Capítulo 42
Duas horas antes do Encontro das Tropas.
O salão do conselho estava frio, o ar denso e havia muita expectativa de todas as partes. Eu havia feito minha parte do plano de , assim como todos os outros membros do Golpe contra a Coroa, que carinhosamente decidi apelidar, por mais que os filhos da Coroa não quisessem admitir.
O som distante dos sinos do castelo se misturava ao eco das botas dos guardas no corredor. Leigh-Anne sentou-se à cabeceira da mesa, a postura ereta e o rosto impecável como sempre — a mesma serenidade que ela usava para esconder o caos que se aproximava.
estava ao seu lado, revisando relatórios de inteligência, o cenho franzido. , por outro lado, mantinha os braços cruzados, o olhar fixo em algum ponto indefinido da parede, enquanto caminhava em círculos, inquieto como um leão preso.
— Então é isso — disse , por fim, quebrando o silêncio. — Valaydes e Demph estão ancorando suas frotas no litoral, e esperam um gesto diplomático. Querem conversar antes de agir. — Leigh-Anne ergueu os olhos do cálice de vinho que girava entre os dedos.
— E é exatamente isso que vamos dar a eles. Uma conversa — disse, como se a simples palavra fosse suficiente para conter uma guerra. bufou, impaciente.
— Isso não é um jogo de salão. Eles vêm com exércitos, não com diplomatas.
— E por isso mesmo precisam de uma rainha que saiba negociar — rebateu ela, seca, pousando o cálice. — Avallon não cairá por causa de rumores ou bravatas.
— Negociar o quê, exatamente? — perguntou, a voz mais baixa, mas carregada de desconfiança. — Nossos aliados acham que fomos nós que rompemos o tratado. E… bem, com Vantron nas nossas fronteiras, é difícil convencê-los do contrário.
— Vantron é um mal necessário. O mundo muda, . É preciso saber escolher em que lado da mudança queremos estar. — A tensão cortou o ar. Leigh-Anne sustentou o olhar do filho, e um meio sorriso frio surgiu em seus lábios. se aproximou da mesa, batendo as mãos sobre o tampo de madeira.
— E o senhor Vantron é o lado certo, então? — perguntou, com ironia. — O mesmo homem que devastou as fronteiras de Demph e Valaydes há menos de um ano?
— O mesmo homem que agora traz uma frota que pode nos proteger — ela retrucou, levantando-se. — Ou vocês preferem ver o castelo em chamas? — encarou o chão, frustrado.
— Já está. Você que não percebeu ainda. — Um silêncio pesado caiu na sala. parou de folhear os relatórios. Leigh-Anne caminhou até a janela e observou o horizonte cinzento. Dava pra ver o mar revolto, refletindo o céu carregado de tempestade.
— Partiremos para o Porto assim que sairmos daqui. Receberemos Valaydes e Demph com honras. Enquanto eles discursarem sobre o tratado e lealdade, eu observarei cada um deles. Saberemos quem está disposto à paz e quem já decidiu pela guerra.
— E se a resposta for guerra? — perguntou, de braços cruzados.
— Então, Avallon responderá com fogo — disse a megera, com um sorriso cruel nos lábios, mas o olhar firme e frio. — Encarei os filhos dela, vi o olhar tenso de . Vi engolir seco e fechar a mão, controlando-se. Vi balançar a cabeça, completamente exausto das decisões da mãe, encarando-a como se estivesse procurando uma fagulha da mulher que um dia ela foi antes de conseguir a Coroa. — Preparem-se. Não quero atrasos. Mostraremos ao mundo que Avallon tem uma líder de verdade.
Por fim, ela saiu da sala, deixando-nos em silêncio. Nos entreolhamos e pude ver que a ficha dos trigêmeos tinha caído: o testemunho do início de algo irreversível.
— Bom, como meu marido dorminhoco diria: vamos para a luta — falei estalando os dedos.
