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Última atualização: 10/11/2018

Prólogo

With every small disaster
I'll let the waters still
Take me away to some place real
'Cause they say home is where your heart is set in stone
Is where you go when you're alone
Is where you go to rest your bones
It's not just where you lay your head
It's not just where you make your bed
As long as we're together, does it matter where we go?
- Gabrielle Aplin


Ela olhava as nuvens. Sempre amara viajar de avião. Ver o mundo de cima, a calmaria da paisagem. Parecia que nada daquilo era real. Que nenhum conflito era verdade. Que a Terra era apenas paz. As nuvens brancas davam uma sensação de paz que não se encontrava em nenhum lugar com os pés no chão. Ou pelo menos em nenhum lugar que ela já tenha ido.
Sua decisão de viajar não fora fácil. Mas ali, olhando para as nuvens e sentindo a melodia daquela música que tocava em seus fones, ela sabia que estava indo para um lugar desconhecido, mas que poderia a levar de volta para casa.
Sempre se perguntou onde seria essa casa. Esse lugar que se lia em músicas e livros, mas que apesar de amar onde morou nos últimos 22 anos, tudo começava a parecer tão pouco. E pela primeira vez na vida, ela sentia que estava prestes a descobrir.
So when I'm ready to be bolder, and my cuts have healed with time, comfort will rest on my shoulder.


Capítulo 01 - He and She

Ele
O tempo finalmente tinha firmado. Não estava calor, era impossível sentir calor em dezembro. Mas pelo menos tinha parado de nevar. Geralmente eu ia para a casa dos meus pais nas festas de fim de ano, mas resolvi voltar um pouco mais cedo. A superlotação do Natal tinha sido o suficiente para mim. Estava sentindo falta de treinar, correr. Realmente não tinha nascido para ficar enclausurado em uma casa de campo.
Daqui a dois dias seria Ano Novo. Meus colegas de time haviam me convidado a ir para uma festa privada na casa de um deles. Estava considerando essa possibilidade, ninguém deveria passar o réveillon sozinho. Se eu ficasse em casa, meu ano ia virar a base de macarrão instantâneo e FIFA.
O parque estava lotado, como eu esperava que tivesse em um primeiro dia sem neve em muito tempo. Não queria ser reconhecido. Era o problema de ser campeão do mundo, até quem não acompanhava futebol, sabia quem você era.
Há algum tempo, descobri uma parte do parque perto do meu apartamento que ninguém visitava. A pista de corrida não era tão boa como a da área principal, mas para quem queria o isolamento, era uma boa saída.
Várias árvores ao meu redor faziam sombra, diminuindo um pouco a sensação térmica, mas nada que o calor do exercício não compensasse. Quando cheguei em uma das saídas da pista, vi que tinha uma pessoa sentada em um banco. Pensei que poderia ser algum conhecido, afinal, só quem também queria se isolar vinha para essa parte do parque. Mas não era.
Observei ela ao longe. Seu cabelo castanho avermelhado, preso em um rabo de cavalo bagunçado. Era uma região pequena, e eu nunca a tinha visto. Com certeza não era daqui. Ela digitava sem parar em um notebook, concentrada demais para perceber qualquer coisa que acontecia ao seu redor. Não tive como não sorrir.
Ela estava sentada sozinha em um banco do parque, tinha algumas árvores em volta, mas nenhuma outra pessoa há metros de distância. Sei que provavelmente era bem errado eu ficar olhando para ela assim, mas alguma coisa me atraía para aquela garota e eu estava me controlando para não ir até ela e perguntar o que ela tanto escrevia.
Tinha ido até o parque para correr um pouco, tirar a cabeça de todos os problemas que estava. Todo mundo achava que ser jogador de futebol era uma coisa glamorosa, porém por trás da fama havia muitos desafios que ninguém conhecia.
Desliguei meu iPod e resolvi ir falar com a garota. Se alguém tivesse passado por mim acharia que eu era um sociopata observando a garota sem parar. E seria pior se fosse algum paparazzi ou alguém que poderia me reconhecer.
Respirei umas três vezes tomando coragem. Desde quando eu tinha dificuldades de conversar com mulheres?
Me aproximei fazendo o máximo de barulho possível. Não queria assustá-la. Mas só quando cheguei perto que percebi que ela estava com um fone de ouvido tocando músicas em um volume tão altas quanto as minhas. Reconheci a batida como sendo alguma do Paramore, apesar de não conhecer a música. Reconheceria a voz da Hayley Williams em qualquer lugar.
Não queria encostar nela, mas mesmo estando parado ao seu lado, ela não percebeu a minha presença. Estava sentada com as pernas esticadas no banco com encosto, resolvi sentar de frente para ela e aguardar ela me notar.
De frente eu percebi o quanto ela era diferente. Com certeza não era daqui. Seus traços finos denunciavam que ela era estrangeira. Sobrancelhas grossas, que desenhavam seu rosto, criando uma harmonia com o fino nariz. Seus olhos cor de areia, concentrados no notebook em seu colo, onde ela não parava de digitar. Sua boca estava em linha reta, mostrando o quanto ela estava concentrada no que quer que ela estivesse fazendo.
Alguns minutos depois ela notou a minha presença. Levantou as sobrancelhas surpresa e retirou os fones de ouvido. Abriu a boca para falar algo mas fechou. Talvez se lembrou que não estava em seu país e não falasse alemão. Ou talvez tenha me reconhecido. De qualquer forma, era estranho um homem desconhecido sentado à sua frente. Eu teria que falar algo.
— Oi. — Falei em inglês. Esperava que ela soubesse falar inglês.
Ela sorriu. Talvez eu tenha levado um tiro com aquele sorriso.
— Olá. — respondeu timidamente.
Quanta dificuldade para conseguir começar uma conversa. Quem era você e o que você tinha feio com ? E eu estava falando comigo mesmo. Desde quando eu não conseguia manter uma conversa?
— Posso ajudá-lo? — Ela falou em um perfeito inglês.
Foi minha vez de me assustar. Por que eu tinha mesmo ido falar com ela?
— Ãhn... Desculpa me intrometer, estava correndo no parque e a vi sentada sozinha. É raro ver garotas sozinhas nesse lado do parque. É raro ver qualquer um nessa área do parque para falar a verdade. Você não é daqui, é?
Ela riu de nervoso. Olhou para todos os lados, menos para mim enquanto respondeu:
— Não. Não sou daqui. Sou brasileira. Precisava de um lugar tranquilo para trabalhar e achei que teria paz no parque, mas claramente não está funcionando. — Ela respondeu fechando o notebook e fazendo menção para se levantar.
Me apressei para impedi-la. Olhei para baixo sem graça, mas não conseguia olhar em seus olhos, da mesma forma que ela havia me evitado antes.
— Desculpe-me. Não foi minha intenção te atrapalhar. A gente pode começar de novo? — Fiquei olhando para ela esperado alguma reação. Ela apenas endireitou o corpo. Entendi como um sinal positivo e prossegui. — Sou . — Estendi mão. Não sabia se ela tinha me reconhecido ou não, mas preferia me manter o mais anônimo possível até ter certeza.
Ela descruzou os braços e sorriu.
.
Sorri quando ela finalmente me respondeu e aceitou meu aperto de mão.
Ela se sentou novamente e abriu seu notebook. Eu deveria simplesmente levantar e ir embora, mas parecia que minhas pernas não me obedeciam mais. Permaneci sentado enquanto ela voltava a digitar. Peguei meu celular e comecei a rolar a barra pelo Instagram, sem de fato prestar atenção em qualquer imagem.
— Então... já que ninguém vem até essa parte do parque, por que você estava justo aqui?
Me surpreendi com sua pergunta. Esperava qualquer coisa, menos isso. Pensei em inventar uma desculpa, pois ela não parecia ter me reconhecido. — Sou um famoso jogador de futebol. Se eu for para a parte movimentada do parque não vou conseguir terminar minha corrida sem ser incomodado por alguém.
Achei que ela fosse fazer algum comentário sobre as palavras “jogador” e “futebol”, mas então eu entendi o porquê do voto de silêncio e emendei.
— Entendi. Você também veio para cá para não ser incomodada, e aqui estou eu atrapalhando o seu trabalho. — Levantei para ir embora, ainda surpreso por não ter sido reconhecido.
— Pode ficar. Você não estava me atrapalhando.
Ela tirou os olhos do notebook e olhou para mim sorrindo. Eu já estava de pé. A encarei por alguns segundos tentando buscar algum traço de ironia, mas ela parecia estar sendo sincera. Sentei ao seu lado, agora ela estava com os pés no chão. Vestia uma calça de moletom cinza e um tênis All Star preto. Me perguntei se ela não estaria com frio, sendo acostumada a um país tropical. Lembrava de ter sentido muito calor da Copa do Mundo do Brasil, e olha que estávamos no inverno. Mas ela sorriu, fingindo que não viu que eu a olhava, e continuou escrevendo no notebook.
Confesso que tentei ler o que ela tanto digitava, porém estava tudo em português. Talvez tenha sido exatamente por saber que eu não teria ideia do que estava escrito que ela me deixou ler. Ou pelo menos tentar já que não estava lendo nada.
Voltei a mexer no celular, pelo menos assim daria um pouco de privacidade a ela. Algumas vezes desviei o olhar, mas ela de fato estava concentrada no texto. Isso me decepcionou um pouco, e eu estava começando a odiar essa sensação. Tinha acabado de conhecer essa garota, e normalmente, eu não me sentia assim por ninguém.

Não sei quanto tempo se passou, mas de repente ela fechou o notebook e o guardou na mochila azul que eu nem tinha visto que estava no chão. Se levantou sem dizer nenhuma palavra e saiu andando.
Levantei correndo e fui até ela, por impulso segurando seu pulso. Ela levou um susto. E eu também. Parecia que tinha levado um choque pelo toque. Rapidamente soltei a minha mão.
— Desculpe — falei sem jeito. O que mais eu poderia dizer?
— Tudo bem.
Ela continuou andando. Por algum motivo, eu não poderia deixar essa garota ir.
— Espera! Você disse que não era daqui. O que acha de eu te mostrar alguns pontos turísticos da cidade?
Ela sorriu sem graça, colocando a mochila no ombro esquerdo, ao mesmo tempo que arrumava uma mecha do cabelo atrás da orelha.
— Obrigada, mas já tem dois meses que estou aqui. Já rodei toda a cidade com meus amigos. E eu realmente preciso chegar em casa. Um outro dia, talvez?
Ela sorriu sem jeito.
— Tudo bem. Me passa algum contato para a gente combinar. O que você acha?
Ela pegou uma caneta da mochila e puxou a minha mão.
— Vamos fazer assim, se por um acaso a gente se encontrar novamente, eu te passo meu telefone. Pode ser?
Fiquei sem entender o que ela tinha escrito na minha mão. Mas enquanto eu virei para ler, ela saiu andando e desapareceu nas curvas do parque. Ela tinha escrito: “Sei quem você é. Você sabe quem eu sou? ”.
Aquela garota tinha me deixado mais intrigado ainda. Agora era uma questão de honra descobrir tudo sobre ela. Mas como fazer isso sendo que tudo que eu sabia era um apelido e que ela não era desse país?

Ela
Ir para uma área aberta e escrever nunca foi meu forte. Geralmente eu preferia trabalhar no meu quarto, escutando alguma música. Desenvolvi esse hábito desde que comecei a trabalhar com o blog. Ainda estava no ensino médio, e apenas escrevia sobre coisas do meu cotidiano e o meu eterno vício: música. Mas de uma hora para outra a página começou a ter muitas visualizações e o que antes era lazer, se tornou trabalho.
Recebi um e-mail de uma gravadora interessada em investir no meu blog, aumentar o alcance do site, mais conteúdos e ganharia meu próprio assistente. Na época tinha acabado de entrar para a faculdade de biologia e usava o blog apenas como um escape da realidade. Um espaço no qual eu poderia fazer o que quisesse, no caso, escrever sobre bandas e possíveis novos sucessos da música brasileira e internacional.
Com um ano de curso vi que a biologia não era para mim, e segui o concelho do meu chefe na gravadora, porque sim, apesar de blogueira ser um trabalho autônomo, às vezes temos que responder à algumas pessoas. Troquei de curso para Relações Públicas. A princípio não era o que queria e desmotivei bastante com o curso, mas então percebi que estava ali apenas para ter uma graduação: eu já tinha profissão e emprego garantido, e enquanto continuasse dedicando a meu hobby tudo ia se encaminhar.
Me formei no final do ano passado. Estava com vontade de sair viajando pelo mundo, mas não poderia sair de perto do meu computador. Tinha passado os últimos quatro anos sem uma férias de fato, pois tinha os recessos da universidade, mas então eram viagens para cobrir shows de bandas, festivais, divulgação de álbuns. Muita gente pensa que viver nos bastidores era o paraíso, conhecer todos os artistas, assistir aos shows nos melhores lugares, às vezes ter um relacionamento com algum famoso. Mas a realidade não era essa.
Conheci muitos artistas, alguns bastante simpáticos, outros que me decepcionei. A gente rala tanto nos bastidores que nem tem tempo de aproveitar o show de fato, entrar na música e esquecer que o mundo existe. Eu continuava com meu blog, meu pequeno espaço que não era mais tão pequeno. Meu nome era conhecido em rede nacional. Recebia milhões de tweets perguntando de quem seria o próximo show internacional.
Depois da minha formatura, pedi a gravadora que eu tivesse seis meses de férias. Nesse tempo, o site seria mantido pelos meus assistentes (porque sim, quando sua página cresce o suficiente para exigirem conteúdo inédito de hora em hora, e responder as redes sociais, você precisa de ajuda). Conversei com meus pais e minha tia. Iria fazer um intercâmbio de línguas, e apesar de ficar hospedada em uma escola, teria familiares por perto. Eles concordaram. Peguei a minha mala e vim sem pensar duas vezes para uma cidade na Alemanha chamada Munique.
O principal time de futebol da Alemanha era daqui. Não que eu entendesse muito de futebol, eu não entendia nada. Nem Copa do Mundo acompanhava mais, meu trabalho não deixava. Mas eu tinha um irmão que me obrigou a assistir a Copa de 2014 justamente no fatídico jogo do 7 a 1.
Mas também o reconheci da final desta mesma Copa de 2014 no Rio de Janeiro. Meu chefe pediu para eu ir fazer algumas fotos da cerimônia de encerramento, para escrevermos sobre os shows. Não que tenha sido grande coisa, mas acabei assistindo ao jogo na área de imprensa. Um local privilegiado para o campo e os jogadores. E eu tinha sim reparado em um rosto que se destacava dos demais. Não que isso tenha feito alguma diferença, afinal.

Fui para o parque tentando sair da bagunça que estava a casa da minha tia. Não que eu seja mal-agradecida, como estávamos no recesso das festas de final de ano, passaria com minha família. Mas desde que cheguei na Alemanha comecei a escrever um livro sobre pessoas que conheci e convivi nos últimos anos, e realmente queria aproveitar o recesso para me dedicar a esse projeto.
As preparações para o Ano Novo estavam a todo vapor, e o entre e sai de gente não estava ajudando a me concentrar na escrita. E sim, mesmo de férias eu queria escrever sobre música. Porque escrever é um vício, se você não escreve é como se tivesse uma crise de abstinência, e então seu cérebro começa a pensar coisas irracionais. Eu não poderia ter um ataque no meio de tanta gente que eu convivia a apenas poucas semanas e que me recebera tão bem. Precisava me soltar.
Aproveitei o milagre de ter aberto um sol nos últimos dias, e assim ser possível ir ao parque. Não imaginava que tanta gente ia ter a mesma ideia que eu. Aproveitar o raro sol no meio do inverno. Amanhã seria 31 de dezembro e esse seria o meu último momento do ano para escrever. Mesmo de férias, resolvi fazer um post no blog. Um texto curto, apenas relembrando os principais momentos do ano que passou e desejando que o próximo ano trouxesse boas conquistas. Era minha tradição esse post desde o início do blog.
E tudo estava indo bem, até perceber aquele homem sentado no mesmo banco que eu. Caraca, não tinha mais ninguém naquela parte do parque, será que ele não poderia sentar no outro branco? Foi então que o reconheci. Não que eu soubesse seu nome, mas o reconheci na bagunça no final do jogo no Maracanã.
Segurei o riso. Não deixaria que ele percebesse que eu o havia reconhecido. Ele puxou assunto, pouco respondi na esperança dele me deixar sozinha novamente. Ele não deixou. Que cara insistente! Recoloquei meu fone de ouvido e continuei meu texto. Se ele queria ficar sentado em um banco de parque do lado de uma pessoa que ele nem conhecia, era problema seu.

Minha música mudou e agora tocava “So Far Away” do Avenged Sevenfold. Eu não sabia explicar, mas tinha alguma coisa nas bandas com solos de guitarra que me faziam escrever sem parar. Terminei meu texto, fechei meu computador e levantei para ir embora.
veio atrás.
— Espera! Você disse que não era daqui. O que acha de eu te mostrar alguns pontos turísticos da cidade?
Pensei em aceitar o convite, afinal já tinha dois meses que eu estava na cidade e pouco tinha conhecido. E sei que não era culpa da minha família. Entre aulas e compromissos era mesmo complicado ter tempo e mesmo assim, desde que cheguei estava muito frio, era impossível sair de casa, e agora que esquentou um pouco, estavam todos ocupados com os preparativos para a festa de final de ano.
Mas eu não poderia ser tão fácil assim. Não abriria o jogo tão simples assim. Se tinha uma coisa que a vida nos bastidores tinha me ensinado, que para lidar com pessoas conhecidas pela mídia, você tinha que fingir não saber quem elas eram. E no caso daquele jogador era quase que uma verdade. Eu de fato nada sabia sobre ele, além de que ele era campeão do mundo.
— Vamos fazer assim, se por um acaso a gente se encontrar novamente, eu te passo meu telefone. Pode ser?
Pensei em manter minha pose de difícil. Ou até mesmo passar o meu telefone. Mas eu era uma subcelebridade brasileira, por mais que odiasse admitir isso. Então apenas escrevi em sua mão: “Sei quem você é. Você sabe quem eu sou?”.
E continuei andando como se aquilo fosse a coisa mais normal no mundo. Encontrar jogadores de futebol campeões do mundo no parque.
Voltei para casa da minha tia pensando nesse encontro. Agora teria que pesquisar tudo que pudesse sobre ele. Se o visse de novo e ele percebesse que eu mal sabia seu nome, minha estratégia iria toda por água abaixo.
Mas o que eu estava fazendo? Desde quando isso era um jogo para eu fazer isso? Ou pior, por que eu estava na expectativa de encontrá-lo de novo?


Capítulo 02 - The world is not a box


Alguns dias se passaram desde que encontrei aquela garota no parque. Nem me lembrava mais o seu nome. Ou pensava que não lembrava. Voltei para minha rotina de treinos. Muitos garotos e garotas ao redor do mundo tinham o sonho de serem jogadores de futebol. Se eles soubessem como é a rotina, tenho certeza que escolheriam alguma carreira mais sólida.
Entretanto, não troco minha profissão por nada nesse mundo. Queria poder dizer que também não trocaria o time pelo qual jogo, mas o amor à camisa tinha que ficar de lado. Aquilo era uma profissão por mais que tivesse emoções envolvidas e às vezes, temos que escolher o que é melhor para a gente, e apesar de amar o time, nem sempre é viável continuar ali.
Claro que para quem já está no meio há um tempo, é normal que o elenco varie, sempre tem rostos novos e vários amigos acabam indo para outros clubes. Mas eu gosto da vibração da torcida nos jogos. Cada uma tem uma vibração diferente, e a do Bayern de Munique é única.
Estava dirigindo para casa. Já era quase noite. Uma pessoa mais preocupada em nomear as coisas diria que estávamos no eclipse, quando ainda estava claro mas não tinha sol, e ao mesmo tempo ainda não era noite. Ou se é que poderia dizer que existia esse período do dia nessa época do ano.
Janeiro estava quase no fim, mas o frio ainda estava grande. O recesso do final de ano já estava acabando e logo mais o campeonato voltaria. Estava ansioso por pisar de novo nos gramados. Era uma sensação única que nada mais me fazia sentir essa emoção. Tínhamos voltado a treinar, apesar de, por causa do frio, ficamos mais na musculação e demais exercícios internos. Além disso, eu aproveitava para fazer outros exercícios, como correr no parque e de vez em quando pedalar. Acho que se não fosse um atleta de alto rendimento por profissão, eu ia ser um desses viciados em exercício.
Resolvi parar em uma lanchonete e comprar alguma coisa para comer. Geralmente pedia algo em casa, ou então cozinhava. Estava escolhendo um pão quando escutei aquela voz, a mesma voz do dia do parque, falando algo em um idioma que eu não entendia. Provavelmente português. Sorri ao me lembrar da sua promessa.
Olhei por cima da prateleira e ela estava bem na minha frente. Seu cabelo estava preso de uma forma desajeitada que lhe dava um ar mais jovial. Ela usava um casaco marrom por cima de uma blusa branca. Sorri ao ver aquela imagem. Essa garota sabia ser bonita sem ter ideia de que era. Só então me lembrei de seu desafio: precisava descobrir quem ela era. Porém ela também tinha dito que me passaria o seu contato se nos encontrássemos de novo. Acho que teria que deixar esse jogo nas mãos dela por enquanto.
Fiquei na minha aguardando para que ela me notasse. Parecia concentrada em escolher coisas na prateleira, apesar de eu perceber um pouco de dificuldade com o alemão. Esperei que as pessoas que estavam com ela se afastassem.
— Esse é de chocolate com baunilha. — traduzi o que estava escrito no pacote do biscoito recheado que ela segurava.
Ela se assustou. Pensei que fosse soltar um palavrão, mas se conteve. Sorriu ao me reconhecer, mas logo em seguida a expressão tranquila voltou ao seu rosto. Ela voltou a atenção para a prateleira e eu tinha certeza que ia me ignorar, mas acabou me respondendo.
— Thanks.
Deixou um pequeno sorriso escapar. Fiquei sem reação por um tempo. O que falar com ela? Havia esquecido de pesquisar qualquer coisa na internet, mesmo não fazendo ideia de onde começar a procurar. Digitar “brasileira na Alemanha” com certeza não me levaria a lugar algum.
— Você precisa de mais alguma ajuda?
Era a coisa mais óbvia a perguntar. Provavelmente ela deveria estar achando eu estava intrometendo de novo.
— Hm, estou procurando onde tem suco. Você poderia me apontar uma direção?
Sorri ao ver a expressão curiosa dela. Mesmo que não admitisse, ela havia ficado feliz com a minha presença. Andei com ela até a geladeira ao fundo da loja. Ela escolheu um suco de cor escura.
— Acho que estou te devendo uma promessa né?
Ela se lembrou! Relaxei um pouco e acho que ficou claro na minha expressão que estava com medo dela não se lembrar.
— Você não precisa me passar seu número se não quiser. Está tudo bem. De verdade.
— Eu sou uma garota de promessas. Mas anota rápido porque minha amiga está me chamando do caixa. Ou você vai querer que meu primo venha até aqui, te reconheça e comece a fazer uma milhão de perguntas? Ele tem só sete anos.
Ela riu. E que risada gostosa era essa. Mais que rápido peguei o meu celular e anotei seu número. E ela também havia me dado mais uma pista do mistério que havia me feito investigar: seu sobrenome. Agora sim eu saberia por onde começar a pesquisar.
— Agora que você cumpriu sua parte da promessa, preciso cumprir a minha?
Ela franziu a testa, tentando se lembrar do que era.
— Descobrir quem você é.
Ela sorriu novamente e apenas disse:
.
Ela saiu correndo com sua cesta de compras. Fiquei parado do lado da geladeira vendo-a pagar e sair com sua família. Eu sabia que iria encontrar com ela novamente. Mas dessa vez, não deixaria o acaso ser o responsável.

Cheguei em casa e liguei a televisão. Mais tarde ia passar um episódio novo da minha série favorita. Era a única hora da semana que eu não deixava nada e nem ninguém me perturbar.
Tomei um banho escutando algumas músicas. Gostava de música, mas nunca reconhecia nenhum artista fora os que já estava na minha playlist. Eu tinha o péssimo habito de escutar as mesmas coisas repetidas vezes, e sempre que conhecia alguma música nova na rádio, ficava ouvindo por vários dias seguidos, quase como um looping.
Liguei meu iPod na caixa de som e apertei o aleatório. Dessa vez vi no player que era uma música do One Republic, era uma das poucas bandas que me acalmava quando tinha algo para resolver. E era o caso daquela noite.
Precisava resolver o que eu faria na final da temporada. Se permaneceria no time ou iria procurar outros ares. Quis deixar essa decisão nas mãos do meu agente, mas então percebi que não queria uma outra pessoa decidindo a minha vida, apesar dele insistir que tinha certeza do que era melhor para mim. Estava me sentindo um garotinho de 17 anos indo prestar vestibular: não fazia ideia do que deveria fazer, porque por mais que meu coração dissesse uma coisa, a razão dizia outra completamente diferente.
E as pessoas ao meu redor não estavam ajudando. Sempre que eu tentava conversar com meu irmão, ele mudava de assunto. Sabia que ele tinha sido contra eu vir para o Bayern, mas ao mesmo tempo ele via o tanto que eu cresci nos últimos anos. Conversar com companheiros de time também seria furada, porque ou os caras eram extremamente fiéis a camisa, ou queriam pular fora. Era algo que meio que você sentia que precisava se mudar, e eu não estava sentindo isso.
Eu adorava meu agente, mas ele também estava me pressionando sobre isso. Tentei conversar uma vez com meu amigo de longa data e também companheiro de seleção, , mas ele não ajudou muito. E a cada dia que passava, eu me sentia mais sozinho com uma escolha que nem sabia até que ponto que seria minha, porque nem sempre o que a gente quer é levado em conta. Às vezes, o clube resolve para onde vamos e simplesmente temos que obedecer.
Mas pelo menos eu sabia que tinha a seleção. E se tinha um lugar que eu gostava de jogar, era na seleção. Tinham poucas coisas no mundo que chegariam perto do sentimento de defender o seu país em uma competição mundial. E ser o responsável pelo título dessa tal competição era uma felicidade que eu não saberia descrever. Até hoje lembrava daquele gol quando tudo já parecia ter chegado ao fim. Escutar a torcida, nossas famílias, a comissão técnica. Um grito em conjunto de comemoração. De resultado de um trabalho bem feito durante anos. E eu tinha o maior orgulho de ter participado disso. Defenderia a seleção sempre que me fosse permitido, dando meu máximo a cada jogo que eu fosse convocado, independentemente de quem fosse o adversário.

