Capítulo 1 - A Guerra Começa às 08h02
O silêncio é subestimado. Sério.
As pessoas falam sobre felicidade como se ela estivesse em uma viagem para a Grécia, num pedido de namoro surpresa ou numa barra de chocolate esquecida no fundo da bolsa.
Pra mim, felicidade é não ouvir absolutamente nada às oito da manhã.
Ou... era.
Eu tinha doze minutos de paz desde que me sentei com meu café — sim, ainda sem açúcar porque não encontrei a caixa com os mantimentos — quando a furadeira começou.
Um som agudo. Violento. Imoral. Direto na têmpora.
Achei que era coisa da minha cabeça. Talvez o estresse, o cansaço, os três dias seguidos de mudança. Mas não. Era real. Repetitivo. E vindo da parede ao lado.
A parede do apartamento 804.
Suspirei. Lembrei de quem tinha gentilmente encontrado o imóvel por mim. Meu pai. “, o apartamento é perfeito. Novo, seguro, perto da estação, você vai adorar. Consegui por um bom preço com a ajuda de um amigo.”
Curioso, pai. Qual amigo exatamente?
Ah. Claro.
Dois minutos depois, lá estava eu. Descalça, de mau humor e pronta para fazer justiça com as próprias mãos — ou pelo menos com o indicador batendo à porta do vizinho com firmeza.
Toc. Toc. Toc.
A porta se abriu quase no mesmo instante. E lá estava ele. Em carne, osso e uma camiseta preta com respingos de tinta branca: .
O filho que meu pai não teve. Arquiteto favorito da construtora dele. E agora, veja bem, meu vizinho barulhento.
— Olha só, — ele disse, apoiando a furadeira no ombro como um troféu. — Achei que te reconheci pelo bater de porta indignado. Vocês ’s têm um estilo único.
— — respondi, cruzando os braços. — Deixa eu adivinhar: você recomendou esse apartamento pro meu pai, né?
— Claro que sim. Ele pediu minha ajuda. Disse que a filha dele precisava de um lugar silencioso pra estudar. — Ele deu uma risadinha. — Eu só esqueci de avisar que o arquiteto da recomendação morava na porta ao lado.
— Conveniente — murmurei. — Já pensou em abrir uma imobiliária especializada em emboscadas familiares?
— Hm... “ , Arquitetura & Armadilhas Imobiliárias.” Tem potencial, não acha?
— Nenhum. Aliás, você costuma torturar todos os seus vizinhos?
— Só os especiais.
Ele sorriu. Aquele sorriso de canto de boca, meio debochado, meio “eu sou o charme em forma de homem”. Eu já o tinha visto nos eventos da empresa, nos churrascos de fim de ano, nas reuniões em casa. Sempre simpático. Sempre à vontade. E, agora, sempre do outro lado da parede do meu quarto.
— Estou pendurando umas prateleiras — disse ele, erguendo a furadeira como se estivesse mostrando uma obra de arte. — Prometo que termina hoje.
— Hoje começou faz oito minutos. Você tem a manhã inteira para me enlouquecer?
— Ah, então já estou te afetando? Isso foi rápido.
— .
— .
A gente se encarou por um segundo.
Ele sorriu de novo. Claro que sim.
— Amanhã talvez role martelo.
Revirei os olhos e virei as costas antes que ele começasse a cantar também. Porque ele parecia ser o tipo de pessoa que faria isso.
Voltei pro meu apartamento, encostei a porta e encarei a xícara de café. A xícara não tinha respostas. Mas meu cérebro sim:
Hipótese 1: é o pior vizinho possível.
Hipótese 2: Meu pai fez isso de propósito.
Hipótese 3: Eu vou enlouquecer antes de passar no doutorado.
Fim do experimento. Por hoje.
Confesso: o problema não é o .
O problema é que ele é exatamente o tipo de homem que me irrita.
Alto, bonito, confiante — daquele jeito que não precisa se esforçar. Com aquele cavanhaque milimetricamente desalinhado que parece dizer “não me importo com aparência”, mas a gente sabe que ele aparou aquilo com régua e espelho de aumento. Ele não é musculoso, mas tem aquele corpo de quem já carregou muito saco de cimento na vida — ou pelo menos muitas caixas de projeto de arquitetura.
E o pior: ele é inteligente. E sabe disso.
Conheci uns cinco anos atrás, quando meu pai resolveu apresentá-lo como “o novo talento que vai revolucionar a construtora.” Eles se conheceram num projeto emergencial que deu certo — uma daquelas obras que tinham tudo pra dar errado, mas que, segundo o meu pai, só funcionou “graças ao gênio desse moleque.”
Desde então, virou figurinha carimbada em todas as festas, churrascos e até no Natal. Eu sempre o observei de longe, meio desconfiada. Ele falava alto, fazia piada com todo mundo e tratava meu pai como se fossem amigos de infância.
Era… encantador. Irritantemente encantador.
Mas também, sempre me pareceu meio folgado. Do tipo que chega atrasado sorrindo, que resolve tudo “no improviso”, que ri no meio de uma reunião tensa e ainda assim todo mundo gosta dele.
Incluindo meu pai.
Eu?
Eu tolerava. Com uma taça de vinho na mão e distância segura.
Agora ele está do outro lado da minha parede. Furando, martelando e sorrindo.
E foi por isso que deixei o primeiro bilhete. Um clássico passivo-agressivo com toque acadêmico:
“Caro ,
Barulho às 08h da manhã pode ter efeitos nocivos na produtividade e no humor de jovens cientistas.
Por favor, considere ajustar sua rotina de reformas para horários civilizados.
Atenciosamente,
Sua vizinha neurocientista.”
Colei com fita crepe na porta dele às 08h32, com a elegância de quem está tentando não ir presa.
No fim da tarde, o bilhete voltou. Agora com uma resposta rabiscada em caneta azul no verso:
“Prezada vizinha doutoranda,
Estudos mostram que barulho ambiente moderado estimula a criatividade e fortalece a resiliência emocional.
Considere como parte da sua formação.
Cordialmente,
Seu vizinho arquiteto (e mais criativo que você, talvez).”
Eu ri. O que me irritou ainda mais.
No dia seguinte, ele deixou uma caixinha de tampões de ouvido na minha porta. Novinhos. Cor de rosa. Com um bilhete que dizia:
“Presente para a sobrevivência acadêmica. Com carinho, o monstro da furadeira.”
E eu… deixei um pote de café solúvel na porta dele com um post-it escrito:
“Para quando o charme acabar e só sobrar a insônia.”
Estamos, portanto, oficialmente em guerra.
Uma guerra silenciosa (quando ele resolve colaborar) e cheia de indiretas afiadas.
O mais irritante?
Ele parece estar se divertindo. E eu… talvez também.
Mas só um pouco.
Talvez.
Capítulo 2 - Molhados
Tem uma coisa que ninguém te ensina na vida adulta: como reagir quando um cano estoura no seu apartamento às oito e cinquenta da manhã e você está no meio do preparo do seu café da manhã.
A resposta certa não é:
— !
Mas foi exatamente o que eu gritei, desesperada, depois de tentar consertar sozinha e, claro, piorar tudo. De camiseta branca grudada no corpo e com o chão da cozinha virando uma réplica fiel da represa de Itaipu.
A água jorrava da pia como se eu tivesse insultado pessoalmente algum deus hidráulico. Tentei fechar o registro principal, mas descobri — tarde demais — que não tinha força suficiente. E nenhuma dignidade sobrando.
Desesperada, bati na porta dele com a mão ensopada e o orgulho escorrendo pelos cotovelos. Ele abriu rápido, como se já estivesse acostumado a visitas matinais da vizinha furiosa.
— Nossa, já tá fazendo cosplay de sereia ou é moda nova de bom dia?
Cruzei os braços, ignorando o fato de que a camiseta branca grudada no meu corpo provavelmente estava fazendo a alegria dele.
— Meu cano estourou — falei, ofegante. — E você não vai fazer nenhuma piada com isso. Só me ajuda.
Ele arqueou uma sobrancelha, fazendo uma varredura visual nada sutil.
— Eu faria uma piada com “cano” e “vazamento” e talvez até com “chuva”, mas estou me segurando porque você parece perigosamente perto de cometer um homicídio.
— Isso é sério, !
— Tudo bem, tudo bem. Deixa eu pegar minhas ferramentas. E talvez um colete salva-vidas. E um bote.
Dei um passo pra trás, molhando ainda mais o corredor.
— E grita o meu nome como se eu fosse seu mordomo. Sabe como se chama isso? Síndrome da filhinha do chefe.
— Sabe como se chama isso? Arrogância crônica. E uma vontade doentia de sempre ter a última palavra.
Ele riu enquanto desaparecia no próprio apartamento para buscar as ferramentas.
— Você vai me agradecer depois.
— Duvido muito.
Cinco minutos depois, estava agachado na minha cozinha, menos molhado que eu, tentando improvisar uma vedação com fita isolante e a tampa de uma garrafa d’água (não me pergunte como — arquitetos são esquisitos). Ele trabalhava rápido, mas com aquele ar de quem está se divertindo um pouco mais do que deveria.
— Sua torneira estava praticamente se suicidando, viu? Já tentou não traumatizar o encanamento?
— Já tentou não fazer piada enquanto minha cozinha afunda?
— Já tentou não gritar meu nome antes das 11?
— Você é meu vizinho, . Não o Aquaman.
— Mas já vi que você curte uma camiseta molhada, então talvez esteja no caminho certo.
Suspirei. Alto.
— Por que você é assim?
— Charmoso, eficiente e provocador? Culpa da criação. Provavelmente um trauma de infância mal resolvido.
Ele olhou pra mim por cima do ombro. Eu estava encostada na parede, braços cruzados, a camiseta colada ao corpo e os pés descalços, ainda pingando.
— Você tá com frio? — ele perguntou, num tom que soou... diferente.
Menos debochado. Mais atento.
— Tô bem — respondi rápido demais, ajeitando a barra da camiseta.
Ele voltou a mexer na torneira. Ficamos em silêncio por alguns segundos. O único som era da água escorrendo lentamente agora, como se até o vazamento estivesse constrangido com a situação.
— Sabe — ele disse de repente —, você é mais engraçada do que eu lembrava.
— E você é mais útil do que eu esperava.
— Isso foi um elogio?
— Anota. Porque não vai acontecer de novo.
Ele parou. Me olhou.
Sério, dessa vez.
Aquele olhar demorado, que dura meio segundo a mais do que deveria. O tipo de silêncio que gruda na pele como vapor quente. Eu engoli em seco.
Ele sorriu. Um daqueles sorrisos que não são só com a boca, mas com os olhos também. Meu estômago deu uma voltinha idiota.
Droga.
Ele terminou o conserto com mais fita do que eu achava humanamente possível e se levantou, secando as mãos na própria camiseta — agora também molhada.
— Vazamento controlado. Pode dormir tranquila hoje.
Ele já estava na porta quando se virou de novo, encostando no batente, ainda com o cabelo bagunçado e aquele ar de “não fui eu que comecei, mas eu vou terminar”.
— Qualquer outro desastre doméstico, é só gritar. To louco pra ouvir você gritar meu nome de novo.
— Sai da minha cozinha, .
Ele saiu.
Mas deixou a tensão ali, escorrendo pelas frestas como água morna.
A guerra continua.
Mas agora, acho que entendi o risco real:
Não é me irritar com ele. É começar a não querer que ele vá embora.
Capítulo 3 - Autodefesa
Na manhã seguinte, decidi que o melhor remédio para um possível surto de atração por vizinho inconveniente era ignorar sua existência. Nada como um dia inteiro focada nos meus artigos e na burocracia do doutorado pra lembrar quem eu sou de verdade: uma mulher racional. Centrada. Completamente imune a sorrisos tortos e elogios fora de hora.
Até que alguém tocou minha campainha.
E a vida, sempre empenhada em testar minha sanidade, entregou o de novo na minha porta. Ou melhor: uma caixa. Nas mãos dele. Mas era quase a mesma coisa.
— Bom dia, vizinha. — Ele sorriu, como se fosse um carteiro sexy em um comercial que só passa em sonhos estranhos. — Chegou uma encomenda no 804... mas acho que é sua. Pelo menos, a caixa tem seu nome. E um coraçãozinho. Que fofo.
Franzi a testa e peguei a caixa da mão dele.
— Como assim coraçãozinho?
— Tá bem aqui. — Ele apontou, sério. — Deve ser de algum admirador secreto. Ou alguém com péssimo gosto em etiquetas.
Olhei a etiqueta. Tinha mesmo um coração, desenhado em caneta. Minha amiga Helena. Claro. Devia ter mandado as canecas que prometeu — e exagerado no drama.
— Foi mal a decepção. Não é bomba, nem vibrador. Só canecas acadêmicas.
— Bom, canecas podem ser perigosas dependendo do conteúdo. — Ele me olhou com aquele brilho zombeteiro. — Tipo seu café.
— Obrigada pela encomenda, agora pode voltar para sua casa?
Ele encostou no batente da porta, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— Você sempre destroi elogios com sarcasmo ou é só comigo?
Suspirei, exausta de mim mesma. E, se fosse sincera, também exausta do artigo chato que me encarava da tela do computador.
— É muito cansativo ficar brigando com você. Quer entrar pra tomar uma xícara de café?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você envenenou ela?
— Você acha que eu tenho tempo pra isso?
— Sim.
Revirei os olhos e deixei a porta aberta.
Enquanto eu esquentava a água, ele ficou de pé na cozinha, observando como quem avaliava uma planta em reforma.
— Você já pensou em abrir um curso de resistência emocional? Porque você parece lutar contra qualquer afeto com força total.
— É autodefesa.
— Contra quê?
Droga.
Por que ele tava com aquele olhar de novo? Intenso. Curioso. Como se tivesse me lido em voz alta.
Desviei os olhos. Segurei a chaleira com mais força.
— Contra o excesso de confiança dos outros. E a minha tendência irritante de me apegar a gente complicada.
— Então você admite que eu sou complicado?
— Eu admito que você é um desastre com pernas e boas intenções. Isso conta?
Ele riu, sentando-se na bancada como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo.
— E você é o tipo de pessoa que tem trilha sonora mental dramática enquanto estuda. Aposto que coloca Beethoven só pra revisar referências.
— E você é o tipo que finge que não liga pra nada, mas perde meia hora alinhando os quadros da parede.
— Isso é arquitetura, não toque compulsivo. — Ele fez um gesto nobre com a mão. — Arte.
— Claro. E o barulho da furadeira às oito da manhã era performance?
— Aquilo foi intervenção sonora. Experimental.
Eu ri, apesar de mim mesma.
E ele riu também. Riram como se não estivessem em lados opostos de uma guerra fria doméstica.
