Dancing with the devil

Última atualização: 05/09/2018

Prólogo

— Você entende a responsabilidade que essa tarefa implica?
Revirei os olhos. Era a décima sétima vez que minha mãe repetia aquela frase só naquela tarde, se não me falhavam os cálculos.
— Entendo — falei, passando a varinha pelas unhas distraidamente e vendo-as mudar de cor. — É uma questão de segurança internacional bruxa, etc, etc. Eu já entendi. E posso fazer isso sem problemas.
O funcionário do Ministério britânico apertou os lábios numa linha fina, como se não estivesse achando aquilo tudo uma boa ideia, mas sabia que não tinha escolha senão aceitar minha ajuda.
— Está bem, vou pedir sua transferência de Castelobruxo para Hogwarts hoje mesmo. — Ele pegou um pedaço de pergaminho e escreveu qualquer coisa com uma pena vermelha. Virou-se para minha mãe e disse: — A senhora sabe, não é muito comum alunos mudarem de escola no penúltimo ano, então as atenções estarão voltadas para sua filha e...
— Eu estou aqui, senhor, — me debrucei sobre a mesa na direção do homem, que arregalou os olhos verde-escuros em surpresa; certamente não era comum para ele que garotas de dezesseis anos o interrompessem — sabe, e tenho certeza que o Ministério da Magia do Reino Unido não destacaria para isso uma bruxa que fosse incapaz de entender uma conversa.
Ele engoliu com força, claramente intimidado. Sentei novamente com um sorriso falsamente meigo.
Era por isso que eles tinham me escolhido, e não uma garotinha inglesa qualquer. Tiveram que mandar um funcionário atravessar o oceano até o Brasil para que eu pudesse cumprir aquela missão dentro da escola deles, para ajudar a resolver o problema deles.
— Claro, claro, desculpe, srta. — gaguejou o bruxo com as bochechas ruborizadas, pegando uma pasta fina de dentro de sua bolsa. — Aqui estão às informações que a senhorita precisará. O... er... equipamento necessário será... Trazido por um agente especializado em breve.
Apertei a pasta e lancei um sorriso convencido para o funcionário, que se apressou mais ainda a guardar sua papelada.
O homenzinho saiu sobre completo silêncio meu e de minha mãe; o único ruído que se ouvia era o de seus sapatos lustrados batendo contra o chão, impulsionando o corpo para frente em passos largos demais para suas curtas pernas.
Virei à cadeira giratória devagar para encarar minha mãe atrás de mim. Ela sorria.
— Você consegue, não é?
Ergui as sobrancelhas. Aquela pergunta era um insulto às minhas capacidades. Ela riu.
Saí da sala de jantar desenhando círculos no ar com a varinha, porém sem emitir nenhum feitiço. Entrei em meu quarto e abri a pasta para analisar a imagem do meu alvo.
Ao contrário das fotos bruxas normais, esta era estática e parecia ter sido tirada numa dessas câmeras instantâneas que os trouxas tanto gostam. Rapidamente reconheci o desenho negro intrincado no antebraço pálido. A área em volta estava vermelha, como se fosse uma tatuagem recém feita. Examinei o resto da fotografia. Os cabelos curtos, quase brancos de tão loiros. A expressão presunçosa e o sorriso torto, mas que não conseguia esconder por completo o medo nos olhos cinza. Sorri para mim mesma.
— Fique tranquila, mamãe. — Passei os dedos pela caveira preta impressa na pele do garoto. — Vai ser como tirar doce de uma criança.




Capítulo 1

, você está MUITO atrasada! — minha mãe berrou, e me sobressaltei enquanto tentava passar o delineador.
— Droga — murmurei, embebendo um cotonete em demaquilante para consertar o borrão. Terminei o traço rapidamente, joguei a máscara de cílios dentro da mochila pesadíssima e peguei a gaiola de Twiggy, que piou baixinho. — Tô indo, mãe!
Desci as escadas apressadamente e vi que minha mãe não estava sozinha.
Uma bela mulher de cabelos tão negros que beiravam o azul me olhou severamente.
— Olá, srta. . Eu sou Clarissa Manteuff e vim lhe dar as instruções finais para sua missão.
Assenti, sem entender direito o que ainda faltava. Eu havia sido treinada rigorosamente no Departamento de Aurores Brasileiro, no Rio de Janeiro, por mais de dois meses. Isso somado à minha experiência adquirida com meus pais e minhas excelentes notas nos NOMs seria o bastante, eu imaginava.
— Nós optamos por lhe dar este artefato apenas de última hora para evitar problemas, por tratar-se de um item mágico muito poderoso e, portanto, inadequado para ser usado fora de uma comunidade unicamente bruxa. — ela tirou a varinha das vestes, junto de uma pequena caixa marrom.
Tocou o recipiente levemente com a ponta da varinha e ele se abriu, revelando uma pulseira prateada que brilhava contra o forro preto de veludo.
— É uma pulseira... incomum — Clarissa explicou, um pouco a contragosto. — Eu nunca confiaria algo tão poderoso a uma garota tão jovem, mas...
— Para que serve isso na minha missão? — a cortei, impaciente. Eu não queria perder o Expresso e ela estava me atrasando.
— Você deve tocar a pele do seu alvo com esta pulseira.
Arqueei as sobrancelhas. Fácil demais, não podia ser só isso.
— Porém...?
— Isto — ela apontou para a pedra central do artefato — é o diamante que restou do diadema de Rowena Ravenclaw. Foram escolhidos treze diamantes perfeitos para a joia da fundadora de Hogwarts, mas apenas doze foram usados. O último foi descartado porque... — a mulher hesitou.
— Por que...? — minha mãe também estava com vontade de acabar aquela conversa o mais depressa possível.
— Este diamante é muito... temperamental — ela disse. — Rowena se recusou a incluí-lo no diadema por medo que ele fizesse as emoções atrapalharem sua inteligência. Então, você deve tocar a pele marcada do alvo com ele, mas é necessário que haja uma emoção no corpo dele pelo portador da pulseira para que a magia funcione.
— Eu entendi essa parte — falei. — Minha missão é seduzir o garoto para tirar a Marca Negra dele, afinal.
Sua expressão dizia que ela queria falar algo mais, porém desistiu. Com cuidado, ela abotoou a joia em meu pulso esquerdo. A pedra assumiu rapidamente um tom vermelho sangue e depois voltou ao normal.
— Bom, não quero lhe atrasar mais. Qualquer problema me mande uma coruja.
Agradeci com um aceno de cabeça, mas uma pergunta apareceu em minha mente.
— Clarissa! — a mulher se virou ao ouvir seu nome, já longe. — Só não entendi uma coisa.
— Diga. — Ela se aproximou novamente.
— Por que vocês querem tirar a Marca Negra especificamente dele? Seu rosto se petrificou. Decerto não sabia se podia revelar aquela informação, mas por fim decidiu fazê-lo.
— Uma vidente, Joanne Rowling, nos enviou uma carta. — Pausa. — Eu sei que pode parecer idiota basear uma missão tão perigosa numa previsão de uma bruxa, mas tudo o que ela viu até hoje se cumpriu, então o Ministério confia bastante nela. Bom, o caso é que a sra. Rowling viu que pela Marca desse garoto começaria a guerra. Então precisamos tirar a Marca dele.
A explicação era absolutamente ridícula. Destacar uma garota do outro lado do mundo para cumprir uma missão baseada em adivinhação? Se a mídia soubesse disso, o Ministério britânico seria motivo de piada. Mas preferi não dizer nada. Eu tinha algo para cumprir. Um mundo para evitar destruir. E acima de tudo, um garoto para seduzir.

* *


— Posso sentar aqui?
A porta de uma cabine estava entreaberta. Duas garotas de gravatas azuis e prata, parecendo ser um pouco mais novas que eu, me encararam.
Minha gravata não tinha a cor de nenhuma casa, mas eu era grande demais para ser do primeiro ano. Elas nunca tinham me visto, e minha abordagem não fora das mais delicadas. Não era de difícil concluir a resposta que eu receberia.
— Desculpe — a mais baixa, que tinha uma franjinha, sorriu amarelo. — Nossas amigas estão vindo e pediram para guardarmos lugar.
Sorri confiante, e a boca da menina tremeu, intimidada.
— Obrigada — e saí.
Entrei numa cabine vazia e puxei minha pequena bolsinha preta de couro. Tirei um estojo de pó compacto e a máscara de cílios, e apliquei o produto cuidadosamente.
O trem começou a se movimentar e ninguém entrou na cabine onde eu estava, então estiquei as pernas sobre o banco e peguei minha varinha. Estava brincando de disparar faíscas de diferentes cores quando minha porta foi aberta violentamente. Ergui os olhos preguiçosamente.
Era ele.
Estava olhando para o corredor com uma expressão furiosa ao entrar e só depois me viu, deitada sobre um dos bancos. Seu olhar subiu indiscretamente por meu corpo; uma menina mais tímida teria corado. Cruzei as pernas e sorri.
— Quem é você? — perguntou rispidamente; sua voz tinha uma nota de desprezo.
— Ora, vejo que alguém não recebeu educação por aqui — retruquei no mesmo tom. — Você que entrou na minha cabine, então se apresente.
— Draco Malfoy. E foi você que não recebeu educação; sua mãe nunca lhe ensinou a se sentar direito?
— Bom, acho que a minha falta de educação te agradou enormemente, não é? Você não tirou os olhos das minhas pernas...
— Até parece que eu me interessaria por uma sangue-ruim como você — desdenhou, se jogando no banco à minha frente.
Descruzei as pernas lentamente. Ele seguiu o movimento e depois me encarou. Ri.
— Meu nome é — falei. —, só pra você. E me dê licença, eu quero ficar sozinha.
— Essa cabine é pública, e é aqui que ficarei. — ele disse, implicante.
— Tanto faz, Malfoy — falei seu sobrenome com desprezo, porém com a voz sem um único traço de emoção.
Ele pareceu surpreso com a minha falta de reação, e permaneceu em silêncio.