E por um momento nem lembrei da , ou de qualquer coisa relacionada a ela. Ou as coisas que eu precisava resolver. Meu seriado tinha atraído minha atenção por uma hora, o que me fez desligar do mundo momentaneamente. Pensei em jogar um pouco de FIFA antes de dormir, mas meu sono já estava muito grande para me manter acordado por mais tempo.
Escovei os dentes e fui me deitar. Queria dormir logo e continuar ignorando as coisas que eu tinha que resolver. Sempre fui mestre em postergar qualquer decisão importante que eu tinha que fazer. Adormeci, mas não por muito tempo.
Me vi no meio do campo. Não tinha meus colegas de time, era apenas eu frente a toda equipe adversária. Não consegui descobrir qual clube, porque logo que me vi sozinho, senti uma onda de pânico que há muito tempo não tinha. Minha visão começou a ficar turva, senti a bola nos meus pés, mas não conseguia me mexer. Foi então que foquei minha visão na torcida. Só tinha uma pessoa ali, parada logo atrás do gol. Ela olhava diretamente para mim, tinha uma expressão séria, mas ilegível. .
Acordei assustado. Não sabia dizer se aquilo havia sido um sonho ou um pesadelo. Mas resolvi levar como um alerta.
Busquei o meu computador no escritório. Acho que ele nunca demorou tanto tempo para ligar. A ansiedade começava a crescer no meu peito, precisava descobrir quem era essa menina.
Digitei no Google seu nome, na esperança de achar algum site em inglês. .
O primeiro link era de um site chamado mysongsmylive.com. Cliquei, apesar de saber que estava todo em português. Identifiquei onde teria uma página sobre o blog e quem escrevia nele, foi então que vi a foto daquela garota de cabelos castanho. Ela estava em um lugar aberto, fazia muito sol. Seu cabelo estava bagunçado pelo vento, ela sorria para a câmera. Parecia extremamente feliz. Embaixo consegui ler seu nome: . Tinha um texto sobre ela, mas fiquei um tempo admirando sua foto antes de traduzir aquele texto no Google Tradutor.
Descobri que traduzir do português para o inglês fazia mais sentido do que traduzir do português para o alemão. Mas enquanto esperava a bolinha do tradutor carregar, pensei em milhões de possibilidades. Ela provavelmente era jornalista, trabalhava em um site. Tinha dito que tinha vindo estudar na Alemanha, mas por quê? Esperava que aquele pequeno texto fizesse com que as coisas ficassem mais claras, mas não foi bem assim.
“Oi amigos, eu sou a . Formada em Relações Públicas, comecei o blog quando eu ainda estava no Ensino Médio. Apaixonada por música, resolvi escrever para tentar fugir de todos os dramas adolescentes. Quem nunca teve eles, não é mesmo? Aos poucos o que era um hobby, se tornou minha profissão. E o que antes era apenas uma página perdida na internet, se tornou uma das maiores fontes de música no Brasil. Hoje, sou uma mistura de várias coisas que produzo nesse espaço: colunista, opinadora das coisas do mundo, fã de rock clássico, mas também escuto as músicas atuais, fotógrafa apaixonada e DJ nas horas vagas. Espero que vocês não me odeiem muito.”
Sorri olhando para a página. Dizia muita coisa mas ao mesmo tempo não dizia nada. Talvez tivesse mais alguma coisa no site que pudesse me dar uma pista, mas mesmo traduzido para o inglês, seria muito trabalho ler texto por texto. O texto dizia um pouco da sua vida pessoal, mas também não deixava muita coisa exposta. A minha página na internet tinha mais coisa sobre mim. Claramente ela estava em vantagem.
Pensei em pesquisar seu nome no facebook, deveria ter pelo menos alguns vídeos dessas tais bandas, mas pelo jeito, seu nome era tão comum que não consegui achar o perfil. Quando estava quase desistindo, digitei o nome do blog na caixa de pesquisa.
Apareceu uma página com 100 mil inscritos, mas seu nome não estava em nenhum local. Era algo extremamente profissional. Acho que teria que contar com a minha sorte.


O recesso de final de ano tinha chegado ao fim. E com ele, voltou a neve. Logo após o ano novo voltei para o dormitório. Primeiro porque não queria atrapalhar a rotina da minha tia, apesar dela sempre dizer que não tinha problema. Segundo porque queria escrever.
Comecei com esse projeto de livro como uma forma de contar para meu público como era de fato a vida de uma blogueira. O por trás das câmeras que ninguém vê. Não queria escrever como uma biografia, então estava se tornando mais um livro de memórias. Ele estava começando a tomar forma, mas precisava de tempo para dedicar.
Além disso, as aulas logo iam voltar, e com a agitação do final do ano, precisava colocar muitos exercícios atrasados em dia. Marie, uma francesa de cabelos loiros com quem dividia o quarto, ainda não tinha voltado do recesso, mas já me mandara várias mensagens desesperadas pedindo ajuda nos trabalhos.
Eu geralmente tinha aversão ao tipo de Marie. Aquele tipo de mulher que só se importa em ir para academia, como estava o seu cabelo loiro platinado e quem seria seu próximo namorado. Mas por algum motivo desconhecido, tinha me dado bem com ela. Não chegaria a dizer que éramos amigas, mas ainda não tinha tido vontade de dar um soco na cara dela. O que geralmente tinha com boa parte das pessoas.
O frio estava absurdo hoje, e não tive coragem de sair de casa nem para tomar café. Tinha trazido um resto de pão que fizemos no Natal, então comi um pedaço com chocolate quente enquanto abria meu computador. Pensei em abrir a Netflix e assistir alguma série. Era sempre o meu primeiro pensamento antes de fazer qualquer coisa de útil, ainda mais naquele frio com o qual não estava acostumada.
Liguei uma playlist aleatória no spotify e abri o arquivo do trabalho. Tínhamos que conjugar não sei quantos verbos e postar no sistema do curso. Eu estava começando a gostar bastante da minha rotina aqui. Temperatura agradável, as pessoas não te enchiam o saco, respeitavam a sua privacidade. Ninguém questionava se você tinha uma rotina de estudos diferente da dos outros, e principalmente, não tínhamos os trabalhos em grupos com os quais eu precisei aprender a lidar na época da faculdade.
Começou a tocar uma música do Paramore que nem se quer reconheci, e me peguei sorrindo lembrando daquele encontro no parque. Se algum dia alguém me dissesse que eu iria conhecer e ele ainda ia vir falar comigo, eu ia dizer que a pessoa no mínimo havida fumado um cigarrinho suspeito.
, você está sendo muito idiota. Lembra de como ele te tratou no final da Copa? Lembra de como você ficou parada no meio do corredor no Maracanã sem saber o que fazer? Se odiando mais uma vez por ter aceitado o convite de ir assistir à final. Ele era esse cara que não estava nem aí para ninguém além de si mesmo, para de ser idiota.
Aceitei que não ia conseguir render por hoje. Desliguei o computado e deitei na cama. O aleatório do meu celular começou a tocar uma música que há bastante tempo não escutava. Era uma das músicas que me lembravam um ex-namorado da adolescência. Talvez porque ele tinha tocado ela em um festival do colégio, antes mesmo da gente ficar.
O refrão de “You and me” do Lifehouse começou a tocar alto no meu fone de ouvido. “Cause it’s you and me and all of the people with nothing to do, nothing to lose”. A música deu uma pausa e eu estranhei. Apertei o botão do celular e vi que tinha recebido uma mensagem de um número desconhecido, claramente daqui da Alemanha. Pensei que poderia ser algum colega do curso, e logo desbloqueei o celular. Me odiei por ter feito isso.
havia me mandado uma mensagem.
havia me mandado uma mensagem.
Devo ter pensado a mesma coisa por um bom tempo. Ainda sem coragem de abrir o conteúdo de fato.
Jamais imaginei que ele fosse realmente me procurar. Achei que era apenas uma brincadeira para ele. Ver se poderia me iludir. Calma , vai ver que é exatamente o que ele está fazendo. Respira. Lembra da final da Copa. E principalmente, lembra quem você é. Você é aquela que nunca ligou para futebol. Se ele ainda fosse cantor de uma banda de rock...

: . Eu imaginei muita coisa sobre quem você poderia ser, mas confesso que chegou bem longe do que eu pensava. Me surpreendi. Não entendi muita coisa do site, para não dizer que não entendi nada. Desculpa, eu não sei falar uma palavra de português. Mas dei um jeito de cumprir a minha promessa. Topa dar um passeio pela cidade?

Devo ter ficado uns bons 5 minutos olhando para a tela sem saber o que fazer. Se eu respondesse sim de cara, ele ganhava. Se eu ignorasse... bem, não queria ignorar. Ignorar era fácil. Mentira, não era não. Meu deus, , você acabou de conhecer o cara. Não é porque ele é bonito que você vai ficar assim. Mas ele é maravilhoso né?
Entrei no esquema de não conseguir raciocinar. Eu sempre fazia isso e dava tudo errado. Não queria que desse errado. Espera, o que dar errado? , não faça a mesma coisa que você faz sempre. Foca no que importa. Você está em outro país, estudando outra língua, tem o trabalho dos seus sonhos. Já faz um bom tempo que você não deixa homem nenhum influenciar nas suas decisões. Não vai ser agora que você vai começar. E lembra da final da Copa do Mundo.
Odiava quando minha mente começava a pregar essas peças comigo. Precisava conversar com a . Ela sempre me tirava desse estado. Olhei o relógio. No Brasil deveriam ser umas 6 da manhã. Ela tinha acabado de ter uma bebezinha, minha sobrinha, inclusive. Era isso que acontecia quando sua melhor amiga casava com seu irmão, eles formavam uma família e você ficava de fora sem saber o que estava acontecendo, sem querer intrometer. Mas era caso de vida ou morte. Mandei uma mensagem.

: , estou tendo uma daquelas crises de novo!! Me ajuda!

Podia jurar que ela não ia me responder, mas eu mal tinha travado meu celular e ele apitou com uma mensagem da . Porque eu ainda duvidava que minha amiga não fosse me responder imediatamente estando acordada? Éramos amigas desde criança, se tinha alguém que me conhecia, essa pessoa era a .

: Calma, . O que aconteceu?

Contei para ela como havia conhecido o . Tinha certeza que ela ia ser sensata, me mandar ficar quieta no meu canto. Ignorar. Só que esqueci de um pequeno detalhe: a era maluca por futebol. E era casada com meu irmão, outro fanático. Ao invés de um bom conselho, recebi foi uma bronca.

: , COMO ASSIM VOCÊ CONHECE O MARAVILHOSO E PERFEITO DO E NÃO FALA NADA?

Me assustei com a caixa alta. Agora mesmo que eu não iria ter uma opinião racional desse assunto. E eu não poderia falar com mais ninguém. Primeiro porque não queria que ninguém soubesse, por algum motivo estranho queria guardar isso como um segredo meu. Apenas falei para a porque eu me conhecia. Se não colocasse para fora ia acabar cometendo alguma loucura.
Segundo porque ele era uma pessoa que vivia nos holofotes. Se alguém no Brasil descobrisse que havíamos nos conhecido, poderia virar capa de revista. E se tem uma coisa que eu odiava era virar notícia. Estava tudo bem com as pessoas me conhecendo pelo meu trabalho, mas não queria ser ligada a ninguém, ainda mais um jogador de futebol. Pelo menos não pela mídia. Mas mais uma vez: eu realmente estava supondo que algo ia rolar? Por que eu fazia isso comigo mesma?
Ignoraria a . Ela não seria nada útil nesse assunto. Olhei para a mensagem que eu ainda não havia respondido. Abri a foto de perfil dele. Era uma foto dele com a camisa da seleção alemã sorrindo com uma cara de moleque para a câmera. Aquele sorriso realmente tinha algo de especial. Sempre soube disso, mas nunca havia descoberto o motivo. Seria uma boa oportunidade de descobrir. Mas eu teria que me conter. Ele não poderia saber que eu tinha uma queda tão grande assim por ele. Há mais tempo do que eu gostaria de admitir, inclusive. Até porque, quando sua melhor amiga e seu irmão começam a namorar, seu programa de fim de semana é assistir jogos de futebol. Talvez eu conheça mais do esporte do que gostaria de admitir.
E então, disposta a arriscar pela primeira vez em muito tempo, respondi.

: Ok. Você mereceu. Quando a gente pode se encontrar?


Capítulo 03 - There’s something different in the air


A volta dos treinos me fez perceber o quanto eu era burro. Se eu tenho colegas de time que são brasileiros, por que não pedi logo para eles traduzirem o site dela para mim? Mas aí me lembrei de que, para pedir ajuda linguística para qualquer um, teria que explicar o porquê eu estava interessado em ler um site de música brasileiro, considerando que eu mal acompanhava os artistas que eu escutava. Olhar site de música? Acho que nunca tinha de fato entrado em um antes de ontem à noite. Ou teria sido de madrugada?
Mas resolvi comentar do site. Às vezes conseguiria passar despercebido, ao menos por enquanto. Sabia que não esconderia a por muito tempo, mas nem sabia o que daria disso. Por enquanto éramos apenas estranhos que se conheceram no parque.

Cheguei no vestiário depois do treino e comentei com o Rafinha. Ele não era um dos meus amigos mais próximos, e tinha certeza que não guardaria segredo, mas eu estava ficando sem opção.
— Cara, eu estava procurando umas bandas na internet domingo e me deparei com um site brasileiro. Não entendi nada do que estava lá, mas tinha umas indicações bacanas. Até de bandas do seu país.
— Qual site? Eu não conheço muita música pop, mas vai que...
Peguei meu celular e abri no navegador. Merda. O site estava aberto, só que justo na parte em que tinha uma foto da .
— Tava interessado era na música, ?
— Velho, deve ter aberto sem querer!
— Mas ela é gata. Nada mal.
Eu devo ter ficado muito vermelho. Acho que não dava mais para fugir. Pelo menos como não confirmei nada, o Rafa ficou na dele.
— My Songs, My Live. Vou ver o que descubro para você.
Sorri sem querer agradecer. Qualquer coisa que eu falasse poderia ser usado contra mim. Não ia deixar começar uma fofoca quando nem tinha nada sobre o que se falar sobre. E eu sabia muito bem como os caras eram. Você dava uma brecha, e já era o mais zoado de todo o vestiário. Da última vez que um de nós começou a namorar, zoaram o ser por quase um mês.
O treino tinha sido puxado. E eu tinha agradecido por isso. Desde que encontrara com aquela garota na padaria não havia feito mais nada sem lembrar dela. Lembrar do quê? Eu nem a conhecia. Mas seu rosto tinha me chamado atenção. E era raro alguém me chamar atenção assim, se é que já tinha acontecido alguma outra vez.
Fiquei mais quieto que o normal enquanto treinávamos jogadas, e isso foi o suficiente para alguns dos caras virem me perguntar se eu estava bem. Falei que sim, afinal, não tinha nada de errado. Só estava louco para chegar em casa, jogar um pouco de FIFA e dormir. Uma boa noite de sono sem sonhos. Será que era pedir muito?
Aparentemente era. Fui dormir exausto, na esperança de que ia conseguir relaxar. E então, tudo começou de novo.

O time adversário, eu sozinho no campo, estava escuro dessa vez. Enxergava ao meu redor as linhas que dividiam o meio campo, podia ver o gol. Não havia luz artificial, mas uma pequena iluminação da lua era o suficiente.
O time adversário vinha com a bola para cima de mim. Eu estava sozinho, não tinha nem goleiro no meu campo. A única coisa que eu poderia fazer era roubar a bola e atacar. Se eu ficasse parado com certeza tomaria um gol, e tinha a sensação que não estaria apenas perdendo um jogo. Não que perder um jogo fosse algo para se dizer apenas.
Corri até alcançar a bola nos pés de um dos jogadores adversários. E foi só então que percebi que nenhum deles tinha rosto. Eram todos iguais e sem rostos. Poderia ter ficado com medo, mas na adrenalina de correr pelo campo, tentei fingir que eles não era no-faces, como comecei a nomeá-los.
Depois de alguns dribles e provavelmente uma falta não marcada por um juiz inexistente, cheguei ao gol e dei o chute mais forte que eu poderia. Quando vi a bola entrando pelo canto esquerdo, ajoelhei aliviado, fechando os olhos por alguns segundos, finalmente respirando.
Abri os olhos devagar com medo do que iria encontrar a minha volta. Estava sozinho no campo. Nem o time dos no-face estavam lá. Não havia torcida, se é que em algum momento daquele jogo tinha tido torcida. Fui andando devagar para a saída do campo e as portas que davam para o vestiário. Foi quando eu vi de longe uma figura pequena, de cabelos castanhos em pé em um canto fora do campo.
Ela estava parada com os braços ao lado do corpo, olhado fixamente para mim. Ou talvez fosse para algum lugar atrás de mim. Me aproximei dela e era como se ela não tivesse percebido a minha presença ali. Chamei seu nome, mas ela continuava sem reação, quase como uma estátua viva.
Então percebi que ela falava alguma coisa bem baixinho. Quase não abria a boca para pronunciar a palavra. E foi então que eu entendi.

Repetidas vezes ela falava meu nome. Senti um arrepio e olhei para trás. O time dos sem-rosto agora não era mais um time. Apesar de estarem vestidos como jogadores de futebol, eles pareciam mais um exército. Deveria ter uns 200 deles parados na mesma posição que a e olhado diretamente para mim. Ecoando meu nome em um sussurro coletivo.

Foi então que acordei. Olhei para o lado e vi que estava em segurança de volta ao meu apartamento. Sozinho. Peguei meu celular para olhar as horas. 3h da manhã. Pensei em mandar uma mensagem para a . Não poderia ter sido aleatório sonhar com ela, ainda mais em um campo de futebol, por dias seguidos. Mas se eu mandasse uma mensagem às 3h da manhã ela poderia interpretar de forma errada.
Levantei da cama e fui no banheiro lavar o rosto. Estava mais acordado do que jamais estive e poderia correr uma maratona. E foi exatamente isso que resolvi fazer. Não a maratona, mas sair para correr.
Troquei de roupa, peguei meu iPod e coloquei Eminem para tocar. Começou a tocar uma mais tranquila, “So Far”. Era animado o suficiente e marcava um bom ritmo para correr. E então, para qualquer um que olhasse de fora, um maluco chamado começou a correr pelas ruas de Munique às 3h20 da madrugada, ignorando complemente o frio que fazia lá fora.

Eram 8h da manhã. Preparei um café, precisava ficar acordado para cumprir todos os compromissos do meu dia, apesar de ter conseguido dormir apenas às 4h da manhã, no sofá da sala, após uma corrida. Meu sonho ainda não tinha saído da minha cabeça. Não que eu achasse que ele tinha algum significado oculto, mas por que então eu não conseguia esquecer a expressão da ?
Peguei meu celular e abri o WhatsApp. Sei que tinha prometido que só entraria em contato com ela depois que conseguisse descobrir quem ela era. Porém, vamos ser realistas, eu jamais iria descobrir isso. Não sem a ajuda de outra pessoa e eu sentia que isso seria meio que trapacear.
Comecei a digitar uma mensagem.
Oi. Oi o quê? Não fazia ideia do que falar com ela. Ou o que eu poderia fazer para convencê-la a sair comigo. Travei o celular desistindo por agora. Às vezes eu precisava acordar um pouco.
Peguei a minha mochila e entrei no carro, ligando o rádio enquanto saía da garagem. Estava tocando uma melodia quase country. Eu não era bom com músicas. Geralmente escutava alguns Raps e R&B, mas fora isso só conhecia o que estava muito na mídia, como Justin Bieber. É, talvez eu conhecesse mais músicas do Bieber do que eu deveria.
Essa melodia eu não conhecia, mas comecei a prestar atenção na letra, de repente, eu estava com bastante vontade de conhecer tudo sobre música. E então veio o refrão “This is where you fall, this is when you get up, this is where it all begins”. Segurei um palavrão que deu vontade de soltar, mesmo estando sozinho no carro. Mesmo com raiva por todos os pensamentos que se passaram na minha cabeça, e principalmente, um rosto específico. Olhei de quem era aquela música, Hunter Hayes. Nome da música? This is where it all begins.
Parei em um sinal e respirei fundo. Nunca fui bom em lidar com sentimentos, ainda mais com alguém que eu nem sequer conhecia. Tinha sim, a achado super gata. Ainda na padaria tudo que eu queria era saber quem ela era. E por que não, quem sabe, me divertir um pouco? Porém não conseguia tirar aquele sonho estranho da minha mente. O medo que eu senti e o alívio de quando vi o seu rosto no meio de todos aqueles no-faces.
Dei partida no carro novamente, concentrando no trânsito.

Cheguei no treino mais cedo do que o planejado. Ninguém tinha chegado ainda.
Sentei em um banco no vestiário, recostando em um dos armários e colocando meus pés para cima. Certeza de que brigariam por eu estar com tênis em cima do banco, mas não importei. Não tinha nenhum barulho em volta, apenas silêncio. Eu odiava o silêncio completo. Odiava porque se tinha silêncio, tinha o barulho dos meus pensamentos.
Peguei meu celular para me distrair um pouco. Abri o Instagram e fui rolando sem de fato ler alguma coisa, de vez em quando curtindo alguma foto. Talvez eu fosse um pouco viciado nesse aplicativo.
Não sabia como funcionava esses algoritmos da internet e os conteúdos que apareciam para a gente, porque não era possível que essas coisas apareciam de uma forma tão aleatória.
Um conteúdo patrocinado do site My Songs, My Live tinha acabado de aparecer no meu feed. A foto de uma banda que não conhecia, com uma legenda em português que não fazia ideia do que estava escrito. A única coisa que entendi foi que era sobre o festival Lollapalooza.
Respirei fundo e abri o WhatsApp de novo.
Depois de reescrever várias vezes, apertei enviar na mensagem que achei que seria menos problemática.

: . Eu imaginei muita coisa sobre quem você poderia ser, mas confesso que chegou bem longe do que eu pensava. Me surpreendi. Não entendi muita coisa do site, para não dizer que não entendi nada. Desculpa, eu não sei falar uma palavra de português. Mas dei um jeito de cumprir a minha promessa. Topa dar um passeio pela cidade?

No segundo seguinte os caras começaram a chegar, e eu tive que guardar meu celular e ir para o treino. Com certeza minha cabeça não ia estar nas jogadas.
Para minha surpresa, Rafinha esperou todo mundo sair do vestiário e veio falar comigo enquanto eu ainda calçava as chuteiras. Talvez pela falta de sono, estava bastante lento hoje, e isso não era bom sinal.
, eu não consegui descobrir nada da menina. Se ela tem alguma pagina no facebook é tão escondida que ninguém conseguiu achar.
Fui ficando sem esperanças, e me sentindo mal por ter mandado aquela mensagem. Mas por algum motivo, Rafinha achou que minha expressão era para que ele continuasse a falar, e concluiu.
— Mas descobri algumas coisas sobre o site. Ele é o maior site especializado em música do Brasil. Tem parceria com não sei quantas gravadoras, e é patrocinado pela maior e mais influente delas. Ela faz parte da empresa que geralmente leva todos os grandes shows para lá. Então não sei quem é essa menina, mas se ela trabalha para esse site, ela é alguém importante.
Logo em seguida Joseph, o assistente técnico, entrou no vestiário nos arrastando para o campo. Agora eu só poderia esperar uma resposta dela e ver no que isso ia dar.

No aquecimento eu consegui concentrar. Era fácil contar quantos movimentos você tinha que fazer, ou fazer a troca de posição com seus colegas. Correr de um lado para o outro, sem se preocupar exatamente para onde estava indo. Talvez eu conseguisse fazer um bom treino.
E então começamos a treinar pênaltis. Por que logo hoje tinha que ser treino de pênaltis?
Formamos a fila. Fiquei por último e comecei a contar quantos pênaltis eram acertados e quantos eram errados. Às vezes contar me deixava focado. Contar os segundos, contar jogadas. Mas não demorou a chegar minha vez. A bola já estava posicionada e tudo que eu tinha que fazer era chutar. De preferência, acertar o gol ou a defesa do goleiro.
Minha bola foi tão longe que ultrapassou os muros do gramado. Todos pararam o que estavam fazendo para ver onde ela ia parar, até que a perdemos de vista. Voltei andando devagar para o final da fila, o que fez o Guardiola gritar o meu nome chamando a atenção. Primeiro pelo pênalti perdido de forma estúpida, e depois por não manter o ritmo de treino.
Claramente contar não estava resolvendo. Falei que poderia ser o sono, afinal, já tinha algumas noites que não dormia. Precisava descobrir o que estava causando as minhas insônias. Precisava voltar a me concentrar no jogo, tínhamos uma semana antes da volta do campeonato, e depois ainda tínhamos Champions League e Pokal. E o time precisaria de mim em total forma dentro e fora do campo.

: Ok. Você mereceu. Quando a gente pode se encontrar?

Ainda suado e com a adrenalina do treino vi aquela mensagem. Onde a gente podia se encontrar? Onde? Eu não tinha pensado nessa parte. Poderia preparar um passeio romântico, mas algo me dizia que ela não era esse tipo de garota. Podia levar ela para jantar. Não em um lugar exatamente romântico... Mas existia jantar sem ser romântico? Não.
Precisava pensar em um passeio que chamaria sua atenção para a cidade, talvez para mim, mas que não tivesse nada de romance no ar. Poderia ter tesão, mas não romance. Eu sempre fui um cara romântico, e onde cheguei com isso? Várias decepções, algumas notícias na mídia e um bolo com a cereja de um coração partido. Não queria romance. Mas por algum motivo inexplicável, eu precisava conhecer essa mulher chamada .

