FFOBS – Home, por Juh G
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Última atualização: 17/06/2018

Prólogo

With every small disaster
I'll let the waters still
Take me away to some place real
'Cause they say home is where your heart is set in stone
Is where you go when you're alone
Is where you go to rest your bones
It's not just where you lay your head
It's not just where you make your bed
As long as we're together, does it matter where we go?
- Gabrielle Aplin


Ela olhava as nuvens. Sempre amara viajar de avião. Ver o mundo de cima, a calmaria da paisagem. Parecia que nada daquilo era real. Que nenhum conflito era verdade. Que a Terra era apenas paz. As nuvens brancas davam uma sensação de paz que não se encontrava em nenhum lugar com os pés no chão. Ou pelo menos em nenhum lugar que ela já tenha ido.
Sua decisão de viajar não fora fácil. Mas ali, olhando para as nuvens e sentindo a melodia daquela música que tocava em seus fones, ela sabia que estava indo para um lugar desconhecido, mas que poderia a levar de volta para casa.
Sempre se perguntou onde seria essa casa. Esse lugar que se lia em músicas e livros, mas que apesar de amar onde morou nos últimos 22 anos, tudo começava a parecer tão pouco. E pela primeira vez na vida, ela sentia que estava prestes a descobrir.
So when I'm ready to be bolder, and my cuts have healed with time, comfort will rest on my shoulder.


Capítulo 01 - He and She

Ele
O tempo finalmente tinha firmado. Não estava calor, era impossível sentir calor em dezembro. Mas pelo menos tinha parado de nevar. Geralmente eu ia para a casa dos meus pais nas festas de fim de ano, mas resolvi voltar um pouco mais cedo. A superlotação do Natal tinha sido o suficiente para mim. Estava sentindo falta de treinar, correr. Realmente não tinha nascido para ficar enclausurado em uma casa de campo.
Daqui a dois dias seria Ano Novo. Meus colegas de time haviam me convidado a ir para uma festa privada na casa de um deles. Estava considerando essa possibilidade, ninguém deveria passar o réveillon sozinho. Se eu ficasse em casa, meu ano ia virar a base de macarrão instantâneo e FIFA.
O parque estava lotado, como eu esperava que tivesse em um primeiro dia sem neve em muito tempo. Não queria ser reconhecido. Era o problema de ser campeão do mundo, até quem não acompanhava futebol, sabia quem você era.
Há algum tempo, descobri uma parte do parque perto do meu apartamento que ninguém visitava. A pista de corrida não era tão boa como a da área principal, mas para quem queria o isolamento, era uma boa saída.
Várias árvores ao meu redor faziam sombra, diminuindo um pouco a sensação térmica, mas nada que o calor do exercício não compensasse. Quando cheguei em uma das saídas da pista, vi que tinha uma pessoa sentada em um banco. Pensei que poderia ser algum conhecido, afinal, só quem também queria se isolar vinha para essa parte do parque. Mas não era.
Observei ela ao longe. Seu cabelo castanho avermelhado, preso em um rabo de cavalo bagunçado. Era uma região pequena, e eu nunca a tinha visto. Com certeza não era daqui. Ela digitava sem parar em um notebook, concentrada demais para perceber qualquer coisa que acontecia ao seu redor. Não tive como não sorrir.
Ela estava sentada sozinha em um banco do parque, tinha algumas árvores em volta, mas nenhuma outra pessoa há metros de distância. Sei que provavelmente era bem errado eu ficar olhando para ela assim, mas alguma coisa me atraía para aquela garota e eu estava me controlando para não ir até ela e perguntar o que ela tanto escrevia.
Tinha ido até o parque para correr um pouco, tirar a cabeça de todos os problemas que estava. Todo mundo achava que ser jogador de futebol era uma coisa glamorosa, porém por trás da fama havia muitos desafios que ninguém conhecia.
Desliguei meu iPod e resolvi ir falar com a garota. Se alguém tivesse passado por mim acharia que eu era um sociopata observando a garota sem parar. E seria pior se fosse algum paparazzi ou alguém que poderia me reconhecer.
Respirei umas três vezes tomando coragem. Desde quando eu tinha dificuldades de conversar com mulheres?
Me aproximei fazendo o máximo de barulho possível. Não queria assustá-la. Mas só quando cheguei perto que percebi que ela estava com um fone de ouvido tocando músicas em um volume tão altas quanto as minhas. Reconheci a batida como sendo alguma do Paramore, apesar de não conhecer a música. Reconheceria a voz da Hayley Williams em qualquer lugar.
Não queria encostar nela, mas mesmo estando parado ao seu lado, ela não percebeu a minha presença. Estava sentada com as pernas esticadas no banco com encosto, resolvi sentar de frente para ela e aguardar ela me notar.
De frente eu percebi o quanto ela era diferente. Com certeza não era daqui. Seus traços finos denunciavam que ela era estrangeira. Sobrancelhas grossas, que desenhavam seu rosto, criando uma harmonia com o fino nariz. Seus olhos cor de areia, concentrados no notebook em seu colo, onde ela não parava de digitar. Sua boca estava em linha reta, mostrando o quanto ela estava concentrada no que quer que ela estivesse fazendo.
Alguns minutos depois ela notou a minha presença. Levantou as sobrancelhas surpresa e retirou os fones de ouvido. Abriu a boca para falar algo mas fechou. Talvez se lembrou que não estava em seu país e não falasse alemão. Ou talvez tenha me reconhecido. De qualquer forma, era estranho um homem desconhecido sentado à sua frente. Eu teria que falar algo.
— Oi. — Falei em inglês. Esperava que ela soubesse falar inglês.
Ela sorriu. Talvez eu tenha levado um tiro com aquele sorriso.
— Olá. — respondeu timidamente.
Quanta dificuldade para conseguir começar uma conversa. Quem era você e o que você tinha feio com ? E eu estava falando comigo mesmo. Desde quando eu não conseguia manter uma conversa?
— Posso ajudá-lo? — Ela falou em um perfeito inglês.
Foi minha vez de me assustar. Por que eu tinha mesmo ido falar com ela?
— Ãhn... Desculpa me intrometer, estava correndo no parque e a vi sentada sozinha. É raro ver garotas sozinhas nesse lado do parque. É raro ver qualquer um nessa área do parque para falar a verdade. Você não é daqui, é?
Ela riu de nervoso. Olhou para todos os lados, menos para mim enquanto respondeu:
— Não. Não sou daqui. Sou brasileira. Precisava de um lugar tranquilo para trabalhar e achei que teria paz no parque, mas claramente não está funcionando. — Ela respondeu fechando o notebook e fazendo menção para se levantar.
Me apressei para impedi-la. Olhei para baixo sem graça, mas não conseguia olhar em seus olhos, da mesma forma que ela havia me evitado antes.
— Desculpe-me. Não foi minha intenção te atrapalhar. A gente pode começar de novo? — Fiquei olhando para ela esperado alguma reação. Ela apenas endireitou o corpo. Entendi como um sinal positivo e prossegui. — Sou . — Estendi mão. Não sabia se ela tinha me reconhecido ou não, mas preferia me manter o mais anônimo possível até ter certeza.
Ela descruzou os braços e sorriu.
.
Sorri quando ela finalmente me respondeu e aceitou meu aperto de mão.
Ela se sentou novamente e abriu seu notebook. Eu deveria simplesmente levantar e ir embora, mas parecia que minhas pernas não me obedeciam mais. Permaneci sentado enquanto ela voltava a digitar. Peguei meu celular e comecei a rolar a barra pelo Instagram, sem de fato prestar atenção em qualquer imagem.
— Então... já que ninguém vem até essa parte do parque, por que você estava justo aqui?
Me surpreendi com sua pergunta. Esperava qualquer coisa, menos isso. Pensei em inventar uma desculpa, pois ela não parecia ter me reconhecido. — Sou um famoso jogador de futebol. Se eu for para a parte movimentada do parque não vou conseguir terminar minha corrida sem ser incomodado por alguém.
Achei que ela fosse fazer algum comentário sobre as palavras “jogador” e “futebol”, mas então eu entendi o porquê do voto de silêncio e emendei.
— Entendi. Você também veio para cá para não ser incomodada, e aqui estou eu atrapalhando o seu trabalho. — Levantei para ir embora, ainda surpreso por não ter sido reconhecido.
— Pode ficar. Você não estava me atrapalhando.
Ela tirou os olhos do notebook e olhou para mim sorrindo. Eu já estava de pé. A encarei por alguns segundos tentando buscar algum traço de ironia, mas ela parecia estar sendo sincera. Sentei ao seu lado, agora ela estava com os pés no chão. Vestia uma calça de moletom cinza e um tênis All Star preto. Me perguntei se ela não estaria com frio, sendo acostumada a um país tropical. Lembrava de ter sentido muito calor da Copa do Mundo do Brasil, e olha que estávamos no inverno. Mas ela sorriu, fingindo que não viu que eu a olhava, e continuou escrevendo no notebook.
Confesso que tentei ler o que ela tanto digitava, porém estava tudo em português. Talvez tenha sido exatamente por saber que eu não teria ideia do que estava escrito que ela me deixou ler. Ou pelo menos tentar já que não estava lendo nada.
Voltei a mexer no celular, pelo menos assim daria um pouco de privacidade a ela. Algumas vezes desviei o olhar, mas ela de fato estava concentrada no texto. Isso me decepcionou um pouco, e eu estava começando a odiar essa sensação. Tinha acabado de conhecer essa garota, e normalmente, eu não me sentia assim por ninguém.

Não sei quanto tempo se passou, mas de repente ela fechou o notebook e o guardou na mochila azul que eu nem tinha visto que estava no chão. Se levantou sem dizer nenhuma palavra e saiu andando.
Levantei correndo e fui até ela, por impulso segurando seu pulso. Ela levou um susto. E eu também. Parecia que tinha levado um choque pelo toque. Rapidamente soltei a minha mão.
— Desculpe — falei sem jeito. O que mais eu poderia dizer?
— Tudo bem.
Ela continuou andando. Por algum motivo, eu não poderia deixar essa garota ir.
— Espera! Você disse que não era daqui. O que acha de eu te mostrar alguns pontos turísticos da cidade?
Ela sorriu sem graça, colocando a mochila no ombro esquerdo, ao mesmo tempo que arrumava uma mecha do cabelo atrás da orelha.
— Obrigada, mas já tem dois meses que estou aqui. Já rodei toda a cidade com meus amigos. E eu realmente preciso chegar em casa. Um outro dia, talvez?
Ela sorriu sem jeito.
— Tudo bem. Me passa algum contato para a gente combinar. O que você acha?
Ela pegou uma caneta da mochila e puxou a minha mão.
— Vamos fazer assim, se por um acaso a gente se encontrar novamente, eu te passo meu telefone. Pode ser?
Fiquei sem entender o que ela tinha escrito na minha mão. Mas enquanto eu virei para ler, ela saiu andando e desapareceu nas curvas do parque. Ela tinha escrito: “Sei quem você é. Você sabe quem eu sou? ”.
Aquela garota tinha me deixado mais intrigado ainda. Agora era uma questão de honra descobrir tudo sobre ela. Mas como fazer isso sendo que tudo que eu sabia era um apelido e que ela não era desse país?

