Última atualização: 21/10/2017

Prólogo

Rafael Alcântara tem uma palavra preferida na língua espanhola. Mais que "fútbol" e ainda acima da aconchegante "cariño", sempre lhe agradou a saborosa "melíflua".
Do latim: referente ao mel ou que partilha suas características. Doce, delicada.
A própria palavra parecia mel, em si própria, quando saía de seus lábios.
E era nela, sua palavra favorita, que Rafa pensava sempre que se lembrava de , sua pessoa favorita: doce, intensa, quente... feito mel.


I. FUEGO

“Nena, me inspiras cuando caminas
Me pierdo em tuscaderas
Eres la cosa mais linda
De esquina a esquina, de abajoarriba.”
(Fuego – Juanes)

– Ai, graças a Deus! – o suspiro aliviado veio acompanhado de um sorriso que dizia muito sobre quanto havia aguardado aquele momento. Fora uma busca incessante, afinal, uma hora e meia andando por toda Barcelona até que finalmente ela estivesse ali, bem na sua frente, tão bela e familiar quanto se lembrava: uma lata de leite condensado. Literalmente, uma.
A garota disparou pelo corredor, ansiosa por finalmente tocar aquele paraíso que, sabia bem, seria o único remédio para a TPM infernal em que se encontrava assim que se transformasse em um prato delicioso de brigadeiro. Mal percebia os olhares curiosos que recebia, aquela figura curiosa vestida de shorts de academia e um moletom três vezes maior que seu tamanho correndo desesperadamente pelo supermercado, sua atenção inteiramente voltada para a prateleira que se aproximava.
Os dedos com unhas cuidadosamente esmaltadas de vermelho estavam a poucos centímetros da lata quando um obstáculo se interpôs entre eles e a felicidade plena: um obstáculo de 1,74m e ombros largos, que acabava de roubar o seu leite condensado. Os olhos castanhos se estreitaram, enquanto a garota sentia uma fúria ardente subindo-lhe do estômago. Aproveitando a mão estendida, usou-a para cutucar as costas do rapaz. Oh, ele não sairia dali com aquela lata, ou seu nome não era .
Hola! – exclamou, forçando um sorriso assim que o homem voltou-se para trás. Encarava as mãos dele, possessivamente grudadas no seu leite condensado, e considerou simplesmente tomar a lata e correr, como se não houvesse amanhã, mas algum senso de civilidade se sobrepôs ao seu instinto de posse sobre o doce, e permaneceu ali, encarando aqueles olhos castanhos que a estudavam curiosamente.
Hola, que tal? – o rapaz respondeu, soando simpático tanto pelo sorriso largo quanto pelo olhar caloroso que lhe lançou. Um verdadeiro lobo em pele de cordeiro, tentando distraí-la de seu principal objetivo.
– Tudo mais ou menos, agora... – ela ainda sorria mecanicamente, nem ao menos conseguindo controlar o nervosismo o suficiente para tentar ganhar a lata em uma piscada de seus longos cílios – Sabe o que é... Eu estava quase chegando quando você roubou, quero dizer, pegou essa lata de leite condensado. A última. – fez questão de enfatizar, torcendo para ter-se feito compreender no espanhol.
– Oh, isso? – ele deu uma risada, erguendo a lata um pouco acima dos ombros, gesto que a garota seguiu cuidadosamente com o olhar, receando que ele fosse se esquivar de seu alcance, uma vez que mantinha ainda o plano B de “pegar e correr” – Sinto muito, mas eu realmente preciso.
– REALMENTE PRECISA? – a voz dela subiu uma oitava, e alguns decibéis, e teria sido melhor se o homem tivesse gritado de volta ao invés de cair na risada, como fez – Escuta uma coisa, você não é uma mulher na TPM e muito menos é brasileiro, o que significa que não preenche nenhum dos requisitos pra levar essa lata de leite condensado que por direito é minha!
Quieta, nena... – ele disse, segurando um sorriso, e mais uma vez teve a impressão de que o maldito utilizava-se de artifícios baixos para distraí-la. Aquela voz deveria ser ilegal, pelo amor de Deus! – Antes de mais nada: Rafael, muito prazer. – ele disse, e imediatamente identificou o sotaque carioca tão parecido com o seu. Inferno, um de seus argumentos acabava de ir por água abaixo...
. – ela resmungou, resolvendo mudar de estratégia – Olha só, - recomeçou, controlando o tom de voz e piscando os olhos lentamente, com um sorriso cálido que extraiu, com dificuldade, das profundezas de seu ser em ebulição – você também é brasileiro, então sabe a importância que tem um brigadeiro pra uma mulher na TPM, em pleno sábado à noite, certo?
– Eu adoraria poder ajudar, mas se eu não aparecer com esse leite condensado em casa, será a minha cabeça num espeto ao melhor estilo Ned Stark. – ele respondeu, e ignorou mais uma tentativa satânica dele de ganha-la. Ela não cederia só por ele ser um fã de Game of Thrones, ainda que seu coração tivesse pulado uma batida àquela referência.
“Querido, a sua cabeça vai parar num espeto agora mesmo se não passar pra cá esse leite condensado!” - ela queria gritar, mas antes que pudesse fazê-lo seu telefone tocou.
– Você! – ela tocou o tórax de Rafael, estreitando os olhos – Nem um passo! – ordenou, antes de atender a ligação.
Rafael não sabia bem o que lhe prendia ali, a cena cômica que se desenrolava, ou o fato de que sua protagonista era tão bonita que ele se sentia incapaz de dar as costas à fúria incandescente dela, que a deixava absolutamente atraente. Era fuego, mami... Por um motivo, ou por outro, permaneceu ali, ouvidos atentos à conversa que se desenrolava em português, mal contendo o riso pela indignação da garota a sua frente. Ele cederia de bom grado o leite condensado, se pudesse, ainda que sua irritação estivesse divertindo-o mais que qualquer coisa naquela noite.
– Oi, amiga... – ela atendeu à ligação, mantendo os olhos castanhos sobre Rafael, como se atenta a uma presa. Ele gostaria, e muito, de ser aquela presa, mas tinha certeza de que seu alvo era apenas a lata que ele ainda mantinha protegida em suas mãos – No supermercado, porque um... – ela respirou fundo quando Rafa ergueu uma sobrancelha, como se curioso acerca do vocativo que ela usaria para ele – um... AH! – a garota urrou e Rafael explodiu em uma risada, ajeitando o gorro que usava. De onde aquela garota tinha vindo, Deus? – Eu não consegui comprar ainda! – resumiu. Ela passou alguns segundos em silêncio, e então, lentamente, um sorriso vitorioso tomou lugar em seu rosto. Era o primeiro sorriso verdadeiro que dava até então, e Rafael perdeu alguns segundos admirado com o quanto ela conseguira ficar ainda mais bonita: um sorriso daqueles cinco minutos atrás e ele teria enfrentado a ira de 10 Joffreys, ou mesmo virado uma lata de condensado para agradá-la – Eu te disse que não queria ir, vaca, isso foi golpe baixo. – resmungou, mantendo um sorriso mínimo no canto dos lábios – Mas já que não tenho escolha, eu vou. As coisas que eu faço por um brigadeiro... – suspirou teatralmente – Te vejo daqui a pouco, então.
E com um sorriso diabólico, ela desligou.
– Pelo sorriso, acho que tudo se resolveu, não? – Rafa disse, aliviado pelo problema ter se resolvido sem maiores danos, ainda que frustrado porque percebia que os dois estavam prestes a se separar e ele não havia pensado em uma única boa desculpa para manter aquele contato por mais algum tempo.
– Sim, senhor. – ela olhou para o leite condensado com desprezo – Faça bom proveito! – fungou, virando-se para ir embora. Sabia que provavelmente devia se desculpar com o rapaz pela explosão de minutos atrás, mas ela era um vulcão e, uma vez em ebulição, demorava até atingir a calmaria novamente.
Respirando fundo, pensou no brigadeiro que comeria dali a algumas horas. Para isso teria que comparecer a tal festa que passara a semana se recusando a ir, mas Bruna tinha sido esperta e unido o útil ao agradável ao pedir ao namorado que desse um jeito de comprar o leite condensado e, ao que parecia, um amigo dele havia conseguido. Ir a festa agora parecia um preço pequeno a se pagar, desde que pudesse comer quanto brigadeiro quisesse. E ela se certificaria disso.
A garota já estava quase chegando ao estacionamento quando ouviu alguém correndo. Rolou os olhos antes mesmo de se virar, e deparou-se mais uma vez com a figura atlética de Rafael. Agora que a raiva deixara de confundir sua sanidade, ela sentia que seu rosto talvez fosse familiar... Mas provavelmente ele só era parecido com aqueles gatos bronzeados e musculosos que viviam jogando futevôlei no Posto 9.
– Aqui... – ele disse, estendendo-lhe uma barra de chocolate – Não é seu leite condensado, mas talvez ajude com a TPM. – completou, com uma piscadela, antes de correr até o próprio carro.
“Cara de pau”, murmurou, olhando-o ir. Só quando estava na segurança de seu carro e finalmente decidiu abrir a barra de chocolate – não daria esse gostinho ao ladrão de leite condensado, afinal – é que reparou num pequeno pedaço de papel colado à embalagem. Um número de telefone. Com uma risada, a garota abriu o chocolate, colocando um grande pedaço na boca. Já o papel, colocou dobrado no console do carro – por falta de lixo, é claro.



– Eu já disse que te odeio hoje? – perguntou, terminando de calçar as botas de salto altíssimo com muita má vontade.
– Para de ser ridícula, ! – a outra gritou, da cozinha do apartamento – Já faz uma semana que você tá na cidade e ainda não colocou essa bunda pra fora de casa! – completou, voltando para o quarto onde se encontrava.
– E permaneceria assim muito bem, obrigada, não fosse existir uma Bruna Marquezine no meio do caminho... – resmungou, mirando a própria imagem no espelho criticamente: usava uma saia de couro, blusa preta de tecido transparente e botas da mesma cor. O look básico denotava sua total falta de empolgação para escolher algo mais criativo, mas não a deixava menos deslumbrante.
– Amém! – Bruna riu, beijando o rosto da outra – Para de ser idiota, você veio pra cá se divertir comigo, e não ficar enfurnada dentro de casa o dia inteiro! – protestou – Além do mais, os meninos são legais e vão te fazer rir...
– Disso eu tô realmente precisando... – concordou, enquanto terminava de passar batom – Já me basta o ódio que eu passei naquele supermercado hoje! Bruna, você não tá entendendo... – ela contava mais uma vez, e a outra já não continha as gargalhadas, já que daria um braço para ter presenciado a briga de com o cara do supermercado, afinal sabia o quanto a amiga ficava brava quando mexiam com a sua comida... – “Eu adoraria poder ajudar...” – imitou Rafael da melhor forma como se lembrava – Demônio!
– Calma que seu brigadeiro vai estar lá te esperando, amiga... – Bruna disse, ainda rindo – Mandei o Ney se virar pra conseguir, e ele pediu pra um dos meninos que já tava na rua comprar. Falando nele... – Bruna sorriu, pegando o celular que acabara de vibrar com uma mensagem do namorado – Tá esperando lá embaixo, anda logo...
Com um suspiro resignado, deixou-se arrastar para fora do apartamento.
– O que eu não faço por comida, meu Deus?



A varanda onde estavam era provavelmente quatro vezes maior do que o apartamento onde estava ficando em Barcelona – um cantinho bastante agradável no centro da cidade – e o número de pessoas espalhadas por todos os cantos do jardim e da casa provavelmente encheriam uma casa noturna. Isso, aparentemente, era o que Neymar Jr chamava de "churrasco para os mais chegados". Mas talvez fosse assim na linguagem dos boleiros internacionais.
– Eu achei que você tivesse dito que seríamos só nós e uns caras do time... – murmurou para Bruna, que apenas deu de ombros, sorrindo de canto.
– Eu posso ter minimizado um pouco... – ela levantou a mão que não estava entrelaçada à de Neymar, como se em defesa própria – Mas o importante é que você vai se divertir, não é, amor?
– Ih, ... Com isso você pode ficar despreocupada, todo mundo que entra nessa casa sai daqui feliz... – Neymar deu um sorriso moleque antes de completar – E bêbado. Esperem aqui. – pediu, deixando as duas para correr rapidamente até o interior da casa, voltando com uma garrafa de Jose Cuervo, um limão e o saleiro nas mãos – , você primeiro!
A garota riu, jogando um pouco de sal no dorso da mão e lambendo em seguida. Abaixou-se para que Neymar despejasse a bebida direto em sua boca, e sentiu com prazer o álcool queimando sua garganta enquanto descia. Há quanto tempo não ficava bêbada de verdade, ela não sabia nem mesmo dizer. Com os olhos apertados, chupou um pedaço de limão, intensificando a careta assim que terminou. Estava decidido: tomaria seu primeiro porre em espanhol.
Bruna repetiu a sequência realizada pela amiga, beijando demoradamente o namorado no final. riu, gritando que os amigos arrumassem um quarto, ao que os dois romperam em uma gargalhada gostosa.
– Invejosa! – Bruna mostrou a língua, brincando.
– Sou mesmo! – respondeu, dando uma risada – Agora vem cá, onde é que tá a minha companhia pra essa noite, hein? Alguém – ela olhou sugestivamente para Neymar – tinha prometido que ele estaria aqui me esperando quando eu chegasse... – completou, soando realmente frustrada, para confusão do jogador.
– O brigadeiro, amor... – Bruna explicou, revirando os olhos para . Não sabia como realmente tinha acreditado que ela se esqueceria do tão falado doce.
– Ah, sim! - Neymar riu, pegando o celular do bolso para checar se havia alguma notícia acerca do paradeiro do leite condensado – Tá com a Princesa, mas ele disse que já saiu de casa...
Princesa? perguntou, rindo do apelido e de como a amizade masculina era cheia de facetas que em 24 anos ela ainda não fora capaz de compreender – Vou precisar ir ao banheiro, casal. Aproveitem a minha ausência. – disse com uma piscadela antes de voltar as costas para os dois e andar em direção a casa, que já conhecia, não sem antes parar no bar para mais uma rodada de tequila. Ela não sabia brincar...
A morena voltava para o jardim, já sentindo os efeitos do álcool se traduzindo em passadas mais lentas e um leve movimento do corpo ao som da música. Talvez tenha sido também por isso que perdeu o equilíbrio por um segundo ao descer os degraus que levavam da casa ao gramado, sendo impedida de cair por um braço firme que surgiu em sua cintura.
Mira tu paso, guapa. – a voz soou baixa em meio à música, mas veio de tão perto que foi capaz de sentir a respiração do homem se chocando contra o seu pescoço. Seu conhecimento de espanhol era parco, mas ele podia estar lendo uma lista de supermercado e aquele sotaque ainda lhe pareceria tentador.
Quando ergueu os olhos, ensaiando um sorriso, sentiu o choque preencher cada célula de seu corpo. Desvencilhou-se dos braços dele em um rompante, vendo a sua própria surpresa estampada no rosto bem esculpido de Rafael – sendo substituída, no caso dele, por uma bela gargalhada que tornou os olhos dele ainda menores, e seu rosto ainda mais atraente.
– O que você tá fazendo aqui? – a morena perguntou, flutuando entre chocada e indignada. Realmente, sua impressão de que Neymar convidara a cidade inteira para a tal festa não parecia agora tão errada assim – E o que é que você fez com o meu leite condensado? – perguntou frustrada.
– Eu poderia perguntar o mesmo, na verdade... – ele sorriu, em verdadeiro regozijo com a situação – E pelo seu humor acho que o chocolate não ajudou tanto quanto eu planejava com a TPM... – brincou, fazendo estreitar os olhos perigosamente. Como ele se atrevia? – Seu leite condensado tá bem aqui – ele ergueu uma sacola de supermercado com algumas bebidas misturadas àquela que havia sido a causa de tanta discórdia.
– Faaaaala, Princesa! – a voz de Neymar cortou o ambiente, quando o anfitrião pulou nas costas de Rafael – Hoje o banho foi de princesa mesmo, hein. A aqui não tava mais aguentando esperar o brigadeiro. – disse, ignorando o fato de que os dois agora se encaravam em plena incredulidade.
Você é a Princesa? – perguntou, como se reforçar aquilo faria com que a situação se tornasse menos absurda.
– Você é um belo filho da puta, sabia? – Rafael disse, sorrindo de canto enquanto batia na cabeça de Neymar por ter contado sobre o apelido – Mas sim. E se não estou muito enganado você é a amiga da Bruna que daria um rim por uma lata de leite condensado.
– Eu quase arranquei o seu rim pelo meu leite condensado! – protestou, empinando o nariz – Princesa! – completou, com um sorriso diabólico.
– Ei, por que eu tô com a impressão de que tô perdendo algo aqui?
– Bruna... – suspirou pesadamente, os olhos presos aos de Rafael, tentando fazer com que ele tirasse aquele maldito brilho de divertimento do olhar – Seu namorado é amigo do ladrão de leite condensado. – completou séria, fazendo com que o casal de amigos se encarasse em choque por um segundo antes de explodir em gargalhadas.
– O quê? – Neymar conseguiu dizer – Espera, se você é o "ladrão de leite condensado", - começou, usando o modo como passara o dia chamando Rafa – Isso faz dela a...
– Sim, exatamente! – Rafael interrompeu, atropeladamente, antes que o amigo pudesse falar demais.
Sim, isso fazia dela a tão falada "gostosa do supermercado".
E fazia deles uma dupla, no mínimo, interessante.



– Quando é que você vai tirar esse bico da cara? – Rafa perguntou com um sorriso de canto, enquanto se encostava na bancada da cozinha onde , no momento, transferia uma boa quantidade de brigadeiro da panela para um prato. Os dois haviam passado os últimos minutos dividindo o ambiente, mas sem trocar uma única palavra – Não é incrível que eu tenha brigado tanto com você justamente pra comprar uma lata de leite condensado pra você, no fim das contas? – arriscou.
– Eu não tô com bico nenhum! – a garota protestou, aumentando ainda mais a expressão contrariada, e fazendo Rafael gargalhar, jogando a cabeça para trás. Ele precisava urgentemente parar de fazer aquilo, ou ela teria dificuldades em se concentrar pelo resto da noite... A risada de Rafa alcançava os olhos, e quando estes finalmente se chocaram aos de mais uma vez, convidaram-na a sorrir, e este pedido ela não conseguiu negar.
Foi um sorriso lento, conquistado, e que como todas as melhores coisas da vida, não tardou a terminar. se virou de costas, para decepção de Rafael, e vasculhou as gavetas em busca de algo. Voltou-se novamente para ele, contudo, um sorriso travesso nos lábios enquanto lhe estendia uma colher, passando por ele com o prato de brigadeiro em mãos.
– Se quiser a melhor parte, vai vir comer quente. – anunciou, já de costas para um Rafa que cobria o próprio sorriso com uma das mãos, maneando a cabeça em descrença e deleite. Seguiu-a até o sofá, sabendo o que o gesto dela significara: uma trégua.
Já passavam da metade do prato de brigadeiro e Rafinha já tinha abandonado sua colher – segundo , "fazendo jus ao cromossomo Y que fazia com que os homens tivessem a invejável capacidade de não ligar tanto para doce" – quando ela riu, deixando de lado também a sua.
– Qual a chance de eu conseguir correr amanhã, pra queimar todo esse doce? – perguntou, já sentindo os sintomas de culpa que sempre vinham quando jacava tanto assim na dieta.
– Isso depende... Quão bêbada você pretende ficar hoje? – Rafa devolveu a pergunta, sorrindo como parecia estar fazendo durante a maior parte da noite na companhia de .
– Eu meio que prometi que esse seria o meu primeiro porre espanhol... – a garota deu de ombros, quase envergonhada.
– Então vamos deixar a corrida pra outro dia. – Rafa riu, pegando da mesa uma garrafa de tequila e servindo dois shots – Vou fazer as honras e te acompanhar na sua estreia...
sorriu, pegando o copo e encarando seu conteúdo, tentando medir o tamanho da ressaca no dia seguinte. Antes que pudesse concluir, entretanto, Rafa já iniciara a contagem: arriba, abajo, al centro y adentro. E a cena se repetiu por algumas vezes, até que os dois já estivessem largados no sofá, com as pernas jogadas sobre as de Rafa, enquanto gargalhavam de absolutamente tudo.
– No supermercado eu tinha certeza de que te conhecia de algum lugar, sabia? – comentou, tombando a cabeça para o lado para examiná-lo melhor – Eu achei que é só porque você parecia um desses caras gatos que jogam futevôlei na Barra – completou, arrancando dele uma gargalhada – Mas acho que é porque sigo seu irmão no Instagram... Vocês não se parecem.
– Claro que não. – Rafa disse, lançando um sorriso que valia 2 milhões de dólares na direção dela – Eu sou mais bonito. O Thiago não parece um gato do futevôlei, no máximo um esforçado do frescobol – piscou, ao que soltou uma risada gostosa, incapaz de negar que o Alcântara mais bonito estava bem ali, na sua frente – E se eu fosse ciumento ficaria bravo por você seguir o Thiago, mas não o irmão que enfrentou a fúria de uma maluca no supermercado só pra conseguir uma lata de leite condensado pra você... – deu de ombros, forjando decepção.
Maluca? – estreitou os olhos, batendo de leve na mão dele com a colher. Ou não tão de leve assim, a julgar pelo grito exagerado de Rafinha – Você tem sorte que eu estou de bom humor depois desse brigadeiro, Rafael... – murmurou, pegando o celular para fazer o que ele pedira, tendo algum trabalho ao desbloquear a tela.
– Hum, agora sim! – Rafa sorriu de canto, aceitando a solicitação e a seguindo de volta – Agora nossa trégua está completa. – completou, alargando o sorriso – O que você veio fazer em Barcelona, ?
– Essa é uma boa pergunta... – deu um sorriso que não mostrava os dentes e não alcançava seus olhos, e pegou o copo de Rafa que estava esquecido na mesa de centro, virando o whisky restante em uma golada, a fim de se livrar da responsabilidade de quebrar o silêncio que se instalara entre os dois.
– Você e a... – ele tentou recomeçar, mas foi interrompido pela garota, que levantou-se do sofá de uma só vez.
– Anda logo, vamos ver se você é mesmo brasileiro. – disse, trazendo Rafael pelo braço e andando em direção ao exterior da casa – Essa música é meu guilty pleasure.
Rafa não conteve uma risada quando viu parar de frente para ele, o corpo se movendo mais lentamente devido ao álcool, o qual já se rendera, enquanto dançava a coreografia de "Deu onda".
– Anda, Rafael! – brigou, percebendo que o rapaz estava mais ocupado em olhar para ela do que em acompanhar sua coreografia – "...que a sua presença... Me deu onda. " – chamou, e dessa vez Rafa entrou na brincadeira, dançando ao lado dela, fazendo-a se animar feito criança. Tinha fortes suspeitas de que o álcool era o responsável pela 'onda', mas de fato aquele sorriso imoral de Rafael tinha alguma importância no processo.
– "Você sentando, mozão, me deu onda." – Bruna gritou enquanto se aproximava de , rebolando com a amiga – "Eu preciso te ter, garoto, eu gosto de você, fazer o quê?" – continuou, dançando em direção ao namorado e deixando sozinha com suas coreografias.
– Tá bem aí, brother? – Neymar deu uma cotovelada leve nas costelas de Rafinha, rindo de canto, enquanto abraçava Bruna, que ainda dançava contra o corpo dele – Ou tu quer um babador? – brincou, notando que nem assim o amigo fora capaz de desgrudar os olhos de , que dançava provocativamente, ainda que não parecesse se dar conta disso.
– Cala a boca... – Rafa riu, mais preocupado em observar a garota do que discutir com o amigo numa questão para a qual não tinha, de fato, argumentos. Se ela continuasse dançando daquele jeito ele provavelmente não dispensaria o babador.
– Acho que você ainda tem o selo brasileiro de qualidade. – riu travessa, a língua entre os dentes, assim que a música terminou.
– Isso não é uma coisa possível de se perder... – Rafa sorriu, afastando do rosto de um fio de cabelo do que havia grudado no batom que coloria seus lábios, tornando-os de alguma forma ainda mais tentadores – O funk só perde pontos porque não é uma dança que se dance junto. Por mais que eu goste de te ver aí, dançando pra mim... – piscou
– Eu não estava dançando 'pra você', idiota. – revirou os olhos, ainda que sorrisse – Mas já que é assim, quero ver como se sai, anda...
Rafa sorriu, aceitando o desafio implícito. Andou até a caixa de som e procurando pela música que queria no celular conectado a ela. Se ela gostava de provocar, era melhor ter ideia do oponente que enfrentava naquela brincadeira.
– Vem cá, vem... – chamou, assim que as primeiras notas da música latina soaram.
se aproximou, sentindo que as pernas não estavam tão firmes para obedecer a seus comandos, mas ao ouvir a voz de Maluma um sorriso tomou lugar em seu rosto enquanto começava a dançar em direção ao jogador. Só queria que Rafael tirasse aquele sorriso cretino dos lábios, ou ela definitivamente tomaria um tombo naquela noite, frente a tanta distração. Assim que estava ao alcance dele sentiu seus braços trazendo-a para perto, uma das mãos deslizando sem cerimônia até o fim de suas costas, gerando um rastro de calor por onde passava. estreitou os olhos, como se a questionar se a mão dele permaneceria por ali, sem constrangimentos, e o sorriso de Rafa se alargou.
– Eu preciso te guiar, não? – questionou, trazendo o corpo dela para mais perto do seu – Fica solta, vai... – pediu ao ouvido de , exercendo alguma pressão com a mão que mantinha nas costas dela, sem fazer ideia do quanto ela se arrepiara àquele gesto. O que os tornava empatados, uma vez que ela não podia imaginar o quanto o cheiro que vinha de sua pele deixava Rafael inebriado.
Rafa encaixou uma das pernas entre as dela, utilizando-se disso para guiar os movimentos do quadril de . Sentia o rosto da morena enterrado na curva de seu pescoço, e precisava respirar fundo para manter-se sob controle. Demorou até o primeiro refrão para que ela finalmente entrasse no ritmo, mas quando o fez os dois pareciam se mover como um. Rafael se atreveu a deslizar a mão até a nuca de , segurando de leve os cabelos para que ela o encarasse. A luta que travaram naquele olhar durou alguns segundos, e foi ela a primeira a se render, desviando os olhos para o chão antes que fosse sugada para aquele turbilhão que via transcorrendo nos orbes tempestuosos de Rafael. Quando voltou a encará-lo, ele sorria, liberando um pouco a pressão de seus corpos unidos, para que ambos voltassem a respirar de forma compassada.
– Que calor! – suspirou, assoprando o vão do decote, o que fez Rafael desviar os olhos rapidamente para o alto, respirando fundo uma vez mais – Vou lá dentro pegar uma água, você vem? – chamou, e Rafa a seguiu até os degraus da entrada da casa, quando o primeiro obstáculo ao equilíbrio de se apresentou – Merda, Rafael, amanhã eu vou lembrar de você com essa ressaca, e vou querer te matar! – murmurou, apoiando-se no rapaz para vencer a escada.
– Eu só te acompanhei, cariño. – Rafa riu, guiando-a até o sofá. Ao ver que realmente estava com dificuldades para se manter de pé, completou – Fica aí, vou buscar uma água e ver se tem alguma glicose por aí pra te dar.
Rafa revirou os armários e já estava desistindo de encontrar um doce quando finalmente descobriu uma caixa de paçocas muito bem escondida. Se bem conhecia Neymar, o amigo fizera aquilo para impedir assaltos às suas paçoquitas. Tarde demais.
– Pronto, formiga, toma aqui teu doce. – entregou uma paçoca para , que já estava quase cochilando no sofá. A garota sorriu, agradecida, e comeu em duas mordidas – Agora bebe água, vai... – completou, sentando-se ao lado dela. terminou de beber a água e então tirou os sapatos, escorregando o corpo para o colo de Rafael, aninhando-se nele como a um travesseiro.
– Rafa...– sussurrou, a voz ainda mais rouca do que de costume, pela bebida. Ele apenas murmurou algo para que ela continuasse o que pretendia dizer, ocupado em brincar com as pontas de seus cabelos, espalhados sobre ele. Ela fechou os olhos antes de finalmente concluir – Pode me chamar de .