— Vamos fazer história para contar para ele depois. — sorriu. Forçou um dos seus belos sorrisos confiantes, mas sorriu. Aquilo fez com que a gente sorrisse junto.
Nos fez ter esperança, pois era nisso que eu me agarrava agora. A esperança de poder contar para meu marido como foi que conseguimos
No Porto.
O vento cortava como lâminas finas. As bandeiras de Avallon tremulavam no alto dos mastros, e o rugido do mar parecia antecipar o que estava por vir. Eu nunca gostei do Porto. Sempre me pareceu um lugar de despedidas — e agora, tudo em mim dizia que, dessa vez, não haveria volta.
A comitiva seguia em silêncio, os cascos dos cavalos afundando na lama fria que a chuva da madrugada havia deixado. À frente, minha mãe montava com a postura de uma rainha feita de pedra: o rosto inabalável, os cabelos presos com perfeição, e aquele olhar que sempre misturava cálculo e orgulho.
vinha ao meu lado, a capa escura cobrindo parte do rosto. cavalgava alguns metros atrás, inquieto como sempre. Dava pra sentir a tensão dele no ar — como se o corpo todo estivesse prestes a explodir em fúria contida.
— Ela realmente acredita que vai conseguir negociar com Valaydes e Demph — murmurou , baixo, para que só eu ouvisse. Assenti, mantendo o olhar à frente. — A mãe sempre acreditou que pode negociar com qualquer um. — Ele soltou uma risada curta, sem humor. Sentia a amargura nele. — E o problema é que, de algum modo, ela sempre consegue.
Eu não respondi. Não queria falar sobre isso. Não queria falar sobre nada, na verdade. Desde o golpe contra o meu pai, algo em mim se fechou de vez. A voz dela ainda ecoava nos corredores, as ordens dela ainda moviam o castelo, mas a rainha que estava ali não era a mulher que nos criou. Aquela rainha havia matado o próprio marido.
Chegamos ao alto da colina, e de lá pude ver o Porto. As bandeiras estrangeiras — distantes — dançavam ao vento — Valaydes, Demph… e, entre elas, as de Vantron. A presença delas me fez ranger os dentes.
— Que merda ela fez! — sussurrou, parando o cavalo. — Vantron, aqui. No nosso território.
— Cala a boca, — rebateu. — Não é o momento.
Mas era. O momento estava em tudo. No ar salgado, no cheiro de ferro, no silêncio forçado das nossas tropas. Eu sabia que aquilo era um campo de guerra disfarçado de diplomacia.
Descemos juntos, e o som das armaduras se misturou ao farfalhar das bandeiras. A chuva começava a cair outra vez, fina, mas persistente.
Valaydes e Demph já aguardavam próximos aos navios. Rostos endurecidos, postura ereta — não eram aliados, eram homens feridos pela traição.
Leigh-Anne desceu do cavalo e caminhou em direção a eles. Os guardas se afastaram, formando um corredor entre os três reinos. A rainha de Avallon sorriu — aquele sorriso de quem acredita que controla o tabuleiro inteiro.
— Meus caros — a voz dela ecoou, firme. Nossos guardas estavam ao redor dela e ao nosso, nos protegendo. Busquei Yan, mas não o localizei. — Que alegria em vê-los aqui, em tempos tão… turbulentos.
Eu fechei os olhos por um instante. Alegria. Ela ainda conseguia dizer isso com uma guerra prestes a explodir nos nossos portões. Os generais de Valaydes não sorriram. Um deles deu um passo à frente.
— Vossa Majestade, viemos buscar respostas.
— E as terão — respondeu minha mãe. — Mas saibam: Avallon não é o inimigo. Vantron é nosso aliado. — O murmúrio que percorreu as fileiras foi como o estalar de um trovão. Cavalry, o herdeiro de Demph saiu do meio de seus guardas, o olhar furioso.
— Vantron? O mesmo império que devastou nossas fronteiras? A mesma bandeira que queima nossas vilas e sequestra nossos homens?
Eu senti o sangue gelar. Minha mãe manteve a expressão serena, como se nada a atingisse.
