Última atualização: 21/05/2026

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Capítulo 42

Por Alan.
Duas horas antes do Encontro das Tropas.


O salão do conselho estava frio, o ar denso e havia muita expectativa de todas as partes. Eu havia feito minha parte do plano de , assim como todos os outros membros do Golpe contra a Coroa, que carinhosamente decidi apelidar, por mais que os filhos da Coroa não quisessem admitir.
O som distante dos sinos do castelo se misturava ao eco das botas dos guardas no corredor. Leigh-Anne sentou-se à cabeceira da mesa, a postura ereta e o rosto impecável como sempre — a mesma serenidade que ela usava para esconder o caos que se aproximava.
estava ao seu lado, revisando relatórios de inteligência, o cenho franzido. , por outro lado, mantinha os braços cruzados, o olhar fixo em algum ponto indefinido da parede, enquanto caminhava em círculos, inquieto como um leão preso.
— Então é isso — disse , por fim, quebrando o silêncio. — Valaydes e Demph estão ancorando suas frotas no litoral, e esperam um gesto diplomático. Querem conversar antes de agir. — Leigh-Anne ergueu os olhos do cálice de vinho que girava entre os dedos.
— E é exatamente isso que vamos dar a eles. Uma conversa — disse, como se a simples palavra fosse suficiente para conter uma guerra. bufou, impaciente.
— Isso não é um jogo de salão. Eles vêm com exércitos, não com diplomatas.
— E por isso mesmo precisam de uma rainha que saiba negociar — rebateu ela, seca, pousando o cálice. — Avallon não cairá por causa de rumores ou bravatas.
— Negociar o quê, exatamente? — perguntou, a voz mais baixa, mas carregada de desconfiança. — Nossos aliados acham que fomos nós que rompemos o tratado. E… bem, com Vantron nas nossas fronteiras, é difícil convencê-los do contrário.
— Vantron é um mal necessário. O mundo muda, . É preciso saber escolher em que lado da mudança queremos estar. — A tensão cortou o ar. Leigh-Anne sustentou o olhar do filho, e um meio sorriso frio surgiu em seus lábios. se aproximou da mesa, batendo as mãos sobre o tampo de madeira.
— E o senhor Vantron é o lado certo, então? — perguntou, com ironia. — O mesmo homem que devastou as fronteiras de Demph e Valaydes há menos de um ano?
— O mesmo homem que agora traz uma frota que pode nos proteger — ela retrucou, levantando-se. — Ou vocês preferem ver o castelo em chamas? — encarou o chão, frustrado.
— Já está. Você que não percebeu ainda. — Um silêncio pesado caiu na sala. parou de folhear os relatórios. Leigh-Anne caminhou até a janela e observou o horizonte cinzento. Dava pra ver o mar revolto, refletindo o céu carregado de tempestade.
— Partiremos para o Porto assim que sairmos daqui. Receberemos Valaydes e Demph com honras. Enquanto eles discursarem sobre o tratado e lealdade, eu observarei cada um deles. Saberemos quem está disposto à paz e quem já decidiu pela guerra.
— E se a resposta for guerra? — perguntou, de braços cruzados.
— Então, Avallon responderá com fogo — disse a megera, com um sorriso cruel nos lábios, mas o olhar firme e frio. — Encarei os filhos dela, vi o olhar tenso de . Vi engolir seco e fechar a mão, controlando-se. Vi balançar a cabeça, completamente exausto das decisões da mãe, encarando-a como se estivesse procurando uma fagulha da mulher que um dia ela foi antes de conseguir a Coroa. — Preparem-se. Não quero atrasos. Mostraremos ao mundo que Avallon tem uma líder de verdade.
Por fim, ela saiu da sala, deixando-nos em silêncio. Nos entreolhamos e pude ver que a ficha dos trigêmeos tinha caído: o testemunho do início de algo irreversível.
— Bom, como meu marido dorminhoco diria: vamos para a luta — falei estalando os dedos.
— Vamos fazer história para contar para ele depois. — sorriu. Forçou um dos seus belos sorrisos confiantes, mas sorriu. Aquilo fez com que a gente sorrisse junto.
Nos fez ter esperança, pois era nisso que eu me agarrava agora. A esperança de poder contar para meu marido como foi que conseguimos

Por .
No Porto.

O vento cortava como lâminas finas. As bandeiras de Avallon tremulavam no alto dos mastros, e o rugido do mar parecia antecipar o que estava por vir. Eu nunca gostei do Porto. Sempre me pareceu um lugar de despedidas — e agora, tudo em mim dizia que, dessa vez, não haveria volta.
A comitiva seguia em silêncio, os cascos dos cavalos afundando na lama fria que a chuva da madrugada havia deixado. À frente, minha mãe montava com a postura de uma rainha feita de pedra: o rosto inabalável, os cabelos presos com perfeição, e aquele olhar que sempre misturava cálculo e orgulho.
vinha ao meu lado, a capa escura cobrindo parte do rosto. cavalgava alguns metros atrás, inquieto como sempre. Dava pra sentir a tensão dele no ar — como se o corpo todo estivesse prestes a explodir em fúria contida.
— Ela realmente acredita que vai conseguir negociar com Valaydes e Demph — murmurou , baixo, para que só eu ouvisse. Assenti, mantendo o olhar à frente. — A mãe sempre acreditou que pode negociar com qualquer um. — Ele soltou uma risada curta, sem humor. Sentia a amargura nele. — E o problema é que, de algum modo, ela sempre consegue.
Eu não respondi. Não queria falar sobre isso. Não queria falar sobre nada, na verdade. Desde o golpe contra o meu pai, algo em mim se fechou de vez. A voz dela ainda ecoava nos corredores, as ordens dela ainda moviam o castelo, mas a rainha que estava ali não era a mulher que nos criou. Aquela rainha havia matado o próprio marido.
Chegamos ao alto da colina, e de lá pude ver o Porto. As bandeiras estrangeiras — distantes — dançavam ao vento — Valaydes, Demph… e, entre elas, as de Vantron. A presença delas me fez ranger os dentes.
— Que merda ela fez! — sussurrou, parando o cavalo. — Vantron, aqui. No nosso território.
— Cala a boca, rebateu. — Não é o momento.
Mas era. O momento estava em tudo. No ar salgado, no cheiro de ferro, no silêncio forçado das nossas tropas. Eu sabia que aquilo era um campo de guerra disfarçado de diplomacia.
Descemos juntos, e o som das armaduras se misturou ao farfalhar das bandeiras. A chuva começava a cair outra vez, fina, mas persistente.
Valaydes e Demph já aguardavam próximos aos navios. Rostos endurecidos, postura ereta — não eram aliados, eram homens feridos pela traição.
Leigh-Anne desceu do cavalo e caminhou em direção a eles. Os guardas se afastaram, formando um corredor entre os três reinos. A rainha de Avallon sorriu — aquele sorriso de quem acredita que controla o tabuleiro inteiro.
— Meus caros — a voz dela ecoou, firme. Nossos guardas estavam ao redor dela e ao nosso, nos protegendo. Busquei Yan, mas não o localizei. — Que alegria em vê-los aqui, em tempos tão… turbulentos.
Eu fechei os olhos por um instante. Alegria. Ela ainda conseguia dizer isso com uma guerra prestes a explodir nos nossos portões. Os generais de Valaydes não sorriram. Um deles deu um passo à frente.
— Vossa Majestade, viemos buscar respostas.
— E as terão — respondeu minha mãe. — Mas saibam: Avallon não é o inimigo. Vantron é nosso aliado. — O murmúrio que percorreu as fileiras foi como o estalar de um trovão. Cavalry, o herdeiro de Demph saiu do meio de seus guardas, o olhar furioso.
— Vantron? O mesmo império que devastou nossas fronteiras? A mesma bandeira que queima nossas vilas e sequestra nossos homens?
Eu senti o sangue gelar. Minha mãe manteve a expressão serena, como se nada a atingisse.
— Os tempos mudam. Inimigos de ontem podem ser as chaves da paz de amanhã.
deu um meio passo à frente, mas eu o segurei pelo braço.
— Não — murmurei. — Não agora. — Ele me olhou, os olhos azuis ardendo de raiva.
— Ela está vendendo Avallon, .
— Eu sei — respondi, firme. — Mas ainda não é hora.
— Fizemos um acordo. Você nos traiu! — Speyk, o rei de Valaydes nos encarou. Encarou , que manteve a compostura, afinal, ele quem fechou o acordo.
— Meu falecido marido fechou esse acordo — minha mãe respondeu, calma. — São novos tempos, Vossa majestade.
— Os herdeiros de Roger pagarão por isso? — Cavalry encarou . Fazia parte do plano de ficarmos quieto, deixaríamos ela ir até certo ponto.
— Não me ameace no meu país — ela sorriu e encarou todas as Tropas. — Convido vocês a uma conversa antes de optarem por guerra.
— Não houve diálogo antes de nos traírem — Speyk falou entredentes. — Não espere um resultado diferente.
Enquanto os gritos aumentavam, enquanto os generais se exaltavam e as tropas estrangeiras se agitavam, eu só conseguia pensar em uma coisa: eles não fazem ideia do que está vindo.
.
O plano de .
Mais cedo ou mais tarde, a verdade chegaria naquelas docas. Mais cedo ou mais tarde, e jamais me perdoariam.
E quando isso acontecesse, não haveria diplomacia capaz de salvar minha mãe. Nem eu.