II. AMARILLO

“Es delicioso verte llegar
Ver losefectos que causas, tú
Con tu sonrisa angelical
Llenaslahabitación de luz”
(Amarillo – Shakira)

– Eu já te falei que não precisa encher o cara com isso essa hora da manhã, Bruna! – revirou os olhos ao ver que a outra estava ocupada em uma ligação. A garota bufou, jogando um punhado de cornflakes na boca, voltando os olhos para a TV: a dublagem de "Anatomía de Grey" fazia com que gargalhasse a cada segundo, a voz de Sloan parecendo algo como as novelas mexicanas que ela costumava assistir com a avó na SBT – Vai lá cuidar do seu cagão e deixa que eu me viro! – protestou, por fim, assim que Bruna desligou o telefone.
– Cala a boca, , você não conhece nada aqui... – a morena se jogou ao lado da amiga na cama, roubando um pouco dos flocos de milho e recebendo um tapa na mão de , em defesa de sua comida – O Rafa falou que te leva com o maior prazer...
– Claro que falou! – rebateu, revirando os olhos pela segunda vez em menos de 5 minutos – Ele ia dizer o que? "Ah, foi mal, Bruna, mas não quero passar o dia de babá da sua amiga..."? – completou, com uma imitação tosca de uma voz masculina.
– Ele podia ter dado uma desculpa... – Bruna encolheu os ombros, já se levantando da cama em busca da bolsa – Mas não deu. – piscou, um sorriso de canto revelando suas reais expectativas para o encontro dos dois. Quando apenas bufou em resposta, resolveu ser mais direta – , eu te conheço... Você tá com vergonha de ter que passar o dia todo com o Rafa, porque sabe que rolou um climinha na casa do Ney... – disse, segurando uma risada.
– Para de ser retardada, Bruna! – respondeu, rindo – Que clima? Só se for um clima bélico, né? Porque eu queria matar ele no início daquela festa. – bufou, levantando-se da cama, desconfortável por ser colocada contra a parede: era muito descontraída, mas apenas quando se tratava dos outros. Quando o assunto era dela, revelava uma timidez impressionante.
– Mas depois vocês se deram muito bem, que eu vi. – Bruna implicou, com uma risada, já andando em direção à porta, disposta a deixar amadurecer aquelas ideias por si própria – Você já inverteu a ordem as coisas, ... Já até dormiu no colo dele! – disse, sorrindo com a língua entre os dentes – Agora é só voltar pra ordem natural e ter seu primeiro encontrinho... – completou, já com a porta entreaberta, pronta para fugir do "Furacão " (apelido tragicômico usado pelo grupo de amigas em referência à tragédia do Katrina).
– Ridícula! – exclamou, jogando em direção à porta a primeira coisa que alcançou: um pacote fechado de guardanapos que estava sobre a bancada da cozinha – Anda, aproveita e leva isso pra cuidar da caganeira do seu namorado. Ou será que aqui eles falam piriri?
– Retardada! – Bruna riu, jogando de volta os guardanapos – Manda um beijo pro Rafinha.
– Vou mandar você à merda se não sair daqui agora! – berrou, já rumando para o chuveiro – Oh, é mesmo! Esqueci que você já tá indo pra lá... – completou, com um sorriso triunfante, questionando-se se a amiga teria escutado sua última frase. A gargalhada de Bruna antes de trancar a porta, no entanto, deu-lhe certeza de que sim.




terminava de secar os cabelos – já vestida confortavelmente com um jeans detonado de lavagem clara, cropped quentinho de mangas compridas e uma flatform azul marinho – quando a tela do celular acusou uma nova mensagem.

Rafael Alcântara: pronta pra conhecer Barcelona com o melhor guia da cidade? 😉

: hahahah uau! Acho que nem vou me desculpar pelo trabalho de babá então...

Rafael Alcântara: não é trabalho nenhum

Rafael Alcântara enviou uma imagem



: hahahahahahahahaha você é a pessoa mais nerd que eu conheço!

: depois de mim, é claro

Rafael Alcântara: jajajajaja chego aí em 10 minutos, cariño

Rafael Alcântara: ops, corretor. Pra você é hahaha 😬

enviou uma imagem



Rafael Alcântara: 😱😱😱

: hahahaha brincadeirinha, já tô pronta. Pode vir!

Rafael Alcântara: jajaj quero só ver!




Ao receber uma mensagem de Rafael avisando que já estava esperando no carro, até pensou em brincar com ele novamente sobre o atraso e dizer que faltava escolher uma roupa. Considerando, contudo, a boa vontade do rapaz em perder um dia babysitting pela cidade na sua companhia, resolveu descer tão logo que se certificou de que não esquecia nada: casaco, celular, chaves, carteira e – o mais importante de tudo – sua câmera.
– Ora, ora... Não é que ela é mesmo pontual? – Rafinha disse, escorado despretensiosamente na porta do carro, assim que colocou os pés na calçada. A garota teve um segundo de delay na resposta quando ele tirou os óculos escuros e abriu um sorriso, demorando a processar aquela cena.
– Seus 10 minutos viraram 20, me deu alguma margem. – piscou, sorrindo, ao se aproximar do carro e aceitar o abraço que Rafinha lhe oferecia, a julgar pelos braços abertos.
– Oh, sobre isso... – Rafa sorriu de canto, enfiando a mão direita na jaqueta de couro que usava sobre um moletom cinza, mantendo no abraço pela outra mão – Eu tive que fazer uma parada pra te comprar isso. – os olhos dele cintilaram de satisfação quando viu a expressão surpresa de ao pegar a barra de chocolate que ele lhe estendia – Não sabia como era seu humor pela manhã e queria garantir a paz pro nosso dia. – brincou, arrancando uma gargalhada sonora de .
– Rafael! – ela deu um tapa no braço do rapaz, seguido de um beijo no rosto, os olhos brilhando feito criança – Você vai me deixar enorme até o final dessa viagem, mas isso é a melhor coisa que eu poderia ter recebido essa manhã. – piscou – Já posso te considerar o melhor guia da cidade antes mesmo de sairmos.
– Você não viu nada, gata! – Rafa piscou, convencido, abrindo a porta do carona para que entrasse no carro – A Bruna me disse que você é fotógrafa! – exclamou, animado, assim que começaram a adentrar o trânsito da cidade – Por que não me contou aquele dia?
– Não sei... – deu de ombros, sorrindo de canto – Acho que tô muito acostumada a ter todo mundo tratando a fotografia como um hobby, mesmo que eu tenha me formado nisso...
– Eu acho incrível. – Rafa sorriu, olhando de canto para a morena ao seu lado: podia viver por trás das lentes, mas certamente seria muito bem-sucedida caso decidisse estar do outro lado delas – Vai gostar de fotografar aqui... Barcelona é uma das cidades mais bonitas do mundo. Pelo menos do mundo que eu conheço. – completou enquanto sorria e dava de ombros, arrancando de um sorriso.
– Eu tenho certeza que sim. – ela concordou ao olhar pela janela, observando o colorido da cidade e, mais que isso, as pessoas.
era apaixonada pela fotografia desde que se entendia por gente, e enquanto amadurecia seu estilo tirara sim muitas fotos de paisagens paradisíacas pelo Brasil e em suas viagens mundo afora... Mas foram sempre as pessoas que a cativaram de uma forma inexplicável: o olhar, o gesto, o sorriso, a lágrima. Era isso que ela gostava de captar com a câmera: as histórias por trás das fotografias.
– Você tem algum lugar específico em mente? – Rafa perguntou, assim que chegaram ao centro da cidade.
– Na verdade, não... – respondeu francamente. Como a viagem tinha prazo indeterminado, ela se dera ao luxo de não planejar muito o que fazer em cada dia – Surpreenda-me. – estreitou os olhos, brincando, e Rafa abriu um sorriso largo.
– Eu estava torcendo por essa resposta. – confessou – Acho que você vai ter muito tempo pra conhecer os pontos turísticos... Então tinha pensado em te levar a alguns lugares diferentes, pode ser?
– Claro! – concordou, animada com a ideia – Não me decepcione... – brincou, com um sorriso de canto.
Rafa ainda tinha os olhos presos ao trânsito quando respondeu, com um sorriso e um afago leve no joelho da garota.
– Jamais.




– Garota, você não cansa nunca? – Rafael perguntou, apoiando as mãos sobre os joelhos para tomar fôlego. Ele apertava os olhos para enxergar contra o Sol de inverno, mas a garota estava entretida demais para escutar, correndo para fotografar duas crianças que alimentavam um casal de patos no lago do Parque de La Ciutadella. Deixou que ela se divertisse, e foi até um quiosque de sorvetes próximo ao lago, comprando uma casquinha para si e uma para .
Quando se aproximou da garota, que analisava as fotos que havia tirado, Rafa foi incapaz de conter um sorriso: era nítido o quanto era apaixonada pelo que fazia, e o brilho que ela carregava nos olhos durante toda aquela manhã em que eles rodaram metade da cidade a pé – sim, porque não admitia andar de carro desnecessariamente, quando podia estar fotografando cada passo do caminho – era simplesmente contagiante.
– Nossa, ficaram lindas. – ele comentou, sentando-se perto dela no banco de pedra próximo ao lago – Toma, faz muito tempo que você não come nada, só corre Barcelona afora.
– Pra alguém que corre 90 minutos você tá muito fraco! – riu, pegando o sorvete – Mas meu pequeno e voraz estômago agradece. – sorriu, deliciando-se com o sorvete logo em seguida – Aquele é Valentim. – apontou para o garotinho de cabelos escuros, e que parecia ser o menor deles – O mais velho é Marco. Eles são irmãos e têm um cachorro que se chama Nico.
– Vejo que alguém fez amigos. – Rafa sorriu, observando as crianças que ainda se divertiam com os patos – Você tem cachorro? – questionou.
– Tenho duas. – sorriu, pegando o celular para mostrar fotos de suas crianças, feito uma mãe orgulhosa – Essa é a Mandioca. – apontou para vira-lata cor de caramelo – E esse é o meu gordo, o Torresmo. – completou, mostrando seu outro filhote, que realmente era uma bolinha malhada de preto e branco.
– Por que será que os nomes não me surpreendem? – Rafa gargalhou, recebendo um tapa de em resposta – Eu tenho só a Preta aqui comigo, mas na casa da minha mãe tem vários... – mostrou a proteção de tela do celular, uma foto sua com o enorme labrador na praia.
– Ai, que linda! – se derreteu, sorrindo para a tela do celular – E que grandona, ela!
– Ela é um bebezão... – Rafa riu, recostando-se no banco – Qualquer dia eu apresento vocês...
Antes que pudesse responder, no entanto, Valentim veio correndo na direção deles, seguido de perto por Marco, que – do alto de seus 7 anos – parecia tentar controlar o caçula.
– Valentim, volta aqui... – resmungou, agarrando o irmão pelo capuz do casaco – Eu já te disse que não é ele.
– É sim! – o mais novo protestou, soltando-se e voltando a correr – Ei, moço... – ele cutucou as pernas de Rafa, que já estava, assim como , segurando o riso – Você é o Rafinha, não é? O jogador de futebol?
– Sim, senhor. – Rafa sorriu, vendo os olhinhos escuros do garoto brilharem de excitação, ao passo que Marco arregalou os seus de tanta surpresa.
– Eu diiiiiiisse que era ele! – Valentim comemorou, dando um soco no ar, rindo do irmão mais velho.
– E eu fiquei sabendo que vocês são os famosos Valentim e Marco, os donos do Nico. É certo isso? – perguntou, vendo as expressões nos rostinhos das crianças se modificarem para puro prazer.
se levantou do banco, piscando para Rafa e indicando que ia até a carrocinha de sorvetes, e assim que viram o lugar vago as crianças trataram de se sentar ao lado daquele que era um dos ídolos de seu clube. Eles bombardeavam Rafael de perguntas, e o rapaz respondia sempre de forma bem humorada que arrancava gargalhadas dos pequenos. Enquanto aguardava suas casquinhas ficarem prontas, aproveitou para registrar aquele momento: Rafa sorria aquele seu sorriso que tomava conta de todo o rosto, deixando os olhos não maiores do que pequenas frestas. Valentim tinha a cabeça tombada para trás em uma risada e Marco cobria o riso com as mãos, ambos olhando admirados na direção do jogador. Foi apenas uma foto, e soube que não precisaria de mais. Estava perfeita.




– Mesmo que eu não tivesse visto mais nada do seu trabalho, eu te contrataria sem pensar duas vezes só por essa foto, . – Rafa disse, encantado com a fotografia que examinava pelo visor da câmera – Me manda depois, por favor? Eu quero revelar.
– Fico muito feliz que você tenha gostado. – ela sentiu as bochechas corarem, pouco acostumada àquele tipo de elogio. Tinha impressão de que Rafa era uma das pessoas mais gentis que já conhecera – Mas os modelos me ajudaram.
– À disposição, cariño. – Rafa deu de ombros, sorrindo.
Os dois aguardavam ansiosamente pelo almoço, visto que já passava das três da tarde e eles ainda estavam apenas com o sorvete no estômago. estava muito satisfeita com as fotos que tirara, e mal podia ver a hora de vê-las no computador, e então reveladas.
– Eu sinto que posso ficar aqui por anos e nunca vou conseguir fotografar tudo que eu quero... – comentou, num suspiro, guardando a câmera na bolsa com cuidado.
– Falando nesse assunto, - Rafa aproveitou a deixa – até quando você fica?
– Não sei exatamente... – respondeu – Parece que eu não faço nada da minha vida, né? Colocando assim... Mas essa questão é complicada. – disse, torcendo os dedos sobre a mesa.
– Hm... – Rafael se limitou a dizer, tomando um gole de água, a deixando a vontade para continuar ou mudar de assunto.
– Eu estava noiva. – disse, e quase sorriu ao perceber a arqueada de sobrancelhas de Rafa, que ele tentara bravamente controlar – Mas nós resolvemos dar um tempo, porque eu não estava pronta pra esse passo. – explicou – A Bruna estava vindo pra cá, eu queria uma mudança de ares, e uma coisa levou à outra...
– Entendi... – Rafa respondeu, ainda se recuperando da surpresa. A curiosidade lhe matava para perguntar mais sobre a relação de com o ex, para saber se o término ocorrera de fato, mas logo o garçom chegou com seus pedidos e o rapaz achou melhor deixar que o assunto se encerrasse por ali.
– Meu Deus! – exclamou, vendo o tamanho do sanduíche que pedira – Isso é definitivamente maior do que eu imaginava...
– Mas com certeza menor que a sua fome, para de drama... – Rafa riu, roubando uma batata da enorme cesta que acompanhava o hambúrguer da morena.
– Ei! – ela protestou, arrancando de Rafael uma risada, enquanto ele sacava do bolso o celular.
– Eu não disse? – sorriu, triunfante – Olha pra cá que eu preciso registrar esse momento. – pediu, tirando uma foto de que posava com os olhos arregalados e a boca aberta, simulando surpresa frente ao tamanho do prato. Sorrindo para o resultado da foto, postou-a na história do instagram com a legenda: será que ela consegue? 😳@.
Não demorou muito para que começasse: dezenas de novos seguidores no instagram, de modo que nunca tinha visto, mesmo que o seu trabalho fizesse dela uma figura pública.
– Rafa, eu acho que isso é sua culpa... – a garota concluiu, rindo, ao ver que alguns dos seguidores eram páginas de fã clubes do Barcelona, ou do próprio jogador – Oh meu Deus, eu sou uma InstaCelebrity! – brincou, fingindo excitação.
– Deixa eu ver... – Rafa riu, pegando o celular da garota: até o momento eram 569 novos seguidores. Em minutos. – Nossa, eles são frenéticos... – comentou, vendo uma série de novas curtidas serem anunciadas nas fotos de . Ela teria que se acostumar com aquilo, aparentemente. Devolveu o celular para a garota assim que uma mensagem de Bruna chegou, lendo-a sem querer, mas com alguma satisfação: "Stories no instagram??? TÔ DE OLHO EM VOCÊS DOIS, DONA ! hahahahahahaha"




estava exausta pelo dia tão cheio, mas não conseguia tirar o sorriso do rosto. Rafa tinha acabado de deixá-la em casa depois de ela tirar as fotos mais lindas do pôr do Sol próximo à Catedral Sagrada Família, e ela não podia aguentar a ansiedade de analisar todo o material que conseguira finalmente em um tamanho decente, e não na pequena tela da câmera, especialmente a foto de Rafa com as crianças: pretendia dá-la a ele em um porta retrato, agradecendo pela companhia incrível que ele fora durante aquele dia.
Depois de tomar um longo banho e demorar-se respondendo a algumas mensagens que ignorara o dia inteiro – inclusive à gracinha de Bruna – a garota descarregou as fotos no notebook, o que pareceu demorar uma eternidade. Localizou a foto de Rafa – que quase não precisou tratar, ajustando apenas um ou outro detalhe de luz e saturação – e enviou para o celular do rapaz, junto com a mensagem: obrigada pelo dia incrível! Você é mesmo o melhor guia da cidade... jajajajaja

Rafael Alcântara marcou você em uma foto.

Foi essa a resposta dele, simples, direto, franco, ao melhor jeito Rafinha de ser: ele postou a foto de , com a legenda "a melhor fotógrafa que você respeita! Arrebenta, @ 🖤"


III. SIN CONTRATO

“Dimedimedime si túquieres andar conmigo
No tiene caso que sea tu amigo
Y si no quieres solo dameun rato
Baby pero sinningún contrato”
(Sin Contrato – Maluma)

– Você... Percebe... A clara... Injustiça... Desse... Convite... Né? – pontuava cada palavra com uma respiração profunda, tentando inutilmente parecer menos ridícula enquanto se esforçava para falar e correr ao mesmo tempo. A missão anti-ridicularização se tornava mais difícil, contudo, quando tinha ao seu lado um Rafael absolutamente confortável, já despido da camiseta, correndo como se aquilo fosse brincadeira de criança enquanto mantinha aquele sorriso cretino no rosto. Idiota.
Rafa olhou para a garota ao seu lado e não pode conter uma risada: tinha o rosto num vermelho aceso e alguns fios de cabelo já se grudavam à pele coberta de suor, emoldurando a expressão dela de mais pura indignação. Simplesmente adorável. Ele diminuiu o passo para que a garota tomasse um pouco de fôlego e arquejou um “obrigada, ForrestGump”, muito à contragosto, tão logo conseguiu unir duas sílabas.
– A gente já tá quase terminando essa volta, nena... É a última, juro. – prometeu e o olhou com um olhar que podia ser traduzida como “graças a Deus”, ou talvez um atrevido “ai de você se não for”. Rafa apostava mais na última opção.
Era a quarta volta que davam no Park Guell, totalizando pouco mais de 10km de corrida. O caminho era incrível e contava com algumas das produções arquitetônicas mais bonitas que já vira na vida, mas no momento tudo o que ela conseguia pensar era em como ignorar a queimação absurda em suas panturrilhas e colocar um pé na frente do outro. Rafael Alcântara era um belíssimo filho da mãe por não avisar que o trajeto era repleto de relevo e subidas, e por isso, diferentemente de quando corria seus 10km na esteira, estava completamente acabada ao final do percurso.
– Chegamos! – Rafa parou, apoiando as mãos sobre os joelhos e respirando pausadamente por alguns segundos assim que chegaram à área aberta do estacionamento.
– Nunca mais saio pra correr com você, Rafael... Você não sabe brincar! – reclamou, batendo o indicador contra o torso dele para pontuar suas palavras – Se você não estivesse mais nojento que eu, te obrigaria a me carregar até o carro só pra você parar de ser besta. - comentou emburrada, reparando em como pele morena do rapaz brilhava de suor. Não que a visão fosse desagradável, muito pelo contrário: cada músculo parecia saltar aos olhos, mais ainda quando ele contraiu o abdome numa risada gostosa.
– Ah, é? – ele disse, sem dar tempo para que a morena se preparasse para o que viria a seguir: Rafa lhe agarrou em um abraço de urso, enquanto gritava e socava seus ombros em meio a gargalhadas.
– Sai, Rafael, que nojo!! – ela protestava, apertando os olhos em uma expressão engraçada, e quando finalmente se viu livre do aperto de Rafa, sua camiseta branca estava ainda mais transparente de tão molhada – Olha o que você fez, demônio!
– Ficou melhor assim, se quer a minha opinião. – Rafa piscou, dando um sorriso sacana, e recebendo por isso um tapa dolorido nas costas – Tudo calculado. – completou, tocando a têmpora com o indicador, antes de sacar do bolso as chaves do carro.
revirou os olhos, andando vagarosamente até o carro de Rafa, cada passo parecendo mais difícil que o anterior – como quando você precisa fazer xixi e ao chegar na porta de casa a vontade se torna insuportável. Ela definitivamente precisaria de um banho de banheira e um combo de analgésicos, caso desejasse estar em condições de andar no dia seguinte. Suspirou, pensando no quanto seu estômago se iludira pensando que a convivência com Rafinha seria sempre repleta de doces e comilanças... Ela deveria ter imaginado que a amizade com um jogador de futebol profissional eventualmente levaria àquele tipo de programação fitness.
– Sabe o que não ficou melhor? O cara que me levava chocolates e agora me tira de casa pra correr essa hora da manhã... – resmungou e Rafa apertou suas bochechas com uma risadinha anasalada.
– Toma, formiga. – ele sacou uma embalagem de M&M de dentro do console do carro, e o sorriso que iluminou o rosto de fez com que ele não contivesse uma gargalhada – Meu Deus, , você precisa ser estudada! Como pode comer tanto e ainda ter essa cinturinha? – brincou, beliscando o flanco esquerdo da garota, que aparecia desde que ela havia enrolado a camiseta até a altura do top para se refrescar.
– Para de ser invejoso! – riu, mas se não fosse pelo tom rosado que já cobria seu rosto, o tanto que corara ao gesto dele ficaria evidente nas bochechas.
– Não é inveja... – Rafa riu, abrindo a boca num pedido silencioso para que ela lhe desse um M&M enquanto dirigia – Tá de parabéns, gracinha. – piscou, mordendo o dedo dela de brincadeira e ganhando uma cotovelada em reposta.
– Olha, eu queria ter dinheiro pra te dar, porque dar intimidade não tá mole não! – brincou enquanto despejava o restante das bolinhas coloridas na boca, deixando um último punhadinho para Rafael. Não que ele merecesse.
– Já era, morena! – Rafinha sorriu, dando de ombros – Ih, nem vi as horas... Te atrasei pra sua aula? – perguntou, preocupado, assim que seus olhos bateram no relógio do som do carro.
– Não, é só às 9h. – o tranquilizou, constatando que ainda tinha uma hora para chegar ao curso – E Mario não é a pessoa mais pontual do mundo, isso já deu pra perceber...
– E você tá gostando? – Rafa perguntou, olhando de esguelha para a garota no banco do carona.
– Nossa, Rafa, demais! – suspirou, virando-se para ele com as pernas cruzadas, animada pelo assunto – Essa pós caiu do céu, vai ser incrível pro meu currículo um curso com Mario Villas...
– Você fica uma graça empolgada assim, sabia? – Rafa sorriu de canto, seus olhos faiscando contra os de por um segundo, até que ela voltasse a olhar para a frente, reiniciando o assunto para se livrar do embaraço.
– Além do mais, - ela pigarreou por um segundo, para retomar o tema: vivia perdendo o fio da meada nas suas conversas, e por pior que fosse sua memória, podia jurar que a culpa era muito mais da forma como Rafael, às vezes, olhava para ela – eu finalmente posso parar de me sentir uma inútil nessa cidade pelos próximos meses...
– Meses? De quantos estamos falando? – Rafa deu um sorriso sincero, visivelmente alegre com a notícia.
– Provavelmente três. Talvez quatro. – sorriu de volta, incapaz de se negar a compartilhar da felicidade dele, afinal, Barcelona vinha lhe sendo muito gentil ao cumprir com o propósito de encher sua vida. Ou talvez Rafa estivesse tomando para si esse papel. aumentou o som do carro, assustada com o próprio pensamento, e deixou que a voz de Dave Grohl cantando Best of You preenchesse sua mente – Isso é literalmente a última coisa que eu esperava encontrar no seu Spotify. – sorriu, deitando a cabeça no banco e cantarolando o refrão daquela que era uma de suas músicas preferidas.
– Um homem não pode viver só de reggaeton, cariño... – Rafa disse seriamente, arrancando uma gargalhada alta de – Tá entregue, Sampaio. – o rapaz estacionou o carro na frente do prédio que já se tornara tão conhecido – Me agradeça pela corrida depois que receber centenas de comentários no seu stories do instagram falando “uau, como você é fitness!”,“meu Deus, que musa!” – Rafa brincava, imitando vozes femininas.
– Ridículo! Eu só posto foto de comida, Rafael! Vão perguntar se eu usei drogas, isso sim. – gargalhou, lembrando-se que colocara mesmo uma foto no stories antes da corrida. Só não sabia se teria coragem de colocar outra revelando sua derrota ao final dela. Provavelmente sim, era muito a sua cara postar alguma gracinha.
– Espera, espera... – Rafa ria, desviando do tapa de raspão que lhe dera – Faltou a minha preferida: “um corpo é um corpo, né mores!” – completou, usando a voz mais afetada até então, fazendo com que explodisse de vez em gargalhadas.
– Você é oficialmente a pessoa mais idiota que eu conheço, Rafael! – revirou os olhos, dando um beijo estalado no rosto do rapaz antes de abrir a porta do carona – Mas eu ainda te odeio por essa corrida. – fez questão de pontuar, saindo do carro – Ah, e nos vemos à noite, certo? – completou, abaixando-se sobre o vidro aberto.
– À noite? – Rafa perguntou, arqueando as sobrancelhas, com um leve pressentimento que não lhe agradava. Oh, cara...
– É, Rafa... – sorriu, sem compreender a reação do outro – Não é aniversário de um cara do time? Bartra? A Bruna disse que todos iriam, achei que você fosse...
– E-eu vou... – Rafael conseguiu responder, sua cabeça trabalhando com mil possibilidades – O Ney tinha me falado que você e a Bruna iam à Madri para um desfile...
– Ah, nós íamos. Mas ela resolveu ficar... – encolheu os ombros – Então te vejo a noite. – deu um grande sorriso antes de acenar e se virar, perdendo por muito pouco a cena em que Rafael apoiava a testa sobre o volante, apertando o couro como se aquilo fosse resolver o seu problema.
Era oficial: Rafael Alcântara estava bem enrolado, e por isso não pensou duas vezes antes de ligar para o melhor amigo.
– Fala, brother. – Neymar atendeu nos primeiros toques, estranhando que Rafa ligasse tão cedo – Rolou alguma coisa?
– Ney, você não tinha falado que a Bruna ia com a pra Madri hoje, porra? – reclamou, acelerando mais do que o recomendável rumo à própria casa.
– Calma lá, Princesa, que onda errada é essa? – Neymar riu da aleatoriedade do assunto – Elas iam, mas desistiram... Qual o problema?
– A acabou de me falar que vai na festa do Marc. – Rafa disse num suspiro, percebendo que não havia mesmo escapatória – Você podia ter me avisado, caralho!
– Que isso, Rafa... – Neymar não controlava o riso frente à irritação sem sentido do outro – Que papo de maluco, cara... Tu sempre quer encontrar a mina, que foi agora?
– Você me disse que elas não iam! – Rafa exclamou, exasperado – Aí eu chamei a Adri pra ir comigo. – confessou, quase envergonhado.
– Aaaah, agora tá explicado... – Neymar soltou outra risada e Rafa sentiu que aquele seria o momento em que o socaria se estivessem lado e lado – Puta vacilo, mano... – resmungou – A Bruna já tinha até criado um nome pra vocês dois... Como chama aquilo? Chips?
– Ship. – Rafa corrigiu, rindo sem humor.
– Isso! – Neymar concordou, animado – Ela tava em dúvida entre e , mas eu disse que os dois ficaram uma merda. – completou, e dessa vez conseguiu arrancar uma risada do amigo – Não dá pra, sei lá, desconvidar a Adri?
– Não, cara... – Rafa suspirou, resignado – Ela tava bem bolada comigo esses últimos tempos, falando que eu não dou atenção... Se eu fizer isso ela vai pirar.
– Claro que não dá, tá pagando de namorado da desde que a menina chegou – Neymar riu, usando a piada que já estava ficando velha entre os amigos. – E você não quer perder um contatinho antes de ter o outro garantido, né? Tô te sacando, moleque! – continuou, compreendendo a lógica masculina que guiava as atitudes de Rafa no momento.
– Não é isso, você sabe que com a não tem nada... – Rafa fez questão de pontuar, mas não conseguiu conter um sorriso de canto, já que não era como se ele não desejasse ter alguma coisa com ela – Mas também não queria ferrar o esquema todo antes de qualquer chance de rolar. – explicou.
– Parece que tu vai ter que se virar nos 30 então, porque olha... Você se enrolou, rapaz... – o amigo comentou, fazendo Rafa rolar os olhos.
– Você quer fazer o favor de me ajudar ao invés de falar o que eu já sei? – reclamou, mal conseguindo cumprimentar o porteiro da guarita de seu condomínio tamanho o mau humor que se abateu sobre ele. E pensar que o dia tinha começado tão bem...
– Relaxa, Princesa... Você vai dar seu jeito, eu confio no seu taco. – Neymar tranquilizou o amigo – A patroa tá saindo do banho aqui, mano, no treino a gente conversa e tenta dar um jeito nessa encrenca que tu arrumou aí... – encerrou a conversa, sabendo que Bruna não podia participar daquele assunto.
– Demorou, meu brother. Valeu pelo momento de viadagem, eu realmente precisava falar com alguém.
– Tá tranquilo, Princesa. Eu sei que você é sensível. – fez questão de provocar o amigo, antes de desligar.
Rafa largou as chaves sobre a mesa da cozinha e ignorou o chamado de Tita, sua ajudante, avisando que preparara um café da manhã reforçado para ele se recuperar da corrida. Deixou o corpo cair sobre o sofá, tapando o rosto com o antebraço e murmurando a única coisa que traduzia seu momento.
Que merda.




