Última atualização: 09/09/2018
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Prólogo

A vida é feita de escolhas. Cada escolha nossa reflete uma ação, uma mudança na nossa linha do tempo, algo que altera não só o presente, como também o futuro.


Eu cresci ouvindo uma frase que alguém muito sábio um dia falou: para cada escolha que fazemos, abrimos mão de diversas outras. Mas a vida seria muito mais justa se a gente soubesse como será nosso futuro. Nos daria a chance de fazer escolhas hoje, que seriam benéficas para nós lá na frente.
E eu aprendi da pior forma que uma decisão errada hoje podia alterar toda a minha vida.
Há cinco anos eu me formei na faculdade. Formei com glórias, professores me exaltando na formatura, falando o quanto eu seria uma profissional exemplar e aquelas palavras criaram um monstro na minha cabeça: o monstro da autoconfiança, de acreditar que eu conseguiria uma vaga na empresa que eu escolhesse para trabalhar. Que seria fácil conseguir um emprego e entrar no concorrido mercado de trabalho. E por causa daquele monstro, eu fiz a primeira escolha errada da minha vida, que iria impactar no meu futuro.
Minha melhor amiga, aquela que era minha irmã, que ficou os quatro anos da faculdade comigo, me deu apoio, me deu ombros para não desistir, segurou meus cabelos quando eu precisava vomitar em uma festa, que recebeu o canudo junto comigo, decidiu tirar um ano sabático. Ela falou que iria pegar todas as suas economias e passar um ano viajando entre a Europa e Ásia, e era para eu ir com ela.
Como ir pro outro lado do mundo, quando seus melhores professores vinham te exaltar? Como abandonar o emprego — que eu não tinha, mas o monstro falava que sim — para simplesmente viajar? Meu futuro estava — ou pelo menos eu achava que sim — certo, e naquele momento, não envolvia sair do meu território.
Vi minha melhor amiga subir em um avião com destino à felicidade enquanto eu fiquei aqui, achando que aquilo era a minha felicidade. Procurei empregos, entrei em trainees, fui a dinâmicas, entrevistas com gestores. Os meses foram passando, e eu via minha amiga na Espanha. Outro dia ela estava se divertindo na Holanda. Comendo as pizzas mais gostosas do mundo na Itália. E eu aqui, recebendo um feedback negativo atrás do outro.
O ano sabático foi a melhor decisão que podia ter feito. Não porque ela conheceu lugares, pessoas e culturas diferentes, mas porque ela conheceu alguém que a fez querer mudar de vida. Um dia ela me ligou, falando que sua viagem havia parado e ela já estava há alguns meses na Alemanha. Ela conheceu um homem por lá, começaram a sair, ela foi adiando suas passagens, começaram a namorar e naquele momento, a certeza que ela tinha em sua vida era que seu futuro estava ali, na Europa, com ele.
Que o fato dela ter feito faculdade não significava que ela teria uma carreira profissional bem sucedida perto de sua família. A Alemanha já estava virando a casa da minha amiga que, após um ano, não voltou. Passou dois anos, não voltou. Passou mais meio ano, ela voltou: para oficializar seu casamento com seu homem alemão. Lá eles já haviam casado no civil. Não demorou muito para ela falar que quando casou, já estava grávida e ainda não sabia. Logo Nathan, meu sobrinho de olhos verdes, nasceu e eu só queria conhecer aquela criança linda que só via por fotos ou pelas nossas conversas da internet.
E eu? Eu ainda estava aqui. Tentando me especializar fazendo pós-graduação, fazendo cursos de línguas, procurando empregos. Gastando dinheiro com capacitação que eu poderia estar tendo em uma vivência no exterior. Talvez gastando naquele ano sabático, onde minha vida poderia ter mudado, se não fosse a escolha errada que havia feito.
O dia que eu soube que Nathan iria fazer dois anos, talvez eu finalmente tomei a decisão certa na minha vida. E aí sim eu posso dizer que a minha vida mudou para melhor.


1. OVER MY HEAD

{ I never knew
I never knew that everything was falling through
That everyone I knew was waiting on a queue
To turn and run when all I needed was the truth }


CINCO ANOS DEPOIS

estava exausta. Aquele era o terceiro escritório que tinha visitado em uma semana. Era a terceira vez que ela se despencou para o outro lado da cidade, para uma entrevista de emprego, para chegar no escritório, que ficava em um prédio quase impossível de se entrar, e descobrir que na verdade ela iria fazer uma prova. Um teste, ao invés da velha conhecida entrevista. Algo como ter que revisar uma apresentação de alguém muito fodão na empresa, montar o mailing interno da empresa e escrever uma dissertação sobre os benefícios do tal do Pokémon GO.
tinha certeza que na época do lançamento do jogo, tinha lido alguma matéria online sobre como ele estava utilizado para incentivar pacientes com doenças severas, a levantar da cama, conversar com outras pessoas, interagir. Ela também havia visto que os pacientes com autismo estavam tendo suas vidas transformadas para melhor, porque o jogo fazia com que eles se relacionassem com as outras pessoas.
Ou seja, para , Pokémon GO era a melhor coisa que ela tinha visto em algum tempo e escrever sobre aquilo seria uma tarefa simples para ela, que tinha como principal hobby, a escrita.
Hobby esse que estava tomando boa parte do seu tempo, já que ela não era uma pessoa empregada.
Depois tinha a correção da apresentação do PowerPoint. era, de carteirinha, uma perfeccionista nata, e seu cérebro automaticamente corrigia tudo aquilo que ela não poderia fazer em voz alta. Ou em público. Ou em qualquer lugar que as pessoas iriam olhar para ela e falar: irritante. Então se ela tinha como teste corrigir algo, ela estava se sentindo nos céus.
E pra finalizar, um mailing empresarial. Nada muito exagerado, mais contido e sério, mas nada como um computador com todo o Pacote Adobe para ajudá-la a realizar a tarefa minuciosamente.
saiu então do prédio quase impossível de se entrar — seu motorista do Uber deu a volta no quarteirão três vezes até acharem o local certo — e precisou entrar no shopping que tinha atravessando a rua. Precisava ir ao banheiro. Precisava tomar água. Precisava de cinco minutos para se refrescar antes de voltar para o projeto de inferno que a rua estava e tomar o caminho de sua casa.
Depois de utilizar o banheiro, ela levantou o cabelo no coque mais alto que era possível, e se estirou em uma poltrona que ali tinha. Ela então se lembrou do seu celular em sua bolsa e o pegou, acessando suas mensagens para ver se alguém tinha enviado algo.
Sua mãe, no interior, pedindo informações da entrevista assim que possível. Alguns grupos falando algo que ela não conseguia acompanhar. E uma mensagem de , com a foto de Nathan com as mãos sujas de massa de bolo.
passou algum tempo olhando apreciando o lindo sorriso e os olhos verdes que o sobrinho tinha. Nathan era, talvez, a criança mais linda que ela já tinha visto em toda a vida. E todas as vezes que eles se falaram por chamada de vídeo, a criança sempre se mostrou extremamente amável e carinhosa com a mulher que ele não conhecia pessoalmente.
Ela respondeu a amiga com alguns emojis fofos. Corações, sorrisos, gargalhadas, bolo, chocolate, e mais alguns corações, e voltou à mensagem de sua mãe. Resolveu ligar e contar logo como havia sido. Não é como se estivesse extremamente confiante que iria passar para a segunda fase, porém ela sabia que tinha ido muito bem, e talvez sua chance de brilhar estivesse chegando.
Depois de uma mãe curiosa no telefone, ela decidiu passar pela sorveteria que faz o melhor sorvete de doce de leite do mundo, o argentino, e saiu novamente do shopping, dessa vez, em direção ao ponto de ônibus. Vinte minutos de espera no sol de 40°C e em pé, um ônibus extremamente lotado e uma hora depois, passou pela portaria do prédio em que morava. Estava tão exausta pelo longo dia que teve, que ao invés de subir até o seu apartamento no primeiro andar de escadas, como habituava fazer, esperou o elevador descer do último andar, para então entrar nele e apertar o botão de número um, no painel do mesmo.
era uma mulher bonita, com seus 26 anos de idade. Tinha seus 1m70 de altura, cabelos castanhos escuros quase pretos, olhos verdes, como os do sobrinho, uma boca um tanto quanto carnuda e um corpo tradicionalmente brasileiro. O que podia fazer se ela era uma mulher latina?
Mas naquele momento, olhando para o espelho, sua maquiagem escorria pelo rosto, o cabelo parecia um ninho de rato e o vestido preto e branco que ela usava estava cheio de manchas de suor. Talvez ela seria confundida com um servente de pedreiro, e não como uma aspirante a executiva com pós-graduação em uma das melhores escolas de negócios do país.
Ao descer do elevador e caminhar até a porta de seu apartamento, ela teve um pouco de dificuldades de achar o chaveiro da torre Eiffel, presente que havia mandado para ela da Europa, e ao abrir a porta do apartamento, encontrou embaixo da porta um envelope, escrito com uma letra cursiva. Ela se abaixou para pegar, e o cansaço impediu que se levantasse novamente. preferiu ficar no chão.
Era estranho um envelope endereçado a ela, com letras cursivas e bonitas. Normalmente o que chegava para eram contas, todas devidamente lacradas e com seu nome impresso nelas, então não teria sido espantoso, caso alguém abrisse a porta do apartamento, e a visse deitada no chão feliz da vida com aquele envelope.
Tinha Reus como remetente. E aquele envelope havia atravessado o oceano, pois vinha de Dortmund, uma cidade a noroeste da Alemanha, e uma das maiores do Vale do Ruhr.
tirou dois papéis de dentro da carta. O primeiro era colorido, tinha algumas coisas escritas em alemão, e outras, com uma caligrafia, tinha algumas informações. Nathan, seu sobrinho, estava prestes a comemorar dois anos. A festa iria ser realizada na própria casa de em um sábado do meio de Dezembro. Ainda tinham quase dois meses para aquilo. Alguns rabiscos no fim fizeram entender que aquela era a assinatura de Nathan, convidando a tia, e ela achou extremamente adorável. Ela então deixou o convite de lado e pegou o outro papel, que estava dobrado ao meio.
Aquele ela entendia perfeitamente. Era em português, e ela lembraria da letra da sua amiga-irmã não importa quantos anos se passassem.

Querida ,
Essa carta não é sobre mim, mas vou atualizá-la brevemente sobre a minha vida. Sou mãe em tempo integral. Eu ainda tenho intenções de entrar no mercado de trabalho alemão, mas é extremamente gratificante estar em casa e ver cada nova descoberta do seu filho. Nathan está aprendendo de tudo um pouco diariamente. O nome das frutas, das cores e dos animais. Marco se recuperou de uma lesão que o deixou afastado dos gramados por alguns meses, mas recentemente voltou a jogar, ganhou a braçadeira de capitão e fez um hat-trick (quando se faz três gols, assistências, ou algo do tipo). Nathan ficou bem feliz.
Mas o assunto desta carta é você. , a vida é curta demais e ela é só uma para ser vivida. Eu, mais do que ninguém, sei dos seus sonhos, aspirações, anseios, desejos e vontades, e também sei que você pensa que o único caminho para isso é com um trabalho na posição que você sempre desejou.
Se permita viver. Permita descobrir o diferente. O tal do plano B. O alfabeto tem 26 outras letras para você transformá-los em planos, e não ficar diariamente batendo na mesma tecla. Para você conseguir resultados diferentes, você deve fazer coisas diferentes. Você sabe do que eu estou querendo dizer, não sabe?
Eu precisei sair da minha zona de conforto para encontrar a minha felicidade, que era o Marco e o Nathan. Eu te desafio a fazer o mesmo. Saia da sua zona. Vá fazer algo diferente e abra sua cabeça para o mundo. Eu tenho certeza que quando você fizer isso, vai encontrar a felicidade, que vai estar na sua cara a todo momento.
Largue o racional e comece a pensar com a emoção. Você deve ter visto anexado o convite de aniversário do Nathan, e o seu sobrinho, que não te conhece, é tão apaixonado por você que fez questão de “escrever” o nome dele no seu convite. Espaireça. Venha para a Alemanha. Vem pro aniversário do Nathan. Eu tenho certeza que se ao menos você der alguns dias de folga para o seu cérebro, as coisas vão mudar para você.
Pelo menos pense no que eu estou te falando. Eu, Nathan e Marco esperamos você de braços abertos aqui na nossa casa.
De uma das pessoas que mais se importa com você.
Sua melhor amiga que te ama,
.


releu a carta da melhor amiga pelo menos mais umas duas vezes antes de tomar coragem para levantar do chão. Mesmo do outro lado do oceano, com um ritmo de vida completamente diferente e com prioridades além do que ela imagina, se importava com e com o rumo que sua vida estava tomando.
E como sempre, mesmo lhe dando alguns tapas e uma dose de realidade, ainda conseguia fazer aquilo de forma sutil, e de forma com que a melhor amiga pensasse no caminho que estava seguindo, e que existem sim, outras soluções para resolver o mesmo problema.
então guardou tanto a carta como o convite de volta no envelope e se levantou do chão. Ela caminhou até o quarto, onde colocou o que havia recebido embaixo de sua agenda de compromissos, e fechou a cortina. Tirou sua roupa e foi em direção ao banho. Precisava de uma cachoeira de água gelada em sua cabeça para fazer com que seu cérebro parasse de funcionar por alguns instantes.
Porém, mesmo agradecida pelo convite e a preocupação, tinha a plena certeza de que subir em um avião em direção à Alemanha, naquele momento, estava completamente fora de seus planos.

• • •


Mais um dia de treinos havia encerrado em Brackel. Com a péssima colocação na tabela já no começo do campeonato, o técnico Thomas Tuchel estava empurrando seus jogadores ao máximo até atingirem seus limites. Eram incansáveis voltas no campo, cobranças de faltas e escanteio. Pênaltis. Tudo para que subissem alguns números em cima dos concorrentes e voltassem a pensar na chance de, na temporada seguinte, disputarem a Liga dos Campeões.
André saiu do treino direto para o carro. Tinha a ansiedade em chegar em casa. Ver Olivia e falar que tudo iria ficar bem, que todos os problemas que eles estavam tendo seriam superados. Que apesar da saudades que ela sentia de seus pais, ela sempre poderia ir para a Irlanda visitá-los, e ele nunca iria impedi-la daquilo. Que ele a amava, e apesar das diferenças de opinião, tê-la em seus braços era o que o fazia feliz.
O que o fazia feliz.
André nunca havia perguntado a Olivia o que a fazia feliz.
Dentro do carro, ele procurou o celular que havia deixado no painel para o treino. Tuchel já havia deixado claro que iria prejudicar o time inteiro caso visse um deles com o celular em mãos. Se houvesse alguma emergência familiar, era só ligar para o centro de treinamento que qualquer um seria informado.
Tinha uma única ligação perdida, de Olivia. E entre as dezenas de mensagens que ele recebe diariamente, uma única mensagem dela, alguns minutos depois da ligação.

“André, nossas diferenças são o que nos aproximou e hoje, são o que nos afastam um do outro. Vivemos uma relação onde pensamos o que é melhor para você, e não o que é melhor para nós. Eu preciso me sentir incluída. Eu preciso viver e não ficar na sombra de ninguém. Dessa forma, eu decidi fazer o que é melhor para mim. Estou voltando para Dublin. Seguirei minha vida ao lado da minha família, dos meus amigos e brilharei, na minha própria vida. O anel está em cima da mesa da sala. Não me procure, é o melhor para nós dois, e saiba que eu desejo todo o melhor para você. Olivia.”


André estava atônito com a mensagem de sua noiva. Ou ex-noiva. Olivia havia terminado com ele por mensagem, não dando sequer a chance de ele se explicar, eles conversarem, ele prometer que tudo ficaria bem e eles iriam passar por aquele problema juntos.
Ele digitou o número do telefone de Oli, que sabia de cor e salteado, e antes do primeiro toque, a secretária eletrônica atendeu. André desligou. Com as mãos trêmulas, ele tentou novamente, e obteve o mesmo resultado.
O jogador jogou o celular no vidro do carro e bateu com as mãos no volante, caindo em lágrimas logo em seguida. Não era novidade que ele e Olivia não estavam bem já há algum tempo, mas ele nunca imaginou que aquilo iria resultar no rompimento do noivado. Um término covarde por mensagem de texto no celular.
André então ligou o carro e saiu acelerado de Brackel. Ele iria atrás de Olivia. Seja na estação de trem, na rodoviária ou em Düsseldorf, de onde partem os aviões para a Irlanda. Ela iria ter que escutá-lo. E ele iria pedir para que ela voltasse.

• • •


O feedback do processo que tanto aguardava estava prometido para vir em até uma semana após os testes. Depois de dez dias, a flor que antes havia desabrochado nela murchou, fazendo com que a ansiedade tomasse conta de . Ela precisava de uma resposta, do emprego, de se colocar no mercado de trabalho e, principalmente, de se realizar profissionalmente.
Era sempre assim com ela. Um convite para entrevista de emprego que a deixava extremamente animada, seguido de um feedback lento que nem sempre chegava, o que causava ansiedade, e nem convite dos conhecidos que moravam em São Paulo para um happy hour ou uma ida ao cinema a davam ânimo de sair de casa.
Duas semanas depois, analisando seus e-mails, o nome da responsável pelo Departamento de Recursos Humanos da empresa onde fez o teste apareceu em sua caixa de entrada. Um brilho diferente apareceu nos olhos de . Ela levou o mouse à mensagem que tinha como título FEEDBACK PROCESSO SELETIVO ASSISTENTE DE MARKETING e assim que a página carregou, procurou por algo relevante.

“Prezada ,
Agradecemos seu interesse em participar de nosso processo seletivo. Gostamos muito de você e de seu trabalho, mas neste momento não é possível dar continuidade a ele. Seu currículo ficará salvo em nosso banco de dados e quando houver uma vaga compatível, entraremos em contato. Departamento de Recursos Humanos.”


Aquele e-mail foi como um balde de água fria para , que estava esperançosa. Ela empurrou a cadeira para longe da escrivaninha e se jogou em sua cama, permitindo que as lágrimas, que antes estavam travadas na garganta, desabassem pelo seu rosto.
só queria saber até quando aquele tormento iria estar em sua vida. Não era possível que todo mundo que ela conhecia se posicionava no mercado de trabalho e ela não. Que ela, que estudou línguas, fez especializações, estudou nas melhores escolas e sempre foi uma boa aluna, não iria conseguir ser bem sucedida profissionalmente.
Tateando a cama a procura do celular, o encontrou e digitou uma mensagem rápida para a mãe contando que havia recebido mais uma resposta negativa. Sua mãe retornou a ligação e ao ouvir a filha se despedaçando do outro lado da linha, a quilômetros de distância, decidiu que era hora dela espairecer a cabeça e passar alguns dias ao seu lado. prometeu que pegaria o primeiro ônibus que saísse na manhã seguinte.
Depois de desligar o telefone e se acalmar, ela se levantou da cama e pegou sua mala dentro do armário, colocando algumas roupas para ficar alguns dias aninhada no colo de sua família. Não queria saber de festas, de bebidas, nem nada. precisava de alguns dias excluída do mundo para se recompor.
Ela então contornou a cama e foi até a escrivaninha para pegar sua agenda e colocar dentro da bolsa. Quando levantou a mesma, algo caiu no chão e ela se abaixou para pegar. Era o envelope que havia mandado. então sentou na cadeira e releu a carta da amiga.
“Saia da sua zona. Vá fazer algo diferente e abra sua cabeça para o mundo.”
Aquela não era uma má ideia. E talvez, nem ir para a Alemanha seria tão ruim assim.



2. ALL OR NOTHING

{ A day with no ending is what this is like
You know, we may be pretending but we’ve still got tonight
She said it’s all or nothing, all or nothing }


Alguns dias no interior nunca fizeram mal para . Ir para um lugar calmo, sem o estresse de trânsito, transporte público, onde ela pode passar os dias de pijama e longe do computador, sempre a fizeram bem. Mas não era de sossego que ela gostava, e depois de uma semana conversando muito com sua mãe ela voltou para São Paulo para a sua busca continuar.
Ela também agendou algumas entrevistas no tempo que estava na casa de sua família. E lá foi ela novamente, mais umas duas ou três vezes para o outro lado da cidade para, alguns dias depois, receber o velho e conhecido não.
Existem entrevistas e entrevistas. Entrevistas em que saía do escritório sabendo que não iria virar em nada, e que o não por e-mail seria só mais um para sua coleção. Mas quando ela via brilho nos olhos dos responsáveis pelo departamento de recursos humanos quando ela conversava com gestores da área e os via animados e ela sabia que foi bem, receber o não era quase devastador. E extremamente desmotivador.
Por muitas vezes pensou em desistir. Voltar para a faculdade, fazer um curso que ela nem gostava tanto, mas sabia que era mais fácil arranjar emprego. Simplesmente começar de novo. Mas era tão apaixonada pela sua área de formação, por aquilo que passou anos e mais anos estudando, que ela simplesmente não conseguia entender como iria jogar todos os anos de dedicação e investimentos na lata do lixo. E isso era o que fazia ela, mesmo calejada, machucada e cansada, não desistir.
Em uma tarde, depois de mais um “obrigado pelo seu interesse, mas não podemos dar continuidade ao seu processo” em sua caixa de entrada, cansou daquele tipo de repetição, decidiu dar um rumo para sua vida e foi direto para o Google.
CURSOS DE ESPECIALIZAÇÃO NA ALEMANHA Os cursos eram dos mais diversos e em todo o canto do país. Com um mapa aberto, ela começou a excluir algumas opções. Berlim, a capital do país, era fora de cogitação. Não tinha como se hospedar na casa da amiga, em Dortmund, e fazer um curso do outro lado do país. Munique também não, era muito longe. Hamburgo, muito ao norte.
E então três universidades apareceram em sua tela: Köln, Düsseldorf e Dortmund.
Köln e Düsseldorf eram cidades próximas da que morava, então até poderia existir alguma chance, mas continuou a pesquisar até que algo chamou sua atenção.
ISM.
International School of Management.
Apesar do nome da escola em inglês, o site era completamente em alemão, e pôs para que o site fosse completamente traduzido para a língua universal. Eram leituras, links clicados, rabiscos em um papel ao lado.
Depois dos últimos dias no interior, muita conversa com sua mãe, muito apoio para mudar de vida e tomar uma atitude, era hora de conversar com . E se bem conhecia sua amiga-irmã, ela já sabia o que ela iria falar.
olhou no relógio do computador e tinha acabado de virar 4h da tarde. Com a diferença de fuso horário, eram 9h da noite na Alemanha. Ela pegou uma mensagem e digitou algo para .

“Atrapalho? Tem como a gente conversar?”

Não demorou muito para que a mensagem viesse de volta.

“Estou colocando o Nathan para dormir. Me dá dez minutos? Skype, Facetime ou Hangouts?”
“Skype.”

Ela então largou o celular e fez login em sua conta. Enquanto não entrava, continuou lendo mais sobre o tal do ISM, e chegou até a colocar no mapa a distância entre a escola e o endereço de sua amiga. Então o telefone tocou, e a imagem que antes estava pixelada, logo ficou praticamente perfeita.
— Oi, gatinha! — falou, do outro lado do oceano. não pode deixar de rir.
— Oi linda, tá sozinha? Vem sempre aqui? — dessa vez foi quem gargalhou.
— Na cozinha? Todos os dias. — as duas riram. Era tão bom aquele tipo de brincadeira — Coloquei meus homens para dormir e vim para o meu encontro.
— É assim que rola então? Marco dorme e você vai para a internet procurar outros?
— Não… — deu de ombros — Só você! Que saudades, ! Como está?
então suspirou.
— Sobrevivendo — deu então um sorriso amarelo para a melhor amiga — Recebi a sua carta.
— E você me ligou para falar que as passagens já estão compradas? Amanhã mesmo vou arrumar o quarto de hóspedes e…
… Eu estou tão perdida na vida. Você não pode imaginar o tormento que eu estou passando todos os dias. — ela respirou fundo — Eu acho que não sou mais capaz de chorar, aí vem uma resposta negativa e…
— Você chora. — do Brasil, balançou a cabeça confirmando — , você sempre foi a mais chorona entre nós duas.
— Mas eu sinto que eu já estou seca por dentro e nenhuma outra lágrima vai escorrer. De repente… Eu choro tudo de novo e… Será que eu não mereço me realizar profissionalmente?
— Relaxa, respira e engole o choro! — ordenou e rolou os olhos — Você me ligou para chorar?
— Talvez. — sentiu a voz embargar e tentou engolir o choro — Eu acabei tendo uma ideia e preciso saber a sua opinião.
— O alfabeto tem outras dezenas de letras, . Saia do seu plano A e vá para os próximos.
— Há grandes chances de eu fazer isso, mas vamos com calma.
Mama! — ouviu uma voz fina vindo do outro lado da tela e seus olhos brilharam — Mama!
— Nathan? — olhou para trás e seu filho de quase dois anos vinha em sua direção.
— Tem um monstro no meu quarto. — A criança choramingou e subiu na cadeira ao seu lado — Faz ele sair?
achou aquilo extremamente adorável. Ter um monstro no quarto dele. Apostava que ele não estava falando de Sully e Mike Wazowski, caso contrário ele iria querer sair pela porta junto com eles.
Tante ! — o menino se alegrou ao ver quem estava na tela do computador da mãe — Mama, é a tante !
— É, e ela está te ouvindo. Fala oi pra ela!
— Ela me ouve? — os olhos verdes do menino brilharam — Hallo, tante!
— Olá meu amor, como você está?
— Tem um monstro embaixo da minha cama, aí eu não consigo dormir — ele murmurou mexendo na própria orelha e como um estalo, pareceu lembrar-se de algo — Tante, você vem pro meu aniversário?
não se aguentou e sorriu com a pergunta do menino. Ela queria tanto ir.
— É, tante — essa vez era quem falava olhando para ela — Você vem pro aniversário do Nathan?
— Pretendo — ela então confessou — E eu estou querendo engatar a oportunidade de ir para a Alemanha e estudar. Estava procurando um local para fazer uma especialização e achei uma escola de negócios aí na sua cidade.
— ISM?
— Aí mesmo. O que você acha?
— Por que você não embarcou ainda? Você é maravilhosa, , eu sei que você também é teimosa e não vai desistir desse tal emprego, mas você já imaginou o que o ISM no seu currículo faria por você? — suspirou — Uau! Ninguém te pararia.
— Você está parecendo os nossos professores na formatura.
— A diferença é que os professores estavam te iludindo, eu estou falando a verdade. Eu cheguei a pesquisar a ISM para você. Você sabe qual é a taxa de empregabilidade desse local? — negou com a cabeça — É algo muito alto.
— Confesso que eu estou um pouco perdida.
— E eu acho que vindo para cá, você se encontra.
— Piadista — ela rolou os olhos — Eu vou pesquisar um pouco mais, se eu decidir, você me abrigaria por um tempo maior que uma semana?
— Vou fingir que você não fez essa pergunta. Mas quando era eu quem perguntava se podia dormir na sua casa, você reclamava — rolou os olhos — Até parece que a gente nunca teve intimidade uma com a outra.
— Sempre tivemos, mas querida, hoje você é casada e tem um filho. A situação é diferente.
torceu a boca. Em partes ela sabia que a amiga tinha razão, mas elas ainda eram e , não existia esse tipo de formalidade entre elas.
— Sim, , eu te abrigo na minha casa pelo tempo que for necessário. Eu converso com o Marco e nós facilitamos a sua entrada na Alemanha, só vem.
— Vem, Tante! — a voz de Nathan, no colo da mãe, veio pela saída de áudio do computador e ele bocejou logo em seguida..
— É, Tante, vem! — repetiu — , você sabe que minha casa sempre vai estar aberta para você, é só me falar quando que a gente vai te buscar no aeroporto — Nathan então se aninhou no colo da mãe — Eu vou ter que desligar, vou espantar o monstro do quarto da minha criança e você, pensa direitinho.
— Eu vou, eu juro. Obrigada , eu sabia que falar com você seria bom e me daria luz.
— Pronto, lá vai ela começar de novo. O que eu fiz, louca?
— Shhh, você fez muito, não comece a mimimi eu não fiz nada. Boa noite para vocês.
Gute Nacht, Tante! — Nathan falou.
— Boa noite, . Pensa direito, amo você.
— E eu amo vocês dois. — falou antes de desligar a ligação do outro lado do oceano.
Já podia ser hora de dormir na Alemanha, mas não para no Brasil. Ela se levantou da escrivaninha e foi direto para o banho. Quando saiu, já de pijamas e com a toalha enrolada na cabeça, acessou novamente o site do ISM. Ela iria revirar aquele site do avesso, mas iria achar algo que seria de seu interesse e bom para seu currículo.

• • •


Depois de muita pesquisa e troca de e-mails, finalmente fechou sua viagem, com o recebimento da documentação que ela precisava para ir até o Consulado Alemão, na Faria Lima, para tirar seu visto de estudante.
Estudar na Alemanha não era algo barato. Por sorte ela tinha algumas economias de toda a vida guardada — que teriam sido utilizadas caso ela tivesse viajado com — e sua mãe lhe deu uma boa ajuda financeira. Ela não teria que se preocupar com hospedagem, algo que iria encarecer mais, pois Marco, marido de , e um alemão nativo, havia escrito de punho próprio uma carta a convidando a ficar em sua casa durante a estadia no país.
Depois do visto em seu passaporte, era hora de embarcar para a Alemanha.
nunca havia imaginado simplesmente fazer uma loucura dessas. Seus planos, sonhos, realizações, estavam no Brasil, e não na Alemanha. E mesmo assim, um documento colado em seu passaporte lhe dizia que ela estava indo para outro país.

• • •


Se a Alemanha iria ser algo bom para , só o tempo saberia dizer. Ela parou de procurar empregos. Naquele momento ela sabia que Murphy iria atuar em sua vida e o trabalho de seus sonhos iria aparecer, quando suas passagens já estivessem compradas.
cansou de ouvir a razão, e agora estava indo atrás da emoção.
Seu trabalho ainda era seu sonho, ser uma executiva excepcional, no meio dos grandes peixes do mercado publicitário. Trabalhar com pessoas, negócios, marketing. Viver. Ser feliz. Sentir que a sua vida estava andando. Aquilo era seu sonho.
E talvez, só talvez, existia uma pequena chance de o seu sonho finalmente se realizar, por causa dessa viagem. Misturar intercâmbio com diversão e matar saudades de sua amiga. já havia feito tantos cursos para falar que tinha um currículo de peso. Talvez ela estivesse no caminho certo.

“Passagens compradas. Chego no aeroporto de Frankfurt no dia 12 de Dezembro às 10AM e de lá, pego um trem para Dortmund. Devo chegar na sua cidade às 2PM. Por favor, não me esqueça na estação de trem. Ich Liebe Dich (viu, eu sei falar algo de alemão), .”