Riram como se fossem só... duas pessoas cansadas, com café morno e uma trégua não combinada.
Por alguns minutos, o silêncio entre nós foi leve. Sem tensão, sem disputas. Só duas pessoas que — talvez — gostassem de conversar mais do que admitiam.
— Por que você nunca casou? — Escapou da minha boca antes que eu pudesse censurar minha curiosidade. Culpa do café.
Ele não pareceu surpreso. Só pensou um pouco.
— Porque nunca encontrei alguém que me desse vontade de parar.
Assenti devagar.
— Justo.
— E você? Alguém já quis se casar com a Doutora Sarcasmo?
— Dois. Um foi embora porque eu estudava demais. O outro... porque eu era intensa demais.
Ele me olhou com mais calma.
— Gente demais pra pouca coragem, então.
A chaleira apitou. E o momento se dissolveu no vapor quente.
Ele pegou a xícara que eu ofereci, deu um gole e fez uma careta.
— É oficial. Você tenta envenenar seus vizinhos.
— É café de verdade, não essas misturas gourmet que você provavelmente bebe com nomes em italiano.
Ele se levantou devagar, colocando a xícara na pia.
— Obrigado pela trégua.
— Ainda não confio em você.
— Mas gostou de conversar comigo.
— Talvez. Um pouco. Num universo paralelo onde eu não tenha artigos pra terminar e uma irritação crônica com arquitetos convencidos.
Ele sorriu de novo. Daquele jeito que não ajuda em nada.
— Até a próxima entrega, vizinha.
E saiu, me deixando com a caixa nas mãos, um gosto de café ruim na boca... e um gosto estranho de saudade que ainda nem tinha tempo de existir.
O problema de ter memória boa demais é que até as cenas que você gostaria de apagar continuam vivas, prontas para serem rebobinadas nos momentos mais inoportunos. Como agora.
Estava tentando retomar meu artigo — de novo — quando dei por mim olhando para a caixa de canecas na mesa. Ou melhor, lembrando de uma tarde específica, três anos atrás.
Eu tinha passado um semestre inteiro na Alemanha, em um intercâmbio intenso, carregado de noites mal dormidas, experimentos em laboratórios com nomes impronunciáveis e saudade de casa empacotada em cada e-mail que mandava para meu pai.
E quando finalmente voltei, cheia de histórias e conquistas, tudo o que encontrei foi... .
Mais especificamente, e meu pai, rindo na varanda como se fossem personagens de um comercial de cerveja. A mesa do quintal cheia de plantas da nova obra, hambúrgueres, cerveja artesanal e... nenhuma cadeira vazia pra mim.
Lembro de ter parado na porta. Ninguém notou. Eles estavam tão mergulhados em piadas internas e jargões de obra que nem viram quando eu subi as escadas.
Mais tarde, quando meu pai me chamou pra jantar, ele soltou aquele comentário que ficou gravado como tatuagem ruim:
— Você viu o ? É como o filho que eu nunca tive.
Aquilo me doeu de um jeito que nem sei explicar. Como se a ausência da minha mãe, que meu pai compensava com excesso de orgulho profissional, tivesse sido preenchida por outro alguém. Um homem. Um estranho que eu mal conhecia.
E que agora... era meu vizinho.
E que agora... sabia me fazer rir.
Inferno.
Fechei o notebook com força. Não adiantava tentar escrever com esse bolo emocional entalado no peito.
O pior de tudo era que não tinha culpa. Não fez nada além de existir, com aquele jeito relaxado, aquela risada fácil e a habilidade irritante de parecer íntimo de todo mundo. Inclusive do meu pai. Especialmente do meu pai.
E agora ele estava a um corredor de distância. Furando paredes, entregando caixas por engano e — pior — olhando pra mim como se me enxergasse mesmo quando eu queria ser invisível.
Levantei da cadeira, inquieta. Peguei uma das canecas novas. Estava escrita em letras douradas: Neurocientista em Ação. Irônico. Porque, no momento, meu cérebro parecia estar mais em colapso do que em atividade.
Pensei em bater na porta dele. Entregar a trégua oficialmente. Ou talvez jogar a caneca na cabeça dele.
Mas me conheço bem demais.
E quando começo a pensar em ... é sinal de que preciso dormir, correr ou fugir.
Infelizmente, todas as opções estavam fora de alcance.
Quando meu pai me chamou para almoçar no nosso restaurante favorito, eu aceitei sem hesitar.
Era tradição. Só nós dois, num sábado ensolarado, conversando sobre coisas aleatórias. Ele fingindo que não se preocupa com minha alimentação, eu fingindo que não estou estressada com a tese.
Um respiro.
Ou... era o que eu pensei.
Porque quando entrei no restaurante e vi já sentado à mesa — sorrindo, com uma taça de vinho na mão e aquele ar de “cheguei antes porque sou pontual e charmoso” — meu estômago girou.
— Pai... — murmurei, ao me aproximar. — Você chamou o ?
— Claro! — ele disse, rindo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Achei que ia ser ótimo ver vocês dois. Estão sempre juntos na obra, são vizinhos... amigos! Não são?
me olhou como se estivesse tentando prever o grau da tempestade.
— Amigos, sim — disse ele, tranquilo. Demais.
Sentei. Meio rígida. O garçom veio, anotou os pedidos. Tentei me concentrar na comida, nas notícias que meu pai contava sobre a empresa, nos elogios à minha mãe, como se aquilo ainda fosse só um almoço inocente.
Até que ele jogou a bomba.
— Sabe, eu estava pensando esses dias... Vocês dariam um casal incrível.
Silêncio.
Silêncio daqueles que engasgam.
riu, baixo, desconfortável. Mas eu... eu travei.
— Pai... — comecei, tentando manter a compostura. — Nós não combinamos.
— Como assim? — ele perguntou, surpreso, rindo ainda. — Vocês têm química! Falam a mesma língua, vivem brigando — igual eu e sua mãe no começo!
me olhava. Esperando. Mas eu não aguentava.
— A gente discorda em tudo. Ele é impulsivo, bagunceiro, barulhento... e eu sou exatamente o oposto.
— ... — tentou intervir.
— Não, . Deixa eu falar. Porque esse almoço era pra ser meu momento com o meu pai. E aí você aparece, e agora tudo gira em torno de nós dois como se fôssemos um projeto paralelo!
— Eu não sabia que ia te incomodar tanto — ele disse, a voz mais baixa.
— Incomoda porque eu só queria um sábado normal, com meu pai, sem... complicações.
— Eu não sou uma complicação, . Não mais.
— Então para de complicar agora — rebati.
Meu pai nos olhava como se tivesse entrado num episódio ao vivo de uma novela que não acompanhava há meses.
— Gente, eu só queria um almoço. Um elogio. Uma piada. Não sabia que vocês estavam nesse nível de tensão...
— Não estamos! — eu disse, já de pé, pegando a bolsa. — Ou estávamos, até tudo ficar... confuso de novo.
se levantou também. Calmo, como sempre ficava quando eu perdia a compostura.
— Eu só vim porque achei que seria bom. Pra ele. Pra nós. Mas... talvez tenha sido um erro.
— Foi — murmurei, antes de sair.
Eu não olhei para trás. Nem pra ele. Nem pro meu pai.
Naquele momento, tudo que eu conseguia sentir era o gosto amargo da expectativa quebrada. E de uma verdade que talvez eu ainda não quisesse encarar:
podia estar se tornando o centro de tudo.
E isso me assustava mais do que qualquer briga.
P.o.v:
Ela saiu sem olhar para trás.
E eu fiquei ali, em pé, ao lado da mesa, com o pai dela tentando entender onde exatamente tudo tinha desandado.
Marcos soltou um suspiro longo, apoiando os cotovelos na mesa.
— Tá. É impressão minha ou eu acabei de assistir minha filha explodir e te arrastar junto?
Eu me sentei de novo, passando a mão no rosto.
— Não é impressão.
— Você quer me explicar?
— Queria poder.
Ele me observou por alguns segundos. Não com raiva. Mas com aquela expressão que ele usava quando um projeto desmoronava e ele ainda tentava encontrar alguma peça de sustentação no meio dos escombros.
— Achei que vocês estavam bem. Amigos. Ou... mais que isso?
— Estávamos. Estamos. Quer dizer, eu achei que sim.
— E o que foi aquilo?
Suspirei, encarando a taça de vinho pela metade.
— está sempre tentando manter o controle. A vida, o trabalho, os sentimentos... tudo precisa estar no lugar. Eu sou o oposto disso pra ela. Caos. Intromissão. Risco.
— Mas você não é isso pra mim. Você sabe.
Assenti. Porque sabia mesmo.
— Só que, hoje... hoje ela só queria o pai dela. Não a sombra da possível decepção amorosa da vida dela sentada do outro lado da mesa.
Marcos franziu o cenho, confuso.
— Você se enxerga assim?
— Às vezes.
— Bom, isso não bate com o cara que reconstruiu nosso prédio da praia em tempo recorde, nem com o arquiteto que todo mundo da empresa admira. Muito menos com o cara que, claramente, está apaixonado pela minha filha.
Olhei pra ele. A primeira vez que alguém disse isso em voz alta. Que alguém ousou nomear o que eu sentia com tanta clareza.
— Eu não quero decepcioná-la. Nem magoar você.
— E você acha que tá conseguindo evitar?
Respirei fundo.
Ele deu um sorriso pequeno, triste.
— Filho, é intensa. Não entrega nada pela metade. E quando entrega, se sente vulnerável. Por isso ela finge que não sente. Por isso, às vezes, ela machuca antes que machuquem ela.
— Eu sei. Mas saber não torna mais fácil.
Ele bebeu um gole do vinho e me olhou de novo.
— Quer um conselho de pai?
— Sempre.
— Dê espaço pra ela. Mas não suma. Porque se tem uma coisa que minha filha não sabe pedir é ajuda. E quando ela sentir que você desapareceu, ela vai fingir que não se importa. Mas vai doer.
Fiquei em silêncio. Pensando nas palavras dele.
Talvez ele estivesse certo.
Talvez o que precisasse agora não fosse mais prova, mais gesto, mais insistência.
Mas espaço. Presente.
Constância. Sem invasão.
— Vou tentar, Marcos.
Ele assentiu.
— E vou fingir que não percebi nada se vocês quiserem manter isso longe dos churrascos de domingo por enquanto.
Sorri. Pela primeira vez naquela tarde.
— Obrigado.
E enquanto o garçom trazia a conta e a luz do restaurante suavizava os cantos duros do dia, eu soube:
Ela precisava respirar.
E eu…
Precisava esperar.
Mas dessa vez, por ela, eu esperaria certo.
Não demorou muito depois do almoço para a tempestade explodir. E, como sempre, foi o raio que caiu onde eu menos queria: na minha porta.
— A gente precisa conversar — ele disse, assim que abri, como se fosse o dono do prédio. Ou da minha paciência.
— Precisa? Ou só resolveu que é divertido me atormentar de novo?
— Você foi grossa no almoço.
— E você foi o convidado surpresa que ninguém pediu.
Ele cruzou os braços, encostado na lateral da porta como se fosse parte da mobília.
— O que exatamente eu fiz agora?
— Você invadiu! — explodi, jogando a mão para o lado como se isso resumisse tudo. — Minha vida, meu espaço, meu dia! Até quando acho que não vou te ver, você aparece com esse seu sorriso idiota e esse jeito de “ah, eu só tô aqui porque o mundo é meu playground”.
— Uau.
— Eu queria paz. Um. Dia. De paz. Sem furadeira, sem indireta, sem elogio irônico, sem você.
Ele deu um passo à frente.
— E o que você quer que eu faça, ? Mude de andar? Mude de cidade?
— Eu quero que você fique longe de mim. Tá tão difícil entender isso? A minha vida não é mais uma das suas obras pra você enfiar o nariz onde quiser. E eu não sou mais uma garotinha encantada com o “melhor amigo do papai”. Entendeu?
O olhar dele mudou. Fechou.
— Primeiro: eu nunca pedi pra fazer parte da sua vida. Isso foi seu pai. Segundo: você é a pessoa mais difícil, arrogante e... neurótica que eu já conheci.
— Ótimo. Assim você para de me procurar.
— E você acha que é fácil conviver com você? Com essa mania de controlar tudo, de achar que tá sempre certa, de pisar nas pessoas com essa sua língua afiada e essa pose de superior?
— Melhor do que ser um homem de trinta e cinco com a maturidade emocional de um adolescente entediado.
— Você é cheia de frescura! Vive criando drama, se fechando, e depois age como se fosse a única que sente alguma coisa!
— Eu não sinto nada por você!
Silêncio.
Tenso. Cortante.
Ele respirou fundo, os olhos cravados nos meus.
— O seu pai tava louco de achar que a gente podia dar certo. Eu nunca, nunca me envolveria com alguém como você.
— E eu jamais ficaria com alguém tão... infantil, irresponsável, e invasivo! Você pode ter trinta e cinco, , mas nunca amadureceu. Parabéns por isso.
Ele me encarou mais um segundo. A raiva nos olhos dele era quase igual à minha. Mas havia outra coisa ali também. Um brilho rápido. Quase magoado.
Mas eu não me permiti notar.
Ele virou as costas.
— Ótimo. Fica na sua torre de sarcasmo, princesa. Eu não volto a te incomodar.
E desceu o corredor sem olhar pra trás.
Fechei a porta com força, as mãos tremendo.
Mas não era só de raiva.
Era outra coisa.
Pior.
Era saudade antes mesmo da ausência acontecer.
Fazia três dias que sumiu.
Não que ele tenha sumido sumido — ninguém declarou desaparecimento, a polícia não foi chamada, e o prédio continuava inteiro (milagre). Mas ele simplesmente... evaporou.
Nada de bilhetes.
Nada de mensagens.
Nem um ruído irritante vindo do 804.
E é aí que comecei a me preocupar.
Não com ele exatamente. Mas comigo. Porque, honestamente, eu tava com saudade até do som da geladeira dele quando dava aqueles estalos estranhos à noite.
— Você foi dura — disse Helena, do outro lado da videochamada, enquanto arrumava o cabelo como se isso fosse resolver meus problemas emocionais.
— Fui sincera.
— Sincera com pitadas de fúria, arrogância e um leve abandono afetivo. Combo completo.
Suspirei e caí no sofá.
— Eu só queria um almoço com o meu pai. Só isso. E ele... ele apareceu do nada e virou tudo sobre “ e : será que vai rolar?”. Eu surtei.
— Você tinha direito de surtar. Mas talvez tenha mirado nele o que era frustração com o seu pai.
Fiquei em silêncio.
— Eu achei que estava tudo bem entre a gente, sabe? — continuei. — A gente tava rindo, se conhecendo de verdade. Quase amigos. Quase... mais.