– Como assim o Caê te ligou? – a voz de Bruna era apreensiva. Ela não gostava nada daquela história... Oh, não, nadinha. Tinha os olhos em , mas esta cutucava as cutículas numa tentativa falha de diminuir o impacto da bomba que acabara de jogar no meio do quarto.
– Ligando, Bruna. Ligação internacional. Coloca o +55 na frente e...
, eu tô falando sério! – Bruna interrompeu a gracinha da outra, pois sabia bem que tendia a usá-las para desviar a atenção dos problemas que a envolviam. E aquele era um problema tamanho família – O que ele queria? – tomou coragem para finalmente perguntar, vendo suspirar de modo quase frustrado.
– Não sei, ok? Eu não atendi. – deu de ombros, enfiando-se ainda mais entre os travesseiros – Tava na pós, tomei o maior susto da minha vida... Não quis atender na hora e depois fiquei sem coragem de ligar de volta. – confessou.
– Graças a Deus! – Bruna suspirou – Eu já te disse que largar esse cara foi a melhor coisa que você já fez na vida? – questionou, sentando-se ao lado da amiga na cama e fazendo um carinho no braço da morena. Podia ver o conflito nos olhos de , e sabia que resolver os problemas alheios parecia sempre fácil, mas com relação à e Caê a resposta era simples e matemática: ele não merecia a mulher que tivera ao seu lado, e a perdera por bem.
– Hoje ainda não. – deu um sorriso fraco, que logo virou uma risada – Foi só o susto, Bru... 7 anos juntos, depois meses sem ter notícia e aí ele liga do nada... Mas você sabe que eu ‘tô muito bem, obrigada’ com isso tudo. Ainda mais depois que cheguei aqui. – tentou explicar a confusão que se passara em sua mente nas últimas horas desde a ligação do ex.
– Muito melhor do que eu imaginava, inclusive! – Bruna sorriu abertamente para injetar algum ânimo na outra – Dando aula de plenitude since 1993. – brincou e rolou os olhos com uma risadinha pelo nariz, que foi interrompida tão logo o celular vibrou na pequena mesa de cabeceira.
– Puta que pariu. – Bruna soltou, cobrindo os lábios com uma das mãos. Pra quê foram invocar a criatura?
– É o Lipe. – sorriu de alívio e Bruna soltou o fôlego de uma vez só, agradecida. atendeu à ligação do FaceTime com um sorriso gigantesco, tamanha a saudade que tinha daquele rosto – Oiii, bebê! – exclamou assim que a face morena do rapaz recém saído da adolescência preencheu a tela – Ai meu Deus, sua barba cresce igual mato, menino?
– Fala, mana! – a voz do garoto era mais grave do que sua aparência sugeria, mas enquanto exibia um sorriso idêntico ao da irmã era possível enxergar alguma pontinha do adolescente dentro daquele homem de quase 1,90 – Opa, tudo bem, Bruna? – acenou brevemente para a jovem que se jogara ao lado da irmã no travesseiro.
– Olá! – Bruna sorriu – Luis Felipe, você faça o favor de fazer essa barba, garoto, tô me sentindo idosa! – implorou, rindo.
– Só quando a voltar, aí eu tiro de vez... – o rapaz riu, passando os dedos pela barba curta – Saudade de tu, doida. – disse, voltando os olhos para a irmã novamente. Olhos assustadoramente parecidos com os de , como quase tudo em sua fisionomia.
Desde que Lipe passara da adolescência, ganhando corpo e vários centímetros de altura, a distância de idade entre ele e a irmã 5 anos mais velha parecia ter diminuído a ponto de muitos questionarem se eram gêmeos. Não eram, de fato, mas a conexão e a cumplicidade que exibiam era digna de seres que haviam dividido uma existência inteira desde o útero.
– Eu também tô morrendo de saudade... – se derreteu, querendo que Lipe estivesse ali para que ela se enfiasse no abraço dele feito uma menininha, naquela inversão de papeis de caçula e irmão mais velho que era tão comum aos dois – Como estão o papai e a mamãe? E os meus filhos, Luis Felipe, vocês tão cuidando bem deles? – perguntou, enlouquecida de saudade de seus cachorros.
– A mãe tá bem, não para de falar de você nem um segundo, já quer ir te visitar... O velho você conhece, né? – riu de canto, porque se identificava com o pai naquele aspecto da personalidade – Não é de falar muito, mas tá doido de saudade também. – disse, e não conteve também um sorriso. Falar com a família era ótimo, mas aumentava a saudade de todos, principalmente agora que sabia que ficaria em Barcelona por um período bem maior que o inicialmente pensado – E seus filhos estão ótimos, Torresmo tá gordo igual a um porco, mas bem.
– Cala a boca, Lipe! – gritou, defendendo seu bebê e arrancando gargalhadas tanto de Bruna como do irmão – Coitado do meu gordinho.
– É porque você não viu a bola que ele tá! – Lipe se explicou, rindo, mas logo sua expressão tomou um ar mais sério e quando ele coçou a nuca, dando uma olhadela para baixo, soube que a ligação do irmão não viera ao acaso.
– Desembucha, vai... – murmurou, sentindo uma vontade quase irrefreável de se levantar da cama. Nunca conseguia ficar parada quando envolvida de qualquer tensão. Lipe não precisou perguntar o que ela queria dizer, eles eram maiores que aquilo e ele compreendeu que lera suas entrelinhas e por isso o golpe veio seco, não havia motivo para enrolar.
– Encontrei o Caê na rua hoje. – disse, encarando os olhos da irmã para tentar buscar ali também os subtextos de que precisava – Ele perguntou de você, disse que estranhou ver seu estúdio fechado quando passou por ali outro dia...
– Stalker. – Bruna bufou, irritada. ainda se conservava calada, esperando que Lipe terminasse o que tinha a dizer.
– Eu contei que você tava em Barcelona sem prazo pra voltar... – Lipe revelou e se lembrou de dar um pequeno sorriso, acenando com a cabeça, para que ele se tranquilizasse de que fizera a coisa certa em contar – E foi só isso. – terminou.
– Foi por isso que ele ligou, então... – disse, simplesmente, para os dois que aguardavam sua reação. Antecipando a pergunta de Lipe, completou – Eu não atendi. Nem pretendo, na verdade, caso ele tente de novo. Celular tava até desligado até agora há pouco...
– Ótimo. – Lipe sorriu, aliviado – Agora vamos pro assunto que realmente interessa... – seu sorriso se tornou algo malicioso e franziu o cenho. Daquela vez ela não conseguia antecipar o que viria dos lábios do irmão.
– Não que superar esse assunto em nível de interesse seja lá muito difícil, convenhamos... – brincou, como de costume, para aliviar a tensão – Mas o que é, baby?
– Você e o Rafinha Alcântara andam se pegando, ? – o garoto parecia dividido entre admirado e incomodado, e enquanto sustentava uma expressão de surpresa, Bruna dava uma gargalhada escandalosa.
– Meu ship tá vivo! – gritou, comemorando com uma dancinha que categorizaria como vergonhosamente ridícula.
– De onde você tirou isso, Lipe? – riu, revirando os olhos e mordendo uma das unhas.
– Você não tá negando! – foi a vez do garoto ser pego de surpresa. Dissera aquilo esperando uma negativa imediata, afinal acreditava que se estivesse beijando um jogador do Barcelona ele seria, no mínimo, o segundo a saber – Saíram umas fotos de vocês abraçados hoje em tudo quanto é lugar, já me marcaram nisso umas oitenta vezes em todas as redes sociais. – explicou, fazendo Bruna delirar de animação – Juro, o Deco até me ligou pra saber se era verdade, ele paga muito pau pra esse cara.
– Eu tenho um ship. E ele é forte. – a atriz cantarolava.
– Cala a boca, garota! – revirou os olhos, ainda rindo. Adolescentes... E pensar que dizem que mulher é quem faz mais fofoca, hm? – Não, Lipe. Eu e o Rafa somos só amigos. Hoje nós saímos pra correr e devem ter tirado umas fotos. – ela deu de ombros.
– Como eu não vi isso, meu Deus? – Bruna abriu o Instagram no mesmo instante, procurando algumas fontes de fofocas – Fiquei o dia inteiro por conta e quase não mexi no celular... – lamentou.
– Era um abraço bem... – ele coçou a nuca mais uma vez, reprimindo uma risada – íntimo. – revelou, e teve que se esforçar para lembrar em qual momento da manhã Rafael a tinha abraçado.
– Ah, meu Deus, era uma brincadeira! Ele tava suado e veio me abraçar porque eu tava com nojo! – a garota explicou, exasperada, sentindo as bochechas começarem a arder – Vocês dois são ridículos... Larga isso, Bruna! – bateu no iPhone da garota tentando derrubá-lo, em vão.
– Espera, espera, achei! – Bruna se levantou da cama para fugir do alcance de – Hugo Gloss postou: “flagra! Parece que o magya olímpico Rafinha Alcântara não é mais vela de #Brumar, meu povo! O sapão foi flagrado na companhia de uma morena em clima de romance por Barcelona. Deixa a gente lavar roupa nesse tanque, Rafa!” – a garota conseguiu terminar de ler, mesmo entre gargalhadas – Meu Deus, nessas horas eu amo a internet.
– Que vergonha, puta que pariu... – cobriu o rosto com uma mão – E coitado do Rafa, pra desmentir isso tudo.
– E você acha que aquele lá vai querer desmentir? – Bruna riu da ingenuidade da garota – Fala sério, Lipe, eles não fariam um casal lindo?
– Lindo eu não sei, mas que vai ser maneiro ser cunhado de jogador do Barça e da Seleção, com certeza vai... – o garoto exibiu um sorriso enorme, que fez a irmã revirar os olhos e bufar.
– Tchau, Luis Felipe, deu por hoje. – brincou, tentando ficar séria.
– Beijo, gata, se cuida. Te amo. – Lipe mandou um beijo carinhoso – Cuida dela, Bru. – recomendou.
– Sim, senhor! – Bruna bateu continência – Ainda mais agora que tenho reforços...
– Te amo, idiota. – deu um sorrisinho mínimo, ignorando a gracinha da amiga – E não se atreva a mentir pro Deco só pra tirar onda às minhas custas! – lembrou-se de recomendar, referindo-se ao melhor amigo do irmão, que ela vira crescer dentro de casa.
– Isso eu não posso garantir... – o garoto riu, com uma piscadela, antes de desligar.
– Eu quero realmente matar vocês dois. – suspirou, tentando sentir raiva de uma Bruna que estava tão animada e sorridente que tornava essa missão impossível.
, ele é um fofo! Vocês se dão tão bem... – começou o discurso que já ensaiara algumas vezes.
– Bruna, nem começa... – revirou os olhos – A gente tá muito bem assim, eu adoro o Rafa, mas não tem nada a ver.
– E quem disse que não? – Bruna insistiu, olhando a foto dos dois no celular – Fala sério, se isso não é a coisa mais fofa que você viu hoje... – sorriu, orgulhosa de seu ‘casal’.
– Amiga, nunca rolou nada, nenhum clima... Para de ser louca! – exclamou, mesmo sabendo que aquilo era uma verdade parcial. Se nunca tinha acontecido nenhum clima maior, era porque ela sempre recuava ao menor sinal.
– Ok, eu não vou falar mais... Hoje. – Bruna sorriu, maquiavélica.
– Já é alguma coisa. – resmungou, revirando na cama. Por que tinham que inventar aquela história para colocar ainda mais coisas na sua cabeça?
– Pode tratar de levantar dessa cama... – Bruna roubou as cobertas da garota, para expulsá-la – E anda logo que essa noite você vai ser a mulher mais bonita daquela festa.


IV. DESPACITO

“Tú, tú eres el imán y yo soy el metal
Me voy acercando y voy armando el plan
Solo conpensarlo se acelera el pulso
Ya, ya me está gustando más de lo normal
Todos mis sentidos van pidiendo más
Esto hay que tomarlo sin ningún apuro”
(Despacito – Luis Fonsi)

– Puta merda... – foi a única coisa que Rafa conseguiu dizer quando seus olhos captaram os recém-chegados à cobertura de Marc Bartra: Neymar, Bruna e, mais especificamente, .
e aquele par de pernas bronzeadas exposto pelo comprimento do macacão branco que usava, realçando ainda mais a pele praiana; e o decote vertiginoso que expunha o colo adornado por um cordão fino que descia provocativamente até o vão dos seios; e aquela risada gostosa que se fez ouvir do outro lado da sala quando a esposa do aniversariante fez qualquer brincadeira. e o sorriso sacana que ela deu quando pousou os olhos sobre ele por um segundo, antes de observar demoradamente a loira ao seu lado.
– Fala, meu brother. – Neymar fez com que Rafa descolasse os olhos da morena que se aproximava na companhia de Bruna – Oi, Adri! – cumprimentou com um sorriso pequenininho.
– Hola, Ney! – a loira sorriu abertamente, uma das mãos descansando sobre a cintura de Rafael sem imaginar o quanto o gesto parecia deslocado ao rapaz – E Bruna, sempre tão linda, quanto tempo! – dirigiu o olhar à namorada do rapaz, que sorriu sem mostrar os dentes, visivelmente desgostosa com a situação.
. – Rafa finalmente disse, encarando os olhos indecifráveis da garota que o olhava com o que lhe parecia ser uma espécie de divertimento – Você está... – conteve-se no último segundo, refreando todos os termos que lhe vinham à mente por conhecer bem demais o temperamento da loira que o acompanhava – Ótima.
– Acho que não conheço sua amiga, corazón. – Adri interrompeu, pressionando a cintura do rapaz com mais força, clamando por atenção. Ela deu a um sorriso mordaz, ao que a Morena arqueou uma sobrancelha, erguendo o canto dos lábios quase com ironia.
. – apresentou-se, antes que Rafa pudesse fazê-lo – É um prazer conhecê-la... – continuou, aguardando que a outra se apresentasse.
– Adri. – a garota respondeu em tom amistoso, tomando o copo de Rafael das mãos do rapaz e dando um longo gole. quase riu: era aquilo que ela chamava de ‘marcar território’?
Adri... – repetiu, acenando – Perdão, acho que Rafa nunca tinha mencionado seu nome. Mas agora fomos devidamente apresentadas, certo? – sorriu de forma amigável, tocando o braço da outra com naturalidade.
– Ela é uma amiga. – Rafa disse, sentindo que precisava se manifestar de alguma forma. Talvez não tenha sido a melhor, já que recebeu um olhar cômico de e ressentido de Adri.
Velha amiga. – a loira olhava para Rafael, estudando-o – A mais antiga, eu diria... – sorriu sugestivamente, voltando-se então para , dedicando-lhe o mesmo olhar analítico.
, vamos pegar uma bebida? – Bruna chamou, cansada da voz estridente e do sotaque irritante da acompanhante de Rafael, aquele estúpido – Não vamos tomar seu tempo, Rafa, já que está... ocupado. – sorriu ironicamente para o amigo antes de sair com os cabelos balançando atrás de si, sem nem mesmo se preocupar em chamar o namorado, que já conversava com outros colegas do time. Rafa riu pelo nariz, maneando a cabeça, quando acenou para o casal, seguindo a amiga até o bar.
– Eu não tô acreditando que o Rafa trouxe essa vagabunda pra cá! – Bruna bufou, enquanto esperavam que o rapaz do bar preparasse dois mojitos.
– Ele poderia conseguir algo melhor... – deu de ombros, encostando-se no balcão para observar o movimento – Mas não tô entendendo sua indignação, só tá engraçado como ele ficou meio constrangido...
– Você entende sim, para de ser ridícula... – Bruna revirou os olhos, dando vários nós em um canudo de plástico para aliviar a tensão.
– Quem devia parar de ser ridícula é você, - sorriu de canto – que agora já ficou provado que Rafa e eu somos amigos, e que a vida amorosa dele já tá muito bem encaminhada.
– Ah, para... Você não tá levando aquela mulher a sério, né? – Bruna riu – Ele enrola ela há anos, mas se quer saber não acho que ela ligue, contanto que o idiota continue a levá-la em festas com gente importante...
– Sinceramente? – riu pelo nariz, seu olhar sem querer esbarrando na figura de Rafa e Adri trocando um beijo rápido – Não é da minha conta. – ela desprendeu os olhos de Rafael, pegando sua bebida sobre o balcão e dando um longo gole para se livrar da imagem que, de algum modo impreciso, a incomodara.
– Eu só não entendo como ele foi burro de trazer ela aqui, quando sabia que ia te encontrar... – Bruna murmurou, ignorando a fala da amiga enquanto confabulava com si própria.
– Ele não sabia. – disse, e então uma risada escapou de seus lábios quando entendeu, num estalo, a conversa estranha que tivera com Rafa pela manhã – Ele tomou um susto quando eu disse que nós estaríamos aqui, pensou que íamos pra Madri. – explicou e Bruna soltou uma exclamação de compreensão.
Aquilo mudava, em parte, as coisas: Rafa claramente não queria encontrar com ela no mesmo ambiente em que estaria com Adri e, por mais que não quisesse especular os motivos daquilo, não podia deixar de sentir um leve comichão para fazer com que ele se arrependesse da gracinha de tentar dar um balão nas duas.
– O que você vai aprontar? Eu te conheço... – Bruna riu, já um pouco mais animada ao ver o sorriso de canto nos lábios da amiga.
– Eu? Nada! – alargou o sorriso, tornando-o quase inocente – Eu sou um anjo, não sabe?
– Certamente vestida como um, estás. – o comentário em português fez com que se virasse, surpresa, deparando-se com a figura alta de um rapaz que lhe dedicava um sorriso largo – E és tão bela quanto um anjo, também. – completou, num flerte discreto e delicado – Bruna, como estás? – sorriu para outra garota, que também sorria: um ship era um ship, e ela não deixaria o seu morrer. Mas Rafinha merecia uma lição, e André Gomes seria uma bela lição.
– André, querido! – Bruna cumprimentou o companheiro de time do namorado com um abraço – Essa é , uma grande amiga.
– Muito prazer! – os dois falaram, ao mesmo tempo, provocando uma risada.
– Olha só quem apareceu! – Neymar chegou por trás de Bruna, abraçando a namorada e cumprimentando o amigo – Presta atenção, , que esse é o único português de quem você tá autorizada a gostar... – brincou, arrancando uma gargalhada de todos na clara referência ao camisa 7 do Real Madrid.
– Amor, vamos procurar alguma coisa pra comer? – Bruna chamou, olhando sugestivamente para , que revirou os olhos com um sorriso mínimo nos lábios.
– Você que manda, mulher... – Neymar deu de ombros, seguindo a garota.
– Eu amo como ela sabe ser discreta. – suspirou, mexendo seu canudo dentro do copo e arrancando um sorriso esplêndido do português.
– Não posso dizer que não a achei mui’ fixe por isso. – confessou, fazendo com que ela sorrisse, achando seu sotaque nada menos que adorável.
“Fixe” repetiu, após mais um gole no mojito.
– Como vocês falam mesmo no Brasil? – ele riu, coçando a nuca – Legal? – perguntou, lembrando-se das conversas com os colegas brasileiros
– Sim! – acenou em concordância, sorrindo – Fixe, gostei.
– Vou te ensinar mais uma, então. – André retribuiu o sorriso, pedindo com um gesto uma bebida para si – Gira. – disse, e ameaçou uma meia-volta, de brincadeira, arrancando uma risada do rapaz.
– Não faço ideia do que seja. – a morena confessou, rindo com ele.
– Vou lhe dar um exemplo, para que descubras. – ele pensou por um segundo antes de completar – És a mulher mais gira aqui esta noite.
não precisou de uma explicação. Sorriu.




