Finalizada em: 06/06/2018

Capítulo Único

Aos sete anos de idade, tudo o que null queria era ser uma princesa. Aos dez, a realeza já não lhe encantava: princesa, só se fosse do pop - ‘mais famosa que a Britney, mamãe!’, era o que dizia. Aos treze, chorava pelo sonho ser atriz de série de TV, ainda que beijar Chad Murray fosse a única motivação. Aos quinze, junto com o pai, foram-se os sonhos. Aos dezesseis veio a rebeldia e a vontade de se ver livre do fim de mundo onde nascera. Aos dezessete, a certeza de que nunca daria certo em coisa alguma. Aos dezenove, veio a Marinha. E com ela, null.
Se fechasse os olhos, a mulher ainda conseguia se lembrar do modo como os olhos dele a estudaram com curiosidade quando se viram pela primeira vez - a expressão fechada que mantinha para todos, aparentemente, não tinha efeito algum sobre o Major encarregado de seu treinamento. Havia algo na figura de null que impunha muito mais respeito do que gritos e força física jamais poderiam, e a pouca diferença de idade somada ao abismo de patentes entre ele e os recrutas deixava isso claro para todos, caso restasse alguma dúvida.
Ao pensar nas primeiras semanas de bootcamp, null quase sentia vontade de rir: na época, ela não tinha dúvidas de que aqueles eram as piores de toda a sua vida. Havia um conceito, no entanto, que ainda aprenderia na Marinha: nada é tão difícil, que não possa ser um tanto mais. Os treinamentos físicos muitas vezes faziam com que chegasse à exaustão, mas era a pressão psicológica o que a deixava em pedaços.
null. - null chamou, depois de liberar a nova turma de recrutas, e null ainda conseguia se lembrar do modo como seu estômago gelou naquele instante. Não do modo prazeroso, como ele faria com que sentisse muitas vezes no futuro. Naquele momento, o que sentia ao ser chamada por seu superior, sendo a única mulher em um grupo de cadetes, era algo muito próximo do pânico. Infelizmente, aquela também estava longe de ser a única vez que se sentiria assim naquele ambiente.
— Senhor. - aprumou-se, batendo uma continência que manteve até que ele a dispensasse com um gesto. O movimento ainda não era natural para ela, ele percebia. Havia na garota uma rebeldia velada que quase o fez sorrir: ele percebia pela forma como ela respondia às gracinhas dos colegas, e como fazia questão de chegar ao limite em toda atividade, como se não estivesse acostumada a perder - e não estivesse disposta a aprender.
— Por que você está aqui? - ele perguntou calmamente, o tom em nada semelhante ao que null já havia ouvido de todos os oficiais com os quais tivera contato. Era uma pergunta simples, mas para ela soava como a resposta de todas as questões da humanidade.
— Para servir ao país, senhor. - respondeu de pronto, fazendo os cantos dos lábios de null se ergueram minimamente, como se fosse exatamente aquilo o que ele esperava: uma resposta vinda diretamente das telas do cinema. Como se percebessem terem sido pegos na mentira, os olhos de null se voltaram para o chão - Você não tem a menor idéia, tem? - ele perguntou, examinando o rosto da jovem: sabia reconhecer uma pessoa perdida quando via uma. Ele fora uma, até chegar àquele lugar. null maneou a cabeça minimamente, ainda sem encará-lo.
— Não, senhor. - corrigiu-se, lembrando-se de que deveria sempre responder diretamente a uma pergunta de um superior. E de seus colegas recrutas, segundo muitos deles pareciam acreditar, apenas por ser mulher. Uma semana, e a garota já havia se metido em discussões com meia dúzia deles, inclusive. Um ótimo começo.