— E agora ele sumiu.
— Sumiu.
— E isso te incomoda?
Fiz uma careta.
— Me incomoda que ele não me mandou nem um emoji passivo-agressivo. Nem uma piada ruim com café. Nem uma reclamação sobre o síndico.
— .
— O quê?
— Você está com saudade.
Revirei os olhos.
— Estou hormonal. Isso não é saudade, é TPM de meia intensidade.
— Saudade disfarçada de irritação. Clássico.
— Ok. Talvez um pouco. Só um pouco.
— E o que vai fazer quando ele aparecer?
Suspirei.
— Talvez eu... peça desculpas. Ou... algo próximo disso.
— Nossa.
— Com palavras acadêmicas. Nada muito emocional. Tipo “lamento o impacto comportamental do meu surto verbal”.
Helena riu.
— Ele vai amar.
— Ele vai achar que eu enlouqueci de vez. Mas... acho que eu fui injusta. E se ele sumiu porque se cansou?
— Ou... ele só tá dando o espaço que você não soube pedir.
Fiquei quieta.
Porque talvez fosse isso mesmo.
E no fundo, eu só queria uma chance de dizer:
“Fica. Mas do teu jeito. Sem invadir. Só... fica.”
E quem sabe…
Da próxima vez que eu ouvir um barulho vindo do 804, eu não reclame.
Talvez… eu fique aliviada.
Foram nove dias, quatro horas e uns vinte minutos sem sinal de .
Sim, eu contei. Mentalmente. Em silêncio. Fingindo que não estava contando.
A ausência dele foi, ao mesmo tempo, estranhamente reconfortante... e desconfortavelmente silenciosa. Não teve som de furadeira, nem canecas sendo entregues por engano, nem aquele sorriso torto me tirando do sério e da razão. Eu até consegui escrever três páginas inteiras do meu artigo — sem nenhuma referência à tentação em forma de vizinho.
Paz, enfim.
Até que a música começou.
Era uma sexta à noite e eu estava tentando assistir um documentário sobre neuroplasticidade com minha pizza congelada quando um remix eletrônico de gosto duvidoso começou a pulsar através das paredes. De novo. E alto.
Claro que era ele. A paz é sempre temporária nesse prédio.
Respirei fundo. Ignorei. Tentei aumentar o volume da TV.
Mas aí vieram as risadas. Agudas. Animadas. Femininas.
Ah não.
Levantei, já preparando a reclamação ensaiada. Bati na porta do 804 com a fúria contida de quem passou nove dias se convencendo de que estava tudo bem.
A porta abriu.
E ela apareceu.
Alta, bronzeada, cabelo castanho ondulado perfeitamente bagunçado como se tivesse saído de um comercial de shampoo, usando apenas uma toalha branca e um sorriso que dizia: "oi, eu sou linda e estou confortável na casa do homem que você finge não ligar".
— Oi? — ela disse, confusa, mas simpática.
Eu congelei.
— Oi. Eu... — merda, cadê minha raiva quando preciso dela? — Vim pedir pra abaixarem o som. Tá um pouco alto e eu tô... estudando.
Mentira. Eu estava tentando entender por que uma toalha estava me afetando tanto.
— Claro! — Ela sorriu. — Desculpa mesmo. É que o Pê, tá mostrando umas músicas novas. Ele já abaixa.
Pê?????
Aquela palavra caiu como um tijolo no meio da minha racionalidade. Eu sorri (pelo menos acho que sim), murmurei um “tudo bem” e virei de volta pro meu apartamento com a coluna ereta e o orgulho sangrando.
Fechei a porta. Encostei as costas nela.
Claro que ele tinha uma “ficante”. Claro que era linda. Claro que usava toalha como se fosse alta costura.
E eu? Tava de moletom velho, rodeada por livros e com uma fatia de pizza mordida na mão.
Inacreditável.
Deitei no sofá e encarei o teto por tempo demais.
Não era ciúmes.
Era... desconforto estético.
Ou talvez indignação sonora.
Ou talvez... tá bom, talvez fosse um pouquinho de ciúmes.
Mas só um tiquinho.
E só porque ele tinha dito que nunca se envolveria com alguém como eu. E aí, como um passe de mágica, lá estava alguém completamente oposta a mim saindo do banho e chamando ele de Pê.
Revirei os olhos. Peguei o controle.
Mas, naquela noite, nem a neuroplasticidade salvou minha concentração.
A próxima vez que vi a mulher da toalha — que agora usava roupas perfeitamente normais e um coque bagunçado estrategicamente elegante — foi no elevador.
Ela entrou com aquele perfume fresco de quem acorda linda e não tem olheiras, e me lançou um sorriso simpático. Eu já odiava ela um pouco por isso.
— Você é a vizinha do , né? ?
— Sou — respondi, seca, apertando o botão do térreo mesmo sabendo que ela já tinha feito isso.
— Eu sou a Bruna. Desculpa de novo pelo som aquele dia... a gente não percebeu que estava tão alto.
"Não perceberam" = riram e dançaram enquanto destruíam minha paz.
— Acontece — murmurei.
Ela hesitou por um segundo, depois completou:
— Ah, só pra constar... Eu e o somos só amigos. Trabalho com ele em uns projetos de arquitetura social. Tô hospedada aqui esses dias porque meu apê tá em reforma.
Amigos.
Claro.
Amigos que saem do banho e abrem a porta de toalha.
— Entendi — falei, sorrindo com menos dentes que uma múmia.
O elevador parou. Fui a primeira a sair.
Mas o universo, que claramente anda fazendo hora extra pra me testar, decidiu que naquele exato momento, também sairia de casa.
Sem camisa.
Cabelo ainda molhado, pingando gotinhas malditas pelo pescoço.
A toalha estava, felizmente, ausente.
Mas ele usava uma calça de moletom baixa demais pra ser segura e tinha uma expressão sonolenta e absurdamente... íntima.
— Bom dia — ele disse, antes de ver Bruna logo atrás de mim. — Ah, vocês já se encontraram?
— No elevador — ela respondeu, animada. E foi aí que ele fez.
Aquele gesto.
Colocou a mão na cintura dela. Natural. Leve. Íntima demais.
O tipo de toque que você não faz com qualquer amiga.
E o pior: sorriu pra ela. Aquele sorriso. Torto. Calmo. Que parecia dizer eu te conheço até de olhos fechados.
Eu senti algo fechar por dentro.
Não disse nada. Só segui andando. Cada passo parecia uma marcha fúnebre do meu orgulho.
De volta ao apartamento, tentei convencer a mim mesma:
Você afastou ele. Foi o que quis. Você disse pra ele sair da sua vida.
E ele saiu.
Mas esquecer aquele sorriso? O jeito como a água descia pelo pescoço dele? O toque casual que ela recebia como se fosse habitual?
Impossível.
Meu coração batia como se eu tivesse corrido uma maratona só de tentar não me importar.
Naquela noite, revisei o mesmo parágrafo do meu artigo seis vezes.
E em todas elas, a palavra intimidade se infiltrou entre as linhas.
Capítulo 4 - Trégua
A última vez que eu tinha ido a uma festa da pós-graduação foi... sei lá, em alguma era geológica anterior. Mas quando Helena me arrastou dizendo “vamos lembrar que a gente tem menos de 30, por favor”, eu cedi. Porque eu precisava. Porque eu queria fingir que a vida não girava em torno de artigos, prazos e vizinhos que pareciam perseguição cármica.
Cerveja, luz baixa, música alta. Gente rindo. Gente dançando. Gente livre.
Eu ri. Dancei. Bebi mais do que devia. Lembrei como era me sentir leve, mesmo que só por algumas horas.
Mas o caminho de volta pro 802 foi uma mistura de ziguezague com tentativa de dignidade.
E é claro que o destino, com seu senso de humor duvidoso, colocou encostado na porta do 804 quando eu cheguei. Como se ele tivesse saído de um filme... ou estivesse me esperando.
— ?
Parei. Bom, tropecei um pouco antes de parar.
— Oi — falei, tentando acertar a chave no bolso da bolsa. — Tudo ótimo. Tô ótima. Maravilhosamente ótima.
Ele me observou, um canto da boca se curvando naquele maldito meio sorriso.
— Você tá... bem?
— Tô. Perfeitamente funcional. Só um pouco... socialmente hidratada.
Ele deu um passo à frente quando eu cambaleei levemente, e segurou meu braço com firmeza. A mão dele era quente. Estável.
— Você parece que vai beijar o chão a qualquer momento.
— Não é só ele que eu vou beijar…
Eu devia estar corando. Ou gaguejando. Ou fazendo alguma outra coisa embaraçosa. Mas minha cabeça girava e ele tava perto demais.
— , eu queria conversar com você...
Revirei os olhos e tentei me afastar, o orgulho tropeçando junto comigo.
— A gente não tem nada pra conversar, .
Ele segurou meu cotovelo com mais firmeza quando tropecei de novo — dessa vez, real.
— Caramba, você realmente bebeu. Vem aqui.
— Sua namorada não vai gostar de te ver com uma bêbada na porta, né?
Ele parou. Me olhou. Aquele tipo de olhar que entra fundo demais.
— Bruna não é minha namorada.
— Claro que não.
— Tô falando sério, .
— E eu tô bêbada, . Bêbada demais pra brincar de "vizinho sincero".
Ele respirou fundo e me encostou com cuidado na parede ao lado da minha porta. Ficou ali, parado, me olhando como se estivesse procurando alguma coisa que eu escondia muito bem quando tava sóbria.
— Eu me importo com você, sabia?
— Você se importa com ser irritante. Isso sim.
— Você afasta todo mundo que chega perto.
— E você invade tudo o que eu tento manter em paz.
A tensão ficou ali, entre nós. Silenciosa. Elétrica. Um passo e aquilo explodia.
Mas, em vez disso, ele só soltou meu braço devagar.
— Entra, . Dorme um pouco. Amanhã a gente conversa. Sóbrio.
Peguei a chave com as mãos trêmulas e entrei sem dizer mais nada.
E quando a porta fechou, o silêncio pareceu mais alto do que qualquer música da festa.
Só que, mesmo deitada, mesmo com a cabeça girando...
O cheiro dele ainda estava na minha pele.
E a sensação da mão dele no meu braço era impossível de esquecer.
Acordei com a cabeça latejando como se minha mente tivesse decidido punir cada gole da noite anterior. A luz da manhã era cruel. Meu pijama estava torto. E o gosto na boca? Um lembrete de que nada de bom acontece depois da quarta cerveja.
Sentei na cama, tentando reconstruir a noite.
Festa. Helena rindo. Um cara esquisito que tentou dançar comigo. Risos. Risos. Mais cerveja.
.
Droga.
Encostei a cabeça no travesseiro de novo.
Eu tinha falado com ele. Tinha tropeçado, talvez até caído um pouco no braço dele. Tinha dito alguma coisa sobre a namorada dele. Que não existia. Que ele deixou claro que não existia.
E eu...
— Ai, não — gemi, afundando o rosto no travesseiro. — Diz que foi um sonho. Ou uma alucinação etílica. Ou um episódio de Black Mirror.
Levantei como quem se prepara pra enfrentar um julgamento.
Banho. Café. Dignidade. Ou algo perto disso.
Saí do apartamento fingindo total sobriedade emocional. Óculos escuros dentro do prédio? Sim. Blusa impecável? Sim. Postura de quem definitivamente não falou besteira com o vizinho na madrugada? Sim.
Claro que dei de cara com ele no corredor.
estava de moletom, cabelo bagunçado e segurando um copo de café. Parecia a própria casualidade personificada.
— Bom dia, vizinha — ele disse, com um sorrisinho.
— Ah. Oi — falei, como se acabasse de lembrar que ele existia. Olhei o celular como se fosse urgentíssimo.
Ele inclinou a cabeça, com aquele ar de quem se diverte mais do que devia.
— Tá tudo bem? Tá lembrando de ontem ou... quer que eu conte?
Tirei os óculos escuros devagar e o encarei.
— Não aconteceu nada demais. Eu só tava... cansada.
— “Socialmente hidratada”, se bem me lembro.
— Eu uso expressões sofisticadas, .
— Você me chamou de “vizinho inconveniente” três vezes. E implicou com o moletom da Bruna mesmo ela estando longe.
— É um moletom feio.
Ele riu. O som preencheu o corredor como se tivesse invadido meu espaço de novo.
— Só queria saber se você tá bem.
Respirei fundo.
— Tô.
— E se quiser conversar de verdade, um dia desses... com menos álcool e mais sinceridade...
— Eu prefiro a versão com álcool. Pelo menos eu posso fingir depois que não quis dizer nada daquilo.
Ele me olhou sério por um segundo.
— Mas você quis?
Minhas mãos se fecharam ao lado do corpo.
— ...
— Tudo bem. Não precisa responder agora. Mas só pra constar — ele deu um passo, não muito perto, mas perto o suficiente —, você pode me afastar o quanto quiser. Mas isso não muda o que existe entre a gente.
— E o que é que existe entre a gente?
— Algo que nem você consegue ignorar bêbada.
E então ele foi embora. Simples assim.
Me deixou ali, sozinha no corredor, com o coração batendo rápido demais e uma verdade que eu não sabia mais como fingir que não existia.
A cozinha do meu apartamento ainda cheirava a chocolate e teimosia.
Fazer um bolo numa terça-feira à tarde não estava nos meus planos — nem nos da minha dieta, nem nos do meu cronograma do doutorado. Mas a vontade bateu. Não de comer, exatamente. De fazer. Misturar, bater, esperar. Talvez porque receitas fossem mais fáceis de seguir do que sentimentos.
E no final, quando o bolo ficou pronto e fofinho, com a casquinha dourada perfeita… eu me vi olhando pra ele com um pensamento idiota:
“Isso tá bom demais pra comer sozinha.”
E foi aí que perdi oficialmente o juízo.
Caminhei até a porta do 804, bati duas vezes e já me arrependi na terceira.
Mas era tarde.
atendeu de moletom e camiseta branca, com o cabelo bagunçado e a cara de quem não esperava visitas, mas também nunca dizia não a uma surpresa.
— ?
— Eu... fiz bolo — falei, levantando o prato com mais orgulho do que coragem. — E... sobrou. Bastante.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Isso é um pedido de desculpa, uma tentativa de envenenamento ou só uma desculpa esfarrapada pra me ver?
— Vai depender do quanto você vai me irritar nas próximas duas horas.
Ele riu. Aquele riso que era perigoso. Que me desarmava antes mesmo de eu perceber.
— Então vamos otimizar essa chance rara de boa vizinhança.
Entramos no meu apartamento, e ele se acomodou na bancada da cozinha, observando como se ver minha casa fosse parte do prato.