Draco POV

Pansy estava absolutamente insuportável. Eu estava na cabine com ela, Zabini e mais alguns sonserinos quando fiquei farto daquela conversa mole e resolvi espairecer. Aquele trem era enorme; com certeza haveria uma cabine vazia onde eu pudesse ficar.
Olhei para o corredor e vislumbrei uma garota vestida com uma capa da Sonserina que parecia demais com a Parkinson, então praticamente pulei dentro de um daqueles compartimentos. Sorte que estava vazio.
Ou melhor, não estava vazio.
Uma garota estava esparramada desleixadamente sobre o estofado macio do trem. Sua saia de pregas me dava um belo vislumbre das pernas, e a camisa de botão parecia justa demais. Quer dizer, pra mim estava ótimo...
Apesar do meu olhar um tanto malicioso, o rosto dela não estava ruborizado. Estranho. Será que não tinha me visto? Mas ela estava me encarando...
Eu nunca a tinha visto na vida. A gravata não tinha a cor de nenhuma casa; provavelmente era intercambista. Argh, as intercambistas sempre são sangue-ruins. Que droga.
— Quem é você? – perguntei.
— Ora, vejo que alguém não recebeu educação por aqui. Você que entrou na minha cabine, então se apresente.
Fiquei sem fala por um segundo. Eu já tinha abordado novatas daquela forma várias vezes, e a reação era sempre a mesma: vergonha e o nome sendo dito num sussurro.
— Draco Malfoy — falei. — E foi você que não recebeu educação; sua mãe nunca lhe ensinou a se sentar direito?
Ahá. Toma essa agora.
— Bom, acho que a minha falta de educação te agradou enormemente, não é? — ela mordeu os lábios, contendo um sorrisinho. — Você não tirou os olhos das minhas pernas...
Desconcertei-me por um milissegundo, admito. Mas é que aquelas meias sete oitavos não estavam me deixando pensar.
— Até parece — declarei — que eu me interessaria por uma sangue-ruim como você.
Imitei sua posição largada no banco oposto. A garota ficou em silêncio e apenas descruzou as pernas, atraindo totalmente meu olhar. Sua risada se fez ouvir pela cabine.
— Meu nome é , pra você. E me dê licença, eu quero ficar sozinha.
Mas que garota petulante!
— Essa cabine é pública, e é aqui que ficarei. — Tenho certeza que soei como uma criança mimada, mas não liguei.
— Tanto faz, Malfoy.
Meu nome ficou incrivelmente sensual na boca dela. Preferia não retrucar nada, e vi-a tirar um batom da bolsa. Era vermelho, e ela aplicou aquilo nos lábios com maestria.
Bufei.
— O que é? — perguntou, com um traço de irritação.
— Batom vermelho. É tão desnecessário. Não gosto de garotas que usam.
Eu juro que achei que ela fosse apenas sorrir sem graça e guardar o batom, mas não.
— Ah, é? — se levantou e sorriu para mim. — Engraçado, esse batom subitamente virou meu favorito. — Se aproximou de mim e tocou os lábios lentamente na minha pele da bochecha. — Pronto, agora você está marcado com ele.
Por algum motivo, tive a impressão que ela deu ênfase à palavra “marcado”, mas acho que foi só impressão. Passei a mão com força pelo rosto e meus dedos voltaram grudentos e avermelhados.
— O QUÊ? — me enfureci. Quem aquela sangue ruim pensava que era? Levantei do banco, cerrando os punhos. — Tira isso da minha cara agora.
riu.
— Deixa, você ficou uma gracinha assim.
Eu não sou uma gracinha. Eu sou loiro, alto, bonito e sensual, não uma gracinha. Aquilo era uma ofensa.
— Isso é uma ordem, sua sangue ruim imunda — aumentei o tom de voz, sentindo a raiva subir também.
Nem deu tempo de ver nada; quando caí em mim, ela já estava me pressionando contra a parede, agarrando meu braço de forma bem dolorosa e com as pernas posicionadas de tal forma que um mínimo movimento me faria ir ao chão.
Eu fui imobilizado por uma garota. Sem uma varinha.
— Meu sangue é tão ou mais puro do que o seu, Draco Malfoy — ela sussurrou no meu ouvido, completamente enraivecida. — E, mesmo que não fosse, o único sangue ruim aqui é você; não pode falar da família de ninguém quando a sua é o que é.
— Não ouse falar da minha família, — falei entredentes, e ela torceu mais meu braço. Grunhi.
— Então cala essa boca e saia já daqui.
Finalmente ela me soltou. Devagar me virei e a encarei, nossos rostos próximos o suficiente para que eu notasse as leves sardas em sua pele, não cobertas pela maquiagem, prováveis frutos do excesso de sol que ela pegava no lugar de onde vinha.
Desviei os olhos e me empertiguei antes de sair.
— Você vai se arrepender, garota.
E bati a porta com força para voltar a Pansy e Zabini.




Capítulo 2

Draco POV

Quando a profa. Minerva chamou “, !” para Hogwarts inteira ouvir, pausei momentaneamente meus pensamentos e olhares sobre comida para direcioná-los à dona do nome pronunciado. Foi a última a ser chamada para a seleção, e desconfio que fosse pela idade.
O barulho de suas botas pretas de salto era a única coisa que se ouvia no Salão. Toda a ala masculina daquela droga de escola não conseguia desviar os olhos da morena que desfilava com confiança sobre o pequeno palco. O Chapéu foi posto sobre seus cabelos bem penteados. Foi parecidíssimo com minha seleção; o selector mal tocara minha cabeça e minha casa já estava decidida. Mas no caso de , o que foi dito foi… — GRIFINÓRIA! — e a mesa oposta à minha explodiu em aplausos e gritos.
Confesso que uma pontada de decepção me atingiu, e pude observar que todos os donos dos olhos da Corvinal, Sonserina e Lufa-Lufa que seguiam o rebolado de sentiram o mesmo.
Dumbledore falou suas palavras habituais e o jantar finalmente foi servido.
— Quem é aquela gostosa que foi pra Grifinória? — Zabini engoliu uma garfada de batatas rosti e sorriu maliciosamente. — Não deve estar no primeiro ano, mas mesmo se estivesse...
— Você é doente, Blásio — resmungou Pansy, aborrecida.
— Ela deve ser parte veela, não é possível — opinou alguém, cuja voz não reconheci.
— Claro que não, seu idiota, ela é morena — corrigiu outro, rindo.
— O que você acha, Draco? — perguntaram, certamente por eu estar quieto demais.
— Bom, certamente ela é uma sangue ruim que não merece nosso tempo — desdenhei, cruzando meus talheres para esperar a sobremesa.
Todos ficaram em silêncio. Pansy parecia quase feliz com minhas palavras, e tocou levemente meu joelho com o seu por baixo da mesa.
— Não estou falando em casar com ela, Malfoy — Blásio falou com cuidado.
— Eu sei, até porque seus pais te deserdariam — ri, tentando descontrair, e eles me imitaram.
Cruzei os olhares com por entre os cabelos de dois primeiranistas da Corvinal. Ela riu e passou levemente o dedo pela própria bochecha, apontando pra mim e desviando os olhos logo em seguida. Imitei o gesto e senti o batom grudento dela ainda ali.
— Droga — murmurei baixinho, e as portas do Salão Principal se abriram. Lá estava Potter, com o nariz sujo de sangue seco. Sorri, mas nem tive tempo de saborear minha vitória, pois a Parkinson começou um de seus ataques de pelanca.
— Draquinho, o que é isso? — ela passou a unha pela mancha vermelha em minha pele. — Isso é batom?! — deu um gritinho, num princípio de histeria.
— Não lhe interessa. E não encoste em mim.
— É a mesma cor do batom daquela sangue ruim da Grifinória — choramingou ela, atraindo a atenção de Zabini.
— O quê? — sua expressão surpresa foi se tornando um sorriso cheio de malícia ao verificar a marca. — Ahá, o Malfoy se deu bem...
Lancei-lhe um Avada com os olhos, e ele deu um risinho, se concentrando no Devil's Cake a sua frente.
Procurei novamente e vi que ela conversava animadamente com Potter e Weasley. Argh.
Ela notou que eu a encarava, e apenas balançou a varinha em minha direção. Olhei em volta, sem entender, e vi que a calda de chocolate sobre o sorvete em meu prato formava as seguintes palavras:
Perdeu algo na mesa da Grifinória, Malfoy?
ria da minha cara de tacho ao lado dos amiguinhos. Granger virou para tentar entender do que a garota ria, e ergui as sobrancelhas para ela. Sua reação limitou-se à uma careta de desprezo.
Eu ainda ia me irritar com essa POV

