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Última atualização: 09/08/2020

Prólogo

— Você entende a responsabilidade que essa tarefa implica?
Revirei os olhos. Era a décima sétima vez que minha mãe repetia aquela frase só naquela tarde, se não me falhavam os cálculos.
— Entendo — falei, passando a varinha pelas unhas distraidamente e vendo-as mudar de cor. — É uma questão de segurança internacional bruxa, etc, etc. Eu já entendi. E posso fazer isso sem problemas.
O funcionário do Ministério britânico apertou os lábios numa linha fina, como se não estivesse achando aquilo tudo uma boa ideia, mas sabia que não tinha escolha senão aceitar minha ajuda.
— Está bem, vou pedir sua transferência de Castelobruxo para Hogwarts hoje mesmo. — Ele pegou um pedaço de pergaminho e escreveu qualquer coisa com uma pena vermelha. Virou-se para minha mãe e disse: — A senhora sabe, não é muito comum alunos mudarem de escola no penúltimo ano, então as atenções estarão voltadas para sua filha e...
— Eu estou aqui, senhor, — me debrucei sobre a mesa na direção do homem, que arregalou os olhos verde-escuros em surpresa; certamente não era comum para ele que garotas de dezesseis anos o interrompessem — sabe, e tenho certeza que o Ministério da Magia do Reino Unido não destacaria para isso uma bruxa que fosse incapaz de entender uma conversa.
Ele engoliu com força, claramente intimidado. Sentei novamente com um sorriso falsamente meigo.
Era por isso que eles tinham me escolhido, e não uma garotinha inglesa qualquer. Tiveram que mandar um funcionário atravessar o oceano até o Brasil para que eu pudesse cumprir aquela missão dentro da escola deles, para ajudar a resolver o problema deles.
— Claro, claro, desculpe, srta. — gaguejou o bruxo com as bochechas ruborizadas, pegando uma pasta fina de dentro de sua bolsa. — Aqui estão às informações que a senhorita precisará. O... er... equipamento necessário será... Trazido por um agente especializado em breve.
Apertei a pasta e lancei um sorriso convencido para o funcionário, que se apressou mais ainda a guardar sua papelada.
O homenzinho saiu sobre completo silêncio meu e de minha mãe; o único ruído que se ouvia era o de seus sapatos lustrados batendo contra o chão, impulsionando o corpo para frente em passos largos demais para suas curtas pernas.
Virei à cadeira giratória devagar para encarar minha mãe atrás de mim. Ela sorria.
— Você consegue, não é?
Ergui as sobrancelhas. Aquela pergunta era um insulto às minhas capacidades. Ela riu.
Saí da sala de jantar desenhando círculos no ar com a varinha, porém sem emitir nenhum feitiço. Entrei em meu quarto e abri a pasta para analisar a imagem do meu alvo.
Ao contrário das fotos bruxas normais, esta era estática e parecia ter sido tirada numa dessas câmeras instantâneas que os trouxas tanto gostam. Rapidamente reconheci o desenho negro intrincado no antebraço pálido. A área em volta estava vermelha, como se fosse uma tatuagem recém feita. Examinei o resto da fotografia. Os cabelos curtos, quase brancos de tão loiros. A expressão presunçosa e o sorriso torto, mas que não conseguia esconder por completo o medo nos olhos cinza. Sorri para mim mesma.
— Fique tranquila, mamãe. — Passei os dedos pela caveira preta impressa na pele do garoto. — Vai ser como tirar doce de uma criança.




Capítulo 1

, você está MUITO atrasada! — minha mãe berrou, e me sobressaltei enquanto tentava passar o delineador.
— Droga — murmurei, embebendo um cotonete em demaquilante para consertar o borrão. Terminei o traço rapidamente, joguei a máscara de cílios dentro da mochila pesadíssima e peguei a gaiola de Twiggy, que piou baixinho. — Tô indo, mãe!
Desci as escadas apressadamente e vi que minha mãe não estava sozinha.
Uma bela mulher de cabelos tão negros que beiravam o azul me olhou severamente.
— Olá, srta. . Eu sou Clarissa Manteuff e vim lhe dar as instruções finais para sua missão.
Assenti, sem entender direito o que ainda faltava. Eu havia sido treinada rigorosamente no Departamento de Aurores Brasileiro, no Rio de Janeiro, por mais de dois meses. Isso somado à minha experiência adquirida com meus pais e minhas excelentes notas nos NOMs seria o bastante, eu imaginava.
— Nós optamos por lhe dar este artefato apenas de última hora para evitar problemas, por tratar-se de um item mágico muito poderoso e, portanto, inadequado para ser usado fora de uma comunidade unicamente bruxa. — ela tirou a varinha das vestes, junto de uma pequena caixa marrom.
Tocou o recipiente levemente com a ponta da varinha e ele se abriu, revelando uma pulseira prateada que brilhava contra o forro preto de veludo.
— É uma pulseira... incomum — Clarissa explicou, um pouco a contragosto. — Eu nunca confiaria algo tão poderoso a uma garota tão jovem, mas...
— Para que serve isso na minha missão? — a cortei, impaciente. Eu não queria perder o Expresso e ela estava me atrasando.
— Você deve tocar a pele do seu alvo com esta pulseira.
Arqueei as sobrancelhas. Fácil demais, não podia ser só isso.
— Porém...?
— Isto — ela apontou para a pedra central do artefato — é o diamante que restou do diadema de Rowena Ravenclaw. Foram escolhidos treze diamantes perfeitos para a joia da fundadora de Hogwarts, mas apenas doze foram usados. O último foi descartado porque... — a mulher hesitou.
— Por que...? — minha mãe também estava com vontade de acabar aquela conversa o mais depressa possível.
— Este diamante é muito... temperamental — ela disse. — Rowena se recusou a incluí-lo no diadema por medo que ele fizesse as emoções atrapalharem sua inteligência. Então, você deve tocar a pele marcada do alvo com ele, mas é necessário que haja uma emoção no corpo dele pelo portador da pulseira para que a magia funcione.
— Eu entendi essa parte — falei. — Minha missão é seduzir o garoto para tirar a Marca Negra dele, afinal.
Sua expressão dizia que ela queria falar algo mais, porém desistiu. Com cuidado, ela abotoou a joia em meu pulso esquerdo. A pedra assumiu rapidamente um tom vermelho sangue e depois voltou ao normal.
— Bom, não quero lhe atrasar mais. Qualquer problema me mande uma coruja.
Agradeci com um aceno de cabeça, mas uma pergunta apareceu em minha mente.
— Clarissa! — a mulher se virou ao ouvir seu nome, já longe. — Só não entendi uma coisa.
— Diga. — Ela se aproximou novamente.
— Por que vocês querem tirar a Marca Negra especificamente dele? Seu rosto se petrificou. Decerto não sabia se podia revelar aquela informação, mas por fim decidiu fazê-lo.
— Uma vidente, Joanne Rowling, nos enviou uma carta. — Pausa. — Eu sei que pode parecer idiota basear uma missão tão perigosa numa previsão de uma bruxa, mas tudo o que ela viu até hoje se cumpriu, então o Ministério confia bastante nela. Bom, o caso é que a sra. Rowling viu que pela Marca desse garoto começaria a guerra. Então precisamos tirar a Marca dele.
A explicação era absolutamente ridícula. Destacar uma garota do outro lado do mundo para cumprir uma missão baseada em adivinhação? Se a mídia soubesse disso, o Ministério britânico seria motivo de piada. Mas preferi não dizer nada. Eu tinha algo para cumprir. Um mundo para evitar destruir. E acima de tudo, um garoto para seduzir.

* *


— Posso sentar aqui?
A porta de uma cabine estava entreaberta. Duas garotas de gravatas azuis e prata, parecendo ser um pouco mais novas que eu, me encararam.
Minha gravata não tinha a cor de nenhuma casa, mas eu era grande demais para ser do primeiro ano. Elas nunca tinham me visto, e minha abordagem não fora das mais delicadas. Não era de difícil concluir a resposta que eu receberia.
— Desculpe — a mais baixa, que tinha uma franjinha, sorriu amarelo. — Nossas amigas estão vindo e pediram para guardarmos lugar.
Sorri confiante, e a boca da menina tremeu, intimidada.
— Obrigada — e saí.
Entrei numa cabine vazia e puxei minha pequena bolsinha preta de couro. Tirei um estojo de pó compacto e a máscara de cílios, e apliquei o produto cuidadosamente.
O trem começou a se movimentar e ninguém entrou na cabine onde eu estava, então estiquei as pernas sobre o banco e peguei minha varinha. Estava brincando de disparar faíscas de diferentes cores quando minha porta foi aberta violentamente. Ergui os olhos preguiçosamente.
Era ele.
Estava olhando para o corredor com uma expressão furiosa ao entrar e só depois me viu, deitada sobre um dos bancos. Seu olhar subiu indiscretamente por meu corpo; uma menina mais tímida teria corado. Cruzei as pernas e sorri.
— Quem é você? — perguntou rispidamente; sua voz tinha uma nota de desprezo.
— Ora, vejo que alguém não recebeu educação por aqui — retruquei no mesmo tom. — Você que entrou na minha cabine, então se apresente.
— Draco Malfoy. E foi você que não recebeu educação; sua mãe nunca lhe ensinou a se sentar direito?
— Bom, acho que a minha falta de educação te agradou enormemente, não é? Você não tirou os olhos das minhas pernas...
— Até parece que eu me interessaria por uma sangue-ruim como você — desdenhou, se jogando no banco à minha frente.
Descruzei as pernas lentamente. Ele seguiu o movimento e depois me encarou. Ri.
— Meu nome é — falei. —, só pra você. E me dê licença, eu quero ficar sozinha.
— Essa cabine é pública, e é aqui que ficarei. — ele disse, implicante.
— Tanto faz, Malfoy — falei seu sobrenome com desprezo, porém com a voz sem um único traço de emoção.
Ele pareceu surpreso com a minha falta de reação, e permaneceu em silêncio.

Draco POV

Pansy estava absolutamente insuportável. Eu estava na cabine com ela, Zabini e mais alguns sonserinos quando fiquei farto daquela conversa mole e resolvi espairecer. Aquele trem era enorme; com certeza haveria uma cabine vazia onde eu pudesse ficar.
Olhei para o corredor e vislumbrei uma garota vestida com uma capa da Sonserina que parecia demais com a Parkinson, então praticamente pulei dentro de um daqueles compartimentos. Sorte que estava vazio.
Ou melhor, não estava vazio.
Uma garota estava esparramada desleixadamente sobre o estofado macio do trem. Sua saia de pregas me dava um belo vislumbre das pernas, e a camisa de botão parecia justa demais. Quer dizer, pra mim estava ótimo...
Apesar do meu olhar um tanto malicioso, o rosto dela não estava ruborizado. Estranho. Será que não tinha me visto? Mas ela estava me encarando...
Eu nunca a tinha visto na vida. A gravata não tinha a cor de nenhuma casa; provavelmente era intercambista. Argh, as intercambistas sempre são sangue-ruins. Que droga.
— Quem é você? – perguntei.
— Ora, vejo que alguém não recebeu educação por aqui. Você que entrou na minha cabine, então se apresente.
Fiquei sem fala por um segundo. Eu já tinha abordado novatas daquela forma várias vezes, e a reação era sempre a mesma: vergonha e o nome sendo dito num sussurro.
— Draco Malfoy — falei. — E foi você que não recebeu educação; sua mãe nunca lhe ensinou a se sentar direito?
Ahá. Toma essa agora.
— Bom, acho que a minha falta de educação te agradou enormemente, não é? — ela mordeu os lábios, contendo um sorrisinho. — Você não tirou os olhos das minhas pernas...
Desconcertei-me por um milissegundo, admito. Mas é que aquelas meias sete oitavos não estavam me deixando pensar.
— Até parece — declarei — que eu me interessaria por uma sangue-ruim como você.
Imitei sua posição largada no banco oposto. A garota ficou em silêncio e apenas descruzou as pernas, atraindo totalmente meu olhar. Sua risada se fez ouvir pela cabine.
— Meu nome é , pra você. E me dê licença, eu quero ficar sozinha.
Mas que garota petulante!
— Essa cabine é pública, e é aqui que ficarei. — Tenho certeza que soei como uma criança mimada, mas não liguei.
— Tanto faz, Malfoy.
Meu nome ficou incrivelmente sensual na boca dela. Preferia não retrucar nada, e vi-a tirar um batom da bolsa. Era vermelho, e ela aplicou aquilo nos lábios com maestria.
Bufei.
— O que é? — perguntou, com um traço de irritação.
— Batom vermelho. É tão desnecessário. Não gosto de garotas que usam.
Eu juro que achei que ela fosse apenas sorrir sem graça e guardar o batom, mas não.
— Ah, é? — se levantou e sorriu para mim. — Engraçado, esse batom subitamente virou meu favorito. — Se aproximou de mim e tocou os lábios lentamente na minha pele da bochecha. — Pronto, agora você está marcado com ele.
Por algum motivo, tive a impressão que ela deu ênfase à palavra “marcado”, mas acho que foi só impressão. Passei a mão com força pelo rosto e meus dedos voltaram grudentos e avermelhados.
— O QUÊ? — me enfureci. Quem aquela sangue ruim pensava que era? Levantei do banco, cerrando os punhos. — Tira isso da minha cara agora.
riu.
— Deixa, você ficou uma gracinha assim.
Eu não sou uma gracinha. Eu sou loiro, alto, bonito e sensual, não uma gracinha. Aquilo era uma ofensa.
— Isso é uma ordem, sua sangue ruim imunda — aumentei o tom de voz, sentindo a raiva subir também.
Nem deu tempo de ver nada; quando caí em mim, ela já estava me pressionando contra a parede, agarrando meu braço de forma bem dolorosa e com as pernas posicionadas de tal forma que um mínimo movimento me faria ir ao chão.
Eu fui imobilizado por uma garota. Sem uma varinha.
— Meu sangue é tão ou mais puro do que o seu, Draco Malfoy — ela sussurrou no meu ouvido, completamente enraivecida. — E, mesmo que não fosse, o único sangue ruim aqui é você; não pode falar da família de ninguém quando a sua é o que é.
— Não ouse falar da minha família, — falei entredentes, e ela torceu mais meu braço. Grunhi.
— Então cala essa boca e saia já daqui.
Finalmente ela me soltou. Devagar me virei e a encarei, nossos rostos próximos o suficiente para que eu notasse as leves sardas em sua pele, não cobertas pela maquiagem, prováveis frutos do excesso de sol que ela pegava no lugar de onde vinha.
Desviei os olhos e me empertiguei antes de sair.
— Você vai se arrepender, garota.
E bati a porta com força para voltar a Pansy e Zabini.




Capítulo 2

Draco POV

Quando a profa. Minerva chamou “, !” para Hogwarts inteira ouvir, pausei momentaneamente meus pensamentos e olhares sobre comida para direcioná-los à dona do nome pronunciado. Foi a última a ser chamada para a seleção, e desconfio que fosse pela idade.
O barulho de suas botas pretas de salto era a única coisa que se ouvia no Salão. Toda a ala masculina daquela droga de escola não conseguia desviar os olhos da morena que desfilava com confiança sobre o pequeno palco. O Chapéu foi posto sobre seus cabelos bem penteados. Foi parecidíssimo com minha seleção; o selector mal tocara minha cabeça e minha casa já estava decidida. Mas no caso de , o que foi dito foi… — GRIFINÓRIA! — e a mesa oposta à minha explodiu em aplausos e gritos.
Confesso que uma pontada de decepção me atingiu, e pude observar que todos os donos dos olhos da Corvinal, Sonserina e Lufa-Lufa que seguiam o rebolado de sentiram o mesmo.
Dumbledore falou suas palavras habituais e o jantar finalmente foi servido.
— Quem é aquela gostosa que foi pra Grifinória? — Zabini engoliu uma garfada de batatas rosti e sorriu maliciosamente. — Não deve estar no primeiro ano, mas mesmo se estivesse...
— Você é doente, Blásio — resmungou Pansy, aborrecida.
— Ela deve ser parte veela, não é possível — opinou alguém, cuja voz não reconheci.
— Claro que não, seu idiota, ela é morena — corrigiu outro, rindo.
— O que você acha, Draco? — perguntaram, certamente por eu estar quieto demais.
— Bom, certamente ela é uma sangue ruim que não merece nosso tempo — desdenhei, cruzando meus talheres para esperar a sobremesa.
Todos ficaram em silêncio. Pansy parecia quase feliz com minhas palavras, e tocou levemente meu joelho com o seu por baixo da mesa.
— Não estou falando em casar com ela, Malfoy — Blásio falou com cuidado.
— Eu sei, até porque seus pais te deserdariam — ri, tentando descontrair, e eles me imitaram.
Cruzei os olhares com por entre os cabelos de dois primeiranistas da Corvinal. Ela riu e passou levemente o dedo pela própria bochecha, apontando pra mim e desviando os olhos logo em seguida. Imitei o gesto e senti o batom grudento dela ainda ali.
— Droga — murmurei baixinho, e as portas do Salão Principal se abriram. Lá estava Potter, com o nariz sujo de sangue seco. Sorri, mas nem tive tempo de saborear minha vitória, pois a Parkinson começou um de seus ataques de pelanca.
— Draquinho, o que é isso? — ela passou a unha pela mancha vermelha em minha pele. — Isso é batom?! — deu um gritinho, num princípio de histeria.
— Não lhe interessa. E não encoste em mim.
— É a mesma cor do batom daquela sangue ruim da Grifinória — choramingou ela, atraindo a atenção de Zabini.
— O quê? — sua expressão surpresa foi se tornando um sorriso cheio de malícia ao verificar a marca. — Ahá, o Malfoy se deu bem...
Lancei-lhe um Avada com os olhos, e ele deu um risinho, se concentrando no Devil's Cake a sua frente.
Procurei novamente e vi que ela conversava animadamente com Potter e Weasley. Argh.
Ela notou que eu a encarava, e apenas balançou a varinha em minha direção. Olhei em volta, sem entender, e vi que a calda de chocolate sobre o sorvete em meu prato formava as seguintes palavras:
Perdeu algo na mesa da Grifinória, Malfoy?
ria da minha cara de tacho ao lado dos amiguinhos. Granger virou para tentar entender do que a garota ria, e ergui as sobrancelhas para ela. Sua reação limitou-se à uma careta de desprezo.
Eu ainda ia me irritar com essa POV

Draco Malfoy definitivamente não era feio. Não. Ele era muito bonito, aliás. Era loiro, alto, bonito e sensual. E, por Merlim, era muito charmoso. O que ajudava bastante a aumentar minha disposição para cumprir a missão.
Bom, não que isso importasse muito. Eu cumpriria a missão mesmo que meu alvo fosse Neville Longbottom. (Se bem que eu desconfie que Neville vá ficar bem bonito depois da escola, então sejamos legais com ele). [n/a: Você nunca esteve mais certa, querida !]
Estávamos saindo do Salão Principal para irmos à sala comunal da Grifinória, e eu conversava animadamente com a ruivinha quintanista simpática, Gina.
— Adorei suas botas, ! — a garota disse.
— Ah, obrigada, Gina. Mas pode me chamar de .
— Ah, tudo bem então, . — A garota sorriu.
Uma menininha do primeiro ano passou correndo por mim e balançou minha bolsa, fazendo algo cair. Tentei olhar em volta para ver do que se tratava, mas não achei nada. Senti uma mão segurar meu braço e me puxar na direção da parede, saindo do fluxo de alunos.
— Seu batom, — debochou Malfoy, esticando o objeto para mim.
— É pra você, Malfoy — resmunguei, tentando pegar o batom da mão dele. Draco ergueu no alto, deixando-o fora de meu alcance. — Por Merlim, você é um bebezão.
— E você é uma garotinha patética — retrucou ele.
Finquei meu salto no pé do garoto, que gritou.
— AAAAAAA! Você é louca? — ele se afastou num pulo, com a expressão horrorizada.
— Não. Sou uma garotinha patética, não é? Uma garotinha que vai chutar esse seu belo traseiro com botas Prada — tomei meu batom da mão dele. Num segundo reapliquei-o e aproximei os lábios de seu ouvido. — Cuidado, querido. — ele se arrepiou quando meus lábios tocaram a pele macia sob sua orelha, deixando a marca de minha boca em vermelho. — Você não sabe com quem está lidando.
Afastei-me, deixando-o atordoado para trás.

***


— Onde você estudava antes de vir para cá, ? — perguntou a menina de cabelos cheios, Hermione. Ela era um amor, mas parecia bem mais tímida do que eu.
Bom, não que isso conte muito. Posso contar nos dedos de uma mão a quantidade de pessoas que conheci que fossem menos tímidas que eu.
, por favor, Hermione — falei, com um sorriso. — Estudava em Castelobruxo, conhece?
— Claro! — disse ela, animada. — Você deve ser muito boa em Herbologia e Trato das Criaturas Mágicas, imagino. Dizem que essas matérias são o grande forte de Castelobruxo.
— Bem, não era a primeira de minha turma em Herbologia, mas acho que vou conseguir acompanhar vocês. — Ri simpaticamente. — Sempre fui melhor em Defesa Contras as Artes das Trevas e Poções, eram minhas matérias preferidas.
Poções? — Harry Potter se intrometeu, fazendo uma careta. — Como é possível que Poções seja a matéria preferida de alguém?
— Bom, com certeza é a do Malfoy — disse o ruivo Ron Weasley, irmão de Gina que estava no meu ano. — O Snape sempre criou um ambiente propício para eles puxarem o saco um do outro...
— Malfoy? Esse de quem vocês estão falando é o Draco, aquele garoto loiro? — perguntei, apesar de saber exatamente a resposta.
— Sim, por quê? — Ron pareceu curioso. — Já o conheceu?
— Pois é, tive esse desprazer ainda no Expresso — revirei os olhos.
— Mesmo? — Harry se interessou, debruçando-se por cima do braço da poltrona. — Como?
— Ah, eu estava sozinha numa cabine do Expresso, e ele apareceu lá. — contei, levando à boca um Bis da caixa azul escura que peguei de meu malão com um Feitiço Convocatório. — Aceitam?
Todos pegaram um dos chocolates.
— Mas vocês chegaram a conversar? — insistiu Harry, tentando (em vão) não deixar transparecer sua curiosidade.
— Mais ou menos — mastiguei e engoli o doce. — Ele me insultou a maior parte do tempo. Mas pelo menos eu o expulsei da cabine como ele merecia.
— Perdão? — Hermione arregalou os olhos, sem conseguir esconder o riso. — O que você fez?
— Deixa eu mostrar — Sorri, me levantando. — Preciso de alguém para a demonstração.
Seguiu-se um atropelamento para que os meninos decidissem entre si quem ia fazer o papel de Draco em minha pequena encenação. As meninas riram, mas percebi que Hermione fechou a cara quando Ron se levantou e sorriu para mim.
— Ok, eu tenho que fingir que sou o babaca escroto e mimadinho do Malfoy — disse ele.
— Isso — me aproximei dele, ficando em pé em sua frente. Virei-me para a pequena plateia. — Basicamente ele estava aqui me chamando de “sangue ruim” e tudo o mais quando eu… — agarrei o braço de Ron e o torci com força por cima dos cabelos vermelhos do garoto, colando meu tronco no dele — …fiz isso, e encurralei ele na janela.
O salão comunal explodiu em risadas, e até mesmo Hermione esboçou um sorriso.
— Incrível, — Harry passou a manga por baixo dos óculos para secar o canto dos olhos. — Me lembre de nunca arrumar uma confusão com você! Malfoy que se cuide…
Sorri levemente. Harry não sabia o quão certo estava.

Draco POV

— Parkinson, o que raios são botas Prada? — entrei na sala comunal da Sonserina já furioso.
— O que foi, Draquinho? — ela ronronou, deixando de conversar com Emilia Bulstrode para me encher de mimos ridículos.
— O. Que. São. Botas. Prada? — repeti pausadamente, já sentindo mais irritação me subir à cabeça.
— Ah… Prada é uma marca de bolsas e calçados dos trouxas — ela encolheu os ombros. — Um par de botas lá deve custar uns… deixa eu ver… cem galeões? — Isso tudo por sapatos? — Bulstrode espantou-se. — Que absurdo. E nem ao menos são mágicos.
— Por que a pergunta? — Zabini pulou por cima do sofá e sentou-se do meu lado, com uma expressão maliciosa. — É essa a marca das botas da ?
— O quê? Não — gaguejei. — Quer dizer, não sei. Por que haveria de saber?
— Sei lá. — Ele apertou os olhos na minha direção e riu. — Por quê você está com uma marca de batom vermelho no pescoço?
Todos os sonserinos presentes no recinto me encararam, procurando a impressão que a boca de deixara.
Que merda.
— DRACO! DE QUEM É ESSE BATOM? — Pansy gritou, a voz afinando a cada sílaba até perfurar meus tímpanos.
— Cale a boca, Parkinson, minha vida pessoal não lhe diz respeito — esbravejei, passando a mão pelo pescoço e a recolhendo rapidamente. Esbarrar na Marca recém feita ainda doía. Levantei-me e fui para o dormitório, resmungando um “boa noite”.
Ainda escutei a risadinha de Zabini, que explicava a situação toda para Crabbe, Goyle e quem mais quisesse ouvir.
Escroto.



Capítulo 3

POV

Estava insuportavelmente quente naquela manhã. Acordei muito cedo, ainda acostumada ao fuso horário do Rio de Janeiro. Por sorte, a profa. McGonagall já estava de pé, tomando seu café tranquilamente, quando entrei no Salão Principal.

— Bom dia, professora — cumprimentei, com um sorriso.
— Bom dia, srta. — ela devolveu o cumprimento, limpando a boca com o guardanapo. Fitou meus cabelos rentes ao rosto, já molhados de suor. — Muito quente hoje, não?
— Pois é... E é mais ou menos sobre isso que gostaria de falar com a senhora — me adiantei, escorregando pelo enorme banco da mesa da Grifinória até ficar mais perto dela. — Sabe, em Castelobruxo era muito quente o ano todo, então tínhamos permissão de nadar no rio pela manhã antes das aulas.
— Ah, já soube desse costume — ela deu um gole no suco de abóbora — e falei com o prof. Dumbledore. A senhorita está autorizada a nadar no lago, na área delimitada pelo diretor. Você verá qual é. Na verdade todos os alunos podem fazê-lo, mas não têm o hábito... Infelizmente. Seria saudável para eles de vez em quando.
— Muito obrigada, professora! — já fiquei mais animada. — Outra coisa: onde posso pegar meus horários deste ano? Presumo que meus resultados dos N.O.M.s já tenham sido encaminhados para cá.
— Sim, sim — ela pegou uma folha de papel e deu uma batidinha nela com sua varinha. — Aqui estão. Seus resultados foram realmente impressionantes, srta. . Parabéns.
— Obrigada! Vou deixá-la para tomar seu café tranquilamente — me despedi, e ela acenou.
Estava enchendo um copo com leite frio e puro ("Um Nescau caía bem agora", pensei) quando Draco Malfoy entrou no Salão.
Ele se sentou à mesa da Sonserina e pôs uma torrada e ovos mexidos no prato. Encheu o copo de café fumegante e respirou fundo. Sua expressão não estava muito contente. Um risinho deixou meus lábios e ele me encarou seriamente.
— O que é tão engraçado?
— Alguém não está tendo uma boa manhã, não é, Malfoy?
— Alguém anda se metendo demais na vida dos outros, não é, ?
Sorri amavelmente e dei um gole no meu leite.
— A propósito, dormi muito bem hoje e estou adorando Hogwarts, obrigada por perguntar.
— Por Merlim, você é insuportável — ele resmungou.
— Boas aulas para você também, Malfoy — eu disse, me levantando e indo ao meu dormitório.

***


— Ai, eu vou MATAR a vaca que me acordou tão cedo! — berrou Gina quando, com um estrondo, deixei cair minha vassoura no chão, que estivera apoiada no malão. — São seis e quinze e as aulas começam às oito!
— Pode tentar, mas meu Feitiço Escudo é bem forte — eu disse, abotoando a blusa do uniforme por cima do biquíni preto. — Bom dia, Gina.

— Ah, é você, ... Desculpe — ela ruborizou, cobrindo-se até a cabeça com o edredom macio.
— Não se preocupe, você foi uma lady agora comparada ao que eu normalmente sou de manhã — ri, deixando o dormitório.
Harry, Rony e Hermione conversavam com ares de segredo num dos sofás, e acenei para eles. Todos sorriram e me cumprimentaram de volta.
Em pouco tempo eu já estava ao ar livre, com o sol esquentando meu corpo mais ainda.
Minha capa já estava no chão, bem como as meias e os sapatos. Tudo estava dobrado numa pilha organizada, e foi a sombra projetada sobre ela que me alertou sobre a aproximação de alguém.
— O que você pensa que está fazendo?
Uma menina de cabelos escuros tinha as mãos na cintura e me encarava com uma expressão ameaçadora. Sua gravata era verde. — Ah, olá — estendi minha mão para ela. — Sou , estou no sexto ano da Grifinória.
A menina ignorou minha tentativa de ser educada. Recolhi minha mão.
— Pansy Parkinson. — se apresentou ela, de má vontade. — E o que você está fazendo?
— Ah, vou nadar um pouco.
Nadar?
"Não, não, estou tirando a roupa porque vou fazer um striptease para Hogwarts inteira às seis e meia da manhã, porque o fato de eu ter sido selecionada ontem apesar de estar no sexto ano não foi suficiente para chamar atenção", tive vontade de retrucar.
— É — falei simplesmente, desabotoando a camisa e tirando a saia, ficando apenas com o biquíni.
Pansy analisou meu corpo dos pés à cabeça e fez uma careta de desdém, girando a capa ao se afastar.
Amarrei na coxa direita a faixa que usava para prender a varinha, andei alguns passos e senti a água fresca molhar meus pés. Fechei os olhos. Quase conseguia sentir o cheiro da floresta que circundava Castelobruxo, ouvir os pássaros, ver minhas amigas jogando água em mim, rindo e falando: "Vem logo, !", e...
— O que você pensa que está fazendo?
A voz dessa vez era masculina, e deu uma leve gaguejada. Abri os olhos e me virei, com a varinha em punho e pressionando-a contra o corpo da pessoa.
Era Draco.
— Pelas barbas de Merlim, qual o problema de vocês, sonserinos? — bufei, levando a varinha novamente à minha perna.
— Como assim?

— Chegam tão sorrateiramente e sem motivo. — Cruzei os braços sobre os seios, que ele encarara por um segundo. — Além do mais, aquela garota Parkinson já veio aqui e me perguntou a mesma coisa que você.
— Ah. — Ele continuou inexpressivo. — O que você está fazendo aqui, de qualquer forma?
— Eu só vou nadar, Malfoy. Pare de se meter na minha vida, você nem me conhece.
Me virei e pulei na água, sem lhe dar tempo para que falasse mais nada.
Meu corpo experimentou uma sensação de relaxamento quando foi envolto completamente pelas águas escuras do lago. Tão diferente do rio em que estava acostumada... Não havia correnteza; parecia a piscina de minhas vizinhas trouxas, só que em escala maior.
Executei o feitiço Cabeça de Bolha sem enunciar palavra alguma; feitiços mudos faziam parte do meu rigoroso treinamento no Ministério Brasileiro. Engoli golfadas frias de ar, e me impulsionei para tocar o fundo; sentei-me no chão lamacento e ouvi uma voz falando em serêiaco.

— Há tempos que não vejo um aluno aqui no fundo — uma jovem sereia flutuava a meu lado. Senti que ela não pretendia que eu entendesse a frase.
— Mesmo? — falei, minha voz saiu com bolhas.
Ela se sobressaltou.
— Você me entende? Falei em serêiaco — disse ela em inglês.
— Sim — sorri, tirando a varinha da faixa e brincando com ela. — Vim de Castelobruxo, a escola perto do rio Amazonas, e Línguas Mágicas é uma das matérias.
— Uau — impressionou-se a garota, se virando para mim e fazendo suas escamas cintilarem. — Meu nome é Pesthropha.
— Sou . Prazer em te conhecer, Pesthropha.
— O prazer é meu.
Um silêncio seguiu-se, e pouco depois a sereia nadou suavemente para longe, despedindo-se com um aceno.
Fiquei mais alguns minutos nadando, cortando a água com o corpo, e pensando na minha missão. Por fim, quando o feitiço desvaneceu por completo, emergi. A varinha estava em minha mão e já havia começado a nadar de volta para a margem quando escutei ao longe, porém indiscutivelmente em minha direção:
Petrificus Totalus!
A última coisa que vi antes de ser praticamente sugada para o fundo foi o sorriso maldoso e a varinha em punho de Pansy Parkinson.

Draco POV

Se minha manhã esteve em algum momento insuportável, a visão de num biquininho preto fez meu dia.
Por tudo o que é mais sagrado, garotas com um corpo desses deviam ser proibidas de transitar de biquíni pelos terrenos de Hogwarts. É enlouquecedor.
Enfim. O fato é que não pude evitar de me aproximar mais com a desculpa de conversar, mas obviamente dei aquela conferida na bunda dela, porque eu ainda sou humano.
— O que você está fazendo? — Minha voz não soou tão firme quanto eu gostaria.
Ela se virou num instante e senti sua varinha quase furar minha barriga. Trocamos farpas por alguns segundos, meus olhos deram uma escorregada em seus seios, até que ela disse algo sobre eu parar de me meter na vida dela e pulou na água.
Que droga. Encher o saco de é surpreendentemente divertido. E a diversão é potencializada quando ela está só com roupa de banho, claro.
Ela ficou vários minutos debaixo d'água, e comecei a ficar um tanto ansioso. Aquilo não era normal, por melhor que fosse o fôlego dela; por que estava demorando tanto?
Eu já estava comendo os dedos mentalmente quando Parkinson se aproximou e sentou praticamente em meu colo.
— O que você está fazendo aqui, Draquinho? — ela tocou a mecha que tinha caído sobre minha testa, e afastei sua mão com a minha.
— Por que acordou tão cedo, Parkinson? — perguntei, desconversando. Por mais chato que fosse o papo de Pansy, pelo menos ia me distrair de minha preocupação ridícula sobre .
— Ah... não sei, acho que foi porque eu queria aproveitar mais o dia, que é o que estou fazendo agora — ela esticou a boca num sorriso esquisito, provavelmente tentando ser sexy (sem sucesso). — Mas você não respondeu a minha pergunta.
— Ah, é que...
— Sabe — ela me interrompeu bruscamente —, andei treinando umas azarações novas... Quer ver?
Só percebi o que ela pretendia quando a vi levantar, apontar a varinha para , que acabara de subir para respirar depois de tanto tempo, e gritar:
Petrificus Totalus!
O corpo mole da novata grifinória afundou como se tivesse se transformado em chumbo. Parkinson virou para mim com uma expressão vitoriosa, que retribuí com uma careta horrorizada.
— Pansy, ela vai se afogar!
Ela revirou os olhos.
— E desde quando você se importa?
— Caralho, Parkinson, você vai matar a garota! — berrei, já desabotoando a capa e a camisa.
— O que você tá fazendo? — ela perguntou, horrorizada, me vendo tirar os sapatos.
— Consertar a merda que você fez — e pulei na água.
O frio do lago fez minha pele toda reagir, mas a sensação era bem-vinda diante do calor do dia. Eu nadava bem; o fazia com frequência na piscina de minha casa. Porém, ali no lago a água era escura e tinha uma espécie de correnteza estranha. Apesar disso, consegui achar rapidamente. Estava com os olhos arregalados, numa súplica silenciosa para mim.
Impulsionei meu corpo para baixo e murmurei "Finite Incantatem" com a varinha em punho, fazendo minha boca se encher de água. Porém, o feitiço não funcionava mesmo depois de inúmeras tentativas e eu sentia meus pulmões queimando, implorando por oxigênio. A garota já estava à beira da inconsciência.
Agarrei seu braço desajeitadamente, puxei com toda a força para cima, e segurei-a pela cintura enquanto subíamos.
Ouvi arquejar ao chegarmos à superfície, tentando sorver o máximo de ar possível. Eu ainda a segurava, pois seu corpo estava mole por conta do feitiço. Desajeitadamente a pressionei contra meu tronco com apenas um dos braços, enquanto usava a varinha para desfazer a azaração de Pansy.

— Obrigada... obrigada, Malfoy — ela ofegou, ainda se apoiando em meus ombros. Minha mão enlaçava sua cintura e era estranhamente confortável. — Você pode... nos levar? Eu estou sem ar...
(Tudo bem, estávamos num período um tanto tenso, mas não pude deixar de notar que aquela posição era bem favorável para ver o decote dela... Não me julgue, aquilo é hipnotizante.)
— Draquinho! Você está bem? — a voz aguda e pingando falsidade de Parkinson perfurou meus tímpanos, e se descolou mais que depressa de mim. Tropegamente, foi apontar a varinha na cara da sonserina de forma ameaçadora.
— Qual é a porra do seu problema, Parkinson? Você podia ter me matado, sabia? — a cada frase, a varinha disparava um jorro de luz que errava Pansy por poucos centímetros. — Fica longe de mim! — olhou em volta e os olhos se inflamaram mais ainda. — E o que você fez com as minhas roupas?
O medo que se espalhara pelo rosto de Pansy murchou e deu lugar a um sorriso maldoso, igual ao de quando ela azarara .
— Não sei exatamente... Elas foram dar uma voadinha...
O rosto da grifinória ficou vermelho de raiva, e vi que ela se controlou muito para não apontar mais uma vez a varinha para Pansy. Porém, ela fechou os olhos, respirou fundo e amarrou a varinha novamente na coxa.
— Bom — juntou as palmas das mãos e deu um sorriso falso —, eu vou para meu dormitório pegar outras roupas. Só, por favor, recupere meu uniforme, porque custou onze galões, e as botas, porque são edição limitada, está bem? — Deus, como sarcasmo ficava incrível nela. — E não queremos que você ganhe uma advertência por praticar bullying contra a novata intercambista, queremos, Parkinson?
O que raios era "bullying"? Não fazia a menor ideia. Mas o pensamento se desfez em minha mente quando vi que se encaminhava para o castelo. Usando somente o biquíni, a faixa na perna e uma pulseira de platina com uma enorme pedra negra.
— Ei — fui atrás dela, pegando minhas roupas no caminho e ignorando a expressão de choque de Pansy. — Você não pode entrar assim.
— E por quê não?
— Porque... — Droga. Eu não podia falar que era porque a escola inteira não ia conseguir parar de olhá-la desfilar em roupa mínimas até a Torre da Grifinória. Pense, Draco, pense! — Porque não é permitido entrar com roupas de banho em Hogwarts.
— Nesse caso, eu preciso que alguém pegue roupas para mim — ela bufou.
Hesitei por um segundo.
— Toma — lhe entreguei minha camisa. Depois, retomei minha habitual postura de desprezo. — Tente não sujar muito...
— Mas eu estou limpa! É só água...
Revirei os olhos.
— Com o seu sangue, idiota — resmunguei.
— Hmm, acabei de decidir que não quero isso — ela largou a camisa em cima de mim e deu meia volta. — Tenho certeza que a professora McGonagall não se importará em me deixar entrar se eu contar a história de como fiquei nesse estado.
— Você podia recuperar seu uniforme com um feitiço convocatório; sabe disso, não sabe?
— Claro que sei — ela riu. — Mas ninguém faz algo assim comigo e fica por isso mesmo. E acho que o prof. Dumbledore terá algumas coisas a tratar com Pansy Parkinson. Tenho certeza que tentar matar colegas não é algo normal, nem mesmo em Hogwarts.



Capítulo 4

POV

Sinceramente, acho que os garotos de Hogwarts nunca devem ter tido contato com meninas de biquíni. Ou, pelo menos, não com os biquínis brasileiros. Porque só isso poderia justificar os olhares nem um pouco discretos em minha direção — leia-se, na direção da minha bunda.
Todos os anos de treinamento com meus pais e os últimos meses no Ministério Brasileiro haviam me dado um corpo bem torneado, forte, bonito e acima de tudo capaz de realizar minhas missões, mesmo as que exigiam um maior trabalho em campo. Eu era boa, muito boa no que fazia. Então como uma azaração simples daquelas, proferida por uma sextanista que devia ter a capacidade cerebral de uma banana, poderia ter me derrubado? Como eu lidaria com um Comensal da Morte que supostamente desencadearia a maior guerra do mundo bruxo?
Não posso negar que o feitiço de Parkinson foi um baque para minha autoestima; afinal, mesmo que eu tivesse sido pega de surpresa, era de se esperar que eu tivesse uma reação mais expressiva e menos patética. Certo?
Enfim. O ponto é: o relógio já marcava sete e quarenta e cinco e meu uniforme continuava sumido.
Quer dizer, claro que eu tinha mais algumas camisas brancas e pelo menos uma saia limpa no malão, mas a gravata e a capa eram as mesmas para todos os dias, e seu uso era obrigatório. Sem contar minhas botas, que eu amava.
— Srta. ! — o zelador Argo Filch deu um berro em sua voz esganiçada, o rosto chupado corando violentamente. — O que significa isto?
Fui ensinada desde cedo a controlar reações involuntárias de meu corpo em certas situações, então meu rosto continuou com o mesmo tom e apenas falei calmamente:
— Bom dia, Sr. Filch — e vi o rosto dele contorcer-se em um sorriso ao ouvir o pronome de tratamento que usei para agradá-lo —, Peço desculpas, mas tive um pequeno contratempo com uma das alunas da Sonserina, e ela escondeu meu uniforme enquanto eu nadava no lago. A quem devo reportar esta situação?
Vi nos olhos do homem que ele não sabia o que fazer. Eu tinha certeza que em seus muitos anos de serviço àquela escola ele nunca havia tido que lidar com uma situação do tipo. Atordoado, acenou com a mão para que eu o seguisse e nos levou até uma gárgula de pedra. Sussurrou algo próximo a ela, que girou para dar lugar a uma escadaria em espiral.
— É a sala do professor Dumbledore — ele murmurou; o respeito que sentia pelo bruxo era nítido na voz. — Ele irá recebê-la. — Seus olhos miúdos se espremeram ainda mais no rosto acinzentado. — Que isto não se repita!
Assenti, tentando esconder minha vontade absurda de rir da cara dele.
Pisei em cada degrau com a ponta dos pés, prestando atenção em cada ranhura do mármore. Pelo menos três homens e duas mulheres tinham passado por ali naquela manhã: o leve embaçado de gordura, sujeira e terra em forma de sola de sapato não seria visível para outra pessoa, apenas para uma muito bem treinada. Com mais alguns minutos de observação eu até poderia determinar o peso e altura aproximados de quem subira aquelas escadas antes de mim, mas não queria me atrasar para as aulas e precisava de minhas roupas. E mesmo que eu fosse uma bruxa altamente capacitada e membro do serviço internacional de inteligência bruxa, já estava começando a ficar um tanto desconfortável por estar seminua pelos corredores de minha nova escola.
Para ser muito sincera, eu não gostava de exposição daquela forma, e me sentia mal por ter aceitado uma missão que a exigia tão descaradamente. Mas sabia que era necessário e as preferências bobas de uma adolescente eram nada diante do cenário que eu poderia evitar com meu trabalho. E, bom, profissionalismo é tudo.
? — ouvi a voz do prof. Dumbledore me chamar, e saí de meus devaneios com um sorriso ensaiado quando caminhei em direção a sua mesa.
Ao contrário de todas as pessoas por quem passei naquela manhã após o incidente com Pansy, o diretor de Hogwarts não demonstrou nenhum indício de surpresa ao ver minha ausência de roupas adequadas. Na verdade, ele parecia quase divertido ao estudar meu rosto um tanto confuso, mas muito bem mascarado por uma expressão educada.
— Bom dia, professor, desculpe pelo incômodo — comecei, meu sorriso começando a vacilar um pouco. — Eu fui nadar no lago, parece que uma aluna achou que seria interessante esconder meu uniforme, e o sr. Filch disse que eu deveria falar com o senhor a respeito.
Seus lábios finos e cercados por rugas se curvaram em um sorriso mínimo.
— A senhorita é igual a seu pai. A mesma postura, o mesmo olhar determinado de quem está prestes a proferir uma resposta afiada... — abriu um pouco mais o sorriso. — Conheci-o quando fui visitar Castelobruxo há alguns anos; ele fazia parte da equipe destacada para minha proteção, por mais que eu argumentasse a seu Ministério que não era necessário — explicou ele, segurando uma mão com a outra.
Acompanhei o movimento com o olhar. Os dedos de uma delas estavam secos e enegrecidos. Reconheci de cara o tipo de ferimento: provavelmente havia pisado em solo amaldiçoado ou entrado em contato com algum objeto maldito. E algo me dizia se tratar do feio anel de pedra negra que levava no dedo médio da mão doente. Subi os olhos para o punho meio oculto pela manga da capa, cujas veias escurecidas se sobressaíam na pele clara. O feitiço estava se espalhando.
— Por seus olhos atentos e não curiosos em minha mão, presumo que já saiba do que se trata, srta. — disse ele calmamente, com um tom mais triste do que antes.
— Sinto muito, senhor — me desculpei rapidamente, para depois refletir se estava me referindo à falta de discrição de meus olhares ou aos sintomas que eu sabia que viriam em seguida.
— Eu também sinto, querida — seus olhos bondosos mostravam que ele sabia mais do que eu imaginava; portanto, aquelas palavras tinham muito mais significados do que o aparente.
Ficamos algum tempo em um silêncio polido até que ele o quebrou.
— Fique tranquila, , chamarei a srta. Parkinson aqui para uma conversa. — Com um aceno, meu uniforme e botas encharcados apareceram sobre a escrivaninha do diretor. Ele tocou os tecidos com a varinha, e toda a umidade foi sugada em segundos.
Franzi a testa ao receber a pilha de roupas em meus braços.
— Como sabe que foi Pansy? Não lhe contei isso — perguntei, pegando minhas botas.
Ele não respondeu, apenas desviou o olhar para minha pulseira.
— Bonita joia — elogiou, e cravou os olhinhos azuis nos meus novamente. — Tenha cuidado, srta. .
— Terei, professor — dei um sorriso rápido, para ir o quanto antes ao dormitório me arrumar.

