Perfeita Simetria
Última atualização: 28/10/2018

Prólogo

A terra batida já era uma velha conhecida. Chegar em casa cheio de lama e ter que ir direto para o banho era algo familiar a ele. Já tinha perdido as contas de quantas chuteiras tinham ido direto para o lixo desde que começara a jogar bola, com uns 4 anos de idade.
Mas ele não desistia do sonho.
Muitos diziam que o Jequitibá Futebol Clube era o fim de uma carreira que nem tinha começado, mas não para ele. Ele acreditava que aquilo era apenas um início. Ainda iria conquistar o mundo.
E era exatamente isso que ele pensava quando colocou a bola no chão para bater o pênalti. Ele não estava preocupado com aquele jogo, era apenas mais um de muitos.
Quando a bola entrou dentro da rede rasgada e saiu rodando para a torcida, ele não viu seus companheiros de time correndo, quando se deu conta, estava no chão.
Tinham ganhado a copinha, nome carinhoso que davam para aquele campeonato regional no sul de Minas Gerais. São Bento do Jequitibá era uma cidade pequena, pouco mais de 12 mil habitantes, mas tinha um time de futebol.
Naquele ano, o Jequitibá Futebol Clube jogaria a série C. E ele queria subir mais na tabela, nem que para isso precisasse carregar o time nas costas.
Futebol era um esporte em equipe, mas todo mundo precisava dar o máximo de esforço individual para conquistar seu espaço, principalmente quando jogava em um time tão pequeno.
E sabia que aquele ano seria uma mudança em toda a sua vida. Era a oportunidade que ele tinha de ser notado e se mudar para o Rio de Janeiro. Mas o que ele não sabia, era que futebol lhe traria a menor de todas as mudanças.


1.