— Os tempos mudam. Inimigos de ontem podem ser as chaves da paz de amanhã.
deu um meio passo à frente, mas eu o segurei pelo braço.
— Não — murmurei. — Não agora. — Ele me olhou, os olhos azuis ardendo de raiva.
— Ela está vendendo Avallon, .
— Eu sei — respondi, firme. — Mas ainda não é hora.
— Fizemos um acordo. Você nos traiu! — Speyk, o rei de Valaydes nos encarou. Encarou , que manteve a compostura, afinal, ele quem fechou o acordo.
— Meu falecido marido fechou esse acordo — minha mãe respondeu, calma. — São novos tempos, Vossa majestade.
— Os herdeiros de Roger pagarão por isso? — Cavalry encarou . Fazia parte do plano de ficarmos quieto, deixaríamos ela ir até certo ponto.
— Não me ameace no meu país — ela sorriu e encarou todas as Tropas. — Convido vocês a uma conversa antes de optarem por guerra.
— Não houve diálogo antes de nos traírem — Speyk falou entredentes. — Não espere um resultado diferente.
Enquanto os gritos aumentavam, enquanto os generais se exaltavam e as tropas estrangeiras se agitavam, eu só conseguia pensar em uma coisa: eles não fazem ideia do que está vindo.
.
O plano de .
Mais cedo ou mais tarde, a verdade chegaria naquelas docas. Mais cedo ou mais tarde, e jamais me perdoariam.
E quando isso acontecesse, não haveria diplomacia capaz de salvar minha mãe. Nem eu.
A floresta parecia ter engolido minha alma no instante em que deixei Ophelia para trás.
Eu cavalgava com o corpo inclinado para frente, quase colada ao pescoço do cavalo, como se a velocidade pudesse apagar o que eu acabara de fazer — ou justificar. O cheiro de terra molhada se misturava ao gosto amargo do sangue seco na minha mão. Sangue dela. Sangue que eu deveria ter estancado, protegido, curado.
Mas eu tinha ido embora.
O vento frio cortava meu rosto como uma acusação silenciosa, e cada batida das patas do cavalo no chão encharcado parecia repetir o mesmo mantra, torturante:
Você. Deixou. Ela.
Kreig olhava para frente como um soldado treinado para ignorar o caos emocional dos outros. Tyler, mais inquieto, verificava os arredores a cada poucos segundos, a mão sempre próxima da lâmina. Ambos sabiam que algo tinha quebrado dentro de mim — mas nenhum deles ousava dizer nada. Será que eles pensavam "Como ela pode ser a Tigre Dourado?".
A floresta ficava mais densa, mais escura, como se o mundo estivesse sendo pressionado contra nós. O céu nublado tingia tudo de cinza e a respiração dos cavalos saía em nuvens brancas, como se também sofressem. Estávamos muito longe de Ophelia e Phill, mas muito mais perto de Avallon.
Eu sentia a ausência de Ophelia atrás de mim. Era quase física — como se uma parte do meu corpo tivesse sido arrancada à força.
— Velocidade constante — Kreig ordenou, com aquela voz que parecia feita de granito. — Estamos próximos da zona segura.
Zona segura.
Nenhum lugar era seguro. Não desde que Leigh-Anne ascendeu jogando o mundo numa espiral. Como se meu pensamento fosse um presságio, Tyler acelerou o cavalo e emparelhou comigo.
— Você fez o que ela pediu — disse, a voz baixa, como se temesse que a floresta ouvisse. — Ophelia não é uma mulher que dá ordens em vão, . Ela quis que você continuasse.
— E eu a deixei sangrando no chão. — Minha voz saiu rouca, quase irreconhecível. — Se ela morrer, Tyler…
— Phill está com ela. — Ele me cortou com firmeza. — E Phill não falha.
Eu sabia disso. Mas saber não bastava. A lembrança do machado atingindo o ombro de Ophelia… o som seco… o jorro de sangue… aquilo invadia minha mente como um fantasma. Mas ela tinha dito em voz baixa, com raiva, com dor:
"Você é quem tem que chegar."
