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Última atualização: 13/11/2025

Capítulo 1


“No ventre imortal, um novo poder nascerá,
Com chamas ardentes a lhe devorar.
Seu poder é verão, sua fúria é tormento,
Sua ira pode ser a queda ou o renascimento desse tempo”
A profecia de
.

O calor do sol parecia mais intenso ao redor de , como se o próprio verão estivesse se manifestando em sua presença. A brisa quente da tarde acariciava sua pele, e ela sentia a energia do oceano pulsando sob seus pés, guiando-a enquanto ela se preparava para enfrentar mais uma onda colossal.
Os mortais ao seu redor também eram grandes surfistas, mas sabia que nada poderia rivalizar com sua conexão com o calor do verão e a força das águas temperadas. Com um sorriso confiante, ela se lançou para o centro da onda que se formava à sua frente, seus movimentos como uma extensão da sua própria natureza. Cada giro e manobra parecia ser uma expressão da vitalidade que ela personificava, refletindo a beleza e o poder do sol.
Um golpe perfeito de sua prancha a fez elevar-se ao ponto mais alto de uma onda imensa, onde ela ficou suspensa por um segundo, como se fosse uma ave tocando os céus. Ao descer com destreza, sua prancha cortou a água com precisão, criando uma explosão de espuma que se espalhou em todas as direções.
Os espectadores prontos para aplaudir, ficaram em silêncio por um instante, maravilhados com a maestria de . Ela dominava o mar com tal intensidade que parecia até que o oceano e o céu estavam se rendendo à sua vontade, dançando ao ritmo do poder que pulsava sob sua pele. Mas o momento de êxtase foi interrompido quando um dos outros competidores fez um movimento ousado que quase conseguiu ultrapassá-la.
, no entanto, não perdeu a compostura. Um brilho em seus olhos indicava que, embora o desafio fosse grande, ela estava pronta para provar mais uma vez porque o verão era seu domínio, por mais que ninguém além dela soubesse disso. Ela sabia que a competição estava chegando ao clímax. Afinal, todos estavam ali disputando uma vaga para a próxima edição dos Jogos Olímpicos.
flutuava na água, sem pressa, o olhar fixo no horizonte onde o azul do céu se fundia com o vasto oceano. Seus sentidos estavam afiados, absorvendo cada movimento do mar. As ondas começavam a se formar ao longe, uma dança natural que se intensificava à medida que o vento soprava suavemente, trazendo consigo o cheiro salgado da água. A deusa do verão, agora sozinha, parecia imersa em um transe sereno, como se o tempo parasse ao seu redor.
Uma última onda, uma onda perfeita, estava por vir, e ela precisava estar pronta para capturá-la com a mesma energia que pulsava em seu ser, como o calor vibrante do sol ao meio-dia. A sensação de equilíbrio entre ela e o mar estava em seu auge, como se o próprio oceano estivesse aguardando por ela, alinhando as condições para sua vitória.
Enquanto aguardava a próxima bateria, olhou para o céu, onde o sol brilhava com ainda mais intensidade, refletindo sua própria natureza. O calor que irradiava de sua pele era como uma extensão do astro-rei, uma força incansável. Ela inspirou profundamente, sentindo o poder da estação em cada respiração. A deusa e o verão eram um só.
estava concentrada, sua prancha perfeitamente posicionada sobre as águas, os músculos tensos, aguardando o momento de se lançar para a onda que definiria sua vitória. O mar, silencioso por um breve segundo, parecia acompanhar sua respiração, esperando para reagir ao seu comando. Mas então, uma sensação desconcertante a atingiu, algo que ela não esperava: uma presença ao seu lado.
A deusa avistou um reflexo colorido em sua visão periférica no mesmo momento em que uma brisa quente inundou seu olfato com um aroma com notas cintilantes e frescas, como o orvalho matinal refletindo a luz do sol. , instintivamente, virou o rosto para a direita, onde, com uma leveza que desafiava a gravidade, Íris pousava ao seu lado, seu semblante geralmente atencioso agora marcado por uma expressão rara: culpa.
— Agora não é o momento, mãe — disse , seus olhos fixos na vastidão infinita do oceano, o cenho franzido de concentração. Ela sentia o calor do sol na pele e o ritmo das ondas como uma extensão de si mesma.
— Eu não estaria aqui se isso pudesse esperar — respondeu Íris, com um suspiro derrotado.
A deusa do verão não moveu um músculo.
— Podemos conversar assim que eu sair da água.
— É sobre o Olimpo, — disse Íris, sua voz um pouco mais ríspida do que de costume, com uma urgência que a deusa do verão nunca tinha ouvido antes.
— Então eu não estou interessada — ela se virou lentamente para ela, o tom aborrecido.
A deusa do arco-íris hesitou, antes de falar em um tom sombrio que raramente usava.
— Zeus está te convocando para o Conselho dos deuses — disse ela.
soltou uma risada sem humor, o som misturado ao sussurro do mar.
— Não, obrigada.
— Você sabe que não é opcional, — disse Íris, seus olhos brilhando com a impaciência de quem não tolerava ser ignorada.
— Então diga para ele vir me buscar ele mesmo — a encarou com firmeza, a irritação começando a tomar conta. — Agora, se você me dá licença, eu tenho uma prova pra vencer.
Íris fez uma careta, exasperada, antes de revirar os olhos e desaparecer em meio a um reflexo de arco-íris. O cheiro de orvalho se dissipou rapidamente com a brisa litorânea, deixando sozinha novamente, com a mente voltada para a imensidão azul.
Respirando fundo, a deusa voltou sua atenção para as ondas. O som das águas quebrando à sua volta se misturava ao calor do sol, enquanto o seu corpo sentia a conexão com o oceano de uma forma quase hipnótica. Ela podia sentir a onda perfeita se formando à distância, uma gigante que se erguia com toda a força e majestade que só o mar aberto podia oferecer.
Com um sorriso confiante, ela se posicionou na prancha, pronta para surfar a onda com a precisão de uma deusa. Ela deslizou, o vento acariciando seu rosto, e a água se curvando ao seu comando. Cada movimento seu era um reflexo do verão: radiante, forte e imbatível.
Porém, no meio da bateria, algo inesperado aconteceu. A onda, antes perfeita, começou a mudar. A crista, como se tivesse vida própria, se contorceu de maneira errática, perdendo a forma e quebrando com uma força descontrolada. tentou ajustar seu equilíbrio, mas o mar não era conhecido por ser gentil.
Com um estalo brutal, a onda a engoliu, nocauteando-a de forma inesperada. A prancha foi arrancada de seus pés e ela se viu submersa no caos das águas revoltas, o som do exterior abafado pelo rugido em seus ouvidos. O impacto foi forte, e sentiu o choque atravessar seu corpo, sua visão girando antes de ser engolida completamente pela espuma.
Depois disso, tudo ficou preto.
No momento seguinte, foi tomada por uma tosse brutal. A deusa do verão sentiu o corpo se contorcer enquanto tentava desesperadamente expelir a água que inundava seus pulmões. Mesmo com sua imortalidade, ela já tinha provado da sensação de afogamento mais vezes do que gostaria. A pressão nas costelas era quase insuportável, e o sabor salgado da água parecia impregnar sua garganta, fazendo-a lutar por cada respiração.
Quando finalmente conseguiu tomar um fôlego, piscou, tentando clarear a visão turva. Os primeiros segundos foram preenchidos pela ofuscante luz do sol, e ela precisou de um momento para se ajustar. Então, uma sombra pairou sobre ela.
Uma mulher loira. Olhos azuis cortantes. Um sorriso de puro escárnio.
O ar ao redor de pareceu vibrar, carregado de eletricidade. Seu sangue ferveu em resposta.
— Bem-vinda de volta, bastarda — disse a mulher, sua voz carregada de sarcasmo.
não demorou para reconhecê-la. Seu sangue cantava em resposta, quente e furioso.
— Leucoteia — disse entredentes, em um tom que prometia violência.
A mulher, Leucoteia, manteve a expressão de escárnio enquanto tentava se recompor. Alguém a ajudou a se sentar, e um salva-vidas rapidamente se aproximou, examinando-a com atenção.
— Ela está bem, pessoal! — anunciou o homem, sua voz aliviada, mas sem grande entusiasmo.
nem ao menos deu atenção a ele. Estava ocupada demais fuzilando a deusa do mar com os olhos, sentindo o seu poder dormente pulsar sob sua pele. Estava prestes a se levantar quando, repentinamente, alguém se jogou ao seu lado, invadindo seu espaço pessoal sem a menor cerimônia.
— Pelos deuses, , você se machucou? — A voz soou próxima, urgente, mas a mente da deusa ainda estava enevoada demais para reconhecê-la de imediato.
Dedos delicados tocaram seu queixo, virando seu rosto em direção a um par de olhos preocupados. Ela suspirou. Helena.
— Não foi nada... — a voz de não passou de um sussuro cansado. — Nem adianta tentar, — rebateu Helena, franzindo o cenho em uma expressão nada amigável. — Você ficou submersa por quase dez minutos.
revirou os olhos, fazendo uma careta ao sentir o gosto salgado do mar ainda impregnado em sua garganta.
— Estou em terra firme agora, não estou?
— Você é impossível! — exclamou Helena, exasperada.
Sem mais delongas, a mortal se colocou de pé com um pulo ágil, sacudindo a areia das mãos antes de estender uma delas para . A deusa aceitou sem hesitar, sendo puxada para cima com um movimento fluido e familiar.
— Você precisa parar de me assustar desse jeito — resmungou Helena, ainda sem largar seu pulso. — Um dia desses, você pode acabar não voltando.
— E deixar você tomando conta do clube? — retrucou com um sorriso provocador, erguendo uma sobrancelha. — De jeito nenhum.
Helena bufou e empurrou a amiga de leve.
— Idiota!
soltou um riso curto antes de se virar para a praia. O público começava a se dispersar, indicando que o evento já havia terminado. Seu coração deu um salto.
— Em que posição eu fiquei? — perguntou ela, girando nos calcanhares para encarar Helena.
A expressão da mortal mudou instantaneamente. Seus ombros caíram, e soube antes mesmo de ouvir a resposta.
Droga.
— Terceiro lugar — murmurou Helena.
— Terceiro lugar?! — repetiu alto demais, atraindo olhares curiosos ao redor.
— Shhh! — Helena a puxou pelo braço, conduzindo-a em direção ao calçadão. — Quer fazer uma cena?
— Como assim eu perdi duas posições?! — protestou , ignorando a discreção.
Helena suspirou, já esperando a reação.
— Você caiu em menos de trinta segundos.
— A onda era enorme! Não é possível que isso não valha alguma coisa!
— Não se você não consegue surfar ela — rebateu Helena, com uma careta exasperada.
O tapa veio rápido.
— Aí!
sentiu uma frustração crescente. Não só a onda a havia derrotado, mas a interrupção precoce significava que qualquer outra oportunidade de se provar estava arruinada. Ela foi classificada como reserva para os Jogos Olímpicos — uma posição que ela nunca imaginou que ocuparia.
Parecia uma piada de mal gosto.
O peso da derrota apertava sua garganta, mas ela manteve o rosto impassível enquanto caminhava pela orla com a amiga ao seu encalço. O calor do sol sobre sua pele parecia apenas alimentar a sua raiva interior.
Ao seu lado, Helena a seguia com uma expressão de quem sabia que não poderia fazer nada para mudar o curso dos acontecimentos. Ainda assim, a mortal tagarelava, numa tentativa frustrada de distrair do próprio fracasso. Mas, em vez de ajudar, as palavras apenas inflamavam ainda mais seu humor.
Até que Helena parou de repente.
— Helena? — franziu o cenho, diminuindo o passo até parar um pouco à frente.
— Aquelas loiras oxigenadas estão seguindo a gente — murmurou a mortal, inclinando a cabeça discretamente para a direita.
acompanhou o gesto e logo avistou Íris e Leucoteia a poucos metros de distância, fingindo uma conversa casual. Seus olhares logo se cruzaram, e Íris, sem hesitar, ergueu as sobrancelhas, acenando para que a filha se juntasse a elas.
Um suspiro impaciente escapou dos lábios da deusa do verão.
— Eu vou falar com elas — anunciou , já se preparando mentalmente.
— Você conhece elas? — perguntou Helena, desconfiada.
Infelizmente — resmungou . — Pode ir para casa. Amanhã vai ser um longo dia.
Helena hesitou por um instante.
— Tudo bem… Só não fica remoendo isso, tá?
forçou um sorriso.
— Vou tentar.
A mortal lançou-lhe um olhar cético antes de se afastar.
, por sua vez, respirou fundo algumas vezes, tentando reunir toda a paciência possível antes de se dirigir às duas deusas que a esperavam.
Leucoteia permaneceu à distância, seu sorriso satisfeito estampando o seu rosto. la não precisava dizer nada — sua simples presença já era um espinho na pele de . O ar ao redor parecia mais quente, carregado da irritação crescente da deusa do verão.
— Não foi tão mal, você ainda pode ser convocada para os Jogos... — Íris deu um passo à frente, tentando se aproximar da filha.
a ignorou, seu olhar distante, mas a raiva evidente em seu corpo era inconfundível. Ela não se importava com o que a mãe dizia.
Reserva. Aquela palavra ecoava na sua mente. Ela, a deusa do verão, tinha ficado em terceiro lugar, aquilo era inaceitável. E, para piorar, Leucoteia estava ali, assistindo a tudo com aquele maldito sorriso.
— Eu com certeza seria convocada, se Leucoteia não tivesse me derrubado — resmungou , os olhos lançando um olhar de canto para a outra, que caminhava à sua frente com um sorriso provocador.
— Eu não precisaria te derrubar se você tivesse ido com Íris — retrucou Leucoteia, sua voz repleta de deboche, como sempre. Ela parecia se divertir com a situação, e isso só aumentava a frustração de .
— Eu ficaria como reserva do mesmo jeito — bufou, a raiva subindo em sua garganta como uma maré prestes a transbordar.
Leucoteia se virou ligeiramente, seus olhos brilhando com um deleite cruel.
— Talvez esse seja o seu destino, irmã.
quase parou de andar. Ela sentiu o calor da raiva subindo como uma onda prestes a quebrar. Mas a deusa se recusou a ceder.
— Se esse é o meu destino, não vejo por que de eu ser convocada para uma reunião do Conselho — respondeu ela, a voz fria e desafiadora. — Todos sabem que eu fui exilada por causa daquela profecia idiota. Qual a dificuldade de me deixarem em paz?
O silêncio pairou entre elas enquanto caminhavam, os passos ecoando pelo caminho de pedras até o templo de Poseidon. Íris, que até então estava quieta, parecia pesar as palavras antes de falar, como se estivesse tentando encontrar uma explicação que fizesse sentido.
— Tempos extremos exigem medidas extremas — disse ela, sua voz calma, mas com uma seriedade que não passava despercebida.
quis retrucar, mas se conteve. O templo estava à vista agora — o imponente monumento de Poseidon, com colunas que pareciam tocar os céus. Um local de grande poder e reverência, mas, naquele momento, tudo o que ela queria era encerrar aquela conversa e entender por que, diabos, estava sendo chamada para algo que, em sua opinião, não lhe dizia respeito.
Ao chegarem à entrada do templo, Íris, sem mais palavras, ergueu a mão e abriu as portas com um gesto suave. No entanto, em vez do interior sagrado e escuro que esperava, diante deles se revelou uma paisagem impossível: um oceano de nuvens douradas, vastas e macias, estendendo-se até onde a vista alcançava. O ar era leve, a temperatura amena, e a cena surreal fazia parecer que flutuavam entre os deuses.
franziu o cenho, seu desgosto evidente.
— Eu não estava com saudades disso — resmungou ela, a voz impregnada de desdém.
— Isso não importa agora — Leucoteia respondeu, indiferente, dando de ombros antes de seguir à frente.
Íris, ao contrário, lançou um olhar compreensivo para , mas permaneceu em silêncio. Sua presença ao lado da filha parecia uma tentativa silenciosa de oferecer algum tipo de conforto — não que quisesse ou precisasse disso.
Juntas, atravessaram a paisagem celestial, o som de seus passos sendo a única trilha sonora da caminhada.
Quando finalmente chegaram ao destino, o Conselho já estava reunido. Íris parou diante da escadaria de mármore reluzente e lançou-lhe um último olhar encorajador, acompanhando o gesto com um pequeno aceno e um sorriso acolhedor.
Leucoteia, por outro lado, manteve-se indiferente.
Nenhuma das duas poderia acompanhá-la dali em diante.
não sabia dizer se isso era uma bênção ou uma maldição.
Ela inspirou fundo, reunindo o pouco de paciência que lhe restava, e subiu os degraus, atravessando as imponentes portas brancas.
O som das pesadas dobradiças reverberou pelo salão, arrancando os deuses de suas conversas. Murmúrios se espalharam como um incêndio contido, e uma dúzia de olhares avaliativos voltou-se para ela.
Apesar de sua reputação, poucos ali a conheciam pessoalmente.
Para muitos, era apenas uma lenda distante.
Mas agora, ali estava ela.
E todos pareciam querer ver o que aconteceria a seguir.
! — a voz profunda de Zeus cortou o burburinho, cheio de uma formalidade que quase soava sarcástica. — Que honra nos dar o prazer da sua presença
— Não posso dizer o mesmo — respondeu com um sorriso sem humor, os olhos desafiadores.
Poseidon, sentado próximo ao trono de Zeus, estreitou os olhos em advertência.
...
Ela ignorou o tom severo e cruzou os braços.
— Você não podia dizer a eles que eu estava no meio de algo importante? — protestou , o aborrecimento visível em sua voz. — Que belo pai você é.
Um murmúrio correu pelo salão. Hera, que observava tudo com sua postura impecável de autoridade, viu ali uma oportunidade e interveio com um olhar calculado.
— Nada é mais importante do que uma convocação de Zeus.
arqueou uma sobrancelha, sem nem hesitar antes de devolver o golpe.
— Nem o seu casamento, nós sabemos — ela revirou os olhos, sua voz carregada de sarcasmo.
O silêncio que se seguiu foi como um trovão contido. Alguns deuses arregalaram os olhos, enquanto outros desviaram o olhar, incertos entre o choque e o constrangimento. O burburinho voltou, dessa vez tingido com tons de irritação e desconfiança.
permaneceu impassível. Se esperavam que ela jogasse conforme as regras deles, estavam prestes a se decepcionar.
Ao fundo, Afrodite não conseguiu se conter e murmurou para Apolo, com um sorriso irônico.
— Acabo de me lembrar por que ela foi banida.
— Antes fosse por isso — o deus sussurrou em resposta, com um sorriso divertido.
A resposta de foi imediata, como uma lâmina que cortou o ar.
— Eu consigo ouvir vocês!
O salão mergulhou em um silêncio tenso. Pela primeira vez desde que entrara, sentiu todos os olhares verdadeiramente voltados para ela. Não como uma curiosidade passageira, mas como algo que exigia atenção. Eles podiam ser deuses antigos e poderosos, mas ela não se curvaria a eles.
Ela observava todos com o olhar afiado de quem sabia que, embora estivesse em desvantagem, não permitiria que a submetessem. Ela estava no centro daquela reunião, não como convidada, mas como uma força que todos precisariam reconhecer.
, querida, será que você poderia colaborar? — Poseidon interveio, sua voz carregada de uma calma que só aumentava a irritação da deusa. Como se falasse com uma fera que poderia atacar a qualquer momento.
— Eu estou colaborando — rebateu , seu tom carregado de fúria contida. — Estou há mais de cem anos vivendo como mortal, por causa daquele maldito Oráculo, até vocês decidirem me perturbar de novo. Por que não me matam de uma vez?
Houve uma pausa. Os deuses trocaram olhares ponderados, como se a sugestão de fosse realmente algo a ser considerado.
— Infelizmente, não podemos jogá-la no Tártaro — disse Zeus com uma leveza que tornava suas palavras ainda mais cruéis. — Desde o momento em que você nasceu, sua existência se tornou necessária para o equilíbrio do nosso mundo.
estreitou os olhos, cada fibra de seu corpo irradiando desconfiança.
— Não me faça de idiota, senhor todo-poderoso — disparou ela, os olhos ardendo de fúria. — Eu sei muito bem o motivo. Vocês não podem me matar sem matar o seu príncipezinho do Submundo.
— Você está certa, vocês não podem existir um sem o outro — a voz de Hades soou pela primeira vez, grave e cheia de um peso que fez até os mais altivos dos deuses se encolherem levemente. — Mas não é esse o motivo por trás da sua convocação.
cruzou os braços, impaciente.
— Vamos logo, eu não tenho o dia todo. Eu tenho coisas de mortais para fazer.
Zeus nem piscou ao anunciar:
— Helios está desaparecido.
A deusa deu de ombros.
— Bom para ele.
O ar pareceu se enrijecer. Hermes, parado ao seu lado, soltou uma risada baixa e murmurou:
— Resposta errada.
Zeus ignorou a provocação e continuou, imperturbável:
— Estamos revogando o seu exílio — anunciou ele. — Precisamos que você assuma as responsabilidades de Helios até o encontrarmos.
riu, uma risada seca e repleta de sarcasmo.
— Apolo pode fazer isso.
Do outro lado da sala, Ares soltou um riso abafado.
— Eu sabia que ela ia dizer não.
Zeus nem hesitou antes de cortar qualquer tentativa de recusa.
— Isso não é um pedido.
O silêncio se espalhou como fogo sobre o Conselho. ergueu o queixo, a raiva faiscando em seu olhar.
— Agora vocês querem que eu seja uma deusa? Sério?
— Sua natureza é muito mais semelhante à de Helios do que a de Apolo jamais foi — disse Atena, seus olhos afiados fixos em . — Você é a melhor opção para o papel.
— Sem contar que você não tem as outras responsabilidades que Apolo carrega — acrescentou Ártemis, sua voz calma e distante, como se falasse com um animal selvagem.
revirou os olhos, descrente.
— Bom, azar de vocês, porque eu não estou disponível. Encontrem outra pessoa.
— Não outra pessoa, — Poseidon interveio, sua voz carregada de um peso que fez algo se revirar dentro dela.
Aquelas palavras foram como uma lâmina cortando sua pele. Seus olhos encontraram os do pai, e por um instante, a traição faiscou em seu olhar, como sempre acontecia quando eles se encontravam. Mas foi apenas um instante. A frustração queimou tudo o que veio depois.
— Eu não posso fazer isso — rebateu ela, sua raiva crescendo a cada segundo. — Vocês me negaram minha natureza desde sempre! O máximo que consigo fazer é disfarçar minha aura divina para viver entre os mortais. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso, pai.
Um silêncio denso caiu sobre a sala.
Poseidon permaneceu imóvel, mas foi Hera quem rompeu a tensão, sua voz cortante como uma lâmina recém-afiada:
— O que você quer dizer com isso?
arqueou uma sobrancelha e soltou um riso ácido, repleto de desprezo.
— Ah, você não sabia? — ela balançou a cabeça, zombeteira. — Aparentemente eu sou poderosa demais para poder brincar de deusa, então eu fui proibida de sequer tentar usar os meus poderes, já que eu estou destinada a destruir todos vocês.
O silêncio caiu sobre o Conselho como uma tempestade sufocante.
Hera virou-se lentamente para Zeus, o choque estampado em seu rosto pálido.
Ele não desviou o olhar.
Mas também não negou.
— Isso é verdade? — Hera sussurrou, sua voz carregada de incredulidade e algo mais difícil de definir... Talvez preocupação?
Zeus permaneceu imóvel. Seu olhar, tempestuoso como sempre, não demonstrava hesitação.
O silêncio foi quebrado pelo próprio rei dos deuses, que se recostou em seu trono, a expressão impassível, mas com um brilho perigoso nos olhos.
— As Moiras ameaçaram libertar um mal terrível sobre o nosso tempo se interrompêssemos o destino deles.
O peso daquelas palavras se espalhou pela sala como um trovão abafado.
— Quem decidiu sobre isso? — Apolo quebrou o silêncio, seu tom afiado.
— Quem você acha? — riu, sem humor. — Os três patetas, é claro.
Apolo crispou os lábios, mas foi Atena quem interveio, seu olhar afiado percorrendo os três grandes.
— E vocês acham que isso é cumprir o desejo das Moiras?
— Esse mundo estaria melhor sem esses dois — Deméter murmurou, sem se preocupar em esconder o desprezo.
— Vocês só podem estar de brincadeira — Hera murmurou, com um olhar de incredulidade.
— Não me parece muito justo — Apolo sibilou com desdém.
Aparentemente, ninguém além dos três grandes sabia de fato as circunstâncias por trás do exílio da deusa do verão. A revelação os desestabilizava, mas para , tudo aquilo não passava de pura hipocrisia.
— Não é à toa que ele não consegue controlar os poderes dele, se ela também não consegue controlar os dela — Atena disse, seu tom mais mordaz do que nunca.
— Ele não precisa controlar os poderes dele — Ares revirou os olhos, impaciente. — Ele trabalha com prisioneiros.
A tensão era quase sufocante. sentia todos os olhares sobre si, mas não demonstraria fraqueza.
Se eles achavam que podiam simplesmente convocá-la quando bem entendessem, teriam que engolir sua petulância.
— Isso não é sobre o meu filho! — Hades interveio, sua voz carregada de frustração.
— Tudo que envolve ela é sobre o seu filho, Hades — Deméter retrucou, cada palavra carregada de veneno.
revirou os olhos, sentindo a paciência se esvair.
— Será que vocês podem calar a boca? — resmungou, esfregando as têmporas.
Mas ninguém pareceu dar importância ao que ela disse.
— Agora, com Hélios desaparecido, é uma questão de tempo até a vida deixar de existir... — Atena pontuou, sua voz firme.
— Precisamos dela — Apolo acrescentou, a urgência evidente em seu tom.
— Podemos treiná-la — Ares sugeriu, um sorriso sádico curvando seus lábios.
Precisamos treiná-la — Atena reforçou, ignorando a intenção cruel do deus da guerra.
— Não podemos deixá-la no mundo mortal enquanto isso — Ártemis disse, o olhar atento, como se analisasse um predador. — É muito perigoso.
— Ela pode ficar comigo — Apolo se aproximou de , sempre rápido em agir. — Posso ensiná-la a controlar os poderes do sol, enquanto Perséfone cuida das questões elementares.
— Isso pode dar certo — Atena avaliou, assentindo levemente.
, no entanto, não estava convencida.
— Eu não concordei com isso — ela protestou, cruzando os braços.
— Como dissemos antes, isso não é um pedido — Hera declarou, já recuperada do espanto anterior.
Zeus inclinou-se para frente, a sombra de um sorriso impiedoso em seu rosto.
— Você fará como eu julgar necessário, deusa mortal.
O sangue de ferveu.
— E você acha que você vai me obrigar? — ela desafiou, o olhar em brasa.
O ambiente ficou tenso. A tempestade que se formava na sala não era apenas um reflexo da ira dos deuses — era o próprio espírito indomável de se rebelando contra eles.
Mais uma vez, estavam tentando puxá-la para algo que não escolhera. Mais uma vez, estavam decidindo seu destino por ela.
Mas se pensavam que ela simplesmente cederia...
Estavam redondamente enganados.
No ventre imortal, um novo poder nascerá, com chamas ardentes a lhe devorar. Seu poder é verão, sua fúria é tormento. Sua ira pode ser a queda ou o renascimento desse tempo — recitou , a voz cortante, carregada de significado. Seu olhar percorreu os deuses com escárnio. — O que aconteceu com todo o medo sobre a minha ira que fez vocês me chutarem daqui?
Um silêncio desconfortável se instalou, até que Hermes murmurou, desviando os olhos rapidamente:
— São tempos extremos…
— Ela ainda é muito perigosa — Ares declarou, a voz grave, como se tentasse lembrar a todos do risco.
— E se ela perder o controle? Como vamos contê-la? — Afrodite perguntou, o olhar inquieto.
— Você deveria cuidar disso — Deméter lançou um olhar incisivo para Poseidon, como se quisesse transferir a responsabilidade.
— Poderíamos lidar com isso em Atlântida… — Poseidon sugeriu, mas sua hesitação era evidente. — Se ela pudesse respirar debaixo d’água.
Um músculo pulsou na mandíbula de . Os olhares recaíram sobre ela como lâminas afiadas. Ótimo. Como se não bastasse ser a filha bastarda do grande deus dos mares, ainda precisavam esfregar na cara dela o quanto era patética.
Por favor — sua voz saiu afiada. — Estamos há uma hora discutindo meus defeitos. Não finjam que estão surpresos.
O riso seco de Hades cortou o ar como uma lâmina.
— Você é uma aberração da natureza, criança.
O fogo dentro de rugiu em resposta, mas antes que ela pudesse abrir a boca, Afrodite interveio, lançando um olhar repreensivo ao deus do Submundo.
— Não seja grosseiro, Hades.
O silêncio voltou, denso e carregado.
Foi Atena quem, com sua frieza característica, finalmente quebrou a tensão.
— Alguém deveria ficar de olho nela.
Os olhares dos deuses se entrelaçaram, um silêncio desconfortável pairando sobre o salão. Ninguém parecia disposto a dar o próximo passo, até que uma voz se ergueu entre eles—baixa, firme e cortante como lâmina no gelo.
— Eu posso ficar de olho nela.
O ar no salão pareceu mudar instantaneamente, como se uma corrente fria tivesse atravessado o recinto. Os murmúrios cessaram de imediato, e todos os olhares se voltaram para a figura que emergia das sombras. sentiu um arrepio involuntário subir por sua espinha, um instinto primal alertando-a para a presença que agora dominava o espaço.
Ele retirou o elmo negro de obsidiana, revelando um rosto de traços afiados e uma pele tão pálida que refletia a luz como gelo recém-formado. Seus cabelos, brancos como a primeira neve do inverno, fluíam com uma suavidade etérea, como se o próprio ar ao seu redor estivesse mais rarefeito, mais frio. Os olhos, de um azul profundo e hipnotizante, pareciam conter em si o peso de eras esquecidas, analisando a sala com uma calma implacável.
Sua capa, feita das peles mais raras das terras do norte, tremulava levemente com a brisa que só ele parecia sentir. Bordados intricados de flocos de neve e cristais reluziam à luz divina, detalhando a grandeza de sua origem. Cada passo que ele dava parecia diminuir a temperatura ao seu redor, como se o próprio inverno o seguisse, dobrando-se à sua vontade.
Diferente dos outros, ele não precisou erguer a voz para impor sua presença. Ele era a própria manifestação da quietude e do frio cortante, e, naquele momento, soube exatamente quem ele era.
Todos os olhares se voltaram para ele, e por um momento, um silêncio quase reverente se instalou no salão. Hades foi o primeiro a reagir, sua voz carregada de reprovação.
— Você tem suas próprias responsabilidades, menino.
A resposta veio sem hesitação, firme como gelo sólido.
— E, ao que tudo indica, elas estão diretamente ligadas ao sucesso dela.
Zeus cruzou os braços, seu olhar severo.
— Você não tem treinamento suficiente.
A resposta foi implacável.
— Então treinaremos juntos. Se existe alguém capaz de contê-la, esse alguém sou eu. — Ele fez uma breve pausa, e quando falou novamente, sua voz carregava uma certeza inabalável. — Afinal, ela é a minha oposta complementar.
E foi então que seus olhos encontraram os de .
Por um momento foi como se apenas os dois existissem.
O mundo ao redor pareceu se dissolver. O burburinho dos deuses se tornou um eco distante, insignificante. O tempo desacelerou, cada segundo se estendendo como se o próprio universo estivesse hesitando diante do que estava prestes a acontecer.
Era uma força antiga, bruta e inegável. Um reconhecimento instintivo, visceral.
O olhar dele era um abismo de gelo profundo, e ao encará-lo, sentiu algo dentro de si ser puxado, como brasas despertando sob um sopro de vento cortante. Não era apenas uma sensação — era um chamado, um choque entre duas forças opostas que existiam para se desafiar, para se equilibrar... Ou para se destruir.
Uma onda de calor percorreu o corpo dela, não como fogo comum, mas como uma reação química inevitável, uma fagulha prestes a incendiar algo que jamais poderia ser apagado. Sua raiva, sua resistência natural, suas barreiras... Tudo pareceu vacilar por um instante, como se ele fosse a única coisa que poderia desmoroná-la.
E odiou isso.
Seu primeiro impulso foi recuar, arrancar o olhar do dele, negar aquele vínculo imposto pelo destino. Mas algo — algo cruel e inegável — a mantinha presa ali, como se estivesse olhando para o outro lado de si mesma.
Os deuses assistiam em silêncio, alguns intrigados, outros inquietos. Eles sentiam. Algo havia mudado.
nem ao menos prestou atenção, estava intrigada demais... Então aquele era .


