tremiam, mas a urgência fazia todo o trabalho.
— O que você está fazendo? — Doc perguntou.
— Ligando pro Massacre — respondeu , a voz baixa, mas firme, enquanto o estômago parecia se contorcer em nós mais apertados.
— É sério isso? — Tony arregalou os olhos.
— Cara, não se liga pra traficante — Kalil tentou acalmar, mas o vocalista nem ouvia.
O toque soou no telefone, cada repetição aumentando a pressão no peito. Até cair na caixa postal. ligou de novo. A adrenalina corria como fogo nas veias; o coração batia tão alto que parecia acompanhar cada toque da ligação.
— Tá maluco, ? — Tony murmurou, nervoso. — O cara é um traficante.
— Ele poderia ser o presidente dos Estados Unidos que eu não daria a mínima — o vocalista retrucou, contando mentalmente os toques da chamada. Quatro, cinco, seis toques.
A chamada caiu na caixa postal mais uma vez. O desespero explodiu. sentiu o estômago revirar, o peito apertar, a cabeça latejar.
Onde ela está?
— Caralho! — xingou, deixando a cabeça bater na porta com mais força do que normalmente faria. O pequeno latejar que sentiu em sequência era bem-vindo. — Isso não pode estar acontecendo, porra!
Tony murmurou baixinho, assustado:
— Puta merda…
O vocalista estava respirando rápido demais, podia até sentir o sangue percorrer o corpo com uma intensidade quase dolorosa. O chão parecia estreitar sob os pés dele, a sala girava levemente, e ele sabia que não podia ficar ali parado. Não dessa vez.
deixou o celular sobre a mesa com força, sentindo o impacto vibrar nos dedos trêmulos. Tirou o maço de cigarro do bolso, a mão tão inquieta que parecia querer fugir de si mesma.
— Você vai mesmo acender essa merda? — o agente perguntou, a voz calma demais para o turbilhão que sentia.
— Doc… — Kalil começou, hesitante, mas mal ouviu.
— Você tem alguma ideia melhor? — respondeu ele, a voz dura, cortando qualquer objeção. Ele sentia a ansiedade pulsando através do corpo, como se cada célula pudesse explodir a qualquer momento.
— Que tal não colocar esse monte de merda no seu corpo igual a e o Gus? — Doc insistiu, sério.
— Merda, Doc — Tony murmurou, abalado com a intensidade do clima.
O vocalista riu sem humor, tragando o cigarro e soltando a fumaça sem perceber. Cada baforada parecia pequena diante do aperto no peito, como se o ar não chegasse direito aos pulmões.
Onde ela está?
— Eu realmente não estou num bom lugar pra levar a conversa nesse caminho, meu amigo — o gosto amargo das palavras ficou na boca de mesmo depois de dizê-las.
Onde ela está?
— Vocês ao menos têm ideia de algum lugar onde ela possa ter ido? — Doc perguntou, mas sentiu como se fosse a primeira vez que realmente pudesse notar o seu desespero.
— Você tentou todos os clubes? — Kalil sugeriu, a voz distante, quase incomodando a mente de que não parava de girar.
— Coloquei um alerta no número de registro dela, vou ser informado se ela entrar em qualquer estabelecimento que exija identidade — disse o agente.
Isso não adiantava de porra nenhuma.
— Então ela não está em nenhum hospital? — Tony perguntou. Doc negou com a cabeça. — Ainda bem.
O tom de alívio na voz do baixista não foi o suficiente para alcançar .
— Ela não precisa de um hospital para se matar — murmurou ele, mais alto do que queria, sentindo o peso da própria declaração.
, não começa — alertou Doc, mas era tarde. Os pensamentos do vocalista disparavam tão rápido que ele mal os acompanhava: E se ela estiver em perigo? E se tiver acontecido algo? E se ela nunca mais… Não. Não. Não. Merda, onde ela está?
— Podemos, por favor, pensar positivo? — Tony tentou intervir, mas sua voz parecia vir de outro mundo.
O celular de vibrou. Uma nova mensagem.
Massacre.
A mente dele se clareou por um momento.
— Talvez devêssemos nos acostumar com a ideia de que vamos ficar aqui parados fazendo nada — disse, a voz arranhada. — De novo.
Silêncio. Um silêncio que doía mais que qualquer notícia ruim.
desbloqueou o celular, olhos correndo pelo texto, o coração batendo tão rápido que ele sentiu o impacto em cada vértebra. A mensagem de Massacre não era nada além de um catálogo de opções de compra. Ele bufou, deixando os dedos agirem sozinhos sobre a tela.
Você viu a ?
— Você precisa parar de falar coisas assim — Doc respondeu, firme, mas o vocalista mal ouvia uma palavra sequer.
Os pensamentos corriam em uma velocidade insana. Tudo se misturava, passado e presente colidindo com possibilidades futuras. Cada cenário era pior que o anterior.
— Talvez vocês devessem começar a me escutar — resmungou sobre o rugido em seus ouvidos.
O celular vibrou de novo.
Fiz uma entrega pra ela em uma festa em Hollywood Hills na noite passada, acho que ainda está rolando.
Mas e você vai pedir alguma coisa ou só vai perder o meu tempo?

digitou rápido, sem paciência:
Vai ficar pra próxima.
Ele tragou o cigarro na esperança de que a nicotina pudesse desacelerar a sua mente o suficiente para que pudesse tomar uma atitude. Para que pudesse pensar.
— Acreditem em mim, mais do que qualquer um, eu odeio saber que eu estava certo daquela vez — disse, a voz arranhada, olhando para o teto como se as paredes pudessem lhe dar respostas. — Tem alguma festa rolando aqui na região hoje?
Cada segundo que passava aumentava a sensação de urgência. O coração batia forte demais, o estômago apertado, a mente girando sem controle.
Onde ela está?
— E você está pensando em uma festa? — o agente perguntou, a voz carregada de incredulidade.
— Sempre tem alguma festa rolando — Tony deu de ombros.
— Eu sei que não sou a melhor pessoa quando se trata da , tá? — murmurou, a ansiedade evidente em cada palavra. — Mas ela estava estranha em Seattle.
— Você disse que Gus estava estranho em New York também — Kalil comentou, quase um murmúrio.
— Quantas festas podem estar acontecendo por aqui ao mesmo tempo? — o vocalista insistiu, os dedos apertando o maço de cigarro.
— O quão estranha ela estava? — Doc pareceu finalmente prestar atenção.
— Estranha... Quieta — respondeu, olhando para baixo, incapaz de controlar o nó no estômago.
O silêncio caiu sobre eles, pesado e tenso.
— Por que você está perguntando de uma festa? — Doc quebrou o silêncio.
— Massacre disse que fez uma entrega pra em uma festa aqui por perto ontem — respondeu, a urgência na voz já era uma constante.
— E você não pensou em nos contar? — Tony perguntou, desconfiado.
— Não é como se vocês estivessem realmente escutando o que eu digo — o vocalista retrucou, um sorriso irônico se formando nos lábios.
— Nós estamos ouvindo agora — Kalil disse, tentando manter a calma.
— Porque ela estaria em uma mesma festa desde ontem? — Tony questionou, incrédulo.