– Eu queria que você visse a sua cara agora. – Neymar não conteve uma risada ao ver a expressão emburrada de Rafael: parecia uma criança arrastada para fora do playground cedo demais.
– Quê? – Rafa olhou para o amigo, respondendo de má vontade.
– Nada, pode continuar aproveitando seu showzinho aí... – Neymar deu de ombros, apontando com o queixo para o ponto que Rafa encarava de quando em quando, com visível desagrado – Quer uma pipoca também ou tá tranquilo?
Vai se fuder. – Rafael resmungou, estalando a língua. Tirou os olhos de para colocá-los em Adri, que conversava qualquer coisa com a esposa de Bartra. Era uma mulher atraente, sem dúvidas, mas não podia negar que o que mantinham por todos aqueles anos não passava de algo físico. Talvez por isso nunca tivesse se incomodado ao encontrá-la, vez ou outra, acompanhada de outros caras: desde que continuasse atendendo aos seus booty-calls, adotava o famoso ‘segue o baile’... Então o que era aquela merda de pedra que ele sentia pesando seu estômago quando via tocando o ombro de Gomes, entre uma risada e outra?
– A Bruna me passou o Sermão da Montanha, reclamando que eu “acobertei o cretino do meu amigo”– contou, fazendo Rafa rir pelo nariz – Mas já passa, ela te ama, e tá obcecada com .
– Já quero ir embora desse lugar... – Rafa murmurou, ignorando a parte em que Neymar mencionava o ship que formava com . Não eram um casal, afinal – Não tô bem pra beber.
– Tu não quer é tá aqui pra ver coisa que não vai gostar. – Neymar riu, mas quase sentia um pouco de pena do amigo – Mas lembra que, caso aconteça, você que caçou... – olhou na direção de Adri enquanto bebia.
– Eu já volto. – Rafael levantou de súbito, e quando viu o rumo que o amigo tomava, Neymar revirou os olhos com um sorriso. Rafa gostava de se torturar...




– Não vai me trocar pelo Gomes, vai? – o disse, a voz mais baixa que o habitual, interrompendo a caminhada da morena que rumava para o corredor onde ficavam os banheiros – Pensei que eu fosse seu melhor amigo em Barcelona. – completou, percebendo que a construção frasal talvez entregasse algo além do que ele desejara inicialmente. Merda. Culpa do whisky.
piscou os longos cílios encarando-o por um momento, antes de sorrir. E, cara, aquela garota tinha um sorriso que quebrava as pernas de qualquer um...
– Você continua sendo meu melhor amigo. – disse, fechando os lábios em um sorriso cálido, mas ainda assim provocante. Rafa já a conhecia o suficiente para saber que estava a um passo de ter os efeitos do álcool ainda mais evidentes, e não podia evitar lembrar a última vez que vira assim, no dia em que se conheceram: dolorosamente sexy enquanto dançava para ele. E se havia algo para que não estava preparado, era assistir àquela cena com outro protagonista – André não vai roubar isso. – murmurou, encostando-se à parede para encarar o homem que ainda digeria sua resposta.
Rafa se aproximou, ansioso por arrancar do rosto dela aquele sorriso, e apoiou uma das mãos ao lado da cabeça da garota que, por um segundo, fechou os olhos, a respiração pesada de ambos se misturando pela proximidade. Foi a vez de Rafa sorrir: ele também sabia brincar, e era bom saber que tinha sobre ela algum efeito. se recuperou, voltando a observá-lo com divertimento.
– Você tá com ciúmes, Rafa? – perguntou, apertando o ombro dele levemente, antes de soltar um risinho que buscava invalidar sua frase anterior – Oh, claro que não... – acariciou a nuca dele com as unhas e Rafael travou a mandíbula, cerrando o punho contra a parede – Você tem Adri, não é mesmo?
– Hipoteticamente? – Rafa sussurrou e concordou com um aceno, ainda encarando aqueles olhos escuros, sempre tão sinceros e diretos que a tonteavam – Nesse caso, acho que eu não seria o único com ciúmes, nena... – Rafa exibiu um sorriso desconcertante, e deixou que uma risada escapasse de seus lábios assim que se recuperou. Estavam mesmo falando sobre ciúmes? Desde quando discutiam esses assuntos, ela não sabia... Tudo não passava de uma brincadeira, certo? O álcool certamente estava mexendo com ambos.
A garota empurrou Rafa levemente pelos ombros e andou até o banheiro sabendo que ele bebia de sua imagem ao deixá-lo. Virou-se, da porta, encontrando o olhar do moreno faiscando sobre sua silhueta.
– Perdido, cariño? – ergueu as sobrancelhas, valendo-se do apelido que ele usava com ela e olhando-se por um segundo antes de sorrir – A saída é pra lá.
Àquilo Rafael não pode conter uma risada, maneando a cabeça em descrença: como fora inocente o suficiente para imaginar que Adri era a maior encrenca em que meteria naquela noite? Era oficial: tinha o firme propósito de enlouquecê-lo, e ele não podia mentir dizendo que ela estava longe disso quando ela estava tão perto. Tão dolorosamente perto.




– Oh, meu Deus, até aqui? – revirou os olhos ao ouvir os primeiros acordes da música que começava a agitar aqueles que dançavam na parte externa da cobertura. Ela saía do Despacito, mas Despacito não saía dela... – Isso virou febre aqui também? – perguntou, descontraída pelos vários mojitos e pela intimidade que já desenvolvera depois de quase duas horas conversando com Gomes.
“Sí, sabes que ya llevo um rato mirándote,tengo que bailar contigo hoy.” – o rapaz respondeu com o trecho da música, estendendo uma mão para que sorrindo a aceitou.
“Vi que tu mirada ya estaba llamándome, muéstrameel caminho que yo voy.” – a garota respondeu no mesmo tom, acompanhando-o até o local onde os outros convidados dançavam.
André pousou uma das mãos na base das costas da garota e a outra em seu pescoço, num toque mais delicado do que ela se lembrava de ter sentido na última vez em que a tiraram para dançar reggaeton. Dançavam, entre sorrisos, rindo quando se perdia em alguma parte do espanhol – o que acontecia mais frequentemente do que ela faria caso estivesse sóbria.
– Alguém te ensinou bem. – André concluiu, vendo a desenvoltura dos quadris da garota que se movia contra ele, o rosto pousado sobre seu ombro de forma relaxada.
– Oh, sim... – respondeu, ciente de que André não conseguiria ver o sorriso largo que ela dera àquela pergunta. Não que fizesse alguma diferença, no fim das contas, já que o destinatário daquele sorriso sacana estava bem de frente para ela, examinando cada um de seus movimentos, mesmo com outro corpo esfregando-se ao seu. Rafa decidiu entrar na brincadeira dela, mesmo sabendo que Neymar o consideraria masoquista: sorriu de volta, mordendo os lábios para a forma como ela dançava.
Rafael apertou a cintura de Adri com alguma força ao ver deslizar as unhas pelas costas de Gomes, ainda exibindo aquele sorriso para ele. Só pra ele. A loira à sua frente soltou um gemido apreciativo, e o moreno não pensou antes de puxá-la para perto, avançando sobre seus lábios com avidez. O beijo era quente e lento, um velho conhecido que já não lhe despertava nada fora do comum, mas que ainda cumpria um propósito. O que vira ao finalmente soltar a loira de seus braços, no entanto, aquilo sim o tirava do sério...
podia estar dando um showzinho para Rafael e recebendo outro em troca, mas não era obrigada a assistir àquele beijo, ou era? Rafa não sabia brincar apostando baixo, e por mais que soubesse que podia corresponder à altura – André estava ali, afinal, em cada olhar deixando mais claro que a desejava – não teria coragem de carregar Gomes para o que era, para ela, apenas provocação amigável com outro... Uma brincadeira entre dois amigos bêbados e levemente alterados, que não precisava chegar às vias de fato.
Por esse motivo, a morena decidiu por algo mais inofensivo: girou até ter André com o corpo colado em suas costas, e se posicionou de forma a dar para Rafinha uma visão privilegiada de seu corpo contra o do português, seus quadris se movendo lenta e provocativamente ao som da música, enquanto deixava que Gomes apertasse sua cintura, dizendo qualquer coisa em seu ouvido. Sorriu, porque de alguma forma sabia que tinha atingido seu alvo: não precisava estar de olhos abertos para sentir o olhar de Rafa queimando sobre si. Só não esperava tê-lo tão perto.
– Compatriotas têm direito a uma música, pelo menos? – perguntou, olhando diretamente para – Ou vocês já assinaram um contrato de exclusividade? – voltou-se para André, soltando uma risada que amenizou a tensão de suas palavras.
– Eu vou pegar outro pra você. – André piscou para , deixando-a na companhia do companheiro de time. A garota sorriu, em concordância, e quase transformou o sorriso em gargalhada ao ver Neymar e Bruna se ocupando de Adri.
– Você devia parar de incitar o cara... – Rafa disse, colando o corpo ao da morena com alguma força, pegando-a de surpresa – Se não pretende fazer nada. – completou, enterrando uma das mãos entre os cabelos negros de , que tentou arduamente não suspirar.
– De que cara estamos falando? – perguntou, arqueando uma sobrancelha com a dualidade do comentário dele, e Rafa não conteve um sorriso de canto – Você me provocou. Eu não sei perder. – deu de ombros, aceitando de bom grado a forma como Rafael guiava seus passos na dança, trazendo-a sempre para mais perto.
– Empate? – Rafa propôs, encostando os lábios em seu ouvido, e sentiu seu corpo se arrepiar de maneira vergonhosa. Sorrindo, pensando que ele não a conhecia tão bem se pensava que a faria ceder assim tão fácil...
Impasse.




ainda não podia acreditar que a tinha convencido a sair de casa durante o que era uma das piores ressacas de sua vida – e não apenas de álcool, vale a pena acrescentar: sentia uma pontada de vergonha cada vez que rememorava os acontecimentos da noite anterior, especialmente a brincadeira estúpida que iniciara com Rafa e que durara a festa inteira. desejava de todo coração que ninguém houvesse percebido e, mais importante, que Rafael não se lembrasse de nada – ou pelo menos tivesse o bom senso de fingir demência.
– Você não vai comer nada, sério? – Bruna ergueu uma sobrancelha para a amiga, estranhando aquele fato.
– Não consigo nem pensar em comer, Bru. – respondeu, com uma careta, tomando um gole de sua água gasosa com limão, enquanto a outra se deliciava com uma torta de chocolate belga. Eram quase cinco da tarde e a única coisa que tinha colocado no estômago até o momento havia sido uma bola de sorvete, já que o gelado aparentemente era melhor aceito.
– Eu não sei se sinto pena ou acho graça... – Bruna riu pelo nariz, vendo a tristeza da outra por não conseguir comer o bolo que parecia tão maravilhoso – Mas você estava sem limites ontem. – completou, dando um sorriso malicioso à outra.
– Ah, cala a boca, Bruna... – sorriu de canto, e reviraria os olhos caso não lhe parecesse tão difícil no momento – Não é pra tanto!
– Não é pra tanto? Meu amor, se tem uma coisa que você estava ontem, era pegando fogo... – a garota gargalhou – Mas eu adorei, foi muito bem feito pro Rafael, e vamos combinar que o André é uma graça, né? Ainda não acredito que você não deu nem um beijinho nele!!
– Ele é. – deu um sorrisinho ao se lembrar do português – Mas a coisa toda com o Rafa tomou proporções que eu não planejei, era pra ser só uma brincadeira... – encolheu os ombros, bufando – Eu só queria que ele visse que foi feio não ter falado sobre a garota lá, sendo que a gente é amigo!
– Sei. – Bruna concordou, condescendente, dando uma garfada no bolo antes de completar – Continua se enganando assim, se tá funcionando pra você.
– Eu te odeio, garota... – protestou, mas conseguiu dar uma risada – Nossa, foi só falar... – ergueu as sobrancelhas, mostrando o visor do celular, que acusava uma chamada de Rafael.
– Eita! – Bruna exclamou a expressão universal e multiuso – Vocês já conversaram hoje?
– Ainda não. – respondeu, esperando mais um toque antes de atender – Bom dia, Princesa! – a risada que veio do outro lado era rouca, e podia apostar que Rafa vivia a mesma dor de cabeça que ela.
– Tá inteira? – Rafa questionou – Eu tô bem quebrado...
– Dois. – riu pelo nariz – Não consegui comer nada até agora, acredita?
– Tá aí uma coisa difícil de acreditar... – Rafa deu uma risada calorosa – Tá em casa?
– Não, vim na rua com a Bruna, mas já tô indo. – contou, dobrando um guardanapo para evitar o olhar da amiga, que a estudava com um sorriso mínimo no rosto – Quero ver se dou mais uma dormidinha, por quê? – questionou.
– Nada, queria ver se podia dar uma passada aí. – Rafa disse, aguardando alguma manifestação da parte dela. sabia o que ele queria, e não podia dizer que estava errado: precisavam de uma conversa. Mas a verdade é que ela era uma bela covarde quando se tratava desse tipo de papo sério...
– Hm, sim... – murmurou – Tô bem morta hoje. Acho que vou ficar jogada no sofá o dia todo, Rafa...
– Tadinha. – Rafa murmurou, com uma risadinha afônica – Nos vemos depois, então? – perguntou, e um observador mais atento poderia perceber o tom quase esperançoso na voz dele.
– Claro. – concordou, sorrindo de canto para as próprias mãos – Se cuida, Rafa.
– Você também, cariño. – despediu-se.
desligou o telefone, pensando sobre o tom da conversa. Rafa parecia querer esclarecer as coisas, e talvez aquela fosse mesmo a melhor atitude: uma conversa franca para que continuassem a amizade gostosa que tinham, sem perder nem um pingo daquela confortável liberdade que haviam desenvolvido em pouco menos de um mês de convivência. Mesmo porque, não podia perder Rafa bem do jeitinho que era antes: pensando egoisticamente, sabia que em breve Bruna teria que retornar ao Brasil, e ele era, em Barcelona, seu esteio, sua referência, o motivo de suas maiores risadas e o protagonistas dos melhores dias.




assistia o terceiro episódio de House em seguida desde que acordara de seu cochilo após o lanche com Bruna, e os analgésicos e antieméticos aparentemente haviam surtido efeito, já que agora sentia-se melhor, o estômago dando sinais de vida e protestando pelo dia inteiro de jejum. Quando o interfone tocou, franziu o cenho: será que Bruna tinha resolvido buscar o carregador de celular que esquecera? Sua surpresa só se tornou maior quando o nome de Rafael foi anunciado pelo porteiro, mas depois de um segundo a garota riu: devia saber que Rafa não se contentaria com uma negativa.
– Não vai ficar brava, vai? – ele disse, dando um sorriso fofo assim que abriu a porta exibindo a roupa que contrastava com o luxo da noite anterior: shorts de malha, blusa de moletom e meias até as canelas – Eu trouxe isso. – o rapaz ergueu pizza que carregava com uma mão – Não é possível que você ainda não teve fome...
– Só porque você pagou pedágio. – piscou, pegando a pizza da mão dele – E porque leu meus pensamentos. – deu um sorriso de canto, dando espaço para que ele entrasse.
– Imaginei. – Rafa riu pelo nariz, dando um beijo na testa da garota antes de andar até a bancada para tirar da sacola plástica a outra coisa que comprara, enquanto pegava dois pratos no armário. Era engraçado como, ao mesmo tempo em que eram pessoas expansivas e que viviam em conversas intermináveis, sabiam também lidar com aqueles silêncios agradáveis e familiares.
– O que é isso, Rafael? – riu, vendo que ele segurava duas longnecks e já andava em direção ao sofá.
– 24 anos na cara e eu que preciso te ensinar que só álcool cura ressaca? – o moreno riu, fazendo a garota revirar os olhos enquanto lhe passava o prato com uma fatia de pizza.
– Fale por você. – se sentou ao lado dele, cruzando as pernas, mas aceitou a garrafa – Salud!
Salud! – Rafa deu um sorriso caloroso. Tudo ficaria bem, certo?
Os dois comeram mais do que esperavam, mas não conseguiram acabar com o fardo de seis Heinekens que Rafa comprara: o rapaz chegou à terceira, mas não conseguiu terminar sua segunda. No momento, assistiam a um programa de entrevistas, enquanto tentava dublar as falas de cada um que aparecia, fazendo Rafael rir até sua barriga doer.
– E agora, com vocês... – a garota dizia, prestando atenção à TV – A nova protagonista de nossa telenovela – ela riu à palavra – “Tiempo de Amar”– forçou um sotaque, mas a risada de Rafa não veio, como de costume.
– Oh, merda. – ele murmurou – , vamos...
– ADRI HERNÁNDEZ! – a voz da apresentadora o interrompeu, e captou o olhar de para assistir à entrada da loira sorridente no palco do programa. A garota soltou uma risada, vendo Rafa cobrir o rosto com o antebraço, jogando a cabeça pra trás. Só podia ser algum tipo de perseguição...
– Ok, Rafa, vamos ser adultos, ok? – a morena riu, colocando a TV no mudo – Talvez a gente precise falar sobre ontem. – disse, enfim, e só ela sabia o esforço que aquilo demandava.
– Eu não sabia que você ia, eu... – Rafa soltou, aliviado por enfim poderem clarear aquela situação.
– Rafa, espera... – sorriu, tocando o braço do moreno delicadamente – Não tinha problema algum você ir com ela! Eu passei um pouco do ponto nas brincadeiras, confesso, mas era só pra te zuar por ter tentado esconder de mim que ia sair com uma garota. Nós somos amigos, poxa... – explicou, encolhendo de ombros – Não precisava ter feito isso.
– Eu sei que não. – Rafa fez um carinho no joelho de , exposto pelos shorts de malha que a garota usava – E eu mereci a sua gracinha, apesar de você ter judiado um pouco além da conta. – admitiu e a garota riu, maneando a cabeça e aceitando sua parcela de culpa – Então estamos bem? – o rapaz perguntou, sentindo o coração mais leve ao ver o sorriso enorme dela.
– Estamos ótimos. – respondeu, para depois brincar com o garoto – Mas vai gostar de uma celebridade assim lá longe, hein, Rafael! – riu, cutucando a barriga dele.
– O quê? – Rafa riu, sem entender bem o que ela queria dizer – Você tá falando dela?
– Dela, da Anitta... – a garota enumerou, erguendo os dedos conforme listava.
Anitta? – o moreno gargalhou – De onde você tirou isso?
– Ah, então é mentira? – parecia quase decepcionada.
– Sim... Nós nunca tivemos nada, por que essa cara? – Rafa perguntou, rindo.
– Eu tinha tanta certeza de que você pegava ela! – a garota exclamou, ainda surpresa – Bom, pelo menos agora não preciso mais morrer de inveja...
– Inveja? – Rafa ergueu uma sobrancelha, surpreso. tornaria a missão de voltar a amizade ao normal difícil se brincasse com ele daquela forma...
– Não dela, idiota! – revirou os olhos, batendo na testa do jogador com uma risada – De você, com aquela musa maravilhosa! – brincou e Rafa a acompanhou na risada, que logo se transformou em um bocejo – Também já tô caindo de sono... – confessou, vendo que Rafa se ajeitara no sofá, fechando os olhos por um segundo – Você quer ficar? – perguntou, depois de pensar por um segundo. Eram amigos, certo? Se queria que tudo voltasse ao normal, precisava agir com naturalidade.
Rafa se espreguiçou, lançando para ela um sorriso antes de se deitar no sofá, confortavelmente. Aquela era sua resposta.
– Folgado. – riu, dando um tapa nas pernas que ele jogara sobre ela para enfim se levantar, indo até o quarto e voltando com travesseiros e uma coberta.
Gracias, cariño. – Rafa murmurou, beijando a mão de quando ela jogou a coberta delicadamente sobre ele – Você é a melhor. Durma bem.
– Boa noite, Rafa. – sorriu de volta, andando para fora da sala e olhando na direção dele uma última vez antes de apagar a luz.
Tudo estava bem.


V. QUÉDATE CONMIGO

“Amor no te vayas
Quédate conmigo
Dame de tu luz, baby, dame tu cariño”
(Quédate conmigo – Chyno Miranda)

Aquilo não podia estar mesmo acontecendo, certo? Era o que conseguia pensar enquanto caminhava pelo flat deixando um rastro de água e sabão pelo chão, que certamente traria problemas a qualquer um – especialmente a um ser desastrado feito ela. Enrolada numa toalha de banho e com os cabelos cheios de espuma, a garota se dirigiu ao interfone, ligando insistentemente para o síndico do prédio e orando para que a raiva não nublasse suas parcas habilidades no espanhol.
– Hola, Sr. Antonio! – respondeu, assim que foi atendida – Senhor, aqui é , do 602. Sí, a chica brasileña... – concordou, querendo ir logo direto ao ponto, a pele já arrepiada de frio por ter sido arrancada do banho escaldante que tomava – Meu apartamento está completamente sem água! – disse, tentando controlar o tom de voz – Sim, já chequei tudo... Não funcionam as torneiras, o chuveiro... Nada. – enumerou prestes a entrar em franco desespero – O que eu quero? Bem, que o senhor resolva esse problema! – disse, os nervos começando a aflorar – Não existe um bombeiro, alguém que conserte essas coisas pro prédio? – a garota enterrou o rosto em uma das mãos, percebendo a falta de boa vontade do outro em ajudar – LUNES? – a voz dela quase falhou frente à resposta: podia não saber muito de espanhol, mas ainda se lembrava dos dias da semana, e aquilo significava que passaria o fim de semana inteiro sem água – E o que eu faço até lá? – perguntou, se perguntando se ser intragável era mesmo um pré-requisito para o posto de síndico em todo o mundo. A resposta veio após uma risadinha maldosa, e fez bater o interfone no gancho, desejando que fosse a cabeça do síndico: “seja criativa, nena”.
Ok, situações desesperadoras mereciam atitudes desesperadas, certo? Bruna tinha ido passar uma semana no Brasil para cumprir alguns compromissos profissionais, o que a deixava com uma única opção – não que conseguisse de fato imaginar Bruna Marquezine resolvendo um problema de encanamento.
– RAFA! – exclamou, aliviada por ele atender ao telefone. A distração fez com que escorregasse na própria trilha de sabão – Ai, caralho! – murmurou, conseguindo se apoiar no sofá, bufando em seguida.
, tá tudo bem? – a voz do jogador soava preocupada, e sorriu involuntariamente pelo tanto que ele conseguia ser uma graça.
– Sim, eu escorreguei... – explicou, lembrando-se em seguida de uma pergunta importantíssima, que a fez esquecer momentaneamente a questão do encanamento – E o jogo?? – perguntou, ansiosa pela resposta.
– Ganhamos. – Rafa respondeu e ela podia perceber um sorriso na voz do rapaz, o que a fez sorrir também, quase pulando do sofá em comemoração. Era a primeira vez que Rafa voltava ao campo desde sua última lesão e ela sabia a importância daquele jogo para ele – Dei uma assistência, foi um belo jogo. – continuou e podia imaginá-lo naquele momento: as mãos nos bolsos, sempre humilde ao contar seus próprios feitos. Cara, como ela adorava aquilo naquele homem...
– AAAAH, eu tô tão feliz por você! – a garota riu, querendo que ele estivesse ali para abraçá-lo – Não acredito que não pude ir!
– Você tinha aula, cariño, eu entendo... – disse carinhoso e a garota não pôde evitar mais um sorriso em meio a sua frustração por não ter estado presente – No próximo eu quero você lá, ok?
– E eu estarei, Rafa. Pode ter certeza! – prometeu.
– Foi por isso que você ligou? Tava parecendo nervosa... – Rafa questionou, lembrando-se do início da ligação.
– Ai, não... – finalmente se lembrou do motivo de ter ligado – Na verdade foi pelos dois. Deu uma merda sem tamanho aqui em casa, Rafa... – reclamou, olhando para o chão molhado, desolada.
– Que houve? – Rafa voltou a se tornar preocupado ao tom de voz.
– Eu tô sem água! – a morena protestou, indignada – Nada tá funcionando, acho que deve ser algum cano... E o estúpido do síndico falou que só pode chamar o bombeiro na segunda! – completou e Rafa teve que controlar as risadas ao perceber toda a braveza da menina. Fazia lembrá-lo do dia em que se conheceram no supermercado...
Quieta, nena... – ele disse, e aquele tom de voz ridiculamente calmo já era quase suficiente para que se sentisse melhor. Quase. – Eu tô indo praí, ok? E aí vemos o que a gente pode fazer...
– Eu já te disse que você é o melhor do mundo? – perguntou, segurando um sorriso.
– Hoje não. – Rafa riu e ela pôde ouvir o som da porta do carro batendo, sinal de que ele já estava a caminho.
– Você é. O melhor de todos. – confessou, e não precisava vê-lo para saber o tipo de sorriso que Rafa estampava naquele momento: um daqueles avassaladores, que ainda tinham o poder de fazê-la se perder pelo tempo que ele durasse. O sorriso que já era dela.




– Você tem certeza que vai tentar fazer isso, Rafael? – perguntava temerosa, vendo o rapaz encolhido sob a pia, mexendo em um cano que, segundo ele e sua ‘vasta experiência’ como bombeiro hidráulico, era a razão de todo o transtorno. Homens.
– Um pouco mais de confiança na sua voz seria bom, sabe? – Rafa riu pelo nariz, espiando a garota que, usando um short de pijama e uma camiseta branca do Taz Mania, observa-o da porta do banheiro: tinha os cabelos ainda molhados e cheios de sabão, e por mais que entendesse a impaciência da garota para tirar aqueles resíduos do corpo, não conseguia deixar de achar a visão adoravelmente cômica.
– Desculpa... – Rafa riu, parecendo uma criança levada, e sentou-se no chão ao lado dele – Vai, Rafa! Uhu! – simulou uma torcida, erguendo as mãos para o alto e causando uma crise de riso entre os dois que só cessou quando Rafa saiu debaixo da pia para tomar um ar.
– Você é muito idiota, garota. – riu, tirando a camisa em um gesto inesperado que deixou atordoada por um momento – Vai, segura isso pra mim. – pediu, voltando ao trabalho sob a pia – Eu acho que se eu conseguir abrir esse... – ele parou por um momento, trincando os dentes com a força que fazia. havia enfiado a cabeça sob a pia também e nada, absolutamente nada, a preparara para o que viria a seguir.
Um jato absurdamente forte de água corrente acertou os dois em cheio quando Rafael estourou o cano com as mãos. deu um grito agudo, e assim que conseguiram se colocar de pé, completamente encharcados, um misto de nervosismo e diversão fez com que gargalhassem até que precisassem se sentar de novo, escorregando pela parede de azulejos azuis.
– Rafa... – murmurou, limpando os cantos dos olhos de onde escorriam lágrimas de tanto rir. A morena tomou fôlego, deixando escapar mais um riso antes de completar, observando a água que alagava o chão escorrer lentamente pelo ralo. Ao menos não saía mais nada do cano... – O que diabos foi isso?
– Eu não faço ideia. – Rafael riu, tombando a cabeça sobre a da garota, que havia encostado-se a seu ombro direito – Vamos, levanta. – chamou, erguendo-se e estendendo uma mão para ela – Não dá pra você ficar aqui.
– Eu vou ter que procurar um hotel, pelo menos até que resolvam esse estrago. – constatou, bufando – Eu odeio esse síndico! – berrou, torcendo para que o homem escutasse e compreendesse sua irritação na língua universal do ódio.
– Cala a boca, garota... – Rafa revirou os olhos, pegando duas toalhas que estavam no boxe e dando uma para – Você vai ficar lá em casa.
– Rafa, você não precisa fazer isso... – o encarou, surpresa, secando os cabelos e concentrando-se em tentar não corar. Falhou miseravelmente. – Sério.
– Vai logo pegar suas coisas, anda. – o moreno sorriu, e sabia que aquilo era o equivalente de Rafael a ‘não aceitar um não como resposta’.