Capítulo 2

Maldito .
O precioso deusinho do inverno.
Filho de Hades, um dos três grandes deuses, e Perséfone. Seu oposto complementar. E por algum motivo ele estava ali, livre para fazer o que ele quisesse da sua odiosa existência.
Por um breve momento, até ele pensou assim.
— Talvez eu contenha você — rebateu , com uma chama nos olhos e uma raiva contida que exalava em cada palavra.
A deusa parecia cansada daquela discussão inútil e da hipocrisia que permeava a reunião, ela virou-se de costas, a frustração queimando como fogo dentro dela. Seus passos eram pesados, carregados de desgosto, e ela saiu sem hesitar, batendo os pés no chão como se quisesse fazer o mundo ouvir o seu descontentamento.
O salão ficou imerso em um silêncio sepulcral após a porta ser cerrada com estrondo. O eco da batida ainda reverberava nas paredes, como um lembrete do que acabara de acontecer. Todos os olhares na sala estavam fixos na porta fechada, os rostos impassíveis, como se aguardassem uma reação que nunca viria. O peso das palavras de ainda pairava no ar, inflamando a tensão que dominava o ambiente. Ninguém ousou falar, como se qualquer palavra pudesse estilhaçar a frágil calma que se formara.
ficou parado por um momento, os olhos perdidos no vazio, tentando absorver o impacto do que acabara de testemunhar. Sua mente estava confusa, mas o coração congelado, esse pareceu se aquecer, prestes a se derreter. A raiva dela, a dor dela, a mágoa dela... Tudo que estava fora do seu alcance se misturava em uma tempestade dentro dele. Mas, antes que pudesse se recompor, algo dentro dele estalou. A necessidade de fazer algo, de não deixar aquela situação se esvair sem ao menos tentar, o impulsionou a agir.
Sem sequer pensar, ele se levantou. Seus passos foram firmes e decididos, um reflexo de um espírito tomado pela urgência. Ele atravessou o salão em direção à porta, com uma determinação feroz em cada movimento. O eco dos seus próprios passos ressoava no silêncio da sala, como um prelúdio de algo que não poderia mais ser evitado.
a avistou à distância, como uma visão etérea, flutuando sobre o chão de nuvens. caminhava pela longa praça do jardim central, seus passos imponentes e cheios de fúria, como se cada movimento fosse um reflexo do incêndio que rugia dentro dela. A luz suave do entardecer banhava seu rosto, mas havia algo de selvagem em sua postura, uma força indescritível que fazia com que até as nuvens ao seu redor parecessem curvar-se em reverência.
O ar estava carregado de uma tensão palpável, e , com os olhos fixos nela, avançava com passos mais rápidos e firmes, determinado a não deixar a distância crescer ainda mais. Ele não olhava para os lados, o vento batia forte em seu rosto, mas ele seguia em frente, até que, finalmente, se aproximou o suficiente para tocar o seu cotovelo no mesmo momento em que ela agarrou a maçaneta da porta violentamente.
não pensou nas consequências. Por apenas um momento, ele se esqueceu do que aquilo poderia causar. Mas, por algum motivo, seu toque amaldiçoado não congelou dessa vez.
pareceu paralisada, como se acometida por uma repentina brisa gélida, mesmo que por um breve momento, mas o suficiente para que ele sentisse a tensão no ar. Ela ficou imóvel por um instante, os olhos fixos à frente, como se tentasse bloquear a presença dele. até chegou a se perguntar se havia a congelado de dentro para fora em meio à confusão.
Mas a quietude não durou. se virou com um movimento brusco, a raiva e a dor retornando ao seu rosto como fogo crepitando em uma lareira. não foi capaz de nem ao menos se preparar. O impacto da visão dela foi tudo o que ele pôde digerir. E ela era de perder o fôlego.
A forma como a sua pele bronzeada e seus cabelos loiros queimados refletiam a luz do sol parecia uma droga de uma piada de mal gosto. Seus olhos intensos crepitavam como o coração de um vulcão, anciões e terríveis. A expressão impassível não era o suficiente para mascarar os traços delicados e afiados do seu rosto. Ela era simplesmente divina.
Antes mesmo que ele percebesse, ele já estava condenado.
Nem mesmo o calor da fúria de direcionado a ele foi capaz de conter o arrepio que percorreu o corpo do deus com aquela constatação.
Ele viu a batalha interna refletida em seus olhos flamejantes, como se estivesse lutando contra algo que ele não pudesse ver. A cada segundo, a tensão entre eles aumentava, e sabia que não havia nada que ele poderia fazer para melhorar as coisas. Ainda assim, algo o fazia querer tentar.
engoliu em seco.
— Eu disse algo errado? — perguntou ele.
não conseguiu esconder a raiva que queimava dentro dela. Sua respiração ficou rápida, e a explosão que se seguiu foi como um golpe afiado. Ela não poupou palavras, e sua voz cortou o silêncio como uma lâmina.
— Que tal... Tudo?! — a voz dela parecia queimar o ar ao redor.
Tudo o que ele conseguia sentir era o peso da dor dela, algo que ele havia ajudado a criar, mesmo que indiretamente, e isso foi o suficiente para que a culpa o consumisse. A única coisa que ele poderia fazer era tentar se justificar, fazê-la entender que ele não tinha nada a ver com isso, que ele era tão injustiçado quando ela.
— Não foi minha intenção, . Você sabe como são essas reuniões do Conselho...
Ela o interrompeu com um ódio tão intenso que cortou suas palavras no ar, o olhar dela incendiando tudo à sua volta.
— Não, eu não sei! — sua voz soou como um grito, carregada de uma dor feroz. — Eu fui exilada para que você pudesse viver!
não tinha argumento contra isso.
O silêncio que os cercou foi denso, pesado. Perdido, tentou falar, o deus do inverno até tentou falar, mas as palavras desapareceram antes de deixarem sua boca. Ele sabia que não havia nada que pudesse dizer para apagar o fogo que ela acendera.
o olhou com os olhos incandescentes, como se pudesse queimar tudo ao seu redor com um único olhar. Não havia compaixão em seu olhar, apenas o peso de um rancor que parecia se alimentar da dor dela.
Mesmo que não fosse verdade, não pode evitar de sentir a culpa pelo sacrifício dela. E aquele era um sentimento completamente novo para ele.
— Se me dá licença... — disse a deusa, sua voz impregnada de um desdém cortante. — Vou voltar ao meu exílio.
Com essas palavras, ela se virou e, sem esperar qualquer resposta, bateu à porta com força, como se o som do estrondo pudesse fazer o mundo inteiro parar e prestar atenção nela.
ficou ali, parado diante da porta fechada, completamente desconcertado. Os ecos da discussão com ainda reverberando em sua mente, e ele não conseguia se livrar da imagem dela. Era... Perturbador.
Sempre quisera conhecer a deusa do verão, mas nunca imaginou que seria dessa maneira. Ele sabia que ela vivia entre os mortais há mais de cem anos, mas sempre acreditou que ela tivesse escolhido essa vida. Nunca imaginou a profundidade da merda em que eles estavam enfiados.
As pontas dos dedos de ainda queimavam, a sensação da pele dela ainda vívida em seus dedos. Ele não conseguia afastar aquela memória, o poder que ela irradiava. Mesmo enquanto caminhava de volta ao Mundo Inferior, sua mente ainda tentava processar tudo o que havia acontecido naquele dia infernal.
Ele entrou no quarto com passos apressados, fechou a porta atrás de si e se atirou na cama, sentindo o peso de emoções que ele não estava acostumado a sentir. Ele não sentia. Tentou fechar os olhos, respirar fundo, mas a mente parecia uma tempestade, agitada e caótica. Ele queria afastar aqueles pensamentos, tentar focar em outra coisa, mas não conseguia. Por mais que tentasse, ela estava ali, em cada canto da sua mente, insistente e imbatível.
Os cabelos dourados que dançavam com a brisa, os olhos ardentes como o sol do meio-dia, a pele dourada, marcada pelos dias de calor e sal, o corpo esculpido pela vida ao ar livre. Ela estava lá, em todos os seus pensamentos, vestindo apenas uma camiseta térmica e uma calcinha de biquíni, uma visão que combinava a leveza de sua estação e com a intensidade de uma forja viva. Ela era a personificação do verão em sua forma mais pura: vibrante, quente e irresistível.
E ele odiou como ela o fez se sentir.
não sabia quanto tempo havia se passado, mas a batida na porta o tirou de seus devaneios.
— Querido? — a voz de Perséfone atravessou a porta. — Podemos conversar?
— Eu não estou no clima — respondeu, sem energia para mais uma interação.
— Tem certeza? — Perséfone insistiu, sua voz suavemente preocupada. — Está congelando aqui embaixo.
Antes que ele pudesse responder, a porta se abriu com força, e Hades entrou primeiro, os passos pesados ecoando no ambiente. Perséfone veio logo atrás, sua expressão uma mistura de preocupação e fúria contida.
, sentado na beira da cama, ergueu os olhos lentamente, sem pressa, como se já soubesse exatamente o que vinha a seguir.
— ele disse, com um tom grave.
O deus do inverno sentiu a tensão imediatamente tomar conta de seu corpo, mas fez o possível para não deixa-la transparecer.
— Vocês não tinham o direito de fazer isso — disse ele, a raiva contida em sua voz.
— Você tem noção do que poderia ter acontecido lá? — Hades disparou, a voz cortante. — Quantas vezes eu preciso dizer para você não tocar no Elmo das Sombras?
Perséfone arregalou os olhos.
— Você pegou o Elmo? não desviou o olhar. Pelo contrário, um sorriso frio curvou seus lábios.
— Por que não conta pra ela o que eu descobri com ele? — ele sugeriu, desafiador.
Hades hesitou, e essa fração de segundo foi tudo o que precisava para expor o veneno.
— Isso não vem ao caso — o deus dos mortos murmurou.
— Ah, claro — soltou uma risada baixa, carregada de ironia. — Porque ela com certeza adoraria saber como você e seus queridos irmãos enganaram a todos, espalhando essa bela mentira de que a deusa do verão renunciou à sua divindade para viver entre os mortais.
O ar na sala ficou mais pesado. Hades cerrou os punhos.
— Continue falando gracinhas, , e eu te lembrarei exatamente por que sou o deus da morte.
— Não ameace o meu filho — Perséfone interveio, dando um passo à frente.
Nosso filho — Hades corrigiu, a frieza de sua voz afiada como uma lâmina. — E já passou da hora de ele aprender qual é o seu lugar.
se levantou num movimento brusco, os olhos brilhando com uma fúria tão cortante quanto gelo afiado.
— Então faça isso! — desafiou ele. — Exatamente como fez com ! Me exile enquanto ainda pode!
O choque estampou o rosto de Perséfone.
— Vocês fizeram o quê?
— Ela era uma ameaça — Hades disse, sem qualquer hesitação.
— Assim como eu! — retrucou, a voz carregada de raiva.
— Você é meu filho! — Hades gritou, como se isso devesse significar algo.
— Hades, já chega! — Perséfone interveio, a ira queimando em seu olhar.
— Esse garoto precisa de limites — o deus rebateu.
— Aparentemente, você também — ela devolveu, sem piscar.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Hades passou a mão pelo rosto, jogando-se sobre uma cadeira ali por perto, exausto, e soltou um único palavrão:
Merda.
Perséfone parou ao lado do deus da morte, pousando uma mão delicadamente sobre um dos ombros dele, seu olhar firme, mas ainda cheio de compaixão.
— Você não deveria ter escondido isso de nós — disse ela, sua voz baixa, mesmo que carregada de uma reprovação sutil.
Hades, porém, manteve a calma, como tentava fazer na maioria das vezes.
— Eu fiz o que foi preciso para proteger a nossa família — ele disse com uma seriedade inabalável.
os encarou, sentindo a pressão aumentar em seu peito.
— Vocês deveriam ter trazido ela para o Mundo Inferior — ele retrucou, sua voz cortante. A ideia de ali, ao lado deles, parecia absurda, mas algo dentro dele parecia se agitar com o pensamento. — Nós poderíamos ter lidado com ela.
— Não me diga que você se afeiçoou pela garota — disse Hades, sua voz carregada de desconfiança, mas também com um toque de preocupação. Ele observava atentamente, como se buscasse sinais de algo que ele não queria admitir nem para si mesmo.
hesitou por um momento, os pensamentos ainda turbulentos, mas logo se endireitou, tentando se livrar da confusão que consumia sua mente.
— Eu não faço isso, pai — respondeu ele, a firmeza em sua voz quase como um reflexo de algo que ele queria acreditar, algo que ele queria que fosse verdade. Ele não estava se afeiçoando a , não da forma que Hades sugeria. Deuses, eles tinham acabado de se conhecer. Mas, apesar de suas palavras, uma parte dele sabia que algo tinha mudado, algo que ele não estava preparado para enfrentar.
A tensão no quarto era palpável, e sentia como se estivesse à beira de uma verdade desconfortável. Mas ele não queria pensar nisso, não agora, e muito menos falar sobre isso com o seu pai. Ele sabia que qualquer outra resposta seria uma confissão. E, de algum modo, isso o incomodava mais do que qualquer outra coisa.
— Se eu e pudéssemos controlar os nossos poderes, minha mãe não precisaria passar metade do ano com Deméter — disse, a frustração estampada em seu rosto. A raiva e a dor de ver sua mãe afastada por tanto tempo sempre o consumiram, e ele não podia evitar de associar isso ao seu fracasso.
Hades o observou com atenção, os olhos fixos em seu filho, percebendo o quanto aquela situação o afetava.
— Isso não é tão simples, — disse ele, a voz mais calma, mas carregada de uma sabedoria anciã. — O que carrega é algo muito maior do que apenas poder. Não é só uma questão de habilidade, é sobre o que ela representa. A raiva dela é uma fagulha, e você sabe o que acontece quando uma chama cresce demais.
sentiu o peso das palavras de seu pai, mas a frustração ainda estava ali, latente em seu peito. Ele ainda se sentia impotente diante do que estava passando, e o que mais o incomodava era o fato de que, em algum nível, ele ainda se sentia responsável por aquilo tudo. Seus dedos ainda ardiam onde a haviam tocado, como o rastro de uma queimadura de terceiro grau.
— É tarde demais para isso — disse , um sorriso sádico curvando seus lábios. — Helios está desaparecido, é uma questão de tempo até o equilíbrio se partir de vez.
Hades, com um olhar pesaroso, virou-se para Perséfone.
— Aqueles malditos ainda sugeriram que você a ensinasse — disse ele, sua voz grave, como uma promessa de violência.
Perséfone, mantendo a compostura, respondeu com um tom calmo, mas firme.
— Eu já fui negada de minha divindade — ela disse, o peso de suas palavras refletindo a sombra de um passado distante, mas nunca esquecido. — Eu jamais permitiria que a história se repetisse, por isso você escondeu isso de mim.
Hades soltou um ruído de insatisfação, claramente frustrado.
— Você é muito benevolente, Perséfone — ele respondeu, o sarcasmo evidente em sua voz.
Perséfone, no entanto, não vacilou.
— Você deveria ter mais fé em mim — ela retrucou, olhando-o com firmeza.
— Eu tenho — Hades disse, a seriedade tomando conta de seu tom. — Mas a sua teimosia vai colocar no caminho da destruidora do Olimpo. Você sabe o que isso significa, não sabe? , ao ouvir seu nome, se empertigou, pronto para rebater.
Eu fiz isso — ele afirmou, sua voz decidida. — Eu escolhi esse caminho. Não o Conselho, não a minha mãe, eu. Esse é o meu destino.
Hades encarou o filho, o olhar intenso.
— O seu destino é o que você quiser que seja, . Não está marcado por uma profecia como ela. Você tem escolhas.
sorriu, uma expressão enigmática em seu rosto.
Ainda — disse ele, a palavra carregada de um mistério sombrio. — Ela é minha oposta complementar. Nossos caminhos sempre se cruzariam, uma hora ou outra. Não havia como evitar.
Hades apertou os lábios, a impaciência evidente, mas se mantendo calmo.
— Por que você insiste em seguir a destruição? — perguntou ele, a voz carregada de uma exasperação silenciosa.
deu um sorriso sutil, quase desdenhoso.
— É um dos meus domínios, pai — respondeu ele, a certeza de suas palavras quase desafiadora. — E talvez, só talvez, seja o meu destino mais uma vez.
Hades suspirou pesadamente, seus olhos fixos em como se tentasse penetrar na mente do filho, entender o que o levava a esse caminho de sombras e destruição. Ele sabia que era mais que capaz de provocar caos, mas aquilo parecia ser algo mais profundo, algo que ele não conseguia controlar nem compreender totalmente.
— Você se apega à destruição como se fosse uma solução — Hades disse, a frieza de sua voz, tão semelhante à do filho, contrastando com a inquietação que ele sentia por dentro. — Mas é apenas um ciclo vicioso, . Você sabe disso. A destruição gera mais destruição, e o que restará quando você chegar ao fim disso tudo? O que sobra quando o fogo se apaga?
sorriu, uma expressão de desafio nos lábios.
— O que resta, pai, é sempre o mesmo: poder. Controle. Eu não estou indo atrás da destruição sem um propósito. Se eu posso moldá-la, posso usar isso para criar algo mais forte, algo... Eterno. Não posso viver na sua sombra pra sempre.
A resposta de fez com que Hades e Perséfone se entreolhassem, ambos percebendo a profundidade da determinação do filho. Mas também viram a arrogância e o perigo em suas palavras. Era uma visão do mundo distorcida, onde a destruição não era apenas uma força natural, mas algo a ser conquistado, domado e utilizado para fins pessoais. E essa era uma linha tênue, que podia facilmente levá-lo à ruína.
Perséfone, mais calma, deu um passo à frente, a suavidade de sua voz tentando suavizar a tensão no ar.
, você não está vendo o quadro completo — disse ela, com uma paciência que beirava o desesperado. — Não se trata apenas de controle, de poder ou de criar algo. O que você busca pode custar muito mais do que você está disposto a perder. Você quer poder, mas a que custo? O que restará do mundo quando tudo estiver em chamas?
virou-se para ela, um olhar intenso nos olhos.
— O que é a destruição se não um recomeço?
Hades se levantou e avançou um passo, sua presença imponente como uma sombra que se estendia sobre os demais.
— Nós sabemos disso melhor do que ninguém.
— Então, do que é que vocês tem medo? — indagou , com um timbre cortante na voz.
— De perder você — Perséfone respondeu, tocando suavemente o rosto do filho, um gesto que transbordava afeto.
olhou para os pais, a dor e a raiva misturadas em seu peito. Ele sabia que havia verdade no que Hades e Perséfone diziam, mas algo dentro dele ainda queimava, como uma chama que não poderia ser apagada. Algo que até então estava dormente. Ele nunca tinha se sentido assim antes.
Droga, apenas um encontro com aquela deusinha e ela já estava mexendo com a cabeça dele.
— Eu sei o que estou fazendo, mãe. E eu sei o que estou sacrificando. Mas, se isso for o preço para mudar as coisas, então estou disposto a pagar — disse com uma intensidade sombria.
— E quanto ao que nós sacrificamos por você? — Perséfone questionou, sua voz um misto de pesar e frustração.
balançou a cabeça, impaciente, como se tentasse afastar o turbilhão de emoções que o consumia.
— Vocês estão exagerando — retrucou ele, um tom de desdém em sua voz. — Pelo que eu ouvi a profecia só fala sobre um período de mudança, qual a diferença disso para quando meu pai trouxe você para o Mundo Inferior? Ou para quando Afrodite saiu da espuma do mar? Ou quando Prometeu deu fogo aos mortais? Ou quando Pandora abriu aquela maldita caixa? Ou quando Eris deixou o pomo de ouro no casamento de Peleu? Ou quando Eolo libertou as filhas? Ou quando Herácles precisou cumprir os doze trabalhos? Ou quando você criou o Tártaro para castigar Tântalo? Ou quando Pantheon criou os desertos?
— O destino não é gentil, — disse ele, a voz baixa, mas carregada de uma sabedoria amarga. — Muitas dessas histórias mostram exatamente isso: a mudança pode vir à custa de mais do que podemos suportar.
não se intimidou. Seus olhos estavam lívidos, alternando entre o pai e a mãe.
— Mas é o meu destino — afirmou ele, com um tom sombrio, como se a palavra destino tivesse o peso de um juramento irrevogável. — Não há como lutar contra ele. Deméter tentou, Tântalo tentou, Orfeu tentou... E vocês sabem muito bem o que aconteceu.
— Esse não é o seu destino — Hades respondeu, com um tom de firmeza que sugeria preocupação.
levantou uma sobrancelha, desafiador.
— O que as Parcas disseram sobre isso? — perguntou ele, finalmente pensando sobre o assunto.
Hades e Perséfone trocaram um olhar carregado de silêncio, uma tensão crescente no ar. Era claro que havia mais nessa história do que estavam dispostos a contar.
— O que elas disseram, pai? — repetiu, agora com mais impaciência.
— Ninguém sabe — Perséfone finalmente suspirou, sua voz tensa.
recuou, incrédulo.
Hades fez uma pausa antes de falar, como se pesasse cada palavra com cuidado.
— Quando Apolo anunciou a profecia de , pedimos às Parcas para esconderem o seu fio do destino dos outros deuses — ele disse, os olhos baixos, como se estivesse revelando um segredo doloroso.
olhou para os pais, os olhos fulminando de raiva.
— E vocês não se importaram em saber? — A acusação estava clara em sua voz.
— A única maneira de proteger o seu destino era se ninguém soubesse, nem mesmo nós — Perséfone respondeu, com a voz embargada.
— E o que elas pediram em troca? — perguntou, o tom agora mais desconfiado, como se começasse a entender o peso do que estavam escondendo dele.
Hades e Perséfone trocaram outro olhar, mas agora era um olhar pesado, carregado de relutância. Finalmente, Hades falou, a voz baixa, quase hesitante.
— Que você se casasse com uma delas.
ficou em silêncio, o choque tomando conta dele. Ele não conseguia acreditar no que acabara de ouvir.
— Vocês estão de brincadeira — disse, a incredulidade e a raiva transbordando de suas palavras.
— É uma aliança poderosa — Hades insistiu, tentando justificar o impensável.
— E quanto ao que eu quero? — retrucou, a raiva agora claramente visível.
— Você pode se relacionar com quem você quiser, — Hades respondeu com frieza. — São apenas negócios.
virou-se para a mãe, o olhar cortante.
— Você concordou com isso? — perguntou, a voz se estreitando.
Perséfone permaneceu em silêncio, a culpa e a dor visíveis em seu rosto.
— Logo, você? — disse, incrédulo, como se a ideia de sua mãe fazer parte disso fosse ainda mais dolorosa.
— Estávamos desesperados — Perséfone murmurou, como se fosse uma desculpa que ela sabia que não podia justificar. — Era a única forma de te proteger de Zeus, então quando soubemos que você não pode sentir amor...
deu uma risada amarga, escarnecendo da situação.
— Não satisfeitos em aprisionar o meu poder — disse, com os dentes cerrados, — Vocês ainda me aprisionaram em um casamento arranjado.
Hades, porém, manteve a calma.
— Se o que você quer é poder, uma união com as Parcas não deveria ser um problema — disse ele, sua voz firme, como se isso fosse uma verdade inquestionável.
olhou para ele, o olhar de pura fúria.
— E quando vocês iam me contar?
A pergunta estava carregada de frustração e ressentimento.
— Quando as Parcas se decidissem — Hades respondeu, impassível.
— Decidissem o quê? — exigiu, a raiva transbordando agora.
— Com qual delas você iria se casar — Perséfone disse baixinho, como se as palavras saíssem com esforço, uma confissão amarga.
riu com escárnio, a risada cortando o silêncio como uma lâmina.
— Obrigado pela conversa — disse ele, o tom frio e sarcástico. — Eu acho que já vou indo.
— Onde você pensa que vai? — Hades perguntou, um fio de ameaça em sua voz.
sorriu de forma sádica, seus olhos brilhando com uma frieza assustadora.
— Torturar alguns prisioneiros — disse ele, com um tom de ironia sombria. — Parece que temos muito mais em comum do que eu imaginava.
— Filho — Perséfone chamou, seu tom cheio de preocupação e dor, mas suas palavras foram inúteis.
simplesmente se teletransportou, deixando um rastro de gelo no ar, a sensação de vazio e angústia se espalhando rapidamente. E, assim, deixou seus pais para trás, incapazes de impedir a queda que se aproximava.
apareceu no Tártaro com um estalo de energia sombria, o ar denso e pesado ao redor dele. O lugar, conhecido por sua eterna escuridão e sofrimento, parecia mais sombrio do que nunca, como se o próprio ambiente respondesse à sua presença. Os ecos das almas perdidas, os gemidos dos que estavam presos para toda a eternidade, eram um fundo constante, como uma sinfonia de agonia. Ele não se importava. Aqueles sons só aumentavam a intensidade de sua necessidade de causar dor, de impor sua vontade sobre os fracos e quebrados.
Ele caminhou com passos largos e determinados, cada movimento sua energia se expandindo, como se o próprio Tártaro estivesse se curvando diante dele. Seus olhos brilhavam com um cristal de gelo, refletindo não apenas a escuridão ao seu redor, mas a escuridão que crescia dentro dele. Ele não precisava mais de conselhos ou de argumentos. Estava além disso agora. Seu destino estava traçado, e ele se via cada vez mais afastado dos que ainda tentavam salvar a sua humanidade.
Ao entrar na caverna, os olhos de passaram rapidamente pela escuridão até localizar a figura curvada de Ixion. O homem estava ali, como sempre, sua carne marcada pela tortura, mas os olhos… os olhos estavam vazios, sem qualquer vestígio da humanidade que um dia ele possuía. A luz de um fogo distante lançava sombras tremeluzentes sobre sua figura, mas a expressão do prisioneiro não se alterou. A tortura, como sempre, já o havia reduzido a algo quase irreconhecível.
parou diante dele, seu olhar frio e implacável, sem a menor pitada de compaixão ou de empatia.
— Boa noite, Ixion — cumprimentou o deus, a voz cortante como aço. Não havia calor algum, apenas um eco de indiferença.
Ixion não respondeu. Ele não podia mais. Seus olhos estavam vidrados, como se sua alma tivesse se perdido nas profundezas do Tártaro. Mas sabia que ainda havia algo dentro dele. Um fio de humanidade que ele desejava arrancar.
— Olhe para mim — ordenou com uma voz fria, que cortava o silêncio como uma lâmina afiada.
O prisioneiro levantou lentamente a cabeça, os olhos inchados e sem vida, quase desconectados de qualquer percepção do mundo. Ele tentou falar, mas a dor parecia ser tudo o que conseguia sentir. sorriu com um toque de crueldade.
— Não precisa falar — disse , aproximando-se lentamente. — Eu só quero ver até onde você pode ir antes de quebrar completamente.
Ele estendeu a mão e, com um simples gesto, as correntes do prisioneiro se romperam, mas ao invés de libertação, isso foi uma sentença. O homem tropeçou para frente, quase caindo, mas foi forçado a se erguer pela mão invisível que estendeu sobre ele. O poder em seus dedos era congelante. Ele sentia a dor do homem como se fosse sua própria, uma sensação que, paradoxalmente, o preenchia de prazer.
— Me diga, Ixion — disse , inclinando-se levemente para observar melhor a expressão de sofrimento do homem — Amar Hera valeu a pena depois de todos esses anos aqui?
O nome dela parecia ter o efeito que esperava. Ixion, ainda torturado pela dor, tentou levantar a cabeça com mais esforço, os lábios tremendo. Ele estava tentando, desesperadamente, encontrar algum tipo de conforto em suas memórias, mas não havia nada que pudesse trazê-lo de volta à sanidade.
sorriu, sua expressão se tornando mais cruel. Ele não se importava com os sentimentos de Ixion. O que importava era a reação dele, o quanto ele poderia ser esmagado, quanto ainda poderia suportar.
Sem mais palavras, levantou a mão, e a dor que emana dela era como uma onda congelante. Ixion soltou um grito que reverberou pelas cavernas do Tártaro, um som que se misturou aos lamentos de outras almas perdidas. Mas não parou. Ele estava apenas começando, testando seus próprios limites, sentindo o prazer sombrio que vinha de ver o sofrimento alheio se estender sem fim. Era como se o próprio Tártaro se tornasse mais frio, mais profundo, a cada gemido de agonia.
riu baixinho, sua risada baixa e cheia de desprezo. Ele gostava disso. Gostava de como o sofrimento era uma linguagem universal, uma língua que todos entendiam, não importava quanto tempo já tivessem sofrido.
— Você ficaria surpreso se eu te dissesse quantas almas vieram parar aqui por um sentimento tão... Insignificante? — disse ele, com um tom sarcástico. — Apegam-se ao amor, ao desejo, e acabam aqui, no final, onde nada mais resta.
Ele observou, com um prazer sombrio, enquanto as extremidades do corpo de Ixion se tornavam azuladas e a carne do homem se congelava, uma camada de gelo tomando conta de seu corpo, indo de encontro à dor que ele sentia. estava criando um espetáculo de sofrimento, uma exibição da total impotência de Ixion diante de seu poder.
— Hera? — A voz de Ixion saiu como um sussurro, um lamento fraco de alguém que ainda nutria uma última esperança, por mais remota que fosse.
odiou aquele som. Ele odiava a esperança que ainda se formava nos corações dos prisioneiros, como se ainda houvesse algo pelo que lutar. Ele se inclinou mais uma vez sobre Ixion, sua presença esmagadora.
— Ela não vem, meu amigo — sussurrou o deus, as palavras ecoando como um presságio final.
E, como se ele fosse o próprio inverno, o gelo consumiu completamente o corpo de Ixion. observou em silêncio enquanto o homem, agora congelado, fixava um olhar vazio para o nada, seu rosto distorcido em uma careta de dor eterna. Ele não sabia quanto tempo mais teria que aguentar. Mas sabia que aquele sofrimento não teria fim.
Em alguns meses o gelo derreteria e deus voltaria para fazer tudo outra vez.
suspirou, o som saindo pesado e indiferente. Amor.
Depois de tantos anos, as pessoas ainda caíam nessa armadilha. Ele sentia um alívio amargo por ser imune a esse tipo de fraqueza. Não entendia como sua mãe, se ressentia por ele ser incapaz desse sentimento. Ele tinha tudo para se tornar o deus mais poderoso do mundo, exatamente porque não era refém dessa doença.
ficou observando o corpo de Ixion, agora completamente congelado, uma expressão de prazer perverso dominando seu rosto. Mas, enquanto o frio consumia a carne do prisioneiro, uma sensação estranha, quase incômoda, crescia dentro dele. Ele sabia que poderia ir mais fundo, que poderia forjar ainda mais sofrimento, mas algo em sua mente o impediu de continuar. Talvez fosse o eco da profecia, ou a lembrança das palavras de seus pais. Mas a verdade mais desconfortável que não conseguia negar estava se tornando cada vez mais clara: sem ela, sem a deusa do verão, ele não conseguiria alcançar todo o seu poder.
Ele recuou da cena, a mão ainda estendida, mas a energia que ele estava prestes a liberar se dissipou. O Tártaro, com sua opressiva escuridão, parecia engolir sua decisão. sabia que seu caminho, apesar de tortuoso e carregado de ambição, exigia algo mais. Ele precisava da deusa.
.
A deusa do verão, com sua presença avassaladora e furiosa, era o oposto de tudo o que ele representava. Se ele era sombra, ela era luz; se ele era o frio do inverno, ela era o calor escaldante do verão. Sua energia intensa e imprevisível era a chave que faltava para a verdadeira manifestação de seu poder. A conexão deles não era apenas inevitável, mas essencial. E ele sabia disso mais do que nunca.
Mas o Conselho tinha tanto medo do que ela poderia se tornar.
não tinha medo. Ele estava ansioso. Ansioso para encarar , dia após dia, e, finalmente, tomar o que lhe foi negado.