“Comprou passagem de trem por quê? A ideia era te buscar no aeroporto, animal. Já estou ansiosa para te receber (Nathan e Marco também) e o quarto de hóspedes está pronto para você. O mundo é seu, , e que bom que você finalmente percebeu isso. Eu te amo (viu, eu ainda sei falar português), .”


precisou voltar ao interior e pegar muitas roupas de inverno para compor a sua mala e alguns dias antes da viagem, sua mãe voltou para São Paulo e as duas passaram alguns dias juntas.
Na véspera da viagem, no meio da tarde, as duas foram juntas até o Aeroporto Internacional de São Paulo, de onde partiria o vôo para Frankfurt, e sua mãe fez companhia até o momento de entrar na sala de embarque. — Vai com Deus — a mãe de disse para a filha, enquanto arrumava o casaco que estava no ombro dela — Vai atrás do seu sonho, vai descobrir que o mundo não é só São Paulo, vai desbravar essa Alemanha e o melhor de tudo, , vai ser feliz.
olhava para a mãe com lágrimas nos olhos e tinha certeza de que se fosse responder alguma das palavras dela, o choro iria invadir sua garganta e na hora de tirar a foto de saída do país, estaria extremamente inchada.
— Eu estou fazendo a coisa certa? — as lágrimas então escorreram pela sua bochecha e a mãe a abraçou forte.
— Você só vai saber quando voltar lá. Se não for, a gente continua tentando de outras formas. Você nunca vai estar sozinha, filha, não se esqueça disso.
concordou com a mãe e pegou sua mochila, que estava nas costas dela. Elas se abraçaram forte, trocaram “eu te amo” e, sem olhar para trás, entrou na sala de embarque se debulhando em lágrimas.
Depois de passar pela segurança, emigração e free-shop, se virou parada em frente ao portão 305 da sala de embarque, onde um letreiro luminoso escrito FRANKFURT brilhava nos seus olhos e atrás do vidro, um dos maiores aviões que ela já viu em sua vida, a convidando para embarcar para o outro lado do oceano. A hora havia chegado.

“She said it’s all or nothing, all or nothing.”


3. BORN TO RUN

{ Someday girl I don't know when we're gonna get to that place
Where we really wanna go and we'll walk in the sun
But till then tramps like us, baby we were born to run}

Era a primeira vez que viajava para fora do país, com exceção das vezes que foi fazer compras com sua família no Paraguai, quando era mais nova. Ao mesmo tempo em que ela estava animada em fazer uma viagem como aquela, estava aterrorizada. Ela adorava aviões, achava fantástico como uma máquina mais pesada que o ar se sustentasse nos céus, mas o máximo que tinha passado em um deles, em pleno voo, fora até Brasília ou Porto Alegre, onde algumas de suas amigas moravam.
Mas onze horas e meia de voo, atravessando o Oceano Atlântico inteiro, de sul ao norte, oeste a leste, era aterrorizante. Tudo o que ela mais queria, era chegar à Alemanha, ouvir pessoas falando uma língua diferente que a sua, e ter a certeza que sua primeira viagem intercontinental realmente estava acontecendo.
Não é que ela tinha medo de voar. Isso é algo que nunca teve, mas por estar apreensiva com um mar gigante abaixo de si, ela tomou um remédio para enjoos assim que o avião deixou São Paulo para trás e logo depois que a janta foi servida, ela estava apagada, com a testa na janela, que tinha as persianas abaixadas.
Um cheiro bom despertou de seu sono, e quando recobrou seus sentidos e finalmente se localizou, conseguia ver que o avião, que antes estava um breu quase completo, com exceção das televisões individuais ligadas, naquele momento, recebia toda a luz solar que era possível, pelas janelas abertas.
A mulher pediu licença aos seus companheiros de fileira e foi ao banheiro fazer suas necessidades fisiológicas, se higienizar e jogar uma água no rosto. Ela estava um pouco perdida, sem saber que horas eram, mas o sol estava brilhando no céu. Algo de bom devia ter naquilo.
Ao voltar para sua poltrona, ela ligou sua televisão individual direto para o mapa que mostrava a posição geográfica do avião. Já estavam no meio da França. Um sorriso brotou nos lábios de e então, ela abriu a janela. Levou alguns segundos para se acostumar com a claridade, mas quando fez, viu abaixo de si, pedaços de terra e lágrimas involuntárias escorreram pela sua bochecha.
Ali, embaixo de si, era a França. Um dos países que ela mais tinha vontade de conhecer em todo mundo, e saber que estava por lá, mesmo que no ar, a deixou emocionada.

Je t’aime beaucoup, France. — Sussurrou para si mesma e então, sentiu alguém cutucar seu ombro.

Ao virar de volta para o corredor do avião, encontrou a simpática comissária sorrindo para ela.

— German or English?
— Oh… English, please! — Ela sorriu de volta.
— Would you like to have breakfast?

Naquele instante a barriga de roncou. Não era para menos, havia aproximadamente nove horas que ela tinha se alimentado pela última vez.

— Yes, thank you.

A mulher serviu que tratou de comer o que estava na bandeja à sua frente. Estava voando com uma empresa alemã, para a Alemanha. O café da manhã então era tipicamente do país em que estava indo. Ela agradeceu o pão com queijos, mas achou estranho encontrar os embutidos por lá. Salsichas, de diversas formas e um café preto bem forte.
Ela quase cuspiu aquela xícara na poltrona à frente, mas tratou de engolir e após aquilo, passar os cinco minutos seguintes fazendo caretas ao ainda sentir a bebida em suas papilas gustativas e garganta.
Não demorou muito para pousar no Frankfurt Flughafen, e só sabia que aquilo significava Aeroporto, pois estava escrito quando emitiu suas passagens, e em um letreiro bem grande de frente para o pátio dos aviões.
Finalmente em terra, após 11h30 de voo. Levou certo tempo até abrirem as portas do avião, após a parada completa da aeronave e, apesar da paixão por aviação, ela nunca se sentiu tão feliz em deixar uma aeronave para trás.
Apesar das placas tanto em inglês, como em alemão, , acompanhada de sua mochila, seguiu o fluxo até os oficiais de imigração, onde tinha uma longa fila, devido à quantidade de voos que estavam chegando ao mesmo tempo na cidade onde abriga o centro financeiro alemão.
Ao parar na fila, ela pegou em sua mochila seu celular, para buscar um Wi-Fi, e a pasta de documentos que havia levado exatamente para aquele momento. Estava nervosa, pois não falava absolutamente nada em alemão — com exceção de algumas palavras básicas, como Hallo, Guten Morgen, Ich Liebe Dich — então passar em sua primeira imigração na vida, em uma língua que ela desconhecia, não seria uma tarefa muito fácil.
Depois que seu celular encontrou uma conexão Wi-Fi, tinha certeza que seu aparelho iria explodir a qualquer momento. As mensagens e notificações de suas redes sociais não paravam de chegar, e ela precisou até tirar o som de seu aparelho, para que ninguém se sentisse incomodado. Naquele momento, havia apenas duas pessoas que ela precisava informar que estava no chão: sua mãe, e .

“Cheguei em Frankfurt e estou na fila da imigração. Aviso quando sair daqui para Dortmund. Beijos.”

A mensagem foi padrão tanto para sua mãe, quanto melhor amiga. Olhando o relógio, sabia que talvez sua mãe estivesse se levantando naquele momento, em seu apartamento em São Paulo, para voltar para sua casa no interior. Talvez a resposta dela iria demorar um pouco mais. Logo ela sentiu o telefone vibrar em suas mãos e ela viu o nome de na tela.

“Willkommen! Mostre a carta do Marco para o oficial de imigração. Pelo amor de Deus, não vai tentar falar alemão e estragar tudo, ! A hora que você chegar, Marco vai ter ido ao treino, mas eu e Nathan vamos te buscar, vem logo!”

às vezes tinha certeza que se achava a mais sensata da dupla. podia sim ser a mais chorona, mas sempre foi a sem noção, e chegar em uma imigração na Alemanha, tentar falar alemão sem saber falar alemão, era exatamente o tipo de coisa que ela tinha certeza que a amiga faria.
A fila então andou mais um pouco e finalmente a vez de havia chego. Com um sorriso no rosto, ela se dirigiu até o balcão onde o segurança a indicou e apoiou sua pasta com os documentos, entregando seu passaporte para a oficial.

Guten Morgen. — A mulher falou. disse para ela não arriscar falar alemão, mas ser simpática com quem podia definir se ela entrava ou não no país, não iria matá-la.
Guten Morgen. — respondeu.

A mulher sorriu para ela e abriu o documento, encontrando o visto de estudos dela, e alternando o olhar do passaporte, para a mulher à sua frente, e então o inverso. então pegou dentro da pasta tanto a matrícula no ISM, quanto a carta convite do marido de e entregou para a mulher. Ela deixou, a primeiro momento, a carta de lado e passou seu olhar pelo documento do Instituto, que informava que faria um curso em inglês por lá. Então, olhou para .

Do you speak German? — Perguntou em inglês para .
No, just English.
Right — A mulher sorriu mais uma vez e então pegou a carta-convite. Ela passou um tempo lendo, e ao finalizar, leu mais uma vez. E então, voltou a pergunta em inglês: — Quem escreveu essa carta?
— Marco Reus, marido da minha amiga.
— Quem escreveu a carta? — A mulher repetiu a pergunta, e teve quase certeza que seu nervosismo a fez falar baixo demais.
— Marco Reus. — Elevou um pouco o tom de voz. — Minha amiga brasileira se casou com ele, e eu vou ficar hospedada em sua casa durante a estadia em Dortmund.

A oficial de imigração então se levantou e foi até a cabine ao lado, mostrando para seu colega de trabalho, a carta digitada, mas assinada à mão pelo marido da amiga. Se já estava extremamente preocupada em passar pela imigração, com aquela atitude, seu nervosismo havia atingido níveis que ela jamais pensou ser possível.
A oficial de imigração voltou para sua posição e encarou .

— Você conhece esse homem que escreveu a carta para você?

“Respira fundo, . Você não fez nada de errado, não tem porque ficar nervosa.”

— Sim, eu o conheci pessoalmente quando ele e sua esposa, minha amiga, foram ao Brasil oficializar o casamento deles com família e amigos. Eu estive presente e fui madrinha.
— Você sabe quem é Marco Reus?

E foi nesse momento que um estalo surgiu na cabeça de . Para ela, Marco era apenas um cara legal com quem a amiga se casou e que, eventualmente, tinha como profissão, jogar futebol em um grande time do país. Mas para todo àquele país, ele era Marco Reus, o jogador de futebol de um time e também da seleção alemã, ídolo de vários e que se casou com uma brasileira que ele conheceu em uma boate.
Como não pensou que iriam achar que aquela carta-convite era, nada mais nada menos, que uma carta com uma assinatura falsa?

— Eu sei que ele é ídolo de boa parte do país, que é apaixonado por futebol, mas eu não sabia quem ele era até a o apresentar para mim e falar o que ele faz para ganhar a vida. Na carta tem o número do telefone deles em Dortmund, você pode ligar que todas as informações que eu dei serão confirmadas.

não sabia mais o que fazer. Marco quem assinou a carta porque ele é o único nativo alemão que ela conhece. A mulher estava quase se ajoelhando ao lado da cabine da oficial de imigração e suplicando para que ela desse o carimbo e a liberasse para seguir seu caminho.

— Qual é o nome da esposa do Marco Reus?
Reus. é o sobrenome brasileiro. Ela adotou o Reus após eles se casarem. E eles têm um filho que vai fazer dois anos na semana que vem, o nome dele é Nathan. Nathan Reus.

Não tinha como duvidar daquelas informações com a propriedade que falava. Ela citou casamento no Brasil, nome brasileiro de e dezenas de outras informações que ela só conseguiria saber de duas formas: sendo uma stalker louca, que havia falsificado uma carta e a assinatura de Marco, ou conhecendo de verdade.
A oficial de imigração então olhou para os carimbos ao seu lado e pegou um. fechou os olhos e sentiu as lágrimas trancarem sua garganta. Se aquele carimbo fosse o de extradição, não só como seus planos e sonhos, como todo o dinheiro que ela investiu para chegar ali, estavam sendo jogados na lata do lixo.

— Você pode ligar para…

Não deu tempo de ela acabar a sua quase súplica. A mulher apertou o carimbo no passaporte dela e o fechou, entregando a ela junto com os documentos que havia mostrado a oficial anteriormente.

Willkommen! — E então sorriu para — Você sabe como sair do aeroporto?

estava atônita e quase não prestava atenção ao que a mulher lhe falava. Estava quase certa que, em sua primeira viagem internacional, primeira vez na Europa, iria embarcar no avião que voltaria a São Paulo, tendo uma extradição em suas costas. Mas não, estava completamente legal e livre para andar não só pela Alemanha, como por toda a União Européia.

— Vou pegar um trem aqui no aeroporto para Dortmund.
— Boa viagem! — A mulher então disse e fez sinal para o segurança, que indicou a cabine à outra pessoa.

então pegou sua mochila que estava no chão e levou de volta para as suas costas, caminhando rapidamente para o mais longe possível da imigração, até a restituição de bagagens. Enquanto esperava sua mala aparecer na esteira, ela sentiu a adrenalina baixar e o choro finalmente atravessar sua garganta e as lágrimas escorrerem pela bochecha.
Nota mental: nunca mais permitir que uma estrela mundialmente conhecida do futebol, assine a sua carta-convite para ficar hospedado na casa dele.
Ela tentou se livrar das lágrimas que ainda insistiam em cair pelo seu rosto e finalmente sua mala apareceu na esteira. a pegou, e arrastando-a pelo aeroporto, finalmente desembarcou. Ao seu lado, pessoas falavam as mais diversas línguas e ela olhava encantada para tudo aquilo. As placas estavam escrito em alemão, as lojas tinham nomes na língua do país e o valor de tudo, era dado em Euro.
Era oficial, estava na Alemanha e na Europa!
No meio da multidão e placas, elas procuraram algo que se assemelha a um trem e encontrou a figura do mesmo, ao lado de uma palavra estranha. Fernbahnhof. Ela caminhou até o local indicado e finalmente encontrou a estação de trem.
Com sua passagem, comprada anteriormente no Brasil, ela adentrou a estação e encontrou a plataforma de onde partiam os trens com destino a Kiel, com parada em Dortmund. Quando o trem encostou, entrou nele, colocou sua grande mala no espaço reservado e sentou na poltrona que havia sido reservada.
Mais três horas de viagem e finalmente chegaria ao seu destino final.

não tinha sono e sim, curiosidade, portanto não se preocupou em dormir quando o trem se soltou da estação e começou seu caminho pela Alemanha. Afinal, ela havia dormido o suficiente durante o voo e tinha certeza que não iria sofrer do tal jet-lag, que todo mundo costumava falar.
Estava previsto cinco paradas do trem antes de chegar a Dortmund e seus olhos ansiavam por cada uma delas. Algumas ela já havia ouvido falar, como Köln, e sua conhecida catedral gótica. Além de Düsseldorf, uma das maiores cidades da Alemanha, e um importante centro econômico e cultural. Também pararia em Duisburg, que ela nunca havia ouvido falar. Além de algumas cidades menores, como Essen e Bochum onde, ao chegar à última, sabia que Dortmund era a seguinte e seu coração começou a bater mais forte.
Os quinze minutos que separavam Bochum de Dortmund pareceram mais longos que todo o voo do Brasil até a Alemanha. observava as casas que separavam uma cidade da outra e ao perceber mais movimento, procurou enxergar seu reflexo no vidro do trem e ajeitou seu cabelo e cara de cansada. Ela percebeu a velocidade diminuindo até que finalmente, a parada completa na Dortmund Hauptbahnhof. se levantou, pegou sua mala e saiu do trem, caminhando ao lado do mesmo, até a porta onde era dado o desembarque. Assim que saiu, não pode deixar de ouvir uma voz gostosa chamando por ela.

Tante !

A mulher parou no meio do caminho e olhou ao seu redor, procurando de onde aquela voz tinha vindo quando percebeu, à sua frente, um menino que não devia ter nem um metro de altura, cabelo loiro e liso, e olhos verdes correndo em sua direção.
se abaixou e assim que ele a alcançou, o pegou no colo.

Hallo, Nathan! — Ela sorriu para o menino que estava abraçado ao seu pescoço.
Hallo, Tante! — Ele repetiu a palavra que tanto amava ser chamada e, finalmente, tinha aquele menino que ela amava igualmente em seus braços. — Tante, você veio!
— Eu vim, meu amor! — espalhou beijos no rosto do sobrinho que tinha as mãozinhas na mochila que ela ainda carregava em suas costas. — Onde está a sua mãe?
— Quase enlouquecendo porque esse menino te viu antes de mim e saiu correndo e eu, que estou sem óculos, levei um tempo para te achar! — A voz de surgiu, após uma disparada de palavras e então, se jogou no braço da amiga, que tinha Nathan no colo. — Eu não acredito que você está aqui!
— Eu também não acredito que eu estou aqui! — comentou, ainda com o sobrinho no colo, e passando um braço pela amiga. — Meu Deus, eu não acredito que eu estou com vocês.
— Sem chorar, ! — comentou, ainda abraçada na amiga.
— Me deixa! — A mulher comentou rindo e logo sentiu uma mãozinha em seu rosto.
— Não é para chorar, Tante! — Nathan pediu, limpando uma lágrima que escorria pela bochecha da tia.
— Não vou, meu amor, a Tante não vai. — pegou na mãozinha dele e deu um beijo.
— E então, como foi de viagem? — perguntou, ao soltar do abraço. — Veio acordada de São Paulo até aqui?
— Então… — As duas, e Nathan no colo de , começaram a caminhar até a saída da estação. — Eu fiquei com medo de a ansiedade não deixar eu dormir. Aí eu tomei um remédio e acordei na França.
— Deus, eu te odeio! — murmurou e gargalhou ao ouvir aquilo. — Tira a mão e me deixa puxar essa mala.
— Tá irritada, é? — brincou.
— Tô com raiva porque eu não consigo dormir daqui até Berlim, você dorme do Brasil até aqui! — não se aguentava de rir. Cinco minutos na companhia da melhor amiga e ela já havia percebido que absolutamente nada tinha mudado. — Então me deixa arrastar a mala até o carro. Você está com fome, ? Eu estou, e estava esperando você chegar para almoçarmos juntas.
— A última vez que eu comi foi um café da manhã no avião, então eu não me importaria de comer um lanche com batatas fritas e Coca-Cola imensa do McDonald’s.
— McDonald’s! — Nathan se animou nos braços da tia. — Mama, a gente pode ir ao McDonald’s?
— Tá vendo o que você fez? — pegou a chave do carro dentro de sua bolsa e desarmou o alarme do mesmo, abrindo as portas. — Se eu deixo, ele e Marco vivem à base de McDonald’s. — E então se virou para o filho: — Nós vamos ao restaurante de macarrão que seu Papa adora, que tal?
— Seu marido não tem, sei lá, uma dieta louca e restritiva para manter a forma e o ritmo em campo?
— Deveria. Mas ele usa o Nathan como escudo e se enche com os lanches mais gordurosos possíveis e depois se tranca na academia e fica lá por cerca de cinco horas. E o Nathan ama batata frita. Chega a ser ridículo.
— Me pergunto quem é a mãe dele. — brincou e deu de ombros.

Os olhos verdes do menino brilharam e, ao ver que estavam se aproximando do carro da mãe, deu um jeito de pular do colo da tia e foi em direção ao veículo, abrindo a porta de trás.

— Esse menino tem dois anos mesmo?
— Não. Um ano, onze meses e vinte e três dias. Dois só na semana que vem. — parou para observar à amiga e não pareceu ter achado graça na piada. — Sim, ! Ele tem quase dois anos, não me pergunte, mas ele é inteligente e descobre coisas novas a cada dia. Você vai ver.

Ao ficarem ao lado do carro que mais cedo havia desarmado o alarme, pôde ver que era uma Range Rover Evoque e seu queixo foi ao chão.

— Land Rover, uh? Realizou seu sonho da faculdade, .
— Ah… — deu um sorriso amarelo. — Presente de aniversário do Marco. Mas não se espante se você chegar em casa e achar que aquilo é uma loja de carros. Daqui a pouco ele derruba a parede da cozinha para caber mais na garagem.
— Uau, têm muitos assim?
— Com o meu? Seis carros. — Os olhos de arregalaram. — Me diz pra quê uma pessoa precisa de seis carros, ? Pra quê?

A verdade é que era tão acostumada com Marco, que ele era o marido de sua melhor amiga, que no fundo, ela dificilmente lembrava que ele era uma das estrelas do futebol alemão, e que ele provavelmente fazia uma boa fortuna com aquilo. E era exatamente por tratá-lo como Marco, e não como Marco Reus, uma pessoa normal, que ela não via nele o que o resto do país via.

— Eu não sei por que ele precisa de cinco carros, já que um é seu. Mas… — abriu o porta malas e com dificuldade, colocou sua imensa mala lá dentro. — Mas se ele gosta, não é mesmo?
— Você sabe quanto custa bancar todos esses carros por ano? Enfim, me conta tudo, tudo! Como foi passar pela temida imigração alemã?
— Meu Deus, você nem imagina… — ia dizendo enquanto se esticava pelo banco de trás do carro para prender Nathan. — Deus gosta muito de mim, se não hoje mesmo eu estava em um avião de volta para o Brasil.
— Ai que horror, , nem brinca com isso. Você tentou falar alemão, né? Eu falei pra você não falar alemão! — fechou a porta de trás e fez sinal para que a amiga entrasse ao seu lado, no banco da frente. — Mas me diz, o que aconteceu?
— A oficial simplesmente achou que a carta do Marco era falsa.
— É o quê? — deu a partida e olhou para trás, para poder dar ré.
— Claro… O que eu, uma brasileira qualquer, iria fazer com uma carta de Marco Reus me convidando para ficar na casa dele?

E então, durante todo o caminho até o restaurante preferido de e Marco, contou para a amiga suas aventuras pela imigração alemã até sua quase súplica, quando achou que estava a um passo de ser deportada de volta ao Brasil.

• • •

O treino em Brackel mal tinha chegado à metade, e os jogadores já estavam enjoados. Já era quase meio de Dezembro, eles mal podiam esperar pelo último jogo da temporada, voltar às suas casas, colocar uma roupa bonita e se esbaldarem na festa que o time dava todo fim de ano. Ainda tinha alguns dias para a festa, mas eles ao menos esperavam o horário que Thomas Tuchel encerrasse o treino, para poderem se reunir com alguns petiscos e bebidas.
E naquele dia, mais do que nunca, Marco Reus queria juntar os amigos.

— Mario, Marc… — O jogador chamou os amigos que estavam mais próximos. — Quais os planos para hoje à noite?

Os dois amigos deram de ombros e balançaram a cabeça. Não estavam lembrando de nada programado, a não ser que suas mulheres já tivessem e não os informou.
— Vamos lá pra casa beber. A melhor amiga da chegou do Brasil, e como ela vai passar quatro meses aqui, acho que seria legal ela interagir e tudo mais, conhecer as pessoas.
— Acho que não tem problemas. — Mario deu de ombros. — Eu posso conversar com a Ann. Tenho certeza que ela vai gostar. Tem problema, ela ir?
— Não, imagina! Quanto mais gente a conhecer, melhor! Ela veio do Brasil para tentar resolver uns problemas pessoais, sabe? Então a minha intenção e da é ela ser bem recebida mesmo, de braços abertos. — E então se virou para Marc. — Bartra, você e a Melissa topam?
— Com certeza. Acho que não teria problema em levar a Gala, tem? — Marco negou com a cabeça. — Digo, acho que seria até bom ela e o Nathan brincarem.
— Maravilhoso! — Marco se animou. — Assim que acabar o treino, eu vou passar em um lugar, compro as bebidas e informo a .
— Você o quê? — Os três estavam alongando e, naquele momento, mudaram de posição.
— Você está organizando uma festa na sua casa e a ainda não sabe? — Mario não se aguentou em risadas
— Ah, Marco Reus, você é um homem morto.
— Não sou, porque eu tô fazendo isso pela amiga dela. E é ridículo como as duas são grudadas, diria que são quase irmãs. Se fosse sem motivo… É, talvez eu seria um homem morto! — Os três homens gargalharam. — Por favor, posso esperar vocês umas oito da noite?
— Sem problemas, mas se por acaso começar a ter indícios da te matando, você pode avisar antes? Sei lá, para nós não sermos cúmplices.
— Aviso, mas ela não vai me matar, Marc… — Marco pareceu pensativo. — Eu acho.
— Ei, vocês! — Uma quarta voz entrou na rodinha e eles encontraram André Schürrle parado. — Qual o assunto?

André estava um caco. Sua barba estava ridícula de grande e suas olheiras estavam profundas. Não era à toa que Tuchel havia o tirado do time titular e só o colocava em campo, em última hipótese. Quando aquilo acontecesse, é sinal claro de que o treinador do Borussia Dortmund já estava em completo desespero.

— Vamos beber umas cervejas lá em casa hoje, cara! Vamos? — Marco disse animado, para que André se sentisse convidado e bem vindo. — É só chegar umas oito da noite.
— Valeu, Marco. Não quero ser o chato da noite de vocês, mas espero que se divirtam.
— Vamos, cara! — Mario incentivou. — É só a gente, , Melissa e Ann. Só pessoas conhecidas, você precisa se animar um pouco.
— Três casais… — André soltou uma risada irônica. — Eu realmente passo.
— Não, André, não somos só casais, a
— Obrigado pelo convite! — André deu de ombros sem nem deixar Marco acabar de falar. — Mas para ninguém falar que eu sou chato, eu vou semana que vem no aniversário do Nathan.
— Que bom, meu amigo. Ele iria ficar decepcionado caso seu Onkel preferido não fosse.

André deu um sorriso amarelo e seguiu seu caminho, deixando os três outros amigos ali, com cara de quem não entendeu nada. Marco realmente estava preocupado com o amigo.
— Já faz dois meses que a Olivia o deixou, e ele ainda está assim. Se a descobre, ela me mata, mas eu já ofereci a levar o André até em um puteiro, para ver se ele anima, e ele continua assim…
— Ele e a Olivia estavam noivos, né? Ela simplesmente o abandonou com uma mensagem, um anel em cima da mesa da sala e sumiu no mundo. Ela não falou com mais ninguém. E ela, a Ann e a Melissa eram super amigas.
— Ela e a saíram algumas vezes também, mas por causa do Nathan ficava um pouco mais complicado. Eu não sei mais o que fazer para ajudar esse nosso amigo. Ele perdeu a titularidade no time, vocês sabem o que é isso? André Schürrle, reserva? Não… É ridículo.
— Marco… Ele só vai sair dessa, quando ele resolver que quer sair dessa. Enquanto isso, não existe nada que a gente possa fazer. É só não deixar ele entrar em depressão.
— Você tem razão, Marc… — Marco virou o olhar de volta, depois de André sumir para dentro dos vestiários de Brackel. — Mario, o que acha?
— Eu estou preocupado com algo. — Mario então falou para os amigos, que pediram para que ele continuasse. — Que história é essa do André ser o Onkel preferido do Nathan?

Marco e Marc trocaram olhares incrédulos aposto à pergunta de Mario e, já que ele estava se alongando com as mãos no chão, o empurraram, e ouviram protestos.

• • •

Depois de passarem um bom tempo almoçando e tentando colocar o papo em dia, colocou o carro na garagem de casa, que fica um pouco afastada do centro de Dortmund, e junto com a amiga, entrou, apresentando-a.

— Uau, uma prateleira de prêmios.
— Você acredita que a única pessoa que chega perto dessa estante, é o Marco? — colocou a bolsa em cima do sofá. — Ele pega, ele tira o pó e ele guarda no lugar.
— Pelo menos ele limpa. — apontou para um troféu em formato de taça. — Daria para beber ali dentro? Tipo… Uma cerveja?
— Com toda certeza do mundo.
Tante! — Nathan, que tinha saído correndo para dentro de casa, voltou. — Tante, vem no meu quarto! — O menino pediu e estendeu o braço para ela.
— A sua Tante está cansada, Nathan. — falou para o filho, que olhou novamente para a tia, como se quisesse que ela confirmasse o que a mãe falava. — Ela veio de muito longe e vai ficar um tempão com a gente. Você podia deixá-la descansar.
… Tá tudo bem!
— Vou levar a sua mala para o seu quarto.

A casa de e Marco Reus, era térrea, mas bem espaçosa e, pelo que pôde ver pela porta de vidro na sala principal, com um jardim imenso. Sem contar com a garagem, que a amiga já tinha alertado antes, que cabia seis carros. Ou seja, uma típica casa de jogador de futebol.
pegou no braço do sobrinho que estava a chamando e de mãos dadas com ele — e as costas arqueadas para poder alcançá-lo — caminhou pelos corredores do local, sem deixar de olhar pelas portas, com curiosidade. Nathan então a fez virar e ela entrou em um espaçoso quarto infantil.
O quarto de Nathan era inteiro branco, mas a decoração era em preto e amarelo. Havia pelúcias de bola de futebol espalhada nos cantos, uma poltrona na cor amarela e em cima da cama, uma abelha de pelúcia, com o uniforme de um time de futebol.
tinha quase certeza que aquele era o time que o pai do menino jogava.

— Que quarto lindo! — falou, se abaixando para pegar uma das bolas de futebol no chão. — Você gosta de futebol? — Nathan balançou a cabeça afirmando. — E qual é o nome dessa abelha?
— É a Emma, Tante! Ela é do time do papai.
— Oi, Emma! — Ela falou para a abelha.

tinha certeza que aquele era o time que Marco jogava. Nathan apenas confirmou, pois não é como se ela se importasse com a profissão do marido da amiga. Se ele fizesse ela e seu sobrinho feliz, ele poderia ser qualquer coisa que quisesse.
então olhou em volta do quarto e captou algo que seus olhos ainda não tinham visto. Um uniforme do time, para bebês, emoldurado. Na camiseta estava escrito MINI REUS e ela achou extremamente adorável.

— E quem usou aquela roupa ali?
— Eu! Quando eu era bem pequenininho. — Ele sorriu e sentiu vontade de morder as bochechas daquele pedaço de gente que se sentia adulto.
— Você é pequenininho, Nathan.
— Mais pequeno, Tante! — Ele argumentou e a mulher sentiu seus dentes rangerem, para conter a vontade de apertá-lo.
— Ele foi pro estádio pela primeira vez com seis meses. — A voz de chegou aos seus ouvidos e virou, encontrando a amiga no batente da porta. — Na véspera o Marco chegou em casa com esse uniforme completo e um mini par de chuteiras, que eu tenho guardado e vou guardar para sempre. Depois do jogo o Marco autografou a camiseta — ela apontou — E a mãe coruja e tonta aqui mandou fazer isso.

então se aproximou do quadro e pôde ver o autógrafo de Marco. Ela semicerrou os olhos para ler o que estava escrito.
Ich Liebe Dich… conseguiu ler e sorriu para a amiga. — Ei, isso eu sei! — retribuiu o sorriso para . — Ich Liebe Dich, Mein… Mein…
Ich Liebe Dich, Mein Liebe. — se aproximou do quadro e o apreciou, ao lado da amiga. — Significa “eu te amo, meu amor”, em alemão.
— Esse menino está crescendo bilíngue.
— Pois é. — riu. — O Marco conversa com ele em alemão. Eu, que nem tenho o alemão tão bom assim, falo com ele em português e é por isso que vocês conseguem conversar. E quando estamos eu e o Marco, a cabeça dele se confunde, tadinho.
— Mas vai ser bom. Dizem que criança que aprende outra língua mais cedo, tem mais chances de desenvolver a fluência nela.
— Assim espero, porque eu tenho planos de levá-lo para o Brasil assim que der, para conhecer a minha família. Ele só conhece a Oma e o Opa daqui, não é, Liebe?