Saí do treino e fui andando em direção ao meu carro enquanto escutava uma música do Steve Aoki. O boné de aba reta me disfarçava um pouco da pequena multidão que se formava ao lado do clube. Sempre tinha fãs querendo um autógrafo no final do treino.
Foi então que tive a brilhante ideia: o que lembrava a todos de Munique e que ao mesmo tempo tinha tudo a ver comigo? O time! Já sabia onde levaria a .

Só não sabia que seria tão difícil conciliar nossos horários. Quando eu estava livre do treino, ou dos jogos, ela tinha aula ou algum trabalho prático. Quase desisti da minha ideia de ir ao museu, e apenas sair com ela para tomar um café. Mas aí voltou a nevar. Foi então, que duas semanas depois, para a minha surpresa, trouxe uma solução.

: Mas não precisamos ir para nenhum lugar grande. Podemos nos encontrar naquele parque mesmo, no fim do dia...

Apesar de termos conversado pelo WhatsApp por esse período de tempo, jamais achei que ela fosse querer encontrar comigo de uma forma tão simples. Tinha alguma coisa diferente nela, e eu queria saber o que era.


Fiquei surpresa pelo tempo que demorou a responder. Quando meu celular finalmente tocou com a resposta, tomei um grande susto considerando que estava estudando há duas horas direto sem intervalos. Estava com um fone de ouvido escutando uma playlist de Los Hermanos enquanto conjugava uns 30 verbos em alemão.
Eu era meio nerd se tratando dos estudos. Tinha a capacidade de ficar lendo sobre um único assunto durante horas sem me dar conta do mundo ao meu redor ou me distrair. Minha amiga costuma dizer que sou um ser raro para a nossa geração. Quase que uma alienígena.
Demorei a achar o celular jogado em um canto da cama. Tinham várias mensagens da porque eu não tinha respondido ela. Tinha outras mensagens da Marie, que estava finalmente voltado do feriado e queria copiar os meus deveres. Não sei por que eu deixava. Talvez minha dificuldade para me relacionar fizesse com que eu aceitasse todo e qualquer tipo de amizade. Mas isso deveria ser assunto para a terapia, o que claramente eu não tinha tempo.
Pulei todas aquelas, e apesar de depois ter brigado comigo mesma por responder tão rápido, estava bastante curiosa para saber o que ele estava planejando.

: Acabei de ter uma ideia de onde posso te levar. O que você acha de conhecer um dos lugares que foi tão importante para mim nos últimos anos?
Senti vontade de xingá-lo. Para que tanto mistério? Mas eu resolvi jogar o jogo dele. Até porque, não seria uma má ideia conhecer um pouco mais das coisas por aqui.
: É uma possibilidade.
: Sério que foi tão fácil assim?
: O que você está falando de fácil, garoto? Disse que era uma possibilidade.
: Desculpa.
Me senti culpada por ter falado assim. Ele de fato não tinha feito nada de errado.
: Tudo bem. Mas então... Que dia seria essa aventura que você está me arrastando para?
: Quando você não tem aula?
: Só no fim de semana.

Ele digitou e apagou trocentas vezes. Percebi que algo estava errado. Foi então que me lembrei que ele era um jogador de futebol. Lembro de ter visto meu primo falar de jogos nos sábados e domingos. Provavelmente seriam nesses dias que ele estava mais ocupado. E ansioso. Eu pelo menos ficaria bastante ansiosa se soubesse que tinha gente do mundo inteiro me vendo fazer o meu trabalho ao vivo. A é, tinha gente do mundo todo me vendo fazer meu trabalho. Às vezes, ao vivo.

: Mas não precisamos ir para nenhum lugar grande. Podemos nos encontrar naquele parque mesmo, no fim do dia...

Sabia que estava cedendo às vontades dele. Sabia que se fosse qualquer outra pessoa, poderia ignorar e seguir adiante. Mas por algum motivo inexplicável, ele era a primeira pessoa com quem eu conversara que não tinha intenção de usar a minha influência no site, seja para divulgar o trabalho ou apenas se gabar.
Pela primeira vez em muito tempo, era alguém com quem talvez eu pudesse de fato conversar. Poderíamos ser amigos. Meu primeiro amigo potencialmente verdadeiro a milhares de quilômetros de casa. Eu estava em um país estrangeiro, sem ninguém com quem dividir meus pensamentos a não ser eu mesma.
Nunca gostei de conversar pela internet. Sabia que era um meio necessário, mas achava vazio. Sentia falta de olhar nos olhos das pessoas, sentir um calor humano. Sei que há poucos dias estava na casa da minha tia, mas por mais que adorasse a minha família, a relação de amizade era diferente. Talvez eu poderia encontrar em um sentimento de conforto para me manter aqui nos próximos meses.

: Se isso não fizer de mim a pior pessoa do mundo para criar primeiros encontros, eu topo.
: E se a gente não tratasse isso como um encontro? Somos apenas duas pessoas se encontrando em um parque.
: Em quanto tempo você consegue chegar lá?

Fazia bem mais frio do que o último dia que tinha vindo até aqui. Talvez porque já era fim de tarde e estava começando a nevar. Apesar de já estar há um bom tempo na Alemanha, meu termostato ainda era brasileiro. Por isso saí de casa com duas calças (uma própria para neve que havia comprado assim que cheguei aqui), dois moletons, um casaco de couro e uma toquinha da Grifinória, finalizando com uma botinha de couro sob uma meia de lã.
O parque era mais longe do dormitório do que eu pensava, por isso acabei pegando um ônibus. Como sempre fiz, vim escutando música. Minha playlist era bastante variada, mas esse tempo frio me fazia escolher músicas mais alternativas. Era ruim quase não ter com quem conversar na minha língua nativa, por isso eu estava escutando muitas músicas brasileiras. E não sabia que conhecia tantas!
Cheguei no parque e fui caminhando lentamente para o mesmo banco que havia me sentado no dia que conheci o . Supercombo tocava nos meus fones de ouvido uma música que me trazia várias memórias, mas hoje eu já tinha feito paz com elas. “Piloto Automático” era uma das minhas músicas favoritas, a letra dela retratava bastante boa parte dos meus sentimentos. A luta diária para tentarmos ser nós mesmos, e às vezes, chamar a atenção de uma única pessoa nesse mundinho.
Sorri ao pensar na ideia. Meus olhos encheram de lágrimas como sempre faziam ao lembrar de tudo que eu havia passado para chegar até ali. Todas as bandas que havia entrevistado, todas as aulas, o tanto que havia aprendido. E é claro, todos os corações partidos que havia deixado para trás. O meu e o de algumas outras pessoas. Odiava pensar nessas coisas.
Cheguei na pequena clareira que dava para a área deserta do parque, como havia chamado. Ele estava sentado no mesmo banco, vestia uma calça de moletom preta, um casaco de gola alta com o símbolo do time de futebol em que jogava e um headphone colorido. Estava de cabeça baixa e por isso não me viu chegando.
Foi a minha vez de sentar do seu lado e esperar que ele percebesse. Bom para ver como era legal assustar as pessoas de fone de ouvido.
Ficamos apenas sentados um do lado do outro, sem falar nada. Apenas se dando conta da presença um do outro, olhando para um mesmo ponto no chão.
Aos poucos o crepúsculo ia dando lugar para uma noite escura. O poste de luz mais próximo fazia apenas sombras das árvores de onde estávamos. Mas por mais que estivesse em um lugar deserto, eu me sentia segura. tinha uma energia que me trazia segurança, familiaridade, apesar de não o conhecer. Apesar do que tinha acontecido no final da Copa do Mundo no Brasil.
— Você sabia que a gente já tinha se visto antes?
Não sei porque quis começar por aí. Ou porque toquei nesse assunto. Ele colocou os headphones no pescoço. Me olhou sem sair da posição em que estava, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Eu estava recostada no banco de forma que nossos olhares se cruzaram sem muita dificuldade.
— What? — Perguntou com o sotaque que tinha ao falar inglês. Sorri ao perceber isso, mas logo voltei meu olhar para o mesmo ponto no chão.
— Quando vocês ganharam a Copa. Eu estava na área de imprensa depois do jogo, fui te pedir uma foto e você fingiu que não me viu.
Ele se endireitou no banco e franziu a testa.
— Eu não lembro... aquele dia teve momentos que eu lembro como se tivesse acontecido ontem, e tem coisas que são apenas um borrão. A área da imprensa foi uma delas. Fiz o gol do título e todo mundo queria conversar comigo, e tudo que eu queria era comemorar com meus amigos.
Ele parou por um tempo olhando para o ponto no chão. Colocou uma das mãos atrás da cabeça e olhou para mim sem graça.
— Me desculpe. Não foi intencional. Juro.
Ficamos nos olhando por um tempo. Até que eu entendi que tinha nutrido uma raiva sem sentido por um bom tempo. De fato, aquele dia tinha sido uma confusão no estádio. Só tinha ido até lá porque meu “chefe” teria um outro compromisso e pediu para eu fazer umas fotos dos bastidores. E apesar de não gostar muito de futebol, era uma final de Copa do Mundo no Brasil, e falar que fui ao evento para fotografar não só entraria para o meu currículo, entraria também para um dos momentos mais marcantes da minha vida.
E quem diria que quase dois anos depois, aqui estaria eu conversando com o autor do gol do título da Alemanha, mesma seleção que deixou marcado o 7 a 1 na seleção canarinho.
Como estava muito quieta relembrando daquele dia, me deu uma cutucada na costela me trazendo de volta a realidade. Fechei a cara para ele me fazendo de brava, quando na verdade eu não estava.
Ele sorriu. Ou melhor, ele riu da minha reação. Aquela risada ecoando pelo parque, me fazendo começar a rir junto, mesmo sem saber o motivo de tanto riso.
Após algum tempo e alguma dor na barriga, paramos de rir e voltamos ao silêncio inicial. Agora eu tinha um sorriso discreto no rosto. Certeza que eu ia me odiar por esse sorriso.
Recostei minha cabeça em seu ombro. Estava começando a esfriar demais.
— Quer ir para um lugar fechado? — Ele percebeu meu arrepio.
— Onde você sugere?
— Não sendo em nenhum lugar lotado, pode escolher. E antes que você venha falar que estou dando em cima de você descaradamente, eu só não quero que ninguém me reconheça. Não quero mídia em cima de algo que nem sei o que vai ser.
Me assustei com esse comentário. Quem ele achava que era para já supor que eu daria uma chance para ele só porque era jogador de futebol? Me levantei do banco, claramente chateada e saí andando.
Ele percebeu que havia ficado brava, apesar de não ter feito uma cara de quem não entendeu nada.
— Ei, , espera aí. Eu falei alguma coisa errada?
— Não. Você só fez o que todo cara que tem uma pequena fama faz: supõe que eu vou ficar com você só porque é famoso.
— Pera aí! Eu não falei nada disso! Só disse que não queria nenhuma mídia atrás da gente.
— Claro! E logo em seguida supôs que poderíamos ter um relacionamento. Desiste, . Ao contrário de todas as outras que você sai pegando por aí, eu conheço gente famosa. Sei quando o cara está usando a sua fama só para tentar ficar comigo.
— Menina, você é mesmo muito petulante! Estou aqui tentando te proteger para você não sair na capa de todos os jornais amanhã de manhã e você vem com sete pedras para cima de mim.
Foi a vez dele ficar bravo.
Nos encaramos por um tempo, até eu perceber que deveria ter seguido o meu primeiro instinto.
Fui embora sem olhar para trás. Segurando lágrimas que eu nem sabia o motivo delas. Não é como se fossemos próximos ou algo assim.
Quando me dei conta já tinha chegado ao dormitório andando. Não senti o frio de -5º e nem mesmo o caminho. O alojamento não era tão longe assim do parque, afinal. Pelo contrário, era bem mais perto do que eu imaginava.


Capítulo 04 - Comunication


Fiquei parado esperando ela ir embora. Sabia que tinha falado algo muito errado, mas não consegui me segurar. Eu não a conhecia. Não poderia pré-julgar as coisas que ela havia vivido. Assim como ela não poderia fazer isso comigo. E acabei não descobrindo o que havia de diferente, além de um brilho em seus olhos que não estavam ali semanas atrás.
Era esse o maior problema de pessoas que estava acostumadas a viverem na mídia: tínhamos a falsa impressão de que todo mundo nos conhecia, mesmo tendo a certeza que ninguém sabia quem éramos de verdade.
Quando a perdi de vista, retornei o meu caminho secreto pelos fundos do parque. Fazia o caminho inverso do dia em que havíamos nos conhecido. Não podia deixar de sentir que era o fim de um ciclo, por mais que aquilo nem sequer tinha começado. Mas ao mesmo tempo, sabia que ainda encontraria com ela.

Tinha deixado meu carro um pouco distante do parque. Geralmente eu viria a pé, porém sabia que ia esfriar. Eu teria jogo daqui a poucos dias, e por mais que ainda não fosse uma certeza que eu ia jogar, não poderia ficar doente.
Mal entrei no carro e meu celular tocou. Era meu agente. Estranhei porque ele não costumava me ligar tão tarde. Sempre deixamos para resolver as coisas durante o dia, a não ser que fosse algum escândalo de mídia. Será que alguém tinha me visto com a ?
- Alô.
“Fala, grande ! Como vão as coisas?”
- Bem. Algum problema, Mr. Marx?
“Problema exatamente não. Mas precisamos conversar sobre seu contrato. Para onde você está pensando em ir na próxima temporada?”
- Como assim para onde? Vou ficar no Bayern.
Eu sabia que essa temporada não estava sendo uma das melhores para o meu lado. Mas eu amava esse time, a torcida, as vibrações que sentia no campo. Não era a mesma coisa de estar defendendo a seleção, mas duvidava que em algum outro clube fosse ter o mesmo sentimento.
“Você tem certeza? Porque acho que devemos olhar algumas opções.”
Depois da conversa com a , de um dia longe de treino e algumas noites mal dormidas com pesadelos, meu futuro depois dessa temporada era a última coisa que eu poderia querer discutir agora.
- Cara, eu não to com cabeça para isso hoje.
, temos que conversar sobre isso. Não sei se ficar no Bayern seja uma ideia. Há a possibilidade de ir para o Liverpool. O que você acha de jogar na Inglaterra?”
Todo jogador tinha o sonho de jogar em outro país que não o seu. Eu poderia até vir a fazer isso, mas não estava sentindo que tinha chegado a minha hora. Ou se sequer algum dia iria chegar.
- Olha, Marx, analisa o que você quiser. Eu já dei o meu veredito. No momento eu só quero chegar em casa e dormir.
“E onde você está que não em casa? Não vai me dizer que está indo para uma balada no meio da semana.”
Sempre o controlador Marx.
- Não. Estava dando uma volta no parque para esfriar a cabeça. Mas parece que nem assim deu certo, né?
Desliguei na cara dele. Lidaria com sua ira depois. Agora eu só queria chegar em casa e fazer maratona de alguma série. Ainda tinha alguns episódios da 3ª temporada de House of Cards para assistir e logo mais a 4ª estreia.
Em seguida desliguei o celular e joguei de qualquer jeito no banco do carro.
Não queria falar com ninguém.
Dirigi devagar pelas ruas de Munique. Liguei o rádio para ocupar a minha mente. Tocava uma música do Magic! que eu não parava de escutar. Por incrível que pareça, eu gostava de algumas músicas deles. Algo me dizia que a não aprovaria isso.
Me odiei por ter pensado nela, mas era involuntário. Tudo que tivesse música eu faria relação com ela agora. Era inevitável.

Dirigir melhorava um pouco do meu humor. Não era a mesma coisa de correr ou pedalar, mas era melhor do que nada.
Já conseguia pensar um pouco mais racionalmente quando cheguei em casa, mesmo que a vontade de deitar no sofá e assistir uma série continuava.
Ainda tinha um resto das comidas que minha mãe tinha me feito trazer das festas de final de ano. Não estava exatamente com fome, mas ser um atleta de alta performance te fazia querer comer mesmo sem estar com vontade.
Coloquei uma sopa de batatas para esquentar no micro-ondas enquanto trocava de roupa. Vesti uma calça velha da Adidas que tinha ganhado em alguma temporada para trás, e um moletom cinza que nem sabia se tinha marca.
Sentei no sofá e liguei a série.

Devo ter pegado o celular do carro, para a minha sorte. E meu vício (que existia, por mais que eu não quisesse admitir), havia me feito ligar o telefone. Acordei sem saber onde estava com o barulho do despertador.
Tinha esquecido completamente que tinha treino hoje. Por sorte, sempre fui uma pessoa diurna. Logo já estava a caminho.

Por conta do frio, acabamos não fazendo treino com bola, apenas musculação.
Agradeci mentalmente, porque assim não precisaria encarar o Guardiola. Eu sabia que boa parte daquela conversa do Marx tinha influência do técnico do Bayern de Munique.
Nessa temporada haviam sido poucos jogos que eu participara. Me sentia subutilizado, mas confiava que o técnico estava tentando fazer bem para o time. Principalmente após a minha lesão no final de novembro. Mas ainda tinha alguns meses para mostrar serviço. Voltara aos campos após o recesso, ainda precisava recuperar.
Outra ilusão do mundo futebolístico: você ser campeão do mundo, e principalmente, o autor do gol do título, não te trazia privilégio nenhum. Muito pelo contrário. Você acabava recebendo ainda mais críticas quando não estava em um dia bom.
Eu gostava de malhar, mas estava precisando de um pouco de ação. Por isso que odiava o inverno. Ou melhor, odiava a neve.

Saí do treino e resolvi que ia tentar dar uma volta de bicicleta. Tinha parado de nevar, talvez conseguisse uma pista mais seca.
Mal cheguei em casa e meu celular apitou.
Foi só então que me lembrei da noite passada. Não da conversa com o Marx, isso tinha ficado na minha cabeça o dia inteiro. Mas de antes. Dos minutos que eu tive de felicidade que foram rapidamente tirados de mim.

: Desculpa. Acho que exagerei. Será que ainda podemos ter aquele encontro? Você não me falou qual era esse lugar tão misterioso.

Pensei em torturá-la. Fingir que não vi. Ignorar. Ela havia me tirado do sério. Em um momento que eu estava precisando de calmaria, ela havia soltado o verbo quando tudo que eu queria fazer era protegê-la. Mas eu era eu. E nunca soube ficar com raiva das pessoas por muito tempo, pelo contrário, eu era o otário que sempre perdoava todo mundo. Ainda mais quando era uma garota com um sorriso tão bonito.

: Tudo bem. Podemos começar de novo?
: Podemos? Eu que estava errada.
: Por mim tudo bem.

E então fiquei encarando a tela do celular. Tive a sensação que ela ficou do mesmo jeito, sem saber o que falar.

Gotze: Eu estou saindo agora para andar de bicicleta. Quer me acompanhar?

Quando vi já tinha enviado aquela mensagem. Coloquei o celular de lado com medo da resposta, e comecei a preparar algo para comer.

: Pode parecer maluco, mas duas coisas. Primeiro, eu não sei andar de bicicleta. E segundo, não está frio demais para sair de debaixo das cobertas?

Li sua mensagem pela tela do celular, sem desbloqueá-lo e comecei a rir. Por sorte eu morava sozinho, se qualquer um me visse agora teria a total certeza que eu havia enlouquecido. Tinha conseguido visualizar a cena dela debaixo do edredom, deitada na sua cama do dormitório mexendo no celular. Gostei da imagem mental.
Fazia 10º lá fora. Para a época, estava quase calor.

: Bem, a primeira parte podemos dar um jeito. Mas pera, como assim você não sabe andar de bicicleta? O que vocês fazem quando crianças no Brasil?
: Bom, as outras crianças eu não sei, mas eu ficava em casa assistindo desenho animado e lendo. Nunca fui muito de atividade física.
: Que menina preguiçosa! Temos que mudar isso senhorita.

Eu ri da minha própria piada. Isso estava ficando ridículo!

: Okay. Vou pensar no seu caso. Mas de qualquer forma, agora não posso. Estou entrando numa aula. Quer encontrar para tomar um café mais tarde? Eu estou precisando de alguma coisa quente e não tenho mais nada no meu dormitório.
: Me passa o endereço e a hora que te busco.

Quando vi, já tinha marcado de encontrar com ela de novo. Certeza que era o maior número de encontros que eu tinha com uma mulher sem estar dormindo com ela. Ela de fato tinha algo diferente, e a cada dia que passava eu só queria descobrir mais o que era.
Troquei de roupa e peguei minha bicicleta. Saí de casa enquanto tocava um dos remix que eu tinha para atividades físicas.


Depois da briga no parque eu tinha ficado mesmo chateada com ele. Não queria mais saber desse cara chamado . Cheguei em casa e sentia calor. Andar com roupas de frio não havia sido uma boa ideia.
Tomei um banho correndo, pois meu corpo esfriou e fazia frio de novo. Acho que nunca mais ia reclamar de tomar banho no frio no Brasil. E talvez a minha visão romântica do frio também estava indo embora. Rapidamente vesti meu pijama de moletom e deitei na cama debaixo do edredom. Passado a agonia do frio, voltei a sentir raiva dele.
Eu tinha proposto de nos encontrarmos, e agora me sentia uma burra por isso. Cedi rápido demais e agora ele achava que poderia usar sua fama para me conquistar. Isso não colava comigo, querido.
Rolava a barra do facebook, sem de fato ler nada. Vi um post dele. Era propaganda de alguma marca ou coisa relacionada ao time. Nem lembrava quando havia seguido seus perfis na internet, era um segredo meu. Talvez eu fosse um pouco mais fã do que queria admitir, e isso que doía mais. Sempre fiz de tudo para manter relações extremamente profissionais com meus ídolos, mas eu trabalhava com música, não futebol. Não estava preparada para conhecer assim um dos caras que eu secretamente admirava.
Eu já estava dormindo quando escutei a porta do apartamento se abrir. A faculdade dividia os alunos em apartamentos. Eram pequenos, mas tinha uma cozinha e duas suítes. Eu dividia um com a Marie, uma francesa que havia vindo para a Alemanha apenas para conhecer, mas como sua família não aceitava que ela viajasse, arrumou esse curso como desculpa.
No meio da confusão, nem lembrei que ela voltava hoje do recesso, apesar de já ter quase um mês de aula. Vi que havia acendido a luz do corredor, geralmente não me importava, mas minha porta estava aberta. Senti uma pontada na cabeça. Tudo que eu precisava era uma dor de cabeça por ter dormido chorando. Da última vez que eu chorei por outra pessoa... Vamos deixar isso quieto.
Levantei e fui até a cozinha tomar uma aspirina.
- Bonjour! Mas na verdade, o que você está fazendo acordada, ? – Ela falou em inglês com sotaque francês. – Espera, você estava chorando?
Nunca fui acostumada com as pessoas percebendo minhas emoções, da mesma forma que também não percebia a dos outros. Sempre fui muito próxima do meu irmão, e a era a versão feminina dele, ambos sempre foram muito práticos. Aprendi a ser assim, e a evitar todo e qualquer sentimento. Marie ter percebido que eu havia chorado, era uma coisa completamente nova para mim.
- Não foi nada. Estava assistindo a um filme.
- Primeiro: você não chora atoa, e segundo, você não chora assistindo filmes. O que aconteceu enquanto eu estava fora ?
Peguei um copo d’água e a aspirina enquanto ela ainda estava parada no meio da cozinha me observando. Olhei as horas no celular, eram duas e meia da manhã. Zero mensagens. Por que eu queria que tivesse alguma mensagem ali?
- Talvez, mas só talvez mesmo, eu possa ter conhecido um jogador de futebol campeão do mundo. - Falei rápido demais, de uma vez, na esperança dela não entender nada do que eu tinha dito. Não sabia porque tinha falado com ela, talvez eu só precisasse de uma amiga naquele momento.
Olhei para ela, que continuava na mesma posição no meio da cozinha. Porém agora me encarava com a boca aberta.
- VOCÊ O QUÊ? QUEM?
- . - Embolei mais uma vez sem saber se eu queria contar qualquer coisa, mas já falando.
- AQUELE GOSTOSO QUE FEZ O GOL DA COPA DO MUNDO?
- O próprio. - Olhei para meu copo vazio na bancada.
Marie chegou perto de mim e me virou para encará-la. Eu nem sabia que ela tinha alguma noção de futebol. Ia perguntar isso, mas ela logo me cortou.
- Me diz que você deu uns pegas nele. Por favor!
Foi a minha vez de olhar para ela com cara de espantada.
- Tá louca! A gente se encontrou em um parque, e foi isso! Conheço gente famosa o suficiente para não me jogar para cima de qualquer um conhecido pela mídia que aparece por aí.
- Tudo bem, subcelebridade brasileira. Desculpa se você conhece o vocalista do Nickelback - levantei o dedo para dizer que eu não conhecia o Chad Kroeger, mas ela continuou - mas ainda assim, custava conversar com o moço?
- Mas a gente conversou. Na verdade trocamos WhatsApp e nos encontramos de novo. Mas aí ele propôs de irmos para um lugar fechado que não teria muita gente, e eu já logo assumi que ele só queria outras coisas quando eu só queria conversar.
Olhei para ela quase chorando de novo. Deveria estar de TPM, não era possível a quantidade de lágrimas que eu havia derramado por uma coisa boba.
- Você. Tem. O. Número. De. Telefone. Do. . . E. Está aí chorando por uma dificuldade de comunicação. Aliás, para quem se diz ter um diploma nessa área você está bem ruinzinha no processo, hein?
Não entendi nada do que ela estava falando. Ela foi até a geladeira e pegou uma vasilha com morangos e foi se sentar no sofá na nossa sala de TV improvisada. Na verdade, quase não ligávamos a TV. Sejam bem-vindos à era Netflix.
- É bem simples, pretty moon, ele deixou explícito onde queria te levar?
- Não... Na verdade ele só disse que queria evitar a mídia...
- Então você foi logo supondo que ele queria outras coisas além de conversar?
- Talvez...
Já sabia muito bem onde ela estava me levando, e agora eu estava era com raiva de mim mesma. Me sentindo a pessoa mais estúpida desse mundo.
- Você tem que ligar para ele e pedir desculpas.
Olhei assustada. Jamais ligava para ninguém. Ninguém mesmo! Eu tinha uma pequena fobia por telefones e dava graças a Deus por terem inventado o WhatsApp.
- Então pelo menos manda uma mensagem para ele e se desculpa. Assim você tira um pouco esse seu peso na consciência!
Ela estava certa e eu sabia disso. Odiava brigar com as pessoas, independentemente de quem elas fossem. O mínimo que eu podia fazer era me desculpar com ele. Mas agora era de madrugada, e depois de tirar esse peso da consciência meu sono havia chegado com toda força.
- Faço isso amanhã. Agora eu só preciso de dormir - disse bocejando.
- Vai lá e por favor, não deixa esse gostoso passar senão eu vou dar um jeito de ir atrás dele.
Eu ri já entrando no quarto e sabendo que, conhecendo a Marie, essa não era uma ameaça vazia.