— Se ela estiver tão chapada quanto o Doc mencionou, não vejo porque não — respondeu, sem disfarçar a preocupação.
— Quem aqui costuma dar festas tão longas? — Kalil perguntou, já pegando o telefone.
— Estou mandando mensagem para o Cook — o vocalista disse. — Ele sempre sabe dessas coisas.
— Devo ligar pras gêmeas? — Kalil perguntou, sacando o celular. apenas acenou em confirmação, sem tirar os olhos da tela.
— Talvez Cameron saiba de alguma coisa — Tony acrescentou, começando a tatear os bolsos.
Doc tocou o ombro de , firme como uma âncora em um mar revolto.
— Não vai acontecer de novo — disse o agente, quase em uma promessa.
— Não tem como você ter certeza — o vocalista retrucou, a tensão transbordando da boca.
Nós não vamos deixar acontecer de novo — Doc respondeu, a voz carregada de determinação.
As próximas horas se arrastaram enquanto eles ligavam para cada pessoa que conheciam na região. Cada toque que terminava em silêncio ou negativa drenava um pouco mais da energia de , deixando-o mais exausto, mais desesperado.
Onde ela está?
O pensamento martelava na cabeça dele, rápido demais para ser contido. Cada minuto sem notícia era um soco no estômago, uma corda apertando seu peito, um frio que subia da barriga até a garganta. sentia a sanidade escorregar por entre os dedos, um abismo se abrindo lentamente sob seus pés, sugando qualquer resto de calma que ele ainda tivesse.
Até que, de repente, o celular dele tocou.
O som cortou o ar como um estalo, fazendo o coração de disparar. Cada fibra do seu corpo se estremeceu. Ele agarrou o aparelho com mãos trêmulas, o mundo inteiro reduzido à tela iluminada que o assombrou pelas últimas horas.
Número desconhecido.
Ele nem hesitou em atender.
Você já chegou em LA? — uma voz familiar cortou o outro lado da linha.
sentiu o coração acelerar em uma fração de segundo.
? — sua voz saiu quase rouca, carregada de emoção, tremendo apesar de todo esforço para manter a calma.
Ele sentiu uma mistura estranha de alívio e ansiedade percorrer cada nervo do corpo, como se tivesse acabado de emergir de um mergulho escuro e profundo.
Todos os outros na sala pareceram repentinamente alertas à ligação.
? — veio a resposta dela, estranha, distante, mas inegavelmente ela. E naquele instante, só ouvir a voz de trouxe uma onda de conforto que ele jamais imaginou que sentiria por conta dela.
— Você me ligou — disse , tentando conter a angústia, mas falhando miseravelmente.
Merda — um barulho alto, música estrondosa, risadas e conversas confusas surgiram do outro lado, e o vocalista começou a balançar os pés ansiosamente. — Eu queria ligar pro Tony, foi mal.
— ele chamou, a urgência na voz transparente, quase suplicante. — Onde você está?
Em uma festa — respondeu ela, com a voz mole, preguiçosa, como se a própria preocupação do mundo não a alcançasse. Essa não era a voz normal dela.
— Onde? — pressionou, nervosismo evidente a cada palavra.
Na casa do Combs — disse , com a voz lenta, inconsciente do peso que carregava.
— Combs? — ele tentou, inútilmente, esconder o ciúme que crescia por baixo da preocupação.
Ele ouviu alguém chamá-la do outro lado, um homem. deu uma risada tropeçada e sons desconexos preencheram a ligação, e ainda assim, só o fato de estar ouvindo a voz dela era um alívio que o fez respirar fundo pela primeira vez em horas. Seu peito apertado parecia finalmente relaxar um pouco.
Eu preciso ir — disse ela rapidamente. — Se vir o Tony, avisa que eu liguei. Eu realmente precisava falar com ele agora.
E desligou.
ficou parado, o telefone ainda quente nas mãos, olhando para os amigos que esperavam ansiosos pelo fim da ligação. O coração batia acelerado, a adrenalina correndo pelas veias, mas agora misturada a uma sensação frágil de relaxamento.
Era ela. Ela estava bem.
O vocalista limpou a garganta, como se também limpasse a mente.
— Nós conhecemos algum Combs? — perguntou, a voz carregada de tensão.
— Esse não é o nome verdadeiro do P. Diddy? — Tony respondeu, com uma expressão confusa, quase incrédula.
— Merda — o vocalista murmurou, levantando-se apressado e pegando a chave do carro que Doc deixou sobre a mesa com o passar do tempo.
Tony chamou, mas já estava em modo automático, organizando-se para sair sem prestar atenção nos amigos.
! — Kalil falou alto, cortando o impulso do vocalista imediatamente.
— O que? — ele quase gritou, os dedos apertando a chave com força.
— Me diga que ela não está em uma festa na casa do Diddy — disse o baterista, calmo, mas firme.
— Eu não vou dizer — respondeu , seco, a garganta pulsando em cada palavra.
— Caralho, ela está numa festa do Diddy — Tony murmurou, a conclusão atingindo todos como um choque.
Doc entrou na conversa com a voz fria e firme, cruzando os braços:
— Ela está bem. O que pensa que está fazendo?
— Eu vou buscar ela — disse o vocalista , já caminhando em direção à porta da frente, cada passo carregado de urgência.
— Nós vamos com você — Tony disse, seguindo atrás dele, com Kalil logo em seu encalço.
— Não — nem olhou para trás, a determinação queimando em seus olhos.
— Ela pode estar metida em alguma merda — Kalil disse, tentando apelar para a razão.
— E é por isso que sou eu quem vai até lá — respondeu ele, atravessando a porta e marchando em direção ao carro.
— Foda-se, , nós vamos — o baterista insistiu, a frustração evidente.
parou um instante, passando as mãos pelo cabelo impacientemente, tentando conter a avalanche de pensamentos e adrenalina.
— Nós não precisamos causar um escândalo — murmurou ele, baixo, quase para si mesmo. — Você sabe como ele é.
— Mas você pode — Kalil respondeu, seco.
— Todo mundo me conhece. Não vai ser surpresa nenhuma eu chegar causando confusão — disse , tentando se convencer de que poderia controlar a situação.
— Se chegarmos todos juntos, isso pode ser um problema — refletiu Kalil, cauteloso. Como se estivesse chegando na mesma conclusão que ele.
— Desde quando você liga pra escândalos? — Tony perguntou, sarcástico, mas nervoso.
— Desde que a idiota da nossa guitarrista é uma mulher e está sozinha numa porra de festa de um estuprador filho da puta que, por acaso, é um dos caras mais poderosos de Hollywood disse, cada palavra quase cortando o ar, o peito apertado, a respiração pesada.
— Merda, — Tony murmurou, a tensão finalmente atingindo todos.
— Doc chamou, fitando-o com um olhar duro. — Não faça nenhuma besteira.
— Eu aviso vocês assim que resolver isso — disse por fim, saindo pela porta da frente sem olhar para trás.


Capítulo 27 — Temper Temper


“Too late 'cause now you can't disarm
Too slow, you know you should've backed down
Did you think before you crossed that line?
This intervention's gonna be divine”
— Temper Temper, Bullet For My Valentine.