Nathan não estava prestando mais atenção. Ele estava entretido na televisão que passava algum desenho, que não sabia falar qual era, e também não conseguia entender, pois era completamente em alemão.
fez sinal para que a amiga seguisse, e ela foi.

— Aqui é o meu quarto e de Marco — e deu espaço para a amiga passar.

Era um quarto sóbrio, em tons claros e sem nada que chamasse a atenção, exceto talvez, pela almofada roxa em cima da cama, que sabia que era de , um imenso urso de pelúcia numa poltrona e algumas chuteiras e bermudas espalhadas pelo chão.
— Marco saiu de casa depois da gente e deixou rastro. — cerrou os olhos e chutou para dentro do closet. — Ele que arrume depois.
— E o seu closet?
— Ah… — então abriu uma porta e um imenso closet, com bancada, mesa e prateleiras para todos os lados brilhou à sua frente.
— Uau. É tudo que eu posso falar, uau, .
— Eu sei. Confesso, eu não ligo para todos os luxos que o Marco pode proporcionar a nós, eu realmente não me importo com ostentação, aquele carro sempre foi meu sonho, mas eu não achava que precisava e para mim, o apartamento que a gente morava em Phoenix-See antes de o Nathan nascer, estava suficiente, mas ele quis vir para essa casa enorme por causa do nosso filho. Mas esse armário, minha amiga… Esse armário é uma das coisas que o dinheiro podia comprar que eu fui e comprei.
— Mas você está certa, a gente não leva nada dessa vida. Caixão não tem gaveta, . Eu quero trabalhar para me realizar profissionalmente, você sabe como eu sempre sonhei. E não para ficar muito rica… — então colocou a mão no queixo. — Se bem que ir para Paris não seria uma má ideia.
— Mude-se para Dortmund e vamos para Paris.
— Ah claro… Porque é muito simples sair do Brasil e simplesmente se mudar para a Alemanha.

olhou séria para a amiga que gargalhou.

— A não ser que você seja , nesse caso, sua vida pode mudar completamente.
— Podia ter sido a sua, mas você não me ouve.
— E eu ia saber que aquela seria uma das piores decisões que eu tomei na vida?
— É… Nesse sentido a vida é muito injusta mesmo. — então fechou a porta do closet — Vem, eu vou te mostrar o seu quarto.

O quarto em que ficaria hospedada era um dos primeiros do hall de quartos, ao lado do de Nathan. abriu a porta e pôde ver que as janelas estavam abertas e ele recebia iluminação natural. A cama estava arrumada e, assim como os outros quartos que ela conheceu, também tinha a decoração na cor branca. Tanto nos móveis, como na parede.

— Esse é o seu quarto pelos próximos quatro meses, não sei se está bom, mas é o que eu posso te oferecer.
… — levou a mão à boca. O quarto era imenso e espaçoso, com uma janela com vista para o jardim e piscina da casa, um armário que ocupava uma parede inteira e uma cama de casal. podia dizer que era maior que os dois quartos do apartamento dela no Brasil. — Eu juro que se você me oferecesse um colchão no quarto do Nathan, eu não ia reclamar.
— Que colchão da onde, . — falou o nome composto da amiga que a olhou de lado — Te chamei pelo nome inteiro mesmo. Você está morando aqui temporariamente, e não de passagem. Esse é o seu quarto. Você fica à vontade para se mudar. Coloque suas roupas no armário, se quiser nós vamos comprar um pouco de decoração para ter uma cor aqui. Tem tomada para todos os lados e tem alguns adaptadores para você em algum lugar do armário.
— Acho que eu não te mereço.
— Não, , eu quem não te mereço. Agora, fique à vontade. Você precisa descansar. Tire um cochilo, tome banho. Se quiser comer algo pode ir na cozinha, pode ir na sala ligar a televisão, minha casa é sua casa.
— Os tempos são outros, .
— Minha casa é a sua casa, . — repetiu e saiu do quarto deixando a amiga sozinha.

tinha certeza que estava maluca. Imagina perguntar se aquela mansão era suficiente para ela. A mulher, neurótica por organização, então abriu o armário e com facilidade achou os adaptadores que a amiga havia falado e aos poucos, foi desfazendo sua mala, colocando cada coisa em seu devido lugar. Ela também desfez a mochila, onde estava seus eletrônicos, e arranjou local para eles pelo quarto. Assim que tudo estava pronto, ela guardou a mochila dentro da mala e a colocou dentro do maleiro. então pegou uma troca de roupa e seu kit de higiene pessoal e foi ao banheiro. Escovou seus dentes e entrou no chuveiro quente. Quando saiu, aproveitou a espaçosa cama a convidando para um cochilo e lá apagou.

• • •

Quando acordou, já era noite no céu e ela ficou um pouco confusa que horas eram. Já tinha lido em algum lugar que durante o inverno europeu, os dias eram menores e escurecia ainda durante a tarde, mas ao pegar seu celular na mesa de cabeceira, pode constar que já eram sete da noite. Ela ouvia alguma conversa em alemão vindo de outro cômodo da casa e se levantou, indo ao banheiro para jogar uma água no rosto. Ela então saiu do quarto e pôde ouvir Nathan comentar.

— A Tante tá acordada!

não pôde deixar de sorrir e foi até a sala, encontrando o sobrinho que estava na televisão jogando videogame com o pai. Quando Marco viu , pausou o jogo e se levantou, caminhando de braços abertos em sua direção.

Willkommen, ! — E a abraçou.
Sie spricht kein Deutsch, Marco! — apareceu na cozinha e sorriu para a amiga. — Eu disse a ele que você não fala alemão.
— Mas eu acho que ele me desejou boas-vindas, não foi? — perguntou para o marido da amiga que concordou. — O que estão jogando?
— Futebol, Tante! Quer jogar?
— Eu troco os nossos controles para ele achar que está ganhando, quando na verdade, sou eu quem estou. — Marco contou em segredo para , que não pôde deixar de rir. — Mas é verdade, você quer jogar?
— A vai ter muito tempo para sair daqui odiando futebol… Ou sendo uma torcedora fanática. — corrigiu, ao lembrar da possibilidade. fez sinal indicando que aquilo talvez pudesse acontecer.
— Obrigada, meninos, vou ficar um pouco com a .
— Você também vai ter muito tempo para ficar com a , sair daqui às vezes até odiando ela. — Marco comentou e não pôde deixar de rir. — Brincadeira, , seja bem-vinda. Fique à vontade.
— Obrigada, Marco. — Ela sorriu para o marido da amiga e entrou na cozinha. — Uau, vai ter festa e ninguém me avisou?

A cozinha de estava cheia. Alguns petiscos, bebidas, e outras guloseimas estavam por ali espalhados, além das famosas linguiças e queijos alemãs.

— Vai, e o Marco só me avisou a hora que ele chegou do treino. — balançou a cabeça concordando. — Alguns amigos dele do time vão vir para cá com as esposas e namoradas, a gente costuma fazer isso com frequência. Aí nós ficamos bebendo algo, eles jogam videogame, as mulheres conversam… Essas coisas.
— Sei, era uma delícia quando a gente fazia isso no Brasil, lembra?
— Lembro! Normalmente era na sua casa, porque tinha mais espaço, e a galera sempre perdia hora e ficavam espalhados pelos cômodos.
— Que época maravilhosa, meu Deus. Mas então, como eu posso te ajudar?

abriu um armário e entregou alguns potes para a amiga.

— Separa os petiscos aqui, por favor. Eu tô apanhando dos queijos e embutidos, mas vai dar tudo certo. Se você puder fazer isso, já me ajuda.
— Amendoim? — disse ao abrir algumas das sacolas. — Não sabia que vocês também usavam amendoim como petisco aqui.
— Eles não usavam… Aí eu cheguei. — piscou para a amiga e as duas riram.
— Certo. Erm, … Que horas vocês marcaram? Só para eu ficar no meu quarto e não atrapalhar vocês.
— Ninguém vai fugir! — A voz de Marco veio da sala. — Você é nossa convidada de honra e o motivo pelo qual Marc e Mario vêm para cá hoje, !
— Como assim? — A mulher olhou assustada para a amiga.
— Marco contou para eles que você estava chegando e os chamou para vir aqui, para você conhecer mais gente além de nós. Afinal, é uma viagem de quatro meses, , não, uma semana. Nós queremos que você se enturme. — abriu a boca para argumentar, mas foi mais rápida. — E não reclame.

abriu a boca novamente, sem ter argumentos e continuou a ajudar à amiga.

Não demorou muito para que os amigos de Marco chegassem com suas respectivas mulheres e, um deles, com uma adorável criança que deveria ter a idade de Nathan. A pequena Gala tinha dois anos, olhos azuis e parecia uma boneca de tão adorável.
Ela tinha vindo com seus pais, Marc e Melissa, que logo descobriu serem espanhóis e talvez aquele fosse o motivo de já chegar fazendo brincadeiras e conversando e a mulher do jogador abraçava dizendo bienvenida repetidas vezes. Mario e Ann eram os típicos alemães, mais fechados e concisos, mas de qualquer forma, também estavam se mostrando felizes em conhecê-la. estava abismada com a beleza das mulheres. era uma mulher linda, mas ela já a conhecia, não estava surpresa com sua beleza. Em contrapartida, ela já tinha achado Melissa maravilhosa quando adentrou pela porta — e não era à toa que Gala era uma criança igualmente maravilhosa —, mas a beleza de Ann, namorada de Mario, a deixou de queixo caído.
Mas, apesar dos pesares, era uma garota tímida e por causa disso, estava com uma cerveja na mão que Marco havia oferecido a ela, e se limitava a responder apenas o que a perguntava. Não queria parecer ser arrogante, mas como seu vocabulário alemão e espanhol era praticamente zero, e seu inglês não era fluente, preferia se limitar aos yes or no, além de concordar ou discordar com a cabeça.

— Então, ! — Mario então colocou sua cerveja na mesa e, com um braço passado pelas costas da namorada, chamou a mulher. — Até agora você só balançou a cabeça e falou pouco, conta para nós sobre você.
— Ah… — Ela sorriu tímida. — Na verdade, nem tem muito o que contar, eu não sou interessante.
Bullshit! — falou e rolou os olhos. — É a pessoa mais inteligente que eu já conheci. Vai sair daqui, se sair, falando alemão melhor do que eu.

— É verdade! Sempre tirou as notas mais altas da sala, os professores só sabiam falar o nome dela na formatura. Sempre sendo exaltada e maravilhosa. Pelo amor de Deus, . Não se diminua.

sentiu que um buraco poderia abrir abaixo de si a qualquer instante e ela sumir para dentro dele. Ela então tomou mais um gole de sua cerveja e respirou fundo. Se teria que fazer aquilo, que fosse com álcool no sangue.

— Digamos que eu sempre fui muito dedicada em relação aos estudos, sempre gostei bastante. Talvez por isso eu tenha tirado algumas notas boas.
— Todas… — corrigindo, fingindo que estava tossindo.
— Tudo bem, eu fui muito bem na faculdade. Meus professores me fizeram acreditar que eu conseguiria emprego em qualquer lugar que eu quisesse, e é por isso que eu não vim para a Europa com a há cinco anos, porque eu queria trabalhar. Os anos foram passando, o cenário econômico do Brasil foi indo de mal a pior, quem tinha emprego era demitido e eu estava investindo em pós-graduação, cursos de línguas, para ter um currículo de peso e conseguir o sonhado emprego. Enfim… Um dos últimos não que eu recebi foi à gota d’água e pela primeira vez eu estudei sair do Brasil. Na época chegou o convite do aniversário do Nathan, uma carta da me convidando para vir aqui, eu investi em uma especialização no exterior e bem… Eu estou na Alemanha matriculada na ISM.

Depois do discurso de , a mesa ficou em silêncio por alguns instantes e o único barulho que se ouvia, era da televisão na sala onde Nathan e Gala assistiam Procurando Nemo. Até que Ann quebrou o barulho inexistente.

— Garota, você arrasa!

olhou para a bela mulher à sua frente e quis gargalhar. Quem arrasava era ela, que namorava um jogador de futebol, era esbelta, tinha um rosto incrível e além de tudo, era modelo. E não , que não tinha emprego.

— Como você sabe, nós somos espanhóis. — Melissa fez sinal para ela e Marc. — Estamos há pouco tempo na Alemanha, Marc veio transferido do Barcelona esse ano e aqui nós fizemos a nossa casa. Mas nesses poucos meses, eu ouvi maravilhas da ISM e garota… Tua hora está chegando, hein? Se pegarem seu currículo e vê o seu nível, acho difícil deixar você sair da Alemanha.
— Imagina, gente. — Ela sentiu o rosto corar. — Eu só quero passar um tempo com minha melhor amiga, meu sobrinho e amigos, no caso vocês, fazer meu curso e voltar para a minha casa. Eu tenho certeza que tem algo muito bom guardado para mim no Brasil, mas como dizem, minha hora não chegou ainda.
— Presta atenção nas coisas ao seu redor, , a gente não perde por esperar. — Marc então deu a dica, seguida de uma piscadela para ela.

se perguntava se todos os colegas de time de Marco eram bonitos daquele jeito. Pois os dois que ela conheceu, eram maravilhosos. E ela no meio deles, se sentindo o patinho feio da turma.

— Mas, então, você fez uma boa viagem? Aposto que está cansada e a gente está aqui te importunando.
— Não, imagina. — sorriu amável. — Dormi muito no avião. Eu juro que não tinha noção de que Brasil e Alemanha eram tão distantes. Vocês sabiam? Que era tão longe assim?

olhou para Marco e , que estavam apontando para Mario, que tinha um sorriso idiota nos lábios.

— Claro que sabia. Você foi para a Copa do Mundo, certo? — então trabalhou sua mente. — Você fez o gol em cima da Argentina! — Ela quicou na cadeira ao ver Mario comemorar. — Isso vai ser ridículo, mas você é o meu ídolo!
— De todos nós! — comentou sorrindo para Mario. — Imagina só, a Argentina ganhar a Copa do Mundo na nossa casa, ? Jamais.

fez então uma associação rápida em sua cabeça.

— Espera… Ah meu Deus… — Ela riu sozinha. — Você não estava naquele fatídico jogo…
— Eu não entrei em campo aquele dia.
— Ufa, então você continua o meu ídolo! Mas os seus outros amigos não são.

E então os sete passaram o resto da noite rindo, bebendo, comendo, se divertindo e o melhor, fazendo com que se sentisse à vontade e em casa.



4. CAN’T STOP THE FEELING!

{ I got that sunshine in my pocket, got that good song in my feet
I feel that hot blood in my body when it drops
I can't take my eyes up off it, moving so phenomenally
You gon' like the way we rock it, so don't stop }

Aos poucos estava se acostumando com os dias curtos, as noites extremamente longas, o idioma completamente diferente e também, o frio que a cada noite que passava, ficava pior na Alemanha. Como não acostumava a acordar tarde no Brasil, também procurou manter o ritmo de acordar cedo na Alemanha. Estava na casa de sua amiga-irmã, mas ela não queria abusar da boa vontade de e Marco.
acostumou a acordar antes das nove da manhã, tomava um banho para começar o dia e para agradar os donos da casa, deixava o café da manhã pronto em cima da mesa, e enquanto esperava eles acordar, fingia que assistia a televisão com o jornal matutino das notícias relacionadas a Dortmund e à região da Renânia do Norte-Vestfália. Fingia, já que por mais que tentasse, ela tinha muita dificuldade em entender as frases e, vez ou outra, pegava uma palavra perdida. Então Nathan acordava e convencia a tante a colocar algum filme infantil na Netflix e eles ficavam rindo e assistindo juntos até Marco acordar e chamá-los para tomar a primeira refeição do dia.
não havia mudado em nada. Quando estudavam juntas, na parte da manhã, não conseguia entender como a amiga não reprovava por faltar as primeiras aulas, já que ela sempre perdia hora. E mesmo casada, com filho e morando na Alemanha, mantinha sua antiga tradição de dormir até a hora que quisesse.

— É sempre assim, eu acordo antes, dou café da manhã pro Nathan, eu e ele passamos a manhã juntos, aí ela acorda.
— Mas todos esses dias que eu estou aqui, ele acorda antes de vocês. — questionou Marco, durante o café da manhã.
— Esse malandrinho tá fazendo isso porque você está aqui. — Marco piscou para o filho, que comia seu queijo. — Normalmente eu acordo, vou no quarto e ele está começando a despertar, eu nunca vi alguém mais preguiçoso que a .

sorriu sem graça e levantou o dedo, enquanto Marco abria a boca incrédulo e balançava a cabeça em negação.

— Você não é mais preguiçosa que a ?
— Mais ou menos… É que assim, se eu estou entediada, não tenho nada para fazer e simplesmente encosto em algum lugar, eu durmo. — Ela deu um sorriso forçado. — Outro dia eu abracei o encosto de uma cadeira e simplesmente apaguei.
— Ela dorme com a gente conversando com ela. Essa é uma sem educação. De repente, ela fecha os olhos na sua cara e simplesmente apaga.
Mama! — Nathan pulou da cadeira ao ouvir a voz da mãe, vindo pelo corredor e foi de encontro com ela. — Guten Morgen, Mama!
Guten Morgen, mein Liebe. — pegou o filho no colo e foi até a cozinha, onde deu um selinho em Marco e mandou beijos no ar para a amiga. — Quando uma dormia na casa da outra, era ridículo, porque simplesmente no meio do assunto, ela parava de responder.
, eram três da manhã, pelo amor de Deus.
— E a gente estava conversando! — A amiga se exaltou. — Você não pode simplesmente dormir no meio do assunto, eu ficava curiosa, você sabia?

rolou os olhos e tomou sua xícara de leite rindo. Por diversas vezes a acordava no susto para continuar a fofoca, dependendo do nível que fosse.

— E eu posso saber qual era o assunto, para você ficar tão curiosa assim? — Marco perguntou para a esposa que tinha a boca entreaberta, sem reação. Por fim, deu de ombros.
— Os rolos e relacionamentos da que nunca davam certo.

sorriu amarelo com o comentário e voltou sua atenção ao seu café da manhã. Marco também se alimentava enquanto, com Nathan em seu colo, sorria para os outros na mesa, que, claramente, estavam se sentindo desconfortáveis.

Mama… O que é rolo?

não conseguiu manter a seriedade e a cara de sem graça com o comentário do sobrinho e explodiu em risadas, junto com . De vez em quando elas tentavam ter algum assunto sério, mas se não era elas que quebram a seriedade da conversa, era alguém de fora que fazia um comentário impróprio, e acabava com tudo.
No caso, Nathan tirou a seriedade e a cara amarela do rosto de .

— É quando a sua tante conhece um monte de homem, mas nenhum legal o suficiente para ser namorado dela.
— Que nem você e o Papa?
— Que nem eu e o Papa, mein Liebe.
— Mas eu já entendi que não vou ter namorado nenhum e se eu conseguir trabalhar e me realizar profissionalmente, a sua tante vai ficar muito feliz, Nathan. — comentou e recebeu um olhar de reprovação da amiga
— O que foi agora?

balançou a cabeça em negação, se recusando a falar. Nesse ponto, ela e sempre foram muito diferentes. era mais fechada e tímida, e talvez tivesse um dedo podre para relacionamentos. Enquanto era mais aberta e extrovertida. costumava falar que exatamente por ela ser assim, que acabou conhecendo Marco, em uma viagem que ela fez sozinha. E cada vez que o assunto aparecia, se recusava a comentar a escolha definitiva de de se fechar para relacionamentos. Segundo ela, não havia nascido para aquilo e duvidava que, algum dia, alguém iria se mostrar interessado o suficiente em abrir o escudo que ela se formou, e não destroçar em dezenas de pedaços… De novo.

, tudo tem o seu próprio tempo. Se proteja, mas não fique completamente fechada, tenho certeza que um cara bem legal vai aparecer para você.
Danke, Marco. — Ela sorriu para o marido da amiga.

se sentia uma sortuda em ter aquela pequena família ao seu lado e, carinhosamente, chamar de sua também. Ela e eram, em grandes partes, bem diferentes, mas sabia que teria na amiga, toda força e apoio que precisasse. Ela também tinha Marco, que a queria muito bem, além de Nathan.
Em momentos difíceis de sua vida, como o que a fez ir embora para a Alemanha, confirmava o valor e o carinho que aqueles três tinham em sua vida. Não seria qualquer pessoa que simplesmente abriria a porta de suas casas para ela.

— Tudo se ajeita, okay? — Marco piscou para , e afagou o braço dela, se levantando da mesa — Por incrível que pareça eu ainda tenho treino hoje, quais são os planos dos três?
— Aproveitar que ainda não está nevando e mostrar Dortmund para a ? — falou como se perguntasse se a amiga aceitava. — E pensei de no fim do dia irmos ao Weihnachtsmarkt.

concordou com e satisfeito com a resposta, Marco se retirou para o quarto a fim de se preparar para o treino que iria acontecer mais tarde. Nathan também fugiu do colo da mãe de volta para a televisão e então as duas amigas ficaram na mesa.

— Do que vocês falavam antes de eu acordar?
— De como você é uma péssima mãe e é a última a acordar na sua casa.

fez menção de abrir a boca para responder a amiga, e então fechou novamente.

— Quando é necessário eu acordo cedo, não fale assim, eu sou uma boa mãe para a minha criança. — fez manha. — Eu e Marco conversamos toda noite antes de dormir e a gente monta nossa programação tendo o Nathan como centro. Por exemplo, quando o Marco viaja, eu sempre acordo bem antes do meu filho. Ou os treinos são de manhã. Nós dividimos bem a tarefa que é cuidar, criar e amar o Nathan.
— Eu sei. — sorriu para a amiga e colocou a mão em cima dela que estava em cima da mesa. — Eu nunca tive dúvidas de que você seria uma mãe incrível.
— E você pode se dar a chance de ser feliz, viu? — então trocou a mão de posição e foi sua vez de acariciar a amiga. — Não é porque você encontrou alguns caras idiotas no meio do caminho, que todos são.
— Não sei, . Não sei. Os mais legais são comprometidos. Você mesma achou um que, olha… Marco é maravilhoso para vocês dois.
— Ele quem me encontrou. — negou. — Nunca imaginei que uma recomendação para vir para uma balada, iria mudar a minha vida.
— Você merece.

Marco então saiu do quarto e atravessou o corredor fazendo embaixadinhas curtas com uma bola. Nos ombros ele tinha uma bolsa de treino. Ao passar pela cozinha, Marco pegou a bola nas mãos e sorriu para a esposa, e se despediu dos três antes de sair.

— Nós podemos aproveitar e sair também, o que acha? — perguntou. — A gente pode almoçar na rua para não ter trabalho.
— McDonald’s, Mama! — Nathan pediu.
— Vamos lá então, convite da tante! — informou e se levantou da mesa, tirando tudo e levando para a pia. — , vocês podem ir se arrumando enquanto eu lavo tudo aqui.
— Não precisa lavar nada, depois eu me viro.
— Mas…
— Aprenda que apesar de eu falar que a casa é sua e você tem todo o direito de ficar à vontade, você é visita nessa casa, , e você não vai lavar louça nenhuma. Vai se arrumar que eu sei o quanto você consegue demorar.

Depois de passarem no fast-food, mesmo tendo recém saído do café da manhã, dirigia pela cidade e mostrava os diversos locais que ela julgava interessante para a amiga. Foram ao Westfalenpark, e também à torre Florianturm, que fica dentro do parque e, de lá de cima, os três puderam ter uma vista incrível de toda a cidade.
estava adorando o passeio. Com sua câmera no pescoço, ela registrava todas as fotos que podia, alternava fotos dela com , dela com Nathan, e a amiga pedia para turistas registrar fotos dos três. Para , era interessante conhecer a cidade antes do seu curso começar, já que ela não queria ficar dependendo de para nada.
Do parque, dirigiu até o Signal Iduna Park, mais conhecido como Westfalenstadium, e quando a mãe soltou Nathan do seu lugar, o menino pulou do carro e saiu correndo, puxando pela mão.

Tante, você precisa vir assistir a um jogo!
— Se tiver como eu vou vir, meu amor! — respondeu observando o tamanho do estádio.
— Eu sei o que você está pensando. — disse parando ao lado da amiga, que observava a imensidão do local. — Cabe mais gente aqui dentro que no Maracanã.
— Mentira! — virou para a amiga boquiaberta. — E lota?
— Mesmo com o time passando por uma fase ruim, os jogos sempre estão lotados. Chegou a ter vez que eu e Nathan queríamos vir a um jogo, eu precisei comprar os nossos ingressos, porque ninguém estava ganhando.
— Uau. Acho que faz sentido a Oficial de imigração implicar com a carta que o Marco assinou para mim, então. Eu nunca imaginei.
— E eu? Eu não entendi nada quando a foto do meu passaporte estampou a capa do Bild. Eu fiquei: meu Deus, quem é o homem que eu estou conhecendo? Eu não fazia ideia de quem o Marco era. Para mim, era um cara bonitinho que falou comigo em uma balada. Tudo bem, nós conversamos, ele me contou o que fazia para ganhar a vida, mas eu não conhecia Borussia Dortmund, tipo… Time de pelada pra mim. Eu vim aqui assistir jogos, fiquei maravilhada. , a hora que ele me contou que foi convocado para a seleção, eu quase caí de costas. Hoje eu já estou acostumada, mas a primeiro momento, foi complicado.
… Deus não dá um fardo maior do que a gente pode carregar para a gente. Aposto que você iria continuar com o Marco mesmo se ele fosse sei lá, um engomadinho.
— Eu larguei a minha vida no Brasil por causa dele, . Eu amo o Marco e eu amo o Nathan. Eles dois são tudo o que eu tenho na vida hoje.
— Eu imagino que sim. E eu fico feliz que, mesmo longe da sua família, você tenha em quem se apoiar e confiar de olhos fechados.

Ali, de frente para os portões do Signal Iduna Park, então apoiou a cabeça no ombro de , que de mãos dadas com Nathan, observava a imensidão do estádio e os detalhes em amarelo.

Tante, você vem comigo assistir um jogo do Papa?
— Só se você for em uma loja comigo escolher uma camiseta do time, combinado?
— Compra a do Papa!
— Então é a do seu Papa que eu vou comprar. — Ela riu para o sobrinho e virou para a melhor amiga. — Podemos ir, se você quiser.

Do estádio, dirigiu até o centro da cidade. De carro, mostrou para a amiga onde fica o shopping, os restaurantes preferidos, a estação aonde ela chegou e até onde fica a iRoom, balada onde conheceu o marido.
Como a tarde havia passado rápido demais, e as temperaturas também caíram na mesma velocidade, as duas mulheres optaram por ir logo ao famoso mercado de Natal da cidade, que estava tomado de gente. As pessoas compravam suas árvores de Natal, suas decorações, comidas e bebidas tipicamente alemãs daquela época do ano.
não se conteve e experimentou tudo o que era possível. Zimtsterne, que eram estrelas de canela — e ela detesta canela — bolachinhas de manteiga, que Nathan chamou perfeitamente de butterpläzchen, e ela dividiu uma porção com o sobrinho e a amiga e também, Glühwein, o famoso vinho quente, para se esquentar.

— Por acaso passa algum arrependimento na sua cabeça? Ter vindo para a Alemanha, parar de procurar emprego e deixar as outras letras do alfabeto de planos falarem mais alto?
— Não, , eu não tenho arrependimento nenhum. Talvez, com certeza na verdade, de não ter vindo com você há cinco anos.

suspirou com uma maçã assada em mãos.

— Sabe, a vida realmente é feita de escolhas, mas graças a Deus a gente tem a oportunidade de consertar os nossos erros, e se não consertar, seguir em frente, fazer as coisas dar certo. E você tá aqui, se dando uma nova chance.
— Eu queria acreditar nisso tanto quanto você acredita.
— Eu não acredito no que eu estou falando, … Eu acredito em você, e o quão maravilhosa eu sei que você é. O seu espaço no mundo está guardado, e eu vou morrer de ciúmes a hora que as pessoas enxergarem em você o que eu enxergo.
— Ainda bem que eu tenho você! — , que tinha um copo de vinho quente em mãos, abraçou a amiga.
— Ainda bem que você me tem mesmo! — retrucou.

As duas então olharam para Nathan, que estava observando a decoração de Natal e pegaram ele no colo.

— E ainda bem que a gente te tem, pacotinho loiro mais lindo!

E depois de um passeio pelo Weihnachtsmarkt, regado de comidas típicas, e comprando algumas lembrancinhas e decoração para a casa da amiga, as duas mulheres e Nathan foram embora para casa, com a intenção de tomar um banho quente e se aquecer o máximo possível.

• • •

— Ugh! Eu vou enlouquecer! — bradou de dentro do escritório.

estava indo para seu quarto quando passou pela porta da sala e ouviu a amiga reclamar. Ela deu dois passos de volta e entrou, encontrando a amiga com as mãos enfiadas no cabelo, olhando para o computador.

— Quem morreu?
— Ninguém… Ainda! — bufou e abaixou a tela do notebook, ao ver a amiga se sentar em uma poltrona próxima à mesa. — Faltam dois dias para o aniversário do Nathan, eu pedi confirmação até semana passada. Eu ainda estou recebendo confirmações de presença. , o que eu faço?

franziu os olhos para a amiga sem entender o que estava acontecendo. Quem era aquela pessoa e o que ela tinha feito com ?

— Achei que a neurótica e maluca com organização e prazos era eu, não você.
— Então a culpa é sua, pronto. — Deu um sorriso de Mona Lisa para que ainda não estava entendendo nada. — Eu preciso jogar a culpa das coisas em alguém, e resolvi hoje que é sua.

murmurou qualquer coisa em confirmação, evitando discutir com a amiga que parecia estar em uma pilha de nervos.

— O que houve? Além das pessoas confirmarem em cima da hora?
— O problema, é que eu já fechei com o buffet. Já paguei para um número de convidados, e vai vir mais gente do que o esperado.
— Juro que eu quero que você me responda que virão cinquenta pessoas a mais, caso contrário, nós teremos problemas, .

abaixou a cabeça e massageou as têmporas e então, novamente, encontrou a amiga a observando enquanto aguardava uma resposta.

— São duas pessoas adultas e uma criança. Um amigo do time do Marco, com a esposa e filho.

rolou os olhos, se levantou da poltrona e foi em direção à porta, quando a amiga a chamou pelo apelido carinhoso de sempre.

… Me ajuda.

deu meia volta e sentou novamente na poltrona, arrastando para mais perto do computador e dos papéis que estavam espalhados na mesa. Ela analisou um deles e concluiu que era a lista de convidados. Talvez uma primeira prévia dela, com vários nomes riscados e algumas outras anotações feitas, além de +1, indicando que aquela pessoa iria levar um acompanhante. Ela reconhecia um nome ou outro, por causa da Copa do Mundo, mas não tinha ideia de quem era mais da metade deles.