Acordei um pouco melhor. Tanto da dor de cabeça, quanto emocionalmente. Só teria aula na parte da tarde, então me dei o direito de ficar na cama por mais algumas horas. Marie não levantava antes da uma da tarde, então teria a manhã para mim. Abri o celular para checar as redes sociais. Sempre fazia isso, mas estava começando a ir primeiro nas redes do . Mesmo tendo apenas as redes sociais profissionais dele (se é que ele tinha alguma pessoal, fiz anotação mental para perguntar para ele depois), mas não tinha nenhuma atualização.
Levantei quando já não aguentava mais ficar na cama.
Peguei o iPod e o fone de ouvido. Estava com uma vontade enorme de escutar Ed Sheeran, aquele ruivo maravilhoso como diria a . Coloquei "Don't" para tocar e fui preparar um café da manhã reforçado. Há tempos que não sentia tanta vontade de comer.
Fiz um café e um pão na frigideira. Sentei no banco que dava para a bancada, e abri o WhatsApp. Queria muito conversar com a . Talvez agora, depois do susto, eu conseguiria conversar com a minha amiga racional e não a fanática por futebol. Porém olhei o relógio, ainda eram umas 7 da manhã no Brasil, mandaria uma mensagem que queria falar com ela. Em algum momento ela me responderia e me chamaria no Skype.
Me senti sozinha novamente. Geralmente não me importava com a solidão, mas senti uma vontade enorme de conversar com o . Mesmo sem saber se estávamos bem. Eu ainda devia a ele um pedido de desculpas.
Abri a tela do celular na conversa dele. Mas a coragem não veio. A foto dele ainda era a mesma. Aquele sorriso. Resolvi deixar para mais tarde e fui no mercado comprar algo para fazer de almoço.

Estava prestes a entrar em uma aula, mas ainda não tinha mandado mensagem para . Passei o dia pensando naquilo, e a culpa estava me consumindo. E, sem pensar demais, enviei.

: Desculpa. Acho que exagerei. Será que ainda podemos ter aquele encontro? Você não me falou qual era esse lugar tão misterioso.

Não demorou e veio a resposta. Sorri com a ideia de passear de bicicleta com ele pela cidade. Mas ao mesmo tempo, comecei a pensar no que ele tinha falado, sobre a mídia. Eu conhecia a mídia melhor que qualquer um, e sabia que ele estava certo: quanto menos visibilidade conseguíssemos atrair para nós, melhor seria. Mais livres seríamos.
Pensei em quantas coisas a mídia já havia publicado sobre ele que não era real. Isso era uma das coisas que sempre tomei cuidado de falar no site. Raramente falávamos de relacionamentos de artistas, e quando falávamos, esperávamos declarações oficiais. Eu particularmente não gostava desse tipo de conteúdo, não é porque o trabalho da pessoa traz visibilidade, que sua vida amorosa e demais relacionamentos se tornam públicos. Mas infelizmente, eram os mais acessados. Pelo menos no Brasil, fofoca era uma das coisas que mais atraíam a mídia.
Passei para a hora que minha aula acabava e o endereço do curso. Logo em seguida comecei a ficar ansiosa. Certeza que essa aula e nada para mim seria a mesma coisa, então comecei a pesquisar sobre ele na internet. Talvez teria algum assunto para perguntar.


Capítulo 05 - Coffe?


Cheguei perto do curso da e fiquei estacionado um pouco distante. Mandei uma mensagem para ela avisando onde estava e qual era meu carro. Já estava escuro quando ela finalmente saiu na porta, carregando alguns livros e a mochila azul. Saí do carro e dei a volta para recebê-la e colocar seus materiais no porta-malas.
- Oi - Ela chegou sorrindo.
- Olá.
- Então, para onde vamos?
- Acho que o lugar que você quer tanto descobrir, está fechado a essa hora. Mas como prometido, vou te levar na minha cafeteria favorita.
- Oba! Estou necessitando de uma bebida quente. - Ela disse esfregando uma mão na outra enquanto sorria. Acho que eu estava começando a entender essa mulher.
Mal liguei o carro e ela já começou a mexer no som.
- Desculpa, eu tenho mania de mexer em qualquer som de carro, tanto para conhecer o gosto musical do motorista, quanto pelo meu vício musical de sempre conhecer coisa nova.
Eu ri. Ela era adorável!
- Tudo bem. E aí? Aprovado?
- Não.
Olhei para ela sem entender. Ela começou a rir da minha cara de assustado.
- Desculpa, é que você escuta muita coisa que nunca ouvi falar.
- Sério? Achava que jornalistas de música conheciam todas as músicas do mundo.
- Primeiro: eu não sou jornalista. Segundo: Acho que isso é meio impossível.
Ela riu. Ou melhor, gargalhou, fazendo com que o som no carro ganhasse um tom muito mais bonito do que a música.
- Tudo bem. Pode deixar, vou te mostrar tudo que toca aqui nas rádios.
- Vou adorar!
Trocamos um olhar cúmplice. E mais uma vez, eu vi aquele brilho diferente em seu olhar. Alguma coisa tinha sim mudado, e eu não tinha certeza nem se ela sabia o que era.
Estacionei o carro na porta do café. A fachada era rústica e tipicamente alemã. Nessa hora eu sabia que vinham poucas pessoas, então mesmo que eu fosse reconhecido, havia a grande chance de ser deixado em paz.
Ela vestia a mesma jaqueta marrom do dia que a encontrei na padaria, mas hoje usava um gorro azul. Fiquei parado a observando analisar o lugar.
- Acho que nunca estive em um lugar tão alemão.
- Ótimo! Era essa a minha intenção.
Entramos e escolhi uma mesa mais ao canto. Ao fundo, tocava uma música que lembrava o clima medieval. Pensei que não podia ser melhor.
Ela pediu um chocolate quente e eu, um café. Não sei se deveria tomar café a essa hora, considerando que assim que chegasse em casa, precisaria de dormir. E algo me dizia que isso não aconteceria tão cedo.
Ela me olhou com um olha desconfiado, e eu tinha certeza que ela não estava demonstrando tudo que passava em sua mente.


Estar com me fazia sentir em casa como há muito tempo não sentia. O que era bem estranho, considerando que nem sequer o conhecia de verdade. E ali, naquela mesa em um café no centro da cidade, ele não parecia um campeão do mundo. Parecia apenas um cara da minha idade, disposto a fazer amizade com uma estrangeira perdida em seu país. Sem querer perceber eu sorri e desviei o olhar.
- O que foi?
- Nada.
- Você estava rindo sozinha, não pode ser nada.
- É que, por um momento, pareceu que você não era famoso, e eu não era uma estrangeira perdida.
- Como assim? - Ele franziu a testa me olhando com mais atenção. Droga, não estava acostumada com as pessoas me olhando assim.
- É que... Vou admitir. Pesquisei sobre você na internet. Mas antes que você me julgar, vou explicar. - Ele ficou mais sério e fiquei com medo de ter feito algo bem errado - No meu site, eu sempre tomo cuidado com o tipo de fofoca e notícia da vida pessoal dos artistas que vamos publicar. Não gosto. Mas infelizmente, é o que tem maior número de acessos. Pensei que, com você poderia ser a mesma coisa. E quis fazer uma pequena lista de tópicos, como um jogo, para a gente se conhecer de verdade, não apenas o que está nas páginas de internet.
- Entendi. É uma ótima ideia. Mas, a cada coisa que você me perguntar, também tenho o direito a uma pergunta.
Ele apontou o dedo indicador na minha direção, já voltando a postura brincalhona. Eu sorri.
- Não imaginava de outra forma.
Nesse momento nossos pedidos chegaram, e levei um tempo tomando um gole do chocolate quente. Precisava me aquecer. Apesar de ter aquecedor na loja, o frio ainda continuava. Ou pelo menos, eu sentia aquele frio.
Olhei para , o analisando. Ele vestia uma camiseta preta e um casaco de couro por cima. Usava um boné de aba reta que, pelo que eu vi nas fotos, era sua marca registrada. Mas por mais estranho que fosse, esse acessório que eu costumava achar ridículo, ficava simplesmente maravilhoso nele. Estava começando a pensar se tinha alguma coisa que ficaria feio nele, e estava prestes a admitir para mim mesma que teria que dar o braço a torcer e concordar com a e a Marie: ele era mesmo muito gostoso. E estava ali conversando comigo. Meu Deus!
- Então, você começa ou eu começo?
- Pode começar, já que a ideia foi sua.
- Como é ser garoto propaganda de tantas marcas?
Ele começou a rir muito, quase gargalhar.
- Eu estava aqui esperando algo super constrangedor e você me solta essa?
Foi minha vez de rir.
- Bem, eu queria saber! Para quase todo canto que eu olho, eu vejo seu rosto ou de algum de seus colegas de time. É bizarro! Parece que vocês não existem. Como é isso?
- Bem, nós temos patrocinadores. Tanto o time, quanto os jogadores, assim como a seleção. E alguns desses patrocinadores pedem para sermos a cara de algumas propagandas. É por isso que às vezes você vê o rosto de alguns e outros não. Mas com o time, está no nosso contrato o uso de imagem. Sempre que tem qualquer evento, seja de divulgação ou alguma outra ação e a diretoria pede para participarmos, bem, não pedem exatamente.
- Entendi. Deve ser meio bizarro ter seu rosto espalhado pela cidade.
- Acho que já me acostumei. Mas, agora é minha vez. Por que Alemanha?
Demorei um pouco para entender a pergunta dele. Mas entendi o ponto, porque de todos os lugares do mundo, eu tinha escolhido vir para cá.
- Não sei. Eu precisava sair do Brasil, conhecer alguma coisa nova. Me distanciar um pouco do mundo da música, principalmente do cenário nacional. Tinha família aqui, pareceu lógico.
- Mas não tinha nenhum outro lugar que você quisesse conhecer? Você poderia ir para qualquer lugar do mundo.
- Até tem outros lugares que quero conhecer, mas achei esse curso. E algo me dizia que eu precisava vir para cá.
- Vai ver que era para me conhecer. - Ele deu uma piscadela enquanto tomava um gole de seu café.
Apenas levantei uma sobrancelha e cruzei os braços, fingindo que tinha ficado chateada com o comentário.
- Ei, eu estava só brincando.
Eu ri voltando a posição de antes, apoiada na mesa.
- Eu também.
Nos olhamos por alguns instantes quando eu continuei.
- Como é ser campeão do mundo? Defender o seu país numa competição internacional. E sem os clichês que aparecem na mídia, por favor. Devo ter lido uns 30 artigos com a mesma fala.
- Então vou te decepcionar, porque não sei se tenho uma coisa diferente para falar. Defender o seu país, ganhar um campeonato como a Copa do Mundo, é algo simplesmente indescritível! Não sei expressar em palavras aquele sentimento. Mas pensa assim, você é apaixonada por uma pessoa durante toda a sua vida, faz de tudo para poder ficar ao lado dela, e então, vocês finalmente ficam juntos. E aí, todos os seus amigos, familiares e até quem você não conhece, começa a gritar e comemorar com você. A sensação é próxima a essa. Não sei se vou conseguir descrever de outra forma.
- Acho que não vou entender nunca então.
- Por quê?
- Nunca me apaixonei. Não desse jeito.
Ele ficou calado. Não sabia o que dizer, e nem eu. Me senti idiota por ter dito isso. Resolvemos pedir algo para comer, estava mesmo com fome. Pedi um sanduíche que tinha certeza que não daria conta de comer inteiro, e ele se assustou.
- O que foi? Eu tô com fome!
- Desculpa, é que as mulheres com quem eu saio geralmente não são tão à vontade com comida.
- Querido, elas que são burras, não rejeito comida de jeito nenhum.
Ele riu e então voltamos a conversar de outros assuntos. Não estávamos mais no esquema de pergunta e resposta, começava a fluir, como uma conversa normal deveria ser em um primeiro encontro. Apesar de não ter certeza se isso era um encontro, ou só dois amigos tomando um café.
Não sei como, mas começamos a falar de futebol, e então ele falou uma coisa que achei tão diplomático e fofo ao mesmo tempo.
- Desculpa pelo 7 a 1.
- Oi? Cara, duas coisas: primeiro, você não tem que pedir desculpas. Se eu tivesse no lugar de vocês naquele jogo, eu tinha feito uns 20 a 1. Vocês foram muito educados em não atacar mais no segundo tempo. O sexto ou sétimo gol, não lembro, que foi do Schurrle, foi uma coisa tão ridícula que eu fiquei rindo por meia hora. Ele parado com a bola na pequena área, com vários jogadores do Brasil em volta, incluindo o goleiro, e ninguém fez nada a respeito. E segundo, eu já estava torcendo para vocês desde o início. Vocês mereceram ganhar. E essa sensação que você descreveu, vou te dizer a do outro lado. Quando você fez aquele gol na final, já na prorrogação, eu comecei a gritar sem parar, de alívio por não termos uma Argentina ganhando em nosso país. Quase fui expulsa da sala de imprensa.
Ele ficou olhando espantado. Até que eu assimilei tudo que tinha falado, talvez com uma emoção um pouco mais exacerbada para quem se dizia não se importar com o esporte.
- Então você gosta sim de futebol!
- Já te falei, um irmão e uma melhor amiga viciados. Não vou dizer que tenho ídolos, mas já assisti alguns jogos.
Agora ele estava de boca aberta olhando para mim sem acreditar. E então eu comecei a ficar vermelha, ele sorriu e pegou na minha mão que estava recostada ao lado da minha xícara vazia. Aquele toque me fez sentir milhões de choques pelo braço, pelo corpo. Estava começando a odiar me sentir assim, nunca havia me permitido e eu tinha certeza que ia dar errado.
- Você fica mais incrível a cada segundo que eu te conheço.

- Está ficando tarde. Acho bom irmos. Não que eu não esteja gostando da companhia, pelo contrário, mas infelizmente amanhã às 7 da manhã a realidade bate na porta.
Peguei minha bolsa para pagar a conta, mas logo em seguida ele me impediu.
- Deixa que eu pago.
Tentei dizer que não, que queria pagar minha parte, mas ele só respondeu que da próxima eu pagaria, que esse não era nosso primeiro encontro, éramos apenas dois amigos dividindo um café no frio. Pensei em reclamar, mas deixei que ele saísse por cima nessa. Teria troco.
Dirigimos por Munique, ele me mostrando alguns dos lugares favoritos dele, todos fechados a essa hora da noite. Mas preferi assim. Parecia que por estar escuro, estávamos seguros. Qualquer coisa dita naquele carro seria apenas um segredo nosso, ninguém mais saberia. Ninguém precisava de saber. Éramos e . Sem sobrenomes, sem títulos, sem fama. Apenas duas pessoas se conhecendo.
Depois de um tempo ele resolveu me levar ao Allianz Arena, onde aconteciam os jogos do Bayern de Munique. A essa hora, estava escuro, fechado. Já tinha visto fotos do estádio, mas de perto era indescritível. Fiquei imaginando como seria ele todo iluminado.
- Você tem que vir em algum jogo aqui. Vou olhar quando ser a próxima partida em casa e te arrumo um ingresso.
- Dois!
Ele me olhou sem entender para quem seria o segundo.
- A minha colega de quarto, Marie. Se ela souber que eu vou vir em um jogo e não trazer ela, vai dar briga.
- Ela gosta de futebol como você?
- Não. Acho que ela está interessada é em ver outras coisas mesmo.
Ele começou a gargalhar. Me senti idiota pelo que disse, mas ao mesmo tempo, sentia que podia falar qualquer coisa com ele. E talvez ele sentisse o mesmo.
- Agora está tudo explicado. Sempre quis saber comentários da ala feminina sobre futebol. E não, não estou falando sobre questões técnicas, isso qualquer um aprende, e acho que cada vez mais estamos conseguindo chamar o público feminino para o esporte. Mas de fato, acho que você tem razão sobre esse atrativo a mais. Somos muito gostosos.
- Ei, eu não falei nada disso! Não coloca palavras na minha boca.
- Mas você pensou que eu sei.
Dei um tapa de leve no ombro dele, rindo. E infelizmente, concordando totalmente com ele. Era sim um atrativo a mais.
- Era aqui que eu queria te trazer. Tem um museu do time dentro do estádio. Achei que seria uma marca da cidade.
- Eu vou adorar conhecer. Principalmente com tudo iluminado.
Virei o meu olhar para ele e o peguei me analisando. Já tinha percebido que era uma mania dele, analisar as pessoas e o local ao seu redor, mas não quis comentar nada. Haviam momentos que o silêncio diziam mais que qualquer palavra, e perto dele, o silêncio dizia muito.

Apesar dele ter dito que já estava tarde, apenas uma hora e meia depois que saímos do café que ele me deixou em casa. Estava sem querer sair do aquecedor do carro e ainda tínhamos que pegar minha mochila no porta-malas.
Tínhamos muito o que conversar, mas não saía mais palavra alguma. A temperatura no carro deveria ter aumentado alguns graus, apesar da certeza que não havíamos mexido no aquecedor. Baixinho tocava Somewhere Only We Know, da Lily Allen, quis rir da coincidência dessa música na playlist dele, porque era uma das minhas favoritas.
Olhei diretamente para ele e ele olhava para mim. Nossos olhares nos atraindo como imãs. Ele tirou a mão do volante e acariciou meu rosto. E já sabíamos o que ia acontecer antes que pudéssemos impedir.
Aos poucos nos aproximamos, e cedo demais, nossas bocas se tocaram, me levando a sentir coisas que eu não achei que fosse possível. Passei minhas mãos para sua nuca, o aproximando o máximo possível que o carro permitia. E eu tinha certeza que ia explodir.

Entrei em casa e encontrei uma Marie sentada no sofá com cara de culpada.
- O que você está fazendo aqui? Não tinha uma festa para ir, ou algo assim?
- Até tinha, mas achei que esperar a minha amiga contar como foi o encontro com um campeão do mundo era mais interessante. Anda, Pretty Moon, eu tô curiosa!
Coloquei minha mochila e livros em cima na banca da cozinha e me encaminhei para o assento vazio do sofá ao seu lado. Era uma experiência nova para mim, falar sobre garotos desse jeito. Conversava disso com a ? Sim. Mas sempre sentia que estava falando de um lado só. Meu irmão foi o primeiro e único namorado dela, e era estranho ela falar dele comigo, com o tempo, parei de contar dos meus rolos também.
- Bem, para começar, não foi um encontro. Só fomos tomar um café e depois ele me levou de carro para conhecer alguns lugares da cidade, e - dei uma pausa, mas sentindo que estava ficando vermelha - a gente se beijou.
Queria ter fotografado a cara da Marie. Ela ficou estática sem saber o que dizer ou fazer. Mas rapidamente eu completei:
- Por favor, não conta para ninguém! Não queremos nenhuma mídia em cima disso, seja lá o que isso seja.
- Tudo bem. Minha boca é um túmulo. Juro. - Ela fez o sinal da cruz na boca, mostrando que não ia falar.
Antes de dormir, mandei uma mensagem para a . Sabia que no Brasil ainda estava cedo.
: Dudinha, meu amor, talvez eu esteja ouvindo passarinhos cantando. Beijos de boa noite felizes para você.

Ela sabia bem o que isso significava.

: , VOCÊ PEGOU O GOSTOSÃO?
: Não usa essa palavra que você sabe que eu não gosto! Mas enfim, fomos tomar um café agora à noite, e pode ter ou não rolado um beijo.
: SÓ UM BEIJO? Deus não dá mesmo asa cobra...
: Eiii, respeita meu irmão!
: Querida, nós duas sabemos que seu irmão seria o primeiro a dar uns pegas nele. Apoiar então, preciso nem comentar.
: Você não falou nada para o Gustavo, né?
: Você está louca? Claro que não! Fica tranquila miga, sei como ele é ciumento. No dia que vocês marcarem o casamento a gente conta.
: !
E com essa ela sabia que eu não iria falar mais nada.

Estava quase pegando no sono, quando vi meu celular vibrando de novo. Pensei que pudesse ser a , ou até mesmo meu irmão, mas fiquei feliz de ver quem era.

: Só para desejar boa noite e dizer que vou ficar sonhando com seu beijo.

Junto com alguns emojis de coração.
Respirei fundo tentando ser racional e não surtar. Eu odiava a minha versão apaixonada, e fazia de tudo para evitar. Principalmente quando eu não tinha certeza se era sentimento de verdade, ou apenas uma euforia.

: Somos dois então. Boa noite e bom treino amanhã.

E um emoji de carinha fofa.
Porém, depois disso, não obtive nenhum sinal de vida dele. Por duas semanas.


Capítulo 06 - We are not Always in control


Na manhã seguinte acordei muito animado para o treino, não me lembro nem quando foi a última vez que acordei tão animado assim. Cheguei no Bayern no horário habitual, mas meu sorriso no rosto não negava os acontecimentos da noite anterior. Podia não ser muito, afinal, tinha sido apenas um beijo. Mas para mim parecia ter sido muito mais, havia uma conexão em relação a que eu não sabia explicar.
E por esse meu sorriso era impossível de disfarçar, assim que entrei no vestiário começaram as perguntas.
- Menino com esse sorrisinho? Pode ir falando quem é ela! - Müller foi o primeiro a reparar e a abrir a boca. Eu adorava esse meu colega de time, sem dúvida um dos melhores em campo, mas ele sabia ser intrometido quando queria.
Quase ignorei a pergunta, mas alguns outros caras escutaram, e então cada um começou a sua teoria.
- Certeza que é a explicação para ele estar tão disperso nos últimos dias. - Começou o capitão Lahm.
- , , não me diga que é mais uma supermodelo? Para um cara tão baixinho você sempre consegue as modelos mais altas. - Alaba foi o primeiro a teorizar.
Pensei em reclamar sobre o comentário da minha altura. Eu não era baixo. Tinha 1,76. Porém a maioria dos meus companheiros de times eram mais altos do que eu. Já tinham comentado comigo que sempre parecia mais baixo na TV, principalmente nos jogos da seleção.
E foi com esse pensamento que eu me safei de ter que dar qualquer explicação. Guardiola entrou no vestiário falando que hoje iria sair a convocação para a pausa internacional, o momento que boa parte de nós iríamos defender a seleção. Já fazia alguns meses que eu não vestia a camiseta campeã mundial, e eu estava ansioso para vestir novamente. E também para reencontrar alguns amigos.
Com esse pensamento, rapidamente troquei de roupa e fui para o treino. Ainda tínhamos um jogo antes do internacional break, então faríamos um treino fechado, apenas para treinarmos jogadas.
Nos dividimos em grupos, ataque para um lado, defesa para outro. E então a criatividade começou. Eu costumava gostar de treinos assim, era sempre bom poder inventar jogadas. Claro que algumas coisas já eram pré-determinadas, mas outras tínhamos liberdade para brincar com a bola e criar do nosso jeito, contanto, claro, que ela entrasse no gol no final.
Passamos boa parte da manhã trocando passes, correndo de um lado para o outro no gramado. E eu estava tão elétrico, senti que há muito tempo não jogava com tanta vontade. E tinha motivos o suficiente para me fazer querer ir bem: tinha a , que com certeza estaria no campo no próximo jogo. Queria marcar para ela. E tinha também a seleção.
Mas mal sabia eu, que minha felicidade duraria pouco. Teoricamente teríamos treino à tarde, mas assim que fomos liberados, John, assistente da diretoria, chegou avisando que eu tinha sido convocado para uma reunião com os chefões na parte da tarde, e que Marx estaria aqui. Isso não podia ser bom sinal.
Uma música tocava ao fundo, eu não conseguia identificar. O aquecedor parecia não estar funcionando, pois o frio naquela sala não estava normal, ou talvez fosse apenas como eu estava me sentindo. Havia tido um tempo de tomar banho e almoçar, mas o moletom do uniforme do time parecia não estar fazendo efeito nenhum.
Ao meu lado estava o meu agente, Marx. Quando eu cheguei na sala, já estavam discutindo o meu futuro sem que eu pudesse dar opinião. Pensava que a diretoria havia convocado a reunião, mas só quando escutei o Mr. Friederike, um dos diretores, dizendo que era uma surpresa essa minha decisão, foi que entendi que essa ideia não tinha saído da chefia.
- Fiquei surpreso com sua escolha, . Sempre achei que você estava bem com o time, que queria crescer aqui dentro. Sua intenção de nos deixar é realmente uma coisa inesperada para todos nós. - ele me olhou com um pesar que parecia ser sincero.
- Espera, quem disse que eu queria sair? Achei que isso era sobre alguma negociação interna. - No momento que falei vi o olhar de Marx me recriminando. Sabia que deveria ter ficado quieto, mas estava cansado dele me dizendo o que fazer.
Não ia deixar que ele me tratasse como um garotinho que precisava pedir permissão para a mãe sobre qualquer coisa na vida.
- Mr. Friederike, com todo respeito, eu amo o Bayern de Munique. Sei que essa não está sendo uma das minhas melhores temporadas, mas estou empenhado a melhorar. Depois da minha lesão eu perdi um pouco o ritmo, mas aos poucos estou voltando, se essa reunião era porque vocês acharam que eu queria sair, bem, acho que podemos dar o assunto por terminado, porque eu não pretendo mudar de time a não ser que vocês digam o contrário, que querem que eu saia.
Não sei se fiz certo em citar a minha lesão, mas eu sabia que boa parte do meu rendimento nessa temporada tinha saído daí. Em novembro do ano passado sofri uma lesão em uma dividida de bola, e apenas agora em fevereiro estava voltando de fato aos campos. Não gostava de me lembrar da sensação, mas tive cuidado de amigos e família que estavam do meu lado em todos os momentos. O clube sempre entendeu isso, e nunca achei que fosse ser motivo para ser mandado embora.
- , sabemos da sua lesão, e por isso mesmo não ficamos assustados com o seu rendimento ter caído. Você ainda vai demorar alguns meses, e quando falo isso não digo só fisicamente, está mais que certo em se poupar. E adoraríamos ter você aqui, 100% para a próxima temporada, principalmente porque teremos várias mudanças com a saída do Guardiola. Porém seu agente está te recomendando isso, então pense com calma no que é melhor para você.
E ainda tinha isso. A saída do Guardiola e a dúvida de se conseguiríamos manter o rendimento das temporadas passadas ou se tudo aquilo tinha sido apenas o efeito do técnico considerado o melhor de todos. Apesar de que ainda faltavam alguns meses para o final desta, e muitos jogos, Bundesliga, Champions, Super Copa...
- Prometo que pensarei com carinho. – Falei já me levantando.
- Vá para o internacional break com a cabeça na seleção. Converse com seus amigos, alguns podem ter algumas dicas para te ajudar a resolver toda essa situação. - Ele olhou no fundo dos meus olhos, e me assustei com a proximidade do diretor - Tem coisas que nem sempre temos uma resposta imediata. E nem precisamos ter. Vai com calma que, quando você menos esperar, uma solução vai acontecer, agora aproveita o resto do tempo de treino, ainda temos uma Bundesliga para ganhar.
Saí o mais rápido possível daquela sala, sem nem sequer me despedir de Marx. Tínhamos muito que conversar, mas se começasse a falar agora, ia acabar me exaltando. Era melhor conversarmos fora do clube, para eventuais bate boca. Fiquei com medo de ele falar algo a mais para Friederike, mas pelo menos este, agora sabia quais eram as minhas verdadeiras intenções.