Por .

A floresta parecia ter engolido minha alma no instante em que deixei Ophelia para trás.
Eu cavalgava com o corpo inclinado para frente, quase colada ao pescoço do cavalo, como se a velocidade pudesse apagar o que eu acabara de fazer — ou justificar. O cheiro de terra molhada se misturava ao gosto amargo do sangue seco na minha mão. Sangue dela. Sangue que eu deveria ter estancado, protegido, curado.
Mas eu tinha ido embora.
O vento frio cortava meu rosto como uma acusação silenciosa, e cada batida das patas do cavalo no chão encharcado parecia repetir o mesmo mantra, torturante:
Você. Deixou. Ela.
Kreig olhava para frente como um soldado treinado para ignorar o caos emocional dos outros. Tyler, mais inquieto, verificava os arredores a cada poucos segundos, a mão sempre próxima da lâmina. Ambos sabiam que algo tinha quebrado dentro de mim — mas nenhum deles ousava dizer nada. Será que eles pensavam "Como ela pode ser a Tigre Dourado?".
A floresta ficava mais densa, mais escura, como se o mundo estivesse sendo pressionado contra nós. O céu nublado tingia tudo de cinza e a respiração dos cavalos saía em nuvens brancas, como se também sofressem. Estávamos muito longe de Ophelia e Phill, mas muito mais perto de Avallon.
Eu sentia a ausência de Ophelia atrás de mim. Era quase física — como se uma parte do meu corpo tivesse sido arrancada à força.
— Velocidade constante — Kreig ordenou, com aquela voz que parecia feita de granito. — Estamos próximos da zona segura.
Zona segura.
Nenhum lugar era seguro. Não desde que Leigh-Anne ascendeu jogando o mundo numa espiral. Como se meu pensamento fosse um presságio, Tyler acelerou o cavalo e emparelhou comigo.
— Você fez o que ela pediu — disse, a voz baixa, como se temesse que a floresta ouvisse. — Ophelia não é uma mulher que dá ordens em vão, . Ela quis que você continuasse.
— E eu a deixei sangrando no chão. — Minha voz saiu rouca, quase irreconhecível. — Se ela morrer, Tyler…
— Phill está com ela. — Ele me cortou com firmeza. — E Phill não falha.
Eu sabia disso. Mas saber não bastava. A lembrança do machado atingindo o ombro de Ophelia… o som seco… o jorro de sangue… aquilo invadia minha mente como um fantasma. Mas ela tinha dito em voz baixa, com raiva, com dor:
"Você é quem tem que chegar."
Aquela frase era agora o peso, a bússola e a ferida.
Eu devia ter ficado.
— Vocês nunca teriam me deixado — falei, baixinho, mas Tyler escutou e me deu aquele olhar compreensivo e acolhedor.
— Todos nós temos um lugar nessa guerra, — foi Kreig quem disse isso, deixando-me e Tyler surpresos já que ele estava a uma distância segura de nós dois. — E sabemos exatamente onde devemos ficar e como nos portar. Você é nossa protegida. Nossa arma. Nossa última esperança. — Meu coração se apertou. — Nós morreremos para te proteger e em troca, você só precisa fazer o que está no seu destino.
— Ophelia ficará bem. — Tyler sorriu.
— E você também vai. — Kreig garantiu. — Se recomponha. Erga sua cabeça e esteja pronta para o que vamos enfrentar. — Ele soava como Jordan e Denver. Em uma hora seremos recebidos próximos ao Vale Cinzento. Seremos recebidos.
A trilha começou a se abrir. O mato alto cedeu, o som dos cavalos pareceu ecoar mais. A estrada diante de nós era estreita, lama e pedras formando um caminho irregular rumo à colina.
O silêncio entre nós não era paz. Era de preparação. O tipo de silêncio que antecede a guerra.
O vento mudou.
Foi sutil no começo — uma corrente mais fria, mais carregada. Depois veio o cheiro. Não de floresta. Não de terra molhada.
Fumaça.
Levantei levemente o rosto, sentindo o ar entrar pelos pulmões como um alerta.
— Vocês sentiram isso? — perguntei, sem tirar os olhos do caminho. Kreig assentiu primeiro. Tyler veio logo depois.
— Sul — ele disse. — Vindo de Avallon.
Meu estômago se revirou. Não era só guerra. Era destruição. Acelerei o cavalo sem pensar, ignorando a lama que ameaçava nos derrubar a qualquer segundo.
. — Tyler começou.
— Mais rápido. — Cortei, firme. Não era um pedido e sim uma ordem. Kreig não discutiu. Nenhum deles discutiu. E aquilo… aquilo me disse mais do que qualquer palavra. Eles já tinham aceitado.
Eu não era mais só alguém a ser protegida. Eu era o que vinha depois. O que restava.
Subimos a colina em velocidade, os cavalos quase escorregando nas pedras molhadas, e quando chegamos ao topo, próximo da Zona Segura, eu vi.
Avallon.
Ou o que estava prestes a deixar de ser.
Ao longe, além das muralhas, o céu estava mais escuro do que deveria. Não por causa da tempestade, mas por causa da fumaça que se erguia em espirais lentas, como dedos sufocando o céu. E mais além…
O Porto.
Mesmo à distância, era possível ver o movimento. As bandeiras. As formações.
Exércitos.
Muitos.
— Já começou… — sussurrei.
— Ainda não. — Kreig corrigiu, com calma. — Isso ainda é o começo.
Meu olhar se estreitou.
— Não — balancei a cabeça devagar. — Isso é o fim.
Do reinado dela.
Da mentira.
Da falsa paz.
Ou… de Avallon.
Descemos a colina e, dessa vez, não havia mais silêncio. O som chegou antes de vermos.
Metálico.
Rítmico.
Organizado.
Um exército.
As tropas surgiram entre a névoa do Vale Cinzento como uma muralha viva. Fileiras organizadas, armaduras marcadas por batalhas passadas, olhares atentos.
Quando me viram…
Tudo parou.
Não foi imediato. Primeiro um homem. Depois outro. Então um sussurro.
— É ela…
— Não pode ser…
— A Tigre…
Eu puxei as rédeas e desci do cavalo devagar. Meu coração batia forte, mas não era medo. Era… reconhecimento. Eles estavam esperando alguém. Os Selvagens e... os Selvagens e muitos soldados de Avallon e Agartha.
E eu… tinha chegado.
Um dos soldados deu um passo à frente. O rosto marcado, o olhar endurecido pela guerra, mas quando ele me encarou, se ajoelhou.
Um.
Depois outro.
E então dezenas.
O som das armaduras tocando o chão ecoou pelo vale.
— Tigre Dourado… — ele disse, a voz grave, carregada de algo que eu não esperava ouvir. — Pensamos que… — ele hesitou. — Que a senhora havia caído.
Engoli seco. Por um instante, eu quis dizer que sim. Que aquela versão de mim tinha morrido naquela explosão. Que eu não era mais a mesma. Mas Ophelia não tinha sangrado por aquela versão. Phill não estava lutando por aquela versão. E aquelas pessoas… não estavam ajoelhadas por uma memória. Respirei fundo.
— Eu não caí — minha voz saiu firme, mais do que eu esperava. — E Avallon também não vai cair.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era tensão. Era expectativa.
Meu mundo parou novamente quando eu vi um homem em pé, passando entre todos os soldados ajoelhados, os olhos esverdeados me encarando com choque e orgulho e amor e medo e uma mistura de emoções.
Meu pai.
O General de Avallon no meio da rebelião de selvagens e agarthanos e avalloneses.
— Você está viva. — Era uma afirmação, pra ele mesmo e em voz alta, para confirmar. — Você está aqui. — Senti suas mãos firmes e fortes em meu ombro. Vi seus olhos correndo por todo o meu rosto. Ele tinha tantas dúvidas, assim como eu. — Minha filha — ele sussurrou antes de me abraçar forte. Ali eu o vi desabar, na frente de todos aqueles homens e mulheres.
Ali eu não desabei. Eu o abracei de volta e senti algumas lágrimas teimosas escorrerem, mas controlei o choro entalado na garganta.
Meu pai ainda estava vivo. Meu pai estava ao lado dos Selvagens. Do meu lado.
— Temos tanto pra falar, minha filha — ele sussurrou.
— Depois, meu pai. Depois. — Concordei com a cabeça e sequei as lágrimas, assim como ele. Nos encaramos e assumi a imagem que ele se gabaria mais tarde: a filha seguindo os passos dos Walker.
— Quero informações. — Continuei dando um passo à frente. — Tudo. Agora. — O comandante assentiu imediatamente, mas deu a palavra ao meu pai.
— O Porto está em colapso diplomático. Valaydes e Demph chegaram com tropas completas. Vantron também está presente. — Ele fez uma pausa. — A rainha está tentando negociar. — Meu maxilar travou. — Tentando… ou vendendo?
Ele não respondeu. Não precisava.
— E os príncipes? — perguntei, antes que pudesse evitar.
— Presentes. Todos os três.
Meu coração falhou uma batida.
.
.
.
Eles estavam lá. No meio disso tudo.
Sem saber.
Sem saber de mim.
Sem saber da verdade completa.
Sem saber que estavam prestes a lutar a guerra errada.
— Há movimentações internas. — O comandante continuou. — Divisões entre os próprios homens de Avallon. Ordens conflitantes. — Ele me encarou. — Algo está acontecendo lá dentro.
Eu fechei os olhos por um segundo.
.
Claro que era ele. Ele não esperaria. Ele nunca esperou. E agora… ele estava jogando o próprio jogo. Sem saber que eu ainda estava viva.
Abri os olhos.
— Ele mandou você negociar com os Selvagens, não foi? — perguntei, encarando meu pai.
— Ele tem um plano — ele disse, um pouco aflito. — Eu fui destituído do meu cargo assim que ela colocou as mãos na Coroa. Eu fiquei responsável por unir os soldados aposentados de Avallon que estivessem dispostos a lutar por Avallon. Juntei alguns soldados de Agartha e... fui atrás dos Selvagens. O Comandante Rufous também juntou todos os selvagens possíveis. Agiremos no seu comando, Tigre Dourado. — Foi ali que eu percebi que meu pai estava com a voz firme, mas seus olhos estavam brilhando com uma emoção que eu sabia ser medo. Do mesmo jeito que eu. — Diga o que quer, que faremos. — O olhar de apoio e o sorriso firme que me manteve forte e corajosa. Concordei com a cabeça e apertei a sua mão.
— Preparem os cavalos — ordenei. — Kreig me observou de lado.
— Você vai direto para o Porto.
— Sim — caminhei em direção ao meu cavalo.
— Sozinha? — Olhei para ele. Depois para o meu pai. Depois para Tyler. Depois para o exército ajoelhado diante de mim.
— Não — respondi, firme. — Quero os soldados de mais impacto ao meu lado, o restante, quero que esperem o meu sinal para aparecer. Esse exército é nosso trunfo. Vamos usá-lo na hora certa. — Eles concordaram com a cabeça e o comandante Rufous me deu um aperto de mão forte. E pela primeira vez desde que deixei Ophelia eu senti algo além da culpa. Algo mais forte. Mais perigoso. Mais inevitável.
— Nós vamos encerrar isso — minha voz saiu baixa, mas firme como aço. — Antes que Avallon se destrua por completo. — Levantei o olhar para o horizonte, onde o Porto respirava caos. — Antes que eles destruam uns aos outros.