— Então descubra. - null maneou a cabeça, concordando, e não havia ali a rispidez que null esperava: ele falava como se, de fato, desejasse aquilo. E desejava: não havia como sobreviver àquele lugar sem uma motivação clara, e algo na fúria mal contida de null fazia com que ele se lembrasse muito de si mesmo, mais do que todos os garotos ao lado dela - Dispensada.
null voltaria àquela conversa tantas vezes durante o tempo, que era incapaz de contar. Descobrir a resposta para aquela pergunta tornara-se sua maior preocupação: o que fazia ali? A garota gostaria muito de ter um motivo nobre para ter desejado se juntar às Forças Armadas, isso é verdade. Não era muito confortável dizer que só havia se alistado porque a mãe insistia que fizesse alguma coisa da vida que não causar problemas e, honestamente, ninguém nunca esperou que ela sequer passasse do Campo de Treinamento. Nem mesmo ela. A cada semana que resistia àquele inferno, no entanto, a pergunta de null parecia fazer mais sentido: por que estava ali? Àquele ponto, encontrar uma resposta se tornara uma questão de sobrevivência: a cada humilhação, falha e decepção, tinha mais certeza de que precisava descobrir um motivo. Era isso, ou desistir.
A revelação veio em um dia qualquer, quando ela voltava dolorida para o dormitório e percebeu que aquilo não fazia mais com que pensasse em desistir… Que chegara longe o suficiente para que desistir não fosse mais uma opção. Aquela era a sua resposta.
— Eu sei. - ela arfava quando chegou à sala de null, apoiando as mãos nos joelhos para se recuperar da corrida que a levara até ali. O homem a encarou com curiosidade, e null se colocou de pé, batendo uma continência desajeitada tão logo se lembrou de com quem falava - Senhor.
null gesticulou para que ela abaixasse a mão e deixou de lado os papéis de avaliação física dos recrutas para, enfim, encarar a mulher a sua frente, aguardando que continuasse. Ela sorria, e ele tinha certeza de que nunca a vira sorrir antes, ou se lembraria.
— Eu estou aqui porque ninguém achou que eu conseguiria. - ela respondeu - Porque eu não achei que conseguiria. - completou, encarando os coturnos assim que a confissão pareceu pessoal demais, motivo pelo qual não viu que os cantos dos lábios de null se repuxaram em um sorriso: ele não se enganara, afinal. Eles eram movidos pelo mesmo ímpeto, o mesmo espírito. Não era sobre os outros. Era sobre si mesmos.
— Ainda não terminou, null. - ele respondeu daquele modo tão próprio, que a desafiava discretamente. Nem mesmo alterava o tom de voz, mas a impulsionava como nada no mundo faria.
— Eu vou me formar, senhor. - ela respondeu, alargando o sorriso como se já esperasse aquele questionamento dele. Como se o desejasse. - Vou ser a melhor que esse lugar já viu. - completou, e foi a vez de null sorrir diante daquele lampejo da petulância que ele costumava ver na garota que chegara ali meses atrás. Ela chegara uma menina, e se colocava diante dele uma mulher que despertara sua mais sincera admiração.
— Então você tem trabalho a fazer. - ele indicou a porta com um meio sorriso - Não me decepcione, null… - murmurou para si mesmo, voltando aos relatórios com o pressentimento de que daquele dia em diante uma conexão diferente se instalara entre eles. E, ainda que soubesse o quão perigoso era aquele presságio, não pôde deixar de sorrir.