Cheguei em casa tão estressado e sem vontade de conversar, que joguei o celular na mesinha da sala e fui tomar um banho. Deixei meu iPod ligado na caixa externa tocando uma playlist do Flo Rida, e no momento escutava Wild Ones no volume máximo. Meu iPod às vezes parecia que só tinha música de balada, e gostava de escutar coisas que me deixavam para cima, mesmo quando eu só queria entrar debaixo das cobertas e ignorar o mundo ao redor.
Como o esperado, havia sido convocado para a seleção, junto com Müller, Neuer, , Hummels e vários outros que já estávamos acostumados a jogar. Nesses dias teríamos apenas amistosos, mas em ano de Euro Copa, qualquer amistoso era uma forma de treino. Estava animado para esse reencontro, e estaria extremamente pilhado se não fosse a reunião de mais cedo. Eu precisava resolver a minha vida, e tinha a sensação que Marx não ia facilitar.
Me joguei na cama de toalha, e acabei adormecendo assim, no meio dos cobertores. Ao contrário do que geralmente acontecia, não demorei a dormir. Mas minha felicidade durou pouco, novamente me vi naquele campo rodeado de jogadores no-faces.
Dessa vez eu não estava sozinho. Consegui reconhecer alguns companheiros de seleção. Não éramos um time completo, mas pelo menos não enfrentaria aquele exército só. Éramos eu, Müller, , Özil e Schürrle contra um exército de no-faces. Fazíamos nossos passes como sempre, driblando os adversários. Estava com menos medo dessa vez, e começando a confiar mais em mim mesmo. Jogava como nunca havia feito antes.
Müller passou a bola para mim, estava de frente para o goleiro, mas evitei olhar para ele, tendo apenas a ideia de que ele estava ali. Mas ao invés de chutar para o gol, como seria o normal, toquei para Schürrle que estava a minha esquerda. Confundimos o goleiro e a bola entrou para o fundo da rede.
Saímos correndo campo a fora. Gritando e comemorando. O exército de no-faces começava a diminuir à medida que ia me juntando aos meus companheiros de seleção. Eles não davam medo mais. Não enquanto tivesse os meus amigos comigo. No fundo, começou a tocar uma música que geralmente tocava em estádios, Good Feeling. Me senti feliz de novo, completo.
Uma torcida começou a aparecer e gritar Deutschland, como era em todo jogo da seleção. Éramos campões do mundo, eu tinha meus amigos, não estava sozinho. Às vezes só precisava me lembrar disso.

Acordei sentindo frio, e só então vi que tinha ido dormir nu. Meu iPod continuava tocando Flo Rida, exatamente a mesma música do sonho. E acho que isso era sinal para uma coisa: após o internacional break, precisava de uma festa. Corri pela casa, ainda com a toalha amarrada na cintura para buscar o meu celular na sala. Mandei uma mensagem no grupo da seleção, só com os jogadores, claro.
: Fala seu bando de molenga, vocês estão deixando isso aqui parado demais. O que acham de uma festa pós-jogos da seleção?
Achava que ninguém ia me responder até amanhecer, mas enquanto colocava uma roupa meu celular começou a apitar. Podolski foi o primeiro.
Poldi: Festa? ONDE?
: Não sei! Só preciso de uma agitação.
Müller: Já levou um pé na bunda, ?
Foi só então que eu me lembrei da . Com a agitação do dia, tinha me esquecido completamente dela. Me sentia um otário por não mandar nenhuma mensagem, mas ela também não havia falado nada. Em duas semanas iria para a concentração da seleção, não poderia me encontrar com ela antes disso, no máximo a levaria para o último jogo do Bayern. Mas talvez realmente fosse melhor esperar normalizar minha rotina.
: Oh , qual é a dessa namorada que você não falou nada? Cara, achei que fôssemos amigos.
Opa, o entrou na história. Agora a coisa ficou feia pro meu lado.


Já era o quinto dia que abria meu celular e não tinha nenhuma mensagem. Me sentia estúpida por achar que ele daria atenção para mim. Poxa, eu não era nem metade do que essas mulheres que os jogadores de futebol namoravam. Não que eu esteja dizendo que eu era feia ou coisa do tipo, só que, vamos aceitar, eu era apenas uma blogueira.
Minha rotina continuou a mesma, como se não existisse. Mas confesso que agora ficava de olho nas notícias do Bayern de Munique. Não que tivessem muitas, agora teria os amistosos internacionais. Vi que ele havia sido convocado para a seleção, e quis deduzir que foi por isso seu sumiço.
Depois de alguns dias sem notícia alguma, resolvi conversar com a . Sempre tinha mania de justificar os atos dos moços que eu era a fim. E sabíamos bem como isso terminou da última vez...
: , eu acho que você precisa desencanar dele. Sério. Por mais que eu ficaria superanimada com minha melhor amiga namorando um jogador de futebol, apesar de ser o , temos que aceitar que ele só queria uma coisa. E quando não conseguiu, virou a página.
: Ah, , mas ele também está indo jogar pela seleção. Nem sei se pode mexer no celular por lá.
: Claro que pode! Você não lembra os tweets do Podolski na Copa do Mundo?
: Lembro.
: Então pronto. Desencana antes que você se apaixone. Até porque sabemos como você é. Agradece que você teve a sorte de dar um beijo naquela coisa gostosa e segue em frente.
: Fica difícil com você falando isso. Hahaha
: Isso o quê? Gostosa? Miga, aceita. Ele é isso mesmo, porém não é seu.
: Eu sei. Acho que estou mais decepcionada comigo mesma do que com ele. Eu, mais uma vez achando que fosse dar certo. Vou morrer solteira mesmo.
: Ah, não! Para com isso. Vou mandar uma mensagem para minha falsa substituta francesa e fazer ela te arrastar para uma festa!
: Não faz isso! Preciso entregar um tanto de trabalho atrasado e ainda arrumei um bico de fotografia aqui.
Só não comentei que o trabalho era exatamente em uma festa que a Marie estava me arrastando.
: Sério?? Isso, amiga, vai fazer algo que você gosta e esquece que existe homem no planeta.
: Eu talvez possa ter falado isso em voz alta, seu irmão escutou e agora está falando que ele existe. Tá, talvez só ele. Opa, agora ele está querendo roubar o meu celular e ler a conversa. Abortar missão!! Tchau amiga, fica bem.
Que saudade que eu sentia desses dois! Isso que dá você passar 22 dois anos com duas pessoas, sem nunca se separar, por nada mesmo, do tipo de passar férias juntos e tudo mais, e do nada resolver passar seis meses em outro país.
Era normal eu ser grudada com meu irmão, afinal, éramos gêmeos. O Gustavo sempre foi meu tudo, meu equilíbrio. Aquele que eu podia contar para me defender de todas as coisas que acontecessem na vida. Era ele quem estava lá quando disse a primeira palavra, e também quando dei o meu primeiro beijo e tudo o mais. Era meu companheiro de passar tardes escutando e fingindo interpretar um mesmo álbum daquela banda de rock que ninguém nunca tinha ouvido falar.
E a . Ela era nossa vizinha quando criança, e foi natural que ficássemos amigas. Principalmente porque ela roubou o meu sorvete quando tinha quatro anos, e eu cheguei chorando para o meu irmão. Achei que ele fosse brigar com ela, mas eles sentaram no meio fio e começaram a conversar enquanto dividiam o meu sorvete. Eu fiquei bem brava por um momento, até que aquela menina de cabelos negros e franjinha pareceu ser uma pessoa que eu queria como amiga. Sentei do lado dela, e desde então, nós três nunca nos separamos.
No ensino médio, quando eles começaram a namorar, eu achei que fosse perder os meus dois melhores amigos ao mesmo tempo. E aconteceu, por uma semana! Então eles vieram conversar comigo, pedindo para eu parar de ser infantil e ir me sentar com eles. Nada ia mudar, só que agora eles iam se pegar. Falei que contanto que não fosse na minha frente, estava tudo bem.
E enquanto os dois sempre foram um casal, eu era um desastre para qualquer relacionamento. Sempre que eu começava a gostar de qualquer cara, tanto a quanto o Gustavo faziam questão de me lembrar o que eu havia feito no 2º ano, e que fora o motivo de eu começar o blog.
Tinha um rapaz um pouco mais velho que a gente. O nome dele era Guilherme e era vocalista de uma banda na cidade. Não que fosse uma banda conhecida, mas eles faziam covers de diversas bandas de rock, como Pear Jam, Nirvana, Red Hot Chilli Peppers, entre outros. Como eu era viciada em música, fiz amizade com o moço. Ele, vendo uma garota bonitinha indo atrás dele, resolveu que podia brincar comigo.
Nós saímos umas duas vezes, onde, é claro, havíamos nos beijado entre outras coisas. Eu estava começando a falar para todo mundo que estávamos namorando. Estava realmente apaixonada. E, como a e meu irmão estavam cada vez mais juntos, fui me envolvendo com esse moço. Com o tempo, ele começou a se distanciar, e sempre que meus amigos diziam que ele estava me traindo, eu justificava dizendo que era a banda, ou o cursinho. Qualquer coisa eu inventava para justificar sua ausência para os outros e mostrar que estava bem com isso.
Dois meses depois, ele apareceu no colégio apresentando uma namorada. Uma menina do colégio que competia com o nosso que era tudo que eu não era. Nunca tive coragem de contar para ela que havíamos ficado juntos, mas desde então, tinha a maior dificuldade de me apaixonar. E quando acontecia, era sempre a mesma coisa: na hora que começava a dar certo, o cara sumia, eu inventava várias desculpas para ele, e quebrava a cara. E lá estava eu com a mesma sensação de Déjà vu com . Em um país no qual eu não tinha meu irmão para querer socar o cara.
Mas dessa vez, eu não podia culpá-lo. Não havíamos prometido nada um ao outro. Saímos uma vez, e simplesmente, por erro do acaso, rolou um beijo. E a estava certa, tinha mais o que fazer. Assim como ele parecia também ter.
Marie entrou no quarto na mesma hora que eu despedia da .
- Pretty Moon, você ainda não está pronta? Temos que sair. O Frank passa aqui daqui a 20 minutos.
Frank era nosso colega de sala. Era uma das melhores pessoas que eu já havia conhecido, e jogava no mesmo time que a gente, se é que vocês me entendem... E eu tinha certeza de que ele tinha sapatos melhores do que os meus.
- Já estou quase pronta, só falta passar a maquiagem.
- Só? , quanto tempo você gasta para isso?
- Menos do que você imagina.
- Você vai mesmo de Vans para a festa?
Olhei para ela de forma séria, enquanto ela me encarava com uma cara de repressão.
- Sim. Por um acaso, eu estou indo trabalhar. - disse apontando para minha câmera. - Preciso de um calçado confortável se irei passar a noite inteira tirando fotos de um lugar que com certeza vocês vão me fazer sair correndo de um lado para o outro. Não é a minha primeira festa, Marie, acredite.
- Espero que você esteja certa. Só saiba que terão vários caras gatos alemães por lá.
Franzi meu nariz e fiz um som quase inaudível refutando a ideia.
- Acho que eu já estou cheia de caras alemães. - falei baixo demais para que ela pudesse ter escutado.

A festa estava bem tranquila. Já havia fotografado um casal na piscina (e ainda tentando entender como eles estavam na piscina, tinha esquentado, mas eu ainda estava com muito frio). Marie havia pedido uma foto com uns caras que pareciam ser jogadores de futebol americano, mas provavelmente eram apenas aqueles bombados de academia mesmo.
Frank estava com o namorado da semana, como ele dizia. Foi super gentil como sempre, mas eu não era tão próxima dele. Era mais ou menos um amigo de Marie que me aturava, somente. Tinha alguns assim por ali.
Era apenas uma festa aleatória. Aparentemente o pessoal do curso gostava bastante de festas assim, mas até então, nunca tinha ido a uma. Aceitei só porque eles falaram que estavam sem fotógrafo e perguntaram se eu não queria o job. Não iria recusar dinheiro.
Já estava tarde. E quando digo tarde, deveria ser umas 3 da manhã. Eu não sabia que eles podiam demorar tanto em uma festa aqui. Não era o que tinha escutado, mas eu que não ia discutir. Estava gostando de fotografar. Fazia muito tempo que não brincava com minha câmera.
De repente, as músicas começaram a ficar mais do meu agrado. Comecei a me soltar na pista de dança, enquanto fotografava boa parte dos presentes bêbados. Eram as melhores fotos. Se algum dia tivesse um estúdio, só iria fotografar a base de álcool. As pessoas pareciam ficar mais soltas e com menos medo da câmera.
No momento começou a tocar uma música sobre um relacionamento complicado. Amei a melodia e fui correndo perguntar para o DJ qual música era aquela. "Flavor Of The Weak" de uma banda chamada American Hi-Fi, nunca tinha ouvido falar, mas com certeza iria entrar para a minha playlist. E enquanto pensava nisso, senti meu telefone vibrar, e um nome que eu não esperava mais encontrar na tela, aparecia:
está te ligando. Atender.


Capítulo 07 - It’s all bigger than us


- Alô.
- . Onde você está?
A voz dele era de quem tinha passado um tempo chorando. Por mais idiota que isso pudesse ser.
- Estou trabalhando. – O que era verdade. – , está tudo bem?
- Não. Não está. E eu nem sei porque te liguei.
Fui andando para fora da casa onde acontecia a festa. Tinha menos barulho e aquilo com certeza era importante demais para ser ignorado, apesar da vontade e de todo o meu bom senso me mandando desligar o telefone.
- Minha vida virou de cabeça para baixo, amanhã vou sair para a concentração do international break e eu não sei o que fazer.
- Onde você está? – Devolvi a pergunta, mas deixando o tom preocupado que eu usava sempre que ficava com medo por meus amigos.
- Em casa.
- Me passa o endereço que estou indo para aí agora.
- Mas você não está trabalhando? - sua voz falhou.
- Já tenho o material que precisava. Não tem problema de ir embora. - e não era mentira, realmente já estava fazendo tempo extra ali.
Ele me mandou o endereço pelo WhatsApp e vi que não era muito longe dali. Avisei a Marie que estava indo embora, e, apesar de algumas reclamações, ela acabou me deixando ir.
Fui andando pela madrugada até que me deparei com um prédio de 18 andares, com uma faixada rústica. Não tinha porteiro, então interfonei diretamente em seu apartamento, que logo me deixou subir.
A porta estava aberta quando adentrei a casa. Era um apartamento amplo, com uma cozinha/copa que dividia o espaço com uma sala de TV em que tinha um sofá enorme e uma TV com todos os consoles de vídeo games ligados. Ao lado, um armário com portas de vidro exibiam diversos jogos, mas não tive tempo de reparar em mais do que isso.
Sentado no sofá, com uma luz amarela fraca que vinha da cozinha, estava um me encarando. Me assustei com a situação que ele se encontrava. Deixei a minha bolsa com a câmera no chão e corri ao seu encontro.
Segundos depois que eu sentei no sofá, ele deitou no meu colo. Parecia uma criança, e não um dos homens mais seguros de si que eu já havia conhecido. Comecei a acarinhar seus cabelos. Mais uma vez, o silêncio entre a gente dizia mais do que qualquer palavra, e dei tempo para que ele falasse quando sentisse vontade.
- Eu não deveria ter te ligado. Ia esperar até voltar do international breake, mas eu simplesmente não conseguia dormir. – Ele se virou e olhou nos meus olhos antes de continuar. – Tentei me distrair de todas as formas, mas a necessidade de conversar com você era maior.
- Eu estou aqui. – toquei de leve a sua barba rala que começava a surgir tentando dar segurança para que ele continuasse falando.
- Meu agente quer que eu saia do meu time. A justificativa dele é que estou sendo subutilizado. Assim como tudo que a mídia publicou a respeito. Recebi uma ligação do Klopp, você sabe quem é?
- Sim. Era seu técnico no Dortmund e agora está no Liverpool.
Acho que ele já não estava mais se surpreendendo com meu conhecimento um pouco maior do que o esperado sobre sua profissão. Ou até mesmo sobre sua própria carreira.
- Isso. Falaram que seria uma boa eu ir para a Inglaterra. Mas eu não sei se eu quero. Ou melhor, a princípio meu primeiro pensamento é ficar no Bayern. Estou a apenas três temporadas aqui, poderia evoluir muito mais, mas por mais que tenha sido de uma forma muito arbitrária, Marx deixou uma dúvida na minha mente. - Ele deu uma pausa para respirar. Percebi que aquela era sua forma de lidar com muita informação, e de alguma forma, meu coração se aqueceu por ele ter me chamado para desabafar. - Tive uma reunião esses dias com o diretor, e ele deixou nas minhas mãos essa decisão. E eu sei que se não resolver logo, alguém vai resolver por mim.
- , você tem que pensar no que é melhor para você. Onde você vai crescer mais, onde você vai aprender mais. É claro que o salário vai contar, mas cá entre nós, você vai ganhar bem em qualquer lugar que estiver. Muita gente vai falar o que eles acham que é certo, mas só você vai saber disso. E se a escolha depender de você, ela tem que ser sua, e não influenciada por alguém que pode se beneficiar disso. - Com certeza esse Marx ganharia algo dependendo de qual time ele fosse, essas jogadas do mercado da bola envolviam dinheiro demais.
- A pior parte é que todo mundo vai falar que foi por questão financeira. Eu já não sou bem visto por causa...
- Porque você saiu do Borussia no momento extremamente errado. É. Eu sei. Minha melhor amiga torce para o BVB e ficou xingando você por dias.
- Ela deve me odiar. - ele fez uma careta.
- Acho que aquele seu gol da Copa fez ela não te odiar mais. Mas digamos que, se algum dia vocês se conhecerem, me faz o favor de não falar nenhuma merda.
Ele riu. Pela primeira vez desde que eu entrei no apartamento escutei sua risada. E aos poucos o tom de piada foi diminuindo e o ar ficava mais leve. Senti um arrepio ao sentir seus dedos tocarem de leve a minha pele, subindo e descendo pelo meu braço.
- Por que eu estou me sentindo assim em relação a você?
Ele tocou as pontas dos meus cabelos que encostavam no seu tórax. Eu não tinha uma resposta para aquilo. Entendi o que ele quis dizer. O porquê, mesmo indo contra toda as possibilidades, tínhamos essa ligação um com o outro. Mesmo tão diferentes, alguma coisa fazia com que quiséssemos procurar um ao outro, apesar do tão pouco tempo em que nos conhecíamos.
E apesar de ir contra tudo o que eu me prometi a fazer, tomei a única atitude que eu podia ali. Aproximei nossos lábios e o beijei devagar. Ele passou uma mão pela minha nuca e foi aprofundando o beijo.
E não sei como, mas em alguns minutos já estávamos no quarto. E o resto? Apenas fogos de artifício.

O sol batia fraco no quarto. Ainda estava amanhecendo. Sorri ao lembrar da noite passada. E nunca senti que tinha feito uma coisa tão certa. As sensações que aquele homem me trazia, a calma que eu sentia perto dele. Tudo isso supria toda e qualquer ansiedade ou raiva.
Me virei aos poucos na cama, e vi que estava sozinha. Gostei de um pouco de espaço. Precisava me recuperar. Procurei minhas roupas pelo quarto e resolvi tomar um banho. Algo me dizia que ele não iria se importar.

Saí do quarto e senti um cheiro de panqueca. Na noite anterior mal tinha conseguido reparar no apartamento dele. Agora, com a luz do dia e menos emoções, pude perceber que as paredes eram de um tom claro, mas não branco. Era espaçoso, apesar de ter apenas dois quartos e uma sala conjunta com a cozinha. Simplista, e claramente o espaço de um homem solteiro.
Me perguntei se, com o dinheiro que ele ganhava, não teria vontade de ter algo maior, mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, encontrei um só de cueca na cozinha e aquela visão me fez esquecer qualquer pensamento racional.
- Bom dia princesa! - Ele disse com um sorriso no rosto.
Sorri de volta e encostei na parede, o observando descaradamente.
- O que foi? - Ele tentou ficar sério.
- Estou pensando se ainda estou dormindo ou é a realidade, porque essa minha visão não pode ser real.
Ele sorriu e se aproximou de mim deixando a frigideira no fogão.
Me abraçou pela cintura e me puxou para um beijo.
- Isso parece real o suficiente?
Passei os braços pelo seu pescoço, o aproximando o máximo possível. Aos poucos ele me beijou, com calma, sem aquela necessidade da noite anterior, apenas aproveitando o momento.
Dentro de alguns minutos ele teria que ir para a concentração da seleção. E isso significava que iríamos ficar um bom tempo sem nos ver. Os jogos seriam no Allianz Arena, então eu poderia ir assistir. Se ainda tivesse ingressos.
Arrumei nossa mesa enquanto ele ia trocar de roupa e arrumar a mala. E aquela dinâmica, mais uma vez, me deu o sentimento de que estava tudo certo. Acontecendo como teria que acontecer. E resolvi que, pela primeira vez na vida, ia simplesmente deixar rolar, seguir o curso que teria que seguir. Se fosse para ficarmos juntos, as coisas iriam chegar a essa resolução.
- Acabei de arrumar dois ingressos vip para você. O jogo de sábado é contra a Inglaterra, e o da terça é a Itália. Você vai poder ir na terça?
Ele perguntou enquanto deixava sua mala pelo caminho e sentava a minha frente na mesa para tomar um café rápido.
- Acho que sim. Não vai me matar perder uma aula. – Fiz cara de sapeca e ele sorriu.
- Ótimo! Se você quiser levar sua amiga, também tem espaço para ela.
- Vou resolver e qualquer coisa te falo. Você vai poder ficar com seu celular, né?
- Posso sim. Não vai ser o tempo inteiro, mas em algum momento do dia terei tempo para te responder. Vai ser uma correria, e se eu parecer distante, não repare. Jogos da seleção sempre são mais delicados que com o clube, mesmo quando são apenas amistosos. Este ano tem Euro Copa, então Low está nos testando de todas as formas possíveis, principalmente porque ainda não conseguimos voltar ao rendimento da Copa do Mundo. Eu estou falando grego com você, né?
- Por incrível que pareça, não. Escutei sobre essa queda do rendimento em alguns jornais.

Rapidamente arrumamos o apartamento. Eu teria muitas fotos da festa para editar, além das aulas. Aproveitaria esses dias dele longe. Talvez fosse até bom começarmos isso, seja lá o que fosse, no meio de uma agenda tão apertada. Nossas vidas eram corridas, e para dar certo, teríamos que lidar com isso.
- Eu já estava esquecendo. – Falou quando já estávamos quase na porta saindo do apartamento.
Voltou correndo para o quarto e trouxe um pacote pequeno.
- Desculpa, não deu tempo de embrulhar. Não sabia se ia ter coragem de te levar para o jogo, mas deixei separado de qualquer forma.
Abri o pacote com a falta de delicadeza que eu sempre tive. E então eu vi. Era uma camisa branca da seleção com o número 19 destacado. Abri a camisa e vi seu nome escrito atrás. . Com certeza eu iria usar.
Sorri e o abracei novamente, amaçando a camiseta.
- Obrigada.
- Não poderia deixar minha namorada me ver jogar sem estar devidamente identificada no meio de todos aqueles marmanjos.
Me afastei um pouco ao ouvir a palavra namorada. Devo ter feito uma cara de muito assustada, porque ele de repente sumiu com o sorriso que estava ali desde que acordamos.
- Eu apressei as coisas?
Sorri mostrando que estava tudo bem.
- Não. Está tudo bem. Só nunca me imaginei namorada de um jogador de futebol.
O abracei novamente e ele apoiou seu queixo na minha cabeça. Me senti tão segura naquele abraço que não queria deixa-lo ir.
- Eu não consigo achar outra palavra para descrever você. Se te incomodar, tudo bem. Não precisamos dar nome as coisas.
- . – Segurei seu rosto de forma a não permitir que ele desviasse o olhar do meu. – Está tudo bem. Você quer ser meu namorado?
Ele suspirou e apertou suas mãos na minha cintura.
- Quero. – E sorriu ao me beijar pela última vez antes de sairmos do apartamento.


