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Data de Finalização: 09/11/2020

Capítulo 1

O zumbido atravessava sua mente, não permitindo que ela ouvisse nada.
O peito ardia de tanta dor, e o único sentido que parecia funcionar era o olfato, dado a percepção do cheiro de queimado imperando no ar.
Vagarosamente e com dificuldade, ela conseguiu abrir os olhos. O clarão aos poucos foi tomando espaço e forma em sua visão, até que finalmente ela percebeu o air-bag ativado e o volante logo a frente.
Sentiu o corpo latejar e algo molhava sua face. Encostou os dedos no local da ardência, logo acima de sua sobrancelha e sentiu a dor instantânea. Gemeu em reprovação, e afastou a mão, notando a grande mancha de sangue que coloria os dedos pálidos e gélidos.
Sentindo o corpo tremer, ela percebeu que seus cabelos estavam seguindo a direção da gravidade, e involuntariamente prendeu a respiração ao se dar conta de que estava de cabeça para baixo.
O pânico começou a dominá-la, mas ela sabia que aquilo poderia acontecer. Com os pensamentos trabalhando a mil por hora, null levou a mão trêmula até o dispositivo que prendia o cinto, se preparando para a queda iminente.
Assim que ouviu o clique, seu corpo foi brutalmente jogado para o teto do carro – que estava em contato direto com o chão. Levantou a cabeça, e observou ao redor, sorrindo debilmente para a parte onde deveria existir uma janela – que agora eram cacos de vidros espalhados no asfalto.
A sensação do zumbido no ouvido ia embora à medida que se arrastava lentamente para sair do carro, pouco ligando para os cacos de vidro que marcavam a sua pele em pequenos cortes.
Valeria à pena, ela sabia. Ela simplesmente sabia.
Já estava com a metade do corpo para fora quando alguém chegou correndo, exasperadamente.

“Moça! Céus, você está bem? Está ferida?” Ela só via os sapatos pretos e a calça jeans escura, mas sorriu quando o rapaz se abaixou para ajudá-la. “Vamos, eu vou tirar você daqui!”

Os cabelos eram os mesmos. O rosto de traços fortes também.
Mas o olhar era intenso, urgente, e principalmente... vívido.
Ela sorriu novamente, sentindo seu corpo ser erguido com facilidade pelo rapaz.

“Você consegue me entender? Está muito ferida?”

Ela não foi capaz de responder, pois foi acometida por uma sessão de tosse, ocasionando num cuspe de sangue. Conseguiu levantar o olhar para o rapaz, que lhe encarava desesperado.
Ela estava com o braço direito sob seus ombros quando ele se abaixou e a pegou no colo, caminhando depressa para um lugar seguro, longe dali.
Pouco a pouco o cheiro de queimado foi ficando para trás, e ela começou a ouvir pessoas berrando, passos acelerados... Olhou ao redor, e apesar da vista não estar 100%, percebeu os vultos correndo para longe dali, assim como o rapaz fazia consigo.

“Eu liguei para a emergência, já estão vindo!” Ele exclamou quando a colocou sentada em um banco do outro lado da rua, distante o suficiente para o carro se tornar uma visão turva atrás dos ombros do rapaz.

Uma aglomeração formou-se em volta dos dois, e ela encarava tudo com muita confusão, volta e meia sentindo os olhos vacilarem.

“Abram espaço! Deixem-na respirar!” O jovem bradava, fazendo as pessoas se afastarem com os rostos amedrontados pela cena que viam.
“Alguém tem água? Eu preciso de água!”

Uma garrafa foi oferecida e ele logo a pegou, retirando do bolso um lenço azul-bebê. Molhou parte do tecido e logo posicionou na cabeça onde null sentia a dor e a ardência.

“Qual é seu nome?” Ele perguntou, analisando o corpo da moça, buscando ferimentos.
“Você consegue me dizer seu nome? Tem alguém para quem possamos ligar?”

Ela não respondeu; estava num estado de torpor tão grande que só conseguia encarar os olhos intensos a sua frente. Com um sorriso abobalhado, ela elevou a mão trépida em direção ao rosto do rapaz, que a mirava confuso.
null abriu a boca, buscando forças para falar. Empurrou oxigênio pulmão a dentro e sua voz saiu rouca e ínfima.

“Eu... c-consegui...” A mão pequena tocou a bochecha quente do homem, enquanto o dedão fazia um carinho quase imperceptível. “Consegui, garoto.”
“O quê?” Ele perguntou, se aproximando dela. “O que está dizendo?” O olhar tenso dele encarava os dela, castanhos, cujas pálpebras alternavam entre abertas e fechadas.

null se aproximou, observando a testa do garoto.

“Te encontrei, garoto O’Brien.” Ela disse, quase num sussurro.

Ele a observava incrédulo, sentindo o coração palpitar dentro do peito. Como ela sabia seu sobrenome?

“C-Como você...” Ele foi interrompido pelo som da sirene, que estacionou de forma atravessada a rua.

As portas traseiras se abriram depressa, com dois paramédicos trabalhando agilmente em direção à jovem acidentada.

“Com licença, com licença! Vamos lá, senhorita. Qual seu nome?” A paramédica colocava uma pequena lanterna diante do olho esquerdo de null, enquanto o outro profissional checava a pressão. O O’Brien se afastou receoso, deixando que os profissionais trabalhassem com maior liberdade.
“Aparente trauma no canto superior da cabeça, apresentando perda considerável de sangue.” O paramédico alertou, enquanto analisava o aparelho de pressão.
“Eu encontrei...” null dizia, aparentando cada vez mais sonolência.
“Encontrou o que, senhorita?” A paramédica a olhou confusa, e seguiu o olhar da jovem para o rapaz. “Conhece esta moça?” Perguntou em tom imperativo.
“N-não! Eu apenas a retirei do carro!” O homem indicou o carro capotado do outro lado da rua.
“Pressão oito por cinco e caindo!” O outro paramédico informou, com urgência na voz.
“Droga!” A socorrista bradou, preparando a maca. “Vamos, temos que correr!”

Rapidamente colocaram o corpo de null na horizontal, devidamente acoplado à maca, e encaminharam para a ambulância.

“Você! Venha conosco, vai ter que responder algumas coisas no hospital!” A paramédica ordenou ao jovem, que subiu na ambulância sem pestanejar.

Se posicionou ao lado daquela mulher de aparência tão frágil, com o corpo lacerado de cortes e uma mancha da cor da aurora boreal pintando a tez, desde os ombros em direção ao seio esquerdo, onde o rastro era coberto pela camiseta O carro tomou velocidade e a sirene da ambulância voltou com tudo, enquanto os profissionais trabalhavam rapidamente, conectando aparelhos e aplicando manobras precisas no corpo da jovem.
Enquanto os mesmos trocavam informações técnicas, a paramédica parou abruptamente quando encontrou um objeto dentro do bolso da calça de null.

“Ah meu Deus...” Ela disse, exasperada, enquanto olhava o crachá de olhos arregalados. “null null... É uma médica do Saint Laurent’s! Você a conhece, Paul?”
“Merda!” Ele exclamou, encarando sua companheira de trabalho. “Eu sabia que a conhecia de algum lugar! Ela é nova lá!” Ele respondeu, enquanto aplicava o soro fisiológico de forma intravenosa.
“Aqui diz que ela começou a assumir esse mês... Terminou residência faz pouco tempo!”

Os dois paramédicos se encaram por segundos que pareceram uma eternidade. Pareciam dialogar muito só naquele olhar, e O’Brien sentiu-se mais nervoso.

“Será que houve traumatismo interno?” O paramédico perguntou, enquanto a outra observava os batimentos cardíacos.
“Eu encontrei... Garoto O’Brien.” null falou do nada, lançando seu olhar para o homem que a observava como se estivesse a ponto de pirar.
“Seu sobrenome é O’Brien?” A paramédica perguntou, e o rapaz confirmou com a cabeça, confuso. “Se você não a conhece, como ela sabe seu nome?” Ela franziu a testa ao questionar, e ele apenas gaguejou, sem conseguir dar uma explicação plausível.

Ele desistiu de dizer algo quando vários sons começaram a apitar dos aparelhos.

“Merda!” A paramédica esbravejou novamente, e olhou para frente. “Acelera! Acelera! Estamos perdendo-a!”
“O-o quê?” O O’Brien indagou perplexo e se virou para a mulher ferida, que lhe sorria um sorriso de paz.

Aquilo o alarmou por dentro.

“Mantenha-a falando com você!” A paramédica indicou. “Precisamos dela consciente, mantenha-a conversando!”

Ele acenou a cabeça rápido, e se aproximou da jovem, segurando sua mão.

“Olá, estranha!” Ele disse rindo de nervoso, completamente perdido. “Você sabe meu sobrenome, não é?” E ele percebeu que ela sussurrou um sim quase inaudível.
“Certo, agora que tal dizer meu primeiro nome? Você consegue?”

Os apitos dos aparelhos começaram a acelerar, e as batidas do coração do rapaz acompanharam o ritmo insano.

“Quanto tempo???” A paramédica berrou, e a motorista gritou de volta.
“Cinco minutos!”

A socorrista bufou, ansiosa.

“Continue falando!” Ela orientou, e o rapaz olhou para a paciente, que o encarava sonolenta.
“Meu nome, null. Qual é meu nome?” Ele disse, sorrindo da forma mais aflita que já sorriu na vida.

A jovem sorriu minimamente, e manteve as pálpebras erguidas, mantendo contato visual com ele. Ela soltou a mão que se prendia à dele, e elevou até à altura dos olhos do rapaz. Ele franziu o cenho, não entendendo o que estava acontecendo, até que sentiu o toque dos dedos indicador e médio em sua testa. O choque daquele específico gesto, unido à diferença de temperaturas – a mão gélida e a testa suada – fez com que um calafrio atravessasse toda sua espinha.

null.” Ela sussurrou, e a feição de incredulidade tomou conta dele. “A resposta é ‘borboleta azul’.”

Ele abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. Apenas encarava null, sem reação. Até que uma lágrima cruzou seu rosto, e outra, e mais outra, e quando se deu conta, estava chorando silenciosamente. Piscou repetidas vezes, e mesmo que seus olhos estivessem pairando sob os dela, null nitidamente possuía um olhar perdido.
Ele estava tentando elaborar alguma frase em sua mente, quando sentiu os dedos escorregarem de sua testa – e simultaneamente, os olhos castanhos se fecharam.
Tudo aconteceu em câmera lenta, porém ele não conseguia reagir. Ele via o braço sem forças pendurar-se para fora da maca, assim como viu a paramédica berrar coisas incompreensíveis para seus companheiros, enquanto se colocava em cima de null, iniciando massagem cardíaca.
A cada piscada que dava, o mundo parecia agir sem ele. Sem sua ação, ele apenas observava as coisas acontecendo, sem acreditar em tudo que acabava de presenciar.
E a única pessoa que poderia explicar, era uma médica desacordada, tentando ser ressuscitada por uma socorrista desesperada em meio a aparelhos de sons vibrantes e incessantes.
Até que uma específica máquina não apitava mais; apenas reproduziu um som agudo e contínuo, que fazia par com a linha reta evidenciada no monitor, representando a ausência de batimentos cardíacos. O som alucinante – o mesmo que ouviu há dois anos – estava de volta, deixando-o novamente sem chão. Ele despertou de seu devaneio e encarou o corpo imóvel de null.
Ela estava... morta?


Capítulo 2

Sete dias antes


O relógio despertara às 6:10 da manhã. Ela acordou sobressaltada, com os cabelos colados no rosto devido ao suor. Acordou ofegante e confusa, e logo desligou o alarme que insistia num som estridente e irritante.
Sentou-se na cama, ainda tentando entender o que acabara de acontecer. Estava sonhando com algo tão peculiar, tão saudosista – e mesmo assim, algo que ela nunca viveu.
Dirigiu-se ao banho, como de costume, com os pensamentos longe... Deixava a água cair sobre sua cabeça enquanto a testa apoiava-se no azulejo do box, e seus olhos acompanhavam as gotas que desciam livres pela parede.
Quem eram as pessoas de seu sonho?
Ela não fazia ideia de quem se tratava – seus rostos não apareciam nitidamente, apenas suas vozes e o diálogo que trocavam entre si.
Sorriu involuntariamente ao lembrar-se da criança aborrecida com um jovem, que parecia ser seu irmão mais velho. O garoto de aproximadamente dez anos estava visivelmente chateado, resmungando de braços cruzados enquanto perdia a partida de xadrez para o mais velho.
Eles possuíam a mesma cor de pele, e roupas parecidas, como se fossem pijamas. Infelizmente, os rostos estavam embaçados e null não saberia descrevê-los mesmo que se esforçasse.
Enquanto tomava seu café, a médica tentava se lembrar do que exatamente eles conversavam em seu sonho, durante a partida de xadrez. Ela lembrava dos gestos do irmão mais velho, que apontava para as peças e explicava o jogo e as estratégias, enquanto o mais novo observava atentamente, parecendo gravar tudo na memória, com uma postura madura demais para sua idade.
A rosada riu sozinha pensando em como seria interessante se criasse uma história a partir de sua imaginação onírica, mas a risada foi interrompida por uma memória do sonho que ressoou em sua mente.

“Não quero mais jogar isso!” A criança reclamava, cruzando os braços e se virando de costas. O irmão mais velho riu e bagunçou os cabelos do mais novo – que tentou desviar do carinho, mas logo cedeu e virou de frente para si.
“Um dia você vai entender que xadrez é igual a vida.” O caçula estava com o rosto virado para cima observando o irmão, que cutucou sua a testa com o dedo indicador e médio. O mais novo esfregou o local com rapidez e reclamou, mas logo começou a rir quando o outro o abraçou e iniciou uma sessão de cócegas, quebrando o clima aborrecido do caçula.


A cena na mente de null se encerrou, e a mesma encarava o resquício de café no fundo da caneca que carregava em suas mãos. Estava com o olhar perdido, pensando porque cargas d’água teria um sonho tão inusitado como aquele.
Se espantou ao ouvir o celular vibrar com a mensagem de sua amiga desejando-lhe um bom plantão, e suspirou cansada. Não tinha dormido bem aquela noite, e mal esperava para que estivesse novamente em sua cama.
Arrumou suas coisas e em quinze minutos estava pronta, carregando sua mochila num ombro, enquanto colocava um casaco pendurado no outro braço. Estremeceu ao ouvir o trovão do lado de fora e bufou, pensando que seria um dia carregado de chuva.
Pegou as chaves do carro e se dirigiu à janela para fechá-la, e quase caiu pra trás quando viu um corvo a encarando, apoiado no parapeito.

“Cruzes!” Ela sussurrou, fechando rapidamente a janela, ficando surpresa em como o animal sequer moveu um músculo – mesmo com sua aproximação.

A ave encarava null dentro de seus olhos. Quase como se observasse sua alma, e a mulher estremeceu com aquilo, antes de se mover com a chegada de uma nova trovoada.
Saiu apressada, sentindo calafrios ao lembrar do corvo em sua janela. Estava fechando a porta de sua casa quando percebeu a Senhora Dulce regando suas plantas ao lado da porta de casa.

“Bom dia, minha filha!” A velhinha cumprimentou com um sorriso gentil, enquanto null retribuía, atrapalhando-se na hora de trancar a porta – deixando a chave cair.
“Bom dia, Dulce!” A jovem respondeu, buscando apressadamente a chave e tentando encaixá-la na fechadura.
“Já vai tão cedo?” A velhinha perguntou, parando próxima à médica, que finalmente conseguia trancar a porta.
“Sim! Hoje é meu plantão, sabe como é... Longo dia.” E sorriu, guardando as chaves na bolsa enquanto se ajeitava.
“Oh minha querida, sei como é... Muito agitado, não?” Dona Dulce encostou no batente da porta com o regador na mão, enquanto null apertava o botão do elevador, aguardando-o ansiosamente.
“Muito conturbado, Dulce. Mas, é meu trabalho.” A jovem respondeu sorridente, vendo o visor marcar os andares um por um, em ordem crescente.
“Imagino, querida.” A vizinha respondeu, remexendo em suas plantas com uma cara concentrada. “Achei!” Dulce exclamou animadamente, puxando um galhinho de arruda e entregando-o para a médica, que a encarava surpresa. “Leve com você, minha filha.”
“N-não precisa, Dulce. Estou be...” A velhinha insistiu com a planta, levando-a até seu rosto, e null ficou vesga encarando aquele galho cheiroso.
“Vamos, menina. Proteção nunca é demais. Coloque no bolso e tenha um plantão tranquilo.”

null sorriu sem graça, e aceitou a planta, colocando no canto de sua orelha logo depois de cheirá-la profundamente.