— Você faz um ótimo bolo — ele disse depois da primeira mordida.
Era uma oferta de paz. Uma desculpa silenciosa. Um jeito disfarçado de dizer “sinto muito por ter explodido na frente do meu pai e te empurrado pra fora da minha vida feito uma bomba-relógio”.
— E você faz um ótimo drama.
— Drama?
— Me deixar no corredor daquele jeito no outro dia. Com uma fala de filme romântico B.
Ele sorriu, mas os olhos não brincavam.
— Não era filme, .
Suspirei e servi mais uma fatia pra mim, porque mastigar era mais seguro do que falar.
— Eu não sei o que fazer com isso, .
— Com “isso”...?
— Com essa coisa entre a gente. Essa vontade e essa raiva e esse caos inteiro.
Ele se aproximou devagar, como quem pisa num campo minado. Se encostou na beirada da bancada. O rosto perto demais do meu.
— Eu te afastei — continuei. — Eu sei. Falei demais. Fui dura. Mas... é o que eu faço quando tô com medo.
Ele me olhou, sério agora.
— Medo de quê?
— De me entregar. De... perder o controle. , eu sou toda feita de planos e defesas. E você… você é tudo que bagunça isso.
— ...
— Não, deixa eu falar. — Respirei fundo. — Você me faz rir quando eu quero estar brava. Me faz sentir leve quando eu só queria estar ocupada. E eu odeio isso. Mas... também amo.
Ele se aproximou, devagar. Pegou a travessa da minha mão e colocou de lado, com cuidado exagerado — quase ritualístico.
— Você não precisa ter tudo sob controle — ele disse, com a voz baixa. — Só precisa confiar que, se tropeçar, eu vou estar aqui.
— E se eu cair?
— Eu caio com você.
Não consegui responder.
Ele estava tão perto agora. A respiração dele batendo no meu rosto, as mãos dele encostando nas minhas. E então ele me beijou.
Foi lento. Firme. Como se tivesse esperado exatamente esse momento pra acontecer.
E eu... deixei.
Foi devagar.
O tipo de beijo que começa com um olhar. Um silêncio cúmplice. Um toque de dedos no pulso, leve, como se ele me pedisse permissão antes de encostar.
E quando finalmente nos beijamos, foi como se tudo o que eu vinha tentando conter transbordasse de vez.
O gosto de chocolate ainda estava nos nossos lábios, mas o sabor era outro.
Quente. Inesperado. Quase terno, apesar de todo o histórico.
Quando nos separamos, fiquei ali, com o rosto perto demais do dele, o coração acelerado e a certeza de que nada ia voltar a ser como antes.
— Eu devia ter colocado cobertura — murmurei, só pra quebrar o peso do momento.
Ele riu, encostando a testa na minha.
— Eu acho que a gente já passou do ponto de cobertura, .
E, pela primeira vez em semanas, eu não quis fugir.
A risada dele ainda vibrava perto da minha boca, e quando encostou a testa na minha, o mundo pareceu dar um passo pra trás. Ficamos ali, respirando o mesmo ar, sem pressa, sem máscaras. Era como se, finalmente, depois de semanas de guerra fria e indiretas afiadas, o silêncio entre nós tivesse um novo significado.
— ...
— Shh. Não fala. — Ele passou os dedos pela minha bochecha, devagar, como se estivesse com medo de me assustar. — Você sempre tenta transformar tudo em lógica. Deixa só... sentir.
Eu devia ter pensado. Devia ter lembrado de tudo: das brigas, do meu pai, da linha fina entre o que era permitido e o que era perigoso. Mas tudo o que eu conseguia pensar era nele ali. Tão perto. Tão real. E no quanto eu desejava aquele toque há mais tempo do que queria admitir.
O beijo voltou mais urgente. Profundo. E quando as mãos dele escorregaram pela minha cintura, puxando meu corpo contra o dele, eu me dei conta de que não existia mais recuo. Só avanço.
— Eu pensei em você — ele murmurou entre um beijo e outro — todos esses dias. Mesmo quando você me odiava.
— Eu ainda te odeio um pouco.
— Mentira.
— Verdade... Mas... — Meus dedos já estavam sob a barra da camisa dele, subindo devagar, explorando pele quente e firme. — Acho que posso conviver com isso hoje.
Capítulo 5 – Hot
(Se não gosta, pode pular para o próximo capítulo, não altera em nada a história)
Ele me ergueu pela cintura com facilidade, me sentando no balcão da cozinha como se soubesse exatamente o que estava fazendo — e como eu queria ser tocada.
Fiquei sem fôlego.
— Isso é altamente impróprio pra uma bancada que já viu bolo de chocolate — murmurei, a respiração falha, as pernas envolvendo a cintura dele.
— Então agora ela vai ver o prato principal.
O riso escapou de mim mesmo enquanto eu puxava a camisa dele, impaciente, e ele explorava cada centímetro da minha pele como se tivesse estudado o mapa do meu corpo em silêncio esse tempo todo.
Os beijos desceram pelo meu pescoço, pelas clavículas. Minhas mãos agarraram os ombros dele, e o mundo, por alguns segundos, se reduziu a respirações entrecortadas, calor e desejo antigo, finalmente admitido.
— Você tem certeza? — ele perguntou contra minha pele, a voz rouca.
Segurei o rosto dele com as duas mãos. Olhei bem nos olhos.
— Se você parar agora, eu te jogo da varanda.
E então não teve mais perguntas.
Só mãos.
Pele.
O beijo foi ganhando profundidade, como se as palavras que a gente nunca conseguiu dizer estivessem ali, escondidas entre os lábios, saindo devagar. me puxou com delicadeza pela cintura, me encaixando entre seus braços e o balcão, como se soubesse exatamente onde meu corpo se sentia seguro.
A cozinha, com seu aroma doce de bolo e passado recente de guerra, agora era testemunha de um outro tipo de entrega.
As mãos dele deslizaram pela minha cintura como se quisessem memorizar o caminho.
E eu deixei.
Porque tocava como quem entende de detalhes. Como quem leu meu corpo em outra vida.
Sua barba roçando de leve no meu pescoço me fez fechar os olhos. Um arrepio quente percorreu minha espinha — uma reação imediata, incontrolável. Meus dedos se apertaram nos ombros dele, instintivamente buscando algo firme para segurar enquanto ele me desmontava por dentro.
Fazia tempo que eu não sentia aquilo.
Na verdade, nem sei se já tinha sentido assim.
Desejo. Sim.
Mas também ternura.
— Você tem ideia do que faz comigo? — ele sussurrou, os lábios encostando na minha pele como se cada palavra fosse uma promessa.
— Tenho. Porque é o mesmo que você faz comigo.
A cada toque, eu queria mostrar que o desejava. Não só com o corpo, mas com a alma cansada de guardar afeto em caixas rotuladas como “perigo”.
Queria que ele enxergasse o que eu raramente deixava alguém ver:
Meu lado mais íntimo.
Mais vulnerável.
Mais carinhoso.
Aquele que dizia “fica”, mesmo em silêncio.
Tirei minha blusinha com um gesto rápido e joguei no chão, sem pensar. Não havia vergonha ali — só urgência. Uma vontade antiga que crescia, madura, consciente, cheia de significado.
Ele tirou a camisa puxando pelo colarinho, bagunçando o próprio cabelo — e, de algum modo, isso o deixou ainda mais bonito. Um caos em forma de homem.
Não era musculoso. Não precisava ser.
Era forte.
Forte no jeito que me segurava com firmeza e cuidado. Forte na forma como me olhava sem desviar, como quem sabe o que quer e, naquele instante, queria só a mim.
Seus dedos longos, precisos, abriram meu sutiã com uma naturalidade quase cruel, como se soubessem exatamente o que fazer. Mas antes mesmo que eu sentisse o vazio, suas mãos já estavam lá — quentes, presentes.
Me encaixei melhor nele.
Seu toque dizia "eu te quero", mas também dizia "eu tô aqui."
E quando nossas bocas se reencontraram, era como se o beijo nos dissesse coisas que nenhuma frase conseguiria.
Naquele instante, ali, entre o frio do balcão e o calor da pele, eu soube:
Era mais do que atração.
Era mais do que desejo.
Minhas pernas se entrelaçaram em sua cintura com naturalidade, como se meu corpo já soubesse exatamente onde pertencer. E ali, encaixada nele, sentindo sua respiração acelerar contra meu pescoço, não havia mais espaço para dúvida.
Pude sentir sua excitação mesmo através da calça de alfaiataria — firme, presente, pulsando contra mim.
me segurou com mais força. As mãos dele exploravam minhas costas com reverência, cada centímetro tocado com uma intenção cuidadosa.
Seu rosto afundou na curva do meu pescoço e ele respirou ali, como se aquele espaço fosse abrigo.
Meus lábios entreabriram-se num gemido involuntário quando senti sua língua em meus mamilos, e ao mesmo tempo, os dedos dele explorando meu corpo com precisão delicada. Sua mão se deslocou da minha cintura até a borda da minha calcinha, testando, provocando, até arrastá-la de lado e sentir o quanto eu estava molhada sem ele ao menos me tocar ainda.
Quando ele tirou meu peito da boca só para dizer, com a voz rouca, quase um sussurro:
— Tá toda molhadinha pra mim…
Eu tremi.
Porque era verdade. Porque era por ele. Pelo meu vizinho, 10 anos mais velho que eu.
Tentei responder, mas minha garganta só conseguia soltar suspiros entrecortados. Meu corpo falava por mim. Meus olhos diziam tudo: Sim. É por você.
Como se guiado por esse silêncio carregado de verdade, ele começou a descer seus beijos, vagarosos, intensos, como se cada centímetro entre minha pele e sua boca fosse uma promessa que ele se comprometia a cumprir.
E então, me encontrou.
O calor da boca dele, os movimentos que ele fazia com lábios e língua — como se tivesse todo o tempo do mundo, como se me decifrar fosse seu único propósito — me levaram a um ponto em que já não havia mais pensamento. Só sensação.
me olhava enquanto me chupava. Como se quisesse gravar cada reação minha. Cada suspiro. Como se dissesse, sem palavras: Eu tô aqui. Te fazendo minha.
E eu estava entregue.
Inteira.
Nunca tinham me chupado daquele jeito.
Nunca tinham me provado com tanta vontade.
me devorava como se aquilo fosse essencial pra ele, como se estar ali, entre minhas pernas, fosse mais prazeroso do que qualquer outra coisa.
E talvez fosse.
A forma como ele me olhava enquanto me dava prazer, os movimentos firmes e contínuos da sua boca, a língua dançando com precisão e desejo — era demais. Era tudo.
Meus quadris começaram a se mover por conta própria, buscando mais. Mais dele. Mais do que só seu toque. E mesmo quando meu corpo se arqueava, prestes a se dissolver em sensações, ele não parava. Pelo contrário.
Quanto mais eu cedia, mais ele parecia querer. Como se o meu prazer fosse o dele. Como se fosse um pacto silencioso: eu te levo até lá.
E eu cheguei.
Com os músculos tremendo, os dedos agarrados no mármore gelado do balcão, o coração acelerado e a alma despida.
Ainda me recuperando, senti quando ele subiu com a boca quente e o olhar carregado. Seu corpo roçava no meu, e foi então que senti — ele se encaixando em mim de um jeito ainda mais íntimo. Seu pau quente e firme deslizando entre meus lábios ainda sensíveis, como um aviso, uma pergunta, uma entrega prestes a acontecer.
A respiração dele contra meu pescoço era quase uma confissão.
Meu corpo pulsava, ainda trêmulo, mas mais vivo do que nunca.
Ele me olhou. Com desejo, sim — mas também com algo mais fundo. Algo que me desmontava inteira.
Ele parou por um segundo, os olhos mergulhados nos meus, o corpo ainda colado ao meu.
— … — a voz saiu mais baixa, quase rouca. — Eu não tenho camisinha.
Eu poderia ter hesitado. Mas não hesitei.
— Eu tenho DIU — respondi, com a respiração ainda entrecortada.
Quando finalmente me penetrou, foi lento. Cuidadoso. Como se estivesse aprendendo o caminho ao mesmo tempo em que me conduzia por ele. Um suspiro escapou dos meus lábios, e o dele veio junto, como se estivéssemos ligados por um só fôlego.
Nos movíamos num ritmo só nosso — um compasso entre o controle e a entrega.
Entre tudo o que fomos e o que, naquele momento, nos tornávamos.
Meus braços ao redor dos ombros dele, suas mãos firmes na minha cintura, os olhares presos um no outro como se desviar fosse perder o chão.
Era diferente.
Não era pressa, nem só desejo.
Era pertencimento.
Cada investida dele era profunda, carregada de sentimento. Seu pau era grande o suficiente para me preencher inteira, sentia ele todo dentro de mim, como se tivesse sido feito sob medida.
O ritmo dele aumentava e, ao mesmo tempo, me puxava junto .
Meu nome escapava dos lábios dele entre suspiros abafados.
E nos olhos dele, ainda colados aos meus, não havia nada além de desejo e verdade.
Quando ele chegou ao limite, me segurou com mais força, me manteve ali, unida a ele, e eu senti — o corpo inteiro dele tremendo contra o meu, o calor, o arrepio, o abandono do controle.
Ele gozou dentro de mim com a intensidade de quem não estava só saciando desejo — mas se entregando por inteiro.
E eu... recebi tudo como uma boa garota.
O olhar dele se intensificou. Havia algo novo ali — uma urgência contida, um desejo mais cru, mais profundo, mas ainda assim cheio de cuidado.
Ele me virou com firmeza, mas sem pressa, posicionando meu corpo contra o balcão frio da cozinha, e eu me apoiei ali, sentindo o contraste entre a superfície gelada e o calor que ainda ardia sob minha pele. Minhas pernas ainda bambas de praxes mas eu continuava empinada para ele.
— Que bunda gostosa… toda empinada pra mim… que nem uma vagabunda. — ele sussurrou, puxando meu cabelo com cuidado, só o suficiente pra me fazer arfar e fechar os olhos.
Então, uma palmada leve — mas audível — encontrou minha pele.
Uma, depois outra.
Não era dor. Era um convite. Uma provocação sutil, feita de som, arrepio e intenção.
Meu corpo respondeu antes da minha mente. Gemi de surpresa.
A próxima coisa que senti foram suas mãos em minha cintura, firmes, guiando meus movimentos.
Quando ele entrou de novo em mim, ainda bem duro, a sensação foi ainda mais intensa. Como se cada vez que nos encontrávamos, algo se alinhasse.
Ele se movia com ritmo firme e profundo, o calor da pele dele contra minhas costas, a respiração dele em meu pescoço, os sussurros roucos que escapavam de sua boca.