Entrar no carro de Doc e dirigir rumo à casa do bicho papão de Hollywood para resgatar parecia uma espécie de experiência extra-corpórea.
sentia como se o volante estivesse preso em suas mãos, mas ele mesmo fosse apenas um passageiro — arrastado por lembranças que não pediram permissão para voltar. As ruas sinuosas que levavam ao topo da colina eram velhas conhecidas, iluminadas por flashes de uma vida que parecia pertencer a outra pessoa.
Da última vez que tinha feito aquele trajeto, estava acompanhado de uma das Kardashians. Ou talvez fosse qualquer outra modelo genérica, com rosto de capa de revista e cabeça vazia. Ele não se lembrava com precisão — e, se parasse para pensar, não fazia diferença. Naquela época, estava vivendo uma fase em que se guiava pelo corpo e não pela mente. Uma fase que, se fosse honesto, nunca havia terminado de verdade.
se lembrava de subir aquelas escadas com a garota pendurada no braço, a pele dela cheirando a perfume caro misturado a álcool doce. A excitação queimava nele, acentuada pelo êxtase que tinha dissolvido na língua mais cedo. O mundo ao redor se contorcia em pulsos coloridos e intensos, e tudo o que ele queria era arrancar a calcinha dela no banheiro do andar de cima. Lembrava-se da sensação de enfiar a mão por baixo da saia, os dedos deslizando até encontrar a umidade quente entre as pernas, quando um som diferente atravessou a névoa.
Uma comoção.
Vozes subindo o tom.
E então uma em particular, rasgando o ar.
parou, os olhos arregalados. Reconheceu a voz furiosa de imediato — Gus. Não precisou entender as palavras: o tom bastou. Era como ouvir um grito de guerra, e seu corpo reagiu sozinho, correndo em direção ao chamado.
O quarto se abriu diante dele como uma cena congelada, mas cada detalhe era um soco nos olhos. Gus discutia com Ashton, cuspindo palavras soltas, pedaços de frases que não formavam sentido algum para a mente turva do vocalista. O outro devolvia os gritos, tão alterado quanto. Mas nada daquilo precisava de tradução verbal — a imagem dizia tudo.
No fundo, Sarah.
A estudante de veterinária da UCLA. A namorada de Gus na época.
Uma garota normal.
Ela estava encolhida na cama, enrolada em um cobertor sujo de vermelho, os olhos fixos em um ponto que ninguém mais via. Não havia nada ali, apenas um vazio que fazia estremecer, mesmo chapado.
Ao lado da porta, Mila segurava uma embalagem plástica enorme contra o peito, como se fosse uma espécie de arma improvisada. O vocalista lembrava de se questionar se aquilo era um frasco de lubrificante, mas não podia ser, não considerando aquele tamanho absurdo.
Enquanto isso, Gus e Ashton pareciam protagonizar uma batalha de rap no meio do quarto. Então, reparou na aparência dos dois. O guitarrista estava perfeito, roupas impecáveis, nem um fio de cabelo fora do lugar. Já o outro, muito pelo contrário, estava sem camisa, o peito marcado de suor, o cinto frouxo balançando na calça. O contraste entre os dois gráfico o suficiente para fazer a o cérebro do vocalista começar a funcionar.
Foi naquele mesmo momento que Gus deixou as palavras de lado e lançou o primeiro soco. O impacto mal teve tempo de ecoar pelo quarto, Ashton revidou em meio pensamento, partindo para cima do guitarrista com sangue nos olhos. não pensou, apenas reagiu. Deu o segundo soco, levou o terceiro, tentou devolver o quarto. A sequência se instalou como uma engrenagem inevitável, uma espiral de violência que girava rápido demais para ser contida.
E no meio dos gritos, dos punhos e da adrenalina, se deu conta de que não havia mais volta.
O vocalista ainda estava perdido em lembranças quando estacionou o carro em uma das ruas paralelas, mas, no instante em que puxou o freio de mão, os primeiros graves da música eletrônica fizeram o carro tremer. E soube que nada de bom sairia daquilo.
Entrar na festa foi ainda pior: a batida alta e repetitiva parecia vibrar dentro do crânio, como se fosse feita sob medida para arrancar a paciência de quem não tivesse coragem o suficiente de encarar algumas bebidas, pílulas ou outros entorpecentes de procedência duvidosa.
O evento parecia uma cópia barata de todos os outros que já havia suportado ali. O mesmo repertório genérico, as mesmas luzes coloridas e abafadas, o mesmo cheiro azedo de álcool misturado a suor e fumaça. Pessoas demais se amontoavam em cada canto, rindo alto, gritando para serem ouvidas acima da música, trombando umas nas outras. Era o tipo de cenário em que detestava estar sóbrio. Mas, naquela noite, não havia nada que ele pudesse fazer sobre isso.
O vocalista respirou fundo, tentando ignorar a vontade de virar as costas. Mas para a sua sorte, ou azar, uma voz atrás dele se sobrepôs o barulho:
? Você por aqui?
Uma mão firme pousou em seu ombro. enrijeceu o maxilar antes de se virar.
— Hunter.
O produtor estava exatamente como se lembrava: grande. Um cara alto, com ombros largos e um jeito sempre arrumado demais para parecer casual. Usava jaqueta de couro, cabelo raspado nas laterais e cheio no topo, barba curta bem aparada. Os olhos castanhos tinham um brilho atento, quase invasivo, e o sorriso fácil carregava aquele tipo de carisma incômodo que nunca confiava. O típico cara da indústria que era cheio de contatos e tinha pouco filtro, com aquele sorriso fácil de quem se sentia à vontade em qualquer ambiente.
— Achei que você tivesse dito que não aparecia mais nessas festas — disse Hunter, erguendo as sobrancelhas em provocação.
demorou um segundo para responder, engolindo o desconforto que subia pela garganta.
— Digamos que hoje eu abri uma exceção.
— Deve ser por uma boa razão.
— Algo assim.
Hunter sorriu aparentemente satisfeito com a resposta. Não era de se estranhar o vocalista oferecendo meias respostas por aí.
— Então vem comigo. Vamos providenciar um copo pra você. Tem whisky de sobra, do jeito que você gosta. Aliás... Você ainda anda na codeína?
A pergunta veio baixa, quase íntima, mas ainda assim fez o vocalista prender a respiração. bem que faria um bom uso de um lean agora… Ele desviou o olhar, varrendo o salão em busca de alguma silhueta familiar. Nada. Nenhum rosto conhecido. Só vultos anônimos que dançavam e riam como se o mundo fosse acabar naquela noite.
Onde ela está?
— Acho que vou ficar só na cerveja hoje — murmurou, sem se dar ao trabalho de disfarçar a irritação. A droga teria que esperar.
— Como quiser. A gente começa devagar — Hunter disse, com aquele tom de quem sempre planeja chegar mais longe.
Os dois caminharam juntos até o bar improvisado no canto do salão. O balcão estava abarrotado de garrafas, copos descartáveis e manchas de bebida derramada. Hunter pegou duas cervejas e entregou uma a , ainda falando, contando alguma história sobre um artista novo, sobre contratos, sobre dinheiro, sobre qualquer coisa.
Mas não estava realmente presente. O corpo dele ocupava espaço na festa, mas a mente vagava longe — presa entre o desconforto de estar ali e a certeza inquietante de que não tinha vindo à toa.