Fui dirigindo até o hotel onde seria a concentração. Meu sorriso não enganaria ninguém, e já me preparava para os comentários dos meus amigos. Se apenas pela ideia eles já estavam impossíveis, imagina quando ela aparecesse no estádio sábado. Só de pensar comecei a ficar ansioso.
Apesar de toda a ação da noite passada eu não estava cansado. Pelo contrário. Há muito tempo não me sentia tão vivo. Tão bem para treinar, para jogar. Sabia que tinha que resolver minha vida, e aproveitaria esses dias para conversar com meus amigos que jogavam em outros times.

Os treinos começariam pela manhã, então tínhamos a noite para rever os amigos e colocar a conversa em dia. Após uma reunião com a comissão técnica, fomos dispensados. Dessa vez eu dividiria o quarto com Mats Hummels, zagueiro do Borussia Dortmund e da seleção. Fiquei feliz pois seria bom ter alguém para conversar, só não imaginava que seria ele a trazer o assunto à tona.
Estávamos assistindo qualquer coisa na TV para tentar, sem sucesso, chamar o sono. Cada um com seus problemas na cabeça. Mandei uma mensagem para apenas para falar que estava tudo bem. Seria estranho ficarmos tanto tempo longe depois de ontem à noite, esperava que fosse dar certo.
Entre uma propaganda e outra, Mats começou o assunto que estava rondando minha cabeça sem parar: transferências.
- Eu estou pensando em voltar pro Bayern. - Olhei para ele, surpreso dessa decisão e pedindo uma explicação. Não era ele que falava que não sairia do BVB por nada?
- Mas não foi você que falava que Dortmund era sua casa? Que nunca sairia?
Levantei para olhá-lo mais diretamente. E eu achando que só eu estava com problemas para decidir o que fazer a partir da próxima temporada.
- Eu sei. Mas o Bayern também tem um certo sentido de casa para mim. Estou querendo novos ares. E eu vim da base de vocês, parece que estou retornando a casa. A braçadeira de capitão não está dando o retorno que eu desejava e, ganhar para variar, pode ser uma boa ideia.
Respirei fundo, desviando o olhar do meu amigo. E mesmo querendo guardar isso para mim mesmo, soltei:
- Eu estou querendo ficar, pensando no quanto conquistamos nos últimos anos, porém tem muita gente me falando que eu seria burro. Que estou sendo mal aproveitado. O Klopp chegou a me ligar, para saber se eu estaria interessado no Liverpool. Mas não sei se Inglaterra seria um bom destino...
Ele sentou na cama. Foi sua vez de me observar mais atentamente.
- Cara, acho que você tem que pensar com carinho. Sair às vezes é bom para evoluir, e isso não significa que você não possa voltar.
- Não fala de voltar, minha outra ideia seria o BVB. - e pela primeira eu admiti para alguém qual era o verdadeiro desejo do meu coração. E não era de agora. Já tinha alguns meses que Dortmund passava pela minha cabeça. A torcida, sempre tão apaixonada, o clima de interior da cidade e o quanto futebol significava ali. As cores amarelo e preto não tinham deixado o meu coração, não totalmente.
Ele ficou em silêncio olhando para mim assustado. Nós dois sabíamos que aquela relação não tinha terminado de um jeito muito amigável. Até hoje ainda recebia vaias do torcedor aurinegro. Toda vez que pegava a bola no Signal Iduna Park a reprovação da torcida vinha junto.
Tinha sido anunciada a minha saída do BVB para o Bayern no intervalo da final da Champions League de 2013, jogo esse que os dois times alemães se enfrentavam. Eu saí do campo e o time de Munique levou a orelhuda. Não tinha sido como eu queria e, se fosse hoje, eu teria tentado impor mais as minhas vontades. Mas eu tinha apenas 19 anos, era apenas um garoto começando a carreira e não tive outra escolha a não ser deixar os grandes fazerem as jogadas que eles achavam que era melhor. No final, eu tinha sido apenas um peão.
Mas vai explicar isso para a torcida mais apaixonada do planeta?
- Minha namorada falou para eu não ouvir opiniões alheias e decidir por mim mesmo. Mas infelizmente a gente sabe que essa decisão nem sempre é nossa. O clube resolve e aí só temos que arrumar as malas.
Ele me olhou com uma cara estranha e só então percebi que tinha dito namorada. Ainda não tinha falando para ninguém sobre a .
- Vamos parar de falar de problema, e me conta mais sobre essa namorada que aparentemente ninguém sabe nada sobre ela.
Eu sorri. Provavelmente o maior sorriso que já dei ao falar de alguma garota.


Era dia de jogo. O primeiro de dois amistosos contra duas seleções de peso na Europa. Primeiro a Inglaterra e depois a Itália. A única coisa que me acalmava era saber que a estaria em algum lugar do estádio.
Fomos para o aquecimento escutando o barulho da torcida. Estávamos jogando em casa, e isso não significava nada para o jogo em si, mas tínhamos uma torcida de peso. Contei os movimentos e evitei olhar ao redor. Escutar o barulho era uma coisa, ver a multidão ao redor era outra.
Voltei para o vestiário e rapidamente liguei o meu fone de ouvido. Tocava Photograph do Ed Sheeran. Por um motivo estranho, as músicas desse cantor me acalmavam. Me lembrei da , e como que mesmo longe de casa, ela estava conseguindo encontrar o seu caminho. Sorri ao perceber que eu estava fazendo parte disso. Faria de tudo para ela se sentir bem aqui. Mandei uma mensagem rápida para ela, sem que ninguém visse, afinal, tínhamos um jogo para ganhar.
: Babe, espero que esteja tudo bem. Depois do jogo a gente vai ter um tempinho para se ver.
Ela respondeu instantaneamente. Deveria estar com o celular na mão.
: Estou aqui!! Com sua camisa. E com uma pessoa que está louca para te conhecer.
E mandou a foto dela com uma menina morena e o campo no fundo. estava com a camisa que eu tinha dado para ela, e a menina vestia uma da época da Copa do Mundo, ainda com 3 estrelas. Fiquei curioso para saber quem era essa amiga dela.
Mas não tive tempo de responder, pois Löw entrou no vestiário para passar as últimas recomendações e eu corri para esconder o celular.

E a animação que estava no início do jogo foi embora no final. Perdemos de 3 a 2 para a seleção inglesa por causa de um erro bobo no final do jogo. Era um amistoso, mas ainda assim não era legal perder, principalmente quando começávamos ganhando.
Queria socar alguma coisa, mas na verdade estava controlando o . Esse sim havia socado o armário. Não podia deixar que ele se machucasse. Precisávamos dele inteiro na terça para enfrentar a Itália.
- Calma, cara, ainda temos um jogo. Não faz merda agora.
- Eu odeio perder, . Me sinto um inútil.
- E algum de nós gosta? Tem alguém feliz aqui?
Ele olhou para mim assustado.
- Então pronto. Não se machuca. - falei como se fosse uma coisa óbvia que precisava explicar para uma criança.
Nesse momento Löw entrou no vestiário. Ninguém tinha ido para o chuveiro, e o barulho de sempre estava baixo. Era um amistoso, mas era parte do que enfrentaríamos na Euro Copa. E sabíamos o que essa derrota significava.
Ele parou no centro do vestiário com uma cara séria. Encarava a todos, o que tinha feito com que não se ouvisse nem a respiração de nenhum jogador.
- Agora não podem chorar o leite derramado, crianças. Mas ainda temos um jogo pela frente. Contra a Itália. Amanhã iremos corrigir os erros para terça, mas hoje, quero que vocês esqueçam essa derrota e foquem no próximo adversário. Foi um jogo duro, bom, mas é necessário corrigir os erros.
Com isso ele saiu e deixou que cada um se arrumasse para ir de volta ao hotel.
Foi só quando já estava no ônibus que lembrei da . Tinha prometido a ela que nos encontraríamos no final do jogo. Eu era mesmo um péssimo namorado. Nem sequer tinha lembrado de conferir meu celular por alguma mensagem ou dar notícias a ela.
: Lindo, não se preocupa. A gente se vê depois. Eu amei o jogo, amei a experiência. Vocês foram ótimos. Na terça o resultado vai ser diferente, tenho certeza.
Devo ter relido aquela mensagem umas vinte vezes antes de responder. Ela mandara logo após o apito final. E aquele apelido em português? Voltei a sentir o calor no peito que havia ido embora com a derrota. O que essa mulher estava fazendo comigo?
: Agora está tudo bem, mas foi uma loucura no vestiário. Desculpa não ter conseguido te encontrar. Depois a gente se fala. Vou tentar dormir um pouco. Depois desse resultado o treino amanhã não vai ser fácil. Beijo.
: Boa noite.
: Boa. ps.: adorei esse apelido em português.
: pps.: você sabe o que significa?
: tenho google tradutor <3
: IDIOTA.


Saí da casa de e fui direto para casa. Precisava trocar de roupa e começar a editar as fotos da noite anterior. A festa parecia ter sito há um mês e não há poucas horas.
Sabia que estava sendo precipitada em assumir um relacionamento assim. Ou melhor, dar um nome a uma coisa que nem sequer tinha certeza do que ia virar. Dentro de alguns meses eu voltaria ao Brasil, e ele nem sabia qual time iria defender na próxima temporada. Qual a chance disso dar certo?
Abri a porta de casa ainda pensando na loucura que estava fazendo, e em como mesmo sabendo que era insanidade, como que parecia tudo certo.
- Sua doida! Onde você estava?
Marie estava logo na frente da porta. Tinha me esquecido completamente de avisá-la que não ia dormir em casa. E estava com zero vontade de contar qualquer coisa a ela. Mas então senti a camisa nos meus braços. Aquilo denunciava tudo.
- Olha, eu até poderia te passar um sermão por ir dormir com um cara que você conhece a pouquíssimo tempo, mas não tenho nenhuma moral para isso. Talvez a outra retardada que está no seu quarto tenha mais capacidade para isso do que eu.
Oi? Quem estava no meu quarto? Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, uma toda descabelada e com cara de sono apareceu na sala.
- SUA MALUCA O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?
- Minha melhor amiga resolveu virar a vida dela de cabeça para baixo e eu não ia vir até aqui ver de perto?
Saí correndo para abraçar a minha amiga. E acabamos falando ao mesmo tempo.
- Mas e a Carolzinha? – eu.
- Por que você está cheirando a homem? – Ela.
Como sempre, começamos a rir. Que saudades eu estava da !
- É feriado prologando no Brasil, e seu irmão falou que dava conta de ficar com a Carol.
- Mas você ainda não está amamentando? Vê se cuida da minha sobrinha direito, !
- Calma! Ela já tem seis meses, . E deixei leite congelado. O Gustavo sabe cuidar dela melhor do que eu. Mas você ainda não me explicou. POR QUE VOCÊ ESTÁ CHEIRANDO A HOMEM?
Desviei meu olhar dela e senti que estava ficando vermelha.
- Eu dormi com o . - mordi o lábio e saí andando como uma criança travessa que tinha feito algo de errado.
Ela me olhou por uns segundos, até que não conseguiu segurar.
- Finalmente minha amiga deixou de ser sonsa!
Marie sentou no sofá e olhou sério para a gente.
- Será que vocês podem conversar em uma língua que eu entenda? Escutei um certo nome que também tenho interesse em saber o que aconteceu.
Eu ri e comecei a contar, em inglês, o que tinha acontecido, deixando de fora os detalhes e as coisas que ele havia me contado. Elas não precisavam saber disso. Era nosso. E esses pequenos detalhes, ninguém jamais poderia tirar da gente.

Era dia do primeiro jogo da seleção alemã, esse era contra a Inglaterra. A iria comigo, até porque a Marie disse que era para eu levá-la quando fosse ter chance de conhecer algum jogador, e não ficar no meio de uma multidão fanática. (palavras dela).
A esperta da minha melhor amiga, sabendo do calendário da seleção, trouxe a camisa que dei de presente para o meu irmão quando a Alemanha ganhou a Copa no Brasil. Ele tinha uma coleção de camisas de títulos internacionais, tanto dos clubes brasileiros quanto dos europeus e seleções. Eu não estava brincando quando disse que meu irmão era um viciado.
- O Gustavo deve estar muito bobo com a Carol se ele te deixou trazer essa camiseta.
- E quem disse que ele sabe que eu trouxe?
Comecei a rir da cara da minha amiga.
- Eu já falei que te amo?
- Sempre soube sua chata.
- Idiota. – mandei língua para ela.

Entramos no estádio e tanto eu quanto a estávamos impressionadas com o tamanho daquele lugar. Já tínhamos ido diversas vezes no Mineirão, e até no Maracanã e no Morumbi, mas eu não saberia descrever a sensação de estar naquele lugar. Era simplesmente enorme.
Iriamos ficar na área vip, e agradeci pela estar comigo. Não conhecia ninguém naquele lugar, e ela sabia quem era alguns dos outros privilegiados a estarem ali. Geralmente os ligados as seleções que iriam jogar. Ninguém veio falar com a gente. Os ingressos que me passou não foram questionados. Era sim um lugar privilegiado do campo. Não perderíamos um lance sequer.
Mas ainda assim nos destacávamos. Ela mais que eu. Parecia que ela estava junto de alguma torcida organizada, fantasiada com tudo que ela achou pela frente que tinha a bandeira da Alemanha. Eu apenas vestia uma calça jeans e a camiseta com o nome do meu namorado. Era estranho falar isso ainda. Namorado. Sorri.
- Por que a senhorita está com esse sorriso apaixonado aí, hein?
- Ah, , me deixa em paz.
- Não posso. Nasci para te encher o saco. - única explicação.
- Eu não acredito que isso tudo está acontecendo. Só isso.
- Calma, princesa. Seu conto de fadas demorou, mas chegou. Só aproveite.
E então as seleções entraram no campo e foram tocados os hinos. Iria começar a partida.

O resultado foi negativo para nossa seleção. Nem pensei na hipótese de encontrar com ele após o jogo, como havia prometido. Apenas mandei uma mensagem e fomos embora. Tinha certeza que terça seria diferente, e sabia que ele teria um trabalho duro pela frente.
E foi só então que, ao chegar em casa e a minha amiga desmoronar na minha cama, que tive tempo de começar a editar as fotos. Precisava entregar o trabalho na segunda e nem sequer tinha descarregado as fotos da câmera. Desde quando minha vida tinha ficado tão corrida?
Me lembrei da época da faculdade, e em como tudo era tão corrido quanto. Mas eu não tinha ninguém a dar satisfação além de minha família. Passava o fim de semana viajando de cidade a cidade cobrindo shows, escrevendo para o site e fazendo trabalhos. Concentrada nas minhas obrigações e sem querer deixar ninguém se aproximar.
Passei quatro anos sem ter um relacionamento que durasse mais de uma noite. O Gustavo já estava achando que eu iria morrer sozinha. A sempre disse que eu acharia alguém, em algum momento. Só não imaginava que ia ser a última pessoa no mundo que faria sentido, ou que seria tão longe de casa.
Casa. Pensar no Brasil como casa já não era mais a mesma coisa. Sentia falta dos meus pais, do meu irmão, da minha sobrinha que mal tive tempo de conhecer. Mas ao mesmo tempo, eu nunca tinha me sentido tão viva como agora. Tão feliz. E coincidentemente, era também o tempo que estava longe do site.
Há dias não tinha nenhuma notícia do que estava acontecendo. Nem da gravadora nem dos meus colegas. Eu nem sequer tinha aberto as redes sociais para ver as novidades. Me sentia livre longe de tudo aquilo. Talvez não fosse apenas o que tivesse que resolver o que fazer na próxima temporada.


Capítulo 08 - They don’t know about us


O jogo era contra a Itália. Ia ser um jogo difícil, mesmo que fosse apenas um amistoso. E depois do último resultado negativo, mal tive tempo de conversar com meu namorado. Ou ele estava no treino ou dormindo.
Mais uma vez a veio comigo. Estávamos na área vip que parecia mais lotada essa vez. Algumas pessoas vieram conversar com a gente, pois nos reconheceram do último jogo, mas deixei o nome de fora. Assim não fomos incomodadas.
Meu coração estava na boca. Acho que nunca fiquei tão nervosa antes. E, em uma cobrança de escanteio, ainda no primeiro tempo, Müller abriu o placar. A torcida explodiu. Mas então me lembrei que o último jogo também tinha começado bem.
No intervalo estava de 2 a 0 para a Alemanha. comemorava, gritava, xingava e elogiava alguns jogadores. Não sei como, mas ela aprendeu algumas palavras em alemão que eu tenho certeza que deveria ser algum palavrão, porque ela só soltava quando a Itália contra-atacava.
Mas então, aos 25 minutos do 2º tempo, veio o 3º gol. Hummels chutou a bola para Özil e este mandou direto para o gol, sem chance para o goleiro italiano. E então eu comecei a gritar e pular com a minha amiga. Faltavam poucos minutos e estávamos com 3 gols de vantagem.
olhou para a arquibancada em que estávamos, e tenho certeza que aquela piscadela discreta tinha sido para mim. Pisquei de volta e sorri. Logo depois ele foi substituído. A Alemanha voltara a trocar passes, apenas para gastar tempo. Mas um erro fez tudo desandar. Itália marcou um gol sem chance de defesa para Manuel Neuer. Voltei a ficar tensa.
O jogo parecia que iria ficar nos 3 a 1. Estávamos ganhando e isso era tudo. 3 minutos de acréscimos no cronômetro. E então, Schürrle sai do nada com a bola, e um chute que eu tinha certeza que era para fora, entra. Último lance do jogo. Torcida explode. Comissão técnica explode. Jogadores do banco invadem o campo e todos começam a comemorar. Eles vêm para perto da torcida.
— Oi. A gente ganhou.
— Oi. Eu assisti.
Não conseguíamos parar de sorrir um para o outro. Estávamos alheios do que estava acontecendo ao nosso redor, ao mesmo tempo que aquela nossa comemoração silenciosa fazia parte de todo o barulho do estádio.
— Olá. Você é um idiota, eu te odeio, mas conseguiu fazer minha amiga se apaixonar. Então obrigada, porque já tínhamos certeza que teríamos que cuidar dela como uma irmã mais velha da minha filha.
! — a função da minha melhor amiga deveria ser me fazer passar vergonha, só pode.
— Olá, você deve ser a melhor amiga. — falou segurando o riso.
One and only. Esquece aquela francesa metida a besta.
fez uma cara que não entendeu nada, e então lembrei que ele não conhecia a Marie.
— Você não conhece, lindo. É minha colega de quarto. E essa é a , a tal fanática por futebol e torcedora do BVB que te falei. — abracei a minha amiga pelos ombros.
— Ah, é com ela que eu tenho que limpar meu nome? — eu podia escutar a risada dele e o quanto estava se divertindo com essa situação.
— Exato. — acenei confirmando.
— Pera aí. Eu sou sua primeira amiga que ele está conhecendo? — Nós dois assentimos — Aprendeu direitinho . Parabéns.
— Amiga e cunhada. Certo? — questionou.
— Acho que ele está começando a me ganhar. — Nós três rimos. Tinha sido melhor do que achei que fosse ser.
se afastou para cumprimentar outros jogadores e conseguir autógrafos do . Alguém era só um pouco fã girl.
E em um impulso, não resistimos. me rouba um beijo na frente de todos. Dos colegas, da torcida e da mídia internacional. Acabou-se a nossa chance de passar despercebidos. Antes que a gente se afastasse, a cutuca meu braço.
— Acho melhor vocês se prepararem, a imprensa já está vindo para cá.
Ele olhou no fundo dos meus olhos quando percebeu que tinha feito besteira.
— Você está preparada?
Engoli seco e respondi a única coisa que poderia, mesmo sem saber se ainda estava certa sobre isso.
— A gente consegue lidar com isso.
— Ótimo. Porque nesse momento tudo que eu queria era mostrar para o mundo todo o quanto estou feliz.
E então me aproximei dele, o beijando de novo.

(...)

Outros jogadores se aproximaram da gente, e então eu conheci todo mundo. O primeiro que chegou foi , já que ele estava próximo conversando com a .
— Ah, então você é a namorada misteriosa.
— Misteriosa? Não estava sabendo disso não.
— Você não faz ideia de como esse moço aqui escondeu o ouro — Deu um tapinha de leve nas costas do amigo que fingiu gesto de dor.
— Justo você vai falar comigo sobre esconder o ouro, ? — provocou o amigo
— Ouch, não faz isso cara. A gente não precisa né? – E então saiu de perto. Fiquei sem entender, mas explicou.
— Quando ele começou a namorar a , demorou seis meses para contar. Evitava todas as festas e a gente começou a estranhar. Até que um dia, estávamos jogando na casa dele quando ela apareceu. Foi engraçado. — E apontou para uma loira muito bonita que estava com o amigo. De alguma forma, senti que já conhecia a moça de algum lugar, tinha certeza que poderíamos nos tornar grandes amigas.
Pouco depois Hummels apareceu do nosso lado.
— Então você é a .
— Nossa, então pelo menos para alguém ele falou de mim! — Fingi chateação.
— Privilégios de colegas de quarto. — E trocou um soco de mão com .
A apareceu logo em seguida também pedindo um autógrafo para Mats. Ela jamais perderia essa oportunidade. Para a sorte do meu irmão, a minha amiga o amava muito. Só conseguia imaginar como estava seu coração ao conhecer boa parte de seus ídolos.
— Meninas, por que vocês não descem para o gramado?
— É uma boa ideia! — concordou, fazendo um sinal para ver que a imprensa que tentava, sem sucesso, entrar na área vip. Com certeza minha foto estaria estampada em todos os jornais na manhã seguinte. E já era a minha chance de ficar fora da mídia.
Tudo que eu havia tentando fazer ao longo dos anos com o site fora jogado por água abaixo por causa de um beijo, mas por um motivo estranho, isso não me pareceu importante. Eu sabia quem eu era, e isso já bastava.
— Ainda bem que existem seguranças. — respirei aliviada. Mas não tanto.
Eu e a rapidamente fomos para o gramado junto com os demais familiares dos jogadores. Podolski chegou conversando em português com a gente. Ou pelo menos tentando.
— Olá. Como vai? Obrigado. — O sotaque era adorável, precisava admitir. Rimos do esforço.
— Para começar está bom. — elogiei.
— Aprendi algumas palavras na Copa, mas por algum motivo depois descobri que na verdade eram palavras impróprias para menores. — E apontou para o filho que estava escondido em suas pernas.
A logo abaixou para conversar com o menino, e só então lembrou que não falava alemão, apesar das tentativas durante o jogo.
O menino rapidamente foi até ela, e começou a conversar em um inglês quase perfeito. Essa coisa de instinto materno deveria ser sentido por todas as crianças, porque desde a gravidez, minha amiga que sempre teve receio com crianças, virou um ímã para elas. O garoto deveria ter uns 7 anos, mesma idade do meu primo. E enquanto minha amiga se entendia com quem tinha a mesma idade mental que ela, me puxou para um lado que tinha menos gente. A torcida já estava se dissipando, e estávamos apenas os jogadores, seus familiares e a comissão técnica.
— O que você acha de ir para uma festa depois daqui?
Ele olhou para mim com um olhar que suplicava por uma resposta afirmativa. Tinha aula na manhã seguinte, mas depois das emoções de hoje, e com a aqui, eu ia mesmo para a aula? A resposta estava mais do que na cara.
— Vou achar ótimo. Principalmente para ficar de olho em você com essas fangirls espalhadas por aí. — O abracei pela cintura enquanto ele ria, triscando o meu nariz no seu.
Uma das coisas que eu estava aprendendo a amar nele, era como que nossos corpos se encaixavam. Sua altura era perfeita para a minha. Apenas poucos centímetros mais alto, o que fazia com que abraçá-lo fosse uma das coisas mais maravilhosas do mundo. Me fazia sentir segura. E foi o que fiz, sem me importar que ele estava completamente suado. Ele estava lindo assim.