— Parabéns pela formatura, tenente. - null cumprimentou, vendo o sorriso de null se alargar ao uso da nova patente. Agora que ela fazia aquilo com frequência, a vida dele estava se tornando realmente difícil.
— Obrigada, senhor. - ela agradeceu, formalmente - Eu disse que conseguiria. - completou, incapaz de conter o atrevimento, ao que ele agradeceu mentalmente: não esperaria nada diferente de null.
— Eu nunca tive dúvidas disso. - respondeu, sinceramente: a garota caía dez vezes e se erguia sempre com a mesma graça da primeira. Havia nela mais resiliência do que ele jamais compreenderia.
null fitou o chão por um momento, mas o sorriso nunca deixou seus lábios enquanto ela pensava sobre o que seus lábios urgiam por dizer em seguida. Antes que pudesse pensar demais, e acabar desistindo, deixou que as palavras escapassem de uma vez.
— Nós vamos ao bar dos Fuzileiros, depois que acabar a cerimônia. - comentou, engolindo seco ao perceber o que fazia - Acho que os outros oficiais também vão, seus amigos… - deixou a frase morrer, envergonhada demais para prosseguir. O que estava pensando?
— Eu… - null vacilou, tão surpreso quanto tentado pela ideia: havia regras contra aquilo, ele tinha certeza. Não contra beber com os tenentes, é claro. Contra o que sua mente projetava diante do convite, certamente sim - Eu vou tentar. - completou, e o silêncio constrangedor que se instalou entre os dois era indicativo de que ele não fora o único a imaginar um desfecho diferente para o fim da noite - Aproveite a formatura, tenente. - null acenou para null, buscando outros alunos a quem cumprimentar a fim de afastar da mente aquelas ideias potencialmente problemáticas.
Como se fosse possível.
Em sua defesa, ele realmente pretendia passar o resto da noite em casa, bem longe das tentações. Sem que tivesse escolha, no entanto, seus amigos o arrastaram até o bar para a comemoração dos novos tenentes e, uma vez lá, não havia muito o que pudesse fazer. null não foi difícil de encontrar: além de ser uma das únicas mulheres dentro do bar, a garota parecia irradiar a felicidade que sentia… Era algo bonito de se ver. Ela merecia aquilo.
— Você veio! - ela sorriu para ele, dessa vez, assim que seus olhos se encontraram dentro do bar lotado. Era tão estranho para ela não saudá-lo com uma continência, quanto era para ele vê-la de cabelos soltos e saltos.
— Ouvi dizer que vocês estavam pagando. - null brincou, arrancando uma gargalhada da garota. null fez um sinal com a mão, pedindo que ele aguardasse, e retornou com duas cervejas, entregando uma ao rapaz.
— Saúde. - null brindou, sorrindo, e levou a cerveja aos lábios tentando não encará-la por tempo demais. Os olhos de null, contudo, pareciam infinitos nos quais ele se perdia com uma facilidade surpreendente.
null! Foto da turma! - alguém chamou, e null respirou aliviado ao vê-la se afastar. Ele só precisava vencer aquela noite.
Felizmente, havia gente demais ali para que passassem sozinhos tempo suficiente para que fizesse uma besteira e, assim que percebeu que o álcool começava a nublar sua mente, o rapaz resolveu ir para casa.
null! - null chamou, correndo atrás dele pelo estacionamento - null, espera! - gritou, e o homem respirou fundo uma última vez, antes de se virar: null tinha o rosto corado de frio e os cabelos desalinhados. O ar se condensava diante de seus lábios e havia uma determinação nos olhos dela que fez o homem ter certeza de que aquela mulher seria a sua ruína. E ele não se via nem um pouco tentado a fugir disso.
— Você passou por isso tudo pra se formar e morrer de frio, garota? - ele revirou os olhos quando ela se aproximou, tirando o casaco para colocar em torno dos braços dela.
— Me escuta, por favor. - pediu, ignorando as preocupações de null. Precisava dizer aquilo, ou toda a coragem iria embora junto com o teor alcoólico em seu sangue - Obrigada. Por tudo. Eu… Eu só cheguei aqui por sua causa.
null sorriu de canto, olhando por um instante para a noite completamente sem estrelas, antes de encarar de volta a mulher a sua frente. Se ela ao menos soubesse… null lhe devolvera um sentimento tão nobre que era curioso que fosse ela a lhe agradecer, quando devia ser o contrário.
— Você chegou aqui por sua causa. - ele corrigiu, dando um passo à frente sem sequer notar - Nunca deixe que lhe digam o contrário, ok? - perguntou, e os olhos da garota brilharam de lágrimas no instante em que ela concordou. Em um ambiente em que ela era constantemente julgada e questionada, null era um ponto de paz.
null o abraçou, e o modo como os braços de null se fecharam em torno dela foi tão natural que não parecia justo que aquilo fosse errado. Uma das mãos do rapaz estavam em seus cabelos, e ele cometeu o erro grave de respirar fundo, fazendo com que o perfume de null invadisse seus sentidos, transformando-a em algo tentador demais para ser real.
null… - a voz dele era mais rouca que o habitual, e a mulher cerrou os punhos em sua camisa, tendo dificuldades em controlar o que sentia. Era feito dar vazão a algo que já se acumulara por tempo demais… - Nós não podemos… - murmurou, ainda que ela não houvesse insinuado nada. Estava na tensão tácita entre eles, em todo o não-dito.
— Você não é mais meu instrutor. - ela respondeu de pronto, e null quase sorriu: ao menos ele não era o único a perder tempo pensando nas consequências daquilo.
— Eu sou seu superior, isso não mudou. - ele explicou, colocando os cabelos dela atrás da orelha apenas por ser um filho da mãe masoquista, porque o modo como os olhos da garota vasculhavam seu rosto e paravam em sua boca foi algo espetacular.
— Então eu acho que você vai ter que me repreender por isso. - null murmurou um instante antes de moldar os lábios de null aos seus, destruindo suas barreiras uma a uma, até que fosse ele quem buscasse os lábios dela com uma avidez que a fez suspirar. Se havia algo de repreensível no que sentiam, naquele momento eles se viam dispostos a pagar o preço.
Na manhã seguinte, concordaram que o melhor a se fazer era deixar aquilo pelo que era: um caso de uma noite, culpa de cervejas demais. Duas semanas depois, as embalagens de pizza e coca-cola que null encontrou ao acordar na casa dele pela segunda vez deixavam claro que o álcool já não poderia ser uma desculpa. Ainda que soubessem que a situação era fadada ao fracasso. Ainda que fosse o maior erro da carreira de ambos. Ainda que houvesse muito em risco, era amor. Era amor, muito antes que admitissem. Era amor, ainda que ninguém jamais viesse a saber. Era amor.