Draco Malfoy definitivamente não era feio. Não. Ele era muito bonito, aliás. Era loiro, alto, bonito e sensual. E, por Merlim, era muito charmoso. O que ajudava bastante a aumentar minha disposição para cumprir a missão.
Bom, não que isso importasse muito. Eu cumpriria a missão mesmo que meu alvo fosse Neville Longbottom. (Se bem que eu desconfie que Neville vá ficar bem bonito depois da escola, então sejamos legais com ele). [n/a: Você nunca esteve mais certa, querida !]
Estávamos saindo do Salão Principal para irmos à sala comunal da Grifinória, e eu conversava animadamente com a ruivinha quintanista simpática, Gina.
— Adorei suas botas, ! — a garota disse.
— Ah, obrigada, Gina. Mas pode me chamar de .
— Ah, tudo bem então, . — A garota sorriu.
Uma menininha do primeiro ano passou correndo por mim e balançou minha bolsa, fazendo algo cair. Tentei olhar em volta para ver do que se tratava, mas não achei nada. Senti uma mão segurar meu braço e me puxar na direção da parede, saindo do fluxo de alunos.
— Seu batom, — debochou Malfoy, esticando o objeto para mim.
— É pra você, Malfoy — resmunguei, tentando pegar o batom da mão dele. Draco ergueu no alto, deixando-o fora de meu alcance. — Por Merlim, você é um bebezão.
— E você é uma garotinha patética — retrucou ele.
Finquei meu salto no pé do garoto, que gritou.
— AAAAAAA! Você é louca? — ele se afastou num pulo, com a expressão horrorizada.
— Não. Sou uma garotinha patética, não é? Uma garotinha que vai chutar esse seu belo traseiro com botas Prada — tomei meu batom da mão dele. Num segundo reapliquei-o e aproximei os lábios de seu ouvido. — Cuidado, querido. — ele se arrepiou quando meus lábios tocaram a pele macia sob sua orelha, deixando a marca de minha boca em vermelho. — Você não sabe com quem está lidando.
Afastei-me, deixando-o atordoado para trás.

***


— Onde você estudava antes de vir para cá, ? — perguntou a menina de cabelos cheios, Hermione. Ela era um amor, mas parecia bem mais tímida do que eu.
Bom, não que isso conte muito. Posso contar nos dedos de uma mão a quantidade de pessoas que conheci que fossem menos tímidas que eu.
, por favor, Hermione — falei, com um sorriso. — Estudava em Castelobruxo, conhece?
— Claro! — disse ela, animada. — Você deve ser muito boa em Herbologia e Trato das Criaturas Mágicas, imagino. Dizem que essas matérias são o grande forte de Castelobruxo.
— Bem, não era a primeira de minha turma em Herbologia, mas acho que vou conseguir acompanhar vocês. — Ri simpaticamente. — Sempre fui melhor em Defesa Contras as Artes das Trevas e Poções, eram minhas matérias preferidas.
Poções? — Harry Potter se intrometeu, fazendo uma careta. — Como é possível que Poções seja a matéria preferida de alguém?
— Bom, com certeza é a do Malfoy — disse o ruivo Ron Weasley, irmão de Gina que estava no meu ano. — O Snape sempre criou um ambiente propício para eles puxarem o saco um do outro...
— Malfoy? Esse de quem vocês estão falando é o Draco, aquele garoto loiro? — perguntei, apesar de saber exatamente a resposta.
— Sim, por quê? — Ron pareceu curioso. — Já o conheceu?
— Pois é, tive esse desprazer ainda no Expresso — revirei os olhos.
— Mesmo? — Harry se interessou, debruçando-se por cima do braço da poltrona. — Como?
— Ah, eu estava sozinha numa cabine do Expresso, e ele apareceu lá. — contei, levando à boca um Bis da caixa azul escura que peguei de meu malão com um Feitiço Convocatório. — Aceitam?
Todos pegaram um dos chocolates.
— Mas vocês chegaram a conversar? — insistiu Harry, tentando (em vão) não deixar transparecer sua curiosidade.
— Mais ou menos — mastiguei e engoli o doce. — Ele me insultou a maior parte do tempo. Mas pelo menos eu o expulsei da cabine como ele merecia.
— Perdão? — Hermione arregalou os olhos, sem conseguir esconder o riso. — O que você fez?
— Deixa eu mostrar — Sorri, me levantando. — Preciso de alguém para a demonstração.
Seguiu-se um atropelamento para que os meninos decidissem entre si quem ia fazer o papel de Draco em minha pequena encenação. As meninas riram, mas percebi que Hermione fechou a cara quando Ron se levantou e sorriu para mim.
— Ok, eu tenho que fingir que sou o babaca escroto e mimadinho do Malfoy — disse ele.
— Isso — me aproximei dele, ficando em pé em sua frente. Virei-me para a pequena plateia. — Basicamente ele estava aqui me chamando de “sangue ruim” e tudo o mais quando eu… — agarrei o braço de Ron e o torci com força por cima dos cabelos vermelhos do garoto, colando meu tronco no dele — …fiz isso, e encurralei ele na janela.
O salão comunal explodiu em risadas, e até mesmo Hermione esboçou um sorriso.
— Incrível, — Harry passou a manga por baixo dos óculos para secar o canto dos olhos. — Me lembre de nunca arrumar uma confusão com você! Malfoy que se cuide…
Sorri levemente. Harry não sabia o quão certo estava.

Draco POV

— Parkinson, o que raios são botas Prada? — entrei na sala comunal da Sonserina já furioso.
— O que foi, Draquinho? — ela ronronou, deixando de conversar com Emilia Bulstrode para me encher de mimos ridículos.
— O. Que. São. Botas. Prada? — repeti pausadamente, já sentindo mais irritação me subir à cabeça.
— Ah… Prada é uma marca de bolsas e calçados dos trouxas — ela encolheu os ombros. — Um par de botas lá deve custar uns… deixa eu ver… cem galeões? — Isso tudo por sapatos? — Bulstrode espantou-se. — Que absurdo. E nem ao menos são mágicos.
— Por que a pergunta? — Zabini pulou por cima do sofá e sentou-se do meu lado, com uma expressão maliciosa. — É essa a marca das botas da ?
— O quê? Não — gaguejei. — Quer dizer, não sei. Por que haveria de saber?
— Sei lá. — Ele apertou os olhos na minha direção e riu. — Por quê você está com uma marca de batom vermelho no pescoço?
Todos os sonserinos presentes no recinto me encararam, procurando a impressão que a boca de deixara.
Que merda.
— DRACO! DE QUEM É ESSE BATOM? — Pansy gritou, a voz afinando a cada sílaba até perfurar meus tímpanos.
— Cale a boca, Parkinson, minha vida pessoal não lhe diz respeito — esbravejei, passando a mão pelo pescoço e a recolhendo rapidamente. Esbarrar na Marca recém feita ainda doía. Levantei-me e fui para o dormitório, resmungando um “boa noite”.
Ainda escutei a risadinha de Zabini, que explicava a situação toda para Crabbe, Goyle e quem mais quisesse ouvir.
Escroto.



Capítulo 3

POV

Estava insuportavelmente quente naquela manhã. Acordei muito cedo, ainda acostumada ao fuso horário do Rio de Janeiro. Por sorte, a profa. McGonagall já estava de pé, tomando seu café tranquilamente, quando entrei no Salão Principal.

— Bom dia, professora — cumprimentei, com um sorriso.
— Bom dia, srta. — ela devolveu o cumprimento, limpando a boca com o guardanapo. Fitou meus cabelos rentes ao rosto, já molhados de suor. — Muito quente hoje, não?
— Pois é... E é mais ou menos sobre isso que gostaria de falar com a senhora — me adiantei, escorregando pelo enorme banco da mesa da Grifinória até ficar mais perto dela. — Sabe, em Castelobruxo era muito quente o ano todo, então tínhamos permissão de nadar no rio pela manhã antes das aulas.
— Ah, já soube desse costume — ela deu um gole no suco de abóbora — e falei com o prof. Dumbledore. A senhorita está autorizada a nadar no lago, na área delimitada pelo diretor. Você verá qual é. Na verdade todos os alunos podem fazê-lo, mas não têm o hábito... Infelizmente. Seria saudável para eles de vez em quando.
— Muito obrigada, professora! — já fiquei mais animada. — Outra coisa: onde posso pegar meus horários deste ano? Presumo que meus resultados dos N.O.M.s já tenham sido encaminhados para cá.
— Sim, sim — ela pegou uma folha de papel e deu uma batidinha nela com sua varinha. — Aqui estão. Seus resultados foram realmente impressionantes, srta. . Parabéns.
— Obrigada! Vou deixá-la para tomar seu café tranquilamente — me despedi, e ela acenou.
Estava enchendo um copo com leite frio e puro ("Um Nescau caía bem agora", pensei) quando Draco Malfoy entrou no Salão.
Ele se sentou à mesa da Sonserina e pôs uma torrada e ovos mexidos no prato. Encheu o copo de café fumegante e respirou fundo. Sua expressão não estava muito contente. Um risinho deixou meus lábios e ele me encarou seriamente.
— O que é tão engraçado?
— Alguém não está tendo uma boa manhã, não é, Malfoy?
— Alguém anda se metendo demais na vida dos outros, não é, ?
Sorri amavelmente e dei um gole no meu leite.
— A propósito, dormi muito bem hoje e estou adorando Hogwarts, obrigada por perguntar.
— Por Merlim, você é insuportável — ele resmungou.
— Boas aulas para você também, Malfoy — eu disse, me levantando e indo ao meu dormitório.