* * *


Meus cabelos molhados e muito bem penteados para trás deixavam um rastro mais escuro de umidade na camisa branca, o que fazia alguns alunos me fitarem como se fosse algum tipo de aberração uma pessoa que tomasse banho antes da aula. Infelizmente (ou felizmente), eu não tinha tempo para lidar com aquilo. Faltavam apenas dois minutos para o início da aula, então apressei o passo a fim de pegar uma carteira com visão estratégica.
A sala de Defesa Contra as Artes das Trevas era escura e abafada, iluminada por chamas de velas e “decorada” com imagens grotescas de pessoas deformadas e em sofrimento, que não perdi muito tempo observando. Aquele tipo de lavagem cerebral já tinha sido feita em mim por muitos anos, obrigada.
Nossa aula era mista com alunos de todas as casas, e todos conversavam em voz baixa. Hermione me chamou para sentar com ela me lançando um sorriso amigável, e aceitei o convite.
— Ainda não acredito que Snape vai lecionar essa matéria — ela resmungou em voz baixa.
Snape, Snape, Snape... Tentei lembrar quem era aquele. Ah, sim. Severo Snape. Mestiço. Antigo Comensal da Morte, aparentemente fiel ao ministério e discípulo de Dumbledore. Lecionava Poções, suas vestes negras se enfurnavam a cada passo e o cabelo pedia desesperadamente por um bom xampu anti-resíduos. Minha descrição mental foi confirmada por sua entrada triunfal na sala fantasmagórica e caminhou até sua mesa, fechando bruscamente as janelas com a varinha.
Que simpático — comentei baixinho.
Aí iniciou-se todo um discurso sobre como as Artes das Trevas eram algo perigoso, disforme e constantemente mutável ou algo do gênero, que preferi categoricamente ignorar e prestar atenção em meu alvo, que estava a poucos metros de mim e fingindo concentração no professor, rindo a cada vez que algum aluno fazia comentários pertinentes à aula.
Basicamente, Draco Black Malfoy era um lindo, rico e enormíssimo babaca, característica que eu poderia chutar que provinha das outras duas. Minha vantagem era que eu era linda e rica (se considerarmos o dinheiro do Ministério), mas muito mais esperta que ele, o que quer dizer que usava minha simpatia para conseguir o que queria.
Praticaríamos feitiços mudos, habilidade que eu já dominava desde pelo menos meu terceiro ano em Castelobruxo. Apesar disso, eu sabia que era necessário manter meu disfarce de aluna comum intercambista, então não poderia exibir todo meu conhecimento de uma vez só. Erraria algumas vezes, mas logo em seguida executaria um feitiço simples sem enunciá-lo.
— ...MacMillan e Finch-Fletchley, Granger e Longbottom — prof. Snape começou a ler as duplas em voz alta —, Patil e Patil, Malfoy e , Potter e Weasley. — Severo fitou a todos severamente (uau, sou ótima com trocadilhos). — Podem começar.
A expressão no rosto pontudo e um tanto aristocrático de Malfoy ao me ver era indecifrável, mas eu podia notar como seus olhos pareciam curiosos, acesos, famintos. Sorri levemente erguendo as sobrancelhas e mordi o lábio inferior pelo lado de dentro. Uma provocação.
Pelo que eu tinha entendido, um deveria tentar azarar o outro, que rebateria com um Feitiço Escudo, ambos mudos.
— Prefere azarar ou defender? — perguntei gentilmente, tirando a varinha do bolso da capa.
— Defender — falou ele, com um sorriso zombeteiro —, Você não vai conseguir me azarar mesmo...
Ri com escárnio.
— Que gracinha, querido — e lhe acertei um Petrificus Totalus sem piedade ou me preocupar em fingir que não sabia.
Os olhos prateados do garoto se arregalaram quando ele caiu estrondosamente sobre uma carteira pela força do feitiço, deixando metade da turma em silêncio.
E me encarando.
Merda.
— Srta. — a voz irritantemente calma e grave de Severo Snape falou meu sobrenome lentamente como se temesse pronunciá-lo errado —, O que foi isto? Uma tentativa de nocaute?
— Foi um feitiço mudo, senhor — retruquei educadamente. — Acho só que exagerei um pouco.
Draco grunhiu, já que o feitiço ainda o impedia de se mover, mas Snape o desfez rapidamente.
— Ah, claro que acha — debochou Malfoy, livre do encanto e se levantando com dificuldade.
— Com licença, estou falando com o professor — falei, erguendo o queixo e voltando a mirar Snape. — Desculpe, acho que foi sorte de principiante. Terei mais cuidado.
— Sorte de principiante ou você simplesmente falou o feitiço?
Draco — advertiu Snape, olhando-o seriamente. Moveu os olhos negros para os meus . — Menos cinco pontos para a Grifinória. — Respirei fundo, tentando ignorar o calor em minha nuca que sempre vinha quando eu ficava com raiva. Aquilo era absurdamente injusto. O mestre virou-se para os demais alunos. — O que estão olhando? Continuem!
Todos desviaram o olhar e, lentamente, voltaram a praticar os feitiços.
— Irei observar vocês. Prossigam. — O homem cruzou os braços e permaneceu de pé perto de nós. — O sr. Malfoy irá azará-la agora, . — Dessa vez meu nome saiu de sua boca com um leve desdém, que só deixou minha nuca mais quente ainda.
— É, — riu-se o garoto —, Vamos ver se você é tão boa em murmurar Feitiços Escudo quanto é em falar azarações.
— Cala a boca, Malfoy — podia jurar que a parte de trás de meu pescoço estava já vermelha. Não podia deixar que aquilo chegasse ao rosto, porém. Snape limpou a garganta com um pigarro, nos alertando, e se afastou.
Cala a boca, Malfoy — repetiu, afinando sua voz e ficando na ponta dos pés em uma péssima imitação minha.
Revirei os olhos e não contive uma risada, o que o deixou surpreso.
— Olha só, você tem senso de humor — eu disse, me defendendo facilmente de um Feitiço da Língua Presa sussurrado por Draco.
A chama prateada nas íris dele pareceu aumentar. O loiro abriu a boca para retorquir algo, mas foi interrompido pela voz de Harry; ele berrara um Protego! que arremessou o professor até o outro extremo da sala, causando uma comoção.
Desliguei-me da barulheira da discussão e apenas analisei Draco. Prestei cuidadosa atenção em como os braços dele se flexionavam ao se apoiarem na carteira; como o cabelo platinado caía sobre a testa e começava a se grudar na pele clara; como a boca se entortava em escárnio e presunção ao ver Harry Potter discutindo com o mestre de Defesa Contra as Artes das Trevas; mas ainda havia algo de puro nos olhos dele. Era difícil acreditar que debaixo do tecido branco da camisa social a caveira negra cercada por cobras coexistia com aquela coisa boa que vi em seu olhar surpreso quando me fez rir.
O sinal anunciando o almoço me fez sacudir a cabeça e abandonar aqueles pensamentos. Draco Black Malfoy era mau. Era um Comensal da Morte, odiava trouxas, discípulo de Lorde Voldemort. Se houvesse qualquer bondade nele, era meu dever ignorá-la para que não atrapalhasse a missão.
Deslizei devagar o zíper da mochila depois de pôr minha capa lá dentro, e a pus nas costas. Afrouxei a gravata, desabotoei os três primeiros botões da camisa e dobrei as mangas até os cotovelos, prendendo o cabelo quase seco em um coque alto. Por Merlim, aquilo estava parecendo uma tarde abafada em Manaus. Enquanto desgrudava os fios úmidos do pescoço, vi que o loiro ainda guardava seu material e notei a dificuldade dele em colocar os livros na bolsa.
— Malfoy? — ele não se virou, mas parou de manusear seus pertences. — Você se machucou quando caiu?
Dei alguns passos em sua direção e lhe toquei levemente o ombro. Ao fazê-lo, minha pulseira emitiu um fraco brilho azul, aquecendo o metal, e logo apagou-se. Ele se voltou para mim.
— Estou bem — declarou, quase orgulhoso. — Não preciso da sua ajuda. — Hesitou por alguns segundos e completou, com a voz mais branda. — Obrigado.
— Tudo bem — apertei as alças da mochila e dei um sorriso, que torci para que parecesse inseguro e envergonhado.
Caminhei calmamente até a porta quando ele me chamou.
.
Sorri comigo mesma. Hm, tratamento quase cordial, pensei, isso é novo.
— Diga.
— Eu sei que você me azarou com um feitiço mudo — o sorriso torto voltou aos lábios dele —, Mas nada no mundo me fará admitir isso ao professor Snape.
Mordi o lábio inferior para conter um sorriso aberto que queria exibir, levando a atenção dele para minha boca.
— Boa tarde, Malfoy.
E fui almoçar.

* * *


Ao final do horário de intervalo (como a comida de Hogwarts era deliciosamente gordurosa, me permiti um breve cochilo em um dos divãs do salão comunal antes de fazer qualquer coisa), passei em meu dormitório rapidamente para trocar os livros que tinha na mochila e pegar meu kit para a aula de poções após o intervalo. Larguei a bolsa pesada sobre a cama e dediquei alguns segundos a examinar o tecido, iluminando a trama mais de perto com minha varinha.
Minha mochila era inteiramente feita com retalhos, sobras de tecidos que usávamos em Castelobruxo para a aula optativa de Artefatos Encantados. Foram costurados pelos hábeis feitiços de minhas amigas, que a fizeram para meu aniversário de dezesseis anos e a encantaram de várias formas: para que nunca rasgasse, coubesse tudo que eu quisesse e voltasse automaticamente para mim (sempre a esquecia pelos corredores). Mesmo que fosse um tanto estranha de se olhar, tinha uma história, o que me trouxe um sorrisinho aos lábios.
Abri o zíper da frente para pegar a folha com meus horários, mas ao deitar-me descuidadamente sobre a cama, amassei um pedaço de pergaminho que podia jurar que não havia posto ali. Estava coberta por uma caligrafia irregular que não reconheci, mas que me agraciou com uma risada ao ler.

Querida ,
gostaria de lhe pedir minhas mais sinceras desculpas pelo incidente com seu uniforme. Garanto que tal evento não irá se repetir.
Caso aceite minhas desculpas, o diretor informou que serei dispensada da detenção, mas sinta-se livre para recusá-las.
Suas botas são muito bonitas.
Atenciosamente,
Pansy Parkinson.


Imediatamente dobrei o papel na mão e me encaminhei para o Salão Principal, desviando da mesa da Grifinória em direção à da Sonserina. Foi inevitável o burburinho entre os primeiranistas.
A menina grandalhona de cabelos espessos que me atacara mais cedo estava praticamente no colo de meu alvo, o que era divertidamente irônico. O loiro, porém, parecia odiar a proximidade, mesmo sem fazer nada para evitá-la. O garoto de pele achocolatada e olhos esverdeados que estava sentado próximo ao casalzinho abriu um sorriso que eu só poderia classificar como lascivo, e rebati com uma careta levemente enojada.
— Olá, Pansy — apoiei minha mão delicadamente no ombro dela, fazendo-a largar Malfoy e me olhar com uma expressão aterrorizada. — Muito obrigada pelo bilhete — brandi-o na frente de seu rosto —, foi muita consideração de sua parte.
Os olhos de Blásio Zabini, o moreno bonito, brilharam ao focarem no limite entre a saia preta e minhas coxas expostas. Ergui as sobrancelhas para ele e me virei para Draco Malfoy, que encarava o colega com raiva. Apenas sorri amavelmente quando ele se virou para mim.
— Obrigada pela recepção calorosa, queridos sonserinos — debochei com uma reverência e completei num falso tom pomposo —, mas gostaria de tomar a srta. Parkinson emprestada por alguns segundos.
A garota ergueu as sobrancelhas mal desenhadas e torceu a boca, provavelmente pensando em uma resposta ácida na maior velocidade que seus limitados neurônios permitiam. Segundos de silêncio se passaram sem que ela se movesse, então revirei os olhos e troquei a postura amigável por uma mais intimidadora, apoiando as mãos espalmadas sobre a mesa e inclinando o corpo em sua direção.
— Olha, só queria dizer que, por mais que você tenha sido babaca comigo, não estou com disposição pra ficar aturando sua raivinha — falei, de forma falsamente cansada —, então, para todos os efeitos, aceito seu pedido de desculpas, te livro da detenção e todos ficam felizes. Tudo bem?
Ela pareceu quase ultrajada pela minha sugestão, e levantou-se devagar para me olhar no mesmo nível (o que me foi permitido graças aos saltos 13 de meus sapatos).
— Desculpe, — ela cuspiu meu sobrenome como se fosse um inseto que entrara em sua boca —, mas é muita prepotência de sua parte acreditar que eu prefiro ficar sem detenção do que ter uma dívida com uma sangue ruim latina qualquer.
Minha mão puxou a varinha de dentro do cano alto da bota e a brandiu na direção da sonserina sem mesmo que eu tivesse consciência. Pelo menos me contive o suficiente para não proferir uma azaração pesada, então a única coisa que aconteceu foi o crescimento assustadoramente veloz dos pelos do nariz de Pansy, que deu um guincho estridente ao vê-los já chegando na altura do decote. Porém, com um gesto displicente desfiz o encanto e ela se sentou, lívida.
Droga. Aquela garota estava fazendo eu me descontrolar seriamente, e ainda mais na frente de Malfoy.
— Tudo bem, pode ficar tranquila que comunicarei minha decisão ao professor Dumbledore — declarei. — E aproveitarei para completar meu relato, contando que você também me azarou para que eu me afogasse.
Claro que preferi omitir a parte que Malfoy me ajudara e tudo o mais, porque quem não queria contrair dívidas com ninguém era eu. Mas não pude deixar de notar o sorrisinho malicioso que se espalhou pelo rosto dele quando me afastei.



Capítulo 5

Draco POV

Por mais que gostasse de Poções, meu apreço pela matéria diminuiu consideravelmente quando soube que seria lecionada por Slughorn e não Snape.
Tudo bem, continuava sendo um sonserino sangue-puro, mas não era esse o ponto. Horácio tinha uma predileção peculiar e desagradável por bruxos de destaque acadêmico ou que tivessem pessoas famosas na família, nem sempre se atendo à pureza de seu sangue. Apesar de pertencer à renomada árvore genealógica dos Black, sabia que tal fato não necessariamente contaria a meu favor para entrar no Clube do Slugue. Não que eu fizesse questão disso, também, mas era importante manter meu prestígio dentro de Hogswarts.
Durante toda a explicação excessivamente animada do professor sobre os diferentes tipos de poções que ele preparara e expusera na sala (em que tecia insuportáveis elogios à Granger), alternei os olhos do pequeno caldeirão sobre a mesa principal e a figura pensativa de . Ela encarava as páginas do livro-texto com um olhar vazio, como se sua mente fosse um lugar muito mais interessante do que aquelas masmorras enevoadas.
Porém, quando Slughorn disse que deveríamos preparar uma Poção do Morto Vivo para em troca ganhar um frasco de Felix Felicis, concentrei-me em folhear febrilmente meu exemplar e picar raízes de valeriana o mais rápido que pude. Sem querer, minha faca causou um corte superficial no dedo, que rapidamente pressionei com a outra mão. Pigarreei ao ser fitado pelo professor.
— Professor — adotei uma postura segura —, acho que o senhor conheceu o meu avô, Abraxas Malfoy.
Talvez mencioná-lo não tenha sido uma jogada tão boa assim, a julgar pela resposta inexpressiva que recebi do mestre. Mesmo que fosse muito respeitado pela comunidade bruxa, meu avô ainda era responsável pela destituição do cargo do primeiro Ministro da Magia nascido trouxa — o que, a meu ver, deveria ser considerado um serviço à sociedade; como poderíamos ser governados por aqueles sangue-ruins?
Bufei. Aparentemente agora dependeria exclusivamente de meus (inexistentes) talentos em Poções para ganhar aquele frasco de Sorte Líquida. Seria muito bom ter esse tipo de ajuda para quando fosse executar minha missão (já que a perspectiva de realizá-la ainda era um pouco assustadora), então me empenhar era essencial. Todavia, não pude deixar de reparar na forma como franzia a testa para ler as instruções e colocar cuidadosamente os ingredientes no caldeirão. Ela mexia o conteúdo com movimentos circulares firmes, e em pouco tempo o líquido já estava quase tão claro quanto água. Comecei a ficar mais tenso e ouvia meus batimentos ressoando nos tímpanos. O dedo cortado latejava e manchava a outra palma com gotas de sangue.
Me levantei bruscamente e caminhei até a garota, que recolhia um pouco da poção em um frasco para guardar na mochila. Era totalmente transparente.
— Já acabou?
— Já — ela ergueu o queixo e comprimiu infimamente a boca. — Por quê?
— Porque eu acho que você precisa purificar isso aí — e deixei o sangue de meu dedo escorrer para dentro do caldeirão dela.
Confesso que não esperava aquilo, mas a poção ficou inteiramente preta e sólida, e engoli em seco sob seu olhar chocado.
— O que... O que você... Fez?
Meus lábios se partiram quando a pedra negra em seu braço assumiu um forte brilho escarlate e se levantou em um salto.
— Saia da minha frente agora antes que eu incendeie esse maldito caldeirão e jogue em cima de você — ela quase perfurou meu umbigo com a varinha, de forma a esconder a ameaça dos demais ocupantes da sala.
Voltei rapidamente para meu lugar, com um misto de sensações bem estranho.
Ao mesmo tempo que um sorriso presunçoso estava prestes a se formar em meus lábios, fiquei com... Remorso?
Não. Definitivamente não era aquilo. Talvez fosse só uma espécie de angústia por ter visto a cor e consistência horrorosas que o líquido assumira só de entrar em contato com meu sangue; claro que devia ser uma reação normal à qualquer tipo de tecido humano que a contaminasse, mas em meu íntimo sabia que era mais que isso (o que nunca admitiria, obviamente).
Porém, meu esforço — tanto em relação à minha própria poção quanto à de — fora em vão: Potter acabou por levar o prêmio. Tentei conter ao máximo a careta que me veio ao rosto enquanto meu olhar desejoso acompanhava o frasco dourado entrando no bolso do garoto. Guardei o material, desgostoso, e coloquei a mochila nas costas. ainda tentava raspar o conteúdo do fundo caldeirão, e me lançou um olhar furioso. Apenas abri um sorriso zombeteiro e fui para o salão comunal da Sonserina.

* * *

Eu descontava a tensão que sentia nos ombros apertando a trouxa de toalha e roupas que tinha nas mãos, enquanto caminhava pelo corredor rumo ao banheiro exclusivo aos monitores. Disse a respectiva senha para que a porta se abrisse, e logo fui atingindo em cheio no rosto por uma onda de vapor perfumado. Um bom banho quente ajudaria a eliminar a dor desagradável na parte superior das costas.
Desabotoei a camisa enquanto mirava meu reflexo no espelho. Estava mais pálido que o normal, pronunciando leves olheiras arroxeadas que começavam a se formar. Joguei o cabelo para trás, suspirando; já estava precisando de um corte na franja. Terminei de me despir, deixando as roupas largadas pelo banco, e entrei sob o chuveiro, ignorando a banheira por mais convidativa que parecesse.
Após vários minutos de silenciosa paz, o ruído da porta se abrindo bruscamente irrompeu pelo aposento, e revirei os olhos, torcendo para que não fosse aquela estúpida fantasma outra vez. Porém, pela fresta do boxe tive uma surpresa.
tinha os cabelos próximos à raiz molhados de suor, e tinha o semblante agitado. Largou a mochila de qualquer jeito no piso frio, e pude ouvir os pesados livros se chocando com a brutalidade. Sentou-se ao banco bagunçado (e anotei mentalmente a cor de sua calcinha), revirando a bolsa multicolorida até puxar um pedaço de pergaminho. Olhou em volta e pude jurar que, por um segundo, ela me viu. Parei de espioná-la e prendi a respiração, esperando não ser encontrado.
Pouco depois, porém, todo o barulho que ela estivera fazendo com os materiais cessou, sendo substituído por um zumbido indefinível, e voltei a observar pela fresta para ver se ela tinha saído. Pelo contrário: Alicia esbravejava furiosamente para o papel, que flutuava à sua frente com um aceno de varinha. Um berrador, certamente. Mas por que eu não conseguia escutá-la? E como raios ela tinha entrado ali se precisava de senha?!
Depois de cerca de dois minutos inteiros, a garota retomou a compostura, apoiando as duas mãos na pia de mármore e respirando fundo e vagarosamente. Refez o rabo de cavalo alto, penteando os fios com as mãos, e jogou um pouco de água da torneira no rosto. Tirou a camisa suada do uniforme, mas (para meu azar) vestia uma camiseta justa por baixo. Jogou a capa de qualquer jeito sobre si, com a gravata frouxa caindo sobre os seios, e saiu, me deixando com mil perguntas que não seriam respondidas.

* * *

POV

A pressão que a alça da mochila fazia em meu ombro só piorava o início da enxaqueca. Depois de uma densa aula de História da Magia e outra de Feitiços, só queria um pouco de descanso.
Minha mãe certamente ficaria uma fera ao receber o berrador, mas não podia reclamar; ela mesma dissera para eu ficar à vontade para lhe mandar cartas desabafando. Aquilo era uma carta, certo? E, afinal, era muito mais segura, pois só podia ser lida (ou ouvida) uma única vez.
Cheguei ao salão comunal querendo apenas pegar meus pertences e tomar um bom banho naquele toalete maravilhoso em que estivera. Provavelmente era exclusivo a algum grupo especial; os monitores, talvez? Bom, não importava. As senhas que eles escolhiam eram bastante óbvias (bolhas de lavanda, sendo que havia um quadro logo acima que retratava as duas coisas), e encantei a tapeçaria ali ao lado para que exibisse a senha bordada para mim sempre que a mudassem.
Hermione estava sentada à mesa comprida de mogno que era comum a todos, no canto mais isolado. Vários livros lhe faziam companhia; Rony, sua habitual sombra, comia algo e parecia prestes a cochilar, acomodado no sofá em frente à lareira. A garota subiu o olhar por um breve instante, provavelmente buscando inspiração, e focalizou meu rosto cansado. Sorriu.
— Oi, , senta aí — com o braço, afastou uma pasta de papéis avulsos para que eu me estabelecesse ali. — Você já terminou o dever de Transfiguração?
— Mais ou menos, só faltam uns dois parágrafos de conclusão. Por quê, teve alguma dúvida?
Ela ergueu mais o queixo, hesitando. Exatamente igual a mim: orgulhosa demais para pedir ajuda.
— Na verdade tive — admitiu por fim, expirando ruidosamente. — Esse requisito que McGonagall impôs não se encaixa de jeito nenhum na minha hipótese e não quero ter que reestruturar o trabalho todo só por causa disso.
Puxei um caderno de dentro da mochila e junto dele pulou algo a mais.
Uma gravata verde e prateada.
Franzi a testa, sem entender, mas apenas enfiei a peça de volta na bolsa e apanhei algumas canetas coloridas comuns.
— Deixa eu ver aqui — Hermione me estendeu o pergaminho, que já devia passar dos dois metros e meio. O meu chegara a um e setenta e não faltavam mais que dez centímetros para terminá-lo.
Identifiquei o problema em pouco tempo e expliquei calmamente a ela, que pareceu satisfeita e agradecida. Enquanto reorganizava minhas anotações de História, que se embolavam em um confuso redemoinho de notas autoadesivas, a menina resolveu puxar papo comigo.
— Hogwarts é muito diferente de Castelobruxo?
Ergui o rosto para vê-la.
— A diferença maior está nas pessoas — expliquei. — No Brasil, são mais calorosos. Sorridentes. Não sei explicar; é uma energia diferente... Mas tenho gostado sim. Provavelmente vou só estranhar o inverno.
— Entendi — ela organizou seu material em uma perfeita pilha, arrastando-a mais para longe, e apoiou o queixo nas mãos. — Nunca estive no Brasil, mas sempre tive vontade. Imagino que seja bem... Exótico.
Sorri diante de sua escolha de palavras.
— Na verdade, algumas cidades se parecem bastante com Londres, em relação à movimentação e tudo — eu disse. — O Ministério nacional fica no Rio de Janeiro e não em Brasília, que é a capital do país, então...
Mordi a língua. Estava prestes a soltar que conhecia bem a cidade por conta do treinamento. Ai, ai, ai, , está ficando descuidada.
— Então frequento o Rio com frequência porque meus pais trabalham lá.
A conversa ia e vinha e, como só falávamos amenidades, aproveitei a ocasião para analisar sua linguagem corporal. E era bem claro que ela apontava imperceptivelmente para um certo ruivinho que estava no sofá perto de nós.
— Em relação às matérias, sente falta de alguma?
— Eu adorava Línguas Mágicas — revelei —; sou fluente em serêiaco e tenho nível intermediário em grugulês e trasgueano.
Ela pareceu surpresa.
— Uau, então além de boa aluna também é poliglota — comentou, rindo. — Um excelente partido.
Ri também.
— Bom, estou solteira, então não deve ser tão bom assim — brinquei. — Mas falando sério, no momento estou com zero paciência para lidar com relacionamentos amorosos, então nem rola.
Não deixava de ser verdade; deveria focar unicamente em atingir Malfoy segundo havia sido solicitada, não caçando namorados.
Neste momento, um sonolento Rony se juntou a nós, e Hermione discretamente arrumou a postura na hora, o que não escapou a meus olhos ágeis.
— Do que vocês — um bocejo — estão falando?
— Garotos — respondi prontamente.
A garota a meu lado corou e abaixou os olhos, e um reflexo de compreensão perpassou meu rosto; claro. — Estava dizendo à Mione que meninos são insuportavelmente lentos e nunca percebem as coisas — olhei de esguelha para ela — mesmo quando estão bem na frente deles.
O garoto, ainda grogue, claramente não compreendeu minha indireta, então apenas sorri para mim mesma e batuquei as unhas na mesa. O salão comunal estava vazio, então convinha que eu me retirasse para deixá-los sozinhos.
Me despedi de ambos afetuosamente e subi em pulinhos as escadas até o dormitório, porém tendo um vislumbre de Harry Potter atravessando o buraco do retrato, para completar o trio de ouro naquela noite.




Capítulo 6

POV

O cheiro da estufa fazia eu me sentir em casa. Todos aquelas plantas, a terra úmida, a temperatura controlada e os sons de insetos e pequenos animais que passavam por ali faziam com que eu me sentisse de volta a Castelobruxo, nas aulas ao ar livre.
Mas era ali que eu estava, no coração da Inglaterra, com as unhas enterradas no solo escuro, quando Luna Lovegood se aproximou com sorriso leve e etéreo nos lábios.
— Oi, — cumprimentou ela, timidamente. — Posso...? — e indicou o quadrado de concreto e plantas no qual eu estava trabalhando.
— Ah, claro — assenti em resposta, abrindo espaço no banco atrás de mim para que ela acomodasse a mochila sem sujá-la.
A loirinha pegou seu livro de Herbologia e o folheou um pouco antes de abrir na página indicada pela prof. Sprout. Ela tinha a mesma mania que eu: espiar o conteúdo que ainda iríamos aprender, mesmo que não conseguisse compreendê-lo. Infelizmente eu já não tinha mais esse prazer; minha preparação para a missão me obrigara a dominar todo o conteúdo mágico exigido até mesmo para os setimanistas, então teoricamente eu já estava formada na escola.
— Adorei sua blusa — a voz suave da corvina soou ao meu lado, e sorri para ela.
— Obrigada! Transfigurei ela hoje de manhã — expliquei, aproveitando para desabotoar a peça um pouco mais, dado o calor do ambiente.
Suas sobrancelhas claríssimas se ergueram em surpresa.
— Oh, por favor, me ensine como fazer isso! Sempre quero variar minhas roupas; usar sempre as mesmas é incrivelmente sem graça.
Reprimi um sorriso. Luna vestia uma blusa de botão branca coberta por borboletas de tecido que batiam suas asas, mudando de cor a cada movimento. Era tudo, menos sem graça.
— Claro que ensino! Podemos ir ao pátio depois da aula, antes do horário do almoço.
— Isso seria ótimo — ela sorriu docemente.
Senti na voz dela o valor que Lovegood dava àquele convite. Algo me dizia que não era sempre que as pessoas olhavam além de sua excentricidade e a tratavam como a adolescente normal que ela era, com seu próprio estilo e personalidade que fugiam ao padrão.
— Sr. Longbottom, cuidado! — alertou a prof. Sprout.
Desviei meu olhar da terra macia para meu colega grifinório. Seu rosto enrubescido estava voltado na minha direção...
Ah. Estava na direção de Luna.
Essa distração provocara a queda de uma vasilha de sementes, que saíram serpenteando por entre os sapatos dos alunos como besourinhos vivos. Depois de alguns gritinhos histéricos e movimentos de varinha da mestre da matéria, tudo se normalizou, mas não pude deixar de pensar em Neville. Parecia pouco provável que o melhor aluno da disciplina tivesse se distraído àquele ponto do nada. Era óbvio seu interesse em minha colega da Corvinal, o que trouxe um sorrisinho a meu rosto.
Harry, Rony e Hermione conversavam com ares de conspiração, amontoados a um canto e revirando um mesmo punhado de terra escura. A garota quase acariciava o solo, dividindo sua atenção entre as palavras dos amigos e a tarefa passada pela professora. Já o ruivo socava o chão da horta a cada palavra que proferia. Com a distração, o espécime de Tentáculo Venenoso que o trio cultivava agarrou um das mechas de Harry, puxando-a com força e arrancando risadas de toda a classe.
O restante da aula passou rapidamente. Quando a professora nos liberou — passando uma tarefa incrivelmente complexa, que envolvia a redação de 3 metros de pergaminho —, recolhi minhas coisas o mais rápido que pude. A atmosfera quente da estufa de Herbologia, somada ao esforço de desviar daquelas plantinhas traiçoeiras, fizera minha blusa do uniforme ficar colada à pele com o suor. Só queria um banho e uma muda limpa de roupas para assistir às aulas da tarde. Alcancei o corredor e ainda fechava o zíper de minha mochila quando meu corpo todo deu um solavanco, resultado de um encontrão violento com meu sonserino preferido.
— Meu sobrenome na voz dele exprimiu uma leve surpresa, com uma nota de desprezo um tanto quanto falsa.
— Ah, Malfoy — Soltei a palavra com uma certa rispidez, afobadamente recolhendo meus pertences que se espatifaram no chão.
Cruzei o corredor lotado, desviando dos alunos que se locomoviam para o almoço, para buscar os livros que deslizaram sobre o piso lustrado. Ao retornar, encontrei Draco analisando com curiosidade uma de minhas canetas, cuja tampa escapara do estojo.
Ele puxou o tubo de plástico, parecendo tremendamente confuso ao revirá-lo em sua mão, certamente tentando entender o funcionamento daquele instrumento não-mágico. Eu ri.
— É uma caneta esferográfica — expliquei, pegando-a da mão dele. — Os trouxas usam isto em vez de penas; é bem mais prático porque não há a necessidade de depender de um tinteiro o tempo todo. Sem contar que borra muito menos, tem várias opções de cores e é mais compacta.
Ele olhou para meu rosto com uma ruga entre as sobrancelhas. Imaginei que ele estivesse dividido entre fazer algum comentário preconceituoso ou sanar as perguntas que lhe vieram à cabeça. Por isso, devolvi o objeto.
— Um presente, já que você está tão interessado — e passei minha varinha pela lateral da caneta; agora, onde antes estava escrito BIC, se viam as iniciais D.M. em prata.
— Eu… porque eu estaria... — ele balbuciou, mas eu já estava longe.

* * *

Depois de uma semana cansativa que parecera se estender por quase um mês, chegou meu primeiro fim de semana em Hogwarts. Nessas ocasiões, era permitido aos alunos que visitassem o povoado local, Hogsmeade, onde havia vários bares e lojas de todos os tipos. Todavia, o primeiro só aconteceria algumas semanas depois, e eu estava até que entusiasmada. Enquanto isso, porém, a massa de alunos saía, animada, pelos grandes portões da escola de magia em direção ao pátio principal, e eu percorria o caminho contrário, para o gigantesco campo de quadribol. Os testes para o time eram naquela manhã, e repercutia na minha cabeça a ideia de jogar. Sempre fora habilidosa com uma vassoura (o que inclusive chamara a atenção de olheiros em Castelobruxo, que queriam me convocar para a seleção brasileira, mas, obviamente, meu trabalho como agente especial do ministério representava um conflito de interesses), e compreendia a importância de me engajar nas atividades estudantis.
E, bem, a quem eu queria enganar? Era uma excelente oportunidade de me aproximar de Harry Potter, que, afinal de contas, estava intimamente ligado à minha missão, mesmo que de forma indireta.
Usando um moletom cor de vinho e calças pretas de ginástica, cheguei ao campo, que estava sob um tempo um tanto frio e com névoa, e surpreendentemente cheio para um mero teste de time escolar. Logo entendi o motivo de tanta empolgação: o capitão, afinal de contas, era O Eleito, como a mídia britânica fazia questão de frisar…
— Oi, , não sabia que você voava — o ruivo do trio de ouro me cumprimentou. Seu pescoço estava marcado por placas avermelhadas, como alergia, mas na verdade era puro nervosismo.
— Bom dia, Rony — desejei. — Pois é, eu jogava um pouco na minha outra escola… como apanhadora, sabe. Sei que Harry é o titular, mas me contentaria perfeitamente com a posição de reserva. — Encolhi os ombros. — Não custa tentar, certo?
— Certo — ele concordou, trêmulo e concentrado, como se estivesse internalizando e aplicando minhas últimas palavras tranquilizadoras para si mesmo.
O apito de Harry Potter cortou o ar frio da manhã nublada.
— Ok, grifinórios, bom dia a todos! — O garoto parecia estar se esforçando para ser ouvido, gritando bem alto para que todos os presentes (que eu arriscaria dizer que formavam quase uma centena). — Se dividam em grupos de dez pessoas e façam um voo simples ao redor do campo. Formem as filas atrás dessas sinalizações que temos aqui! — Ele apontou para uma fileira de cones de madeira amarela, e prontamente a massa de alunos se organizou como ele pedira.
Ao soar do apito mais uma vez, o primeiro grupo subiu em suas vassouras, mas mal conseguiram voar dez metros à frente. Chegava a ser engraçado: um amontoado de crianças de 11 anos tentando se equilibrar em cima de vassouras pelo que parecia ser a primeira vez na vida.
Harry apitou de novo. O segundo grupo, composto por garotas um ou dois anos mais novas que eu e ele, nem ao menos se interessou em fazer seus equipamentos se erguerem acima do chão; se desmancharam em risadinhas e se escondiam atrás dos ombros umas das outras em abraços afetados. O capitão encarava aquilo perplexo, e nossos olhares se cruzaram. Encenei uma expressão de sofrimento e ele arregalou os olhos, como em um pedido de socorro.
— Se não vão voar — exclamou ele, irritado — pelo menos saiam do meu campo!
As dez seguiram para as arquibancadas, sem nem se abalarem com a bronca.
Até tive esperanças ao ver o terceiro grupo, mas ela se esvaiu na metade da primeira volta: um erro de percurso de um dos alunos fez com que todos se esbarrassem e caíssem, num grande bololô que me forçou a segurar uma gargalhada. Aquela situação toda era simplesmente inacreditável.
O quarto grupo era o meu… Bem, o que dizer do quarto grupo? Exceto eu, todos os outros eram lufanos. A visão dos gorros amarelos que adornavam as cabeças daqueles “candidatos” foi a gota d’água para Harry, que berrou expulsando dali todos que não fossem grifinórios.
O menino dos olhos verdes respirou fundo, esperando que a veia em sua têmpora parasse de pulsar de forma tão visível, e fechou os olhos como quem conta até dez para acalmar seus ânimos. Com a voz mais suave, então, se dirigiu a mim:
, você joga em qual posição? — Geralmente apanhadora — respondi com sinceridade —, mas sei que você é o titular. Já joguei muito como artilheira também, então devo testar para isso.
Ele me encarou por um segundo, ponderando.
— Ok, pode voar ao redor do campo? — ele pediu.
— Claro.
Minha vassoura pulou do chão para minha mão com um gesto ágil, montei nela segurando firmemente no cabo e arranquei.
Comecei com um voo simples, subindo gradativamente em direção às três imponentes balizas. Fiz um ziguezague, entrando e saindo pelos arcos muito rapidamente, e cheguei à mais alta. Apoiei meu pé no círculo de metal e tomei impulso, subindo em direção às nuvens acinzentadas a um ângulo de 90 graus. A gravidade e a resistência do ar eram minhas inimigas naquele momento, mas só me davam mais prazer, sentindo todo o impacto da velocidade que alcançava. Ao chegar na altura que queria, fiz o que era minha especialidade: me joguei de cabeça para baixo como uma mergulhadora, sentindo o vento bater em meu rosto em queda livre.
Ouvia os gritos vindos da arquibancada abaixo, mas minha vassoura descia logo à minha frente, ao alcance de minha mão a qualquer instante. Aquela manobra já era hábito; sabia muito bem como usar a física do voo a meu favor para ultrapassar o pomo e pegá-lo. Mas lembrei que estava, na verdade, sendo testada para artilheira. Sendo assim, agarrei o cabo de minha Firebolt BR Limited e subi nela novamente, finalizando o voo em círculos em volta da baliza e, após um percurso final rasteiro e veloz, saltando na grama úmida bem na frente de um boquiaberto Harry Potter.
— Uau — seu espanto se transformou numa risada impressionada. — Você está dentro. Não tenho nem dúvidas.
Abri um sorrisinho e brinquei, fazendo uma reverência segurando as pontas de meu moletom. Em seguida, me dirigi à arquibancada, que aplaudia.

Draco POV

Bati a cabeça na porta do Armário Sumidouro, grunhindo de insatisfação. Não era possível que aquilo fosse tão absurdamente difícil.
Aquela sexta-feira em meados de outubro era a minha chance, o meu prazo. Meu primeiro prazo significativo. Na manhã do dia seguinte seria o primeiro passeio do trimestre a Hogsmeade, e eu precisava sair de Hogwarts sem que ninguém soubesse. Por isso, ali estava eu, poucas horas antes do toque de recolher, tentando resolver o problema.
Ok, eu sabia muito bem que o móvel em questão era um objeto mágico de grande complexidade, que permitia a locomoção de seres inanimados e vivos entre seu limbo negro, transpassando barreiras mágicas por mais fortes que fossem. Mas, ainda assim, era um pouco frustrante constatar que eu estava levando uma surra daquela estrutura de madeira.
A verdade era que aquilo tudo era uma merda. Sabia muito bem que aquela missão só tinha sido designada a mim com a desculpa de ser uma forma do Lorde das Trevas permitir que a família Malfoy recuperasse sua glória. A verdade era que ele estava puto da vida com meu pai e queria descontar em mim; não sou estúpido.
Mas afinal, que chance eu tinha? Sabia muito bem que aquela missão era matar ou morrer. E, ao mesmo tempo que a perda da minha vida não fosse tão significativa assim para milorde, ele sabia muito bem que eu era fraco e nunca deixaria nada se sobrepor a meu instinto de autopreservação.
E esse era o tipo de frase que eu jamais falaria em voz alta, mas sabia que era a verdade.
O verão que acabara de findar tinha sido o pior período de férias da minha vida. Mais especificamente, o ritual de recebimento da Marca Negra: doloroso, invasivo e desesperador. Além da tatuagem feita com um tipo especial de Fogomaldito (controlado por todo o séquito de Comensais ao mesmo tempo), havia a cerimônia de iniciação, em que Voldemort invadira minha mente, vasculhando cada detalhe à procura de alguma inclinação que eu pudesse ter à traição.
Senti um calafrio subir por minha espinha, mas nada teve a ver com aquelas lembranças: o som de uma pesada balança caindo ao chão na frente da Sala Precisa me alertava que alguém estava se aproximando.
Fiquei sem me mexer e em completo silêncio, esperando que Crabbe — disfarçado de menininha primeiranista — batesse duas vezes na porta para indicar que a ameaça estava longe. Porém, não foi isso que aconteceu. Na verdade, a porta rangeu e se abriu devagar, revelando a figura intrusa da última pessoa que eu esperava ver: .
Por Merlim, como ela conseguiu entrar? Como ela conseguiu pensar exatamente no que devia para ter acesso à Sala?
Sem tempo para aqueles questionamentos, me escondi atrás de uma estante velha e tão abarrotada de quinquilharias que envergava para um dos lados. Meus batimentos cardíacos reverberavam nos tímpanos. A única saída era estuporá-la e aguardar que acordasse para lançar um Feitiço do Esquecimento. Dei um minúsculo passo para frente, tomando cuidado para não pisar em nenhum objeto que pudesse fazer barulho, e apontei minha varinha em sua direção.
Por azar, acabei não sendo tão sutil quanto gostaria, pois ela notou minha movimentação e mais que depressa sacou sua própria varinha, lançando um poderoso Feitiço Escudo. Fui jogado para trás, me desequilibrando brevemente. Ela se aproveitou de minha hesitação e bradou um Estupefaça, do qual, por algum milagre, consegui me desviar.
Na minha cabeça martelava a convicção de que somente um de nós poderia sair daquela sala. Caso contrário, eu estava total e definitivamente fodido.



Capítulo 7

Draco POV

A cada movimentar de varinha, um chicote de luz escapava de sua ponta, quase acertando a grifinória à minha frente. Minha principal desvantagem em relação a ela era a capacidade da garota de lançar feitiços mudos, que retardavam um pouco a defesa; a vantagem, porém, era que eu conhecia muito melhor o ambiente em que estávamos.
Meus olhos irrequietos revezavam do armário à minha esquerda ao rosto de , que já assumia um brilho de suor e lhe trazia aparência de mais vitalidade e força. As mexas firmemente presas em um rabo de cavalo já começavam a escapar pelo elástico, e também escapavam de seus lábios grunhidos de esforço conforme tentava me acertar com azarações.
não era burra; certamente sabia que eu estava fazendo algo que não devia, então sendo curiosa e intensa como era, não ficaria calada até descobrir do que se tratava.
Serpenteávamos por entre as estantes tortas e perigosamente cheias; eu tentava guiá-la para a saída da sala enquanto procurava lançar o Obliviate o mais depressa possível. Em certo momento, acertei uma das prateleiras, que se desmontou e levou ao chão. Com um grito de surpresa, ela desviou dos objetos que caíam em cascata sobre ela, porém foi atingida entre as omoplatas pela dura lombada de um volume de Estudos avançados no preparo de poções. Seu rosto encontrou o piso sujo, e ela sentou-se rapidamente, fitando-me acuada com um filete de sangue escorrendo do lábio. Finalmente. Apoiei as palmas nos joelhos, cansado, e me aproximei para verificar a garota. Nem tive tempo de me mexer quando ela virou a varinha para mim, mantendo os olhos fixos nos meus.
Expelliarmus — sussurrou, ofegando, e minha varinha voou até que não pude mais ver onde estava.
Desconcertei-me, me sentindo desprotegido por alguns instantes. Levantou-se, espanando a poeira e gesso que caíram sobre seu uniforme. Com o punho erguido, ela sorriu.
— Vai me dizer o que estava fazendo aqui por bem — sua mão puxou o elástico pelos fios longos, soltando-os — ou por mal?
A adrenalina correu mais rápido pelo sangue, me deixando alerta. Num vislumbre, notei a pulseira que usava cintilando fraco. Por algum motivo, resolvi seguir minha intuição; algo me dizia que aquele brilho significava que algo nela estava instável. Como um raio, agarrei seu pulso e o virei, forçando-a a ficar de costas para mim, exatamente como fizera comigo no Expresso.
— Parece que o feitiço se voltou contra a feiticeira, não é mesmo? — sussurrei, pressionando-a mais contra mim. Um arrepio percorreu suas costas, mas senti que não era por conta de nossa proximidade do jeito que eu imaginava; era de medo.
Meu aperto afrouxou um pouco; o bastante para que eu notasse os olhos sendo engolidos pelas pupilas negras. estava aterrorizada.
Soltei-a.
Ela correu de mim como um animal assustado, parecendo encurralada contra o armário sumidouro. Ela hiperventilava com as costas apoiadas na porta do móvel, com o tórax subindo e descendo bruscamente.
…? — balbuciei.
De seus olhos firmemente fechados escorreu uma pequena lágrima.
Algo estava muito errado.
— Me desculpe. — As palavras quase doeram ao saírem de minha boca; por que eu estava me desculpando?
Ela afastou as pálpebras e me ajoelhei frente a ela. Nossas faces estavam tão perto que reparei nas minúsculas gotículas que molhavam os cílios.
?
Seu rosto ficou quase roxo de raiva, e os dedos agarraram meu antebraço exatamente sobre a Marca Negra.
Não pude evitar urrar de dor ao sentir minha pele queimar no contorno da caveira. Meus globos oculares pareciam afundar em brasa no crânio e gritos se fizeram soar, me parecendo incoerentes; uma Cruciatus não poderia ser pior do que aquilo...
E de repente cessou.
A mão de tremia enquanto a novata me encarava em choque absoluto.
— Draco, eu... — sua boca estava entreaberta e não conseguia enunciar nada além de palavras sem nexo.
— Mas que porra foi essa? — murmurei, sentindo os músculos exauridos como se tivesse corrido por Hogwarts inteira.
Só restava a dúvida se a pergunta era para ela ou para mim mesmo.

POV

Não sabia dizer como tinha entrado ali. Já estava tarde; o ideal seria estar no salão comunal, estudando — tanto as disciplinas do currículo bruxo quanto a pasta que o Ministério brasileiro me dera com as mais minuciosas informações sobre Draco Lúcio Malfoy. Mas tive a maldita ideia de ir procurar um “achados e perdidos” para saber que fim tinha levado minhas botas pretas de cano alto (por mais que eu tivesse outras do mesmo modelo), e encontrei uma menininha na frente de uma porta que eu jurava nunca ter visto antes. Assustada, ela deixou cair a balança que segurava e saiu correndo, desaparecendo atrás de uma pilastra. Minha curiosidade, porém, me fez girar a maçaneta e adentrar o cômodo que mais parecia uma catedral. Todavia, o que encontrei lá dentro foi Draco, certamente fazendo algo suspeito. E nosso duelo aconteceu...
Havia tanto tempo que eu não tinha um daqueles episódios que a maior parte do meu desespero se deu exatamente por isso. Depois de tantos meses fazendo tratamento, tantas vezes repetindo na frente do espelho mantras especiais, tantas poções para dormir que me abençoavam com um sono sem sonhos... E justamente tivera um deles na frente do alvo da missão mais importante e perigosa da minha vida.
Vê-lo se contorcendo de dor excruciante só piorara toda a situação; eu nunca imaginara que aquilo poderia acontecer só ao tocar o braço dele.
Mas agora estava acabado. E eu deveria lidar com as consequências.
— Com licença. — tirei um pouco do pó que caíra sobre minha saia preta de pregas e tentei levantar, em vão. O tornozelo incomodava e doía, sem conseguir se firmar. Bufei, irritada.
O loiro continuava encarando a manga encolhida da camisa social, através da qual meus olhos treinados enxergavam a sombra da tatuagem.
Ambos permanecemos ali, por vários minutos, sem dizer uma palavra.
— O que houve com você? — ele perguntou, finalmente cravando as íris prateadas nas minhas. Provavelmente os tons de meus olhos estavam mesclados com o vermelho do princípio de choro.
Ele era todo prateado. Olhos, cabelos, pele. Tal pensamento me trouxe a urgência de tocá-lo para ver se seria tão frio quanto parecia o metal. E o fiz, sentindo o limite entre a costura da manga da camisa e a pele macia do braço. Ele se arrepiou, mas não recuou; aceitou o toque até que eu expusesse a marca com a ponta dos dedos. A caveira negra com a serpente saindo-lhe da boca, que parecia flutuar e se mover sobre a carne.
— Dói? — questionei, em vez de responder o que ele quisera saber. Não queria falar sobre aquilo.
Ele comprimiu os lábios.
— Não importa. — a voz soou embargada. Voltei o olhar para o rosto dele, que tinha os olhos marejados. — Eu não tenho... nunca tive... escolha mesmo. Se dói ou não, tanto faz.
Apoiei a cabeça na porta de madeira surrada do armário que havia atrás de nós. Certamente ele não tinha noção do quanto aquelas palavras também se aplicavam a mim.
— Eu entendo. — comentei.
— Não entende. — retrucou, fungando e enrubescendo.
Deixei escapar uma risada irônica.
— Meus pais são aurores e sempre me educaram desde pequena para ser como eles… Para querer ser o que eles são. Na verdade, “educar” é um eufemismo; foi mais uma lavagem cerebral. E ninguém nunca se preocupou em perguntar o que eu queria. Sempre presumiram que eu seguiria os passos da família e… — quase falei “me empurraram uma missão perigosa antes mesmo de eu atingir a maioridade”, mas me contive. — Acabaram me metendo em enrascadas bem ruins.
A verdade era que aquilo tudo era uma merda. Sabia muito bem que aquela missão só tinha sido designada a mim com a desculpa de o Ministério britânico não poder contar com nenhuma bruxa europeia, pois a família Malfoy tinha muitos contatos e poderia conhecê-la. A verdade era que eu era uma das agentes juvenis mais competentes da comunidade bruxa e o ministro Scrimgeour (assim como seu antecessor, Fudge) não podiam se dar ao luxo de cometer erros crassos como já tinha cometido naquela crise; não sou estúpida.
Mesmo assim, não mentira para Draco. Eu realmente estava cansada de ser usada como uma agente sem sentimentos, como uma arma mortífera e valiosa que resolvia tudo que os adultos não conseguiam.
Seu pomo de adão subiu e desceu, e ele com cuidado desprendeu a bainha de minha saia que tinha ficado presa na meia. Minha perna ali ficou estranhamente quente.
— Acho que somos mais parecidos do que queremos admitir.
— Acho que você devia me dizer o que está fazendo aqui.
Sua postura ficou tensa, e rapidamente cobriu o antebraço com a capa novamente.
— Tentando consertar uma coisa minha — ele passou as unhas curtas pela madeira em que estávamos apoiados, quase inconscientemente, e notei que provavelmente se referia àquilo — que está quebrada.
Tentei controlar as reações que meu rosto demonstraria devido ao ritmo acelerado de meus batimentos cardíacos. Já era algo com que eu pudesse trabalhar.
— Talvez eu possa ajudar. — ofereci.
Foi sua vez de rir com escárnio.
— Duvido.
Ergui as sobrancelhas para mim mesma. Bom, era um fato que eu poderia realmente ajudá-lo, e talvez pudesse fazer isso enquanto executava minha missão. Precisava ganhar sua confiança, sua simpatia e seus sentimentos. E por que não tentar? Não seria a primeira vez que eu agiria como agente dupla.
— Por mais que você despreze os grifinórios — mudei de posição, ficando ajoelhada na frente dele — e mais ainda aqueles que não fazem parte da sua elite de racistas, sugiro que não subestime minhas capacidades.
Era nítida em seus olhos a batalha interna que o impedia de aceitar imediatamente a minha ajuda. Porém, o brilho intenso me pareceu um sim, mesmo que seus lábios continuassem mudos e selados. Encostei a ponta da varinha no armário e murmurei Specialis revelio, bem baixinho.
O móvel começou a tremer e rapidamente rastejei para longe, com medo de que algo caísse sobre mim.
— É esse troço que te preocupa, né? — inquiri, já sabendo a resposta.
Draco suspirou, confirmando.
— Tá, — coloquei a varinha sobre minha perna, prendendo os cabelos novamente. — Só um segundo.
Com um feitiço Convocatório, recuperei a varinha dele e exclamei “Episkey!” para fazer com que meu tornozelo voltasse para o lugar. Após a costumeira sensação de mudança brusca de temperatura, consegui me levantar.
— O que você está fazendo? — ele franziu a testa ao me ver em pé, de frente para a madeira escura, concentrada. Pousei a ponta de minha varinha no puxador, e soltei o ar que estivera prendendo.
Abri os olhos e, num flash, o armário praticamente cuspiu um pacote de papel pardo. Estiquei o braço para pegá-lo, intrigada, mas Draco agarrou minha mão antes que eu pudesse fazê-lo.
Não! — A urgência era audível no timbre.
Seus olhos estavam arregalados, e pude ler neles uma considerável surpresa; provavelmente não botara muita fé na minha chance de consertar seu objeto e agora estava admirado. Mesmo assim, mordi a parte interna do lábio, questionando silenciosamente o motivo de tanto desespero.
— Não quero... — hesitou — que você se machuque.
Ele enrolou a própria mão em uma das mangas longas da capa e descolou um pedacinho do embrulho para examinar o interior.
Ele arregalou os olhos e começou a rir escandalosamente, pulando sobre as quinquilharias espalhadas no chão e totalmente alheio à minha presença.
Depois de quase um minuto da desvairada comemoração, finalmente ele pareceu se recordar da minha existência e do meu papel em seu sucesso, e veio quase correndo em minha direção. Uma mão se encaixou em minha cintura e a outra na curva da minha mandíbula, com a palma quente segurando com leveza meu pescoço. Os lábios dele, macios, se pressionaram contra os meus, num agradecimento mudo e desajeitado.
Meu coração deu um pulo. Isso era bom, certo? Significava que eu estava progredindo na missão! Porém, ao sentir um calor estranho em meu peito, dei um pequeno passo atrás, separando nossos toques.
— O que foi isso? — sussurrei, perdendo o olhar nas pupilas dilatadas dele.
— Não sei. — e uniu nossas bocas mais uma vez.
Antes que pudesse aprofundar o beijo, porém, afastei-o delicadamente mais uma vez. Precisava ser racional.
— Ei, ei, ei. — segurei-o pelos ombros, e sua expressão parecia estar voltando ao normal depois do pico de euforia. — Não vá ficando tão felizinho. Lembra? Há minutos você estava praticamente pronto para me matar. E outra: não sabemos se isso está realmente funcionando, seja lá o que faz.
O semblante entusiasmado murchou um pouco.
— Certo. — ele tirou um dos sapatos afobadamente e o arremessou no interior do armário, e ambos ouvimos o barulho seco quando os cadarços bateram no fundo.
Claramente ele esperava um resultado diferente, e o desapontamento ficou nítido nas feições de Malfoy.
— Você não é tão boa quanto diz, pelo visto. — desdenhou, apoiando as mãos nos quadris e olhando para mim. Uma mecha loira lhe caía sobre o olho.
— Cala a boca. — bufei, cruzando os braços.
Ele abriu um sorriso quase carinhoso.
— Estou brincando, garota. — ele se aproximou de mim, sentando ao meu lado. Uma mão foi pousada em meu joelho e a outra tirou uma moeda dourada do bolso, analisando-a. Reconheci como sendo um galeão.
Meu coração ainda batia estranhamente acelerado, e minha pulseira emitia uma fraca luz. Antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, porém, Draco cessou seu toque em minha perna e a pedra da joia voltou a seu estado normal.
— Vamos a Hogsmeade. — ele declarou, se levantando.
— Antes disso temos que dormir. — falei, erguendo o queixo para olhá-lo.
— Não — ele sussurrou, como se conspirasse —, estou a fim de fazer uma loucura. Vamos agora.
Uma onda de eletricidade pareceu ter percorrido meu corpo.
Uma loucura.
A palavra desencadeou algo dentro de mim. Em toda a minha vida, eu estivera rigorosamente dentro das regras. Por que não aceitar o convite de Draco Malfoy, um garoto estupidamente atraente que eu deveria fazer se apaixonar por mim, para fugir da escola durante a madrugada? Eu estaria no controle. Sabia me cuidar.
Mas não pude evitar de lembrar dos pesadelos, que se iniciaram tantos anos atrás e até hoje causavam crises como a daquela noite. Não conseguia bloquear por completo a lembrança da pequena de treze anos, assustada em sua primeira missão, sendo pressionada contra a parede por um garoto mais velho, num canto escuro de Castelobruxo, só conseguindo escapar dele no último segundo aos prantos… E se aquilo acontecesse outra vez? E se fosse pior…?
Não. O mundo bruxo contava comigo e não era aquele loirinho com sotaque britânico e sorrisinho sedutor que poderia me assustar. Nada realmente acontecera em Castelobruxo. E minhas crises... Bom, o que as causava eram apenas sonhos. Frutos do meu subconsciente que nada tinham a ver com a realidade. Aquilo não deveria me afetar tanto. Eu não podia permitir.
Por isso, segurei a mão que Malfoy me estendia e disse, com um sorriso torto:
— Vamos.