Capítulo 3

O sol já encostava na linha do horizonte, tingindo o céu de tons dourados e alaranjados, quando passou o pano úmido pela última mesa da varanda. O clube de praia Exilium, com suas espreguiçadeiras de madeira clara e guarda-sóis brancos, começava a esvaziar. As risadas distantes dos últimos clientes se misturavam ao som do mar quebrando preguiçoso na areia.
Helena, ainda com o uniforme — uma camiseta leve do clube e shorts jeans —, apareceu carregando uma caixa de bebidas vazias. Ela parou ao lado de , soltando um suspiro teatral.
— Se eu carregar mais uma caixa dessas, vou precisar de férias aqui mesmo — disse ela, jogando a caixa de leve em cima do balcão externo.
riu baixo, amarrando o cabelo em um coque rápido. O cansaço pesava nos ombros, mas havia uma satisfação serena nos olhos dela.
O Exilium era seu refúgio, seu reino — e cuidar dele pessoalmente no fim de cada dia era quase um ritual.
— Você tem férias aqui — provocou , girando o pano na mão e apontando para o mar cintilante. — Olha essa vista, Helena, todo dia aqui é férias.
Helena deu uma risada curta e balançou a cabeça, jogando um pano de prato em cima do balcão e apoiando os cotovelos ali.
— Fácil dizer quando se é a chefe — respondeu ela, enquanto pegava a lista de fechamento presa ao balcão.
— Isso é apenas um detalhe — a deusa do verão pegou o pano de cima da cadeira e jogou na direção de Helena, que aparou rindo. — Vai lá dentro terminar o inventário que eu fecho aqui fora.
Helena bufou, mas obedeceu, desaparecendo para dentro do prédio principal.
ficou sozinha no deque, recolhendo guarda-sóis, empilhando cadeiras, ajeitando cada espaço com o cuidado de quem arruma a própria casa. O clube era isso para ela de certa forma.
A maré começava a subir, deixando a areia ainda mais escura e brilhante sob a luz quente dos postes baixos do Exilium.
Quando Helena voltou, já sem a camiseta do uniforme — só de top e shorts —, trazia duas long necks embaixo do braço.
— Missão cumprida — anunciou ela, batendo continência de brincadeira. — Inventário feito, caixa fechada, cozinha limpa. Merecemos.
sorriu e puxou duas cadeiras para perto da beira do deque. Helena entregou uma das garrafas e se jogou na outra cadeira com um suspiro satisfeito.
— Esse clube podia fechar todo dia assim — disse a amiga, encostando a cabeça para trás e olhando o céu começando a ficar estrelado. — Vazio, silêncio, sem gente pedindo gelo extra nem som alto até tarde.
deu um gole na cerveja e olhou em volta, satisfeita.
— Também acho. — concordou ela, esticando as pernas e relaxando de vez. — Só a gente, o barulho do mar... E a pilha de contas pra pagar.
Helena riu.
— Impressionante como você consegue estragar até um pôr do sol, .
A deusa do verão deu de ombros, divertida.
— O que eu posso fazer se eu sou realista?
Ficaram um tempo em silêncio, bebendo, ouvindo o mar, sentindo a madeira morna do deque sob os pés descalços.
O Exilium, iluminado de forma suave, parecia quase suspenso no escuro da praia vazia.
Quando Helena terminou a cerveja, virou para :
— Amanhã cedo eu abro o clube. Tira o dia pra você.
arqueou uma sobrancelha, desconfiada.
— Você acordar cedo? — disse ela, com uma careta engraçada — Quero ver.
— Dessa vez eu acordo — garantiu Helena, erguendo três dedos como se fizesse um juramento solene. — Se você prometer que vai tirar da sua cabeça a ideia de desistir das Olimpíadas.
riu outra vez e brindou de leve a garrafa vazia contra a dela.
— Já está pensando em roubar o meu negócio de mim?
— Você não vai viver pra sempre — brincou a amiga, com uma piscadela.
Ah, se ela soubesse.
A noite caiu de vez, e elas ficaram ali por mais um tempo, com o barulho do mar preenchendo o silêncio confortável que só quem trabalha junto e confia um no outro consegue construir.
Não muito tempo depois da partida de Helena, caminhou de volta para casa, o cabelo cheio de areia e a pele com aquele toque salgado característico do mar. Sentia o peso da tarde ensolarada em seus ombros quando avistou algo que a fez parar. Bem diante de sua casa, uma carruagem dourada emanava uma luz característica do sol poente. Cada detalhe brilhava, do revestimento polido às rodas ornamentadas.
Ela franziu o cenho, desconfiada. Eles só podiam estar de brincadeira com a sua cara. Sem encarar muito, entrou pela porta da frente, já sabendo que algo estava fora do lugar.
No sofá da sala, um jovem estava esparramado, trocando os canais da televisão com um desinteresse quase performático. Ele tinha cabelos loiros que pareciam ter sido beijados pelo sol, parecidos com os dela, mas a semelhança terminava aí. Sua pele brilhava, literalmente, como se carregasse a luz do dia em cada poro. Os olhos dourados eram hipnotizantes e ao mesmo tempo irritantes. Ele vestia roupas desleixadas, claramente de alguém que se esforçava para parecer um artista indie, mas falhava miseravelmente.
— Por que demorou tanto? — perguntou Apolo, sem tirar os olhos da TV.
revirou os olhos, bufando.
— Eu não estava esperando por você — respondeu ela, seca. Passou direto para a despensa e jogou os óculos de mergulho e os pés de pato ainda cheios de areia sobre uma prateleira.
— Nós combinamos que você ficaria comigo por um tempo para aprender a controlar os seus poderes — retrucou Apolo, levantando-se do sofá e seguindo-a com passos lentos e calculados. — Trouxe até a carruagem para você se familiarizar com ela.
se virou, as mãos na cintura.
— Eu não concordei com nada disso.
Sem esperar pela resposta, a deusa atravessou o corredor e bateu a porta do banheiro na cara dele. Precisava de um banho para esfriar a cabeça e, quem sabe, lavar o cheiro de desinfetante que Apolo espalhava pelo ambiente.
Depois de um banho longo e necessário, saiu do banheiro apenas para encontrá-lo... Na cama dela. Ele estava deitado com as mãos atrás da cabeça, um sorriso que misturava desafio e diversão estampado no rosto.
Ignorando-o, ela foi até a cozinha e começou a preparar seus suplementos.
— Vamos, , não precisa se fazer de difícil — provocou Apolo, apoiado no batente da porta. — Você sabe que eu sou o Oráculo de Delfos. Eu não estaria aqui se não soubesse que você viria.
Aparentemente ele não iria desistir.
— Pra você me trair na calada da noite quando o meu destino aparecer nos seus sonhos? — rebateu , lançando a ele um olhar flamejante.
Apolo ergueu as mãos como quem se defende.
— Eu entendo os mistérios do destino — disse ele, sua voz suave como o amanhecer. — Eu jamais tentaria mudar a ordem das coisas, mesmo se eu pudesse.
riu sem humor.
— Então, como pôde permitir que fizessem isso comigo? — a deusa lutou para esconder a dor em sua voz.
A pergunta pendurou no ar, pesada. Apolo hesitou, o que já era resposta suficiente.
— Você acreditaria se eu dissesse que não sabia?
— Não tem como não saber — rebateu , cruzando os braços.
— Foi uma barganha entre Zeus, Poseidon e Hades. Nem todos sabiam.
— Só minha mãe, claro.
O sorriso sarcástico de Apolo quase cortou o clima.
— Você não pode culpar Íris, mesmo sendo uma deusa há pouco que ela pudesse fazer contra eles.
fechou os olhos, tentando recuperar a paciência. Caminhou até a sala, ligou o notebook e começou a digitar, fingindo indiferença.
— Olha, Apolo, eu agradeço o esforço, mas não há nada para mim no Olimpo — disse ela, sem olhar para o deus perambulando por sua sala de estar.
— Você sabe tão bem quanto eu que o desaparecimento de Helios terá repercussões catastróficas, não vai demorar muito até que chegue ao mundo mortal e, consequentemente, até a porta da sua casa — insistiu ele.
— Eu tenho um negócio pra gerir — nem ao menos olhou para ele. — Aposto que encontrarão o senhor Sol a tempo.
— Muitos deuses tem negócios no mundo mortal isso não é uma desculpa — repreendeu Apolo, sentando-se em frente a ela na mesa.
Ela parou de digitar e o encarou.
— Eu passei as últimas décadas me matando pra fazer o Exilium dar certo — disse ela, sua expressão séria e resoluta. — E eu não tive nenhuma ajudinha de poderes ou truques divinos como a maioria de vocês.
— Mas poderia ter...
suspirou, revirando os olhos, antes de voltar sua atenção para a caixa de e-mails.
— Imagine o quanto ele cresceria se você realmente dominasse o verão. Resorts, franquias... — ela ouviu a voz do deus como o maldito diabo sobre o seu ombro.
— Pare de tentar me manipular — disse ela, entredentes.
Apolo riu e sentou-se ao lado dela.
, não é manipulação. É um fato. Você tem um potencial enorme e, sinceramente, está desperdiçando.
Ela suspirou, exausta daquela conversa, mas uma fagulha de dúvida começou a surgir.
— Você pode muito bem cuidar do Exilium e do sol — disse Apolo com um sorriso.
— E acabar tão sobrecarregada quanto você? — retrucou , arqueando uma sobrancelha. — Não, obrigada.
— Quem diria que a deusa do verão adoraria umas férias? — provocou ele, rindo.
— Muito engraçado — respondeu , com um tom sarcástico.
Apolo riu, e sua gargalhada ecoou como uma melodia doce, preenchendo os ouvidos de com uma sensação inesperada de conforto. Maldito deus da música.
— Não vai me dizer que não está louca pra cuspir na cara dessa profecia — ele arqueou uma sobrancelha, encarando a deusa em desafio.
— Você mesmo acabou de admitir que não há como mudar o destino — retrucou , com um tom firme.
— As profecias são misteriosas, . Não há nenhuma garantia de que você será a ruína de algo — rebateu Apolo, tentando aliviar a tensão. — A única coisa que o Oráculo garantiu é que você teria uma personalidade forte, e ele não estava errado.
cruzou os braços e o encarou, impaciente, como se sua tolerância estivesse no limite.
— Eu já tenho o suficiente para me preocupar — retrucou ela, irritada.
— Agora imagine se você conseguisse manter um verão eterno em seus estabelecimentos — sugeriu Apolo, com um sorriso travesso. — Quantos clientes não atrairia?
— As pessoas não têm férias o ano todo, sabia? — rebateu , arqueando uma sobrancelha.
— Talvez não, mas passar as férias em um dos seus resorts seria garantia de um clima perfeito — respondeu ele, piscando para ela.
bufou e revirou os olhos, claramente inabalável por suas provocações.
— Você sabe o quanto o turismo é lucrativo — argumentou Apolo, com um brilho nos olhos. — Seu negócio poderia superar até os clubes noturnos do próprio Hades.
— Não diga o nome dele! — cortou , com firmeza. — Não quero aquele traidor se intrometendo na minha vida.
— Agora imagine o quanto ele ficaria furioso se você superasse o filho dele? — instigou Apolo, sorrindo de canto.
— Olha, eu posso ter uma personalidade difícil, mas não estou interessada em causar problemas para ninguém — respondeu , suspirando. — Só quero que me deixem em paz.
Apolo se aproximou com suavidade, e seus dedos roçaram de leve a bochecha de . O toque inesperado a fez ficar paralisada por um instante, incapaz de disfarçar o misto de surpresa e desconforto que percorreu seu corpo.
— Desculpe — disse Apolo, com um tom sincero. — Eu sou um pouco... Demais às vezes.
— Tudo bem — respondeu , fechando os olhos por um momento, tentando afastar a sensação incômoda.
— Você é o verão em pessoa — continuou Apolo. — Eu deveria ter percebido antes que o que você realmente quer é paz.
deu um passo para trás, visivelmente constrangida. Ela não gostava quando as pessoas conseguiam enxergar mais do que deveriam a respeito dela.
— Agora você pode tentar me convencer de novo — disse , um pouco sem jeito, tentando disfarçar o desconforto.
— Você quer que eu te convença? — Apolo perguntou, com um sorriso de canto.
— Eu quero que você pare de tentar desvendar os segredos da minha alma — respondeu , ranzinza.
— Você não quer dominar seu poder? — Apolo a desafiou, curioso.
não respondeu imediatamente. Mas, claro, ela queria.
— E que tal mostrar que seu pai estava errado ao concordar com o seu exílio? — sugeriu Apolo, com um tom provocador.
Ela adoraria isso.
— Ele não é meu pai — disse , apertando os dentes, uma raiva súbita tomando conta dela.
Apolo revirou os olhos e se sentou ao seu lado. O silêncio tomou conta deles enquanto ambos mergulhavam em seus próprios pensamentos. , no entanto, continuava absorta em seu notebook.
— Apolo a chamou, sua voz baixa, quase um sussurro.
— Apolo — respondeu ela, apenas por teimosia.
Ele fez uma pausa, como se estivesse ponderando a melhor forma de continuar.
— Você não quer ser livre? — perguntou ele, com um tom que parecia carregar uma proposta tentadora.
O coração de vacilou por um momento. A liberdade era tudo o que ela mais desejava, e por um instante, quase se deixou enganar pela promessa. Tentou ao máximo esconder o impacto que a pergunta causara nela.
— Sabe Perséfone? — Apolo insistiu, com a voz mais suave.
sabia muito bem quem era. Mais uma peça naquele quebra-cabeça. Mais uma deusa que ela odiava com todo o seu coração.
— O que tem ela? — resmungou , sem esconder o desdém.
— Deméter também consultou o destino de Perséfone quando ela nasceu — Apolo continuou, como se soubesse exatamente o que estava dizendo. — Ela escondeu a deusa da primavera no reino mortal, tentando impedir que seu destino se cumprisse.
— Eu não fui escondida — respondeu, com os dentes cerrados. — Eu fui exilada.
Apolo fez um gesto, como se fosse algo irrelevante.
— O que importa é que, por mais que tentem, o destino sempre encontra seu caminho — disse Apolo, com um olhar enigmático. — Perséfone e Hades se apaixonaram, e as transições dela entre o mundo mortal e o Mundo Inferior criaram as estações como as conhecemos hoje.
— Onde você quer chegar com isso? — perguntou, agora mais irritada.
— No dia em que você e nasceram, vocês mudaram a ordem natural das coisas — Apolo disse, olhando fixamente para ela. — Mas ainda assim, ela tem que passar uma parte do ano com Deméter, coisa que ela odeia, e só pode ficar com Hades durante a outra metade.
— Por quê? — perguntou, sem entender.
— Porque você e não exercem a função de vocês no mundo — Apolo concluiu, com um tom que a fez se questionar sobre as verdadeiras intenções dele.
suspirou, fechando o computador com um movimento impaciente e se dirigiu até a porta, encarando Apolo.
— O que foi que eu disse de errado dessa vez? — Apolo perguntou, sem esconder a decepção.
— Nada — respondeu , com a calma que se esforçava para manter.
Apolo bufou, levantando-se a contragosto.
— Só pra você saber, vou voltar amanhã e continuarei voltando até você concordar. Isso, é claro, se Zeus não aparecer antes — disse ele, com um sorriso determinado.
soltou um sorriso triste, seus olhos se suavizando enquanto ela o olhava.
— Isso não será necessário — respondeu ela, com um suspiro resignado. — Eu vou com você.
E, por um momento, teve certeza de que a luz do sorriso de Apolo poderia cegá-la.
A deusa do verão nem teve tempo de se recompor. Quando se deu conta, Apolo já a havia arrastado até a carruagem, e em um piscar de olhos, estavam voando pelo céu, as nuvens se distorcendo sob eles como se o horizonte fosse uma extensão de sua vontade.
Apolo, com um sorriso satisfeito, começou a explicar como a carruagem do sol funcionava. Ele a descreveu como uma obra-prima dos deuses, com rodas feitas de ouro puro e puxada por quatro cavalos alados, cujas crinas brilhavam como chamas. A carruagem tinha o poder de controlar a luz do dia, acelerando ou diminuindo sua velocidade conforme a vontade de quem a conduzia.
Ele explicou, também, como o caminho que percorriam no céu era determinado pela rotação do sol, permitindo que ele cruzasse os céus com precisão, trazendo o amanhecer e o entardecer, enquanto a energia solar abastecia a carruagem e os cavalos com uma força quase imbatível. observava tudo em silêncio, impressionada com a grandiosidade da explicação, embora um pouco desconfortável pela velocidade e pela sensação de liberdade que ele parecia dominar com tanta facilidade.
Ela estava simplesmente ferrada.
Quando finalmente chegaram ao Olimpo, a carruagem de Apolo fez uma descida suave e elegante, aterrissando com precisão em frente à sua imponente casa. O templo dourado parecia brilhar ainda mais sob o sol que ele mesmo havia conduzido pelo céu.
Apolo desceu da carruagem com a graça de um deus, oferecendo a mão para , que ainda tentava se ajustar à experiência avassaladora de voar por entre as nuvens. Ela aceitou a mão dele, mas o desconforto ainda era visível em seu rosto quando ela olhava as paredes de mármore se erguerem diante dela.
Diante deles, a casa de Apolo era uma construção grandiosa, com pilares que refletiam a luz em tons dourados e prateados, dando uma sensação de calor e poder. observou o local com uma mistura de fascinação e apreensão, sabendo que estava prestes a entrar no território de Apolo, onde tudo parecia ter uma magnitude que ela não estava totalmente preparada para enfrentar.
— Lar doce lar — Apolo comentou, com um sorriso travesso.
não conseguiu evitar uma risadinha ansiosa.
— É a sua cara.
Apesar de tudo, a inquietação não foi o suficiente para impedir que a deusa ficasse deslumbrada ao entrar na casa de Apolo. O interior era majestoso: vastas paredes de mármore reluziam sob a luz do sol que a carruagem emanava, atravessando janelas imensas e inundando o ambiente com um brilho dourado. Detalhes em ouro adornavam cada canto, enquanto estátuas do próprio deus se erguiam orgulhosas entre sofás luxuosos e acolhedores. Havia uma harmonia entre poder e serenidade, uma atmosfera quase etérea que a envolveu por completo. Ela se sentiu pequena diante da grandiosidade do lugar, mas também maravilhada pela beleza que o cercava.
— Aqui embaixo temos a sala de estar, a cozinha, o ateliê e os banhos públicos. — explicou Apolo, caminhando devagar, como se mostrasse um templo sagrado. O que não deixava de ser verdade. — O quarto de hóspedes fica no segundo andar à esquerda, eu separei algumas roupas pra você e deixei uma toalha em cima da cama. O banheiro fica na porta da frente do quarto. Meu quarto fica no final do corredor à direita, ao lado do escritório.
assentiu com um sorriso tímido, os olhos ainda absorvendo cada detalhe ao redor — a riqueza do mármore branco, o brilho dourado dos adornos, o aroma sutil de incenso e flores solares que parecia flutuar no ar.
— Obrigada, Apolo — disse ela, sem saber ao certo onde colocar as mãos, ainda meio deslocada naquele cenário divino demais para a sua vivência mortal.
O deus deu de ombros com uma tranquilidade quase ensaiada, e seguiu até a geladeira — uma peça moderna destoando levemente da atmosfera antiga — de onde retirou uma garrafa translúcida. O líquido lá dentro emitia um brilho suave, quase hipnotizante, como se tivesse engarrafado a luz da aurora.
— Aceita uma bebida, senhorita? — perguntou Apolo, servindo o conteúdo num copo de cristal e estendendo a ela.
estreitou os olhos, claramente desconfiada.
— O que é isso?
— Água — respondeu ele, com um sorriso travesso.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Desde quando água brilha assim?
— Desde que a fonte não pertence ao mundo mortal — respondeu Apolo, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Faz sentido — murmurou, contendo uma risada.
Ela levou o copo aos lábios e deu um gole. Parecia água. Tinha gosto de água. Tudo nela dizia que era água... Mas ainda assim, não estava completamente convencida.
— Está com fome? — perguntou Apolo, fechando a geladeira com um leve estalo.
se sentou no balcão central da cozinha, de mármore branco com veios dourados, e cruzou as pernas.
— Você cozinha? — ergueu uma sobrancelha, intrigada, enquanto se sentava no balcão. Ela estava desconfortável, não sabia bem como se portar.
Não — ele riu, acomodando-se em frente a ela. — Vou pedir para Hermes entregar.
Ela o olhou com uma expressão engraçada de surpresa.
— Hermes, o mensageiro dos deuses e delivery? — perguntou ela, mordendo o lábio inferior para conter um sorriso.
— O mais rápido do Olimpo — brincou Apolo, já mexendo em um dispositivo reluzente que parecia uma mistura de pergaminho e tablet. — O que você gosta de comer?
— Frutos do mar? — sugeriu, com um sorriso.
— Você é filha do seu pai, não é? —perguntou Apolo, dando uma risadinha com a careta que recebeu da deusa em resposta. — Que tal comida japonesa?
— Me parece ótimo — respondeu , sorrindo, com a sensação estranha de estar ficando mais à vontade ali do que esperava.
Apolo fez o pedido com um gesto e um toque. não soube dizer se havia usado magia ou tecnologia — talvez os dois. Depois, ele se encostou no balcão, observando-a por um instante.
— Sabe... não é sempre que recebo visitas aqui.
— Imagino que a maioria das pessoas fique nervosa em visitar a casa de um deus.
— Talvez — ele deu um leve sorriso, com um toque de provocação. — Mas você não parece nervosa.
— Eu finjo bem — disse ela, erguendo o copo. — Deve ser essa água mágica que você serve.
Ele riu baixo.
— Fique o tempo que quiser. A casa é sua também... Pelo menos por enquanto.
não respondeu de imediato. Seus olhos vagaram pela sala outra vez. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que poderia baixar a guarda — ao menos um pouco.
A conversa entre e Apolo seguiu com surpreendente facilidade, embora ela mantivesse uma pontinha de cautela a cada palavra. Riram juntos de trivialidades, trocaram provocações disfarçadas de elogios, mas, no fundo, nunca baixava completamente a guarda.
Seus olhos avaliavam cada sorriso de Apolo, cada inflexão em sua voz, como quem procurava fissuras por trás daquela simpatia quase ensolarada demais. Apolo, por outro lado, parecia genuinamente se divertir com o jogo, respondendo às provocações dela com ainda mais charme, nada além do esperado quando se falava no deus do sol, da música e das profecias.
Eles continuaram conversando descontraidamente até que uma batida na porta os interrompeu. Apolo foi até a entrada e abriu para Hermes, que entrou com um sorriso largo e uma sacola de papel com um cheiro divino.
Sayonara! — exclamou Hermes, entrando sem cerimônias, com um sorriso largo no rosto.
— Espero que as peças não tenham vindo reviradas dessa vez — brincou Apolo, erguendo uma sobrancelha.
— Não é como se você tivesse pra quem reclamar, né? — retrucou Hermes, rindo enquanto entregava a encomenda.
— Senta aí, vem comer com a gente — convidou Apolo.
— Eu não quero comer com você e uma das suas amantes — respondeu Hermes, fazendo uma careta.
— Nem se ela for a deusa do verão? — rebateu Apolo, com um sorriso malicioso.
O mensageiro pareceu congelar por um instante, suas sobrancelhas erguidas em surpresa.
— Você é tão engraçado, Apolo — murmurou , surgindo atrás dele e revirando os olhos.
! — exclamou Hermes, abrindo um sorriso genuíno enquanto lhe dava um beijo afetuoso no rosto. — Não achei que fosse encontrar você aqui tão cedo!
sorriu, um pouco sem jeito.
Hermes era um dos poucos deuses do Olimpo com quem ela mantinha algum contato. Como sua mãe passava a maior parte do tempo a serviço de Hera, era geralmente o mensageiro quem lhe trazia as ordens e notícias do alto escalão divino. Não que fosse exatamente receptiva — ela raramente ouvia com atenção. Ainda assim, depois de anos de interações pontuadas por sarcasmo e discussões, os dois acabaram desenvolvendo algo que, na falta de termo melhor, poderia ser chamado de amizade.
— Você subestima minha lábia, Hermes — disse Apolo, lançando um olhar satisfeito.
— Não é como se eu tivesse muita opção — retrucou , com um meio sorriso, dando de ombros.
Eles se sentaram à mesa e abriram os pacotes, revelando uma grande variedade de combinados de sushi, com peças frias e quentes. A mesa estava repleta de peixes frescos, arroz temperado e acompanhamentos deliciosos. O clima era descontraído, e todos se serviram com entusiasmo, aproveitando a refeição e a companhia.
— Então, — disse Apolo, enquanto pegava uma peça com os hashis. — Você dirige?
— Eu tenho um clube de praia na menor cidade da Grécia Moderna, por que eu precisaria dirigir? — retrucou ela, sem pressa.
— Para dirigir a carruagem do sol — respondeu Hermes, com a boca cheia.
— Perfeito — resmungou , semicerrando os olhos, lançando um olhar de puro desgosto.
Como se ela não estivesse na merda o suficiente.
— Só não queime o mundo mortal com o fogo do sol — comentou Apolo, com um sorrisinho travesso. — Você sabe... Como Pantheon fez.
soltou uma risada seca.
— Eu não quero passar toda a eternidade no Tártaro.
— Não seria tão ruim — disse Hermes, dando de ombros. — está lá o tempo todo.
— Você vai gostar dele, é um garoto bonito — disse Apolo com naturalidade.
— Sim, e olha como ele tá bem resolvido emocionalmente — respondeu com ironia, pescando uma peça de salmão e levando à boca com elegância. — O Tártaro parece ótimo para quem quer passar a eternidade berrando com sombras e remoendo erros antigos.
— Soa como a maioria das famílias olímpicas, pra ser honesto — murmurou Hermes, fazendo Apolo rir.
— Eu sei que ele é o príncipe do inferno e tudo mais. — disse , com um tom cético. — Mas por que Hades colocaria o próprio filho para administrar aquele lugar esquecido pelos deuses?
Apolo estalou a língua, trocando um olhar breve com Hermes, como se esperasse que o mensageiro tomasse a frente da explicação.
Hermes apenas revirou os olhos.
não... Sente como as outras pessoas — disse ele, como se isso bastasse.
— Eu diria que nenhum de vocês, na verdade — retrucou , cruzando os braços. — Mesmo com os negócios de vocês no mundo mortal, vocês não vivem lá, com as pessoas normais.
— Engraçadinha — resmungou Apolo, embora sem conseguir conter um sorriso.
— Você sabe... — disse Hermes, apontando para ela com os hashis. — Zeus fez os mortais à nossa imagem. Tudo o que eles são não passa de um reflexo da nossa existência.
Claro — respondeu , revirando os olhos. — E o que isso tem a ver com o pequeno príncipe?
Hermes deu uma risadinha.
— Hécate diz que é como se ele estivesse sob uma espécie de maldição — disse ele, parando para colocar um sashimi na boca. — Você deve ter ouvido no Conselho quando disseram que ele não pode controlar os poderes dele.
— Estou tocada — zombou , recostando-se na cadeira.
— Você é terrível — disse Apolo, balançando a cabeça, mas sorrindo.
Ela lançou um olhar malicioso para ele.
— Eu sei que você está curiosa — provocou Hermes, com uma expressão satisfeita. — Mas posso parar, se não estiver interessada.
— Não! — exclamou , os olhos arregalados. — Por favor, continue...
Os dois deuses riram, divertidos.
— Você está familiarizada com o mito de Midas? — perguntou Apolo.
— Eu ainda moro na Grécia, você sabe — respondeu , impaciente.
— Pois bem — disse Apolo — é como o nosso velho amigo Midas. Tudo o que ele toca vira gelo.
— Inclusive os sentimentos dele — completou Hermes.
franziu o cenho.
— Isso não é possível...
— Estamos no Olimpo, — disse Hermes, com uma risadinha. — Impossível é um conceito frágil por aqui.
— Por que você diria isso? — Apolo se interrompeu, de repente atento. Seus olhos se fixaram nos dela.
A pergunta pairou no ar, pesada.
hesitou. O ar parecia mais frio de repente.
— Eu não...
Apolo arregalou os olhos, alarmado.
— Ele tocou em você? — perguntou ele, o tom de voz preocupado parecia estranho na sua voz.
Ela não respondeu, olhando fixamente para um ponto qualquer da sala, como se estivesse longe dali.
? — chamou Hermes, seu tom mais contido agora.
— Isso não faz sentido... — murmurou ela, sentindo um bolo se formar em sua garganta que começava a ficar estranhamente seca.
, tocou em você? — repetiu Apolo, agora mais calmo, mas com a voz tensa, quase num sussurro.
Um pequeno aceno de cabeça foi tudo que ela conseguiu.
Apolo se levantou de imediato, contornando a mesa até parar ao lado dela, abaixando-se um pouco para ficar em seu campo de visão.
— Pode me dizer onde? — perguntou ele, sua voz mais baixa do que antes.
A deusa respirou fundo, como quem decide mergulhar num lago gelado, e estendeu o braço, virando o cotovelo lentamente.
— Ele segurou meu braço quando eu estava indo embora — murmurou ela, parecendo ficar cada vez mais distante.
Apolo tocou o rosto dela com cuidado, guiando seu olhar de volta ao dele. Havia algo ali — preocupação genuína, algo raro demais nos deuses.
— Eu posso? — sussurrou ele, como quem fala com um animal assustado.
Ela assentiu.
Com delicadeza, ele segurou o braço dela e passou o polegar sobre a pele. No instante em que fez isso, um calafrio percorreu o corpo de . Ela estremeceu. Foi então que viu: uma mancha esbranquiçada, tênue, mas visível — como uma cicatriz antiga ou uma marca de nascença.
— Merda — ela praguejou, tensa.
— Isso dói? — perguntou Apolo, atento.
Ela negou com a cabeça.
— Curioso... — disse ele, soltando o braço dela devagar e voltando ao seu lugar.
limpou a garganta, tentando recuperar o controle.
— Então ele congela as coisas?
— Obviamente — confirmou Hermes, tentando suavizar o clima. — Tá na descrição do cargo, aparentemente.
— E o que isso tem a ver com o Tártaro? — insistiu .
— Porque lá embaixo, a dor é uma moeda — explicou Apolo. — E ... Não a sente como nós. A tortura não o afeta. Ele não teme o caos, nem o eco da culpa. Ele vive entre as almas e gritos como quem vive numa cidade grande.
Maravilha — murmurou , amarga.
— Ele não é tão ruim — disse Hermes, tentando parecer mais leve. — Ele só é socialmente estranho, nada de mais.
lançou um olhar afiado para ele.
Aquilo era uma forma gentil de dizer que o herdeiro de Hades, seu oposto complementar, não passava de uma espécie de sociopata.
Ela engoliu em seco, mas não disse nada.
O silêncio voltou a cair, dessa vez mais pesado, mais gelado.
E não sabia dizer se era por causa da marca no seu braço ou por algo que começava a gelar devagar dentro dela.
— Quanto tempo vai ficar assim? — ela perguntou, a voz vacilante pela primeira vez naquela noite.
Apolo e Hermes trocaram um olhar. Um daqueles que duram menos de um segundo, mas dizem tudo. Era o tipo de troca que os imortais faziam quando sabiam de algo, mas preferiam que não viesse à tona.
— Eu não sei — disse Apolo, os ombros murchando como se carregasse um peso invisível. — normalmente não toca as pessoas diretamente.
— Não é de se admirar que ele não tenha filhos por aí — comentou Hermes, tentando aliviar o clima. — Ele é o único deus que se dá o trabalho de usar camisinha.
e Apolo encararam o deus com uma expressão severa.
— Muito cedo para a piada? — arriscou Hermes, erguendo as mãos em rendição.
— Um pouco de filtro não te faria mal — resmungou Apolo.
— Hécate acredita que é uma extensão da essência dele — disse. — Que essa... Frieza não é só um poder. É a forma como ele foi moldado. Como se parte da alma dele estivesse trincada desde o nascimento.
— Trincada? — repetiu , o olhar ainda preso à marca. — Como vidro?
— Como gelo — corrigiu Apolo. — Sempre à beira de quebrar, mas nunca completamente. E, quando quebra… Corta quem estiver por perto.
— E Hecáte não pensou em... Sei lá, quebrar a maldição dele? — perguntou .
— Ninguém sabe realmente de onde essa magia veio — disse Apolo, com um suspiro. — Nem mesmo eu.
— Você não deveria saber de tudo? — rebateu . — Achei que você fosse o Oráculo de Delfos.
Apolo cerrou o maxilar.
— Eu deveria.
— Não é sua culpa, Apolo — interveio Hermes, tentando suavizar o momento.
— O que eu estou perdendo aqui? — insistiu .
— Eu não consigo ver nada relacionado ao destino dele — explicou Apolo, os olhos sem aquela luz solar que normalmente emanavam. — É como se, ao tentar, ficasse cego.
— Que conveniente — murmurou .
— Mas algo me diz que isso está prestes a mudar — disse Hermes com um sorriso enviesado.
— Por quê? — ela perguntou, desconfiada.
— Porque você está aqui — respondeu ele, piscando.
revirou os olhos. Ela odiava quando ele fazia aquilo.
— Você acha que isso significa alguma coisa?
— Eu acho que os deuses antigos não fazem nada por acaso — respondeu Apolo. — E se tocou em você… Se a marca ficou… É porque existe uma conexão.
— Conexão — repetiu ela, mordendo o interior da bochecha. — Isso soa perigosamente como destino.
— Você não acredita em destino? — perguntou Hermes, arqueando uma sobrancelha.
— Eu acredito em escolhas — respondeu . — E a minha, neste momento, é não me envolver com o herdeiro do submundo.
Mas nem ela mesma acreditou completamente em suas palavras.
Apolo sorriu, mas havia cansaço em seus olhos.
— Os fios já estão se entrelaçando, . Quer você queira, quer não.
Apolo se recostou na cadeira, analisando-a em silêncio. Havia algo em seu olhar que ela não soube decifrar — talvez fosse preocupação, talvez cálculo. Talvez ambas as coisas.
— Você deveria falar com Hécate — sugeriu ele. — Ela pode te ajudar a lidar com .
— Eu não preciso de uma feiticeira pra me dizer o que já sei — disse , levantando-se da mesa. — E eu não quero fazer parte disso.
Ela olhou mais uma vez para o braço. A marca parecia mais visível agora, como se reagisse à própria menção do nome dele. Como se estivesse viva.
— Você vai ter tempo o suficiente para se acostumar com a ideia — comentou Hermes, dando de ombros.
— Eu acho que não — rebateu ela, franzindo o nariz e começando a recolher as embalagens sobre a mesa.
Apolo e Hermes a observaram em silêncio enquanto ela jogava o lixo na lixeira mais próxima.
— Vou dormir. — anunciou a deusa para ninguém em especial, virando-se para sair da sala. — Obrigada pela comida.
— chamou Apolo, antes que ela cruzasse a soleira.
Ela parou na porta, sem se virar.
— Amanhã teremos um baile na casa de Zeus e Hera — anunciou Hermes.
olhou por cima do ombro, forçando um sorriso.
— Eu deveria ter ficado em casa e aceitado vir daqui algumas semanas — ironizou ela, mas até o comentário ácido parecia fora de lugar.
Os deuses riram, baixinho, por reflexo. Mas o riso se apagou rápido. A noite já não voltaria a ser leve como antes.
— Não iria adiantar muito — disse Hermes, dando de ombros. — O propósito todo do evento é celebrar o seu retorno.
— Imagino de quem tenha sido a ideia — disse , evirando os olhos enquanto se encostava em uma viga de mármore.
Hermes apenas respondeu com um daqueles sorrisos indulgentes que ela detestava.
Ela estava simplesmente fodida.
— Ótimo — murmurou ela. — Minha ida para o Tártaro pode acabar acontecendo mais cedo do que eu esperava.
— Nada de Tártaro pra você — interveio Apolo, com firmeza.
— Mais alguma coisa sobre a minha estadia aqui que eu deva saber? — perguntou , com cansaço.
— Você vai fazer um estágio nas fábricas de Hefesto, pra aprender a cuidar da carruagem — respondeu Hermes, com um entusiasmo que já não condizia mais com o ambiente.
— Quando não estiver na fábrica, você treina comigo e com Perséfone — completou Apolo.
— Não dá pra ser só com você? — perguntou , voltando-se a ele com um fio de esperança.
— Você vai precisar de Perséfone se quiser alguma chance de controlar as estações — disse Apolo, sério.
— Maravilha — resmungou , cruzando os braços.
Hermes trocou um olhar com Apolo, tentando conter o sorriso.
— Dê uma chance a ela — disse Apolo. — Apesar de governar o Mundo Inferior, Perséfone é realmente agradável.
— Veja pelo lado bom — acrescentou Hermes. — vai estar nos treinos também. Com a mamãe.
— E eu achando que não podia melhorar — resmungou , revirando os olhos.
— Você não vai muito com a cara da família Addams, não é? — perguntou Hermes, divertido.
— Você sabe, Hades é um dos principais responsáveis pelo meu exílio — respondeu ela, seca. — E eu tenho um pressentimento de que ele fez isso pra poupar o filhinho dele.
— E daí? — insistiu Hermes.
— Eu não gosto de frio — cortou , fechando a cara.
— Quem sou eu para julgar? — disse Apolo, dando de ombros.
— Além da maldição — continuou . — Tem mais alguma coisa que eu precise saber sobre o menino gelado?
— Longa história — disse Apolo, evasivo.
— Você sabe como é — emendou Hermes, num tom mais leve. — é muito poderoso, mas vive na sombra do pai já que não consegue controlar os poderes por causa do equilibro. Não fala muito, tem um senso de humor questionável e quebra corações por diversão.
— Eu não acho que eu vou gostar dele — decretou .
— Talvez você tenha razão — disse Hermes com um sorriso enviesado. — Vocês são muito parecidos.
— O que te faz pensar isso? — ela retrucou, estreitando os olhos.
Hermes respondeu com um sorriso travesso.
é um dos meus melhores amigos.
fez uma careta desgostosa.
— Por que eu não estou surpresa?
O mensageiro dos deuses deu mais uma das suas risadinhas inconvenientes.
— Isso vai ser divertido — disse Hermes, sem esconder o entusiasmo.
Apolo deu uma cotovelada discreta nele, em clara repreensão.
— Acho que já vou indo — disse , girando nos calcanhares.
— Esteja pronta para o baile amanhã — lembrou Apolo. — Zeus não costuma tolerar atrasos.
fez um gesto desdenhoso com a mão enquanto saía.
— Ele vai ter que aprender a lidar com isso.