Nunca imaginei que teria uma garota como essa nos braços. Ou que ia apresentá-la para todos os meus amigos com tanto orgulho. Ou que ia ficar tão intrigado com um único ser humano. Olhar para a me fazia imaginar coisas. O que ela estava pensando? Qual seria sua próxima atitude? Onde que ela queria ir?
A cada minuto que passava eu me sentia mais próximo dela. Sentia que pertencia mais a ela. Queria saber tudo sobre a vida dela. Seus planos, seus sonhos. Queria que todos os desejos dela se realizasse. E vê-la ali, se misturando aos meus amigos, rindo, brincando, sendo ela, era a coisa mais fantástica que eu poderia observar na vida. Olhar como seus cabelos castanhos tinham um tom acobreado ao ser iluminado pela luz amarela da casa de Müller. Sua risada era o meu som favorito. Já sabia disso desde a primeira vez que a escutara rir. Poderia passar a noite toda admirando o seu jeito de ser. Mas todo conto de fadas tem seu fim, e é claro que aquela magia tinha que acabar em algum momento.
Meu celular havia sido esquecido na mochila. Estava com meus amigos e minha namorada, meus pais jamais me ligavam em dia de jogo. Havíamos saído do estádio direto para a casa de Müller, onde faríamos a nossa pequena festinha que eu havia pedido. Estava tudo certo. A cerveja gelada, as pessoas conversando. Até a amiga francesa da , Marie, havia aparecido. Provavelmente a primeira tinha mandado uma mensagem a convidando. Estava tudo bem, em paz. Até que não estava mais.
Um Marx todo vermelho entrou correndo na sala. Ao mesmo tempo, todo mundo se calou, e então eu percebi: estava ferrado. Completamente ferrado.
— Você pode me explicar o que são essas fotos que estão circulando pela internet? Acha que isso te ajuda de alguma forma?
Levei o maior susto. Primeiro porque nunca tinha visto Marx tão nervoso. Segundo porque ele nunca tinha sido antiprofissional, pelo menos não na frente de todo mundo.
Minha primeira reação foi olhar para a . Ela estava com os olhos cheios d’agua. Ele podia ter falado em alemão, mas ela já estava se acostumando com a língua e entendeu o que estava rolando. Droga, Marx. Tudo bem brigar comigo, mas não machuca a minha mulher.
— Calma, isso não tem nada haver com você.
— Claro que não. Sua imagem midiática já não está boa , você acha mesmo que levar qualquer uma para um jogo importante desses vai te fazer melhorar.
Nessa hora vi puxando a e a para o lado, as levando para um quarto. A agradeci silenciosamente. não precisava ver a cena que ia se formar no meio da sala de estar de Thomas Müller.
O lugar era amplo. Ele morava em uma casa que era quase um hotel fazenda. Sempre que nosso jogo era em Munique, fazíamos o after party na casa do atacante. Seu quintal dava para uma enorme pista de equitação e um celeiro. Fora que a própria casa era enorme. Um bar tão grande e tão variado quanto o de qualquer boate na cidade, e tinha uma coisa a mais: a privacidade. Éramos apenas o time, familiares e amigos extremamente próximos. Sem mídia, sem fãs.
A festa estava bem tranquila até aquele ponto. Hummels tinha assumido o bar, ele sempre gostara de organizar as bebidas. O lugar era muito bem iluminado, o que permitia que todos andassem sem tropeçar uns nos outros. Um grupo jogava algum jogo na TV de 75 polegadas. Outro jogava sinuca em outro canto, o bar tinha alguns solitários. E o nosso pequeno grupo que envolvia eu, a , , , Loiuse e Schürrle conversávamos sobre coisas do dia a dia. Tudo estava em paz. Até Mr. Marx invadir a festa sem ser convidado. Por um motivo que não fazia sentido.
— Primeiro lugar: Ela não é qualquer uma. Ela é a . Minha namorada e a partir de agora, vai ser tratada como tal em qualquer lugar. E segundo: a única pessoa que importa com o que a mídia fala sobre mim é você. E ultimamente eles andam inventando muitas coisas, me pergunto o porquê.
— Talvez porque você não esteja fazendo o seu trabalho?
Ele abriu os braços de forma extremamente exagerada. E foi então que eu percebi o quanto ele estava bêbado. E o quanto não estava fazendo o seu trabalho atualmente. Schweinsteiger, com a voz de capitão da DFB, chegou do meu lado para tentar controlar a situação, mas ainda assim eu continuei falando.
— Marx, você quer me tirar de um time onde estou bem para me levar para outro que não tenho interesse, sempre está vigiando os meus passos, e agora, só porque eu estou namorando alguém sem pedir sua opinião, você resolve fazer esse escândalo? Eu te contratei para tratar da minha vida profissional, não da pessoal.
— Você nem sabe o que está falando, garoto. Tem 23 anos e acha que sabe alguma coisa dessa vida. Você é uma figura pública e, como tal, deveria se comportar assim. Sua vida pessoal É parte da sua vida profissional.
Eu não aguentei. Sabia que ele não estava no juízo dele, e que na manhã seguinte eu me arrependeria completamente disso. Sem que percebesse, levantei meu braço o acertando em um soco. Com certeza amanhã isso estaria roxo.
Ele me olhou assustado, mas não permiti que falasse mais nada.
— Você está demitido. Amanhã eu passo na agência para cancelar o contrato.
— Você não pode sair da agência até o final da temporada.
— Mas posso trocar de agente. E para mim, você está demitido.
Dei as costas enquanto deixei Bastian e Thomas colocando Marx para fora. Estava tremendo. Odiava essa forma de adrenalina, a ocasionada por raiva. Meu punho doía pelo soco, e Mats chegou me oferecendo gelo que havia pegado do bar.
— Obrigado.
— Está mais calmo? — assenti. — Então vai falar com sua namorada. falou que ela não parou de chorar um segundo.
Será que eu nunca conseguiria fazer nada direito ao se tratar de relacionamentos?

Entrei no quarto para onde havia levado a . Ela estava sentada na cama chorando de soluçar. Sabia que ela tinha escutado toda aquela cena, e me senti pior ainda. A abraçava a amiga de forma protetora, conversava com ela explicando como que brigas nossas com os agentes era normal. Ela saberia, sempre teve problemas com agentes, até que encontrou o Henri e tudo se ajeitou. Alice Müller, como anfitriã da casa, oferecia um copo de água com açúcar a .
Se fosse fisicamente possível, meu coração teria se quebrado mil vezes com aquela cena. E, se eu tinha alguma chance de fazer a gostar de mim, ela tinha acabado ali. Ela jamais me perdoaria por isso.
Sem que eu percebesse, Thomas veio atrás de mim e fez sinal a esposa para que nos deixássemos a sós. Alice saiu do quarto, seguida por . ficou receosa, mas fez que estava tudo bem. Eles saíram e fecharam a porta. Eu sabia que dali para frente a festa tinha acabado. Apesar de escutar um murmurinho, a maioria das pessoas ali presentes estavam indo embora.
Estávamos no quarto de hóspedes. Uma pequena luminária era a origem de toda a luz que iluminava o ambiente. estava sentada na cama de casal, olhando para a enorme janela que dava para um céu escuro. A vista desse quarto pela manhã era sensacional, já havia ficado ali depois de outras festas. Algumas vezes sozinho, outras acompanhado. Mas apesar da simplicidade e beleza do local, me sentia completamente deslocado.
Aproximei da minha namorada, mas não tinha coragem de olhar em seus olhos. Ela observava a chuva cair na janela. Eu olhava para o chão. Não nos tocávamos, mas a energia que sempre fluía entre a gente estava lá. Ela tinha parado de soluçar, mas continuava chorando, apesar das tentativas de secar suas lágrimas.
— Me desculpa.
— Não foi culpa sua.
— Então por que eu estou sentindo que estraguei tudo?
Ela olhou para mim. E olhando no fundo dos meus olhos, revelou por que chorava.
— Não foi sua culpa. Depois que a me trouxe para cá, fui pesquisar as fotos que escutei seu agente citar. As coisas que a imprensa está falando sobre a gente. Descobriram o site, falaram que sou brasileira e estou sendo apenas oportunista. Apenas querendo dar um golpe, falando que o site perdeu visualizações e estou te usando para voltar na mídia. E...
A interrompi antes que ela pudesse falar qualquer outra asneira.
— Baby, não faça isso com você mesma. A gente não prometeu que não deixaríamos que nada que fosse publicado na mídia atingisse a gente? Sabemos da verdade, e isso que importa.
— Deixa eu terminar, . — Me assustei com o tom que ela usou, e não falaria mais nenhuma palavra até que ela tivesse concluído seu raciocínio. — Fui procurar as fotos. Não tem nada demais, e estava começando a achar que seria até bom. Não termos que nos esgueirar por aí. Mas então meu chefe me mandou um e-mail exigindo que eu voltasse essa semana para o Brasil, senão eu perderia meu site. Fiquei sem entender qual relação tinha uma coisa com a outra, mas ele não explicou. E eu não sei o que fazer.
Ela começou a chorar novamente, mas me deixou aproximar. A abracei e deixei que ela chorasse. Eu sabia que nada que eu dissesse poderia fazê-la se sentir melhor. Era como se alguém virasse para mim e dissesse que eu jamais poderia jogar futebol novamente.
— A pior parte, é que essa semana estava pensando o quanto estava bem longe do site. Mas uma coisa é eu sentir que precisava sair, outra é ele simplesmente tirar isso de mim.
— Mas talvez você deveria ir ao Brasil. Resolver e depois concluir seu curso.
— Não tem como. Esse curso que estou fazendo é anual. Falta duas semanas para concluir, não quero deixar pela metade. — Ela fez uma pausa — E aqui também tem você. Eu não quero ficar sem você.
Segurei seu rosto com as mãos, aproximando nossos lábios, mas sem tocá-los.
— Você não vai ficar sem mim.
E então a beijei como se essa fosse o nosso último beijo.

(...)

Acordei, mas não abri os olhos. Fiquei rezando para que a noite passada não tivesse passado de um pesadelo. Minha namorada não tem que ir para o outro lado do oceano sem saber se vai voltar. Meu agente não causou a maior cena em frente a todos os meus companheiros de seleção e familiares. Eu não o soquei. Não preciso lidar com nenhuma das consequências. Mas a dor na minha mão direita me mostrou que não adiantava ficar ali desejando que nada tivesse acontecido, porque tudo aconteceu.
Lentamente abri os olhos, e vi a ainda adormecida ao meu lado. Ela parecia tão calma. Tão serena. Sua pele clara fazia com que seus cabelos ficassem mais escuros batendo a luz do sol. Ela era linda, e eu tinha a sensação que não falava isso o suficiente para ela.
Depois que ela acalmou, viemos para o meu apartamento. Deixei que ela escolhesse e ela preferiu passar a noite comigo. E o que fizemos foi apenas conversar. Conversar sobre o futuro que não tínhamos ideia do que ia acontecer. E se antes eu tinha dúvidas do que eu queria para a minha vida, percebi que nada disso importava se ela não estivesse comigo. Se ela estivesse aqui para dividir a cama, a louça suja e as dúvidas, o resto se ajeita sozinho, mesmo quando parecia impossível. E foi a primeira vez que eu tive certeza. Eu amava essa mulher.


Se você soubesse que a sua vida ia virar de cabeça para baixo, você teria subido naquele avião? Teria andado até o outro lado do mundo apenas para encontrar algo que nem sequer sabia que estava procurando? Se, no momento em que você conheceu uma certa pessoa, você já soubesse que ele mudaria sua vida completamente, você teria falado aquele primeiro “oi”? O teria deixado se aproximar?
As coisas acontecem e não temos nenhum controle sobre elas. A vida de todo mundo é assim. Fazemos planos, criamos futuros, mas jamais temos certeza de que eles irão de fato acontecer, porque, de repente, sem avisar, tudo pode mudar. E aquilo que você sempre teve certeza, pode desaparecer completamente, e a única coisa que você sabe, é que você não sabe de nada.
Eu sempre fui uma pessoa que gosta de manter as coisas no controle. O famoso fazer acontecer. Mas desde que tinha embarcado para a Alemanha, tudo tinha saído das minhas expectativas. Jamais imaginara que iria conhecer em um parque, e muito menos que iria me apaixonar. Porque eu estava, completa e perdidamente apaixonada por esse homem.
Planejava finalizar meu curso, me despedir da minha família e voltar para o Brasil. Continuar a rotina de viajar de cidade a cidade cobrindo shows, escrevendo sobre artistas. Uma vez o Gustavo disse que eu sonhava muito pouco, e talvez ele tivesse razão. Talvez eu esteja parada agora onde estou, porque escutei o meu irmão. Foi ideia dele que eu viesse para cá.
Era um sábado à tarde e a estava dormindo. Assistíamos algum jogo da Champions League que nem sequer lembro quem estava em campo, muito menos se era um jogo ao vivo ou apenas uma reprise. No intervalo, ele me perguntou o que eu faria depois que formasse. E então travei. Não tinha ideia. Respondi o que me parecia lógico.
— Vou continuar escrevendo para o site, indo para shows. Talvez estudar um pouco mais sobre fotografia.
— Mas o que você quer fazer? Essas são coisas que você vai seguir com o que já tem hoje. Deve ter algo que você queira conquistar, .
— Na verdade não. Já tenho tudo que eu quero.
— Eu achava que você deveria viajar. Fazer algum curso fora do país. Além de agregar ao seu currículo, também vai fazer você ter outra visão de mundo.
Eu poderia ter ignorado aquela conversa, mas me perguntei: por que não?
Comecei a pesquisar diversos cursos de línguas e fotografia. Quando achei esse em Munique, pensei que era a minha melhor opção. Apesar de ter acomodação estudantil, teria família perto. Sempre fui muito ligada a família, e a ideia de ir sozinha para um país desconhecido me dava muito medo. Se fosse em outra época, poderia ter escolhido um outro lugar, onde meu irmão e possivelmente a , também iriam, porém eles resolveram adiantar a vida e tiveram a Carolzinha. Sem chance da viajar quase tendo o bebê, e com ela, as coisas só se complicariam mais ainda. Era minha hora de sair da casa dos meus pais e ir atrás de sei lá o que eu ia descobrir. E as coisas tinham se transformado de um jeito que eu não imaginaria nem nos meus melhores sonhos.
Se, seis meses atrás, tivessem me contado que eu estaria agora, deitada na cama de , eu ia dizer que a pessoa era meio maluca. Mas era a verdade. Aqui estava eu. Deitada na cama de . Em Munique, Alemanha. E vendo todo o meu trabalho fugir pelas minhas mãos, sem que eu pudesse fazer nada. Era o tipo de escolha que eu teria perda independentemente do que escolhesse.
Poderia voltar para o Brasil, retomar meu site. Era o mais lógico. Mas perderia o meu curso, teria ido até ali para nada. E eu sabia, por mais que ele jamais fosse admitir, que no momento em que eu entrasse no avião de volta para o Brasil, que e eu não teríamos um futuro. Não teríamos nada do que a gente pudesse ter construído. Seríamos um casinho de uma semana, e nada mais. Exatamente o oposto do que ele tinha dito a seu agente.
O sol entrava pela janela e aquecia a cama. Acordei com a luz, e aos poucos abri os olhos. Sabia que estava no apartamento dele. Já era a segunda vez que acordava ali. Estava começando a achar o ambiente familiar. A cama king size, que apesar do tamanho, era perfeita para nós dois, o espaço amplo do quarto, no qual provavelmente cabia o meu apartamento inteiro. A janela grande que deixava a luminosidade entrar de forma perfeita. A mesa com o notebook e alguns livros. O armário, que na verdade era a porta para um closet enorme, que dava para um outro espaço com suas chuteiras. Mas apesar de ser um ambiente completamente fora da minha realidade, eu nunca tinha me sentido tão em casa como me sentia ali.
Olhei para o lado e ele estava deitado me observando. Analisando toda e qualquer reação minha. E eu não podia amá-lo mais, ninguém nunca tinha prestado tanta atenção em mim como ele estava fazendo. Eu tinha parado de chorar em algum momento entre o caminho da casa do Müller e o apartamento de . Mas agora, a vontade tinha voltado. Não por causa dos acontecimentos da noite anterior, mas sim por causa das coisas que eu sabia que estavam por vir. E o que mais doía, era ficar sem ele.
Sem falar mais nenhuma palavra, afundei nos braços dele, que rapidamente me abraçou. Senti seus dedos fazendo cafuné e tive uma vontade enorme de ensinar para ele essa palavra que só existia na língua portuguesa.
— Cafuné.
— Hã?
Olhei em seus olhos, sem sair dos seus braços.
— Cafuné. É a palavra em português que significa fazer carinho na cabeça.
— Cafuné. Gostei. Eu acho que estou começando a gostar das palavras em português.
Ele sorriu.
— Bom dia.
— Bom dia, lindo.
— Eu já falei que eu amo essa palavra?
Voltei aos seus braços e então uma música me veio à cabeça. Levantei e fui pegar meu iPod na bolsa. Eu vestia apenas uma camisa velha dele, mas não tive vergonha de levantar e andar pelo quarto. Ele não me fazia ter vergonha de nada, pelo contrário, sentia que podia fazer e falar qualquer coisa que ele me entenderia. Era um sentimento que eu nunca tinha tido com nenhuma outra pessoa antes.
Voltei para a cama já colocando meu iPod e passando um fone para ele. Busquei rapidamente a música, e a melodia do A Day to Remember começou a tocar. “Don't say that it's not fair that you're not the person you wanna be you'll be the end of me”, será que seríamos isso? O final um do outro? Nossas vidas profissionais estavam se desandando e não tínhamos ideia do que fazer.
— Você está bem? — Perguntei para ele.
— Não sei. Só estou tentando assimilar tudo que está acontecendo. E estou me sentindo culpado por ter virado a sua vida de cabeça para baixo. Já não bastava não saber o que vai ser da minha.
— Ei, não foi culpa sua. Talvez esse fosse o ponta pé que eu estava procurando a vir para cá. Não sei o que vai ser do meu futuro com o site, mas já não estava me sentindo bem lá.
— Como assim? Você ama aquilo lá.
— Sim. Mas também nunca fiz outra coisa a não ser escrever para aquele site sobre um tema que me deixa na minha zona de conforto.
Ele segurou as minhas mãos e olhou dentro dos meus olhos de uma forma tão séria que a única pessoa que já tinha me olhado assim tinha sido meu irmão, no dia que me convenceu de vir até a Alemanha.
— E o que você quer fazer?
Fechei os olhos e não respondi. Eu sabia o que eu queria fazer? Acho que ainda não poderia ter essa resposta.
— Você quer ir até o Brasil essa semana?
— Não. Quero terminar meu curso e que o site se exploda! Sem mim eles não fazem ideia de como continuar, e eu não sei se quero voltar. Preciso acabar de escrever meu livro, sinto que vai ser como um fim desse período na minha vida, e então vou poder seguir em frente.
— Ótimo. Então temos por onde começar.
Sorri para ele, e ele sorriu de volta. Se aproximou e me beijou. Primeiro lentamente, e então fomos aprofundando o contato. E assim começou um dos melhores dias da minha vida, mesmo que eu ainda não soubesse disso.


Capítulo 09 - Reality sometimes knocks on the door


Depois de um bom tempo na cama, resolvemos que tínhamos que fazer algo produtivo do dia. Eu teria folga hoje, e como ela já tinha perdido a aula da manhã, resolveu que ficaria comigo. E talvez fosse isso que estávamos precisando. Um dia só nosso, longe de qualquer bagunça.
— O que você acha de ir andar de bicicleta?
Perguntei para ela enquanto tomávamos café. Cada um com sua vasilha de cereais sentados no tapete da sala e usando a mesinha de centro como apoio.
Ela me olhou sério e podia ter certeza que ia levar um soco.
— Você está falando sério ?
Dei de ombros.
— Claro que estou! Você não acha que 22 anos é uma idade boa para aprender a andar de bicicleta não?
— Não.
Me aproximei dela e ameacei começar a fazer cócegas.
— Vamos lá . Prometo que não deixo você cair.
— ISSO NÃO É O SUFICIENTE.
Então comecei a fazer cócegas nela e ela começou a xingar em português. Ah, a forma universal de dizer um palavrão.
— Sério , para.
Parei depois que ela suplicou mais algumas vezes. E então estávamos os dois, largados no chão da sala. Olhei em seus olhos, e aquele sentimento que só existia quando a olhava assim começou a borbulhar dentro de mim.
Paramos de rir, e a atmosfera que antes estava leve, começou a tomar um tom sério. Aproximei nossos lábios e senti suas mãos tocando a minha nuca.
Sentir seus dedos na minha pele eram uma das melhores sensações que já tinha experimentado. Me fazia arrepiar e sentir que precisava dela mais perto ainda. Eu sentia que nunca estava próximo o suficiente, que até o ar ao nosso redor era muito.
. — Ela sussurrou com uma voz rouca.
— Estou aqui.
Foi a vez dela de procurar meus olhos.
— Eu não quero ficar sem você. — Vi lágrimas se formando em seus olhos, e eu já tinha descoberto que a pior coisa para mim era vê-la chorar. Vê-la mal era pior do que perder de goleada, era pior do que ser expulso, era pior do que ficar no banco de reservas com seu time perdendo e não poder fazer nada. Eu aguentava tudo, menos vê-la chorar.
, você não vai ficar sem mim. A gente vai dar um jeito nisso tudo. Eu te prometo.
— Você é tão lindo.
— Lindo. — repeti a palavra que aprendi em seu idioma natal. — Você é tudo que eu sempre quis.
Então ela começou a se levantar, me afastando. E eu não tinha ideia do que tinha feito de errado.
Ela foi até o quarto e eu fiquei sentado no chão a observando andar pelo meu apartamento. A atmosfera que ela trazia para aquele lugar fazia ele se tornar o melhor do mundo.
Me levantei e fui atrás dela, parando na porta do quarto a observando recolher suas coisas.
, eu fiz alguma coisa errada?
— Não.
— Então o que foi?
Ela me olhou do outro lado do quarto.
— Eu não posso permitir me apaixonar por você assim. Eu sei que vou ter que voltar para o Brasil. Nós não temos futuro , então para que tentar.
Como ela podia falar assim?
Fui até ela e a segurei com firmeza, de forma que ela não pudesse se desvencilhar dos meus braços.
— Por que nós dois não teríamos futuro?
— Olha para a gente! Você é um jogador famoso e eu sou apenas uma garota em um país que mal sabe falar o idioma. Eu logo vou precisar ir para casa.
, eu sou um jogador que não tem ideia do que está para acontecer na carreira. E você é uma garota maravilhosa que tem a vida inteira pela frente. Um mundo cheio de possibilidades para escolher.
— Não é bem assim que funciona no mundo real. A gente tem que fabricar as nossas próprias oportunidades.
— E você vai. Nós dois vamos fazer isso juntos. Por favor, me permite fazer isso.
Percebi que ela começou a ceder e a puxei para meus braços, deixando um beijo em sua cabeça.
— A gente passa o dia junto hoje. Podemos fazer o que você quiser. Se no final do dia, você ainda quiser desistir de tudo, vou aceitar e seguir em frente. Mas não toma uma decisão sem que eu possa participar dela. Sem que eu possa lutar por você.
— Tudo bem. A gente pode tentar fazer isso. Mas antes, eu preciso passar na minha casa e trocar de roupa. — Ela levantou a camisa que tinha usado no dia anterior e começamos a rir.

Uma hora depois eu estava parado na porta do alojamento dela, a aguardando trocar de roupa. Já estava com duas bicicletas no porta malas do carro, e conhecia o lugar perfeito para irmos. No som tocava o CD novo do Justin Bieber, o único que nós dois havíamos concordado que era bom. Estranho pensar que era o único álbum que eu tinha que ela concordava que era bom. Será que ela estava certa e éramos mesmo tão diferentes assim?
Ela saiu na porta do alojamento vestindo uma calça legging preta, uma camiseta branca, um moletom da Adidas azul, um tênis de corrida colorido e o cabelo preso em um rabo de cavalo, carregando uma bolsa que poderia caber um guarda-roupa inteiro dentro. Sorri quando a vi entrando no carro.
— O que foi?
— Nada. Estou só te observando.
Ela abaixou a guarda e sorriu, me dando um selinho. Arranquei com o carro enquanto tocava “Sorry”, e ri quando ela começou a dançar.
— Você gosta mesmo do Bieber, né? — Ela olhou para mim arqueando uma sobrancelha.
— Nada. Esse álbum ficou muito bom, e essas músicas grudam na cabeça.
— Aham. Sei.
— Eu juro!
— Vou fingir que acredito em você.
— Idiota.
E então ela falou aquela palavra de novo. Estava começando a pensar se esse seu “idiota” não significava mais do que apenas uma irritação. Principalmente quando ele vinha seguido do sorriso mais bonito que eu já tinha visto na vida.

— Então , para onde você está me levando?
Já tínhamos saído da cidade e pegado uma estrada. Tinha uma trilha de bicicleta há 80 km de Munique, e como era dia de semana, sabia que estaria vazia.
— Tem um lugar que gosto bastante de pedalar fora da cidade.
— Não é nenhuma trilha no meio do mato não, né?
— Não. Fica tranquila. As trilhas aqui são asfaltadas e seguras.
Ficamos mais algum tempo em silêncio quando ela pegou algo da sua bolsa e começou a mexer no som do carro.
— Por mais que eu goste de Justin Bieber, acho que preciso te apresentar música de qualidade.
, se você colocar qualquer metal maluco nesse carro, você vai andando.
Ela me olhou com cara de brava, mas sabia que estava brincando. Aos poucos estava começando a perceber quando ela estava apenas brincando e quando o assunto era sério.
Conectou o iPod no som do carro e escutei um som que já tinha escutado várias vezes. Era uma das músicas mais tocadas da minha adolescência, e percebi que ela sentia o mesmo. E ali, no meio da estrada, fizemos a nossa primeira performance em conjunto cantando Numb do Linkin Park.
I've become so numb i can't feel you there become so tired so much more aware I'm becoming this all I want to do Is be more like me and be less like you


A trilha de fato era completamente diferente do que eu imaginava. No Brasil, sempre que falavam que ia fazer uma trilha de bike, significava ir para uma estrada de terra, muita sujeira e pouco equilíbrio. Eu nunca fui muito fã de bicicleta, e costumo falar que não sei andar apenas pelo motivo de que não tenho segurança para fazê-lo.
Quando era criança, é claro que tentei aprender. O Gustavo sempre pedalou, então ele me motivava a tentar. Mas eu caía e voltava para casa chorando com um joelho ou cotovelo ralado. Com o tempo, parei de tentar. Ele parou de me chamar, e eu me tornei uma adulta que não sabe andar de bicicleta. Ou pelo menos era melhor falar assim do que admitir que eu tinha era uma enorme dificuldade para fazer uma coisa tão idiota.
Estava com muito medo desse passeio que criou. Sabia que era um dos seus hobbys favoritos, havia lido isso em seu site oficial, e aceitar ir até ali já era algo completamente desafiador para mim. Na bolsa, eu havia levado um livro para aguardar no carro, caso eu conseguisse convencê-lo a não me levar, mas caso não desse certo, tinha um capacete rosa que peguei emprestado da Marie.
Mas é claro que, se eu me achava teimosa, era três vezes pior.
Ele pegou as duas bicicletas do porta malas e fomos empurrando até a entrada da trilha. De fato, era um local fechado, uma pista asfaltada e arborizada. Mas ainda assim era morro acima, com altos e baixos dos quais eu teria que fazer esforço se quisesse sair do lugar. E perder o meu medo de ficar em cima desse monstro de duas rodas.
— Qual é o seu nível de não saber andar de bicicleta?
Ele olhou para mim daquela forma que só ele sabia fazer, como se estivesse observando e fazendo anotações de todas as minhas reações. Como se eu fosse um ser fantástico ainda a ser descoberto e desvendado.
— Eu sei ficar em cima dela e começar a pedalar.
Ele arqueou a sobrancelhas e me olhou como se eu fosse maluca.
— Mas , não tem mais nenhum segredo além disso.
— É, só que logo em seguida eu tenho a tendência de cair. Ralando o joelho.
Ele sorriu e aquele sorriso me trazia calma. Talvez com ele do meu lado, eu pudesse fazer isso. , crianças de quatro anos sabiam andar de bicicleta, estava na hora de sair do berçário.
Montei na bicicleta e comecei a pedalar devagar. Ele veio correndo atrás de mim.
— Por que você está fazendo isso?
— Eu te prometi que não te deixaria cair. Vou te segurar.
No segundo que ele falou isso, me desequilibrei. Ele me segurou.
— Eu disse que te segurava.
Desci da bicicleta e olhei nos seus olhos um pouco assustada.
— Você consegue fazer isso , só precisa perder o medo. Você tem mais medo de falhar do que de fato da bicicleta. O que te acalma?
— Música.
Ele foi andando até o carro enquanto eu estava parada ao lado da bicicleta. O que ele estava fazendo?
Voltou com meu iPod e o headphone que estava no dia em que nos conhecemos.
— Coloca isso e tenta. Não tem trânsito aqui, não tem ninguém além de nós dois. É apenas você e o asfalto.
Liguei o iPod e começou a tocar Castle of Glass. Sempre gostei de fazer atividade física com essa música, apesar de já ter bastante tempo que nem sabia o que era entrar em uma academia.
Subi mais uma vez na bicicleta e comecei a pedalar. Aos poucos fui relaxando e admirando a paisagem ao meu redor. Já estávamos quase na primavera e o calor estava chegando. Não se via nenhuma nuvem no céu, e apesar da trilha ser morro a cima, a vista de Munique ao longe era maravilhosa.
vinha atrás de mim em sua própria bicicleta, e eu não tinha ideia de quando começara a pedalar sozinha, muito menos quando ele começou a me seguir. A sensação do vento no rosto era uma coisa maravilhosa, uma liberdade que nunca tinha experimentado antes. E por um bom tempo, não falamos nada. Era eu, minha música e a estrada na minha frente.

