Última atualização: 16/08/2018

Prólogo

Rafael Alcântara tem uma palavra preferida na língua espanhola. Mais que "fútbol" e ainda acima da aconchegante "cariño", sempre lhe agradou a saborosa "melíflua".
Do latim: referente ao mel ou que partilha suas características. Doce, delicada.
A própria palavra parecia mel, em si própria, quando saía de seus lábios.
E era nela, sua palavra favorita, que Rafa pensava sempre que se lembrava de , sua pessoa favorita: doce, intensa, quente... feito mel.


I. FUEGO

“Nena, me inspiras cuando caminas
Me pierdo em tuscaderas
Eres la cosa mais linda
De esquina a esquina, de abajoarriba.”
(Fuego – Juanes)

– Ai, graças a Deus! – o suspiro aliviado veio acompanhado de um sorriso que dizia muito sobre quanto havia aguardado aquele momento. Fora uma busca incessante, afinal, uma hora e meia andando por toda Barcelona até que finalmente ela estivesse ali, bem na sua frente, tão bela e familiar quanto se lembrava: uma lata de leite condensado. Literalmente, uma.
A garota disparou pelo corredor, ansiosa por finalmente tocar aquele paraíso que, sabia bem, seria o único remédio para a TPM infernal em que se encontrava assim que se transformasse em um prato delicioso de brigadeiro. Mal percebia os olhares curiosos que recebia, aquela figura curiosa vestida de shorts de academia e um moletom três vezes maior que seu tamanho correndo desesperadamente pelo supermercado, sua atenção inteiramente voltada para a prateleira que se aproximava.
Os dedos com unhas cuidadosamente esmaltadas de vermelho estavam a poucos centímetros da lata quando um obstáculo se interpôs entre eles e a felicidade plena: um obstáculo de 1,74m e ombros largos, que acabava de roubar o seu leite condensado. Os olhos castanhos se estreitaram, enquanto a garota sentia uma fúria ardente subindo-lhe do estômago. Aproveitando a mão estendida, usou-a para cutucar as costas do rapaz. Oh, ele não sairia dali com aquela lata, ou seu nome não era .
Hola! – exclamou, forçando um sorriso assim que o homem voltou-se para trás. Encarava as mãos dele, possessivamente grudadas no seu leite condensado, e considerou simplesmente tomar a lata e correr, como se não houvesse amanhã, mas algum senso de civilidade se sobrepôs ao seu instinto de posse sobre o doce, e permaneceu ali, encarando aqueles olhos castanhos que a estudavam curiosamente.
Hola, que tal? – o rapaz respondeu, soando simpático tanto pelo sorriso largo quanto pelo olhar caloroso que lhe lançou. Um verdadeiro lobo em pele de cordeiro, tentando distraí-la de seu principal objetivo.
– Tudo mais ou menos, agora... – ela ainda sorria mecanicamente, nem ao menos conseguindo controlar o nervosismo o suficiente para tentar ganhar a lata em uma piscada de seus longos cílios – Sabe o que é... Eu estava quase chegando quando você roubou, quero dizer, pegou essa lata de leite condensado. A última. – fez questão de enfatizar, torcendo para ter-se feito compreender no espanhol.
– Oh, isso? – ele deu uma risada, erguendo a lata um pouco acima dos ombros, gesto que a garota seguiu cuidadosamente com o olhar, receando que ele fosse se esquivar de seu alcance, uma vez que mantinha ainda o plano B de “pegar e correr” – Sinto muito, mas eu realmente preciso.
– REALMENTE PRECISA? – a voz dela subiu uma oitava, e alguns decibéis, e teria sido melhor se o homem tivesse gritado de volta ao invés de cair na risada, como fez – Escuta uma coisa, você não é uma mulher na TPM e muito menos é brasileiro, o que significa que não preenche nenhum dos requisitos pra levar essa lata de leite condensado que por direito é minha!
Quieta, nena... – ele disse, segurando um sorriso, e mais uma vez teve a impressão de que o maldito utilizava-se de artifícios baixos para distraí-la. Aquela voz deveria ser ilegal, pelo amor de Deus! – Antes de mais nada: Rafael, muito prazer. – ele disse, e imediatamente identificou o sotaque carioca tão parecido com o seu. Inferno, um de seus argumentos acabava de ir por água abaixo...
. – ela resmungou, resolvendo mudar de estratégia – Olha só, - recomeçou, controlando o tom de voz e piscando os olhos lentamente, com um sorriso cálido que extraiu, com dificuldade, das profundezas de seu ser em ebulição – você também é brasileiro, então sabe a importância que tem um brigadeiro pra uma mulher na TPM, em pleno sábado à noite, certo?
– Eu adoraria poder ajudar, mas se eu não aparecer com esse leite condensado em casa, será a minha cabeça num espeto ao melhor estilo Ned Stark. – ele respondeu, e ignorou mais uma tentativa satânica dele de ganha-la. Ela não cederia só por ele ser um fã de Game of Thrones, ainda que seu coração tivesse pulado uma batida àquela referência.
“Querido, a sua cabeça vai parar num espeto agora mesmo se não passar pra cá esse leite condensado!” - ela queria gritar, mas antes que pudesse fazê-lo seu telefone tocou.
– Você! – ela tocou o tórax de Rafael, estreitando os olhos – Nem um passo! – ordenou, antes de atender a ligação.
Rafael não sabia bem o que lhe prendia ali, a cena cômica que se desenrolava, ou o fato de que sua protagonista era tão bonita que ele se sentia incapaz de dar as costas à fúria incandescente dela, que a deixava absolutamente atraente. Era fuego, mami... Por um motivo, ou por outro, permaneceu ali, ouvidos atentos à conversa que se desenrolava em português, mal contendo o riso pela indignação da garota a sua frente. Ele cederia de bom grado o leite condensado, se pudesse, ainda que sua irritação estivesse divertindo-o mais que qualquer coisa naquela noite.
– Oi, amiga... – ela atendeu à ligação, mantendo os olhos castanhos sobre Rafael, como se atenta a uma presa. Ele gostaria, e muito, de ser aquela presa, mas tinha certeza de que seu alvo era apenas a lata que ele ainda mantinha protegida em suas mãos – No supermercado, porque um... – ela respirou fundo quando Rafa ergueu uma sobrancelha, como se curioso acerca do vocativo que ela usaria para ele – um... AH! – a garota urrou e Rafael explodiu em uma risada, ajeitando o gorro que usava. De onde aquela garota tinha vindo, Deus? – Eu não consegui comprar ainda! – resumiu. Ela passou alguns segundos em silêncio, e então, lentamente, um sorriso vitorioso tomou lugar em seu rosto. Era o primeiro sorriso verdadeiro que dava até então, e Rafael perdeu alguns segundos admirado com o quanto ela conseguira ficar ainda mais bonita: um sorriso daqueles cinco minutos atrás e ele teria enfrentado a ira de 10 Joffreys, ou mesmo virado uma lata de condensado para agradá-la – Eu te disse que não queria ir, vaca, isso foi golpe baixo. – resmungou, mantendo um sorriso mínimo no canto dos lábios – Mas já que não tenho escolha, eu vou. As coisas que eu faço por um brigadeiro... – suspirou teatralmente – Te vejo daqui a pouco, então.
E com um sorriso diabólico, ela desligou.
– Pelo sorriso, acho que tudo se resolveu, não? – Rafa disse, aliviado pelo problema ter se resolvido sem maiores danos, ainda que frustrado porque percebia que os dois estavam prestes a se separar e ele não havia pensado em uma única boa desculpa para manter aquele contato por mais algum tempo.
– Sim, senhor. – ela olhou para o leite condensado com desprezo – Faça bom proveito! – fungou, virando-se para ir embora. Sabia que provavelmente devia se desculpar com o rapaz pela explosão de minutos atrás, mas ela era um vulcão e, uma vez em ebulição, demorava até atingir a calmaria novamente.
Respirando fundo, pensou no brigadeiro que comeria dali a algumas horas. Para isso teria que comparecer a tal festa que passara a semana se recusando a ir, mas Bruna tinha sido esperta e unido o útil ao agradável ao pedir ao namorado que desse um jeito de comprar o leite condensado e, ao que parecia, um amigo dele havia conseguido. Ir a festa agora parecia um preço pequeno a se pagar, desde que pudesse comer quanto brigadeiro quisesse. E ela se certificaria disso.
A garota já estava quase chegando ao estacionamento quando ouviu alguém correndo. Rolou os olhos antes mesmo de se virar, e deparou-se mais uma vez com a figura atlética de Rafael. Agora que a raiva deixara de confundir sua sanidade, ela sentia que seu rosto talvez fosse familiar... Mas provavelmente ele só era parecido com aqueles gatos bronzeados e musculosos que viviam jogando futevôlei no Posto 9.
– Aqui... – ele disse, estendendo-lhe uma barra de chocolate – Não é seu leite condensado, mas talvez ajude com a TPM. – completou, com uma piscadela, antes de correr até o próprio carro.
“Cara de pau”, murmurou, olhando-o ir. Só quando estava na segurança de seu carro e finalmente decidiu abrir a barra de chocolate – não daria esse gostinho ao ladrão de leite condensado, afinal – é que reparou num pequeno pedaço de papel colado à embalagem. Um número de telefone. Com uma risada, a garota abriu o chocolate, colocando um grande pedaço na boca. Já o papel, colocou dobrado no console do carro – por falta de lixo, é claro.



– Eu já disse que te odeio hoje? – perguntou, terminando de calçar as botas de salto altíssimo com muita má vontade.
– Para de ser ridícula, ! – a outra gritou, da cozinha do apartamento – Já faz uma semana que você tá na cidade e ainda não colocou essa bunda pra fora de casa! – completou, voltando para o quarto onde se encontrava.
– E permaneceria assim muito bem, obrigada, não fosse existir uma Bruna Marquezine no meio do caminho... – resmungou, mirando a própria imagem no espelho criticamente: usava uma saia de couro, blusa preta de tecido transparente e botas da mesma cor. O look básico denotava sua total falta de empolgação para escolher algo mais criativo, mas não a deixava menos deslumbrante.
– Amém! – Bruna riu, beijando o rosto da outra – Para de ser idiota, você veio pra cá se divertir comigo, e não ficar enfurnada dentro de casa o dia inteiro! – protestou – Além do mais, os meninos são legais e vão te fazer rir...
– Disso eu tô realmente precisando... – concordou, enquanto terminava de passar batom – Já me basta o ódio que eu passei naquele supermercado hoje! Bruna, você não tá entendendo... – ela contava mais uma vez, e a outra já não continha as gargalhadas, já que daria um braço para ter presenciado a briga de com o cara do supermercado, afinal sabia o quanto a amiga ficava brava quando mexiam com a sua comida... – “Eu adoraria poder ajudar...” – imitou Rafael da melhor forma como se lembrava – Demônio!
– Calma que seu brigadeiro vai estar lá te esperando, amiga... – Bruna disse, ainda rindo – Mandei o Ney se virar pra conseguir, e ele pediu pra um dos meninos que já tava na rua comprar. Falando nele... – Bruna sorriu, pegando o celular que acabara de vibrar com uma mensagem do namorado – Tá esperando lá embaixo, anda logo...
Com um suspiro resignado, deixou-se arrastar para fora do apartamento.
– O que eu não faço por comida, meu Deus?



A varanda onde estavam era provavelmente quatro vezes maior do que o apartamento onde estava ficando em Barcelona – um cantinho bastante agradável no centro da cidade – e o número de pessoas espalhadas por todos os cantos do jardim e da casa provavelmente encheriam uma casa noturna. Isso, aparentemente, era o que Neymar Jr chamava de "churrasco para os mais chegados". Mas talvez fosse assim na linguagem dos boleiros internacionais.
– Eu achei que você tivesse dito que seríamos só nós e uns caras do time... – murmurou para Bruna, que apenas deu de ombros, sorrindo de canto.
– Eu posso ter minimizado um pouco... – ela levantou a mão que não estava entrelaçada à de Neymar, como se em defesa própria – Mas o importante é que você vai se divertir, não é, amor?
– Ih, ... Com isso você pode ficar despreocupada, todo mundo que entra nessa casa sai daqui feliz... – Neymar deu um sorriso moleque antes de completar – E bêbado. Esperem aqui. – pediu, deixando as duas para correr rapidamente até o interior da casa, voltando com uma garrafa de Jose Cuervo, um limão e o saleiro nas mãos – , você primeiro!
A garota riu, jogando um pouco de sal no dorso da mão e lambendo em seguida. Abaixou-se para que Neymar despejasse a bebida direto em sua boca, e sentiu com prazer o álcool queimando sua garganta enquanto descia. Há quanto tempo não ficava bêbada de verdade, ela não sabia nem mesmo dizer. Com os olhos apertados, chupou um pedaço de limão, intensificando a careta assim que terminou. Estava decidido: tomaria seu primeiro porre em espanhol.
Bruna repetiu a sequência realizada pela amiga, beijando demoradamente o namorado no final. riu, gritando que os amigos arrumassem um quarto, ao que os dois romperam em uma gargalhada gostosa.
– Invejosa! – Bruna mostrou a língua, brincando.
– Sou mesmo! – respondeu, dando uma risada – Agora vem cá, onde é que tá a minha companhia pra essa noite, hein? Alguém – ela olhou sugestivamente para Neymar – tinha prometido que ele estaria aqui me esperando quando eu chegasse... – completou, soando realmente frustrada, para confusão do jogador.
– O brigadeiro, amor... – Bruna explicou, revirando os olhos para . Não sabia como realmente tinha acreditado que ela se esqueceria do tão falado doce.
– Ah, sim! - Neymar riu, pegando o celular do bolso para checar se havia alguma notícia acerca do paradeiro do leite condensado – Tá com a Princesa, mas ele disse que já saiu de casa...
Princesa? perguntou, rindo do apelido e de como a amizade masculina era cheia de facetas que em 24 anos ela ainda não fora capaz de compreender – Vou precisar ir ao banheiro, casal. Aproveitem a minha ausência. – disse com uma piscadela antes de voltar as costas para os dois e andar em direção a casa, que já conhecia, não sem antes parar no bar para mais uma rodada de tequila. Ela não sabia brincar...
A morena voltava para o jardim, já sentindo os efeitos do álcool se traduzindo em passadas mais lentas e um leve movimento do corpo ao som da música. Talvez tenha sido também por isso que perdeu o equilíbrio por um segundo ao descer os degraus que levavam da casa ao gramado, sendo impedida de cair por um braço firme que surgiu em sua cintura.
Mira tu paso, guapa. – a voz soou baixa em meio à música, mas veio de tão perto que foi capaz de sentir a respiração do homem se chocando contra o seu pescoço. Seu conhecimento de espanhol era parco, mas ele podia estar lendo uma lista de supermercado e aquele sotaque ainda lhe pareceria tentador.
Quando ergueu os olhos, ensaiando um sorriso, sentiu o choque preencher cada célula de seu corpo. Desvencilhou-se dos braços dele em um rompante, vendo a sua própria surpresa estampada no rosto bem esculpido de Rafael – sendo substituída, no caso dele, por uma bela gargalhada que tornou os olhos dele ainda menores, e seu rosto ainda mais atraente.
– O que você tá fazendo aqui? – a morena perguntou, flutuando entre chocada e indignada. Realmente, sua impressão de que Neymar convidara a cidade inteira para a tal festa não parecia agora tão errada assim – E o que é que você fez com o meu leite condensado? – perguntou frustrada.
– Eu poderia perguntar o mesmo, na verdade... – ele sorriu, em verdadeiro regozijo com a situação – E pelo seu humor acho que o chocolate não ajudou tanto quanto eu planejava com a TPM... – brincou, fazendo estreitar os olhos perigosamente. Como ele se atrevia? – Seu leite condensado tá bem aqui – ele ergueu uma sacola de supermercado com algumas bebidas misturadas àquela que havia sido a causa de tanta discórdia.
– Faaaaala, Princesa! – a voz de Neymar cortou o ambiente, quando o anfitrião pulou nas costas de Rafael – Hoje o banho foi de princesa mesmo, hein. A aqui não tava mais aguentando esperar o brigadeiro. – disse, ignorando o fato de que os dois agora se encaravam em plena incredulidade.
Você é a Princesa? – perguntou, como se reforçar aquilo faria com que a situação se tornasse menos absurda.
– Você é um belo filho da puta, sabia? – Rafael disse, sorrindo de canto enquanto batia na cabeça de Neymar por ter contado sobre o apelido – Mas sim. E se não estou muito enganado você é a amiga da Bruna que daria um rim por uma lata de leite condensado.
– Eu quase arranquei o seu rim pelo meu leite condensado! – protestou, empinando o nariz – Princesa! – completou, com um sorriso diabólico.
– Ei, por que eu tô com a impressão de que tô perdendo algo aqui?
– Bruna... – suspirou pesadamente, os olhos presos aos de Rafael, tentando fazer com que ele tirasse aquele maldito brilho de divertimento do olhar – Seu namorado é amigo do ladrão de leite condensado. – completou séria, fazendo com que o casal de amigos se encarasse em choque por um segundo antes de explodir em gargalhadas.
– O quê? – Neymar conseguiu dizer – Espera, se você é o "ladrão de leite condensado", - começou, usando o modo como passara o dia chamando Rafa – Isso faz dela a...
– Sim, exatamente! – Rafael interrompeu, atropeladamente, antes que o amigo pudesse falar demais.
Sim, isso fazia dela a tão falada "gostosa do supermercado".
E fazia deles uma dupla, no mínimo, interessante.



– Quando é que você vai tirar esse bico da cara? – Rafa perguntou com um sorriso de canto, enquanto se encostava na bancada da cozinha onde , no momento, transferia uma boa quantidade de brigadeiro da panela para um prato. Os dois haviam passado os últimos minutos dividindo o ambiente, mas sem trocar uma única palavra – Não é incrível que eu tenha brigado tanto com você justamente pra comprar uma lata de leite condensado pra você, no fim das contas? – arriscou.
– Eu não tô com bico nenhum! – a garota protestou, aumentando ainda mais a expressão contrariada, e fazendo Rafael gargalhar, jogando a cabeça para trás. Ele precisava urgentemente parar de fazer aquilo, ou ela teria dificuldades em se concentrar pelo resto da noite... A risada de Rafa alcançava os olhos, e quando estes finalmente se chocaram aos de mais uma vez, convidaram-na a sorrir, e este pedido ela não conseguiu negar.
Foi um sorriso lento, conquistado, e que como todas as melhores coisas da vida, não tardou a terminar. se virou de costas, para decepção de Rafael, e vasculhou as gavetas em busca de algo. Voltou-se novamente para ele, contudo, um sorriso travesso nos lábios enquanto lhe estendia uma colher, passando por ele com o prato de brigadeiro em mãos.
– Se quiser a melhor parte, vai vir comer quente. – anunciou, já de costas para um Rafa que cobria o próprio sorriso com uma das mãos, maneando a cabeça em descrença e deleite. Seguiu-a até o sofá, sabendo o que o gesto dela significara: uma trégua.
Já passavam da metade do prato de brigadeiro e Rafinha já tinha abandonado sua colher – segundo , "fazendo jus ao cromossomo Y que fazia com que os homens tivessem a invejável capacidade de não ligar tanto para doce" – quando ela riu, deixando de lado também a sua.
– Qual a chance de eu conseguir correr amanhã, pra queimar todo esse doce? – perguntou, já sentindo os sintomas de culpa que sempre vinham quando jacava tanto assim na dieta.
– Isso depende... Quão bêbada você pretende ficar hoje? – Rafa devolveu a pergunta, sorrindo como parecia estar fazendo durante a maior parte da noite na companhia de .
– Eu meio que prometi que esse seria o meu primeiro porre espanhol... – a garota deu de ombros, quase envergonhada.
– Então vamos deixar a corrida pra outro dia. – Rafa riu, pegando da mesa uma garrafa de tequila e servindo dois shots – Vou fazer as honras e te acompanhar na sua estreia...
sorriu, pegando o copo e encarando seu conteúdo, tentando medir o tamanho da ressaca no dia seguinte. Antes que pudesse concluir, entretanto, Rafa já iniciara a contagem: arriba, abajo, al centro y adentro. E a cena se repetiu por algumas vezes, até que os dois já estivessem largados no sofá, com as pernas jogadas sobre as de Rafa, enquanto gargalhavam de absolutamente tudo.
– No supermercado eu tinha certeza de que te conhecia de algum lugar, sabia? – comentou, tombando a cabeça para o lado para examiná-lo melhor – Eu achei que é só porque você parecia um desses caras gatos que jogam futevôlei na Barra – completou, arrancando dele uma gargalhada – Mas acho que é porque sigo seu irmão no Instagram... Vocês não se parecem.
– Claro que não. – Rafa disse, lançando um sorriso que valia 2 milhões de dólares na direção dela – Eu sou mais bonito. O Thiago não parece um gato do futevôlei, no máximo um esforçado do frescobol – piscou, ao que soltou uma risada gostosa, incapaz de negar que o Alcântara mais bonito estava bem ali, na sua frente – E se eu fosse ciumento ficaria bravo por você seguir o Thiago, mas não o irmão que enfrentou a fúria de uma maluca no supermercado só pra conseguir uma lata de leite condensado pra você... – deu de ombros, forjando decepção.
Maluca? – estreitou os olhos, batendo de leve na mão dele com a colher. Ou não tão de leve assim, a julgar pelo grito exagerado de Rafinha – Você tem sorte que eu estou de bom humor depois desse brigadeiro, Rafael... – murmurou, pegando o celular para fazer o que ele pedira, tendo algum trabalho ao desbloquear a tela.
– Hum, agora sim! – Rafa sorriu de canto, aceitando a solicitação e a seguindo de volta – Agora nossa trégua está completa. – completou, alargando o sorriso – O que você veio fazer em Barcelona, ?
– Essa é uma boa pergunta... – deu um sorriso que não mostrava os dentes e não alcançava seus olhos, e pegou o copo de Rafa que estava esquecido na mesa de centro, virando o whisky restante em uma golada, a fim de se livrar da responsabilidade de quebrar o silêncio que se instalara entre os dois.
– Você e a... – ele tentou recomeçar, mas foi interrompido pela garota, que levantou-se do sofá de uma só vez.
– Anda logo, vamos ver se você é mesmo brasileiro. – disse, trazendo Rafael pelo braço e andando em direção ao exterior da casa – Essa música é meu guilty pleasure.
Rafa não conteve uma risada quando viu parar de frente para ele, o corpo se movendo mais lentamente devido ao álcool, o qual já se rendera, enquanto dançava a coreografia de "Deu onda".
– Anda, Rafael! – brigou, percebendo que o rapaz estava mais ocupado em olhar para ela do que em acompanhar sua coreografia – "...que a sua presença... Me deu onda. " – chamou, e dessa vez Rafa entrou na brincadeira, dançando ao lado dela, fazendo-a se animar feito criança. Tinha fortes suspeitas de que o álcool era o responsável pela 'onda', mas de fato aquele sorriso imoral de Rafael tinha alguma importância no processo.
– "Você sentando, mozão, me deu onda." – Bruna gritou enquanto se aproximava de , rebolando com a amiga – "Eu preciso te ter, garoto, eu gosto de você, fazer o quê?" – continuou, dançando em direção ao namorado e deixando sozinha com suas coreografias.
– Tá bem aí, brother? – Neymar deu uma cotovelada leve nas costelas de Rafinha, rindo de canto, enquanto abraçava Bruna, que ainda dançava contra o corpo dele – Ou tu quer um babador? – brincou, notando que nem assim o amigo fora capaz de desgrudar os olhos de , que dançava provocativamente, ainda que não parecesse se dar conta disso.
– Cala a boca... – Rafa riu, mais preocupado em observar a garota do que discutir com o amigo numa questão para a qual não tinha, de fato, argumentos. Se ela continuasse dançando daquele jeito ele provavelmente não dispensaria o babador.
– Acho que você ainda tem o selo brasileiro de qualidade. – riu travessa, a língua entre os dentes, assim que a música terminou.
– Isso não é uma coisa possível de se perder... – Rafa sorriu, afastando do rosto de um fio de cabelo do que havia grudado no batom que coloria seus lábios, tornando-os de alguma forma ainda mais tentadores – O funk só perde pontos porque não é uma dança que se dance junto. Por mais que eu goste de te ver aí, dançando pra mim... – piscou
– Eu não estava dançando 'pra você', idiota. – revirou os olhos, ainda que sorrisse – Mas já que é assim, quero ver como se sai, anda...
Rafa sorriu, aceitando o desafio implícito. Andou até a caixa de som e procurando pela música que queria no celular conectado a ela. Se ela gostava de provocar, era melhor ter ideia do oponente que enfrentava naquela brincadeira.
– Vem cá, vem... – chamou, assim que as primeiras notas da música latina soaram.
se aproximou, sentindo que as pernas não estavam tão firmes para obedecer a seus comandos, mas ao ouvir a voz de Maluma um sorriso tomou lugar em seu rosto enquanto começava a dançar em direção ao jogador. Só queria que Rafael tirasse aquele sorriso cretino dos lábios, ou ela definitivamente tomaria um tombo naquela noite, frente a tanta distração. Assim que estava ao alcance dele sentiu seus braços trazendo-a para perto, uma das mãos deslizando sem cerimônia até o fim de suas costas, gerando um rastro de calor por onde passava. estreitou os olhos, como se a questionar se a mão dele permaneceria por ali, sem constrangimentos, e o sorriso de Rafa se alargou.
– Eu preciso te guiar, não? – questionou, trazendo o corpo dela para mais perto do seu – Fica solta, vai... – pediu ao ouvido de , exercendo alguma pressão com a mão que mantinha nas costas dela, sem fazer ideia do quanto ela se arrepiara àquele gesto. O que os tornava empatados, uma vez que ela não podia imaginar o quanto o cheiro que vinha de sua pele deixava Rafael inebriado.
Rafa encaixou uma das pernas entre as dela, utilizando-se disso para guiar os movimentos do quadril de . Sentia o rosto da morena enterrado na curva de seu pescoço, e precisava respirar fundo para manter-se sob controle. Demorou até o primeiro refrão para que ela finalmente entrasse no ritmo, mas quando o fez os dois pareciam se mover como um. Rafael se atreveu a deslizar a mão até a nuca de , segurando de leve os cabelos para que ela o encarasse. A luta que travaram naquele olhar durou alguns segundos, e foi ela a primeira a se render, desviando os olhos para o chão antes que fosse sugada para aquele turbilhão que via transcorrendo nos orbes tempestuosos de Rafael. Quando voltou a encará-lo, ele sorria, liberando um pouco a pressão de seus corpos unidos, para que ambos voltassem a respirar de forma compassada.
– Que calor! – suspirou, assoprando o vão do decote, o que fez Rafael desviar os olhos rapidamente para o alto, respirando fundo uma vez mais – Vou lá dentro pegar uma água, você vem? – chamou, e Rafa a seguiu até os degraus da entrada da casa, quando o primeiro obstáculo ao equilíbrio de se apresentou – Merda, Rafael, amanhã eu vou lembrar de você com essa ressaca, e vou querer te matar! – murmurou, apoiando-se no rapaz para vencer a escada.
– Eu só te acompanhei, cariño. – Rafa riu, guiando-a até o sofá. Ao ver que realmente estava com dificuldades para se manter de pé, completou – Fica aí, vou buscar uma água e ver se tem alguma glicose por aí pra te dar.
Rafa revirou os armários e já estava desistindo de encontrar um doce quando finalmente descobriu uma caixa de paçocas muito bem escondida. Se bem conhecia Neymar, o amigo fizera aquilo para impedir assaltos às suas paçoquitas. Tarde demais.
– Pronto, formiga, toma aqui teu doce. – entregou uma paçoca para , que já estava quase cochilando no sofá. A garota sorriu, agradecida, e comeu em duas mordidas – Agora bebe água, vai... – completou, sentando-se ao lado dela. terminou de beber a água e então tirou os sapatos, escorregando o corpo para o colo de Rafael, aninhando-se nele como a um travesseiro.
– Rafa...– sussurrou, a voz ainda mais rouca do que de costume, pela bebida. Ele apenas murmurou algo para que ela continuasse o que pretendia dizer, ocupado em brincar com as pontas de seus cabelos, espalhados sobre ele. Ela fechou os olhos antes de finalmente concluir – Pode me chamar de .


II. AMARILLO

“Es delicioso verte llegar
Ver losefectos que causas, tú
Con tu sonrisa angelical
Llenaslahabitación de luz”
(Amarillo – Shakira)

– Eu já te falei que não precisa encher o cara com isso essa hora da manhã, Bruna! – revirou os olhos ao ver que a outra estava ocupada em uma ligação. A garota bufou, jogando um punhado de cornflakes na boca, voltando os olhos para a TV: a dublagem de "Anatomía de Grey" fazia com que gargalhasse a cada segundo, a voz de Sloan parecendo algo como as novelas mexicanas que ela costumava assistir com a avó na SBT – Vai lá cuidar do seu cagão e deixa que eu me viro! – protestou, por fim, assim que Bruna desligou o telefone.
– Cala a boca, , você não conhece nada aqui... – a morena se jogou ao lado da amiga na cama, roubando um pouco dos flocos de milho e recebendo um tapa na mão de , em defesa de sua comida – O Rafa falou que te leva com o maior prazer...
– Claro que falou! – rebateu, revirando os olhos pela segunda vez em menos de 5 minutos – Ele ia dizer o que? "Ah, foi mal, Bruna, mas não quero passar o dia de babá da sua amiga..."? – completou, com uma imitação tosca de uma voz masculina.
– Ele podia ter dado uma desculpa... – Bruna encolheu os ombros, já se levantando da cama em busca da bolsa – Mas não deu. – piscou, um sorriso de canto revelando suas reais expectativas para o encontro dos dois. Quando apenas bufou em resposta, resolveu ser mais direta – , eu te conheço... Você tá com vergonha de ter que passar o dia todo com o Rafa, porque sabe que rolou um climinha na casa do Ney... – disse, segurando uma risada.
– Para de ser retardada, Bruna! – respondeu, rindo – Que clima? Só se for um clima bélico, né? Porque eu queria matar ele no início daquela festa. – bufou, levantando-se da cama, desconfortável por ser colocada contra a parede: era muito descontraída, mas apenas quando se tratava dos outros. Quando o assunto era dela, revelava uma timidez impressionante.
– Mas depois vocês se deram muito bem, que eu vi. – Bruna implicou, com uma risada, já andando em direção à porta, disposta a deixar amadurecer aquelas ideias por si própria – Você já inverteu a ordem as coisas, ... Já até dormiu no colo dele! – disse, sorrindo com a língua entre os dentes – Agora é só voltar pra ordem natural e ter seu primeiro encontrinho... – completou, já com a porta entreaberta, pronta para fugir do "Furacão " (apelido tragicômico usado pelo grupo de amigas em referência à tragédia do Katrina).
– Ridícula! – exclamou, jogando em direção à porta a primeira coisa que alcançou: um pacote fechado de guardanapos que estava sobre a bancada da cozinha – Anda, aproveita e leva isso pra cuidar da caganeira do seu namorado. Ou será que aqui eles falam piriri?
– Retardada! – Bruna riu, jogando de volta os guardanapos – Manda um beijo pro Rafinha.
– Vou mandar você à merda se não sair daqui agora! – berrou, já rumando para o chuveiro – Oh, é mesmo! Esqueci que você já tá indo pra lá... – completou, com um sorriso triunfante, questionando-se se a amiga teria escutado sua última frase. A gargalhada de Bruna antes de trancar a porta, no entanto, deu-lhe certeza de que sim.




terminava de secar os cabelos – já vestida confortavelmente com um jeans detonado de lavagem clara, cropped quentinho de mangas compridas e uma flatform azul marinho – quando a tela do celular acusou uma nova mensagem.

Rafael Alcântara: pronta pra conhecer Barcelona com o melhor guia da cidade? 😉

: hahahah uau! Acho que nem vou me desculpar pelo trabalho de babá então...

Rafael Alcântara: não é trabalho nenhum

Rafael Alcântara enviou uma imagem



: hahahahahahahahaha você é a pessoa mais nerd que eu conheço!

: depois de mim, é claro

Rafael Alcântara: jajajajaja chego aí em 10 minutos, cariño

Rafael Alcântara: ops, corretor. Pra você é hahaha 😬

enviou uma imagem



Rafael Alcântara: 😱😱😱

: hahahaha brincadeirinha, já tô pronta. Pode vir!

Rafael Alcântara: jajaj quero só ver!




Ao receber uma mensagem de Rafael avisando que já estava esperando no carro, até pensou em brincar com ele novamente sobre o atraso e dizer que faltava escolher uma roupa. Considerando, contudo, a boa vontade do rapaz em perder um dia babysitting pela cidade na sua companhia, resolveu descer tão logo que se certificou de que não esquecia nada: casaco, celular, chaves, carteira e – o mais importante de tudo – sua câmera.
– Ora, ora... Não é que ela é mesmo pontual? – Rafinha disse, escorado despretensiosamente na porta do carro, assim que colocou os pés na calçada. A garota teve um segundo de delay na resposta quando ele tirou os óculos escuros e abriu um sorriso, demorando a processar aquela cena.
– Seus 10 minutos viraram 20, me deu alguma margem. – piscou, sorrindo, ao se aproximar do carro e aceitar o abraço que Rafinha lhe oferecia, a julgar pelos braços abertos.
– Oh, sobre isso... – Rafa sorriu de canto, enfiando a mão direita na jaqueta de couro que usava sobre um moletom cinza, mantendo no abraço pela outra mão – Eu tive que fazer uma parada pra te comprar isso. – os olhos dele cintilaram de satisfação quando viu a expressão surpresa de ao pegar a barra de chocolate que ele lhe estendia – Não sabia como era seu humor pela manhã e queria garantir a paz pro nosso dia. – brincou, arrancando uma gargalhada sonora de .
– Rafael! – ela deu um tapa no braço do rapaz, seguido de um beijo no rosto, os olhos brilhando feito criança – Você vai me deixar enorme até o final dessa viagem, mas isso é a melhor coisa que eu poderia ter recebido essa manhã. – piscou – Já posso te considerar o melhor guia da cidade antes mesmo de sairmos.
– Você não viu nada, gata! – Rafa piscou, convencido, abrindo a porta do carona para que entrasse no carro – A Bruna me disse que você é fotógrafa! – exclamou, animado, assim que começaram a adentrar o trânsito da cidade – Por que não me contou aquele dia?
– Não sei... – deu de ombros, sorrindo de canto – Acho que tô muito acostumada a ter todo mundo tratando a fotografia como um hobby, mesmo que eu tenha me formado nisso...
– Eu acho incrível. – Rafa sorriu, olhando de canto para a morena ao seu lado: podia viver por trás das lentes, mas certamente seria muito bem-sucedida caso decidisse estar do outro lado delas – Vai gostar de fotografar aqui... Barcelona é uma das cidades mais bonitas do mundo. Pelo menos do mundo que eu conheço. – completou enquanto sorria e dava de ombros, arrancando de um sorriso.
– Eu tenho certeza que sim. – ela concordou ao olhar pela janela, observando o colorido da cidade e, mais que isso, as pessoas.
era apaixonada pela fotografia desde que se entendia por gente, e enquanto amadurecia seu estilo tirara sim muitas fotos de paisagens paradisíacas pelo Brasil e em suas viagens mundo afora... Mas foram sempre as pessoas que a cativaram de uma forma inexplicável: o olhar, o gesto, o sorriso, a lágrima. Era isso que ela gostava de captar com a câmera: as histórias por trás das fotografias.
– Você tem algum lugar específico em mente? – Rafa perguntou, assim que chegaram ao centro da cidade.
– Na verdade, não... – respondeu francamente. Como a viagem tinha prazo indeterminado, ela se dera ao luxo de não planejar muito o que fazer em cada dia – Surpreenda-me. – estreitou os olhos, brincando, e Rafa abriu um sorriso largo.
– Eu estava torcendo por essa resposta. – confessou – Acho que você vai ter muito tempo pra conhecer os pontos turísticos... Então tinha pensado em te levar a alguns lugares diferentes, pode ser?
– Claro! – concordou, animada com a ideia – Não me decepcione... – brincou, com um sorriso de canto.
Rafa ainda tinha os olhos presos ao trânsito quando respondeu, com um sorriso e um afago leve no joelho da garota.
– Jamais.




– Garota, você não cansa nunca? – Rafael perguntou, apoiando as mãos sobre os joelhos para tomar fôlego. Ele apertava os olhos para enxergar contra o Sol de inverno, mas a garota estava entretida demais para escutar, correndo para fotografar duas crianças que alimentavam um casal de patos no lago do Parque de La Ciutadella. Deixou que ela se divertisse, e foi até um quiosque de sorvetes próximo ao lago, comprando uma casquinha para si e uma para .
Quando se aproximou da garota, que analisava as fotos que havia tirado, Rafa foi incapaz de conter um sorriso: era nítido o quanto era apaixonada pelo que fazia, e o brilho que ela carregava nos olhos durante toda aquela manhã em que eles rodaram metade da cidade a pé – sim, porque não admitia andar de carro desnecessariamente, quando podia estar fotografando cada passo do caminho – era simplesmente contagiante.
– Nossa, ficaram lindas. – ele comentou, sentando-se perto dela no banco de pedra próximo ao lago – Toma, faz muito tempo que você não come nada, só corre Barcelona afora.
– Pra alguém que corre 90 minutos você tá muito fraco! – riu, pegando o sorvete – Mas meu pequeno e voraz estômago agradece. – sorriu, deliciando-se com o sorvete logo em seguida – Aquele é Valentim. – apontou para o garotinho de cabelos escuros, e que parecia ser o menor deles – O mais velho é Marco. Eles são irmãos e têm um cachorro que se chama Nico.
– Vejo que alguém fez amigos. – Rafa sorriu, observando as crianças que ainda se divertiam com os patos – Você tem cachorro? – questionou.
– Tenho duas. – sorriu, pegando o celular para mostrar fotos de suas crianças, feito uma mãe orgulhosa – Essa é a Mandioca. – apontou para vira-lata cor de caramelo – E esse é o meu gordo, o Torresmo. – completou, mostrando seu outro filhote, que realmente era uma bolinha malhada de preto e branco.
– Por que será que os nomes não me surpreendem? – Rafa gargalhou, recebendo um tapa de em resposta – Eu tenho só a Preta aqui comigo, mas na casa da minha mãe tem vários... – mostrou a proteção de tela do celular, uma foto sua com o enorme labrador na praia.
– Ai, que linda! – se derreteu, sorrindo para a tela do celular – E que grandona, ela!
– Ela é um bebezão... – Rafa riu, recostando-se no banco – Qualquer dia eu apresento vocês...
Antes que pudesse responder, no entanto, Valentim veio correndo na direção deles, seguido de perto por Marco, que – do alto de seus 7 anos – parecia tentar controlar o caçula.
– Valentim, volta aqui... – resmungou, agarrando o irmão pelo capuz do casaco – Eu já te disse que não é ele.
– É sim! – o mais novo protestou, soltando-se e voltando a correr – Ei, moço... – ele cutucou as pernas de Rafa, que já estava, assim como , segurando o riso – Você é o Rafinha, não é? O jogador de futebol?
– Sim, senhor. – Rafa sorriu, vendo os olhinhos escuros do garoto brilharem de excitação, ao passo que Marco arregalou os seus de tanta surpresa.
– Eu diiiiiiisse que era ele! – Valentim comemorou, dando um soco no ar, rindo do irmão mais velho.
– E eu fiquei sabendo que vocês são os famosos Valentim e Marco, os donos do Nico. É certo isso? – perguntou, vendo as expressões nos rostinhos das crianças se modificarem para puro prazer.
se levantou do banco, piscando para Rafa e indicando que ia até a carrocinha de sorvetes, e assim que viram o lugar vago as crianças trataram de se sentar ao lado daquele que era um dos ídolos de seu clube. Eles bombardeavam Rafael de perguntas, e o rapaz respondia sempre de forma bem humorada que arrancava gargalhadas dos pequenos. Enquanto aguardava suas casquinhas ficarem prontas, aproveitou para registrar aquele momento: Rafa sorria aquele seu sorriso que tomava conta de todo o rosto, deixando os olhos não maiores do que pequenas frestas. Valentim tinha a cabeça tombada para trás em uma risada e Marco cobria o riso com as mãos, ambos olhando admirados na direção do jogador. Foi apenas uma foto, e soube que não precisaria de mais. Estava perfeita.




– Mesmo que eu não tivesse visto mais nada do seu trabalho, eu te contrataria sem pensar duas vezes só por essa foto, . – Rafa disse, encantado com a fotografia que examinava pelo visor da câmera – Me manda depois, por favor? Eu quero revelar.
– Fico muito feliz que você tenha gostado. – ela sentiu as bochechas corarem, pouco acostumada àquele tipo de elogio. Tinha impressão de que Rafa era uma das pessoas mais gentis que já conhecera – Mas os modelos me ajudaram.
– À disposição, cariño. – Rafa deu de ombros, sorrindo.
Os dois aguardavam ansiosamente pelo almoço, visto que já passava das três da tarde e eles ainda estavam apenas com o sorvete no estômago. estava muito satisfeita com as fotos que tirara, e mal podia ver a hora de vê-las no computador, e então reveladas.
– Eu sinto que posso ficar aqui por anos e nunca vou conseguir fotografar tudo que eu quero... – comentou, num suspiro, guardando a câmera na bolsa com cuidado.
– Falando nesse assunto, - Rafa aproveitou a deixa – até quando você fica?
– Não sei exatamente... – respondeu – Parece que eu não faço nada da minha vida, né? Colocando assim... Mas essa questão é complicada. – disse, torcendo os dedos sobre a mesa.
– Hm... – Rafael se limitou a dizer, tomando um gole de água, a deixando a vontade para continuar ou mudar de assunto.
– Eu estava noiva. – disse, e quase sorriu ao perceber a arqueada de sobrancelhas de Rafa, que ele tentara bravamente controlar – Mas nós resolvemos dar um tempo, porque eu não estava pronta pra esse passo. – explicou – A Bruna estava vindo pra cá, eu queria uma mudança de ares, e uma coisa levou à outra...
– Entendi... – Rafa respondeu, ainda se recuperando da surpresa. A curiosidade lhe matava para perguntar mais sobre a relação de com o ex, para saber se o término ocorrera de fato, mas logo o garçom chegou com seus pedidos e o rapaz achou melhor deixar que o assunto se encerrasse por ali.
– Meu Deus! – exclamou, vendo o tamanho do sanduíche que pedira – Isso é definitivamente maior do que eu imaginava...
– Mas com certeza menor que a sua fome, para de drama... – Rafa riu, roubando uma batata da enorme cesta que acompanhava o hambúrguer da morena.
– Ei! – ela protestou, arrancando de Rafael uma risada, enquanto ele sacava do bolso o celular.
– Eu não disse? – sorriu, triunfante – Olha pra cá que eu preciso registrar esse momento. – pediu, tirando uma foto de que posava com os olhos arregalados e a boca aberta, simulando surpresa frente ao tamanho do prato. Sorrindo para o resultado da foto, postou-a na história do instagram com a legenda: será que ela consegue? 😳@.
Não demorou muito para que começasse: dezenas de novos seguidores no instagram, de modo que nunca tinha visto, mesmo que o seu trabalho fizesse dela uma figura pública.
– Rafa, eu acho que isso é sua culpa... – a garota concluiu, rindo, ao ver que alguns dos seguidores eram páginas de fã clubes do Barcelona, ou do próprio jogador – Oh meu Deus, eu sou uma InstaCelebrity! – brincou, fingindo excitação.
– Deixa eu ver... – Rafa riu, pegando o celular da garota: até o momento eram 569 novos seguidores. Em minutos. – Nossa, eles são frenéticos... – comentou, vendo uma série de novas curtidas serem anunciadas nas fotos de . Ela teria que se acostumar com aquilo, aparentemente. Devolveu o celular para a garota assim que uma mensagem de Bruna chegou, lendo-a sem querer, mas com alguma satisfação: "Stories no instagram??? TÔ DE OLHO EM VOCÊS DOIS, DONA ! hahahahahahaha"




estava exausta pelo dia tão cheio, mas não conseguia tirar o sorriso do rosto. Rafa tinha acabado de deixá-la em casa depois de ela tirar as fotos mais lindas do pôr do Sol próximo à Catedral Sagrada Família, e ela não podia aguentar a ansiedade de analisar todo o material que conseguira finalmente em um tamanho decente, e não na pequena tela da câmera, especialmente a foto de Rafa com as crianças: pretendia dá-la a ele em um porta retrato, agradecendo pela companhia incrível que ele fora durante aquele dia.
Depois de tomar um longo banho e demorar-se respondendo a algumas mensagens que ignorara o dia inteiro – inclusive à gracinha de Bruna – a garota descarregou as fotos no notebook, o que pareceu demorar uma eternidade. Localizou a foto de Rafa – que quase não precisou tratar, ajustando apenas um ou outro detalhe de luz e saturação – e enviou para o celular do rapaz, junto com a mensagem: obrigada pelo dia incrível! Você é mesmo o melhor guia da cidade... jajajajaja

Rafael Alcântara marcou você em uma foto.