Aquela frase era agora o peso, a bússola e a ferida.
Eu devia ter ficado.
— Vocês nunca teriam me deixado — falei, baixinho, mas Tyler escutou e me deu aquele olhar compreensivo e acolhedor.
— Todos nós temos um lugar nessa guerra, — foi Kreig quem disse isso, deixando-me e Tyler surpresos já que ele estava a uma distância segura de nós dois. — E sabemos exatamente onde devemos ficar e como nos portar. Você é nossa protegida. Nossa arma. Nossa última esperança. — Meu coração se apertou. — Nós morreremos para te proteger e em troca, você só precisa fazer o que está no seu destino.
— Ophelia ficará bem. — Tyler sorriu.
— E você também vai. — Kreig garantiu. — Se recomponha. Erga sua cabeça e esteja pronta para o que vamos enfrentar. — Ele soava como Jordan e Denver. Em uma hora seremos recebidos próximos ao Vale Cinzento. Seremos recebidos.
A trilha começou a se abrir. O mato alto cedeu, o som dos cavalos pareceu ecoar mais. A estrada diante de nós era estreita, lama e pedras formando um caminho irregular rumo à colina.
O silêncio entre nós não era paz. Era de preparação. O tipo de silêncio que antecede a guerra.
O vento mudou.
Foi sutil no começo — uma corrente mais fria, mais carregada. Depois veio o cheiro. Não de floresta. Não de terra molhada.
Fumaça.
Levantei levemente o rosto, sentindo o ar entrar pelos pulmões como um alerta.
— Vocês sentiram isso? — perguntei, sem tirar os olhos do caminho. Kreig assentiu primeiro. Tyler veio logo depois.
— Sul — ele disse. — Vindo de Avallon.
Meu estômago se revirou. Não era só guerra. Era destruição. Acelerei o cavalo sem pensar, ignorando a lama que ameaçava nos derrubar a qualquer segundo.
— . — Tyler começou.
— Mais rápido. — Cortei, firme. Não era um pedido e sim uma ordem. Kreig não discutiu. Nenhum deles discutiu. E aquilo… aquilo me disse mais do que qualquer palavra. Eles já tinham aceitado.
Eu não era mais só alguém a ser protegida. Eu era o que vinha depois. O que restava.
Subimos a colina em velocidade, os cavalos quase escorregando nas pedras molhadas, e quando chegamos ao topo, próximo da Zona Segura, eu vi.
Avallon.
Ou o que estava prestes a deixar de ser.
Ao longe, além das muralhas, o céu estava mais escuro do que deveria. Não por causa da tempestade, mas por causa da fumaça que se erguia em espirais lentas, como dedos sufocando o céu. E mais além…
O Porto.
Mesmo à distância, era possível ver o movimento. As bandeiras. As formações.
Exércitos.
Muitos.
— Já começou… — sussurrei.
— Ainda não. — Kreig corrigiu, com calma. — Isso ainda é o começo.
Meu olhar se estreitou.
— Não — balancei a cabeça devagar. — Isso é o fim.
Do reinado dela.
Da mentira.
Da falsa paz.
Ou… de Avallon.
Descemos a colina e, dessa vez, não havia mais silêncio. O som chegou antes de vermos.
Metálico.
Rítmico.
Organizado.
Um exército.
As tropas surgiram entre a névoa do Vale Cinzento como uma muralha viva. Fileiras organizadas, armaduras marcadas por batalhas passadas, olhares atentos.
Quando me viram…
Tudo parou.
Não foi imediato. Primeiro um homem. Depois outro. Então um sussurro.
— É ela…
— Não pode ser…
— A Tigre…
Eu puxei as rédeas e desci do cavalo devagar. Meu coração batia forte, mas não era medo. Era… reconhecimento. Eles estavam esperando alguém. Os Selvagens e... os Selvagens e muitos soldados de Avallon e Agartha.