***


— Ai, eu vou MATAR a vaca que me acordou tão cedo! — berrou Gina quando, com um estrondo, deixei cair minha vassoura no chão, que estivera apoiada no malão. — São seis e quinze e as aulas começam às oito!
— Pode tentar, mas meu Feitiço Escudo é bem forte — eu disse, abotoando a blusa do uniforme por cima do biquíni preto. — Bom dia, Gina.

— Ah, é você, ... Desculpe — ela ruborizou, cobrindo-se até a cabeça com o edredom macio.
— Não se preocupe, você foi uma lady agora comparada ao que eu normalmente sou de manhã — ri, deixando o dormitório.
Harry, Rony e Hermione conversavam com ares de segredo num dos sofás, e acenei para eles. Todos sorriram e me cumprimentaram de volta.
Em pouco tempo eu já estava ao ar livre, com o sol esquentando meu corpo mais ainda.
Minha capa já estava no chão, bem como as meias e os sapatos. Tudo estava dobrado numa pilha organizada, e foi a sombra projetada sobre ela que me alertou sobre a aproximação de alguém.
— O que você pensa que está fazendo?
Uma menina de cabelos escuros tinha as mãos na cintura e me encarava com uma expressão ameaçadora. Sua gravata era verde. — Ah, olá — estendi minha mão para ela. — Sou , estou no sexto ano da Grifinória.
A menina ignorou minha tentativa de ser educada. Recolhi minha mão.
— Pansy Parkinson. — se apresentou ela, de má vontade. — E o que você está fazendo?
— Ah, vou nadar um pouco.
Nadar?
"Não, não, estou tirando a roupa porque vou fazer um striptease para Hogwarts inteira às seis e meia da manhã, porque o fato de eu ter sido selecionada ontem apesar de estar no sexto ano não foi suficiente para chamar atenção", tive vontade de retrucar.
— É — falei simplesmente, desabotoando a camisa e tirando a saia, ficando apenas com o biquíni.
Pansy analisou meu corpo dos pés à cabeça e fez uma careta de desdém, girando a capa ao se afastar.
Amarrei na coxa direita a faixa que usava para prender a varinha, andei alguns passos e senti a água fresca molhar meus pés. Fechei os olhos. Quase conseguia sentir o cheiro da floresta que circundava Castelobruxo, ouvir os pássaros, ver minhas amigas jogando água em mim, rindo e falando: "Vem logo, !", e...
— O que você pensa que está fazendo?
A voz dessa vez era masculina, e deu uma leve gaguejada. Abri os olhos e me virei, com a varinha em punho e pressionando-a contra o corpo da pessoa.
Era Draco.
— Pelas barbas de Merlim, qual o problema de vocês, sonserinos? — bufei, levando a varinha novamente à minha perna.
— Como assim?

— Chegam tão sorrateiramente e sem motivo. — Cruzei os braços sobre os seios, que ele encarara por um segundo. — Além do mais, aquela garota Parkinson já veio aqui e me perguntou a mesma coisa que você.
— Ah. — Ele continuou inexpressivo. — O que você está fazendo aqui, de qualquer forma?
— Eu só vou nadar, Malfoy. Pare de se meter na minha vida, você nem me conhece.
Me virei e pulei na água, sem lhe dar tempo para que falasse mais nada.
Meu corpo experimentou uma sensação de relaxamento quando foi envolto completamente pelas águas escuras do lago. Tão diferente do rio em que estava acostumada... Não havia correnteza; parecia a piscina de minhas vizinhas trouxas, só que em escala maior.
Executei o feitiço Cabeça de Bolha sem enunciar palavra alguma; feitiços mudos faziam parte do meu rigoroso treinamento no Ministério Brasileiro. Engoli golfadas frias de ar, e me impulsionei para tocar o fundo; sentei-me no chão lamacento e ouvi uma voz falando em serêiaco.

— Há tempos que não vejo um aluno aqui no fundo — uma jovem sereia flutuava a meu lado. Senti que ela não pretendia que eu entendesse a frase.
— Mesmo? — falei, minha voz saiu com bolhas.
Ela se sobressaltou.
— Você me entende? Falei em serêiaco — disse ela em inglês.
— Sim — sorri, tirando a varinha da faixa e brincando com ela. — Vim de Castelobruxo, a escola perto do rio Amazonas, e Línguas Mágicas é uma das matérias.
— Uau — impressionou-se a garota, se virando para mim e fazendo suas escamas cintilarem. — Meu nome é Pesthropha.
— Sou . Prazer em te conhecer, Pesthropha.
— O prazer é meu.
Um silêncio seguiu-se, e pouco depois a sereia nadou suavemente para longe, despedindo-se com um aceno.
Fiquei mais alguns minutos nadando, cortando a água com o corpo, e pensando na minha missão. Por fim, quando o feitiço desvaneceu por completo, emergi. A varinha estava em minha mão e já havia começado a nadar de volta para a margem quando escutei ao longe, porém indiscutivelmente em minha direção:
Petrificus Totalus!
A última coisa que vi antes de ser praticamente sugada para o fundo foi o sorriso maldoso e a varinha em punho de Pansy Parkinson.

Draco POV

Se minha manhã esteve em algum momento insuportável, a visão de num biquininho preto fez meu dia.
Por tudo o que é mais sagrado, garotas com um corpo desses deviam ser proibidas de transitar de biquíni pelos terrenos de Hogwarts. É enlouquecedor.
Enfim. O fato é que não pude evitar de me aproximar mais com a desculpa de conversar, mas obviamente dei aquela conferida na bunda dela, porque eu ainda sou humano.
— O que você está fazendo? — Minha voz não soou tão firme quanto eu gostaria.
Ela se virou num instante e senti sua varinha quase furar minha barriga. Trocamos farpas por alguns segundos, meus olhos deram uma escorregada em seus seios, até que ela disse algo sobre eu parar de me meter na vida dela e pulou na água.
Que droga. Encher o saco de é surpreendentemente divertido. E a diversão é potencializada quando ela está só com roupa de banho, claro.
Ela ficou vários minutos debaixo d'água, e comecei a ficar um tanto ansioso. Aquilo não era normal, por melhor que fosse o fôlego dela; por que estava demorando tanto?
Eu já estava comendo os dedos mentalmente quando Parkinson se aproximou e sentou praticamente em meu colo.
— O que você está fazendo aqui, Draquinho? — ela tocou a mecha que tinha caído sobre minha testa, e afastei sua mão com a minha.
— Por que acordou tão cedo, Parkinson? — perguntei, desconversando. Por mais chato que fosse o papo de Pansy, pelo menos ia me distrair de minha preocupação ridícula sobre .
— Ah... não sei, acho que foi porque eu queria aproveitar mais o dia, que é o que estou fazendo agora — ela esticou a boca num sorriso esquisito, provavelmente tentando ser sexy (sem sucesso). — Mas você não respondeu a minha pergunta.
— Ah, é que...
— Sabe — ela me interrompeu bruscamente —, andei treinando umas azarações novas... Quer ver?
Só percebi o que ela pretendia quando a vi levantar, apontar a varinha para , que acabara de subir para respirar depois de tanto tempo, e gritar:
Petrificus Totalus!
O corpo mole da novata grifinória afundou como se tivesse se transformado em chumbo. Parkinson virou para mim com uma expressão vitoriosa, que retribuí com uma careta horrorizada.
— Pansy, ela vai se afogar!
Ela revirou os olhos.
— E desde quando você se importa?
— Caralho, Parkinson, você vai matar a garota! — berrei, já desabotoando a capa e a camisa.
— O que você tá fazendo? — ela perguntou, horrorizada, me vendo tirar os sapatos.
— Consertar a merda que você fez — e pulei na água.
O frio do lago fez minha pele toda reagir, mas a sensação era bem-vinda diante do calor do dia. Eu nadava bem; o fazia com frequência na piscina de minha casa. Porém, ali no lago a água era escura e tinha uma espécie de correnteza estranha. Apesar disso, consegui achar rapidamente. Estava com os olhos arregalados, numa súplica silenciosa para mim.
Impulsionei meu corpo para baixo e murmurei "Finite Incantatem" com a varinha em punho, fazendo minha boca se encher de água. Porém, o feitiço não funcionava mesmo depois de inúmeras tentativas e eu sentia meus pulmões queimando, implorando por oxigênio. A garota já estava à beira da inconsciência.
Agarrei seu braço desajeitadamente, puxei com toda a força para cima, e segurei-a pela cintura enquanto subíamos.
Ouvi arquejar ao chegarmos à superfície, tentando sorver o máximo de ar possível. Eu ainda a segurava, pois seu corpo estava mole por conta do feitiço. Desajeitadamente a pressionei contra meu tronco com apenas um dos braços, enquanto usava a varinha para desfazer a azaração de Pansy.