Foi essa a resposta dele, simples, direto, franco, ao melhor jeito Rafinha de ser: ele postou a foto de , com a legenda "a melhor fotógrafa que você respeita! Arrebenta, @ 🖤"


III. SIN CONTRATO

“Dimedimedime si túquieres andar conmigo
No tiene caso que sea tu amigo
Y si no quieres solo dameun rato
Baby pero sinningún contrato”
(Sin Contrato – Maluma)

– Você... Percebe... A clara... Injustiça... Desse... Convite... Né? – pontuava cada palavra com uma respiração profunda, tentando inutilmente parecer menos ridícula enquanto se esforçava para falar e correr ao mesmo tempo. A missão anti-ridicularização se tornava mais difícil, contudo, quando tinha ao seu lado um Rafael absolutamente confortável, já despido da camiseta, correndo como se aquilo fosse brincadeira de criança enquanto mantinha aquele sorriso cretino no rosto. Idiota.
Rafa olhou para a garota ao seu lado e não pode conter uma risada: tinha o rosto num vermelho aceso e alguns fios de cabelo já se grudavam à pele coberta de suor, emoldurando a expressão dela de mais pura indignação. Simplesmente adorável. Ele diminuiu o passo para que a garota tomasse um pouco de fôlego e arquejou um “obrigada, ForrestGump”, muito à contragosto, tão logo conseguiu unir duas sílabas.
– A gente já tá quase terminando essa volta, nena... É a última, juro. – prometeu e o olhou com um olhar que podia ser traduzida como “graças a Deus”, ou talvez um atrevido “ai de você se não for”. Rafa apostava mais na última opção.
Era a quarta volta que davam no Park Guell, totalizando pouco mais de 10km de corrida. O caminho era incrível e contava com algumas das produções arquitetônicas mais bonitas que já vira na vida, mas no momento tudo o que ela conseguia pensar era em como ignorar a queimação absurda em suas panturrilhas e colocar um pé na frente do outro. Rafael Alcântara era um belíssimo filho da mãe por não avisar que o trajeto era repleto de relevo e subidas, e por isso, diferentemente de quando corria seus 10km na esteira, estava completamente acabada ao final do percurso.
– Chegamos! – Rafa parou, apoiando as mãos sobre os joelhos e respirando pausadamente por alguns segundos assim que chegaram à área aberta do estacionamento.
– Nunca mais saio pra correr com você, Rafael... Você não sabe brincar! – reclamou, batendo o indicador contra o torso dele para pontuar suas palavras – Se você não estivesse mais nojento que eu, te obrigaria a me carregar até o carro só pra você parar de ser besta. - comentou emburrada, reparando em como pele morena do rapaz brilhava de suor. Não que a visão fosse desagradável, muito pelo contrário: cada músculo parecia saltar aos olhos, mais ainda quando ele contraiu o abdome numa risada gostosa.
– Ah, é? – ele disse, sem dar tempo para que a morena se preparasse para o que viria a seguir: Rafa lhe agarrou em um abraço de urso, enquanto gritava e socava seus ombros em meio a gargalhadas.
– Sai, Rafael, que nojo!! – ela protestava, apertando os olhos em uma expressão engraçada, e quando finalmente se viu livre do aperto de Rafa, sua camiseta branca estava ainda mais transparente de tão molhada – Olha o que você fez, demônio!
– Ficou melhor assim, se quer a minha opinião. – Rafa piscou, dando um sorriso sacana, e recebendo por isso um tapa dolorido nas costas – Tudo calculado. – completou, tocando a têmpora com o indicador, antes de sacar do bolso as chaves do carro.
revirou os olhos, andando vagarosamente até o carro de Rafa, cada passo parecendo mais difícil que o anterior – como quando você precisa fazer xixi e ao chegar na porta de casa a vontade se torna insuportável. Ela definitivamente precisaria de um banho de banheira e um combo de analgésicos, caso desejasse estar em condições de andar no dia seguinte. Suspirou, pensando no quanto seu estômago se iludira pensando que a convivência com Rafinha seria sempre repleta de doces e comilanças... Ela deveria ter imaginado que a amizade com um jogador de futebol profissional eventualmente levaria àquele tipo de programação fitness.
– Sabe o que não ficou melhor? O cara que me levava chocolates e agora me tira de casa pra correr essa hora da manhã... – resmungou e Rafa apertou suas bochechas com uma risadinha anasalada.
– Toma, formiga. – ele sacou uma embalagem de M&M de dentro do console do carro, e o sorriso que iluminou o rosto de fez com que ele não contivesse uma gargalhada – Meu Deus, , você precisa ser estudada! Como pode comer tanto e ainda ter essa cinturinha? – brincou, beliscando o flanco esquerdo da garota, que aparecia desde que ela havia enrolado a camiseta até a altura do top para se refrescar.
– Para de ser invejoso! – riu, mas se não fosse pelo tom rosado que já cobria seu rosto, o tanto que corara ao gesto dele ficaria evidente nas bochechas.
– Não é inveja... – Rafa riu, abrindo a boca num pedido silencioso para que ela lhe desse um M&M enquanto dirigia – Tá de parabéns, gracinha. – piscou, mordendo o dedo dela de brincadeira e ganhando uma cotovelada em reposta.
– Olha, eu queria ter dinheiro pra te dar, porque dar intimidade não tá mole não! – brincou enquanto despejava o restante das bolinhas coloridas na boca, deixando um último punhadinho para Rafael. Não que ele merecesse.
– Já era, morena! – Rafinha sorriu, dando de ombros – Ih, nem vi as horas... Te atrasei pra sua aula? – perguntou, preocupado, assim que seus olhos bateram no relógio do som do carro.
– Não, é só às 9h. – o tranquilizou, constatando que ainda tinha uma hora para chegar ao curso – E Mario não é a pessoa mais pontual do mundo, isso já deu pra perceber...
– E você tá gostando? – Rafa perguntou, olhando de esguelha para a garota no banco do carona.
– Nossa, Rafa, demais! – suspirou, virando-se para ele com as pernas cruzadas, animada pelo assunto – Essa pós caiu do céu, vai ser incrível pro meu currículo um curso com Mario Villas...
– Você fica uma graça empolgada assim, sabia? – Rafa sorriu de canto, seus olhos faiscando contra os de por um segundo, até que ela voltasse a olhar para a frente, reiniciando o assunto para se livrar do embaraço.
– Além do mais, - ela pigarreou por um segundo, para retomar o tema: vivia perdendo o fio da meada nas suas conversas, e por pior que fosse sua memória, podia jurar que a culpa era muito mais da forma como Rafael, às vezes, olhava para ela – eu finalmente posso parar de me sentir uma inútil nessa cidade pelos próximos meses...
– Meses? De quantos estamos falando? – Rafa deu um sorriso sincero, visivelmente alegre com a notícia.
– Provavelmente três. Talvez quatro. – sorriu de volta, incapaz de se negar a compartilhar da felicidade dele, afinal, Barcelona vinha lhe sendo muito gentil ao cumprir com o propósito de encher sua vida. Ou talvez Rafa estivesse tomando para si esse papel. aumentou o som do carro, assustada com o próprio pensamento, e deixou que a voz de Dave Grohl cantando Best of You preenchesse sua mente – Isso é literalmente a última coisa que eu esperava encontrar no seu Spotify. – sorriu, deitando a cabeça no banco e cantarolando o refrão daquela que era uma de suas músicas preferidas.
– Um homem não pode viver só de reggaeton, cariño... – Rafa disse seriamente, arrancando uma gargalhada alta de – Tá entregue, . – o rapaz estacionou o carro na frente do prédio que já se tornara tão conhecido – Me agradeça pela corrida depois que receber centenas de comentários no seu stories do instagram falando “uau, como você é fitness!”,“meu Deus, que musa!” – Rafa brincava, imitando vozes femininas.
– Ridículo! Eu só posto foto de comida, Rafael! Vão perguntar se eu usei drogas, isso sim. – gargalhou, lembrando-se que colocara mesmo uma foto no stories antes da corrida. Só não sabia se teria coragem de colocar outra revelando sua derrota ao final dela. Provavelmente sim, era muito a sua cara postar alguma gracinha.
– Espera, espera... – Rafa ria, desviando do tapa de raspão que lhe dera – Faltou a minha preferida: “um corpo é um corpo, né mores!” – completou, usando a voz mais afetada até então, fazendo com que explodisse de vez em gargalhadas.
– Você é oficialmente a pessoa mais idiota que eu conheço, Rafael! – revirou os olhos, dando um beijo estalado no rosto do rapaz antes de abrir a porta do carona – Mas eu ainda te odeio por essa corrida. – fez questão de pontuar, saindo do carro – Ah, e nos vemos à noite, certo? – completou, abaixando-se sobre o vidro aberto.
– À noite? – Rafa perguntou, arqueando as sobrancelhas, com um leve pressentimento que não lhe agradava. Oh, cara...
– É, Rafa... – sorriu, sem compreender a reação do outro – Não é aniversário de um cara do time? Bartra? A Bruna disse que todos iriam, achei que você fosse...
– E-eu vou... – Rafael conseguiu responder, sua cabeça trabalhando com mil possibilidades – O Ney tinha me falado que você e a Bruna iam à Madri para um desfile...
– Ah, nós íamos. Mas ela resolveu ficar... – encolheu os ombros – Então te vejo a noite. – deu um grande sorriso antes de acenar e se virar, perdendo por muito pouco a cena em que Rafael apoiava a testa sobre o volante, apertando o couro como se aquilo fosse resolver o seu problema.
Era oficial: Rafael Alcântara estava bem enrolado, e por isso não pensou duas vezes antes de ligar para o melhor amigo.
– Fala, brother. – Neymar atendeu nos primeiros toques, estranhando que Rafa ligasse tão cedo – Rolou alguma coisa?
– Ney, você não tinha falado que a Bruna ia com a pra Madri hoje, porra? – reclamou, acelerando mais do que o recomendável rumo à própria casa.
– Calma lá, Princesa, que onda errada é essa? – Neymar riu da aleatoriedade do assunto – Elas iam, mas desistiram... Qual o problema?
– A acabou de me falar que vai na festa do Marc. – Rafa disse num suspiro, percebendo que não havia mesmo escapatória – Você podia ter me avisado, caralho!
– Que isso, Rafa... – Neymar não controlava o riso frente à irritação sem sentido do outro – Que papo de maluco, cara... Tu sempre quer encontrar a mina, que foi agora?
– Você me disse que elas não iam! – Rafa exclamou, exasperado – Aí eu chamei a Adri pra ir comigo. – confessou, quase envergonhado.
– Aaaah, agora tá explicado... – Neymar soltou outra risada e Rafa sentiu que aquele seria o momento em que o socaria se estivessem lado e lado – Puta vacilo, mano... – resmungou – A Bruna já tinha até criado um nome pra vocês dois... Como chama aquilo? Chips?
– Ship. – Rafa corrigiu, rindo sem humor.
– Isso! – Neymar concordou, animado – Ela tava em dúvida entre e , mas eu disse que os dois ficaram uma merda. – completou, e dessa vez conseguiu arrancar uma risada do amigo – Não dá pra, sei lá, desconvidar a Adri?
– Não, cara... – Rafa suspirou, resignado – Ela tava bem bolada comigo esses últimos tempos, falando que eu não dou atenção... Se eu fizer isso ela vai pirar.
– Claro que não dá, tá pagando de namorado da desde que a menina chegou – Neymar riu, usando a piada que já estava ficando velha entre os amigos. – E você não quer perder um contatinho antes de ter o outro garantido, né? Tô te sacando, moleque! – continuou, compreendendo a lógica masculina que guiava as atitudes de Rafa no momento.
– Não é isso, você sabe que com a não tem nada... – Rafa fez questão de pontuar, mas não conseguiu conter um sorriso de canto, já que não era como se ele não desejasse ter alguma coisa com ela – Mas também não queria ferrar o esquema todo antes de qualquer chance de rolar. – explicou.
– Parece que tu vai ter que se virar nos 30 então, porque olha... Você se enrolou, rapaz... – o amigo comentou, fazendo Rafa rolar os olhos.
– Você quer fazer o favor de me ajudar ao invés de falar o que eu já sei? – reclamou, mal conseguindo cumprimentar o porteiro da guarita de seu condomínio tamanho o mau humor que se abateu sobre ele. E pensar que o dia tinha começado tão bem...
– Relaxa, Princesa... Você vai dar seu jeito, eu confio no seu taco. – Neymar tranquilizou o amigo – A patroa tá saindo do banho aqui, mano, no treino a gente conversa e tenta dar um jeito nessa encrenca que tu arrumou aí... – encerrou a conversa, sabendo que Bruna não podia participar daquele assunto.
– Demorou, meu brother. Valeu pelo momento de viadagem, eu realmente precisava falar com alguém.
– Tá tranquilo, Princesa. Eu sei que você é sensível. – fez questão de provocar o amigo, antes de desligar.
Rafa largou as chaves sobre a mesa da cozinha e ignorou o chamado de Tita, sua ajudante, avisando que preparara um café da manhã reforçado para ele se recuperar da corrida. Deixou o corpo cair sobre o sofá, tapando o rosto com o antebraço e murmurando a única coisa que traduzia seu momento.
Que merda.




– Como assim o Caê te ligou? – a voz de Bruna era apreensiva. Ela não gostava nada daquela história... Oh, não, nadinha. Tinha os olhos em , mas esta cutucava as cutículas numa tentativa falha de diminuir o impacto da bomba que acabara de jogar no meio do quarto.
– Ligando, Bruna. Ligação internacional. Coloca o +55 na frente e...
, eu tô falando sério! – Bruna interrompeu a gracinha da outra, pois sabia bem que tendia a usá-las para desviar a atenção dos problemas que a envolviam. E aquele era um problema tamanho família – O que ele queria? – tomou coragem para finalmente perguntar, vendo suspirar de modo quase frustrado.
– Não sei, ok? Eu não atendi. – deu de ombros, enfiando-se ainda mais entre os travesseiros – Tava na pós, tomei o maior susto da minha vida... Não quis atender na hora e depois fiquei sem coragem de ligar de volta. – confessou.
– Graças a Deus! – Bruna suspirou – Eu já te disse que largar esse cara foi a melhor coisa que você já fez na vida? – questionou, sentando-se ao lado da amiga na cama e fazendo um carinho no braço da morena. Podia ver o conflito nos olhos de , e sabia que resolver os problemas alheios parecia sempre fácil, mas com relação à e Caê a resposta era simples e matemática: ele não merecia a mulher que tivera ao seu lado, e a perdera por bem.
– Hoje ainda não. – deu um sorriso fraco, que logo virou uma risada – Foi só o susto, Bru... 7 anos juntos, depois meses sem ter notícia e aí ele liga do nada... Mas você sabe que eu ‘tô muito bem, obrigada’ com isso tudo. Ainda mais depois que cheguei aqui. – tentou explicar a confusão que se passara em sua mente nas últimas horas desde a ligação do ex.
– Muito melhor do que eu imaginava, inclusive! – Bruna sorriu abertamente para injetar algum ânimo na outra – Dando aula de plenitude since 1993. – brincou e rolou os olhos com uma risadinha pelo nariz, que foi interrompida tão logo o celular vibrou na pequena mesa de cabeceira.
– Puta que pariu. – Bruna soltou, cobrindo os lábios com uma das mãos. Pra quê foram invocar a criatura?
– É o Lipe. – sorriu de alívio e Bruna soltou o fôlego de uma vez só, agradecida. atendeu à ligação do FaceTime com um sorriso gigantesco, tamanha a saudade que tinha daquele rosto – Oiii, bebê! – exclamou assim que a face morena do rapaz recém saído da adolescência preencheu a tela – Ai meu Deus, sua barba cresce igual mato, menino?
– Fala, mana! – a voz do garoto era mais grave do que sua aparência sugeria, mas enquanto exibia um sorriso idêntico ao da irmã era possível enxergar alguma pontinha do adolescente dentro daquele homem de quase 1,90 – Opa, tudo bem, Bruna? – acenou brevemente para a jovem que se jogara ao lado da irmã no travesseiro.
– Olá! – Bruna sorriu – Luis Felipe, você faça o favor de fazer essa barba, garoto, tô me sentindo idosa! – implorou, rindo.
– Só quando a voltar, aí eu tiro de vez... – o rapaz riu, passando os dedos pela barba curta – Saudade de tu, doida. – disse, voltando os olhos para a irmã novamente. Olhos assustadoramente parecidos com os de , como quase tudo em sua fisionomia.
Desde que Lipe passara da adolescência, ganhando corpo e vários centímetros de altura, a distância de idade entre ele e a irmã 5 anos mais velha parecia ter diminuído a ponto de muitos questionarem se eram gêmeos. Não eram, de fato, mas a conexão e a cumplicidade que exibiam era digna de seres que haviam dividido uma existência inteira desde o útero.
– Eu também tô morrendo de saudade... – se derreteu, querendo que Lipe estivesse ali para que ela se enfiasse no abraço dele feito uma menininha, naquela inversão de papeis de caçula e irmão mais velho que era tão comum aos dois – Como estão o papai e a mamãe? E os meus filhos, Luis Felipe, vocês tão cuidando bem deles? – perguntou, enlouquecida de saudade de seus cachorros.
– A mãe tá bem, não para de falar de você nem um segundo, já quer ir te visitar... O velho você conhece, né? – riu de canto, porque se identificava com o pai naquele aspecto da personalidade – Não é de falar muito, mas tá doido de saudade também. – disse, e não conteve também um sorriso. Falar com a família era ótimo, mas aumentava a saudade de todos, principalmente agora que sabia que ficaria em Barcelona por um período bem maior que o inicialmente pensado – E seus filhos estão ótimos, Torresmo tá gordo igual a um porco, mas bem.
– Cala a boca, Lipe! – gritou, defendendo seu bebê e arrancando gargalhadas tanto de Bruna como do irmão – Coitado do meu gordinho.
– É porque você não viu a bola que ele tá! – Lipe se explicou, rindo, mas logo sua expressão tomou um ar mais sério e quando ele coçou a nuca, dando uma olhadela para baixo, soube que a ligação do irmão não viera ao acaso.
– Desembucha, vai... – murmurou, sentindo uma vontade quase irrefreável de se levantar da cama. Nunca conseguia ficar parada quando envolvida de qualquer tensão. Lipe não precisou perguntar o que ela queria dizer, eles eram maiores que aquilo e ele compreendeu que lera suas entrelinhas e por isso o golpe veio seco, não havia motivo para enrolar.
– Encontrei o Caê na rua hoje. – disse, encarando os olhos da irmã para tentar buscar ali também os subtextos de que precisava – Ele perguntou de você, disse que estranhou ver seu estúdio fechado quando passou por ali outro dia...
– Stalker. – Bruna bufou, irritada. ainda se conservava calada, esperando que Lipe terminasse o que tinha a dizer.
– Eu contei que você tava em Barcelona sem prazo pra voltar... – Lipe revelou e se lembrou de dar um pequeno sorriso, acenando com a cabeça, para que ele se tranquilizasse de que fizera a coisa certa em contar – E foi só isso. – terminou.
– Foi por isso que ele ligou, então... – disse, simplesmente, para os dois que aguardavam sua reação. Antecipando a pergunta de Lipe, completou – Eu não atendi. Nem pretendo, na verdade, caso ele tente de novo. Celular tava até desligado até agora há pouco...
– Ótimo. – Lipe sorriu, aliviado – Agora vamos pro assunto que realmente interessa... – seu sorriso se tornou algo malicioso e franziu o cenho. Daquela vez ela não conseguia antecipar o que viria dos lábios do irmão.
– Não que superar esse assunto em nível de interesse seja lá muito difícil, convenhamos... – brincou, como de costume, para aliviar a tensão – Mas o que é, baby?
– Você e o Rafinha Alcântara andam se pegando, ? – o garoto parecia dividido entre admirado e incomodado, e enquanto sustentava uma expressão de surpresa, Bruna dava uma gargalhada escandalosa.
– Meu ship tá vivo! – gritou, comemorando com uma dancinha que categorizaria como vergonhosamente ridícula.
– De onde você tirou isso, Lipe? – riu, revirando os olhos e mordendo uma das unhas.
– Você não tá negando! – foi a vez do garoto ser pego de surpresa. Dissera aquilo esperando uma negativa imediata, afinal acreditava que se estivesse beijando um jogador do Barcelona ele seria, no mínimo, o segundo a saber – Saíram umas fotos de vocês abraçados hoje em tudo quanto é lugar, já me marcaram nisso umas oitenta vezes em todas as redes sociais. – explicou, fazendo Bruna delirar de animação – Juro, o Deco até me ligou pra saber se era verdade, ele paga muito pau pra esse cara.
– Eu tenho um ship. E ele é forte. – a atriz cantarolava.
– Cala a boca, garota! – revirou os olhos, ainda rindo. Adolescentes... E pensar que dizem que mulher é quem faz mais fofoca, hm? – Não, Lipe. Eu e o Rafa somos só amigos. Hoje nós saímos pra correr e devem ter tirado umas fotos. – ela deu de ombros.
– Como eu não vi isso, meu Deus? – Bruna abriu o Instagram no mesmo instante, procurando algumas fontes de fofocas – Fiquei o dia inteiro por conta e quase não mexi no celular... – lamentou.
– Era um abraço bem... – ele coçou a nuca mais uma vez, reprimindo uma risada – íntimo. – revelou, e teve que se esforçar para lembrar em qual momento da manhã Rafael a tinha abraçado.
– Ah, meu Deus, era uma brincadeira! Ele tava suado e veio me abraçar porque eu tava com nojo! – a garota explicou, exasperada, sentindo as bochechas começarem a arder – Vocês dois são ridículos... Larga isso, Bruna! – bateu no iPhone da garota tentando derrubá-lo, em vão.
– Espera, espera, achei! – Bruna se levantou da cama para fugir do alcance de – Hugo Gloss postou: “flagra! Parece que o magya olímpico Rafinha Alcântara não é mais vela de #Brumar, meu povo! O sapão foi flagrado na companhia de uma morena em clima de romance por Barcelona. Deixa a gente lavar roupa nesse tanque, Rafa!” – a garota conseguiu terminar de ler, mesmo entre gargalhadas – Meu Deus, nessas horas eu amo a internet.
– Que vergonha, puta que pariu... – cobriu o rosto com uma mão – E coitado do Rafa, pra desmentir isso tudo.
– E você acha que aquele lá vai querer desmentir? – Bruna riu da ingenuidade da garota – Fala sério, Lipe, eles não fariam um casal lindo?
– Lindo eu não sei, mas que vai ser maneiro ser cunhado de jogador do Barça e da Seleção, com certeza vai... – o garoto exibiu um sorriso enorme, que fez a irmã revirar os olhos e bufar.
– Tchau, Luis Felipe, deu por hoje. – brincou, tentando ficar séria.
– Beijo, gata, se cuida. Te amo. – Lipe mandou um beijo carinhoso – Cuida dela, Bru. – recomendou.
– Sim, senhor! – Bruna bateu continência – Ainda mais agora que tenho reforços...
– Te amo, idiota. – deu um sorrisinho mínimo, ignorando a gracinha da amiga – E não se atreva a mentir pro Deco só pra tirar onda às minhas custas! – lembrou-se de recomendar, referindo-se ao melhor amigo do irmão, que ela vira crescer dentro de casa.
– Isso eu não posso garantir... – o garoto riu, com uma piscadela, antes de desligar.
– Eu quero realmente matar vocês dois. – suspirou, tentando sentir raiva de uma Bruna que estava tão animada e sorridente que tornava essa missão impossível.
, ele é um fofo! Vocês se dão tão bem... – começou o discurso que já ensaiara algumas vezes.
– Bruna, nem começa... – revirou os olhos – A gente tá muito bem assim, eu adoro o Rafa, mas não tem nada a ver.
– E quem disse que não? – Bruna insistiu, olhando a foto dos dois no celular – Fala sério, se isso não é a coisa mais fofa que você viu hoje... – sorriu, orgulhosa de seu ‘casal’.
– Amiga, nunca rolou nada, nenhum clima... Para de ser louca! – exclamou, mesmo sabendo que aquilo era uma verdade parcial. Se nunca tinha acontecido nenhum clima maior, era porque ela sempre recuava ao menor sinal.
– Ok, eu não vou falar mais... Hoje. – Bruna sorriu, maquiavélica.
– Já é alguma coisa. – resmungou, revirando na cama. Por que tinham que inventar aquela história para colocar ainda mais coisas na sua cabeça?
– Pode tratar de levantar dessa cama... – Bruna roubou as cobertas da garota, para expulsá-la – E anda logo que essa noite você vai ser a mulher mais bonita daquela festa.


IV. DESPACITO

“Tú, tú eres el imán y yo soy el metal
Me voy acercando y voy armando el plan
Solo conpensarlo se acelera el pulso
Ya, ya me está gustando más de lo normal
Todos mis sentidos van pidiendo más
Esto hay que tomarlo sin ningún apuro”
(Despacito – Luis Fonsi)

– Puta merda... – foi a única coisa que Rafa conseguiu dizer quando seus olhos captaram os recém-chegados à cobertura de Marc Bartra: Neymar, Bruna e, mais especificamente, .
e aquele par de pernas bronzeadas exposto pelo comprimento do macacão branco que usava, realçando ainda mais a pele praiana; e o decote vertiginoso que expunha o colo adornado por um cordão fino que descia provocativamente até o vão dos seios; e aquela risada gostosa que se fez ouvir do outro lado da sala quando a esposa do aniversariante fez qualquer brincadeira. e o sorriso sacana que ela deu quando pousou os olhos sobre ele por um segundo, antes de observar demoradamente a loira ao seu lado.
– Fala, meu brother. – Neymar fez com que Rafa descolasse os olhos da morena que se aproximava na companhia de Bruna – Oi, Adri! – cumprimentou com um sorriso pequenininho.
– Hola, Ney! – a loira sorriu abertamente, uma das mãos descansando sobre a cintura de Rafael sem imaginar o quanto o gesto parecia deslocado ao rapaz – E Bruna, sempre tão linda, quanto tempo! – dirigiu o olhar à namorada do rapaz, que sorriu sem mostrar os dentes, visivelmente desgostosa com a situação.
. – Rafa finalmente disse, encarando os olhos indecifráveis da garota que o olhava com o que lhe parecia ser uma espécie de divertimento – Você está... – conteve-se no último segundo, refreando todos os termos que lhe vinham à mente por conhecer bem demais o temperamento da loira que o acompanhava – Ótima.
– Acho que não conheço sua amiga, corazón. – Adri interrompeu, pressionando a cintura do rapaz com mais força, clamando por atenção. Ela deu a um sorriso mordaz, ao que a Morena arqueou uma sobrancelha, erguendo o canto dos lábios quase com ironia.
. – apresentou-se, antes que Rafa pudesse fazê-lo – É um prazer conhecê-la... – continuou, aguardando que a outra se apresentasse.
– Adri. – a garota respondeu em tom amistoso, tomando o copo de Rafael das mãos do rapaz e dando um longo gole. quase riu: era aquilo que ela chamava de ‘marcar território’?
Adri... – repetiu, acenando – Perdão, acho que Rafa nunca tinha mencionado seu nome. Mas agora fomos devidamente apresentadas, certo? – sorriu de forma amigável, tocando o braço da outra com naturalidade.
– Ela é uma amiga. – Rafa disse, sentindo que precisava se manifestar de alguma forma. Talvez não tenha sido a melhor, já que recebeu um olhar cômico de e ressentido de Adri.
Velha amiga. – a loira olhava para Rafael, estudando-o – A mais antiga, eu diria... – sorriu sugestivamente, voltando-se então para , dedicando-lhe o mesmo olhar analítico.
, vamos pegar uma bebida? – Bruna chamou, cansada da voz estridente e do sotaque irritante da acompanhante de Rafael, aquele estúpido – Não vamos tomar seu tempo, Rafa, já que está... ocupado. – sorriu ironicamente para o amigo antes de sair com os cabelos balançando atrás de si, sem nem mesmo se preocupar em chamar o namorado, que já conversava com outros colegas do time. Rafa riu pelo nariz, maneando a cabeça, quando acenou para o casal, seguindo a amiga até o bar.
– Eu não tô acreditando que o Rafa trouxe essa vagabunda pra cá! – Bruna bufou, enquanto esperavam que o rapaz do bar preparasse dois mojitos.
– Ele poderia conseguir algo melhor... – deu de ombros, encostando-se no balcão para observar o movimento – Mas não tô entendendo sua indignação, só tá engraçado como ele ficou meio constrangido...
– Você entende sim, para de ser ridícula... – Bruna revirou os olhos, dando vários nós em um canudo de plástico para aliviar a tensão.
– Quem devia parar de ser ridícula é você, - sorriu de canto – que agora já ficou provado que Rafa e eu somos amigos, e que a vida amorosa dele já tá muito bem encaminhada.
– Ah, para... Você não tá levando aquela mulher a sério, né? – Bruna riu – Ele enrola ela há anos, mas se quer saber não acho que ela ligue, contanto que o idiota continue a levá-la em festas com gente importante...
– Sinceramente? – riu pelo nariz, seu olhar sem querer esbarrando na figura de Rafa e Adri trocando um beijo rápido – Não é da minha conta. – ela desprendeu os olhos de Rafael, pegando sua bebida sobre o balcão e dando um longo gole para se livrar da imagem que, de algum modo impreciso, a incomodara.
– Eu só não entendo como ele foi burro de trazer ela aqui, quando sabia que ia te encontrar... – Bruna murmurou, ignorando a fala da amiga enquanto confabulava com si própria.
– Ele não sabia. – disse, e então uma risada escapou de seus lábios quando entendeu, num estalo, a conversa estranha que tivera com Rafa pela manhã – Ele tomou um susto quando eu disse que nós estaríamos aqui, pensou que íamos pra Madri. – explicou e Bruna soltou uma exclamação de compreensão.
Aquilo mudava, em parte, as coisas: Rafa claramente não queria encontrar com ela no mesmo ambiente em que estaria com Adri e, por mais que não quisesse especular os motivos daquilo, não podia deixar de sentir um leve comichão para fazer com que ele se arrependesse da gracinha de tentar dar um balão nas duas.
– O que você vai aprontar? Eu te conheço... – Bruna riu, já um pouco mais animada ao ver o sorriso de canto nos lábios da amiga.
– Eu? Nada! – alargou o sorriso, tornando-o quase inocente – Eu sou um anjo, não sabe?
– Certamente vestida como um, estás. – o comentário em português fez com que se virasse, surpresa, deparando-se com a figura alta de um rapaz que lhe dedicava um sorriso largo – E és tão bela quanto um anjo, também. – completou, num flerte discreto e delicado – Bruna, como estás? – sorriu para outra garota, que também sorria: um ship era um ship, e ela não deixaria o seu morrer. Mas Rafinha merecia uma lição, e André Gomes seria uma bela lição.
– André, querido! – Bruna cumprimentou o companheiro de time do namorado com um abraço – Essa é , uma grande amiga.
– Muito prazer! – os dois falaram, ao mesmo tempo, provocando uma risada.
– Olha só quem apareceu! – Neymar chegou por trás de Bruna, abraçando a namorada e cumprimentando o amigo – Presta atenção, , que esse é o único português de quem você tá autorizada a gostar... – brincou, arrancando uma gargalhada de todos na clara referência ao camisa 7 do Real Madrid.
– Amor, vamos procurar alguma coisa pra comer? – Bruna chamou, olhando sugestivamente para , que revirou os olhos com um sorriso mínimo nos lábios.
– Você que manda, mulher... – Neymar deu de ombros, seguindo a garota.
– Eu amo como ela sabe ser discreta. – suspirou, mexendo seu canudo dentro do copo e arrancando um sorriso esplêndido do português.
– Não posso dizer que não a achei mui’ fixe por isso. – confessou, fazendo com que ela sorrisse, achando seu sotaque nada menos que adorável.
“Fixe” repetiu, após mais um gole no mojito.
– Como vocês falam mesmo no Brasil? – ele riu, coçando a nuca – Legal? – perguntou, lembrando-se das conversas com os colegas brasileiros
– Sim! – acenou em concordância, sorrindo – Fixe, gostei.
– Vou te ensinar mais uma, então. – André retribuiu o sorriso, pedindo com um gesto uma bebida para si – Gira. – disse, e ameaçou uma meia-volta, de brincadeira, arrancando uma risada do rapaz.
– Não faço ideia do que seja. – a morena confessou, rindo com ele.
– Vou lhe dar um exemplo, para que descubras. – ele pensou por um segundo antes de completar – És a mulher mais gira aqui esta noite.
não precisou de uma explicação. Sorriu.




– Eu queria que você visse a sua cara agora. – Neymar não conteve uma risada ao ver a expressão emburrada de Rafael: parecia uma criança arrastada para fora do playground cedo demais.
– Quê? – Rafa olhou para o amigo, respondendo de má vontade.
– Nada, pode continuar aproveitando seu showzinho aí... – Neymar deu de ombros, apontando com o queixo para o ponto que Rafa encarava de quando em quando, com visível desagrado – Quer uma pipoca também ou tá tranquilo?
Vai se fuder. – Rafael resmungou, estalando a língua. Tirou os olhos de para colocá-los em Adri, que conversava qualquer coisa com a esposa de Bartra. Era uma mulher atraente, sem dúvidas, mas não podia negar que o que mantinham por todos aqueles anos não passava de algo físico. Talvez por isso nunca tivesse se incomodado ao encontrá-la, vez ou outra, acompanhada de outros caras: desde que continuasse atendendo aos seus booty-calls, adotava o famoso ‘segue o baile’... Então o que era aquela merda de pedra que ele sentia pesando seu estômago quando via tocando o ombro de Gomes, entre uma risada e outra?
– A Bruna me passou o Sermão da Montanha, reclamando que eu “acobertei o cretino do meu amigo”– contou, fazendo Rafa rir pelo nariz – Mas já passa, ela te ama, e tá obcecada com .
– Já quero ir embora desse lugar... – Rafa murmurou, ignorando a parte em que Neymar mencionava o ship que formava com . Não eram um casal, afinal – Não tô bem pra beber.
– Tu não quer é tá aqui pra ver coisa que não vai gostar. – Neymar riu, mas quase sentia um pouco de pena do amigo – Mas lembra que, caso aconteça, você que caçou... – olhou na direção de Adri enquanto bebia.
– Eu já volto. – Rafael levantou de súbito, e quando viu o rumo que o amigo tomava, Neymar revirou os olhos com um sorriso. Rafa gostava de se torturar...




– Não vai me trocar pelo Gomes, vai? – o disse, a voz mais baixa que o habitual, interrompendo a caminhada da morena que rumava para o corredor onde ficavam os banheiros – Pensei que eu fosse seu melhor amigo em Barcelona. – completou, percebendo que a construção frasal talvez entregasse algo além do que ele desejara inicialmente. Merda. Culpa do whisky.
piscou os longos cílios encarando-o por um momento, antes de sorrir. E, cara, aquela garota tinha um sorriso que quebrava as pernas de qualquer um...
– Você continua sendo meu melhor amigo. – disse, fechando os lábios em um sorriso cálido, mas ainda assim provocante. Rafa já a conhecia o suficiente para saber que estava a um passo de ter os efeitos do álcool ainda mais evidentes, e não podia evitar lembrar a última vez que vira assim, no dia em que se conheceram: dolorosamente sexy enquanto dançava para ele. E se havia algo para que não estava preparado, era assistir àquela cena com outro protagonista – André não vai roubar isso. – murmurou, encostando-se à parede para encarar o homem que ainda digeria sua resposta.
Rafa se aproximou, ansioso por arrancar do rosto dela aquele sorriso, e apoiou uma das mãos ao lado da cabeça da garota que, por um segundo, fechou os olhos, a respiração pesada de ambos se misturando pela proximidade. Foi a vez de Rafa sorrir: ele também sabia brincar, e era bom saber que tinha sobre ela algum efeito. se recuperou, voltando a observá-lo com divertimento.
– Você tá com ciúmes, Rafa? – perguntou, apertando o ombro dele levemente, antes de soltar um risinho que buscava invalidar sua frase anterior – Oh, claro que não... – acariciou a nuca dele com as unhas e Rafael travou a mandíbula, cerrando o punho contra a parede – Você tem Adri, não é mesmo?
– Hipoteticamente? – Rafa sussurrou e concordou com um aceno, ainda encarando aqueles olhos escuros, sempre tão sinceros e diretos que a tonteavam – Nesse caso, acho que eu não seria o único com ciúmes, nena... – Rafa exibiu um sorriso desconcertante, e deixou que uma risada escapasse de seus lábios assim que se recuperou. Estavam mesmo falando sobre ciúmes? Desde quando discutiam esses assuntos, ela não sabia... Tudo não passava de uma brincadeira, certo? O álcool certamente estava mexendo com ambos.
A garota empurrou Rafa levemente pelos ombros e andou até o banheiro sabendo que ele bebia de sua imagem ao deixá-lo. Virou-se, da porta, encontrando o olhar do moreno faiscando sobre sua silhueta.
– Perdido, cariño? – ergueu as sobrancelhas, valendo-se do apelido que ele usava com ela e olhando-se por um segundo antes de sorrir – A saída é pra lá.
Àquilo Rafael não pode conter uma risada, maneando a cabeça em descrença: como fora inocente o suficiente para imaginar que Adri era a maior encrenca em que meteria naquela noite? Era oficial: tinha o firme propósito de enlouquecê-lo, e ele não podia mentir dizendo que ela estava longe disso quando ela estava tão perto. Tão dolorosamente perto.




– Oh, meu Deus, até aqui? – revirou os olhos ao ouvir os primeiros acordes da música que começava a agitar aqueles que dançavam na parte externa da cobertura. Ela saía do Despacito, mas Despacito não saía dela... – Isso virou febre aqui também? – perguntou, descontraída pelos vários mojitos e pela intimidade que já desenvolvera depois de quase duas horas conversando com Gomes.
“Sí, sabes que ya llevo um rato mirándote,tengo que bailar contigo hoy.” – o rapaz respondeu com o trecho da música, estendendo uma mão para que sorrindo a aceitou.
“Vi que tu mirada ya estaba llamándome, muéstrameel caminho que yo voy.” – a garota respondeu no mesmo tom, acompanhando-o até o local onde os outros convidados dançavam.
André pousou uma das mãos na base das costas da garota e a outra em seu pescoço, num toque mais delicado do que ela se lembrava de ter sentido na última vez em que a tiraram para dançar reggaeton. Dançavam, entre sorrisos, rindo quando se perdia em alguma parte do espanhol – o que acontecia mais frequentemente do que ela faria caso estivesse sóbria.
– Alguém te ensinou bem. – André concluiu, vendo a desenvoltura dos quadris da garota que se movia contra ele, o rosto pousado sobre seu ombro de forma relaxada.
– Oh, sim... – respondeu, ciente de que André não conseguiria ver o sorriso largo que ela dera àquela pergunta. Não que fizesse alguma diferença, no fim das contas, já que o destinatário daquele sorriso sacana estava bem de frente para ela, examinando cada um de seus movimentos, mesmo com outro corpo esfregando-se ao seu. Rafa decidiu entrar na brincadeira dela, mesmo sabendo que Neymar o consideraria masoquista: sorriu de volta, mordendo os lábios para a forma como ela dançava.
Rafael apertou a cintura de Adri com alguma força ao ver deslizar as unhas pelas costas de Gomes, ainda exibindo aquele sorriso para ele. Só pra ele. A loira à sua frente soltou um gemido apreciativo, e o moreno não pensou antes de puxá-la para perto, avançando sobre seus lábios com avidez. O beijo era quente e lento, um velho conhecido que já não lhe despertava nada fora do comum, mas que ainda cumpria um propósito. O que vira ao finalmente soltar a loira de seus braços, no entanto, aquilo sim o tirava do sério...
podia estar dando um showzinho para Rafael e recebendo outro em troca, mas não era obrigada a assistir àquele beijo, ou era? Rafa não sabia brincar apostando baixo, e por mais que soubesse que podia corresponder à altura – André estava ali, afinal, em cada olhar deixando mais claro que a desejava – não teria coragem de carregar Gomes para o que era, para ela, apenas provocação amigável com outro... Uma brincadeira entre dois amigos bêbados e levemente alterados, que não precisava chegar às vias de fato.
Por esse motivo, a morena decidiu por algo mais inofensivo: girou até ter André com o corpo colado em suas costas, e se posicionou de forma a dar para Rafinha uma visão privilegiada de seu corpo contra o do português, seus quadris se movendo lenta e provocativamente ao som da música, enquanto deixava que Gomes apertasse sua cintura, dizendo qualquer coisa em seu ouvido. Sorriu, porque de alguma forma sabia que tinha atingido seu alvo: não precisava estar de olhos abertos para sentir o olhar de Rafa queimando sobre si. Só não esperava tê-lo tão perto.
– Compatriotas têm direito a uma música, pelo menos? – perguntou, olhando diretamente para – Ou vocês já assinaram um contrato de exclusividade? – voltou-se para André, soltando uma risada que amenizou a tensão de suas palavras.
– Eu vou pegar outro pra você. – André piscou para , deixando-a na companhia do companheiro de time. A garota sorriu, em concordância, e quase transformou o sorriso em gargalhada ao ver Neymar e Bruna se ocupando de Adri.
– Você devia parar de incitar o cara... – Rafa disse, colando o corpo ao da morena com alguma força, pegando-a de surpresa – Se não pretende fazer nada. – completou, enterrando uma das mãos entre os cabelos negros de , que tentou arduamente não suspirar.
– De que cara estamos falando? – perguntou, arqueando uma sobrancelha com a dualidade do comentário dele, e Rafa não conteve um sorriso de canto – Você me provocou. Eu não sei perder. – deu de ombros, aceitando de bom grado a forma como Rafael guiava seus passos na dança, trazendo-a sempre para mais perto.
– Empate? – Rafa propôs, encostando os lábios em seu ouvido, e sentiu seu corpo se arrepiar de maneira vergonhosa. Sorrindo, pensando que ele não a conhecia tão bem se pensava que a faria ceder assim tão fácil...
Impasse.




ainda não podia acreditar que a tinha convencido a sair de casa durante o que era uma das piores ressacas de sua vida – e não apenas de álcool, vale a pena acrescentar: sentia uma pontada de vergonha cada vez que rememorava os acontecimentos da noite anterior, especialmente a brincadeira estúpida que iniciara com Rafa e que durara a festa inteira. desejava de todo coração que ninguém houvesse percebido e, mais importante, que Rafael não se lembrasse de nada – ou pelo menos tivesse o bom senso de fingir demência.
– Você não vai comer nada, sério? – Bruna ergueu uma sobrancelha para a amiga, estranhando aquele fato.
– Não consigo nem pensar em comer, Bru. – respondeu, com uma careta, tomando um gole de sua água gasosa com limão, enquanto a outra se deliciava com uma torta de chocolate belga. Eram quase cinco da tarde e a única coisa que tinha colocado no estômago até o momento havia sido uma bola de sorvete, já que o gelado aparentemente era melhor aceito.
– Eu não sei se sinto pena ou acho graça... – Bruna riu pelo nariz, vendo a tristeza da outra por não conseguir comer o bolo que parecia tão maravilhoso – Mas você estava sem limites ontem. – completou, dando um sorriso malicioso à outra.
– Ah, cala a boca, Bruna... – sorriu de canto, e reviraria os olhos caso não lhe parecesse tão difícil no momento – Não é pra tanto!
– Não é pra tanto? Meu amor, se tem uma coisa que você estava ontem, era pegando fogo... – a garota gargalhou – Mas eu adorei, foi muito bem feito pro Rafael, e vamos combinar que o André é uma graça, né? Ainda não acredito que você não deu nem um beijinho nele!!
– Ele é. – deu um sorrisinho ao se lembrar do português – Mas a coisa toda com o Rafa tomou proporções que eu não planejei, era pra ser só uma brincadeira... – encolheu os ombros, bufando – Eu só queria que ele visse que foi feio não ter falado sobre a garota lá, sendo que a gente é amigo!
– Sei. – Bruna concordou, condescendente, dando uma garfada no bolo antes de completar – Continua se enganando assim, se tá funcionando pra você.
– Eu te odeio, garota... – protestou, mas conseguiu dar uma risada – Nossa, foi só falar... – ergueu as sobrancelhas, mostrando o visor do celular, que acusava uma chamada de Rafael.
– Eita! – Bruna exclamou a expressão universal e multiuso – Vocês já conversaram hoje?
– Ainda não. – respondeu, esperando mais um toque antes de atender – Bom dia, Princesa! – a risada que veio do outro lado era rouca, e podia apostar que Rafa vivia a mesma dor de cabeça que ela.
– Tá inteira? – Rafa questionou – Eu tô bem quebrado...
– Dois. – riu pelo nariz – Não consegui comer nada até agora, acredita?
– Tá aí uma coisa difícil de acreditar... – Rafa deu uma risada calorosa – Tá em casa?
– Não, vim na rua com a Bruna, mas já tô indo. – contou, dobrando um guardanapo para evitar o olhar da amiga, que a estudava com um sorriso mínimo no rosto – Quero ver se dou mais uma dormidinha, por quê? – questionou.
– Nada, queria ver se podia dar uma passada aí. – Rafa disse, aguardando alguma manifestação da parte dela. sabia o que ele queria, e não podia dizer que estava errado: precisavam de uma conversa. Mas a verdade é que ela era uma bela covarde quando se tratava desse tipo de papo sério...
– Hm, sim... – murmurou – Tô bem morta hoje. Acho que vou ficar jogada no sofá o dia todo, Rafa...
– Tadinha. – Rafa murmurou, com uma risadinha afônica – Nos vemos depois, então? – perguntou, e um observador mais atento poderia perceber o tom quase esperançoso na voz dele.
– Claro. – concordou, sorrindo de canto para as próprias mãos – Se cuida, Rafa.
– Você também, cariño. – despediu-se.
desligou o telefone, pensando sobre o tom da conversa. Rafa parecia querer esclarecer as coisas, e talvez aquela fosse mesmo a melhor atitude: uma conversa franca para que continuassem a amizade gostosa que tinham, sem perder nem um pingo daquela confortável liberdade que haviam desenvolvido em pouco menos de um mês de convivência. Mesmo porque, não podia perder Rafa bem do jeitinho que era antes: pensando egoisticamente, sabia que em breve Bruna teria que retornar ao Brasil, e ele era, em Barcelona, seu esteio, sua referência, o motivo de suas maiores risadas e o protagonistas dos melhores dias.




assistia o terceiro episódio de House em seguida desde que acordara de seu cochilo após o lanche com Bruna, e os analgésicos e antieméticos aparentemente haviam surtido efeito, já que agora sentia-se melhor, o estômago dando sinais de vida e protestando pelo dia inteiro de jejum. Quando o interfone tocou, franziu o cenho: será que Bruna tinha resolvido buscar o carregador de celular que esquecera? Sua surpresa só se tornou maior quando o nome de Rafael foi anunciado pelo porteiro, mas depois de um segundo a garota riu: devia saber que Rafa não se contentaria com uma negativa.
– Não vai ficar brava, vai? – ele disse, dando um sorriso fofo assim que abriu a porta exibindo a roupa que contrastava com o luxo da noite anterior: shorts de malha, blusa de moletom e meias até as canelas – Eu trouxe isso. – o rapaz ergueu pizza que carregava com uma mão – Não é possível que você ainda não teve fome...
– Só porque você pagou pedágio. – piscou, pegando a pizza da mão dele – E porque leu meus pensamentos. – deu um sorriso de canto, dando espaço para que ele entrasse.
– Imaginei. – Rafa riu pelo nariz, dando um beijo na testa da garota antes de andar até a bancada para tirar da sacola plástica a outra coisa que comprara, enquanto pegava dois pratos no armário. Era engraçado como, ao mesmo tempo em que eram pessoas expansivas e que viviam em conversas intermináveis, sabiam também lidar com aqueles silêncios agradáveis e familiares.
– O que é isso, Rafael? – riu, vendo que ele segurava duas longnecks e já andava em direção ao sofá.
– 24 anos na cara e eu que preciso te ensinar que só álcool cura ressaca? – o moreno riu, fazendo a garota revirar os olhos enquanto lhe passava o prato com uma fatia de pizza.
– Fale por você. – se sentou ao lado dele, cruzando as pernas, mas aceitou a garrafa – Salud!
Salud! – Rafa deu um sorriso caloroso. Tudo ficaria bem, certo?
Os dois comeram mais do que esperavam, mas não conseguiram acabar com o fardo de seis Heinekens que Rafa comprara: o rapaz chegou à terceira, mas não conseguiu terminar sua segunda. No momento, assistiam a um programa de entrevistas, enquanto tentava dublar as falas de cada um que aparecia, fazendo Rafael rir até sua barriga doer.
– E agora, com vocês... – a garota dizia, prestando atenção à TV – A nova protagonista de nossa telenovela – ela riu à palavra – “Tiempo de Amar”– forçou um sotaque, mas a risada de Rafa não veio, como de costume.
– Oh, merda. – ele murmurou – , vamos...
– ADRI HERNÁNDEZ! – a voz da apresentadora o interrompeu, e captou o olhar de para assistir à entrada da loira sorridente no palco do programa. A garota soltou uma risada, vendo Rafa cobrir o rosto com o antebraço, jogando a cabeça pra trás. Só podia ser algum tipo de perseguição...
– Ok, Rafa, vamos ser adultos, ok? – a morena riu, colocando a TV no mudo – Talvez a gente precise falar sobre ontem. – disse, enfim, e só ela sabia o esforço que aquilo demandava.
– Eu não sabia que você ia, eu... – Rafa soltou, aliviado por enfim poderem clarear aquela situação.
– Rafa, espera... – sorriu, tocando o braço do moreno delicadamente – Não tinha problema algum você ir com ela! Eu passei um pouco do ponto nas brincadeiras, confesso, mas era só pra te zuar por ter tentado esconder de mim que ia sair com uma garota. Nós somos amigos, poxa... – explicou, encolhendo de ombros – Não precisava ter feito isso.
– Eu sei que não. – Rafa fez um carinho no joelho de , exposto pelos shorts de malha que a garota usava – E eu mereci a sua gracinha, apesar de você ter judiado um pouco além da conta. – admitiu e a garota riu, maneando a cabeça e aceitando sua parcela de culpa – Então estamos bem? – o rapaz perguntou, sentindo o coração mais leve ao ver o sorriso enorme dela.
– Estamos ótimos. – respondeu, para depois brincar com o garoto – Mas vai gostar de uma celebridade assim lá longe, hein, Rafael! – riu, cutucando a barriga dele.
– O quê? – Rafa riu, sem entender bem o que ela queria dizer – Você tá falando dela?
– Dela, da Anitta... – a garota enumerou, erguendo os dedos conforme listava.
Anitta? – o moreno gargalhou – De onde você tirou isso?
– Ah, então é mentira? – parecia quase decepcionada.
– Sim... Nós nunca tivemos nada, por que essa cara? – Rafa perguntou, rindo.
– Eu tinha tanta certeza de que você pegava ela! – a garota exclamou, ainda surpresa – Bom, pelo menos agora não preciso mais morrer de inveja...
– Inveja? – Rafa ergueu uma sobrancelha, surpreso. tornaria a missão de voltar a amizade ao normal difícil se brincasse com ele daquela forma...
– Não dela, idiota! – revirou os olhos, batendo na testa do jogador com uma risada – De você, com aquela musa maravilhosa! – brincou e Rafa a acompanhou na risada, que logo se transformou em um bocejo – Também já tô caindo de sono... – confessou, vendo que Rafa se ajeitara no sofá, fechando os olhos por um segundo – Você quer ficar? – perguntou, depois de pensar por um segundo. Eram amigos, certo? Se queria que tudo voltasse ao normal, precisava agir com naturalidade.
Rafa se espreguiçou, lançando para ela um sorriso antes de se deitar no sofá, confortavelmente. Aquela era sua resposta.
– Folgado. – riu, dando um tapa nas pernas que ele jogara sobre ela para enfim se levantar, indo até o quarto e voltando com travesseiros e uma coberta.
Gracias, cariño. – Rafa murmurou, beijando a mão de quando ela jogou a coberta delicadamente sobre ele – Você é a melhor. Durma bem.
– Boa noite, Rafa. – sorriu de volta, andando para fora da sala e olhando na direção dele uma última vez antes de apagar a luz.
Tudo estava bem.


V. QUÉDATE CONMIGO

“Amor no te vayas
Quédate conmigo
Dame de tu luz, baby, dame tu cariño”
(Quédate conmigo – Chyno Miranda)

Aquilo não podia estar mesmo acontecendo, certo? Era o que conseguia pensar enquanto caminhava pelo flat deixando um rastro de água e sabão pelo chão, que certamente traria problemas a qualquer um – especialmente a um ser desastrado feito ela. Enrolada numa toalha de banho e com os cabelos cheios de espuma, a garota se dirigiu ao interfone, ligando insistentemente para o síndico do prédio e orando para que a raiva não nublasse suas parcas habilidades no espanhol.
– Hola, Sr. Antonio! – respondeu, assim que foi atendida – Senhor, aqui é , do 602. Sí, a chica brasileña... – concordou, querendo ir logo direto ao ponto, a pele já arrepiada de frio por ter sido arrancada do banho escaldante que tomava – Meu apartamento está completamente sem água! – disse, tentando controlar o tom de voz – Sim, já chequei tudo... Não funcionam as torneiras, o chuveiro... Nada. – enumerou prestes a entrar em franco desespero – O que eu quero? Bem, que o senhor resolva esse problema! – disse, os nervos começando a aflorar – Não existe um bombeiro, alguém que conserte essas coisas pro prédio? – a garota enterrou o rosto em uma das mãos, percebendo a falta de boa vontade do outro em ajudar – LUNES? – a voz dela quase falhou frente à resposta: podia não saber muito de espanhol, mas ainda se lembrava dos dias da semana, e aquilo significava que passaria o fim de semana inteiro sem água – E o que eu faço até lá? – perguntou, se perguntando se ser intragável era mesmo um pré-requisito para o posto de síndico em todo o mundo. A resposta veio após uma risadinha maldosa, e fez bater o interfone no gancho, desejando que fosse a cabeça do síndico: “seja criativa, nena”.
Ok, situações desesperadoras mereciam atitudes desesperadas, certo? Bruna tinha ido passar uma semana no Brasil para cumprir alguns compromissos profissionais, o que a deixava com uma única opção – não que conseguisse de fato imaginar Bruna Marquezine resolvendo um problema de encanamento.
– RAFA! – exclamou, aliviada por ele atender ao telefone. A distração fez com que escorregasse na própria trilha de sabão – Ai, caralho! – murmurou, conseguindo se apoiar no sofá, bufando em seguida.
, tá tudo bem? – a voz do jogador soava preocupada, e sorriu involuntariamente pelo tanto que ele conseguia ser uma graça.
– Sim, eu escorreguei... – explicou, lembrando-se em seguida de uma pergunta importantíssima, que a fez esquecer momentaneamente a questão do encanamento – E o jogo?? – perguntou, ansiosa pela resposta.
– Ganhamos. – Rafa respondeu e ela podia perceber um sorriso na voz do rapaz, o que a fez sorrir também, quase pulando do sofá em comemoração. Era a primeira vez que Rafa voltava ao campo desde sua última lesão e ela sabia a importância daquele jogo para ele – Dei uma assistência, foi um belo jogo. – continuou e podia imaginá-lo naquele momento: as mãos nos bolsos, sempre humilde ao contar seus próprios feitos. Cara, como ela adorava aquilo naquele homem...
– AAAAH, eu tô tão feliz por você! – a garota riu, querendo que ele estivesse ali para abraçá-lo – Não acredito que não pude ir!
– Você tinha aula, cariño, eu entendo... – disse carinhoso e a garota não pôde evitar mais um sorriso em meio a sua frustração por não ter estado presente – No próximo eu quero você lá, ok?
– E eu estarei, Rafa. Pode ter certeza! – prometeu.
– Foi por isso que você ligou? Tava parecendo nervosa... – Rafa questionou, lembrando-se do início da ligação.
– Ai, não... – finalmente se lembrou do motivo de ter ligado – Na verdade foi pelos dois. Deu uma merda sem tamanho aqui em casa, Rafa... – reclamou, olhando para o chão molhado, desolada.
– Que houve? – Rafa voltou a se tornar preocupado ao tom de voz.
– Eu tô sem água! – a morena protestou, indignada – Nada tá funcionando, acho que deve ser algum cano... E o estúpido do síndico falou que só pode chamar o bombeiro na segunda! – completou e Rafa teve que controlar as risadas ao perceber toda a braveza da menina. Fazia lembrá-lo do dia em que se conheceram no supermercado...
Quieta, nena... – ele disse, e aquele tom de voz ridiculamente calmo já era quase suficiente para que se sentisse melhor. Quase. – Eu tô indo praí, ok? E aí vemos o que a gente pode fazer...
– Eu já te disse que você é o melhor do mundo? – perguntou, segurando um sorriso.
– Hoje não. – Rafa riu e ela pôde ouvir o som da porta do carro batendo, sinal de que ele já estava a caminho.
– Você é. O melhor de todos. – confessou, e não precisava vê-lo para saber o tipo de sorriso que Rafa estampava naquele momento: um daqueles avassaladores, que ainda tinham o poder de fazê-la se perder pelo tempo que ele durasse. O sorriso que já era dela.




