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Última atualização: 01/10/2020

Capítulo 1

O zumbido atravessava sua mente, não permitindo que ela ouvisse nada.
O peito ardia de tanta dor, e o único sentido que parecia funcionar era o olfato, dado a percepção do cheiro de queimado imperando no ar.
Vagarosamente e com dificuldade, ela conseguiu abrir os olhos. O clarão aos poucos foi tomando espaço e forma em sua visão, até que finalmente ela percebeu o air-bag ativado e o volante logo a frente.
Sentiu o corpo latejar e algo molhava sua face. Encostou os dedos no local da ardência, logo acima de sua sobrancelha e sentiu a dor instantânea. Gemeu em reprovação, e afastou a mão, notando a grande mancha de sangue que coloria os dedos pálidos e gélidos.
Sentindo o corpo tremer, ela percebeu que seus cabelos estavam seguindo a direção da gravidade, e involuntariamente prendeu a respiração ao se dar conta de que estava de cabeça para baixo.
O pânico começou a dominá-la, mas ela sabia que aquilo poderia acontecer. Com os pensamentos trabalhando a mil por hora, levou a mão trêmula até o dispositivo que prendia o cinto, se preparando para a queda iminente.
Assim que ouviu o clique, seu corpo foi brutalmente jogado para o teto do carro – que estava em contato direto com o chão. Levantou a cabeça, e observou ao redor, sorrindo debilmente para a parte onde deveria existir uma janela – que agora eram cacos de vidros espalhados no asfalto.
A sensação do zumbido no ouvido ia embora à medida que se arrastava lentamente para sair do carro, pouco ligando para os cacos de vidro que marcavam a sua pele em pequenos cortes.
Valeria à pena, ela sabia. Ela simplesmente sabia.
Já estava com a metade do corpo para fora quando alguém chegou correndo, exasperadamente.

“Moça! Céus, você está bem? Está ferida?” Ela só via os sapatos pretos e a calça jeans escura, mas sorriu quando o rapaz se abaixou para ajudá-la. “Vamos, eu vou tirar você daqui!”

Os cabelos eram os mesmos. O rosto de traços fortes também.
Mas o olhar era intenso, urgente, e principalmente... vívido.
Ela sorriu novamente, sentindo seu corpo ser erguido com facilidade pelo rapaz.

“Você consegue me entender? Está muito ferida?”

Ela não foi capaz de responder, pois foi acometida por uma sessão de tosse, ocasionando num cuspe de sangue. Conseguiu levantar o olhar para o rapaz, que lhe encarava desesperado.
Ela estava com o braço direito sob seus ombros quando ele se abaixou e a pegou no colo, caminhando depressa para um lugar seguro, longe dali.
Pouco a pouco o cheiro de queimado foi ficando para trás, e ela começou a ouvir pessoas berrando, passos acelerados... Olhou ao redor, e apesar da vista não estar 100%, percebeu os vultos correndo para longe dali, assim como o rapaz fazia consigo.

“Eu liguei para a emergência, já estão vindo!” Ele exclamou quando a colocou sentada em um banco do outro lado da rua, distante o suficiente para o carro se tornar uma visão turva atrás dos ombros do rapaz.

Uma aglomeração formou-se em volta dos dois, e ela encarava tudo com muita confusão, volta e meia sentindo os olhos vacilarem.

“Abram espaço! Deixem-na respirar!” O jovem bradava, fazendo as pessoas se afastarem com os rostos amedrontados pela cena que viam.
“Alguém tem água? Eu preciso de água!”

Uma garrafa foi oferecida e ele logo a pegou, retirando do bolso um lenço azul-bebê. Molhou parte do tecido e logo posicionou na cabeça onde sentia a dor e a ardência.

“Qual é seu nome?” Ele perguntou, analisando o corpo da moça, buscando ferimentos.
“Você consegue me dizer seu nome? Tem alguém para quem possamos ligar?”

Ela não respondeu; estava num estado de torpor tão grande que só conseguia encarar os olhos intensos a sua frente. Com um sorriso abobalhado, ela elevou a mão trépida em direção ao rosto do rapaz, que a mirava confuso.
abriu a boca, buscando forças para falar. Empurrou oxigênio pulmão a dentro e sua voz saiu rouca e ínfima.

“Eu... c-consegui...” A mão pequena tocou a bochecha quente do homem, enquanto o dedão fazia um carinho quase imperceptível. “Consegui, garoto.”
“O quê?” Ele perguntou, se aproximando dela. “O que está dizendo?” O olhar tenso dele encarava os dela, castanhos, cujas pálpebras alternavam entre abertas e fechadas.

se aproximou, observando a testa do garoto.

“Te encontrei, garoto O’Brien.” Ela disse, quase num sussurro.

Ele a observava incrédulo, sentindo o coração palpitar dentro do peito. Como ela sabia seu sobrenome?

“C-Como você...” Ele foi interrompido pelo som da sirene, que estacionou de forma atravessada a rua.

As portas traseiras se abriram depressa, com dois paramédicos trabalhando agilmente em direção à jovem acidentada.

“Com licença, com licença! Vamos lá, senhorita. Qual seu nome?” A paramédica colocava uma pequena lanterna diante do olho esquerdo de , enquanto o outro profissional checava a pressão. O O’Brien se afastou receoso, deixando que os profissionais trabalhassem com maior liberdade.
“Aparente trauma no canto superior da cabeça, apresentando perda considerável de sangue.” O paramédico alertou, enquanto analisava o aparelho de pressão.
“Eu encontrei...” dizia, aparentando cada vez mais sonolência.
“Encontrou o que, senhorita?” A paramédica a olhou confusa, e seguiu o olhar da jovem para o rapaz. “Conhece esta moça?” Perguntou em tom imperativo.
“N-não! Eu apenas a retirei do carro!” O homem indicou o carro capotado do outro lado da rua.
“Pressão oito por cinco e caindo!” O outro paramédico informou, com urgência na voz.
“Droga!” A socorrista bradou, preparando a maca. “Vamos, temos que correr!”

Rapidamente colocaram o corpo de na horizontal, devidamente acoplado à maca, e encaminharam para a ambulância.

“Você! Venha conosco, vai ter que responder algumas coisas no hospital!” A paramédica ordenou ao jovem, que subiu na ambulância sem pestanejar.

Se posicionou ao lado daquela mulher de aparência tão frágil, com o corpo lacerado de cortes e uma mancha da cor da aurora boreal pintando a tez, desde os ombros em direção ao seio esquerdo, onde o rastro era coberto pela camiseta O carro tomou velocidade e a sirene da ambulância voltou com tudo, enquanto os profissionais trabalhavam rapidamente, conectando aparelhos e aplicando manobras precisas no corpo da jovem.
Enquanto os mesmos trocavam informações técnicas, a paramédica parou abruptamente quando encontrou um objeto dentro do bolso da calça de .

“Ah meu Deus...” Ela disse, exasperada, enquanto olhava o crachá de olhos arregalados. “ ... É uma médica do Saint Laurent’s! Você a conhece, Paul?”
“Merda!” Ele exclamou, encarando sua companheira de trabalho. “Eu sabia que a conhecia de algum lugar! Ela é nova lá!” Ele respondeu, enquanto aplicava o soro fisiológico de forma intravenosa.
“Aqui diz que ela começou a assumir esse mês... Terminou residência faz pouco tempo!”

Os dois paramédicos se encaram por segundos que pareceram uma eternidade. Pareciam dialogar muito só naquele olhar, e O’Brien sentiu-se mais nervoso.

“Será que houve traumatismo interno?” O paramédico perguntou, enquanto a outra observava os batimentos cardíacos.
“Eu encontrei... Garoto O’Brien.” falou do nada, lançando seu olhar para o homem que a observava como se estivesse a ponto de pirar.
“Seu sobrenome é O’Brien?” A paramédica perguntou, e o rapaz confirmou com a cabeça, confuso. “Se você não a conhece, como ela sabe seu nome?” Ela franziu a testa ao questionar, e ele apenas gaguejou, sem conseguir dar uma explicação plausível.

Ele desistiu de dizer algo quando vários sons começaram a apitar dos aparelhos.

“Merda!” A paramédica esbravejou novamente, e olhou para frente. “Acelera! Acelera! Estamos perdendo-a!”
“O-o quê?” O O’Brien indagou perplexo e se virou para a mulher ferida, que lhe sorria um sorriso de paz.

Aquilo o alarmou por dentro.

“Mantenha-a falando com você!” A paramédica indicou. “Precisamos dela consciente, mantenha-a conversando!”

Ele acenou a cabeça rápido, e se aproximou da jovem, segurando sua mão.

“Olá, estranha!” Ele disse rindo de nervoso, completamente perdido. “Você sabe meu sobrenome, não é?” E ele percebeu que ela sussurrou um sim quase inaudível.
“Certo, agora que tal dizer meu primeiro nome? Você consegue?”

Os apitos dos aparelhos começaram a acelerar, e as batidas do coração do rapaz acompanharam o ritmo insano.

“Quanto tempo???” A paramédica berrou, e a motorista gritou de volta.
“Cinco minutos!”

A socorrista bufou, ansiosa.

“Continue falando!” Ela orientou, e o rapaz olhou para a paciente, que o encarava sonolenta.
“Meu nome, . Qual é meu nome?” Ele disse, sorrindo da forma mais aflita que já sorriu na vida.

A jovem sorriu minimamente, e manteve as pálpebras erguidas, mantendo contato visual com ele. Ela soltou a mão que se prendia à dele, e elevou até à altura dos olhos do rapaz. Ele franziu o cenho, não entendendo o que estava acontecendo, até que sentiu o toque dos dedos indicador e médio em sua testa. O choque daquele específico gesto, unido à diferença de temperaturas – a mão gélida e a testa suada – fez com que um calafrio atravessasse toda sua espinha.

.” Ela sussurrou, e a feição de incredulidade tomou conta dele. “A resposta é ‘borboleta azul’.”

Ele abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. Apenas encarava , sem reação. Até que uma lágrima cruzou seu rosto, e outra, e mais outra, e quando se deu conta, estava chorando silenciosamente. Piscou repetidas vezes, e mesmo que seus olhos estivessem pairando sob os dela, nitidamente possuía um olhar perdido.
Ele estava tentando elaborar alguma frase em sua mente, quando sentiu os dedos escorregarem de sua testa – e simultaneamente, os olhos castanhos se fecharam.
Tudo aconteceu em câmera lenta, porém ele não conseguia reagir. Ele via o braço sem forças pendurar-se para fora da maca, assim como viu a paramédica berrar coisas incompreensíveis para seus companheiros, enquanto se colocava em cima de , iniciando massagem cardíaca.
A cada piscada que dava, o mundo parecia agir sem ele. Sem sua ação, ele apenas observava as coisas acontecendo, sem acreditar em tudo que acabava de presenciar.
E a única pessoa que poderia explicar, era uma médica desacordada, tentando ser ressuscitada por uma socorrista desesperada em meio a aparelhos de sons vibrantes e incessantes.
Até que uma específica máquina não apitava mais; apenas reproduziu um som agudo e contínuo, que fazia par com a linha reta evidenciada no monitor, representando a ausência de batimentos cardíacos. O som alucinante – o mesmo que ouviu há dois anos – estava de volta, deixando-o novamente sem chão. Ele despertou de seu devaneio e encarou o corpo imóvel de .
Ela estava... morta?