Capítulo 4

jamais admitiria em voz alta, mas havia algo nas festas do Olimpo que sempre o deixava intrigado. Fascinado, até.
Os deuses se portavam como figuras de ordem, mas bastava um pouco de hidromel e tudo desandava. Antigas mágoas vinham à tona, elogios viravam provocações, segredos enterrados reapareciam com nomes, datas e ressentimentos intactos.
Ele sempre aparecia. Chegava quieto, se encostava numa coluna qualquer, taça na mão, expressão neutra. Dizia que estava ali por obrigação, que preferia o silêncio do inverno. Mas não perdia uma troca de olhares. Nem uma palavra atravessada.
Naquela noite, o clima virou do jeito previsível de sempre. Os risos diminuíram, os gestos ficaram mais contidos. Atena mantinha a postura, mas o olhar já pesava. Éris girava o vinho, esperando. Ares só precisava de um empurrão.
observava tudo à distância. Não precisava ouvir — já conhecia o roteiro. E mesmo assim, assistia. Sempre assistia.
Tomou um gole lento, atento. Porque ali, na sombra, era onde o Olimpo realmente mostrava quem era. E isso, pra ele, valia cada minuto.
Hermes apareceu ao seu lado em silêncio, as sandálias aladas pousando com leveza no mármore branco. Ele não precisou olhar para por mais de três segundos antes de notar algo fora do comum.
— O que é esse sorriso no seu rosto?
— Não tem sorriso algum no meu rosto — respondeu , sem desviar os olhos do espetáculo à frente.
— Eu te conheço há centenas de anos — disse Hermes, arqueando uma sobrancelha. — Acho que saberia a diferença entre uma carranca e um sorriso nessa sua cara feia.
— Agora eu sou feio? — soltou um riso curto, seco, quase automático.
, você está perdendo o foco.
— Éris e Ares estão incomodando Atena de novo.
Hermes seguiu o olhar do outro e achou a cena com facilidade. Atena, de pé, com o corpo rígido e os olhos brilhando de fúria contida, encarava Éris com a expressão de quem ponderava seriamente se valia a pena manter a compostura. Ao lado da deusa da discórdia, Ares exalava impaciência, como se o simples fato de não estar quebrando alguma coisa já fosse um esforço heroico.
— Eles não tinham resolvido isso na Guerra Fria? — perguntou Hermes, franzindo o cenho.
deu de ombros.
— Parece que o mundo mortal está polarizado mais uma vez.
— É claro que está — respondeu Hermes, o tom carregado de cansaço.
A festa, que até poucos minutos atrás transbordava em música e excessos, agora começava a se dobrar sobre si mesma, como um mar que sente a chegada da tempestade. Os deuses ao redor se afastavam, uns discretamente, outros abertamente interessados no desenrolar do drama. Era o tipo de coisa que acontecia com frequência suficiente para ser esperada, mas ainda assim atrativa demais para ser ignorada.
E então, como se as engrenagens do caos girassem com pontualidade olímpica, Afrodite surgiu entre a multidão — um furacão em forma de deusa. Seu rosto estava vermelho de raiva, e o vestido de seda esvoaçava como se o próprio ar ao redor dela estivesse inquieto. Foi direto até Ares, interrompendo o embate verbal com uma nova explosão de gritos e acusações.
sorriu com um canto da boca.
— Problemas no paraíso. Imagino o que seja.
Hermes revirou os olhos e trocou um olhar com o amigo. Eles disseram ao mesmo tempo:
Harmonia.
Por alguns instantes, e Hermes assistiram em silêncio. Era quase poético: a deusa do amor e o deus da guerra, juntos em mais um confronto passional, cercados pelos gritos abafados de Éris e os protestos frios de Atena. Era como assistir a várias tragédias simultâneas, cada uma com sua própria trilha sonora, entrelaçadas em uma única ópera de vaidades, mágoas e naturezas que jamais se conciliariam.
— Por que Ares insiste em machucar a filha deles? — murmurou Hermes, mais para si do que para o outro.
— Não é como se ele pudesse evitar — respondeu . — Faz parte da natureza dele.
— É por isso que ele e Afrodite nunca vão dar certo.
— Não é como se eles não soubessem que estavam condenados desde o início.
Hermes suspirou, passando a mão pelos cabelos dourados como quem carrega o peso de séculos de repetições.
— Você é tão pessimista.
— Eu só vejo as coisas como elas são.
O salão, aos poucos, se dividia em lados invisíveis. Alguns se aproximavam para assistir mais de perto. Outros se afastavam, querendo evitar a explosão iminente. E, como sempre, e Hermes permaneciam no mesmo lugar: à margem, acima do caos, longe o suficiente para não se sujar — perto o bastante para não perder nenhum detalhe.
Hera surgiu com a imponência habitual, deslizando pelo salão como uma tempestade controlada. Os olhares se voltaram para eles. Mas não se moveu. Continuou encostado na mesma coluna, observando o caos de longe, como se estivesse assistindo uma peça repetida vezes demais.
— disse ela, com um sorriso que morria antes de alcançar os olhos. — Fico feliz que tenha decidido aparecer.
Ele sequer se endireitou.
— Não é como se eu tivesse escolha — o deus do inverno deu de ombros, girando lentamente o líquido dourado na taça.
Ao seu lado, Hermes esticou o pescoço, os olhos saltando entre os convidados como se procurasse uma rota de fuga. Sua inquietação era quase cômica.
— De todo modo, sua presença é… — Hera insistiu, com a voz medida demais para ser genuína. — Bem-vinda.
soltou um suspiro audível, sem esconder a impaciência.
— O que você quer, Hera?
O silêncio que seguiu foi breve, mas afiado como lâmina mal embainhada.
— Ahn… — Hermes pigarreou de leve, claramente desconfortável. — Acho que... Estão me chamando ali do outro lado. Algo sobre... Mensagens urgentes. Uma entrega. Ou duas. Bem, vocês sabem como é.
— Covarde — resmungou , mais para si mesmo.
Mas Hermes já batia em retirada, rápido demais para ser detido. observou o deus mensageiro desaparecer entre os convidados como quem vê um rato escapar da gaiola.
— Vejo que está se divertindo — comentou Hera, seguindo seu olhar até o ponto onde os outros deuses ainda discutiam.
— Hera, por favor — disse , a voz cansada. — Nós não fazemos isso.
— Isso o quê?
— Conversar.
— Ah — um leve arquejo de riso escapou dela. — E, ainda assim, aqui estamos.
ergueu os olhos, finalmente encontrando os dela.
— O que você quer, Hera?
Ela suspirou. Era um daqueles suspiros ensaiados, profundos, carregados de intenção.
— Gostaria de te agradecer por se oferecer para proteger .
engasgou-se no meio de um gole, quase derramando o hidromel.
Proteger?
— Sim — respondeu Hera, com a voz cuidadosamente polida, embora as mãos apertassem a barra do vestido, denunciando sua inquietação. — Se você não tivesse se manifestado no Conselho, talvez não chegássemos a uma solução tão… Pacífica.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Eu diria que nós temos entendimentos muito diferentes do que aconteceu naquele dia.
— Não importa — a deusa se endireitou, firme. — Estou realmente grata.
a fitou por um instante, como se tentasse decifrar o que havia por trás daquela abordagem incomum. A rainha dos deuses não era conhecida por suas boas intenções.
— Aquilo não foi um favor, Hera.
O silêncio entre eles se estendeu, denso e desconfortável. O burburinho da festa ao redor parecia abafado, distante, como se o salão inteiro contivesse a respiração. Hera desviava o olhar, aparentemente à procura de alguém no salão. , no entanto, não disfarçava a frieza com que a observava.
— Íris me pediu para te conceder um favor — disse Hera, enfim, com a voz baixa e contida, como se a simples ideia a incomodasse.
arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— Eu não preciso dos seus favores.
— Pode precisar em breve.
Ele girou o conteúdo da taça com desinteresse, antes de levar um gole. A indiferença era calculada.
— Isso é uma ameaça?
— É um aviso — respondeu ela, os olhos agora fixos nos dele. Havia algo duro ali, mas também um traço de algo quase maternal, enterrado sob séculos de orgulho.
revirou os olhos, impaciente.
pode ser... Um tanto temperamental, de acordo com a mãe dela — disse Hera, retomando com suavidade forçada.
— Como você? — ele rebateu de imediato, com um sorriso enviesado, venenoso.
Hera inspirou fundo, claramente se contendo.
— Isso não tem a ver comigo.
— Eu duvido muito — retrucou ele, a voz agora mais baixa, mais firme. — Não me surpreende que você, entre todos, esteja particularmente interessada no retorno de uma deusa destinada a trazer o fim dos tempos.
— Eu não vou fingir que não — disse Hera, endireitando-se, assumindo a postura que tanto a definia: régia, firme e traiçoeira. O lobo em pele de cordeiro.
— Grande deusa do casamento você é — resmungou , dando mais um gole, agora mais lento.
Hera revirou os olhos, mas manteve o queixo erguido.
— Eu também sou protetora das mulheres.
— Quando te convém.
— O que faz sentido — retrucou ela, a voz ganhando um leve fio de veneno. — Estamos falando da filha da minha mensageira pessoal. Você acha mesmo que eu não me envolveria?
balançou a cabeça devagar, sem disfarçar o desprezo.
— Claro e você quer que eu te ajude a usar a deusa do verão em mais uma das suas tentativas fracassadas de destronar o seu marido — ele tomou um gole do hidromel. — Você não se cansa nunca?
Hera não respondeu de imediato. Apenas se aproximou e pousou a mão com delicadeza no braço de , por cima da túnica. O toque foi leve, quase afetuoso — mas íntimo demais, estranho demais para ser casual.
— Eu posso ser a única coisa entre vocês e ele quando tudo acontecer.
afastou o braço sutilmente, sem violência, mas com firmeza.
— Eu não sou um dos seus peões, Hera.
Ela sorriu, mas não havia ternura alguma naquele sorriso.
— Eu não teria tanta certeza disso se fosse você.
Hera manteve o olhar fixo por um instante ainda, depois recuou com a elegância de quem dita as regras mesmo ao se retirar. Seus dedos deslizaram pela túnica enquanto endireitava a postura, e, em seguida, ela se virou, desaparecendo entre os convidados como névoa que se desfaz com precisão calculada.
não se moveu.
O salão, antes abafado pela tensão, pareceu retomar o ritmo natural — risos, brindes, conversas espalhadas. Mas o som chegava a ele como se viesse de muito longe, abafado por um tipo diferente de silêncio, aquele que fica dentro da cabeça.
Sua mão apertava a taça com mais força do que percebia. O hidromel oscilava sob a borda, refletindo as luzes do salão com uma vibração nervosa.
O silêncio pesado ainda pairava sobre quando ele sentiu a presença antes mesmo de ouvir qualquer som. Um peso brutal se instalou ao seu lado, como uma armadura que se cola à pele, rígida e implacável.
— Você parece desconfortável, — murmurou Ares, a voz profunda e calculada, como um sussurro ameaçador.
O deus do inverno ergueu um sorriso seco, carregado de desdém.
— Não me diga que veio aqui só pela diversão.
Ares soltou um sorriso divertido, os olhos brilhando com uma faísca sombria.
— Sempre espero que você traga um pouco de destruição para animar as coisas.
— Está sem sorte hoje, Ares — o encarou, os olhos frios e afiados, calculistas. — Pretendo sair daqui na primeira oportunidade.
Ares sorriu, enigmático.
— E perder a chance de ver a deusa do verão?
parou por um instante, os olhos antes vagos na multidão agora fixos em Ares.
está aqui? — perguntou ele, a voz quase um sussurro, como se não quisesse acreditar no que ouvia.
— Não me diga que não leu o convite — Ares riu, um som carregado de ironia e diversão. — O motivo todo desse show de horrores é recepcionar a nossa cavaleira do apocalipse.
Então era por isso que Hera tinha vindo falar sobre ela.
sentiu uma estranha pressão em seu peito. Ele nunca admitiria, mas saber que ela estaria ali... Era melhor nem cogitar pensar sobre isso.
— Acho que meu desentendimento com Afrodite não poderia ter vindo em momento mais oportuno — Ares comentou com um sorriso predatório.
O ar ao redor de pareceu esfriar instantaneamente, como se o próprio inverno tivesse descido sobre o salão, fazendo a temperatura despencar.
— Nem pense nisso — avisou, a voz firme e gélida, carregada de ameaça.
Ares fixou nele um olhar aguçado, repleto de curiosidade e cinismo.
— Como não pensar? — o deus da guerra provocou. — Você a viu no Conselho, vestindo apenas uma camiseta colada e uma calcinha minúscula. Eu seria louco se não pensasse nisso.
Os punhos de se fecharam com força, o frio se manifestando em cristais de gelo que começavam a envolver seu pescoço, pulsando em sintonia com sua irritação.
— Ela ainda estava completamente molhada — Ares continuou, o tom carregado de malícia. — Nem precisei nem imaginar o resto...
Num movimento rápido, agarrou o braço de Ares. O contato congelou a pele imediatamente, como se o inverno tivesse estendido sua mão junto com ele.
Porra! — Ares praguejou, soltando o braço e esfregando a pele num esforço para aquecer o local congelado.
suspirou, exausto, e esfregou a ponte do nariz como quem tenta dissipar um incômodo persistente.
— Você sabe que não deve ficar tocando as pessoas assim — murmurou Ares, irritado. — Onde estão suas luvas?
— Por favor — respirou fundo, a paciência no limite — Pare de falar.
Ares deu um passo mais perto, um sorriso malicioso espalhando-se no rosto.
— Não está agindo assim por causa dela, está?
desviou o olhar, a mandíbula tensa. O simples eco daquele nome em sua mente parecia expandir-se por dentro como um ruído que não conseguia silenciar. Ainda assim, manteve-se firme, impenetrável.
Ares inclinou levemente a cabeça, examinando o deus do inverno com o olhar de um predador estudando a fraqueza de sua presa. O sorriso era provocador, mas os olhos — sombrios e atentos — diziam algo mais sério. Algo interessado.
— Não me diga que você já se apaixonou por ela, — debochou o deus da guerra, com uma risada que soava como metal sendo arrastado sobre pedra.
— Eu não sou capaz de sentir esse tipo de coisa — disse , a voz revestida de um desdém gelado. Forçou um sorriso entediado, como quem já ouvira o mesmo insulto muitas vezes. — Não sou tão fraco.
Ares levantou uma sobrancelha, claramente cético.
— Eu nunca acreditei nisso — disse ele, cruzando os braços, o corpo relaxado demais para o tom da conversa. — Você ficaria surpreso com a maneira peculiar que os sentimentos tem de deixar as pessoas... Desconcertadas.
O deus do inverno soltou uma risada seca, sem humor.
— Não perca o seu tempo, Ares.
— É realmente uma pena — Ares sorriu ainda mais, os dentes à mostra como os de um lobo entretido. — Ela é realmente espetacular, deve fazer maravilhas com aquelas pernas atléticas.
O gelo percorreu a espinha de . Ele fechou os olhos e contou mentalmente até dez, tentando conter a tempestade que ameaçava transbordar por baixo da pele.
— Eu não vou avisar de novo — disse ele, sem elevar a voz. Mas o tom bastava para estabelecer a ameaça iminente.
Ares ergueu as mãos num gesto cínico de rendição.
— Ao menos me conte os detalhes quando resolver levá-la pra cama. Já que você não parece inclinado a... Dividir — disse Ares com um brilho cruel nos olhos. — Eu só espero que ela não seja mais um problema para você.
O deus do inverno não respondeu de imediato. Um músculo em sua mandíbula se contraiu. Ele sabia que Ares adorava esse tipo de jogo mental, que guerra ia muito além de uma inclinação para a violência.
— Não preciso de mais problemas, Ares — respondeu, com um olhar mais frio e distante.
Ares soltou uma risada baixa, quase como um rosnado satisfeito.
— Isso não significa que eles não cheguem até você — Ares disse, um brilho travesso nos olhos, antes de se virar em direção à entrada principal do salão, fazendo com que o outro deus acompanhasse o seu olhar.
Foi nesse instante que surgiu no topo da escadaria — e o mundo ao redor de pareceu silenciar.
O ar deixou seus pulmões como se tivesse levado consigo toda sua capacidade de raciocínio. Por um segundo eterno, ele apenas a encarou, imóvel, estilhaçado por dentro. Ela estava ali, radiante, como se o próprio verão tivesse tomado forma apenas para caminhar entre os deuses.
Seus cabelos dourados, tingidos de sol, caíam em ondas suaves, secos agora, mas tão vivos que pareciam carregar a memória do mar e do vento. Havia uma leve brisa no salão — ou talvez não — talvez fosse apenas o modo como tudo nela se movia, com a leveza de quem pertence a outra dimensão do tempo.
A túnica que vestia era de um laranja vibrante, como uma chama contida, moldando-se ao corpo de maneira quase indecente em sua perfeição. O tecido fluía com graça, revelando curvas e ocultando intenções, e o decote, discreto, mas certeiro, fazia com que sua presença fosse impossível de ignorar — não apenas bela, mas inevitável.
Ele ficou parado, com os olhos fixos nela, como se fosse impossível desviar o olhar. Era a primeira vez que a via em toda sua essência divina. A visão quase o fez cair de joelhos, a intensidade de sua presença fazendo sua mente ficar temporariamente em branco.
— Mal posso esperar para ver você tentando negar agora — murmurou Ares, com um deboche escorrendo da voz como veneno suave.
não respondeu de imediato. Seus olhos ainda estavam cravados em , o olhar vidrado, quase reverente. Ares poderia ter sumido, o salão poderia ter desabado — ele não teria notado.
— O quê? — respondeu ele em voz baixa, quase como se estivesse falando consigo mesmo, ainda em transe.
Ares inclinou-se ligeiramente, sua voz agora mais baixa, quase só um sopro no ouvido do deus do inverno:
— Estão todos olhando pra vocês.
Aquelas palavras, simples e calculadas, romperam o torpor de como um estilhaço de gelo atravessando a pele. Ele piscou, uma vez. Respirou. E então, com um leve movimento de cabeça, forçou-se a quebrar o feitiço — não da visão de , mas do que ela significava ali, naquele instante, diante de tantos olhos atentos.
recuou meio passo, disfarçando o impacto com a elegância gélida que o caracterizava. Ajustou a postura, ergueu o queixo e permitiu que a expressão voltasse ao habitual desdém controlado. Mas o coração congelado, parecia pesar dentro do peito pela primeira vez na vida.
começou a descer as escadas, e a cada degrau o salão parecia se curvar em atenção à sua presença. Conversas silenciavam, taças paravam no ar, pessoas paravam no meio do caminho. A deusa não sorria, mas sua presença era tão calorosa quanto insuportável para , cuja pele parecia ferver sob a túnica, como se o verão tivesse invadido seus ossos e se recusasse a sair.
— Tente ao menos disfarçar — Ares disse, com uma ponta de repreensão na voz, observando com um olhar atento.
O deus do inverno franziu a testa, tanto confuso com a acusação e quanto irritado com a insinuação. Ares sempre tinha um jeito de cutucar onde não devia.
— Por que eu faria isso? — retrucou ele, a voz seca. Mas mesmo enquanto falava, seus olhos permaneciam fixos em , incapazes de desviar.
Ares inclinou levemente a cabeça, baixando ainda mais a voz, como se estivesse compartilhando uma informação confidencial.
— Eles suspeitam que a aproximação entre vocês possa influenciar de alguma forma com a profecia — sussurrou ele, sua expressão séria.
arqueou uma sobrancelha, um gesto quase cínico, mas havia rigidez em sua mandíbula. Ele não gostava de ser incluído em especulações — ainda mais aquelas que envolviam o que ele tentava, até aquele instante, ignorar.
— Isso é estúpido — ele retrucou, a voz gélida, deliberada.
Ares sorriu, quase com um toque de diversão, como se a resposta de fosse exatamente o que ele esperava ouvir.
— Será? — provocou o deus da guerra, a pergunta pendendo no ar como uma lâmina afiada.
não respondeu. Apenas respirou fundo, e o ar ao redor deles condensou-se por um segundo, como se o ambiente reagisse à força do controle que ele precisava exercer sobre si mesmo. Não era medo. Era algo mais primitivo. Mais perigoso.
Quando alcançou o último degrau, seus olhos cruzaram com os dele. Por um instante — um ínfimo, mas eterno instante — tudo parou. A música, os sussurros, até mesmo o tempo parecia hesitar. Havia algo nos olhos dela que o atravessava como uma lâmina de fogo: curiosidade, reconhecimento... E talvez, só talvez, um traço de expectativa.
não desviou o olhar.
Mas dentro de si, algo antigo e incômodo se remexeu. Algo que ele havia passado séculos enterrando no Tártaro — junto com todas as expectativas que o Olimpo tinha sobre ele.
Ares pareceu perceber isso.
E sorriu.


Capítulo 5

odiava saltos altos quase tanto quanto odiava o Olimpo.
Mas, não. Apolo tinha que convencê-la a vestir esses objetos de tortura para a festa ridícula de Zeus. Ela devia ter imaginado que ceder à simpatia do deus da profecia vinha com um preço. Apenas as Erínias poderiam dizer quantas almas ela condenaria em troca de um par de chinelos.
E lá estava ela agora, parada ao pé da escadaria da mansão ridiculamente ornamentada, tentando ignorar a dor latejante nos calcanhares — e desviar o olhar do maldito deus do inverno. Era claro que ele estava ali, encostado numa coluna de mármore, com aquela expressão impassível e olhos que pareciam julgar o mundo inteiro sem mover um músculo. O deus do inverno não precisava fazer nada para se destacar — seu olhar glacial cortava a multidão como uma lâmina. Um olhar que parecia dilacerar a sua alma em milhares de pedaços sem sentido.
Enquanto os outros deuses ostentavam sua beleza de forma ensaiada, era... Cru. Gélido. Inconfundível.
E ela o encarava. Sem piscar. Sem respirar. Como se olhar para ele fosse uma batalha que se travava por dentro.
querida — a voz de Hera surgiu repentinamente, doce como veneno diluído em mel. — Que prazer finalmente conhecê-la. Sua mãe fala tanto de você...
A deusa se aproximou com um sorriso meticulosamente calculado, os olhos cintilando com aquela curiosidade perigosa de quem sempre espera algo em troca.
quase agradeceu à anfitriã pela interrupção. Quase. Mas a menção do relacionamento dela com Íris soava como uma acusação velada, uma cobrança. Um lembrete de onde ela vinha, e de onde deveria pertencer. E aquilo foi o suficiente para o maxilar da deusa do verão endurecer.
— É mesmo? — respondeu ela, com um sorriso que não tocou os olhos. — Que pena que eu não possa dizer o mesmo.
Hera parou ao lado dela, o sorriso jamais vacilando, como se tivesse todo o tempo do mundo para investir naquela pequena batalha silenciosa.
— Sabe, , eu entendo que o Olimpo não seja exatamente seu lugar favorito — a voz da deusa tinha um tom quase maternal, mas carregado de ironia. — Afinal, é difícil se encaixar quando você vem de... Um lugar tão diferente.
ergueu a sobrancelha, sem se deixar levar pela falsa gentileza.
— Diferente é uma palavra conveniente para justificar tudo, não é? — respondeu ela, secamente.
— Se vale de alguma coisa — Hera replicou, com um leve toque de sinceridade. — Eu não concordo com o que fizeram com você.
— Não vale — cortou , direta, como uma lâmina.
Hera ergueu o queixo, recompondo o sorriso com a frieza de quem está acostumada a insultos velados.
— De qualquer forma, espero que possamos nos entender. Íris tem sido uma aliada valiosa para mim ao longo dos séculos, e desejo poder estender essa gratidão a você.
arqueou uma sobrancelha, desconfiada.
— E o que você ganha com isso?
O olhar de Hera se estreitou por um instante, surpresa pela afronta — não era à toa que a deusa do arco-íris havia alertado sobre a personalidade da filha.
Antes que a resposta viesse, uma voz grave e satisfeita se intrometeu:
— Deusa do verão — cumprimentou Zeus, surgindo entre colunas douradas como se o mundo fosse o palco e ele, o eterno protagonista. — Vejo que já teve o prazer de conhecer a minha adorável esposa.
se virou devagar, sem esconder a má vontade que sentia. Seus olhos brilharam com uma ironia discreta ao encarar o rei dos deuses.
— Se você diz...
Zeus soltou uma risada breve, mais encenação do que humor. Com um gesto largo, indicou o salão atrás de si, como se apresentasse um império. — um caos luxuoso de deuses entediados, heróis narcisistas e criaturas míticas disputando status com taças de néctar.
— Por favor, sinta-se à vontade para comer e beber. A festa também é sua — disse ele, como se a generosidade fosse um presente pessoal
. olhou ao redor, como quem busca desesperadamente uma saída. Mas havia ouro demais, estátuas demais, julgamentos demais
. — Vocês viram Apolo? — perguntou ela, tentando disfarçar o desconforto com indiferença.
— Deve estar perdido em algum canto da pista de dança — respondeu Hera, com um sorriso contido. — Você sabe como ele é. Não resiste a uma boa música.
Sei — murmurou .
— Contratamos as Musas como atração da noite. Achamos que seria... Uma bela oportunidade de promover a cultura local — completou Hera, com aquele tom calculado entre o sarcasmo e a superioridade.
— Espero que não esteja incluso na conta — disse , mais para si mesma.
— Disse alguma coisa? — Hera arqueou uma sobrancelha.
apenas sorriu, fingindo inocência.
— Nada importante.
Zeus, ainda sorrindo, inclinou o corpo como se compartilhasse um segredo.
— Aproveite a oportunidade para conhecer os outros — disse ele, com aquele tom teatral de quem gostava de se ouvir. — Perséfone está por aí, bebendo como se Dioniso tivesse dado sua bênção pessoal. Eos ainda não saiu da pista de dança — nenhum de nós teve coragem de impedi-la. Se quiser testar sua paciência, o trio das virgens está reunido em algum canto sagrado, trocando dogmas e olhares de julgamento. Aposto que Ártemis, Atena e Héstia ficariam encantadas em analisar seu... Entusiasmo.
apertou os lábios. Era um esforço consciente manter o deboche só nos olhos. Mas Zeus era insistente como uma febre.
— E há, claro, os heróis — continuou ele. — Você pode se dar bem com alguns. Afinal, conhece o mundo mortal melhor do que qualquer um aqui. Herácles está perto da comida, como sempre. Ele e Psique são bons amigos se você quer saber. Curioso, não?
— Curioso é o eufemismo que você escolheu? — perguntou , seca.
Zeus riu como quem ignora a pontada e elogia a ousadia.
— Afrodite deve ter planos para os dois em breve — comentou Hera, surgindo com a suavidade calculada de quem escolhe o momento exato para cortar.
— Ela não deveria ser a deusa do amor? — arqueou a sobrancelha.
— Ela é — respondeu Hera, com uma risadinha leve. — Mas também é mãe do Cupido, com quem Psique tem um situacionamento.
Antes que pudesse ironizar, Hera interveio com voz suave, mas firme:
— Podemos apresentá-la a , se quiser. Vocês vão passar bastante tempo juntos. Seria sensato começar com o pé direito.
O nome pairou no ar por um momento.
entreabriu os lábios e estreitou os olhos, avaliando Hera com atenção. Havia mel demais naquela oferta. E uma ponta de gelo por baixo.
— Claro — murmurou Zeus, fingindo surpresa. — Juntar os gêmeos do fim do mundo logo no começo da noite. O que poderia dar errado?
Dessa vez, deixou escapar um meio sorriso — curto, afiado — e o lançou diretamente a Zeus. Seu olhar tinha algo de insolente, quase infantil.
— Você parece conhecer bem os seus convidados... — disse ela, com doçura envenenada.
— É parte do cargo — respondeu Zeus, erguendo o queixo. — Governar é um exercício constante de observação.
— Me pergunto como você conseguiu perder Helios — disse ela, como quem comenta sobre o clima. O prenúncio de uma tempestade para ser mais preciso.
A sala silenciou. Não totalmente — ainda se ouvia música, passos, taças tilintando ao longe —, mas o espaço entre eles ficou mais denso, como se o ar hesitasse em passar.
O sorriso de Zeus morreu nos lábios. Seus olhos escureceram por uma fração de segundo, e viu ali, por trás da fachada dourada, o rei que tinha perdido o controle de algo fundamental — e se recusava a admitir.
Antes que qualquer resposta fosse possível, a atmosfera mudou.
Foi sutil. Uma mudança de pressão. Um arrepio na nuca. Não havia vento, nem som, mas o calor no peito de vacilou, como se o próprio corpo dela reconhecesse a presença antes que seus olhos confirmassem.
— Estou interrompendo?
Tão silencioso quanto a primeira geada da madrugada. Surgira ao lado dela como uma sombra discreta — mas era impossível ignorá-lo. Mesmo parado, exalava uma ausência de movimento que fazia tudo ao redor parecer barulhento demais.
o olhou de esguelha, sem virar o rosto completamente. Era isso. A profecia da noite se cumprindo mais cedo do que esperava.
! — Hera exclamou, a voz carregada de uma mistura de surpresa ensaiada e controle absoluto. — Estávamos prestes a chamá-lo para que conhecesse oficialmente a deusa do verão!
Ele não respondeu de imediato. Enfiou as mãos nos bolsos, os olhos cravados em como se o salão inteiro tivesse deixado de existir.
— Nós já nos conhecemos — disse , com uma inclinação sutil de cabeça. — Ainda que informalmente.
olhou para ele, que sustentou o seu olhar como quem aceita um desafio, o ar entre eles parecia condensar em uma batalha de temperaturas.
Infelizmente — respondeu ela, com um brilho ferino nos olhos, ardente como uma brasa em brisa cortante.
Hera sorriu, satisfeita. Zeus não. A troca de olhares entre os três deuses parecia um jogo antigo, reencenado pela milésima vez.
Mas agora, havia uma peça nova no tabuleiro. E ela queimava.
Os cantos da boca de se ergueram num quase-sorriso, sutil, discreto, mas visível. odiou o arrepio involuntário que aquilo provocou.
— E então — disse ele, como quem retorna a uma conversa que nunca lhe interessou muito. — Sobre o que estamos falando?
— Ah, esteve afastada por tanto tempo — respondeu Zeus, com ar casual, mas olhos atentos. — Pensamos em incentivá-la a se misturar.
A deusa do verão revirou os olhos.
— Não há necessidade disso — respondeu ela, com sarcasmo. — Eu conheci Apolo, acreditem em mim, isso é mais do que o suficiente.
— Foi muito da parte dele em se oferecer para te receber — comentou Zeus, com uma nota de provocação no tom. — Não me surpreende que você só tenha olhos para ele.
— O que? — franziu a testa, confusa.
— Eles fariam um casal adorável — acrescentou Hera, com um sorriso calculado que parecia quase provocativo, como se estivesse testando as reações ao seu redor. — São tão parecidos.
— Faria bem para Apolo — acrescentou Zeus. — Ele nunca mais foi o mesmo desde... Daphne.
— Do que vocês dois estão falando? — a voz de cortou o ar, agora mais incisiva.
se inclinou ligeiramente em sua direção, com um tom baixo o bastante para parecer confidência:
— Hera é a deusa do casamento — murmurou ele. — É o lance dela.
sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que gostaria.
— Não me diga — respondeu ela, seca.
— É importante fazer alianças nos dias de hoje — Zeus deu de ombros, o gesto estranhamente mortal.
— Nunca se sabe o que pode acontecer — completou Hera, piscando como quem compartilha um segredo malicioso.
— Pelos deuses, vocês são realmente perfeitos um para o outro — massageou as têmporas.
— Você acha? — respondeu, arqueando uma sobrancelha.
— Não precisa nos bajular, — disse Zeus, com um meio sorriso. — Todos sabemos que você só quer chamar a atenção da garota.
— Isso não foi um elogio — retrucou , sem sequer olhar para ele.
abafou uma risada.
— Não se preocupe — disse Hera, com um brilho divertido nos olhos. — Ainda dá tempo de você conquistá-la.
— Vamos parar por aí — retrucou , com firmeza. — Ninguém vai conquistar ninguém.
— Alguém gosta de se fazer de difícil — provocou Hera, em tom leve demais para ser inocente.
— Eu acho que não — respondeu , com indiferença cortante.
— De qualquer forma — continuou Hera, imperturbável — Apolo continua sendo uma boa opção. A paleta de cores de vocês dois ficaria linda no casamento.
Ninguém vai se casar — disse , ríspido, o tom mais tenso do que pretendia.
O tom ríspido de ecoou mais do que deveria, e percebeu. Ele desviou o olhar logo em seguida, como quem tenta se proteger da própria intensidade. Por um instante, ela viu algo mais ali — não raiva, mas uma espécie de incômodo calado, fundo. Aquilo a fez hesitar. Depois, endireitou-se e falou, com a intenção de fazer o que fazia de melhor:
— Quero dizer — interrompeu , firme. — Apolo é, sem dúvida, encantador. Mas nem todo par precisa ser formado pelo que é óbvio.
Hera ergueu uma sobrancelha, o sorriso ainda nos lábios, como se saboreasse o jogo que ela mesma havia iniciado.
— Às vezes, o óbvio é justamente o que funciona — disse a rainha olimpiana, com doçura envenenada. — Harmonia é essencial.
Por algum motivo, teve a impressão de que o maxilar de se contraíra ao ouvir aquelas palavras. Mas talvez fosse apenas imaginação. Talvez ela estivesse muito, muito errada.
A deusa do verão se empertigou.
— Não estou procurando por um relacionamento — ela disse, firme, sem hesitação. — Mas agradeço a preocupação.
O sorriso de Hera se manteve, mas o olhar tornou-se cirúrgico, vasculhando cada traço dos rostos à sua frente. Ao ponto Zeus cruzou os braços, encarando-os com o desdém de quem observa um inseto prestes a ser esmagado.
quase podia sentir a cordialidade forçada se dissipando entre eles.
— Naturalmente, criança — disse Zeus, sua voz carregada de uma pontada de condescendência. — Não queremos pressioná-la, só o destino sabe o que poderia acontecer, não é?
— Engraçado vocês falarem em destino — replicou , com um sorriso afiado. — Quando o meu está mais alinhado com a guerra do que com a arte.
Zeus enrijeceu visivelmente.
— Não seja tola — cortou Hera, o tom mais ríspido. — Afrodite jamais aprovaria isso.
— Tem razão — disse , saboreando o escândalo. — Jamais a incomodaria. Mas... Posso ter uma ótima amizade com Éris, nesse caso.
A feição de Zeus escureceu. Havia fúria ali, contida como um trovão prestes a romper o céu. Hera também pareceu incomodada com as palavras da deusa, mas manteve o queixo erguido e o sorriso dissimulado.
E parecia se alimentar daquela tensão.
Então pigarreou ao lado dela, a voz inesperadamente suave como seda contra a tensão do momento anterior.
— Você dança, ?
Ela o olhou, surpresa. E divertiu-se com aquilo.
Virou-se para os anfitriões com um sorriso quase diabólico nos lábios.
— Podemos descobrir.
E, sem hesitar, aceitou o braço que lhe oferecia, como quem entra em uma guerra sabendo que também é uma dança. Sem mais uma palavra, os dois se afastaram, engolidos pela multidão que preenchia o salão.
— Você definitivamente está tentando nos matar — murmurou , a voz baixa e sem emoção junto ao ouvido dela.
— Se morrer for o preço pra sair daqui, estou mais que disposta a pagar — sussurrou de volta, com um sorriso travesso nos lábios.
deixou escapar um leve sorriso, contido, mas real.
— Eu agradeceria muito se você não me levasse com você — respondeu ele.
— Eu não sei — rebateu ela, com uma inclinação divertida na sobrancelha. — Você parece definitivamente inclinado a me seguir.
Ele parou no centro do salão com um movimento contido, fazendo-a girar de leve para encará-lo. Sob a luz do lustre, os cabelos brancos de tinham um brilho gélido, quase espectral.
Ele parecia uma maldita estátua de gelo, terrível e avassaladora.
— Considerando que cada uma das suas decisões impulsivas reflete diretamente em mim, acho que estou preso nesse enredo — disse ele, sem ressentimento, apenas uma constatação.
— Nesse caso — disse , com uma piscadela. — Peça ao seu pai para preparar um lugar agradável para quando chegar a nossa hora.
Eles se encararam por um instante, suspensos num ponto entre o sarcasmo e algo ancestral que ainda não entendiam. Algo que os fez hesitar.
havia aceitado dançar apenas para se livrar dos deuses que a cercavam como predadores — mas agora, frente a frente com o deus do inverno, não tinha certeza se havia se lançado em algo mais perigoso ainda.
foi o primeiro a ceder, estendendo a mão enluvada como quem oferece não só uma dança, mas um risco calculado.
— Você não vai me congelar, vai? — perguntou , rompendo a tensão com a voz baixa e provocativa, como uma brasa lançada ao vento.
Ele arqueou uma sobrancelha, aparentemente surpreso com o comentário dela. Um sorriso lento e malicioso, surgiu em seus lábios enquanto sua outra mão deslizava até a cintura
dela, puxando-a para mais perto com naturalidade.
— Só se você me queimar primeiro — murmurou ele, a voz rouca e carregada de uma confiança gélida que parecia reverberar em cada centímetro do espaço entre eles.
O toque, ainda que discreto, foi o suficiente para arrepiar todo o corpo da deusa. soltou uma risada curta — mais nervosa do que gostaria de admitir —, tentando sufocar a tensão crescente que subia como fumaça.
— Me parece justo — respondeu ela, dando um passo adiante, diminuindo o espaço entre seus corpos até que estivessem praticamente entrelaçados.
Eles começaram a se mover.
Seus passos fluíam com uma espécie de conexão inesperada, como se o corpo de um respondesse instintivamente ao do outro. A música os envolvia, mas era algo além dela que guiava aquela dança: uma energia tênue, quase imperceptível, que os mantinha em constante equilíbrio — um fio esticado entre opostos.
— Não deixe eles entrarem na sua cabeça — disse , a voz baixa, próxima ao ouvido dela, carregada de um aviso que soava mais íntimo do que ela gostaria.
virou o rosto levemente, o sorriso firme nos lábios— mas seus olhos não demonstravam diversão alguma.
— Não é a minha intenção — ela respondeu, com uma calma que ocultava a erupção de sentimentos que espreitavam sob sua pele.
manteve o olhar fixo nela, seus olhos penetrantes, como se tentasse ler cada nuance de sua expressão.
— Eles nunca vão parar de tentar controlar você — continuou ele.
A deusa do verão fez o possível para não se deixar afetar. Moveu-se com leveza, ajustando a postura como se dançar com o inimigo fosse parte do plano desde o início.
— É por isso que você está aqui, não é? — retrucou , sua voz suave, mas a provocação nítida.
sorriu novamente — aquele sorriso enigmático, frio e controlado, que deixava com mais perguntas do que respostas.
Claro.
Enquanto dançava com , sentia como se estivesse pisando numa linha tênue entre batalha e rendição. Cada toque era preciso demais, cada olhar longo demais — e, embora quisesse manter o controle, algo nela já começava a ceder, como se o frio dele fosse a única resposta às chamas que sempre a consumiram.
— Quando você chegou? — perguntou em um sussurro.
Ele estava... Puxando assunto?
A deusa do verão tentou não pensar muito sobre isso.
— Apolo me buscou ontem — respondeu , sem olhar diretamente para ele.
— Ele te tratou bem? — a voz dele era baixa, contida.
— Você está soando como Hera — retrucou ela, arqueando uma sobrancelha.
fez uma careta discreta, como se o comentário tivesse acertado um nervo exposto.
— O que você quer, ? — a deusa perguntou, firme.
Ele a encarou, e, por um instante, teve a sensação desconfortável de que ele via mais do que deveria. Ela não gostou nada disso.
— Eu não sei — disse ele, quase num sussurro, sem desviar o olhar.
— Isso não é uma resposta — rebateu ela.
O deus do inverno desviou o olhar, limpando a garganta antes de dizer:
— Você é minha responsabilidade agora — disse ele, mas cada palavra daquela sentença parecia estranhamente ensaiada.
— Eu não deveria ser — devolveu , a voz levemente amarga. — Por que você está fazendo essas coisas?
Ele não respondeu. O silêncio entre eles voltou a se instalar, preenchido apenas pelo som distante da música. Ainda assim, seus corpos seguiam no ritmo da dança, como se o conflito interno que os cercava transcendesse aos passos.
observou em silêncio — o jeito como sua expressão oscilava entre dureza e dúvida, o peso do que ele carregava nos ombros, a beleza fria que parecia sempre à beira de se quebrar. Ela mal conseguia piscar.
Então, ele se aproximou ainda mais, seus movimentos lentos e calculados, como se cada gesto tivesse um propósito. se inclinou ligeiramente, permitindo que seus lábios gelados roçassem a orelha dela, deixando uma nuvem de fumaça gélida no ar.
— Estão todos de olho em nós — sussurrou o deus, a voz baixa, mas cheia de um significado não dito.
não vacilou, sua expressão permaneceu firme, sua confiança inabalável.
— E por que isso seria problema meu? — perguntou ela, desafiando-o com os olhos.
O deus do inverno se endireitou, mantendo a intensidade do olhar. Sua resposta foi calma, mas carregada de uma seriedade que não podia ser ignorada.
— Porque eles estão esperando um motivo pra se voltar contra nós — disse ele, a frieza em sua voz agora mais evidente, como se estivesse deixando claro o peso daquela constatação.
— Nós? — repetiu ela, estreitando os olhos enquanto analisava cada traço da expressão de .
Ele manteve o olhar firme, sem hesitar, como se a resposta fosse óbvia.
O ar entre eles se condensou em uma nuvem silenciosa. A dança parecia ter parado, e o que restava era apenas o jogo de palavras e olhares entre dois que, por mais que se enfrentassem, também estavam se compreendendo de uma forma mais profunda do que imaginavam.
— O que eles têm contra você? — murmurou ela, os olhos semicerrados, como se tentasse desvendar os segredos que ele escondia.
sorriu de lado, aquele sorriso gelado e enigmático que parecia ser sua marca registrada.
— Parece que estão tentando mexer com o meu destino — disse ele, com um tom quase casual, mas carregado de ironia.
riu, o som leve, mas vibrante, reverberando no ar como uma onda quebrando suave na areia. Aquilo era no mínimo irônico.
— Você acredita que tem alguma coisa a ver com a minha profecia? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha, a provocação evidente.
inclinou-se levemente, seus olhos fixos nos dela, o sorriso crescendo em seus lábios.
— Eu adoraria ter — respondeu ele, a voz baixa e carregada de uma malícia contida que roçava o limiar da intimidade.
parou abruptamente, seus olhos faiscando com uma determinação que não tinha expressado antes. Ela soltou um suspiro curto, mais de cansaço do que de irritação, antes de dizer:
— Eu não quero fazer parte disso.
Sua voz era firme, mas por trás dela havia uma exaustão mais profunda — como se o fardo não fosse novo, apenas estivesse ficando mais pesado. E de fato estava.
ergueu uma sobrancelha, aparentemente surpreso com a franqueza dela. Ele tentou suavizar a tensão, o sorriso brincando novamente em seus lábios.
— Disso o quê? — perguntou ele, fingindo não entender. — Da dança? Da conversa? Ou do caos que parece nos seguir onde quer que vamos?
— De tudo isso, — respondeu ela, sacudindo a cabeça. — Das profecias, das intrigas, das manipulações... De você me puxando para dentro de algo que eu nunca pedi.
Enquanto falava, seus olhos brilharam — não de raiva, mas de frustração. Como se as palavras estivessem queimando para sair antes que a consumissem.
Ele ficou em silêncio por um momento, como se as palavras dela o atravessassem.
— Eu não também não escolhi isso — respondeu ele, sua voz mais baixa, mas carregada de intensidade.
— Eu sei que não — ela admitiu, cruzando os braços em um gesto defensivo. — Mas você parece se divertir com isso. Como se o caos fosse o único lugar onde você soubesse existir.
estreitou os olhos, o sorriso desaparecendo enquanto ele a encarava.
— Talvez seja — a resposta do deus foi direta, quase resignada. — Mas isso não significa que eu queira te arrastar junto. Não sou o único que está preso nisso, . E se você acha que pode simplesmente ignorar o que está acontecendo ao seu redor, você está muito enganada.
A deusa do verão deu um passo para trás, como se quisesse criar distância. Sua expressão suavizou, mas a firmeza permaneceu.
— Eu não tenho a intenção de deixar que eles me transformem naquela profecia, — disse ela com um suspiro baixo. — O mesmo vale pra você.
Ela girou nos calcanhares para partir, o gesto decidido. Mas antes que pudesse dar mais de dois passos, sentiu a mão dele segurar seu pulso. O toque era firme, sem força, apenas o bastante para fazê-la parar.
— Nem mesmo se isso significar a sua liberdade? — murmurou ele, as palavras carregadas de uma sinceridade nua e crua que a deusa não esperava reconhecer.
o olhou por cima do ombro, sentindo o peso daquele olhar fixo nela. Por um instante, uma centelha de dúvida cruzou sua mente — um lampejo do que poderia ser, se ela permitisse. Mas a determinação falou mais alto. Com um suspiro contido, virou-se de vez, deixando para trás o que não queria enfrentar.