“Obrigada, Dulce.” A jovem respondeu, e logo a porta do elevador se abriu. Se despediu com um aceno de mão, recebendo outro de volta.

E como esperava, o plantão foi intenso. Tão cansativo que no dia seguinte, ao sair de manhã, null sequer passou na padaria para comprar o pão do café da manhã. Apenas seguiu para sua casa, arrastando seu corpo debaixo do guarda-chuva logo após trancar o carro. Chegou em casa como um zumbi e se direcionou para o seu merecido banho.
Olhou para a banheira e pensou em relaxar com sais e espumas, e sorriu levemente enquanto ligava a torneira e retirava a roupa. Pensando bem, aquilo era um dos poucos luxos que conseguiu se permitir na vida adulta; já que qualidade de sono e forma física era algo bem mais difícil de garantir com sua rotina atribulada.
Momentos depois, estava com o corpo embaixo da água quente, e a cabeça encostada no vão da banheira. Massageava o pescoço, tentando esquecer um pouco o plantão difícil que teve. Quase perdeu um paciente idoso, e por mais que tentasse separar o pessoal do profissional, não conseguia ignorar o aperto no peito ao pensar em mais uma vida que esvaía de suas mãos.
Antes que aquele pensamento a invadisse mais, começou a repetir bordões e frases já conhecidas para si mesma, que reforçavam a realidade: vida e morte andavam lado a lado, e este era o ciclo da vida – feliz ou infelizmente. Tentando esquecer a sensação ruim, null pegou o sabonete e começou a passá-lo nas mãos, criando uma espuma quase instantaneamente. Enquanto passeava os dedos na pele macia, ela reparou nas cores das borboletas azuis tatuadas em seu braço esquerdo, e sorriu satisfeita.
Aquela tatuagem era um misto de emoções, que deixavam um sabor agridoce em sua boca. Ainda se lembrava do dia em que decidiu fazê-la.

***


Estava voltando de mais um plantão de residência. Era seu primeiro ano, e estava devastada. A primeira morte era sempre marcante – era o que ouvia dos outros colegas e mestres. Mas nunca esperou que fosse tão arrebatador.
Nem que fosse tão surreal assim.
Sua vizinha, Dulce, percebeu o semblante moribundo e a trouxe para sua casa para tomar um café e acolher a pobre jovem. Ela mal tirava os pés do chão para se locomover, e as coisas ao seu redor pareciam vultos, mal enxergando um palmo diante de si.
A velhinha colocou uma xícara de café fumegante na mesa logo a sua frente, e null apenas observava a fumaça dançante, sem conseguir dizer um “obrigada”. Após um bom tempo e muita insistência de sua vizinha, a médica contou o que aconteceu.
Ele era um jovem bonito, alto, um pouco mais velho que ela – não mais que quatro ou cinco anos. E a imagem de seus olhos abertos, sem vida, encarando-a, não saía de sua mente. O monitor soava no som irritante que não cessava, e a linha reta indicava a ausência de batimentos cardíacos – que já ultrapassavam sete minutos.
Sem atividade cerebral, sem pulso, sem batimentos cardíacos.

“Hora da morte: 05:02 da manhã.” O médico declarou, e os olhos null se encheram de lágrimas, enquanto a residente se ajoelhava no chão e agarrava a mão inerte do paciente.
“Senhorita null...” O Dr. null a chamou depois de um tempo, com pena no olhar. “Por favor, seja forte. Preciso que me aguarde na sala dos servidores.” Ele colocou as mãos no ombro da jovem, que chorava compulsivamente. Aos poucos, ela se levantou desolada, e olhou nos olhos de seu supervisor.
“Doutor, ele era tão jovem!” Ela dizia entre soluços, e o médico fez um sinal afirmativo com a cabeça, visivelmente mexido com aquela perda.
“Eu sei.” Ele disse, debaixo da máscara, encarando o chão de forma pesarosa. “Nós não sabemos o que se passa na cabeça das pessoas... Tão pouco como se sentem em relação à vida.”.

null chorou copiosamente ao ouvir as palavras dele. Ela sabia que aquilo era verdade, mas em nada mudava o fato de que havia perdido uma vida.

“Isso é muito complicado...” Ela sussurrou em meio ao choro, e o doutor se abaixou a seu lado.
“É sim.” Ele confirmou, olhando em seus olhos. “Não há palavras que façam você se sentir melhor agora. Só o tempo...”.

Ela concordou com a cabeça, enquanto acariciava a mão fria do jovem. Levantou-se e se pôs ao lado do corpo, fechando seus olhos com delicadeza e cuidado, enquanto tentava engolir o choro.
O doutor se aproximou novamente, e com as mãos no bolso do jaleco, disse:

“Sei que é a primeira vez que isso lhe acontece. Então deixarei que se acalme um pouco enquanto aviso à família.”
“Não!” Ela exclamou, tentando limpar as lágrimas com as costas das mãos. “E-Eu vou até lá! Preciso!”
null.” O doutor a chamou pelo primeiro nome numa entonação imperativa e grave, fazendo a jovem estremecer levemente e observá-lo receosa. “Hoje não. Respeite seu tempo também. Me aguarde na sala dos servidores, por favor?”

A residente acenou com a cabeça, resignada. Arrastou o corpo pela porta, sem entender como aquilo aconteceu tão rápido. Há menos de meia hora o paciente deu entrada no hospital, e então seu quadro evoluiu de tal maneira que não havia visto nem em seus piores pesadelos. A cena do peito do jovem subindo e descendo em contato com o desfibrilador, sem apresentar nenhuma alteração, era de longe o maior terror que havia presenciado na vida. Não desejava aquilo nem para seu pior inimigo, e definitivamente começava a conhecer partes da sua profissão que simplesmente detestava.
Após algum tempo, seu supervisor entrou pela porta e conversou com ela. Lhe ofereceu algumas palavras de apoio, orientou quanto a este tipo de situação, e sugeriu que fosse para casa para descansar e colocar a cabeça no lugar. À contragosto e com pouco ou nenhum ânimo, null saiu do hospital, não sem antes perceber o casal de meia idade que se abraçava desoladamente. O choro compulsivo da mulher era o som mais dolorido do mundo: o de uma mãe que acaba de perder seu filho. E ela sabia que se tratavam dos pais do jovem, devido à semelhança dos traços. Olhares profundos, traços idênticos e a tez da pele não deixavam dúvidas.
Ela olhou mais uma vez com os olhos cheio de lágrimas antes de se dirigir ao estacionamento e pôs-se à chorar no carro por mais meia hora, até que de fato fosse para casa.
Ao relatar o caso para sua vizinha, a mesma lhe acolheu num abraço caloroso, e null derramou seu pranto por um bom tempo, até sentir seus olhos incharem. Deitada com a cabeça no colo de Dulce, a velha acariciava os cabelos enquanto contava a antiga lenda da borboleta azul para a menina.

“Há muito tempo, um pai vivia uma indecisão diante da inteligência e astúcia de suas duas filhas. Muitas vezes sem saber o que lhes responder ou como orientá-las, ele decidiu levá-las ao velho sábio que morava no alto do Monte. Lá, as meninas conviveram algum tempo com o sábio, que conseguia responder à todas as perguntas das meninas. Num belo dia, as crianças decidiram testar de forma maliciosa até onde ia a sabedoria do velho, e pensaram numa pergunta que ele não seria capaz de responder. A ideia surgiu de uma das meninas, que agilmente capturou uma borboleta azul e a fechou em sua mão. A irmã ficou confusa, mas a outra logo lhe explicou: ‘Vou até o sábio perguntar se a borboleta em minha mão está viva ou morta. Se ele disser viva, eu a esmago em minhas mãos. Se ele disser ‘morta’, eu a liberto. Ou seja, de um jeito ou de outro, ele não vai estar certo nunca, entendeu?’. A irmã caçula ficou surpresa com a ideia, e logo as duas foram ao encontro do velho, que meditava tranquilamente. A mais velha se posicionou diante dele com a mão fechada, e perguntou: ‘Sábio mestre, você poderia nos dizer se a borboleta em minhas mãos está viva ou morta?’. O velho abriu os olhos e a encarou sorridente, e lhe deu a seguinte resposta. ‘Isso depende apenas de você, querida. Ela está em suas mãos.’”

null se levantou e sentou-se ao lado de Dulce, lançando um olhar temeroso.

“O que quer dizer com isso, Dulce? O paciente era minha borboleta azul?” Ela perguntou, aflita. A velhinha lhe sorriu e acariciou o rosto, negando com a cabeça.
“Quero dizer, minha filha, que antes de mais nada ele era a própria borboleta azul da vida dele. Ele se tinha nas mãos, e tomou a decisão que achou mais certa.” Os olhos pequenos de Dulce encararam os lacrimejados de null com fervor.
“Quero dizer que ele não era uma borboleta azul em suas mãos, e muito menos que você a fechou com violência e a matou. Ninguém na verdade sabe o que fez ele mesmo fechar a mão sobre si tomando todos aqueles remédios, querida. Mas a verdade é que optamos por escolhas e decisões a todo tempo. Ele fez a dele, você fez a sua. O resultado nem sempre será o que desejamos, mas o que nos define é o que fazemos com o que temos em nossas mãos. Este rapaz era uma borboleta azul bem doente quando chegou até você. E por mais que tenha tentado ajudá-la e libertá-la, o bater das asas dependiam dele, entende? Faz parte da vida.”

null fungou, sentindo os olhos arderem de tantas lágrimas. Aquilo doía tanto, e ela não conseguia aceitar o fato de perdê-lo. Por mais que soubesse que o mundo rodava num ritmo muitas vezes doentio, acelerado e pouco cuidadoso, uma vida era uma vida, independentemente de qualquer coisa. O que fazia seu corpo arrepiar diante dos pensamentos que tinha – sobre o que levava uma pessoa a tomar a decisão de engolir um vidro inteiro de tarja preta, sabendo das consequências.

“Ele só queria parar a dor...” null sussurrou, enxugando as lágrimas, enquanto Dulce acenava levemente a cabeça. “E me parte saber que ninguém foi capaz de ajudá-lo em vida, sabe?” Ela mordeu os lábios, indignada. “Eu só queria que cuidássemos um dos outros, Dulce. Cada vida importa tanto...!” E desatou a chorar novamente no colo da velha, que com um sorriso triste, acariciava suas costas como uma avó nina sua neta.

Naquela noite, null passou o tempo todo pensando na lenda da borboleta azul, e em como as palavras de Dulce a atravessaram e fizeram sentido diante do que a jovem médica vivia.
Passou a semana refletindo sobre tudo que havia acontecido, até que num belo dia de folga decidiu fazer algo por si. Olhou-se no espelho e mexeu no cabelo, sentindo que aquela cor já não lhe contemplava mais. Sorriu cúmplice de si mesma, pensando que existiam coisas mais importantes do que temer a opinião alheia, e simplesmente saiu à rua à procura da tonalidade que sempre quis pintar, mas nunca havia tido coragem com medo do que pensassem de si. Horas depois, estava com os cabelos pintados de rosa, sentada na poltrona num estúdio de tatuagem próximo à sua casa.
Após explicar sua ideia para o tatuador, null teve seu braço esquerdo marcado logo abaixo do ombro por um belíssimo desenho; um bando de borboletas azuis – um panapanã, como é chamado o coletivo dos insetos. Sorriu satisfeita com a obra feita por Samuel, que tinha uma tatuagem no canto da testa e era muito simpático.
Conversaram bastante durante a sessão, e o rapaz achou incrível o significado que null dava àquela tatuagem, diante de tudo que tinha passado como residente – e do que passaria, como futura médica.
Ao chegar em casa após a sessão e deitar em sua cama, aquela foi a primeira noite que null dormiu sem chorar depois da perda de seu primeiro paciente.


***


Quando se deu conta, os dedos estavam enrugados e a água já estava fria. Fazia tanto tempo que não tomava um banho longo daqueles – e que não se permitia pensar naquelas memórias. Apesar de sempre trazer alguma dor, lembrar-se daquela traumática noite de dois anos atrás já não era tão difícil assim.
Depois deste paciente, outras pessoas foram salvas, algumas não. Aquilo não significava a banalidade da vida, e null começava a entender que de alguma forma, a perda de uma alguém sempre doeria – mas ela focaria ao máximo no quanto poderia ajudar. Ao olhar para as borboletas em seu braço, pensava que sempre decidiria pela vida toda vez que uma “borboleta” pousasse em suas mãos. E aquilo era o suficiente para seguir.
Colocou uma velha roupa de dormir e se posicionou diante da pia para escovar os dentes. Quando estava prestes a colocar a escova na boca, ela viu pelo reflexo do espelho um vulto preto no canto do banheiro, atrás de si.
Deu um pequeno grito e se virou instantaneamente, não encontrando nada além do azulejo branco da parede. Com a mão no peito, respirou fundo e balançou a cabeça, tentando se acalmar e voltar ao normal. Estava exausta do último plantão, e talvez o cansaço fosse tão grande que estava vendo coisas! Um descanso cairia bem, de fato.
Ao terminar de escovar os dentes, enxaguou a boca e guardou a escova no lugar. Mas ao erguer a cabeça da pia, sua respiração parou diante das palavras que jaziam no espelho embaçado:

“AINDA HÁ TEMPO. SALVE-O.”

null estava boquiaberta com o que estava vendo. Não acreditava naquilo, como é que poderia ser real? Teria alguém invadido sua casa, feito um tipo de brincadeira sádica consigo?
Conseguia se lembrar perfeitamente de trancar a porta, não lembrava de ter deixado a janela aberta... Como era possível?
Estava a ponto de virar o apartamento de cabeça para baixo quando encarou novamente o espelho, e nele já não havia mais nada. Estava embaçado como um espelho normal estaria, sem nenhuma palavra escrita, nenhuma mensagem oculta. Ela piscou inúmeras vezes antes de se permitir respirar novamente.
Definitivamente precisava descansar.


Capítulo 3

O alarme foi desarmado sem que ele tocasse. O relógio marcava 5:57 e null sentou-se na cama sem precisar do despertador. Ela juntava forças para levantar-se – faziam três dias que não dormia direito, e quando conseguia descansar, era arrebatada por sonhos similares ao que tivera dias atrás.
Como estava muito cedo, se permitiu sentar próximo à janela e observar o nascer do sol. Estava com os braços cruzados em cima do batente, com o vidro aberto, sentindo a brisa gelada da manhã.
O céu pouco a pouco se iluminava, e aquele momento do dia acabou se tornando um de seus favoritos diante dos últimos tempos, nos quais a insônia sem motivos fazia presença. Estava com a cabeça deitada nos braços, como uma criança que assiste a um espetáculo, e após os primeiros raios solares brotarem no céu, null sorriu levemente.
Não sentiu os olhos fecharem, nem percebeu que adormeceu, até que despertou no susto, quando um corvo apareceu bem diante de si, berrando.
O susto foi tão grande que a médica caiu para trás, e espalmou as mãos no chão, ofegando ao encarar o animal que a olhava de volta. Ela devia correr e fechar a janela? Deveria espantá-lo? Deveria pegar um cabo de vassoura e tentar tirá-lo dali?
Nada disso foi preciso. A ave apenas ficou alguns segundos, antes de alçar novo voo para longe dali. null ainda tentava se recuperar do susto, e foi até a janela, se apoiando na beirada para tentar achar o corvo no céu.
Nenhum sinal do mesmo. Seria o mesmo de dias atrás? Ela suspirou, assustada e cansada, e estava prestes a fechar a janela quando viu algo que lhe chamou a atenção: na parte de fora da beirada de mármore, uma peça de xadrez estava deitada, quase caindo sete andares abaixo.
Com a mão trêmula, a jovem pegou o objeto, trazendo para perto de si e o observou minuciosamente, na altura dos olhos.
A peça era de madeira, da cor preta, e se não lhe falhava a memória, o seu formato indicava que era um rei. A médica virou a peça de cabeça para baixo, na diagonal, na horizontal... de todas as formas! Mas nenhum sinal, nenhuma marca, nada. Não sabia explicar como o objeto parara ali. Colocou a cabeça para fora da janela e olhou para cima, confirmando o que já suspeitava: nos andares de cima simplesmente não havia ângulo para justificar uma queda acidental que posicionasse o rei naquele local. E, por estar apreciando o nascer do sol há três dias, ela sabia muito bem que a peça não estava ali antes, ou seja – era algo inédito daquele dia.
null entrou, fechou a janela, e com a peça em mãos, sentou-se na cama com o cenho franzido. Será que aquele objeto teria sido trazido pelo corvo? Se sim, de onde ele tirou isso?
Seus pensamentos estavam confusos quando sentiu o celular vibrar na mesa de cabeceira. Ela arqueou levemente o corpo, pegando o aparelho e vendo que era uma mensagem de null desejando um bom plantão. null sorriu levemente, lembrando que a amiga estava visivelmente preocupada consigo, com a questão de dormir pouco. Afinal de contas, foram dias difíceis. O hospital estava sofrendo cortes e diminuição de pessoal, fazendo com que vez ou outra os profissionais dobrassem ou fizessem hora extra.
null estava exausta, e quando chegava em casa, mal comia algo – pensava apenas em dormir. Mas ficava difícil diante da insônia e dos sonhos esquisitos que andava tendo com aqueles irmãos sem rosto, numa partida de xadrez.
E foi pensando nisso que seus olhos se arregalaram, e a peça escorregou de suas mãos, fazendo um sonoro barulho no chão de taco.
Aquela peça era idêntica as que os irmãos usavam enquanto jogavam... em seus sonhos.