A música estava alta na frente daquela casa toda ornamentada para um aniversário. Os balões na porta, a faixa de parabéns e as mesas com cadeiras espalhadas pelo quintal. não fazia ideia de quem era a aniversariante, ele só sabia que o tio tinha lhe obrigado a ir.
Maldita hora que ele não tinha tirado carteira quando teve oportunidade, agora dependia de carona dos outros. E, naquele dia, precisava que alguém o levasse para a concentração do Jequitibá F. C. pois sairiam logo cedo para um jogo em outra cidade.
O técnico, Gerson Soares, era um senhor de 50 anos de idade que acreditava nos seus garotos. E, por este motivo, ele havia tirado do próprio bolso um andar no único hotel em São Bento do Jequitibá para que os jogadores começassem o campeonato com uma concentração digna de um grande clube, mesmo que o JFC não tivesse caixa para esse tipo de gracinha e que seu salário fosse complementado com a venda de pães feitos pela esposa.
já deveria estar no hotel. O horário marcado tinha sido às 19h, mas com toda a sua bagagem, ele dependia de alguém para levá-lo. Sabia que escutaria a bronca do técnico por chegar tarde, mas não tinha como não passar por aquela festa.
Seu tio tinha dito que a aniversariante era afilhada dele, e, por isso, ele precisava levar um presentinho e dar um abraço na moça. se perguntava por que nunca tinha conhecido a menina, uma vez que os tios eram a única família que ele tinha.
A menina estava fazendo 23 anos, apenas três menos que e ainda assim ele se sentia tão velho.
26 anos já era muito para um jogador que ainda sonhava em ser contratado por algum time da série A. Ele já deveria ter desistido há um tempo, mas tinha aprendido com sua mãe a não desistir e ele iria honrar a memória dela.
A mãe de o tinha deixado quando ele tinha 18 anos. Um caminhão pegou o carro que seus pais estavam quando eles voltavam da capital para São Bento. Talvez fosse por isso que ele odiasse tanto pegar estrada, mesmo que vivesse viajando por causa do futebol. Alberto morrera na hora, mas Marília ainda foi para o hospital onde teve uma sobrevida da qual o filho pôde se despedir. Ele ainda se lembrava das últimas palavras de sua mãe:
— Filho, na vida a gente é testado o tempo inteiro. Muitas pessoas vão querer nos ver mal e sempre seremos colocados em situações desagradáveis. Nossos sonhos às vezes demoram a acontecer e muitos dias, eles parecem impossíveis. Mas você não pode desistir. Se agarre a eles e seja feliz.
E pensando exatamente nisso, fechou os olhos antes de ser arrastado para porta adentro daquela casa. Ele não conhecia ninguém ali além dos tios. Sua mochila com os uniformes e chuteiras haviam ficado no porta-malas do carro e ele só rezava para que ninguém mexesse no gol 2001 que o tio tinha.
A festa era simples. Uma decoração azulada na mesa de doces, um bolo de chocolate e diversas mesas espalhadas pelo salão. As pessoas conversavam animadamente e um alto-falante que tocava os últimos sucessos das rádios brasileiras deixavam o ambiente ainda mais aconchegante.
Fazia muito tempo desde que não ia a uma festa de aniversário sem ser dos colegas de time e, ainda assim, geralmente eram comemorados no único bar que ficava no centro da cidade.
Seu tio lhe tirou do seu devaneio para lhe apresentar a aniversariante. Era uma menina morena, baixinha, que vestia uma saia preta rodada e uma camiseta rosa com algum desenho que não ficou prestando atenção. O sorriso dela era lindo, na verdade, ela era toda linda. Mas como sempre, tentou não prestar atenção.
, essa é , a aniversariante. — Seu tio apertou o seu ombro como um alerta para ser educado.
— Oi. Feliz aniversário! — falou dando um beijinho no rosto da moça, tentando fingir que não queria estar ali de jeito nenhum.
— Obrigada! Fique à vontade e divirta-se. — E, da mesma forma que ela tinha aparecido, ela se afastou, indo em direção a uma mesa cheia de mulheres. suspeitou que fossem as amigas dela.
— Filho, vou atrás da sua tia. Você vai ficar bem? — olhou novamente para a direção que tinha ido e apenas assentiu para o tio.
A aniversariante desapareceu do seu campo de visão, mas não se importou. Andou até a mesa que ela tinha ido antes, observando o rosto das três garotas que conversavam animadamente. Tinha um rapaz de olhos azuis com os braços ao redor de uma delas e ele foi o primeiro a prestar atenção em .
— Tudo bom? — o rapaz perguntou, levantando uma sobrancelha.
— Posso sentar aqui com vocês? Eu estou meio de penetra aqui e não conheço ninguém. — respondeu com um sorriso sem graça.
— Claro! Fica à vontade! — Uma das meninas respondeu, apontando para a cadeira do seu lado. — Eu sou a Alana, essa é e esses são Renata e Marcelo. Nós estudamos com a na escola.
tomou o lugar ao lado de Alana. A garota tinha um sorriso bonito e um olhar claramente interessado nele. Se ele estava ali obrigado e ainda levaria a bronca pelo pequeno desvio, pelo menos ele poderia tentar dar uns beijos naquela noite.
— Prazer! Me chamo .

(...)


