Última atualização: 20/01/2026

Prólogo

7 de junho de 2010, 23:36 - Casa de Ellie e Mia , Chicago, IL

— Eu gosto de você — A garota disse corajosamente, o encarando nos olhos. — Faz muito tempo, mas acho que você já sabe disso. Não é como se fosse uma surpresa.
Não havia sequer hesitação em seu tom de voz, tampouco timidez. Talvez o álcool dos três drinks que ela tomara estivesse ajudando, dando um empurrãozinho para que ela seguisse com o plano de se declarar para o cara que amava desde... Ela tinha o quê, doze, treze anos?
Parecia crush de criança, mas logo percebeu que era muito mais que isso quando ele arriscou a própria vida para salvar a dela em um incêndio acidental.
A cicatriz que o ocupava parte de seu braço e ombro direito era um lembrete constante do dia em que ela quase morreu, mas estava viva graças ao cara parado em sua frente, que ficou ao lado dela e xingou qualquer um que olhasse feio para sua cicatriz, nas raras ocasiões quando tinha um pequeno impulso de coragem para usar roupas sem mangas.
— O que você disse? — perguntou, a encarando com seriedade, como se tivesse ouvido errado.
Seu cabelo loiro brilhava sob a luz do jardim da casa dele, mas seus olhos verde-claros estavam escuros, em meio a sombra que se formava em seu rosto. ouviu risadas ao fundo, provavelmente na varanda onde sua família e a dele estavam reunidas, comemorando o aniversário de Ellie — mãe dele e de sua melhor amiga, Mia.
— Eu disse que gosto de você — ela repetiu, com firmeza. — Mas só agora eu tive coragem de-
— Não.
— O quê?
— Não, .
.
Ele só a chamava assim quando estava bravo. E era o único, já que nem os pais dela dispensavam o apelido. Ouvir aquilo fez seu coração dar um solavanco, e não de um bom jeito.
...
— Você só pode estar me zoando, né? Isso é algum tipo de brincadeira que você bolou com a Mia? — ele perguntou, meio irritado. — Porque não tem graça.
— Não, não é brincadeira nenhuma — ela garantiu, a ansiedade já se instalando em seu estômago.
riu pelo nariz, sem humor.
— Sério? Olha, eu não sei o que deu em você, mas eu não tenho mais tempo pra gente brincar de casinha, . Então por que não procura um garoto da sua idade pra fazer isso?
se encolheu levemente, franzindo o cenho diante da rigidez do tom de voz dele.
— Por que você tá agindo assim? — ela perguntou baixinho, sem entender. — Eu quis dizer o que disse, . Gosto de você. Desde sempre.
— Nem vem, . Eu sou velho demais pra você.
— Velho? São só cinco anos de diferença. Você fala como se eu ainda fosse adolescente. Eu tenho dezoito agora, lembra?
— Ainda assim, você é muito jovem. Eu não sou o cara certo pra você e provavelmente nunca vou ser.
— Isso não é você quem decide — ela retrucou, indignada por ele deduzir aquilo sem nem pensar direito, mal a ouvindo.
Aquela conversa não fazia sentido. E não estava sendo nada do que ela tinha esperado. Aquele tipo de reação? O que ela conhecia não costumava ser assim, tão ranzinza e amargo. Será que quatro anos longe dali tinha sido o suficiente para fazer o cara com quem ela cresceu mudar tanto? Ela até pensou em perguntar isso, mas quando abriu a boca, ele voltou a falar.
— Já que você se acha tão adulta assim, devia entender isso. Devia parar de se apegar a uma fantasia idiota que você criou quando era criança. Devia saber que eu não tenho mais intenção de namorar alguém. E mesmo que eu volte a namorar um dia, , nunca seria com você.
deu um passo para trás e abriu a boca por um momento, em choque.
— Você tá fazendo isso de propósito, não é? Tentando me afastar.
a encarou com o rosto quase inexpressivo, exceto pela frieza de seus olhos.
— Eu tô só dando a minha opinião sobre o assunto, já que você insiste tanto nisso. Não se iluda, .
Ela respirou fundo, desviando o olhar dele. Então, com um último resquício de coragem, perguntou:
— É por causa da minha cicatriz? — Ela levantou o olhar para encontrar o dele, já sentindo a visão embaçar com as lágrimas que se acumulavam. Seu coração bateu violentamente no peito e sentiu as mãos começarem a tremer e as fechou com força. — Você também acha ela repugnante que nem todo mundo que a vê?
O olhar dele suavizou.
... Você sabe que eu nunca liguei pra isso. Sua cicatriz não define quem você é.
— Mas é diferente, né? Eu era só sua amiga. Não, sempre fui só a melhor amiga da sua irmã, certo? — ela se corrigiu. — É mais fácil não ligar pra isso quando você nunca me viu de outra forma. Talvez eu tenha sido boba mesmo, ingênua de pensar que...
Sua voz morreu, incapaz de falar. Logo se viu respirando fundo mais uma vez, tentando não chorar. Não na frente dele, pelo menos. Seria humilhante demais, até para ela. Tinha que segurar firme em seu orgulho por mais um pouco, pelo menos até ficar sozinha.
— Não é pela sua cicatriz — reforçou, com firmeza na voz. — Não tem nada a ver com isso.
— Então por que é? — ela quis saber.
travou a mandíbula, ainda a encarando nos olhos.
— Não posso aceitar seus sentimentos, não posso retribuir. Você nem sabe se eles são reais. Devia sair com outras pessoas, gente da sua idade e-
— Você tá só inventando desculpas, né? — ela o interrompeu, cansada daquela ladainha. — Ou é a sua ex? Você ainda não superou ela?
Fazia três meses desde o término dele. A única coisa que sabia era que ninguém gostava da tal de Megan. Contudo, não tinha noção dos detalhes do relacionamento, já que nunca falou nada para ela ou Mia, muito menos publicamente. Imaginava que os amigos dele, membros da Cave Panthers, deveriam saber, mas nem sequer os conhecia.
De todo modo, algo na fala dela pareceu afetá-lo por um instante, e ficou em silêncio, hesitante.
— Eu nunca vou ser boa o suficiente pra você, né? — Ela o encarou nos olhos outra vez, no momento exato em que a primeira lágrima caiu. Maldição. Ela tinha que ter segurado mais. — Quer saber? Você tem razão. Eu fui idiota de achar que essa conversa pudesse dar certo.
.
— Eu vou pro meu quarto — ela declarou, desviando o olhar dele e passando as mãos no rosto rapidamente para secar quaisquer resquícios de lágrimas. Já bastava uma ter escapado. — Se alguém perguntar, diz que fiquei com cólica.
— Você sabe que ninguém acredita mais nessa desculpa.
— Então que se dane. Diga que me deu um fora, então. — Ela o encarou, com um misto de sentimentos que mal conseguia definir.
Em seguida, deu um passo para frente e esbarrou nele de propósito, dando-lhe uma cotovelada nas costelas.
— Ai! — reclamou, cambaleando para o lado, mas ela não se virou para vê-lo se curvar de dor.
— Babaca.
E então continuou andando, sem olhar para trás nem mesmo uma vez.

Capítulo 1

6 de maio de 2018, 09:56 - Apartamento de , Nova York, NY

Ela estava atrasada.
Ou melhor, o vôo estava. Se tudo tivesse seguido conforme o plano, deveria estar ali desde as sete da manhã.
Ele não fazia ideia dos detalhes da vigem e toda informação que tinha a respeito daquilo eram as compartilhadas por Mia, sua irmã mais nova e melhor amiga de infância de . Infelizmente, para o desgosto de , Mia não era lá a melhor pessoa para se comunicar virtualmente, sempre esquecendo de responder as mensagens.
A última que ele havia enviado, por exemplo, havia sido respondida há dois minutos. Tinha perguntado há cerca de meia hora onde estava e se já estava a caminho, e a irmã apareceu apenas para dizer que a amiga já tinha entrado no elevador. Sempre em cima da hora, Mia, pensou. Aquilo significava que a qualquer momento, a campainha-
Ding dong.
se levantou do sofá, meio nervoso, e pigarreou um pouco antes de se dirigir para a porta e encontrar a mulher que dividiria o mesmo teto com ele pelos próximos meses.
Mal tinham se visto nos últimos cinco anos, o que havia sido um total de três vezes; a última delas, no concerto de aniversário da Cave Panthers, quando estava na cidade, hospedada em um hotel com Mia. Uma viagem curta para organizar algumas coisas de sua futura mudança para um pequeno apartamento acima do local onde funcionaria a doceria que ela abriria em breve.
Antes disso, a viu depois de um intervalo de três anos, em 2016, quando acompanhou Hero em uma viagem à Chicago, que o amigo fizera por motivos pessoais.

27 de março de 2016, 21:34 - Casa de Ellie e Mia , Chicago, IL

tinha acabado de entrar na casa onde cresceu para visitar a mãe e a irmã, quando deu de cara com na cozinha. Estava de costas, usando um vestido soltinho de mangas compridas, com as mãos em cima de uma caixa na bancada, que ele ouviu Mia comentar, enquanto guardava a louça, que era uma encomenda que tinha chegado pra ela mais cedo.
Toc, toc. — Ele bateu na lateral de um armário de madeira ali ao lado, anunciando sua presença. — Você lavando louça, Mia? Pelo visto, milagres realmente acontecem.
— Essa coisa esquisita no seu braço é uma tatuagem nova? Achei que fosse sujeira — a irmã rebateu com um sorriso, indo até ele para trocarem um abraço apertado. — Senti sua falta, irmão. Devia vir mais vezes.
— Vocês que deviam ir me visitar mais. Ou mudarem logo de cidade.
— Você sabe que mamãe nunca deixaria essa casa, e nem eu. Vou avisar a ela que você chegou.
— Tudo bem — disse, pouco antes dela desaparecer escadas acima. Então desviou o olhar, encontrando o de , e abriu um sorriso pequeno. — Oi, .
. — Ela o cumprimentou de volta com um leve aceno de cabeça, sem sorrir de volta. Diferente dele, não parecia surpresa em vê-lo. Mia provavelmente tinha comentado que ele estava a caminho.
— Você cortou o cabelo — ele comentou, encarando as mechas ruivas cortadas acima dos ombros , em um visual levemente bagunçado. — Ficou lindo assim.
— É, valeu.
Não havia qualquer emoção em sua voz, ou no seu rosto. Seus olhos, em tons de azul e mel, graças à heterocromia, estavam frios e sem ânimo. Bem diferente da adolescente que ele se lembrava de anos atrás, que não hesitava em abraçá-lo forte sempre que o via, e que distribuía sorrisos simpáticos a qualquer um mesmo sem ter um motivo.
— Como você tá? — ele perguntou, tentando puxar assunto naquele breve instante em que ficaram a sós.
Fazia anos que não a via — nem mesmo por fotos. Mia não postava praticamente nada nas redes sociais, e mantinha uma conta privada, onde nunca aceitou sua solicitação de amizade.
— Bem e você? — ela respondeu e perguntou no mesmo tom de voz apático de antes.
— É, tô bem... — disse , levando as mãos para trás, subitamente sem saber o que fazer com elas. — Soube que você se formou faz um tempo.
— Há dois anos.
Já fazia tudo aquilo? Que conversa estranha, ele pensou. Não tinha nem mesmo um assunto decente para falar com ela.
— Ah, claro… Tá trabalhando na área?
— Em uma confeitaria daqui. Pra ganhar experiência.
— Ah, sim, parece ótimo. — assentiu com a cabeça. — Você tá... Diferente — ele acrescentou.
Incrivelmente, aquilo pareceu chamar a atenção dela.
— Diferente? — Ela arqueou uma sobrancelha. — O que você quer dizer com isso?
Seu tom se voz se tornou defensivo e arregalou os olhos levemente, surpreso pela súbita mudança.
— Nada, só... Você parece mais... Quieta, eu acho — ele tentou explicar.
— Quieta? O que você esperava? Que eu saísse sorrindo e te recebendo de braços abertos depois de levar meu segundo fora, três anos atrás?
O comentário o deixou em alerta. Nunca tinham conversado propriamente a respeito daquilo, mas não esperava que ela fosse trazer aquele assunto à tona, de forma tão repentina.
, aquele dia-
— Não deve ser lembrado — ela completou, interrompendo sua fala. — Pode não parecer, , mas eu tenho algum orgulho em mim. E dignidade também. Você tá todo esquisito parado aí sem nem saber o que fazer com as mãos, então relaxa. Não vou ser estúpida e me declarar pra você uma terceira vez. Agora, se me der licença... Tenho que ir. Avisa a Mia que fui pra casa.
, espera — ele pediu, quando a viu pegar a caixa e se dirigir à saída.
Mas ela nem diminuiu o passo — na verdade, pareceu até acelerar, como se quisesse sair dali o mais rápido possível, como se a presença dele em sua frente fosse indesejada.
Talvez fosse mesmo.

6 de maio de 2018, 09:57 - Apartamento de , Nova York, NY

A campainha tocou novamente, e só então percebeu que tinha parado no meio da sala, perdido em pensamentos. A lembrança daquele dia se dissipou enquanto ele se dirigiu até a porta.
Do outro lado, o aguardava com um sorriso no rosto. Não um sorriso acolhedor, simpático, mas um que parecia dizer "talvez eu faça da sua vida um inferno". Havia deboche em sua expressão facial e corporal quando ela o cumprimentou.
— Oi, colega de quarto — ela disse, com um toque de malícia na voz. — Cheguei.
— Oi, entra. Foi tudo bem com a viagem? — ela perguntou, tentando parecer prestativo, mas a verdade era que não sabia bem como se comportar com aquela . Até no dia do concerto de aniversário da banda não teve nem sequer oportunidade de vê-la de perto, já que ela foi embora antes de finalizarem o show. E segundo Mia, foi para evitar a multidão e voltar mais cedo pro hotel, já que voltaria para Chicago no dia seguinte.
teve apenas o vislumbre dela de longe, que estava usando um boné que fez sombra na maior parte de seu rosto. Ou seja, praticamente nada.
E agora ela estava ali com seus olhos de duas cores, sorrindo de uma forma levemente assustadora, enquanto o encarava de bom humor.
— O atraso foi um saco e eu não dormi ontem à noite, mas foi tudo bem.
— Seu cabelo tá maior — ele notou, observando os fios acobreados caindo até abaixo de seu ombro coberto com uma blusa preta de manga única, cobrindo o lado da cicatriz.
Uma mensagem clara de que ela provavelmente ainda se sentia desconfortável em deixá-la à mostra em público.
— Eu resolvi deixar o cabelo crescer desde a última vez que a gente se viu — comentou, enquanto entrava no apartamento, empurrando a mala cinza que havia trazido.
— Achei que você gostava dele. Mia disse uma vez que foi o seu corte favorito, e concordo, eu também achei bonito.
— Por isso eu deixei crescer. — Ela sorriu. — Você disse que achava bonito.
— O quê? — piscou, absorvendo a informação. — Por que meu comentário te influenciaria a algo?
— Acho que eu quis ser do contra. — Ela deu de ombros e ele a encarou, incrédulo.
— Quer dizer que se eu disser que tá bonito agora, você vai cortar de novo?
— Seria uma possibilidade — ela admitiu, rindo ao ver a expressão confusa e levemente irritada dele. — Isso te irrita?
— É irritante, sim. E bem estúpido.
— Ótimo. Então eu acertei em cheio. Já que meu objetivo é justamente não te agradar.
— Que idiotice, .
fechou a cara e foi a vez dele de sentir satisfação.
Dois podem jogar esse jogo, Pimentinha.
— Lá vem você com esse de novo.
— É o seu nome. Por quê? Você não gosta? — Ele sorriu com ironia e andou até parar na frente dela. — Talvez eu devesse te chamar só assim agora, já que o objetivo é não agradar.
respirou fundo, resolvendo ignorar o comentário. Depois de anos sem mal ver , tinha quase esquecido como ele conseguia ser um pé no saco quando queria.
— Onde fica o meu quarto? — ela quis saber.
— Primeira porta à esquerda, indo pelo corredor. Também tem um banheiro nele.
— Ótimo. — assentiu. De repente, seus olhos pareceram finalmente revelar o cansaço da viagem. sabia bem como era chato quando os voos atrasavam.
— Tá com fome? — ele perguntou. — Tô indo fazer café da manhã pra mim, quer alguma coisa?
— Não, eu comi no aeroporto quando cheguei, então vou tomar banho e dormir.
— Claro, fique à vontade. Mas não tão à vontade assim, já que é só temporário.
— Não enche. Eu vou dividir as despesas com você.
— O quê? — riu, como se fosse uma piada. — Nem pensar. Não vou deixar você gastar nada. O objetivo de você vir pra cá é justamente esse.
— Mas-
— Assim você me ofende, . Vai logo descansar. Acho que a falta de sono não tá fazendo você raciocinar direito, se você tá falando tanta abobrinha.
Ele deu as costas, no intuito de ir até a cozinha, mas parou quando sentiu algo lhe atingir por trás. se virou, incrédulo, e olhou para o objeto caído no chão.
— Você acabou de jogar uma almofada em mim?
— Sim. E se quiser, jogo outra — ela respondeu. E sem esperar resposta, jogou mais uma, bem na cara dele.
— Ai! — reclamou, a voz abafada pela almofada, antes que ele a tirasse do rosto. — Tá maluca?
riu de sua expressão irritada.
— Talvez. — Ela deu de ombros. — Até mais tarde.
E saiu arrastando a mala pela sala até o corredor, em direção ao quarto.
a observou, meio confuso e irritado, até ela sumir de vista. Talvez ele estivesse mesmo certo quanto àquele sorriso que encontrou no rosto dela assim que abriu a porta. Talvez fosse mesmo capaz de fazer da vida dele um inferno.
No entanto, ele devia estar com algum problema... porque essa possibilidade nem parecia tão ruim assim.

Capítulo 2

trancou a porta atrás de si e suspirou, exalando a respiração de uma vez, e deixando cair a máscara de indiferença que tinha posto desde o momento em que tocou a campainha daquele apartamento.
A verdade era que ela ainda era uma idiota. Uma idiota com um coração estúpido que insistia em acelerar ao mínimo de interação com o homem que a rejeitou duas vezes.
Tecnicamente, foi só uma, uma vozinha na cabeça dela murmurou.
fez uma careta, respondendo de volta que não fazia diferença se ele estava com a ex naquele dia. Então fugiu antes de receber uma rejeição direta. E se forçou a esquecer tudo aquilo, esquecer e todos os sentimentos que ele causava nela desde quando ainda era adolescente.
Ela foi boba o suficiente para esperar ter dezoito anos para se declarar para ele. Mas talvez tivesse sido ingênua demais em achar que pudesse haver uma chance para os dois. E pior ainda foi cinco anos atrás, quando, aos vinte e um, ela tentou outra vez, achando que podia haver um pouquinho de reciprocidade dele — tudo por causa de uma música que ele tinha escrito.
Sua mente ingênua achou que se referia a ela, mas provavelmente era só algo aleatório que ele e os caras tinham composto. Ou pelo menos foi isso que tentou acreditar até um ano antes, quando em meio ao hiatus da Cave Panthers, gravou um vídeo curto para os stories do Instagram, cantando sobre uma garota ruiva de cabelo curto.
Até onde ela sabia, aquela música entraria para o álbum que seria lançado em breve. Aquele foi outro motivo para ela deixar o cabelo crescer de novo. Especialmente quando, há meses, Mia vinha tentando fazer dar certo o plano dela e morarem juntos.
faria um curso de culinária que havia ganhado de presente do avô — que vira poucas vezes antes de ele falecer, mas fora gentil o suficiente em ajudar com aquele presente —, e ainda tinha os preparativos da doceria e seu novo apartamento, que sequer havia sido esvaziado. O espaço da doceria estava quase pronto, mas o contrato com o último inquilino do apartamento ainda duraria quase três meses. abriria a loja antes, mas precisava de um lugar para ficar. No entanto, devido aos empréstimos que fizera para montar o próprio negócio, manter controle das finanças era essencial, e ela não podia se dar ao luxo de ficar em um hotel por tanto tempo.
Até tentou alugar uma quitinete a um preço acessível, mas todas eram longe demais da escola de culinária e da loja — o que deixaria seu já curto tempo diário ainda mais apertado.
Então veio a sugestão de Mia.
Ela sabia muito bem que a amiga provavelmente havia passado meses tentando convencer a aceitar aquele arranjo antes mesmo de propor a ela. Por mais que estivesse há oito anos sem conviver com — e há cinco, sem falar com ele —, ainda o conhecia muito bem.
Tinham crescido juntos, afinal.
Sabia como ele podia ser um idiota ranzinza e irritante quando queria.
Ele era o cara que sempre implicava com ela na mesma medida em que a defendia quando as pessoas olhavam feio para sua cicatriz. E até a primeira declaração acontecer, eles tinham uma amizade saudável. podia até dizer que eram muito próximos, mesmo depois que a banda decolou e ele ficou famoso, tornando seus encontros ficaram cada vez mais inconstantes.
Ficaram meses sem se falar. Depois, descobriu que ele havia trocado de número porque fãs haviam descoberto, mas nunca se importou em lhe passar o novo, e ela tampouco pediu a Mia. Quase um ano depois, quando ele apareceu na cidade para visitar a família, voltaram a se falar. Nada como antes, no entanto. Ela já não o enchia de mensagens de texto aleatórias e as conversas tinham se tornado breves mensagens educadas, como as trocadas com algum parente distante. A distância parecia um abismo entre os dois, mas algo em ainda insistia que ela poderia voar sobre ele até o outro lado.
Uma triste ilusão, de fato. Mal imaginava ela, naquela época, que o pequeno hábito de trocar mensagens deixaria de existir, e por decisão dela mesma.
Uma lembrança tentou espreitar em sua mente, mas ela sacudiu a cabeça para afastá-la. Aquele dia em si havia sido doloroso e não só por causa de . Não tinha por que pensar naquilo, e nem queria.
Estava cansada demais.
Tudo o que ela precisava fazer naquele momento era tomar banho e dormir.
E foi exatamente isso que fez.
Caiu no sono pouco depois de se jogar na cama e só acordou horas depois. Já eram quase quatro da tarde e o apartamento estava silencioso quando , ainda de pijama, saiu do quarto e foi em direção à cozinha.
Estava sozinha e comprovou isso quando encontrou um bilhete colado na porta da geladeira.

"Tô no apartamento vizinho ajudando com a mudança dele. Tem comida na geladeira, caso esteja com fome. - ."

Sacudindo o bilhete nas mãos, então olhou em volta, subitamente curiosa. O apartamento não era gigante, e ela imaginava que isso havia sido uma escolha do próprio . Não por questões financeiras, é claro, mas porque ele não era do tipo que gostava de extravagância. No entanto, mesmo não sendo extremamente luxuoso, o apartamento ainda era espaçoso e tinha vários cômodos espalhados pelo corredor. Também era aconchegante, como um abraço quentinho.
Aproveitando o pequeno momento sozinha, bisbilhotou o lugar, movida apenas pela curiosidade de ver onde estava morando agora. Mia havia dito que fazia poucos anos que ele havia se mudado, pois supostamente o endereço era mais próximo de onde e Hero moravam. E pelo visto, tinha tomado a mesma decisão, talvez pelo mesmo motivo.
Depois de uns cinco minutos perambulando pelo apartamento, voltou à cozinha e abriu a geladeira e os armários em busca de ingredientes para fazer um sanduíche. Para a sua surpresa, também encontrou várias caixas de leite de morango e banana, enfileiradas cuidadosamente em uma das prateleiras.
— Por que isso tá aqui? — ela perguntou a si mesma, pegando uma caixinha de leite de morango para tomar. — Ele odeia isso.
E ela adorava.
Tinha passado anos tentando fazê-lo gostar de bebidas diferentes, mas tudo o que bebia era o que considerava seguro. Mudanças não eram bem-vindas para ele desde que ela o conhecia. Tinha morado na mesma casa de sempre, estudado na mesma escola, e sempre comia os mesmos alimentos.
era o completo oposto.
Tinha nascido em Nova York e morou ali até os seis anos, até seus pais, ambos detetives, serem transferidos para Chicago. Nesse processo, eles mudaram de casa duas vezes antes de chegarem até a casa vizinha a de Ellie , e frequentou outras duas escolas em um intervalo de seis meses antes de ir parar na que e Mia estudavam.
Com as mudanças frequentes, manter amizades era difícil, mas desde que conheceu Mia, as duas se tornaram inseparáveis. veio por tabela, como irmão mais velho dela, mas sempre estava ali cuidando das duas quando os adultos não estavam por perto — ou a babá da vez que a mãe de contratava para ficar com ela.
Além dos próprios pais, os dois irmãos tinham sido a única constante na vida de . Mas como nem tudo eram flores, às vezes aparecia algo para abalar seu pequeno mundinho feliz. Como o incêndio acidental que a deixou com uma cicatriz eterna; e o divórcio dos pais, quando ela tinha vinte anos.
Seu pai agora trabalhava em outro estado há alguns anos, enquanto a mãe, Grace, permaneceu em Chicago. Assim como Mia e , ela e Ellie tinham se tornado boas amigas com o passar dos anos e, atualmente, quando Grace tinha tempo, era possível ver Ellie a arrastando para passeios e atividades, geralmente envolvendo algum tipo de arte ou artesanato.
e Mia provavelmente seriam iguais no futuro. Mas por enquanto, a amiga preferia ficar em Chicago, onde morava com o atual namorado e podia visitar a mãe sempre que quisesse — ao contrário de , que sempre quis voltar para Nova York.
Depois de comer e lavar a louça suja, voltou para o quarto e ficou navegando na internet com o celular, vendo vídeos aleatórios para passar o tempo. Em determinado momento, acabou adormecendo outra vez e quando acordou, já era noite. Decidiu tomar outro banho para despertar um pouco mais e saiu do quarto novamente, pensando se deveria cozinhar ou pedir delivery para o jantar, enquanto seu estômago reclamava outra vez.
Quando chegou na sala, estancou no lugar ao ver a TV ligada e no sofá, um pouco a frente. De repente, um cheiro de pizza que invadiu suas narinas, fazendo seu estômago reclamar ainda mais.
Como se notasse sua presença, se virou naquele instante.
— E aí, dormiu? — ele perguntou, casualmente.
— Sim. Faz tempo que você voltou?
— Mais ou menos uma hora. Eu pedi pizza pra gente, tem uma de quatro queijos também. — Ele apontou para uma caixa ainda fechada. — Vem, você deve estar com fome. Já passa das oito.
— Tá, valeu — ela murmurou, meio sem jeito.
Essa é a casa dele, ela pensou mesma. O que você esperava? Que ele fosse sumir por dias?
Era um pensamento idiota. Mas culpou seu raciocínio falho, de quem tinha acordado há apenas alguns minutos e perdido a noção do tempo. E, deixando isso de lado, ela deu a volta para sentar no sofá também — na ponta, a uma distância segura dele.
Então pegou uma fatia de pizza e começou a comer.
— Você viu o bilhete que eu deixei?
— Sim, eu saí pra fazer um lanche. Até achei leite saborizado na geladeira. Mas até onde lembro, você odeia esse tipo de coisa.
— E odeio mesmo — ele comentou, distraído com a TV, enquanto mordia outro pedaço de pizza.
— É? — arqueou uma sobrancelha. — E por que tem aqui? Comprou pra mim, foi?
— O quê? Eu-
Ele engasgou de repente, parando de falar. Por instinto, se aproximou para bater nas costas dele um pouquinho, e as esfregou enquanto ele se recuperava. Quando se acalmou, a encarou e seus olhos se encontraram por um instante, até que se afastou de repente, pigarreando.
— Você é muito descuidado — ela resmungou. — Eu só fiz uma pergunta.
— Acabei respirando errado, só isso — ele se defendeu. — E não comprei pra você. vive trazendo essas porcarias pra cá. Principalmente agora com a mudança. Ele tava dormindo até ontem no seu quarto porque ia montar os móveis dele só hoje de manhã.
— Ah, então eu bebi o leite dele? — se engasgou outra vez. — Caramba, hoje você tá que tá, hein?
se virou para ela, incrédulo.
Eu? Você ouviu o que acabou de dizer?
franziu o cenho, confusa, mas então percebeu e semicerrou os olhos.
— Você e sua mente suja.
— Mente suja? Eu não precisei nem me esforçar com você falando sobre beber o leite de .
— Tá bom! Já pode parar. Ou talvez eu vire a mente suja aqui — ela provocou.
— O que você quer dizer com isso? — Ele largou a fatia de pizza, voltando a atenção inteiramente para ela.
, pelo contrário, continuou a comer.
— O quê? Não sei se você percebeu, mas seu amigo é bem bonito. E solteiro.
— E daí? Tá pensando em investir nele?
— Quem sabe? — Ela deu de ombros. — Eu também sou solteira. Nada nos impede.
— Ele é velho demais pra você!
— Ele é mais novo que você. E nasceu em dezembro, o que o torna mais novo ainda. São só dois anos e meio, é metade da diferença que eu e você temos.
— E daí? Isso não tá em questão!
riu, divertida.
— E quem é você pra decidir? Eu não sou mais uma garotinha, . Tenho vinte e seis agora. Você não pode mais dar pitaco em nada.
— Não seja idiota, . O nem faz o seu tipo.
— Eu não tenho um tipo específico.
— Ele tem um senso de humor duvidoso.
— A sua irmã também, e somos melhores amigas — ela lembrou com um sorriso.
fez uma careta, mas continuou.
— Ele te faria assistir um monte de nerdice na primeira oportunidade.
— E daí? Eu faria ele assistir todos os meus musicais favoritos e cantar pra mim.
Ha! nem canta!
— Canta, sim!
— Ele só é vocal de apoio.
— Isso já é suficiente. — Ela deu de ombros. — Mas você ama ou odeia o seu amigo? Devia estar falando bem dele pra mim.
riu, achando o comentário engraçado.
— Esquece isso, . Ele nem combina com você.
— E quem combina? Você? — O sorriso dele se desfez, mas o dela aumentou. — Tá com ciúmes, ? Porque você sabe que não pode se sentir assim. Não tem direito. Porque não somos nada além de meros conhecidos, não esquece.
— Meros conhecidos? Nós crescemos juntos, . Te conheço muito bem pra saber e-
O som de um alarme o interrompeu. Seu olhar se voltou para o celular ao lado dela, que vibrava e tocava.
— Caramba, já são nove horas? — se levantou, obviamente se lembrando de algo.
— O que houve? — perguntou, curioso. — O que tem de nove horas?
— Meu remédio.
— Remédio? Você tá doente?
— Sim — ela confirmou, distraída, desligando o alarme.
— E é sério?
— Sim.
— Como assim? — Ele franziu o cenho. — O que você tem, então? Tá sentindo dor?
— Não, mas se eu não tratar, posso sentir. Volto já — disse, saindo por um momento e voltando com um comprimido nas mãos, que tomou rapidamente antes de voltar ao sofá com um prato.
Em seguida, colocou duas fatias de pizza nele e mordeu uma delas, como se nada tivesse acontecido.
— Você não vai falar nada? — quis saber. — Como assim você tá doente e eu não tô sabendo? Há quanto tempo você tá assim?
— Há cinco anos. Foi quando descobri.
— Descobriu? Descobriu o quê?
o encarou com humor brilhando em seu olhar.
— Bem, parece que você não me conhece tão bem assim. Não mais. — Em seguida, se levantou. — Vou voltar pro quarto. Tem um drama que tô acompanhando e saiu episódio novo. Parece que eu e temos mais em comum do que você imagina. — Ela deu uma risadinha. — Além disso, ele é o meu favorito da banda.
— Ele é o quê?
— Ah, esqueci. Você também não sabia disso.
— Que história é essa, ? Desde quando?
Em resposta, apenas sorriu — e se foi. O barulho na TV fez ruído em meio ao silêncio que ela deixou, mas sendo sincero, não ouviu quase nada. Sua mente estava ocupada demais com dezenas de pensamentos para prestar atenção em outra coisa a não ser a garota ruiva que o deixou sem fala.
E tudo isso em menos de doze horas que ela estava ali.
O que mais teria que encarar?

Capítulo 3

7 de maio de 2018, 14:49 - Apartamento de Hero, Nova York, NY

ouviu o telefone chamar algumas vezes e xingou quando caiu na caixa postal.
— O que foi? Ela não tá atendendo? — perguntou, sentado ao lado dele, no sofá do estúdio de Hero.
— Não, essa pirralha é péssima pra atender ligações. Nem sei pra que ela tem celular.
— Tenta de novo — sugeriu.
suspirou e fez uma nova ligação, contando mentalmente quantas vezes chamava. Um, dois, três...
— O que você quer? — Mia perguntou, parecendo irritada. — Eu tava dormindo, seu idiota. Para de me ligar!
— Quem você tá chamando de idiota, sua pirralha? — Ele retrucou prontamente. — E isso nem é hora de dormir!
Os rapazes riram baixinho.
— Não enche, ! Diz logo o que você quer.
— É a .
— O que tem ela? Vocês já começaram a brigar?
— Por quê? Ela te falou alguma coisa? — ele indagou, desconfiado. — Tipo que jogou não uma, mas duas almofadas em mim?
— Posso ou não ter ouvido que você foi um babaca — a irmã respondeu, fazendo ele rolar os olhos. — Mas acho que não é sobre isso que você quer falar, né?
— Não, não é sobre isso. Ontem um alarme tocou pra ela tomar um remédio. Ela disse que tá doente, mas não falou o que é.
— Ah, isso.
Isso? repetiu. — Ela disse que pode sentir dor se não tomar o remédio e-
— Bem, ela não vai morrer, se é com isso que você tá preocupado.
— E que doença é essa? Ela disse que faz cinco anos que descobriu.
— Bem, esse é um assunto meio delicado pra e se ela não te disse ainda, então não quer que você saiba — Mia concluiu. — Não posso falar nada, irmão. Mas relaxa, tá tudo sob controle. Não precisa se preocupar.
— Se você diz... — ele respondeu.
Mas era óbvio que estava preocupado. Não saber sobre o deixava inquieto. Especialmente quando era algo relacionado à saúde dela. Já bastava os anos longe e no escuro quando se tratava dela, agora tinha que continuar assim mesmo os dois vivendo sob o mesmo teto?
— Era só isso? — Mia quis saber. — Vou voltar a dormir, depois a gente se fala.
— Mia, espera-
Mas ela desligou antes que ele completasse a frase. tentou ligar de novo, mas a ligação nem completou. Desistindo, ele jogou o celular de lado, em meio a um suspiro.
— E aí? O que ela disse? — perguntou.
— Ela disse que é algo meio delicado pra , e que ela tem tudo sob controle. Mas não falou o que é, só que eu não precisava me preocupar.
— Não deve ser nada sério, então — deduziu. — Talvez depois ela te conte, faz anos que vocês não convivem.
— Verdade — Hero concordou. — Mal me lembro dela, mas a gente só se viu algumas vezes, né? Ela nunca chegou a conversar com nós.
— Acho que ela era tímida naquela época. — disse. — A única coisa que eu sei é que ela faz cupcakes incríveis.
— Queria provar os cupcakes da comentou distraidamente e deu-lhe um tapa atrás da cabeça. — Ai! Por que você me bateu? Eu amo cupcakes, seu idiota!
— A falou algo do , ? — Hero perguntou com um sorriso, jogando uma verde.
— Disse que ele é o favorito dela na banda — ele respondeu, sem tirar os olhos de . — E que ele é bonito. Ela tava tentando me irritar.
— E o que eu tenho a ver com isso, seu doido? Não tenho culpa se ela me acha bonito — o mais novo disse, esfregando o local atingido. — Talvez eu devesse ficar amigo dela só pra te irritar também.
— Nem pensar, fique longe dela.
— Ah, é? Como você sugere isso? Nós somos vizinhos agora — provocou.
— Pois é, cara. E daí se rolar alguma coisa? A é solteira e o também — Hero acrescentou, colocando lenha na fogueira.
— É verdade — concordou. — E ele é só uns três anos mais velho.
— Pois é — disse. — Ela se declarou pra você duas vezes. Na primeira, você rejeitou ela como um babaca. Na segunda, não fez nada e deixou ela ir embora.
— Como um covarde — Hero completou.
— Ela tem o direito de seguir em frente se quiser — concluiu.
— Não com você, idiota — retrucou.
Hero deu uma risadinha.
— Ciúmes não combina com você, .
— Pois é, e entre nós, é o mais comportado de todos — comentou. — Ele devia ser a última pessoa com quem você deveria se preocupar em ver a namorando.
— É, cara. Podia ser pior. Podia ser o Riv. — apontou para o amigo, sentado em frente a ele, ao lado de Hero. — Duvido que ela deixaria um partido desses escapar. Sorte a sua que a chegou antes.
— Cala a boca, resmungou. — Por que vocês não deixam esse assunto de lado de uma vez?
— Porque é divertido te irritar — Hero respondeu. — O curso dela já começou?
suspirou, se dando por vencido.
— Já, encontrei um bilhete na geladeira quando acordei. Ela disse que começava hoje, e que voltava no fim do dia. Mas não sei detalhes de nada.
— É bom que dá tempo de você se preparar psicologicamente pra encontrar ela hoje — brincou.
— Por que eu precisaria? Conheço a há vinte anos.
— E faz mais da metade desse tempo que parou de conviver com ela. As pessoas mudam, cara. — Hero alertou. — Você mesmo chegou falando aqui que achou ela diferente e mais distante.
— Se ela continuasse saltitante ao redor do cara que rejeitou ela duas vezes, isso sim seria preocupante — resmungou, ganhando um olhar mortal do amigo. — Não me olha assim, você sabe que é verdade. E era por isso que você não queria morar com ela.
— Ou é que nem a gente pensa e ele sempre gostou dela — Hero provocou. — Só nunca admitiu.
— Cada um com sua própria Garota K. riu, fazendo rolar os olhos.
— Foram só duas músicas. E eu nunca disse que tinha a ver com ela.
— Até porque você conhece um monte de ruivas com sardas e cicatrizes por aí — O amigo retrucou.
— Não esquece os olhos de duas cores — Hero lembrou. — A gente teve que vetar isso pra não ficar na cara.
— Um monte de gente tem sardas. E as cicatrizes são uma metáfora. A maioria das músicas sempre cita uma loira ou morena, então eu quis-
— Sim, sim, a gente sabe — o interrompeu, dando-lhe tapinhas no ombro. — Admiro seu esforço, . Se fosse eu, já tinha jogado tudo pro alto há anos. E a é adulta agora.
Sim, ela era.
E ele teria um lembrete constante disso pelos próximos meses.

***


7 de maio de 2018, 18:33 - Nova York, NY - A caminho do apartamento de

— Quer dizer que ele te ligou? — perguntou no telefone, soltando uma risada, e olhou pela janela do Uber enquanto ouvia a amiga.
— Ele queria saber da sua doença. Não contei nada, só disse que você tinha tudo sob controle, mas acho que ele ficou preocupado.
— Que fofo — ironizou, não se importando nem um pouco.
— A amiga a repreendeu. — Acho que você podia relaxar um pouco em relação ao . Já faz muito tempo.
— Relaxar? — Ela bufou. — Bem que eu queria. Mas você sabe que sob o mesmo teto que ele torna tudo mais difícil, Mia. Você sabe que eu só aceitei isso porque parecia a melhor opção. E sei muito bem que você deve ter passado meses tentando convencer seu irmão também. Ele também não parece confortável perto de mim.
— Você se estranharam há anos. Eu sei que foi um babaca, mas... Acho que ele se arrepende, se é que aquelas músicas significam algo.
— As músicas não devem significar porra nenhuma. Se é de mim que ele fala, então inventou a droga de uma história, porque não me disse nada daquilo. Pode ser qualquer garota ruiva que ele tenha conhecido.
— Nós duas sabemos que isso não é verdade — Mia insistiu.
— É? Beleza. Então, supondo que ele foi sincero com as músicas, por que nunca admitiu nada pra mim? Se de repente ele passou a sentir algo por mim, não seria justo me contar?
— Você sabe como o é, ele nunca soube se abrir direito. Essa coisa de sentimentos-
— Foda-se essa coisa de sentimentos, Mia. Eu tô cansada. Não tô nem aí se seu irmão tá preocupado comigo ou não, se tem sentimentos ou não. Mal vejo a hora de estar no meu próprio apartamento, cuidando da minha vida, e longe dele.
— Tem certeza? Não se importa mesmo ou é isso que você tá dizendo pra si mesma, ? Talvez esse seja o momento de você e finalmente se resolverem.
riu pelo nariz.
— Você fala como se tivesse algo entre a gente.
— Eu sei o que eu vejo. Das últimas vezes que ele te viu e você foi embora, ele ficou desapontado. Inclusive no show, que você fez questão de sair mais cedo só pra não se encontrar com ele.
— Tanto faz, Mia.
— Eu sei que você ainda tem sentimentos pelo meu irmão, . E te entendo. Mas não sei de agir com indiferença ou com raiva vai servir de alguma coisa.
respirou fundo, não querendo prolongar aquela conversa.
— Olha, amiga, tenho que desligar. Depois a gente se fala — foi tudo o que disse.
Felizmente, Mia entendeu.
— Tá, vai me atualizando sobre tudo. Até depois. — E encerrou a ligação.
encostou a cabeça no banco e fechou os olhos por um instante. Aquela conversa havia despertado a lembrança que ela vinha tentando evitar. Seu corpo estremecia só de lembrar do dia em que se declarou para pela última vez, o mesmo em que passou mal pela primeira vez e a levou a descobrir sua doença.
Mas, dessa vez, não conseguiu afastar as memórias que invadiram sua mente.