Capítulo 6

, querido? — a voz suave de Perséfone atravessou a porta fechada como um sussurro carregado pela primavera.
— Sim? — respondeu ele, apático, com os olhos presos no teto abobadado do quarto.
Estava pensando demais de novo.
Pensando nela.
De novo.
Era só a segunda vez que a via.
E ainda assim, ali estava ela, crescendo como um incêndio lento sob o gelo que ele tanto cultivou dentro de si.
fechou os olhos por um instante, tentando afastar a imagem de de sua mente. Mas não adiantava o quanto se esforçasse para isso, nunca parecia ser o suficiente.
— Posso entrar?
Outro suspiro, longo e fundo, escapou de seu peito. Ele não respondeu.
Mas também não precisava.
O clique da maçaneta veio logo em seguida, acompanhado do rangido suave da porta abrindo-se — como sempre. Perséfone não esperava permissão, só oferecia a ilusão de escolha.
— Por que pergunta se vai entrar de qualquer jeito, Perséfone? — perguntou , erguendo-se lentamente nos cotovelos, lançando-lhe um olhar entorpecido pelo tédio e pelo peso dos próprios pensamentos.
— Não custa nada me chamar de mãe de vez em quando — ela arqueou uma sobrancelha e entrou no quarto como se fosse dela, o que, de certa forma, era. Ela era a rainha do Mundo Inferior afinal de contas.
— Eu chamo — disse ele, com a sombra de um sorriso. — De vez em quando.
— Não o suficiente — retrucou ela, cruzando os braços como quem já esperava a resposta.
— Nada nunca é suficiente pra você — murmurou ele, deitando-se novamente, os olhos voltando ao teto como se pudesse desaparecer em plena vista.
Um silêncio breve se instalou, e quando ela falou de novo, havia uma nota diferente em sua voz — algo quase gentil, quase humano.
— Ao menos você sabe disso.
não respondeu. Não precisava.
— Você tem visitas — acrescentou Perséfone, casual, como se fosse um detalhe qualquer. Mas não era.
Por um instante, algo aquecido e incômodo brotou em seu peito.
Ele nunca recebia visitas.
Será que…
Mas a voz de Perséfone, sempre tão pontual, desmanchou sua ilusão antes que ela se formasse completamente.
— Eu disse a ele que você estava cansado, mas você sabe como ele é. Sempre tão apressado...
O baque foi mais forte do que ele esperava.
Ele?
suspirou com pesar e virou-se de costas, como quem se protege do frio que vem de dentro.
— Já não esgotei minha cota de interações sociais do século inteiro essa semana? — resmungou ele, enfiando o rosto parcialmente no travesseiro.
— Eu diria que nunca é demais! — disse uma voz ao fundo, leve, veloz e absurdamente entusiasmada.
gemeu baixo.
— Hermes, eu te disse pra esperar! — disse Perséfone, já massageando a ponte do nariz com os dedos como quem revivia uma dor de cabeça antiga.
— E eu obedeci... Por dois minutos inteiros! — respondeu o deus mensageiro, agora encostado no batente da porta, com aquele sorriso cintilante que parecia se recusar a reconhecer a existência do mau humor alheio. — Achei que o nosso Jack Frost estava precisando de um pouco de incentivo.
— Estou precisando de silêncio — murmurou , cobrindo os olhos com o braço, como se a simples visão do mensageiro do Olimpo o deixasse mais exausto.
— Silêncio é superestimado — Hermes respondeu, se jogando em uma poltrona como quem pousa sobre nuvens. — E mortalmente entediante.
virou o rosto só o suficiente para encará-lo de esguelha, o olhar como lâmina de gelo.
— Quantas vezes eu preciso te dizer para não me incomodar fora do horário comercial?
— Olá pra você também, — respondeu Hermes, cruzando uma perna sobre a outra como se estivesse em casa.
— Saia do meu quarto — a resposta veio seca, direta, sem espaço para negociação.
— Achei que fôssemos amigos.
— Eu também achei que você tinha noção de limites.
Hermes ergueu as sobrancelhas.
— Então... Posso considerar isso um bom te ver?
apenas o fuzilou com os olhos. Depois suspirou, derrotado pelo cansaço mais do que por qualquer outra coisa.
— Espero que seja uma emergência — ele hesitou, o olhar ficando mais afiado. — Tem algo a ver com ?
Hermes riu, daquele jeito característico dele: leve, musical, provocador.
— Sim e não.
— Hermes — disse , com o tom de quem já estava arrependido de perguntar.
— Ela tá fazendo hora extra na sua cabeça, não é? — retrucou o mensageiro, com um sorriso que sabia demais.
— Por que outro motivo você me acordaria no meio da noite?
— Pra ver essa sua carinha de sono, é claro.
passou a mão pelo rosto, exausto.
Hermes suspirou, esfregando a ponte do nariz. — O que é tão importante que você não poderia resolver depois?
— Apolo — respondeu Hermes, como se fosse óbvio. — Ele achou que seria uma boa ideia discutir a guarda compartilhada.
— Apolo está aqui?
— Lá embaixo — confirmou Perséfone, já sentada no braço de uma cadeira, observando a cena com a calma de quem viu coisa pior.
se sentou lentamente, o maxilar começando a se contrair.
— Quem está com ?
— Íris — disse Hermes com um sorrisinho hesitante, como quem jogava a informação e recuava logo depois.
fechou os olhos por um segundo longo. Não que tivesse problemas pessoais com a deusa do arco-íris. Mas a proximidade dela com Hera sempre o deixara desconfiado. E agora, sabendo que Íris nada fizera para impedir o exílio da deusa do verão...
A apatia virou gelo.
Um som firme de passos ecoou no corredor, seguido por uma voz feminina, firme e cortante como uma lâmina:
— Quantas pessoas são necessárias pra tirar um príncipe do quarto?
franziu o cenho. Reconhecia aquela voz.
— O que ela tá fazendo aqui? — perguntou ele, lançando um olhar acusador para Perséfone.
A rainha do Submundo apenas deu de ombros com uma expressão serena demais para ser inocente.
— Eu não questionaria Hécate, se eu fosse você.
— Seja um bom menino e escute sua mãe! — veio a voz de Hécate do corredor, carregada de ironia e diversão.
levantou com passos pesados e foi até a porta. Colocou a cabeça para fora, o cenho franzido e a boca contida entre os dentes.
— Eu não tenho medo de você, bruxa velha — rosnou ele.
Hécate estava no fim do corredor com um sorriso que exalava superioridade. Como um maldito gato prestes a derrubar algo que não deveria.
— Não me provoque, principezinho — disse ela, os olhos brilhando com malícia. — Posso muito bem colocar as Danaides na sua lista de tarefas amanhã.
— Todas as quarenta e nove? — perguntou Hermes, com um risinho nervoso.
— Hermes, cala a boca — rosnou .
— Cada. Uma. Delas. — repetiu Hécate, estendendo um dedo para enumerar cada maldita palavra.
a encarou por um longo segundo.
— Você não faria isso.
— Testa a sorte.
Ele bufou com força, desviando o olhar como quem aceitava a derrota só pra evitar uma guerra. Era melhor escolher as suas batalhas com cuidado e ele sabia bem disso.
— Odeio todos vocês — murmurou ele, passando pela porta com passos pesados.
— Nós também te amamos — respondeu Hermes, pulando da poltrona para segui-lo com alegria infantil.
Perséfone soltou um suspiro resignado ao fazer o mesmo caminho, acompanhada por uma Hécate com um sorriso satisfeito no rosto.
A travessia pelos corredores do palácio foi longa e silenciosa, quebrada apenas pelo som ritmado das sandálias contra o mármore. Os vitrais refletiam luzes suaves pelas paredes, pintando os deuses com tons de azul e ouro, como se a própria noite estivesse os observando.
Apolo os esperava na sala de estar, recostado em um divã como quem acabara de sair de uma pintura renascentista. O brilho dourado em sua pele era quase tão forte quanto a lareira acesa atrás dele.
— Viram só? — disse o deus do sol, abrindo os braços num gesto de falsa modéstia. — Não foi tão difícil, afinal.
— Ele só escuta quando Hécate aparece — resmungou Hermes, com um olhar enviesado para .
— Não é como se eu tivesse muita escolha — respondeu , seco, ajeitando a gola da túnica como se ela o sufocasse. Mesmo que ele soubesse que a situação em que estava era muito mais provável de ser responsável por aquele sentimento.
— Você sempre tem escolha — replicou Hécate, casual. — Mas, francamente, eu não me importaria em transformá-lo em papoula outra vez.
— Não posso discordar — disse Perséfone, divertida, dando um sorriso de canto.
suspirou, passando a mão pelos cabelos desgrenhados.
— Será que podemos ir direto ao ponto?
— Por que você tem que ser tão estraga-prazeres? — retrucou Hermes, afundando-se em uma almofada como um gato insatisfeito.
— Você que decidiu me perturbar no meio da noite — disse , cruzando os braços.
— O garoto está certo — interveio Hécate, dando uma batidinha impaciente com o cajado no chão. — Vamos acabar logo com isso antes que eu acabe enfeitiçando um de vocês por tédio.
estreitou os olhos e apontou com o queixo para a bruxa.
— Ainda não entendi o que ela tá fazendo aqui.
— Essa é a pergunta de um milhão de dracmas — respondeu Hécate com um sorrisinho venenoso.
Apolo pigarreou alto, tentando recuperar a atenção. Seu tom era mais sério agora, tenso.
— Será que podemos levar isso à sério, por favor? — suplicou ele. — Eu prometi que voltaria pra casa o mais rápido possível.
— Sim.
— Por favor.
— O que você acha?
— Tanto faz.
Todos falaram quase ao mesmo tempo, como um coro de divindades exaustas de si mesmas.
Apolo inspirou fundo, os olhos dourados fixos em , agora firmemente de pé diante do grupo.
disse que você a tocou.
A frase caiu como uma avalanche no centro da sala.
O impacto foi imediato.
Um silêncio espesso, quase físico, se instalou como uma neblina gelada.
Perséfone arregalou os olhos, a boca entreaberta, incapaz de emitir sequer um sussurro.
Hécate, pela primeira vez naquela noite, pareceu genuinamente surpresa. As sobrancelhas se ergueram num espasmo de espanto — e não havia nem sombra de ironia em seu semblante.
Hermes parou de balançar o pé e ficou imóvel, os olhos saltando de Apolo para .
Este, no entanto, apenas piscou devagar. O rosto impassível como pedra, mas um músculo em sua mandíbula tremia, denunciando a tensão por trás da máscara.
— Você fez o quê? — Perséfone foi a primeira a perguntar.
— Foi o que ela disse — continuou Apolo, mantendo o tom neutro. — Que ele a tocou.
manteve o olhar fixo em Apolo, frio como um lago congelado. Não disse nada.
— Não vai se defender? — insistiu o deus do sol, dando um passo à frente.
— Não há nada a dizer — respondeu , por fim, a voz baixa, mas cortante.
— Por que você faria isso? — Perséfone perguntou, tensa, a expressão oscilando entre preocupação e reprovação. — Você sabe o quão difícil foi argumentar com Zeus para que não exilasse você também...
— Não precisamos falar sobre isso — respondeu , desviando o olhar. — Ela continua estupidamente calorosa, se quer saber.
— Você não estava usando as luvas? — a deusa da primavera encarou o filho alarmada.
— Não seja ingênua, Perséfone — Hécate interrompeu com um suspiro, os braços cruzados. — Ele nunca está com as luvas.
Perséfone pareceu tentar manter a calma, mas a preocupação deformava sua expressão como uma roseira sem vida.
— Ela tem um ponto — murmurou Hermes, cauteloso.
está bem — interveio , como quem quer encerrar o assunto. — Não é como se eu tivesse congelado ela ou algo do tipo.
Mas ninguém respondeu.
O silêncio que se seguiu não foi o de alívio. Foi o tipo de silêncio que grita.
Todos os olhares se voltaram lentamente para Apolo e Hermes, que tiveram mais contato com a deusa até o momento.
— Ela está? — perguntou Hécate, com aquela calma de quem já sabe a resposta, mas prefere ouvir mesmo assim.
Apolo hesitou. O brilho confiante habitual em seus olhos pareceu desbotar por um instante. Seus ombros, antes orgulhosamente erguidos, curvaram-se como se tivessem sido esmagados por algo invisível.
sentiu o estômago afundar. A impassibilidade em seu rosto começou a rachar.
— Apolo — sua voz saiu baixa, mas carregada de urgência. — está bem?
Apolo não conseguiu sustentar o olhar.
— Eu não sei — respondeu ele, mas aquelas palavras não eram as que o deus do inverno queria ouvir.
Num instante, avançou.
A fúria se manifestou com a rapidez de uma tempestade. Ele agarrou Apolo pela gola da túnica dourada e o ergueu do chão com uma força que parecia contrariar até as leis divinas. O frio brotou de seus dedos como se tivesse vida própria, serpenteando pelo tecido e pelo ar, até que se condensou entre os dois como neblina de inverno.
— Como assim você não sabe? — rosnou , e sua voz reverberou com a fúria crua dos ventos gélidos. — Ela está sob sua responsabilidade!
! — exclamou Perséfone, dando um passo à frente, repentinamente alerta.
— Ela não estava sob minha responsabilidade quando você tocou nela — rebateu Apolo entre dentes, o olhar faiscando em resposta.
— Podemos não fazer isso agora? — Hécate se intrometeu, já esfregando a ponte do nariz, como se a cena inteira fosse apenas mais uma dor de cabeça recorrente.
soltou Apolo com um empurrão seco. O deus do sol cambaleou, mas conseguiu manter-se em pé. O frio, no entanto, permaneceu por mais alguns segundos, grudado nas paredes como se recusasse a partir.
passou as mãos pelo rosto, tentando acalmar a respiração. Pela primeira vez, parecia perdido.
— Logo quando a coisa estava ficando boa — protestou Hermes, divertido, apoiado na quina da lareira.
— Querido — chamou Perséfone, com mais doçura agora. — Você pode nos contar exatamente o que aconteceu?
deixou o corpo cair no sofá com um suspiro pesado. Levou as mãos à cabeça, escondendo o rosto por alguns segundos, antes de responder.
— Foi no dia do Conselho — murmurou ele. — Eu segurei o braço dela, só por um instante, pra impedi-la de sair do Olimpo. Ela ficou irritada, claro. Foi embora furiosa pouco tempo depois.
— Não me parece ter sido uma ideia muito boa — comentou Hermes. É claro que ele teria uma opinião, ele sempre tinha, mesmo que não ajudasse em porcaria nenhuma.
— Eu não pensei nisso — respondeu , mesmo que as palavras fossem como areia na sua boca.
— Você deveria pensar nisso o tempo todo — censurou Apolo, a decepção clara em sua voz. — Eu achei que você fosse mais esperto que isso, já fazem décadas, pelo amor dos deuses.
O deus do inverno não podia discordar dele. Não quando Apolo estava tão certo e ele tão errado. Então, apenas abaixou a cabeça, derrotado.
— E o seu toque não congelou a pele dela? — indagou Hécate, estreitando os olhos.
— Não que eu tenha visto.
— Você tem certeza? — pressionou Perséfone, ainda que com delicadeza.
— Eu não tenho certeza — completou ele, mais para si mesmo do que para os outros. — Eu não senti nada.
— Você pode não ter congelado nada — disse Apolo, cruzando os braços — Mas deixou uma marca bem no cotovelo dela.
A frase pareceu cristalizar o ambiente. Até o ar parou.
— Uma marca? — repetiu a deusa da bruxaria, imediatamente atenta.
— O que você disse? — sussurrou , erguendo o olhar, agora mais sombrio do que antes.
— Como era a marca? — perguntou Hécate, com uma urgência súbita.
— Como a droga de uma cicatriz — respondeu Apolo, tenso. — Clara. Profunda. Mas... Estranhamente fria ao toque.
— Eu… Eu machuquei ela? — a pergunta de saiu rouca. Quase inaudível.
— Eu não sei — respondeu Apolo, balançando a cabeça. — Ela não disse. Só... Evitou o assunto.
— Como assim você não sabe? — o tom de ficou ríspido outra vez. Era como se… Ele não conseguisse evitar. — Você tentou curá-la, não tentou?
— É claro que eu tentei — disse Apolo, sua frustração clara tanto no tom de voz quanto na postura inquieta. — Mas não havia nada para curar.
— Como assim não havia nada para curar? — agora era Hécate quem avançava um passo, os olhos faiscando.
— Exatamente isso. Minha magia não reconheceu a marca. Como se ela não existisse... E ao mesmo tempo estivesse ali, queimando sob a pele.
As palavras pairaram no ar como cinzas após um incêndio.
— Isso é uma coisa boa, não é? — tentou Perséfone, em um tom de esperança frágil.
Hécate, no entanto, não respondeu de imediato. Ficou ali, analisando Apolo como quem estuda um enigma antigo, as mãos cruzadas e os olhos semicerrados.
— Eu não tenho certeza — disse a deusa da bruxaria, enfim, com um tom grave, mais honesto do que tranquilizador.
Apolo soltou uma risada seca, sem graça, sem luz.
— Ótimo — murmurou ele, resignado. — Eu esperava que, de todos nós, você tivesse uma resposta depois da explicação de .
Hécate arqueou uma sobrancelha, impassível.
— Desculpe por te decepcionar, bonitão — respondeu ela, com um tom ácido e levemente sádico.
passou a mão no queixo, pensativo. Seus olhos estavam fixos em algum ponto indefinido do chão.
— Eu a toquei por um segundo — murmurou, mais para a própria consciência.
— Você sabe o que dizem por aí — comentou Hermes, sem se dar conta da gravidade no ar. — Corpo delas, regras delas. Nada de toques.
Hermes — advertiu Perséfone, o olhar severo.
— Você não está ajudando — acrescentou Hécate, impaciente.
Hermes ergueu as mãos em rendição.
— Certo, certo... Silêncio dramático.
Apolo, por sua vez, virou-se para Hécate com uma súplica mal disfarçada na voz:
— Você pode?
Ela arqueou uma sobrancelha, confusa.
— O quê?
— Ajudar — explicou ele.
Hécate franziu o cenho, pensativa. Depois soltou um suspiro e estalou os dedos com um gesto fluido.
No mesmo instante, uma pedra de obsidiana apareceu em sua mão — polida, negra como a noite, e estranhamente opaca. Assim que ela a segurou, fez uma careta, como se tivesse acabado de pegar em algo asqueroso.
— Pode segurar isso, por favor? — perguntou ela, estendendo a pedra em direção a .
Ele recuou um pouco, os lábios contraídos.
— Eu odeio essa merda — resmungou o deus do inverno, sem disfarçar a repulsa.
— Todos nós odiamos — respondeu Hécate, com um suspiro indiferente. — Você não é especial.
Bufando, pegou a obsidiana.
No instante em que seus dedos tocaram a pedra, o efeito foi imediato: o frio que sempre envolvia seu corpo se dissipou. O poder dele se esvaiu como fumaça levada pelo vento, deixando-o estranho, vulnerável, quase... Mortal. A respiração se tornou mais rasa. O corpo, mais pesado. Era como estar despido diante dos outros deuses.
— Pronto — disse ele, com os dentes cerrados.
— Bom menino — provocou Hecáte com um sorrisinho debochado.
Ela estendeu a mão e tocou o centro do peito de com a ponta dos dedos. No momento do contato, uma onda de magia se espalhou como calor súbito. O cheiro da energia dela — denso, terroso, com um leve toque de enxofre e flor noturna — envolveu , invadindo suas narinas. Ele franziu o nariz.
— Sua magia fede — reclamou ele, esforçando-se para não se afastar do toque.
— Calado — disse Hécate, sem sequer olhar para ele.
Hermes riu alto.
Apesar do desconforto, se manteve firme. Sentiu a magia da deusa percorrer cada centímetro de seu corpo, como se ela o estivesse dissecando por dentro, procurando por algo escondido, esquecido. O processo durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade.
Então, acabou. A mão da deusa da bruxaria se afastou e a pedra de obsidiana desapareceu com um estalo seco. O frio retornou com tudo, como um manto jogado bruscamente sobre seus ombros. arfou discretamente, aliviado e exausto ao mesmo tempo.
— Que engraçado... — disse Hécate, quase em tom de distração.
— O que é engraçado? — Hermes perguntou, curioso como sempre.
Apolo, já conhecendo o padrão de comportamento do amigo, bateu levemente na parte de trás da cabeça dele.
— O que? — reclamou Hermes, massageando o couro cabeludo. — Eu quero rir também.
— Tem algo quente nele — declarou Hécate, ainda encarando como se ele fosse uma experimento prestes a dar errado.
— Algo quente? — não conseguiu esconder o desgosto em suas palavras.
— Sim — continuou Hécate, ignorando-o como se ele ao menos estivesse ali. — Uma semente de calor. Pequenina, mas... Viva. E bem presa. Não é natural. Não dele.
O silêncio que se instalou foi ensurdecedor. Isso estava mais frequente do que o normal, e por algum motivo que não entendia, não era tão reconfortante quanto já foi um dia.
— O que isso significa? — murmurou Apolo.
— Que ele fez mais do que tocar o braço dela — respondeu Hécate, agora com seriedade absoluta. — E deixou algo nele também.
ergueu o olhar.
— Isso é possível?
— Entre dois deuses? — Hécate ponderou. — Quase tudo é.
Perséfone inclinou-se um pouco, os dedos entrelaçados com força.
— Isso é uma coisa boa? — insistiu ela, a esperança vacilando.
— Talvez sim. Talvez não — disse Hécate, dando de ombros, como quem segura a verdade nas entrelinhas.
O silêncio retornou, mas agora com uma tensão vibrante, como uma corda prestes a arrebentar.
— O que nós fazemos sobre isso? — Perséfone perguntou, sua voz gentil quase em contraste com o que acabara de ser dito.
— Por enquanto — Hécate cruzou os braços. — Nada.
Nada? — Apolo franziu o cenho. — Você está dizendo que vamos simplesmente... Esperar?
— Eu estou dizendo que até entender o que isso é, qualquer interferência pode piorar tudo — respondeu Hécate. — E, com aquela profecia pairando entre nós, não podemos nos dar ao luxo de fazer nenhuma besteira.
passou a mão pelo rosto, exausto. Havia algo diferente nele — um desconforto que não vinha só da confusão, mas da culpa.
— Isso era tudo o que eu precisava — murmurou ele, irônico.
— Nesse meio tempo — disse Hécate, com firmeza. — Nada de tocar em . Nada de gelo, nada de calor, nada de aproximação. Entendido?
a encarou, cansado.
— Eu não estava planejando fazer isso.
— Ótimo — respondeu ela.
Hermes bufou, tentando conter um sorriso.
— Se nem a vovó sabe o que fazer, então acho que podemos declarar oficialmente: estamos ferrados.
— Hermes — advertiu Perséfone.
— Tô tentando amenizar, ok?
Hécate lançou um olhar curto e afiado como uma adaga.
— Tente menos.
Apolo se ajeitou, prestes a partir.
— Acho que já ouvi o suficiente por uma madrugada — disse ele. — Preciso descansar antes do meu turno amanhã.
— Eu também — disse Hermes, se espreguiçando. — Antes que me transformem em cinzas por excesso de charme.
— Graças aos deuses — murmurou , sem sequer disfarçar.
— Não seja rude — censurou Perséfone, com um sorrisinho quase maternal.
Apolo se virou para ao sair.
— Não se esqueça de aparecer lá em casa antes do amanhecer. Os deuses ajudam quem cedo madruga — disse ele, com aquele ar luminoso que só ele conseguia manter mesmo depois de uma conversa tensa.
acenou com a cabeça.
— Não se preocupe — respondeu ele.
Mas seus olhos ainda estavam perdidos em algum ponto entre o agora e a lembrança do toque. Da sensação dela.
Quando Apolo já se afastava, Hécate cruzou os braços de novo e lançou um último aviso:
— Ah, e mais uma coisa — disse a deusa, com a voz fria como aço. — Nada de me acordar no meio da madrugada outra vez.
Ela não disse mais nada. Apenas ergueu uma sobrancelha, deixando a ameaça suspensa no ar.