O rapaz até que estava se divertindo naquela mesa. Marcelo era um cara engraçado, mas Renata, a namorada, sempre dava um jeito de podar o rapaz. foi ficando irritado com aquilo. Onde já se viu namorada controlar o namorado? Isso não deveria acontecer.
e Alana, por outro lado, estavam super interessadas no jogador. Eles conversavam sobre a cerveja que estava sendo servida naquele dia e em como a ressaca ao ingerir uma grande quantidade dela não seria algo divertido.
se divertia com as investidas de Alana. A mulher de cabelos castanhos estava claramente interessada nele, mas parecia insegura em demonstrar qualquer coisa e levar um fora.
Ou talvez, ela só estivesse com vergonha de puxar para algum lugar e deixar de vela para o casal 10 que estavam prestes a entrar em uma briga. Por sorte, passou pela mesa avisando que iriam cantar o parabéns.
comemorou internamente. Talvez ele finalmente conseguisse convencer o tio de deixá-lo no hotel. Diego, melhor amigo de e goleiro do Jequitibá F. C., já tinha mandado algumas mensagens perguntando onde ele estava.
Os dois sempre dividiam o quarto quando viajavam e costumava achar que o único defeito de Diego era ter uma namorada. O cara era apaixonado por Luiza, e, por mais que a moça fosse muito gente fina, achava um desperdício se comprometer com outra pessoa.
Ele já era comprometido com o futebol e era o máximo de responsabilidades que ele queria ter. Podia sair e pegar quem quisesse, voltar a hora que bem entendesse e não precisava se preocupar com o que outra pessoa estivesse sentindo.
Todos se reuniram ao redor da mesa de doces, as luzes foram apagadas e a tradicional música "Parabéns pra você" (sim, pra, em Minas Gerais as pessoas não sabiam a norma culta portuguesa) tomou conta do lugar.
ficou um pouco mais afastado dos demais convidados, afinal, ele estava ali de penetra. Mas então Alana se aproximou dele, esperando a deixa do "com quem será" que sempre acompanhava os "parabéns" quando o aniversariante era solteiro.
Quando a atenção de todos estava voltado para a menina soprando as velinhas, Alana segurou a mão de e sussurrou no seu ouvido.
— Você não está a fim de dar um passeio lá fora?
olhou para a menina e sorriu da forma sacana que ele sabia muito bem fazer.
— Achei que você nunca fosse perguntar.
Juntos, eles saíram de fininho pela porta da frente. Alana já conhecia todos os cantos ao redor da casa da amiga, apesar de ter se mudado de São Bento para a capital do estado há alguns anos. Elas tinham crescido a poucas quadras de distância, e aquele bairro era um velho conhecido com todos os mistérios já revelados.
não perdeu tempo quando se viram sozinhos ao virar a esquina. Segurou o rosto da menina e juntou seus lábios sem nenhuma cerimônia. Aquele era um beijo apenas para matar a vontade, não tinha sentimento e os dois sabiam que não saberiam da vida um do outro depois daquela noite.
Alana se permitiu viver o momento e deixou que a guiasse. Passou os braços pelo pescoço do rapaz e se aproximou mais ainda dele. Não faziam ideia de quanto tempo ficaram ali, mas sabiam que precisavam voltar para a festa. Ficaria óbvio que eles tinham sumido e realmente precisava ir embora.
Ao se despedirem, não deixou nenhum detalhe dele com Alana. Ela não sabia quem ele era, apenas que era fã dos Beatles, tocava violão e também tinha crescido em São Bento do Jequitibá.
A garota ficou se perguntando por que eles nunca tinham se encontrado, ou quem seria aquele rapaz ou o porquê dele ter ficado na cidade. Era comum jovens da idade deles se mudarem para Belo Horizonte ou alguma outra cidade maior.
Mas tinha ficado. tinha um motivo para ficar. O Jequitibá Futebol Clube precisava dele e ele precisava o time. Era ali que ele se encontraria, mesmo que algum dia fosse para longe e realizasse seu sonho de jogar no Rio, o JFC seria sempre sua casa.


2.