16 de julho de 2013, 16:53 - Antigo apartamento de , Nova York, NY

— Tem certeza de que quer ir sozinha? — Mia perguntou a ela.
— Claro que tenho. Por que eu ia querer você de testemunha enquanto me declaro pro seu irmão?
Em resposta, a amiga riu, divertida.
— E a cólica? Ainda tá sentindo?
— Sim, mas nada muito forte. Vou comprar um remédio depois que voltar. Não acredito que menstruei logo hoje.
— Deixa que eu compro, então. Tem uma farmácia logo ali. — Mia apontou para uma esquina. — Vou comprar rapidinho e volto pra te esperar em frente ao elevador.
— Tudo bem. — assentiu e se despediu dela, antes de seguir até a portaria.
Estavam no meio de uma viagem da faculdade e tinham visitado ali no dia anterior, mas se recusou a ir embora sem falar seus sentimentos mais uma vez. Não sabia se estava sendo corajosa ou estúpida, mas quis tentar mesmo assim.
Só mais uma vez.
A Cave Panthers tinha lançado uma música no aniversário da banda, há três meses, e desde então ela não tinha parado de pensar naquilo.
"The Red Sunshine" era o título. Escrita por , falava sobre uma garota brilhante como um raio de sol, de cabelo ruivo e sardas no rosto. Hero dividia os vocais com , enquanto os dois cantavam sobre sentir falta da tal garota que o conhecia tão bem, mas que estava longe agora.
Mia mostrou a música a ela assim que foi lançada e uma faísca de esperança tinha nascido no peito de desde então. Na noite anterior, quando visitou com a amiga, ele a recebeu com um abraço apertado e demorado que fez seu coração se aquecer. O frio na barriga ainda estava lá, mas não era nenhuma surpresa.
Nunca conseguiu esquecê-lo, mesmo quando ele inventou desculpas esfarrapadas para afastá-la. Mesmo quando ela tentou sair com outros caras durante os últimos três anos, mas não conseguiu desenvolver sentimentos sólidos por nenhum deles.
E agora tinha essa música, que era quase como um pedido de desculpas. Uma indireta sobre sentimentos velados, nunca revelados.
se segurou várias vezes na noite anterior, mas o nervosismo a fez desistir de ter aquela conversa naquele momento. Ela só tinha mais três dias em Nova York, no entanto, sabia que viajaria em breve por causa de um compromisso, então não tinha mais tempo a perder.
Na portaria, falou com o porteiro, que a reconheceu do dia anterior, e ele a deixou subir. sabia que era porque havia dado passe livre a ela e Mia para visitá-lo sempre que quisessem. Obviamente, ela deveria ter avisado antes, mas tudo isso havia ficado em segundo plano quando decidiu tentar a sorte mais uma vez.
No elevador, uma pontada de dor a atingiu outra vez e ela colocou a mão sobre o próprio ventre, fazendo uma careta. Estava aumentando um pouco e era incômodo, mas nada fora do comum. Logo, podia esperar.
Ela não planejava demorar, de qualquer forma.
Assim que parou na frente da porta de , tocou a campainha e encarou o número 406 grudado na porta, enquanto esperava.
Levou apenas alguns segundos para ele abrir. Estava usando um moletom preto largo e um short jeans na altura dos joelhos.
? O que você tá fazendo aqui? Esqueceu alguma coisa?
— Não, eu... Queria te dizer algo. Pensei em dizer ontem, mas perdi a coragem. — Ela riu, meio sem jeito. — Mas agora tô aqui de novo, e decidi não deixar Nova York sem antes te contar.
— Me contar o quê? — Ele a encarou com curiosidade.
— Que eu tentei. Nos últimos três anos, , eu juro que tentei deixar todos aqueles sentimentos de lado, e até segui seu conselho. Saí com um monte de caras, a maioria da minha idade, mas nenhum deles fez eu me sentir como você faz. Meu coração se aquece sempre que te vejo. Quando você me abraça, é como se eu tivesse voltado pra casa depois de uma longa viagem. E acho que talvez... Dessa vez, talvez eu esteja certa em pensar que você sinta algo também, mesmo que seja só um pouco.
.
— "The Red Sunshine" — ela continuou a falar. Estava praticamente vomitando as palavras a ponto de ficar ofegante. — É sobre mim, não é? Foi você que escreveu. Que outra garota ruiva ia te conhecer tão bem quanto eu? — Ela riu, nervosa. — Eu tô aqui me abrindo pra você de novo e... Sinceramente, nem eu acredito que tive coragem de fazer isso outra vez. Mas eu queria deixar claro que nada funcionou e meus sentimentos nunca mudaram. Eu ainda sou completa e irrevogavelmente apaixonada por você, . E quero que saiba que tenho plena certeza de que esses sentimentos são reais e... Eu te amo. Só isso.
Ela estava ofegante, o encarando com expectativa enquanto tremia em pé, ainda nervosa, com as mãos suando. A dor aumentou um pouco, mas ela a ignorou e sequer vacilou. No entanto, continuava parado, a encarando como se não soubesse o que dizer.
, eu...
— Caramba, que discurso. Aposto que você nem respirou — Uma voz surgiu atrás dele e imediatamente reconheceu a mulher loira. Era Megan, a ex dele. — Quem é essa fofinha? Uma fã que conseguiu passar pela portaria? Acho que esse prédio não é tão seguro assim.
Parecendo voltar à realidade, encarou a mulher parada de braços cruzados ao lado dele.
— Eu disse pra você esperar — ele disse entredentes. — Sai daqui, Megan.
— Ai, tá bom. Mas anda logo. — Ela revirou os olhos, voltando para dentro.
se voltou para , que parecia em choque.
, isso não é-
— E-eu não sabia que você tinha companhia — ela disse, desviando o olhar para baixo. — Meu Deus, que idiota. E eu ainda apareci sem avisar...
Toda a coragem parecia ter se esvaído e sido substituída por pura vergonha. Seus olhos estavam se enchendo e sua garganta se apertou.
, não é o que você tá pensando. A Megan-
— Não, não precisa falar. Desculpa por vir aqui e jogar tudo isso em cima de você. De novo. Eu achei que... Bem, achei errado. — Ela riu, deixando uma lágrima cair. A limpou rapidamente e levantou o olhar. — Eu sou muito estúpida, né? Eu já devia saber. Devia saber que manter esperança era inútil e que você... Que você nunca... — Ela não conseguiu concluir. — Eu vou embora. Desculpa mais uma vez. Esquece o que eu falei.
se virou para sair, mas mal deu dois passos quando sentiu ele agarrar seu pulso.
— Não, espera. Você não tem que ir. A Megan já tava de saída e a gente pode-
— Não precisa se justificar, . Você não me deve nada. Nem tem culpa por eu ser tão iludida — ela disse, sem olhar para ele. — Mia tá me esperando lá embaixo, a gente vai voltar pro hotel.
— Então deixa eu levar vocês até lá — ele pediu, parecendo angustiado.
se perguntou se o tinha deixado tão desconfortável assim.
— É sério, . Eu não consigo olhar pra você agora. Me deixa em paz.
E então ela puxou a mão e foi embora.
não tentou segurá-la outra vez, e se perguntou porque aquilo também doía. Ele estava fazendo exatamente o que ela havia pedido.
Quando entrou no elevador, e as portas se fecharam, ela se apoiou na barra, respirando fundo. Pelo espelho, notou que estava pálida e começando a suar frio. Então uma nova pontada de dor veio, a fazendo estremecer e se encolher. se sentou no chão e abraçou os joelhos, gemendo baixinho. A dor agora parecia insuportável e ela ficou assustada, sem saber o que estava acontecendo.
Era como se tivesse facas sendo enfiadas nela. As lágrimas continuaram a rolar, dessa vez não por , mas pelo medo que sentiu naquele momento.
Felizmente, quando o elevador se abriu, a primeira pessoa que ela viu foi Mia, que se alarmou assim que a viu.
! Você tá bem? O que aconteceu?
— A dor... Aumentou. — Ela fez uma careta e estremeceu novamente ao sentir o ventre latejar outra vez. — Me tira daqui.
— Vem, deixa eu te ajudar a levantar. — Mia a segurou pelos abraços, a ajudando a se apoiar. — Eu vou ligar pro e pedir ajuda — ela disse, já pegando o celular.
— Não, ele não. Por favor, só me leva pro hospital. Eu tô com medo, Mia. Vamos só pegar logo um táxi.
— Certo, certo. Vamos, então. Acho que deve ter um hospital aqui perto.
E realmente tinha, a alguns quarteirões de distância, mas pareceu bem mais longe do que era. No caminho, tomou o remédio que Mia havia comprado, mas provavelmente nem deu tempo de fazer efeito.
Felizmente, no hospital ela logo foi atendida por uma enfermeira que a examinou, enquanto fazia várias perguntas.
— Essa é a primeira vez que você sente?
— Sim, às vezes eu sinto cólicas, mas nunca foi assim.
— Tudo bem, vou te encaminhar pro ginecologista e te acompanhar até lá.
— Obrigada.
A enfermeira guiou e Mia até um elevador e, um minuto depois, as três entraram em um consultório do qual uma paciente tinha acabado de sair.
— Oi, Eric. Essa paciente deu entrada reclamando de dor no baixo ventre. Tá no primeiro dia de menstruação e diz nunca ter sentido isso antes. Eu te encaminhei as anotações.
— Sim, eu acabei de ver. Lilian , certo?
— Sim — ela respondeu.
O homem fez mais algumas perguntas e a colocou em uma maca para fazer um breve exame físico, então decidiu passar uma medicação.
, faz uma ampola de tramadol nela. E transamin, por favor. Talvez o fluxo intenso esteja provocando a dor. Enquanto isso, vou solicitar alguns exames.
A enfermeira assentiu e saiu do consultório, voltando alguns instantes com uma bandeja com soro e materiais.
— Vou pegar o acesso aqui e depois da consulta eu te levo pro ambulatório pra terminar a medicação lá — ela explicou.
— O senhor acha que é algo sério, doutor? — Mia perguntou ao médico, preocupada.
— Pode ser alguma inflamação, ou apenas uma cólica muito forte. De qualquer forma, solicitei alguns exames de sangue e uma ressonância magnética só para ter certeza. Gostaria que você voltasse aqui assim que tiver os resultados, Lilian.
— Certo. — assentiu, fazendo uma careta quando a enfermeira, , colocou o soro nela.
— Você tem olhos lindos — ela comentou, simpática. — É a primeira vez que vejo alguém com heterocromia. Seu cabelo é natural também?
— É, sim — ela respondeu baixinho.
— Que inveja — ela brincou, fazendo rir. — Prontinho. Logo o remédio vai começar a fazer efeito.
— Obrigada. — sorriu e sorriu de volta, antes de se afastar com os materiais.
Para seu alívio, a dor começou a diminuir quase que instantaneamente. E antes de chegarem ao ambulatório, já se sentia bem melhor. Quando a medicação acabou, a enfermeira explicou os procedimentos dos próximos exames e a dispensou.
Dois dias depois, ela voltou para fazer a ressonância magnética e, no dia seguinte, algumas horas antes de voltar para Chicago, ela retornou ao consultório do Dr. Eric com os resultados.
Não sentiu mais dores e fluxo menstrual havia diminuído consideravelmente. Mia a acompanhou em todos os procedimentos e, como prometido, não contou nada a . Acabaram encontrando a mesma enfermeira de antes e, mais uma vez, ela as acompanhou até o consultório.
— Como eu desconfiei — Dr. Eric disse, assim que terminou de ler. — Seu laudo sugere endometriose profunda, Lilian. Há algumas aderências nos ovários e também em uma das trompas. A dor que você sentiu foi por causa disso.
Ele então explicou em detalhes sobre a doença, e afirmou que poderia ser controlada com o tratamento correto.
No entanto, a má notícia também veio.
— Não é uma doença que tem cura, mas uma vez que você chegar na menopausa, os focos vão diminuir, só que até lá eu recomendo que você fique tomando uma medicação específica todos os dias. Quanto à saude reprodutiva, infelizmente é uma doença que pode causar certo grau de infertilidade, que varia de mulher para mulher. No seu caso, como os ovários foram atingidos, é provável que os óvulos não tenham qualidade suficiente para sustentar uma gravidez.
— O quê? — piscou, atônita. — Quer dizer que eu não posso engravidar?
— É possível, mas eu diria que é bem difícil de se conseguir. As chances são em torno de um por cento. Você pode querer tentar um dia, mas... Mesmo havendo uma gravidez, pode ser que ela tenha complicações e você sequer consiga seguir adiante. Eu sinto muito.
Aquela parte da notícia seria ótima se não quisesse ser mãe um dia, assim como Mia. O problema era que ela queria. Sempre sonhou em ter uma família e agora as chances disso acontecer tinham se tornado quase zero.
A enfermeira explicou mais algumas coisas referentes à medicação junto com o médico, mas ela mal ouviu.
De repente, ela tinha uma escolha e, em seguida, não mais.
mal falou pelo resto do dia, inclusive na viagem de volta para Chicago. Sua cabeça estava cheia de pensamentos e agora ela tinha que lidar com uma nova realidade, muito diferente daquela que ela tanto sonhou.

Dias atuais...

O uber parou em frente ao endereço de , e os pensamentos de finalmente despertaram daquela lembrança.
Assim como há cinco anos, sua cabeça ainda ficava cheia sempre que pensava naquilo, mas agora era um pouco diferente. Tinha se adaptado melhor, adquirido mais qualidade de vida, e era saudável. Não tinha do que reclamar. Também estava mais velha e mais madura.
Com o passar dos anos entendeu que ser mãe não era algo que estava no seu controle. Provavelmente nunca seria e estava tudo bem, já tinha aceitado aquilo.
Agora era hora de se concentrar em outras coisas, como sua carreira.
No elevador, olhou para a sacola térmica que carregava os docinhos que ela tinha feito na aula daquele dia e sorriu.
Talvez ela desse um ou dois a , só pra ser boazinha.
Se ele merecesse.

Capítulo 4

encarou a vasilha com docinhos de chocolate cuidadosamente enfileirados e sentiu a boca salivar de vontade.
Uma parte dele amava doces. Mas a outra, a que era extremamente desconfiada, o fez encarar com receio.
Estava sentado em um banquinho no balcão da cozinha e estava parada em pé do outro lado, o encarando de volta com um brilho esquisito no olhar.
— Tem certeza de que posso comer? — ele perguntou. — Isso é algum tipo de acordo de paz?
— Acordo de paz? De jeito nenhum. Por que eu ia querer parar de te irritar? — Ela riu pelo nariz. — Você fica muito engraçado quando tá com raiva.
— Se não é isso, por que tá me dando doces do nada?
— Porque eu vou acabar engordando se comer tudo o que fizer no curso, e você adora doces. Mas se não quiser, eu posso oferecer pro . Eu bem que queria conhecer ele mesmo. — Ela segurou na vasilha, pronta para tirá-la dali.
— Nem pensar. — Ele colocou as mãos sobre as dela, a impedindo. Sentiu um leve choque com o toque, e puxou o recipiente para si, quebrando o contato. — Eles são meus.
— Nossos. Eu disse que não ia comer tudo, não que não ia comer nada. — Ela se inclinou para frente e pegou um dos docinhos, colocando na boca. Em seguida, veio um gemido de satisfação. — Hm...
se mexeu, desconfortável.
— Tá bom?
— Sim, uma delícia — ela respondeu, sem olhar para ele, e lambeu o chocolate dos dedos. prendeu a respiração e a encarou imóvel, torcendo para que ela não percebesse sua reação. — Por que é tão gostoso?
Por que você tá fazendo essas coisas como se fosse algo obsceno?
— Algo obsceno? — perguntou. Só então percebeu que havia pensado em voz alta. Ele arregalou os olhos levemente e ela riu. — Bem que poderia ser mesmo. Me dá até algumas ideias.
— Ideias de quê? — ele quis saber, enfiando um docinho na boca. Quando mordeu, uma uva explodiu. Era uma delícia. Talvez pudesse roubar alguns quando ela estivesse olhando para outro lugar.
— Pra tentar um dia — continuou e ele franziu o cenho, sem entender. — Você sabe, na cama — ela concluiu com um sorriso, o fazendo engasgar.
tossiu algumas vezes e a encarou com espanto.
— Por que você tá falando disso de repente? Isso não é-
— O quê? — ela o interrompeu, ainda sorrindo. — Te surpreende saber que eu tenho fantasias?
.
— Foi você que começou a falar sobre coisas obscenas. E não seja idiota, não sou mais uma adolescente com vergonha de tudo. Posso nunca ter me envolvido seriamente com ninguém, mas também não sou santa — ela brincou, mordendo outro docinho. — Hm… vou ter que colocar isso no cardápio.
Naquele ritmo quem iria começar a corar a qualquer momento era ele. E não de vergonha. Ela tá se referindo ao cardápio da loja dela, seu idiota!
Mas desde quando falava abertamente sobre sexo? Ele ainda lembrava de suas bochechas rosadas quando Mia descobriu uma revista escondida embaixo de seu colchão e zombou dele. Ao contrário de , sua irmã sempre teve uns parafusos a menos, e praticamente nenhum filtro de fala.
— Eu... Você não devia...
— Caramba, deixei sem fala? Isso é inédito. Não, espera... Não é inédito — ela se corrigiu, lembrando da última declaração para ele. — Mas não foi engraçado como agora.
respirou fundo, sabendo exatamente do que ela falava. Mas se recusava a tocar naquele assunto.
Felizmente, antes de voltar a falar, a porta do apartamento se abriu.
— Cara, você tem super cola? — ele perguntou, antes de notar a presença de . — Oi, você é a , né?
— Oi, . Prazer em te conhecer. — Ela sorriu, estendendo uma mão para ele apertar. Em seguida, apontou para a vasilha em sua frente. — Aceita um docinho?
— Claro. — Os olhos dele praticamente brilharam, e ele levantou uma mão na direção.
— Não. — puxou a vasilha para si, mais uma vez. — Você deu eles pra mim, por que tá oferecendo pra ele agora? — E então ele se virou para . — E não, não tenho super cola.
— Eu disse que ia dividir com você — ela retrucou. — Não seja idiota, .
— É, . Não seja idiota e mesquinho. Me dá um docinho — disse, claramente se divertindo com a situação.
Meio a contragosto, pegou um — e apenas um — dos doces e colocou na mão dele. No mesmo instante, o enfiou na boca de uma vez.
— Como você entrou aqui? Eu mudei a senha quando a veio.
— Hmm... Isso é muito bom. Quando você vai abrir sua doceria? — ele perguntou a .
— Provavelmente mês que vem, mas só por meio período até eu terminar o curso novo.
— Ei. — estalou os dedos na frente do rosto do amigo, que parecia ter esquecido da presença dele. — Eu fiz uma pergunta. Como entrou aqui?
— Você deixou a porta aberta. — Ele deu de ombros.
— Deixei, é? — Ele se voltou para , com uma sobrancelha arqueada, e cruzou os braços.
— Opa... — Ela riu, sem graça. — Acho que esqueci de verificar se tinha fechado mesmo.
— Percebi.
— Mas e aí, ? — roubou outro docinho. — O que você vai fazer mais tarde?
cerrou os olhos para ele.
— Por que você tá perguntando isso pra ela?
— Você disse que eu sou o favorito dela, então achei que seria legal a gente se conhecer.
— É verdade — concordou. — Sempre te achei muito fofo. Eu te vi algumas vezes com , antes da banda ganhar fama, mas acho que você não lembra de mim.
— Esse idiota nunca apresentou você e a Mia oficialmente pra gente. Ele dizia que não queria nenhum marmanjo perto da irmã dele.
— Pois é, ele morria de ciúmes da Mia. E nem deixava a gente frequentar as apresentações.
— Vocês eram menores de idade — retrucou. — E a gente se apresentava em bares.
— E o festival? A gente teve que ir escondida porque você tinha vergonha de se apresentar na frente da sua família. Você nunca nem tocou nada pra Mia e eu.
— Vou ter que defender ele nessa — disse, com uma careta. — Passei muito tempo sem deixar minha família me ver no palco também. Meus pais são bem rígidos, então sempre fiquei meio receoso.
— Deve ter sido difícil. — tocou o ombro dele, num gesto de empatia. — Mas a Sra. não era tão rígida, só trabalhava muito e não tinha tempo.
— É, e não vi mais motivo pra perturbar ela com isso — justificou. — Não foi grande coisa.
— Se você diz... — deu de ombros e se voltou para , abrindo um sorriso novamente. — Eu tinha pensado em começar a ver um drama coreano hoje. Mia assistiu e disse que é legal.
— É? Posso ver com você? — O amigo perguntou prontamente. — O jantar fica por minha conta.
— E desde quando você assiste essas coisas? — perguntou a ele.
— Faz uns seis meses. A começou um que a agente dela indicou quando eu tava lá e acabei vendo um episódio com ela. Daí foi só ladeira abaixo. Já devo ter visto uns dez. — Ele riu. — Mas por que você tá surpreso? Eu tenho muitos hobbies. Qual drama você quer ver, ?
Dr. Romantic. Você já assistiu esse?
— Ainda não.
— Então vamos começar hoje. Aqui ou na sua casa?
— Por que você iria pro apartamento dele? — perguntou, em um tom de censura.
— Não sei, provavelmente pra não te incomodar. Normalmente uso meu tablet, mas a tela é pequena demais pra duas pessoas e você pode querer usar a TV.
— Pode usar a TV. Eu tenho um monte de streamings que mal uso. Deve ter esse troço em algum deles. Pensando bem, acho que vou até assistir com vocês. — Ele sorriu de repente.
— Por quê? Você nem gosta disso — comentou. — Mal tenta coisas novas. Assiste o mesmo Superman há anos.
— Não tenho nada melhor pra fazer. — Ele deu de ombros. — E Christopher Reeve foi o melhor Superman de todos. Se você discorda, discorde em silêncio.

***


preparou a TV enquanto pegava a comida e , as bebidas.
— Prontinho — ela anunciou, se sentando ao lado do baterista. Tinha algo em que a atraía; provavelmente sua personalidade brilhante e bem-humorada. Ele era o oposto de , mas, de alguma forma, os dois eram melhores amigos. Ainda que passassem a maior parte do tempo discutindo por besteiras.
Ela sabia que estava com ciúmes dele. E sabia porque ele mal disfarçava, ou talvez nem fizesse questão. Poderia não vê-la como um potencial interesse amoroso, mas ela ainda era a garota com quem ele havia crescido junto. Ciúmes por coisas bobas não era algo incomum entre eles. sempre foi muito protetor e próximo. Se comunicava sempre que podia com ela e Mia, mesmo quando a banda decolou e ele quase nunca aparecia em Chicago. Provavelmente teria continuado assim se não tivesse tomado a iniciativa de confessar seus sentimentos. Ela sabia que era um risco à amizade deles, mas resolveu escolher esse caminho mesmo assim.
Foi quando ele agiu daquela forma. Um idiota, completo idiota. Mas ela, muito nova, dificilmente conseguia ter raiva dele por muito tempo, então logo esqueceu. Mas aí veio "The Red Sunshine", três anos depois. Seu coração bobo e até então desiludido se viu em meio a uma nova fagulha de esperança.
Talvez ele não estivesse preparado daquela vez. Talvez tivesse se assustado com o que ela disse e, por isso, agiu daquela forma. Ou tivesse mesmo apaixonado pela tal Megan, que estava com ele há cinco anos, em sua segunda tentativa. Aparentemente os dois não reataram, já que não foram vistos juntos desde então, mas poderia ter sido facilmente uma recaída. Talvez ainda houvesse atração entre eles naquela época, mesmo que outros sentimentos não estivessem envolvidos.
Se tivesse chegado um pouco antes, talvez tivesse pegado os dois no meio da coisa toda. Então apareceria sem camisa para atender a porta, e Megan, curiosa, apareceria usando apenas a camisa dele. Ou os dois simplesmente deixariam a campainha tocar.
De um modo ou de outro, pensar nessas possibilidades não fazia bem a ela. Então tratou de afastar isso da mente. Era só um monte de incertezas. Não podia ficar triste por se envolver com outras mulheres. Ele era solteiro. Podia fazer o que bem entendesse, com quem quisesse.
Ela mesma tinha feito isso.
Podia não ter desenvolvido sentimentos por ninguém além dele, mas vez ou outra, conhecia um cara atraente o suficiente para fazê-la pensar em segundas intenções.
Era divertido, na maioria das vezes, não que tivessem sido tantas.
Quando estava na faculdade, conheceu um aluno de teatro chamado David. Foi no último ano, logo após a fracassada segunda declaração para . Até então nunca havia dormido com ninguém, mas David despertou seu interesse de alguma forma.
Na verdade, seria estranho se não tivesse despertado. Ele havia sido o mais próximo de um relacionamento que tivera. Foram exclusivos um do outro por quase um ano, mas decidiram não optar por rótulos.
David era um cara gentil, meio bobão, com um combo de olhos azuis, cabelo castanho, covinhas e um sorriso lindo. A altura era como um bônus; tinha 1,93 m. Provavelmente o cara mais alto que já tinha conhecido e até malhava também. Uma série de atributos bons demais para não despertar interesse, mas o mais importante: nunca se importou com a cicatriz dela.
Parecia bom demais para ser verdade, mas era verdade.
Com exceção dele, nunca havia revelado sua cicatriz para outro cara em um momento íntimo e vulnerável, mesmo que para isso tivesse que manter algumas peças de roupa.
No entanto, eles eram mais amigos do que qualquer outra coisa. Talvez isso tivesse sido o pró e o contra ao mesmo tempo. Amigos demais para confiar um no outro a ponto de dormirem juntos, sem risco de possíveis mágoas, mas amigos demais para serem um casal propriamente dito.
Parecia meio bobo e contraditório, talvez até sem sentido, mas era assim com eles. Então veio a formatura e eles se separaram. No entanto, ainda mantinham contato. Quando se encontravam, raras vezes, se não tivessem compromisso com mais ninguém, também dormiam juntos. Como se para relembrar os velhos tempos. David tinha ido a Chicago algumas vezes nos últimos anos e era isso que tinha acontecido.
Agora, ele também morava em Nova York e, para surpresa de absolutamente ninguém, trabalhava na Broadway. Haviam trocado mensagens naquela semana, antes dela viajar, e agendado um encontro no fim da semana, se nenhum imprevisto surgisse.
A expectativa do encontro deixava empolgada. David fazia parte de um lado da sua vida que não se ligava a mais ninguém. Ele era como uma prova ambulante de que ela podia ter encontros e se divertir por aí sozinha, coisa que por muito tempo ela não se achou capaz de fazer.
Mia até gostava dele, mas era óbvio que preferia o irmão. sempre viria em primeiro para sua melhor amiga, ainda mais sabendo que era ele quem tinha conquistado o coração de tantos anos antes, mesmo sem intenção. E de certa forma ainda o tinha um pedacinho dele, mesmo que não soubesse.
Esse era ainda um problema que vinha tentando resolver. Não havia mais um David constante em sua vida para distraí-la de todos aqueles sentimentos. E por mais que quisesse se livrar deles, agora estava morando sob o mesmo tempo de quem os provocava.
Parecia uma grande piada. Uma ironia. Talvez uma pegadinha do destino.
Mas ela iria lidar com isso.
voltou com as bebidas e as colocou em cima da mesinha de centro. Então encarou e , sentados um ao lado do outro, e riu pelo nariz. Em seguida, abriu espaço entre os dois, para ficar no meio. Estava sendo ciumento e mesquinho de novo, e não estava nem aí.
revirou os olhos. riu com diversão e ela teve a impressão de que ele sabia mais do que ela imaginava. Provavelmente era o caso. Como melhor amigo de , era meio óbvio que ele e também os outros caras soubessem sobre suas tentativas fracassadas de chegar ao coração dele. Não que ela se importasse. Também havia coisas sobre ela que as namoradas deles sabiam, mas eles não. as fizera prometer não conta nada.
Quando a viu no concerto de aniversário da Cave Panthers, imediatamente a reconheceu. culpava os olhos e o cabelo ruivo por isso. Mas Mia também estava lá, então praticamente foi uma confirmação.
No entanto, ela não costumava lembrar de muitos rostos, então foi uma surpresa descobrir que a enfermeira que a atendeu também era a namorada de Hero , líder da banda. E, como se não bastasse, ainda era A Garota K e uma escritora famosa que tinha colaborado com ele.
Na ocasião, perguntou de prontidão como estava lidando com o tratamento e ficou feliz quando ela disse que estava tudo bem. , namorada de , acabou ouvindo a conversa e, meio desconfortável, pediu para que as duas não falassem nada para os rapazes.
Não ia fazer diferença na vida deles, de qualquer forma, e não era da conta de ninguém também. Era um assunto de mulher e elas nem hesitaram em concordar, o que a deixou aliviada.
— Sobre o que é essa série? — perguntou.
— Um médico é expulso de um hospital e é transferido pra um do interior. Lá ele conhece um outro médico bem experiente e talentoso, além de uma médica que ele gostava e não via há cinco anos.
— É tipo um Grey's Anatomy ou coisa assim?
— É, só que sem o drama excessivo, enrolação nem gente morrendo — comentou, depois de engolir um dos bolinhos takoyaki que tinha encomendado. — Agora chega de spoilers e vamos assistir.
— Isso aí — disse, sem tirar os olhos da TV.
Os três então se concentraram e mal viram o tempo passar. Era mais interessante do que parecia. E por mais que fosse algo atípico de sua parte, tinha que admitir que estava sendo divertido.
Talvez não fosse tão ruim assim tentar coisas novas.

Capítulo 5

11 de maio de 2018, 16:47 - Apartamento de , Nova York, NY

nem se lembrava da última vez que tinha visto tão tagarela. Ele era do tipo mais fechado, que nem falava muito, mas, por alguma razão, não calava a boca desde que tinham assistido os três primeiros episódios do drama.
— Quando a gente vai ver de novo? — Ele quis saber. — Ainda não acredito que você e viram dois episódios sem me avisar!
suspirou.
— Eu já te disse, nós achamos que você nem ia querer continuar. Então não falamos nada. Eu vi enquanto organizava umas coisas na loja, e viu em casa, ontem.
— Mesmo assim, era pra ter avisado. Tive que assistir sozinho hoje de tarde pra acompanhar, e agora fiquei curioso.
— Que estranho. — Ela riu, surpresa. — Eu realmente não esperava que você ia gostar. De todo jeito, hoje eu não posso, tenho um compromisso.
— Gostar é uma palavra muito forte. Mas quero saber o que vai acontecer. Por que aquela médica largou o emprego pra trabalhar no interior? E aquele cara foi transferido por conta de um paciente bomba que empurraram pra ele, sendo que ele era um dos melhores cirurgiões? Que palhaçada!
— É assim que as coisas funcionam...
— E o romance? Eu achava que ele odiava ela, mas do nada, ele a beijou? Sendo que ela tinha namorado! — ele continuou. — Isso sem contar aquele acidente. Aquela doida ficou traumatizada por algo que nem era culpa dela! E aquele babaca do ex ainda tava traindo ela com uma das enfermeiras. Tá que ele morreu, mas mesmo assim. Ela não superou isso em cinco anos?
— Muita gente leva um tempão pra superar traumas — comentou, enquanto terminava de enrolar alguns docinhos que vinha testando. — Cada pessoa tem seu próprio tempo, .
— É verdade. De qualquer forma, o melhor personagem é o Dr. Kim. Aquele homem é doido, mas é um gênio! Acho que o prota vai-
— Sim, sim, querer ser aprendiz dele. Você já falou isso — o interrompeu, enfiando um doce em sua boca para calá-lo. — Come isso e deixe pra teorizar depois.
mastigou o docinho, sentindo-o derreter na boca e gemeu de satisfação.
— Isso daqui tá uma delícia. Quando você vai voltar a pegar encomendas?
— Quando eu abrir a doceria. Até lá, vou estar ocupada com o curso.
— Já coloca meu nome na lista. Quero encomendar uma centena deles e comer sozinho.
— Não seja ridículo, ninguém aguenta comer isso tudo.
— Você tá duvidando da minha capacidade? — Ela arqueou uma sobrancelha.
— Não, tô dizendo que se você fizer isso, provavelmente vai acabar no hospital. E eu não vou ser sua babá, se isso acontecer.
— Ai, você é tão chata.
— Falou o ser mais simpático do mundo.
revirou os olhos, mas segurou um sorriso. riu dele e se virou para lavar as mãos na pia. Os últimos dias foram relativamente tranquilos ali. Ainda brigavam por coisas pequenas, mas não parecia haver mais tanta hostilidade entre eles. Cada um saía durante o dia para seus compromissos e se viam à noite, então não havia muito tempo para discussões.
No entanto, aquilo pareceu mudar no instante em que o celular dela vibrou em cima do balcão.
— Quem é David? — perguntou de repente e ela se virou, vendo-o encarar seu celular de braços cruzados. — E por que tem um coração do lado do nome dele?
— Ai, você é tão intrometido. — Ela avançou para pegar o celular.
— Ele é o seu compromisso? — Ele quis saber, enquanto ela digitava rapidamente uma resposta, confirmado o encontro dos dois.
— Sim.
— Quem é esse cara, ? Onde você conheceu ele?
— Um amigo — ela respondeu, sem olhar para ele. — Conheci ele há cinco anos, no último ano da faculdade.
— Ele é seu namorado?
levantou a cabeça, como se estivesse ponderando.
— Não — respondeu, terminando de guardar os docinhos em um recipiente. E então o encarou. — Não que seja da sua conta qualquer tipo de relacionamento que eu tenha com ele. Agora, vou guardar isso daqui na geladeira, ir tomar banho e me arrumar.
E foi o que ela fez.
— É um encontro, então? — perguntou, antes que ela saísse da cozinha.
— Não enche, . Não vou ficar dando satisfação da minha vida pra você.
E não ia mesmo.

***


Algumas horas mais tarde, quando já se aproximava do restaurante, avistou David de longe, parado do lado de fora.
— Ei, Clark! — ela chamou, brincando com o apelido que colocara nele. David era um fã de quadrinhos e ela sempre brincou que ele poderia interpretar o Superman um dia. A skin ele já tinha.
Ao ouvir sua voz, ele se virou e sorriu, mostrando as covinhas. Então abriu os braços, o que fez dar uma risadinha antes de correr em direção a eles. David a abraçou e a rodopiou no ar, brincalhão. Aquilo meio que tinha virado uma tradição nos últimos anos, sempre que se encontravam.
— Ei, ruivinha. Senti sua falta — ele murmurou com sua voz profunda, dando um beijo na bochecha dela, antes de colocá-la no chão.
— Você pintou o cabelo? — perguntou ao notar as mechas um pouco mais escuras. — Tá ainda mais parecido com o Superman agora. — Ela sorriu.
— É pra uma peça nova. E você tem que ir ver, agora que tá finalmente morando aqui.
— Sim, senhor. Não vou perder por nada.
David abriu outro sorriso e segurou a mão dela. Os dois se viraram para entrar, mas quase esbarraram em uma mulher sorridente, que até então não viram que estava vindo na direção deles.
? — a reconheceu.
! Que bom ver você! Como foi com a mudança?
— Tudo bem. — sorriu de volta. — Foi só eu e uma mala, já que eu trouxe o resto da última vez que estive aqui.
— Ótimo! Se precisar de ajuda com os preparativos da doceria, é só chamar — ela ofereceu. Em seguida, encarou David. — E este é...?
— David. É um velho amigo da época da faculdade — o apresentou, virando-se em seguida para David. — Esta é . A enfermeira que tava presente no meu diagnóstico, lembra?
— Olá, é um prazer — David a cumprimentou com um sorriso e um aperto de mão.
sorriu de volta e encarou como quem perguntava "ele sabe?", mas a mais nova apenas sorriu.
— David é meu melhor amigo. Infelizmente, não nos vemos muito depois que ele se mudou pra Nova York, mas...
— Mas agora é diferente, já que ela também se mudou — ele acrescentou, abraçando de lado, com uma mão em sua cintura.
— Espero que se divirtam, então. Eu tenho que ir. Tentei arrastar pra sair de casa, mas ele não quis. Então, encomendei a comida. — Ela levantou a sacola que carregava, e rolou os olhos. — Acabei pedindo pra retirar e tive que dirigir até aqui. Até mais. Vamos marcar de sair qualquer dia desses, .
— Claro. Foi bom te ver, . — se despediu com um aceno de cabeça.
Em seguida, ela e David entraram no restaurante e foram até a mesa que ele havia reservado mais cedo. Não era um restaurante caro. Ambos costumavam visitar lugares para comer, mas depois de algumas experiências negativas, concluíram que a maioria dos restaurantes caros não valia a pena. A comida nem sempre era boa e até as bebidas eram esquisitas.
Talvez fosse o espírito da pobreza neles, remanescente de quando ainda eram dois estudantes quebrados. Por isso, preferiam compartilhar um vinho barato e comidas obviamente deliciosas do que arriscar uma nova decepção.
Era seguro assim: tranquilo e estável. E ambos adoravam a estabilidade.
David estava bem melhor nesse quesito, no entanto. Já havia atraído milhares de seguidores na internet e acumulava fãs que adoravam sua performance no teatro. E até mesmo se ofereceu para hospedar em seu apartamento quando soube que ela viria para Nova York, mas ela recusou. O apartamento dele era mais próximo da doceria, mas o de ficava perto da escola de culinária, onde não podia se dar ao luxo de se atrasar, já que frequentaria o local na maior parte da semana durante cerca de dois meses.
Ele sabia de tudo isso. Na verdade, sabia de bem mais, inclusive sobre .
Felizmente, havia descoberto que podia muito bem ter uma paixão unilateral, mas ficar com outras pessoas que a atraía. Não que a lista fosse enorme. Depois de David, houveram mais dois caras, mas durou apenas uma noite com um e poucos dias com outro. Não tinham tanta química assim fora da cama e, nem mesmo nela, havia sido grande coisa.
Com David era diferente. Eles sempre contavam um para o outro quando saíam com alguém, inclusive como se sentiam depois. No caso dele, houve mais mulheres, no entanto, ele continuava a não se apegar a ninguém. Ambos eram quase iguais nesse quesito. A única diferença era que tinha uma paixão platônica idiota, mesmo sabendo que não a levaria a lugar algum.
— Esse lugar é ótimo — David comentou, mostrando uma imagem no cardápio para ela. — Recomendo esses dois aqui, acho que você vai gostar. E tem um vinho tinto ótimo, esse aqui. — Ele apontou para uma lista em outra página.
Era um restaurante italiano, afinal. Era meio óbvio que comeriam massa.
— Vamos pedir então. Você paga a comida e eu o vinho.
— Nem pensar. Hoje é por minha conta. Considere isso um presente de boas-vindas.
— Da última vez também foi por sua conta, e das outras duas antes dela — ela lembrou. — Você sempre inventa uma desculpa, David.
— Se sente tanta vontade de pagar algo assim, então me pague em cupcakes. — Ele deu de ombros. — Você sabe de quais sabores eu gosto.
— Massa de chocolate com recheio e cobertura de chocolate. Meio amargo, é claro. E massa branca com recheio e cobertura de coco. Você sempre vai pelo mais seguro.
Igualzinho uma pessoa que ela conhecia.
— Se quiser mesclar os dois, vou achar ótimo. Também sou fã de prestígio, você sabe. — Ele sorriu, dando uma piscadinha para ela.
Um garçom apareceu e eles logo fizeram o pedido. Pelas próximas duas horas, colocaram o papo em dia, desabafaram sobre a vida e riram de situações que um ou outro passou. O clima era leve e confortável. Mas quem olhasse de fora talvez pensasse que fora a garrafa de vinho os fazendo relaxar.
De fato, o vinho fazia isso. Mas em relação a outra coisa. Não ficaram bêbados depois de uma garrafa, mas talvez o vinho tivesse um pouco de crédito pela rapidez em terem trocado um beijo no meio da rua, enquanto caminhavam até o apartamento dele, que ficava próximo dali.
No caminho, no entanto, pararam para comprar sorvete em um food truck. Duas casquinhas de maçã verde com cobertura de chocolate.
Quando chegaram ao apartamento, já se passavam das dez horas.
já sabia que dormiria ali àquela altura. Sabia desde o momento em que David a convidou para conhecer o local e ver um filme com ele.
O apartamento dele tinha dois quartos e dois banheiros, uma pequena cozinha e sala. Era menor que o de , mas muito maior do que a quitinete dela, obviamente. Felizmente, teria espaço suficiente para cozinhar na doceria.
Após um tour pelo local, David a levou ao seu quarto e ligou a TV que havia ali.
tirou os sapatos e se deitou na cama com ele, que a deixou escolher o filme que assistiriam. Sem hesitar, ela optou por Como Perder um Homem em 10 Dias, um clássico da comédia romântica e um de seus filmes favoritos.
— Você tem vontade de trabalhar num filme assim? — ela perguntou, cerca de quarenta minutos depois.
— Acho que seria divertido. Mas acho que o teatro é mais divertido, então prefiro ele.
— Sério? Eu nunca atuei, então não tenho como dizer.
— No teatro, sempre tem uma novidade. Às vezes, nós improvisamos falas, fazendo referências à atualidade. Isso deixa tudo mais dinâmico e costuma fazer o público rir.
— Você canta nessa nova peça?
— Você nem imagina. — Ele sorriu. — Meu personagem se chama Erik e é um mestre do canto.
— Erik? — franziu o cenho. — O único Erik que conheço e que canta é o... — Ela parou de falar por um instante e se apoiou nos cotovelos para encará-lo. — Não! É o que eu tô pensando mesmo?
— Acho que sim. — Ele abriu um sorrisinho.
O Fantasma da Ópera, David? Achei que tinha saído de cartaz e...
— Agora voltou. Faz umas semanas, na verdade. É um papel difícil, não vou negar. Mas agora agradeço todos os dias pelas milhares de aulas de canto que minha mãe me obrigou a fazer.
— Ela é professora de canto, o que você esperava? — ela perguntou e David riu, rolando os olhos. — Por que não me disse antes que essa era a peça nova?
— O plano era fazer você descobrir no dia, mas não me segurei.
— Eu amo esse musical. Mal posso esperar pra ver você cantando todas aquelas músicas, vai ser minha primeira vez te vendo lá.
— Vou tentar não desafinar, então. Pra você não perder o encanto — ele brincou.
riu e se sentou, passando uma perna pela cintura dele e subindo em seu colo.
— Quer dizer que tenho o Erik bem aqui e posso realizar minha fantasia de pegar ele?
David riu, colocando as mãos na cintura dela.
— Só que sem a cicatriz — ele comentou.
— Ah, nós dois sabemos que essa parte fica comigo — ela brincou, inclinando-se sobre ele.
David sorriu e a puxou pela nunca, selando seus lábios em um beijo.
O celular de vibrou duas vezes, mas ela não deu atenção. Até que na terceira, ela interrompeu o beijo e, ainda ofegante, decidiu verificar o que era.
Uma mensagem de brilhou na tela.

: Que horas você volta? Já passa das onze.
: ? Tá tudo bem?
: Responde, garota.

revirou os olhos e digitou uma mensagem rápida antes de colocar o celular no "não perturbe".

: Eu tô bem. Não me espere acordado.

Em seguida, colocou o aparelho de lado, com a tela virada para baixo, e se virou para David mais uma vez.
— Vamos lá, Erik. Hora de tirar essa roupinha.
David riu e se sentou na cama, com ela ainda em seu colo. Então deu um beijo no pescoço de e murmurou em seu ouvido:
— Você primeiro.
Ela riu e assentiu, puxando-o para mais beijo.
Pelo visto, a noite seria bem divertida.