Seus olhos percorriam o ambiente de forma quase automática, urgentes, compulsivos, como se buscassem uma única frequência em meio ao caos. Uma presença. Um motivo. A razão exata pela qual ele quebrou a própria promessa de nunca mais colocar os pés em uma festa como aquela.
Ela tinha que estar ali.
A cerveja gelada, esquecida em sua mão, já escorria pelos dedos em filetes frios, mas ele mal registrava a sensação. A música pulsava alto, martelando no peito com insistência irritante. E, por trás de cada batida, uma outra onda se formava — mais baixa, mais funda, mais incômoda.
Um pressentimento que se estreitava no estômago.
Uma certeza sem explicação.
Onde ela está?
— Jennifer, olha só quem resolveu aparecer — disse Hunter, o sorriso insinuante estampado no rosto como sempre.
virou o rosto e encontrou a cantora se aproximando, o vestido justo, preto e curto, realçava as curvas sem esforço. Os cabelos loiros, ondulados até os ombros, brilhavam sob as luzes coloridas da festa, e a maquiagem impecável destacava ainda mais os olhos verdes sob uma sobrancelha arqueada de forma quase cética.
. Faz tempo que não te vejo por aqui.
Ele ajeitou a postura, desconfortável com a atenção repentina, como se estivesse sendo observado sob um holofote.
— Andei ocupado — ele respondeu, seco.
— Imagino — o sorriso dela era treinado, encantador no limite do artificial. — Vi sua entrevista na MTV — ela inclinou o rosto de leve. — E o novo álbum, como vai?
— Devagar — respondeu ele, sem elaborar, como se cada palavra custasse.
— Normal — Jennifer assentiu com ares de especialista. — Deve ser estranho trabalhar com alguém novo depois de tanto tempo.
Um músculo saltou no maxilar de .
— Você não faz ideia.
— Tá falando da guitarrista nova? — interrompeu Hunter, como quem joga lenha na fogueira.
— De quem mais seria? — Jennifer estalou os dedos, satisfeita com a participação do amigo. — Aquela latina que escreveu pro Måneskin e até pro Bad Bunny… Como era o nome dela?
Hunter deu de ombros, indiferente.
alguma coisa.
— disse , com a mandíbula cerrada. O nome saiu pesado, quase amargo. Seus olhos já percorriam a multidão, inquietos, como se a simples menção pudesse materializá-la em meio às luzes e ao som ensurdecedor.
Onde ela está?
— Isso, ! — confirmou Jennifer, e havia algo de provocador no jeito como ela saboreava cada sílaba.
— Ela parece complicada — comentou Hunter, bebendo como se fosse apenas mais um assunto banal.
respirou fundo antes de responder, a voz carregada de ironia.
— É uma forma de se dizer.
Jennifer deu mais um passo, fechando a distância entre eles, e pousou a mão no braço de . O toque foi suave, mas carregado de intenção — uma tentativa clara de puxá-lo para a órbita dela.
— Então você precisa relaxar — disse ela, a voz escorrendo falsa leveza.
sustentou o contato apenas pelo tempo necessário para esvaziá-lo de significado. Depois, permitiu que um sorriso canalha — automático, ensaiado, a armadura que vestia sem pensar — surgisse em seu rosto.
— Eu sempre preciso.
Hunter, que observava tudo com aquele faro infalível para confusão, arqueou a sobrancelha. O cheiro de drama parecia agradá-lo.
— Pois parece que você e a sua nova colega de banda tiveram a mesma ideia hoje — retomou o produtor, sem rodeios.
girou na direção dele com uma rapidez que denunciava mais do que qualquer resposta poderia encobrir. Os olhos se estreitaram.
— Como assim?
— Acho que a vi por aqui mais cedo… — comentou Hunter, num tom tão casual que parecia até indiferente ao estrago que causava. — Os caras estavam doidos atrás dela.
Jennifer abriu um sorriso curioso, quase animado com a fofoca.
Aquela era ela?
— Tenho quase certeza — respondeu Hunter, dando de ombros, como quem solta a bomba e continua a conversa como se fosse nada demais.
tentou falar com firmeza, mas a urgência escapou por entre os dentes, impossível de controlar.
— Quem estava com ela?
Hunter fingiu pensar, balançando a cabeça devagar.
— Não prestei muita atenção. Acho que o Kanye, o Paul, o estagiário da Bad Boy… Um ator estreante da Netflix, talvez. Difícil lembrar.
O estômago de virou gelo.
— Onde? — a pergunta saiu num tom baixo, direto.
Hunter ergueu o queixo, apontando com a cabeça.
— No jardim.
O mundo pareceu afunilar. Ele não respondeu — só virou as costas com um movimento brusco e avançou pela varanda. A música vibrava nas paredes, pesada, sufocante, como se tentasse mascarar tudo de errado que realmente acontecia ali dentro. Cada passo de parecia ecoar no próprio corpo, mais duro que o anterior, como se algo dentro dele estivesse se preparando para um impacto inevitável.
Parte dele queria encontrá-la logo. A outra parte torcia para que Hunter estivesse enganado — mas ele sabia que não estava.
E então ele a viu.
estava afundada nos sofás extravagantes, rodeada de garrafas abertas, fumaça e gente que ria alto demais para estar prestando atenção em alguma coisa. O coração de se apertou ao vê-la inclinar-se sobre a mesa, tampar uma narina e aspirar uma carreira de cocaína com a naturalidade de quem já tinha perdido a noção do limite.
Ele congelou. Por um instante, ficou completamente imóvel, como se o corpo tivesse levado um impacto invisível. Os olhos arderam — raiva, medo, incredulidade, tudo misturado demais para separar. A guitarrista tombou de costas no sofá logo em seguida, relaxada demais, entregue demais. Aquele definitivamente não era o lugar para isso.
deu o primeiro passo na direção dela quase sem perceber que estava se movendo.
Antes que pudesse alcançá-la, alguém puxou a cabeça de para o próprio ombro, segurando-a com intimidade. Os dedos do cara afundaram nos cabelos dela com a naturalidade de quem achava que tinha esse direito.
O sangue de gelou e ferveu ao mesmo tempo — uma reação química brutal, impossível de conter.
— Boa garota — murmurou Shane, satisfeito, alto o bastante para que escutasse.
O vocalista sentiu tudo dentro dele enrijecer. Ele conhecia Shane o suficiente para enxergar além da fachada — o sorriso fácil, a vibe de gente boa, tudo cuidadosamente calculado. Por trás daquele verniz de DJ amigável havia algo predatório, sempre à espreita.
— chamou , a voz carregada.
Ele se inclinou para segurá-la, mas o outro interceptou o movimento, prendendo o braço dele com força.
— Calma, . Não tá vendo que ela acabou de dar um tiro?
fechou o punho e trincou o maxilar com tanta força que doeu. Não olhou pra Shane. Não podia. Porque se encarasse aquele filho da puta, ia esquecer completamente onde estava.
Então fixou o olhar nela.
A respiração de estava lenta demais. A cabeça dela desabando no ombro do DJ como se estivesse apagando. O corpo mole, indefeso, entregue — totalmente nas mãos de alguém que não dava a mínima.
E algo em simplesmente rasgou por dentro. O tipo de coisa que, se ele deixasse sair, não haveria volta.