Alana mentiria se dissesse que não ficou com na cabeça enquanto dirigia de volta para Belo Horizonte. Ela não estava imaginando ele na vida dela, até porque, não tinha espaço para um homem na sua vida atual. Sua correria entre faculdade e trabalho não permitia que ela quisesse algo.
Mas ela tinha ficado curiosa sobre o homem misterioso com quem havia trocado uns beijos. E que beijos! Se aquela esquina falasse, Alana sem dúvidas iria ficar vermelha. era um rapaz bonito. Muito bonito. E tinha sido uma noite legal apesar de terem ficado apenas nos beijos.
Chegando em casa, Alana rapidamente digitou o nome do rapaz no Google em busca de qualquer informação. Achou uma página da Wikipedia falando sobre o time de futebol que ele jogava e vários links para Instagrans. Aparentemente, era um nome comum.
Mas então, quando estava quase desistindo, achou o perfil @. Ela clicou como todos os outros, mas finalmente tinha achado o rosto do rapaz que procurava. E se assustou ao ver que ele realmente era jogador de futebol.
Única coisa que tinha no perfil dele era coisas relacionadas ao Jequitibá Futebol Clube e uma ou outra foto na praia. A foto de perfil mostrava ele em campo, com a camisa verde folha, concentrado aonde quer que a bola estivesse. As demais fotos ou eram com os colegas de time em campo, festas ou vestiário.
A vida de era aquele time que jogava na série C. É claro que Alana conhecia o JFC, quem de São Bento não conhecia o time? Mas a menina nunca tinha sido muito ligada com o time da cidade, só sabia que o time já tinha ganhado alguns jogos por causa de seu pai e irmão que, mesmo torcendo para o Atlético-MG, apoiavam o time quando precisava. Alana era mais a favor de torcer para o time da capital e chegava a ser chata do quanto era doente.
Alana ficou curiosa em saber por que tinha ido até o aniversário de . Eles não se seguiam no Instagram, o que mostrava que não eram exatamente amigos. Será que sequer chegavam a ser conhecidos?
[Alana]: , o que você sabe sobre o ?
se assustou ao receber aquela mensagem. Demorou alguns segundos para se situar quem era , e já tinha inclusive digitado "que ?" quando se lembrou do rapaz que seu padrinho tinha lhe apresentado.
[]: Ele é sobrinho do meu padrinho. Conheci ontem, sei nada dele além de que joga futebol.
[Alana]: Miga, ele é só o atacante do JFC. Tem times do Rio interessados nele!
[]: Bom pra ele! Lana, você sabe que eu não entendo nada de futebol. Nunca conversei com o homem na vida. Aliás, por que você ficou toda interessada?
conhecia Alana. Ela vivia dizendo que não estava atrás de homem, mas sempre que via um rostinho bonito tratava de procurar em todas as redes sociais até descobrir a vida inteira do sujeito. Parecia o próprio FBI dos crushs.
[Alana]: Dei uns beijos nele na festa. Mas não estou interessada, apenas curiosidade. Nunca conheci um jogador de futebol de perto.
[]: SEI! Inventa história para outra, Alana. Haha
sabia que Alana estava falando sério e que ela não estava interessada. Quem nunca beijou um homem numa festa e não ficou curiosa em descobrir quem ele era? entendia.
Mas ela não conseguiu não rir quando, alguns dias depois, o perfil @ apareceu perguntando, sem nem sequer falar um "oi" se ela tinha contado para Lana que jogava futebol. apenas respondeu que ele era uma figura pública e deveria trancar seu Instagram se não quisesse que as pessoas descobrissem que ele era jogador.
riu daquela resposta. A menina tinha um bom ponto. Ele nunca escondeu sua profissão, pelo contrário, era tudo que ele tinha.
Desde que seus pais morreram, tinha o JFC como família. Tinha o futebol como força para acordar todos os dias e continuar lutando. Tinha nos colegas de time os melhores irmãos que poderia ter escolhido, principalmente Diego.
Ele estava no apartamento do goleiro com e Otávio em um domingo de folga, não muito tempo depois daquela festa. Luiza, namorada de Diego, estava na cozinha fazendo uma farofa que acompanharia o churrasco que o dono da casa fazia na laje.
jogava vídeo game com esperando que Otávio voltasse com as cervejas. Os quatro jogadores eram amigos há muito tempo, desde pirralho quando corriam pelas ruas de terras chutando uma bola murcha descalços e usando chinelo havaiana como gol.
Diego sempre jogara na posição de goleiro. E, quando ele atingiu os quase dois metros com 15 anos, ele foi oficializado na posição do U-17 do Jequitibá Futebol Clube. Ele e começaram juntos no time, mesmo o atacante sendo dois anos mais jovem.
tinha contado com Diego e Luiza quando o acidente aconteceu aos 18 anos. Perder os pais de uma vez e ficar sem chão não tinha sido fácil. Ele nunca se sentira tão só e, ao mesmo tempo, não poderia se permitir abaixar a cabeça, tinha contas para pagar.
Por sorte, ele já tinha assinado o contrato profissional com o time assim que chegou à maioridade. E tinha os amigos para lhe ajudar a raciocinar. Oito anos depois e a falta dos pais ainda doía, mas sabia que ele não poderia se permitir sentir.
Ele precisava seguir em frente. Crescer, conquistar seu espaço, ser feliz. Era isso que seus pais desejavam para ele.
— Quem quer cerveja gelada? — Otávio entrou no apartamento fazendo barulho. O zagueiro estava sempre animado, fazendo piada, mesmo quando o sentimento era negativo.
Otávio Calvacanti era descendente de coreanos e os olhos puxados haviam sido motivo de muito bullying na infância, mas ao invés de deixar com que aquilo o atingisse, ele apenas ria. Com o tempo, as pessoas entenderam que Otávio tinha uma autoconfiança inabalável.
Ele estava sempre pensando no que poderia fazer para mudar o mundo, e não deixava que lhe dissessem que sonhava demais. Mas mesmo tendo toda essa segurança, Otávio às vezes se sentia sozinho e desejava encontrar alguém que o equilibrasse. A verdade, era que ele nunca tinha esquecido Natalia, a menina que roubara o seu coração quando ainda era adolescente e o trocara pela vida agitada em São Paulo.
— Vocês estão jogando o quê? — Otávio se jogou no sofá entregando uma cerveja para e outra para que estava sentado no chão.
— Fifa. — respondeu.
— Não sei porque pergunto, vocês só sabem jogar isso. — Ele abriu sua própria cerveja — Quem perder é minha vez!