Ela
Ir para uma área aberta e escrever nunca foi meu forte. Geralmente eu preferia trabalhar no meu quarto, escutando alguma música. Desenvolvi esse hábito desde que comecei a trabalhar com o blog. Ainda estava no ensino médio, e apenas escrevia sobre coisas do meu cotidiano e o meu eterno vício: música. Mas de uma hora para outra a página começou a ter muitas visualizações e o que antes era lazer, se tornou trabalho.
Recebi um e-mail de uma gravadora interessada em investir no meu blog, aumentar o alcance do site, mais conteúdos e ganharia meu próprio assistente. Na época tinha acabado de entrar para a faculdade de biologia e usava o blog apenas como um escape da realidade. Um espaço no qual eu poderia fazer o que quisesse, no caso, escrever sobre bandas e possíveis novos sucessos da música brasileira e internacional.
Com um ano de curso vi que a biologia não era para mim, e segui o concelho do meu chefe na gravadora, porque sim, apesar de blogueira ser um trabalho autônomo, às vezes temos que responder à algumas pessoas. Troquei de curso para Relações Públicas. A princípio não era o que queria e desmotivei bastante com o curso, mas então percebi que estava ali apenas para ter uma graduação: eu já tinha profissão e emprego garantido, e enquanto continuasse dedicando a meu hobby tudo ia se encaminhar.
Me formei no final do ano passado. Estava com vontade de sair viajando pelo mundo, mas não poderia sair de perto do meu computador. Tinha passado os últimos quatro anos sem uma férias de fato, pois tinha os recessos da universidade, mas então eram viagens para cobrir shows de bandas, festivais, divulgação de álbuns. Muita gente pensa que viver nos bastidores era o paraíso, conhecer todos os artistas, assistir aos shows nos melhores lugares, às vezes ter um relacionamento com algum famoso. Mas a realidade não era essa.
Conheci muitos artistas, alguns bastante simpáticos, outros que me decepcionei. A gente rala tanto nos bastidores que nem tem tempo de aproveitar o show de fato, entrar na música e esquecer que o mundo existe. Eu continuava com meu blog, meu pequeno espaço que não era mais tão pequeno. Meu nome era conhecido em rede nacional. Recebia milhões de tweets perguntando de quem seria o próximo show internacional.
Depois da minha formatura, pedi a gravadora que eu tivesse seis meses de férias. Nesse tempo, o site seria mantido pelos meus assistentes (porque sim, quando sua página cresce o suficiente para exigirem conteúdo inédito de hora em hora, e responder as redes sociais, você precisa de ajuda). Conversei com meus pais e minha tia. Iria fazer um intercâmbio de línguas, e apesar de ficar hospedada em uma escola, teria familiares por perto. Eles concordaram. Peguei a minha mala e vim sem pensar duas vezes para uma cidade na Alemanha chamada Munique.
O principal time de futebol da Alemanha era daqui. Não que eu entendesse muito de futebol, eu não entendia nada. Nem Copa do Mundo acompanhava mais, meu trabalho não deixava. Mas eu tinha um irmão que me obrigou a assistir a Copa de 2014 justamente no fatídico jogo do 7 a 1.
Mas também o reconheci da final desta mesma Copa de 2014 no Rio de Janeiro. Meu chefe pediu para eu ir fazer algumas fotos da cerimônia de encerramento, para escrevermos sobre os shows. Não que tenha sido grande coisa, mas acabei assistindo ao jogo na área de imprensa. Um local privilegiado para o campo e os jogadores. E eu tinha sim reparado em um rosto que se destacava dos demais. Não que isso tenha feito alguma diferença, afinal.

Fui para o parque tentando sair da bagunça que estava a casa da minha tia. Não que eu seja mal-agradecida, como estávamos no recesso das festas de final de ano, passaria com minha família. Mas desde que cheguei na Alemanha comecei a escrever um livro sobre pessoas que conheci e convivi nos últimos anos, e realmente queria aproveitar o recesso para me dedicar a esse projeto.
As preparações para o Ano Novo estavam a todo vapor, e o entre e sai de gente não estava ajudando a me concentrar na escrita. E sim, mesmo de férias eu queria escrever sobre música. Porque escrever é um vício, se você não escreve é como se tivesse uma crise de abstinência, e então seu cérebro começa a pensar coisas irracionais. Eu não poderia ter um ataque no meio de tanta gente que eu convivia a apenas poucas semanas e que me recebera tão bem. Precisava me soltar.
Aproveitei o milagre de ter aberto um sol nos últimos dias, e assim ser possível ir ao parque. Não imaginava que tanta gente ia ter a mesma ideia que eu. Aproveitar o raro sol no meio do inverno. Amanhã seria 31 de dezembro e esse seria o meu último momento do ano para escrever. Mesmo de férias, resolvi fazer um post no blog. Um texto curto, apenas relembrando os principais momentos do ano que passou e desejando que o próximo ano trouxesse boas conquistas. Era minha tradição esse post desde o início do blog.
E tudo estava indo bem, até perceber aquele homem sentado no mesmo banco que eu. Caraca, não tinha mais ninguém naquela parte do parque, será que ele não poderia sentar no outro branco? Foi então que o reconheci. Não que eu soubesse seu nome, mas o reconheci na bagunça no final do jogo no Maracanã.
Segurei o riso. Não deixaria que ele percebesse que eu o havia reconhecido. Ele puxou assunto, pouco respondi na esperança dele me deixar sozinha novamente. Ele não deixou. Que cara insistente! Recoloquei meu fone de ouvido e continuei meu texto. Se ele queria ficar sentado em um banco de parque do lado de uma pessoa que ele nem conhecia, era problema seu.

Minha música mudou e agora tocava “So Far Away” do Avenged Sevenfold. Eu não sabia explicar, mas tinha alguma coisa nas bandas com solos de guitarra que me faziam escrever sem parar. Terminei meu texto, fechei meu computador e levantei para ir embora.
veio atrás.
— Espera! Você disse que não era daqui. O que acha de eu te mostrar alguns pontos turísticos da cidade?
Pensei em aceitar o convite, afinal já tinha dois meses que eu estava na cidade e pouco tinha conhecido. E sei que não era culpa da minha família. Entre aulas e compromissos era mesmo complicado ter tempo e mesmo assim, desde que cheguei estava muito frio, era impossível sair de casa, e agora que esquentou um pouco, estavam todos ocupados com os preparativos para a festa de final de ano.
Mas eu não poderia ser tão fácil assim. Não abriria o jogo tão simples assim. Se tinha uma coisa que a vida nos bastidores tinha me ensinado, que para lidar com pessoas conhecidas pela mídia, você tinha que fingir não saber quem elas eram. E no caso daquele jogador era quase que uma verdade. Eu de fato nada sabia sobre ele, além de que ele era campeão do mundo.
— Vamos fazer assim, se por um acaso a gente se encontrar novamente, eu te passo meu telefone. Pode ser?
Pensei em manter minha pose de difícil. Ou até mesmo passar o meu telefone. Mas eu era uma subcelebridade brasileira, por mais que odiasse admitir isso. Então apenas escrevi em sua mão: “Sei quem você é. Você sabe quem eu sou?”.
E continuei andando como se aquilo fosse a coisa mais normal no mundo. Encontrar jogadores de futebol campeões do mundo no parque.
Voltei para casa da minha tia pensando nesse encontro. Agora teria que pesquisar tudo que pudesse sobre ele. Se o visse de novo e ele percebesse que eu mal sabia seu nome, minha estratégia iria toda por água abaixo.
Mas o que eu estava fazendo? Desde quando isso era um jogo para eu fazer isso? Ou pior, por que eu estava na expectativa de encontrá-lo de novo?


Capítulo 02 - The world is not a box


Alguns dias se passaram desde que encontrei aquela garota no parque. Nem me lembrava mais o seu nome. Ou pensava que não lembrava. Voltei para minha rotina de treinos. Muitos garotos e garotas ao redor do mundo tinham o sonho de serem jogadores de futebol. Se eles soubessem como é a rotina, tenho certeza que escolheriam alguma carreira mais sólida.
Entretanto, não troco minha profissão por nada nesse mundo. Queria poder dizer que também não trocaria o time pelo qual jogo, mas o amor à camisa tinha que ficar de lado. Aquilo era uma profissão por mais que tivesse emoções envolvidas e às vezes, temos que escolher o que é melhor para a gente, e apesar de amar o time, nem sempre é viável continuar ali.
Claro que para quem já está no meio há um tempo, é normal que o elenco varie, sempre tem rostos novos e vários amigos acabam indo para outros clubes. Mas eu gosto da vibração da torcida nos jogos. Cada uma tem uma vibração diferente, e a do Bayern de Munique é única.
Estava dirigindo para casa. Já era quase noite. Uma pessoa mais preocupada em nomear as coisas diria que estávamos no eclipse, quando ainda estava claro mas não tinha sol, e ao mesmo tempo ainda não era noite. Ou se é que poderia dizer que existia esse período do dia nessa época do ano.
Janeiro estava quase no fim, mas o frio ainda estava grande. O recesso do final de ano já estava acabando e logo mais o campeonato voltaria. Estava ansioso por pisar de novo nos gramados. Era uma sensação única que nada mais me fazia sentir essa emoção. Tínhamos voltado a treinar, apesar de, por causa do frio, ficamos mais na musculação e demais exercícios internos. Além disso, eu aproveitava para fazer outros exercícios, como correr no parque e de vez em quando pedalar. Acho que se não fosse um atleta de alto rendimento por profissão, eu ia ser um desses viciados em exercício.
Resolvi parar em uma lanchonete e comprar alguma coisa para comer. Geralmente pedia algo em casa, ou então cozinhava. Estava escolhendo um pão quando escutei aquela voz, a mesma voz do dia do parque, falando algo em um idioma que eu não entendia. Provavelmente português. Sorri ao me lembrar da sua promessa.
Olhei por cima da prateleira e ela estava bem na minha frente. Seu cabelo estava preso de uma forma desajeitada que lhe dava um ar mais jovial. Ela usava um casaco marrom por cima de uma blusa branca. Sorri ao ver aquela imagem. Essa garota sabia ser bonita sem ter ideia de que era. Só então me lembrei de seu desafio: precisava descobrir quem ela era. Porém ela também tinha dito que me passaria o seu contato se nos encontrássemos de novo. Acho que teria que deixar esse jogo nas mãos dela por enquanto.
Fiquei na minha aguardando para que ela me notasse. Parecia concentrada em escolher coisas na prateleira, apesar de eu perceber um pouco de dificuldade com o alemão. Esperei que as pessoas que estavam com ela se afastassem.
— Esse é de chocolate com baunilha. — traduzi o que estava escrito no pacote do biscoito recheado que ela segurava.
Ela se assustou. Pensei que fosse soltar um palavrão, mas se conteve. Sorriu ao me reconhecer, mas logo em seguida a expressão tranquila voltou ao seu rosto. Ela voltou a atenção para a prateleira e eu tinha certeza que ia me ignorar, mas acabou me respondendo.
— Thanks.
Deixou um pequeno sorriso escapar. Fiquei sem reação por um tempo. O que falar com ela? Havia esquecido de pesquisar qualquer coisa na internet, mesmo não fazendo ideia de onde começar a procurar. Digitar “brasileira na Alemanha” com certeza não me levaria a lugar algum.
— Você precisa de mais alguma ajuda?
Era a coisa mais óbvia a perguntar. Provavelmente ela deveria estar achando eu estava intrometendo de novo.
— Hm, estou procurando onde tem suco. Você poderia me apontar uma direção?
Sorri ao ver a expressão curiosa dela. Mesmo que não admitisse, ela havia ficado feliz com a minha presença. Andei com ela até a geladeira ao fundo da loja. Ela escolheu um suco de cor escura.
— Acho que estou te devendo uma promessa né?
Ela se lembrou! Relaxei um pouco e acho que ficou claro na minha expressão que estava com medo dela não se lembrar.
— Você não precisa me passar seu número se não quiser. Está tudo bem. De verdade.
— Eu sou uma garota de promessas. Mas anota rápido porque minha amiga está me chamando do caixa. Ou você vai querer que meu primo venha até aqui, te reconheça e comece a fazer uma milhão de perguntas? Ele tem só sete anos.
Ela riu. E que risada gostosa era essa. Mais que rápido peguei o meu celular e anotei seu número. E ela também havia me dado mais uma pista do mistério que havia me feito investigar: seu sobrenome. Agora sim eu saberia por onde começar a pesquisar.
— Agora que você cumpriu sua parte da promessa, preciso cumprir a minha?
Ela franziu a testa, tentando se lembrar do que era.
— Descobrir quem você é.
Ela sorriu novamente e apenas disse:
.
Ela saiu correndo com sua cesta de compras. Fiquei parado do lado da geladeira vendo-a pagar e sair com sua família. Eu sabia que iria encontrar com ela novamente. Mas dessa vez, não deixaria o acaso ser o responsável.