Capítulo 6

Já era mais de duas da manhã quando finalmente conseguiu pegar no sono. E ainda estava fora de casa. Uma hora antes disso, ele se deu conta de que ela não voltaria naquela noite.
Dizer que não estava irritado seria hipocrisia, mas disse para si mesmo que ela era uma mulher de vinte e seis anos, dona do próprio nariz e tinha uma vida fora dali. Inclusive, uma que ele não fazia parte.
Pensar nisso o deixava mais irritado ainda. Só que com ele mesmo.
Ele foi o responsável por aquele distanciamento entre os dois. Ele foi a pessoa que a magoou, mesmo quando não queria, por achar necessário.
provavelmente não entenderia seus motivos naquela época, e talvez teria se tornado ainda mais insistente. Mas ele havia sido sincero, em partes.
Queria que ela vivesse a própria vida, tivesse experiências, e tirasse o foco dele. Mas por que vê-la fazer isso o deixava tão incomodado?
Naquela madrugada, ele se virou de um lado para outro na cama e tentou pensar em outras coisas para distrair a mente. No trabalho, por exemplo. Suas tardes eram ocupadas por ensaios, gravações e reuniões na maior parte das vezes. No ano seguinte, sairia em turnê com a banda depois de anos; tinha muito o que fazer.
As pessoas já estavam começando a entrar em contato com Henry, o agente deles, solicitando entrevistas aqui e ali.
raramente dava entrevistas. Provavelmente era o membro com menos exposição, o que menos chamava atenção, e gostava assim.
Trabalhar com música, se apresentar em um palco e conhecer os fãs no processo era suficiente para ele.
Seus amigos podiam ficar com as partes sobressalentes. Dar entrevistas e fazer ensaios fotográficos... Hero e podiam dar conta disso. Eram os vocalistas principais, afinal. E o nome do meio de deveria ser interação. O amigo falava pelos cotovelos. Com frequência, fazia lives para conversar com os fãs. Ou simplesmente os respondia no twitter.
chegou ao seu limite de exposição depois do último relacionamento que tivera. Ele e Megan ainda passaram cerca de três anos entre idas e vindas até finalmente colocarem um ponto final naquilo.
Hoje em dia, ele nem sabia dizer como aquilo havia durado tanto tempo. O atual teria pulado fora daquele barco na primeira oportunidade depois de ver como sua ex era tóxica. E talvez ele fosse também. Nunca a traiu, mas Megan sempre achou que havia outra. E por conta disso, providenciou que houvesse outros também.
bocejou enquanto se lembrava disso e fechou os olhos, já um pouco pesados. Não soube dizer quanto tempo levou para adormecer, mas quando acordou, já se passava das sete da manhã, o que significava que ele havia sido vencido pelo cansaço.
Levantou e tomou banho, escovou os dentes e saiu do quarto. No corredor, parou em frente à porta de , mas tudo estava em silêncio. O ar condicionado também parecia estar desligado, o que significava que ela ainda não havia voltado.
Ele riu pelo nariz, sentindo uma nova onda de irritação.
Por que diabos ela estava demorando tanto?
No celular dele, não havia mais nenhuma mensagem além das que tinham trocado na noite anterior. Claro, ela havia saído com um "amigo", mas como não o conhecia, aquilo o deixava inquieto.
Sem pensar muito, ele ligou para a única pessoa que poderia saber de algo.
— Ai, é sério? O que você quer a essa hora, ? — Mia resmungou depois de cinco toques, a voz rouca deixando claro que ele havia acabado de lhe acordar.
— Não vou demorar, prometo — ele garantiu.
— Tá, o que é? — ela quis saber. quase podia vê-la revirando os olhos.
saiu ontem à noite e ainda não voltou pra casa. Mandei mensagem ainda ontem perguntando que horas ela vinha, mas ela só disse que tava bem e que eu não precisava esperar acordado.
— Sei, e ela disse com quem ia sair? — A irmã perguntou, sem se abalar.
— Sim, foi com alguém chamado David. Ela disse que são amigos.
— Ah, entendi. Não precisa se preocupar então — Mia disse. — O David deve estar cuidando bem dela.
— Você conhece esse cara?
— Claro. Eles se conheceram no último ano da faculdade, foi num evento. O David se formou em teatro. Da última vez que soube, ele tava trabalhando na Broadway. Eu tinha um pouco de ciúmes, sabe? Quando a não tava comigo no tempo livre, quase sempre tava com ele, mas...
— Mas o quê? Você não gosta dele?
— Não. Ele é um cara legal. Bem legal, na verdade. E sempre tratou a muito bem. Todo mundo achava que eles namoravam.
— E namoravam? — quis saber.
Mia soltou uma risada pelo nariz, meio abafada.
— Vai ter que perguntar pra ela. Mas relaxa, . A tá segura. Como eu já disse, tenho certeza de que David tá cuidando muito bem dela.
estreitou os olhos ao ouvir aquele tom.
— O que você quer dizer com cuidar bem, Mia?
— Tudo o que isso significar. — Ela deu outra risada. — Inclusive o que você deve estar imaginando no momento.
— Mia.
— Vou voltar a dormir agora. Não me ligue mais. — E desligou.
ainda nem tinha tirado o telefone do ouvido quando escutou a porta se abrindo.
apareceu, com a mesma roupa da noite anterior, sem maquiagem e com o cabelo solto, um tanto bagunçado, como se ela só tivesse acordado e passado os dedos rapidamente. não teve nem tempo de filtrar o pensamento, antes que ele saísse pela sua boca:
— Isso é hora de chegar em casa?
piscou, notando a presença dele, mas não estava surpresa.
— Ah, você tá acordado. Bom dia. — Ela sorriu. — Eu quis tomar café da manhã antes de vir — acrescentou, lembrando que David praticamente a obrigara a se alimentar.
"Tivemos uma noite cheia, . Hora de recarregar", ele dissera. Acordou antes dela e fez o café da manhã. Ela não teve opção a não ser aceitar. E estava delicioso.
— Você tá péssima. Andou bebendo? — perguntou, com um tom de voz levemente hostil que a irritaria normalmente, mas estava relaxada demais para se incomodar.
— Ah, a gente bebeu uma garrafa de vinho no restaurante, só isso. Depois do jantar, fomos embora. — Ela bocejou, enquanto tirava os sapatos.
— Achei que você viria pra casa.
— Eu te falei pra não me esperar.
— É, acordado. Achei que você só ia voltar tarde, não virar a noite.
— Você leva tudo ao pé da letra, né? Vou me lembrar de deixar claro da próxima vez.
— Próxima vez? Você sequer dormiu, ? Não vai dizer que virou a noite numa balada, né?
— Balada? — sorriu. — Tô velha demais pra isso, . Não dormi muito, mas valeu a pena.
arqueou uma sobrancelha, mas estava ocupada demais lembrando da noite anterior.
"Quero você por cima, . Amo essa visão e quero te admirar assim, enquanto você monta em mim como a gostosa que você é", David disse, após inverter a posição dos dois. O pensamento por si só fazia ter vontade de pressionar uma coxa na outra. Estava um pouco dolorida, mas o banho quente que havia tomado, antes de deixar o apartamento dele, havia relaxado um pouco seus músculos. Ou talvez tivesse sido a rodada no chuveiro...
David era um cara criativo e cheio de energia.
— No que você tá pensando? — A voz de interrompeu a lembrança. — Por que tá sorrindo que nem uma esquisita?
— Tô? — O sorriso dela se abriu ainda mais. — Deve ser de sono. Vou trocar de roupa e tirar um cochilo. Ainda bem que hoje é sábado, né? Assim dá pra descansar. — Ela piscou, passando por ele.
a acompanhou com o olhar até desaparecer pelo corredor, não deixando de notar o cheiro de perfume masculino quando ela passou por ele.
"Todo mundo achava que eles namoravam", ele ouviu a voz de Mia dizer em sua cabeça. "Tenho certeza de que David tá cuidando muito bem dela."
Maldito fosse aquele tal de David.
nem o conhecia, mas já o odiava.
Pelo resto da manhã, não deu mais as caras. Cansado de ficar ali, resolveu sair e foi para o apartamento de . Tinham uma reunião da banda em algumas horas, mas decidiu ir antes.
Foi Hero quem abriu a porta para ele. Estava sem camisa e a TV da sala estava ligada em algum canal aleatório. Logo avistou no sofá, com o computador no colo, em cima de uma almofada.
— Oi, loirinho — ela o cumprimentou com um sorriso, quando ele e Hero se aproximaram.
— Oi. — se jogou ao lado dela. Hero voltou a prestar atenção na TV, como se o amigo não tivesse aparecido de repente ali, sem avisar.
Não era novidade. Os quatro quase nunca avisavam. Exceto quando visitas estavam restritas.
— Você parece cansado, não dormiu bem? — perguntou.
Aquilo chamou a atenção de , que encarou o amigo com mais atenção.
— Verdade, você tá péssimo.
saiu ontem pra jantar e não disse pra onde ia. Fiquei acordado feito idiota esperando ela chegar — ele desabafou, levemente apático. — Ela disse pra não esperar acordado, mas só consegui dormir bem tarde. Acordei e ela ainda não tinha chegado. Então liguei pra Mia e ela disse pra eu não me preocupar porque ela tava segura com o David.
— Ah, David... — comentou, dando uma risadinha. Do outro lado, Hero riu pelo nariz.
os encarou, desconfiado.
— Vocês tão sabendo de algo que eu não sei?
esbarrou na ontem quando foi buscar o jantar — contou. — Ela tava com esse tal de David.
— Parecia cena de filme, sabe? Ela correu até ele, que abraçou ela e a rodopiou. Foi bem fofo.
— E como é esse tal de David? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Bem, como posso dizer? O cara parece o Superman. — Ela riu. — Talvez essa seja a melhor descrição. Ele deve ter pelo menos um e noventa. Cabelo escuro, olhos azuis, musculoso, tem um sorriso adorável com covinhas.
— Tipo o ?
— Por aí. parece mais intimidador. David parece... Acessível, eu acho. o apresentou como um amigo, mas... Não sei. Talvez tenha algo mais. Ou eles são simplesmente carinhosos.
— Maravilha. — riu, sem humor. — Fiquei preocupado por nada. Enquanto ela deve ter passado a noite se divertindo.
Foi a vez de Hero rir.
— Provavelmente, amigo. Mas se quer um conselho, eu diria pra você superar isso, sabe? Ela é adulta. Era de se esperar que chegasse o momento em que a não teria mais olhos só pra você.
— Não tenho nada pra superar. Ela não disse que ia passar a noite fora. E eu não conheço esse tal de David. Na verdade, não sabia da existência dele até ontem. Mas faz uns cinco anos que os dois se conhecem.
— Melhores amigos — murmurou.
— O quê? — a encarou.
— Na verdade, ele é o melhor amigo dela. Eu tinha esquecido desse detalhe.
— Eita. — Hero riu novamente. — Parece que seu posto já era, irmão. Agora você é oficialmente só o primeiro amor dela. Mas é bom saber que te esqueceu. Foi o que você sempre quis, né? — ele provocou.
virou a cabeça para o amigo e semicerrou os olhos. Então segurou a almofada em seu colo e a usou para bater na cara dele.
gargalhou do outro lado.
— Não enche, idiota — resmungou para o vocalista.
tem razão, . Não sei muito dos detalhes entre você e , mas só precisei de dois minutos pra entender que David é uma pessoa importante pra ela que provavelmente conhece um lado da que você nem faz ideia.
É, ele tinha percebido aquilo também. Pelo jeito que falavam dele, as coisas que Mia havia dito, o modo como sorrira feito uma idiota quando chegou em casa.
Ela tinha dormido com o tal de David, ele tinha certeza disso. E parecia satisfeita. conhecia aquele tipo de expressão. Ela não havia nem se irritado com as perguntas dele. Pelo contrário, parecia estar até se divertindo.
No fim, ele foi o único a ficar incomodado com aquela situação toda. E mais ainda por se sentir assim.
Você é mesmo um idiota, .

Capítulo 7

18 de maio de 2018, 23:33 - Apartamento de , Nova York, NY

— É, pessoal. Por hoje é só — disse, batendo as mãos nos joelhos antes de se levantar.
Tinham acabado de ver três episódios seguidos de Dr. Romantic, mas mal tinham passado da metade.
— Não entendo porque esses dois ficam se enrolando — comentou, se referindo aos protagonistas. — Eles se gostam, então por que não ficam logo juntos?
— Logo você falando disso, ? — riu. — Cuidado, o bichinho da hipocrisia pode te morder.
lançou um olhar afiado para ele.
— O que você quer dizer com isso, ?
— Você sabe o que quero dizer. Acho que todo mundo sabe.
— Tá enrolando alguém também, ? — perguntou com um sorriso travesso. — Não se preocupe comigo, se estiver querendo trazer alguém pra cá. É só avisar e eu saio por algumas horas.
— É, você pode ficar na minha casa — sugeriu, olhando de soslaio para o amigo. — Mas não acho que tenha outra pessoa em mente.
, você não disse que ia embora? — perguntou, entredentes. — Não tenho interesse em falar da minha vida amorosa com você.
— Melhor ir, . Não sei se garanto segurar se ele decidir bater em você — brincou .
— E não ia conseguir mesmo. — Ele riu. — Enfim... Você vai amanhã com a gente?
— Ir pra onde?
— Vamos jantar na casa de Hero — disse. — quer comemorar o lançamento de um novo livro e pediu pra te chamar também, já que ela ainda não tem o seu contato.
— Você tá livre amanhã, ? — perguntou.
— Claro. — Ela deu de ombros. — Vou até levar cupcakes de sobremesa. São quantas pessoas?
— Umas quinze, né? — franziu o cenho para e saiu contando nos dedos — Nós quatro, , , , Diana e o marido, Brandon e Karol, Rick e Darla, Andy e Lexi. É isso mesmo — ele concluiu.
— Ótimo, vou fazer cinquenta cupcakes — decidiu .
— Não é demais? — perguntou. — Você sabe que nem precisa levar nada, né?
— Mas eu quero levar mesmo assim. Além disso, pode servir de teste. Ainda tô decidindo os sabores que vou colocar pra vender.
— Certo, e que tal só trinta? — ele sugeriu.
— Quarenta, então. — Ela sorriu. — Vou assar eles amanhã de manhã e rechear durante a tarde.
— Tá, eu te ajudo.
— Isso! Finalmente vou poder comer seus cupcakes, comemorou. — Se for que nem a falou, já sei que vou adorar. Agora tô indo. Vou dormir feliz hoje. Até amanhã e boa noite.
— Boa noite — e responderam juntos, pouco antes de ele sair.
desligou a televisão em seguida e se levantou e foi até a cozinha pegar um copo de água.
— Sabe, eu falei sério quando disse sobre trazer alguém aqui — ela começou, ainda de costas para ele. — A casa é sua e eu sou só uma hóspede temporária. Então não quero que você deixe de fazer coisas que normalmente faria só por minha causa. Eu não me importo.
— Não se importa? — ouviu ele dizer atrás de si.
— Isso aí — ela confirmou, esvaziando o copo de uma vez. Em seguida, se virou para encará-lo. estava parado do outro lado do balcão. — A do passado provavelmente ficaria magoada, mas... Já faz muito tempo, .
— Quer dizer que acabou? — ele perguntou, sem pensar, lembrando da conversa que tivera com e Hero dias antes. Talvez ela tivesse mesmo seguido em frente.
— Acabou o quê?
— Seus sentimentos por mim — ele explicou. — Os que você dizia sentir.
franziu o cenho e o encarou sem entender.
— Por que você tá falando disso agora? — ela quis saber. — É por causa do que falou? Que tem alguém que você anda enrolando? Quer ter certeza de que não vou atrapalhar de novo?
suspirou, dando a volta pelo balcão, ficando mais perto, em frente a ela.
— Não tô enrolando ninguém, . Não tem mais ninguém.
— Então do que tava falando?
— Sei lá — respondeu, dando de ombros. — Sendo bem sincero, eu não entendo metade das coisas que ele diz. Mas você não me respondeu ainda.
Um sorriso de canto surgiu nos lábios dela, que caminhou três passos, parando em frente a ele. Então se se aproximou um pouco mais, deslizando um braço ao redor da cintura dele.
— Por quê? Não era isso que você queria? — ela murmurou, sem deixar de encará-lo. Então se inclinou mais em sua direção e sorriu quando prendeu a respiração, imóvel. o fitou por mais alguns segundos, seus rostos a poucos centímetros de distância. Então se afastou de uma vez, trazendo consigo o celular que tinha acabado de pegar no balcão atrás dele. — Não precisa se preocupar com nada disso, . Ficou no passado.
piscou, levemente confuso, assimilando o que tinha acabado de acontecer. Encarou o celular na mão dela sem saber se sentia alívio ou frustração. Então, levantou o olhar até encontrar o dela.
— Muito bem, então. Se você diz...
riu pelo nariz, com aquele humor sarcástico que ainda era novo para ele e, em seguida, se virou para sair dali.
— Até amanhã. Se prepare pra ser meu assistente, não vou recusar ajuda.
— Beleza. Boa noite, .
— Boa noite.
Quando ela sumiu pelo corredor, finalmente soltou o ar que prendia.

***


19 de maio de 2018, 15:57 - Apartamento de , Nova York, NY

— Assim? — perguntou, mostrando o cupcake recém-decorado, como tinha demonstrado.
— Eita, isso mesmo. Até que você leva jeito. — Ela riu. — Talento secreto? Pelo que me lembro, você nem sabia cozinhar direito.
— Cansei de comer comida congelada. — Ele deu de ombros. — Aprendi umas coisas com , mas quando não quero cozinhar, simplesmente compro.
— As vantagens de ser rico — ela brincou.
riu pelo nariz e continuou a decorar mais cupcakes. era obviamente bem mais rápida que ele, mas era bom poder ajudar em vez de ficar sem fazer nada.
E sim, era mesmo estranho quando ele se lembrava de que até, alguns anos atrás, só conseguia se virar com comida congelada. Sua mãe trabalhava o dia inteiro e, desde muito cedo, ele se tornou responsável por alimentar e cuidar de Mia. Durante a semana, viam a mãe de manhã bem cedo e depois apenas à noite, quando ela voltava do trabalho.
Foi uma época agridoce. sempre cuidou de Mia, mas detestava que isso fosse uma responsabilidade dele. Se não fosse ele, não haveria mais ninguém para fazê-lo. E era evidente que às vezes ele só queria sair dali, ou simplesmente não ter o que fazer.
Enquanto seus amigos da escola saíam para se divertir, ele estava ocupado demais cuidando da irmãzinha e fazendo as tarefas domésticas. A única coisa que não conseguia fazer direito era cozinhar e, por isso, sua mãe sempre tinha comida congelada em casa. Era mais fácil de preparar, mais barata, só não muito saborosa. Não que fizesse tanta diferença, já que era o que comiam na maior parte do tempo.
Quando se mudou, ela passava muito tempo na casa deles, até que o pai dela construiu uma casa na árvore, que se tornou o lugar favorito dos três. Os pais dela também trabalhavam bastante. Ambos eram detetives e passavam muito tempo fora, mas sempre havia alguém cuidando de , ao menos até ela ficar grande o suficiente para se virar sozinha.
Deu certo por um tempo.
Então, houve o incêndio. Na época, já tinha começado a trabalhar na loja de música. Ele tinha aprendido a tocar baixo lá, em um instrumento velho que pertencia ao dono, mas que ainda funcionava muito bem. Mia já podia se cuidar sozinha e ele já não passava mais tanto tempo em casa. Se ele estivesse em casa, aquele incêndio provavelmente não teria acontecido.
estava no quarto estudando enquanto sua mãe preparava o almoço. No entanto, um chamado de emergência a tirou de casa e, no meio da correria, Grace esqueceu de desligar o fogão.
Mais tarde, descobriram que um pano de prato próximo ao fogão acabou pegando fogo e as chamas se espalharam para a cortina da janela, saindo do controle. sentiu o cheiro de fumaça e desceu. Tentou apagar o fogo, mas só piorou a situação e acabou se machucando no processo.

2 de fevereiro de 2006, 11:39 - Chicago, IL - O dia do incêndio

mal havia chegado ao jardim de casa quando avistou as chamas que saíam pela janela da cozinha da casa vizinha.
No mesmo instante, Mia surgiu correndo, alarmada.
! A tá lá dentro. Eu vi a mãe dela saindo de carro há meia hora e eu tava indo pra lá quando vi o fogo.
Sem pensar, ele correu.
— Chama os bombeiros, Mia! — gritou, sem olhar para trás.
— Já chamei! — a irmã respondeu.
O fogo não estava tão forte quanto parecia quando ele entrou, mas estava se espalhando rápido. A porta dos fundos estava livre, mas a outra já havia sido tomada pelas chamas.
Levou apenas um segundo para avistar no chão, com o braço ferido e sangrando, chorando enquanto o segurava. Uma panela suja com óleo estava no chão e ele não precisou pensar muito para perceber que havia esbarrado nela.
! — ele gritou, chegando até ela, tomando cuidado para não escorregar no óleo. Eles tinham que sair rápido dali.
... — ela choramingou. — Tá doendo.
— Calma, vou te tirar daqui — ele prometeu, parando um instante para encontrar a válvula de gás para desligá-la. Não podia arriscar uma explosão quando estavam tão perto. Ou explosão alguma, se isso pudesse ser evitado.
Em seguida, se virou para novamente e a tirou de lá o mais rápido que pôde, com o coração martelando no peito ao ouvi-la chorar. Teve o máximo de cuidado para não encostar no braço ferido enquanto a levava até o jardim de sua casa, onde Mia aguardava ansiosamente.
Os bombeiros chegaram quase que instantaneamente e controlaram o fogo. A cozinha estava um caos, mas ele achou que o prejuízo havia sido mínimo, se comparado ao que tinha acabado de passar. A queimadura em seu braço era feia e parecia grave. Ele a acompanhou até o hospital, mas teve que esperar enquanto ela recebia tratamento, já que não eram parentes. O hospital entrou em contato com a mãe dela, mas Grace só apareceu duas horas depois.
Quando a viu, já estava tomado pela raiva. Provavelmente teria sido diferente se ela tivesse chegado imediatamente, mas aquela mulher havia deixado a própria filha em segundo plano.
, onde ela está? — Grace perguntou, preocupada. No entanto, não chorava. Não como ele tinha feito, enquanto esperava, temendo que algo pior ter acontecido com ela, com o braço dela.
Felizmente, não tinha. havia gritado bastante e precisou receber um sedativo para que pudessem continuar o tratamento sem que sentisse tanta dor.
Uma enfermeira permitiu que ele a visse brevemente quando tudo se acalmou, mas explicou que ele não podia ficar. estava com um curativo no braço e em outros ferimentos menores, e recebia fluidos intravenosos enquanto dormia. Parecia tranquila, e isso que acalmou um pouco mais.
No entanto, lá estava a mãe dela, agindo como se não fosse nada.
Naquele dia, Grace acabou com qualquer apreço que ele pudesse sentir por ela.
— Agora você vem perguntar? — Ele a encarou, frio. — Sua filha quase morreu porque você esqueceu a merda do fogão ligado! E você aparece aqui depois de duas horas?
— Foi um acidente. Achei que tinha desligado, mas me disseram que não havia sido tão sério e que estava bem.
— Bem? — Ele riu, incrédulo. Uma lágrima escorreu pelo rosto dele. — Ela tá ferida, Grace. Mal conseguia se mexer quando a encontrei, de tanta dor que sentia. Sua casa podia ter explodido, sabia? E acho que alguém deve ter te dito também que vai ficar com uma cicatriz enorme no braço. Isso parece bem pra você? Se eu tivesse demorado mais, podia ter sido pior!
— Eu sei que foi minha culpa. Fui desatenta, mas... Obrigada por salvar a vida dela.
— Não precisa me agradecer.
Grace suspirou.
— Mesmo assim. Eu sinto muito. Você também se arriscou quando entrou lá.
— Não peça desculpas a mim — ele rosnou. — Peça pra sua filha. Foi ela que ficou aqui, assustada, enquanto você cuidava de sei lá o quê. Nem me deixaram ficar com ela, então vá cumprir seu papel de mãe ao menos uma vez. precisa de você.
Grace não discutiu. Sabia que ele tinha razão. Então, em silêncio, virou-se e foi até a enfermaria onde a filha estava.

Dias atuais - Apartamento de , Nova York, NY

— No que você tá pensando tanto? — quis saber, provavelmente porque ele tinha se distraído um pouco.
— Nada... Tava lembrando dos velhos tempos.
— Lembrando da comida congelada? — Ela sorriu.
— Por aí. — Ele sorriu de volta, mascarando a tristeza que a lembrança tinha acabado de trazer.
, no entanto, não pareceu notar sua mudança de humor. Estava concentrada demais no trabalho. desviou o olhar para o braço dela, coberto por uma camisa de mangas três quartos. Ela sempre cobria cicatriz. Já fazia duas semanas que estava ali e ele não a tinha visto nenhuma vez. Até seus pijamas eram de mangas compridas.
— Por que você tá me encarando de repente? — ela perguntou, sem olhar para ele.
— Você tem olhos nas costas agora? Como sabe que tô te encarando?
— Não sabia. Mas você acabou de confirmar.
riu pelo nariz e continuou a decorar o último dos cupcakes que ela havia designado a ele.
— Eu tava reparando nas suas roupas.
— Minhas roupas?
— Você tá sempre cobrindo sua cicatriz. Até com os pijamas.
— Ah, isso. É um hábito que adquiri. Me incomoda e as pessoas sempre ficam encarando.
— Encaram mesmo ou é só impressão sua?
— Talvez um pouco dos dois.
— Bem, eu não ligo. Você sabe disso. Pode usar roupas mais leves se quiser quando estiver aqui.
— Não liga mesmo? — ela perguntou, com um toque de escárnio na voz, que ignorou.
— Não ligo. Eu sempre deixei isso claro. Faz parte de você, . E, até onde me lembro, você costumava ser mais corajosa antes.
— Devo ter esgotado minha cota de coragem, então. — Ela riu. — Mas até que raramente ela aparece.
— Bem que poderia aparecer hoje também. Não acho que nenhuma das pessoas que você vai conhecer vá fazer perguntas, muito menos encarar sua cicatriz se você aparecer mostrando ela.
— Como tem certeza disso? — Ela o encarou, o olhar cheio de cinismo.
— Porque todo mundo vai ficar ocupado demais com seu cabelo e seus olhos.
— Meu cabelo não tem nada de mais.
— Mas seus olhos, sim. São os mais lindos que já vi. Mas você também sabe disso.
Ela sabia. Nem assim isso a impediu de corar. Dando as costas novamente, começou a organizar os cupcakes nas caixas de armazenamento.
— Vou pensar nisso — ela disse. — Termina de fechar as caixas pra mim? Vou tomar um banho e descansar um pouco antes da gente ir.
— Claro, sem problema. Pensa com carinho. — piscou para ela, sorrindo de lado.
riu pelo nariz e assentiu. Então seguiu em direção ao quarto.

Capítulo 8

encarou o próprio reflexo no espelho, sentindo um leve frio na barriga.
Seu cabelo estava solto e liso, com apenas duas mechas presas se unindo em um penteado simples. O vestido que tinha escolhido era soltinho e adorável, com um corte ombro a ombro que deixava apenas parte de sua cicatriz escondida, e o tecido branco era salpicado por florezinhas nos mesmos tons de seu cabelo e olhos.
Tinha comprado a peça há alguns meses, mas até então não havia vestido.
Quando mencionou sua cicatriz, sentiu um pouco de tristeza. Costumava ser mais corajosa antes. Mas, de fato, aquela coragem parecia rara nos últimos anos. Essa era a verdade que tinha dito a , porém não foi sincera ao falar que a cicatriz a incomodava.
Essa fase havia ficado para trás há muito tempo. A pele, embora irregular, já não era mais tão rosada quanto antes, mérito das fórmulas cicatrizantes que ela havia usado. O que a incomodava mesmo eram as pessoas. A cicatriz ainda era obviamente visível e não iria desaparecer. Assim, por mais que tivesse razão em falar que a maioria não se importava, sempre ficava em alerta, autoconsciente, porque vez ou outra alguém perguntava o que tinha acontecido. Ou ficavam encarando em silêncio, mal disfarçando, enquanto ela fingia não perceber. Por esse motivo, muitas vezes evitava vestir o que realmente queria e meio que tinha se acostumado a isso.
Daquela vez, no entanto, quis fazer diferente. Não por causa do que disse, mas por ela mesma. As palavras dele só haviam lhe dado um impulso.
De toda forma, estava indo para a casa de Hero e , que eram amigos, praticamente parte da família que tinha ali. Se alguém encarasse a cicatriz por muito tempo, ela nada podia fazer, mas duvidava que fossem perguntar sobre.
Então, decidida a ser um pouco mais corajosa, ela respirou fundo e conferiu o reflexo mais uma vez, antes de deixar o quarto.

***


estava orgulhoso, para dizer o mínimo. Enquanto dirigia, frequentemente se pegava olhando de soslaio para a mulher ao lado dele.
olhava para o lado de fora da janela, em silêncio, com o queixo apoiado em uma mão. No seu colo, havia três caixas de cupcakes — no fim, quinze em cada uma — e uma pequena bolsinha que ela havia usado para guardar o celular. Os dedos que batucavam em cima de uma das caixas denunciavam um leve nervosismo, mas ele sabia que ela ficaria bem.
Sua coragem não seria desperdiçada naquela noite.
Chegando ao estacionamento, alguns minutos depois, saiu primeiro e abriu a porta para , pegando as caixas para que ela pudesse sair sem problemas. Ela tentou pegar de volta quando estavam no elevador, mas ele não deixou.
— Você é tão teimoso — ela resmungou, cruzando os braços.
— Tenho certeza de que você já sabia disso — ele retrucou, de bom humor.
Um minuto depois, os recebeu com um sorriso.
— Oi! Você veio! — Ela abraçou . — Adorei seu vestido, combinou com o cabelo. Vem, já tá todo mundo aqui.
— Oi pra você também, .
— Ai, , como se eu não te visse praticamente todo dia. Já passamos dessa fase. — Ela o dispensou com uma mão, então se atentou para as caixas que ele trazia. — O que você tem aí?
— São cupcakes que fiz — disse. — me ajudou a decorar. Parabéns pelo livro novo.
— Que ótimo. Não precisava, , mas muito obrigada.
Mais a frente, uma voz surgiu:
— Os cupcakes chegaram? Vou roubar um! — declarou, animado.
— Ah, não. Você nem jantou ainda. — deu um tapa na mão dele. — Deixa pra sobremesa.
— Você nunca comeu sobremesa antes do jantar? É melhor ainda.
— Nem vem — ela retrucou.
tem razão, falou. — Deixa pra depois.
— É, não seja criança — resmungou . — Nem parece que você tem quase trinta anos, cara.
— Pelo menos, eu não fico catando verduras na comida — rebateu.
— Eu detesto ervilhas. E você foi criado por pais japoneses que fizeram você aprender a comer de tudo, então nem vem.
Ao lado deles, cochichou baixinho com .
— Que tal eu te apresentar o pessoal que você ainda não conhece?
assentiu com um sorriso e as duas se afastaram, deixando os dois rapazes para trás, ainda discutindo.
— Oi, ! Há quanto tempo — , a namorada de River, a cumprimentou com um abraço.
— Oi, . — a abraçou de volta.
— Esses são e River. — apontou para os dois. — Acho que vocês nunca se conheceram oficialmente.
— Só à distância, eu acho — River comentou. — Bem-vinda, .
— Obrigada.
— Bem-vinda, . Fique à vontade — disse. — E pode me chamar de Hero, se quiser.
— Sim, senhor — ela brincou, batendo continência.
Em seguida, a apresentou para os pais de Hero, Andrew e Lexi, seu editor e agente e, por último, Diana, que também era sua editora e seu marido Eric.
— Você lembra do Eric, ? Foi ele quem fez seu diagnóstico daquela vez.
— Claro, que bom ver o senhor aqui — o cumprimentou com um sorriso e um aperto de mão.
— É um prazer te ver de novo, . Imagino que esteja bem melhor agora, estou certo?
— Sim, o tratamento é uma maravilha. O senhor ainda trabalha naquele hospital, ou em alguma clínica?
— Ele é diretor do Mount Sinai há alguns anos — explicou. — Mas faz alguns acompanhamentos por mês, desde que agendados com antecedência.
— Por acaso teria um espacinho pra mim na sua agenda? — quis saber. — Ando procurando algum médico pra me acompanhar aqui já que deixei Chicago.
— Vou te dar meu cartão e você pode tentar agendar uma consulta. — Ele pegou a carteira no bolso da calça e tirou um cartão de visita.
— Obrigada, senhor. — Ela sorriu.
— Me chame apenas de Eric.
— Ele fica se achando um velho quando chamam ele de senhor — Diana explicou, se divertindo. — Mas acabou de completar quarenta anos.
— Sabe quem também tem quarenta anos, Eric? — perguntou. — Jensen Ackles, aquele bonitão.
— Quem você tá chamando de bonitão aí? — Hero apareceu ao lado dela.
— Nossa, que audição, hein? — brincou. — Eu nem falei alto.
— Relaxa, . Você até que parece um pouco com o Jensen — Eric brincou. — Cabelo castanho e olhos verdes... Será que você tem um tipo, ?
— É, será que você tem, ?
— Todo mundo tem um, . — Ela rolou os olhos e o puxou pelo braço. — Vem, vamos conferir tudo pra servir o jantar.
ficou um tempo conversando com Diana e Eric, depois se juntou a , sentado no sofá, quando percebeu que ele a encarava.
— E aí? Tá mais tranquila agora? — ele perguntou.
— Claro. — Ela sorriu. — Eu gostei deles.
Um pouco mais adiante deles, na mesa de jantar, ouviu a voz de Hero:
— Pai, prova isso aqui. — Ele levou uma colher até a boca dele, oferecendo algo marrom que ela não conseguiu identificar o que era.
— Hm, é bom. O que é?
— Crackers trituradas com cebola refogada. A gente aprendeu com a . Ela disse que é bem comum nos natais do Brasil e eu quis tentar fazer hoje.
sorriu, observando os dois conversarem enquanto se serviam e desviou o olhar para . Ia comentar algo, mas esqueceu no momento em que viu a expressão no rosto dele. Um sorriso mínimo despontava em seus lábios, como se estivesse feliz em ver a interação do amigo com o pai, mas ao mesmo tempo havia um toque de tristeza.
— Rick parece se dar muito bem com , né?
— É verdade — concordou, ainda olhando para eles. — É bom saber que ele finalmente tem um relacionamento paterno saudável. O pai adotivo o tratava muito mal, então ele foi criado pelo avô. Quando ele morreu, passou por uma época muito difícil.
— Foi por isso que vocês entraram em hiatus?
— Sim, eu acho. Não era como se a gente fosse fazer um retorno sem o líder e vocalista principal da banda. — Ele deu de ombros. — Felizmente, tá tudo bem agora.
assentiu, compreensiva.
— Você já se perguntou sobre o seu pai, ? Já teve vontade de encontrar ele também?
Aquilo chamou sua atenção. No entanto, não teve uma resposta. Ao invés disso, ele mudou de assunto.
— Acho melhor a gente ir se servir. A maioria já terminou.
E se levantou em seguida, deixando para trás. Ela suspirou, resignada. Tinha visto ele fazer aquele tipo de coisa apenas algumas vezes quando conviviam. Geralmente, quando estava chateado. No entanto, não conversava com ninguém, nem mesmo com ela ou Mia. As duas ainda eram cinco anos mais novas e provavelmente não achava que entenderiam o que quer que estivesse o incomodando.
Quando adolescente, ela havia se ressentido um pouco desse distanciamento dele. Mia também. Agora, depois de adulta, meio que entendia. Ela provavelmente teria feito o mesmo no lugar dele. Ela mesma não se sentia lá muito à vontade de falar sobre sentimentos. Mia era sua maior confidente desde que eram crianças e David, depois que a amizade cresceu entre os dois, assim como a confiança, se tornou mais um. Eles não se viam sempre, tampouco se falavam todos os dias, mas o vínculo que tinham construído não havia mudado nem por um momento.
Ela provavelmente teria algo parecido com se não houvesse tanta distância entre os dois, se ela nunca tivesse revelado seus sentimentos. De todo modo, talvez pudesse fazer aquilo com , River e Hero, já que eram bastante próximos.
Ao menos, ela esperava que sim. o observou de longe, sorrindo e conversando com os outros convidados, e se levantou também. Cerca de uma hora mais tarde, riu alto quando comeu um de seus cupcakes.
— Isso é um sonho realizado. Eu não sabia que você cozinhava tão bem. Quer dizer, eu sei que você é formada em gastronomia e tal, mas...
— Tudo bem, . Eu sei o que quer dizer — Ela sorriu. — Fico feliz por você ter gostado.
A aprovação dos cupcakes foi unânime. A maioria pegou um ou dois, mas os quatro membros da Cave Panthers fizeram questão de provar todos os três sabores.
— Quando você vai abrir a sua loja? — perguntou.
Não sei ainda, talvez no início ou no meio de junho.
— Avisa pra gente quando abrir — River pediu. — A gente pode se combinar de ir lá e podemos divulgar de graça pra você.
— Nossa, muito obrigada. — Ela sorriu.
— Você pode agradecer a gente com doces — sugeriu, arrancando algumas risadas. — Tenho certeza de que as pessoas vão gostar.

Quase duas horas mais tarde, e voltaram para casa. Depois que saíram, ele voltou a ficar pensativo, e ela não puxou assunto até chegarem em casa. No entanto, aquele silêncio a incomodava. Como se soubesse que ele estava abafando sentimentos que não queria admitir.
— Você não respondeu minha pergunta naquela hora — ela comentou, enquanto tirava as sandálias.
— Não tenho o que responder.
— É mesmo? Você ficou pensativo o tempo todo no caminho de volta.
— Minha bateria social esgotou, só isso — ele justificou, sem olhar para ela.
. Olha pra mim.
Ele hesitou por um momento. o chamou novamente e ele se virou de uma vez, parecendo frustrado.
— O que é? O que você quer que eu diga, ?
— Não sei. Não achei que aquela pergunta ia te deixar assim, então fale o que quiser em vez de ficar se fechando.
ficou em silêncio por longos segundos. Por um momento, achou que ele fosse permanecer assim, no entanto, quando menos esperou, ele começou a falar.
— Eu nem me lembro do meu pai, — confessou, sem olhar para ela. — Nunca tive nem mesmo uma figura paterna na minha família. Sempre foi minha mãe, Mia e eu. E eu acho que odeio o meu pai, sabe? — Ele levantou o olhar, encontrando o dela. — Por culpa dele, eu não tive uma adolescência normal. Nem mesmo uma infância. Nunca tive pais pra assistir gincanas e jogos na escola, ou mesmo apresentações. Minha mãe tava sempre trabalhando e eu tinha que lidar com as tarefas domésticas, já que ela não tinha tempo. Enquanto tava todo mundo saindo e conhecendo amigos novos, eu tava em casa. Só quando Mia ficou grande o suficiente pra se virar sozinha...
— Foi que você se sentiu um pouco mais livre — ela deduziu, vendo-o assentir. — Eu lembro disso. De quando você começou a trabalhar e disse que tava aprendendo a tocar baixo. Era como se você tivesse encontrado motivação, algo que realmente gostava de fazer, algo que você escolheu.
— Sim. Me senti assim mesmo. E quando comecei a trabalhar também, minha mãe conseguiu reduzir um pouco as horas de trabalho dela e eu pude conhecer mais pessoas, embora não tenha feito tantos amigos. Acho que foi o primeiro, mas até River e Hero aparecerem, a gente só se via na loja.
— Eu odiava o fato de você não deixar a gente te ver tocando. Até quando formaram a banda.
— Seus pais me matariam se eu deixasse você entrar em um bar sendo menor de idade — ele retrucou. — Mas vocês foram ao festival.
— Foi a única vez, antes de vocês ficarem famosos. Depois você começou a viajar e raramente voltava pra Chicago. Mas fiquei muito feliz pelo sucesso da banda. E depois você conseguiu aposentar sua mãe.
— Sim, nós tivemos sorte. — sorriu com nostalgia. — Mas voltando à sua pergunta... Nunca tive curiosidade de conhecer meu pai. Foi tudo culpa dele, no fim. Se ele não tivesse deixado ela sozinha, minha mãe não precisaria ter trabalhado tanto, ou mesmo negligenciado Mia e eu.
— Ela dava o melhor que podia.
— Sim, e eu sou grato por ela nunca ter deixado faltar nada pra gente. Pelo menos materialmente falando. Éramos pobres, mas tínhamos roupas, comida e um teto. O emocional ficou em segundo plano, mas acho que você entende essa parte.
fez uma careta.
Sim, ela entendia. Por mais que sua família tivesse condições financeiras melhores, ela passava mais tempo com Mia, e as babás, do que com os próprios pais. Depois do divórcio, então, se distanciou ainda mais dos dois. Não por se ressentir, mas porque foi algo que aconteceu naturalmente.
Agora mantinham uma boa relação, mas se falavam apenas poucas vezes por mês.
— É, eu sei. Então é por isso que você não quer conhecer seu pai?
— Eu não queria — corrigiu ele. — Mas às vezes penso nisso, sabe? Que tipo de pessoa ele é, o que faz pra viver e coisas assim. Também queria saber por que ele abandonou a gente. Minha mãe nunca falou muito sobre isso e, depois de uns anos, eu simplesmente parei de perguntar.
— Você já pensou em tentar localizá-lo?
— Sim, mas isso não é uma prioridade, ou mesmo algo que eu tenha certeza de fazer um dia — ele admitiu. — E não tenho vontade de construir uma relação com ele. Por mais que eu admire Hero e Rick, não seria o mesmo. Rick nem sabia da existência de até dois anos atrás. Ele nunca abandonou Darla. São situações completamente diferentes. Se um dia eu o encontrar, provavelmente vamos ter uma conversa e só.
— Entendo. Não tiro sua razão, acho que eu também não ia querer mais do que isso.
— É, e se um dia eu for pai, com certeza não vou ser que nem ele. Se eu tiver um filho, vou fazer questão de estar presente em todos os momentos importantes, além de brincar e conversar com ele.
— É muito legal da sua parte — ela comentou.
— É o mínimo.
— Tem razão. — sorriu, meio sem jeito. Eu faria assim também, se pudesse. — Acho que vou me trocar e tentar dormir agora. Boa noite, . Obrigada por compartilhar isso comigo, mesmo não querendo.
riu pelo nariz.
— Boa noite, . Obrigado por ouvir. Mesmo me pressionando até eu falar.
Ela abriu um sorriso ainda maior e assentiu com a cabeça em uma última despedida, e então se foi, deixando um ainda pensativo para trás.
Alguns minutos depois, ele fez o mesmo.

