PS
Última atualização: 21/06/2019

Prólogo

A terra batida já era uma velha conhecida. Chegar em casa cheio de lama e ter que ir direto para o banho era algo familiar a ele. Já tinha perdido as contas de quantas chuteiras tinham ido direto para o lixo desde que começara a jogar bola, com uns 4 anos de idade.
Mas ele não desistia do sonho.
Muitos diziam que o Jequitibá Futebol Clube era o fim de uma carreira que nem tinha começado, mas não para ele. Ele acreditava que aquilo era apenas um início. Ainda iria conquistar o mundo.
E era exatamente isso que ele pensava quando colocou a bola no chão para bater o pênalti. Ele não estava preocupado com aquele jogo, era apenas mais um de muitos.
Quando a bola entrou dentro da rede rasgada e saiu rodando para a torcida, ele não viu seus companheiros de time correndo, quando se deu conta, estava no chão.
Tinham ganhado a copinha, nome carinhoso que davam para aquele campeonato regional no sul de Minas Gerais. São Bento do Jequitibá era uma cidade pequena, pouco mais de 12 mil habitantes, mas tinha um time de futebol.
Naquele ano, o Jequitibá Futebol Clube jogaria a série C. E ele queria subir mais na tabela, nem que para isso precisasse carregar o time nas costas.
Futebol era um esporte em equipe, mas todo mundo precisava dar o máximo de esforço individual para conquistar seu espaço, principalmente quando jogava em um time tão pequeno.
E sabia que aquele ano seria uma mudança em toda a sua vida. Era a oportunidade que ele tinha de ser notado e se mudar para o Rio de Janeiro. Mas o que ele não sabia, era que futebol lhe traria a menor de todas as mudanças.


1.

A música estava alta na frente daquela casa toda ornamentada para um aniversário. Os balões na porta, a faixa de parabéns e as mesas com cadeiras espalhadas pelo quintal. não fazia ideia de quem era a aniversariante, ele só sabia que o tio tinha lhe obrigado a ir.
Maldita hora que ele não tinha tirado carteira quando teve oportunidade, agora dependia de carona dos outros. E, naquele dia, precisava que alguém o levasse para a concentração do Jequitibá F. C. pois sairiam logo cedo para um jogo em outra cidade.
O técnico, Gerson Soares, era um senhor de 50 anos de idade que acreditava nos seus garotos. E, por este motivo, ele havia tirado do próprio bolso um andar no único hotel em São Bento do Jequitibá para que os jogadores começassem o campeonato com uma concentração digna de um grande clube, mesmo que o JFC não tivesse caixa para esse tipo de gracinha e que seu salário fosse complementado com a venda de pães feitos pela esposa.
já deveria estar no hotel. O horário marcado tinha sido às 19h, mas com toda a sua bagagem, ele dependia de alguém para levá-lo. Sabia que escutaria a bronca do técnico por chegar tarde, mas não tinha como não passar por aquela festa.
Seu tio tinha dito que a aniversariante era afilhada dele, e, por isso, ele precisava levar um presentinho e dar um abraço na moça. se perguntava por que nunca tinha conhecido a menina, uma vez que os tios eram a única família que ele tinha.
A menina estava fazendo 23 anos, apenas três menos que e ainda assim ele se sentia tão velho.
26 anos já era muito para um jogador que ainda sonhava em ser contratado por algum time da série A. Ele já deveria ter desistido há um tempo, mas tinha aprendido com sua mãe a não desistir e ele iria honrar a memória dela.
