Última atualização: 05/10/2020

Prólogo

Draco POV

“Lar” é uma palavra curiosa.
O termo vem do lugar da casa onde se acende a lareira: o fogo, o fogão. O centro da casa, o lugar quente, onde há vida, alegria, força e esperança. Os livros de poemas encadernados em couro grosso que minha mãe mantinha em nossa biblioteca exibiam, porém, conotações diferentes para o vocábulo: às vezes o lar era uma pessoa; a pessoa amada.
Não sei dizer qual das duas definições se assemelharia mais à minha percepção do mundo. Só sei que o meu lar decididamente não era (e nem estava) ali, na ampla sala de visitas da Mansão Malfoy.
A enorme porta de carvalho se abriu, e desviei meu olhar para ela num átimo de segundo. As figuras altas de Severo Snape e Corban Yaxley se tornaram visíveis em meio à penumbra. A sala de jantar estava cheia de pessoas silenciosas, sentadas a uma comprida mesa ornamentada. Os móveis que habitualmente a guarneciam tinham sido empurrados descuidadamente contra as paredes. A iluminação provinha das chamas vivas da bela lareira, cujo console de mármore era encimado por um espelho dourado e um único porta retrato, pesado, de ouro, com uma foto que exibia todo o clã Black-Malfoy com rostos sérios, excetuando-se o meu: um menininho loiro de seis anos que ria no colo da mãe.
Snape e Yaxley pararam um instante à entrada, com os olhos voltados para o detalhe mais estranho da cena: o vulto de uma pessoa aparentemente desacordada suspensa de cabeça para baixo sobre a mesa, girando lentamente como se estivesse presa por uma corda invisível, e se refletindo no espelho e na superfície nua e lustrosa da mesa. Nenhuma das pessoas sentadas à roda dessa visão singular a encarava, exceto eu. Incapaz de me conter, erguia os olhos a todo instante. Só queria que aquilo acabasse de uma vez, para que aquela figura parasse de projetar sobre mim a culpa esmagadora que eu sentia no peito.
— Yaxley, Snape — falou uma voz aguda e clara da cabeceira da mesa —, vocês estão praticamente atrasados. Severo, aqui. — Ele indicou a cadeira imediatamente à sua direita. — Yaxley, ao lado de Dolohov.
Os dois homens ocuparam os lugares designados. Os olhares da maioria dos que estavam à mesa seguiram Snape, e foi a ele que Voldemort se dirigiu primeiro.
— E então?
— Milorde, a Ordem da Fênix pretende transferir Harry Potter do lugar seguro em que está, no sábado, ao anoitecer.
O interesse ao redor da mesa se intensificou perceptivelmente. Alguns enrijeceram, outros se mexeram, todos atentos a Snape e o Lorde das Trevas. Eu, porém, não poderia estar me importando menos. No fundo, esperava que a informação estivesse incorreta e eles todos se explodissem.
— Sábado... Ao anoitecer — repetiu milorde. Seus olhos vermelhos se fixaram nos olhos pretos de Snape com tanta intensidade que alguns dos observadores desviaram o olhar, aparentemente receosos de serem atingidos pela ferocidade daquela fixidez. Snape, no entanto, sustentou esse olhar calmamente, e, após um momento, os lábios descarnados do Lorde se curvaram num aparente sorriso.
— Bom. Muito bom. E essa informação veio de...?
— Da fonte sobre a qual conversamos. — disse Snape.
— Milorde.
Yaxley tinha se inclinado para a frente procurando ver seu mestre e Snape. Todos os rostos se voltaram para ele.
— Milorde, eu ouvi coisa diferente.
Yaxley aguardou, mas o Lorde não objetou, então ele prosseguiu.
— Dawlish, o auror, deixou escapar que Potter não será transferido até o dia 30 à noite, na véspera do seu aniversário de 17 anos.
Snape sorriu.
— Minha fonte informou que planejam divulgar uma pista falsa; deve ser essa. Sem dúvida, lançaram em Dawlish um Feitiço para Confundir. Não seria a primeira vez, todos conhecem a sua suscetibilidade a feitiços.
— Posso lhe assegurar, Milorde, que Dawlish me pareceu muito seguro do que dizia. — contrapôs Yaxley.
— Se foi confundido, é óbvio que parecerá seguro. — disse Snape. — Garanto a você, Yaxley, que a Seção de Aurores não irá participar da proteção de Harry Potter. A Ordem acredita que estamos infiltrados no Ministério.
— Então, pelo menos nisso a Ordem acertou, hein? — comentou Avery, dando uma risadinha sibilada que ecoou pela mesa.
O Lorde das Trevas não riu. Seu olhar se desviou para o alto, para o corpo que girava vagarosamente, e ele pareceu se alhear.
— Milorde — continuou Yaxley —, Dawlish acredita que vão usar um destacamento inteiro de aurores na transferência do garoto...
O bruxo de feições ofídicas ergueu a mão grande e branca, e Yaxley calou-se imediatamente, observando, rancoroso, ele se dirigir outra vez a Snape.
— E em seguida, onde irão esconder o garoto?
— Na casa de um dos membros da Ordem. — respondeu Snape. — O lugar, segundo a minha fonte, recebeu toda a proteção que a Ordem e o Ministério juntos puderam lhe dar. Acredito que seja mínima a chance de pormos as mãos nele uma vez que chegue ao destino, milorde, a não ser, é claro, que o Ministério tenha caído antes de sábado, o que, talvez, nos desse a oportunidade de descobrir e desfazer um número suficiente de feitiços, e passar pelos demais.
— E então, Yaxley? — interpelou-o o Lorde, a luz das chamas se refletindo estranhamente em seus olhos vermelhos. — O Ministério terá caído até sábado?
Mais uma vez, todas as cabeças se viraram. Yaxley empertigou-se.
— Milorde, a esse respeito tenho boas notícias. Consegui, com dificuldade e após muito esforço, lançar uma Maldição Imperius em Pio Thicknesse.
Muitos dos que estavam próximos de Yaxley pareceram impressionados; seu vizinho, Dolohov, um homem de cara triste e torta, deu-lhe um tapinha nas costas. Grande merda. Aos 16 anos eu também lançara uma Maldição Imperius e encontrara uma brecha nas barreiras mágicas de Hogwarts. Mas essa proeza nunca seria comemorada. Porque eu falhara. Não só com Voldemort, mas comigo mesmo também. E, principalmente, com ela.
— É um começo — disse milorde —, mas Thicknesse é apenas um homem, Scrimgeour precisa estar cercado por gente nossa para eu agir. Um atentado mal-sucedido à vida do ministro me causará um enorme atraso.
— É verdade, milorde, mas o senhor sabe que, na função de chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, Thicknesse tem contato frequente não só com o próprio ministro como também com os chefes dos outros departamentos do Ministério. Acho que será fácil dominar os demais, agora que temos um funcionário graduado sob controle, e então todos podem trabalhar juntos para derrubar Scrimgeour.
— Isso se o nosso amigo Thicknesse não for descoberto antes de ter convertido o resto. — afirmou seu mestre. — De qualquer forma, é pouco provável que o Ministério seja meu antes de sábado. Se não pudermos pôr a mão no garoto no lugar de destino, então teremos que fazer isso durante a transferência.
— Nesse particular, estamos em posição vantajosa, Milorde. — disse Yaxley, que parecia decidido a receber alguma aprovação. — Já plantamos várias pessoas no Departamento de Transportes Mágicos. Se Potter aparatar ou usar a Rede de Flu, saberemos imediatamente.
— Ele não fará nenhum dos dois. — disse Snape. — A Ordem está evitando qualquer forma de transporte controlada ou regulada pelo Ministério, desconfiam de tudo que esteja ligado àquele lugar.
— Tanto melhor. — disse o Lorde. — Ele terá que se deslocar em campo aberto. Será muitíssimo mais fácil apanhá-lo.
Mais uma vez ele ergueu o olhar para o corpo que girava vagarosamente, então prosseguiu:
— Cuidarei do garoto pessoalmente. Cometeram-se erros demais com relação a Harry Potter. Alguns foram meus. Que Potter ainda viva deve-se mais aos meus erros do que aos seus êxitos.
As pessoas em volta da mesa o fitaram apreensivas, cada qual deixando transparecer o medo de ser responsabilizada por Harry Potter ainda estar vivo. Talvez fosse culpa minha. O bruxo, no entanto, parecia estar falando mais consigo mesmo do que com os demais, ainda atento ao corpo inconsciente no alto.
— Por ter sido descuidado, fui frustrado pela sorte e a ocasião, essas destruidoras dos planos, a não ser os mais bem traçados. Mas aprendi. Agora compreendo coisas que antes não compreendia. Eu é que devo matar Harry Potter, e assim farei.
Nisso, e em aparente resposta às suas palavras, ouviu-se um lamento repentino, um grito terrível e prolongado de infelicidade e dor. Muitos ao redor da mesa olharam para baixo, assustados, pois o som parecia vir do chão.
— Rabicho? — chamou o Lorde, sem alterar o seu tom de voz, baixo e reflexivo, e sem tirar os olhos do corpo que girava no alto. — Já não lhe disse para manter essa escória calada?
— Disse, M-Milorde. — falou o homenzinho sentado na segunda metade da mesa, tão encolhido que, à primeira vista, sua cadeira parecia estar desocupada. E, levantando-se de um salto, saiu correndo da sala, deixando em seu rastro apenas um estranho brilho prateado.
— Como eu ia dizendo — continuou Voldemort, olhando mais uma vez para os rostos tensos dos seus seguidores —, agora compreendo melhor. Precisarei, por exemplo, pedir emprestada a varinha de um de vocês antes de sair para matar Potter.
Os rostos à sua volta expressaram apenas incredulidade; como se ele tivesse anunciado que queria um braço deles emprestado. Fechei as mãos com força para não tremer.
— Nenhum voluntário? — perguntou Voldemort. — Vejamos... Lúcio, não vejo razão para você continuar a ter uma varinha.
Meu pai ergueu a cabeça. Sua pele parecia amarela e cerosa à luz das chamas, e tinha os olhos encovados e sombrios. Quando falou, sua voz saiu rouca.
— Milorde?
— Sua varinha, Lúcio. Preciso de sua varinha.
— Eu...
Meu pai olhou de esgueio para minha mãe, que tinha o olhar fixo à frente, a pele mais pálida que o normal, os longos cabelos louros descendo pelas costas, mas, sob a mesa, seus dedos finos apertaram brevemente o pulso dele. Ao seu toque, papai enfiou a mão nas vestes e tirou uma varinha que passou ao Lorde, que a ergueu diante dos olhos vermelhos e examinou-a detidamente.
— De que é?
— Olmo, Milorde — sussurrou ele.
— E o núcleo?
— Dragão... Fibra do coração.
— Ótimo. — aprovou Voldemort. E, sacando a própria varinha, comparou os comprimentos.
Meu pai fez um movimento involuntário, e tive vontade de gritar por ter sido tão imprudente; por uma fração de segundo, pareceu que esperava receber a varinha de Voldemort em troca da sua. O gesto não passou despercebido ao Lorde, cujos olhos se arregalaram maliciosamente.
— Dar-lhe a minha varinha, Lúcio? Minha varinha?
Alguns dos presentes riram.
— Dei-lhe a liberdade, Lúcio, não é suficiente? Mas tenho notado que você e sua família ultimamente parecem menos felizes... Alguma coisa na minha presença em sua casa os incomoda, Lúcio?
— Nada... Nada, Milorde.
Tudo incomodava. A presença de cada uma daquelas pessoas dentro da minha casa, seus passos audíveis o tempo todo mesmo enquanto eu estava fechado no meu quarto, a consciência de que qualquer um deles poderia ter sido…
Não. Doía demais pensar nisso.
Quanta mentira, Lúcio...
A voz suave parecia silvar, mesmo quando a boca cruel parava de mexer. Um ou dois bruxos mal conseguiram refrear um tremor quando o silvo foi se intensificando; ouviu-se uma coisa pesada deslizar pelo chão embaixo da mesa. A enorme cobra apareceu e subiu vagarosamente pela cadeira de Voldemort. Foi emergindo, como se fosse interminável, e parou sobre os ombros do mestre: o pescoço do réptil tinha a grossura de uma coxa masculina; seus olhos com as pupilas verticais não piscavam. Voldemort acariciou-a, distraído, com seus dedos longos e finos, ainda encarando meu pai.
— Por que os Malfoy parecem tão infelizes com a própria sorte? Será que o meu retorno, minha ascensão ao poder, não é exatamente o que disseram desejar durante tantos anos?
— Sem dúvida, Milorde. — respondeu papai. — É o que desejávamos... Desejamos.
Lancei um brevíssimo olhar ao Lorde, com medo e raiva demais para encarar o bruxo.
— Milorde — disse uma mulher morena na outra metade da mesa, sua voz embargada pela emoção —, é uma honra tê-lo aqui, na casa de nossa família. Não pode haver prazer maior.
Minha tia, Bellatrix Lestrange. Estava sentada ao lado da irmã, tão diferente desta na aparência, com seus cabelos negros e olhos de pálpebras pesadas, quanto era no porte e na atitude; enquanto mamãe sentava-se dura e impassível, Bellatrix se curvava para Voldemort, porque meras palavras não podiam demonstrar o seu desejo de maior proximidade.
— Não pode haver prazer maior. — repetiu Voldemort, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado, estudando o rosto de minha tia. — Isso significa muito, Bellatrix, vindo de você.
Com o rosto abaixado, arregalei os olhos. Então realmente tinha acontecido entre eles, o que eu achava que tinha acontecido. O barulho durante a madrugada no quarto de hóspedes… A silhueta de Rodolfo Lestrange fumando no jardim enquanto a cabeceira da cama de sua esposa batia ruidosamente contra a parede… Se eu não estivesse tão tenso, teria estremecido de nojo.
O rosto dela enrubesceu e seus olhos lacrimejaram.
— Milorde sabe que apenas digo a verdade!
— Não pode haver prazer maior... Mesmo comparado ao feliz evento que, segundo soube, houve em sua família esta semana?
Minha tia fitou-o, os lábios entreabertos, nitidamente confusa.
— Eu não sei a que está se referindo, Milorde.
— Estou falando de sua sobrinha. E de vocês também, Lúcio e Narcisa. Ela acabou de casar com o lobisomem Remo Lupin. A família deve estar muito orgulhosa.
Gargalhadas debochadas explodiram à mesa. Muitos se curvaram para trocar olhares divertidos; alguns socaram a mesa com os punhos. A cobra, incomodada com o barulho, escancarou a boca e silvou irritada, mas os Comensais da Morte nem a ouviram, tão exultantes estavam com a humilhação da sra. Lestrange e meus pais. O rosto da mulher, há pouco rosado de felicidade, tingiu-se de feias manchas vermelhas.
— Ela não é nossa sobrinha, Milorde. — disse em meio às gargalhadas. — Nós, Narcisa e eu, nunca mais pusemos os olhos em nossa irmã depois que ela casou com aquele sangue ruim. A fedelha não tem a menor ligação conosco, nem qualquer fera com quem se case.
— E você, Draco, que diz? — perguntou Voldemort, e, embora falasse baixo, sua voz ressoou claramente em meio aos assovios e caçoadas. — Vai bancar a babá dos filhotes?
Olhei para meu próprio pai, sentindo minhas entranhas ficarem geladas e um enjoo se apossar de mim. Ele contemplava o próprio colo. Cruzei olhares com mamãe: ela balançou a cabeça quase imperceptivelmente, depois retomou seu olhar fixo na parede oposta. As gargalhadas aumentaram de volume.
— Já chega. — disse Voldemort, acariciando a cobra raivosa. — Basta.
E as risadas pararam imediatamente.
— Muitas das nossas árvores genealógicas mais tradicionais, com o tempo, se tornaram bichadas. — disse, enquanto Bellatrix o mirava, ofegante e súplice. — Vocês precisam podar as suas, para mantê-las saudáveis, não? Cortem fora as partes que ameaçam a saúde do resto.
— Com certeza, Milorde — sussurrou a irmã de minha mãe, mais uma vez com os olhos marejados de gratidão. — Na primeira oportunidade!
— Você a terá. — respondeu Voldemort. — E, tal como fazem na família, façam no mundo também... Vamos extirpar o câncer que nos infecta até restarem apenas os que têm o sangue verdadeiramente puro.
Ela tinha sangue puro. Ela tinha sangue puro e foi…
Voldemort ergueu a varinha de meu pai, apontou-a diretamente para a figura que girava lentamente, suspensa sobre a mesa, e fez um gesto quase imperceptível. O vulto recuperou os movimentos com um gemido e começou a lutar contra invisíveis grilhões.
— Você está reconhecendo a nossa convidada, Severo? — indagou Voldemort.
De baixo para cima, Snape ergueu os olhos para o rosto pendurado. Todos os Comensais agora olhavam para a prisioneira, como se tivessem recebido permissão para manifestar sua curiosidade. Quando girou para o lado da lareira, a mulher disse, com a voz entrecortada de terror:
— Severo, me ajude!
— Ah, sim. — respondeu Snape enquanto o rosto da prisioneira continuava a virar para o outro lado.
— E você, Draco? — perguntou Voldemort, acariciando o focinho da cobra com a mão livre.
Sacudi a cabeça com um movimento brusco. Agora que ela acordara, eu era incapaz de continuar encarando-a.
— Mas você não teria se matriculado no curso dela. — disse Voldemort. — Para os que não sabem, estamos reunidos aqui esta noite para nos despedir de Caridade Burbage que, até recentemente, lecionava na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts!
Ouviram-se breves sons de assentimento ao redor da mesa. Uma mulher corpulenta e curvada, de dentes pontiagudos, soltou uma gargalhada.
Caridade Burbage. Fechei os olhos com força, tentando evitar que as lembranças viessem com tanta força.

FLASHBACK ON

— Olá, professora Burbage. — ela cumprimentou, recebendo um aceno animado em resposta. O olhar da mulher, porém, recaiu sobre mim, e um indisfarçado medo se apossou de seu rosto.
— Boa tarde, ! — ela desejou. Forçando cordialidade, se virou em minha direção: — Nunca imaginei que… Que um M-Malfoy visitaria minha sala… — Apesar da voz fraquejar, notei um pouco de ternura invadir sua face quando ela falou: — Seja bem-vindo, querido.
— É. — falei de má vontade, recebendo uma cotovelada de . Pigarreei, tentando desmontar um pouco da postura defensiva. — Quer dizer… Obrigado, professora.