Capítulo 9

29 de maio de 2018 19:34 - Futura Doceria da , Nova York, NY

— Olha agora. Acha que esse é o tom certo? — David apontou para a lata de tinta que tinha acabado de mexer.
examinou o verde-claro cuidadosamente e molhou um pincel, testando em uma folha de papel branco.
— Acho que sim. Agora só precisamos pintar. — Ela o encarou. — Tem certeza de que não vai se encrencar no trabalho? Você não tá faltando em nenhum ensaio e deixando o substituto fazer todo o trabalho, né?
— Ai, claro que não. Eu já disse, a gente só trabalha à noite nos finais de semana, quando tem apresentação. Ensaiamos pela manhã — ele explicou. — Fiquei com o resto do dia livre. Então não se preocupe, Srta. Certinha.
assentiu então e o olhou de cima a baixo.
— Você trouxe roupas? A gente vai se sujar de tinta. Não tá pensando em usar isso aí, né? — Ela apontou para a camisa xadrez azul e camiseta branca que ele usava com um short jeans.
— Relaxa, esse jeans é velho. Vou só tirar a camisa e pronto. Já que só tem a gente aqui. — Ele sorriu, piscando para ela antes de puxar a camisa pela cabeça.
segurou um sorriso, mas seus olhos denunciavam sua diversão.
— Se você insiste. Eu que não vou reclamar da visão — ela brincou, fazendo-o rir. Em seguida, se livrou da própria camiseta, ficando apenas com um top preto sem alças. — Talvez apareça. Ele se ofereceu pra ajudar também, mas não tenho certeza se ele vem.
— Você prometeu retribuir com doces? Se sim, eu tenho um palpite.
— Prometi torta de cookie — ela respondeu, colocando um pouco de tinta em um recipiente e pegou um rolo, começando a pintar.
David abriu um sorriso brincalhão.
— Então ele vem. Pelo que você falou antes, acho que ele não vai perder a chance de provar essa.
e são umas formiguinhas.
— Como tá indo entre você e ? — David perguntou, pegando outro rolo de pintura. Fazia quase duas semanas desde a última vez que se viram. — Ainda brigando?
— Não. Agora acho que a gente tá agindo que nem gente — ela brincou. — Mas no dia que voltei do seu apartamento, ele me fez um interrogatório.
— Sério? Sobre o quê?
— Ah, ele reclamou porque eu demorei e não avisei que ia passar a noite fora. Parecia até que tava falando com uma adolescente.
— E depois o quê? Ele teve um choque quando descobriu que você é adulta? — David perguntou, irônico.
— Por aí. Acho que ele ficou chocado quando eu disse que não consegui dormir muito. — Ela sorriu, arteira.
David fez uma careta, fingindo remorso.
— Mil desculpas por isso, moça. Não foi minha intenção te destruir. Só te deixar um pouquinho descabelada, talvez.
riu e o cutucou com o rolo, sujando sua cintura.
— Não minta na minha cara. Foi exatamente isso que você quis.
— Ei! — David passou a mão na mancha, sujando os dedos. — Acho que vou ter que retribuir isso aqui. — Ele soltou o rolo, dando um passo até ela.
— Não, nem vem! — tentou fugir, mas ele a agarrou por trás, girando-a no ar. Quando a colocou no chão, passou a mão na bochecha esquerda dela, fazendo-a rir enquanto tentava se esquivar em vão. — Não acredito que você fez isso. — Ela sujou os dedos, reproduzindo o movimento dele.
— Ei, foi você que começou, sua pestinha. — Ele a puxou pela cintura, e se inclinou, aproximando seus rostos.
— Se você reclamar, eu te sujo de novo — ela devolveu. David roçou o nariz no dela e conteve outro sorriso. — O que você tá fazendo, seu espertinho?
— O que você acha? — ele perguntou de volta, seus lábios quase se tocando. Em seguida, se inclinou um pouco mais, prestes a fechar a distância entre eles. No entanto, o beijo não aconteceu.
No mesmo instante, ouviram a porta se abrir e por ela passaram e .
— Eita! Tô interrompendo alguma coisa? — brincou. — Vim ajudar com a pintura.
e David se separaram, trocando um sorriso cúmplice.
— Você deve ser . — David lhe estendeu a mão direita, que ainda estava limpa. — Sou David, amigo de . Acabamos de começar a pintura. Já cobrimos todos os cantinhos e ajustamos o tom das tintas, então não deve demorar — ele acrescentou, então se virou para , estendendo a mão para ele também. — E você deve ser . me falou muito sobre você.
— Que estranho. — a apertou de volta. — Ela não falou nada sobre você.
David abriu um sorriso cordial.
— Não me surpreende. Tenho certeza de que não foi a única coisa que ela não falou.
semicerrou os olhos, sem conseguir esconder a irritação. No entanto, antes que pudesse falar mais alguma coisa, os interrompeu.
me viu saindo e se ofereceu pra vir ajudar também. Acho que vai ser rápido com nós quatro aqui.
— É verdade. Vocês podem pintar aquelas duas paredes? — apontou. — Uma é amarela e a outra é rosa. As tintas estão ali na frente.
— Claro. A gente trouxe até uma roupa velha pra isso — comentou, lançando um olhar afiado para David, que estava sem camisa.
O rapaz notou e sorriu para ele, antes de voltar ao trabalho com o rolo de tinta. Não parecia nem um pouco perturbado pelo comentário que lhe tinha sido feito antes. Ao contrário de , que se sentiu subitamente mal-humorado quando o encontrou ali.
Pela porta de vidro, viu quando ele e quase se beijaram. abriu a porta de uma vez, mas entrou primeiro, os interrompendo.
E por mais que ele odiasse admitir, tinha razão.
O cara parecia o Superman.
Que inferno, ele pensou, sem saber porque estava pensando aquilo.
Ou talvez soubesse, só não queria admitir nem para si mesmo.
voltou a ficar do lado de David e os dois engataram em uma conversa baixa, mesclada com risadinhas aqui e ali enquanto trabalhavam.
Rolando os olhos, tirou a camiseta, ficando apenas com uma regata branca larga e se juntou ao lado de , que já estava pintando uma das paredes de rosa. encharcou o rolo na tinta amarela e se pôs a trabalhar, tentando ignorar as risadinhas atrás dele, no lado oposto da loja.
Eu devia ter trazido fones de ouvido.
Mas até então achava que estaria ali sozinha, e que apenas estava indo ajudá-la. E com aquele cara, sinceramente...
"Tenho certeza de que não foi a única coisa que ela não falou."
pressionou o rolo contra a parede com força, fazendo a tinta espirrar de leve. No mesmo instante, ouviu rir alto e se virou para espiar.
— Sério que aconteceu isso? Que vergonha!
— Ah, pode crer, foi o que ela e o resto do elenco sentiu por semanas — David acrescentou, sem parar o trabalho.
fez uma careta e enquanto se virava para voltar a pintar a parede, seu olhar se encontrou com o de .
O amigo estava com o queixo sobre as duas mãos, apoiadas no cabo do rolo de tinta, e tinha um sorrisinho no rosto, como se estivesse assistindo algo divertido.
— O quê? — perguntou baixo. deu de ombros, sem falar nada. — Então para de ficar me encarando, seu esquisito.
O sorriso dele se abriu ainda mais.
— É que você parece um meme ambulante. É divertido te observar, cara.
E voltou a pintar.
rolou os olhos novamente e resmungou, voltando a fazer o mesmo.
Poucos minutos depois, eles terminaram.
A doceria era espaçosa e, ainda que não fosse muito grande, talvez coubesse umas seis ou oito mesas, a depender do tamanho. tinha comentado que a cozinha estava pronta, no entanto, todos os equipamentos ainda estavam em caixas. O plano era inaugurar a loja dali a duas semanas, tempo suficiente para ela terminar de organizar tudo e produzir alguns itens para vender.
Ela estava indo com calma, mas de todo modo tinha se preparado para aquilo. Há alguns dias, ele soube que ela havia feito um empréstimo para abrir o próprio negócio e se mudar para Nova York. Tinha algumas economias que usava para as despesas consigo mesma, mas sabia que a maior parte do empréstimo tinha ido para aquele prédio. A localização era boa e o aluguel não devia ser barato. E talvez fosse por esse motivo que ela escolheu investir mais na doceria do que um apartamento melhor, se é que a quitinete do andar de cima poderia ser chamado de um. tinha visto as fotos e era menor do que o primeiro apartamento de e Hero em Chicago.
Talvez ele devesse investir do setor imobiliário no futuro, já que dava tanto dinheiro até dos aluguéis mais ridículos possíveis. E então o quê? No final de julho ela se mudaria para o pequeno cubículo e pronto? Isso o incomodava mais do que poderia imaginar. Depois de ver as fotos do apartamento, quase ofereceu moradia por tempo indeterminado para ela. Sendo honesto, podia ficar com o quarto de hóspedes dele por quanto tempo quisesse. Era melhor do que viver ali, e o deixaria mais tranquilo.
Ela é adulta e pode cuidar de si mesma, uma vozinha murmurou em sua mente.
Sim, ela é adulta, ele respondeu mentalmente. Mas pra mim não faz diferença nenhuma se eu sei que ela vai estar sozinha.
lançou mais um olhar para , que estava guardando alguns materiais, e suspirou.
— Acho que por hoje é isso. Obrigada pela ajuda, meninos. — Ela sorriu.
— Agora só falta a gente se limpar. Começando com você, que tá verde. — David a cutucou na bochecha, já pegando um lenço umedecido de uma caixa em cima do balcão que mal havia notado, e começou a limpar seu rosto.
— Deixa que eu faço isso. — Ela o empurrou com um sorrisinho.
— Onde fica o banheiro? — perguntou de repente, querendo parar de ver aquela interação.
— Ali. — apontou para um lugar, que era um ponto cego de onde ele estava. seguiu na direção e encontrou duas portas de madeira brancas, cada uma com sua plaquinha e cheia de detalhes com florezinhas pintadas à mão.
Se trancou ali dentro e abriu a torneira, começando a se limpar também.
Quando voltou, chegou no meio de uma conversa.
— Nesse sábado? — perguntou. — Não vai dar pra mim. Vou visitar meus pais. Mas acho que pode ir.
— Ir pra onde? — perguntou, pegando algumas folhas de papel-toalha do balcão para se secar.
— Ver a minha peça — David respondeu. — Tá em cartaz há algumas semanas. Na verdade, é um musical.
— Musical? — arqueou uma sobrancelha. — Sobre o quê?
O Fantasma da Ópera disse.
— E ele é o Fantasma — acrescentou , se virando para David. — Deve ser muito difícil cantar ópera. Você precisou de muito preparo vocal?
— Sim, mas minha mãe é professora de canto, e sempre me fez cantar desde criança. Então já tô acostumado. — Ele deu de ombros.
— Ah, legal — disse, por mais que não quisesse admitir que qualquer coisa era legal em relação àquele cara.
— Vocês são bem-vindos pra assistir.
— Ah, eu vou sim, pode deixar — garantiu.
— Eu também — declarou. — Vou falar pra também. Ela ama musicais.
— É verdade. E vive fazendo cantar as músicas que ela gosta, embora eu não tenha certeza se ele já tentou ópera — acrescentou com uma risadinha.
— Ótimo, então tá tudo certo. Agora, vamos ao que prometi — disse e se afastou em direção à cozinha, voltando com uma torta de cookie.
Basicamente um grande biscoito recheado, dividido em fatias, e incrivelmente delicioso. Poderia parecer enjoativo à primeira vista, mas o doce era dosado na medida certa com o recheio de chocolate meio amargo. se deliciou com uma fatia e, enquanto comia, até esqueceu que estava irritado.
fingiu um desmaio quando provou da sobremesa, e revirou os olhos e o chamou de dramático, fazendo todos rirem.
Ao final, David colocou sua camisa de volta (aparentemente ele tinha uma!) e escondeu novamente seus músculos de Superman.
— Você quer carona? — ele perguntou a , que deu uma resposta óbvia.
— Não, vou voltar com os meninos, já que a gente vai pro mesmo lugar.
— Beleza, te vejo no sábado então. — Ele a beijou no rosto, antes de sair.
conseguiu não revirar os olhos daquela vez.
O caminho até em casa estava sendo tranquilo até resolver tagarelar. Se virando para o banco de trás, onde estava sentada com o que tinha restado do bolo cookie no colo, ele começou:
— Eu gostei do David. Ele é legal. Faz tempo que ele tá no teatro?
— Na Broadway teve ter uns dois anos, ele começou com papéis menores. Mas ele faz teatro desde criança — respondeu.
— Ele deve ser bem talentoso.
— É sim. Eu sempre assistia às peças dele na universidade. Antes mesmo da gente se conhecer.
— É? — a encarou com curiosidade. se manteve em silêncio, com os olhos no trânsito. — E faz tempo que vocês se conhecem?
— Cinco anos. A gente fez faculdade na mesma época, e eu sabia quem ele era por causa das peças, mas ficamos amigos só no último ano.
— Sério? Como vocês se conheceram?
— Uma colega minha tinha amigos do teatro e saímos em grupo uma vez. A gente acabou conversando muito nessa noite. O pessoal tava bebendo, mas a gente tinha que dirigir.
— Ah, então foi meio que natural.
— É, foi tipo uma conexão instantânea. — Ela sorriu.
— Que nem a e o , lembra, ? — perguntou para o amigo.
— Quê? Nada a ver.
— Concordo — disse . — David nunca sumiu sem deixar rastros — brincou.
riu e tapou a boca com uma mão.
— Nossa, é verdade. O coitado do sofreu um pouco querendo encontrar ela.
— Talvez não fosse o tempo certo — comentou e encarou os olhos de pelo retrovisor. — Eles eram muito jovens. E nos anos que ficaram longe, os dois provavelmente tiveram questões a tratar antes de ficarem juntos.
— Que profundo. Não sabia que você era capaz de entender isso, debochou. — Não, espera. É sim. Afinal, você escreveu "The Red Sunshine", né?
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra, retrucou. — Você escreve músicas o tempo todo também.
— É, talvez seja verdade — o amigo concordou. — Talvez.
Menos de cinco minutos depois, eles chegaram em casa. Quando saíram do elevador, se despediu e seguiu com até entrar em casa.
Ela foi direto para a geladeira guardar as sobras da torta e então sumiu pelo corredor, voltando um minuto depois com um comprimido nas mãos.
— Já tá na hora do remédio? — indagou. — Não ouvi o despertador tocar.
— Falta só cinco minutos. Desliguei ele.
— Ah... — Ele se moveu para pegar um copo de água. — Você parecia bem... Próxima do David.
— Nós somos. — Ela bebeu outro gole de água, antes de continuar. — Ele é meu melhor amigo.
riu pelo nariz.
— Amigo? Eu acho que ele gosta de você.
— Claro que gosta. Assim como eu gosto dele.
— Quer dizer que vocês tão namorando então?
— Namorando? Por quê?
— Não se faça de besta, . Ele quase te beijou antes da gente chegar.
— Ah. Isso. — Ela deu ombros.
— Isso?
— Nós juntamos o útil ao agradável. — Ela sorriu.
— E o que porra isso significa? — Ele perguntou, a voz uma oitava mais alta.
— O que acha? — Ela arqueou uma sobrancelha, ainda sorrindo. — Acho que ficou meio óbvio da última vez que saí com ele.
colocou o copo de água em cima da bancada e a encarou como se tivesse acabado de dar uma notícia séria (e ruim).
— Desde quando? — Ele quis saber.
— Desde sempre.
respirou fundo.
— Esse cara deve estar te tapeando e te deixando em banho-maria — ele resmungou.
— É? E como tem certeza de que não sou eu fazendo isso com ele?
— O quê? — franziu o cenho. — Nem vem, . Eu te conheço. Você não é do tipo que faz isso.
— Conhece mesmo? — ela perguntou. Por um instante, ele hesitou. abriu outro sorriso. — Vou tomar um banho e dormir. Preciso levantar cedo amanhã. Boa noite, .
E sem esperar por uma resposta, ela se foi.

Capítulo 10

2 de junho de 2018, 22:12 - Broadway, Nova York, NY

"You have come here..."
Os olhos de se encheram de emoção quando David começou a cantar "The Point of No Return".
Ele usava uma máscara preta, cobrindo a metade superior de seu rosto — inclusive a cicatriz do Fantasma — e usava um terno elegante, o cabelo penteado para trás.
Ao lado, suspirou.
— Essa cena aí mudou a química do meu cérebro quando eu assisti ao filme com o Gerard Butler — ela brincou.
sorriu com diversão.
— A minha também — ela disse, voltando a prestar atenção no palco.
As duas estavam sentadas entre e Hero e vez ou outra cochichavam alguma coisa que só elas pareciam entender sobre a peça.
"Past the point of no return, no backward glances... Our games of make-believe are at an end..."
A peça era incrível, e era a primeira vez que assistia a uma ópera. Por mais que gostasse daquela em específico, o único contato que tivera foi com o livro e o filme de 2004.
David estava incrível no palco, e tinha esse jeito de fazer parecer que era tudo fácil. A atriz que estava interpretando Christine também estava dando um verdadeiro show de interpretação. suspirou, enquanto os dois se encontravam na pequena ponte do cenário enquanto a música continuava.
"Past the point of no return, the final threshold... The bridge is crossed, so stand and watch it burn… We've passed the point of no return..."
— Ai, é agora. — segurou na mão de , a sacudindo de leve, ansiosa.
— Essa é minha parte favorita — disse, sem tirar os olhos do palco.
— E uma das mais tristes também — acrescentou.
Depois de um breve momento de silêncio, David voltou a cantar. Dessa vez, um pequeno trecho de "All I ask of You", que fazia parte daquele número.
"Say you'll share with me, one love, one lifetime… Lead me, save me from my solitude..."
Estavam no segundo ato e devia ter mais uma ou duas músicas antes do fim da peça. sentiu os olhos lacrimejando e piscou quando sua visão embaçou, deixando duas lágrimas correrem livres pelo rosto. Havia algo naquela música que a tocava profundamente.
A tristeza e solidão do Fantasma era comovente, por mais que ele fosse o vilão. A vergonha pela sua cicatriz, a rejeição da pessoa que ele amava também. sabia como era se sentir assim.
"Say you want me with you here, beside you... Anywhere you go, let me go, too... Christine, that's all I ask of-"
Christine removeu a máscara do Fantasma na frente de todos e os sons do órgão de tubos ecoaram em um momento grandioso e dramático. O público fictício da peça se apavorou diante da visão da sua cicatriz e tudo virou um caos.
Ao seu lado, também chorava. e Hero estavam em silêncio, prestando atenção na peça já em seus últimos números, ambos sem demonstrar qualquer emoção.
Quando tudo acabou, no entanto, eles se levantaram para aplaudir de pé, seguidos por ela e .
— Isso foi incrível! — exclamou.
— Sim, muito bom mesmo — Hero concordou. — David canta muito bem. Deve ser muito difícil, mas ele faz parecer fácil.
sorriu, orgulhosa do amigo.
não disse nada, mas, minutos mais tarde, quando eles se encontraram com David no camarim — um claro privilégio oferecido a —, o parabenizou pelo espetáculo.
segurou um sorriso, achando meio esquisito ver sem jeito. David sorriu abertamente e agradeceu enquanto os dois apertavam as mãos.
Ela foi a última a falar com ele.
— Parabéns, você foi incrível.
— Obrigado! — Ele a envolveu em um abraço de urso, a tirando do chão.
— Agora a gente tá até combinando, olha — ela brincou, tocando na cicatriz do rosto dele, que fazia parte da maquiagem.
. — David riu, incrédulo. — Que piada besta. Mas tô orgulhoso por você ter saído da toca hoje. — Ele piscou, tocando no ombro exposto dela, acariciando a cicatriz com o polegar.
corou, mas sorriu e o abraçou novamente. Ficaram assim por alguns segundos até pigarrear atrás deles.
— Tenho que ir — ela afirmou. — Vamos dar espaço pras outras pessoas falarem com você. Aposto que ganhou um monte de fãs hoje.
— Mas você é a minha número um — ele retrucou, galanteador.
Antes de sair, os quatro tiraram uma foto juntos e tirou mais uma sozinha com ele.
— Vejo você depois. — Ela acenou, antes de sair do camarim.
Quando chegaram ao carro, entrou com no banco de trás. Era quem dirigia naquela noite.
— Ai, eu tô morrendo de fome — comentou ao lado dele, assim que entrou no carro.
— Eu também — disse.
— E eu — acrescentou.
Tinha comido algo rápido antes de sair de casa, mas já tinha mais de três horas.
— Certo, vamos procurar um lugar pra comer então — Hero disse. — Dá uma pesquisada, .
— É pra já — ela disse, já pegando o celular.
encostou a cabeça na janela e observou a rua em silêncio, enquanto eles discutiam onde comer.

***


— É o seu remédio? — perguntou, minutos mais tarde, ao ver tirar um comprimido da bolsa.
— Sim, atrasei um pouco hoje. Não quis parar de prestar atenção na peça só pra fazer isso.
, que tinha sentado ao lado dela, a encarou com curiosidade. não disse mais nada. assentiu em compreensão e voltou a atenção para o cardápio da lanchonete que tinham encontrado aberta.
Pouco mais de uma hora depois, Hero e os deixaram em casa. Eles subiram para o apartamento em silêncio, mas sentia sua mente maquinando, o incômodo de não saber das coisas se fazendo presente outra vez.
Por que ela ainda não havia contado nada para ele?
Até sabia de coisas que ele não sabia e elas se conheciam há... o quê, dois meses?
Ele a conhecia desde que ela era uma fedelha de seis anos de idade. Isso não contava em nada? E o que diabos era aquela doença que ela tinha? Todos pareciam tranquilos sobre isso, mas ela ainda tinha que se medicar diariamente para não sentir dor.
— Você tá bem? — ele perguntou, assim que chegaram ao corredor que dava para os quartos.
se virou com a testa franzida.
— Claro, por quê?
— Você não tomou o remédio na hora certa. Não tem problema?
— Ah... Não, tá tudo bem. Foi uma exceção. Não vai acontecer nada.
— Tem certeza? E o que poderia acontecer? — Ele quis saber. o encarou em silêncio e suspirou. — Se você passar mal, eu preciso saber o que fazer, não é? Só tem nós dois aqui.
Um sorriso pequeno, meio irônico, apareceu nos lábios dela. Então o respondeu, como se ele fosse uma criança curiosa.
— Não vai acontecer nada, . Não se preocupe.
bufou uma risada sem humor.
— É assim que vai ser, então?
— O quê?
— Você. Me excluindo da sua vida — ele explicou. — Faz um mês que você tá aqui e eu não sei de quase nada. Eu te conheço há vinte anos, mas até a , que te conhece há dois meses, parece saber de coisas importantes que eu não faço ideia do que sejam. E ainda tem a Mia, que não me conta nada também.
— Por que você quer tanto saber sobre mim, ? Não é como se fosse fazer diferença.
— É claro que faz diferença, ! — ele retrucou, sentindo-se frustrado. — Mas você fica me excluindo o quanto pode. Até a porra da solicitação do Instagram você nunca nem aceitou.
— E por que isso te incomoda?
— Porque eu me importo com você — ele disse. arregalou levemente os olhos. continuou a falar, meio irritado. — Não me olha assim. Eu sempre me importei com você, . Você deve saber disso. Sempre perguntei sobre você pra Mia. E ela sempre foi evasiva e dizia que você tava bem. O máximo que eu soube foi um resumo do seu trabalho.
— Eu sei — disse, por fim. — Mas foi você que me excluiu primeiro, . Oito anos atrás, você não somente agiu como um idiota que não se importava, como também se afastou por meses. E eu sei, você tava ocupado com a banda, ocupado com a sua ex e outras coisas. Mas isso nunca te impediu de ligar pra Mia toda semana. Você podia ter ligado pra mim também. Ao invés disso, você só mandava mensagens esporádicas e nunca tínhamos uma conversa de verdade.
, eu... Achei que seria melhor te dar espaço — ele justificou baixinho. — Se eu me afastasse, talvez fosse melhor pra você esquecer aquilo.
— Mesmo assim, eu não esqueci. — Ela riu, sem humor. — Acho que você tinha mesmo razão, sabe? Eu era muito iludida em relação a você. Hoje eu vejo que é porque eu era muito jovem. Hoje... Eu não faria nada daquilo. Então já que a gente tá finalmente colocando as cartas na mesa, acho melhor esclarecer de uma vez. Você não pode se incomodar por eu ter seguido em frente, .
— Eu sei. — Ele desviou o olhar, fechando os olhos por um momento, com o cenho franzido. Então os abriu outra vez. — Eu sei que não tenho esse direito, mas você é importante.
— Por quê? — Ela sorriu, irônica. — Por que você sempre me viu como uma irmã?
— Eu nunca te vi como uma irmã, — ele admitiu, surpreso consigo mesmo. Mas as palavras já tinham escapado, então ele continuou. — Da última vez, cinco anos atrás... Eu quase fui atrás de você.
o encarou sem entender.
— Como assim?
— Eu quase fui atrás de você — ele repetiu. — Eu quase... Quase cedi. A música...
A música.
arregalou os olhos, surpresa de verdade com as palavras dele.
— "The Red Sunshine"? — ela perguntou. — Então ela é realmente sobre mim?
desviou o olhar e hesitou por um momento, como se estivesse em uma luta interna, mas, por fim, assentiu.
— Sim, é sobre você.
— Então eu... tinha razão?
— Sim — ele sussurrou, encarando-a nos olhos outra vez. — Sempre teve.
Àquela altura, o coração de batia tão forte e rápido que ela achou que ele talvez pudesse ouvir. Aquela pequena grande revelação a deixou desconcertada. Ele também tinha sentimentos por ela.
— E o que isso significa agora?
— Não sei. Acho que nada. Já faz cinco anos.
quase estremeceu ao ouvir aquelas palavras.
— Então é isso? Se você gostava de mim naquela época, por que nunca me falou? Por que não foi atrás de mim e explicou o que tava acontecendo? — Ela quis saber, sentindo uma súbita irritação crescer dentro de si. — A Megan tava com você por acaso, né?
— Ela tinha ido pegar umas coisas no meu apartamento, só isso.
— E você preferiu me deixar pensar aquelas coisas? — Ela aumentou o tom de voz, sem nem perceber. Seus olhos arderam ao lembrar. — Eu me senti humilhada, . Você não disse uma palavra e a sua ex achou que eu era uma fã aleatória se declarando pra você. E depois daquilo… — Sua voz falhou.
— O quê? — a incentivou a continuar, ansioso para saber. — O que aconteceu depois?
— Foi o dia em que passei mal pela primeira vez — ela confessou. — Mia tava na portaria me esperando e me encontrou encolhida de dor no elevador. Ela quis te chamar, mas eu não deixei. Porque eu já tava me sentindo mal o suficiente, por sua causa, e não queria te ver, muito menos quando eu estava naquele estado.
— O quê? — ele sussurrou, perplexo, uma onda de culpa o atingindo.
— Eu descobri o meu diagnóstico naquela semana. Felizmente, de todos os males, foi o menor. Mas eu guardei rancor desde aquele dia. De você, e então de mim mesma, por ter me sentindo tão envergonhada. Por muito tempo eu me odiei por ter sido tão ingênua, por ter aberto meu coração pra você não uma, mas duas vezes, e... Honestamente, ninguém nunca me magoou como você, .
— Eu sinto muito — ele se apressou em dizer, arrasado ao ouvir aquilo. — Sinto muito, . Eu não... Eu achei que você ia ficar bem e que...
— Por que você me deixou ir?
— Você me pediu pra não te seguir.
— E desde quando você obedece esse tipo de coisa?
...
— Por que você me deixou ir, ? — ela repetiu.
— Não era a hora certa — ele respondeu. — Não era... Você era muito jovem. Eu queria que você tivesse certeza. Queria que você experienciasse mais coisas sem se prender a mim.
— Isso é só mais uma das suas desculpas — ela retrucou, seca. — Eu tinha certeza. Passei três anos pensando nisso. Aquela droga de música me deu coragem pra te procurar de novo.
— Eu sei.
— Deve ter sido bem fácil me superar, né? Se é que esses sentimentos eram mesmo reais.
— Eles eram. Porra, . Mesmo da primeira vez... Você me deixou confuso.
— Nossa, pobrezinho do — ela ironizou, mas ele ignorou.
— Você era boa demais pra mim, sempre foi.
— Que pena. Você deve ter um complexo de inferioridade bem grande se pensa assim. Ou só é mesmo um grande idiota. Mas agora ficou pra trás, né? Ou... Não me diga, "Lillies on the ground"? — Ela se lembrou da outra música, lançada dois anos antes. — Essa também era sobre mim?
Ele suspirou.
— Sim.
riu, quase divertida.
— Essa é a conversa mais esquisita que tive na minha vida.
— Eu sinto muito. Fui um idiota. Sinto muito mesmo.
Mas aquelas palavras só conseguiram irritá-la ainda mais. deu um passo para frente, ficando a poucos centímetros dele, e o encarou friamente.
Então, em um tom de voz baixo, sem qualquer indício de falha ou hesitação, ela disse as últimas palavras que ele ouviria naquela noite:
— Vai se foder, . E aproveita e enfia essas desculpas no rabo.
mal piscou, já tinha entrado no próprio quarto e batido a porta na cara dele. Ele então suspirou, passando uma mão pelo rosto, sentindo-se subitamente cansado e se virou em direção ao próprio quarto.
Que noite de merda.

Capítulo 11

terminou de enxaguar o rosto e com o auxílio de um círculo de algodão, se livrou de qualquer resquício de maquiagem que havia restado. Então tirou peça por peça de roupa, ficando só de calcinha e voltou para o quarto, se jogou de bruços na cama, sem se importar de vestir mais roupas.
Ainda repassava a conversa com na mente, incapaz de esquecer as palavras dele.
A de cinco anos atrás, mais jovem e ingênua, teria ficado extasiada ao saber que seus sentimentos estavam sendo correspondidos. Mas a de agora... Ah, ela só conseguia sentir raiva.
Cinco anos.
Ele podia ter dito.
estava tão irritada que mesmo com vontade de chorar, não conseguiu. Era como se houvesse uma revolta dentro de si, provocada pelo cara do quarto ao lado.
Babaca desprezível.
Não ser correspondida tinha lá seu lado bom. Se era unilateral, era até mais fácil de aceitar. Ela tinha aprendido a fazer aquilo nos últimos cinco anos. Desistiu dele, embora os sentimentos — para seu desgosto — ainda estivessem lá.
detestava que a afetasse depois de tanto tempo. E detestava mais ainda não conseguir evitar os sentimentos que a perturbavam há mais de uma década.
Como alguém podia ser tão trouxa assim?
E agora, para completar, havia confessado o que sentia. Ou melhor, o que sentia no passado. Isso também havia ficado claro para ela. Houve uma época que ele até pensou nela como mais que uma amiga, mas... Não fez nada.
Era muita humilhação para uma pessoa só. Saber aquela informação só a fazia pensar que tinha sido feita de idiota. Ela nem sabia quando havia começado para ele, mas provavelmente era melhor nem saber.
Era tudo uma bagunça e ela não tinha mais paciência para lidar com uma vida amorosa complicada.
Felizmente, tinha conseguido se libertar de algumas amarras que os sentimentos que nutria por haviam colocado nela, como conhecer outras pessoas.
Aquela noite, em específico, a fazia ter mais vontade ainda de sair com mais gente, mas não tinha nem tempo, nem disposição para flertar com desconhecidos.
Ainda assim, queria extravasar todo e qualquer sentimento acumulado. Andava tensa e estressada. O curso de culinária era bom, mas bem rígido. Ela ainda tinha sorte em ter uma formação na área; o que tinha aprendido na faculdade e no antigo trabalho estava sendo bem útil agora, ainda que um pouco estressante. Além disso, precisava terminar a organização na loja e iniciar a produção. Havia terminado a pintura sozinha, dois dias antes, mas ainda faltava arrumar tudo e os móveis chegariam na segunda-feira.
A necessidade de relaxar vinha se intensificando a cada dia que passava e... Talvez até tivesse feito isso na última terça-feira, enquanto pintava a doceria. David a teria ajudado com isso, fosse os dois dividindo um pote de sorvete, enquanto assistiam vídeos aleatórios no YouTube, ou fazendo sexo.
Se não tivesse aparecido na doceria, provavelmente teria ido para casa com David. E só não o fez para evitar mais um interrogatório chato que ela não tinha paciência de responder. não havia gostado muito de David, mas isso já era de se esperar. Especialmente quando era nítido que seu melhor amigo tinha conhecimento de informações que ele não tinha.
E se havia algo que sabia que detestava era ficar no escuro. Que ficasse um pouco mais, então.
Agora ela queria ser mais chata ainda. Irritar ele ainda mais depois de saber da pataquada que havia feito cinco anos antes.
Talvez passasse mais tempo fora de casa ou dentro do próprio quarto. Não queria olhar para ele, conversar com ele, ou sequer respirar no mesmo ambiente que ele.
E seu coração estúpido podia reclamar como fosse, ela não se importava.
Depois de longos minutos bolando pela cama tentando dormir, desistiu e começou a ler um livro que David tinha indicado.
Conseguiu se distrair por um tempo, mas só depois de uma hora e meia seus olhos começaram a pesar e ela finalmente conseguiu pegar no sono.
No dia seguinte, depois de pegar um táxi para a escola de culinária, ligou para Mia e contou tudo.
— Ele disse o quê?! — A amiga gritou. podia até imaginar sua expressão perplexa.
— Isso aí. Ele admitiu gostar de mim. Naquela época — ela enfatizou. — Seu irmão é o segundo maior idiota de todos os tempos, Mia. E eu sou a primeira, por ainda gostar dele.
— Não acredito nisso, . Ele... Por que ele não me disse?! Ele sabia que eu sempre apoiei vocês dois...
— Ai, não sei. Eu não entendo seu irmão, amiga. Sinceramente, tô cansada disso. Se eu pudesse simplesmente arrancar esses sentimentos, eu o faria.
Do outro lado, Mia respirou fundo.
— Sinto muito. Você disse alguma coisa? Não se confessou de novo, né?
— Pra ser humilhada mais uma vez? — Ela riu com ironia. — Nem pensar. Não pretendo ser a idiota apaixonada de novo, então vou deixar seu irmão achar que segui em frente. De certa forma, eu fiz isso mesmo. Desisti dele há cinco anos, lembra?
— É, eu sei. Bem, querendo ou não, acho que foi bom pra você. Não ser rejeitada, é óbvio, mas tomar essa decisão — Mia refletiu. — E você conheceu o David, que é um cara gente boa, ainda que eu tenha um pouco de ciúmes em ter que te dividir com ele.
— Ele adora isso, sabia?
— Eu sei, o idiota competitivo. Mas pelo menos posso ficar tranquila em saber que ele pode cuidar de você e dar apoio moral pessoalmente. Entre outras coisas que eu não posso dar, se é que me entende.
riu outra vez, dessa vez com diversão.
— É o tipo de divertimento que só David consegue me proporcionar. Sinto muito, amiga — ela brincou.
— Não sinta. Apenas me conte os detalhes sórdidos.
— Claro que sim — prometeu, no instante em que o táxi parou. — Mia, tenho que ir, vou entrar em aula. Depois a gente se fala.
— Tá, vai lá. Até mais tarde. — E desligou.
pagou a corrida e encarou o relógio, antes de correr. Tinha dez minutos para trocar de roupa e entrar na sala.
De jeito nenhum ia ter uma professora olhando feio para ela por causa de um mísero atraso.

***


— Merda, merda, merda! — xingou baixinho, com as duas mãos na cabeça, andando de um lado para o outro no próprio quarto.
Não devia ter dito a ela.
Não devia.
O plano era morrer com aquela informação, não vomitar ela em uma discussão idiota.
O que ele tinha na cabeça?
E mais importante, o que faria agora?
Nunca viu tão irritada antes, mas sabia que ela tinha razão.
Admitir aquilo depois de cinco anos...
se sentia nervoso, irritado consigo mesmo e culpado, acima de tudo.
passou mal naquele dia, pensou.
E se você tivesse dito que a amava, os últimos cinco anos seriam diferentes, uma vozinha completou em sua mente.
E tinha razão. Nada de hostilidade, viver sem saber sobre ela ou... David.
Se ele tivesse sido corajoso...
Se tivesse ignorado todas as besteiras que pensava, ele e estariam bem, ele tinha certeza.
Agora tinha que conviver com aquilo. Conviver com o arrependimento de algo que nunca fez, além do ódio dela.
Ele mal dormiu naquela noite.
Ficou repassando a própria idiotice na cabeça e, por mais que tentasse se distrair com outra coisa, sua mente sempre voltava para a discussão.
Dois dias depois, ainda sem conseguir dormir direito, levantou cedo, depois de cerca de três ou quatro horas de sono.
já havia saído de casa e ele mal a viu no dia anterior. Ela saiu do quarto apenas para pegar comida, uma ou duas vezes, enquanto fingia que ele não estava ali, e depois se trancou novamente.
Assim, ele não estava exatamente surpreso em não a encontrar em casa quando acordou.
Algumas horas depois, antes de sair para trabalhar, ele checou o celular para ver se tinha alguma mensagem dela, e não encontrou nada.
Mas o que esperava? Que ela mandasse uma mensagem de bom dia ou desse alguma satisfação?
Era óbvio que não faria aquilo. E , tampouco. Provavelmente a irritaria ainda mais se começasse a enviar mensagens.
No estúdio, conseguiu errar cinco vezes seguidas o início de uma música simples. Na sexta, Hero agarrou a guitarra e a levantou em sua direção, como se fosse bater nele.
permaneceu parado, sabendo que ele não desperdiçaria um instrumento com aquele tipo de atitude, mas suspirou desanimado.
— Que merda tá acontecendo com você?! Já é a quinta vez! Nem é uma música difícil — O amigo reclamou. e permaneceram calados, apenas observando. Ninguém interrompia uma bronca do líder quando ele tinha razão.
— Desculpa, eu vou tentar de novo.
— Você disse isso nas outras cinco vezes! — Hero retrucou, impaciente. — Não sei que porra deu em você, , mas vê se dá um jeito nisso. A gente tá perdendo tempo porque você tá errando tudo!
— Eu sei, eu... — ele não conseguiu terminar. Em vez disso, ficou olhando para o chão, de cabeça baixa.
respirou fundo. Então, com a voz mais calma, perguntou:
— Aconteceu alguma coisa?
Silêncio.
, tá tudo bem? — quis saber. — É a ?
franziu o cenho com a menção do nome dela, mas não levantou a cabeça.
— É a , né? — deduziu. — Desembucha.
tirou o baixo e se sentou no chão.
— Nós discutimos no sábado depois que chegamos em casa e... Eu acabei contando pra ela — ele disse, finalmente.
— Contou o quê? — perguntou.
— Que cinco anos atrás, eu quase fui atrás dela. Admiti que gostava dela naquela época.
— Admitiu só naquela época? — perguntou, vendo-o assentir. — Cara, você é muito burro.
— Ah, é? — o encarou. — E o que você queria que eu fizesse? Não é como se fosse mudar alguma coisa. Ela já seguiu em frente, lembra?
— O que ela disse?
— Me xingou e se trancou no quarto. Também disse que naquele dia... ela passou mal e pouco depois soube da doença que tem.
— Ela disse o que era? — indagou.
— Não. Mas se eu tivesse ido atrás dela então... Eu podia ter ajudado e tudo teria sido diferente e... Agora ela tá puta comigo, e com razão.
— E você? — Hero o encarou, de braços cruzados. — Como tá se sentindo?
— Um idiota. Sinto muito por hoje. Não dormi direito e não tô conseguindo me concentrar.
— Tá, vamos pular o ensaio de hoje, continuamos amanhã — ele decidiu e encarou . — E você, , cai fora. Vá pra casa e tenta dormir mais um pouco, ou usa o meu quarto de hóspedes, não importa. A gente precisa de você descansado.
— O quarto de hóspedes, então. — assentiu. Não queria ficar no apartamento vazio quando estava se sentindo um lixo. Ali, ao menos, teria alguma distração quando acordasse.
Se estivesse descansado, podia tentar trabalhar novamente e ajudar Hero com a produção das músicas.
E disse exatamente isso antes de se retirar.
Os amigos continuaram no estúdio e se arrastou pelo corredor e se trancou no quarto de hóspedes.
Em seguida, se livrou do tênis e se jogou de bruços na cama, sentindo os olhos pesarem de sono.
O enfado das duas últimas noites o fazia se sentir como um zumbi andando para lá e para cá, o que era péssimo, já que ele tinha que trabalhar.
Assim, fechou os olhos e se deixou ser levado pela inconsciência, apenas alguns instantes depois.
Lidaria com o resto mais tarde.

Capítulo 12

fitou o celular ansiosamente.
Era terça-feira de manhã e ele tinha adormecido no sofá na noite anterior. Queria esperar chegar, mas não houve sinal dela. Ela ainda não havia voltado para casa.
Ele teria ouvido a porta abrir, se fosse o caso. Não tinha nem mesmo o sono pesado. Queria dar espaço a ela, mas aquela distância o deixava inquieto.
Já fazia dois dias e ele não aguentaria aquele tipo de situação por muito mais tempo. Talvez fosse melhor enfrentar de uma vez. Conversar com ela. Dar um jeito dos dois deixarem aquilo para trás, onde deveria ficar.
pegou o celular de cima de uma almofada e estava a um segundo de ligar para quando ele começou a tocar. Uma careta apareceu em seu rosto quando viu o nome na tela.
Suspirando, ele atendeu.
— Oi, mãe.
— Oi, mãe? — ela repetiu. — Quer dizer que eu tenho mesmo um filho mais velho? Achei que não, já que faz quase um mês que você não me liga!
— Eu andei ocupado, desculpa.
— Ocupado pra mim, porque sei muito bem que você fala com sua irmã quase todos os dias — ela reclamou.
— Desculpa, prometo que vou melhorar.
— Acho bom mesmo. Como você está?
— Bem, e a senhora?
— Ótima, comecei um curso de cerâmica na semana passada. Descobri que sou boa nisso. Talvez eu siga com esse hobby.
achava difícil. A mãe era boa em várias coisas, de fato. Não era uma surpresa que tivesse encontrado mais um hobby aleatório para passar o tempo. Felizmente, ela podia se dar o luxo agora que já não trabalhava. Mas também raramente mantinha o interesse em algo por muito tempo. Foi assim com crochê, bordado, pintura, entre outros passatempos que ele não se lembrava. tinha até peças que ela havia trazido para ele nos últimos anos, frutos de cada um deles.
— Isso é bom, eu ouvi que dá pra fazer um monte de coisa com isso — ele disse, mas não tinha ouvido nada, era apenas uma dedução. A mãe começou a falar animadamente por alguns minutos, até que mudou de assunto.
— E a ? Ela tá bem? Você tá cuidando direitinho dela, não tá?
— Tá bem, sim — ele respondeu. — Só ocupada com os preparativos da doceria e o curso que anda fazendo. Semana passada, e eu ajudamos a pintar o lugar.
— Que bom saber. Grace não queria que ela saísse de Chicago, sabe? Mas quando dissemos que ela ficaria com você até se adaptar, ela mudou de ideia.
Um sorriso irônico apareceu no rosto dele.
— Ah, claro. A vizinha não teria coragem de dizer algo contra a pessoa que salvou a vida da filha dela, né?
— A vizinha? Quando você vai parar de chamar ela assim? Já faz doze anos, .
— O que é relativamente pouco comparado ao tempo que vai ter que carregar aquela cicatriz — ele retrucou.
— Grace é a mãe de , . E é minha amiga. Por favor, tenha mais respeito.
bufou, rolando os olhos.
— Sua amiga Grace quase matou a filha e aposto que nunca nem se desculpou por isso. Não me peça pra respeitar quem não merece respeito, mãe.
Do outro lado, Eleanor suspirou.
— Mia me disse que quis ir embora para se distanciar dela. As duas andavam discutindo muito nos últimos tempos e Grace não aprovava o emprego em que ela estava. Eu entendo o lado da , mas... Você não acha que foi demais atravessar o país? Acho que Grace sente falta dela, mas não sabe demonstrar.
— Você é muito boazinha, mãe. É muito positivo da sua parte achar que Grace ainda tem algum tipo de sentimento.
— ela advertiu, mas ele ignorou e continuou a falar.
— Aposto que tá mais em paz aqui, tomando conta da própria vida, do que com uma mãe intrometida fungando no pescoço dela.
Eleanor suspirou, desistindo da discussão.
— Espero que ela consiga se adaptar bem. De todo jeito, é bom saber que você pode cuidar dela.
— Ah, ela tá se adaptando bem, sim, mãe. E não precisa de mim pra isso, posso garantir.
— Mesmo assim, é bom ter um rosto conhecido. Especialmente quando vocês se conhecem há tanto tempo.
quase riu. Se ela soubesse que o rosto dele provavelmente era o último que queria ver no momento...
— Claro, mãe. Com certeza. Olha... Eu tenho que ir, tá me esperando pra gente ir pra academia. Depois a gente se fala.
— Tudo bem. Me liga depois. Eu te amo.
— Também te amo.
Quando desligou, suspirou por um momento. Então juntou coragem e foi trocar de roupa para ir, de fato, para a academia. Talvez gastar um pouco de energia o ajudasse com a inquietude.
Mas foi sozinho. não estava ali.