Capítulo 8

Draco POV

Draco POV

Por mais que os Weasleys fossem a pior família de traidores do sangue a habitar o Reino Unido, eu tinha que dar-lhes crédito: os gêmeos eram realmente geniais.
Fora numa conversa deles, entreouvida por mim, que eu descobrira a existência daquela passagem secreta, que saía do coração de Hogwarts e desembocava no porão da Dedosdemel. Nunca tinha completado o percurso antes, mas agora era a hora. Não podia falhar.
— Ei — chamou minha atenção, enquanto subia o zíper de suas botas. Agora sim eu consegui entender o motivo de ela ter entrado na sala: estava em busca de seus calçados perdidos. — Como você planeja ultrapassar as barreiras mágicas, espertinho?
Entortei o canto da boca num sorriso irônico.
— Que apressadinha você, querida — e ofereci meu braço para que ela se apoiasse. Ao endireitar-se sobre os saltos altos, percebi o quão mais baixa que eu ela era. — Espere para ver.
Ela ergueu as sobrancelhas, enfiando a varinha no cano alto da bota direita.
Algo sobre ela me tomava o ar e deixava um pouco atordoado. Não era racional a forma como eu me abrira para ela, e revelara coisas que nem mesmo tinha coragem de admitir para mim mesmo: aquela Marca em meu braço era a representação física do descontrole que eu sempre tive de minha vida. Meu destino sempre esteve na mão dos meus pais; afinal, eu era a consumação da junção de uma das dinastias mais poderosas do mundo mágico — Black — com a família mais rica do Reino Unido — Malfoy. Era uma responsabilidade muito grande carregar aqueles dois nomes e cumprir o que estava reservado para mim.
“Mas é difícil”, pensei, enquanto colocava o pacote de papel pardo no bolso interno do paletó que usava. Lembrava do quanto eu vomitei depois de ver uma tortura acontecendo pela primeira vez, que fora ocasionada pelo simples fato de a vítima ter nascido trouxa. Lembrava de ter rasgado e queimado um travesseiro de plumas, em um pico de estresse, depois de receber a notícia da missão que o Lorde das Trevas me incumbira, logo depois de meu pai ter sido preso.
Mesmo assim, me fizera expor minhas fragilidades e revelar segredos, o que poderia me ocasionar a punição de morte. Por esses motivos inexplicáveis, queria ela comigo em Hogsmeade. Queria aquela sensação de segurança que ela me proporcionara.
— Por aqui — sussurrei, puxando-a para fora da Sala Precisa, mas ela me puxou de volta para dentro.
— Espere aí, querido — ela devolveu a palavra que eu usara para me referir a ela, com as mãos apoiadas na cintura. — Nós vamos assim?
— Ah, desculpa, não sabia que a senhorita queria passar no dormitório para retocar seu batom — debochei.
revirou os olhos.
— Não foi isso que eu quis dizer. Só vira de costas, ok?
Obedeci, sem entender. Ela deu uma pancadinha em minha cabeça, e me sobressaltei com a sensação que aquilo provocou: era como se um ovo, cru e frio, tivesse se quebrado na minha cabeça e escorresse pelo corpo todo.
— Mas o que…?
Quando me virei, ela tinha acabado de repetir o movimento em si mesma, e seu corpo rapidamente se fundiu às cores e texturas dos objetos atrás de si, como um camaleão. Ao olhar para baixo, vi que meu tronco, pernas e pés estavam do mesmo jeito que .
— O Feitiço da Desilusão — murmurei, impressionado.
Ela abriu um sorriso convencido, fazendo um gesto para que eu passasse a sua frente e guiasse o caminho.
Enquanto chegávamos ao ponto de entrada, passando como invisíveis pelos corredores, me dei conta do quão poderosa era, e o do quão útil ela poderia ser para mim e para o Lorde das Trevas. Certamente ele ficaria satisfeito caso eu conseguisse levar uma combatente tão qualificada para a causa. Afinal, aquele era um feitiço do nível de N.I.E.M…!
Quando chegamos em frente à estranha estátua da bruxa caolha, apontei minha varinha e sussurrei Dissendium, e a passagem se abriu diante dos olhos de uma bem surpresa.
— Você só tem a carinha de bom moço, não é, Malfoy… — ela mordeu a boca, arqueando a sobrancelha.
Repeti o gesto que ela fizera para mim na porta da Sala Precisa, indicando que entrasse antes de mim.
O único som audível pelas paredes de pedra era dos saltos da garota que me acompanhava. Nossas varinhas estavam empunhadas, lado a lado, iluminando o percurso. Ao chegarmos ao fim do corredor, empurrei o teto, deslocando o azulejo do piso e abrindo a passagem para subir. Quando consegui me equilibrar dentro do estoque da loja de doces, estiquei minha mão para trazer para cima comigo, mas vi que ela não precisava de minha ajuda; como uma ginasta, ela pulou e se agarrou nas bordas do alçapão, erguendo o peso do próprio corpo com os braços flexionados.
— Eu só estava sendo legal — resmunguei quando ela deu um tapinha debochado em minha palma estendida.
— Eu sei, por isso não te deixei no vácuo — ela rebateu despreocupada, e limpou os fragmentos de teia de aranha que caíram em sua saia preta. O feitiço já começava a se desvanecer. — Onde estamos?
— Nos fundos da Dedosdemel, a melhor loja de doces que você jamais vai conhecer.
A garota pareceu animada, e olhou em volta. Antes que pudesse tocar em qualquer coisa, porém, sacou a varinha e murmurou qualquer coisa em direção a uma caixinha de sapos de chocolate. Pareceu esperar que algo acontecesse, mas o ar empoeirado permaneceu inalterado. Ela encolheu os ombros e puxou dois doces, saindo pela porta do estoque e se dirigindo para trás do balcão do caixa.
— Vai ficar aí parado? — indagou, segurando o corpinho marrom do sapo e abocanhando a pata dianteira.
— Estou processando a ideia de que você é uma ladra de chocolates — impliquei, me agachando a seu lado.
— Eu sou muitas coisas que você não sabe, Draco Malfoy — Havia desafio em sua voz, e aquilo me arrepiou de um jeito estranhamente instigante. — Você já deve ter reparado que eu não sou tão certinha assim — e esticou a perna, relaxada, me dando um vislumbre acidental da cinta liga que prendia sua meia preta até as coxas.
— Não me provoque, . — Experimentei seu nome em minha boca como um doce exótico. As vogais soavam diferentes quando ela as falava.
Me levantei, indo até o amontoado de Feijõezinhos de Todos os Sabores no estoque da loja, e depositei ali o embrulho contendo o presentinho de Dumbledore. Era minha primeira tentativa de suceder na missão. Respirei fundo e cobri o pacote com as caixas de doces, trazendo uma comigo de volta ao retornar para .
— Vamos comer uns doces logo hoje; amanhã não tenho como vir porque tenho detenção com a McGonagall o dia todo.
Ela assentiu vagamente, sem me olhar em um primeiro momento, mas em seguida ergueu o rosto. Sua expressão era indecifrável.
— Draco — ela chamou quase num sussurro, e mirei seus olhos. — Por que me mostrou sua Marca? Quer dizer… — Sua voz pareceu se atrapalhar — Nos conhecemos há pouco tempo, estamos sempre trocando farpas e você me atacou naquela Sala agora há pouco…
Suspirei, sentando a seu lado. Inconscientemente meus dedos passaram por cima da tatuagem negra, através da camisa. Nem eu mesmo sabia a resposta para aquilo, apesar de soar bizarramente certo.
— Você sabe o que é, não sabe?
— Claro — ela respondeu suavemente —, a imagem é conhecida no mundo inteiro.
Fiquei quieto, e percebi que ela não forçaria minha resposta. Em vez disso, devolvi uma pergunta após alguns instantes:
— O que você acha?
só me encarou, pensativa.

POV

Ok, aquilo era no mínimo inusitado. Algo sobre o garoto Malfoy me tomava o ar e deixava um pouco atordoada. Não era racional a forma como eu me abrira para ele, me permitira ter um ataque na frente dele e desabafara coisas que nem mesmo admitia para mim mesma.
Mesmo assim, franzi a testa diante de sua pergunta.
— Em que sentido? O que eu acho da Marca em você?
Ele pareceu não saber esclarecer minha dúvida, então completei:
— Te dá um ar de menino mau — brinquei, arrancando-lhe um sorrisinho de canto. — Contrasta com esse penteado de mauricinho — e estiquei o braço para desarrumar seus fios platinados.
Draco pareceu bravo por um instante, mas logo revidou, entremeando os dedos em meus cabelos na altura da nuca e bagunçando-os. Me ajoelhei para obter mais apoio e tentei segurar seus braços enquanto ríamos, mas ele era mais forte até mesmo que eu (ou talvez as gargalhadas estivessem minando minha energia). Em vez de se distrair pelos risos, ele envolveu meus antebraços com as mãos, me mantendo no lugar, e nosso momento divertido rapidamente cessou. A leveza, porém, permanecia.
Nos encarávamos, mas não de um jeito constrangedor, e sim como que em expectativa.
— ele pronunciou meu apelido com seu sotaque britânico, e colou a boca na minha antes que eu pudesse retrucar.
Malfoy me puxou para subir em seu colo, com toques incrivelmente carinhosos e nem um pouco invasivos, nos instantes e lugares certos para que eu me sentisse confortável e segura. Seus lábios tocavam os meus como se tivessem feito aquilo a vida toda. Meu tronco ficou tenso, mas a carícia que ele fez em minha bochecha fez com que me desmanchasse.
Porém, suas mãos seguravam minha cintura como se ele quisesse declarar posse. Correspondi àquela intensidade puxando seu lábio inferior para mim, e ele arfou. Desci minhas unhas de onde estavam, em sua nuca, passando pelo pescoço e descendo por seu peito, e não senti a gravata do uniforme. Abri os olhos levemente e vi somente o brasão da Sonserina bordado ao bolso da camisa, verde e prata…Como a gravata que eu tirara de minha mochila semanas atrás.
A surpresa me fez partir o beijo, e notei que minha pulseira emanava uma luz tão forte que permitia ver com clareza as íris límpidas de Draco. Ele sorriu, e parecia um sorriso tão… puro. Meu peito se esquentou, e me afastei um pouco dele para reorganizar meus pensamentos. A gravata que eu pegara acidentalmente no banheiro… era dele?
— Não quero nem pensar na quantidade de regras que já quebramos essa noite — comentou ele, passando a mão pelos cabelos e cortando nosso silêncio. Ele abaixou a cabeça e pôs as mãos em minhas coxas, ajeitando minha saia para cobri-las.
Tive a estranha sensação de que ele não se referia somente às regras da escola, mas mesmo assim concordei. Sem dúvidas, aquela noite tinha traçado dois caminhos possíveis para minha missão: sucesso absoluto ou fracasso total. Me senti uma tola por ter me deixado levar pelas emoções.
Mas não era isso que eu devia fazer? Não era esse o objetivo do diamante recusado de Ravenclaw que repousava em meu pulso?
Minhas emoções estavam tão embaralhadas quanto as de Draco, que mal conseguia me olhar nos olhos, certamente se sentindo culpado por se expor tanto a uma (quase) desconhecida. E isso era ruim. Muito ruim. Ele podia ser um jovem Comensal da Morte, treinado e doutrinado para odiar e matar, mas eu era , a melhor agente juvenil do Brasil bruxo e possivelmente do mundo mágico. O que ele estava fazendo comigo?
Saí de cima dele, e seu rosto pareceu levemente decepcionado. Porém, não se instalou um clima estranho entre nós. Malfoy me entregou uma caixinha em forma de prisma, cheia de balinhas coloridas com o feitio de feijões: em letras desenhadinhas, estava escrito Feijõezinhos de Todos os Sabores Beto Botts. Rasguei o papelão fino e apanhei um punhado, mas ele me impediu de colocá-los na boca:
— Não, — Agora sua expressão era divertida. — Eles são realmente de todos os sabores. Tipo, inclusive alguns bem nojentos. Vômito, cera de ouvido, essas coisas.
Fiz uma careta.
— Por que alguém compraria isso?
Ele riu.
— É mais uma brincadeira do que realmente um doce. Olha — ele abriu a embalagem que segurava e puxou uma bala verde —, vamos fazer assim. Você pergunta algo que queira saber, e se eu não quiser responder, devo comer um feijãozinho.
— Muito engraçadinho, você já sabe os que são bons e os que são ruins — retorqui, lhe entregando um doce laranja com pintinhas bege. Parecia que estava com uma catapora estranha e meio doentia. — Eu decido qual você deve comer.
— Feito.
E assim passamos o resto da noite, rindo e descobrindo coisas bobas um sobre o outro.
Draco parecia outra pessoa. Seus olhos brilhavam e a pele parecia mais viva enquanto ele recordava momentos de sua infância, com histórias inventadas por ele e incidentes causados pelas primeiras manifestações de sua magia. Eu lhe contara coisas inocentes, como onde eu nascera no Brasil, as diferenças que eu notara em Hogwarts, a rivalidade entre as casas que me era tão estranha, relatos de situações engraçadas que eu tinha vivido com minhas amigas em Castelobruxo…
Chegou a meia noite como que em um segundo, e meus olhos pesavam de sono.
— Vamos voltar? — ele me ofereceu a mão para levantar. Aceitei a ajuda e me equilibrei sobre os saltos das botas, pegando a varinha para iluminar o caminho.
Tal como a vinda, a volta fora silenciosa. Ele parecia pensativo. Um sorriso frouxo lhe tomava os lábios de vez em quando, mas ele parecia lutar contra aquilo; a batalha interna era visível.
— Espera — e repeti em nós dois o feitiço da Desilusão antes que ele abrisse a passagem para o corredor.
Quando já estávamos devidamente camuflados, sua silhueta se virou para mim e fitou a minha.
— Eu… — Draco hesitou. — Obrigado por hoje. Quer dizer… — Sua voz pareceu se atrapalhar — Por ter me ajudado com o…
— Sem problemas — o cortei, subitamente constrangida.
Nossos toques e conversas na penumbra da Dedosdemel eram uma coisa; ali, sob os archotes de Hogwarts e a com a clara sensação de que estávamos transgredindo algo, tudo parecia diferente.
— Então… Nos vemos por aí — senti seu braço tocar o meu, subir pelo ombro para encontrar meu rosto e então ele deixou um beijo leve no canto de minha boca.
— Isso — murmurei. — Cuidado… no caminho para o dormitório.
— Você também. Boa noite, .
— Boa noite, Malfoy.
E, poucos minutos mais tarde, passei pelo buraco do retrato da Mulher Gorda, com a pele parecendo eletrificada e a cabeça com um turbilhão de imagens do que tinha acabado de acontecer.


Capítulo 9

O vento rodopiando em uivos pela janela me acordou bem cedo no dia seguinte. O tempo ruim visível pela janela quase me convenceu a me aninhar novamente entre os cobertores macios e dormir até a hora do almoço, mas em meio à sonolência veio a sensação de que eu tinha algo importante naquele dia. Me levantei, indo em direção ao banheiro, e só ao notar a fila de meninas em frente à porta me lembrei do que era: o passeio de Hogsmeade, e supostamente minha primeira vez no vilarejo.
Supostamente.
Tal pensamento aflorou as lembranças da noite anterior enquanto eu saía limpa e maquiada do banheiro, já vestindo uma blusa branca de gola alta, bem grossa, e a parte de baixo do pijama. Puxei do malão minhas calças pretas de tecido impermeável e preenchi os bolsos com as moedas aceitas nos estabelecimentos de lá, mas estava inquieta. Para espantar de minha mente a figura de minha companhia noturna daquela sexta-feira, amarrei firmemente os cadarços dos coturnos de plataforma também pretos.
— Oi, . — Hermione me cumprimentou, cobrindo a boca enquanto bocejava. Pareceu um pouco impressionada ao me ver totalmente pronta para sair enquanto ela ainda vestia um adorável conjuntinho de pijama quadriculado. — Animada, huh?
— Sim. — dei uma risadinha. — Vou descer para tomar café. Posso encontrar você depois? É minha primeira vez em Hogsmeade e queria companhia para conhecer, sabe.
— Claro! Devo descer daqui a pouco com Rony e Harry. Nos vemos lá então.
Ela acenou enquanto me dirigi às escadas de pedra em espiral. Completando a roupa com um sobretudo de estampa estilo príncipe de Gales, peguei meu batom vermelho e apliquei nos lábios sem nem conferir; a prática me garantira aquela habilidade.
Me demorei passeando pelo castelo, analisando os milhares de quadros que cobriam as milenares paredes de pedra. Não tinha pressa, mas a ansiedade começava a borbulhar em minha barriga. Quando a sensação no estômago passou a ser identificável como fome, resolvi descer. Ao passar pelas enormes portas que davam no refeitório, porém, quem também vinha pelo corredor ao meu lado era ele.
Draco Malfoy estava vestido inteiramente de preto: terno, camisa, gravata, sapatos. Estava tão irritantemente charmoso que por um segundo me questionei se talvez ele não tivesse herdado sangue de veela da família.
Seus olhos claros encontraram os meus, e vi a chama do dia anterior se acender, enquanto as pupilas se dilatavam ao me registrarem ali. Meu pescoço esquentou por baixo da gola quando lembrei de quando me dirigira aquele mesmo olhar… Quando eu estava em seu colo, suas mãos me segurando e nossos lábios entreabertos…
Um grupo de primeiranistas passou correndo, me cortando pela lateral e forçando minha aproximação com Malfoy. Nossos dedos se roçaram por um fugaz segundo; ele entrelaçou seu mindinho no meu e, pelo canto do olho, observei um sorrisinho se formar. Não nos entreolhamos, porém; não parecia certo agir, sob a luz do dia, como se a noite anterior tivesse efetivamente acontecido. Sendo assim, nos separamos, indo para pontos opostos do salão sentar às mesas da Grifinória e Sonserina.
— Aí houve um segundo lampejo e eu aterrissei de novo na cama! — Rony ia dizendo, colocando algumas salsichas em seu prato. — Bom dia, , já soube o que o Harry aprontou no dormitório hoje?
Abri um sorriso e me sentei ao lado do trio, e os meninos rapidamente me contaram, com diversão, a inusitada história de como Potter acordara Weasley com um feitiço que o punha de ponta cabeça no ar.
A expressão no rosto de Hermione, porém, era de censura.
— Por acaso, esse foi mais um feitiço daquele seu livro de poções? — perguntou.
Harry fechou a cara para a amiga.
— Você sempre tira a pior conclusão, não é?
— Foi?
— Bem... foi, mas e daí?
— Então você simplesmente resolveu experimentar um encantamento desconhecido, escrito à mão, e ver o que acontecia?
— Que diferença faz se está escrito à mão? — retrucou Harry, preferindo não responder à pergunta.
— Porque provavelmente não é aprovado pelo Ministério da Magia. — Hermione retorquiu, colocando mais café em sua xícara. — E mais — continuou, enquanto Harry e Rony olhavam para o teto —, estou começando a achar que esse tal Príncipe era meio suspeito.
Os dois garotos abafaram aos gritos os protestos de Hermione.
— Foi só uma brincadeira! — disse Rony, virando um vidro de ketchup nas salsichas (por Merlim, como ele conseguia comer aquilo de manhã?). — Só uma brincadeira, Hermione, nada mais!
— Pendurar gente de cabeça para baixo pelo tornozelo? — replicou ela. — Quem é que gasta tempo e energia para inventar feitiços como esse?
— Fred e Jorge — respondeu Rony, encolhendo os ombros —, é bem a cara deles.
— Quem são? — perguntei, puxando a leiteira para perto de mim.
— Meus irmãos mais velhos, são gêmeos. — respondeu o ruivo.
— E nunca fariam mal a uma mosca! — completou Harry.
— Mas eles são malucos! — Mione insistiu. — Quem mais faria isso?
— Ãn…
— Meu pai. — disse Harry.
— Quê?! — exclamaram Rony e Hermione juntos.
— Meu pai usou esse feitiço. Eu... Lupin me contou.
— Talvez o seu pai tenha usado, Harry — contrapôs Hermione —, mas não foi o único. Já vimos muita gente usar esse feitiço, caso você tenha esquecido.
Pendurar gente no ar. Fazer gente flutuar, adormecida, indefesa. Harry arregalou os olhos para ela. Rapidamente tentei me recordar de alguma situação parecida que eu tivesse estudado antes da missão ou sabido pelos jornais, e me lembrei do comportamento dos Comensais da Morte na Copa Mundial de Quadribol, dois anos antes. Rony, porém, veio em auxílio do amigo.
— Lá foi diferente — disse com firmeza. — Estavam abusando. Harry e o pai dele só estavam brincando. Você não gosta do Príncipe, Hermione — acrescentou Rony, apontando uma salsicha para a amiga, sério —, porque ele é melhor do que você em Poções.
Ela ficou vermelha. Touché, pensei, mesmo sem saber quem era o tal Príncipe a quem eles se referiam.
— Não tem nada a ver! Só acho que é muito irresponsável ficar realizando feitiços sem nem saber para que servem. — zangada, ela esvaziou sua xícara em grandes goles, pousando-a de volta na mesa com um estalo. — E pare de falar em “o Príncipe” como se fosse um título, aposto que é só um apelido idiota e acho que, pelo jeito, ele nem era uma pessoa muito legal!
— Não sei como você chegou a essa conclusão. — contestou Harry, inflamado. — Se ele tivesse sido um futuro Comensal da Morte, não estaria se gabando de ser mestiço e sim de ser puro, não é?
Minhas mãos tremeram quando tirei a colher do açucareiro para adoçar meu café com leite. Tinha medo do rumo que aquela conversa poderia tomar, mas, ao mesmo tempo, queria saber se o trio suspeitava de Malfoy.
— Quem é esse tal príncipe que vocês estão falando? — questionei, remexendo o conteúdo de minha xícara.
— Harry pegou um livro usado emprestado para a aula de Poções, e o exemplar tem como nome do dono “Príncipe Mestiço”. Ele anotou vários macetes de poções e feitiços desconhecidos, e estou argumentando que isso poderia muito bem ser algum artifício das trevas! Não é possível que todos os Comensais da Morte tenham sangue puro, não existem mais tantos bruxos de sangue puro. — pontuou Hermione, virando-se para os garotos. — Imagino que a maioria seja mestiça e finja ser pura. Só odeiam os que nasceram trouxas, e ficariam muito felizes em deixar você e Rony se alistarem.
— Nunca me deixariam ser um Comensal da Morte! — respondeu Rony indignado, brandindo um garfo para Hermione e arremessando no ar um pedaço de salsicha que foi bater na cabeça de Ernesto Macmillan. — Toda a minha família é traidora do sangue! Para os Comensais da Morte, isto é tão ruim quanto ter nascido trouxa!
— E eles adorariam que eu me alistasse. — comentou Harry, sarcástico. — Seríamos grandes companheiros se eles não insistissem em me liquidar. De nós todos, só seria elegível.
O comentário fez Rony rir; até Hermione sorriu de má vontade.
— Que Merlim me livre; além de racistas e burros, eles são terrivelmente bregas; já viram aquelas máscaras escrotas? Alguém precisa avisar que comédia e tragédia gregas já saíram de moda já há alguns séculos.
As risadas foram mais altas dessa vez, mas foram interrompidas pela chegada de Gina Weasley.
— Ei, Harry, me mandaram lhe entregar isso. — Era um rolo de pergaminho com o seu nome escrito em uma caligrafia fina e inclinada.
— Obrigado, Gina... é a próxima aula de Dumbledore! — disse Harry, abrindo o pergaminho e lendo-o em silêncio. — Segunda à noite!
Seu rosto pareceu se desanuviar, mas fiquei confusa. Aulas com Dumbledore? Antes que eu pudesse perguntar, porém, o garoto perguntou:
— Quer se encontrar com a gente em Hogsmeade, Gina? E você também, !
— Estou indo com o Dino, talvez a gente se veja lá. — respondeu Gina, acenando para nós quatro ao se afastar.
— Eu já tinha falado com a Mione sobre isso — falei —, seria ótimo ter a companhia de vocês.
Nos levantamos todos juntos. Chequei novamente minha varinha no bolso interno do sobretudo, e nos encaminhamos às portas de carvalho que davam para o tempo gélido que fazia lá fora.
O zelador Filch estava parado à saída, verificando os nomes dos alunos que tinham permissão de ir a Hogsmeade. O processo era incrivelmente demorado, porque o zelador estava verificando todo o mundo três vezes com seu sensor de segredos, o que arrancou resmungos de Rony.
— Que diferença faz se estamos contrabandeando objetos das Trevas para fora da escola? — questionou ele, olhando apreensivo para o instrumento detector. — Deviam era verificar o que trazemos para dentro, não?
O atrevimento lhe custou umas cutucadas a mais do sensor, e ele ainda fazia caretas de dor quando saímos para enfrentar o vento e o granizo.
A caminhada até Hogsmeade não foi agradável, ainda mais para uma brasileira totalmente desacostumada a temperaturas tão baixas. Harry cobria o maxilar com o cachecol, mas certamente sentia o mesmo que eu: as partes mais expostas do corpo logo ficavam ardidas e dormentes. A estrada para a aldeia estava repleta de estudantes curvados contra o vento cortante.
— Talvez a gente tivesse se divertido mais na sala comunal aquecida. — o ouvi murmurar para si mesmo.
Quando, por fim, chegaramos a Hogsmeade e o trio vislumbrou a loja Zonko’s: Logros e Brincadeiras fechada com tábuas, bufaram. Rony apontou com a mão protegida por uma grossa luva para a Dedosdemel, que felizmente estava aberta, e eu, Harry e Hermione entramos em sua esteira na loja apinhada de gente. Estava muito diferente de quando eu estivera ali no escuro com Draco.
— Graças a Deus. — estremeceu Rony, quando foram envolvidos pelo ar quente recendendo a caramelos. — Vamos passar a tarde inteira aqui.
— Harry, meu rapaz! — trovejou uma voz atrás de nós.
— Ah, não. — murmurou Harry.
Nos viramos para dar de cara com o professor Slughorn, que trajava um enorme gorro de peles e um sobretudo com uma gola igual; o professor ocupava, no mínimo, um quarto da loja e segurava uma sacola de abacaxis cristalizados.
— Harry, você já faltou a três dos meus pequenos jantares! — disse Slughorn, dando-lhe um cutucão cordial no peito, com o dedo. — Não vai adiantar, meu rapaz, estou decidido a fazê-lo comparecer. A srta. Granger adora os jantares, não é verdade?
— É — concordou Hermione indefesa —, são realmente...
— Então por que você não vem também, Harry? — quis saber Slughorn, não deixando que a garota expressasse sua real opinião sobre os tais jantares.
— Bem, tenho tido treino de quadribol, professor. — respondeu Harry.
— Bem, depois de tanto esforço espero que vocês ganhem o primeiro jogo! Mas uma diversãozinha nunca fez mal a ninguém. Então, que tal segunda à noite, é impossível que você queira treinar com esse tempo...
— Não posso, professor, tenho... ah... um compromisso com o professor Dumbledore para a mesma noite.
— Que falta de sorte outra vez! — exclamou Slughorn dramaticamente. — Ah, bem... você não pode me escapar eternamente, Harry!
A discreta careta que meu colega fez demonstrou que claramente sua intenção era, sim, escapar eternamente. O professor, porém, não pareceu notar e saiu da loja, dando a Rony e a mim a mesma atenção que daria a um Torrão de Barata.
— Não acredito que você tenha se livrado de mais um. — comentou Hermione, sacudindo a cabeça. — Não são tão ruins assim, sabe... às vezes são até divertidos... — Então, viu a expressão no rosto de Rony, que fora ignorado completamente. — Ah, olhem... eles têm Penas de Açúcar de Luxo... devem durar horas!
Harry mostrou um interesse efusivo nas novas Penas de Açúcar Extragrandes, e Rony parecia carrancudo e cismado.
— Que reuniões são essas que o professor estava falando? — inquiri, pegando uma caixinha de sapo de chocolate.
Estou processando a ideia de que você é uma ladra de chocolates, ouvi a voz de Malfoy se repetindo em minha mente, e recoloquei o doce no lugar para afastar a lembrança.
— O professor Slughorn tem uma seleção ridícula de estudantes. — respondeu, com desprezo na voz. — São jantares com pessoas que ele considera influentes ou talentosas.
Subitamente me interessei, pensando se talvez o mestre de poções não tivesse a intenção de incluir meu alvo na seleta lista de convidados para seus eventos. Porém, Rony não parecia muito a fim de me informar, então preferi não insistir.
Quando saiu da fila após pagar suas compras, Hermione perguntou aonde queríamos ir em seguida, ao que o ruivo apenas sacudiu os ombros, emburrado.
— Vamos ao Três Vassouras. — sugeriu Harry. — Deve estar aquecido.
Dito isso, tornamos a proteger o rosto com os cachecóis e saímos da loja de doces. O vento cortava minha pele como se fosse formado por minúsculas facas quando deixamos o calor açucarado da Dedosdemel. Enquanto Rony resmungava “só uma cerveja amanteigada para salvar esse passeio de merda”, reparei que a rua não estava muito movimentada, o que me era estranho. As pessoas não paravam para conversar, mas simplesmente andavam rápido para chegar ao seu destino; era uma grande diferença em relação às proximidades de Castelobruxo, onde todos se conheciam e eram calorosos sempre.
As exceções eram dois homens um pouco à frente, parados à porta do pub. Um deles era muito alto e magro, e o outro atarracado. Um lampejo de reconhecimento passou pelo rosto de Harry, e ele apressou o passo na direção da dupla. Para não ficar deslocada, avisei Hermione que entraria na frente para pegar lugares para nós.
Ao abrir a porta, uma lufada de ar quente me envolveu, e arquejei em alívio. Deixei que as mangas do sobretudo axadrezado descessem por meus ombros enquanto me dirigia a uma mesa vazia grande o bastante para acomodar os quatro. Blásio Zabini estava alguns metros afastado, e pude ver que me analisara com o canto do olho. Estava acompanhado de alguns garotos da Sonserina que não reconheci, e sua figura morena e robusta causava um contraste com minhas memórias de Malfoy, que era loiro e mais esguio, apesar de ainda ser imponente. Sacudi a cabeça para mim mesma, deixando meu agasalho numa das cadeiras, e pedi quatro cervejas amanteigadas no balcão.
Quando pousei as canecas em minha mesa, a porta se abriu para a rua e o trio de ouro entrou, com Harry esbravejando e Hermione tentando acalmá-lo, enquanto apertava os olhos para me procurar. Acenei, indicando as bebidas e os assentos deles, que se aproximaram em passos rápidos.
— …não pode controlar o Mundungo? — ouvi Potter perguntar aos outros dois, num sussurro enfurecido. — Não podem ao menos impedi-lo de roubar tudo que não está pregado quando ele está na sede?
Psiu! — exclamou Hermione desesperada, virando-se para os lados a ver se ninguém os escutava; Zabini estava encostado em uma coluna, arriscando olhares para mim. Fiz uma careta para ele e tentei me concentrar em compreender a discussão de meus colegas grifinórios.
— Harry, eu também me zangaria, sei que são as suas coisas que ele está roubando...
Harry engasgou com a cerveja.
— É, são as minhas coisas! Não admira que ele não tenha gostado de me ver! Bem, vou contar ao Dumbledore o que está acontecendo, ele é o único que mete medo em Mundungo.
— Boa ideia. — sussurrou Hermione, visivelmente satisfeita que Harry estivesse se acalmando. — Rony, que é que você está olhando tanto?
— Nada. — respondeu Rony, desviando depressa o olhar do balcão do bar. Acompanhei o alvo de sua atenção, e notei a presença de uma mulher sedutora e curvilínea que servia as bebidas.
— Presumo que “nada” esteja lá nos fundos apanhando mais uísque de fogo. — ironizou Hermione.
Rony fingiu não ouvir a alfinetada, e continuou a beber sua cerveja em um silêncio que ele evidentemente considerou digno. Harry parecia pensativo. Hermione tamborilava na mesa, seus olhos correndo de Rony para o bar.
— Ok, eu sei que não devia me meter — comentei, limpando a espuma da cerveja que se acumulara em meus lábios —, mas vocês sabem que eu não entendi nada das conversas de vocês desde o café da manhã, né?
Os rostos dos três pareceram ficar um pouco menos tensos por um instante, mas rapidamente se entreolharam, como se decidissem se eu era digna de confiança.
— Bom… — Mione começou, mas foi cortada por Harry.
, são várias histórias complicadas. Mas essa última tem a ver com meu padrinho, que… — ele hesitou — …faleceu recentemente, e deixou várias coisas em sua casa para mim… e esse cara baixinho que encontramos, Mundungo Fletcher, estava roubando-as para vender.
— Sinto muito pela sua perda, Harry. — falei, e ele balbuciou um agradecimento. — Mas essa casa é sede de alguma coisa? Como ele pode ter acesso?
Antes que o amigo pudesse continuar explicando, foi a vez de Hermione cortá-lo: — Não é um bom lugar para falarmos disso agora. — murmurou, e olhou em volta, percebendo mais nitidamente o grupo de sonserinos próximos de nós. — Podemos te contar na sala comunal. — Ela mirou um distraído Rony, e ergueu um pouco a voz para ele. — Então, vamos encerrar o dia e voltar para a escola?
Os outros dois concordaram; não tinha sido um passeio divertido assim, e quanto mais nos demorávamos, pior ficava o tempo. Mais uma vez, nos enrolamos bem nas capas, nos agasalhando com cachecóis e luvas; saímos do bar em seguida a Katie Bell, uma das artilheiras da Grifinória, e uma amiga, e voltamos a subir a rua principal.
Os pensamentos de Harry pareciam estar longe dali; de cara amarrada, ele baixou a cabeça para enfrentar o torvelinho de granizo que viera em sua direção e continuou andando. Minhas botas se afundavam na lama congelada, e sentia a ponta do meu nariz formigar.
Levou algum tempo para eu perceber que as vozes de Katie Bell e sua amiga tinham se tornado mais altas e esganiçadas, trazidas pelo vento uivante. Apertei os olhos para ver melhor seus vultos indistintos. As duas discutiam a respeito de alguma coisa que Katie segurava na mão.
— Não é da sua conta, Liane! — ouvi Katie dizer.
Contornamos a curva da estrada; o granizo caía denso e rápido, embaçando os óculos de Harry. No instante em que ele ergueu a mão enluvada para limpá-los, Liane tentou agarrar o pacote que Katie levava; esta resistiu, e o embrulho caiu no chão.
Embrulho que eu reconheci prontamente: era idêntico ao que Draco Malfoy retirara do armário na noite anterior.
Na mesma hora, a garota se ergueu no ar, graciosamente, com os braços estendidos como se fosse voar. Contudo, havia alguma coisa errada, alguma coisa esquisita... O vento forte fazia seus cabelos chicotearem, mas seus olhos estavam fechados e o rosto, vidrado. Eu, Harry, Rony, Hermione e Liane paramos instantaneamente para observar.
Então, a quase dois metros do chão, Katie soltou um grito horroroso, que me arrepiou mais ainda do que tempo já fizera. Seus olhos estavam arregalados, e o que quer que estivesse vendo ou sentindo estava causando uma terrível angústia. Ela gritava sem parar; Liane começou a gritar também e agarrou Katie pelos tornozelos, tentando puxá-la para o chão.
O trio correu para ajudar, mas, na hora em que a agarraram pelas pernas, a garota desabou em cima deles; Harry e Rony conseguiram apará-la, mas ela se contorcia de tal modo que mal conseguiam contê-la. Por isso, deitaram-na no chão onde ela ficou se debatendo e gritando, aparentemente incapaz de reconhecê-los.
Harry olhou para os lados; a paisagem parecia deserta.
— Fiquem aí! — gritou para que o ouvissem naquela ventania. — Vou buscar ajuda!
— Não, Harry, eu vou! — exclamei de volta.
Corri em direção à escola. Em toda a minha vida, vira pouquíssimas vezes alguém agir como Katie, e sabia que geralmente quem apresentava aquele comportamento acabava morto. Engoli em seco com o pensamento, torcendo para que estar errada, e me lancei por uma curva da estrada. Porém, colidi com um obstáculo que parecia um enorme urso apoiado nas pernas traseiras. Reconheci o professor de Trato das Criaturas Mágicas, Rúbeo Hagrid.
— Professor Hagrid! — ofeguei, desvencilhando-me da cerca viva em que caíra.
— Olá! — exclamou Hagrid, cujas sobrancelhas e barba estavam duras de granizo; trajava um espesso casacão de pele de castor. — Srta. , certo? A novata da Grifi…
— Professor — o interrompi —, tem uma garota passando mal lá atrás, acredito que enfeitiçada...
— Quê? — perguntou Hagrid, curvando-se para ouvir o que eu alertava naquela ventania enfurecida.
— Alguém foi enfeitiçado! — berrei de novo.
— Enfeitiçado? Quem foi enfeitiçado... Não foi o Rony? A Hermione? Harry?
— Não, não foram eles, a Katie Bell... Por aqui...
Juntos, voltamos correndo pela estrada. Sem demora, encontramos o grupinho de pessoas em volta da garota, que continuava a se contorcer e a gritar no chão; o trio e Liane tentavam acalmá-la.
— Para trás! — gritou Hagrid. — Me deixem ver a garota!
— Aconteceu alguma coisa com ela! — soluçou Liane. — Não sei o quê.
Hagrid olhou para Katie por um segundo, então, sem dizer uma palavra, abaixou-se, apanhou-a nos braços e correu em direção ao castelo. Segundos depois, os gritos lancinantes de Katie morriam ao longe e apenas o rugido do vento era audível.
Hermione correu para a amiga de Katie em prantos e abraçou a garota pelos ombros.
— Você é a Liane, não é?
A garota confirmou.
— Aconteceu de repente ou...?
— Foi quando aquele embrulho rasgou — soluçou Liane, apontando para o embrulho de papel pardo, agora empapado no chão, que se abrira revelando um brilho esverdeado. Rony se abaixou com a mão estendida, mas Harry agarrou-o pelo braço e puxou-o para trás.
— Não mexe nisso!
Por mais curiosa que eu estivesse, não me aproximei, mas ele se agachou. Pelo rasgão, via-se um requintado colar de opalas.
— Já vi esse colar antes. — disse Harry, olhando-o com atenção. — Esteve exposto na Borgin & Burkes há séculos. Estava escrito na etiqueta que era amaldiçoado. Katie deve ter tocado nele. — Ele olhou para Liane, que começara a tremer descontroladamente. — Como foi que Katie arranjou isso?
— Bem, era por isso que estávamos discutindo. — explicou Liane. — Ela voltou do banheiro do Três Vassouras trazendo o colar, disse que era uma surpresa para alguém em Hogwarts que precisava entregar. Estava muito esquisita quando falou isso... Ah, não, ah, não, aposto como foi amaldiçoada com a Imperius e eu nem percebi!
Liane foi sacudida por novos soluços.
— Liane, você não tinha como saber! Nada disso é culpa sua, e sim de quem a realmente atacou.
Talvez seja culpa de Malfoy. Ou quem sabe minha, pensei, com um estremecimento que passou despercebido aos outros.
Hermione deu palmadinhas gentis em seu ombro.
— Ela não contou quem tinha lhe dado o embrulho, Liane?
— Não... não quis me contar... e eu disse que estava sendo burra, que não levasse aquilo para a escola, mas ela não quis me escutar... então tentei tirar o embrulho da mão dela... e... e... — Liane soltou um grito de desespero.
— É melhor irmos para a escola — disse Hermione, ainda abraçando Liane —, poderemos saber como ela está. Vamos...
Harry hesitou um instante, então, puxando o cachecol que protegia seu rosto e ignorando a exclamação de Rony, cobriu cuidadosamente o colar e apanhou-o.
— Precisaremos mostrar isso a Madame Pomfrey.
Enquanto seguiam Hermione e Liane pela estrada, minha cabeça trabalhava encontrar explicações e relações freneticamente. Tinham acabado de penetrar os terrenos da escola quando Harry falou, visivelmente incapaz de calar os seus pensamentos por mais tempo.
— Malfoy conhece esse colar.
Uma pedra de gelo pareceu ter se alojado em meu esôfago, descendo e chegando ao estômago em uma sensação de enjoo.
— Estava em um estojo na Borgin & Burkes há quatro anos, vi Malfoy dando uma boa olhada no colar enquanto eu estava escondido dele e do pai. Era isso que ele estava comprando naquele dia em que o seguimos! Ele se lembrou do colar e voltou para buscá-lo…
— Espera aí. — o interrompi, tentando entender. — Vocês seguiram Malfoy no verão? Por quê?
— Nã... não sei, Harry. — disse Rony hesitante, ignorando meu questionamento. — Um monte de gente vai à Borgin & Burkes... e aquela garota não disse que Katie pegou o colar no banheiro?
— Ela disse que a Katie voltou do banheiro trazendo o colar, o que não significa necessariamente que tenha apanhado o embrulho lá...
McGonagall! — alertou Rony.
Harry levantou a cabeça. De fato, a professora vinha ao nosso encontro descendo, ligeira, os degraus de pedra da entrada em um redemoinho de granizo.
— Hagrid diz que vocês viram o que aconteceu com a Katie Bell... já para a minha sala, por favor! Que é isso que você está levando, Potter?
— É a coisa que ela segurou.
— Santo Deus! — exclamou a professora, parecendo alarmada ao tomar o colar de Harry. — Não, não, Filch, eles estão comigo! — acrescentou rapidamente ao ver o zelador atravessar pressuroso o saguão de entrada empunhando o seu sensor de segredos. — Leve este colar ao professor Snape agora, mas tenha cuidado para não tocá-lo, deixe-o embrulhado no cachecol!
Harry e os outros acompanharam a professora à sua sala no primeiro andar, mas Hermione ficou para trás. Olhou em meus olhos com seriedade e sussurrou:
— Harry acha que Draco Malfoy é um Comensal da Morte.
E ela me deixou sozinha, desaparecendo na sala da diretora da Grifinória, com um peso no peito e mil perguntas não ditas.