***


Estava retirando o jaleco para almoçar um sanduíche, quando a porta da sala dos servidores foi aberta de supetão.

“Oh, você ainda está aqui!?” null exclamou confusa, enquanto null lhe devolvia um fraco sorriso. Caminhou até à geladeira e retirou seu almoço, visivelmente cansada.
“É sério que você só vai almoçar isso?” A loira perguntou, e null se sentou à mesa, movendo os ombros como resposta.
“Não posso me dar ao luxo de demorar e almoçar bem. Estou fazendo hora extra e estou exausta, então... Não quero sair tarde.” Ela explicou, dando uma mordida em seu sanduíche.

null fez uma careta de dor, e se direcionou até o armário, pegando o estetoscópio.

“Você sabe que isso não é desculpa, dá pra se alimentar melhor...” E a olhou por cima do ombro, preocupada. “Achei que você estivesse largando agora, amiga. Você está há trinta horas de plantão ininterrupto. Vai ficar até quando?”
“Até a outra doutora chegar...” E olhou no relógio da parede, suspirando. “Às sete.”

null arregalou os olhos, e fechou a porta do armário com força.

“Porra null, 36 horas? Você chegou a descansar?” A loira se posicionou na frente da amiga, com as mãos na cintura e o cenho franzido.
“Sim.” null respondeu, dando uma nova mordida no sanduíche.

Estava mentindo. Quando tentou descansar naquele plantão, teve pesadelos horríveis com os irmãos que conhecia pelo mundo onírico. Na verdade, ela sonhara com o irmão mais velho desesperado, enquanto o mais novo parecia ter crescido, e estava enfurecido numa discussão com os pais. Era aflitivo, porque parecia que o mais velho era algo a parte da briga, e o resto da família apenas discutia entre si, cada vez mais intensamente.
null despertou daquele pesadelo com um grito na cabeça, e não conseguiu cochilar mais. Voltou a trabalhar depois de lavar o rosto e tomar uma enorme xícara de café preto.

“De toda forma, você precisa dormir mais, amiga. Não dá pra fazer isso toda hora. Olha só pra você!” E null verificou o rosto da amiga, fazendo um sinal negativo com a cabeça. “Está pálida, além das olheiras que não te largam mais!” E se direcionou de volta para o armário, enquanto null arqueava a sobrancelha, dando outra mordida no seu almoço.
“Isso vai passar. Logo as coisas melhoram...” A médica decidiu comentar qualquer coisa que a livrasse da preocupação exagerada de sua amiga.

Ledo engano.

“Ahá!” A loira exclamou, fechando o armário efusivamente, fazendo um barulho que fez null se encolher, de tão alto. “Achei os chás que comprei na feira orgânica. Alguns deles são relaxantes, leve um deles para se livrar do stress e dormir igual a um bebê.” Ela entregou uma sacola e null piscou inúmeras vezes antes de agradecer.
“Obrigada, null. Vou tomar um desses assim que chegar em casa.” E sorriu genuinamente, enquanto a outra acenava com a cabeça, apoiando-a.
“Doutora null?” O Dr. null apareceu na porta, e encarou as duas médicas, que o olhavam de volta. “Doutora null...” Ele acenou com a cabeça, e a loira sorriu gentilmente.
“Sim, Dr.?” null respondeu, percebendo que o homem tinha uma ruga de expressão na testa que o deixava com o ar mais sério do que de costume.
“Posso falar com você depois do seu... almoço?” Ele perguntou, olhando rapidamente para o sanduíche em suas mãos. “Não precisa correr, pode finalizar com calma.”
“Claro. Onde lhe procuro?” Ela retrucou, e ele logo respondeu.
“Na minha sala, sim? Obrigado.” E acenou com a cabeça, se retirando do local.
“Lá vem merda...” null comentou, continuando com seu sanduíche.
“Que nada! Ele tá afim de te dar uns pega em cima da mesa.”
null!” null ralhou com a boca cheia, e a loira gargalhou alto.
“Você acha que estou mentindo? Ele nunca vai superar aquele ano novo, null...”
“Foi só uma noite de bebedeira, céus.” A rosada rolou os olhos, e a amiga riu ainda mais.
“Você trouxe o verdadeiro significado de confraternização!”
“Ai, cala a boca!” Ela deu um leve tapa no braço de null, que sorriu convencida.
“Vai dizer que não aproveitou?”

null se levantou e guardou a metade do sanduíche. Já estava com o apetite fraco, e depois da chamada de null, havia perdido a fome. Escovou os dentes na pia, e antes de sair, respondeu à amiga.

“É claro que aproveitei. Ele é gostoso pra caralho!” null gargalhou alto, e a doutora null piscou divertidamente enquanto saía da sala – não antes sem ouvir um “Eu sabia!!!”.

***


“Entre!” null pode ouvir do outro lado da porta, depois de batê-la.
“Com licença. Queria falar comigo?” Ela disse, entrando e se sentando na cadeira, conforme indicava o gesto do doutor.
“Sim.” Ele respondeu, sério. Puxou o livro de ocorrências que estava em cima da mesa, e o posicionou na frente de null. “Primeiramente gostaria de agradecer a sua perseverança. Sei que está há mais de 30 horas em plantão e, bem, apesar de saber de sua capacidade, não posso evitar a preocupação diante dos... acontecimentos.”

null arqueou a sobrancelha, sorrindo sem graça.

“Não estou entendendo, doutor. Pode ser mais específico?” Ela solicitou, e ele respirou fundo antes de continuar.
“Aconteceu alguma coisa ontem que tenha lhe causado aflição, mal-estar...?” Ele perguntou e null não conseguiu evitar o franzir de seu cenho. Ela cruzou os braços, negando com a cabeça.
“Nada fora do comum... Tem sido um plantão longo, um pouco conturbado, como é a rotina do hospital. Por que a pergunta?” null perguntou, confusa.

As mãos do doutor cruzaram-se em cima da mesa, e seus lábios estavam numa linha fina. Ele estava visivelmente incomodado e aquilo involuntariamente contagiou a médica, que se remexeu na cadeira, nervosa.

“Então nada aconteceu ontem, doutora null? Nenhum importuno, nada fora do normal?”
“Por favor, doutor null.” Ela pediu, trincando o maxilar. “Vá ao ponto.”

Mais um profundo suspiro. Ele demorou três segundos para começar sua fala.

“Como de costume, preciso analisar os processos e algumas burocracias, como você bem sabe...” Ele explicou, e null acenou com a cabeça, indicando que ele prosseguisse. “Estava verificando o livro de ocorrências do hospital como de praxe, e encontrei uma coisa um tanto... incomum.”

O doutor abriu o livro e passou folha por folha, até chegar na parte que fez os olhos null de null arregalarem. Com o choque estampado em seu rosto, o doutor continuou a falar.

“Isto está escrito por todo livro, repetidas vezes...” Ele passava as folhas e as frases se repetiam sem cessar. “E fiquei um tanto preocupado, porque não sabia do que se tratava. Até que, pelas câmeras de segurança, encontrei isto.” Ele ergueu a mão direita e virou o monitor do computador, apontando para a tela. Ele apertou o um botão no teclado, e instantaneamente o vídeo começou a rodar.

No mesmo, via-se nitidamente null sentada num canto de uma das salas de atendimento emergencial, escrevendo de forma mecânica no livro de ocorrências.

“Como pode ver, isso durou um bom tempo...” Ele acelerou o vídeo, mostrando que null continuou naquela ação por quase uma hora – justamente no horário de descanso.

O doutor deu play num novo vídeo, que mostrou null saindo da sala com o livro e o depositando na mesa da sala dos servidores, antes de se deitar no sofá e cochilar.
A médica olhava do vídeo para o livro, sem entender o que estava acontecendo. Ela encarou o doutor à sua frente, e balbuciou algumas coisas, sem exatamente conseguir dizer alguma coisa sólida.

“E-Eu não... Eu não sei o que dizer...” Ela explicava, mexendo as mãos num movimento ansioso. “Eu não lembro disso!” Decidiu ser sincera, encarando o homem à sua frente, que a observava com um olhar triste.
null.” Ele falou naquele mesmo tom que indicava seriedade e poder. “Honestamente, nem eu sei o que lhe falar...” Ele ergueu as mãos em confusão, e retesou o cotovelo direito em cima da mesa, coçando o cavanhaque no queixo.
“Eu juro que eu não lembro disso...” Ela reforçou, mordendo o lábio e encarando o vídeo pausado. O que diabos estava acontecendo?
“Isso não é tudo, null.” Ele anunciou, tornando a boca numa linha fina. A médica engoliu a seco, apreensiva.
“Além de termos todo o livro preenchido pela frase “Ainda há tempo. Salve-o...” Ele passou mais páginas, até chegar na última, apontando para o rosto perfeitamente desenhado no papel. “Tem isso aqui.”

A boca de null se escancarou, e ela a cobriu com as mãos trêmulas. Afastou-se levemente da mesa, tamanho foi o susto ao encarar aquele rosto tão inesquecível.

“P-por favor, null...” Ela pediu, sentindo sua voz embargar. “Diga que isso é uma brincadeira de mau gosto.”
“Eu gostaria, null...” Ele negou com a cabeça, visivelmente conturbado com a situação. “Eu gostaria. Mas não é.” E a encarou com aqueles olhos tristes que ela reconhecia como os da fatídica noite de anos atrás.

Ela deixou uma lágrima cair, e encarou novamente o desenho do rosto feito à caneta esferográfica azul, cheios de detalhes expressivos. Era surreal.

null...” Ele continuou, depois de suspirar. “Eu reconheci esse rosto assim que coloquei os olhos nele. Sei o que significa pra você. Por isso estou perguntando se está tudo bem, se aconteceu alguma coisa...”
“Não aconteceu nada, doutor.” Ela explicou, com as mãos tremendo. “Nada!”
“Eu sei que ele foi o seu primeiro paciente...”
“Não, null!” Ela insistiu, e ele fechou os olhos com força.
null, por favor...”
“Estou te dizendo, null! Não há nada, eu estou bem!” Ela exclamou, e ele se assustou com a forma que ela respondeu.

Após alguns minutos de silêncio constrangedor, o doutor quebrou o contato visual e se ajeitou na cadeira, endireitando a postura e olhando para o livro exposto em sua mesa.

“Eu discordo, null.” Ele respondeu, numa certeza tão firme que fez a médica se arrepiar. “Procurei nos registros do hospital e encontrei informações demais para serem só coincidências.”
“Do que está falando, null?” Ela perguntou, seca.
“Estou dizendo que a sala na qual você esteve ontem escrevendo estas frases durante uma hora...” E apoiou o dedo indicador no livro. “Foi a mesma sala em que null null morreu há quase dois anos atrás.”
“O-o quê?” Ela gaguejou, sentindo o ar faltar nos pulmões. As mãos começaram a formigar, e ela pode sentir o peito apertar ao ouvir a afirmação do doutor.
null null morreu naquela sala após cometer suicídio ao ingerir inúmeros comprimidos de tarja preta. Depois de amanhã, esse acontecimento fará dois anos, null.”

Os olhos quase saíram da órbita ocular. O frio na barriga aumentava cada vez mais, e sua respiração entrecortada dava claros sinais de que estava nervosa.

null...” Ela sussurrou, encarando o rosto de null desenhado no livro. “Eu juro que não pensava nisso há tempos...” E ela ergueu os olhos até encarar o médico, que a olhava com pena. “Eu juro, e-eu...” E sentiu sua fala ser interrompida pelo choro.

Ele se levantou e sentou-se a seu lado, notoriamente preocupado.

“Não foi sua culpa.” Ele disse, e ela livrou o rosto que se escondia nas mãos, para encará-lo nos olhos. “Não foi sua culpa, null.” Ele repetiu a fala, segurando-a nos ombros. “E eu quero acreditar que você entenda isso de verdade. Mas a mente humana nos prega peças, e a culpa pode ser devastadora... Duradoura... Cruel.”

Ela balançou a cabeça, enquanto fungava desolada.

“E-eu não estava com isso na cabeça, eu juro... Eu estava bem!” Ela explicou, e ele fez um sinal compreensivo com a cabeça. “Eu entendi que faz parte, decidi viver, decidi salvar vidas, null! Eu pintei meu cabelo! Céus, até fiz uma tatuagem!” Ela retrucou, olhando de volta para o caderno. “O que está acontecendo aqui?”
“Às vezes o inconsciente é mais profundo do que pensamos, null. Você, como médica, sabe que isso é verdade...” Ele tentou consolá-la, mas ela estava imóvel, encarando o livro.

Ela ficou naquele torpor, com o olhar perdido entre as frases e o desenho de null, até que no canto da folha, ela percebeu que havia uma peça de xadrez minuciosamente desenhada.
Idêntica à que encontrou em sua janela.

“Mas o que...” Ela sussurrou, sentando-se próxima à mesa e espalmando as mãos no livro, analisando de perto o desenho. “Isso é uma peça de xadrez?” Ela perguntou mais pra si do que qualquer coisa, mas o doutor acabou respondendo.
“Sim. É um rei. E segundo as informações no atestado de óbito, null tinha uma tatuagem com essa específica peça no peito esquerdo, logo acima do coração.”

null deixou sua cabeça cair entre suas mãos, perdida. Encarava o chão, sem entender nada. O que estava acontecendo consigo? Estava ficando louca?

“Acho melhor você ir para casa descansar.” O médico falou, se levantando da cadeira, e null ergueu a cabeça.
“Como assim?” Ela o encarou, confusa. “Estamos desfalcados, não podemos abrir mão de médicos em plantão.”
null...”
“Eu aguento!” Ela respondeu, se levantando da cadeira e ficando de frente para ele, limpando as lágrimas com as costas das mãos. “Estou lhe dando minha palavra, eu fico até a outra doutora chegar!”
“Às 19 horas?” O médico arqueou a sobrancelha, e olhou em seu relógio de pulso. Colocou as mãos na cintura e andou em círculos pela sala, com null aguardando uma resposta.
“Eu não sei...” Ele assumiu, posicionando o dedão e o indicador na base do nariz, fechando brevemente os olhos num movimento tensionado. “Forçar um plantão de 36 horas no estado no qual você se encontra talvez seja mais arriscado do que o desfalque de uma médica, null. Por favor, não me entenda mal...” Ele ergueu a mão, apontando para o livro na mesa. “Mas está claro pra mim que você precisa de descanso. Está claro pra mim que você precisa de ajuda!”
“E não está claro para você que mais pessoas podem morrer no leito à espera de atendimento?” Ela questionou, com os braços cruzados e cara fechada.
“Acho que posso lidar com as minhas questões de culpa e sonambulismo depois, doutor null.” Ela afirmou com veemência, desafiando o olhar imperativo do homem para si. “Eu só preciso de uma bela xícara de café preto e um momento para me recompor!” Ela exclamou, sem quebrar o contato visual.
“Tem certeza?” Ele indagou após um momento de silêncio, e ela afirmou com a cabeça. “Estou perguntando porque com isso eu posso lidar. Posso resolver sem que te prejudique.” Ele apontou novamente para o livro, e foi andando de volta para sua mesa. “Mas se acontecer algo além...” Ele comentou, apoiando as mãos na mesa, e elevou o olhar para a mulher.
“Eu assumo as consequências.” Ela respondeu, irredutível.