***


Na, na, na, na, na… cantarolou enquanto terminava de rechear o quarto bolo da noite.
Tinha saído um pouco mais cedo do curso, então resolveu adiantar algumas coisas.
Atrás dela, também cantarolava a música de Aidan Callahan que estava tocando no celular de . Havia mandado mensagem para ela e descoberto que estava na doceria, adiantando o que dava. Congelaria por, no máximo, uma semana. Não tinha porque esperar mais tempo para abrir seu negócio. Felizmente, tivera ajuda de naquela noite, mas passaria o resto da semana preparando doces e mais tortas à noite, e planejava abrir a loja no fim de semana durante a tarde e a noite, e à noite em dias úteis.
Seria um pouco cansativo, mas ela tinha que aguentar só mais seis semanas até terminar o curso. Até lá, seu apartamento estaria desocupado e não precisaria mais se preocupar com locomoção de volta para casa, já que estaria a apenas alguns metros acima de distância.
Era apenas uma quitinete, mas se o negócio prosperasse, talvez pudesse se dar ao luxo de conseguir um lugar melhor depois, talvez até de comprar um carro.
— Terminei — anunciou, quando concluiu a lavagem da louça suja.
— Você sabe que nem precisava ter vindo, né? Mas obrigada mesmo assim.
— Eu tava entediado, você precisava de ajuda e eu não tinha nada pra fazer. — Ele deu de ombros. — Não vou dizer que amo lavar louça, mas a parte de fazer docinhos foi divertida.
abriu um sorriso para ele.
— Mesmo assim — ela repetiu.
— Você vai abrir no sábado mesmo?
— Sim, durante a tarde, depois das cinco, eu acho. Tenho alguns seguidores no Instagram da doceria, e vou anunciar lá e... Torcer pra que as pessoas apareçam. — Ela riu.
— É claro que vão aparecer. Vou garantir isso. Publicidade de graça — ele disse. — Eu adorei o nome, por sinal. E acho que vai ser um sucesso. Você tá vendendo coisas que a maioria das pessoas gosta, a localização é boa, e os produtos são deliciosos. Acho que mesmo sem qualquer anúncio, as pessoas apareceriam.
— Espero que sim.
— A loja ficou muito fofa, parecendo uma casa de bonecas, e eu adorei as florezinhas que você pintou nas paredes e nas portas. A mobília também é bonita. É o tipo de lugar que dá vontade de entrar só pela beleza. Você tem bom gosto, .
— Obrigada.
— Por nada. Agora, posso ser intrometido e perguntar uma coisa?
levantou uma sobrancelha e sorriu, levemente confusa.
— Claro, vai em frente.
— Onde você dormiu noite passada? disse que você não voltou pra casa e, antes que me pergunte, ele não sabe que eu ou você estamos aqui.
— Dormi na casa de David.
— E você continua com raiva de ? Ele também disse que vocês brigaram.
— Até que parte você sabe?
— Tudo.
— Então você deve imaginar a minha resposta.
— É, acho que sim. — fez uma careta. — Acho que eu também ficaria bravo, se estivesse no seu lugar. escondeu os sentimentos e te fez sofrer outra vez. Houve uma época em que eu e os caras pensamos que apenas não valia a pena tentar, sabe? Que talvez o que ele sentia fosse passageiro. Mas aí a gente te conheceu. Então entendemos, ao menos em parte, porque escreveu aquelas músicas.
— Com música ou não, nada muda. Aquela que ele se lembra de cinco anos atrás ficou no passado. Eu era impulsiva e gostava de seguir meu coração. Também era jovem e ingênua. Hoje penso de forma mais racional e desprezo a mim mesma por ter ido atrás dele naquele dia.
— Ei, você foi corajosa. Não é todo mundo que consegue se abrir assim. — a encarou, sério. — Mas entendo o que quer dizer.
suspirou, se recordando da confissão de .
— Eu acho que teria sido melhor eu nem saber, . Era melhor achar que tinha uma paixão unilateral do que descobrir que fui correspondida em algum momento, mas ele escondeu isso de mim. — Ela o encarou de volta por um instante, enquanto terminava de embalar os bolos para congelar.
— Você gostava muito dele, né?
— Gostava. Talvez uma parte de mim ainda tenha certa curiosidade em relação a esses sentimentos, mas... Ele não é a pessoa certa pra mim, se é que existe uma pessoa "certa". Se sim, acho que nunca foi, e nunca seria capaz de ser. Somos pessoas diferentes agora.
— E quem é a pessoa "certa" pra você? — perguntou, fazendo aspas com os dedos. — O David?
— David é um cara legal. — sorriu com carinho. — Provavelmente seria a pessoa certa se a gente tivesse em um relacionamento de verdade.
— Então vocês são só... Amigos coloridos?
— Só amigos, acima de tudo. Mas sim, nós... Somos bem compatíveis nesse campo também. — Ela riu.
— É, até dá pra entender o ciúme de . Tipo, ele tem algum defeito, o David?
— Hmm... Ele detesta azeitonas, uva-passa e comida apimentada.
— Quê? Que tipo de gente detesta essas coisas? Olha, , acho que ele é definitivamente o cara errado — brincou, fazendo-a rir.
Ela pegou os bolos e os organizou cuidadosamente no freezer, junto com os docinhos e então se dirigiu à pia para lavar a última parte da louça.
— David é meu melhor amigo. Não vou largar dele, obviamente, mas... Se um de nós se apaixonar, o acordo acaba — ela disse. — No entanto, faz cinco anos que isso não acontece.
— Caramba. Só pode ser brincadeira, né? Esse cara vai te pedir em casamento a qualquer momento. Sem chance dele não sentir nada. Com todo respeito, , mas seria fácil se apaixonar por você. Se não fosse praticamente meu irmão...
— Você investiria em mim? — ela deduziu, se divertindo.
— Com certeza! Mas não posso fazer isso com a garota que ele gosta. Então, você entende, né?
— Gostava — corrigiu.
— Eu acho que ainda gosta — retrucou.
riu pelo nariz.
— E quem te disse isso? Ele?
— Ele não precisa dizer nada pra eu saber. É o mesmo com Hero e , sabe? Aquela coisa de conviver por muito tempo com uma pessoa só e você simplesmente sabe.
— Bem, da última vez que achei que tinha esse tipo de intimidade com alguém, levei um fora bem feio.
— Infelizmente, nosso é um idiota. Mas você sabe, a gente ama com defeito e tudo.
— Ah, sim. — Ela riu outra vez, já se afastando da pia para secar as mãos. — Tô pronta. Vamos?
— Você vai voltar pra casa hoje?
— Eu bem que poderia passar a semana na casa de David, mas não peguei uma quantidade de roupas suficiente.
— Se você sumisse por mais um dia, acho que registraria um boletim de ocorrência, então pega leve.
— Eu ainda tô com raiva dele, essa parte não mudou — ela reforçou. — Mas tô morta e preciso de um banho e da minha cama.
— Bem, vamos então, senhorita. — Ele estendeu um braço para ela e os dois se dirigiram até a saída.
Alguns minutos mais tarde, finalmente chegou em casa.

Capítulo 13

5 de junho de 2018, 21:58 - Apartamento de , Nova York, NY

Depois de um banho quente e demorado, trocou de roupa e saiu do quarto para tomar o remédio. Seu corpo protestava de tensão pelo dia cheio e ela não via a hora de relaxar.
Felizmente, quando entrou no apartamento, não viu nem sinal de , então imaginou que ele ou não estava em casa, ou já tinha se recolhido para o quarto.
Tudo estava silencioso, exceto pelos barulhos que ela mesma fazia.
No entanto, assim que chegou ao corredor que dava para os quartos, parou de andar, tendo um pequeno susto ao avistar parado do lado de fora do quarto dela, de braços cruzados.
Ele estava no quarto, então, ela deduziu, depois de se recuperar do susto.
Tentou ignorá-lo e passar direto para o quarto, mas se colocou em sua frente, a impedindo.
— Preciso falar com você — ele anunciou, decidido. — Vou ser rápido.
suspirou e cruzou os braços também, imitando a postura dele.
— O que você quer?
— Bem, pra começar, quero que você haja que nem adulta e não como uma adolescente rebelde com raivinha — ele respondeu, sem rodeios.
— Como é? — Ela franziu o cenho, sem saber se tinha ouvido direito.
— Isso mesmo que você ouviu — confirmou. — Moramos sob o mesmo teto, , e por mais que seja temporário e você insista em me manter fora da sua vida, eu ainda faço parte dela, ao menos um pouco. E me preocupo com você. Sumir assim depois de uma discussão foi infantil pra caralho e eu não tenho paciência pra essas coisas. Pensei em te dar espaço pra pensar em tudo, mas isso foi antes de você resolver desaparecer por mais de vinte e quatro horas sem avisar nada.
— Eu... Infantil? — Ela o encarou, incrédula. — Você me magoou, seu babaca. O que achava que eu ia fazer? Te dar um tapinha nas costas e dizer que você fez bem? Não vem dar uma de santo agora, .
Eu achava que você ia se acalmar e a gente ia conversar depois.
— Ah, agora você quer conversar? — ela debochou.
— Precisamos disso, — acrescentou ele, sério. — Não podemos continuar vivendo nesse clima hostil. Não quero ter que ficar pisando em ovos sempre que tiver ao redor de você. A gente mora junto, você tem uma doença e eu não sei nem do que se trata porque você é egoísta demais pra compartilhar isso comigo. E se algo acontecer e eu não souber o que fazer?
— Não vai acontecer nada — retrucou ela, entredentes.
— Você não sabe se vai. Da última vez que chequei, você não era vidente. Nem infantil, mas tá agindo como se fosse. Precisamos falar de tudo. Não vou continuar com essa merda de clima entre a gente. E acredite, eu também tô surpreso por tomar essa atitude, mas você conseguiu me irritar a esse ponto.
— Aff, você é tão irritante.
— Já me falaram coisas piores.
suspirou, sentindo o corpo pesado de cansaço. Não tinha energia nem para brigar.
— Endometriose. É isso que eu tenho. Tá feliz agora? E não se preocupe, tá tudo sob controle. Eu já falei um milhão de vezes. Mas se quer tanto saber, o máximo que pode acontecer é uma cólica forte.
— Ótimo. Agora vamos para o resto.
— Que resto? — Ela o encarou, confusa.
— É verdade que eu gostava de você.
revirou os olhos, sem paciência.
— Eu não quero falar disso, . — Ela tentou passar por ele, mas ele segurou seu pulso, a impedindo.
Então o ouviu falar novamente.
— Você me disse pra não ir atrás de você.
— Como é? — se virou, o encarando outra vez.
— Você pediu pra eu não te seguir naquele dia, . Então eu não fui, mesmo querendo.
— E nem depois — ela comentou.
— Depois eu acabei desistindo — admitiu ele. — Entendi como um sinal de que não era pra acontecer. Não naquele momento.
— É? E em que momento, ? — indagou ela, irritada. — Faz cinco anos! Eu sofri por gostar de você, seu idiota.
— Eu sei. — suspirou, sentindo-se culpado. — Eu sinto muito. Sei que não acredita, mas... Eu sinto muito, . De verdade. Eu achei que você ia ficar melhor sem mim.
riu, sem humor, sua irritação crescendo cada vez mais. Então puxou o braço que ele segurava, quebrando o contato entre os dois.
— Você sempre pressupõe as coisas e nunca pergunta.
encarou a mão agora vazia e então levantou o olhar até encontrar o dela.
— Eu sei.
— Então você concorda que é um babaca?
— Sim. E você, concorda que é infantil?
— De novo, isso? Bem, talvez eu seja mesmo tão mais nova do que você, como você sempre quis enxergar. Vai ver foi por isso que a gente não deu certo. Você queria um mulherão e não uma garota iludida que tinha acabado de sair da adolescência e-
— Eu queria você — ele a interrompeu. ficou em silêncio por um instante, travada.
, isso não é hora pra-
— Eu sempre quis você, — ele se adiantou outra vez.
— Do que porra você tá falando?!
— Eu... — suspirou, soltando o ar de uma vez. — Tô finalmente admitindo pra nós dois que provavelmente gostei de você primeiro. Não quando a gente brincava de casinha, mas definitivamente antes do seu acidente.
— Então o acidente mudou isso?
— Não. Você tinha quatorze naquela época e eu tinha dezenove. Acho que é meio óbvio, . Você era menor de idade, inocente e-
— E quando eu fiz dezoito? — ela quis saber. — Por que agiu daquela forma?
— Porque você tava só entrando na vida adulta e eu tinha vivido um monte de coisas que você não tinha. Eu não queria que você perdesse sua juventude sendo obcecada por mim.
— Essas coisas nunca importaram pra mim, .
— Eu sei. Mas eu queria que você tivesse certeza disso. Não queria que depois de adulta, você olhasse pra trás e pensasse que poderia ter aproveitado mais. Não queria te prender em um relacionamento comigo. Minha mãe se envolveu com meu pai quando era muito jovem e perdeu muita coisa, e eu não queria isso pra você também. Sabe o que ela ganhou no fim? Dois filhos pra criar enquanto se acabava de trabalhar. Ela não pôde estudar, nem se divertir, ou mesmo se envolver com outra pessoa, porque nem tinha tempo pra isso. E toda essa situação meio que respingou em mim, porque eu também perdi algumas coisas. E tudo isso por causa de um homem. Da porra de um homem, literalmente.
— Não era a mesma coisa e você sabe — rebateu, convicta. — Você não é seu pai, . E eu não sou sua mãe. Você nunca me impediria de fazer nada e eu nunca deixaria meus sonhos pra trás por sua causa, por mais que eu te amasse.
— Jovens mudam de ideia o tempo todo, . Você é adulta hoje. Sabe muito bem que é uma pessoa completamente diferente agora do que era há cinco anos. Ou há oito ou doze anos.
— Sim, é verdade — admitiu ela. — Mas você podia ao menos ter sido honesto desde a primeira vez. Você gostou primeiro de mim, ? Parece até piada.
— Acho que foi parecido. Antes de eu começar a trabalhar e realmente ter contato com mais pessoas, antes de conhecer os caras e formar uma banda... Era sempre você que eu via. Era sempre você, Mia e eu o tempo todo. — Ele suspirou, meio esgotado por revelar tudo o que havia negado por anos, às vezes até para si mesmo. — Eu nunca consegui seguir com nenhum relacionamento porque, no fim, ainda pensava em você. Em como poderia ter sido e... Não sei. Uma parte de mim se arrepende.
franziu o cenho e uma pergunta lhe escapou antes que pudesse pensar duas vezes.
— O que faria se pudesse escolher agora?
— Eu... Não sei. Acho que não faz mais diferença. — Ele deu de ombros.
— Quando exatamente você parou de ter sentimentos por mim, ? — ela quis saber.
ficou em silêncio. Então desviou o olhar do dela e sacudiu a cabeça. inclinou a própria para o lado e arqueou uma sobrancelha, o observando atentamente.
— As coisas são... Diferentes agora.
— Sim. Somos adultos agora. Morando juntos temporariamente, sem nada pra nos impedir de fazer qualquer coisa.
levantou a cabeça, em alerta.
— Do... Do que você tá falando? Tá dizendo que ainda sente alguma coisa por mim?
— Não coloque palavras na minha boca, . Você nem respondeu minha pergunta.
— E importa?
— Depende da sua resposta — revelou ela.
— Não tenho uma resposta, .
— E por que não?
— Porque... — deu um passo para frente. — Não posso estimar uma coisa que nunca aconteceu.
— Nunca...? — segurou o olhar, sentindo coração dar um salto, e engoliu em seco. — Então você ainda...
— É. Ainda tenho sentimentos por você — ele admitiu. — Muitos deles são bem conflitantes, já que você me deixa maluco.
— E agora?
— Bem, nada. Você tá com o David agora e-
— Não tô — ela disse, o coração martelando na boca. Talvez fosse se arrepender daquela conversa mais tarde, talvez aquilo tudo piorasse o clima já estranho entre os dois. Mas resolveu falar mesmo assim. — Nós não temos um relacionamento, .
piscou, a encarando por alguns segundos antes de voltar a falar.
— Então... Tecnicamente, você tá solteira?
— Você sabe muito bem que sim. E a culpa é sua — revelou ela.
— Minha?
— Evitei relacionamentos por sua causa.
— Então você ainda gosta mesmo de mim? — ele quis saber, um tanto ansioso.
— Acho que gostar é uma palavra muito forte, considerando a raiva que você me fez passar, mas...
— Mas...?
— Não... — Ela engoliu em seco mais uma vez. — Não sumiu completamente.
Era isso. Alguma coisa ela tinha dito, o máximo que conseguia falar naquele momento sem expor seu coração completamente.
Mas, pelo visto, foi o suficiente.
abriu um sorriso, parecendo feliz.
— Por que não me disse isso antes? — ele perguntou, como se aquilo não fosse óbvio.
Mesmo assim, não conseguiu responder.
Assim que cogitou em abrir a boca falar, segurou seu rosto com ambas as mãos e a beijou.

Capítulo 14

Parecia um sonho, exceto que não era.
Era a mais pura realidade.
O coração de deu saltos e cambalhotas no peito, seu estômago parecia ter um milhão de borboletas se movendo fervorosamente. Sua pele se arrepiou quando ele a pressionou contra a parede e deixou uma mão escorregar para seu pescoço, a outra indo até sua cintura, a puxando para mais perto.
envolveu seu pescoço com os braços e roçou as unhas em sua nuca enquanto suas línguas brincavam juntas. O tempo parou. Ou talvez só tivessem perdido a noção dele.
Quando o ar se fez necessário, ela quebrou o beijo, mas ele não tirou a boca de seu corpo. Enquanto ela ofegava em busca de ar, percorreu seu pescoço com os lábios e roçou os dentes ali, quase a fazendo se derreter em seus braços. sentiu as pernas bambearem um pouco, e teve a impressão de que só permaneceu no lugar porque ele a segurou.
a puxou mais contra si, as mãos agora sob o tecido de seu pijama, percorrendo de leve a pele de sua cintura e costelas.
arfou, sentindo o calor que emanava das mãos dele. O toque firme a fazia querer esfregar as coxas uma na outra.
— Quarto... — ela sussurrou.
— O quê? — Ele parou por um momento, apenas para encará-la.
— Quarto — ela repetiu.
— Tem certeza? — ele quis saber.
assentiu, sentindo o corpo pegar fogo. Felizmente, não fez mais perguntas. Em vez disso, passou as mãos pela parte de trás das coxas dela e a levantou, se dirigindo não para o quarto dela, mas para o dele.
nunca tinha entrado ali, não realmente. Naquele momento também não notou muita coisa além do único abajur ligado ao lado da cama, o suficiente apenas para iluminar eles dois. a depositou com cuidado no colchão macio e a beijou outra vez.
tentou levantar a camisa dele, e ele se afastou para tirá-la, revelando o tronco forte, com algumas tatuagens aqui e ali, a maioria ocultada pelas roupas. se inclinou para beijá-la novamente, mas o empurrou de leve, afastando-o apenas o suficiente para que se sentasse e se livrasse da própria blusa do pijama. Ela não usava sutiã por baixo, obviamente, e a observou como se estivesse gravando cada detalhe de seu tronco nu.
Então ele levou uma mão até sua cicatriz, primeiro a acariciando com o polegar e então inclinando-se para beijá-la. prendeu a respiração ao sentir os lábios dele ali. David também tinha feito aquilo antes, mas aquele momento era diferente. estava lá quando ela conseguiu aquela cicatriz. E foi ele que impediu que algo pior acontecesse.
— Nunca foi pela cicatriz, — ele sussurrou, lembrando-se da primeira vez que ela se declarou e perguntou aquilo.
— Por que você demorou tanto? Por que fez isso com a gente? — ela sussurrou de volta.
Ele se afastou para encarar seu rosto.
— Não era hora, você sabe que não. Mas agora...
— Agora é diferente? — ela deduziu.
— Parece certo — ele concluiu, levando uma mão ao rosto dela. Houve um momento de silêncio, até que ele se inclinou para beijar uma de suas bochechas e voltou a falar. — Eu amo essas sardas. E esse cabelo, curto ou longo, você fica linda de todo jeito.
— Talvez eu devesse pintar ele então, só pra te contrariar — ela brincou.
— Nem pensar. Você nasceu pra ser ruiva. Tudo isso combina com você. O cabelo, as sardas, os olhos... Eu amo eles também. Sempre adorei te observar quando você não tava olhando.
— E por que eu nunca soube disso?
— Você não podia saber, era segredo. Mas você fica especialmente bonita quando tá fazendo algo que gosta, como cozinhar ou ler.
Um sorriso quis aparecer no rosto de , mas ela o conteve. Então empurrou , fazendo-o cair de costas contra a cama. Em seguida, se sentou em seu colo e inclinou o corpo para frente, apoiando o próprio peito contra o dele.
— E agora? Vai ficar parado só me observando? Ou vamos continuar de onde a gente parou?
Em resposta, riu pelo nariz e inverteu suas posições.
— Continuar. É óbvio. Se você quiser.
— Eu quero — ela garantiu.
a beijou novamente, e dessa vez não parou. percorreu as costas dele com as unhas curtas, sentindo a excitação crescer nela a cada toque e carícia que ele espalhava pelo seu rosto. Quando ele levou a boca até seus seios, ela arfou, arqueando as costas e agarrando-o pelos cabelos.
Era muito sensível ali, sempre fora.
Perceber isso pareceu animar ainda mais. Ele ergueu um joelho, afastando uma das pernas dela, e pressionou o quadril contra o dela, as roupas de ambos sendo a única barreira entre os dois. gemeu baixinho quando ele puxou um mamilo entre os dentes; em seguida, afastou-se ligeiramente e levou as mãos até o short do pijama dela, removendo-o junto com a calcinha.
moveu a boca mais para baixo, em direção à sua barriga, mas quando alcançou o ventre, colocou uma mão no queixo dele e o erguei para que a encarasse. Os olhos verdes de estavam escuros, tomados pelo desejo, e ele suspirou por um breve instante, como se estivesse se controlando.
— Agora não. Eu quero sentir você dentro de mim — ela disse, firme, de um modo que soou quase como uma ordem.
não a questionou. Apenas aumentou a distância entre os dois para pegar um preservativo na mesinha ao lado. Ele o colocou ao lado dela e se levantou para se livrar do resto das roupas. o observou rasgar o pacote com os dentes e colocar o preservativo em seu comprimento firme e levemente inchado, mordendo o lábio inferior de antecipação.
O olhar de encontrou o dela, então ele voltou para a cama. Sem quebrar o contato visual, ele se ajustou contra seu corpo e ela logo sentiu a ponta de seu membro cutucando sua entrada.
— Nem pense em dar pra trás agora, — ela murmurou contra os lábios dele.
sorriu e selou seus lábios uma vez.
— De jeito nenhum — ele prometeu, com um olhar divertido. — Só torça pra que eu te deixe dormir em algum momento, ou você vai ter que faltar à aula amanhã.
— Mostre o que você tem, gatinho. — Ela envolveu a cintura dele com as pernas, forçando seu quadril para baixo.
adentrou o corpo dela devagar, deslizando com facilidade e fazendo-a sentir cada centímetro dele enquanto a preenchia.
gemeu de alívio com a sensação de plenitude e compartilhou um sorriso com ele, um instante antes que ele começasse a se mover. continuou naquele ritmo lento, como se não tivesse pressa, elevando a tensão entre os dois gradualmente. Era uma tortura deliciosa. Depois de um momento, quando tentou se mover contra ele, perdendo a paciência, ele acelerou o ritmo, apenas um pouco. O suficiente para proporcionar um breve alívio, que logo se dissipou. A tensão cresceu novamente e se contorceu, pedindo para que ele fosse mais rápido. , então, começou a alternar os movimentos, ora um pouco mais rápido, ora mais lento, torturando-os mais uma vez, levando-os cada vez mais perto do limite.
Eles iriam cair a qualquer momento, constatou, como se estivessem se jogando de um precipício.
intensificou os movimentos novamente e, sem aviso, o orgasmo a atingiu em cheio. gritou, pega de surpresa, e contraiu a testa enquanto ele continuava a se mover com vigor. cerrou a mandíbula, determinado a não parar. E permaneceu assim até ter um segundo orgasmo, que veio rápido, como uma extensão do anterior que mal havia terminado. Então ele finalmente a acompanhou e, ofegante, deixou seu corpo cair sobre o dela.
Aconteceu mesmo, pensaram os dois, ao mesmo tempo.
Ficaram naquela posição por mais algum tempo, seus corpos ainda conectados, até que se afastou para se livrar do preservativo.
fitou o teto do quarto, sentindo-se vazia quando ele se foi, mas a voz dele logo chamou sua atenção.
— Merda — xingou baixinho, removendo o preservativo, parecendo preocupado. Ela o encarou, confusa. — , a camisinha estourou.
— Ah — ela disse, antes de voltar a atenção para o teto. — Tudo bem.
— Tudo bem? — a encarou, alarmado. — E se você-
— Relaxa, . Não vou engravidar. E meus exames estão em dia.
— Os meus também — ele garantiu. — Então você...
— Tá tudo bem. — Ela sorriu. — Não precisamos disso.
suspirou aliviado.
— Ótimo. Que bom então.
quase riu. Poderia explicar para ele que era praticamente impossível rolar uma gravidez, mas não queria estragar o clima com aquele tipo de conversa.
— Vem cá. — Ela abriu os braços para ele.
a envolveu com os seus braços, abraçando-a forte. Enterrou o rosto no pescoço dela e inspirou o perfume que emanava de seu cabelo, apreciando a sensação de ter o corpo dela inteiro colado ao seu.
Eu te amo, ele pensou, as palavras chegando até sua garganta, mas não as disse.
Em vez disso, apertou-a ainda mais contra si, não querendo soltá-la nunca mais, mesmo sabendo que não havia nada a ser feito caso ela quisesse ir.
Mesmo assim, ele se permitiu sonhar com um momento em que isso nunca aconteceria.

Capítulo 15

6 de junho de 2018, 07:52 - Apartamento de , Nova York, NY

se virou e esticou o braço em direção ao espaço ao seu lado na cama, procurando por , mas tudo o que encontrou foi um travesseiro e o espaço vazio. Ainda sonolento, ele abriu os olhos e levantou um pouco a cabeça, olhando em volta.
Nem sinal dela.
De fato, não havia sequer roupas pelo chão, como se ela nem sequer tivesse estado ali. Por um momento, confuso pelo sono, pensou que tivesse sonhado, mas logo descartou a ideia. Não havia como tudo aquilo ter sido um sonho; seu corpo estava até meio dolorido da noite anterior, e ele se lembrava de cada detalhe.
? — ele tentou chamar.
Silêncio.
então se levantou e se dirigiu ao banheiro para tomar banho e escovar os dentes, imaginando que já tinha saído para o curso. Ligou o chuveiro com água morna e se enfiou embaixo dele, sentindo a água bater nos músculos doloridos. Imaginou se ela estava dolorida também. Era mais jovem, mas... Bem, a noite havia sido agitada.
não se lembrava nem mesmo de quando foi a última vez que sentiu tanta química com alguém. Era como se o acompanhasse em perfeita sincronia, como se um lesse a mente do outro, e não precisou de muito até ele se dar conta que eram mesmo compatíveis na cama. Bem, talvez mais na cama do que fora dela, se fosse sincero. A conversa antes de acabarem juntos foi calorosa e dolorosamente, talvez vergonhosamente, sincera.
Ao menos por parte dele.
Bastou algumas horas com fora de casa sem dar sinal de vida para ele decidir tomar uma atitude drástica. E sim, já que o problema era o passado deles e a falta de comunicação, então que eles se resolvessem logo.
De fato, a cada movimento que fazia, ele recordava o quão bem tinham se resolvido. Seu corpo já começava a responder ao mero pensamento em e a noite passada, mas ele ignorou isso. Logo terminou o banho e saiu para procurar algo para comer. Como esperado, não estava em lugar nenhum. No entanto, não havia deixado nenhum bilhete ou mensagem de texto avisando que estava saindo ou que horas voltaria, coisa que o incomodou mais do que deveria, mas ele decidiu deixar tudo como estava.
Talvez pudessem conversar depois.

Mesmo dia, 14:35 - Estúdio de Hero, Nova York, NY

— Não consigo dizer se você está com uma cara melhor ou pior — comentou em certo momento, encarando após o fim de mais um ensaio.
— O desempenho dele está melhor — apontou.
— Eu acho que a cara tá igual — opinou . — Você continua sem dormir?
— Eu dormi... um pouco — respondeu, desviando o olhar.
semicerrou os olhos, imediatamente desconfiado.
— Aconteceu alguma coisa? — quis saber ele.
— Que coisa? — se fez de confuso.
— Sei lá. — Hero deu de ombros. — Me diz você. Conseguiu conversar com a ?
— Conversar... — repetiu, se distraindo um pouco. — Eu... sim, sim, nós conversamos — ele rapidamente emendou.
Hero assentiu, trocando um olhar rápido com e , e cruzou os braços.
— Tá, desembucha.
— O quê? — arregalou os olhos levemente, sentindo-se subitamente encurralado. — Não tenho nada para falar, a gente só meio que... fez as pazes? É, acho que sim.
— Caramba, você transou com ela? — Hero perguntou de uma vez, percebendo o comportamento estranho do amigo.
— Quê? Eu não disse isso! — retrucou, a voz levemente aguda denunciando seu nervosismo.
— Então foi mesmo? Você não negou! — disse .
— Eu... Como vocês sabem de tudo?
— Porque você é um péssimo mentiroso — respondeu . — De nós, o pior. Mas e aí, foi bom?
— Foi, mas não me peçam detalhes.
— Eca! Ninguém quer saber suas preferências sexuais, obrigado — Hero garantiu. — Mas e aí? Quer dizer que você finalmente contou o que sente?
— Contei. A gente meio que brigou durante a conversa e depois... aconteceu. Só que quando eu acordei, ela nem tava mais lá. Não tinha nem sinal dela, nem mesmo um bilhete. Acho que ela saiu cedo pro curso, mas foi como se ela nem tivesse entrado no meu quarto.
— Mas vocês fizeram as pazes, é isso? — perguntou.
— Acho que sim.
— E tão juntos agora? — Hero perguntou.
— Juntos? — riu pelo nariz. — Olha, eu não diria isso. Ela nem falou com ele depois e só saiu.
— Ela te falou algo, ? — encarou o amigo com curiosidade. — Você disse que ajudou ela na loja.
— Ajudou? — franziu o cenho. — E por que eu não tô sabendo disso?
— E eu te devo satisfação, por acaso? — retrucou. — Ajudei a , sim. A gente falou sobre vocês, mas prometi não dizer nada. De todo modo, não sei quais são os sentimentos dela agora.
— Mas sabe antes. Diz logo o que ela falou — pediu, meio ansioso.
— Sinto muito, cara. Mas não. Em vez disso, vou falar o que eu acho. A não tem motivos pra se envolver com você — ele disse. — Claro, vocês têm uma história e tudo mais, só que... Não sei. Talvez ela não te veja como um bom partido?
— Foi isso que ela disse? — insistiu em saber.
— Ei, não presuma nada, isso é o que eu acho. Você não é de demonstrar sentimentos. Passou anos escondendo isso dela e não acho que tudo vai se resolver magicamente só porque vocês dormiram juntos.
— Você devia pedir ela em namoro — aconselhou .
suspirou, sentindo-se um pouco perdido.
— Você fala como se fosse fácil, mas é complicado.
— O que tem de complicado nisso? — Hero perguntou.
— É verdade. — concordou. — “, seja minha namorada, por favor”. Simples e direto.
— Pra você, tudo é simples e direto.
— Eu sou japonês, o que você queria? — deu de ombros. — Às vezes, é melhor falar as coisas de uma vez. Olha você, por exemplo, assim que disse o que sentia, acabou com a na sua cama.
— Falando desse jeito, até parece que manipulei ela, mas ela quis.
— Os dois quiseram — corrigiu.
— Verdade — concordou. — Mas enfim, essa conversa não tá dando em nada mesmo, então vou pra casa. Prometi jogar com meu irmão hoje. Depois avisa quando conversar com a de novo.
— Tá — respondeu, se jogando no sofá.
Só não sabia quando exatamente seria aquela conversa.

***


O celular de vibrou no bolso no exato momento em que o professor entrou na cozinha. Ela hesitou por um instante, mas, ainda de olho no professor, enfiou a mão no bolso e pegou o aparelho, colocando-o sobre o balcão, atrás de uma batedeira para escondê-lo. Era meio ridículo, mas o professor Yang era bem rígido e exigia atenção plena durante suas aulas. se sentia uma adolescente de novo, tendo que pedir permissão para tudo.
Desbloqueou a tela rapidamente e encontrou a resposta de David à mensagem que ela havia enviado mais cedo.

David: Conversar? Claro, te encontro na doceria então.

mordeu o lábio inferior e digitou uma nova mensagem com o horário em que estaria na loja. Um segundo depois, a voz do professor Yang ecoou na cozinha.

— Muito bem. Hoje nós vamos fazer entremet…

Cinco horas depois, tinha acabado de confeitar uma leva de docinhos quando David chegou. Ela fez uma pausa, lavando as mãos rapidamente, e indicou com a cabeça para que ele se sentasse em uma das mesas.
— E então? Sobre o que você queria conversar?
respirou fundo, pensando em como começar.
— Aconteceu uma coisa entre e eu. — Ela o encarou, pressionando os lábios em uma linha fina. — Depois que voltei pro apartamento, nós discutimos e... ele disse umas coisas.
— Ele disse que gosta de você? Que te quer? — David adivinhou, encarando-a com uma expressão tão neutra quanto seu tom de voz. — E depois vocês acabaram dormindo juntos?
assentiu, em meio a um suspiro.
— Acabou acontecendo. Mas como você...
— Qual é, . Eu te conheço há cinco anos. E você me falou sobre os seus sentimentos por ele. Não posso te culpar — ele continuou. — Mas me impressiona como foi tão idiota antes e agora, admitindo tudo do nada porque você resolveu dar um chá de sumiço. Acho que qualquer um que veja como ele te olha consegue adivinhar os sentimentos dele.
se remexeu na cadeira, um pouco inquieta.
— Bem, não sei se os sentimentos dele são tão fortes assim, mas, de qualquer forma, eu quis te contar logo porque prometemos falar um pro outro caso acontecesse alguma coisa com outra pessoa.
— Então vocês tão juntos agora?
— O quê? — riu pelo nariz. — Não, não estamos. A gente nem conversou depois do que aconteceu e, de todo jeito, eu não quero me comprometer com o .
David não riu nem sorriu. Seu olhar permaneceu sério.
— Se você não quer se comprometer nem com ele, quem dirá com outra pessoa — ele comentou, em um tom levemente amargo.
franziu o cenho, confusa.
— O que você quer dizer com isso? Ou melhor, tem algo mais que você queira me dizer, David?
— Você se sente confusa?
— Como assim?
— Já conseguiu se imaginar tendo algum compromisso com um cara, ? De verdade? Consegue se visualizar com alguém que goste de você de verdade?
— É claro que sim, David! Não sou um maldito robô!
— Então por que você é tão cega?
— Eu... o quê? Eu já te disse que escondeu de mim-
— Não tô falando do , .
ficou em silêncio por alguns segundos. David a encarou nos olhos, sem desviar o olhar.
— Alguma vez... Mesmo que por um segundo, você já me viu como algo além de um amigo com quem você transa de vez em quando? — ele finalmente perguntou.
piscou, surpresa, sentindo o coração acelerar subitamente.
— David...
— Só me responde com sim ou não, . É simples.
Ela o encarou por mais alguns segundos, mergulhando naqueles olhos azuis. Seu melhor amigo. Aquele que, além de Mia, foi seu porto seguro nos últimos anos. David estava apenas exigindo sinceridade, então era o mínimo que ela poderia oferecer.
— Eu... Sim. Sim, eu já imaginei. Mas o nosso acordo...
— Que se dane o acordo, . É pra mim que você corre quando precisa de apoio, quando precisa se sentir segura consigo mesma, quando precisa desabafar.
— Você é meu melhor amigo, é óbvio que eu faço isso.
— E você é minha melhor amiga. Mas pra mim é bem mais que isso — ele admitiu. — Se nós ainda não estamos juntos de verdade, foi porque você nunca deu brecha pra que isso acontecesse.
franziu o cenho outra vez, um pouco incomodada.
— Quer dizer que você escondeu seus sentimentos também, esse tempo todo? — Sua voz falhou levemente.
Que tipo de turbilhão de emoções era aquele?
— Não. Eu nunca escondi. Sempre deixei claro que gostava de você. Eu só nunca disse as palavras porque você tava ocupada demais tentando superar . Ocupada demais pra nem perceber que isso, de fato, vinha acontecendo. Talvez os sentimentos da adolescente ainda estejam aí, talvez seja realmente amor. Mas você ainda é a mesma pessoa que há cinco, oito anos? Ou tá só se agarrando nessa lembrança porque foi algo que sempre te incomodou?
— David... — O que ela podia dizer? Que ele estava certo? Que ela já não era a mesma pessoa? Que mesmo tendo uma química absurda na cama com , aquilo não era tudo o que ela procurava? Que revelou aquilo de uma vez porque não quis adiar algo, com medo de prender David a ela e acabar magoando ele depois, por não contar?
— Sim, isso tudo. Era exatamente o que eu esperava da adulta que eu conheço — David comentou.
Só então ela percebeu que tinha, de fato, pensado em voz alta.
— Eu... Droga. — Ela fechou os olhos, colocando as duas mãos no rosto.
Ouviu um barulho de cadeira arrastando no chão e, um instante depois, sentiu as mãos de David sobre as suas, puxando-as para descobrir seu rosto. Ele estava agachado ao lado dela, apoiado sobre os joelhos e, mesmo assim, parecia alto. Seus olhos a encaravam com tranquilidade enquanto sentia os próprios arderem.
— Eu sinto muito. Sinto muito por te fazer se sentir invisível.
— Tá tudo bem, . Não chora. — Ele afastou as lágrimas de seu rosto. — Eu tô aqui por você, tá?
engoliu em seco e assentiu, secando o rosto. Então, em um impulso, segurou o rosto dele entre as mãos e se inclinou. Seus lábios se tocaram em um beijo lento e delicado, que se aprofundou um instante depois.
Só que ninguém imaginava que haveria testemunhas, presenciando tudo do lado de fora.
travou a mandíbula e fechou as mãos em punhos. o encarou com cuidado, parado ao seu lado.
E então viu o amigo dar as costas e ir embora.

Capítulo 16

tinha acabado de tomar banho e algumas gotas de água ainda escorriam pelo tórax enquanto ele preparava um sanduíche para o lanche. Estava quase terminando quando a porta se abriu de repente. Por um segundo, ele ficou tenso, mas forçou o próprio corpo a relaxar, mantendo uma expressão neutra no rosto.
andou a passos rápidos, mas parou no meio do caminho quando o notou.
— Oi, já jantou? — ele perguntou casualmente. — Tô preparando um lanche pra mim, quer?
— Não, obrigada. Não faz muito tempo que jantei.
— Como foi o seu dia? — ele indagou sem olhar para ela, ainda concentrado no sanduíche.
ficou confusa por um instante. Estava levemente tensa sobre como seria a próxima interação dos dois após a noite passada e tinha imaginado diversos cenários, mas nenhum deles incluía uma pergunta sobre seu dia.
— Bem, e o seu?
— Produtivo. Ensaiamos bastante hoje.
— Hm, certo.
— Eu tava esperando você chegar pra gente conversar sobre ontem — anunciou ele, finalmente olhando para ela. — Você me deixou sozinho na cama, . Que coisa feia. Sem nem mesmo um bilhete ou uma mensagem...
— Hã... E daí?
suspirou, dando a volta no balcão até parar em frente a ela.
— Você se arrepende do que aconteceu? — ele quis saber.
— Não.
— Foi bom pra você?
— Sim.
Então por que você correu pra ele em menos de vinte e quatro horas? quis perguntar, mas manteve as palavras para si mesmo. Em vez disso, deu um passo à frente, segurou uma de suas mãos e a puxou para perto, mantendo a outra em sua cintura.
abriu um pouco a boca, levemente surpresa, mas não se afastou.
— Bom saber. Porque pra mim também foi bom, e eu não me arrependo — ele murmurou de volta, com o rosto muito próximo ao dela.
Então se inclinou, prestes a beijá-la, apenas para ver sua reação. Foi quando virou o rosto, fazendo seus lábios esbarrarem na bochecha dela.
— Eu não me arrependo — ela declarou. — Mas também acho que não deve se repetir — acrescentou, finalmente dando um passo para trás e se afastando dele.
quase sorriu com escárnio, mas se conteve.
— Por que não? — ele perguntou. — Acho que fomos bem compatíveis noite passada.
— É, mas mesmo assim. Não quero complicar nada. Também não quero que você pense que me deve alguma coisa. Aconteceu e foi ótimo, mas... foi só isso.
— Tá me dando um fora agora, ? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Eu... Preciso? Não é como se a gente fosse embarcar em um relacionamento de repente, .
— Bem, isso é você que tá dizendo. Foi bom, mas não o suficiente pra continuar. Foi bom, mas não o suficiente pra largar seu amiguinho colorido de cinco anos. Foi bom, mas não o suficiente pra evitar que você caísse nos braços dele na noite seguinte — ele disparou, com uma expressão séria. — É isso, não é? Foi bom, mas agora que você teve um gostinho, decidiu que não vale a pena continuar.
Seu tom de voz estava tranquilo e baixo, surpreendendo até a si mesmo. estava com raiva, mas, além disso, ver se jogando nos braços de David o deixou frustrado e decepcionado.
Uma parte dele realmente achou que podiam ter mais do que uma única noite. Ser mais. Daquela vez, nada os impedia. Bem, nada além do maldito amigo dela.
— O que você... Como...? — Ela o encarou em um misto de surpresa e confusão. — Você tentou me beijar agora pra me testar?
sorriu com deboche, os olhos brilhando de raiva.
e eu resolvemos dar uma passada na loja hoje, pra ver se você tava precisando de ajuda com os preparativos da inauguração. Mas tudo o que vi foi você se jogando nos braços daquele cara logo depois de passar a noite comigo.
engoliu em seco, nervosa, irritada e confusa com aquela discussão toda.
— E o que você queria? Que eu me jogasse nos seus braços? Depois de uma única noite?
— Do jeito que você fala, até parece que acabou de me conhecer. Eu esperava mais de você, .
— Vai ver nós dois mudamos, . Somos adultos agora.
— Claro, essa foi a desculpa que você deu quando quis transar comigo. Agora tá usando a mesma desculpa pra me dar um fora?
— Tenho certeza de que não fui o único caso de uma noite que você teve.
— Não é a mesma coisa. Você não é uma estranha pra mim. E eu não queria que fosse assim. Se você não quer nada comigo, tudo bem. Mas podia ao menos ter esperado um pouco mais antes de correr pro David.
— Eu ia conversar com você — ela tentou justificar. — Não sei por que você tá tão irritado com isso.
— Porque eu me expus! — ele retrucou, irritado e frustrado, a voz aumentando levemente. — Eu me expus pra você de um jeito que nunca fiz com ninguém. E agora me sinto usado, como algo descartável. Você fez isso de propósito, ? Me provocou até eu ceder e me abrir com você pra depois se vingar pela mágoa que te causei no passado, mesmo sabendo dos meus motivos?
O coração dele acelerou, batendo violentamente contra o peito. sentiu um arrepio repentino percorrer seu corpo, logo em seguida, como se pressentisse o péssimo resultado daquela conversa.
— Eu não fiz nada de propósito, . Mas tô tentando seguir com o que é melhor pra mim.
— E o melhor é ele?
— No momento, sim. Porque, além de ser o meu amigo colorido, como você diz, David foi meu confidente tanto quanto a Mia. Ele sabia desde o início sobre você e, mesmo assim, nunca me deu as costas. Pelo contrário, ele sempre esteve lá, mesmo quando eu provavelmente nem merecia.
— Que ótimo pra você. Deveria ter decidido isso antes de dormir comigo, então. Mas por que não fazer um teste drive só pra garantir, né? Como você se sente agora, ? Finalmente pôde comparar os doi-
Um tapa estalou no rosto dele antes que terminasse de falar.
— Cuidado, . Não fale nada que possa te fazer se arrepender depois — disse, com um olhar frio. — Especialmente em relação a mim — acrescentou, entredentes.
abriu o sorriso irônico e passou a língua no interior da bochecha que ela tinha acabado de acertar, antes de voltar a encará-la.
— Você é só uma garota mesquinha e rancorosa que odeia perder qualquer coisa — ele murmurou baixo, dando um passo para trás. — Sabe, era melhor termos deixado as coisas como estavam mesmo, teria evitado toda essa merda.
respirou fundo, fechando os olhos por um instante.
... Eu sinto muito.
— Vou te deixar em paz a partir de agora, não se preocupe — ele garantiu, posicionando-se de volta em frente ao balcão da cozinha.
não disse mais nada, e ele tampouco levantou a cabeça para observá-la sair. Permaneceu parado no mesmo lugar, encarando o sanduíche que havia preparado há pouco. Tinha perdido a fome depois daquela discussão, mas se forçou a comer mesmo assim.
Quando voltou para o quarto, trocou todos os lençóis da cama para evitar qualquer resquício do cheiro do cabelo dela e foi dormir, dizendo para si mesmo que deixaria toda aquela confusão para trás.
Por mais que não se arrependesse, tinha sido, de fato, um erro.
Que se dane, então. Trancaria seu coração novamente a sete chaves.
E talvez jogasse todas elas fora.