– Você tem certeza que vai tentar fazer isso, Rafael? – perguntava temerosa, vendo o rapaz encolhido sob a pia, mexendo em um cano que, segundo ele e sua ‘vasta experiência’ como bombeiro hidráulico, era a razão de todo o transtorno. Homens.
– Um pouco mais de confiança na sua voz seria bom, sabe? – Rafa riu pelo nariz, espiando a garota que, usando um short de pijama e uma camiseta branca do Taz Mania, observa-o da porta do banheiro: tinha os cabelos ainda molhados e cheios de sabão, e por mais que entendesse a impaciência da garota para tirar aqueles resíduos do corpo, não conseguia deixar de achar a visão adoravelmente cômica.
– Desculpa... – Rafa riu, parecendo uma criança levada, e sentou-se no chão ao lado dele – Vai, Rafa! Uhu! – simulou uma torcida, erguendo as mãos para o alto e causando uma crise de riso entre os dois que só cessou quando Rafa saiu debaixo da pia para tomar um ar.
– Você é muito idiota, garota. – riu, tirando a camisa em um gesto inesperado que deixou atordoada por um momento – Vai, segura isso pra mim. – pediu, voltando ao trabalho sob a pia – Eu acho que se eu conseguir abrir esse... – ele parou por um momento, trincando os dentes com a força que fazia. havia enfiado a cabeça sob a pia também e nada, absolutamente nada, a preparara para o que viria a seguir.
Um jato absurdamente forte de água corrente acertou os dois em cheio quando Rafael estourou o cano com as mãos. deu um grito agudo, e assim que conseguiram se colocar de pé, completamente encharcados, um misto de nervosismo e diversão fez com que gargalhassem até que precisassem se sentar de novo, escorregando pela parede de azulejos azuis.
– Rafa... – murmurou, limpando os cantos dos olhos de onde escorriam lágrimas de tanto rir. A morena tomou fôlego, deixando escapar mais um riso antes de completar, observando a água que alagava o chão escorrer lentamente pelo ralo. Ao menos não saía mais nada do cano... – O que diabos foi isso?
– Eu não faço ideia. – Rafael riu, tombando a cabeça sobre a da garota, que havia encostado-se a seu ombro direito – Vamos, levanta. – chamou, erguendo-se e estendendo uma mão para ela – Não dá pra você ficar aqui.
– Eu vou ter que procurar um hotel, pelo menos até que resolvam esse estrago. – constatou, bufando – Eu odeio esse síndico! – berrou, torcendo para que o homem escutasse e compreendesse sua irritação na língua universal do ódio.
– Cala a boca, garota... – Rafa revirou os olhos, pegando duas toalhas que estavam no boxe e dando uma para – Você vai ficar lá em casa.
– Rafa, você não precisa fazer isso... – o encarou, surpresa, secando os cabelos e concentrando-se em tentar não corar. Falhou miseravelmente. – Sério.
– Vai logo pegar suas coisas, anda. – o moreno sorriu, e sabia que aquilo era o equivalente de Rafael a ‘não aceitar um não como resposta’.




– Morena, é o seguinte... – Rafa disse assim que abriu a porta de casa carregando a pequena mala de , checando as horas no relógio de pulso – Temos exatos 40 minutos pra sair de casa, acha que dá tempo? – questionou.
– Você que manda, capitão. – sorriu e, pela correria, não pôde perder o tempo que gostaria admirando o ambiente: era uma bela casa – Uau, que casa linda, Rafa... – comentou, seguindo o jogador escada acima.
– Você gostou? – o rapaz sorriu, coçando a nuca – Um pouco grande demais, eu acho, mas gosto bastante daqui... – comentou, abrindo uma porta e dando espaço para que a garota entrasse: era um quarto de hóspede muito bem decorado em tons claros, com a cama já arrumada e toalhas de banho sobre os lençóis – Pedi pra Tita deixar tudo pronto pra você. Fica à vontade, tá? – sorriu, deixando a mala no chão, no cantinho do quarto.
– Muito obrigada, Rafa. – sorriu, passando as duas mãos pela cintura do rapaz – Eu já desço, prometo não demorar.
– Não preocupa. – Rafa sorriu, deixando o quarto – Só tô correndo porque precisamos buscar o Thiago no aeroporto 13:30.
– Seu irmão? – deu um sorriso gigante, já entrando no banheiro: sabia o quanto Rafael sentia falta de Thiago, com quem jogara por tantos anos – Que ótimo, Rafa! Ele vai ficar? – aumentou o tom de voz, porque já ligara o chuveiro.
Rafa continuava próximo da porta, ouvindo quando abriu e fechou a porta do boxe e tentando não imaginar a cena que se passava a alguns metros de distância, com apenas uma porta – aberta – separando-os.
– Só até amanhã... Eles vieram ver os pais da Julia também. – explicou, enfiando as mãos nos bolsos – Vou tomar um banho e te espero na sala, ok? - disse, ao que gritou em concordância, logo começando a cantarolar alguma coisa, fazendo com que Rafa deixasse o quarto com um sorriso no rosto.
De fato, a pontualidade de era impressionante: em menos de meia hora a garota descia as escadas até a sala onde Rafa esperava, jogando FIFA. O rapaz pausou o jogo, sorrindo para a figura da morena que usava shorts jeans, blusinha rosa-bebê de guipir, cardigan perolado, e tinha os cabelos ainda molhados.
– Pronta? – Rafa sorriu, já buscando as chaves do carro e a carteira.
– Sim, senhor. – a garota pulou os últimos dois degraus, saltando sobre as costas de Rafael na tentativa de pega-lo de surpresa, mas sendo surpreendida quando Rafa a segurou pelas pernas, saindo de casa com a morena montada nele, entre gargalhadas.
Dentro do carro os dois dividiam o comando da música, o que levava a variações que iam dos clássicos do rock ao melhor do funk carioca. O aeroporto não era tão distante da casa de Rafa, e não demorou até que adentrassem o portão C do El Prat Airport, em apenas alguns minutos. Talvez pelo aglomerado de pessoas, aquela foi a primeira vez que percebeu que andava ao lado de uma celebridade – não que estivesse desacostumada a isso, sendo amiga de Bruna Marquezine – pois perdeu a conta de quantos fãs pararam requisitando alguns segundos da atenção de Rafinha Alcântara.
– Desculpa por isso... – Rafa pediu, assim que conseguiu alguns minutos de sossego. Ele tinha um sorriso envergonhado e riu abertamente.
– Para, Rafa... – a menina sorriu de canto, batendo nele levemente com o ombro – Você não tem culpa de ser uma celebridade... – brincou, fazendo o rapaz revirar os olhos, beliscando de leve sua cintura – Tirei umas fotos boas, na verdade... – comentou, mostrando no visor da câmera algumas fotos que tirara de Rafa dando autógrafos e tirando selfies com os torcedores do Barcelona, e um ou outro brasileiro.
– E quando você não tira? – Rafa sorriu, tomando a câmera das mãos dela para admirar o trabalho da garota mais de perto – Sabe o que eu fico mais impressionado? Como você transforma o banal em algo tão bonito. – devolveu a câmera com um sorriso encantador.
– Não é banal. – devolveu o sorriso, sentindo as bochechas adquirindo uma coloração rosada – É bonito, eu só procuro fazer com que todos vejam o que eu vejo. – encolheu os ombros e Rafa a abraçou, beijando seus cabelos.
– Então eu diria que você está fazendo um ótimo trabalho.
O portão de desembarque finalmente se abriu, às 13:58, fazendo Rafa e soltarem pequenas exclamações de satisfação, uma vez que tinham passado os últimos minutos reclamando insistentemente de fome e não viam a hora de chegar em casa para o banquete de Tita. assistiu com um sorriso no rosto ao reencontro dos irmãos Alcântara. Não houve palavras a princípio: Thiago deixou o carrinho de bebê de lado e, com um sorriso tão enorme quanto o de Rafa, jogou os braços em torno do caçula. Era notável a falta que sentiam um do outro, e a amizade que os ligava além dos laços de consanguinidade.
– Que saudade de você, cara... – Rafa murmurou e Thiago maneou a cabeça em concordância, soltando-o como se para checar se tudo estava bem com seu irmãozinho – Mas mais saudade eu tenho desse aqui... – os olhos do jogador do Barcelona recaíram sobre o pacotinho azul bebê no colo da cunhada, pequenos bracinhos se balançando para o lado de fora, como se ansiosos para interagir com o mundo do lado de fora – Julia, querida, cómo estás? – cumprimentou a esposa de Thiago com um beijo no rosto – Agora deixa eu ver o meu garoto. – pediu ansioso.
– Vai com o tio Rafa, bebé... – Julia sorriu, passando a criança para o colo de Rafa, que o olhava admirado.
– Caramba, Thiago, ele tá gigante! – o moreno se admirou, aproximando-se de para exibir, orgulhoso, o sobrinho – Oh, merda, eu não apresentei vocês... – Rafa percebeu a falha – Essa é a . , Thiago e Julia.
– Muito prazer... – a garota sorriu simpática, cumprimentando o casal com um beijo – Ele é lindo, vocês estão de parabéns! – continuou, os olhos presos à pequena figura entre os braços de Rafa, carregada com tanto cuidado que chegava a ser engraçado.
– Ele é lindo mesmo, o único da família que conseguiu ficar mais bonito que eu... – Rafa concluiu, arrancando gargalhadas de todos.
– Depois dessa acho que tá na hora de ir... – Thiago riu, batendo de leve na cabeça do irmão e pegando Gabriel para que Julia o carregasse, a fim de que os irmãos se ocupassem das bagagens – Só me diz que vai ter um rango da Tita esperando quando a gente chegar, eu tô varado de fome...
– Tá vendo né? – Rafa revirou os olhos, falando com – Vem uma vez na vida e outra na morte, e só tá interessado na comida.
– Eu te entendo, Thiago. – deu um sorriso cúmplice.
– Ah, não... – Rafa forjou uma expressão desesperada – Esqueci que vocês dois são iguais, duas dragas... – riu, fugindo do tapa da garota – Pelo menos você mantém muito bem a forma, cariño...




– Então, há quanto tempo vocês estão juntos? – Julia perguntou, fazendo quase engasgar com o suco que Tita havia levado para elas há alguns minutos, alegando que fariam melhor a digestão.
– O quê? – perguntou, ajeitando melhor Gabriel em seu colo – Eu e o Rafa? Nós não estamos juntos... – a expressão de Julia variava entre envergonhada pelo furo e desolada porque realmente tinha gostado da companhia da garota, e já a imaginava como possível integrante da família.
– Oh, me perdoe, ... – desculpou-se, rindo – É que vocês parecem, você sabe... – procurava encontrar um termo que definisse a relação dos dois, sem sucesso.
– Imagina, Julia! – riu – Não é a primeira vez que perguntam, no Brasil já saiu até em algumas páginas de fofoca... – a morena rolou os olhos, voltando a brincar com os bracinhos de Gabriel – Mira su papa, bebé! Y su titio! – virou o bebê de frente para o gramado onde Thiago e Rafael disputavam uma bola, parecendo garotos.
– São duas crianças grandes demais, não é? – Julia riu, vendo o marido ser driblado pelo cunhado. Thiago alcançou Rafa numa corrida e roubou-lhe novamente a bola.
– Acho que todo homem perto de uma bola fica assim... – comentou, fazendo a outra rir – Y tú? Vas a ser jugador? perguntou ao pequeno em seu colo, plantando um beijo em sua bochecha gorducha.
– Você tá merecendo uma foto! – Rafa gritou do meio do gramado, parando a bola debaixo do pé, para frustração de Thiago. ergueu os olhos e se deparou com um sorriso enorme do rapaz, que admirava a cena da morena com seu sobrinho no colo.
– Vocês dois podiam dar um tempo... – Julia propôs – Acabaram de almoçar, vão passar mal... – alertou, vendo Thiago resmungar qualquer coisa e roubar a bola de Rafa, que ainda estava distraído pelas gracinhas de Gabriel.
– Volta aqui, vagabundo! – Rafa riu, correndo atrás do mais velho e roubando a bola com alguma dificuldade. Thiago tentou uma entrada para recuperá-la, mas foi driblado lindamente, fazendo Rafael gargalhar. Cara, como ele sentia falta daquilo... Ter o irmão por perto sempre fora um alento, e após três anos Rafa não podia dizer que já tinha se acostumado a não tê-lo em casa.
– Ahh, merda. – Thiago apoiou as mãos sobre os joelhos, sentando-se no chão – Me deu cãibra...
Viejito! – Rafa provocou, mas segurou a perna do irmão para o alto, estendendo a musculatura a fim de aliviar a dor.
– Vamos entrar? – Thiago chamou, assim que sentiu algum alívio na coxa, usando a mão de Rafa como apoio para se levantar – Tita pegou pesado hoje, vou passar mal...
– Ela fica mimando você, até quando tá longe. – Rafael revirou os olhos, correndo até e se jogando ao lado dela na espreguiçadeira para roubar um pouco de limonada do copo da garota – Tá aproveitando esse gostoso, né? – apertou a barriga do sobrinho, sorrindo.
– Eu não tô dando conta da delícia que ele é... – a menina sorria, brincando com os pezinhos do bebê, quando ouviu o som de um celular vibrando – Ih, Rafa, olha se é o meu? – pediu, estendendo a cabeça para olhar sobre a mesinha de vidro ao lado do rapaz – A Bruna deve tá ligando de volta, eu liguei pra contar do cano lá de casa...
– Hm... Não é a Bruna. – Rafa disse, pegando o celular que exibia uma foto de com um sorriso gigante no rosto, recebendo um beijo no rosto de um rapaz moreno – Lipe. – ele disse, entregando o celular para ela com uma expressão indecifrável.
– É o meu irmão. – quase riu, passando Gabriel delicadamente para o colo de Julia – Fala, baby! – atendeu à ligação, transformando-a logo em chamada de vídeo.
– Fala, doida! – Lipe sorriu do outro lado, uma carinha de sono que denunciava a ressaca – Que história é essa de cano estourado, garota? Tu arruma problema até na Espanha, ? – gargalhou.
– Nem fala disso... – a morena revirou os olhos – Tô ficando no Rafa até as coisas se acertarem lá.
– Rafa? – o moreno ergueu uma sobrancelha – Rafinha? Alcântara? – os olhos do garoto se arregalaram, e ele pôde ouvir algumas risadas tomarem conta do ambiente.
– Sim, Luis Felipe... Você ainda me mata de vergonha, garoto! – riu, virando a câmera para Rafa, deitado ao seu lado na espreguiçadeira – Rafinha Alcântara.
Puta merda... – Lipe murmurou, não contendo uma risada: aquele era o tipo de história que só tinha pra contar... Deco ficaria simplesmente alucinado quando soubesse daquilo.
– Fala, cara, beleza? – Rafa ergueu dois dedos em um cumprimento – Quer dizer que não é só aqui em Barcelona que essa morena causa?
– Rapaz... Você não sabe da missa a metade! – Lipe riu, sabendo que a irmã ficaria brava – Se eu te contar tudo que essa mulher já aprontou nesse Rio de Janeiro...
– Ei! Vocês dois! – protestou, voltando a câmera para si sob protestos de Rafa – Para de me difamar, infeliz!
– Lipe, depois a gente continua essa conversa! – Rafa gritou, tentando tirar o celular das mãos de .
– Sai, garoto! – a menina riu e, se esquivando, levantou-se.
– Ô Thiago, dá o Gabriel aqui. – Rafa pediu, chamando o irmão.
– Thiago? – Lipe ergueu as sobrancelhas, fazendo a irmã rir mais uma vez.
– É, baby. Ele veio passar o dia com o Rafa. – explicou, e o garoto sustentava uma expressão de choque – Você pode dar só um “oi” pra fazer o dia dessa criança? – perguntou ao jogador do Bayern que, rindo, deu um alô para o fã brasileiro – Tá feliz agora?
Porra! Pra caralho! – Lipe exclamou, entusiasmado.
– Olha a boca, tem criança aqui, menino! – riu, fazendo o irmão se desculpar brevemente – Se cuida tá, grandão? Tô com saudades e te amo.
– Também te amo, pequena. Volta logo que sem você tá foda. – resmungou – Opa, desculpa. – pediu, lembrando-se da advertência sobre xingamentos, antes de desligar.
– Os dois acabaram de tornar o dia de um adolescente feliz. – riu, voltando para o seu lugar na espreguiçadeira – Cadê eles?
– Foram pegar o violão, acho... – Julia explicou – Quando eles estão juntos não se desgrudam, , é melhor se acostumar... – riu, embalando o filho no colo – Thiago sente muita falta do Rafa, eles se falam todos os dias, mas não é o mesmo de quando morávamos em Barcelona.
– Imagino... – concordou com um sorriso fraco – O Rafa fala dele o tempo todo também, deve ter sido muito difícil pra vocês todos...
– Foi. – a loira concordou – Mas Munique é uma cidade linda, vocês têm que ir nos visitar qualquer dia! Tem um milhão de coisas que eu queria mostrar pra você lá...
sorriu, animada, tentando não prestar atenção na parte dela que gritava que era errado se incluir em um programa familiar com Rafa, quando eles não eram nada mais que amigos. A sensação se esvaía, contudo, quando pensava no quão bem se sentia ali, na companhia daquelas pessoas. Na companhia de Rafael.

– Então... – Thiago começou, sentando-se na cama de Rafa para observar o irmão enquanto este tirava o violão da capa.
– Então...? – Rafa ergueu uma sobrancelha, encarando o mais velho.
está morando aqui? – perguntou, reprimindo um sorriso e, ao ver a expressão do mais novo, continuou – O quê? Só tô tentando entender essa dinâmica...
– Você tá dando uma conotação errada... – Rafa riu, sabendo onde o irmão queria chegar – Ela tá ficando aqui até arrumarem o apartamento dela. – explicou. Sabia que aquele questionamento viria, só não imaginou que seria tão cedo. Aparentemente, Thiago só estava esperando pega-lo sozinho para dar o bote.
– E vocês dois são só amigos? – o mais velho continuou, adorando a forma como Rafa estava perdendo a paciência. Ah, ele tinha se esquecido como era bom encher o saco do caçula... – Sem benefícios?
– Sim, sem nem um mísero benefício, ok? – bufou, andando até a porta – Você vai ficar aí?
– Mas alguém queria um benefício, tô certo? – Thiago ignorou a pergunta do outro, seguindo-o pelo corredor.
– Thiago, eu vou te enforcar com essa corda de violão se você continuar sendo retardado. – Rafa revirou os olhos enquanto descia a escada, fazendo o irmão gargalhar.
– Não é difícil entender o seu lado, cara. Ela é linda, divertida... Eu acharia até estranho se você só quisesse ser amigo dela. – disse, num tom mais sério, e Rafa sentiu-se um pouco menos armado para o assunto. Aquilo tudo era verdade, afinal – Thaísa ia adorar ela, sabia? – Thiago deu seu veredicto assim que atingiram a sala – E mamãe também. – completou, sorrindo de canto.
Rafa encarou o irmão por um momento e, ao ver que ele não brincava, permitiu-se um sorriso. Encarou a varanda, onde Julia e conversavam animadamente sobre as fotos que a morena havia tirado de toda a família durante o dia, e não pôde impedir que o sorriso se alargasse e contagiasse seu olhar.
– Iam mesmo, né? - concluiu.
Thiago deu dois tapinhas no ombro do irmão, rindo antes de se juntar às garotas do lado de fora da casa.
– Sinto te informar, champs, mas vocês já são um casal mais real que muitos namorados por aí...




Corazón, nós temos que ir... – Julia disse, desligando uma chamada que recebera há pouco – Meus pais tão vindo pegar a gente aqui pra jantarmos com eles.
– Mas já? – Rafa protestou, feito criança, não querendo deixar a família ir embora. Segurou Gabriel instintivamente mais apertado no colo, aproveitando que Thiago se apossara do violão.
– Amanhã nós já voltamos pra Munique, Rafa. – Julia olhou tristemente para o cunhado e o marido, sabendo que este também sofria antecipadamente com a separação.
– Só mais uma música... – Thiago pediu, no mesmo tom que o caçula usara, dedilhando qualquer coisa enquanto pensava em algo para tocar – Ah, já sei! – exclamou, sorrindo de modo que antecedia uma traquinagem – Essa você sabe cantar também, mi amor...“Quando eu digo que eu deixei de te amar... É porque eu te amo.” – começou a letra de Evidências, causando uma série de risadas nos outros três.
Cantaram a plenos pulmões o maior clássico romântico brasileiro, rindo da própria empolgação e de quão engraçada a cena pareceria vista de fora. Rafa puxou para que ficasse de pé e a abraçou com Gabriel entre os dois, dançando à três. Julia e Thiago trocaram um olhar cúmplice ao perceber que o casal cantava a música, alheio ao quanto a letra parecia falar exatamente sobre eles. Foi apenas no refrão, enquanto cantava os versos mais conhecidos da canção, que Rafa percebeu a intenção de Thiago, o que fez com que precisasse conter uma risada.
“E nessa loucura de dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando as evidências, mas pra quê viver mentindo se eu não posso enganar meu coração?” – cantavam, trocando sorrisos pelas risadinhas que Gabriel dava ao ser chacoalhado de um lado para o outro entre os dois – “Chega de mentiras, de negar o meu desejo, eu te quero mais que tudo, eu preciso do seu beijo, eu te entrego a minha vida pra você fazer o que quiser de mim... Só quero ouvir você dizer que sim.” cantava com os olhos fechados, rindo sozinha do tanto de emoção que aquele tipo de sertanejo incitava até mesmo naqueles que não gostavam nada do estilo, como era o seu caso.
Rafa a observava com um sorriso preso ao canto dos lábios, admirando até mesmo a expressão dela ao desafinar em alguns agudos. E foi apenas naquele instante que Rafael percebeu como Thiago estava certo: estranho seria se ele não tivesse se encantado por uma mulher como , e todas as facetas dela que conhecera.
Ela era quando fotografava, e quando defendia ferrenhamente seus ideais. Era da risada solta enquanto gargalhava com ele de qualquer coisa idiota que só parecia ter graça para os dois. Era Cariño quando se encolhia feito criança em seu abraço, sorrindo de canto com as bochechas coradas. Nena ela era enquanto dançavam, seus rostos colados e corações no mesmo compasso, quando a noite era só deles. Era Morena nas manhãs ensolaradas e nas tardes descontraídas. Só havia uma coisa que ela não era, e isso mudava tudo: sua.




– Já pode ser cantor, mi amor! – Julia abraçou o marido por trás, sorrindo, assim que a música acabou – Agora levanta daí, que eu te conheço... Se eu deixar vai tocar até amanhã! – deu um tapinha carinhoso no ombro do rapaz, fazendo com que ele largasse o violão, contrariado.
– Tô te esperando lá em casa, mano. – Thiago abraçou o irmão, pegando Gabriel em um dos braços. Tentava não se emocionar, mas era o pior deles em despedidas, e deixar Rafa pra trás sempre lhe dava uma sensação de soco no estômago – E você também, , será muito bem-vinda. – sorriu para a morena, que o abraçou de volta.
– Foi um prazer, Thiago. Parabéns pela família linda. – a garota sorriu.
– Cuida dela, rapaz... – Thiago mandou, fazendo cara de bravo para Rafa, que também já denotava na expressão a tristeza por ter que se despedir, e se limitou a acenar, sorrindo, claramente segurando o embargo que buscava aparecer em sua voz.
, estou esperando uma visita! – Julia abraçou a nova amiga, sorrindo – E me manda as fotos depois, eu tô apaixonada por todas! – exclamou, fazendo sorrir, agradecida – Olha, eu sei que não devia falar isso, mas já estou indo embora mesmo... – deu de ombros, rindo de seu jeito despachado – Rafa tá muito bem. Feliz como eu há muito tempo não via... Se você for o motivo, o que eu acho bem provável, eu te agradeço de coração.
– Julia, eu... – começou a responder, sentindo-se corar.
– Shh, não precisa responder. – Julia piscou, sorrindo – Só... Continuem o que estão fazendo. Vocês ficam bem juntos. – completou.
– Pode deixar. – riu abertamente, desistindo de discutir.
e Rafa acompanharam os três à porta, aguardando até que o carro do sogro do rapaz aparecesse. Mais uma rodada de despedidas, e até mesmo já se sentia emocionada, pensando em quão agradável tinha sido o dia na companhia daquele ramo da família Alcântara. Ao entrarem novamente, Rafa estava quieto – algo bastante incomum à personalidade descontraída e expansiva do moreno – o que fazia sentir seu coração pequenininho dentro do peito.
A morena se sentou no sofá, puxando uma almofada para colocar sobre as pernas, e Rafa entendeu o recado: jogou-se sobre o colo dela, deixando que fizesse um carinho demorado em seus cabelos. Era mais um daqueles silêncios confortáveis em que os dois se aconchegavam, e permaneceram assim por um longo tempo.
– Eu adoro essa casa cheia... – Rafa finalmente disse, depois de vários momentos de silêncio – Sinto uma falta absurda deles. – confessou.
– Eu sei. – sorriu fracamente, tocando o nariz de Rafa carinhosamente. Talvez antes ela não pudesse compreender inteiramente a saudade pela qual o rapaz passava, mas agora, longe de Lipe, sabia exatamente o que era aquela dorzinha incômoda no peito.
– O que eu quero dizer é que... – ele parou por um segundo, parecendo considerar o que estava prestes a falar – Você pode ficar o tempo que quiser, cariño. – sorriu antes de completar, com simplicidade, fechando os olhos para se concentrar novamente no toque dela – Eu tô muito feliz por ter você aqui.


VI. ROBARTE UN BESO

“Déjame robarte um beso que me llegue hasta el alma
Como um vallenato de esos viejos que nos gustaban
Sé que sientes mariposas, yo también sentí sus alas
Déjame robarte um beso que te enamore y tú no te vayas”
(Robarte um beso – Sebastian Yatra)

– Para de roubar, Rafael! – protestou, ainda que risse, colocando o controle do Xbox ao seu lado no sofá enquanto a TV reprisava o gol de Rafa na partida de FIFA que disputavam.
não era boa em videogames... Lipe passara anos tentando capturá-la como parceira, sem sucesso. Ali estava ela, no entanto, se esforçando para ganhar de um jogador de futebol em um jogo no qual ele era completamente viciado... Tudo começara como uma forma de distrair Rafael da frustração por não ter sido escalado para a viagem a Madrid com o time, que jogaria contra o Sevilla na cidade do adversário, mas a verdade é que agora a morena já estava começando a pegar o jeito e a se divertir com o jogo. Se essa diversão tinha a ver com o fato de terem bebido uma garrafa de um excelente vinho chileno entre uma partida e outra, não saberia dizer.
– Como eu roubaria no videogame, corazón? – Rafa gargalhava do quanto a garota podia ser competitiva. Era a terceira vez que ele vencia e nunca se conformava com a derrota – Você que precisa escolher outro time, não sei por que cismou com a Juventus! – sugeriu, ainda rindo.
– Porque tem as mesmas cores do Botafogo! – a garota explicou, exasperada, antes de tomar um gole do vinho, sentindo a cabeça mais leve a cada minuto – Você tá roubando me deixando bêbada!
– Não é roubar se eu também estou! – Rafa riu do argumento dela, erguendo a própria taça e pausando o jogo para observar a garota que já se ajeitara no sofá, claramente desistindo de jogar – Vai desistir? – ergueu a sobrancelha, provocando-a.
– Eu não jogo pra perder, você sabe disso. – deu de ombros, encarando Rafael sobre a taça que levava mais uma vez aos lábios. Ela usava um moletom dele – já que a muitas de suas roupas ainda estavam no apartamento, que necessitaria de uma obra sem prazo de término – e Rafa se esforçava para compreender como ainda assim ela lhe parecia tão bonita. O tipo de indagação filosófica que apenas o álcool suscitaria.
– Eu sei disso. – Rafa repetiu, sorrindo de canto – Vamos jogar outra coisa então. – propôs.
– Eu sou ruim em tudo, Rafael! – ela gemeu, irritada, cruzando os braços e se afundando mais no sofá.
– Não tô falando de videogame, mami. – Rafa piscou, malicioso, levantando-se do sofá e andando até adega refrigerada no canto da sala para escolher mais um vinho.
– No que você tá pensando, Rafa? – ergueu uma sobrancelha, desconfiada, quando o rapaz retornou com a bebida.
– Jogo da verdade. – ele deu um sorriso gigante, como se fosse a melhor ideia que já tivera, e gargalhou.
– Quantos anos nós temos? Doze? – brincou, mas permitiu que ele enchesse mais uma vez seu copo já vazio.
– Vamos lá, vai ser bom. – Rafa sorriu, sentando-se no sofá de frente para , de forma que tivessem que se encarar a cada resposta – Você começa.
– Rafa, eu não tenho criatividade! – a garota riu, sentindo-se novamente na quarta série – Oh, meu Deus... – ela se esforçava para fazer uma boa pergunta – Ok, como é ser famoso?
– Ah, vamos lá, , você pode fazer melhor. – Rafa riu da pergunta dela – O álcool não é à toa, vamos tornar isso interessante. – sorriu, e sentiu-se tontear frente à malícia daquele sorriso.
– Me deixa pensar... – ela murmurou, bebendo do vinho enquanto pensava em algo. Sorriu. Ele queria deixar interessante? – Quantas meninas você já beijou numa mesma noite? – perguntou, rindo. Definitivamente, quarta-série. Ou oitava. Rafael soltou uma gargalhada aberta antes de responder.
– Acho que vai ser decepcionante. – riu, encarando a morena que aguardava sua resposta com um sorriso de canto – Cinco, seis... Não passou muito disso.
– Já é bastante. – riu, mas de fato imaginara um número de dois dígitos.
– Vou devolver a pergunta. – Rafa sorriu de canto, piscando.
– Mais decepcionante ainda. – riu, jogando a cabeça para trás – Eu namorei dos 16 aos 23, Rafa, não tive um período vida louca. Minha resposta é um grande e sonoro: UM. – completou e os dois riram juntos.
– Olha como ela é certinha, gente! – Rafa implicou, ganhando um chute em resposta.
– Chato! – riu, enfiando o rosto no encosto do sofá – Você já traiu? – perguntou genuinamente curiosa quanto à resposta.
– Essa é fácil. – Rafa sorriu – Eu nunca estive em um relacionamento, então não. Você já? – perguntou por perguntar, já que conhecia o suficiente para imaginar a resposta. Ela maneou a cabeça em uma negativa enquanto levava a taça aos lábios.
– Mas já fui traída. – completou, com um sorriso amargo, e Rafa baixou os olhos, sem saber o que dizer.
Ali estava algo que Rafa nunca compreenderia: por que alguém traía se estar em um relacionamento implicava em amar tanto uma pessoa e apreciar tanto a sua companhia, que outras se tornavam desnecessárias? Para ele parecia muito simples: nunca namorara porque ninguém havia lhe despertado um sentimento tão forte de cumplicidade e completude, mas a partir do momento em que essa pessoa aparecesse, ele seria dela porque não precisaria de mais ninguém.
– Vamos lá... – quebrou o silêncio, voltando à brincadeira – Qual a maior vergonha que você já passou na vida?
– Vergonha? – Rafa repetiu e não precisou pensar muito para responder – Quando eu tinha uns 13 anos eu era completamente apaixonado por uma menina da minha sala, e achei que seria uma ótima ideia me declarar no pátio do colégio, na frente de todo mundo... – riu, lembrando-se da cena, mas soltava um ‘awn’ imaginando um pequeno Rafa apaixonado – Ela não gostava de mim e me deixou falando sozinho, então eu comecei a chorar na frente da turma inteira. – terminou e abriu a boca de surpresa, fazendo um carinho na perna dele.
– Ai, Rafa, que judiação! – exclamou, mas o moreno ria. Hoje, conseguia ver quão cômica era toda a situação, mas na época passara um tempo sem querer voltar ao colégio – Vamos lá, sua vez... – avisou e viu Rafa se demorar na formulação de uma pergunta.
– Ah, eu já sei... – deu uma pequena risada antes de continuar, coçando a nuca uma vez antes de perguntar – Qual o lugar mais... Exótico... – ele riu mais uma vez – Em que você já... – parecia buscar um termo apropriado, mas já explodira em uma risada, compreendendo a pergunta – ... fez amor?
– Rafael, eu vou te matar! – cobriu o rosto com as mãos, tentando parar de rir de nervoso – Nada muito exótico, eu acho. – respondeu, encolhendo os ombros, mas sabia que ele não se contentaria com aquela resposta – No mar, talvez. – murmurou tão baixinho que quase não era possível ouvi-la.
– Onde? – Rafa perguntou, sorrindo para deixar claro que ouvira sim à resposta dela.
– NO MAR, Rafael. – falou alto, revirando os olhos e levando a uma risada do moreno – Responde você agora... – a garota repassou a pergunta, bebendo um gole de vinho só como pretexto para desviar os olhos de Rafael.
– Hummm, deixa eu pensar... – ele se espreguiçou, fazendo revirar os olhos.
– O quê? Vai dizer que você é tão criativo que tá assim cheio de opções? – perguntou e Rafa deu de ombros, rindo.
– Você se surpreenderia... – piscou, fazendo a garota grunhir um “ai, Rafael”. Ele simplesmente adorava provocá-la e fazer com que se envergonhasse – Acho que foi provavelmente no banheiro da festa do Ballon D’or...
– Você tá zuando, né? – ergueu as sobrancelhas, mas podia ver pelo sorriso sacana de Rafa que não, ele não estava – Puta merda, Rafael! – ria, maneando a cabeça em uma negativa – Não dá pra brincar com você. – ergueu os braços em rendição.
– Minha vez! – Rafa sorriu, animando-se com a brincadeira – Por baixo ou por cima? – perguntou e, cara, ele queria muito aquela resposta. Foi a vez de sorrir com malícia.
– Nenhuma das anteriores. – ela piscou, bebendo mais um gole do vinho e deixando Rafael sem resposta por um segundo, para sua completa satisfação.
– E qual é? – ele perguntou, ainda surpreso, um sorriso crescente nos lábios.
– Não é sua vez de perguntar, cariño. – deu um sorriso gigante enquanto pensava em uma pergunta – Ah, eu tenho uma! – gargalhou, enchendo o outro de expectativas – Despacito, suave-suavecito... – ela sorriu – Ou rapidito?
Rafa precisou controlar as risadas antes de finalmente responder. Ela definitivamente queria tirá-lo do sério... E estaria mentindo se dissesse que estava longe de conseguir.
– Des-pa-cito pra começar... – sorriu de canto, silabando a palavra – Rapidito quando as coisas começam a ficar realmente boas. – o sorriso se alargou e não conteve uma risada, enquanto buscava esconder quão corada estava – Ah, eu tenho uma! – Rafa sorriu. Por que mesmo não tinha pensado naquilo antes? – Complete a frase: mandar nudes é...?
– INSANIDADE! – gargalhou – Rafael, isso não é pergunta!
– É sim! – ele fez um bico contrariado – Eu te respondo, mesmo sem você perguntar: é...uma delícia.
– Eu acho que vou suspender seu vinho... – a garota brincou, avançando sobre a garrafa ao lado de Rafael.
– Ei, ei, não senhora! – Rafa riu, segurando o corpo pequeno da menina que se debruçara sobre ele, tão próximo que podia sentir o cheiro do perfume dela misturado ao do vinho, causando um efeito que nem o álcool fora capaz de causar.
sentiu o riso morrer na garganta quando se viu tão próxima de Rafa, as mãos espalmadas sobre a camiseta branca que ele usava e os rostos tão próximos que podia distinguir perfeitamente os tons de castanho e ocre nos olhos que a encaravam com um brilho que ela não tinha nunca visto ali, brilho que a desconcertava, que drenava a força de seus membros e esquentava o sangue dentro de seus vasos.
– Rafa... – conseguiu murmurar, a voz entrecortada quando sentiu a mão dele subindo por suas costas até o pescoço, causando uma trilha de arrepios pelo corpo da garota.
As palavras de Rafa eram quase um gemido, a voz rouca pela bebida e o desejo. Era uma verdadeira confissão: direta, simples, sem rodeios, com a melhor assinatura de Rafael.
Morena, eu tô louco pra te beijar.
sentiu aquelas palavras como um choque a atravessar seu corpo e fazer com que seus sentidos subitamente se vissem cientes da presença de Rafael como nunca: ela podia ver a sinceridade nos olhos dele, e como seus lábios pareciam tentadores; sentia a firmeza do toque dele em sua pele e o calor que compartilhavam; o perfume dele – já um velho conhecido – se fazia presente misturado a novos odores: vinho e creme de barbear; no silêncio que se instalara no ambiente, era fácil ouvir a respiração pesada e descompassada de ambos. Só lhe faltava o paladar e estaria mentindo para si mesma se dissesse que não sentia, naquele momento, uma vontade absurda de saber que gosto teria Rafael.
Ela recuou.
Contrariando todos os seus desejos, impulsos e instintos, desgrudou seu corpo de Rafa, sentindo quase dolorosamente a quebra do contato entre os dois. Cada célula de seu corpo parecia desejar Rafael, mas os poucos neurônios sobreviventes ao choque que era tê-lo tão perto a alertaram para o perigo invisível de se envolver com alguém com quem se importava tanto, com seu melhor amigo. Era uma relação que ela simplesmente não podia arriscar por causa de um momento de desejo. Mirou as próprias mãos por um instante antes de olhar novamente para ele, e o que viu fez seu coração se quebrar.
– Rafa, eu... – tentou começar, mas perdeu a coragem ao fitar os olhos dele que agora lhe pareciam tão escuros. não conseguia ler o que se passava por trás daqueles orbes tão conhecidos e tipicamente calorosos: era algo novo, e não era bom. Se ela tivesse que apostar, diria que era decepção.
– Me desculpa por isso. – Rafa disse, a voz um tom mais baixo que o habitual, depois de um segundo contemplando a face corada da morena que o observava atentamente. Ele desejava que ela não fizesse isso: era como estar com 13 anos e se declarando para a menina mais bonita do colégio e recebendo uma negativa. Pelo menos dessa vez não havia plateia.
– Você não tem que pedir desculpas... – se apressou em dizer, desejando de todo coração que aquele momento não estivesse acontecendo: ela não suportava ser o motivo da ruga entre as sobrancelhas de Rafa – Eu que...
– Tá tudo bem, . – Rafa respondeu, levantando-se do sofá depois de um afago rápido na perna da garota: a pele dela parecia brasa sob seus dedos, e o rapaz sentia uma necessidade absurda de sair de perto dela para enfim conseguir respirar em paz – Vamos fingir que isso nunca aconteceu, certo? – deu um sorriso forçado à figura que o observava sem saber como agir, e uma parte dele desejou abraçá-la e prometer que tudo ia ficar bem, mas a parte vencedora foi a que sabia que aquele abraço levaria embora sua sanidade, e seria mais do que ele poderia suportar – Eu vou tomar um banho e já volto, ok?. – avisou, subindo as escadas de dois em dois degraus e deixando uma devastada no sofá. O que ela havia feito?
ouviu a porta do quarto de Rafa se fechar no andar de cima, e foi como se aquilo lhe despertasse para a realidade da situação que vivenciava: chorou. Chorou copiosamente como não havia feito em meses, em silêncio, sentindo uma insegurança incomum se apossar de seu coração: o que ela faria sem Rafael? Nunca havia se percebido tão dependente dele, da felicidade dele, e a possibilidade real de perder aquela relação tão sincera e leve que haviam construído nos últimos meses lhe dava um nó na garganta e um gosto amargo na boca. Chorava de tristeza, frustração e raiva: era como se todo seu esforço e autocontrole para preservar a amizade houvessem feito justamente o oposto, e trincado aquilo que lhe era tão precioso. E isso doía.
A garota já cochilava no sofá – cansada de esperar que Rafael voltasse e sem coragem de bater na porta do quarto dele – quando o som de passos na escada chamou sua atenção. Sentou-se, aguardando pelo rapaz em silêncio, disposta a conversar, mas não sem antes sondar como ele estava. E ele era um poço de silêncio que não reconhecia. Não era o seu Rafa.
– Oi. – sussurrou, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha e forçando os olhos a se acostumarem com a escuridão, para então perceber que Rafa estava vestido com roupas de sair.
– Oi. – ele respondeu com um sorriso fraco – Alguns dos caras chamaram pra dar uma volta, tomar uma... Não deve ir até muito tarde. – explicou e percebeu que já procurava as chaves sobre a arca da sala.
– Ah. – a garota não conseguiu controlar a interjeição de surpresa. Não era como se Rafa fizesse muito aquilo, então era natural que associasse à situação anterior: ele queria fugir dela, e isso significava que as coisas eram piores do que imaginava – Okay.
– A casa é sua, . – ele disse, já andando em direção à porta – Qualquer coisa é só me ligar.
– Tá bem. – a garota respondeu, já sentindo o nó se formar na garganta mais uma vez – Aproveita, Rafa. – desejou, e o sorriso que ele deu antes de fechar a porta não era nada como os que ela adorava.
Naquela noite, chorou até adormecer: chorou porque se sentia uma intrusa naquela casa, porque tinha estragado tudo com suas melhores intenções, porque doía se lembrar do olhar dele quando recusou o beijo... Chorou porque tinha perdido Rafael.




Não passava das nove da manhã quando despertou, ouvindo algum movimento no andar de baixo da casa de Rafael. Ela não fazia ideia de que horas tinha finalmente adormecido, mas era tarde e ele ainda não havia chegado. Desceu as escadas e foi em direção à cozinha munindo-se de toda a determinação que tinha para enfim ter uma conversa honesta com Rafa e, se preciso fosse, implorar que as coisas voltassem a ser como eram. O maior problema era que, além de não acreditar ser possível, uma questão a perturbara por toda a noite: não tinha mais certeza de que voltar ao normal seria suficiente.
Toda a coragem caiu por terra quando se deparou com a figura que abria a geladeira: uma bela morena de olhos castanhos usando roupas da noite anterior e que a mirava com a mesma expressão de choque que conservava.
– Dios mío... – a garota murmurou, deixando a garrafa d’água que pegara sobre a mesa, talvez por medo de deixá-la cair – Você...
– Não sou namorada. – respondeu completamente no automático. Aquilo não podia estar acontecendo, certo? Sentia o coração disparado e as mãos tremendo, mas se recusava a perder o controle frente a uma estranha – Eu pensei que fosse o Rafael, desculpa. – conseguiu dizer, sentindo a voz falhar em alguns momentos.
– Ele tá dormindo. – a garota disse, servindo-se de água e podia perceber que ela também estava desconfortável – Pelo tanto que bebeu, acho que não acorda tão cedo. – explicou, torcendo o canto da boca em aparente desgosto.
– Eu vou só trocar de roupa, mas já tô saindo. – avisou, não queria detalhes da noite de Rafael. Não mesmo – Fica à vontade. – disse, sinceramente, já se encaminhando novamente para a escada. Quem era ela, afinal, para achar ruim pela presença da garota?
– Ei, espera! – a garota chegou até a sala – Pilar. – apresentou-se, e se forçou a colocar um sorriso nos lábios e tentar ser simpática.
. – respondeu, louca para encerrar o assunto e sair daquela casa o mais rápido possível.
– Ah, então é você. – a outra sorriu sem mostrar os dentes para algo que parecia ter feito sentido em sua cabeça – .
– Sim... – tombou a cabeça, levemente interessada no que viria a seguir. Rafael saíra por aí contando aos outros que fora rejeitado por ela?
– Então eu acho que... – ela pareceu relutar com o que estava prestes a dizer – Acho que você deveria saber. – parou por um momento, e prendeu a respiração tamanha a tensão que tomou conta de seu ser: o que diabos estava acontecendo? – Nada aconteceu. – ela encolheu os ombros – Entre nós dois, digo. – completou, parecendo insatisfeita – Ele me chamou de e acabou ali pra mim. Se quer saber a verdade, acho que ele também nem estava muito afim, eu só não fui embora ontem mesmo porque não tinha dinheiro pro táxi, e resolvi esperar até que amanhecesse pra pegar um banco aberto... – explicou, parecendo um pouco envergonhada – Bem, eu acho que vocês deviam resolver o que quer que tenha entre os dois. – ela sorriu minimamente – Aquele idiota realmente gosta de você.
subiu as escadas ainda atordoada: saber que Rafael não dormira com Pilar a deixava estranhamente aliviada, mas não conseguia controlar a pontada de raiva que sentia por ele ter saído, enchido a cara e levado uma mulher pra casa quando podiam ter sentado e conversado sobre o que havia acontecido entre eles para que então ele pudesse agir conforme quisesse. Trocou de roupa rapidamente, rezando para Rafael não acordar até que tivesse tempo de sair de casa e, quando chegou à sala, Pilar também já partira, como disse que faria.

, tá tudo bem? – Bruna perguntou, estranhando que a amiga ligasse tão cedo.
– Eu e o Rafa, nós... – respirou fundo, vendo que o taxista observava atentamente a conversa. De onde vinha aquela vontade imensa de chorar? – Eu posso passar aí, Bru? – pediu, por fim.
– Claro! – Bruna exclamou e podia sentir a preocupação em sua voz – Vou te mandar a localização por mensagem, tá?
– Tá bem. – suspirou, fechando os olhos – Obrigada.
A viagem até a casa de Neymar não foi longa: em poucos minutos estava na varanda da mansão que em nada se parecia com a primeira vez que estivera ali, tão vazia e silenciosa. Bruna logo apareceu, trajando um roupão branco e trazendo duas xícaras nas mãos.
– Fiz pra você. – entregou uma para antes de puxá-la para um abraço, dentro do qual se permitiu desabar – Shhh, calma, calma... – Bruna afagava as costas da amiga, conhecia pela voz e sabia, ao atender a ligação, que ela não estava nada bem; Era como voltar para quando a garota ainda namorava Caê, e vivia nos altos e baixos daquele relacionamento. Sentaram-se em um dos confortáveis sofás e Bruna deixou que a amiga se acalmasse para então perguntar – , o que aconteceu?
– Eu estraguei tudo, Bru. – a garota fungou, tomando um gole de chá sem fazer ideia de quão cômica estava com a ponta do nariz vermelha e brilhante – Ontem nós... Nós bebemos um pouco, e o Rafa tentou me beijar. – contou, mirando as próprias mãos, envergonhada.
– Oh, isso... – Bruna murmurou. Não era como se ela não estivesse esperando por aquele momento, a única coisa fora do lugar era a reação de : isso ela não conseguira compreender – Vocês se beijaram? – perguntou e negou com a cabeça, fechando os olhos e deixando mais algumas lágrimas caírem – Ah, , por quê? – perguntou, sofrendo.
– Eu não sei! – ergueu os olhos, confessando-se à outra com toda sinceridade – Ele me pegou de surpresa, acho que me assustei. – explicou – E fiquei com medo, Bruna, medo de estragar tudo na nossa amizade... E olha o que aconteceu. – concluiu, olhando para o alto para impedir que mais lágrimas caíssem.
– Ai, amiga... – Bruna a puxou para um abraço – Mas vocês podem conversar, voltar a se entender. O Rafa te adora!
– Mas não foi só isso... – a garota tomou fôlego para continuar, contando então sobre o encontro com Pilar no café da manhã, o que indignou Bruna a ponto de fazê-la ficar de pé andando de um lado para outro enquanto ouvia o relato.
– Puta merda, Rafael, eu tento te ajudar, mas assim fica difícil... – falou consigo mesma.
– Não tem como eu continuar lá. – murmurou, secando o rosto com as mãos – Fora o clima chato, hoje caiu a ficha do quanto eu posso atrapalhar a vida dele, sabe? – confessou, e dizer aquilo fazia seu coração apertar dentro do peito – Ele precisa ter liberdade pra, você sabe... Fazer o que quiser na casa dele, com quem quiser... – fitou os próprios pés, a voz sumindo a cada palavra.
– Querida, você pode ficar aqui. – Bruna sorriu fracamente – Isso não é o problema.
– É o principal. – rebateu. Sabia onde a amiga queria chegar, mas esse assunto para ela estava cercado de fitas amarelas de “não se aproxime”, tal quais as cenas de crimes que ela assistia com Rafael nas noites intermináveis de Law and Order.
– Não, não é. – Bruna se sentou novamente ao lado da amiga antes de continuar – Você tem que começar a se perguntar o porquê de estar tão mal com isso tudo, . – aconselhou – Eu já te vi passar por perrengues piores, e você saiu deles rindo.
– Eu gosto do Rafa, Bru, isso não tá em questão... – ela deu de ombros – Você e ele são tudo o que eu tenho em Barcelona.
– Se você tivesse brigado comigo, tinha me xingado, mandado à merda, me jogado um copo d’água... E depois rido. – enumerou, arrancando uma risada anasalada da outra – Porque é isso que somos, amigas. Que resolvem as coisas como tal.
– Bruna, não... – tentou protestar, mas não tinha argumentos fortes o suficiente para contestá-la.
– Me ouve, por favor. – Bruna pediu, segurando as mãos de antes de prosseguir – Eu acho que você gosta dele mais do que quer admitir pra si mesma. E amiga, eu te entendo... Se tem uma pessoa que te entende, sou eu. – disse, com uma risada – Entendo o medo de se envolver com alguém do outro lado do mundo, e que ainda por cima carrega uma quantidade enorme de mídia pra cima dele... E sei também que o meu exemplo de “namorar um jogador de futebol” não é o mais inspirador nesse sentido, com todas as confusões de idas e vindas... Mas vocês dois são diferentes. – ela sorriu – Caramba, , vocês são amigos. São cúmplices, parceiros. Isso é tão bonito! – concluiu, sentindo os olhos marejarem.
baixou os olhos, sentindo lágrimas rolarem mais uma vez, enquanto absorvia tudo o que Bruna dizia. Tudo que ela procurara a todo custo evitar que passasse por sua mente, mas que estava ali por todo aquele tempo. Todos os medos, inseguranças e freios que a impediam de admitir que o que sentia por Rafael fora alimentado com carinho, atenção, respeito, e crescera até aquele ponto. Até florescer.
– Ele tá bravo comigo. – murmurou, só então percebendo o quão infantil aquilo soara. Era realmente a primeira coisa que conseguia dizer depois de toda uma reflexão que levara a conclusão de que estava se apaixonando por seu melhor amigo?
– Vai ficar tudo bem, Prin. – Bruna sorriu, apertando o nariz da amiga com carinho, usando o apelido que tinham na infância. “Prin”, de Princesa. – Eu acredito em vocês.
sorriu fracamente, acenando uma vez. Ela não sabia o que o futuro reservava, mas um peso parecia ter saído de suas costas, e por enquanto isso bastava.
– Bom dia, meninas... – Neymar apareceu, olhos semicerrados pela claridade. Ele fora poupado no jogo e também não viajara com o resto do time
– Bom dia... – as duas responderam em uníssono.
... - ele disse, levando a mãos aos cabelos – O Rafa tá vindo aí.
– Amor, eu falei pra não dizer nada! – Bruna protestou, indignada. Devia ter imaginado que a cumplicidade masculina faria que o namorado traísse sua confiança.
– Tá tudo bem, Bru. – tentou tranquilizar a amiga. Estava feito, afinal – A gente ia precisar conversar mesmo...
– Ele tava muito desesperado, , foi só por isso que eu falei. – Neymar se desculpou e a garota deu um sorriso fraco, limpando algumas lágrimas remanescentes.
– Vai ficar tudo bem. – acenou para Bruna, repetindo o que escutara dela, e a outra apertou sua mão.