A mãe de o tinha deixado quando ele tinha 18 anos. Um caminhão pegou o carro que seus pais estavam quando eles voltavam da capital para São Bento. Talvez fosse por isso que ele odiasse tanto pegar estrada, mesmo que vivesse viajando por causa do futebol. Alberto morrera na hora, mas Marília ainda foi para o hospital onde teve uma sobrevida da qual o filho pôde se despedir. Ele ainda se lembrava das últimas palavras de sua mãe:
— Filho, na vida a gente é testado o tempo inteiro. Muitas pessoas vão querer nos ver mal e sempre seremos colocados em situações desagradáveis. Nossos sonhos às vezes demoram a acontecer e muitos dias, eles parecem impossíveis. Mas você não pode desistir. Se agarre a eles e seja feliz.
E pensando exatamente nisso, fechou os olhos antes de ser arrastado para porta adentro daquela casa. Ele não conhecia ninguém ali além dos tios. Sua mochila com os uniformes e chuteiras haviam ficado no porta-malas do carro e ele só rezava para que ninguém mexesse no gol 2001 que o tio tinha.
A festa era simples. Uma decoração azulada na mesa de doces, um bolo de chocolate e diversas mesas espalhadas pelo salão. As pessoas conversavam animadamente e um alto-falante que tocava os últimos sucessos das rádios brasileiras deixavam o ambiente ainda mais aconchegante.
Fazia muito tempo desde que não ia a uma festa de aniversário sem ser dos colegas de time e, ainda assim, geralmente eram comemorados no único bar que ficava no centro da cidade.
Seu tio lhe tirou do seu devaneio para lhe apresentar a aniversariante. Era uma menina morena, baixinha, que vestia uma saia preta rodada e uma camiseta rosa com algum desenho que não ficou prestando atenção. O sorriso dela era lindo, na verdade, ela era toda linda. Mas como sempre, tentou não prestar atenção.
, essa é , a aniversariante. — Seu tio apertou o seu ombro como um alerta para ser educado.
— Oi. Feliz aniversário! — falou dando um beijinho no rosto da moça, tentando fingir que não queria estar ali de jeito nenhum.
— Obrigada! Fique à vontade e divirta-se. — E, da mesma forma que ela tinha aparecido, ela se afastou, indo em direção a uma mesa cheia de mulheres. suspeitou que fossem as amigas dela.
— Filho, vou atrás da sua tia. Você vai ficar bem? — olhou novamente para a direção que tinha ido e apenas assentiu para o tio.
A aniversariante desapareceu do seu campo de visão, mas não se importou. Andou até a mesa que ela tinha ido antes, observando o rosto das três garotas que conversavam animadamente. Tinha um rapaz de olhos azuis com os braços ao redor de uma delas e ele foi o primeiro a prestar atenção em .
— Tudo bom? — o rapaz perguntou, levantando uma sobrancelha.
— Posso sentar aqui com vocês? Eu estou meio de penetra aqui e não conheço ninguém. — respondeu com um sorriso sem graça.
— Claro! Fica à vontade! — Uma das meninas respondeu, apontando para a cadeira do seu lado. — Eu sou a Alana, essa é e esses são Renata e Marcelo. Nós estudamos com a na escola.
tomou o lugar ao lado de Alana. A garota tinha um sorriso bonito e um olhar claramente interessado nele. Se ele estava ali obrigado e ainda levaria a bronca pelo pequeno desvio, pelo menos ele poderia tentar dar uns beijos naquela noite.
— Prazer! Me chamo .