Capítulo 17

9 de junho de 2018, 17:25 - 's Sweet Heaven, Nova York, NY

Três dias depois da relativamente calorosa discussão, ainda estava relembrando cada palavra dita nos momentos mais aleatórios.
Na academia, no meio de um ensaio, tomando banho... Era irritante.
Não havia nem mesmo trocado uma palavra com depois daquela noite, mas agora estava ali, na loja dela, para prestar apoio como um velho amigo de infância.
Uma merda, sinceramente. Não que ele não desejasse sucesso para ela, pelo contrário, mas preferia ter ficado em casa. E mesmo sabendo da discussão que havia acontecido entre os dois, seus amigos o arrastaram até lá.
O local estava relativamente cheio, mas não havia nenhuma fila do lado de fora. havia pedido para irem mais cedo para aproveitar o lugar antes que as pessoas descobrissem que a Cave Panthers estava ali. Havia uma mesa reservada para eles, que sentaram de costas para as outras pessoas, com Kate e de frente, para o caso de alguém os reconhecer e se aproximar.
Não haviam divulgado nada até então, mas não demorou muito para novas pessoas repararem no local e o adentrarem, provavelmente encantadas pela decoração que transformava o ambiente em uma espécie de casa de bonecas.
No entanto, ele estranhou que o amiguinho-namoradinho dela não estivesse ali em um momento tão importante. Ficou curioso, mas no fim quem perguntou sobre ele foi Kate.
— Ele tava aqui mais cedo, me ajudando. Recebeu os primeiros clientes, mas saiu há uns quarenta minutos pra ir pro teatro.
Ah, claro. Por um instante, esqueceu que ele era ator. Fazia sentido. De toda forma, era até melhor que ele não estivesse ali, já que não queria testemunhar qualquer tipo de interação carinhosa entre os dois. A visão provavelmente lhe causaria náuseas e o faria vomitar.
As meninas se entreteram com o cardápio, apontando uma coisa e outra que queriam provar, e logo definiram o pedido. Pegaram de tudo um pouco: docinhos, biscoitos, tortas e bolos, acompanhados de um pouco de café pois, segundo Kate, quebraria um pouco o doce.
Para a surpresa de ninguém, os pratos estavam ótimos. teria apreciado ainda mais se não estivesse tenso apenas por estar ali. Tudo era doce na medida certa, úmido ou crocante na medida certa.
As pessoas também pareciam estar gostando, mas, depois de quase uma hora desde que chegaram, vários clientes começaram a aparecer ao mesmo tempo.
— Só um minuto. — Ele ouviu dizer e virou a cabeça a tempo de vê-la dar um sorriso amarelo para um grupo de seis pessoas enquanto tentava lidar com o atendimento de mais quatro clientes.
Estava sozinha para pegar pedidos, preparar os pratos e entregar. Era mais do que óbvio que ela não estava esperando ser abordada por tanta gente assim.
Voltando a atenção para a mesa, viu Kate e trocarem um olhar apenas um segundo antes das duas se levantarem. Já tinham terminado de comer, então recolheram a louça suja da mesa e a levaram com elas. Passaram por e sinalizou para a cozinha enquanto as duas se enfiavam lá.
Um minuto depois, veio para o lado de e falou algo em seu ouvido.
— Pelo visto, a coisa tá meio apertada pra ela — comentou de braços cruzados, encarando em seguida. — E aí? Vamos dar uma mãozinha em homenagem aos velhos tempos?
— Vamos ser os melhores garçons que a já teve — brincou, antes de se levantar com o amigo e se juntar à para servir alguns pratos e coletar pedidos, enquanto os organizava.
— É, parece que eles ainda levam jeito — comentou, os observando por um instante. — Acho que vou me aventurar também.
Em seguida, ele se foi. Um minuto depois, tinha assumido um lugar no caixa, permitindo que se concentrasse apenas em preparar os pedidos. procurou por Kate, mas não a encontrou em lugar algum. Olhando ao redor, avistou mais pessoas se aproximando da loja. Então suspirou e se levantou também, seguindo em direção à cozinha sem dizer nada. Encontrou Kate lavando a louça, então pegou um pano de prato para secar à medida que ela lavava.
— Veio ajudar também? — Ela sorriu para ele.
— Era isso ou ficar sozinho na mesa. Você veio pra cá, começou a servir, e Hero e se transformaram em garçons um minuto depois.
— E ?
— Foi pro caixa.
— Acho que não tava esperando tanta gente, será que descobriram que vocês estão aqui?
— Não sei. Se sim, até agora ninguém demonstrou. De todo jeito, não é como se a gente fosse sair a qualquer momento e juntar uma multidão.
— Pois é, às vezes as pessoas ficam na dúvida se é mesmo o Hero da Cave Panthers.
bufou.
— Nem vem. Ele e são os mais reconhecíveis. Se mudar um pouco o cabelo e colocar óculos, confundem ele com qualquer asiático aleatório também. E eu... Sei lá, acho que pareço só um cara normal também. Felizmente, as pessoas não costumam reparar em mim.
— Me poupe. — Kate riu. — De normal você não tem nada, . As pessoas podem até não te reconhecer imediatamente, mas vão virar a cabeça quando você passar.
— Nada a ver isso aí — ele retrucou com uma careta, colocando mais um prato de sobremesa sobre uma pilha de outros.
— Confia em mim, eu sei. Sou mulher e escrevo livros de romance. Você é o tipo de protagonista padrão desse tipo de história. Bonito, ranzinza, com uma personalidade um pouco duvidosa...
— Ei! — Ele bateu o pano de prato nela, fazendo-a rir. — Eu não tenho uma personalidade duvidosa, só não tenho mais energia nem paciência pra muita coisa.
— Relaxa, esse é o tipo favorito das leitoras. Sempre viram uns cachorrinhos depois, loucos pra agradar a protagonista. — Ela o encarou com um olhar amistoso, levemente malicioso.
— Quer saber? Acho que vou ficar sozinho na mesa ou ir embora. — Ele soltou o pano de prato e se preparou para sair, mas Kate o impediu, colocando uma perna no caminho.
— Pera aí — ela pediu, fazendo-o parar no lugar. — me contou o que aconteceu entre você e a .
— É claro que contou, aquela velha fofoqueira. Mas surpreso eu vou ficar no dia em que você disser que não tá sabendo de nada. Você sempre sabe de tudo.
— Pois é. Às vezes, sinto que sou a Sininho e vocês são os Meninos Perdidos.
— Um jeito criativo de dizer que se sente uma mosca observando e sabendo de tudo — ironizou, cruzando os braços.
Kate pegou o pano de prato e o devolveu para ele, que revirou os olhos outra vez e voltou a secar a louça.
— Então... — ela voltou a falar. — Fiquei sabendo que você anda sem falar com ela desde a última discussão...
deu de ombros, em silêncio.
Kate então continuou:
— Eu não te culpo, sabe? Sei que você também tá magoado e sofrendo com isso, e se ficar perto da não tá te fazendo bem, , você tá mais do que certo em evitá-la. Nenhum de nós te julgaria se você saísse por aquela porta sem olhar pra trás. Acho que se fosse comigo, eu teria uma reação parecida, mas também consigo entender o lado dela.
— Ah, tá. Claro que sim... — Ele murmurou, inexpressivo, depositando alguns talheres no balcão.
Kate olhou para a porta, se certificando que ninguém estava vindo. Então voltou a atenção para outra vez.
— Ei, tô falando sério. Eu não conheço a direito, mas acho que ela ficou confusa com tudo isso. Não sei, talvez ela ache que David é o caminho seguro, é o que ela já conhece, digamos. Você é a pessoa que a deixa ansiosa. E não acho que ela teria dormido com você se não sentisse algo.
— Bem, foi exatamente isso que ela fez. — Ele a encarou, sério. — Sabe, Kate... Nem sempre as mulheres podem ser defendidas.
— Não tô defendendo ela. Não concordo com o que ela fez também. Uma decisão tão rápida... Eu acho que ela ficou com medo do que sentiu com você e deu nisso.
— Bem, tanto faz. Mês que vem ela se muda e eu vou voltar a viver do jeito de sempre. Ela vai viver a vida dela com David ou quem quer que ela queira, e isso vai ficar pra trás. Que se dane essa merda. Provavelmente vamos voltar a ser dois estranhos de novo, e talvez seja melhor assim.
— Tem certeza? — Kate perguntou, encarando-o nos olhos.
— Absoluta — ele nem sequer hesitou ao falar.
Um barulho foi ouvido um segundo depois e os dois imediatamente olharam para a porta.
— Ai — Era a voz de . No instante seguinte, ela passou pela porta. — Precisamos de mais pratos e talheres.
Bem atrás dela, estava .
Seu rosto estava coberto com uma expressão neutra enquanto ela recolhia a louça seca com , que atualizava Kate sobre o movimento do outro lado e como Hero e estavam se gabando por conquistar os clientes como nos velhos tempos.
permaneceu parado, de costas, com um copo recém-lavado nas mãos e usou mais tempo do que o necessário para secá-lo.
Quando e saíram de vista, ele finalmente relaxou e encarou Kate, tão emotivo quanto a parede branca ao lado deles. Então declarou:
— Bem, acho que ela ouviu nossa conversa.

Capítulo 18

12 de novembro de 2004, 17:33 - Casa de e Mia, Chicago, IL

Mia se aproximou sorrateiramente por trás de , que estava sentado no sofá, sorrindo para a tela do celular enquanto digitava uma mensagem.
— Tá falando com quem, hein? — Ela perguntou de repente, fazendo-o pular de susto e o celular quase escapar de suas mãos.
— Porra, Mia! Eu já falei pra você parar de fazer isso, sua esquisitona.
— É pra dar mais emoção. — Ela deu de ombros. — Você tá sorrindo feito um idiota. Tá falando com aquela garota do colégio, é?
Emily Davis, lembrou. A estudante que havia sido transferida há dois meses. Ela tinha visto andando com aquela garota algumas vezes. Como era novata, não tinha amigos ali, mas, de alguma forma, ela e se aproximaram.
Emily era alta, com quadris largos e cintura fina. Seu cabelo era escuro e cacheado, e sua pele tinha um rico tom de marrom. a tinha visto apenas algumas vezes, mas foi como ver uma princesa andando por aí. Ela era linda, tinha um sorriso encantador e parecia gostar dela. Não havia qualquer indicação de intimidade física entre os dois publicamente, mas as pessoas falavam.
— O nome dela é Emily. E não, não tô falando com ela — disse para a irmã. — E mesmo que eu tivesse, não seria da sua conta.
Aff, você é tão chato. Tão dizendo por aí que vocês tão ficando, é verdade?
— Por que você quer saber? Não tem mais nada pra fazer? Eu tô ocupado agora.
— Ah, claro. Sim, sim, vou fingir que você não tava flertando no celular. — Ela rolou os olhos. — Não sou mais criança, . Mas se tiver algo rolando, espero que esteja usando proteção. e eu aprendemos na aula de educação sexual que quando um homem-
— Ai, pelo amor de Deus! — a interrompeu, os olhos arregalados, assustado só de pensar em como aquela frase terminaria. — Não quero saber o que vocês aprenderam na aula de educação sexual e nem tente me dar conselhos, Mia. Isso é muito estranho.
— Tá, como quiser. — Ela deu de ombros novamente e se virou para , que até então havia ficado em silêncio. — Vou tomar banho e já volto.
— Tudo bem — respondeu, o olhar se dirigindo para assim que a amiga se foi. Ele tinha voltado a digitar algo no celular, após conferir a hora no relógio de punho que usava. — E aí?
desviou o olhar do celular para ela, confuso.
— E aí, o quê?
— É verdade? A Emily é sua namorada?
— Ela não é minha namorada.
— Mas vocês tão ficando, né? Ouvi pessoas falando que você dormiu com ela. É verdade? Vocês fizeram sexo?
arregalou os olhos de novo, sentindo o rosto esquentar.
— Não vou responder isso, . Que porra de pergunta é essa? Você nem devia estar falando dessas coisas.
— Por quê? Eu não sou mais criança, . Sei como essas coisas funcionam.
— Bem, pra mim você ainda é! Você só tem doze anos.
— E vou fazer treze mês que vem. Não seja puritano. Pelo que vi, quase todo mundo na escola já perdeu a virgindade. Ou pelo menos já deu uns beijos em alguém.
Uma carranca se formou no rosto dele.
— Tá falando por si mesma, ? Você já dormiu com alguém?
— Não — ela respondeu.
A carranca sumiu e, de repente, abriu um sorrisinho de canto, como se estivesse provando um ponto.
— E já beijou alguém?
— Já.
O sorriso dele desapareceu.
— Já? Desde quando você fica com garotos? Quem foi?
— Não interessa quem foi. Mas se quer saber, foi depois de uma brincadeira de verdade ou desafio no acampamento de verão. — Ela deu de ombros. — Viu? Não é difícil falar.
— Um beijo não te classifica como confidente. Não vou falar da minha vida amorosa com você, pirralha.
— Por quê? Tá com medo que eu diga pra alguém? Você sabe que meus únicos amigos de verdade são você e Mia.
— Sei, mas não é por isso.
— Então o quê? — ela quis saber, genuinamente curiosa. — Você teve algum problema na hora do sexo? Tipo ejaculação precoce?
— Como é? Onde você aprendeu esse termo?
— Na aula de educação sexual. Mas não precisa ter vergonha, se foi isso. A professora disse que acontece com a maioria dos garotos. E que nós mulheres temos que nos virar quando nos deixam na mão.
— Como é? Que tipo de professora é essa?
— Ela não disse com essas palavras. Eu tô só resumindo o que a gente entendeu. Claro que a Sra. Henry fala daquele jeito todo enfeitado e tal. Não é como se ela tivesse ensinando nada pra gente, só... Bem, ela nos ensina a nos proteger, é claro. E a valorizar nossos corpos como um templo ou algo assim. Mia disse que ela quer dizer pra gente não sair dormindo com qualquer um.
— Minha nossa... — murmurou, chocado. Bem, ao menos a professora orientava bem os alunos. O último professor de educação sexual que ele teve ensinou os alunos a usar camisinha e a praticar isso em quase todas as aulas. tinha certeza de que ele era um pervertido que gostava de observar o constrangimento alheio.
— E aí? Aconteceu alguma coisa?
— Não! E mesmo que tivesse acontecido, eu não diria. Não tô falando com a Emily.
Era verdade que tinham dormido juntos. Algumas vezes. Perderam a virgindade juntos também, mas não havia sentimentos românticos envolvidos. Eram só dois adolescentes curiosos que achavam um ao outro atraentes o suficiente para dar uns pegas. Mas de jeito nenhum ele ia falar sobre qualquer coisa a respeito disso com a amiga de sua irmã.
era cinco anos mais nova. Ela e Mia ainda brincavam com bonecas quando estavam entediadas. E ele já tinha dezessete anos.
— Então com quem é? — ela insistiu em saber.
— Meu futuro chefe.
— Chefe? Você vai começar a trabalhar?
— Me candidatei pra um emprego de meio período em uma loja de instrumentos musicais. Se tudo der certo, vou ficar em tempo integral quando terminar a escola. Mas não conta pra Mia. Minha mãe ainda não sabe e não quero que saibam antes de eu ter certeza sobre o emprego.
— Mas e a faculdade? Você não vai se candidatar pra nenhuma?
— Como se a gente tivesse dinheiro pra isso. — Ele riu pelo nariz. — Não vou fazer faculdade, . Preciso ajudar em casa. Mamãe tá cansada e adoecendo direto por causa da rotina que leva entre um emprego e outro. Tenho que ganhar dinheiro.
— Ah, entendi. Sinto muito.
— Infelizmente, esse é um privilégio que nem todos têm. Mas não se preocupe, não tô chateado. Não vejo a hora de sair da escola.
— Se você diz...
— Tenho que ir. — Ele se levantou do sofá. — Vou me encontrar com meu chefe. Não conta nada, tá bom?
— Tá.
— Promete? — Ele estendeu o dedo mindinho para ela.
— Prometo, seu besta. — Ela entrelaçou o próprio mindinho ao dele, selando a promessa.
Um minuto depois, se foi e ficou contemplando uma mancha no papel de parede enquanto refletia sobre a conversa que tinham acabado de ter.

***


9 de junho de 2018, 22:43 - Apartamento de , Nova York, NY

entrou no apartamento quase uma hora depois de , que mais cedo saiu sozinho da doceria. Ela havia pegado carona com depois de encerrar tudo e agradecer a ajuda dos amigos dele.
O primeiro dia foi um sucesso e provavelmente não teria conseguido sem eles. Houve mais gente do que o esperado e, no fim, teve que encerrar o atendimento quando os pratos se esgotaram. Teria que produzir mais em breve se continuasse assim, até mais cedo do que tinha planejado.
O apartamento estava silencioso, e não havia sinal de em lugar algum. Se não tivesse visto o carro dele na garagem, pensaria que ele nem estava em casa. Assim, seguiu para o quarto e passou direto para o banheiro. Um banho quente naquele momento era mais do que bem-vindo, especialmente depois do dia cansativo e da conversa que havia ouvido por acidente.
É claro que Kate e os outros iriam ficar do lado de . Era óbvio. Ela tinha, de fato, beijado David e dado a entender que estavam juntos, mesmo que não estivessem.
Naquela noite, David também tinha algo a mais para revelar, além dos sentimentos que tinha por ela.
Uma oportunidade de trabalho em Los Angeles havia surgido. Era para um filme e as gravações levariam cerca de oito meses para serem finalizadas. Ele ficaria no teatro até o fim do mês e então se mudaria.
— Eu gostaria de pedir pra você ir comigo, mas sei que não posso fazer isso. Especialmente agora que você tá realizando seu sonho de ser dona do seu próprio negócio — ele havia dito, enquanto olhava por um instante ao redor da loja que ele mesmo havia ajudado a decorar. — Fui sincero com você hoje, . E espero que você também tenha sido. No entanto, acho que você precisa ter certeza de que quer seguir em frente comigo. E talvez... Se seu coração quiser mesmo isso, esses oito meses nem irão fazer diferença.
— David...
— Acho que você precisa de um tempo sozinha. — Ele acariciou o rosto dela. — Talvez possa pensar mais a respeito assim, sem qualquer pressão da minha parte e, espero que de também. Mas quero que saiba que independentemente da sua decisão, ainda vou te querer fazendo parte da minha vida.
o encarou com lágrimas nos olhos e David sorriu com carinho, puxando-a para um abraço. Minutos mais tarde, os dois se despediram e cada um foi para casa.
Obviamente, não havia testemunhado essa parte, mas ainda estava firme em sua decisão. Não queria se envolver com ele. Não quando estava confusa, não quando tinha quase certeza de que David era a melhor escolha e, definitivamente, a que fazia mais sentido. E não quando estava abrindo um negócio arriscado, por mais que tivesse sido um sucesso naquele primeiro dia.
As palavras que ouviu Kate dizer a doeram um pouco nela, mas, ao mesmo tempo, era bom saber que ele tinha aquele tipo de amizade com os amigos. Eles protegiam um ao outro e tomavam suas dores, mas apontavam seus erros também, quando necessário.
finalizou o banho, escovou os dentes e o cabelo, fez skincare e vestiu uma camisola verde de alcinha. Em seguida, pegou uma garrafa vazia de água que deixava na mesinha de cabeceira ao lado da cama e saiu do quarto para enchê-la. Deu um pulo de susto quando se deparou com ali, enchendo um copo de água. De costas, ele não notou sua surpresa, então ela conseguiu se recompor a tempo de ele encontrar seu olhar.
— Oi, eu... Vim encher a garrafa. — Ela mostrou o objeto. assentiu com a cabeça e deu um passo para o lado, segurando o copo de água em uma mão e o celular na outra, onde manteve a atenção enquanto ela estava ali. — Então... — começou, chamando a atenção dele. — Obrigada por hoje. Eu não teria conseguido sem vocês.
— De boa — ele respondeu, ainda olhando para a tela do aparelho.
— E também, eu... sinto muito, . Por ter te magoado também.
Ao ouvir aquelas palavras, finalmente levantou a cabeça para encará-la.
— Não precisa — disse ele, com uma expressão neutra. — Não é como se você pudesse mandar no seu coração ou coisa assim. Isso já ficou pra trás.
— É... Tem razão. — assentiu. — E mês que vem, eu me mudo. Você vai ter o apartamento todo de volta e a oportunidade de esquecer que eu existo.
riu pelo nariz.
— O que é isso? Tá dando uma de vítima agora, ?
— Não. Mas sei que você tá chateado e acho que vai ser melhor não me ter mais por perto. Além disso, logo mais você vai ficar ocupado com o lançamento do álbum novo, então deve ser bom.
— É. Pode ser. Eu vou dormir — ele anunciou, terminando de beber a água e colocando o copo ao lado da pia.
— Boa noite — disse baixinho quando ele já estava perto do corredor.
não respondeu de volta.
Provavelmente nem tinha ouvido.
Talvez fosse melhor assim, ela decidiu. Não só o que tinha acontecido entre eles agora havia ficado para trás, como também a amizade que um dia tiveram e que havia se enfraquecido na última década.
Talvez seja melhor assim, ela repetiu mentalmente, tentando acreditar nisso.

Capítulo 19

9 de julho de 2018, 20:32 - Apartamento de , Nova York, NY

entrou no apartamento e correu para o quarto, sem notar a presença de no sofá, que cutucava o catálogo da Netflix. Ele a observou sumir pelo corredor assim que a porta da frente foi aberta e deu de ombros, voltando a prestar atenção na TV.
Àquela altura, já havia se habituado a ignorar a garota na maior parte do tempo, ou pelo menos fingir que sim. Geralmente, era fácil. até estava facilitando o processo, saindo de casa antes que ele acordasse e voltando só à noite. Mal a vira no último mês, depois daquela última conversa que tiveram na cozinha quando ela disse que sentia muito.
passou vários dias pensando naquelas palavras, mas por mais que tentasse, não conseguia entendê-las. Ela não parecia sentir muito quando ele a confrontou antes. Aquilo era só porque tinha ouvido sua conversa com ? De qualquer forma, as coisas pareciam ter voltado ao normal, na medida do possível. Os dois mal tinham trocado mais do que algumas palavras nas últimas semanas e, por mais que ainda estivesse um pouco curioso sobre a vida dela, não perguntava mais nada.
Era quase como ter uma estranha morando no quarto ao lado ou... Bem, morando talvez fosse uma palavra errônea. praticamente estava apenas dormindo e tomando banho em casa. Tudo o que ele sabia era que quando não ela estava no curso, estava na loja preparando doces.
Havia um certo fluxo de procura e enquanto o curso não terminava, estava abrindo a loja apenas para retirada, durante a semana. havia feito uma postagem depois da inauguração e não demorou muito para que as pessoas começassem a procurar a doceria, ainda mais depois de saberem que a Cave Panthers ajudou nos atendimentos do primeiro dia.
Hero e haviam brincado nas redes sociais sobre isso. havia feito uma curta live alguns dias depois, quando a notícia se espalhou, e deu alguns detalhes bem-humorados. Na ocasião, havia ficado quieto, mas os fãs já estavam acostumados com isso. No fim, todos sabiam que ele era o mais reservado na frente das câmeras, por mais que se soltasse no palco.
No entanto, havia dito que era sua amiga de infância e, desde então, sua caixa de mensagens era lotada de perguntas sobre ela. passou o mês inteiro se esquivando de responder, ignorando cada uma delas. Ao mesmo tempo, se sentia um pouco mal por isso.
Seu celular vibrou com novas notificações e ele encarou a tela, pensativo. Já fazia mais de um mês, talvez pudesse falar algo mais concreto. Não faria mal responder duas ou três perguntas só para acalmar a curiosidade das pessoas, certo? No fim, eram as palavras dele que elas queriam.
Afinal, ele era o vínculo entre , as meninas e a Cave Panthers.

***


vestiu as roupas às pressas, de olho no relógio. Tinha perdido a noção do tempo por alguns minutos depois de chegar à loja para receber algumas caixas de ingredientes, e levou mais tempo do que o esperado para guardá-las. Num impulso meio arriscado, resolveu assar três tortas, mas se arrependeu meia hora depois, quando olhou para o relógio e notou que iria se atrasar. Precisava ir para o aeroporto logo. Mas antes, precisava de um banho. A cozinha estava quente e ela tinha passado o dia inteiro fora.
A última prova do curso também tinha sido naquele dia. A tarefa era fazer um entremet realista de uma fruta. Seu professor ranzinza havia olhado com desconfiança quando ela apresentou a réplica de um limão-siciliano, simples se comparado aos outros colegas, mas ela viu surpresa cruzar seu olhar por um milésimo de segundo quando ele provou o doce.
A criatividade era um dos requisitos a serem avaliados e, embora não tivesse escolhido algo inovador ou mais complicado de fazer, o sabor havia sido sobressalente e o responsável por uma nota nove ponto quatro, uma das maiores da turma.
Um sorriso cruzou seu rosto assim que ela foi anunciada, mas nem teve tempo de comemorar. Recebeu uma mensagem de texto de David alguns minutos depois, avisando sobre a hora do vôo e se deu conta que tinha que correr para cumprir tudo o que havia planejado fazer naquele dia e ainda chegar a tempo no aeroporto para se despedir dele.
Tinham se visto quatro vezes nas últimas semanas e almoçado juntos em períodos que não duraram nem mesmo uma hora. David estava ocupado no teatro, preparando mais ainda seu substituto do musical e ainda tinha a mudança para organizar. Quanto a ela, bem, seu cérebro se resumia a doces e estudos por cerca de oitenta por cento do tempo. Apenas quando finalmente deitava a cabeça no travesseiro, permitia que sua mente vagasse solta em meio aos pensamentos que passava o dia ignorando.
Sua rotina tinha se transformado em uma série de anotações mentais, como passos para realizar novas tarefas uma vez que as anteriores fossem concluídas. Normalmente, ela tinha um bom gerenciamento de tempo, mas naquele dia estava correndo contra o tempo.
Mal havia conseguido um táxi para chegar em casa, mas esperava que um milagre acontecesse e ela conseguisse um a ponto de chegar ao menos uma hora antes de David embarcar. Quando terminou de se arrumar, enviou uma mensagem rápida para ele enquanto calçava os sapatos.
Depois saiu do quarto correndo até a porta de entrada e seguiu em direção ao elevador. De longe, avistou entrando nele.
— Segura pra mim! — ela gritou, chamando sua atenção.
Segundos depois, conseguiu entrar e enquanto as portas fechavam, apoiou as mãos nos joelhos, ofegante devido à pequena corrida.
— Caramba, o que houve? Você tá parecendo o Coelho Branco da Alice correndo contra o tempo — ele brincou.
— É, e meio que tô mesmo. Você acha que consigo pegar um táxi a essa hora? — Ela encarou o relógio digital do elevador.
— Depende, pra onde você precisa ir?
— Pro aeroporto JFK.
— Sério? Eu tô indo pra lá agora.
— O quê? — procurou malas ao redor. — Vai viajar? Não tô vendo nenhuma mala.
— Meus pais vêm me visitar. O vôo deles deve chegar lá pelas dez e meia. Posso te dar carona.
— Sim, por favor. — Ela abriu um sorriso de orelha a orelha e envolveu a cintura dele em um abraço animado. — Obrigada, obrigada, obrigada!
riu, divertido.
— Mas e você, o que vai fazer lá? Também não tô vendo nenhuma mala com e... Espera, hoje não era sua última prova? O professor gostou da ideia do limão?
— Não acho que ele tenha gostado muito da ideia, mas a execução parece ter sido boa o suficiente pra ele. No fim, tirei nove ponto quatro — ela contou. havia a visitado na loja quando ela estava treinando e até sugerido algumas ideias caso ela precisasse de um plano B.
— Que ótimo! Eu disse que você ia se sair bem! Limão não tem erro. Parabéns, !
— Pois é! Obrigada — ela respondeu, animada.
— Mas e o aeroporto? — ele repetiu a pergunta, assim que as portas do elevador se abriram. — Alguém vem te visitar?
O sorriso de vacilou um pouco.
— Ah, não. Não é isso. David vai se mudar — ela respondeu, enquanto eles caminhavam pelo estacionamento até o carro dele.
parou de andar no mesmo instante e a encarou, surpreso.
— Como assim se mudar?
— Ele vai ficar oito meses em Los Angeles. Pra gravar um filme — ela explicou.
— Mas... E vocês? Quer dizer que vocês terminaram? Ou... Não, não faria sentido, né? Se você tá indo ver ele agora...
— Não dá pra terminar o que nunca começou. — deu de ombros.
— Como é?! — praticamente gritou. Felizmente, o estacionamento estava vazio. — Quer dizer que vocês não estavam juntos?
— Isso aí.
— Mas... disse que você disse que... Não, você deu a entender...
— Eu sei o que eu dei a entender, . Mas não era verdade. Mal vi David esse mês, a gente saiu uma vez por semana só pra almoçar e conversar um pouco.
— Então... Por que você deixou todo mundo pensar o contrário?
— Porque era melhor assim.
— E como-
— Acho melhor explicar no caminho, ou a gente vai se atrasar mais ainda. Eu, pelo menos. Quero chegar a tempo de me despedir.
— Tem razão. Certo, vamos. — abriu a porta do carro e os dois entraram.
Alguns minutos mais tarde, ele gritou novamente.
— Não acredito nisso, ! — Ele gritou novamente.
— Por que você tá me chamando assim? Só me chama assim, e quando ele tá zangado.
— É sério que você passou um mês deixando a gente pensar que você se jogou no David?
— Mas eu me joguei no David. O que e viram foi verdade.
— É, mas você entendeu o que eu quis dizer! Você deliberadamente deixou o pensar que você e o David estavam em um relacionamento, como namorados oficiais, quero dizer — ele detalhou, antes que ela desse outra desculpa. — Mas por que fez isso? Não podia ser honesta com os dois?
— Eu tava confusa. Ainda tô um pouco, acho que fiquei com os hormônios à flor da pele e... Não sei, eu não pensei nisso, só... Aconteceu. Eu disse a você que não achava uma boa ideia me envolver com agora, depois de tudo, mas...
Ela nem mesmo sabia como continuar aquele argumento. Mal conseguia colocar os próprios sentimentos em palavras. Felizmente (ou não), fez isso por ela.
— Você tá com medo — ele concluiu. — De se machucar outra vez. E depois que David falou dos sentimentos dele, você viu isso como uma oportunidade de barrar os seus sentimentos por . Como uma desculpa pra manter distância.
— Eu... — piscou, encarando o amigo que tinha acabado de parar em um sinal vermelho.
— Ei, eu leio muito, sabia? Não sei por que as pessoas subestimam os romances e as fanfics. Tá na cara que esse é o motivo de você estar agindo assim.
suspirou, sentindo o cansaço do dia bater.
— Eu nem tenho tempo pra isso, . Acabei de começar um negócio, passei o mês inteiro ocupada com ele e com o curso que, felizmente, eu me livrei. Agora é hora de dar atenção a minha carreira, o resto fica em segundo plano, como sempre ficou.
— Tem certeza de que é isso que quer?
— Como assim?
— Você só se importa com a sua carreira?
— Onde você quer chegar?
— Ainda sente algo por , ? — ele finalmente perguntou. abriu a boca para responder, mas hesitou, fazendo sorrir. — Tá, já entendi.
— Eu nem respondi ainda — ela retrucou.
— E nem precisou. É óbvio que sente alguma coisa. Você não quer se distanciar de porque não sente nada, e sim o contrário. Honestamente, deve ser difícil. Não faço ideia do que eu faria no seu lugar.
riu pelo nariz, desistindo de se esconder dele.
— Duvido que quando você se apaixonar, vai sofrer com alguma coisa do tipo.
— Nunca se sabe. — Ele deu de ombros.
— Promete pra mim que você não vai falar disso pra ninguém — ela pediu.
— E eu preciso? Mais cedo ou mais tarde, todo mundo vai saber que seu suposto namorado tá morando do outro lado do país, .
— Eu sei. Mas enquanto ninguém percebe a minha farsa, quero deixar as coisas como estão. Pelo menos até eu sair do apartamento do . Então promete, por favor.
a encarou em silêncio por um segundo.
— Tá, como quiser. Prometo não contar a ninguém.
— Ótimo. Em troca, você pode ter doces grátis sempre que visitar minha loja — ela prometeu, arrancando uma risada dele.
— Ah, é? Ótimo, mas nem pense em voltar atrás.

***


Faltavam só dez minutos para o embarque. correu de um lado para o outro tentando avistar David, em vão.
A frustração fez seus olhos lacrimejarem.
Como um homem daquele tamanho era tão difícil de encontrar? E se ele já tivesse embarcado? Será que ela tinha chegado tarde demais?
— Chorar não combina com você — ela ouviu a voz familiar atrás de si.
se virou imediatamente, encontrando David parado bem ali, com um boné preto virado para trás, roupas casuais e um sorriso de tirar o fôlego.
— Onde você tava? Eu corri pra te procurar.
— Fiz o check-in e fui ao banheiro. — Ele apontou para o local, não muito distante de onde estavam. — Quando voltei, vi você correndo e parando aqui.
— Achei que tivesse chegado tarde demais. me trouxe, ele veio buscar os pais dele, mas o trânsito tava meio ruim. Sinto muito por não ter chegado mais cedo.
— Tudo bem, o que importa é que você tá aqui. — Ele sorriu e abriu os braços. — Agora o meu abraço.
sorriu em meio às lágrimas e o abraçou pela cintura, a bochecha grudada no peito dele. Um soluço irrompeu dela.
— Vou sentir sua falta — ela conseguiu dizer.
David a apertou mais contra si, a aninhando como sempre fazia quando a confortava.
— Tá tudo bem. Não é pra sempre, . E lembre da nossa conversa. Independentemente do que acontecer e de qual for a sua decisão, nossa amizade permanece intacta. É uma promessa.
se afastou para encará-lo e David sorriu mais uma vez, emanando tranquilidade enquanto secava as lágrimas dela.
Um chamado para embarque veio logo depois.
— Eu tenho que ir — ele disse. — Mando mensagem quando chegar e prometo ir te atualizando sobre as filmagens.
assentiu, respirando fundo, um pouco mais calma.
— Boa viagem, Clark. — Ela sorriu. — Amo você.
— Também amo você, — ele respondeu, se inclinando para beijar a testa dela.
E então deu-lhe um último sorriso antes de se virar e ir embora.
Ela sentiu os olhos se encherem outra vez e os esfregou, enquanto observava David ir se afastando aos poucos. De longe, antes de passar pelo portão, ele olhou para trás e acenou exageradamente, a fazendo rir.
acenou de volta e soprou um beijo para ele, que fingiu pegar e levar ao coração.
Um bobo.
E então, em um piscar de olhos, ele se foi.

Capítulo 20

Alguns minutos depois que se despediu de David, ela foi para onde disse que estaria esperando os pais. No meio do caminho, recebeu uma mensagem dele, falando que eles tinham chegado e, cerca de dois minutos depois, os avistou.
A mãe de parecia bem jovem para a idade, assim como seu pai. Ambos estavam vestidos em um estilo old money que fazia lembrar de personagens ricos em filmes e séries de TV. Havia uma certa sofisticação no modo como se portavam. Ela até teria se sentido intimidada se não estivesse presente, vestido com short, camiseta e boné. Ele parecia um adolescente na maioria das vezes e certamente poderia facilmente se passar por um.
O cabelo liso e levemente longo na parte de cima lhe dava um ar mais jovial quando ele deixava a franja cair sobre a testa, mas isso mudava quando usava um penteado mais elaborado, dando-lhe um ar mais sexy. Após semanas vendo quase todos os dias, já tinha notado que esses penteados geralmente eram reservados para ocasiões especiais.
Quando se aproximou da família, a primeira coisa que ela notou foi a semelhança entre eles. De algum modo, era uma mistura dos dois, ao ponto dela não saber dizer com quem se parecia mais. Já a segunda, foi que eles conversavam em japonês.
Iie, okaasan. Tomodachi desu. — ela ouviu dizer para a mãe, que tinha começado a encará-la com curiosidade.
havia tentado aprender japonês em um curso de extensão da faculdade há alguns anos. Havia feito a inscrição por impulso, mas o professor era legal. Ela era até boa com a gramática, mas a dificuldade com vocabulário e em identificar kanji a fez desistir um ano depois.
Contudo, conseguiu entender aquela frase.
Não, mãe. É uma amiga.
então sorriu e se apresentou.
Konbawa, meu nome é . É um prazer conhecer vocês.
— Ah, você fala japonês? — a mulher perguntou com um sorriso.
— Infelizmente, não. Cheguei a ter aulas na faculdade, mas esqueci muita coisa.
— Bem, japonês é mesmo difícil até para nós que somos nativos — o pai de comentou, simpático. — Kaito disse que você veio se despedir de um amigo, ele já foi?
— Já sim. — Ela sorriu, trocando um olhar com . Kaito, é? Então aquele era o nome japonês dele?
— Beleza, então acho que a gente já pode ir — O amigo anunciou. — , esses são Hikaru e Hana, mas pode chamar eles de Harry e Hannah. Mãe, pai, é amiga de infância de , ela tá passando um tempo no apartamento dele enquanto espera o dela ficar livre.
— Ah, sim. O que você faz da vida, ? — Hannah perguntou enquanto eles caminhavam até a saída.
— Eu sou formada em gastronomia e abri recentemente uma doceria, com foco em tortas, bolos e docinhos artesanais.
— Ah, sugoi! Quero visitar um dia.
faz coisas deliciosas, mãe. A senhora vai adorar.

***


Quando chegou em casa, tomou o remédio que havia deixado de lado na hora da pressa e então voltou para o quarto, trocou de roupa e se arrastou até a cama.
Já estava tarde e ela tinha levantado muito cedo naquele dia, sem contar que mal tinha conseguido dormir na noite anterior. A ansiedade da prova final do curso tinha lhe dado uma insônia de presente e, como a cereja do bolo, ao amanhecer ela tinha vomitado as tripas.
Fazia muito tempo desde a última vez que sentira enjoos matinais por causa da ansiedade. Não desde o último semestre da faculdade, provavelmente. Provas sempre a deixavam um pouco nervosa, por mais confiante que estivesse com o tema. Mas talvez também fosse a junção do cansaço e do estresse das últimas semanas.
Precisaria contratar alguém para trabalhar na doceria em breve, isso era óbvio. Por mais que tivesse pensado inicialmente em abrir a loja por meio período até terminar o curso, não tinha conseguido fazer isso por mais do que alguns dias. A comida sempre esgotava antes do esperado e ela vinha tendo que aumentar a produção para suprir a demanda. Sozinha era difícil, precisava de tempo para produzir, atender os clientes e servi-los.
Pelo visto, o poder da Cave Panthers era extraordinário. Apenas alguns comentários elogiando e a colocando automaticamente no círculo de amizade deles tinha sido suficiente para atrair muitas pessoas. pensou que seria temporário, por ser uma novidade, mas a cada dia que passava mais pessoas procuravam a loja. Isso era muito bom financeiramente, mas péssimo para a saúde física dela. Talvez fosse melhor contratar duas pessoas, no mínimo.
Ainda sentia dores por toda parte quando se deitou naquela noite, mas ao menos adormeceu feliz, sabendo que não precisaria acordar cedo na manhã seguinte. Ia se dar ao luxo de ter uma pequena folga.
Na manhã seguinte, acordou e escovou os dentes, engasgando um pouco no processo, o que acabou sensibilizando seu estômago.
Xingou baixinho e respirou fundo algumas vezes, até se sentir melhor.
Então, ainda de pijama, saiu do quarto e no mesmo instante ouviu o barulho de um liquidificador. Encontrou na cozinha, sem camisa, de costas para ela. O micro-ondas apitou, indicando que o que quer que ele tivesse esquentado estava pronto. se virou em direção a ela e deu um pulo de susto quando viu parada ali, imóvel, com olhos cansados, cabelo bagunçado e... Bem, ela parecia meio verde também.
— Que susto! Você tava em casa esse tempo todo? Achei que já tivesse saído.
— Meu curso acabou ontem — ela informou, se arrastando para se sentar em um banquinho. — E resolvi tirar uma folga hoje de manhã, pra dormir — acrescentou, colocando os braços em cima da bancada e deitando a cabeça sobre eles.
Então ficou em silêncio.
— Ei. — chamou, mas ela não respondeu. — ? — Silêncio. Então ele a cutucou com um dedo. — Ei, se vai continuar dormindo, então faça isso na sua cama. Você vai acabar caindo aqui.
então puxou o ar, respirando fundo e levantou a cabeça, piscando os olhos por alguns segundos, como se tentasse se manter acordada. Pelo visto, o enfado dos últimos dias estava maior do que ela esperava, visto que mal conseguia manter os olhos abertos.
— Eu já acordei — anunciou, franzindo o cenho, forçando as pálpebras a se manterem abertas.
— Tá tudo bem? — ele quis saber. — Você tá pálida e... Meio verde.
Aquele era provavelmente o maior diálogo que tiveram nas últimas semanas. Talvez fosse até estranho, mas ela não estava com disposição para se importar com isso.
— Sim, só tô com o estômago um pouco sensível. O que você tá esquentando? — Ela apontou para o micro-ondas atrás dele, ainda apitando.
— Ah, é um pedaço de pizza. — abriu a portinha, deixando o cheiro sair. — Você quer...?
De repente, pulou do banquinho e então saiu correndo com a mão na boca. Surpreso, a seguiu até o quarto e, um instante depois, a ouviu vomitar. Quando ele chegou ao banheiro, ela já estava dando descarga no vaso. Então ligou a torneira e se pôs a escovar os dentes novamente.
— Vou preparar um remédio pra você — anunciou, saindo antes que ela pudesse responder. Quando voltou, a encontrou sentada na cama, em posição de lótus, olhando para baixo. — Aqui.
pegou o copo com líquido efervescente e o tomou de uma vez.
— Obrigada.
— Tá se sentindo melhor? Não quer ir ao médico?
— Não, eu... O enjôo passou, mas tô um pouco tonta. Acho que vou tentar dormir mais um pouco e ver se passa.
— Tá, deita devagar, então — ele aconselhou, a ajudando a se deitar. — Eu... Vou terminar o meu café da manhã. Qualquer coisa, é só chamar.
— Uhum. — Ela assentiu, já de olhos fechados.
ligou o ar condicionado e deixou a porta encostada antes de sair.
Voltou para a cozinha e se sentou para comer. Cheirou a pizza, para ter certeza de que estava boa, mesmo tendo comprado na noite anterior. Franziu o cenho, achando estranho. devia estar ficando doente. Talvez tivesse pegado alguma virose ou intoxicação alimentar.
— Ela trabalha com comida, mas provavelmente nem tá se alimentando direito — ele comentou consigo mesmo.
Tinha até notado que ela havia emagrecido um pouco no último mês, embora mal se encontrassem.
E até quando isso acontecia, ele fazia o possível para manter os olhos longe dela. Aquela manhã tinha sido uma exceção. Ele se assustou ao descobrir que ela estava em casa, e mais ainda, por vê-la passar mal.
encarou a hora na tela do celular e tomou uma decisão.
Em seguida, digitou uma mensagem no chat em grupo da banda.

: Não vai dar pra ir hoje. não acordou muito bem e Mia ia me matar se descobrisse que deixei a queridinha dela sozinha.

Sem esperar uma resposta, ele bloqueou a tela do celular e terminou de comer. Então foi para a sala e ligou a TV. Duas horas depois, ele ouviu um barulho de algo se quebrando. se levantou em um pulo e quando chegou ao quarto de , descobriu que ela tinha derrubado o copo que ele tinha levado com o remédio.
— Merda — ela xingou baixinho, quando se cortou com um pequeno caco de vidro.
— Deixe isso. Você já se cortou. Vá lavar enquanto eu limpo. — Ele se abaixou na frente dela.
se apoiou na cama para se levantar devagar e andou até o banheiro, fechando a porta. Quando saiu, parecia irritada.
— Que inferno! — Ela xingou, procurando algo no guarda-roupa, revirando as roupas íntimas.
— O que foi?
— Eu tô sangrando!
— Bem, isso é óbvio. Precisa de um curativo? Eu acho que tenho algum band-aid no meu quarto.
— Não, . Não é esse tipo de sangramento.
— Não é—Ah! Entendi. Mas não é normal? É seu período, né? — ele perguntou, no instante em que ela se virou com um pequeno pacote de absorventes.
— Não, não é normal. Faz cinco anos que eu não menstruo. E até sangramentos de escape são raros. Deve ter algo errado com-Ai! — Ela colocou a mão no ventre, se curvando de dor.
arregalou os olhos e foi até ela.
— O quê? Você tá com dor? O que você toma quando sente? Eu tenho paracetamol na cozinha. Precisa de ajuda pra ir ao banheiro?
— Não, eu posso ir sozinha. Tá tudo bem. Acho que foi só uma pontada.
— Vou pegar o remédio mesmo assim. E uma pá pra apanhar aquele vidro. E então a gente vai ao hospital.
— Você pode perguntar a se Eric tá atendendo hoje? — ela pediu, antes dele sair.
— Claro. Quer marcar uma consulta?
— Sim, eu devia ter ido antes, mas tava ocupada com o curso e a loja.
— Tá, deixa comigo. Aproveita e já se troca pra gente ir.
Ao invés de se trocar, no entanto, aproveitou para tomar banho. Quando saiu do banheiro, não havia sinal de vidro algum no quarto. estava sentado na cama, com um novo copo de água e um comprimido em mãos.
— Eu marquei a consulta, pedi urgência. Ele vai te atender quando a gente chegar lá — informou, estendendo o copo e o remédio para ela.
— Obrigada.
— Tá se sentindo melhor? Ainda tá tonta?
— Não, já passou. Acho que minha pressão deve ter caído um pouco por causa do enjôo, e também não comi nada hoje.
— Você tem que se alimentar direito. Já até perdeu peso, se continuar assim vai acabar adoecendo, . — ele reclamou. — Isso se já não estiver doente.
Em uma situação normal, teria revirado os olhos, mas sabia que ele tinha razão.
— É, tem razão — ela admitiu e a encarou com espanto. — O que foi?
— Você não deve estar normal mesmo se tá até admitindo que eu tenho razão.
revirou os olhos dessa vez.
— Eu tô pronta, vamos?