Assim que o som do carro de Rafael acelerando do lado de fora se fez audível, Bruna avisou para que estaria dentro de casa e entrou junto de Neymar, deixando que a garota aguardasse por ele. E ela o fez, com o coração disparado e as mãos tremendo, subitamente sem saber o que dizer. Rafa cruzou o jardim rapidamente, os olhos cobertos por óculos escuros, mas sabia que a examinava a todo instante. Parou na frente da garota, tirando as lentes da frente dos olhos e finalmente exibindo as manchas arroxeadas que tomavam suas pálpebras inferiores.
– Você tá péssimo. – quebrou o silêncio, tomando um gole de seu chá, que já estava morno.
– Eu sei. – a voz de Rafa estava rouca, e ele finalmente tomou coragem para se aproximar, sentando-se no sofá ao lado dela, com alguns centímetros de segurança. Então era aquilo a famigerada ‘ressaca moral’? – , eu preciso me desculpar por ontem... – pediu, atropelando as palavras pela ansiedade de dizer tudo – Eu não devia ter saído daquele jeito.
– Rafa, você tinha todo o direito de sair, eu só queria que a gente tivesse conversado antes, acertado as coisas... – explicou, fitando aqueles olhos castanhos que tanto adorava e que hoje já se pareciam mais com o que se lembrava, apesar de atormentados. Suspirou, prestes a prosseguir com a parte mais difícil do discurso que ensaiara – Mas isso foi importante pra que eu visse que não dá pra ficar morando lá... – disse e, vendo que ele protestaria, ergueu uma mão pedindo para continuar – Você precisa ter liberdade na sua própria casa, e eu me sinto mal sabendo que estou te tirando isso... – confessou, sentindo as bochechas corarem.
– Você... – Rafa começou, suspirando uma vez antes de prosseguir – Você encontrou a Pilar, não é?
– Sim. – murmurou, fitando o conteúdo da xícara que tinha em mãos.
– Ela deixou um bilhete falando que tinha encontrado você. – Rafa confessou, lembrando-se do post-it que a garota deixara colado no espelho do banheiro dele: ‘sua é uma graça. Vá atrás dela, idiota.’
– Ela é uma garota legal. – disse, simplesmente, lembrando-se de tudo que a outra dissera, como poucas fariam. Rafa se manteve em silêncio, pois não era como se pudesse realmente opinar: conhecera a garota e pouco se lembrava do que conversaram. Sabia que ela se parecia com , e na noite anterior isso lhe bastara. Depois vinham flashes de uma discussão breve e ele apagando na cama, ainda de roupa. Pensando na atitude dela com o bilhete, contudo, podia concordar com : era uma garota legal. – Foi um constrangimento pra nós duas, entende? – continuou, e Rafa quis bater a própria cabeça no concreto imaginando o que fizera passar – É por isso que não dá pra gente continuar assim, Rafa...
– Não vai acontecer de novo... – assegurou, segurando sua mão. Era o primeiro contato deles desde o quase-beijo na noite anterior: a pele dela ainda queimava.
– Rafa, é a sua casa... – tentou sorrir – Eu não posso tirar esse direito de você, não tá certo. Eu vou ficar aqui.
Ele engoliu seco, segurando tudo o que queria dizer: que não queria esse direito. Que não tinha vontade de mais ninguém. Que a noite anterior fora um erro e que ele só queria conquistá-la do jeito certo, e não com um beijo roubado em um Jogo da Verdade. Que tudo que queria era que ela voltasse pra casa.
Refreou cada um desses argumentos, contudo, para não mexer em uma ferida que ainda estava aberta e pungente entre eles: se estava magoada porque ele tentara forçar suas barreiras, criando uma rachadura naquela amizade tão sólida, não seria ele a tocar mais uma vez no assunto “nós”. E se era o amigo que ela queria de volta, Rafa se esforçaria ao máximo para sê-lo, respeitando seus limites, por mais difícil e doloroso que pudesse ser. Uma confissão, entretanto, escapou de seus lábios antes que pudesse contê-la.
– Eu vou sentir sua falta, cariño.
deu um sorriso fraco, afagando o rosto de Rafael com a ponta dos dedos. Ele pediu que ela se despedisse de Neymar e Bruna por ele, e se ofereceu para levar sua pequena mala até a casa dos amigos mais tarde. A diferença na forma como se tratavam já era palpável e machucava a ambos: eles eram da risada solta, da brincadeira fora de hora, do carinho desmedido e exagerado... Viver pisando em ovos e pensando duas vezes antes de falar era o mesmo que minar o que havia de mais bonito entre os dois.
Rafa entrou no carro e o vazio no banco do carona parecia uma agressão direta: que merda de vida era aquela em que as coisas podiam ir de incrivelmente perfeitas a completamente destruídas tão rápido? Socou o volante, frustrado, e levou alguns minutos até ter coragem de girar a chave na ignição e acelerar rumo a uma casa vazia. Era verdade: ele sentiria falta dela feito louco.


VII. ME ENAMORÉ

“Me enamoré, me ena-na-namoré
Lo vi solito y me lancé
Me ena-na-namoré
Me ena-na-namo
Mira que cosa bonita
Que boca más redondita
Me gusta esa barbita”

(Me enamoré – Shakira)


– Bruna, que vergonha... – desceu os óculos da cabeça para os olhos, vendo que atraía alguns olhares no camarote luxuoso do CampNou – Eu te falei que a gente devia ter ficado lá embaixo pra não chamar tanta atenção...
– Você devia parar de ser chata e começar a aproveitar, que tal? – Bruna estourou uma mola de chiclete, rindo de canto do constrangimento da amiga por estar em um camarote repleto de namoradas e esposas dos jogadores. Desde que saíra da casa de Rafa, a garota conservava um mau humor recorrente que chegava a ser engraçado – Não é todo dia que você assiste a um Barcelona x Juventus pela Champions.
– Ai, eu te odeio, garota. – bufou, rolando os olhos detrás das lentes – Eu tô nervosa, me deixa! – murmurou, apertando os dedos da mão até estalá-los. Desde que Rafa avisara que começaria como titular, tinha passado a encarar o jogo de outra forma: precisava que tudo corresse bem.
– Tô vendo... Uma verdadeira WAG, ela... – brincou e, antes que o protesto de viesse, completou: – Brincadeira, Furacão !
– Não sei como eu ainda sou sua amiga... – riu pelo nariz, andando até a margem do camarote para dar uma olhada no campo e aproveitando para virar-se de costas a fim de que a amiga não percebesse que corava. Os jogadores ainda não tinham ido para o aquecimento, mas segundo Bruna isso deveria acontecer em breve.
– Eu vou pegar uma bebida pra nós, tá? – Bruna avisou – Não sai daqui.
acenou positivamente, distraída em observar o mosaico que os torcedores começavam a organizar nas arquibancadas. Sorriu. Era uma torcedora apaixonada do Botafogo e frequentara estádios com o pai desde a infância. Talvez por isso o sentimento de estar em um estádio em um jogo de tanto peso lhe fosse tão calorosamente familiar... Se estivesse lá no meio do resto da torcida, contudo, sabia que se sentiria mais em casa, e não ali blindada de toda a emoção pelo camarote. Tirou a câmera de dentro da bolsa de couro, fotografando a torcida. Checou o resultado no visor para então concluir que tinha um bom ângulo e que eram boas panorâmicas, mas nada comparado ao que gostava de fazer. Não era o seu trabalho.
Quando o celular vibrou dentro do bolso traseiro do jeans justo que usava, precisou se equilibrar para manter a câmera em mãos e pegar o aparelho. A mensagem era esperada, mas ainda assim lhe trouxe um sorriso aos lábios.

Rafael Alcântara: você tá usando meu presente?

riu de canto, tirando uma foto de si mesma focando a camisa do Barcelona que Rafa deixara com Neymar no mesmo dia em que ligou pedindo que ela fosse à partida. A garota sentiu o coração se aquecer ao pedido, sentindo que talvez as coisas estivessem voltando ao normal... Mas a verdade é que sabia que se realmente estivessem, Rafa teria deixado a camisa pessoalmente e feito questão de vê-la vestida com ela imediatamente. Baby steps...

enviou uma imagem.

Rafael Alcântara:
conseguiu ficar mais linda! hahaha mas quero ver de costas!

: para de querer dar uma olhada na minha bunda, Rafael! HAHAHAHA

A garota enviou a mensagem, e mordeu o lábio em apreensão enquanto aguardava a resposta: era o tipo de coisa que diria, certo? Se pretendia manter o clima bom entre eles, o melhor que podia fazer era agir naturalmente...

Rafael Alcântara: HAHAH um cara pode sonhar, cariño... :p

sorriu, e respirou fundo antes de pedir a um segurança próximo dali que tirasse uma foto de suas costas exibindo o nome de Rafinha junto do número 12.

enviou uma imagem.

Rafael Alcântara: aí sim, morena... Ia pedir pra me desejar sorte, mas acho que agora nem preciso hahah

Rafael Alcântara: vejo você depois do jogo, né?

: vou desejar mesmo assim! Meu coração já tá disparado de nervoso! hahah Você ainda me mata, Rafael!

: e sim, nos vemos depois do jogo. Pra comemorar 

– Ah, então essa é a garota do Rafinha! – a voz fez se sobressaltar enquanto guardava o celular no bolso, virando-se para dar de cara com uma morena de cabelos cacheados e um sorriso absurdamente simpático que caminhava ao lado de Bruna, cujos braços estavam erguidos em uma clara postura de “não tenho nada com isso!”.
– Eu não colocaria assim... – sorriu, tentando não transparecer nada além de simpatia – Mas se quiser chamar assim todas as garotas que estiverem com a camisa dele, tá tudo certo por mim. – deu de ombros, descontraída.
– Sandra! – a garota sorriu, abraçando a carioca antes que pudesse se preparar para tanto: era realmente uma coisinha simpática... – A garota do Denis. – piscou.
– Muito prazer, Sandra. – sorriu, lembrando-se de quando Bruna listara as WAGs de quem mais gostava: aquela era a líder da lista – .
– Toma, bebe pra tirar esse tom verde da cara. – Bruna gargalhou do constrangimento da outra, entregando-lhe uma longneck como a que ela e Sandra carregavam – Nós estávamos falando sobre você...
– Eu percebi. – deu um sorriso mordaz para a amiga, que sorriu de canto.
– Eu estava dizendo a Bruna que Denis comentou sobre o péssimo humor do Rafa nos últimos tempos, falando que ele virou piada no vestiário... – franziu o cenho, parecendo verdadeiramente sentida.
– E eu lembrei de comentar que, olha que coincidência, você também tem vivido uma TPM perene. – Bruna conteve uma risada ao ver a expressão que variava entre constrangida e enraivecida de .
– Vocês sabem de uma coisa, - sorriu, olhando para Bruna sugestivamente, desafiando-a a continuar aquele assunto – acho que vou assistir lá embaixo, tirar algumas fotos da torcida.
– É tão difícil pra você sossegar, garota? – Bruna rolou os olhos, mas a outra já se despedia com um beijo estalado em sua bochecha.
– Vejo vocês daqui a pouco. – acenou – Foi um prazer, Sandra!
A morena andou até as arquibancadas, sentindo finalmente a atmosfera que tanto lhe agradava em uma partida de futebol. Os cânticos catalães já eram entoados, e não consiga nem mesmo imaginar como era para um jogador Bianconero lidar com uma pressão daquelas... Era uma coisa linda de se ver – uma aura poderosa, forte, e repleta de emoção que a brasileira captava em suas lentes. Um pai com a filhinha no colo, usando a camiseta de Messi; um casal de namorados uniformizados trocando um olhar de pura animação; um grupo de adolescentes com pintura facial cantando a plenos pulmões; um senhor de idade fitando o campo com seriedade e apreensão... Aquilo era futebol: um jogo para o público. Mais que os jogadores – que iam e vinham, trocavam de clube a cada poucas temporadas – ali estava o que realmente importava, o que permanecia... A torcida.
Quando os jogadores começaram a entrar em campo para o aquecimento, se viu involuntariamente procurando a figura de Rafael. Encontrou-o com o braço em torno das costas de Neymar, gargalhando de algo que parecia muito hilário aos dois. A garota estava perto o suficiente para uma boa foto e sorriu, trazendo a câmera para frente do rosto e se surpreendendo quando, no momento em que pressionou o botão, Rafael olhou diretamente para ela, a risada ainda presa aos lábios. A morena abaixou a câmera, vendo o sorriso de Rafa se alargar.
“Boa sorte”, moveu os lábios, esperando que ele compreendesse o que dizia.
Rafa piscou, sorrindo de canto, e soube que se fizera ouvir. Analisou a foto que tirara e por um segundo invejou o quão fotogênico Rafael podia ser: a gargalhada aberta era tão calorosa que quase podia ouvi-la, e os olhos... Os olhos também sorriam. Perdeu mais um momento admirando o quanto a barba lhe caía bem, e perguntando-se se aquele maxilar era anatomicamente possível. Respirando fundo, tratou de voltar a tirar algumas fotos dos jogadores e mais outras tantas da torcida, até que se desse por satisfeita e voltasse ao camarote, encontrando Bruna e Sandra em uma conversa animada.
– O que eu perdi? – perguntou, juntando-se às duas em sua cadeira.
– Não muito. – Sandra deu de ombros – Estávamos conversando sobre o humor dos garotos quando perdem...
– Pior experiência. – Bruna bufou – O Ney consegue ficar especialmente chato.
– Denis fica tristinho, corta meu coração... – Sandra fez um bico fofo, arrancando uma risada de , que a abraçou de lado em solidariedade.
– Nada a declarar. – a morena ergueu os braços, sorrindo de canto enquanto focava o campo. Foi um momento engraçado: sentia-se como aquelas mulheres que ainda não têm filhos, em meio a todas as amigas que só sabem falar sobre fraldas, desenhos animados e fórmulas lácteas. O silêncio se dava tanto pela falta de assunto, quanto pela tensão crescente que se instalava dentro da garota: era muito passional quando se tratava de futebol, e os poucos minutos até o apito inicial foram torturantemente longos, aliviados somente durante o hino da Champions, um momento tão emocionante para ela, que não podia nem mesmo imaginar o que se passara dentro do coração de Rafael, ali enfileirado junto ao time.
– Oh, meu Deus, é agora. – murmurou, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e mordendo os dedos, murmurando para si mesma e para todos os deuses que tivessem a boa vontade de ouvir – Boa sorte, Rafa.
O time da casa dominou a posse de bola durante o primeiro tempo, fazendo seu jogo característico de muitos toques e tentativas de infiltração na área adversária. assistia com o coração na mão a cada toque de Rafa na bola: o meio-campista era ousado e tinha um jogo verticalizado que levara perigo à defesa italiana duas vezes: a primeira em uma tabela com Neymar e a segunda em um lindo lançamento para Messi, que – conforme a mídia diria no dia seguinte – trazia a assinatura dos Alcântara, por lembrar muito o que Thiago costumava fazer.
O zero a zero no placar, contudo, ainda parecia o mais justo ao intervalo visto que a Juve, apesar de muito consistente na defesa, tivera uma boa oportunidade com Dybala, defendida brilhantemente por Stegen.
– Cristo, eles precisam de um gol! – Sandra comentou, correndo os dedos pelos cachos dos cabelos, enquanto assistiam ao time voltando aos vestiários – Pelo bem dos meus ouvidos, que não pretendem escutar reclamações pelo resto da semana...
– Eles estão melhores... – Bruna comentou, mordendo uma das unhas – Logo vão dar um jeito de furar essa defesa, não é possível.
– A zaga não me preocupa tanto quanto o goleiro. – suspirou pesadamente, jogando-se de volta na cadeira – Se pelo menos o Buffon já tivesse aposentado.
– Respira, ... – Sandra riu pelo nariz – Seu garoto tá fazendo uma grande partida.
– Está mesmo. – Bruna logo concordou, sorrindo de canto.
– Vocês duas, – ergueu as sobrancelhas em exasperação – podem fazer o favor de parar com isso?
– Ela é uma graça. Eles são fofos! – Sandra riu, olhando para Bruna com cumplicidade, ignorando a expressão de , que finalmente se rendeu a uma risada. Claramente já era mais uma a engrossar as fileiras pró ...
Tão logo os jogadores voltaram a campo, as risadas e frivolidades das garotas foram substituídas por expressões sérias e cenhos franzidos: o jogo não era nada fácil. O Barcelona conseguiu criar algumas oportunidades com Suárez e Neymar, mas ambas pararam nas mãos experientes de Buffon. Um chute de Higuaín quase acertou a meta de ter Stegen após uma bobeada de Piqué e Umtiti, e a sequência de xingamentos de ao mau posicionamento da zaga catalã fez com que Bruna e Sandra cedessem a uma gargalhada mesmo em meio à tensão.
Quando o juiz marcou um escanteio para o Barça, a ser cobrado por Neymar, sentiu que prendia a respiração: Rafa era marcado de perto por Barzagli na segunda trave, e ao saltar junto de seu marcador para interromper a trajetória da bola, o brasileiro mandou a bola para o fundo do gol. sentia a arquibancada estremecendo em uma comemoração barulhenta que a faria sorrir fosse qual fosse a situação. Exceto aquela. Os jogadores do Barcelona se agitavam, erguendo as mãos para o juiz no que poderia ser uma comemoração. Mas não era. Rafinha estava no chão.
Rafael estava acostumado a cabecear uma bola em alta velocidade, era o que fazia diariamente nos treinamentos... Mas aquilo fora diferente. O impacto viera dolorosamente, fazendo sua cabeça zunir e os sentidos falharem. A última coisa que se lembrava era da dor, depois disso, nada.
– Bruna. – sentiu a boca subitamente seca e levantou-se para só então perceber que as pernas tremiam – Bruna, o que tá acontecendo? Por que ele não levanta?
, calma... – a amiga também estava de pé e focava o telão, que exibia novamente a jogada: Rafa havia sido atingido não só pela bola, mas por uma cabeçada de Barzagli, que tentara alcançar o mesmo alvo. O italiano estava próximo a Rafa, parecendo consternado.
Por que ele não levanta?! sentia algumas lágrimas se formando no canto dos olhos e se movimentava em direção à saída do camarote, como se desejasse se teletransportar para o meio do campo no mesmo instante.
– Querida, calma... Não deve ser nada sério. – Sandra afagou os ombros da outra, segurando sua mão com firmeza.
assistiu com o estômago embrulhado enquanto os médicos entravam em campo removendo Rafael inconsciente em uma maca. Parecia um pesadelo... O coração disparado não era nada comparado ao tremor descontrolado em suas mãos: a garota sentia-se a ponto de explodir de agonia, e não entendia como o jogo podia recomeçar. Como podiam continuar quando não tinham notícia alguma de Rafa.
– Bruna, eu não vou ficar aqui. – a garota disse, livrando-se do aperto de Sandra – Eu preciso saber o que aconteceu.
, espera! – a outra chamou, sentindo também seu coração apertado com a situação do amigo – Falta pouco pro final, logo a gente vai ter notícias.
Bruna... – os olhos de vertiam lágrimas silenciosas, e naquele olhar a amiga entendeu o que ela queria dizer: que se colocasse em seu lugar. Que imaginasse que era Neymar ali.
– Nós vamos com você. – Bruna murmurou, pegando suas coisas e andando na companhia das outras duas até a saída do camarote, pedindo uma série de informações que as guiou até a porta do vestiário do Barcelona.
– Sinto muito, garotas, a entrada é proibida. – o segurança se postou a frente do vestiário.
– Escuta, nós precisamos ver o Rafinha... – Bruna tomou a frente da situação, usando dos meios necessários para resolvê-la – Ela é a namorada, estávamos no camarote dos jogadores. – apontou para , que ainda tremia e nem pensou em desmentir a amiga, que mostrava as pulseiras de papel em seus pulsos.
O segurança as examinou por alguns segundos, reconhecendo Sandra e Bruna, que já mantinham relacionamentos longos com os jogadores do clube. Deu passagem as três muito mais por pena da pobre garota de cabelos escuros que tremia e chorava, do que por qualquer outro motivo.
– Vão... – murmurou, recebendo uma série de agradecimentos das meninas que passaram rápido demais, como se temessem que ele mudasse de ideia.
Ao entrar no vestiário, podia ouvir a várias vozes, mas nenhuma delas lhe parecia familiar, o que lhe aumentava a vontade de chorar. Seguiu as vozes, deparando-se então com três médicos e um membro da comissão técnica do Barcelona que se aglomeravam em torno de Rafa, e o alívio que se seguiu a invadiu de modo a formar uma avalanche de emoções que fez com que soluçasse alto em meio às lágrimas, chamando a atenção de todos.
... – Rafa murmurou, rouco e levemente confuso, assim que se deu conta da presença da garota. O rosto dela lavado de lágrimas lhe partia o coração, e fez menção de se levantar, sendo contido por um dos médicos, enquanto os outros questionavam algo sobre a entrada das garotas no vestiário – Não tem problema, elas podem ficar. – o rapaz se apressou em dizer, afastando levemente com um dos braços o assistente técnico para o lado a fim de manter o caminho livre – Foi uma concussão leve, eu tô bem, cariño...
Àquilo não se conteve: cobriu o espaço entre os dois com rapidez, jogando os braços em torno de Rafael e deixando que as lágrimas de alívio corressem livremente pela curva do pescoço do rapaz.
– Você está bem... – ela murmurava para si mesma, um sorriso lindo nos lábios enquanto segurava o rosto de Rafa entre as mãos, observando cada detalhe: desde os olhos que tanto lhe encantavam, até o inchaço que se formava na testa, chegando enfim aos lábios que escondiam também um sorriso – Você está bem... – continuou, e não seria errado dizer que não agia racionalmente enquanto beijava cada pedacinho do rosto do rapaz, agradecendo mentalmente a cada beijo por ele estar acordado e arrancando do jogador uma risada gostosa que só foi interrompida quando sentiu, com agradável surpresa, os lábios de sobre os seus.
O beijo, que não passou de um breve tocar de lábios, era salgado pelas lágrimas da garota, mas ironicamente podia ser descrito como mais doce de que Rafael se lembraria em toda a vida. Quando se afastou, encarando-o com aqueles olhos cor de chocolate demonstrando um tom de embaraço e alguma nota de expectativa, a única coisa que Rafa conseguiu fazer foi sorrir. O momento era público, o que lhe impedia de reagir propriamente àquele momento, mas sentiu uma necessidade absurda de demonstrar algo, por isso entrelaçou os dedos de uma das mãos à de com carinho.
– Eu acho que a pancada foi mais forte do que eu imaginei... – murmurou, para que só ela ouvisse, mas a acústica do vestiário fez com que todos rissem baixinho do comentário. Menos Bruna, cuja risada escandalosa invadiu o ambiente.
– Eu... Eu já vou. – disse, colocando os cabelos para trás da orelha, subitamente ciente do que fizera.
– Eu não devo demorar, só alguns exames... – Rafa ainda não soltara a mão da morena – Me espera em casa? – perguntou, recebendo um aceno breve em resposta – Ótimo. – sorriu, beijando os nós dos dedos da garota.
– Cuida dessa cabeça dura. – sorriu, antes de virar as costas, os lábios ainda formigando pelo contato recente com aqueles para os quais pareciam ter um verdadeiro imã.
– Essa é a minha garota! – Bruna abraçou a amiga pela cintura, fazendo gargalhar enquanto saíam do vestiário – IS REAL! – gritou, abrindo os braços tão logo se viram fora do estádio.
– Cala essa boca, Bruna! – ria, mas as estúpidas borboletas em seu estômago, essas sim eram bastante reais.
– Arrasou, ! – Sandra sorriu, beijando o rosto da nova amiga – Agora vai logo esperar o garoto, acho que vocês terão uma noite longa... – piscou, rindo abertamente.
– Se Deus quiser! – Bruna gargalhou, fazendo as bochechas de corarem furiosamente enquanto andavam até um ponto de táxi perto do estádio.
– Ai, eu odeio vocês. – a morena revirou os olhos, rindo – Me desejem sorte. – murmurou, entrando no banco traseiro.
– Você não vai precisar disso, garota. – Bruna riu – Te amo! Me liga amanhã! – bateu a porta para que fosse embora antes de inventar alguma desculpa, como sabia que faria se tivesse mais algum tempo.
chegou à casa de Rafa e se demorou alguns segundos na porta, estranhando aquele momento que costumava ser tão natural. Girou a chave na porta, sorrindo feito boba por ainda ser a mesma. Pensou em fazer alguma coisa na cozinha para quando ele chegasse, mas não tinha ideia do que o jogador gostaria de comer, ou se gostaria de comer depois daquela pancada tão feia. Aconchegou-se, então, no sofá em companhia de Preta – o labrador de quem sentira tanta falta – mesmo sabendo que Rafa não costumava deixá-la dentro de casa: precisava de algum conforto, ou enlouqueceria sozinha naquela casa, as mãos tremendo levemente de expectativa e ansiedade. Quando o som de um carro acelerando do lado de fora se fez audível, depois de algo em torno de uma hora, Preta e se ergueram no sofá.
– Vem cá, Pretinha... Senão ele vai brigar comigo. – sussurrou para o labrador, guiando-a até a porta de vidro que dividia a sala do quintal.
– Peguei no flagra... – Rafa sorriu, encostado ao batente da porta, percebendo a dificuldade da morena para colocar o cão para fora.
– Desculpa. – riu, mordendo os lábios e caminhando até ele com os braços cruzados detrás do corpo.
Rafael maneou a cabeça, sorrindo de canto antes de passar os braços em torno da cintura de , sentindo-se absurdamente bem pela forma como ela se encaixava ali tão confortavelmente. Era mais um daqueles momentos entre eles que não necessitava de palavras: era um abraço que lembrava os antigos, como não tinham há semanas, e que transbordava toda a saudade pungente que sentiam um do outro.
– Você chorou tanto, cariño... – Rafa tomou o rosto de entre as mãos, beijando a testa da garota em seguida – Desculpa te deixar daquele jeito...
– Eu quase morri de preocupação, Rafa... – a garota fungou, enterrando-se novamente entre os braços dele – Você tava jogando tão bem, fez o gol! – os olhos dela brilhavam quando ergueu o olhar para ele, fazendo com que Rafa sorrisse – E depois tudo isso...
– Já passou. – Rafa acariciou os cabelos dela delicadamente, sentando-se no braço do sofá e mantendo a garota entre as pernas – Eu preciso confessar que amei ver você toda preocupada... – riu, afastando-a levemente para examinar o rosto da morena. Os olhos dele brilhavam e um sorriso travesso brincava no ângulo dos lábios.
– Eu sei que amou... – riu, revirando os olhos antes de encarar Rafa em silêncio, e aquele olhar durou tempo suficiente para que a tensão no ambiente forçasse um deles a tomar alguma atitude... Rafa segurou as mãos de entre as suas, deixando-a ciente do que viria a seguir – Rafa...
– Morena... – a voz dele era rouca, e o dèjá-vu naquele momento foi inevitável – Eu vou te beijar. – anunciou, e a lembrança da última vez em que aquelas palavras saíram de sua boca veio fortemente, lançando arrepios por todo o corpo da morena, motivo pelo qual a resposta de foi como um balde de água congelante.
– Não vai, não... – ela murmurou, e o sorriso enorme que exibiu só fez sentido para Rafa no momento em que se colocou na ponta dos pés, juntando seus lábios em um beijo doce, lento e quente, que transbordava o que havia de mais íntimo entre eles: cumplicidade, carinho, cuidado e paixão.
sorriu entre o beijo, e percebeu que ele fazia o mesmo. O rapaz colou a testa à dela e se encararam demoradamente, sorrisos aliviados e idênticos presos aos lábios, como se perguntassem o motivo de não terem feito antes algo que parecia tão certo. voltou a se aninhar entre os braços dele, sentindo o peito se aquecer em um sentimento há tanto esquecido, mas que lhe causava um formigamento gostoso por todo o corpo: era delicioso estar apaixonada novamente.


VIII. UNA LADY COMO TU

“Voy buscando una lady
Como tú la quiero así
Quiero que te enamores
Como estoy yo de ti
A casa enviarte flores
Y en tu nombre escribir
Mil canciones de amores
Pa’ que pienses en mí
Como yo pienso en ti”

Se havia uma coisa que Rafael Alcântara sempre apreciara na vida, era sua rotina. Quem analisasse apenas superficialmente poderia acreditar que ele não era o maior fã de uma vida regrada e sem improvisos, mas o fato é que desde criança, Rafa sempre teve hábitos muito bem estabelecidos e incessantemente repetidos, sem os quais perdia o norte. Também por esse motivo, não era a melhor pessoa do mundo para lidar com mudanças... Quando Thiago se mudou de Barcelona para Munique o impacto no irmão caçula foi absurdo, pois não era apenas com a saudade que sofria, mas com a reviravolta em seu cotidiano, em sua tão prezada rotina, que incluía partidas de FIFA depois dos treinos, uma cerveja no sofá pra matar o tempo, disputas de Guitar Hero nos fins de semana e uma roda de violão nos finais de domingo. Três anos depois, Rafa já estava tão adaptado a de solteiro morando sozinho que ainda lhe impressionava a rapidez com que novas rotinas estavam chegando de mansinho em sua vida e, sem fazer força alguma para entrar, estabelecendo-se como primordiais.
Era engraçado pensar em como aquela era definitivamente uma realidade com a qual Rafael podia facilmente se acostumar... Em verdade, já havia se acostumado. Foram necessários poucos dias para que as roupas de , agora espalhadas pelo quarto, se tornassem sua parte preferida da decoração, e apenas algumas semanas para que os livros que ela deixava largados em absolutamente todos os cômodos passassem a fazer parte daquele lugarzinho aconchegante que ele chamava de lar. Enquanto observava a garota adormecida ao seu lado, o peito subindo e descendo de forma ritmada sob a camiseta dele que surrupiara na hora de dormir, perguntava-se – já que andava tão pensativo acerca de suas coisas favoritas – quanto tempo havia levado para que aquela se tornasse sua cena preferida de todos os dias. A resposta era tão óbvia, que um risinho anasalado lhe escapou dos lábios enquanto afastava com carinho um fio de cabelo do rosto da morena. Não levara mais que um segundo.
Aproximando-se do corpo pequeno de sob as cobertas, sentiu com prazer a forma como ela soltou um suspiro leve, aninhando-se a ele no sono. Naquele instante, ele queria desvendar seus sonhos... Sorriu, sonolento, entregando-se por mais alguns minutos àquele sentimento inigualável de acordar ao lado de alguém pela manhã e querer que a pessoa continuasse ali, por prazo indefinido. Afinal, era como se fizessem aquilo há anos, e não semanas, tal o conforto e a facilidade como tudo fluía. E, sem sentimentalismo barato, Rafa não conseguia se lembrar de um sentimento mais gostoso do que aquele.
O som do despertador interrompeu sem piedade aquela segunda etapa de sono – sempre mais proveitosa que a primeira – e o moreno se apressou em desligar o alarme insistente com a mão que não estava ao redor de . A garota remexeu entre seus braços, contraindo o nariz e fungando de forma divertida, e Rafa pousou os lábios sobre os cabelos dela com carinho.
— Só mais um pouquinho... – ronronou, sem abrir os olhos, escondendo o rosto ainda mais fundo no peito de Rafa, desejando que o tempo parasse para que pudessem permanecer ali, naquela posição, o dia inteirinho.
— Acorda, dona preguiça... – Rafa brincou, afastando-se apenas o suficiente para plantar um beijo sobre os olhos cerrados da garota, rindo do protesto dela quando se virou de costas para o rapaz – Você sabe que por mim a gente ficaria aqui o dia inteiro, não sabe? – perguntou, beijando a área exposta do pescoço de , sentindo com satisfação que a pele da cintura da garota se arrepiara. Sorriu, apertando a região a fim de despertá-la.
— Rafael... – murmurou, sob um risinho – Não joga baixo. – pediu, segurando a mão dele que já buscava caminhos que tornariam ainda mais difícil a missão de se levantarem.
— Eu só tô fazendo o necessário pra você acordar, cariño... – o moreno sorriu inocentemente, mas havia um quê de sacana naquele sorriso quando a colocou com as costas da cama, prendendo o corpo curvilíneo da morena sob o seu. Ao mirar os olhos faiscantes de , soube que atingira seu objetivo. Ela estava bem acordada.
Rafael avançou sobre os lábios da garota uma vez, deixando um beijo e uma mordida que a fizeram suspirar, parando para sorrir com o resultado. Filho da mãe. Sentiu os dedos de em sua nuca, trazendo-o para perto, e celebrou internamente aquela pequena vitória, como toda vez que percebia provocar nela o mesmo efeito que a jovem tinha sobre ele: estavam na mesma página, dividindo a mesma vibe, e aquilo era incrível.
sentia a respiração falhar enquanto Rafa distribuía beijos preguiçosamente lentos e tentadores por todo o seu pescoço, e xingava-se mentalmente por ser tão fraca quando se tratava de resistir a Rafinha. Sabendo que aquela era sua última chance de tomar algum controle sobre a situação, enlaçou a cintura dele com as pernas, tomando um impulso para que invertessem as posições. Agora era ela quem tinha a visão privilegiada de Rafael mordendo os lábios em apreciação, e cara, aquele homem tinha a boca mais tentadora de todo o mundo...
— Vem cá, vem, morena... – chamou, puxando a garota para colar o corpo ao dele, e mais uma vez se viu incapaz de resistir. Deixou o tronco cair sobre Rafa, os lábios buscando avidamente contato com os do moreno enquanto as mãos do jogador traçavam padrões incoerentes pelas costas dela, subindo e descendo, apertando e arranhando de modo que sentia os quadris se movendo involuntariamente em resposta.
— Pra quem não gosta de ficar por cima... – Rafa soltou um risinho anasalado, tocando a barra da camiseta que ela usava, sentindo urgência em tirá-la – Você faz um ótimo trabalho...
— Eu nunca disse que não gosto. – deu de ombros, sorrindo de canto e mantendo as mãos de Rafa firmes onde estavam – Só não é como eu mais gosto. – àquela frase, o sorriso que se abriu nos lábios de Rafael era felino, porque ele sabia muito bem como ela gostava... E aquele era mais um dos motivos pelos quais precisava agradecer a Deus por ter reunido tantas qualidades em uma só mulher. Mulher essa que estava no momento se levantando de seu colo, para sua completa frustração — Mas nós teremos tempo pra isso. Outra hora.
— Nena... – gemeu, segurando-a pela mão, mas já estava de pé ao lado da cama. A garota não conteve uma risada à expressão desolada do rapaz, mas conhecia-os bem o suficiente para saber que se não se levantassem da cama naquele momento, perderiam a hora do almoço, e aquele não era um dia em que podia permitir que algo desse errado...
— O chuveiro é meu, cariño... – piscou, correndo para o banheiro e fechando a porta antes que Rafa pudesse partir atrás dela. Afinal, se fosse assim todo o esforço seria em vão: iam se atrasar. Bastante.




— Ei... – Rafa sorria de canto, examinando a ruga discreta que se formara entre as sobrancelhas de no instante em que estacionara o carro na frente de uma belíssima casa – Por que essa carinha? – perguntou, tocando a mão da garota distraidamente sobre as coxas dela, fazendo com que entrelaçasse seus dedos aos dele sem precisar raciocinar. E, de alguma forma, o calor daquele toque lhe injetava a segurança que, por alguns segundos, fugira para as colinas.
— Nada, querido. – sorriu de volta, beijando os lábios dele rapidamente, as mãos segurando os dois lados do rosto com carinho – Vamos? – chamou, batendo um papo interior consigo mesma para que os ânimos ficassem sob controle enquanto Rafael saltava do carro, pegando as pequenas bagagens no porta-malas antes de gritar um sonoro e alegre: “FAMÍLIA, CHEGUEI!”
Não era o apocalipse. Não era uma apresentação de TCC. Não era a véspera da exposição mais importante de sua vida. Não era nem mesmo a porra da final da Copa do Mundo. Era apenas a primeira vez que estaria com a família inteira do crush.
Ela poderia sobreviver àquilo, certo? Era uma mulher segura, independente, comunicativa, extrovertida, e... O que mais mesmo? Uma bela covarde... Ah, a quem estava querendo enganar? Estava em franco e completo desespero. Quando tinha sido mesmo a última vez que fora apresentada à família de algum cara com quem estava saindo? (Ou ‘morando’, já que, mesmo tendo alugado outro flat, passava mais tempo na casa de Rafinha do que na sua). Surpreendeu-se ao pensar que a resposta era um imponente e pesado: nunca. Com Caê, nunca passara por aquela formalidade... Conheciam-se desde a infância e o relacionamento havia sido o mais natural dos desfechos, esperado e ansiado por ambas as famílias.
E se isso significava que aquela era uma espécie de primeira vez, estava explicado o misto de ansiedade e expectativa que lhe invadiam em ondas, temperados com uma boa dose de estômago embrulhado.
Só o que não podia imaginar era que o ser sorridente ao seu lado, que segurava uma de suas mãos enquanto a guiava pelo jardim florido e tão bem ornamentado, estava tão nervoso quanto ela própria. Quer dizer, não era como se já tivesse levado muitas garotas em casa. Certamente, nenhuma para o aniversário de sua caçulinha. Quando a porta da frente se abriu, dando passagem à mãe e à irmã, Rafa arriscou um olhar de esguelha para e o sorriso mínimo nos lábios dela ao fitá-lo foi o suficiente para que o nervosismo se esvaísse, os ombros relaxando enquanto apertava de leve os dedos da garota: estava tudo certo, como tinha de ser. Não havia motivo algum para sentir medo do novo. só era a primeira porque era, de fato, a primeira naquele ranking que ele ainda não sabia muito bem intitular, mas que ela liderava com tanta vantagem.
Deixou que Valéria o apertasse quase vergonhosamente, examinando cada partezinha de seu rosto – em especial a testa em busca de vestígios da última contusão. Em seguida, foi a vez de Thaisa esmagar o irmão do meio, pulando em seu pescoço sem aviso, quase levando os dois ao chão.
— Você demorou, idiota! – lembrou-se de reclamar, dando um tapa ardido no braço do rapaz. Às vezes ele se esquecia da força que cabia dentro da Alcântara mais nova, especialmente nos braços bem treinados pelos anos de basquete.
A resposta que morreu na ponta da língua de Rafa era a mais sincera, mas a mais inadequada para o momento: “tivemos uns probleminhas pra sair... Alguém ocupou o meu chuveiro e me fez arrastá-la comigo pra um novo banho e, bem, as coisas saíram um pouco do controle, sabe como é.” Oh, não, não sabia não! Porque aquela era Thaisa, sua irmãzinha que nada tinha com os assuntos tratados entre casais. Dentro do banheiro. Dividindo um chuveiro. E espuma de banho. Na-di-nha. A lembrança, contudo, fez com que levasse os olhos para a morena ao seu lado, que encarava o reencontro familiar com olhos apertadinhos pelo sorriso enorme que exibia: era ou não era uma coisinha linda de se ver? Sorriu de volta e, antes que pudesse pensar sobre as palavras que se seguiram, já as havia escutado na própria voz. E não houve nada estranho na forma como elas soaram.
— Mãe, Tha, essa é a , minha namorada.
sentiu-se em uma cena de filme adolescente, o que era ridículo. Mas também bastante real. Os abraços e saudações que recebia eram calorosos, sorridentes, mas lhe pareciam ocorrer em câmera lenta. Isso porque seus olhos castanhos, grandes e profundos, encaravam a figura de Rafael com que era a mais genuína surpresa. Mas não daquelas ruins, de quando alguém te dava um susto na escada ou quando a fatura do cartão vinha três vezes o esperado... A surpresa que sucedia os acontecimentos mais inesperados e gratificantes da vida. Surpresas que vinham como presentes.
Rafa ergueu os cantos dos lábios ao perceber o sorriso bobo que preenchera o rosto da garota que era abraçada pela mãe – Thiago estava certo: Valéria gostaria dela – e sentiu com felicidade ímpar que não se precipitara ao anunciar algo que não fora nem mesmo discutido entre os dois... Era verdade, afinal. Não precisavam de um pedido ou de uma conversa oficial... Eles simplesmente eram. Pra ele isso bastava e, pelo modo como os olhos de brilhavam, podia dizer que pra ela também.




— Agora me digam uma coisa, eu posso começar minha campanha do #EuJáSabia? – Julia perguntou, arrancando uma risada de toda a família que se espalhava pela sala relaxadamente após o almoço: Thiago e Thaisa jogavam uma partida de videogame, enquanto Rafa e Bruno aguardavam ansiosamente que os irmãos cedessem a vez para eles. Diego, o namorado da garota, torcia para ela como se assistisse a uma final de campeonato, e Gabriel estava pousado distraidamente sobre o abdome definido do tio Rafa, que brincava com seus bracinhos rechonchudos deitado no chão.
, por sua vez, ocupava o sofá com Julia e Valéria, divertiam-se com as gracinhas de Gabriel e, enquanto observava a sala cheia de filhos, noras e genro e gargalhadas, a dona da casa só podia agradecer por aquele momento tão raro...
— Eu vou entrar nessa campanha com você, mi amor! - Thiago riu, distraindo-se por um segundo, o que levou a um gol de Thaisa.
Rafa alargou um sorriso, virando o pescoço até que pudesse ver a namorada de cabeça para baixo. sorria de canto, e abaixou-se para fazer um carinho breve nos cabelos do moreno aos seus pés.
— Eu também já sabia. – ele murmurou, fechando os olhos com semblante satisfeito, não sem antes dar à garota uma piscadela divertida.
— Sabia nada! – protestou, arrancando uma risada de Julia e Bruno, que estavam mais próximos do casal. Na realidade, este último ria por achar extremamente engraçado e improvável que o irmão mais velho, justo Rafa, aparecesse assim com uma garota... Mas era legal. Ela era engraçada e entendia de filmes de terror. Só faltava saber se seria uma boa dupla no FIFA. Aí sim ele poderia ter certeza de que gostava dela...
— Claro que sabia, cariño... – Rafa rolou os olhos, segurando uma risada da expressão indignada de seu Furacão – Desde o dia do leite condensado, na verdade...
— Leite condensado? – Bruno perguntou, curioso como apenas os pré-adolescentes conseguiam ser.
— Essa história eu também não tô sabendo! – Julia perguntou arregalando os olhos em curiosidade.
— Eu conheci essa pestinha no supermercado, e ela quase vendeu meu rim por uma lata de leite condensado... – Rafa explicou dramaticamente, mordendo a mão que usava para tentar bater nele, enquanto o resto da família ria da improbabilidade da história.
— Ele roubou meu leite condensado! – a garota protestou, acrescentando seu argumento infalível em seguida – Eu tava de TPM...
— Perdeu, Rafa. – Thaisa virou para trás para olhar o irmão com um sorriso – Justificativa mais que válida, cunha. – piscou, em tom de segredo.
— Vou ter que concordar... – Julia deu de ombros, rindo. Aqueles dois pareciam um casal de amigos enquanto se alfinetavam e implicavam um com o outro a cada segundo... Talvez fosse justamente por isso, percebeu, que houvesse um sentimento tão lindo nascendo entre eles. Era bonito de se ver...
— Viu? – mostrou a língua para o namorado, e se não fosse pela presença de crianças (leia-se Bruno, Gabriel e Thaisa) e da mãe na sala, ele provavelmente a agarraria naquele momento, lambendo a língua da garota apenas pra fazê-la gritar de nojo. Cara, como ele simplesmente adorava provocar aquela morena... – Obrigada, garotas! – sorriu, olhando para o rapaz com uma expressão vencedora.
— Complô! – Rafa, Diego e Thiago gritaram ao mesmo tempo – Mãe! – Rafa implorou apoio, mas Valéria não estava disposta a abandonar as garotas nem mesmo pela carinha de desolado de Rafa. Conhecia bem aquele drama: seu Rafinha sempre fora o rei do exagero desde quando era pequeno e se jogava no chão para obrigá-la a brigar com Thiago por absolutamente qualquer encostadinha...
— Querido, - sorriu, passando os dedos pelos cabelos do rapaz – só cuida bem dela na TPM, sim? – piscou, arrancando uma gargalhada de todas as garotas e um suspiro resignado de Rafa. Mas ele cuidaria. Na TPM e fora dela.
— HÁ! QUEM É A DONA DESSE JOGO, HM? – o berro animado de Thaisa irrompeu pelo ambiente, enquanto Thiago olhava frustrado para o controle. Estava perdendo a mão... Desde que Gabriel chegara chegando, bagunçando a zorra toda, ele tinha cada vez menos tempo de jogar. Podia ser um bom motivo, mas não deixava de ser um saco perder para a irmãzinha.
— Ei, o que acham de uma partidinha de futevôlei? – propôs, mudando o foco de sua derrota – Hein, mãe? – sorriu, sabendo que a matriarca aprovaria. Oh, sim, em se tratando dos filhos de Mazinho e Valéria Alcântara, futevôlei era a definição perfeita de “tá no sangue”.
— Meninos contra meninas? – Julia propôs, fazendo contas mentais e concluindo que tinham exatamente a conta certa para dois times. Bem, Gabriel ainda era café-com-leite, e por enquanto seria banco junto com Rosário, a babá.
— Ah, não, eu não jogo... – ergueu os braços, subitamente invadida por uma nova onda de desespero – Alguém precisa ficar com essa delícia, afinal de contas. – sorriu amarelo, apertando as bochechas de Gabriel.
— Vai jogar sim, morena. – Rafa deu um de seus sorrisos gigantes, que tornavam difícil negar a ele qualquer coisa... Ou quase qualquer coisa: aquela humilhação pública de ser uma tragédia em tudo que envolvesse uma bola, no meio de uma família repleta de esportistas, ela podia sim negar. Era um direito constitucional... Tinha certeza que lera esse artigo na Constituição da Conhecendo a Família do Namorado, versão revisada de 2017.
— Rafa, eu não sei jogar! – pediu, desesperada, mas aquilo só fez aumentar o sorriso dele – É sério, a única coisa que eu já fiz nessa vida foi ginástica olímpica!
— Isso explica a flexibilidade. – Rafa murmurou para que só ela ouvisse, o sorriso cintilando no olhar. Foi flagrado, contudo, por Thiago, que gargalhou frente ao comentário do irmão mais novo, e da pobre cunhada que corava furiosamente. “Smooth, Rafa”, congratulou-o mentalmente, dando dois tapinhas nas costas do mais velho depois de pegar Gabriel e partir para o quintal – Vamos, gata, sem desculpa! – puxou a morena pela cintura, para que acompanhassem o resto da família – Hoje eu vou te mostrar que eu sou realmente “o gato do futevôlei”. – começou, fazendo gargalhar... Como ele se lembrava daquilo? – E que aquele ali, - apontou para Thiago – ainda é o “esforçado do frescobol.”
caminhou para o campinho com o sentimento de que andava para a forca de sua dignidade. Mas se estava na chuva, era pra se molhar direito. Bufou, andando até seu lado do campo, pensando que talvez – apenas talvez – ela se equiparasse a Bruno e os dois se anulassem como cafés-com-leite. Ou talvez não. Bem, provavelmente não. Mas não daria o braço a torcer: bufando, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo antes de observar com um sorriso de canto o moreno que lhe sorria do outro lado da rede.
— Se prepara pra perder, Rafael.




estava morta. Acabada. Dolorida. Ralada. E feliz pra caramba! Cara, aquilo era divertido... Arrependeu-se minimamente de todas as vezes que matara a aula de educação física para se sentar em algum canto escondida com um livro. Talvez devesse ter matado apenas metade delas... O time das garotas havia perdido, apesar dos esforços hercúleos de Valéria e Thaisa pra não deixarem aquele samba morrer, mas a diversão valera à pena... Em pouco tempo já havia se esquecido de que não fazia ideia do que estava fazendo, e apenas tentava se livrar da bola da melhor forma possível. Era bastante vergonhoso, de fato, mas a presença ligeiramente desajeitada de Julia fazia com que se sentisse melhor.
— Você vai ver, da próxima vez já vai estar dando umas cortadas fenomenais. – Julia riu, encenando uma cortada no ar. sorriu para a loira, que estava com o filho no colo e se sentava à beira da piscina.
— Duvido muito! – a morena sorriu tristemente, não apenas porque achava virtualmente impossível que adquirisse alguma habilidade a mais no futevôlei até que voltasse a Vigo para um novo teste, mas sim porque duvidava que tivesse tempo para voltar ali antes de retornar ao Brasil. A vida era um saco, às vezes.
O momento de saudade antecipada foi interrompido pela figura de Rafael, que havia entrado para trocar as roupas imundas de terra e grama pela sunga, e agora retornava em toda a sua glória morena e atlética. precisou de toda a sua força de vontade para evitar encarar por tempo demais, e não pôde deixar de agradecer mentalmente por conhecer de perto cada gominho daquele abdome, o que tornava possível manter uma expressão forçadamente blasé enquanto aquele moreno fenomenal pulava na piscina, espirrando água para todo canto, antes de puxá-la consigo para o fundo da piscina, sem aviso prévio.
— Rafaaaaa! – gemeu, indignada, assim que emergiu. A garota tossiu algumas vezes, procurando às cegas um braço dele onde pudesse bater, mas apenas acertou o ar, sentindo então que o rapaz a abraçava por trás, fugindo de sua fúria.
— Delícia. – ele murmurou, sorrindo de canto, fazendo encolher o pescoço pelo contato. Ele precisava parar com aquilo: ela estava tentando protestar.
— Agora que ele chegou pra te fazer companhia, vou lá pra dentro porque alguém já encheu as fraldas... – Julia fez uma careta para o cheiro que vinha do filho, arrancando uma risada do casal – Comportem-se, crianças! – acenou, admirando por um momento a cena digna de comercial de agência de Turismo, em que batia na água para espirrá-la em Rafael. Eram mesmo uma coisinha fofa.
Assim que se viu sozinho com a garota, Rafa puxou para o colo, fazendo com que ela enlaçasse a cintura dele com as pernas sob a água, envolvendo-a em um beijo calmo, que buscava aproveitar cada segundinho da presença dela ali, selando a trégua na guerra de água. Sabia que o tempo dos dois era relativamente curto – esse assunto já surgira algumas vezes nos últimos dias – e era também por isso que fizera tanta questão de levara em casa: não queria que voltasse para o Brasil e tudo aquilo que estavam vivendo ficasse apenas na sua cabeça... De alguma forma, apresentá-la àqueles que amava tornava tudo mais real.
— Eu tô muito feliz por você estar aqui, sabia? – confessou, distraído pela forma como o sol fazia brilharem as gotinhas de água que salpicavam todo o rosto da garota. Combinava com ela. Com a pele dela. Com o sorriso dela.
— Eu também tô muito feliz por estar aqui. – sorriu, beijando o nariz dele antes de se distrair em traçar as linhas das tatuagens que cobriam os braços do rapaz com os dedos. Havia aprendido a amar cada uma delas... – Sua família é demais...
— Eles adoraram você. – Rafael sorriu, com sinceridade, caminhando até a borda da piscina e apoiando as costas da garota sobre os azulejos, fazendo com que o corpo de se tornasse um pouco mais tenso sob seus dedos. Sorriu. – O que foi, cariño? – perguntou, pressionando o corpo contra o dela enquanto beijava sua mandíbula com falsa inocência, os dedos pressionando cada local por onde passavam. agradeceu mentalmente por estarem debaixo d’água, pois sentia sua pele queimar.
— Rafa... – conseguiu suspirar, sentindo os dedos dele perigosamente perto do tecido mínimo de seu biquíni – Sua mãe, sua irmã...
— Salão... – ele murmurou, subindo os beijos para próximo do ouvido dela, parando apenas para dar uma mordidinha que não causaria marcas, mas que provocava efeito.
— Seu irmão, ele...
— Dormindo. – Rafa rejeitou o argumento, chegando aos lábios de e tomando-os para si sem pedir permissão. A morena resistiu por um segundo, mas logo se viu sedenta por contato, deixando que a língua de Rafael brincasse com a sua daquele modo que era tão familiar e, ainda assim, empolgante.
— Rafa... – quebrou o contato, sabendo que era humanamente possível se controlarem por muito tempo mais – Sossega, por favor! – pediu, reprimindo um sorriso ao ver os lábios inchados dele. Droga, ela podia muito bem passar o dia inteiro beijando aquela boca... Na verdade, esse era o número 1 de sua lista de ‘coisas para fazer um dia inteiro, sem cansar’.
— Você vai me enlouquecer, sabia? – Rafa esfregou o rosto, respirando fundo e se afastando da garota, a fim de se recuperar.
— Tem uma primeira vez pra tudo, querido. – sorriu, achando graça do estado dele, e se apoiou na borda balançando os pezinhos para se manter com altura suficiente.
— Até pra eu aparecer com uma namorada em casa. – Rafa sorriu de canto, arriscando o assunto. sorriu, olhando para o céu antes de voltar a encará-lo.
— Acho que sim. – deu um sorrisinho mínimo e Rafa voltou a abraçá-la, ignorando seus instintos que diziam para manter distância se não quisesse ser um masoquista – Isso quer dizer que eu sou sua primeira namorada? – brincou, apertando as bochechas dele com uma mão, e beijando de leve o bico que se formara – Que gracinha, meu Deus! – sorriu, feliz, quando ele maneou a cabeça positivamente.
Uma parte dela sabia que a experiência que vivera com Caê fora importante para torná-la quem era, mas outra parte – talvez até maior – gostaria de poder retribuir àquele sentimento gostoso e dizer que Rafa também era seu primeiro namorado.
— Sabe... – o moreno começou, afastando alguns fios de cabelo que haviam se grudado ao rosto molhado de – O Thiago uma vez me disse que não importa se a gente não é o primeiro cara de uma garota... E eu acho que realmente isso não importa. – deu de ombros, e se perguntou se ele agora havia adquirido também a habilidade de ler pensamentos. Talvez ele apenas já soubesse lê-la: todas as suas reações, anseios e sonhos. O que, em sua opinião, era bem mais interessante – Mas eu vou ficar feliz pra caralho se eu for o último.
não conteve uma risada, mas cobriu os lábios dele com os seus, no que era uma resposta silenciosa: “eu também”.