Capítulo 2

Sete dias antes


O relógio despertara às 6:10 da manhã. Ela acordou sobressaltada, com os cabelos colados no rosto devido ao suor. Acordou ofegante e confusa, e logo desligou o alarme que insistia num som estridente e irritante.
Sentou-se na cama, ainda tentando entender o que acabara de acontecer. Estava sonhando com algo tão peculiar, tão saudosista – e mesmo assim, algo que ela nunca viveu.
Dirigiu-se ao banho, como de costume, com os pensamentos longe... Deixava a água cair sobre sua cabeça enquanto a testa apoiava-se no azulejo do box, e seus olhos acompanhavam as gotas que desciam livres pela parede.
Quem eram as pessoas de seu sonho?
Ela não fazia ideia de quem se tratava – seus rostos não apareciam nitidamente, apenas suas vozes e o diálogo que trocavam entre si.
Sorriu involuntariamente ao lembrar-se da criança aborrecida com um jovem, que parecia ser seu irmão mais velho. O garoto de aproximadamente dez anos estava visivelmente chateado, resmungando de braços cruzados enquanto perdia a partida de xadrez para o mais velho.
Eles possuíam a mesma cor de pele, e roupas parecidas, como se fossem pijamas. Infelizmente, os rostos estavam embaçados e não saberia descrevê-los mesmo que se esforçasse.
Enquanto tomava seu café, a médica tentava se lembrar do que exatamente eles conversavam em seu sonho, durante a partida de xadrez. Ela lembrava dos gestos do irmão mais velho, que apontava para as peças e explicava o jogo e as estratégias, enquanto o mais novo observava atentamente, parecendo gravar tudo na memória, com uma postura madura demais para sua idade.
A rosada riu sozinha pensando em como seria interessante se criasse uma história a partir de sua imaginação onírica, mas a risada foi interrompida por uma memória do sonho que ressoou em sua mente.

“Não quero mais jogar isso!” A criança reclamava, cruzando os braços e se virando de costas. O irmão mais velho riu e bagunçou os cabelos do mais novo – que tentou desviar do carinho, mas logo cedeu e virou de frente para si.
“Um dia você vai entender que xadrez é igual a vida.” O caçula estava com o rosto virado para cima observando o irmão, que cutucou sua a testa com o dedo indicador e médio. O mais novo esfregou o local com rapidez e reclamou, mas logo começou a rir quando o outro o abraçou e iniciou uma sessão de cócegas, quebrando o clima aborrecido do caçula.


A cena na mente de se encerrou, e a mesma encarava o resquício de café no fundo da caneca que carregava em suas mãos. Estava com o olhar perdido, pensando porque cargas d’água teria um sonho tão inusitado como aquele.
Se espantou ao ouvir o celular vibrar com a mensagem de sua amiga desejando-lhe um bom plantão, e suspirou cansada. Não tinha dormido bem aquela noite, e mal esperava para que estivesse novamente em sua cama.
Arrumou suas coisas e em quinze minutos estava pronta, carregando sua mochila num ombro, enquanto colocava um casaco pendurado no outro braço. Estremeceu ao ouvir o trovão do lado de fora e bufou, pensando que seria um dia carregado de chuva.
Pegou as chaves do carro e se dirigiu à janela para fechá-la, e quase caiu pra trás quando viu um corvo a encarando, apoiado no parapeito.

“Cruzes!” Ela sussurrou, fechando rapidamente a janela, ficando surpresa em como o animal sequer moveu um músculo – mesmo com sua aproximação.

A ave encarava dentro de seus olhos. Quase como se observasse sua alma, e a mulher estremeceu com aquilo, antes de se mover com a chegada de uma nova trovoada.
Saiu apressada, sentindo calafrios ao lembrar do corvo em sua janela. Estava fechando a porta de sua casa quando percebeu a Senhora Dulce regando suas plantas ao lado da porta de casa.

“Bom dia, minha filha!” A velhinha cumprimentou com um sorriso gentil, enquanto retribuía, atrapalhando-se na hora de trancar a porta – deixando a chave cair.
“Bom dia, Dulce!” A jovem respondeu, buscando apressadamente a chave e tentando encaixá-la na fechadura.
“Já vai tão cedo?” A velhinha perguntou, parando próxima à médica, que finalmente conseguia trancar a porta.
“Sim! Hoje é meu plantão, sabe como é... Longo dia.” E sorriu, guardando as chaves na bolsa enquanto se ajeitava.
“Oh minha querida, sei como é... Muito agitado, não?” Dona Dulce encostou no batente da porta com o regador na mão, enquanto apertava o botão do elevador, aguardando-o ansiosamente.
“Muito conturbado, Dulce. Mas, é meu trabalho.” A jovem respondeu sorridente, vendo o visor marcar os andares um por um, em ordem crescente.
“Imagino, querida.” A vizinha respondeu, remexendo em suas plantas com uma cara concentrada. “Achei!” Dulce exclamou animadamente, puxando um galhinho de arruda e entregando-o para a médica, que a encarava surpresa. “Leve com você, minha filha.”
“N-não precisa, Dulce. Estou be...” A velhinha insistiu com a planta, levando-a até seu rosto, e ficou vesga encarando aquele galho cheiroso.
“Vamos, menina. Proteção nunca é demais. Coloque no bolso e tenha um plantão tranquilo.”

sorriu sem graça, e aceitou a planta, colocando no canto de sua orelha logo depois de cheirá-la profundamente.

“Obrigada, Dulce.” A jovem respondeu, e logo a porta do elevador se abriu. Se despediu com um aceno de mão, recebendo outro de volta.

E como esperava, o plantão foi intenso. Tão cansativo que no dia seguinte, ao sair de manhã, sequer passou na padaria para comprar o pão do café da manhã. Apenas seguiu para sua casa, arrastando seu corpo debaixo do guarda-chuva logo após trancar o carro. Chegou em casa como um zumbi e se direcionou para o seu merecido banho.
Olhou para a banheira e pensou em relaxar com sais e espumas, e sorriu levemente enquanto ligava a torneira e retirava a roupa. Pensando bem, aquilo era um dos poucos luxos que conseguiu se permitir na vida adulta; já que qualidade de sono e forma física era algo bem mais difícil de garantir com sua rotina atribulada.
Momentos depois, estava com o corpo embaixo da água quente, e a cabeça encostada no vão da banheira. Massageava o pescoço, tentando esquecer um pouco o plantão difícil que teve. Quase perdeu um paciente idoso, e por mais que tentasse separar o pessoal do profissional, não conseguia ignorar o aperto no peito ao pensar em mais uma vida que esvaía de suas mãos.
Antes que aquele pensamento a invadisse mais, começou a repetir bordões e frases já conhecidas para si mesma, que reforçavam a realidade: vida e morte andavam lado a lado, e este era o ciclo da vida – feliz ou infelizmente. Tentando esquecer a sensação ruim, pegou o sabonete e começou a passá-lo nas mãos, criando uma espuma quase instantaneamente. Enquanto passeava os dedos na pele macia, ela reparou nas cores das borboletas azuis tatuadas em seu braço esquerdo, e sorriu satisfeita.
Aquela tatuagem era um misto de emoções, que deixavam um sabor agridoce em sua boca. Ainda se lembrava do dia em que decidiu fazê-la.

***


Estava voltando de mais um plantão de residência. Era seu primeiro ano, e estava devastada. A primeira morte era sempre marcante – era o que ouvia dos outros colegas e mestres. Mas nunca esperou que fosse tão arrebatador.
Nem que fosse tão surreal assim.
Sua vizinha, Dulce, percebeu o semblante moribundo e a trouxe para sua casa para tomar um café e acolher a pobre jovem. Ela mal tirava os pés do chão para se locomover, e as coisas ao seu redor pareciam vultos, mal enxergando um palmo diante de si.
A velhinha colocou uma xícara de café fumegante na mesa logo a sua frente, e apenas observava a fumaça dançante, sem conseguir dizer um “obrigada”. Após um bom tempo e muita insistência de sua vizinha, a médica contou o que aconteceu.
Ele era um jovem bonito, alto, um pouco mais velho que ela – não mais que quatro ou cinco anos. E a imagem de seus olhos abertos, sem vida, encarando-a, não saía de sua mente. O monitor soava no som irritante que não cessava, e a linha reta indicava a ausência de batimentos cardíacos – que já ultrapassavam sete minutos.
Sem atividade cerebral, sem pulso, sem batimentos cardíacos.

“Hora da morte: 05:02 da manhã.” O médico declarou, e os olhos se encheram de lágrimas, enquanto a residente se ajoelhava no chão e agarrava a mão inerte do paciente.
“Senhorita ...” O Dr. a chamou depois de um tempo, com pena no olhar. “Por favor, seja forte. Preciso que me aguarde na sala dos servidores.” Ele colocou as mãos no ombro da jovem, que chorava compulsivamente. Aos poucos, ela se levantou desolada, e olhou nos olhos de seu supervisor.
“Doutor, ele era tão jovem!” Ela dizia entre soluços, e o médico fez um sinal afirmativo com a cabeça, visivelmente mexido com aquela perda.
“Eu sei.” Ele disse, debaixo da máscara, encarando o chão de forma pesarosa. “Nós não sabemos o que se passa na cabeça das pessoas... Tão pouco como se sentem em relação à vida.”.

chorou copiosamente ao ouvir as palavras dele. Ela sabia que aquilo era verdade, mas em nada mudava o fato de que havia perdido uma vida.

“Isso é muito complicado...” Ela sussurrou em meio ao choro, e o doutor se abaixou a seu lado.
“É sim.” Ele confirmou, olhando em seus olhos. “Não há palavras que façam você se sentir melhor agora. Só o tempo...”.

Ela concordou com a cabeça, enquanto acariciava a mão fria do jovem. Levantou-se e se pôs ao lado do corpo, fechando seus olhos com delicadeza e cuidado, enquanto tentava engolir o choro.
O doutor se aproximou novamente, e com as mãos no bolso do jaleco, disse:

“Sei que é a primeira vez que isso lhe acontece. Então deixarei que se acalme um pouco enquanto aviso à família.”
“Não!” Ela exclamou, tentando limpar as lágrimas com as costas das mãos. “E-Eu vou até lá! Preciso!”
.” O doutor a chamou pelo primeiro nome numa entonação imperativa e grave, fazendo a jovem estremecer levemente e observá-lo receosa. “Hoje não. Respeite seu tempo também. Me aguarde na sala dos servidores, por favor?”