Por .
No Porto.

O vento mudou antes que qualquer decisão fosse tomada.
Não foi uma rajada mais forte, nem um sinal evidente — foi algo mais sutil, como uma mudança na própria respiração do mundo. Eu senti primeiro no peito, depois na forma como meus ombros se ajustaram, como se meu corpo reconhecesse um perigo — ou algo maior do que isso — antes da minha mente alcançar.
Mantive o olhar à frente.
Minha mãe continuava falando, firme, impecável, cada palavra posicionada com precisão cirúrgica, como se ainda tivesse o controle absoluto daquela situação. Os representantes de Valaydes e Demph a encaravam com dureza, o ressentimento evidente em cada postura, em cada silêncio carregado. O vento puxava as bandeiras acima de nós, o tecido pesado estalando com força, enquanto o mar batia contra as pedras lá embaixo, constante, impiedoso.
Mas nada daquilo me prendia mais.
Era .
Ao meu lado, ele estava rígido de um jeito diferente. Não era apenas tensão — era contenção. Uma força sendo segurada à força, comprimida até o limite. Os olhos fixos na nossa mãe, escuros, profundos, carregando algo que eu nunca tinha visto nele antes.
Aquilo não era dúvida.
Era decisão.
— murmurei, baixo, sem tirar os olhos de nossa mãe.
Ele demorou um segundo a responder, como se estivesse atravessando algo por dentro.
— Fiquem prontos. — Encarei que ameaçou com os olhos.
Simples. Direto. Sem volta.
Meu corpo respondeu no mesmo instante. Ajustei o peso nos pés, senti a presença da espada ao lado do corpo, alinhei os ombros sem quebrar a postura. Eu não avançaria sem necessidade, mas, se desse o primeiro passo, eu estaria pronto.
Porque, se ele falasse… tudo acabaria ali.
O mar bateu com mais força contra as pedras, o som ecoando pelo porto como um aviso. O vento atravessou o campo, levantando pequenas partículas de terra úmida, puxando capas, armaduras, cabelos.
— Avallon não será intimidada — minha mãe continuava. se moveu.
Foi um passo curto, controlado, mas carregado de intenção suficiente para alterar tudo. A mão dele tensionou ao lado do corpo, o maxilar travou, e o olhar… o olhar dele escureceu de um jeito definitivo. Ele ia falar. Ia expor. Ia destruir.
E, pela primeira vez, não havia plano algum que pudesse impedir.
Eu puxei o ar, pronto, mas não aconteceu porque algo interrompeu.
Não à frente. Não entre os reis.
Mas atrás.
Um movimento fora do ritmo. Sutil. Preciso. Errado.
Virei o rosto e o mundo desacelerou.
Ela não surgiu correndo.
Não havia desespero nos passos. Não havia hesitação. Ela apenas caminhava.
E, por um segundo, tudo ao redor perdeu importância.
Os pés afundavam levemente na terra úmida, deixando marcas firmes, seguras. O corpo ereto, alinhado, apesar da viagem evidente. A roupa preta moldava a silhueta com praticidade e força, coberta por uma armadura leve, marcada pelo uso, pelo caminho, pela luta. A espada repousava ao lado do corpo, não como ameaça exposta, mas como extensão natural de quem ela era.
Os cabelos castanhos estavam presos em uma trança longa, firme, mas desalinhada o suficiente para denunciar o percurso. Alguns fios escapavam, levados pelo vento, tocando o rosto — um rosto que não era mais o mesmo.
Havia cicatrizes. Discretas, mas visíveis. Marcas que não estavam ali antes. E, ainda assim… nada nela parecia quebrado.
Pelo contrário. Havia algo mais forte. Mais sólido. Mais real.
E então ela ergueu o olhar.
E eu perdi o ar.
Não foi imediato. Não foi dramático. Foi pior. Foi lento. Profundo. Inevitável.
Porque eu conhecia aquele olhar.
Conhecia cada detalhe.
Conhecia a forma como ele me encontrava mesmo quando não devia.
Conhecia o que ele dizia sem precisar de palavra alguma.
.
O nome não precisou ser dito. Meu corpo reconheceu antes da mente aceitar. Meu coração falhou uma batida. E depois outra.
O silêncio começou a se espalhar como uma rachadura invisível. Primeiro os soldados mais próximos diminuíram o movimento, depois os olhares começaram a se voltar, um a um, até que as vozes cessaram completamente.
parou. Completamente. A decisão dele, que segundos antes estava prestes a romper tudo, foi interrompida no ar — suspensa por algo maior.
virou e ficou imóvel. Eu também não me movi. Não podia. Porque, se eu me movesse, perderia o controle que levei anos para construir. E naquele momento… eu precisava dele mais do que nunca. Porque ela estava ali.
Viva.
Depois de tudo.
Depois da explosão. Depois do silêncio. Depois da ausência.
E tudo dentro de mim queria atravessar aquele campo, mas eu não fiz. Não podia.
Minha mãe ainda falava quando percebeu. A voz falhou no meio da frase, quase imperceptivelmente. Ela virou o rosto com lentidão, como se resistisse ao próprio instinto, e então encontrou.
.
E, pela primeira vez na minha vida… eu vi Leigh-Anne hesitar.
Foi rápido. Controlado. Mas real.
continuou andando.
Sem pressa e sem medo. E então… um sorriso.
Pequeno.
Sutil.
Carregado de algo que eu conhecia melhor do que qualquer um ali.
Sarcasmo.
Confiança.
Desafio.
Era lindo e perigoso e absolutamente ela.
Os soldados começaram a abrir espaço sem que ninguém ordenasse. Como se algo neles entendesse, mesmo sem compreender. Como se aquela presença exigisse passagem.
não falou. não reagiu. E eu… eu permaneci imóvel.
Segurando tudo. Porque, se eu desse um passo eu não pararia.
parou no centro do campo, entre reinos, entre mentiras, entre tudo o que estava prestes a ruir. O vento puxou levemente alguns fios soltos da trança, e por um segundo, o tempo pareceu suspenso naquele ponto.
Quando ela falou, a voz veio firme.
Segura.
Como se nunca tivesse ido embora.
— Acho que essa conversa começou sem todas as partes envolvidas.
E naquele instante, eu soube.
Nada — absolutamente nada — sairia dali intacto.