, quantas pessoas vão vir?
— Eu tinha cinquenta pessoas confirmada, foram quantas eu fechei com o buffet. Mas a minha preocupação, na verdade está com a confeitaria, que está fazendo os docinhos. Eu não consigo simplesmente ligar para eles e falar: faz para mais tantas pessoas, que a lista aumentou.
— É jogador de futebol, não é como ele pudesse se encher de docinhos e o nível de glicose estourar.
Oh no, . Você já viu esses homens em festas infantis? Meu Deus, eu tenho medo deles. Não existe jogador de alta performance em festa de criança. Na última festa que eu fui, o time atacou a mesa de doces. As crianças choraram.
— Você não pode estar falando sério.
— Não a parte das crianças chorarem, o resto é tudo verdade.
— Então vamos manter a calma e a respiração num ritmo normal, tudo bem? Se o problema são os doces, a gente faz os doces. — tirou os óculos de grau e os apoiou na mesa, dando um sorriso para a amiga, sentindo-se satisfeita e um gênio com a ideia.
— Pessoas normais não simplesmente fazem doces alemães, . Eles são deliciosos e tudo mais, mas eu não tenho condições de fazer.
— Um problema a menos, então. Vamos fazer doces brasileiros. Brigadeiro, beijinho, bombom de leite ninho. Aposto que esses alemães vão lamber até os dedos.

virou o rosto para e nele, tinha um sorriso amarelo. A convidada então suspirou e apoiou as costas novamente na poltrona, e cruzou os braços.

— Qual o problema dessa vez?
— É que todos os doces que a gente encomendou, são doces que o Nathan gosta.
— E…? Ele gosta de brigadeiro, não é? — então pareceu nervosa e rolou os olhos. — O Nathan gosta de brigadeiro, não é? — Os três segundos de silêncio a seguir foram o suficiente para que tirasse sua conclusão. — Meu Deus, você é uma péssima brasileira.
— Também não é assim… — tentou se defender. — É que você sabe que eu não ligo muito para chocolate… E como você também sabe, brigadeiro é feito com chocolate.

estava incrédula, com a mão no peito como se estivesse ofendida com o que estava ouvindo.

— Me corrigindo, você é uma péssima mãe.
!
, pelo amor de Deus, seu filho tem dois anos e ele nunca comeu brigadeiro na vida, isso seria normal se ele fosse filho de pai e mãe alemães. Como a mãe dele é brasileira, passa a ser uma situação inadmissível! Onde eu consigo achar leite condensado aqui em Dortmund?
— Não sei se tem em todos os mercados, mas existe uma padaria brasileira perto do Westfalenstadion e vende um monte de produtos brasileiros.
— Acho bom que você não esteja ocupada, pois nós vamos comprar leite condensado. Muito leite condensado.

então se levantou da poltrona em que estava e foi para o quarto se preparar para sair. Sem outra opção, viu a amiga desaparecer pela porta e foi logo em seguida. Marco já estava em casa do treino e iria brincar com o filho, enquanto as duas amigas iriam atrás de especiarias brasileiras.

• • •

Nathan amanheceu no dia do seu aniversário mais elétrico que o normal. A criança de dois anos corria por entre as pernas dos adultos que estavam tentando fazer com que a festa tomasse forma e saísse. então, antes da festa começar, apareceu com um pacote maleável para o sobrinho, que, sem cuidado nenhum rasgou o mesmo.
De dentro do embrulho, Nathan tirou uma camisa de seleção brasileira de futebol, com o sobrenome REUS em suas costas.

— É de onde a tante mora, e a sua Mama morou. — explicou para a criança. — E lá a gente também gosta muito de futebol.
— Brasil! — Nathan balançou a camisa animado. — Me ajuda, tante!

Nathan já estava arrumado para o seu aniversário, então, por cima da roupa, o ajudou a vestir a camisa da seleção amarela, com seu nome nas costas e saiu correndo em direção aos pais, que estavam no quarto se arrumando.
Não demorou para que Nathan voltasse para a sala no colo do pai, que já estava impecavelmente pronto para a ocasião que começaria em breve.
— Brasil, hein?
— O que eu posso fazer? — brincou com a insinuação que Marco estava fazendo. — O sangue corre nas veias dele. Aceite, Nathan é metade brasileiro.
— Seu presente foi incrível, . Só vamos ter problemas para fazer ele vestir qualquer coisa após isso.

não pôde deixar de rir. Imaginou que quando Nathan ganhou o uniforme do time do pai, ele também não tirava por nada. E da seleção alemã.
então saiu do quarto seguida de Nathan, que ainda se divertia com a camisa da seleção canarinho em seu corpo, enquanto a mãe observava os últimos detalhes. Estava tudo impecável, e ela tinha certeza que algum alienígena abduziu a amiga. Ela não costumava estar pronta no horário e apesar de enrolar para se arrumar, sempre foi quem precisava esperar para a amiga ficar pronta.
— Se ele nunca mais quiser tirar essa blusa, nós teremos problemas, .
— Você está linda, . — ignorou o comentário da amiga. — Batman, hein? Quem deu a ideia para o Nathan?

então seguiu então para a parte externa da casa, onde as mesas estavam montadas e fez sinal para que a acompanhasse.

— Nathan queria o aniversário do Borussia Dortmund. — Ao ouvir aquelas palavras, não deixou de rir. — Ele é apaixonado pelo time, o fã número um do Marco, mas não sei, confesso que eu achei um pouco demais, digo, boa parte do time vai estar aqui. Achei estranho! Então eu pensei no Batman, que pelo menos é preto e amarelo, consigo manter as cores.
— É, acho que faz sentido!
— Vruuuuum, eu sou o Batman! — Nathan passou correndo pelas pernas da mãe e da tia, com os dois braços levantados, como se ele estivesse voando. Em sua blusa, que tinha o logotipo do homem morcego, havia uma capa costurada nos ombros.
— O Batman mais lindo que eu já vi. — riu do próprio comentário quando viu o menino continuar correndo por entre as pessoas.

Não demorou muito e a casa da família Reus estava cheia, com diversas pessoas se divertindo, rindo, batendo papo e algumas crianças correndo por entre as pessoas, liderada pelo pequeno Nathan.
e Marco apresentaram para os pais e irmãs do jogador e por um tempo foram intermédio da conversa deles, que os convidaram para ir até sua casa, visitarem o café das cunhadas de e os procurarem sempre que achar necessário. achou amável da parte da família Reus, e tinha certeza que a amiga havia tirado uma sorte grande ao conhecer Marco.
também conversou por um tempo com Mario e Ann, que já conheciam, e com Marc e Melissa, que chegaram um pouco depois.
Não demorou muito para que, após um tempo de festa, encontrasse com , que estava atônita. Não era para menos, era a anfitriã, estava fazendo de tudo para que a festa continuasse impecável, e ninguém saísse reclamando dela.

, respira. — falou para a amiga. — Respira fundo e me diz, existe alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar?
— Existe. — abriu um sorriso ao saber que podia se fazer útil. — Interaja. Conheça pessoas. Se apresente, crie uma rede de relacionamentos aqui em Dortmund. Não por mim, mas por você.

rolou de olhos e cruzou os braços.

— Eu não sei se você sabe, mas essas pessoas falam alemão. E também não sei se você sabe, mas essa língua não é desse mundo, e a comunicação fica um pouco difícil.
— E você fala português. A língua mais fácil de aprender no mundo, não é mesmo? — ironizou.
— Pelo menos eu sou fluente.
— E ridícula. Vai à mesa do time. Aproveita que você conhece Mario e o Marc, tenta se entrosar.
— Eu tentei. — fez cara de súplica. — Mas você sabe quão difícil é tentar uma comunicação com alguns alemães, um gabonês, um japonês, francês, turco, americano, grego… — Ela contava nos dedos — Ai, devo estar esquecendo alguma nacionalidade.
— Coreano e polonês. — completou as nacionalidades e arregalou os olhos assustada. — Não sei, , eu tenho certeza que se você tentar, todo mundo vai te achar muito legal.
— Ou muito estranha.
— Mas isso você é naturalmente.
— Detalhes. — abanou o ar, como se estivesse encerrando o assunto. — Vai curtir a sua festa e os seus convidados, não se preocupe comigo, ok?

E após dar um beijo na bochecha da amiga, entrou de volta na casa e seguiu seu caminho para a cozinha, para tentar se fazer útil por lá. Distraída com seu celular, já que ele vibrou no bolso enquanto caminhava, ela não percebeu quando deu de encontro com alguém que estava ligeiramente atrasado para o evento.

Sorry!

Sem saber a nacionalidade do homem, decidiu se desculpar pelo esbarrão em inglês, pois seria uma língua que ele talvez iria entender. Ao continuar seu caminho, ouviu a voz de Nathan berrar para o homem.

Onkel André!


O aniversário de Nathan foi chegando ao fim, e Marco passou a chamar os convidados para a mesa do bolo e cantar parabéns ao seu filho que finalmente havia completado dois anos. Ao ver a família que ela tanto amava reunida atrás da mesa, se misturou aos convidados para poder enxergá-los de frente e ao menos bater palmas para o sobrinho, já que sabia que a famosa música seria feita em alemão.

Tante! — Ela então ouviu Nathan chamá-la escondido atrás da mesa. — Tante, vem cá!

sorriu para o sobrinho e fez sinal de negação com a mão. Já não bastava Marco e fazer questão de apresentá-la para praticamente cada pessoa que estava naquela casa, não precisava ser exposta para todos daquela maneira.

Tante! — O menino insistiu, começando uma pequena birra, e a mulher se desesperou.
— Vem! — então pediu para a amiga, mas sabia o que aquele olhar significava: intimação.

A tímida brasileira então, um pouco sem jeito, saiu do fundo e de seu esconderijo entre as pessoas, chegou sem graça até a mesa do bolo, onde Nathan estava com os braços estendidos para ela.

Tante, quero colo!

Como ela sequer poderia falar não alguma vez para aquele menino? se abaixou e pegou Nathan em seu colo. No momento, Marco se aproximou e acendeu as velas e logo em seguida, todos cantaram parabéns pra você, enquanto mentalmente, cantava em português. Ao menos o ritmo era o mesmo.

Heute kann es regnen,
stürmen oder schneien,
denn du strahlst ja selber
wie der Sonnenschein.
Heut ist dein Geburtstag,
darum feiern wir,
alle deine Freunde
freuen sich mit dir.

Wie schön dass du geboren bist,
wir hätten dich sonst sehr vermisst,
wie schön dass wir beisammen sind,
wir gratulieren dir, Geburtstagskind!

Os convidados aplaudiram Nathan e então se abaixou para o sobrinho assoprar as velas.

— Assopra comigo, Tante! — Ele pediu.

Sem ter como falar não, então assoprou as velas e quando os dois se deram por satisfeitos, ela voltou à posição normal e sentiu o menino a abraçar.
então sentiu uma lágrima escorrer pela sua bochecha, e correu limpar antes que alguém percebesse. Mesmo que ela não tivesse se matriculado na ISM, só por aquele momento, ir para Dortmund havia sido a melhor decisão que ela tinha tomado aquele ano.
Os convidados então se espalharam e o buffet tomou conta para cortar o bolo e servir aos convidados junto com os doces, mas fez questão de chamar alguns amigos e pessoalmente apresentar o famoso brigadeiro a eles, que como havia imaginado, apaixonaram no doce brasileiro.
De longe, assistindo ao parabéns, André encontrou Nathan no colo de uma mulher que ele nunca havia visto antes com a família Reus, a mesma em quem ele esbarrou quando chegou atrasado para o aniversário. Estatura média, morena, olhos verdes e um carinho ímpar com o pequeno aniversariante.
André Schürrle estava gostando do que seus olhos estivessem vendo. Talvez houvesse chegado a hora de sair daquele princípio de depressão e colocar o time em campo novamente.



5. GLAD YOU CAME:

{ Turn the lights out now, now I'll take you by the hand
Hand you another drink, drink it if you can
Can you spend a little time, time is slipping away
Away from us so stay, stay with me I can make
Make you glad you came }

— Como é o nome desse animalzinho, Nathan?
Katze! — A criança respondeu e então olhou para a mãe, como se estivesse na dúvida se era certo ou não. sorriu para o filho, que pareceu satisfeito consigo mesmo.
— Ou você pode chamar de Gato, que é como a gente fala lá no Brasil. — explicou para o menino, que estava sentado em seu colo.
— Cato! — Nathan falou com dificuldade, mas como recompensa, recebeu beijos na bochecha da tia, fazendo-o gargalhar.

Só havia passado dois dias desde a festa de aniversário do menino e a neve resolveu aparecer antecipadamente na cidade alemã. Por conta do frio rigoroso, estavam evitando sair de casa, aproveitando os momentos para brincar com Nathan, e também para vê-lo descobrir e aprender novas coisas. não se aguentava, também o ensinava português, e quase morria de amores ao assistir a criança de dois anos repetir suas palavras.
No momento, os três estavam sentados no chão da sala, com a televisão ligada, quando Marco abriu a porta, segurando um cabide, aparentemente de uma lavanderia. O homem foi até o quarto e logo voltou de mãos vazias, juntando-se aos quatro.

— O que era aquilo, Marco? — questionou o marido.
— A roupa para hoje à noite. — A mulher fez cara de interrogação, sem entender sobre o que ele estava falando. — Hoje é a festa de Natal do clube.
— Meu Deus, é hoje! — levou a mão à testa, se questionando como havia esquecido daquilo. — Marco, eu esqueci completamente de procurar uma roupa.
— Não se preocupa, você tem o dia inteiro para isso. — Marco então olhou para que tinha Nathan em seu colo. — Na verdade, vocês duas têm.
— Oh… Ah. Não, imagina, Marco. — sorriu para o marido da melhor amiga. — Não quero atrapalhar vocês dois, vão, divirtam-se, bebam muito. Eu fico aqui com o Nathan.

A brasileira então fez cócegas na barriga do sobrinho, que gargalhou, permitindo que o agradável som da sua risada invadisse a sala da casa em que viva com os pais.
— Meu convite se estende para a família, . Você é a nossa família.

parou as cócegas no menino e encarou Marco, que tinha os finos lábios em um sorriso. Ela não pôde deixar de dar um sorriso para aquelas palavras.

, você avise ao seu marido que eu sou chorona.
— Eu sei, ele sabe, todos sabemos, mas é verdade. Você é nossa família, e, portanto, vamos todos à festa do time.

suspirou.

— Eu não tenho roupa adequada para esse evento.
— Nem eu! E é por isso que nós vamos fazer compras essa tarde! — bateu palmas animada, e a amiga não deixou de rir. — Vamos lá, um dia de meninas, como nos velhos tempos. Nós sabemos que você vai ficar deslumbrante, e quem sabe não fisgue algum alemão para você?
— Ei, ei, ei! — fez sinal para que a amiga parasse, já que estava animada demais. — Eu já falei, e vocês sabem que eu desisti dessa parte da minha vida. Relacionamentos? Obrigada, de problemas já basta os que eu já tenho.
— Eu não deixaria nenhum idiota chegar perto de você, . — Marco falou à amiga da esposa. — Tem o… Não, esse é casado. Mas tem também o… Não, ele acabou de ser pai. — O marido de pensava. — Já sei! O… Esquece, ele acabou de ficar noivo. O que importa, , é que tem alguém super legal para te apresentar.
— Tudo bem, vocês me convenceram, eu vou à essa festa. — assistia e Marco comemorar. — Mas, por favor, podemos esquecer essa ideia sem pé nem cabeça de me arranjar alguém? Vamos nos divertir… Como uma família.
— Vamos! Marco, você fica com o Nathan? Eu e minha amiga vamos ter um dia de meninas.

Não demorou muito para que conseguisse tirar a amiga de casa e as duas fossem em direção ao Thier-Galerie, um dos principais shoppings de Dortmund. Andando pelos corredores do local, as duas visualizavam vitrines, experimentavam roupas, se divertiam nos provadores, mas estavam tendo dificuldades em definir suas roupas para aquela noite.
Passando então por uma loja, parou na vitrine, enquanto a amiga continuava andando e falando.
olhava para um modelo com as costas de fora, e só percebeu que mordia seu lábio inferior, quando sentiu doer. O vestido era vermelho, de mangas compridas, e o detalhe ficava nas costas, inteiro aberto.

, você está me ouvindo? — voltou e parou ao lado da amiga. — Eu estava falando com você, e quando olho para os lados, cadê minha amiga?
— Acho que eu encontrei meu vestido. — ignorou o que a amiga falava. — , eu estou apaixonada.

então, finalmente olhou para a vitrine. Ela entendia o motivo da amiga ter se apaixonado, mas não se espantava de ser por algo em exposição em uma loja. sempre se apaixonava por uma roupa ou sapato.

— Realmente, é maravilhoso. Se você quiser ser expulsa da festa a gritos e pontapés. — então desviou o olhar para a amiga. — O vestido é vermelho. Em festas do BVB não usamos nem vermelho, nem azul. São as cores dos maiores rivais do time.
— Que exagero, meu Deus. — rolou os olhos. — Vem comigo, fala para as vendedoras que eu quero experimentar um no tamanho médio.

A contragosto, entrou na loja seguida da amiga, e mostrou o vestido que queria. Depois de consultar seu estoque, a vendedora voltou com péssimas notícias à .

Wir haben nur geringe Größe.

assistia aquela mulher falar alemão fluentemente e tinha certeza de que, não importava quanto tempo ela iria ficar naquele país, nunca iria se acostumar com aquela língua.

— Ela disse que só tem no tamanho pequeno, .

fingiu estar chateada e fez bico.

— Nem se eu quisesse o pequeno entraria. — Ela então olhou para as vendedoras. — Danke!
Wir haben mittelgroße auf gelb.
Ja? — se animou com a informação da vendedora. — Sie wird es versuchen.
— Olha só… Se vocês estavam me xingando, é bom que você me conte.
— Não, boba. Ela disse que no tamanho médio tem o amarelo. E você vai experimentar ele.

Não demorou muito para que a vendedora voltasse segurando o belo vestido na cor amarela, que caiu como uma luva no corpo de , realçando seu quadril. Ela se divertia, olhando no espelho em todos os lados.

I’ll take it! — estava tão empolgada, que falou em inglês.
Du siehst wunderschön aus.
— Ela falou que você está linda, .

As bochechas da turista brasileira coraram com o comentário, e ela agradeceu em um sorriso para a mulher.

— Muita gentileza da parte dela.

Na mesma loja, acabou encontrando um vestido que lhe agradasse, e logo as duas pagaram, e continuaram a passear pelo shopping.

— Se essa festa vai ser boa, eu não sei. Mas eu tenho um vestido novo e ele é maravilhoso!
— Hm, olha só quem não estava interessada em ir à festa.

empurrou para o lado e deu de ombros para a amiga.

— Eu realmente não queria, para não atrapalhar você e o Marco. Não quero que vocês se sintam obrigados a me carregar para cima e para baixo. Você sabe que eu fico muito bem sozinha. Mas uma roupa nova levanta a autoestima de qualquer mulher.
— Concordamos em algo. Agora imagina essa mulher de vestido novo, sapato alto, cabelo arrumado e bem maquiada? Nossa senhora desses alemães, hein? Não vai ter um que não vai se apaixonar.
— Você é muito insistente nesse assunto.
— Eu só sei o que eu estou falando, . — piscou para a amiga. — Você faz a minha maquiagem hoje?
— Meu Deus, eu achei que não ia pedir nunca!

E depois de tomarem um café da tarde, as duas seguiram de volta para a casa de e Marco para se arrumarem para o evento que não iria demorar muito para começar.

●●●

Marco e Nathan já estavam entediados de esperar tanto quanto a ficarem prontas para o evento da noite. O jogador batia com os dedos no encosto de braço do sofá, enquanto o filho estava deitado no sofá, assistindo algum desenho animado que Marco julgava ser a enésima vez, já que a criança não estava mais com a atenção na televisão.

— Vamos logo! — Marco gritou da sala tentando apressá-las.
— Mama! — Nathan também gritou.

Não demorou muito para que os dois começassem a ouvir o barulho dos saltos altos pelo corredor da casa e logo duas morenas apareceram. usava um vestido roxo, de finas alças, escondido por um sobretudo na cor preto. usava o tão especial vestido amarelo que havia comprado naquela tarde, com um sapato nude, e estava escondida embaixo de um sobretudo na mesma cor do da amiga.

— Uau!

Foi tudo o que Marco conseguiu dizer ao ver as duas amigas.

— Nada como ter sua própria cabeleireira e maquiadora em casa. — fez sinal para , que deu de ombros.
— Maquiagem faz milagre, mas não tanto. Fica quieta, . Você estaria maravilhosa de moletom e cabelo parecendo um ninho.
— Você acabou de me descrever diariamente. — A esposa de Marco comentou e as duas riram. — Nós podemos ir agora, Marco.
— Vocês estão maravilhosas. E , eu não sei quem, mas eu espero de verdade que algum colega solteiro se interesse por você. Caso contrário, eles são loucos.
— Não me deixe sem graça, Marco.

Os quatro então saíram em um dos inúmeros carros que o jogador tinha em sua garagem e ele dirigiu até o estádio, que alguns dias antes, tinha conhecido por fora. Uma quantidade razoável de carros estava estacionado por lá, e ao entregar seu veículo ao manobrista, os quatro caminharam pelo tapete amarelo que estava estendido, e pararam para algumas fotos.
procurava manter distância da família Reus. Marco era a estrela do time, e e Nathan eram sua âncora. Eles quem deveriam ser fotografados e brilhar naquela noite. Porém, a brasileira sentiu flashes sendo disparados em sua direção e deu um sorriso discreto, para não parecer ser grossa. Aquilo não estava certo. Ela não deveria ser fotografada.

— Você está estonteante, que até os fotógrafos perceberam isso.
— Eu não sei tirar fotos, . — confessou para a amiga, enquanto os flashes ainda eram disparados, dessa vez, na direção das duas.
— Sabe sim. É só ficar na sua posição sorrindo e vez ou outra direcionando para uma câmera, e depois outra, assim… — E passando um braço pela cintura da amiga, e eram fotografadas pelos mais diversos veículos de comunicação da Alemanha. De colunas sociais e jornais esportivos — Você se acostuma.
— Acredite em mim, não vai ter motivos para eu me acostumar com isso.
Tante, Mama! — Nathan foi em direção as duas, seguido de Marco, e logo os quatro posaram para as fotos.
— Vocês conseguiram fazer com que eu saísse nas fotos com vocês.
— Eu e a temos um poder em conseguir aquilo que queremos. — Marco piscou para a amiga.

Os quatro então seguiram seu caminho, com sentindo-se um pouco cega por conta dos flashes.
Assistindo a família Reus que estava brilhando no tapete amarelo, André via a mesma mulher por quem ele se interessou no aniversário de Nathan, sorrindo sem graça em um vestido amarelo que exibia as costas completamente nua.
Se André já havia achado aquela mulher maravilhosa em calça jeans, bota e suéter, naquele vestido e saltos altos, ele estava completamente hipnotizado.
Foram então todos guiados até sua mesa, que tinha seis lugares. Quatro para Marco e seus convidados, os outros dois estavam ocupados por Mario e Ann.

— Olha só quem finalmente chegou. — Mario comentou se levantando, seguido de Ann, para cumprimentar os que haviam chegado. — Hallo liebe, Nathan!
— Mulheres se arrumando. Acho que você entende.
— Entendo, às vezes eu preciso gritar pra Ann.
— Exatamente o que eu fiz hoje!
— Homens… — Ann comentou para e , antes de abraçá-las. — Meu Deus, vocês estão maravilhosas. , que vestido é esse?
— Obrigada, Ann. Você também está incrível.

As mulheres então sentaram à mesa e não demorou muito para que dois homens, que explicou a como treinador e presidente do clube, começassem um discurso. olhava para o palco enquanto fingia entender alguma palavra do que estava sendo dito por eles.
Frohe Weihnachten! — Eles falaram e então, todos no salão repetiram, com seus copos levantados em um brinde.

não fazia ideia ao que estavam brindando, mas levantou seu copo, que estava servido de água, e sorriu à mesa.
Logo em seguida, o jantar foi servido e uma entrada foi colocada à sua frente. Os seis se alimentavam enquanto conversavam futilidades do dia a dia, enquanto Mario e Ann se preocupavam em saber se estava se adaptando à gélida Alemanha.

— Realmente, o frio é muito rigoroso. Mas se eu estivesse no Brasil, já havia derretido, então não posso reclamar.
— Lembro quando estive na Copa do Mundo. Quando atingia certa temperatura, os jogos eram paralisados para nos hidratarmos. — Mario comentou pegando sua taça de vinho. — Mas para quem vive no frio, como nós, é um paraíso.
— Eu troco com quem quiser! — riu. — Mas sim, estou lidando bem. Alguns costumes diferentes, e a língua, claro.
— Mas você vai ouvir tanto, que vai sair daqui falando alemão, . — Ann comentou.
— É um dos planos.

Após a entrada, o prato principal foi servido e depois o evento virou festa. A música ambiente foi substituída por um DJ, tocando hits atuais, bar aberto com diversos drinks. , para ficar mais à vontade com o marido e amigos, levou Nathan no espaço reservado para recreação infantil, e logo o casal, junto de Mario e Ann, foram até a pista de dança.

, que havia recusado o convite para dançar, se levantou e foi até o bar, pedindo um mojito para o barman. A morena de olhos verdes usou o local como apoio enquanto assistia a festa acontecer. Além do aniversário de Nathan, que era mais privado, uma festa familiar, aquele era o primeiro lugar que ela via muitos alemães reunidos. E o que ela havia ouvido falar dos costumes dele, não batia com a realidade.
sempre ouviu falar que os alemães são pessoas fechadas, mais na deles, e tinha certeza que é exatamente por isso que e Marco se entenderam. Mas ali, os vendo beber, dançar, falar alto e se divertir, ela facilmente poderia falar que estava em uma festa no Brasil.
viu que vagou uma espaço no sofá próximo ao bar, e junto com sua bebida, foi ali sentar. Amava saltos altos, mas eles apenas matavam os seus pés.
André Schürrle então deu uma passada rápida de olhos pela festa e encontrou aquelas costas nua caminhando na direção contrário em que ele estava. O loiro deu um sorriso de lado para si mesmo, e encontrou Marc olhando para ele.

— Faz tempo que não te vejo com esse olhar, André.
— Acho que eu vou dar uma volta. — André bateu duas vezes no ombro de Marc e se levantou da mesa.

Desde o aniversário de Nathan que André tomou um choque de realidade. Ao ver uma mulher bonita, por quem havia se interessado, o homem finalmente percebeu que Olivia não iria voltar, e naquela altura do campeonato, talvez ela já estivesse com outro cara.
André então contratou uma faxineira que deu uma geral em seu apartamento. Fez a barba e cortou o cabelo. Tomou banho de perfume e voltou a vestir suas melhores roupas.
André Schürrle estava de volta ao jogo. E se tudo desse certo, logo iria reconquistar sua posição como titular no time.
O jogador atravessou o salão e chegou no bar, onde pediu uma dose de whisky e uma Piña Colada. Ele então se dirigiu até onde a bela mulher de amarelo estava sentada, e tomou lugar à frente dela.

Ist dieser Platz leer? — Ele perguntou, dando o melhor de seu sorriso. então bebericou seu mojito, e devolveu o sorriso ao homem à sua frente.
I don’t speak German. — Confessou para ele, sentindo-se um pouco constrangida.
— Oh… Desculpe! Perguntei se esse lugar está vazio.
— Ah, claro. Fique à vontade.
— Obrigado. — André esticou a bebida de abacaxi para ela. — Aceita um drink?

ficou sem graça. Já tinha um copo em uma mão, mas não queria ser a grossa a recusar um drink de um rapaz que, aparentemente, estava sendo gentil com ela.

— Eu não sou uma bêbada, mas aceito. — Ela pegou da mão dele e apoiou na mesa ao lado do sofá.
— Jamais iria pensar isso de você. Mas então… Se você não fala alemão, fiquei curioso. De onde é?
— Brasileira. Vim fazer um curso aqui.
— Uma brasileira, fazendo um curso na Alemanha. Estou surpreso. — André comentou, dando um gole em seu Whisky.
— O curso é ministrado em inglês, caso contrário, eu estaria enrolada para entender uma palavra do que será dito. — Os dois então riram, e estendeu o braço. — . — Ela percebeu a confusão do homem à sua frente. — , se for mais fácil.
— Fico com o . — André confessou. — André Schürrle.
— Esse nome me é bem familiar. — Ela pareceu pensar. — Copa do Mundo?
— Eu fui para lá. Não precisamos falar de jogos, não é mesmo?
— Podemos falar, se você me disser que não fez nenhum gol contra a minha seleção.

André riu, e ao mesmo tempo, sentiu o rosto corar. Então discretamente, ele levantou dois dedos e abaixou a cabeça ao ver boquiaberta.

— Foi muito bom te conhecer, André! — Ela fingiu se levantar do sofá, mas sentou novamente. — Brincadeira. Foi um momento difícil para nós, mas eu tenho noção de que minha seleção estava desestabilizada.
— Eu nunca vi a seleção brasileira daquele jeito, mas não vamos falar disso agora para estragar a noite, não é mesmo? — concordou. — O que você é da ? — A brasileira então se chocou que ela e a mulher de Marco eram amigas. — Eu não sou nenhum maluco, eu te vi no aniversário do Nathan.
— Você estava lá? Oh meu Deus, eu sou tão desligada, nem reparei, perdão.
— Nós meio que nos esbarramos quando eu cheguei. — André piscou para ela.
— Meu Deus, sim, claro. Você estava diferente, por isso não tinha o reconhecido. A barba estava mais… Cheia.
— Cheia, comprida… — André riu balançando a balançando concordando. — Estava sendo chamado de Náufrago pelos colegas do time.
— Mais um pouco você teria que gritar pelo seu amigo Wilson.
— Não seria difícil. — Os dois concordaram entre risadas. — Então, o que você é da ?
— Ah sim, claro. Somos amigas. Melhores amigas, na verdade. Recebi o convite do Nathan, resolvi finalmente vir à Alemanha visitar meus amigos, e emendar um curso de negócios aqui. Fico até o fim de Março.
— Então isso quer dizer que eu tenho três meses para te conhecer?

então percebeu que em sua mão, seu drink já havia finalizado. Ela então apoiou na mesa ao seu lado, e pegou a Piña Colada que André havia lhe oferecido, e deu um longo gole. Ela quase poderia dizer que aquela conversa com aquele jogador, havia sido invenção de e Marco para provarem a ela que estava errada e que ela devia sim, ainda estar disponível para relacionamentos.