— Deixa a menina respirar — o outro provocou, sorrindo. — Essas coisas pegam forte. Você devia saber.
O vocalista mal ouviu. Uma pressão insistente batia contra suas têmporas. A raiva vinha em ondas, silenciosa, funda, como se estivesse se acumulando há anos — não minutos.
Shane apertou a cintura dela com dois dedos, exibindo-a.
— Parece que ela gostou.
por pouco não explodiu ali mesmo. Sentiu os punhos fechando antes da cabeça processar.
Ele se inclinou.
— Solta ela, cara.
O DJ riu baixinho e levou os lábios perigosamente perto do ouvido de .
— E por que eu faria isso? Você pode ter ela em todas as outras horas, já eu…
Foi instintivo — não houve raciocínio, não houve escolha. Só o estalo emocional do limite se rompendo.
avançou.
O soco acertou Shane com força. O som seco reverberou no mobiliário caro. O DJ largou ao cair, a mesa balançou, garrafas rolaram, o caos se espalhou como pólvora. A guitarrista escorregou do sofá, quase desmaiada, enquanto se jogava sobre o outro cara como se aquilo fosse a única resposta possível.
Shane riu com sangue escorrendo do lábio.
— Você quer brincar?
não respondeu. Não havia nada para dizer.
Avançou de novo, acertando outro soco, mas Shane aparou o golpe com o antebraço e devolveu com um direto que fez cambalear para trás, derrubando uma garrafa no processo.
A roda abriu ao redor deles. Gritos, bebida sendo jogada no ar, risadas excitadas. O caos da festa só cresceu. Ao menos os celulares eram proibidos ali.
não pensou. Segurou a gola da camisa do DJ e o puxou para um soco no estômago, depois outro no rosto. A mandíbula de Shane estalou, mas ele riu, cuspindo vermelho no chão.
— Você nunca perde a chance de chamar atenção, não é, ?
A provocação só inflamou ainda mais. o derrubou no sofá, os dois caindo juntos, e socou sem parar, cada golpe acompanhado pelo burburinho em volta. Shane tentou se proteger, mas a fúria do vocalista era implacável.
? — a voz fraca desviou a atenção dele.
.
O DJ aproveitou o momento de desequilíbrio e enfiou o joelho no estômago de , um golpe seco que arrancou o ar dos pulmões dele. Depois o empurrou para o lado com força, abrindo espaço entre eles. Shane se ergueu, ofegante, limpando o sangue que escorria do nariz com as costas da mão, irritado, mas claramente satisfeito.
— Porra — praguejou, cuspindo no chão.
O gosto metálico do próprio sangue batia na língua, quente, insistente. Mas ele não recuou. Nem pensou em recuar. Deu mais um passo à frente, movido por pura fúria — a raiva queimando, o cheiro de álcool e droga misturado à música alta, tudo empurrando ele mais fundo no impulso de arrancar Shane dali à força.
?! — Hunter surgiu correndo e praticamente se jogou em cima dele. — Caralho, cara, de novo essa merda?
tentou avançar mesmo assim, mas Hunter o agarrou pelos ombros e cintura, travando o corpo dele como se estivesse segurando um animal em disparo. Os braços de Hunter apertaram forte, arrastando um passo para trás.
— Me solta, porra! — rosnou , lutando contra o aperto.
Jennifer chegou logo atrás, branca como papel, os olhos arregalados ao ver o sangue no chão e a tensão prestes a explodir de novo.
E , mesmo preso nos braços de Hunter, ainda arfava feito alguém pronto para voltar a atacar. Porque ele não estava vendo festa, nem gente, nem luzes.
Ele só via Shane.
E isso era o suficiente para ele perder a cabeça de novo.
— Tira ele daqui! — a cantora gritou, a voz quase quebrando. — O Combs vai surtar!
Ao redor deles, a roda de espectadores se agitava com aquela excitação vazia de quem acha bonito assistir um desastre. Luzes coloridas piscavam, a música batia forte demais — tudo parecia artificial, exagerado, quase grotesco.
No centro disso, Shane deu dois passos para trás, rindo com sangue entre os dentes, como se aquela fosse a melhor parte da noite. Ele jogou um olhar provocativo para , pronto para atiçá-lo mais — mas dois idiotas aleatórios da festa, amigos de alguém ou simplesmente bêbados demais para entender a gravidade, entraram no meio.
avançou outra vez — impulsivo, pronto para acabar com aquilo — quando uma voz fraca rompeu o ruído mais uma vez.
…?
Era quase um sussurro. Um fiapo de som atravessando a música.
.
Foi como levar um golpe invisível no peito.
Tudo parou.
O barulho, a raiva, o impulso de atacar — tudo despencou de uma vez, como se alguém tivesse arrancado o chão debaixo dele. O ataque de adrenalina que dominava seus músculos se dissolveu rápido demais, deixando-o repentinamente vazio, ofegante, tonto.
piscou, tentando recuperar o ar, e se virou para ela.
estava meio caída, apoiada apenas porque o sofá ainda sustentava uma parte do seu peso. O rosto dela parecia drenado de cor; as pupilas, dilatadas demais, perdidas em algum lugar entre ele e o céu sem estrelas. Os cabelos grudavam na pele, desalinhados, e havia glitter espalhado pela bochecha como se fosse poeira de um desastre.
O peito dele apertou de um jeito que doeu fisicamente.
Ele atravessou o espaço entre eles sem nem perceber que tinha se movido, ignorando Hunter, ignorando Shane, ignorando tudo.
Se ajoelhou ao lado dela, respirando rápido, quase sem voz.
? — o nome saiu rasgado, mais emocional do que ele queria mostrar.
Ela demorou alguns segundos para focar o olhar nele — segundos que pareceram intermináveis. Quando finalmente o reconheceu, franziu a testa como uma criança acordando de um sonho ruim.
— O que você tá fazendo? — a voz da guitarrista mal passava de um fio de som, as sobrancelhas se franzindo como se tentasse distinguir o que era efeito da droga e o que era realidade.
— Você se machucou? — perguntou, mas a voz saiu baixa, quase rouca, carregada de medo que ele não admitiria nem sob tortura. — Consegue se levantar?
piscou devagar e assentiu, mesmo que o movimento deixasse claro que ela não tinha certeza de nada.
estendeu a mão. A dele tremia um pouco — ele esperou que ela não percebesse.
Quando os dedos dela tocaram os dele, algo dentro do peito dele pareceu se partir e se ajeitar ao mesmo tempo. Ele segurou firme — firme demais, talvez — como se, se afrouxasse, ela pudesse desaparecer ali mesmo.
— Vamos embora, parece que esses caras não sabem se divertir — disse ele, tentando soar casual, até irônico.
Mas a camada superficial da frase não enganava ninguém. Por baixo havia urgência, tensão, uma proteção instintiva, quase violenta. E medo. Puro medo.
Medo de que, se demorasse mais um minuto, encontraria num estado ainda pior.
Medo de que ela não estivesse completamente ali.
Medo de não conseguir tirá-la daquele lugar a tempo.
a puxou pela mão com cuidado, mas determinação. Cada passo que ela dava era meio falho, e ele ajustava o corpo automaticamente, pronto para segurá-la se desabasse. Ao redor, a festa continuava como se nada estivesse acontecendo — pessoas rindo, dançando, registrando um mundo que não tinha nada a ver com o deles.