— Obrigada... obrigada, Malfoy — ela ofegou, ainda se apoiando em meus ombros. Minha mão enlaçava sua cintura e era estranhamente confortável. — Você pode... nos levar? Eu estou sem ar...
(Tudo bem, estávamos num período um tanto tenso, mas não pude deixar de notar que aquela posição era bem favorável para ver o decote dela... Não me julgue, aquilo é hipnotizante.)
— Draquinho! Você está bem? — a voz aguda e pingando falsidade de Parkinson perfurou meus tímpanos, e se descolou mais que depressa de mim. Tropegamente, foi apontar a varinha na cara da sonserina de forma ameaçadora.
— Qual é a porra do seu problema, Parkinson? Você podia ter me matado, sabia? — a cada frase, a varinha disparava um jorro de luz que errava Pansy por poucos centímetros. — Fica longe de mim! — olhou em volta e os olhos se inflamaram mais ainda. — E o que você fez com as minhas roupas?
O medo que se espalhara pelo rosto de Pansy murchou e deu lugar a um sorriso maldoso, igual ao de quando ela azarara .
— Não sei exatamente... Elas foram dar uma voadinha...
O rosto da grifinória ficou vermelho de raiva, e vi que ela se controlou muito para não apontar mais uma vez a varinha para Pansy. Porém, ela fechou os olhos, respirou fundo e amarrou a varinha novamente na coxa.
— Bom — juntou as palmas das mãos e deu um sorriso falso —, eu vou para meu dormitório pegar outras roupas. Só, por favor, recupere meu uniforme, porque custou onze galões, e as botas, porque são edição limitada, está bem? — Deus, como sarcasmo ficava incrível nela. — E não queremos que você ganhe uma advertência por praticar bullying contra a novata intercambista, queremos, Parkinson?
O que raios era "bullying"? Não fazia a menor ideia. Mas o pensamento se desfez em minha mente quando vi que se encaminhava para o castelo. Usando somente o biquíni, a faixa na perna e uma pulseira de platina com uma enorme pedra negra.
— Ei — fui atrás dela, pegando minhas roupas no caminho e ignorando a expressão de choque de Pansy. — Você não pode entrar assim.
— E por quê não?
— Porque... — Droga. Eu não podia falar que era porque a escola inteira não ia conseguir parar de olhá-la desfilar em roupa mínimas até a Torre da Grifinória. Pense, Draco, pense! — Porque não é permitido entrar com roupas de banho em Hogwarts.
— Nesse caso, eu preciso que alguém pegue roupas para mim — ela bufou.
Hesitei por um segundo.
— Toma — lhe entreguei minha camisa. Depois, retomei minha habitual postura de desprezo. — Tente não sujar muito...
— Mas eu estou limpa! É só água...
Revirei os olhos.
— Com o seu sangue, idiota — resmunguei.
— Hmm, acabei de decidir que não quero isso — ela largou a camisa em cima de mim e deu meia volta. — Tenho certeza que a professora McGonagall não se importará em me deixar entrar se eu contar a história de como fiquei nesse estado.
— Você podia recuperar seu uniforme com um feitiço convocatório; sabe disso, não sabe?
— Claro que sei — ela riu. — Mas ninguém faz algo assim comigo e fica por isso mesmo. E acho que o prof. Dumbledore terá algumas coisas a tratar com Pansy Parkinson. Tenho certeza que tentar matar colegas não é algo normal, nem mesmo em Hogwarts.



Capítulo 4

POV

Sinceramente, acho que os garotos de Hogwarts nunca devem ter tido contato com meninas de biquíni. Ou, pelo menos, não com os biquínis brasileiros. Porque só isso poderia justificar os olhares nem um pouco discretos em minha direção — leia-se, na direção da minha bunda.
Todos os anos de treinamento com meus pais e os últimos meses no Ministério Brasileiro haviam me dado um corpo bem torneado, forte, bonito e acima de tudo capaz de realizar minhas missões, mesmo as que exigiam um maior trabalho em campo. Eu era boa, muito boa no que fazia. Então como uma azaração simples daquelas, proferida por uma sextanista que devia ter a capacidade cerebral de uma banana, poderia ter me derrubado? Como eu lidaria com um Comensal da Morte que supostamente desencadearia a maior guerra do mundo bruxo?
Não posso negar que o feitiço de Parkinson foi um baque para minha autoestima; afinal, mesmo que eu tivesse sido pega de surpresa, era de se esperar que eu tivesse uma reação mais expressiva e menos patética. Certo?
Enfim. O ponto é: o relógio já marcava sete e quarenta e cinco e meu uniforme continuava sumido.
Quer dizer, claro que eu tinha mais algumas camisas brancas e pelo menos uma saia limpa no malão, mas a gravata e a capa eram as mesmas para todos os dias, e seu uso era obrigatório. Sem contar minhas botas, que eu amava.
— Srta. ! — o zelador Argo Filch deu um berro em sua voz esganiçada, o rosto chupado corando violentamente. — O que significa isto?
Fui ensinada desde cedo a controlar reações involuntárias de meu corpo em certas situações, então meu rosto continuou com o mesmo tom e apenas falei calmamente:
— Bom dia, Sr. Filch — e vi o rosto dele contorcer-se em um sorriso ao ouvir o pronome de tratamento que usei para agradá-lo —, Peço desculpas, mas tive um pequeno contratempo com uma das alunas da Sonserina, e ela escondeu meu uniforme enquanto eu nadava no lago. A quem devo reportar esta situação?
Vi nos olhos do homem que ele não sabia o que fazer. Eu tinha certeza que em seus muitos anos de serviço àquela escola ele nunca havia tido que lidar com uma situação do tipo. Atordoado, acenou com a mão para que eu o seguisse e nos levou até uma gárgula de pedra. Sussurrou algo próximo a ela, que girou para dar lugar a uma escadaria em espiral.
— É a sala do professor Dumbledore — ele murmurou; o respeito que sentia pelo bruxo era nítido na voz. — Ele irá recebê-la. — Seus olhos miúdos se espremeram ainda mais no rosto acinzentado. — Que isto não se repita!
Assenti, tentando esconder minha vontade absurda de rir da cara dele.
Pisei em cada degrau com a ponta dos pés, prestando atenção em cada ranhura do mármore. Pelo menos três homens e duas mulheres tinham passado por ali naquela manhã: o leve embaçado de gordura, sujeira e terra em forma de sola de sapato não seria visível para outra pessoa, apenas para uma muito bem treinada. Com mais alguns minutos de observação eu até poderia determinar o peso e altura aproximados de quem subira aquelas escadas antes de mim, mas não queria me atrasar para as aulas e precisava de minhas roupas. E mesmo que eu fosse uma bruxa altamente capacitada e membro do serviço internacional de inteligência bruxa, já estava começando a ficar um tanto desconfortável por estar seminua pelos corredores de minha nova escola.
Para ser muito sincera, eu não gostava de exposição daquela forma, e me sentia mal por ter aceitado uma missão que a exigia tão descaradamente. Mas sabia que era necessário e as preferências bobas de uma adolescente eram nada diante do cenário que eu poderia evitar com meu trabalho. E, bom, profissionalismo é tudo.
? — ouvi a voz do prof. Dumbledore me chamar, e saí de meus devaneios com um sorriso ensaiado quando caminhei em direção a sua mesa.
Ao contrário de todas as pessoas por quem passei naquela manhã após o incidente com Pansy, o diretor de Hogwarts não demonstrou nenhum indício de surpresa ao ver minha ausência de roupas adequadas. Na verdade, ele parecia quase divertido ao estudar meu rosto um tanto confuso, mas muito bem mascarado por uma expressão educada.
— Bom dia, professor, desculpe pelo incômodo — comecei, meu sorriso começando a vacilar um pouco. — Eu fui nadar no lago, parece que uma aluna achou que seria interessante esconder meu uniforme, e o sr. Filch disse que eu deveria falar com o senhor a respeito.
Seus lábios finos e cercados por rugas se curvaram em um sorriso mínimo.
— A senhorita é igual a seu pai. A mesma postura, o mesmo olhar determinado de quem está prestes a proferir uma resposta afiada... — abriu um pouco mais o sorriso. — Conheci-o quando fui visitar Castelobruxo há alguns anos; ele fazia parte da equipe destacada para minha proteção, por mais que eu argumentasse a seu Ministério que não era necessário — explicou ele, segurando uma mão com a outra.
Acompanhei o movimento com o olhar. Os dedos de uma delas estavam secos e enegrecidos. Reconheci de cara o tipo de ferimento: provavelmente havia pisado em solo amaldiçoado ou entrado em contato com algum objeto maldito. E algo me dizia se tratar do feio anel de pedra negra que levava no dedo médio da mão doente. Subi os olhos para o punho meio oculto pela manga da capa, cujas veias escurecidas se sobressaíam na pele clara. O feitiço estava se espalhando.
— Por seus olhos atentos e não curiosos em minha mão, presumo que já saiba do que se trata, srta. — disse ele calmamente, com um tom mais triste do que antes.
— Sinto muito, senhor — me desculpei rapidamente, para depois refletir se estava me referindo à falta de discrição de meus olhares ou aos sintomas que eu sabia que viriam em seguida.
— Eu também sinto, querida — seus olhos bondosos mostravam que ele sabia mais do que eu imaginava; portanto, aquelas palavras tinham muito mais significados do que o aparente.
Ficamos algum tempo em um silêncio polido até que ele o quebrou.
— Fique tranquila, , chamarei a srta. Parkinson aqui para uma conversa. — Com um aceno, meu uniforme e botas encharcados apareceram sobre a escrivaninha do diretor. Ele tocou os tecidos com a varinha, e toda a umidade foi sugada em segundos.
Franzi a testa ao receber a pilha de roupas em meus braços.
— Como sabe que foi Pansy? Não lhe contei isso — perguntei, pegando minhas botas.
Ele não respondeu, apenas desviou o olhar para minha pulseira.
— Bonita joia — elogiou, e cravou os olhinhos azuis nos meus novamente. — Tenha cuidado, srta. .
— Terei, professor — dei um sorriso rápido, para ir o quanto antes ao dormitório me arrumar.