— É exatamente isso. — Ela sorriu para André, enquanto mordiscava o canudo da bebida.
, , ! — Ela viu Marco vindo em sua direção, com um copo de whisky, idêntico ao de André. — , finalmente eu te encontrei.
— Calma, Marco! — Ela sorriu para o amigo. — Está tudo bem? Aconteceu algo? O Nathan está bem?
— Ah, tá, tá todo mundo bem. É só que a louca da sua amiga entrou em desespero em não te ver mais na mesa. Aí ela falou que se você estivesse isolada em um canto, sozinha, ela iria fazer uma greve. Eu não sei por que, mas iria.
— Tá tudo bem. Eu fui ao bar pegar um drink, então decidi sentar aqui, meus pés estão me matando. Logo após, o André veio me fazer companhia. — Ela finalizou, apontando para o homem à sua frente.
Hallo, Marco! — André falou para o amigo, que o olhava espantado.
— Cara, eu quase não te reconheci sem aquela barba de bêbado sofredor. — André deu um sorriso sem graça para o amigo, que sabia o motivo dele ter ficado com aquela aparência. Então, como um estalo, Marco virou novamente para . — , o André tá solteiro! O André é um amigo meu do time que está solteiro!
— Eu acho que você bebeu demais, Marco. — tentava tirar o copo de whisky da mão do marido da amiga. Marco estava claramente bêbado, e falando mais do que devia.
— Não, presta atenção, lembra o que eu te falei de dia? Eu sabia que tinha amigo meu solteiro, e o André está. Olha, recomendo. — E depois de um sinal positivo com as mãos, e um sorriso frouxo nos lábios, olhou para André um pouco sem graça, e deu graças quando viu vindo na direção deles.
— Seu marido está bêbado.
— E ele falou alguma besteira, não falou? Você não está envergonhada à toa. — semicerrou os olhos e balançou a cabeça. então viu André sentado. — Acho que eu já entendi o que esse inconveniente falou.
— Eu só falei que o André está solteiro. Qual o problema? André solteiro, solteira. Tcharam!
— Certo, acho melhor tirar o Marco daqui. — A mulher abraçou o marido. — Me desculpem por isso. — Ela suspirou. — , daqui a pouco nós vamos embora. Você pode ficar se quiser, só chama um Uber, e qualquer coisa me manda uma mensagem.
— Eu vou com vocês. A hora que quiserem, é só me avisar.

então saiu com Marco, e sentou novamente à frente de André, com a mão no rosto.

— Me desculpa por isso. É que nós tivemos uma conversa boba hoje de manhã, e ele deve ter lembrado.
— Não se preocupa. — André então mexeu no bolso da calça, e tirou seu celular de lá. — Você pode me dar o seu telefone, e a gente marca algo para fazer.

pegou o celular da mão de André e prontamente anotou seu telefone.
Talvez ela não devesse se fechar tanto para relacionamentos.
E só talvez, ela ainda podia ser considerada uma pessoa interessante.



6. SHAPE OF YOU:

{ We talk for hours and hours about the sweet and the sour
And how your family is doing okay
Leave and get in a taxi, then kiss in the backseat
Tell the driver make the radio play, and I'm singing like... }

Era a primeira vez que passava as festas de fim de ano longe de sua família. Por mais que sempre houvesse mil motivos para reclamar e prometer que no ano seguinte iria arranjar algo diferente para fazer, estar na Alemanha, há quase dez mil quilômetros de sua família, em um fuso horário diferente, a fez desabar.
O Natal havia sido na casa dos pais de Marco. Manuela e Thomas a receberam em sua casa da mesma forma que entrou alguns anos atrás. A família Reus era acolhedora, e mesmo vendo nos olhos de que ela estava chateada pela distância pela família, fizeram questão de animá-la, e até ajudar nas atividades da noite para espairecer.
Mas para , foi quase impossível esquecer a distância, mesmo sendo incluída em uma família que a amava. Quando seu telefone tocou, e sua mãe, do Brasil, lhe desejou Feliz Natal, ela desmontou pela segunda vez, e correu ao quarto para chorar. , seguida de Nathan, entraram no cômodo, e silenciosamente, a abraçaram, lhe dando o conforto necessário.
tinha, naquele momento, certeza absoluta: não importava quanto sua vida saísse dos eixos, não andasse no caminho que ela havia planejado, ou quão solitária ela se sentisse, ela nunca estaria sozinha.
Para o ano novo, Marco decidiu fazer uma surpresa para sua família. Ele apenas revelou o destino quando já estavam no aeroporto em Düsseldorf prestes a embarcar.
mal podia acreditar quando viu pela janela do avião, lugares que antes só havia visto nos filmes, como o Big Ben e a London Eye, com o Tâmisa entre os dois.

— Eu nunca vou saber retribuir isso a vocês. — Ela comentou no carro, entre o aeroporto de Heathrow, e o hotel que iriam ficar. — Digo, vocês me recebem na sua casa e ainda me trazem para Londres no ano novo? Meu Deus, o que posso fazer para agradecer?
— Seja a melhor das melhores no ISM. — Marco respondeu. — Tenha muito sucesso na sua vida, realize os seus sonhos.

então desviou o olhar para a janela do carro, e viu que estavam em uma via beirando o Tâmisa. Ela podia ver ao longe os monumentos que antes enxergou do avião.

— Eu vou, Marco. E vou para sempre falar que parte da culpa do meu sucesso, é de vocês.
— Não. — então entrou no assunto do marido com a amiga. — A culpa é sua. A gente só deu aquele empurrãozinho que faltava.

E como se estivesse entendendo tudo o que aquele assunto significava, Nathan deu sua contribuição para a conversa:

— Ohana, Tante!

Ohana quer dizer família. Família quer dizer nunca abandonar ou esquecer.
Alguns dias antes da noite de ano novo, os quatro passearam. Museu de Cera, a maravilhosa London Eye, Buckingham Palace, Big Ben. Tudo o que se era possível ver em Londres, nos poucos dias que tinham na cidade, eles viram.
E então, na última noite do ano, os quatro foram até um píer de onde embarcaram em um barco cheio de pessoas bonitas e bem vestidas. Tiveram um jantar incrível, e quando o Big Ben soou as badaladas da meia noite, o céu de Londres se iluminou em cores e explosões.
Um novo ano estava se iniciando. Com novas oportunidades para fazer acontecer.

— Feliz ano novo! — Marco beijou com carinho.
— Feliz ano novo, pacotinho! — disse para Nathan, que estava em seu colo, com os braços em volta do pescoço da tia, adorando o espetáculo que ocorria acima de suas cabeças.

• • •

Na primeira segunda do ano, após a virada do calendário, o curso de Gestão Estratégica de Marketing de iria começar no ISM. acordou cedo, tomou banho, se vestiu e foi em direção à cozinha dos Reus para comer algo antes de sair de casa. A residência estava silenciosa, e o sol ainda não tinha dado as caras no céu. Era Janeiro, era inverno. O sol não daria as caras antes das 8h da manhã.
estava silenciosamente sentada na cadeira tomando seu café da manhã enquanto se atualizava em suas redes sociais, quando ouviu uma porta abrir. Suspirou. Tinha quase certeza que era Nathan, que andava pulando da cama cedo para ficar mais tempo com ela, mas se surpreendeu ao ver com cara de sono, vestindo um moletom de Marco.

— Caiu da cama? — perguntou e a amiga torceu o nariz. — Bom dia, .
— Não se acostume, . Não vou levantar todos os dias para te fazer companhia antes de ir para o curso.
— Você o quê? — abriu a boca chocada, e ao passar por ela, tocou em seu queixo para ela fechar, e logo em seguida, deu um beijo na bochecha da amiga.
, é seu primeiro dia em um curso aqui na Alemanha… — levou sua xícara de café à boca enquanto observava a amiga. — Ai, me deixa. Eu sou mãe, estou com esse instinto aflorado em mim. Tem café?
— Na máquina.

Em silêncio — mais por , que estava morrendo de sono, do que por — as duas amigas tomavam café da manhã. continuava vendo seu celular, e bocejava com a mão apoiada no rosto. Não demorou muito para que quebrasse aquela falta de barulho.

— Vou escovar os dentes e pegar minha bolsa. Volte a dormir. — Ela intimou para a amiga.

Pouco tempo depois a brasileira voltou com um pouco de maquiagem no rosto e suas coisas. estava na sala com cara de quem tinha aprontado.

— O que foi?
— Eu preparei um lanche para você. Caso você fique com fome, ou sua aula acabe muito tarde. Sei lá, só te preparei um lanche.

sempre soube que o sonho de era ser mãe, mas nunca imaginou que a maternidade estivesse tão aflorada daquele jeito. Principalmente com ela, sua melhor amiga. Elas eram da mesma idade.

, não precisava. — Ela rolou os olhos, mas agradecida, para a amiga. — Onde está?

correu na cozinha, e voltou com algo que se assemelhava a uma lancheira infantil. tinha quase certeza que estava vendo errado. Então, com um sorriso sacana no rosto, ela virou de frente para a amiga, onde pôde ver o desenho da Bela, sua personagem preferida da Disney.

— Você não fez isso.
— Eu fiz! — parecia estar se divertindo com àquilo. — Aqui tem um suco, uma fruta e um lanche.
— Você não fez isso, .
— Eu fiz, e você me agradeça. — Ela passou a alça da lancheira pelo ombro da amiga. — Agora vamos, se não você vai se atrasar.

estava sem reação, queria amar a amiga, enforcá-la, chorar de felicidade e agradecer. Entre as opções, sorriu agradecida e deu um abraço na amiga.

— Você é ridícula. Aposto que gastou dinheiro com essa lancheira só para ver minha reação.
— E eu perderia a oportunidade de te zoar, ?
— Jamais! — As duas gargalharam. — Eu agradeço por tudo. Mas o lanche vai na bolsa. A lancheira vai pro quarto ficar guardada, porque ela volta comigo pro Brasil.
— Deixa que eu guardo quando voltar.
— Aonde você vai?
— Vou te levar no ISM.
— Não vai, não. Volta a dormir, eu vou de metrô.
— Fica quieta que eu já levantei para isso. Vamos logo antes que o Marco acorde e descubra que eu peguei o Aston Martin dele.
— Você está maluca, !
— A culpa não é minha se ele deixou o carro dele trancando o meu. Anda logo, caso contrário, nós realmente vamos nos atrasar.

• • •

O curso de era em inglês, mas a escola era inteira com placas e avisos em alemão, então ela teve um pouco de dificuldade ao chegar e encontrar sua sala. As primeiras horas de curso estavam incríveis. Professores do mundo inteiro altamente capacitados dando aula, e teve certeza que todo dinheiro que ela investiu naquilo, já estava valendo à pena.
Era uma sala de intercambistas, com alunos de todos os lados do mundo, então ao anunciar o almoço, se juntou a um grupo e foram juntos à cafeteria do local, onde todo mundo estava se apresentando.
Talvez não iria fazer mal falar quem ela realmente era.
E por quem ela realmente era, implicava em dizer melhor amiga da esposa de Marco Reus.

— Meu nome é Miguel, eu sou do México e um grande fã de futebol. Eu podia ter escolhido qualquer ISM do país, mas eu sou apaixonado pelo Borussia Dortmund e Marco Reus é meu ídolo, por isso, eu decidi vir para cá.

Algumas pessoas concordaram e riram, tendo o ISM Dortmund como alvo pelo mesmo motivo. Ela tinha certa dificuldade em ver Marco da mesma forma que a grande maioria das pessoas.
recuou e pensou melhor no que falar. Talvez ela iria arranjar problemas se anunciasse que estava hospedada na casa do ídolo de Miguel.

— Meu nome é , sou do Brasil e estou fazendo esse curso para aperfeiçoar. Na verdade, eu vim pra cá porque minha melhor amiga se casou com um alemão e mora aqui, estou abusando da hospitalidade deles.
— Nada como hospedagem grátis, hein?
— Pra isso servem os amigos. — riu na rodinha.

Seria melhor se por enquanto as pessoas não soubessem a estrita ligação que ela tinha com a família Reus, e principalmente, com Marco.

• • •

A semana seguiu normalmente. nunca mais madrugou para dar lanche ou levar a amiga na escola. ia todo dia antes do sol nascer para a escola, e voltava com o dia já se tornando noite novamente. Após o banho, estudava até o jantar, e passava o resto da noite com seus amigos. passava o dia com Nathan, e quando Marco voltou da intertemporada na Espanha, voltou à sua rotina diária de treinos.

— Então… Como está às coisas na sua casa, Marco?
— Normal? — O amigo riu da pergunta de André. Ele nunca havia se importado em perguntar como estavam as coisas em casa.

Não importava quão estranho estava sendo o assunto, Marco estava feliz em ver o André que ele conhecia de volta. Interessado no treino — nos amistosos na Espanha, ele marcou dois gols — disposto, sorrindo, se divertindo. Então, se ele quisesse perguntar ao amigo como “estavam às coisas em sua casa”, Reus iria responder alegremente.

— Nathan está ficando um pouco birrento. Além dele está entrando na fase chata, o curso da começou. Ele está sentindo falta dela todos os dias, contando histórias, assistindo filmes, brincando juntos. Fora isso, normal.

Não demorou para que Mario se juntasse aos dois na corrida em volta do campo.

— Como a está lidando com as aulas?

André encontrou Mario pela visão periférica e rolou os olhos.

— Disse que está gostando, e que está superando as expectativas dela. É bom ver a animada, às vezes nem eu nem a sabemos como levantar o astral. E as aulas e tudo mais estão deixando ela assim.
— Ela fica muito tempo fora de casa? — André perguntou assim, como quem não quer nada.

Marco achou a pergunta estranha.

- Sai antes de clarear e volta com o dia já escuro. — Schürrle arregalou os olhos com a informação. — E fica dentro do quarto estudando até o jantar.
— Esforçada. — André soltou.
— A ? — Marco balançou a cabeça em negação. — Ela é muito inteligente. A hora que um empregador ver, vai se perguntar como não a teve antes.
— Por quê? Qual o problema? O que acontece?

Marco então parou de correr, colocando as duas mãos no joelho, Mario e André diminuíram o ritmo e voltaram até o local que o amigo parou.

— Você tá interessado na , André?

O loiro deu de ombros. Interessado ele estava, só não sabia ainda para o quê.

— Chama a para sair. Não encontro, apenas saiam. Se divirtam juntos.
— É! — Mario incentivou. — Saiam. Virem um casal, faz ela ficar na Alemanha, saímos de casal. Eu e a Ann, Marco e a , você e ela.

André riu, mas Marco olhou apreensivo para o amigo. A ideia não era tão ruim assim.

— Talvez, se a tivesse a melhor amiga ao lado, ela iria te agradecer para sempre.
— Chamar a para sair? — André pôs a mão no queixo.

Marco quem tinha incentivado. Talvez ele pudesse amadurecer aquela ideia. Afinal, não iria machucá-lo como Olivia fez. Não, André concluiu consigo mesmo, definitivamente, não tinha como machucá-lo.
André tinha formado um escudo em volta de si mesmo. Ninguém iria machucá-lo de novo.

• • •

estava esgotada. Uma semana de aulas o dia inteiro e a brasileira sentia que estava a ponto de enlouquecer. Não estava reclamando, ela gostava de se sentir útil, fazer algo de bom, não ter tempo para pensar em procrastinar, mas ela sentia falta do sol. Sentia falta de sua cama. E principalmente, sentia falta de Nathan em volta dela querendo brincar ou apenas a companhia dela.
Ninguém havia dito que fazer um intercâmbio seria fácil, mas ao menos, ela não podia reclamar que não era prazeroso.
Era sábado à noite, estava no quarto revisando a matéria da semana e já iria deixar tudo pronto para a segunda seguinte — se recusava a estudar aos domingos, acreditava que merecia ao menos um dia de descanso — quando ouviu a campainha tocar.
Ela era uma simples visita na casa dos Reus, então não deu importância. Continuou com o rosto virado para os cadernos quando ouviu a porta do quarto bater duas vezes e , seguida de Nathan por entre suas pernas, entraram no cômodo.

… Visita para você.

levantou a cabeça dos livros e podia jurar que havia visto um ponto de interrogação no rosto da amiga. estava confusa, quem será que estava lá para vê-la? Não podia imaginar ninguém, ou talvez, os Reus estavam aprontando algo para que ela saísse do quarto e socializar um pouco com a família que a estava recebendo de braços abertos.

— Pra mim? — Perguntou em dúvida para a amiga, que concordou com a cabeça. — Quem é?
— Você vai ter que vir na sala ver.

Contrariada, a hóspede afastou sua cadeira da escrivaninha e vestiu seu par de pantufas que estavam embaixo da mesa. No caminho entre o quarto e a sala, se perguntava quem podia ser. Talvez Mario e Ann, mas não acreditava que eles iriam até a casa dos Reus para, especificamente, vê-la, já que Mario e Marco eram muito amigos. Não acreditava que Melissa e Marc haviam feito o mesmo.
A brasileira então arregalou os olhos quando, ao chegar na sala, ver um homem alto e loiro, conversando em alemão com Marco.
André Schürrle era a visita que havia falado?

Hallo! — arranhou seu alemão para cumprimentar André. — Olá, Schürrle.
! — André arriscou falar o apelido da brasileira, com um pouco de dificuldade. — Como está?

Ela sorriu para o homem alto à sua frente, indicando que estava bem.

— Só estou confusa. — Confessou. — Você veio me ver? — E repousou a mão direita em seu tórax.
— Fiz mal? — André perguntou receoso.
— Não, claro que não! — se exaltou e segurou no braço de André, tentando mostrar que não tinha problema. Ao perceber o que havia feito, a brasileira soltou o braço dele e deu um sorriso sem graça. — Digo, é que eu não estou acostumada com isso. Aí pensei que, sei lá, talvez você tivesse vindo ver , Marco e Nathan, e talvez perguntado por mim.
— Não, . Eu adoro os três, mas hoje eu vim te ver. Na verdade, te fazer um convite, seguido de sequestro.

A brasileira não pôde deixar de rir do comentário, e pediu para que o alemão continuasse.

— Vamos sair? Conheço um bar de karaokê ótimo aqui na cidade, e talvez fosse um local legal para a gente se conhecer melhor.
— Sair? — A brasileira travou a mandíbula e olhou para , que tinha um Nathan já sonolento em seu colo, a incentivando. — Podemos ir, não? Quer dizer, vamos todos.

rolou os olhos para a amiga, e podia entender que se estivessem sozinhas, iria tomar uma bronca da amiga-irmã.
— Não, , vai você. Nathan já está quase dormindo, eu e Marco temos planos de, depois que ele dormir, abrir um vinho e ficarmos assistindo um filme com petiscos.
— Temos? — Marco perguntou para a esposa que o metralhou com o olhar. — Sim, nós temos planos.

André assistia aos três conversando, e Marco confuso em relação ao que estava acontecendo, e ria, enquanto entendia o que rolava.
queria sair, porém estava com o pé atrás de sair apenas com André. Dessa forma, estava incentivando para que seu casal de amigos fosse junto, para que não se sentisse tão desconfortável.
Porém era irredutível, ela não iria sair de casa naquela noite. E ela nunca iria permitir que a amiga negasse o convite dele.

— Vista uma roupa quente e vai se divertir. Se você ficar até o fim do curso, enfiada naquele quarto estudando, você vai enlouquecer. Anda, , vai logo.

Virada de frente para , e de costas para André, rolou os olhos para a amiga, que em resposta, lançou um sorriso irônico. A brasileira virou então para André.

— Eu só preciso de alguns minutinhos.

E então sumiu para o quarto.
não a seguiu, sabia que iriam ter uma pequena discussão sobre sair ou não se tivesse ido atrás da amiga, então preferiu ficar fazendo sala para André, junto do marido.
Os minutos de se transformaram quase em meia hora, mas ela apareceu impecável. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo bem alto, o rosto bem maquiado, com as bochechas com uma aparência de bronzeado. Um olho bem esfumado e um batom discreto nos lábios. Sua roupa estava escondida embaixo de um sobretudo preto, com um par de botas também pretas, e um cachecol da mesma cor em volta do pescoço.

— Divirtam-se! — piscou para a amiga, quando ela e André saíam da casa.

Aquela piscadela que podia imaginar o quão maliciosa a amiga foi naquele momento.

• • •

— Eu preciso confessar, você pareceu mais tímida quando eu te conheci.
— Mas eu sou tímida! — gargalhou e tomou um gole de sua cerveja.

Já era sua terceira ou quarta caneca da brasileira, mas já que havia sido praticamente forçada a sair de casa, ela iria se divertir da maneira que ela sabe melhor.

— Eu não vou ser convencido disso. — André riu ao vê-la sorrindo por entre a caneca. — Mas se você diz… Quem sou eu para falar o contrário, não é mesmo?

repousou sua imensa caneca na mesa em que os dois estavam sentados e balançou a cabeça em negação.

— Essa bebida tem efeitos desinibidores. — E piscou para o alemão. — Eu não sei lidar direito com pessoas que eu não conheço. Então a bebida entra…
— E a verdade sai.
— Exatamente! Inclusive, eu estou pensando em mostrar meus dotes artísticos nesse palco daqui a pouco. — André pareceu um pouco na dúvida quanto aquilo. — Ah, qual é? Ninguém me conhece aqui na Alemanha, e além de tudo, eu não vou demorar muito para ir ao Brasil de volta. Logo vão esquecer a louca semibêbada que resolveu cantar no palco.

André ainda não tinha tido a experiência de conhecer sem uma gota de álcool no sangue. Com exceção da aparição dele na casa dos Reus, a outra vez que eles haviam conversado, ela havia bebido, e como naquela noite, estava comunicativa.
Talvez era por isso que ele tinha dúvidas se a brasileira que tinha atraído seu interesse, realmente era uma mulher tímida.

— Bem, eu te conheço. — Ele então tomou um gole de sua cerveja. — E mesmo você indo embora para o Brasil, não é bem uma mulher fácil de esquecer.

Petiscando umas azeitonas e queijos que estavam servidos à mesa, a morena de olhos verdes engasgou ao ouvir o comentário de André, mas tentou manter a pose.

— Ou talvez eu pague um mico tão grande, que você vai desejar me esquecer. — Ela piscou para André, que negou. — Você pode se decepcionar comigo, André.
— Vale à pena o risco.

ficou desconcertada com aquela pequena frase. Ao ver que sua caneca de bebida estava chegando ao fim, ela pediu mais uma ao garçom que passou pela mesa dos dois. Ela estava precisando de todo álcool possível no sangue.
Se não tivesse feito graça para só ela ir, aquilo não estaria acontecendo.
Os primeiros acordes de Thinking Out Loud, do Ed Sheeran, ecoaram pelo bar e aproveitou a deixa para mudar de assunto.

— Fala sério! O cara lançou até um CD novo e ainda estão cantando essa música?
— Você não gosta? — André perguntou e deu de ombros.
— Gosto, só não é a minha preferida!

Um homem estava no palco praticamente declamando a música mais conhecida do ruivo inglês para uma mulher que assistia de uma das mesas mais próximas. e André estavam em uma mesa um pouco afastada, discreta, sem muita visão das pessoas.

— Definitivamente, eu vou cantar. — Ela então deu um longo gole de cerveja e se levantou da mesa, deixando André um pouco atônito.

estava exuberante. Uma calça jeans completamente justa ao seu corpo, com uma blusa de manga comprida branca, além de botas de salto alto. Ela então caminhava para a beira do palco, onde um homem com computador colocava as músicas em ordem e para sua felicidade, tinha a música que ela queria.
Após o fim de Thinking Out Loud, um ritmo animado começou a tocar no bar e , com um microfone na mão, subiu no palco, e se mexia no ritmo da música.
Em sã consciência ela nunca faria algo como aquilo.
André sorria para o palco, enquanto tentava se movimentar como .

— The club isn’t the best place to find a lover, so the bar is where I go — cantou a primeira frase da música e deu a língua para André lá no fundo do bar.

Cantar nunca foi seu forte. Não tinha ritmo, não tinha uma boa voz, mas era apaixonada o suficiente por músicas para ignorar o fato de que não tinha atributos para seguir a carreira.
E André poderia concordar com ela.

Me and my friends at the table doing shots drinking fast then we talk slow. Come over and start up a conversation with just me and trust me I’ll give it a chance now. Take my hand, stop, put Van the Man on the jukebox and the we start to dance, and now I’m singing like…

Por causa da bebida, estava se divertindo em cima do palco, e André estava, definitivamente, não acreditando que havia alguma coisa de timidez naquela mulher.
Ela não só cantava, como também dançava no palco.

I’m in love with the shape of you, we push and pull like a magnet do. Althought my heart is falling too, I’m in love with your body.

A música continuou por mais algumas estrofes e pelos quatro minutos, se divertiu.
Se divertiu sozinha no palco. Se divertiu com uma pessoa que ela mal conhecia, além de algumas rápidas pesquisas no Google, e se sentiu feliz.
Pela primeira vez percebeu que não era o trabalho que ela tanto desejava que iria trazer a felicidade e sim, pequenos acontecimentos do dia-a-dia.
Se quando voltar ao Brasil e tudo continuar como antes, ir para Alemanha já vai ter valido por pequenos ensinamentos como aquele.
Ela então desceu do palco com poucos aplausos, mas não desanimou. Ao chegar à mesa, André estava em pé aplaudindo-a, que deu risada para ele, e o abraçou involuntariamente.

— Eu nunca faria isso se não estivesse bêbada.
— Você está alegre, é diferente!
— Que noite, André! — Ela sorriu para ele, após afastar do abraço. — Obrigada pelo convite!
— Você foi ótima, você realmente não é tímida, mas , vamos combinar… — André piscou para ela. — Cantar não é seu forte, ainda bem que você tem tudo para ser uma empresária de sucesso.

fingiu estar ofendida com o comentário e levou as duas mãos ao peito, boquiaberta.

— Assim você me ofende e fere os meus sentimentos, Schürrle. — Ela piscou para ele, que então relaxou. — Acho que vou continuar na minha caminhada empresarial.
— Concordamos em algo.

Não demorou muito para que André pedisse a conta e os dois saíssem do bar. Pedindo um Uber de seu celular para , assim que o carro chegou, e ela foi se despedir, o jogador de futebol entrou no banco de trás com ela.

— Nós poderíamos estender a noite, se você quisesse.

abaixou a cabeça e sorriu, negando o convite de André.

— Já está tarde. Está chegando em um horário que eu não seria mais uma boa companhia.
— Certeza? — Ela balançou a cabeça concordando com a pergunta dele. — Pois eu acho que você seria uma boa companhia a qualquer momento.
— Mesmo dormindo?
— Ou não dormindo. — André jogou no ar a sentença, não recebendo uma resposta de .

Eles continuaram o caminho até a casa dos Reus em silêncio e não demorou muito para que o motorista particular daquela noite freasse em frente à casa de fachada já bastante conhecida para a brasileira.

— Então… Acho que muito obrigada pela noite.
— Ela não precisa acabar, .

Ignorando mais uma vez as tentativas de André, a brasileira se aproximou do alemão para se despedir, porém, o jogador de futebol virou o rosto no mesmo momento, e foi quando as bocas dos dois se encontraram, e mais do que depressa, André levou uma mão ao fundo do cabelo de , aprofundando o beijo.
podia estar tentando fugir das intenções de André, mas não iria negar que estava gostando daquele beijo e de, mais uma vez naquela noite, ter certeza que as coisas não estavam de tudo perdidas para ela. Existem maneiras diferentes de se divertir e ser feliz. E existem astros, céus, terra e amigos para lhe mostrar motivos para não se fechar para o resto do mundo.
Ao se afastarem, mordiscou o lábio inferior e deu um sorriso para o homem que tinha a testa colada na sua.

— Mais uma vez, obrigada.
— Boa noite, . — André decidiu não insistir mais uma vez naquilo.

A brasileira beijou a bochecha dele e então abriu a porta, acenando para ele pelo vidro.
Com a chave que havia lhe dado, abriu a porta da frente da casa e foi surpreendida por uma melhor amiga com uma taça de vinho na mão, a televisão ligada e um marido dormindo no sofá.

— Pode me contar tudo o que aconteceu.
— Oh Deus! — levou a mão ao rosto sabendo que definitivamente a noite ainda não tinha chego ao fim.



7. TASTE THE FEELING:

{It feels good, in my heart, in my sould, when you’re right beside me
I don’t ever want this day to end.
We can watch the waves, have a Coke and you site here beside me
Take a little long my heart again
So we can feel whatever you feel together be real}

— Eu atendo!

Uma serelepe e com a escova de cabelo em mãos gritou quando ouviu a campainha da casa dos Reus tocar e saiu correndo pela casa.
Com exceção de Nathan, que estava com a curiosidade aguçada, e começou seus passos até a porta, tanto quanto Marco não se moveram, além de suas cabeças, para assistir sua hóspede correndo pela casa.
, que a conhecia como ninguém, podia fazer uma lista de fatores indicando o quanto a melhor amiga estava sendo ridícula.

— Olá! — A brasileira a passeio na Alemanha falou sorridente quando abriu a porta e encontrou André encostado no batente.
Onkel André! — Nathan gritou animado ao ver seu tio preferido. Coisa que Marco não conseguia entender como André havia ganhado aquele posto.

O homem pegou a criança que estava indo em sua direção com um braço e recebeu um abraço carinhoso. Ele estava bem agasalhado, mas podia ver o amarelo do time que ele e Marco jogavam por baixo dos casacos, e cachecóis.

— Está pronta? — André deu dois passos para dentro da casa e com o braço livre, puxou pela cintura e juntou os lábios.

Assustada, afinal, estava dentro da casa de seus amigos, se desvencilhou do braço de André e discretamente, mas com as bochechas rosada, passou os dedos em volta de sua boca, tentando disfarçar o que havia acontecido.

Tante e Onkel André estão namorando! — Nathan falou sorrindo. A vontade de era apertar as bochechas com a fofura do menino, mas em vez disso, rapidamente negou a afirmação dele.
— Não estamos namorando… — ela suspirou e por fim deu de ombros. Os adultos conseguiam entender que aquilo era uma ficada e Nathan era muito novinho para entender que duas pessoas podem se beijar sem estarem necessariamente… Namorando. — Enfim… Me dá dois minutos que eu já venho.

correu novamente de volta para o quarto a fim de acabar de se arrumar e André ficou na sala, sob olhares de e Marco. A mãe de Nathan se perguntava aonde a amiga iria aquele horário da manhã de um sábado com André, enquanto o pai do menino decidiu questionar o colega de time.

— Você não deveria estar indo para o treino?
— Eu vou. — O loiro ergueu a blusa de frio que usava, revelando o uniforme amarelo do time. — Vou levar a na aula e vou direto para Brackel. E você? Também não vai?
— Vou… Daqui a pouco. — Marco rolou os olhos. Ele andava se atrasando para o treino com a desculpa que quanto mais tempo em casa, menos tempo no frio.
— André, que aula é essa que a vai fazer de sábado?

Schürrle deu de ombros. Ele realmente não sabia. Talvez fosse algo extracurricular no ISM. Ou alguma aula extra. Talvez grupo de estudos.

— Realmente não sei. Perguntei se tinha como nos vermos antes do treino e ela falou da aula, e eu sugeri a carona.
— Aula… Num sábado… — olhou para o corredor onde a amiga tinha sumido e ergueu uma sobrancelha. — Entendo.

O barulho de um sapato com o mínimo de salto ecoou pela casa e de repente apareceu com a bolsa no ombro, enquanto nos braços ela tinha um caderno e um casaco bem grosso.