E eu… tinha chegado.
Um dos soldados deu um passo à frente. O rosto marcado, o olhar endurecido pela guerra, mas quando ele me encarou, se ajoelhou.
Um.
Depois outro.
E então dezenas.
O som das armaduras tocando o chão ecoou pelo vale.
— Tigre Dourado… — ele disse, a voz grave, carregada de algo que eu não esperava ouvir. — Pensamos que… — ele hesitou. — Que a senhora havia caído.
Engoli seco. Por um instante, eu quis dizer que sim. Que aquela versão de mim tinha morrido naquela explosão. Que eu não era mais a mesma. Mas Ophelia não tinha sangrado por aquela versão. Phill não estava lutando por aquela versão. E aquelas pessoas… não estavam ajoelhadas por uma memória. Respirei fundo.
— Eu não caí — minha voz saiu firme, mais do que eu esperava. — E Avallon também não vai cair.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era tensão. Era expectativa.
Meu mundo parou novamente quando eu vi um homem em pé, passando entre todos os soldados ajoelhados, os olhos esverdeados me encarando com choque e orgulho e amor e medo e uma mistura de emoções.
Meu pai.
O General de Avallon no meio da rebelião de selvagens e agarthanos e avalloneses.
— Você está viva. — Era uma afirmação, pra ele mesmo e em voz alta, para confirmar. — Você está aqui. — Senti suas mãos firmes e fortes em meu ombro. Vi seus olhos correndo por todo o meu rosto. Ele tinha tantas dúvidas, assim como eu. — Minha filha — ele sussurrou antes de me abraçar forte. Ali eu o vi desabar, na frente de todos aqueles homens e mulheres.
Ali eu não desabei. Eu o abracei de volta e senti algumas lágrimas teimosas escorrerem, mas controlei o choro entalado na garganta.
Meu pai ainda estava vivo. Meu pai estava ao lado dos Selvagens. Do meu lado.
— Temos tanto pra falar, minha filha — ele sussurrou.
— Depois, meu pai. Depois. — Concordei com a cabeça e sequei as lágrimas, assim como ele. Nos encaramos e assumi a imagem que ele se gabaria mais tarde: a filha seguindo os passos dos Walker.
— Quero informações. — Continuei dando um passo à frente. — Tudo. Agora. — O comandante assentiu imediatamente, mas deu a palavra ao meu pai.
— O Porto está em colapso diplomático. Valaydes e Demph chegaram com tropas completas. Vantron também está presente. — Ele fez uma pausa. — A rainha está tentando negociar. — Meu maxilar travou. — Tentando… ou vendendo?
Ele não respondeu. Não precisava.
— E os príncipes? — perguntei, antes que pudesse evitar.
— Presentes. Todos os três.
Meu coração falhou uma batida.
.
.
.
Eles estavam lá. No meio disso tudo.
Sem saber.
Sem saber de mim.
Sem saber da verdade completa.
Sem saber que estavam prestes a lutar a guerra errada.
— Há movimentações internas. — O comandante continuou. — Divisões entre os próprios homens de Avallon. Ordens conflitantes. — Ele me encarou. — Algo está acontecendo lá dentro.
Eu fechei os olhos por um segundo.
.
Claro que era ele. Ele não esperaria. Ele nunca esperou. E agora… ele estava jogando o próprio jogo. Sem saber que eu ainda estava viva.
Abri os olhos.
— Ele mandou você negociar com os Selvagens, não foi? — perguntei, encarando meu pai.
— Ele tem um plano — ele disse, um pouco aflito. — Eu fui destituído do meu cargo assim que ela colocou as mãos na Coroa. Eu fiquei responsável por unir os soldados aposentados de Avallon que estivessem dispostos a lutar por Avallon. Juntei alguns soldados de Agartha e... fui atrás dos Selvagens. O Comandante Rufous também juntou todos os selvagens possíveis. Agiremos no seu comando, Tigre Dourado. — Foi ali que eu percebi que meu pai estava com a voz firme, mas seus olhos estavam brilhando com uma emoção que eu sabia ser medo. Do mesmo jeito que eu. — Diga o que quer, que faremos. — O olhar de apoio e o sorriso firme que me manteve forte e corajosa. Concordei com a cabeça e apertei a sua mão.