***


No hospital, depois de uma rápida conversa com Dr. Eric, ele solicitou alguns exames de sangue e pediu para que ela se preparasse para fazer uma ultrassom transvaginal, em seguida.
Uma enfermeira fez uma coleta e retirou alguns tubos de sangue enquanto observava tudo com uma careta ao lado dela, de braços cruzados.
— Precisa disso tudo? — ele perguntou à enfermeira.
— Sim. São muitos exames — foi quem respondeu. — Você nem precisava ter vindo junto, eu podia ter pegado um táxi. Eu nem tava sentindo mais dor.
— Nem vem. E se você sentisse depois? Não vou ser idiota de novo e te deixar sozinha num momento assim.
— Você não sabia da última vez.
— Mas bem que eu poderia ter descoberto.
— Eu não queria que você descobrisse.
— Não me diga. — Ele sorriu, irônico.
suspirou. Já haviam passado por aquela discussão e era óbvio que ambos haviam errado e sido idiotas; de nada adiantaria trazer isso à tona mais uma vez.
A enfermeira terminou a coleta e orientou a se trocar e ir para a salinha de exames. Quando ela chegou, já estava lá, sentado em um sofá para acompanhantes, a alguns metros da maca.
— Você tá aqui também? Tem um médico e uma enfermeira comigo, não vai acontecer nada.
— E daí? Eu sou o acompanhante. Além disso, não é como se desse pra ver alguma coisa daqui. E mesmo que desse, eu... — ele deixou a frase morrer.
Mas entendeu perfeitamente.
Ele já tinha visto tudo mesmo, o idiota.
Por mais desconcertante que fosse, não faria diferença. Assim, ela deixou isso de lado e foi para a maca. Eric chegou um minuto depois e ajustou o equipamento. Em seguida, pediu licença para introduzi-lo nela. fez uma pequena careta e a acompanhou, deduzindo que provavelmente era incômodo ter aquele troço dentro dela.
— Bem, pelo visto deve ter sido só um sangramento de escape, talvez por estresse ou algo assim — Eric comentou, enquanto olhava para a tela. — Não acho que-
Ele parou de falar de repente, franzindo o cenho, e levantou a cabeça, tentando ver a tela.
— O quê? Tem alguma coisa errada? — ela quis saber.
— Tem um... Embrião, . — Ele a encarou por um momento. — Pelo visto, você está grávida.
gelou ao ouvir. Ficou imóvel no lugar, em choque. Então ouviu a voz de .
— O quê? — Ela riu, nervosa. — Eu não posso engravidar, Eric. Eu... — Ela encontrou o olhar de por um instante. — Você não tá falando sério, né? Deve ser um engano. Você sabe muito bem que é praticamente impossível de eu engravidar por conta da endometriose. Você mesmo me disse isso. A minha médica em Chicago falou a mesma coisa.
— As chances eram realmente pequenas, . Mas acho que aconteceu um milagre. — Ele moveu o aparelho novamente e batidas rápidas ecoaram pela sala. — Ouça, já dá pra ouvir os batimentos cardíacos. E pelo tamanho, eu diria que tem cerca de cinco semanas e parece estar saudável.
— Mas como é possível? E a minha medicação? Ela também não é contraceptiva?
— Ela reduz as chances de ovulação, . Mas por si só, não chega a ser um contraceptivo confiável. Você teve relações desprotegidas muitas vezes?
— Não, eu... Só uma vez.
se levantou do sofá e se colocou ao lado do médico, encarando a tela. O coração dele acelerou quase ao ritmo do bebê, mas ele se manteve impassível.
— Bem, talvez David fique feliz, afinal. Por que não liga e conta a notícia? — ele perguntou a , enquanto Eric retirava o aparelho dela. — Você ouviu, Eric disse que é um milagre.
o encarou com lágrimas nos olhos, parecendo muito triste.
— Eu não posso. — Ela cobriu o rosto com as duas mãos.
— Por que não? Se ele é o pai, ele tem o direito de-
— Ele não é o pai — ela o interrompeu, voltando a encará-lo. — David fez vasectomia há dois anos.
— O quê? — ele perguntou, assombrado. — Então se ele não é, então...
— Você é o pai, .
Um silêncio incômodo se instalou no instante em que proferiu aquelas palavras.
— Bem, então notícia dada, né? — Eric riu, meio desconcertado, dando um tapinha no ombro de . — Vou deixar vocês dois a sós por um momento. , quando se acalmar, troque de roupa e volte para o consultório. Precisamos conversar sobre uns... Pequenos detalhes.
Então ele se foi.
se deixou cair sentado na cadeira onde Eric estava e encarou , atônito.
Ela estava grávida.
Grávida de um bebê dele.
Aquilo era algum tipo de pegadinha? Porque se fosse, não tinha graça nenhuma.

Capítulo 21

6 de março de 2006, 18:33 - Casa de e Mia, Chicago, IL

tinha acabado de chegar em casa depois do trabalho. Tomou um banho rápido e desceu para a cozinha, em busca de água e um pouco de comida antes de sair para ensaiar com a banda. Não tinham nem mesmo um nome ainda, mas a coisa toda entre os quatro parecia estar fluindo bem.
Pela primeira vez na vida, podia dizer que tinha amigos. Nada de colegas de escola, parentes ou vizinhos. Amigos de verdade. Gente desconhecida há não muito tempo.
veio primeiro, tagarela e cliente assíduo da loja de música em que trabalhava. No mesmo lugar, algum tempo depois que já eram próximos, Hero e surgiram. A amizade deles parecia algo tão natural quanto respirar, assim como a sinergia quando tocavam juntos. A música os unia e os movia como um só. Em breve, haveria um festival na cidade e estava tentando convencê-los a participar. até achava aquilo uma boa ideia, mesmo nunca tendo tocado para muitas pessoas, mesmo não se sentindo confiante o suficiente para fazer isso.
Na pior das hipóteses, havia uma chance deles passarem vergonha, mas se acontecesse, ao menos estariam passando vergonha juntos. Mas se isso não acontecesse, talvez conquistassem mais público. Talvez até chamassem a atenção de algum empresário. Era um sonho que parecia alto demais, mas mesmo assim ele se permitia imaginar como seria.
— Eu acho que quero ter um filho ou dois. Já pensou sobre isso? — A voz de Mia, sua irmã mais nova, o tirou de seus pensamentos, enquanto ele preparava um sanduíche com geleia e queijo. Vinha da varanda dos fundos. — Você quer ser mãe um dia, quando for adulta?
— Já — Era , obviamente. As duas eram inseparáveis. — Quero ter um bebê, talvez dois, assim eles podem fazer companhia um pro outro.
— E se isso não for possível? Se você puder, sei lá, ter só um?
— Então vou dar atenção, amor e carinho o suficiente pra que ele não se sinta sozinho. Eu mal vejo meus pais hoje em dia. Não gosto disso.
O coração de se apertou ao ouvir aquilo. Fazia pouco mais de um mês desde o acidente na casa dela. Exatos 33 dias desde que a mãe dela saiu e a deixou sozinha em casa, depois de esquecer uma panela ligada que causou um incêndio.
Incêndio esse que a tinha deixado com uma ferida enorme no corpo, ainda estava em processo de cicatrização. Incêndio esse que a teria matado se não tivesse chegado a tempo. E mesmo assim, ainda teria a cicatriz que permaneceria para sempre marcando sua pele.
— Tenho certeza de que você vai ser uma ótima mãe, — Mia comentou.
— Talvez. Isso se eu não morrer solteira.
— Por quê?
— Acho difícil alguém querer algo comigo depois dessa cicatriz ridícula. Os meninos na escola nem olham mais pra mim, e até as meninas só me olham com pena quando veem meu curativo.
É claro que você vai arranjar alguém, sua garota boba! quis gritar, chateado por ela pensar que aquilo passaria a definir ela e sua vida, e tudo por culpa daquela mulher que dizia ser mãe dela.
No entanto, foi Mia quem disse, de um jeito bem mais suave:
— É claro que você vai arranjar alguém. Você é linda, . Um dia, alguém vai se apaixonar por você e te amar independentemente de qualquer cicatriz que você tenha.
Sim, um dia, concordou silenciosamente.
deu uma risadinha.
— Tomara. Não quero morrer virgem, já pensou nisso? — ela brincou, fazendo Mia rir.
fez uma careta.
Bem, talvez fosse hora de sair dali.
Então ele pegou o sanduíche e foi comer na sala, para dar um pouco de privacidade para as meninas — e poupar seus ouvidos de ouvir sua irmãzinha falar sobre sexo com a melhor amiga.
Cinco minutos depois, quando acabou, ele saiu para encontrar os amigos.
Era hora de ensaiar.

***


10 de julho de 2018, 14:37 - Hospital Mount Sinai, Nova York, NY

afastou as lágrimas dos olhos, tentando secar o rosto, mas elas continuaram jorrando sem parar. Um momento depois, ela viu a mão de lhe entendendo uma caixa de lenços.
— Foi isso que você quis dizer quando disse que tava tudo bem e a gente fez sexo desprotegido? — ele perguntou suavemente. — Por que você tinha certeza de que não poderia engravidar?
— Eu tenho focos de endometriose que tornavam isso praticamente impossível — explicou. — Foi um choque quando descobri que a infertilidade era uma questão, mas passei os últimos cinco anos aceitando que nunca seria mãe.
— E você queria. Você e Mia conversavam sobre essas coisas — ele comentou, meio distraído.
— E como você sabe disso? Ela te contou?
— Eu ouvi uma vez quando tava chegando em casa, vocês tavam na varanda dos fundos. Você disse que queria pelo menos um bebê. Que dois seria bom pra eles fazerem companhia um pro outro, mas se fosse só um, você ia dar atenção, amor e carinho o suficiente pra ele não se sentir sozinho.
soluçou ao lembrar daquilo. Era só um sonho adolescente bobo, da menina inocente que um dia ela foi, mas por algum motivo a lembrança a deixava emotiva.
— É, mas de todo jeito, eu desisti daquela ideia depois do diagnóstico, mas...
— Mas agora você tem uma chance — ele completou. levantou o olhar para encará-lo e continuou. — Eu acho que nunca pensei muito nessa questão, mas...
— Mas?
— Se você quiser essa criança, eu vou te apoiar. Se você não quiser, não posso dizer nada sobre isso.
— Quer dizer que se eu quisesse abortar você apoiaria?
— O corpo é seu, .
— Você quer que eu faça isso?
— Não se trata do que eu quero, , mas sim do que você quer.
— Se fosse você no meu lugar, o que faria?
— Eu não sei. Acho que eu ficaria apavorado no seu lugar.
— Ah, eu tô apavorada, disso você pode ter certeza — ela garantiu. — Mas considerando tudo, você abortaria essa criança?
— Eu... Não. — Ele desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar. — Eu acho que ia ficar com ela.
— Pode ser minha única chance.
— Sim. Por isso, eu disse que a decisão é sua, . Sei que nossa relação é complicada agora e ficou ainda mais depois, mas... Eu nunca te deixaria sozinha e… Bem, não é como se eu fosse um estranho, né? Podia ser pior. Então, se você quiser…
Ele deixou no ar, dando vez para que ela falasse.
— Eu quero — murmurou baixinho olhando para as próprias mãos e então o encarou. — Quero essa criança, .
— Então você já tem sua resposta.
Contudo, quando voltaram ao consultório, alguns minutos depois, ela foi recebida com um banho de água fria.
— Como seu médico, tenho que ser sincero com você, — Eric disse, com um semblante sério. — Está tudo bem com o bebê nesse momento, mas seguir adiante com essa gravidez pode trazer riscos.
prendeu a respiração, apreensiva.
— Que tipo de riscos?
— Do tipo suficientes pra eu pedir que você tome uma decisão. A endometriose torna essa gravidez de alto risco, podendo ocasionar em algumas complicações. Aborto espontâneo ainda é algo que não pode ser descartado, por exemplo. Pelas aderências que você tem e o seu histórico, eu suponho que o óvulo da fecundação possa ser de baixa qualidade, o que pode dificultar o desenvolvimento adequado do embrião.
— Certo... — disse, um pouco decepcionada. — E o que mais?
— Caso opte pela gravidez, você teria que parar a sua medicação habitual e substituir por alguma progesterona natural para não prejudicar o bebê, tornar o endométrio mais adequado e ajudar com a doença. Mesmo assim, é possível que sinta dores por conta das aderências à medida que a gestação for se desenvolvendo. Essa mesmas aderências também podem dificultar o crescimento uterino, a circulação uteroplacentária, que pode ocasionar em uma hipertensão gestacional, ou até mesmo impedir a fixação adequada da placenta — Eric continuou. — Isso pode causar sangramentos que podem ser um risco pra você e pro bebê, além da possibilidade de parto prematuro ou uma cesárea de emergência. Na pior das hipóteses, a remoção do útero também seria necessária.
— Tudo isso? — ela indagou, com lágrimas nos olhos.
— Infelizmente são algumas possibilidades. Existem mulheres que podem achar que não vale a pena correr esses riscos. O aborto é legalizado no estado, então caso decida seguir por esse caminho, você não teria problemas no processo, especialmente considerando a situação.
— Então você tá dizendo que a gestação inteira pode ser uma bomba-relógio? — quis saber, nervoso. — Engravidar foi um milagre, mas é melhor abortar?
— Não estou dizendo que é melhor abortar, — Eric retrucou. — Entendo que ouvir isso seja chocante, mas é meu dever como médico alertar e falar a verdade pra vocês. É uma gravidez de alto risco. Essas complicações podem ou não acontecer, mas há grandes chances de acontecerem. pode sofrer durante a gestação, especialmente com dores. E teríamos que optar por analgésicos leves pro controle da dor. É o tipo de gestação que necessita de acompanhamento constante e cuidados redobrados. E é necessário que saibam disso para não serem pegos de surpresa caso algo aconteça.
suspirou, exasperado, e passou as mãos no rosto, sem notar que elas tremiam. Ao seu lado, fungou, chorando outra vez, fazendo o coração dele apertar. Tinham acabado de decidir ter a criança e então... Aquilo.
Eric voltou a falar um momento depois.
— Vou dar alguns dias pra você decidir, . Até lá, você pode tomar o-
— Não preciso disso — ela o interrompeu, enxugando as lágrimas rapidamente. — Eu vou seguir adiante, Eric — acrescentou, um segundo depois.
— Tem certeza?
— Sim — ela confirmou, decidida.
! — chamou ao seu lado. — Essa não é uma decisão qualquer. Não seja precipitada.
— Não estou sendo. — Ela o encarou. — E você disse que me apoiaria em qualquer que fosse a decisão.
— Mas agora é diferente! Você não vê?
— O que é diferente, ? Nós conversamos exatamente sobre levar ou não a gravidez adiante.
— Mas é a sua vida que tá em jogo! Você vai mesmo querer arriscar? — ele perguntou, sentindo os olhos arderem de frustração.
— Essa pode ser a minha única chance.
! Por favor, pensa melhor... Você não pode se arriscar assim.
— Não é você quem decide isso. O corpo é meu, lembra? — ela retrucou.
— Você não tá pensando direito! Se alguma coisa acontecer com você... — A voz dele quebrou, ao mesmo tempo que uma lágrima escapou. colocou as duas mãos no rosto mais uma vez, respirando fundo. O olhar de suavizou.
— Eu prometo me cuidar direitinho — ela garantiu. — Vou ter essa criança, , e vai ficar tudo bem.
— Você não tem como ter certeza — ele rebateu, com o rosto ainda coberto. — Ninguém tem.
— Mas posso ter esperança e tentar evitar alguns riscos se me esforçar — afirmou, trocando um olhar decidido com Eric, que assentiu.
tirou as mãos do rosto e a encarou, ainda com os olhos úmidos e levemente avermelhados, fazendo o verde deles se destacar ainda mais.
— Por que você sempre tem que ser tão teimosa?
— Porque se não for assim, não tem graça. — Ela sorriu. — E você vai me ajudar, lembra? — Ela o cutucou com o cotovelo. — A gente consegue lidar com isso. Você é tão determinado quanto eu. Aposto que esse bebê também vai ser. E daqui a alguns meses, ele vai nascer saudável e forte, e então vamos cuidar dele.
respirou fundo outra vez, se sentindo meio bobo por estar aparentemente mais apavorado do que ela. No entanto, sabia que não podia fazer nada se aquilo era o que realmente queria.
— Tá. Mas você vai ter que seguir tudo à risca e... Você tem que me prometer uma coisa, .
— Tudo bem — Ela assentiu, de acordo. — O que você quer que eu prometa?
— Que você vai continuar morando comigo até nosso filho nascer. Depois disso, quando tiver tudo bem com vocês dois, então a gente conversa sobre como vamos fazer.
fez uma careta.
— Eu já reservei o apartamento, .
— Você pode usar ele como um depósito extra pra loja, ou pra descansar quando tiver trabalhando. Eu não ligo. Mas também não vou mudar de ideia.
suspirou, resignada.
— Tá, tudo bem. Eu fico.
levantou a mão, expondo apenas o dedo mindinho.
— Promete?
quase rolou os olhos, achando aquilo meio bobo, mas entrelaçou o próprio mindinho ao dele.
— Prometo.

Capítulo 22

checou a lista que havia digitado no celular mais uma vez, só para ter certeza de que tinha pegado tudo. estava caminhando em sua direção, depois de usar as receitas que Eric tinha lhe dado para comprar mais alguns medicamentos.
— Pegou tudo? — ele perguntou.
— Sim. — Ela levantou as caixas de medicamentos antes de jogá-las na cesta que ele carregava. — E você?
— Remédio pra dor, pra enjoo, febre, gripe, indigestão, suplementos... — Ele saiu apontando para cada um deles. — E uma caixa de absorventes igual a que você tem. Só por precaução.
— E isso? — Ela apontou. — Bolsa térmica?
— Pro caso de você sentir dor.
— Certo. Acho que podemos ir, então.
assentiu e caminhou com ela até uma fila com três pessoas na frente. Ele usava um boné branco escondendo a maior parte do cabelo, mas tinha dispensado usar máscara.
— Não sei como consegue andar tão livremente assim — comentou, de repente. — Fico impressionada com como você passa despercebido.
— Eu sou o mais comum da banda. Cabelo loiro e olhos claros? Tem milhares de caras assim pela cidade.
— Você não é tão comum quanto pensa — ela retrucou. — Eu te reconheceria até se você tivesse usando máscara.
riu pelo nariz.
— Não. Você diz isso porque cresceu comigo por perto. Mas já até consegui passar por fãs sem que elas percebessem.
— Que maldade. Elas só queriam um autógrafo e uma foto.
— Não dá pra eu dar autógrafos e tirar fotos com uma centena de pessoas em um aeroporto prestes a pegar um vôo.
— Você podia ao menos acenar.
— Eu sou do time que prefere evitar tumulto.
— Um chato, então. Como fã da CP, eu prefiro o time que ao menos passa sorrindo, mesmo que não atenda ninguém — resmungou. — E não seu time de um só que prefere se esconder.
— Você tá irritada? — Ele riu novamente. — Não tem motivo pra isso, .
Ela lançou um olhar afiado para ele, mas não disse nada. Também não sabia porque tinha se irritado de repente.
— A filha tá andando, vai ficar parado aí? Só tem mais uma pessoa na frente.
— Já tá mudando de assunto? — ele perguntou com um sorriso. — Aposto que se tivesse no meu lugar, você faria o mesmo.
— Eu ia me enfiar no meio do povo que nem o . Não é à toa que ele é meu favorito.
— Você só diz isso porque guarda rancor de mim — ele falou, em tom de deboche.
— E guardo mesmo. Agora vai, chegou sua vez. — Ela apontou com a cabeça para o caixa.
— Rancorosa... — resmungou baixinho, dando um passo à frente para pagar as compras.
Alguns minutos mais tarde, quando já estavam entrando no elevador, ele se encostou na parede e encarou o teto de metal. Então começou a tagarelar, pensativo.
— Ainda bem que tá tudo bem por enquanto.
— É.
— Mas você vai ter que tomar cuidado redobrado. Vamos tentar ir ao médico a cada duas semanas, no mínimo. E depois a cada uma semana, só pra garantir.
— Tudo bem.
As portas se abriram e, um instante depois, eles entraram em casa.
— Temos que contar pra sua mãe. — continuou. — Pro seu pai também, é óbvio. E minha mãe, e... Caramba, a Mia vai surtar. E os caras também. Acho que eu ainda tô meio que surtando. A ficha ainda não caiu.
teria rido se a situação não fosse preocupante. Mas querendo ou não, provavelmente fazia sentido eles dois ficarem nervosos.
Um bebê estava a caminho.
Eles iriam ter um filho juntos.
Quantas vezes ela imaginou isso quando era uma adolescente apaixonada e ingênua sonhando acordada? Algumas centenas, com certeza. Mas nenhuma delas naquele cenário, obviamente.
Mas não queria compartilhar aquilo. Não quando ainda era tão cedo.
— Eu não quero contar a ninguém ainda — ela disse, enquanto tirava as compras da sacola.
— Nem pros nossos pais? — balançou a cabeça, confirmando. — Por que não?
— Ainda tá cedo. E meus pais e sua mãe não sabem de nada sobre a gente. Eu nunca contei e Mia também não. Só os seus amigos sabem, e o David. E você ouviu o médico, . Ainda há risco de aborto nessa primeira fase. Não quero contar a ninguém e depois... Sabe-se lá o que pode acontecer. Se essa gestação não vingar, prefiro sofrer sozinha do que ter pessoas ao meu redor com pena de mim.
— E o David? Não vai contar nem pra ele?
hesitou por um instante, mas...
— Vou. Vou contar só pra ele — ela decidiu. — Se eu contar pra Mia, provavelmente sua mãe pode ficar sabendo de algum jeito. E se ela souber, a minha também vai e... Vai ser um efeito dominó. Então vamos falar quando tivermos mais segurança, pode ser?
— Como quiser. Mas a gente ficou um mês mal olhando na cara um do outro. O que vamos dizer pra todo mundo quando perguntarem por que a gente tá saindo?
— Você pode dizer que tô fazendo um tratamento novo e preciso de um acompanhante. Diz que eu passei mal ou algo assim, não vai ser totalmente mentira — ela sugeriu. — Talvez queira detalhes, então diz que Eric tá investigando novos focos de endometriose e testando uma nova medicação.
— E se ela perguntar pra ele?
— Ele não pode falar nada sem nossa permissão. Não quando ela não faz parte da equipe de saúde — ela explicou. — Então você diz que a gente conversou e... Chegamos à conclusão de que ignorar um ao outro era uma atitude infantil que não levaria a nada.
— Tá. E você acha mesmo que meus amigos vão acreditar nisso quando eu contar?
— Podem até não acreditar, mas já é uma desculpa.
— Eles vão saber que não é isso, . Eu não consigo mentir pra eles. vai olhar pra mim uma vez e saber que tem algo errado.
— Então não diga nada. Diz só que eu passei mal e você me levou ao médico e estamos investigando. Essa parte não é mentira.
fez uma careta.
— Tá. Vou tentar. Mas não acho que vamos conseguir esconder por muito tempo.
— Só algumas semanas, . Pelo menos até eu me sentir um pouco mais segura.
— Tudo bem. — Ele suspirou. — Vamos fazer assim, então.

***


15 de julho de 2018, 16:03 - Apartamento de Hero, Nova York, NY

se sentou no chão do estúdio tão logo acabou a reunião com Henry, o gerente da banda. Ele lançariam um álbum no mês seguinte e, consequentemente, estariam ocupados indo se apresentar em vários programas e eventos, sem contar as entrevistas.
Com a agenda da banda cheia, seria difícil dar muita atenção a , mas ter esses tipos de compromissos nem era o maior problema dele. No ano seguinte, contudo, a Cave Panthers supostamente deveria sair em turnê.
Se tudo ficasse bem com o bebê, ele deveria nascer por volta de fevereiro. só teria cerca de dois meses por perto até ter que começar a viajar. Não queria deixar sozinha com o filho deles, mas, ao mesmo tempo, atrasar a agenda da banda mais do que já estava também era ruim.
Obviamente seria por uma boa causa, mas... Fazia anos desde a última turnê. Fazia anos desde o último álbum também.
Depois da morte do avô, Hero passou um bom tempo não sendo ele mesmo, não conseguindo trabalhar direito e nem mesmo cantar. Depois veio o acidente, que o incapacitou por um bom tempo e o obrigou a fazer dezenas de sessões de fisioterapia para poder voltar a tocar instrumentos.
Felizmente, não era como se os fãs pudessem se irritar por ele ter se envolvido em um acidente que nem estava sob seu controle. Mas no caso dele... Bem, ele tinha engravidado sua amiga de infância. Uma hora ou outra o mundo ia descobrir, e ele não fazia ideia de como seriam as reações. Especialmente quando ele não estava em um relacionamento com . Especialmente quando ele nunca havia falado nem sobre ter planos para se casar um dia, quem dirá ter filhos.
sabia que era apenas uma questão de tempo até ele sair da sombra de tranquilidade em que vivia. As pessoas iriam falar, iriam fazer mais perguntas do que já estavam fazendo. Ele seria alvo de palavras não muito agradáveis e, possivelmente, também. Isso o deixava um pouco ansioso, mas não havia muito o que ser feito.
Ele estava mais preocupado com o depois, em deixar e o bebê sozinhos. Teria que dar um jeito de intercalar as viagens, uma vez que as datas fossem marcadas. Assim, teria como revezar entre trabalho e família.
Família.
Eles poderiam se considerar uma, mesmo não estando em um relacionamento?
suspirou enquanto dedilhava o baixo em uma melodia rápida, então parou de repente. Ouviu a porta se fechar e logo seus amigos se aproximaram, sentando no chão em frente a ele.
— Tá legal. Vou ter que fazer o interrogatório ou faz? — Hero perguntou.
— Aprendi um novo golpe de imobilização — declarou com um sorriso.
— Hã? Do que vocês tão falando? — tentou se fazer de desentendido.
— Faz dias que você tá quieto e suspirando pelos cantos — explicou. — Tentamos te dar espaço, mas como ficou claro que você não ia abrir a boca, decidimos te interrogar.
riu pelo nariz, mas o sorriso não alcançou seus olhos.
— Não é nada.
— Eu vi você saindo de carro com há alguns dias — disse. — Eu tinha acabado de voltar da academia, mas vocês não me viram.
— Ah... A não tava se sentindo bem, então eu levei ela no hospital.
— O que aconteceu? — franziu o cenho, preocupado.
— Ela não acordou muito bem. Sentiu tontura e vomitou, e também teve cólica. A gente conseguiu uma consulta com o Eric e ele tá investigando e... Decidindo algo sobre a medicação dela.
— Só isso? — Hero indagou, parecendo desconfiado.
— É. O que mais poderia ser? — deu de ombros, voltando a dedilhar o baixo, mas sua mão tremeu e o som saiu esquisito.
Merda.
Ele levantou o olhar para Hero, que agora tinha um sorrisinho no rosto, como se tivesse acabado de notar algo.
Maldito defector de mentiras ambulante!
O amigo cruzou os braços, sem tirar os olhos dele. duvidou até se ele havia piscado em algum momento.
— Então... Como vocês estão? Eu fiquei sabendo que David tá em Los Angeles agora.
— O quê? — franziu o cenho. — Como assim?
Do outro lado, fez uma careta.
— Cara, eu falei pra você não dizer nada!
— Ele ia descobrir se o suposto namorado dela não desse as caras, né? — Hero retrucou.
— Do que vocês tão falando? — quis saber.
— David tá gravando um filme em LA e vai passar uns oito meses lá. Ele viajou no dia que meus pais chegaram. pegou carona comigo até o aeroporto pra se despedir.
— Ah. — Por isso, ela tava correndo, deduziu. — Bom pra ele, então.
— E vocês? Aconteceu alguma coisa depois desse lance do hospital? — perguntou.
— Nós... Fizemos as pazes.
— Fizeram as pazes? — franziu o cenho.
— É. Decidimos deixar tudo de lado e... Viver civilizadamente.
— Você passou um mês ignorando a garota e descontando a raiva no seu baixo porque tomou um fora, e quer mesmo que a gente acredite nisso?
— Foi o que aconteceu. O que quer que eu diga?
— Bem, o motivo pra você estar suspirando pelos cantos, pelo menos. — Hero explicou. — Fazer as pazes não provocaria isso.
fez uma careta e colocou o baixo ao lado.
— Tá, mas não tem nada errado. Acho que só não dormi direito essa semana e tô cansado.
Foi a vez de suspirar.
— Ai, isso tá começando a ficar cansativo. Por que a gente não deixa logo isso pra-
— É a , né? — interrompeu, olhando diretamente para . — Tem alguma coisa sobre ela. Algo sério, pelo visto. Se ela tivesse te irritado, você ia só reclamar. Mas tá aí todo pensativo. É sobre a saúde dela? Tá preocupado com alguma coisa?
— Eu... A tá bem. Não tem nada rolando.
— Você acabou de piscar o olho esquerdo quando disse isso — Hero disse.
— Não pisquei, não.
— Piscou. Eu vi também — afirmou. — Você e esse tique nervoso quando tá mentindo.
Merda. Dupla merda. Maldito tique.
— E então? — perguntou. — O que é que tá rolando?
suspirou, se sentindo encurralado. Tinha conseguido esconder por exatos cinco dias, mas...
Desculpa, . Mas eu te avisei que não ia durar muito tempo.
Durou mais do que ele esperava, no entanto.
— A tá grávida. E o bebê é meu — ele disse de uma vez.
A sensação foi como remover um peso de seus ombros, no entanto, seus amigos arregalaram os olhos e abriram a boca em choque. nunca os vira tão surpresos.
— Como é?! — Os três perguntaram ao mesmo tempo e respirou fundo, soltando o ar de uma vez.
Pelo visto, teriam uma longa conversa pela frente.

Capítulo 23

encarou os amigos com um certo receio, como se fosse um adolescente que havia acabado de ser pego aprontando, esperando por uma bronca que viria a qualquer momento.
— Como isso aconteceu? — perguntou calmamente.
abriu um sorriso sarcástico.
— Como você acha que foi, ? Preciso mesmo explicar?
— Cara, vocês passaram uma noite juntos e não pensaram em usar proteção? — indagou. — Você é idiota?
— Eu pensei nisso, tá? Mas disse que tava tudo bem. Achei que ela tivesse tomando anticoncepcional. — Ele encolheu os ombros.
— E ela não tava? — franziu o cenho.
— Ela tava. É o remédio que ela toma por causa da endometriose. Ele ajuda a inibir a ovulação ou algo assim, mas Eric disse que não é seguro pra prevenir gravidez. E a ...
— O quê? — quis saber.
— Ela achava que não podia engravidar — explicou. — Tem a ver com a doença. Não era impossível, mas era quase, sabe? Ela já tinha desistido de ser mãe.
— Sinceramente, eu não sei se rio ou se ofereço meus pêsames — brincou. — Vocês vão mesmo ter esse bebê?
— É aí que tá. quer o bebê, e eu também quero, mas... A gravidez dela é de alto risco. Eric disse que ela pode ter um aborto espontâneo ainda no início e, caso isso não ocorra, há outras possíveis complicações...
E então ele contou cada coisinha que se lembrava da consulta e do que tinha pesquisado depois, pois sim, ele tinha feito aquilo. Mas só ficou mais apavorado ainda quando se aprofundou em cada uma das complicações que poderia ter.
— É sério? — Hero perguntou, incrédulo. — Ela prefere arriscar a vida dela pra tentar ser mãe? E você vai deixar?
suspirou.
— É o corpo dela, o que eu posso fazer?
— Cara... Que merda. Respeito a vontade dela de ter um bebê, mas não entendo — O amigo disse. — Pra mim, parece egoísmo. Se ela quer um filho, pode simplesmente adotar um.
— Diz o cara que nunca quis ter filhos — retrucou.
— Eu só acho que não vale a pena. Mas eu sou homem, o que posso saber sobre isso? — Hero deu de ombros.
Uma batida na porta do estúdio chamou a atenção deles e todos olharam na mesma direção, apenas para encontrar parada ali, de braços cruzados.
— Foi mal, acabei chegando no meio da conversa e... Infelizmente, compartilho da mesma opinião que — ela disse, se aproximando. Em seguida, se sentou ao lado do noivo. — E como mulher, acho que não vale a pena arriscar a própria vida pra ser mãe. Mas eu nunca quis mesmo, então minha escolha seria mais simples se eu estivesse no lugar da .
— Tá dizendo que você iria interromper a gravidez? — perguntou.
— Eu nem ia pensar duas vezes. São riscos demais que eu não ia querer correr. Mas quer, e o corpo é dela. Acho preocupante, mas ela é plenamente consciente das escolhas que faz.
— Eu ia surtar se tivesse no seu lugar — disse, olhando para . — Já me preocupo com a cardiopatia de , isso então... — Ele balançou a cabeça, não querendo nem imaginar.
— Pelo menos agora a gente sabe porque você andava tão quieto e pensativo — concluiu.
— Eu tô com medo por ela e pelo bebê também — confessou, em meio a um suspiro. — Ela tá parecendo tranquila agora, mas acho que também tá com medo.
— Deve estar — concordou. — Mas o nosso trabalho agora é cuidar dela.
— Nosso? — Ele franziu o cenho.
— É claro — ela respondeu, como se fosse óbvio.
Ao lado dela, Hero bufou uma risada.
— Acha mesmo que a gente vai ignorar a mãe do seu filho? Ainda mais quando ela é a mulher que você ama?
— Eu... — não sabia o que dizer. E por que o rosto dele tinha ficado tão quente de repente?
— É — concordou . — A vai ser nossa protegida agora. Então, se precisar de alguém pra acompanhar ela nas consultas, ou compras, o que for...
— É só falar com um de nós — completou. — Posso ajudar a monitorar a gravidez de perto também. E ela pode falar comigo se sentir algo. Normalmente, mães de primeira viagem sentem medo de cada pequena coisinha que acontece e, na maioria das vezes, não é nada que precise de um médico.
— Você... Faria isso, ? Mas você nem trabalha mais como enfermeira.
— E daí? Só porque larguei meu emprego não quer dizer que eu tenha deixado de ser uma. Vou ficar feliz por ser útil, então fica tranquilo, M.
— E você pode conversar com a gente sempre que quiser — disse.
— É, cara. Nós somos seus irmãos. Vamos cuidar de você, da e do bebê também — acrescentou.
— Mas nada de se fechar outra vez — Hero lembrou. — Da última vez que um de nós se fechou, você sabe o que aconteceu.
fez uma careta, encarando — o último deles que escondeu algo sério — e , que o atacou com um golpe de taekwondo quando descobriu.
— Pois é. Acho que minhas costas até hoje doem por causa daquele golpe — brincou.
— Eu aprendi uns novos, só pra você saber, declarou, com um sorriso doce.
— Tudo bem. Não é como se eu conseguisse mentir pra vocês mesmo. — Ele deu de ombros. — Mas obrigado. De verdade.
— Relaxa — deu uma risadinha, o abraçando de lado. — A gente tá aqui pra isso.
a abraçou de volta, a apertando forte até ela reclamar e se afastar, fazendo ele rir.
— Só mais uma coisa — ele pediu. — Finjam que não sabem de nada. queria contar só quando a gravidez estivesse um pouco mais segura.
— Tudo bem — Hero disse, e os amigos assentiram. — Agora que tá tudo resolvido, de volta ao ensaio.
— Eu trouxe brownies de lanche, deixei em cima da mesa — anunciou.
— Você é demais — disse, beijando a bochecha dela. — Mudança de planos: comer primeiro e ensaiar depois.
Então eles se levantaram e voltaram para a sala de controle do estúdio.
respirou fundo e sorriu consigo mesmo, finalmente um pouco aliviado.

***


16 de julho de 2018, 19:03 - ’s Sweet Heaven, Nova York, NY

terminou de colocar a bandeja de cupcakes no forno e ligou o alarme para checar na hora certa.
No mesmo instante, seu celular vibrou no bolso da calça com uma chamada de vídeo de David. Mais cedo, ela havia enviado uma mensagem para ele, perguntando se ele estaria livre para uma conversa. Um pouco nervosa, ela encarou a tela por alguns segundos, antes de finalmente atender.
— Oi! Como você tá? — Ela sorriu para ele, tentando manter um clima descontraído.
— Tudo bem e você? Tá na loja?
— Sim, com cupcakes no forno. Um cliente encomendou cinquenta pra pegar amanhã de manhã.
— Vai continuar abrindo só nos finais de semana mesmo?
— Por enquanto, sim. Mas essa semana vou colocar um anúncio de emprego na vitrine. Preciso ter pelo menos mais uma ou duas pessoas comigo. Não consigo dar conta sozinha, então durante a semana tô só produzindo coisas pra loja e algumas encomendas por fora.
— Você vai se sair bem — disse David, confiante. — E então, sobre o que você queria conversar?
sentiu um frio na barriga, então se sentou e colocou o celular apoiado em um copo em cima da bancada.
— Então... Aconteceu uma coisa que eu preciso te contar.
— Certo... — David assentiu calmamente.
— Sobre a noite que passei com ... David, eu... — A voz dela morreu por um instante e ela desviou o olhar para as próprias mãos.
— Tá tudo bem, — ele a tranquilizou. — Vocês... Estão juntos? É isso?
levantou a cabeça rapidamente, surpresa. Mas então percebeu que tinha começado a conversa do jeito errado. Especialmente quando eles estavam dando um tempo depois de seu envolvimento com .
— Não, não é isso.
— Certo. — David soltou o ar, um pouco mais aliviado. — Então o que é?
respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas, mas por fim, resolveu apenas dizer de uma vez, como arrancar um curativo.
— David... Eu tô grávida.
— O quê? — Ele franziu o cenho, surpreso. — Como assim? Você... Você não era infértil?
— As chances que eu tinha de engravidar eram bem ruins, quase impossível. A medicação que uso também ajuda a inibir a ovulação, mas... Pelo visto não é suficiente pra impedir uma gravidez — ela explicou. — Faz menos de uma semana que descobri, e só eu e sabemos. Eu disse que ia contar só pra você por enquanto, e... — Ela respirou fundo mais uma vez. — Acho que tava tentando criar coragem.
— Eu... Você tá bem? — Ele a encarou, parecendo levemente desnorteado. — É uma notícia e tanto.
— Sim, eu tô bem. Ao menos por enquanto. O médico explicou que é uma gravidez de risco. Posso ter complicações basicamente durante todo o período gestacional. Não dá pra prever muito o que pode acontecer, mas devido aos riscos, ele sugeriu interromper a gravidez.
— Interromper? E o que você decidiu?
— Que não vou. Eu e conversamos antes de saber isso, e decidimos ter o bebê. Mas depois do que Eric falou, ele ficou nervoso.
— É, imagino. Eu também teria ficado. Você quer seguir com a gestação mesmo assim?
— Sim. Ainda há risco de aborto espontâneo, mas... Se essa gravidez der certo, pode ser minha única chance de ter um bebê.
então explicou em detalhes o que tinha ouvido, mas, assim como , David pareceu ficar cada vez mais nervoso enquanto ouvia.
, você tem certeza disso? Acha que vale a pena se arriscar assim?
— Eu sempre quis ser mãe, David. Você sabe disso. E sabe como tentei superar essa vontade desde quando soube que seria quase impossível. Eu sei que parece imprudente, e talvez seja mesmo, mas... Eu quero — ela disse, enquanto algumas lágrimas lhe escapavam dos olhos.
as enxugou rapidamente, fungando baixinho, e David a encarou em silêncio por um breve momento.
— Eu queria estar aí pra poder te abraçar — declarou. — Sinto muito por você ter que enfrentar isso, . Espero que fique tudo bem e, já que você tomou sua decisão, vou torcer pra que consiga superar todos os obstáculos que possam vir.
— Obrigada — ela agradeceu, passando as duas mãos pelos olhos, para afastar as lágrimas.
— Outra coisa — ele disse, chamando a atenção dela. o encarou novamente. — Isso não muda nada entre a gente.
— O quê? Mas... Eu vou ter um bebê, David.
— E daí? Você continua solteira. Não me importo de aturar o , se você me escolher.
— Não se trata apenas de mim agora. Se eu conseguir ter esse bebê, seremos um pacote. Você não vai querer-
— Vou sim — ele a interrompeu. — Por você, , eu não me importaria de ser um segundo pai pra essa criança.
O coração dela disparou, e sentiu um frio na barriga ao mesmo tempo em que seu rosto esquentou.
— David...
— Eu tô falando sério — garantiu ele. — Mas... Se acontecer algo entre você e durante o tempo em que eu estiver fora... Quero que me diga também. Vou respeitar sua decisão. E nossa amizade permanece intacta de um jeito ou de outro.
sentiu os olhos se encherem outra vez.
— Por que você é assim?
— Assim como?
— Tão incrível.
— Só incrível? Eu também sou alto, bonito e tenho covinhas que você adora.
— Minha parte favorita em você, Clark. Mas talvez fique empatado com os olhos azuis.
David sorriu e o acompanhou. O alarme do forno tocou naquele instante e ela se levantou com o celular na mão para checar.
— Você parece bem ocupada. Melhor cuidar disso.
— É... — Ela o encarou novamente. — Você também deve estar ocupado.
— Tenho uma filmagem noturna daqui a uma hora — ele disse. — Vou terminar de repassar as falas enquanto não começa.
— Tudo bem, boa sorte.
— Pra você também, . Obrigado por me contar tudo. — Ele sorriu. — A gente se fala depois. Boa noite, querida.
— Boa noite. — Ela acenou para ele, com um sorriso, e David soprou alguns beijos para ela, fazendo-a rir.
Encerraram a ligação um segundo depois. O sorriso dela diminuiu, mas se sentiu, em parte, aliviada.
Agora que essa conversa tinha passado, era hora de voltar ao trabalho.
E foi o que ela fez.