(...)


O rapaz até que estava se divertindo naquela mesa. Marcelo era um cara engraçado, mas Renata, a namorada, sempre dava um jeito de podar o rapaz. foi ficando irritado com aquilo. Onde já se viu namorada controlar o namorado? Isso não deveria acontecer.
e Alana, por outro lado, estavam super interessadas no jogador. Eles conversavam sobre a cerveja que estava sendo servida naquele dia e em como a ressaca ao ingerir uma grande quantidade dela não seria algo divertido.
se divertia com as investidas de Alana. A mulher de cabelos castanhos estava claramente interessada nele, mas parecia insegura em demonstrar qualquer coisa e levar um fora.
Ou talvez, ela só estivesse com vergonha de puxar para algum lugar e deixar de vela para o casal 10 que estavam prestes a entrar em uma briga. Por sorte, passou pela mesa avisando que iriam cantar o parabéns.
comemorou internamente. Talvez ele finalmente conseguisse convencer o tio de deixá-lo no hotel. Diego, melhor amigo de e goleiro do Jequitibá F. C., já tinha mandado algumas mensagens perguntando onde ele estava.
Os dois sempre dividiam o quarto quando viajavam e costumava achar que o único defeito de Diego era ter uma namorada. O cara era apaixonado por Luiza, e, por mais que a moça fosse muito gente fina, achava um desperdício se comprometer com outra pessoa.
Ele já era comprometido com o futebol e era o máximo de responsabilidades que ele queria ter. Podia sair e pegar quem quisesse, voltar a hora que bem entendesse e não precisava se preocupar com o que outra pessoa estivesse sentindo.
Todos se reuniram ao redor da mesa de doces, as luzes foram apagadas e a tradicional música "Parabéns pra você" (sim, pra, em Minas Gerais as pessoas não sabiam a norma culta portuguesa) tomou conta do lugar.
ficou um pouco mais afastado dos demais convidados, afinal, ele estava ali de penetra. Mas então Alana se aproximou dele, esperando a deixa do "com quem será" que sempre acompanhava os "parabéns" quando o aniversariante era solteiro.
Quando a atenção de todos estava voltado para a menina soprando as velinhas, Alana segurou a mão de e sussurrou no seu ouvido.
— Você não está a fim de dar um passeio lá fora?
olhou para a menina e sorriu da forma sacana que ele sabia muito bem fazer.
— Achei que você nunca fosse perguntar.
Juntos, eles saíram de fininho pela porta da frente. Alana já conhecia todos os cantos ao redor da casa da amiga, apesar de ter se mudado de São Bento para a capital do estado há alguns anos. Elas tinham crescido a poucas quadras de distância, e aquele bairro era um velho conhecido com todos os mistérios já revelados.
não perdeu tempo quando se viram sozinhos ao virar a esquina. Segurou o rosto da menina e juntou seus lábios sem nenhuma cerimônia. Aquele era um beijo apenas para matar a vontade, não tinha sentimento e os dois sabiam que não saberiam da vida um do outro depois daquela noite.
Alana se permitiu viver o momento e deixou que a guiasse. Passou os braços pelo pescoço do rapaz e se aproximou mais ainda dele. Não faziam ideia de quanto tempo ficaram ali, mas sabiam que precisavam voltar para a festa. Ficaria óbvio que eles tinham sumido e realmente precisava ir embora.
Ao se despedirem, não deixou nenhum detalhe dele com Alana. Ela não sabia quem ele era, apenas que era fã dos Beatles, tocava violão e também tinha crescido em São Bento do Jequitibá.
A garota ficou se perguntando por que eles nunca tinham se encontrado, ou quem seria aquele rapaz ou o porquê dele ter ficado na cidade. Era comum jovens da idade deles se mudarem para Belo Horizonte ou alguma outra cidade maior.
Mas tinha ficado. tinha um motivo para ficar. O Jequitibá Futebol Clube precisava dele e ele precisava o time. Era ali que ele se encontraria, mesmo que algum dia fosse para longe e realizasse seu sonho de jogar no Rio, o JFC seria sempre sua casa.


2.