(...)


ficou com aquela história de e Alana na cabeça por alguns dias. Nem o jogador nem a amiga tinham tocado de novo no assunto, mas não conseguia deixar de pensar.
Por sorte, ela tinha muitas coisas pra fazer. Estava começando no dia seguinte no emprego novo, uma loja de roupas de marca, do tipo que ela jamais imaginaria em comprar. e sua família não passavam dificuldades, mas eles também não tinham dinheiro sobrando.
Naquele domingo sua irmã, Melina, de 12 anos, estava no quarto que as duas dividiam cantarolando alguma música que crianças de 12 anos cantarolavam. via na irmã um pouco do que tinha sido ela naquela idade, e ficara feliz em saber que os pais permitiram que Mel fosse criança.
12 anos hoje era quase como 15 na época de . As meninas já estavam cheias dos namoricos quando deveriam estar brincando de boneca. Já queriam assistir séries sobre sexo quando deveriam estar vendo desenho animado.
— Loiro tem o João, Moreno o Pedro... — Melina escrevia em um caderninho que ela chamava de diário e murmurava alguns nomes.
— O que você tanto escreve, Mel? — perguntou ao sentar em sua cama e abaixar para tirar o tênis de corrida. Ela tinha acabado de fazer uma caminhada na beira do rio e precisava de um banho.
— É uma brincadeira nova que as meninas fizeram na escola. Tem uma música e você vai contando nos dedos, quando acabar os dedos é o menino que você vai casar. Mas eu nunca saio com nenhum que quero... — Melina fez uma carinha triste olhando para o caderno.
— Qual música? — se sentou ao lado da irmã na cama do lado.
— É assim, coloca um número nos dedos? — colocou nove dedos na cama, ela sempre gostou do número 9. — Loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia, capitão, loiro, moreno. , você vai casar com um moreno!
começou a rir. Aquela não era uma brincadeira nova, ela mesma já tinha brincado muito disso na idade de Melina.
— Mel, essa brincadeira é mais velha do que a vovó. — as meninas riram. — Mas gostei da ideia de casar com um moreno sensual.
Melina riu da irmã fazendo gracinha, tinha tirado ela mesma das suas preocupações.
, você conhece algum moreno sensual? — , por algum motivo, lembrou de . Ele era um moreno para lá de sensual. Mas riu da sua própria mente, claro que não iria olhar para ela, fala sério.
— Infelizmente não, Mel. E você? Conhece? Às vezes você me apresenta.
saiu do quarto com a tolha de banho nas mãos quando escutou Melina falando:
— O que você acha de um jogador de futebol?
— O quê? — voltou abrindo a porta do quarto.
— O Enzo! É meu amigo, ele joga futebol. Sei que jogador não está na lista para futuros namorados, mas será que pode?
— Mel, você sendo feliz, pode qualquer coisa. Até uma moça com sorriso bonito.
Melina sorriu para a irmã e anotou o nome de Enzo no caderno. saiu do quarto ainda rindo da irmã e foi para o banheiro com uma estranha sensação no estômago. Por que tinha pensado em ?

(…)