Capítulo 7

podia até ser verão, mas ela definitivamente odiava acordar cedo.
Na noite anterior, deixou o baile com um gosto amargo na boca, sentindo o peso de cada olhar torto, de cada palavra dita não dita em sua direção. O evento não passou uma mistura sufocante de sorrisos forçados e intenções veladas, como um jogo cuidadosamente montado onde todos pareciam disputar algo, mesmo que ninguém admitisse isso em voz alta.
Se pudesse, teria deixado o baile antes mesmo de ele começar.
Mas então havia ele.
A interação com o deus do inverno foi uma mistura confusa de provocação e algo mais, sobre a qual ela não conseguia parar de pensar. Apesar disso, ela via a sequência de eventos se repetindo de novo e de novo na sua cabeça. foi… Diferente do que ela esperava.
A forma como ele a encarava, como falava com ela, como sempre parecia encontrá-la… realmente não queria pensar sobre isso. Então ela fugiu, como uma forma de preservar o pouco controle que ainda acreditava ter sobre a sua própria vida.
Foi assim que, antes do amanhecer do dia seguinte, Apolo apareceu na porta do quarto, oferecendo-lhe uma carona até uma das fábricas de Hefesto nas terras mortais. A deusa, embora grata pela gentileza, permaneceu em silêncio, sem palavras de agradecimento, ou até mesmo comentários espirituosos, enquanto se arrumava com movimentos lentos, claramente relutantes em abandonar o conforto do sono. definitivamente não era uma pessoa matutina.
Mal conseguiu ficar surpresa quando Apolo abriu a porta para sair da casa e uma brisa gélida os atingiu imediatamente, como se o próprio inverno tivesse decidido fazer sua entrada.
É claro que eles estava ali, com aquele estúpido sorriso irônico no canto dos lábios, que aparentemente era a sua marca registrada.
— Bom dia — disse , sua voz profunda e carregada com um tom sombrio que parecia sugerir que ele tinha muito mais em mente do que um simples cumprimento.
Já era de se esperar que Apolo não ajudaria em nada, dando apenas um leve tapinha no ombro do deus do inverno, enquanto passava como se mal sentisse a frieza que ele emanava.
— Não é dia ainda, querido — disse Apolo, a voz repleta de uma leve ironia, enquanto ele andava graciosamente em direção à carruagem girando as chaves entre os dedos. O dia só começava quando ele quisesse.
, que estava logo atrás, observou a cena com um olhar desconfortável.
A brisa gélida fazia com que ela se encolhesse, e seu humor não melhorava nem um pouco com a presença de . Ela bufou audivelmente, com um gesto impaciente, como se a simples ideia de lidar com o outro deus logo pela manhã fosse um desafio adicional que ela não queria enfrentar.
— Parece que alguém não gosta de acordar com o sol — deu uma risadinha.
o ignorou, seguindo Apolo até a carruagem e batendo a porta com força ao sentar-se no banco do carona. O deus do sol, já dentro da carruagem, olhou para ela com um sorriso travesso, sem se importar com o pequeno gesto brusco dela.
Não demorou muito até que se juntasse a eles no banco de trás, ocupando o espaço com a sua presença silenciosa.
— Bem-vindo ao expresso solar, — disse Apolo, sua voz cheia de leveza e humor.
Com um movimento descontraído, Apolo se inclinou sobre , que estava em silêncio, e abriu o porta-luvas à sua frente. Em um instante, ele retirou um par de óculos de sol escuros. Ele estendeu os óculos para , com um sorriso brincalhão de orelha a orelha.
Como alguém podia estar tão bem humorado a uma hora dessas?
— Você vai precisar disso — disse o deus do sol, oferecendo ao outro uma piscadela divertida.
precisou se controlar para não bufar de novo.
olhou os óculos por um momento, um leve sorriso surgindo em seus lábios. Embora o gelo de sua presença permanecesse inabalável, ele reconheceu o gesto, colocando os óculos sobre o rosto com um movimento suave.
— Me avise se ficar quente demais — disse Apolo erguendo as sobrancelhas em um gesto sugestivo, antes de girar a chave na ignição. O ronco suave do motor ecoou pela carruagem, como uma promessa de um voo turbulento.
No instante seguinte, a carruagem disparou para o céu, suas rodas tocando a terra firme por um segundo antes de se elevar completamente, desafiando a gravidade e iluminando o horizonte com sua presença dourada. A luz do Sol parecia explodir ao redor deles, pintando as nuvens com tons de ouro e fogo, enquanto o veículo ganhava altura, deixando o Olimpo para trás.
— Como exatamente isso funciona? — perguntou , inclinando-se ligeiramente para frente para observar, como se tentasse entender o que estava por trás daquele artefato. — Eu mal consigo sentir os rastros da magia...
Apolo, que estava concentrado no volante, deu uma risada divertida, aproveitando a oportunidade para brincar com a situação.
— Ah, claro — disse ele, sem tirar os olhos do caminho à frente. — Não é apenas magia. Tem um toque de ciência divina também, você sabe.
olhou para trás discretamente a tempo de ver franzir a testa, seus olhos cristalinos brilhando sob os óculos escuros enquanto ele analisava o painel da carruagem.
— Então, não é só poder solar que mantém isso no ar? — insistiu , inclinando-se entre os bancos da frente para poder ver mais de perto. A deusa se mexeu um pouco desconfortável em seu banco com a súbita aproximação.
Apolo, se virou ligeiramente para encarar o deus do inverno, sem se deixar abalar pela invasão de espaço.
— Isso é o que vocês vão aprender com Hefesto hoje — respondeu ele com uma risada leve. Como se estivesse se divertindo com aquele castigo divino que imputaram sobre eles.
levantou uma sobrancelha, visivelmente incomodada com toda aquela conversa naquele horário da manhã.
— Será que nós não podemos aproveitar o silêncio? — murmurou, sua voz carregada de impaciência, enquanto seus olhos dourados se fixaram no horizonte, desejando que a viagem fosse mais rápida. Que o dia inteiro fosse mais rápido.
Apolo, soltou uma risada suave, sem se importar com o humor dela. Ela estava prestes a protestar, quando se recostou no banco, seu olhar ainda curioso, mas agora com um leve sorriso, como se a irritação da deusa o divertisse. Ao menos pode finalmente respirar tranquilamente.
Quando a carruagem pareceu finalmente desacelerar, fez o possível para fingir que não tinha cochilado no caminho, se despedindo de Apolo com um sorriso amarelo antes de encarar os grandes portões de ferro com o deus do inverno ao seu encalço.
A deusa não se permitiu pensar duas vezes e entrou na fábrica sem pedir licença, seus passos decididos ressoando no chão de pedra.
Eles vagaram em silêncio por um corredor extenso até que uma sombra forte que se destacava contra o brilho crescente de uma forja apareceu diante deles. Um homem estava de costas, com a túnica suja de fuligem e o cabelo desordenado, sua silhueta larga marcada por músculos pesados e desiguais, como se o próprio corpo tivesse sido moldado a marteladas. Sua pele tinha o tom áspero do bronze gasto, com cicatrizes que o fogo e o trabalho incessante haviam gravado nele ao longo dos séculos. Quando se virou, apoiando levemente uma perna mais frágil que a outra, seus olhos, por trás da máscara de indiferença, carregavam um interesse enigmático — uma intensidade que lembrava brasas incandescentes ocultas sob a cinza.
— Você está adiantada — disse o homem, sua voz rouca, mas firme, como o metal que ele trabalhava.
Aquele deveria ser Hefesto.
— Acredite em mim — respondeu , o tom firme, mas com uma leve ironia que escondia a inquietação que sentia. — Eu estaria atrasada se pudesse.
O deus do fogo gargalhou, o som ecoando pelas paredes da fábrica como aço sendo batido.
arqueou levemente as sobrancelhas, surpresa. Não esperava encontrar beleza nele — não do tipo que os deuses do Olimpo ostentavam com arrogância em seus traços perfeitos. Mas havia algo em Hefesto, na rudeza de sua forma, na firmeza de suas mãos marcadas pelo trabalho e no olhar que queimava como carvão vivo, que a prendia.
Era um encanto bruto, quase selvagem, diferente, mas inegavelmente atraente.
— Uma pena que, daqui pra frente, será você quem terá que trazer o amanhecer — disse Hefesto, com um sorriso divertido, como se estivesse saboreando a ironia da situação.
fez uma careta sofrida, mas a reação não passou despercebida. , atrás dela, soltou uma risadinha baixa e divertida, chamando a atenção do deus do fogo para si.
— Não sabia que hoje era dia de trazer o namorado para o trabalho — ele comentou, os olhos brilhando com um humor característico.
virou-se rapidamente, a expressão fechada.
— Ele não é meu namorado — ela respondeu com firmeza, embora não conseguisse esconder uma leve irritação em sua voz.
, sem perder a oportunidade de brincar, sorriu com um olhar de leve zombaria.
— Eu sou a babá — disse ele, o tom de sua voz, uma mistura entre sarcasmo e diversão.
O ambiente ao redor parecia de repente mais leve, mas , visivelmente desconfortável com a provocação, não pôde evitar revirar os olhos.
— Venham — disse Hefesto, fazendo um gesto amplo com a mão, convidando-os a se aproximar. — Vou apresentar o lugar.
Hefesto guiou e pela imensa fábrica, onde o calor das fornalhas e o som do metal sendo forjado reverberava como um coração em batida constante. As chamas dançavam em colunas incandescentes, projetando reflexos dourados que pareciam dar vida às paredes de ferro.
— Não fiquem para trás — disse Hefesto, a voz ecoando grave. — Aqui dentro é bem maior do que parece.
estreitou os olhos, parecendo analisar o espaço que já parecia infinito.
— O quão maior estamos falando?
O deus do fogo deu um meio sorriso que quase desapareceu sob a barba desgrenhada e ergueu os ombros como quem guarda um segredo.
— Digamos que a Volkswagen decidiu fazer uma visita e uns bons meses depois apareceu com aquela planta escandalosa em Wolfsburg.
piscou, confusa, enquanto uma gota de suor descia pela têmpora.
— Eu vou fingir que eu sei o que isso quer dizer — murmurou ela em descontentamento.
soltou uma risada breve, aproveitando-se da deixa para esclarecer:
— Ele quis dizer que essa fábrica é do tamanho de cerca de duzentos Coliseus.
Hefesto parou por um instante, virou-se com um olhar divertido e corrigiu com seriedade desconcertante:
— Eu diria duzentos e cinquenta.
O ar pareceu ainda mais pesado para , que soltou um suspiro teatral, abanando a blusa como se pudesse aliviar o calor.
— Maravilha… E eu que achei que estava preparada. Devia ter vindo com meus tênis de corrida — resmungou ela.
A risada de Hefesto explodiu então, profunda e metálica, ecoando pelas paredes como o som de uma máquina de soldagem. A intensidade do som fez as chamas próximas vibrarem, como se celebrassem junto dele.
— Digamos que a Revolução Industrial me deu algumas vantagens — comentou ele, com orgulho.
arqueou as sobrancelhas, incapaz de não sorrir, e rebateu:
— Espero que o aquecimento global faça o mesmo por mim.
riu novamente, discreto, e outra onda de frescor passou por ela, o som contrastando com a rudeza imponente do ambiente, como uma provocação silenciosa que parecia desafiar as mais altas temperaturas daquele lugar esquecido pelos deuses.
não soube dizer por quanto tempo caminharam entre andaimes e maquinários pesados, ficou rapidamente distraída com as chamas que se erguiam das fornalhas, como se fossem seres vivos, dançando com uma energia selvagem, mas controlada. O calor, embora intenso, parecia não afetar Hefesto, como se ele fosse imune ao poder do fogo que dominava o lugar. Ela sentiu o peso do ambiente, a força invisível que emanava das chamas e do metal em fusão, como se o seu sangue cantasse em resposta.
— Aqui, o fogo é o princípio de tudo — disse Hefesto em certo momento, percebendo o olhar atento da deusa. — O metal, a terra, até mesmo a essência de cada um que passa por aqui. Tudo é transformado. Até você.
olhou para ele, um sorriso irônico curvando seus lábios. Ela nunca acreditou que poderia controlar o fogo, mas aquele lugar parecia sugerir que havia muito mais envolvido do que sua mera falta de habilidade.
— E você acha que eu preciso de transformação? — perguntou ela, sem se preocupar em esconder o tom de deboche.
Hefesto parou diante de uma fornalha maior, o fogo dentro dela rugindo como uma fera faminta. Ele a olhou com um semblante sério, seus olhos profundos e penetrantes.
— Todos precisam, pequena deusa. O fogo não perdoa, mas também não mente. Ele revela quem você é de verdade, o que você pode ser... Ou o que pode ser destruído se não souber como lidar com ele.
Talvez ela devesse ter ficado com a boca calada.
A pressão daquelas palavras, o peso de um significado maior por trás de sua fala. sabia que ele estava certo, de algum modo. Havia uma mudança em seu interior, algo que o fogo de Hefesto estava despertando, e, embora ela resistisse, sentia uma fagulha lutar para surgir dentro de si.
Ela olhou para Hefesto com um olhar mais atento, agora mais consciente da profundidade do lugar em que estava. Não era apenas uma fábrica, era um campo de batalha para a alma, um espaço onde o fogo não só moldava o metal, mas também o destino de quem se atrevesse a enfrentá-lo.
E naquele momento ela não conseguiu evitar a falta que sentiu da praia e do seu clube patético.
— E o que acontece com aqueles que não podem ser forjados? — perguntou de repente.
Hefesto olhou para ele, seu olhar firme e penetrante. imaginou que ele também não gostava do frio que acompanhava o deus.
— Aqueles que não podem ser forjados... São consumidos pelo fogo. E a nossa querida precisa decidir se será consumida ou transformada.
A deusa franziu a testa, seu olhar se fixando nas chamas que se erguiam ao redor. A ideia de se tornar parte do fogo não fazia sentido nenhum. Ela achou que Hefesto fosse ser mais normal, considerando o tempo que tinha passado nas terras mortais, mas talvez ela estivesse enganada.
mudou o peso de uma perna para a outra, incerta se deveria continuar aquela conversa. Aquele cara era definitivamente estranho.
— E quanto à carruagem? — perguntou ela, mudando de assunto repentinamente, sua voz assumindo uma tonalidade mais pragmática.
Hefesto a olhou com um leve sorriso, como se já soubesse o que ela estava tentando fazer, mas não se incomodou.
— A carruagem do Sol de Helios — começou Hefesto, sua voz agora mais séria, com um tom de reverência pela criação que ele estava prestes a explicar. — Não é uma carruagem comum. Ela carrega o próprio poder do Sol, o fogo primordial que ilumina e consome tudo o que toca. O mesmo fogo que Prometeu ofereceu aos mortais.
— Então é por isso que ele está sempre reclamando no Tártaro? — ergueu uma sobrancelha, o tom de desdém soando quase natural.
Um breve sopro de fumaça escapou de uma das chaminés próximas, como se risse daquele comentário. Hefesto apenas deu de ombros.
— Deve ser um dos motivos.
— Nós nos daríamos bem — comentou , arqueando as sobrancelhas em desafio, como se provocasse os dois ao mesmo tempo. — Eu adoro reclamar.
a olhou de soslaio, um sorriso frio em canto de boca.
— Eu duvido muito.
Hefesto, ignorando a troca de farpas, se aproximou de um conjunto de fornos imensos, ajustando a temperatura com movimentos seguros, como quem já havia feito aquilo um milhão de vezes. O crepitar das chamas mudou de tom, obedecendo ao deus ferreiro.
— Como vocês devem saber, Helios não apenas viaja com a carruagem, mas também a utiliza para guiar a luz do dia, traçando seu caminho pelos céus, de leste a oeste — continuou ele, seus olhos se estreitando ao refletir brasas vivas. — Mas o artefato é mais do que um simples veículo. Ela é uma extensão de sua essência, moldada pela necessidade de sustentar o equilíbrio entre o céu e a terra.
bufou, jogando o cabelo para trás com impaciência.
— Podemos pular a parte da reflexão existencial?
O riso de Hefesto ecoou pela fábrica, arrastado, grave, áspero como o som de uma lâmina sendo afiada contra a pedra.
— A carruagem de Helios não é como qualquer outro veículo, . Ela é uma construção única, feita para resistir ao calor extremo do Sol e ao mesmo tempo usá-lo como fonte de energia — explicou Hefesto, sua voz carregada de entusiasmo técnico. — O sistema de propulsão, por exemplo, não depende de rodas tradicionais nem de um simples puxador. Ela é movida por um mecanismo baseado no controle da energia solar. O calor do Sol é absorvido diretamente por canais que correm por toda a estrutura da carruagem. Esses canais são feitos de um material especial que consegue armazenar e amplificar a radiação solar sem se deteriorar.
Ele fez uma pausa, para garantir que e estavam acompanhando, antes de continuar.
— Você deveria anotar isso — sussurrou.
A deusa apenas bufou e cruzou os braços.
— Os propulsores transferem a energia para as extremidades da carruagem, onde ela é direcionada para motores internos. Esses motores não são motores comuns, como você conhece, são geradores de energia solar pura, projetados para transformar a radiação em força de forma contínua e eficiente. Isso permite que a carruagem percorra grandes distâncias com uma velocidade impossível para qualquer meio de transporte terrestre.
franziu a testa, incapaz de compreender as implicações de tudo aquilo. Ele poderia estar falando grego, mas nenhuma daquelas informações fazia sentido nenhum.
— E os cavalos? — perguntou, curioso. — Como eles se encaixam nesse sistema?
Hefesto ergueu o olhar, um sorriso quase imperceptível surgindo em seus lábios, como se já soubesse que essa pergunta viria. , por sua vez, revirou os olhos em silêncio. A última coisa que ela precisava era mais um dos seus mentores entrando para o fã-clube insuportável do deus do inverno.
— Os cavalos são essenciais para a carruagem — respondeu Hefesto, caminhando até uma bancada onde brasas ardiam em tons alaranjados. Seus dedos tocaram as bordas de uma peça metálica ainda incandescente, como se aquele calor absurdo fosse nada para ele. — Mas não da forma que imagina. Eles não puxam a carruagem fisicamente. Funcionam como amplificadores de energia.
A voz dele parecia engrossar à medida que explicava, o som se misturando ao estalo das chamas.
— Cada cavalo tem um núcleo no centro de seu corpo, um cristal especial que converte o calor e a luz em energia. Eles absorvem a radiação solar que é canalizada para eles e convertem essa energia em força que mantém a carruagem em movimento. São criaturas de fogo e luz, com uma afinidade natural por essa forma de energia. E, ao serem integrados ao sistema, ajudam a controlar o equilíbrio entre a absorção e a liberação dessa energia.
escutou atentamente, lutando para entender como um simples passeio de charrete poderia ser tão complexo. A cada frase, estava mais convencida de que Hefesto estava apenas improvisando o maior freestyle da sua vida imortal para se divertir à custa dela. Só podia ser isso.
A deusa do verão conhecia um mentiroso compulsivo quando via um. Ela mesma já tinha feito aquilo milhares e milhares de vezes.
— Eles são apenas cavalos — resmungou, estreitando os olhos.
Hefesto deu um sorriso enviesado.
— Cavalos mágicos.
— Você não pode simplesmente colocar a palavra mágico depois de qualquer coisa e esperar que eu aceite essas explicações de meia tigela — rebateu a deusa, cruzando os braços.
— Também não parece muito convencida por mecânica básica — retrucou ele, com naturalidade. — Então acho que vai ter que se contentar com a magia.
bufou, frustrada.
, que até então estava em silêncio, deixou escapar uma risadinha baixa, o ar ao seu redor refrescando por um instante como uma brisa discreta.
— Isso significa que, para controlar a carruagem, precisaria entender não apenas o fogo, mas também a maneira como ele interage com a luz do Sol e os cavalos? — perguntou ele, já parecendo juntar as peças do quebra-cabeça em sua mente.
Hefesto inclinou a cabeça em aprovação, satisfeito com a conclusão. Um sorriso satisfeito iluminou seu rosto, como o de um professor vendo o aluno favorito acertar a resposta.
— Exatamente.
A deusa do verão, por sua vez, apenas suspirou. É claro que o cientista maluco iria cair no conto do CDF. não entendia porque ainda se dava ao trabalho.
— Isso vai ser… Interessante — disse , com um sorriso contido. Mas já estava começando a reconhecer aquele olhar, e tinha certeza de que, por dentro, ele também estava se divertindo às custas dela.
— E como, exatamente, todos vocês esperam que eu faça isso? — retrucou a deusa, a voz mais alta do que pretendia, a paciência escorrendo por entre os dedos como areia quente.
Hefesto seguiu em frente, abrindo caminho por um corredor estreito que se alargava numa sala diferente do resto da fábrica. Era uma espécie de biblioteca improvisada: prateleiras abarrotadas de livros antigos se misturavam a pilhas de pergaminhos e mesas cobertas de ferramentas.
O deus caminhou até um grande quadro fixado à parede, onde dezenas de desenhos técnicos estavam pregados. precisou se aproximar para distinguir as linhas, e só então reconheceu — com algum esforço — a silhueta da carruagem de Helios diante dos seus olhos.
— Você precisará ser capaz de manipular a energia solar de maneira controlada — explicou Hefesto, passando o dedo pelo traço firme de um dos diagramas. — Distribuir a carga entre os cavalos e os motores da carruagem. A verdadeira habilidade não está em fazer a carruagem andar, mas em manter o equilíbrio entre o calor, a luz e o movimento.
arregalou os olhos, descrente, e deixou escapar um suspiro carregado de sarcasmo.
— Eu vou explodir o planeta.
Hefesto nem piscou.
— Nosso trabalho aqui é fazer o possível pra evitar isso.
— Eu não acho que todo o trabalho do mundo seja capaz disso — rebateu ela, os braços cruzados, quase em desafio. — Vocês sabem… A profecia e tudo mais.
Mas, no instante em que esperava ouvir aquele risinho contido ao seu lado — a típica reação sarcástica de —, o silêncio a surpreendeu. Nada. Nenhuma provocação, nenhum comentário atravessado. Intrigada, ela desviou os olhos de Hefesto apenas o suficiente para espiar de canto.
Foi então que percebeu. Uma sombra atravessou o olhar de , como se uma lembrança incômoda tivesse sido puxada das profundezas. Seu corpo inteiro pareceu enrijecer, os ombros tensos e a mandíbula travada. Não havia rastro de humor; apenas uma dureza fria que contrastava violentamente com a piada autodepreciativa dela.
— Não tem como saber — disse ele, com a voz distante.
— Bem… — levantou as mãos em um gesto teatral. — São vocês que estão querendo colocar uma bomba atômica nas minhas mãos.
Hefesto a encarou por um instante, seus olhos faiscando como carvões prestes a reacender. Depois, deu um passo à frente, firme.
— Você vai conseguir, garota.
Ela arqueou uma sobrancelha, sarcástica.
— Você não me conhece, vovô.
O deus do fogo gargalhou, um riso áspero que já estava começando a dar nos nervos da deusa do verão.
— Vamos pagar pra ver, então — disse ele, seus dedos bateram de leve contra a mesa, chamando a atenção dela para a pilha de livros e diagramas espalhados pelo cômodo. — Por que não passam o resto do dia aqui? Passei alguns dias estudando o que deveria te ensinar e deixei a bibliografia espalhada pela sala.
soltou um sorriso amarelo, mais resignação do que aceitação. O calor da sala parecia ainda mais sufocante, e ela sabia que não havia saída fácil daquela situação. Hefesto apenas lançou um último olhar, satisfeito, e saiu, seus passos pesados ecoando como marteladas que se afastavam.
A deusa puxou o celular do bolso, o frio metálico da tela contrastando com o calor sufocante da sala, enquanto se sentava à mesa. Os dedos deslizaram rapidamente, quase por instinto, enquanto seu olhar percorria linhas de texto.
— O que você está fazendo? — perguntou , arqueando uma sobrancelha, os olhos acompanhando cada movimento dela.
— Estudando — respondeu , com a voz firme, tentando soar confiante mesmo enquanto o calor da forja parecia grudar em sua pele.
inclinou-se para frente, curioso, mas com aquele ar de quem não acreditava muito no que ouvia.
— Os livros estão do outro lado da sala.
— Não, obrigada — retrucou ela, sem se incomodar em esconder o sarcasmo.
Ele aproximou o rosto, os olhos estreitando ao perceber a tela.
— Isso é o ChatGPT? — perguntou, quase incrédulo. — Atena ficaria louca se visse você usando essa porcaria.
ergueu o queixo, o olhar desafiador:
— Ela não está aqui, está?
— E você acha que vai encontrar as propriedades mecânicas do fogo de Prometeu aí? — riu , o som ecoando levemente entre as estantes e mesas.
— Não é da sua conta — respondeu ela, firme, sentindo um arrepio de desafio percorrer sua espinha.
Ele recostou-se na mesa, cruzando os braços, o sorriso divertido surgindo lentamente.
— Você foi à escola? — perguntou o deus, com aquele tom de quem faz perguntas absurdas só pra provocar. — Nas terras mortais.
— Claro, eu e as outras mulheres burras fomos obrigadas durante a Segunda Guerra Mundial — retrucou , o sarcasmo escorrendo em cada sílaba.
não conseguiu conter a risada baixa, quase se escondendo atrás da mão.
— Minhas colegas de classe me achavam engraçada também — completou , quase sorrindo de canto de boca, lembrando das velhas memórias humanas.
— E como foi na escola? — insistiu ele, inclinando-se um pouco mais, olhos brilhando de curiosidade.
— Eu era boa em educação física — disse ela, com um sorriso torto, lembrando-se das corridas e treinos que não eram tão ruins assim.
— Faz sentido — comentou , sentando-se ao lado dela, o corpo relaxando, mas a presença ainda pesada, quase intimidante. — Você está fazendo isso errado.
girou os olhos, um leve arrepio de impaciência subindo por sua espinha.
— E por acaso você sabe como fazer isso, senhor carrasco do Tártaro?
— Minha mãe me fez ter aulas particulares com Atena logo que eu comecei a falar — respondeu ele, com naturalidade, como se aquilo fosse óbvio.
Ela arqueou uma sobrancelha, intrigada e divertida ao mesmo tempo.
— Então você é uma espécie de emo nerd ou algo assim?
— Você pode dizer que sim — disse ele, sorrindo para ela com um brilho malicioso nos olhos. — Você está sendo muito passiva. O difícil de estudar é fazer com que o que você aprendeu realmente fique com você.
— Não me diga — resmungou , cruzando os braços.
— Você pode parar de tentar usar esse senso de humor pra se livrar de mim. Não vai funcionar.
— Eu posso tentar com mais afinco — rebateu ela, com um leve sorriso desafiador.
— Eu vou adorar — disse , piscando para ela, e seu olhar parecia pesar mais do que a luz da forja ao redor.
grunhiu, cruzando ainda mais os braços, tentando manter a compostura.
— Você mal entendeu o que Hefesto estava falando lá atrás — continuou , inclinado para frente, apoiando os braços nos joelhos. — Pra isso dar certo, você precisa dar um passo pra trás e começar com o básico.
— Eu sei o básico — rebateu a deusa entredentes.
— Então como a carruagem faz para alcançar o céu? — provocou .
— Você pode falar com o Hefesto de novo se tiver ficado com alguma dúvida — retrucou ela, com a voz carregada de ironia.
— Eu estou falando sério, — respondeu , a voz firme. — Quer se livrar de mim? Então aprenda essa porcaria.
Ela bufou, mas não desviou o olhar nem mudou de assunto. Sabia que ele não iria ceder.
se levantou, caminhou até a estante e puxou um livro grosso, o peso metálico do volume ecoando levemente pela sala. Pegou também um bloco de notas e uma caneta sobre a mesa antes de voltar e colocar tudo em frente à ela.
Princípios de Termodinâmica para Engenharia? — leu a capa, arqueando uma sobrancelha. — De onde você tirou isso?
sorriu, o olhar leve mas confiante.
— Diferente de você, eu realmente estava prestando atenção no que Hefesto estava falando.
A deusa não se deu o trabalho de rebater, apenas abriu o livro e encontrou uma dedicatória rabiscada na primeira página:
Obrigado pelas dicas, com carinho, Deedee, Maggie, Mike e, claro, Howie — ela fechou o livro devagar, desconfiada. — Ele foi orientador da tese deles ou algo assim?
— Você sempre pode perguntar à Atena — respondeu , dando de ombros, como se tudo aquilo fosse trivial.
bufou alto, o calor da sala apertando ainda mais sua paciência.
— Olha, , eu sei que as coisas não começaram bem entre nós — disse , a voz grave e controlada. — Mas nós não somos seus inimigos aqui.
Ela girou o rosto em sua direção, o olhar faiscando.
— Todos vocês são meus inimigos. Vocês me exilaram.
não se moveu, mas um meio sorriso se formou em seus lábios.
Eu não — o deus disse. A pausa foi calculada, carregada de intenção. — A menos que você queira.
Um arrepio percorreu todo o corpo de quase que instantaneamente.
— Para com isso — ela retrucou, cerrando os dentes.
— Com o que? — perguntou ele, inclinando levemente a cabeça, como se fosse inocente.
— De falar coisas com duplo sentido.
arqueou uma sobrancelha, divertido.
— Você diz coisas com duplo sentido o tempo todo.
rolou os olhos e inclinou a cabeça para trás, fixando o teto, como se lá estivesse a saída para escapar daquela conversa. O coração batia um pouco mais rápido, mas ela não permitiria que ele percebesse isso. Não mesmo.
— O que eu devo fazer? — ela perguntou de repente, indicando o livro em suas mãos, numa tentativa desesperada de desviar o foco.
se aproximou, espiando por cima do ombro dela.
— Você pode começar tomando notas. Tentar transformar essa linguagem difícil em algo que soe familiar pra você.
— É fácil pra você dizer — ela resmungou. A voz dela carregava impaciência, mas também uma ponta de desânimo.
Ele não hesitou.
— Você tem razão.
A resposta simples fez piscar, surpresa. Ela não esperava ouvir ceder em qualquer coisa, ainda mais tão rápido. Aquela conversa estava ficando definitivamente fora do controle.
— O que mais? — a deusa perguntou, forçando-se a ignorar a sensação estranha de ter sido validada por ele.
— Explicar pra alguém o que você aprendeu é uma boa opção — sugeriu , como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Ela o fitou de lado, desconfiada.
— Por que eu tenho a impressão de que você está criando um motivo pra conversar comigo?
soltou uma risada baixa, quase provocadora.
— Você não precisa explicar pra mim — disse ele, seus lábios se curvando num sorriso enviesado. — Mas eu adoraria ver você se atrapalhando com isso, não vou mentir.
Um grunhido escapou da garganta de , e ela fechou o livro com força, como se quisesse esmagar a provocação junto com as páginas.
— Divirta-se — disse ele, andando até o sofá mais ao canto e recostando a cabeça no encosto, fechando os olhos como se tivesse todo o tempo do mundo.
suspirou, o celular ainda preso entre os dedos, como se a tela pudesse oferecer alguma fuga. Sentia-se esmagada por uma mistura de exaustão, frustração e, paradoxalmente, curiosidade. A responsabilidade pairava sobre ela como uma sombra pesada, mas a presença dele — firme, paciente, os olhos atentos e carregados de uma confiança tranquila — fazia seu coração acelerar de um jeito que a irritava e encantava ao mesmo tempo.
Quando o silêncio se alongou além do suportável, o tédio venceu. largou o celular de lado e alcançou o bloquinho com uma caneta qualquer. No começo, se divertiu rabiscando o livro de Hefesto, cobrindo margens com ondas agitadas, como se o oceano pudesse invadir aquelas páginas secas. Logo, porém, os traços evoluíram: ela começou a deformar os diagramas e anotações, transformando o conteúdo técnico em pequenas caricaturas que, de forma quase inconsciente, organizavam as informações em desenhos.
Foi então que se flagrou torcendo, em segredo, para que fosse exatamente isso que quisesse dizer antes.