Alana mentiria se dissesse que não ficou com na cabeça enquanto dirigia de volta para Belo Horizonte. Ela não estava imaginando ele na vida dela, até porque, não tinha espaço para um homem na sua vida atual. Sua correria entre faculdade e trabalho não permitia que ela quisesse algo.
Mas ela tinha ficado curiosa sobre o homem misterioso com quem havia trocado uns beijos. E que beijos! Se aquela esquina falasse, Alana sem dúvidas iria ficar vermelha. era um rapaz bonito. Muito bonito. E tinha sido uma noite legal apesar de terem ficado apenas nos beijos.
Chegando em casa, Alana rapidamente digitou o nome do rapaz no Google em busca de qualquer informação. Achou uma página da Wikipedia falando sobre o time de futebol que ele jogava e vários links para Instagrans. Aparentemente, era um nome comum.
Mas então, quando estava quase desistindo, achou o perfil @. Ela clicou como todos os outros, mas finalmente tinha achado o rosto do rapaz que procurava. E se assustou ao ver que ele realmente era jogador de futebol.
Única coisa que tinha no perfil dele era coisas relacionadas ao Jequitibá Futebol Clube e uma ou outra foto na praia. A foto de perfil mostrava ele em campo, com a camisa verde folha, concentrado aonde quer que a bola estivesse. As demais fotos ou eram com os colegas de time em campo, festas ou vestiário.
A vida de era aquele time que jogava na série C. É claro que Alana conhecia o JFC, quem de São Bento não conhecia o time? Mas a menina nunca tinha sido muito ligada com o time da cidade, só sabia que o time já tinha ganhado alguns jogos por causa de seu pai e irmão que, mesmo torcendo para o Atlético-MG, apoiavam o time quando precisava. Alana era mais a favor de torcer para o time da capital e chegava a ser chata do quanto era doente.
Alana ficou curiosa em saber por que tinha ido até o aniversário de . Eles não se seguiam no Instagram, o que mostrava que não eram exatamente amigos. Será que sequer chegavam a ser conhecidos?
[Alana]: , o que você sabe sobre o ?
se assustou ao receber aquela mensagem. Demorou alguns segundos para se situar quem era , e já tinha inclusive digitado "que ?" quando se lembrou do rapaz que seu padrinho tinha lhe apresentado.
[]: Ele é sobrinho do meu padrinho. Conheci ontem, sei nada dele além de que joga futebol.
[Alana]: Miga, ele é só o atacante do JFC. Tem times do Rio interessados nele!
[]: Bom pra ele! Lana, você sabe que eu não entendo nada de futebol. Nunca conversei com o homem na vida. Aliás, por que você ficou toda interessada?
conhecia Alana. Ela vivia dizendo que não estava atrás de homem, mas sempre que via um rostinho bonito tratava de procurar em todas as redes sociais até descobrir a vida inteira do sujeito. Parecia o próprio FBI dos crushs.
[Alana]: Dei uns beijos nele na festa. Mas não estou interessada, apenas curiosidade. Nunca conheci um jogador de futebol de perto.
[]: SEI! Inventa história para outra, Alana. Haha
sabia que Alana estava falando sério e que ela não estava interessada. Quem nunca beijou um homem numa festa e não ficou curiosa em descobrir quem ele era? entendia.
Mas ela não conseguiu não rir quando, alguns dias depois, o perfil @ apareceu perguntando, sem nem sequer falar um "oi" se ela tinha contado para Lana que jogava futebol. apenas respondeu que ele era uma figura pública e deveria trancar seu Instagram se não quisesse que as pessoas descobrissem que ele era jogador.
riu daquela resposta. A menina tinha um bom ponto. Ele nunca escondeu sua profissão, pelo contrário, era tudo que ele tinha.
Desde que seus pais morreram, tinha o JFC como família. Tinha o futebol como força para acordar todos os dias e continuar lutando. Tinha nos colegas de time os melhores irmãos que poderia ter escolhido, principalmente Diego.
Ele estava no apartamento do goleiro com e Otávio em um domingo de folga, não muito tempo depois daquela festa. Luiza, namorada de Diego, estava na cozinha fazendo uma farofa que acompanharia o churrasco que o dono da casa fazia na laje.
jogava vídeo game com esperando que Otávio voltasse com as cervejas. Os quatro jogadores eram amigos há muito tempo, desde pirralho quando corriam pelas ruas de terras chutando uma bola murcha descalços e usando chinelo havaiana como gol.
Diego sempre jogara na posição de goleiro. E, quando ele atingiu os quase dois metros com 15 anos, ele foi oficializado na posição do U-17 do Jequitibá Futebol Clube. Ele e começaram juntos no time, mesmo o atacante sendo dois anos mais jovem.
tinha contado com Diego e Luiza quando o acidente aconteceu aos 18 anos. Perder os pais de uma vez e ficar sem chão não tinha sido fácil. Ele nunca se sentira tão só e, ao mesmo tempo, não poderia se permitir abaixar a cabeça, tinha contas para pagar.
Por sorte, ele já tinha assinado o contrato profissional com o time assim que chegou à maioridade. E tinha os amigos para lhe ajudar a raciocinar. Oito anos depois e a falta dos pais ainda doía, mas sabia que ele não poderia se permitir sentir.
Ele precisava seguir em frente. Crescer, conquistar seu espaço, ser feliz. Era isso que seus pais desejavam para ele.
— Quem quer cerveja gelada? — Otávio entrou no apartamento fazendo barulho. O zagueiro estava sempre animado, fazendo piada, mesmo quando o sentimento era negativo.
Otávio Calvacanti era descendente de coreanos e os olhos puxados haviam sido motivo de muito bullying na infância, mas ao invés de deixar com que aquilo o atingisse, ele apenas ria. Com o tempo, as pessoas entenderam que Otávio tinha uma autoconfiança inabalável.
Ele estava sempre pensando no que poderia fazer para mudar o mundo, e não deixava que lhe dissessem que sonhava demais. Mas mesmo tendo toda essa segurança, Otávio às vezes se sentia sozinho e desejava encontrar alguém que o equilibrasse. A verdade, era que ele nunca tinha esquecido Natalia, a menina que roubara o seu coração quando ainda era adolescente e o trocara pela vida agitada em São Paulo.
— Vocês estão jogando o quê? — Otávio se jogou no sofá entregando uma cerveja para e outra para que estava sentado no chão.
— Fifa. — respondeu.
— Não sei porque pergunto, vocês só sabem jogar isso. — Ele abriu sua própria cerveja — Quem perder é minha vez!