Depois de 40 minutos pedalando, chegamos a uma clareira que tinha a vista perfeita da cidade e região. Ali ventava, e apesar do esforço físico, estava começando a sentir um pouco de frio.
parou ao meu lado e por um tempo ficamos apenas observando a vista. Era lindo. Sem dúvida um dos lugares mais bonitos que eu já tinha visitado.
— O que você acha de um lanche? – Olhei para ele tentando entender onde teria comida no meio do nada e só então notei a mochila em suas costas.
— Como iríamos passar o dia fora, imaginei que trazer uma lanche fosse uma boa ideia.
— Nossa, melhor ideia que você já teve. Estou morrendo de fome.
Ele riu e estacionamos as nossas bicicletas no muro que dividia a trilha da clareira. O espaço era amplo e provavelmente usado para piqueniques. Ele pegou uma toalha branca na mochila e estendemos no chão.
— Branca?
— Algum problema? – Ele perguntou se sentando e puxando a mochila onde provavelmente estava o nosso almoço.
— Só estava me perguntando quem ia lavar.
— Eu mesmo. Anda , para de pensar demais e vamos comer. Tô azul de fome.
Eu realmente pensava demais. Pensava demais se estava fazendo a escolha certa, ou se sequer estava fazendo alguma escolha. Pensava demais o que significava esse homem ao meu lado. Ele vestia uma camiseta branca e shorts pretos, e eu estava começando a ter a mesma mania que ele de observar, porém, era apenas ele quem eu queria observar.
Ele não parecia ser de verdade. Essa vista não parecia ser de verdade. Nada disso podia ser real.
?
Olhei para ele assustada.
— Oi?
— Você escutou alguma coisa do que eu falei?
— Aham.
— Então o que você acha de pintar meu cabelo de rosa?
— Hã?
Ele começou a rir da minha cara, e só então eu entendi que ele estava brincando.
— Desculpa, estava admirando a vista e acho que me perdi nos pensamentos. Mas é sério essa coisa de pintar o cabelo de rosa?
— Lógico que não. — disse no meio de risadas.
— Ah, ainda bem!
— Então, como eu estava falando, temos sanduíche de geleia com pasta de amendoim – disse pegando dois embrulhos de dentro da mochila – e outro sanduíche de geleia com pasta de amendoim. Qual dos dois você vai querer?
Foi a minha vez de rir da cara dele.
— Ou seja, eu tenho muitas escolhas né?
— Claro. Você sempre pode escolher. — por um segundo, pensei se ele não estava falando em algo além de sanduíches.
Ele me passou um dos sanduíches e comemos em silêncio enquanto observávamos a vista.
— Da para ver o Allianz Arena daqui. — comentou procurando o estádio com o olhar.
— Onde?
Ele apontou a direção e só então percebi a dimensão do estádio.
— É enorme. Ainda não tinha me dado conta disso, apesar de ter ido naquele jogo.
— Sim. É incrível como tudo ao longe parece maior, ou menor dependendo do ponto de vista. – Percebi que ele não estava falando sobre o estádio mais. – A gente pode fazer isso . Não estou dizendo que vai ser fácil, mas também não é impossível.
, por favor. Não fala nada. A gente prometeu que íamos nos dar o dia longe de tudo. Vamos fazer isso. Amanhã é um outro dia.
Ele não falou mais nada e se aproximou de mim, me abraçando. E ficamos assim, abraçados em silêncio, apenas sentindo o vento no topo da montanha e vendo a cidade de Munique ao longe. Tudo parecia tão distante dali, tão impossível. Ele era real. Eu era real. E o resto do mundo, era completamente alheio a nós dois.

O silêncio entre a gente era uma coisa maravilhosa, e eu costumava odiar o silêncio. Descemos o morro conversando sobre coisas bobas da vida, música favorita, cor favorita, filme favorito. Um pouco sobre família, e sobre escola. Tínhamos vivido duas realidades muito diferentes, e esse choque era maravilhoso. Sempre amei a diversidade.
Agora já estava escuro, e voltávamos para Munique. No som tocava bem baixinho um álbum do Lady Antebellum que eu nem sequer estava prestando atenção. Mas o nosso silêncio era agradável. Me fazia sentir em paz, em casa, ou qualquer outro sentimento de tranquilidade que fosse possível descrever. Apesar de ter certeza que amanhã não sentiria minhas pernas.
Resolvi pegar o meu celular. Havíamos desligado para nos desconectar do resto do mundo no momento em que deixamos meu alojamento, mas eu sabia que não poderia ignorar para sempre a existência de outros seres humanos, principalmente porque tinha deixado a sozinha com a Marie desde a noite anterior. Estava com medo do que me esperava em casa. Mas foi apenas quando abri meu celular que percebi que o problema era muito maior do que eu imaginava.
[]: , abre seu e-mail. Ou melhor não. Chega em casa primeiro, temos muito que conversar.
Pensei em abrir logo o e-mail, mas vi uma mensagem do Gustavo. Eu já imaginava que ele iria ficar chateado comigo, mas não imaginava nunca que ia ser tão grosso.
[Gustavo]: Obrigado por me contar que você está saindo com um jogador de futebol. Custava pelo menos falar “Oi Guga, sabe o ? A gente tá junto”. O problema não é estar com ele, mas sim não ter me contado e eu ter descoberto só pela mídia internacional. Esperava mais de você, .
— Mídia internacional? — falei baixinho sem entender, atraindo a atenção de .
— O que foi?
— Não sei direito, mas a e o meu irmão me mandaram mensagens sobre mídia internacional e…
Foi então que eu vi. A notícia estampada nas páginas de fofoca: “ com nova namorada?”
Nunca imaginei que meu irmão fosse ficar tão chateado. Sei que poderia ter falado com ele, e não queria que ele tivesse descoberto pela mídia internacional. Por que eu sempre escuto a sendo que quando se trata do Gustavo, eu deveria conhecê-lo melhor?
Senti meus olhos arderem. Não poderia começar a chorar, não por esse motivo. Ele é meu irmão, sei que assim que ligar para ele a gente fica bem. Só que eu odeio quando as pessoas brigam comigo, principalmente quando é alguém que eu amo.
Fiquei tão chateada que nem lembrei de olhar o e-mail que a falou. Era melhor guardar o celular e esperar chegar em casa. Sabíamos que teríamos que lidar com as consequências, e elas haviam chegado. Não poderíamos fugir para sempre.
— Hã? – tirou a mão do volante e segurou a minha.
— Meu irmão ficou sabendo da gente. Mas tudo bem, depois converso com ele.
Ele desviou o olhar da estrada por alguns segundos apenas para checar se eu estava chorando ou se era apenas a minha voz que estava trêmula. Talvez eu não tenha conseguido segurar as lágrimas como deveria.
— Mas era para ser algum segredo?
— Não. Só não queria que ele tivesse descoberto assim. A falou para não contar para ele até ter certeza de alguma coisa, mas acho que a mídia internacional foi mais rápida.
— Olha, não conheço seu irmão, mas tenho experiência o suficiente com o meu para saber que a raiva sempre passa. Se quiser ligar para ele, vou fingir que não estou aqui.
— Tudo bem. Chegando em casa eu falo com ele. A também me mandou uma mensagem estranha. Ainda bem que a minha amiga está aqui. – suspirei e ele voltou a mão para o volante.


A deixei em casa sem querer de fato deixá-la. Propus voltar para meu apartamento, apesar de já saber que ela negaria. Fiquei mal por precisar ir embora, mas ela precisava resolver os problemas dela. E eu sabia que precisaria resolver os meus.
Não tive coragem de pegar meu celular. Tinha medo de todas as mensagens que estariam ali. De todos os links de matérias que meus amigos iam me mandar, das mensagens de ódio deixadas por Marx. Não queria falar com ninguém, mas sabia que as coisas precisavam ser resolvidas.
A não seria um problema como meu ex-agente tinha dito que seria. Nosso relacionamento infelizmente a afetava mais do que a mim. E por isso, eu sabia que precisaria estar presente para ela. Jamais queria ver ela desabar de novo como havia visto na noite anterior. Noite essa que parecia ter sido meses atrás, não há apenas 24 horas.
Cheguei em casa e me joguei no sofá, só então tive coragem de olhar o celular. 3450 mensagens no WhatsApp. 1530 mentions no Twitter. E ainda bem que não conferia os comentários do Facebook, e muito menos tinha atualizado meu Instagram.
Abri o WhatsApp. Não era meu normal sumir por um dia inteiro, e sabia que algumas pessoas estariam de fato preocupadas, como meus pais, irmãos e amigos. O primeiro da lista era , e sua mensagem era mais um conselho de amigo do que um puxão de orelha.
[]: , não ligue para o que a imprensa está falando. Nem sequer abra os jornais. Já liguei para o Henri e amanhã ele pode te encontrar e ajudar a resolver tudo. Por minha conta, não se preocupa com seu contrato. Se a quiser, convida ela para a reunião. Acredito que também vá ser importante para ela. O que vocês precisarem pode me chamar. também já se dispôs a ir até Munique encontrar com a . Passa o contato para ela.
[]: Obrigado bro. Pode deixar, vou passar o contato para a . Não olhei nenhum jornal ainda, e só pela sua mensagem, acho que vou deixar para olhar amanhã. Tivemos um dia tão mágico que parece absurdo que alguma coisa possa destruí-lo. Mas infelizmente a realidade às vezes bate na porta né?
Achei que ele não fosse responder, mas meu amigo jamais me decepcionava.
[]: Se segura aí. Agora parece que estão entrando em uma turbulência, mas vai dar tudo certo. Confia nisso.
Mandei uma mensagem no grupo da família que estava bem, mesmo sem ler nenhuma das mensagens. Realmente não queria saber o que tinha acontecido. Lá estava eu adiando novamente. Postergando ao máximo todos os problemas.
Tomei um banho só pensando no sorriso da . Em como ela parecia tão serena no alto da montanha. Ela era linda, e não fazia ideia da sua beleza. Ela não fazia nada para ser tão linda. L-I-N-D-O. Essa palavra que eu tinha aprendido a dar um significado completamente diferente.
Adormeci ainda pensando no seu sorriso. Não era atoa que todas as músicas sobre o amor conseguissem ser tão mágicas. É, talvez eu de fato esteja apaixonado.

O campo estava lotado. Era como o final da copa do mundo. Todo mundo havia descido para o gramado e a multidão comemorava o resultado do jogo. Eu não sabia qual era o resultado do jogo.
Andei a procura da , ou de qualquer conhecido meu. Tínhamos ganhado, mas não conseguia enxergar nenhum amigo. Nenhum companheiro de time, e nem sequer a comissão técnica.
O barulho foi aumentando, e o que começou com o som de uma multidão, começava a se transformar em ruído agudo. Meus ouvidos começaram a doer, e eu não conseguia sair do lugar. Minhas pernas cederam e me obriguei a deitar no meio do campo, rodeado de estranhos.
Ao longe escutei a voz da me chamando. Mas era mais que um chamado, era um grito, um pedido de ajuda. Olhei em volta a procurar de forças para me levantar e ir até ela, me arrastando aos poucos no chão em direção a sua voz.
Mas então percebi que todos me encaravam e cochichavam, claramente conversando sobre mim. E eu não sabia como eles estavam me encarando. Eles não tinham rostos. Eles não tinham faces. Eram apenas o contorno de onde deveria ter olhos, bocas e narizes.

Acordei assustado mais uma vez. Meu coração estava disparado e tentei recuperar o fôlego.
Enquanto ainda não tinha tomado consciência da realidade, meu celular apitou. Tinha deixado do lado da cama caso a mandasse alguma mensagem, e era justamente ela quem me chamava. Uma mensagem que, se fosse fisicamente possível, teria rasgado meu coração ao meio. E apesar de ir contra a biologia, a dor era extremamente real.
[]: Desculpa, eu não posso fazer isso.


Capítulo 10 - Apart


, como assim você passa o dia inteiro sem celular? Você tem noção da repercussão daquelas fotos?
Essa era a . Direta, sem se preocupar se eu estava bem. O sorriso que estava no rosto ao me despedir do meu namorado foi embora com menos de 2 minutos que eu entrara em casa.
, calma. Me conta o que está acontecendo, porque eu tive o dia mais mágico da minha vida, e no momento que resolvemos voltar para a realidade, recebo uma mensagem do Gustavo que me deixou extremamente confusa.
— É, ainda tem essa coisa do Gustavo...
— Fala logo, .— Precisei gritar para ela me ouvir.
— Abre uma página de jornal. Qualquer uma.
Peguei meu celular e abri no Bild, desde que comecei meu curso estava lendo esse jornal por indicação de um professor. Mas me assustei com a matéria. A manchete até que era o esperado, algo como “ com uma nova namorada: e ela é brasileira”, mas resolvi ler a matéria.
Ao estudar comunicação, a gente aprende que a mídia nem sempre reproduz a realidade. Conhecemos o conceito de sensacionalismo, aprendemos a odiá-lo, a não reproduzir discursos, mesmo sabendo que no mercado de trabalho as coisas não são tão utópicas. Mas tem uma coisa que não é ensinada na universidade: como lidar quando você é o assunto de uma matéria sensacionalista.
está nas notícias do ano. Não fazendo uma boa temporada pelo Bayern de Munique, o autor do gol do título alemão aparentemente pegou gosto pelas coisas brasileiras. Ele foi visto com a nova namorada no final do último jogo da seleção alemã, que saiu vitoriosa sobre a Itália por 2 a 0.
A garota também não é uma desconhecida da mídia. Ela é blogueira, e trabalha em um site especializado em música no seu país natal. A redação conseguiu entrar em contato com o dono do site pelo qual ela trabalha, o Mr. Meirelles, que confirmou o relacionamento do casal. ““A é uma garota inteligente, tem influências, então sim, eles estão juntos”.”
O quê? Eu tinha mesmo lido isso??
, me segura, porque estou quase indo a pé para o Brasil dar um soco na cara desse otário.
Ela olhou assustada para mim.
, calma. Essa foi apenas uma declaração.
— Sim, uma declaração que está em toda a mídia internacional. Todo mundo deve estar achando que eu sou uma oferecida que resolveu se aproveitar da fama dele. Ai, ! A situação dele já está complicada por causa do time, e sem ideia de onde ir na próxima temporada. Não posso fazer isso com ele. Fora que você leu o que o Meirelles disse. Se eu não voltar ao Brasil essa semana, ele vai me tirar o site. Eu nem sequer estava planejando mais voltar ao Brasil... E o Gustavo? Com certeza ele está achando que o Meirelles sabe mais da minha vida pessoal do que ele.
— Mas esse problema é fácil de resolver – ela me entregou o telefone que eu tinha jogado com raiva no tapete – liga para o Guga. Vocês já passaram por coisas piores.
Ela tinha razão. Eu e o Guga éramos inseparáveis desde o útero. Não seria uma declaração de um aproveitador, até porque era o Meirelles quem estava tentando tirar alguma vantagem do meu relacionamento. O que ele acha que vai conseguir? Entradas para salas vips de artistas? Talvez esse tenha sido o sinal que eu precisava para tomar uma decisão. Talvez seja a hora de dizer adeus ao My Songs, My Life. Talvez, fosse a hora de começar a buscar um trabalho que me permitisse ser feliz, e isso incluía ficar com meu namorado.
Mas em primeiro lugar, o Gustavo.
Peguei o celular tremendo. me deixou sozinha na sala, mesmo sabendo que descobriria todo o conteúdo da conversa. Nós dois precisávamos de espaço, e eu me sentia muito distante dele para ficar bem.
Gustavo atendeu no terceiro toque. Ele não falou nada, mas eu podia escutar a sua respiração.
— Antes que você fale qualquer coisa, vou deixar algo bem claro: não te contei nada porque queria ter uma certeza do que estava acontecendo, se não era apenas um casinho que logo teria um fim. E, eu não sei o que o Meirelles está falando, porque não converso com ele desde que saí do Brasil.
, eu não queria ter descoberto assim.” A voz do meu irmão estava dura, ele claramente estava chateado, mas como a tinha dito, já tínhamos passado por coisas muito piores.
— Eu sei. Me desculpe. Não foi de propósito, muito pelo contrário. Estávamos tomando cuidado para deixar isso o mais secreto possível.
“Claro, aí vocês se pegam no final de um jogo que estava sendo televisionado mundialmente.” Ele tinha razão em estar chateado. Tinha razão pela bronca e, para ser sincera, até mesmo já tinha esquecido desse deslize.
— Gustavo, me deixa terminar de falar!
Ele ficou em silêncio novamente, e eu podia sentir sua raiva pelo telefone.
— Eu ia te contar assim que tivesse uma chance de conversar com calma. Você não tem ideia da confusão que está aqui. está sofrendo pressão do agente dele para decidir a próxima temporada. O cara chegou a aprontar o maior escândalo na festa pós jogo, e eu não duvido que tenha sido ele a entrar em contato com o Meirelles para fazer aquela declaração. Fiquei feliz que eles pelo menos não te envolveram...
, eles me envolveram sim! Você sabe o que é ser acordado às 5 da manhã por uma jornalista que não fala a mesma língua que você e pedindo uma declaração sobre um relacionamento que você nem sequer sabia da existência? ”
Ele parou para respirar, e foi a minha vez que não ter o que falar.
“Eu só não queria ter sido pego despreparado. E a respeito do , se a está aceitando isso e ainda não teve nenhum instinto homicida, ele deve ser um bom rapaz. Fico feliz que minha irmãzinha esteja feliz”.
— Irmãzinha é uma ova Gustavo, você é apenas três minutos mais velho que eu. Cala a boca!
Ele riu, e por consequência eu ri também. Que saudades eu estava do meu irmão.
“Fica bem pequena, e vê se volta para o Brasil pelo menos para conhecer sua sobrinha tá? ”
— Prometo não ficar aqui direto. Em algum momento irei para o Brasil. Tenho alguns assuntos inacabados que preciso concluir.
“Espero que você saiba o que esteja fazendo. ”
— Somos dois então. — O que era a mais pura verdade. No fundo, eu não tinha ideia do que estava fazendo e se daria certo, só poderia torcer para que o melhor de fato acontecesse.

(...)

— Está tudo bem?
Sorri para minha amiga.
— Agora sim.
— Ótimo. — ela trouxe o notebook no colo, e me mostrou o tal e-mail que eu ainda não tinha aberto. — , eu pensei em excluir, mas acho que você precisa ler.
E então eu vi. Deveria ter pelo menos umas 200 mensagens com mensagens que variavam de me chamar de oferecida, a xingando o . Me assustei com tantas mensagens de ódio. Comecei a ler algumas.
“Brasileira? Com uma pele tão branca assim eu duvido. Garota, larga meu homem, nem bunda você tem.” E essa era uma das que não tinham palavrão. Nunca achei que fosse ler tantas mensagens de ódio. Não queria mais ler aquilo. Não conseguia.
Lidar com a mídia era uma coisa. Eles sempre inventavam, aumentavam os fatos, distorciam falas, ampliavam imagens. Nunca revelavam tudo que acontecia. Isso era possível. Mas se estar com significava receber e-mails desse tipo, eu não sabia se poderia fazer isso.
Por impulso, um enviei uma mensagem para ele. No segundo seguinte, comecei a chorar. O que eu estava fazendo?
[]: Desculpa, eu não posso fazer isso.


Não sabia como tinha ido dormir. Muito menos que horas eram. Ou o que quer que tenha acontecido na noite anterior. Parecia um sonho, ou melhor, um pesadelo. O que a queria dizer com o “não posso fazer isso? ”. E ainda tinha as matérias que me pediu para não abrir. O que tinham nas matérias?
As milhares de mensagens continuavam no meu celular. Meu irmão mandou uma perguntando o que eu tinha feito com o Marx, fiquei sem entender então resolvi contar para ele o ocorrido.
[]: Ele invadiu a festa pós jogo e começou a falar que minha namorada ia estragar minha carreira. Como se já não bastasse eu estar recebendo atenção demais da mídia.
[Fabian]: Mas ele pode não estar errado. Por um acaso você já leu as matérias que estão circulando por aí?
Mais uma vez essas matérias.
[]: Ainda não.
[Fabian]: Eu estou indo para aí. Não leia sozinho. O Henri vai encontrar a gente na sua casa também, me falou do combinado.
Então eu comecei a pensar na mensagem da . Será que sua reação seria o motivo pelo qual meu irmão e meu melhor amigo estivessem conversando pelas minhas costas? Eu não iria esperá-los.
Abri o site do Bild, e li a matéria. Quem era esse Meirelles? Segundo a reportagem era o chefe da . Mas por que o chefe da estaria dando entrevistas sobre a vida pessoal dela? Será que tinha sido por isso que ela mandou aquela mensagem?
Tentei ligar para ela. Sentei no sofá e comecei a tremer. Nunca fiquei tão nervoso para fazer uma ligação, mas também nunca tinha me importado com alguém tanto quanto me importo com essa garota.
Ela não atendeu na primeira tentativa. Liguei de novo.
Fui ignorado em todas as 5 tentativas. Resolvi mandar uma mensagem. Não poderia deixar ela mandar aquilo e simplesmente sumir.
[]: , o que foi que aconteceu?
Não obtive resposta, apesar de ter visto os dois tracinhos azuis mostrando que ela visualizou.
Quis jogar o celular na parede. Não me sentia bem, uma falta de ar que parecia que eu tinha corrido pelo menos 500 km. E quando achei que fosse explodir, a campainha tocou.
Logo pensei que seria a . Ela não tinha me atendido para vir até aqui. Porém, eu não tinha tanta sorte. Abri a porta e me deparei com o meu irmão mais velho.
— Ah, é você.
— Eu te avisei que estava vindo.
— Verdade.
, vem, vamos conversar. — Ele fechou a porta do meu apartamento enquanto eu voltava a me jogar no sofá. — Em primeiro lugar, você comeu alguma coisa hoje?
— Não.
— Você sabe que tem treino à tarde, não é?
— Sei.
Eram 11 da manhã. O treino começava às 2 da tarde. Minha vontade de sair do meu apartamento e ver qualquer pessoa que não fosse a estava quase zero.
— Toma, come isso.
Fabian me entregou um pote com iogurte e aveia. Café da manhã dos campeões. Só que não. Era basicamente a única coisa que tinha na geladeira.
Ele se sentou no meu lado enquanto eu fingia que comia.
, você abriu suas redes sociais?
Rapidamente peguei meu celular. De fato, não tinha aberto nada desde a manhã anterior, quando havia saído com a .
Manhã anterior. Como que a vida da gente pode sair de uma estado de felicidade para um completo abismo em apenas 24 horas? Isso não parecia ser real.
Estava no piloto automático, então apenas fiz o que Fabian mandou.
Abri primeiro o Twitter. Aos poucos fui acordando e ficando em alerta, sem acreditar no que estava lendo. Milhares de mensagens de ódio para a . Como que o ser humano conseguia ser tão idiota? Essas pessoas nem sequer me conheciam, e falavam cada absurdo.
Se não bastasse o número de tweets, também tinha conteúdos iguais no Facebook e Instagram. Qual era o problema dessa gente que não podia ver ninguém feliz que já vinha perturbar? Eu estava acostumado a lidar com ódio de torcedor, cada um pedindo para eu ir para um time como se eles fossem decidir qualquer coisa por mim. Sério, às vezes eu me surpreendia em quanto o ser humano podia ser sem noção.
Agora tudo fazia sentido na mensagem da . Não era a gente que ela não conseguiria lidar, eram com as mensagens de ódio. Com as críticas de graça vindas de pessoas que não nos conhecia. Liguei para ela de novo, e passaria o dia tentando se ela não me atendesse. Iria até o dormitório, procuraria a . Eu não iria desistir dela assim tão facilmente.
Em algum momento que eu não fazia ideia quando, Henri chegou. E tinha sido ele a tirar o celular das minhas mãos.
, você não vai resolver nada assim.
Me assustei ao ouvir a sua voz. E só então me lembrei que o tinha enviado ele até aqui. Não confiava mais no Marx e não poderia sair da agência antes do final da temporada. Não tinha ninguém com quem lidar com essa crise, e então o Henri estava ali.
— A gente precisa pensar em uma estratégia para contornar a mídia, fãs raivosas vão aparecer em todos os lugares. Para a sorte de vocês, suas redes são todas ou profissionais ou privadas. E sim, vamos conversar com a , porém não acho que você seja a pessoa indicada para chegar até ela.
Como assim eu não deveria falar com a minha namorada?
— Se não eu, quem então?




Continua...



Nota da autora: Se não a PP então quem??? Me contem as teorias! Quem leu a primeira versão, shiiii... HAHAHA Venham me contar o que vocês estão achando de HOME!



Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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