Capítulo 8

— Eu dei aquela fagulha a Herácles como pagamento por me libertar — disse Prometeu, a voz arrastada, como quem revive um antigo rancor.
não respondeu de imediato. Em vez disso, ajoelhou-se, cravando os dedos na neve fofa do Tártaro. Ao puxar um punhado, a brancura se condensou sob sua mão, endurecendo até virar uma pedra translúcida de gelo sólido. A luz pálida das colunas ao redor refletiu no cristal como se aprisionasse um brilho morto.
— E Zeus a recuperou quando o filho foi derrotado — concluiu o deus do inverno, deixando a afirmação pender no ar, pesada como o frio que impregnava o lugar.
Prometeu ergueu o queixo, a sombra de um sorriso amargo marcando seus lábios.
— Então ele a entregou a Hélios, como forma de agradecimento por revelar os planos de Hera para destroná-lo.
ergueu os olhos, deixando que seu olhar percorresse o espaço ao redor. As colunas de gelo se erguiam como pilares de uma prisão sem fim, cintilando num azul fantasmagórico.
— Qual das vezes? — perguntou ele, deixando o olhar vagar pelo abismo, como se esperasse que Hera surgisse ali mesmo, entre correntes e sombras.
Por um instante, imaginou a deusa aprisionada ali. Hera odiaria aquele lugar: o frio opressor, a rigidez das colunas dispostas em linhas perfeitas, a claridade esbranquiçada das colinas que não valorizaria o dourado da sua pele nem a altivez do seu porte. O Tártaro parecia feito sob medida para apagar vaidades.
O deus do inverno se perguntou se algum dia as traições da rainha do Olimpo a levariam até esse fim. Ele esperava que sim.
— Isso importa? — devolveu Prometeu com desdém.
estreitou os olhos e lançou a pedra de gelo com um gesto brusco. O impacto ressoou como um trovão abafado, e o chão tremeu sob o choque. Uma nuvem de neve se ergueu em redemoinhos, mas, em vez de se dissipar, o branco foi engolido por sombras que se torciam no ar pesado.
Em poucos segundos, as trevas se condensaram, adquirindo contornos definidos: um manto que se movia como fumaça, a sugestão de uma coroa invisível e uma presença esmagadora. A escuridão tomou forma completa, revelando a figura imponente de Hades.
Era só o que faltava... — O que vocês estão fazendo? — a voz do deus dos mortos soou pesada, quase sufocando o ar.
— Nada — disse Prometeu depressa, numa tentativa mal disfarçada de neutralidade.
— Conversando — deu de ombros, o rosto impassível.
— Sobre? — Hades estreitou os olhos, desconfiado.
Prometeu se mexeu, desconfortável, como se o ar tivesse ficado ainda mais denso.
— Na verdade, eu preciso ir. Acho que… Deixei o fogão ligado.
mordeu o canto do lábio para não rir. Era tão típico de qualquer um ali fugir na primeira oportunidade.
— Vai lá.
Num piscar de olhos, Prometeu desapareceu. Seu corpo se desfez em labaredas cintilantes, como se fosse consumido por uma fogueira invisível. As chamas dançaram no ar por um instante, deixando um rastro incandescente e o cheiro acre de cinzas, antes de se apagarem por completo — como se ele jamais tivesse estado ali.
O silêncio voltou a recair, quebrado apenas pelo leve eco distante de correntes arrastadas em algum ponto do Tártaro.
— Eu sei que vocês estavam fofocando — disse Hades, com a gravidade de sempre, mas carregando uma palavra inesperada.
ergueu uma sobrancelha.
— Quem te ensinou essa palavra?
— A mesma pessoa que ensinou a você — Hades respondeu, a seriedade inquebrável.
Um riso baixo escapou do deus do inverno.
— Eu não devia ter deixado você passar tanto tempo com Hermes naqueles primeiros anos — resmungou Hades, claramente ouvindo o som do divertimento do filho.
— Ciúmes do seu único amigo? — provocou , num tom quase insolente.
— Ele não é o meu único amigo.
— Não é como se muitos fizessem fila para vir aqui embaixo — abriu os braços, indicando a vastidão do Tártaro, com suas colinas de neve morta e paredes de gelo eterno.
Hades suspirou, cansado, como se carregasse sobre os ombros um peso que nem a eternidade conseguia aliviar.
— Você não deveria estar trabalhando?
— Os prisioneiros congelaram rápido hoje — o príncipe respondeu com indiferença. — E você?
Hades estreitou os olhos, atento ao tom.
— Você não está forçando demais?
Claro que ele iria ignorar a pergunta.
desviou o olhar, a sombra se infiltrando em sua voz.
— Eu nem estava tentando.
O silêncio se instalou como um peso entre eles, denso demais para ser ignorado. mantinha o olhar firme, mas a rigidez em seus gestos denunciava o incômodo. Do outro lado, Hades parecia igualmente preso naquele espaço estreito, como se a própria sombra ao redor o observasse.
A pausa se alongou, quase insuportável. Hades desviou os olhos por um instante, como se procurasse a palavra certa, e só então rompeu o silêncio — a voz grave, arrastada, carregando tanto desconforto quanto autoridade.
— E o que Hécate pensa disso?
virou-se devagar, a paciência esgotando-se.
— O que você quer, Hades?
O deus dos mortos sustentou o olhar dele, sombrio e implacável.
— Sua mãe e eu pensamos que talvez seja hora de levá-lo até as Moiras.
riu, mas o som saiu seco, áspero, sem traço de humor. Achava irônico, quase insultuoso, que só agora seus pais julgassem isso importante — justo depois do retorno de . Ele se perguntou se sequer teria conhecimento do acordo se não fosse pela chegada dela. Como se, de repente, aquilo só tivesse algum peso porque a deusa do verão voltara a cruzar os domínios deles.
— Você sempre faz o trabalho sujo.
— Alguém tem que fazer — A resposta de Hades foi firme, sem espaço para réplica.
voltou o olhar para o Tártaro: colinas de neve quebradas, sombras rastejando nas paredes, correntes rangendo ao vento gelado.
Sim, alguém tinha que fazer.
Como em concordância, a magia de Hades os envolveu, surgindo como um manto espesso de sombras. O ar vibrou, e em instantes toda a prisão gélida se dissolveu, substituída pela mais completa escuridão.
Quando as sombras recuaram, estavam em Hespérides. O contraste era brutal: o frio pesado do Tártaro deu lugar a um calor suave, impregnado de perfumes adocicados. O céu era tingido de tons dourados e alaranjados, como se o sol se recusasse a se pôr ali. Árvores carregadas de frutos cintilantes se erguiam ao redor, e um tapete de flores de cores vivas se estendia até onde a vista alcançava.
piscou, incomodado pelo excesso de luz, de vida. A seu redor, a perfeição beirava o sufocante.
À distância, dois leões descansavam à sombra de arbustos densos, seus olhos brilhando como tochas na penumbra do jardim.
— O jardim da sua mãe? — perguntou, a voz carregada de desconfiança.
— Elas são vizinhas — respondeu Hades, dando de ombros, como se fosse algo banal.
Eles caminharam juntos.
No início, o jardim parecia intocado, esplêndido, mas quanto mais avançavam, mais as plantas perdiam o viço. As folhas iam se curvando, secando, as flores murchando até não restar nada além de galhos retorcidos e secos. O perfume adocicado desaparecia, substituído por um odor levemente ácido, de coisa em decomposição.
Até alcançarem uma colina com uma passagem disforme. Como um buraco negro que tivesse sugado toda a vida ao redor. Uma gruta.
A entrada parecia engolir a luz ao redor, como se até o sol temesse atravessar aquele umbral. O ar cheirava a terra úmida e a ferro antigo, carregado de maus presságios. Hades caminhava à frente, seu manto arrastando na pedra áspera, e o seguia em silêncio, a sombra da noite fria em seus ombros.
Lá, parada como se já os aguardasse, estava uma silhueta que o deus do inverno não reconheceu. Era uma mulher madura, de beleza sólida e imponente. Os cabelos escuros com fios prateados caíam em ondas pesadas, emoldurando um rosto de traços firmes e elegantes. Mas quando chegaram mais perto, não conseguiu evitar o arrepio que atravessou o seu corpo.
O olhar da mulher era hipnótico: um dos olhos, verde e profundo, parecia atravessar a alma; o outro, vazio, escuro como um poço sem fundo, lembrava a todos que ela não pertencia ao mundo dos vivos. Em suas mãos, três rosas brancas destoavam do manto sombrio que a envolvia, um contraste entre delicadeza e fatalidade.
— Átropos — disse Hades, a voz grave ressoando contra as paredes da gruta.
não conseguiu evitar de segurar a respiração por um instante. Como poderia? Era ela a responsável por cortar os fios da vida.
A Moira ergueu os olhos, um lampejo de ironia cintilando em seu sorriso contido.
— Olá, Hades. Eu vi vocês chegando.
— Eu aposto que sim — respondeu ele, arqueando uma sobrancelha. — Este é…
— interrompeu Átropos sem pestanejar. — Deus do inverno. Carrasco do Tártaro. Filho do Submundo. O coração congelado.
O olhar do deus do inverno endureceu como gelo.
— Apenas — ele corrigiu, seco.
— Escolha interessante — murmurou Átropos, estreitando os olhos como se testasse o peso do nome simplificado.
Hades desviou a atenção para as flores nas mãos dela.
— Há alguma ocasião especial para as rosas?
Átropos sorriu de canto, girando as hastes com uma lentidão quase cruel. Depois estendeu o buquê para , como quem entrega um fardo em vez de um presente. Ele aceitou sem vontade, os dedos rígidos em torno das pétalas que pareciam mais afiadas do que macias.
— Achei que seria de bom tom que as oferecesse às minhas irmãs.
O deus do inverno soltou um resmungo, baixo, quase um trovão abafado.
— Claro que achou.
Hades lançou-lhe um olhar de advertência e, em seguida, voltou-se para Átropos com diplomacia calculada.
— É sempre uma boa ideia manter-se nas boas graças das senhoras do destino. Obrigado, Átropos. É… Muito gentil da sua parte.
Ela inclinou o rosto, o sorriso agora mais aberto, revelando algo deliciosamente diabólico.
— É uma das poucas ocasiões em que eu posso ser.
Por um instante, o silêncio pairou entre eles, denso como névoa. Então, sem mais palavras, Átropos girou sobre os calcanhares e entrou na gruta. Hades e a seguiram, suas figuras engolidas pela escuridão que parecia fechar-se atrás deles como uma boca faminta.
— Eu sinto cheiro de morte… — disse uma voz feminina, grave, ecoando pelo corredor da gruta. — O que você fez dessa vez, Átropos?
— Por que eu sempre tenho que ter feito alguma coisa, irmã? — retrucou Átropos com um suspiro fingidamente ofendido.
— A menos que tenha trazido Hades até aqui, é a única explicação possível — respondeu outra voz, mais suave, mas não menos cortante.
Átropos sorriu, os dedos apertando com delicadeza as rosas brancas que ainda segurava.
— Vocês estão certas. Eu trouxe visitas.
Hades avançou um passo, sua presença preenchendo o espaço como uma sombra viva.
— Fico honrado em saber que ainda lembram do meu cheiro depois de tanto tempo.
Do fundo do corredor surgiram duas mulheres sem olhos, ambas com os mesmos cabelos negros de Átropos. As duas caminharam com a naturalidade de quem não precisava enxergar para conhecer cada pedra daquele buraco.
A mais jovem tinha a pele clara e os fios longos soltos até a cintura, bela como uma estátua, mas com um ar perturbador pela ausência das órbitas.
A outra, mais adulta, usava os cabelos presos em tranças grossas; seus traços maduros e austeros transmitiam imponência, e o vazio em seu rosto só reforçava a sensação de que enxergava além do que qualquer mortal poderia ver.
— Você não deveria estar procurando por Hélios? — perguntou uma delas, a que parecia mais velha, mesmo que esse conceito não fizesse sentido entre eles.
— Seria bem mais fácil se vocês simplesmente me dissessem onde ele está — devolveu Hades, com a ironia de quem sabia a resposta de antemão.
A mais jovem sorriu, mostrando dentes brancos demais.
— E onde estaria a diversão nisso?
Hades abriu os braços, resignado.
— Bem… De qualquer forma, eu tinha um assunto mais importante para tratar com vocês.
— E você não está sozinho, eu suponho — disse a mais jovem, inclinando a cabeça.
— Você é esperta, Clotho — disse Hades com um meio sorriso. — Adoro ver o que consegue fazer sem aquele olho.
Clotho ergueu a mão vazia, como se sentisse falta do objeto.
— Falando nisso… É a minha vez, Átropos.
Com um suspiro teatral, Átropos retirou do manto o olho único, ainda úmido, os nervos pendendo como raízes arrancadas. Um fio viscoso escorreu de suas unhas até pingar no chão, e ela o entregou à irmã com descuido quase cruel.
Clotho recebeu o globo ocular e o pressionou contra a cavidade vazia. Um estalo úmido ecoou quando o nervo se ajustou, e ao piscar, o olho brilhou com um clarão febril. Seus lábios se curvaram num sorriso curioso, satisfeito.
— Pelos deuses… Você deve ser ! — a voz dela agora tinha um tom de encantamento. — Não é de se estranhar que não reconhecemos o seu cheiro. Está tão bonito quanto eu imaginei que seria quando teci o seu fio.
respondeu com um sorriso amarelo, antes de sentir o cotovelo de Hades cutucá-lo.
— Obrigado.
Ele já deveria estar esperando algo parecido vindo da deusa, afinal, ela era a escritora da sua tragédia grega. Mesmo assim, não deixou de ficar desconfortável.
Clotho inclinou a cabeça, avaliando-o.
— Uma pena você não ter herdado o cabelo preto do seu pai. Ficaria ótimo em você.
Antes que o deus do inverno pudesse responder, a mais velha, que deveria ser Láquesis, aquela que determina o curso da vida, ergueu o rosto e franziu o nariz.
— O que é esse outro cheiro?
Clotho riu baixo e cutucou o braço de como quem instiga um convidado tímido. Ele pigarreou e ergueu as flores, sem jeito.
— Eu trouxe flores. Pra vocês.
As três rosas brancas brilharam na penumbra, frágeis em contraste com a cena pesada, como se carregassem mais significado do que uma simples oferenda.
— Como um perfeito filho da primavera… — murmurou Láquesis, o tom oscilando entre aprovação e ironia.
— Perséfone não achou uma boa ideia acompanhar vocês? — perguntou Clotho, voltando o olhar para Hades.
— Ela preferiu não influenciar as plantas de vocês outra vez — respondeu ele, seco.
— Que gentileza a dela — comentou Átropos, com um meio sorriso envenenado.
Láquesis, então, pousou a mão no braço de , como quem puxa discretamente uma peça em um jogo de tabuleiro.
— Então, … Você gosta de chá?
Ele hesitou.
— Eu prefiro café.
Clotho deu uma risadinha, se adiantando em apanhar as rosas das mãos do deus do inverno com cuidado para não tocá-lo. Ele ouviu Láquesis bufar, mas decidiu não pensar muito sobre isso.
— Por que não me acompanha enquanto seu pai ajuda minhas irmãs a se acomodarem na nossa sala de jantar? — sugeriu Clotho, a voz soando leve, mas carregada de uma intenção que não conseguiu decifrar.
O deus do inverno lançou um olhar rápido para Hades, que não lhe ofereceu mais do que um arquejo de sobrancelhas. Com um suspiro, deu de ombros e seguiu a jovem Moira pela escuridão.
A escuridão os envolvia como um véu vivo, e o som de seus passos ecoava nas pedras úmidas. Clotho andava com firmeza, e, ainda assim, não parecia fazer barulho algum; apenas o deus do inverno parecia pesado naquele espaço. sentiu o olhar dela sobre si, medindo-o com seu único olho, como se pesasse cada detalhe, cada fenda da sua presença.
— Apesar de bonito, você parece diferente do que eu esperava — disse ela, a voz leve, quase divertida.
arqueou uma sobrancelha, deixando escapar um meio sorriso irônico.
— Não sou o noivo arranjado que vocês esperavam?
Clotho riu, um riso claro, mas que soava deslocado naquele ambiente. Naquele momento, ambos entraram numa cozinha ampla e austera, iluminada por uma claridade suave que parecia vir das paredes. No centro, uma mesa de madeira maciça aguardava vazia, exceto por um vaso de cristal.
— Eu não diria isso perto das minhas irmãs, se fosse você. Elas não têm tanto senso de humor.
— Não é como se eu me importasse com isso — a resposta de saiu fria, como lâmina de gelo.
A Moira colocou as rosas no vaso. Por um instante, as flores encheram a sala de cor, vivas e frescas. Mas quase de imediato, diante dos olhos deles, as pétalas se curvaram, escurecendo até murcharem por completo. Clotho apenas observou a mudança com naturalidade, como se já esperasse aquilo.
— Ah, claro — a deusa riu novamente, mas desta vez o som tinha algo de afiado. — Você e o seu fio congelado.
parou por um instante, o olhar se estreitando.
— O que você disse?
Ela já estava perto do fogão, onde um bule fumegava. Pegou-o com cuidado, como se ignorasse a tensão no ar.
— Achei que as coisas fossem melhorar pra você depois que uma gota escorreu dele — Clotho falava como se o deus soubesse do que ela estava falando, completamente alheia ao estado de alerta dele ao lado.
O frio se intensificou ao redor, a respiração de condensando no ar. Ah, ele não tinha saco para aquilo.
— Você pode parar de falar em enigmas? — rosnou ele.
Clotho inclinou a cabeça, os cabelos negros caindo sobre o ombro, e sorriu com malícia.
— Na verdade, não. Ossos do destino… — ela pausou, como se saboreando o título. — Como vai ?
suspirou, impaciente.
— Por que todo mundo fica me perguntando sobre ela?
— Desculpe — Clotho ergueu as mãos, ainda segurando o bule, num gesto de falsa inocência. — Eu teci o fio de vocês juntos. Achei que se dessem bem. Especialmente depois que soubemos do retorno dela.
Ele desviou o olhar, desconfortável, os dedos tamborilando na madeira da mesa. Não deveria se incomodar com isso.
— Por que você teceria os nossos fios juntos se eu vou ser obrigado a casar com uma de vocês?
Clotho o observou longamente, e por um instante o buraco vazio do olho faltante pareceu brilhar, apesar do nada. O sorriso dela suavizou, quase afetuoso.
— Nem mesmo eu ou minhas irmãs podemos brincar com as vontades do destino.
— Vocês são as senhoras do destino — respondeu entre dentes, como quem tenta quebrar a lógica pela força.
— Não me chame de senhora — Clotho franziu o nariz, fazendo-se de ofendida. — Eu não sou tão velha.
fez uma careta, carregada de desdém.
— Tudo bem, mas não é educado — Clotho balançou a cabeça, divertida. — A questão é que eu e minhas irmãs somos apenas receptáculos. Nós trabalhamos para o destino, não o contrário.
— Tanto faz — cortou, com um gesto seco da mão.
A Moira apenas sorriu, voltou-se à mesa e começou a despejar café nas xícaras de porcelana. O aroma forte se espalhou pelo ambiente, trazendo um contraste quase irônico com a frieza que impregnava o ar ao redor do deus do inverno.
— Com ou sem açúcar? — perguntou ela, como se nada da conversa anterior tivesse acontecido.
piscou, surpreso com a brusca mudança de tema.
— Com.
— Espero que goste da borra do café — murmurou ela, empurrando a xícara fumegante na direção dele.
— Por quê?
— Porque não é sensato deixá-la para trás em um lugar cheio de videntes — os lábios de Clotho se curvaram em um sorriso fino, quase cruel.
aceitou a xícara. O calor era estranho contra sua pele acostumada ao gelo. Quando olhou para o líquido escuro, viu apenas o reflexo distorcido de si mesmo.
A Moira, sem comentar nada, recolheu o resto das louças com movimentos silenciosos. A naturalidade com que se deslocava no espaço sombrio era perturbadora: seus passos não vacilavam, e cada gesto parecia obedecer a um ritmo que só ela ouvia. O deus a observou em silêncio, seguindo-a pelo corredor estreito até a sala de jantar. O eco dos passos reverberava, como se a gruta amplificasse a presença dos dois.
A sala era ampla, iluminada por uma claridade pálida, como se a própria pedra emitisse luz. Clotho se moveu pelo ambiente com precisão quase ritualística, dispondo xícaras, pratos e talheres como se estivesse compondo um quadro calculado. Havia algo de hipnótico na cena: cada movimento era contido, exato, e teve a impressão desconfortável de que até o tempo aguardava suas ordens.
Quando terminou de arrumar a mesa, a Moira ergueu a mão. Enfiou os dedos na órbita e puxou de uma vez, arrancando o olho com um som áspero de carne sendo rasgada. O globo oscilou em sua mão, preso a fiapos de tecido que se romperam até pingar no chão antes de ser entregue a Láquesis.
A mais velha o ergueu com calma quase devota e o pressionou contra a própria face. Houve um chiado surdo, como se carne e nervo se fundissem à força, até que o olho girou sozinho na órbita, piscando com brilho doentio que devolveu vida ao seu semblante.
— Você realmente é agradável aos olhos — murmurou Láquesis. A voz dela, baixa e enigmática, percorreu o espaço e ecoou no silêncio.
conteve o impulso de desviar o rosto. Era muito estranho ver uma criatura imortal com uma aparência tão velha, ele mal conseguia entender o que estava olhando.
Hades, sentado à mesa, ergueu a xícara à boca. A fumaça quente do café se misturou às sombras que sempre o acompanhavam, formando espirais que pareciam ter vida própria.
— Agora que estamos todos aqui — disse o deus, num tom pesado —, vocês chegaram a alguma decisão?
Láquesis cruzou os braços, imperturbável. O olho verde que agora trazia girava lentamente, observando não só o ambiente, mas também o próprio , como se sondasse seu íntimo.
— Sinto em te dizer, Hades, mas essa discussão ainda é um tópico em aberto.
— Podem nos interar do impasse? — Hades inclinou a cabeça, paciente, mas sua voz tinha a insistência de quem não aceitaria evasivas.
— Átropos está bem interessada em estreitar os laços com a Morte e o Submundo — disse Láquesis, a voz calma e afiada. — Clotho tem uma ideia muito diferente sobre isso. Eu, honestamente, não poderia ligar menos, tenho muitos fios para administrar.
— Entendo — Hades acenou, pensativo.
, sentado em silêncio, entrelaçou os dedos, mantendo-se alerta a cada nuance da conversa. A tensão entre as irmãs era sutil, mas perceptível; cada palavra carregava um significado oculto que ele não podia ignorar.
Malditos oráculos e suas charadas.
— Vocês podem tomar toda a eternidade para isso se precisarem — murmurou ele, quase como um lembrete silencioso.
Láquesis estreitou o único olho para ele, antes de se voltar para Hades com a expressão firme.
— Mas não foi para isso que vieram até aqui.
As sombras da sala ondularam.
— Não — Hades respondeu, curto e grosso.
franziu o cenho, um pressentimento latejando na nuca. Algo estava por vir.
— Meu filho não teve a oportunidade de opinar sobre o acordo naquela ocasião — Hades pousou a xícara, e o som ecoou como uma batida de tambor. — Perséfone e eu achamos que ele deveria, ao menos, saber mais.
O deus do inverno se manteve imóvel. Mas dentro dele o frio rugia. Uma armadura invisível se fechava, mantendo o choque contido.
— O conhecimento pode ser uma faca de dois gumes — murmurou Átropos.
— É justo que ele entenda o próprio destino — rebateu Hades.
— O fio dele é o seu destino — sibilou Láquesis, implacável.
Clotho se inclinou levemente na direção dele, os lábios curvados em um quase-sorriso.
— O que você tem a dizer sobre isso, príncipe?
sustentou o olhar.
— Eu quero vê-lo — disse ele, com firmeza. — O fio.
— Nós podemos providenciar isso — assentiu Clotho, com naturalidade. — Hades, pode nos deixar à sós?
Átropos completou o pedido com um gesto de mão imperioso.
Hades ficou imóvel por um instante, as sombras ao seu redor ondulando como se tivessem vida. Aos poucos, ele começou a se dissolver: sua pele e traços se desfaziam em filamentos de sombra que se retorciam antes de desaparecerem silenciosamente. Por alguns segundos, o eco de sua presença pairou, mas logo restou apenas o frio crescente que o deus do inverno emanava e os sussurros de um silêncio sombrio.
sentiu a ficha cair de repente. Era agora. A hora de encarar o seu destino.
Láquesis estalou os dedos. O ar se rasgou à frente deles, e uma tapeçaria branca surgiu do nada, flutuando como uma membrana viva. Seus fios entrelaçavam-se em padrões impossíveis, ondulando suavemente como se respirassem. Pequenas faíscas de luz percorriam cada trama, refletindo em microbrilhos que pareciam mapear algo profundo dentro dele, algo que reverberava no próprio peito do deus.
— O que eu deveria estar vendo? — perguntou, a voz baixa, tensa.
— Nada — respondeu Átropos, calma e firme. — Os fios não foram feitos para serem enxergados por qualquer par de olhos.
— Eu sou um deus — retrucou ele, a impaciência subindo.
— Como qualquer outro — Láquesis deu de ombros.
— Por assim dizer — Clotho acrescentou, inclinando-se levemente.
franziu o cenho.
— Isso não faz sentido algum.
— O destino não precisa fazer sentido — explicou Láquesis, como quem dita uma verdade imutável.
— É para isso que servem os Oráculos, afinal de contas — Clotho murmurou.
— Vocês são Oráculos! — a voz do deus do inverno subiu algumas oitavas.. — Recitem minha profecia!
— Não há nada para recitar — Láquesis respondeu, impassível.
— Como não? — engoliu em seco.
— Chegue mais perto — Átropos ordenou.
Ele avançou, os olhos fixos na tapeçaria. Cada fio parecia feito de gelo cristalizado, rígido e cintilante, refletindo a luz mortiça da sala em microfaíscas. O frio se espalhou, preenchendo os cantos do cômodo, e sentiu uma pressão quase física que atravessava os ossos, como se a tapeçaria estivesse viva, pulsando em sintonia com algo dentro dele.
— Está congelado — murmurou ele, admirando a perfeição mortal da trama.
— Assim está desde o dia em que fizemos o acordo com Hades e Perséfone — explicou Clotho, com a calma de quem domina o mundo.
estendeu a mão, o ar ao redor vibrando levemente, mas sabia que não poderia tocar os fios: mesmo uma aproximação mínima fazia-os estremecer e ranger, como gelo pronto para quebrar. Era o fio da sua vida, congelado e suspenso no tempo, pulsando com uma energia que ele sentiu percorrer o próprio corpo.
— Como vocês conseguem tecer algo assim? — ele perguntou, ao mesmo tempo fascinado e apreensivo.
— Láquesis é muito habilidosa — comentou Átropos. O ar atrás dela cintilou por um instante, e a sombra de uma tesoura negra surgiu, antes de desaparecer.
— Como a profecia de pode ser recitada e a minha não? — insistiu.
— A revelação de uma profecia também faz parte do destino — respondeu Laquesis.
pensou em e no que ela havia perdido. Por causa de uma profecia que não pediu, foi marcada como ameaça, arrancada de tudo e lançada ao exílio antes mesmo de compreender quem era. A deusa do verão não teve outra escolha se não se rebelar contra a sua natureza, como se fosse a única forma que ela pudesse existir. Uma força que incendiava tudo ao redor, mas que também a isolava, porque ninguém podia acompanhar tamanha intensidade sem ser consumido.
Aquilo não era destino — era punição.
Para , essa lembrança não trazia calor, mas um peso gelado. Se ela havia sido condenada injustamente por algo que ela nunca escolheu, o que diria dele, cujo fio permanecia intocado, congelado no tempo? O silêncio sobre seu destino parecia ainda mais perigoso que a revelação. Um calafrio percorreu-lhe os ossos, e sua voz saiu carregada de frieza e desprezo:
— Eu adoraria ver vocês três falarem isso pra ela.
— Na hora certa — disse Átropos, seca.
— Se vocês não podem me dar nenhuma informação útil, qual o ponto dessa conversa, então? — ele disparou.
— Você pode encarar isso como um jantar de noivado — sorriu Laquesis, sádica.
suspirou fundo.
— Deve haver alguma coisa que vocês possam me contar.
— Nada sobre o futuro — disse Átropos.
— Mas talvez o passado possa ser de algum uso — acrescentou Clotho.
Ele rosnou entre os dentes:
— Eu sei o que já aconteceu.
— Sabe mesmo? — provocou Laquesis.
a encarou, mas ela prosseguiu sem titubear:
— No momento em que você e a deusa do verão deram o primeiro suspiro, Zeus e Hermes estavam fazendo uma visita a um templo nas terras mortais. Foi lá que uma das Dodonas incorporou e revelou aquela profecia. não teve a menor chance, ela e Íris estavam sob os cuidados de Hera. Zeus sabia disso e partiu imediatamente para o Olimpo com o objetivo de eliminar a ameaça.
permaneceu imóvel, absorvendo cada palavra de Laquesis. Por mais que conhecesse a história, pensar em , agora que a conhecia, o deixou inquieto, um pensamento que ele não se permitia nomear.
A deusa quase foi tirada dele antes mesmo de existir em sua vida, e essa ideia percorreu sua mente silenciosa, misturando frieza e uma atenção inesperadamente concentrada nela.
— O que impediu ele? — perguntou, com a garganta seca.
— Sua filha Ilítia — Laquesis falou com calma, como se narrasse um detalhe irrelevante, quando na verdade deixava cair uma rocha no meio do silêncio. — A deusa do parto soube no momento em que chorou pela primeira vez, que você tinha feito o mesmo no Mundo Inferior. Ela sentiu algo diferente sobre o nascimento dos dois. Então, pra evitar um conflito entre os Três Grandes, ela conseguiu convencer o próprio pai a se reunir com os irmãos para decidir sobre o destino de vocês.
— E eles decidiram exilar , eu já sei disso — resmungou, o tom áspero.
Clotho deixou escapar uma risada baixa, divertida.
— Hermes foi uma das minhas mais brilhantes criações, sabia? — comentou ela, enrolando uma mecha de cabelo entre os dedos. — Ele tornou o nosso trabalho muito mais fácil com o passar das eras.
O deus do inverno estreitou os olhos.
— O que isso tem a ver com ele?.
— Há quem diga que ele é o único amigo de Hades — Clotho sorriu com malícia.
Um arrepio percorreu a espinha de . Era exatamente o que havia dito ao pai mais cedo, naquele mesmo dia.
— Enquanto Zeus corria ao Olimpo, Hermes foi direto ao Mundo Inferior. Até Hades. Repetiu palavra por palavra a profecia, para que ele pudesse se preparar — explicou Laquesis.
— Se preparar pra que? — perguntou, mesmo que já soubesse a resposta.
— Pra guerra — respondeu Átropos, sem hesitar.— Se Zeus foi atrás da filha de Poseidon sem pensar duas vezes, era questão de tempo até que ele viesse até você.
— Mas Zeus não matou ela.
— Eles não sabiam disso ainda — esclareceu Átropos.
— Hermes e Hécate esconderam você, enquanto os seus pais nos faziam uma visita. Nós revelamos que não tinha sido assassinada ainda, mas que a vida dela estava nas mãos do rei do Olimpo. Assim como a sua — Laquesis fitou o fio congelado diante deles.
Mais um arrepio percorreu a pele de . Ele respirou fundo, hesitante.
— O que isso quer dizer?
Clotho riu baixo, quase cúmplice:
— Engraçado… O seu pai fez a mesma pergunta naquele dia.
— E qual foi a resposta? — a voz dele saiu dura.
— Que um só pode viver enquanto o outro estiver vivo — disse Átropos, como uma sentença.
O ar pareceu se contrair ao redor deles, como se a própria tapeçaria tivesse prendido a respiração.
— É isso que você quis dizer quando disse que teceu os nossos fios juntos? — encarou Clotho, a voz baixa e cortante.
— Os fios de vocês estão… Entrelaçados — Clotho confirmou, com a naturalidade de quem anuncia uma escolha estética.
desviou o olhar para a tapeçaria. Entre os fios congelados, um se soltava da trama, flutuando sozinho, sem se conectar a lugar algum. Tremia suavemente, quase como se respirasse, e por um instante ele sentiu algo familiar nele, uma estranha inquietação. Não podia ver onde terminava, nem para onde deveria ir, mas algo no fio parecia sussurrar uma possibilidade, uma possibilidade quente e teimosa como o inferno.
— Por que você faria isso? — o deus do inverno perguntou, com raiva contida.
Clotho deu de ombros, como se aquilo não fosse importante.
— Ilítia percebeu isso, à sua própria maneira, quando conduziu o parto de — disse Átropos.
— Zeus sabe? — insistiu.
— Ele sabe que a coexistência entre você e a deusa do verão é um ponto de equilíbrio do universo, que se precisar eliminar um, consequentemente terá eliminar o outro — respondeu Laquesis.
estreitou os olhos, a mente inquieta, mas a frieza em seu rosto não vacilou.
— Ele não sabe que…
— Se um de vocês morrer, o outro também morre — Átropos sorriu, diabólica.
O deus do inverno prendeu a respiração. O silêncio o envolveu como um manto pesado.
Pensou em Hades e Perséfone, no quanto lutaram para ficarem juntos, desafiando deuses e destino. A união deles mostrava o preço de cada escolha — e fazia perceber, mesmo sem admitir, que sua ligação com a deusa do verão carregava algo igualmente delicado e essencial.
Seus pais...
— Eles sabem? — sussurrou, quase para si mesmo.
— Eles desconfiam — respondeu Átropos.
Merda.
— Hades ficou furioso — Láquesis retomou, implacável. — Exigiu que revelássemos a sua profecia para que eles pudessem se preparar, mas ainda não era a hora. Eles não tinham tempo. Hades precisava comparecer à reunião para decidir sobre o seu destino ou declarar guerra.
— Então, nós reivindicamos você — disse Clotho. — Como uma forma de proteção.
— Diga por você — Átropos interveio, o sorriso cada vez mais sinistro.
— Vocês estão de brincadeira — murmurou .
As Moiras não deram atenção.
— Hades se reuniu com os irmãos assim que partiu. Ele e Poseidon lutaram pela vida de vocês, mas você sabe como Zeus é… Logo a conversa virou briga, ameaças começaram a surgir. Quando Zeus invocou o corpo frágil de da deusa do verão naquela sala, Hades percebeu que só havia uma coisa a fazer: revelar que você estava prometido a nós. Eliminar vocês seria não apenas guerra com os irmãos, mas desafiar o próprio destino. Assim, eles acabaram decidindo por isolar vocês: nas terras mortais, longe do divino, e você no Tártaro, carceireiro da sua própria prisão — explicou Láquesis.
cerrou os dentes. Sabia que era um prisioneiro. Sempre soubera. Mas ninguém jamais tivera a franqueza de dizê-lo em voz alta.
Se ao menos soubesse…
— Naquele mesmo dia, Íris partiu para as terras mortais com a pequena , e quando isso aconteceu, seu fio ficou… Assim — disse Láquesis.
sentiu o chão sumir sob ele..
— É por isso que… — começou ele.
— É uma possibilidade que esteja diretamente relacionado às suas condições… Cardiácas — completou Átropos, com um leve sorriso cruel.
A mente de girava em turbilhão.
— Eu não nasci assim? — ele perguntou, a voz baixa, dura.
— Não — respondeu Laquesis.
— Isso deveria ter acontecido? — ergueu a cabeça, encarando-a no único olho.
— Pergunte a Clotho — disse ela.
Ele voltou o olhar para a mais jovem. A silhueta dela parecia ainda mais firme, os cabelos negros caindo sobre os ombros, enquanto o frio da tapeçaria parecia se intensificar à sua volta.
— Você sabe que eu não posso te dizer — respondeu Clotho, com firmeza.
O deus do inverno desviou o olhar para o fio congelado que representava sua própria vida. Cada detalhe estava parado, rígido, como se o tempo tivesse cessado nele. Por um instante, sentiu uma estranha mistura de peso e vazio, como se todo o seu poder não passasse de sombras congeladas diante dele.
— Só me diga uma coisa — murmurou, quase sem força. — Eu vou saber um dia?
— Será revelado a você quando chegar a hora — disse Clotho, com a voz suave, mas carregada de uma autoridade que soava definitiva.
— Mesmo com o acordo? — ele questionou, desconfiado.
— O seu destino pertence a você, com acordo ou não — respondeu Láquesis.
A tapeçaria tremeu levemente, faíscas de luz e gelo se espalhando no ar como se confirmasse as palavras dela. estremeceu, sentindo o fio como uma extensão de si mesmo.
— E se o acordo não for cumprido? — ele insistiu, o olhar afiado.
— Hades e Perséfone pagarão o preço — respondeu Átropos, implacável.
Qual preço?
— O destino tem formas misteriosas de cobrar dívidas — disse Láquesis, indecifrável.
suspirou, exausto. Sabia que não arrancaria mais do que enigmas dessas três.
— E quanto a vocês? — o deus tentou sondar mais um pouco.
— Você é um garoto esperto — Átropos murmurou, quase como elogio, deixando um sorriso enviesado despontar dos lábios. — Esperto demais para o seu próprio bem.
Clotho piscou, divertida, mas nada disse.
— Isso não é uma resposta — retrucou, firme.
— Nós continuamos aqui, trabalhando, como sempre fizemos — disse Láquesis. Ela estalou os dedos, e a tapeçaria se desfez em fumaça fria, deixando o ar ainda mais denso e silencioso.
Clotho se ergueu com a calma de quem nunca teve pressa. Seus movimentos eram suaves, mas carregavam uma autoridade silenciosa que não precisava de palavras. Fez um gesto breve para que ele a seguisse.
hesitou por um instante, mas acabou obedecendo. Seus passos ecoavam no corredor vazio, cada batida contra a pedra soando alta demais naquele silêncio sufocado. A gruta parecia se estreitar ao redor deles, as sombras ondulando como se observassem a cada movimento.
Havia algo profundamente perturbador em seguir sem questionar a direção de uma mulher cega. Ela não via os caminhos, mas se movia com a segurança de quem conhecia cada curva antes mesmo de chegar a ela, como se estivesse conduzida pelo próprio fio do destino. sentiu um desconforto crescente: era ele quem deveria carregar o poder de decidir seu rumo, e ainda assim caminhava atrás de alguém que nem precisava enxergar para guiá-lo.
— Eu teci um destino bonito para você, não se preocupe — disse Clotho, a voz baixa, quase íntima.
soltou uma risada curta, sem humor.
— Eu duvido muito, se me colocou nessa situação contra minha vontade.
— Eu não disse que seria fácil — Clotho sorriu levemente. — É assim que as coisas devem ser.
Quando saíram da gruta, a luz pálida do jardim morto os envolveu. Agora, um cobertor de neve fina cobria o chão refletindo uma luminosidade fantasmagórica, quase azulada, as árvores retorcidas lançando sombras alongadas que pareciam se mover com vida própria.
Hades os aguardava na soleira, imóvel como uma estátua esculpida em sombras vivas. As correntes de escuridão que sempre o cercavam pareciam se estender pelo jardim, escurecendo levemente a luz ao redor.
Clotho se deteve antes de atravessar completamente a entrada, com postura ereta e serena. Sua voz cortou o silêncio:
— Mande lembranças à por mim. Estarei esperando a visita dela.