Cheguei em casa e liguei a televisão. Mais tarde ia passar um episódio novo da minha série favorita. Era a única hora da semana que eu não deixava nada e nem ninguém me perturbar.
Tomei um banho escutando algumas músicas. Gostava de música, mas nunca reconhecia nenhum artista fora os que já estava na minha playlist. Eu tinha o péssimo habito de escutar as mesmas coisas repetidas vezes, e sempre que conhecia alguma música nova na rádio, ficava ouvindo por vários dias seguidos, quase como um looping.
Liguei meu iPod na caixa de som e apertei o aleatório. Dessa vez vi no player que era uma música do One Republic, era uma das poucas bandas que me acalmava quando tinha algo para resolver. E era o caso daquela noite.
Precisava resolver o que eu faria na final da temporada. Se permaneceria no time ou iria procurar outros ares. Quis deixar essa decisão nas mãos do meu agente, mas então percebi que não queria uma outra pessoa decidindo a minha vida, apesar dele insistir que tinha certeza do que era melhor para mim. Estava me sentindo um garotinho de 17 anos indo prestar vestibular: não fazia ideia do que deveria fazer, porque por mais que meu coração dissesse uma coisa, a razão dizia outra completamente diferente.
E as pessoas ao meu redor não estavam ajudando. Sempre que eu tentava conversar com meu irmão, ele mudava de assunto. Sabia que ele tinha sido contra eu vir para o Bayern, mas ao mesmo tempo ele via o tanto que eu cresci nos últimos anos. Conversar com companheiros de time também seria furada, porque ou os caras eram extremamente fiéis a camisa, ou queriam pular fora. Era algo que meio que você sentia que precisava se mudar, e eu não estava sentindo isso.
Eu adorava meu agente, mas ele também estava me pressionando sobre isso. Tentei conversar uma vez com meu amigo de longa data e também companheiro de seleção, , mas ele não ajudou muito. E a cada dia que passava, eu me sentia mais sozinho com uma escolha que nem sabia até que ponto que seria minha, porque nem sempre o que a gente quer é levado em conta. Às vezes, o clube resolve para onde vamos e simplesmente temos que obedecer.
Mas pelo menos eu sabia que tinha a seleção. E se tinha um lugar que eu gostava de jogar, era na seleção. Tinham poucas coisas no mundo que chegariam perto do sentimento de defender o seu país em uma competição mundial. E ser o responsável pelo título dessa tal competição era uma felicidade que eu não saberia descrever. Até hoje lembrava daquele gol quando tudo já parecia ter chegado ao fim. Escutar a torcida, nossas famílias, a comissão técnica. Um grito em conjunto de comemoração. De resultado de um trabalho bem feito durante anos. E eu tinha o maior orgulho de ter participado disso. Defenderia a seleção sempre que me fosse permitido, dando meu máximo a cada jogo que eu fosse convocado, independentemente de quem fosse o adversário.

E por um momento nem lembrei da , ou de qualquer coisa relacionada a ela. Ou as coisas que eu precisava resolver. Meu seriado tinha atraído minha atenção por uma hora, o que me fez desligar do mundo momentaneamente. Pensei em jogar um pouco de FIFA antes de dormir, mas meu sono já estava muito grande para me manter acordado por mais tempo.
Escovei os dentes e fui me deitar. Queria dormir logo e continuar ignorando as coisas que eu tinha que resolver. Sempre fui mestre em postergar qualquer decisão importante que eu tinha que fazer. Adormeci, mas não por muito tempo.
Me vi no meio do campo. Não tinha meus colegas de time, era apenas eu frente a toda equipe adversária. Não consegui descobrir qual clube, porque logo que me vi sozinho, senti uma onda de pânico que há muito tempo não tinha. Minha visão começou a ficar turva, senti a bola nos meus pés, mas não conseguia me mexer. Foi então que foquei minha visão na torcida. Só tinha uma pessoa ali, parada logo atrás do gol. Ela olhava diretamente para mim, tinha uma expressão séria, mas ilegível. .
Acordei assustado. Não sabia dizer se aquilo havia sido um sonho ou um pesadelo. Mas resolvi levar como um alerta.
Busquei o meu computador no escritório. Acho que ele nunca demorou tanto tempo para ligar. A ansiedade começava a crescer no meu peito, precisava descobrir quem era essa menina.
Digitei no Google seu nome, na esperança de achar algum site em inglês. .
O primeiro link era de um site chamado mysongsmylive.com. Cliquei, apesar de saber que estava todo em português. Identifiquei onde teria uma página sobre o blog e quem escrevia nele, foi então que vi a foto daquela garota de cabelos castanho. Ela estava em um lugar aberto, fazia muito sol. Seu cabelo estava bagunçado pelo vento, ela sorria para a câmera. Parecia extremamente feliz. Embaixo consegui ler seu nome: . Tinha um texto sobre ela, mas fiquei um tempo admirando sua foto antes de traduzir aquele texto no Google Tradutor.
Descobri que traduzir do português para o inglês fazia mais sentido do que traduzir do português para o alemão. Mas enquanto esperava a bolinha do tradutor carregar, pensei em milhões de possibilidades. Ela provavelmente era jornalista, trabalhava em um site. Tinha dito que tinha vindo estudar na Alemanha, mas por quê? Esperava que aquele pequeno texto fizesse com que as coisas ficassem mais claras, mas não foi bem assim.
“Oi amigos, eu sou a . Formada em Relações Públicas, comecei o blog quando eu ainda estava no Ensino Médio. Apaixonada por música, resolvi escrever para tentar fugir de todos os dramas adolescentes. Quem nunca teve eles, não é mesmo? Aos poucos o que era um hobby, se tornou minha profissão. E o que antes era apenas uma página perdida na internet, se tornou uma das maiores fontes de música no Brasil. Hoje, sou uma mistura de várias coisas que produzo nesse espaço: colunista, opinadora das coisas do mundo, fã de rock clássico, mas também escuto as músicas atuais, fotógrafa apaixonada e DJ nas horas vagas. Espero que vocês não me odeiem muito.”
Sorri olhando para a página. Dizia muita coisa mas ao mesmo tempo não dizia nada. Talvez tivesse mais alguma coisa no site que pudesse me dar uma pista, mas mesmo traduzido para o inglês, seria muito trabalho ler texto por texto. O texto dizia um pouco da sua vida pessoal, mas também não deixava muita coisa exposta. A minha página na internet tinha mais coisa sobre mim. Claramente ela estava em vantagem.
Pensei em pesquisar seu nome no facebook, deveria ter pelo menos alguns vídeos dessas tais bandas, mas pelo jeito, seu nome era tão comum que não consegui achar o perfil. Quando estava quase desistindo, digitei o nome do blog na caixa de pesquisa.
Apareceu uma página com 100 mil inscritos, mas seu nome não estava em nenhum local. Era algo extremamente profissional. Acho que teria que contar com a minha sorte.


O recesso de final de ano tinha chegado ao fim. E com ele, voltou a neve. Logo após o ano novo voltei para o dormitório. Primeiro porque não queria atrapalhar a rotina da minha tia, apesar dela sempre dizer que não tinha problema. Segundo porque queria escrever.
Comecei com esse projeto de livro como uma forma de contar para meu público como era de fato a vida de uma blogueira. O por trás das câmeras que ninguém vê. Não queria escrever como uma biografia, então estava se tornando mais um livro de memórias. Ele estava começando a tomar forma, mas precisava de tempo para dedicar.
Além disso, as aulas logo iam voltar, e com a agitação do final do ano, precisava colocar muitos exercícios atrasados em dia. Marie, uma francesa de cabelos loiros com quem dividia o quarto, ainda não tinha voltado do recesso, mas já me mandara várias mensagens desesperadas pedindo ajuda nos trabalhos.
Eu geralmente tinha aversão ao tipo de Marie. Aquele tipo de mulher que só se importa em ir para academia, como estava o seu cabelo loiro platinado e quem seria seu próximo namorado. Mas por algum motivo desconhecido, tinha me dado bem com ela. Não chegaria a dizer que éramos amigas, mas ainda não tinha tido vontade de dar um soco na cara dela. O que geralmente tinha com boa parte das pessoas.
O frio estava absurdo hoje, e não tive coragem de sair de casa nem para tomar café. Tinha trazido um resto de pão que fizemos no Natal, então comi um pedaço com chocolate quente enquanto abria meu computador. Pensei em abrir a Netflix e assistir alguma série. Era sempre o meu primeiro pensamento antes de fazer qualquer coisa de útil, ainda mais naquele frio com o qual não estava acostumada.
Liguei uma playlist aleatória no spotify e abri o arquivo do trabalho. Tínhamos que conjugar não sei quantos verbos e postar no sistema do curso. Eu estava começando a gostar bastante da minha rotina aqui. Temperatura agradável, as pessoas não te enchiam o saco, respeitavam a sua privacidade. Ninguém questionava se você tinha uma rotina de estudos diferente da dos outros, e principalmente, não tínhamos os trabalhos em grupos com os quais eu precisei aprender a lidar na época da faculdade.
Começou a tocar uma música do Paramore que nem se quer reconheci, e me peguei sorrindo lembrando daquele encontro no parque. Se algum dia alguém me dissesse que eu iria conhecer e ele ainda ia vir falar comigo, eu ia dizer que a pessoa no mínimo havida fumado um cigarrinho suspeito.
, você está sendo muito idiota. Lembra de como ele te tratou no final da Copa? Lembra de como você ficou parada no meio do corredor no Maracanã sem saber o que fazer? Se odiando mais uma vez por ter aceitado o convite de ir assistir à final. Ele era esse cara que não estava nem aí para ninguém além de si mesmo, para de ser idiota.
Aceitei que não ia conseguir render por hoje. Desliguei o computado e deitei na cama. O aleatório do meu celular começou a tocar uma música que há bastante tempo não escutava. Era uma das músicas que me lembravam um ex-namorado da adolescência. Talvez porque ele tinha tocado ela em um festival do colégio, antes mesmo da gente ficar.
O refrão de “You and me” do Lifehouse começou a tocar alto no meu fone de ouvido. “Cause it’s you and me and all of the people with nothing to do, nothing to lose”. A música deu uma pausa e eu estranhei. Apertei o botão do celular e vi que tinha recebido uma mensagem de um número desconhecido, claramente daqui da Alemanha. Pensei que poderia ser algum colega do curso, e logo desbloqueei o celular. Me odiei por ter feito isso.
havia me mandado uma mensagem.
havia me mandado uma mensagem.
Devo ter pensado a mesma coisa por um bom tempo. Ainda sem coragem de abrir o conteúdo de fato.
Jamais imaginei que ele fosse realmente me procurar. Achei que era apenas uma brincadeira para ele. Ver se poderia me iludir. Calma , vai ver que é exatamente o que ele está fazendo. Respira. Lembra da final da Copa. E principalmente, lembra quem você é. Você é aquela que nunca ligou para futebol. Se ele ainda fosse cantor de uma banda de rock...

: . Eu imaginei muita coisa sobre quem você poderia ser, mas confesso que chegou bem longe do que eu pensava. Me surpreendi. Não entendi muita coisa do site, para não dizer que não entendi nada. Desculpa, eu não sei falar uma palavra de português. Mas dei um jeito de cumprir a minha promessa. Topa dar um passeio pela cidade?

Devo ter ficado uns bons 5 minutos olhando para a tela sem saber o que fazer. Se eu respondesse sim de cara, ele ganhava. Se eu ignorasse... bem, não queria ignorar. Ignorar era fácil. Mentira, não era não. Meu deus, , você acabou de conhecer o cara. Não é porque ele é bonito que você vai ficar assim. Mas ele é maravilhoso né?
Entrei no esquema de não conseguir raciocinar. Eu sempre fazia isso e dava tudo errado. Não queria que desse errado. Espera, o que dar errado? , não faça a mesma coisa que você faz sempre. Foca no que importa. Você está em outro país, estudando outra língua, tem o trabalho dos seus sonhos. Já faz um bom tempo que você não deixa homem nenhum influenciar nas suas decisões. Não vai ser agora que você vai começar. E lembra da final da Copa do Mundo.
Odiava quando minha mente começava a pregar essas peças comigo. Precisava conversar com a . Ela sempre me tirava desse estado. Olhei o relógio. No Brasil deveriam ser umas 6 da manhã. Ela tinha acabado de ter uma bebezinha, minha sobrinha, inclusive. Era isso que acontecia quando sua melhor amiga casava com seu irmão, eles formavam uma família e você ficava de fora sem saber o que estava acontecendo, sem querer intrometer. Mas era caso de vida ou morte. Mandei uma mensagem.

: , estou tendo uma daquelas crises de novo!! Me ajuda!

Podia jurar que ela não ia me responder, mas eu mal tinha travado meu celular e ele apitou com uma mensagem da . Porque eu ainda duvidava que minha amiga não fosse me responder imediatamente estando acordada? Éramos amigas desde criança, se tinha alguém que me conhecia, essa pessoa era a .

: Calma, . O que aconteceu?

Contei para ela como havia conhecido o . Tinha certeza que ela ia ser sensata, me mandar ficar quieta no meu canto. Ignorar. Só que esqueci de um pequeno detalhe: a era maluca por futebol. E era casada com meu irmão, outro fanático. Ao invés de um bom conselho, recebi foi uma bronca.

: , COMO ASSIM VOCÊ CONHECE O MARAVILHOSO E PERFEITO DO E NÃO FALA NADA?