(...)


ficou com aquela história de e Alana na cabeça por alguns dias. Nem o jogador nem a amiga tinham tocado de novo no assunto, mas não conseguia deixar de pensar.
Por sorte, ela tinha muitas coisas pra fazer. Estava começando no dia seguinte no emprego novo, uma loja de roupas de marca, do tipo que ela jamais imaginaria em comprar. e sua família não passavam dificuldades, mas eles também não tinham dinheiro sobrando.
Naquele domingo sua irmã, Melina, de 12 anos, estava no quarto que as duas dividiam cantarolando alguma música que crianças de 12 anos cantarolavam. via na irmã um pouco do que tinha sido ela naquela idade, e ficara feliz em saber que os pais permitiram que Mel fosse criança.
12 anos hoje era quase como 15 na época de . As meninas já estavam cheias dos namoricos quando deveriam estar brincando de boneca. Já queriam assistir séries sobre sexo quando deveriam estar vendo desenho animado.
— Loiro tem o João, Moreno o Pedro... — Melina escrevia em um caderninho que ela chamava de diário e murmurava alguns nomes.
— O que você tanto escreve, Mel? — perguntou ao sentar em sua cama e abaixar para tirar o tênis de corrida. Ela tinha acabado de fazer uma caminhada na beira do rio e precisava de um banho.
— É uma brincadeira nova que as meninas fizeram na escola. Tem uma música e você vai contando nos dedos, quando acabar os dedos é o menino que você vai casar. Mas eu nunca saio com nenhum que quero... — Melina fez uma carinha triste olhando para o caderno.
— Qual música? — se sentou ao lado da irmã na cama do lado.
— É assim, coloca um número nos dedos? — colocou nove dedos na cama, ela sempre gostou do número 9. — Loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia, capitão, loiro, moreno. , você vai casar com um moreno!
começou a rir. Aquela não era uma brincadeira nova, ela mesma já tinha brincado muito disso na idade de Melina.
— Mel, essa brincadeira é mais velha do que a vovó. — as meninas riram. — Mas gostei da ideia de casar com um moreno sensual.
Melina riu da irmã fazendo gracinha, tinha tirado ela mesma das suas preocupações.
, você conhece algum moreno sensual? — , por algum motivo, lembrou de . Ele era um moreno para lá de sensual. Mas riu da sua própria mente, claro que não iria olhar para ela, fala sério.
— Infelizmente não, Mel. E você? Conhece? Às vezes você me apresenta.
saiu do quarto com a tolha de banho nas mãos quando escutou Melina falando:
— O que você acha de um jogador de futebol?
— O quê? — voltou abrindo a porta do quarto.
— O Enzo! É meu amigo, ele joga futebol. Sei que jogador não está na lista para futuros namorados, mas será que pode?
— Mel, você sendo feliz, pode qualquer coisa. Até uma moça com sorriso bonito.
Melina sorriu para a irmã e anotou o nome de Enzo no caderno. saiu do quarto ainda rindo da irmã e foi para o banheiro com uma estranha sensação no estômago. Por que tinha pensado em ?

(…)