– Morena, é o seguinte... – Rafa disse assim que abriu a porta de casa carregando a pequena mala de , checando as horas no relógio de pulso – Temos exatos 40 minutos pra sair de casa, acha que dá tempo? – questionou.
– Você que manda, capitão. – sorriu e, pela correria, não pôde perder o tempo que gostaria admirando o ambiente: era uma bela casa – Uau, que casa linda, Rafa... – comentou, seguindo o jogador escada acima.
– Você gostou? – o rapaz sorriu, coçando a nuca – Um pouco grande demais, eu acho, mas gosto bastante daqui... – comentou, abrindo uma porta e dando espaço para que a garota entrasse: era um quarto de hóspede muito bem decorado em tons claros, com a cama já arrumada e toalhas de banho sobre os lençóis – Pedi pra Tita deixar tudo pronto pra você. Fica à vontade, tá? – sorriu, deixando a mala no chão, no cantinho do quarto.
– Muito obrigada, Rafa. – sorriu, passando as duas mãos pela cintura do rapaz – Eu já desço, prometo não demorar.
– Não preocupa. – Rafa sorriu, deixando o quarto – Só tô correndo porque precisamos buscar o Thiago no aeroporto 13:30.
– Seu irmão? – deu um sorriso gigante, já entrando no banheiro: sabia o quanto Rafael sentia falta de Thiago, com quem jogara por tantos anos – Que ótimo, Rafa! Ele vai ficar? – aumentou o tom de voz, porque já ligara o chuveiro.
Rafa continuava próximo da porta, ouvindo quando abriu e fechou a porta do boxe e tentando não imaginar a cena que se passava a alguns metros de distância, com apenas uma porta – aberta – separando-os.
– Só até amanhã... Eles vieram ver os pais da Julia também. – explicou, enfiando as mãos nos bolsos – Vou tomar um banho e te espero na sala, ok? - disse, ao que gritou em concordância, logo começando a cantarolar alguma coisa, fazendo com que Rafa deixasse o quarto com um sorriso no rosto.
De fato, a pontualidade de era impressionante: em menos de meia hora a garota descia as escadas até a sala onde Rafa esperava, jogando FIFA. O rapaz pausou o jogo, sorrindo para a figura da morena que usava shorts jeans, blusinha rosa-bebê de guipir, cardigan perolado, e tinha os cabelos ainda molhados.
– Pronta? – Rafa sorriu, já buscando as chaves do carro e a carteira.
– Sim, senhor. – a garota pulou os últimos dois degraus, saltando sobre as costas de Rafael na tentativa de pega-lo de surpresa, mas sendo surpreendida quando Rafa a segurou pelas pernas, saindo de casa com a morena montada nele, entre gargalhadas.
Dentro do carro os dois dividiam o comando da música, o que levava a variações que iam dos clássicos do rock ao melhor do funk carioca. O aeroporto não era tão distante da casa de Rafa, e não demorou até que adentrassem o portão C do El Prat Airport, em apenas alguns minutos. Talvez pelo aglomerado de pessoas, aquela foi a primeira vez que percebeu que andava ao lado de uma celebridade – não que estivesse desacostumada a isso, sendo amiga de Bruna Marquezine – pois perdeu a conta de quantos fãs pararam requisitando alguns segundos da atenção de Rafinha Alcântara.
– Desculpa por isso... – Rafa pediu, assim que conseguiu alguns minutos de sossego. Ele tinha um sorriso envergonhado e riu abertamente.
– Para, Rafa... – a menina sorriu de canto, batendo nele levemente com o ombro – Você não tem culpa de ser uma celebridade... – brincou, fazendo o rapaz revirar os olhos, beliscando de leve sua cintura – Tirei umas fotos boas, na verdade... – comentou, mostrando no visor da câmera algumas fotos que tirara de Rafa dando autógrafos e tirando selfies com os torcedores do Barcelona, e um ou outro brasileiro.
– E quando você não tira? – Rafa sorriu, tomando a câmera das mãos dela para admirar o trabalho da garota mais de perto – Sabe o que eu fico mais impressionado? Como você transforma o banal em algo tão bonito. – devolveu a câmera com um sorriso encantador.
– Não é banal. – devolveu o sorriso, sentindo as bochechas adquirindo uma coloração rosada – É bonito, eu só procuro fazer com que todos vejam o que eu vejo. – encolheu os ombros e Rafa a abraçou, beijando seus cabelos.
– Então eu diria que você está fazendo um ótimo trabalho.
O portão de desembarque finalmente se abriu, às 13:58, fazendo Rafa e soltarem pequenas exclamações de satisfação, uma vez que tinham passado os últimos minutos reclamando insistentemente de fome e não viam a hora de chegar em casa para o banquete de Tita. assistiu com um sorriso no rosto ao reencontro dos irmãos Alcântara. Não houve palavras a princípio: Thiago deixou o carrinho de bebê de lado e, com um sorriso tão enorme quanto o de Rafa, jogou os braços em torno do caçula. Era notável a falta que sentiam um do outro, e a amizade que os ligava além dos laços de consanguinidade.
– Que saudade de você, cara... – Rafa murmurou e Thiago maneou a cabeça em concordância, soltando-o como se para checar se tudo estava bem com seu irmãozinho – Mas mais saudade eu tenho desse aqui... – os olhos do jogador do Barcelona recaíram sobre o pacotinho azul bebê no colo da cunhada, pequenos bracinhos se balançando para o lado de fora, como se ansiosos para interagir com o mundo do lado de fora – Julia, querida, cómo estás? – cumprimentou a esposa de Thiago com um beijo no rosto – Agora deixa eu ver o meu garoto. – pediu ansioso.
– Vai com o tio Rafa, bebé... – Julia sorriu, passando a criança para o colo de Rafa, que o olhava admirado.
– Caramba, Thiago, ele tá gigante! – o moreno se admirou, aproximando-se de para exibir, orgulhoso, o sobrinho – Oh, merda, eu não apresentei vocês... – Rafa percebeu a falha – Essa é a . , Thiago e Julia.
– Muito prazer... – a garota sorriu simpática, cumprimentando o casal com um beijo – Ele é lindo, vocês estão de parabéns! – continuou, os olhos presos à pequena figura entre os braços de Rafa, carregada com tanto cuidado que chegava a ser engraçado.
– Ele é lindo mesmo, o único da família que conseguiu ficar mais bonito que eu... – Rafa concluiu, arrancando gargalhadas de todos.
– Depois dessa acho que tá na hora de ir... – Thiago riu, batendo de leve na cabeça do irmão e pegando Gabriel para que Julia o carregasse, a fim de que os irmãos se ocupassem das bagagens – Só me diz que vai ter um rango da Tita esperando quando a gente chegar, eu tô varado de fome...
– Tá vendo né? – Rafa revirou os olhos, falando com – Vem uma vez na vida e outra na morte, e só tá interessado na comida.
– Eu te entendo, Thiago. – deu um sorriso cúmplice.
– Ah, não... – Rafa forjou uma expressão desesperada – Esqueci que vocês dois são iguais, duas dragas... – riu, fugindo do tapa da garota – Pelo menos você mantém muito bem a forma, cariño...




– Então, há quanto tempo vocês estão juntos? – Julia perguntou, fazendo quase engasgar com o suco que Tita havia levado para elas há alguns minutos, alegando que fariam melhor a digestão.
– O quê? – perguntou, ajeitando melhor Gabriel em seu colo – Eu e o Rafa? Nós não estamos juntos... – a expressão de Julia variava entre envergonhada pelo furo e desolada porque realmente tinha gostado da companhia da garota, e já a imaginava como possível integrante da família.
– Oh, me perdoe, ... – desculpou-se, rindo – É que vocês parecem, você sabe... – procurava encontrar um termo que definisse a relação dos dois, sem sucesso.
– Imagina, Julia! – riu – Não é a primeira vez que perguntam, no Brasil já saiu até em algumas páginas de fofoca... – a morena rolou os olhos, voltando a brincar com os bracinhos de Gabriel – Mira su papa, bebé! Y su titio! – virou o bebê de frente para o gramado onde Thiago e Rafael disputavam uma bola, parecendo garotos.
– São duas crianças grandes demais, não é? – Julia riu, vendo o marido ser driblado pelo cunhado. Thiago alcançou Rafa numa corrida e roubou-lhe novamente a bola.
– Acho que todo homem perto de uma bola fica assim... – comentou, fazendo a outra rir – Y tú? Vas a ser jugador? perguntou ao pequeno em seu colo, plantando um beijo em sua bochecha gorducha.
– Você tá merecendo uma foto! – Rafa gritou do meio do gramado, parando a bola debaixo do pé, para frustração de Thiago. ergueu os olhos e se deparou com um sorriso enorme do rapaz, que admirava a cena da morena com seu sobrinho no colo.
– Vocês dois podiam dar um tempo... – Julia propôs – Acabaram de almoçar, vão passar mal... – alertou, vendo Thiago resmungar qualquer coisa e roubar a bola de Rafa, que ainda estava distraído pelas gracinhas de Gabriel.
– Volta aqui, vagabundo! – Rafa riu, correndo atrás do mais velho e roubando a bola com alguma dificuldade. Thiago tentou uma entrada para recuperá-la, mas foi driblado lindamente, fazendo Rafael gargalhar. Cara, como ele sentia falta daquilo... Ter o irmão por perto sempre fora um alento, e após três anos Rafa não podia dizer que já tinha se acostumado a não tê-lo em casa.
– Ahh, merda. – Thiago apoiou as mãos sobre os joelhos, sentando-se no chão – Me deu cãibra...
Viejito! – Rafa provocou, mas segurou a perna do irmão para o alto, estendendo a musculatura a fim de aliviar a dor.
– Vamos entrar? – Thiago chamou, assim que sentiu algum alívio na coxa, usando a mão de Rafa como apoio para se levantar – Tita pegou pesado hoje, vou passar mal...
– Ela fica mimando você, até quando tá longe. – Rafael revirou os olhos, correndo até e se jogando ao lado dela na espreguiçadeira para roubar um pouco de limonada do copo da garota – Tá aproveitando esse gostoso, né? – apertou a barriga do sobrinho, sorrindo.
– Eu não tô dando conta da delícia que ele é... – a menina sorria, brincando com os pezinhos do bebê, quando ouviu o som de um celular vibrando – Ih, Rafa, olha se é o meu? – pediu, estendendo a cabeça para olhar sobre a mesinha de vidro ao lado do rapaz – A Bruna deve tá ligando de volta, eu liguei pra contar do cano lá de casa...
– Hm... Não é a Bruna. – Rafa disse, pegando o celular que exibia uma foto de com um sorriso gigante no rosto, recebendo um beijo no rosto de um rapaz moreno – Lipe. – ele disse, entregando o celular para ela com uma expressão indecifrável.
– É o meu irmão. – quase riu, passando Gabriel delicadamente para o colo de Julia – Fala, baby! – atendeu à ligação, transformando-a logo em chamada de vídeo.
– Fala, doida! – Lipe sorriu do outro lado, uma carinha de sono que denunciava a ressaca – Que história é essa de cano estourado, garota? Tu arruma problema até na Espanha, ? – gargalhou.
– Nem fala disso... – a morena revirou os olhos – Tô ficando no Rafa até as coisas se acertarem lá.
– Rafa? – o moreno ergueu uma sobrancelha – Rafinha? Alcântara? – os olhos do garoto se arregalaram, e ele pôde ouvir algumas risadas tomarem conta do ambiente.
– Sim, Luis Felipe... Você ainda me mata de vergonha, garoto! – riu, virando a câmera para Rafa, deitado ao seu lado na espreguiçadeira – Rafinha Alcântara.
Puta merda... – Lipe murmurou, não contendo uma risada: aquele era o tipo de história que só tinha pra contar... Deco ficaria simplesmente alucinado quando soubesse daquilo.
– Fala, cara, beleza? – Rafa ergueu dois dedos em um cumprimento – Quer dizer que não é só aqui em Barcelona que essa morena causa?
– Rapaz... Você não sabe da missa a metade! – Lipe riu, sabendo que a irmã ficaria brava – Se eu te contar tudo que essa mulher já aprontou nesse Rio de Janeiro...
– Ei! Vocês dois! – protestou, voltando a câmera para si sob protestos de Rafa – Para de me difamar, infeliz!
– Lipe, depois a gente continua essa conversa! – Rafa gritou, tentando tirar o celular das mãos de .
– Sai, garoto! – a menina riu e, se esquivando, levantou-se.
– Ô Thiago, dá o Gabriel aqui. – Rafa pediu, chamando o irmão.
– Thiago? – Lipe ergueu as sobrancelhas, fazendo a irmã rir mais uma vez.
– É, baby. Ele veio passar o dia com o Rafa. – explicou, e o garoto sustentava uma expressão de choque – Você pode dar só um “oi” pra fazer o dia dessa criança? – perguntou ao jogador do Bayern que, rindo, deu um alô para o fã brasileiro – Tá feliz agora?
Porra! Pra caralho! – Lipe exclamou, entusiasmado.
– Olha a boca, tem criança aqui, menino! – riu, fazendo o irmão se desculpar brevemente – Se cuida tá, grandão? Tô com saudades e te amo.
– Também te amo, pequena. Volta logo que sem você tá foda. – resmungou – Opa, desculpa. – pediu, lembrando-se da advertência sobre xingamentos, antes de desligar.
– Os dois acabaram de tornar o dia de um adolescente feliz. – riu, voltando para o seu lugar na espreguiçadeira – Cadê eles?
– Foram pegar o violão, acho... – Julia explicou – Quando eles estão juntos não se desgrudam, , é melhor se acostumar... – riu, embalando o filho no colo – Thiago sente muita falta do Rafa, eles se falam todos os dias, mas não é o mesmo de quando morávamos em Barcelona.
– Imagino... – concordou com um sorriso fraco – O Rafa fala dele o tempo todo também, deve ter sido muito difícil pra vocês todos...
– Foi. – a loira concordou – Mas Munique é uma cidade linda, vocês têm que ir nos visitar qualquer dia! Tem um milhão de coisas que eu queria mostrar pra você lá...
sorriu, animada, tentando não prestar atenção na parte dela que gritava que era errado se incluir em um programa familiar com Rafa, quando eles não eram nada mais que amigos. A sensação se esvaía, contudo, quando pensava no quão bem se sentia ali, na companhia daquelas pessoas. Na companhia de Rafael.

– Então... – Thiago começou, sentando-se na cama de Rafa para observar o irmão enquanto este tirava o violão da capa.
– Então...? – Rafa ergueu uma sobrancelha, encarando o mais velho.
está morando aqui? – perguntou, reprimindo um sorriso e, ao ver a expressão do mais novo, continuou – O quê? Só tô tentando entender essa dinâmica...
– Você tá dando uma conotação errada... – Rafa riu, sabendo onde o irmão queria chegar – Ela tá ficando aqui até arrumarem o apartamento dela. – explicou. Sabia que aquele questionamento viria, só não imaginou que seria tão cedo. Aparentemente, Thiago só estava esperando pega-lo sozinho para dar o bote.
– E vocês dois são só amigos? – o mais velho continuou, adorando a forma como Rafa estava perdendo a paciência. Ah, ele tinha se esquecido como era bom encher o saco do caçula... – Sem benefícios?
– Sim, sem nem um mísero benefício, ok? – bufou, andando até a porta – Você vai ficar aí?
– Mas alguém queria um benefício, tô certo? – Thiago ignorou a pergunta do outro, seguindo-o pelo corredor.
– Thiago, eu vou te enforcar com essa corda de violão se você continuar sendo retardado. – Rafa revirou os olhos enquanto descia a escada, fazendo o irmão gargalhar.
– Não é difícil entender o seu lado, cara. Ela é linda, divertida... Eu acharia até estranho se você só quisesse ser amigo dela. – disse, num tom mais sério, e Rafa sentiu-se um pouco menos armado para o assunto. Aquilo tudo era verdade, afinal – Thaísa ia adorar ela, sabia? – Thiago deu seu veredicto assim que atingiram a sala – E mamãe também. – completou, sorrindo de canto.
Rafa encarou o irmão por um momento e, ao ver que ele não brincava, permitiu-se um sorriso. Encarou a varanda, onde Julia e conversavam animadamente sobre as fotos que a morena havia tirado de toda a família durante o dia, e não pôde impedir que o sorriso se alargasse e contagiasse seu olhar.
– Iam mesmo, né? - concluiu.
Thiago deu dois tapinhas no ombro do irmão, rindo antes de se juntar às garotas do lado de fora da casa.
– Sinto te informar, champs, mas vocês já são um casal mais real que muitos namorados por aí...




Corazón, nós temos que ir... – Julia disse, desligando uma chamada que recebera há pouco – Meus pais tão vindo pegar a gente aqui pra jantarmos com eles.
– Mas já? – Rafa protestou, feito criança, não querendo deixar a família ir embora. Segurou Gabriel instintivamente mais apertado no colo, aproveitando que Thiago se apossara do violão.
– Amanhã nós já voltamos pra Munique, Rafa. – Julia olhou tristemente para o cunhado e o marido, sabendo que este também sofria antecipadamente com a separação.
– Só mais uma música... – Thiago pediu, no mesmo tom que o caçula usara, dedilhando qualquer coisa enquanto pensava em algo para tocar – Ah, já sei! – exclamou, sorrindo de modo que antecedia uma traquinagem – Essa você sabe cantar também, mi amor...“Quando eu digo que eu deixei de te amar... É porque eu te amo.” – começou a letra de Evidências, causando uma série de risadas nos outros três.
Cantaram a plenos pulmões o maior clássico romântico brasileiro, rindo da própria empolgação e de quão engraçada a cena pareceria vista de fora. Rafa puxou para que ficasse de pé e a abraçou com Gabriel entre os dois, dançando à três. Julia e Thiago trocaram um olhar cúmplice ao perceber que o casal cantava a música, alheio ao quanto a letra parecia falar exatamente sobre eles. Foi apenas no refrão, enquanto cantava os versos mais conhecidos da canção, que Rafa percebeu a intenção de Thiago, o que fez com que precisasse conter uma risada.
“E nessa loucura de dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando as evidências, mas pra quê viver mentindo se eu não posso enganar meu coração?” – cantavam, trocando sorrisos pelas risadinhas que Gabriel dava ao ser chacoalhado de um lado para o outro entre os dois – “Chega de mentiras, de negar o meu desejo, eu te quero mais que tudo, eu preciso do seu beijo, eu te entrego a minha vida pra você fazer o que quiser de mim... Só quero ouvir você dizer que sim.” cantava com os olhos fechados, rindo sozinha do tanto de emoção que aquele tipo de sertanejo incitava até mesmo naqueles que não gostavam nada do estilo, como era o seu caso.
Rafa a observava com um sorriso preso ao canto dos lábios, admirando até mesmo a expressão dela ao desafinar em alguns agudos. E foi apenas naquele instante que Rafael percebeu como Thiago estava certo: estranho seria se ele não tivesse se encantado por uma mulher como , e todas as facetas dela que conhecera.
Ela era quando fotografava, e quando defendia ferrenhamente seus ideais. Era da risada solta enquanto gargalhava com ele de qualquer coisa idiota que só parecia ter graça para os dois. Era Cariño quando se encolhia feito criança em seu abraço, sorrindo de canto com as bochechas coradas. Nena ela era enquanto dançavam, seus rostos colados e corações no mesmo compasso, quando a noite era só deles. Era Morena nas manhãs ensolaradas e nas tardes descontraídas. Só havia uma coisa que ela não era, e isso mudava tudo: sua.




– Já pode ser cantor, mi amor! – Julia abraçou o marido por trás, sorrindo, assim que a música acabou – Agora levanta daí, que eu te conheço... Se eu deixar vai tocar até amanhã! – deu um tapinha carinhoso no ombro do rapaz, fazendo com que ele largasse o violão, contrariado.
– Tô te esperando lá em casa, mano. – Thiago abraçou o irmão, pegando Gabriel em um dos braços. Tentava não se emocionar, mas era o pior deles em despedidas, e deixar Rafa pra trás sempre lhe dava uma sensação de soco no estômago – E você também, , será muito bem-vinda. – sorriu para a morena, que o abraçou de volta.
– Foi um prazer, Thiago. Parabéns pela família linda. – a garota sorriu.
– Cuida dela, rapaz... – Thiago mandou, fazendo cara de bravo para Rafa, que também já denotava na expressão a tristeza por ter que se despedir, e se limitou a acenar, sorrindo, claramente segurando o embargo que buscava aparecer em sua voz.
, estou esperando uma visita! – Julia abraçou a nova amiga, sorrindo – E me manda as fotos depois, eu tô apaixonada por todas! – exclamou, fazendo sorrir, agradecida – Olha, eu sei que não devia falar isso, mas já estou indo embora mesmo... – deu de ombros, rindo de seu jeito despachado – Rafa tá muito bem. Feliz como eu há muito tempo não via... Se você for o motivo, o que eu acho bem provável, eu te agradeço de coração.
– Julia, eu... – começou a responder, sentindo-se corar.
– Shh, não precisa responder. – Julia piscou, sorrindo – Só... Continuem o que estão fazendo. Vocês ficam bem juntos. – completou.
– Pode deixar. – riu abertamente, desistindo de discutir.
e Rafa acompanharam os três à porta, aguardando até que o carro do sogro do rapaz aparecesse. Mais uma rodada de despedidas, e até mesmo já se sentia emocionada, pensando em quão agradável tinha sido o dia na companhia daquele ramo da família Alcântara. Ao entrarem novamente, Rafa estava quieto – algo bastante incomum à personalidade descontraída e expansiva do moreno – o que fazia sentir seu coração pequenininho dentro do peito.
A morena se sentou no sofá, puxando uma almofada para colocar sobre as pernas, e Rafa entendeu o recado: jogou-se sobre o colo dela, deixando que fizesse um carinho demorado em seus cabelos. Era mais um daqueles silêncios confortáveis em que os dois se aconchegavam, e permaneceram assim por um longo tempo.
– Eu adoro essa casa cheia... – Rafa finalmente disse, depois de vários momentos de silêncio – Sinto uma falta absurda deles. – confessou.
– Eu sei. – sorriu fracamente, tocando o nariz de Rafa carinhosamente. Talvez antes ela não pudesse compreender inteiramente a saudade pela qual o rapaz passava, mas agora, longe de Lipe, sabia exatamente o que era aquela dorzinha incômoda no peito.
– O que eu quero dizer é que... – ele parou por um segundo, parecendo considerar o que estava prestes a falar – Você pode ficar o tempo que quiser, cariño. – sorriu antes de completar, com simplicidade, fechando os olhos para se concentrar novamente no toque dela – Eu tô muito feliz por ter você aqui.