Ele abriu caminho por entre corpos e fumaça, ignorando qualquer olhar, qualquer sussurro. Alguém falou algo atrás — alguma provocação vazia, meio rindo, meio zombando — mas nem se virou.
Só importava tirar dali.
Sem olhar para trás.
Sem hesitar.
Sem soltar sua mão.
A festa se dissolveu atrás deles.
O ar lá fora era mais frio, mais real, quase agressivo — mas parecia, pela primeira vez na noite, respirável.


Capítulo 28 — Savior


“That's when she said I don't hate you boy
I just want to save you while there's still something left to save
That's when I told her I love you girl
But I'm not the answer for the questions that you still have”
— Savior, Rise Against.


lançou outro olhar rápido por cima do ombro. estava largada no banco do carona, a cabeça tombada para o lado, os cabelos caídos como um véu desalinhado sobre o rosto. A maquiagem borrada deixava a impressão de que ela havia chorado — ou rido demais — ou simplesmente derretido sob os efeitos da droga. Era difícil saber. Ela parecia presa num limbo estranho entre a consciência e o apagão.
E, ainda assim, ela estava estupidamente linda.
— Tá com fome? — perguntou ele, a voz mais baixa do que pretendia.
A guitarrista levantou apenas o queixo, um aceno lento, quase preguiçoso, sem sequer abrir os olhos.
Linda e completamente fora de si, ele precisou lembrar a si mesmo.
prendeu a respiração por um segundo — só um segundo — antes de soltar o ar de forma pesada. Seus dedos cerraram ainda mais o volante, os nós dos dedos ficando pálidos.
Está tudo bem. Ela está aqui.
Então por que diabos o seu peito continuava tão apertado?
Aquela sensação gelada de tem algo errado, mas talvez seja só impressão — até perceber que não era impressão nenhuma. Como naquela vez.
O caminho para fora das colinas de Hollywood Hills parecia mais longo do que nunca. A cidade se estendia lá embaixo, um mar de luzes cintilantes que subia e descia conforme descia as curvas sinuosas. Os faróis dos carros refletiam no para-brisa, iluminando por instantes o rosto de — pálido, perdido, bonito de um jeito que bagunçava tudo dentro dele.
Cada curva era um lembrete irritante, quase cruel:
Você não devia sentir nada disso. Não por ela. Nunca por ela.
Mas sentia. E o coração só apertava mais.
A certa altura, a guitarrista mexeu a cabeça, tentando encontrar uma posição mais confortável, e soltou um som baixo, quase um gemido cansado. desviou o olhar por reflexo, como se aquilo fosse íntimo demais. Ridículo, considerando tudo que já ouviu daquela mesma boca.
— Tá tudo girando — murmurou ela, a voz arrastada, tropeçando nas palavras.
— Tenta manter os olhos abertos — respondeu ele sem pensar.
— Tô tentando… — sorriu, torto, fraco, um sorriso que não chegava aos olhos.
— Você vai vomitar? — ele perguntou, prático demais para alguém tão ansioso.
— Preocupado com o seu carro, bonitinho? — ela rebateu, lenta, provocativa.
— Pode vomitar — deu de ombros. — O carro é do Doc.
riu. Sem força, mas riu.
também, porque era impossível não acompanhar, não quando ela estava ali, quando estava tudo bem.
— Eu só deixaria pra fazer isso depois de comer — ele acrescentou. — O cheiro vai ficar insuportável.
— Você tem um ponto — ela admitiu.
— Então levanta essa cabeça — ele pediu, ou ordenou, do jeito dele.
— Você é muito mandão, sabia? — retrucou, com aquele tom mole de quem está longe de plena consciência.
Sabia.
engoliu seco.
Ótimo. Agora ela estava no modo provocação mole de pessoa drogada. Perfeito.
Ele não respondeu. Não confiava na própria voz.
Quando chegaram ao drive-thru do Chicken-fil-A, o neon vermelho e amarelo parecia brilhar forte demais, como se gritasse que aquele momento — ele e ela juntos, sozinhos, no meio da madrugada — era errado de todas as maneiras possíveis.
Eles fizeram o pedido quase em silêncio. O único som, além da voz mecânica da atendente, foi encostando a testa no vidro aberto da janela, deixando a pele fria tocar o ar quente da cozinha lá dentro.
— Queria batata — murmurou ela, arrastado. — Muita batata.
— Já pedi — disse , tentando não sorrir.
— Hm. Com milkshake?
— Com milkshake de baunilha.
abriu um sorriso pequeno, lento, quase infantil.
— Quem diria?
Ele decidiu fingir que não ouviu.
Quando pegaram a comida, o cheiro quente e gorduroso preencheu o carro. agarrou uma batata com dedos trêmulos, mastigando devagar, como se cada movimento exigisse esforço.
comeu um pedaço de frango sem realmente sentir o gosto. Seus olhos estavam fixos no para-brisa, nas pessoas passando, nos carros entrando e saindo. Qualquer coisa para não olhar para ela por tempo demais.
Mas ele olhou mesmo assim.
— Você… — ele começou, mas a frase morreu no meio. Merda. Ele não sabia nem por onde começar. Odiava aquele discurso, odiava quando falavam isso com ele — e, mesmo assim, ali estava, pronto para repetir a mesma preocupação idiota que tantas pessoas já tinham jogado na cara dele. — Você deu só aquele tiro ou…?
deu de ombros, casual demais para alguém que mal conseguia manter os olhos abertos.
— Ou.
A palavra caiu no ar com uma leveza que deixou o peito dele gelado.
… — ele tentou, mas não sabia se era uma repreensão, um pedido ou um aviso.
Ela levantou os olhos devagar, entortando um sorriso malandro, quase doce.
— Relaxa, bonitinho.
revirou os olhos, mas o gesto saiu meio travado. Ele respirou fundo, soltando o ar num suspiro carregado de frustração… E de algo que parecia nervosismo. Não que ele estivesse muito disposto a admitir.
— Não me chama assim — resmungou ele.
— Por quê? Mexe com você? — perguntou ela, inclinando a cabeça, a voz arrastada, provocando sem nem perceber o tanto que provocava.
Ele apertou ainda mais o frango na embalagem, como se aquilo fosse ajudar a manter a sanidade.
— Come — ele disse apenas, tentando encerrar o assunto.
Ela o encarou por um momento, os olhos meio semicerrados, indecifráveis — como se pudesse ver exatamente o que ele tentava esconder. Depois pegou outra batata, mordeu devagar, e murmurou:
— Um de nós sempre aparece quando o outro tá ferrado.
engoliu, sem saber se a frase o irritava ou o atingia em cheio.
— É pura coincidência.
— Aham — ela cantarolou, com um sorriso lento. — Coincidência.
O silêncio que veio depois não foi o silêncio confortável de dois amigos nem o silêncio hostil de duas pessoas que se odeiam. Era algo no meio, algo denso, carregado, cheio de coisas que talvez nenhum dos dois devesse dizer.
Quando terminaram de comer, voltou a dirigir.