— Erm, … Eu não quero ser a sua mãe, mas que curso é esse que você tem de sábado de manhã?
— Ah, claro. Desculpa, eu não avisei vocês antes porque eu decidi me matricular ontem antes de vir para casa. Mas é Deutsche. — A brasileira falou a frase em alemão e sorriu satisfeita consigo mesma. — Viu? Eu já sei falar alemão em alemão!
— Muito legal você se interessar em aprender a língua, ! — Marco comentou com a amiga, que agradeceu com a cabeça.
— Não é? Eu preciso aprender a me comunicar com as pessoas. — Animada, bateu palmas e deu dois pulinhos pela casa. — Agora nós vamos indo, que eu não quero chegar atrasada, e esse grandão aqui tem que ir pro treino. — Ela deu dois tapas nas costas de André, que concordou — Até mais, família!
Tante... — indo para o chão do colo de André, Nathan chamou a tia. — Você brinca comigo?

poderia cancelar a aula, o passeio com André, qualquer coisa apenas para ficar com aquela bolinha.

— Quando a Tante voltar, eu prometo que brinco, combinado?

O sorriso satisfeito de Nathan foi o suficiente para que ela saísse logo com André, para voltar o mais rápido possível e recuperar seu tempo perdido com o sobrinho.
Mas era sua primeira aula de alemão, na Alemanha. Só sabe dizer como isso é incrível, e quanto seria maravilhoso em seu currículo.


• • •


Com a matrícula do curso de alemão, a vida de ficava cada vez mais corrida e complicada. A brasileira se martirizava por não estar tendo tempo suficiente com seus amigos e sobrinho, mas eles, com exceção de Nathan, que ainda era uma criança, entendiam que ela estava focada.
Para , não era questão de apenas estar focada. Aquilo era a única coisa que ela sabia fazer na vida, seu plano B, que a levaria de volta ao plano A, e se ele não desse certo, ela não fazia ideia de que rumo tomaria em sua vida.
E além de focar no curso, ela estava aprendendo que alemão era uma língua muito mais complicada do que ela imaginava. Com algumas letras que não têm no alfabeto convencional, palavras com a primeira letra em maiúsculo no meio da frase, diversos tremas e quase nenhuma vogal nas palavras. Mas ainda sim, ela estava aos poucos conseguindo se comunicar.
Nas poucas horas que tinha livre, ela queria poder se dividir em três. Queria aproveitar seu tempo com sua melhor amiga, já que não sabia quando iria vê-la após embarcar de volta para o Brasil, com Nathan, que estava sentindo um pouco a ausência da tia ao seu redor e com André, que mesmo ela sabendo que aquilo que eles estavam tendo tinha prazo de validade, estava gostando da companhia do jogador de futebol.
Mas apesar de gostar de estar ao lado do homem, André estava sendo algo complicado. Ela estava gostando, claro, ele agia como um cavalheiro, lhe dava atenção, e mesmo ela toda aquecida, ele tirava seu agasalho e punha em volta do ombro dela, que não estava acostumada com o frio europeu. Mas se conhecia, sabia quanto ela era fraca para relacionamentos, ela sabe que uma palavra com entonação mais suave era o suficiente para tirá-la do chão, e coincidentemente, a derrubar novamente com força, dando-lhe um choque de realidade.
E por se conhecer, estava evitando que aquela relação tornasse algo mais profundo. Afinal, em pouco tempo ela voltaria para o Brasil, e André não passaria de uma lembrança.


• • •


A cama de estava uma bagunça. Por baixo dos livros, cadernos e até dicionário alemão, estava escondida uma coberta que a protegia do frio rigoroso. A brasileira repetia frases do seu livro em alemão quantas vezes fosse necessária, e até rabiscava a fonética, para ficar mais fácil de compreender.
assistia tudo do batente da porta já há algum tempo e não havia percebido a presença da amiga, até que ela decidiu bater e chamar a atenção da amiga.

! — sorriu para a amiga, e então voltou o olho no caderno. — Komm herein! — sorriu para a amiga e caminhou até a cama. — Eu falei para você entrar.
— Eu entendi. Você está ficando boa nisso, . — deu de ombros e então fechou o livro, com o lápis no meio. — É sério. Você se dedica muito em tudo que faz. Na faculdade, nos seus cursos, no alemão… Vai sair daqui falando melhor que eu.
— Argh, que exagero. No máximo vou conseguir fazer meu check-in no aeroporto sem um tradutor. Já vai ser um avanço. — Ela então deitou, por cima dos livros, no colo da amiga — Em que eu posso lhe ser útil?

passou a mão no cabelo da amiga como se estivesse fazendo carinho e suspirou.

— Eu queria poder pedir um copo gigante de caramelo machiatto agora, mas meu pedido é um pouco mais ingrato. — murmurou para que ela continuasse. — Você tem planos para essa noite?
— Tenho um encontro, na verdade… — arregalou os olhos. Se a amiga fosse sair, não teria como pedir aquilo. — Encontro com os livros.
, se dê um dia ou dois de folga. Ou uma noite para olhar o meu filho enquanto eu e o pai dele saímos para um encontro. — riu, denunciando que era aquele o pedido ingrato.
— Hm… Os Reus querem tirar a noite só para eles, hein? — se levantou do colo da amiga e caçoou de , fazendo cócegas na amiga. — Claro que eu fico com o Nathan. Vou colocar ele para assistir todos os filmes que eu gosto e aposto que a mãe nunca mostrou pra ele.
— Não apresenta o Pateta pra ele.
— O filme do Pateta vai ser o primeiro. Ele e o filho Max percorrem o país inteiro só para chegar à Los Angeles e assistir o show do Power Line. — olhava entediada para a amiga. — , quantas vezes nós não fizemos loucura para ir nos shows que nós queríamos ir?
— Não faz pergunta difícil.
— Quantas vezes a gente não foi pra porta de estádio tentar entrar em algum jogo da seleção, e voltamos com o choro na garganta por não conseguir ingresso?
— Deus, você não sabe brincar mesmo. Já entendi o seu ponto, okay. Mostre o filme do Pateta para o Nathan, e aposto que ele vai dormir na metade.
— E eu aposto que ele vai dançar a coreografia do Power Line comigo.
— Ridícula. — esticou o braço e pegou o travesseiro, batendo na amiga. — Chama o André, pergunta se ele não quer ficar aqui com vocês. Mas safadeza só depois que o Nathan dormir.
— Até parece que você não me conhece. — balançou a cabeça em negação. — Eu não vou me apegar a alguém aqui na Alemanha nesse nível. Eu sou tonta, , e eu não quero que meu coração entenda algo que meu cérebro sabe que nunca vai existir. Eu tenho planos de voltar para casa. E eu não quero sofrer do outro lado do oceano.
— Se isso é um relacionamento ou não, eu não sei, mas leve do seu jeito, como você achar melhor para você não se machucar, combinado? — Após concordar balançando a cabeça, se aproximou e beijou a testa da amiga. — Manda uma mensagem para ele te fazer companhia, e muito obrigada, .
— Sempre que você precisar.

Quando saiu do quarto, olhou novamente para a cama e seus diversos cadernos e livros. Ela realmente merecia um descanso. Fechou um por vez e guardou dentro do armário, e logo em seguida, pegou o celular que estava dentro da bolsa. Enviou uma mensagem para André, que prontamente aceitou o programa para a noite.
merecia uma folga.


• • •


O segundo filme da noite já estava na televisão, e por mais que fosse de super-herói, queria desligar um pouco Nathan, que assim como ela previu, adorou o filme do pateta. Os Incríveis passava na televisão, e apesar de interessado e tentar brigar com o sono, aos poucos a criança ia perdendo a batalha e já estava com a cabecinha no colo da tia.
estava ao lado de André. Ambos tinham uma taça de vinho em mãos, que o jogador levou para a noite, e ele tinha os braços em volta dos ombros da brasileira.

— Eu quero ser o Flecha quando eu crescer. — Nathan comentou, e riu.
— Ele é rápido, né?
— É! — Nathan comentou, abrindo a boca em um bocejo.

André olhava Nathan no colo de e ria.

— Ele logo vai dormir.
— Já passou da hora dele, mas ele é teimoso e fica brigando com o sono por causa dos filmes.

Não demorou muito para que Nathan ficasse calado por muito tempo, e perceber que ele estava dormindo abraçado em sua perna. Com cuidado, a brasileira pegou o menino no colo e o levou em sua cama, cobrindo-o. Ela ficou lá por um tempo, para se certificar que a movimentação não tinha o acordado e voltou para a sala.
André havia desligado a televisão, e enchido as taças dos dois.

— Agora ele vai até amanhã de manhã.
— Nada para nos atrapalhar então? — André deu um sorriso maroto e se aproximou de , quando ela sentou novamente no sofá, e bebeu mais um gole de seu vinho.
— Se eu bem conheço a , eles voltam só de manhã, então…
— Ótimo. — André sussurrou e tirou o vinho da mão de , colocando em cima de uma das mesas de apoio que os Reus tinham ao lado do sofá.

O jogador jogou o corpo para cima do da brasileira enquanto eles se beijavam, e aos poucos, estavam deitando no sofá. Ela por baixo, e ele por cima. André permitia que uma de suas mãos passeasse pelo corpo tipicamente latino da mulher, enquanto suas bocas se entendiam.
sabia o que ele queria, mas sabia que não estava preparada para aquilo. Não com alguém que em algum tempo, ela não saberia quando, nem se veria novamente alguma vez na vida.
Quando André fez menção de erguer a blusa dela, segurou na mão dele, e se levantou, forçando André a sair de cima dela.

— Fiz algo de errado? — O jogador perguntou, e ela negou com a cabeça. — Qual o problema então?
— Eu sou o problema. — Ela deu um sorriso amarelado para o homem e abaixou a cabeça. — Isso que a gente está tendo é muito legal, André, mas eu vou voltar pro Brasil, pra minha vida… Eu sei o quanto eu já sofri por relacionamentos que não deram certo, e eu não vou me aprofundar em algo que eu sei que não vai dar certo, porque no fim, quem vai tentar juntar os próprios pedaços despedaçados do chão, sou eu.

André olhava para na intenção de buscar algum tipo de brincadeira, de pegadinha no olhar dela, mas a brasileira parecia bem séria em relação àquilo. Ela abaixou a cabeça novamente.

— Eu realmente estou gostando da gente se encontrar de vez em quando, nos divertimos juntos, mas desculpa se eu não estou atingindo suas expectativas. O problema, literalmente, sou eu.
— Eu… Eu entendo, . — Dessa vez foi o alemão que deu um sorriso amarelo. — Eu vou te respeitar, e eu também estou gostando muito de te conhecer, e nos divertimos juntos.

pareceu transparecer alívio nas palavras de André.

— Eu fico feliz que você me entenda.
— Claro, eu só… — ele olhou em seu relógio de pulso. — Eu preciso ir embora. Tenho um compromisso amanhã com a minha família, mas a gente marca algo, pode ser?
— Claro. Sem o menor problema.

André então se levantou do sofá, seguido de , e foi em direção à porta. Ele deu um rápido selinho na brasileira e abriu, saindo pelo frio do inverno na madrugada alemã.
Mesmo aliviada, podia perceber que existia algo estranho. André estava disposto a seguir adiante, mas de repente, quando ela o cortou, magicamente ele se “lembrou” que precisava ir embora.
No carro, André estava furioso. Bateu a mão no volante algumas vezes de raiva antes de sair apressado pelas ruas de Dortmund. Não conseguia acreditar que de diversas pessoas, ele havia achado uma romântica incurável que em vez de aproveitar o momento, estava usando o coração.
Dentro de casa, levou as taças para a cozinha, lavou a louça suja e foi em direção aos quartos, desligando todas as luzes da casa. Passou em seu quarto, pegou seu edredom e foi para o quarto de Nathan. Ela se aninhou em uma das poltronas no quarto da criança e se cobriu, velando o sono do sobrinho.
Mesmo se nada desse certo, aquela criança fazia aquela ida à Alemanha vale à pena.



8. BEST OF YOU:

{I’ve got another confession my friend, I’m no fool
I’m getting tired of starting again, somewhere new
Were you born to resist or be abused?
I swear I’ll never give in, I refuse}


André havia sumido.
Nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nem algum comentário de Marco na hora da janta sobre o treino e que envolvia o loiro. também não fazia comentários envolvendo o homem. Ela foi dos céus ao inferno àquela noite de sábado, e tinha quase certeza que ela não estava errada.
Ou estava?
Era errado ela ter negado uma noite com André, mesmo sabendo que qualquer mulher em seu lugar aceitaria simplesmente por ele ser jogador da seleção alemã? Era errado ela ter negado, porque se conhece bem o suficiente e sabe que iria se apegar o bastante para embarcar de volta para o Brasil chorando? Era errado ela não fazer aquilo que ela não estivesse com vontade?
Desde àquela noite, se forçava a ocupar a mente com qualquer coisa, que não fosse lembrar do homem. Não queria se dar o direito de pensar que foi ela quem o afastou, por não cumprir uma vontade dele.
Então ela se isolava para estudar. Ou brincava com Nathan pela casa. Ajudava e Marco nas atividades domésticas. Ia lendo no metrô até o ISM, para não pensar naquilo.
Mas quando chegava a calada da noite, quando ela já estava deitada para dormir, sentia falta de algo que ela passou a ter desde quando eles saíram e ela cantou em um bar karaokê: a troca de mensagens até que ela dormisse e acordasse na manhã seguinte, enviando um pedido de desculpas para o homem por ter deixado-o falando sozinho.
Aquilo não era um relacionamento. Para , estava mais para uma boa amizade, que após insistir tanto, ela havia conquistado no país germânico. Uma amizade onde, por vez ou outra, rolava alguns beijos. Mas o que era a vida sem alguns poucos benefícios?

“Não gosto de Economia, mas por algum motivo, me entendo bem na Contabilidade. Se pudesse, estudaria apenas isso. E aí, como foi seu dia?”

arriscava, mesmo sabendo que se o celular apitasse, não seria com resposta àquela mensagem. Em outro momento, ela enviou uma mensagem sugerindo outra ida ao karaokê, já que as provas no curso estavam se aproximando e ela queria tirar, por uma noite, o foco naquilo.
Novamente, sem um retorno.
Mas ela sabia que ele não estava sumido das tecnologias. Ele continuava lá, ativo em suas redes sociais. Fazendo publicações em seu Facebook, curtindo algumas fotos no Instagram. Observando em seu stories, cada foto dela.

“Was ist los?”

Mandou em alemão para ele, querendo saber o que estava acontecendo. Pensou que naquela língua, talvez ele se abrisse para ela, vendo seu esforço na língua que ela estava aprendendo. Foi como se ela tivesse mandado uma pergunta em português, sua língua mãe. Ela sabia que ele não iria entender.
era uma pessoa que se importava muito com as pessoas ao seu redor. Se preocupava tanto, que em determinados momentos, ficava chata. Ela gostava de saber se estavam bem, se tinham algum problema, se ela podia ajudar em algo. era o tipo de pessoa que todos deveriam ter na vida. Alguém que realmente se importa, e não apenas da boca para fora.
E ela estava preocupada com André.
Mas tinha certeza que aquele seu papel de preocupada, havia passado.
E o único papel que ela estava fazendo naquele momento, era o de trouxa.


***


chegou em um momento onde ela estava cansada de ver livros, matérias, números, negócios e qualquer outra coisa relacionada ao curso. Naquela sexta-feira, ela chegou do ISM, jogou seu material inteiro dentro do armário e foi direto para o banho. Colocou uma roupa confortável e foi para a cozinha. Se ela não se desse aquela noite de folga, tinha certeza que entre uma página ou outra do seu material, ela simplesmente iria surtar.
Pegando algumas panelas nos armários, ela decidiu que iria fazer uma janta para a querida família que a recepcionava. Não que ela fosse uma exímia cozinheira, mas tinha quase certeza que sabia fazer uma coisa ou outra que tanto Marco quanto Nathan, não estavam acostumados a comer diariamente.
Enquanto deixava a cebola e o alho refogar, ela ouviu a porta de casa abrir, e o que antes estava silencioso, se transformou num misto de vozes que ela conhecia.

— Que cheiro de comida do Brasil está essa casa. — A voz de foi a primeira, e ela riu.
— Talvez uma brasileira tenha invadido a sua casa e resolveu fazer janta para a família. — Respondeu, enquanto mexia os ingredientes na panela com uma colher de pau, e viu a amiga se aproximar do batente da porta. — Se eu abrisse aqueles livros hoje, eles iriam todos voar para dentro da piscina. Ou eu iria fazer fogueira deles. Ou eu iria precisar de camisa de força. — Olhou novamente para trás e viu rindo dela. — É sério. Tirei a noite para mim.
— Fazendo janta? Você merece até o presente que nós trouxemos. Nathan! — chamou o filho. — Nathan, traz o presente da Tante.
— Presente? Sério, , gastando dinheiro comigo? — suspirou, abaixou o fogo e correu dar um abraço na melhor amiga. — Muito obrigada. Onde vocês estavam?
— Buscar o Marco. — Buscar o Marco? Mas eles não tinham cinco carros em casa? tinha certeza que fez uma cara bem estranha, já que a amiga fez questão de continuar explicando. — Nathan e eu estávamos entediados e resolvemos fazer uma surpresa para o Marco. Fomos até Brackel, assistimos ao fim do treino, pegamos seu presente, e viemos para casa. — gritou novamente. — Nathan, vem aqui!

Saindo do quarto dos pais, onde provavelmente estava com Marco, Nathan foi correndo com uma sacola amarela em direção à mãe e a tia. Ele tinha o braço esticado e sorria para ela.

Tante, é para você!

tinha quase certeza que sabia o conteúdo daquela sacola. O amarelo estava combinado com o logotipo do Borussia Dortmund. Aquela família era incrível, e não tinha jeito mesmo.
pegou a sacola após dar um beijo em Nathan, abriu, tirando uma camisa do time de lá. Nas costas tinha o número 11, e o sobrenome Reus estava estampado em cima.

— É a do Papa, Tante!
— Eu adorei, meu pacotinho. — E como se estivesse satisfeito com a resposta, Nathan saiu da cozinha em direção à sala.
— Não era para ter gasto dinheiro comigo com blusa. Eu ia acabar comprando uma antes de voltar para casa mesmo.
— Marco conseguiu ingressos para a área VIP amanhã. Vamos ao Signal Iduna Park fazer sua estreia no revierderby.
— Minha estreia onde? — tentava puxar na memória se ela já tinha ouvido aquela palavra nas suas aulas de alemão, mas não conseguia se lembrar.
Revierderby. O derby alemão. Ou ao menos do Vale do Ruhr. O Borussia vai receber o Schalke 04 em casa, e Marco conseguiu ingressos para nós três irmos assistir.
— Ah, entendi. Seria então um clássico? Tipo isso?
— É um clássico. Mas aqui chamamos de revierderby. O Der Klassiker mesmo é contra o Bayern München. Podemos contar com mais um Reus ajudando na torcida?

olhava para a blusa na mesa e sorria para a mesma.

— Com toda certeza do mundo.

Após o jantar com a companhia de Nathan e Marco, além de , travou uma discussão com a amiga sobre quem iria lavar a louça, que acabou sendo finalizada por Marco, informando que ele iria fazer a tarefa doméstica àquela noite.
então pegou sua blusa e correu para o quarto, tirando uma foto e postando em seu stories, com uma legenda fofa agradecendo aos Reus, e principalmente, a Marco.
Ela então abriu seu aplicativo de mensagem.

“Revierderby, uh? Acho que já está na hora de você fingir que é adulto, e me falar que está acontecendo. Nos vemos no estádio. Viel Glück.”

Um sinal de confirmação. Enviado.
Dois sinais de confirmação. Entregue.
Confirmação em azul: Lida.
Última vez visto às 22h17.

E salva por chamando por ela, largou o celular dentro da bolsa, antes que pudesse jogar o mesmo contra a parede.


***


Se de fora o Signal Iduna Park era majestoso e incrível, por dentro ele era simplesmente maravilhoso. não sabia dizer se era porque era sua primeira vez em um estádio para assistir um jogo — já que todas as outras vezes foi apenas para shows — então aquilo a deixava emocionada e arrepiada, ou a torcida organizada, já a postos e fazendo suas homenagens e incentivos ao time, causavam aquela sensação.
Ela não conseguia achar palavras para descrever aquilo que estava sentindo, mas se foi aquilo que fez largar tudo no Brasil e morar na Alemanha, ela conseguia entender.
Porém, tinha um pequeno problema. Apesar de acompanhar a Copa do Mundo, torcer e vibrar, ela não entendia nada de futebol. Entrava em pânico quando tentava entender a regra do impedimento. Para ela, era apenas correr de um lado para o outro com a bola e quem fizesse mais gols, vencia o jogo.

— Fazendo um grande resumo, é praticamente isso mesmo. Só precisa acertar no lado certo. — explicava para a amiga. — Normalmente o time começa atacando desse lado — e apontou para o gol na direita delas. — E no segundo gol, eles fazem gol na frente da Muralha Amarela. Como a nossa torcida organizada é chamada.
— Acho que entendi. — ia recapitulando em sua cabeça. — Primeiro chuta aqui, depois ali, e a torcida se chama Muralha Amarela. Em alemão isso é Gelbe… — ela procurava a palavra correta para muralha, e fez sinal para , que tentava ajudá-la. — Wand! Gelbe Wand.
— E eu me pergunto se você não é alemã mesmo. — riu. — Mas não se preocupa, você vai ver, no meio do jogo, já vai estar bem familiarizada com o time e xingando o juiz de todos os nomes.
— Ei! Isso aí eu sei fazer bem.
— Ótimo. Junte-se a mim, pois nos últimos revierderby, o infeliz era torcedor do Schalke.

Antes de o jogo começar, alternava o olhar no estádio, que ia enchendo e ficando cada vez mais belo, e em Nathan, que parecia estar já muito familiarizado com a área VIP do estádio. tinha certeza que ele frequentava desde quando nasceu, além de quando estava no ventre de .

— Marco me mandou uma mensagem. — disse colocando novamente o celular no bolso de sua calça. — Tanto ele quanto André estão escalados para o jogo.

André.
Por um instante, mesmo sabendo que havia enviado uma mensagem na noite anterior para ele, havia esquecido do jogador que havia sumido sem deixar rastros. Ela deu de ombros para a amiga, abriu um sorriso, e apontou para as próprias costas.

— Vai, Reus!
— Vai, Reus!!

Não demorou muito para que as equipes entrassem em campo, se colocassem em fileira e logo em seguida, o time visitante da casa — o time azul, para facilitar a compreensão de — passasse cumprimentando os donos do local. Enquanto os jogadores se preparavam em suas posições no campo, os capitães iam com os árbitros fazer o sorteio de campo.

— Então queremos que os amarelos façam gol no de vermelho, é isso?
— Não! — gritou para a amiga, que arregalou os olhos. — Pelo amor de Deus, ! Aquele de vermelho é o Roman, o nosso goleiro. Eles têm que fazer aqui, no de verde.
— Certo. Amarelo, no mocinho de verde. Azul, no mocinho de vermelho… — tentava fazer seu cérebro compreender.
— De preferência o de azul não faz gol nenhum. — murmurou, mas a amiga não escutou.

O juiz apitou o início da partida e não demorou muito para que os de amarelo fossem na direção do gol de verde. Em menos de um minuto, a bola foi para o fundo da rede, fazendo a mesma balançar.

— Gol! — gritou, mas ao olhar em volta, ninguém estava comemorando. — Eles estão certos, não estão? Os de amarelo fizeram gol no de verde.
— Estaria completamente certo… Se o jogador não tivesse impedido.

tinha certeza que estava parecendo um meme, enquanto tentava lembrar as regras do impedimento, mas por fim, acabou dando de ombros.

— Isso então quer dizer que não foi gol?
— Isso quer dizer que continua zerado para os dois lados.

Daquela distância, por ainda não estar familiarizada com os onze em campo, ela não conseguia distinguir quem estava com posse da bola em determinado momento, mas vibrava cada vez que um de amarelo corria na direção do goleiro do time adversário.
Entre gritos, ameaças ao juiz, e até alguns palavrões, os primeiros quarenta e cinco minutos de jogo passou rápido para a brasileira que, aos poucos, conseguia entender o espetáculo que acontecia em frente aos seus olhos.

— Pode beber nos estádios da Alemanha?

olhou de forma estranha para a amiga, não entendendo o que ela estava querendo dizer com aquela frase. Era a Alemanha. A cerveja estava para todos os lados naquele estádio.

— Que tipo de pergunta é essa?
— Fiquei sabendo que por causa de brigas, foi vetado a venda de bebidas alcoólicas nos estádios do Brasil. Pelo menos em jogos. — deu de ombros. — Ainda bem que eu só vou em estádio para assistir shows.
— Ah, sim. Tem cerveja, você quer?
— Seria sensacional bebermos uma cerveja antes do jogo recomeçar, não seria? — sorriu largo para a amiga, que riu dela.
— Vou pegar pra gente.

Logo o jogo voltou para os quarenta e cinco minutos restantes, e foi tão acirrado, que acabou empatado. O tal revierderby, o famoso clássico do Vale do Ruhr, acabou em zero a zero para as duas equipes, e finalmente sentou, após uma hora e meia em pé, cruzando as pernas na poltrona da frente.

— Isso é ruim? — perguntou para a amiga. — Quer dizer, eles não ganharam… Mas também não perderam.
— É mediano. — balançou a cabeça — Lembra na faculdade, quando a gente tirava cinco na prova, mas não ficava feliz, porque tinha passado raspando na média, mas não era uma nota bonita de se orgulhar para a sala? — lembrava de alguns momentos que tinha passado por aquilo. — Foi a mesma coisa. Eles ganharam um ponto cada um, pelo empate, mas não foram aqueles três pontos bonitos que dá orgulho de esfregar no rival.
— Entendi.

Nathan então sentou no colo da tia, e ficou brincando com ela, quando na sala VIP, entraram os jogadores que antes estavam em campo.
E depois de algumas boas semanas sumido, André Schürrle estava novamente à sua frente, mas não sabia dizer se estava disposta a confrontá-lo.
então se levantou e foi em direção ao marido, que conversava com André.

— Que gol perdido foi aquele, André? — comentou, após dar um beijo no marido.
— Culpa do seu marido, que demorou para me passar a bola.
— O zagueiro estava bloqueando minha visão, você queria que eu fizesse o quê?
— Mágica! Você quem manda as bolas curvas, se virasse, Reus, sei lá, era só eu e o gol. Nos custou os três pontos que você sabe que são cruciais nesse momento para a gente entrar, ao menos, no grupo de classificação pra Liga dos Campeões.
— Eu não tinha como fazer a bola atravessar o muro que estava na minha frente, talvez você não precisasse ter se adiantado tanto…

No meio da discussão, , com o nome de Marco em suas costas, se aproximou dos três com Nathan em seus braços, que logo foi para o colo do pai, e os três se afastaram.
encarou André, que parecia estar mais interessado nas pessoas que entravam e saíam daquela área privativa do estádio.

— Foi um bom jogo.
— Nós empatamos, não tem como ter sido um bom jogo. — André respondeu, sem ao menos olhar para ela.
— De qualquer forma, parabéns. Foi minha primeira vinda ao estádio, eu gostei do que eu vi. Um time disposto a fazer gol, mas o outro não deixando. E o mesmo acontecendo do outro lado. Foi um bom jogo para mim.
— Não foi um bom jogo,
— Você sabe que pode me chamar de , André.
— Não foi um bom jogo. — Ele repetiu, tentando encerrar aquela conversa o mais rápido possível.
— Se você diz… — deu de ombros. — Eu estou preocupada, André. Está acontecendo alguma coisa com você? Você está… Distante.
— Eu ando ocupado. — Novamente, de forma ríspida, o homem respondeu.
— Quão ocupado? Para responder as minhas mensagens? Porque para lê-las e assistir todo meu stories, eu bem vejo que você não está nada ocupado. — Por um instante, ela se arrependeu de falar aquilo. Ele já estava estranho, não precisava transformar em algo pior. — Se tiver algo acontecendo, você pode me falar. Não nos conhecemos há muito tempo, mas saiba que eu sou uma pessoa em quem você pode confiar.
— Não está acontecendo nada, já falei, eu ando ocupado. — E como se procurasse algum outro motivo para continuar ali, ele encerrou a conversa. — Preciso ir.

E sem se despedir de Marco, e Nathan, sem tocar em , ou falar com algum outro colega de time que estava por ali, André saiu, deixando uma desnorteada, e até um pouco sem graça por ser largada sozinha.
Distribuindo sorrisos amarelos para as pessoas que estavam à sua volta, abaixou a cabeça e com vergonha, caminhou até sua família de amigos.

— Oras, onde está o André? — Marco perguntou. — Eu deixei vocês dois conversando. Vocês pareciam estar se dando bem.
— Se eu tivesse falando com a minha sombra, o papo teria sido melhor… — ela comentou e quando viu Marco e a olhando chocados, desviou o assunto. — Ele disse que precisava ir. Tem algo acontecendo com o André, Marco?

O atacante do time pareceu pensar, trocou olhares com a esposa, e acabou negando. Não sabia de nada que supostamente poderia estar acontecendo com André no momento, visto que ele havia deixado claro que já tinha superado Olivia.

— Entendi… Acho que eu aconteci, então. — Suspirou, e de repente uma vontade enorme de ir para casa, entrar embaixo do edredom e ficar sozinha, cresceu dentro de .

Ao contrário daquilo, apenas sentou ao lado de seus amigos, e esperou que eles sugerissem ir embora.


***


Após sair do estádio, André foi para sua casa tomar banho. Passou perfume, colocou uma das suas dezenas de camisas sociais. Se arrumou e saiu para a noite alemã.
André precisava beber, se divertir e principalmente… André precisava achar alguém que se divertisse com ele.



9. SHELF:

{But it’s too late to pretend
You know me better than I know myself
Don’t take my heart and put it on a shelf
Always someone else
The next guy who will make your cold heart melt
I’m gonna give my love to someone else.}

A primeira vez de em um estádio havia sido incrível. A atmosfera, a torcida organizada, o estádio majestoso, tudo contribuiu para que a experiência tivesse sido maravilhosa, mesmo sem ter visto nenhum gol.
Ela e a família Reus saiu para jantar. Com exceção de Marco, , e Nathan estavam com a camisa com o nome do homem nas costas, e pareciam bastante orgulhosos em exibi-las, para qualquer um que tivesse interesse. Apesar do placar, eles estavam ali comemorando.
Ao chegar em casa, tudo o que eles queriam, era tomar um banho e dormir. carinhosamente pendurou a camisa número onze em um cabide e deixou pendurada na porta do armário. Ela tomou banho, vestiu seu pijama, deitou na cama… E flashes do pós-jogo vieram à sua cabeça.

“Não foi um bom jogo.”
“Eu ando ocupado.”
“Preciso ir.”