FLASHBACK OFF


— Sim... A profa. Burbage ensinava às crianças bruxas tudo a respeito dos trouxas... E como se assemelham a nós...
Um dos Comensais da Morte cuspiu no chão. Em seu giro, Caridade Burbage tornou a encarar Snape.
— Severo... Por favor... Por favor…
Silêncio. — ordenou milorde, com outro breve movimento da varinha de meu pai, e Caridade silenciou como se tivesse sido amordaçada. — Não contente em corromper e poluir as mentes das crianças bruxas, na semana passada, a profa. Burbage escreveu uma apaixonada defesa dos sangues ruins no Profeta Diário. Os bruxos, disse ela, devem aceitar esses ladrões do seu saber e magia. A diluição dos puros sangues é, segundo Burbage, uma circunstância extremamente desejável... Ela defende que todos casemos com trouxas... Ou, sem dúvida, com lobisomens...
Desta vez ninguém riu: não havia como deixar de perceber a raiva e o desprezo na voz de Lorde Voldemort. Pela terceira vez, Caridade Burbage encarou Snape. Lágrimas escorriam dos seus olhos para os cabelos. Snape retribuiu seu olhar, totalmente impassível, enquanto ela ia girando o rosto para longe dele. Sentei na ponta da cadeira, minha coxa tremendo obsessivamente. Desejei com todas as minhas forças que ela não se dirigisse a mim, porque poderia ser minha ruína final.
Avada Kedavra.
O lampejo de luz verde iluminou todos os cantos da sala. Caridade caiu estrondosamente sobre a mesa, que tremeu e estalou. Vários Comensais pularam para trás ainda sentados, mas caí da cadeira para o chão.
— Jantar, Nagini — disse Voldemort com suavidade, e a grande cobra deslizou sinuosamente dos ombros dele para a lustrosa mesa de madeira.
Me recusei a olhar. O som da gigantesca serpente devorando o cadáver da professora de Estudo dos Trouxas, que me recebera em sua sala apesar de saber que minha família a odiava e me proporcionara um dos momentos mais especiais com , era demais para mim. Levantei do piso duro de mármore com o máximo de dignidade que ainda me restava, mas nem cheguei a sentar: com um gesto displicente, o Lorde das Trevas dispensou todos os convivas, e deixei o aposento o mais rápido que pude sem correr.
Adentrei meu quarto e fui direto em direção à lareira apagada, sentindo o vômito ácido e escaldante subir pela garganta e cair em meio à lenha. Lágrimas queimaram meus olhos, e limpei a boca com a manga da camisa antes de arrancá-la do corpo, todo suado.
Tudo ao meu redor girava, com as lembranças e realizações que instalaram um peso permanente em meu peito desde a noite do meu décimo sétimo aniversário: a Maldição da Morte seguida do som de um corpo caindo, logo depois de nossas mãos terem se soltado; os gritos de dor e medo que trouxeram uma esperança que logo me foi arrancada; a culpa podre de ter fugido sem olhar para trás; a tortura a qual fui submetido quando minha falha foi descoberta, e que só cessou quando Snape pediu que o Lorde me poupasse, já que a missão fora cumprida; e por fim… A pior de todas. A coruja negra que chegou à Mansão Malfoy com uma carta de Pansy, que continha as palavras, horrivelmente definitivas: “Perguntei a todo mundo, mas não encontraram nem o corpo dela… Eu sinto muito, Draco.”
Me joguei na cama, apertando o travesseiro contra o rosto com força, para abafar meu choro convulsivo e, se eu desse sorte, me sufocar.
Porque estava morta, e era tudo culpa minha.


Capítulo 01

POV

Duas aves bateram na minha janela naquela manhã. Numa confusão de penas e bicos, pois elas não pareciam muito satisfeitas com a presença uma da outra, deslizei o vidro pelos trilhos enferrujados e deixei que a arara azul e a coruja entrassem no quarto do Caldeirão Furado.
Twiggy, apressada como sempre, tirou o pequeno pedaço de pergaminho preso em sua pata com o bico e o depositou em minha mão. Era um pequeno bilhete na caligrafia de minha mãe, que parecia ter sido rabiscado sem muito cuidado em um pedaço rasgado de algum documento sem importância:

Deixei dinheiro no Gringotes para você, use a chave que tem no seu malão.

Um nó desconfortável se instalou em meu peito enquanto pegava a carta maior, presa à pata da arara azul, que saiu voando imediatamente. Aquelas eram as aves que o Ministério da Magia brasileiro usava para comunicações oficiais, como, inclusive, a carta de admissão de Castelobruxo.
Rompi o lacre, me atentando à data de duas semanas antes e descendo meu olhar pelas linhas que eu já tinha certeza do que iam dizer.

Rio de Janeiro, 16 de julho de 1997
Gabinete do Chefe do Departamento de Aurores do Brasil

CARTA DE DISPENSA


Prezada srta. ,

o Ministério da Magia do Brasil informa que, devido ao fracasso constatado de sua missão nº 7, operação nº 009734, realizada na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, no Reino Unido, em favor da Segurança Internacional Bruxa, seus serviços como auror juvenil estão sendo dispensados por esta corporação por tempo indeterminado, não contando mais com o suporte oficial para quaisquer necessidades.

Para manter a segurança e o sigilo da operação, também informamos que a senhorita, a partir do envio desta carta, recebe a ordem de permanecer no Reino Unido, matriculada na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, não retornando para cursar seu sétimo ano na Instituição Mágica de Castelobruxo.

Cordialmente,
Auror , chefe do Departamento de Aurores.


Ri com escárnio, sentindo uma lágrima quente escorrer pela bochecha. Patético.
Era absurdo submeter menininhas de 11 anos ao Voto Perpétuo. Era desumano permitir que uma adolescente de 16 anos tomasse parte numa missão em que deveria seduzir outra pessoa, como uma prostituta ou pedaço de carne numa bandeja. Era cruel mandar uma garota tão nova para longe sem nenhum suporte direto para desempenhar uma tarefa tão delicada, complexa e perigosa. Não era de se admirar, portanto, que agora eles abandonassem a própria filha daquela forma. Com a angústia ameaçando transbordar em um choro descontrolado, constatei a verdade que já deveria ter constatado há muito tempo: eu não tinha nascido porque eles queriam um bebê, e sim porque eles queriam um sucessor. Uma arma perfeita, infalível e controlável por sangue e laços de família. Uma máquina de matar, com poderes e inteligência de uma bruxa excepcional, que nunca se rebelaria, porque passaria a vida toda acreditando que cada passo daquela trajetória fora sua própria escolha.
Rasguei a carta, jogando-a junto com o bilhetinho no fogo escasso que ardia na lareira do quarto apertado.
Tinha mais de um mês que eu estava hospedada ali no Caldeirão Furado. Irônico que eu estivesse tão perto de onde os estudantes de Hogwarts circulavam naquela época do ano, atrás de livros, pergaminho novo e varinhas.
Quando sumi de Hogwarts no dia que minha missão falhou, não tive tempo de avisar nada a ninguém, e sabia que seria dada como sequestrada ou morta. Porém, enviei uma carta para Fred Weasley, explicando que escapara, pedindo-o que informasse a meus amigos que eu conseguira fugir naquele dia e solicitando que não me enviasse nenhuma resposta, por medo de alguém conseguir interceptá-la. Pedi explicitamente que só contasse qualquer coisa depois que o ano letivo estivesse terminado.
Escolhi ele para ser o destinatário de minha carta, pois era uma das poucas pessoas fora de Hogwarts que eu interagira e confiava o suficiente — era irmão de um dos meus melhores amigos e membro da Ordem da Fênix. Naturalmente, eu imaginava que ele tivesse repassado as informações a Harry, Rony e Hermione depois dos funerais de Dumbledore, mas ainda estava um pouco nervosa com a possibilidade de tentarem se comunicar comigo e serem pegos por Comensais da Morte.
Por mais que fosse algo esperado, no fundo a notícia que Alvo Dumbledore tinha sido assassinado, estampada na capa do Profeta Diário, me chocou. Minha mente não processava o fato de eu ter errado ao julgar o caráter e a alma de Draco Malfoy. Mas, afinal, erros estavam se tornando algo corriqueiro em minha vida.
Eu, , uma das melhores agentes secretas juvenis do mundo bruxo, estava aterrorizada, sozinha e com uma tatuagem feita a fogo no antebraço esquerdo que representava uma aliança com o maior bruxo das trevas da atualidade, ou talvez da História. Mal ousava sair do quarto, descendo as escadas somente para buscar um prato de comida e acompanhar os jornais que Tom, o dono do bar, disponibilizava aos fregueses, e dedicava o máximo do tempo que eu podia a dois objetivos principais: tentar descobrir como retirar a Marca Negra da minha pele e desvendar minha profecia.
Maldita Clarissa Manteuff. Por que não me contara o que poderia acontecer se eu me apaixonasse também? Por que não me avisara que o que serviria de vetor para a Marca Negra era exatamente o amor, e, que se este não fosse unilateral, eu acabaria passando para mim a caveira com as cobras? Será que aquele fora o objetivo deles o tempo todo? Ou simplesmente não ligavam para o destino de uma agente brasileira qualquer?
O tempo todo eu pensava em Draco. Não conseguia acreditar que ele tinha de fato matado Dumbledore, e me doía demais pensar que aquele garoto de olhos puros e ternos tinha se tornado um homicida. Ao mesmo tempo, minha mente se enchia com os terríveis tipos de punições que ele certamente sofrera por ter tido a Marca Negra removida. Chantagem, tortura…. Talvez ele nem estivesse vivo mais. Eu tentava expulsar aqueles pensamentos de minha cabeça virando a madrugada entre livros e anotações para tentar solucionar a enrascada em que eu me metera.
A imagem que me encarava de volta no espelho ia ficando cada vez mais pálida, destoando da de um ano antes: bronzeada, corajosa e ansiosa para a missão mais importante de sua vida. A que era a maior promessa do departamento de aurores, com índice de sucesso absoluto em todas as operações.
Mas eu falhara. E mais do que a frustração do fracasso, me corroía por dentro a consciência de duas coisas: as amizades que eu construíra e deixara para trás em Hogwarts, e o sentimento tão belo e puro que eu desenvolvera por Draco Malfoy, um Comensal da Morte de dezessete anos que fez todas as escolhas erradas.
Apesar disso, a carta de meus pais que eu acabara de receber me trouxera uma pontinha de esperança e algo em que eu podia me agarrar: eu estava livre. Fora dispensada de todas as minhas obrigações oficiais e estava exilada. Portanto… não tinha nada a perder.
Com isso em mente, pulei da cama e puxei um pedaço de pergaminho. Eu tinha alguém a quem recorrer. E agora finalmente podia fazê-lo. As linhas ficaram um pouco borradas pela velocidade que eu escrevia, borrando a tinta da pena ao passar a lateral da mão no ímpeto de escrever as palavras seguintes na maior rapidez possível. Usar canetas esferográficas, apesar de ser infinitamente mais prático, ainda me trazia uma pontada de incômodo e lembranças de uma pessoa que eu preferia não recordar demais. Despachei Twiggy e fiquei o resto do dia lendo e fazendo anotações perto da janela, de olho no céu para ver se minha saída estava a caminho.
Meu malão aparecera no exato lugar onde eu decidira aparatar depois de sair do Armário Sumidouro. Era um dos poucos privilégios de ser uma agente do governo: ter acesso a feitiços de localização e ter todos os meus pertences ligados a eles. Era praticamente impossí¬vel que eu perdesse qualquer um. Levantei da cadeira onde estivera sentada e abri a bagagem. Bem em cima, estavam minhas botas Prada, meus sapatos preferidos e que traziam tantas memórias agridoces que me machucavam… Calcei-as, girando pelo quarto sobre os saltos altos e me sentindo tremendamente infeliz, apesar de forçar um sorriso no rosto.
Antes que chegasse a hora do jantar, recebi uma resposta da sra. Weasley, e, antes mesmo que pudesse lê-la, ouvi duas batidas secas na porta.
Com o corpo em alerta e a carta na mão esquerda, empunhei a varinha e puxei a maçaneta com o trinco ainda impedindo a abertura total da passagem.
Uma mecha de cabelos coloridos e íris de cor violeta me observaram de volta.
— Oi, . Sou a Tonks. Vim te buscar.
Fiquei boquiaberta por um instante, mas logo me recompus. Meu coração dera um salto incômodo de saudade e perda; a mulher à minha frente era nitidamente uma metamorfomaga, como minha amiga Malena. Senti um nó se formando ali, misto de saudade e rancor. Como será que meu desligamento tinha sido informado a minhas amigas? Teria sido dito que eu era uma desertora? Uma traidora? Ou que minha missão ainda estava em andamento? Qualquer que fosse a desculpa, seria uma mentira. O Ministério era tão podre quanto as forças do mal que tentavam combater.
Com uma lida rápida no papel que segurava, constatei que Molly escrevera para me avisar exatamente aquilo, me agradecendo pelo contato e me convidando para passar os dias antes de meu retorno a Hogwarts em sua casa, para assistir ao casamento de seu primogênito. As palavras me tomaram o fôlego por um segundo doloroso. Será que eu realmente poderia voltar para Hogwarts? Será que conseguiria passar um ano inteiro escondendo minha Marca Negra de todos? Será que conseguiria encarar Draco, se ele estivesse lá, e assumir o impacto absurdo que ele causara no meu corpo, vida e coração?
— Ah. — foi o que brilhantemente respondi. Fechei a porta para remover o trinco e a abri de novo, acenando simultaneamente com a varinha.
Tonks entrou. A garota, que deveria ser não mais do que uns quatro ou cinco anos mais velha, tinha um ar animado e otimista que contrastava bastante com o meu.
— Me mandaram porque eu sou auror, mas sou uma auror dispensável à segurança de Harry, pelo visto. — ela explicou, caminhando pelo quarto enquanto meus pertences e roupas iam magicamente se dobrando e entrando no malão. Parou diante de minha mesinha de cabeceira. — Mas algo me diz que você não é exatamente uma menininha indefesa, estou certa?
Tonks fez um gesto vago em direção aos livros de magia negra e aos artefatos, como bisbilhoscópios e um pequeno Espelho dos Inimigos, que repousavam ali.
— Se fosse, não teria saído de Hogwarts viva. — respondi, dando de ombros como se comentasse sobre o tempo lá fora.
Os cabelos dela mudaram de cor; assumiram um tom turquesa dolorosamente familiar.
— Não guarde a vassoura. — ela pediu, e minha Firebolt parou no ar, indo de encontro a minha mão. — Brasil, certo?
— Isso.
— Castelobruxo ou ensinada em casa?
Minha boca se curvou num sorriso leve, notando de imediato a real pergunta que ela queria fazer e respondendo prontamente.
— Sim, eu conheço Malena Xavier.
Tonks sorriu, fazendo seus fios retornarem ao tom róseo de antes.
— Boa garota. — a auror estalou a língua. — Você e ela. Agora vamos logo. — Com um feitiço simples, o malão flutuou atrás de nós, prendendo-se às palhas de minha vassoura.
Em pouco menos de uma hora, estávamos sobrevoando a pequena cidade de Ottery St. Catchpole. Mesmo do alto, A Toca estava bem diferente do que eu me lembrava. Os preparativos para o casamento de Gui, irmão mais velho de Rony, e Fleur Delacour tinham modificado completamente o quintal da propriedade, que agora exibia um toldo madrepérola ainda desarmado cobrindo a grama.
Essas mudanças também eram visíveis em Molly Weasley. Minha anfitriã me recebeu efusivamente, mas parecia terrivelmente apreensiva quando me mandou segui-la, subindo as muitas escadas da casa até chegar a um dos andares mais altos, onde eu sabia ficar os aposentos de Rony.
A porta do quarto se escancarou, produzindo um estrondo de sacudir as paredes. Por uma fresta entre o batente e o corpo volumoso da sra. Weasley, pude ver Hermione gritar e deixar cair um livro, que tinha a capa muito semelhante à do Segredos das artes mais tenebrosas; seu gato, Bichento, disparou para baixo da cama, bufando, indignado. Rony pulou da cama, escorregou em uma embalagem velha de sapos de chocolate e bateu a cabeça na parede oposta, e Harry, instintivamente, se jogou para apanhar sua varinha antes de perceber que estava vendo a sra. Weasley, que tinha os cabelos revoltos e o rosto contorcido de raiva.
— Lamento interromper essa reuniãozinha íntima. — vociferou ela, com a voz trêmula. — Tenho certeza de que vocês precisam de descanso... mas há presentes de casamento empilhados no meu quarto que precisam ser separados, e tive a impressão de que vocês concordaram em ajudar.
Abafei uma risada atrás dela.
— Ah, sim. — respondeu Hermione aterrorizada, levantando-se depressa e fazendo os livros voarem para todos os lados. — Ajudaremos... pedimos desculpas...
Com um olhar aflito para Harry e Rony, a garota saiu correndo do quarto atrás da sra. Weasley, mas deu um grito de susto e felicidade quando me viu, de pé, segurando minha mochila multicolorida e com um sorriso genuíno rasgando o rosto.
! — ela exclamou, pulando em cima de mim em uma demonstração de afeto que eu não esperava nem um pouco daquela britânica certinha.
Quando dei por mim, já estava chorando, liberando tudo junto: a raiva que sentia de meus pais, a emoção de estar de volta com meus amigos, a frustração de não entender minha própria profecia, apesar de ter estudado exaustivamente cada verso, o medo gélido de ter uma Marca Negra e a dor de ter perdido para sempre o Draco Malfoy por quem me apaixonei.
Abracei Hermione com força, molhando a blusa dela com minhas lágrimas e ouvindo ela rir com a emoção de reencontrar sua amiga, que eu tinha certeza que muitos acreditavam estar morta.
—... vai parecer até que estamos de férias, não é? — ouvi a voz de Harry vindo pela escada.
Rony começou a rir, mas, ao ver a enorme pilha de presentes de casamento que os esperava no quarto da sra. Weasley, parou no ato. Seus olhos encontraram meu rosto enquanto eu pensava na melhor maneira de explicar tudo a Hermione. Em seguida, foi a vez de Potter processar minha presença e ficar embasbacado.
? — Harry, ao contrário do que eu imaginava que fosse acontecer, não teve uma reação de fúria ou desgosto: correu na minha direção, me segurando num abraço apertado que só me fez cair no choro de novo, com mais intensidade ainda. — Ah, , que saudade…
O ruivo ainda estava um pouco atordoado, mas se aproximou de mim para me envolver pelos ombros.
— O que houve com você? Por que sumiu e não falou direto com a gente? Por que Fred…?
— Por Merlim, Rony, deixe a garota respirar. — riu Mione, com os olhos molhados e passando a mão pelas bochechas.
Harry ainda me analisava. Era nítido que mil perguntas invadiam a mente dele, mas só consegui focar no fato de o olhar dele estar exausto. Por fim, ele abriu a boca:
— Vamos procurar Horcruxes depois do casamento de Gui e Fleur.
Rony e Hermione encararam o amigo, estupefatos. Ele dissera a informação de uma forma tão crua e ríspida que nem tive tempo de absorver o peso dela antes de ele prosseguir.
— Eu não sei o que te fez correr, . — continuou Harry. — Eu não sei o que aconteceu naquela noite. Fred nos disse que você tinha escapado dos Comensais… Então acho que você poderia nos explicar algumas coisas, porque também vamos te dar explicações sobre nossos planos.
Nunca o vira tão sério. Era como se tivesse envelhecido cinco anos em pouco mais de um mês. A angústia apertou meu peito. Não podia contar toda a verdade a eles, mas eu realmente lhes devia algumas informações. A única opção era omitir alguns detalhes, por mais que me doesse. Além disso, precisava ter cuidado com o que dizia; o Voto Perpétuo que eu fizera quando criança era definitivo e poderia me matar por uma simples palavra errada. Não poderia revelar que viera do Brasil como a representante de um esquadrão de elite de garotas tão psicologicamente machucadas quanto eu.
Decidida, andei com rapidez até a porta do quarto e a fechei, trancando-a e lançando um Feitiço Imperturbável. Respirando fundo, me virei para o trio e comecei.
— Eu não poderia contar isso para vocês, porque seria considerado o mais alto nível de traição. Mas eles me libertaram… Me desligaram oficialmente. — A frase teve um gosto amargo em minha boca. — Não sou uma intercambista. Sou uma agente convocada por Scrimgeour. — Engoli o princípio de choro que ameaçava fechar minha garganta. — Não posso contar mais do que isso... Preciso que acreditem em mim, acreditem que eu não quis nada disso e tive que fazer porque todas as escolhas foram tomadas por mim.
O choque no três rostos era idêntico; eles nem ao menos conseguiram questionar nada. Prossegui, contando o objetivo de minha missão, que estava fora do encantamento ao qual eu fora submetida.
— Minha missão era entrar em Hogwarts e tirar a Marca Negra de Draco Malfoy, porque, de algum jeito, sabiam que a guerra teria seu início na tatuagem dele. — A boca de Potter tremeu de indignação. — Sim, Harry, você esteve certo o tempo todo… E me doía toda vez que eu tinha que tentar dissuadir você dessa ideia, porque se não isso arruinaria a operação.
Ele trocou o peso do corpo de uma perna para outra, me encarando intensamente e trincando a mandíbula antes de dizer:
— E a única forma de remover algo como isso, uma magia negra poderosa…
— É com uma magia mais poderosa ainda — completou Mione, baixinho.
Assenti, apertando os olhos que ardiam.
— E você sabe qual é, não sabe? — questionei, com pesar.
— Sim. — Os olhos dela se marejaram. — A mesma que salvou Harry…
— O amor — o garoto disse. — Ele precisava amar você.
Sorri com tristeza.
— Sim. Ele precisava me amar. E, como vocês sabem, eu sou perfeitamente capaz de fazer uma Amortentia… Mas era necessário amor, e não uma mera obsessão ou paixão. E… — Minha voz se embargou. — Eu consegui. Eu consegui que ele me amasse. Mas…
Rony tinha os olhos muito arregalados, provavelmente chocado com a informação que Draco Malfoy, o garoto que ele tanto desprezava, pudesse nutrir amor por alguém além de si próprio.
— Mas não funcionou. Eu tentei… eu fui atrás dele naquela noite, eu sabia que ele teria que cumprir alguma tarefa, mesmo sem saber qual seria… — Mentira. Uma pontada de dor me tirou a voz por um segundo. — E ele disse que me amava. Eu toquei a Marca Negra com minha pulseira. — Ergui o braço esquerdo, cuja manga comprida cobria o lugar onde a tatuagem aparecera, mas exibia a joia com o diamante de Ravenclaw. Outra coisa que eles não podiam saber pela minha boca. — Mas não… — Um soluço cortou minha frase, e tive que parar.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Hermione.
— Você também o ama. Então a magia não funcionou.
Os olhos dela desceram por minha manga longa, que parecia tão sem propósito naquele dia abafado de verão, e eu soube que ela sabia.
Por isso minha amiga chorava. Por isso tinha ideia do meu desespero, da minha vergonha e da minha raiva…
Mas ficou em silêncio. Não perguntou, não insinuou, não contou aos outros. E isso me fez grata como nunca na vida.
Subi meus olhos para Harry. Eu me sentia suja. Podre. Como se minha alma parecesse ainda mais profana na presença do garoto de ouro, o Menino que Sobreviveu, o Eleito; Harry Potter, que tinha perdido tudo e mesmo assim continuava sendo a pessoa mais valente, pura e maravilhosa que eu conhecia.
E exatamente por isso ele se aproximou de novo de mim e me abraçou, sussurrando no meu ouvido para que ninguém além de nós dois soubesse o que foi dito.
— Eu não sei como isso aconteceu, eu não sei como você se apaixonou por ele… Mas eu sinto muito, .
— Eu também. — murmurei em resposta.
Naquele instante, sendo envolvida pelos braços de Harry, tive a consciência de que nossas palavras não se referiam somente à minha situação com Draco, mas sim a todos os sofrimentos e provações que nós, dois adolescentes de dezesseis anos, já tínhamos passado e ainda estavam longe de chegarem ao fim.
Nos separamos depois do que deveria ter sido mais de um minuto, e logo em seguida um borrão — ou melhor, três borrões — de cabelos flamejantes vieram rapidamente pelo corredor, atropelando-se em meio a sons altos de aparatação. As emoções que eu acabara de experienciar tinham enfraquecido o Coloportus que lançara. Desfiz o feitiço por completo que lacrava a entrada do cômodo e a abri.
— Oi, gatinha. — Fred foi o primeiro a pisar para dentro do quarto, abrindo um sorriso torto e ajeitando o cabelo para trás.
Sorri de volta e fui abraçá-lo, num agradecimento mudo por ter seguido minhas instruções. Ele me encarou, preocupado. Pelos meus cálculos, era apenas a terceira vez que nos víamos na vida, mas eu tinha a impressão que aqueles poucos encontros tinham sido suficientes para ele saber ler meu rosto melhor do que muitas pessoas. Dei-lhe um beijo no rosto.
Ao seu lado, Jorge estava com uma faixa de gaze enrolada em volta da cabeça, com uma mancha um pouco sangrenta exatamente onde uma de suas orelhas deveria estar.
— Cortesia do nosso querido professor Snape. — ele apontou para o ferimento, com um ar quase cômico. — Acho que pelo visto ele estava cansado de nos confundir nas aulas ou quando ia nos dar broncas por jogar Bombas de Bosta nos corredores.
Contive uma risadinha para camuflar a preocupação, e também o abracei.
A próxima Weasley na fila era Gina, mas seus olhos não estavam em mim, e sim no rosto ainda marcado por lágrimas de Hermione. Ao notar que eu a encarava, porém, ela disfarçou e abriu um sorriso antes de me abraçar.
— Saudades de você, apanhadora.
— Saudades de você… capitã?
Ela me fitou meio assustada e sem entender.
— O capitão… é Harry…
— Ela já sabe, Gina. — disse Rony.
— Oh. — O semblante iluminado dela se anuviou. — Então… ela vai com vocês?
Era de se esperar que eu encarasse Harry diante da pergunta, mas meus olhos foram atraídos para Hermione. Ela só entreabriu os lábios, mas a resposta era nítida na feição incerta. Eu não fazia ideia do mecanismo de minha Marca Negra. Poderia ser um rastreador. Eu nunca poderia me lançar numa missão com eles, vagando o Reino Unido ou até mesmo a Europa, atrás de fragmentos da alma de Lorde Voldemort, enquanto tivesse a aliança dele estampada em minha pele.
— Não. — limpei a garganta em um pigarro, tentando soar natural. — Vou para Hogwarts junto com você… Não poderia abandonar o time de quadribol depois da vitória do ano passado, certo?
Ela deu risada, mas logo a alegria se reduziu a um sorriso triste. Fora naquele dia que ela e Harry tinham começado a namorar, e agora ele iria para longe, numa jornada perigosa e precária, certamente com pouquíssimos indicadores do que fazer. Uma lembrança agridoce, sem dúvidas.
— Bom — Fred cortou o silêncio desagradável —, acho que minha adorável mamãe deu uma tarefa e tanto para vocês, não é mesmo?
Me virei para o trio em interrogação.
— Arrumar esses presentes de casamento. — Rony bufou.
Puxei minha varinha do bolso lateral da mochila e fechei os olhos, me concentrando. Com meia dúzia de movimentos complicados no ar, os presentes estavam devidamente abertos, desembrulhados e organizados em prateleiras organizadas.
Accio pergaminho. — enunciei, batendo na folha que voou até minha mão e entregando-a, toda preenchida, na mão de Gina. — Prontinho. Tudo organizado em ordem alfabética com os respectivos itens dados para enviar os bilhetes de agradecimento.
Os seis jovens presentes na sala me encararam embasbacados e gargalhadas de choque irrompendo de uma só vez.
— O que achar de virar Weasley, ? — Jorge pegou minha mão, galanteador. — Eu estou totalmente disponível.
— Pff, até parece, maninho. — Fred rebateu, pegando minha outra mão. — Todo mundo sabe que eu sou o gêmeo bonito.