Capítulo 10

Draco POV

Para falar a verdade, “não terminar os deveres de casa” não era e nem nunca fora motivo para detenção. Porém, McGonagall sabia muito bem que aquele não era um comportamento do meu feitio. Apesar de ser conhecido em Hogwarts pelo meu sobrenome e por ter o posto irritante de galã da Sonserina ou alguma denominação igualmente idiota, a verdade era que eu era bom em outras coisas também; meu desempenho acadêmico só perdia para o de Hermione Granger, e — por mais que me doesse admitir — o único apanhador da escola que conseguia ganhar de mim no quadribol era Harry Potter. Ou seja, minha desavença com a Grifinória não era infundada. O puxa-saquismo de Dumbledore e de todo o corpo docente (exceto, claro, de Severo Snape) que sempre favorecia a casa dos leões impedia que eu fosse reconhecido pelas coisas que eram realmente minhas.
Não que isso importasse naquele momento. A detenção com a professora de transfiguração fora exaustiva, mas não pela feitura dos deveres em si, mas sim pelo fato de meus pensamentos estarem bem longe dali. Mais especificamente, em Hogsmeade, no estoque compartilhado da Dedosdemel com o Três Vassouras. Será que Madame Rosmerta resistiria à Maldição Imperius? Será que conseguiria ela mesma lançar a maldição em alguém, para que trouxesse o presentinho para o castelo e chegasse às mãos de Dumbledore, encerrando minha missão ainda no primeiro trimestre do ano? Torcia para que sim.
Porém, não tardei a descobrir que estava errado. O primeiro sinal foram os cochichos pelo corredor — as palavras “artilheira da Grifinória”, “enfeitiçada” e “pacote” se repetiam nas vozes dos alunos que voltavam de Hogsmeade. Meu estômago já estava embrulhado ao escutar isso, mas tentei me tranquilizar. Poderia ser só uma coincidência. Mas o que — ou melhor, quem — me confirmou a péssima notícia foi ela.
parou no meio do corredor ao me ver, com as botas enlameadas, a barra da calça preta salpicada de gelo e uma expressão insegura. Ao conferir se mais alguém percebera o contato, fez um quase imperceptível gesto para me chamar, e entrou num pequeno corredor que levava ao banheiro da Murta-Que-Geme.
Expirei lentamente, tentando não tremer, e a segui. Tive o ímpeto estranho de fazer o que pudesse para… não decepcionar ? Não sabia definir o sentimento. Era muita coisa misturada: medo de falhar, medo de ser pego, medo do Lorde das Trevas e do que ele poderia fazer a mim e à minha família se o segredo viesse a público… E medo da percepção dela sobre mim.
estava sentada sobre a bancada da pia, com as pernas cruzadas e as sobrancelhas erguidas como se estivesse prestes a me interrogar. E, bem, provavelmente era exatamente isso que ela ia fazer.
— A artilheira da Grifinória, Katie Bell, foi enfeitiçada hoje, saindo do Três Vassouras — começou, com uma voz despreocupada como se estivesse comentando sobre o frio lá fora —, por um pacote estranhamente parecido com o que eu te ajudei a obter ontem daquele armário quebrado… Malfoy.
O jeito que ela enrolou a língua ao pronunciar meu sobrenome a deixou mil vezes mais sensual do que já era. Ela saltou da pia, e as solas grossas dos coturnos estalaram contra o chão de pedra.
Céus, ela gostava tanto de fazer uma cena quanto eu. Como podia ser tão parecida comigo e não estar na Sonserina?
— Por isso — a cada palavra enunciada, ela dava um passo lento em minha direção — queria que você me confirmasse — sua mão esquerda acariciou displicentemente o punho da varinha que saía do bolso — que eu não contribuí para que uma colega minha fosse amaldiçoada.
Fiquei atônito. O rosto dela não demonstrava ameaça, e sim uma espécie de angústia. Certamente se sentia culpada por ter me ajudado e isso ter custado o bem estar e possivelmente a vida de uma garota que não tinha nada a ver com os planos distorcidos de Lorde Voldemort.
, eu não fui a Hogsmeade hoje, como você bem sabe.
— Mas foi ontem à noite, comigo, por uma passagem secreta que certamente Argo Filch não conhece, e sem passar pelo sensor de segredos. — rebateu ela.
— Nós fomos à Dedosdemel, não ao Três Vassouras. — retorqui.
— Quem falou alguma coisa sobre o Três Vassouras? — Seu sorriso era triunfante.
Merda.
— Os corredores. — falei, forçando uma risada irônica. — Fofocas se espalham mais rápido que Fogomaldito em Hogwarts.
Ela pareceu perder a pose, e hesitou. A batalha interna para acreditar ou não no que eu dizia era visível em seus olhos .
— Draco, eu só quero entender.
— Então acredite no que estou dizendo.
mudou o peso do corpo de um pé para o outro, fitando seus sapatos sujos.
— Ei. — segurei sua mão, e as pupilas se voltaram para as minhas. — Nada disso é culpa sua, ok?
— Eu…
— Eu não amaldiçoei Katie Bell, — afirmei. Era só uma meia mentira. Eu não tivera a intenção; fora um acidente de percurso. — E tenho certeza de que ela vai ficar bem. — Outra mentira. A magia negra do colar era destinada para matar. Mas falar aquilo para a menina inquieta à minha frente não era uma opção. Ela não merecia carregar uma parte daquela culpa pelas minhas escolhas erradas.
— Certo. — concordou baixinho, e me tomou de surpresa ao apertar minha mão e deixar um beijo leve no dorso. — Vou te dar esse voto de confiança.
saiu do banheiro, e fiquei me sentindo pior do que bosta de dragão.
Eu era um merda. Mentindo para ela, que só me ajudara; mentindo para meus amigos da Sonserina, e mesmo assim usufruindo de sua ajuda; mentindo para Pansy, que sempre estivera ao meu lado (apesar de ser um tanto obsessiva); mentindo para minha mãe, dizendo que tinha tudo sob controle. E, acima de tudo, mentindo para mim mesmo, ao tentar me convencer de que queria aquela missão, quando na verdade a repudiava mais que tudo e não era uma honra porra nenhuma.
Um arroubo de raiva me tomou e soquei com força o frasco de sabonete líquido que repousava sobre a bancada. Uma rachadura se formou, mas não parecia o suficiente para aplacar minha fúria; agarrei o vidro e o arremessei com toda a força no chão, vendo-o se estilhaçar em incontáveis pedaços e sujar todo o piso com o líquido perolado de aroma floral.
— Por que está tão nervoso?
Dei um pulo com o susto, e me virei para dar de cara com a fantasma Murta-Que-Geme.
— Eu… — Não soube responder, então passei os dedos pelo cabelo suado. — Desculpe por sujar seu banheiro, Murta.
A figura translúcida me encarou com curiosidade, com os olhos amplificados pelas lentes grossas dos óculos.
— Ninguém nunca me pede desculpas.
— Bom, deveriam — resmunguei, acenando a varinha para limpar a bagunça de cacos e sabão que fizera. — Aqui não deixa de ser sua casa, afinal…
Ela continuou me analisando com seus grandes olhos redondos, como se esperasse que eu revelasse mais e respondesse sua pergunta inicial.
— Só estou cansado de tomar todas as decisões erradas. — desabafei, abrindo a torneira e jogando um pouco de água no rosto.
— Pelo menos você ainda pode tomar decisões. — choramingou ela. — Eu não posso, porque estou morta.
Antes, eu sempre achara aquela ladainha sobre sua morte extremamente chata e estúpida. Porém, imaginei que talvez conversar com ela fosse ser uma boa distração.
— Como você morreu, Murta?
E a garota começou a se lamentar e a contar a história, o que, mal sabia eu, acabaria criando uma inusitada amizade entre nós.

POV

Herbologia foi a primeira aula daquela terça-feira, sucedendo um fim de semana tão movimentado e uma segunda-feira insuportavelmente chata. Novamente tomei meu café da manhã com Rony, Hermione e Harry, e este último parecia não conseguir parar quieto no banco. Assim que terminamos a refeição, porém, ele foi contando, enquanto caminhávamos pela horta em direção às estufas, as coisas que Dumbledore lhe mostrara na aula do dia anterior. Eram lembranças que envolviam o passado de Lorde Voldemort — ou, como era chamado na época, Tom Riddle. A ventania violenta do fim de semana finalmente cessara, mas uma estranha névoa tomara seu lugar, e, apesar de conhecerem bem o local, meus colegas (ou, me arriscaria a chamá-los assim, mais novos amigos) gastaram mais tempo do que eu para encontrar a estufa certa.
— Uau, que pensamento apavorante, esse garoto Você-Sabe-Quem — disse Rony, baixinho, quando tomamos nossos lugares ao redor de um dos tocos nodosos de Arapucosos, que faziam parte do programa do trimestre. Comecei a calçar as luvas de proteção, atenta a cada palavra. — Mas continuo a não entender por que Dumbledore está lhe mostrando tudo isso. Quero dizer, é muito interessante e tudo o mais, mas para que serve?
— Não sei. — respondeu Harry, encaixando um protetor de gengivas. — Mas ele diz que é importantíssimo — completou, com a voz um tanto distorcida pelo volume inserido na boca — e vai me ajudar a sobreviver.
— Acho fascinante. — opinou Hermione, séria. — Faz todo sentido conhecer o que for sobre o Voldemort. De que outro modo você vai descobrir os pontos fracos dele?
A garota estava certíssima. Era exatamente meu caso com Draco: precisava compreendê-lo para dominá-lo e vencê-lo.
— Então, como foi a última festinha de Slughorn? — perguntou Harry, mudando de assunto. Certamente, falar sobre a infância do assassino de seus pais não devia ser tão agradável assim.
— Ah, foi até divertida. — respondeu Hermione, colocando os óculos protetores. — Quero dizer, ele fala um pouco sobre os ex-alunos famosos, e simplesmente baba em cima do McLaggen porque ele é bem relacionado, mas nos serviu uma comida realmente gostosa e nos apresentou a Guga Jones.
— Guga Jones? — admirou-se Rony, arregalando os olhos por baixo de seus próprios óculos. — A Guga Jones, capitã das Harpias de Holyhead?
— A própria. — confirmou Hermione. — Pessoalmente, achei que ela é um pouco metida, mas...
— Chega de conversa aí! — disse a professora Sprout, em tom enérgico, aproximando-se com ar severo. — Vocês estão se atrasando, todos já começaram e Neville já colheu a primeira vagem!
Nos viramos para olhar; de fato, lá estava Neville com os lábios ensanguentados e vários arranhões feios na bochecha, mas apertando um objeto verde, do tamanho de uma tangerina, que pulsava de um jeito quase doentio.
— Certo, professora, já estamos começando! — disse Rony, acrescentando baixinho, quando ela se afastou: — Devíamos ter usado o Abaffiato, Harry.
— Não, não devíamos! — discordou Hermione na mesma hora, parecendo aborrecida. — Ora, vamos... é melhor nos apressarmos...
Ela lançou aos outros um olhar preocupado: nós quatro tomamos fôlego e atacamos o toco semioculto pela terra escura.
A planta imediatamente ganhou vida, como eu já esperava por minha experiência em Castelobruxo; galhos longos, urticantes e espinhosos nasceram e chicotearam o ar. Um deles se enganchou nos cabelos de Hermione, e Rony o repeliu com uma tesoura de poda; Harry conseguiu conter uns dois galhos e prendê-los com um nó, e abriu-se um buraco no meio desses tentáculos. Hermione enfiou o braço no orifício criado, que fechou como uma armadilha em torno do seu cotovelo; Harry e Rony puxaram e torceram os galhos, obrigando o buraco a reabrir, e dei uma pancadinha com a varinha no ponto que o antebraço de minha amiga fora engolido. Ela se desvencilhou, trazendo entre os dedos uma vagem igual à de Neville. Na mesma hora, os galhos urticantes tornaram a se recolher e o toco nodoso se imobilizou, parecendo um inocente pedaço de madeira seca.
— Sabe, acho que não vou querer essa planta no jardim quando tiver a minha casa. — comentou Rony, empurrando os óculos para a testa e enxugando o suor do rosto. Dei uma risadinha em concordância.
— Me passa uma tigela. — pediu Hermione, segurando a vagem pulsante com o braço estendido; foi o que Harry fez e ela largou a vagem dentro da vasilha com cara de nojo.
— Não seja supersensível, esprema a vagem, é melhor quando está fresca! — falou a professora Sprout. Puxei o pote para perto de mim, encarando-o enquanto prendia os cabelos em um nó no topo da cabeça.
— Como eu ia dizendo — Hermione retomou a conversa interrompida como se o ataque pelo toco de madeira não tivesse acontecido —, Slughorn vai dar uma festa de Natal, Harry, e dessa você não vai ter jeito de escapar, porque ele me pediu para verificar as suas noites livres, e vai marcar a festa numa noite em que você possa ir.
Harry gemeu como se estivesse em sofrimento. Rony estava em pé tentando abrir a vagem na tigela, segurando-a com as duas mãos e apertando-a com toda a força enquanto eu segurava o recipiente, e disse aborrecido:
— E essa é mais uma festa para os favoritos de Slughorn?
— É só para o Clube do Slugue. — respondeu Hermione.
A vagem voou para longe dos dedos de Rony, atingiu o vidro da estufa, ricocheteou e foi bater na nuca da professora, derrubando seu velho chapéu remendado. Engoli uma risada e fui recuperar a vagem; quando voltei, Hermione estava dizendo:
— Olhe aqui, não fui eu que inventei o nome “Clube do Slugue”...
Clube do Slugue. — repetiu Rony, com um desprezo estranhamente parecido com o de Malfoy. — É patético. Ora, eu espero que você se divirta na festa. Por que não experimenta namorar o McLaggen, aí o Slughorn pode proclamar vocês dois Rei e Rainha do Clu...
— Ele nos deu permissão para levar convidados — disse Hermione, que, por alguma razão, ficara escarlate escaldante —, e eu ia convidar você, mas, se acha que é bobeira, então nem vou me incomodar!
Desejei que a vagem tivesse voado mais longe, para não precisar ficar sentada ali com aqueles dois discutindo. Sem que percebessem, Harry agarrou a tigela com a vagem e tentou abri-la da maneira mais barulhenta e enérgica que pôde pensar, tentando se desligar daquela situação embaraçosa: infelizmente, continuou ouvindo cada palavra que eles diziam.
— Você ia me convidar? — perguntou Rony, em um tom completamente diferente.
— Ia. — respondeu Hermione zangada. — Mas é óbvio que vou levar a , se você prefere que eu namore o McLaggen…
Houve uma pausa em que Harry continuou a bater na vagem resistente com uma colher de jardineiro. Mordi a boca para não rir.
— Não, não prefiro. — retrucou Rony, em voz muito baixa.
Harry errou o alvo e bateu na tigela, quebrando-a.
Reparo. — eu disse depressa, empurrando os cacos com a varinha, e a tigela se recompôs. O barulho, porém, pareceu ter despertado Rony e Hermione para a nossa presença. A garota parecia envergonhada, e começou a consultar o seu exemplar de Árvores do mundo que se alimentam de carne, para descobrir o modo correto de espremer as vagens de Arapucosos. Por mais que eu soubesse que perfurá-las era a forma mais eficiente, achei que a leitura do livro era mais uma desculpa de Mione para se manter em silêncio. Rony, por sua vez, parecia sem graça, mas, ao mesmo tempo, muito satisfeito consigo mesmo.
— Me dá isso, Harry — disse Hermione apressada —, diz aqui que precisamos furá-las com uma coisa afiada...
Harry passou-lhe a vagem e a tigela, e ele e Rony tornaram a baixar os óculos sobre os olhos para mergulharem mais uma vez no toco.
— Peguei! — berrou Rony, puxando uma segunda vagem do toco na hora em que Hermione conseguia partir a primeira, fazendo a tigela se encher de tubérculos que se torciam como vermes verde-claros.
O restante da aula passou sem que se mencionasse a festa de Slughorn, mas fiquei refletindo como eu poderia me infiltrar nesse evento. Pelo visto, Draco poderia não estar entre os convidados, mas certamente estaria nas conversas que aconteceriam lá.

* * *


Naquela mesma noite, houve um treino do time de quadribol, que Harry simpaticamente me convidou para assistir. Pelos comentários desdenhosos e desgostosos dos alunos da Grifinória, descobri que ele tinha chamado Dino Thomas para substituir Katie Bell — que ainda estava no hospital — como artilheiro. Fiquei de certa forma até aliviada; não gostava muito de jogar como artilheira, então fiquei contente em ser a apanhadora reserva. Apesar das fofocas que ouvira sobre Potter ter escolhido dois alunos de sua própria turma para o time, constatei que não havia razão para se arrepender de sua escolha quando vi Dino voando naquela noite; ele se entrosou bem com Gina e Demelza. Os batedores, Peakes e Coote, melhoravam a cada treino. O único problema era Rony.
Era claro que o ruivo era um jogador irregular que sofria de seus nervos e de falta de confiança e, infelizmente, a perspectiva iminente do jogo que abria a temporada parecia acentuar todas as inseguranças — eu soubera, na noite na Dedosdemel com Draco, que Malfoy compusera uma música para debochar de Rony no ano anterior, o que achei extremamente babaca mas nem um pouco surpreendente (o que me surpreendeu foi a criatividade e qualidade melódica da música, que “foi feita enquanto eu estava no banho”, segundo seu debochado compositor). Depois de deixar entrar meia dúzia de gols, a maioria deles marcados por Gina, sua técnica foi piorando, e por fim, ele meteu um soco na boca de Demelza Robins quando ela se aproximou.
— Foi um acidente, lamento, Demelza, eu realmente lamento! — Rony gritou para a garota que ziguezagueava de volta ao chão, pingando sangue pelo caminho. — Foi só que eu...
— Entrou em pânico. — disse Gina com raiva, aterrissando ao lado de Demelza e examinando seus lábios carnudos. — Seu retardado, olhe só o que você fez!
— Posso dar um jeito nisso. — Harry pousou ao lado das duas garotas, e apontando a varinha para a boca de Demelza, disse: — Episkey. E, Gina, não xingue o Rony de retardado, você não é o capitão da equipe…
— Bem, pelo visto você estava ocupado demais para xingá-lo de retardado, então achei que alguém devia…
Mesmo de longe, percebi que Harry fez força para não rir.
— Voando, todo mundo, vamos…
De um modo geral, foi um dos piores treinos que eu já vira a equipe fazer, mas duvidava que a franqueza fosse a melhor política quando estavam tão próximos da partida. Rony parecia ter plena consciência disso, e estava visivelmente puto.
— Bom treino, pessoal, vamos arrasar a Sonserina — ouvi o capitão exclamar para incentivá-los, e os artilheiros e batedores saíram do vestiário parecendo razoavelmente felizes consigo mesmos.
Encontrei Rony e Harry na saída do vestiário, que me chamaram para acompanhá-los até nossos aposentos. Harry sustentava um fluxo incansável de encorajamento a caminho do castelo e, quando finalmente chegamos ao segundo andar, Rony estava parecendo um pouco mais animado. Mas quando o moreno afastou a tapeçaria para tomar um atalho para a Torre da Grifinória, nos deparamos com Dino e Gina, enlaçados em um apertado abraço, se beijando vorazmente como se estivessem colados.
Um afluxo de sangue quente inundou o rosto e pescoço de Harry, e a voz de Rony, furiosa e um pouco chocada, esbravejou:
— Oi!
Dino e Gina se separaram e viraram para olhar.
— Que foi? — perguntou Gina.
— Não quero encontrar a minha irmã se agarrando em público!
— Estávamos em um corredor deserto até você se intrometer! — retrucou Gina. Dino pareceu constrangido. Lançou um sorriso evasivo a Harry, que não o retribuiu. Na verdade, sua expressão era tão incomodada e irritada que eu não duvidava que ele fosse expulsar Thomas do time naquele instante.
— Hã... vamos, Gina — convidou Dino —, vamos voltar para a sala comunal...
— Vai indo! — respondeu ela, colocando as mãos na cintura. — Quero dar uma palavrinha com o meu querido irmão!
Dino foi embora, parecendo não lamentar sua saída de cena.
— Certo — disse Gina, jogando os longos cabelos ruivos para trás e encarando Rony, aborrecida —, vamos entender de uma vez por todas. Não é da sua conta com quem eu saio e o que faço, Rony...
— É, sim! — retrucou Rony no mesmo tom zangado. — Você acha que eu quero que as pessoas digam que minha irmã é uma…
— Uma o quê? — gritou a garota, puxando a varinha. — Uma o quê, exatamente?
— Ele não quis dizer nada, Gina. — interpôs Harry automaticamente, mas sabia que, no fundo, sua vontade era fazer coro às palavras do amigo.
— Ah, quis, sim! — explodiu ela com Harry. — Só porque ele ainda não se agarrou com ninguém na vida, só porque o melhor beijo que ele já ganhou foi da tia Muriel...
— Cala essa boca! — berrou Rony, o rosto passando de rosado direto para o castanho-avermelhado.
— Não calo, não! — gritou Gina, fora de si. — Vejo você com a Fleuma, esperando que ela lhe dê um beijo na bochecha toda vez que a vê, é patético! Se você saísse por aí dando uns amassos, não iria se importar tanto que os outros fizessem isso!
Rony também puxara a varinha; me meti rapidamente entre os dois, e Harry fez menção de fazer o mesmo.
— Você não sabe o que está dizendo! — rugiu Rony, tentando acertar em Gina pelos lados de Harry, que agora se interpunha aos dois de braços abertos. — Só porque não faço isso em público…!
Gina gargalhou debochadamente, tentando me tirar do caminho.
— Andou beijando o Pichitinho, foi? Ou tem uma foto da tia Muriel guardada embaixo do travesseiro?
— Sua...
Um lampejo laranja voou por baixo do braço esquerdo de Harry e por centímetros não atingiu Gina; Harry empurrou Rony contra a parede.
— Não seja burro…
— Você não é nem maluco de lançar um feitiço na sua irmã, Ronald — falei, enraivecida. — Você não é dono dela!
— Harry deu uns amassos na Cho Chang! — berrou Gina, ignorando o que eu dissera e parecendo à beira das lágrimas agora. — Hermione, no Vítor Krum, e duvido que não tenha feito o mesmo! Isso é normal! Só você se comporta como se isso fosse feio, Rony, porque você tem a experiência de um garotinho de doze anos!
E, dizendo isso, retirou-se com a fúria saindo pelos poros. Harry soltou depressa Rony, que tinha no rosto uma expressão homicida. Os dois ficaram parados ali, arquejando, até que Madame Nor-r-ra, a gata de Filch, entrou no corredor, rompendo um pouco a tensão.
— Vamos. — eu falei, ao ouvir os passos arrastados do inspetor.
Harry estava tão vermelho quanto o amigo. Eu quase podia enxergar o monstro do ciúme que se contorcia em suas entranhas, dividido entre as vontades de cuspir uma bola de fogo em Dino Thomas e substitui-lo nos beijos. Contive uma risadinha, sabendo que não seria bem recebida. Subimos as escadas, sob o som dos resmungos de Rony, e seguimos pelo corredor do sétimo andar.
— Oi, sai da frente! — falou ele com rispidez para uma garotinha, que se assustou e deixou cair no chão um vidro de ovas de sapo.
Ao vê-la, estaquei. Naquele mesmo local, uma menina da mesma idade e casa — Sonserina — deixara uma balança cair no dia que Draco estivera lá dentro. Os meninos continuaram andado, tão desorientados que nem perceberam que eu não os seguia mais. A menina me olhava como se tentasse reconhecer meu rosto, e por fim, tirou um papelzinho de dentro das vestes e me entregou, correndo, em seguida, para atrás da mesma pilastra da outra vez.
Abri o bilhete dobrado. Em uma caligrafia fina e caprichosa, estava escrito:

Me encontre na biblioteca às 21h.
D. M.


A tinta era de caneta esferográfica. Esbocei um sorriso e olhei em volta à procura de um relógio. Eram 20:27. Fui às pressas para a Torre da Grifinória, tomei um banho rápido e coloquei roupas casuais: uma blusa de gola alta preta, saia de pregas xadrez e meia calça, calçando coturnos. Pensava sobre o que Draco quereria conversar comigo enquanto borrifava um pouco de perfume no pescoço e depois nos punhos, esfregando-os um no outro e mexendo nos cabelos. A pulseira com a enorme pedra azul (que eu já reparara que mudava de cor aleatoriamente quando se iluminava) me lembrava do verdadeiro motivo daquele encontro, ao qual eu deveria me ater.
Por fim desci. Ao chegar na biblioteca, avistei Malfoy todo de preto, como sempre, folheando um livro despretensiosamente e com vários pergaminhos espalhados a sua frente. Usava a caneta que eu lhe dera para ir completando suas anotações. Sua expressão concentrada me causou um estremecimento. Ele parecia mais velho, mais responsável… e incrivelmente atraente. Só desviou os olhos dos textos quando pousei minha mão no tampo da mesa perto dele.
— Dois minutos adiantada, . — debochou, voltando a se concentrar nas páginas. — Estava ansiosa para me ver?
— Pelo visto você estava; aposto que consultava o relógio a cada segundo. — devolvi em um sussurro, sentando de frente para ele na mesa comprida. — Por que me chamou aqui?
Novamente as íris claras dele se voltaram para mim: olhos azuis-prateados nos . Agora a seriedade os engolia por completo.
— Queria sua companhia.
Meus lábios se partiram levemente com a surpresa. De todas as respostas do mundo, aquela era a última que eu esperara ouvir. Meu estômago borbulhou; isso significava que a missão estava progredindo, certo?
Para disfarçar, dei uma risadinha sem graça. Ele sorriu e abaixou os olhos, partilhando do leve constrangimento.
— E preciso de ajuda em poções também.
— Ah, logo vi que você tinha algum interesse. — falei com falso desprezo, e seus lábios permaneciam curvados para cima. Me recordei do quão macios e gostosos eram, e tive que olhar para outro lugar para evitar a vontade de me inclinar sobre a mesa e beijá-los.
— É sério, é a única matéria que eu tenho dificuldade. — Ele colocou o cabelo para trás como um galã de cinema, e suspirei.
— Nossa, desculpa aí, senhor sabe-tudo. — ergui as mãos como em rendição.
Draco me deu uma piscadinha galanteadora e fechou os grossos volumes a sua frente, dobrando os pergaminhos preenchidos por sua letra e ajeitando-os em uma pilha organizada. O gesto me lembrou de Hermione.
— Você…
— Shhhhh! — a bibliotecária grosseiramente emitiu o chiado para que ficássemos quietos. Enunciei “desculpe” com os lábios, e, quando ela se virou, murmurei Abaffiato.
— Pronto. — falei, num tom normal de voz. — O que você ia dizendo?
Malfoy pareceu confuso por um segundo, mas rapidamente mudou de expressão.
— Como você… hã… como tem sido seu tempo em Hogwarts até agora?
A pergunta não parecia espontânea; na verdade, eu duvidava que ele estivesse interessado na resposta. Como uma agente experiente, eu sabia que aquilo significava duas coisas: ou ele queria me preparar para me persuadir a fazer algo, ou simplesmente queria estar perto de mim e precisava de uma desculpa. Torci para que a segunda opção fosse o caso.
— Bom. — encolhi os ombros. — Considerando que uma garota tentou me matar afogada e um garoto arruinou minha nota de poções jogando sangue em uma Morto-Vivo…
— Ah, Pansy… — ele comentou, ignorando meu comentário sobre o que ele fizera. — Ela… gosta de brincadeiras pouco saudáveis…
— Qual é a de vocês? — apoiei meu cotovelo na mesa, segurando meu queixo com a palma da mão. — Aquilo foi obviamente motivado por ciúmes, você sabe.
Draco riu sem humor.
— Ficamos algumas vezes. — ele respondeu, sem rodeios. — Foram todas coisas do momento, nada além de beijos um pouco mais q…
E ficou quieto, me olhando e parecendo se recordar de quando nós dois tínhamos protagonizado aqueles beijos um pouco mais quentes.
— Poupe-me dos detalhes nojentos, Malfoy. — fiz uma careta sarcástica, puxando uma folha coberta por sua caligrafia.
— Não eram nojentos quando era você no lugar dela, não é? — rebateu, em voz baixa mesmo que ninguém pudesse nos ouvir.
Tirei o braço da mesa como se tivesse levado um choque, mas me recompus. Coloquei meus cabelos para o lado, sentindo o pescoço esquentar com o rumo para o qual ele estava levando aquela conversa.
— Bom. — o loiro pigarreou, como se não tivesse falado nada demais. — O que acha de nos encontrarmos dia sim, dia não?
— Hã? — indaguei surpresa.
— Para você me ajudar com as aulas. — ele explicou pacientemente.
— Ah. — murmurei em concordância. — Por mim tudo bem. Aqui mesmo?
— Isso. — respondeu, colocando alguns de seus livros e papéis dentro de uma bolsa de couro preto.
Céus. Era como se eu tivesse voltado aos treze anos e tivesse beijado pela primeira vez: desconcertada e perdida.
— Podemos começar agora, né?
Ele apontou para os materiais que ainda estavam sobre a mesa.
— Claro.
Draco deu tapinhas no assento da cadeira ao seu lado, e dei a volta na longa mesa para me acomodar ali. Dei uma olhada nas anotações dele, constatando que compreendia o conteúdo, mas parecia inseguro ao aplicá-lo na prática. Pedi um lápis emprestado para corrigir um pequeno erro conceitual, e ele me entregou o objeto roçando nossos dedos. Quando fazia perguntas, virava o tronco para mim e nossos joelhos se esbarravam; quando eu escrevia, ele afastava meus cabelos e os colocava sobre meu ombro para ler os novos termos; quando mais de uma hora de nosso estudo tinha passado, ele se esticou displicentemente e apoiou o braço nas costas de minha cadeira. Eu ignorava os gestos, focando em explicar e sanar suas dúvidas.
— Se eu não soubesse como você é orgulhosa, — ele sussurrou contra minha orelha quando me abaixei para ler as características do pó de pérola anotadas no papel —, acharia que você está querendo subir no meu colo, como fez na Dedosdemel.
Levantei o rosto e fitei aquele babaca convencido com as sobrancelhas arqueadas.
Ele era um bom jogador, mas eu era muito melhor.
— Que eu me lembre, foi você quem me puxou, Draco. — soei inocente. — Me quer em cima de você de novo?
O sorriso dele se desfez enquanto eu sustentava seu olhar, que oscilava entre minha boca e meus olhos implacáveis. Me aproximei mais e ele chegou a fechar os olhos por uma fração de segundo, prestes a permitir que eu o beijasse…
— Você esqueceu uma das propriedades das pérolas moídas. — sussurrei, me afastando devagar enquanto ele ficava atordoado.
— O que…?
Repeti pausadamente, e sorri ao vê-lo fazer um bico emburrado.
— Acho que você já aprendeu bastante hoje, Malfoy. — Alisei a folha de pergaminho onde estivera escrevendo e a arrastei pelo tampo da mesa até a bolsa dele. — A biblioteca vai fechar agora mesmo. Nos vemos depois de amanhã?
Levantei, ajeitando a bainha da saia plissada, mas, antes que eu pudesse sair andando como planejava, ele segurou meu punho. O diamante da pulseira piscou.
— Por mim parece ótimo. — ele disse, como se não estivesse abalado. — Vamos.
Em segundos, a área da mesa em que estivéramos sentados estava perfeitamente organizada, com as cadeiras em seus lugares. Ele foi andando logo atrás de mim até chegarmos na porta da biblioteca. Em frente à saída, ficamos de frente um para o outro.
Dejà vu, huh? — ele murmurou.

Sorri e revirei os olhos. Ele se aproximou, exatamente como acontecera depois da Dedosdemel, se inclinou e beijou minha bochecha no ponto onde fazia fronteira com a boca.
— Boa noite, . — e Draco foi para as masmorras sem nem esperar que eu devolvesse a despedida.

* * *

As mesas da sala do Ministério eram de madeira avermelhada, e o calor do verão carioca se espreitava pelos vãos das janelas. Meus pés nem ao menos tocavam o chão quando estava sentada naquela cadeira dura, mas anotava freneticamente num caderno grosso tudo que o instrutor escrevia no quadro sob o título “PRIMEIRO ANO EM CASTELOBRUXO: PROTOCOLOS PARA AGENTES JUVENIS NA ESCOLA DE MAGIA” .

A voz parecia ter vindo de meu conhecido professor de treinamento, Hélio Cairu, mas estava diferente. Ergui meus olhos para a frente, e gritei, horrorizada. Não era o Sr. Cairu que me chamara.
A pele de Alvo Dumbledore estava acinzentada; seus vasos sanguíneos assumiam uma coloração arroxeada, quase preta, e os olhos estavam amarelos e apagados. Seus membros estavam completamente murchos, como galhos de uma árvore num período de seca. Parecia suplicar pela minha ajuda, fitando aterrorizado algo atrás de mim. Virei a cabeça e meu berro de horror foi ainda mais alto.
Draco Malfoy me encarava, com o sorriso mais diabólico que eu já vira, e seus olhos não tinham mais o tom azul prateado que eu estava acostumada. Estavam totalmente negros: esclera, íris e pupila. A mão pálida e firme apontava a varinha para o diretor de Hogwarts.
Porém, em vez de enunciar uma maldição, a boca de Malfoy se abriu e, com uma voz terrivelmente rouca e distorcida, começou a pronunciar os seis versos proféticos que eu decorara havia tanto tempo e me assombravam desde que eu os ouvira, em minha primeira missão.
Me joguei no chão, tapando os ouvidos, mas as palavras pareciam se infiltrar no meu cérebro de forma direta. Por fim, com um clarão verde, tudo cessou, e abri os olhos.
Estava novamente sentada em minha carteira, e comecei a chorar em desespero. Como sempre, a cena se repetiria infinitamente, até que…


Acordei exasperada. Abri as cortinas do dossel e vi por uma fresta o corpo de Hermione se mexer por baixo das cobertas grossas cor de vinho. Os primeiros raios de sol despontavam no horizonte, trazendo ao ambiente lá fora uma tranquilidade contrastante com minha taquicardia naquele momento. Draco e Dumbledore… Qual era o sentido daquilo?
Era só um sonho, só um sonho, só um sonho.
Será?


Capítulo 11

Draco POV

Fazia exatamente uma semana que eu estivera estudando na biblioteca de Hogwarts com . Era uma das poucas coisas que eu fazia que ajudava a lidar com o estresse, e naqueles sete dias eu já aprendera muita coisa sobre a novata misteriosa da Grifinória.
era tremendamente inteligente; não me surpreenderia se este ano suas notas ultrapassassem as minhas e as de Granger. Estava sempre bem arrumada e perfumada quando nos encontrávamos no início da noite, e fazíamos nossas tarefas juntos em dias alternados. Ela cursava algumas matérias a mais do que eu — Aritmancia, Runas Antigas, Estudo dos Trouxas —, mas parecia lidar com os horários apertados com maestria. Nunca chegava atrasada e sempre mantinha seu material organizado.
Mas a cada vez que conversávamos, me surpreendia mais que ela estivesse na Grifinória e não na Sonserina. tinha um olhar oblíquo e dissimulado e sabia a hora certa de abrir um sorriso cínico; usava seus atributos — físicos e intelectuais — a seu favor, adorando exagerar nas expressões faciais, e apreciava o sarcasmo. Notei também que gostava de música; às vezes, podia ouvi-la cantarolar baixinho alguma canção que eu desconhecia, numa melodia afinada e perfeita, enquanto procurava alguma informação nos livros-texto.
Mas exatamente por enxergar o quão bem ela se adequava na Casa das Serpentes, eu tinha a ciência de que provavelmente era uma manipuladora nata.
— Não, Malfoy — ela exclamou, contendo um riso —, é pra ferver a essência de murtisco por 1 ou 2 minutos, não por 1002 minutos!
Ela esticou o pergaminho para mim, e apertei os olhos para ler o que eu mesmo anotara ali.
— E é exatamente isso que está escrito aí, — retorqui, tirando a folha das mãos dela e iluminando-a mais intensamente com minha varinha. Mostrei para ela, que fez uma careta.
— Ora, a culpa não é minha se sua letra é péssima! — exasperou-se a garota, juntando o cabelo com as duas mãos para prendê-lo num coque.
— Olha quem fala! Anteontem nem você conseguiu entender aquela “mandrágora” que anotou. Parecia “manada”!
fez bico, mas logo caiu na risada. Olhei em volta, mas o tal feitiço Abaffiato que ela usara era realmente eficiente.
Puxei um pouco o nó da gravata para afrouxá-la. Era uma nova, enviada por minha mãe pelo correio; não sabia que fim a outra levara. Eu ainda estava de uniforme por ter passado a tarde toda trabalhando no Armário Sumidouro, sem tempo a perder nem mesmo para tomar banho e trocar de roupas.
— Tá bom, vou reler esse último parágrafo para ver se encontro algum erro e acho que podemos encerrar por hoje, né?
Assenti, mas não queria encerrar por hoje, por mais que meu corpo cansado pedisse isso. Aquelas horas na biblioteca eram as únicas em que eu podia me desvincular um pouco do ambiente que lembrava minha missão; era difícil de fazer isso quando havia um filho de Comensal a cada metro quadrado no salão comunal da Sonserina.
abaixou o rosto para corrigir meu trabalho. Enquanto isso, eu lia as anotações dela de História da Magia e completava com o que tinha captado da aula. Ao terminar uma página, vi a lombada de seu livro de Aritmancia saindo da mochila, e fiquei curioso. Nunca cursara a matéria, mas sabia que se tratava de uma espécie de adivinhação com números.
, como são suas aulas de Aritmancia?
— Por que a pergunta?
— Curiosidade. — respondi. — Como funciona?
Ela largou o lápis que usava e puxou uma folha para si.
— Então, nós aprendemos formas de relacionar números e letras. Uma vez que todo nome ou palavra pode ser convertido em um número, a Aritmancia é usada pra revelar “afinidades ocultas” entre pessoas, lugares e coisas. A teoria por trás disso é que as palavras e nomes com o mesmo valor numérico estão relacionados e se aproximam naturalmente. Segundo um dos sistemas mais usados, há três números fundamentais que podem ser extraídos do nome de uma pessoa: o Número do Caráter, o Número do Coração e o Número Social. O resultado deve ser interpretado conforme essa tabela aqui. — disse, abrindo o livro em uma das páginas iniciais. — Vou fazer com seu nome.
escreveu DRACO MALFOY, em letras maiúsculas e espaçadas, três vezes no papel.
— Olha, eu converto as letras em números — falou, escrevendo algarismos embaixo do meu nome — e somo todos para obter seu Número do Caráter. — Escreveu “5” do lado do primeiro nome. — Somo as vogais, gerando seu Número do Coração — Novamente, anotou “5”, mas agora próximo ao segundo nome. — E, por fim, as consoantes, que formam seu Número Social. — Dessa vez, colocou um “9” no terceiro nome.
Franzindo a testa, ela passou os olhos pelos resultados, com uma expressão impressionada.
— A interpretação do seu nome é a seguinte: você é uma pessoa predisposta a ser influenciada pelo seu redor, principalmente por pessoas que ama. É impelido a muitas coisas ao mesmo tempo, mas não se compromete com nada totalmente, pois seu interior é conflituoso demais para isso. É atrevido, ativo e disposto a correr riscos, desde que sejam calculados e haja um motivo forte por trás. Mas, veja, seu Número Social, que se refere a sua pessoa pública, à face que revela para o mundo externo: é 9. O número da perfeição. Você mostra a todos ser firmemente determinado, trabalhando de forma incansável e se esforçando para ser uma inspiração para os demais. Mas também pode ser arrogante e esnobe quando as coisas não andam do seu jeito. — deixou ar escapar pelo nariz, achando graça. — Bom, parece que nesse final os números acertaram, não?
Não respondi. Fora uma análise assustadoramente exata.
— As características também são reforçadas caso haja algum desses números em repetição na vida da pessoa. Por exemplo, aniversários, datas marcantes, números de letras da cidade onde vive ou nasceu…
Um arrepio me subiu pelas costas. Meu aniversário era no dia 5 de junho. A cidade onde eu nascera, Wiltshire, tinha 9 letras. Minha primeira manifestação de magia foi aos 9 anos. Meu nome do meio, Lúcio, tinha 5 letras.
— Isso tudo é uma grande besteira — desdenhei, impassível, ao que ela revirou os olhos e amassou o papel que usara, acertando-o em minha própria bolsa como uma artilheira acerta a baliza no quadribol. Voltou a ler o que eu escrevera, sem se importar com minha grosseria.
Ainda processava as informações que me revelara quando coloquei a ponta da pena no tinteiro, mas não havia mais tinta. Bufei, e a garota ergueu os olhos para mim.
— Que foi?
— Meu tinteiro secou. — falei, murmurando Tergeo em seguida para tirar os restos de tinta de dentro do recipiente, para que não sujasse meus outros pertences, e o joguei dentro da bolsa. — Você tem aí?
— Cadê a caneta que eu te dei?
Abri a boca, mas logo em seguida a fechei. Não queria responder, pois sabia que me sentiria um idiota ao explicar aquilo em voz alta.
— Deixa eu adivinhar. — largou seu lápis sobre a mesa, cruzando os braços sobre os seios e fingindo estar pensativa. — Você não quer se rebaixar ao ponto de usar um instrumento de trouxas, por mais que isso facilite imensamente a sua vida?
— Sabe, às vezes eu tenho minhas dúvidas sobre as escolhas do Chapéu Seletor. — resmunguei. — Com essa atitude de merda e esse deboche, não sei como que não te botaram na Sonserina.
Ela revirou os olhos.
— Os sonserinos sempre escolhem salvar a própria pele. Eu não. — declarou, enigmática, e voltou seu olhar para minha redação sobre as alternativas para preparo de poções curativas.
Fiquei quieto, encarando-a. Uma mecha escapara do coque, e ela ergueu a mão para ajeitá-la, exibindo a pulseira de prata com um enorme diamante azul. Devia valer uma fortuna, e parecia ser uma joia de família. Será que os eram como os Malfoy do Brasil?
— Bonita sua pulseira. — comentei.
Ela ficou estática. Os lábios se partiram, como se ela precisasse pegar mais ar do que as narinas conseguiam, mas por fim, sorriu para mim, fingindo que a pergunta não a tinha afetado.
— Obrigada, era da minha avó.
Fitei sua boca a tempo de ver o lábio inferior tremer. Estava mentindo?
— Bom, acho que já deu por hoje, então. — disse ela, me devolvendo o pergaminho que estivera analisando. — Já conferi aqui, tá tudo certinho. Você realmente progrediu, Draco.
Eu gostava quando ela me tratava pelo primeiro nome. Trazia uma ideia de proximidade que eu nunca tivera com alguém da Grifinória (a menos que você conte alguns amassos descoordenados com meninas do segundo ano quando eu estava no terceiro, e eu não conto).
— Tudo bem, . — frisei seu nome, vendo-a esticar a língua para mim enquanto arrumava suas coisas dentro da mochila colorida.
Enquanto organizava meus materiais, pensei se seria mesmo uma boa fazer o que estava pensando em fazer. Parecia certo, por se tratar de . Mas parecia errado, por se tratar da Grifinória. Tomei ar e decidi falar.
— Vai ter uma festa no Dia das Bruxas na sala comunal da Sonserina. — Coloquei a alça de minha bolsa preta no ombro, alternando o peso do corpo entre as pernas. — Fiquei pensando se… você… Quer ir?
Péssima ideia. Vermelho e verde. Leões e serpentes. e Malfoy. Já estava preparado para o “não” de .
— Eu adoraria. — ela sorriu, surpreendentemente doce considerando a personalidade que eu conhecia dela. — Que horas?
— Depois do jantar. — disse, ainda um pouco perplexo. — Sempre tem uma comemoração no Salão Principal e depois somos liberados. Deve começar lá pelas dez e meia, onze horas, porque as meninas geralmente trocam de roupa. Imagino que burlar o toque de recolher não seja um problema pra você.
Ela riu.
— Você sabe muito bem que não.
Me senti revigorado com a provocação, então dei um passo para ficar mais perto dela.
— Então nos vemos depois de amanhã, . Ela levantou o braço e desfez o coque, deixando os cabelos escuros e longos caírem sobre os ombros e lançarem uma lufada de ar perfumado em minha direção.
— Serei pontual, Malfoy.
colocou a mochila nas costas e saiu da biblioteca logo à minha frente, tomando o corredor oposto ao meu e em poucos segundos desaparecendo de vista. Enquanto ia para as masmorras, fiquei pensando no quão precipitada era aquela ideia. Lembrei de suas palavras: “os sonserinos sempre escolhem salvar a própria pele”. Mas naquele momento, com aquele convite, eu me dispusera a arriscar.

POV

Larguei a mochila de qualquer jeito em cima de um sofá, e larguei meu corpo logo ao lado. Enquanto passava a ponta da unha no diamante azul da pulseira, fiquei pensando no quão importante aquele convite era. Draco estava fazendo um movimento naquele jogo em que estávamos: estava vendo quais eram as minhas intenções e queria me ver num ambiente descontraído. Pois bem, eu daria isso a ele.
E também… era vantajoso que eu entrasse na sala comunal da Sonserina. Perdi meu olhar nas chamas da lareira da Torre da Grifinória enquanto lembranças de meu treinamento perpassavam minha mente.

FLASHBACK ON:

Era Carnaval. As ruas de todo o Rio de Janeiro estavam abarrotadas de trouxas fantasiados, com álcool no sangue demais e roupas no corpo de menos. As marchinhas tradicionais se misturavam com o funk alto que explodia em caixinhas de som. Saliva, suor, vômito: fluidos corporais se misturando como se fossem os rios Negro e Solimões, naquele espetáculo que pareceria esdrúxulo a quaisquer estrangeiros. Mas dentro do Ministério da Magia, num prédio que parecia abandonado pela fachada e na verdade era decorado suntuosamente com ouro no interior, havia uma sala com dezesseis meninas em absoluta seriedade e atenção, sentadas em carteiras perfeitamente alinhadas, no coração do Departamento de Mistérios.
— Poderia me dizer uma das formas pelas quais ocorrem ameaças à segurança, srta. Villanova? — perguntou o instrutor Hélio Cairu, batendo com o giz no quadro negro à sua frente.
Mudei de posição na carteira, sentando-me por cima da perna, e olhei para trás para encarar minha amiga Felícia Villanova, a melhor da turma em feitiços de camuflagem. Ela puxou um pedaço do chiclete para fora da boca, esticando-o como se estivesse entediada, e respondeu:
— Longo alcance.
— Muito bem. — Cairu fez um aceno com a varinha e as palavras apareceram escritas. — Srta. Camacho, mais um.
— Curto alcance — disse Georgina, sua voz aguda vindo do fundo da sala. Sua habilidade de imitar quaisquer sons só usando as próprias cordas vocais fora o que garantira sua vaga naquela turma de treinamento.
Ele se virou para a menina sentada mais perto da porta.
— Qual é a…
— Suicídio — Jussara o cortou, completando em seguida: — Porque desestabiliza a rede.
Jussara Cavalcanti, a campeã de jiu-jitsu bruxo, abriu um sorrisinho prepotente ao ver o instrutor anotar o que ela dissera no quadro.
— Estamos quase fechando a lista. — Ele sublinhou o título que escrevera antes e se virou para nós. — Srta. Xavier, alguma contribuição?
— Estática. — falou Malena, a metamorfomaga. Seus cabelos estavam num tom verde turquesa naquela manhã, e o nariz arrebitado era idêntico ao da supermodelo mais cobiçada do momento nas passarelas trouxas.
— Falta a última. Alguém sabe?
A turma ficou em silêncio. Jussara abriu a boca, mas tornou a fechá-la. Ninguém ali estava disposto a chutar e errar. Garotas como nós não podiam errar; devíamos ficar quietas até que alguém dissesse o que estava certo e absorver silenciosamente a informação para conferi-la e nos aproveitarmos dela.
— Interna.
Todas me encararam. , a estrela do programa de agentes juvenis do Ministério da Magia brasileiro. A filha dos melhores aurores do país. A adolescente com maior índice de sucesso em suas missões, sendo até o momento absoluto. Hélio Cairu sorriu, andando em direção às mesas das alunas em passos lentos.
— Perfeito, srta. . E essa é a maior de todas. Não subestimem o valor de estar dentro do ambiente do seu alvo. — O instrutor apontou para o quadro e as palavras se multiplicaram, colando-se em folhas de pergaminho e voando até nossas mesas. — De ver o que ele vê, de sentir o que ele sente, de pensar como ele pensa, e, acima de tudo — parou em frente a mim, pousando sua palma sobre minha pena — de ser o que ele é.
Nem um som ecoava pelas paredes da sala. As quinze garotas ali presentes não tiravam os olhos de mim, temendo e ansiando o que viria a seguir.
— Estão todas dispensadas, exceto . — Apesar de suas palavras, ninguém se levantou. — Quero uma análise completa do estudo de caso que passei para vocês no começo da aula. Cinco metros de pergaminho, e lembrem-se de ocultar os escritos com o código do dia. Podem ir.
Com calma e de forma organizada e calculada, minhas colegas se retiraram da sala sem fazer barulho. O instrutor as seguiu para fechar a porta quando a única saiu.
— Temos uma missão pra você, ).
Garotas geralmente sentem borboletas no estômago quando o garoto em que estão interessadas fala com elas. As borboletas do meu estômago, porém, respondiam mil vezes mais àquelas 5 palavras que precederam meu nome na frase de Hélio.
— Ótimo — falei.
Ele apertou os lábios em uma linha fina.
— É uma missão que tem tudo a ver com a aula de hoje. E… é fora daqui. — Hesitou, mas logo contou: — Você vai ter que sair de Castelobruxo por um ano.
Minha boca se abriu antes que eu pudesse contê-la.
— Eu nunca fiz isso antes. Quer dizer… Nunca fiz uma viagem de campo.
— Para tudo tem uma primeira vez, certo? — Ele forçou uma risada. — Encare isso como… um intercâmbio. Você não vivia reclamndo que nunca poderia ir naquelas viagens da escola por causa do trabalho?
Processei a informação por alguns segundos antes de perguntar:
— Quando?
— Daqui a duas semanas um representante da Confederação Internacional vai à sua casa, para explicar todas as informações e levar o dossiê. Não sei muito, mas posso te explicar o básico.
O professor Cairu continuou falando, mas só conseguia me concentrar em tentar diminuir a velocidade das batidas de meu coração. A adrenalina parecia fazer meu sangue esguichar com o dobro de rapidez e pressão, e eu sentia vontade de pular e gritar. Já correra muitos riscos em minha vida como agente juvenil. Passara por muitas dificuldades e perigos, mas o maior deles ainda estava prestes a acontecer.
Saí da sala muda, com minha mochila colorida nas costas. Encontrei Felícia em frente ao quadro de avisos. Ao perceber minha presença, desviou os olhos do cartaz que anunciava um workshop de Runas Antigas para meus lábios tensos.
— Deu merda, hã?
— Deu. Muita. — Sorri. — Eu vou para Hogwarts.