***


“Paciente de vinte e nove anos, apresentando vômitos ininterruptos, sinais de desidratação e enjôos.” A encarregada pela triagem informou à null, enquanto a mesma analisava o prontuário do rapaz.
“Olá, boa tarde. Sou a doutora null, e vou lhe atender hoje, tudo bem?”

O jovem acenou, levemente pálido. Apesar do aspecto de quem estava profundamente enjoado, o rapaz tinha boa aparência; cabelos loiros arrepiados, olhos azuis e o corpo atlético, de quem provavelmente fazia algum esporte com frequência.

“Prazer, doutora. Sou Pablo Carrero.” E sorriu um belo sorriso, recebendo um bem menos empolgado de null.
“Pablo, consegue me dizer quantas vezes apresentou vômitos hoje?” Perguntou a ele, que respondeu com uma ânsia. Breve o suficiente, foi acudido por um balde, e o mesmo se aliviou.
“Parei de contar depois da sexta vez.” Ele disse, depois de vomitar. “Mas estou assim desde cinco horas da manhã. Nada para no estômago, nem água.” Ele completou com o balde no colo, e a cara de quem estava derrotado.
“Apresentou febre?”
“Não.” O rapaz respondeu, respirando com dificuldade.
“Certo.” Ela pontuou, escrevendo algumas coisas em sua ficha. “É alérgico à alguma medicação?”
“Cefalexina.” Ele respondeu, depois de quase vomitar novamente.
“Ok.” E se virou para a enfermeira. “Soro, buscopan e exame de sangue completo.”
“Eu vou sobreviver, doutora?” Ele perguntou com a voz arrastada, e null sorriu levemente enquanto anotava no prontuário, afirmando com a cabeça.
“Claro que vai, ao que tudo indica é só um...” E quando virou-se para encará-lo, já não via mais o rosto animado de seu paciente.

Em vez dele, viu a face de null null, que a encarava sério.

“Ainda há tempo. Salve-o, null!” Ele lhe disse, com o rosto contorcido em preocupação.

A médica arregalou os olhos e abriu a boca, mas nenhum som saiu.

“Você precisa me ouvir!” Ele disse, segurando o pulso da médica, e ela olhou horrorizada para a mão trêmula, com o pulso envolto pelo aperto de null.
“Por favor, vá embora!” Ela suplicava, sentindo as lágrimas invadirem seu rosto. O coração estava a mil, e ela tentava se afastar, sem sucesso.
“Não até que me escute! Precisa salvá-lo!” Ele tornou a falar, franzindo o cenho. “Só você é capaz!”
“Salvar quem?” Ela sussurrou, com os dentes batendo uns nos outros devido a tremedeira no maxilar.
“Doutora! Doutora!” A enfermeira a chamou, e ela se virou para encará-la, assustada.
“O que foi?” Ela perguntou num fio de voz.
“A senhora está bem?” Ela se aproximou de null, que a olhava incrédula. Se virou para null, mas ele não estava mais lá. Em vez disso, o rosto de Pablo estava de volta, e a observava com receio.

Ela olhou pra seu pulso, e o mesmo estava preso à mão de seu paciente. Notando isto, o rapaz a soltou imediatamente, se explicando logo em seguida.

“Desculpe por isso, doutora. É que a senhora pareceu tão assustada que quase caiu para trás. Eu a segurei pelo pulso. Lhe machuquei?”

A médica encarou o local, e percebeu que as marcas dos dedos estavam lá.

“Ops. Parece que exagerei. Desculpe por isso.” Ele respondeu, sem graça.
“T-Tudo bem...” Ela respondeu, ajustando a postura, desviando dos olhares curiosos e confusos para si. “Eu agradeço a assistência. Acho que tive uma pequena queda de pressão, mas já estou bem.” Ela respondeu, limpando o rosto rapidamente, antes que percebessem seu choro.
“Olha...” O paciente coçou a nuca, visivelmente envergonhado. “Se não se importar, eu posso lhe pagar um café, depois que eu melhorar.” Ela o encarou com o cenho franzido, e ele movimentou as mãos rapidamente. “P-Para me redimir pelo seu pulso, é claro.” O loiro pôs-se a explicar, e ela arqueou uma sobrancelha.
“É claro.” Ela repetiu sua fala, dando um sorriso cínico e logo negou sua proposta. “Agradeço o convite, mas não é necessário. Não estou interessada, sem ofensas.” Curta e quase grossa, null nem permitiu que o rapaz argumentasse, e logo se direcionou à enfermeira.
“Por favor, me chame em caso de alterações, sim?” A outra confirmou com a cabeça, e a médica se retirou, caminhando em direção ao banheiro na sala dos servidores.

Conforme caminhava rápido pelo corredor, ela ouvia palavras desconexas que pareciam estar apenas em sua cabeça. Ignorando-as acreditando ser apenas pensamentos insistentes, null passou por uma sala vazia, e a luz piscou inúmeras vezes antes que ela de fato percebesse.
Parou de andar na hora, e ainda do corredor, virou o rosto para avistar o interior da sala. A luz piscou novamente, e apagou, deixando o local num breu. null se aproximou do vidro, e franziu os olhos, pois jurava que na escuridão da sala, havia alguém ali, que a encarava de volta.
Com a mão trêmula, ela abriu a porta e entrou na sala. Mexeu no disjuntor, mas a luz não acendeu com o seu comando. Apenas com a iluminação do corredor, ela não saberia dizer quem estava ali.
Porém, logo descobriu, quando a luz piscou novamente e a imagem de null se apresentou diante de si. Ela gritou com o susto e caiu sentada no chão, segurando sua prancheta como forma de defesa.
As lágrimas voltaram a marejar os olhos, e null já acreditava que sofria de algum transtorno, quando sussurrou em desespero.

“O que você quer de mim?” Ela começou a chorar, encarando o rapaz em pé, que vestia um avental de hospital. “Eu não... Não consigo entender!” Ela respirou fundo, antes de continuar.

Ele nada disse; apenas apontou para o seu peito.

“Eu sinto muito...” Ela dizia entre o pranto, com o rosto retorcido em dor. “Não fui capaz de te salvar...” A mão fechada em punho socou o chão, e null o atingiu duas vezes mais. “Não fui...” E, ergueu as mãos unidas, em sinal de prece. “Por favor, me perdoe!”

null apenas moveu a cabeça negativamente, e null estava prestes a chorar mais, quando viu o dedo indicador da mão esquerda abaixar o pano que cobria seu peito.
A médica estava com a vista embaçada, mas logo tratou de limpar as lágrimas com as costas da mão, e piscou inúmeras vezes, até enxergar a tatuagem marcada na pele de null.

“Ainda há tempo. Salve-o.” Ele disse, com dificuldade, e null franziu o cenho, se aproximando da figura do homem. null reparou nos olhos fundos que o rapaz carregava, e da tristeza no olhar. Ele parecia exatamente como se lembrava na maca de hospital. Engoliu a seco, voltando a encarar a tatuagem no peito do ex-paciente.
“Você quer que eu salve... O rei?” Ela perguntou, confusa. null confirmou com um aceno, e seu rosto transmitia a preocupação e ansiedade.
“Mas... Quem é o rei?” Ela indagou mais pra si do que pra ele, e curiosamente, ele sorriu triste.

Eles se entreolharam, e por um momento, null fechou os olhos, como se concentrasse em algo muito específico.
Assim que os abriu, caminhou até null e se abaixou à sua altura.

“Você precisa ver com outros olhos. Abra-os.” Ele falou com a voz fraca, e quando null moveu a boca para responder, null tocou sua testa com o dedo indicador e o médio.

Naquele exato momento, enquanto a cabeça da médica pendia para trás, sentiu um repuxar na sua nuca, e logo as imagens de seus sonhos começaram a passar em sua mente, como num filme de memórias.
A diferença era que, agora, todas as pessoas possuíam rostos, traços. E ela finalmente reconheceu null em seus sonhos, bem como o que provavelmente seriam seus parentes, devido à semelhança entre eles.
Logo em seguida, uma imagem surgiu ofuscando todas as outras; um garotinho rindo abertamente enquanto era carregado por null, que lhe fazia cócegas. Agora, com os rostos definidos, null podia ver a extrema similaridade entre ele e o irmão mais velho.
A imagem foi substituída pelo último sonho da médica, no qual o mais novo, visivelmente crescido, discutia com os pais e os deixava falando sozinho, correndo escadas abaixo e retirando sua bicicleta do cadeado na entrada do prédio.
Momentos depois, null viu o rapaz correndo em alta velocidade pelas ruas, e a última coisa que viu foi o alto clarão no rosto do rapaz, antes de tudo se apagar e apenas a escuridão lhe abraçar.
Quando a médica abriu os olhos, ela estava deitada no chão, e null se encontrava agachado ao seu lado, retribuindo seu olhar confuso.

null...” Ela sussurrou, finalmente compreendendo tudo. “Isso... ainda vai acontecer?” Ele afirmou depois de respirar fundo, visivelmente atordoado.
“Quando?” null sussurrou, sobressaltada.

Ele prendeu seus lábios e fechou os olhos com força, negando com a cabeça. Ele não poderia falar?

“Ele é o rei? Seu irmão é o rei?” Ela deduziu, e null afirmou com o rosto triste. Seus lábios se curvaram trêmulos para baixo, e null capturou o exato momento onde uma lágrima descia pelo rosto dele.

Ela se sentou aos poucos, tocada por tudo que havia sentido, sonhado, visto... Não conseguia acreditar que havia vivenciado tudo aquilo, mas tentava ao máximo compreender a tempo.

“Como isso é possível?” Ela questionou numa curiosidade infantil, e ele lhe deu um sorriso triste, antes de se levantar e caminhar em direção à porta.
“Por favor, null!” Ela suplicou, ajoelhando-se em sua direção. “Como eu faço isso? Como eu salvo seu irmão?”

Ele parou de costas para si, e virou apenas o rosto, para olhá-la.

“É a única capaz. Só precisa acreditar, e saberá.”

Ela piscou algumas vezes, ao perceber que uma luz brotava de null, e o engolia pouco a pouco.

“Isso é real?” Ela sussurrou, impactada pela luz crescente.
“E o que não é?” Ele lhe sorriu, antes de dar um passo à frente e subitamente sumir de sua vista, bem como a luz – deixando-a no breu da sala.

Em poucos segundos, a lâmpada da sala piscou novamente, até acender de forma definitiva.
null estava ajoelhada, sozinha, com a prancheta e o coração na mão.
Precisava encontrar o irmão de null null... Antes que fosse tarde demais.


Capítulo 4

“... E além do mais, é revoltante saber, diante dos cálculos, que existe uma verba considerável sendo desviada com serviços muito menos importantes do que os que são de fato, essenciais. Não acha?” O silêncio fez com que a amiga se virasse irritada para a médica. “null!” Ela chamou, e a outra chegou a levantar os ombros com o susto.
“Por Deus, Arieli!” Ela botou o coração na mão, arfando. “Quer me matar do coração?”
“Não, mas eu poderia te enforcar por não estar prestando atenção no que eu falo!” Ela fechou a cara, se aproximando com os braços cruzados da rosada, que suspirou ao voltar o olhar para a vista de fora do hospital.
“O que está havendo, amiga?” null virou seu rosto para si, vendo Arieli colocar a mão em seu ombro. Com o cenho franzido, continuou. “Você não está legal...”

null suspirou novamente, acenando com a cabeça. Encarou a janela lá fora enquanto massageava o pescoço. Estava cansada, não dormia bem há dias.

“Não é nada, vai passar...” null respondeu, com o olhar perdido.
“Amiga, você tá estranha... Será que isso não é stress? Tipo, você não apresenta só insônia como sintoma...” Arieli sentou-se no sofá e apoiou a cabeça na mão, enquanto o cotovelo firmava-se na dobra do móvel. “Você tem se alimentado muito mal.”
“Eu não consigo sentir tanta fome, Arieli. “Quando não estou no hospital dobrando, resolvendo as coisas, estou em casa tentando dormir. Ando tão cansada que não dá nem tempo de sentir fome. Além do mais...” Os ombros da jovem médica se encolheram, e ela se abraçou, aparentando nervosismo.
“Além do mais...?” A amiga encorajou, encarando-a com atenção. Mas só obteve o som de sua respiração pesada e o silêncio. “Vamos, null... Me diga.”

A mulher passeou os olhos pelo chão, perdida.

“Eu tenho sentido... uma coisa. Comigo.” null sussurrou, e Arieli arqueou uma sobrancelha, ficando confusa.
“Uma coisa?” Ela perguntou, se endireitando no sofá. “E o que seria essa coisa?”
“Eu não...” null começou a responder, mas percebeu que lhe faltavam palavras. Suspirou, sentindo-se idiota. “Não sei dizer ao certo. É como se fosse um aperto do peito. Uma aflição.” E colocou a mão no peito, com o cenho franzido.

Arieli ficou séria, observando sua amiga com atenção, pensando no que dizer.

“Como é isso?” A loira perguntou, segurando nas mãos da amiga. null estava com o olhar perdido, procurando as palavras para respondê-la.
“É algo tão estranho...” A médica começou a explicar, sentindo-se deslocada. “Às vezes é como se eu estivesse muito triste, muito... preocupada. Como se soubesse que algo muito ruim está para acontecer, mas não consigo entender como posso agir para impedir.”

Arieli permaneceu em silêncio, sentindo-se amedrontada pelas palavras da amiga. E null bufou, pensando em como diria aquilo para ela.

“Tive sonhos com um paciente antigo, que já... faleceu.” null olhou para sua amiga com lágrimas nos olhos. “E nesses sonhos, ele me pede ajuda, mas... Eu já não sei mais o que fazer.”

O pranto silencioso da médica fez com que a amiga a puxasse para um abraço apertado. null se permitiu chorar, sentindo-se exausta.

“Olha, você não acha que seria interessante ver alguém?” Arieli perguntou, depois de abraçá-la. Ela segurava null pelos ombros, enquanto a rosada a encarava confusa.
“Ver alguém?”
“Sim... Um psiquiatra, talvez?” E sorriu de forma receosa, enquanto seguia com sua fala. “Nosso trabalho é completamente exaustivo, e sabemos mais do que qualquer coisa que saúde mental é tão importante quanto a física. Precisamos nos cuidar para cuidar dos outros.”

Os olhos null se arregalaram em uma descrença revoltante.

“O quê? Não! Você não está entendendo!” null enxugou as lágrimas, saindo do toque acolhedor da outra médica. “A ajuda não é pra ele! É pra alguém próximo a ele!” E se levantou do sofá, limpando o rosto com um lenço de papel que retirara do bolso do jaleco.
null! Por favor... Você está falando sério?”
“É claro que estou, Arieli!” A rosada exclamou, nervosa. “Juro por tudo que é mais sagrado, estou há dias em contato com esse paciente! Ele não me deixa em paz, ele precisa que eu ajude o irmão mais novo dele!”
“Certo...” Arieli encarou o chão com uma feição confusa. “Está me dizendo que um fantasma de um paciente seu está te assombrando e pedindo que salve o irmão dele?”
“Sim!” null vibrou, e Arieli riu descrente.
“Você precisa de um psiquiatra, amiga.”
“O quê? Mas que merda, Arieli! Por que não acredita em mim?”
“Eu acredito em você, e acredito que está delirando!” Arieli reclamou, se levantando também. “Por que é tão difícil pensar que esteja sofrendo com culpa e remorso pela morte de seu paciente? Seja sensata!”
“Eu estou sendo sensata!” null gritou, fazendo a amiga arregalar os olhos em choque. “Eu só preciso que entendam quando digo o que digo! Isso não é coisa da minha cabeça, Arieli!” A rosada explicou, sentindo a voz embargar. “Eu sinto isso desde a hora em que acordo, até a hora que vou dormir! Acredite em mim!” E bateu as mãos no balcão da copa, balançando a cafeteira quente.