tinha chegado a São Bento novamente após outra viagem para jogar o campeonato mineiro. Ele precisava admitir que era seu campeonato favorito para se jogar com o Jequitibá. Ali, ele poderia jogar com times da série B e, numa sorte, pegar Cruzeiro ou Galo e tentar não perder muito feio.
Às vezes, se sentia de novo com 7 anos de idade e a liberdade de jogar bola apenas por jogar. O campinho de areia, o gol de chinelo havaiana, geralmente quebrada. Jogar futebol era sua profissão, mas ele sempre ria quando dizia "eu sou jogador de futebol". Não parecia real.
Ele já tinha pensando em fazer alguma faculdade, talvez administração ou psicologia. pensava sobre o que ele faria quando não fosse mais jogador de futebol, mas pensar nisso naquele dia, não era algo que o fazia bem e, como tudo em sua vida, apenas ignorava e continuava jogando.
E pensando nisso, ele foi andando até o supermercado. Como toda cidade pequena, São Bento do Jequitibá tinha apenas um supermercado e, em dias como aquele, ele ficava lotado.
Era um quinta-feira a noite. O dia em que chegava frutas e verduras e, convencionalmente, o dia que todo mundo ia no supermercado. odiava fazer compras para casa, principalmente porque tinha que carregar diversas sacolas à pé por cinco quarteirões. Mas desde que tivera que morar sozinho quando Diego resolveu ir morar com a namorada, ele teve que aprender a ter essa rotina.
Uma listinha para não esquecer as coisas que realmente precisaria comprar e a certeza que levaria muito mais coisa do que estava ali.
O cheiro do lugar era pesado, uma mistura de hortifrúti, com o frio das geladeiras de carne e água sanitária. Por que supermercados sempre cheiravam água sanitária?
Pegou o carrinho, quebrado para variar, e entrou no supermercado distraído com a lista em suas mãos. Passou direto pela parte de material de limpeza e se encontrou no corredor de balas e chocolates. Normalmente ele não entrava ali, tentava diminuir nos doces para que pudesse comer os famosos churrascos de fim de semana com cerveja e batata frita.
Mas naquele dia, a vontade de detonar uma barra inteira de Laka estava enorme e também era gente. Ao desviar o olhar para pegar o chocolate, sentiu um baque em seu carrinho.
— Fala jogador de futebol! Como você está? — ficou olhando a menina de cabelos claros a sua frente sem reconhecê-la.
Foi então que escutou uma voz familiar.
, você vai querer doce de leite com o sem co... Oi, ! — apareceu toda animada como era natural dela e jogou as duas latas de doce de leite no carrinho, se esforçando para não lembrar da conversa que tinha tido com Mel sobre um certo moreno sensual.
— Oi meninas, tudo bom com vocês? — a pose de galã tomou conta de ao reconhecer e então ele se lembrou do porquê não fazia ideia de quem era : ele não tinha prestado nenhuma atenção na menina naquela festa pois estava mais preocupado em dar em cima da amiga delas.
— Tudo ótimo, jogador. Que estranho te encontrar aqui. — falou, numa tentativa falha de dar em cima de quando na verdade ele estava, mais uma vez, prestando atenção em outra amiga dela.
poderia parecer o tipo de menina que sempre dava em cima de rapazes bonitos, mas o que ninguém sabia, era que esse jeitinho dela era apenas sua forma de ser. Quando ela realmente gostava de alguém, seu comportamento era bem diferente.
não percebeu em nada o que a amiga estava fazendo e continuou conversando com como se não estivesse ali.
— Como está meu padrinho?
— O tio está bem. Devo passar na casa dele amanhã depois do treino, levar os ingressos pro jogo de sábado.
— Vai ter jogo em São Bento sábado? — interrompeu novamente. — Ai, queria tanto ir. Já tem uns anos que não vou em um jogo do Jequitibá.
olhou para a amiga e sorriu. Ela sabia o porquê não ia em jogos e não fazia ideia do motivo da amiga tinha falado isso.
— Vocês deveriam ir! Se quiser posso deixar uns convites de cortesia na sua casa, . — ofereceu olhando para a morena e tentando decifrar o que aqueles olhos castanhos queriam dizer.
— Uai, pode ser! Nunca fui em um jogo do Jequitibá. Ah, mas será que posso levar a minha irmã também?
— Claro! Nos vemos no sábado então. — sorriu para as meninas e as deixou sozinhas no corredor do supermercado.
, olha que homem! E você viu como ele estava olhando para você?
— Cala a boca ! Nada a ver. Ele é gostoso, lindo e deve pegar todas as meninas que aparecem por aí. Tô fora! — pegou o carrinho delas e saiu andando em direção ao caixa.
— Pois se ele quisesse me pegar e jogar fora, eu não ia me importar nadinha.
! Primeiro, se dê valor! Segundo, respeita a sua amiga porque lembra que nem um mês atrás ele estava pegando a Alana?
deu de ombros e seguiu . A verdade era que Alana nem sequer lembrava mais de e tinha certeza que quando contasse para a amiga os olhares que o jogador de futebol estava dando para , ela seria a primeira a apoiar o casal.