— Você é perfeita assim — ele disse entre um suspiro e outro, com os lábios quase colados à minha orelha. — Tão entregue, tão minha… Goza pra mim, vai…
Me deixei levar até o ápice, guiada por ele, envolta na certeza de que aquele prazer não era só físico — era conexão, era presença, era tudo o que eu nem sabia que precisava.
Meu corpo estremeceu inteiro. E, ao mesmo tempo senti ele gozando junto a mim. Me enchendo de leite, enquanto segurava firme meu quadril, encostado no balcão da cozinha.
A bancada da cozinha foi transformada em território neutro entre o caos e a rendição.
E, por fim, silêncio.
Daquele tipo que vem depois de uma guerra vencida — ou de um segredo finalmente revelado.
Capítulo 6 - After
Depois da primeira vez que dormimos juntos — a real, a intensa, a que deixou meu corpo em chamas e meu cérebro em colapso emocional — não houve conversa no dia seguinte. Nem promessas, nem frases doces no café da manhã.
Na verdade, nem houve café.
acordou antes de mim, deixou um bilhete rabiscado com uma carinha sorrindo e três palavras:
“Deixei silêncio. Aproveita.”
E eu ri. Porque era típico dele. E porque, no fundo, eu não sabia o que esperava mesmo.
O mais curioso?
A vida seguiu.
Naturalmente.
Sem climão, sem DR, sem “então, o que somos?”.
Nos dias seguintes, voltamos à nossa rotina. Cafés trocados. Elevador compartilhado. Comentários sarcásticos no corredor.
Mas agora... havia mais.
Mais olhares demorados.
Mais toques rápidos disfarçados de casualidade.
Mais noites em que ele aparecia na minha porta com o cabelo molhado e uma desculpa boba tipo “esqueci minha chave de fenda aqui?”
E eu deixava entrar.
E ele ficava.
E a gente transava.
Com vontade. Com entrega. Com aquele tipo de urgência que finge ser só física.
Na manhã seguinte, ele sumia de novo. E a gente fingia que nada mudou.
— Isso tá estranho? — perguntei pra Helena, enquanto cortava uma banana no iogurte com mais agressividade do que deveria.
— Estranho é relativo. Você gosta dele?
— Não sei.
— Mas transa com ele?
— Com frequência.
— E conversa?
— De vez em quando. Tipo… no intervalo entre tirar a blusa e procurar a calcinha.
Helena fez uma careta pensativa.
— Então é sexo com conversa eventual. Tipo amigos com benefícios?
— Amigos é uma palavra forte. A gente é… vizinhos com benefícios?
Ela riu.
— E o coração, tá onde nessa equação?
— Guardado no cofre. Com senha.
Mentira.
Mas ela fingiu acreditar.
não cobrava nada.
Nem eu.
Era leve. Simples. Sem pressa. Sem rótulo.
E, aparentemente, era assim que a gente funcionava melhor.
Ele vinha quando queria.
E eu deixava.
Eu dizia que era só desejo.
E ele nunca me contradizia.
Mas, às vezes, no silêncio depois, quando o mundo lá fora parecia tão distante e eu me pegava observando ele dormindo de lado — com aquele sorrisinho idiota e a mão largada sobre minha barriga — eu me perguntava:
Até quando esse “nada sério” vai continuar sendo tudo o que a gente finge que quer?
O filme ainda passava na TV, mas nenhum de nós prestava atenção. Estávamos deitados de lado, pernas entrelaçadas, a pele ainda quente do que tinha acabado de acontecer. A manta sobre nós dois era quase simbólica — como se bastasse algo leve pra manter aquele momento inteiro.
traçava círculos preguiçosos com o dedo na lateral da minha coxa, e eu observava os cílios dele piscando devagar, como se o sono estivesse tentando puxá-lo pra longe dali. Mas ele resistia. E isso, por algum motivo, me dava uma paz estranha.
— Você tá pensando no quê? — ele perguntou, sem abrir os olhos.
— Que você parece calmo. De um jeito... raro.
— Eu tô. Aqui. Com você.
— Isso é romântico demais pra quem insiste que somos só... isso aqui.
Ele abriu os olhos e virou o rosto em minha direção.
— Acha que não posso ser romântico?
— Acho que você é um homem de camadas. A maioria feita de sarcasmo.
— E você é uma mulher de muros. Altos.
Fiquei em silêncio por um instante, encarando o teto como se as respostas estivessem desenhadas ali.
— Você sabia que, desde que a gente começou isso... — comecei, a voz um pouco rouca — eu me sinto mais... eu?
— Como assim?
— Como se tivesse alguém me vendo. Sem o título de “filha do chefe”. Sem a doutoranda de excelência. Sem performance. Só... eu. — Virei o rosto pra ele. — E isso é raro. Muito raro.
Ele me olhou por alguns segundos. Os dedos pararam de se mover na minha perna.
— ...
— Não tô pedindo nada. Nem rótulo, nem exclusividade, nem drama. Só tô dizendo... que eu gosto de como me sinto com você. E que isso assusta. Porque eu não estava pronta pra gostar de ninguém agora.
O silêncio que veio não foi pesado. Foi denso. Vivo.
Ele deslizou os dedos até meu rosto, afastando um fio do meu cabelo da bochecha.
— Sabia que, no fundo, você tinha um coração.
— ...
— Tô brincando. Relaxa.
— Não. Você não tá brincando. Você só não sabe o que fazer quando alguém te fala algo real. Então transforma em piada pra não ter que lidar.
— Eu só... não esperava ouvir isso hoje.
— Nem eu esperava dizer.
Ele respirou fundo. Virou de barriga pra cima, olhando o teto. E ficou assim.
Eu também fiquei quieta.
Porque era isso que eu fazia: me abria, me assustava e recuava.
Uma noite, ele apareceu à minha porta de moletom e cabelo molhado, segurando uma chave de fenda como se aquilo fosse um passe livre pro meu apartamento.
— Você deixou isso aqui?
— Isso é meu?
— Não. Mas parecia convincente.
— Você é péssimo em desculpas.
— Eu sou ótimo em intenções.
— Você é péssimo em intenções também.
Mas eu ri. E abri a porta.
Ele entrou como quem já conhecia o caminho. E conhecia. Não só do corredor até o sofá — mas até meu corpo. Até minha respiração.
Era sempre assim: ele vinha.
A gente se beijava devagar até parar de fingir que era só beijo.
E então tudo virava urgência.
Mãos. Boca. Pele. Manta caída no chão.
E depois... silêncio.
Não um silêncio constrangedor.
Um silêncio de quem se conhece mais pelo corpo do que pela palavra.
Na manhã seguinte, ele desaparecia antes do sol bater na persiana. Deixava um bilhete, ou nada. E eu fazia café como se ele não tivesse estado ali.
Mas ele esteve.
Sempre estava.
Na terça, ele apareceu com sorvete.
— É de pistache, mas prometo que tem gosto de afeto gelado — disse, estendendo o pote com um sorriso.
— Eu prefiro chocolate.
— Eu prefiro você — respondeu, já entrando no meu apartamento.
— ...
— Apenas flerte casual.
— Flerte casual com implicações afetivas perigosas.
— Perigosas pra quem?
— Pro meu autocontrole.
Ele deu uma colherada no sorvete e se sentou no chão da minha cozinha, como se fosse hábito. Como se aquilo — nós dois, sorvete, terça à noite — fosse uma rotina velha, confortável.
Talvez já fosse.
Na quinta, ele estava no meu apê trabalhando num projeto enquanto eu revisava um artigo no sofá.
A gente não falava muito. Só dividia o silêncio e trocava olhares entre uma frase e outra. Quando nossas mãos se esbarravam ao pegar o mesmo controle remoto, ficávamos assim — um segundo a mais do que o necessário.
Ele olhou pra mim, sério.
— Isso aqui tá virando o quê?
— Um escritório interdepartamental com benefícios.
Ele riu. Aquele riso quente, que me fazia derreter por dentro e fingir que não estava.
— Você sempre tem resposta pra tudo.
— E você sempre tem um jeito de fazer parecer que eu tô perdendo.
— Você já perdeu, . A hora que me deixou entrar pela terceira vez com uma desculpa inventada.
— Foi a quarta.
— Exatamente.
No sábado, ele ficou até o dia amanhecer.
A gente dormiu entrelaçado, com o corpo quente demais sob o lençol, e quando acordei com a luz tímida entrando pelas frestas, ele ainda estava ali.
De olhos fechados. Respirando fundo. Um dos braços jogado sobre minha barriga.
Era bonito demais.
Aquela paz que ele me trazia quando simplesmente... ficava.
Acariciei de leve o braço dele, só um toque leve com a ponta dos dedos. Ele sorriu, de olhos ainda fechados.
— Isso foi um carinho ou uma tentativa de me acordar pra eu ir embora?
— As duas coisas.
— Já são sete?
— Seis e meia.
— Então posso te abraçar mais dez minutos?
Eu não respondi. Só deixei.
E ele me abraçou.
Com força.
Com afeto.
Com um tipo de cuidado que deixava meu peito apertado e minha cabeça inquieta.
Aquilo era casual?
Talvez.
Mas só se a gente redefinisse o que casual queria dizer.
Naquela noite, ele cozinhou no meu apê.
Macarrão. Vinho. Toalha improvisada de pano de prato.
A gente dançou desajeitado na cozinha enquanto esperava a água ferver.
Ele me girou com a mão suja de molho.
— Isso é romântico — eu disse, fingindo desdém.
— Isso é perigoso.
— Por quê?
— Porque parece pra sempre.
Eu não respondi.
Mas sorri.
E pela primeira vez... não neguei.
Capítulo 7 - Megera
P.o.v:
— Então você e a filha do chefe, hein? — Bruna comentou, depois do terceiro gole em seu café. — Finalmente assumiu que está enroscado.
— Não é enrosco — falei, dando de ombros. — É… situação.
— Ah, claro. Sentimentos sem contrato. A velha desculpa dos comprometidos em negação.
Soltei um riso abafado e encostei nas costas da cadeira do café, observando a rua pela vidraça.
— é complicada.
— E você adora isso.
— Eu… gosto do desafio, talvez. Da cabeça dela. Do gênio difícil. Ela é como uma fortaleza. Mas nos últimos tempos, ela estava cedendo. Dando abertura. Foi quase como…
— Como o quê?
— Como A Megera Domada.
Bruna arqueou uma sobrancelha, pronta pro show.
— Shakespeare, ? Sério?
— Eu me acho... sortudo. É como... construir um prédio onde só havia entulho emocional. E olha, não tô dizendo que ela tá apaixonada, mas ela tá cedendo. E eu tô ali. No centro da muralha.
— Você realmente disse “entulho emocional” em um elogio?
— Eu sou arquiteto, Bruna. Tá no sangue.
Ela riu.
Bruna me olhou com a sobrancelha arqueada. Eu continuei, meio inflado demais com minha própria piada:
— Ela bate forte, mas... tá baixando a guarda. Só falta admitir que tá caidinha.
Nesse exato instante, percebi a sombra na porta do café.
E o nome dela...
Na minha boca, alto demais.
.
De pé.
Parada.
Ouvindo tudo.
O sorriso no rosto dela já tinha morrido.
Os olhos estavam fixos em mim.
E tudo o que eu tinha dito, brincando...
Soava como golpe baixo.
Porque foi.
E eu soube ali, naquele segundo:
Eu feri o coração que mais tentava me amar em silêncio.
P.o.v:
Eu não estava tentando ouvir.
Sério.
Era pra ser só uma visita rápida até a portaria pra pegar um documento da universidade que tinham deixado comigo por engano. Mas quando voltei e passei em frente à porta entreaberta do 804, parei. Instintivamente.
A voz dele. Risada fácil. A de Bruna, logo depois.
Me aproximei um pouco. Curiosidade, só isso. Curiosidade e um impulso idiota que eu já deveria ter aprendido a controlar.
— é complicada.
— E você adora isso.
— Eu… gosto do desafio, talvez. Da cabeça dela. Do gênio difícil. Ela é como uma fortaleza. Mas nos últimos tempos, ela estava cedendo. Dando abertura. Foi quase como…
— Como o quê?
— Como A Megera Domada.
Bruna riu. E ele também. Como se fosse uma piada inocente.
Como se eu fosse... nada.
A raiva queimou de imediato, acendendo a mágoa que eu achava ter apagado.
Empurrei a porta com força suficiente para bater contra a parede.
Eles se viraram, assustados. largou a xícara. Bruna arregalou os olhos.
— Que lindo — falei, com veneno na voz. — Vencer a batalha. Domar a megera. Tá virando uma novela medieval isso aqui?
— — ele começou, levantando-se. — Não era...
— Não era pra eu ouvir? Pois é. Que pena. Meu ouvido resolveu dar uma volta no corredor hoje.
Bruna ficou em silêncio, desconfortável.
— Que reconfortante saber que fui parte de uma guerra. E que a vitória te trouxe tanta paz.
Os dois congelaram. Bruna olhou pra mim com um misto de culpa e surpresa. , por outro lado, parecia que tinha acabado de levar um soco no estômago.
— ...
Levantei a mão, cortando qualquer tentativa de explicação.
— Não se incomodem — continuei. — A “megera” sabe se retirar. E da próxima vez que resolverem conversar sobre ela como se fosse um troféu ou um obstáculo vencido, tentem lembrar que eu moro na porra da porta da frente.
E bati a porta. Forte. O som ecoou pelo corredor.
P.o.v:
A porta ainda estava vibrando quando o silêncio caiu. Denso. Definitivo.
Eu fiquei ali parado por alguns segundos, como se meu cérebro não tivesse registrado direito o que tinha acabado de acontecer. O som da voz da — cortante, ferida, tão carregada de ironia e mágoa — ainda reverberava nos meus ouvidos.
Bruna foi a primeira a se mexer.
— Uau — disse, ajeitando o cabelo, ainda de pé no meio da sala. — Acho que agora a “megera” vai te transformar em sapo com um estalar de dedos.
— Bruna, não começa.
— Ah, desculpa — ela ergueu as mãos. — Foi você quem começou. Quem disse que “venceu a batalha”. Eu só entrei no clima da piada idiota.
Suspirei. Afundei na cadeira como se o estofado pudesse me esconder do desastre.
— Eu não quis dizer aquilo daquele jeito.
Bruna cruzou os braços, séria agora.
— Mas disse. E você sabia que não era só uma brincadeira. Nem pra você.
Fiquei em silêncio. Porque, no fundo, ela tinha razão.
— Sabe o que é? — continuei, tentando racionalizar. — A é... impossível. Arisca. Mandona. E eu...
— ...Tá apaixonado por ela.
Levantei os olhos pra Bruna, em choque.
— O quê?