Ele sequer foi capaz de chamá-la de , já que ele nunca aprendeu a falar . Pois se soubesse falar, teria a tratado de maneira mais formal e fria ainda. Ela tinha plena consciência de que André tinha todo direito em não ter mais interesse nela, nunca foi um relacionamento. Ela também nunca pediu por um.
nunca havia pedido nada de André.
Ao amanhecer, a brasileira que não teve uma boa noite de sono, já estava de olhos abertos, mas embaixo das cobertas. Estendeu um braço para fora das cobertas e alcançou o celular. O relógio marcava quase 9h da manhã.
saiu da cama, colocou uma roupa qualquer, pegou sua bolsa e saiu da casa, que ainda estava silenciosa.
Caminhou até o metrô e de lá, seguiu caminho para Phöenix-See.
Ou ela tiraria aquela história à limpo, ou ela esqueceria que um dia conheceu André.


• • •


Ao chegar no bairro, olhou para os prédios e entrou em um deles. Eram edifícios baixos, de no máximo cinco andares. Entrou no elevador e apertou o número 5. Naquele momento, seu celular informou uma nova mensagem, e as palavras de brilharam em sua tela.

“Resolveu pular da cama, estranha?”

guardou o celular de volta na bolsa. Mais tarde ela lidaria com aquela mensagem.
O elevador anunciou a chegada ao andar desejado e ela saiu do mesmo, olhando para duas portas, uma em cada canto do corredor. Ela caminhou para a direita, até alcançar a campainha e pensou duas vezes.
Seria a última tentativa, caso contrário, sua mente teria que entender que ela nunca conheceu André Schürrle.
Tocou a campainha.
A porta não foi atendida logo de cara, o que a fez julgar que André não estivesse em casa. Estava quase dando as costas, quando ouviu o barulho de chaves do outro lado, e diferente de um loiro, alto, grande, uma bela mulher apareceu. Igualmente loira e alta, olhos azuis. Estatura de modelo.
E a única coisa que cobria seu corpo, era uma toalha.

— Desculpa, acho que eu toquei no apartamento errado. — Ela deu um sorriso sem graça, afinal, uma mulher seminua estava à sua frente. — Es tut uns leid. — Se desculpou com a mulher, e deu dois passos para trás, antes de virar seu corpo.
— Quem é?

Seus olhos então se arregalaram ao ouvir aquela voz. Àquela voz.
Ela não estava no apartamento errado.
Ela só estava no lugar errado, na hora errada.
A loira de toalha se afastou da porta, dando espaço para André, também com uma toalha enrolada na cintura, e os olhos verdes de se encontraram com os azuis do jogador de futebol.

— Você.
— Eu não sabia que você tinha visita, André. Eu posso vir em outra hora.
— Vir em outra hora? — Ele deu uma risada irônica — Vir aqui fazer o quê? Se arrependeu?
— Arrepender? — Ela não havia entendido — Do quê? — E como um raio, as lembranças da noite de filme com Nathan vieram à sua cabeça. — Não, eu não estou arrependida. Eu… — o peito desnudo de André à sua frente estava deixando atônita, sem conseguir raciocinar direito suas palavras. — Nós conversamos em outro momento.

André então abriu a porta totalmente e fez sinal para que ela passasse.

— Não, você veio até aqui. Nós vamos conversar, agora. — Ele deu mais um sorriso irônico, e a brasileira recuou. Não iria entrar naquele apartamento. — Qual o seu problema? Está com saudades de ter quem te levar para casa quando você bebe um pouco demais?
— O meu problema? — Ela então elevou o tom de voz, vendo a forma como o homem estava a tratando. — Qual é o seu problema, seu jogador de merda. Arrogante, prepotente, desrespeitoso. Eu vim aqui saber o que está acontecendo, já que você some da noite pro dia, é um babaca comigo no estádio, e não se digna de responder as minhas mensagens nem para falar que não quer mais falar comigo. — Ela respirou fundo. — O que caralho aconteceu para você me tratar como nada da noite para o dia? O que eu fiz?

André ouvia atentamente as palavras que ela falava em inglês. estava sem paciência para tentar abrir uma discussão em alemão. Ao terminar suas palavras, ela levou a mão à testa e respirou fundo. Se soubesse que iria ser tratada daquela forma, preferiria ficar na cama, embaixo das cobertas.

— Eu vou embora…

E antes de esperar André fazer qualquer movimento, ela deu as costas para o homem e voltou em direção ao elevador.

— Eu só queria me divertir. — Ele falou, e rapidamente, girou novamente o corpo. — E você não estava a fim. E como você mesma viu quando a porta foi aberta, eu achei alguém que estava disposto a se divertir comigo. Eu não preciso mais de você, . E é por isso que eu sumi. Pode ir embora agora.

Descrente que estava ouvindo aquelas palavras, correu até a escada. Não queria ficar naquele andar e prédio nem por mais um minuto, e então desceu os cinco andares a pé, de forma apressada. Com as duas mãos, empurrou a porta de acesso ao prédio e correu o mais rápido que pôde até o metrô. Ofegante, e com a cabeça latejando de dor, ela entrou no primeiro vagão do trem e fechou os olhos no caminho de volta para a casa de .
Por diversas vezes no trajeto seu cérebro a fazia se lembrar da voz de André falando que só queria se divertir, e instantaneamente, o choro chegava na garganta.
Para André, nunca havia passado de um pedaço de carne. Uma carne nobre e importada.
Mas a brasileira se recusava a chorar em público e por isso, manteve a cabeça baixa e os olhos fechados até o sistema de áudio do trem informar que estava chegando à sua estação.
Esgotada, caminhou até a casa dos Reus e entrou direto para o seu quarto, ignorando os chamados da amiga da cozinha.
Jogada em sua cama, de porta fechada, finalmente ela permitiu que lágrimas escorressem pelo seu rosto. não conseguia lembrar algum outro momento de sua vida que foi tão humilhada quanto havia acabado de ser. Irracionalmente, desejou que seu curso estivesse finalizado, para jogar suas coisas dentro da mala, e voar de volta para o outro lado do oceano.
Ela ouviu pequenos passos vindo pelo corredor, e tinha certeza que Nathan estava indo de encontro à tia que tanto amava. Pela primeira vez, fingiu não ouvir o menino pela porta e percebeu que ele logo desistiu.
Estava com dor de cabeça, estava triste, estava ofendida.
Estava machucada por dentro.


• • •


Nathan voltou para a cozinha, onde seus pais tiravam a mesa do café da manhã.

Tante está chorando. — Comentou.

parou o que estava fazendo e olhou para o filho, que estava encostado à parede. Marco deu de ombros e deu um beijo na testa da esposa.

— Eu sei que ela é sua amiga, mas não se preocupa. Deve ser saudades de casa, ou coisa do tipo.

Não eram lágrimas de saudades de casa e sabia disso. Ela até sentia saudades do Brasil e de sua família, mas conhecia o suficiente para saber que ela não chorava por aquele motivo, não sem antes conversar e desabafar com ela.

— Termina aqui pra mim, Marco.

A passos largos, caminhou até o quarto onde sua amiga estava hospedada, e sem pedir licença, girou a maçaneta e abriu a porta, encontrando uma inchada e com os olhos cheios de lágrimas.

… — a mãe de Nathan sentou na beirada da cama e levou a mão ao corpo da amiga, fazendo carinho. — O que aconteceu?

sentia que não tinha forças para falar, então só balançou a cabeça em negação.

— Você é minha melhor amiga e sabe que pode falar comigo sobre qualquer coisa, .
— Eu… — a brasileira em lágrimas tentou falar — Eu não quero falar sobre isso.
— Se você não se abrir comigo, eu não vou poder te ajudar.

— Você foi atrás do André, não foi?

E dando uma fungada no nariz, virou na cama de frente para a amiga, que ficou horrorizada em ver a situação que ela estava.

— Acho melhor você começar a me contar o que está acontecendo, . Ou eu vou ter que perguntar para ele.

Contra sua vontade, tentou se acalmar e logo que conseguiu, começou a contar para a amiga desde a primeira vez que eles se beijaram, passando pela tentativa no carro, ao deixá-la de volta nos Reus, as vezes que seguiram até ele sumir após a noite que os dois ficaram cuidado de Nathan. Falou das mensagens até o ocorrido daquela manhã.

, a gente não é nada, mas eu não mereço ser tratada dessa forma. — então se jogou no braço da amiga, que afagava sua cabeça. — Eu estou me sentindo um lixo.
— Não tem porque você se sentir, porque você não é um lixo. Você é a , a pessoa mais incrível que eu conheço. Descansa, tenta esquecer esse miserável, eu preciso falar com o Marco e depois venho ver como você está.
— Não… — segurou no braço da amiga e olhou para ela. — Não conta para o Marco. Eles são amigos. Isso não tem nada a ver com nenhum de vocês, só eu e ele.
— Não, , tem a ver comigo também. Você sempre soube que mexeu com você, mexeu comigo.

— Você está com olheiras, tenta descansar.

então levantou da cama da amiga e ao virar as costas, tinha fogo em seus olhos. Ela foi em direção ao seu quarto e encontrou Marco se arrumando para o treino no closet do casal.

Mama, cadê a Tante?
— A Tante vai descansar um pouco, meu amor, depois ela disse que vai brincar com você, tudo bem? — Nathan pareceu satisfeito com a resposta e então se virou para o marido. — Quem vem no rodízio hoje?

Era como os jogadores se revezavam para irem juntos ao treino.

— André. Está tudo bem com a ?
— Vai ficar. A hora que o André chegar, você me avisa!


• • •


A buzina de André tocou e já estava a espreita na porta, esperando por aquele momento. Ela saiu de casa antes mesmo de Marco chegar até a porta e caminhou, de braços cruzados por conta do frio, até o carro do loiro, parado à frente de sua casa. Ela cumprimentou Mario e Marc que estavam já ali dentro e contornou até o motorista.

— Sai do carro.
, eu posso…
— Sai do carro, André Schürrle! — Ela falou mais uma vez, de forma firme.

Acomodados no carro, os outros dois jogadores não entendiam o que estava acontecendo, mas a contragosto, o jogador tirou o cinto e saiu, parando ao lado da porta.

— Eu posso explicar?

E então quando Marco saiu de casa com sua sacola de treino nos ombros, a única coisa que ele viu foi sua esposa, com o punho fechado, dar um soco no queixo de André, e outro, em sua bochecha.

— Você nunca mais vai tratar nem a minha amiga, nem mulher nenhuma do jeito que você tratou a .

E antes que sentisse vontade de dar mais um soco no rosto quase perfeito do amigo de seu marido, voltou para a porta, deu um beijo no marido, e fechou a porta de casa.
Se dependesse dela, André nunca mais trataria ninguém daquela maneira.



10. CHÖRE:

{ Wie ich dich sehe, ist für dich unbegreiflich
Komm' ich zeig's dir
Ich lass' Konfetti für dich regnen
Ich schütt' dich damit zu
Ruf deinen Namen aus allen Boxen
Der beste Mensch bist du
Ich roll' den roten Teppich aus
Durch die Stadt, bis vor dein Haus
Du bist das Ding für mich
Und die Chöre singen für dich }


Havia se passado uma semana desde que André foi babaca com , e, consequentemente, que o jogador apanhou da esposa de Marco Reus.
Por causa de Mario e Marc, que assistiram a cena, André apanhando de Reus foi o assunto da semana em Brackel. A maioria dos jogadores sacaneavam o loiro, que ficava com mais raiva ainda, e revidava nos amigos chutando as bolas neles. Outros queriam saber o que havia acontecido para ele ter apanhado — apenas para terem certeza de que foi merecido — mas André não falava uma palavra sobre aquilo.
Nem mesmo Marco, que sabia o que havia acontecido, mas por instruções de , não falava para ninguém. A amiga estava preocupada que virasse motivo de piada entre os jogadores do Borussia Dortmund.
O curso no ISM estava se aproximando do fim. Decidida a guardar apenas os bons momentos que teve na Alemanha, a brasileira voltou a se dedicar aos estudos. As únicas pessoas com quem interagia eram seus professores, alguns colegas no curso, e claro, Nathan, e Marco.


• • •


André saiu uma tarde dos treinos e dirigiu sem rumo, chegando ao Signal Iduna Park. Parado, dentro de seu carro, ele conseguia ver alguns turistas e fãs saindo do tour por dentro do majestoso estádio. Depois de um tempo apreciando, o jogador ligou os motores novamente e contornou o local, e acabou entrando no campus da Universidade de Dortmund. Era fim do dia, alguns alunos saíam de suas aulas, enquanto outros chegavam para o período noturno. Seu cérebro já não respondia aos sinais que o corpo mandava, e como se estivesse no modo automático, freou apenas quando estava na frente da Escola Internacional de Negócios.
Ou também conhecido como International School of Management.


Muitos saíam de dentro do prédio com o rosto esgotado, desejando apenas chegarem em suas casas, tomar um banho e dormir. Alguns saíam conversando com conhecidos. E saía procurando algo na sua enorme bolsa de ombros, enquanto carregava seus cadernos em apenas uma mão.
Ela tirou da bolsa um pequeno bilhete e chacoalhou na altura de seus olhos, com felicidade. André não sabia o que estava sentindo ao vê-la. Mas aquilo dentro de seu peito, não era vazio. Ele piscou e de repente estava virada, conversando com alguém. Um rapaz. Apresentável, decidiu o loiro. Ela abraçou a pessoa, e ao lado um do outro, os dois passaram a caminhar em direção ao estacionamento.
O carro de André estava no estacionamento, mas não fez nada, pois os vidros do carro eram bem pretos. chegou a um carro e antes de entrar, seus olhos fixaram onde o jogador estava escondido. Ela balançou a cabeça em negação e entrou no carro ao lado do rapaz.
Antes de pensar em ir atrás deles, o carro sumiu pelo campus.
Involuntariamente, Schürrle deu um soco no volante, buzinando e voltando a atenção das pessoas para ele.
Aparentemente o problema de , era ser vista com um jogador de futebol. Mas com um cara qualquer, não tinha problema.


• • •


— Olha só quem chegou mais cedo hoje! — comentou ao ver a melhor amiga abrindo a porta de sua casa — A aula acabou antes?
— Não, acabou no horário. — colocou seu material no braço do sofá e se jogou no encosto — Mas um colega do curso ofereceu carona, e ... Não sou eu quem vou negar um Uber na faixa, não é mesmo? — não respondeu nada, apenas riu e balançou a cabeça concordando — E não se preocupe, ele me deixou dois quarteirões antes. Não ia contar ao mundo a localização da Mansão Reus.
— Tanto faz. — deu de ombros — Famoso mesmo é o meu marido. Os fãs dele não atrapalhando a minha vida e do meu filho... Quis a fama, não quis? Agora lide com isso.
— O Marco é um santo por te aguentar, . — e conhecendo a amiga, engatou outro assunto antes que a amiga respondesse — Uma coisa estranha aconteceu hoje. Eu senti como se eu estivesse sendo observada.
— Oi?
— É. Na hora que eu estava prestes a entrar no carro do meu colega, eu tive a impressão de que tinha alguém me olhando. Meio que me observando. Tinha um carro com os vidros completamente escuros, não consegui ver ninguém. Acho que eu estou ficando maluca. Enfim... — levantou do sofá — Vou tomar um banho e sair de novo.
— Como assim? , volta aqui e me explica isso.

Já no meio do corredor em direção ao quarto, gargalhou e voltou alguns passos de ré.

— Você sabe que em pouco mais de duas semanas eu volto pro Brasil, não sabe?
— Desnecessário me fazer lembrar disso, . — depois de tanto tempo sem se verem, quando pôs os olhos na melhor amiga na estação de trem, chegando em Dortmund, parecia que o embarque de volta para o Brasil estava uma eternidade longe. Agora que faltava pouco, não estava preparada para dizer adeus novamente.
— De qualquer forma, isso quer dizer que meu curso está acabando. E alguns colegas me convidaram para uma pequena confraternização em um bar. Amanhã é sábado, acho que eu mereço. Quer ir comigo?
— Não, . Não tem nada a ver eu ir com você, são seus amigos, vai curtir com eles. Tem razão, você merece. Quer que eu te leve? Peço pro Marco te buscar a hora que você quiser voltar.
— Não, não se preocupe. Não quero atrapalhar ninguém. Pode deixar que eu vou e volto de Uber.

E sabendo que não iria ganhar essa discussão, deixou a amiga ir se preparar para se divertir com os novos amigos. Ela merecia.


• • •


Era uma sexta à noite e a temperatura estava, aos poucos, voltando a subir em Dortmund, então claro que o bar escolhido pela turma, estava lotado. conseguiu vencer as pessoas que estavam em seu caminho e finalmente chegou à mesa reservada aos seus colegas.

- Guten Nacht! – disse aos amigos e foi recebida com sorrisos.

então sentou em uma das cadeiras vagas, próxima às meninas que ali estavam, e não demorou muito para fazerem uma fofoca.

- Alguns jogadores do Borussia Dortmund estão aqui.

Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou. Esperava que não era ninguém que ela havia conhecido. Não queria ficar dando satisfação de como conhece os jogadores de um grande clube.

- Onde eles estão sentados?

Não era bem um interesse, era só para tentar não cruzar o mesmo caminho.
Uma das meninas do grupo apontou para um canto do bar bem discreto e um tanto quanto privado. Realmente, tinha umas caras conhecidas por ali, mas nada além de conhecidos mesmo. E em pé, se aproximando da mesa, uma cara mais do que conhecida. Uma, que esmagou , e ela teve que juntar seus cacos no chão para conseguir se recompor e deixar de ter vergonha de olhar até para sua melhor amiga.
O loiro de olhos azuis mais frios que já passou pela sua vida.
André Schürrle.

- Troca de lugar comigo, por favor. – ela pediu para uma amiga – Gosto de enxergar a banca. – usou como desculpa. Não queria falar que queria ficar de costas para André.

Após esse pequeno imprevisto, o resto da noite ocorria bem. Bebericando alguns drinks, comendo alguns petiscos alemães e principalmente, se divertindo com as pessoas novas que conheceu naquele país, a noite de estava incrível, na opinião da brasileira.
Era isso, uma das pequenas coisas na vida que mais fazia a morena feliz. Uma rodinha de conversa, com muitas risadas, amigos e bastante diversão.

- Entschuldigung. – um garçom se aproximou da mesa, pedindo licença, com uma bebida na mão e colocou na frente de .

O líquido transparente, o limão mal espremido e o açúcar não mexido dentro do copo indicavam o que era para ser aquele drink. Uma caipirinha brasileira, muito mal feita por sinal.

- Aquele cavalheiro pediu para te entregar.
- Wer? – a brasileira virou para onde o garçom apontava, interessada em saber quem havia se interessado nela.

A bola ainda estava em campo, e ainda era uma mulher interessante.

- O loiro naquela mesa de homens.

Então os olhos verdes de cruzou com os azuis de André, que abriu um leve sorriso e abanou a mão para ela.

- Não, obrigada. – pegou o copo e entregou novamente ao garçom – Fale ao cavalheiro que... Não gosto desse drink.

André assistiu toda a cena e quando o garçom se retirou com a bebida, o jogador recebeu um sorriso amargo e irônico da brasileira, que lhe deu as costas novamente.

- ! André Schürrle acabou de te oferecer uma bebida e você simplesmente negou? – uma das amigas estava indignada – Ele é um dos caras mais gatos do time, e está dando em cima de você. Como você desperdiça essa chance?

“Porque ele é um babaca que só queria me comer”, pensou.

- O caminhão dele não dá conta de tudo isso de areia aqui. – ela piscou para as amigas que riram, mas ela tinha certeza que continuavam indignadas de ter dispensado o homem. abriu a bolsa e tirou um pouco de dinheiro de dentro da carteira, jogando na mesa – Eu vou embora, antes que eu fique mais bêbada e tenha ressaca amanhã. Prometi de levar meu sobrinho pra passear. Nos vemos segunda!

E sem olhar para trás, e com certo receio de ser seguida, saiu do bar e conseguiu um táxi em pouco tempo, indo direto para a casa dos Reus.


• • •


tirou a tarde de sábado para ir ao parque próximo da casa de e Marco com Nathan. Ela sabia que devia muito ao casal de amigos, mas era a felicidade e o sorriso do sobrinho que iluminou seus momentos mais difíceis.
Os dois já estavam há algum tempo se divertindo no parque, e a brasileira estava preocupada, pois o tempo estava fechando, e ela não queria pegar chuva com o menino, afinal, eles estavam a pé.
Ela já havia perdido as contas de quantas vezes ajudou Nathan a subir no escorregador e descer, e quantas vezes balançou ele no balanço, mas não podia reclamar, estavam se divertindo e não sabia dizer quando iria fazer aquilo novamente.
Estava distraída na gangorra com o menino, apenas dobrando os joelhos, fingindo que ele estava mais alto, quando a menina esticou a perna, a criança simplesmente saiu correndo na direção em que ela estava, passando por ela.

- Onkel! – Nathan gritou.
- Seja o Mario, seja o Mario. – pediu aos céus, quando ouviu o sobrinho gritando aquela palavra em alemão.
- Onkel André!

Ao ouvir aquele nome, deu uma olhada rápida no parque e pensou uma forma de formar sua morte, mas sabia que não ia ter coragem para aquilo. Resolveu sair do brinquedo e ir atrás do sobrinho.

- Nathan, volta aqui com a Tante!!

já havia percebido que ficava invisível para Nathan quando André aparecia, e respirou fundo três vezes até ver o menino no colo do homem, e os dois vindo em sua direção.

- Oi. – André disse para a mulher, que respirou fundo mais uma vez.
- Nathan, não faz isso com a Tante! – ela disse ignorando André, e pegando o sobrinho no colo – Nunca mais sai correndo assim e me dá susto, entendeu?
- Desculpa. – Nathan disse de cabecinha abaixada mostrando arrependido – Eu posso brincar um pouco com o Onkel André? Por favor?

Aquilo não tinha como ficar mais inconveniente para os dois que estavam ali.

- Um pouco, tudo bem? Vai chover e a gente vai voltar pra casa.
- Um pouco, eu juro! – ele sorriu e colocou ele de volta no chão.

Nathan puxou André para o balanço e a menina ficou por perto.

- Como você encontrou a gente aqui? – era a única coisa que ela queria saber.
- Queria conversar com você sobre ontem. Marco atendeu a porta, falou que vocês estavam aqui.
- Marco Reus está muito encrencado. – cruzou os braços claramente incomodada – Eu não tenho nada que conversar com você sobre ontem, ou sobre dia nenhum.
- Eu estava tentando ser gentil e me reaproximar, só não sabia como.
- Um pouco tarde demais pra isso, não é, Schürrle?
- ...
- Você não encontrou uma loira ontem pra levar para sua casa, André? Ou uma nova estrangeira para você fazer de idiota? O bar ontem estava lotado de mulheres que não são alemãs. Talvez você conseguisse uma. Minhas colegas mesmo, elas ficaram chocadas com o fato de eu ter dispensado sua bebida.
- Não só elas. – André voltou a olhar para Nathan e balançar, quando ouviu a criança reclamando.
- Aposto que elas adorariam estar no meu lugar. Mas elas não sabem de nenhuma parte da história, se elas soubessem...
- Eu errei, Okay? Eu errei, eu fui idiota, .
- Eu sei. Mas isso não quer dizer mais nada pra mim – a brasileira sentiu uma gota cair em sua testa e foi até o balanço – Nathan, nós vamos embora, vai chover.
- Vocês estão brigando? – ele perguntou quando a tia o tirou do balanço, e a chuva apertou – O Onkel André pode levar a gente embora!
- Claro que eu levo. – André sorriu.

Sem ter como negar, pois do contrário iria tomar muita chuva, os três saíram correndo para o carro de André, que estava na saída do parque, enquanto o mesmo tentava proteger e Nathan com a jaqueta que estava usando. A mulher colocou o sobrinho no banco de trás e entrou na frente. Quando André entrou ao seu lado, ela jogou de volta a jaqueta nele.
A chuva ficava cada vez mais apertada, e o curto caminho até a casa dos Reus ficava cada vez mais distante com aquele silêncio aterrorizante no carro.

- Tante e Onkel André brigaram. Onkel, dá flores pra Tante. E comida. Quando meu pai e minha mãe brigam, meu pai compra um monte de flor grande pra ela, e comida, aí a mamãe beija ele, e eles ficam felizes de novo.

sentiu as bochechas corarem com aquele comentário do sobrinho, e viu André dar um sorriso idiota de lado. Ela virou para trás, e olhou nos olhos verdes da criança.

- Sua mamãe e seu papai são casados, eles são namorados pra vida toda.
- Mas você e o Onkel também são. Eu vi a boca dele na sua.
- É diferente – suspirou – Quando dois adultos que não se conhecem começam a se interessar um pelo outro, eles se beijam, pra ver se vai dar certo. Mas às vezes não dão e eles não viram namorados pra vida toda. Eu e seu Onkel não somos igual seu papai e sua mamãe.

Pela visão periférica, viu o sorriso idiota de André se desmanchar em algo de decepção. Ela então virou pra frente e fechou os olhos. Se aquilo eram sinais, ela claramente não estava conseguindo entender.
Ao chegar à casa de seus amigos, André embicou o carro na garagem para que os dois pudessem sair no coberto. desceu do carro e fechou a porta, abrindo a de trás e tirando Nathan, que estava preso no cinto de segurança.
Antes de André falar qualquer coisa para ela, viu a porta sendo batida em sua casa. E sem ao menos um obrigada, correu pra dentro de casa com o sobrinho no colo, e os dois sumiram pelo para-brisas encharcado.



11. WALK IN THE SUN.

{ Such a long long way to go
Where I’m going I don’t know
I’m just following the road
For a walk in the sun
For a walk in the sun }


O grande dia finalmente havia chegado. O dia que achava que ainda estava muito longe, quando chegou a Alemanha naquele dezembro, do ano anterior. O principal motivo da brasileira se trancar no quarto e quase nunca sair para se divertir – e quando saiu, se decepcionou. sempre gostou de estudar, e fazer um curso de Gestão de Negócios, na Alemanha, enquanto aprendia alemão simultaneamente, foi um dos maiores desafios que ela tinha vivido.
A apresentação do trabalho final seria no turno noturno do curso, então duas horas antes de começar, a garota saiu da casa dos Reus em direção ao campus da universidade, onde ficava o ISM. Dentro do anfiteatro onde seriam as apresentações, a garota repassava suas anotações e respirava fundo assistindo todas as pessoas chegando. Colegas, amigos de colegas, alguns familiares para assistir. Ela abaixou a cabeça e respirava fundo. Não tinha porque entrar em nervoso. Ela sabia tudo o que ia falar. Ela estudou três meses inteiros para aquilo. Não saiu do quarto nos últimos dias repassando suas falas para o espelho e para as paredes. não tinha porque ficar nervosa.

- Tante! tinha quase certeza de que aquela voz infantil era de Nathan, mas com certeza que não era a única tia ali.

Involuntariamente, desviou o olhar de suas anotações por um momento e levantou a cabeça, encontrando com Nathan, andando de forma desengonçada, até ela.

- O que você faz aqui, liebe? – quando Nathan se aproximou, pegou o menino e colocou sentado em sua perna – Onde estão seus pais?
- Você não achou mesmo que nós três iríamos ficar em casa no dia da sua apresentação, ? – então viu vindo logo em seguida e balançou a cabeça – Aposto que se você estivesse no Brasil, sua mãe teria ido assistir você arrasar, não iria? – deu uma risada nasalada, e concordou – Pois como nós somos a sua família aqui na Alemanha, nós três viemos te apoiar.
- Certo, mas... Três? – observou por cima dos ombros da amiga – Cadê o Marco?

Tentando chegar à porta do anfiteatro, cercado de pessoas e celulares, Marco Reus estava sendo assediado por todos que viram ele chegando ao local. tirou seu par de óculos que usava, e levou a mão ao rosto, respirando três vezes, tentando manter o controle.

- Ainda bem que hoje é o último dia. Eu não ia conseguir lidar com amanhã as pessoas me perguntando da onde eu conheço Marco – riu ao ouvir o comentário – Salva seu marido, por favor.

Nathan sentou em uma cadeira ao lado da tia, enquanto assistia sua mãe tirando seu pai em volta das pessoas. Não demorou muito para que o local enchesse e os alunos fossem para seus lugares se prepararem. Seus colegas faziam suas defesas e a brasileira não erguia os olhos para prestar atenção. Estava imersa em seus próprios pensamentos, quando ouviu seu nome.

- – foi dito por seu orientador, com sotaque alemão.

Assustada, ela ergueu a cabeça e respirou fundo. Colocou seu par de óculos de grau e pegou suas anotações. Ao levantar, olhou para trás, e sua pequena família alemã estava acenando com a cabeça e fazendo sinais de positivo para ela.

- Guten Abend – ela arriscou o alemão, ao pegar o microfone – Ich bin , und ich bin Brasilianerin.

Ela se apresentou e falou sua nacionalidade, então bateu o olho em uma de suas fichas e respirou novamente. E durante sete minutos, em um inglês quase fluente, discorreu sua defesa sobre a importância da gestão de negócios em empresas pequenas, para que elas não quebrem e afundem em poucos anos.
Da plateia, não entendia muito do que a amiga falava, mas ela sabia que algo, dentro de si, gritava a palavra orgulho. Orgulho, pois apesar do alfabeto ter outras letras, sempre esteve focada em conseguir o seu plano A, e se ela precisasse abrir mão de tudo, para passar meses na gélida Alemanha focada em conquistar ele, ela iria. foi. E entre altos e baixos, lá estava ela, com um microfone na mão mostrando que nasceu para ser uma líder.

- Ich möchte lhnen allen hier danken und insbesondere allen danken, die mich in diesen Monaten in Deutschland willkommen geheinßen haben. Danke. – finalizou, quase estourando seu limite de tempo, agradecendo em alemão, a presença de todos no auditório, e aqueles que a acolheram na Alemanha.

Sob aplausos, devolveu o microfone para seu orientador e seguiu em saída para o anfiteatro, sorrindo em agradecimento para todos que ali estavam. Da plateia, os Reus pediam licença para sair, e quando finalmente a alcançaram, o casal a abraçou, enquanto Nathan abraçava a tia pelas pernas. Ele não sabia direito o que acontecia, mas sabia que quando várias pessoas aplaudiam outra, aquela outra era importante, sendo assim, sua Tante era importante.

- Se você queria que eu chorasse, parabéns, , você conseguiu – continuou pendurada na amiga quando Marco se afastou – Eu te amo, você é meu orgulho, e eu não quero ter que ficar há cinco fusos horários de diferença de você de novo.

ouviu fungar em seu pescoço, e ela tinha certeza que quando a amiga falou de chorar, ela não estava falando da boca para fora.

- O que ela está querendo dizer, é que você foi incrível, . – Marco comentou e sorriu para o marido da melhor amiga – O mundo que se prepare, eles não fazem ideia da executiva que eles estão perdendo, e quando descobrirem... você vai ser disputada por todas as empresas.
- Tante! – Nathan abriu os braços para a tia, e a mulher o pegou no colo, sentindo seus pequenos bracinhos pelo pescoço – Eu estou com fome.

Marco e , abraçados um no outro, riram ao ouvir seu filho, então o jogador tomou a palavra.
- Vamos, reservei uma mesa no Vapiano para nós quatro. – a brasileira ergueu uma sobrancelha – O que é? Você não acha que ia fazer uma defesa dessas e nós não iríamos comemorar? Bobinha.