Ela balançou a cabeça negativamente, enquanto chorava de costas para Arieli, que não sabia o que fazer.

“Eu só estou tentando pensar nas possibilidades que podem te ajudar, null.” Ela disse, depois de longos minutos com apenas o som da respiração entrecortada de null, em meio ao choro. “Possibilidades lúcidas, sensatas...”
“E eu só quero que você me entenda.” Ela permaneceu com o corpo no lugar, e só virou o rosto por cima dos ombros, encarando a amiga. “Não é psicológico. Estou dizendo que há algo pra acontecer. Eu sinto.” E se calou, mordendo o lábio inferior.
null, você está me assustando!” Arieli falou, piscando rapidamente.
“E como você acha que estou? Pareço normal para você?” null abriu os braços, rindo sarcasticamente, enquanto as lágrimas desciam em seu rosto.
“Não!” Arieli retrucou, movendo as mãos raivosamente. “E é por isso que eu quero que você vá à um psiquiatra! As coisas que você está me dizendo não são normais, você vê?” E se aproximou da amiga a passos rápidos. “Está dizendo coisas sem sentindo há dias, como se estivesse delirando! Somos médicas, pelo amor de Deus! Tenha bom senso e aceite que precisa de ajuda!”
“Eu preciso, Arieli... Mas não é desse tipo de ajuda.” null respondeu, com um sorriso triste. “Há mais coisas no céu e terra, Horácio, do que foram sonhadas na sua filosofia.” E, sem mais nem menos, se desfez do jaleco e o guardou em seu armário, pegando suas coisas para ir embora.
“Então é isso?” Arieli questionou, com os braços cruzados e o pé esquerdo batendo irritantemente no chão. “Você me cita uma frase de Shakespeare e simplesmente vai embora?”
“Ou você decide acreditar no que digo e me ajuda como preciso, ou eu simplesmente vou embora sim, Arieli.” null declarou, impassível. “Não vou perder meu tempo para você dizer que estou maluca... Não enquanto posso salvar a vida de alguém.”
“Putaquepariu.” A loira caminhou até a amiga, e segurou-a pelos ombros. “Você tá falando sério? Não tá de sacanagem com a minha cara?”
“Juro pela nossa amizade que nunca falei tão sério.” null suspirou, fechando os olhos cansada.
“Certo...” Arieli mordeu o lábio, puxando a amiga para um abraço. “Vamos resolver isso. Desculpa não acreditar em você, mas fiquei preocupada... Você entende? Entende no absurdo que está me dizendo? Mas ok, eu vou acreditar em você. Vou considerar que isso tudo... é real. Por você.”

null apenas acenou a cabeça, e se permitiu ser acolhida pelo abraço de Arieli.

“Só não sei como vou encontrar esse garoto...” Ela murmurou mais pra si do que para a outra, mas obteve uma resposta genial.
“Todo mundo tem facebook ou instagram, cara... Relaxa.”

null arregalou os olhos e encarou Arieli com uma cara impagável.

“Arieli, você é um gênio!” E abraçou-a novamente, antes de sair apressada do local – deixando uma null confusa na sala dos servidores.

Ao chegar em casa, tratou de tomar um banho rápido e começar sua busca pelo caçula null. Sentou em sua cama e posicionou o laptop em seu colo, digitando seu nome na lupa das redes sociais.
Encontrou no facebook uma página dedicada à memória de null, e sentiu os olhos marejarem com as mensagens que lia no mural do perfil. Mensagens saudosas, emocionantes, e um tanto tristes sobre a partida precoce do jovem.
null passou o resto da noite pesquisando qualquer detalhe presente nas postagens que a indicassem onde poderia encontrar o pequeno null. Mas pelo visto, ele era uma pessoa extremamente reservada, pois não havia encontrado nada. A médica estava profundamente cansada e frustrada – já estava acordada há quase quarenta e duas horas quando caiu no sono com o laptop em cima de si.
Dormira um sono tão profundo e tão pesado que só acordou na tarde seguinte, quando o sol já estava cansado de entrar em sua casa e finalmente alcançou o rosto descoberto da rosada.
Sentou-se na cama de forma preguiçosa, e encarou o relógio de cabeceira, que marcava 12:33. Sua sorte é que estava de folga, portanto acordar tarde não era um problema – pelo menos não naquele dia.
Estava se espreguiçando e ajeitando o cabelo, quando se lembrou da pesquisa fracassada da noite anterior. Ligou o laptop enquanto bocejava, e quando o computador ligou, null quase caiu da cama ao encarar o que a tela revelava.
Era uma foto de um antebraço tatuado com uma peça de xadrez – o rei – e na legenda da foto, a seguinte frase: “Never forget”.
Aquela imagem marcava o perfil de null, mas não havia sido ele quem postara a foto, Mais do que depressa, null clicou na publicação e, como mágica, lá estava o perfil que tanto buscara.

null null.” Ela sussurrou para si, com um sorriso nos lábios.

***


Estava prestes a sair de casa, novamente apressada, quando ouviu uma voz lhe chamar.

null?” Ela se virou pro lado assustada, e viu sua vizinha sorrir-lhe carinhosamente.
“Dulce, boa tarde!” Ela cumprimentou sorridente, enquanto trancava a porta.
“Boa tarde, minha filha. Está de plantão hoje? Vejo que conseguiu descansar.” A velhinha pôs o corpo pra fora e segurou o pano do roupão apertado, enquanto observava a jovem, com um olhar preocupado.
“Sim, consegui dormir bem depois de um bom tempo.” null ajeitou a bolsa em seu ombro, mas o silêncio de sua vizinha a fez encará-la. “Está tudo bem?” Ela percebeu que a velha a olhava com aflição.
“Querida... Você teria cinco minutos?” Ela falou, visivelmente preocupada. Tanto que null decidiu se atrasar para dar atenção a vizinha.

Ela entrou na casa a convite de Dulce, e se sentou à mesa. A velhinha foi até o canto da sala e acendeu um incenso de mirra, colocando-o perto da janela e das plantas. null adorava aquele cheiro.

“E então?” null perguntou sorridente, e a mais velha sentou-se diante dela com as mãos na mesa.
“Tive um sonho confuso e não muito bom, minha filha...” Ela dizia, encarando a rosada. “E ele envolvia você.”
“Que tipo de sonho, Dulce?” null perguntou, alarmada.
“Do tipo muito confuso, muito rápido, e muito triste.” A velha suspirou, e olhou para as mãos unidas em cima da mesa. “Sonhei que você estava numa maca de ambulância, com o corpo machucado, tentando ser salva por socorristas.” Ela ergueu o olhar para a menina, um olhar marejado. “Senti tanto medo que algo acontecesse com você, querida. Pareceu tão real!”
“Dulce...” null coçou a nuca, sorrindo sem graça. Ela não esperava ouvir aquilo, obviamente. “É realmente algo ruim de sonhar. E de ouvir também.”
“Eu sei querida, e peço desculpas por isso!” A vizinha segurou as mãos dela, aflita. “Mas eu precisava dizer isso, minha intuição pedia isso. Você está muito envolvida em algo, eu posso ver nos seus olhos.” A velha disse, apontando para os olhos null. “Você está decidida.”
“Sim.” null confirmou, sentindo o peito subir e descer com a respiração mais acelerada.
“Eu vejo isso.” Dulce a analisou por mais um tempo e, no canto da mesa, puxou um baralho de cartas.
“Dulce...” null falou, receosa. “A senhora sabe que não levo muita fé no tarot.”
“Algo me diz que você não levava fé em muita coisa dias atrás, querida.” A voz da velha soou mais imponente, e null endureceu na cadeira. “Mas algo a mudou, não é mesmo?” E Dulce lhe sorriu com o olhar penetrante. “Está visivelmente marcada. Está enxergando com novos olhos, minha filha?”

null meneou a cabeça, mordendo o lábio inferior. Dulce definitivamente não era desse mundo.

“Vamos, concentre-se na sua questão e corte para mim.” Apesar de não acreditar, null já havia feito aquele jogo várias vezes anteriormente, apenas para não desagradar sua vizinha. Mas nunca lembrava do que lhe era dito, nem para comparar o que acontecia posteriormente à cada jogo tirado. Mas null sabia que aquela vez era diferente. Havia algo no ar, havia algo em si, mudado.

Ela fechou os olhos, concentrou-se em null, em null, e na sua vontade de ajudá-los. Abriu os olhos e levou as mãos às cartas, cortando o baralho em três partes. Dulce logo uniu os blocos novamente em um, e distribuiu as cartas sobre a mesa.

“Escolha cinco.” Ela ordenou, e null foi tirando uma a uma; a terceira da esquerda, duas do meio, a última da direita, e a última na qual seu dedo esbarrou acidentalmente.

A velha dispôs as cartas viradas para baixo, ordenadamente, e as posicionou em formato de cruz. A primeira carta foi revelada.

“Essa carta revela o que está a seu favor.” Ela disse, apontando para o desenho de uma mulher abrindo a boca de um leão. “A força.” Dulce sorriu ao dizer aquilo, e continuou. “A sua força é muito maior do que você imagina. Encontre sua potência e desperte isso em você.”

null encarou a carta e prendeu o lábio inferior, afirmando com a cabeça. Precisava ouvir aquilo.

“Esta, é o que não está favorecendo você.” Ela virou a carta da direita, revelando dois lobos uivando para cima, e a lua pairando sob suas cabeças. “A Lua.” Dulce encarou null com uma seriedade nunca antes vista. “Seu medo de falhar e de não dar conta das coisas é o que pode te destruir – e você perder coisas importantíssimas em sua vida.”

null engoliu a seco, e se remexeu inquieta na cadeira. Aquilo era tão verdade que uma pontada no peito ressoou, amarga.

“Esta explica como será o processo.” Dulce virou a carta acima de todas, revelando o diabo com braços abertos e sorriso medonho. null se assustou e colocou a mão na boca, observando o rosto tensionado de sua vizinha.
“O que isso significa, Dulce?”
“Que não será fácil... O caminho está aberto para possibilidades, e me parece um tanto ardiloso...” E encarou null, comprimindo os lábios em uma linha fina. “Você terá de entrar em contato com seus medos mais profundos, se quiser alcançar o que busca.”

Mais nada foi dito, e Dulce seguiu para a carta mais baixa, que seria a base da cruz.

“Esta, indica o resultado.” E a virou, sem delongas. A carta apresentava um anjo surgindo dos céus, tocando uma corneta, enquanto três humanos nus estavam sentados à sua espera. Com as mãos unidas em prece, ouviam com devoção o anúncio do anjo. “O julgamento.” Dulce falou, e arqueou uma sobrancelha antes de continuar. “Diante de tudo, precisa se atentar aos sinais da vida. Terás o que merece diante do que vens proporcionando para o mundo.”
“Isso é ruim?” null perguntou, assustada. A velha sorriu.
“Não no seu caso. Acho que as coisas podem ser justas, assim como você é.”

A jovem acenou e apontou a última carta, que estava no meio.

“E esta?”
“Esta é a síntese da situação. Também indica como você se encontra diante de tudo.” Dulce virou a carta, demonstrando a roda da fortuna, demonstrando duas pessoas atreladas à roda, porém enquanto uma subia, a outra descia. “Significa grande mudança em sua vida... Com altos e baixos...”
“Tudo pode acontecer.” null falou, e Dulce confirmou, olhando para a jovem.
“Querida, se tem algo que eu possa dizer é: agarre-se à sua força.” A velha segurou nas mãos de null, que retribuiu o aperto com veemência. “Acredite em si, na sua intuição. O universo conversa conosco a todo tempo. Nós precisamos ouví-lo.”

Dulce fechou os olhos e respirou fundo, antes de abrí-los e encarar a médica.

“Concentre-se comigo, feche seus olhos.” E a rosada fez o que ela pediu, religiosamente. “Ouça minha voz, mas concentre-se em si...” De olhos fechados, a jovem respirou profunda e lentamente. “A sua força também está na forma como se protege. Procure dentro de si algo que simbolize esta força, algo que você pode carregar com isso, algo concreto que a lembre de quem você é.”

No exato momento em que Dulce terminou a frase, a escuridão dos olhos fechados de null se iluminou, e a imagem de uma peça de xadrez da cor preta surgiu diante de si.
Assustada, a médica abriu os olhos e soltou as mãos trêmulas das de sua vizinha, que a encarava com um sorriso no canto dos lábios.

“O que foi isso?” null perguntou, alarmada.
“Isso é a sua força, querida.” E Dulce pegou a carta e a posicionou diante dos olhos null. “Isto é quem você é.”

Após observar minuciosamente a carta da força, null fez sua decisão. Finalmente havia entendido, e estava pronta pro que quer que o destino lhe reservava.

***


Havia estacionado o carro bem no local em que a secretária do curso de arquitetura indicara. null sabia que o que estava fazendo era horrível, mas tinha que concordar que levava jeito para encarnar uma personagem a fim de conseguir o endereço de null. E naquele momento, ela precisava mais do que nunca atuar impecavelmente.
Antes de sair do carro, a médica tomou um susto enorme ao ouvir seu nome – dentro do veículo.

null.” O som da voz vinha do banco detrás, e se virou instantaneamente para o local, não encontrando nada. Virou novamente para frente, sabendo que se tratava da voz de null.
“Aqui em cima.” Ela ouviu novamente, e ergueu a cabeça, encarando os olhos de null através do espelho interno.

Prendeu a respiração no susto, e se virou para trás, não encontrando null como no reflexo do retrovisor.

“Caralho.” Ela sussurrou, prendendo os olhos nos do null. “Isso é assustador.” E colocou a mão no peito, que arfava irregularmente.

null sorriu de lado, e respirou fundo antes de voltar a falar.

“Quando salvá-lo, diga que a resposta é borboleta. Borboleta azul.”

null franziu o cenho, confusa. Do que ele estava falando?

“M-Mas o que...” Ela gaguejou, sem conseguir completar a fala.
“Borboleta azul, null. Por favor, não esqueça.” Ele pediu, e começou a desaparecer aos poucos, com a mesma luz que emanou quando se apresentou para a médica na sala do hospital.
“Espera! null!” A rosada chamou, mas estava novamente sozinha no carro. Suspirou, frustrada, sem entender a fala do null.

Xingou seu ex-paciente enquanto travava a porta do carro, e se dirigiu para a pensão adiante. Ajeitou a postura e o cabelo, e respirou fundo antes de tocar a campainha.
Para sua surpresa, uma senhora loira, de meia-idade, surgiu na porta, com cara de poucos amigos.

“Pois não?” Ela perguntou, sem paciência.
“Boa tarde!” null usou seu melhor sorriso, com uma voz melodiosa. “Por acaso null null se encontra?”
“Não. Ele não mora mais aqui.” A loira arqueou a sobrancelha enquanto null perdia a compostura.
“Mas como assim ele não mora mais aqui!?” A rosada questionou para a senhora peituda que a encarava com tédio.
“Não morando, minha filha! Pessoas se mudam, sabia?” Ela resmungou, cruzando os braços. “E você é quem mesmo? É o que dele pra querer saber?”
“A ex-esposa!” Ela exclamou após algum tempo, sentindo as bochechas ficarem vermelhas. Teria de improvisar. O show estava começando. “E este sem vergonha não anda pagando a pensão do filho dele! Então eu vim cobrá-lo pessoalmente!”
“Meu Deus!” A senhora disse, colocando a mão na boca, mudando completamente a feição. “Não acredito que null já foi casado... e com filho!”
“E com filho!” null repetiu a última parte, gesticulando nervosa.
“Eu não sabia nada disso!” Ela exclamou, colocando as mãos na cintura. “E ainda devendo pensão? Homens!” A loira disse com uma raiva incomum, e null sorriu internamente.
“Me surpreende que ele tenha saído daqui com tudo quitado, dona...”
“Soledad.” Ela respondeu, cruzando os braços e evidenciando mais ainda os seios fartos. “E você é...”
“Eu era null, antes dele me trair com a prima.” null inventou a história, fingindo limpar uma lágrima no canto do olho. “Mas agora voltei a ser quem sempre fui. null null.” A troca de olhares foi intensa, e Soledad acenou com firmeza.
“Isso mesmo, querida. Não espere nada desses homens! Não valem nada!” Ela berrou pra dentro de casa, com a cara fechada.
“Como é que é, mulher?” Um senhor alto e forte, de cabelos longos e grisalhos brotou ao lado da senhora, a encarando com a sobrancelha arqueada. “Tá dizendo que eu não valho nada?”
“Você sabe muito bem as merdas que fez, José!” Ela berrou na frente de todos, fazendo null arquear o corpo levemente para trás, receosa.
“Não grite na frente das visitas!” Ele retrucou, e encarou null com uma feição gentil. “Boa tarde, senhorita. Já achou o que procura?”

null abriu a boca para responder, mas foi interrompida por uma Soledad furiosa.