(...)


Já era tarde da noite quando ligou para perguntando se ele não poderia lhe dar uma carona até a casa de . O meio campista chegou no pequeno apartamento de em menos de cinco minutos após a ligação com apenas uma pergunta:
— Quem é essa mulher que roubou seu coração? — revirou os olhos começando a fechar a porta na cara do amigo. — Ei, você quer carona ou não?
O atacante finalmente deixou entrar na sua casa e este foi logo se jogando no sofá. estava terminando de guardar as compras que tinha enrolado em cima da bancada e tentando, sem sucesso, ignorar as perguntas do amigo.
— É sério cara! Você me liga pedindo carona para te levar na casa de uma pessoa para entregar uns ingressos pro jogo de sábado e não quer que eu deduza que seja mulher? — colocou os pés na mesinha de centro e ficou esperando uma resposta.
não sabia por que estava demorando tanto para responder. Era sim uma moça bonita, mas não era da forma com que estava pensando.
Ele pegou uma Coca-Cola na geladeira, das antigas já que havia renovado o estoque, e entregou para quando sentou-se ao seu lado.
— É a afilhada do meu tio. Encontrei com ela e uma amiga no supermercado e a amiga da menina ficou entusiasmada para ir ao jogo e pensei, por que não? Pelo menos teremos torcida.
tomou um gole do refrigerante e deu de ombros concordando. Mas era impossível não pensar que teria mais coisa ali do que estava contando, só estava ansioso para descobrir.

(...)


Ainda reclamando apenas para encher o saco, dirigiu cantando alguma música do Legião Urbana que ficava repetindo no som do carro. já não aguentava mais a voz de Renato Russo em seus ouvidos, mas ele não iria reclamar da carona. Precisava mesmo tirar carteira...
— É aquela casa ali. — apontou para a casa de dois andares, hoje, iluminada apenas pelo poste na rua e uma das janelas do segundo andar.
"Será que não tem ninguém?" se perguntou. Mas então viu uma pequena movimentação pela janela iluminada e resolveu arriscar. Pediu que esperasse no carro e andou lentamente até o portão.
Não tinha uma campainha, então a forma que teve de chamar atenção foi bater palmas.
— Ô de casa! — quem nunca soltou essa frase nunca morou no interior.
Quando ele já estava quase indo embora, uma menina magrela com cabelo castanho e muito semelhante à abriu a porta e perguntou quem era.
— Oi! Meu nome é . Eu falei com a que passaria aqui hoje para deixar esse envelope, você poderia entregar para ela? — estendeu o pacote pela grade do portão.
— Qual a palavra mágica? — A garota cruzou os braços olhando com cara séria. Quem esse moço achava que era para aparecer a essa hora da noite na minha porta?
— Por favor? — tentou, com um pouco de falta de paciência.
Mas antes que Mel fosse até o portão, apareceu para salvar o jogador.
— Quem é Mel... Ah, oi ! — ela andou até o portão com as chaves na mão. — Vamos entrar!
— Hoje não, obrigado. Estou de carona. — apontou para que acenou do carro. — Espero ver vocês no sábado. — Ele sorriu deixando os ingressos com .
— Me desculpa pela Mel. Pré-adolescentes...
— Quem nunca, não é? Até. — saiu andando deixando as duas irmãs paradas observando o carro ir embora.
— Quem era? — Melina se adiantou.
. Ele joga futebol no time da cidade e é sobrinho do Padrinho Carlos.
Melina ficou um tempo calada. Entraram dentro de casa e Melina se sentou no sofá do lado do pai, onde assistiam a um filme qualquer na Netflix. Quando voltou para sala depois de guardar o envelope no quarto, Mel não teve como não perguntar deixando extremamente envergonhada.
— Ah, , ele é o jogador de futebol moreno e sensual?




Continua...



Nota da autora: Sejam bem-vindos à São Bento do Jequitibá! Uma cidade pacata do interior que abriga moradores intrigantes, apaixonantes e muito, muito ambiciosos. Se quiserem entrar mais na sintonia dessa história, venham conhecer a playlist com músicas que embalam os capítulos.




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