A residente acenou com a cabeça, resignada. Arrastou o corpo pela porta, sem entender como aquilo aconteceu tão rápido. Há menos de meia hora o paciente deu entrada no hospital, e então seu quadro evoluiu de tal maneira que não havia visto nem em seus piores pesadelos. A cena do peito do jovem subindo e descendo em contato com o desfibrilador, sem apresentar nenhuma alteração, era de longe o maior terror que havia presenciado na vida. Não desejava aquilo nem para seu pior inimigo, e definitivamente começava a conhecer partes da sua profissão que simplesmente detestava.
Após algum tempo, seu supervisor entrou pela porta e conversou com ela. Lhe ofereceu algumas palavras de apoio, orientou quanto a este tipo de situação, e sugeriu que fosse para casa para descansar e colocar a cabeça no lugar. À contragosto e com pouco ou nenhum ânimo, saiu do hospital, não sem antes perceber o casal de meia idade que se abraçava desoladamente. O choro compulsivo da mulher era o som mais dolorido do mundo: o de uma mãe que acaba de perder seu filho. E ela sabia que se tratavam dos pais do jovem, devido à semelhança dos traços. Olhares profundos, traços idênticos e a tez da pele não deixavam dúvidas.
Ela olhou mais uma vez com os olhos cheio de lágrimas antes de se dirigir ao estacionamento e pôs-se à chorar no carro por mais meia hora, até que de fato fosse para casa.
Ao relatar o caso para sua vizinha, a mesma lhe acolheu num abraço caloroso, e derramou seu pranto por um bom tempo, até sentir seus olhos incharem. Deitada com a cabeça no colo de Dulce, a velha acariciava os cabelos enquanto contava a antiga lenda da borboleta azul para a menina.

“Há muito tempo, um pai vivia uma indecisão diante da inteligência e astúcia de suas duas filhas. Muitas vezes sem saber o que lhes responder ou como orientá-las, ele decidiu levá-las ao velho sábio que morava no alto do Monte. Lá, as meninas conviveram algum tempo com o sábio, que conseguia responder à todas as perguntas das meninas. Num belo dia, as crianças decidiram testar de forma maliciosa até onde ia a sabedoria do velho, e pensaram numa pergunta que ele não seria capaz de responder. A ideia surgiu de uma das meninas, que agilmente capturou uma borboleta azul e a fechou em sua mão. A irmã ficou confusa, mas a outra logo lhe explicou: ‘Vou até o sábio perguntar se a borboleta em minha mão está viva ou morta. Se ele disser viva, eu a esmago em minhas mãos. Se ele disser ‘morta’, eu a liberto. Ou seja, de um jeito ou de outro, ele não vai estar certo nunca, entendeu?’. A irmã caçula ficou surpresa com a ideia, e logo as duas foram ao encontro do velho, que meditava tranquilamente. A mais velha se posicionou diante dele com a mão fechada, e perguntou: ‘Sábio mestre, você poderia nos dizer se a borboleta em minhas mãos está viva ou morta?’. O velho abriu os olhos e a encarou sorridente, e lhe deu a seguinte resposta. ‘Isso depende apenas de você, querida. Ela está em suas mãos.’”

se levantou e sentou-se ao lado de Dulce, lançando um olhar temeroso.

“O que quer dizer com isso, Dulce? O paciente era minha borboleta azul?” Ela perguntou, aflita. A velhinha lhe sorriu e acariciou o rosto, negando com a cabeça.
“Quero dizer, minha filha, que antes de mais nada ele era a própria borboleta azul da vida dele. Ele se tinha nas mãos, e tomou a decisão que achou mais certa.” Os olhos pequenos de Dulce encararam os lacrimejados de com fervor.
“Quero dizer que ele não era uma borboleta azul em suas mãos, e muito menos que você a fechou com violência e a matou. Ninguém na verdade sabe o que fez ele mesmo fechar a mão sobre si tomando todos aqueles remédios, querida. Mas a verdade é que optamos por escolhas e decisões a todo tempo. Ele fez a dele, você fez a sua. O resultado nem sempre será o que desejamos, mas o que nos define é o que fazemos com o que temos em nossas mãos. Este rapaz era uma borboleta azul bem doente quando chegou até você. E por mais que tenha tentado ajudá-la e libertá-la, o bater das asas dependiam dele, entende? Faz parte da vida.”

fungou, sentindo os olhos arderem de tantas lágrimas. Aquilo doía tanto, e ela não conseguia aceitar o fato de perdê-lo. Por mais que soubesse que o mundo rodava num ritmo muitas vezes doentio, acelerado e pouco cuidadoso, uma vida era uma vida, independentemente de qualquer coisa. O que fazia seu corpo arrepiar diante dos pensamentos que tinha – sobre o que levava uma pessoa a tomar a decisão de engolir um vidro inteiro de tarja preta, sabendo das consequências.

“Ele só queria parar a dor...” sussurrou, enxugando as lágrimas, enquanto Dulce acenava levemente a cabeça. “E me parte saber que ninguém foi capaz de ajudá-lo em vida, sabe?” Ela mordeu os lábios, indignada. “Eu só queria que cuidássemos um dos outros, Dulce. Cada vida importa tanto...!” E desatou a chorar novamente no colo da velha, que com um sorriso triste, acariciava suas costas como uma avó nina sua neta.

Naquela noite, passou o tempo todo pensando na lenda da borboleta azul, e em como as palavras de Dulce a atravessaram e fizeram sentido diante do que a jovem médica vivia.
Passou a semana refletindo sobre tudo que havia acontecido, até que num belo dia de folga decidiu fazer algo por si. Olhou-se no espelho e mexeu no cabelo, sentindo que aquela cor já não lhe contemplava mais. Sorriu cúmplice de si mesma, pensando que existiam coisas mais importantes do que temer a opinião alheia, e simplesmente saiu à rua à procura da tonalidade que sempre quis pintar, mas nunca havia tido coragem com medo do que pensassem de si. Horas depois, estava com os cabelos pintados de rosa, sentada na poltrona num estúdio de tatuagem próximo à sua casa.
Após explicar sua ideia para o tatuador, teve seu braço esquerdo marcado logo abaixo do ombro por um belíssimo desenho; um bando de borboletas azuis – um panapanã, como é chamado o coletivo dos insetos. Sorriu satisfeita com a obra feita por Samuel, que tinha uma tatuagem no canto da testa e era muito simpático.
Conversaram bastante durante a sessão, e o rapaz achou incrível o significado que dava àquela tatuagem, diante de tudo que tinha passado como residente – e do que passaria, como futura médica.
Ao chegar em casa após a sessão e deitar em sua cama, aquela foi a primeira noite que dormiu sem chorar depois da perda de seu primeiro paciente.


***


Quando se deu conta, os dedos estavam enrugados e a água já estava fria. Fazia tanto tempo que não tomava um banho longo daqueles – e que não se permitia pensar naquelas memórias. Apesar de sempre trazer alguma dor, lembrar-se daquela traumática noite de dois anos atrás já não era tão difícil assim.
Depois deste paciente, outras pessoas foram salvas, algumas não. Aquilo não significava a banalidade da vida, e começava a entender que de alguma forma, a perda de uma alguém sempre doeria – mas ela focaria ao máximo no quanto poderia ajudar. Ao olhar para as borboletas em seu braço, pensava que sempre decidiria pela vida toda vez que uma “borboleta” pousasse em suas mãos. E aquilo era o suficiente para seguir.
Colocou uma velha roupa de dormir e se posicionou diante da pia para escovar os dentes. Quando estava prestes a colocar a escova na boca, ela viu pelo reflexo do espelho um vulto preto no canto do banheiro, atrás de si.
Deu um pequeno grito e se virou instantaneamente, não encontrando nada além do azulejo branco da parede. Com a mão no peito, respirou fundo e balançou a cabeça, tentando se acalmar e voltar ao normal. Estava exausta do último plantão, e talvez o cansaço fosse tão grande que estava vendo coisas! Um descanso cairia bem, de fato.
Ao terminar de escovar os dentes, enxaguou a boca e guardou a escova no lugar. Mas ao erguer a cabeça da pia, sua respiração parou diante das palavras que jaziam no espelho embaçado:

“AINDA HÁ TEMPO. SALVE-O.”

estava boquiaberta com o que estava vendo. Não acreditava naquilo, como é que poderia ser real? Teria alguém invadido sua casa, feito um tipo de brincadeira sádica consigo?
Conseguia se lembrar perfeitamente de trancar a porta, não lembrava de ter deixado a janela aberta... Como era possível?
Estava a ponto de virar o apartamento de cabeça para baixo quando encarou novamente o espelho, e nele já não havia mais nada. Estava embaçado como um espelho normal estaria, sem nenhuma palavra escrita, nenhuma mensagem oculta. Ela piscou inúmeras vezes antes de se permitir respirar novamente.
Definitivamente precisava descansar.


Capítulo 3

O alarme foi desarmado sem que ele tocasse. O relógio marcava 5:57 e sentou-se na cama sem precisar do despertador. Ela juntava forças para levantar-se – faziam três dias que não dormia direito, e quando conseguia descansar, era arrebatada por sonhos similares ao que tivera dias atrás.
Como estava muito cedo, se permitiu sentar próximo à janela e observar o nascer do sol. Estava com os braços cruzados em cima do batente, com o vidro aberto, sentindo a brisa gelada da manhã.
O céu pouco a pouco se iluminava, e aquele momento do dia acabou se tornando um de seus favoritos diante dos últimos tempos, nos quais a insônia sem motivos fazia presença. Estava com a cabeça deitada nos braços, como uma criança que assiste a um espetáculo, e após os primeiros raios solares brotarem no céu, sorriu levemente.
Não sentiu os olhos fecharem, nem percebeu que adormeceu, até que despertou no susto, quando um corvo apareceu bem diante de si, berrando.
O susto foi tão grande que a médica caiu para trás, e espalmou as mãos no chão, ofegando ao encarar o animal que a olhava de volta. Ela devia correr e fechar a janela? Deveria espantá-lo? Deveria pegar um cabo de vassoura e tentar tirá-lo dali?
Nada disso foi preciso. A ave apenas ficou alguns segundos, antes de alçar novo voo para longe dali. ainda tentava se recuperar do susto, e foi até a janela, se apoiando na beirada para tentar achar o corvo no céu.
Nenhum sinal do mesmo. Seria o mesmo de dias atrás? Ela suspirou, assustada e cansada, e estava prestes a fechar a janela quando viu algo que lhe chamou a atenção: na parte de fora da beirada de mármore, uma peça de xadrez estava deitada, quase caindo sete andares abaixo.
Com a mão trêmula, a jovem pegou o objeto, trazendo para perto de si e o observou minuciosamente, na altura dos olhos.
A peça era de madeira, da cor preta, e se não lhe falhava a memória, o seu formato indicava que era um rei. A médica virou a peça de cabeça para baixo, na diagonal, na horizontal... de todas as formas! Mas nenhum sinal, nenhuma marca, nada. Não sabia explicar como o objeto parara ali. Colocou a cabeça para fora da janela e olhou para cima, confirmando o que já suspeitava: nos andares de cima simplesmente não havia ângulo para justificar uma queda acidental que posicionasse o rei naquele local. E, por estar apreciando o nascer do sol há três dias, ela sabia muito bem que a peça não estava ali antes, ou seja – era algo inédito daquele dia.
entrou, fechou a janela, e com a peça em mãos, sentou-se na cama com o cenho franzido. Será que aquele objeto teria sido trazido pelo corvo? Se sim, de onde ele tirou isso?
Seus pensamentos estavam confusos quando sentiu o celular vibrar na mesa de cabeceira. Ela arqueou levemente o corpo, pegando o aparelho e vendo que era uma mensagem de desejando um bom plantão. sorriu levemente, lembrando que a amiga estava visivelmente preocupada consigo, com a questão de dormir pouco. Afinal de contas, foram dias difíceis. O hospital estava sofrendo cortes e diminuição de pessoal, fazendo com que vez ou outra os profissionais dobrassem ou fizessem hora extra.
estava exausta, e quando chegava em casa, mal comia algo – pensava apenas em dormir. Mas ficava difícil diante da insônia e dos sonhos esquisitos que andava tendo com aqueles irmãos sem rosto, numa partida de xadrez.
E foi pensando nisso que seus olhos se arregalaram, e a peça escorregou de suas mãos, fazendo um sonoro barulho no chão de taco.
Aquela peça era idêntica as que os irmãos usavam enquanto jogavam... em seus sonhos.