“Já vai dar em cima das novinhas de novo, José? Na minha cara? Além de desgraçar a minha vida, você quer desgraçar a dela também, homem!?”
“Deus do céu, mulher! Estou sendo apenas educado!” Ele ralhou, devolvendo o olhar raivoso.
“Então pare de enrolar e seja útil ao menos uma vez! Sabe onde aquele moleque sem vergonha do null foi parar?”
“Moleque sem vergonha? Mas você amava aquele garoto!” José respondeu, com o cenho franzido, e null suspirou, cansada.
“Não me enrola, homem! Só responde logo!” Soledad levantou a mão em sua direção, dando um soco em seu ombro, que causou em null uma careta de dor. Aquilo parecia ter sido forte.
“Soledad!” Ele berrou, e null já estava achando aquilo tudo cômico, se não fosse trágico, mas logo o velho respondeu. “Ele não voltou a morar na antiga casa dos O’Briens? Estão fazendo a mudança para lá por esses dias, pelo que ele comentou...”
“E onde fica essa casa?” null perguntou com urgência.
“Naquele prédio bonito da quinta avenida, em frente ao parque dos sapos. Conhece?” Ele indagou, e ela arregalou os olhos, sorridente.
“Sim! Céus, muito obrigada! Vou procurá-lo agora!” null exclamou, sorridente.
“É isso aí! Pega esse canalha e faz ele cumprir os deveres! Nenhuma mulher deveria sofrer na mão de macho escroto.” Soledad comentou, cruzando os braços e olhando com os olhos cerrados para o velhote, que a encarava incrédulo.
“O que está dizendo com isso, mulher?”
“Você sabe muito bem, não se faça de idiota!” Ela respondeu, empurrando-o para dentro. “E não me encha mais o saco, vai lavar uma louça antes que eu me irrite!”

José rolou os olhos e entrou em sua casa, e Soledad suspirou, ficando num estado de calma irreconhecível.

“Muito obrigada pela ajuda, Soledad.” null agradeceu com um sorriso nos lábios.
“Imagine, querida. Estamos aí pro que precisar.” Ela sorriu como uma Miss e null acenou, agradecida. Puxou as chaves do carro do bolso da calça e estava destravando o alarme do carro quando ouviu a senhora lhe chamar.
“Ei!” null se virou alarmada. Será que ela tinha descoberto a verdade? “Você deixou isso aqui cair.” Soledad ergueu a peça de xadrez preta na direção de null, que arregalou os olhos em surpresa.
“Oh, é verdade!” Ela pegou da mão da senhora. “Obrigada, mesmo!”
“Isso parece ser importante pra você. Cuide bem dele.” Soledad falou com um olhar profundo e um sorriso confiante.

null piscou algumas vezes antes de acenar e entrar no carro, refletindo sobre o que a loira havia dito – e alguma coisa dentro de si começava a crer que a vida, de fato, dava sinais.

***


Eram 15:46 da tarde quando ela estacionou o carro em frente ao prédio dos O’Briens. Ela ficou um tempo observando de dentro do veículo, contando a quantidade de andares e apartamentos por andar. Suspirou ao perceber que eram muitos, e precisava pensar numa forma de descobrir qual era a casa de null.
Mas além disso, ao olhar pra portaria, precisava saber como faria para entrar. A desculpa da ex-esposa não colaria novamente, haja vista que aquilo era um senhor prédio, diferente da pensão de Soledad, cuja null viveu enquanto cursava a faculdade de arquitetura.
null puxou a peça preta do bolso, e a encarou enquanto segurava firmemente nos dedos. Respirou profundamente, e mordeu os lábios ao pensar no que estava prestes a fazer. O medo e a insegurança eram palpáveis, e seguir com aquele plano significava acreditar em tudo que havia vivido na última semana – e aceitar que de fato falava com o espírito do primeiro paciente que perdeu na vida.
Os olhos marejaram ao sentir o aperto no peito – será que null nunca se livraria daquela sensação? Por mais que soubesse que não poderia ter feito nada além do que já fizera, por mais que pintasse o cabelo ou tatuasse o braço, null sabia que a vida de null se fora, e nada disso poderia ser mudado.
O que lhe faltava era acreditar que nessa situação, não haviam culpados, e sim, tristes circunstâncias da vida, que levaram null ao seu trágico fim. null se lembrou das palavras de Dulce, e da forma como a carta força pairava diante de si.
A jovem precisava acreditar. Precisava se libertar.
Era a hora.


Capítulo 5

Bateu a porta do carro e o travou com o alarme, xingando null por sua mania de falar o que quer e não ouví-la. Já estava alcançando a calçada quando esperou pacientemente uma jovem executiva passar por si. Ao atravessar por detrás das suas costas, a mulher se virou de supetão e berrou.

null!”

A jovem médica se assustou com aquele susto. A voz que ouviu não era minimamente feminina. A voz era masculina e grave.
Era a voz de null.
Os olhos se arregalaram, o corpo de null recuou dois largos passos, e estava ofegante com as mãos apoiadas no próprio carro.

“Você está bem?” A moça falou, e a voz não era nada parecida com a qual ouviu anteriormente. null a observava com medo, e piscou inúmeras vezes até acenar com a cabeça, tentando se acalmar.
“Tem certeza?” A mulher tornou a perguntar, e a médica estava prestes a responder, quando um senhor passou por si gritando.
“Corre, null!”

Ela se assustou novamente e soltou um grito, segurando o peito acelerado.

“Meu Deus, quer que eu ligue para alguém?” A executiva perguntou visivelmente preocupada, mas null fechou os olhos, se concentrando em seus sentidos. Tentou respirar mais devagar, e se conectar com null.

Assim, no fundo de sua mente e ainda de olhos fechados, ela viu seu ex-paciente apreensivo, suplicando com lágrimas no rosto.

“Por favor, salve-o!” Ele disse, antes de sumir de seu “quadro mental”.

Tudo escureceu novamente, e null sabia que a conexão havia sido finalizada. Abriu os olhos com a certeza do que precisava ser feito e se apressou em direção à portaria do prédio.

“Moça? Moça?” A mulher indagou atrás de si, mas devido aos passos largos, a voz ficou distante e minutos depois, a médica estava diante da entrada, ignorando completamente qualquer coisa que não fosse seu objetivo.

Levantou o dedo trêmulo para acionar a portaria, quando ouviu um som típico de fechadura automática; o portão estava sendo destrancado e null sorriu genuinamente, acreditando que a sorte finalmente havia-lhe sorrido.
Mas logo o sorriso murchou quando viu à poucos metros de si, um rapaz alto, de traços fortes e feição fechada. Ele estava visivelmente furioso, e corria para fora do prédio.
Em seu encalço, uma senhora de meia idade com os mesmos traços que si, vinha chorando, chamando seu nome.

null, por favor!” Ela era seguida por seu esposo – a médica deduziu pela semelhança entre ele e o suposto filho.
“Me esquece, Consuelo!” Ele berrou, e null se assustou com a voz e o timbre da mesma. Recuou alguns passos, quando percebeu que o rapaz estava prestes a passar por si.

Foi em questão de segundos, mas naquele momento, o mundo parecia ter parado. null estava com as mãos retraídas em direção ao peito e o encarava receosa. Os olhos brilhavam e sua boca estava entreaberta. O rapaz estava vindo como um furacão, mas parou diante da moça e a encarou de volta. Ambos trocaram olhares confusos, e null sentiu seu peito acelerar. Estava sentindo tanta coisa ao ver aquele homem. Tanta coisa que não conseguia colocar em palavras. Ela não podia acreditar; finalmente o encontrou!
Mas sabia que não era um bom momento – pelo visto, era um péssimo momento.
Como tal, ele se foi num piscar de olhos, e quando deu por si, o jovem já estava destrancando o cadeado da bicicleta, se ajeitando na mesma. Segundos depois, seus pais passaram apressados pela moça, em direção ao filho.

“Por favor, null! Vamos conversar!”
“Eu não tenho nada pra conversar com vocês!” Ele retrucou praticamente berrando, e a mãe caiu num pranto mais desesperado enquanto o pai a abraçava apertado. “Escute sua mãe, null! Não seja imaturo!” “Imaturo? Imaturo?” O rapaz praticamente cuspiu as palavras, tamanha era sua repulsa. “Chame do que quiser, mas eu não vou me sentar à mesa de jantar e fingir que somos uma família feliz! Não depois de descobrir que meus pais são verdadeiros assassinos!”
“O-o quê?” A mãe gaguejou, incrédula.
“Assassinos!” Ele repetiu, prendendo a mochila tira colo no peito. “É isso que são! Assassinos! E fiquem sabendo que nunca vou perdoá-los por isso! Vocês morreram pra mim!”

Com aquele ultimato, null segurou o guidão da bicicleta e pedalou ferozmente, enquanto seus pais berravam seu nome.
O coração de null se apertou mais ainda, e ela sentiu o ar faltar nos pulmões. Tentou puxar oxigênio, sem muito sucesso, e viu o mundo girar.

null!” Ela ouviu a voz de null em sua cabeça e apertou os olhos, tentando respirar.
“Corre!” Ele berrou novamente, e ela andou cambaleante até seu carro. Destravou as portas e entrou no banco do motorista, fechando a porta depressa.

As mãos trêmulas quase deixaram a chave cair, mas ela conseguiu colocar e girar na ignição, dando partida no carro. Pegou novamente a peça de xadrez e, conseguindo respirar normalmente, ela disse.

“Conto com você, universo.” E beijou o rei preto, antes de devolvê-lo ao bolso, engatando a primeira marcha e saindo do lugar.

Começou a dirigir em uma tensão absurda, e a cada vez que passava a marcha acelerava mais um pouco, desviando de todos os carros que seguiam numa velocidade muito menor. null estava fora de si, o que nitidamente acarretaria em um possível acidente. O rapaz estava pedalando e havia uma distância considerável entre eles.

“Vai, vai, vai, porra!” null bradou, vendo o sinal verde ficar amarelo. No último segundo, conseguiu passar.
“Isso!” Ela comemorou, passando a marcha novamente, conseguindo se aproximar de null.

O null pedalava com raiva, jogando seu peso nos pedais, sem sentar no banco da bicicleta. null sentiu sua mão suar ao vê-lo desviar dos carros, que buzinavam e derrapavam para desviar do irmão de null.

“Céus, se acalme, por favor!” Ela pedia em vão, vendo que cada vez mais o homem pegava impulso.

Passaram por dois sinais fechados, ela logo atrás dele, e um ônibus chegou a raspar a traseira do carro de null, que xingou inúmeros palavrões no percurso.
O pequeno esbarrão acabou desconcentrando a médica, que sentiu o corpo deslocar levemente para frente. Se recompôs a tempo, e retornou a acelerar logo atrás de null.
Sem alternativas, a doutora começou a buzinar alucinadamente, fazendo o null olhar por cima do ombro sem entender. Jogou a bicicleta pro lado e fez sinal de ultrapassagem com a mão, mas null deslocou o carro junto com null, e seguiu buzinando.
O rapaz desistiu de dar passagem e mandou o dedo do meio, fazendo com que null se aborrecesse com a atitude dele.

“Vai tomar no cu você, seu mimadinho do caralho!” Ela começou a buzinar pausadamente. “Estou. Tentando. Te. Salvar!” E jogou o carro pra esquerda, ficando lado a lado de null.

Direcionou levemente pra direita, buzinando pro ciclista e diminuindo o espaço do mesmo. O jovem começou a xingá-la de tudo quanto era nome.

“Encosta, seu desgraçado!” Ela berrou, e quando se virou para abrir a janela para gritar com null, viu o rapaz frear abruptamente.

Tudo aconteceu muito depressa. null olhou pra frente, e viu um pequeno caminhão atravessando a pista. Ela olhou pra cima, e viu que o sinal estava vermelho para si. Seu reflexo foi virar o volante para toda sua direita, e por um milagre conseguiu desviar do caminhão sem se chocar com ele.
Mas sua sorte durou pouco, pois o mesmo atingiu a traseira do carro, e ela sentiu quando o seu veículo começou a sair do chão e capotar. Ela via tudo em câmera lenta, e ao redor eram apenas vultos. Estava praticamente de cabeça pra baixo quando o carro atingiu o chão com força, fazendo null se chocar contra o volante violentamente.
A única coisa que lembra antes de apagar, é de olhar no retrovisor interno do carro, e ver um rapaz à vários metros de distância em cima de sua bicicleta, boquiaberto com o que via.
Chocado, assustado, porém... vivo.
null sorriu com essa constatação, segundos antes de sentir os olhos pesarem. Depois disso, não viu mais nada.

***


“Moça! Céus, você está bem? Está ferida?” Ela só via os sapatos pretos e a calça jeans escura, mas sorriu quando o rapaz se abaixou para ajudá-la. “Vamos, eu vou tirar você daqui!”

Os cabelos eram os mesmos. O rosto de traços fortes também.
Mas o olhar era intenso, urgente, e principalmente... vívido.
null estava tão feliz, estava finalmente sendo capaz de resolver aquela situação. null estava a salvo.

“Eu já liguei para a ambulância, já estão vindo!” Ele exclamou quando a colocou sentada em um banco, do outro lado da rua, distante o suficiente para o carro se tornar uma visão turva atrás dos ombros do rapaz.

Que merda. Ela havia dado perda total no carro. Mas, valeria a pena. Ela sabia que uma vida não tinha preço.
A jovem olhou para o rosto de null, e sorriu levemente. Era realmente ele, ela tinha salvado aquela vida! O rosto vívido e de traços marcantes de null era como a visão do paraíso naquele momento. Ele tinha uma pele tão bonita, uma face tão bela. Parecia um anjo... Um anjo que null havia acabado de salvar. Um anjo que gostaria de tocar.
Ela abriu a boca, buscando forças para falar. Empurrou oxigênio pulmão à dentro e sua voz saiu rouca e ínfima.

“Eu... c-consegui...” A mão pequena tocou a bochecha quente do homem, enquanto o dedão fazia um carinho quase imperceptível. “Consegui, garoto.”
“O quê?” Ele perguntou, se aproximando dela. “O que está dizendo?” Os olhos, presos em tensão, encaravam as bilhas da mulher, cujas pálpebras alternavam entre abertas e fechadas.

null se aproximou, observando a testa do garoto.

“Te encontrei, garoto null.” Ela disse, quase num sussurro.

Pensativa, refletiu sobre a brevidade dos fatos: o salvamento de null, o acidente de carro, uma ambulância... null não conseguia acompanhar o ritmo das coisas. Estava tão cansada. Tão, tão cansada... Queria apenas dormir, depois de finalmente cumprir seu papel.

null.” Ela ouviu uma voz, e de repente, do lado de null, estava null com um sorriso triste.

Ela queria chamá-lo pelo nome, estava tão feliz de vê-lo ali! Mas por algum motivo, sua voz não saía. Estava sem forças.

“Eu c-consegui...” Ela tentou falar para null, que afirmou com a cabeç, enquanto os outros ao seu redor estavam apressados contra algo... Algo que a jovem médica simplesmente não conseguia acompanhar.
null.” null a chamou novamente, e ela se virou para vê-lo, sorridente. “Muito obrigado.”

As lágrimas começaram a brotar dos olhos da jovem, que o encarava emocionada.

“Consegui...” A frase ficou apenas em sua cabeça, mas null parecia ouví-la, por afirmar com um gesto alegre.
“Preciso que seja forte. Preciso que resista.” E null se lembrou de algo, arregalando levemente os olhos. Virou-se para null com dificuldade, e lhe falou.
null.” Ela sussurrou, e a feição de incredulidade tomou conta dele. “A resposta é ‘borboleta azul’.”

A última coisa que viu foi o irmão mais novo com lágrimas nos olhos, antes de tudo escurecer novamente.