* * *


Meus cabelos molhados e muito bem penteados para trás deixavam um rastro mais escuro de umidade na camisa branca, o que fazia alguns alunos me fitarem como se fosse algum tipo de aberração uma pessoa que tomasse banho antes da aula. Infelizmente (ou felizmente), eu não tinha tempo para lidar com aquilo. Faltavam apenas dois minutos para o início da aula, então apressei o passo a fim de pegar uma carteira com visão estratégica.
A sala de Defesa Contra as Artes das Trevas era escura e abafada, iluminada por chamas de velas e “decorada” com imagens grotescas de pessoas deformadas e em sofrimento, que não perdi muito tempo observando. Aquele tipo de lavagem cerebral já tinha sido feita em mim por muitos anos, obrigada.
Nossa aula era mista com alunos de todas as casas, e todos conversavam em voz baixa. Hermione me chamou para sentar com ela me lançando um sorriso amigável, e aceitei o convite.
— Ainda não acredito que Snape vai lecionar essa matéria — ela resmungou em voz baixa.
Snape, Snape, Snape... Tentei lembrar quem era aquele. Ah, sim. Severo Snape. Mestiço. Antigo Comensal da Morte, aparentemente fiel ao ministério e discípulo de Dumbledore. Lecionava Poções, suas vestes negras se enfurnavam a cada passo e o cabelo pedia desesperadamente por um bom xampu anti-resíduos. Minha descrição mental foi confirmada por sua entrada triunfal na sala fantasmagórica e caminhou até sua mesa, fechando bruscamente as janelas com a varinha.
Que simpático — comentei baixinho.
Aí iniciou-se todo um discurso sobre como as Artes das Trevas eram algo perigoso, disforme e constantemente mutável ou algo do gênero, que preferi categoricamente ignorar e prestar atenção em meu alvo, que estava a poucos metros de mim e fingindo concentração no professor, rindo a cada vez que algum aluno fazia comentários pertinentes à aula.
Basicamente, Draco Black Malfoy era um lindo, rico e enormíssimo babaca, característica que eu poderia chutar que provinha das outras duas. Minha vantagem era que eu era linda e rica (se considerarmos o dinheiro do Ministério), mas muito mais esperta que ele, o que quer dizer que usava minha simpatia para conseguir o que queria.
Praticaríamos feitiços mudos, habilidade que eu já dominava desde pelo menos meu terceiro ano em Castelobruxo. Apesar disso, eu sabia que era necessário manter meu disfarce de aluna comum intercambista, então não poderia exibir todo meu conhecimento de uma vez só. Erraria algumas vezes, mas logo em seguida executaria um feitiço simples sem enunciá-lo.
— ...MacMillan e Finch-Fletchley, Granger e Longbottom — prof. Snape começou a ler as duplas em voz alta —, Patil e Patil, Malfoy e , Potter e Weasley. — Severo fitou a todos severamente (uau, sou ótima com trocadilhos). — Podem começar.
A expressão no rosto pontudo e um tanto aristocrático de Malfoy ao me ver era indecifrável, mas eu podia notar como seus olhos pareciam curiosos, acesos, famintos. Sorri levemente erguendo as sobrancelhas e mordi o lábio inferior pelo lado de dentro. Uma provocação.
Pelo que eu tinha entendido, um deveria tentar azarar o outro, que rebateria com um Feitiço Escudo, ambos mudos.
— Prefere azarar ou defender? — perguntei gentilmente, tirando a varinha do bolso da capa.
— Defender — falou ele, com um sorriso zombeteiro —, Você não vai conseguir me azarar mesmo...
Ri com escárnio.
— Que gracinha, querido — e lhe acertei um Petrificus Totalus sem piedade ou me preocupar em fingir que não sabia.
Os olhos prateados do garoto se arregalaram quando ele caiu estrondosamente sobre uma carteira pela força do feitiço, deixando metade da turma em silêncio.
E me encarando.
Merda.
— Srta. — a voz irritantemente calma e grave de Severo Snape falou meu sobrenome lentamente como se temesse pronunciá-lo errado —, O que foi isto? Uma tentativa de nocaute?
— Foi um feitiço mudo, senhor — retruquei educadamente. — Acho só que exagerei um pouco.
Draco grunhiu, já que o feitiço ainda o impedia de se mover, mas Snape o desfez rapidamente.
— Ah, claro que acha — debochou Malfoy, livre do encanto e se levantando com dificuldade.
— Com licença, estou falando com o professor — falei, erguendo o queixo e voltando a mirar Snape. — Desculpe, acho que foi sorte de principiante. Terei mais cuidado.
— Sorte de principiante ou você simplesmente falou o feitiço?
Draco — advertiu Snape, olhando-o seriamente. Moveu os olhos negros para os meus . — Menos cinco pontos para a Grifinória. — Respirei fundo, tentando ignorar o calor em minha nuca que sempre vinha quando eu ficava com raiva. Aquilo era absurdamente injusto. O mestre virou-se para os demais alunos. — O que estão olhando? Continuem!
Todos desviaram o olhar e, lentamente, voltaram a praticar os feitiços.
— Irei observar vocês. Prossigam. — O homem cruzou os braços e permaneceu de pé perto de nós. — O sr. Malfoy irá azará-la agora, . — Dessa vez meu nome saiu de sua boca com um leve desdém, que só deixou minha nuca mais quente ainda.
— É, — riu-se o garoto —, Vamos ver se você é tão boa em murmurar Feitiços Escudo quanto é em falar azarações.
— Cala a boca, Malfoy — podia jurar que a parte de trás de meu pescoço estava já vermelha. Não podia deixar que aquilo chegasse ao rosto, porém. Snape limpou a garganta com um pigarro, nos alertando, e se afastou.
Cala a boca, Malfoy — repetiu, afinando sua voz e ficando na ponta dos pés em uma péssima imitação minha.
Revirei os olhos e não contive uma risada, o que o deixou surpreso.
— Olha só, você tem senso de humor — eu disse, me defendendo facilmente de um Feitiço da Língua Presa sussurrado por Draco.
A chama prateada nas íris dele pareceu aumentar. O loiro abriu a boca para retorquir algo, mas foi interrompido pela voz de Harry; ele berrara um Protego! que arremessou o professor até o outro extremo da sala, causando uma comoção.
Desliguei-me da barulheira da discussão e apenas analisei Draco. Prestei cuidadosa atenção em como os braços dele se flexionavam ao se apoiarem na carteira; como o cabelo platinado caía sobre a testa e começava a se grudar na pele clara; como a boca se entortava em escárnio e presunção ao ver Harry Potter discutindo com o mestre de Defesa Contra as Artes das Trevas; mas ainda havia algo de puro nos olhos dele. Era difícil acreditar que debaixo do tecido branco da camisa social a caveira negra cercada por cobras coexistia com aquela coisa boa que vi em seu olhar surpreso quando me fez rir.
O sinal anunciando o almoço me fez sacudir a cabeça e abandonar aqueles pensamentos. Draco Black Malfoy era mau. Era um Comensal da Morte, odiava trouxas, discípulo de Lorde Voldemort. Se houvesse qualquer bondade nele, era meu dever ignorá-la para que não atrapalhasse a missão.
Deslizei devagar o zíper da mochila depois de pôr minha capa lá dentro, e a pus nas costas. Afrouxei a gravata, desabotoei os três primeiros botões da camisa e dobrei as mangas até os cotovelos, prendendo o cabelo quase seco em um coque alto. Por Merlim, aquilo estava parecendo uma tarde abafada em Manaus. Enquanto desgrudava os fios úmidos do pescoço, vi que o loiro ainda guardava seu material e notei a dificuldade dele em colocar os livros na bolsa.
— Malfoy? — ele não se virou, mas parou de manusear seus pertences. — Você se machucou quando caiu?
Dei alguns passos em sua direção e lhe toquei levemente o ombro. Ao fazê-lo, minha pulseira emitiu um fraco brilho azul, aquecendo o metal, e logo apagou-se. Ele se voltou para mim.
— Estou bem — declarou, quase orgulhoso. — Não preciso da sua ajuda. — Hesitou por alguns segundos e completou, com a voz mais branda. — Obrigado.
— Tudo bem — apertei as alças da mochila e dei um sorriso, que torci para que parecesse inseguro e envergonhado.
Caminhei calmamente até a porta quando ele me chamou.
.
Sorri comigo mesma. Hm, tratamento quase cordial, pensei, isso é novo.
— Diga.
— Eu sei que você me azarou com um feitiço mudo — o sorriso torto voltou aos lábios dele —, Mas nada no mundo me fará admitir isso ao professor Snape.
Mordi o lábio inferior para conter um sorriso aberto que queria exibir, levando a atenção dele para minha boca.
— Boa tarde, Malfoy.
E fui almoçar.