***


Estava retirando o jaleco para almoçar um sanduíche, quando a porta da sala dos servidores foi aberta de supetão.

“Oh, você ainda está aqui!?” exclamou confusa, enquanto lhe devolvia um fraco sorriso. Caminhou até à geladeira e retirou seu almoço, visivelmente cansada.
“É sério que você só vai almoçar isso?” A loira perguntou, e se sentou à mesa, movendo os ombros como resposta.
“Não posso me dar ao luxo de demorar e almoçar bem. Estou fazendo hora extra e estou exausta, então... Não quero sair tarde.” Ela explicou, dando uma mordida em seu sanduíche.

fez uma careta de dor, e se direcionou até o armário, pegando o estetoscópio.

“Você sabe que isso não é desculpa, dá pra se alimentar melhor...” E a olhou por cima do ombro, preocupada. “Achei que você estivesse largando agora, amiga. Você está há trinta horas de plantão ininterrupto. Vai ficar até quando?”
“Até a outra doutora chegar...” E olhou no relógio da parede, suspirando. “Às sete.”

arregalou os olhos, e fechou a porta do armário com força.

“Porra , 36 horas? Você chegou a descansar?” A loira se posicionou na frente da amiga, com as mãos na cintura e o cenho franzido.
“Sim.” respondeu, dando uma nova mordida no sanduíche.

Estava mentindo. Quando tentou descansar naquele plantão, teve pesadelos horríveis com os irmãos que conhecia pelo mundo onírico. Na verdade, ela sonhara com o irmão mais velho desesperado, enquanto o mais novo parecia ter crescido, e estava enfurecido numa discussão com os pais. Era aflitivo, porque parecia que o mais velho era algo a parte da briga, e o resto da família apenas discutia entre si, cada vez mais intensamente.
despertou daquele pesadelo com um grito na cabeça, e não conseguiu cochilar mais. Voltou a trabalhar depois de lavar o rosto e tomar uma enorme xícara de café preto.

“De toda forma, você precisa dormir mais, amiga. Não dá pra fazer isso toda hora. Olha só pra você!” E verificou o rosto da amiga, fazendo um sinal negativo com a cabeça. “Está pálida, além das olheiras que não te largam mais!” E se direcionou de volta para o armário, enquanto arqueava a sobrancelha, dando outra mordida no seu almoço.
“Isso vai passar. Logo as coisas melhoram...” A médica decidiu comentar qualquer coisa que a livrasse da preocupação exagerada de sua amiga.

Ledo engano.

“Ahá!” A loira exclamou, fechando o armário efusivamente, fazendo um barulho que fez se encolher, de tão alto. “Achei os chás que comprei na feira orgânica. Alguns deles são relaxantes, leve um deles para se livrar do stress e dormir igual a um bebê.” Ela entregou uma sacola e piscou inúmeras vezes antes de agradecer.
“Obrigada, . Vou tomar um desses assim que chegar em casa.” E sorriu genuinamente, enquanto a outra acenava com a cabeça, apoiando-a.
“Doutora ?” O Dr. apareceu na porta, e encarou as duas médicas, que o olhavam de volta. “Doutora ...” Ele acenou com a cabeça, e a loira sorriu gentilmente.
“Sim, Dr.?” respondeu, percebendo que o homem tinha uma ruga de expressão na testa que o deixava com o ar mais sério do que de costume.
“Posso falar com você depois do seu... almoço?” Ele perguntou, olhando rapidamente para o sanduíche em suas mãos. “Não precisa correr, pode finalizar com calma.”
“Claro. Onde lhe procuro?” Ela retrucou, e ele logo respondeu.
“Na minha sala, sim? Obrigado.” E acenou com a cabeça, se retirando do local.
“Lá vem merda...” comentou, continuando com seu sanduíche.
“Que nada! Ele tá afim de te dar uns pega em cima da mesa.”
!” ralhou com a boca cheia, e a loira gargalhou alto.
“Você acha que estou mentindo? Ele nunca vai superar aquele ano novo, ...”
“Foi só uma noite de bebedeira, céus.” A rosada rolou os olhos, e a amiga riu ainda mais.
“Você trouxe o verdadeiro significado de confraternização!”
“Ai, cala a boca!” Ela deu um leve tapa no braço de , que sorriu convencida.
“Vai dizer que não aproveitou?”

se levantou e guardou a metade do sanduíche. Já estava com o apetite fraco, e depois da chamada de , havia perdido a fome. Escovou os dentes na pia, e antes de sair, respondeu à amiga.

“É claro que aproveitei. Ele é gostoso pra caralho!” gargalhou alto, e a doutora piscou divertidamente enquanto saía da sala – não antes sem ouvir um “Eu sabia!!!”.

***


“Entre!” pode ouvir do outro lado da porta, depois de batê-la.
“Com licença. Queria falar comigo?” Ela disse, entrando e se sentando na cadeira, conforme indicava o gesto do doutor.
“Sim.” Ele respondeu, sério. Puxou o livro de ocorrências que estava em cima da mesa, e o posicionou na frente de . “Primeiramente gostaria de agradecer a sua perseverança. Sei que está há mais de 30 horas em plantão e, bem, apesar de saber de sua capacidade, não posso evitar a preocupação diante dos... acontecimentos.”

arqueou a sobrancelha, sorrindo sem graça.

“Não estou entendendo, doutor. Pode ser mais específico?” Ela solicitou, e ele respirou fundo antes de continuar.
“Aconteceu alguma coisa ontem que tenha lhe causado aflição, mal-estar...?” Ele perguntou e não conseguiu evitar o franzir de seu cenho. Ela cruzou os braços, negando com a cabeça.
“Nada fora do comum... Tem sido um plantão longo, um pouco conturbado, como é a rotina do hospital. Por que a pergunta?” perguntou, confusa.

As mãos do doutor cruzaram-se em cima da mesa, e seus lábios estavam numa linha fina. Ele estava visivelmente incomodado e aquilo involuntariamente contagiou a médica, que se remexeu na cadeira, nervosa.

“Então nada aconteceu ontem, doutora ? Nenhum importuno, nada fora do normal?”
“Por favor, doutor .” Ela pediu, trincando o maxilar. “Vá ao ponto.”

Mais um profundo suspiro. Ele demorou três segundos para começar sua fala.

“Como de costume, preciso analisar os processos e algumas burocracias, como você bem sabe...” Ele explicou, e acenou com a cabeça, indicando que ele prosseguisse. “Estava verificando o livro de ocorrências do hospital como de praxe, e encontrei uma coisa um tanto... incomum.”

O doutor abriu o livro e passou folha por folha, até chegar na parte que fez os olhos de arregalarem. Com o choque estampado em seu rosto, o doutor continuou a falar.

“Isto está escrito por todo livro, repetidas vezes...” Ele passava as folhas e as frases se repetiam sem cessar. “E fiquei um tanto preocupado, porque não sabia do que se tratava. Até que, pelas câmeras de segurança, encontrei isto.” Ele ergueu a mão direita e virou o monitor do computador, apontando para a tela. Ele apertou o um botão no teclado, e instantaneamente o vídeo começou a rodar.

No mesmo, via-se nitidamente sentada num canto de uma das salas de atendimento emergencial, escrevendo de forma mecânica no livro de ocorrências.

“Como pode ver, isso durou um bom tempo...” Ele acelerou o vídeo, mostrando que continuou naquela ação por quase uma hora – justamente no horário de descanso.

O doutor deu play num novo vídeo, que mostrou saindo da sala com o livro e o depositando na mesa da sala dos servidores, antes de se deitar no sofá e cochilar.
A médica olhava do vídeo para o livro, sem entender o que estava acontecendo. Ela encarou o doutor à sua frente, e balbuciou algumas coisas, sem exatamente conseguir dizer alguma coisa sólida.

“E-Eu não... Eu não sei o que dizer...” Ela explicava, mexendo as mãos num movimento ansioso. “Eu não lembro disso!” Decidiu ser sincera, encarando o homem à sua frente, que a observava com um olhar triste.
.” Ele falou naquele mesmo tom que indicava seriedade e poder. “Honestamente, nem eu sei o que lhe falar...” Ele ergueu as mãos em confusão, e retesou o cotovelo direito em cima da mesa, coçando o cavanhaque no queixo.
“Eu juro que eu não lembro disso...” Ela reforçou, mordendo o lábio e encarando o vídeo pausado. O que diabos estava acontecendo?
“Isso não é tudo, .” Ele anunciou, tornando a boca numa linha fina. A médica engoliu a seco, apreensiva.
“Além de termos todo o livro preenchido pela frase “Ainda há tempo. Salve-o...” Ele passou mais páginas, até chegar na última, apontando para o rosto perfeitamente desenhado no papel. “Tem isso aqui.”

A boca de se escancarou, e ela a cobriu com as mãos trêmulas. Afastou-se levemente da mesa, tamanho foi o susto ao encarar aquele rosto tão inesquecível.

“P-por favor, ...” Ela pediu, sentindo sua voz embargar. “Diga que isso é uma brincadeira de mau gosto.”
“Eu gostaria, ...” Ele negou com a cabeça, visivelmente conturbado com a situação. “Eu gostaria. Mas não é.” E a encarou com aqueles olhos tristes que ela reconhecia como os da fatídica noite de anos atrás.