* * *

Os Delacour chegaram na manhã seguinte às onze horas. Os caldeirões enferrujados e as botas velhas que, em geral, coalhavam a escada para a porta dos fundos, tinham desaparecido e sido substituídos por dois grandes vasos com arbustos tremulantes a cada lado da porta; embora não houvesse brisa, as folhas balançavam preguiçosamente, produzindo um belo efeito ondulante. As galinhas tinham sido trancadas no galinheiro, o quintal varrido e o jardim anexo fora despojado das folhas velhas, podado e, de um modo geral, cuidado, não exibindo mais a impressionante população de gnomos saltitantes que eu conhecera no Natal do ano anterior.
Eu mantivera uma vaga noção da quantidade de feitiços de segurança que tinham sido lançados sobre A Toca, tanto pela Ordem quanto pelo Ministério; barreiras físicas, azarações permanentes e perturbadores mentais inviabilizavam a possibilidade de alguém viajar por magia até ali. O sr. Weasley, portanto, fora esperar os Delacour no alto de um morro próximo, onde a família chegaria por Chave de Portal. O primeiro sinal de sua aproximação foi uma gargalhada anormalmente aguda, dada pelo sr. Weasley, soube-se depois, que apareceu ao portão em seguida, carregado de malas à frente de uma bela loira de longas vestes verde-folha, que só poderia ser a mãe de Fleur. O sr. Delacour não era nem de longe atraente como sua mulher; era uma cabeça mais baixo que ela, além de extremamente gordo, e usava uma barbicha pontuda e preta. Parecia, contudo, uma pessoa bem-humorada. Sacudindo-se nas botas de salto em direção à sra. Weasley, ele lhe aplicou dois beijos em cada bochecha, deixando-a perturbada.
Vocês tiverram tante trrabalhe… Fleur nos contou qu’andarram trrabalhando muite mesme.
— Ah, não foi nada, absolutamente nada! — gorjeou a sra. Weasley. — Não foi trabalho algum!
Rony aliviou sua frustração mirando um pontapé em um gnomo que estava espiando atrás de um dos vasos com arbustos tremulantes.
Minhe carra senhorra! — replicou o sr. Delacour, ainda segurando a mão da sra. Weasley entre as suas, muito gorduchas, e dando-lhe um radiante sorriso. — Nos sentimes muite honrrrades com a eminente união de nosses famílies! Deixe-me arpresentarr-lhe minhe mulherr, Apolline.
Madame Delacour adiantou-se como se deslizasse e se curvou para beijar a sra. Weasley também. Era bem óbvia a ascendência veela de Apolline Delacour.
Enchantée. Se marrido esteve me contanto histórrias muite diverrtidas!
O sr. Weasley soltou uma risada exagerada; a sra. Weasley lançou-lhe um olhar que o fez calar-se imediatamente e assumir uma expressão mais apropriada a uma visita a um amigo doente no hospital. Não o julgava; a magia sedutora das veelas era potente demais mesmo quando diluída no sangue.
E, naturralmente, já conhecem minhe filhinea Gabrrielle! — disse Monsieur Delacour.
Gabrielle era uma Fleur em miniatura; onze anos, cabelos louros platinados, a garota dirigiu um sorriso ofuscante à sra. Weasley, abraçou-a e, pestanejando, lançou um olhar intenso a Harry. Gina pigarreou alto.
— Então, entrem, por favor! — convidou a sra. Weasley animada, levando os hóspedes para dentro.
Recebi dois beijinhos e fui a única a não ficar assustada com aquilo; era algo tão corriqueiro para uma brasileira que me trouxe até mesmo um pouco de conforto e saudades de casa.
Os pais de Fleur eram hóspedes prestativos e agradáveis. Mostravam-se satisfeitos com tudo e desejosos de ajudar nos preparativos do casamento. Monsieur Delacour considerou tudo, desde a distribuição de lugares até os sapatos das damas de honra. Apolline era muito talentosa com feitiços domésticos e deixou o forno limpo em segundos; Gabrielle seguia a irmã mais velha pela casa, tentando ajudar no que pudesse, tagarelando em um francês muito rápido, e ficou surpresa quando descobriu que eu conseguia arriscar palavras o suficiente para fazê-la me entender razoavelmente no idioma.
As oportunidades de o trio se reunir para fazer planos praticamente deixaram de existir, e foi por desespero que Harry, Rony e Hermione passaram a se oferecer para dar comida às galinhas só para fugir da casa demasiado cheia. Quando consegui me livrar do falatório de Elle Delacour, como era apelidada pela família, fui acompanhá-los.
— Nem assim ela vai nos deixar em paz! — reclamou Rony quando a segunda tentativa de se encontrarem no quintal foi frustrada pelo aparecimento da sra. Weasley, carregando um grande cesto de roupa lavada nos braços.
— Ah, ótimo, vocês já alimentaram as galinhas. — disse ao se aproximar. — É melhor prendê-las outra vez no galinheiro antes que os homens cheguem amanhã... para armar a tenda para o casamento. — explicou, parando e se apoiando à parede da casa. Ela parecia exausta. — Tendas Mágicas Millamant… eles são muito bons. Gui vai acompanhá-los... é melhor você não sair de casa enquanto estiverem aqui, Harry. Devo confessar que complica bastante organizar um casamento, com tantos feitiços de segurança pela propriedade.
— Lamento muito. — respondeu Harry, com humildade.
— Ah, não seja tolo, querido! — exclamou a sra. Weasley imediatamente. — Não quis me referir... bem, a sua segurança é muito mais importante! Aliás, eu estava pensando em lhe perguntar como vai querer comemorar o seu aniversário, Harry. Afinal, dezessete anos é uma data importante...
— Não quero incomodar. — disse Harry depressa, imaginando a pressão adicional que isso traria a todos. — Realmente, sra. Weasley, um jantar normal seria ótimo... é a véspera do casamento...
— Ah, bem, se você tem certeza, querido. Vou convidar Remo e Tonks, posso? E Hagrid?
— Seria ótimo. Mas, por favor, não se incomode demais.
— Não, não mesmo... não será incômodo...
A bruxa lhe lançou um olhar demorado e inquisitivo, depois sorriu com certa tristeza e, se aprumando, afastou-se.
Vi nos olhos dele como ele se sentia culpado com tudo aquilo. Era mais um fardo que o Eleito tinha que carregar, mas fui tomada por um pensamento egoísta: pelo menos ali eu não poderia ser encontrada pelos Comensais da Morte… Na verdade, por um Comensal da Morte específico. E para mim era uma pequena vitória, pois eu planejava adiar ao máximo o momento em que teria que encará-lo. Meu amor por um assassino me fazia apodrecer por dentro e me sentir a pessoa mais indigna de todas, mas não ousei dizer nada. Harry sempre fora salvo pelo amor, pela magia pura e poderosa que o circundava, mas para mim, era como veneno.
Um veneno doce que eu parecia incapaz de parar de beber até a última gota.