IX. RAIN

"Tu me tienes delirando como un loco mental
Dime porque te fuiste me tienes que orientar
Te llamo por lanoche y no quieres contestar
Te juro si regresas no me vo'a portar mal
Hasta el final del mundo te buscaré
Y el universo te lodaré
Girl I'm crazy I can't stay with out you"
(Rain – The Script ft. Nicky Jam)


— Eu ainda não acredito que você já vai embora... – quem falava era uma jovem loira, os cabelos curtos e rebeldes tão adequados a sua personalidade irreverente quanto os óculos de aro retrô. Ela já estava na terceira cerveja e aquilo era o suficiente para que os grandes olhos castanhos estivessem marejados e emocionais.
— Nem eu, Mica. – focou o próprio drink por um momento, mexendo no canudo como modo de distrair o coração do que a perturbava, antes de enfim erguer os olhos para a amiga, sentindo o peito se apertar – Sabe, eu nunca vou me esquecer de vocês. Vou levar todos comigo pro Brasil...
As lágrimas que tentava segurar finalmente correram pelo rosto, antes que se desse conta. Micaela a abraçou com carinho e sentiu que do outro lado era abraçada por alguém tão maior que ela que só podia ser Guti, um verdadeiro urso tanto pelos dois metros de altura quanto pela fofura sem tamanho.
— Você é nossa brasileira preferida, querida. – Guti beijou os cabelos da morena – E não demora muito até que eu vá te visitar, sempre ouvi falar dos homens brasileiros... – completou, fazendo gargalhar entre o choro – O quê? É verdade! Não é porque você já conseguiu o seu que ninguém mais precisa...
— Guti... – pediu, num murmúrio, já que nem todos na mesa estavam cientes de seu relacionamento com Rafael. O rapaz loiro se limitou a rir feito uma criança levada, fazendo com que a morena rolasse os olhos.
Cada palavra ao redor daquela mesa dava a ainda mais certeza de que sentiria uma falta absurda de Barcelona e de tudo o que a cidade lhe dera: alegrias, amigos, experiências e um lindo encontro da vida. Pensar naquilo era o mesmo que pensar em Rafa e a fotógrafa buscava remoer cada vez menos a partida, conforme riscava os dias do calendário: era uma saudade que doía mesmo antes de ir.
— À nossa ! – Enrique ergueu o copo, convidando todos os outros a um brinde, sorrindo detrás dos óculos – Sorte na vida!
— E volte logo pra nos visitar, garota! – Mônica, uma jovem de pele tão negra quanto os olhos, sorriu abertamente.
— O convite já foi feito, . – Mario, o orientador da pós-graduação, se manifestou e todos os alunos se calaram por um momento – Não tenho ninguém no estúdio como você e se quiser ficar em Barcelona, será mais do que bem-vinda. – completou, arrancando uma salva de palmas e incentivos dos outros alunos, enquanto corava furiosamente com os elogios. Até nisso era parecida com Rafael.
— Mario, não me tortura! – choramingou, enterrando o rosto nas mãos. Queria muito poder largar tudo no Brasil e ficar de vez em Barcelona no emprego dos sonhos, com o homem dos sonhos, vivendo a vida dos sonhos. Havia, contudo, muito a ser discutido antes que uma decisão daquelas fosse tomada: primeiro, sua família, de quem sentia uma saudade absurda; em segundo lugar, vinha seu próprio estúdio, que podia não ser enorme, mas era seu; e em terceiro, o fato de que – por mais incrível e apaixonante que fosse – sua relação com Rafa era ainda muito recente e ainda que seu lado sagitariano implorasse por aquela aventura, ela tinha muito de signos de Terra em seu mapa, o que a tornava alguém contraditoriamente cautelosa e pé no chão. E, sim, deixando de lado toda a hipocrisia, Rafa seria – citando Lady Gaga – sua boa razão para ficar.
permitiu que mais algumas lágrimas caíssem enquanto era abraçada por Guti, enquanto constatava o óbvio:
Seu coração hoje batia em catalão.




Algumas horas de happy hour e já podia sentir os efeitos do álcool tomando seu corpo enquanto entrava em casa, o ato de enfiar a chave na fechadura repentinamente mais complexo do que parecia ser quando ela saiu pela manhã. A garota já havia se habituado tanto a ficar no apartamento de Rafael que por muito pouco não disse o endereço errado ao motorista de táxi encarregado de levá-la em casa sã e salva por Guti e Micaela – já que os próprios não estavam em condições de fazê-lo.
Vieram a corrida inteira conversando sobre o Barça, já que o homem era um grande fã e tudo ia muito bem até que o energúmeno teve a audácia de dizer que o time vendera o "único Alcântara que jogava alguma coisa" quando abrira mão de Thiago. não fazia ideia de como havia sobrevivido ao surto que deu dentro do táxi, amaldiçoando até a última geração do homem, porque se estivesse sóbria e uma louca bêbada começasse a berrar em outra língua dentro do seu carro, ela provavelmente teria jogado a criatura na beira da estrada. Talvez ele só não o tenha feito porque a morena fez questão de saltar antes, empinando o nariz em indignação. Era só o que faltava!
— Merda de sapato! – murmurou, irritada, tentando se livrar de um pé da bota que usava e quase se esborrachando no chão no processo, rindo sozinha da cena como Rafa faria se estivesse presente. Aliás, ele provavelmente acharia muita graça de toda a situação, visto que adorava lembrá-la do quão esquentadinha podia ser, trazendo à tona o embate do supermercado, a briga com o síndico e todas as outras vezes em que a garota fizera o possível e o impossível para fazer valer suas vontades e convicções.
Ao pensar no namorado, toda a adrenalina pela briga com o motorista desapareceu de súbito, ao mesmo tempo em que reparava na casa vazia das risadas de Rafa, de seu perfume marcante e espetacular, da voz grave e da forma como ele colocava a língua entre os dentes ao falar espanhol, de cada pequeno detalhe que fazia do maldito o ser mais tentador em toda a face da Terra, para ela. Jogou-se na cama com os braços abertos, encarando o teto e meditando por alguns segundos sobre a própria vida, o que provocou mais uma crise de choro embriagado quando a verdade, que era uma só, se abateu sobre ela: não queria ir embora.
Soluçando e murmurando palavras de consolo pra si mesma – "shhh, vai passar", "respira, ", "isso, boa garota", "engole esse choro, demônia!", conseguiu fazer com que as lágrimas se tornassem mais esparsas. Era uma pena que a dorzinha deixada por elas em seu coração não fosse embora com tanta facilidade, e sabia que dali pra frente seriam grandes companheiras, ela e a saudade.




— Thiago, cala essa boca que eu não tô conseguindo ouvir a Julia! – Rafa exclamou e, dada sua expressão desesperada, o irmão obedeceu, não refreando, contudo, uma risada silenciosa: a visão de Rafael agoniado com uma colher de pau na mão era demais para ele.
— Rafa, calma... – Julia sorria, pacificadora, tirando Thiago do foco da câmera para não estressar ainda mais o caçula – Você já colocou o vinho? – perguntou.
— Já! – o moreno respondeu, levando o celular até o fogão, focalizando então o arroz na enorme panela. Ele ainda não tinha ideia de como aquilo se tornaria um risoto apresentável, mas Julia havia lhe garantido que isso aconteceria nos próximos minutos – O camarão já tá pronto também, eu fiz do jeito que você pediu.
— Agora é a parte mais fácil, Rafa! – a cunhada sorriu mais uma vez – Só vai acrescentando o caldo dos legumes aos poucos, ok? E não para de mexer!
— Não parar de mexer, ok! – ele repetiu, deixando o celular apoiado para começar imediatamente os movimentos – Ela já deve tá chegando, cacete... – olhou ansiosamente para o relógio.
— Vai dar tudo certo, querido! – Julia sorriu, dando um olhar significativo para o marido, a fim de que ele se pronunciasse também em favor da autoconfiança do irmão.
— É, cara! – Thiago riu, aproximando-se da câmera – E se não ficar, a vai fingir que ficou bom só pra você não se sentir mal... – completou, arrancando uma risada anasalada de Rafael, que também lhe mostrou o dedo do meio.
— Cunhada, obrigada por isso. – agradeceu, sorrindo de canto – E obrigada por aturar esse retardado. – completou, tentando olhar feio para Thiago, que ainda ria de sua tensão. Julia, por sua vez, não podia achar a situação mais adorável.
— Quando precisar é só gritar, Rafa! – a jovem sorriu e um chorinho de criança se fez ouvir, roubando sua atenção imediatamente – O dever chama. – murmurou, mandando um beijo para a câmera – Depois conta tudo, cunhado!
— Ou quase tudo. – Thiago piscou, assim que a esposa saiu de vista, arrancando uma risada do irmão mais novo – Nada melhor que uma noite de despedida, garoto, escuta o que eu tô te falando... – completou.
— Acho que vai ser a única coisa que vou ganhar com a voltando pro Rio. – suspirou. Não era um prêmio de consolação muito vantajoso, ele sabia (sentia-se como o garotinho no vídeo do Raça-Negra), mas ainda assim era algo a que se agarrar – Mas ela vale a pena. – concluiu, com um meio sorriso.
— Assim é que se fala. – Thiago sorriu, verdadeiramente feliz pelo caçula. Era a primeira vez que Rafa se importava tanto com uma garota, e ainda que isso deixasse o Alcântara mais velho com medo de vê-lo se decepcionar, não podia negar que acreditava que o coração de seu irmãozinho estava em boas mãos: era encantadoramente verdadeira e adorável, e acreditava na felicidade dos dois.
O som de chaves na porta da casa de Rafa fez com que a conversa morresse e trocassem um olhar aflito: Rafael sentia-se na final do MasterChef, prestes a apresentar seu prato principal.
— Boa sorte, bro. – Thiago sorriu, desligando a ligação.
— Rafa? – a voz de ecoou pela casa e Rafa pôde ver a luminosidade preenchendo a sala quando ela acendeu as luzes – Oh, meu Deus... – murmurou e Rafa chegou a tempo de vê-la parada próxima à mesa de jantar, as mãos sobre a boca e as sobrancelhas arqueadas.
Rafael sorriu, verdadeiramente feliz com o impacto que a mesa cuidadosamente arrumada causara na namorada: podia ser a coisa mais brega do mundo, mas aparentemente velas e rosas ainda faziam seu trabalho. E ele não podia negar que, desde que se vira naquele relacionamento, ‘brega’ e ‘clichê’ haviam se tornado termos não tão apavorantes assim... Aproximou-se, beijando a testa de e sentindo com prazer quando ela o abraçou apertado, daquele jeito tão próprio dos dois.
— Você existe? – a garota murmurou, demorando-se em esquadrinhar o rosto dele com cuidado, um sorriso bobo preso aos lábios. Sabia que Rafa não cozinharia nem se sua vida dependesse disso. Sabia o quanto ele gostava de zuar o fato de Thiago ter conquistado Julia pelo estômago. Sabia que ele era o aquariano típico, que passava longe de romantismo... E ainda assim ali estava. O que tornava toda a atitude ainda mais apaixonante.
— Espero que você esteja pronta pra comer o melhor risoto da sua vida, morena. – abriu um sorriso tão confiante e aterrador que seria impossível para a garota desconfiar que há menos de cinco minutos estava em completo desespero na frente do fogão. Não que aquele sorriso realmente deixasse com que ela pensasse em qualquer coisa que não fazer de tudo pra que ele continuasse sorrindo pelo maior tempo possível.
— Você sabe que quando o assunto é comer, eu estou sempre pronta... – riu, mas viu-se obrigada a acrescentar, antes que uma tragédia se instalasse, dado o leve cheiro de queimado que adentrava o ambiente – Mas talvez seja melhor desligar o fogo, cariño.
O sorriso de Rafael congelou no rosto um segundo antes de ele iniciar uma corrida desenfreada até a cozinha. Quando chegou ao cômodo, teve noção da extensão do estrago não só pela fumaça, mas pela carinha desolada de Rafael enquanto olhava para a panela com o conteúdo chamuscado.
— O Thiago vai rir da minha cara até ano que vem... – murmurou e a forma como as sobrancelhas caíam o deixavam com uma carinha de criança magoada, que fez o coração de se apertar ao mesmo tempo em que refreava um sorriso – Que merda, , eu sou muito burro! Esqueci o fogo aceso...
— Ei, pode parar... – enlaçou a cintura dele, deslizando as mãos com carinho por toda a extensão das costas do rapaz – Ele não vai nem saber... – sorriu de canto, beijando de leve os lábios de Rafa – Pelo menos não por mim. – piscou, arrancando um sorriso mínimo do namorado.
— Me desculpa? – ele pediu, parecendo verdadeiramente frustrado.
— Por ser tão fofo que correu pra me receber e até esqueceu da comida no fogão? – sorriu e Rafa não conteve uma gargalhada.
— Não parece tão ruim quando você coloca assim... – sorriu, erguendo-a pela cintura para que se sentasse sobre o balcão da cozinha, alinhando seus olhares.
— O que poderia ser possivelmente 'muito ruim' quando inclui você sem camisa cozinhando pra mim, Rafael Alcântara? – sorriu de canto, puxando-o para perto pelo cós da calça. Rafa riu, cobrindo os lábios da garota com os seus pelo que pretendia ser um breve momento, mas que claramente tomava proporções inesperadas – Se a você pretende comer alguma coisa... – tomou fôlego, segurando as mãos de Rafa, que já buscavam a barra de sua blusa, antes que fosse tarde demais – É melhor pedir agora. – propôs, respirando pausadamente contra o pescoço dele.
— Por favor? – Rafa sussurrou, sorrindo de canto, e levou um segundo para compreender a piada. Quando o fez, explodiu em uma gargalhada.
— Você é tão idiota, Rafael! – revirou os olhos, batendo de leve no ombro exposto do moreno.
— O quê? Você disse pra pedir, eu fui inclusive muito educado. – o sorriso que exibia era malicioso, mas não tanto quanto o olhar que dirigia à boca da morena. prendeu o lábio inferior entre os dentes, contendo uma risada, e deixou-se levar pelas mãos dominadoras e exigentes de Rafael: ele a marcava com um rastro de arrepios e o marcava com as unhas, traçando um caminho tentador da nuca ao fim das costas. Quando colocou uma das mãos no bolso traseiro do jeans de Rafa, sentiu as mãos do moreno apertarem com mais força suas coxas. Soltando um leve gemido, se afastou um palmo dele para então erguer o celular que acabara de furtar de seu bolso.
— Pizza ou Tailandesa? Você escolhe. – piscou, segurando uma risada frente à expressão indignada de Rafa com a interrupção da brincadeira.
— Tailandesa. – ele resmungou, procurando o contato no celular, estreitando os olhos para a garota – Eles demoram mais pra entregar. – piscou, um sorriso maldoso preso ao canto dos lábios – Mas acho que a gente consegue pensar em algo pra matar o tempo não é, cariño?




— Rafa, eu vou explodir, é sério! – murmurou de forma dramática, arrancando uma risada do namorado que a ignorou, enfiando mais uma colherada de brigadeiro na boca da garota.
— Para de drama, ! – Rafa riu, vendo a garota deitada em seu colo se debater contra a colher – Esse seu estômago é elástico, sempre cabe mais...
— Cala a boca, Rafael! – a garota gargalhava, tentando engolir o doce no processo – Agora chega!
— Tá bem, chega. – Rafa sorriu, pegando uma última colherada para si e colocando o prato de lado – Só não podia faltar brigadeiro na nossa despedida. – completou, passando os dedos pelos cabelos dela, evitando deliberadamente seu olhar.
— Eu odeio essa palavra... – murmurou, sentindo que os olhos começavam a queimar. Aninhou-se melhor no colo de Rafa, sentindo o carinho que ele fazia em seus cabelos e tentando gravar a sensação de tê-lo ali, à distância de um toque.
— Me diz o que é que eu vou fazer da minha vida sem você aqui, morena? – Rafa sussurrou, tão baixo que sua voz parecia vir de um sonho. sentiu as primeiras lágrimas caindo, ainda sem coragem de encará-lo: os dois haviam evitado ao máximo conversar sobre a mudança, sempre brincando e desviando do assunto para proteger seus próprios corações da realidade. Chegavam, contudo, a um ponto em que aquela conversa não podia mais ser adiada. Precisavam se despedir. Mereciam.
— É a pergunta que eu faço a mim mesma todos os dias... – suspirou pesadamente, esfregando o rosto como que a clarear as ideias – O mais impressionante é que eu tenho tanta coisa pra te dizer e parece que as palavras fogem de mim. – sorriu de modo triste, desejando de todo o coração ser melhor quando se tratava de expressar seus sentimentos. Era um paradoxo: sentia tanto e conseguia dizer tão pouco.
Rafa riu pelo nariz, identificando-se com o que ela dizia. Até nisso eram parecidos: especialistas em sentir e iniciantes na arte da tradução dos sentimentos em palavras.
— Eu encontrei uma palavra, recentemente. – murmurou, desenhando os lábios dela com a ponta dos dedos – 'Melíflua'. Acho que não existe tradução no português. – completou, e ainda que não soubesse o significado, podia amar a palavra apenas pela forma como a língua de Rafael se movimentava ao dizê-la. Era sonora. Carinhosa. Secreta. Tinha muito dos dois. – O significado é algo como 'referente ao mel'. Mas me lembra você. Desde que escutei, sempre me lembra você. – ele sorriu de forma triste, enquanto brincava com os furos no jeans de , e quando ergueu o rosto para ela, os olhos cor de chocolate demonstravam uma dor tão sincera que a garota sentiu o coração murchando feito uma bola de soprar dentro do peito. A festa havia acabado. Era hora de ir pra casa.
respirou fundo tentando encontrar, como ele, palavras que resumissem o que haviam vivido naqueles últimos meses, mas as únicas que cruzavam sua mente eram as três que, quando alinhadas, tinham poder de unir ou destruir em iguais proporções. E ainda tinha medo do poder daquele trio de palavras tão pequenas e poderosas.
— Foi você quem tornou a minha vida doce, Rafa... – disse, limpando os olhos com as costas de uma das mãos, a outra entrelaçada à de Rafael – Eu nunca me senti tão leve, tão viva, tão eu do lado de alguém. E eu não faço ideia de como vai ser com a distância... – respirou fundo, preparando-se para a parte que mais temia naquela conversa. Era, contudo, necessária – Mas independente do que aconteça daqui pra frente, eu nunca vou esquecer de como fui feliz nesses últimos meses. Como fui feliz com você. – mordeu o lábio dolorosamente antes de continuar – Então se você quiser encerrar por aqui, pra que a gente se lembre só desse tempo bom que a gente viveu juntos... Eu vou entender. E vou continuar tendo o mesmo carinho imenso por você e pela gente.
Rafa a abraçou tão forte que podia sentir as batidas de seu coração misturadas às dela. Depois de alguns segundos, tentou se afastar para olhá-lo novamente, preocupada com o resultado de suas palavras, mas Rafa impediu que ela o fizesse e não demorou até que a garota entendesse o motivo. Lágrimas grossas e silenciosas corriam pelo rosto de Rafa, molhando os cabelos da garota numa garoa de saudade.
— Você virou minha vida de cabeça pra baixo, morena... – Rafa respirou fundo, olhando para o alto depois de alguns segundos – Eu nunca achei que fosse ver uma mulher do jeito que o Thiago vê a Julia, sabe? Como se ela fosse a pessoa mais incrível do mundo. Como se o mundo dele girasse em torno dela... – continuava, olhando para as mãos entrelaçadas sobre seu colo – Mas aí eu conheci você. – sorriu de canto, finalmente se arriscando a fitar aqueles olhos castanhos e calorosos que lhe tiravam o sono e habitavam seus sonhos – E desde o primeiro dia eu te achei incrível. Incrivelmente linda. Mas quem não acharia, não é mesmo? Uma morena sensacional feito você! Depois descobri que seu trabalho era incrível... Uma fotógrafa foda! E então você veio morar aqui. E todo dia eu descobria alguma coisinha que me fazia te achar ainda mais incrível. – enumerava e sentia que lágrimas marcavam seu rosto sem que pudesse conter – E quando eu vi, morena... Quando eu vi já tava feito: você se tornou a pessoa mais incrível do mundo. Do meu mundo. – soltou um pequeno soluço, enquanto deixava que Rafa a abraçasse forte, enquanto esperava que ele continuasse – É por isso que vai ser foda sem você. Tá doendo só de pensar. Mas também é por isso que eu nunca ia me perdoar se não tentasse fazer dar certo. – beijou a testa dela com carinho, um sorriso pequenininho nos lábios – Eu e você contra o mundo, cariño... Mesmo que seja com um em cada canto dele.




Naquela noite, os segundos pediram licença para tomar forma de eternidade. E foi entre muitas lágrimas e alguns sorrisos doloridos, entre suspiros e gemidos, entre poucas palavras e longos silêncios que uma verdade inconsciente emergiu ao plano da consciência de ambos: estava no cheiro, no gosto, no nome – era amor, sem que precisassem dizer. Era amor, antes mesmo de ser.

❤❤❤


X. SI TÚ LA VES

Y si tu La ves
Ve y dile vine a buscar lo que se llevó
Mi vida y felicidad
Dígale que es tan frio El corazón
Desde que ella se marchó
Necesito de su amor
Pa´ que sane este dolor
(Si Tú La Ves – Nicky Jam)


— Rafa...? – a voz de era pontuada por sono e confusão quando atendeu à ligação no meio da noite – Aconteceu alguma coisa? – foi subitamente invadida por preocupação quando se deu conta de que era 4 da manhã, e Rafa não costumava errar o fuso horário...
— Morena, eu juro que coloquei o despertador pras 3h, não sei o que aconteceu! – Rafa se atropelava nas palavras, o que tornava ainda mais difícil que pegasse o fio da meada em meio a tanto sono – O despertador não tocou, ou eu não escutei... Merda! Desculpa, ... – insistiu e, quando a conversa atingiu níveis preocupantes de ‘nonsense’, se viu obrigada a intervir.
— Rafa, calma... – franziu o cenho, girando sobre as costas e encarando o teto com alguma apreensão – O que tá acontecendo? Por que colocou o despertador?
— Porque eu queria te ligar meia-noite! – seu tom denotava o quanto a resposta lhe parecia óbvia, e por muito pouco não completou ‘porque o Thiago disse que era isso que eu devia fazer’. pôde ouvir quando o jogador respirou fundo, antes de finalmente completar – Feliz Aniversário, cariño!
Um sorriso pequenino surgiu nos lábios de , mas não tardou até que estes se abrissem em um sorriso largo quando seu cérebro a atualizou no calendário: 17 de dezembro.
— Algum dia eu vou deixar de me surpreender com você? – perguntou, e o sorriso perceptível em seu tom de voz fez com que o coração do rapaz do outro lado do Atlântico também sorrisse.
— Te surpreendi ferrando a surpresa de aniversário? – Rafa murmurou e, se bem o conhecia, podia apostar que coçava a nuca com um bico contrariado – Eu realmente vou de mal a pior nesse negócio de namorado... – suspirou, resignado, e não controlou uma risada. Era um poço de drama, por Deus!
— Daqui de onde eu estou, você parece estar fazendo um ótimo trabalho. – sorriu, travessa, e o som da risada de Rafael do outro lado da linha fez seu coração bater um pouco mais rápido. Cara, como ela sentia falta daquele homem...
— Então é melhor eu não estragar tudo agora... – respondeu, um restinho de risada ainda presente no tom de voz – Se o seu irmão tiver feito a parte dele, é claro. – acrescentou.
— Ok, agora eu me perdi. – girou mais uma vez na cama, desta vez pousando os pés com meias do Pikachu na parede.
— Seu presente, cariño. – Rafa explicou, rindo pelo nariz – Se minhas coordenadas estão corretas, ele está entre o Taz Mania e o Unicórnio. – àquela informação, não conteve uma gargalhada enquanto atravessava o quarto até a penteadeira onde se acumulavam as pelúcias que guardava desde a infância – Amei saber dos bichinhos, por sinal. Se soubesse disso antes teria comprado um daqueles ursinhos segurando um coração de “melhor namorada do mundo”.
— Cala a boca, Rafael! – ria enquanto o rapaz tagarelava, mais ocupada em procurar algo entre o Taz e o Sr. Uni: e lá estava, uma embalagem pequena contendo uma caixinha preta ainda menor – Rafa... – exclamou, encantada, assim que abriu a caixa e se deparou com o brilho de seu conteúdo. Estendeu a mão até o interruptor, enfim captando a perfeição da peça que tinha em mãos – Meu Deus, é lindo! – completou, tirando o fino cordão de prata com uma medalha simples cravejada por alguns cristais. Era delicado e elegante, exatamente o tipo de jóia pela qual se apaixonaria – Eu amei, Rafa! Muito obrigada!
— Você merece mais, Morena. – Rafa murmurou, visivelmente contente por ter agradado: amava dar presentes, desde que era um garotinho e tudo o que podia dar à mãe era uma flor roubada de seu próprio jardim – Mas fico feliz que tenha gostado. Você devia virar a medalha, sabe? – completou, estalando os dedos como sintoma de leve ansiedade. Cara, como ele queria estar perto dela e ver se seus olhos se apertariam e brilhariam de alegria como ele havia planejado por tantas semanas...
obedeceu ao pedido, e quando seus olhos captaram a palavra gravada delicadamente na borda do pingente, seu olhar se transformou de uma forma que levaria aos lábios do namorado o maior dos sorrisos: estava ali, gravada na medalhinha que ela levaria tão próxima ao coração, aquela palavra que era tão deles: melíflua.
— Rafa... – a voz da garota soava um pouco abafada, já que tentava a todo custo não deixar que a emoção a tomasse completamente. Respirou fundo e uma lágrima teimosa escorreu até a covinha do sorriso no momento em que conseguiu agradecer com toda sinceridade do mundo – Você foi meu maior presente.



, anda logo!! Já vai começar! – a voz de Lipe cortou o ambiente, soando ainda mais alta que o usual. O que era algo notável, considerando-se a ascendência italiana da família e o fato de que a média de decibéis dentro da residência dos era consideravelmente mais alta do que a recomendável aos aeroportos, por exemplo.
— Vem aqui ajudar então, demônio! – berrou de volta, um sorriso pequeno escapando dos lábios ao perceber, em meio a tanto barulho e a gritaria, que estava, de fato, em casa.
— Vai perder a entrada do seu namoradinho. – Lipe implicou, dando um sorriso torto enquanto entrava na cozinha escorregando por estar correndo de meias.
— Ridículo! – rolou os olhos com um sorriso, empilhando nos braços do caçula um balde de pipoca e uma bandeja de tira-gostos – Leva isso que eu vou pegar a cerveja. – completou, pegando na geladeira tantas longnecks quanto suas mãos comportavam antes de retornar à sala — Por favor, diga que eu não estou cometendo nenhum crime ao te servir cerveja, Anny! – deu um sorriso de canto ao entregar uma garrafa à menina sentada ao lado de Lipe e que o garoto rotulava como ‘um lance’. Um lance que aparentemente estava ficando sério, já que tinha perdido a conta de quantas vezes ele levara a garota em casa.
— É só a carinha que ela tem de bebê. – Lipe riu, apertando o nariz da loira, que riu, mostrando a língua – É mais velha que eu essa aí... – completou, ganhando um tapa no ombro – Calma, gata... Eu gosto de mulheres experientes. – continuou a implicar, apenas para amansar a indignação da menina com um beijo roubado.
— Ei, ei, olha a pouca vergonha! – riu, batendo nas costas do irmão até que este largasse Anny.
— Marininha, já disse que eu te amo hoje? – um rapaz loiro sorriu de canto, pegando a cerveja que a garota lhe estendia. Tinha a idade de Luis Felipe, mas ainda não parecia ter saído da adolescência.
— Já, Deco. – sorriu de canto, afundando-se no sofá entre o garoto e Lipe – , eu te amo, cara. Você namora o RAFINHA. O RA-FI-NHA!” – imitou, causando uma gargalhada coletiva que tornou as orelhas do garoto vermelhas feito brasa.
— Começou a tietagem! – Luis Felipe gargalhou, fazendo questão de esticar a barra da camisa do Barça onde liam-se os autógrafos de todo o time – Morra de inveja, brother! Quem mandou não ter uma irmã gata?
— Para, Lipe, tadinho! – defendeu o garoto, tentando controlar uma risada – Eu já prometi que quando o Rafa vier, vai trazer uma pra ele também.
— Tá vendo? Por isso que eu amo a sua irmã e não você. – Deco revirou os olhos verdes, e Lipe mostrou-lhe o dedo do meio. Comentaria que a verdade é que o amigo tinha um puta crush em sua irmã e no namorado dela, mas achava que o amigo já tinha sido zuado o suficiente para um dia.
— Deco está para Rafinha assim como Rony está para Vitor Krum. – Anny tirou sarro do amigo e riu tanto do comentário Potterhead que precisou cumprimentar a garota com um hi-five. Aparentemente, zuar o Deco nunca era demais.
— Eu vou matar você se não namorar com ela. – murmurou no ouvido do irmão, que sorriu torto antes de passar os braços em volta de Anny, como se a dizer que não deixaria que ela escapasse tão cedo.
sorriu satisfeita, admirando a cena, mas foi impossível não sentir o coração se apertar um pouquinho ao se lembrar da falta que sentia do abraço de Rafa. A saudade era uma constante e não havia absolutamente nada que não fosse capaz de fazer sua mente viajar até Barcelona, para perto dele... Tirou o celular do bolso e abriu a conversa com Rafael, lendo a resposta do rapaz ao seu desejo de boa sorte na partida: “já deu certo, Morena... É seu dia, né? Nada vai dar errado... jajaja” Sorriu de canto, mentalizando as palavras dele no instante em que o narrador anunciava o início do jogo: já deu certo.
A partida do segundo turno contra o Atlético de Madrid era dura: o Barça contava com alguns desfalques e o time da capital tinha Antoine Griezmann em uma noite inspirada, o que explicava a ansiedade de , que parecia não parar na mesma posição por mais de dois minutos.
, você tá me deixando tonto... – Lipe comentou, observando a irmã que andava de um lado a outro da sala, os dedos em torno da nova medalhinha que agarrava com tanto afinco que poderia se passar por devota de algum santo.
— Lipe, ele precisa disso... – murmurou, os olhos presos a um lance em que Neymar isolava a bola – PUTA QUE PARIU, GAROTO! – xingou, anotando mentalmente que devia pedir a Bruna que fizesse greve de sexo caso o jogador não fizesse o imenso favor de acertar a merda da bola na droga do gol.
— Eu sei que precisa. – Lipe sorriu de canto, segurando a mão da irmã quando ela se sentou no braço do sofá, ao seu lado – Ei, vai dar certo. – apertou levemente a mão de , fazendo a garota acenar minimamente.
Não estava dando certo.
Setenta e oito minutos de jogo e se encontrava deitava no chão as pernas sobre a mesa de centro e uma almofada sobre a cabeça enquanto tentava desesperadamente não arremessá-la na TV. Sete. Era esse o número de gols completamente desperdiçados pelo time catalão. Decididamente não era um bom dia para ser torcedora do Barça. Ou WAG de um dos jogadores do time.
— É AGORA! – Deco gritou tão alto, que lançou a almofada longe, acertando Torresmo, que veio ganindo para o colo da dona – Olha essa roubada de bola! – continuou narrando e escutava apenas parcialmente já que sua atenção estava focada no camisa 12 que corria livre pelo meio do campo, carregando a bola com uma habilidade invejável antes de toca-la para um espaço vazio no meio da grande área. estava a ponto de berrar de frustração quando Neymar correu livre em direção ao que fora um cruzamento perfeito de Rafinha, lançando a bola para o fundo do gol antes que o goleiro do Atleti pudesse descolar os pés do chão. Naquele momento, a explosão de gritos e comemorações no apartamento 702 do número 1787, na Delfim Moreira, fazia parecer que se tratava de uma final de Copa do Mundo.
, olha lá! – Lipe chamou a atenção da garota, que fazia uma dancinha esquisita de comemoração com Torresmo no colo enquanto gravava os gritos de todos em um áudio para Rafa. O que viu, no entanto, causou ainda mais gargalhadas que sua coreografia. Neymar e Rafa faziam uma comemoração curiosa: enquanto o primeiro fingia segurar algo no ar, o segundo soprava velinhas imaginárias.
— Eu não acredito nisso! – ria, as bochechas corando de vergonha e felicidade pela demonstração de carinho do namorado e o amigo.
— Ah não, , que coisa mais fofa! – Anny sorria, olhando abobalhada para a TV quando a câmera dava um close nos dois jogadores, que riam – E nossa, ele é BEM gato. – comentou, fazendo a outra dar uma piscadela cúmplice. Sim, ele era.
— Ei, pode parar! – Lipe apertou a bochecha da garota, fingindo ciúme – Só quem tem direito de babar ovo desse aí aqui em casa são a e o Deco.
— Eu não babo ovo, velho... O cara é foda, não dá pra negar isso não! – Deco estava visivelmente extasiado com o gol – Você viu esse lançamento? Uma dupla dessas, bicho, esse hexa é nosso.
deixou as crianças discutindo e voltou a assistir a partida com o coração em festa: se pudesse pedir apenas mais uma coisa naquele aniversário, seria que Rafa estivesse bem ali para que comemorassem. Juntos.



— Deco, você não tem casa não, meu querido? – Luis Felipe revirou os olhos para o amigo que narrava a seu pai a partida inteira que tinham acabado de assistir – Já cansei da tua cara aqui... – brincou, jogado no sofá na companhia de Anny, que comia o restante da pipoca que sobrara do jogo, já que havia feito o suficiente para alimentar o Exército Brasileiro.
— Shh, quieto aí, Luis Felipe. – o loiro repreendeu, arrancando uma risada de todos na sala. O jeito infantil e irreverente de Deco havia conquistado a família, e não seria exagero dizer que ele passava mais tempo ali do que em casa.
, por sua vez, estudava com atenção a expressão do pai, enquanto esse escutava à narrativa de Deco. Era um fato que Ricardo tinha suas reservas com o fato de sua garotinha estar namorando um jogador de futebol. Era também verdade, no entanto, que havia voltado de Barcelona com um brilho no olhar que há muito não exibia, e se Rafinha Alcântara era o responsável por isso, ele estava disposto a dar ao rapaz o benefício da dúvida.
— Eu vou assistir com vocês a próxima partida, então. – Ricardo decidiu, procurando os olhos da filha, que sorriu aliviada – Parece que o garoto realmente é bom...
— Ele é ótimo, tio. Você vai ver... – Deco voltou a tagarelar e revirou os olhos com um sorriso. Se Rafa viesse a precisar de um promoter pessoal, ela já tinha a pessoa certa.
A morena já havia se ocupado de responder todas as mensagens de parabéns que recebera – especialmente surpresa com o áudio fofo que Thiago e Julia haviam enviado – e agora rolava distraidamente o feed do instagram, esperando que Rafa visualizasse tudo o que lhe mandara. Antes disso, contudo, uma notificação chamou sua atenção: @rafinhaaa93 te marcou em uma foto.
sentiu o estômago estremecer com borboletas e se ajeitou na poltrona, aguardando que a imagem carregasse. Não era como se ela e Rafa escondessem o relacionamento, mas também nunca haviam publicamente exposto o namoro... O que viu em seguida trouxe lágrimas aos olhos e um sorriso aberto aos lábios: na foto, olhava para trás mostrando a língua para Rafa, enquanto fazia brigadeiro em sua última noite em Barcelona. Sem dúvidas, não era sua melhor foto. Mas também sabia, sem questionar, que não havia uma que fosse melhor para o momento. O texto abaixo da foto era curto, mas suficiente para que as lágrimas formadas escorressem: “Feliz cumple, cariño. Extraño tu sonrisa como loco, vuelve!<3”. Logo abaixo, os comentários faziam com que risse sozinha: “@brumarquezine ATÉ QUE ENFIM! Meu ship, ninguém sai! isreal!”, “@neymarjr: agora eu senti firmeza, Princesa! Parabéns, @_ por aguentar esse ser! hahahaha”
A distância doía feito o inferno e sentia falta de Rafa como louca, mas seu coração ainda encontrava alegria ao pensar que, apesar de tudo, estavam conseguindo fazer dar certo, fazer-se presentes na vida um do outro. Enquanto apertava entre os dedos a medalha que trazia em torno do pescoço, as palavras de Rafa ecoaram em sua mente outra vez, seu mais novo mantra: já deu certo.



— Gata, você não vai ficar mais bonita do que já está. – Lipe surgiu atrás do espelho onde se examinava criticamente – Já podemos ir?
— Você só tá com pressa porque marcou com a Anny, né? – rolou os olhos, olhando uma última vez para a produção da calça metalizada e blusa preta com saltos altíssimos – Podemos, peste. As meninas já tão indo também... – apertou as bochechas de Lipe, partindo atrás da bolsa.
— Show, vou ligar pro Deco ir saindo, então. – Lipe pegou o celular, girando as chaves do carro em um dos dedos.
— Mãe? – chamou da sala, onde seu pai assistia o Jornal Nacional – Tô indo no japa com as meninas, tá? – explicou e, não havendo resposta, insistiu – Mãe?
A figura esguia de Alba surgiu na sala com o telefone fixo colado ao ouvido, e a expressão no rosto da mãe dizia a que ela tinha motivos para se preocupar. Só não imaginava que fosse tanto...
— Claro que digo que você ligou, Caetano... – a mulher explicou, dando ênfase ao nome para que a filha escutasse, e precisou respirar fundo à menção daquele nome – Muito obrigada, querido. Nós também sentimos. Obrigada. – completou, antes de desligar – Ele queria te desejar parabéns. Disse que você bloqueou o número dele no celular. – a mãe disse, os olhos pesarosos – ...
— Mãe, não começa. – ergueu uma das mãos, sentindo-a tremer levemente. Era curioso pensar que era seu primeiro aniversário, em 24 anos, que passaria longe de Caetano. E mais curioso ainda constatar que, se não fosse por aquela ligação, ela passaria o resto do dia sem sequer se lembrar desse fato – Não tem nada que ele possa dizer que vá me interessar, sério.
, vocês iam se casar! – o pai interveio, tirando os olhos da TV – Nossas famílias são amigas. Você podia ter atendido por educação.
— Pai... – respirou fundo – Se eu puder evitar o Caetano, eu vou evitar. Mas não é como se fosse passar com o carro em cima dele, não tem por que vocês fazerem um drama sobre isso. – encerrou o assunto, pegando a bolsa sobre o sofá – Amo vocês, ok? Até mais tarde. – suspirou, encontrando Lipe próximo à porta.
— Você tá bem? – o irmão perguntou, assim que saíram de casa, olhando para a irmã de soslaio.
— Ótima. – sorriu de canto, sentindo o braço do irmão em sua cintura e os lábios dele tocando seus cabelos rapidamente.
— Bom. – Lipe sorriu, travesso – Porque eu aprovei a troca de cunhado... O dia que o Caê jogar no Barça a gente conversa de novo. – brincou.
— Interesseiro. – ralhou, mas um sorriso em seus lábios denunciava a felicidade por ter o apoio do irmão naquele relacionamento que, ela própria reconhecia, tinha seus embargos e dificuldades.
— Sabe que eu tô brincando... – Lipe sorriu, segurando a porta do elevador para a morena – Você tá tão feliz, . Com o Caê tudo o que eu lembro é do quebra-pau que vocês arrumavam, de como ele te sacaneava... Não conheço o Rafa, mas até que ele me dê motivos pra não gostar dele, só sei o quanto ele tá te fazendo bem.
— Obrigada por isso. – sorriu para o irmão, bagunçando seus cabelos, corrigindo-se, logo em seguida – Por tudo, baby.



— Ok, vamos começar de novo: quando você estava planejando nos contar isso tudo, ? – a garota era tão bonita que parecia saída direto de uma das páginas da Vogue, mas ao olhar para ela precisava se controlar para não rir a ponto de deixar cair da boca o sushi que comia – Para de rir, vaca, eu quero enfiar esse hashi na sua jugular agora mesmo!
— Obrigada por isso, Deco. – revirou os olhos para o garoto ao seu lado, que ergueu os braços em rendição.
— Ei, eu achei que elas soubessem... Hugo Gloss postou hoje depois do jogo! – defendeu-se.
— Pelo amor de Deus, André. – Anny revirou os olhos, chocada – Eu tento defender sua heterossexualidade pro Lipe, mas você não facilita...
— Cara, a gente ainda vai te amar se você for gay. – Lipe segurou a mão do amigo sobre a mesa, segurando o riso em uma expressão séria.
— AH, CALEM A BOCA VOCÊS! – o loiro protestou, enfiando um hot philadelphia na boca, tentando não rir, a fim de não perder a pouquíssima moral que ainda mantinha.
— Vocês estão perdendo o foco aqui! – uma ruiva sentada ao lado de tomou a palavra – Sério, você e a Bruna fizeram um ótimo trabalho escondendo isso da gente por meses, mas agora você faça o favor de contar tudo, !
— Não tudo, por favor. – Lipe protestou, rindo de canto enquanto sinalizava ao garçom que lhe trouxesse mais uma bebida – Tem coisas que eu sou mais feliz não sabendo... – tomou um gole de chopp, escondendo uma careta.
— O que mais vocês querem saber? – focou as cinco garotas que a observavam com olhos ávidos e sentiu-se subitamente constrangida, lembrando-se então do ditado que sua mãe costumava repetir: ‘felicidade sem plateia dura mais’.
— Tudo! – uma delas exclamou – Como é ser namorada de jogador? Você conheceu o Messi? E o Cristiano Ronaldo? – as perguntas surgiam e a cada uma delas sentia seu sorriso congelar. Buscou os olhos de Lipe e viu que o irmão a observava atentamente, decerto sabendo o que se passava em sua mente, num daqueles momentos de sinergia que lhes eram tão comuns.
Então era a isso que Bruna se referia quando reclamava de como as pessoas só queriam saber de Neymar – o jogador – e não do seu namorado. Por um instante, quis sair dali e correr de volta a Barcelona, para perto de Rafa e da única amiga que verdadeiramente compreendida aquilo pelo que estava passando. Como isso era impossível, contudo, limitou-se a abrir mais o sorriso.
— Eu vou ao banheiro rapidinho e quando voltar vocês continuam o interrogatório, ok?
Sem dar tempo para que as garotas respondessem, partiu em direção ao toalete. Quando sentiu alguém segurando seu braço, a primeira pessoa em que pensou foi no irmão. A segunda, provavelmente Deco. A terceiera, Anny ou uma das meninas. Mas jamais, em tempo algum, pensaria naquele cujo perfume tão familiar fez com que congelasse, incapaz de se virar e confirmar que não passava de uma brincadeira idiota de sua mente.
, espera.
Se era uma brincadeira, seu cérebro estava bem empenhado em fazer com que aquilo parecesse estupidamente real. girou nos próprios calcanhares, apenas para encarar o que parecia seu passado ressuscitado ali, com os mesmos olhos azuis e barba por fazer.
— O que você tá fazendo aqui? – perguntou, livrando o punho da pressão que ele exercia. Os olhos claros esquadrinhavam seu rosto insistentemente, e a expressão do rapaz se modificou para algo que ia do riso ao choro – Caê, o que você quer?
— Eu precisava te ver hoje. – ele respondeu, a voz parecendo tão embargada que ergueu as sobrancelhas de surpresa. Sete anos de namoro e ela podia contar nos dedos as vezes em que o vira chorar – Meu Deus, , eu não sei como fiquei tanto tempo sem te ver. Você tá tão linda...
— Obrigada. – ela fez menção de sair, mas foi contida mais uma vez – Não me segura. – sussurrou, a irritação crescente se fazendo tão clara que ele a soltou imediatamente.
— Me desculpa. – ele se recompôs, respirando fundo – , a gente precisa conversar... Eu tenho tanta coisa pra te dizer... Esse tempo longe de você me fez ver as coisas direito e... Eu mudei. – completou, aparentemente sem saber quão estúpida aquela frase soava aos ouvidos de qualquer um que o conhecesse bem e tivesse dois neurônios funcionantes para saber que Caetano Correa de Albuquerque jamais mudaria. Por ninguém. Nem por si próprio.
— Caê... – olhou para o teto, evitando os olhos que no momento lhe inspiravam um sentimento tão deprimente: pena – Acabou. De verdade. – a certeza naquelas palavras eram chocantes até para si própria - Segue com a sua vida, e eu tô seguindo com a minha...
— Isso tudo é por causa do jogador? – Caetano coçou a nuca, parecendo finalmente perder a compostura que tentava a tanto custo manter – Sério, ? Eu entendo isso ser uma aventura de verão. A gente tinha dado um tempo e você queria se divertir, mas daí a transformar isso num relacionamento? Levar esse cara pra conhecer seus pais? – a cada palavra, sentia sua boca se abrindo ainda mais em choque, ao passo que seu íntimo se enchia de uma raiva e um desprezo crescente. Ali estava ele... O mesmo Caetano de sempre, crendo-se melhor que o resto do planeta Terra, e pensando que o mundo girava ao seu redor. Ele não tinha mudado nada.
— Eu não sei nem o que te dizer. – a morena riu com desprezo evidente – Aliás, tenho sim: nunca mais abra sua boca pra falar do Rafael, você tá me entendendo? – ela falava baixo, mas, dada a expressão do homem a sua frente, sua raiva pontuava cada palavra – Nós não tínhamos ‘dado um tempo’, e ele é tudo menos um caso de verão. – sua voz era tão fria que a garota parecia crescer frente ao rapaz, que a encarava sem reação – Ele é muito mais homem que você, Caetano... E não tem um dia na minha vida que eu não agradeça a Deus por ter encontrado o Rafa depois de perder tanto tempo contigo. – finalizou, virando-se de costas no exato momento em que a primeira lágrima caiu.
— É melhor você rezar pra eu ainda estar aqui quando ele te largar, . – o tom de voz do homem era cheio de rancor e um recalque com o qual a paciência de não estava disposta a ser gasta.
— Vai à merda. – murmurou, sem se virar, fechando a porta do banheiro e se encarando por alguns segundos no espelho antes de se render a uma torrente de lágrimas. Mais do que em qualquer outro momento do dia, desejou que Rafa estivesse bem ali.
via o rosto choroso a sua frente e parecia estar assistindo a cena de fora. Aquela não era a que ela gostava de ser. Não era mais quem ela era. Caetano não podia chegar e simplesmente bagunçar toda a paz e o equilíbrio que ela havia conquistado... Enxugou as lágrimas com determinação, murmurando algumas palavras de encorajamento a si mesma – “calma, garota”, “engole esse choro, mulher!” – antes de virar-se para a porta, pronta para encarar novamente o demônio travestido de modelo da Calvin Klein que provavelmente aguardava do lado de fora.
! – Anny entrava no banheiro no mesmo instante em que se preparava para sair – Eu vim ver se tá tudo bem... – a garota deu um sorriso meigo e tentou devolvê-lo.
— Tá sim, querida... – respondeu, respirando fundo.
— O Lipe, ele... – Anny parecia incerta sobre até onde podia se meter em toda aquela situação – Ele viu o que aconteceu e pediu pro seu ex ir embora.
— Ele pediu? – a voz de subiu uma oitava. Ela realmente precisava apertar Luis Felipe e prendê-lo num potinho por ser a coisa mais fofa que ela já conhecera nessa vida... – Graças a Deus! Vamos! – sorriu, aliviada, dando o braço para aquela que já considerava sua cunhada.
Assim que voltaram à mesa, Anny soltou-se do braço de para bater palmas, assim como todos os outros, uma vez que um enorme bolo de brigadeiro estava sobre a mesa com 24 velinhas acesas. sentiu seu sorriso se alargar e, quando assoprou as velas, só tinha um desejo: que ao comemorar 25, tivesse Rafael bem do seu lado.



checou a tela do celular, revirando na cama pela septuagésima quarta vez desde que se deitara: duas e quarenta e oito. Exatos 17 minutos desde que fizera exatamente a mesma coisa. Pela terceira vez. A morena mordeu o lábio inferior, fazendo mentalmente as contas do fuso Rio de Janeiro – Barcelona. Eram 5:48 em terras espanholas e ela provavelmente não deveria acordar o namorado no meio da madrugada simplesmente porque tinha insônia. Valendo-se, contudo, do fato de que tecnicamente ainda podia se considerar a aniversariante do dia, pressionou o nome de Rafael, aguardando que a ligação se completasse. Por mais idiota que pudesse parecer, tinha a mais plena certeza de que, depois do dia que tivera, só conseguiria dormir depois de ouvir àquela voz.
?
A garota sorriu à primeira palavra e soube imediatamente que estava certa sobre suas suposições: ele era tudo o que ela precisava para sentir-se novamente em paz.
— Desculpa te acordar? – perguntou, receosa – Eu não consigo dormir.
— Não tem problema, cariño... – Rafa soava mais desperto e pôde ouvi-lo se virando na cama. Por Deus, como ela sentia falta de estar ali ao lado dele, ouvindo sua respiração... – Tá tudo bem?
— Agora sim. – suspirou, fechando os olhos – Eu sinto tanta falta de você, Rafa...
— Eu também sinto, morena. – Rafa murmurou e não podia fazer ideia do quão desolado ele parecia, cobrindo o rosto com uma das mãos e odiando o fato de não ter estado com a namorada em um dia tão importante – Mais do que você pensa. – sorriu tristonho, ainda que ela não pudesse vê-lo.
— Como foi o seu dia? – ela perguntou, respirando compassadamente e buscando imaginar que Rafa estava ali, deitado junto com ela.
— Foi ótimo... – Rafa deu um sorriso pequenininho e sua voz passou a embalar a garota que, a cada palavra, sentia-o mais perto – Depois do jogo o Ney passou aqui com a Bruna, igual eu te contei...
— Ah, e onde vocês resolveram ir? – sorriu e naquele instante sentiu uma saudade absurda de estar com aqueles três.
— Naquele restaurante Tailandês que a gente foi no aniversário do Sergi, lembra?
— Ahh, lembro! – sorriu, lembrando-se do dia que ele mencionava. Era aniversário de Sergi Roberto e ele havia pedido sua então namorada, Coral Simanovich, em casamento. Uma graça! – Ai, queria estar com vocês... – murmurou, com uma súbita vontade de chorar.
— Não fica assim, cariño... – Rafa murmurou, apertando o travesseiro quando suas mãos buscaram ao seu lado para confortá-la e não encontraram – Me conta do seu dia... Foi legal no japa com as meninas?
— Foi... – murmurou, virando-se na cama mais uma vez – Mas foi horrível não ter vocês lá. – confessou – Lipe tá de namoradinha! – lembrou-se de contar, ouvindo àquela risada rouca que tanto adorava – É aquela menina da faculdade, que eu disse que ele tava trazendo aqui direto... Hoje ela veio pro jogo e parece que eles finalmente estão assumindo alguma coisa.
— Ih, vou precisar ter aquela conversa de homem pra homem com ele... – Rafa brincou, arrancando uma risada de – Ela é legal?
— Uma graça! – sorriu – Você vai gostar dela, adora Harry Potter, curte futebol, é toda sem frescura... Bem do nosso jeito. – sorriu.
— Vê com o Lipe se ele quer passar o Ano Novo com a gente então, ué... Levando ela. – Rafa propôs e o sorriso de se alargou com a ideia.
— Ahh! – exclamou alegre. Era inacreditável a habilidade de Rafael em melhorar seu humor e seu estado de espírito – Por que eu não pensei nisso antes?
— Porque eu sempre dou as melhores ideias, gata... – Rafa comentou e os dois riram, mantendo um silêncio confortável por alguns segundos.
— Rafa, você fica comigo até eu dormir? – pediu, encolhendo-se na cama feito criança, sem vergonha alguma de se despir de qualquer máscara de fortaleza. Tocou o cordão que trazia no pescoço, brincando com o pingente através do fio como forma de acalmar o próprio coração.
— Fico, nena... – o sorriso, agora, era perceptível na voz de Rafa – Pode dormir. – murmurou e passaram alguns minutos em silêncio, ouvindo nada além de suas próprias respirações.
— Rafa? – testou, num sussurro, e recebeu uma risadinha anasalada em resposta.
— Oi, ... – Rafael podia ver o sol começando a se esgueirar pelas cortinas do quarto, iluminando timidamente o canto onde suas guitarras e violões se enfileiravam. Sorriu.
Quando os primeiros acordes de Anunciação soaram como um dedilhado baixinho, pensou que talvez tivesse adormecido. Era sua música favorita, e mais de uma vez confessara a Rafael que aquela melodia era suficiente para acalmar seu coração e pacificar sua mente. Era seu refúgio, e agora Rafa fazia parte dele.
— Rafa...? – murmurou, entorpecida de sono, o coração já sentindo os primeiros efeitos da música e entregando-se àquela sensação incrível de bem estar e tranquilidade.
— Shhh... – ele sussurrou, sob a música – Bons sonhos, cariño...
E, na companhia de Rafa, pôde sonhar.