FLASHBACK OFF.


, estava te procurando. — A voz de Gina me tirou de meus devaneios, e pisquei com força. Os cabelos da garota eram da mesma cor do fogo brilhante da lareira.
— Oi. — cumprimentei. — Voltei agora há pouco da biblioteca.
— Então, é que eu estava pensando em fazer uma comemoraçãozinha de Dia das Bruxas aqui na Torre. — ela começou a metralhar as palavras. — Nada muito exagerado, claro, mas só para variar um pouco os festejos que sempre temos no Salão Principal… Aí eu chamaria alguns alunos de outras casas, que são meus amigos, naturalmente, e queria saber se você não gostaria de participar. Com a organização, decoração, essas coisas. Já conversei com a Parvati, que é daqui da Grifinória também, e com a gêmea dela, Padma, que está na Corvinal, e eles concordaram em trazer alguns petiscos encomendados do Três Vassouras. Será que você não teria mais daqueles chocolates de embalagem azul que você nos ofereceu no primeiro dia? E aí poderíamos arrumar uns barris de cerveja amanteigada e…
Depois de prosseguir naquele monólogo por quase um minuto, ela finalmente pareceu se recordar de que nem ao menos me dera tempo para responder. Subitamente ficou quieta e senti uma sombra atrás de mim.
— E aí. — Harry deu a volta no sofá e se sentou no tapete à nossa frente. — Do que vocês tão falando?
O rosto dele ficou um pouco rosado ao encontrar Gina, e imaginei que ele se lembrara da cena da garota beijando Dino Thomas. Ela também parecia um pouco desconfortável. A tensão entre eles era tão palpável que tive vontade de revirar os olhos e bradar “Se peguem logo!”.
— Sobre o Dia das Bruxas. — respondeu a Weasley num murmúrio.
— Gina, eu adoraria participar, mas já tenho um compromisso pra esse dia… — expliquei, mas os olhos dos dois não se desviavam um do outro.
Mais alguns segundos se passaram e eu continuava sendo ignorada, até que ela apoiou as mãos nos próprios joelhos e se levantou, como se um jorro de energia tivesse passado por seu corpo.
— Ah, sem problemas, vou falar com Hermione então. Se vocês a virem, avisem que a estou procurando.
Harry ficou sentado por alguns instantes antes de ocupar o lugar de Gina ao meu lado no sofá.
— “Já tem um compromisso”, huh? — O sorrisinho se abriu a partir do canto da boca dele. — Alguém já está fazendo sucesso em Hogwarts.
Não retribuí o sorriso, de propósito. Queria que ele soubesse qual era o compromisso, mas, ao mesmo tempo, deixaria claro que estava dividida quanto a aceitar o convite de Malfoy, que Potter parecia detestar tanto. Ele notou a mudança de expressão, e contei:
— Draco Malfoy me chamou para uma festa na sala comunal da Sonserina.
Seus lábios abandonaram a curvatura divertida e ele franziu a testa.
— E você vai?
Encenei um suspiro.
— Não sei. O que você acha?
— Acho que você deveria tomar cuidado com Malfoy. Hermione te contou minhas suspeitas sobre ele, não foi? — Assenti, e ele continuou: — Ele sempre foi um babaca e, se eu estiver certo, agora pode ser até perigoso. Sei que você sabe como se cuidar, mas…
— Eu sei…
— … ele tá sempre te olhando.
— Quê? — Me desconcertei, soando mais surpresa do que queria.
— É, já reparei isso algumas vezes. — Harry olhou para as próprias mãos, como se estivesse em dúvida do que falar em seguida, mas completou, com voz mais baixa: — Você poderia usar isso a nosso… quer dizer, a seu favor. Para descobrir se ele… sabe…
— Se ele tem a Marca. — finalizei. Isso eu sabia muito bem. Vira e tocara o entorno da tatuagem. O que eu queria era chegar às condições apropriadas para retirá-la.
— Isso.
— Então acho que vou. E… se descobrir alguma coisa, conto a você.
Seus olhos verdes brilharam.
— Isso seria ótimo.
— Vou avisar a ele, então.
Harry sorriu e engatamos em uma conversa sobre como os alunos da Sonserina evitavam se misturar com o de outras casas, mas um minúsculo incômodo no fundo de minha mente questionava se estava fazendo a opção certa de envolver O Eleito na minha missão.



Capítulo 12

Na manhã do Dia das Bruxas, um delicioso cheiro de abóbora assada se espalhava pelos corredores. Todos os alunos pareciam estar envoltos numa euforia coletiva que eu entendia bem: o Halloween, apesar de não ser comemorado pelos trouxas no Brasil, era um grande evento em Castelobruxo.
O ar das salas de aula estava mais denso; a euforia contida era palpável. A perspectiva de um evento divertido e com boa comida mudara o humor de todos em Hogwarts, até mesmo do trio de ouro — de quem eu me aproximava mais e mais. Pelo menos naquele dia, Harry parecia ter esquecido um pouco sua obsessão com Draco Malfoy ser um Comensal da Morte, as aulas de Dumbledore, as teorias que elaborara sobre o ataque a Katie Bell. Seu rosto estava mais leve: via-se o garoto normal de dezesseis anos que seu passado trágico e presente conturbado o vinham impedindo de ser. Rony estava como sempre: comendo mais do que a média, resmungando sobre a quantidade abusiva de deveres de casa e repetindo sua expressão favorita da língua inglesa (“bloody hell!”) de três em três minutos.
Já Hermione acordara atrasada, o que não era de seu feitio, e correra para o banheiro tentando domar seus cabelos volumosos com feitiços.
— Mione, quer uma ajuda? — perguntei, com as palavras saindo estranhas porque estava escovando os dentes. Encontrei seus olhos semicerrados pelo reflexo do espelho.
— Ai, por favor, sim, eu acho que perdi a prática com esses encantamentos de estética. Acho que a última vez que usei esse dos cabelos foi há uns dois anos, para o Baile de Inverno…
Ela ficou parada e deixou que minha varinha arrumasse suas madeixas, e me agradeceu com um aceno rápido, pois ainda estava de pijama.
— Vou te esperar aqui fora! — gritei para a cabine onde ela entrara e saí do banheiro, indo sentar sobre minha cama.
Já que a mochila já estava pronta para as aulas do dia, resolvi arrumar minhas coisas para a festa da noite. Meu estômago se contorceu em antecipação quando separei o vestido, esticando-o em um cabide, e coloquei algumas coisas dentro da bolsinha de festa, que fora encantada com um Feitiço Indetectável de Extensão.
— Vamos, ! — ouvi a voz abafada de Hermione me chamar, e, no último instante antes de segui-la descendo as escadas, enfiei o braço dentro do malão sem nem olhar e coloquei uma muda do uniforme na bolsa: blusa, saia e gravata. Não sabia a que horas voltaria da sala comunal da Sonserina, então não custava me precaver. Joguei tudo sem prestar muita atenção e de qualquer jeito, e puxei minha mochila pela alça.
— Estou aqui logo atrás de você! — respondi minha amiga, descendo as escadas de pedra até encontrá-la.
— Runas Antigas agora para você também?
— Sim, vamos lá.
Saímos juntas pelo buraco do retrato da Mulher Gorda para as aulas do dia, mas minha cabeça estava nos acontecimentos posteriores às disciplinas de Hogwarts.

* * *

Às sete horas da noite em ponto, passei pelas portas do Salão Principal. Mil morcegos vivos esvoaçavam nas paredes e no teto e outros mil mergulhavam sobre as mesas em nuvens negras e baixas, fazendo dançarem as velas dentro das abóboras, recortadas com caretas e expressões engraçadas. A comida apareceu de repente nos pratos de ouro, como acontecera no banquete de abertura das aulas. Ninguém estava de uniforme, e sim com roupas arrumadas e pesadas, com capas e chapéus pontudos.
Ajeitei o botão dourado, que tinha o brasão dos , de minhas vestes de veludo cor de vinho, olhando para baixo para me certificar de que a roupa para o evento seguinte estava oculta. O único vestígio eram os sapatos: sandálias de bico pontudo, com saltos altos e finos, e cobras de prata polida que se enrolavam em minhas panturrilhas. Eram lindos e faziam eu me sentir uma rainha poderosa.
Cada passo meu fazia um “tlac” contra o piso do Salão, mas os sons eram abafados pelas conversas das centenas de alunos que ocupavam as mesas decoradas. Tomei um lugar perto do trio de sempre, que estava próximo a Gina e Neville. Logo ao lado, Dino Thomas e Simas Finnigan também participavam esporadicamente da conversa vigente. Tomei o cuidado de não lançar olhares para a mesa da Sonserina. Nem ao menos queria ver o rosto de Draco. Era melhor assim, para que nosso encontro mais tarde fosse mais impactante, e queria incutir nele a dúvida se eu apareceria ou não.
— Tudo certo com os elfos, né? — Finnigan perguntou a Gina, em um murmúrio.
— Sim, já deixaram preparados alguns doces extras, vou buscá-los daqui a pouco na cozinha. — a ruiva respondeu no mesmo tom, dando um gole na taça dourada a sua frente. — Dino deixou as garrafas de cerveja dentro do malão dele, com um Feitiço Congelante. Vão estar perfeitas quando subirmos.
Thomas sorriu e gentilmente segurou a mão da namorada sobre a mesa. Inevitavelmente, meus olhos se desviaram para o rosto de Harry, que estava mais rosado que o normal, e vi seus dedos ficarem brancos com a força que segurava o garfo.
— Está animada, ?
A pergunta vinha de Hermione, mas só consegui fitar as íris verdes de Potter, que transmitiam a clara mensagem de “não contei a eles”.
— Ahn, sim… — comecei, desajeitadamente. — Quer dizer…
— Ela tem um compromisso, Mione. — cortou Gina, se servindo de mais torta de frango. — Não vai participar.
Os olhares do grupo recaíram sobre mim, curiosos. Tentei espetar uma batatinha em meu prato. O garfo afundou a crosta crocante e espirrou azeite.
— Então… pois é, eu…
— Bom, eu acho — fui interrompida mais uma vez, mas agora fiquei aliviada quando Harry veio em meu auxílio — que vocês compraram pouca cerveja amanteigada. Só vai ser suficiente para o quinto, sexto e sétimo ano… Vamos ter que proibir os mais novos de pegar, né?
Com as graças de Merlim, fui rapidamente esquecida pelos convivas, que embarcaram em um debate inflamado, que durou até a sobremesa ser servida, sobre a quantidade de bebida para a festa.
Os profiteroles em meu prato estavam lindamente acompanhados de sorvete de creme, mas a ansiedade em minha barriga me impedia de achá-los tão apetitosos quanto eram. Porém, uma calda de chocolate apareceu sobre os doces, formando graciosamente as palavras: Barba prateada.
Apesar de estar confusa, não me virei ao ler a mensagem, o que me ocasionou uma queimação na nuca: Malfoy com certeza não tirava os olhos da mesa da Grifinória para checar minha reação. Apenas acenei com a varinha, fazendo o chocolate se misturar ao sorvete, e dei uma colherada. Agora já sabia a senha para ingressar em meu evento noturno.
Acompanhei meus colegas de casa a nossa sala comunal, porque ainda estava cedo demais. Aproveitei para trocar a cor de meu batom: de nude suave para vermelho vivo, o mesmo tom que provocara o desprezo de Draco no Expresso de Hogwarts. Com um Feitiço de Locomoção, ajudei Simas e Dino a rearrumarem os móveis da sala, de forma a abrir mais espaço no centro. Junto de Hermione, conjurei alguns copos de vidro em forma de cabeças de leão, e achei apropriado lhe contar qual era meu compromisso.
— Mas o quê…? — ela questionou, atordoada, esbarrando com o cotovelo em um copo. Como um dominó, toda a fileira atrás dele caiu no chão, quebrando-se. Em vez do esperado ruído de algo estilhaçando, ouviu-se o som de pequenos rugidos de leão. Ela sacudiu sua varinha e rapidamente os recipientes se recompuseram. — Malfoy odeia a Grifinória, isso não faz sentido.
— Exatamente. — concordei, atenta a um dos copos, que se animara e tentava morder as cobras de meus sapatos. Com um encantamento simples, ele retornou a ser um objeto comum.
— Talvez esse convite seja tipo… um encontro? — Ela fez uma careta. — Sei lá, não consigo imaginar aquele idiota grosseiro tendo esse tipo de delicadeza.
— Também estranhei, mas conversei com Harry sobre isso e…
— …obviamente, ele te incentivou a ir. — Um vinco se formou entre as sobrancelhas finas de Hermione, que apoiou as mãos na cintura em uma breve pausa de nosso trabalho. — Olha, , o Harry está obcecado com essa ideia ridícula de que Malfoy é um Comensal da Morte, então ele não é parâmetro. Não acho que você deva se expor a uma situação dessas sozinha se não tiver vontade.
Com minha ausência de resposta, ela arregalou os olhos.
— A menos, claro, que você esteja querendo ir, não é…
Evitei encará-la, tirando a poeira da superfície de mesa com o dedo.
— ‘Tô me sentindo uma idiota por isso. — Confessei em voz baixa, e ela riu. — Mas ele é bonito, certo? E um pouco de diversão fora dessa Torre não me faria mal.
— Bom, quanto à aparência dele, devo dizer que as atitudes babacas que sempre teve comigo me impedem de achá-lo atraente. — pontuou. — Mas, sim, é sempre bom conhecer gente nova. Mesmo que seja em uma terra meio hostil. — Ela estremeceu, me arrancando uma risadinha. — E isso certamente vai calar a boca do Harry, porque você vai conseguir provar que Você-Sabe-Quem não chamaria uma criança mimada como Malfoy para ser Comensal.
Forcei um sorriso. A sabe-tudo da Grifinória estava redondamente enganada.
Poucos minutos mais tarde, porém, minha expressão sorridente não era mais forçada, e sim causada pela euforia que se apertava em meu ventre. Caminhava lentamente pelos corredores, me aproveitando das sombras, até chegar às masmorras do castelo. Parei de frente para um trecho da parede de pedra, liso e úmido, sussurrei Barba prateada e uma porta de pedra escondida na parede deslizou.
A primeira coisa que vi, ao dar alguns passos para dentro do aposento, foi a luz esverdeada que vinha lá de trás. Através do vidro grosso, dava para ver o fundo do Lago Negro onde eu nadara no início do ano. Em seguida, fui notando a amplitude do lugar, e por fim meus olhos encontraram o garoto prateado, me encarando fixamente em surpresa. Ninguém exceto ele pareceu me notar.
Deixei a capa pesada escorregar por meus ombros e braços, revelando o que havia por baixo e finalmente atraindo os olhares dos presentes. O vestido preto, que me cobria até o meio das coxas, era justo, de tafetá, com mangas longas e gola alta, mas um recorte assimétrico expunha parte do colo e a curva dos seios. Um colar de corrente fina repousava sobre a pele, com um pingente redondo com o brasão da minha família, e o cabelo estava preso em um coque cheio e propositadamente despojado. Coloquei o veludo rubro sobre o encosto de uma cadeira, mantendo minha pequena bolsinha preta comigo, e andei calmamente até Draco, sabendo que os cochichos que se espalharam pelo ambiente eram decididamente sobre mim: uma leoa no território das serpentes.
— Pontual como sempre. — ele mal ergueu os olhos para mim. Seu corpo magro estava sobre uma poltrona de veludo verde esmeralda, segurando um copo cheio de bebida e gelo. Analisei o rótulo da garrafa a seu lado: Uísque de Fogo. Antes que eu pudesse verificar a porcentagem alcoólica que havia naquilo, Blásio Zabini se aproximou da mesa e pegou o recipiente, abrindo um largo sorriso na minha direção.
— Olá, ! Que bom que Draco te convidou! Bem-vinda.
Seu entusiasmo e desinibição provinham do álcool, era óbvio; o cheiro bateu no meu rosto, inconfundível. Sorri.
— Obrigada…?
— Ah, desculpe. — O garoto pareceu um pouco constrangido. — Zabini. Blásio Zabini, não fomos devidamente apresentados, não é…
Ele segurou minha mão num aperto firme, atrapalhado e galanteador. Pela visão periférica, observei Malfoy com a expressão indiferente e superior de sempre. Zabini me entregou uma garrafa de cerveja amanteigada, e minhas unhas rasparam a superfície coberta de gelo.
— Aproveite a festa — ele desejou, e encarou o amigo loiro significantemente, como se esperasse que ele dissesse algo.
Draco, porém, não esboçou reação. Sua linguagem corporal denotava uma tensão clara: maxilar travado, lábios comprimidos, postura muito reta que contrastava com a descontração da festa. Me sentei à frente dele, em um assento igual, e tirei a tampa da garrafa contra o tampo da mesa. Disfarçadamente derramei algumas gotas da cerveja em meu dedo, mas o esmalte preto manteve sua tonalidade: ótimo, sem poção para me drogar. Dei um gole do líquido doce, cujo sabor aveludado mascarava o teor alcoólico.
— E aí, animado?
Logo depois de perguntar, me senti uma idiota. Ele estava com o cenho franzido, parecendo cansado e deslocado em relação ao cenário de sonserinos eufóricos e festeiros. A resposta era óbvia.
— Nossa, super. — O sarcasmo pingou da voz.
Descruzei as pernas, e ele acompanhou o movimento com os olhos, exatamente como fizera no Expresso.
— Por que me chamou, se vai ficar com essa cara a noite inteira? — Estiquei o braço, oferecendo minha bebida. — Toma, bebe um pouco.
— Não vou beber hoje, obrigado. — recusou friamente. — Blásio me obrigou a “pelo menos” segurar este copo… Patético. E quando eu te chamei, era um outro dia. Quem sabe o que pode mudar em um dia, não é mesmo? — debochou. — Talvez amanhã eu esteja por aí pelos corredores, confraternizando com outras casas. Ou abraçando sangues-ruins e me matriculando em Estudo dos Trouxas.
Bufei com o comentário.
— É muito idiota você chamar alunos nascidos trouxas de “sangues-ruins”, sabia? — ergui as sobrancelhas, como se o desafiasse a me refutar. — Além de ser extremamente preconceituoso, é simplesmente ilógico. Se você pensar bem, eles sim são especiais: têm uma habilidade única e extraordinária para magia que ninguém de suas famílias tem. São os pioneiros. São muito mais incríveis do que qualquer bruxo sangue puro como eu e você. Minha melhor amiga, Felícia Villanova, é nascida trouxa e é uma das melhores alunas de Castelobruxo.
— A Granger também, mas duvido que consigam superar você. — ele deixou escapar, e logo em seguida sua face assumiu uma expressão alarmada, como se tivesse falado mais do que devia.
— Que seja. — acenei a mão em displicência, tentando conter meu sorriso pelo elogio velado. — Mas o fato é: eles, sim, têm o verdadeiro dom. Temos muito mais a aprender com eles do que o contrário. E deixar de ser babaca com eles por três segundos não vai matar você, sabe.
Malfoy abafou uma risada de escárnio, remexendo o gelo em seu copo com o indicador, os olhos acompanhando o líquido castanho intocado.
Me ajeitei na cadeira, cruzando as pernas de novo enquanto observava aquele rosto de traços aristocráticos encarar a garrafa de uísque de fogo como se fosse a coisa mais interessante na sala. Para um sonserino, aquilo era uma baita mentira: eles mesmos sempre seriam mais interessantes do que qualquer objeto mundano, por mais caro que fosse. E, bem, a julgar pelos olhares não tão discretos dos outros alunos, a coisa mais interessante na sala era eu.
Inclusive, esses outros alunos, apesar de ainda estarem tentando — sem sucesso — regular o volume da canção que tocava, já estavam consideravelmente alterados pelo álcool. A despeito da (quase) ausência de música, algumas meninas dançavam despreocupadamente entre os sofás de couro preto dispostos perto da lareira. Esbocei um sorriso. Aquilo, estranhamente, me trazia lembranças de uma ocasião muito específica em meu treinamento.

FLASHBACK ON

Não era uma sala de aula comum. Na verdade, não era nem uma sala comum. Todo o seu interior — piso, teto, paredes — era imaculadamente branco, como se estivéssemos adentrando um limbo ou um estúdio de fotografia trouxa.
As dezesseis usavam roupas totalmente pretas. Roupas de combate. Quinze se dividiam entre bonecos para treinar golpes, simuladores de duelos e estações para criar feitiços de proteção. Mas não eu.
— Como contei a você — a voz desprovida de emoção de Hélio Cairu iniciou a lição particular —, hoje temos aula de Combates. Mas o seu tipo de combate é muito mais delicado e complexo do que esses que elas — apontou com o braço para as demais — estão praticando hoje.
Vi o suor no rosto de Felícia refletir a luz vermelha do feitiço que fora disparado contra ela. Jussara e Georgina se enfrentavam no tatame para aperfeiçoar chutes e socos que já estavam perfeitos. Malena e Aderlissa se revezavam para tracejar runas mágicas na pele uma da outra.
Ergui o queixo na direção do instrutor.
— Psicologia reversa. — ele começou. — É a técnica utilizada para se conseguir algo por meio de uma sugestão dúbia.
Andou em um círculo em volta de mim: velha estratégia de intimidação. Poderia funcionar com a de onze anos, mas para a de dezesseis era apenas divertido.
— Você sabe, srta. , que ensinamos a nossas agentes muitas coisas que bruxos conservadores desprezam, por serem habilidades desenvolvidas por trouxas, para trouxas. Isso fica claro por nossas disciplinas especiais: Combates, que ensina luta corpo a corpo. Anatomia Aplicada, que dá a vocês informações importantes sobre onde atingir seu oponente, porquê e quais os exatos efeitos a curto e longo prazo. E, é claro, Princípios de Psicologia, que eu tomei a liberdade de incluir hoje em nosso cronograma.
Ele parou atrás de mim, a poucos centímetros do topo de minha cabeça.
— Pois bem. Construir uma situação de paradoxo a fim de obter um resultado ao qual almeja não é uma tarefa simples, nem infalível. Tudo aqui deve ser aplicado somente depois de profunda análise das variáveis em jogo, não se esqueça. Mas é uma arma letal, se usada como deve e na hora certa.
Hélio fez a pausa dramática que adorava e prosseguiu:
— A técnica de apelar à identidade é utilizada quando você conhece um pouco da pessoa que tenta persuadir. Com isso, você se valerá de um padrão oposto ao dela. Isso fará com que execute um pedido sem que você use uma ordem diretamente, entende? As palavras que conduzem perfeitamente essa ação são usadas por nós quase todos os dias para motivar vocês aqui… Observe como você mesma reage.
Com um aceno rápido de varinha, ele conjurou um espelho, que flutuava à minha frente, e sussurrou:
— “Eu aposto que você não consegue”.
Minhas pupilas se dilataram ante à perspectiva do desafio. O sorriso se espalhou por meus lábios quando constatei o poder daquela frase.
— Aqui, nos valemos do comando negativo — explicou, se afastando e desaparecendo com o espelho. — O “não” funciona como elemento suavizador, mas que força o cérebro a fazer uma representação do pedido feito. Já apelando para a questão da autonomia, reforça-se que a decisão deve partir unicamente do seu alvo, porém deve-se contrapor com os benefícios do que você quer que ele faça. Por exemplo… posso dizer que você não deveria aceitar essa missão, por mais que lhe traga glória e poder dentro do Ministério brasileiro.
Apertei as mãos, piscando com força. Aquele assunto ainda me deixava um pouco insegura.
— Alguns fatores, porém, podem influenciar a resposta daqueles que são submetidos à psicologia reversa; três principais, mais especificamente. O primeiro é a privação de escolhas. A falta de liberdade funciona como um forte retardante psicológico; quando se priva alguém de escolhas, o indivíduo demora mais para reagir da forma que se espera. Quando se pensa em se obter algo, é preciso abrir um leque, ainda que você o direcione a determinado ponto.
A cerca de dez metros de nós, um baque surdo soou, mas não me virei para olhar. Jussara provavelmente nocauteara alguém, mas Cairu parecia totalmente alheio a qualquer coisa que não fosse seus ensinamentos para mim.
— O segundo, veja bem, são ameaças ou eventos contrários que se conectem a algum tipo de decisão, pois acabam retardando ações. Ainda que não faça sentido racionalmente, isso acaba por deixar as pessoas mais rebeldes às sugestões. Há aqui uma profunda relação com a questão da identidade que te expliquei.
Ele ficou em silêncio, como se tivesse terminado.
— E o terceiro? — questionei, sem virar a cabeça.
Hélio deixou o ar sair pelo nariz, achando graça.
— Há uma garantia maior de sucesso na persuasão quando o objeto em questão for muito atraente. Com isso, quanto mais chamativo for um objeto, mais chances a pessoa tem de acatar o pedido. A ideia é supervalorizar o objeto restringido a fim de se obter um maior efeito psicológico em quem se direciona. E você sabe exatamente o que fazer com isso, não é?
Abri um sorriso ainda mais amplo do que antes. Ah, sim. Sabia muito bem.

FLASHBACK OFF


— Sabe, Malfoy, você está certo. — Apoiei os dois pés no chão, estalando os saltos contra o piso. Draco atentou-se a minhas canelas enroladas pelas cobras prateadas, subindo sua análise pelas coxas e voltando ao meu rosto em uma fração de segundo.
— Sobre o quê, exatamente?
— Sobre ficar sentado aqui. Não acho que faça sentido se levantar para dançar, mesmo que seja divertido. Veja aquelas meninas — e apontei para Pansy Parkinson, que recebia vodka em sua boca direto do gargalo, derramada pelas amigas que a rodeavam. Ela fez uma careta ao engolir e caiu na gargalhada, alheia ao fato de ser o assunto de minha conversa. — Parecem tão felizes. Mas não é isso que você curte, não é mesmo?
Ele ficou em silêncio, me fitando como se estivesse organizando uma resposta ácida em sua língua.
— Na verdade, eu duvido que você ao menos goste desse tipo de coisa. Draco Malfoy, o príncipe da Sonserina… — Apoiei as mãos nos braços da poltrona, como se fosse um trono, e continuei, em voz baixa: — Um dos escolhidos do Lorde das Trevas… Duvido que aprecie esse tipo de distração mundana.
Agora eu tinha toda a atenção dele. Draco se debruçou para perto de mim, prestes a responder com a testa franzida em um princípio de fúria, mas fui mais rápida.
— Para ser sincera, eu aposto que você nem ao menos tem coragem de se permitir gostar do que gosta.
Deixando-o saborear o impacto de minhas palavras, me pus de pé. Puxei os grampos que mantinham meu cabelo no lugar e passei os dedos pelos fios, que caíram em ondas negras pelas omoplatas. Malfoy abriu a boca, mas dei as costas a ele sem me despedir e caminhei até o gramofone cercado de alunos.
— Posso dar uma olhada?
Um dos garotos, que eu sabia se chamar Gregório Goyle, deu um passo atrás como se eu fosse uma autoridade que ele temesse ofender. Outros três se afastaram um pouco, mas a menina loira foi a única a se manifestar, com cordialidade:
— Claro, estamos levando uma surra desse troço. Vê se você consegue dar um jeito.
Tirei a varinha de dentro da minha pequena bolsa e fiz o gramofone flutuar sobre minha cabeça para analisar as peças inferiores. Ajustei dois pequenos parafusos que estavam frouxos, ajeitei a posição do disco de vinil e subitamente a música começou a soar em volume muito alto, sendo recepcionada por uma gritaria eufórica.
— Meu Deus, você é fantástica! — ela uniu os dedos cheios de anéis brilhantes em palminhas entusiasmadas, e virou para mim. — , não é? A transferida que foi para Grifinória?
— Isso. — confirmei timidamente.
— Sou Daphne Greengrass, muito prazer! Acho que você é a primeira convidada da Grifinória para nossas festas… Por que não vem dançar conosco, com as outras meninas? — e me puxou pela mão antes que pudesse responder.
Ao me ver no meio da pista de dança improvisada, pude vasculhar a sala com mais precisão. A decoração, apesar de sóbria e imponente, fora ligeiramente alterada para o evento: grandes estrelas prateadas pairavam no ar, a mesa onde a maior parte das bebidas estava era rodeada por nuvens conjuradas, as serpentes presentes no brasão de pedra da casa se mexiam de acordo com as ondas sonoras da música. Não podia negar: a Sonserina, apesar de não ter a simpatia das demais casas, sabia muito bem como dar uma festa. Adolescentes ricos, mimados e inconsequentes, com álcool e sem supervisão: não poderia ter outro resultado. E era um resultado muito bom.
Quando me aproximei do grupinho de Parkinson, sendo quase arrastada por Greengrass, a garota que quase me afogara estacou por um segundo. Eu já estava preparada para a ofensa que viria, mas os olhos desfocados de Pansy me deram a pista de que ela estava muito bêbada. E, bom, garotas bêbadas — ao contrário do que ocorre com os espécimes do sexo masculino — têm uma tendência muito grande a…
, você está liiiiindaaaaa. — ela se aproximou de mim em um abraço desengonçado, e ri com a surpresa de ser envolvida daquele jeito. — Que bom que aquele fodido do Malfoy criou coragem para te chamar!
Ok, então pelo visto todos sabiam que Draco me convidara, e os olhares de espanto iniciais eram porque duvidavam que eu realmente fosse aparecer. Não acharia estranho se houvesse até algum tipo de aposta em relação a isso.
— Adorei sua roupa, Pansy. — elogiei de volta, observando-a tentar dar uma voltinha para exibir o vestido verde de pedras brilhantes, mas sendo segurada por Daphne ao quase cair.
— Pansy, vamos dar um tempinho, beleza? — a voz da loira era firme. Se virou para uma menina alta e corpulenta e pediu: — Millie, leva a Pansy para sentar um pouco, e obriga ela a beber pelo menos meio copo de água.
Quando as duas se afastaram, Daphne revirou os olhos para mim e riu.
— Emilia é a única que tem paciência com Pansy, porque ela sempre perde a linha na bebida. Pais muito protetores e rígidos, entende… Controlam todos os aspectos da vida dela, e ao menor vislumbre de liberdade, a garota surta. — Ela encolheu os ombros. — Mas enfim, vamos nos divertir! Hoje é nosso dia, afinal!
E, com uma risada libertadora, me permiti remexer o corpo de acordo com a música, ao lado da garota que, ao que tudo indicava, poderia se tornar uma amiga. No entanto, sentia os olhos prateados de Malfoy quase queimarem minha pele, e percebi que Hélio Cairu estava certo.
Há uma garantia muito maior de sucesso quando se é atraente e proibida.

Draco POV

dançava mexendo o corpo de um jeito hipnotizante, ondeando não só a cintura, mas o corpo todo, como uma cobra astuta e sensual. Os longos cabelos escuros serpenteavam por seus ombros, caíam sobre seus seios e passavam da curva que a silhueta formava com os quadris. Vendo aquilo, a única coisa que eu queria era me levantar e beijá-la, sentir a boca dela na minha, talvez não com o gosto de chocolate que tivera na Dedosdemel, mas com o sabor próprio e único daqueles lábios impetuosos.
Em vez disso, o sabor que chegou a meus lábios foi o do uísque de fogo — se é que poderia chamar aquilo de sabor. Era uma ardência, uma queimação, uma sensação que apagava um pouco as preocupações de minha mente. Abaixei o copo e desviei o olhar daquela parte da sala, bebericando até constatar que meu copo estava vazio. Agarrei a garrafa com impaciência e despejei mais sobre os cubos de gelo semi derretidos. “Não vou beber hoje” o caralho. Álcool sempre trazia do fundo de minhas memórias as coisas que eu queria esconder. Não coisas necessariamente ruins, e sim vontades não satisfeitas e desejos reprimidos (o que era absolutamente péssimo naquela ocasião específica), mas foda-se. Precisava me distrair daquele sentimento de impotência com algo, e o líquido marrom-dourado parecia ser a melhor opção.
Já estava quase esvaziando o copo de novo quando vi uma garota mais nova se aproximar de Daphne, sua irmã, fazendo ela e pararem de dançar para atendê-la. Se não me engano, se chamava Astoria, e seu rosto estava anormalmente pálido e com olheiras proeminentes. Já ouvira alguns cochichos pela sala comunal que a Greengrass mais nova era amaldiçoada e que uma doença se espalhava por seu corpo pouco a pouco. Se era verdade ou apenas um boato maldoso, eu não sabia, mas o fato era que a saúde da menina era frágil e as visitas a Madame Pomfrey eram frequentes.
Astoria parecia constrangida por estar vestindo pijama em meio àquele grupo de jovens que trajavam roupas sofisticadas, mas logo a irmã fez um gesto tranquilizador e, tomando-a pelos ombros, despediu-se de enquanto recolhia a mais nova para seus aposentos. (N/A: Abra a música aqui e dê play!)
, porém, ficou sozinha por poucos segundos. Rodeada de garotos que pareciam abutres a espera de um primeiro ataque à presa, o passo a frente foi dado por Zabini quando ela chegou à mesinha de bebidas. O sorriso largo do garoto era convidativo, e ele tilintou sua garrafa de cerveja contra a de em um brinde animado. Ele disse qualquer coisa em seu ouvido, ao que ela reagiu com uma gargalhada jogando a cabeça para trás. Dei um gole no uísque de fogo, subitamente incomodado, e constatei que seu cabelo parecia ainda maior daquele jeito. Blásio segurou a mão da menina e pareceu fazer um pedido, pois ela entortou a cabeça como se ponderasse. Nisso, uma nova música se iniciou, e cedeu. Foi puxada de volta à pista de dança.
Entornei o resto do líquido em minha garganta, ignorando o quanto queimava e o quão pesadas minhas pálpebras ficavam, mas não por sono. Os pensamentos, apesar de bagunçados, eram mais concisos. Minhas emoções estavam começando a ficar exacerbadas.
Os primeiros versos da canção eram entoados por uma voz masculina, e a letra era, para dizer o mínimo, bastante ousada. Ok, o melhor adjetivo seria pornográfica. Devo admitir que esse fato me incomodou ao ver Blásio dançando atrás de , seu corpo colado no dela enquanto bebia mais cerveja como se fosse dono do lugar todo. Um sorriso presunçoso se alargava em sua boca a cada vez que rebolava, flexionando as coxas expostas pelo vestido curto, mas não curto demais.
Ele passou as mãos da cintura dela para o quadril, sem reservas, mas segurou os punhos de meu amigo para que ele não se aventurasse além dali. A música tocava e eles dançavam em perfeita sincronia.

It ain't my first time, but baby girl, let's get it in, yeah
Bump and grind, already know
I wanna take you down again
Hit that rewind button, oh-oh


me pegou no flagra enquanto eu a analisava como se fosse a coisa mais interessante na sala — o que, de fato, ela era —, mas desviou o olhar e cantarolou junto com o cantor, levantando os braços para abraçar a nuca de Zabini:

Now let me take you down
Really wanna take you down


Levei meu quarto copo de uísque de fogo (ou talvez fosse o quinto. Ou sexto?), cheio até a borda, na direção da boca sem tirar os olhos do sorriso dela. Puta merda. O irônico é que “take you down” tinha um duplo sentido na música: tanto “derrubar” quanto “assumir o comando”. E eu tinha a sensação de que nem mesmo a própria sabia a qual deles se referia, porque os dois se aplicavam a nossos joguinhos e implicâncias de todos os dias. Mas aquilo me atraía como um ímã, como uma Maldição Imperius, como a vontade irresistível de mergulhar fundo em águas escuras e não se preocupar em emergir. Levantei pela primeira vez, me desequilibrando e caindo de novo na poltrona. O sonserino e a grifinória ainda dançavam, quase agarrados, e os olhares e cochichos cessaram; quase como se tivesse se tornado uma de nós. Mesmo assim, eu não podia controlar o impulso de arrancá-la de perto do moreno e trazê-la para mim. Tentei mascará-lo derramando o conteúdo final do copo na boca, mas sem sucesso.
De novo, a frase enigmática do refrão se repetiu, sendo canalizada pelos lábios de , mas dessa vez, ela cantou os versos finais olhando fundo nos meus olhos, por mais que não fossem meus braços ao redor dela:

Take you down, right now
You know I know how


Era um claro convite — ou, pelo menos, foi assim que minha mente entorpecida interpretou quando ela mordeu a boca, rodopiando no próprio eixo enquanto Blásio analisava suas curvas despudoradamente. Ver aquilo era demais para mim. Por isso, me levantei de novo e fui a passos largos até a dupla, que parecia estar encapsulada numa bolha de sensualidade inebriante.
, por favor. — minha voz saiu lenta e estranha, mas minhas palavras foram compreendidas. Os olhos castanhos de me focalizaram enquanto as mãos de Zabini ainda se apoiavam em seus quadris.
— Perdão? — ela ergueu as sobrancelhas, como sempre fazia quando era sarcástica, mas havia preocupação em seu timbre.
… — Apertei os olhos, numa tentativa de fazer as imagens pararem de rodar. — Para…
— Parar com o quê?
— Para de dançar… com ele…
Ela se aproximou de mim com a risada prestes a escapar, e me segurou pelos ombros.
— Malfoy, você está muito bêbado. — Troquei o peso de meu corpo de um pé para o outro, sentindo meu equilíbrio falhar. Suas mãos surpreendentemente fortes impediram que eu caísse. — É melhor se sentar…
— Não. — a interrompi, dando um passo a frente e tirando as mãos de Blásio do corpo dela.
— Que porra, cara…? — Meu amigo saiu de trás de , com uma expressão nem um pouco amigável. — Não tá vendo que eu ‘tô com ela agora?
Encarei ele, sem saber o que dizer. Minha visão estava turva nos cantos, como se eu olhasse o mundo através de lentes sujas nas bordas, e a cabeça parecia estranhamente leve. Antes que eu pudesse responder sua pergunta retórica, ele se debruçou sobre meu ombro e sussurrou:
Você sabe como essas garotas gostosas são. Daqui a pouco é sua vez.
Cambaleei, sentindo o sangue afluir para a cabeça rápido demais. Não sabia por quê, mas aquela frase me provocara uma raiva irracional; não admitia que ele falasse assim da . Ela não era do jeito que ele estava sugerindo que ela fosse. E, bom, mesmo que fosse, ele não deveria usar aquele tom pejorativo para dizer isso. Estava revoltado com a forma que ele se referia àquela garota; à grifinória com mais traços sonserinos que eu já vira, à melhor da classe em Defesa Contra as Artes das Trevas, à menina que fugira de Hogwarts comigo e me ajudara sem fazer perguntas, à brasileira morena e misteriosa que a cada dia fazia com que eu perdesse um pouco mais da minha sanidade. Por isso, quase cuspi:
Cala a b… — Ei. — chamou minha atenção, segurando meu rosto. — O que você pensa que está fazendo?
— Eu que deveria te fazer essa pergunta. — rebati, me concentrando para manter a voz o mais firme possível, e fechei as mãos em punhos ao ver a careta de Zabini, metade debochada, metade lasciva. Ele olhava pra ela como se fosse um pedaço de carne, o que me enfurecia mais a cada instante.
— Eu estou dançando com um garoto, o que não significa nada além disso. — falou ela, alteando o tom para que seu parceiro de dança a ouvisse. Ele franziu a testa, mas não saiu de perto dela.
… — dei mais um passo em sua direção, colando seu tronco no meu e rodeando sua cintura com minhas mãos. Ela se assustou, mas apenas piscou e levou os olhos aos meus. — Eu…
Draco — ela murmurou, descendo seu olhar para minha boca. — Você está bêbado.
— Eu sei.
— E estamos no meio da sala comunal da Sonserina.
— Eu sei.
— E eu não deveria…
— Eu sei, . — a interrompi, puxando-a ainda mais só com um braço para prendê-la perto de mim. — Porra, foda-se isso tudo, tá legal? Foda-se essa gente toda... — Minhas pálpebras estavam meio moles, então pisquei com força para mirar a grifinória linda à minha frente. — Foda-se que você não deveria estar aqui. FODA-SE! — Passei os dedos por meu próprio cabelo, nervoso, desarrumando-o completamente, e em seguida segurei seu rosto com uma mão, sentindo a veia do pescoço dela pulsar, acelerada, contra minha palma. O álcool impediu que eu me contivesse, então confessei: — Caralho, você tá mexendo com a minha cabeça, garota…
Seus lábios se partiram com o choque, e não resisti. Tomei a boca dela para mim como estivera querendo fazer desde o início da noite.
Apesar da música alta e os uivos de meus colegas da Sonserina em volta de nós, o beijo era intenso. Mas não como se estivéssemos sozinhos, e sim como se o resto do mundo não existisse e nunca tivesse existido. O uísque corria em minhas veias, fazendo com que eu meu corpo inteiro entrasse em combustão e os sentidos focassem unicamente em . Passei minhas mãos por seu corpo como invejara Zabini fazendo, pressionando-a contra mim como se fôssemos nos fundir.
Apesar da dificuldade de andar em linha reta, puxei a garota pela mão na direção do dormitório, mas, ao contrário do que os gritos maliciosos dos demais alunos sugeriam, não ia levá-la para minha cama. Encostei ela na parede próxima à porta do corredor dos quartos, onde a música chegava abafada, e colei nossas testas, sentindo minha cabeça girar.
… quando você usa esse maldito batom vermelho — ofeguei contra o ouvido dela —, eu fico imaginando se o teu beijo seria tão quente quanto a cor… — passei a mão pela pele macia do pescoço dela, depositando um beijo ali — e não paro de pensar nessa merda o dia todo…
— Achei que você detestasse batom vermelho — ela retorquiu, um pouco sem fôlego, e pude quase ouvir o sorriso torto que se espalhava pelo rosto.
— Eu não… eu não consigo evitar… — Segurei seu queixo, passando o polegar no contorno do lábio inferior.
— O quê? Gostar dessa cor na minha boca? Me beijar? — provocou. — Ou falar coisas sem filtro por causa do uísque de fogo?
— As três coisas.
O sorriso convencido de se abriu de vez, e dessa vez foi ela quem ela puxou meus cabelos para guiar a colisão de nossos lábios.
Apesar de todas as preocupações que rodeavam naquele momento, os pensamentos ruins estavam sendo esquecidos. Só havia eu e a garota dos sapatos de serpente e batom vermelho (que eu secretamente achava tão sexy nela), e os últimos versos da canção que chegavam à minha mente bêbada.