Me assustei com a caixa alta. Agora mesmo que eu não iria ter uma opinião racional desse assunto. E eu não poderia falar com mais ninguém. Primeiro porque não queria que ninguém soubesse, por algum motivo estranho queria guardar isso como um segredo meu. Apenas falei para a porque eu me conhecia. Se não colocasse para fora ia acabar cometendo alguma loucura.
Segundo porque ele era uma pessoa que vivia nos holofotes. Se alguém no Brasil descobrisse que havíamos nos conhecido, poderia virar capa de revista. E se tem uma coisa que eu odiava era virar notícia. Estava tudo bem com as pessoas me conhecendo pelo meu trabalho, mas não queria ser ligada a ninguém, ainda mais um jogador de futebol. Pelo menos não pela mídia. Mas mais uma vez: eu realmente estava supondo que algo ia rolar? Por que eu fazia isso comigo mesma?
Ignoraria a . Ela não seria nada útil nesse assunto. Olhei para a mensagem que eu ainda não havia respondido. Abri a foto de perfil dele. Era uma foto dele com a camisa da seleção alemã sorrindo com uma cara de moleque para a câmera. Aquele sorriso realmente tinha algo de especial. Sempre soube disso, mas nunca havia descoberto o motivo. Seria uma boa oportunidade de descobrir. Mas eu teria que me conter. Ele não poderia saber que eu tinha uma queda tão grande assim por ele. Há mais tempo do que eu gostaria de admitir, inclusive. Até porque, quando sua melhor amiga e seu irmão começam a namorar, seu programa de fim de semana é assistir jogos de futebol. Talvez eu conheça mais do esporte do que gostaria de admitir.
E então, disposta a arriscar pela primeira vez em muito tempo, respondi.

: Ok. Você mereceu. Quando a gente pode se encontrar?


Capítulo 03 - There’s something different in the air


A volta dos treinos me fez perceber o quanto eu era burro. Se eu tenho colegas de time que são brasileiros, por que não pedi logo para eles traduzirem o site dela para mim? Mas aí me lembrei de que, para pedir ajuda linguística para qualquer um, teria que explicar o porquê eu estava interessado em ler um site de música brasileiro, considerando que eu mal acompanhava os artistas que eu escutava. Olhar site de música? Acho que nunca tinha de fato entrado em um antes de ontem à noite. Ou teria sido de madrugada?
Mas resolvi comentar do site. Às vezes conseguiria passar despercebido, ao menos por enquanto. Sabia que não esconderia a por muito tempo, mas nem sabia o que daria disso. Por enquanto éramos apenas estranhos que se conheceram no parque.

Cheguei no vestiário depois do treino e comentei com o Rafinha. Ele não era um dos meus amigos mais próximos, e tinha certeza que não guardaria segredo, mas eu estava ficando sem opção.
— Cara, eu estava procurando umas bandas na internet domingo e me deparei com um site brasileiro. Não entendi nada do que estava lá, mas tinha umas indicações bacanas. Até de bandas do seu país.
— Qual site? Eu não conheço muita música pop, mas vai que...
Peguei meu celular e abri no navegador. Merda. O site estava aberto, só que justo na parte em que tinha uma foto da .
— Tava interessado era na música, ?
— Velho, deve ter aberto sem querer!
— Mas ela é gata. Nada mal.
Eu devo ter ficado muito vermelho. Acho que não dava mais para fugir. Pelo menos como não confirmei nada, o Rafa ficou na dele.
— My Songs, My Live. Vou ver o que descubro para você.
Sorri sem querer agradecer. Qualquer coisa que eu falasse poderia ser usado contra mim. Não ia deixar começar uma fofoca quando nem tinha nada sobre o que se falar sobre. E eu sabia muito bem como os caras eram. Você dava uma brecha, e já era o mais zoado de todo o vestiário. Da última vez que um de nós começou a namorar, zoaram o ser por quase um mês.
O treino tinha sido puxado. E eu tinha agradecido por isso. Desde que encontrara com aquela garota na padaria não havia feito mais nada sem lembrar dela. Lembrar do quê? Eu nem a conhecia. Mas seu rosto tinha me chamado atenção. E era raro alguém me chamar atenção assim, se é que já tinha acontecido alguma outra vez.
Fiquei mais quieto que o normal enquanto treinávamos jogadas, e isso foi o suficiente para alguns dos caras virem me perguntar se eu estava bem. Falei que sim, afinal, não tinha nada de errado. Só estava louco para chegar em casa, jogar um pouco de FIFA e dormir. Uma boa noite de sono sem sonhos. Será que era pedir muito?
Aparentemente era. Fui dormir exausto, na esperança de que ia conseguir relaxar. E então, tudo começou de novo.

O time adversário, eu sozinho no campo, estava escuro dessa vez. Enxergava ao meu redor as linhas que dividiam o meio campo, podia ver o gol. Não havia luz artificial, mas uma pequena iluminação da lua era o suficiente.
O time adversário vinha com a bola para cima de mim. Eu estava sozinho, não tinha nem goleiro no meu campo. A única coisa que eu poderia fazer era roubar a bola e atacar. Se eu ficasse parado com certeza tomaria um gol, e tinha a sensação que não estaria apenas perdendo um jogo. Não que perder um jogo fosse algo para se dizer apenas.
Corri até alcançar a bola nos pés de um dos jogadores adversários. E foi só então que percebi que nenhum deles tinha rosto. Eram todos iguais e sem rostos. Poderia ter ficado com medo, mas na adrenalina de correr pelo campo, tentei fingir que eles não era no-faces, como comecei a nomeá-los.
Depois de alguns dribles e provavelmente uma falta não marcada por um juiz inexistente, cheguei ao gol e dei o chute mais forte que eu poderia. Quando vi a bola entrando pelo canto esquerdo, ajoelhei aliviado, fechando os olhos por alguns segundos, finalmente respirando.
Abri os olhos devagar com medo do que iria encontrar a minha volta. Estava sozinho no campo. Nem o time dos no-face estavam lá. Não havia torcida, se é que em algum momento daquele jogo tinha tido torcida. Fui andando devagar para a saída do campo e as portas que davam para o vestiário. Foi quando eu vi de longe uma figura pequena, de cabelos castanhos em pé em um canto fora do campo.
Ela estava parada com os braços ao lado do corpo, olhado fixamente para mim. Ou talvez fosse para algum lugar atrás de mim. Me aproximei dela e era como se ela não tivesse percebido a minha presença ali. Chamei seu nome, mas ela continuava sem reação, quase como uma estátua viva.
Então percebi que ela falava alguma coisa bem baixinho. Quase não abria a boca para pronunciar a palavra. E foi então que eu entendi.

Repetidas vezes ela falava meu nome. Senti um arrepio e olhei para trás. O time dos sem-rosto agora não era mais um time. Apesar de estarem vestidos como jogadores de futebol, eles pareciam mais um exército. Deveria ter uns 200 deles parados na mesma posição que a e olhado diretamente para mim. Ecoando meu nome em um sussurro coletivo.

Foi então que acordei. Olhei para o lado e vi que estava em segurança de volta ao meu apartamento. Sozinho. Peguei meu celular para olhar as horas. 3h da manhã. Pensei em mandar uma mensagem para a . Não poderia ter sido aleatório sonhar com ela, ainda mais em um campo de futebol, por dias seguidos. Mas se eu mandasse uma mensagem às 3h da manhã ela poderia interpretar de forma errada.
Levantei da cama e fui no banheiro lavar o rosto. Estava mais acordado do que jamais estive e poderia correr uma maratona. E foi exatamente isso que resolvi fazer. Não a maratona, mas sair para correr.
Troquei de roupa, peguei meu iPod e coloquei Eminem para tocar. Começou a tocar uma mais tranquila, “So Far”. Era animado o suficiente e marcava um bom ritmo para correr. E então, para qualquer um que olhasse de fora, um maluco chamado começou a correr pelas ruas de Munique às 3h20 da madrugada, ignorando complemente o frio que fazia lá fora.

Eram 8h da manhã. Preparei um café, precisava ficar acordado para cumprir todos os compromissos do meu dia, apesar de ter conseguido dormir apenas às 4h da manhã, no sofá da sala, após uma corrida. Meu sonho ainda não tinha saído da minha cabeça. Não que eu achasse que ele tinha algum significado oculto, mas por que então eu não conseguia esquecer a expressão da ?
Peguei meu celular e abri o WhatsApp. Sei que tinha prometido que só entraria em contato com ela depois que conseguisse descobrir quem ela era. Porém, vamos ser realistas, eu jamais iria descobrir isso. Não sem a ajuda de outra pessoa e eu sentia que isso seria meio que trapacear.
Comecei a digitar uma mensagem.
Oi. Oi o quê? Não fazia ideia do que falar com ela. Ou o que eu poderia fazer para convencê-la a sair comigo. Travei o celular desistindo por agora. Às vezes eu precisava acordar um pouco.
Peguei a minha mochila e entrei no carro, ligando o rádio enquanto saía da garagem. Estava tocando uma melodia quase country. Eu não era bom com músicas. Geralmente escutava alguns Raps e R&B, mas fora isso só conhecia o que estava muito na mídia, como Justin Bieber. É, talvez eu conhecesse mais músicas do Bieber do que eu deveria.
Essa melodia eu não conhecia, mas comecei a prestar atenção na letra, de repente, eu estava com bastante vontade de conhecer tudo sobre música. E então veio o refrão “This is where you fall, this is when you get up, this is where it all begins”. Segurei um palavrão que deu vontade de soltar, mesmo estando sozinho no carro. Mesmo com raiva por todos os pensamentos que se passaram na minha cabeça, e principalmente, um rosto específico. Olhei de quem era aquela música, Hunter Hayes. Nome da música? This is where it all begins.
Parei em um sinal e respirei fundo. Nunca fui bom em lidar com sentimentos, ainda mais com alguém que eu nem sequer conhecia. Tinha sim, a achado super gata. Ainda na padaria tudo que eu queria era saber quem ela era. E por que não, quem sabe, me divertir um pouco? Porém não conseguia tirar aquele sonho estranho da minha mente. O medo que eu senti e o alívio de quando vi o seu rosto no meio de todos aqueles no-faces.
Dei partida no carro novamente, concentrando no trânsito.

Cheguei no treino mais cedo do que o planejado. Ninguém tinha chegado ainda.
Sentei em um banco no vestiário, recostando em um dos armários e colocando meus pés para cima. Certeza de que brigariam por eu estar com tênis em cima do banco, mas não importei. Não tinha nenhum barulho em volta, apenas silêncio. Eu odiava o silêncio completo. Odiava porque se tinha silêncio, tinha o barulho dos meus pensamentos.
Peguei meu celular para me distrair um pouco. Abri o Instagram e fui rolando sem de fato ler alguma coisa, de vez em quando curtindo alguma foto. Talvez eu fosse um pouco viciado nesse aplicativo.
Não sabia como funcionava esses algoritmos da internet e os conteúdos que apareciam para a gente, porque não era possível que essas coisas apareciam de uma forma tão aleatória.
Um conteúdo patrocinado do site My Songs, My Live tinha acabado de aparecer no meu feed. A foto de uma banda que não conhecia, com uma legenda em português que não fazia ideia do que estava escrito. A única coisa que entendi foi que era sobre o festival Lollapalooza.
Respirei fundo e abri o WhatsApp de novo.
Depois de reescrever várias vezes, apertei enviar na mensagem que achei que seria menos problemática.

: . Eu imaginei muita coisa sobre quem você poderia ser, mas confesso que chegou bem longe do que eu pensava. Me surpreendi. Não entendi muita coisa do site, para não dizer que não entendi nada. Desculpa, eu não sei falar uma palavra de português. Mas dei um jeito de cumprir a minha promessa. Topa dar um passeio pela cidade?

No segundo seguinte os caras começaram a chegar, e eu tive que guardar meu celular e ir para o treino. Com certeza minha cabeça não ia estar nas jogadas.
Para minha surpresa, Rafinha esperou todo mundo sair do vestiário e veio falar comigo enquanto eu ainda calçava as chuteiras. Talvez pela falta de sono, estava bastante lento hoje, e isso não era bom sinal.
, eu não consegui descobrir nada da menina. Se ela tem alguma pagina no facebook é tão escondida que ninguém conseguiu achar.
Fui ficando sem esperanças, e me sentindo mal por ter mandado aquela mensagem. Mas por algum motivo, Rafinha achou que minha expressão era para que ele continuasse a falar, e concluiu.
— Mas descobri algumas coisas sobre o site. Ele é o maior site especializado em música do Brasil. Tem parceria com não sei quantas gravadoras, e é patrocinado pela maior e mais influente delas. Ela faz parte da empresa que geralmente leva todos os grandes shows para lá. Então não sei quem é essa menina, mas se ela trabalha para esse site, ela é alguém importante.
Logo em seguida Joseph, o assistente técnico, entrou no vestiário nos arrastando para o campo. Agora eu só poderia esperar uma resposta dela e ver no que isso ia dar.