Capítulo 43

Por .


O vento do litoral era diferente de tudo que eu havia atravessado nas últimas horas. Não tinha mais o abafado da floresta, nem o silêncio carregado das trilhas escondidas; ali, ele vinha aberto, salgado, constante, trazendo consigo o som do mar batendo contra as pedras e algo mais difícil de nomear, mas impossível de ignorar: tensão. Era o tipo de atmosfera que antecede decisões irreversíveis, quando ninguém ali ainda puxou a espada, mas todos já sabem que basta um movimento errado para que tudo saia do controle.
Eu já conseguia ver o porto antes mesmo de alcançar a linha aberta do terreno. As bandeiras tremulavam pesadas pela umidade, os cavalos se agitavam com impaciência contida, e as formações de soldados estavam organizadas com rigor suficiente para esconder o fato de que nenhum daqueles homens confiava realmente no que estava prestes a acontecer. Não era uma reunião diplomática, não de verdade. Era um campo de guerra disfarçado.
Não desacelerei.
O caminho até ali ainda pesava no meu corpo, mas não de um jeito que me fizesse hesitar. A lama seca nas roupas, os respingos de sangue — alguns meus, outros não — e a pressão constante da armadura leve sobre os ombros funcionavam quase como um lembrete físico do que havia sido necessário para chegar até aquele ponto. A trança que eu havia feito antes de partir já não estava intacta; alguns fios tinham se soltado, presos pelo vento e pelo movimento, e eu sabia que havia sujeira no meu rosto, talvez até marcas mais visíveis do que eu imaginava. Eu não me importei em corrigir nada disso. Não queria parecer intacta.
Queria que vissem.
Conforme fui avançando, a cena foi ganhando forma mais nítida. Primeiro os soldados mais próximos perceberam minha presença, ainda sem entender exatamente o que estavam vendo. Depois os olhares começaram a se espalhar, um passando a informação para o outro sem que nenhuma palavra fosse dita. O efeito foi rápido e, ao mesmo tempo, silencioso. As conversas cessaram gradualmente, as movimentações diminuíram, e quando atravessei o último trecho de terreno aberto, o som predominante já não era mais o das vozes — era o do vento e do mar.
Eu senti o reconhecimento antes mesmo de encarar alguém diretamente.
Tigre Dourado.
Não como um título dito em voz alta, mas como uma presença que já não podia mais ser ignorada.
Mantive o ritmo dos passos.
Se eu parasse para absorver tudo aquilo, perderia o controle do momento, e aquilo não me pertencia sozinho — pertencia ao que precisava acontecer.
Meu olhar começou a se mover com mais precisão conforme me aproximava do centro.
foi o primeiro que eu reconheci com clareza. Não porque estivesse mais perto, mas porque havia algo nele que destoava de todo o resto. A postura ainda era firme, mas havia uma rigidez diferente, uma contenção que não vinha de estratégia, e sim de algo mais interno. O olhar dele estava fixo na frente, mas carregado, como se estivesse sustentando algo que ainda não tinha sido dito — o fardo de saber que a mãe era a assassina de seu pai.
estava alguns passos além, e bastou observá-lo por alguns segundos para entender que ele estava prestes a agir. Era sutil para qualquer outro, mas não para mim. A forma como ele distribuía o peso do corpo, a tensão controlada nos ombros, o foco direcionado — ele tinha um plano em andamento, e aquele momento era o ponto de execução. agia como um rei, afinal, ele quem queria a maldita coroa.
Continuei andando e então eu o vi.
.
O impacto não veio de forma abrupta. Foi gradual, inevitável, como se o mundo ao redor perdesse relevância por alguns segundos enquanto minha atenção se ajustava à presença dele. Ele estava exatamente onde deveria estar, alinhado, atento, aparentemente tão controlado quanto sempre foi. Mas havia algo diferente ali também. Não era fraqueza, nem descontrole — era profundidade. Como se ele tivesse atravessado tudo aquilo sem permitir que isso quebrasse a superfície, mas sem sair ileso. Aquele peso do luto, afinal, ele havia perdido o pai. Eu era acusada de assassinar o rei e, para todos os efeitos, também havia morrido.
Eu não desacelerei. Não desviei, mas senti.
A última vez que estivemos frente a frente passou pela minha mente sem aviso. O pedido, o momento suspenso, a resposta que eu não tive tempo de dar. E então a explosão. A separação. O vazio.
Aquilo ainda existia. O peso do sentimento que eu carregava por ele, mas não naquele momento. Segurei o que precisava ser segurado e mantive o foco, pois o meu ponto fraco sempre foi esse: as pessoas que eu amo.
Quando alcancei o espaço aberto entre os grupos, a movimentação ao meu redor já havia praticamente cessado. Os soldados abriram caminho sem que ninguém ordenasse, não por respeito formal, mas por instinto. Era como se a presença ali exigisse espaço por si só.
Foi então que eu olhei para Leigh-Anne, ela já estava me observando.
E, mesmo à distância, foi possível perceber a mudança. Pequena, controlada, mas inegável. A postura ainda era de rainha, o queixo levemente erguido, o olhar firme — mas havia uma quebra ali, uma fração de segundo em que o controle não foi absoluto.
Ela não esperava por mim.
Ela acreditava que eu estava morta.
E isso alterava completamente o equilíbrio daquele cenário.
Eu não precisei apressar o passo, nem anunciar minha chegada. Já estava feito. Cada metro que me aproximava só tornava aquilo mais evidente.
Parei no centro do campo, posicionada entre reinos, alianças quebradas e decisões que não poderiam mais ser adiadas. O vento atravessou o espaço entre nós, puxando levemente alguns fios soltos da minha trança, e por um instante tudo pareceu suspenso — não em silêncio vazio, mas em expectativa.
Respirei fundo, sentindo o peso daquele momento se organizar dentro de mim, e falei com a firmeza necessária, sem elevar a voz.
— Acho que essa conversa começou sem todas as partes envolvidas.
O silêncio que se seguiu à minha fala não foi vazio, foi carregado de cálculo. Eu consegui ver o exato momento em que cada pessoa ali começou a reorganizar o que achava que sabia. A minha morte tinha sido útil para muita gente. A minha presença, agora, era um problema que ninguém tinha planejado resolver.
Leigh-Anne foi a primeira a reagir.
— Guardas.
A voz dela não se alterou. Não houve urgência, não houve surpresa explícita, apenas comando. E isso foi suficiente.
O movimento foi imediato. Lâminas sendo erguidas, arcos tensionados, lanças avançando alguns centímetros à frente dos corpos. Em poucos segundos, eu estava cercada por pontas metálicas apontadas diretamente para mim, criando um semicírculo rígido e perfeitamente treinado. Nenhum daqueles homens hesitou. Eles não estavam ali para pensar.
Estavam ali para obedecer.
Eu não me movi. Mantive o queixo erguido, o corpo alinhado, a respiração estável, mesmo com a sensação física de perigo tão próxima que eu poderia praticamente tocar. Ainda não era o momento para que meus homens agissem, então rezei mentalmente para que meu pai não entrasse na frente dessas armas. Eu sabia o que aquilo representava, não só para mim, mas para todos que estavam assistindo. Aquela não era apenas uma reação de segurança.
Era uma narrativa sendo reforçada.
— A Tigre Dourado retorna — Leigh-Anne continuou dando alguns passos à frente, com a mesma elegância controlada de sempre. — Ou devo dizer, a mulher que assassinou o próprio rei e fugiu como uma traidora?
As palavras se espalharam pelo campo com precisão cirúrgica. Eu percebi os olhares se alterando novamente, alguns endurecendo, outros vacilando. Era isso que ela fazia. Ela não precisava gritar. Ela precisava apenas plantar a dúvida.
Abaixem as armas — a voz veio antes que eu pudesse responder.
.
Ele não elevou o tom, mas não precisou. O simples fato de ele ter falado já foi suficiente para quebrar a linha de comando por um segundo. Eu vi alguns soldados hesitarem, mesmo que minimamente.
Ele deu um passo à frente.
E então mais um.
Até estar entre mim e as lâminas.
Aquilo não foi impulsivo. Não foi uma reação emocional descontrolada. Foi preciso. Calculado. Ele se posicionou de forma firme, os ombros alinhados, o olhar fixo nos guardas, como alguém que não estava pedindo.
Estava decidindo.
— Ninguém ataca — ele disse, com a voz baixa, mas inquestionável. — Ela vai falar. — O vento fez com que seu cheiro, tão familiar e único viesse até mim, acalmando meu peito e trazendo um misto de sensações: amor, saudade, carinho.
O efeito foi imediato, mas incompleto. As armas não abaixaram totalmente, mas também não avançaram. O campo entrou em um tipo diferente de tensão, mais instável, como se duas ordens opostas estivessem disputando espaço no mesmo instante.
Leigh-Anne virou o rosto lentamente para ele.
— disse, com uma calma que não escondia o aviso por trás do nome. — Você está permitindo que a assassina do seu pai se aproxime de você… e de todos nós.
Ele não recuou, não desviou.
— Eu estou permitindo que ela fale — respondeu, direto.
— Você a conhece — ela continuou, dando mais um passo, agora claramente direcionando a cena. — Você confia nela, talvez mais do que deveria devido ao... romance de vocês, mas isso não muda os fatos. O seu pai está morto, e ela foi a última pessoa a estar próxima o suficiente para fazer isso acontecer. O jogo estava claro. Naquele instante não era só sobre mim. Era sobre ele. — Ou você esqueceu disso? — completou, com um leve inclinar de cabeça, como se estivesse oferecendo uma última chance para que ele recuasse.
Por um segundo, o campo inteiro pareceu se concentrar na resposta de .
Ele não olhou para mim. Não buscou apoio, mas eu senti seus dedos roçando os meus. Naquele momento eu soube que ele acreditava em mim. Só isso bastava.
— Eu não esqueci — disse, firme. — Só não aceito a sua versão como a única. — Aquilo foi suficiente para alterar o equilíbrio outra vez.
— Interessante — a voz veio de mais atrás, carregada de ironia controlada. Speik. O rei de Valaydes avançou alguns passos, observando a cena com um interesse que já não era mais apenas político. — Então agora temos uma suposta assassina que retorna dos mortos, um príncipe que decide protegê-la, e uma rainha que afirma ter certeza absoluta de quem matou o próprio marido. — Ele cruzou os braços, avaliando — Confesso que estou curioso para saber qual versão devemos considerar antes de decidir se isso aqui é uma negociação… ou uma execução.
— Se houve regicídio — Cavalry, ao lado dele, não parecia tão interessado em ironia. Disse aquilo, direto, a voz mais pesada — queremos saber quem fez e por quê. Não vamos entrar em guerra baseados em versões convenientes.
— Convenientes? — Ian, de Vantron, deixou escapar uma risada curta, inclinando levemente o corpo para frente. — Eu diria que a conveniência está em manter o controle. Afinal, uma rainha que perde o rei e imediatamente aponta um culpado… é uma rainha que evita perguntas perigosas.
Leigh-Anne não perdeu a compostura.
— Eu não evito perguntas — respondeu, voltando-se para eles com naturalidade. — Eu respondo com fatos. foi vista próxima ao rei. Eu fui feita de refém por ela e seus aliados. fugiu logo após a morte dele. desapareceu enquanto o caos se instalava.
— Ou foi obrigada a fugir — Alan disse, pela primeira vez, a voz controlada, mas firme o suficiente para cortar a linha de raciocínio dela. Todos os olhares se voltaram para ele. O rei de Agartha não avançou muito, mas o suficiente para deixar claro que não estava ali como espectador. — Considerando tudo o que sabemos sobre este castelo, sobre as alianças recentes e sobre as decisões que foram tomadas nos bastidores, eu diria que essa história está… incompleta.
O ar pareceu pesar um pouco mais. Leigh-Anne sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário.
— Cuidado, Alan — disse, suave — questionar a estabilidade de Avallon pode ser interpretado como um posicionamento… perigoso.
— E ignorar a verdade costuma ser ainda mais — ele respondeu, sem alterar o tom.
O campo inteiro já não estava mais sob controle de uma única narrativa.
As armas ainda estavam erguidas.
Os olhares ainda estavam tensos.
Mas agora… havia espaço. Leigh-Anne sabia.
Ela não perdeu a postura, não elevou a voz, não demonstrou pressa, mas eu vi. A rachadura estava ali. Pequena e controlada, mas crescendo.
Eu dei um passo à frente. E, pela primeira vez desde que cheguei, não havia apenas silêncio.
Havia expectativa real.
E isso… era exatamente o que eu precisava.