null. - a voz de null ao entrar em casa fez com que a mulher limpasse as lágrimas do rosto com força. Não importava quanto tempo se passasse, ela ainda não se acostumava à ideia de deixar que ele a visse demonstrando qualquer fraqueza.
— Nós sabíamos que isso ia acontecer. - null disse de pronto, tentando convencer a si mesma de que não era nada além do esperado - Merda, null, nós sabíamos desde o começo… - ela sentiu os braços dele enlaçando sua cintura, e resistiu a aceitar o abraço em um primeiro momento, já que sabia o que viria a seguir: quando ele a segurou apertado, o corpo da mulher estremeceu em soluços: aquela era a única coisa em que ela era realmente boa nessa vida, e estava sendo arrancada de suas mãos depois de tudo o que passara para conquistá-la.
Ela não mentia ao dizer que eles sempre souberam que aquilo terminaria assim. Escondiam de si mesmos, disfarçavam com sorrisos e planos sobre o futuro, mas a verdade era uma só: enquanto fossem dois oficiais na ativa, sendo null subordinada a null, aquele relacionamento era uma temeridade. Seu segredo ficou a salvo por muito tempo, na realidade, demorou quase dois anos até que tudo começasse: no início, eram piadinhas inconvenientes dos outros tenentes. Em seguida, começaram as reclamações formais acerca de supostos benefícios, e não tardou para que o que temiam acontecesse: null foi chamada para uma reunião e informada de que suas atividades como Tenente da Marinha estavam suspensas devido a conduta inadequada, e que passaria por um processo administrativo. null, como era de se esperar, não seria punido.
null… - ele beijou sua testa, afastando os cabelos do rosto da mulher com carinho - Você não vai a lugar nenhum. - murmurou.
— Do que você tá falando? - ela limpou o rosto, frustrada - O general disse que não ia tolerar isso, que um de nós precisava sair.
— Eu saí. Trabalho burocrático, na inteligência. - null revelou, tão subitamente que null pensou não ter ouvido direito. Ele amava o trabalho de campo, ela sabia disso. O que não sabia, e que seu coração pulou uma batida ao constatar, é que a amava ainda mais do que a carreira - Ver até onde chegaríamos, lembra? Esse era o objetivo. - ele sorriu, deixando claro que não havia arrependimentos na decisão - Eu cheguei mais longe do que imaginava. É a sua vez. - concluiu. Não era certo que ela fosse afastada por ser mulher, ou por sua patente. Estavam juntos naquilo.
— Você é melhor que todos eles, sabia? - os olhos de null brilhavam, transbordando orgulho do homem que tinha ao seu lado. Ela o faria se orgulhar dela também.
— Você é melhor. - null sorriu, sentando-se a cama e abrindo os braços para que a mulher se aconchegasse - Prove pra eles, ok? Por nós dois.


Fim.



Nota da autora: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Eu não tenho nem tempo pra escrever essa nota, na realidade: essa história surgiu numa situação de emergência, escrita em uma tarde, então PERDOEM QUALQUER COISA. Sobre patentes e o funcionamento da Marinha, principalmente. Eu gostaria muito de ter feito uma pesquisa melhor, mas realmente não pude :(
Espero que tenha ficado digna desse musicão da porra, e que tenham gostado do casal.
Obrigada pela paciência! Xx Belle.




Outras Fanfics:
Melíflua (Futebol/Rafinha Alcântara/Em Andamento)
Brasa (Shortfic Restrita de Melíflua)
You Make Me Begin (K-Pop/BTS/Em Andamento)
Hers (Restritas/K-Pop/Shortfics)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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