I promise not to give it to nobody, babe
And promise you won't give it to nobody, babe
And promise, when you promise, keep them promises…




Capítulo 13

POV

Acordei sendo cutucada por uma menina de cabelos loiros.
, acorda!
Meu corpo estava numa posição esquisita, com as costas contra uma superfície de couro e o rosto apoiado em algo rígido. Entreabri os olhos. Uma estranha luz esverdeada batia em meu rosto, e um braço enlaçava minha cintura. Apesar do estranhamento, estava tão confortável, tão aconchegante, que fechei os olhos de novo.
! — a voz feminina insistiu. — Vocês vão se atrasar!
Demorei um segundo para compreender a situação, e levantei quase num salto, limpando o canto da boca enquanto analisava meu entorno. Daphne Greengrass achava graça da situação toda, mas eu estava super envergonhada ao perceber os olhos e risadas de outros alunos, já uniformizados, em minha direção.
Olhei para o local onde estivera deitada, e vi Draco Malfoy apagado no sofá preto da sala comunal da Sonserina, com a camisa social desabotoada expondo seu tórax definido e pálido. Quando ele mudou de posição, ainda adormecido, vi uma marca arroxeada em seu pescoço. O tecido da roupa sobre a barriga estava amassado, indicando onde minha cabeça estivera apoiada.
Nós adormecemos juntos.
— Puta que pariu. — deixei o palavrão sair sem me controlar, e Daphne riu.
— Vocês estavam tão fofos agarradinhos que nem te chamei para dormir no meu quarto. — Ela ajeitou a alça da mochila que carregava. — E ele estava bêbado demais para ir andando para o próprio dormitório. Vou tomar café, então nos vemos depois.
Assenti sem encará-la. Malfoy estava com uma expressão relaxada, tão diferente da cotidiana dele, que fiquei com pena de acordá-lo, mas me aproximei e sussurrei seu nome.
— Draco, ei, acorda…
Tive que repetir o chamado por vários minutos antes de ele finalmente esboçar reação.
— Caralho, que dor de cabeça. — ele xingou, cobrindo os olhos com as mãos. — Que houve?
— Draco, a gente dormiu no meio da sala. — murmurei.
Ele fez um movimento brusco, se aprumando no sofá, e balbuciou:
— Mas que… ?
— Vamos, temos Defesa Contra as Artes das Trevas daqui a pouco, e precisamos tomar café da manhã. — Ele continuava estático, então dei um tapa no couro preto do assento. — DRACO LÚCIO MALFOY, LEVANTE AGORA E VÁ SE ARRUMAR!
O loiro abriu os olhos por completo finalmente e ficou assustado, mas me obedeceu. Porém, no meio do caminho, seu rosto ficou mais branco que o normal, e foi correndo até o banheiro masculino. Em seu encalço, o observei vomitar no vaso da primeira cabine que encontrou. Revirei os olhos, ajeitando meu cabelo bagunçado em um coque e notando que estava descalça. Abri a bolsinha (que, por sorte, estava com a alça enrolada em meu punho) e espiei seu interior, vendo o detalhe prateado dos sapatos lá no fundo.
— Bom dia, . — uma voz profunda me cumprimentou, e ergui o rosto.
Blásio Zabini estava só com a calça do uniforme, o cinto desafivelado em volta do quadril e segurava a camisa branca com o brasão da Sonserina. Os genes de sua mãe, uma famosa modelo que enviuvara 7 vezes misteriosamente e herdara a fortuna dos maridos, certamente agiram muito bem nele. Abri um sorriso constrangido por vê-lo parcialmente despido.
— Oi, Zabini. Draco está… meio indisposto. — Ao fundo, ouviu-se o ruído da bebida voltando pela garganta de Malfoy e respingando na água sanitária. Blásio levantou as sobrancelhas, achando engraçado. — Estou esperando ele sair para me arrumar.
— Pode trocar de roupa aqui — ele virou de costas e deu alguns passos, indicando uma cama visível através de uma porta aberta: pelas iniciais “D.L.M.” inscritas no malão, era o quarto de Draco. Rapidamente entrou, fechou as cortinas verdes-esmeralda em volta e indicou com a mão o espaço reservado.
— Ah, obrigada. É bem… gentil de sua parte.
— De nada — respondeu, me analisando de cima a baixo de uma forma suja que fez eu me sentir nua. — Te vejo por aí.
Assim que ele vestiu a camisa e saiu do dormitório, me enfiei na cama que ele indicara e abri minha bolsa, xingando-o mentalmente. Eu ouvira o que ele dissera sobre mim para Draco, na noite anterior, quando Malfoy interrompeu nossa dança juntos, mas não podia criar uma cena naquele momento. Ainda um pouco incomodada, acenei com a varinha para que meu vestido e uniforme trocassem de lugar sem que eu precisasse efetivamente tirar e colocar as roupas. Tentava remover do rosto os vestígios grudentos do rímel da noite anterior. Queria ir logo escovar os dentes, então puxei a capa da Grifinória e a abotoei de qualquer jeito, pulando em direção ao banheiro novamente.
— DRACO!
— Vou matar o primeiro tempo. — ele gemeu de lá de dentro, enjoado. — Ressaca tá pesada aqui.
— Malfoy, não me faça ir aí…
— Tá, tá legal, , vou pular o café da manhã só. — ele resmungou, saindo do banheiro sem nem olhar em minha direção. — Vai lá, nos vemos na sala do Snape.
Bufei. Contrariada, usei o banheiro e logo saí das masmorras para o Salão Principal a passos lentos, tentando imaginar o quanto Draco se lembrava da noite anterior. Ele estivera realmente bêbado, apesar de ter recusado a cerveja que lhe ofereci, então possivelmente nem ao menos lembrava de nossos beijos. Tal pensamento me fez murchar um pouco.
— Nossa, você está péssima. — comentou Rony quando me sentei a seu lado na mesa. — Onde esteve? As meninas disseram que não estava no dormitório quando elas acordaram.
— Bom dia para você também, Ronald. — retruquei, ignorando a pergunta e colocando café puro em uma xícara até quase transbordar. Levei o recipiente aos lábios, esperando que o amargor me fizesse sentir mais desperta.
Harry e Hermione riram, atraindo a atenção de Gina, que estava perto de nós. Ela desceu o olhar por meu rosto e apertou os olhos, incrédula.
— Por que você está com uma gravata da Sonserina?
Cuspi uma parte do café que estava em minha boca, quase me engasgando. — Quê? — Olhei para baixo, em pânico.
O trio de ouro arregalou os olhos bruscamente, e Rony assoviou, ficando muito vermelho com o choque.
— Alguém teve uma ótima noite de Dia das Bruxas! — Gina gargalhou, e mais alguns alunos de nossa turma constataram as cores verde e prata que adornavam meu pescoço.
— Não, eu… — Roxa de vergonha, arranquei a gravata pela cabeça e a enfiei de volta na bolsa. Merda. No dia anterior, provavelmente eu pegara a gravata errada em meu malão; em vez da minha, pusera na bolsa aquela que tirara de minha mochila depois de ir ao banheiro dos monitores.
— Acho que vamos ver alguém na mesa da Sonserina com a gravata da Grifinória hoje… — Simas Finnigan sussurrou, fazendo uma careta.
Todos se viraram para a mesa do lado oposto, mas, por sorte, Draco realmente não aparecera para tomar seu desjejum.
— Sem querer te julgar, , mas um sonserino…? — Rony tentava esconder sua surpresa enojada enquanto ria.
— Rony, não é nada disso, não aconteceu na…
— Sem julgamentos, sem julgamentos! — ele ergueu as mãos, me interrompendo.
— Você que está certa, — declarou Gina, jogando os cabelos vermelhos para trás. — Eu estaria fazendo o mesmo se meu irmão insuportável não fosse da mesma casa que eu.
— Gina! Mas eu não…
O ruivo me cortou ao soltar um ruído ultrajado. Enquanto os irmãos discutiam devido à afirmação da garota, cruzei olhares com Hermione, que parecia chocada demais para dizer algo, e Harry se debruçou na mesa para perguntar, baixinho:
— Você viu então, né? Ele tem ou não tem?
— O-o quê? — questionei, atordoada.
— A Marca Negra, !
— Mas como é que eu vou…
— Bom, não é como se ele tivesse ficado de roupas o tempo todo, não é…
Me levantei dando um tapa na mesa, com o rosto e o colo quentes, mas agora de raiva.
— Eu não transei com Draco Malfoy, se é isso que você está insinuando, Potter. — pronunciei o sobrenome dele com o mesmo desprezo que o próprio Malfoy usava.
Harry pareceu terrivelmente sem graça.
, desculpe, mas é que…
— Todos os britânicos são assim como vocês? Fazem suposições e desacreditam o que garotas falam?
Agora os alunos do quinto e sexto anos sentados à mesa prestavam atenção em mim, desconfortáveis.
— Se eu disse que não aconteceu nada, é porque não aconteceu nada. — Me virei para os demais além do trio. — E é simplesmente patético vocês ficarem fazendo piadinhas sobre o assunto, porque não têm essa intimidade comigo, e, mesmo que tivessem, deveriam ter o senso do ridículo.
Sabia que provavelmente essa explosão de comportamento ia angariar a antipatia de muitos, mas não consegui evitar. Ouvi os murmúrios pedindo desculpas, mas meus olhos queimavam. Num rompante, saí andando para longe, em direção ao pátio, com lágrimas se acumulando.
Antes que pudesse chegar ao meu destino, porém, meu braço foi segurado.
— Ei, garota. — Draco cumprimentou com humor. Seu rosto estava corado. — Vai aonde? A sala é na outra direção.
Puxei meu braço para longe de seu aperto, e o sorriso leve dele se desfez.
— O que houve, ?
Não respondi, deixando escapar um soluço enquanto a primeira lágrima escorria.
… — ele se aproximou, com os cabelos loiros despenteados e o chupão se destacando sob o colarinho.
Não. — me afastei, correndo para chegar à área externa do castelo. Quase quinze minutos depois, fiquei cansada demais para continuar. Ofegando às margens do Lago Negro, estiquei a varinha em direção a um toco de árvore e berrei:
Diffindo!
Uma rachadura grosseira apareceu na madeira. Minha raiva era retroalimentada constantemente, pois me irritava o fato de estar tão incomodada com as palavras de meus colegas.
Reducto! Acertando o tronco de mau jeito, metade se desintegrou em pó devido ao feitiço. E Draco… Draco fora surpreendentemente… legal comigo. Por quê?
Confringo!
O que restava da árvore explodiu, lançando farpas sobre minhas roupas e cabelos. Com o peito subindo e descendo pelo esforço das azarações, relembrava a forma doce que ele dissera meu apelido. Por que ele mudava tão rápido de atitude? Na festa, primeiro fora frio, depois me afastara de seu amigo para me beijar; agira secamente quando o chamei no banheiro naquela manhã, e agora me chamava de no meio do corredor?
Sentei na areia, e fiquei encarando as pequenas ondas que se formavam durante longos minutos. Estava zero a fim de ir para a aula de Defesa, mas sabia que era necessário. Por isso, refiz todo o caminho de volta às masmorras, abrindo a porta da sala de Snape sem nenhuma delicadeza. Todos já estavam sentados em suas carteiras.
— Está atrasada. 10 pontos a menos para a Grifinória, srta. — a voz desprovida de emoção do professor falou às minhas costas. Contive a vontade de encolher os ombros em um claro “foda-se”. A Taça das Casas era a última coisa que me preocupava no momento.
Harry abaixou o olhar quando cheguei, mas Draco fez o oposto. Me analisou dos pés à cabeça com curiosidade, mas fingi não reparar nele. Sentei ao lado de Hermione, que me fitava com a expressão tensa, e me concentrei em ouvir o que Snape dizia.
— Como eu estava explicando antes de ser interrompido, vocês devem se organizar nas duplas de sempre. Um deve tentar conjurar feitiços de proteção de barreiras físicas, enquanto o outro tentará atravessá-las e rompê-las com azarações.
“Ótimo. Minha dupla é exatamente a pessoa com quem eu mais quero falar no momento”, pensei, irônica.
Fui a única a não me levantar da cadeira. Draco veio até mim, de cara fechada.
— Anda, vamos. Você que me convenceu a não matar essa aula, então faça valer a pena.
Emiti um som de sofrimento, e afastei minha carteira para o canto da sala com um feitiço. Paramos de frente um para o outro, e ergui minha varinha.
Cave Inimicum.
Seus olhos se desfocaram de mim; certamente, eu havia desaparecido para ele. O garoto lançou um jorro prateado de luz em minha direção, que foi repelido pela barreira invisível. Ao ver sua cara de frustração, me permiti dar uma risada, mas na mesma hora ele lançou outro feitiço. O impacto me fez cair no chão, surpresa.
— 10 pontos para a Sonserina — declarou Snape. — Parabéns, sr. Malfoy.
Draco parecia confuso quando estendeu a mão para me ajudar.
— O que houve com você?
— Nada que tenha a ver com você. — menti. — Vamos, sua vez.
Ele hesitou, mas não fez perguntas.
Salvio Hexia. — ele pronunciou, esperando que eu atacasse.
Permanecemos quietos até o fim da classe, sem as provocações habituais. Me sentia uma estúpida por aquilo, porque eu deveria estar aproveitando aquele momento para me aproximar ainda mais dele e tentar cumprir minha missão, mas estava cansada. Cansada de botar os interesses dos outros, do Ministério, do mundo bruxo, acima dos meus sentimentos. Estava chateada e incomodada por ter sido exposta na mesa do café da manhã, e indignada por ter sido desacreditada em relação a uma coisa tão íntima. E, no fundo, estava inconformada com minha própria atitude de descontar aquilo em Draco. Só queria poder ficar introspectiva e em paz, nem que fosse por aquelas únicas horas.
O fim da aula foi anunciado pelo professor, e Malfoy estava abrindo a boca para me dizer algo quando foi interrompido:
, posso falar com você? — Hermione questionou atrás de mim.
Me virei. Ela mordia boca em insegurança. Pela visão periférica, observei Draco se afastar e pegar seus materiais, saindo da sala meio irritado.
— Claro. — concordei, desanimada.
Segui minha amiga pelos corredores até chegarmos ao pátio, onde ela se apoiou em uma das colunas de pedra, com o rosto austero.
… Harry e Rony são dois idiotas insensíveis, então quero me desculpar em nome deles.
— Mione, você não precisa…
— Não, é sério, escute… Eu sei como é a sensação de ser o assunto do momento por causa de quem você… Fica. E se você diz que não aconteceu nada entre você e Malfoy, eu acredito, e não é uma gravata trocada que vai me fazer mudar de ideia. Entendo por que eles pensaram que tinha rolado algo a mais… Realmente soa intrigante que você tenha passado a noite fora e volte na manhã seguinte com peças de roupa de outra pessoa. Mas não é justificativa para duvidarem de sua palavra. — Ela suspirou. — Enfim, eu só não quero que você fique com uma impressão ruim de nós, porque já te consideramos uma amiga muito querida.
Comovida, a puxei para um abraço, e aproveitei para sussurrar em seu ouvido:
— Obrigada, mas… Bom, não é que não tenha acontecido nada… Nós nos beijamos.
Ela se afastou, boquiaberta.
— Uau… Eu… — riu, sem graça. — Não sei o que dizer…
— Eu sei que ele foi um escroto racista com você, Mione. Ouvi as histórias. E não estou aqui para passar pano para as atitudes péssimas dele. Mas… eu sinto que tem algo bom ali, sabe? Algo que pode ser salvo. — Cruzei os braços, incerta. — Inclusive dei uma bronca nele por se referir às pessoas como “sangues-ruins”. Espero que surta efeito.
Hermione ficou séria de novo.
— Olha, , não acho que isso seja da minha conta, mas posso te dar minha opinião sincera, como amiga? — Assenti. — Malfoy tem uma personalidade bem conflituosa e uma família horrível, o que pode ter contribuído para que ele tenha esse tipo de pensamentos e ações. Mas quero te lembrar que não é responsabilidade sua salvá-lo, corrigi-lo ou melhorá-lo. Nós, meninas, não somos centros de reabilitação para garotos perdidos. Se vocês ficarem de novo e algo a mais surgir entre os dois…
— Nossa, não, Mione. — neguei, rindo de nervoso.
— … não se esqueça — ela completou — que qualquer mudança deve acontecer porque ele quer, e não porque você insistiu. A evolução tem que partir da própria pessoa.
Fiquei quieta, refletindo sobre aquilo.
— Obrigada — falei, baixinho, mas imprimindo toda a minha sinceridade na palavra.
— Oh, não foi nada. Vamos lanchar alguma coisa porque não vou aguentar esperar até o almoço. — falou, e eu a segui mais uma vez, permitindo que meu semblante e mente se desanuviassem pelo menos um pouco.

Draco POV

— Óbvio que eu fiquei puto. — Dei um tapa no mármore da pia, respingando água na camisa. — Estava me esforçando para ser simpático, mesmo com a dor de cabeça da ressaca, e ela simplesmente saiu correndo!
— Meninas são sensíveis, Draco… — a voz etérea de Murta explicou.
— Eu sei, ela estava chorando! Mas como ela estava chorando depois da noite passada? — Focalizei no espelho o reflexo do hematoma em meu pescoço. — Eu beijo bem! E não desrespeitei ela em momento nenhum!
Para mim, era um mistério. Apesar da quantidade exorbitante de álcool que eu ingerira, lembrava de cada detalhe da noite anterior; impossível esquecer. Era um dos poucos momentos do ano em que eu me permitira relaxar, e cada pequeno detalhe estava minuciosamente registrado em minha memória. Cada verso da música que fora a trilha sonora de nossos beijos; cada arrepio que percorrera meu corpo quando , também um pouco alterada pela bebida, descia a boca por meu pescoço; cada suspiro que ela deixava escapar por entre meus lábios.
Mas aquilo provavelmente não se repetiria, dada a reação da garota naquela manhã. Até mesmo na aula de Defesa ela estava esquisita.
— Sinceramente, garotas são complicadas demais — resmunguei, ligando a torneira e vendo a água escorrer pelo ralo. Aquilo me acalmava, por alguma razão.
— Você está tentando consertar um objeto das trevas super complexo, então se você diz que algo é complicado, é porque realmente é. — disse Murta, desfazendo e refazendo uma de suas tranças do cabelo.
Demorei a responder, voltando a minha realidade. Tinha uma missão para cumprir, e deveria focar nela.
— Falando nisso… Eu não faço ideia do que devo fazer em relação a ele. — fitei a fantasma, esperando que ela dissesse algo.
— Não olhe para mim, eu morri no terceiro ano. — rebateu ela, desaparecendo na tubulação do banheiro.
Respirei fundo, passando a mão no cabelo e jogando-o para trás. Precisava bolar outro plano B; o colar já não funcionara. Precisava ser alguma coisa que não precisasse entrar na escola; deveria ser algo que já estivesse aqui dentro…
— Murta. — chamei, direcionando minha voz para o vaso sanitário por onde a menina desaparecera. — MURTA! — repeti, sem sucesso. — Murta Elizabeth Warren!
— Como sabe meu nome todo? — Só a cabeça dela se projetou para fora dos canos.
— Ora, somos amigos, não? O mínimo que eu poderia saber é isso.
Aquela frase, apesar de ter um fundo de verdade, fora calculada para aumentar o apreço dela por mim. Deu certo, pois logo ela flutuou em minha frente, esperando para ouvir o que eu tinha a dizer.
— Tem como você me dar uma ajuda? — pedi. — Queria saber de alguns detalhes sobre o que há na sala de um certo professor de Hogwarts. Vai me ajudar na minha tarefa, entende?
Ela ponderou por um segundo, mas cedeu.
— Está bem. Qual professor?
A ideia floresceu na cabeça, e pronunciei o nome em um tom preocupado.
— Horácio Slughorn.

— Engraçado. Não é esse professor que está sempre convidando vários alunos para eventos na sala dele? — Ela apoiou os cotovelos na bancada da pia, com o corpo ainda para dentro da tubulação. — Você não faz parte do… Clube do Slugue?
Abri a boca para responder, sentindo meu rosto esquentar.
— Não.
— Parece que ele se importa menos com o seu status de sangue puro do que você gostaria. — ela alfinetou, com o tom ingênuo da voz me irritando.
— É, parece. — apenas respondi, sem saco para discutir.
— Aquela menina que você encontrou aqui outro dia é a mesma de ontem, não é? Você desconversou da última vez que te perguntei sobre aquela vez. A super inteligente e linda não pode te ajudar?
Virei o pescoço para ela, tão rápido que chegou a estalar.
— Quê…? Você estava me espionando?
A área das bochechas de Murta ficou mais opaca; certamente, era a forma como fantasmas coravam.
— Foi naquele dia que você saiu quebrando tudo. — ela falou, flutuando para fora da pia. Agora, quem tentou desconversar foi ela: — Apesar de ter ficado irritado, acho que vocês são bem próximos, não?
Desviei o olhar da fantasma. Sim, minha proximidade com era notável pelas provocações que trocávamos quase diariamente. Porém, às vezes eu flagrava olhares dela que denotavam algo muito diferente: uma ansiedade, uma preocupação. Eram olhares ligeiramente parecidos com os que eu via em minha mãe desde que me tornara Comensal: o instinto de proteção de quem se ama. Mas não me amava…
E foi naquele momento que percebi o trunfo da ideia; era exatamente aquilo que eu deveria explorar. Deveria fazê-la nutrir um sentimento por mim, o que a faria compreender mais intimamente o perigo que eu estava correndo, e seria mais fácil de se dispor a me ajudar. Era a ideia perfeita.
Esses pensamentos me ocorreram em uma torrente muito veloz, e fiquei um tempo longo demais calado antes de responder Murta:
— Sei lá. Eu estudo com ela na biblioteca em dias alternados, fiquei com ela na festa de ontem e… meio que envolvi ela na minha tarefa. Nem mesmo sei por que fiz essa merda…
— Então você realmente confia nela, pelo visto.
— É, talvez. — Limpei a garganta com um pigarro. — Você acha que… ela pode gostar de mim?
Ela riu.
— Gostar é um pouco forte. Mas… eu vi vocês conversando. E tem isso que você me contou sobre noite passada. Não dá para deixar de notar a tensão sexual que envolve vocês dois, né…
Murta…? — questionei meio surpreso.
— Oh, que é que foi? — Seu rosto todo ficou opaco dessa vez. — Posso ter morrido aos treze anos, mas já habito esse banheiro há uns quase setenta. Não sou burra, né? Já ouvi muitas conversas de meninas falando sobre suas peripécias com garotos, ou mesmo outras garotas, em dormitórios, banheiros, salas vazias, armários de vassouras…
— Ok, entendi. — a cortei, evitando que ela me narrasse sete décadas de histórias femininas. — Mas e ?
— Ela faz meu tipo. — disse ela com um sorrisinho.
— MURTA! Foco! — bronqueei. — E eu achei que você gostasse de meninos.
— E gosto também. Seu pai na época de escola, por exemplo, era…
— Argh, acho que já deu por hoje. — saí do banheiro rindo com um pouco de nojo, mas ao mesmo tempo refletindo sobre formas de me aproximar ainda mais de .



Capítulo 14

POV

Pouco mais de uma semana depois, era sábado, dia do aguardado jogo de quadribol entre Grifinória e Sonserina. No café da manhã, havia uma excitação no ar característica de esportes escolares; os alunos que usavam cachecóis verdes assoviavam e vaiavam alto cada jogador de uniforme vermelho que entrava no Salão Principal. Se aproximando da mesa ao meu lado, Harry olhou para o teto e viu um céu claro e azulado. Pelo menos isso era um bom sinal.
Harry e Rony haviam se desculpado apropriadamente comigo durante o fim de semana anterior. Dei um sermão nos dois, mas acho que aprenderam a lição, e nossa relação estava normal. O que continuava praticamente inexistente era meu contato com Malfoy. Nos víamos na biblioteca em dias alternados, estudando juntos, mas abordando assuntos de cunho estritamente acadêmico. Draco parecia cauteloso demais ao dirigir a palavra a mim. Nos falávamos brevemente nas aulas de Poções e DCAT, que eram as que tínhamos em comum, mas nunca tínhamos oportunidade de alongar as conversas. Um dos dois sempre parecia ter pressa. Talvez ele estivesse me evitando de propósito, talvez eu não quisesse admitir que queria conversar com ele de novo. E talvez mais que conversar.
A mesa da Grifinória, uma mancha compacta vermelha e ouro, aplaudiu quando Harry e Rony se aproximaram. O moreno sorriu e acenou; o ruivo fez uma espécie de careta e agradeceu com a cabeça.
— Anime-se, Rony! — gritou Lilá. — Sei que você vai ser genial!
Rony fingiu não ouvir.
— Chá? — ofereceu-lhe Harry. — Café? Suco de abóbora?
— Qualquer coisa. — respondeu Rony, infeliz, mordendo a torrada de mau humor.
Alguns minutos depois, Hermione, que, de tão cansada com a antipatia de Rony nos últimos dias, nem descera para tomar café conosco, parou a caminho da mesa.
— Bom dia, . — me desejou, abraçando um livro grosso. — Como é que vocês dois estão se sentindo? — perguntou, hesitante, com os olhos na nuca de Rony.
Meus olhos atentos viram Harry tirar um frasco do bolso, por debaixo da mesa, mas à vista de Hermione: o pequeno recipiente dourado de Felix Felicis. Porém, o manteve arrolhado, fingindo derramar o conteúdo na bebida.
— Ótimos. — respondeu Harry, que estava se concentrando em passar para Rony um copo de suco de abóbora. — Pronto, Rony. Beba.
Rony tinha acabado de levar o copo à boca quando Hermione falou com rispidez.
— Não beba isso, Rony!
Os dois olharam para ela.
— Por que não? — perguntou Rony.
Hermione agora encarava Harry como se não conseguisse acreditar no que via.
— Você acabou de pôr alguma coisa nesse suco.
— Que foi que você disse?
— Você me ouviu. Eu vi. Você acabou de virar alguma coisa no copo de Rony. O frasco ainda está em suas mãos!
— Não sei do que você está falando. — disse Harry, guardando depressa o frasquinho no bolso.
— Rony, estou avisando-o, não beba isso! — repetiu Hermione, alarmada, mas Rony apanhou o copo, virou-o de um gole e disse:
— Pare de ficar mandando em mim, Hermione.
A garota se escandalizou. Abaixando-se de modo que somente Harry a ouvisse, sibilou:
— Você poderia ser expulso por isso, eu nunca pensei que fosse capaz, Harry!
— Veja só quem está falando — sussurrou ele em resposta. — Tem confundido alguém recentemente?
Hermione afastou-se bruscamente para a outra ponta da mesa. Harry observou-a ir sem lamentar. Fiquei em silêncio, comendo um pedaço de pão com manteiga. Aquilo era um assunto sério para os garotos, e eu não estava a fim de me meter na situação. Virou-se, então, para Rony, que estalava os lábios.
— Quase na hora. — comentou, descontraído.
Na descida para o estádio, acompanhei-os até os vestiários. A grama congelada rangia sob nossos pés, parecendo condizente com o humor de Rony.
— Que sorte o tempo estar bom, não? — comentou Harry.
— É. — concordou o amigo, que parecia pálido e enjoado.
Gina e Demelza já tinham vestido os uniformes de quadribol e aguardavam no vestiário.
— As condições parecem ideais. — comentou Gina, ignorando o irmão. — E sabem da última? Aquele artilheiro da Sonserina, Vaisey, levou um balaço na cabeça ontem durante o treino, e está machucado demais para jogar! E melhor ainda: Malfoy também não vai jogar, está doente!
Minha boca se entreabriu em surpresa. Tinha falado com ele na noite passada rapidamente no corredor, e parecera normal.
— Quê! — exclamou Harry, virando-se para olhar para Gina.
— Está doente? — perguntei, tentando impedir que o interesse pela informação transparecesse na voz. — Que é que ele tem?
— Não tenho a menor ideia, mas é ótimo para nós. — respondeu ela animada. — Vão jogar com o Harper; ele está no mesmo ano que eu, e é um idiota.
Harry retribuiu com um sorriso distante, vestindo a capa vermelha com seu sobrenome e o número 7 atrás.
— Suspeito, não é? — comentou em voz baixa para mim e Rony. — Malfoy não jogar? — Logo em seguida, pareceu se dar conta de que poderia ser um assunto delicado para mim, e desviou o olhar para as palhas de sua vassoura como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
— Chamo isso de sorte. — respondeu Rony, parecendo ligeiramente mais animado. — E Vaisey está fora também, é o melhor artilheiro da equipe, eu não queria... ei! — exclamou de repente, parando de calçar as luvas de goleiro e olhando espantado para Harry.
— Que foi?
— Eu... você... — Rony baixou a voz; ele parecia sentir ao mesmo tempo medo e excitação. — Minha bebida... meu suco de abóbora... você não...
Harry ergueu as sobrancelhas, mas disse apenas:
— Vamos começar em cinco minutos, é melhor calçar suas botas. — E piscou para mim.
Me despedi dos garotos com desejos de boa sorte, e rapidamente encontrei Hermione na arquibancada. Ela parecia estar prestes a soltar fogo pelas narinas como um dragão furioso.
— Mione… — comecei.
— Eu falei para você. Eles são dois completos idiotas. Estou farta disso. — e enrolou o cachecol em mais uma volta ao redor do pescoço.
Os jogadores, parecendo pontinhos no gramado lá embaixo, entraram em campo sob gritos e vaias. Uma parte do estádio era totalmente vermelho e ouro; a outra, um mar verde e prata. Muitos alunos da Corvinal e da Lufa-Lufa também tinham tomado partido. Duas fileiras atrás de mim, o chapéu de leão de Luna Lovegood rugia.
Harry se dirigiu a Madame Hooch, a árbitra, que estava em posição para soltar as bolas do caixote. Apertou a mão do capitão da Sonserina e deu impulso do chão congelado quando o apito soou.
— Vamos lá! — gritei.
Harry sobrevoou o perímetro do campo procurando o pomo, de olho em Harper, que ziguezagueava muito abaixo dele.
— Ora, começou a partida e acho que todos estamos surpresos com a equipe que Potter reuniu este ano. — disse a voz do locutor da partida. — Muitos acharam que, pelo desempenho desigual do goleiro Rony Weasley no ano passado, ele não retornaria à equipe, mas é claro que uma forte amizade pessoal com o capitão ajuda...
Essas palavras foram recebidas com vaias e aplausos do lado do estádio ocupado pela Sonserina.
— Por Merlim, quem é esse idiota? — perguntei a Hermione, franzindo a testa. Um rapaz alto, magricela e louro, de nariz arrebitado, estava em pé na parte da arquibancada reservada aos professores, falando para o megafone mágico.
— Zacarias Smith. — ela bufou. — É da Lufa-Lufa. Digamos que temos… uma certa antipatia por ele.
— Ah, e aí vem a Sonserina em sua primeira tentativa de marcar um gol — continuou Smith —, é Urquhart que mergulha em direção ao campo e... — prendi a respiração, mas logo expirei aliviada: — Weasley defende bem, todo mundo tem o seu dia de sorte, suponho...
Decorrida meia hora de jogo, a Grifinória estava ganhando por sessenta pontos a zero, Rony tendo feito defesas verdadeiramente espetaculares, algumas com as pontas das luvas, e Gina tendo marcado quatro dos seis gols da equipe. Isso fez Zacarias parar de perguntar em voz alta se os dois Weasley estavam ali porque Harry gostava deles, e passar a implicar com Peakes e Coote, os batedores.
— É óbvio que Coote não tem realmente o físico de um batedor — comentou Zacarias com arrogância —, em geral eles têm mais força muscular...
— Manda um balaço nele! — gritou Harry, voando logo acima de onde eu e Mione estávamos, quando Coote passou disparado. O garoto, porém, deu um largo sorriso e preferiu mirar o balaço seguinte em Harper, que ia cruzando com o capitão. Ergui o punho fechado em comemoração ao ver a veloz bola preta atingir o alvo.
Parecia que a Grifinória não podia errar. Repetidamente a equipe goleava, e repetidamente, no extremo oposto do campo, Rony defendia com visível facilidade. Estava até sorrindo agora, e quando a multidão saudou uma defesa particularmente boa com um coro crescente do velho refrão Weasley é o nosso rei, ele fingiu regê-los do alto. Ao ouvir aquilo, imediatamente me lembrei de Malfoy, o compositor da versão debochada da canção, e meu peito se apertou. Secretamente, estivera ansiando vê-lo jogar, mas ele provavelmente inventara uma desculpa qualquer para ficar na escola consertando aquele armário estúpido. Sacudi a cabeça, tentando espantar aquela ideia.
— E acho que Harper da Sonserina avistou o pomo! — anunciou Zacarias Smith pelo megafone. — Sim, senhores, ele decididamente viu alguma coisa que Potter não viu!
Revirei os olhos, xingando o lufano. Smith era realmente um idiota, será que não tinha reparado que os dois tinham colidido? Porém, abandonando meus pensamentos sobre o alvo de minha missão, apertei os olhos para o campo e constatei que Harper não disparara para o alto à toa. Ele vira o que Harry não vira: o pomo estava voando em alta velocidade acima deles, brilhando intensamente contra o claro céu azul. Uma sensação fria e gostosa se apossou de meu estômago, como se eu mesma fosse a apanhadora; queria tanto estar jogando…
Harry acelerou, mas Harper continuava à frente, e a Grifinória tinha apenas cem pontos de vantagem; se Harper chegasse ao pomo primeiro, Grifinória perderia... e agora Harper estava bem perto, com a mão estendida...
O apanhador de minha casa berrou algo contra o ar que não sei o que foi, mas surtiu efeito: o adversário deu uma parada, se atrapalhou com o pomo, deixou-o escorregar entre os dedos, e, na velocidade em que estava, ultrapassou-o. Harry abriu o braço em direção à bolinha esvoaçante e agarrou-a.
— PEGUEI! — identifiquei a palavra que o garoto berrou, mas não era necessário; subiu um grito das arquibancadas que quase abafou o som do apito sinalizando o fim da partida.
Todos os jogadores se abraçavam no ar, mas Gina passou veloz por eles, indo colidir, com um baita estrondo, contra o pódio do locutor. Entre gritos e risos da multidão, a equipe da Grifinória aterrissou ao lado dos destroços de madeira sob os quais Zacarias se mexia debilmente. Vi os lábios de Gina formarem descaradamente as palavras à furiosa professora McGonagall:
— Me esqueci de frear, professora, desculpe.
Rindo, Harry se desvencilhou da equipe e abraçou Gina, mas muito rápido soltou-a. Revirei os olhos. Era excessivamente óbvio que ele gostava dela, mas tentava conter o que sentia para não aborrecer o melhor amigo. Não olhou mais para ela. Em vez disso deu tapinhas nas costas de um Rony aos gritos; esquecendo as desavenças, a equipe da Grifinória deixou o campo de braços dados, dando socos no ar e acenando para a torcida. Apesar de Hermione se recusar a me acompanhar, fui correndo encontrá-los no vestiário, onde a atmosfera era de intensa alegria.
— Comemoração na sala comunal, o Simas falou! — berrou Dino, exultante. — Vamos, Gina, Demelza!
Rony e Harry foram os últimos no vestiário. Me sentei no banco e ria enquanto eles trocavam de roupa e repetiam as melhores jogadas com carinho na voz. Quando estávamos prestes a sair, Hermione entrou. Ergui a sobrancelha para ela, que torcia o lenço da Grifinória nas mãos e parecia transtornada, mas decidida.
— Quero dar uma palavrinha com você, Harry. — Ela tomou fôlego. — Você não devia ter feito isso. Você ouviu o que Slughorn disse, é ilegal.
— Que é que você vai fazer, nos denunciar? — quis saber Rony.
— Do que é que vocês estão falando? — indagou Harry, virando-se de costas para pendurar as vestes para que os dois não o vissem rindo. Mordi a boca, esperando para ver.
— Você sabe perfeitamente do que estamos falando! — esganiçou-se Hermione. — Você incrementou o suco de Rony no café da manhã com a poção da sorte! Felix Felicis!
— Não, não fiz isso. — respondeu Harry, desvirando-se para encarar os dois.
— Fez, sim, Harry, e foi por isso que tudo deu certo, jogadores da Sonserina faltaram e Rony defendeu todas as bolas!
— Não pus nada no suco! — retrucou Harry, agora rindo abertamente.
Ele meteu a mão no bolso do paletó e tirou o frasquinho que estivera em sua mão naquela manhã. Estava cheio da poção dourada, e a rolha continuava lacrada com cera, como eu esperava.
— Eu queria que Rony pensasse que eu tinha posto, por isso fingi quando percebi que você estava olhando. — E, dirigindo-se a Rony: — Você defendeu tudo porque se sentiu sortudo. Você fez tudo sozinho. — Harry tornou a guardar a poção no bolso.
— Não havia realmente nada no meu suco de abóbora? — perguntou ele, pasmo. — Mas o tempo está bom... e Vaisey não pôde jogar... Sinceramente você não me deu a poção da sorte?
Harry sacudiu a cabeça. Rony olhou-o boquiaberto por um momento, então ele se voltou contra Hermione, imitando sua voz.
Você pôs Felix Felicis no suco do Rony hoje de manhã, foi por isso que ele defendeu tudo! Está vendo! Consigo pegar bolas sem ajuda, Hermione!
— Eu nunca disse que você não conseguia... — Ela ficou vermelha de raiva. — Rony, você também achou que tinha bebido!
Mas Rony já tinha passado por ela decidido e saía pela porta com a vassoura no ombro.
— Ah — exclamou Harry no repentino silêncio; certamente não imaginara que o seu plano saísse às avessas —, vamos... vamos andando para a festa, então?
— Vai você! — disse Hermione, com a voz embargada. — Estou farta do Rony, no momento, não sei o que ele pensa que eu fiz...
E ela também saiu bruscamente do vestiário, sendo seguida por mim.
— Hermione! — gritei, apressando o passo para alcançá-la.
— Eu estou de saco cheio dessa merda!. — ela berrou, com a varinha na mão disparando fagulhas. Lágrimas escorriam livremente pelas bochechas. — Parece que eu faço tudo errado para ele! E eu só queria…
Fui correndo até ela e cortei sua frase com um abraço apertado. Ela soluçou contra meu ombro, com o choro se intensificando. Meu agasalho já estava um pouco úmido quando ela começou a ir se acalmando aos poucos.
… por que eu gosto de uma pessoa que só tem me tratado mal? — Seus olhos cor de mel estavam vermelhos e úmidos. — Por que a gente não pode escolher por quem se…
— … apaixona? — completei por ela, que hesitara. Envergonhada, ela assentiu. — Porque não teria a menor graça.
— Óbvio que teria — ela riu por entre as lágrimas. — Eu não estaria sofrendo por isso agora.
— Mione, quando você aprende uma coisa muito difícil, em uma matéria que não tem afinidade, e acerta na prova, não te dá uma satisfação muito maior do que acertar uma questão boba na sua disciplina favorita? Não é muito melhor a sensação de gabaritar uma prova para a qual você estudou muito do que tirar o máximo em uma avaliação fácil? — Ela concordou com a cabeça. — Então, acho que é por aí. Acho que é por isso que a gente gosta de quem é difícil. De quem ninguém imagina, de quem é meio inalcançável. Você, por exemplo. Tem dois melhores amigos, com quem você cresceu grudada. Um super famoso, bondoso, inteligente: o garoto de ouro, com quem você faria um par perfeito. E o outro, desajeitado, que passa raspando nas matérias, tem oscilações de humor o tempo todo e é super inseguro. O tipo ideal do cara que tem um caminhãozinho pequeno demais para montanha de areia que você é. — Hermione riu da analogia, e eu continuei: — Mas é exatamente pelo imperfeito, torto e ranzinza que você se apaixonou.
Ela suspirou, olhando para os próprios pés, sem rebater em negação.
— Você deveria falar isso para ele, sabe. — sugeri, ao que ela recusou veementemente e ficou vermelha.
— Sem chance. Estou brava demais com ele. E comigo, por não lutar contra o sentimento. Isso pode estragar a amizade!
— Você nunca vai saber se não tentar.
Minha amiga bufou, entrelaçando o braço no meu.
— Que seja. Vou pensar nisso, vamos voltando.
Caminhamos lado a lado em silêncio, e quando estávamos a poucos metros da entrada da escola, Hermione quebrou o silêncio.
— Isso que você falou… da prova difícil de uma matéria que você não gosta… — ela começou com cuidado. — É por isso que se atraiu pelo Malfoy?
A pergunta me tirou o ar como um soco na boca do estômago.
A resposta ideal seria “não me atraí por ele, o beijo foi uma coisa do momento”. A resposta adequada seria “não me atraí por ele, só estou cumprindo ordens para atingir os objetivos de uma missão secreta oficial”.
A resposta que eu dei, porém, foi:
— Talvez.
Entramos no castelo, chegando poucos minutos depois à Torre da Grifinória. Hermione estacou na frente da pintura que cobria a porta, me fazendo frear também.
— Você acha mesmo que eu deveria falar com ele?
— Acho. — opinei. — É melhor do que ficar remoendo isso.
Ela assentiu, e estava prestes a dizer a senha quando o retrato da Mulher Gorda girou para o lado, liberando a passagem para um menininho do segundo ano, e nos deparamos com a desagradável cena de Lilá Brown praticamente engolindo o rosto de Rony Weasley no beijo mais voraz que eu já vira.
Mione nem esperou que eu me virasse para ela e dissesse alguma coisa; saiu correndo, desaparecendo pelo primeiro corredor próximo. Sabia que segui-la era inútil.
Joguei os cabelos para trás do ombro e respirei fundo. Por que garotos tinham que ser tão burros?
Mal tinha ultrapassado o umbral quando meu olhar se cruzou com o de Harry, que franziu a testa ao me ver sozinha. Acenei vagamente e fui direto para o dormitório, apanhando no caminho duas garrafas de cerveja amanteigada num balde de gelo.
Tirei o moletom vinho com o leão da Grifinória e vesti um suéter preto, prendendo meus fios em um rabo de cavalo alto. Suspirei, e cruzei novamente o fuzuê da sala comunal a caminho do corredor do sétimo andar.
Chegando lá, vi a porta da sala onde o vira da última vez aparecer instantaneamente, sem que eu nem precisasse mentalizar nada. Girei a maçaneta e entrei. Mesma amplitude e bagunça de sempre.
Estup… — vi uma varinha ser direcionada a mim, mas logo foi recolhida. — Ah, é você. — Draco mudou de tom, só com o rosto visível atrás de uma montanha de quinquilharias.
Ergui o canto direito da boca num sorriso torto e lhe arremessei uma das garrafas que roubara da comemoração. Seus reflexos de apanhador o fizeram agarrá-la facilmente no ar.
— Sonserina perdeu. — comentei, levando o gargalo da bebida à boca. — Pelo visto o apanhador titular fez falta.
Malfoy não me olhou nos olhos. Enrolou a mão na bainha da camisa, expondo uma parte do abdômen magro e definido, e tirou a tampa da cerveja. Bebeu quase metade do conteúdo antes de falar:
— Estive ocupado.
— Ah, entendo. — Andei na direção dele. — Ainda tentando consertar essa merda? — Apontei para o armário de madeira com o queixo. — Esquece. Não vai funcionar.
— Tem que funcionar. — rebateu, irritado.
— Você está perdendo seu precioso tempo. — Tilintei minha garrafa contra a dele em um brinde forçado. — Deveria estar na sala comunal da Sonserina, afogando as mágoas da derrota em uísque de fogo. Ah, espera. — forcei uma pausa, como se estivesse lembrando de um detalhe crucial. — Só tem graça ficar bêbado quando eu estou perto, né? Que aí você pode fazer uma cena para impedir que eu fique com seus amigos…
Draco me deu as costas, mas eu sabia que estava ficando puto com o que eu dizia. Seus dedos estavam brancos apertando o gargalo de vidro com mais força do que devia.
— Você ficou uma semana me evitando e agora veio aqui para dizer isso, ? Por que não volta para sala da Grifinória e arruma algum idiota para encher o saco? Eu não tenho porra nenhuma a ver com a sua vida, e nem você com a minha.
Fiz uma careta ofendida. Por algum motivo, algo me impelia a continuar provocando-o. Tinha raiva dentro de mim. Raiva por estar, de fato, atraída por ele e me ver presa num impasse: não podia me afastar para evitar o sentimento, nem podia aceitar o que viesse depois.
— Nossa, Malfoy, palavras assim machucam. E as suas principalmente, porque são contraditórias, sabe? — Subi e me sentei em uma mesa de tampo de mármore arranhado. — Da última vez você me disse… o que foi mesmo? Ah. — Entornei o resto da cerveja na boca. — “Caralho, você tá mexendo com a minha cabeça, garota…”
Sua pele cor de marfim ficou escarlate e ele se virou, vindo em minha direção rápido demais.
— Eu estou ocupado, , para de ser retardada. — disse ele, com a voz grave e baixa. Nossos narizes quase se tocavam. — Isso é importante demais para você ficar aqui me atrapalhando com esses joguinhos bobos.
Joguinhos bobos? Oh, não. Joguinhos bobos são os que você fez com o trio de ouro durante todos esses anos em Hogwarts. — Comecei a enumerá-los distraidamente: — Desafiou Harry para um duelo, fez Rony vomitar lesmas, aumentou os dentes de Hermione, foi transformado numa doninha, entrou para a Brigada Inquisitorial da idiota da Dolores Umbridge achando que isso fosse fazer sua família cair nas graças do Ministério, mas no mesmo ano seu papaizinho foi preso dentro do Departamento de Mistérios… Sem contar quando Potter recusou sua amizade no primeiro ano e desde então você…
— Como sabe disso tudo? — ele me interrompeu, dando um passo à frente com a voz trêmula.
Meu sorriso vacilou.
Merda. Tinha falado mais do que devia. Muito mais do que devia, e agora não tinha o que falar.
— Eu te fiz uma pergunta. — ele insistiu, sua boca tão próxima da minha que bastaria eu me inclinar um pouco para tocá-la.
Porém, a pouca distância foi aumentada por ele num movimento veloz; apontou para mim sua varinha e exclamou:
Legilimens! Ao ouvir o feitiço, senti a adrenalina esguichar por meu sangue e permitir uma resposta em uma fração de segundo: fechei minha mente por completo e tão bruscamente que Draco se desequilibrou e caiu no chão em um estrondo.
Ficamos os dois quietos, com os lábios entreabertos e nos encarando em surpresa. Eu não entendia como podia ter sido tão idiota a ponto de sair contando que sabia coisas sobre ele que supostamente não deveria saber. E ele parecia impressionado com o fato de não ter conseguido ler minha mente e ter sido derrubado sem que eu nem mesmo o tocasse ou azarasse.
— Você sabe Oclumência. — comentou, ajeitando o cabelo com uma risada irônica. — Óbvio que você sabe Oclumência.
— Draco… eu…
— Você vem lendo minha mente esse tempo todo? — ele questionou, meio desesperado.
— Não, na verdade…
— Por Merlim, eu estou muito fodido. — ele apoiou os cotovelos nos joelhos dobrados, agarrando os cabelos claros e puxando-os, nervoso. — Se você está conseguindo ler minha mente… então o Lorde também deve conseguir…
Abri a boca para negar mais uma vez. Mas como eu poderia explicar que na verdade obtivera aquelas informações em um dossiê de centenas de páginas, compilado pela Confederação Internacional Bruxa e escondido no fundo do meu malão?
— Malfoy, desculpe. — Desci da mesa e estiquei a mão para ajudá-lo a se levantar. — Eu sei que isso soou psicopata; mas é que…
Hesitei. Não sabia o que dizer sem soar mais louca ainda.
— Eu tentei procurar saber mais sobre quem você é, sobre…
— …sobre o garoto da casa rival que tem uma tatuagem de magia das trevas, e que você beija ocasionalmente quando seus amiguinhos valentes não estão vendo. — ele debochou.
Estava devolvendo o sarcasmo que eu lhe direcionara: uma bandeira de trégua. O sorriso zombeteiro curvou meus lábios para cima.
— Eu nunca li sua mente, Malfoy. Não estou a fim de ver seus pensamentos supremacistas e retrógrados; você já os demonstra o suficiente no dia-a-dia.
Esperava que ele risse ou revirasse os olhos diante da alfinetada, mas ele só parecia muito sério e cansado.
— Olha, . Eu só posso imaginar o que a sang… — ele fechou os olhos como se reunisse forças para conter um impulso, e se corrigiu: — O que a Granger te contou sobre mim. E, sim, é verdade. Eu sempre tratei ela e o Weasley muito mal; os tratei como a escória que eu fui ensinado a acreditar que eles são. Só que… — Ele inspirou profundamente. — Eu não tenho um coração de ouro, , mas estou tentando melhorar… Porque isso em que me meti é demais para mim, e estou me perdendo mais do que gostaria. Sim, eu ainda olho para eles e sinto que sou superior em vários aspectos. Isso não vai mudar da noite para o dia. Mas eu quero mudar. — Ele coçou a nuca. — Não sei o que você vai fazer com essa informação, mas enfim.
Aquilo tinha mexido comigo. Lembrava do que Hermione me dissera apenas minutos antes, e aquilo soava claramente como um sinal. Só não sabia se isso significava que estava progredindo na missão ou se estava regredindo em relação a meus sentimentos: me permitindo ser afetada por um alvo em potencial. Sentia verdade nas chamas prateadas dos olhos de Draco, que se acendiam e me instigavam a mergulhar mesmo que me queimassem.
Mas não podia deixar transparecer, então só o que falei foi:
— Você fica muito gostoso quando finge que é bonzinho… — Puxei a garrafa de vidro dos dedos dele, tomando-a toda. Limpei a boca com o dorso da mão. — Sabia disso?
Ele me empurrou contra a mesa. Senti meu cóccix bater no tampo e liberei uma exclamação baixa com o susto do impacto. Draco me levantou pela cintura, me fazendo sentar de novo onde estivera antes e grudando seu corpo entre minhas pernas.
— Cala a boca. — e me beijou como nunca tinha beijado antes.
Apertei-o com mais força contra mim quando senti sua língua tocar gentilmente a minha, por mais que a forma com que ele descia as mãos por minha cintura e quadril fosse arisca. Puxei o lábio inferior dele em uma mordida leve, e o beijo se partiu.
— Vai ser assim toda vez? — perguntou ele, com diversão em seu timbre. — Nós implicamos com o outro e depois você quer ficar aos beijos?
Inclinei a cabeça para trás numa gargalhada sincera, que ele aproveitou para beijar meu pescoço.
— Ah, eu que quero ficar aos beijos, né. — ironizei, sentindo minha pele sensível na boca dele. — Você quer um encontro formal para me beijar, Malfoy?
A resposta ideal seria “não, nossos beijos sempre são uma coisa do momento”. A resposta adequada seria “não, nem deveríamos estar nos beijando”.
A resposta que ele deu contra minha orelha, porém, foi:
— Talvez.
Saltei da mesa e som de minhas botas contra o soalho ecoou pela sala grande como uma catedral.
— Se você me chamar, pode ser que eu aceite.
Fui embora sem olhar para trás, batendo a porta com força ao sair e tentando entender por que nós sempre terminávamos as discussões com as bocas grudadas e por que havia borboletas em meu estômago.



Capítulo 15

POV

Algumas semanas depois, numa manhã em meados de novembro, uma carta caiu no meu colo enquanto eu colocava mais uma colherada de açúcar no café com leite. Harry e Rony conversavam despreocupadamente ao meu lado; Hermione tomara café mais cedo que nós, ainda evitando o ruivo. Vi Twiggy se afastar em seu voo elegante, rumo a um merecido descanso no corujal depois de vir do Rio de Janeiro (viagem que eu sabia que demorava cerca de duas semanas para ela completar. Pobrezinha). Peguei a carta e analisei o lacre de cera vermelha com o brasão dos . Não era uma carta oficial; era de minha mãe.
Entre goles de minha bebida fumegante, abri o envelope e puxei a folha de pergaminho que havia dentro, totalmente coberta por letras aparentemente aleatórias e desconexas, a não ser por um pequeno espaço onde havia um desenho feito a tinta, no canto inferior direito: uma chama e um floco de neve. Toquei a imagem com a ponta do dedo, abrindo um sorrisinho leve. Era o código para que eu descobrisse o que dizia a carta; minha mãe sempre usava esse tipo de artimanha dos trouxas para que magia não conseguisse burlar nossas comunicações. Como havia uma chama, a primeira palavra era FIRE; o floco de neve me dizia que a outra era SNOW.
Puxei minha mochila mais para perto (que estava abarrotada de materiais que eu usaria para estudar na biblioteca naquele sábado), pescando uma caneta esferográfica, e anotei as duas palavras, uma em cima da outra, no verso da carta. Sendo assim, toda vez que a letra “F” aparecesse no texto, eu deveria substitui-la por “S”; “I” seria trocado por “N” e assim por diante. Na última página do caderno de História da Magia, decodifiquei o que mamãe escrevera:

,
deve estar sendo estranho estar em um intercâmbio em outro país, sem apoio, falando uma língua diferente e sem poder enviar relatórios, não? Bom, posso dizer que está sendo estranho não trabalhar com você. Você tem feito muita falta por aqui, filha.
Felícia tem estado muito distraída nas aulas especiais; inclusive, da última vez que inspecionei Combates, ela saiu com um hematoma feio no maxilar — cortesia da Jussara, claro. Acho que sente muita falta de sua companhia; afinal, vocês estavam sempre grudadas, tanto na escola quanto no Ministério…
Não estou autorizada a questionar aspectos oficiais dos motivos que te levaram a Hogwarts, mas não aguento de saudades! Acho que pelo menos ver sua letra vai me animar um pouco.
Obviamente recebi seu berrador, que explodiu no meio da minha sala. Mas não te culpo. Compreensível o que você tem sentido, mas você vai tirar isso de letra. Não deixe essas dúvidas, inseguranças e obstáculos te impedirem de atingir o sucesso. “Medo” é uma palavra que não pode constar no vocabulário de pessoas como nós, certo?
Não esqueça de quem você é filha e de quem você sempre foi: o grande exemplo (tanto nas aulas normais, quanto nas especiais). O quanto antes cumprir seu objetivo, o mais cedo chegará em casa.
Com amor,
Mamãe.