Capítulo 24

17 de julho de 2018, 12:26 - ’s Sweet Heaven, Nova York, NY

levantou a cabeça ao ouvir o tilintar do sino da porta soar e saiu andando pelo corredor entre a recepção e a cozinha, imaginando que a cliente que esperava havia chegado. No entanto, encontrou apenas parado ali com uma sacola na mão.
— Oi, você chegou cedo. — Ela deu uma olhada no relógio da parede. — A consulta é só daqui a duas horas. Ainda tô esperando uma cliente.
— Outra? Achei que tinha só o cara dos cupcakes.
— Ele veio mais cedo. Uma mulher veio depois e perguntou se eu tinha como confeitar um bolo pra amiga dela ainda hoje.
— E você pegou essa encomenda? Não é muito em cima?
— Eu já tinha umas tortas prontas, pedi pra ela escolher uma. E já acabei, falta só colocar na caixa.
— Entendi. Eu trouxe almoço pra gente. — Ele levantou a sacola. — Imaginei que você não tivesse comido ainda, especialmente depois de hoje de manhã.
Ela tinha vomitado de novo. No entanto, fazia parte, ou pelo menos era o que ela dizia para si mesma. Os enjôos iam e vinham. No caso de , não era todas as manhãs, então não tinha muito como prever. Contudo, tivera cerca de quatro episódios nos últimos sete dias. Isso sem contar as variações de humor, cansaço e a sensibilidade no corpo. Seus seios doíam e ela sentia uma sensação de peso neles e no baixo ventre. Também tinha chorado algumas vezes sem motivo algum. ficou assustado no início, mas lidou bem depois, mesmo quando se irritava com ele. Da última vez, ela reclamou do perfume que ele usava e, em seguida, quase vomitou por causa do cheiro. Ele teve que tomar outro banho logo após, e vinha evitando a fragrância desde então.
— O que você trouxe? — quis saber.
— Comida italiana. Tem uns bolinhos e macarrão aiole.
O estômago de fez um barulho assim que ela ouviu aquelas palavras e antes que percebesse, ela já tinha pegado a sacola e se virado em direção à cozinha. Ele segurou um sorriso enquanto a acompanhava e rapidamente preparou pratos e talheres para os dois.
Havia um pequeno bolo em cima da bancada, decorado em tons de rosa e branco.
— Esse é o bolo que você disse?
— Sim, mandei uma foto pra cliente assim que acabei — ela comentou, já preparando uma caixa para colocá-lo.
Havia florezinhas no topo do bolo e uma frase escrita: sendo bonita há 30 anos. Assim que terminou de aprontar o pacote, ela se sentou ao lado dele e colocou uma quantidade generosa de comida no prato. Tinha isso também: sua fome tinha aumentado consideravelmente nos últimos dias. Ao menos quando o enjoo a deixava em paz.
Os olhos de brilharam de desejo e ela estava com o garfo a meio caminho da boca quando o sino da porta tocou. Sua boca salivou, mas ela imediatamente largou o garfo e se levantou para atender a cliente que provavelmente tinha chegado.
— Quer que eu vá? — se ofereceu.
— Não, vai ser rápido. Já tá pago, então vou só entregar.
Um instante depois, encontrou uma mulher asiática que parecia ter a idade dela. Seu cabelo era longo, bem preto, mas havia mechas de pelo menos cinco cores aparecendo entre os fios. Era um pouco mais baixa e tinha um sorriso bonito, que abriu assim que viu .
— Oi! Sophie, certo? Aqui está o bolo, espero que goste.
— Eu amei a foto que você enviou. Ficou exatamente como eu queria. Muito obrigada. — Ela pegou a caixa.
— Eu que agradeço. — sorriu de volta.
Assim que a porta se fechou, ela correu para a cozinha e enfiou uma garfada enorme de macarrão na boca, gemendo de satisfação.
— A comida não vai fugir de você, sabia? — comentou, com diversão.
— Cala a boca. Você não faz ideia do que é sentir fome e mal conseguir comer — ela retrucou, de boca cheia. — Tenho que aproveitar quando não tô enjoada.
balançou a cabeça, ainda sorrindo, mas não disse mais nada.
Horas depois, se encontrava deitada na maca para mais uma ultrassonografia, ouvindo atualizações sobre a gravidez. Estava com as duas mãos entrelaçadas sobre o estômago, um pouco nervosa, mas relaxou um pouco quando ouviu o médico dar boas notícias.
— Pelo que vi, o embrião está bem implantado e o coração está batendo forte. Isso é um bom sinal — declarou Eric, fazendo ela e soltarem um suspiro de alívio.
— E quanto ao risco de aborto, Eric? — quis saber.
— Diante do caso, imagino que até a décima segunda semana de gestação precisamos ficar de olho. No entanto, estou positivo que não vamos ter problemas até lá. A suplementação está sendo feita, os sintomas sendo tratados, mas seria bom você não passar tantas horas sozinha, .
— Eu tô planejando contratar uma ou duas pessoas pra me ajudar com a loja — ela contou. — Não tô conseguindo dar conta sozinha, ainda mais agora.
— Sim, isso é ótimo. Vai me tranquilizar um pouco mais quando tiver alguém com você. Só pro caso de acontecer alguma coisa e você não conseguir avisar a . Quanto a sensação de peso no ventre, é normal, já que o útero está crescendo. O bebê ainda é do tamanho de uma lentilha, mas nessa fase já temos a formação do tubo neural, os brotinhos que vão dar início aos braços e pernas, assim como o desenvolvimento facial, além de alguns órgãos.
— Já? Mesmo ele sendo pequenininho assim? — perguntou.
— Pois é. — Eric sorriu. — Impressionante, né? Mas, de todo modo, devo reforçar que qualquer sangramento ou dor maior que surgir deve ser comunicado. Mandem mensagem pra mim caso tenham dúvidas. E , lembre-se de fazer alguns períodos de pausa durante o trabalho, talvez colocar as pernas pra cima também, para evitar inchaços e melhorar a circulação de modo geral.
— Certo. — assentiu. — Muito obrigada. Vou tomar cuidado.
— Muito bem, então. Vou te liberar agora.
Minutos mais tarde, a caminho de casa, parou em um sinal vermelho. olhava para a rua através da janela, pensativa.
— Tá mais tranquila agora? — ele perguntou.
— Um pouco, e você? — Ele o encarou.
— Também. — Ele assentiu. — O que você acha da gente contar agora pro pessoal? Eric disse que o bebê tá bem implantado.
— Agora? — franziu o cenho. — Não sei, não tenho certeza.
suspirou.
— Em algum momento, todos vão saber, . Não tem por que a gente adiar mais.
— Minha barriga nem começou a aparecer ainda. Por que você tá com tanta pressa?
— Não tô com pressa. Mas esconder também não adianta. Tá me dizendo que quer falar só quando ficar óbvio que você tá grávida?
— Não, só... — Ela respirou fundo, voltando a olhar para a rua. — Acho que tô apreensiva. Em como as pessoas vão reagir.
a observou em silêncio por um instante, antes do sinal abrir.
— É por minha causa? — ele finalmente perguntou.
— Por sua causa? — Ela o encarou, confusa. — Como assim?
não a encarou de volta, e se concentrou em manter o olhar na estrada quando voltou a falar.
— É porque eu sou o pai do bebê?
— Por que tá me perguntando isso? O que tem a ver?
— Sei lá, talvez você preferisse que fosse o David. — Ele deu de ombros. — Você não queria nada comigo, de qualquer forma, e agora estamos ligados por essa criança.
sentiu o coração afundar no peito. Se ele soubesse o quanto ela tinha sonhado com aquilo... Em todas as suas fantasias mais ingênuas, formaria uma família com ela.
— Você não sabe de nada, .
— Como é? — Ele desviou o olhar, a encarando rapidamente. — Como assim?
— Isso não importa. Acho que tô só insegura mesmo, mas... Se você quiser contar pros seus amigos, vá em frente. Mas não vou sair divulgando por aí que tô grávida.
— Não é "sair divulgando", . É contar pra nossa família também. Seus pais, minha mãe e minha irmã.
— É... Bem, que merda. Provavelmente vão chamar a gente de irresponsáveis e coisas assim, mas... É, alguma hora a gente ia ter que contar mesmo.
— Pois é. Não quero dar detalhes também, o que aconteceu entre a gente fica entre a gente.
— Sim. Se perguntarem se estamos juntos, vamos só explicar que aconteceu e que só estamos morando juntos por causa do bebê, vamos dizer que o médico recomendou que eu não ficasse sozinha. Não quero ter que explicar a coisa toda de gravidez de risco pros nossos pais.
— E a Mia?
— Vou contar só pra ela. Até porque ela já sabe que-
parou de falar.
— Ela sabe do quê? — quis saber.
— Que nós... Dormimos juntos.
— Você contou?
— Claro que contei, ela é minha melhor amiga.
— E como ela não ligou pra mim falando sobre isso? Aposto que ela ia me xingar por ter corrompido a amiguinha dela, ou comemorar, por finalmente eu ter feito alguma coisa. Nunca sei como a minha irmã vai reagir.
sorriu, imaginando a cena. Bem, não era segredo para que Mia sabia de seus sentimentos por ele, muito menos que a irmã apoiava os dois, mesmo não havendo nada entre eles.
— Eu pedi pra ela ficar quieta. A gente não precisa disso. E se minha mãe perguntar alguma coisa, vou deixar ela no vácuo.
— Olha pelo lado bom, talvez ela só responda com "ok, entendi". Ela deve estar ocupada com o trabalho dela, como sempre.
riu pelo nariz.
— Pois é, tem razão.
— E o seu pai...
— Ele te trancaria em uma sala e perguntaria quais as suas intenções — ela brincou.
— Pois é, ainda bem que ele mora longe. riu novamente e a acompanhou. Do lado de fora, uma garoa começou a cair e ela observou em silêncio enquanto seguiam para casa.
De repente, o clima parecia mais leve.

Capítulo 25


— Como assim, GRÁVIDA?!
teve que afastar o celular do ouvido, antes de responder.
— Por que você não grita só um pouquinho mais alto? Se minha mãe tiver em casa, talvez ela te escute e eu nem precise contar.
— Não brinca, — Mia respondeu, séria. — Tá tudo bem mesmo? Essa gravidez não é arriscada, né?
sentiu o corpo enrijecer por um momento. É claro que não conseguiria esconder nada da melhor amiga. Não que essa fosse a intenção.
— Você tem um sexto sentido ou algo assim?
— Quer dizer que é?! — Mia gritou novamente.
— Calma, Mia. Me deixa explicar. O médico explicou que...
Alguns longos minutos mais tarde, ela finalmente terminou. A amiga ficou em silêncio por alguns segundos, o que deixou um pouco nervosa, mas ela nada disse.
— Então, tá tudo bem. Por enquanto — ponderou Mia, após digerir tudo. — E você não pretende contar sobre isso pros nossos pais?
— Não quero ter que ficar me explicando, então espero que guarde segredo.
Mia suspirou, soando subitamente cansada.
— Certo. Prometo não contar pras nossas mães. Mas e aí? Você e vão só fingir que tá tudo bem e pronto?
— Vamos morar juntos até o bebê nascer e eu me recuperar. Tô pensando em contratar umas duas pessoas pra trabalhar na loja. Graças à visita da banda, eu não tô dando de conta de nada além de algumas encomendas. Preciso de mais gente se eu quiser abrir mais dias durante a semana.
— Pelo menos você já se livrou daquele curso. Você vai contar pro seu avô também? Sobre a gravidez?
— Não sei se devo. Ele não vai gostar de saber que engravidei pouco depois de vir pra cá.
— Tem razão. — Mia riu pelo nariz. — E ele vai querer que vocês se casem, o seu pai também.
— Ah, nem me fala. Já tô me preparando psicologicamente pra isso. Vamos contar primeiro a ele. Depois ligamos pra sua mãe e pra minha.
— Boa sorte. Depois eu ligo pro meu irmão pra falar com ele também. Vocês vão contar ainda hoje?
— Sim. Por mim, eu adiava mais, só que não quer, já que todo mundo vai saber de uma hora pra outra.
— Literalmente todo mundo. Acho que muitos fãs vão ser pegos de surpresa.
— É, mas não tô roubando o ídolo delas.
— E nem precisa, ele já é seu.
soltou um suspiro paciente.
— A gente não tem nada, Mia. Talvez eu devesse deixar tudo pra trás mesmo e só me concentrar nesse bebê.
— Qual é, ... Acha mesmo que vai dar certo? Vocês passaram um mês se ignorando, tentando seguir em frente, mas aí veio o universo e ligou vocês pra sempre. Eu sabia que uma hora ou outra algo ia acontecer. Claro que não esperava uma gravidez, mas... Vocês nasceram um pro outro.
Sua melhor amiga era tão romântica que… bem, talvez fosse um dos motivos pelos quais se davam tão bem. Alimentando as ilusões uma da outra. Mas não sabia mais até que ponto alimentar aquela ilusão era saudável.
— Não sei se é bem assim, Mia. Eu tô confusa ainda.
— É, eu sei. O David também é um partidão. E meu irmão pode até ter passado uma década negando o que sentia pra si mesmo e sido um babaca, mas agora é diferente. O que impede vocês? Os dois são adultos, vão ter um bebê e têm sentimentos um pelo outro. Deixem a mágoa no passado e vejam isso como uma oportunidade pra serem felizes. Ou trabalhem essa mágoa em terapia de casal.
— Mia...
— O quê? Vai dizer que não pensou nisso nenhuma vez nos últimos dias?
— Sei lá, eu tava ocupada pensando se vou sobreviver a essa gravidez, sabe? Ou ao parto.
— É claro que vai! Nem que eu vá pra Nova York ficar de olho em você durante as vinte e quatro horas do dia. Então, nem vem!
Um leve sorriso repuxou os lábios de ao ouvir aquilo.
— A gente vai se concentrar no bebê agora, Mia. Quanto ao resto... Não importa.
— Tudo bem. Vou fazer uma aposta comigo mesma pra ver quanto tempo vai durar até vocês se pegarem outra vez.
— Mia!
— O quê? — A amiga riu. — Me deixa fanficar em paz.
— Você não tem jeito mesmo.
— A culpa é sua. Ninguém mandou você se apaixonar pelo idiota do meu irmão. Agora lide com isso.
Foi a vez de rir baixinho. Tinha iniciado aquela conversa nervosa, mas a amiga sempre sabia como deixar o clima mais leve.
— Eu tenho que ir. Vou ligar pro meu pai e contar logo de uma vez.
— Tá, boa sorte. Amo você.

***


— Será que dá pra você parar de surtar? — reclamou baixo no telefone, garantindo que não ouvisse a conversa enquanto ele passava pelo corredor até o próprio quarto.
Trancou a porta e respirou fundo.
— Bem, eu não podia surtar falando com ela, né? Agora aguente! — Sua irmã mais nova retrucou. — Olha, irmão, eu bem que queria ver vocês juntos, que vocês tivessem mesmo uma ligação, e acho que até manifestei isso por um tempão, mas também não precisava engravidar ela!
— Do jeito que você fala até parece que eu fiz de propósito — rebateu, rolando os olhos, um pouco irritado com a irmã.
— Bem, ninguém mandou você enfiar o pau na minha melhor amiga sem estar usando camisinha!
— Mia!
— O quê? A palavra "pau" te incomoda? Lide com isso! Não tenho mais quatorze anos.
suspirou, apertando a ponte do nariz.
disse que tava tudo bem. Pensei que ela tava tomando algum anticoncepcional seguro.
— Pois é, ela me disse. Outra burra. De fato, vocês dois são uns dementes.
— Ah, é? E você falou isso pra ela também?
— É óbvio que não! Ela tá emocionalmente abalada com tudo, por mais que diga que tá tudo bem. A vida dela tá em risco, afinal de contas. Vocês vão ter que passar a gravidez inteira em alerta, mas… não é você que tá carregando o bebê, então...
— Olha, eu também tô preocupado, sabe? Eu tô surtando também. Mas não posso ficar enlouquecendo na frente dela.
— Que bom que você sabe. Mas e aí? Não tá mesmo rolando nada entre vocês?
— Óbvio que não. Ela tem o namorado dela. E pelo que me disse, ele não se incomodou muito com a notícia.
Um mala. Por que David tinha que ser tão perfeito?
até o aprovaria, em um universo diferente onde não amasse a mesma mulher que ele.
— Se você diz... Mas acho que nada é impossível. Os sentimentos da ainda são recentes. Vocês vão ter um filho juntos e... Sei lá.
— Mia, para. Não vou dar em cima de uma mulher que tem namorado.
— Você já fez isso! Que tipo de bro code repentino é esse, seu mané? Você nem gosta do David!
— É, mas não é por ele. É pela . Vou respeitar isso, mesmo tendo sido um idiota antes. Além disso, ela fez o mesmo quando eu namorava.
— É, mas vocês não estavam morando juntos nem prestes a ter um bebê. Mas tudo bem... Tô só falando.
riu pelo nariz.
— Para com isso, sua encrenqueira. A gente não precisa de mais um drama — ele afirmou. Em seguida, afastou o celular do ouvido por um momento, para checar a hora. Uma batida na porta soou um segundo depois. — Eu tenho que ir. Hora de ligar pro pai da .

***


Lucas estava imóvel. Por um momento, depois da notícia sobre a gravidez, achou que estivessem com algum problema de conexão, já que a imagem parecia congelada e o homem, pai de , sequer piscava.
Foi quando ele estava prestes a mexer no notebook para ver se estava com algum defeito na videochamada que ouviram uma respiração profunda.
Lucas puxou o ar e o soltou devagar. Seus olhos, um azul quase transparente de tão claros, estavam frios e sem demonstrar qualquer reação, assim como o rosto dele. Sempre que conversava com Lucas, se sentia como um soldado frente ao seu superior.
O pai de costumava brincar com ele e as meninas quando eram crianças e indiretamente participou da criação dele também, mas, depois do acidente, parecia ter endurecido mais. nunca o viu tratar ninguém mal, mas Lucas havia se fechado um pouco, além de ter ficado mais intimidante. Ele nunca sabia o que o homem pensava, ainda mais naquele momento.
Até que Lucas finalmente falou:
— E então? Quando é o casamento?
— Casamento? — piscou, surpresa. — Não vamos nos casar, papai.
— Como não? Vocês vão ter um filho — ele comentou, como se casar fosse a alternativa mais óbvia do mundo.
— Com todo respeito, senhor, mas a já tem um na-ah! — Uma dor no pé o interrompeu e então ele notou que tinha acabado de pisar nele com o salto do sapato. Era baixo, mas doía mesmo assim.
— Algum problema? — Lucas se inclinou para frente, curioso.
— Uma abelha entrou pela janela e picou ele — disse. — Mas como eu disse... Não vamos casar, pai. Vamos só ter o bebê e compartilhar a guarda. Nós não estamos em um relacionamento e o senhor sabe que não sou mais fã de casamentos.
Lucas suspirou novamente e um pouco de emoção pareceu cruzar em seu rosto, fazendo seu olhar suavizar.
— Só porque meu casamento com sua mãe não deu certo, não quer dizer que vai acontecer a mesma coisa com você, Pimentinha — ele explicou, chamando-a pelo apelido de infância.
— O casamento de vocês acabou por minha causa — respondeu , desgostosa. — Se não fosse o acidente-
— O acidente não foi culpa sua — e Lucas falaram ao mesmo tempo, compartilhando um olhar desconfortável por um instante.
O mais velho então pigarreou.
— Sua mãe e eu não estávamos indo tão bem quanto você pensa, . O acidente foi só a gota d'água. Mais especificamente, o modo como ela reagiu. Eu só não me divorciei antes por sua causa. Não queria sair de Chicago antes que você fosse pra faculdade. Eu já te falei isso.
— É, falou mesmo. E desculpa, pai, mas não pretendo me casar só porque vou ter um filho.
— Certo, tudo bem. E você, ? Também não pretende casar?
— Eu... — piscou, surpreso. — A escolha é de , senhor.
— E se a escolha fosse sua? — Lucas rebateu prontamente.
— Se a escolha fosse minha, eu... Me casaria. Eu ia preferir ter e o nosso bebê morando comigo.
— Você gosta da minha filha, garoto?
— Sim, senhor — respondeu, engolindo em seco, enquanto sentia o rosto esquentar só de saber que estava ao lado, ouvindo tudo.
— Certo. — Lucas assentiu. — Agora vou reformular a pergunta. Você está apaixonado pela minha filha, ? Você ama a ?
O coração de então disparou.
— Sim, senhor.
— E ela sabe disso?
— Sabe, senhor.
— Então não é recíproco?
— Eu... Penso que não — respondeu, inseguro.
Lucas olhou para a filha e arqueou uma sobrancelha.
? E quanto a você? Dormiram juntos por acaso?
sentiu o rosto esquentar.
— Pai... Eu não sou adolescente e não vou falar sobre isso com você. e eu não temos mais nada e isso só aconteceu uma vez. Por favor, não insista.
— Tudo bem. Como quiser, então — ele finalmente disse. — Me mantenha atualizado sobre as consultas.
— Certo.
— Sua mãe já sabe?
— Não. A gente vai contar pra ela e a Sra. ainda hoje. Eu só contei pra Mia.
— Entendi. Muito bem, então.
— Vou ligar pra elas e ver se podem entrar na chamada. Até logo, pai. Te amo.
— Também te amo, Pimentinha. E , cuide bem dela.
— Claro, senhor.
encerrou a ligação pouco depois e suspirou, trocando um olhar com , que parecia tão desconfortável quanto ele.
Então, ele fez uma nova ligação.
Não havia porque perder mais tempo.

Capítulo 26

18 de julho de 2002 - Jardim dos , Chicago, IL
— Pode me der aquela lixa ali? Tenho que tirar essas farpas — Lucas pediu a , que estava mais próximo da caixa de ferramentas.
— Sim, senhor — O garoto obedeceu, mantendo-se ao lado dele caso precisasse de mais alguma coisa.
Estava ajudando Lucas a construir uma casa na árvore, que as meninas vinham pedindo há dois anos.
— Pronto — declarou o homem, depois de alguns instantes. — Vou terminar de preencher com as tábuas de madeira e aplicar o verniz quando estiver pronto.
— Posso ajudar? — perguntou. — Já fiz alguns consertos em casa sozinho.
— Tudo bem, mas coloque as luvas e cuidado com os dedos. Não quero que se machuque.
— Tá bom — assentiu, já se preparando.
— Venha pra esse outro lado. — Lucas indicou para a esquerda, que tinha metade do espaço pronto e estava relativamente mais seguro.
— Tá.
obedeceu e começou a pregar as tábuas cuidadosamente. Lucas o observou em silêncio por um momento, antes de voltar ao trabalho.
— Como tá indo na escola? Tá tudo bem? — Ele puxou assunto com o garoto.
— A escola? Hm, bem, eu acho. Não sou muito bom.
— Ah, é? Eu também não era. Me sentia um idiota nas aulas de matemática, mas descobri que a faculdade é bem pior. Lá eu me sentia um idiota em metade das disciplinas.
riu, divertido.
— Sério? Mas o senhor é tão inteligente. E tem um bom emprego.
— Acontece com a maioria das pessoas, então não se preocupe. Talvez você melhore depois, só não largue os estudos.
— Não vou largar. Tenho que terminar o ensino médio.
— E a faculdade? Já pensou no que quer fazer?
sentiu o rosto corar levemente.
— Hm, não pretendo fazer faculdade, senhor.
— Por que não? — Lucas arqueou uma sobrancelha, pausando o trabalho para encará-lo.
o encarou de volta por um momento, mas logo desviou o olhar, voltando a enterrar pregos na madeira.
— Não quero lidar com empréstimos estudantis. E preciso trabalhar logo. Tô só esperando Mia ficar um pouco maior pra arranjar um emprego e ajudar em casa.
Lucas franziu o cenho, incomodado.
— Você já conversou sobre isso com sua mãe?
— Não, mas acho que tá tudo bem. Ela queria que eu fosse pra faculdade, porque ela não conseguiu ir, mas prefiro ficar e ajudar. pode ir, quando tiver idade — ele explicou. — Minha mãe trabalha demais e nunca tem tempo pra nada.
— Entendo. Acho válida sua preocupação, mas não tente carregar um peso que não é seu, . Tenho certeza que sua mãe ficaria bem.
— É, ela sempre dá um jeito. Mas quero que ela descanse. Quero que divida o peso comigo, nem que seja um pouquinho.
— Ela já divide, garoto. Você sempre fica em casa, cuidando da sua irmã. Cuidando até em manter a casa arrumada e as roupas limpas. Não é todo mundo que faz isso.
— Eu sei, é o mínimo que posso fazer, ainda que às vezes seja irritante.
— Pois é, mas você pode sair às vezes, sabe? Ir passear com seus amigos. Deixe Mia com e vá se divertir.
riu baixinho, mas não havia humor na sua voz.
— Seria divertido. Mas não tenho amigos, senhor. Meus colegas são... Apenas colegas. E tem gente que zomba de mim por fazer tarefas de dona de casa. — Ele deu de ombros. — Ninguém me convida pra nada, então não faz diferença.
— Bem, pelo menos as meninas te adoram. Você é o príncipe encantado delas, com esse cabelo loiro e olhos verdes. Só precisa ganhar um pouco de peso, na minha opinião. Você é meio magricela — Lucas brincou, o fazendo rir. — sempre fala de você, .
— Bem, pelo menos alguém gosta de mim. — Ele sorriu. — É divertido brincar com elas também, mesmo eu sendo provavelmente velho demais pra isso.
— No fim, você sempre faz a vontade delas. — Lucas riu. — Eu também era assim com minha irmã. De todo modo, fique sabendo que pode conversar comigo sempre que quiser, ouviu?
— Claro. Eu agradeço, senhor. — sorriu e os dois voltaram a cair em um silêncio quebrado apenas pelo barulho do martelo contra os pregos na madeira.

2 de fevereiro de 2006, 15:47 - Chicago, IL

Lucas entrou apressado na recepção em que estava. Diferente da esposa, que tinha um rosto tão emotivo quanto uma porta, o dele carregava uma máscara de preocupação.
— Onde ela tá, ?
— No último quarto à esquerda, no final do corredor — ele mal terminou de responder e Lucas já tinha desaparecido.
Voltou uma hora depois, parecendo irritado, mas aliviado mesmo assim. Grace ainda estava no quarto com , mas saiu em silêncio alguns minutos depois, sem cumprimentar ninguém. Ele observou Lucas encarar as costas da esposa com um olhar duro, enquanto travava a mandíbula.
Então, quando ela por fim desapareceu, ele suspirou, sentando-se ao lado de .
dormiu. Vou ficar aqui com ela — declarou, após um instante. — Você tá bem? Não se machucou?
— Só arranhei a mão, nada de mais. — mostrou o ferimento superficial.
— Ainda bem. — Lucas suspirou outra vez, visivelmente cansado. — Obrigado, . Se não fosse por você... Não quero nem pensar no que poderia ter acontecido.
— Não precisa agradecer, senhor. Eu nunca deixaria numa situação daquelas.
— Mia disse que você nem pensou duas vezes antes de entrar. É um alívio você ter chegado antes do fogo se espalhar completamente.
— É, acho que sim. Mesmo assim, a se machucou feio — ele comentou, com pesar. — Acho que vai ser difícil pra ela.
— Eu sei. Minha menina agora... Vai ter que lidar com isso. E tudo porque Grace... — Ele parou de falar, a voz falhando.
Lucas nem precisava falar para que notasse sua irritação, sua frustração diante do que a esposa havia feito. Da negligência dela. Só não conseguia imaginar a extensão do sentimento, por haver sido causado por alguém tão próximo. mal via a mulher em casa e, embora ela e sua mãe tivessem ficado relativamente próximas nos últimos anos, ele simpatizava mais e sentia uma conexão maior com Lucas, que parecia ser o mais atencioso com . Talvez fosse exatamente por isso. Por mais que Lucas trabalhasse quase tanto quanto Grace, ele ainda encontrava tempo para passar com a filha. Já a esposa... Parecia usar a maior parte do tempo livre consigo mesma, relaxando sozinha.
Era quase como se às vezes esquecesse que era mãe, como naquele dia. Ainda por cima, priorizar o trabalho e deixar sozinha por horas uma filha assustada e machucada, em vez de largar tudo e sair correndo até ela.
Sério, que tipo de mãe era aquela?
Ela provavelmente teria cumprido todo o expediente de trabalho mesmo se a casa dela tivesse sido completamente queimada.
— Tenho certeza de que vai ficar bem, senhor. Ela só vai precisar de muito apoio de agora em diante.
— Sim. Vai, sim. — Lucas concordou. — Você devia ir pra casa agora. Tá aqui desde que ela chegou.
— Vou em casa e volto depois do jantar, assim o senhor pode fazer o mesmo. Deixa que eu fico com ela, não tenho mais nada pra fazer hoje.
— Tem certeza? E o trabalho?
— Tá tudo bem, eu já falei com meu chefe. O senhor pode ficar livre pra resolver o que precisar e descansar um pouco também.
— Certo. Agradeço mais uma vez, . — Ele colocou uma mão no ombro do garoto, agora tão alto quanto ele, embora ainda um pouco magricela.
— Sem problemas, senhor.

***


Horas depois, se encontrava sentado em uma poltrona ao lado da cama em que estava, no quarto do hospital que ocupava sozinha, embora houvesse mais uma cama ao lado, vazia.
Ele não sabia dizer se tinha sido proposital deixá-la ali para que outras pessoas não ficassem reparando nos seus ferimentos, ou se simplesmente havia uma cama vaga. De todo modo, era melhor assim. Pelo menos, teria mais privacidade.
Quando chegou, ela ainda dormia, mas acordou meia hora depois, quando uma funcionária abriu a porta do quarto para trazer o jantar.
— Ei, como você tá se sentindo? — ele perguntou, se levantando e chegando mais perto assim que a viu abrir os olhos.
piscou algumas vezes, olhando para o teto, e então se sentou e o encarou, seus olhos se enchendo de lágrimas.
sentiu o coração afundar no peito quando ela encarou o braço e o ombro enfaixados, soltando em seguida o primeiro soluço de um pranto desconsolado. Imediatamente, ele se sentou na cama e a puxou para um abraço, tomando cuidado para não tocar nos curativos e não machucá-la ainda mais. A funcionária os encarou com pesar e deixou o jantar na mesa ao lado, antes de sair.
— Meu braço... já era — ela disse, entre soluços.
— Tá tudo bem, . Você vai ficar bem. Sinto muito por isso.
Ela continuou a soluçar.
— Se não fosse... por você, teria sido... pior. Eu... podia ter... morrido. Você podia ter... se machucado... também.
acariciou o cabelo dela com cuidado, os fios agora presos em uma longa trança para que ficasse mais confortável.
— Eu não me machuquei nadinha. E eu não ia deixar você lá. É claro que não — ele declarou, suavemente. — Mas você tá bem agora e logo vai se recuperar.
assentiu e soluçou por mais alguns minutos. Quando enfim se acalmou, pegou o jantar e a ajudou a comer.
— Eu consigo comer sozinha — disse ela.
— Não é porque você pode, que você precisa fazer só. Deixa eu te ajudar, não é nada de mais.
sentiu o rosto esquentar e sentiu um frio no estômago. Já vinha se sentindo assim há algum tempo, sempre que fazia algo por ela, ou simplesmente era atencioso.
Será que ele não notava o quão fofo aquilo era? O jeito como ele se importava. Quando ele chegou um pouco mais perto para ajudá-la a comer, o coração de acelerou subitamente.
O aparelho que a monitorava ao lado apitou e franziu o cenho.
— Será que tem alguma coisa errada?
— Acho que deve ser assim mesmo, ele faz isso de vez em quando — ela inventou, mesmo sem saber se era verdade.
— Tá tudo bem? Você ainda tá sentindo dor?
— Agora não. Acho que já, já, ele para.
Felizmente, realmente parou. sentiu o coração acelerar outras vezes, mas a máquina pareceu colaborar e não apitou mais. Naquela noite, ele ficou por mais algumas horas, até o pai dela aparecer outra vez e eles trocarem de lugar. se despediu dele com um sorriso agradecido e lhe deu um último abraço antes de ir embora.
Por muito tempo, ela pensou naqueles momentos. E mesmo após anos, a lembrança ainda vinha em sua memória vez ou outra.
Por mais complicado que o relacionamento deles pudesse ter ficado no futuro, ela sempre seria grata por ter sido salva por ele e por aquelas horas que passaram juntos.

Capítulo 27

20 de julho de 2018, 10:42 - Doceria da , Nova York, NY

Xxx: Oi, acabei de ver o anúncio de emprego, ainda está aberto?
Era a segunda pessoa naquele dia que procurava saber disso. rapidamente digitou uma resposta ao número desconhecido, afirmando que sim. O anúncio estava disponível no Instagram da loja há dois dias, mas teria que arquivar em breve. Cerca de cinco pessoas mostraram interesse, e ela escolheria no máximo dez pessoas para serem entrevistadas na próxima semana, ou não daria conta de tanta gente, caso continuassem a aparecer.
Felizmente, havia colocado alguns requisitos no anúncio. Não exigiu uma grande experiência naquele ramo, mas deixou claro que queria duas mulheres com vinte e um anos ou mais, que pudessem ajudar tanto na cozinha quanto nos atendimentos.
Com a gravidez — e até sem ela — estava impossível manter um horário de funcionamento integral para receber clientes na loja, e seria bom ter alguém que pudesse auxiliar na produção, nem que fosse apenas para lavar a louça suja para que ela pudesse cozinhar sem se preocupar em arrumar a bagunça depois.
Era sua primeira vez sendo chefe, mas tentaria dar o seu melhor para manter um ambiente de trabalho gentil e organizado, e esperava que as novas funcionárias fizessem o mesmo.
Tinha acabado de enviar a mensagem quando seu celular vibrou com uma notificação do WhatsApp. sorriu ao ver o nome na tela e imediatamente abriu a janela, se deparando com uma foto recém-enviada por David, sentado em uma cadeira, fazendo uma careta enquanto estava sendo maquiado.

David: Alguém traz a make de Fantasma de volta, por favor. É bem melhor do que precisar estar perfeito a todo momento.

riu, divertida. Ele mandava mensagens pelo menos duas vezes por semana, para atualizá-la sobre o trabalho e saber como ela estava.

: O que é isso? Você devia estar achando bom. Não precisa ficar horas sentado esperando terminar. E não devia ser difícil, você já é bonito até sem maquiagem.
David: Fala isso pro diretor, então. Que cara perfeccionista... Mas enfim, como você tá hoje?
: Bem. Não acordei enjoada e consegui me alimentar direito, então acho que já é uma vitória. A consulta também foi bem. E nós contamos pros nossos pais.
David: Sério? O que eles disseram?
: Meu pai perguntou se a gente ia casar. Obviamente, falamos que não.

Ela omitiu a parte restante da conversa, é claro. David não precisava saber que seu pai tinha praticamente forçado a confessar seus sentimentos por ela. E certamente não precisava de uma nova onda de constrangimento ao deixá-lo saber aquela informação. Já bastava o clima estranho que tinha ficado entre ela e quando encerraram a ligação. Felizmente, durou apenas poucos minutos já que iniciaram uma nova videochamada, dessa vez com suas mães.
No entanto, não tinham conversado sobre aquilo. Na verdade, não tinham conversado sobre nada.

David: Ele parece bem tradicional.
: Ele é meio antiquado. Minha mãe também casou grávida, então deve ser por isso. E costumava ser relativamente próximo dele, quando éramos vizinhos.
David: Sei... E as mães?
: Acho que minha mãe ficou em choque. Ela não disse muita coisa. Mandou mensagem pra mim no dia seguinte, me enchendo de perguntas, mas falei que não ia responder a nenhum interrogatório. Ela já odeia que eu tenha saído de Chicago e parece que se esquece que eu sou adulta. É um saco.
David: Talvez ela esteja preocupada. No fim, você acabou engravidando por acidente também. E sua gravidez é de risco.
: Sim, mas eu não contei sobre isso. Contei só pra Mia e fiz ela prometer ficar de bico fechado.
David: E a mãe dela? O que ela falou?
: A gente tava em ligação de vídeo com as duas, e na hora que contou, ela colocou a mão no rosto e se desculpou por ele. Falando algo sobre não tê-lo criado bem ou coisa assim, e chamou ele de irresponsável. Foi meio constrangedor, mas, no fim, ela disse que podíamos ligar pra ela a qualquer hora caso a gente tivesse dúvidas sobre alguma coisa que ela pudesse ajudar.
David: A reação dela parece melhor que a da sua mãe, pelo menos.
: Você sabe, minha mãe é complicada. Até o meu pai ficou relativamente tranquilo. Achei que ele ia surtar, mas deve se sentir melhor sabendo que não tô morando sozinha.
David: Entendo ele. Eu sinto o mesmo, ainda que a pessoa com quem você mora seja . Pelo menos, eu sei que ele vai cuidar bem de você.
: Ele anda bem cuidadoso mesmo, mas às vezes é irritante.
David: Vou ter que ficar do lado dele nessa xD Aposto que eu seria pior se estivesse aí.

riu e digitou uma mensagem concordando. Alguns minutos depois, o sino da porta soou, então ela se despediu para voltar ao trabalho e deixar que ele fizesse o mesmo, agora que tinha finalizado a tal maquiagem. saiu pelo corredor, mas então se deparou não com um cliente, mas com , que tinha acabado de entrar.
Ele usava um boné preto virado para trás e sorriu assim que a viu.
— Oi, gravidinha.
sorriu amarelo. Era a primeira vez que se encontravam desde que tinha contado sobre a gravidez, mas não a primeira desde que ela descobrira.
— Oi, você não tinha um compromisso hoje?
— Ah, era só uma reunião. Tem uma empresa de jogos querendo fechar uma campanha comigo.
— Sério? Que legal.
— Pois é, mas acho que não vai rolar.
— Por quê?
— Eles querem que eu faça um solo de bateria pra usar na transformação de um personagem. Mas eu acho meio brega e falei que baixo ou guitarra seria bem melhor. — Ele deu de ombros. — Não faz muito sentido o que querem fazer. Seria melhor investir num instrumental mais completo, com mais instrumentos.
— A Cave Panthers bem que podia compor, né?
— É, mas depende da empresa. Se a proposta surgir, talvez os caras aceitem. A reunião não demorou muito, então resolvi dar uma passada pra ver como você tava. Já conseguiu alguém pra trabalhar aqui?
— Não, mas tem alguns interessados. Vou ter que ver quando vou fazer as entrevistas. Não vi nenhum rosto conhecido, então é provável que não sejam clientes anteriores.
— Quer ajuda?
— Ajuda? E correr o risco de alguém surtar ao te ver?
— Esse é ponto, . Vai querer alguém que surtaria quando visse um de nós?
— Hm, na verdade, não. Acho que prefiro alguém com controle emocional.
— Pois é, então me deixa ser seu filtro. Eu consigo reconhecer uma pantera só de olhar pra ela.
— Sério? Não é meio arrogante você dizer isso?
— É só doze anos de experiência. Elas sempre fazem alguma coisa, ou tem alguma reação que me faz perceber.
— E se for só uma mulher que te ache bonito e nem mesmo te conheça?
— Então talvez ela reaja diferente, não sei. Alguém me achar bonito não é um problema. Mas alguém que travaria na minha frente ou de um dos caras… tsc, tsc. — Ele estalou a língua, balançando a cabeça. — Você não pensou que pode ter gente se candidatando por causa da gente?
— Pensei, mas não que isso pudesse ser um problema. Você acha que poderia ter alguém com más intenções?
— Uma vez, na Tailândia, uma fã conseguiu se esgueirar pro meu quarto fingindo ser uma funcionária do hotel. E então ela roubou uma cueca minha — ele contou e fez uma careta. — Relaxa, era nova e eu nem tinha usado ainda. Postei um story sobre isso e falei que se ela tava pensando em vender, ia ser à toa já que praticamente nem toquei na coisa.
deu uma risadinha. Ele tinha acabado com o negócio da própria fã. Mas quem mandou ser uma ladra esquisitona?
— Nesse caso, acho que vou aceitar sua oferta. Mas não se arrume muito. Você já é muito bonito assim. — Ela apontou para ele, como estava no momento. — E mais do que isso, fã ou não, elas vão ficar caidinhas por você.
— Ah, fala sério. Eu sou mesmo seu favorito, não sou? — abriu um sorriso galanteador. — não ia ter chance nenhuma se vocês não tivessem crescido juntos.
riu novamente, uma gargalhada escapando de seus lábios dessa vez.
— Mas você é mesmo meu favorito — ela confirmou. — Não sei por que ninguém acredita nisso. E você é o melhor parceiro pra assistir doramas comigo também.
— Eu sou sensacional, eu sei — ele brincou, piscando para ela.
O sorriso de menino dele era um charme só. era alto, tinha um rosto e corpo bonitos, além de uma personalidade amigável e brilhante. Ele parecia um personagem escrito por uma mulher. Era como ter um protagonista de comédia romântica bem ali na frente dela, do tipo Golden Retriever.
Pensar nisso a fazia imaginar que tipo de mulher o interessaria.
— Você é uma figura, — ela comentou, fazendo-o sorrir levemente.
— E você, como tá? Sentiu mais alguma dor ou enjoo? disse que eles tavam diminuindo.
— Devem ser os remédios. Mas sim, os episódios de náuseas tão mais espaçados agora. Hoje eu tava até falando pro David que consegui comer bem por causa disso.
— David? disse que você contou sobre a gravidez pra ele. Como ele reagiu?
— Muito bem, na verdade. Acho que ficou surpreso, é claro, mas... Ele meio que disse que não vai desistir da gente por causa disso. — Ela deu de ombros.
Tinha sido muito doce da parte de David, mas não era mais o tipo de mulher que se iludia, e ele sabia muito bem disso. Não tinha como prever o futuro. Ele pode ter sido sincero com o que disse, mas nem ele poderia ter certeza de que não mudaria de opinião após alguns meses.
— Ele é um cara legal. Mas será que quer mesmo isso? Você gosta dele, né?
— Gosto, mas... Ainda não sei se ficarmos juntos é a melhor opção pra nós dois. Na verdade, eu sei que pra ele não é. Não sou só eu agora e ele tá crescendo cada vez mais na carreira. Às vezes penso que seria melhor deixar ele livre pra fazer o que bem entender, mas...
— Ele ainda é seu melhor amigo — completou.
— Sim. — sorriu de lábios fechados. — Ele disse que quer continuar fazendo parte da minha vida, não importa a minha decisão.
— Que bonitinho, ele é igual o Seojun da brincou.
— Seojun? — franziu o cenho, confusa. — É um ex dela?
— Ah, não. Ele é um personagem. Ex da protagonista do primeiro livro. Ele tem o próprio livro depois e se apaixona por outra pessoa, mas continua fazendo parte da vida da ex. Não de um jeito esquisito nem nada, eles só... Funcionam.
— Ah, interessante. Mas será que isso acontece na vida real?
— Sei lá, mas acho que não dá pra afirmar cem por cento nenhum dos dois. No fim, tudo depende das pessoas e em que tipo de situações elas estão ou convivem. Mas parando pra pensar, o é ciumento igual o Dean, novo namorado da ex do Seojun.
— Vou ter que ler esses livros pra acompanhar esses comentários. Você lê tudo o que a escreve?
— Sim. Passei muito tempo sozinho quando era adolescente, quando vim morar aqui. Meus pais não me deixavam jogar muito vídeo game, mas nunca disseram nada sobre eu estar lendo qualquer coisa que não fosse mangá. Geralmente, era o que eu fazia quando não tava vendo TV ou praticando música ou artes marciais.
— Eles tavam criando um monstro sem nem saber. — riu. — Mas parece ter dado certo, né?
— Acho que sim. — Ele deu de ombros. — Ninguém nunca me chamou de babaca, pelo menos.
— E você já namorou alguém? Por que eu nunca vi nada.
— Só porque não é público, não quer dizer que eu não saia com ninguém...
— O quê? — abriu a boca, em choque. — Seu espertinho! Quer dizer que você tá saindo com alguém agora?
— Não, nada disso. Também nunca tive nenhuma namorada. Mas tem uma garota que conheci num grupo da CP, sabe? Pela minha conta fake.
— Uma garota, é? — sorriu, interessada, apoiando o queixo nas duas mãos. — Me conte mais sobre isso.
se inclinou para mais perto, animado, como se estivesse prestes a contar um segredo. E meio que estava mesmo.
— Então, não contei pra ninguém ainda, mas conheci essa garota há uns três meses e acho ela bem interessante, mas obviamente ela acha que sou uma garota também, fã da CP. E tecnicamente, eu nem vi o rosto dela, mas-
Ele foi interrompido quando o sino da porta soou, e se virou na direção dela. Uma garota asiática de cabelo longo e escuro, cheio de mechas coloridas, passou por ela.
— Oi, ! Lembra de mim? Vi que você tá procurando garotas pra trabalhar aqui e resolvi tentar a sorte. Não cheguei tarde, né?


Continua...



Nota da autora (20/01): Olááá! Espero q tenham aproveitado a leitura. O q será q vem por aí? Até a próxima! Enquanto isso, no off sigo escrevendo Dylan (um dia, eu termino hahaha). PS. Se você chegou aqui, provavelmente leu HERO, RIVER ou as duas (ou simplesmente caiu de paraquedas). De toda forma, seja bem-vinda <3 Essa é a terceira história da série Cave Panthers e teremos um capítulo por semana o/
Confira também Depois da Meia-Noite, um romance contemporâneo com elementos de fantasia. É uma história única e tá finalizada! Dá uma olhadinha nela também, já tá finalizada! É o meu xodózinho ♥
Para mais informações sobre mim ou meus outros livros em e-book já publicados, visite meu Instagram (@aquelally) ou meu grupo de leitores no WhatsApp pelos links nos ícones abaixo. Podem interagir comigo, tá? xD Também tem o link de uma playlist de River!





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