VI. ROBARTE UN BESO

“Déjame robarte um beso que me llegue hasta el alma
Como um vallenato de esos viejos que nos gustaban
Sé que sientes mariposas, yo también sentí sus alas
Déjame robarte um beso que te enamore y tú no te vayas”
(Robarte um beso – Sebastian Yatra)

– Para de roubar, Rafael! – protestou, ainda que risse, colocando o controle do Xbox ao seu lado no sofá enquanto a TV reprisava o gol de Rafa na partida de FIFA que disputavam.
não era boa em videogames... Lipe passara anos tentando capturá-la como parceira, sem sucesso. Ali estava ela, no entanto, se esforçando para ganhar de um jogador de futebol em um jogo no qual ele era completamente viciado... Tudo começara como uma forma de distrair Rafael da frustração por não ter sido escalado para a viagem a Madrid com o time, que jogaria contra o Sevilla na cidade do adversário, mas a verdade é que agora a morena já estava começando a pegar o jeito e a se divertir com o jogo. Se essa diversão tinha a ver com o fato de terem bebido uma garrafa de um excelente vinho chileno entre uma partida e outra, não saberia dizer.
– Como eu roubaria no videogame, corazón? – Rafa gargalhava do quanto a garota podia ser competitiva. Era a terceira vez que ele vencia e nunca se conformava com a derrota – Você que precisa escolher outro time, não sei por que cismou com a Juventus! – sugeriu, ainda rindo.
– Porque tem as mesmas cores do Botafogo! – a garota explicou, exasperada, antes de tomar um gole do vinho, sentindo a cabeça mais leve a cada minuto – Você tá roubando me deixando bêbada!
– Não é roubar se eu também estou! – Rafa riu do argumento dela, erguendo a própria taça e pausando o jogo para observar a garota que já se ajeitara no sofá, claramente desistindo de jogar – Vai desistir? – ergueu a sobrancelha, provocando-a.
– Eu não jogo pra perder, você sabe disso. – deu de ombros, encarando Rafael sobre a taça que levava mais uma vez aos lábios. Ela usava um moletom dele – já que a muitas de suas roupas ainda estavam no apartamento, que necessitaria de uma obra sem prazo de término – e Rafa se esforçava para compreender como ainda assim ela lhe parecia tão bonita. O tipo de indagação filosófica que apenas o álcool suscitaria.
– Eu sei disso. – Rafa repetiu, sorrindo de canto – Vamos jogar outra coisa então. – propôs.
– Eu sou ruim em tudo, Rafael! – ela gemeu, irritada, cruzando os braços e se afundando mais no sofá.
– Não tô falando de videogame, mami. – Rafa piscou, malicioso, levantando-se do sofá e andando até adega refrigerada no canto da sala para escolher mais um vinho.
– No que você tá pensando, Rafa? – ergueu uma sobrancelha, desconfiada, quando o rapaz retornou com a bebida.
– Jogo da verdade. – ele deu um sorriso gigante, como se fosse a melhor ideia que já tivera, e gargalhou.
– Quantos anos nós temos? Doze? – brincou, mas permitiu que ele enchesse mais uma vez seu copo já vazio.
– Vamos lá, vai ser bom. – Rafa sorriu, sentando-se no sofá de frente para , de forma que tivessem que se encarar a cada resposta – Você começa.
– Rafa, eu não tenho criatividade! – a garota riu, sentindo-se novamente na quarta série – Oh, meu Deus... – ela se esforçava para fazer uma boa pergunta – Ok, como é ser famoso?
– Ah, vamos lá, , você pode fazer melhor. – Rafa riu da pergunta dela – O álcool não é à toa, vamos tornar isso interessante. – sorriu, e sentiu-se tontear frente à malícia daquele sorriso.
– Me deixa pensar... – ela murmurou, bebendo do vinho enquanto pensava em algo. Sorriu. Ele queria deixar interessante? – Quantas meninas você já beijou numa mesma noite? – perguntou, rindo. Definitivamente, quarta-série. Ou oitava. Rafael soltou uma gargalhada aberta antes de responder.
– Acho que vai ser decepcionante. – riu, encarando a morena que aguardava sua resposta com um sorriso de canto – Cinco, seis... Não passou muito disso.
– Já é bastante. – riu, mas de fato imaginara um número de dois dígitos.
– Vou devolver a pergunta. – Rafa sorriu de canto, piscando.
– Mais decepcionante ainda. – riu, jogando a cabeça para trás – Eu namorei dos 16 aos 23, Rafa, não tive um período vida louca. Minha resposta é um grande e sonoro: UM. – completou e os dois riram juntos.
– Olha como ela é certinha, gente! – Rafa implicou, ganhando um chute em resposta.
– Chato! – riu, enfiando o rosto no encosto do sofá – Você já traiu? – perguntou genuinamente curiosa quanto à resposta.
– Essa é fácil. – Rafa sorriu – Eu nunca estive em um relacionamento, então não. Você já? – perguntou por perguntar, já que conhecia o suficiente para imaginar a resposta. Ela maneou a cabeça em uma negativa enquanto levava a taça aos lábios.
– Mas já fui traída. – completou, com um sorriso amargo, e Rafa baixou os olhos, sem saber o que dizer.
Ali estava algo que Rafa nunca compreenderia: por que alguém traía se estar em um relacionamento implicava em amar tanto uma pessoa e apreciar tanto a sua companhia, que outras se tornavam desnecessárias? Para ele parecia muito simples: nunca namorara porque ninguém havia lhe despertado um sentimento tão forte de cumplicidade e completude, mas a partir do momento em que essa pessoa aparecesse, ele seria dela porque não precisaria de mais ninguém.
– Vamos lá... – quebrou o silêncio, voltando à brincadeira – Qual a maior vergonha que você já passou na vida?
– Vergonha? – Rafa repetiu e não precisou pensar muito para responder – Quando eu tinha uns 13 anos eu era completamente apaixonado por uma menina da minha sala, e achei que seria uma ótima ideia me declarar no pátio do colégio, na frente de todo mundo... – riu, lembrando-se da cena, mas soltava um ‘awn’ imaginando um pequeno Rafa apaixonado – Ela não gostava de mim e me deixou falando sozinho, então eu comecei a chorar na frente da turma inteira. – terminou e abriu a boca de surpresa, fazendo um carinho na perna dele.
– Ai, Rafa, que judiação! – exclamou, mas o moreno ria. Hoje, conseguia ver quão cômica era toda a situação, mas na época passara um tempo sem querer voltar ao colégio – Vamos lá, sua vez... – avisou e viu Rafa se demorar na formulação de uma pergunta.
– Ah, eu já sei... – deu uma pequena risada antes de continuar, coçando a nuca uma vez antes de perguntar – Qual o lugar mais... Exótico... – ele riu mais uma vez – Em que você já... – parecia buscar um termo apropriado, mas já explodira em uma risada, compreendendo a pergunta – ... fez amor?
– Rafael, eu vou te matar! – cobriu o rosto com as mãos, tentando parar de rir de nervoso – Nada muito exótico, eu acho. – respondeu, encolhendo os ombros, mas sabia que ele não se contentaria com aquela resposta – No mar, talvez. – murmurou tão baixinho que quase não era possível ouvi-la.
– Onde? – Rafa perguntou, sorrindo para deixar claro que ouvira sim à resposta dela.
– NO MAR, Rafael. – falou alto, revirando os olhos e levando a uma risada do moreno – Responde você agora... – a garota repassou a pergunta, bebendo um gole de vinho só como pretexto para desviar os olhos de Rafael.
– Hummm, deixa eu pensar... – ele se espreguiçou, fazendo revirar os olhos.
– O quê? Vai dizer que você é tão criativo que tá assim cheio de opções? – perguntou e Rafa deu de ombros, rindo.
– Você se surpreenderia... – piscou, fazendo a garota grunhir um “ai, Rafael”. Ele simplesmente adorava provocá-la e fazer com que se envergonhasse – Acho que foi provavelmente no banheiro da festa do Ballon D’or...
– Você tá zuando, né? – ergueu as sobrancelhas, mas podia ver pelo sorriso sacana de Rafa que não, ele não estava – Puta merda, Rafael! – ria, maneando a cabeça em uma negativa – Não dá pra brincar com você. – ergueu os braços em rendição.
– Minha vez! – Rafa sorriu, animando-se com a brincadeira – Por baixo ou por cima? – perguntou e, cara, ele queria muito aquela resposta. Foi a vez de sorrir com malícia.
– Nenhuma das anteriores. – ela piscou, bebendo mais um gole do vinho e deixando Rafael sem resposta por um segundo, para sua completa satisfação.
– E qual é? – ele perguntou, ainda surpreso, um sorriso crescente nos lábios.
– Não é sua vez de perguntar, cariño. – deu um sorriso gigante enquanto pensava em uma pergunta – Ah, eu tenho uma! – gargalhou, enchendo o outro de expectativas – Despacito, suave-suavecito... – ela sorriu – Ou rapidito?
Rafa precisou controlar as risadas antes de finalmente responder. Ela definitivamente queria tirá-lo do sério... E estaria mentindo se dissesse que estava longe de conseguir.
– Des-pa-cito pra começar... – sorriu de canto, silabando a palavra – Rapidito quando as coisas começam a ficar realmente boas. – o sorriso se alargou e não conteve uma risada, enquanto buscava esconder quão corada estava – Ah, eu tenho uma! – Rafa sorriu. Por que mesmo não tinha pensado naquilo antes? – Complete a frase: mandar nudes é...?
– INSANIDADE! – gargalhou – Rafael, isso não é pergunta!
– É sim! – ele fez um bico contrariado – Eu te respondo, mesmo sem você perguntar: é...uma delícia.
– Eu acho que vou suspender seu vinho... – a garota brincou, avançando sobre a garrafa ao lado de Rafael.
– Ei, ei, não senhora! – Rafa riu, segurando o corpo pequeno da menina que se debruçara sobre ele, tão próximo que podia sentir o cheiro do perfume dela misturado ao do vinho, causando um efeito que nem o álcool fora capaz de causar.
sentiu o riso morrer na garganta quando se viu tão próxima de Rafa, as mãos espalmadas sobre a camiseta branca que ele usava e os rostos tão próximos que podia distinguir perfeitamente os tons de castanho e ocre nos olhos que a encaravam com um brilho que ela não tinha nunca visto ali, brilho que a desconcertava, que drenava a força de seus membros e esquentava o sangue dentro de seus vasos.
– Rafa... – conseguiu murmurar, a voz entrecortada quando sentiu a mão dele subindo por suas costas até o pescoço, causando uma trilha de arrepios pelo corpo da garota.
As palavras de Rafa eram quase um gemido, a voz rouca pela bebida e o desejo. Era uma verdadeira confissão: direta, simples, sem rodeios, com a melhor assinatura de Rafael.
Morena, eu tô louco pra te beijar.
sentiu aquelas palavras como um choque a atravessar seu corpo e fazer com que seus sentidos subitamente se vissem cientes da presença de Rafael como nunca: ela podia ver a sinceridade nos olhos dele, e como seus lábios pareciam tentadores; sentia a firmeza do toque dele em sua pele e o calor que compartilhavam; o perfume dele – já um velho conhecido – se fazia presente misturado a novos odores: vinho e creme de barbear; no silêncio que se instalara no ambiente, era fácil ouvir a respiração pesada e descompassada de ambos. Só lhe faltava o paladar e estaria mentindo para si mesma se dissesse que não sentia, naquele momento, uma vontade absurda de saber que gosto teria Rafael.
Ela recuou.
Contrariando todos os seus desejos, impulsos e instintos, desgrudou seu corpo de Rafa, sentindo quase dolorosamente a quebra do contato entre os dois. Cada célula de seu corpo parecia desejar Rafael, mas os poucos neurônios sobreviventes ao choque que era tê-lo tão perto a alertaram para o perigo invisível de se envolver com alguém com quem se importava tanto, com seu melhor amigo. Era uma relação que ela simplesmente não podia arriscar por causa de um momento de desejo. Mirou as próprias mãos por um instante antes de olhar novamente para ele, e o que viu fez seu coração se quebrar.
– Rafa, eu... – tentou começar, mas perdeu a coragem ao fitar os olhos dele que agora lhe pareciam tão escuros. não conseguia ler o que se passava por trás daqueles orbes tão conhecidos e tipicamente calorosos: era algo novo, e não era bom. Se ela tivesse que apostar, diria que era decepção.
– Me desculpa por isso. – Rafa disse, a voz um tom mais baixo que o habitual, depois de um segundo contemplando a face corada da morena que o observava atentamente. Ele desejava que ela não fizesse isso: era como estar com 13 anos e se declarando para a menina mais bonita do colégio e recebendo uma negativa. Pelo menos dessa vez não havia plateia.
– Você não tem que pedir desculpas... – se apressou em dizer, desejando de todo coração que aquele momento não estivesse acontecendo: ela não suportava ser o motivo da ruga entre as sobrancelhas de Rafa – Eu que...
– Tá tudo bem, . – Rafa respondeu, levantando-se do sofá depois de um afago rápido na perna da garota: a pele dela parecia brasa sob seus dedos, e o rapaz sentia uma necessidade absurda de sair de perto dela para enfim conseguir respirar em paz – Vamos fingir que isso nunca aconteceu, certo? – deu um sorriso forçado à figura que o observava sem saber como agir, e uma parte dele desejou abraçá-la e prometer que tudo ia ficar bem, mas a parte vencedora foi a que sabia que aquele abraço levaria embora sua sanidade, e seria mais do que ele poderia suportar – Eu vou tomar um banho e já volto, ok?. – avisou, subindo as escadas de dois em dois degraus e deixando uma devastada no sofá. O que ela havia feito?
ouviu a porta do quarto de Rafa se fechar no andar de cima, e foi como se aquilo lhe despertasse para a realidade da situação que vivenciava: chorou. Chorou copiosamente como não havia feito em meses, em silêncio, sentindo uma insegurança incomum se apossar de seu coração: o que ela faria sem Rafael? Nunca havia se percebido tão dependente dele, da felicidade dele, e a possibilidade real de perder aquela relação tão sincera e leve que haviam construído nos últimos meses lhe dava um nó na garganta e um gosto amargo na boca. Chorava de tristeza, frustração e raiva: era como se todo seu esforço e autocontrole para preservar a amizade houvessem feito justamente o oposto, e trincado aquilo que lhe era tão precioso. E isso doía.
A garota já cochilava no sofá – cansada de esperar que Rafael voltasse e sem coragem de bater na porta do quarto dele – quando o som de passos na escada chamou sua atenção. Sentou-se, aguardando pelo rapaz em silêncio, disposta a conversar, mas não sem antes sondar como ele estava. E ele era um poço de silêncio que não reconhecia. Não era o seu Rafa.
– Oi. – sussurrou, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha e forçando os olhos a se acostumarem com a escuridão, para então perceber que Rafa estava vestido com roupas de sair.
– Oi. – ele respondeu com um sorriso fraco – Alguns dos caras chamaram pra dar uma volta, tomar uma... Não deve ir até muito tarde. – explicou e percebeu que já procurava as chaves sobre a arca da sala.
– Ah. – a garota não conseguiu controlar a interjeição de surpresa. Não era como se Rafa fizesse muito aquilo, então era natural que associasse à situação anterior: ele queria fugir dela, e isso significava que as coisas eram piores do que imaginava – Okay.
– A casa é sua, . – ele disse, já andando em direção à porta – Qualquer coisa é só me ligar.
– Tá bem. – a garota respondeu, já sentindo o nó se formar na garganta mais uma vez – Aproveita, Rafa. – desejou, e o sorriso que ele deu antes de fechar a porta não era nada como os que ela adorava.
Naquela noite, chorou até adormecer: chorou porque se sentia uma intrusa naquela casa, porque tinha estragado tudo com suas melhores intenções, porque doía se lembrar do olhar dele quando recusou o beijo... Chorou porque tinha perdido Rafael.




Não passava das nove da manhã quando despertou, ouvindo algum movimento no andar de baixo da casa de Rafael. Ela não fazia ideia de que horas tinha finalmente adormecido, mas era tarde e ele ainda não havia chegado. Desceu as escadas e foi em direção à cozinha munindo-se de toda a determinação que tinha para enfim ter uma conversa honesta com Rafa e, se preciso fosse, implorar que as coisas voltassem a ser como eram. O maior problema era que, além de não acreditar ser possível, uma questão a perturbara por toda a noite: não tinha mais certeza de que voltar ao normal seria suficiente.
Toda a coragem caiu por terra quando se deparou com a figura que abria a geladeira: uma bela morena de olhos castanhos usando roupas da noite anterior e que a mirava com a mesma expressão de choque que conservava.
– Dios mío... – a garota murmurou, deixando a garrafa d’água que pegara sobre a mesa, talvez por medo de deixá-la cair – Você...
– Não sou namorada. – respondeu completamente no automático. Aquilo não podia estar acontecendo, certo? Sentia o coração disparado e as mãos tremendo, mas se recusava a perder o controle frente a uma estranha – Eu pensei que fosse o Rafael, desculpa. – conseguiu dizer, sentindo a voz falhar em alguns momentos.
– Ele tá dormindo. – a garota disse, servindo-se de água e podia perceber que ela também estava desconfortável – Pelo tanto que bebeu, acho que não acorda tão cedo. – explicou, torcendo o canto da boca em aparente desgosto.
– Eu vou só trocar de roupa, mas já tô saindo. – avisou, não queria detalhes da noite de Rafael. Não mesmo – Fica à vontade. – disse, sinceramente, já se encaminhando novamente para a escada. Quem era ela, afinal, para achar ruim pela presença da garota?
– Ei, espera! – a garota chegou até a sala – Pilar. – apresentou-se, e se forçou a colocar um sorriso nos lábios e tentar ser simpática.
. – respondeu, louca para encerrar o assunto e sair daquela casa o mais rápido possível.
– Ah, então é você. – a outra sorriu sem mostrar os dentes para algo que parecia ter feito sentido em sua cabeça – .
– Sim... – tombou a cabeça, levemente interessada no que viria a seguir. Rafael saíra por aí contando aos outros que fora rejeitado por ela?
– Então eu acho que... – ela pareceu relutar com o que estava prestes a dizer – Acho que você deveria saber. – parou por um momento, e prendeu a respiração tamanha a tensão que tomou conta de seu ser: o que diabos estava acontecendo? – Nada aconteceu. – ela encolheu os ombros – Entre nós dois, digo. – completou, parecendo insatisfeita – Ele me chamou de e acabou ali pra mim. Se quer saber a verdade, acho que ele também nem estava muito afim, eu só não fui embora ontem mesmo porque não tinha dinheiro pro táxi, e resolvi esperar até que amanhecesse pra pegar um banco aberto... – explicou, parecendo um pouco envergonhada – Bem, eu acho que vocês deviam resolver o que quer que tenha entre os dois. – ela sorriu minimamente – Aquele idiota realmente gosta de você.
subiu as escadas ainda atordoada: saber que Rafael não dormira com Pilar a deixava estranhamente aliviada, mas não conseguia controlar a pontada de raiva que sentia por ele ter saído, enchido a cara e levado uma mulher pra casa quando podiam ter sentado e conversado sobre o que havia acontecido entre eles para que então ele pudesse agir conforme quisesse. Trocou de roupa rapidamente, rezando para Rafael não acordar até que tivesse tempo de sair de casa e, quando chegou à sala, Pilar também já partira, como disse que faria.

, tá tudo bem? – Bruna perguntou, estranhando que a amiga ligasse tão cedo.
– Eu e o Rafa, nós... – respirou fundo, vendo que o taxista observava atentamente a conversa. De onde vinha aquela vontade imensa de chorar? – Eu posso passar aí, Bru? – pediu, por fim.
– Claro! – Bruna exclamou e podia sentir a preocupação em sua voz – Vou te mandar a localização por mensagem, tá?
– Tá bem. – suspirou, fechando os olhos – Obrigada.
A viagem até a casa de Neymar não foi longa: em poucos minutos estava na varanda da mansão que em nada se parecia com a primeira vez que estivera ali, tão vazia e silenciosa. Bruna logo apareceu, trajando um roupão branco e trazendo duas xícaras nas mãos.
– Fiz pra você. – entregou uma para antes de puxá-la para um abraço, dentro do qual se permitiu desabar – Shhh, calma, calma... – Bruna afagava as costas da amiga, conhecia pela voz e sabia, ao atender a ligação, que ela não estava nada bem; Era como voltar para quando a garota ainda namorava Caê, e vivia nos altos e baixos daquele relacionamento. Sentaram-se em um dos confortáveis sofás e Bruna deixou que a amiga se acalmasse para então perguntar – , o que aconteceu?
– Eu estraguei tudo, Bru. – a garota fungou, tomando um gole de chá sem fazer ideia de quão cômica estava com a ponta do nariz vermelha e brilhante – Ontem nós... Nós bebemos um pouco, e o Rafa tentou me beijar. – contou, mirando as próprias mãos, envergonhada.
– Oh, isso... – Bruna murmurou. Não era como se ela não estivesse esperando por aquele momento, a única coisa fora do lugar era a reação de : isso ela não conseguira compreender – Vocês se beijaram? – perguntou e negou com a cabeça, fechando os olhos e deixando mais algumas lágrimas caírem – Ah, , por quê? – perguntou, sofrendo.
– Eu não sei! – ergueu os olhos, confessando-se à outra com toda sinceridade – Ele me pegou de surpresa, acho que me assustei. – explicou – E fiquei com medo, Bruna, medo de estragar tudo na nossa amizade... E olha o que aconteceu. – concluiu, olhando para o alto para impedir que mais lágrimas caíssem.
– Ai, amiga... – Bruna a puxou para um abraço – Mas vocês podem conversar, voltar a se entender. O Rafa te adora!
– Mas não foi só isso... – a garota tomou fôlego para continuar, contando então sobre o encontro com Pilar no café da manhã, o que indignou Bruna a ponto de fazê-la ficar de pé andando de um lado para outro enquanto ouvia o relato.
– Puta merda, Rafael, eu tento te ajudar, mas assim fica difícil... – falou consigo mesma.
– Não tem como eu continuar lá. – murmurou, secando o rosto com as mãos – Fora o clima chato, hoje caiu a ficha do quanto eu posso atrapalhar a vida dele, sabe? – confessou, e dizer aquilo fazia seu coração apertar dentro do peito – Ele precisa ter liberdade pra, você sabe... Fazer o que quiser na casa dele, com quem quiser... – fitou os próprios pés, a voz sumindo a cada palavra.
– Querida, você pode ficar aqui. – Bruna sorriu fracamente – Isso não é o problema.
– É o principal. – rebateu. Sabia onde a amiga queria chegar, mas esse assunto para ela estava cercado de fitas amarelas de “não se aproxime”, tal quais as cenas de crimes que ela assistia com Rafael nas noites intermináveis de Law and Order.
– Não, não é. – Bruna se sentou novamente ao lado da amiga antes de continuar – Você tem que começar a se perguntar o porquê de estar tão mal com isso tudo, . – aconselhou – Eu já te vi passar por perrengues piores, e você saiu deles rindo.
– Eu gosto do Rafa, Bru, isso não tá em questão... – ela deu de ombros – Você e ele são tudo o que eu tenho em Barcelona.
– Se você tivesse brigado comigo, tinha me xingado, mandado à merda, me jogado um copo d’água... E depois rido. – enumerou, arrancando uma risada anasalada da outra – Porque é isso que somos, amigas. Que resolvem as coisas como tal.
– Bruna, não... – tentou protestar, mas não tinha argumentos fortes o suficiente para contestá-la.
– Me ouve, por favor. – Bruna pediu, segurando as mãos de antes de prosseguir – Eu acho que você gosta dele mais do que quer admitir pra si mesma. E amiga, eu te entendo... Se tem uma pessoa que te entende, sou eu. – disse, com uma risada – Entendo o medo de se envolver com alguém do outro lado do mundo, e que ainda por cima carrega uma quantidade enorme de mídia pra cima dele... E sei também que o meu exemplo de “namorar um jogador de futebol” não é o mais inspirador nesse sentido, com todas as confusões de idas e vindas... Mas vocês dois são diferentes. – ela sorriu – Caramba, , vocês são amigos. São cúmplices, parceiros. Isso é tão bonito! – concluiu, sentindo os olhos marejarem.
baixou os olhos, sentindo lágrimas rolarem mais uma vez, enquanto absorvia tudo o que Bruna dizia. Tudo que ela procurara a todo custo evitar que passasse por sua mente, mas que estava ali por todo aquele tempo. Todos os medos, inseguranças e freios que a impediam de admitir que o que sentia por Rafael fora alimentado com carinho, atenção, respeito, e crescera até aquele ponto. Até florescer.
– Ele tá bravo comigo. – murmurou, só então percebendo o quão infantil aquilo soara. Era realmente a primeira coisa que conseguia dizer depois de toda uma reflexão que levara a conclusão de que estava se apaixonando por seu melhor amigo?
– Vai ficar tudo bem, Prin. – Bruna sorriu, apertando o nariz da amiga com carinho, usando o apelido que tinham na infância. “Prin”, de Princesa. – Eu acredito em vocês.
sorriu fracamente, acenando uma vez. Ela não sabia o que o futuro reservava, mas um peso parecia ter saído de suas costas, e por enquanto isso bastava.
– Bom dia, meninas... – Neymar apareceu, olhos semicerrados pela claridade. Ele fora poupado no jogo e também não viajara com o resto do time
– Bom dia... – as duas responderam em uníssono.
... - ele disse, levando a mãos aos cabelos – O Rafa tá vindo aí.
– Amor, eu falei pra não dizer nada! – Bruna protestou, indignada. Devia ter imaginado que a cumplicidade masculina faria que o namorado traísse sua confiança.
– Tá tudo bem, Bru. – tentou tranquilizar a amiga. Estava feito, afinal – A gente ia precisar conversar mesmo...
– Ele tava muito desesperado, , foi só por isso que eu falei. – Neymar se desculpou e a garota deu um sorriso fraco, limpando algumas lágrimas remanescentes.
– Vai ficar tudo bem. – acenou para Bruna, repetindo o que escutara dela, e a outra apertou sua mão.

Assim que o som do carro de Rafael acelerando do lado de fora se fez audível, Bruna avisou para que estaria dentro de casa e entrou junto de Neymar, deixando que a garota aguardasse por ele. E ela o fez, com o coração disparado e as mãos tremendo, subitamente sem saber o que dizer. Rafa cruzou o jardim rapidamente, os olhos cobertos por óculos escuros, mas sabia que a examinava a todo instante. Parou na frente da garota, tirando as lentes da frente dos olhos e finalmente exibindo as manchas arroxeadas que tomavam suas pálpebras inferiores.
– Você tá péssimo. – quebrou o silêncio, tomando um gole de seu chá, que já estava morno.
– Eu sei. – a voz de Rafa estava rouca, e ele finalmente tomou coragem para se aproximar, sentando-se no sofá ao lado dela, com alguns centímetros de segurança. Então era aquilo a famigerada ‘ressaca moral’? – , eu preciso me desculpar por ontem... – pediu, atropelando as palavras pela ansiedade de dizer tudo – Eu não devia ter saído daquele jeito.
– Rafa, você tinha todo o direito de sair, eu só queria que a gente tivesse conversado antes, acertado as coisas... – explicou, fitando aqueles olhos castanhos que tanto adorava e que hoje já se pareciam mais com o que se lembrava, apesar de atormentados. Suspirou, prestes a prosseguir com a parte mais difícil do discurso que ensaiara – Mas isso foi importante pra que eu visse que não dá pra ficar morando lá... – disse e, vendo que ele protestaria, ergueu uma mão pedindo para continuar – Você precisa ter liberdade na sua própria casa, e eu me sinto mal sabendo que estou te tirando isso... – confessou, sentindo as bochechas corarem.
– Você... – Rafa começou, suspirando uma vez antes de prosseguir – Você encontrou a Pilar, não é?
– Sim. – murmurou, fitando o conteúdo da xícara que tinha em mãos.
– Ela deixou um bilhete falando que tinha encontrado você. – Rafa confessou, lembrando-se do post-it que a garota deixara colado no espelho do banheiro dele: ‘sua é uma graça. Vá atrás dela, idiota.’
– Ela é uma garota legal. – disse, simplesmente, lembrando-se de tudo que a outra dissera, como poucas fariam. Rafa se manteve em silêncio, pois não era como se pudesse realmente opinar: conhecera a garota e pouco se lembrava do que conversaram. Sabia que ela se parecia com , e na noite anterior isso lhe bastara. Depois vinham flashes de uma discussão breve e ele apagando na cama, ainda de roupa. Pensando na atitude dela com o bilhete, contudo, podia concordar com : era uma garota legal. – Foi um constrangimento pra nós duas, entende? – continuou, e Rafa quis bater a própria cabeça no concreto imaginando o que fizera passar – É por isso que não dá pra gente continuar assim, Rafa...
– Não vai acontecer de novo... – assegurou, segurando sua mão. Era o primeiro contato deles desde o quase-beijo na noite anterior: a pele dela ainda queimava.
– Rafa, é a sua casa... – tentou sorrir – Eu não posso tirar esse direito de você, não tá certo. Eu vou ficar aqui.
Ele engoliu seco, segurando tudo o que queria dizer: que não queria esse direito. Que não tinha vontade de mais ninguém. Que a noite anterior fora um erro e que ele só queria conquistá-la do jeito certo, e não com um beijo roubado em um Jogo da Verdade. Que tudo que queria era que ela voltasse pra casa.
Refreou cada um desses argumentos, contudo, para não mexer em uma ferida que ainda estava aberta e pungente entre eles: se estava magoada porque ele tentara forçar suas barreiras, criando uma rachadura naquela amizade tão sólida, não seria ele a tocar mais uma vez no assunto “nós”. E se era o amigo que ela queria de volta, Rafa se esforçaria ao máximo para sê-lo, respeitando seus limites, por mais difícil e doloroso que pudesse ser. Uma confissão, entretanto, escapou de seus lábios antes que pudesse contê-la.
– Eu vou sentir sua falta, cariño.
deu um sorriso fraco, afagando o rosto de Rafael com a ponta dos dedos. Ele pediu que ela se despedisse de Neymar e Bruna por ele, e se ofereceu para levar sua pequena mala até a casa dos amigos mais tarde. A diferença na forma como se tratavam já era palpável e machucava a ambos: eles eram da risada solta, da brincadeira fora de hora, do carinho desmedido e exagerado... Viver pisando em ovos e pensando duas vezes antes de falar era o mesmo que minar o que havia de mais bonito entre os dois.
Rafa entrou no carro e o vazio no banco do carona parecia uma agressão direta: que merda de vida era aquela em que as coisas podiam ir de incrivelmente perfeitas a completamente destruídas tão rápido? Socou o volante, frustrado, e levou alguns minutos até ter coragem de girar a chave na ignição e acelerar rumo a uma casa vazia. Era verdade: ele sentiria falta dela feito louco.