Ela deixou uma lágrima cair, e encarou novamente o desenho do rosto feito à caneta esferográfica azul, cheios de detalhes expressivos. Era surreal.

...” Ele continuou, depois de suspirar. “Eu reconheci esse rosto assim que coloquei os olhos nele. Sei o que significa pra você. Por isso estou perguntando se está tudo bem, se aconteceu alguma coisa...”
“Não aconteceu nada, doutor.” Ela explicou, com as mãos tremendo. “Nada!”
“Eu sei que ele foi o seu primeiro paciente...”
“Não, !” Ela insistiu, e ele fechou os olhos com força.
, por favor...”
“Estou te dizendo, ! Não há nada, eu estou bem!” Ela exclamou, e ele se assustou com a forma que ela respondeu.

Após alguns minutos de silêncio constrangedor, o doutor quebrou o contato visual e se ajeitou na cadeira, endireitando a postura e olhando para o livro exposto em sua mesa.

“Eu discordo, .” Ele respondeu, numa certeza tão firme que fez a médica se arrepiar. “Procurei nos registros do hospital e encontrei informações demais para serem só coincidências.”
“Do que está falando, ?” Ela perguntou, seca.
“Estou dizendo que a sala na qual você esteve ontem escrevendo estas frases durante uma hora...” E apoiou o dedo indicador no livro. “Foi a mesma sala em que morreu há quase dois anos atrás.”
“O-o quê?” Ela gaguejou, sentindo o ar faltar nos pulmões. As mãos começaram a formigar, e ela pode sentir o peito apertar ao ouvir a afirmação do doutor.
morreu naquela sala após cometer suicídio ao ingerir inúmeros comprimidos de tarja preta. Depois de amanhã, esse acontecimento fará dois anos, .”

Os olhos quase saíram da órbita ocular. O frio na barriga aumentava cada vez mais, e sua respiração entrecortada dava claros sinais de que estava nervosa.

...” Ela sussurrou, encarando o rosto de desenhado no livro. “Eu juro que não pensava nisso há tempos...” E ela ergueu os olhos até encarar o médico, que a olhava com pena. “Eu juro, e-eu...” E sentiu sua fala ser interrompida pelo choro.

Ele se levantou e sentou-se a seu lado, notoriamente preocupado.

“Não foi sua culpa.” Ele disse, e ela livrou o rosto que se escondia nas mãos, para encará-lo nos olhos. “Não foi sua culpa, .” Ele repetiu a fala, segurando-a nos ombros. “E eu quero acreditar que você entenda isso de verdade. Mas a mente humana nos prega peças, e a culpa pode ser devastadora... Duradoura... Cruel.”

Ela balançou a cabeça, enquanto fungava desolada.

“E-eu não estava com isso na cabeça, eu juro... Eu estava bem!” Ela explicou, e ele fez um sinal compreensivo com a cabeça. “Eu entendi que faz parte, decidi viver, decidi salvar vidas, ! Eu pintei meu cabelo! Céus, até fiz uma tatuagem!” Ela retrucou, olhando de volta para o caderno. “O que está acontecendo aqui?”
“Às vezes o inconsciente é mais profundo do que pensamos, . Você, como médica, sabe que isso é verdade...” Ele tentou consolá-la, mas ela estava imóvel, encarando o livro.

Ela ficou naquele torpor, com o olhar perdido entre as frases e o desenho de , até que no canto da folha, ela percebeu que havia uma peça de xadrez minuciosamente desenhada.
Idêntica à que encontrou em sua janela.

“Mas o que...” Ela sussurrou, sentando-se próxima à mesa e espalmando as mãos no livro, analisando de perto o desenho. “Isso é uma peça de xadrez?” Ela perguntou mais pra si do que qualquer coisa, mas o doutor acabou respondendo.
“Sim. É um rei. E segundo as informações no atestado de óbito, tinha uma tatuagem com essa específica peça no peito esquerdo, logo acima do coração.”

deixou sua cabeça cair entre suas mãos, perdida. Encarava o chão, sem entender nada. O que estava acontecendo consigo? Estava ficando louca?

“Acho melhor você ir para casa descansar.” O médico falou, se levantando da cadeira, e ergueu a cabeça.
“Como assim?” Ela o encarou, confusa. “Estamos desfalcados, não podemos abrir mão de médicos em plantão.”
...”
“Eu aguento!” Ela respondeu, se levantando da cadeira e ficando de frente para ele, limpando as lágrimas com as costas das mãos. “Estou lhe dando minha palavra, eu fico até a outra doutora chegar!”
“Às 19 horas?” O médico arqueou a sobrancelha, e olhou em seu relógio de pulso. Colocou as mãos na cintura e andou em círculos pela sala, com aguardando uma resposta.
“Eu não sei...” Ele assumiu, posicionando o dedão e o indicador na base do nariz, fechando brevemente os olhos num movimento tensionado. “Forçar um plantão de 36 horas no estado no qual você se encontra talvez seja mais arriscado do que o desfalque de uma médica, . Por favor, não me entenda mal...” Ele ergueu a mão, apontando para o livro na mesa. “Mas está claro pra mim que você precisa de descanso. Está claro pra mim que você precisa de ajuda!”
“E não está claro para você que mais pessoas podem morrer no leito à espera de atendimento?” Ela questionou, com os braços cruzados e cara fechada.
“Acho que posso lidar com as minhas questões de culpa e sonambulismo depois, doutor .” Ela afirmou com veemência, desafiando o olhar imperativo do homem para si. “Eu só preciso de uma bela xícara de café preto e um momento para me recompor!” Ela exclamou, sem quebrar o contato visual.
“Tem certeza?” Ele indagou após um momento de silêncio, e ela afirmou com a cabeça. “Estou perguntando porque com isso eu posso lidar. Posso resolver sem que te prejudique.” Ele apontou novamente para o livro, e foi andando de volta para sua mesa. “Mas se acontecer algo além...” Ele comentou, apoiando as mãos na mesa, e elevou o olhar para a mulher.
“Eu assumo as consequências.” Ela respondeu, irredutível.

***


“Paciente de vinte e nove anos, apresentando vômitos ininterruptos, sinais de desidratação e enjôos.” A encarregada pela triagem informou à , enquanto a mesma analisava o prontuário do rapaz.
“Olá, boa tarde. Sou a doutora , e vou lhe atender hoje, tudo bem?”

O jovem acenou, levemente pálido. Apesar do aspecto de quem estava profundamente enjoado, o rapaz tinha boa aparência; cabelos loiros arrepiados, olhos azuis e o corpo atlético, de quem provavelmente fazia algum esporte com frequência.

“Prazer, doutora. Sou Pablo Carrero.” E sorriu um belo sorriso, recebendo um bem menos empolgado de .
“Pablo, consegue me dizer quantas vezes apresentou vômitos hoje?” Perguntou a ele, que respondeu com uma ânsia. Breve o suficiente, foi acudido por um balde, e o mesmo se aliviou.
“Parei de contar depois da sexta vez.” Ele disse, depois de vomitar. “Mas estou assim desde cinco horas da manhã. Nada para no estômago, nem água.” Ele completou com o balde no colo, e a cara de quem estava derrotado.
“Apresentou febre?”
“Não.” O rapaz respondeu, respirando com dificuldade.
“Certo.” Ela pontuou, escrevendo algumas coisas em sua ficha. “É alérgico à alguma medicação?”
“Cefalexina.” Ele respondeu, depois de quase vomitar novamente.
“Ok.” E se virou para a enfermeira. “Soro, buscopan e exame de sangue completo.”
“Eu vou sobreviver, doutora?” Ele perguntou com a voz arrastada, e sorriu levemente enquanto anotava no prontuário, afirmando com a cabeça.
“Claro que vai, ao que tudo indica é só um...” E quando virou-se para encará-lo, já não via mais o rosto animado de seu paciente.

Em vez dele, viu a face de , que a encarava sério.

“Ainda há tempo. Salve-o, !” Ele lhe disse, com o rosto contorcido em preocupação.

A médica arregalou os olhos e abriu a boca, mas nenhum som saiu.

“Você precisa me ouvir!” Ele disse, segurando o pulso da médica, e ela olhou horrorizada para a mão trêmula, com o pulso envolto pelo aperto de .
“Por favor, vá embora!” Ela suplicava, sentindo as lágrimas invadirem seu rosto. O coração estava a mil, e ela tentava se afastar, sem sucesso.
“Não até que me escute! Precisa salvá-lo!” Ele tornou a falar, franzindo o cenho. “Só você é capaz!”
“Salvar quem?” Ela sussurrou, com os dentes batendo uns nos outros devido a tremedeira no maxilar.
“Doutora! Doutora!” A enfermeira a chamou, e ela se virou para encará-la, assustada.
“O que foi?” Ela perguntou num fio de voz.
“A senhora está bem?” Ela se aproximou de , que a olhava incrédula. Se virou para , mas ele não estava mais lá. Em vez disso, o rosto de Pablo estava de volta, e a observava com receio.

Ela olhou pra seu pulso, e o mesmo estava preso à mão de seu paciente. Notando isto, o rapaz a soltou imediatamente, se explicando logo em seguida.

“Desculpe por isso, doutora. É que a senhora pareceu tão assustada que quase caiu para trás. Eu a segurei pelo pulso. Lhe machuquei?”

A médica encarou o local, e percebeu que as marcas dos dedos estavam lá.

“Ops. Parece que exagerei. Desculpe por isso.” Ele respondeu, sem graça.
“T-Tudo bem...” Ela respondeu, ajustando a postura, desviando dos olhares curiosos e confusos para si. “Eu agradeço a assistência. Acho que tive uma pequena queda de pressão, mas já estou bem.” Ela respondeu, limpando o rosto rapidamente, antes que percebessem seu choro.
“Olha...” O paciente coçou a nuca, visivelmente envergonhado. “Se não se importar, eu posso lhe pagar um café, depois que eu melhorar.” Ela o encarou com o cenho franzido, e ele movimentou as mãos rapidamente. “P-Para me redimir pelo seu pulso, é claro.” O loiro pôs-se a explicar, e ela arqueou uma sobrancelha.
“É claro.” Ela repetiu sua fala, dando um sorriso cínico e logo negou sua proposta. “Agradeço o convite, mas não é necessário. Não estou interessada, sem ofensas.” Curta e quase grossa, nem permitiu que o rapaz argumentasse, e logo se direcionou à enfermeira.
“Por favor, me chame em caso de alterações, sim?” A outra confirmou com a cabeça, e a médica se retirou, caminhando em direção ao banheiro na sala dos servidores.