* * *


Ao final do horário de intervalo (como a comida de Hogwarts era deliciosamente gordurosa, me permiti um breve cochilo em um dos divãs do salão comunal antes de fazer qualquer coisa), passei em meu dormitório rapidamente para trocar os livros que tinha na mochila e pegar meu kit para a aula de poções após o intervalo. Larguei a bolsa pesada sobre a cama e dediquei alguns segundos a examinar o tecido, iluminando a trama mais de perto com minha varinha.
Minha mochila era inteiramente feita com retalhos, sobras de tecidos que usávamos em Castelobruxo para a aula optativa de Artefatos Encantados. Foram costurados pelos hábeis feitiços de minhas amigas, que a fizeram para meu aniversário de dezesseis anos e a encantaram de várias formas: para que nunca rasgasse, coubesse tudo que eu quisesse e voltasse automaticamente para mim (sempre a esquecia pelos corredores). Mesmo que fosse um tanto estranha de se olhar, tinha uma história, o que me trouxe um sorrisinho aos lábios.
Abri o zíper da frente para pegar a folha com meus horários, mas ao deitar-me descuidadamente sobre a cama, amassei um pedaço de pergaminho que podia jurar que não havia posto ali. Estava coberta por uma caligrafia irregular que não reconheci, mas que me agraciou com uma risada ao ler.

Querida ,
gostaria de lhe pedir minhas mais sinceras desculpas pelo incidente com seu uniforme. Garanto que tal evento não irá se repetir.
Caso aceite minhas desculpas, o diretor informou que serei dispensada da detenção, mas sinta-se livre para recusá-las.
Suas botas são muito bonitas.
Atenciosamente,
Pansy Parkinson.


Imediatamente dobrei o papel na mão e me encaminhei para o Salão Principal, desviando da mesa da Grifinória em direção à da Sonserina. Foi inevitável o burburinho entre os primeiranistas.
A menina grandalhona de cabelos espessos que me atacara mais cedo estava praticamente no colo de meu alvo, o que era divertidamente irônico. O loiro, porém, parecia odiar a proximidade, mesmo sem fazer nada para evitá-la. O garoto de pele achocolatada e olhos esverdeados que estava sentado próximo ao casalzinho abriu um sorriso que eu só poderia classificar como lascivo, e rebati com uma careta levemente enojada.
— Olá, Pansy — apoiei minha mão delicadamente no ombro dela, fazendo-a largar Malfoy e me olhar com uma expressão aterrorizada. — Muito obrigada pelo bilhete — brandi-o na frente de seu rosto —, foi muita consideração de sua parte.
Os olhos de Blásio Zabini, o moreno bonito, brilharam ao focarem no limite entre a saia preta e minhas coxas expostas. Ergui as sobrancelhas para ele e me virei para Draco Malfoy, que encarava o colega com raiva. Apenas sorri amavelmente quando ele se virou para mim.
— Obrigada pela recepção calorosa, queridos sonserinos — debochei com uma reverência e completei num falso tom pomposo —, mas gostaria de tomar a srta. Parkinson emprestada por alguns segundos.
A garota ergueu as sobrancelhas mal desenhadas e torceu a boca, provavelmente pensando em uma resposta ácida na maior velocidade que seus limitados neurônios permitiam. Segundos de silêncio se passaram sem que ela se movesse, então revirei os olhos e troquei a postura amigável por uma mais intimidadora, apoiando as mãos espalmadas sobre a mesa e inclinando o corpo em sua direção.
— Olha, só queria dizer que, por mais que você tenha sido babaca comigo, não estou com disposição pra ficar aturando sua raivinha — falei, de forma falsamente cansada —, então, para todos os efeitos, aceito seu pedido de desculpas, te livro da detenção e todos ficam felizes. Tudo bem?
Ela pareceu quase ultrajada pela minha sugestão, e levantou-se devagar para me olhar no mesmo nível (o que me foi permitido graças aos saltos 13 de meus sapatos).
— Desculpe, — ela cuspiu meu sobrenome como se fosse um inseto que entrara em sua boca —, mas é muita prepotência de sua parte acreditar que eu prefiro ficar sem detenção do que ter uma dívida com uma sangue ruim latina qualquer.
Minha mão puxou a varinha de dentro do cano alto da bota e a brandiu na direção da sonserina sem mesmo que eu tivesse consciência. Pelo menos me contive o suficiente para não proferir uma azaração pesada, então a única coisa que aconteceu foi o crescimento assustadoramente veloz dos pelos do nariz de Pansy, que deu um guincho estridente ao vê-los já chegando na altura do decote. Porém, com um gesto displicente desfiz o encanto e ela se sentou, lívida.
Droga. Aquela garota estava fazendo eu me descontrolar seriamente, e ainda mais na frente de Malfoy.
— Tudo bem, pode ficar tranquila que comunicarei minha decisão ao professor Dumbledore — declarei. — E aproveitarei para completar meu relato, contando que você também me azarou para que eu me afogasse.
Claro que preferi omitir a parte que Malfoy me ajudara e tudo o mais, porque quem não queria contrair dívidas com ninguém era eu. Mas não pude deixar de notar o sorrisinho malicioso que se espalhou pelo rosto dele quando me afastei.



Capítulo 5

Draco POV

Por mais que gostasse de Poções, meu apreço pela materia diminuiu consideravelmente quando soube que seria lecionada por Slughorn e não Snape.
Tudo bem, continuava sendo um sonserino sangue-puro, mas não era esse o ponto. Horácio tinha uma predileção peculiar e desagradável por bruxos de destaque acadêmico ou que tivessem pessoas famosas na família. Apesar de pertencer à renomada árvore genealógica dos Black, sabia que tal fato não necessariamente contaria a meu favor para entrar no Clube do Slugue. Não que eu fizesse questão disso, também, mas era importante manter meu prestígio dentro de Hogswarts.
Durante toda a explicação excessivamente animada do professor sobre os diferentes tipos de poções que ele preparara e expusera na sala (e tecia insuportáveis elogios à Granger), alternei os olhos do pequeno caldeirão sobre a mesa principal e a figura pensativa de . Ela encarava as páginas do livro-texto com um olhar vazio, como se sua mente fosse um lugar muito mais interessante do que aquelas masmorras enevoadas.
Porém, quando Slughorn disse que deveríamos preparar uma Poção do Morto Vivo para em troca ganhar um frasco de Felix Felicis, concentrei-me em folhear febrilmente meu exemplar e picar raízes de valeriana o mais rápido que pude. Sem querer, minha faca causou um corte superficial no dedo, que rapidamente pressionei com a outra mão. Pigarreei ao ser fitado pelo professor.
— Professor — adotei uma postura segura —, acho que o senhor conheceu o meu avô, Abraxas Malfoy.
Talvez mencioná-lo não tenha sido uma jogada tão boa assim, a julgar pela resposta inexpressiva que recebi do mestre. Mesmo que fosse muito respeitado pela comunidade bruxa, meu avô ainda era responsável pela destituição do cargo do primeiro Ministro da Magia nascido trouxa — o que, a meu ver, deveria ser considerado um serviço à sociedade; como poderíamos ser governados por aqueles sangue-ruins?
Bufei. Aparentemente agora dependeria exclusivamente de meus (inexistentes) talentos em Poções para ganhar aquele frasco de Sorte Líquida. Seria muito bom ter esse tipo de ajuda para quando fosse executar minha missão, então me empenhar era essencial. Todavia, não pude deixar de reparar na forma como franzia a testa para ler as instruções e colocar cuidadosamente os ingredientes no caldeirão. Ela mexia o conteúdo com movimentos circulares firmes, e em pouco tempo o líquido já estava quase tão claro quanto água. Comecei a ficar mais tenso e ouvia meus batimentos ressoando nos tímpanos. O dedo cortado latejava e manchava a outra palma com gotas de sangue.
Me levantei bruscamente e caminhei até a garota, que recolhia um pouco da poção em um frasco para guardar na mochila. Era totalmente transparente.
— Já acabou?
— Já — ela ergueu o queixo e comprimiu infimamente a boca. — Por quê?
— Porque eu acho que você precisa purificar isso aí — e deixei o sangue de meu dedo escorrer para dentro do caldeirão dela.
Confesso que não esperava aquilo, mas a poção ficou inteiramente preta e sólida, e engoli em seco sob seu olhar chocado.
— O que... o que você... fez?
Meus lábios se partiram quando a pedra negra em seu braço assumiu um forte brilho escarlate e se levantou em um salto.
— Saia da minha frente agora antes que eu incendeie esse maldito caldeirão e jogue em cima de você — ela quase perfurou meu umbigo com a varinha, de forma a esconder a ameaça dos demais ocupantes da sala.
Voltei rapidamente para meu lugar, com um misto de sensações bem estranho.
Ao mesmo tempo que um sorriso presunçoso estava prestes a se formar em meus lábios, fiquei com... remorso?
Não. Definitivamente não era aquilo. Talvez fosse só uma espécie de angústia por ter visto a cor e consistência horrorosas que o líquido assumira só de entrar em contato com meu sangue; claro que devia ser uma reação normal à qualquer tipo de tecido humano que a contaminasse, mas em meu íntimo sabia que era mais que isso (o que nunca admitiria, obviamente).
Porém, meu esforço — tanto em relação à minha própria poção quanto à de — fora em vão: Potter acabou por levar o prêmio. Tentei conter ao máximo a careta que me veio ao rosto enquanto meu olhar desejoso acompanhava o frasco dourado entrando no bolso do garoto. Guardei o material, desgostoso, e coloquei a mochila nas costas. ainda tentava raspar o conteúdo do fundo caldeirão, e me lançou um olhar furioso. Apenas abri um sorriso zombeteiro e fui para o salão comunal da Sonserina.