Por Leigh-Anne.

A presença dela não era o problema.
Era o efeito.
Eu já havia considerado cenários piores do que aquele. Traições, ataques diretos, alianças quebradas antes mesmo de serem formalizadas. Mas aquilo… aquilo era diferente. não havia retornado com um exército, nem com uma declaração. Ela havia retornado com algo muito mais difícil de conter: dúvida.
E dúvida, quando bem-posicionada, corrói mais do que qualquer lâmina.
Mantive a postura. Não havia espaço para hesitação, não ali, não diante deles. Speik observava como um homem acostumado a explorar fragilidades políticas, Cavalry avaliava cada detalhe como quem decide se vale a pena transformar tensão em guerra, Alan… Alan já não escondia sua inclinação, e Ian, como sempre, assistia esperando o momento mais vantajoso para agir.
E meus filhos.
havia se colocado entre ela e as armas.
Aquilo não foi um erro impulsivo. Foi uma escolha.
E escolhas, naquele contexto, precisavam ser corrigidas rapidamente.
— Então vamos esclarecer — disse, ajustando levemente a posição das mãos à frente do corpo, retomando o centro da atenção sem elevar o tom — já que todos parecem tão interessados na verdade.
Dei um passo à frente, o suficiente para reposicionar o eixo da conversa.
desaparece na mesma noite em que o rei é assassinado, estava com ele o tempo inteiro depois da explosão, estava ao lado do corpo segurando a arma do crime quando chegou na cena do crime. — Pausei, deixando que o raciocínio se assentasse. — E agora ela retorna dos mortos, sem explicação, diretamente no momento mais crítico para este reino. Olhei para cada um deles, um a um, sem pressa. — Isso não levanta dúvidas para vocês?
Speik não respondeu imediatamente, o que já era uma resposta por si só.
Cavalry manteve o olhar fixo em mim, mas a rigidez dele agora era diferente. Não era concordância. Era avaliação.
Ian parecia… interessado demais em como eu levaria aquele circo.
Alan não se moveu. Como esperado.
Meu olhar voltou para .
— E você — continuei, com a mesma calma — escolhe ignorar tudo isso? — Ele não respondeu de imediato, o que confirmava o que eu já sabia. Não era ignorância. Era conflito. Perfeito. — Você está permitindo que alguém acusada de regicídio permaneça viva, armada, e com acesso direto a todos nós — acrescentei, sem alterar a voz — inclusive a você.
Não havia necessidade de reforçar mais do que isso. A ideia já estava plantada. Voltei minha atenção para os soldados.
— Mantenham posição — ordenei, dessa vez com um leve aumento de firmeza — ninguém abaixa nada até que isso esteja resolvido.
As lanças não avançaram, mas também não recuaram.
Equilíbrio instável e controlável, por enquanto.
Voltei o olhar para . Analisei a forma como ela se posicionava, o fato de não ter recuado um centímetro sequer, mesmo cercada. Ela havia aprendido. Mais do que isso, ela havia entendido o papel que agora ocupava.
E isso… tornava tudo mais interessante.
— Já que insiste em interromper — disse, finalmente direcionando a fala a ela. — Sugiro que aproveite a oportunidade. Explique a todos aqui por que fugiu. Explique por que não retornou antes. E, principalmente… — inclinei levemente a cabeça — explique por que deveríamos acreditar que você não tem qualquer envolvimento na morte do rei.
Silêncio novamente, mas agora não era o mesmo silêncio de antes. Ela estava surpresa com essa cartada, afinal, eu matei meu marido, mas ela não tinha como provar. Dei meio passo para o lado, abrindo espaço de forma calculada, sem parecer recuo.
— Este é o seu momento, — completei — e recomendo que use bem.