***


A primeira coisa que sentiu foi o toque quente na mão. Parecia que um carinho estava sendo feito na mão direita, e aquilo agradava null. Instintivamente, ela virou sua mão e sentiu a tez da que lhe acariciava, reconhecendo pelo tato que se tratava de sua mãe.
Os olhos pesados se abriram vagarosamente, e quando a visão deixou de ser turva, ela percebeu o olhar incrédulo de sua mãe sobre si.

null...” Mercedes prendeu os lábios e começou a chorar, emocionada com o despertar da filha.

A moça sorriu levemente e notou seu pai próximo à janela, vindo em sua direção.

“Minha menina!” Ele exclamou aliviado, abraçando a outra mão de sua filha.
“Oi gente.” null conseguiu falar depois de certo esforço, sentindo a garganta seca.

Tentou pigarrear, sem muito sucesso, e sua mãe tratou de pegar o copo com água e canudo, servindo-a de imediato.
Após se hidratar, ela se sentiu bem melhor e respirou com mais tranquilidade.

“Você nos deu um susto, garotinha.” A mãe disse, limpando as lágrimas dos olhos.
“Aonde ia com tanta pressa, hein?” O pai perguntou, e ela riu levemente.

Se lhes contassem, provavelmente seria transferida para área de psiquiatria. Preferiu dar de ombros.

“Eu perdi o controle... Quando vi, tudo já tinha acontecido.”
“Você nos assustou, querida. Não costuma ultrapassar os sinais nem ser imprudente dirigindo...” A mãe comentou, apertando a mão dela.
“Mas já sabemos de tudo, querida.” O pai afirmou, colocando uma mão no ombro de Mercedes.
“Já sabem?” null perguntou, alarmada.
“Claro que sabemos!” A mãe exclamou, subitamente irritada. “O hospital estava te sugando! Fazendo plantões muito longos, te estressando a ponto de não comer nem dormir direito.” E cruzou os braços, chateada.
“Arieli nos explicou tudo, querida.” Sebastián null respondeu com um sorriso acolhedor. “Temos muito orgulho de quem você, mas não queremos que se pressione desse jeito.”
“Mas pai...”
“Nada disso!” A mãe exclamou, assustando levemente null. “Ouça seu pai e sua mãe pelo menos uma vez, menina! Quase te perdemos por respeitar seu ritmo louco de trabalho. Isso não acontecerá mais, está entendendo?”
“É sério que eu quase morri?” null perguntou, chocada com a informação.
“Sim!” A mãe disse, emocionada.
“É sério que eu quase morri e você está brigando comigo na primeira oportunidade?” null perguntou brincalhona, e Sebastián fingiu tossir para disfarçar a risada.
“Estou falando sério, minha filha... Nunca mais faça isso conosco.” O tom que sua mãe usou foi algo nunca visto antes. E automaticamente, no olhar de Mercedes, ela se lembrou num pequeno flash; o pranto desolado da mãe de null, há dois anos atrás.

Prendeu os lábios, sentindo-se culpada. Estava querendo desesperadamente salvar uma vida, sem perceber que poderia perder a sua.

“Eu sinto muito, pessoal. Não fiz de propósito. Mas acredito que aprendi a lição...” null respondeu, suspirando pesadamente. “Acho que encontrei meu ritmo.” Ela sorriu, se ajeitando na cama para ficar sentada.
“Assim esperamos, minha filha.” O pai respondeu, beijando o topo de sua cabeça.
“Pelo menos você conseguiu descansar bem, não é?” A mãe comentou, ajeitando o travesseiro atrás da cabeça de null.
“Acho que sim.” A médica respondeu, bocejando. “Que horas são?”
“Dez e quinze.” O pai respondeu.
“Nossa.” null comentou, surpresa. “Eu dormi umas dezessete horas?”
“Você dormiu três dias, null.” O Dr. null respondeu parado na porta do quarto, e só naquele momento ela reparou em sua presença.
“Está espionando a conversa alheia, doutor?” Ela perguntou risonha, mas logo o semblante sumiu. “Espera! Você disse três dias?”
“Três dias e dezessete horas, para ser mais exato.” Ele explicou, se aproximando com uma prancheta. “Como se sente?”
“Como se tivesse sofrido um puta acidente de carro.” Ela respondeu dando de ombros, fazendo o médico e o pai rirem.
null, por favor! Olha a boca!” A mãe ralhou, e a rosada rolou os olhos.
“Já passamos dessa fase, mãe...” A jovem comentou, debochada.
“Você sempre será minha menininha.” Ela comentou, acariciando os cabelos da filha. “Mesmo que tenha um cabelo de algodão doce.”

Todos na sala riram, mas o momento foi interrompido por um homem alto, forte, de feição preocupada e curiosa. Ele batera na porta e colocou metade do corpo para dentro do quarto.

“Com licença?” Ele perguntou, e o timbre da sua voz era grave e aprazível.
“Oh, querido! Entre!” A mãe de null exclamou sorridente, e null a encarou confusa.

Ficou mais ainda quando viu o null mais novo cumprimentar seus pais e o doutor com uma intimidade que desconhecia.

“Filha, porque não disse que estava namorando?” O pai perguntou como quem questiona o sabor de um sorvete.

null virou o rosto em choque pro pai, e voltou a olhar para o homem, que a encarava com a feição nitidamente envergonhada.

“Namorando?” null perguntou, e viu que o cujo dito coçava a nunca num movimento nervoso.
“Sim, querida!” A mãe respondeu, inocentemente. “Sempre soube que você era fechada, mas não precisava esconder o doce null de nós. Ele é um amor!” Mercedes disse, segurando a mão do rapaz. “E ele ficou muito preocupado com seu estado.”
“É verdade. Ficou o tempo todo com você até chegarmos aqui.” O pai completou.
“E não saiu mesmo depois de nossa chegada.” Mercedes concluiu com um sorriso alegre.
“Sério?” null se viu perguntando, e automaticamente seu olhar prendeu-se ao null, que encarava o chão com timidez.
“É sim.” O Dr. null respondeu com certo ar de tédio. “Ele não tirou o pé do seu lado.”
“Oh.” null disse, e finalmente ele ergueu a visão para olhá-la. Por algum motivo, a jovem sentiu seu coração palpitar com aquilo.

Os dois ficaram um bom tempo se olhando, até que a mãe interrompeu.

“Acho melhor darmos um tempo ao casal.” E se levantou com um sorriso sacana. O pai jogou um beijo para a filha e acompanhou a mãe, saindo logo em seguida.
“Está se sentindo bem mesmo?” O Dr. Perguntou alheio à timidez entre os dois “desconhecidos”, e seguiu realizando suas avaliações enquanto anotava no prontuário.
“Sim, só estou... Cansada, com o corpo dolorido.”
“Pudera, foi uma batida e tanto!” Ela ouviu o null comentar, e novamente o olhar dos dois se encontraram.

O Dr. null sorriu disfarçadamente e seguiu com sua análise em silêncio. Verificou pupila, batimentos cardíacos, posicionou estetoscópio nas costas de null e checou sua pressão e a temperatura.

“Tudo dentro da normalidade.” O dr. respondeu, apertando o botão da caneta e a guardando no bolso do jaleco.
“Você se livrou de inúmeros riscos, null...” Ele informou, mudando a feição para uma mais séria. “Fico feliz que esteja bem. Procure se recuperar.”
“Obrigada, null.” Ela falou sorridente, e o médico acenou para si e para o outro homem na sala.
“Com licença.” Ele anunciou sua partida, deixando os dois à sós.

O silêncio era constrangedor. Enquanto null brincava com os dedos das mãos em seu colo, null trincava o maxilar e respirava fundo, tentando buscar um jeito de começar aquela conversa.
null viu o jeito nervoso em que ele se encontrava, e ela se permitiu rir: por um lado, era capaz de morrer para salvar alguém. E por outro, não conseguia iniciar um diálogo com a pessoa salva. Após alguns minutos de debate interno, percebeu que não tinha nada a perder, e puxou o ar para falar.

“Então...” Ela comentou, atraindo o olhar de null. “Você é meu namorado?”

Ele sorriu sem graça e se apressou em explicar.

“O protocolo do hospital não permitia a visita de terceiros.” Ele deu de ombros. “E eu não ia ficar tranquilo em casa, depois de ter visto tudo aquilo...” Ele se permitiu se aproximar, e sentou perto da cama de null. “Foi horrível.”
“Eu posso imaginar...” Ela acenou, devagar. Novamente trocando olhares, e null pegou em sua mão, segurando carinhosamente.
“Obrigada por me ajudar. Me lembro que você me auxiliou a sair do carro.” Ela comentou com um sorriso, e ele apertou a mão pequena, sorrindo sem graça.
“Eu que preciso te agradecer.” Ele disse, e null franziu levemente o cenho. “Você me fez perceber que a vida é muito preciosa para se desperdiçar com bobeiras...” E seu rosto se endureceu conforme olhava para as mãos unidas.
“É...” Ela respondeu, com um meio sorriso.
“Eu reconheci você.” Ele disse, virando para olhá-la nos olhos, e ela se surpreendeu com sua fala.
“Me... reconheceu?” O ar ficou preso nos pulmões quando fez essa pergunta.
“Sim. Você era a mulher que estava diante de mim, presenciando minha briga com meus pais... Naquele mesmo dia.”

null expeliu o ar aliviada, e null deu um pequeno sorriso.

“É verdade...” Ela se lembrou daquela cena tão intensa... As falas pesadas de null ainda ressoavam em sua mente. “Vocês... se resolveram?”
“Em partes...” Ele comentou, dando de ombros. “Mas, não é por isso que estou aqui.” Ele disse com um semblante sério, ainda encarando-a. “Você consegue fazer uma baita primeira impressão, null.”
“O-o quê?” Ela perguntou, alarmada.
“Passei os últimos três dias tentando entender quem era você e o que diabos você queria ao jogar o carro pra cima de mim, me forçando a encostar.” Ele comentou com a maior naturalidade do mundo, e null encarou suas mãos, sentindo as bochechas queimarem.
“E-Eu... precisava falar com você.” Ela assumiu, voltando para o contato visual.
“Eu entendi isso depois de ter um tempo pra pensar... Mas ficava me questionando de onde você me conhecia, como sabia meu nome, e o que queria comigo...” Ele enumerou suas questões, e null suspirou.

Não poderia continuar deixando o rapaz no escuro; precisava abrir o jogo com ele.

null...” Ela falou, respirando fundo. “Eu... conhecia null.”. Ela olhou apreensiva para o null, que não parecia se chocar com a notícia.
“Eu sei disso.” E na verdade, quem se chocou foi ela.
“Sabe?”
“Sei.” Ele sorriu triste, olhando em seus olhos. “Na verdade, descobri isso nestes três dias que você esteve apagada...” E respirou antes de finalizar sua fala. “Você fazia parte da equipe que atendeu null na noite em que ele... Se suicidou.”.
Oh Merda.” Era o que ela pensava, enquanto se encaravam ininterruptamente.
“Eu sinto muito, null...” Ela disse, sentindo-se triste. “Você não sabe o quanto eu sinto...”
“Eu posso imaginar.” Ele respondeu, engolindo a seco o nó que se formava no pescoço.
“Não sei se faz diferença pra você, mas...” Ela respondeu, respirando fundo e com cautela, ao se sentar melhor na cama. “null foi o primeiro paciente que perdi.”

null a encarou, perplexo. A boca estava entreaberta, e ele ficou parado bons segundos antes de piscar e encarar o chão.

“Nossa.” Ele comentou, sem jeito.
null foi... marcante.” Ela afirmou, trazendo a atenção de null para si. “Muito marcante.” Ela comentou, mexendo no próprio cabelo.

null nada respondeu; apenas a encarou com misto de confusão e curiosidade.

“Preciso te contar algumas coisas.” Ela anunciou, e ele confirmou com a cabeça, receoso.
“Estou ouvindo.” Sua voz saiu mais decidida que sua feição, e null respirou fundo antes de prosseguir. Afinal de contas, null merecia saber a verdade.

Toda a verdade.


Capítulo 6

Ela olhou em seus olhos e aproximou o rosto de si. null ficou um pouco confuso, mas não moveu uma palha.
null segurou o rosto do homem em suas mãos, e manteve um olhar arrebatador.

“Preciso que confie no que estou prestes a dizer. Promete que vai me levar à sério?”

Como se estivesse hipnotizado, null apenas balançou a cabeça. null olhou ao redor e, encontrando o que procurava, apontou para o canto da sala.

“Se importa de pegar as minhas coisas ali?”

Ele concordou ainda confuso, e foi até o local trazendo sua bolsa e a sacola com os restos de roupa. Ela ignorou a bolsa, e procurou no bolso da calça, a peça de xadrez preta – até que a encontrou, milagrosamente.
Sorriu aliviada, e retirou a peça do saco.

“Está vendo isso, null?” Ela colocou a peça diante dos olhos negros, mergulhados em confusão. “Isso é a sua história.”
“O quê?” Ele perguntou, sem entender.
“Estou dizendo que este é você.” E pegou a mão máscula e a abriu, depositando a peça ali. “Você é o rei. Você é o rei que null tinha tatuado no peito.”

O rosto do null passou de perplexo para emotivo, e os lábios se prenderam numa linha fina. null elevou o rosto para olhá-lo nos olhos, e encontrou um mar escuro de ondas gigantes.
null estava prestes a chorar.

“C-Como você...” Ele perguntou, atordoado. “Como você sabe?”

null sorriu, limpando as lágrimas que caíam pelo canto dos olhos dele.

“Da mesma forma que sei que jogavam xadrez desde pequenos. Da mesma forma que sei o quanto você odiava perder para ele, e o quanto admirava seu irmão.” Sua voz embargou ao ver as lágrimas de null rolarem silenciosamente. Fez uma pequena pausa, e, após suspirar, retomou a fala.
“Da mesma forma que sei que a tatuagem em seu braço é uma homenagem a ele... E da mesma forma que eu sei que o amor de vocês... É eterno.” null a encarou estupefato, não obtendo controle do pranto. Se entreolharam de maneira intensa, até que null se surpreendeu quando null a abraçou, desolado. Chorava igual à uma criança em seu colo, e a médica apenas deixava o próprio choro rolar, enquanto o abraçava de volta.
null ama você incondicionalmente, null...” Ela explicou, trazendo o rosto do homem para olhá-lo de frente. “null me disse tudo isso.”
“E-Ele disse?” null perguntou como uma criança entristecida. “Como? Há dois anos?”

Ela negou com um sorriso no rosto.

“Não sei bem como você vai receber isso, mas... null apareceu pra mim a semana toda.” Ela comentou, e o null se afastou, alarmado.
“Como é?”
“O espírito de null, null.” Ela explicou, com calma. “Ele me disse tudo isso.”
“Não.” Ele sussurrou, incrédulo. “Não! Como isso é possível?”
“Apenas é, null. Acredite.” Ela buscou as palavras na sua mente. “De alguma forma ele apareceu, e me mostrou tudo isso.”
“Não!” Ele exclamou de pé, andando de um lado pro outro. “O que está dizendo? Que ele apareceu pra você depois de dois anos e simplesmente decidiu lhe contar coisas íntimas?” Ele debochou, rindo nervosamente. “À troco de quê?”
“Para te salvar, null.” Ela respondeu, séria. null parou de andar na hora, e a encarou assustado.
“Como é?” Ele perguntou, se virando lentamente para ela.
“De alguma forma, null sabia que você corria perigo. E passou a semana inteira me comunicando isso.” null explicou, se sentindo cansada só de lembrar. “Eu ouvi coisas, vi coisas, escrevi coisas. null deixava mensagens de todos os jeitos. E sempre repetia a mesma frase... “Ainda há tempo. Salve-o.”. E eu não entendi o que ele tanto queria, até que vi com meus próprios olhos você sair enfurecido de sua casa, brigando com seus pais e chamando-os de assassinos.”

null não moveu nenhum músculo. Apenas a encarava boquiaberto.

“Eu sei que null se suicidou com altas doses de remédio tarja preta, null. Já sabia antes disso tudo. Mas eu tive sonhos, null me mostrou a forma como vocês se relacionavam, o jeito carinhoso que ele cutucava sua testa, o modo como ele te explicava que xadrez poderia te ensinar muito sobre a vida!” null desatou a falar, sentindo a voz falhar. “Céus, ele até me disse que a resposta para sua pergunta era borboleta azul! E eu nem sei que pergunta era essa!” Ela exclamou, chorando livremente. “Ainda acha que estou inventando? Que estou louca? Que deliberadamente quis me matar para salvar você de um acidente fatal enquanto fugia de um diálogo com seus pais?”