No aquecimento eu consegui concentrar. Era fácil contar quantos movimentos você tinha que fazer, ou fazer a troca de posição com seus colegas. Correr de um lado para o outro, sem se preocupar exatamente para onde estava indo. Talvez eu conseguisse fazer um bom treino.
E então começamos a treinar pênaltis. Por que logo hoje tinha que ser treino de pênaltis?
Formamos a fila. Fiquei por último e comecei a contar quantos pênaltis eram acertados e quantos eram errados. Às vezes contar me deixava focado. Contar os segundos, contar jogadas. Mas não demorou a chegar minha vez. A bola já estava posicionada e tudo que eu tinha que fazer era chutar. De preferência, acertar o gol ou a defesa do goleiro.
Minha bola foi tão longe que ultrapassou os muros do gramado. Todos pararam o que estavam fazendo para ver onde ela ia parar, até que a perdemos de vista. Voltei andando devagar para o final da fila, o que fez o Guardiola gritar o meu nome chamando a atenção. Primeiro pelo pênalti perdido de forma estúpida, e depois por não manter o ritmo de treino.
Claramente contar não estava resolvendo. Falei que poderia ser o sono, afinal, já tinha algumas noites que não dormia. Precisava descobrir o que estava causando as minhas insônias. Precisava voltar a me concentrar no jogo, tínhamos uma semana antes da volta do campeonato, e depois ainda tínhamos Champions League e Pokal. E o time precisaria de mim em total forma dentro e fora do campo.

: Ok. Você mereceu. Quando a gente pode se encontrar?

Ainda suado e com a adrenalina do treino vi aquela mensagem. Onde a gente podia se encontrar? Onde? Eu não tinha pensado nessa parte. Poderia preparar um passeio romântico, mas algo me dizia que ela não era esse tipo de garota. Podia levar ela para jantar. Não em um lugar exatamente romântico... Mas existia jantar sem ser romântico? Não.
Precisava pensar em um passeio que chamaria sua atenção para a cidade, talvez para mim, mas que não tivesse nada de romance no ar. Poderia ter tesão, mas não romance. Eu sempre fui um cara romântico, e onde cheguei com isso? Várias decepções, algumas notícias na mídia e um bolo com a cereja de um coração partido. Não queria romance. Mas por algum motivo inexplicável, eu precisava conhecer essa mulher chamada .

Saí do treino e fui andando em direção ao meu carro enquanto escutava uma música do Steve Aoki. O boné de aba reta me disfarçava um pouco da pequena multidão que se formava ao lado do clube. Sempre tinha fãs querendo um autógrafo no final do treino.
Foi então que tive a brilhante ideia: o que lembrava a todos de Munique e que ao mesmo tempo tinha tudo a ver comigo? O time! Já sabia onde levaria a .

Só não sabia que seria tão difícil conciliar nossos horários. Quando eu estava livre do treino, ou dos jogos, ela tinha aula ou algum trabalho prático. Quase desisti da minha ideia de ir ao museu, e apenas sair com ela para tomar um café. Mas aí voltou a nevar. Foi então, que duas semanas depois, para a minha surpresa, trouxe uma solução.

: Mas não precisamos ir para nenhum lugar grande. Podemos nos encontrar naquele parque mesmo, no fim do dia...

Apesar de termos conversado pelo WhatsApp por esse período de tempo, jamais achei que ela fosse querer encontrar comigo de uma forma tão simples. Tinha alguma coisa diferente nela, e eu queria saber o que era.


Fiquei surpresa pelo tempo que demorou a responder. Quando meu celular finalmente tocou com a resposta, tomei um grande susto considerando que estava estudando há duas horas direto sem intervalos. Estava com um fone de ouvido escutando uma playlist de Los Hermanos enquanto conjugava uns 30 verbos em alemão.
Eu era meio nerd se tratando dos estudos. Tinha a capacidade de ficar lendo sobre um único assunto durante horas sem me dar conta do mundo ao meu redor ou me distrair. Minha amiga costuma dizer que sou um ser raro para a nossa geração. Quase que uma alienígena.
Demorei a achar o celular jogado em um canto da cama. Tinham várias mensagens da porque eu não tinha respondido ela. Tinha outras mensagens da Marie, que estava finalmente voltado do feriado e queria copiar os meus deveres. Não sei por que eu deixava. Talvez minha dificuldade para me relacionar fizesse com que eu aceitasse todo e qualquer tipo de amizade. Mas isso deveria ser assunto para a terapia, o que claramente eu não tinha tempo.
Pulei todas aquelas, e apesar de depois ter brigado comigo mesma por responder tão rápido, estava bastante curiosa para saber o que ele estava planejando.

: Acabei de ter uma ideia de onde posso te levar. O que você acha de conhecer um dos lugares que foi tão importante para mim nos últimos anos?
Senti vontade de xingá-lo. Para que tanto mistério? Mas eu resolvi jogar o jogo dele. Até porque, não seria uma má ideia conhecer um pouco mais das coisas por aqui.
: É uma possibilidade.
: Sério que foi tão fácil assim?
: O que você está falando de fácil, garoto? Disse que era uma possibilidade.
: Desculpa.
Me senti culpada por ter falado assim. Ele de fato não tinha feito nada de errado.
: Tudo bem. Mas então... Que dia seria essa aventura que você está me arrastando para?
: Quando você não tem aula?
: Só no fim de semana.

Ele digitou e apagou trocentas vezes. Percebi que algo estava errado. Foi então que me lembrei que ele era um jogador de futebol. Lembro de ter visto meu primo falar de jogos nos sábados e domingos. Provavelmente seriam nesses dias que ele estava mais ocupado. E ansioso. Eu pelo menos ficaria bastante ansiosa se soubesse que tinha gente do mundo inteiro me vendo fazer o meu trabalho ao vivo. A é, tinha gente do mundo todo me vendo fazer meu trabalho. Às vezes, ao vivo.

: Mas não precisamos ir para nenhum lugar grande. Podemos nos encontrar naquele parque mesmo, no fim do dia...

Sabia que estava cedendo às vontades dele. Sabia que se fosse qualquer outra pessoa, poderia ignorar e seguir adiante. Mas por algum motivo inexplicável, ele era a primeira pessoa com quem eu conversara que não tinha intenção de usar a minha influência no site, seja para divulgar o trabalho ou apenas se gabar.
Pela primeira vez em muito tempo, era alguém com quem talvez eu pudesse de fato conversar. Poderíamos ser amigos. Meu primeiro amigo potencialmente verdadeiro a milhares de quilômetros de casa. Eu estava em um país estrangeiro, sem ninguém com quem dividir meus pensamentos a não ser eu mesma.
Nunca gostei de conversar pela internet. Sabia que era um meio necessário, mas achava vazio. Sentia falta de olhar nos olhos das pessoas, sentir um calor humano. Sei que há poucos dias estava na casa da minha tia, mas por mais que adorasse a minha família, a relação de amizade era diferente. Talvez eu poderia encontrar em um sentimento de conforto para me manter aqui nos próximos meses.

: Se isso não fizer de mim a pior pessoa do mundo para criar primeiros encontros, eu topo.
: E se a gente não tratasse isso como um encontro? Somos apenas duas pessoas se encontrando em um parque.
: Em quanto tempo você consegue chegar lá?

Fazia bem mais frio do que o último dia que tinha vindo até aqui. Talvez porque já era fim de tarde e estava começando a nevar. Apesar de já estar há um bom tempo na Alemanha, meu termostato ainda era brasileiro. Por isso saí de casa com duas calças (uma própria para neve que havia comprado assim que cheguei aqui), dois moletons, um casaco de couro e uma toquinha da Grifinória, finalizando com uma botinha de couro sob uma meia de lã.
O parque era mais longe do dormitório do que eu pensava, por isso acabei pegando um ônibus. Como sempre fiz, vim escutando música. Minha playlist era bastante variada, mas esse tempo frio me fazia escolher músicas mais alternativas. Era ruim quase não ter com quem conversar na minha língua nativa, por isso eu estava escutando muitas músicas brasileiras. E não sabia que conhecia tantas!
Cheguei no parque e fui caminhando lentamente para o mesmo banco que havia me sentado no dia que conheci o . Supercombo tocava nos meus fones de ouvido uma música que me trazia várias memórias, mas hoje eu já tinha feito paz com elas. “Piloto Automático” era uma das minhas músicas favoritas, a letra dela retratava bastante boa parte dos meus sentimentos. A luta diária para tentarmos ser nós mesmos, e às vezes, chamar a atenção de uma única pessoa nesse mundinho.
Sorri ao pensar na ideia. Meus olhos encheram de lágrimas como sempre faziam ao lembrar de tudo que eu havia passado para chegar até ali. Todas as bandas que havia entrevistado, todas as aulas, o tanto que havia aprendido. E é claro, todos os corações partidos que havia deixado para trás. O meu e o de algumas outras pessoas. Odiava pensar nessas coisas.
Cheguei na pequena clareira que dava para a área deserta do parque, como havia chamado. Ele estava sentado no mesmo banco, vestia uma calça de moletom preta, um casaco de gola alta com o símbolo do time de futebol em que jogava e um headphone colorido. Estava de cabeça baixa e por isso não me viu chegando.
Foi a minha vez de sentar do seu lado e esperar que ele percebesse. Bom para ver como era legal assustar as pessoas de fone de ouvido.
Ficamos apenas sentados um do lado do outro, sem falar nada. Apenas se dando conta da presença um do outro, olhando para um mesmo ponto no chão.
Aos poucos o crepúsculo ia dando lugar para uma noite escura. O poste de luz mais próximo fazia apenas sombras das árvores de onde estávamos. Mas por mais que estivesse em um lugar deserto, eu me sentia segura. tinha uma energia que me trazia segurança, familiaridade, apesar de não o conhecer. Apesar do que tinha acontecido no final da Copa do Mundo no Brasil.
— Você sabia que a gente já tinha se visto antes?
Não sei porque quis começar por aí. Ou porque toquei nesse assunto. Ele colocou os headphones no pescoço. Me olhou sem sair da posição em que estava, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Eu estava recostada no banco de forma que nossos olhares se cruzaram sem muita dificuldade.
— What? — Perguntou com o sotaque que tinha ao falar inglês. Sorri ao perceber isso, mas logo voltei meu olhar para o mesmo ponto no chão.
— Quando vocês ganharam a Copa. Eu estava na área de imprensa depois do jogo, fui te pedir uma foto e você fingiu que não me viu.
Ele se endireitou no banco e franziu a testa.
— Eu não lembro... aquele dia teve momentos que eu lembro como se tivesse acontecido ontem, e tem coisas que são apenas um borrão. A área da imprensa foi uma delas. Fiz o gol do título e todo mundo queria conversar comigo, e tudo que eu queria era comemorar com meus amigos.
Ele parou por um tempo olhando para o ponto no chão. Colocou uma das mãos atrás da cabeça e olhou para mim sem graça.
— Me desculpe. Não foi intencional. Juro.
Ficamos nos olhando por um tempo. Até que eu entendi que tinha nutrido uma raiva sem sentido por um bom tempo. De fato, aquele dia tinha sido uma confusão no estádio. Só tinha ido até lá porque meu “chefe” teria um outro compromisso e pediu para eu fazer umas fotos dos bastidores. E apesar de não gostar muito de futebol, era uma final de Copa do Mundo no Brasil, e falar que fui ao evento para fotografar não só entraria para o meu currículo, entraria também para um dos momentos mais marcantes da minha vida.
E quem diria que quase dois anos depois, aqui estaria eu conversando com o autor do gol do título da Alemanha, mesma seleção que deixou marcado o 7 a 1 na seleção canarinho.
Como estava muito quieta relembrando daquele dia, me deu uma cutucada na costela me trazendo de volta a realidade. Fechei a cara para ele me fazendo de brava, quando na verdade eu não estava.
Ele sorriu. Ou melhor, ele riu da minha reação. Aquela risada ecoando pelo parque, me fazendo começar a rir junto, mesmo sem saber o motivo de tanto riso.
Após algum tempo e alguma dor na barriga, paramos de rir e voltamos ao silêncio inicial. Agora eu tinha um sorriso discreto no rosto. Certeza que eu ia me odiar por esse sorriso.
Recostei minha cabeça em seu ombro. Estava começando a esfriar demais.
— Quer ir para um lugar fechado? — Ele percebeu meu arrepio.
— Onde você sugere?
— Não sendo em nenhum lugar lotado, pode escolher. E antes que você venha falar que estou dando em cima de você descaradamente, eu só não quero que ninguém me reconheça. Não quero mídia em cima de algo que nem sei o que vai ser.
Me assustei com esse comentário. Quem ele achava que era para já supor que eu daria uma chance para ele só porque era jogador de futebol? Me levantei do banco, claramente chateada e saí andando.
Ele percebeu que havia ficado brava, apesar de não ter feito uma cara de quem não entendeu nada.
— Ei, , espera aí. Eu falei alguma coisa errada?
— Não. Você só fez o que todo cara que tem uma pequena fama faz: supõe que eu vou ficar com você só porque é famoso.
— Pera aí! Eu não falei nada disso! Só disse que não queria nenhuma mídia atrás da gente.
— Claro! E logo em seguida supôs que poderíamos ter um relacionamento. Desiste, . Ao contrário de todas as outras que você sai pegando por aí, eu conheço gente famosa. Sei quando o cara está usando a sua fama só para tentar ficar comigo.
— Menina, você é mesmo muito petulante! Estou aqui tentando te proteger para você não sair na capa de todos os jornais amanhã de manhã e você vem com sete pedras para cima de mim.
Foi a vez dele ficar bravo.
Nos encaramos por um tempo, até eu perceber que deveria ter seguido o meu primeiro instinto.
Fui embora sem olhar para trás. Segurando lágrimas que eu nem sabia o motivo delas. Não é como se fossemos próximos ou algo assim.
Quando me dei conta já tinha chegado ao dormitório andando. Não senti o frio de -5º e nem mesmo o caminho. O alojamento não era tão longe assim do parque, afinal. Pelo contrário, era bem mais perto do que eu imaginava.