★★★★


Dois dias depois da defesa de , era possível ouvir rodinha de malas sendo levadas de um lado para o outro da casa. Mesmo com as temperaturas baixas ainda dando as caras por Dortmund, tinha seus cabelos presos em um coque alto e de vez em quando, passava um lenço de papel pelo seu pescoço, limpando o suor inconveniente que escorria. Ela estava praticamente em claro desde a noite anterior. Tirando tudo dos armários, guardando nas malas, e fazendo uma força ímpar para conseguir fechar as malas, já que estava voltando para seu país com mais do que havia chego.

- Acho que é isso. – chegou na sala carregando sua bolsa, e com uma mochila nas costas – Eu realmente não devia ter comprado muita coisa, mas é tudo tão mais barato aqui.

Ela olhou para suas malas no canto da porta e riu. deu um sorriso amarelo. Por mais que ela soubesse que esse dia ia chegar, se despedir da melhor amiga não era algo muito fácil de fazer.

- Eu posso falar alguma coisa para você desistir e ficar aqui?
- Ilegal? – deu um sorriso para a amiga que deu de ombros – Meu visto de estudante está acabando. O de turista já expirou.
- Eu adoto você – falou sem pensar, e a amiga sorriu.
- ... – segurou nas mãos da amiga – Por mais que eu tenha amado passar esses meses aqui, minha vida está no Brasil. Minha família, e por incrível que pareça, até o que eu vim buscar aqui na Alemanha, está lá. Eu nunca vou esquecer o que vocês fizeram por mim, e eu espero, de verdade, poder retribuir algum dia.
- Marco! – gritou para o marido, evitando responder aquelas doces palavras da amiga – Marco, vem se despedir da .

De mãos dadas com o filho, o jogador do Borussia Dortmund foi até a sala visivelmente chateado.

- Não vai ser a mesma coisa sem você aqui.
- Nein, Marco! – abraçou o amigo – Não comece você também, por favor. Só eu sei como vai ser difícil entrar naquele avião.
- Não entra, Tante.
- Isso é muito jogo baixo – dessa vez foi que sentiu a garganta fechar e os lábios tremerem. Aquela minipessoa era tudo em sua vida – A Tante vai morrer de saudades de você. E vai falar muito pra sua mamãe te levar pra lá. Eu prometo te levar pra comer várias coisas gostosas – confidenciou com o sobrinho, que riu – Bom, acho que está na minha hora. Não quero perder o trem pra Frankfurt e correr o risco de chegar em cima da hora no aeroporto.
- Eu vou te levar até Frankfurt – entrou pelo corredor de casa, em direção a seu quarto – E não recuse o meu último pedido a você nesse país, .
- Eu não falei nada – ela levantou as mãos em defesa – Marco, me desculpa qualquer coisa. Qualquer hábito brasileiro estranho por aqui. Qualquer coisa que você não tenha gostado, e até por ter alugado sua casa por tanto tempo. Obrigada por Londres. Foram meses que eu nunca vou esquecer.
- Nem nós, . Nem nós – Marco então abraçou a amiga, e viu voltando com sua bolsa nos ombros – Você que me desculpe por todos os inconvenientes, pelas frustrações e decepções – sem citar nomes, a brasileira sabia do que o alemão estava falando.

O jogador ajudou as duas a colocar as malas no carro e não demorou muito para que , Nathan e estivessem na estrada, em direção ao aeroporto de onde partiria o avião que levaria de volta à São Paulo.

★★★★


Marco não tinha nada para fazer, e até poderia ter acompanhado a esposa em Frankfurt, mas sabia que aquele momento de despedida, era único das duas e não queria estragar ou ao menos, sobrar. Algum tempo depois delas saírem, o jogador de futebol já havia recebido uma mensagem de para avisar que tinham chegado, estava sentado no sofá assistindo televisão quando a campainha tocou. E não só a campainha, a porta de sua casa estava sendo esmurrada por alguém que parecia estar em total desespero.
Achando estranho, ele se levantou e abriu pouco da porta, encontrando um homem loiro, de olhos azuis, com as mãos no rosto.

- André? – Marco perguntou abrindo a porta de casa – O que você está fazendo aqui?
- A , Reus. Cadê a ? Eu preciso falar com ela – o visitante entrou na casa, atônito. Ele invadiu o corredor e chegou ao quarto de hóspedes, vendo completamente vazio, como se ninguém nunca tivesse morado quatro por lá – Onde ela está?
- André, se acalma! – Marco falou um pouco mais alto, para que o amigo prestasse atenção nela – O que deu em você?
- Onde está a ?

Marco estava preocupado. Nunca tinha visto André daquela forma. Nem quando Olivia o deixou apenas com um bilhete.

- A foi embora, André. A levou ela no aeroporto.
- Aeroporto? Eu vou para lá!
- André...
- Não tenta me impedir, Marco.
- Frankfurt! – Marco segurou no braço de André – A levou a no aeroporto de Frankfurt. Ela já me avisou que chegaram. A essa hora, a já deve até ter embarcado, e mesmo que você dirija feito louco até lá, o avião provavelmente vai ter decolado quando você chegar. Ela foi embora, André.

E como uma pessoa que recebe uma notícia terrível, André se apoiou na parede e jogou a cabeça para trás e bateu duas ou três vezes e por fim, deixou uma lágrima escorrer pela bochecha, enquanto de olhos fechados, mexia a cabeça em negação.

- Eu sou um otário. Eu perdi duas mulheres. As duas por minha culpa. Eu fui negligente com a Olivia. Era tudo de eu e nada de nós. Mas eu realmente gostava dela. Bem, nós íamos casar. Mas a ...
- Vem, senta aqui no sofá – Marco indicou para o amigo, que aceitou.
- Eu estava tão para baixo, quase na depressão, quando a Olivia me largou, que você sabe, faltava treinos, perdi meu lugar no time, servia só para aquecer banco. Eu achava que minha vida ia parar. Aí eu vim no aniversário do Nathan e eu a vi. Tímida, mas linda, não sabia quem era, até que ela estava na festa de Natal do time. Eu sabia que eu não estava pronto para mergulhar em uma relação novamente, mas ver a me deu vontade de acreditar que eu era pelo menos capaz de me divertir com uma mulher novamente. Mas ela me mostrou que não é mulher só para diversão, que eu ia precisar de muito, para chegar nesse nível. Aí eu larguei mão. Eu fui um babaca que na primeira oportunidade, em vez de recuar, falou tudo aquilo que ela não merecia ouvir. Já eu... Bem, eu com certeza mereci o soco que a me deu, e sei que ela nunca vai me perdoar por ter feito o que eu fiz. E sei que eu não mereço a , mas depois que a raiva passou, quando eu apanhei, eu refleti o que aconteceu e o que eu fiz. Aí eu tive uma crise de consciência, eu percebi o que aconteceu, e tentei me reaproximar dela – André olhou para o nada, como se estivesse lembrando – Primeiro ela estava em um bar com amigos do curso. Eu pedi para um garçom entregar uma caipirinha pra ela. Ela devolveu quando viu que era minha.
- Eu faria o mesmo – Marco falou, e André deu razão a ele.
- E depois você me falou que ela estava no parque com o Nathan. Ela me ignorou completamente. E hoje o Mario me falou que ela voltaria para o Brasil, eu entrei em desespero porque eu quero conseguir me redimir do que eu fiz de qualquer forma, mas eu cheguei tarde demais... Eu perdi a chance de conhecer de verdade uma mulher incrível e hoje eu percebi que estava nutrindo um sentimento por ela, mas com medo de me decepcionar e machucar novamente, eu tentei bloquear... E machuquei uma pessoa incrível que não tinha nada a ver com o que eu havia passado.
- Você percebeu que gosta da ? – Marco perguntou, e sem coragem de olhar para o amigo, André respondeu balançando a cabeça – Cara, quando eu soube o que aconteceu, eu queria te matar. Como você trata uma hóspede minha como lixo? Como um brinquedo que você descarta quando enjoa? Ou melhor, quando não corresponde às suas expectativas? Mas sabemos que o homem dessa casa é a , então ela tomou essa atitude por mim – os dois então riram do comentário – Você mudou, você quer se redimir, e aí que acontece a diferença, e a vida mostra que você evoluiu. Você tá sentindo a dor de perder ela e esse sentimento é maior do que qualquer palavra de arrependimento. Eu não vou facilitar seu caminho para a , inclusive eu ainda prezo pelo meu casamento, mas mesmo longe, se faça presente, não me pergunte como. Eu não a conheço do jeito que a conhece, mas acredito que pelo menos fazer ela pensar, você vai.
- E daí? A vida dela tá no Brasil, a minha tá aqui. São mundos distantes.
- Schürrle... Não se faça de bobo – Marco riu – Você se esqueceu do que a representa pra essa família? Pro resto da vida, muita água ainda vai passar embaixo dessa ponte, muitas idas à São Paulo e acredite, muitas vindas para Dortmund.

E deixando um André pensativo, Marco foi até a cozinha e trouxe duas latas de cerveja para eles tomarem. Nada como álcool e um ombro amigo para superar a decepção.

★★★★


A porta da casa se abriu, e e Nathan entraram após passarem o dia na estrada indo e voltando de Frankfurt. Nathan foi direto para seu quarto, e deixou a bolsa cair no chão, ao ver quem estava sentado no sofá tomando cerveja com seu marido.

- Meu Deus, só pode ser uma miragem muito da inconveniente – gargalhou – Eu passo o dia na estrada, quando eu chego em casa à noite, quero um banho e curtir minha família, eu tenho a infelicidade de ver André Schürrle assistindo replay de jogo com o meu marido. Na minha casa. No meu sofá.
- , eu...
- Você nada – ela gritou apontando o dedo para o jogador – Eu não quero saber o que você tem para falar. Veio fazer o que aqui? – ela deu uma risada irônica – Se arrependeu do que fez e veio tentar se redimir? Ou veio tentar ser um babaca mais uma vez, pra eu ver minha melhor amiga subindo naquele avião chorando por outro motivo? – a mulher respirou fundo e aumentou o tom de voz quando viu que André ia responder – Não responde, se você não quiser sair daqui igual a última vez que eu te vi.
- Mama! – ela ouviu seu filho chamar.
– Já que eu não posso curtir o resto da minha noite com meu filho e meu marido, pelo menos eu vou passar um tempo com meu filho.

★★★★


Depois de quase 12h em um avião, que ela entrou aos prantos por deixar sua melhor amiga e sobrinho, desembarcou em São Paulo, no Brasil, tirando os casacos que tinha vestido na Alemanha. Ao passar da imigração e alfândega, ela livrou o duty free e atingiu o lobby de desembarque do aeroporto internacional.
Com um cartaz, escrito WILLKOMMEN em letras garrafais, sua mãe pulava entre as pessoas ali presentes. E deixando o carrinho com suas malas para trás, ela correu até a mulher e deixou as lágrimas de saudades escorrerem pelo seu rosto em um forte abraço.
Com saudades de casa, e com lembranças de quatro meses na Alemanha, tinha certeza que depois de tanto tempo, ela finalmente tomou uma atitude certa em sua vida.



12. DON’T STOP BELIEVIN’

{ Just a small town girl
Livin’ in a loney world
She took the midnight train going anywhere
(...) Some will win, some will lose
Some were born to sing the blues
Oh, the movie never ends
It goes on and on and on and on }

Duas semanas foi o tempo que se deu de descanso no interior, antes de voltar a São Paulo. Ainda tentando se acostumar com o fuso horário, ela dormia no sofá assistindo novela com sua mãe, após o jantar, e quando eram entre três e quatro da manhã, seu corpo despertava. Enjoada de ainda se sentir na Europa, decidiu que iria fazer algumas atividades, para não dormir tão cedo. Lia um livro, com a luz do quarto acesa, em sua poltrona no quarto e programava o despertador para todo dia, às 8h. E então em uma manhã, quando ela finalmente acordou com o barulho do despertador, sabia que seu corpo tinha novamente se acostumado ao fuso horário brasileiro.
Finalmente se sentindo em casa, um dia sentou em sua cama e puxou o notebook ao seu colo. Uma por vez, as abas iam sendo abertas no navegador. Linkedin, Catho, Vagas, currículo… Ela precisava se colocar no mercado de trabalho, se não sua ida à Alemanha tinha sido em vão: gastou muito dinheiro para fazer um curso, e teve muita dor de cabeça desnecessária.

★★★★

A inserção de um curso de Gestão de Negócios, na aclamada ISM em Dortmund, devia ter um peso grande em seu currículo, pois como se fosse uma pessoa com uma experiência inigualável, magicamente os convites para entrevistas começaram a chover. Alguns teve que negar, pois era quase impossível estar em um canto da cidade para entrevista, e meia hora depois, em outro, para outra.
E foi em uma multinacional alemã, com escritório em São Paulo, que a vida voltou a sorrir para .
- Seu currículo é impressionante, – o gestor da vaga que ela estava concorrendo, falou – O que te fez ir até Dortmund estudar?
- Meu sonho de me colocar no mercado de trabalho. No passado eu abri mão de muitas outras oportunidades na vida, para realizar esse sonho, e com dificuldade, eu percebi que eu precisava sair um pouco da minha rota, desviar do meu caminho, para então voltar para ele.
- E valeu à pena?
- Só me pergunto porque eu não fiz isso antes.
- A gente nunca sabe o que está reservado para nós até acontecer – o homem respondeu e olhou para o currículo dela – E você fala alemão?
não pode deixar de rir.
- Ich versuche! – sorriu para o homem - Ich habe einen Intensivkurs in Deutsch gemacht, als ich in Dortmund war.
Explicou que tentava falar, e que havia feito um curso intensivo em Dortmund quando estava por lá.
- Wer es nicht weiß, kann sogar glauben, dass du dort geboren bist.
sorriu novamente para o homem à sua frente, dizendo que quem não a conhecesse, acreditava que ela realmente era alemã, por falar tão bem a língua. Ela disfarçou o olhar com vergonha, quando percebeu que estava sendo elogiada e as coisas estavam caminhando bem para ela.
- Ich habe mich sehr engagiert, als ich in Deutschland war, und ich beabsichtige, hier in Brasilien weiter zu studieren.
confessou que se dedicou muito quando estava por lá, e pretende continuar se dedicando à língua, aqui no Brasil. Não era mentira, ou palavras para impressionar o gestor, ela realmente pretendia continuar estudando.
- Eu realmente gostei muito de você, . Confesso que eu vou entrevistar outras pessoas ainda, mas acredito que em breve estamos entrando em contato com um retorno.
Com um sorriso no rosto, e se segurando para não comemorar e vibrar por sentir satisfeita com o andamento da entrevista, saiu do escritório e do prédio na Marginal Pinheiros e cantarolando uma música antiga que tocava em seu fone de ouvido, ela caminhou até o metrô, para chegar em sua casa.
Do metrô até sua casa, passou no mercado, comprou cerveja e então foi para casa. Pela primeira vez estava se sentindo confiante com uma entrevista, e achou que merecia comemorar, mesmo que sozinha, uma entrevista que tinha tudo para parecer bem-sucedida.

★★★★


Pouco mais de uma semana pós a entrevista, o telefone de tocou e ela reconheceu o número como sendo do setor de recursos humanos da empresa que ela foi fazer entrevista. Suas mãos gelaram e o coração acelerou. Era um feedback, era tudo ou nada.
- ! – ela respondeu quando a amável pessoa do outro perguntou com quem estava falando – Sim, fui fazer a entrevista – ela ouviu do outro lado da linha as palavras da mulher – Sério? – seus olhos arregalaram – Eu não acredito! – ela colocou a mão na boca – Muito obrigada, muito obrigada mesmo! Bom fim de semana para você.
Quando desligou o telefone, suas mãos tremiam e ela sentia lágrimas bobas escorrerem pelas suas bochechas. Passar quatro meses na Alemanha havia valido à pena. Era hora de espalhar as boas novas para sua mãe, e sua família do outro lado do oceano.

★★★★


Após chorar e rir muito em duas ligações, achou que era o momento de espalhar nas redes sociais, a notícia que muitas pessoas costumavam perguntar sobre. Escolheu um gif de duas pessoas pulando em uma cama com uma garrafa de champanhe, e escreveu algumas palavras.

“Depois de cinco anos, e passar um tempo na Alemanha em busca do meu sonho, finalmente tive uma boa notícia: consegui o emprego dos meus sonhos!”

Estava satisfeita com aquele texto, mas lembrou que apesar dos pesares, também tem pessoas na Alemanha, além de , desejando seu bem. Resolveu traduzir seu texto.

“Nach fünf Jahren, und nachdem ich einige Zeit in Deutschland auf der Suche nach meinem Traum verbracht hatte, hatte ich endlich eine gute Nachricht: Ich habe den Job meiner Träume bekommen!“

E publicou sua mensagem nas redes sociais. Logo ela viu o número de reações e curtidas aumentarem. Os comentários que eram zerados, começaram a subir um por um pessoas a parabenizando em português, um ou outro jogador falando em alemão e ela, após um tempo, resolveu analisar quem eram as pessoas que curtiram.
E um por um, com uma reação de coração, estava lá a pessoa que ela achou que nunca mais iria ter notícias ou se preocupar com sua vida.
André Schürrle.
respirou fundo. Naquele dia em que ela conquistou o que mais desejava em sua vida, não era aquela pessoa que iria esquentar sua cabeça.

★★★★


Os dias foram passando e ficando cada vez mais corridos. saía cedo para o trabalho, voltava para casa já estava noite e ainda procurava tempo para ir na academia. Era cansativo, ela mal conseguia dormir 6h por noite, mas estava se realizando. E aos fins de semana, entrou em um curso avançado de alemão, para se tornar fluente na língua da multinacional que estava trabalhando.
Era algo que ela só sairia ganhando com aquilo. Iria avançar no trabalho, e poderia visitar seus amigos em algum momento, sem se preocupar em falar que não sabia falar em alemão.

Rotina era uma coisa engraçada. Todas as manhãs pegava o metrô no mesmo horário, com as mesmas pessoas, e encontrava sempre as mesmas pessoas na catraca do prédio em que trabalhava. Todos os dias ela percebia que um rapaz a observava no elevador, e sempre dava um sorriso para ela quando saía do mesmo, quando chegava ao seu andar.
não era boba. Ela percebeu os olhares e se sentiu poderosa. Não era para menos, seu maior sonho estava se realizando, e por conta disso, ela estava radiante! Aos poucos, começou a se aproximar do rapaz, até finalmente, descobrir que o nome dele era Thiago, e trabalhava em um escritório de advocacia. As conversas de elevador viraram um happy hour e então, frequentemente estavam juntos.

★★★★

André acordou cedo em Dortmund. Andava perdendo o sono quase sem motivo. Nos treinos, Marco falava que era crise de consciência, pela forma que ele tratou , mas ele não queria acreditar. Não era possível que ele estava em crise meses depois.
Ou era?
Naquela manhã, ao acordar antes do despertador, André pegou o celular e foi olhar suas redes sociais. Seus olhos captaram a esposa de Marco, escrevendo em português em uma publicação. Ele não entendia nada, mas aparentemente, era algo bom, pois estava escrito em letras garrafais.
Ele rolou a tela para cima, afim de tentar entender qual era o motivo de tanta animação. Seu olhar viu e um cara engomadinho demais, para o gosto de André, abraçados em um bar no Brasil. A rede social informava o que aquela foto significava.
alterou seu status para em um relacionamento sério.
Por causa daquela mulher, o mundo de André se abriu pela segunda vez, enquanto uma lágrima teimosa escorria pela sua bochecha.



13. WHERE DO BROKEN HEARTS GO?

{ Yeah, it took me some time but I figured out
How to fix up a heart that I let down.
Now I’m searching every lonely pleace
Every corner calling out your name
Tryna find you but I just don’t know
Where do broken hearts go? }

Em Dortmund, estava extremamente animada. Quem a via sorrindo para o celular, atualizando as redes sociais ou verificando a cada cinco minutos se havia recebido uma nova mensagem, achava que a vida que tinha sofrido uma reviravolta, era a dela.
Desde a faculdade ela e tinham aquilo de “o seu problema é o meu problema”, e as felicidades de uma se estendiam para a outra. Ela não se importava em falar com todos os dias. Mas queria sempre ser a primeira a ver as novidades que a amiga postava.
Primeiro o emprego dos sonhos e depois um namorado que parece ser o cara mais legal do mundo? estava prestes a soltar rojões pela melhor amiga!
Era sábado à tarde na Alemanha, olhava para o celular e não resistiu, enviou uma mensagem para a amiga.

“Me fala que você está disponível para esquecer da hora no Skype!”

A resposta não demorou para vir.

“Hahaha! Eu sempre estou disponível para você, só falar a melhor hora.”
“Agora!”

aproveitou que Nathan tinha saído com o pai, pegou seu notebook e foi para a sala. O verão já estava dando as caras na Alemanha, então era um local bem iluminado para conversarem. A mulher logo acessou e quando viu a amiga online, correu para iniciar uma ligação por vídeo.
O barulho imitando toque de telefone soou pela sala, até que uma apareceu em um ambiente escuro, apenas iluminado pela tela do computador. Ela tinha cobertor até o pescoço.
- Quatro meses de inverno europeu e você está embaixo das cobertas, ? Assim você me envergonha.
- Tá frio em São Paulo – fez bico – E tá muito cedo para um sábado de manhã.
- Ah, são duas da tarde, para com essa preguiça.
- Oi? – franziu os olhos e bocejou – São nove da manhã. Você acha que só porque seu dia já está na metade, o de todo mundo tem que estar – ela suspirou – No que eu posso lhe ser útil, Reus?
- Como assim, ? – respirou fundo – Sua vida vira do avesso, você mal responde minhas mensagens e me pergunta “no que posso lhe ser útil”? Ainda bem que você está longe de mim.
- Já entendi que eu iria apanhar. Por onde eu começo? Emprego ou Thiago?
- Emprego e Thiago!
respirou fundo, sabia que se dependesse de , ficariam conversando o dia inteiro, então era bom ela começar a falar tudo.
Falou desde quando foi chamada para a entrevista de emprego no cargo em que estava, até como foi lá, com o gestor elogiando o pouco que ela falou em alemão. Contou do que faz, e que está sempre em constante contato com a matriz, em Munique – e que isso era ótimo para poder treinar a língua, visto que demoraria um pouco para virar de tudo, fluente em alemão.
Não demorou muito para chegar em Thiago, e como o rapaz era fofo com ela, o que fazia com que sentisse confortável em Dortmund.
- Dá para perceber que ele é bem romântico. Nós trabalhamos no mesmo prédio e ele é advogado. Ele me espera todo dia na estação de metrô e nós vamos até o prédio caminhando juntos. E toda semana tem uma pequena surpresa. Uma flor, um bombom, um vinho depois do expediente – suspirou, e não pode deixar de esboçar um sorriso ao falar nele – Acho que depois de tudo o que eu passei, está sendo bom descobrir como é bom, sentir que alguém gosta de você de verdade.
- Gosta mesmo? – questionou. Não que ela tivesse muitas dúvidas, mas acompanhou boa parte da vida amorosa da amiga, e sabe que ela nunca teve muita sorte em encontrar caras legais – Digo, ele é respeitoso com você, ? Ele não é que nem o...
- Não! – respondeu antes que falasse o nome que ela tentava esquecer – Nós já dormimos juntos, e a atitude foi minha, mas eu me senti confortável com ele, sabe? Não foi aquela coisa forçada. Fora que minha vida é aqui. É mais fácil eu me entregar para ele, sabendo que há mais chances disso durar do que... Enfim, do que Dortmund.
- E como foi?
- Quê? – olhou para o outro lado da tela e não se movia – É sério? – a amiga balançou a cabeça concordando – A gente resolveu fazer um jantar aqui em casa, e depois de uns vinhos, umas brincadeiras enquanto lavava a louça, sei lá, simplesmente aconteceu. Nossa, você é muito inconveniente, levou a mão à testa, como se tivesse indignada, e a amiga continuou sem se mover. Parecia estar pensando – Você está bem?
- Estou pensando se ainda é cedo ou eu já posso pedir para você arranjar um amiguinho para o Nathan.
- Nossa, eu vou voltar a dormir, tchau – e fingiu que ia abaixar a tela do computador.
- Não se atreva, ! – gritou e ela levantou novamente a tela – Sei lá, eu te amo tanto, que eu quero que você sinta a felicidade que eu tenho casada com uma pessoa incrível, e com o melhor presente do mundo, que é um filho.
- Eu vou, . Pela primeira vez em muito tempo, eu estou me achando uma pessoa interessante, e que talvez ainda tenha um futuro na questão relacionamentos e família.
- É o que eu quero para você.
E antes que ou falassem alguma coisa, a porta principal, que dava para a sala foi aberta, e um Nathan serelepe entrou seguido do pai, que conversava com alguém. reconheceu aquela voz mesmo sem ver, e virou a tela do computador para o outro lado, para que ninguém visse com quem ela estava falando.
- , antes de você querer brigar comigo pela milésima vez, deixa eu por favor, me explicar.
- André, não acho que seja a melhor hora.
- Não importa, eu vou falar.
- André, não...
Do outro lado da tela, ainda deitada em sua cama no Brasil, ouviu aquele nome que sua amiga falou, e sentiu que estava prendendo a respiração. havia virado a tela do computador, e ela podia ver o jardim da casa dos Reus, com a piscina e o local onde foi realizado o aniversário do sobrinho.
Estava em dúvida se desligava a ligação, ou se ficava conectada para ouvir o que eles iam dizer. Ouvir conversa dos outros não era ético. Mas era sua irmã. Se achasse que ela não deveria ouvir, desligaria a conversa, não?
Ela puxou a coberta até a altura do nariz, para que não houvesse chance de que alguém escutasse sua respiração.
- André, eu não quero brigar com você, mas não acho que agora seja o melhor momento para você se explicar comigo. É passado, não é? Eu não me arrependo de ter te batido, mas passou, pronto.
- Eu estava machucado, e ainda não tinha superado a Olívia – André continuou, ignorando o que estava falando – Aí eu vim na festa do Nathan, e uma pessoa tímida atrás do bolo, segurando ele no colo, chamou minha atenção. Cabelo escuro, olhos verdes... Aposto que é impossível ela passar perto de qualquer cara e não chamar a atenção, e eu me interessei. Eu não me arrependo de ter me interessado pela .
levou a mão ao rosto, sabendo que André não iria se calar. Podia discretamente abaixar a tela do computador e desligar a ligação que provavelmente ainda estava acontecendo, mas algo a dizia que a amiga merecia ouvir aquilo.
- Eu fiquei com medo dela me destruir e eu não ter forças para catar os meus pedaços do chão pela segunda vez, então eu decidi que só queria me divertir. É, só sexo, e que se dane. Ela ia voltar para o Brasil mesmo, a vida dos dois iriam seguir. Mas ela negou, e mesmo dando gelo, ela se importou. Ela veio atrás. Ela bateu na porta do meu apartamento e eu falei tudo aquilo para ela – o loiro mordeu o próprio lábio – Eu errei tanto, que quando eu percebi que na verdade eu estava gostando dela, já era tarde demais. Ela devolveu um drink que eu enviei em um bar, na tentativa de começar uma aproximação, e quando eu tive coragem de falar tudo o que eu estava sentindo, e o quão errado e culpado eu estava, ela já estava atravessando o oceano de volta.
- Você o quê? – deixou ele acabar de falar, mas seu cérebro parou no meio do discurso – Você estava gostando da ?
- Não... Eu não estava – ele respirou fundo – Talvez o que eu vá falar, faça você me mandar embora a pontapés, mas eu gosto dela, e eu tenho dentro de mim um profundo arrependimento de ter tratado do jeito que eu tratei, que honestamente, às vezes eu até acho que eu mereço sentir ciúmes cada vez que ela publica uma imagem com o novo namorado.
No Brasil, estava a ponto de desligar a ligação. Não merecia ouvir aquilo. Não merecia sofrer de novo por aquele homem. Não merecia ser chutada como foi, e depois a mesma pessoa falar tudo aquilo para sua melhor amiga. André gostava dela? Que forma estranha de demonstrar sentimentos que ele tinha.
- Ela está sempre sorrindo, está radiante, ela brilha, porque ela batalhou por tudo isso que ela está tendo agora, e meu Deus, como eu queria ser o cara do lado dela, acompanhando cada pequeno momento dela – a voz dele começou embargar – Então eu peço desculpas, . Eu vou pedir desculpas para ela, e eu ao menos vou tentar me redimir da estupidez que eu fiz. E também vou batalhar por ela. Porque eu não tenho mais medo de um oceano dividindo a gente, e mesmo que demore anos, eu vou mostrar que ela também não precisa ter medo.
estava sem reação. André gostava de sua melhor amiga e estava disposto a lutar por ela? Como estava no Brasil, depois de ouvir tudo aquilo? Como ela iria seguir o dia? via os olhos azuis de André brilhar, mas eram lágrimas. Ela se levantou do sofá que ainda estava, e abraçou ele, sentindo sinceridade em tudo o que foi falado. André estava sentindo a dor do amor pela segunda vez em menos de um ano. Olivia tinha o abandonado enquanto planejavam um casamento, e por isso ele machucou uma pessoa que não tinha nada com a história.
- Ela realmente está feliz, André.
Então pela visão periférica, viu Nathan caminhando em direção ao jardim de casa e parar na frente do computador.
Do Brasil, , que estava com lágrimas nos olhos, arregalou quando viu o sobrinho e sem fazer barulho, fez sinal com os dedos para que ele fizesse silêncio. A criança abriu um largo sorriso.
- Mama! É a Tante !!! – ele apontou para o computador e as duas mulheres franziram os olhos, sentindo que foram denunciadas!
deu dois passos para trás, e André ficou imobilizado. O homem apontou para a tela do computador e falou:
- Não me diz que é o que eu estou pensando.
pegou o computador e virou para André, revelando uma com o rosto inchado, sinal de que havia ouvido toda a conversa.
- Eu falei que não era uma boa hora, André – tentou se explicar.
- , deixa eu falar com você! – o homem ignorou o que a esposa do amigo falou.
E do Brasil, antes que ele pudesse continuar, abaixou a tela do computador, encerrando aquela conversa, e colocou no chão, aninhando-se novamente nas cobertas, enquanto fungava.
Seu sábado que começou incrível e não tinha chegado direito nem na hora do almoço, já havia terminado. Lembrou-se que Thiago iria passar em sua casa mais tarde, para eles irem ao cinema. Não tinha condições nem de olhar para seu namorado. Pegou o celular e enviou uma mensagem para ele:

“Minha mãe não está se sentindo bem, estou correndo para casa e ficar o fim de semana com ela. Nos vemos na segunda. Beijos, .”

E desligou o aparelho telefônico. Ela só queria superar tudo aquilo que ouviu, e não falar com ninguém pelo resto do fim de semana.





Continua...



Nota da autora: Eu realmente não tenho nada para falar nessa nota. Deixo os comentários com vocês. Me contem, o que acharam dessa declaração do André? Beijos!!




Nota da beta: Ai, meu Deus! Que declaração, chocadaaaaa. Eu ri do Nathan hahahaha, tadinho. Manda mais logo, por favooor <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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