Estranhamente, não consegui sorrir. O texto soara fofo, mas superficial. Tentava compreender; ela realmente era muito atarefada, trabalhando como diretora da Divisão Juvenil de Aurores, mas… Eu era filha dela, numa missão perigosa e longe de casa. Será que eu realmente não merecia nada além de quinze centímetros de pergaminho?
Suspirei. Ficar refletindo muito sobre aquilo só me traria questionamentos inúteis que me fariam mais mal do que bem. Por isso, escrevi uma resposta rápida para minha mãe, usando o mesmo código, e conjurei um envelope simples. Grudei o papel para fechá-lo e forjei uma expressão interessada no que Rony dizia aos amigos em sua volta. Porém, vi que minha atitude não despistara Harry.
, tudo bem? Está muito quieta hoje. — ele falou, escorregando pelo banco para ficar mais perto de mim e roubar uma torrada com geleia de meu prato.
Ao mordê-la, o cantinho de sua boca ficou sujo, e levei meu polegar para limpá-lo. Alguns metros a minha direita, ouvi o som de alguém tossindo: era Gina, que tinha os olhos fixos em minha mão e estava quase roxa (difícil dizer se pelo engasgo ou pelo evidente ciúme). Quase dei uma gargalhada; eles eram tão óbvios.
— Tô bem sim. — respondi. — Só… saudades de casa, sabe. Recebi uma carta da minha mãe e fiquei meio saudosa demais.
Logo depois de dizer isso, lembrei que não, ele não sabia. Seus pais não viveram o bastante para que ele se lembrasse da sensação de sentir saudades deles, ou de um lar amoroso que fosse.
— Desculpe — me apressei a completar —, isso foi meio insensível com você.
Ele abriu um sorriso meio triste.
— Relaxa, não é culpa sua. — deu mais uma mordida na minha torrada, e a arranquei da mão dele com uma risada. — Mas eu entendo, deve ser meio estranho estar longe de tudo o que você conhece e ama.
— Pois é, mas foi escolha minha vir para cá, não é? Intercâmbios são assim — encolhi os ombros, analisando o buraco desenhado pelos dentes de Harry no meu café da manhã. — Precisava ter dado essas mordidas gigantes?
— Desculpe. — ele falou, envergonhado, mas, ao mesmo tempo, achando graça.
— Harry, vamos logo, o próprio capitão não pode se atrasar para o treino. — falou alguém atrás de nós, sendo acompanhada por um aroma floral. Era Gina, com uma expressão impassível.
— Vão lá, não quero atrasar o time. — passei as pernas por cima do banco para me levantar, com a mochila nas costas e a carta na mão. — Vou dar uma passada no corujal agora. Gina, posso ir te assistir no treino?
Optara por direcionar a pergunta a ela de propósito; queria deixar muito claro que não tinha interesse romântico em Harry e que o caminho estava todo livre para a Weasley, quando ela tivesse coragem de admitir para si mesma que não era Dino de quem gostava.
— Ahn, claro. — ela respondeu, sendo pega desprevenida. Seu rosto pareceu se iluminar um pouco; objetivo alcançado.
Dei uma piscadinha para os dois e saí do Salão Principal, tomando o corredor que dava para a área externa a fim de respirar um pouco de ar fresco. Ali, reunida nos arcos de pedra que davam vista para o pátio, estava uma pequena aglomeração de alunos da Sonserina. Ouvindo a história de um deles (que envolvia uma Nimbus quebrada e o aparecimento de doze pares extras de mamilos devido a uma azaração), notei sua presença no meio dos demais. Draco Malfoy vestia uma camisa preta de manga comprida, com o suéter verde petróleo de sua casa amarrado sobre os ombros, e tênis pretos. Apesar de ele ser mais alto do que a média dos colegas que o acompanhavam, seus pés não tocavam o chão enquanto estava sentado na mureta, e pela primeira vez em muito tempo ele parecia ter a idade que tinha — dezesseis —, achando graça de algo idiota.
“Esse sorriso é sacanagem”, pensei, olhando os vincos que se formavam ao redor da boca de Malfoy quando ele exibia os dentes numa risada.
Para minha surpresa, porém, o grupinho se virou para mim, os risos murchando numa careta abismada.
— Puta merda. — deixei escapar em português.
Eu dissera aquilo em voz alta?
Abri a boca quando Malfoy ergueu uma sobrancelha em minha direção, prestes a atirar algum comentário espertinho para tentar esconder sua perplexidade diante do elogio. Porém, não fiquei lá para ver o desenrolar dos acontecimentos; saí andando pelo corredor, driblando alunos do primeiro ano enquanto ouvia Zabini e Parkinson soltarem uivos maliciosos e debochados.
Meus batimentos cardíacos reverberavam nos tímpanos. Por Merlim, por que diabos eu falara aquilo?! Tudo bem que estávamos nos aproximando cada vez mais; estudos quase diários na biblioteca com comentários aqui e ali sobre nossas vidas, encontros furtivos na Sala Precisa como o que ocorrera no dia do jogo de quadribol, vislumbres nos corredores que ocasionavam sorrisinhos maliciosos de quem esconde alguma coisa, beijos no meio dos alunos bêbados da Sonserina… Mas nunca tinha acontecido nada como aquilo. Nunca tinha sido um contato cordial tão público, em plena luz do dia, na frente de todos.
Desci o olhar para minha pulseira. Havia algum tempo que ela emitia um brilho fraco ininterruptamente, e aquilo me confundia. Significava que estava no caminho certo? Ou era um sinal para mudar de estratégia? Queria muito que ela tivesse vindo com um manual de instruções.
Depois de subir o que pareceram ser todas as escadas de Hogwarts, finalmente cheguei ao corujal. Apesar de visivelmente exausta, Twiggy desceu do poleiro em que estava para pousar em meu ombro.
— Oi, coisa linda. — a cumprimentei em português. Ela respondeu bicando de leve minha clavícula. — Vou deixar você descansar, alguma amiga sua vai ter que fazer o trabalho hoje.
A ave soltou um pio um pouco ofendido, como se eu tivesse ferido sua dignidade, ao que a olhei severamente.
— Twiggy, pare de ser ciumenta. Você realmente precisa descansar. — Estendi meu braço para que ela mudasse de apoio. — Não vou deixar de te amar por causa disso.
Parecendo conformada, ela tomou impulso em meu antebraço e voltou para o local em que estivera. Uma coruja marrom pousou no poleiro próximo a mim.
— Aqui. — prendi meu envelope a sua pata. — Vai ser uma viagem longa. — me desculpei de antemão.
— Você fala com as corujas? — uma voz feminina questionou às minhas costas, e me virei para identificar sua dona.
Pansy Parkinson estava de pé, com os braços cruzados sobre os seios, como se cobrasse uma resposta.
Ministério da Magia do Brasil, no Rio de Janeiro — sussurrei para a ave, que alçou voo para fora da janela. Apanhando um punhado de alpiste de um pequeno frasco em minha mochila, inquiri: — Me seguindo, Parkinson?
— Muita prepotência sua achar isso — ela disse, divertida, fazendo um gesto com a mão. Uma coruja acinzentada pousou em seu ombro, pegando uma carta no bico. — Também preciso enviar algo.
— Ah, sim. — falei, só para evitar o silêncio, mas mesmo assim ele se manteve por alguns minutos, enquanto eu alimentava e acariciava as corujas.
Por alguns instantes, eu sentia o olhar de Pansy me escrutinando, em dúvida se dizia o que fora ali para dizer ou não. Por fim, decidiu-se:
— Sabe, eu lembro do dia da festa de Dia das Bruxas. — Ela agora tinha os olhos escuros voltados para mim. — Lembro que você ficou com Draco na frente de todos. — Deu vários passos para perto.
Revirei os olhos internamente. Sério que ela queria arrumar uma briga comigo ali por causa de algo que acontecera semanas antes?
— Também lembro que eu e você nos demos bem naquele dia. — ela descruzou os braços e arregalei os olhos, pasma. — E se a Pansy bêbada gostou de você, talvez seja porque a Pansy sóbria não te ache tão detestável assim.
Parkinson fitou as pontas dos próprios sapatos, insegura.
— Então eu pensei que nunca tive a oportunidade de… te pedir desculpas pelo incidente do lago. — completou, para meu total assombro. — Foi idiota.
Abri um sorriso sincero, me dando conta que aquilo era provavelmente um evento histórico para a garota: desculpar-se com uma garota que ela atacara por causa de ciúmes.
— Bem… obrigada, eu acho. Está desculpada.
Vi ela morder o próprio lábio.
— Bom… e não é só isso. — A sonserina mexeu nos cabelos escuros e repicados, enrugando o nariz. Parecia recriminar-se por estar me falando aquelas coisas, mas prosseguia: — Tenho conversado com a Daphne sobre vários assuntos, entre as quais você… Daphne Greengrass, a loirinha que dançou com você e te acordou no dia seguinte ao Halloween. A questão é que o pessoal da Sonserina te acha bem divertida e você não parece achar que todos da nossa casa são crias do demônio, como os outros costumam estereotipar. — Ela voltou seus olhos para a janela pela qual as corujas entravam e saíam, ainda evitando contato visual comigo. — Sempre tive muito ciúme do Draco, e acho que por isso fiquei tão irada com a ideia de você chamar a atenção dele.
Virei todo meu corpo na direção dela, agora sim totalmente interessada na conversa.
— E falar sobre isso com a Daphne me ajudou muito a pensar… Acho que eu nunca gostei dele de verdade. — Ela inspirou ar, como se quisesse falar tudo de uma vez antes que perdesse a coragem: — Quer dizer, somos amigos, mas acho que não passa disso e nem nunca vai passar, entende? Minha família sempre botou muita pressão para eu me aproximar dele, porque, afinal, ele é um Malfoy… O herdeiro da família mais rica da Inglaterra e o próximo descendente masculino de uma das Sagradas Vinte e Oito… Obviamente que os Parkinson se interessariam por um casamento assim. E, por isso, sempre me soou estranha a ideia de ser só amiga dele. Só que quando você chegou…
Pansy se aproximou excessivamente de mim, quase como se fosse me beijar, e ameaçou:
— Se você mencionar essa conversa a alguém, eu mato você.
Sorri, encarando sua boca e vendo-a se desconcertar.
— Não se eu te matar primeiro — rebati.
Ela sorriu de volta, dando um passo atrás, e completou:
— Quando você chegou… percebi que, se eu tenho que ceder Draco para alguém, melhor que seja para uma garota como você. Poderosa, bonita, sangue puro e que respeita os sonserinos como deve ser.
Ri, jogando os cabelos para trás.
— “Sangue puro” não deveria ser considerado um atributo positivo, mas… Achei que só a Pansy bêbada fosse capaz de proferir elogios assim, então estamos em um avanço aqui.
Foi a vez dela de gargalhar.
— Não se acostume. — Parkinson forjou uma cara de indiferença, mais condizente com a que eu estava acostumada a vê-la exibir. — Mas bem que Draco está certo. Você é mesmo uma grifinória especial.
Com um aceno, Pansy saiu do corujal, me fazendo sentir como se tivéssemos acabado de selar um acordo, e me deixando com uma informação final que ainda tentava descobrir como digerir. Draco usara a palavra “especial” para se referir a mim? Em que contexto? Por que ele estava falando de mim para seus amigos? Ele me considerava alguém digno de confiança, alguém importante, alguém que… ele pudesse gostar?
Sacudi a cabeça. Joguei o resto do alpiste para as corujas e desci as escadas para o segundo andar, para atravessá-lo e em seguida ir à biblioteca. A porta do banheiro, porém, estava entreaberta, e pela fresta pude ver Draco em frente ao espelho. Ele fazia caras e bocas para seu próprio reflexo, encenando sorrisos de diferentes amplitudes. Atrás dele, a figura translúcida de uma fantasma, que trajava o uniforme da Corvinal, murmurou para ele:
— Se ela te elogiou, não adianta ficar ensaiando nada no espelho… seja você mesmo…
Rapidamente senti meu rosto e colo esquentarem, e me forcei a impedir a reação involuntária da pele. Draco tinha se abalado com o que eu dissera sem querer sobre ele mais cedo, e aquilo só me deixou mais confusa que nunca. Apertei a alça da mochila e fui para a biblioteca estudar para as provas que se aproximavam, na esperança de tirar o loiro de meus pensamentos além do que a missão pedia.

Draco POV

A lateral de minha mão doía e latejava depois de passar horas com a pena em punho, tentando anotar tudo que sabia sobre a Terceira Conspiração dos Duendes na prova de História da Magia, os usos das pérolas moídas (que eu sabia com perfeição por causa de ) para o exame de Poções e as exceções à Lei da Transfiguração Elementar de Gamp, pedidas na questão elaborada por McGonagall.
Saí da sala ampla onde as avaliações tinham sido passadas e vi o sol de inverno, característico daquele início de dezembro, brilhando lá fora. Queria tirar o resto do dia de folga e só sentir os raios sobre a pele no pátio, mas não tinha tempo para aquilo. Com um suspiro, sacudi a cabeça e fui para a Sala Precisa, olhando por cima dos ombros para me certificar de que ninguém me seguia.
Ao adentrar o aposento, estava ajoelhada no chão em frente ao Armário Sumidouro, com uma caixa preta ao seu lado. Seus cabelos escuros estavam presos em um rabo de cavalo alto, a gravata caía frouxa sobre uma camisa de gola alta, e a pulseira de prata estava em seu punho, como sempre. Ela levantou o olhar para mim enquanto usava um pequeno pincel para cobrir lascas na madeira da porta.
— Só eu que achei a segunda questão de Feitiços totalmente sem propósito? — ela perguntou, sem nem me cumprimentar, voltando a prestar atenção no que fazia.
— Ahn… um pouco — admiti, tirando a capa.
Afrouxei minha própria gravata e desabotoei os primeiros botões da camisa social branca, me aproximando dela a passos largos.
— O que está fazendo? — Preferi perguntar com calma, pois tinha medo de reagir mal e acabar danificando o móvel mais ainda. — Achei que você mesma tinha dito “esquece, não vai funcionar”…
A garota tirou o elástico que mantinha os fios no lugar, em seguida refazendo o penteado.
— Não vai funcionar se você tentar sozinho. — retorquiu ela, se sentando sobre os próprios calcanhares.
Abri e fechei a boca algumas vezes, sem encontrar o que dizer. Então seria fácil assim obter sua ajuda?
colocou o pincel que usara dentro de um copo com água e o apoiou sobre a mesa de mármore onde eu a beijara algumas semanas antes. Levantou-se e enfiou sua varinha no cano da bota, me encarando como se quisesse me desvendar.
— Oh, por favor. Não me diga que você está pensando em ficar enfurnado aqui o resto do dia depois de exames exaustivos. — Ela cruzou os braços.
— Não é como se eu tivesse escolha. — resmunguei em resposta, analisando o defeito que ela corrigira na madeira trabalhada do armário. Se não fosse pela tinta fresca, eu jamais saberia que tinha havido qualquer dano ali. — Como fez isso?
deu de ombros.
— Sem usar magia. Quando algo é danificado por magia das trevas, não se pode consertá-lo usando magia boa. Então fiz o óbvio: resolvi o problema com minhas próprias mãos.
A simplicidade com que ela dissera aquilo era surpreendentemente bonita. Antes que eu pudesse pedir que ela me ensinasse, continuou:
— Bom, acho que isso te dá um fim de tarde de folga, não? Constatamos que a melhor forma de resolver o seu problema é sem recorrer a nossas varinhas. Eu digo que isso merece uma comemoração.
— Se você for tão boa quanto parece, pode ser. — provoquei, e ela ergueu uma das sobrancelhas.
— Você sabe que eu sou. Te encontro no campo de quadribol em quinze minutos.
Assenti, sem pensar muito para não acabar desistindo, e ela saiu da sala.
Quinze minutos depois, eu estava montado em minha Nimbus 2001, e estava sentada na arquibancada, com roupas casuais, lendo um livro. Me aproximei o mais silenciosamente que pude, pairando sobre sua cabeça.
Dom Casmurro. — li o título na capa do volume em voz alta, incerto sobre como pronunciar a segunda palavra. — O que significa?
— É o apelido do personagem principal. — ela explicou, fechando o exemplar sem se preocupar em marcar a página em que estava. — Que, inclusive, é um idiota.
Ri, saltando da vassoura.
— Por que você está lendo um livro sobre um cara idiota?
— Não leio o livro por causa dele. Leio por causa da garota. Capitu. Gosto dela, e várias pessoas já me disseram que somos parecidas, de alguma forma.
— Ah, é? Ela também é uma garota corajosa e irritante que tem personalidade exata de uma sonserina? — questionei, pegando o livro e folheando-o mesmo que não entendesse nada, pois estava todo em português.
— Digamos que sim. — respondeu . — Ela tem olhos de cigana, oblíquos e dissimulados. — falou, como se estivesse citando o texto, e subiu os olhos para mim.
— Realmente. — murmurei.
Só então percebi a vassoura de ao seu lado. Tinha um cabo esverdeado, como se tivesse sido feita a partir de uma árvore muito jovem, com palhas douradas e Firebolt BR Limited escrito em azul cobalto.
— Você voa?
Ela abriu um sorriso presunçoso e desafiador. — Eu não simplesmente voo. Eu sou a melhor apanhadora de Castelobruxo. — se gabou, e ouvi o sarcasmo; ela estava me imitando, até mesmo o sotaque.
— Certamente não é melhor que eu. — desdenhei, com uma risada.
Ela tirou um pequeno saquinho de feltro de dentro do bolso da calça de moletom, abriu-o e me mostrou seu conteúdo.
Um pomo de ouro.
— Quer apostar? — e mais rápido que um raio ela arremessou a bolinha dourada e saiu voando atrás dela.
Não tive escolha senão segui-la, com as entranhas se revirando ante a perspectiva de jogar quadribol contra ela.
Rapidamente constatei que subestimá-la fora um erro terrível. voava muito bem, fazendo manobras arriscadas e tendo um domínio impressionante de seu peso contra a gravidade.
Subi quinze, vinte, trinta, cinquenta metros, e flutuei sobre o campo para ter uma visão ampla. O sol começava a descer no oeste, dourando delicadamente minha pele e deixando todo o cenário mais bonito e quente. Respirei fundo, sentindo o ar gelado arder minhas narinas, o vento leve bagunçar meus cabelos e voar na direção do pomo…
Espera, o quê?
Ao ver a garota perseguir a bola cintilante, acelerei minha vassoura na mesma direção, fazendo um mergulho acentuado para dar a volta na torre do público onde costumavam ficar os professores e o locutor. Voamos juntos, tão próximos um do outro que as palhas das vassouras quase se tocavam, e atingimos um dos extremos do estádio.
Subimos juntos, paralelos à baliza mais alta, a uma velocidade absurda. O pomo ziguezagueava por entre o arco, e me lancei sem medo para agarrá-lo. , porém, tivera o mesmo impulso, e nos chocamos violentamente. Soltei uma exclamação de surpresa quando ela, ágil como um gato, pulou de sua própria vassoura e aterrissou na minha, bem a minha frente, e impediu que os dois caíssemos daquela altura absurda; nos aproximávamos do chão a uma velocidade vertiginosa, mas ela conseguiu amortecer a queda regulando o ângulo da descida. Mesmo assim, batemos no chão com força o suficiente para sairmos rolando, embolados como se fôssemos uma coisa só, com seus cabelos entrando na minha boca e meu cotovelo batendo nas costelas dela.
Por um segundo, respiramos fundo, em busca de ferimentos, mas em seguida explodimos em gargalhadas que demoraram vários minutos para passar. Eu estava deitado sobre ela, que tinha folhas arrancadas de grama nas bochechas e a blusa cinza de gola alta com manchas marrons de terra. Olhando seu rosto iluminado pela diversão, percebi que nossas mãos estavam entrelaçadas. Quando separei nossos dedos, vi que o pomo repousava ali.
— Pegamos juntos — ela sussurrou, fitando a bola dourada e depois minha boca.
Ela fechou os olhos quando me aproximei levemente. Tão perto. E aquele momento era tão nosso. E aquilo seria tão vantajoso para mim… Mas senti que meu beijo acabaria com a pureza do momento, porque não seria sincero. Porque eu queria simplesmente usá-la por suas habilidades com magia. E ela era boa demais para isso.
Resisti ao ímpeto de beijá-la no último segundo, então, e a ajudei a se levantar. Limpando o barro de sua calça com uma expressão desconcertada, usou um Feitiço Convocatório para recuperar sua vassoura, que veio de encontro com sua mão num zunido. Ela alçou voo, voltando para a arquibancada onde deixara o livro, e fui atrás dela.
Ela se sentou displicentemente onde estivera antes, abriu Dom Casmurro novamente e continuou lendo como se eu não estivesse ali. Os únicos vestígios de nossa pequena competição eram o movimento de seu peito, que subia e descia ainda ofegante, a sujeira na roupa e o pomo de ouro em minha mão, cujo metal frio se aquecia contra minha palma.
Fiquei a observá-la. era impenetrável. Era muito raro conseguir deduzir o que ela estava sentindo ou pensando, e eu tinha a impressão de que, mesmo nessas situações, eu só via o que ela queria que eu visse.
Toda aquela situação era curiosa. Uma garota tão parecida comigo: bonita, inteligente, sangue puro, sarcástica até o último grau e aparentando ser infalível para o mundo exterior. Mas eu tivera acesso à brecha que havia naquelas muralhas tão bem construídas e fortificadas: o dia em que ela tivera um ataque de pânico, o mesmo dia em que eu mostrara espontaneamente minha Marca a ela e terminamos a noite entre beijos e segredos.
Sim, uma garota tão parecida comigo, mas ao mesmo tempo tão diferente: filha de aurores, brasileira, que acreditava na igualdade dos bruxos com os sang… com os trouxas. Ela era tão boa. E eu era sua total antítese, o que significava que deveria me empenhar o dobro para conquistá-la.
Com esses pensamentos, deitei minha cabeça em seu colo.
— Nossa, mas você é o próprio ditado “dê dinheiro, mas não dê intimidade”, não é, Malfoy? — reclamou , rindo, enquanto apoiava o livro em meu pescoço para continuar lendo como se a interrupção não tivesse existido.
— Não enche, . — rebati, me aninhando mais ainda ao usar sua coxa como travesseiro.
Me permiti, só por aqueles minutos, não pensar em mais nada. O calor dos últimos raios de sol em contraste com o frio da noite que se aproximava, o cheiro do perfume de misturado com o aroma da própria pele dela, a proximidade estranhamente íntima do conforto que eu só partilhara com Pansy, quando deitara no colo dela no Expresso de Hogwarts, mas que não era tão natural quanto com a grifinória. E, durante aqueles minutos, pude esquecer que era um Comensal da Morte, pude esquecer que era um Black e um Malfoy; durante aqueles minutos, fui apenas Draco.
E essa sensação boa e quase libertadora me acompanhou pelo resto da semana toda vez que encontrava , mas em intensidade decrescente. Nossos encontros semanais na biblioteca já não tinham sentido; o exame do período já tinha se passado, e agora restava esperar o Natal. Em vez disso, mudamos o ponto de encontro para a Sala Precisa. Ela restaurava, com tinta, madeira, lixas e as próprias mãos, os detalhes do Armário Sumidouro, e eu fazia os testes com objetos. Quase sempre colocava maçãs lá dentro, e nas primeiras vezes a fruta saía dilacerada. Ri de nervoso, pensando no que aquele defeito do móvel mágico poderia fazer a uma pessoa. Porém, aos poucos, os danos foram ficando cada vez menores, mas ainda eram expressivos demais para que eu admitisse que alguém passasse por ali em segurança.
Um dos dias, passamos a madrugada toda trabalhando, e acabamos adormecendo na Sala, juntos como acontecera na sala comunal da Sonserina. Por sorte estávamos de uniforme, então ao acordarmos de manhã só precisamos ir tomar café antes de ir para a aula de Poções.
— Eu vou primeiro, e aí você espera uns 10 minutos e desce. — ela me orientou, ajeitando a saia preta e prendendo os cabelos num coque bagunçado. Seu rosto estava um pouco inchado de cansaço, totalmente sem maquiagem, e os olhos menores denotavam o quão tarde tínhamos dormido. Queria eu que tivesse sido por outro motivo, mas algo me impedira na noite anterior de tentar sequer beijá-la. O que era extremamente contraditório, mas nada que dizia respeito a parecia fazer sentido na minha cabeça.
Enfim. Depois de duas canecas inteiras de café puro e uma passada rápida no dormitório para escovar os dentes, me direcionei às masmorras para encontrar o resto da turma de N.I.E.M.
— Ora, muito bem, meus queridos. — começou o professor Slughorn, juntando as palmas das mãos em entusiasmo. — Os exames dos senhores já passaram, não há mais preocupação com notas e creio que a maioria esteja com a cabeça na ceia de Natal. Por isso, nesta aula quero simplesmente que me surpreendam. — Ele caminhou pomposamente para frente da mesa. — Quero que tentem produzir qualquer uma das poções descritas no Estudos avançados no preparo de poções. A que quiserem. O aluno que eu julgar mais competente ganhará um lugar no Clube do Slugue e um pequeno frasco da poção de sua escolha: Polissuco ou Felix Felicis. Os critérios de avaliação serão a complexidade da preparação…
Foquei nas palavras de Slughorn, enquanto ele explicava detalhadamente o que levaria em consideração ao escolher o vencedor. Então agora eu tinha outra oportunidade de ganhar a Sorte Líquida, de quebra indo para a sala de Slughorn e possivelmente realizar minha segunda tentativa de cumprir a tarefa, e tinha que agarrá-la.
Duas mesas à minha direita, analisava seu livro aberto. Ela estava nas páginas finais; provavelmente tentaria realizar algo insanamente complexo. Olhando discretamente, tentei identificar a página em que ela estava pelas gravuras que vira de relance, e acabei encontrando, muito surpreso.
Ela ia fazer uma Amortentia? Mas era uma poção absurdamente difícil. Por que não optar por uma mais simples e executá-la com a perfeição de sempre, que rendia pontos para sua casa toda aula?
A cabeça de , porém, estava trabalhando de forma perfeitamente condizente com uma Grifinória: saindo da zona de conforto e desbravando algo inédito. Fui de encontro a ela quando os alunos foram buscar os ingredientes nas prateleiras. Com as pontas dos dedos, pegava frascos delicados de cristal etiquetados como “ovos congelados de chizácaro” e “pó de asas de fada mordente”, componentes necessários à preparação da Poção do Amor.
— Amortentia, ? — questionei, com desdém. — Está tão desesperada assim para arrumar um namorado?
Ela apenas sorriu para mim.
— Está muito interessado no meu trabalho, não, Malfoy? Por que isso? Algum alvo em particular no qual você queira usar a poção que vou fazer?
— Que você vai tentar fazer. — a corrigi.
Potter chegou perto de , fingindo não prestar atenção no que dizíamos.
— Engraçado — ela comentou, abaixando o tom de voz —, você não parecia duvidar assim das minhas capacidades lá na…
De propósito, derrubei um frasco de vidro no chão, que se espatifou ruidosamente e interrompeu a frase de . Seria reveladora demais. Os olhos verdes de Potter faiscaram em minha direção, confusos e alarmados.
— Está tudo bem aí? — perguntou o professor.
— Sim, professor, Malfoy só derrubou algo. — respondeu a garota, sem emoção alguma na voz.
Todos retornamos a nossas respectivas bancadas, já de posse dos ingredientes e caldeirões, e Slughorn bateu palmas, anunciando o início do tempo.
Resolvi preparar o Euphoria Elixir, poção de cor amarelo brilhante da mesma classe da Felix Felicis, e que certamente refletia a necessidade que eu tinha de me divertir um pouco. Desde a tarde de quadribol com que eu não me sentia bem, pois estávamos às vésperas do Natal e eu ainda não tinha nenhuma perspectiva de quando poderia concluir minha missão.
O elixir tinha somente quatro ingredientes, mas demandava muita atenção às temperaturas e períodos de cozimento. Por isso, mudei de lugar na bancada para ficar de costas para , e assim não me sentir tentado a virar em sua direção para espiar o progresso da brasileira. Preenchi meu caldeirão com exatos 850 mililitros de água e comecei a selecionar as folhas de helária, planta raríssima que brotava somente no fundo de cavernas cáusticas. Executei um feitiço para verificar a temperatura da água, e constatei que tinha chegado a 65ºC como deveria. Acrescentei sete folhas inteiras e remexi o caldeirão para garantir que todas ficassem devidamente mergulhadas.
A minha frente, Pansy estava com o rosto brilhando de oleosidade e tinha as bochechas coradas, tentando preparar uma Poção Embelezadora que soltava fumaça demais. Uma ideia me ocorreu, e a fitei, tentando obter uma resposta só com meu raciocínio. Seu cenho estava franzido enquanto ela acrescentava essência de murtisco ao caldeirão, e notou meu olhar sobre si.
— O que foi?
— Naquele dia que você foi ao corujal… — comecei, cautelosamente, enquanto macerava algumas folhas de menta com meu pilão. — Você encontrou a lá?
Esperava que ela tivesse alguma reação de ciúmes ou qualquer coisa do tipo, que era o que costumava acontecer quando eu trazia o nome da grifinória à tona, mas ela só deu de ombros.
— Por que a pergunta?
— Quero saber.
— Encontrei. — disse ela, pingando algumas gotas de óleo de melaleuca em seu preparo.
— Ah. — foi o que brilhantemente respondi. — E o que ela estava fazendo?
Pansy exibiu a careta que eu a via exibir havia anos, sempre quando estava prestes a ser irônica.
— Se você quer a espionar, deveria me pagar por hora para fazer o serviço.
— Qual é, Parkinson. — larguei meu pilão, fazendo drama. — Você me deve esse favor.
Ela também largou o que estava fazendo, quase rindo.
— Devo? Por quê?
— Porque eu te acobertei na frente dos seus pais quando eles suspeitaram que você tinha dormido com o Montague antes de ele… — “ser jogado dentro do Armário Sumidouro pelos gêmeos Weasley”, pensei, mas só completei: — se acidentar. E você sabe muito bem como famílias sangue puro valorizam a virgindade de suas filhas…
Toda a cor fugiu do rosto de Pansy.
— Você fez isso porque somos amigos. E também porque eu não explanei para a Sonserina toda que peguei você e Sally-Anne Perks no flagra no banheiro dos monitores ano passado.
Parkinson… — alertei em um tom mais baixo, sentindo meu rosto esquentar.
— Ainda tenho pesadelos com o som dela gemendo. — ela debochou, estremecendo teatralmente e abrindo um sorriso maldoso em seguida. — Ela nem chegou a fazer os N.O.M.s aqui; pediu transferência para Ilvermorny logo depois, então realmente você deve ser péssimo.
— Ah, cala a boca. — me rendi, tentando afastar a lembrança daquele dia constrangedor. Era a primeira vez que eu estivera com uma garota, e o fato de Pansy ter aparecido e visto sua colega comigo me rendeu uma dor de cabeça por no mínimo duas semanas. Falando sério, os gritinhos emburrados de minha amiga ainda me davam pesadelos.
Acrescentei as folhas de menta amassadas no caldeirão e comecei a picar mais folhas de helária com minha faca de prata, desistindo de alongar a conversa.
— Ela estava enviando uma carta, Draco. — falou Pansy, como se nada tivesse acontecido. — É para isso que pessoas vão ao corujal.
— Duvido que você tenha perdido a oportunidade de brigar com ela. — resmunguei, acrescentando os pedaços de planta à poção. Sua tonalidade verde-esmeralda agora começava a escurecer, e peguei a garrafa de suco de abóbora que separara para medir a quantidade necessária. Aproveitei e dei um gole na bebida, para tentar amenizar a temperatura alta das masmorras devido ao vapor.
— Na verdade, pedi desculpas a ela.
Cuspi o suco, que respingou na gravata de Pansy e em meu livro.
— Eca. — reclamou, limpando o líquido de seu broche de prata em forma de cobra.
— Como assim você pediu desculpas a alguém? merece uma Ordem de Merlim por ter causado essa proeza.
— Eu pedi desculpas por quase matá-la, só isso. Nada demais. — Pansy guinchou. — E, a propósito, vai à merda, Malfoy.
— Vai comigo, Parkinson — rebati, e ela voltou sua atenção à própria tarefa, resmungando.
Ainda estava meio incrédulo e desconfiado, com medo do que aquilo representava, mas decidi me ater ao preparo do Elixir. O líquido em meu caldeirão finalmente atingira a coloração escura que o livro previa, então despejei os 100 mililitros de suco de abóbora descritos, mantendo um movimento no sentido horário até o líquido começar a clarear e ficar mais e mais cintilante. Observei com expectativa passar pelo verde grama, depois verde limão, e… mais uma mexida… ficaria…
— Tempo! — bradou o professor Slughorn antes que eu pudesse completar minha poção. — Larguem suas varinhas e caldeirões! Um passo atrás, todos, por favor.
Joguei minha colher com força na bancada, frustrado, mas me afastei como fora pedido. O mestre começou sua análise pelo grupinho dos sonserinos. Torceu o nariz para o caldeirão de Zabini, passou pelo de Pansy sem esboçar reação, e chegou ao meu.
— Parece que temos o primeiro real concorrente ao prêmio desta aula! — ele exclamou. — Sr. Malfoy, muito bom… Uma escolha astuciosa, o Euphoria Elixir. Temo que tenha faltado só mais uma mexidinha… Mas vejamos, fique aqui na frente de minha mesa.
Andei até a frente da sala, sentindo o olhar indecifrável de sobre mim, que tinha os braços cruzados sobre o peito e sua imagem tremulava a meus olhos, pois entre nós subia a fumaça de sua poção em espirais prateadas.
— Como sempre impecável, sr. Potter. — elogiou o professor, fazendo um aceno para que o garoto se juntasse a mim na frente da turma. — Uma versão muito potente e elaborada da Poção Wiggenweld, muito bem.
O garoto chegou perto de mim com desconfiança, e fiz uma careta de desdém. — Ah, mas parece que quem leva o prêmio desta vez será esta mocinha aqui! — exclamou Slughorn, abrindo os braços na direção de . — Srta. , estudava em Castelobruxo, não? Desconfio que seu mestre tenha sido o próprio Libatius Borage, estou certo?
— Sim, senhor. — sua voz melodiosa e com sotaque respondeu.
— Por isso que seus talentos de pocionista são tão aguçados! Nunca esperaria que um aluno na primeira metade do sexto ano me entregasse algo tão perfeito… uma Amortentia!
Todos da sala pararam o que estavam fazendo para encarar , boquiabertos. Ela abriu um sorriso satisfeito e desfilou em minha direção, batendo propositalmente o ombro contra o meu.
— Só não chore, Malfoy. — ela sussurrou próxima a mim. — Eu não beijo maus perdedores.
Filha da puta. Bonita, inteligente, sangue puro, sarcástica até o último grau e infalível. A porra de uma gênia, gostosa e inalcançável. O meu plano de conquistá-la estava indo totalmente às avessas.
Quando o professor anunciou que tinha sido a melhor da classe e a entregou o frasco de Felix Felicis como prometido, juntei meus pertences de volta à bancada. Dei mais uma remexida no Elixir para finalizá-lo, recolhendo três vidrinhos para colocar em minha bolsa. Minha poção tinha ficado boa e valia o consumo, mas não se comparava à de . Motivado por esse pensamento, me aproximei do caldeirão que ela usara, inspirando o vapor do líquido madrepérola. Cheirava ao xampu de minha mãe, material para polimento de vassoura, couro de dragão e…
— Limpa a boca, Draco, tá escorrendo baba. — ironizou Pansy, passando a meu lado.
Abri um sorriso falso e lhe estendi o dedo do meio, ao que ela deu uma gargalhada e deixou a sala de aula.
Era engraçado como minha relação com Parkinson tinha mudado desde o início do ano. No Expresso de Hogwarts, estivéramos por um momento juntos, em que ela me fazia cafuné e dera a entender que esperava que eu segurasse sua mão. Depois de muitos surtos a cada vez que eu direcionava meus olhares a outra garota, Pansy agora agia como o que eu sempre esperara dela: uma melhor amiga. E eu tinha muita curiosidade de saber a que ponto a conversa que ela tivera com influenciara aquela mudança de comportamento.
Deixei a sala, e já estava quase chegando à sala comunal da Sonserina quando ouvi:
— Malfoy. — chamou , a uns dez metros de distância. — Pega. — e me arremessou algo.
Graças a meus reflexos adquiridos com o quadribol, agarrei o projétil com uma mão só: um frasco, lacrado com uma rolha cheia de cera, cheio até a borda de Sorte Líquida.
Ergui o rosto, muito surpreso, mas os cabelos longos e escuros de já desapareciam no outro extremo do corredor, sem me dar explicação.