— Para de fingir que não sabe. Todo mundo percebe. Até o porteiro deve saber. E se você tivesse metade da coragem que acha que tem, já teria dito isso pra ela. Mas não — ela apontou pra mim. — Você preferiu fazer piada. Transformar o que teve com ela numa disputa.
— Eu estava nervoso. Ela mexe comigo, Bruna. De um jeito que me tira do eixo. Eu não estava tentando machucá-la, eu só...
— Se protegeu. Como sempre. Você destrói suas chances antes mesmo que alguém possa te rejeitar. Mas, parabéns: dessa vez, se destruiu e machucou alguém de quem gosta.
O silêncio voltou. Mais incômodo agora.
Eu passei a mão na nuca. O peito apertado de um jeito familiar. Culpa. E algo pior: arrependimento real.
— Eu vou falar com ela.
— Não hoje — Bruna disse, pegando a bolsa. — Dá um tempo. E pensa no que você quer. Porque da próxima vez que for até ela, ... não mente nem pra si mesmo.
Ela saiu, me deixando sozinho com minha estupidez.
Fiquei ali, olhando para a porta fechada.
E pensando na outra porta — a que eu fiz bater — e se algum dia ela vai se abrir de novo pra mim.
Capítulo 8 - Ausência
Fazia três dias que ela não aparecia.
Nada de passos apressados no corredor. Nada de xícaras batendo contra a borda da pia logo cedo. Nada de sarcasmo atravessando a parede como música ambiente.
Nada de .
Ela tinha sumido da minha vida.
Bati na porta dela duas vezes naquela semana. A primeira, com a desculpa de devolver um livro que ela esqueceu no meu apê. A segunda, com um pedaço do bolo que eu mesmo tentei fazer (nota: nunca confie no fermento vencido).
Nenhuma resposta.
Quando finalmente nos esbarramos — no elevador, sábado à tarde — ela só me lançou um olhar curto. Cruelmente educado.
— Oi, .
O tom era neutro. Impecável. Como se eu fosse um conhecido distante que ela precisava tolerar por trinta segundos.
— , eu... — comecei, desesperado por uma abertura.
— Não precisa — ela cortou, com aquele falso sorriso que doía mais do que um grito. — Já passou.
E, sem me olhar de novo, saiu do elevador no terceiro andar. Mesmo morando no oitavo.
Foi assim pelas semanas seguintes.
Eu tentei. Convites deixados na porta. Um bilhete com piada interna (ela não respondeu). Um vaso pequeno com lavanda (ela devolveu no dia seguinte com um post-it: “Alergia. Mas valeu o esforço.”)
Nada quebrava o escudo.
Ela estava ferida. E pela primeira vez, entendi que ela não queria só se afastar. Ela queria que eu sentisse o que ela sentiu.
O desprezo. A exclusão. A dor de ser tratado como algo descartável.
E pior: estava funcionando.
Cada silêncio dela era uma punição elegante. E justa.
Porque agora eu queria ela por inteiro.
E ela queria distância suficiente pra me esquecer.
inventou uma habilidade que eu desconhecia: ser invisível com presença.
Ela não sumiu de verdade. Estava por aí — na lavanderia do prédio às segundas, no mercado da esquina às quintas, andando de moletom com o capuz puxado até os olhos. Mas toda vez que eu me aproximava... ela evaporava.
Literalmente, já a vi entrar no elevador, me ver, e apertar o botão de próximo andar e subir até o oitavo pelas escadas para me evitar.
Eu teria rido, se não doesse.
Hoje mesmo, deixei dois cafés na porta dela. Um com leite de amêndoas, como ela gosta. E um bilhete: “Trégua? Pelo menos nos copos descartáveis.”
Horas depois, achei os dois copos na lixeira do corredor. Intactos. O bilhete de volta, com uma palavra rabiscada à caneta:
“Não.”
Na terça, fui até a síndica. Ajudei a consertar a iluminação do hall de entrada, onde uma das lâmpadas tinha dado curto. Fiz isso porque era uma boa ação. E também porque descobri que passa por ali toda manhã.
Funcionou. Quase.
Ela apareceu. Linda, mesmo com olheiras e cara de poucos amigos. E quando viu minhas mãos sujas de poeira e a escada ainda aberta no canto, soltou um “Tsc” baixinho.
— Virou zelador agora?
— Só tentando melhorar o ambiente — respondi, ainda pendurado no alto da escada. — Tem vizinhos que merecem um pouco mais de luz.
Ela me encarou. Por um segundo, quase sorriu.
Mas não.
— Não tenta ser poético, . Você não combina com isso.
E passou.
Bruna riu quando contei. Disse que eu parecia um adolescente idiota tentando chamar atenção da crush com origami e bilhetinhos.
— Você tá apaixonado — ela disse, mastigando pipoca no sofá da minha sala.
— Não tô.
— Aham. E aquele bolo de maçã que você assou ontem “por acaso” e levou pro 802 só pra ouvir um “não” pessoalmente?
— Foi só uma sobremesa.
— Foi um pedido de socorro em forma de carboidrato.
Suspirei. Bruna tinha razão. E isso me irritava.
No domingo, ouvi barulho vindo do apartamento dela. Uma música baixa. Something - Beatles.
Tomei coragem. Bati na porta.
Nada.
Bati de novo.
E então, a maçaneta girou.
Meu coração quase saiu pela boca.
surgiu. Descalça. Cabelo preso num coque bagunçado. Uma camisa velha da universidade.
Ela não falou nada. Só ficou ali. Esperando.
— Eu... só queria dizer que não desisti — murmurei. — E que eu entendo se você precisar de tempo. Mas eu tô aqui. E... arrependido.
Ela respirou fundo. Longo. Doloroso.
— , você já teve sua chance de me escutar. De me ver. De me respeitar.
— Eu sei.
— E agora quer me conquistar com café, bolo e iluminação de hall?
— E charme. Não esquece do charme.
Ela quase sorriu de novo. Quase.
— Boa noite, .
E fechou a porta. Com delicadeza. Como quem fecha uma janela num vendaval.
Fiquei ali, parado, encarando a madeira.
Eu não sabia se ela ainda me odiava, ou se só estava tentando não amar alguém que já a machucou.
Talvez fosse os dois.
E talvez, pela primeira vez na vida... eu estivesse disposto a merecer o perdão de alguém.
Mesmo que isso levasse o tempo que ela quisesse.
Capítulo 9 - Tempo
P.o.v:
Choveu a semana inteira.
O tipo de chuva fina, insistente, que parece querer lavar tudo — o ar, as ruas, e talvez até a culpa de alguém.
Na sexta-feira, encontrei com ela no hall de entrada. Por acaso — juro. Eu estava indo sair, ela chegando da faculdade, abraçada a uma pilha de pastas molhadas.
— Precisa de ajuda? — perguntei, com as mãos já estendidas.
Ela hesitou. Longo o suficiente pra que eu quase desistisse. Mas então, sem uma palavra, me entregou metade da papelada.
Subimos juntos no elevador.
Em silêncio.
O barulho da chuva lá fora era o único som, até que ela murmurou, sem me encarar:
— O condomínio não vai te pagar hora extra por tanto esforço pra parecer prestativo, sabia?
— Tô fazendo estágio emocional. Tentando me formar em "não ser um idiota."
Ela soltou um suspiro. Curto. Mas não era de impaciência. Era cansaço. Ou rendição.
— Boa sorte na monografia.
Mais tarde, bati na porta dela com um pacote de bolinhas de queijo. Sabia que ela costumava esquecer de jantar nos dias de fechamento de artigo.
Ela abriu. Não tão rápido quanto eu queria, mas mais rápido do que antes.
— O que é agora? Uma torta de desculpas? Uma pizza de arrependimento?
— Só comida mesmo. E... talvez uma oferta de paz, edição limitada.
Ela olhou para o pacote. Depois para mim.
— Você é persistente, hein?
— É o que dizem.
Silêncio.
E então, o impensável.
Ela abriu a porta.
— Cinco minutos. Sem drama. Sem conversa profunda. Só comida.
Entrei como quem pisa em território sagrado.
Nos sentamos no chão da sala, com a caixa entre nós, o som da chuva como trilha sonora.
— Como tá o doutorado? — perguntei.
— Tentando não surtar. Só isso já ocupa uns 80% da minha energia.
— E os outros 20%?
— Gastos tentando não socar vizinhos inconvenientes.
Eu ri. E, por um instante, ela riu também. Baixo. Curto. Mas real.
Depois do terceiro pedaço, ela falou:
— Eu não sou tão carente quanto você disse.
— Eu sei.
— E eu não sou uma “megera”.
— Também sei.
Ela olhou pra mim. Os olhos escurecidos, vulneráveis demais para quem sempre me enfrentou de armadura.
— Então por que você disse?
Eu abaixei a cabeça. A vergonha ainda mora no fundo da garganta.
— Porque eu sou um imbecil que acha que pode se proteger com sarcasmo. Porque eu não sabia como lidar com... o que eu sinto por você.
Ela não respondeu.
Mas também não me expulsou.
Antes de ir embora, virei pra ela na porta.
— Posso te ver de novo?
Ela me olhou. Longo. Fundo.
— Talvez.
E fechou a porta devagar.
Mas não trancou.
Não dessa vez.
P.o.v:
Não tranquei a porta.
Percebi isso uns dez minutos depois de sair, quando fui checar se tinha deixado o fogão ligado. Estava tudo certo. Exceto por mim.
Porque o erro real não estava em deixar a porta sem chave. Era ter deixado ele entrar.
Mesmo com todas as promessas que fiz a mim mesma — não vou olhar, não vou ouvir, não vou deixar que isso me atinja — bastaram cinco minutos com ele ali, jogado no chão da minha sala com bolinhas de queijo entre nós, e eu já estava querendo esquecer de tudo.
Eu odiava isso. A facilidade com que ele se infiltrava.
A forma como ainda lembrava que eu esquecia de jantar.
O som do riso dele ainda estava preso em algum lugar do meu peito. E a pior parte?
Eu gostei de ouvir.
No dia seguinte, deixei um bilhete no espelho. Um lembrete:
“Você não é uma história que ele pode largar no meio.”
Mas no fim da tarde, ouvi ele assobiando no corredor. Meu corpo inteiro reconheceu o som antes da minha mente conseguir protestar.
Fiquei em silêncio. Só ouvindo. Fingindo que não existia.
Ele começou a surgir nos horários mais improváveis.
Trazia coisas pequenas: um café deixado na minha porta. Um livro que mencionei sem querer. Um carregador “esquecido” no elevador.
Era como se estivesse escrevendo uma nova versão dele mesmo com pequenas correções. Uma tentativa de ser reescrito.
Mas eu não queria um rascunho melhorado.
Eu queria verdade.
Quarta-feira.
Cheguei em casa tarde. Estava exausta. Só queria banho, cama e não pensar nele.
Mas a campainha tocou.
E eu soube.
Ele estava do outro lado.
Abri — mais por impulso do que por decisão.
— Achei que você gostaria disso. — Ele ergueu uma sacola. Chocolate quente de um café que eu amava, do outro lado da cidade.
— Você foi até lá?
— Quarenta minutos no trânsito. E mais vinte tentando convencer a atendente a colocar marshmallows duplos.
Eu deveria dizer “obrigada” e fechar a porta.
Mas aceitei a bebida. E fiquei ali, segurando aquele copo como se fosse a única coisa quente na minha vida.
Ele não tentou entrar.
Nem forçou a conversa.
Só ficou me olhando. Esperando.
E eu odiei... odiar menos.
Depois que ele se foi, sentei no chão da cozinha, ainda com o copo nas mãos. O chocolate já morno, e os pensamentos fervendo.
Porque algo em mim começava a ceder.
Uma rachadura, uma trinca na armadura.
Mas ceder não significava perdoar.
Ainda não.
Ele começou a me dar bom dia.
Todo. Santo. Dia.
Às vezes era com um aceno. Outras, com aquele sorriso torto, preguiçoso, que eu fingia não ver. Teve uma manhã que ele apareceu no hall com o cabelo molhado, camiseta preta justa, e eu — que estava determinada a manter a cara fechada — tropecei no próprio chinelo.
Literalmente.
Ele riu. Alto.
— Tá tudo bem aí, vizinha?
— Tô ótima. Só tropecei no desgosto de ter que ver sua cara antes do café.
— Desgosto bonito, né?
Revirei os olhos. Fingi que não ouvi.
Mas ouvi. E guardei.
Na quinta, ele deixou um post-it na minha porta:
“Se quiser evitar minha cara, recomendo sair só após as 9h.
Atenciosamente, ”
Achei graça. Mas arranquei o bilhete e joguei no lixo.
Mentira. Dobrei e guardei na gaveta da escrivaninha.
Sábado.
Ele cantava no chuveiro. Alto. Uma versão sofrida de alguma música brega dos anos 2000. E pior: com sentimento.
Bati na parede entre os apartamentos.
— Tem gente tentando trabalhar aqui!
— Tem gente tentando curar um coração partido aqui!
— Compra um fone, !
— Compra um coração, !
Aquele idiota.
Com a voz bonita.
No domingo, passei pelo mercado perto de casa. Vi uma barraca com o mesmo pão de ervas que comemos uma vez — naquela noite em que tudo ainda era um talvez.
Comprei dois. Por reflexo.
Na volta, um ficou na minha sacola. O outro, deixei pendurado na porta dele, sem bilhete.
Me xinguei mentalmente o resto do dia.
Mas no fim da noite, encontrei um papel dobrado na minha caixa de correspondência:
“É oficial. Estou enfeitiçado. Se continuar alimentando, vou seguir você pela casa. Assinado: seu vizinho em modo cão de guarda.”
Eu não respondi.
Mas deixei a porta entreaberta quando ele passou no corredor, no dia seguinte.
Só um centímetro.
Só pra ele saber que ainda tinha um lugar por onde entrar. Um dia.
Talvez.
P.o.v:
Ela deixou a porta entreaberta.
Eu vi.
E quem já passou semanas levando patada de alguém que antes te olhava como se você fosse o problema mais interessante do mundo... bem, esse alguém enxerga uma porta entreaberta como um sinal. Um convite. Ou, no mínimo, uma trégua.
Então eu fui.
Bati de leve, como quem respeita o espaço, mas torce pra ser bem-vindo. A campainha nem precisou tocar — ela já estava ali, do outro lado, com uma camiseta larga e os olhos mais cansados do que costumavam ser.
— Tá tudo bem? — arrisquei.
Ela me olhou por um segundo. Longo o suficiente pra me deixar esperançoso.
— ... — começou, com aquele tom de “não faça isso”.
Mas eu já tinha feito.
Estendi o braço com a sacola.
— Comprei aquele vinho que você gosta. E... pensei que a gente podia conversar. Sem defesas. Sem provocação. Só... eu e você.
Ela não pegou a sacola.