Por .

Eu não me movi quando começou a falar, mas senti o mundo ao meu redor mudar de lugar de uma forma silenciosa e inevitável, como se algo tivesse saído do eixo e não houvesse mais como voltar ao ponto anterior. As armas continuavam erguidas ao redor dela, dezenas de lâminas apontadas com precisão suficiente para transformar qualquer gesto em morte, e ainda assim o que dominava o porto não era a ameaça, era a espera.
Percebi primeiro nos meus irmãos.
estava imóvel, mas não era calmaria. Era contenção. Eu conhecia aquilo bem demais. Havia algo nele que sempre existiu, mas que agora parecia mais pesado, mais evidente, como se estivesse segurando algo que não podia mais continuar guardado por muito tempo. Se ele falasse naquele momento, não falaria como príncipe — falaria como filho. E eu sabia que, se isso acontecesse, não haveria retorno possível para nenhum de nós.
, por outro lado, estava quieto de um jeito diferente. Não travado, não hesitante — calculando. Os olhos dele se moviam discretamente, lendo o campo, ajustando possibilidades, reorganizando o plano que claramente havia sido atravessado pela presença inesperada de . nunca desperdiçava movimento, e aquilo significava que ele ainda acreditava que havia algo a ser feito, desde que esperasse o momento certo.
Então, inevitavelmente, restava a mim.
Mantive a postura firme, a mão próxima da espada sem tocá-la, não como ameaça, mas como limite. Eu não estava ali para atacar. Estava ali para impedir que qualquer outro fizesse isso antes da hora. Era um espaço pequeno, quase invisível, mas suficiente para sustentar a única coisa que importava naquele momento: precisava falar.
Eu não precisei olhar diretamente para ela para saber que respirou fundo antes de começar. Eu senti. O vento trouxe até mim o cheiro da viagem, da chuva antiga impregnada nas roupas, do couro, do metal da armadura, da terra seca grudada nos tecidos. Havia sangue ali também, mas não foi isso que me atingiu. Foi o fato simples de que ela estava viva.
— Eu fugi — ela disse, sem elevar a voz, e ainda assim cada sílaba chegou clara até o último homem daquela formação. — Porque, se eu tivesse ficado, teria morrido antes do amanhecer. Não pela explosão. Não por Vantron. Pela Coroa.
Ninguém se mexeu. Speik inclinou levemente o rosto, interessado. Cavalry descruzou os braços. Alan permaneceu imóvel, mas sua atenção se estreitou sobre ela. Ian, com o cinismo de sempre, parecia se divertir mais do que devia. Minha mãe não perdeu a postura. Mantinha o queixo erguido, as mãos unidas à frente do corpo e aquela serenidade estudada que a deixava ainda mais perigosa.
continuou.
Ela não começou pela acusação. Começou pelo caminho. Explicou que, depois da explosão, tentou alcançar a Zona Norte ao lado de Gouhi, do meu pai e de Denver, porque aquele era o único ponto do castelo que ainda parecia defensável. Falou dos corredores vazios demais, dos corpos espalhados, da sensação crescente de que o ataque de Vantron servia também para encobrir outra coisa. Disse que ainda não desconfiava da dimensão daquilo, mas já havia detalhes fora do lugar: portas abertas demais, passagens livres demais, ausência de resistência em trechos que deveriam estar repletos de guardas. Até então, tudo o que ela sabia era que o caos ao redor não combinava com a calma estratégica de certos corredores do castelo. O plano de fuga parecia possível demais para uma noite em que tudo estava desabando.
Enquanto ela falava, eu via a cena retornando com uma nitidez quase insuportável. A fumaça. O cheiro de pedra queimada. O sangue nas mangas. O instante em que encontrei a sala destruída e vi meu pai no chão.
— Quando chegamos à sala — disse , e a voz dela não falhou, embora tivesse perdido o brilho sarcástico que costuma usar como escudo. — Leigh-Anne estava amarrada e chorando. Disse que tinha sido atacada, disse que e Lizzie tinham se ferido, disse que não sabia onde o herdeiro da Coroa estava. Roger acreditou nela. Denver tentou ajudá-la. Eu achei estranho, mas ainda não tinha prova de nada. O rei percebeu antes de mim que aquilo era uma armadilha. Percebeu tarde demais. — Minha mãe soltou um riso baixo, quase inaudível, como se tudo aquilo não passasse de uma encenação mal montada. nem olhou para ela. — A explosão seguinte abriu o que faltava para abrir. Yan Vantron entrou naquela sala e Leigh-Anne levantou-se por vontade própria. Não era refém. Nunca foi. Ela estava esperando por ele. E o rei viu isso com os próprios olhos. — Um murmúrio breve correu entre as fileiras, mas morreu tão rápido quanto surgiu. Minha mãe continuava imóvel. Só os olhos haviam endurecido um pouco mais. — Yan falou das terras de Avallon como se já fossem dele — prosseguiu — e Leigh-Anne não discutiu. Pelo contrário. Ela explicou, diante do próprio marido, como faria o acordo depois da morte dele. Uma rainha viúva, em luto, aceitando a exploração das terras avallonesas por Vantron em nome da estabilidade. Roger tentou ganhar tempo. Eu tentei reagir. Denver estava desacordado. Yan tentou me matar. Leigh-Anne matou Roger com a minha espada e, antes que alguém chegasse, usou a adaga dele na própria perna para construir a última parte do teatro.
Senti meu estômago retesar quando ela disse aquilo, não porque eu não duvidasse que aquilo havia de fato acontecido, mas porque ouvi-la contar com tanta precisão arrancava a cena do lugar confuso da memória e a colocava sob a luz fria dos fatos. Vi meu pai de novo. Vi a mão dele na dela. Vi a minha mãe gritando como se fosse vítima da mesma tragédia que havia acabado de fabricar.
Senti o enjoo e me segurei para não vomitar ali mesmo. A dor em meu peito parecia que ia me destruir. Tudo que eu havia sentido antes não se comparava com o sentimento de ser traído. A junção da traição de minha mãe com o luto criado por ela mesmo na busca doentia pelo poder, fazia com que eu quisesse quebrar todos os malditos protocolos Reais e saísse gritando com ela ou destruísse alguma coisa ou até mesmo fosse em busca do primeiro bar que aparecesse — mas eu não podia fazer isso, não podia fazer isso com , ela não suportaria e eu não queria reviver aquele último momento que brigamos. Além disso, a única coisa que eu sentia que poderia fazer, era cair de joelhos e chorar ali mesmo. Como meus irmãos estavam se sentindo agora? Como se sentia?
Era bizarro o fato de que a gente não havia descartado essa possibilidade — nossa mãe ter matado o nosso pai —, mas não queríamos acreditar. Era nossa mãe. Meus olhos estavam ardendo e eu sentia minha boca secando, discretamente, encostou a mão na minha e isso fez com que eu não desabasse.
Speik foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Isso é uma acusação grave demais para se sustentar apenas com a palavra de uma mulher dada como morta — disse, sem agressividade, mas também sem concessão.
— Eu sei — respondeu . — E foi por isso que eu não voltei antes. — Agora ela olhou diretamente para minha mãe. — Depois que fugi da sala, eu ainda podia ter tentado alcançar alguém do castelo. Ainda podia ter corrido para os abrigos e gritado a verdade. Mas eu era a mulher encontrada ao lado do corpo do rei, coberta de sangue, segurando a arma. Não havia uma única pessoa naquele castelo que não pudesse ser usada para me deter antes que eu falasse qualquer coisa. Então eu fiz a única coisa que me restava: desapareci. Desapareci a pedido do Rei e desapareci a pedido do meu príncipe — ela me encarou, seus olhos brilhavam, sentindo a dor que a verdade trazia para mim e meus irmãos.
Meu olhar se desviou por um instante para . Ele continuava imóvel, mas agora eu entendia melhor a violência do silêncio dele. Não era apenas dor. Era reconhecimento.