VII. ME ENAMORÉ

“Me enamoré, me ena-na-namoré
Lo vi solito y me lancé
Me ena-na-namoré
Me ena-na-namo
Mira que cosa bonita
Que boca más redondita
Me gusta esa barbita”

(Me enamoré – Shakira)


– Bruna, que vergonha... – desceu os óculos da cabeça para os olhos, vendo que atraía alguns olhares no camarote luxuoso do CampNou – Eu te falei que a gente devia ter ficado lá embaixo pra não chamar tanta atenção...
– Você devia parar de ser chata e começar a aproveitar, que tal? – Bruna estourou uma mola de chiclete, rindo de canto do constrangimento da amiga por estar em um camarote repleto de namoradas e esposas dos jogadores. Desde que saíra da casa de Rafa, a garota conservava um mau humor recorrente que chegava a ser engraçado – Não é todo dia que você assiste a um Barcelona x Juventus pela Champions.
– Ai, eu te odeio, garota. – bufou, rolando os olhos detrás das lentes – Eu tô nervosa, me deixa! – murmurou, apertando os dedos da mão até estalá-los. Desde que Rafa avisara que começaria como titular, tinha passado a encarar o jogo de outra forma: precisava que tudo corresse bem.
– Tô vendo... Uma verdadeira WAG, ela... – brincou e, antes que o protesto de viesse, completou: – Brincadeira, Furacão !
– Não sei como eu ainda sou sua amiga... – riu pelo nariz, andando até a margem do camarote para dar uma olhada no campo e aproveitando para virar-se de costas a fim de que a amiga não percebesse que corava. Os jogadores ainda não tinham ido para o aquecimento, mas segundo Bruna isso deveria acontecer em breve.
– Eu vou pegar uma bebida pra nós, tá? – Bruna avisou – Não sai daqui.
acenou positivamente, distraída em observar o mosaico que os torcedores começavam a organizar nas arquibancadas. Sorriu. Era uma torcedora apaixonada do Botafogo e frequentara estádios com o pai desde a infância. Talvez por isso o sentimento de estar em um estádio em um jogo de tanto peso lhe fosse tão calorosamente familiar... Se estivesse lá no meio do resto da torcida, contudo, sabia que se sentiria mais em casa, e não ali blindada de toda a emoção pelo camarote. Tirou a câmera de dentro da bolsa de couro, fotografando a torcida. Checou o resultado no visor para então concluiu que tinha um bom ângulo e que eram boas panorâmicas, mas nada comparado ao que gostava de fazer. Não era o seu trabalho.
Quando o celular vibrou dentro do bolso traseiro do jeans justo que usava, precisou se equilibrar para manter a câmera em mãos e pegar o aparelho. A mensagem era esperada, mas ainda assim lhe trouxe um sorriso aos lábios.

Rafael Alcântara: você tá usando meu presente?

riu de canto, tirando uma foto de si mesma focando a camisa do Barcelona que Rafa deixara com Neymar no mesmo dia em que ligou pedindo que ela fosse à partida. A garota sentiu o coração se aquecer ao pedido, sentindo que talvez as coisas estivessem voltando ao normal... Mas a verdade é que sabia que se realmente estivessem, Rafa teria deixado a camisa pessoalmente e feito questão de vê-la vestida com ela imediatamente. Baby steps...

enviou uma imagem.

Rafael Alcântara:
conseguiu ficar mais linda! hahaha mas quero ver de costas!

: para de querer dar uma olhada na minha bunda, Rafael! HAHAHAHA

A garota enviou a mensagem, e mordeu o lábio em apreensão enquanto aguardava a resposta: era o tipo de coisa que diria, certo? Se pretendia manter o clima bom entre eles, o melhor que podia fazer era agir naturalmente...

Rafael Alcântara: HAHAH um cara pode sonhar, cariño... :p

sorriu, e respirou fundo antes de pedir a um segurança próximo dali que tirasse uma foto de suas costas exibindo o nome de Rafinha junto do número 12.

enviou uma imagem.

Rafael Alcântara: aí sim, morena... Ia pedir pra me desejar sorte, mas acho que agora nem preciso hahah

Rafael Alcântara: vejo você depois do jogo, né?

: vou desejar mesmo assim! Meu coração já tá disparado de nervoso! hahah Você ainda me mata, Rafael!

: e sim, nos vemos depois do jogo. Pra comemorar 

– Ah, então essa é a garota do Rafinha! – a voz fez se sobressaltar enquanto guardava o celular no bolso, virando-se para dar de cara com uma morena de cabelos cacheados e um sorriso absurdamente simpático que caminhava ao lado de Bruna, cujos braços estavam erguidos em uma clara postura de “não tenho nada com isso!”.
– Eu não colocaria assim... – sorriu, tentando não transparecer nada além de simpatia – Mas se quiser chamar assim todas as garotas que estiverem com a camisa dele, tá tudo certo por mim. – deu de ombros, descontraída.
– Sandra! – a garota sorriu, abraçando a carioca antes que pudesse se preparar para tanto: era realmente uma coisinha simpática... – A garota do Denis. – piscou.
– Muito prazer, Sandra. – sorriu, lembrando-se de quando Bruna listara as WAGs de quem mais gostava: aquela era a líder da lista – .
– Toma, bebe pra tirar esse tom verde da cara. – Bruna gargalhou do constrangimento da outra, entregando-lhe uma longneck como a que ela e Sandra carregavam – Nós estávamos falando sobre você...
– Eu percebi. – deu um sorriso mordaz para a amiga, que sorriu de canto.
– Eu estava dizendo a Bruna que Denis comentou sobre o péssimo humor do Rafa nos últimos tempos, falando que ele virou piada no vestiário... – franziu o cenho, parecendo verdadeiramente sentida.
– E eu lembrei de comentar que, olha que coincidência, você também tem vivido uma TPM perene. – Bruna conteve uma risada ao ver a expressão que variava entre constrangida e enraivecida de .
– Vocês sabem de uma coisa, - sorriu, olhando para Bruna sugestivamente, desafiando-a a continuar aquele assunto – acho que vou assistir lá embaixo, tirar algumas fotos da torcida.
– É tão difícil pra você sossegar, garota? – Bruna rolou os olhos, mas a outra já se despedia com um beijo estalado em sua bochecha.
– Vejo vocês daqui a pouco. – acenou – Foi um prazer, Sandra!
A morena andou até as arquibancadas, sentindo finalmente a atmosfera que tanto lhe agradava em uma partida de futebol. Os cânticos catalães já eram entoados, e não consiga nem mesmo imaginar como era para um jogador Bianconero lidar com uma pressão daquelas... Era uma coisa linda de se ver – uma aura poderosa, forte, e repleta de emoção que a brasileira captava em suas lentes. Um pai com a filhinha no colo, usando a camiseta de Messi; um casal de namorados uniformizados trocando um olhar de pura animação; um grupo de adolescentes com pintura facial cantando a plenos pulmões; um senhor de idade fitando o campo com seriedade e apreensão... Aquilo era futebol: um jogo para o público. Mais que os jogadores – que iam e vinham, trocavam de clube a cada poucas temporadas – ali estava o que realmente importava, o que permanecia... A torcida.
Quando os jogadores começaram a entrar em campo para o aquecimento, se viu involuntariamente procurando a figura de Rafael. Encontrou-o com o braço em torno das costas de Neymar, gargalhando de algo que parecia muito hilário aos dois. A garota estava perto o suficiente para uma boa foto e sorriu, trazendo a câmera para frente do rosto e se surpreendendo quando, no momento em que pressionou o botão, Rafael olhou diretamente para ela, a risada ainda presa aos lábios. A morena abaixou a câmera, vendo o sorriso de Rafa se alargar.
“Boa sorte”, moveu os lábios, esperando que ele compreendesse o que dizia.
Rafa piscou, sorrindo de canto, e soube que se fizera ouvir. Analisou a foto que tirara e por um segundo invejou o quão fotogênico Rafael podia ser: a gargalhada aberta era tão calorosa que quase podia ouvi-la, e os olhos... Os olhos também sorriam. Perdeu mais um momento admirando o quanto a barba lhe caía bem, e perguntando-se se aquele maxilar era anatomicamente possível. Respirando fundo, tratou de voltar a tirar algumas fotos dos jogadores e mais outras tantas da torcida, até que se desse por satisfeita e voltasse ao camarote, encontrando Bruna e Sandra em uma conversa animada.
– O que eu perdi? – perguntou, juntando-se às duas em sua cadeira.
– Não muito. – Sandra deu de ombros – Estávamos conversando sobre o humor dos garotos quando perdem...
– Pior experiência. – Bruna bufou – O Ney consegue ficar especialmente chato.
– Denis fica tristinho, corta meu coração... – Sandra fez um bico fofo, arrancando uma risada de , que a abraçou de lado em solidariedade.
– Nada a declarar. – a morena ergueu os braços, sorrindo de canto enquanto focava o campo. Foi um momento engraçado: sentia-se como aquelas mulheres que ainda não têm filhos, em meio a todas as amigas que só sabem falar sobre fraldas, desenhos animados e fórmulas lácteas. O silêncio se dava tanto pela falta de assunto, quanto pela tensão crescente que se instalava dentro da garota: era muito passional quando se tratava de futebol, e os poucos minutos até o apito inicial foram torturantemente longos, aliviados somente durante o hino da Champions, um momento tão emocionante para ela, que não podia nem mesmo imaginar o que se passara dentro do coração de Rafael, ali enfileirado junto ao time.
– Oh, meu Deus, é agora. – murmurou, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e mordendo os dedos, murmurando para si mesma e para todos os deuses que tivessem a boa vontade de ouvir – Boa sorte, Rafa.
O time da casa dominou a posse de bola durante o primeiro tempo, fazendo seu jogo característico de muitos toques e tentativas de infiltração na área adversária. assistia com o coração na mão a cada toque de Rafa na bola: o meio-campista era ousado e tinha um jogo verticalizado que levara perigo à defesa italiana duas vezes: a primeira em uma tabela com Neymar e a segunda em um lindo lançamento para Messi, que – conforme a mídia diria no dia seguinte – trazia a assinatura dos Alcântara, por lembrar muito o que Thiago costumava fazer.
O zero a zero no placar, contudo, ainda parecia o mais justo ao intervalo visto que a Juve, apesar de muito consistente na defesa, tivera uma boa oportunidade com Dybala, defendida brilhantemente por Stegen.
– Cristo, eles precisam de um gol! – Sandra comentou, correndo os dedos pelos cachos dos cabelos, enquanto assistiam ao time voltando aos vestiários – Pelo bem dos meus ouvidos, que não pretendem escutar reclamações pelo resto da semana...
– Eles estão melhores... – Bruna comentou, mordendo uma das unhas – Logo vão dar um jeito de furar essa defesa, não é possível.
– A zaga não me preocupa tanto quanto o goleiro. – suspirou pesadamente, jogando-se de volta na cadeira – Se pelo menos o Buffon já tivesse aposentado.
– Respira, ... – Sandra riu pelo nariz – Seu garoto tá fazendo uma grande partida.
– Está mesmo. – Bruna logo concordou, sorrindo de canto.
– Vocês duas, – ergueu as sobrancelhas em exasperação – podem fazer o favor de parar com isso?
– Ela é uma graça. Eles são fofos! – Sandra riu, olhando para Bruna com cumplicidade, ignorando a expressão de , que finalmente se rendeu a uma risada. Claramente já era mais uma a engrossar as fileiras pró ...
Tão logo os jogadores voltaram a campo, as risadas e frivolidades das garotas foram substituídas por expressões sérias e cenhos franzidos: o jogo não era nada fácil. O Barcelona conseguiu criar algumas oportunidades com Suárez e Neymar, mas ambas pararam nas mãos experientes de Buffon. Um chute de Higuaín quase acertou a meta de ter Stegen após uma bobeada de Piqué e Umtiti, e a sequência de xingamentos de ao mau posicionamento da zaga catalã fez com que Bruna e Sandra cedessem a uma gargalhada mesmo em meio à tensão.
Quando o juiz marcou um escanteio para o Barça, a ser cobrado por Neymar, sentiu que prendia a respiração: Rafa era marcado de perto por Barzagli na segunda trave, e ao saltar junto de seu marcador para interromper a trajetória da bola, o brasileiro mandou a bola para o fundo do gol. sentia a arquibancada estremecendo em uma comemoração barulhenta que a faria sorrir fosse qual fosse a situação. Exceto aquela. Os jogadores do Barcelona se agitavam, erguendo as mãos para o juiz no que poderia ser uma comemoração. Mas não era. Rafinha estava no chão.
Rafael estava acostumado a cabecear uma bola em alta velocidade, era o que fazia diariamente nos treinamentos... Mas aquilo fora diferente. O impacto viera dolorosamente, fazendo sua cabeça zunir e os sentidos falharem. A última coisa que se lembrava era da dor, depois disso, nada.
– Bruna. – sentiu a boca subitamente seca e levantou-se para só então perceber que as pernas tremiam – Bruna, o que tá acontecendo? Por que ele não levanta?
, calma... – a amiga também estava de pé e focava o telão, que exibia novamente a jogada: Rafa havia sido atingido não só pela bola, mas por uma cabeçada de Barzagli, que tentara alcançar o mesmo alvo. O italiano estava próximo a Rafa, parecendo consternado.
Por que ele não levanta?! sentia algumas lágrimas se formando no canto dos olhos e se movimentava em direção à saída do camarote, como se desejasse se teletransportar para o meio do campo no mesmo instante.
– Querida, calma... Não deve ser nada sério. – Sandra afagou os ombros da outra, segurando sua mão com firmeza.
assistiu com o estômago embrulhado enquanto os médicos entravam em campo removendo Rafael inconsciente em uma maca. Parecia um pesadelo... O coração disparado não era nada comparado ao tremor descontrolado em suas mãos: a garota sentia-se a ponto de explodir de agonia, e não entendia como o jogo podia recomeçar. Como podiam continuar quando não tinham notícia alguma de Rafa.
– Bruna, eu não vou ficar aqui. – a garota disse, livrando-se do aperto de Sandra – Eu preciso saber o que aconteceu.
, espera! – a outra chamou, sentindo também seu coração apertado com a situação do amigo – Falta pouco pro final, logo a gente vai ter notícias.
Bruna... – os olhos de vertiam lágrimas silenciosas, e naquele olhar a amiga entendeu o que ela queria dizer: que se colocasse em seu lugar. Que imaginasse que era Neymar ali.
– Nós vamos com você. – Bruna murmurou, pegando suas coisas e andando na companhia das outras duas até a saída do camarote, pedindo uma série de informações que as guiou até a porta do vestiário do Barcelona.
– Sinto muito, garotas, a entrada é proibida. – o segurança se postou a frente do vestiário.
– Escuta, nós precisamos ver o Rafinha... – Bruna tomou a frente da situação, usando dos meios necessários para resolvê-la – Ela é a namorada, estávamos no camarote dos jogadores. – apontou para , que ainda tremia e nem pensou em desmentir a amiga, que mostrava as pulseiras de papel em seus pulsos.
O segurança as examinou por alguns segundos, reconhecendo Sandra e Bruna, que já mantinham relacionamentos longos com os jogadores do clube. Deu passagem as três muito mais por pena da pobre garota de cabelos escuros que tremia e chorava, do que por qualquer outro motivo.
– Vão... – murmurou, recebendo uma série de agradecimentos das meninas que passaram rápido demais, como se temessem que ele mudasse de ideia.
Ao entrar no vestiário, podia ouvir a várias vozes, mas nenhuma delas lhe parecia familiar, o que lhe aumentava a vontade de chorar. Seguiu as vozes, deparando-se então com três médicos e um membro da comissão técnica do Barcelona que se aglomeravam em torno de Rafa, e o alívio que se seguiu a invadiu de modo a formar uma avalanche de emoções que fez com que soluçasse alto em meio às lágrimas, chamando a atenção de todos.
... – Rafa murmurou, rouco e levemente confuso, assim que se deu conta da presença da garota. O rosto dela lavado de lágrimas lhe partia o coração, e fez menção de se levantar, sendo contido por um dos médicos, enquanto os outros questionavam algo sobre a entrada das garotas no vestiário – Não tem problema, elas podem ficar. – o rapaz se apressou em dizer, afastando levemente com um dos braços o assistente técnico para o lado a fim de manter o caminho livre – Foi uma concussão leve, eu tô bem, cariño...
Àquilo não se conteve: cobriu o espaço entre os dois com rapidez, jogando os braços em torno de Rafael e deixando que as lágrimas de alívio corressem livremente pela curva do pescoço do rapaz.
– Você está bem... – ela murmurava para si mesma, um sorriso lindo nos lábios enquanto segurava o rosto de Rafa entre as mãos, observando cada detalhe: desde os olhos que tanto lhe encantavam, até o inchaço que se formava na testa, chegando enfim aos lábios que escondiam também um sorriso – Você está bem... – continuou, e não seria errado dizer que não agia racionalmente enquanto beijava cada pedacinho do rosto do rapaz, agradecendo mentalmente a cada beijo por ele estar acordado e arrancando do jogador uma risada gostosa que só foi interrompida quando sentiu, com agradável surpresa, os lábios de sobre os seus.
O beijo, que não passou de um breve tocar de lábios, era salgado pelas lágrimas da garota, mas ironicamente podia ser descrito como mais doce de que Rafael se lembraria em toda a vida. Quando se afastou, encarando-o com aqueles olhos cor de chocolate demonstrando um tom de embaraço e alguma nota de expectativa, a única coisa que Rafa conseguiu fazer foi sorrir. O momento era público, o que lhe impedia de reagir propriamente àquele momento, mas sentiu uma necessidade absurda de demonstrar algo, por isso entrelaçou os dedos de uma das mãos à de com carinho.
– Eu acho que a pancada foi mais forte do que eu imaginei... – murmurou, para que só ela ouvisse, mas a acústica do vestiário fez com que todos rissem baixinho do comentário. Menos Bruna, cuja risada escandalosa invadiu o ambiente.
– Eu... Eu já vou. – disse, colocando os cabelos para trás da orelha, subitamente ciente do que fizera.
– Eu não devo demorar, só alguns exames... – Rafa ainda não soltara a mão da morena – Me espera em casa? – perguntou, recebendo um aceno breve em resposta – Ótimo. – sorriu, beijando os nós dos dedos da garota.
– Cuida dessa cabeça dura. – sorriu, antes de virar as costas, os lábios ainda formigando pelo contato recente com aqueles para os quais pareciam ter um verdadeiro imã.
– Essa é a minha garota! – Bruna abraçou a amiga pela cintura, fazendo gargalhar enquanto saíam do vestiário – IS REAL! – gritou, abrindo os braços tão logo se viram fora do estádio.
– Cala essa boca, Bruna! – ria, mas as estúpidas borboletas em seu estômago, essas sim eram bastante reais.
– Arrasou, ! – Sandra sorriu, beijando o rosto da nova amiga – Agora vai logo esperar o garoto, acho que vocês terão uma noite longa... – piscou, rindo abertamente.
– Se Deus quiser! – Bruna gargalhou, fazendo as bochechas de corarem furiosamente enquanto andavam até um ponto de táxi perto do estádio.
– Ai, eu odeio vocês. – a morena revirou os olhos, rindo – Me desejem sorte. – murmurou, entrando no banco traseiro.
– Você não vai precisar disso, garota. – Bruna riu – Te amo! Me liga amanhã! – bateu a porta para que fosse embora antes de inventar alguma desculpa, como sabia que faria se tivesse mais algum tempo.
chegou à casa de Rafa e se demorou alguns segundos na porta, estranhando aquele momento que costumava ser tão natural. Girou a chave na porta, sorrindo feito boba por ainda ser a mesma. Pensou em fazer alguma coisa na cozinha para quando ele chegasse, mas não tinha ideia do que o jogador gostaria de comer, ou se gostaria de comer depois daquela pancada tão feia. Aconchegou-se, então, no sofá em companhia de Preta – o labrador de quem sentira tanta falta – mesmo sabendo que Rafa não costumava deixá-la dentro de casa: precisava de algum conforto, ou enlouqueceria sozinha naquela casa, as mãos tremendo levemente de expectativa e ansiedade. Quando o som de um carro acelerando do lado de fora se fez audível, depois de algo em torno de uma hora, Preta e se ergueram no sofá.
– Vem cá, Pretinha... Senão ele vai brigar comigo. – sussurrou para o labrador, guiando-a até a porta de vidro que dividia a sala do quintal.
– Peguei no flagra... – Rafa sorriu, encostado ao batente da porta, percebendo a dificuldade da morena para colocar o cão para fora.
– Desculpa. – riu, mordendo os lábios e caminhando até ele com os braços cruzados detrás do corpo.
Rafael maneou a cabeça, sorrindo de canto antes de passar os braços em torno da cintura de , sentindo-se absurdamente bem pela forma como ela se encaixava ali tão confortavelmente. Era mais um daqueles momentos entre eles que não necessitava de palavras: era um abraço que lembrava os antigos, como não tinham há semanas, e que transbordava toda a saudade pungente que sentiam um do outro.
– Você chorou tanto, cariño... – Rafa tomou o rosto de entre as mãos, beijando a testa da garota em seguida – Desculpa te deixar daquele jeito...
– Eu quase morri de preocupação, Rafa... – a garota fungou, enterrando-se novamente entre os braços dele – Você tava jogando tão bem, fez o gol! – os olhos dela brilhavam quando ergueu o olhar para ele, fazendo com que Rafa sorrisse – E depois tudo isso...
– Já passou. – Rafa acariciou os cabelos dela delicadamente, sentando-se no braço do sofá e mantendo a garota entre as pernas – Eu preciso confessar que amei ver você toda preocupada... – riu, afastando-a levemente para examinar o rosto da morena. Os olhos dele brilhavam e um sorriso travesso brincava no ângulo dos lábios.
– Eu sei que amou... – riu, revirando os olhos antes de encarar Rafa em silêncio, e aquele olhar durou tempo suficiente para que a tensão no ambiente forçasse um deles a tomar alguma atitude... Rafa segurou as mãos de entre as suas, deixando-a ciente do que viria a seguir – Rafa...
– Morena... – a voz dele era rouca, e o dèjá-vu naquele momento foi inevitável – Eu vou te beijar. – anunciou, e a lembrança da última vez em que aquelas palavras saíram de sua boca veio fortemente, lançando arrepios por todo o corpo da morena, motivo pelo qual a resposta de foi como um balde de água congelante.
– Não vai, não... – ela murmurou, e o sorriso enorme que exibiu só fez sentido para Rafa no momento em que se colocou na ponta dos pés, juntando seus lábios em um beijo doce, lento e quente, que transbordava o que havia de mais íntimo entre eles: cumplicidade, carinho, cuidado e paixão.
sorriu entre o beijo, e percebeu que ele fazia o mesmo. O rapaz colou a testa à dela e se encararam demoradamente, sorrisos aliviados e idênticos presos aos lábios, como se perguntassem o motivo de não terem feito antes algo que parecia tão certo. voltou a se aninhar entre os braços dele, sentindo o peito se aquecer em um sentimento há tanto esquecido, mas que lhe causava um formigamento gostoso por todo o corpo: era delicioso estar apaixonada novamente.