Capítulo 04 - Comunication


Fiquei parado esperando ela ir embora. Sabia que tinha falado algo muito errado, mas não consegui me segurar. Eu não a conhecia. Não poderia pré-julgar as coisas que ela havia vivido. Assim como ela não poderia fazer isso comigo. E acabei não descobrindo o que havia de diferente, além de um brilho em seus olhos que não estavam ali semanas atrás.
Era esse o maior problema de pessoas que estava acostumadas a viverem na mídia: tínhamos a falsa impressão de que todo mundo nos conhecia, mesmo tendo a certeza que ninguém sabia quem éramos de verdade.
Quando a perdi de vista, retornei o meu caminho secreto pelos fundos do parque. Fazia o caminho inverso do dia em que havíamos nos conhecido. Não podia deixar de sentir que era o fim de um ciclo, por mais que aquilo nem sequer tinha começado. Mas ao mesmo tempo, sabia que ainda encontraria com ela.

Tinha deixado meu carro um pouco distante do parque. Geralmente eu viria a pé, porém sabia que ia esfriar. Eu teria jogo daqui a poucos dias, e por mais que ainda não fosse uma certeza que eu ia jogar, não poderia ficar doente.
Mal entrei no carro e meu celular tocou. Era meu agente. Estranhei porque ele não costumava me ligar tão tarde. Sempre deixamos para resolver as coisas durante o dia, a não ser que fosse algum escândalo de mídia. Será que alguém tinha me visto com a ?
- Alô.
“Fala, grande ! Como vão as coisas?”
- Bem. Algum problema, Mr. Marx?
“Problema exatamente não. Mas precisamos conversar sobre seu contrato. Para onde você está pensando em ir na próxima temporada?”
- Como assim para onde? Vou ficar no Bayern.
Eu sabia que essa temporada não estava sendo uma das melhores para o meu lado. Mas eu amava esse time, a torcida, as vibrações que sentia no campo. Não era a mesma coisa de estar defendendo a seleção, mas duvidava que em algum outro clube fosse ter o mesmo sentimento.
“Você tem certeza? Porque acho que devemos olhar algumas opções.”
Depois da conversa com a , de um dia longe de treino e algumas noites mal dormidas com pesadelos, meu futuro depois dessa temporada era a última coisa que eu poderia querer discutir agora.
- Cara, eu não to com cabeça para isso hoje.
, temos que conversar sobre isso. Não sei se ficar no Bayern seja uma ideia. Há a possibilidade de ir para o Liverpool. O que você acha de jogar na Inglaterra?”
Todo jogador tinha o sonho de jogar em outro país que não o seu. Eu poderia até vir a fazer isso, mas não estava sentindo que tinha chegado a minha hora. Ou se sequer algum dia iria chegar.
- Olha, Marx, analisa o que você quiser. Eu já dei o meu veredito. No momento eu só quero chegar em casa e dormir.
“E onde você está que não em casa? Não vai me dizer que está indo para uma balada no meio da semana.”
Sempre o controlador Marx.
- Não. Estava dando uma volta no parque para esfriar a cabeça. Mas parece que nem assim deu certo, né?
Desliguei na cara dele. Lidaria com sua ira depois. Agora eu só queria chegar em casa e fazer maratona de alguma série. Ainda tinha alguns episódios da 3ª temporada de House of Cards para assistir e logo mais a 4ª estreia.
Em seguida desliguei o celular e joguei de qualquer jeito no banco do carro.
Não queria falar com ninguém.
Dirigi devagar pelas ruas de Munique. Liguei o rádio para ocupar a minha mente. Tocava uma música do Magic! que eu não parava de escutar. Por incrível que pareça, eu gostava de algumas músicas deles. Algo me dizia que a não aprovaria isso.
Me odiei por ter pensado nela, mas era involuntário. Tudo que tivesse música eu faria relação com ela agora. Era inevitável.

Dirigir melhorava um pouco do meu humor. Não era a mesma coisa de correr ou pedalar, mas era melhor do que nada.
Já conseguia pensar um pouco mais racionalmente quando cheguei em casa, mesmo que a vontade de deitar no sofá e assistir uma série continuava.
Ainda tinha um resto das comidas que minha mãe tinha me feito trazer das festas de final de ano. Não estava exatamente com fome, mas ser um atleta de alta performance te fazia querer comer mesmo sem estar com vontade.
Coloquei uma sopa de batatas para esquentar no micro-ondas enquanto trocava de roupa. Vesti uma calça velha da Adidas que tinha ganhado em alguma temporada para trás, e um moletom cinza que nem sabia se tinha marca.
Sentei no sofá e liguei a série.

Devo ter pegado o celular do carro, para a minha sorte. E meu vício (que existia, por mais que eu não quisesse admitir), havia me feito ligar o telefone. Acordei sem saber onde estava com o barulho do despertador.
Tinha esquecido completamente que tinha treino hoje. Por sorte, sempre fui uma pessoa diurna. Logo já estava a caminho.

Por conta do frio, acabamos não fazendo treino com bola, apenas musculação.
Agradeci mentalmente, porque assim não precisaria encarar o Guardiola. Eu sabia que boa parte daquela conversa do Marx tinha influência do técnico do Bayern de Munique.
Nessa temporada haviam sido poucos jogos que eu participara. Me sentia subutilizado, mas confiava que o técnico estava tentando fazer bem para o time. Principalmente após a minha lesão no final de novembro. Mas ainda tinha alguns meses para mostrar serviço. Voltara aos campos após o recesso, ainda precisava recuperar.
Outra ilusão do mundo futebolístico: você ser campeão do mundo, e principalmente, o autor do gol do título, não te trazia privilégio nenhum. Muito pelo contrário. Você acabava recebendo ainda mais críticas quando não estava em um dia bom.
Eu gostava de malhar, mas estava precisando de um pouco de ação. Por isso que odiava o inverno. Ou melhor, odiava a neve.

Saí do treino e resolvi que ia tentar dar uma volta de bicicleta. Tinha parado de nevar, talvez conseguisse uma pista mais seca.
Mal cheguei em casa e meu celular apitou.
Foi só então que me lembrei da noite passada. Não da conversa com o Marx, isso tinha ficado na minha cabeça o dia inteiro. Mas de antes. Dos minutos que eu tive de felicidade que foram rapidamente tirados de mim.

: Desculpa. Acho que exagerei. Será que ainda podemos ter aquele encontro? Você não me falou qual era esse lugar tão misterioso.

Pensei em torturá-la. Fingir que não vi. Ignorar. Ela havia me tirado do sério. Em um momento que eu estava precisando de calmaria, ela havia soltado o verbo quando tudo que eu queria fazer era protegê-la. Mas eu era eu. E nunca soube ficar com raiva das pessoas por muito tempo, pelo contrário, eu era o otário que sempre perdoava todo mundo. Ainda mais quando era uma garota com um sorriso tão bonito.

: Tudo bem. Podemos começar de novo?
: Podemos? Eu que estava errada.
: Por mim tudo bem.

E então fiquei encarando a tela do celular. Tive a sensação que ela ficou do mesmo jeito, sem saber o que falar.

Gotze: Eu estou saindo agora para andar de bicicleta. Quer me acompanhar?

Quando vi já tinha enviado aquela mensagem. Coloquei o celular de lado com medo da resposta, e comecei a preparar algo para comer.

: Pode parecer maluco, mas duas coisas. Primeiro, eu não sei andar de bicicleta. E segundo, não está frio demais para sair de debaixo das cobertas?

Li sua mensagem pela tela do celular, sem desbloqueá-lo e comecei a rir. Por sorte eu morava sozinho, se qualquer um me visse agora teria a total certeza que eu havia enlouquecido. Tinha conseguido visualizar a cena dela debaixo do edredom, deitada na sua cama do dormitório mexendo no celular. Gostei da imagem mental.
Fazia 10º lá fora. Para a época, estava quase calor.

: Bem, a primeira parte podemos dar um jeito. Mas pera, como assim você não sabe andar de bicicleta? O que vocês fazem quando crianças no Brasil?
: Bom, as outras crianças eu não sei, mas eu ficava em casa assistindo desenho animado e lendo. Nunca fui muito de atividade física.
: Que menina preguiçosa! Temos que mudar isso senhorita.

Eu ri da minha própria piada. Isso estava ficando ridículo!

: Okay. Vou pensar no seu caso. Mas de qualquer forma, agora não posso. Estou entrando numa aula. Quer encontrar para tomar um café mais tarde? Eu estou precisando de alguma coisa quente e não tenho mais nada no meu dormitório.
: Me passa o endereço e a hora que te busco.

Quando vi, já tinha marcado de encontrar com ela de novo. Certeza que era o maior número de encontros que eu tinha com uma mulher sem estar dormindo com ela. Ela de fato tinha algo diferente, e a cada dia que passava eu só queria descobrir mais o que era.
Troquei de roupa e peguei minha bicicleta. Saí de casa enquanto tocava um dos remix que eu tinha para atividades físicas.