— Preparem os cavalos — ordenei. — Kreig me observou de lado.
— Você vai direto para o Porto.
— Sim — caminhei em direção ao meu cavalo.
— Sozinha? — Olhei para ele. Depois para o meu pai. Depois para Tyler. Depois para o exército ajoelhado diante de mim.
— Não — respondi, firme. — Quero os soldados de mais impacto ao meu lado, o restante, quero que esperem o meu sinal para aparecer. Esse exército é nosso trunfo. Vamos usá-lo na hora certa. — Eles concordaram com a cabeça e o comandante Rufous me deu um aperto de mão forte. E pela primeira vez desde que deixei Ophelia eu senti algo além da culpa. Algo mais forte. Mais perigoso. Mais inevitável.
— Nós vamos encerrar isso — minha voz saiu baixa, mas firme como aço. — Antes que Avallon se destrua por completo. — Levantei o olhar para o horizonte, onde o Porto respirava caos. — Antes que eles destruam uns aos outros.
No Porto.
O vento mudou antes que qualquer decisão fosse tomada.
Não foi uma rajada mais forte, nem um sinal evidente — foi algo mais sutil, como uma mudança na própria respiração do mundo. Eu senti primeiro no peito, depois na forma como meus ombros se ajustaram, como se meu corpo reconhecesse um perigo — ou algo maior do que isso — antes da minha mente alcançar.
Mantive o olhar à frente.
Minha mãe continuava falando, firme, impecável, cada palavra posicionada com precisão cirúrgica, como se ainda tivesse o controle absoluto daquela situação. Os representantes de Valaydes e Demph a encaravam com dureza, o ressentimento evidente em cada postura, em cada silêncio carregado. O vento puxava as bandeiras acima de nós, o tecido pesado estalando com força, enquanto o mar batia contra as pedras lá embaixo, constante, impiedoso.
Mas nada daquilo me prendia mais.
Era .
Ao meu lado, ele estava rígido de um jeito diferente. Não era apenas tensão — era contenção. Uma força sendo segurada à força, comprimida até o limite. Os olhos fixos na nossa mãe, escuros, profundos, carregando algo que eu nunca tinha visto nele antes.
Aquilo não era dúvida.
Era decisão.
— — murmurei, baixo, sem tirar os olhos de nossa mãe.
Ele demorou um segundo a responder, como se estivesse atravessando algo por dentro.
— Fiquem prontos. — Encarei que ameaçou com os olhos.
Simples. Direto. Sem volta.
Meu corpo respondeu no mesmo instante. Ajustei o peso nos pés, senti a presença da espada ao lado do corpo, alinhei os ombros sem quebrar a postura. Eu não avançaria sem necessidade, mas, se desse o primeiro passo, eu estaria pronto.
Porque, se ele falasse… tudo acabaria ali.
O mar bateu com mais força contra as pedras, o som ecoando pelo porto como um aviso. O vento atravessou o campo, levantando pequenas partículas de terra úmida, puxando capas, armaduras, cabelos.
— Avallon não será intimidada — minha mãe continuava. se moveu.
Foi um passo curto, controlado, mas carregado de intenção suficiente para alterar tudo. A mão dele tensionou ao lado do corpo, o maxilar travou, e o olhar… o olhar dele escureceu de um jeito definitivo. Ele ia falar. Ia expor. Ia destruir.
E, pela primeira vez, não havia plano algum que pudesse impedir.
Eu puxei o ar, pronto, mas não aconteceu porque algo interrompeu.
Não à frente. Não entre os reis.
Mas atrás.
Um movimento fora do ritmo. Sutil. Preciso. Errado.