Capítulo 16

POV

As espirais de neve batiam nas janelas geladas; o Natal estava se aproximando. O professor Hagrid, sozinho, já tinha feito a entrega de doze árvores de Natal para o Salão Principal; guirlandas de azevinho e franjas metálicas enfeitavam os balaústres das escadas; velas perpétuas brilhavam por dentro dos elmos das armaduras e a intervalos grandes ramos de visgo pendiam do teto, nos corredores.
Grupos de garotas convergiam para baixo dos ramos de visgo quando Harry passava, o que causava engarrafamento nas passagens e um revirar de olhos automático em mim e Hermione. De alguma forma, porém, ele conseguia chegar às salas de aula evitando todo o assédio.
Rony simplesmente rolava de rir com tudo aquilo. Harry e eu, embora preferíssemos esse novo amigo risonho e brincalhão ao Rony cismado e agressivo que estivéramos aturando nas últimas semanas, pagamos um alto preço por tal melhora. Era verdadeiramente insuportável aturar a presença ininterrupta de Lilá Brown, que parecia querer sugar o rosto do ruivo a cada instante possível e impossível. Sem contar a questão de que dois integrantes do trio de ouro se recusavam a falar um com o outro, deixando eu e Potter em um impasse bem desagradável. Naturalmente, eu me inclinava mais para Mione, mas Harry realmente se via dividido entre a atenção dos dois melhores amigos.
Quando questionado, Rony, cujos braços e mãos ainda exibiam os arranhões e cortes de um ataque de passarinhos conjurados por Hermione (que fora uma das coisas mais bizarras que eu vira acontecer em Hogwarts em todos aqueles meses), adotava um tom defensivo e rancoroso.
— Ela não pode reclamar. — disse ao Harry. — Andou aos beijos com o Krum. Agora achou alguém que quer andar aos beijos comigo. Bem, estamos em um país livre. Não estou fazendo nada demais.
Harry ignorou o comentário, concentrando-se na leitura de um exemplar de Quintessência: uma busca. Como estava decidido a continuar amigo de Rony e Hermione, ele passava grande parte do tempo muito calado, o que era terrivelmente chato.
— Nunca prometi nada a Hermione. — resmungou Rony. — Quero dizer, tudo bem, eu ia à festa de Natal do Slughorn com ela, mas ela nunca disse... era só como amigo... não tenho compromisso…
Harry virou uma página do Quintessência. — Ah, fica quieto, Rony, já entendemos. — bufei, fechando meu livro sem muita paciência. — Se você de fato não se importa com ela como diz, então tira o nome da garota da boca.
Ele me olhou assustado por um segundo, mas logo depois voltou a resmungar, dessa vez mais baixo. Nos entendíamos com nossas grosserias um com o outro, e isso não atrapalhava nem um pouco a amizade ou o carinho que havia entre nós (apesar de ele ser mais teimoso e inflexível que um trasgo velho).
O horário de Hermione era tão apertado que Harry só conseguia falar direito com a amiga à noite, quando Rony ficava tão grudado em Lilá que nem notava o que o outro estava fazendo. Eu, porém, cursava Aritmancia e Runas Antigas com ela, então estudávamos juntas essas disciplinas na biblioteca nos dias em que eu não me encontrava com Malfoy — afinal, eu meio que deixara de lado essa informação sobre minha agenda semanal. Harry nos encontrava lá, já que Hermione se recusava a sentar na sala comunal enquanto Rony estivesse ali.
— Ele tem toda liberdade de beijar quem quiser. — disse Hermione enquanto a bibliotecária, Madame Pince, rondava pelas estantes às suas costas. — Não estou nem aí.
Ergueu a pena e pôs um pingo no “i” com tanta ferocidade que perfurou o pergaminho. Harry ficou calado, erguendo as duas sobrancelhas para mim. Fiz uma careta enfadada. O garoto curvou-se um pouco mais para o Estudos avançados no preparo de poções e continuou a tomar notas sobre Elixires Perenes. A visão da capa me trouxe em cheio duas memórias agridoces: Castelobruxo, escola onde o autor da obra e meu professor, Libatius Borage, estudara, e Draco Malfoy, que sempre me lançava uma provocação sarcástica por cima do livro de Poções, sentado naquela mesma cadeira. Lembrei também da expressão que eu vira se formar no rosto dele, quando lhe arremessei o vidrinho de Felix Felicis.
Eu merecera aquele prêmio; minha Amortentia ficara exemplar. Como sempre, exalava um aroma muito específico de açaí, material para polimento de vassoura, terra molhada e, estranhamente, o cheiro das faixas que eu enrolava nas mãos para os treinamentos na aula de Combates. Mas já conseguira o que queria: um lugar no Clube do Slugue. As reuniões onde as conversas importantes aconteciam. Então imaginei que dar aquele presente a Draco seria mais vantajoso do que tomá-lo. O frasco representava uma confiança que eu precisava obter dele.
— E por falar nisso — lembrou Hermione passado algum tempo —, você precisa se cuidar.
— Pela última vez — respondeu Harry, num sussurro ligeiramente rouco depois de quarenta e cinco minutos de silêncio —, não vou devolver este livro, aprendi mais com o Príncipe Mestiço do que Snape e Slughorn me ensinaram em...
— Não estou falando desse idiota que se intitula Príncipe. — replicou Hermione, lançando um olhar irritado ao livro como se ele lhe tivesse feito uma grosseria. — Estou falando de hoje mais cedo. Entrei no banheiro pouco antes de vir para cá e tinha umas doze garotas lá, inclusive aquela Romilda Vane, discutindo meios de dar a você uma poção de amor. Todas têm esperança de fazer você levá-las à festa do Slughorn, e todas parecem ter comprado as poções de amor de Fred e Jorge, que, lamento dizer, provavelmente funcionam...
— Por que você não as confiscou? — quis saber Harry.
— Elas não tinham levado as poções para o banheiro. — respondeu com desdém. — Estavam apenas discutindo táticas. E, como duvido que mesmo o Príncipe Mestiço — ela lançou outro olhar irritado ao livro — pudesse inventar um antídoto que neutralizasse doze poções diferentes, se eu fosse você convidaria alguém para acompanhá-lo: isto faria as outras pararem de pensar que têm chance. É amanhã à noite, e as garotas estão ficando desesperadas.
— Não tem ninguém que eu queira convidar. — murmurou Harry. — Eu chamaria a , mas ela tem seu próprio convite para a festa.
Eu não precisava usar Legilimência para saber que a resposta que ele realmente queria dar era: “Quem eu quero chamar já é comprometida”.
— E eu vou sozinha, não estou com a mínima vontade de arranjar um par. — emendei.
— Bem, tenha cuidado com o que beber, porque, pelo jeito, a Romilda Vane não estava brincando. — disse Hermione séria.
Ela puxou para cima da mesa um longo pergaminho em que estava fazendo o trabalho de Aritmancia, e continuou a arranhá-lo com a pena. Puxei meu próprio dever e comentei em voz baixa com ela sobre algumas observações que anotara na aula, e começamos a discutir sobre o conteúdo aos cochichos.
— Calma aí um instante. — disse Harry lentamente, atraindo o olhar de nós duas para si. — Pensei que Filch tivesse proibido artigos comprados na Gemialidades Weasley.
— E algum dia alguém ligou para o que Filch proíbe? — perguntou Hermione, ainda concentrada no seu trabalho.
— Mas pensei que todas as corujas estivessem sendo revistadas. — Espera aí, o quê?, pensei. Então o fato de estarem lendo minhas cartas é concreto e não mera especulação? Senti algo gelado subir por meu estômago, trazendo consigo um enjoo. Sem notar o efeito que suas palavras provocaram em mim, Harry continuou: — Como é que essas garotas conseguem trazer poções de amor para a escola?
— Fred e Jorge despacham as poções camufladas de perfume ou xarope para tosse. Faz parte do seu Serviço de Encomenda-Coruja.
— Você está por dentro, hein?
Hermione lhe lançou o mesmo olhar irritado que acabara de dar ao livro de Estudos avançados no preparo de poções. Me encolhi na cadeira, mesmo que ela não estivesse me fuzilando com os olhos.
— Estava tudo impresso no verso das garrafas que eles mostraram a Gina e a mim no verão. — informou ela com frieza. — Não ando por aí pondo poções nas bebidas das pessoas... nem fingindo que ponho, o que é igualmente sério…
— Mione… — alertei, com um princípio de riso.
— É, bem, deixa isso para lá. — disse Harry depressa. — A questão é que estão enganando o Filch. Essas garotas estão trazendo artigos para a escola camuflados de outra coisa! Então por que Malfoy não poderia ter trazido o colar…?
Mais uma vez o frio na barriga desagradável estava ali. Engoli a saliva grossa que se acumulara em minha boca com o nervosismo de estarmos entrando naquele assunto.
— Ah, Harry... outra vez...?
— Responde por que não, vai?
— Porque não tem como. — me pronunciei. — A mágica naquele colar era forte demais pra passar despercebida.
— Exatamente. Olha — suspirou Hermione —, sensores de segredos detectam feitiços, maldições e azarações lançados para ocultar, não é? São usados para descobrir magia das Trevas e objetos das Trevas. Teriam apanhado em segundos uma maldição poderosa como a daquele colar. Mas não registrariam uma coisa que foi posta em um frasco diferente... e, de qualquer modo, as poções de amor não são das Trevas, nem perigosas...
— Para você é fácil falar. — murmurou o garoto.
— ... então Filch é quem teria de perceber se era ou não era um xarope para tosse, e ele não é um bruxo muito competente, duvido que saiba diferenciar uma poção de...
Hermione parou de repente; Harry pressentiu também. Eu, porém, nem me mexi. Alguém se aproximara entre as estantes escuras, mas eu sabia, pela forma de andar, que não era Malfoy, nem nenhuma outra pessoa que valesse a pena o esforço de me virar. Eles aguardaram e, um momento depois, o rosto da bibliotecária, Madame Pince, surgiu no fim da estante. Sua pele enrugada como pergaminho velho a fazia parecer um cadáver que alguém se esquecera de colocar em um caixão.
— A biblioteca acabou de fechar. — anunciou ela. — Cuidem de devolver o que apanhou emprestado à prateleira corret... — Ela quase engasgou ao encontrar as páginas rabiscadas do livro-texto de Harry. — Que é que você andou fazendo com esse livro, seu garoto depravado? — Não é da biblioteca, é meu! — ele apressou-se a explicar, puxando seu livro de Poções para evitar o confisco da bruxa furiosa a nossa frente.
— Espoliado! — sibilou Madame Pince. — Profanado! Conspurcado!
— É só um livro em que alguém escreveu! — disse Harry, tirando-o do alcance das mãos dela.
A bruxa parecia que ia ter uma apoplexia; Hermione, que recolhera apressadamente suas coisas, agarrou o amigo pelo braço e arrastou-o à força para longe dali.
Eu, porém, me demorei mais pegando minhas coisas, escutando os adjetivos depreciativos e histéricos de Madame Pince.
— …do Filch? — ouvi Harry falando no fim do corredor, de braços dados com Hermione. — Sempre achei que houvesse alguma coisa entre os dois...
Os dois voltavam à sala comunal pelos corredores desertos e iluminados por lampiões, discutindo se Filch e Madame Pince estariam secretamente apaixonados, quando os alcancei correndo, ofegante.
— Custava nada terem me esperado um pouco! — bronqueei, recebendo um “desculpa” em uníssono como resposta.
Bolas Festivas — Harry disse à Mulher Gorda a nova senha natalina.
— Igualmente. — respondeu a Mulher Gorda com uma risadinha marota e girando para expor a porta.
— Oi, Harry! — exclamou uma morena de cabelos cacheados, que rapidamente constatei ser Romilda Vane, no instante em que ele entrou pelo buraco do retrato. — Quer tomar uma água de gilly?
Hermione lançou ao amigo um olhar “Que-foi-que-eu-disse?”, por cima do ombro.
— Não, obrigado. — respondeu Harry ligeiro. — Não gosto muito.
— Bem, então aceite uns bombons. — disse a garota, empurrando em suas mãos caldeirões de chocolate recheados com uísque de fogo. — Minha avó mandou para mim, mas não gosto.
— Ah, tá, muito obrigado. — agradeceu ele, profundamente sem graça. — Ah... vou um instante ali com…
— Comigo! — agarrei o braço de meu amigo, encenando um biquinho enciumado para Romilda enquanto passava o braço dele por meus ombros. — Não vê que ele está comigo?
A menina franziu as sobrancelhas, mas não em irritação: sua expressão parecia querer desvendar como eu alcançara tamanha graça de conseguir ser abraçada pelo Eleito. Ouvindo o risinho baixo de Potter, o direcionei até onde Hermione estava sentada.
— Eu falei. — resmungou ela. — Quanto mais cedo convidar alguém, mais cedo elas vão deixar você em paz e então vai poder...
Mas seu rosto repentinamente vidrou, e acompanhei o alvo de seu espanto. Rony e Lilá, entrelaçados na mesma poltrona, acariciavam o rosto um do outro e me davam vislumbres desagradáveis de suas línguas se tocando.
— Bem, boa noite, Harry — disse, e seguiu para o dormitório das garotas sem dizer mais nada.
Consultei o relógio: eram sete e quinze. Subi atrás dela, me desculpando com um aceno para Harry. Nos arrumamos no banheiro para dormir, sem trocar nenhuma palavra, e deitei em minha cama ouvindo o som fraco de ela segurando o choro. Suspirei, sabendo que tentar conversar naquele momento seria inútil. Em vez disso, pulei para a cama dela e a abracei. Enquanto adormecíamos, torci para que aquele sofrimento estivesse próximo do fim, pois os dois se importavam demais um com o outro.
Só fui saber o quão errada estava na aula de Transfiguração com os dois, no dia seguinte. A turma tinha acabado de entrar no tópico extremamente difícil da transfiguração humana, que eu já dominava; trabalhando diante de espelhos, tínhamos que mudar a cor de nossas próprias sobrancelhas. Rapidamente descolori os fios com um aceno, deixando-os brancos (como o cabelo de Malfoy, pensei), e fiz com que voltassem à coloração normal quando a prof. McGonagall me elogiou (“10 pontos para a Grifinória, srta. ”). Hermione riu maldosamente quando Rony fez crescer em si mesmo um bigode digno de padeiro ou chefe de máfia italiano, mas ele logo retaliou, fazendo uma imitação cruel, mas exata, de Hermione levantando e sentando sem parar cada vez que a professora fazia uma pergunta. Me aproximei dele a passos firmes, entre as risadas de Lilá e Parvati, e quase colei nossos rostos. O riso de Brown rapidamente se desvaneceu.
— Acho melhor você parar com essa merda, Weasley. Está passando dos limites.
— Só estou retribuindo. — ele fingiu uma confiança que não tinha, com a voz tremulando um pouco.
— Você sabe bem que está indo além disso. E eu sei bem também. — Fiz menção de dar outro passo, e ele se desequilibrou na tentativa de ir para longe. — E uma coisa que você sabe muito bem é que não é uma boa ideia discutir comigo.
Seu pomo de adão subiu e desceu, e ele deixou escapar uma risadinha nervosa.
, para com isso. Eu sou seu amigo… Hermione está sendo boba…
Não respondi, e sorri falsamente para Lilá ao me afastar. Ela se encolheu. Me senti mal por intimidar outra garota, mas ela estava sendo ridícula também ao provocar Hermione de propósito; isso era nítido.
Mione, à beira das lágrimas, saiu correndo da sala quando ouviu o sinal que anunciava o fim da aula, largando metade do material para trás. Harry pareceu perceber que, naquele momento, Hermione precisava mais dele do que Rony, então recolheu as coisas da amiga e seguiu-a. Me apressei para segurar seu braço antes que ele alcançasse a garota.
— Deixa que eu falo com ela.
Ele hesitou, mas acabou concordando, e saiu pelo corredor atrás de Luna Lovegood, por algum motivo que eu desconhecia.
— Vou chamar o McLaggen para a festa. — foi a primeira coisa que ouvi de Hermione quando me aproximei.
Sua postura estava excessivamente reta e a e expressão decidida, por mais que as listras peroladas em sua bochecha, por onde as lágrimas haviam descido, ainda fossem visíveis.
— Tá de sacanagem — ri, deixando a mochila cair a meus pés e sentando no chão à sua frente.
— Não.
— Vai deixar o Rony muito puto.
— Ótimo.
— Quero tanto ver is…
— Ou talvez o Smith. — ela me interrompeu, como se estivesse absorta nas próprias reflexões. — Você sabe, aquele garoto da Lufa-Lufa que narrou o jogo…
— Mais uma vez digo, e agora com um pouco de nojo: tá de sacanagem. — grunhi, estremecendo teatralmente.
Ela encolheu os ombros, e caímos juntas na gargalhada. Assisti ela se levantar do degrau onde estávamos e atravessar o corredor para convidar o goleiro reserva do time de quadribol. Córmaco lhe abriu um sorriso lascivamente desagradável e irritantemente parecido com o de Zabini, e eles combinaram de se encontrar na sala comunal às oito horas.
Eu imaginava que aquilo fosse logo se tornar uma fofoca entre os grifinórios, mas estava enganada. O par que Harry Potter arranjara era um tópico muito mais interessante para debater, como descobri naquela noite.
— Você podia ter levado qualquer garota! — disse Rony, incrédulo, ao jantar. — Qualquer garota! Inclusive a , que é bonita e nossa amiga! E você escolheu a Di-lua Lovegood?!
Eu estava sentada próxima a Mione, quase na ponta oposta da mesa, mas minha audição focava exclusivamente em ouvir o que os garotos do trio de ouro discutiam.
— Não entendi o problema. — resmunguei sozinha, apesar de ligeiramente lisonjeada pelo elogio à minha aparência.
— Não chame a Luna assim, Rony. — falou Gina asperamente, parando atrás de Harry quando ia se reunir aos seus amigos. — Fico realmente feliz que você esteja levando a Luna, Harry, ela está tão animada! — E continuou andando ao longo da mesa, se sentando quase no colo de Dino e selando seus lábios.
Parecendo alheia à conversa de Potter e Weasley, Hermione brincava com o picadinho no prato, empurrando a carne em cubinhos de um lado para o outro com a ponta do garfo. Rony lhe dava olhadelas furtivas, mas cessou ao ser flagrado por mim.
— Você podia pedir desculpas. — Harry sugeriu, ao longe.
— Quê, para ser atacado por outro bando de canários? — murmurou o outro, abocanhando uma cenoura cozida com amargor na voz.
— Para que você foi imitar Hermione?
— Ela riu do meu bigode!
— Eu também ri, foi a coisa mais burra que eu já vi.
— Exato. — murmurei para mim mesma mais uma vez.
Mas Rony não pareceu ter ouvido. Lilá acabara de chegar com Parvati. Apertando-se entre Harry e Rony, a loirinha atirou os braços no pescoço do ruivo.
— Oi, Harry. — cumprimentou Parvati, que, como ele, parecia meio constrangida e chateada com o comportamento dos dois amigos.
— Oi. — respondeu Harry. — Como vai? Vai ficar em Hogwarts, então? Soube que seus pais queriam que você saísse da escola…
Vi um fio de baba se formar entre as bocas de Lilá e Rony quando eles partiram o beijo, o que me fez encenar uma ânsia de vômito para Hermione. Ela, porém, bateu com as duas mãos ao lado de seu prato, levantando-se bruscamente com um sorriso quase psicótico no rosto.
— Mione, sua cara tá me assustando. — falei, com uma careta, enquanto mastigava uma batata.
Ela deu uma risadinha afetada e dei um gole em meu suco de abóbora, assombrada com a mudança repentina de humor.
— Só vou bater um papo com minhas… amigas. E foi na direção oposta à minha. Revirei os olhos e a segui, ainda segurando meu copo.
— … deixou os dois apavorados, mas como não aconteceu mais nada... — dizia Parvati Patil, quando seus olhos recaíram na colega que se aproximava. — Ah, oi, Hermione!
— Oi, Parvati! — respondeu Hermione, ignorando totalmente Rony e Lilá, ainda embolados quase num atentado ao pudor. — Você vai à festa do Slughorn hoje à noite?
— Nenhum convite. — resumiu Parvati tristemente. — Mas adoraria ir, parece que vai ser realmente boa... você vai, não é?
— Vou, marquei com Córmaco às oito, e nós...
Houve um ruído semelhante ao de alguém puxando um desentupidor de uma pia entupida, e Rony voltou à tona. Lilá estava ofegante, e não conteve uma careta de desagrado pela interrupção. Hermione agiu como se não tivesse visto nem ouvido nada.
— ... vamos à festa juntos.
Córmaco? — repetiu Parvati. — Você quer dizer o Córmaco McLaggen?
— O próprio. — disse Hermione, delicadamente, como se sentisse um arroubo de carinho ao lembrar do garoto. — Aquele que quase — ela deu grande ênfase à palavra — foi goleiro da Grifinória.
— Então vocês estão namorando? — perguntou Parvati, de olhos arregalados.
— Ah... estamos... você não sabia? — falou Hermione, com uma risadinha que não parecia sua. Olhei para o outro lado, para que ninguém visse o sorriso nascente em meu rosto, e acabei flagrando Draco Malfoy à mesa da Sonserina, tirando meticulosamente a pele de uma coxa de frango como se fosse o ofício mais complexo do mundo. Desviei o olhar antes que alguém notasse.
— Não! — exclamou Parvati, entretidíssima pela fofoca. — Uau, você gosta mesmo de jogadores de quadribol, não é? Primeiro o Krum, agora o McLaggen...
— Eu gosto de jogadores de quadribol muito bons. — corrigiu-a Hermione, ainda sorrindo. — Bem, a gente se vê... tenho de me arrumar para a festa...
Ela saiu, e deixei minha risada sair na forma de ar pelo nariz, quase num ronco.
— Mas que porra foi essa? — questionou Rony em voz baixa.
— Parece que ela arrumou outro acompanhante, não? — falei, satisfeita. Virei o que sobrara do suco em meus lábios e trouxe meu prato para perto com um Feitiço Convocatório perfeito. — Ou melhor, acatou sua sugestão de namorar o McLaggen; quem sabe o professor agora não os nomeie Rei e Rainha do Clube?
Harry estava meio chocado, mas vi sua boca tremer quando ele tentou segurar o riso.
— Caso ser auror não der certo, Rony, você pode se candidatar ao cargo de professor de Adivinhação! — continuei, sarcástica. — Previu exatamente o que ia acontecer… O que você acha de ler minha vida amorosa também?
Ele praticamente expulsou Lilá de seu colo, que resmungou e se sentou ao meu lado, a contragosto. Eu tinha pena dela. Não era justo que Rony a usasse daquele jeito para fazer ciúme em Hermione, mas eu não era próxima o bastante de Brown para aconselhá-la.
Terminei meu jantar silenciosamente e fui me arrumar para a festa. Depois de quarenta minutos, vários acessos de raiva por borrar o delineado dos olhos e dúvida entre três batons diferentes, eu finalmente estava pronta.
Mione parou em minha frente com um belo vestido rosa claro que eu lhe ajudara a transfigurar. Tinha um generoso decote em V, que mostrava seu lindo colo, e a saia de cetim ia até os joelhos. Segurava uma paleta de sombras cintilantes e retocava o rímel usando o pequeno espelho.
— Está linda, . — elogiou ela, fechando o tubinho do cosmético.
Meu vestido era justo até a cintura, acentuando a curva que formava com o quadril, e se abria delicadamente numa saia de tule vermelho sangue até os pés. Uma fenda expunha minha perna até a altura da coxa, e a peça era sustentada por alças finíssimas que adornavam lindamente as clavículas. No lado oposto à fenda, um bolso continha minha varinha.
— Córmaco é um idiota de sorte, Mione. — impliquei, e ela me esticou a língua. — O vestido ficou perfeito em você.
Borrifei um pouco de perfume no pescoço, punho e colo, e por fim descemos as escadas, com os saltos estalando nos degraus. McLaggen sorriu ao vê-la, e envolveu-a grosseiramente pela cintura sem nem me desejar boa noite.
— Você está maravilhosa. — falou no ouvido dela, com uma intimidade que não tinham. No rosto de Hermione, vi que ela se forçara a retribuir com um sorriso.
Nos aproximávamos da sala de Slughorn e os sons de risos, música e conversas em voz alta aumentavam a cada passo. Ao entrar, constatei que o aposento era muito maior do que o escritório normal de um professor; certamente fora aumentado com magia. O teto e as paredes tinham sido forrados com panos esmeralda, carmim e dourado, para dar a impressão de que estávamos no interior de uma vasta tenda. A sala estava cheia e abafada, imersa na luz vermelha que o ornamentado lampião dourado projetava do centro do teto, onde esvoaçavam fadinhas de verdade, cada qual um pontinho brilhante de luz. Uma cantoria, aparentemente acompanhada por bandolins, subia de um canto distante; uma névoa de fumaça de cachimbo pairava sobre vários bruxos idosos absortos em conversa, e numerosos elfos domésticos se deslocavam entre uma floresta de joelhos, sombreados pelas pesadas travessas de prata com comida que seguravam, parecendo mesinhas móveis.
Ficamos por alguns minutos conversando, durante os quais o par de Hermione por vezes parecia se esquecer que estávamos em uma festa de Natal organizada por um professor, e não em uma confraternização dentro da sala comunal da Grifinória. Queria beijá-la a todo momento, e ela pareceu achar isso engraçadinho nos primeiros cinco minutos, mas depois ficou extremamente desconfortável. Apanhei uma taça de champanhe de um elfo doméstico que servia bebidas e dei um generoso gole, observando o olhar de Blásio Zabini, que trajava um blazer verde petróleo, passar desdenhosamente por mim como se eu fosse parte da decoração de Natal. Engraçado como os garotos ali mudavam de atitude depois de uma rejeição.
Quando retornei para perto de Mione e McLaggen, os cabelos da garota estavam um pouco mais revoltos e seu nariz se enrugava em impaciência.
— Córmaco. — chamei a atenção do garoto ao chamá-lo pelo primeiro nome, e ele se virou para me olhar nos olhos. Isto é, se meus olhos ficassem no lugar dos mamilos, porque ele demorou a desviar a atenção de meu decote. — Você também é da reserva da Grifinória, não? Lembro de você no teste.
Subitamente McLaggen virou o corpo todo para minha direção, como um predador que mudara a presa de seu interesse. Por cima do ombro dele, vi minha amiga arregalar os olhos e enunciar um “obrigada” só com os lábios e se afastar para encontrar Harry, que entrara há pouco com Luna na sala. Sorri ao ver a corvina com seu costumeiro sorriso feérico e um vestido rosa metálico com camadas de estrelinhas.
O assunto entre eu e o “namorado” de Hermione era quadribol, e ele parecia encher a boca para falar, agindo como se eu não soubesse absolutamente nada do esporte (mesmo que estivesse no time tanto como ele).
— … mas isso é uma manobra bem complexa adotada pelos apanhadores, a finta de Wronski. Geralmente só os reais aficcionados do esporte a conhecem; naturalmente você não deve estar familiarizada por ela ser muito…
— Na verdade, estou sim. — o cortei. — Fui chamada para jogar na seleção brasileira por conta de minha performance com essa finta, inclusive, então seria estranho se eu não soubesse. — Sorri agradavelmente, levando minha taça aos lábios.
O rosto dele se tensionou com a surpresa, mas nem ao menos consegui esboçar uma reação àquilo, pois meus olhos se depararam com uma imagem que fez meu coração se acelerar e meu foco ser totalmente desviado.
Argo Filch vinha em direção ao grupo arrastando Draco Malfoy pela orelha.
— Professor Slughorn. — chiou o zelador, as bochechas tremendo e nos olhos saltados o brilho maníaco ao descobrir malfeitos. — Encontrei este rapaz se esgueirando por um corredor lá de cima. Ele diz que foi convidado para a sua festa e se atrasou na saída. O senhor lhe mandou convite?
Malfoy se desvencilhou do aperto de Filch, furioso, e começou:
— Está bem, não fui conv…
Eu o convidei. — o interrompi, me aproximando a passos firmes do zelador. O único som audível era o de meus saltos contra o chão e o tecido do vestido farfalhando. — Satisfeito? — Não, não estou! — retrucou Filch, uma afirmação em total desacordo com a alegria em seu rosto. — Este pestinha está encrencado, ora se está! O diretor não avisou que não queria ninguém nos corredores à noite, a não ser que a pessoa tivesse permissão, não avisou, é?
— E não acabei de lhe dizer que ele tem permissão? Que foi convidado por mim, e pode estar aqui tanto quanto qualquer outro nesta sala? — retorqui, num tom falsamente doce, porém firme. Virei-me para o mestre de Poções. — Não o avisei sobre isso, professor Slughorn, porque ele se atrasou para o horário que combinamos de nos encontrar, e achei que não viria mais…
— Oh, mas não há problema algum, minha querida! — ele respondeu. — E tudo bem, Argo, tudo bem. — disse Slughorn, com um aceno de mão para impedir que o zelador mantivesse um conflito entre nós. — Hoje é Natal, e não é crime se atrasar para ir a uma festa.
A expressão de indignação e desapontamento de Filch era perfeitamente previsível. Voltei meus olhos para Draco, que parecia surpreso e cansado na mesma medida. Abri a boca para fazer um questionamento silencioso, mas meus olhos encontraram o rosto embasbacado de Harry Potter.
Malfoy conseguiu produzir um sorriso forçado.
— Obrigada por sua generosidade, professor Slughorn…
— De nada, de nada. — disse Slughorn, dispensando os agradecimentos. — Afinal, eu conheci o seu avô...
— Ele sempre o elogiou muito, senhor. — O garoto apressou-se em dizer. — Dizia que o senhor era o melhor preparador de poções que ele tinha conhecido...
Franzi ligeiramente a testa, sem desmontar o sorriso. Malfoy parecia doente. No dia anterior eu o vira bem de perto, mas era somente sob aquela luz da festa que notava as olheiras escuras sob os olhos e um nítido tom acinzentado na pele.
— Gostaria de dar uma palavra com você, Draco. — disse Snape subitamente.
— Ora, vamos Severo. — falou Slughorn, entre soluços. — É Natal, não seja tão duro…
— Professor… mas eu… — comecei, e fui interrompida.
— Sou o diretor da Casa dele e cabe a mim decidir se devo ou não ser duro. E você, srta. , já esperou tanto por seu… acompanhante, não é? — retrucou rispidamente. — Não fará mal aguardar mais um pouco. Venha comigo, Draco.
Os dois se retiraram: Snape à frente, Malfoy parecia ressentido. Harry hesitou, com os globos verdes cravando nos meus , e então disse:
— Volto em um instante, Luna... hã... banheiro.
— Tudo bem. — respondeu Luna, animada, e Harry saiu ligeiro entre os convidados.
…? O que foi isso? — Hermione me questionou, pressionando os lábios como sempre fazia quando estava tensa. — Você realmente…
— Não. — confessei baixinho, segurando seu pulso para nos afastarmos. — Eu sei que Harry está obcecado com essa ideia do Malfoy ser um Comensal, então imaginei que seria uma boa mantê-lo aqui. Para vocês verem por si mesmos… o que quer que seja que queiram ver.
Mione claramente não acreditava em mim, então ri para descontrair.
— Eu nem fico mais com ele! — Mentira. Mas ela não precisava saber. — Sério, você vai ver como Harry vai agradecer por isso.
E, ao enunciar essas palavras, finalmente me dei conta de onde Potter fora: certamente espionar Draco e Snape. E, com a taça de cristal de espumante mais uma vez colocando álcool para dentro da boca, concluí que aquela era a primeira falha na minha missão que eu simplesmente não tinha como resolver.

Draco POV

— Não sabia que agora você se relacionava com grifinórias, Draco. — Foi a primeira frase proferida pelo professor quando entramos em uma sala de aula vazia. — Imaginei que você fosse mais criterioso.
— Ela é sangue puro. — comentei, já querendo desviar o assunto.
— Mas anda demais com Harry Potter e Hermione Granger para seu próprio bem. E não é o ano certo para você ficar se envolvendo com garotas por aí, acordando entre lençóis alheios… Desperdiçando tempo que poderia ser usado para bolar planos melhores do que contrabandear colares malditos para dentro da escola. — Snape trancou a porta da sala a chave, para evitar que alguém entrasse. — Sabemos que você não pode se dar ao luxo de errar, Draco, porque se você for expulso...
— Não tive nada a ver com isso, está bem? — menti, olhando a neve caindo lá fora através do vidro da janela.
— Espero que esteja dizendo a verdade, porque foi malfeito e tolo. Já suspeitam que você tenha um dedo no incidente.
— Quem suspeita de mim? — perguntei com raiva. — Pela última vez, não fui eu, entende? Aquela garota, Bell, deve ter um inimigo que ninguém conhece... não me olhe assim! — Snape me encarava, muito concentrado, e logo entendi o que estava fazendo. Blindei meus pensamentos o mais rápido que pude. — Sei o que você está fazendo. Não sou burro, mas não vai funcionar... posso impedi-lo!
Ele disse baixinho:
— Ah... tia Bellatrix tem lhe ensinado Oclumência, entendo. — Um sorriso falso e irônico apareceu nos lábios finos. — Que pensamentos você está tentando esconder do seu senhor, Draco?
— Não estou tentando esconder nada dele, só não quero que você penetre a minha mente! — retruquei.
— Então é por isso que você tem me evitado este trimestre? Tem medo da minha interferência? Você percebe que se outro aluno não fosse à minha sala quando eu mandasse, e mais de uma vez, Draco...
— Então me dê uma detenção! Dê queixa de mim ao Dumbledore! — caçoei. Severo estava sendo ridículo.
O professor ficou em silêncio, parecendo ponderar as opções que eu oferecera, e por fim falou:
— Você sabe perfeitamente que não quero fazer nenhuma das duas coisas.
— Então é melhor parar de me mandar ir à sua sala!
— Escute aqui. — disse Snape, com a voz muito baixa como se temesse ser ouvido. — Estou tentando ajudá-lo. Jurei a sua mãe que o protegeria. Fiz um Voto Perpétuo, Draco...
— Pois parece que vai ter de quebrá-lo, porque não preciso da sua proteção! A tarefa é minha, eu a recebi dele e estou cumprindo-a. Tenho um plano que vai dar resultado, só está levando um pouco mais de tempo do que pensei!
— Qual é o seu plano?
Hesitei por um milissegundo, me sentindo idiota por revelar uma ideia com tão pouca chance de dar certo.
— Não é da sua conta!
— Se me contar o que está tentando fazer, posso ajudá-lo...
— Tenho toda a ajuda de que preciso, obrigado, não estou sozinho!
— Mas certamente estava hoje à noite, no que foi extremamente tolo, andar pelos corredores sem vigias, nem cobertura. São erros elementares...
— Eu teria Crabbe e Goyle comigo, se você não tivesse detido os dois!
Fale baixo! — disse Snape com violência, quando alteei a voz. Andei de um lado para o outro, ajeitando os cabelos em agitação. — Se os seus amigos Crabbe e Goyle pretendem passar no N.O.M. de Defesa Contra as Artes das Trevas desta vez, terão de se esforçar mais do que estão fazendo no momen...
— Que diferença faz isso? — o cortei, com um princípio de risada de escárnio crescendo na ponta da língua. — Defesa Contra as Artes das Trevas é uma piada, não é, uma encenação? Como se algum de nós precisasse se proteger contra as Artes das Trevas...
— É uma encenação decisiva para o sucesso, Draco! — lembrou ele. — Onde é que você pensa que eu estaria todos esses anos se eu não soubesse como representar? Agora me escute! Você está sendo imprudente, andando pela escola à noite e sendo apanhado, e se está confiando na ajuda de Crabbe e Goyle...
— Eles não são os únicos. — Vieram a minha cabeça várias imagens que Snape não poderia nunca sonhar em ver associadas ao que eu acabara de falar: duelando comigo, invadindo a Dedosdemel, em seu vestido preto nos aposentos da Sonserina… com os lábios nos meus e um sorriso sarcástico na boca linda. — Tenho mais gente do meu lado, gente melhor!
— Então por que não confiar em mim, posso...
— Sei o que está pretendendo! Você quer roubar a minha glória! — Foi a primeira coisa em que pensei para despistá-lo da pergunta que eu sabia que viria: posso saber quem é essa tal "gente melhor”?
Surpreso, Snape disse com frieza:
— Você está falando como uma criança. Compreendo que a captura e a prisão do seu pai o tenham deixado perturbado, mas...
O sangue me subiu pelo colarinho. Falar de meu pai naquele momento fora a gota d’água. Escancarei a porta, e achei ter ouvido um som farfalhante, mas o corredor estava vazio. Assim, afastei-me em passos largos e adentrei pela porta aberta da sala de Slughorn.
Agarrei um copo de uísque de fogo esquecido numa das mesas e entornei metade na garganta, contendo a careta provocada pela queimação. Um borrão vermelho se moveu atrás de mim, e me virei.
— Já que você é meu acompanhante, acho que me deve pelo menos um “obrigado”. Ou uma dança. — tinha os braços cruzados sobre o peito, evidenciando o decote elegante. Ergui o lado esquerdo da boca num meio sorriso, e ela tirou o copo de cristal de minha mão. — E sem uísque de fogo hoje. Melhor algo mais leve, não?
Um dos elfos passava ali por perto e a garota pegou uma taça de champanhe igual à que segurava, me oferecendo. Aceitei, e brindamos brevemente. O gosto frio e etéreo tomou conta de minha língua, e as bolhas fizeram cócegas no céu da boca.
— Obrigado.
— De nada. Eu sabia que você ia querer invadir a festa para me ver — ela brincou, mas havia algo de sombrio nos olhos , como se ela soubesse mais do que deveria. E se tratando de , talvez soubesse mesmo.
— Você veio sozinha? — inquiri.
— Vim com você.
Revirei os olhos.
— Não, digo, de verdade.
Ela sorriu.
— Claro que vim sozinha, não faz sentido essa mania de vocês precisarem de um par para esse tipo de evento. Não é um baile. — Ela levou o espumante à boca e tomou alguns goles, atraindo minha atenção para a pedra que cintilava em escarlate em sua pulseira.
— Imaginei que você fosse usar sua Amortentia para arranjar um par. — impliquei.
— Você, melhor do que ninguém, sabe que não preciso disso.
Suas respostas afiadas e automáticas me instigavam, mas a conversa com Severo não saía de minha mente. Eu precisava cumprir a tarefa que me fora designada, e estava contando demais com a ajuda de . Mas ela era boa. Era uma Grifinória estrangeira e filha de aurores, a melhor da classe do combate à magia das trevas e uma garota muito difícil de conquistar.
— Sei mesmo. — ofereci o braço a ela, que rapidamente apoiou a mão na curva de meu cotovelo, e a direcionei para uma mesa vazia. Do outro lado da sala, vi Potter se aproximando de Lovegood, provavelmente retornando do banheiro. Nossos olhos se cruzaram por um instante, as íris verdes queimando minhas azuis, e forcei um sorriso ao me voltar para frente de novo.
Antes que pudéssemos chegar aos assentos, porém, Slughorn veio na direção de , com um sorriso frouxo no rosto bochechudo que mostrava claramente o quanto ele já tinha bebido.
— Srta. , querida, não sabia que conhecia o sr. Cairu!
se desequilibrou levemente em seus saltos finos e apertou meu braço com mais força, parecendo desconcertada. Atrás do mestre de Poções, um homem alto e moreno com os cabelos presos em um rabo de cavalo me fitava.
— Ah, sim! Ele é um amigo de meus pais. — ela respondeu, sorrindo educadamente como se o contratempo não tivesse ocorrido. — Que surpresa vê-lo aqui.
— Digo o mesmo, senhorita. — o desconhecido disse com um sotaque parecido com o dela, acenando a cabeça como se a reverenciasse. — Achei que estudasse em Castelomago…
— Castelobruxo. — ela corrigiu. — Sim, mas vim fazer intercâmbio aqui este ano.
— Meu querido Hélio estava dizendo que a senhorita tem uma bela voz, querida. — disse Slughorn. — Nos brindaria com o prazer de ouvir uma canção?
abriu a boca por um segundo antes de responder:
— Claro.
Ela se virou para mim, e vi algo em seus olhos que nunca vira antes: medo. Sem entender, me aproximei e beijei seu rosto bem de leve e discretamente.
— Vou assistir você daqui.
Caminhando confiante, ela subiu em um pequeno palco localizado a um dos cantos da ampla sala, e puxei uma cadeira para ver aquilo. Tirando a varinha de dentro do bolso costurado do vestido, ela diminuiu um pouco as luzes do resto do aposento e concentrou-as em si, que estava de pé entre os integrantes de uma banda. Todos os presentes se aglomeraram ali perto para entender o que acontecia.
— Boa noite a todos! Primeiro, quero propor um brinde a meu adorado mestre Horácio Slughorn, que nos recebeu hoje com tanta graça e simpatia. Muito obrigada! — Ergueu sua taça, sendo imitada pelos outros com vivas e aplausos. — Nosso anfitrião me pediu cordialmente que lhes apresentasse uma música, e escolhi uma que gosto bastante e tem uma letra bem especial — completou, olhando diretamente em meus olhos dessa vez, e logo em seguida deu uma batidinha com a varinha em algumas folhas de papel que estavam sobre um piano de cauda. Rapidamente partituras se desenharam ali, e ela deu um passo a frente para começar a cantar. (n/a: dê play aqui para a começar a música! P.S.: A letra da versão cantada na história é um pouquinho diferente da original).
Yes, he was a little boy
(Sim, ele era um menininho)
Afraid of the big wide void
(Com medo do grande e amplo vazio)
He grew up within his castle walls
(Ele cresceu dentro das paredes de seu castelo)


Sua voz era melodiosa e delicada, mas havia uma potência crescente no timbre que me deixou arrepiado, e a sensação só se intensificou a medida que eu ia prestando atenção na letra.

Now and then he tried to run
(De vez em quando ele tentava correr)
And then on the night with the setting Sun
(E então à noite, com o sol poente)
He went in the woods away
(Ele foi na floresta para longe)
So afraid, all alone
(Com tanto medo, totalmente sozinho)


Meu estômago borbulhou, e meus lábios se partiram enquanto a canção continuava contando a história.

They warned him, don’t go there
(Eles o avisaram, “não vá lá”)
There's creatures who are hiding in the dark
(“Há criaturas que estão se escondendo nas trevas”)
Then something came creeping
(Então algo veio rastejando)
It told him, don’t you worry just
(Aquilo o disse: “não se preocupe, apenas…”)
Follow everywhere I go
(“Me siga onde quer que eu vá”)
Top of all the mountains or valley low
(“Topo de todas as montanhas ou fundo dos vales”)
I'll give you everything you’ve been dreaming of
(“Eu te darei tudo que você vem sonhando”)
Just let me in, ooh
(“Só me deixe entrar, ooh”)


Mudei de posição na cadeira sob o olhar intenso dela. Os olhos , emoldurados por maquiagem preta, pareciam me dizer que cada palavra fora escrita e pronunciada para mim.

Everything you want in gold
(“Tudo que você quiser em ouro”)
I'll be the magic story you've been told
(“Eu serei a história mágica que te foi contada”)
And you’ll be safe under my control
(“E você estará seguro sob meu controle”)
Just let me in, ooh
(“Só me deixe entrar, ooh”)


A batida da música se acelerou um pouco, e as pessoas ao meu redor começaram a se animar e dançar. Eu, porém, tinha a boca seca e mil e um questionamentos. A canção narrava precisamente o que eu sempre tinha passado: uma infância passada dentro de um castelo (fosse minha casa ou a própria Hogwarts), com pessoas sempre me dizendo o que fazer e tendo vontades constantes de sumir daquele ambiente nocivo. Mas era surreal que ela soubesse tão perfeitamente disso e tivesse escolhido uma música desconhecida para apresentar falando exatamente sobre aquilo.
A história prosseguia na voz de , alheia às minhas reações.

He knew he was hypnotized
(Ele sabia que estava hipnotizado)
And walking on cold thin ice
(E andando no frio e fino gelo)
Then it broke, and he awoke
(Então se quebrou, e ele acordou)
Again
(De novo)
Then he ran faster and
(Então ele correu mais rápido)
Started screaming
(Começou a gritar)
Is there someone out there?
(“Tem alguém lá fora?”)
Please help me
(“Por favor me ajude”)
Come get me
(“Venha me buscar”)
Behind him, he can hear it say
(Atrás dele, ele podia ouvir aquilo falar)


Mais uma vez ela repetiu o refrão, fechando os olhos para deixar a voz sair com perfeição. Fazendo um aceno com a varinha para provocar uma chuva mágica que arrancou gritos impressionados e eufóricos da plateia. Era como se pequenas pepitas de ouro, sólidas mas sem peso, flutuassem lentamente em direção ao chão; todos riam, contagiados pela beleza do momento, e elogiavam o espetáculo.
Porém, estava séria. Começou a cantar uma parte lenta da música, e eu não consegui parar de olhar para sua boca. Arrastando as mãos pelo quadril e pela cintura, apoiando-as na nuca com toda a elegância, o material dourado que se acumulara a seus pés foi subindo pelo tecido do vestido com vida própria, escondendo o vermelho. Era como se ondas de líquido mágico se derramassem sobre ela, desafiando a gravidade e se colando a cada curva moldada pelo traje refinado. Sob arquejos surpresos e encantados, seu traje ficou inteiramente da cor do ouro.
Nesse momento, tive certeza do que ela queria dizer, pois cantou especialmente para mim:

Everything you want in gold
I'll be the magic story you’ve been told
And you’ll be safe under my control
Just let me in…


Ela deu uma risada ao ser recebida com gritos de incentivo, e os acordes mais poderosos do baixo soavam, mas o sorriso que sobrou nos lábios era só meu. Me levantei abruptamente, esperando só os musicistas pararem de tocar para me adiantar e tomá-la pela mão.
Quando a música terminou, ela fez uma mesura ao público, que a ovacionou longamente. Dei alguns passos a frente e estendi minha mão para ela. Quando a segurou, trouxe-a até mim para beijar-lhe o dorso. Um bolo se alojara em minha garganta; aquilo tinha sido… especial. E me senti mais culpado do que nunca na vida.
Evitei contato visual, e ela pareceu notar que algo se passava. Me puxou pela mão para longe da atenção dos convivas, mas Harry Potter estava no caminho da saída do aposento.
, não sabia que cantava tão bem! Foi realmente incrível. — ele a parabenizou animadamente. Em seguida, percebeu nossos dedos entrelaçados. Os olhos verdes do garoto subiram de nossas mãos, se demorando no meu antebraço como se quisessem atravessar o tecido, e por fim chegando ao meu rosto. Fiz uma careta de desdém. — Malfoy.
— Potter. — respondi com uma nota de desprezo.
me soltou para abraçar o amigo, que retribuiu o gesto enlaçando-a pela cintura, e pensei ter visto ela sussurrar algo no ouvido dele em uma proximidade incômoda. Tive a sensação de outro peso, mas agora em meu estômago: não sabia que eles eram tão íntimos assim, se chamando por apelidos e com abraços daquele tipo… Mas também me recordei de que também deveria ser estranho para ele ver sua amiga de mãos dadas com seu rival de dentro da escola. Olhei para o outro lado.
A garota se despediu do moreno e me guiou para fora da sala de Slughorn. Uma vez respirando o ar frio do corredor, a empurrei contra uma parede e franzi as sobrancelhas, analisando cada detalhe de seu rosto.
Tudo o que quiser em ouro… — e passei os dedos por seu vestido, sentindo o tecido acetinado e brilhoso contra minha pele. — A história mágica que contaram…
— Mas só estará seguro se estiver sob controle… — ela revidou, como sempre. — Gostou da música?
O jeito inocente com que ela falara “controle” me ocasionou vários pensamentos que não tinham nada de inocentes. Contemplei seus lábios pintados de vermelho; era o único resquício da cor que sobrara nela. Porém, a visão também me lembrou de sua casa, Grifinória, o que provocou uma torrente de outros pensamentos: leões, cobras, a Marca Negra, caveiras, morte… e Dumbledore. A figura alta e imponente de Dumbledore, que eu deveria reduzir a um corpo morto, se não quisesse cravar a Maldição da Morte como o destino de minha família.
A enxurrada de imagens perturbadoras fez com que o nó em minha garganta se desfizesse em lágrimas, e tirei as mãos dela para me virar e impedir que ela visse minha fragilidade. Odiava chorar na frente de alguém. Murta não contava; já estava morta. Mas
— Draco. — ela enunciou meu nome num tom preocupado, segurando meus ombros e dando a volta ao meu redor para me olhar de frente. — Draco, o que houve?
Não respondi, e a apertei num abraço enquanto soluçava. Um de seus braços envolveu meu tronco e o outro dirigiu a mão a meus cabelos, num carinho lento e quase maternal. O choro se intensificou antes de se abrandar, mas ela continuava me confortando de seu jeito cálido e gentil.
Quando nos separamos, andei até um pequeno espaço escondido atrás de uma parede, que tinha um banco de pedra. Nos sentamos ali.
, eu estou cansado de ser… assim.
— Assim como?
— Como eu sou. Que não sabe fazer nada de forma excelente; sempre há alguém melhor que eu, mesmo nas coisas em que sou bom. Que age de um jeito escroto com as pessoas, mesmo que, no fundo, eu não aceite muito bem o porquê. Um puxa-saco. Mentiroso. — abaixei a cabeça, com raiva. — E a porra de um Comensal da Morte!
Ela ficou em silêncio, me encarando com os grandes olhos e curiosos.
— Eu nem ao menos mereço a presença de alguém como você. — continuei. — Muito menos sua amizade, seu carinho…
“Ou seu amor”, pensei, amargurado. “Eu sou um idiota por imaginar por um segundo que você me amaria. E sou um idiota ainda maior por achar que você precisaria se apaixonar por mim para me ajudar; você é tão boa que me ajudaria de qualquer forma. E sou um idiota por me importar e gostar de você mais do que deveria.”
Por um segundo, desejei que ela usasse Legilimência em mim, para que eu não precisasse revelar aqueles pensamentos em voz alta.
— Nunca mais diga isso. — falou, séria, erguendo meu queixo com a ponta dos dedos.
— Mas é a verdade.
— Você pode, de fato, ser tudo isso. Mas se lembra daquele dia na Sala Precisa? Em que você me disse: “Isso não vai mudar da noite pro dia. Mas eu quero mudar”? — assenti. — Também disse que não tem um coração de ouro. Mas, Draco, não sei o que te faz pensar que eu tenho, ou que sou o ideal da perfeição.
Ri da tentativa dela de fazer eu me sentir melhor.
, mas é claro que você…
— Eu nunca conjurei um Patrono corpóreo. — ela declarou. — Você acha que isso soa normal? Uma aluna como eu, que executa feitiços muito mais complexos?
Fiz que não, meio surpreso. Eu também não conseguia, mas tinha vários motivos que justificassem isso: a tatuagem de magia das trevas em meu braço era o primeiro deles.
— Eu já intimidei Lilá Brown na sala comunal da Grifinória várias vezes, mesmo sabendo que isso corroboraria uma rivalidade feminina entre ela e Hermione. Eu comecei com o pé esquerdo com Pansy; reagi desproporcionalmente quando ela me azarou. Você pode não saber disso, mas eu tive sorte de não ter acertado ela, porque minha raiva era tanta que lancei uma Imperdoável.
Meu queixo caiu.
— O quê?
— O ódio faz coisas horríveis com a gente, e eu raramente me descontrolo daquele jeito. — suspirou. — Eu não sou como o Harry, que é amoroso e corajoso e altruísta, apesar de todos os sofrimentos e abusos que passou. Eu não sou perfeita. Mas todos os dias luto para ser melhor. — Ela se aproximou de mim e acariciou minha bochecha com cautela. — E a sua luta, Draco, é o que mais importa pra mim. Mais do que as suas atitudes infantis até hoje, mais do que os momentos que você se sentiu incapaz, mais do que os pensamentos ruins que você tenta reprimir. Porque o impulso que você sente, de ser mau, é fruto do que você foi criado para ser, mas a atitude que você toma… isso é o que você quer se tornar.
Toquei seu rosto com a mesma ternura que ela usava comigo, e senti algo muito intenso no peito.
, eu…
— Shhh. — ela impediu que eu falasse mais alguma coisa, juntando nossos lábios como eu ansiava.
Nossos narizes se esbarraram com delicadeza, e minha mão se embrenhou entre os cabelos macios dela, acariciando-a. Ela apoiou as duas mãos em minha nuca, aos poucos se aproximando e abraçando-me enquanto sua língua deslizava pela minha, com tanta familiaridade que era como se já nos beijássemos há anos. Aquela sintonia prosseguiu por longos minutos, com uma delicadeza que correspondia com toda a admiração que eu sentia por ela naquele momento, mas não com o desejo que me consumia desde o início da noite, quando a vira linda, de vestido vermelho e sendo adornada por um sorriso sarcástico.
Por isso, puxei seu corpo mais para perto do meu como fizera na Dedosdemel, fazendo com que ela partisse o beijo por um instante, arfando. Com uma mão, puxei as mechas escuras para voltar sua boca à minha, e apoiei a outra mão na área exposta pela fenda do vestido, primeiro desenhando círculos carinhosos e depois pressionando-a à medida que a intensidade dos toques crescia.
Ela enrolou os dedos nos fios em minha nuca e os puxou, mordendo meu lábio. Buscando por mais contato, segurei em sua cintura com força e a pressionei contra mim. Minha camisa se levantou um pouco, o que me permitiu sentir diretamente suas pernas tremendo por baixo do vestido. Com um impulso rápido, a levantei pelos quadris, para que ficasse realmente montada em meu colo. Apertei suas coxas ao sentir nosso encaixe, que tinha roupas demais como obstáculos, e recebi seu gemido fraco em minha língua.
Eu queria mais e ela queria mais. Eu conhecia cada esconderijo de Hogwarts e ela executava com perfeição os feitiços da desilusão e para abafar ruídos. E os dois sabiam que o que poderíamos fazer seria algo muito além de meramente saciar o desejo ou aliviar a tensão… Porque o que tínhamos ali ia além de mera atração física.
Saboreava a pele quente do pescoço de quando ela pareceu se dar conta de que ainda estávamos em um corredor escuro de escola, e se afastou um pouco, ofegando.
— A gente precisa sair daqui. — declarou ela, com a voz entrecortada.
— Pra um lugar mais… tranquilo. — concordei, afastando seus cabelos das costas.
Ela ergueu as sobrancelhas, falsamente surpresa.
— Ai, Draco. — e caiu na risada, sendo acompanhada por mim.
Estranhamente, o clima mudava quando eu estava com ela; isso era claro pela forma como eu mostrara minha Marca Negra numa das primeiras vezes em que efetivamente tínhamos conversado. Eu tive a consciência de que estar perto dela me deixava descontrolado no dia em que tirara meu uniforme para pular atrás dela no lago, sem me preocupar se alguém veria minha tatuagem por baixo da bandagem do curativo. despertava o resto de luz que ainda tinha em mim, e me fazia ter vontade de destruir a escuridão que se infiltrara.
Seus olhos mais uma vez pareciam grandes e cheios de significado, e ela disse, divagando:
— Achei que simplesmente o seu sorriso fosse bonito, mas não é bem isso… Você fica tão lindo quando está feliz.
Fiquei parado, observando-a, e lhe dei um selinho.
— Você é linda o tempo todo. — a confissão me fugiu pelos lábios antes que eu pudesse racionalizar.
Ela riu, como se estivesse acostumada a receber aquele tipo de elogio (e certamente estava).
— Elogios não vão me levar para o seu dormitório, Malfoy. — Ela esclareceu, dando um tapinha em minha bochecha. — Vamos voltar para a festa, devem estar dando falta de nós.
— Você quer dizer que o Potter deve estar dando falta de você. — resmunguei. — Certamente acha que eu te sequestrei ou algo do tipo.
— Ciúme não cai bem em você. — devolveu ela, ajeitando uma das alcinhas finas de sua roupa de volta no ombro.
Revirei os olhos.
— Ciúmes do Potter?
O sorrisinho dela foi murchando devagar, e deu lugar a preocupação.
— Ele suspeita de você, sabia? — ela disse, baixinho como se estivesse revelando algo que não devia. — Da sua… tatuagem.
— Ele é idiota demais para levar isso adiante. — desdenhei, mas fiquei nervoso com a descoberta. — Potter sempre acredita no melhor das pessoas.
Logo depois de falar, me calei para absorver o peso do que dissera. abriu um sorriso simpático, como se estivesse tentando ignorar a tensão do assunto, e se levantou do banco ajeitando a saia longa dourada. Estendeu a mão para mim, que entrelacei meus dedos aos dela.
Voltamos à sala de Slughorn, sendo rapidamente notados por Granger e seu acompanhante grandalhão, que estavam engajados em uma conversa com Lovegood e Harry. O quarteto me olhou com uma cara de poucos amigos, mas disfarçaram ao ver . Era notável que suas bochechas estavam mais rosadas, a boca vermelha e inchada, e um brilho leve de suor decorava a pele das clavículas. Hermione certamente estava tirando conclusões muito precipitadas sobre o que acontecera enquanto eu estivera com sua amiga, a julgar pela expressão um pouco enojada que me dirigiu.
— Eu… vou pegar mais champanhe, você quer? — perguntei ao meu par da noite, evitando vislumbrar os demais.
— Ah, seria muito gentil, quero sim. — respondeu educadamente, e me afastei.
Pela visão periférica, pude ver que Potter e McLaggen estavam um pouco à parte, deixando as três garotas conversarem entre si, mas pude ouvir e ver a reação às palavras:
— Vocês estão namorando? — perguntou Luna, com uma suavidade na voz como se estivesse perguntando que horas eram.
Todo o grupo congelou, inclusive os meninos, e eu à distância. Considerando nossos beijos, conversas e o tempo que estávamos passando juntos, obviamente a resposta era…
— Não, imagine. — riu, como se fosse uma sugestão absurda.
— Mas… vocês têm passado muito tempo juntos… — insinuou Granger.
— E desde quando isso é sinônimo de namoro? — questionou a brasileira, estranhando.
As outras duas ficaram em silêncio.
— Bom, é que, aqui no Reino Unido, o fato de um casal passar grande parte do tempo entre si, se beijar e ir a eventos juntos já é meio que considerado namoro…
— Então seguindo essa lógica você e McLaggen namoram? Ou melhor, Harry e Luna namoram? — parecia verdadeiramente confusa. — Porque no Brasil é bem diferente; para ser considerado namoro, geralmente acontece um pedido… e só depois de um casal estar junto há algumas semanas ou até meses.
Um misto de sentimentos borbulhava em mim. Ao mesmo tempo que a ideia de namorarmos parecia um pouco esdrúxula, confesso que a forma displicente como ela se referia a nós me incomodou um pouco. Tenso com a conversa, apertei demais o cristal delicado de uma das taças, que explodiu em cacos na minha mão.
O som do estilhaço chamou a atenção das garotas e de , que veio rápido em minha direção.
— Porra, Draco. — ela xingou, rindo e sacando a varinha. — Reparo. É só eu me afastar que você já sai quebrando coisas?
Não consegui retribuir seu sorriso na mesma intensidade, mas ela pareceu não notar, pois estava muito focada em fechar com magia os pequenos cortes em minha mão.
— Obrigado.
— De nada. — Ela pressionou os lábios um contra o outro, em dúvida do que dizer. — Você não se dá muito bem com eles, né.
— É nítido que não, e não os culpo. — Entreguei a bebida que estava intacta a ela. — É bom que não estejamos namorando, porque aí não vou precisar conviver com seus amigos.
Ela franziu a testa diante do jeito áspero que eu dissera aquilo.
— O que você quer dizer com isso, Malfoy?
— Nada, . Nada. Só uma constatação.
Ela desceu os olhos para minha boca e se afastou, tão confusa em relação a minhas palavras quanto eu mesmo estava.
Por Merlim, no que diabos eu estava me metendo?





Continua...



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