Ela se permitiu chorar compulsivamente enquanto null permanecia no lugar, observando a médica mergulhar num estado deplorável de tristeza. Era óbvio que ela tinha escapado da morte, e no fundo, ele sabia que se não fosse a insistência dela, ele provavelmente não estaria ali para ter aquela discussão. O choque de um caminhão em movimento contra sua bicicleta seria morte certa. E ele estava fora de si o suficiente para não respeitar o sinal e sofrer o acidente fatal.
Respirou fundo pelo nariz e soltou o ar pela boca, sentindo os lábios tremerem levemente, digerindo tudo o que acabara de ouvir. Deu um passo em direção à jovem, e, incerto, pegou fôlego para perguntar.

“Você... consegue vê-lo?”

null parou de chorar, e ergueu sua cabeça para encarar null. Os olhares se mantiveram num misto de ressentimento e medo.

“Sim.” Ela respondeu, fungando. Ele engoliu a seco.
“Ele está... aqui?”

Ela negou com a cabeça, e null fez uma cara frustrada, encarando o chão.

“Não acho que ele apareça sempre que quer. Acho que existe um tipo de... permissão.” Ela explicou, e ele voltou a chorar. Ficou assim durante um tempo, apenas negando com a cabeça enquanto encarava o chão, indignado.
“Que tipo de divindade negaria irmãos de se verem?” Ele perguntou, visivelmente chateado. “Por que, null? Por que eu não vejo?” E desatou a chorar, inconformado.

null não sabia responder. E nem o que pensar. Mas entendia que a indignação de null era completamente natural diante dos fatos. E sem saber o que fazer, ofereceu seu silêncio como ato respeitoso, diante das feridas causadas pelo luto precoce de null.

null...” Ela arregalou os olhos, vendo uma luz surgir ao lado do jovem.
“Não, eu sei... Não tem respostas...” Ele disse, se recuperando do choro, limpando o rosto.
null!” Ela o chamou com urgência, e piscou inúmeras vezes, apontando o dedo trêmulo na imagem que se materializava ao lado de null.

O mais novo olhou para o lado, não enxergando o que null via.

“E-Ele... está aqui?” O caçula perguntou num fio de voz, e null confirmou, com lágrimas descendo pelo rosto. “null...” null sussurrou, respirando com dificuldades, diante do pranto.

null sorriu para null, e ergueu a mão em direção à cabeça de null, fazendo um carinho ali. Este por sua vez, arregalou os olhos e passou a mão no local onde null acariciava-o.

“Está... quente... Formigando.” null falou para si, e null sorriu em meio ao choro.
“Ele está fazendo um carinho em seus cabelos.” Ela explicou, e null soluçou alto, chorando copiosamente.

null o olhou com um sorriso triste, e encarou null.

“Perdoe o irmão. Ele sempre foi cabeça dura, mas tem um coração enorme.”

null riu, concordando com null. Seu gesto chamou atenção de null, que a olhou ansioso, curioso.

“Ele disse que você foi sempre cabeça dura... Mas tem um grande coração.” Ela explicou, e null riu, enquanto sugava o ar pelas narinas entupidas.
null...” Ele dizia, sorrindo entre as lágrimas.

O mais velho observou o irmão por inteiro, e riu.

“Ele está mais alto do que eu.” null comentou, risonho. “Filho da mãe.”
“É a genética... Seus pais são altos.” null respondeu, com um sorriso de canto.
“Como é?” null perguntou, perdido.
null está reclamando que você está mais alto que ele.” Ela falou, rolando os olhos. null riu genuinamente, quase como a mesma criança que era nos sonhos.
“Isso é tão ele...” O mais novo comentou, e mordeu o lábio inferior, ainda rindo. “Eu fiquei mais alto e mais bonito que você, null. Aceite.”

null riu com escárnio e null prendeu os lábios numa risada contida – intimamente, concordava com o caçula.

null...” null a chamou, virando pra si. “Você sabe porque fiz o que fiz?” Ele perguntou e ela prendeu a respiração, abrindo a boca e negando com a cabeça.
“Imagine uma dor que não passa... e uma pessoa que não sabe lidar com ela.” null respondeu de forma amarga, e acariciou o rosto de null, que fechou os olhos diante da sensação. “Eu amava um homem que não sobreviveu à um acidente de moto. Ele morreu antes de nos assumirmos para nossas famílias como um casal.” E a feição de null se endureceu. “A situação com meus pais era insuportável; eles não aceitaram muito bem a minha orientação sexual, mas null entendeu errado...” E uma ruga de expressão tornou o rosto de null arrependido. “Eu tomei os remédios porque só queria parar a dor. Não queria viver num mundo sem Micael.” E um sorriso triste o alcançou.
Ele se virou para encarar null, que chorava silenciosamente. “Por favor, explique isso à null. Explique que meus pais não são assassinos, que foi uma escolha minha e... que tento acima de tudo entender e lidar com as consequências... Me arrependo por todo mal que causei à família, não era essa a intenção. E sei que minha morte influenciou muito para que toda essa confusão acontecesse. Mas as pessoas precisam conversar, tentar se entender...” E tocou a testa de null com o dedo indicador e médio. Ele sorriu para o irmão, que abria os olhos assustado, sentindo a cabeça movimentar-se levemente para trás.
“Eu não quero que null acabe como eu. Quero que ele ouça e seja ouvido... Há sempre uma saída, null. Entende? Sempre há uma saída.” E olhou para médica, que concordava num pranto silencioso. “Obrigado por tudo.”
“Eu que agradeço.” Ela respondeu, com a voz trêmula. null a olhou rápido, e voltou o olhar para onde null se encontrava, tornando-se ansioso.
“Ele está indo embora?” null perguntou alarmado, e começou a gesticular. “null!” O mais novo a chamou, e ela confirmou com a cabeça, mordendo o lábio inferior. Ele respirou fundo, deixando as lágrimas molharem o chão.
“Eu te amo, irmão. Pra sempre...” null respondeu, com um sorriso sincero.
null pede que você entenda seus pais, null.” null falou, respirando com dificuldades. “Ele diz que não foi por causa deles que ele...” E ela suspirou, sem conseguir terminar a frase.

null a olhou com os lábios presos, e chorava como uma criança, afirmando com a cabeça.

“Ele só queria se livrar da dor. Não queria estar sem Micael, que falecera no acidente... Mas null foi precipitado, e... Pede desculpas por toda dor que causou.”
“Irmão...” null falou, enxugando o rosto. “Você é tão idiota que continua se desculpando mesmo do outro lado. Você é muito irritante.” Ele disse, rindo sem humor, fazendo null rir levemente.
“Ele disse que o ama muito, e para sempre.” Ela concluiu, suspirando e tentando manter a voz calma. “E que sempre há uma saída para tudo.”
“Fale da borboleta azul.” null pediu, com um sorriso de canto.
“Ele pediu para lembrar-lhe da borboleta azul...” null falou, confusa. “Ele insistiu nisso, mas não entendo. Ele não quis explicar...”

null respirou fundo, de olhos fechados, antes de contar para a médica sobre aquela história.

“Uma vez eu perguntei à null o que era a vida...” null disse, se aproximando de null e sentando a seu lado. “E ele disse que pensaria na resposta e me diria depois. Mas esse dia nunca veio.” Ele pegou na mão de null e a beijou respeitosamente. “Não até três dias atrás. Quando você me disse, antes de desmaiar na ambulância.”
“Céus!” null exclamou, o encarando sobressaltada.
“Eu disse que você conseguia causar uma primeira impressão e tanto...” Ele lhe sorriu genuinamente, e o olhar foi parar em suas mãos. “null me contava a lenda da borboleta azul quando eu era pequeno... Você a conhece?”

null sorriu abertamente, e olhou de null para null, acenando com a cabeça. Soltando-se do caçula, ela levou umas das mãos até o ombro, e puxou a manga do braço esquerdo, mostrando a tatuagem de borboletas azuis.
null arregalou os olhos, encantado com o desenho marcado na pele da mulher. Foi a primeira vez que null viu o sorriso aberto de null, e internamente considerou aquela cena como uma das mais bonitas que já havia visto na vida.
Os dois ficaram se encarando, num misto de admiração e curiosidade, sem necessariamente trocar palavras; os olhares já diziam um tanto.

“Obrigado por salvar minha vida.” Ele agradeceu, com um semblante de sinceridade.
“Eu agradeço pela oportunidade. Porque viver isso, me fez reafirmar o valor da minha.” Ela respondeu, sorrindo a ponto dos olhos se fecharem.

Logo as bilhas se abriram, e ela olhou para o lado, não encontrando mais null. Suspirou fundo, com um sorriso triste.

“Ele se foi?” null perguntou, olhando para trás. Ela lhe olhou com candura.
“De certa forma... Mas não tema.” Ela ergueu a mão e tocou a testa de null com os dedos de sempre. “Ele estará sempre com você.”.

Nove anos depois


“E eu tirei sete e meio na prova de matemática, mas tirei nove na de português...” A pequena menina de cabelos em trança e óculos vermelhos dizia diante da lápide, enfeitada com lírios brancos. “E ah! Eu fui muito bem naquele jogo de basquete que eu te contei na última vez, tio null.”
“Não é meio fúnebre uma criança conversar com a cova do tio falecido?” null cochichou ao lado da esposa, que rolava os olhos.
“Deixe null ter a relação dela com o tio. Se ela não estranha, nós temos que respeitar.”
“Só estou dizendo que isso é muito... assustador.”
“Mais assustador do que null com dois anos falando diariamente com null, sendo que nem eu nem você conseguíamos vê-lo?” null cruzou os braços, com a cara entediada.
“Ei, vocês por acaso poderiam respeitar? Estão interrompendo uma conversinha aqui.” A filha respondeu com o cenho franzido, antes de receber silêncio dos pais e retornar ao diálogo com o tio.
“Ela herdou esse humor de você.” null respondeu, observando o horizonte.
“Você nem queira jogar a responsabilidade pra cima de mim, null. Esse tom foi igualzinho o de sua mãe.”
“Pff, você já se viu discutindo? É tão debochado que flui até no gene. Coitada da minha filha.”
“Nossa filha.” Ele respondeu, com um sorriso de canto, e envolveu a mulher em seus braços, beijando a base de seu ombro. “E vamos parar de discutir. Faça bom uso dessa boquinha, querida.”

null estava prestes a retrucar, mas null a puxou para um beijo que a fez desistir de ideia.

“Pois é, tio. Eles nem respeitam os mortos. É assustador.”
null!” Os pais chamaram a atenção da menina, que se virava sorridente.

***


Seis meses depois, a família voltava de um passeio no parque, quando a pequena decidiu quebrar o silêncio.

“Tio null nunca mais apareceu.” null reclamou pela primeira vez naquele dia. Fazia algum tempo que a pequena comentava com indignação o sumiço do tio, e a saudade que sentia em conversar com ele.
“Já falamos sobre isso, querida...” null respondeu, prestando atenção no trânsito, enquanto dirigia.

A pequena mordeu o lábio inferior, como a mãe fazia quando estava nervosa.

“Mas eu sonhei com ele anteontem.” null e null se entreolharam, e ela apertou a mão dele, que descansava em sua coxa.
“Sério, querida? E como foi?” null perguntou, escondendo a aflição. null seguiu dirigindo, e alternava olhadas para sua filha pelo retrovisor interno.
“Ele disse duas coisas pra mim...” E fez o número dois com os dedos. “Primeiro disse que vocês fugiam um do outro quando pequenos.”

Os adultos franziram a testa.

“Como assim, filha?” A médica perguntou, curiosa.
“Ele disse que vocês se desencontraram bastante, mas os caminhos – ela fez uma careta ao usar a palavra – estavam ligados. Ele falou que mamãe quase estudou com papai na mesma escola quando tinha minha idade, mas acabou tendo que se mudar por causa do emprego do vovô.”
“Céus.” null comentou, engolindo a seco. “Meu pai precisou mudar de emprego e saímos da cidade. Eu estava matriculada numa escola, mas não cheguei a frequentá-la. Tinha mais ou menos a idade de null.” Ela comentou com null, que a olhou assustado.
“E o papai quase fez medicina.” null explicou, sorridente.
“Isso é verdade, mas sua mãe já sabia.” null respondeu a filha, levantando a sobrancelha rapidamente. A pequena cruzou os braços imitando o gesto do pai.
“Mas ela sabia que você quase cursou na mesma faculdade que ela? No mesmo ano que ela estava lá?”

O casal se olhou abismado.

“Não! Por que nem eu sabia disso!” null respondeu, rolando os olhos. “Meu irmão ainda vai me matar.” Ele comentou baixinho, fazendo as meninas rirem.
“Mais alguma coisa, filha?” null perguntou, divertida. Ela lidava melhor com o dom da criança do que o marido.
“Hm, não. Da terceira vez, vocês se encontraram de vez e aí, eu nasci.” null concluiu, dando de ombros.
“Demorou um tempinho, querida...” O pai acrescentou, sorrindo para a criança que o olhava com curiosidade. “Mas sim, foi quase isso.”
“Legal.” A pequena respondeu, encarando a janela e brincando com os dedos, fingindo que perambulavam pelo vidro.
“Ah! E tem a outra coisa que o tio contou.”

null anunciou, quando estacionaram o carro diante do prédio em que moravam.

“Ah, é verdade? E o que é?” null perguntou, tirando-a do cinto e abrindo a porta para si.
“Deus, permita que não seja nada apavorante.” null pediu num sussurro, fechando a porta logo depois de sair e pegando a filha no colo, que prontamente se enlaçou no pescoço do pai.

null deu um leve tapa no ombro dele, rindo disfarçadamente e apertou o alarme de trava, quando null decidiu responder.

“Ele disse que um dia ele volta pra nossa família.” E olhou para o pai, com um olhar genuinamente feliz. “E esse dia não está longe, papai.”

A criança o abraçou forte, e null segurou a respiração. Inconscientemente, levou a mão até à barriga – sabia que sua regra estava atrasada e o que isso poderia significar. Quando ergueu a cabeça, percebeu o olhar abismado de null sobre si, e sorriu sem graça. Viu o exato momento em que os olhos de seu marido marejaram, e ele escondeu o rosto no abraço da filha.

“Que bom, f-filha. Já estava na hora...!” Ele respondeu com a voz embargada, beijando sua cabeça.

Olhou para null, que o encarava amorosamente. Puxou a esposa pela mão e a beijou ternamente.

“Obrigada por isso.” Ele disse num sussurro, e ela acenou, e beijou sua testa carinhosamente.

Ambos caminharam de mãos dadas, a passos lentos.
Mais do que isso; caminhavam juntos: o dono do braço tatuado com a peça de xadrez, e a dona do braço marcado pelas borboletas azuis.
E no fim das contas, null estava certo.
A vida são borboletas azuis, e o que decidimos fazer delas.


Fim.



Nota da autora: Ahhhh meu Deus! pensa numa história que até hoje dou uma lacrimejada? Pois é... Bendição é uma trama sensível, que fala muito de vida, para além do contato 'espiritual' que possamos ter com nossos afetos... Essa fic foi escrita num momento de muita dor e saudade no início desse ano, poucos dias após o falecimento de minha avó. Eu quis externar e eternizar o amor, o sentimento e a certeza de que não estamos sós, e quem nos ama, nos acompanha para sempre, independente do plano material ou não!
Não sei se é assim de verdade, mas gosto de acreditar e tenho motivos para tal; que me fortalecem diariamente, diante das dificuldades da vida. Eu espero que essa história tenha aquecido vocês, e de coração: não estamos sós ♥.

Vou ficando por aqui, mas as histórias não param! Tem Ironic Lovers, Bring me Home, e outras especiais que estão por vir! Se possível, deem uma olhadinha lá!
Obrigada à beta linda Ana Ammon, que sempre chega junto pra tudo; inclusive, por ter betado Bendição com tanto carinho!

Beijos e qualquer coisa, grita lá no twitter!(@lullymaniac) ♥
Até à próxima!



Outras Fanfics:
Calmaria dos teus olhos
Ironic Lovers
Bring Me Home

Eu não escrevo nenhuma dessas fanfics, apenas scripto elas, qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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