FFOBS - 01. Bohemian Rhapsody, por Lígia Coelho

Finalizada em: 15/07/2018
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Capítulo Único

Uma buzina com volume bastante alto tocou como alerta. Seguido da buzina, um barulho de um portão de ferro, viajando pelas corrediças, indicando que estava sendo aberto ao fechado. Ao julgar pelo barulho suave do fim, ele estava sendo aberto. Saiu de lá de dentro um rapaz com macacão laranja, ladeado por dois outros homens, que seguravam seu braço.
Com a aparência de cansado, abatido e um tanto quanto transtornado, o rapaz de laranja tinha os olhos tristes, e estava com o rosto abaixado, olhando diretamente para o próprio sapato, um chinelo de tira única de borracha sob a planta do pé. Ele caminhava pelo longo corredor e aquele passeio peculiar despertava a curiosidade em seus vizinhos, que se anunciavam com gargalhadas, enquanto outros, com um olhar de piedade, de pena.
Pena... Era algo que definitivamente merecia.
Os cabelos estavam compridos e a barba já não era feita há certo tempo, o que dava àquele jovem de classe média alta, a impressão de que era mais um mendigo tirado das ruas, em estado de reabilitação.
O desfile com plateia pelos corredores acabou, entrando em uma sala, com um chuveiro e uma poltrona. O homem de quarenta e poucos anos teve suas roupas arrancadas e foi jogado dentro do chuveiro, no qual com nenhuma vontade, tomou um banho de verdade, coisa que não sabia há quanto tempo teve um como aquele pela última vez.
Após o banho, recebeu roupas novas e limpas, totalmente brancas, e se vestiu, sendo encaminhado para a poltrona. Com máquina, tesoura e navalha, um profissional cortou seu cabelo e aparou sua barba. Com um espelho colocado à sua frente, quase não se reconheceu. Se não fosse a magreza, e o envelhecimento natural do corpo do ser humano, estava se vendo novamente com vinte e poucos anos. A última vez que tinha se visto daquela forma havia sido no dia que foi levado para aquele local. Desde então, nunca mais havia sido o mesmo.
Para as pessoas normais, um banho, um corte de cabelo e uma barba bem feita por um bom barbeiro, apenas na navalha, era revigorante para a autoestima, que era elevada instantaneamente. não conseguiu esboçar um sorriso de satisfação ao se ver no espelho, e abaixou novamente o rosto, fechando os olhos. Se estava com roupas novas e limpas, e recebendo um tratamento como aquele, tinha certeza que seu dia havia chegado.
- Isso é vida real, ou apenas fantasia? – se perguntava – Fui pego em um desmoronamento, sem a menor chance de escape para a realidade – falava para si mesmo.
estava em um presídio de segurança máxima, há vinte anos, condenado por assassinato de um menor. Quando foi preso em flagrante, e em seu julgamento, sempre alegou inocência, dando trabalho a seu advogado, ao júri e também, ao juiz que presidiu todas as sessões. se lamentava por morrer inocente. Ele abriu os olhos e olhou para os céus.
Ele era apenas um pobre garoto, que não precisava da compaixão de ninguém. Era inocente, mas assumiu seus atos, nunca negando que puxou o gatilho naquela madrugada.
O homem, que não era mais o jovem de vinte e poucos anos que entrou naquele presídio, foi então levado a outra sala, onde foi deixado sozinho em frente a um vidro blindado. Dois minutos após, sua mãe entrou na sala.
- Meu filho! – a mulher falou alto e correu até o vidro, colocando a mão nele, querendo abraçar o rapaz que estava do outro lado, como se de alguma forma, aquela tentativa fosse fazer com que aquilo que separava os dois, sumisse.
- Mãe... – então falou pela primeira vez naquele dia, tentando acalmar a mulher, e apontou o telefone ao lado, para que eles pudessem se comunicar. A mulher então entendeu, e pegou o aparelho, sentando na cadeira ali disponível para ela – Como você está?
- ... – foi a única coisa que a mulher conseguiu falar, antes de permitir que as lágrimas escorressem mais uma vez pelo seu rosto. Não era justo que o filho fizesse aquela pergunta a ela, naquele momento e dia específico – Uma mãe nunca vai estar bem ao saber que o dia do seu filho chegou.