Depois da briga no parque eu tinha ficado mesmo chateada com ele. Não queria mais saber desse cara chamado . Cheguei em casa e sentia calor. Andar com roupas de frio não havia sido uma boa ideia.
Tomei um banho correndo, pois meu corpo esfriou e fazia frio de novo. Acho que nunca mais ia reclamar de tomar banho no frio no Brasil. E talvez a minha visão romântica do frio também estava indo embora. Rapidamente vesti meu pijama de moletom e deitei na cama debaixo do edredom. Passado a agonia do frio, voltei a sentir raiva dele.
Eu tinha proposto de nos encontrarmos, e agora me sentia uma burra por isso. Cedi rápido demais e agora ele achava que poderia usar sua fama para me conquistar. Isso não colava comigo, querido.
Rolava a barra do facebook, sem de fato ler nada. Vi um post dele. Era propaganda de alguma marca ou coisa relacionada ao time. Nem lembrava quando havia seguido seus perfis na internet, era um segredo meu. Talvez eu fosse um pouco mais fã do que queria admitir, e isso que doía mais. Sempre fiz de tudo para manter relações extremamente profissionais com meus ídolos, mas eu trabalhava com música, não futebol. Não estava preparada para conhecer assim um dos caras que eu secretamente admirava.
Eu já estava dormindo quando escutei a porta do apartamento se abrir. A faculdade dividia os alunos em apartamentos. Eram pequenos, mas tinha uma cozinha e duas suítes. Eu dividia um com a Marie, uma francesa que havia vindo para a Alemanha apenas para conhecer, mas como sua família não aceitava que ela viajasse, arrumou esse curso como desculpa.
No meio da confusão, nem lembrei que ela voltava hoje do recesso, apesar de já ter quase um mês de aula. Vi que havia acendido a luz do corredor, geralmente não me importava, mas minha porta estava aberta. Senti uma pontada na cabeça. Tudo que eu precisava era uma dor de cabeça por ter dormido chorando. Da última vez que eu chorei por outra pessoa... Vamos deixar isso quieto.
Levantei e fui até a cozinha tomar uma aspirina.
- Bonjour! Mas na verdade, o que você está fazendo acordada, ? – Ela falou em inglês com sotaque francês. – Espera, você estava chorando?
Nunca fui acostumada com as pessoas percebendo minhas emoções, da mesma forma que também não percebia a dos outros. Sempre fui muito próxima do meu irmão, e a era a versão feminina dele, ambos sempre foram muito práticos. Aprendi a ser assim, e a evitar todo e qualquer sentimento. Marie ter percebido que eu havia chorado, era uma coisa completamente nova para mim.
- Não foi nada. Estava assistindo a um filme.
- Primeiro: você não chora atoa, e segundo, você não chora assistindo filmes. O que aconteceu enquanto eu estava fora ?
Peguei um copo d’água e a aspirina enquanto ela ainda estava parada no meio da cozinha me observando. Olhei as horas no celular, eram duas e meia da manhã. Zero mensagens. Por que eu queria que tivesse alguma mensagem ali?
- Talvez, mas só talvez mesmo, eu possa ter conhecido um jogador de futebol campeão do mundo. - Falei rápido demais, de uma vez, na esperança dela não entender nada do que eu tinha dito. Não sabia porque tinha falado com ela, talvez eu só precisasse de uma amiga naquele momento.
Olhei para ela, que continuava na mesma posição no meio da cozinha. Porém agora me encarava com a boca aberta.
- VOCÊ O QUÊ? QUEM?
- . - Embolei mais uma vez sem saber se eu queria contar qualquer coisa, mas já falando.
- AQUELE GOSTOSO QUE FEZ O GOL DA COPA DO MUNDO?
- O próprio. - Olhei para meu copo vazio na bancada.
Marie chegou perto de mim e me virou para encará-la. Eu nem sabia que ela tinha alguma noção de futebol. Ia perguntar isso, mas ela logo me cortou.
- Me diz que você deu uns pegas nele. Por favor!
Foi a minha vez de olhar para ela com cara de espantada.
- Tá louca! A gente se encontrou em um parque, e foi isso! Conheço gente famosa o suficiente para não me jogar para cima de qualquer um conhecido pela mídia que aparece por aí.
- Tudo bem, subcelebridade brasileira. Desculpa se você conhece o vocalista do Nickelback - levantei o dedo para dizer que eu não conhecia o Chad Kroeger, mas ela continuou - mas ainda assim, custava conversar com o moço?
- Mas a gente conversou. Na verdade trocamos WhatsApp e nos encontramos de novo. Mas aí ele propôs de irmos para um lugar fechado que não teria muita gente, e eu já logo assumi que ele só queria outras coisas quando eu só queria conversar.
Olhei para ela quase chorando de novo. Deveria estar de TPM, não era possível a quantidade de lágrimas que eu havia derramado por uma coisa boba.
- Você. Tem. O. Número. De. Telefone. Do. . . E. Está aí chorando por uma dificuldade de comunicação. Aliás, para quem se diz ter um diploma nessa área você está bem ruinzinha no processo, hein?
Não entendi nada do que ela estava falando. Ela foi até a geladeira e pegou uma vasilha com morangos e foi se sentar no sofá na nossa sala de TV improvisada. Na verdade, quase não ligávamos a TV. Sejam bem-vindos à era Netflix.
- É bem simples, pretty moon, ele deixou explícito onde queria te levar?
- Não... Na verdade ele só disse que queria evitar a mídia...
- Então você foi logo supondo que ele queria outras coisas além de conversar?
- Talvez...
Já sabia muito bem onde ela estava me levando, e agora eu estava era com raiva de mim mesma. Me sentindo a pessoa mais estúpida desse mundo.
- Você tem que ligar para ele e pedir desculpas.
Olhei assustada. Jamais ligava para ninguém. Ninguém mesmo! Eu tinha uma pequena fobia por telefones e dava graças a Deus por terem inventado o WhatsApp.
- Então pelo menos manda uma mensagem para ele e se desculpa. Assim você tira um pouco esse seu peso na consciência!
Ela estava certa e eu sabia disso. Odiava brigar com as pessoas, independentemente de quem elas fossem. O mínimo que eu podia fazer era me desculpar com ele. Mas agora era de madrugada, e depois de tirar esse peso da consciência meu sono havia chegado com toda força.
- Faço isso amanhã. Agora eu só preciso de dormir - disse bocejando.
- Vai lá e por favor, não deixa esse gostoso passar senão eu vou dar um jeito de ir atrás dele.
Eu ri já entrando no quarto e sabendo que, conhecendo a Marie, essa não era uma ameaça vazia.

Acordei um pouco melhor. Tanto da dor de cabeça, quanto emocionalmente. Só teria aula na parte da tarde, então me dei o direito de ficar na cama por mais algumas horas. Marie não levantava antes da uma da tarde, então teria a manhã para mim. Abri o celular para checar as redes sociais. Sempre fazia isso, mas estava começando a ir primeiro nas redes do . Mesmo tendo apenas as redes sociais profissionais dele (se é que ele tinha alguma pessoal, fiz anotação mental para perguntar para ele depois), mas não tinha nenhuma atualização.
Levantei quando já não aguentava mais ficar na cama.
Peguei o iPod e o fone de ouvido. Estava com uma vontade enorme de escutar Ed Sheeran, aquele ruivo maravilhoso como diria a . Coloquei "Don't" para tocar e fui preparar um café da manhã reforçado. Há tempos que não sentia tanta vontade de comer.
Fiz um café e um pão na frigideira. Sentei no banco que dava para a bancada, e abri o WhatsApp. Queria muito conversar com a . Talvez agora, depois do susto, eu conseguiria conversar com a minha amiga racional e não a fanática por futebol. Porém olhei o relógio, ainda eram umas 7 da manhã no Brasil, mandaria uma mensagem que queria falar com ela. Em algum momento ela me responderia e me chamaria no Skype.
Me senti sozinha novamente. Geralmente não me importava com a solidão, mas senti uma vontade enorme de conversar com o . Mesmo sem saber se estávamos bem. Eu ainda devia a ele um pedido de desculpas.
Abri a tela do celular na conversa dele. Mas a coragem não veio. A foto dele ainda era a mesma. Aquele sorriso. Resolvi deixar para mais tarde e fui no mercado comprar algo para fazer de almoço.

Estava prestes a entrar em uma aula, mas ainda não tinha mandado mensagem para . Passei o dia pensando naquilo, e a culpa estava me consumindo. E, sem pensar demais, enviei.

: Desculpa. Acho que exagerei. Será que ainda podemos ter aquele encontro? Você não me falou qual era esse lugar tão misterioso.

Não demorou e veio a resposta. Sorri com a ideia de passear de bicicleta com ele pela cidade. Mas ao mesmo tempo, comecei a pensar no que ele tinha falado, sobre a mídia. Eu conhecia a mídia melhor que qualquer um, e sabia que ele estava certo: quanto menos visibilidade conseguíssemos atrair para nós, melhor seria. Mais livres seríamos.
Pensei em quantas coisas a mídia já havia publicado sobre ele que não era real. Isso era uma das coisas que sempre tomei cuidado de falar no site. Raramente falávamos de relacionamentos de artistas, e quando falávamos, esperávamos declarações oficiais. Eu particularmente não gostava desse tipo de conteúdo, não é porque o trabalho da pessoa traz visibilidade, que sua vida amorosa e demais relacionamentos se tornam públicos. Mas infelizmente, eram os mais acessados. Pelo menos no Brasil, fofoca era uma das coisas que mais atraíam a mídia.
Passei para a hora que minha aula acabava e o endereço do curso. Logo em seguida comecei a ficar ansiosa. Certeza que essa aula e nada para mim seria a mesma coisa, então comecei a pesquisar sobre ele na internet. Talvez teria algum assunto para perguntar.


Capítulo 05 - Coffe?


Cheguei perto do curso da e fiquei estacionado um pouco distante. Mandei uma mensagem para ela avisando onde estava e qual era meu carro. Já estava escuro quando ela finalmente saiu na porta, carregando alguns livros e a mochila azul. Saí do carro e dei a volta para recebê-la e colocar seus materiais no porta-malas.
- Oi - Ela chegou sorrindo.
- Olá.
- Então, para onde vamos?
- Acho que o lugar que você quer tanto descobrir, está fechado a essa hora. Mas como prometido, vou te levar na minha cafeteria favorita.
- Oba! Estou necessitando de uma bebida quente. - Ela disse esfregando uma mão na outra enquanto sorria. Acho que eu estava começando a entender essa mulher.
Mal liguei o carro e ela já começou a mexer no som.
- Desculpa, eu tenho mania de mexer em qualquer som de carro, tanto para conhecer o gosto musical do motorista, quanto pelo meu vício musical de sempre conhecer coisa nova.
Eu ri. Ela era adorável!
- Tudo bem. E aí? Aprovado?
- Não.
Olhei para ela sem entender. Ela começou a rir da minha cara de assustado.
- Desculpa, é que você escuta muita coisa que nunca ouvi falar.
- Sério? Achava que jornalistas de música conheciam todas as músicas do mundo.
- Primeiro: eu não sou jornalista. Segundo: Acho que isso é meio impossível.
Ela riu. Ou melhor, gargalhou, fazendo com que o som no carro ganhasse um tom muito mais bonito do que a música.
- Tudo bem. Pode deixar, vou te mostrar tudo que toca aqui nas rádios.
- Vou adorar!
Trocamos um olhar cúmplice. E mais uma vez, eu vi aquele brilho diferente em seu olhar. Alguma coisa tinha sim mudado, e eu não tinha certeza nem se ela sabia o que era.
Estacionei o carro na porta do café. A fachada era rústica e tipicamente alemã. Nessa hora eu sabia que vinham poucas pessoas, então mesmo que eu fosse reconhecido, havia a grande chance de ser deixado em paz.
Ela vestia a mesma jaqueta marrom do dia que a encontrei na padaria, mas hoje usava um gorro azul. Fiquei parado a observando analisar o lugar.
- Acho que nunca estive em um lugar tão alemão.
- Ótimo! Era essa a minha intenção.
Entramos e escolhi uma mesa mais ao canto. Ao fundo, tocava uma música que lembrava o clima medieval. Pensei que não podia ser melhor.
Ela pediu um chocolate quente e eu, um café. Não sei se deveria tomar café a essa hora, considerando que assim que chegasse em casa, precisaria de dormir. E algo me dizia que isso não aconteceria tão cedo.
Ela me olhou com um olha desconfiado, e eu tinha certeza que ela não estava demonstrando tudo que passava em sua mente.