Conforme caminhava rápido pelo corredor, ela ouvia palavras desconexas que pareciam estar apenas em sua cabeça. Ignorando-as acreditando ser apenas pensamentos insistentes, passou por uma sala vazia, e a luz piscou inúmeras vezes antes que ela de fato percebesse.
Parou de andar na hora, e ainda do corredor, virou o rosto para avistar o interior da sala. A luz piscou novamente, e apagou, deixando o local num breu. se aproximou do vidro, e franziu os olhos, pois jurava que na escuridão da sala, havia alguém ali, que a encarava de volta.
Com a mão trêmula, ela abriu a porta e entrou na sala. Mexeu no disjuntor, mas a luz não acendeu com o seu comando. Apenas com a iluminação do corredor, ela não saberia dizer quem estava ali.
Porém, logo descobriu, quando a luz piscou novamente e a imagem de se apresentou diante de si. Ela gritou com o susto e caiu sentada no chão, segurando sua prancheta como forma de defesa.
As lágrimas voltaram a marejar os olhos, e já acreditava que sofria de algum transtorno, quando sussurrou em desespero.

“O que você quer de mim?” Ela começou a chorar, encarando o rapaz em pé, que vestia um avental de hospital. “Eu não... Não consigo entender!” Ela respirou fundo, antes de continuar.

Ele nada disse; apenas apontou para o seu peito.

“Eu sinto muito...” Ela dizia entre o pranto, com o rosto retorcido em dor. “Não fui capaz de te salvar...” A mão fechada em punho socou o chão, e o atingiu duas vezes mais. “Não fui...” E, ergueu as mãos unidas, em sinal de prece. “Por favor, me perdoe!”

apenas moveu a cabeça negativamente, e estava prestes a chorar mais, quando viu o dedo indicador da mão esquerda abaixar o pano que cobria seu peito.
A médica estava com a vista embaçada, mas logo tratou de limpar as lágrimas com as costas da mão, e piscou inúmeras vezes, até enxergar a tatuagem marcada na pele de .

“Ainda há tempo. Salve-o.” Ele disse, com dificuldade, e franziu o cenho, se aproximando da figura do homem. reparou nos olhos fundos que o rapaz carregava, e da tristeza no olhar. Ele parecia exatamente como se lembrava na maca de hospital. Engoliu a seco, voltando a encarar a tatuagem no peito do ex-paciente.
“Você quer que eu salve... O rei?” Ela perguntou, confusa. confirmou com um aceno, e seu rosto transmitia a preocupação e ansiedade.
“Mas... Quem é o rei?” Ela indagou mais pra si do que pra ele, e curiosamente, ele sorriu triste.

Eles se entreolharam, e por um momento, fechou os olhos, como se concentrasse em algo muito específico.
Assim que os abriu, caminhou até e se abaixou à sua altura.

“Você precisa ver com outros olhos. Abra-os.” Ele falou com a voz fraca, e quando moveu a boca para responder, tocou sua testa com o dedo indicador e o médio.

Naquele exato momento, enquanto a cabeça da médica pendia para trás, sentiu um repuxar na sua nuca, e logo as imagens de seus sonhos começaram a passar em sua mente, como num filme de memórias.
A diferença era que, agora, todas as pessoas possuíam rostos, traços. E ela finalmente reconheceu em seus sonhos, bem como o que provavelmente seriam seus parentes, devido à semelhança entre eles.
Logo em seguida, uma imagem surgiu ofuscando todas as outras; um garotinho rindo abertamente enquanto era carregado por , que lhe fazia cócegas. Agora, com os rostos definidos, podia ver a extrema similaridade entre ele e o irmão mais velho.
A imagem foi substituída pelo último sonho da médica, no qual o mais novo, visivelmente crescido, discutia com os pais e os deixava falando sozinho, correndo escadas abaixo e retirando sua bicicleta do cadeado na entrada do prédio.
Momentos depois, viu o rapaz correndo em alta velocidade pelas ruas, e a última coisa que viu foi o alto clarão no rosto do rapaz, antes de tudo se apagar e apenas a escuridão lhe abraçar.
Quando a médica abriu os olhos, ela estava deitada no chão, e se encontrava agachado ao seu lado, retribuindo seu olhar confuso.

...” Ela sussurrou, finalmente compreendendo tudo. “Isso... ainda vai acontecer?” Ele afirmou depois de respirar fundo, visivelmente atordoado.
“Quando?” sussurrou, sobressaltada.

Ele prendeu seus lábios e fechou os olhos com força, negando com a cabeça. Ele não poderia falar?

“Ele é o rei? Seu irmão é o rei?” Ela deduziu, e afirmou com o rosto triste. Seus lábios se curvaram trêmulos para baixo, e capturou o exato momento onde uma lágrima descia pelo rosto dele.

Ela se sentou aos poucos, tocada por tudo que havia sentido, sonhado, visto... Não conseguia acreditar que havia vivenciado tudo aquilo, mas tentava ao máximo compreender a tempo.

“Como isso é possível?” Ela questionou numa curiosidade infantil, e ele lhe deu um sorriso triste, antes de se levantar e caminhar em direção à porta.
“Por favor, !” Ela suplicou, ajoelhando-se em sua direção. “Como eu faço isso? Como eu salvo seu irmão?”

Ele parou de costas para si, e virou apenas o rosto, para olhá-la.

“É a única capaz. Só precisa acreditar, e saberá.”

Ela piscou algumas vezes, ao perceber que uma luz brotava de , e o engolia pouco a pouco.

“Isso é real?” Ela sussurrou, impactada pela luz crescente.
“E o que não é?” Ele lhe sorriu, antes de dar um passo à frente e subitamente sumir de sua vista, bem como a luz – deixando-a no breu da sala.

Em poucos segundos, a lâmpada da sala piscou novamente, até acender de forma definitiva.
estava ajoelhada, sozinha, com a prancheta e o coração na mão.
Precisava encontrar o irmão de ... Antes que fosse tarde demais.


Capítulo 4

“... E além do mais, é revoltante saber, diante dos cálculos, que existe uma verba considerável sendo desviada com serviços muito menos importantes do que os que são de fato, essenciais. Não acha?” O silêncio fez com que a amiga se virasse irritada para a médica. “!” Ela chamou, e a outra chegou a levantar os ombros com o susto.
“Por Deus, Arieli!” Ela botou o coração na mão, arfando. “Quer me matar do coração?”
“Não, mas eu poderia te enforcar por não estar prestando atenção no que eu falo!” Ela fechou a cara, se aproximando com os braços cruzados da rosada, que suspirou ao voltar o olhar para a vista de fora do hospital.
“O que está havendo, amiga?” virou seu rosto para si, vendo Arieli colocar a mão em seu ombro. Com o cenho franzido, continuou. “Você não está legal...”

suspirou novamente, acenando com a cabeça. Encarou a janela lá fora enquanto massageava o pescoço. Estava cansada, não dormia bem há dias.

“Não é nada, vai passar...” respondeu, com o olhar perdido.
“Amiga, você tá estranha... Será que isso não é stress? Tipo, você não apresenta só insônia como sintoma...” Arieli sentou-se no sofá e apoiou a cabeça na mão, enquanto o cotovelo firmava-se na dobra do móvel. “Você tem se alimentado muito mal.”
“Eu não consigo sentir tanta fome, Arieli. “Quando não estou no hospital dobrando, resolvendo as coisas, estou em casa tentando dormir. Ando tão cansada que não dá nem tempo de sentir fome. Além do mais...” Os ombros da jovem médica se encolheram, e ela se abraçou, aparentando nervosismo.
“Além do mais...?” A amiga encorajou, encarando-a com atenção. Mas só obteve o som de sua respiração pesada e o silêncio. “Vamos, ... Me diga.”

A mulher passeou os olhos pelo chão, perdida.

“Eu tenho sentido... uma coisa. Comigo.” sussurrou, e Arieli arqueou uma sobrancelha, ficando confusa.
“Uma coisa?” Ela perguntou, se endireitando no sofá. “E o que seria essa coisa?”
“Eu não...” começou a responder, mas percebeu que lhe faltavam palavras. Suspirou, sentindo-se idiota. “Não sei dizer ao certo. É como se fosse um aperto do peito. Uma aflição.” E colocou a mão no peito, com o cenho franzido.

Arieli ficou séria, observando sua amiga com atenção, pensando no que dizer.

“Como é isso?” A loira perguntou, segurando nas mãos da amiga. estava com o olhar perdido, procurando as palavras para respondê-la.
“É algo tão estranho...” A médica começou a explicar, sentindo-se deslocada. “Às vezes é como se eu estivesse muito triste, muito... preocupada. Como se soubesse que algo muito ruim está para acontecer, mas não consigo entender como posso agir para impedir.”

Arieli permaneceu em silêncio, sentindo-se amedrontada pelas palavras da amiga. E bufou, pensando em como diria aquilo para ela.

“Tive sonhos com um paciente antigo, que já... faleceu.” olhou para sua amiga com lágrimas nos olhos. “E nesses sonhos, ele me pede ajuda, mas... Eu já não sei mais o que fazer.”

O pranto silencioso da médica fez com que a amiga a puxasse para um abraço apertado. se permitiu chorar, sentindo-se exausta.

“Olha, você não acha que seria interessante ver alguém?” Arieli perguntou, depois de abraçá-la. Ela segurava pelos ombros, enquanto a rosada a encarava confusa.
“Ver alguém?”
“Sim... Um psiquiatra, talvez?” E sorriu de forma receosa, enquanto seguia com sua fala. “Nosso trabalho é completamente exaustivo, e sabemos mais do que qualquer coisa que saúde mental é tão importante quanto a física. Precisamos nos cuidar para cuidar dos outros.”

Os olhos se arregalaram em uma descrença revoltante.

“O quê? Não! Você não está entendendo!” enxugou as lágrimas, saindo do toque acolhedor da outra médica. “A ajuda não é pra ele! É pra alguém próximo a ele!” E se levantou do sofá, limpando o rosto com um lenço de papel que retirara do bolso do jaleco.
! Por favor... Você está falando sério?”
“É claro que estou, Arieli!” A rosada exclamou, nervosa. “Juro por tudo que é mais sagrado, estou há dias em contato com esse paciente! Ele não me deixa em paz, ele precisa que eu ajude o irmão mais novo dele!”
“Certo...” Arieli encarou o chão com uma feição confusa. “Está me dizendo que um fantasma de um paciente seu está te assombrando e pedindo que salve o irmão dele?”
“Sim!” vibrou, e Arieli riu descrente.
“Você precisa de um psiquiatra, amiga.”
“O quê? Mas que merda, Arieli! Por que não acredita em mim?”
“Eu acredito em você, e acredito que está delirando!” Arieli reclamou, se levantando também. “Por que é tão difícil pensar que esteja sofrendo com culpa e remorso pela morte de seu paciente? Seja sensata!”
“Eu estou sendo sensata!” gritou, fazendo a amiga arregalar os olhos em choque. “Eu só preciso que entendam quando digo o que digo! Isso não é coisa da minha cabeça, Arieli!” A rosada explicou, sentindo a voz embargar. “Eu sinto isso desde a hora em que acordo, até a hora que vou dormir! Acredite em mim!” E bateu as mãos no balcão da copa, balançando a cafeteira quente.