XI. OJOS CAFÉ

“Besarte la boca, como esa mañana
y hacerte el amor, con tantas ganas
perderme en tus ojos cafés y no regresar jamás
quedarme allá, poderme morir en paz”
(Ojos Café – L’Omy)


— Alguém pode me explicar o motivo de o Deco estar aqui? – Lipe questionou, recebendo um soco nas costelas do loiro para divertimento das duas meninas que os acompanhavam.
— O objetivo não é o Rafinha conhecer a família? – Deco respondeu, dando de ombros – Se a Anny veio, por que eu não? Tô na família há muito mais tempo e ela já chega sentando na janelinha? – implicou com a amiga, que gargalhou a ponto de tombar a cabeça para trás.
— Deco, você quer roubar meu namorado, é isso? – ergueu uma sobrancelha, sendo agarrada pela cintura por Luis Felipe – Estou aberta a negociações.
— Foi mal, cara, você não faz muito meu tipo... – Lipe riu, dando de ombros – E que mané negociação, garota! – mordeu a bochecha da namorada em represália.
— Deco, não escuta o Lipe... – defendeu o garoto, sorrindo de canto – Tá mais que certo você vir, Rafa ia ficar até chateado se não te conhecesse. – exagerou, mas o sorriso quase infantil que recebeu em resposta fez valer a pequena mentirinha.
— Tá vendo, animal? – Deco mostrou o dedo do meio para o outro e deixou que dessa vez as crianças resolvessem sozinhas suas pendências enquanto tinha os olhos atentos ao painel do aeroporto que, depois de torturantes minutos, mudou o status do voo Barcelona-Rio de Janeiro de ‘pouso autorizado’ para ‘em solo’.
— A gente te espera aqui ou quer que vá contigo, ? – Lipe perguntou, sempre atento à irmã, quando a morena se levantou de súbito do local onde aguardavam. Não sabia muito bem como aquilo funcionava e pensava que talvez a garota fosse querer um pouco de privacidade naquele reencontro.
— Podem esperar aqui. – deu um sorriso pequenininho, o coração já acelerado pela expectativa de ver Rafael depois de mais de um mês. A ansiedade era tanta que precisava controlar os passos para não correr até onde as pessoas se aglomeravam na espera dos entes queridos e amores que chegavam.
gastou um momento observando as pessoas ao seu redor e se perdeu no pensamento de que, não fossem as circunstâncias, adoraria fotografar aqueles reencontros. A ansiedade no olhar de cada um ali, alguns deixando que a emoção transparecesse tão claramente, era o que ela amava no trabalho... O que não imaginava, contudo, era que naquele instante – dedos apertados contra a medalhinha que carregava no pescoço e lábio inferior preso entre os dentes – ela quem parecia pedir por um porta retrato.
A ansiedade de teve fim rapidamente, graças às vantagens de quem viajava na primeira classe: no exato instante em que pegou o celular para ler uma mensagem de Rafa – ‘cheguei, Morena!’ – a garota pousou os olhos na figura dele atravessando o portão e não conteve a vontade de registrar numa foto o modo como ele sorria para o celular com a resposta dela: “dá um sorriso pra mim, nego! ”
Quando os olhos de Rafa enfim se ergueram, capturando a figura que povoava seus sonhos todas as noites, seus lábios se abriram num sorriso que misturava alívio e felicidade: o encarava com as mãos sobre a boca, mas o rapaz não precisava ver seus lábios para saber que ela também sorria, pois seus olhos mostravam isso. Quando a morena deixou que as mãos caíssem e aquele sorriso desconcertante o atingiu com um impacto, Rafael deixou as bagagens no chão e abriu os braços num convite mudo que ela aceitou de pronto: em um momento eles se encaravam, no instante seguinte seus lábios se chocavam feito velhos conhecidos, mas com uma avidez que só reconhecem aqueles que amam pela primeira vez. deixou que algumas lágrimas escorressem por entre o beijo, enquanto Rafa pontuava o gesto com sorrisos a cada vez que se pegava pensando no fato de que aquilo era mesmo real: estavam juntos de verdade, não mais apenas nos seus sonhos.
A cena, íntima e pública em iguais proporções, arrancou sorrisos daqueles que a assistiam, uma vez que não deixava dúvidas quanto a seu significado: bem ali, no saguão de um aeroporto lotado, dentro de um abraço, eles estavam em casa.




— Rafa, brother, pode ficar à vontade. – Lipe fez as honras de anfitrião, visto que era quem abria a porta do apartamento, dando passagem aos outros – Tô com uma puta fome, cara... Imagino você. – reclamou, sentindo o estômago roncar.
— Eu pedi pra Rosa fazer um risoto! – anunciou, mostrando uma das covinhas, lembrando-se da tentativa falha de Rafael quando tentara cozinhar para eles. O rapaz se lembrou do mesmo, o que explicava a risada que compartilharam – Sabia que você ia estar com fome quando chegasse. – completou, recebendo uma revirada de olhos do irmão.
— E eu que morra de fome, né? – brincou e Anny cutucou o namorado, indicando que deixasse o casal em paz.
Eram mais de oito da noite quando finalmente chegaram à residência dos , uma vez que, além do atraso natural no aeroporto e do trânsito carioca, Rafa demorou-se dando atenção a alguns fãs pelo caminho. O fato, inclusive, virou assunto entre Anny, Lipe e Deco, que admiraram a simpatia e boa vontade do rapaz ao conversar com quem quer que fosse. , por sua vez, sentia o coração se encher de alegria ao ver a forma como o rapaz agia, lembrando-se do que lera uma vez sobre como o amor só florescia onde houvesse admiração para regá-lo todos os dias.
— Deixa que eu levo essas coisas lá pra cima. – Deco se adiantou em direção às malas de Rafa.
— Que ‘lá pra cima’ o que, rapaz? – Lipe segurou o ombro do amigo, fingindo uma cara séria que não foi percebida pela ingenuidade do outro – Ele vai dormir no meu quarto, tá achando que é assim? Vai chegar e já dormir no quarto da minha irmã? – perguntou e Deco arregalou os olhos verdes enquanto Rafa ria baixo e escandalosamente.
— Para de ser idiota, Luis Felipe! – ralhou com o irmão, abraçando o namorado – Vai dormir do meu ladinho sim!
— Tá vendo? Isso a Globo não mostra... – Lipe fingiu decepção, antes de soltar a risada que prendia – Eu tô zuando, porra! – rolou os olhos para Deco, que ainda aguardava uma definição no caso ‘malas do Rafinha’ – Claro que ele vai dormir com ela né, eu lá quero marmanjo no meu quarto? – brincou – Nada pessoal, cunhado.
— É recíproco. – Rafa riu, mas logo que percebeu que Deco falava sério sobre levar suas malas, adiantou-se em acrescentar – Que isso, precisa não, cara!
O loiro não respondeu, apenas sorriu e partiu em direção às escadas, carregando com alguma dificuldade as malas do jogador. O garoto já vestira a camisa repleta de autógrafos de todo o time do Barcelona que Rafa havia trazido de presente e andava com o peito tão estufado que parecia a ponto de explodir de tanta felicidade.
— Ele é seu fã número um, Rafa... – riu, beijando rapidamente os lábios do rapaz ao perceber que ele chegava a ficar constrangido por tanta atenção – Mentira, número dois. – piscou, recebendo um selinho sorridente em resposta.
— Coitado... – o rapaz coçou a nuca, sem graça – Não precisava disso, sério.
— Ele tá felizão, pode ter certeza. – Anny se manifestou – Vai contar pra meio mundo amanhã... – rolou os olhos, arrancando uma risada dos outros por saberem que se tratava da mais pura verdade.
Rafa deixou os olhos vagarem pela sala ampla, parando apenas quando encontrou um quadro de fotos, e sorriu ao notar uma figura banguela cujo sorriso não se intimidava pela janelinha.
— É você, morena? – perguntou, apontando a menininha com cara de arteira que se debruçava no escorregador.
— Sempre uma lady, como você pode perceber. – riu, abraçando-o de lado para examinar as fotos – Aqui, olha como o Lipe era loirinho.
— Era mesmo! – Rafa se surpreendeu ao ver a foto em que o cunhado aparecia um tanto mais loiro e menos bronzeado – Você é branquelo assim, Lipe? – riu.
— Essa aí gastou a melanina da família inteira! – o mais novo riu da piada que era tão antiga entre os irmãos – Ai de mim se não pegar praia todo dia pra manter o bronze. – olhou para Anny, que riu do comentário e da forma charmosa como ele piscara um dos olhos.
Rafa continuou olhando para o quadro, rindo de algumas fotos divertidas dos dois quando crianças junto daqueles que imaginava serem o sogro e a sogra. Depois de alguns segundos, no entanto, seus olhos capturaram uma figura que destoava da família pelos cabelos claros, olhos azuis e, principalmente, pelo modo possessivo como enlaçava a cintura de . O moreno travou o maxilar e sentiu os músculos se retesarem por instinto – daquela forma curiosa que os homens têm de agir como se estivessem prontos para brigar assim que se deparam com qualquer ameaça, real ou não. , percebendo a mudança na postura do rapaz, seguiu a direção dos olhos dele, deparando-se com a foto que Rafa ainda encarava.
— Merda, eu já pedi pra tirar isso daí... – suspirou pesadamente – Desculpa, nego. – murmurou, para que ninguém além dos dois compartilhasse daquele momento – É a última foto da minha vó que a gente tem. O último aniversário dela, minha mãe só deixa aí por isso...
— Tá tudo bem. – Rafa forçou um sorriso, tirando os olhos da versão fotográfica da de 18 anos com um loiro azedo a tiracolo para pousá-los na morena bem à sua frente, com os braços em torno dele e os olhos implorando para que deixasse aquela besteira pra lá – De verdade, cariño... – sorriu fracamente, beijando a testa da garota antes de abraçá-la.
— Posso saber o que é que vocês estão fazendo com a visita em pé na porta de casa? – a mulher que Rafa vira nas fotos apareceu na sala, muitíssimo bem vestida e carregando um sorriso simpático – , Luis Felipe, eu não dei educação pra vocês?
— Oi, mãe! – os dois responderam em um coro risonho enquanto a matriarca se aproximava, fazendo com que a evidente semelhança física com os filhos se intensificasse – Mãe, esse é o Rafa. – completou, olhando de um para o outro com o coração acelerado em expectativa. Por Deus, parecia uma criança de 12 anos! – Rafa, essa é a minha mãe, Dona Alba. – sorriu de canto por saber que a outra simplesmente detestava ser chamada daquela forma.
— ‘Dona’ é a senhora sua mãe! – Alba ralhou, arrancando uma risada de jovens, e Rafa sentiu-se um pouco mais relaxado - Só Alba, querido. Se não quiser que tenhamos problemas.
— Muito prazer, Alba. – o rapaz abriu seu melhor sorriso – Rafael.
— O prazer é meu, Rafael. – a mulher o abraçou brevemente, sorrindo – Vem, você deve estar com fome. disse que adora risoto, espero que ela não tenha me enrolado, essa menina tem uma cabeça... – revirou os olhos e ergueu as sobrancelhas em indignação enquanto Rafa segurava uma risada.
– Ahh, minha hora preferida da noite. – Lipe sorriu, estalando o pescoço e os dedos como se estivesse se preparando para algo importante – Hora de contar os podres da minha irmã!




— E como é a sua rotina, Rafael? – a voz de Ricardo era, por si só, intimidadora. conhecia o pai o suficiente para saber que ele não fazia por mal, mas também não era possível dizer que fazia algum esforço para esbanjar simpatia frente ao novo genro.
— Muito treino, basicamente. – o rapaz respondeu, deixando os talheres sobre o prato para responder devidamente – A sabe bem... – sorriu brevemente para a menina – Às vezes eu nem conseguia dar atenção direito e tinha que deixar ela sozinha em casa o dia inteiro...
— Em casa? – o homem franziu o cenho e engoliu seco, apertando a coxa de Rafa sob a mesa para alertá-lo de que seu pai não fazia ideia de que ela havia morado com ele por alguns meses. Podia ver o olhar de divertimento de Luis Felipe sob o copo de suco que ele levava aos lábios e queria matar o irmão por não ajudá-la abrindo aquela boca grande na hora certa!
— Sim, muito treino! Muito! – atropelava as palavras, pegando a jarra de suco para se servir – Quer mais, Rafa? – perguntou, já enchendo o copo do rapaz antes que ele pudesse responder. Sentia os olhos dos pais queimando sobre eles e sabia que a mãe tinha entendido tudo: dona Alba era das pessoas mais irritantemente perceptivas quando se tratava dos filhos.
— Mas você não é titular no Barcelona, é? – Ricardo perguntou novamente e o olhar da esposa imediatamente se voltou para ele, erguendo as sobrancelhas em surpresa pela pergunta que até mesmo ela, leiga no assunto, sabia ter sido indelicada.
Pai, por favor! silvou, indignada, mas foi a vez de Rafa tocar seus dedos por debaixo da mesa, assegurando que estava tudo bem.
— Não, senhor. – confirmou – Ser meio-campista no Barça é como chegar no meio dos melhores do mundo... – admitiu com sinceridade – Mas eu tenho tido algumas oportunidades e espero conseguir aproveitar cada uma delas.
— Você é foda, cara. – Deco não se conteve – Opa, ‘fera’. – corrigiu-se, arrancando uma risada dos amigos, até mesmo de Rafa.
— A gente viu um jogo seu outro dia, cara. – Lipe também se manifestou – Tu arrebentou.
— Já começamos a campanha #RafinhaéSeleção. – Anny brincou, melhorando o clima em torno da mesa.
O jantar seguiu sem maiores intercorrências por algum tempo e procurava manter o próprio nervosismo sob controle, a fim de não provocar ainda mais tensão no namorado. Sua mãe já havia se rendido a Rafael desde o primeiro sorriso: era toda elogios ao rapaz e fez questão que ele repetisse o jantar e a sobremesa mais de uma vez. Lipe e Rafa, por sua vez, já pareciam amigos de longa data, e os melhores momentos da noite haviam sido em decorrência dos casos de infância que o irmão contara a fim de envergonhá-la. Era com relação ao pai que estava toda a preocupação de : sabia o quanto a ideia de ter a filha namorando um jogador o desagradava – já que costumava ter tanto orgulho de tê-la noiva de um empresário feito Caetano – mas tinha esperanças de que conhecendo Rafael sua opinião mudasse.
Foi com enorme alívio que, conforme os minutos passavam e Rafael se utilizava de toda sua notória paciência e sua admirável simpatia, percebeu a atitude do pai se modificando em relação ao novo genro. Começou quando os dois riram de uma piada de Lipe debochando do Vasco, time de Deco. Em algum tempo eles conversavam sobre a experiência de Rafael nas Olimpíadas e por fim Ricardo admitia que assistiria ao próximo jogo que o rapaz fosse escalado. sentiu um alívio preenchendo cada célula de seu corpo e um sorriso involuntário brotou em seus lábios: não tinha sido fácil como ela e os Alcântara, mas ela podia sentir que Rafa havia, enfim, ganhado os .
— Que horas vocês saem amanhã, filha? – Alba perguntou, vendo que já recostara a cabeça no ombro do namorado, denotando sono.
— O voo sai às dez. – explicou – Você já deixou tudo pronto né, garoto? – ergueu-se, subitamente preocupada com a incrível desorganização de Luis Felipe.
— Claro, mulher. Relaxa. – Lipe ergueu os dedos no ar em um sinal de paz e amor – Amanhã pego a Annyzinha em casa e partiu Natal!
— Eu já esqueci o nome do santo, gente. – Anny riu, pegando mais uma colherada de mousse de chocolate.
— São Miguel do Gostoso. – Rafa sorriu – Falaram que é um réveillon legal, tem festa pra vocês. – sorriu para o casal – E sossego pra gente.
— Que já não estamos mais na idade, né? – completou, rindo – Nem pra quatro dias de balada, nem pra dormir tarde e acordar cedo. – deu um tapinha no joelho do namorado – Vamos indo, nego? – chamou, levantando-se e espreguiçando preguiçosamente.
Rafa concordou, ainda rindo, e todos se despediram rapidamente. Apenas Ricardo se demorou no abraço em , visto que não estaria em casa na hora que eles acordassem para se despedir.
— Cuida da minha menina, rapaz. – deu um tapinha nas costas de Rafael e um sorriso aliviado surgiu nos lábios do jogador quando ele completou – Continue cuidando.




— Numa escala de zero a dez, quão traumatizante foi? – abraçava Rafael pelas costas quando chegaram à cobertura, onde ficava sua suíte. A tensão em suas palavras era tão palpável que Rafa sentiu pena da namorada: ela ficara mais nervosa que ele durante o jantar com os pais.
— Acho que o saldo final foi positivo, não foi? – Rafa mordeu a parte interna dos lábios assim que entraram no quarto da garota.
se jogou sobre a cama e puxou o namorado para fazer o mesmo antes de se deitar sobre o peito dele, voltando à confortável sensação que tinha todas as noites em Barcelona. Deus, como ela sentira falta daquilo...
— Eu acho que sim. – ela murmurou, fechando os olhos, mais interessada em sentir o cheiro incrível que vinha dele, pensando em como sua memória fizera um belo trabalho ao guardar aquele perfume: era exatamente igual – Meu pai me deu mini-infartos, mas ele gostou de você.
— Eu entendo o lado dele. – Rafa respirou fundo, fazendo um carinho de leve nos cabelos da garota – Acho que é uma coisa que vem com o trabalho. – riu, sem humor – Fora do meio é difícil as pessoas levarem um jogador de futebol a sério.
— Ei, pode parar. – colou os lábios aos dele rapidamente – Quando ele baixou a guarda e se permitiu te conhecer um pouquinho, ele já gostou de você... Daqui pra frente ele só vai continuar a ver como você é incrível. – disse, com uma convicção que buscava convencer a si mesma – Mas eu queria tanto que tivesse sido fácil pra você como foi comigo na sua casa... – suspirou frustrada.
— Não foi ruim assim, cariño... – Rafa sorriu de canto, beijando o topo da cabeça dela – Sua mãe é ótima, seu irmão nem se fala...
— Ótima, mas errou seu nome. – enfiou o rosto ainda mais fundo na curva do pescoço de Rafa, como se aquilo fosse livrá-la da vergonha que sentiu no instante que a mãe cometeu a maior gafe existente entre sogras e genros: chamar o atual pelo nome do ex – Ah, dona Alba, a senhora me paga...
— Acontece, morena. – o moreno minimizou, mudando a posição na cama para que pudesse encarar os olhos da garota – A gente pode só falar da parte boa agora? – pediu, suspirando, e não pôde desejar outra coisa: depois da tensão da conversa com o pai, de ter a mãe chamando o namorado pelo nome do ex e de Rafa se deparar com foto que tinha Caetano, tudo o que podia querer era que focassem no que havia de bom: os dois. Juntos.
— Eu tenho uma ideia melhor... – ela sorriu de canto, tocando os lábios de Rafa com os seus por um momento, sentindo o corpo inteiro se ascender – E se a gente não falar? – soprou junto à boca dele e Rafa assistiu com prazer aos olhos dela ganharem um brilho que mexia com ele de um jeito surreal.
Um sorriso se abriu preguiçosamente nos lábios do rapaz antes que ele acabasse com a ínfima distância que os separava, demorando-se em relembrar cada detalhe sobre como se encaixavam, causando arrepios dos pés à cabeça. Não foram necessários mais do que alguns segundos para que estivesse sentada sobre ele, deixando que as mãos de Rafa brincassem pela lateral de seu corpo sem pressa, tocando e sentindo tudo aquilo que o deixava com uma saudade insana quando estava longe.
Quando ele acariciou suas coxas até chegar à parte traseira, apertando com vontade, soltou um gemido baixo e prendeu o lábio inferior de Rafa entre os dentes, enfiando as mãos por baixo da camisa que ele usava e dando início a uma carícia provocante que em pouco tempo o livrou da peça de roupa. Sorrindo em satisfação frente à visão daquele corpo, passou a beijar demoradamente cada pedaço de pele exposta, ao que Rafa cravou as mãos em sua cintura, respirando fundo.
... – murmurou, enquanto a namorada distribuía beijos por seu tronco, ponderando se realmente deviam prosseguir naquilo que era, pelo que conhecia deles, um caminho sem volta. O voo para Natal sairia na manhã seguinte, dali a algumas horas... Eram adultos com capacidade de conterem o desejo por uma noite, certo?
Errado.
Quando ergueu os olhos para encará-lo, os cabelos bagunçados e os lábios úmidos e sedentos por mais um beijo, Rafa teve sua resposta: não haveria autocontrole que o impedisse de matar toda a saudade que sentia daquela mulher que estava bem ali, sob a palma das suas mãos. Em um movimento, ele inverteu a posição e se deitou sobre a morena que o encarava com um sorriso no olhar.
— Bem quietinha, hm? – advertiu-a de suas condições, querendo evitar problemas, enquanto movia os lábios do queixo à orelha da garota, sugando e beijando a pele sensível que se arrepiava com tanta facilidade. gemeu baixinho, assentindo, e Rafa a congratulou com uma mordidinha – Boa garota.
De fato, a melhor parte de estarem juntos residia no que podiam dizer em silêncio.




— É sério que vocês não tão achando o nome desse lugar muito engraçado? – Lipe perguntou, andando descalço pela casa feito criança a explorar um novo ambiente. Eram cinco da tarde quando os quatro finalmente chegaram ao charmoso bangalô onde passariam os próximos quatro dias pelo feriado de Ano Novo, e realmente havia muito o que explorar – São Miguel do Gostoso, que tipo de santo é esse?
— Da gostosa, faria mais sentido... – Rafa murmurou no ouvido de , aproveitando a distância do cunhado que, de dentro de casa, não podia ver os dois na rede da varanda.
— Ai, Rafael... – gargalhou da piada ridícula, antes de roubar do namorado um beijo breve e se levantar da rede para apressar o irmão.
— Eu tô falando sério, olha esse monumento! – o rapaz coçou a barba, demorando-se em observar sem constrangimentos o corpo da mulher dentro do biquíni amarelo, que destacava ainda mais a pele morena feito coco queimado já coberta de óleo bronzeador. Ela era um absurdo, por Deus!
— Toda sua. – piscou, mandando um beijo para ele antes de andar para dentro de casa ciente de que Rafa media cada um de seus movimentos. E estaria mentindo se dissesse que não adorava isso... – Luis Felipe, a gente vai pra praia sem você! – protestou contra a demora do garoto, que logo apareceu na sala com Anny.
— Calma, garota. – riu, sabendo que nada irritava mais a irmã do que sugerir que ela estava irritada. Mesmo que estivesse. – Segura a onda aí, olha essa vista... – sugeriu, divertido, e de fato a porta aberta dava a eles a vista direta do mar e da praia quase deserta, era de tirar o fôlego. apenas podia imaginar quanto dinheiro Rafa havia gasto naquilo, mas ele se recusara a compartilhar esse tipo de informação com ela...
— Vai demorar? – a morena perguntou, vendo que Anny espalhava protetor nas costas de seu irmão, deixando o garoto todo branco.
— A culpa não é minha se você roubou a melanina da família inteira, minha filha. – Lipe rolou os olhos – Agora espera, tenho que passar isso senão vou ficar igual um camarão.
— Invejoso. – mostrou a língua – Espero vocês na praia então, tá? – avisou, olhando para a cunhada, que acenou positivamente.
— Daqui a pouco a gente chega lá, . Só terminar com o branquelo aqui. – a loira provocou o namorado, que a olhou indignado.
— Vamos indo, nego? – chamou, o olhar dividido entre a praia deslumbrante e o moreno escultural deitado preguiçosamente na rede ao seu lado – Rápido, antes que eu deite aí e mude de ideia... – trocou o peso de uma perna para outra, fazendo o namorado gargalhar com sua expressão indecisa. Rafa colocou-se de pé, abraçando a morena por trás enquanto desciam os três degraus que os separavam da areia. Escolheram algumas espreguiçadeiras e fez menção de se deitar, mas Rafa a impediu.
— Vamos dar um mergulho, vem. – chamou, tomando a mão da namorada e puxando uma receosa que gemeu, temendo a temperatura da água, enquanto andavam em direção ao mar.
Assim que as primeiras ondas a atingiram, contudo, entendeu o quão diferente era o mar ali tão perto da linha do Equador: a água era quente e os envolvia de maneira confortável, fazendo com que não tivessem a menor vontade de sair dali. Andaram até o fundo, Rafa arrastando a cada vez que ela era derrubada por uma onda, entre risadas e abraços. Ali, sozinhos na imensidão do Atlântico, a descrição do lugar como “pedaço do Paraíso” – tal qual as agências de turismo anunciavam – nunca pareceu tão certa.
— Volta aqui, sereia. – Rafa brincou, quando nadou um pouquinho para longe dele. sorriu, aproximando-se e se apoiando nos ombros do namorado, a fim de se manter na superfície.
— Como fala ‘sereia’ em espanhol? – perguntou, depois de colar os lábios aos dele por um momento.
Sirena. – Rafa respondeu, sorrindo de canto, e puxou o rapaz para um novo beijo, valendo-se do quão sexy ele lhe parecia sempre que usava o idioma. Como toda vez que seus corpos se chocavam, o instinto de Rafael foi aumentar ainda mais o contato, por isso puxou as pernas da namorada para que envolvessem sua cintura. se deixou levar pelo toque envolvente da língua de Rafa sobre a sua, pensando na forma quase poética como as ondas ditavam o ritmo do beijo: era como se até a natureza se rendesse ao que sentiam quando estavam juntos.
— EI, CASAL! – Lipe gritou e os dois se soltaram dolorosamente, Rafa respirando fundo enquanto segurava um sorriso – Chega de pouca vergonha, vem pra cá! – chamou, levantando o violão que fizera tanta questão de trazer na viagem.
— Estamos indo! – acenou positivamente com uma das mãos, arriscando um olhar para Rafa, cuja expressão sofrida fez com que caísse na gargalhada – A gente espera um pouquinho, nego. Relaxa. – sussurrou e foi a vez dele de rir.
Quando chegaram à areia, Lipe já se divertia tocando para Anny que, deitada sobre uma canga na areia, murmurava a letra de “Ela vai voltar” com um sorriso no rosto, os olhos presos ao rapaz que fazia caras e bocas como se cada frase da música fosse sobre ela. E de fato, ao seu ver, era. Rafa, por sua vez, não conseguia lembrar de outra que não quando ouvia algo como “ela é daquelas que tu gosta na primeira, se apaixona na segunda e perde a linha na terceira. ”
— Caralho, rapaz. Tu é muito tatuado! – Lipe finalmente tinha reparado na irmã e no cunhado que se juntaram a eles na areia, e tomava algum tempo para examinar os desenhos na pele do rapaz.
— É viciante, cara. – Rafa riu – Você já fez a primeira? – perguntou, abrindo para a longneck que ela lhe entregara por não conseguir abrir.
— Ele morre de medo de agulha! – Anny entregou, rindo do namorado– Ficou todo manhoso o dia que fez a das costas.
— Até parece que você não né, palhaça! – Lipe revirou os olhos, ameaçando jogar areia na garota – Tem que ver o tanto que apertava minha mão pra fazer uma merdinha desse tamanho. – implicou, mostrando o desenho pequenininho tatuado no dedo da namorada – é outra, só fala, mas morre de medo.
— Eu vou fazer! – a morena protestou, sem saber por que tinham-na enfiado na conversa – É uma das minhas metas pra 2018!
— Ah, é? E o que vai tatuar, cariño? – Rafa perguntou, um sorriso mínimo surgindo nos lábios. Sempre fora apaixonado por tatuagens, e achava incrivelmente sexy descobrir desenhos no corpo de uma mulher – Onde? – sussurrou baixo o bastante para que os outros dois não ouvissem.
— Segredo. – riu, apertando os olhos e se apressando em mudar de assunto antes que ficasse ainda mais difícil não beijar aquela boca tentadora que Rafael mantinha tão perto da sua — Lipe, toca Evidências! – pediu, ouvindo uma série de protestos do irmão antes que ele finalmente atendesse ao pedido, contrariado.
A morena descansou a cabeça no ombro de Rafael enquanto cantava ao clássico sertanejo com a mente vagando para quando ele e Thiago fizeram a mesma coisa há alguns meses. Era tão engraçado pensar em como sua relação com Rafa havia mudado tanto – de amigos a namorados – sem perder sua essência de cumplicidade e parceria.
Os quatro assistiam, entre risadas e uma trilha sonora eclética e democraticamente escolhida, ao sol cortando o céu em sua trajetória até se pôr. Depois de Lipe tocar um reggae que ninguém conhecia, Anny reclamou, pedindo que tocasse uma da realeza brasileira: Sandy e Junior. O rapaz resolveu agradar a namorada, tocando “Turu Turu”, mas quase matou a irmã ao descobrir, pela forma como gargalhava, que toda a performance fora parar no stories da morena.
— Rafa, quer pegar?– Lipe ofereceu o violão ao cunhado, cansando do ofício de DJ. Rafa demorou alguns segundos dedilhando as cordas até decidir o que tocar e, com um sorriso, começou a introdução de “Anunciação”. abriu um sorriso gigante, cantando baixinho a música preferida enquanto o olhar vagava por aqueles três, também algumas de suas pessoas preferidas em todo o mundo: ela não mudaria absolutamente nada naquele momento.
— Puxa saco! Só pra agradar a sua mulher. – Lipe riu, revirando os olhos assim que a música terminou e a irmã puxou o namorado para um beijo.
— Pelo menos não toquei Sandy e Junior! – Rafa tirou sarro do garoto com uma risada e o fim de tarde seguiu atendendo aos pedidos das garotas que iam do country, com Sweet Home Alabama, ao pagode raiz de Raça Negra – dididididiê, passando por Jack Johnson e terminando em MC Kevinho.
— Acho que essa vocês não conhecem... – Rafa se empolgou, já alterado com algumas cervejas, começando a tocar uma música que sabia que os outros não conheceriam, mas que lhe parecia adequada ao momento: Molhada de Mar, da banda mineira ETC. Na segunda vez que o refrão se repetia, os três já o acompanhavam na letra, mas seu olhar se perdia na morena que o encarava com um sorriso, parecendo a obra-prima sobre a qual cantava o autor dos versos – “Quero ouvir você chegar salgada, suada, molhada de mar. De um jeito que eu nem sei explicar, tô só te esperando pra gente dançar...”
sorria, fixada na forma tentadora como os lábios de Rafa se moviam a cada palavra... Por Deus, como ela amava aquele homem. O pensamento fez seu coração se acelerar, mas a verdade estava ali para quem quisesse ver, ainda que nunca dita: ela o amava de uma forma que jamais amara ninguém. Quando a música acabou, trouxe o rapaz para perto pelo pescoço, beijando-o com o desejo íntimo de que ele sentisse em seus lábios tudo o que gostaria tanto de dizer.
Lipe pegou de volta o violão e aproveitou para tocar uma música repleta de significado para ele e a namorada enquanto o outro casal trocava carícias discretas e ridiculamente apaixonadas. Por mais que seu ímpeto de irmão mais novo implorasse para estragar o momento dos dois com uma gracinha, podia sentir o quanto se curtiam naquele instante, e parecia um crime interrompê-los.
— Ahhhh! – Anny exclamou, lembrando-se de uma música, chegando a bater palminhas de tanta animação – “Te assumi pro Brasil”. Por favor, Lipe!
— Mulher, se depender de você eu saio daqui fazendo dupla sertaneja com o Rafa, é isso? – rolou os olhos para o gosto musical da namorada, mas acatou seu pedido com um meio sorriso.
— Rafinha e Lipe. Hmm, não. – Anny testou o nome da dupla, franzindo o cenho, para diversão de todos – Luis Felipe e Rafinha. – tentou, sorrindo – Ah, ficou bom esse!
— Mais tocadas do Brasil no Spotify, em 2018. Aguardem! – riu, vendo os novos cantores brindarem com suas garrafas – Ai, mas até eu amo essa música... – confessou, num sussurro constrangido, já que não era a maior fã do mundo de sertanejo universitário – “Ser feliz pra mim não custa caro, se você tá do lado eu me sinto tão bem...”
“Você sempre me ganha na manha... Que mistério cê tem?” – Rafa respondeu, num tom quase falado, e estreitou os olhos, surpresa por ele conhecer a música, ao que o moreno deu de ombros, sorrindo.
“Arrumei a mala há mais de uma semana, só falta você me chamar pra eu fugir com você!” – Lipe e Anny cantavam teatralmente, ela usando um microfone imaginário que por vezes levava à frente do rapaz.
“Mudei meu status, já tô namorando, antes de você aceitar já te assumi pro Brasil!”– Rafa e responderam, gargalhando pela veracidade daquela frase – “Por que eu te amo eu não sei, mas quero te amar cada vez mais...”– a morena se deitou novamente no ombro de Rafa, buscando evitar os olhos dele enquanto cantavam, as bochechas corando levemente. Quando ouviu aqueles versos na voz dele, contudo, num murmúrio baixinho bem ao seu ouvido, não foi capaz de apagar do rosto um sorriso gigante que perduraria pelo resto da noite.
“O que na vida ninguém fez, você fez em menos de um mês.”


XII. MAMITA

Ei, gata! Devolve a bola!

abriu os olhos, levando os óculos escuros para o topo da cabeça, apenas para encontrar o sorriso largo de Rafael. O rapaz estava mais próximo da água, na companhia de Lipe, aguardando que a namorada lhe jogasse de volta a bola de futebol que caíra próxima à espreguiçadeira onde a morena se bronzeava. riu e, com uma falta de habilidade fenomenal, jogou a bola de volta para o rapaz, que precisou se esticar para alcançá-la.

— Que isso, Rafa! - Luís Felipe se admirou, enquanto o outro se preparava para chutar para ele, reiniciando o jogo de altinha que os divertia pelos últimos minutos - Tu é goleiro também?

— Pior que já fui. - Rafa sorriu, fazendo uma embaixadinha e devolvendo a bola para o cunhado, somando mais um item à lista dos “Motivos Pelos Quais Lipe Tem o Cunhado mais Foda do Planeta”, iniciada por Deco. A viagem à Gostoso vinha incrementando a lista, já que Rafa havia se provado muito bom no violão, no surf e agora até mesmo na posição de goleiro.

— Mas é demais esse meu nego! - brincou, passando pelos meninos em direção à água junto de Anny. Com a distração que era a visão da namorada, Rafa acabou deixando a bola cair, o que provocou uma risada nos demais.

— Ô, Morena, não me desconcentra! - reclamou, enlaçando a cintura dela e arrancando uma risada da garota ao erguê-la no ar.

— Ai, nego, eu vou cair!! - a garota gritava, às gargalhadas, e demorou alguns segundos para se ver livre do aperto do namorado. Era como se durante aqueles poucos dias que tinham juntos, não pudessem conter as próprias mãos, que buscavam algum contato em qualquer oportunidade - Doido! - ela partiu o riso, assim que seus pés tocaram a areia - Fica de olho nas coisas! - pediu, dando uma corridinha para alcançar a cunhada, que já entrara na água - Tá animada pra mais tarde? - sorriu de canto para a mais nova, vendo os olhos da garota se ascenderem em alegria: Anny havia contado que era o primeiro Réveillon que passava em algum lugar realmente badalado, e podia ver o quanto ela e Lipe estavam animados com a expectativa da festa mais tarde, na vila.

— Muito! - Anny sorriu, meiga como de costume - Eu queria que vocês fossem também… - choramingou. A companhia de e Rafael era extremamente agradável, e a garantia de boas risadas. Eles fariam falta.

— Ihh, mas a gente não tá muito nessa vibe de balada… - explicou, enquanto se abaixava um pouco mais na água, sentindo o calor amainar - Acaba que a gente se vê tão pouco, sabe? - comentou, e um sorriso compreensivo surgiu nos lábios da outra.

— Que o pouco tempo que têm querem ficar juntos, né? - Anny exibia as covinhas, e riu em resposta. Era basicamente aquilo: seus planos para o ano novo incluíam apenas Rafael, e nada além dele - Eu vejo seu irmão todo dia, é até estranho pensar como seria se fosse diferente…

— É difícil. - confessou, molhando os cabelos enquanto recordava alguns momentos complicados que passara ao lado do namorado devido à distância: brigas bobas que geralmente não aconteceriam se estivessem perto para resolverem pessoalmente, ciúmes infundados, falhas de comunicação levando a birras sem sentido… Definitivamente não era fácil.

— Mas vocês fazem funcionar bem. - Anny sorriu, seus olhos correndo até os garotos apenas para confirmar o que já sabia: Rafa tinha os olhos sobre . O que não era novidade alguma, visto que ele parecia orbitar em torno dela - Ele te ama tanto, . - voltou a olhar para a cunhada, sorrindo docemente. Eles eram mesmo uma coisa inspiradora: um relacionamento tão saudável que despertava sorrisos por onde passavam.

— Nós não… - começou, um sorriso surgindo em seus lábios antes que pudesse contê-lo - Nós não dissemos. Ainda.

— Quem liga? - Anny deu de ombros - Isso é bobagem, , porque se isso entre vocês não é amor, eu não sei o que pode ser.

Antes que pudesse concordar, Lipe gritou pela namorada, e tudo o que Anny obteve como resposta da cunhada foi um sorriso secreto. Ela sabia, no entanto. Todos sabiam.

— Vamos voltar pra casa, gata? - Lipe perguntou à namorada, assim que ela se aproximou o suficiente para ouvi-lo. , por sua vez, abraçou o corpo de Rafa, sentindo sua pele se arrepiando pelo choque com o quão quente ele estava - Tô com medo de não aguentarmos a festa à noite se a gente não descansar.

— Pode ser… - Anny concordou, olhando então para o outro casal - Vocês vão ficar mais?

— Acho que sim, né? - tentou trocar um olhar com Rafa, mas ele estava ocupado livrando os cabelos dela de pequenas algas - Nego, você já quer ir? - a morena sorriu, arrancando-o de seu trabalho.

— Nós temos que comprar as coisas da paella, né? - ele deu uma olhada para o céu, vendo que dali a pouco o fim da tarde chegaria, e tudo estaria fechado.

— Têm mesmo!! - Lipe voltou da barraca com a bolsa de Anny e seus chinelos - Tu não demora hein, , que eu quero a minha ceia. - cobrou a irmã, que prometera fazer o prato espanhol como ceia de ano novo.
— Relaxa, garoto. - revirou os olhos, passando os dedos pelos cabelos, a fim de desembaraçá-los - A gente se vê em casa, então. - determinou, acenando para a cunhada e mostrando a língua para Lipe.

— Você tem certeza que vai dar certo isso, morena? - Rafa coçou a nuca, mordendo um sorriso, enquanto assistia a namorada juntar as coisas deles.

— Um pouco de confiança seria útil, sabe? - a morena revirou os olhos, rebolando para subir os shorts, capturando um olhar dele no ato - Rafa!! - gargalhou, batendo nele com sua própria camisa.

— O quê? - ele ergueu os braços em rendição - Eu fui atacado!! - completou, agarrando a namorada por trás, fazendo questão de apertá-la contra ele.

— O que tem na água desse lugar pra você tá assim? - riu, virando-se para capturar os lábios dele em um beijo breve, mas que Rafa tentou a todo custo intensificar - Não que eu esteja reclamando! - completou, batendo na mão que ele deixara correr até sua bunda - Mas agora nós precisamos ir. - apertou o rosto dele com uma das mãos, colando seus lábios em um selinho estalado.

— Morena, mas eu também quero! - ele reclamou, segurando a mão da mulher enquanto andavam até a orla.

— Quer o que, Rafael? - riu da expressão contrariada que era quase infantil no rosto dele.

— Fazer no mar. - ele confessou, sorrindo de canto - Você já fez e eu não! - confessou, e a morena demorou alguns segundos para lembrar quando tinha contado a ele sobre aquilo: o maldito jogo da verdade que ela passara algum tempo tentando esquecer que sequer existira.

— Você não? - ergueu as sobrancelhas, gargalhando pela revelação que ele não fizera no dia em que brincaram - Eu, , já tive alguma experiência sexual que Rafael Alcântara nunca teve? - fingiu receber um prêmio, exibindo seu troféu imaginário aos quatro cantos - Zerei a vida agora!

— Palhaça! - Rafa riu, apertando a cintura dela com mais força, mas a verdade é que sentia quase um orgulho da fala dela por massagear seu ego masculino.

— Não se preocupa, gato. - sorriu de canto, enterrando o rosto na curva do pescoço dele antes de sussurrar, segurando uma risada - Eu te ensino.




— Você tem certeza que pegou tudo? - Rafa perguntou, olhando desconfiado para o carrinho de compras onde a namorada acabara de colocar os tomates.

— Rafa, para de duvidar de mim! - riu, batendo de leve no braço dele, andando até a frente do carrinho para guiá-lo pelos corredores. Rafa não conteve um sorriso quando a cena o lembrou das dezenas de vezes que uma coisa banal feito fazer supermercado juntos era corriqueira na vida deles: que puta falta ela fazia em casa...

— Eu não tô duvidando, morena… - ele se defendeu, sorrindo, enquanto andavam até o caixa - Só tô… - antes que pudesse continuar, contudo, olhava para ele com um sorriso de canto, uma das mãos em algo na prateleira. Quando se deu conta da latinha de leite condensado nas mãos dela, uma risada gostosa escapou dos lábios do rapaz.

— Eu acho que a gente vai precisar entrar num consenso… - abraçou a namorada, segurando a mão dela sobre a lata - Porque eu ‘realmente preciso disso’. - repetiu o que dissera a ela da primeira vez em que se viram, um sorriso divertido brincando nos olhos de ambos.

— Realmente precisa?? - abriu a boca com falsa indignação, e um instante depois os lábios de Rafa estavam sobre os seus, beijando-a até que perdesse a determinação em segurar a lata de leite condensado.

— Eu devia ter feito isso da primeira vez. - Rafa murmurou contra os lábios dela, um sorriso vitorioso nos lábios ao se afastar para exibir seu prêmio.

— Isso é você admitindo que ficou louco comigo desde aquele dia? - ergueu uma sobrancelha, abrindo um sorriso malicioso.

— Como se você tivesse alguma dúvida disso… - Rafa revirou os olhos, voltando a empurrar o carrinho, batendo-o de leve na bunda da garota para fazê-la parar de rir, sem sucesso. piscou, deixando a língua entre o sorriso.

— Eu te achei uma delícia também, nego. - confessou, começando a correr antes mesmo de completar - Só não mais gostoso que o meu brigadeiro…




— Vamos tomar um banho, morena… - Rafa sugeriu, vendo que começava a tirar as compras das sacolas - Depois a gente guarda isso. - abraçou a namorada pelas costas, segurando seus pulsos. sorriu, tombando a cabeça sobre o ombro dele e recebendo um beijo que logo se transformou em uma mordida.

— Você não vai desistir, né? - riu de leve, os olhos cerrados enquanto Rafa beijava seu pescoço, fazendo sua pele se arrepiar, apesar do calor intenso.

— Não… - ele devolveu o sorriso, pousando um beijo próximo à orelha dela, fazendo com que a mulher perdesse qualquer restinho de determinação, deixando-se guiar até o quarto aos tropeços.

— Shhhh, Rafa! - murmurou, tomando cuidado de não fazer qualquer barulho quando entraram no corredor que levava aos quartos. Rafa não lhe dava tanta atenção, mais ocupado em afrouxar o nó do biquíni da namorada antes mesmo de alcançarem o quarto - Nego, espera… - a mulher franziu o cenho, afastando-se brevemente dele, assim que Rafael fechou a porta atrás deles - Que merda é…? - ela apurou os ouvidos quando o som inconfundível de uma cama batendo contra a parede se fez audível, seguido de um gemido abafado - Puta que pariu! - encarava a parede que dividia com o quarto do irmão, absolutamente indignada, o que Rafa achava sinceramente mais engraçado do que o fato de Lipe e Anny estarem completamente despreocupados quanto ao volume que mantinham no quarto ao lado.

— Deixa as crianças, morena… - riu, abraçando a namorada, achando graça da coloração vermelha que tomou conta do rosto dela: raiva ou vergonha, ele não se arriscava a apostar.

— É hoje que eu mato esse garoto. - esbravejou, e nem mesmo a boca de Rafa buscando a sua fazia com que conseguisse ignorar os sons que vinham do quarto ao lado - Não é possível que não aprendeu a fazer quieto, até hoje… - resmungou, arrancando mais uma risada de Rafa.

— Como se você não tivesse feito nunca isso na vida… - Rafa minimizou o problema, achando muita graça da expressão dela, enquanto a empurrava contra a cama: ele honestamente não ligava que as crianças estivessem transando no quarto ao lado, desde que pudesse fazer o mesmo.

— Eu vou bater na porta. - o empurrou, levantando-se da cama com determinação.

— Para de ser chata, . - Rafa riu, puxando-a pela mão até que se sentasse em seu colo, mordendo lábio inferior da garota em provocação - Eu voto por deixar ele com mais vergonha que você… - sugeriu, um sorriso malicioso nos lábios - Grita mais alto, vai… - soprou contra os lábios dela e, ainda que a brincadeira fosse clara em seus olhos, não pôde deixar de sentir o corpo inteiro se aquecer quando sentiu uma das mãos dele subindo por sua perna.

— Rafa… - riu, mas ele empurrou a cama contra a parede, soltando um grunhido alto que fez a mulher estremecer.

— Vai ser engraçado, anda. - Rafa riu, provocando-a para entrar na brincadeira. revirou os olhos, rindo baixo antes de ceder: cerrando os olhos, ela gemeu alta e teatralmente - Boa, morena. - o rapaz riu, deitando-se sobre ela para começar a se mover intensamente sobre o corpo da namorada, fazendo questão de que a cama golpeasse a parede insistentemente, ainda que modo como se encaravam fosse mais cheio de diversão do que desejo, no momento. precisava morder os lábios para conter as risadas enquanto gemia alto, chamando o nome de Rafael vendo-o morder os lábios para não rir tanto quanto ela. Em pouco tempo, o barulho vindo do quarto de Lipe cessara, e os dois se encararam, vitoriosos.