Virei o rosto e o mundo desacelerou.
Ela não surgiu correndo.
Não havia desespero nos passos. Não havia hesitação. Ela apenas caminhava.
E, por um segundo, tudo ao redor perdeu importância.
Os pés afundavam levemente na terra úmida, deixando marcas firmes, seguras. O corpo ereto, alinhado, apesar da viagem evidente. A roupa preta moldava a silhueta com praticidade e força, coberta por uma armadura leve, marcada pelo uso, pelo caminho, pela luta. A espada repousava ao lado do corpo, não como ameaça exposta, mas como extensão natural de quem ela era.
Os cabelos castanhos estavam presos em uma trança longa, firme, mas desalinhada o suficiente para denunciar o percurso. Alguns fios escapavam, levados pelo vento, tocando o rosto — um rosto que não era mais o mesmo.
Havia cicatrizes. Discretas, mas visíveis. Marcas que não estavam ali antes. E, ainda assim… nada nela parecia quebrado.
Pelo contrário. Havia algo mais forte. Mais sólido. Mais real.
E então ela ergueu o olhar.
E eu perdi o ar.
Não foi imediato. Não foi dramático. Foi pior. Foi lento. Profundo. Inevitável.
Porque eu conhecia aquele olhar.
Conhecia cada detalhe.
Conhecia a forma como ele me encontrava mesmo quando não devia.
Conhecia o que ele dizia sem precisar de palavra alguma.
.
O nome não precisou ser dito. Meu corpo reconheceu antes da mente aceitar. Meu coração falhou uma batida. E depois outra.
O silêncio começou a se espalhar como uma rachadura invisível. Primeiro os soldados mais próximos diminuíram o movimento, depois os olhares começaram a se voltar, um a um, até que as vozes cessaram completamente.
parou. Completamente. A decisão dele, que segundos antes estava prestes a romper tudo, foi interrompida no ar — suspensa por algo maior.
virou e ficou imóvel. Eu também não me movi. Não podia. Porque, se eu me movesse, perderia o controle que levei anos para construir. E naquele momento… eu precisava dele mais do que nunca. Porque ela estava ali.
Viva.
Depois de tudo.
Depois da explosão. Depois do silêncio. Depois da ausência.
E tudo dentro de mim queria atravessar aquele campo, mas eu não fiz. Não podia.
Minha mãe ainda falava quando percebeu. A voz falhou no meio da frase, quase imperceptivelmente. Ela virou o rosto com lentidão, como se resistisse ao próprio instinto, e então encontrou.
.
E, pela primeira vez na minha vida… eu vi Leigh-Anne hesitar.
Foi rápido. Controlado. Mas real.
continuou andando.
Sem pressa e sem medo. E então… um sorriso.
Pequeno.
Sutil.
Carregado de algo que eu conhecia melhor do que qualquer um ali.
Sarcasmo.
Confiança.
Desafio.
Era lindo e perigoso e absolutamente ela.
Os soldados começaram a abrir espaço sem que ninguém ordenasse. Como se algo neles entendesse, mesmo sem compreender. Como se aquela presença exigisse passagem.
não falou. não reagiu. E eu… eu permaneci imóvel.
Segurando tudo. Porque, se eu desse um passo eu não pararia.
parou no centro do campo, entre reinos, entre mentiras, entre tudo o que estava prestes a ruir. O vento puxou levemente alguns fios soltos da trança, e por um segundo, o tempo pareceu suspenso naquele ponto.
Quando ela falou, a voz veio firme.
Segura.
Como se nunca tivesse ido embora.
— Acho que essa conversa começou sem todas as partes envolvidas.
E naquele instante, eu soube.
Nada — absolutamente nada — sairia dali intacto.
Continua...
Nota da autora: quem amou esse retorno triunfal? O que estão esperando nesses próximos capítulos? Desculpa a ausência, a vida adulta bateu na porta e certas coisas ficaram de escanteio, mas prometo não demorar, afinal, tá acabando, né? Beijos, Mi.
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