- Mamãe... – ele fechou os olhos e respirou fundo. Sabia que aquele era seu último momento com sua mãe, que depois daquele momento, ela nunca mais teria a oportunidade de conversar com ele – Eu matei aquele rapaz. Coloquei uma arma na cabeça dele, puxei o gatilho e agora ele está morto.
A mãe de , do outro lado do vidro, se recusava a acreditar no que estava sendo dito. Ela não acreditava que seu filho, aquele jovem de futuro promissor, tinha matado alguém ou assumido a culpa daquele ato. Não acreditava no julgamento, e continuava não acreditando em seus momentos finais.
- Eu sei que a vida tinha apenas começado para mim, mas no momento que eu fiz aquilo, eu não imaginava que iria jogar tudo aquilo fora.
A mulher se debulhava em lágrimas ouvindo aquelas palavras do filho que soavam como despedida, e ela se recusava a acreditar naquilo. O coração de apertava ao ver a mãe daquela forma. Seria mais fácil se aquele último encontro não tivesse sido permitido.
- Mãe... Mãe! – desesperado, chamou a mãe, que com olhos inchados, ergueu o olhar para o filho – Eu nunca quis fazer você chorar, me desculpe! – ele colocou a mão no vidro, com a intenção dela colocar do outro lado, numa tentativa falha de se tocarem – Me promete uma coisa, por favor. Se amanhã, a essa hora, eu não estar mais aqui, me promete que vai seguir a sua vida!
- , não fala uma coisa dessas!
- É tarde demais, mamãe, e minha hora chegou. Nesse momento eu sinto arrepios na minha espinha e dores por todo o meu corpo. Por favor, diga adeus a todos os meus conhecidos e aquelas pessoas que sempre acreditaram em mim, eu tenho que ir, deixar tudo isso para trás, e encarar os meus atos.
Os olhos escuros de continuaram a procurar os de sua mãe, mas não o encontrava. Apesar do medo que estava sentindo, queria que tudo aquilo acabasse logo, toda a dor e sofrimento, que todo mundo estava passando.
- Mamãe, eu não quero morrer. Eu nunca imaginei que meu fim seria esse – ele começou a chorar junto da mãe – Às vezes eu desejo que nunca tivesse nascido. Pouparia o sofrimento de todo mundo, principalmente o seu.
Um guarda abriu a porta do lado que estava e ele olhou novamente para a mãe.
- Eu te amo, não esquece nunca disso. Me perdoe por não ter sido o melhor filho do mundo, por ter te decepcionado e por ter parado aqui, eu te amo, mãe. Eu amo você, e sempre estarei ao seu lado.
- Eu te amo, , você sempre foi o filho que eu pedi a Deus, jamais duvide do que você foi para mim e dos meus sentimentos por você.
O homem foi tirado da sala e consequentemente sua mãe saiu do seu campo de visão. Aquela era a última vez que tinha a visto. Último momento que tinham conversado. Ele tentava pensar que em alguns momentos, para ele, aquilo não iria significar mais nada. Que a dor e angústia, iriam ser dizimadas em poucos segundos, e que ele nunca mais sentiria uma dor como aquela.
Dor de se despedir de sua mãe, de vê-la chorando por saber que apesar de assumir a culpa de ter puxado aquele gatilho, era inocente de todas as acusações. Dor em saber que mesmo ele não estando mais na Terra, ela continuaria sentindo sua falta, e sofreria mais ainda com sua ausência.
Dor por saber que havia sido condenado à pena de morte, por um sistema falho, que não acreditava que um jovem podia se defender e matar alguém em legítima defesa. Por não ter nenhuma testemunha, e as únicas digitais naquela arma, serem apenas as suas.
Ele entrou no pátio do presídio e foi colocado de joelhos em uma posição exatamente no meio dela, onde foi algemado pelos pulsos, em suas costas.
- – um guarda começou a ler um documento – Condenado por pena de morte por assassinar um menor há vinte anos, hoje terá sua sentença. Quais são suas últimas palavras?
ergueu a cabeça, pela primeira vez finalmente encarando de peito aberto aquilo que a sociedade decidiu para ele.
- Eu estou assustado. Sou apenas um pobre garoto, só peço que poupe minha vida dessa monstruosidade. Eu sou inocente. Bismillah*, me deixe ir.
Ali, ajoelhado naquela posição de impotência, onde não podia fazer nada, se lembrou da noite onde tudo aconteceu, e ele parou ali.