— Porra, ! - Lipe gritou, socando a porta do quarto, e o casal finalmente rompeu em uma gargalhada alta.

— Pra aprender a não fazer barulho, palhaço! - pulou da cama, correndo até a porta e enfiando a cabeça para o corredor, rindo alto ao ver o irmão voltar para o quarto com uma garrafa de água.

— Foi mal, expert. - Lipe revirou os olhos, mostrando o dedo do meio para a irmã, que repetiu o gesto em resposta ao fechar a porta, sorridente.

— Missão cumprida, morena... - Rafa sorriu, colando os lábios aos dela de leve, mas deixando que as mãos corressem sorrateiramente até o nó do biquíni, desatando-o sem dificuldade - Finalmente. - mordeu o lábio inferior diante de visão que passara as últimas horas desejando ter, e revirou os olhos, apesar de já sentir os efeitos que o olhar dele, por si só, já era capaz de causar nela, uma verdadeira bagunça.

— Eu acabei de dar um esporro no meu irmão, Rafa, a gente devia pelo menos dar o exemplo… - advertiu um segundo antes de Rafael tomá-la nos braços, carregando-a até o banheiro sem dificuldade. A mulher assistiu quando o namorado abria o registro do chuveiro antes de alcançar os shorts dela, puxando-os até os tornozelos enquanto se abaixava diante dela, abrindo um sorriso que lançou arrepios por toda sua espinha.

— Sorte a dele que você sabe ficar bem quietinha, cariño




— Isso tá tão bom que nem parece que foi você que fez, . - Lipe jogou o elogio com um sorriso enviesado. Ele ainda não havia superado o episódio da tarde, mas nada superava a expressão absolutamente constrangida de Anny que, não importava o quanto insistisse que não passara de uma brincadeira, parecia a ponto de pegar fogo a partir das bochechas a qualquer momento.

— Você não merece nem repetir, Luis Felipe. - a garota ameaçou recolher o prato dele, que o rapaz segurou defensivamente, servindo-se de mais paella.

— Aprendeu comigo né, morena. - Rafa piscou, mordendo o ombro da garota antes de se levantar para pegar mais bebida na geladeira: cerveja, já que Lipe protestara contra a ideia do vinho, insistindo que deixassem aquilo para quando estivessem sozinhos, enfatizando o termo com tanta malícia que havia batido nele com um pano de prato.

— Ele fala isso, mas queimou a comida que fez pra gente. - revirou os olhos, trocando um sorriso cúmplice com Anny.

— Ei! - Rafael protestou, colocando as longnecks sobre a mesa e se jogando novamente em seu lugar - Quem foi que prometeu que isso nunca viria a público?

— Eu prometi nunca contar pro seu irmão… - corrigiu, sorrindo com a língua entre os dentes, e Rafa não conseguiu conter o impulso de roubar um beijo daquela boca que parecia gritar pela sua.

— Vocês querem parar? - Lipe cobriu o rosto com um guardanapo - Já me traumatizaram o suficiente pra uma vida inteira.

— Você quer parar de ser ridículo? Você foi quem começou! - gargalhou, sem conter o comentário, apesar da pena que sentia de Anny, que empurrava Lipe para longe como se o abraço dele fosse o suficiente para que ela explodisse de vergonha.

— Não vou dizer que me arrependo. - Lipe estalou o pescoço, e foi a vez de Rafa gargalhar alto da pose do garoto: ele era bom.

— Luis Felipe, se você não tirar esse sorriso do rosto, vai passar o resto da viagem sem motivo nenhum pra sorrir. - Anny murmurou e os outros explodiram em uma risada. Oh, como adorava aquela garota.

— Isso mesmo, coloca moral, cunhadinha. - parabenizou a cunhada, e tentou fingir que não via o olhar sugestivo que Rafael lhe lançava, como se quisesse saber ‘de onde ela tirava aquilo’, uma vez que os dois sabiam bem o quanto ela era bem mandada quando o assunto era o que faziam sobre uma cama.

— Cala a boca. - murmurou, mordendo um sorriso, enquanto começava a tirar a mesa para se livrar do quanto Rafa parecia um filho da mãe delicioso sugerindo aquele tipo de coisa.

— Eu não disse nada, cariño… - Rafael respondeu no mesmo tom, enquanto ajudava a namorada na tarefa, apenas a pretexto de segui-la até a cozinha conjugada, deixando seus corpos propositalmente próximos enquanto empilhavam a louça sobre a pia - Quando eles vão embora? - sussurrou, sob um sorriso.

— Eu não sei. - respondeu, rindo pelo nariz, subitamente desesperada para se ver sozinha com ele.

— Acho que gente tem que ir, gata. - Lipe disse à namorada, como se ouvisse aos pensamentos da irmã, e aproveitou a deixa para sair de perto de Rafael antes que as mãos dele a alcançassem, como ela podia ver que fariam em breve - Onze e meia já.

— Já? - ela perguntou, e podia ver a risada que Rafa tentava segurar pelo quão falso seu tom chateado soara.

— É open bar né, irmãzinha, eu preciso aproveitar isso. - o garoto respondeu, colocando-se de pé e segurando a mão da namorada, enquanto o casal mais velho ria das preocupações tipicamente adolescentes.

— Feliz ano novo, palhaço. - apertou o irmão apertado - Te amo, e juízo.

— Feliz ano novo, doida. - ele respondeu no mesmo tom, beijando a testa da mais velha - Também te amo. Sem juízo, porque não sou chato igual você. - mostrou a língua, abraçando o cunhado em seguida, enquanto as garotas dividiam os desejos de ano novo que tinham uma para a outra.

— Você tá levando chave? - gritou da porta, enquanto via o casal se afastar, rumo à vila onde aconteceria a festa de Reveillon.

Sim, mamãe! - Lipe gritou de volta, rindo do quão maternal a garota se tornava sempre que estavam sem a supervisão dos pais, e Rafa riu antes mesmo de responder alguma coisa malcriada, abraçando sua cintura e beijando sua nuca com uma calma quase preguiçosa.

— Agora que as crianças já foram… - murmurou, sorrindo contra a pele dela - Mamãe e papai têm algum tempo sozinhos. - completou, arrancando uma gargalhada alta da gracinha ridícula.

— Eu não aguento você. - revirou os olhos, virando-se de frente e erguendo os olhos para os de Rafa, sendo tragada para a forma deliciosamente desejosa como ele a encarava. Ela mordeu o próprio lábio à visão tentadora que era a boca dele, e se ergueu na ponta dos pés antes de moldar seus lábios aos de Rafael, suspirando à sensação familiar e excitante da língua dele se movendo contra a sua.

— Aguenta sim… - Rafa murmurou entre o beijo, fazendo-a sorrir enquanto corria as mãos pelo corpo da garota, realizado como se sentia sempre que percebia como a pele dela se arrepiava sempre que a tocava daquele jeito - Se eu não estou muito enganado… - continuou, pegando a garota de surpresa quando, ao invés de guiá-los para dentro, fechou a porta atrás deles e começou a andar em direção à praia - Alguém me deve uma promessa.

— Rafael… - revirou os olhos, tentando se livrar do abraço dele, que a segurou de forma determinada até atingirem a areia - A cidade tá lotada… - tentou, mas conhecia a fraqueza de seu argumento: aquele ponto da praia estava tão absolutamente deserto que era como se Rafa tivesse feito um acordo com os céus.

— Tenta de novo, morena. - ele riu, lhe dando uma segunda chance enquanto beijava seu pescoço, e teria visto o mar se aproximando se não tivesse os olhos cerrados enquanto buscava encontrar algum bom senso dentro de seu ser quando a língua de Rafael corria por sua pele, despertando seu desejo de modo que só conseguia achar a ideia fodidamente excitante - Foi o que eu pensei. - ele riu baixo, mordendo a curva de seu trapézio, enquanto levava as mãos até a barra do vestido que usava, tirando-o sem qualquer resistência, deixando-a nua, exceto pelo tecido da calcinha - Eu já disse que amo quando você faz isso? Sai sem nada? - não refreou o comentário enquanto a abraçava, fazendo rir baixo enquanto puxava sua camisa para cima, dando a ela o mesmo destino de suas roupas.

— Uma centena de vezes… - respondeu, sorrindo de canto, e àquele ponto já era ela quem o empurrava na direção da água, provando que ele sabia brincar com todos os seus gatilhos. Os dedos dela buscaram o botão dos shorts que ele usava, enfim deixando-os em situação de igualdade, especialmente com relação ao quão desesperadamente excitados pareciam. Rafa sorriu e no instante seguinte tinha os lábios sobre os dela, puxando a namorada para seu colo enquanto cobria a distância que os separava da água.

passou os braços em torno do pescoço de Rafa, deixando que ele a segurasse enquanto se ocupava de provar os lábios dele com gosto de sal. A água era quente, e o modo como as ondas quebravam contra eles ditava o ritmo como suas mãos se exploravam e seus lábios se chocavam com uma sede crescente. Os fogos de artifício cortaram o céu anunciando a virada do ano, e Rafa jamais se esqueceria do sorriso de iluminada à sua luz avermelhada: naquele momento, a única certeza que guardavam era a de que, enquanto tivessem um ao outro, a promessa de um Feliz Ano Novo não seria apenas promessa. E isso bastava.


XIII. Te Amo

“Quiero decirte que te amo
Que pensar que pasa el tiempo, más te extraño
Que sigo solo y que tu ausencia me hace daño
Sé que yo te fallé
Pero siempre estaré”
(Te Amo - Piso21)

— Ai, graças a Deus… - Luis Felipe suspirou, assim que abriu a porta e se deparou com a imagem de Bruna, dando passagem para que a atriz entrasse o mais rápido possível - Sério, só você pra fazer a contenção de danos...
— A sonsa nem me atendeu… - Bruna bufou - O que aconteceu, ela te falou? - perguntou, já andando com o garoto em direção às escadas que levavam ao quarto de , precisando, para tanto, desviar de alguns garçons e um par de funcionários que ajeitavam a decoração da enorme sala de estar dos : naquele dia, os donos da casa completavam 25 anos de casados e, a julgar pelo porte da festa, a comemoração seria grandiosa.
— Não falou, mas deu pra ouvir… - Lipe acompanhou Bruna enquanto subia as escadas, e a outra assentiu: não era especialmente silenciosa quando o assunto era externalizar sua raiva. Para não dizer que era a rainha do escândalo. - Parece que ela e o Rafa brigaram…
— Ah não… - Bruna gemeu, fazendo um bico insatisfeito - Mas por que, meu Deus?
— Não sei bem. - Lipe deu de ombros, abaixando o tom de voz porque os dois se aproximavam do quarto de - Mas se fosse pra chutar, eu diria que tem a ver com o Caê…
— Mas esse embuste de novo, gente? - Bruna sussurrou, enraivecida - Ele vem hoje? - questionou, recebendo um aceno desgostoso do garoto.
— Vem, então te prepara. - Lipe alertou, parando a alguns passos do quarto da irmã, de onde era possível ouvir alguns xingamentos - Esse é o mais longe que eu vou, você está sozinha na missão daqui em diante. - completou, em um tom solene que fez Bruna rir - Tô indo buscar a Anny, precisaremos de reforços.
INFERNO! - exclamou, e o estrondo da porta do armário sendo batida com força fez Bruna se encolher. Sorte era, decididamente, algo de que precisaria.
— Bom dia, flor do dia… - ironizou, escorada à porta, observando a amiga jogada sobre uma dúzia de roupas quando, pelos seus cálculos, já deveria estar pronta - Quem foi que liberou o Furacão ?
— Ah, você não… - o modo teatral como jogou travesseiro sobre o rosto fez Bruna reprimir uma risada - Foi o Luis Felipe que te ligou? Esse traíra. - reclamou.
— Graças a Deus, né? - Bruna entrou no quarto, jogando a bolsa sobre a cama - Se tua mãe chega do salão e te pega assim, ela vai servir teu fígado no lugar do Foie Gras, meu bem. - completou, e uma sombra de sorriso passou pelo rosto de , o que a fez continuar - Agora você quer parar de drama e me explicar o que aconteceu?
— Você diz que eu vou ser servida no almoço, e eu que faço drama? - riu, irônica, antes de continuar - Sabe quando a nuvenzinha preta da Turma da Mônica tá em cima de você? - ela espiou por baixo do travesseiro antes de se cobrir novamente - Essa sou eu hoje. - explicou, a voz abafada pelo tecido.
— Sou toda ouvidos... - Bruna cedeu a uma risada, sentando-se em um cantinho da cama que não estava completamente coberto de roupas, para então arrancar o travesseiro que cobria o rosto de , abraçando-se a ele para que a outra não pudesse pegá-lo de volta - Desembucha.
— Por onde eu começo? - a morena resmungou, sentando-se e erguendo uma das mãos para enumerar - Pra começar, eu não tomei café da manhã porque tava super atrasada pra buscar uma dúzia de coisas pra minha mãe na rua. - começou, magoada: pelas regras , pular o café da manhã era sinônimo de começar o dia com o pé esquerdo, e Bruna conhecia a garota há tempo suficiente para seguir aquela norma à risca - Tão atrasada que arranhei a merda do carro no inferno do portão. - continuou, enfatizando todos os palavrões.
— Ai, amiga, que merda. - Bruna franziu o cenho, compadecendo-se da outra. Aquilo era um motivo real, mas ainda não explicava o porquê de ter liberado seu furacão interno, uma vez que ela não era a melhor motorista do mundo e aquele tipo de acidente era quase frequente - Foi muito feio? - perguntou, recebendo um aceno irritado em resposta.
— Mas parou por aí? - continuou - Nãaaao. Porque desgraça pouca é bobagem, já diria dona Alba… Fui descontar o cheque de um cliente e adivinha? Sem fundos! E é claro, pra completar a maravilha do meu dia até as 11h da manhã… - respirou fundo, deixando o pior para o final - O idiota do teu amigo tá puto comigo e não atende o celular! - terminou, sentindo as famigeradas lágrimas de raiva finalmente escorrendo pelo rosto, o que fez questão de secar rapidamente. Bruna fez um grande esforço para não rir, porque podia ver o quão seriamente irritada estava, mas não deixava de ser engraçado: Rafa sempre se tornava “teu amigo” quando alguma coisa acontecia entre os dois.
— O que foi que o ‘meu amigo’ aprontou dessa vez? - Bruna perguntou, regulando o tom para não deixar a outra ainda mais irritada - Desembucha, garota. Se tem alguém que te entende nessa vida sou eu. - completou, quando viu que hesitava, como de costume. A perfeita tagarela se escondia em sua concha sempre que a questão era dividir problemas: era muito mais afeita a compartilhar alegrias, e Bruna havia levado um bom tempo para aprender que se ela não recebesse um empurrãozinho, sofreria calada.
— Eu namoro uma criança, Bruna. Isso que aconteceu. - soltou, puxando a ponta da coberta para evitar os olhos da outra, a voz embargada fazendo com que sentisse mais raiva e, consequentemente, mais vontade de chorar - Rafael às vezes tem cada birra que me deixa louca! - fungou, esfregando os olhos, e Bruna se ajeitou na cama para dar mais atenção ao assunto: ‘Rafael’ era sempre um mau sinal, quando não era aquele ‘Rafaeeel’ cantarolado que vinha logo depois de Rafa fazer alguma gracinha para a qual fingia estar brava.
— O que ele fez? - perguntou, num tom carinhoso. Ela conhecia aqueles dois: o temperamento que os fazia ‘calientes’ pelo lado bom, também era responsável por transformar pequenas discussões em brigas barulhentas, ainda que fugazes. Eles ainda aprendiam a lidar com a distância, afinal. E Rafa tinha um pouco mais de dificuldade com isso, pelo que Bruna podia perceber.
— Caetano seguiu ele no instagram e pronto, acabou de vez a minha paz porque Rafael ficou puto achando que é provocação, que tem algum motivo pra isso que eu não tô contando, e pipipipopopo... . - revirou os olhos, maneando a cabeça em descrença - Vê se tem motivo pra isso, Bruna!
— Ai, mas o Caetano é um filho da puta, né? - a outra resmungou, incrédula - Esse cara sabe o que tá fazendo, certeza que fez de propósito. - analisou.
— Você entende que era pro Rafa achar graça disso? Ele ficou puto porque o Caê é sem noção, e descontou em mim. - perguntou, indignada. Se ela já não estivesse tão irritada com todo o resto, talvez tivesse tido um pouco mais de paciência, mas aquele era o dia absolutamente errado para que Rafael desse um chilique - Agora a merda já tá feita, eu já tinha contado que essa peste vai vir aqui hoje, pra evitar dele descobrir de outro jeito, e agora foi tudo pro ventilador. - completou, bufando: odiava ciúmes, tanto sentir quanto ser alvo do sentimento.
— Amiga, eu sei que você tá com a cabeça cheia, mas tenta entender um pouco o lado dele… - Bruna tentou apaziguar, mas diante do olhar feroz de , completou - Eu sei que ele tá errado, mas não é legal ter um ex na cola da sua namorada. E ele sabe que o Caetano não desistiu de você.
— Eu ter desistido dele não é o suficiente? - retrucou, provando seu ponto - Bruna, quando eu fui pra Barcelona, eu pensava sim em voltar com o Caê. Ele era o futuro que minha família queria pra mim, era tudo o que eu tinha conhecido. Foi o Rafa quem mudou isso. Foi ele quem apagou completamente o Caetano da minha cabeça, que me abriu pra um relacionamento muito mais bacana, sabe? - completou, descendo os olhos quando sentiu que choraria.
— E você já disse isso pra ele? - Bruna perguntou, sorrindo de canto, prevendo a resposta.
— Ele sabe… - gesticulou, mordendo o lábio inferior pelo desconforto. Rafa sabia, não sabia?
— Sabe o que eu acho? - Bruna secou uma lágrima no rosto da amiga carinhosamente - Que às vezes você se segura um pouco nas palavras, dona . E ainda que o que vocês dois sentem esteja na cara pra qualquer um, às vezes as pessoas precisam ouvir, amiga. - completou, e tomou alguns segundos para refletir sobre aquilo, antes de manear a cabeça.
— Não é como se agora fizesse alguma diferença, porque o bonito sumiu, como se a errada fosse eu. - jogou o celular para mais longe dela no colchão, enterrando o rosto nas mãos.
, você conhece o Rafa… - Bruna suspirou, sorrindo fracamente - Ele é louco contigo, e você com ele. Isso passa, é carência, saudade...
— Eu também sinto saudade, e nem por isso dou ataque quando ele sai com os amigos lá. - replicou, sendo sincera naquele ponto: só ela sabia o quanto sentia falta de Rafa, mas nunca associou aquele sentimento a nada como ciúmes.
— Eu sei que não justifica, mas confia em mim: saudade faz a gente amplificar as coisas… Ele não reagiria assim se você não tivesse longe, nem você não ficaria tão brava também… Juntou o seu péssimo dia com ele estourando e pronto. - explicou, dando um tapinha maternal nas pernas da amiga - Amanhã é aniversário dele, … Amanhã, a uma hora dessas, você já tá no avião... - tranquilizou a outra com um sorriso, mas o olhar de fez com que passasse os olhos pelo quarto, deparando-se com a falta de algo essencial - , cadê sua mala?
— Eu não vou mais… - disse baixinho, sentindo aquelas palavras a machucarem mais do que ela imaginava que poderiam.
— Amiga, para com isso… - Bruna riu, literalmente, de nervoso - Para de fazer as coisas de impulso, .
— Ele não tá nem falando comigo direito, Bruna. - a morena explicou, respirando fundo - Eu vou pra lá e… - engoliu seco para ter coragem de continuar - E se der tudo errado, eu faço o quê? Me enfio no avião de volta?
… - Bruna segurou as mãos da amiga entre as suas, esquadrinhando o rosto dela e encontrando a mais verdadeira apreensão - Vocês não vão terminar, se é isso que você tá pensando.
— Sei lá, amiga. - fungou - A gente nunca tinha brigado feio assim e… - ela secou uma lágrima fugitiva antes de continuar - Ele nem quer mais que eu vá, Bruna. - resmungou, e no fundo sabia que era seu orgulho quem falava - Quando eu perguntei mais cedo, ele falou ‘você que sabe, .’. - imitou a voz do namorado, tentando não engasgar com o quanto aquilo lhe dava vontade de chorar.
— Vocês dois tão magoados e irritados, amiga... - Bruna assegurou, beijando os cabelos da outra - Mas eu te prometo que vai passar, Prin. - abriu um sorriso, a fim de melhorar o humor da conversa - Sempre passa, quando a gente realmente quer fazer dar certo. E também quando a TPM vai embora. - completou, arrancando o primeiro risinho verdadeiro de . Se Bruna não existisse, sequestraria alguém e obrigaria que a inventassem, honestamente.
— Quanto você cobra pela sessão mesmo? - riu, abraçando a amiga apertado.
— Meu pagamento vai ser você levantar a bunda dessa cama… - Bruna riu, feliz por finalmente arrancar uma risada de , e empurrou a amiga para fora do colchão - Senão além de , teremos Bruna Marquezine no almoço.
— Se eu e minha nuvenzinha negra estragarmos essa festa, a culpa é sua, Marquezine.




— Que coisa mais linda! - Luis Felipe sorriu quase inocentemente, assim que a irmã se aproximou de onde ele estava, depois de quase meia hora cumprimentando parentes e amigos dos pais. Quando estreitou os olhos para ele, procurando a piada naquele comentário, seu sorriso se alargou - Quem vê nem acha que até as nove da manhã já tinha xingado em cinco idiomas diferentes. - completou, baixo o suficiente para que ninguém além das garotas escutassem.
— Luis Felipe, porque você não vai a… - a mais velha começou, sendo logo interrompida pelo irmão, que lhe entregou uma taça de espumante.
— Shhh, modos! - ele segurou uma expressão ofendida, olhando de esguelha para os pais, ironicamente - Sua mãe não te deu educação, menina?
— Lipe, não provoca… - Bruna quase suplicou, sem desejar ver todo o seu trabalho indo por água abaixo.
— Te aquieta, Luis Felipe. - Anny fez coro às outras, sorrindo para daquele seu modo que tornava a ela impossível não sorrir de volta - Você tá tão linda, ! - elogiou com sinceridade: o vestido verde, de fato, fazia um trabalho esplêndido ao destacar a pele praiana da fotógrafa.
— Eu? - sorriu, apontando para a cunhada - Olha pra você! - devolveu o elogio - Meu irmão não te merece, francamente. - implicou, sorrindo para a revirada de olhos de Luis Felipe - Ué, cadê o Deco? - a morena correu os olhos pela sala, dando falta do garoto.
! - a figura alegre do rapaz surgiu logo atrás dela, como se tivesse sido invocada - Viu como ela sente minha falta? - ergueu uma sobrancelha para o melhor amigo, que não conteve uma risada - Fala agora que ela não gosta de mim.
— Ele te disse isso? Que pecado… - ralhou com o irmão, dando um beijo no rosto de Deco - Luis Felipe, teu lugar no inferno tá reservado.
— Comprei sua passagem do lado da minha, mana. - Lipe devolveu a brincadeira, arrancando risadas de todos, inclusive de : bem, se ela tinha de passar por aquele dia infernal, pelo menos que fosse na companhia daqueles quatro.
— Por falar em inferno… - Bruna tomou um gole de seu espumante - Lá vem o Diabo. - completou, fazendo o corpo de se retesar por inteiro, armando-se para o que viria a seguir - Ai, não… A mãe do demo veio junto, eca. - Bruna continuou sua narração e quase cuspiu a bebida com uma risada abafada.
! - a voz conhecida da ex sogra fez respirar fundo, antes de se virar. Felizmente, o sorriso nos lábios de Soraia era tão falso quanto o seu: ninguém chutava seu filhinho de ouro e mantinha sua simpatia - Quanto tempo, querida. - exclamou, esquadrinhando a imagem da fotógrafa sem constrangimentos, buscando algo o que criticar.
— Soraia, como vai? - devolveu no mesmo tom, só então desviando o olhar dos olhos azuis da mulher para erguê-los até os do filho, tão claros quanto - Caetano. - sorriu sem mostrar os dentes, quando na realidade queria avançar sobre ele com as presas a mostra, espantando aquela praga de sua casa às dentadas.
— Eu nunca deixo de me surpreender com o quanto você fica cada dia mais bonita, . - ele sorriu, e precisou controlar sua vontade de rolar os olhos. Bruna, por sua vez, não era obrigada a ter a mesma compostura e deixou escapar uma risada anasalada acompanhada de um “cara de pau” sussurrado junto ao copo - Bruna, tudo bem? - o loiro se dirigiu a ela, congelando uma expressão de incômodo diante a amiga da ex, que sempre reprovou o relacionamento.
— Espetacular, Caetano, e você? - a atriz devolveu, abrindo um sorriso largo e venenoso.
— Caê, beleza? - Lipe interrompeu antes que aqueles dois começassem um bate-boca: não seria a primeira vez, na realidade.
— Saudade de você, cara. - Caetano suavizou novamente a expressão, segurando o ombro do ex cunhado - E de você, Deco! Temos que marcar uma partida de FIFA, hein? - continuou, e tinha vontade de vomitar diante da tentativa ridícula do homem de forçar proximidade com os garotos. Felizmente, ela podia notar, os dois conservavam a mesma expressão que conseguia ler como ‘fingindo costume’: Rafinha tinha uma fanbase forte naquela casa, e não seria agora que os dois o abandonariam. Ou Anny, ela percebeu, assim que Caetano se apresentou à garota.
— Ah, nós já nos conhecemos. - ela respondeu - Daquele dia no japonês, quando você apareceu lá atrás da . - acusou, e a risada de Bruna foi muito mal faseada por uma tosse. , por sua vez, encarou o irmão em um pedido mudo de que se casasse com aquela garota, ou ela se casaria!
— Caetano, meu filho. - Soraia chamou, prevenindo o primogênito de passar mais alguma vergonha, e podia ver o rosto da mulher queimando de raiva - Nós devíamos procurar seu pai, sim? - chamou, com olhos penetrantes que o fizeram concordar, para então demorar algum tempo encarando , que sustentou seus olhos - Você foi uma decepção pra mim, garota. - murmurou, para que apenas ela ouvisse, desgosto pingando de cada palavra.
— Mesmo? - ergueu as sobrancelhas, para então abrir um sorriso, esse bastante sincero - Que alívio em ouvir isso, Soraia! - completou, antes de abrir os braços em direção à sala - Aproveitem a festa, a casa é de vocês!
Assim que as duas figuras loiras deram as costas, Bruna abraçou tão apertado que a morena precisou se esticar para respirar.
— Eu te amo, mulher! - a atriz riu, beijando o rosto da amiga - Obrigada por ter me dado essa cena de presente, eu nunca vou esquecer da cara desse palhaço.
— Me dá isso, vai. - sorriu de canto, pegando o copo de Luis Felipe depois de virar o seu de uma vez só. Ela se sentia uma tonelada mais leve: agora, caso Caetano lhe procurasse de novo, os problemas dele não seriam mais com ela, e sim com a própria mãe - Obrigada, gente. - agradeceu, olhando um por um e sentindo um nózinho na garganta pelo quão à flor da pele já estava: ela tinha amigos maravilhosos. Bruna sorriu, abraçando a amiga de lado para levantar um brinde.
— Missão ‘Adeus Embuste’ realizada com sucesso! - fez uma dancinha alegre - Parabéns, time!



Duro Igual Concreto

Rafael sentia os nós dos dedos doloridos, mas não era como se importasse enquanto golpeava repetidamente o saco de areia, descontando toda a raiva que sentia daquela situação de merda. Secretamente, ele imaginava ali o rosto do babaca que era o ex de , mas a verdade é que parte daquela raiva era direcionada a ele mesmo. Aquele tinha sido um dia de merda. O pior dos últimos tempos, se arriscaria a dizer. E não era como se ficar em casa o ajudasse a se distrair: tudo, absolutamente tudo, parecia jogar na sua cara as lembranças daquela morena, e da falta absurda que ela fazia.
O rapaz parou um momento para beber água, aumentando o volume da caixa de som em uma tentativa de que o rap ensurdecedor calasse os pensamentos que rondavam sua cabeça. Sem sucesso: uma piscada mais demorada, e ao abrir os olhos novamente ele não estava mais sozinho ali. Estava de volta a um dia, meses atrás, quando observava os movimentos que ele demonstrava para depois repeti-los, completamente inconsciente do quão absurdamente atraente parecia com as sobrancelhas unidas, o lábio inferior preso entre os dentes e o suor escorrendo pela nuca enquanto socava o saco de areia.
Na realidade, com um pouco mais de concentração, Rafa conseguia se lembrar como os cabelos dela cheiravam quando a abraçou pelas costas, ou mesmo do toque da pele de quando ela se arrepiou sob seus dedos, tombando a cabeça para trás até encaixá-la em seu ombro, colando seu corpo quente ao dele. Rafa coçou os olhos, empurrando para longe aquela memória, mas já era tarde: quando voltou os olhos novamente para o tatame, tudo o que via era o corpo de sendo revelado pouco a pouco por suas mãos, o sorriso enviesado que ela deu ao rolar sobre ele, ficando por cima - ‘vai ter que bater pra sair, papi’, ela havia soprado conta a boca do namorado, fazendo Rafa dar três tapinhas em sua bunda, aceitando a derrota com prazer. E então vieram os malditos gemidos… Os gemidos que se sobrepunham à música, invadindo sua mente e pregando peças na sua imaginação. No instante que a letra da canção fez eco aos seus pensamentos - “Deu saudade, de quando era só eu e você. Na verdade, só com ela que consigo sentir prazer.” - Rafa molhou as mãos, levando-as até o rosto e a nuca, a fim de esfriar a cabeça e parar de se torturar.
— Tu sabe criar uma cena, hein, neguim? - Rafa se surpreendeu com a presença de Neymar parado na porta da academia, apontando para o som alto e a música sugestiva - Eu toquei, mas você não ouviu. - completou, e Rafa não se deu ao trabalho de responder, ocupado em passar mais esparadrapo nas mãos - E liguei também, e não atendeu. - continuou, desligando a caixa de som, enfim ganhando a atenção do amigo.
— Jura? - Rafa finalmente encarou o outro, soando um pouco mais irritado do que gostaria - Eu não quero estourar contigo também, ok? - explicou-se - Sou a pior companhia que você vai achar hoje.
Foi a vez de Neymar ignorar o comentário, sorrindo de canto. Ele sabia bem o que era aquilo, conhecia o sentimento e a dor filha da puta que era ficar longe da mulher que virava tua cabeça, especialmente quando não era um bom dia.
— Não vai doer, sabe? - Neymar se recostou na parede, depois de assistir Rafael desferindo uma série de socos e chutes no saco de boxe.
— Ahn? - Rafa franziu o cenho, perdido em seus próprios pensamentos.
— Falar com ela. - o atacante explicou, esperando Rafa se virar para ele antes de continuar - A Bruna falou que vocês brigaram.
— Falou? - Rafael interrompeu o que fazia para responder - E ela por acaso te falou como sair dessa situação de merda? Porque é isso que eu tô querendo saber… - completou, mal humorado.
— Não, mas isso te digo eu. - Neymar ainda sorria, e Rafa considerou por um momento socar a cara dele, ao invés do saco de areia - Princesa, eu não sei se tu sabe disso, então deixa eu te contar: a tua mina é foda pra caralho. - disse aquilo com o tom mais sério do mundo.
— E isso vem ao caso porque…? - Rafa franziu o cenho, sem saber o que aquilo tinha a ver com toda a situação.
— Eu conheci a antes de você, sabe? Então acredita em mim quando eu te digo: ela podia ter o cara que ela quisesse. - completou, e a expressão no rosto de Rafael lhe arrancou uma risada - O que eu tô querendo dizer é que…
— É que tem meio mundo querendo a minha namorada, que bom saber... - Rafa interrompeu, coçando a nuca enquanto ria sem humor algum - Valeu, ajudou muito.
— Tem. - Neymar deu de ombros - E a minha também. - completou, fazendo uma pausa deliberadamente longa antes de completar - E ainda assim, é com você que a tá, cara. - explicou seu ponto - Isso quer dizer que ela provavelmente tá louca? Quer. - brincou, arrancando um sorriso custoso de Rafa, ainda que acompanhado de um rolar de olhos - Mas isso tem que significar alguma coisa pra você. Eu demorei anos pra entender, mas você não precisa demorar tanto. Se não for assim, não dá pra namorar com alguém que tá do outro lado do mundo, acredita em mim.
Rafael respirou fundo, relembrando todos os momentos em que fora expectador das idas e vindas de Neymar e Bruna: estar do outro lado não era tão fácil quanto parecia. Era uma merda, na verdade.
— Foi a Bruna que te mandou dizer isso? - perguntou, arrancando uma gargalhada de Neymar, que o abraçou de lado.
— Foi, mas eu improvisei. - confessou, abraçando o mais novo de lado - Funcionou?
— Deu pro gasto. - devolveu a brincadeira, respirando fundo - Eu sou louco com essa mulher, cara… - lamentou-se.
— Fala isso pra ela, então. Já é um bom começo. - Neymar incentivou, e Rafa demorou um segundo para concordar minimamente com a cabeça - Bom, minha missão tá cumprida. Da próxima vez que tu me fizer sair de casa porque não me atendeu, quem vai tomar um soco é você. - avisou, batendo no braço do amigo de leve - Te cuida, meu brother.
Rafa esperou que o amigo fosse embora para desabar no chão, pegando o celular, temeroso. Para sua surpresa, no entanto, a tela exibia uma ligação perdida de , há pouco mais de meia hora. Ligou de volta, sentindo o coração batendo tão forte que o sentia na garganta, e cada pausa parecia longa o suficiente para que imaginasse ouvir o “alô” do outro lado da linha. Esse não veio, no entanto: foi a sua vez de ir direto para caixa postal.



olhava a cidade correndo através do vidro do carro, sentindo o coração acelerado diante do que estava prestes a fazer: a festa de aniversário de casamento de seus pais terminara há menos de uma hora, e agora ela estava a caminho do aeroporto com uma mala arrumada em vinte minutos - a 10 mãos, vale dizer, já que teve a ajuda da todo o “Esquadrão Anti-Embuste”. A verdade era que o encontro com Caetano só havia lhe provado por A + B o quão feliz ela era na companhia de Rafa, e como não valia a pena brigar por algo tão pequeno. Ele tinha sua parcela de culpa, mas também admitia a sua: ambos disseram coisas que não deviam, e havia dentro dela uma inquietude natural que lhe impedia de ficar parada esperando que as coisas acontecessem.
— Você pode me lembrar o porquê de eu estar fazendo isso? - murmurou para Bruna, que soltou uma gargalhada gostosa.
— Porque você só sabe agir com o coração, dona . - ela tirou os olhos do trânsito, para então encará-la - É um defeito de fábrica, sabe?
— Não era você que tava brigando comigo hoje mais cedo porque eu sou “impulsiva demais”? - devolveu, fazendo aspas com os dedos.
— Se é pra ser impulsiva, que seja fazendo alguma coisa pra resolver o problema, e não se escondendo dele. - a atriz devolveu, cortando um carro que atrasava seus planos - Além do mais, se você nunca fez uma loucura na vida, tá vivendo errado.
suspirou, resignada: ainda que parte daquela impulsividade viesse da mente levemente embriagada, sabia que a maior parte da coragem para se enfiar no próximo voo para Barcelona vinha da vontade desesperada que tinha de resolver tudo aquilo com Rafa: era a primeira crise de muitas que certamente viriam, e ela precisava ter certeza de que conseguiriam lidar com aquilo. De que fariam funcionar.
— E se a gente não conseguir trocar a passagem? - murmurou, preparando-se para o caso de aquela ideia dar errado. Nesse caso, ela teria que esperar até o dia seguinte: não era o fim do mundo, mas naquele momento, tomada de ansiedade e de tanta saudade, era com isso que se parecia.
— Eu já te disse que eu vou resolver isso. - Bruna deu de ombros, despreocupada. Ela não costumava usar o próprio nome e fama para resolver questões como aquela, mas havia poucas coisas que não faria pela melhor amiga, e aquela certamente não era uma delas.
Diante daquilo, e por saber que a amiga não aceitaria não como resposta, acenou, agradecendo a Deus pela terceira vez naquele dia pela existência de Bruna Marquezine em sua vida.
— Você tá se sentindo num filme? - Bruna perguntou, enquanto as duas andavam pelo aeroporto a um passo de correr, depois de resolverem a questão da passagem - Porque eu tô demais. - completou, animada.
— Acho que sim. - conseguiu sorrir de canto, apesar da apreensão: elas estavam com o tempo contado - Principalmente na parte em que a mocinha acha que vai dar tudo errado no fim.
— Mas você sabe o que isso significa, não sabe? - Bruna sorriu de canto, parando assim que chegaram ao portão de embarque de - Nos filmes, tudo sempre dá certo. Então vai lá, fecha os olhos, e quando acordar já vai tá lá resolvendo isso do jeito que vocês fazem melhor. - piscou, sugestiva, apenas para ganhar uma risada da outra.
— Eu não sei o que eu faria sem você. - sorriu, abraçando a amiga sem dizer mais nada, sabendo que choraria se o fizesse - Eu te ligo quando chegar.
— Isso… - Bruna sorriu, empurrando-a em direção ao portão - E não esquece o que eu te disse, ok? - completou, vendo a amiga acenar uma vez antes de entrar na sala de embarque.
Antes de embarcar, encarou o celular por um momento, hesitando antes de pressionar o nome de Rafael: “as pessoas precisam ouvir”, era o que Bruna havia lhe dito. E agora… Bem, agora era ela quem realmente precisava falar. Precisava, porque aquela dor que sentia no peito só podia significar uma coisa. Esperou até que a ligação caísse, respirando fundo uma vez para manter o plano de atravessar um oceano apenas para dizer aquilo. Para dizer a Rafael que o amava.

Quase doze horas depois, estava de pé diante da casa de Rafael, segurando a maçaneta sem encontrar a coragem para girá-la. “Para com isso, garota… Você já chegou até aqui”, murmurou para si mesma, soltando o ar de uma só vez antes de abrir a porta, deparando-se com a casa preenchida de silêncio. Largou as malas de lado, e logo os latidos de Preta fizeram questão de recebê-la, esquentando seu coração de forma a reafirmar o que ela já sabia: aquilo era casa. Andou até o labrador com um sorriso pequenininho, agachando-se para lhe fazer um carinho na cabeça.
— Cadê ele, Pretinha? - murmurou, coçando as orelhas do cão, parando apenas quando se deu conta do som do chuveiro no andar superior - Me deseja sorte, ok? - continuou, partindo escada acima com o coração tão acelerado que parecia pulsar na garganta, especialmente depois que o som da água cessou de súbito, levando consigo o prazo para que ela planejasse o que viria a seguir. havia imaginado mil e um desfechos para aquilo, mas agora sua mente parecia tomada de um vazio, e ela desejava de todo o coração que no momento em que colocasse os olhos em Rafael, soubesse o que fazer.
No andar de cima, deparou-se com a porta aberta e uma bagunça de roupas sobre a cama, junto de uma mala aberta. Antes que tivesse chance processar aquela cena, no entanto, o cheiro de sabonete e o vapor do banho adentraram o ambiente, e só teve coragem de erguer o rosto quando ouviu seu nome na voz de Rafael.
? – ele murmurou, incrédulo, pego completamente de surpresa por aquilo que parecia mais uma brincadeira de sua imaginação - , o que…? - ele maneou a cabeça, sem que aquilo fizesse qualquer sentido.
devolveu o olhar, matando a saudade de cada pedacinho daquele homem enquanto seguia a rota das gotas d’água que escorriam pelo tronco de Rafael e terminavam na toalha que ele trazia amarrada à cintura. Sentindo os dedos formigarem pela vontade de tocá-lo, cruzou os braços, para enfim responder com a voz mais entrecortada do que o planejado.
— Oi, nego… - ela deu um passo à frente e então parou, incerta sobre como continuar - Eu… - antes que tivesse chance de prosseguir, no entanto, Rafael encerrou a distância que os separava, abraçando-a tão apertado que podia sentir cada centímetro da pele quente do rapaz em contato com a sua, bem como o coração acelerado dele, que fazia eco dentro dela.
— Eu não acredito que você tá aqui… - Rafa murmurou com o rosto enterrado na curva do pescoço da mulher, os olhos queimando com lágrimas de alívio que cairiam a qualquer momento.
— Nem eu... – disse no mesmo tom, mantendo a posição apenas porque o cheiro de Rafael parecia tornar as coisas mais fáceis - Você tava indo pra algum lugar? – perguntou, sem saber como começar, depois de alguns segundos de silêncio.
— Pro Rio. – Rafa soltou o ar de uma vez só – Você não atendia o celular, as minhas mensagens não chegavam... – completou e o segurou pelos ombros, afastando-se para encará-lo.
— Rafael, você é louco? – perguntou, erguendo as sobrancelhas em surpresa.
— Você tá aqui, não tá? – ele devolveu, de pronto, e não pôde discordar.
— Não deixa de ser loucura... – fez um carinho leve na base das costas dele, contendo o impulso de segurar apertado, matando toda a saudade que sentia da pele de Rafael contra a sua – Nós precisamos conversar, não é? – completou, e o olhar de Rafael se desviou para o chão quase imediatamente – Rafa... – chamou baixinho, aguardando até que, muito lentamente, os olhos castanhos de Rafael se erguessem na direção dos seus, exibindo sem vergonha alguma o quão repletos de lágrimas se encontravam.
— Morena, eu sei que eu fiz merda. Eu não devia ter descontado em você, não devia ter dado a entender que não confio em você.... Porque eu confio, . – ele disse, a voz ondulando levemente até enfim se estabilizar – E se você veio aqui porque quer terminar... – ele parou, cobrindo os olhos no instante em que a primeira lágrima caiu, sendo então seguida por todas as outras, fazendo que o que quer que ele quisesse dizer permanecesse preso em sua garganta.
— Rafa... – segurou os punhos dele para descobrir seus olhos, ignorando as lágrimas que corriam agora pelo seu próprio rosto – Eu não atravessei o mundo pra terminar com você. – ela disse, deixando um sorriso fraco colorir seus lábios.
— Não? – ele murmurou, soltando a respiração de uma vez só quando negou com a cabeça, sentando-se na beirada da cama e entrelaçando seus dedos aos de Rafael para que ele fizesse o mesmo.
— A minha vida inteira eu ouvi que eu falo demais... – murmurou, encarando as mãos juntas, que eram uma das coisas que mais sentia falta quando não estava ali – E mesmo assim, às vezes eu me esqueço de dizer o essencial. – continuou, erguendo os olhos para Rafa – E com você foi tão fácil, nego... Porque entre a gente, nunca foram as palavras, não é? – perguntou, vendo-o concordar com a cabeça, travando o maxilar de forma que deixava claro o quanto ainda estava prestes a chorar – A gente nunca precisou delas, porque a gente tinha isso aqui... – apertou a mão dele, fazendo um carinho com o polegar – A gente tinha o toque, o cheiro, o gosto... Isso falava por si só. -
— Você tá me matando, mulher... – Rafa confessou sua tensão, fazendo a morena rir entre algumas lágrimas, para então secá-las – Nega, o que não podia esperar um dia?
— A gente. – ela murmurou, respirando fundo mais uma vez – Porque isso tudo me fez ver que com a distância... Só vai funcionar se a gente falar, Rafa. A gente não tem mais a presença, então a gente vai ter que aprender a dizer. – explicou-se, e Rafael finalmente começou a compreender o ponto dela - E hoje eu precisava te dizer o quanto você mudou a minha vida, Rafa. O quanto eu amo a que você me ajudou a descobrir aqui dentro... – espalmou o rosto dele com carinho, vendo-o fechar os olhos ao seu toque.
... – ele tentou dizer, mas foi logo interrompido por um dedo de sobre seus lábios.
— Eu não ia conseguir dormir sem olhar pra você e dizer isso tudo... – ela continuou, fazendo-o abrir os olhos, encarando-a daquele jeito que sempre dava a a certeza de que ele via nela coisas que ninguém mais enxergava - Sem dizer o quanto eu te amo, Rafa. - completou, a voz quebrada pela emoção que envolvia suas palavras, e o que viu no rosto dele fez seu coração se aquecer: ele não reagiu de pronto, mas quando o fez, deixando que um sorriso enorme preenchesse seus lábios, soube que guardaria eternamente na memória o modo como a alegria alcançou os olhos de Rafael, acendendo-os feito luzes de Natal.
Rafa segurou seu queixo, trazendo-a para perto tão lentamente que sentiu que prendia a respiração pela expectativa - ou talvez fosse apenas fruto da ansiedade que lhe desse aquela impressão de tempo congelado. O fato é que ela sentiu cada segundo, como se seu corpo ansiasse avidamente por aquilo tanto quanto ela: os dedos de Rafael se enterrando em seus cabelos, a respiração dele contra sua boca e o modo como cada poro de sua pele se arrepiou no instante em que Rafa a puxou para o seu colo, deixando enfim que sua boca encontrasse a dela em um beijo salgado que dava a eles aquilo que a distância falhava em proporcionar.
— Fala de novo... – ele murmurou, partindo o beijo com um sorriso, mordiscando o lábio inferior de para lhe arrancar também um sorriso.
— Eu amo você... – a morena sorriu contra os lábios dele, voltando a beijá-lo tão logo foi possível, simplesmente porque sentia falta daquilo feito louca.
— Eu acho que eu posso me acostumar a ouvir isso todos os dias. - ele murmurou, fazendo-a rir, e então se afastou por um segundo para contornar o lábio inferior da garota com o polegar, admirando aquela boca que acabara de lhe tornar o cara mais feliz do mundo - Eu te amo muito,cariño... – saboreou cada palavra e foi pego de surpresa pelo quão doce elas pareciam em sua língua.
O sorriso de tornou seus olhos fendas pequeninas, e não demorou até que os cerrasse de vez, deixando que sua boca encontrasse a do namorado apenas para sentir nos lábios de Rafa o sabor daquela verdade.
Tinha gosto de amor.