Capítulo 02

POV

Eu e Mione acordamos cedo na manhã seguinte. Ela estava eufórica, remexendo numa bolsinha de contas que fazia barulho demais.
— Ah, qual é. Não são nem oito da manhã e você já está vestida e executou um Feitiço Indetectável de Extensão. — resmunguei, rolando na minha cama de armar e ouvindo-a ranger.
— Bom dia para você também, Miss Simpatia. — Ela sorriu de um jeito estranho, enfiando o braço até o cotovelo dentro da bolsa, o que, a um trouxa, pareceria fisicamente impossível. Puxou um pequeno embrulho. — Hoje é aniversário do Harry.
— Ah, meu Deus — Tampei meu rosto com o travesseiro. — Esqueci totalmente de comprar alguma coisa para ele.
Obviamente me senti mal, mas a preocupação com a profecia e minha Marca Negra apagaram totalmente de minha cabeça assuntos mundanos como presentes de aniversário.
, não se incomode tanto com isso — ela apaziguou, colocando a bolsinha em cima de sua colcha. — Qualquer coisa você pede alguma coisa pelo serviço de Encomenda-Coruja. Ou melhor, compra algum artigo dos gêmeos. Eles devem ter aqui na casa.
— Boa ideia. — Pulei da cama e mais que depressa corri até o quarto que Fred e Jorge compartilhavam, batendo energicamente na porta.
Fui recebida por uma onda de cheiro de sabonete, cabelos ruivos escurecidos pela água, assumindo um tom de castanho, e um abdômen nu salpicado de sardas. Não pude evitar compará-lo com o de Malfoy: era mais largo e robusto, mas não tão definido.
De nada por agraciar sua manhã com essa visão do paraíso, . — gracejou Fred, apoiando o cotovelo no batente. Qualquer outra garota teria corado, mas eu só ergui as sobrancelhas. — O que traz Vossa Alteza dos Feitiços de Arrumação aos nossos humildes aposentos?
— Aposto que ela considerou nossas propostas de casamento e quer aproveitar a comemoração de Gui e Fleur. — ouvi a voz de Jorge palpitar atrás do irmão. Ele segurava alguns artigos de higiene e uma toalha pendurada no ombro.
— Não foi dessa vez que vocês conseguiram me seduzir com essa tentadora proposta. — foi o que respondi a Jorge, que saiu pela porta em direção ao banheiro com uma careta de falso pesar. — E você acha que isso é a visão do paraíso porque claramente nunca viu o que eu vejo quando me olho no espelho.
— Talvez você pudesse me mostrar quando essa confusão toda acabar. — Ele cruzou os braços, fazendo os músculos do tórax saltarem um pouco. — E por confusão eu quero dizer o casamento, claro. Não a iminente guerra bruxa que pode matar todos nós.
Ri da sugestão e da piada ácida.
— Vou guardar esse convite especial para outra oportunidade.
— Eu sei reconhecer um fora educado quando vejo um, . — Fred pôs a mão no peito, como se tivesse sido atingido por uma ofensa. Logo, porém, abriu um sorriso alegre de novo. — Sorte sua que não sou rancoroso. Mas agora sério, o que te traz aqui?
— Preciso de algo para dar para o Harry.
— Oh, que ótima amiga você é. — alfinetou ele, fazendo um gesto para que eu entrasse no quarto. Pescou uma camisa azul-marinho de cima da escrivaninha e a vestiu, escondendo o tronco. — E não faça essa cara de decepcionada, não posso ficar expondo essa escultura perfeita — ele indicou o próprio corpo — por aí.
Revirei os olhos.
— Eu e Jorge já vamos dar para ele uma caixa com alguns artigos da loja — ele ignorou minha reação e continuou falando —, mas posso tirar do nosso kit o produto que você escolher comprar e substitui-lo por outro. Temos Febricolate, Vomitilhas, Fogos Espontâneos, Pó Escurecedor Instantâneo…
— Isso. — falei tão abruptamente que ele tomou um susto. — Quer dizer — pigarreei —, pode ser esse Pó Escurecedor. Uns cinco pacotinhos, está bem? Quanto fica?
— Quinze sicles. — Me entregou uma pequena caixa contendo os vidrinhos negros. — Mas eu faço por treze para uma garota bonita como você.
Joguei uma moeda dourada na direção dele: um galeão, equivalente a dezessete sicles.
— Fica com o troco.
Ele assobiou.
— Tem certeza que não quer casar comigo?
Ri e soprei um beijo no ar enquanto descia as escadas.
— Feliz aniversário, Harry! — desejou Hermione, entrando apressada na cozinha, seguida por mim, e acrescentando o seu presente ao topo da pilha que ocupava a mesa. — Não é muita coisa, mas espero que goste. Que foi que você deu a ele? — perguntou a Rony, que pareceu não tê-la ouvido.
— Anda logo, abre o presente da Hermione! — disse Rony.
A garota comprara um novo bisbilhoscópio para Harry. Os outros embrulhos continham um barbeador encantado de Gui e Fleur, bombons do casal Delacour e uma enorme caixa com as últimas Gemialidades Weasley dos gêmeos, como Fred me contara.
— Aqui, Harry. Espero que goste. — falei timidamente, lhe entregando a caixa que comprara naquela mesma manhã.
Ele abriu o suficiente para espiar o conteúdo, e ficou congelado por um segundo. Abaixei os olhos.
— Funcionou para ele. — sussurrei. — Dessa vez, quero garantir que as coisas funcionem para você.
— Obrigado. — ele falou, e senti sinceridade em sua voz.
O trio e eu não nos demoramos à mesa, porque a chegada de Madame Delacour, Fleur e Gabrielle deixou a cozinha muito cheia e desconfortável.
— Eu guardo isso para você. — disse Hermione animada, tirando os presentes dos braços de Harry enquanto voltávamos para o andar de cima. — Quase terminei, só estou esperando suas calças acabarem de lavar, Rony...
A resposta engrolada de Rony foi interrompida pela abertura de uma porta no primeiro andar.
— Harry, você pode vir aqui um instante?
Era Gina. Rony parou abruptamente, mas Hermione agarrou-o pelo cotovelo e puxou-o escada acima. Nervoso, Harry entrou com Gina no quarto.
— Mas o que… Hermione, você não espera que eu deixe eles ficarem sozinhos dentro de um quarto, certo? — ele questionou, alarmado. Segurei seu cotovelo para evitar que ele se soltasse do braço de Hermione.
— Rony, pelo amor de Deus, seja razoável. — ela respondeu, revirando os olhos. — Não é como se seu melhor amigo fosse deflorar a sua irmã em cinco minutos numa conversa com o mínimo de privacidade.
A expressão no rosto de Ronald deixava claro que ele considerava aquilo uma possibilidade bem real.
— Ele está brincando com os sentimentos dela! Da minha irmãzinha!
— Ela não tem nada de “inha” já há vários anos. — pontuei. — Gina é uma moça, pare de tratar ela como criança.
Rony nos olhou como se ponderasse, mas aproveitou que afrouxamos o aperto para pular os degraus e, apesar de nossos protestos, escancarar a porta contra a parede. Os dois ocupantes do cômodo se separaram, sobressaltados.
— Ah. — disse Rony incisivamente. — Desculpem.
— Rony! — Hermione bronqueou, ligeiramente ofegante. Fez-se um silêncio constrangido, quando Gina disse inexpressivamente:
— Bem, enfim, Harry, feliz aniversário.
As orelhas de Rony ficaram vermelho-vivo; Hermione parecia nervosa. Harry olhou para Gina, nitidamente querendo lhe dizer alguma coisa, mas sem saber muito o quê; contudo, ela lhe virou as costas.
— A gente se vê mais tarde. — disse ele, e nos acompanhou para sairmos do quarto.
Rony desceu pisando firme, passou pela cozinha cheia e saiu para o quintal, Harry seguiu-o de perto ao meu lado e Hermione, quase correndo, foi atrás dos dois com ar assustado.
Quando chegaram ao isolamento do gramado recém-aparado, Rony se voltou para Harry.
— Você deu o fora em Gina. Que está fazendo agora se metendo com ela?
— Não estou me metendo com ela. — retorquiu Harry no momento em que Hermione nos alcançava.
— Rony...
O garoto, porém, ergueu a mão pedindo que a amiga se calasse.
— Ela ficou realmente arrasada quando você terminou...
— Eu também fiquei. Você sabe por que terminei, e não foi porque quisesse.
— É, mas agora fica de beijos e abraços, renovando as esperanças da minha irmã...
— Ela não é idiota, sabe que não pode ser, não está esperando que a gente... a gente acabe casando nem...
— Se você não para de se atracar com a Gina sempre que tem uma chance...
— Não vai acontecer outra vez. — retrucou Harry, com rispidez. — Ok?
Rony fez uma cara entre ressentida e sem graça; balançou-se sobre os pés para a frente e para trás por um instante, então disse:
— Certo, então, bem, é... isso.
Gina não buscou outro encontro a sós com Harry o resto do dia, nem, por olhar ou gesto, demonstrou que tivessem tido mais do que uma conversa cordial em seu quarto. A chegada de Carlinhos foi um alívio para o grupo. Era engraçado observar a sra. Weasley forçar o filho a sentar em uma cadeira, erguer a varinha ameaçadoramente e anunciar que ia lhe fazer um corte de cabelos decente.
Como o aniversário de Harry teria feito a cozinha d’A Toca explodir de tanta gente, mesmo antes da chegada de Carlinhos, Lupin, Tonks e Hagrid, foram colocadas várias mesas ao comprido, no jardim. Fred e Jorge conjuraram algumas lanternas roxas, enfeitadas com um grande número 17 para pendurar no ar sobre as mesas. Graças aos cuidados da sra. Weasley, o ferimento de Jorge estava sarando, processo esse que vinha sendo acompanhado por muitas piadas dos gêmeos sobre a mutilação. Hermione fez irromperem da sua varinha serpentinas roxas e douradas e arrumou-as artisticamente sobre árvores e arbustos.
— Bonito. — comentou Rony, quando a garota, com um floreio final da varinha, dourou as folhas da macieira-brava. — Você realmente tem gosto para esse tipo de coisa.
— Muito obrigada, Rony! — disse Hermione, parecendo ao mesmo tempo contente e um pouco envergonhada.
— Abram caminho, abram caminho! — cantarolou a sra. Weasley, passando pelo portão com algo que lembrava um pomo de ouro do tamanho de uma bola de piscina flutuando à sua frente. Era o bolo de aniversário de Harry, que a sra. Weasley trazia suspenso com a varinha, para não se arriscar carregá-lo pelo terreno acidentado.
Quando o bolo finalmente aterrissou no meio da mesa, Harry elogiou:
— Fantástico, sra. Weasley!
— Ah, não é nada, querido. — respondeu-lhe a bruxa carinhosamente.
Por volta das sete horas, todos os convidados tinham chegado e sido levados ao interior da casa por Fred e Jorge, que os esperavam no fim da estradinha. O professor Hagrid usava um terno marrom peludo que parecia ser uma extensão de sua própria barba, e parecia não caber em si mesmo de contentamento. Embora Remo Lupin sorrisse ao apertar minha mão, notei um resquício de infelicidade indefinível. Era muito esquisito; ao seu lado, Tonks parecia simplesmente radiante. Não tardei a compreender que eram um casal.
— Feliz aniversário, Harry. — ela lhe desejou, abraçando-o com força.
— Dezessete anos, hein.! — exclamou Hagrid aceitando um copo de vinho do tamanho de um balde das mãos de Fred. — Faz seis anos que nos conhecemos, Harry, lembra?
— Vagamente. — respondeu Harry, rindo para o amigo. — Você não derrubou a porta de casa, botou um rabo de porco em Duda e disse que eu era bruxo?
— Esqueci os detalhes. — comentou Hagrid, com uma gargalhada. — Tudo bem, Rony, Hermione, ?
— Estamos ótimos. — respondeu Hermione. — E você, como vai?
— Hum, nada mal. Andei ocupado, temos uns unicórnios recém-nascidos, mostro a vocês quando voltarem…
Minha atenção se desfocou um pouco da conversa. Me preocupei em analisar os integrantes da mesa e fazer um breve compilado das informações que eu colhera sobre cada um; os velhos instintos de agente não se desvaneceram. E foi nesse instante que notei uma ausência contundente no jantar. Mas onde ele estaria?
A pergunta foi respondida minutos depois, não pela chegada de Arthur Weasley, mas sim pela de uma doninha prateada feita de luz: um Patrono mensageiro.
— O ministro da Magia está vindo comigo.
Larguei meus talheres num estalo e comecei a suar frio.
O ministro da Magia.
— Nós não devíamos estar aqui. — disse Lupin na mesma hora. — Harry... lamento... explicarei outra hora...
E, agarrando Tonks pelo pulso, levou-a embora; ao chegarem à cerca, os dois a transpuseram e desapareceram. A sra. Weasley demonstrava espanto.
— O ministro... mas por quê... Não estou entendendo...
Não houve, porém, tempo para discutirem o assunto; um segundo depois, o sr. Weasley apareceu ao portão acompanhado por Rufo Scrimgeour, instantaneamente reconhecível pela juba grisalha. Os recém-chegados atravessaram o quintal e, com passos firmes, se dirigiram ao jardim e à mesa iluminada pelas lanternas, onde todos aguardavam em silêncio, observando sua aproximação. Quando Scrimgeour entrou no perímetro iluminado pelas lanternas, pude constatar que o ministro parecia muito mais velho do que da última vez que tínhamos nos visto.
— Desculpem a intrusão. — disse Scrimgeour, ao parar diante da mesa. — Principalmente porque posso ver que estou penetrando em uma festa para a qual não fui convidado.
O seu olhar se demorou por um momento no gigantesco pomo de ouro.
— Muitos anos de vida.
— Obrigado. — disse Harry.
— Preciso dar uma palavrinha com você em particular. — continuou Scrimgeour. — E também com o sr. Ronald Weasley, srta. Hermione Granger… e srta. .
— Nós?! — exclamou Rony em tom surpreso. — Por que nós?
Levantei-me com rapidez e me aproximei do ministro.
— Eles não sabem. — menti. — Nada que aconteceu foi culpa deles…
Mas o homem me ignorou, como o babaca prepotente que sempre se mostrara ser.
— Explicarei quando estivermos em lugar mais reservado. Há na casa um lugar assim? — perguntou ao sr. Weasley.
— Naturalmente. — disse o sr. Weasley, parecendo nervoso. — A... a sala de visitas, pode usá-la.
— Mostre-me onde é. — disse Scrimgeour a Rony. — Não haverá necessidade de nos acompanhar, Arthur.
O casal dono da casa trocou um olhar preocupado quando os outros três se levantaram também. Sem opções, segui o grupo, agradecendo mentalmente por pelo menos estar de posse de minha varinha naquele momento.
O ministro não falou quando passamos pela cozinha desarrumada e entraram na sala de visitas d’A Toca. Scrimgeour sentou-se na poltrona de molas frouxas que o sr. Weasley normalmente ocupava, deixando que Harry, Rony e Hermione se apertassem lado a lado no sofá. A inquietação me impediu de sentar. Uma vez acomodados, o ministro falou:
— Tenho algumas perguntas a fazer a todos, mas acho que será melhor fazê-las separadamente. Se vocês — ele apontou para mim, Harry e Hermione — puderem esperar lá em cima, começarei pelo Ronald.
— Não vamos a lugar algum. — disse Harry, secundado por um vigoroso aceno de cabeça de Hermione. — O senhor pode falar com todos juntos ou não falar com nenhum.
Scrimgeour lançou a Harry um frio olhar de avaliação.
— Muito bem, então, juntos. — disse ele, sacudindo os ombros. E pigarreou. — Estou aqui, como bem sabem, por causa do testamento de Alvo Dumbledore.
O trio se entreolhou e eu encarei o ministro com mais intensidade, meu rosto se contorcendo em incredulidade. Então ele ia simplesmente ignorar o fato de eu ter falhado numa missão pedida por ele?
— Pelo visto é surpresa! Vocês não sabiam que Dumbledore tinha lhes deixado alguma coisa?
— A... aos três? — perguntou Rony. — A mim e Hermione também?
— A todos… Aos quatro.
O trio me encarou de soslaio. Harry, no entanto, cortou o clima estranho.
— Já faz mais de um mês que Dumbledore faleceu. Por que demoraram tanto para nos entregar o que ele nos deixou?
— Não é óbvio?! — exclamou Hermione, antes que Scrimgeour pudesse responder. — Queriam examinar seja lá o que ele tenha nos deixado. O senhor não tinha o direito de fazer isso! — Sua voz tremia levemente.
— Tinha todo o direito. — disse Scrimgeour sumariamente. — O Decreto sobre Confisco Justificável dá ao ministro o poder de confiscar os bens de um testamento...
— A lei foi criada para impedir os bruxos das trevas de legarem seus objetos — retorquiu Hermione —, e o Ministério precisa ter fortes provas de que os bens do falecido são ilegais antes de apreendê-los! O senhor está nos dizendo que julgou que Dumbledore estivesse tentando nos passar objetos malditos?