Ela balançou a cabeça negativamente, enquanto chorava de costas para Arieli, que não sabia o que fazer.

“Eu só estou tentando pensar nas possibilidades que podem te ajudar, .” Ela disse, depois de longos minutos com apenas o som da respiração entrecortada de , em meio ao choro. “Possibilidades lúcidas, sensatas...”
“E eu só quero que você me entenda.” Ela permaneceu com o corpo no lugar, e só virou o rosto por cima dos ombros, encarando a amiga. “Não é psicológico. Estou dizendo que há algo pra acontecer. Eu sinto.” E se calou, mordendo o lábio inferior.
, você está me assustando!” Arieli falou, piscando rapidamente.
“E como você acha que estou? Pareço normal para você?” abriu os braços, rindo sarcasticamente, enquanto as lágrimas desciam em seu rosto.
“Não!” Arieli retrucou, movendo as mãos raivosamente. “E é por isso que eu quero que você vá à um psiquiatra! As coisas que você está me dizendo não são normais, você vê?” E se aproximou da amiga a passos rápidos. “Está dizendo coisas sem sentindo há dias, como se estivesse delirando! Somos médicas, pelo amor de Deus! Tenha bom senso e aceite que precisa de ajuda!”
“Eu preciso, Arieli... Mas não é desse tipo de ajuda.” respondeu, com um sorriso triste. “Há mais coisas no céu e terra, Horácio, do que foram sonhadas na sua filosofia.” E, sem mais nem menos, se desfez do jaleco e o guardou em seu armário, pegando suas coisas para ir embora.
“Então é isso?” Arieli questionou, com os braços cruzados e o pé esquerdo batendo irritantemente no chão. “Você me cita uma frase de Shakespeare e simplesmente vai embora?”
“Ou você decide acreditar no que digo e me ajuda como preciso, ou eu simplesmente vou embora sim, Arieli.” declarou, impassível. “Não vou perder meu tempo para você dizer que estou maluca... Não enquanto posso salvar a vida de alguém.”
“Putaquepariu.” A loira caminhou até a amiga, e segurou-a pelos ombros. “Você tá falando sério? Não tá de sacanagem com a minha cara?”
“Juro pela nossa amizade que nunca falei tão sério.” suspirou, fechando os olhos cansada.
“Certo...” Arieli mordeu o lábio, puxando a amiga para um abraço. “Vamos resolver isso. Desculpa não acreditar em você, mas fiquei preocupada... Você entende? Entende no absurdo que está me dizendo? Mas ok, eu vou acreditar em você. Vou considerar que isso tudo... é real. Por você.”

apenas acenou a cabeça, e se permitiu ser acolhida pelo abraço de Arieli.

“Só não sei como vou encontrar esse garoto...” Ela murmurou mais pra si do que para a outra, mas obteve uma resposta genial.
“Todo mundo tem facebook ou instagram, cara... Relaxa.”

arregalou os olhos e encarou Arieli com uma cara impagável.

“Arieli, você é um gênio!” E abraçou-a novamente, antes de sair apressada do local – deixando uma confusa na sala dos servidores.

Ao chegar em casa, tratou de tomar um banho rápido e começar sua busca pelo caçula . Sentou em sua cama e posicionou o laptop em seu colo, digitando seu nome na lupa das redes sociais.
Encontrou no facebook uma página dedicada à memória de , e sentiu os olhos marejarem com as mensagens que lia no mural do perfil. Mensagens saudosas, emocionantes, e um tanto tristes sobre a partida precoce do jovem.
passou o resto da noite pesquisando qualquer detalhe presente nas postagens que a indicassem onde poderia encontrar o pequeno . Mas pelo visto, ele era uma pessoa extremamente reservada, pois não havia encontrado nada. A médica estava profundamente cansada e frustrada – já estava acordada há quase quarenta e duas horas quando caiu no sono com o laptop em cima de si.
Dormira um sono tão profundo e tão pesado que só acordou na tarde seguinte, quando o sol já estava cansado de entrar em sua casa e finalmente alcançou o rosto descoberto da rosada.
Sentou-se na cama de forma preguiçosa, e encarou o relógio de cabeceira, que marcava 12:33. Sua sorte é que estava de folga, portanto acordar tarde não era um problema – pelo menos não naquele dia.
Estava se espreguiçando e ajeitando o cabelo, quando se lembrou da pesquisa fracassada da noite anterior. Ligou o laptop enquanto bocejava, e quando o computador ligou, quase caiu da cama ao encarar o que a tela revelava.
Era uma foto de um antebraço tatuado com uma peça de xadrez – o rei – e na legenda da foto, a seguinte frase: “Never forget”.
Aquela imagem marcava o perfil de , mas não havia sido ele quem postara a foto, Mais do que depressa, clicou na publicação e, como mágica, lá estava o perfil que tanto buscara.

.” Ela sussurrou para si, com um sorriso nos lábios.

***


Estava prestes a sair de casa, novamente apressada, quando ouviu uma voz lhe chamar.

?” Ela se virou pro lado assustada, e viu sua vizinha sorrir-lhe carinhosamente.
“Dulce, boa tarde!” Ela cumprimentou sorridente, enquanto trancava a porta.
“Boa tarde, minha filha. Está de plantão hoje? Vejo que conseguiu descansar.” A velhinha pôs o corpo pra fora e segurou o pano do roupão apertado, enquanto observava a jovem, com um olhar preocupado.
“Sim, consegui dormir bem depois de um bom tempo.” ajeitou a bolsa em seu ombro, mas o silêncio de sua vizinha a fez encará-la. “Está tudo bem?” Ela percebeu que a velha a olhava com aflição.
“Querida... Você teria cinco minutos?” Ela falou, visivelmente preocupada. Tanto que decidiu se atrasar para dar atenção a vizinha.

Ela entrou na casa a convite de Dulce, e se sentou à mesa. A velhinha foi até o canto da sala e acendeu um incenso de mirra, colocando-o perto da janela e das plantas. adorava aquele cheiro.

“E então?” perguntou sorridente, e a mais velha sentou-se diante dela com as mãos na mesa.
“Tive um sonho confuso e não muito bom, minha filha...” Ela dizia, encarando a rosada. “E ele envolvia você.”
“Que tipo de sonho, Dulce?” perguntou, alarmada.
“Do tipo muito confuso, muito rápido, e muito triste.” A velha suspirou, e olhou para as mãos unidas em cima da mesa. “Sonhei que você estava numa maca de ambulância, com o corpo machucado, tentando ser salva por socorristas.” Ela ergueu o olhar para a menina, um olhar marejado. “Senti tanto medo que algo acontecesse com você, querida. Pareceu tão real!”
“Dulce...” coçou a nuca, sorrindo sem graça. Ela não esperava ouvir aquilo, obviamente. “É realmente algo ruim de sonhar. E de ouvir também.”
“Eu sei querida, e peço desculpas por isso!” A vizinha segurou as mãos dela, aflita. “Mas eu precisava dizer isso, minha intuição pedia isso. Você está muito envolvida em algo, eu posso ver nos seus olhos.” A velha disse, apontando para os olhos . “Você está decidida.”
“Sim.” confirmou, sentindo o peito subir e descer com a respiração mais acelerada.
“Eu vejo isso.” Dulce a analisou por mais um tempo e, no canto da mesa, puxou um baralho de cartas.
“Dulce...” falou, receosa. “A senhora sabe que não levo muita fé no tarot.”
“Algo me diz que você não levava fé em muita coisa dias atrás, querida.” A voz da velha soou mais imponente, e endureceu na cadeira. “Mas algo a mudou, não é mesmo?” E Dulce lhe sorriu com o olhar penetrante. “Está visivelmente marcada. Está enxergando com novos olhos, minha filha?”

meneou a cabeça, mordendo o lábio inferior. Dulce definitivamente não era desse mundo.

“Vamos, concentre-se na sua questão e corte para mim.” Apesar de não acreditar, já havia feito aquele jogo várias vezes anteriormente, apenas para não desagradar sua vizinha. Mas nunca lembrava do que lhe era dito, nem para comparar o que acontecia posteriormente à cada jogo tirado. Mas sabia que aquela vez era diferente. Havia algo no ar, havia algo em si, mudado.

Ela fechou os olhos, concentrou-se em , em , e na sua vontade de ajudá-los. Abriu os olhos e levou as mãos às cartas, cortando o baralho em três partes. Dulce logo uniu os blocos novamente em um, e distribuiu as cartas sobre a mesa.

“Escolha cinco.” Ela ordenou, e foi tirando uma a uma; a terceira da esquerda, duas do meio, a última da direita, e a última na qual seu dedo esbarrou acidentalmente.

A velha dispôs as cartas viradas para baixo, ordenadamente, e as posicionou em formato de cruz. A primeira carta foi revelada.

“Essa carta revela o que está a seu favor.” Ela disse, apontando para o desenho de uma mulher abrindo a boca de um leão. “A força.” Dulce sorriu ao dizer aquilo, e continuou. “A sua força é muito maior do que você imagina. Encontre sua potência e desperte isso em você.”

encarou a carta e prendeu o lábio inferior, afirmando com a cabeça. Precisava ouvir aquilo.

“Esta, é o que não está favorecendo você.” Ela virou a carta da direita, revelando dois lobos uivando para cima, e a lua pairando sob suas cabeças. “A Lua.” Dulce encarou com uma seriedade nunca antes vista. “Seu medo de falhar e de não dar conta das coisas é o que pode te destruir – e você perder coisas importantíssimas em sua vida.”

engoliu a seco, e se remexeu inquieta na cadeira. Aquilo era tão verdade que uma pontada no peito ressoou, amarga.

“Esta explica como será o processo.” Dulce virou a carta acima de todas, revelando o diabo com braços abertos e sorriso medonho. se assustou e colocou a mão na boca, observando o rosto tensionado de sua vizinha.
“O que isso significa, Dulce?”
“Que não será fácil... O caminho está aberto para possibilidades, e me parece um tanto ardiloso...” E encarou , comprimindo os lábios em uma linha fina. “Você terá de entrar em contato com seus medos mais profundos, se quiser alcançar o que busca.”

Mais nada foi dito, e Dulce seguiu para a carta mais baixa, que seria a base da cruz.

“Esta, indica o resultado.” E a virou, sem delongas. A carta apresentava um anjo surgindo dos céus, tocando uma corneta, enquanto três humanos nus estavam sentados à sua espera. Com as mãos unidas em prece, ouviam com devoção o anúncio do anjo. “O julgamento.” Dulce falou, e arqueou uma sobrancelha antes de continuar. “Diante de tudo, precisa se atentar aos sinais da vida. Terás o que merece diante do que vens proporcionando para o mundo.”
“Isso é ruim?” perguntou, assustada. A velha sorriu.
“Não no seu caso. Acho que as coisas podem ser justas, assim como você é.”