VIII. UNA LADY COMO TU

“Voy buscando una lady
Como tú la quiero así
Quiero que te enamores
Como estoy yo de ti
A casa enviarte flores
Y en tu nombre escribir
Mil canciones de amores
Pa’ que pienses en mí
Como yo pienso en ti”

Se havia uma coisa que Rafael Alcântara sempre apreciara na vida, era sua rotina. Quem analisasse apenas superficialmente poderia acreditar que ele não era o maior fã de uma vida regrada e sem improvisos, mas o fato é que desde criança, Rafa sempre teve hábitos muito bem estabelecidos e incessantemente repetidos, sem os quais perdia o norte. Também por esse motivo, não era a melhor pessoa do mundo para lidar com mudanças... Quando Thiago se mudou de Barcelona para Munique o impacto no irmão caçula foi absurdo, pois não era apenas com a saudade que sofria, mas com a reviravolta em seu cotidiano, em sua tão prezada rotina, que incluía partidas de FIFA depois dos treinos, uma cerveja no sofá pra matar o tempo, disputas de Guitar Hero nos fins de semana e uma roda de violão nos finais de domingo. Três anos depois, Rafa já estava tão adaptado a de solteiro morando sozinho que ainda lhe impressionava a rapidez com que novas rotinas estavam chegando de mansinho em sua vida e, sem fazer força alguma para entrar, estabelecendo-se como primordiais.
Era engraçado pensar em como aquela era definitivamente uma realidade com a qual Rafael podia facilmente se acostumar... Em verdade, já havia se acostumado. Foram necessários poucos dias para que as roupas de , agora espalhadas pelo quarto, se tornassem sua parte preferida da decoração, e apenas algumas semanas para que os livros que ela deixava largados em absolutamente todos os cômodos passassem a fazer parte daquele lugarzinho aconchegante que ele chamava de lar. Enquanto observava a garota adormecida ao seu lado, o peito subindo e descendo de forma ritmada sob a camiseta dele que surrupiara na hora de dormir, perguntava-se – já que andava tão pensativo acerca de suas coisas favoritas – quanto tempo havia levado para que aquela se tornasse sua cena preferida de todos os dias. A resposta era tão óbvia, que um risinho anasalado lhe escapou dos lábios enquanto afastava com carinho um fio de cabelo do rosto da morena. Não levara mais que um segundo.
Aproximando-se do corpo pequeno de sob as cobertas, sentiu com prazer a forma como ela soltou um suspiro leve, aninhando-se a ele no sono. Naquele instante, ele queria desvendar seus sonhos... Sorriu, sonolento, entregando-se por mais alguns minutos àquele sentimento inigualável de acordar ao lado de alguém pela manhã e querer que a pessoa continuasse ali, por prazo indefinido. Afinal, era como se fizessem aquilo há anos, e não semanas, tal o conforto e a facilidade como tudo fluía. E, sem sentimentalismo barato, Rafa não conseguia se lembrar de um sentimento mais gostoso do que aquele.
O som do despertador interrompeu sem piedade aquela segunda etapa de sono – sempre mais proveitosa que a primeira – e o moreno se apressou em desligar o alarme insistente com a mão que não estava ao redor de . A garota remexeu entre seus braços, contraindo o nariz e fungando de forma divertida, e Rafa pousou os lábios sobre os cabelos dela com carinho.
— Só mais um pouquinho... – ronronou, sem abrir os olhos, escondendo o rosto ainda mais fundo no peito de Rafa, desejando que o tempo parasse para que pudessem permanecer ali, naquela posição, o dia inteirinho.
— Acorda, dona preguiça... – Rafa brincou, afastando-se apenas o suficiente para plantar um beijo sobre os olhos cerrados da garota, rindo do protesto dela quando se virou de costas para o rapaz – Você sabe que por mim a gente ficaria aqui o dia inteiro, não sabe? – perguntou, beijando a área exposta do pescoço de , sentindo com satisfação que a pele da cintura da garota se arrepiara. Sorriu, apertando a região a fim de despertá-la.
— Rafael... – murmurou, sob um risinho – Não joga baixo. – pediu, segurando a mão dele que já buscava caminhos que tornariam ainda mais difícil a missão de se levantarem.
— Eu só tô fazendo o necessário pra você acordar, cariño... – o moreno sorriu inocentemente, mas havia um quê de sacana naquele sorriso quando a colocou com as costas da cama, prendendo o corpo curvilíneo da morena sob o seu. Ao mirar os olhos faiscantes de , soube que atingira seu objetivo. Ela estava bem acordada.
Rafael avançou sobre os lábios da garota uma vez, deixando um beijo e uma mordida que a fizeram suspirar, parando para sorrir com o resultado. Filho da mãe. Sentiu os dedos de em sua nuca, trazendo-o para perto, e celebrou internamente aquela pequena vitória, como toda vez que percebia provocar nela o mesmo efeito que a jovem tinha sobre ele: estavam na mesma página, dividindo a mesma vibe, e aquilo era incrível.
sentia a respiração falhar enquanto Rafa distribuía beijos preguiçosamente lentos e tentadores por todo o seu pescoço, e xingava-se mentalmente por ser tão fraca quando se tratava de resistir a Rafinha. Sabendo que aquela era sua última chance de tomar algum controle sobre a situação, enlaçou a cintura dele com as pernas, tomando um impulso para que invertessem as posições. Agora era ela quem tinha a visão privilegiada de Rafael mordendo os lábios em apreciação, e cara, aquele homem tinha a boca mais tentadora de todo o mundo...
— Vem cá, vem, morena... – chamou, puxando a garota para colar o corpo ao dele, e mais uma vez se viu incapaz de resistir. Deixou o tronco cair sobre Rafa, os lábios buscando avidamente contato com os do moreno enquanto as mãos do jogador traçavam padrões incoerentes pelas costas dela, subindo e descendo, apertando e arranhando de modo que sentia os quadris se movendo involuntariamente em resposta.
— Pra quem não gosta de ficar por cima... – Rafa soltou um risinho anasalado, tocando a barra da camiseta que ela usava, sentindo urgência em tirá-la – Você faz um ótimo trabalho...
— Eu nunca disse que não gosto. – deu de ombros, sorrindo de canto e mantendo as mãos de Rafa firmes onde estavam – Só não é como eu mais gosto. – àquela frase, o sorriso que se abriu nos lábios de Rafael era felino, porque ele sabia muito bem como ela gostava... E aquele era mais um dos motivos pelos quais precisava agradecer a Deus por ter reunido tantas qualidades em uma só mulher. Mulher essa que estava no momento se levantando de seu colo, para sua completa frustração — Mas nós teremos tempo pra isso. Outra hora.
— Nena... – gemeu, segurando-a pela mão, mas já estava de pé ao lado da cama. A garota não conteve uma risada à expressão desolada do rapaz, mas conhecia-os bem o suficiente para saber que se não se levantassem da cama naquele momento, perderiam a hora do almoço, e aquele não era um dia em que podia permitir que algo desse errado...
— O chuveiro é meu, cariño... – piscou, correndo para o banheiro e fechando a porta antes que Rafa pudesse partir atrás dela. Afinal, se fosse assim todo o esforço seria em vão: iam se atrasar. Bastante.




— Ei... – Rafa sorria de canto, examinando a ruga discreta que se formara entre as sobrancelhas de no instante em que estacionara o carro na frente de uma belíssima casa – Por que essa carinha? – perguntou, tocando a mão da garota distraidamente sobre as coxas dela, fazendo com que entrelaçasse seus dedos aos dele sem precisar raciocinar. E, de alguma forma, o calor daquele toque lhe injetava a segurança que, por alguns segundos, fugira para as colinas.
— Nada, querido. – sorriu de volta, beijando os lábios dele rapidamente, as mãos segurando os dois lados do rosto com carinho – Vamos? – chamou, batendo um papo interior consigo mesma para que os ânimos ficassem sob controle enquanto Rafael saltava do carro, pegando as pequenas bagagens no porta-malas antes de gritar um sonoro e alegre: “FAMÍLIA, CHEGUEI!”
Não era o apocalipse. Não era uma apresentação de TCC. Não era a véspera da exposição mais importante de sua vida. Não era nem mesmo a porra da final da Copa do Mundo. Era apenas a primeira vez que estaria com a família inteira do crush.
Ela poderia sobreviver àquilo, certo? Era uma mulher segura, independente, comunicativa, extrovertida, e... O que mais mesmo? Uma bela covarde... Ah, a quem estava querendo enganar? Estava em franco e completo desespero. Quando tinha sido mesmo a última vez que fora apresentada à família de algum cara com quem estava saindo? (Ou ‘morando’, já que, mesmo tendo alugado outro flat, passava mais tempo na casa de Rafinha do que na sua). Surpreendeu-se ao pensar que a resposta era um imponente e pesado: nunca. Com Caê, nunca passara por aquela formalidade... Conheciam-se desde a infância e o relacionamento havia sido o mais natural dos desfechos, esperado e ansiado por ambas as famílias.
E se isso significava que aquela era uma espécie de primeira vez, estava explicado o misto de ansiedade e expectativa que lhe invadiam em ondas, temperados com uma boa dose de estômago embrulhado.
Só o que não podia imaginar era que o ser sorridente ao seu lado, que segurava uma de suas mãos enquanto a guiava pelo jardim florido e tão bem ornamentado, estava tão nervoso quanto ela própria. Quer dizer, não era como se já tivesse levado muitas garotas em casa. Certamente, nenhuma para o aniversário de sua caçulinha. Quando a porta da frente se abriu, dando passagem à mãe e à irmã, Rafa arriscou um olhar de esguelha para e o sorriso mínimo nos lábios dela ao fitá-lo foi o suficiente para que o nervosismo se esvaísse, os ombros relaxando enquanto apertava de leve os dedos da garota: estava tudo certo, como tinha de ser. Não havia motivo algum para sentir medo do novo. só era a primeira porque era, de fato, a primeira naquele ranking que ele ainda não sabia muito bem intitular, mas que ela liderava com tanta vantagem.
Deixou que Valéria o apertasse quase vergonhosamente, examinando cada partezinha de seu rosto – em especial a testa em busca de vestígios da última contusão. Em seguida, foi a vez de Thaisa esmagar o irmão do meio, pulando em seu pescoço sem aviso, quase levando os dois ao chão.
— Você demorou, idiota! – lembrou-se de reclamar, dando um tapa ardido no braço do rapaz. Às vezes ele se esquecia da força que cabia dentro da Alcântara mais nova, especialmente nos braços bem treinados pelos anos de basquete.
A resposta que morreu na ponta da língua de Rafa era a mais sincera, mas a mais inadequada para o momento: “tivemos uns probleminhas pra sair... Alguém ocupou o meu chuveiro e me fez arrastá-la comigo pra um novo banho e, bem, as coisas saíram um pouco do controle, sabe como é.” Oh, não, não sabia não! Porque aquela era Thaisa, sua irmãzinha que nada tinha com os assuntos tratados entre casais. Dentro do banheiro. Dividindo um chuveiro. E espuma de banho. Na-di-nha. A lembrança, contudo, fez com que levasse os olhos para a morena ao seu lado, que encarava o reencontro familiar com olhos apertadinhos pelo sorriso enorme que exibia: era ou não era uma coisinha linda de se ver? Sorriu de volta e, antes que pudesse pensar sobre as palavras que se seguiram, já as havia escutado na própria voz. E não houve nada estranho na forma como elas soaram.
— Mãe, Tha, essa é a , minha namorada.
sentiu-se em uma cena de filme adolescente, o que era ridículo. Mas também bastante real. Os abraços e saudações que recebia eram calorosos, sorridentes, mas lhe pareciam ocorrer em câmera lenta. Isso porque seus olhos castanhos, grandes e profundos, encaravam a figura de Rafael com que era a mais genuína surpresa. Mas não daquelas ruins, de quando alguém te dava um susto na escada ou quando a fatura do cartão vinha três vezes o esperado... A surpresa que sucedia os acontecimentos mais inesperados e gratificantes da vida. Surpresas que vinham como presentes.
Rafa ergueu os cantos dos lábios ao perceber o sorriso bobo que preenchera o rosto da garota que era abraçada pela mãe – Thiago estava certo: Valéria gostaria dela – e sentiu com felicidade ímpar que não se precipitara ao anunciar algo que não fora nem mesmo discutido entre os dois... Era verdade, afinal. Não precisavam de um pedido ou de uma conversa oficial... Eles simplesmente eram. Pra ele isso bastava e, pelo modo como os olhos de brilhavam, podia dizer que pra ela também.




— Agora me digam uma coisa, eu posso começar minha campanha do #EuJáSabia? – Julia perguntou, arrancando uma risada de toda a família que se espalhava pela sala relaxadamente após o almoço: Thiago e Thaisa jogavam uma partida de videogame, enquanto Rafa e Bruno aguardavam ansiosamente que os irmãos cedessem a vez para eles. Diego, o namorado da garota, torcia para ela como se assistisse a uma final de campeonato, e Gabriel estava pousado distraidamente sobre o abdome definido do tio Rafa, que brincava com seus bracinhos rechonchudos deitado no chão.
, por sua vez, ocupava o sofá com Julia e Valéria, divertiam-se com as gracinhas de Gabriel e, enquanto observava a sala cheia de filhos, noras e genro e gargalhadas, a dona da casa só podia agradecer por aquele momento tão raro...
— Eu vou entrar nessa campanha com você, mi amor! - Thiago riu, distraindo-se por um segundo, o que levou a um gol de Thaisa.
Rafa alargou um sorriso, virando o pescoço até que pudesse ver a namorada de cabeça para baixo. sorria de canto, e abaixou-se para fazer um carinho breve nos cabelos do moreno aos seus pés.
— Eu também já sabia. – ele murmurou, fechando os olhos com semblante satisfeito, não sem antes dar à garota uma piscadela divertida.
— Sabia nada! – protestou, arrancando uma risada de Julia e Bruno, que estavam mais próximos do casal. Na realidade, este último ria por achar extremamente engraçado e improvável que o irmão mais velho, justo Rafa, aparecesse assim com uma garota... Mas era legal. Ela era engraçada e entendia de filmes de terror. Só faltava saber se seria uma boa dupla no FIFA. Aí sim ele poderia ter certeza de que gostava dela...
— Claro que sabia, cariño... – Rafa rolou os olhos, segurando uma risada da expressão indignada de seu Furacão – Desde o dia do leite condensado, na verdade...
— Leite condensado? – Bruno perguntou, curioso como apenas os pré-adolescentes conseguiam ser.
— Essa história eu também não tô sabendo! – Julia perguntou arregalando os olhos em curiosidade.
— Eu conheci essa pestinha no supermercado, e ela quase vendeu meu rim por uma lata de leite condensado... – Rafa explicou dramaticamente, mordendo a mão que usava para tentar bater nele, enquanto o resto da família ria da improbabilidade da história.
— Ele roubou meu leite condensado! – a garota protestou, acrescentando seu argumento infalível em seguida – Eu tava de TPM...
— Perdeu, Rafa. – Thaisa virou para trás para olhar o irmão com um sorriso – Justificativa mais que válida, cunha. – piscou, em tom de segredo.
— Vou ter que concordar... – Julia deu de ombros, rindo. Aqueles dois pareciam um casal de amigos enquanto se alfinetavam e implicavam um com o outro a cada segundo... Talvez fosse justamente por isso, percebeu, que houvesse um sentimento tão lindo nascendo entre eles. Era bonito de se ver...
— Viu? – mostrou a língua para o namorado, e se não fosse pela presença de crianças (leia-se Bruno, Gabriel e Thaisa) e da mãe na sala, ele provavelmente a agarraria naquele momento, lambendo a língua da garota apenas pra fazê-la gritar de nojo. Cara, como ele simplesmente adorava provocar aquela morena... – Obrigada, garotas! – sorriu, olhando para o rapaz com uma expressão vencedora.
— Complô! – Rafa, Diego e Thiago gritaram ao mesmo tempo – Mãe! – Rafa implorou apoio, mas Valéria não estava disposta a abandonar as garotas nem mesmo pela carinha de desolado de Rafa. Conhecia bem aquele drama: seu Rafinha sempre fora o rei do exagero desde quando era pequeno e se jogava no chão para obrigá-la a brigar com Thiago por absolutamente qualquer encostadinha...
— Querido, - sorriu, passando os dedos pelos cabelos do rapaz – só cuida bem dela na TPM, sim? – piscou, arrancando uma gargalhada de todas as garotas e um suspiro resignado de Rafa. Mas ele cuidaria. Na TPM e fora dela.
— HÁ! QUEM É A DONA DESSE JOGO, HM? – o berro animado de Thaisa irrompeu pelo ambiente, enquanto Thiago olhava frustrado para o controle. Estava perdendo a mão... Desde que Gabriel chegara chegando, bagunçando a zorra toda, ele tinha cada vez menos tempo de jogar. Podia ser um bom motivo, mas não deixava de ser um saco perder para a irmãzinha.
— Ei, o que acham de uma partidinha de futevôlei? – propôs, mudando o foco de sua derrota – Hein, mãe? – sorriu, sabendo que a matriarca aprovaria. Oh, sim, em se tratando dos filhos de Mazinho e Valéria Alcântara, futevôlei era a definição perfeita de “tá no sangue”.
— Meninos contra meninas? – Julia propôs, fazendo contas mentais e concluindo que tinham exatamente a conta certa para dois times. Bem, Gabriel ainda era café-com-leite, e por enquanto seria banco junto com Rosário, a babá.
— Ah, não, eu não jogo... – ergueu os braços, subitamente invadida por uma nova onda de desespero – Alguém precisa ficar com essa delícia, afinal de contas. – sorriu amarelo, apertando as bochechas de Gabriel.
— Vai jogar sim, morena. – Rafa deu um de seus sorrisos gigantes, que tornavam difícil negar a ele qualquer coisa... Ou quase qualquer coisa: aquela humilhação pública de ser uma tragédia em tudo que envolvesse uma bola, no meio de uma família repleta de esportistas, ela podia sim negar. Era um direito constitucional... Tinha certeza que lera esse artigo na Constituição da Conhecendo a Família do Namorado, versão revisada de 2017.
— Rafa, eu não sei jogar! – pediu, desesperada, mas aquilo só fez aumentar o sorriso dele – É sério, a única coisa que eu já fiz nessa vida foi ginástica olímpica!
— Isso explica a flexibilidade. – Rafa murmurou para que só ela ouvisse, o sorriso cintilando no olhar. Foi flagrado, contudo, por Thiago, que gargalhou frente ao comentário do irmão mais novo, e da pobre cunhada que corava furiosamente. “Smooth, Rafa”, congratulou-o mentalmente, dando dois tapinhas nas costas do mais velho depois de pegar Gabriel e partir para o quintal – Vamos, gata, sem desculpa! – puxou a morena pela cintura, para que acompanhassem o resto da família – Hoje eu vou te mostrar que eu sou realmente “o gato do futevôlei”. – começou, fazendo gargalhar... Como ele se lembrava daquilo? – E que aquele ali, - apontou para Thiago – ainda é o “esforçado do frescobol.”
caminhou para o campinho com o sentimento de que andava para a forca de sua dignidade. Mas se estava na chuva, era pra se molhar direito. Bufou, andando até seu lado do campo, pensando que talvez – apenas talvez – ela se equiparasse a Bruno e os dois se anulassem como cafés-com-leite. Ou talvez não. Bem, provavelmente não. Mas não daria o braço a torcer: bufando, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo antes de observar com um sorriso de canto o moreno que lhe sorria do outro lado da rede.
— Se prepara pra perder, Rafael.




estava morta. Acabada. Dolorida. Ralada. E feliz pra caramba! Cara, aquilo era divertido... Arrependeu-se minimamente de todas as vezes que matara a aula de educação física para se sentar em algum canto escondida com um livro. Talvez devesse ter matado apenas metade delas... O time das garotas havia perdido, apesar dos esforços hercúleos de Valéria e Thaisa pra não deixarem aquele samba morrer, mas a diversão valera à pena... Em pouco tempo já havia se esquecido de que não fazia ideia do que estava fazendo, e apenas tentava se livrar da bola da melhor forma possível. Era bastante vergonhoso, de fato, mas a presença ligeiramente desajeitada de Julia fazia com que se sentisse melhor.
— Você vai ver, da próxima vez já vai estar dando umas cortadas fenomenais. – Julia riu, encenando uma cortada no ar. sorriu para a loira, que estava com o filho no colo e se sentava à beira da piscina.
— Duvido muito! – a morena sorriu tristemente, não apenas porque achava virtualmente impossível que adquirisse alguma habilidade a mais no futevôlei até que voltasse a Vigo para um novo teste, mas sim porque duvidava que tivesse tempo para voltar ali antes de retornar ao Brasil. A vida era um saco, às vezes.
O momento de saudade antecipada foi interrompido pela figura de Rafael, que havia entrado para trocar as roupas imundas de terra e grama pela sunga, e agora retornava em toda a sua glória morena e atlética. precisou de toda a sua força de vontade para evitar encarar por tempo demais, e não pôde deixar de agradecer mentalmente por conhecer de perto cada gominho daquele abdome, o que tornava possível manter uma expressão forçadamente blasé enquanto aquele moreno fenomenal pulava na piscina, espirrando água para todo canto, antes de puxá-la consigo para o fundo da piscina, sem aviso prévio.
— Rafaaaaa! – gemeu, indignada, assim que emergiu. A garota tossiu algumas vezes, procurando às cegas um braço dele onde pudesse bater, mas apenas acertou o ar, sentindo então que o rapaz a abraçava por trás, fugindo de sua fúria.
— Delícia. – ele murmurou, sorrindo de canto, fazendo encolher o pescoço pelo contato. Ele precisava parar com aquilo: ela estava tentando protestar.
— Agora que ele chegou pra te fazer companhia, vou lá pra dentro porque alguém já encheu as fraldas... – Julia fez uma careta para o cheiro que vinha do filho, arrancando uma risada do casal – Comportem-se, crianças! – acenou, admirando por um momento a cena digna de comercial de agência de Turismo, em que batia na água para espirrá-la em Rafael. Eram mesmo uma coisinha fofa.
Assim que se viu sozinho com a garota, Rafa puxou para o colo, fazendo com que ela enlaçasse a cintura dele com as pernas sob a água, envolvendo-a em um beijo calmo, que buscava aproveitar cada segundinho da presença dela ali, selando a trégua na guerra de água. Sabia que o tempo dos dois era relativamente curto – esse assunto já surgira algumas vezes nos últimos dias – e era também por isso que fizera tanta questão de levara em casa: não queria que voltasse para o Brasil e tudo aquilo que estavam vivendo ficasse apenas na sua cabeça... De alguma forma, apresentá-la àqueles que amava tornava tudo mais real.
— Eu tô muito feliz por você estar aqui, sabia? – confessou, distraído pela forma como o sol fazia brilharem as gotinhas de água que salpicavam todo o rosto da garota. Combinava com ela. Com a pele dela. Com o sorriso dela.
— Eu também tô muito feliz por estar aqui. – sorriu, beijando o nariz dele antes de se distrair em traçar as linhas das tatuagens que cobriam os braços do rapaz com os dedos. Havia aprendido a amar cada uma delas... – Sua família é demais...
— Eles adoraram você. – Rafael sorriu, com sinceridade, caminhando até a borda da piscina e apoiando as costas da garota sobre os azulejos, fazendo com que o corpo de se tornasse um pouco mais tenso sob seus dedos. Sorriu. – O que foi, cariño? – perguntou, pressionando o corpo contra o dela enquanto beijava sua mandíbula com falsa inocência, os dedos pressionando cada local por onde passavam. agradeceu mentalmente por estarem debaixo d’água, pois sentia sua pele queimar.
— Rafa... – conseguiu suspirar, sentindo os dedos dele perigosamente perto do tecido mínimo de seu biquíni – Sua mãe, sua irmã...
— Salão... – ele murmurou, subindo os beijos para próximo do ouvido dela, parando apenas para dar uma mordidinha que não causaria marcas, mas que provocava efeito.
— Seu irmão, ele...
— Dormindo. – Rafa rejeitou o argumento, chegando aos lábios de e tomando-os para si sem pedir permissão. A morena resistiu por um segundo, mas logo se viu sedenta por contato, deixando que a língua de Rafael brincasse com a sua daquele modo que era tão familiar e, ainda assim, empolgante.
— Rafa... – quebrou o contato, sabendo que era humanamente possível se controlarem por muito tempo mais – Sossega, por favor! – pediu, reprimindo um sorriso ao ver os lábios inchados dele. Droga, ela podia muito bem passar o dia inteiro beijando aquela boca... Na verdade, esse era o número 1 de sua lista de ‘coisas para fazer um dia inteiro, sem cansar’.
— Você vai me enlouquecer, sabia? – Rafa esfregou o rosto, respirando fundo e se afastando da garota, a fim de se recuperar.
— Tem uma primeira vez pra tudo, querido. – sorriu, achando graça do estado dele, e se apoiou na borda balançando os pezinhos para se manter com altura suficiente.
— Até pra eu aparecer com uma namorada em casa. – Rafa sorriu de canto, arriscando o assunto. sorriu, olhando para o céu antes de voltar a encará-lo.
— Acho que sim. – deu um sorrisinho mínimo e Rafa voltou a abraçá-la, ignorando seus instintos que diziam para manter distância se não quisesse ser um masoquista – Isso quer dizer que eu sou sua primeira namorada? – brincou, apertando as bochechas dele com uma mão, e beijando de leve o bico que se formara – Que gracinha, meu Deus! – sorriu, feliz, quando ele maneou a cabeça positivamente.
Uma parte dela sabia que a experiência que vivera com Caê fora importante para torná-la quem era, mas outra parte – talvez até maior – gostaria de poder retribuir àquele sentimento gostoso e dizer que Rafa também era seu primeiro namorado.
— Sabe... – o moreno começou, afastando alguns fios de cabelo que haviam se grudado ao rosto molhado de – O Thiago uma vez me disse que não importa se a gente não é o primeiro cara de uma garota... E eu acho que realmente isso não importa. – deu de ombros, e se perguntou se ele agora havia adquirido também a habilidade de ler pensamentos. Talvez ele apenas já soubesse lê-la: todas as suas reações, anseios e sonhos. O que, em sua opinião, era bem mais interessante – Mas eu vou ficar feliz pra caralho se eu for o último.
não conteve uma risada, mas cobriu os lábios dele com os seus, no que era uma resposta silenciosa: “eu também”.




Continua...



Nota da autora: AAAAAAAAAAAAA
Vocês não imaginam o tamanho do sorriso bobo dessa pessoa que vos fala, enquanto escreve essa nota! Sério, gente, estamos todas vivas? Vai uma dose de insulina aí pra abaixar a glicose depois dessa overdose de fofura? Hahahahahaha Eu fico tão feliz quando um capítulo vem tão fácil como esse veio, tão natural pra mim... Porque é assim que eu sinto esse casal: descomplicado, divertido e leve. E espero que a experiência de leitura de vocês também esteja sendo bem gostosinha assim!
Tô morrendo de vontade de saber o que vocês acharam desse capítulo, e de todas as participações especiais que tivemos, então me conta aqui embaixo nos comentários! Além de me deixar feliz pra caramba, isso ajuda a história a ficar cada dia melhor pra vocês!
Muito obrigada por estar comigo até aqui, e até a próxima att!



Nota da beta: MEU DEUSSSSSSS!! Eu não aguento essa fic, esse casal, essa autora linda que escreve essas coisas. Não aguento não!!!
Eu quero fazer parte dessa família, Deus, nunca te pedi nada! Isso aqui que to sentindo por Rafinha ultrapassou o que chamamos de “crush” faz muito tempo né. Bora criar uma palavra nova, porque preciso me expressar corretamente já que nem os memes tão conseguindo passar os surtos que dou em cada att.
Só manda mais, Belle. Melíflua pra mim virou sinônimo de droga já. Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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