Não pude evitar o sorriso orgulhoso que se formou em minha boca. Hermione era foda!
— Srta. Granger, está pretendendo fazer carreira em Direito da Magia?
— Não, não estou. — retrucou Hermione. — Tenho esperança de fazer algum bem no mundo!
Rony riu. Os olhos de Scrimgeour piscaram em sua direção e tornaram a se desviar quando Harry falou.
— Então, por que resolveu nos entregar o que nos pertence agora? Não conseguiu pensar em um pretexto para manter os objetos em seu poder?
— Não, deve ser porque os trinta e um dias venceram. — respondeu Hermione imediatamente. — O Ministério não pode reter objetos por prazo superior, a não ser que sejam comprovadamente perigosos. Certo?
— Você diria que era íntimo de Dumbledore, Ronald? — perguntou Scrimgeour, ignorando Hermione. Rony pareceu surpreso.
— Eu? Não... muito... era sempre Harry quem...
Rony olhou para os amigos e viu Hermione lhe dando aquele olhar “cale-já-a-boca!”, mas o estrago já fora feito: Scrimgeour fez cara de quem acabara de ouvir exatamente o que tinha esperado e queria ouvir. Avançou na deixa de Rony como uma ave de rapina.
— Se você não era muito íntimo de Dumbledore, como explica que tenha se lembrado de você no testamento? Ele deixou excepcionalmente pouco a indivíduos. A maior parte dos seus bens... sua biblioteca particular, seus instrumentos mágicos e outros pertences... foram legados a Hogwarts. Por que acha que mereceu destaque?
— Eu... não sei. — respondeu Rony. — Quando digo que não éramos íntimos... Quero dizer, acho que ele gostava de mim...
— Você está sendo modesto, Rony. — interveio Hermione. — Dumbledore gostava muito de você.
Para mim, a questão mais absurda não era Rony nem Hermione receberem relíquias do falecido diretor. Por que diabos eu estava no testamento? Conversara com Dumbledore no máximo três vezes na vida, se muito. Ele dissera que conhecia meu pai, mas por que isso justificaria o recebimento de uma herança dele?
Contudo, Scrimgeour não parecia estar escutando. Meteu a mão sob a capa e puxou uma grande bolsa de cordões. Da bolsa, tirou um rolo de pergaminho, que abriu e leu em voz alta.
— “Últimas vontades de Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore...”, sim, aqui está, “a Ronald Weasley, deixo o meu desiluminador, na esperança de que se lembre de mim quando usá-lo.”
Scrimgeour tirou da bolsa um objeto que parecia um isqueiro de prata. Scrimgeour se inclinou para a frente e passou o desiluminador a Rony, que o recebeu e examinou entre os dedos com ar de perplexidade.
— Isto é um objeto valioso. — comentou Scrimgeour, observando Rony. — Talvez seja único no mundo. Com certeza foi projetado pelo próprio Dumbledore. Por que ele teria lhe legado algo tão raro?
Rony sacudiu a cabeça, aturdido.
— Dumbledore deve ter tido milhares de alunos. — insistiu Scrimgeour. — Contudo, os únicos de que se lembrou em seu testamento foram vocês quatro. — Ele se virou em minha direção, apertando os olhos. — Entre os quais uma intercambista que ele conhecia havia pouco menos de um ano… Por que será? Que uso ele terá pensado que o senhor daria a esse desiluminador, sr. Weasley?
— Apagar luzes, suponho. — murmurou Rony. — Que mais eu poderia fazer com ele?
Evidentemente Scrimgeour não teve outras sugestões a dar. Depois de observar Rony com os olhos semicerrados por um momento, voltou sua atenção para o testamento de Dumbledore.
— “Para a srta. Hermione Granger, deixo o meu exemplar de Os contos de Beedle, o bardo, na esperança de que ela o ache divertido e instrutivo.”
Scrimgeour apanhou, então, na bolsa um livrinho antiquíssimo. A encadernação estava manchada e descascando em alguns pontos. Hermione recebeu-o do ministro em silêncio. Segurou o livro no colo e contemplou-o. O título estava escrito em runas, e uma lágrima caiu sobre os símbolos gravados em relevo.
— Por que acha que Dumbledore lhe deixou esse livro, srta. Granger? — perguntou Scrimgeour.
— Ele... ele sabia que eu gostava de ler — respondeu a garota com a voz embargada, enxugando os olhos nas mangas da roupa.
— Mas por que esse livro em especial?
— Não sei. Deve ter pensado que eu gostaria de lê-lo.
— Alguma vez discutiu códigos ou outros meios de transmitir mensagens secretas com Dumbledore?
— Não, nunca. — disse Hermione, ainda enxugando as lágrimas na manga. — E se o Ministério não encontrou nenhum código secreto nesse livro em trinta e um dias, duvido que eu vá encontrar.
A garota engoliu um soluço. Os três estavam sentados tão espremidos que Rony teve dificuldade em puxar o braço e passá-lo pelos ombros de Hermione. Scrimgeour tornou a consultar o testamento.
— “A Harry Potter” — leu ele — “deixo o pomo de ouro que ele capturou em seu primeiro jogo de quadribol em Hogwarts, para lembrar-lhe as recompensas da perseverança e da competência.”
Quando Scrimgeour tirou a bolinha de ouro do tamanho de uma noz, suas asas de prata esvoaçaram levemente. Oh, não.
— Por que Dumbledore lhe deixou este pomo? — perguntou Scrimgeour.
— Não faço a menor ideia. — respondeu Harry. — Pelas razões que o senhor acabou de ler, suponho... para me lembrar o que se pode obter quando se... persevera e o que mais seja.
— Então você acha que é apenas uma lembrança simbólica?
— Suponho que sim. Que mais poderia ser?
— Sou eu quem faz as pergunta.s — disse Scrimgeour, puxando sua cadeira para mais perto do sofá. O gesto me trouxe um arroubo de raiva, e acariciei o punho de minha varinha encaixada na cinta liga que prendia minhas meias cor da pele.
— Reparei que o seu bolo de aniversário tem a forma de um pomo de ouro. — disse o ministro. — Por quê?
Hermione riu ironicamente.
— Ah, não pode ser uma alusão ao fato de Harry ser um grande apanhador, isso seria óbvio demais. Deve haver uma mensagem secreta de Dumbledore escondida no glacê!
— Não acho que haja nada escondido no glacê — retrucou Scrimgeour —, mas um pomo seria um esconderijo muito bom para um pequeno objeto. A senhorita certamente sabe por quê.
Harry sacudiu os ombros. Hermione, no entanto, respondeu ao ministro:
— Porque os pomos guardam na memória o toque humano.
— Quê?! — exclamaram Harry e Rony juntos; os dois consideravam os conhecimentos de Hermione em quadribol insignificantes. Ahá, tomem essa, lerdões, pensei.
— Correto. — disse o ministro. — Um pomo não é tocado pela pele humana nua antes de ser liberado, nem mesmo por seu fabricante, que usa luvas. Ele carrega um encantamento mediante o qual é capaz de identificar o primeiro ser humano que o segurou, no caso de uma captura disputada, por exemplo. Este pomo — acrescentou ele erguendo a minúscula bola — se lembrará do seu toque, Potter. Ocorre-me que Dumbledore, que possuía uma prodigiosa competência em magia, apesar dos defeitos que porventura tivesse, talvez tenha enfeitiçado o pomo para que só se abra ao seu toque.
Mordi o lábio. Talvez Scrimgeour estivesse certo, e nesse caso… Como Harry poderia evitar receber o pomo com as mãos nuas diante do ministro?
— Você não responde. Talvez já saiba o que o pomo contém, não?
— Não. — respondeu Harry.
— Pegue. — disse Scrimgeour, calmamente.
Harry encarou os olhos amarelos do ministro e entendeu que não lhe restava opção senão obedecer. Estendeu a mão e Scrimgeour tornou a se inclinar para a frente e depositou o pomo na palma de sua mão lenta e deliberadamente.
Nada aconteceu. Quando os dedos de Harry se fecharam em torno do pomo, suas asinhas cansadas esvoaçaram e se imobilizaram. Scrimgeour, Rony e Hermione continuaram a olhar ansiosos para a bola, agora parcialmente oculta, como se esperassem que pudesse sofrer alguma transformação.
— Essa foi dramática. — comentou Harry, descontraído. Rony e Hermione riram juntos. Minha testa se franziu. Algo estava errado.
— Então terminamos o de nós três, não? — perguntou Hermione, tentando se erguer do sofá apertado.
— Ainda não. — respondeu Scrimgeour, que agora parecia mal-humorado. — Dumbledore lhe deixou outra herança, Potter.
— Qual? — perguntou ele, sua agitação se renovando. Desta vez Scrimgeour não se deu ao trabalho de ler o testamento.
— A espada de Godric Gryffindor.
Hermione e Rony enrijeceram. Harry olhou para os lados, procurando um sinal da bainha incrustada de rubis, mas Scrimgeour não a tirou da bolsa de couro que, de todo modo, parecia pequena demais para contê-la.
— Então, onde está? — tornou Harry, desconfiado.
— Infelizmente — disse Scrimgeour —, aquela espada não pertencia a Dumbledore para que dispusesse dela. A espada de Godric Gryffindor é uma importante peça histórica, e como tal pertence...
— Pertence a Harry! — completou Hermione, exaltada. — A espada o escolheu, foi ele quem a encontrou, saiu do Chapéu Seletor para as mãos dele...
— De acordo com fontes históricas confiáveis, a espada pode se apresentar a qualquer aluno da Grifinória que a mereça. — retrucou Scrimgeour. — Isto não a torna propriedade exclusiva do sr. Potter, seja o que for que Dumbledore tenha decidido. — O ministro coçou o queixo mal barbeado, estudando Harry. — Por que acha...?
— Que Dumbledore quis me dar a espada? — respondeu Harry visivelmente se esforçando para não explodir, mas falhando miseravelmente. — Talvez tenha achado que ficaria bonita na minha parede.
— Isto não é brincadeira, Potter! — vociferou Scrimgeour. — Teria sido porque Dumbledore acreditava que somente a espada de Godric Gryffindor poderia derrotar o herdeiro de Slytherin? Quis lhe dar aquela espada, Potter, porque acreditava, como tantos, que você está destinado a destruir Ele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado?
— Uma teoria interessante. Alguém já tentou transpassar Voldemort com uma espada? O Ministério talvez devesse encarregar alguém disso, em vez de perder tempo desmontando desiluminadores ou abafando fugas em massa de Azkaban. Então, é isso que o senhor está fazendo, ministro, se trancando em seu gabinete para tentar abrir um pomo? As pessoas estão morrendo, eu quase fui uma delas, Voldemort atravessou três condados me perseguindo, matou Olho-Tonto, mas o Ministério não disse uma palavra sobre a perda, disse? E ainda espera que cooperemos com o senhor!
— Você está indo longe demais! — gritou Scrimgeour, levantando-se; Harry pôs-se de pé também. O ministro se encaminhou para Harry, mancando, e lhe deu uma forte estocada no peito com a varinha: o golpe abriu um buraco como o de uma brasa de cigarro na camiseta do garoto antes que eu pudesse decidir o que fazer.
— Ei! — exclamou Rony, erguendo-se de um salto e empunhando a varinha, mas Harry disse:
— Não! Você quer dar a ele uma desculpa para nos prender?
— Lembrou-se de que não está na escola, não é? — perguntou Scrimgeour, bufando no rosto de Harry. — Lembrou-se de que não sou Dumbledore, que perdoava a sua insolência e insubordinação? Você pode usar essa cicatriz como uma coroa, mas não cabe a um garoto de dezessete anos me dizer como dirigir o Ministério! Já é hora de você aprender a ter respeito.
— E do senhor aprender a merecê-lo. — foi o que eu disse, me pondo entre Rufo Scrimgeour e Harry Potter, apontando a varinha diretamente para o rosto do homem.
— Ah, então agora a senhorita abre a boca. — ele ironizou.
— Sim, abro. — concordei com escárnio. — E posso abrir muito mais, se é que o senhor entende o que quero dizer. Posso abrir a boca e deixar escapar segredos ultrassecretos do Ministério que só o senhor e meia dúzia de integrantes da Suprema Corte sabem. Segredos tão podres quanto esse seu caráter sujo que achou que seria uma boa ideia me tirar da minha escola, do meu país, para me usar como uma isca, um pedaço de carne, uma vadia como vocês acham que as brasileiras são, para atender aos seus interesses. Pois eu digo — dei mais um passo, com a varinha apertada contra o pescoço do ministro da magia — que chega.
— E como você planeja provar o que diz? Hã? — questionou ele, escarnecendo de minha ameaça. — Se todos os registros que temos da sua existência foram destruídos e substituídos por meros documentos de intercâmbio?
Sem saber, Scrimgeour acabara de dizer exatamente o que eu queria ouvir: eu estava livre. Se o Ministério fosse tomado por Voldemort, eu não seria caçada. Não seria um alvo. Seria apenas uma intercambista sangue-puro que tentava terminar seus estudos na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
— O senhor não sabe com quem está lidando. — ameacei contundentemente, ignorando o que revelara. Ele caiu novamente sentado na poltrona. — Não sou uma de suas aurores, que ocultam o que veem para não arriscarem o emprego nem a própria sanidade. Eu simplesmente não tenho nada a perder. Então não chegue perto — quase colei meu rosto no dele, estreitando os olhos e baixando a voz para evitar que o trio atrás de mim ouvisse minhas palavras —, muito menos encoste nos meus amigos. Porque pode ser que o senhor venha a descobrir por que eu tenho a fama de melhor agente juvenil do mundo bruxo.
Um brilho úmido de medo se acendeu nos olhos dele.
Ouviu-se um tropel de passos, em seguida a porta da sala de visitas se abriu de repente e o sr. e a sra. Weasley entraram correndo.
— Nós... nós pensamos ter ouvido... — começou o sr. Weasley, absolutamente assustado ao ver a mim e ao ministro virtualmente se enfrentando.
— ... vozes alteradas. — ofegou a sra. Weasley.
Me afastei dois passos do ministro, que estava olhando para o buraco que abrira na camiseta de Harry. Pareceu se arrepender de ter perdido a cabeça.
— Não... não foi nada. — rosnou o ministro. — Lamento... sua atitude. — disse, encarando a mim e em seguida a Harry mais uma vez. — Pelo visto, você pensa que o Ministério não deseja o mesmo que você, o que Dumbledore desejava. Devíamos estar trabalhando juntos.
— Não gosto dos seus métodos, ministro. Está lembrado?
Ele ergueu o pulso direito e mostrou a Scrimgeour cicatrizes lívidas no dorso de sua mão, em que se liam Não devo contar mentiras. A expressão de Scrimgeour endureceu. Virou-se sem dizer mais nada e saiu mancando da sala. A sra. Weasley apressou-se em acompanhá-lo. Fui atrás, e agarrei o punho do homem sem nenhuma delicadeza.
— Dumbledore me deixou algo. E eu acho melhor que o senhor me entregue.
Paramos à porta dos fundos. Com os movimentos um tanto duros e mecânicos, Scrimgeour puxou o pergaminho que continha os últimos desejos de Alvo Dumbledore e leu para mim, engasgando:
— “À srta. , deixo este velho livro de mitologia grega, para que ela se recorde de procurar a raiz de seus problemas para resolvê-los, antes que cresçam e suas copas atinjam as estrelas”.
O ministro passou o livro para minha mão, observando-o com desdém; certamente, ele o considerava o menos interessante dos objetos herdados. Era um pequeno exemplar de capa dura, inteiramente de couro dourado, como de um unicórnio filhote. A ideia me deixou enjoada.
Rufo Scrimgeour voltou a fechar a bolsa e se aprumou.
— Cuidado com quem a senhorita for ameaçar a partir de agora. — Ergueu o queixo em desafio. — Não tem mais a proteção do Ministério.
— Que proteção? — cuspi. — Nunca a recebi. Nem de você… nem de meus pais.
O olhar de pena dele só me fez ter mais raiva ainda, mas contive a vontade de prolongar a discussão e o observei atravessar as barreiras mágicas e desaparatar.
Soltei um ar que nem ao menos lembrava de estar segurando. Apertei a lombada do livro na mão suada, nervosa por ter acabado de ameaçar o ministro da magia britânico. Contudo, um esboço de sorriso cresceu em meu rosto.
Draco sempre me dizia que o Chapéu Seletor estava errado, que eu deveria ter sido colocada na Sonserina. Mas eu nunca me senti tão grifinória quanto naquele momento.