explicou então a tentativa seguinte, a que quase a matou longe do castelo. Disse que buscou abrigo onde qualquer filha ferida buscaria primeiro, na cabana do pai, achando que ali teria ao menos algumas horas para pensar. Em vez disso, encontraram fogo. Não um acidente, não uma busca improvisada. Uma execução. A casa foi cercada e incendiada antes que ela pudesse sequer entender como tinham chegado tão rápido até ali. Ela saiu viva porque conhecia aquelas terras melhor do que os homens enviados para matá-la e porque não estava sozinha, mas não deu detalhes além disso. Quando falou do que havia restado da cabana, da madeira cedendo e das chamas subindo, eu percebi que ela tinha escolhido cada palavra com cuidado. Não por fragilidade. Por proteção.
— Depois da cabana — disse ela — eu fui para o lugar mais seguro do mundo. Tal lugar que Roger havia sussurrado em meu ouvido antes de morrer, o lugar onde eu teria respostas. — Minha mãe sorriu pela primeira vez desde o início do relato, um sorriso curto, afiado.
— E que lugar seria esse? — perguntou, suave demais. não respondeu à provocação.
— Seguro não pelas muralhas ou guardas, — continuou, voltando-se para os outros reis — mas porque era o único lugar onde Leigh-Anne não imaginaria que eu ainda pudesse chegar viva. E foi lá que eu encontrei tudo. Foi lá que eu soube o que deveria fazer. Voltei para cá assim que eu pude e encontrei com meu pai.
Ela disse a palavra “pai” com uma firmeza diferente, e eu soube, antes mesmo de ela continuar, que Dave estava no centro daquilo. Quase no mesmo instante, vi alguns soldados de Avallon ao fundo trocarem olhares muito breves, como se a simples menção ao nome dele reacendesse algo que ainda não tinha vindo à superfície. Dave não chegou com soldados. Não chegou com promessas. Chegou com uma caixa.
Aquela frase alterou o campo inteiro. Não dramaticamente, não de forma visível para qualquer um, mas o suficiente para que eu percebesse. ergueu um pouco mais o queixo. finalmente piscou, como alguém que estava prendendo os olhos abertos havia tempo demais. Ian ficou atento. Minha mãe continuou perfeitamente composta, mas eu a conhecia. Ela já estava calculando o que havia naquela caixa.
— Uma caixa preta — disse — deixada por Roger para o caso de alguma coisa acontecer antes de ele conseguir concluir o que vinha investigando. Por um momento, o barulho do mar pareceu mais distante. Ninguém interrompeu. — Eu abri a caixa sozinha primeiro — ela continuou — porque precisei entender se aquilo era verdade antes de arrastar mais alguém para dentro. Não era só correspondência. Não era só suspeita. Era um dossiê completo.
Eu podia imaginá-la abrindo aquilo. As mãos cansadas. O corpo ainda tremendo do fogo, da fuga, da perda. O rei morto havia poucas horas. Eu consegui quase vê-la sentada diante de uma mesa improvisada, tirando um a um os papéis, como quem puxa facas de dentro de um corpo.
— Havia cartas interceptadas com selo de Avallon e rotas marcadas em código, todas enviadas meses antes do golpe. Algumas saíram do castelo sob a assinatura de pessoas que nunca teriam autoridade para tratar diretamente com Vantron. Outras não tinham assinatura nenhuma, mas traziam a caligrafia de Leigh-Anne em observações laterais, instruções curtas, alterações de datas e nomes de mensageiros. Havia registros de encontros dentro da cadeia real, quando capturamos vantronis meses atrás. Um deles não era um soldado comum. Era o irmão do rei de Vantron.
Ian não gostou de ouvir aquilo. Não foi um abalo visível, mas seus olhos endureceram de maneira quase imperceptível.
— Entre os documentos — seguiu — havia imagens. Não retratos formais. Não algo que pudesse ser descartado como montagem de salão. Eram registros escondidos, feitos de longe, em corredores, pátios internos, janelas laterais. Leigh-Anne entrando na ala da prisão fora do horário permitido. Leigh-Anne sozinha com esse homem. Leigh-Anne entregando algo a ele. E, em mais de uma dessas imagens, Leigh-Anne beijando o mesmo prisioneiro.
O murmúrio que correu entre as tropas desta vez não morreu de imediato. Speik franziu o cenho. Cavalry olhou direto para minha mãe. Alan permaneceu imóvel, mas a tensão no maxilar dele apareceu. Ian já não parecia entretido. Minha mãe, no entanto, apenas inclinou levemente a cabeça.
— Fotografias podem ser fabricadas — disse. — Cartas podem ser forjadas. Um rei morto e uma fugitiva desesperada formam uma combinação bastante útil para qualquer narrativa.
— Não terminei de falar — respondeu, e a calma dela me atingiu com mais força do que um grito teria atingido.
Ela explicou que havia também recibos velados de pagamento, nomes de guardas transferidos pouco antes do golpe, mudanças de escala em setores-chave do castelo, ordens de deslocamento que deixavam passagens livres justamente nas áreas usadas por Yan na noite da morte do meu pai. Havia relatórios sobre o plano de Roger para conter Vantron, relatórios que só um círculo muito restrito conhecia e que apareceram, quase linha por linha, em cartas repassadas para o outro lado semanas antes do ataque. Havia anotações sobre encontros entre Leigh-Anne e Yan em territórios neutros, horários, locais, nomes de testemunhas que desapareceram ou foram afastadas. Havia inclusive uma sequência de imagens em que Leigh-Anne encontrava Yan pessoalmente meses antes da explosão, em uma estufa abandonada do lado leste do castelo, lugar que ninguém usava desde a última reforma.
— E havia uma última coisa — disse . Ela fez uma pausa curta, não para criar efeito, mas porque o peso daquilo parecia exigir espaço. — Uma carta do próprio Roger, escrita poucos dias antes da morte dele. Nela, ele diz que não tinha mais certeza de quem dividia a cama, o trono ou o reino com ele. Diz que, se algo acontecesse antes que pudesse agir, a caixa deveria ser entregue à pessoa que ele acreditava ser forte o bastante para enfrentar Leigh-Anne sem desejar a Coroa para si. Meu peito apertou antes mesmo que eu pudesse impedir. Eu sabia o nome que vinha depois. E, quando me olhou por um breve segundo antes de voltar a encarar os reis diante dela, eu entendi que os outros também entenderiam. — Ele deixou a caixa para mim.
Ninguém falou logo em seguida. Nem Speik, nem Cavalry, nem Alan. Ian observava com uma atenção nova, mais fria. Minha mãe permaneceu no mesmo lugar, ainda impecável, ainda reta, ainda dona da própria voz. Mas eu a conhecia o bastante para perceber que ela já não estava administrando apenas uma acusação. Estava diante de estrutura. De tempo. De planejamento.
E, mesmo assim, ela não cedeu um centímetro.
— Admirável — disse, por fim, como quem avalia uma peça de teatro bem montada. — Uma fugitiva, um general destituído, um rei morto e uma caixa impossível de verificar neste instante. Se eu não soubesse quem você é, quase ficaria impressionada, . — Ela voltou-se para os outros soberanos com a mesma elegância glacial. — O que vocês ouviram até agora foi uma narrativa costurada por gente que precisava de um culpado à altura do escândalo. Beijos em corredores, encontros sem contexto, cartas sem cadeia de custódia, imagens sem origem confirmada. Tudo isso pode ser verdade, pode ser meia verdade ou pode ser exatamente o que parece quando alguém quer transformar caos em legitimidade. — Então ela me olhou. Não para me convencer. Para me atingir. — E o mais perigoso é que meus próprios filhos parecem prontos para acreditar primeiro e pensar depois.
Foi nesse instante que eu soube que nada do que viria a seguir seria simples. tinha trazido verdade, mas minha mãe ainda tinha o que sempre teve de melhor: argumentos pesados o suficiente para atrasar a queda. E, às vezes, atrasar já era quase vencer.