tinha chegado a São Bento novamente após outra viagem para jogar o campeonato mineiro. Ele precisava admitir que era seu campeonato favorito para se jogar com o Jequitibá. Ali, ele poderia jogar com times da série B e, numa sorte, pegar Cruzeiro ou Galo e tentar não perder muito feio.
Às vezes, se sentia de novo com 7 anos de idade e a liberdade de jogar bola apenas por jogar. O campinho de areia, o gol de chinelo havaiana, geralmente quebrada. Jogar futebol era sua profissão, mas ele sempre ria quando dizia "eu sou jogador de futebol". Não parecia real.
Ele já tinha pensando em fazer alguma faculdade, talvez administração ou psicologia. pensava sobre o que ele faria quando não fosse mais jogador de futebol, mas pensar nisso naquele dia, não era algo que o fazia bem e, como tudo em sua vida, apenas ignorava e continuava jogando.
E pensando nisso, ele foi andando até o supermercado. Como toda cidade pequena, São Bento do Jequitibá tinha apenas um supermercado e, em dias como aquele, ele ficava lotado.
Era um quinta-feira a noite. O dia em que chegava frutas e verduras e, convencionalmente, o dia que todo mundo ia no supermercado. odiava fazer compras para casa, principalmente porque tinha que carregar diversas sacolas à pé por cinco quarteirões. Mas desde que tivera que morar sozinho quando Diego resolveu ir morar com a namorada, ele teve que aprender a ter essa rotina.
Uma listinha para não esquecer as coisas que realmente precisaria comprar e a certeza que levaria muito mais coisa do que estava ali.
O cheiro do lugar era pesado, uma mistura de hortifrúti, com o frio das geladeiras de carne e água sanitária. Por que supermercados sempre cheiravam água sanitária?
Pegou o carrinho, quebrado para variar, e entrou no supermercado distraído com a lista em suas mãos. Passou direto pela parte de material de limpeza e se encontrou no corredor de balas e chocolates. Normalmente ele não entrava ali, tentava diminuir nos doces para que pudesse comer os famosos churrascos de fim de semana com cerveja e batata frita.
Mas naquele dia, a vontade de detonar uma barra inteira de Laka estava enorme e também era gente. Ao desviar o olhar para pegar o chocolate, sentiu um baque em seu carrinho.
— Fala jogador de futebol! Como você está? — ficou olhando a menina de cabelos claros a sua frente sem reconhecê-la.
Foi então que escutou uma voz familiar.
, você vai querer doce de leite com o sem co... Oi, ! — apareceu toda animada como era natural dela e jogou as duas latas de doce de leite no carrinho, se esforçando para não lembrar da conversa que tinha tido com Mel sobre um certo moreno sensual.
— Oi meninas, tudo bom com vocês? — a pose de galã tomou conta de ao reconhecer e então ele se lembrou do porquê não fazia ideia de quem era : ele não tinha prestado nenhuma atenção na menina naquela festa pois estava mais preocupado em dar em cima da amiga delas.
— Tudo ótimo, jogador. Que estranho te encontrar aqui. — falou, numa tentativa falha de dar em cima de quando na verdade ele estava, mais uma vez, prestando atenção em outra amiga dela.
poderia parecer o tipo de menina que sempre dava em cima de rapazes bonitos, mas o que ninguém sabia, era que esse jeitinho dela era apenas sua forma de ser. Quando ela realmente gostava de alguém, seu comportamento era bem diferente.
não percebeu em nada o que a amiga estava fazendo e continuou conversando com como se não estivesse ali.
— Como está meu padrinho?
— O tio está bem. Devo passar na casa dele amanhã depois do treino, levar os ingressos pro jogo de sábado.
— Vai ter jogo em São Bento sábado? — interrompeu novamente. — Ai, queria tanto ir. Já tem uns anos que não vou em um jogo do Jequitibá.
olhou para a amiga e sorriu. Ela sabia o porquê não ia em jogos e não fazia ideia do motivo da amiga tinha falado isso.
— Vocês deveriam ir! Se quiser posso deixar uns convites de cortesia na sua casa, . — ofereceu olhando para a morena e tentando decifrar o que aqueles olhos castanhos queriam dizer.
— Uai, pode ser! Nunca fui em um jogo do Jequitibá. Ah, mas será que posso levar a minha irmã também?
— Claro! Nos vemos no sábado então. — sorriu para as meninas e as deixou sozinhas no corredor do supermercado.
, olha que homem! E você viu como ele estava olhando para você?
— Cala a boca ! Nada a ver. Ele é gostoso, lindo e deve pegar todas as meninas que aparecem por aí. Tô fora! — pegou o carrinho delas e saiu andando em direção ao caixa.
— Pois se ele quisesse me pegar e jogar fora, eu não ia me importar nadinha.
! Primeiro, se dê valor! Segundo, respeita a sua amiga porque lembra que nem um mês atrás ele estava pegando a Alana?
deu de ombros e seguiu . A verdade era que Alana nem sequer lembrava mais de e tinha certeza que quando contasse para a amiga os olhares que o jogador de futebol estava dando para , ela seria a primeira a apoiar o casal.

(...)