Capítulo 03

POV

— Quando eu me casar — ia dizendo Fred enquanto eu me aproximava por trás do pequeno grupo, repuxando a gola de suas vestes —, não vou me preocupar com nenhuma dessas bobagens. Vocês todos podem vestir o que quiserem, e lançarei um Feitiço do Corpo Preso na mamãe até terminar a cerimônia.
Eram três horas da tarde do dia seguinte. Harry, Rony, Fred e Jorge estavam parados diante da grande tenda branca no pomar, aguardando a chegada dos convidados para o casamento. Harry tomara uma boa dose de Poção Polissuco e virara o duplo de um trouxa ruivo, morador da aldeia local, Ottery St. Catchpole, de quem Fred roubara alguns fios de cabelo usando um Feitiço Convocatório. O plano era apresentar Harry como o “primo Barny” e confiar que o grande número de parentes dos Weasley o camuflasse.
Eu vinha d’A Toca por trás deles, então ainda não tinham me visto. Passara a manhã toda ajudando Mione a colocar todos os itens que precisariam para a busca às Horcruxes dentro de sua bolsinha de contas, habilmente encantada. Enquanto ela separava os livros por ordem alfabética, decidi fazer o mesmo com meus pertences antes do casamento. Algo no fato de ter todas as minhas coisas perfeitamente à mão a qualquer momento, dentro de uma pequena clutch de festa, era reconfortante.
— Ela não esteve tão ruim assim hoje de manhã. — comentou Jorge. — Chorou um pouco porque Percy não veio, mas quem queria a presença dele? Ah, caramba, se preparem... aí vêm eles, olhem.
Vultos muito coloridos vinham surgindo do ar, um a um, na distante divisa do quintal. Em minutos formou-se uma procissão, que começou a serpear pelo jardim em direção à tenda. Flores exóticas e pássaros enfeitiçados esvoaçavam nos chapéus das bruxas, e pedras preciosas cintilavam nas gravatas de muitos bruxos; o murmúrio das conversas animadas foi crescendo cada vez mais, abafando o zumbido das abelhas à medida que a multidão se aproximava da tenda.
— Excelente, acho que estou avistando algumas primas veelas. — disse Jorge, espichando o pescoço para ver melhor. — Elas vão precisar de ajuda para entender os nossos costumes ingleses, podem deixar que eu cuido delas.
— Calma aí, seu mal-amado. — disse Fred, fazendo menção de ultrapassar o irmão quando virou para o lado e me viu pelo canto do olho.
Rapidamente parou e virou o corpo totalmente para mim, com um sorriso bobo.
— Por aqui, permettez-moi de assister vous. — falei para duas meninas loiras que vinham com o grupo, levando-as até a tenda e sendo seguida por Fred.
O espanto dele era compreensível. Meu vestido era rosa claro, com pequenos brilhos espalhados pelo tule, indo até meus joelhos e com uma saia esvoaçante que parecia flutuar como nuvens ao redor de minha cintura. Por mais que Fleur discordasse, a cor combinava perfeitamente com meus cabelos, que agora estavam profundamente ruivos como os da família Weasley, graças a meus conhecimentos de Transfiguração Humana. Na verdade, eu poderia passar perfeitamente por uma parenta distante, com as sardas leves que Hermione desenhara em meu rosto usando maquiagem. Era exatamente o objetivo: impedir que alguém reconhecesse uma agente do Ministério brasileiro no casamento.
— Oi, primo. — debochei, me virando para meu gêmeo favorito quando as garotas se acomodaram em mesas ao longe.
— Não me chame assim, por favor. — ele resmungou, puxando uma mecha vermelha de meu cabelo. — Não quero me sentir culpado pelos pensamentos incestuosos nojentos que acabei de ter.
Caí na risada. Aquele era o tipo de comentário que, se vindo de qualquer outra pessoa (Zabini, por exemplo), eu ficaria extremamente incomodada, mas com Fred era simplesmente natural e engraçado. Flertávamos e trocávamos piadinhas sujas, mas sem real intenção (pelo menos de minha parte).
Ele me estendeu o braço para me guiar até nossos lugares à mesa da família do noivo, e logo me juntei a Harry e Rony, que acabara de se afastar de uma senhora muito enrugada.
— Um pesadelo, essa Muriel! — exclamou Rony, enxugando a testa com a manga da roupa. — Costumava vir todo ano passar o Natal conosco, então, graças a Deus, se ofendeu porque Fred e Jorge estouraram uma bomba de bosta embaixo da cadeira dela na hora da ceia. Papai sempre comenta que ela deve ter riscado os dois do testamento, como se eles se importassem; nesse ritmo, eles vão acabar sendo os mais ricos da família... uau — acrescentou, pestanejando rapidamente quando viu Hermione vindo apressada ao nosso encontro. — Que máximo!
— Sempre o tom de surpresa. — respondeu Hermione, embora sorrisse. Usava um esvoaçante vestido vermelho com sapatos altos da mesma cor; seus cabelos estavam lisos e sedosos. — Sua tia-avó Muriel não concorda, acabei de encontrá-la lá em cima entregando a tiara a Fleur: “Ai, não, essa é a menina que nasceu trouxa?”, e em seguida “má postura e tornozelos finos demais”.
— Não se ofenda, ela é grosseira com todo o mundo. — disse Rony.
— Falando de Muriel? — perguntou Jorge, emergindo da tenda. — É, ela acabou de dizer que as minhas orelhas estão desiguais. Morcega velha. Mas eu gostaria que o tio Abílio ainda fosse vivo; ele era gargalhada certa em casamentos.
— Não foi ele que viu um Sinistro e morreu vinte e quatro horas depois? — perguntou Hermione.
— Bem, foi, ele ficou meio esquisito mais para o fim da vida. — admitiu Jorge.
— Mas, antes de ficar caduco, ele era a alma das festas. — comentou Fred. — Costumava beber uma garrafa inteira de uísque de fogo, depois ia para o meio do salão de dança, levantava as vestes e começava a tirar buquês de flores do...
— É, era realmente encantador. — interrompeu-o Hermione, enquanto Harry se acabava de rir.
— Jamais casou, não sei por quê. — disse Rony.
— Que curioso. — ironizei.
— Você me espanta. — replicou Hermione.
Estavam rindo tanto que fui a única a notar um convidado atrasado, um rapaz de cabelos escuros com um narigão curvo e grossas sobrancelhas negras, até ele apresentar o convite a Rony e dizer, com os olhos em Hermione:
— Você está marravilhosa!
— Vítor! — exclamou ela, deixando cair a bolsinha de contas, que produziu um baque desproporcional ao tamanho. Ao se abaixar, corando, para recuperá-la, disse: — Eu não sabia que você foi... nossa... que prazer ver... como vai?
As orelhas de Rony tinham mais uma vez ficado muito vermelhas.
Ali, na maior intimidade com minha amiga, estava Vítor Krum, um dos melhores apanhadores da atualidade, contra quem eu já tinha jogado havia muitos anos em um campeonato entre as escolas de magia Durmstrang, Castelobruxo e Mahoutokoro. Infelizmente perdera, mas posso ter o orgulho de dizer que foi uma disputa acirrada.
Examinando o convite de Krum como se não acreditasse em uma palavra do que via escrito, Rony falou, um pouco alto demais:
— Por que está aqui?
— Fleur me convidou. — respondeu Krum, erguendo as sobrancelhas. Harry apertou a mão do rapaz; depois, ofereceu-se para lhe mostrar onde sentar. Decidi segui-los.
Fazia sentido que a noiva o tivesse chamado; ele, assim como ela, fora um dos campeões do Torneio Tribruxo, que, conforme eu vira nas lembranças de Draco, culminara na morte de Cedrico Diggory. A aparição de Krum estava causando certo rebuliço, particularmente entre as primas veelas: afinal, era um famoso jogador de quadribol. Mas seu olhar confuso parou em mim.
— A senhorrita… — ele disse, quando pegou minha mão para beijá-la educadamente — me lembra muito uma jogadora de quadribol que conheci há alguns anos… Uma garotinha pequena que me deu muito trabalho na partida.
Sorri largamente, mas o convenci de que deveria ser apenas impressão dele.
Enquanto as pessoas ainda se esticavam para dar uma boa olhada em Krum, Rony, Hermione, Fred e Jorge vieram, apressados, pelo corredor central.
— Hora de sentar — disse Fred, bem próximo ao meu ouvido — ou vamos ser atropelados pela noiva.
Uma sensação de ansiedade perpassava a tenda quente, os murmúrios eram pontuados por ocasionais risadas de excitação. O sr. e a sra. Weasley entraram no corredor sorrindo e acenando para os parentes; ela trajando um conjunto novo de vestes ametistas e um chapéu da mesma cor.
No momento seguinte, Gui e Carlinhos se postaram à frente da tenda, os dois de vestes a rigor com grandes rosas brancas nas botoeiras; Fred deu um assovio de aprovação, que foi acompanhado por nova erupção de risinhos das primas veelas.
Então a multidão fez silêncio e o volume da música foi aumentando, aparentemente vinda dos balões dourados.
— Aaaah! — exclamou Hermione virando-se na cadeira para olhar a entrada.
Um suspiro coletivo se ergueu dos bruxos e bruxas reunidos quando Monsieur Delacour e Fleur entraram pelo corredor, ela deslizando, ele balançando o corpo com um largo sorriso no rosto. A noiva usava um vestido branco simples e parecia desprender uma forte aura prateada. Embora, por comparação, sua radiância normalmente empanasse a de qualquer pessoa, hoje embelezava todos sobre quem incidia. Gina e Gabrielle, ambas usando trajes dourados, pareciam ainda mais bonitas do que de costume, e quando Fleur chegou aonde estava Gui, ele pareceu jamais ter tido as cicatrizes que ganhara por ter enfrentado Lobo Greyback na noite em que fugi de Hogwarts.
— Senhoras e senhores. — anunciou uma voz ligeiramente cantada. — Estamos aqui reunidos para celebrar a união de dois fiéis bruxos que tiveram a sorte de experimentar a poderosa mágica que é o amor.
Nunca fui de me emocionar em casamentos, mas cada palavra que era enunciada naquele instante me tocava profundamente, como uma faca que logo em seguida despejava um bálsamo sobre as feridas abertas.
Amor. Por que a minha primeira experiência com amor tinha que ser tão dolorosa, tão errada, tão sofrida? O amor deveria ser bom. Não deveria me sufocar com culpa por amar uma pessoa que tirara a vida de outra, apesar de minha última súplica. Por que precisávamos estar de lados opostos de uma mesma guerra, ser lados opostos de uma mesma moeda? Ambos submetidos a missões que não queriam, manipulados por pais que tinham ideias estranhas do que era amar seus filhos. Sem irmãos, sem alguém com quem dividir o tormento. Desesperados pela aprovação, mimetizando comportamentos, trejeitos, pensamentos e atitudes.
O que nos diferenciava era o quê? O fato de eu ter conhecido antes o amor por meio de minhas amizades? Felícia, Malena, Luna, Neville, Hermione, Rony, Harry… Mas ele tinha Pansy, tinha Zabini, tinha Crabbe e Goyle. Será que tinha mesmo? Não sei.
Mas eu o tive. Não no sentido mais primordial da palavra, por mais que eu quisesse no dia em que fui para seu quarto e nos beijamos pela madrugada, queimando de uísque e desejo. Eu tive a confiança, o carinho, o amor de Draco. E ele tivera isso tudo de mim também.
Eu queria ter tido a chance de amá-lo no momento certo, sem que ele estivesse sob aquela absurda pressão de ter sua família assassinada por escolhas que ele nem mesmo teve a chance de fazer. Mas talvez ele não tivesse mudado se não fosse pelo sofrimento; teria continuado sendo o garoto mimado que perseguira Hermione, desdenhara de Rony e odiara Harry.
Nenhum daqueles devaneios, porém, mudaria a realidade: eu amava Draco Malfoy e aquele exato amor, espelhado nos corações, meu e dele, espelhara também a Marca Negra. Eu precisava desesperadamente resolver aquilo, pois não existia a mínima possibilidade de eu ir para Hogwarts com a caveira ofídia tatuada no braço.
— Guilherme Arthur, você aceita Fleur Isabelle como sua esposa e companheira de alma?
Na primeira fila, a sra. Weasley e Madame Delacour choravam baixinho em lencinhos de renda. Sons de trombeta ao fundo da tenda anunciaram que o professor Hagrid puxara do bolso um dos seus lenços tamanho-toalha. Hermione virou-se sorridente para Harry; seus olhos também estavam marejados. Bom, pelo menos eu poderia fingir que as lágrimas silenciosas que cortavam minhas bochechas eram de emoção pela linda cerimônia.
— Então eu os declaro unidos para toda a vida.
O bruxo de cabelos em tufos ergueu a varinha sobre as cabeças de Gui e Fleur e uma chuva de estrelas caiu sobre os noivos, envolvendo em espirais os seus corpos agora entrelaçados.
Enquanto Fred e Jorge puxavam uma salva de palmas, os balões dourados no alto estouraram: flutuaram no ar aves do paraíso e minúsculos sinos de prata que somaram seus cantos e tinidos à zoada geral.
— Senhoras e senhores! — falou o bruxo de cabelos em tufos. — Por favor, queiram se levantar!
Todos obedeceram; ele acenou a varinha. As cadeiras em que as pessoas tinham estado sentadas se ergueram graciosamente no ar, ao mesmo tempo que as paredes da tenda desapareciam, deixando agora os convidados apenas sob o toldo sustentado pelos postes dourados, com uma vista gloriosa do pomar ensolarado e do campo ao redor. Em seguida, uma poça de ouro líquido se espalhou do centro para a periferia da tenda formando uma pista de dança reluzente; as cadeiras suspensas se agruparam em torno das mesinhas, cobertas com toalhas brancas, o conjunto flutuou suavemente de volta ao jardim, e a banda de paletós dourados marchou em direção a um pódio.
A música começou a soar, e me afastei a um canto da tenda para retocar a maquiagem levemente borrada. Abri o espelho do estojinho de pó e fui passando um pouco sobre as bochechas, e as sardas pintadas sumiram debaixo da camada de produto.
— Agora você não parece tanto uma Weasley. — Fred comentou quando nossos olhos se encontraram pelo espelhinho.
— Achei que você tinha dito que preferia assim.
— Prefiro.
Fechei o pó compacto com um estalo e o recoloquei na bolsa. Ele segurou minha mão pomposamente e deixou um beijinho no dorso.
— Me concede esta dança, senhorita?
Entrei no jogo, segurando meu vestido ao lhe fazer uma mesura.
— Claro, nobre senhor.
A música animada que vinha da banda não era nem um pouco condizente com nossa brincadeirinha, mas não tinha importância. Logo descobri que Fred era um ótimo parceiro de dança, espirituoso e que sabia exatamente como me guiar.
O sol ia se pondo aos poucos, colorindo o céu de amarelo, laranja, vermelho, púrpura e por fim preto, mas a festa parecia estar longe de acabar. Era um pontinho de luz no meio das trevas da guerra, e ninguém parecia inclinado a deixar que se extinguisse.
— E aí, animada para seu último ano em Hogwarts? — o ruivo me questionou, quando fomos em direção ao bar para pegar algo para beber.
Minha pele brilhava um pouco pelo suor e calor. Porém, a pergunta, aparentemente inocente, foi como um balde de gelo na minha cara, um retorno à realidade da qual eu queria escapar. Não queria ter que tirar aquele vestido de mangas longas que cobria a Marca Negra, não queria fazer meus cabelos voltarem à cor escura que tinham, não queria sair da Toca e ter que encarar ou Hogwarts ou o Ministério brasileiro.
Minha demora em responder fez murchar o sorriso no rosto de Fred, que apoiou o braço em meu ombro e me encarou com preocupação.
— Falei alguma coisa errada?
— Não. — suspirei. — Quer dizer, mais ou menos… É complicado.
— Temos a noite toda. — ele checou o relógio de pulso teatralmente e me puxou para o lado de fora, fresco e escuro, da tenda.
Lá, o negrume do firmamento atraiu meu olhar marejado como um ímã, procurando entre os pontos prateados das estrelas uma constelação em especial. Foi só vê-la que uma pequena lágrima escorreu.
— Já pode me dizer quem foi o idiota que te deixou assim. — ele disse, erguendo o queixo e fazendo uma pose ameaçadora.
Sorri fraco.
— Por que você acha que isso tem a ver com um garoto?
— Porque você é forte demais para chorar, . Soube disso quando recebi sua carta. — Fred encolheu os ombros. — Você parece que organiza a sua vida de uma forma tão metódica que, para quem olha de fora, não sobra espaço para aflições mundanas. A única coisa que te faria chorar é a única que você não pode controlar: o amor.
A simplicidade com que ele disse aquilo fez meu rosto se contorcer com o choro, e logo me senti ser envolvida pelo calor de seu abraço.
— Eu ‘tô com medo. — confessei, choramingando como não fazia havia anos.
— Você, com medo? — ele deu uma risadinha. — A garota que ultrapassou as barreiras mágicas de Hogwarts durante uma invasão de Comensais da Morte e escapou ilesa sem ninguém saber?
Ri com o rosto pressionado contra o peito dele. Tinha cheiro de sabão artesanal e desodorante masculino. Eu não tinha escapado exatamente ilesa, mas não podia dizer aquilo a ele.
— Tenho medo do que… do que eu sinto. É… esmagador.
— Mas o sentimento está dentro de você, . Você pode não saber como controlar, e isso assusta, mas ele está dentro de você ainda assim. Você tem um poder, ainda que mínimo, sobre ele. — Os dedos dele recolheram as lágrimas com delicadeza. — Esse garoto… Ele te fez mal?
— Não. — mas a resposta não pareceu certa. — Quer dizer… Ai, é complicado. Tenho medo de voltar a Hogwarts e precisar encarar isso tudo, entende?
— Entendo. Eu mesmo larguei meu último ano de Hogwarts, por motivos totalmente diferentes, claro… Mas eu sei o que é sentir que não pertence a algum lugar porque a presença de outra pessoa entra em conflito com a sua. No seu caso, é um garoto. No meu, era a sapa velha da Dolores Umbridge.
Dei uma gargalhada. Ele não cansava de tentar me animar com piadinhas nunca?
— Mas agora falando sério. Você tem o quê, dezesseis ou dezessete anos, certo? Linda, você não deveria estar se preocupando em encontrar a pessoa certa agora. — ele acariciou meus cabelos, enganchando os dedos em minha nuca. — Se ele for o cara para você, isso vai dar certo. Se o sentimento for bom, puro e verdadeiro, vocês vão se encontrar, apesar de todos os obstáculos…
Meu coração se desacelerava aos poucos, sendo inundado por uma tranquilidade que estivera sentindo falta.
— E nada impede que você se divirta com a pessoa errada, sabe. — insinuou ele, um esboço de risinho nascendo no canto da boca.
— Weasley! — o adverti, rindo de novo e dando um tapa fraco em seu tórax. — Ele já é a pessoa errada, esse é exatamente o ponto.
— Nada impede que você se divirta com outra pessoa errada, então. — ele cedeu, implicando comigo.
Quando ele disse aquilo, saí do conforto de seu peito e aproximei meu rosto do seu. Não foi paixão, nem desejo que eu senti, mas sim uma gratidão tão arrebatadora que aquela ideia parecia estranhamente certa.
— Você está muito bonita hoje. — ele sussurrou, subitamente sério, alternando as pupilas dilatadas entre meus olhos e meus lábios.
— Só hoje? — ironizei.
— É. — ele respondeu com sarcasmo e se inclinou para juntar a boca à minha.
O beijo de Fred era calmo, gostoso e seguro. Suas mãos seguravam minha cintura com delicadeza, não com a posse que Draco costumava me agarrar. Os lábios eram macios e gentis, sem as mordidas lentas que o sonserino me dava. A língua que tocava a minha era suave, mas não acendia meu corpo do jeito que…
Apertei os olhos com mais força. Que diabos eu estava pensando? Aquele era Fred Weasley, irmão de Rony, um garoto mais velho, atraente e engraçado, exatamente meu tipo. Aquela era uma noite linda, possivelmente uma das últimas noites que eu teria de pura alegria e diversão. E pronto: aqueles pensamentos preencheram minha cabeça ao ponto de eu conseguir varrer para um canto obscuro do cérebro as comparações com minhas lembranças de Malfoy…
Até que entreabri minhas pálpebras milimetricamente, e um borrão de prata invadiu meu campo de visão.
Me afastei de Fred com um susto, deixando-o desnorteado.
— Você viu aquilo? — apontei para a fonte da luz atrás dele.
— Ah, qual é, eu beijo tão mal assim? — ele gracejou, mas a diversão sumiu do semblante quando girou nos calcanhares e viu o animal prateado que flutuava pela grama.
Agarrei a mão dele e o puxei comigo, sentindo as folhas da grama arranhando meus tornozelos, e adentramos a tenda agora estranhamente silenciosa.
Naquele momento, algo volumoso e prateado atravessou o toldo sobre a pista de dança. Gracioso e reluzente, o lince aterrissou com leveza entre os espantados convidados. Cabeças se viraram, e as pessoas que estavam mais próximas congelaram absurdamente em meio a passos de dança. Então a boca do Patrono se abriu desmesuradamente e ele anunciou numa voz alta, grave e lenta:
— O Ministério caiu. Scrimgeour está morto. Eles estão vindo.
Foi só quando o primeiro grito soou que a realização caiu sobre mim: minha dança com o demônio estava longe de terminar.



Capítulo 04

Draco POV

Meu cômodo preferido da Mansão Malfoy sempre foi a sala de armas do meu pai. Numa casa trouxa, talvez um lugar assim estivesse cheio de espingardas e rifles, mas não ali: a sala comprida abrigava uma coleção impressionante de artigos das trevas. Ao passo que Lúcio Malfoy enxergava as artes malignas como algo que deveria se submeter a ele, eu as enxergava como a fonte de um poder que eu gostaria de entender, mas não obter.
Contudo, desde que o Lorde das Trevas resolvera transformar minha casa em seu quartel-general, aquela sala passara a ser a que eu mais detestava. Era onde aconteciam as punições. Era onde ele me torturara no Natal do ano anterior, me torturara quando saí de Hogwarts na noite da morte de Dumbledore e ameaçara minha mãe em um sussurro agudo que ainda me causava pesadelos. E naquele momento, na sala iluminada apenas pela lareira, um Comensal grandalhão e louro estava no chão, berrando e se contorcendo, graças à magia que provinha de minha varinha.
Thorfinn Rowle. Filho de Euphemia Rowle, uma senhora de nariz empinado e olhos astutos que frequentava muito a Mansão Malfoy desde que eu voltara de Hogwarts depois do sexto ano, apesar de não ser uma Comensal da Morte, e eu não conseguia entender. Contudo, a mera ideia de ela aparecer enquanto eu torturava seu filho me fez vacilar e o feitiço se desfazer.
— Por favor… Por favor… — ele implorou, ofegando e com a voz rascante de quem gritara demais. — Eu não sei… não sei para onde ele foi… Perseguimos os três até a rua Tottenham Court, é tudo que sei, é a verdade…
Todas as vezes que o Lorde das Trevas me obrigava a aplicar aquele tipo de punição (que ele sabia muito bem que era mais doloroso para mim do que simplesmente enunciar uma palavra mágica), um único pensamento era capaz de acender a raiva que a Maldição Cruciatus demandava: forçar a mim mesmo a acreditar que aquele bruxo em específico era quem tinha matado . Aquela mera suposição, sobre a qual eu muito provavelmente nunca descobriria a verdade, era suficiente para me consumir com ódio, enegrecendo e envenenando cada pedaço de minha alma e coração com a vingança que eu queria em nome de . Ela, uma garota tão incrível; uma garota que viera de longe e sempre fizera tudo para me ajudar; a garota que eu amava, estava morta por culpa direta de algum deles. Mas, independente de quem tivesse lançado a Maldição da Morte sobre ela, a culpa real continuava sendo exclusiva e totalmente minha.
— Mais, Rowle, ou vamos encerrar logo e dar você para Nagini comer? Lorde Voldemort não tem certeza se desta vez irá lhe perdoar... Foi para isso que me chamou, para me dizer que Harry Potter tornou a escapar? — O bruxo de feições ofídias estreitou mais ainda os olhos vermelhos, mas dessa vez em minha direção. — Draco, dê a Rowle mais uma amostra do nosso desagrado… Faça isso ou sinta pessoalmente a minha ira!
Uma tora de madeira caiu na lareira, me sobressaltando. As chamas se avivaram e o calor subiu junto com meu medo…
Crucio.
Me senti podre por dentro quando os urros de sofrimento recomeçaram. O Lorde das Trevas desviou o olhar de mim, impassível, enfurnando a capa às suas costas e apertando as têmporas. Aproveitei o breve momento de distração de meu mestre para realizar o que já se tornara um pequeno hábito meu: praticar Legilimência.
Thorfinn fora enviado em uma missão ao casamento do Weasley mais velho com Fleur Delacour, e apesar de Potter estar lá, ele não conseguiu capturá-lo. Em seguida, perseguiu o garoto, Weasley e Granger pela Londres trouxa e mesmo assim não conseguiu impedi-los de fugir. Eu estava passeando por suas lembranças quando um vislumbre me gelou a espinha.
Foi muito rápido. Debaixo de uma tenda branca, provavelmente armada para a cerimônia de casamento, se instalara o caos. Observando tudo através dos olhos de Rowle, vi um dos gêmeos desviar de uma maldição, a sra. Weasley erguer um Feitiço Escudo na frente da filha a seu lado, Ronald gritar por Harry e Hermione, e Gina duelar espetacularmente com Dolohov, com uma ferocidade e habilidade que eu nunca tinha visto ninguém exibir. Os jatos de luz pareciam errá-la por milímetros, e ela continuava lançando azarações e maldições numa velocidade absurda, acertando seu alvo e desnorteando-o o suficiente para, por fim, sair debaixo do toldo e seus cabelos cor de cobre brilharem na luz da lua.
Mas não… não poderia ser Gina, ela estava do outro lado, eu acabara de ver…
No instante antes de Thorfinn Rowle desaparatar, na tentativa de seguir o trio da Grifinória que fugia, a garota ruiva se virou na direção dele, permitindo que eu visse claramente as feições de .
Cambaleei para trás. A interrupção da tortura chamou a atenção do Lorde das Trevas, mas eu simplesmente não consegui me importar com aquilo depois de vê-la ali, linda e viva, naquelas lembranças.
— Me desculpe, milorde. — Limpei a garganta e ergui a varinha de novo, apontando para o corpo inconsciente de Thor no chão.
— Assumirei a partir daqui. Está progredindo, Draco. Quem sabe, se continuar assim, você não volte às minhas graças como antes.
Que se fodessem as graças dele. Minha mão suada apertou o punho da varinha com mais força, sentindo uma energia alucinada tomar conta de mim. Não. estava morta. Não tinham encontrado o corpo dela, segundo o que Pansy descobrira, mas eu ouvi a maldição. Ouvi alguém cair, logo atrás de mim onde eu a soltara. Era impossível que ela estivesse viva.
Tremendo, subi correndo as escadas de pedra até meu quarto, e tirei a roupa encharcada de suor. Só com a roupa de baixo, remexi com pressa em minhas gavetas e peguei um pequeno frasco de Poção para o Sono Sem Sonhos, meu mais novo vício para impedir os pesadelos, e derramei todo o conteúdo na minha boca. O líquido já era tão concentrado que dei alguns passos em direção à cama e tombei sobre o colchão, sentindo meu corpo anestesiado. Meu coração, porém, parecia ter sido dilacerado por aquela falsa esperança. A última imagem que vi em minha mente antes de apagar foi o sorriso de , o sorriso que eu nunca mais veria de novo.