XIV. QUÉDATE

“Quédate y te daré
Lo que me queda de sueño, te daré
Lo que me queda de paciencia, te daré
Lo que no es palpable, te daré
Lo que no es visible, escúchame
Te daré mis zapatos y mis pies
Te daré mi camisa con mi piel
La chaqueta, las prendas
Que no mencione
Quédate”

(Manuel Medrano)


mal havia registrado o som do despertador quando ele foi desligado, dando lugar aos braços de Rafael se acercando ainda mais de seu corpo, fazendo com que ela sorrisse ainda com os olhos fechados: havia poucas coisas no mundo tão gostosas quanto acordar assim, literalmente envolta em amor. Estava em Barcelona há uma semana e finalmente começava a se acostumar novamente com aquela sensação, o que era agridoce: mal começava a se sentir novamente em casa e já estava a meio caminho de partir mais uma vez.
A morena se permitiu mais alguns momentos daquele conforto sonolento - bem como a sensação da pele quente de Rafa contra a sua e a respiração pesada dele em sua nuca, para aproveitar o modo como eles tinham os braços e as pernas entrelaçados - antes de enfim criar forças para se mover. Lenta e preguiçosamente, virou-se de barriga para cima, fazendo o namorado se ajustar para manter aquele encaixe.
— Rafa, você tem que levantar… - murmurou, e sua voz tipicamente rouca como todas as manhãs fez com que fosse ainda mais difícil para Rafael sequer pensar em sair daquela cama. O rapaz resmungou qualquer coisa, apertando ainda mais os braços em torno dela, e riu fraquinho, beijando a mão dele próxima a seu rosto - Amor… - insistiu e Rafa enfim suspirou, resignado, soltando a garota muito a contragosto: quando tinha ali, ele sentia uma necessidade quase física de tocá-la tanto quanto fosse possível.
— Se você estivesse aqui todos os dias, a gente não teria esse problema… - ele reclamou, coçando os olhos para despertar.
— Se eu estivesse aqui todos os dias, você não acharia tão difícil levantar da cama. - riu, sentando-se a fim de que ele encontrasse ali algum incentivo para fazer o mesmo.
— Ah, não, olha pra isso… - Rafa pousou os olhos sobre a mulher que se espreguiçava: tinha os olhos apertadinhos de sono e sorria para ele de dentro de uma camiseta sua - Como você quer que eu te deixe aqui? - completou, puxando pela cintura tão rápido que a menina soltou um gritinho antes de cair sobre ele e sentir Rafael enterrando o rosto na curva de seu pescoço, de onde não pretendia sair mais.
— Nego, você tem que ir… - não conteve o sorriso, fazendo um carinho que em nada contribuía para a pouca determinação de Rafa em sair da cama - Não enrola, vai... - soltou uma risadinha e Rafa grunhiu seu descontentamento, afastando o rosto do pescoço dela apenas para encarar os olhos da mulher, segurando seu queixo com uma das mãos.
— Eu amo acordar contigo, sabia? - sorriu, capturando o sorriso que lhe deu em resposta com os próprios lábios, beijando-a pelo que pretendia ser apenas alguns segundos, mas que terminou em um beijo preguiçoso, sem pressa alguma de terminar.
— Rafael... - murmurou contra os lábios dele, mas não se moveu nem um milímetro, gostando demais daquele contato para se afastar.
— Hum… - ele murmurou, trocando o foco dos lábios que partiram da boca da namorada para a mandíbula e então o pescoço de , apreciando o modo como o corpo dela estremecia àquele tipo de carinho.
— Nego… - ela suspirou, implorando: só ela sabia a discrepância existente entre sua vontade de que ele continuasse ali e o autocontrole que tinha perto de Rafael, e por isso cabia a ele dar fim àquilo.
Felizmente - não que alguém tenha ficado de fato feliz naquele momento - o despertador voltou a tocar, anunciando que o prazo da soneca havia terminado. usou a distração para rolar para o lado, rindo da própria falta de controle quando se tratava daquele homem.
— Eu queria trabalhar em casa. Ser jogador profissional de FIFA. - Rafa reclamou mais uma vez, desligando o despertador e provocando na namorada uma gargalhada gostosa. Dramático que ele só...
— Vai tomar banho, anda. - mandou, virando-se de lado para checar se ele de fato se levantaria. Quando Rafa olhou para trás, ensaiando convidá-la para lhe acompanhar, completou - Não ouse. Se você se atrasar de novo, vão me proibir de vir. - riu, fazendo Rafael rolar os olhos.
— Ou talvez te convençam a vir de vez… - retrucou, andando até o banheiro da suíte sob o olhar atento de , que observava a beleza que era aquele homem até de costas - Se você continuar me olhando assim - Rafa riu, quando se virou e percebeu o olhar da namorada -, eu vou te arrastar comigo.
— Parei! Parei! - a morena gargalhou, cobrindo os olhos com um travesseiro, ouvindo as gargalhadas de Rafa para então descobrir o rosto, completando baixinho - Quando você voltar do treino a gente conversa…
ainda enrolou na cama por alguns minutos, checando o celular e respondendo a algumas mensagens, enquanto ouvia Rafael cantando qualquer coisa no chuveiro, desafinado demais para que ela reprimisse uma risada e fofo demais para que conseguisse não achar aquilo a coisa mais gostosa do mundo inteiro. Eram quase oito da manhã quando a mulher enfim se levantou, trocando a camiseta de Rafa por suas próprias roupas antes de pular escada abaixo de dois em dois degraus, quase tropeçando em Preta quando chegou à sala.
— Oi, garota! - brincou com a cadela, agitando-a provavelmente um pouco demais para uma manhã - Quer sair pra correr, quer? - continuou, rindo para a energia do labrador - Quer né, Pretinha… Me deixa só comer, ok? Senão não aguento seu pique! - coçou entre as orelhas de Preta antes de andar até a cozinha.
— Buenos días, niña! - Tita abriu um sorriso caloroso assim que adentrou a cozinha, virando uma panqueca com habilidade - Achei que ia ter que bater panelas na porta do quarto pra arrancar Rafael de lá pro treino… - completou, arrancando uma gargalhada da brasileira.
— Eu chutei ele da cama. - a morena sussurrou em tom de segredo, antes de abraçar a mulher de lado, beijando sua cabeça grisalha - Tita, esse cheiro… - cerrou os olhos com prazer, devido ao cheiro delicioso da comida, para então roubar uma banana da fruteira, sentando-se de pernas cruzadas sobre um banco - Eu tava morrendo de saudade da sua comida, pelo amor de Deus! - sorriu, fazendo a mais velha gargalhar.
— Você devia voltar… - Tita retrucou - O garoto ia ficar tão feliz, … - maneou a cabeça, completando - Vocês dois enchem essa casa.
— Quem sabe? - sorriu de canto, mordendo a banana para não precisar dizer mais nada. Aquilo estava nos planos, é claro que estava… Mas era um passo enorme. O maior de toda a sua vida, ela se arriscava a dizer. E não sentia vergonha em admitir que aquilo dava medo, na mesma proporção em que causava aquele friozinho gostoso na barriga… Aqueles que precedem as grandes aventuras.
— O que as três estão fofocando, hein? - Rafa chegou à sala, causando latidos animados em Preta.
— Falando mal de você. - sorriu, recebendo o selinho que ele lhe deu com um sorriso - Preta tá reclamando que você é um pai muito relapso e não sai pra passear com ela.
— Deixei essa tarefa pra você, mamacita. - Rafa retrucou, rindo quando tomou um gole de vitamina e terminou com um bigode divertido sobre os lábios - Quais são seus planos pra hoje? - perguntou, limpando a boca dela com o polegar.
— Combinei de almoçar com a Julia! - sorriu - Ela veio encontrar os pais, olha que sorte! - explicou.
— Hum, olha esse encontro das madames… - Rafa abriu um sorriso verdadeiramente feliz: nada lhe alegrava mais do que ver sendo cada dia mais parte de sua família.
— E marquei de encontrar com a Mica e o Guti depois, mas deve acabar antes do seu treino… - continuou, limpando a boca com um guardanapo.
— Que moça atarefada, meu Deus! - Rafael exclamou, dramático, quando na realidade ficava muito feliz por ver a namorada se mantendo ocupada, diminuindo a culpa que sentia por deixá-la sozinha o dia inteiro - E vai ter tempo pra mim nessa agenda? - brincou, arrancando uma risada de .
— Pra você eu dou um jeitinho… - ela piscou, ganhando um beijo roubado em resposta - Mas antes acho que vou mesmo dar uma corrida com essa gostosa agora de manhã. - apontou na direção de Preta, que os rodeava.
— Tá frio hein, nega… - ele espiou o lado de fora, onde o tempo fechado parecia intimidante - Pega um casaco no meu armário, suas roupas de academia não aguentam isso aqui não… - ofereceu e riu da preocupação dele, concordando por fim.
— Vai ser bom pra esquentar. - sorriu, pegando o prato de panquecas que Tita lhe estendia - Meu Deus, tá vendo porque eu preciso correr? - comentou, fechando a cara quando Rafa roubou uma das suas quando tinha ele próprio um prato cheio - EI! - a morena bateu na mão dele com um garfo, fazendo-o rir enquanto mastigava.
— Tita faz parte do meu plano pra te fazer não querer ir embora mais. - Rafa trocou um sorriso conspiratório com a mulher e foi a vez de rir - Te prender pelo estômago.
— Vocês dois estão fazendo um bom trabalho. - revirou os olhos, jogando uma quantidade generosa de mel sobre seu café da manhã - Mas você me ganhou pelo estômago desde o começo, idiota… Caí no golpe do brigadeiro.
— Sim, senhora. - Rafa sorriu, devorando suas panquecas depois de checar as horas e ver que estava quase se atrasando - Merda, vou ter que ir, morena, senão vou ter que pagar abdominal. - fez uma careta com aquela perspectiva.
— Eu não ia achar ruim… - cantarolou, sendo agarrada pelo namorado tão rápido que não teve tempo para se preparar e quase derrubou a comida.
— Você tem algo pelo que reclamar, é? - Rafa segurou a cintura dela, preparando cosquinhas que deixavam num estado ridículo que pairava entre os arrepios e as gargalhadas.
— Nãaaao! - ela protestou, se encolhendo - É brincadeira, Rafa! Brincadeiraaaa! - continuou, e estava em seu primeiro passo tentando correr quando Rafa começou as cócegas, carregando-a até que caísse no sofá, sendo atacada pelas cócegas enquanto tentava empurrá-lo com os pés em meio a risadas barulhentas.
— Gracinha. - Rafa riu do estado da garota, que secava as lágrimas que escorriam de seu rosto depois de tanto gargalhar.
— Eu te odeio! - murmurou, ainda sentindo as bochechas doloridas.
— E eu te amo. - Rafa respondeu, roubando um beijo de uma que ainda protestava - Te vejo mais tarde, cariño. Manda um beijo pra Julia, fala pra ela trazer o Gabriel aqui.
— Tomara que pague os abdominais… - devolveu um sorriso de canto, vendo então Rafael partir em busca das chaves, para então completar - Também te amo, idiota.



podia imaginar perfeitamente a expressão de Rafa e Thiago caso os irmãos estivessem ali naquele momento. Desde que haviam se encontrado, há pouco mais de duas horas, ela e Julia vinham entretidas em assuntos intermináveis - e bem, nenhuma das duas era conhecida pelo quão silenciosa sabia ser.
, e agora? Esse… - Julia se virou para , exibindo os óculos de sol - Ou esse? - questionou, trocando o que usava por um par com lentes um tanto mais claras.
— O segundo! - sorriu para o resultado: não que algo pudesse ficar ruim, quando se era tão bela quanto Julia - Combinou mais com você. - completou, e de fato o tom parecia compor melhor com os cabelos loiros da espanhola.
— Tem certeza? - perguntou, examinando-se mais uma vez no espelho - Esse não parece muito “dona de casa que só pensa em cuidar do filho?”.
— Não. - se posicionou ao lado da espanhola no espelho, sorrindo para seus reflexos - Tá mais pra ‘sexy mama que deixa o marido louco quando chega em casa’. - palpitou, arrancando uma gargalhada escandalosa de Julia.
— Eu vou levar. - a esposa de Thiago decidiu prontamente, entregando aquele par à vendedora - Ah, , por que a gente tem que morar tão longe?! - exclamou, dando um dos braços à morena enquanto andavam até o caixa.
— Nem fala, eu tô tão feliz que consegui te encontrar! - respondeu, sorrindo abertamente para a esposa de Thiago - Nem acreditei quando ligou!
— Se eu não vier de vez em quando sem o Thiago, quase não consigo ver meus pais… - a loira suspirou - É difícil viver em função do calendário deles. - completou e concordou com a cabeça, identificando-se com o que ela dizia. Em menos de um ano na companhia de Rafa, ela já era capaz de assinar embaixo do que a outra afirmava: era realmente desgastante.

— Eu imagino… - assentiu - Pra ele deve ser também, né? Vejo pelo Rafa, que morre de saudade… Inclusive, ele quer vocês! - ela lembrou de dizer - Quando você mandou aquele videozinho do Gabriel ontem, ele ficou mostrando pra meio mundo. - sorriu e Julia fez o mesmo, enquanto procurava a carteira dentro da bolsa.
— Amanhã eu levo ele pra vocês. - Julia piscou - Hoje minha mãe tá matando a saudade, duvido que largue dele tão cedo... - completou, com uma risada.
— Eu não vou julgar, as bochechas são irresistíveis… - ergueu as duas mãos em rendição - Ele deve tá enorme, né?! - exclamou, assistindo à outra pagar pela compra - Faz o que, uns três meses desde que vi vocês?
Dios mio! Já tem isso tudo? - Julia exclamou, dando-se conta de como o tempo havia voado - Então você vai tomar um susto! Quase sinto saudade de quando ele só ficava no colo, agora que tá andando, é uma loucura! - completou, fazendo rir: pelo que via dos vídeos que recebia dos pais do pequeno, ele vinha mesmo dando trabalho - Aproveita muito seu tempo sem filhos, porque quando eles chegam… - Julia fez uma pausa com direito a suspiro dramático - É a melhor coisa do mundo, mas você descobre que não sabia o que é exaustão.
— Ah, pode deixar… - garantiu, mordendo um sorriso - Isso definitivamente não está nos planos.
— Gabriel também não estava… - Julia piscou para a amiga, fazendo soltar uma risada aguda enquanto elas saíam da loja - E olha ele aí.
— Nanananão… - negou muito mais que o necessário - Eu nem moro aqui, Rafael teria que ser muito fértil.
— Querida, tudo o necessário é uma vez! - Julia continuou a rir da cara da mais nova - Além do que, os Alcântara são muito férteis, isso eu garanto. - completou, com uma piscadela, e não conteve uma risada alta - Mas falando sério agora, não sei como vocês aguentam essa distância, … - suspirou, penosamente - Eu já teria enlouquecido!
— Eu às vezes acho que vou enlouquecer… - a fotógrafa sorriu fraquinho, olhando algumas vitrines - A gente vinha levando bem, mas dessa última vez foi um pouco pior, eu acho… - completou, lembrando-se do estresse da semana anterior, ao que Julia acenou com a cabeça, compreendendo - A gente já é adulto, né? Acho que tanto eu quanto ele ficamos nessa de querer criar uma perspectiva, mas com a distância… - ela deixou o pensamento morrer, recebendo um sorriso reconfortante da cunhada.
— Eu entendo, vocês querem ter planos. - ela concordou, secretamente feliz com aquela informação que seria repassada a Thiago mais tarde: os dois disputavam com Bruna e Neymar a posição de casal apoiador de , e a luta era acirrada - Eu e Thiago ficamos tão tensos com essa briga de vocês, ... - a loira exclamou, encarando a morena ao seu lado - Rafa ficou fora de si, pobrecito.
— E foi uma coisa tão boba… - maneou a cabeça, encarando o chão por um momento, relembrando a bobagem que a levara até Barcelona há pouco mais de uma semana - Ele contou pra vocês?
— Contou pro Thiago, mas acho que a essa altura já sabe que isso é o mesmo que me contar também… - Julia riu baixo, bem como a morena - Nós dissemos a ele que ficaríamos órfãos de , se vocês terminassem! - contou, e dessa vez riu alto, abraçando-a de lado: era indescritivelmente reconfortante se sentir tão querida por aquela família.
— Eu não gosto nem de pensar nisso! - mexeu nos cabelos, ficando ao lado de Julia quando ela parou para olhar uma vitrine de roupas infantis - Mas acho que saímos melhores disso tudo, pelo menos.
— E é isso o que importa. - a loira comemorou, com duas palminhas - Vocês crianças só não se atrevam a me dar essa preocupação de novo! - ralhou de brincadeira, puxando a morena pelo braço - E vamos logo embora daqui, ou vou acabar entrando no modo “mãe” de novo e te arrastando pra dentro dessa loja. - completou e teve que se forçar a tirar os olhos das roupinhas de criança que eram as coisas mais lindas que já vira.
— Mas a gente pode olhar… - tentou dizer, sem chance de continuar.
— Não podemos, não! - Julia interrompeu, sorrindo abertamente ao parar diante de uma loja de sapatos - Eu disse “dia de meninas”. – corrigiu e riu da outra, concordando antes de segui-la para dentro da loja. - Não “dia de mamães”.



apertou os braços em torno do corpo, acercando ainda mais da pele o grosso casaco que buscava combater aquele fim de inverno. O decorrer da tarde trouxera consigo ainda mais frio, e a garota tinha o nariz vermelho e as pontas dos dedos dormentes, amaldiçoando-se uma dúzia de vezes por ter prezado tanto o fato de estar bem vestida ao invés de pegar emprestado um casaco do namorado também para almoçar com os amigos. Assim que entrou no café, contudo, a deliciosa temperatura interna fez seu coração carioca se aquecer, bem como suas mãos geladas, e ela nem mesmo teve tempo de procurar por Mica e Guti antes que o rapaz chamasse seu nome, agitando os braços feito um boneco de Olinda desajeitado e sorridente.
— Ahhhhh, eu não acredito! - Micaela abraçou a brasileira apertado, pulando na frente de Guti - Jesus, você comprou o shopping inteiro? - brincou, vendo a quantidade de sacolas que a amiga carregava.
— Muitos são presentes, ok? - ela advogou a própria causa, sorrindo - Não me julgue!
— Se tiver algum pra nós, não vou julgar mesmo... - a loira continuou, arrancando uma gargalhada da amiga - Meu Deus, eu achei que você fosse demorar mais a voltar, tô tão feliz por estar errada! - a loira exclamou, segurando pelos ombros como se para conferir se ela realmente estava ali.
— Claro que não, meu amor. - Guti enfim roubou a amiga dos braços da outra, envolvendo-a em um abraço de urso, daqueles que faziam se sentir uma criança abraçando um grande fofo urso de pelúcia - Se você tivesse um homem como o dela te esperando, também voltaria correndo… - piscou, arrancando uma gargalhada sonora de . Céus, como ela amava aqueles dois.
— Eu senti saudade até do quanto vocês são idiotas. - a morena olhou de um para o outro, com um sorriso largo - E obrigada, Guti, fico feliz por entender meus nobres motivos. - piscou, fazendo o rapaz trovejar uma risada.
— Senta, garota! - Mica apontou para a cadeira diante deles - Conta pra gente, como você tá? - perguntou, animada como de costume.
— Eu tô ótima! - sorriu, roubando um pedacinho de queijo da tábua de antepasto que os dois já haviam pedido - Só me dei conta da saudade que eu tava da cidade quando cheguei, e não tinha visto o inverno aqui né? Fica tudo tão lindo...
— Seu lugar é aqui nas quatro estações, querida. - Guti comentou, despreocupado - Achei que a gente já tivesse chegado a essa conclusão.
— Mas isso ainda tava em pauta? Achei que estivesse decidido. - Mica entrou na brincadeira, fazendo passar as mãos pelos cabelos, revirando os olhos, embora mostrasse as covinhas.
— Vocês querem parar? - riu baixo, pensando se tinham realmente tirado o dia para lhe provocar com aquela ideia - Acho que isso foi o que eu mais ouvi hoje. - justificou, arrancando um olhar idêntico de “eu disse” de Guti e Mica.
— Talvez porque seja a verdade? - ele cantarolou, mas decidiu parar de pressionar a amiga tão cedo.
— Guti, não tortura a garota. - Mica sorriu para a amiga, percebendo que a questão estava sendo um ponto verdadeiramente sensível.
— Ela que se tortura sozinha, ficando longe daquele pedaço de homem que é o namorado dela! - argumentou, como se lidasse com fatos incontestáveis.
— Marco Gutierrez! - Micaela o interrompeu, e a gargalhada de foi tão alta que arrancou um olhar atravessado do garçom, fazendo com que ela colocasse a mão sobre a boca para continuar a rir em paz.
— Eu senti saudade dessa risada. - Guti sorriu de canto - Você também? - perguntou para Mica, que concordou, com o mesmo sorriso nos lábios.
— Vocês não vão me fazer chorar sem eu ter bebido uma taça de vinho. - maneou a cabeça - Não vão…
— Vamos deixar isso pra mais tarde, então. - Micaela ergueu os braços - E falemos do que verdadeiramente importa: - pigarreou, aumentando as expectativas - Barcelona hoje chora. Guti está namorando!
— O QUÊ? - exclamou, ganhando seu segundo olhar de censura em menos de dois minutos - E você não me contou nada? Eu vou te bater! - gritou aos sussurros, divertindo-se com o fato de Guti, a mais escancarada das criaturas, ter naquele momento as orelhas vermelhas de vergonha.
— Não é um namoro. - ele fez pouco caso da questão, enquanto Mica fazia questão de fazer um sinal positivo com a cabeça, sorrindo do embaraço do amigo - Micaela é lunática, você sabe disso.
— Ele é dançarino! - Mica sorriu triunfante, ignorando o comentário de Guti, a boca de se escancarou ainda mais.
— É da dança de salão? - perguntou, referindo-se às aulas que o amigo começara há poucos meses e que vinha rendendo vídeos divertidíssimos no grupo dos amigos.
— É o professor, meu amor! - Micaela continuou e soltaram gritinhos animados, fazendo Guti provar do seu próprio veneno de envergonhar os amigos.
— Nós vamos pedir aquela torta de chocolate - apontou para a vitrine de doces, onde uma torta enorme vinha gritando seu nome desde que chegara ao local -, e você vai me contar tudo. - chamou o garçom, interrompendo Guti antes que ele tivesse chances de negar - Tintim por tintim.
Fazer Guti detalhar o romance com seu professor de dança foi a vingança de Mica e por todas as vezes que foi ele a envergonhá-las com perguntas inapropriadas. Ambas, no entanto, estavam tão felizes pelo rapaz que mal conseguiam manter a atuação no papel de inquiridoras e logo estavam querendo marcar um encontro para conhecer o digníssimo e saber se ele estava, de fato, a altura de seu tão querido amigo.
— Só um segundo. - ergueu uma das mãos, ao ver que Rafa ligava - Oi, nego! - atendeu, sem controlar uma risadinha pelo modo como Guti ergueu as sobrancelhas sugestivamente, fazendo-a rolar os olhos.
— Ei, gata! - Rafa respondeu e, pelo som distante do áudio, se arriscava a dizer que ele ligava de dentro do carro - Conseguiu encontrar o pessoal?
— Consegui!! - concordou, olhando para os dois que fofocavam a sua frente - Tô aqui com eles ainda, você já tá indo pra casa? - perguntou.
— Tô sim… Vocês vão ficar aí muito tempo ainda? - ele perguntou.
— Acho que mais um pouquinho… Você não quer vir encontrar com a gente? - propôs.
— Pode ser! - Rafa concordou de pronto, fazendo a namorada sorrir.
— Ok, então. - concordou, alegremente - Tô te esperando. Guti tem novidades! - aproveitou para provocar o rapaz a sua frente, que lhe mostrou o dedo do meio.
— Ihhh, lá vem! - Rafa gargalhou - Daqui a pouco tô aí, morena. - Rafa se despediu e enfim retornou para o assunto que ocupava os amigos.
— E aí, o que resolveram? Que dia vamos conhecer o Juan? - disse o nome do namorado de Guti com uma piscadela que em muito se parecia com as que ele dedicava a ela sempre que falavam de Rafael.
— Fim de semana que vem! - Mica deu algumas batidinhas na mesa, comemorando a vitória: ela vinha importunando Guti há semanas com aquilo, só mesmo para fazê-lo aceitar o encontro.
— Ai, eu já vou ter voltado pro Brasil! - reclamou, apoiando a testa nas mãos: era cada dia mais difícil ter o coração e a vida divididos entre lugares tão distantes.
— Querida, vamos falar sério aqui, por favor… - Guti segurou as mãos de sobre a mesa - O que te impede de vir de vez?
— Guti… - ela suspirou, preparando-se para entrar no fatídico assunto mais uma vez.
— Sem pressão! - ele deu seu sorriso mais reconfortante - Eu só quero entender o que realmente te impede de viver isso aqui à plenitude, minha amiga… O trabalho lá é tão irrecusável assim? - questionou, buscando um motivo real.
— Eu até queria que fosse. - tomou um gole de seu café, encarando a xícara por um momento - Mas não. Eu ando, inclusive, entediada de tudo. Quase… das pessoas, sabe? Parece que hoje eu só faço fotografar blogueira, e Deus me perdoe, porque são minhas amigas, mas… - continuou, arrancando risadas dos outros dois.
— Eu entendo. - Mica concordou prontamente, dando de ombros - Foi por isso que saí do estúdio do Mario. E o Guti também.
— Na-não. - o rapaz protestou, de pronto - Eu tava muito bem entre as modelos, atrizes… É tanta riqueza que dá até a impressão de que isso pega! - completou e não conteve uma gargalhada, sendo mais uma vez censurada pelo garçom sem senso de humor - Você me obrigou a desertar com você. - acusou, tirando sarro da amiga, quando na realidade acompanhou a decisão de Mica por também partilhar da mesma vontade que ela tinha de fazer algo diferente com o próprio trabalho. Algo que não aumentar o ego de pessoas já desumanamente bonitas - Voltando ao que interessa: se não é o trabalho, o que é, então?
— Medo, eu acho. - sorriu fraquinho, quase envergonhada - É insano largar tudo por causa de um amor, sabe? - deu de ombros, sendo sincera - É o tipo de coisa que meu lado aventureiro morre de vontade de fazer, mas também é o que faz minha metade racional querer esfaquear a metade sentimental com uma faquinha de manteiga, entende? - completou, fazendo os amigos gargalharem da analogia.
— Eu entendo perfeitamente. - Mica concordou, com toda a praticidade que lhe era tão peculiar - Fora o medo de se tornar dependente de um cara. - completou e concordou.
— Além de tudo, eu quero sair da casa dos meus pais. - voltou a dividir com os dois os motivos de sua ansiedade nos últimos tempos - Mas não quero fazer isso sem ter certeza do que vou fazer com o trabalho, porque ultimamente eu realmente não sei se quero continuar com o estúdio. Então tá tudo uma bagunça.
… - Mica sorriu, interrompendo-a com um olhar divertido - Se já tá uma bagunça, o trabalho não te encanta mais e você já tava até pensando em sair de casa… Talvez seja a hora certa.
— Mas isso é diferente de vir pro outro lado do mundo! - a morena maneou a cabeça, brincando com a borda da toalha de mesa para evitar olhar para os amigos.
— Meu amor - Guti soltou uma risada -, se ninguém te disse isso ainda, eu vou dizer: uma hora vai ter que vir pra cá, se vocês pretendem continuar juntos. E eu sei que pretendem. - disse tão direto que não conseguiu responder - Por mais incrível que seja seu príncipe encantado, a carreira dele não é flexível. Mas a tua é, garota!! Para de brigar com o destino, que ele tá tentando te trazer pra cá!
— E você pode vir pra cá e começar de novo com a gente. - Mica acrescentou, com um sorriso pequenininho, que conquistou também um no rosto de .
— Eu odeio vocês. - ela gemeu, e os dois a conheciam o suficiente para interpretar aquilo como o que verdadeiramente significava: ela os adorava de todo o coração - Eu vou pensar, ok?
— Ótimo! - Guti exclamou, erguendo os olhos por um momento - Você pensa nisso, enquanto eu penso em como você consegue dizer não pra isso. - completou, fazendo sorrir um segundo antes de sentir os lábios de Rafael colados bem atrás de sua orelha, dando um beijo leve que a pegou de surpresa.
— Olha que eu sou comprometida… - ela encolheu o pescoço, rindo quando Rafael piscou para ela com um sorriso enviesado.
— É mesmo? - ele forjou uma expressão chateada, antes de alargar o sorriso que fazia um idêntico surgir no rosto da namorada - Que cara de sorte!


XV. QUISIERA

“Y si te vas
Quien me dará
Todo lo que siempre soñé
Quien le dirá al corazón
Que jamás nunca te tendré

Quisiera tenerte en cada primavera
Poder amarte a mi manera
Desvelarme la noche entera
Cuidar tus sueños así quisiera”

(CNCO)


— Morena, você tem certeza? - Rafael tinha uma expressão tão temerosa que conseguiu rir, ainda que por dentro tremesse de ansiedade - Você não precisa fazer se não quiser.
— Eu quero. - ela murmurou, respirando fundo uma vez, a fim de se livrar de parte da tensão - É só que… Vai doer. - gemeu e foi a vez de Rafa rir, abraçando a garota de lado enquanto beijava seus cabelos, a fim de lhe passar alguma confiança.
— Só um pouquinho. - ele sorriu de canto - Mas é uma dor gostosa, eu prometo. - ele assegurou, segurando a mão da namorada antes.
— Da última vez que eu escutei isso… - maneou a cabeça, rindo pelo nariz, mas Rafael não teve a mesma compostura em sua risada, enquanto entravam no estúdio de tatuagem.
Aquela não era uma decisão repentina - fazia algum tempo que a garota queria, de fato, inaugurar seu corpo como tela - mas foi necessário um empurrãozinho de Guti, Rafael e Micaela, todos extremamente tatuados, para que ela enfim decidisse fazer aquilo, apenas para que os três engraçadinhos parassem de lhe encher o saco por ser medrosa. E agora ela estava ali, encarando as paredes cheias de desenhos e sentindo o estômago se afundar de aflição e expectativa.
— E aí, cara! - Rafael sorriu assim que viu Frank, seu tatuador e grande amigo - Valeu por conseguir assim tão em cima da hora… - agradeceu, cumprimentando o outro com uma batida de ombros - Mas não podia perder o momento de coragem dessa aqui. - riu e revirou os olhos para a gracinha.
Frank era bem menos tatuado do que imaginaria para alguém com a sua profissão, e tinha um sorriso simpático que fazia com que ela quase confiasse nele para furá-la milhares de vezes com uma agulhinha infernal.
— Que isso, Rafa… - o rapaz fez pouco caso daquela questão e, ao pousar os olhos sobre , detectou ali a indisfarçável tensão da garota - Primeira vez? - questionou e a brasileira soltou o fôlego de uma vez antes de responder.
— Sim! - ela suspirou, fazendo os dois rirem alto.
— Tá morrendo de medo, Frank. - Rafa comentou, apertando a cintura da garota e ganhando um tapa em resposta - Já falei que eu faço uma também, em solidariedade. - completou.
— Claro, não vou passar dor sozinha. - deu de ombros.
— Você já tem o desenho, ? - Frank perguntou e a morena assentiu, tirando o celular da bolsa e pegando uma foto que tinha salvado há meses, quando decidiu o que faria. Rafa esticou o pescoço para ver também, já que ela vinha fazendo segredo sobre aquilo.
— Coordenadas. - Frank sorriu, aprovando o desenho delicado - De onde?
— Daqui, de Barcelona. - deu um sorrisinho e seus olhos involuntariamente buscaram os de Rafael, deparando-se com um sorriso enorme preenchendo os lábios do rapaz e dando àquela boca seu melhor enfeite.
Desde que aquela ideia surgiu, ela soube que seria aquela a sua primeira tatuagem: Barcelona não era só a cidade que lhe trouxera Rafael, era mais que isso. Ali ela vivera alguns dos melhores meses de sua vida, e ela sentia que havia muita verdade nas palavras de Guti ao dizer que ‘aquele era seu lugar, nas quatro estações do ano’.
— Coisa linda. - Rafa puxou a namorada para ainda mais perto, beijando sua testa - Vai ficar demais.
— Vai sim! - Frank concordou, indicando uma sala para que os dois entrassem, fazendo voltar a sentir um frio no estômago quando se deparou com uma cadeira que em muito lhe lembrava as de dentista - Onde pensou em fazer?
— Aqui, entre as escápulas. - levou uma das mãos à nuca - Em cima da coluna mesmo, sabe? Na vertical. - explicou e Frank assentiu uma vez, sentando-se no notebook para abrir diversas fontes, passando por uma dúzia delas até que escolhesse uma.
— Assim? – perguntou aos dois que se esticavam por trás dele para ver o resultado.
— Menor! - protestou e Rafael riu do pânico de agulhas da garota - Assim tá bom, senão vai sumir... - aprovou o resultado, sentindo que a coisa ficava realmente séria quando Frank imprimiu a imagem, passando-a rapidamente para o stencil.
— Vou aplicar agora pra você ter ideia de como vai ficar, ok? - o tatuador avisou e assentiu uma vez, livrando-se do casaco com uma demora deliberada para que se acalmasse no processo. Tirou então as duas blusas de frio, entregando-as a Rafael, que a observava com olhar de divertimento. Quando restou apenas uma regata, a morena tirou os cabelos das costas, dando um sorriso nervoso ao namorado no momento em que sentiu que Frank transferia o desenho para a sua pele.
— Podia ser assim, né? Tipo tatuagem de chiclete. - brincou, mordendo o lábio inferior com uma risadinha aflita.
— Você vai se sair bem, cariño. - Rafa incentivou, posicionando-se de modo a ver o desenho - Ah, ficou do caralho! - exclamou, verdadeiramente satisfeito, e enfim teve coragem de se virar para ver a imagem no espelho: era exatamente o que ela queria.
— Pelo sorriso, acho que podemos começar. - Frank riu da expressão encantada da brasileira, que voltou a fazer uma careta teatral, sentando-se de costas na cadeira.
— Shh, fica tranquila… - Rafa puxou um banco para se sentar de frente para ela, segurando suas mãos geladas - Relaxa, que antes do que você imaginar, já vai ter terminado. - assegurou e ergueu os olhos para ele, desconfiada.
— Se você estiver me enganando, Rafael Alcântara… - ela ameaçou, mas mordia um sorriso. O medo já dava lugar a expectativa, e agora ela não via a hora de ver o resultado.
— Não tô, mami… - Rafa se defendeu, com uma risada - É suportável e vai te deixar mais gata ainda.
, vamos começar, ok? - Frank avisou, recebendo o aval da garota, que sentiu que poderia gritar só de nervoso ao ouvir o barulho da máquina.
— Você vai ter que beijar essa merda todos os dias, Rafael - ameaçou e o namorado gargalhou alto ao concordar.
— Com prazer, morena. - garantiu, assistindo com um sorriso mínimo quando a namorada cerrou os olhos bem apertados, aguardando a dor.
Não era tão tranquilo quanto Rafael dizia, mas passava longe de ser a tortura chinesa que havia imaginado. Depois de alguns minutos, ela parou de morder a parte interna das bochechas e conseguiu começar a conversar com Rafa e Frank, focando em algo que não as agulhadas que formavam os símbolos em suas costas.
— Falta muito? - ela gemeu a certo ponto, cravando as unhas nas mãos de Rafael quando o incômodo pareceu um pouco pior.
— Três números, tá quase! - Frank avisou, deixando que ela tirasse alguns segundos para respirar.
— Viu, nem chorou, cariño… - Rafa deu um sorrisinho quase debochado, e teria respondido, se não estivesse concentrada demais em ignorar a dor por mais alguns minutos.
— Pronto, garota! - Frank sorriu, desligando o barulhinho infernal e limpando a tinta e o sangue das costas da garota, revelando a imagem que agora adornava suas costas: as coordenadas de seu lugar no mundo - Mandou bem demais pra uma primeira! Agora vai ver o que é vício.
— Porra, morena… - Rafa sorriu para o resultado - Ficou sensacional! - exclamou, admirando o resultado: ele sempre amou descobrir desenhos no corpo de uma mulher, e se já lhe parecia irretocável antes, agora ela era o espetáculo completo.
se levantou, mexendo os braços para aliviar a dor de ter ficado na mesma posição, para então se virar, vendo os caracteres marcados em sua pele: era delicada e charmosa, além de carregar um grande significado em segredo. Era perfeita.
— Frank, eu amei! - exclamou, com um sorriso largo - Valeu cada agulhadinha! - brincou, arrancando uma risada do tatuador - Agora é a sua vez! - apontou para Rafael, não pretendendo deixar que ele passasse ileso àquilo - Você vai fazer uma bem grandona, né? - deu um sorriso arteiro - Bem doída.
— Você quer me ver sofrer, é? - Rafael ergueu uma sobrancelha, e o sorriso da namorada se alargou - Não, você me deu uma ideia, na verdade.
— Nem vem me copiar!! - implicou de brincadeira e Rafa revirou os olhos.
— Não vou fazer igual, palhaça. - ele riu, pegando o celular para fazer uma pesquisa, enquanto Frank terminava o curativo nas costas de .
— Deixa eu ver!! - saltitou feito criança na direção dele, e Rafa ergueu o celular, mostrando coordenadas diferentes das que agora trazia na pele.

“22° 54′ 13″ S, 43° 12′ 35″ W”, Rio de Janeiro.



— Nego, você parou esse carro aqui na cidade mesmo? - perguntou, tendo a impressão de que eles já andavam há horas, quando na verdade não passava de alguns minutos.
— Anda, preguiça… - Rafa riu, puxando a manga do casaco da namorada para que ela acelerasse o passo, mas sentia as articulações quase congeladas e queria ser rebocada. Ela não fazia ideia de que aquela cidade podia ficar tão fria!
— Ai, pera. - a morena deu uma corridinha para alcançá-lo - Me manda a nossa foto? - pediu enquanto respondia às mensagens do irmão - O idiota do Luis Felipe não tá acreditando que eu realmente fiz a tatuagem. - bufou, recebendo uma risada do namorado.
— Esfrega na cara dele o tanto que ficou foda, então. - Rafael pegou o próprio celular, mandando para ela a foto que tinham tirado no estúdio, em que os dois estavam de costas, mostrando as tatuagens: a de entre as escápulas, a dele uma linha fina logo acima do cotovelo.
— HÁ! - sorriu, triunfante, quando o irmão enviou uma série de emojis de espanto, seguido de um áudio - Pronto, agora parou a gracinha. Já entrei pro clubinho de vocês. - mostrou a língua para Rafa, que a abraçou de lado, tomando cuidado de não tocar o curativo ou sabia o escândalo que faria, só pelo drama.
— Já pode sentar com a gente no almoço. - Rafa respondeu e recebeu um tapa pela gracinha, e soltou uma exclamação de dor que fez se sobressaltar, abraçando o braço dele imediatamente.
— Ahhhh, amor, desculpa! - pediu, desesperada, fazendo um carinho desajeitado na parte de trás do braço dele, mas ao subir os olhos para o rosto de Rafael, deparou-se com o sorriso safado que ele carregava - IDIOTA, nem foi nesse braço! - finalmente percebeu e, apesar de empurrá-lo e tentar forjar uma expressão irritada, não conseguiu reprimir uma risadinha.
— Vem cá, gostosa. - Rafa esticou o braço para trazê-la para perto novamente e riu da cara de brava que ela fazia. bufou, deixando o canto da boca se erguer em um sorriso pequenininho, enquanto olhava para ele pelo canto dos olhos: Rafael falando espanhol era um espetáculo à parte, mas havia algo em seu ‘carioquês’ carregado que fazia com que aquele ‘goxtosa’ fosse o suficiente para derretê-la por inteiro.
— Só porque tá frio. - ela aceitou o braço que ele passou em torno de sua cintura, descansando a cabeça sobre o ombro de Rafa, mas logo ele se livrava do abraço, parando por um instante para tirar a touca que usava, para colocá-la então sobre os cabelos da namorada.
— Pronto, senhorita “sou-do-Rio-e-não-aguento-frio”. - implicou, antes de roubar um beijo dos lábios de , vermelhos de frio - Eu te esquento. - ele murmurou contra a boca de , que lhe respondeu com um sorriso.
— Eu esp-... - se afastou para completar, mas interrompeu a própria fala ao perceber que os dois eram observados por um grupo de garotos - Rafa, eu acho que é com você. - apontou com a cabeça, sorrindo de canto para o grupo de adolescentes.
Bastou que Rafael se virasse para olhá-los para os garotos tomarem coragem de se aproximar, tirando os celulares do bolso. sorriu para cena: ela nunca se cansava de ver o modo como o namorado sempre tratava a torcida, porque sabia que ele era com eles exatamente do jeitinho que era na vida.
— Rafa, a gente pode tirar uma foto com você? - um deles, o mais baixinho dos três, finalmente falou, recebendo um sorriso simpático do brasileiro.
— Claro, po… - Rafael concordou e os três se revezaram em selfies com o meio-campista de seu time do coração.
— Rafa, você vai começar o próximo jogo? - um deles perguntou, animado.
— Vamos ver… - o jogador desconversou, rindo - Espero que sim!
— A gente pode tirar de todo mundo? - um dos garotos pediu, arriscando um olhar tímido para - Vo-você…
— Claro! - abriu um sorriso largo, pegando o celular da mão dele e esperando até que os quatro se ajeitassem - Aí não, virem pra cá! - pediu, sem controlar o próprio feeling de fotógrafa que sempre procurava pela melhor iluminação, o que fez Rafa soltar uma risada - Aí, pronto! Olha o ‘xis’! - ela brincou, sorrindo para a foto - Prontinho! - aproximou-se para devolver o celular e se deparou com Rafa gargalhando junto com os garotos - Aqui.
Gracias! - ele agradeceu, quase correndo para sair dali - Valeu, Rafa! - os três se despediram, deixando para trás um Rafael sorrindo sozinho.
— Acho que você arrumou fãs. - piscou para a namorada, e gargalhou de surpresa - Ganhei parabéns. - continuou, fazendo a morena revirar os olhos.
— Rainha dos baixinhos, eu mesma. - fez uma dancinha engraçada, deixando-se abraçar por Rafa enquanto continuavam a andar até o carro que ela finalmente avistava - Graças a Deus, achei que a gente ia a pé! - reclamou, sentindo os pés reclamarem de dor de dentro das botas.
— Vem, madame! - Rafa riu, revirando os olhos e pegando de surpresa ao segurá-la no colo.
— Rafaaaaa! - escondeu o rosto no pescoço dele - Não precisa disso, que vergonha! - forçou o corpo para baixo, mas Rafa só a colocou no chão quando chegaram ao carro - Eu não te mereço.
— Entregue. - Rafa abriu a porta para a garota, sorrindo de canto enquanto esperava que ela entrasse.
— Você nem existe de verdade, eu tô concluindo isso. - riu baixo, assim que ele se sentou ao seu lado - É um robô que tão testando, colocaram aqui comigo pra ver se conseguem criar o homem mais maravilhoso de todos… - brincou, arrancando um sorriso do namorado.
— Pra combinar com você, cariño... - Rafa sorriu, fazendo um carinho próximo ao joelho da namorada antes de girar a chave na ignição - Ainda são sete, que tal a gente pegar um cinema e depois sair pra jantar? - propôs, enquanto manobrava para sair da vaga até onde ele havia parado o carro - Faz tanto tempo que a gente não vai...
— Aiiii, nego… - gemeu, quase manhosa, recostando no ombro dele - A gente não pode ver em casa? - propôs, com um sorriso que buscava convencê-lo da ideia de ver um filme embolados no sofá - Eu to aleijada, não posso ficar sentada numa poltrona de cinema. - fez um drama, já que o local da tatuagem não passava de um dolorimento brando.
— Mas aí não tem graça! - Rafa protestou, com um bico que fez sorrir. O filho da mãe não precisava de muito para convencê-la de quase tudo o que quisesse.
— Claro que tem. - começou sua argumentação infalível - Em casa tem eu e você e muitas cobertas quentinhas. - ergueu o rosto para dar um sorriso esperto, preparando seus argumentos para o fim - E a minha pipoca internacionalmente premiada como a melhor do mundo.
— Você joga baixo demais, preta. - Rafa maneou a cabeça, rindo consigo mesmo, e soube ali que a discussão estava ganha.
— Eu deixo você escolher o filme, tá? - ela cantarolou, sendo logo interrompida.
— Mas só se você fizer aquele brigadeiro! - ele acrescentou - E amanhã cinema, sem falta. Quero ver Jurassic Park.
— Combinado! - sorriu, feliz com a ideia da noite que classificaria como perfeita - E é Jurassic World. - corrigiu com um sorriso arteiro, apertando a bochecha de Rafa e recebendo uma mordida em resposta, que só foi interrompida quando um celular tocou - É o seu ou o meu? - perguntou, revirando a própria bolsa em busca do som.
— Seu. - Rafa avisou, olhando para a luta da morena ao tentar encontrar o aparelho.
— É a Julia. - ela avisou, atendendo com um sorriso - Mas já sentiu saudades, meu Deus? - brincou, mas não demorou a franzir o cenho, com uma expressão preocupada - Claro! Claro que pode… Nós já estamos indo pra casa. Tem certeza de que não precisa que a gente vá com você? - completou e Rafael foi tomado de tensão,
— O que foi? - perguntou, assim que a morena desligou.
— A mãe dela tava com uma dor esquisita, levaram pro hospital e parece que é vesícula. Vai ter que operar, mas ela disse que tá tudo correndo bem. - explicou e Rafa arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Ela não quer que a gente vá pra lá? - perguntou, querendo ajudar a cunhada.
— Só pediu pra gente ficar com o Gabriel, porque vai passar a noite no hospital. - explicou e o namorado assentiu, relaxando, enfim, no banco do carro.
— Será que eles já deram pipoca e brigadeiro pra ele? - alargou o sorriso, depois de alguns segundos, e soltou uma risada gostosa.
— Rafa, a gente não vai estragar a criança! - ralhou, revirando os olhos.
— Claro que vai! - Rafa protestou, animado com a ideia - A gente é tio, morena! Esse é o nosso papel no mundo.



— Tio Rafa!! - Gabriel pulou do colo da mãe direto para o colo de Rafael, que tão logo abriu a porta, se agachou para receber a criança nos braços - Cadê Petinha? - chamou, espiando por cima de Rafa em busca da cadela que era maior do que ele.
— Pretinha tá dormindo, cara… - mentiu, porque já era tarde para deixar Preta bagunçar dentro de casa, especialmente na companhia de Gabriel - Julia, tem certeza de que tá tudo bem? - perguntou, abraçando a cunhada brevemente.
— Tá sim, Rafa… - ela concordou - Vocês já tão salvando a minha vida ficando com esse aqui. - respirou fundo, entregando para ele as duas bolsas do bebê - Eu trouxe o berço também, tá no carro. - avisou, vendo Rafael fazer um malabarismo para equilibrar tudo - Cadê ?
— Deve tá saindo do banho. - explicou, colocando Gabriel no chão para explorar - Se precisar de qualquer coisa você liga? - perguntou, vendo a loira assentir com um sorriso fraco.
— Hoje mesmo falei com a que ele tá dando trabalho, e agora tô abusando de vocês. - desculpou-se.
— Para com isso. - Rafa a abraçou de lado, beijando os cabelos da cunhada - Vai cuidar da sua mãe, deixa que a gente cuida desse aqui. - assegurou, rindo de Gabriel, que já batia no vidro que separava a sala da varanda, chamando Preta.
— Julia! - desceu as escadas, com os cabelos ainda molhados - Como você tá? E a sua mãe? - perguntou, segurando a amiga pelos ombros.
— Tudo sob controle, não se preocupem. - a esposa de Thiago assegurou - Oh, Gabriel já jantou, daqui a pouco já deve pedir mamadeira e dormir… - explicou, torcendo para que o filho não desse muito trabalho - Ele ama Pocoyo, se não conseguirem fazer ele sossegar, podem ligar que ele fica quietinho. - lembrou-se de recomendar, vendo o casal assentir com um sorriso - Qualquer coisa me gritem.
— A gente vai ficar bem. - beijou o rosto dela - Vai tranquila!
— Eu acho que vou antes dele me ver… - Julia espiou o filho, distraído pela sala - Rafa, me ajuda a pegar o berço no carro? - pediu e o rapaz assentiu, saindo e aguardando por ela - Obrigada por isso, . Eu fico mais tranquila sabendo que você tá aqui… - confessou e Rafa soltou um ‘eiiii’ ofendido, apenas para fazê-las rir: ele também ficava.
Depois de pegar o berço, largando aquele trambolho retrátil em qualquer ponto da sala, Rafael se aproximou do sobrinho, que já estava sentado no chão, na companhia de .
— Você lembra dela, Gabs? - ele perguntou, sentando-se ao lado dos dois no tapete. A criança olhou de um para o outro com olhos curiosos, e então escalou o colo do tio, escondendo-se - Tá com vergonha, é? É a Tia … - sorriu, virando-o de frente para a namorada.
— Eu lembro de você deeeeesse tamaninho, Biel. - brincou, arrancando um sorrisinho dele.
! - Gabriel alargou o sorriso, pulando para o colo dela, apenas para contrariar o que a mãe dissera: se havia algum sono ali, ele havia evaporado.
Quase duas horas depois, após muita farra, Pocoyo e cavalinho em cima da Preta, o garoto finalmente começou a dar alguns sinais de cansaço, o que não era tão tranquilizador quanto parecia: ele ameaçava chorar, fazendo manha, e Rafael não sabia mais o que fazer para distrair o sobrinho enquanto preparava a mamadeira do bebê.
— Ô, … - Rafa chamou. Era um cantado, com um desenho infantil como música de fundo, e foi capaz de fazer a mulher sorrir à distância - Moleque, aí não!! - exclamou e pôde ouvir os passinhos rápidos de Gabriel correndo pela sala, seguido dos do tio.
Mamá! - o pequeno chamou, ensaiando um choro - Mamá, mamá! - continuou a chamar por Julia, vasculhando a casa: as primeiras horas na companhia de Rafa e tinham sido de muita brincadeira, mas agora com a chegada do sono, vinha também a vontade do colo de mãe.
— Mamãe já vem, cara. - Rafa tranquilizou a criança, pegando-o no colo - Vamos ver a tia ? Acho que ela foi tirar o leite pra sua mamadeira láaaa da vaca… - exagerou pela demora da namorada, e a gargalhada de coincidiu com o momento em que chegou à cozinha.
— Tem que ficar quentinho, tá muito frio, Rafael! - revirou os olhos, testando a temperatura do leite, pingando um pouquinho nas costas da mão. A morena tinha os cabelos presos e vestia um moletom que lhe chegava às coxas, enquanto esquentava a mamadeira da criança.
— Olha que tia mais linda eu arrumei pra você, Gabs. - Rafael murmurou para o sobrinho, recebendo um sorriso da namorada que forjou covinhas charmosas nas bochechas da mulher.
— Que neném mais gostoso que eu ganhei, isso sim! - sorriu na direção dos dois, apertando o nariz de Gabriel de levinho, fazendo o pequeno fazer uma careta divertida - Olha o que temos aqui! - sorriu, levantando a mamadeira, e os olhinhos de Gabriel brilharam. O bebê se jogou na direção da mulher, fazendo Rafa sorrir.
— Calma, garoto… - passou o sobrinho para o colo da namorada, vendo-o se aconchegar no colo da garota, mamando avidamente sem tirar os olhos dela.
— Você já colocou o berço no quarto? - a morena perguntou, recebendo um aceno positivo do namorado: o berço portátil que Julia tinha levado junto com Gabriel, além das duas malas contendo tudo o que ele poderia precisar e mais um pouco, era a verdadeira salvação - Vou subir com ele, então. - avisou, embalando a criança levemente antes de subir para o quarto de Rafael, disposta a colocar o pequeno para dormir.
Com a luz do quarto apagada, a mamadeira e cantarolando baixinho, o sono não tardou a pegar Gabriel de jeito, e em quinze minutos a garota já descia as escadas, apenas para se deparar com um cheiro delicioso que fez um sorriso nascer em seu rosto.
— Quê isso? - perguntou, já se enchendo de expectativa, enquanto rumava para a cozinha apenas para encontrar Rafael despejando uma panela de brigadeiro num prato - Ahh não! - ela exclamou, agarrando o namorado pela cintura e mordendo seu ombro, onde depois pousou um beijo - Eu já disse que te amo hoje?
— Você ama brigadeiro, isso sim. - ele corrigiu, com uma risada, colando a boca à de por um segundo, dando uma mordidinha no lábio inferior antes de se afastar.
— Eu amo você e brigadeiro. - devolveu, mordendo um sorriso - As coisas não são excludentes. Pelo contrário, ficam ótimas juntas.
— Sabe o que mais fica ótimo junto? - Rafa perguntou, abraçando a garota com um sorriso enviesado - Eu… - ele desceu os lábios até o pescoço de , fazendo-a se encolher com um sorriso involuntário - E você… - continuou, subindo os lábios até a orelha da namorada, que sentiu um arrepio gostoso subir por sua espinha, passando as mãos imediatamente em torno da cintura dele - E sua pipoca premiada. - terminou, frustrando qualquer vontade na namorada, que revirou os olhos para o sorriso sacana que ele lhe dava - Anda, faz pra gente… Vou escolhendo um filme.
— Depois eu é que só penso em comida! - retrucou, mas já procurava o milho no armário - Não coloca terror! E não come brigadeiro sem mim!! - acrescentou, ainda mais alto.
— Mas você vai dormir comigo, morena! - Rafael aumentou o tom de voz, para se fazer ouvir da sala - Pode me agarrar a noite toda. - acrescentou e teve que rir.
— Nem assim, Rafa, não ouse! - protestou, começando a estourar a pipoca com muita manteiga. Ele gritou o nome de meia dúzia de filmes: chegava a ser engraçado: ele fazia questão de escolher o que veriam, mas pedia sua opinião a cada minuto.
— Velozes e Furiosos, então? - Rafa perguntou, sabendo que aquele era um tiro certeiro.
— O sete!!! - a garota pediu, de imediato: aquele era o seu preferido, sempre seria.
— Não vai chorar, hein. - Rafa alertou e já rolou os olhos: é claro que ela choraria no instante em que Paul Walker aparecesse. E, cá entre nós, ele também.
— É claro que vamos. - corrigiu, chegando à sala com um pote de pipoca amanteigada, jogando-se ao lado de Rafa no sofá e se enfiando no abraço dele sob as cobertas - Aumenta o volume da babá eletrônica! - ela se lembrou de pedir, sentando-se para procurar o aparelho.
— Ela tá toda mamãe, meu Deus... - Rafa implicou, fazendo o que ela pedira e pedindo aos céus que Gabriel tivesse a melhor noite de sono de toda a sua vida e só acordasse na manhã seguinte - Treina mesmo, amor.
— Liga isso logo, vai. - riu, enchendo a boca de pipoca - Antes que você resolva treinar outra coisa... - brincou e Rafa sorriu para a ideia, puxando a garota para que ela se aconchegasse em seu abraço.
Naquela noite, sob uma montanha de cobertas, Rio e Barcelona adormeceram lado a lado.




Continua...



Nota da autora: Att dupla? É isso mesmo???
O patrão enlouqueceu!! Hahahahahah
Queridas, esse capítulo saiu tão rapidinho e fluiu de forma tão gostosa, que eu não quis cortar parte alguma dele pra fazer caber no padrão do tamanho dos anteriores, por isso cá estamos, divididos.
Sei que não tivemos graaandes acontecimentos, mas espero que a fofura do casal tenha valido a pena e a leitura! Me contem aqui embaixo o que acharam! Eu vou adorar saber ❤️
Beijinhos, Belle!




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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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