Já era tarde da noite quando ligou para perguntando se ele não poderia lhe dar uma carona até a casa de . O meio-campista chegou no pequeno apartamento de em menos de cinco minutos após a ligação com apenas uma pergunta:
— Quem é essa mulher que roubou seu coração? — revirou os olhos começando a fechar a porta na cara do amigo. — Ei, você quer carona ou não?
O atacante finalmente deixou entrar na sua casa e este foi logo se jogando no sofá. estava terminando de guardar as compras que tinha enrolado em cima da bancada e tentando, sem sucesso, ignorar as perguntas do amigo.
— É sério cara! Você me liga pedindo carona para te levar na casa de uma pessoa para entregar uns ingressos pro jogo de sábado e não quer que eu deduza que seja mulher? — colocou os pés na mesinha de centro e ficou esperando uma resposta.
não sabia por que estava demorando tanto para responder. Era sim uma moça bonita, mas não era da forma com que estava pensando.
Ele pegou uma Coca-Cola na geladeira, das antigas já que havia renovado o estoque, e entregou para quando sentou-se ao seu lado.
— É a afilhada do meu tio. Encontrei com ela e uma amiga no supermercado e a amiga da menina ficou entusiasmada para ir ao jogo e pensei, por que não? Pelo menos teremos torcida.
tomou um gole do refrigerante e deu de ombros concordando. Mas era impossível não pensar que teria mais coisa ali do que estava contando, só estava ansioso para descobrir.

(...)


Ainda reclamando apenas para encher o saco, dirigiu cantando alguma música do Legião Urbana que ficava repetindo no som do carro. já não aguentava mais a voz de Renato Russo em seus ouvidos, mas ele não iria reclamar da carona. Precisava mesmo tirar carteira...
— É aquela casa ali. — apontou para a casa de dois andares, hoje, iluminada apenas pelo poste na rua e uma das janelas do segundo andar.
"Será que não tem ninguém?" se perguntou. Mas então viu uma pequena movimentação pela janela iluminada e resolveu arriscar. Pediu que esperasse no carro e andou lentamente até o portão.
Não tinha uma campainha, então a forma que teve de chamar atenção foi bater palmas.
— Ô de casa! — quem nunca soltou essa frase nunca morou no interior.
Quando ele já estava quase indo embora, uma menina magrela com cabelo castanho e muito semelhante à abriu a porta e perguntou quem era.
— Oi! Meu nome é . Eu falei com a que passaria aqui hoje para deixar esse envelope, você poderia entregar para ela? — estendeu o pacote pela grade do portão.
— Qual a palavra mágica? — A garota cruzou os braços olhando com cara séria. Quem esse moço achava que era para aparecer a essa hora da noite na minha porta?
— Por favor? — tentou, com um pouco de falta de paciência.
Mas antes que Mel fosse até o portão, apareceu para salvar o jogador.
— Quem é Mel... Ah, oi ! — ela andou até o portão com as chaves na mão. — Vamos entrar!
— Hoje não, obrigado. Estou de carona. — apontou para que acenou do carro. — Espero ver vocês no sábado. — Ele sorriu deixando os ingressos com .
— Me desculpa pela Mel. Pré-adolescentes...
— Quem nunca, não é? Até. — saiu andando deixando as duas irmãs paradas observando o carro ir embora.
— Quem era? — Melina se adiantou.
. Ele joga futebol no time da cidade e é sobrinho do Padrinho Carlos.
Melina ficou um tempo calada. Entraram dentro de casa e Melina se sentou no sofá do lado do pai, onde assistiam a um filme qualquer na Netflix. Quando voltou para sala depois de guardar o envelope no quarto, Mel não teve como não perguntar deixando extremamente envergonhada.
— Ah, , ele é o jogador de futebol moreno e sensual?


3.

O jogo contra o Pinus Balela, time do triângulo mineiro, era de longe o mais fácil do campeonato. Pinus era quase um time amador, com jogadores fora de forma e sem nenhuma técnica. À frente deles, o Jequitibá parecia o Real Madrid.
Mas Diego, capitão e goleiro do JFC, jamais menosprezaria o adversário. Sabendo disso, Luiza tinha acordado mais cedo do que o namorado naquele dia e preparado um café da manhã reforçado. Ela amarrou os cabelos ruivos em um coque solto enquanto esquentava o pão dormido na frigideira, ovos mexidos e presunto já na mesa ao lado do iogurte favorito de Diego.
— Bom dia! — Diego abraçou a namorada por trás, se enrolado todo devido a diferença de altura dos dois.
— Oi amor. Ansioso?
— Sempre. — Diego se jogou na cadeira, parecendo bem maior do que ele era. — Obrigado. — disse olhando para Luiza e tendo certeza que tinha escolhido a mulher certa para dividir a vida.
— Não vou te prometer ir ao jogo. Preciso ir no hospital e você sabe que posso agarrar.
— Tudo bem, linda. Mas você sabe que eu adoraria você lá.
— Eu sei. — Luiza abriu um sorriso e puxou o namorado para um beijo.
Diego e Luiza eram assim. Um sempre tentando entender os motivos do outro, nunca brigavam e raramente discordavam em algo. Luiza tinha certeza que tinha ganhado na loteria por ter conhecido Diego.
Eles estavam juntos desde a adolescência e tinha sobrevivido 9 anos de namoro à distância quando Luiza foi para capital cursar medicina. Era o sonho da menina e Diego sempre fora o primeiro a apoiá-la, mesmo quando os pais disseram que não seria a qualidade de vida para uma mulher.
Mas Luiza não se importava. Ela queria fazer diferença no mundo e sempre foi aficionada por hospitais, principalmente com o de São Bento, que atendia tanta gente mesmo que nem sempre nas condições ideias.
Tinha um ano que Luiza tinha voltado para São Bento após concluir sua residência em clínica médica. Ela ainda queria fazer outra residência ou especialização, mas naquele momento, ela precisava voltar para casa.
E casa também tinha se tornado ao lado de Diego. O goleiro não aceitou que a namorada voltasse para a casa dos pais, e pediram educadamente para se mudar, estava na hora de crescer.