POV

O costumeiro som de aparatação pareceu ecoar mais alto que o normal no quarto do Caldeirão Furado. O tom avermelhado de meus cabelos já estava se desvanecendo, mas a coloração rubra pareceu ter migrado para minha pele, que estava quente e corada para corresponder a meu estado afoito e nervoso.
Não tinha nem dez minutos que eu e Fred estivéramos sob as estrelas, trocando um beijo calmo e grato, mas era como se tivessem se passado horas a fio. Hordas de Comensais da Morte simplesmente apareceram na tenda do casamento, sabe-se lá como burlando os inúmeros feitiços de proteção instalados.
Grata à minha intuição aguçada que me levara a colocar meus pertences dentro da bolsa de festa, tirei o vestido, que já estava todo esfrangalhado e sujo pela luta que eu acabara de travar com um Comensal da Morte. Eu era acostumada a duelar, mas aquilo… Duelar contra um homem que tinha a mesma Marca que eu no braço era absurdamente difícil. A tatuagem ardia mais e mais a cada feitiço que eu lançava, como se minha própria magia protestasse contra o ataque que eu infligia no meu adversário. Somada à dor física havia a preocupação de o homem estar sentindo o mesmo, o que poderia me delatar.
Só usando minhas roupas íntimas, abri a bolsa e fui tirando tudo: livros, roupas, malão, vassoura. Usei a varinha para organizar tudo em seus lugares dentro do quarto, e finalmente apoiei as costas na parede, deixando o choro vir.
Fred me obrigara a desaparatar tão logo o irmão e os amigos sumiram do quintal. Segurara meus ombros, logo depois de estuporar meu oponente de duelo pelas costas, e falou:
, sai daqui, por favor, vamos dar um jeito! Vai embora!
Eu relutei. Hesitei em deixar todos para trás, sabendo que tinha a capacidade para derrotar todos os Comensais ali, se quisesse. Mas e se, por um golpe do destino, eles me capturassem? Veriam minha Marca Negra e, caso não me matassem e matassem Draco no ato (se é que já não o tinham executado), me obrigariam a ir atrás do trio de ouro, para me aproveitar da confiança que construí com eles. E eu estava cansada daquilo. Cansada de ser uma espiã, cansada de ser tratada como uma arma perigosa e imprevisível em vez da garota jovem que eu era.
Então, segundos depois, eu estava ali. Na quietude quase desagradável de um quarto vazio do Caldeirão Furado, o mesmo que eu ocupara por tanto tempo antes de minha curta estada na casa dos Weasley. Sozinha, ali, percebendo o que eu vinha relutando para aceitar: não tinha condição nenhuma de eu voltar a Hogwarts. Não enquanto Comensais da Morte estavam tão audazes quanto eu vira havia pouco. Eu lutara contra um, dando bastante trabalho a ele e por fim derrubando-o. E se ele estivesse na escola? Poderia fazer qualquer coisa comigo e sairia impune. Eu não ficara exatamente irreconhecível com cabelos ruivos…
Não. Não havia outra opção. Abrindo o malão em busca de roupas para ir fazer meu check-in na hospedaria, tive a convicção de que o melhor a fazer era prosseguir em minha busca pela resolução da profecia e quem sabe usar minha Marca Negra a meu favor, talvez para localizar os outros portadores. Eu precisava aceitar que aquilo era permanente e precisaria aprender a conviver com aquilo.
Logo no topo dos pertences da bagagem, estava o livro dourado que Dumbledore me deixara. Nas semanas seguintes, meus esforços e toda a minha habilidade em Feitiços se dedicaram exclusivamente a tentar desvendar o que o falecido diretor poderia ter deixado de mensagem ali para mim. Tudo parecia ser irritantemente em vão, e a cada dia eu me sentia mais tentada a aceitar o que Hermione dissera: se o Ministério não encontrara nenhum código secreto no objeto em trinta e um dias, dificilmente eu encontraria, mesmo com meu treinamento extensivo. Por algum motivo, eu não me sentia pronta para abrir o volume e lê-lo em busca de códigos secretos. Aquele livro encerrava uma aura de pureza que eu temia conspurcar, então me limitava apenas a abri-lo e executar encantamentos para fazê-lo flutuar como um móbile de criança, sob o qual eu adormecia sob o efeito de poções para não ter pesadelos.
O céu estava tempestuoso naquele primeiro de setembro. Como em praticamente todos os dias depois do ataque ao casamento, quase um mês antes, eu estava sentada preguiçosamente na poltrona ao lado da janela, com um grosso livro aberto no capítulo sobre o Feitiço do Patrono.

O Patrono que representa um ovo é um dos mais raros que já foram analisados por estudiosos do mundo bruxo. O ovo é um símbolo de nascimento e criação, o qual se manifesta por meio da transformação, sendo, portanto, um repositório "de uma nova vida”. Os casos já documentados narram a ocorrência desta forma de Patrono em bruxos que nunca tinham conseguido executar esse feitiço de maneira corpórea, e que estivessem passando por profundas transformações emocionais (vide capítulo 357, “Ligações Mágicas”).

Meus olhos treinados iam descendo rapidamente pelas linhas pela força do hábito. Mesmo que racionalmente eu soubesse que estava tudo bem, que eu estava segura e tinha o dia todo livre para planejar minha próxima tentativa de remover a Marca ou desvendar o meu futuro escrito nas estrelas, meus instintos de alerta estavam ligados. Era o dia em que eu deveria estar indo para Hogwarts, e o relógio se aproximava rapidamente das 11 horas. Voltei o olhar ao parágrafo que eu já quase decorara de tanto reler.

O Patrono que assume um formato de dragão representa um elemento interno proeminente nos bruxos que o executam. Tal elemento varia, mas de forma geral é o fogo; há forte ambição e paixão neste indivíduo, bem como inigualável ferocidade. Isto não significa, obrigatoriamente, tratar-se de um bruxo ou bruxa enraivecido, mas sim que possui um direcionamento que o estimula com todo o seu ser. Aqueles que produzem este Patrono podem ser impulsivos; contudo, isto é combinado com ótimos instintos e reações calculadas. Estes indivíduos também tendem a encapsular suas emoções para que não nublem seus julgamentos e responsabilidade.

Inferno de livro. Não era à toa que Hermione era tão obcecada por leitura: eu entendia o apelo de se agarrar a recursos que estavam sempre certos, por mais amarga que fosse a verdade.
A capa lisa de couro do volume, porém, escorregou pelo tecido de minha calça preta de moletom quando me sobressaltei, e caiu com um estrondo no chão. Alguém estava batendo à porta.
Estiquei a mão para minha mesinha de cabeceira, enfiei o livrinho dourado de mitologia de Dumbledore entre o estrado da cama e o colchão e empunhei minha varinha, apontando-a ameaçadoramente em direção à porta. Firmei as pernas e joelhos no piso empoeirado, como minha amiga campeã de jiu jitsu, Jussara, me ensinara, e esperei a segunda batida insistente. Ela não veio, mas eu podia ouvir a respiração baixa de uma pessoa do lado de fora. Um pressentimento gelado e horrível se instalou em minhas entranhas, e abri a porta com um aceno de varinha, o suficiente para enxergar quem era o idiota que interrompia minha solidão forçada.
— Bom dia, srta. . Não deveria estar na estação de King’s Cross?
As íris escuras e o cabelo longo de Hélio Cairu me encaravam pela fresta que exibia a ele meu quarto de hotel.
Dei um chute na porta, fechando-a na cara dele.
Filho da puta. Desgraçado. Minha mente se encheu de palavrões em todas as línguas que eu conhecia, mágicas ou trouxas, clássicas ou modernas, e mesmo assim não foi o suficiente para expressar o arroubo de ódio que dominou o meu corpo naquele instante. Eu queria gritar, queria destruir aquela porra de quarto do teto ao piso, queria despedaçar meu instrutor com minhas próprias mãos.
Porém, a fechadura girou sozinha, como eu sabia que faria, e Cairu apareceu na passagem aberta, recolocando calmamente um pequeno clipe de ouro em sua gravata antiquada. Eu não era inocente a ponto de achar que ele respeitaria meu espaço e se absteria de usar seus truques não-mágicos comigo; afinal, fora ele quem me ensinara a apelar para aqueles artifícios quando magia não funcionava. Na terceira semana de treinamento, com 11 anos, eu já dominava a arte de abrir fechaduras com praticamente qualquer objeto fino e flexível o suficiente.
— Você não é bem-vindo. — Minha voz saiu estrangulada, demonstrando toda a fraqueza e abalo que eu queria esconder dele. Pelo menos minha mão da varinha não tremia.
— Eu sei. Mas você sabe que eu não ligo.
Seu olhar desceu de meu rosto até o antebraço esquerdo, exposto devido à camiseta que eu usava, e pareceu registrar cada pequeno detalhe dos traços que compunham a Marca Negra. Não esboçou reação. Caminhou até minha poltrona, sentou-se sem a menor cerimônia, entrelaçou os dedos das duas mãos e me encarou com as sobrancelhas erguidas, do jeito que fazia nas raras vezes em que me dava permissão para questioná-lo.
— Por quê?
— Cinco anos de treinamento intensivo em Princípios de Psicologia, fluência em todos os idiomas fornecidos pelo curso de Línguas Mágicas e a senhorita só consegue formular essa pergunta?
Ergui o queixo.
— Está bem. — Ele cruzou as pernas. — “Por quê” o quê? Por que estou aqui? Por que isso aconteceu?
— Por que Clarissa Manteuff não me contou?
O sorriso besta dele se endureceu. Eu esperava que ele dissesse “porque ela é uma incompetente” ou “porque ela não sabia”, mas a verdadeira resposta fez um nó se formar em minha barriga.
— Porque eu pedi a ela.
— O quê?! — Meus instintos de luta foram ativados quando a raiva veio intensamente, mas a resposta do meu corpo foi fugir; dei passos para trás até sentir minhas escápulas se chocarem contra a parede.
— Desde quando a toda-poderosa-e-melhor-agente-juvenil-do-mundo-bruxo precisa desse tipo de informação idiota? Achei que não se apaixonar pelo alvo fosse uma questão de bom senso.
— Então você aparece aqui depois de todo esse tempo, depois de aparecer em Hogwarts numa estúpida festa de Natal e nem ao menos tentar me contatar, para tripudiar e esfregar na minha cara esse título estúpido que eu nunca nem ao menos quis? O que houve, sua vassoura ficou presa na alfândega? Ou Madame Nor-r-ra tinha comido sua língua na sala de Slughorn? — A comida de Horácio estava realmente boa. — gracejou. — E não estou apreciando seu tom debochado, princesinha. Não temos tempo o suficiente para isso. — Ele consultou o relógio na parede. Eram 10:58.
— Eu aprendi essa arte com o melhor. — fui sarcástica de volta.
— Quem? Eu? Ou Draco Malfoy?
Desviei o olhar do dele, sentindo minhas pálpebras pesarem e arderem de raiva e vergonha. O que ele estava jogando na minha cara era exatamente o que já se passara pela minha cabeça milhões de vezes: Manteuff não deveria precisar me alertar quanto ao risco de me apaixonar, porque era óbvio que eu não deveria nutrir aquele tipo de sentimento por meu alvo. E, bom… Minha reputação me precedia, quer eu gostasse disso ou não.
— Você teria voltado a Castelobruxo. — continuou Hélio. — É isso que você queria? Abandonar Hogwarts? Abandonar o garoto?
— Não é essa a questão, e você não tem direito de falar sobre ele. — agora sim meu indicador tremia de raiva quando o apontei para o rosto dele. — Não quando eu posso ter destruído a vida dele a troco de nada, porque a guerra foi iniciada do mesmo jeito. E talvez sim, talvez eu quisesse voltar à minha vida!
— Não seja hipócrita. — ele desdenhou. — Eu sempre via em você a vontade esmagadora de fugir de perto dos seus pais. Por mais que você gostasse de ser uma agente, você sempre quis fazer suas próprias escolhas; não foi à toa que concordou em embarcar na missão para Hogwarts.
— O que isso tem a ver com o fato de você ter pedido a Clarissa Manteuff que escondesse informações de mim?
— Você não entende? Simplesmente não faria diferença se você soubesse ou não! O mínimo de informação a que você tivesse acesso, melhor seria para o desenrolar dos eventos, porque seria uma preocupação a menos!
— Não faria diferença? — repeti, incrédula. — Óbvio que faria! Talvez eu pudesse ter evitado tudo isso!
— Evitado de se apaixonar? — Ele estalou a língua, escarnecendo. — Sempre tão cheia de si, srta. .
A postura calma dele estava me dando nos nervos.
— Essa decisão cabia a mim. — cruzei os braços, encarando-o com dureza ao ignorar a crítica. — Eu tinha que saber!
— Eu sempre soube que a sua determinação a levaria longe, mas ao mesmo tempo tinha a certeza de que sua prepotência te levaria longe demais. — Cairu franziu as grossas sobrancelhas.
Fiz menção de protestar, mas ele ergueu a mão e me calei. Meu instrutor se levantou da poltrona, caminhou lentamente, parou e, indicando o vazio entre nós no ar do quarto, ordenou:
— Execute o Feitiço do Patrono.
Meu estômago afundou.
— Eu não sei.
Seu olhar ficou mais profundo no meu, e ele não precisou repetir. Não era medo que ele causava em mim, mas sim um temor e respeito que, apesar de tudo, eu não ousava contrariar.
Expecto Patronum! — bradei, apertando o punho de minha varinha com mais força do que o necessário.
O fio prateado saiu em linha reta, aos poucos se espiralando no ar, e por fim formando os contornos de um enorme dragão, como eu já sabia muito bem. A gigantesca criatura, uma vez inteira, se empertigou e cuspiu fogo cor de prata com todo a força sobre Hélio Cairu, como se o visse como uma ameaça a minhas lembranças felizes. Meu mestre, porém, apenas sorriu muito levemente.
— Como você pode dizer que isto — ele estendeu a mão para meu Patrono, que agora voava alegremente ao redor como se fosse um bichinho de estimação — poderia ter sido evitado? Como você pode dizer que vocês não foram predestinados um ao outro?
Uma lágrima silenciosa escorreu por minha bochecha enquanto eu absorvia o impacto do que ele dissera, porque eu sabia que era verdade.
— Eu falei com Clarissa Manteuff porque a solução da sua profecia está em Hogwarts. — ele hesitou. — Mas tenho a impressão de que, no fundo, você só aceitou essa missão porque sabia disso.
Eu assenti levemente. — A garota além-mar… — …acenderá as chamas do fim sob as estrelas. — ele completou. — Eu sei. Eu escondi sua profecia, srta. , como me pediu. Retirei o globo de vidro do Departamento de Mistérios, para evitar que seus pais vissem e interferissem ainda mais no seu destino.
— Mas pelo visto você não se incomodou ao interferir, não é? — ironizei, cruzando os braços na defensiva.
Cairu ignorou minha atitude. O dragão prateado desapareceu no ar.
— Eu trouxe algo para você.
Entre seu dedo médio e indicador da mão direita estava um envelope selado com o emblema do Ministério brasileiro. Ele me entregou o papel grosso e balançou a cabeça, indicando que eu abrisse sob seus olhos atentos. Rompi o lacre de cera e tirei a folha de lá de dentro.

Rio de Janeiro, 1º de setembro de 1997
Departamento de Aurores, Divisão Juvenil

De acordo com o Voto Perpétuo realizado entre as dezesseis agentes da Divisão Juvenil do Departamento de Aurores ao entrarem para esta corporação, fidelidade vitalícia foi jurada entre as participantes. Nunca poderiam ser reveladas as origens, razões ou naturezas deste esquadrão. No entanto, as demais informações que não prejudiquem as demais integrantes da divisão juvenil foram deixadas a cargo das bruxas envolvidas no encantamento de promessa.
Desta forma, por meio deste documento, as agentes juvenis desta corporação declaram à agente nº 16, , que ela tem autorização para revelar informações cruciais aos indivíduos que, segundo seu próprio julgamento, sejam dignos de confiança e que devam saber sobre as circunstâncias que a levaram a Hogwarts, os objetivos de sua missão e aspectos sobre seu treinamento e trajetória como auror juvenil. Permanece vedada somente a permissão de revelar localizações ou identidades das demais agentes.
As quinze desejam a ela todo o sucesso e expressam seu desejo de em breve vê-la segura, realizada e, acima de tudo, feliz.