E o carro mergulhou na madrugada, acompanhado apenas daquele silêncio pesado que parecia respirar junto com eles.
E no peito dele, o coração continuava batendo rápido demais.
As luzes da cidade passavam rápidas demais pelo vidro, recortando sombras no rosto de — sombras que o deixavam inquieto. Ela estava largada no banco, a cabeça encostada, os cabelos despenteados caindo sobre os ombros. O rosto ainda tinha aquele brilho estranho — parte vulnerabilidade, parte insolência — que sempre deixava Des sem saber se queria protegê-la ou virar o carro e fugir dali.
desviava olhares furtivos para ela, incapaz de evitar. Cada vez que o fazia, aquele nó no estômago apertava mais.
Preocupação?
Raiva?
As duas coisas misturadas num coquetel que ele vinha tentando engolir há meses.
Ela parecia melhor do que quando ele a encontrou. O olhar mais firme. A respiração mais estável. A consciência voltando aos poucos, daquele jeito lento e teimoso que era muito ela.
E aí, antes que ele pudesse se conter, saiu:
— Você está bem?
soltou uma risada curta pelo nariz, quase zombeteira.
— Eu estou ótima. Você não precisava ter aparecido — respondeu ela, a voz arrastada, mas firme o suficiente pra cutucar.
Ele respirou fundo, sentindo a irritação arranhar o fundo da garganta.
— Não precisava — repetiu ele. — Mas ainda bem que eu apareci.
Ela revirou os olhos, como se ele fosse inconveniente. Ou previsível. Ou ambos.
O carro voltou a se encher de silêncio. Só o motor, só o som da rua — e o coração dele insistindo em bater alto demais, rápido demais.
tentou não olhar para ela, mas falhou miseravelmente. Ela ainda parecia prestes a desmoronar. E ainda assim… Tão . Teimosa. Insolente. Linda de um jeito que só piorava tudo.
Ele se sentia cheio de perguntas, mas só uma conseguiu sair.
— No que você estava pensando, ?
O suspiro dela foi longo, carregado, quase um desabafo que ela não pretendia dividir.
— Eu precisava de uma bebida… E talvez algo mais forte.
Ele apertou o volante como se fosse estrangulá-lo.
— E você não podia ter ligado pro seu traficantezinho?
— Massacre estava lá — ela respondeu com desdém.
riu sem humor, um som seco, amargo.
— Claro que estava.
O sorriso dela veio torto, provocador. queria odiar aquilo. Queria mesmo. Mas só conseguia sentir aquele maldito aperto no peito.
— Isso não é engraçado — ele disse, seco. — Você está na indústria há anos. Devia saber mais sobre se meter com aquela galera.
— Por que você se importa? — ela rebateu.
Por quê?
A pergunta reverberou no peito dele como uma sequência de batidas fora do ritmo.
Por que diabos ele se importava?
Por que cada merda que ela fazia o deixava à beira de um ataque?
Por que ele não conseguia ficar longe por muito tempo?
Por que eles sempre esbarravam um no outro como se o mundo estivesse conspirando?
Por que toda vez que ele olhava para ela algo dentro dele simplesmente… Desmoronava?
E por que, quando ela sumiu naquele dia, o pânico veio rápido demais, forte demais?
engoliu seco.
— Eu não me importo — ele disse por fim, a voz baixa demais para ser convincente.
soltou uma risadinha curta, ácida, quase doce, mas cheia de veneno.
— Claro. Aham.
Ele desviou o olhar, o maxilar tão tenso que poderia partir ao meio.
— Para de achar que pode me controlar ou algo do tipo — ela completou, cruzando os braços, a voz embotada mas afiada.
— Eu não quero — disse ele, impaciente. E era verdade… E não era.
— Então o que você quer? — perguntou ela, irritada, sem perceber o modo como a pergunta acertou algo muito mais fundo.
não respondeu, concentrando-se na estrada sinuosa de volta à Hollywood Hills.
O que ele queria?
Ele mesmo não sabia.
Ou sabia bem demais — e não queria dizer.
mantinha os olhos semicerrados, mas ele não se deixava enganar. Ela estava atenta. Atenta a ele. Atenta ao modo como ele respirava, ao modo como desviava o olhar sempre um segundo tarde demais. Ela sentia o clima tanto quanto ele — talvez até mais.
E isso deixava o vocalista tenso de um jeito primitivo, quase dolorido.
E cada vez que as sombras se moviam sobre ela, sentia algo apertar por dentro.
Um impulso.
Um medo.
Uma vontade idiota de puxá-la para mais perto — e ao mesmo tempo de pedir que ela desaparecesse da vida dele antes que ele fizesse alguma coisa estúpida. Alguma coisa que ele se arrependeria imediatamente.
O carro entrou na rua dele. Na rua dela.
Quando finalmente virou a última esquina e parou diante da própria casa, sentiu o corpo inteiro reagir como se tivesse sido descarregado. O coração ainda corria numa velocidade absurda, e havia um rastro de suor frio escorrendo pelas costas, grudando a camiseta à pele. As mãos continuavam presas ao volante — rígidas, tensas — como se soltá-lo fosse admitir tudo o que ele tinha passado a noite inteira tentando negar.
Ele respirou fundo, encarando a fachada silenciosa. A casa estava escura, quieta, quase acolhedora demais depois do caos da festa. Nenhum sinal de Kalil, Tony ou Doc. Claro que não. Eles já deviam ter ido embora há horas, provavelmente assim que receberam a mensagem apressada dele dizendo que estava com ela.
Com ela.
Ao lado, soltou um suspiro que pareceu maior do que ela própria.
— Você devia me deixar no meu apartamento — murmurou ela, a voz arrastada, sonolenta, mas tentando manter uma dignidade que já não existia.
O vocalista abriu a porta do carro antes que pudesse pensar melhor.
— E eu não gostaria de ter que sair pra te resgatar de novo — respondeu ele, seco. — Você pode colaborar, só dessa vez?
Ela deu um daqueles ombros indiferentes que, em qualquer outra noite, teriam feito virar os olhos e ir embora. Mas agora… Agora ela mal conseguia manter o próprio peso sobre as pernas.
Ele contornou o carro e abriu a porta do passageiro. Assim que ela tentou descer, o joelho cedeu — rápido, sem aviso — como se o mundo tivesse perdido o eixo. a segurou pelo braço no reflexo, puxando-a contra si antes que ela caísse no cimento.
— ele praguejou, apertando o maxilar. — Caramba.
Ela tentou se afastar, mas só conseguiu vacilar de novo.
Depois de alguns passos desengonçados, tropeços e um grunhido irritado dela, ele perdeu a paciência.
— Certo. Chega.
E, sem pedir permissão — porque ela com certeza não daria —, simplesmente a ergueu no colo.
O impacto foi imediato.
Físico.
Devastador.
O corpo dela se moldou ao dele como se fizesse sentido, como se fosse natural. A cabeça pousou contra o peito dele com uma familiaridade perigosa, e a respiração quente dela tocou a clavícula dele… Suave, lenta, íntima de um jeito que fez o chão parecer instável.
sentiu o coração disparar de um jeito que doeu de verdade, um solavanco profundo que fez seus pulmões falharem por um instante.
Droga.
Droga.
Droga.