Estar com me fazia sentir em casa como há muito tempo não sentia. O que era bem estranho, considerando que nem sequer o conhecia de verdade. E ali, naquela mesa em um café no centro da cidade, ele não parecia um campeão do mundo. Parecia apenas um cara da minha idade, disposto a fazer amizade com uma estrangeira perdida em seu país. Sem querer perceber eu sorri e desviei o olhar.
- O que foi?
- Nada.
- Você estava rindo sozinha, não pode ser nada.
- É que, por um momento, pareceu que você não era famoso, e eu não era uma estrangeira perdida.
- Como assim? - Ele franziu a testa me olhando com mais atenção. Droga, não estava acostumada com as pessoas me olhando assim.
- É que... Vou admitir. Pesquisei sobre você na internet. Mas antes que você me julgar, vou explicar. - Ele ficou mais sério e fiquei com medo de ter feito algo bem errado - No meu site, eu sempre tomo cuidado com o tipo de fofoca e notícia da vida pessoal dos artistas que vamos publicar. Não gosto. Mas infelizmente, é o que tem maior número de acessos. Pensei que, com você poderia ser a mesma coisa. E quis fazer uma pequena lista de tópicos, como um jogo, para a gente se conhecer de verdade, não apenas o que está nas páginas de internet.
- Entendi. É uma ótima ideia. Mas, a cada coisa que você me perguntar, também tenho o direito a uma pergunta.
Ele apontou o dedo indicador na minha direção, já voltando a postura brincalhona. Eu sorri.
- Não imaginava de outra forma.
Nesse momento nossos pedidos chegaram, e levei um tempo tomando um gole do chocolate quente. Precisava me aquecer. Apesar de ter aquecedor na loja, o frio ainda continuava. Ou pelo menos, eu sentia aquele frio.
Olhei para , o analisando. Ele vestia uma camiseta preta e um casaco de couro por cima. Usava um boné de aba reta que, pelo que eu vi nas fotos, era sua marca registrada. Mas por mais estranho que fosse, esse acessório que eu costumava achar ridículo, ficava simplesmente maravilhoso nele. Estava começando a pensar se tinha alguma coisa que ficaria feio nele, e estava prestes a admitir para mim mesma que teria que dar o braço a torcer e concordar com a e a Marie: ele era mesmo muito gostoso. E estava ali conversando comigo. Meu Deus!
- Então, você começa ou eu começo?
- Pode começar, já que a ideia foi sua.
- Como é ser garoto propaganda de tantas marcas?
Ele começou a rir muito, quase gargalhar.
- Eu estava aqui esperando algo super constrangedor e você me solta essa?
Foi minha vez de rir.
- Bem, eu queria saber! Para quase todo canto que eu olho, eu vejo seu rosto ou de algum de seus colegas de time. É bizarro! Parece que vocês não existem. Como é isso?
- Bem, nós temos patrocinadores. Tanto o time, quanto os jogadores, assim como a seleção. E alguns desses patrocinadores pedem para sermos a cara de algumas propagandas. É por isso que às vezes você vê o rosto de alguns e outros não. Mas com o time, está no nosso contrato o uso de imagem. Sempre que tem qualquer evento, seja de divulgação ou alguma outra ação e a diretoria pede para participarmos, bem, não pedem exatamente.
- Entendi. Deve ser meio bizarro ter seu rosto espalhado pela cidade.
- Acho que já me acostumei. Mas, agora é minha vez. Por que Alemanha?
Demorei um pouco para entender a pergunta dele. Mas entendi o ponto, porque de todos os lugares do mundo, eu tinha escolhido vir para cá.
- Não sei. Eu precisava sair do Brasil, conhecer alguma coisa nova. Me distanciar um pouco do mundo da música, principalmente do cenário nacional. Tinha família aqui, pareceu lógico.
- Mas não tinha nenhum outro lugar que você quisesse conhecer? Você poderia ir para qualquer lugar do mundo.
- Até tem outros lugares que quero conhecer, mas achei esse curso. E algo me dizia que eu precisava vir para cá.
- Vai ver que era para me conhecer. - Ele deu uma piscadela enquanto tomava um gole de seu café.
Apenas levantei uma sobrancelha e cruzei os braços, fingindo que tinha ficado chateada com o comentário.
- Ei, eu estava só brincando.
Eu ri voltando a posição de antes, apoiada na mesa.
- Eu também.
Nos olhamos por alguns instantes quando eu continuei.
- Como é ser campeão do mundo? Defender o seu país numa competição internacional. E sem os clichês que aparecem na mídia, por favor. Devo ter lido uns 30 artigos com a mesma fala.
- Então vou te decepcionar, porque não sei se tenho uma coisa diferente para falar. Defender o seu país, ganhar um campeonato como a Copa do Mundo, é algo simplesmente indescritível! Não sei expressar em palavras aquele sentimento. Mas pensa assim, você é apaixonada por uma pessoa durante toda a sua vida, faz de tudo para poder ficar ao lado dela, e então, vocês finalmente ficam juntos. E aí, todos os seus amigos, familiares e até quem você não conhece, começa a gritar e comemorar com você. A sensação é próxima a essa. Não sei se vou conseguir descrever de outra forma.
- Acho que não vou entender nunca então.
- Por quê?
- Nunca me apaixonei. Não desse jeito.
Ele ficou calado. Não sabia o que dizer, e nem eu. Me senti idiota por ter dito isso. Resolvemos pedir algo para comer, estava mesmo com fome. Pedi um sanduíche que tinha certeza que não daria conta de comer inteiro, e ele se assustou.
- O que foi? Eu tô com fome!
- Desculpa, é que as mulheres com quem eu saio geralmente não são tão à vontade com comida.
- Querido, elas que são burras, não rejeito comida de jeito nenhum.
Ele riu e então voltamos a conversar de outros assuntos. Não estávamos mais no esquema de pergunta e resposta, começava a fluir, como uma conversa normal deveria ser em um primeiro encontro. Apesar de não ter certeza se isso era um encontro, ou só dois amigos tomando um café.
Não sei como, mas começamos a falar de futebol, e então ele falou uma coisa que achei tão diplomático e fofo ao mesmo tempo.
- Desculpa pelo 7 a 1.
- Oi? Cara, duas coisas: primeiro, você não tem que pedir desculpas. Se eu tivesse no lugar de vocês naquele jogo, eu tinha feito uns 20 a 1. Vocês foram muito educados em não atacar mais no segundo tempo. O sexto ou sétimo gol, não lembro, que foi do Schurrle, foi uma coisa tão ridícula que eu fiquei rindo por meia hora. Ele parado com a bola na pequena área, com vários jogadores do Brasil em volta, incluindo o goleiro, e ninguém fez nada a respeito. E segundo, eu já estava torcendo para vocês desde o início. Vocês mereceram ganhar. E essa sensação que você descreveu, vou te dizer a do outro lado. Quando você fez aquele gol na final, já na prorrogação, eu comecei a gritar sem parar, de alívio por não termos uma Argentina ganhando em nosso país. Quase fui expulsa da sala de imprensa.
Ele ficou olhando espantado. Até que eu assimilei tudo que tinha falado, talvez com uma emoção um pouco mais exacerbada para quem se dizia não se importar com o esporte.
- Então você gosta sim de futebol!
- Já te falei, um irmão e uma melhor amiga viciados. Não vou dizer que tenho ídolos, mas já assisti alguns jogos.
Agora ele estava de boca aberta olhando para mim sem acreditar. E então eu comecei a ficar vermelha, ele sorriu e pegou na minha mão que estava recostada ao lado da minha xícara vazia. Aquele toque me fez sentir milhões de choques pelo braço, pelo corpo. Estava começando a odiar me sentir assim, nunca havia me permitido e eu tinha certeza que ia dar errado.
- Você fica mais incrível a cada segundo que eu te conheço.

- Está ficando tarde. Acho bom irmos. Não que eu não esteja gostando da companhia, pelo contrário, mas infelizmente amanhã às 7 da manhã a realidade bate na porta.
Peguei minha bolsa para pagar a conta, mas logo em seguida ele me impediu.
- Deixa que eu pago.
Tentei dizer que não, que queria pagar minha parte, mas ele só respondeu que da próxima eu pagaria, que esse não era nosso primeiro encontro, éramos apenas dois amigos dividindo um café no frio. Pensei em reclamar, mas deixei que ele saísse por cima nessa. Teria troco.
Dirigimos por Munique, ele me mostrando alguns dos lugares favoritos dele, todos fechados a essa hora da noite. Mas preferi assim. Parecia que por estar escuro, estávamos seguros. Qualquer coisa dita naquele carro seria apenas um segredo nosso, ninguém mais saberia. Ninguém precisava de saber. Éramos e . Sem sobrenomes, sem títulos, sem fama. Apenas duas pessoas se conhecendo.
Depois de um tempo ele resolveu me levar ao Allianz Arena, onde aconteciam os jogos do Bayern de Munique. A essa hora, estava escuro, fechado. Já tinha visto fotos do estádio, mas de perto era indescritível. Fiquei imaginando como seria ele todo iluminado.
- Você tem que vir em algum jogo aqui. Vou olhar quando ser a próxima partida em casa e te arrumo um ingresso.
- Dois!
Ele me olhou sem entender para quem seria o segundo.
- A minha colega de quarto, Marie. Se ela souber que eu vou vir em um jogo e não trazer ela, vai dar briga.
- Ela gosta de futebol como você?
- Não. Acho que ela está interessada é em ver outras coisas mesmo.
Ele começou a gargalhar. Me senti idiota pelo que disse, mas ao mesmo tempo, sentia que podia falar qualquer coisa com ele. E talvez ele sentisse o mesmo.
- Agora está tudo explicado. Sempre quis saber comentários da ala feminina sobre futebol. E não, não estou falando sobre questões técnicas, isso qualquer um aprende, e acho que cada vez mais estamos conseguindo chamar o público feminino para o esporte. Mas de fato, acho que você tem razão sobre esse atrativo a mais. Somos muito gostosos.
- Ei, eu não falei nada disso! Não coloca palavras na minha boca.
- Mas você pensou que eu sei.
Dei um tapa de leve no ombro dele, rindo. E infelizmente, concordando totalmente com ele. Era sim um atrativo a mais.
- Era aqui que eu queria te trazer. Tem um museu do time dentro do estádio. Achei que seria uma marca da cidade.
- Eu vou adorar conhecer. Principalmente com tudo iluminado.
Virei o meu olhar para ele e o peguei me analisando. Já tinha percebido que era uma mania dele, analisar as pessoas e o local ao seu redor, mas não quis comentar nada. Haviam momentos que o silêncio diziam mais que qualquer palavra, e perto dele, o silêncio dizia muito.

Apesar dele ter dito que já estava tarde, apenas uma hora e meia depois que saímos do café que ele me deixou em casa. Estava sem querer sair do aquecedor do carro e ainda tínhamos que pegar minha mochila no porta-malas.
Tínhamos muito o que conversar, mas não saía mais palavra alguma. A temperatura no carro deveria ter aumentado alguns graus, apesar da certeza que não havíamos mexido no aquecedor. Baixinho tocava Somewhere Only We Know, da Lily Allen, quis rir da coincidência dessa música na playlist dele, porque era uma das minhas favoritas.
Olhei diretamente para ele e ele olhava para mim. Nossos olhares nos atraindo como imãs. Ele tirou a mão do volante e acariciou meu rosto. E já sabíamos o que ia acontecer antes que pudéssemos impedir.
Aos poucos nos aproximamos, e cedo demais, nossas bocas se tocaram, me levando a sentir coisas que eu não achei que fosse possível. Passei minhas mãos para sua nuca, o aproximando o máximo possível que o carro permitia. E eu tinha certeza que ia explodir.

Entrei em casa e encontrei uma Marie sentada no sofá com cara de culpada.
- O que você está fazendo aqui? Não tinha uma festa para ir, ou algo assim?
- Até tinha, mas achei que esperar a minha amiga contar como foi o encontro com um campeão do mundo era mais interessante. Anda, Pretty Moon, eu tô curiosa!
Coloquei minha mochila e livros em cima na banca da cozinha e me encaminhei para o assento vazio do sofá ao seu lado. Era uma experiência nova para mim, falar sobre garotos desse jeito. Conversava disso com a ? Sim. Mas sempre sentia que estava falando de um lado só. Meu irmão foi o primeiro e único namorado dela, e era estranho ela falar dele comigo, com o tempo, parei de contar dos meus rolos também.
- Bem, para começar, não foi um encontro. Só fomos tomar um café e depois ele me levou de carro para conhecer alguns lugares da cidade, e - dei uma pausa, mas sentindo que estava ficando vermelha - a gente se beijou.
Queria ter fotografado a cara da Marie. Ela ficou estática sem saber o que dizer ou fazer. Mas rapidamente eu completei:
- Por favor, não conta para ninguém! Não queremos nenhuma mídia em cima disso, seja lá o que isso seja.
- Tudo bem. Minha boca é um túmulo. Juro. - Ela fez o sinal da cruz na boca, mostrando que não ia falar.
Antes de dormir, mandei uma mensagem para a . Sabia que no Brasil ainda estava cedo.
: Dudinha, meu amor, talvez eu esteja ouvindo passarinhos cantando. Beijos de boa noite felizes para você.

Ela sabia bem o que isso significava.

: , VOCÊ PEGOU O GOSTOSÃO?
: Não usa essa palavra que você sabe que eu não gosto! Mas enfim, fomos tomar um café agora à noite, e pode ter ou não rolado um beijo.
: SÓ UM BEIJO? Deus não dá mesmo asa cobra...
: Eiii, respeita meu irmão!
: Querida, nós duas sabemos que seu irmão seria o primeiro a dar uns pegas nele. Apoiar então, preciso nem comentar.
: Você não falou nada para o Gustavo, né?
: Você está louca? Claro que não! Fica tranquila miga, sei como ele é ciumento. No dia que vocês marcarem o casamento a gente conta.
: !
E com essa ela sabia que eu não iria falar mais nada.

Estava quase pegando no sono, quando vi meu celular vibrando de novo. Pensei que pudesse ser a , ou até mesmo meu irmão, mas fiquei feliz de ver quem era.

: Só para desejar boa noite e dizer que vou ficar sonhando com seu beijo.

Junto com alguns emojis de coração.
Respirei fundo tentando ser racional e não surtar. Eu odiava a minha versão apaixonada, e fazia de tudo para evitar. Principalmente quando eu não tinha certeza se era sentimento de verdade, ou apenas uma euforia.

: Somos dois então. Boa noite e bom treino amanhã.

E um emoji de carinha fofa.
Porém, depois disso, não obtive nenhum sinal de vida dele. Por duas semanas.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.




Nota da beta: Att dupla? Amooooo. Adorei essa cena do primeiro encontro e beijo deles. Curiosa com esse final de capítulo. COMO ASSIM ELE SUMIU POR DUAS SEMANAS?! AAAAAA

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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