* * *

Eu descontava a tensão que sentia nos ombros apertando a trouxa de toalha e roupas que tinha nas mãos, enquanto caminhava pelo corredor rumo ao banheiro exclusivo aos monitores. Disse a respectiva senha para que a porta se abrisse, e logo fui atingindo em cheio no rosto por uma onda de vapor perfumado. Um bom banho quente me ajudaria a eliminar a dor desagradável na parte superior das costas.
Desabotoei a camisa enquanto mirava meu reflexo no espelho. Estava mais pálido que o normal, pronunciando leves olheiras arroxeadas que começavam a se formar. Joguei o cabelo para trás, suspirando; já estava precisando de um corte na franja. Terminei de me despir, deixando as roupas largadas pelo banco, e entrei sob o chuveiro, ignorando a banheira por mais convidativa que parecesse. Achava aquilo terrivelmente anti-higiênico.
Após vários minutos de silenciosa paz, o ruído da porta se abrindo bruscamente irrompeu pelo aposento, e revirei os olhos, torcendo para que não fosse aquela estúpida fantasma outra vez. Porém, pela fresta do boxe tive uma surpresa.
tinha os cabelos próximos à raiz molhados de suor, e tinha o semblante agitado. Largou a mochila de qualquer jeito no piso frio, e pude ouvir os pesados livros se chocando com a brutalidade. Sentou-se ao banco bagunçado (e anotei mentalmente a cor de sua calcinha), revirando a bolsa multicolorida até puxar um pedaço de pergaminho. Olhou em volta e pude jurar que, por um segundo, ela me viu. Parei de espioná-la e prendi a respiração, esperando não ser encontrado.
Pouco depois, porém, todo o barulho que ela estivera fazendo com os materiais cessou, e voltei a observar pela fresta para ver se ela tinha saído. Pelo contrário: Alicia esbravejava furiosamente para o papel, que flutuava à sua frente com um aceno de varinha. Um berrador, certamente. Mas por que eu não conseguia escutá-la? E como raios ela tinha entrado ali se precisava de senha?!
Depois de cerca de dois minutos inteiros, a garota retomou a compostura, apoiando as duas mãos na pia de mármore e respirando fundo e vagarosamente. Refez o rabo de cavalo alto, penteando os fios com as mãos, e jogou um pouco de água da torneira no rosto. Tirou a camisa suada do uniforme, mas (para meu azar) vestia uma camiseta justa por baixo. Jogou a capa de qualquer jeito sobre si, com a gravata frouxa caindo sobre os seios, e saiu, me deixando com mil perguntas que não seriam respondidas.

* * *

POV

A pressão que a alça da mochila fazia em meu ombro só piorava o início da enxaqueca. Depois de uma densa aula de História da Magia e outra de Feitiços, só queria um pouco de descanso.
Minha mãe certamente ficaria uma fera ao receber o berrador, mas não podia reclamar; ela mesma dissera para eu ficar à vontade para lhe mandar cartas desabafando. Aquilo era uma carta, certo? E, afinal, era muito mais segura, pois só podia ser lida (ou ouvida) uma única vez.
Cheguei ao salão comunal querendo apenas pegar meus pertences e tomar um bom banho naquele toalete maravilhoso em que estivera. Provavelmente era exclusivo a algum grupo especial; os monitores, talvez? Bom, não importava. As senhas que eles escolhiam eram bastante óbvias (bolhas de lavanda, sendo que havia um quadro logo acima que retratava as duas coisas), e encantei a tapeçaria ali ao lado para que exibisse a senha bordada para mim sempre que a mudassem.
Hermione estava sentada à mesa comprida de mogno que era comum a todos, no canto mais isolado. Vários livros lhe faziam companhia; Rony, sua habitual sombra, comia algo e parecia prestes a cochilar, acomodado no sofá em frente à lareira. A garota subiu o olhar por um breve instante, provavelmente buscando inspiração, e focalizou meu rosto cansado. Sorriu.
— Oi, , senta aí — com o braço, afastou uma pasta de papéis avulsos para que eu me estabelecesse ali. — Você já terminou o dever de Transfiguração?
— Mais ou menos, só faltam uns dois parágrafos de conclusão. Por quê, teve alguma dúvida?
Ela ergueu mais o queixo, hesitando. Exatamente igual a mim: orgulhosa demais pra pedir ajuda.
— Na verdade, tive — admitiu por fim, expirando ruidosamente. — Esse requisito que McGonagall impôs não se encaixa de jeito nenhum na minha hipótese e não quero ter que reestruturar o trabalho todo só por causa disso.
Puxei um caderno de dentro da mochila e junto dele pulou algo a mais.
Uma gravata verde e prateada.
Franzi a testa, sem entender, mas apenas enfiei a peça de volta na bolsa e apanhei algumas canetas coloridas comuns.
— Deixa eu ver aqui — Hermione me estendeu o pergaminho, que já devia passar dos dois metros e meio. O meu chegara a um e setenta e não faltavam mais que dez centímetros para terminá-lo.
Identifiquei o problema em pouco tempo e expliquei calmamente a ela, que pareceu satisfeita e agradecida. Enquanto reorganizava minhas anotações de História, que se embolavam em um confuso redemoinho de notas autoadesivas, a menina resolveu puxar papo comigo.
— Hogwarts é muito diferente de Castelobruxo?
Ergui o rosto para vê-la.
— A diferença maior está nas pessoas — expliquei. — No Brasil, são mais calorosos. Sorridentes. Não sei explicar; é uma energia diferente... Mas tenho gostado sim. Provavelmente vou só estranhar o inverno.
— Entendi — ela organizou seu material em uma perfeita pilha, arrastando-a mais para longe, e apoiou o queixo nas mãos. — Nunca estive no Brasil, mas sempre tive vontade. Imagino que seja bem... exótico.
Sorri diante de sua escolha de palavras.
— Na verdade, algumas cidades se parecem bastante com Londres, em relação à movimentação e tudo — eu disse. — O Ministério nacional fica no Rio de Janeiro e não em Brasília, que é a capital do país, então...
Mordi a língua. Estava prestes a soltar que conhecia bem a cidade por conta do treinamento. Ai, ai, ai, , está ficando descuidada.
— Então frequento o Rio com frequência porque meus pais trabalham lá.
A conversa ia e vinha e, como só falávamos amenidades, aproveitei a ocasião para analisar sua linguagem corporal. E era bem claro que ela apontava imperceptivelmente para um certo ruivinho que estava no sofá perto de nós.
— Em relação às matérias, sente falta de alguma?
— Eu adorava Línguas Mágicas — revelei —; sou fluente em serêiaco e tenho nível intermediário em grugulês, ofidioglossia e trasgueano.
Ela pareceu surpresa. Apertei os dedos por baixo da mesa; talvez não devesse ter revelado que falava a língua das cobras. Era um boato no mundo bruxo que tal habilidade era relacionada às Artes das Trevas, e provavelmente tal noção seria bem enraizada em uma comunidade mágica tradicional como a da Inglaterra. Mas se Hermione pensou nisso, não demonstrou.
— Uau, então além de boa aluna também é poliglota — comentou, rindo. — Um excelente partido.
Ri também.
— Bom, estou solteira, então não deve ser tão bom assim — brinquei. — Mas falando sério, no momento estou com zero paciência para lidar com relacionamentos amorosos, então nem rola.
Não deixava de ser verdade; deveria focar unicamente em atingir Malfoy segundo havia sido solicitada, não caçando namorados.
Neste momento, um sonolento Rony se juntou a nós, e Hermione discretamente arrumou a postura na hora, o que não escapou a meus olhos ágeis.
— Do que vocês — um bocejo — estão falando?
— Garotos — respondi prontamente.
A garota a meu lado corou e abaixou os olhos, e um reflexo de compreensão perpassou meu rosto; claro. — Estava dizendo à Mione que meninos são insuportavelmente lentos e nunca percebem as coisas — olhei de esguelha para ela — mesmo quando estão bem na frente deles.
O garoto, ainda grogue, claramente não compreendeu minha indireta, então apenas sorri para mim mesma e batuquei as unhas na mesa. O salão comunal estava vazio, então convinha que eu me retirasse para deixá-los sozinhos.
Me despedi de ambos afetuosamente e subi em pulinhos as escadas até o dormitório, porém tendo um vislumbre de Harry Potter atravessando o buraco do retrato, para completar o trio de ouro naquela noite.






Continua...



Nota da autora: Olá, pessoal! Sei que tem séculos que não atualizo, então peço que me perdoem! Estou realmente sem tempo e cheia de trabalhos/provas da escola. Espero que tenham curtido esse capítulo e logo mais sai o próximo! (Ah, e gostaria de enaltecer a paciência que a Naty tem comigo, esta autora relapsa e lenta. Ela é top). Beijinhos, Bela.




Nota da beta: Ai, esse Draco, que maldade ter feito isso com a pp, ela ainda conseguiu manter a classe, não sei teria essa capacidade, confesso haahhaahaha! Continue <3
Meu Deus, você que é top, sabemos que não é fácil conciliar tudo, fica em paz, Bela! Tamo junto <3 <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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