A jovem acenou e apontou a última carta, que estava no meio.

“E esta?”
“Esta é a síntese da situação. Também indica como você se encontra diante de tudo.” Dulce virou a carta, demonstrando a roda da fortuna, demonstrando duas pessoas atreladas à roda, porém enquanto uma subia, a outra descia. “Significa grande mudança em sua vida... Com altos e baixos...”
“Tudo pode acontecer.” falou, e Dulce confirmou, olhando para a jovem.
“Querida, se tem algo que eu possa dizer é: agarre-se à sua força.” A velha segurou nas mãos de , que retribuiu o aperto com veemência. “Acredite em si, na sua intuição. O universo conversa conosco a todo tempo. Nós precisamos ouví-lo.”

Dulce fechou os olhos e respirou fundo, antes de abrí-los e encarar a médica.

“Concentre-se comigo, feche seus olhos.” E a rosada fez o que ela pediu, religiosamente. “Ouça minha voz, mas concentre-se em si...” De olhos fechados, a jovem respirou profunda e lentamente. “A sua força também está na forma como se protege. Procure dentro de si algo que simbolize esta força, algo que você pode carregar com isso, algo concreto que a lembre de quem você é.”

No exato momento em que Dulce terminou a frase, a escuridão dos olhos fechados de se iluminou, e a imagem de uma peça de xadrez da cor preta surgiu diante de si.
Assustada, a médica abriu os olhos e soltou as mãos trêmulas das de sua vizinha, que a encarava com um sorriso no canto dos lábios.

“O que foi isso?” perguntou, alarmada.
“Isso é a sua força, querida.” E Dulce pegou a carta e a posicionou diante dos olhos . “Isto é quem você é.”

Após observar minuciosamente a carta da força, fez sua decisão. Finalmente havia entendido, e estava pronta pro que quer que o destino lhe reservava.

***


Havia estacionado o carro bem no local em que a secretária do curso de arquitetura indicara. sabia que o que estava fazendo era horrível, mas tinha que concordar que levava jeito para encarnar uma personagem a fim de conseguir o endereço de . E naquele momento, ela precisava mais do que nunca atuar impecavelmente.
Antes de sair do carro, a médica tomou um susto enorme ao ouvir seu nome – dentro do veículo.

.” O som da voz vinha do banco detrás, e se virou instantaneamente para o local, não encontrando nada. Virou novamente para frente, sabendo que se tratava da voz de .
“Aqui em cima.” Ela ouviu novamente, e ergueu a cabeça, encarando os olhos de através do espelho interno.

Prendeu a respiração no susto, e se virou para trás, não encontrando como no reflexo do retrovisor.

“Caralho.” Ela sussurrou, prendendo os olhos nos do . “Isso é assustador.” E colocou a mão no peito, que arfava irregularmente.

sorriu de lado, e respirou fundo antes de voltar a falar.

“Quando salvá-lo, diga que a resposta é borboleta. Borboleta azul.”

franziu o cenho, confusa. Do que ele estava falando?

“M-Mas o que...” Ela gaguejou, sem conseguir completar a fala.
“Borboleta azul, . Por favor, não esqueça.” Ele pediu, e começou a desaparecer aos poucos, com a mesma luz que emanou quando se apresentou para a médica na sala do hospital.
“Espera! !” A rosada chamou, mas estava novamente sozinha no carro. Suspirou, frustrada, sem entender a fala do .

Xingou seu ex-paciente enquanto travava a porta do carro, e se dirigiu para a pensão adiante. Ajeitou a postura e o cabelo, e respirou fundo antes de tocar a campainha.
Para sua surpresa, uma senhora loira, de meia-idade, surgiu na porta, com cara de poucos amigos.

“Pois não?” Ela perguntou, sem paciência.
“Boa tarde!” usou seu melhor sorriso, com uma voz melodiosa. “Por acaso se encontra?”
“Não. Ele não mora mais aqui.” A loira arqueou a sobrancelha enquanto perdia a compostura.
“Mas como assim ele não mora mais aqui!?” A rosada questionou para a senhora peituda que a encarava com tédio.
“Não morando, minha filha! Pessoas se mudam, sabia?” Ela resmungou, cruzando os braços. “E você é quem mesmo? É o que dele pra querer saber?”
“A ex-esposa!” Ela exclamou após algum tempo, sentindo as bochechas ficarem vermelhas. Teria de improvisar. O show estava começando. “E este sem vergonha não anda pagando a pensão do filho dele! Então eu vim cobrá-lo pessoalmente!”
“Meu Deus!” A senhora disse, colocando a mão na boca, mudando completamente a feição. “Não acredito que já foi casado... e com filho!”
“E com filho!” repetiu a última parte, gesticulando nervosa.
“Eu não sabia nada disso!” Ela exclamou, colocando as mãos na cintura. “E ainda devendo pensão? Homens!” A loira disse com uma raiva incomum, e sorriu internamente.
“Me surpreende que ele tenha saído daqui com tudo quitado, dona...”
“Soledad.” Ela respondeu, cruzando os braços e evidenciando mais ainda os seios fartos. “E você é...”
“Eu era , antes dele me trair com a prima.” inventou a história, fingindo limpar uma lágrima no canto do olho. “Mas agora voltei a ser quem sempre fui. .” A troca de olhares foi intensa, e Soledad acenou com firmeza.
“Isso mesmo, querida. Não espere nada desses homens! Não valem nada!” Ela berrou pra dentro de casa, com a cara fechada.
“Como é que é, mulher?” Um senhor alto e forte, de cabelos longos e grisalhos brotou ao lado da senhora, a encarando com a sobrancelha arqueada. “Tá dizendo que eu não valho nada?”
“Você sabe muito bem as merdas que fez, José!” Ela berrou na frente de todos, fazendo arquear o corpo levemente para trás, receosa.
“Não grite na frente das visitas!” Ele retrucou, e encarou com uma feição gentil. “Boa tarde, senhorita. Já achou o que procura?”

abriu a boca para responder, mas foi interrompida por uma Soledad furiosa.

“Já vai dar em cima das novinhas de novo, José? Na minha cara? Além de desgraçar a minha vida, você quer desgraçar a dela também, homem!?”
“Deus do céu, mulher! Estou sendo apenas educado!” Ele ralhou, devolvendo o olhar raivoso.
“Então pare de enrolar e seja útil ao menos uma vez! Sabe onde aquele moleque sem vergonha do foi parar?”
“Moleque sem vergonha? Mas você amava aquele garoto!” José respondeu, com o cenho franzido, e suspirou, cansada.
“Não me enrola, homem! Só responde logo!” Soledad levantou a mão em sua direção, dando um soco em seu ombro, que causou em uma careta de dor. Aquilo parecia ter sido forte.
“Soledad!” Ele berrou, e já estava achando aquilo tudo cômico, se não fosse trágico, mas logo o velho respondeu. “Ele não voltou a morar na antiga casa dos O’Briens? Estão fazendo a mudança para lá por esses dias, pelo que ele comentou...”
“E onde fica essa casa?” perguntou com urgência.
“Naquele prédio bonito da quinta avenida, em frente ao parque dos sapos. Conhece?” Ele indagou, e ela arregalou os olhos, sorridente.
“Sim! Céus, muito obrigada! Vou procurá-lo agora!” exclamou, sorridente.
“É isso aí! Pega esse canalha e faz ele cumprir os deveres! Nenhuma mulher deveria sofrer na mão de macho escroto.” Soledad comentou, cruzando os braços e olhando com os olhos cerrados para o velhote, que a encarava incrédulo.
“O que está dizendo com isso, mulher?”
“Você sabe muito bem, não se faça de idiota!” Ela respondeu, empurrando-o para dentro. “E não me encha mais o saco, vai lavar uma louça antes que eu me irrite!”

José rolou os olhos e entrou em sua casa, e Soledad suspirou, ficando num estado de calma irreconhecível.

“Muito obrigada pela ajuda, Soledad.” agradeceu com um sorriso nos lábios.
“Imagine, querida. Estamos aí pro que precisar.” Ela sorriu como uma Miss e acenou, agradecida. Puxou as chaves do carro do bolso da calça e estava destravando o alarme do carro quando ouviu a senhora lhe chamar.
“Ei!” se virou alarmada. Será que ela tinha descoberto a verdade? “Você deixou isso aqui cair.” Soledad ergueu a peça de xadrez preta na direção de , que arregalou os olhos em surpresa.
“Oh, é verdade!” Ela pegou da mão da senhora. “Obrigada, mesmo!”
“Isso parece ser importante pra você. Cuide bem dele.” Soledad falou com um olhar profundo e um sorriso confiante.

piscou algumas vezes antes de acenar e entrar no carro, refletindo sobre o que a loira havia dito – e alguma coisa dentro de si começava a crer que a vida, de fato, dava sinais.

***


Eram 15:46 da tarde quando ela estacionou o carro em frente ao prédio dos O’Briens. Ela ficou um tempo observando de dentro do veículo, contando a quantidade de andares e apartamentos por andar. Suspirou ao perceber que eram muitos, e precisava pensar numa forma de descobrir qual era a casa de .
Mas além disso, ao olhar pra portaria, precisava saber como faria para entrar. A desculpa da ex-esposa não colaria novamente, haja vista que aquilo era um senhor prédio, diferente da pensão de Soledad, cuja viveu enquanto cursava a faculdade de arquitetura.
puxou a peça preta do bolso, e a encarou enquanto segurava firmemente nos dedos. Respirou profundamente, e mordeu os lábios ao pensar no que estava prestes a fazer. O medo e a insegurança eram palpáveis, e seguir com aquele plano significava acreditar em tudo que havia vivido na última semana – e aceitar que de fato falava com o espírito do primeiro paciente que perdeu na vida.
Os olhos marejaram ao sentir o aperto no peito – será que nunca se livraria daquela sensação? Por mais que soubesse que não poderia ter feito nada além do que já fizera, por mais que pintasse o cabelo ou tatuasse o braço, sabia que a vida de se fora, e nada disso poderia ser mudado.
O que lhe faltava era acreditar que nessa situação, não haviam culpados, e sim, tristes circunstâncias da vida, que levaram ao seu trágico fim. se lembrou das palavras de Dulce, e da forma como a carta força pairava diante de si.
A jovem precisava acreditar. Precisava se libertar.
Era a hora.


Continua...



Nota da autora: Oie amores! Como estão?
Pois é, estamos chegando ao final do suspense, Bendição está cada vez mais próxima do fim também! Acho que mais dois caps e ela acaba. Estão prontos para desvendar e descobrir todos os segredos que estão por vir?
Eu sinceramente amo demais esse enredo e espero que estejam curtndo; se sim, não dexem de comentar, compartlhar e curtir!

Beijos e qualquer coisa, grita lá no twitter (@lullymaniac) ♥



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Eu não escrevo nenhuma dessas fanfics, apenas scripto elas, qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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