Por .

Nada havia me preparado para aquele momento. Não por não saber falar diante de uma plateia ou por me intimidar com grandes líderes, mas sim por não saber como contar para os príncipes — aqueles que e havia aprendido a amar durante todo esse tempo de Seleção, dois que eu via como grandes amigos e irmãos e um que era meu amigo e... o amor da minha vida teimoso, sarcástico e cabeça-oca — que a mãe escolheu acabar com os três. Era meio cômico o fato de que eu sempre alertei de diversas maneiras que ela não prestava e, acreditem... eu sempre amei ter razão, mas não queria estar certa agora. Passei meses sonhando em destruir essa mulher e naquele momento, conseguindo fazer isso, não conseguia ficar feliz, pois aquela infeliz não cairia sozinha — ela escolheu levar os filhos para o buraco que criou.
O peso do que eu disse ainda estava no ar quando o silêncio começou a rachar, não de uma vez, mas em pequenas fissuras, como gelo cedendo sob o próprio peso. Eu conseguia sentir os olhares atravessando meu corpo, avaliando cada palavra, cada pausa, cada respiração, como se ainda estivessem tentando decidir se aquilo tudo era verdade ou apenas mais uma versão conveniente no meio do caos. Mas, antes que qualquer um deles tomasse a frente, foi quem quebrou o equilíbrio.
Eu não precisei olhar para ele para saber que estava diferente.
Havia algo no modo como ele avançou um passo, controlado demais, tenso demais, como se estivesse segurando muito mais do que deixava transparecer. sempre foi rápido, afiado, estrategista até o último movimento, mas naquele instante havia outra coisa ali — algo mais humano, mais cru, mais exposto do que ele jamais permitiria em qualquer outro cenário. Ele era o mais próximo dela. sempre quis que ela o visse, nós já brigamos por ela e ali estava a imagem que me deixava arrasada: a decepção nos olhos deles.
— Chega. — A voz dele não foi alta, mas cortou o espaço com uma firmeza que ninguém ignorou. — Antes de qualquer julgamento… — ele respirou fundo, como se precisasse segurar algo dentro de si antes de continuar — nós vamos conversar. Nós quatro.
não hesitou ao dar meio passo à frente, alinhando-se ao lado dele, não como quem acompanha, mas como quem confirma. E quando ele falou, não foi como irmão, nem como filho — foi como herdeiro.
— Guardas de Avallon — a voz dele saiu firme, carregada de algo que não admitia questionamento — vocês obedecem ao príncipe , o segundo da linha de sucessão da Coroa. Baixem as armas.
Houve um segundo de hesitação. Um segundo. Foi o tempo exato em que todos ali entenderam o que aquilo significava.
não levantou a voz, não precisou. Bastou o olhar afiado e a expressão sombria.
E, um a um, como uma onda que se dobra ao comando do vento, os soldados começaram a baixar as armas que apontavam para mim. O som metálico das lâminas e o deslocar dos rifles ecoaram pelo porto como um ajuste coletivo de realidade.
— E apontem para o inimigo — completou , agora sem disfarçar a tensão na própria voz — Porque ele está aqui. — Não precisei que ele dissesse o nome. Mesmo assim, ele disse. — Ian.
O impacto foi imediato.
Speik deu um passo à frente, irritado, indignado.
— Isso é um absurdo — a voz dele carregava o peso de quem não aceitava perder o controle da situação. — Não viemos até aqui para assistir a uma crise familiar disfarçada de decisão política.
— Isso deixou de ser assunto interno no momento em que Vantron entrou no jogo. Vocês não podem simplesmente... — Cavalry acompanhou, a expressão dura, impaciente.
— Podem, sim. — Alan interrompeu, e havia algo na forma como ele falou que não era apenas autoridade, era compreensão. Alan era parte da família. — Você não está vendo? — O olhar dele passou por cada um dos três irmãos antes de voltar para os outros reis. — Eles não estão discutindo poder. Estão tentando sobreviver ao que restou da própria família. Tenha o mínimo de decência, Speik, lembre-se do que passou em seu reino.
O silêncio voltou, mais pesado, mais consciente. Eu senti o momento antes de agir.
Era curto. Era agora.
— Chega — minha voz saiu firme, sem espaço para interrupção. — Vocês vão ficar quietos. — Olhei diretamente para os três reis, sem me importar nas milhões de regras que aquele comportamento quebrava. Robin estava se revirando no tumulo aquela altura. — Isso não é um espetáculo para alimentar o ego de ninguém. Vocês querem respostas? Vão ter. Mas não agora — dei um passo à frente, ocupando o espaço que antes era só deles. — A família Real vai ter essa conversa. E ninguém aqui vai interferir enquanto isso acontece.
Não esperei concordância. Não precisava.
Meu olhar deslizou pelo campo, avaliando posições, distâncias, reações. Eu já sabia exatamente onde cada peça estava, quem hesitava, quem estava pronto, quem ainda precisava de um empurrão.
E então, como se o próprio momento tivesse sido chamado pelo nome, Ian decidiu agir.
Foi sutil no começo.
Um passo. Uma inclinação do corpo.
Aquela mudança quase imperceptível que só alguém acostumado com guerra reconhece antes que aconteça, mas eu vi.
E sorri.
Não de alegria, mas de certeza.
Quando ele avançou, foi rápido, direto, confiante demais na própria leitura da situação.
— Você fala demais para alguém que já deveria estar morta... — Ele não terminou.
Porque eu não deixei.
Deixei que ele se aproximasse o suficiente e no momento em que sua mão ia encostar em meu ombro, fiz o movimento ensinado por meu pai nas aulas de defesa pessoal e nos treinamentos. Foi tão rápido que, em um instante ele estava planejando me matar na frente de todos e no outro, estava caído no chão com meu joelho cravado em seu pescoço e minha espada apontada para a sua cabeça.
Ergui a mão, não com pressa, não com desespero — com precisão.
E dei o sinal.
O som veio primeiro. Metal sendo reposicionado. Passos se ajustando. Respirações que mudaram de ritmo ao mesmo tempo. E então o campo virou. Não foi gradual ou lento, na verdade, foi imediato.
Os soldados de Avallon, aqueles mesmos que até segundos atrás estavam posicionados para me conter, giraram como uma única estrutura, armas sendo levantadas, agora não contra mim, não contra os príncipes…
Mas contra Vantron. Contra Ian. Contra cada homem que havia chegado ali achando que ainda controlava alguma coisa.
O impacto foi visível.
Não nos rostos — nos corpos. Na forma como se reposicionaram.
Na maneira como os olhos se moveram rápido demais para encontrar uma saída que já não existia. Ian tentou reagir, mas não deixei, fiz mais força o deixando sem ar por alguns segundos. A espada arranhando seu rosto, mas não percebi quando ele havia tirado uma faca do bolso e, de maneira desajeitada e desesperada, cortado minha perna. Caí ao lado dele, mas antes que ele pudesse completar o movimento, outra força entrou em cena.
Silenciosa.
Rápida.
Implacável.
Os selvagens.
Eles surgiram ao redor do palanque como se sempre tivessem estado ali, ocupando cada espaço, cada brecha, cada possível rota de fuga. Não fizeram barulho desnecessário, não anunciaram presença — apenas estavam lá, cercando Ian e seus homens com uma precisão que não deixava margem para erro.
Agora não havia dúvida ou negociação ou controle para o lado dele.
Eu inclinei levemente a cabeça, encarando Ian com um sorriso que não escondia nada, ignorando a dor e o sangue que escorria da minha perna.
— Não sei se eu te disse, mas você também está no meu top três de pessoas que quero destruir.
Ele não respondeu. Não precisava. Os olhos dele já tinham entendido.
Voltei o olhar, então, para os príncipes. Para os três. Para a mulher que ainda insistia em parecer no controle. E, por um segundo, tudo aquilo pareceu suspenso. Tudo ali foi tão rápido que antes mesmo de qualquer um agir — , , , meu pai, Alan — já havia acabado e a crise contida. Ian estava contido, por mim e pelos Selvagens.
— Isso não é um ato de misericórdia por você, Leigh-Anne — falei baixo, ao me aproximar deles. — Isso é por eles. Eles merecem a verdade. Aceite sua maldita queda.
— Olha o que você está fazendo, tentando me destruir e...
— Por Deus... — sussurrei, passando a mão na testa e sentindo minha perna latejar. me encarou e se aproximou por puro instinto.
— Precisa cuidar disso, imediatamente — senti suas mãos encostando no ferimento e ele já berrando para um médico aparecer. Meus olhos marejaram, afinal, ele estava no meio da maior crise da vida dele e pensando em mim. — Se alguém encostar um dedo em você, eu juro...
— Vamos ter nosso momento. — Prometi, apertando a sua mão, me controlando para não beijá-lo ali, na frente de todos. concordou com a cabeça e arrumamos a postura, ele entendeu que eu tinha que agir como a Tigre Dourado. — Vão logo — eu disse, com um leve desdém que não fiz questão de esconder — prometo manter tudo sob controle… — Deixei o olhar passar por Ian, pelos soldados, pelo caos contido ao redor. E completei, quase em tom de provocação: — …ou quase.




Continua...



Nota da autora: Conforme prometido, segue novo capítulo fresquinho...





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