Nem sorriu.
— Você pensou errado.
O chão pareceu recuar um pouco sob meus pés.
— ...
— Eu deixei a porta entreaberta porque estava com calor. Só isso. E agora tô ficando com frio. Vai entender.
Eu podia ter rido. Feito uma piada. Mas não consegui.
— Eu só quero uma chance de te mostrar que não foi só aquilo. Que eu errei. E tô tentando consertar.
Ela cruzou os braços. Uma muralha de olhos e silêncio.
— Você acha que um vinho resolve as coisas?
— Não. Mas eu achei que podia ser um começo.
— Você acha muito ultimamente.
Aquilo doeu mais do que eu imaginava.
— Me dá uma chance de explicar.
— ... você já explicou. Disse que precisava me tirar da cabeça. Que era só química. Que eu sou complicada. Você desenhou o mapa da rejeição com todas as letras.
— Eu estava com medo.
— Eu também. Mas eu não transformei meu medo em crueldade.
Silêncio.
E então, o golpe final:
— Vai embora.
Ela não gritou.
Foi pior.
Ela disse com a voz baixa, firme. E me olhou como se finalmente tivesse aprendido a não me deixar entrar. Nem pela porta, nem pelo coração.
Fiquei parado por um segundo. Esperando, talvez, que ela se arrependesse, ou dissesse “fica”. Mas ela só deu um passo pra trás.
Fechou a porta devagar.
E, desta vez, trancou.
Fiquei ali por alguns segundos.
Só o som do corredor.
E o peso da sacola no meu braço.
Eu devia ter esperado.
Mas quando a gente ama alguém difícil, todo silêncio parece um sim.
Errei o tempo.
De novo.
P.o.v:
Passei os três dias seguintes tentando ser maduro.
Fracassei em todos.
Primeiro, me convenci de que só precisava de espaço. Ela vai pensar, processar, lembrar do pão, do bilhete, do vinho... E vai perceber que eu sou diferente. Que eu tô tentando.
No segundo dia, fiquei irritado. Comigo. Com ela. Com o universo que me fez apaixonar logo pela filha do meu chefe. Uma mulher teimosa, brilhante, com uma língua afiada e um sorriso que se recusava a voltar.
No terceiro, ouvi a risada.
Grave.
Masculina.
Do outro lado da parede.
Parei no meio do corredor, sacola do mercado ainda na mão. Eram 18h. Hora em que , normalmente, estava com cara de pós-doutorado — exausta, sem paciência, com fone de ouvido.
Mas agora?
Ela ria.
Alta. Livre. Solta. E não sozinha.
Encostei na porta do meu apartamento, mas os olhos seguiram fixos na porta dela. Tentei não pensar. Mas minha mente correu pelas possibilidades como um idiota assistindo a própria derrota no replay.
E então ouvi:
— Eu não aguento você! — ela dizia, rindo.
Aquela risada.
Aquela risada que costumava ser minha vitória secreta.
Rangi os dentes. Entrei no apartamento, como um homem civilizado.
Mas não consegui evitar.
Encostei o ouvido na parede.
Só por dois segundos.
Ouvi o cara dizer algo baixo. Ela respondeu com outra risada abafada. Depois, silêncio. O tipo de silêncio que deixa a mente trabalhar sozinha.
Sentei no sofá.
Não liguei a TV.
Fiquei olhando o teto, com o punho cerrado.
Não era ciúmes. Claro que não.
Era só... frustração.
E arrependimento.
Porque talvez, só talvez, eu tivesse domado a megera sim.
Mas ela também me virou do avesso.
E agora estava ali, radiante com outro.
E eu?
Eu era só o idiota do corredor, com o coração batendo rápido demais por alguém que — desta vez — realmente não me queria por perto.
Capítulo 10 - Dinner
P.o.v:
Sebastian chegou com um vinho na mão e um sorriso debochado no rosto.
— Tem certeza que não quer só me apresentar como seu noivo alemão que herdou um castelo?
Revirei os olhos, já rindo.
— Não exagera. É só um jantar de família. Com um convidado específico que precisa ver que a vida seguiu muito bem sem ele.
Sebastian ergueu a taça imaginária.
— Ah. O ex-ficante tóxico? Aquela história do arquiteto gostoso e emocionalmente analfabeto?
— Exatamente esse.
Ele se jogou no sofá com a elegância de quem sabia o próprio charme.
— E a vingança é... me exibir como sua nova paixão secreta?
— Algo assim. Você não precisa dizer nada. Só sorrir, puxar minha cadeira, servir meu vinho. O básico.
— E seduzir todo mundo com meu charme europeu?
— É pedir demais?
Ele sorriu.
— Estou dentro.
Nos encaramos por alguns segundos, antes de rirmos juntos como nos velhos tempos, na cozinha apertada do nosso apartamento em Berlim. Sebastian era meu porto seguro. O único que sabia exatamente como me feriu — e o único que não me julgava por querer devolver na mesma moeda.
Porque não era só vingança.
Era... recuperação de autoestima. Recalibrar o eixo. Mostrar pra mim mesma que eu ainda podia causar o mesmo impacto.
E se estivesse no jantar — como eu sabia que estaria, graças ao meu pai e sua mania de tentar juntar pessoas em jantares de domingo — então que aprendesse, de uma vez por todas, que eu não era de ninguém. E muito menos dele.
No espelho, ajeitei meu vestido azul-marinho. Simples, elegante. Só o suficiente pra deixar o decote na medida entre “oi, tudo bem?” e “você me perdeu”.
Sebastian apareceu na porta do quarto, já pronto, camisa branca, barba feita, perfume francês.
— Estamos prontos para o espetáculo?
Respirei fundo.
— Vamos jantar.
E, com um sorriso no rosto, fui causar um pequeno terremoto.
Nada como um domingo em família para reacender o fogo certo.
P.o.v:
— Ok, vamos de novo. — Sebastian pigarreou, ajustando o colarinho da camisa enquanto o carro parava no sinal vermelho. — “E aí, meu sogrão, tá tranquilo?”
Eu gargalhei tão alto que quase perdi o controle do volante.
— Não! De jeito nenhum! Você soou como um dublador de propaganda de cerveja. Muito forçado.
— Mas eu achei convincente! — Ele abriu os braços. — Tem uma entonação típica no “tá tranquilo” que exige prática, Lari. Respeita minha arte.
— Hetero não fala com vírgulas. Fala tudo de uma vez, arrastado. Tipo: “tátrank?”
— Tátrank? — Ele repetiu, arrastando a voz com cara de dor. — Parece que eu tô passando mal.
— Exatamente. Você está indo muito bem.
Ele suspirou dramaticamente.
— E como é que eu devo te chamar? “Mô”? “Princesa”? “Gata”? Ou aquele clássico: “minha mulher”?
— Ai, não exagera — falei, rindo. — Só me chama de “amor” de vez em quando. E, se quiser, coloca a mão na minha cintura como se fosse normal.
— Isso eu sei fazer. — Ele estalou os dedos. — Vi todos os episódios de Grey’s Anatomy. E já fui o plus one hétero da Natasha num jantar em Viena. Fiquei do lado dela com pose de CEO de fintech.
— Perfeito. Agora só falta uma coisa.
— O quê?
— Você não pode parecer mais bonito do que eu.
Ele sorriu com um olhar de pura maldade.
— Amor... isso não é personagem. Isso é genética.
Bati de leve no ombro dele enquanto encostava o carro.
— Se você não fosse gay, eu te odiaria.
Ele piscou.
— E se você não fosse uma mulher maravilhosa em busca de vingança emocional passivo-agressiva, eu recusaria esse papel.
Nos encaramos. Conspiradores. Prontos.
— Vamos causar um caos — murmurei.
— O melhor tipo de domingo, amor.
E descemos do carro de braços dados, rumo ao jantar que, eu tinha certeza, ia render bons capítulos na minha própria novela interna.
O jantar de domingo na casa do Marcos sempre começava com vinho e termina com alguém discutindo sobre quem faz o melhor churrasco. Era uma tradição que eu já conhecia bem — mesa farta, risadas altas, e ele tentando a todo custo me convencer a virar sócio em mais algum projeto maluco.
Eu até estava me esforçando para parecer presente, mas minha cabeça estava em outro lugar. Em outro apartamento. Com outra pessoa.
.
Já fazia dias que ela não me olhava por mais de três segundos seguidos. Me evitava com uma disciplina militar. E quanto mais eu tentava quebrar o gelo, mais ela congelava.
E então, claro, foi exatamente nesse clima de leve desespero silencioso que ela entrou na sala.
Linda.
Vestido azul, sorriso leve. E um cara ao lado.
Alto. Bonito. Bem arrumado. Com uma confiança que só quem se sente absolutamente confortável na própria pele carrega.
— Gente, esse é o Sebastian — ela disse, pousando a mão no braço dele de um jeito casual... ou propositalmente casual demais. — Meu amigo dos tempos de Berlim. Ele tá no Brasil por uns dias, então resolvi trazer pro jantar.
O “amigo” estendeu a mão com simpatia. Todos sorriram, deram as boas-vindas. Eu sorri também. Aquela coisa automática, protocolar. Mas por dentro?
Um soco bem no estômago.
Principalmente quando ele puxou a cadeira pra ela. Principalmente quando ela riu de algo que ele cochichou. Principalmente quando ela parecia... leve. Radiante.
Comigo, ela nunca estava assim. Não mais.
Sebastian sentou do lado dela e colocou uma mão em sua cintura com naturalidade. Ela não recuou. Aliás, ela se inclinou um pouco, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Meu garfo rangeu contra o prato.
— Tudo bem, ? — Marcos perguntou, percebendo minha distração.
— Tudo ótimo — menti, tomando um gole do vinho que queimou como ácido.
Durante o jantar, tentei me concentrar em qualquer assunto. Política, futebol, o novo projeto do prédio em Campinas. Mas meus olhos iam parar nela toda vez.
Ela estava jogando o jogo. E jogando bem.
O pior?
Funcionava.
A cada riso, a cada olhar, eu sentia que a distância entre nós aumentava. E que talvez eu realmente tivesse perdido algo... ou alguém.
E isso, pra alguém como eu, doía mais do que eu queria admitir.
P.o.v:
Sebastian era um gênio.
Com uma taça de vinho em uma mão e a outra repousando casualmente na minha cintura, ele parecia ter nascido para seduzir uma sala inteira. E fez exatamente isso. Em questão de minutos, minha família o adorava.
— E então o professor olha pra mim e diz: “Herr Sebastian, isso aqui é um experimento com ratos. Não o novo clipe da Lady Gaga!” — ele terminou, e a mesa explodiu em risos.
Até minha tia Sandra, que raramente ria de qualquer coisa que não envolvesse um pastel e fofoca, estava encantada. Meu pai deu tapinhas nas costas dele como se já o tivesse adotado.
E eu? Bem, eu fazia minha parte. Ria alto, tocava o braço dele com familiaridade, e lançava olhares “apaixonados” de vez em quando. Sebastian retribuía com piscadelas e sorrisos cúmplices como um verdadeiro parceiro de cena.
Estávamos no palco. E estávamos arrasando.
Só que, entre uma piada e outra, entre um brinde e um elogio exagerado à minha lasanha, meus olhos voltavam para .
Ele estava calado demais.
A postura dele era a mesma: descontraída, braços apoiados na cadeira, sorriso discreto. Mas eu conhecia aquele sorriso. Era falso. Travado. Do tipo que ele usava quando estava prestes a explodir por dentro.
E isso... doía. Mais do que eu gostaria de admitir.
Porque eu queria que ele sentisse. Mas não esperava que meu próprio peito ficasse apertado no processo.
— , seu “namorado” é uma figura! — comentou minha prima, com um sorriso divertido.
— Ele é mesmo — murmurei, sorrindo. — Uma raridade.
Sebastian, como se sentisse o momento certo, virou o rosto e sussurrou no meu ouvido:
— Isso tá te ajudando de verdade ou só te machucando mais?
Fiquei em silêncio por um segundo.
— Um pouco dos dois.
Ele assentiu, me puxando levemente pela cintura, em um gesto que sabia que seria notado. E foi. Vi os olhos de endurecerem do outro lado da mesa.
Jogo feito.
Mas, por dentro, tudo que eu conseguia sentir era a bagunça de mágoa e saudade que nem Sebastian, nem nenhum teatrinho bem feito, conseguia apagar.
P.o.v:
A música começou sem aviso. Alguma faixa antiga da playlist da tia Sandra — algo romântico, cheio de violinos e notas arrastadas. Naturalmente, ela puxou o marido pela mão, e logo o resto da sala foi contagiado.
Sebastian olhou pra mim com aquele brilho teatral nos olhos e estendeu a mão.
— Mademoiselle, concede-me essa dança?
Revirei os olhos, mas sorri.
— Só se prometer não rodopiar como no último Natal.
— Uma vez! Uma única vez eu derrubei a árvore. Ainda acho que ela me provocou primeiro.
Ele me puxou com leveza, e logo estávamos no meio da sala, girando devagar ao som de alguma música que falava de promessas e despedidas.
Apoiei o rosto no ombro dele, exausta de tanto fingir que estava tudo bem. Mas Sebastian... bom, ele sempre soube me ler.
— Então... você ganhou — ele disse baixo, só pra mim. — está digerindo seus próprios órgãos, se quer saber.
Soltei um riso curto.
— Isso não era o plano? Machucar como fui machucada?
— ... — ele apertou levemente minha mão. — Às vezes a gente quer punir alguém, mas acaba sangrando junto.
Fiquei quieta. O silêncio entre nós dizia mais do que qualquer resposta que eu conseguiria formular.
— Você ainda ama ele? — ele perguntou, com aquele jeito direto e gentil que só os amigos de verdade sabem usar.
— Eu não sei — menti. Porque a verdade doía demais.
— Você sabe, sim. E ele também.
Nos viramos devagar, girando como se fôssemos dois atores presos em uma peça lenta demais.
— Obrigada por isso — murmurei. — Por hoje. Por me ajudar a parecer forte quando tudo que eu queria era desaparecer.
Sebastian beijou minha testa com carinho.
— Você não precisa parecer nada. Só... vive isso. Sente. Até não doer mais.
— E se não parar de doer?
— Aí você dança comigo de novo. Até parar.
Sorri. Pela primeira vez naquela noite, de verdade.
Mas, ao olhar para o canto da sala, vi . Encostado no batente da porta. Me observando. Com os olhos carregados de algo entre arrependimento, ciúme... e dor.
Eu virei o rosto de volta para Sebastian.
Continuei dançando.
Mas dentro de mim, algo girava fora do compasso.