Ele ajustou os braços ao redor dela, tentando firmar o passo, mas a própria proximidade o atingiu como um soco nas costelas. O perfume dela — um misto de suor, álcool, cigarro e algo cítrico inegavelmente dela — subiu e embaralhou qualquer lógica que ele ainda tinha.
Então veio o toque.
Os dedos dela roçaram o pescoço dele primeiro, leves, quase inconscientes… Até se enroscarem preguiçosamente no cabelo dele, puxando de um jeito que roubou o ar de por completo.
Ele tropeçou. Literalmente.
Um passo errado, o coração na garganta, os pensamentos em curto-circuito.
Ela riu baixinho, talvez sem perceber, talvez percebendo demais.
A proximidade dela estava detonando tudo que ele passou os últimos meses tentando manter sob controle — e ele sabia, com lucidez dolorosa, que aquilo era apenas o começo do problema.
— Você está fodendo com a minha cabeça — ele murmurou, sem filtro, sem pensar, a voz rouca demais, sincera demais.
sorriu contra o pescoço dele, aquele sorriso quente que ele sentiu, não viu.
— Eu poderia foder com outras partes também — ela sussurrou, a boca perigosamente perto demais da pele sensível dele.
O corpo dele reagiu antes da mente. Uma descarga quente subiu pela espinha, fazendo sua respiração falhar. Ele apertou os braços ao redor dela sem perceber — por reflexo, por necessidade, por fraqueza.
… — ele repreendeu, tentando soar firme. E falhando miseravelmente. O nome saiu quebrado, um aviso e uma súplica.
— Fala mais uma vez — ela pediu, respirando contra a pele dele.
Ele fechou os olhos com força.
— Você está muito chapada — a voz de não passou de um sussurro rouco, quase implorando para que ela parasse. Ou para que não parasse. Ele mesmo não sabia mais.
— Não sabia que isso era um problema pra você… — ela provocou, lenta e letal, cada sílaba escorrendo como um veneno doce, calculado ou completamente inconsciente. Tanto fazia. O efeito era o mesmo.
soltou um riso nervoso, quase sem ar, quase derrotado.
— É. Quando eu tô completamente sóbrio — ele confessou, sem querer.
A cabeça dela repousou em seu ombro por um segundo — um único e devastador segundo — e isso bastou para bagunçar tudo dentro dele.
O corredor parecia comprido demais enquanto ele a carregava. O som da própria respiração o denunciava — rápida, tensa, descompassada — enquanto a dela vinha lenta, quente, encostando no pescoço dele como um convite acidental. Ou não tão acidental assim.
Era um erro.
Ele sabia.
Deus, como ele sabia.
Quando chegaram à porta do quarto de hóspedes, ele a colocou no chão com cuidado, quase com reverência, como se ela fosse vidro prestes a estilhaçar. Por um instante, ele acreditou que ela iria se afastar, ou pelo menos vacilar.
Mas não.
Muito pelo contrário.
ficou ali.
Perto demais.
Quente demais.
Perigosa demais.
Como um incêndio prestes a pegar fogo.
O peito dela subia e descia devagar. O dele, rápido demais.
— Você está perto demais — murmurou, tentando soar firme.
— Eu estou — ela admitiu, em um sussurro que parecia um convite.
Ele fechou os olhos por um segundo — e quando abriu, a testa dele já estava encostando na dela. Era o tipo de gesto que ele jamais se permitiria. Mas naquele instante, ele não teve forças para não fazer isso.
— Por que você está fazendo isso? — ele perguntou, baixinho, cansado, honesto.
— Porque eu quero — ela respondeu, com um sorriso que ele sentiu antes de ver. — Qual é a sua desculpa?
engoliu o ar devagar, como se aquilo doesse.
Sua mão subiu por instinto, — como se tivesse vida própria — parando na nuca dela. O toque era leve, mas carregado de tudo que ele vinha escondendo. Seus dedos roçaram os fios soltos do cabelo dela, e o contato fez algo dentro dele se partir em silêncio.
— Você é linda — escapou dele, sincero demais, perigoso demais.
inclinou levemente a cabeça, e aquele microgesto — a curva quase preguiçosa dos lábios, o olhar que parecia sorrir antes do rosto.
— E eu que é que tô chapada.
soltou um riso curto, desgastado, sem um pingo de humor. Foi mais uma expiração cansada do que qualquer outra coisa.
— Não fode.
— Eu bem que queria.
O olhar dela era um golpe.
O dele, uma confissão involuntária.
E pela primeira vez, depois de todo esse tempo, permitiu admitir pra si mesmo:
Inferno, como ele a queria.
Queria desde sempre.
Apesar de tudo.
Por causa de tudo.
Contra qualquer senso de autopreservação.
E justamente por isso — ele deu um passo pra trás.
Um único passo.
Suficiente para quebrar o ar entre eles.
E aquilo o destruiu um pouco.
Ele sentiu o peito afundar, como se tivesse deixado algo importante para trás — algo que ela estava segurando sem sequer perceber.
— É melhor eu ir — sussurrou , a voz rouca, partida.
não disse nada por um momento. Só assentiu devagar, com um brilho nos olhos difícil de decifrar.
Ele já estava virando para ir quando a voz dela o chamou de volta:
— Você não respondeu…
O silêncio entre eles tremeu.
parou. Olhou para trás.
Ela o observava com a cabeça ligeiramente inclinada, a expressão aberta demais para alguém tão acostumada a esconder tudo.
Ele engoliu em seco, mantendo os olhos nela. Sempre nela.
— Sobre o quê? — ele murmurou, sem conseguir quebrar o contato visual, como se estivesse hipnotizado.
— Sobre o que você quer.
A frase veio curta. Direta. Letal.
Ela não piscou.
Ele também não.
O ar ficou mais denso, mais quente, mais apertado.
engoliu em seco, sentindo o coração bater na garganta, na língua, nos dedos. Ele sabia a resposta. Deus, ele sabia. E era exatamente por isso que não dizia nada.
manteve os olhos semicerrados, mas ele sabia que ela estava totalmente lúcida naquele ponto — não do corpo, mas do que acontecia entre eles. Ela analisava cada movimento dele, cada respiração que ele tentava controlar. Ela sentia a tensão tanto quanto ele. Talvez até mais.
E isso deixava tenso de um jeito primitivo.
Um jeito que doía.
— Me avisa se precisar de alguma coisa — disse ele, finalmente, mas as palavras soaram como um pedido de desculpas que ele não teve coragem de formular. Ou como uma confissão covarde empurrada para trás dos dentes.
E então saiu.
Fechou a porta atrás de si antes que o resto — tudo o que ainda estava preso no peito — escapasse.




Continua...



Nota da autora: Meu Deus, como eu amo esse capítulo! Fico toda boiolinha só de reler ele, porque esse momento tava escrito nas estrelas desde o início, feliz de compartilhar ele com vocês. Eu amo meu casal que sempre bate na trave! Tá vindo aí rsrs.
Não tenho muito a dizer, o antidepressivo tá fazendo efeito KKKK vou lá escrever mais!
Reiterando que sucumbi à pressão popular e criar o grupo no WhatsApp, fica aqui meu convite pras fiéis.
Até a próxima!
xXx Bleme.





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02. Please Please PleaseFinalizada