Quinze assinaturas, com cujas signatárias eu crescera desde os 11 anos, adornavam o fim da folha.
— Imagino que… — Minha voz falhou, embargada, e pigarreei. — Imagino que meus pais não saibam da existência desta folha.
— Evidentemente. — ele confirmou. — O Voto Perpétuo que você fez foi com elas. Jurou fidelidade a elas. E essa carta permite que você burle o encantamento, porque garante que qualquer decisão que você tome ainda será fiel às garotas.
Sorri, chorando silenciosamente de emoção e gratidão.
— Você disse que queria fazer sua escolha. Pois bem, você pode fazer agora, sem riscos. Isso é magia de sangue. Aproveite a sua chance. — Ele apoiou a mão em meu ombro, fitando intensamente meus olhos marejados. — Suas amigas amam você, e esse amor, como você sabe muito bem, é mais poderoso que qualquer outro tipo de magia.
Eu ainda estava estática quando ele se afastou para sair.
— E, . — ele parou sob o umbral da porta, me chamando pelo primeiro nome pela primeira vez naquela conversa. — Ele está vivo. E está a caminho de Hogwarts.

Draco POV

— Sinceramente, mas que coisa ridícula ter que voltar para a escola num momento quanto esse, ainda mais Hogwarts. — bufei, girando o anel da família Malfoy no dedo.
Blásio nem ergueu os olhos do livro que estava lendo. Pansy estava sentada ao lado de Daphne no assento do trem, enquanto a loira fazia uma trança complicada em seus cabelos curtos. Nenhuma das duas pareceu prestar atenção no que eu dizia, encapsuladas numa bolha do amor que me nauseava. Ao contrário de mim, meus três colegas ainda usavam suas roupas normais: Pansy trajava um vestido cinza Dolce & Gabbana, Zabini ostentava uma jaqueta Gucci e os sapatos de Daphne eram um par de Louboutins de renda preta. Me senti sufocado ao lembrar de um certo par de botas Prada enfeitando o mais belo par de pernas que eu tivera o prazer de ver, então continuei falando para evitar que o silêncio me prendesse a meus próprios pensamentos.
— Eu acho que me jogaria da Torre de Astronomia se tivesse que continuar vindo para cá por mais dois anos. — comentei, sem ter um interlocutor em especial.
Os três ocupantes imediatamente pararam o que estavam fazendo e me encararam. Parkinson arregalou os olhos levemente.
— O que você quer dizer com isso?
— Nada. — direcionei meu olhar para as paisagens que passavam rapidamente pela janela, que iam mudando conforme íamos mais para o norte.
— Draco… — ela começou, com um olhar de pena que me enojou.
Os sentimentos dela em relação a toda a situação eram conflitantes. Apesar de eu saber que Pansy tinha detestado ser a pessoa que me deu a informação final sobre o corpo desaparecido da brasileira, minha colega sonserina também guardava um certo rancor de devido à questão do Sectumsempra de Harry e como ela o fizera companhia no dia seguinte.
— Não enche, Parkinson. — resmunguei, e levantei para sair da cabine. Ajeitei o distintivo de monitor chefe espetado no paletó preto. — Vou começar a patrulha.
Ela não disse nada, mas comprimiu os lábios um no outro. Ela sabia muito bem o motivo de eu estar tão fechado, mas aos olhos dos outros minha atitude parecia estranha: meu pai acabara de ser libertado de Azkaban, eu deveria estar feliz. Mas a perda de era como um dementador que vivia preso à minha sombra: a lembrança sugava qualquer resquício de felicidade que fosse.
Caminhei com decisão até a cabine do Expresso de Hogwarts onde eu encontrara pela primeira vez, e abri a porta só para encontrá-la vazia. Uma pequena parte de mim ainda tinha esperança de ver a mesma cena do ano anterior. Fora ali onde ela me recebera com as pernas cruzadas e a cinta-liga aparente sob a saia e as botas, com um sorriso sarcástico na boca pintada de vermelho e a promessa não dita de nunca mais sair da minha cabeça. Bom, essa ela conseguiu cumprir.
O choro veio a minha garganta, doloroso e impactante, mas o engoli. Minha apatia já chegara a tal nível que nada parecia me abalar mais. Eu só queria sentir alguma coisa além daquele vazio esmagador.
Num único impulso, fechei a porta de vidro da cabine e percorri o corredor a passos largos, chegando ao final do vagão. Os assentos acolchoados estavam ocupados por Luna Lovegood, Gina Weasley e Neville Longbottom. Abri a porta deles sem pedir licença e dei um passo para dentro, exibindo a expressão mais presunçosa que consegui forjar.
— Como vai, Longbottom? Animado para seu último ano? Ou assustado, já que o trio de ouro que compunha seus guarda-costas já não está mais aqui? — provoquei.
Um músculo se destacou na mandíbula da Weasley quando ela pôs a mão sobre os punhos cerrados do colega. Ótimo, eu estava conseguindo incitar a raiva deles. Queria saber quanto tempo demoraria para me acertarem com uma azaração ou uma porrada. Esperava que não fosse muito; eu queria aquilo. Queria que alguém me responsabilizasse e me fizesse sofrer pelo que eu tinha feito.
— Acho que vai ser um ótimo ano, sabe. — me sentei ao lado de Lovegood, sem me preocupar ao dar um esbarrão grosseiro nela. — Ser monitor chefe vai ser especialmente divertido… Ainda mais quando meu distintivo não vai ser o único símbolo da minha posição no novo regime. — Acariciei o antebraço esquerdo por cima da roupa.
Os olhos escuros de Gina seguiram o movimento, e a visão mais detalhada de seus cabelos me trouxe a mente a lembrança de Rowle que eu vira em casa: uma versão ruiva de , claramente fruto de minhas esperanças infundadas.
— Você já pode finalizar sua patrulha, Malfoy. — o garoto disse, sem me encarar. Seu olhar estava fixo em um ponto sobre a cabeça de Luna, como se ele estivesse se controlando para não tomar nenhuma atitude brusca em relação a minha proximidade com a corvina. — Não estamos fazendo nada de errado.
— Além de serem traidores do sangue nojentos? É, suponho que não. — me levantei rapidamente, ajeitando os anéis em meus dedos; um com o emblema da família, outro com o brasão da Sonserina.
— Cala a boca.
Ri com falso escárnio, estranhamente eufórico por saber que ele estava perto do limite.
— Oh, te ofendi? Não sabia que desmiolados como você conseguiam captar sarcasmo. Talvez devesse se juntar aos seus pais no St. Mungus, não acha?
Foi tudo muito rápido; eu sabia que tinha tocado no ponto sensível. Neville Longbottom me deu um soco na lateral da mandíbula que me fez cambalear para trás. Luna e Gina se levantaram apressadas para segurá-lo e impedir o grifinório de me nocautear.
— E talvez você devesse se juntar ao seu papai em Azkaban depois do que fez naquela noite, seu assassino de merda. — ele cuspiu.
Porra, aquilo doeu mil vezes mais do que o soco. Me reergui e agarrei a porta de vidro, deslizando-a pelos trilhos.
— Eu também perdi alguém naquela noite, Longbottom. — murmurei, mudando bruscamente de tom e sentindo o queixo arder. — Eu sei que você me odeia, e não está errado por isso, mas eu não sinto mais dor depois daquilo. E, se te consola, acho que nenhuma dor vai se comparar a essa culpa.
Gina Weasley franziu as sobrancelhas ruivas na minha direção, como se não entendesse do que diabos eu estava falando. Aquilo só me enraiveceu mais. Será que o tanto de balaços que atingiram sua cabeça durante anos de quadribol a tinham deixado tão retardada que ela não percebia que eu estava falando de ?
Os três me observaram sair de sua cabine, ainda espantados com o que eu dissera. Contive a vontade de correr pela. extensão do trem até encontrar a cabine vazia em que deveria estar. Com a garganta ardendo e a mandíbula latejando, tranquei a porta pelo lado de dentro, abaixei a cortina do compartimento e busquei dentro de minhas vestes um frasco de Poção para o Sono. “Talvez eu deva substituir pela Poção do Morto-Vivo”, pensei, escarnecendo de mim mesmo enquanto o líquido descia pela minha garganta.
Não sei se era uma alucinação da minha cabeça fodida ou eu preparara a poção errado, mas meu sono não foi sem sonhos.

Ela estava toda de branco, como um anjo. O vestido parecia ser de água ou ar, juntos e combinados numa nuvem fluida, com os cabelos escuros como terra e os olhos queimando com o fogo que fizera eu me apaixonar por ela.
Vi a curva entre o quadril e a cintura ser lindamente moldada pelo tecido diáfano quando ela deu a volta na ocular do telescópio. O vento fustigava a Torre de Astronomia, espalhando os fios quase negros dela por toda a parte, me envolvendo em ternura e um aconchego que eu sabia que nunca mais teria na vida.
— Meu amor.
A voz dela, o tom doce, o vocativo: tudo aquilo junto provocou um efeito avassalador no meu coração, acelerando-o, estilhaçando-o e reconstruindo-o de uma só vez.
.
Ela sorriu de seu jeito gentil e sarcástico ao mesmo tempo, como se estivesse prestes a implicar comigo.
— Sentindo minha falta?
estendeu a mão em minha direção.
— Todos os dias. — confessei, sentindo a garganta fechar mesmo dentro do sonho.
— Bom, estes dias estão se acabando, Draco. — Ela caminhou com os dedos entrelaçados aos meus, atravessando a torre e chegando ao ponto onde o guarda-corpo se despedaçara quando Dumbledore morto caíra dali. Contudo, ela não parecia estar desacelerando; seu passo continuava firme e decidido. — Vamos nos reencontrar em breve.
A morena deu um passo em direção ao vazio do fim do piso da torre, mas não caiu. Flutuou, como se o chão fosse de vidro, e me chamou para um abraço. Olhei para baixo. Era muito, muito alto.
— Você não confia em mim?
Era a coisa certa a fazer. Pisei para fora, olhando nos olhos dela, e quentes como sempre foram.
— Eu confio em você, . Eu amo você. — Tomei a mão dela, sentindo seu corpo quente contra o meu, e chorei entre os cabelos dela, permeados com o cheiro que eu sentira na Amortentia na última manhã que a vira.
Porém, envolvido pelos braços dela, um arrepio de pavor me sacudiu quando vi a imagem grotesca a meus pés, metros e metros abaixo, sobre a relva: meu próprio corpo, disforme, espatifado e com os cabelos claros completamente ensopados de sangue.

Acordei sobressaltado com o som de um trovão, batendo com a testa em algo dolorosamente duro.
— Ai, porra. — reclamou Pansy, esfregando a ponta do queixo com a testa franzida de irritação. — Por que diabos você se trancou aqui? Demorei séculos para te encontrar.
— Ah, eu… — comecei a elaborar uma desculpa qualquer, mas reparei que o Expresso estava desacelerando. Barulhos de chuva ecoaram quando gotas grossas caíam como pedradas no vidro da janela.
— O que é isso no seu queixo? Não — ela pareceu mudar de ideia subitamente —, não quero saber com quem você andou arrumando confusão. Só vamos logo, porque eu não quero que Snape tenha motivos para reclamar de meu papel como monitora-chefe.
Ela ajeitou o distintivo na própria capa. Revirei os olhos. Snape não nos escolhera porque éramos os melhores monitores, mas sim porque éramos da Sonserina. Certamente o Lorde das Trevas fazia questão que os alunos da casa de seu ascendente fossem beneficiados em detrimento das demais.
Saímos juntos do Expresso segurando as varinhas para nos proteger da chuva com Feitiços Impermeabilizantes, com uma expressão altiva e sem nos importarmos em esbarrar com força nos alunos do primeiro ano: Pansy porque ela gostava do poder que o cargo lhe conferia; eu porque simplesmente não estava nem aí. A monitora da Grifinória, Romilda Vane, nos encarava com olhar de censura indisfarçado, ensopada dos pés à cabeça enquanto tentava manter os aluninhos novos em uma fila organizada.
— Menos 10 pontos para a Grifinória, por desrespeitar os monitores-chefes. — rosnei na direção dela, irritado.
Ela ficou boquiaberta e juntou as sobrancelhas ao franzir o cenho, prestes a retorquir algo, mas Pansy se adiantou e pisou no pé dela de propósito, continuando a caminhar inabalável.
— Ah, a doce sensação do abuso de poder. — Parkinson ironizou, sorrindo maldosamente.
Só balancei a cabeça, concordando. Se visse aquilo, provavelmente reviraria os olhos e me confrontaria por ser um babaca. Talvez eu fosse realmente um babaca.
Pegamos uma das primeiras carruagens, e tomei um susto. Ela estava sendo puxada por dois enormes cavalos, com rostos semelhantes a dragões, que exibiam olhos brancos e cintilantes sem expressão nem pupilas. Asas vastas, pretas e coriáceas, parecidas com as de morcegos, brotavam de suas costas. Seus corpos sem carne e brilhantes eram cobertos com um couro translúcido e brilhante, tão fino que os ossos dos animais eram claramente definidos através de toda a extensão de seus corpos elegantes. Testrálios. Agora eu finalmente podia vê-los, depois de duas mortes presenciadas.
— Vamos logo, estou morrendo de fome. — reclamou Pansy, dando tapinhas no banco a seu lado.
O caminho até o castelo foi silencioso. Nós dois estávamos concentrados demais em impedir que a tempestade nos molhasse para que a garota pudesse me metralhar de perguntas ou tentar puxar um assunto profundamente desinteressante. Assim que chegamos ao saguão de Hogwarts, fui o mais rapidamente que pude para o Salão Principal, que ia se enchendo aos poucos, e deixei Parkinson fiscalizando os demais alunos e monitores. Não estava nem um pouco a fim de ter que cumprir aquelas obrigações acadêmicas estúpidas. A única coisa que ocupava meus pensamentos era a alucinação, sonho ou premonição que eu tivera com havia poucos minutos. “Vamos nos reencontrar em breve”? Isso era um aviso que eu finalmente seria punido apropriadamente por ter falhado em minha missão? Ou era o empurrão que eu precisava para realmente realizar o que estivera pensando obscuramente desde aquela noite, que era ter o mesmo fim que Dumbledore?
Saí de meus devaneios quando toda a mesa da Sonserina explodiu em gritos: um primeiranista fora selecionado para nossa casa. Só Pansy, sentada à minha frente, fazia uma careta de desdém.
— Não sei por que estão comemorando, ouvi dizer que essa garotinha aí — apontou com a cabeça para a menina que se sentou na outra ponta da mesa, entre as irmãs Greengrass e as gêmeas Carrow — é uma sangue-ruim.
— Não fala isso.
Ela ergueu as sobrancelhas, com um risinho irritante se insinuando na boca.
— Ora, ora, agora subitamente você tem princípios em relação a essa baboseira de nascidos trouxas? Pelo amor de Merlim, Draco…
— Eu não… — tentei desconversar, mas ela gargalhou.
— Para de ser idiota, Malfoy. não está mais aqui para te dar uma bronca por você ser malvadinho.
— Cala a boca. — Cerrei o punho sobre a mesa.
— Ah, francamente… Eu sinto muito por tudo, mas você precisa superar isso. Eu sei, que merda que a menina que você pegava sofreu esse acidente, mas…
— Parkinson, eu estou falando sério, chega. Você não tem o direito de falar dela.
Ela revirou os olhos.
— Draco, ela era legal, ok? Não nego isso. E gostosa, e devia beijar bem, mas você não é a porra do viúvo dela, sabe…
— Eu disse para você CALAR A BOCA! — Fiquei em pé e dei um tapa na mesa que sacudiu os talheres e ecoou por todo o ambiente.
Pansy entreabriu a boca, chocada. Os olhares dos alunos de todas as casas foram atraídos na minha direção. Meu urro furioso soara exatamente no instante em que a Seleção finalizara e o novo diretor, Snape, se levantou para proferir o discurso de início das aulas. Ele cravou os olhos negros em meu rosto e perguntou:
— Será que nosso monitor-chefe tem algo que queira dividir com os demais?
Fervendo de raiva, abri a boca para responder algo e voltar a me sentar, mas fui interrompido. A porta do Salão Principal se abriu com um estrondo. Um raio riscou o céu negro lá fora, iluminando com clareza a imagem que eu mais queria ver no mundo.
O trovão soou no instante em que deu um passo a frente com suas botas Prada no piso de pedra de Hogwarts, e tudo parou.





Continua...



Nota da autora: AAAAAAA E ESSE REENCONTRO????? Estão preparadas????
Confesso que fiquei super nervosa escrevendo essa cena em que a PP se encontra com o instrutor dela… O relacionamento deles é ao mesmo tempo de confiança e dúvida, porque ela sabe que ele faria todo o possível para salvar a vida dela, mas ao mesmo tempo as atitudes que ele tomou em relação à profecia dela são bem semelhantes com as atitudes que o Dumbledore tomou em relação à profecia do Harry: contando o mínimo possível e interferindo aos poucos para que pudesse se concretizar. A diferença é que, para o Cairu, a prioridade era fazer com que a PP entendesse o significado da profecia antes que ela realmente acontecesse.
Espero que vocês tenham curtido o ponto de vista do Draco, que foi bem difícil de pôr em palavras toda a apatia causada pela culpa e dor esmagadoras que dominaram ele. O próximo capítulo, em que eles vão realmente conversar e pôr tudo às claras, é um dos meus preferidos, e estou ansiosa para vocês lerem! Não deixem de comentar para me contar suas dúvidas e teorias, isso me motiva demais!
Para quem quer ficar de olho nas atualizações da fic, eu sempre aviso quando capítulos novos entram no site (e também posto teasers da história) lá no meu instagram! O user é @belanottrix, igual ao meu Twitter.
Beijinhos e até a próxima!
Bela.



Outras Fanfics:
» Dancing with the devil I
» Love is a bad word (shortfic Pansy + Daphne)
» Blackest Hour (oneshot não-interativa sobre Bellatrix e Sirius)
» Before the dance (longfic que é prequel de DWTD)


Nota da beta: Ah, aconteceu o beijo que eu mais queria, uhuul. O Fred e a pp foi a coisa mais gostosinha desse mundo. E o Krum lembrando da pp hahha, uma pena ela não poderen conversar e eles trocaram uma ideia sobre Quadribol, rs. Ahhhh e esse capítulo 4? Eu ‘tô muito impactada que não sei comentar decentemente, primeiro essa conversa entre a pp e o instrutor dela foi fantástica, amei a forma como você a desenvolveu. A culpa esmagadora do Malfoy mexeu muito comigo, é aquele misto de raiva e tristeza por ele querer camuflar a dor dele atacando os outros. E esse final? Se a pp chegasse de outra forma não seria ela! Ameeei, ameii e amei! Ansiosa pela continuação.
Ah, e mais um destaque incrível, uhuul! Parabéns, Bela! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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