(Bismillah significa “em nome de Deus”, em árabe.)

FLASHBACK
e a namorada, , tinham ido a um bar e acabaram perdendo a hora, entre garrafas de bebida, trocas de carinho e gargalhadas. Como de costume, os dois voltaram a pé, por ser poucos quarteirões de onde ela morava. A rua estava deserta e de frente para eles, veio um rapaz de capuz e mão no bolso do casaco.
olhou apreensivo, trocou de posição com a namorada e puxou para mais perto do seu corpo, tentando protegê-la. Foi em vão, em um instante, o rapaz já estava com a arma, que havia tirado do bolso canguru do casaco, apontando para os dois.
- Passa tudo. Relógio, celular, joia, tudo!
E apontando a arma, guiou , que tentava manter a tranquilidade, e , que estava chocada, para um beco que cruzava com a rua que eles andavam. Estava escuro e ninguém podia ver o que acontecia ali.
O rapaz que os assaltava mordeu os lábios ao ver , e a puxou, separando a garota do namorado. enrijeceu com medo do que aquele ser podia fazer com ela.
- Oi, gracinha, acho que você precisa de alguém melhor do que esse namoradinho aí...
- ... – choramingou, pedindo ajuda para o namorado.
- Larga ela – ele pediu, e o rapaz apontou a arma diretamente para o rosto dele, fazendo com que um grito agudo saísse da boca de .
- Não se mexe, engomadinho, você vai ser o primeiro a morrer.
Ao ver que ouviu o que ele falou, e se manteve estático em seu lugar, o jovem voltou atenção a , que tinha expressão de pavor em seu rosto.
- Pensando bem, eu não quero nada de valor seu, eu só quero você.
- Não... – ela choramingava, implorando para que aquilo não acontecesse.
E colocou a mão por dentro do vestido que ela usava, fazendo com que a garota soltasse gemidos de terror. O namorado, que praticava luta e tinha feitos aulas de defesa pessoal, não se aguentou em ver aquela imagem e foi para cima do rapaz, afastando ele de , e conseguindo, em poucos segundos, desarmá-lo, apontando a arma para ele.
Corajoso, o assaltante entrou em uma luta corporal com , tentando pegar novamente a arma, e eles ficaram naquele duelo por algum tempo, com apreensiva. Ela já não via mais a arma, e quando menos esperava, ouviu o barulho de tiro, provocando um grito agudo de pavor saindo pela sua garganta.
Os dois caíram ajoelhados no chão, juntos. estava na dúvida se se aproximava. Seu medo era que seu namorado tivesse sido atingindo, e ela fosse a próxima vítima. Poucos segundos depois, se levantou, com o abdômen cheio de sangue, e o rapaz caiu aos seus pés, praticamente imóvel.
- , corre buscar ajuda – disse com as mãos trêmulas. Nunca havia tirado, nunca nem passou pela sua cabeça matar alguém.
- ... Ele... Ele está morto?
- , por favor, faz o que eu estou te pedindo! – ele falou pouco paciente. Havia acabado de atirar em um homem para suas defesas. Seu cérebro estava confuso demais naquele momento para responder qualquer pergunta.
A menina, temendo o que iria acontecer a seguir, saiu correndo pela rua em busca de ajuda e quando já estava longe, encontrou um burburinho de pessoas, perto do bar de onde eles estavam. Um grito agudo de socorro foi o suficiente para quem uma quantidade razoável de pessoas viessem a seu encontro.
Quando a polícia chegou ao lugar, a situação não era favorável para . Ele empunhava uma arma que continha suas digitais, e um rapaz estava morto, jorrando sangue, no chão aos seus pés.
Algum tempo depois, o depoimento de sobre o acontecido, foi invalidado. Era namorada do réu, era de sua vontade que ele fosse um homem livre, e mesmo assumindo o assassinato, e sendo classificado como legítima defesa, ele foi declarado culpado, e condenado à sentença de morte.

FIM DO FLASHBACK

sabia que era inocente, mas estava pronto para aceitar o seu destino. Nunca mais havia ouvido falar de , depois de um tempo, ela nunca mais foi visitá-lo na prisão. Sua mãe havia contado que ela tinha seguido a vida, casado, tido filhos, mas não queria mais lembranças daquela noite, apesar de ser eternamente grata por ter salvado-a.
ia morrer inocente, mas de peito aberto, por ter feito o que fez. Foi um momento único, onde foi a única forma que ele encontrou de livrar sua namorada das mãos daquele ser nojento que tentou abusá-la sexualmente, e salvar a vida de ambos.
Um barulho de tiro foi ecoado e estourou pelo pátio do presídio, onde pombas que estavam no muro, voaram cada uma para um canto, o que acontece quando algo interfere sua paz.

“Nothing really matters anyone can see.
Nothing really matters...
Nothing really matters to me.”






FIM



Nota da autora: Pedindo licença para o maior compositor que pisou na terra para, talvez, estragar a minha música preferida que ele escreveu. Quando minha irmã me sugeriu pedir para organizar o ficstape do Queen, antes de aceitar eu já tive o plot de Bohemian Rhapsody na minha cabeça. Ela ficou exatamente do jeito que eu pensei, enxuta, sem muitos detalhes, mostrando exatamente os últimos momentos de um preso no corredor da morta. Agora, pedindo mil perdões aos advogados que vão ler essa história, eu não entendo de leis, não tenho conhecimento em Direito, e abusei um pouco da licença poética para escrever essa história. Eu sou uma autora de histórias água com açúcar, bem melada e diabética, não tenho mão para um drama, então espero que Freddie não esteja me odiando nesse momento, nem vocês desistam de mim como autora. Quem quiser conversar comigo, pode vir nas redes sociais abaixo, combinado? Um beijo, Liih. (Nota escrita em 19 de Maio de 2018)





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