Capítulo 9

Era comum no mundo mortal que o inferno fosse retratado como um lugar quente. Quente como o inferno, diziam os humanos, como se o fogo eterno fosse a única medida de sofrimento.
Mas, porra, aquele lugar era frio para um caralho.
Um frio que parecia penetrar os ossos e gelar até as lembranças mais quentes.
— Eu avisei pra você colocar um casaco — disse Hermes, com um sorriso debochado, os olhos brilhando de divertimento enquanto observava tremer de forma patética.
O deus mensageiro cruzava o céu cinzento, ou seria o subsolo, carregando nos braços. As sandálias aladas batiam rápidas, mantendo-os suspensos, mas o vento cortante parecia querer arrancar a pele da deusa de seu próprio corpo. O frio se infiltrava por sua túnica, mordendo-lhe os ossos. Ela se encolheu mais contra o corpo dele, buscando um mínimo de calor, mesmo que aquilo a deixasse ainda mais vulnerável.
— Eu estou bem — respondeu , a voz quase engolida pelo vento. Mas, por dentro, cada fio de seu corpo gritava contra o frio intenso.
Abaixo deles, o terreno rochoso se estendia como uma cicatriz escura entre os campos de neve imaculada. Penhascos sombrios surgiam de repente, quebrando a monotonia branca, e o vento carregava o silêncio absoluto do inverno, pesado e implacável.
Era estranho — perturbador até. O Mundo Inferior parecia adormecido. Nenhum grito de dor, nenhum eco de sofrimento, nenhum murmúrio. Só o silêncio pesado e sufocante da morte.
De repente, uma corrente de ar os atingiu. As sandálias de Hermes vacilaram por um instante, e sentiu o corpo deles despencar alguns centímetros. O estômago dela se revirou e, instintivamente, os dedos apertaram a túnica do amigo com um pouco mais de força.
— O que houve? — perguntou Hermes, lançando-lhe um olhar rápido, como se não esperasse vê-la tão assustada.
— Nada… — ela tentou disfarçar, engolindo em seco. — É só que… Eu consigo perceber a diferença agora.
Ele arqueou uma sobrancelha, curioso.
— Diferença de quê?
— Entre voar com você e com a carruagem do Sol — respondeu a deusa, ainda ofegante, mas com um leve deboche no tom.
Um sorriso maroto surgiu no rosto dele.
— Ah, comigo é bem melhor.
revirou os olhos, apesar do frio que quase congelava seus cílios.
— Na verdade, a carruagem é bem mais… Sutil.
Hermes bufou, indignado.
— Eu sou sutil!
Ela mordeu o lábio para não rir.
— Eu não disse que você não é. Mas a carruagem… — a deusa pensou um pouco, para encontrar a melhor forma de explicar. Como foi aconselhada por uma certa pessoa, para ajudar no seu próprio aprendizado. — Ela se mistura ao ar quente, sobe com ele, como se fosse parte do próprio vento. É suave, quase imperceptível.
Hermes fez uma careta teatral.
— Então você anda mesmo deixando Hefesto enfiar essas bobagens na sua cabeça?
hesitou, semicerrando os olhos contra a neve que caía em finos flocos.
— Talvez? — respondeu ela, incerta, mas com um pequeno sorriso querendo despontar dos lábios trêmulos.
— Pois eu digo que voar contra a aerodinâmica é muito mais divertido — Hermes inflou o peito, como se tivesse acabado de dar uma grande lição.
— Se você diz… — murmurou , rindo baixo, embora o vento gelado quase roubasse o som.
Quando enfim pousaram, o impacto suave dos pés de Hermes contra o solo foi como um alívio.
Estavam diante de uma cabana solitária, erguida na fronteira entre o terreno de pedra e o manto infindável de neve. Pequena e quase insignificante diante da vastidão branca, parecia um abrigo frágil, tímido, mas desafiador em meio à grandiosidade gélida daquele mundo. E , mesmo contra a própria vontade, não pôde evitar o arrepio que percorreu sua espinha.
— Ele precisava mesmo congelar tudo por aqui? — ela reclamou, os braços cruzados, em uma tentativa fracassada de se aquecer.
Se sentia patética por não conseguir usar magia nem para uma coisa estúpida como essa.
Mas antes que Hermes pudesse responder com uma piada ou um comentário espirituoso, uma voz firme e controlada atravessou o ar gelado:
— Eu gosto das coisas assim.
girou nos calcanhares em direção à voz, sem surpreender ao encontrar com um sorrisinho debochado.
O deus do inverno estava ali, parado como uma estátua de gelo, observando seu próprio domínio com a serenidade e o peso de quem realmente pertence àquele lugar. O ar ao redor dele parecia vibrar com o frio, quase reverenciando sua presença.
— ela suspirou, jogando os ombros para trás, um misto de irritação e resignação.
— ele respondeu, com um cumprimento simples, quase austero, como se cada palavra fosse medida.
— Hermes! — interrompeu o deus mensageiro, a voz carregada de brincadeira, como se ele tivesse certeza de que era a pessoa mais engraçada do mundo. Mesmo que fosse apenas do seu próprio mundo.
revirou os olhos, e a deusa, sem graça, escondeu o rosto entre as mãos.
— Vejam só, os três melhores amigos reunidos! — declarou ele, a voz repleta de entusiasmo, quase como se quisesse desafiar o próprio silêncio do inverno ao redor.
Hermes não se conteve: soltou uma risada escandalosa e, sem pedir licença, lançou os braços em torno deles, puxando-os para perto. O gesto, sufocante e ridiculamente afetuoso, arrancando dos outros dois apenas constrangimento.
, comprimida entre os deuses, sentiu o manto de roçar-lhe a pele exposta. O toque era frio como neve, mas o efeito foi completamente diferente do esperado: seu rosto ardeu em rubor, como se o inverno tivesse se chocado contra o verão dentro dela.
Mas, graças aos deuses, durou pouco.
O ambiente mudou no instante em que uma nova presença se fez sentir. Perséfone surgiu sem alarde, mas o simples ato de caminhar era suficiente para alterar o equilíbrio do espaço. A clareira ao redor parecia se curvar à sua passagem, e até o vento diminuiu para recebê-la. De repente, o Submundo parecia cheio de vida.
O abraço de Hermes, antes espalhafatoso e ridículo, tornou-se imediatamente desconfortável. se desvencilhou rápido, soltando um suspiro envergonhado, enquanto se afastava com firmeza, embora a rigidez em sua postura denunciasse certo incômodo.
O deus mensageiro nem ao menos se deu ao trabalho de esconder o sorriso travesso .
— Hermes — disse Perséfone, sua voz calma, mas carregada de autoridade.
— Ao menos alguém se importa comigo por aqui — brincou Hermes, piscando para a deusa da primavera, como se ela não tivesse acabado de interromper o que quer que aquilo fosse.
— Obrigada por trazer a deusa do verão — a deusa manteve-se ereta, elegante, cada palavra soando como ordem. — Você pode buscá-la ao anoitecer.
— Você poderia ter esperado um pouco pra me dispensar, Sephy — murmurou Hermes, levando a mão ao peito, fingindo-se ofendido.
— Eu disse obrigada — respondeu Perséfone, impassível.
O deus suspirou teatralmente, mas o sorriso maroto permaneceu. Ele então voltou-se para e , inclinando-se num gesto de reverência irônica.
— Vocês dois me devem um passeio de verdade.
E, antes que pudessem reagir, o ar pareceu estremecer. As asas de Hermes bateram sem som, e seu corpo se desfez num borrão de vento, como se o próprio ar o tivesse engolido. Tudo o que restou foi o frio cortante e o eco distante de sua risada zombeteira.
O silêncio se instalou, denso, quase reverente, como se até o vento tivesse escolhido esperar pelo próximo ato.
Perséfone avançou em direção a , seus passos suaves marcando um contraste gritante com a energia espalhafatosa que Hermes deixara para trás. Havia uma calma perigosa nela, uma presença que parecia ocupar o espaço sem que ela precisasse reivindicá-lo.
— É um prazer, finalmente, te conhecer, .
— Não precisamos fazer isso — respondeu a deusa do verão, cautelosa, mantendo a distância. Os dedos apertavam os braços ao redor do corpo, num gesto mais instintivo que consciente.
— Que bom — disse Perséfone, inclinando a cabeça em aceitação. — Temos muito trabalho a fazer.
Ela fez uma pausa. O olhar percorreu a outra com uma ironia contida, enquanto o vento gélido do Submundo brincava com os fios escuros de seu cabelo.
— Fui informada de que você mal conseguia esconder sua aparência imortal durante o exílio.
não precisava de muito mais que isso para sentir o seu temperamento começar a dar os primeiros sinais de vida quando seu peito começou a se aquecer. O que era um alívio em meio àquele frio cortante do Mundo Inferior. Frio esse que não passava de uma lembrança constante do quanto ela era patética enquanto o seu oposto complementar parecia simplesmente transbordar poder e superioridade.
Aquele maldito filhinho da mamãe.
A deusa do verão pôde ver mudar o peso de uma perna para a outra em sua visão periférica e sentiu o desgosto nublar seu semblante instintivamente.
— Notícia velha, florzinha — respondeu , sem esconder o deboche.
O vento continuava a uivar ao redor deles, carregando flocos de neve que dançavam como pequenos cristais no ar. manteve os braços cruzados, observando Perséfone com uma mistura de raiva e ceticismo. Até o frio, cortante e implacável, pareceu hesitar, como se o próprio mundo contivesse a respiração.
Então, quase imperceptivelmente, algo mudou. A neve sob seus pés começou a derreter, dando lugar a um tapete de flores. Pequenas, delicadas, coloridas — brotavam em trilhas e campos que se estendiam até onde a vista alcançava. O branco imaculado se dissolveu em uma explosão de cores: vermelhos profundos, amarelos luminosos, lilases suaves, laranjas quentes. O perfume de primavera invadiu o ar, contrastando com o frio que ainda sussurrava nas sombras.
Em questão de segundos, aquilo que antes era um deserto congelado transformou-se em um campo florido do tamanho de uma pequena vila grega. Cada flor parecia viva, balançando suavemente, como se respondesse à presença da rainha do Submundo. Até as árvores, que surgiam agora aqui e ali, pareciam ter brotado da terra em questão de segundos, cobrindo-se de folhas e flores vibrantes.
A deusa do verão não conseguiu reagir — muito menos se mover —, atônita diante daquela demonstração nua e crua de poder. Tudo o que pôde foi encarar o contraste entre a brisa primaveril e o frio residual do inverno. E sentiu raiva de si mesma por não ter previsto aquilo. Por não ter percebido, no tom ou na postura da outra deusa, o que estava prestes a acontecer. Por não conseguir fazer o mesmo. Por querer fazer o mesmo. Por, ainda que por um momento, admirar Perséfone.
E isso fez se sentir prestes a vomitar.
, por sua vez, apenas observava. Os braços cruzados, a expressão apática, mas o canto de seus lábios denunciava um sorriso contido — e talvez até uma ponta de respeito pela demonstração de poder da mãe.
— Talvez você aprecie uma mudança na temperatura — disse Perséfone, e o sorriso em seus lábios tinha algo de diabólico. — Você deveria tentar.
fechou os olhos, como se absorvesse a provocação, à medida que o corpo esquentava em parte pelo derretimento da clareira, em parte pela frustração. Já devia esperar isso da rainha do Submundo, mesmo que ela ainda fosse a deusa da primavera. Rosas tinham espinhos, afinal de contas.
A deusa do verão percebeu então, com um aperto no peito, que aquele não seria um treinamento comum — especialmente quando Perséfone parecia saborear o ato de desafiar todas as leis da natureza, criando vida em um reino moldado pela morte.
Não era por acaso que a tinham levado até ali.
Como se fazê-la conjurar o verão não fosse desafiar o impossível o suficiente. Eles queriam que ela o fizesse em meio ao inverno implacável do seu oposto complementar. Uma crueldade digna dos governantes do Mundo Inferior.
Uma brisa diferente tocou seu ombro, refrescante, e virou o rosto apenas para encontrar mais perto do que antes. Ele a observava com atenção calculada, como quem avalia não só a cena, mas também a reação dela.
— Uma dica? — murmurou ele, em voz baixa, quase cúmplice. — Tente não irritá-la. Ela pode ser pior que Hades às vezes.
ergueu o queixo, mordendo as palavras como desafio.
— Você pode guardar as suas dicas pra você.
— Você poderia ouvir, pra variar — respondeu , mantendo o tom sereno. Ainda assim, havia algo em seu olhar que soava como provocação.
estreitou os olhos, o sarcasmo escorrendo de sua boca:
— Eu adoraria ver a sua mamãe lidar com os seus problemas.
Antes que pudesse responder, Perséfone interveio, sem sequer desviar os olhos do campo florido que criara.
— Não se dê o trabalho, querido. Eu não pretendo me estressar hoje.
— Que pena — murmurou , o deboche evidente na voz.
Perséfone, então, voltou-se para ela. O olhar tranquilo contrastava com o tom que cortava como lâmina.
— Eu conheço o seu tipo, garota. Tenho experiência suficiente com pessoas que falam muito mais do que são capazes de fazer.
O maxilar de se contraiu.
— Eu posso dar um jeito de fazer alguma coisa.
— Isso é o que nós vamos ver — o olhar de Perséfone faiscou com expectativa.
desviou o rosto, e um riso contido escapou em forma de sussurro:
— Você tem razão — ele parecia quase se divertir com a situação. — Vai acabar desejando lidar comigo pra não ter que lidar com ela.
Perséfone lançou-lhe um olhar mortal, embora o sorriso não deixasse seus lábios.
— Não puxe meu saco, . Aumentar o meu ego não vai te salvar de ter um dia daqueles.
Perséfone parou no meio do campo florido, o sorriso ainda travesso, e olhou para com a intensidade de quem sabe exatamente que está prestes a testar algum limite.
— Sente-se aqui — disse ela, apontando para uma pequena clareira entre as flores. O chão, apesar de coberto de grama e pétalas, ainda parecia firme sob os pés. — Quero que você tente algo simples.
se acomodou, cruzando as pernas sobre a terra macia e tentando ignorar a sensação estranha de estar cercada por cores e aromas tão diferentes do frio que antes os envolvia.
— Há uma pequena pilha de madeira à sua frente — continuou Perséfone, gesticulando. — Seu objetivo hoje é acender uma chama. Apenas uma. Não precisa ser perfeita, mas precisa queimar.
olhou para o amontoado de gravetos, respirou fundo e tentou organizar os pensamentos. Cada fibra de seu corpo ainda estava marcada pelo frio anterior, e cada respiração parecia trazer um choque de ar gelado.
— E lembre-se — Perséfone continuou, a voz suave, mas firme. — não é apenas uma questão de força ou técnica. É sentir. Sentir o que está ao seu redor, o que está dentro de você. A chama não vem de fora. Ela vem de você.
permaneceu em silêncio, observando à distância, sua expressão impassível. Mas sentiu o peso de seu olhar, avaliando cada movimento, cada hesitação. Não havia julgamento explícito, mas uma expectativa silenciosa que fazia o coração dela bater mais rápido.
— Pode começar — disse Perséfone, recuando alguns passos para dar espaço, mas mantendo os olhos fixos nela.
fechou os olhos por um instante, tentando acalmar a respiração, sentindo o calor mínimo de seu corpo tentando emergir. Ela concentrou-se, lembrando-se de cada vez que sentiu o poder espreitando sob a pele, de cada tentativa anterior que tinha falhado, e se permitiu imaginar a chama brotando da madeira diante de si.
O campo florido ao redor parecia pulsar, como se estivesse atento, esperando que algo acontecesse. O ar estava carregado de expectativa, e sentiu a estranha sensação de que o próprio inverno, mesmo ali entre flores, observava, aguardando o resultado de seu esforço.
Ela estendeu as mãos sobre a pilha de madeira, sentindo uma leve vibração percorrer os dedos, um calor minúsculo, quase imperceptível, como se a energia estivesse apenas esperando para se manifestar.
— Concentre-se — Perséfone murmurou, os olhos brilhando de interesse. — Não é sobre você forçar a chama. É sobre permitir que ela surja.
sentiu o calor mínimo crescendo sob suas mãos, tímido, mas firme. Seus olhos se arregalaram, o coração disparado — finalmente, parecia que algo estava acontecendo. A pilha de madeira tremia levemente, ansiosa para se transformar em chama.
Então, uma risada cortante ecoou pelo campo florido. Cruel e inesperada, reverberando de forma quase sobrenatural.
O calor desapareceu instantaneamente. Como se nunca tivesse existido, a energia recuou, deixando apenas o frio cortante que já parecia mordê-la com mais força. recuou, confusa e alarmada.
— Ah, Perséfone querida — uma voz desconhecida deslizou pelo espaço, carregada de ironia. — Maltratar mortais não te cai bem.
A deusa do verão se virou em direção ao som, a tempo de ver uma mulher se aproximar dos outros dois. Baixinha, de cabelos pretos curtos, ela se aproximava quase sem fazer barulho. O olhar intenso contrastava com o corpo pequeno, despertando atenção involuntária. Havia algo no ar ao redor dela, pesado e silencioso, que prendia todos os sentidos.
fixou o olhar sobre ela com os olhos faiscando.
— Eu não sou mortal.
— Também não pode se chamar de deusa com essa aura patética — retrucou a mulher.
Hécate — a voz de cortou, em tom de censura.
A deusa do verão fechou os punhos, o orgulho ferido.
Então aquela era Hécate, deusa da magia, feitiçaria, noite, lua, fantasmas e encruzilhadas. a odiou quase que instantaneamente.
— Foi por isso que eu te chamei — disse Perséfone para Hécate, ignorando a tensão que se instalou sobre a clareira. — À propósito, você está atrasada.
A feiticeira deu de ombros, indiferente.
— Você chamou ela? — virou-se para Perséfone, incrédulo.
— Você não achou que tinham marcado na minha cabana à toa, achou? — Hécate rebateu com desdém.
— Perséfone — começou .
— É mãe pra você — corrigiu a deusa da primavera, implacável.
Mãe — ele resmungou, parecendo se irritar. — A velha não faz parte do acordo. É você quem deveria nos treinar.
— Não há muito o que eu possa fazer se a garota não consegue conjurar — Perséfone respondeu, seca. — Hécate por outro lado…
— Eu sou a deusa da magia — declarou Hécate, com um sorriso afiado. — Posso consertar seu brinquedo quebrado em dois tempos.
— O nome dela é . E ela não é um… — começou, mas não teve nem a oportunidade de terminar a frase.
— Vocês podem parar de conversar como se eu não estivesse aqui? — disparou , pressionando os dedos entre os olhos. — É exaustivo.
— Estamos entediando você, pestinha? — provocou Hécate.
— Pra caralho — respondeu a deusa do verão sem hesitar.
deixou escapar um sorriso discreto que não deixou de notar.
— Por que você não volta pra sua pilha de madeira podre e deixa os adultos conversarem? — insistiu Hécate, com malícia.
bufou alto, mas obedeceu, ajoelhando-se diante da madeira mais uma vez. Fingiu ignorá-los, embora as vozes dos deuses ainda ecoassem perto demais para que ela conseguisse de fato afastá-los.
— Você sabe que ela tem a mesma idade que eu, não sabe? — perguntou, os olhos fixos em Hécate, carregando aquela mistura de irritação e incredulidade.
— Claro que eu sei — respondeu a deusa da bruxaria, inclinando a cabeça com um sorriso cruel. — O nascimento de vocês foi uma aberração da natureza, como o daqueles gêmeos endiabrados de Ares e Afrodite. Mas eu nunca disse que você era um dos adultos.
estreitou os olhos, o queixo tenso.
— Eu estou contando os dias para você ser sentenciada à eternidade no Tártaro.
— Hades e Zeus têm muito medo de mim para fazer uma coisa dessas — Hécate devolveu, arqueando uma sobrancelha, como se fosse impossível levá-la a sério.
— Eu não — rebateu, sem perder o ritmo.
— Sorte a minha que sou sua chefe, então — Hécate disse, o sorriso carregado de sarcasmo, enquanto seus olhos brilhavam em diversão.
ergueu um pouco a voz, tentando se concentrar na pilha de madeira diante dela.
— Vocês podem fazer silêncio? Estou tentando fazer um milagre aqui.
— Nenhum profeta que se preze precisou de silêncio para fazer algo tão bobo — Hécate respondeu, ignorando completamente a reclamação da garota.
— Não me surpreende que Jesus não tenha aceitado a imortalidade — sussurrou, quase como se fosse para si mesmo.
— Aposto que ele se deixou ser pego pelos romanos só para se livrar de mim — Hécate retrucou, com uma risada curta e metálica. — Um desperdício de talento, se você quer saber.
— Coisa que está faltando nessa garota — Perséfone comentou, apontando com leveza para , sem tirar os olhos dela.
— Eu posso ouvir vocês — resmungou, sem desviar o olhar da madeira.
— Eu gosto da Perséfone cruel — Hécate interrompeu, jogando um olhar afiado para a rainha do Submundo.
— A bruxa tem razão, você está sendo cruel — retrucou, sério. — Qual o problema?
— Sou sua mãe, eu tenho que ser cruel — Perséfone respondeu firme, sem se intimidar.
— Perséfone está com ciúmes, bobinho — Hécate provocou, arqueando as sobrancelhas. — Não se preocupe, logo ela vai cair nos encantos da musa do verão assim como você.
— Eu não… — respondeu de imediato, quase bufando.
— Calem a boca! — explodiu, as mãos ainda sobre a madeira, o calor dela crescendo de forma irregular enquanto tentava ignorar os deuses.
— Eu posso pensar no seu caso quando você queimar essa porcaria — Hécate provocou, cruzando os braços e observando cada movimento de com um sorriso malicioso.
— Eu vou queimar você! — gritou, o rosto corado de raiva.
— Com que magia? — Hécate arqueou uma sobrancelha, desafiadora.
— Eu não preciso de magia pra quebrar a sua cara — retrucou, cerrando os punhos.
— Chega de ameaças vazias e foque na madeira, filha de Poseidon — Hécate replicou, a voz carregada de ironia.
— Ele não é o meu pai — rebateu, a voz tensa.
— Como não seria se tudo o que você sabe fazer está ligado ao maldito território dele? — Hécate perguntou, os olhos brilhando com o mais puro desdém.
engoliu em seco. Pensou no clube, na areia sob os seus pés, nos dedos enrugados pela água salgada, na sensação do corpo flutuando sobre a prancha… E fechou os olhos.
— Como você sabe disso? — a deusa praticamente rosnou.
— Eu sou a bruxa, esqueceu? — Hécate respondeu, o sorriso tão afiado quanto uma lâmina. — Se está tão desesperada para se desvencilhar do deus dos mares, prove isso incendiando alguma coisa.
grunhiu e voltou a concentrar seu calor, os braços tremendo com o esforço de conjurar algo que teimava em não se formar. A pilha de madeira estremeceu, mas continuava inerte.
— Você está indo bem, Hécate — Perséfone comentou, o tom aparentemente neutro, mas cheio de atenção.
— Não, ela não está — interrompeu, a voz firme. — Deixe em paz e pegue suas malditas pedras. Você vai treinar comigo.
Hécate riu, o som cortando o ar como metal.
— Não se preocupe, coração de gelo — disse ela, lançando um olhar de para . — Você terá a sua vez.
— Agora é a minha vez — avançou, olhos fixos na garota.
— Não ouse mexer um músculo, ! — Perséfone alertou, a voz autoritária, carregada de tensão.
— Fique vendo — ele respondeu, firme, mas sem se aproximar muito.
O ar na clareira parecia vibrar, carregado de tensão. Algumas plantas começaram a murchar, enrolando-se como se o ambiente sentisse a energia bruta que pairava ali. mantinha as mãos sobre a madeira, tentando em vão concentrar o calor que teimava em não surgir.
Ela estava fazendo isso?
— Você vai me obedecer — Perséfone disse, a voz baixa e implacável. — Posso ser sua mãe, mas eu ainda sou a sua governante.
Então, de repente, algo explodiu sobre a pilha. Uma chama surgiu do nada, serpenteando e crepitando, lambendo a madeira com força imediata. Não havia sinal de ter conjurado aquilo — o calor subiu em suas mãos sem aviso, queimando a pele, fazendo-a recuar em choque.
O cheiro de queimada se espalhou, e gritou. O fogo escorria por suas mãos como sangue líquido, devorando a pele, como se zombasse de seu esforço frustrado.
! — gritou, os olhos arregalados, avançando em direção à garota.
A adrenalina percorreu o corpo da deusa como um raio. E então, tão repentinamente quanto surgiu, o fogo se extinguiu — desaparecendo sem deixar vestígios, exceto pelas mãos queimadas dela, negras e pulsantes, e pelo ar pesado, saturado pelo aroma doce e amargo, entre carne e cinza.
olhou para as próprias mãos, sentindo a dor e a frustração, ciente de que o que acabara de acontecer não vinha dela, e que o campo florido agora guardava um aviso silencioso: ela não era nada e era capaz de fazer menos ainda.
O ar ainda tremia, impregnado com o cheiro de madeira e pele queimada. respirava de forma irregular, o peito subindo e descendo como se lutasse para não desmoronar. O calor em suas mãos já não vinha da magia — era apenas dor, crua e latejante.
Ela olhou para elas, para os dedos escurecidos e a pele trincada, ainda fumegando. A visão a encheu de uma sensação amarga: não poder, mas fracasso.
Aquela chama não fora dela — e mesmo assim, fora ela quem pagara o preço.
Então, uma sombra se projetou sobre o chão calcinado. estava ali, ajoelhado diante dela. O semblante era frio, impassível, mas os olhos… Os olhos traíam uma preocupação que ele claramente não queria demonstrar.
— Você está bem? — a voz dele não passava de um sussurro, um fio de som que parecia querer se esconder no vento.
As mãos de ardiam, pulsando sob uma dor viva que queimava até o osso. O cheiro de carne e madeira chamuscadas ainda flutuava no ar, espesso, sufocante. Por um instante, ela achou que fosse desmaiar. O mundo girava ao redor dela, mas aqueles olhos — frios, intensos, quase translúcidos — a mantiveram ali, presa no momento.
estava a centímetros de distância, ajoelhado diante dela, o rosto parcialmente coberto pela sombra das árvores retorcidas. O contraste entre a palidez dele e o escuro do chão queimado dava à cena uma aparência quase irreal, como se a própria morte tivesse se inclinado para observá-la de perto.
Ela engoliu em seco, tentando disfarçar a dor. Não podia fraquejar, não ali, não na frente dele.
? — murmurou , os olhos inquietos, movendo-se de seu rosto para suas mãos, como se buscasse uma resposta que ela não era capaz de oferecer.
Ela limpou a garganta, mas o som saiu rouco, falho. O ar parecia rasgar quando passava por sua garganta. Baixou o olhar e viu o estrago — as mãos que outrora deveriam carregar o calor do sol estavam agora reduzidas a cinzas e carne viva. O contraste da vermelhidão contra a neve derretida era grotesco.
— Me dê as suas mãos — disse ele, a voz baixa, mas o tom soava mais como um comando do que um pedido.
Ela hesitou, os músculos tensos, mas algo na voz dele — uma frieza diferente, calma, quase protetora — a fez ceder.
estendeu as próprias mãos, cobertas por luvas brancas de tecido espesso. Quando o toque aconteceu, o frio se espalhou como uma onda sob a pele ferida, anestesiando a dor de forma quase instantânea.
prendeu a respiração. O gelo percorreu suas veias, substituindo o calor da agonia por uma paz estranha e silenciosa. A sensação era tão profunda que ela quase esqueceu onde estava. O coração desacelerou, o corpo relaxou contra a própria vontade. Pela primeira vez, ela conseguiu respirar sem sentir o ar arranhar seus pulmões.
a observava em silêncio, os dedos ainda envolvendo os dela. Não havia um sorriso, nem expressão de pena. Apenas algo contido, distante — como se o gesto fosse natural, quase inevitável.
Então, lentamente, ele a soltou.
— Melhor? — perguntou , num murmúrio baixo que se perdeu entre as folhas secas.
piscou algumas vezes, atordoada. O mundo parecia mais lento agora, mais frio, mas suportável.
— Como você fez isso? — perguntou ela, sua voz trêmula, quase infantil.
esboçou um sorriso breve, quase imperceptível. Um sorriso nada parecido com aquele que ele costumava exibir por aí.
Ele tirou uma das luvas e mostrou a mão nua. A pele era pálida, quase translúcida, e pequenos cristais de gelo se formavam entre os dedos, cintilando à luz branda que filtrava das flores ao redor.
franziu o cenho, observando a mão dele como se tentasse entender onde terminava o corpo e começava o gelo.
— Isso é… Muito esquisito — implicou ela, tentando conter um sorriso que insistia em querer aparecer.
ergueu uma sobrancelha.
— Ninguém te contou? Somos todos esquisitos desse lado do mundo.
Dessa vez ela não conseguiu segurar.
Uma gargalhada curta escapou, aquecendo o ar entre eles. Parecia fora de lugar naquele cenário cinzento, mas, ao mesmo tempo, necessária. a observou em silêncio, como se cada som que saía dela fosse uma lembrança de algo que ele há muito havia esquecido.
desviou o olhar, deixando uma mecha solta cair sobre o rosto. O gesto foi pequeno, mas carregado de algo involuntário — vulnerabilidade. E antes que ela pudesse afastar o cabelo, sentiu o toque dele. Gélido. Delicado. Os dedos de roçaram-lhe a têmpora, empurrando os fios para trás com uma lentidão quase reverente.
O toque fez o ar sumir de seus pulmões. O frio percorreu-lhe a pele, atravessando os nervos, como se algo nela reconhecesse o toque e o rejeitasse ao mesmo tempo. O arrepio que percorreu seu corpo foi tão intenso que ela mal percebeu que havia se inclinado levemente para ele.
Por um instante, não havia ruído. Nem vento, nem respiração. Apenas o som distante de algo queimando nas profundezas do ser dela.
E então, a voz.
— O que eu disse sobre isso?! — a voz de Hécate cortou o ar como uma lâmina, firme e cheia de autoridade.
A tensão rompeu o momento como um estilhaço de gelo.
piscou, voltando à realidade de forma abrupta. afastou a mão, o olhar endurecendo outra vez, e o frio — aquele frio confortável e quase terno — desapareceu junto com o toque.
Antes que pudesse processar a sombra de Hécate se projetando sobre eles, a bruxa ergueu a mão e pousou os dedos sobre o ombro de .
Foi um toque breve, mas o ar ao redor deles pareceu se partir. Um som abafado, como um estalo vindo das entranhas da terra, atravessou a clareira. A temperatura caiu de forma abrupta, e em um piscar de olhos, ambos desapareceram.
Nenhum rastro, nenhuma centelha de magia visível. Apenas o eco daquele instante, uma vibração tênue que demorou a sumir.
piscou, atônita. O espaço onde os dois estavam agora era só ar frio e poeira. Por um momento, ela teve a sensação de que a clareira havia ficado ainda mais silenciosa — como se até as flores tivessem parado de se mover.
Apenas Perséfone restou ali.
O vento soprou fraco, trazendo de volta o cheiro de cinzas e o calor morno das queimaduras que ainda pulsavam sob a pele de . Ela respirou fundo, tentando recuperar o fôlego e a compostura, mas o ar parecia pesado demais, como se carregasse o peso das palavras que ainda não haviam sido ditas.
A rainha do Submundo observava tudo com uma expressão serena, impassível, mas o olhar era impossível de decifrar.
— Peça para Apolo curar essas mãos — disse Perséfone, enfim, a voz suave, porém irrefutável.
sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. O ar frio se misturava ao calor que ainda emanava de suas mãos, criando uma sensação desconfortável, quase febril.
— Eu… — começou ela, mas as palavras morreram antes de alcançar o ar.
Perséfone desviou o olhar para o horizonte, onde o campo florido agora exibia pequenas manchas escuras — marcas do fogo breve, mas devastador.
— Direi à Hermes que você já está pronta para partir — anunciou Perséfone, sem emoção aparente.
E, sem acrescentar mais uma sílaba, a rainha do Mundo Inferior se virou. O manto negro arrastou-se pelo chão, as flores inclinando-se ao seu passar, como se prestassem reverência.
permaneceu ali, sozinha, cercada pelo eco distante do fogo que ela nem sequer havia invocado e pela lembrança de uma brisa de inverno.




Continua...



Nota da autora: Oi, minhas deusas, desculpem a demora!
Tivemos alguns problemas técnicos na última atualização somados à uns problemas pessoais por aqui, mas estamos de volta.
Digamos que esse capítulo era um e tá virando três. Eu não queria enrolar KKKK mas tinham muitas interações que eu queria que acontecessem nesse momento da história, então saibam que eu tô ajustando esses pontos, mas já já chegamos com mais capítulos fresquinhos.
Ah, e decidi sucumbir à pressão popular e criar o grupo no WhatsApp, fica aqui meu convite pras fiéis.
Obrigada pela compreensão e pelo carinho, amo dividir essa história e esse espaço com vocês! Um beijão!!
Bleme xXx




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Ficstapes:
02. Please Please PleaseFinalizada