Capítulo 11 - I should hate you
P.o.v:
A noite inteira eu me perguntei onde, exatamente, tinha perdido o controle da situação. Talvez quando decidi falar como um idiota sobre "domar uma megera". Ou talvez antes disso, quando achei que podia fingir que não sentia nada.
Mas agora, parado ali na porta da casa do pai dela, com os convidados se despedindo e o som da risada dela atravessando o ar como uma maldita música tema, eu sabia exatamente: perdi o controle no momento em que vi dançando com aquele cara.
Sebastian.
Ele era bonito. Carismático. Engraçado. E ela estava radiante. Como se nunca tivesse me odiado. Como se nunca tivesse me amado.
Eu me aproximei quando ela pegava o casaco.
— — falei, firme, tentando parecer casual. — A gente pode conversar?
Ela hesitou. Olhou pra mim como quem avalia uma ponte em chamas. E antes que respondesse, a voz do outro invadiu o momento.
— Pronta, parceira de crime?
Sebastian apareceu ao lado dela com a chave do carro girando no dedo, como se fosse o próprio Don Juan de camisa social. Ela sorriu. Aquele sorriso torto, cúmplice, que costumava ser meu.
— Sim — respondeu ela. — Vamos.
— ... — tentei de novo. Mas ela já se virava, andando ao lado dele como se a minha presença fosse só parte da paisagem.
Fiquei ali, com a sensação de ter perdido uma aposta que nem sabia que estava jogando.
Do portão, ouvi a porta do carro bater e o som abafado de risadas.
(Dentro do carro – P.o.v: )
— Ok, eu fui convincente? — perguntou Sebastian, ligando o carro. — Escorreguei alguma palavra tipo “maninha” ou “as cores da bandeira” sem querer?
— Você foi perfeito. Um hetero exemplar. A masculinidade frágil mundial está orgulhosa de você.
Caímos na gargalhada.
Ele dirigia devagar, como quem prolonga o prazer de uma boa peça encenada.
— E aquela dança? Eu arrasei, né?
— Te daria um Oscar se eu não estivesse com medo de você pedir um discurso de agradecimento.
Ele sorriu e ajeitou o retrovisor.
— Só me promete uma coisa?
— O quê?
— Que da próxima vez que quiser causar ciúmes, escolha um cara menos incrível que eu. Tá difícil manter o disfarce com tanto charme natural.
Rimos de novo. Mas por dentro, meu peito ainda doía.
E, por um instante, enquanto ele cantava errado a letra da música no rádio, eu desejei que o riso fosse verdade. Que o alívio fosse completo. Que o buraco deixado por tivesse o mesmo fim que a noite: leve, engraçado, e sem nenhum arrependimento.
Mas nada ali era tão simples.
P.o.v:
Acordei com a lembrança dela rindo no banco do passageiro, o cabelo meio preso, os olhos brilhando. E aquela voz do cara — Sebastian — falando como se já tivesse conquistado o mundo.
Eu não dormi.
Não porque ela estava com outro. Mas porque, mesmo vendo que era uma encenação, aquilo doeu. Porque, pela primeira vez, entendi o que era não ser mais parte do mundo dela.
E o pior: eu mesmo me tirei dele.
Agora eu precisava consertar. Ou pelo menos... tentar.
Passei a manhã ensaiando mentalmente o que diria. Cada frase que parecia boa na minha cabeça soava estúpida em voz alta.
Mas fui assim mesmo.
Às onze da manhã, bati na porta do 802. Três batidas. Não muito fortes, nem muito fracas. Só... tentando não parecer um stalker desesperado.
Nenhuma resposta.
Bati de novo. E quando ela finalmente abriu, o impacto foi imediato.
Moletom cinza, cabelo bagunçado, cara de quem não dormiu direito — e ainda assim, linda.
Ela me olhou como se estivesse avaliando se valia a pena me ouvir.
— O que você quer, ?
Direto. Frio.
— Conversar. Por cinco minutos. Juro que não vou tomar mais do seu tempo.
— Já tá tomando.
Ok. Justo.
— Eu... vi você ontem com o Sebastian. — Dei um passo à frente, mas ela segurou a porta como uma barreira invisível. — E eu sei que provavelmente não tenho mais o direito de perguntar nada, mas...
— Você não tem mesmo.
Respirei fundo.
— Eu só queria dizer que... eu vi. E eu senti. Ciúme, raiva, arrependimento. Tudo junto. E eu não tô tentando justificar nada do que eu fiz ou disse. Eu fui um idiota. Covarde. E te magoei.
Ela não respondeu. Mas não fechou a porta. Um avanço.
— Eu achei que fingir que a gente não sentia nada era mais seguro do que arriscar. Que fazer você me odiar era mais fácil do que lidar com o que eu sentia de verdade.
Ela me encarou, olhos firmes.
— E agora?
Engoli em seco.
— Agora eu quero te mostrar que não tô aqui por curiosidade ou carência. Tô aqui porque você é a única coisa que eu não consigo tirar da cabeça. E porque você me faz querer ser alguém melhor. Mesmo quando me odeia.
Um silêncio se instalou. Tenso, pesado. Ela baixou os olhos por um segundo.
— Isso não apaga o que você disse.
— Eu sei. Mas posso tentar escrever uma história nova... se você me deixar começar com o primeiro parágrafo.
Ela não respondeu. Mas não fechou a porta. Também não sorriu. Só me olhou, como quem decide entre correr... ou ficar.
P.o.v:
— — chamei antes que ele virasse o corredor.
Ele parou. Devagar. Como quem não tem certeza se ouviu certo.
— Volta aqui.
Ele voltou. Os ombros tensos, mas os olhos... esperançosos. Como se eu fosse o primeiro raio de sol depois de uma tempestade longa demais.
Abri a porta mais um pouco e dei espaço para que ele entrasse.
— Só vou ouvir. Não prometo mais nada.
— Já é o suficiente — disse ele, cruzando a soleira com uma calma forçada.
Sentou-se no braço do sofá, como se tivesse medo de invadir espaço demais. Eu fiquei em pé, braços cruzados, segurando meu próprio coração para ele não pular no colo dele sem aviso.
— Ontem foi divertido, sabia? — falei, num tom neutro. — Você deveria ter visto sua cara. Se não fosse trágico, era cômico.
Ele suspirou, os olhos presos em mim.
— Eu precisava me lembrar que posso sorrir mesmo depois de ser descartada.
— Eu nunca quis te descartar, .
— Mas descartou. Com palavras doces como “complicada” e “entulho emocional”, lembra?
— Eu falei coisas horríveis. Falei sem pensar. Com medo.
— E isso justifica?
— Não justifica. Só... explica. Um pouco. — Ele levantou. — , eu cresci sendo o cara certo. O arquiteto responsável. O amigo leal. Nunca fui o tipo que quebra regras. E você... você bagunçou tudo. Bagunçou meu controle, minha lógica, minha resistência.
Dei um riso curto, amargo.
— Que elogio poético: “você me tirou do eixo, então resolvi te machucar.”
Ele andou até ficar a um passo de mim.
— Eu te amo.
As palavras ficaram no ar. Leves e pesadas ao mesmo tempo. Como se estivessem tentando encontrar um lugar para pousar dentro de mim.
— Isso não apaga o que você fez.
— Eu sei. Mas é a única verdade que me resta.
Ficamos ali. A um passo de distância. Respirando o mesmo ar, com lembranças entre nós como fantasmas silenciosos.
— ...
— Eu não quero mais lutar com você.
— Eu ainda não sei se quero lutar por você.
Ele assentiu. Dolorosamente.
— Então eu espero. Mesmo que me mate um pouco por dia.
E quando ele deu meia-volta para ir embora, fui eu quem segurou a mão dele. Pela primeira vez, sem guerra.
— Se me ama mesmo... me mostra. Com paciência. Com constância. Sem palavras vazias.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno, cheio de dor e esperança.
E dessa vez, fui eu quem fechou a porta. Mas com menos raiva. E com uma fresta aberta para o que poderia — talvez — ser um recomeço.
P.o.v:
Tudo começou com um bilhete.
"Nunca fui bom na linguagem do amor. Mas com você, eu sempre quis aprender outro idioma.
P.S.: Ainda odeio seu café. Mas sinto falta dele. — 803"
Revirei os olhos. E depois reli. Duas vezes.
Ignorar. Ignorar. Ignorar.
Até o segundo bilhete chegar no dia seguinte.
"Você me tirou o sono por semanas. Mas agora que você me ignora, eu só durmo sonhando contigo.
P.S.: Não é charme. É desespero. — 803"
Fiquei imóvel por um tempo, com a ponta dos dedos no papel. Bufei. Rasguei. Guardei. Depois rasguei só pela estética.
Na semana seguinte, comecei a cruzar com ele na cafeteria. Todo dia. Mesmo horário. Coincidência?
— ? Nossa, você aqui... às 8h17 da manhã? — disse ele, com o sorriso mais ensaiado do mundo.
— , eu moro a 27 passos desse lugar.
— Eu sei. Eu medi ontem.
Não sei se ria ou se atirava um croissant nele.
No terceiro dia, ele já estava sentado com uma caneca ao lado vazia.
— O garçom achou que talvez... você quisesse sentar aqui.
— E você achou que eu não fosse quebrar essa caneca na sua cabeça?
— Sim. Mas se quebrar, eu mando fazer outra. Com seu nome. E uma frase que diga “eu te odeio, mas talvez um pouco menos hoje”.
Não me sentei. Mas peguei a caneca. E fui embora com ela.
Comecei a evitá-lo com mais dedicação que escrevendo tese. Mas então, num sábado, uma entrega: uma caixa com meu nome e um projeto arquitetônico estilizado. Era o layout do apartamento dele. Com um espaço novo: um sofá grande, dois travesseiros, uma estante com livros misturados. Tinha uma legenda escrita à mão.
"Rascunho de um lugar onde você caberia. Se quisesse.
P.S.: Pode mudar tudo. Menos a parte em que você entra."
A playlist veio depois. No Spotify. Nomeada: “Caso você ainda pense em mim... às vezes.”
Primeira música? Fix You, do Coldplay. Claro. Drama de arquiteto.
Achei que tinha acabado por aí. Mas então meu pai me ligou.
— passou aqui hoje... trouxe um bolo.
— Um bolo?
— De fubá. Disse que era pra compensar um erro de cálculo afetivo.
— Meu Deus.
Na noite do evento da empresa, fui apenas para cumprir protocolo. Mas quando subiu ao palco para dar um pequeno discurso sobre “projetos que importam”, eu não esperava.
— Às vezes — disse, dramático como um personagem de novela das nove — a gente passa tanto tempo tentando erguer estruturas sólidas... que esquece que as rachaduras que mais importam não estão nas paredes. Estão nas pessoas.
Alguém soltou um "nossa" emocionado na mesa ao lado. Eu dei um gole seco no meu espumante.
— E,— continuou, agora caminhando lentamente pelo palco como se tivesse ensaiado no espelho do banheiro — alguém que não é arquiteto pode te ensinar sobre arquitetura. Sobre fundações invisíveis. Sobre o que realmente sustenta uma estrutura. E sem querer está redesenhando tudo que você achava que sabia.
Ele continuou, agora com o olhar perdido no horizonte e um leve aceno de sobrancelha que só eu saberia interpretar. Olhou na minha direção. De novo.
Sutil. Mas suficiente pra me fazer engasgar.
Eu, que tinha me equilibrado a noite toda em salto 10 e orgulho 100, agora estava segurando o copo como escudo emocional.
Do meu lado, Helena cochichou:
— Ele tá falando de você, né?
— Não. Ele não tá falando nada com nada.
Ela riu. Eu não.
— Meu Deus — continuei, mordendo o lábio pra não rir alto. — Isso aqui virou uma TED Talk de arrependido apaixonado. Aposto que daqui a pouco ele cita Shakespeare e pede desculpas com analogia de pilar estrutural.
Helena pegou o celular.
— Se isso virar pedido de casamento, eu gravo.
— Se isso virar pedido de desculpas, eu peço outra taça.
Na volta pra casa, não deixei bilhete. Nem falei nada. Só deixei minha porta destrancada. Pela primeira vez em muito tempo.
E no dia seguinte, não tinha bilhete na minha porta.
Tinha .
Com café.
E uma caneca nova.
Com meu nome.
E a frase:
"Se você não fosse importante, eu não estaria aqui tentando ainda.”
O bilhete da caneca ainda estava na minha mesa. Eu já tinha lido seis vezes naquele dia.
No fundo, eu sabia: não era mais sobre raiva. Ou orgulho. Ou o teatrinho do ciúmes, das provocações e das respostas afiadas. Era exaustão.
Eu queria paz.
Queria parar de sonhar com ele só para acordar com raiva de mim mesma.
Naquela noite, parei na frente da porta dele com o coração martelando como um tambor desafinado. Bati. Uma vez. Depois duas. Estava pronta para recuar quando a porta abriu.
Ele surgiu, descalço, com o cabelo meio bagunçado e um moletom velho escrito “ARQUITORTURA”.
— ?
— Se você fizer uma piada agora, eu vou embora.
Ele ergueu as mãos, em rendição silenciosa.
— Sem piadas.
Cruzei os braços, tentando parecer mais firme do que eu me sentia.
— Eu... tô cansada. Não de você, exatamente. Mas de fingir que não sinto nada. De tentar fazer você pagar por cada palavra idiota que disse, mesmo sabendo que isso não vai apagar a dor. Eu só quero... paz.
Ele ficou quieto por um momento. A expressão dele era outra. Menos provocadora, mais presente.
— Eu entendo. E... eu mereço isso. Mas eu tô aqui. Ainda. Por você.
Assenti, sentindo um nó na garganta.
— Não tô dizendo que tudo voltou ao normal. Mas... talvez a gente possa começar de um ponto neutro. Sem bilhetes. Sem frases de efeito. Só... você e eu. Tentando de verdade.
Ele deu um passo pra frente, hesitante.
— Isso quer dizer que...
— Que você tem uma chance. Uma. E se você me chamar de megera de novo, eu te dou um soco que eu to guardando a muito tempo.
Ele sorriu — o sorriso pequeno, de quem não quer assustar a sorte.
— Tá bom. Uma chance. E sem rascunhos dessa vez. Vai ser projeto definitivo.
— Agora você fez uma metáfora. Isso conta como frase de efeito?
— Ah, merda. Conta.
Mas eu sorri. E ele viu. Porque apesar de tudo, era isso que eu queria.
Uma chance de recomeçar.
Com ele.
Sem guerra.
Pelo menos por agora.
Fim.
Nota da autora: Quero agradecer a todos vocês que acompanharam, comentaram, e fizeram com que esse caminho se tornasse ainda mais especial. Não existe recompensa maior para uma autora do que saber que a história tocou alguém. Agradeço de coração por terem feito parte dessa jornada. 💖
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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
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