(...)


Não eram nem 9 da manhã quando chegou na casa dos com um saco de pães da padaria da esquina.
— Oi tio! Coloquei na conta do senhor. — a menina cumprimentou o pai de como se fosse da família. As meninas tinham crescido juntas então era como se realmente fossem irmãs.
e estudavam juntas desde o maternal, e seus pais se conheciam desde muito antes disso.
Pedro e Samuel tinham estudado juntos desde o ensino médio. Tinha sido Samuel o responsável por indicar Pedro a vaga na empresa têxtil que trabalhavam. , como Samuel era carinhosamente chamado, tinha atingido a gerência antes do Problema acontecer. Agora, era Pedro o responsável pela filial da fábrica em São Bento.
— Bom dia ! Obrigada pelo pão. — Pedro ainda estava de pijama e saiu rapidamente da cozinha antes que a esposa chegasse e reclamasse disso.
— Oi ! Você trouxe aquele pão com canela? — Mel chegou na cozinha já se sentando na mesa e abrindo o pacote que tinha levado.
— Claro! Não me esqueceria de você. — piscou enquanto tomou um gole do café.
A rotina na casa dos não era muito diferente de uma casa comum. Em um sábado, Pedro e Renata acordavam relativamente cedo. Ele tinha folga, mas ela trabalhava em uma loja de calçados no centro da cidade. Renata era uma mulher bonita, por volta dos seus 40 anos de idade e frustrada por nunca ter saído de São Bento. Com o tempo ela tinha aceitado sua vida pacata, mas talvez justamente por isso ela tinha colocado todas as suas expectativas na filha mais velha.
tinha crescido ouvindo que seu lugar era bem longe dali. E talvez fosse por isso que ela não se dava por satisfeita pelo curso de pedagogia que tinha terminado no final do ano anterior. Ela tinha planos que guardava para si mesma, ansiosa para realizá-los. Mas enquanto sua vez não chegava, ganhava um dinheiro numa loja de roupas.
tá apagada! Ela pegou folga do trabalho por causa do jogo, mas olha, não sei se ela levanta para ir não. — Mel mordeu um pedaço do pão. A menina já tinha vestido a camisa verde do Jequitibá e estava pronta para entrar em campo, mesmo que soubesse que fosse ficar apenas na arquibancada.
— O que você acha de acordamos ela? — levantou a sobrancelha, sapeca com a ideia.
— VAMOS!
Elas saíram da cozinha na ponta dos pés, correndo no corredor em direção ao quarto de Mel e .
— Fica aqui que vou ver se ela ainda está dormindo. — Melina disse abrindo uma fresta da porta e entrando no quarto ainda escuro.
estava enrolada nas cobertas, parecia estar tendo o sonho dos anjos e Mel sorriu ao ver que aquilo não iria durar.
— Vem. — Chamou que já estava pronta para a ação.
Acenderam a luz e começou a falar freneticamente.
— TALITA LEVANTA LOGO DESSA CAMA QUE LUCAS LUCCO ESTÁ NA PRAÇA! — começou a gritar e tirar a coberta de enquanto Mel já pulava na sua própria cama.
— VAMOS TALI!!!
abriu os olhos no susto, acordando com a barulheira. Ela olhou pro lado e viu Melina rindo incontrolavelmente e soube na hora que era mentira.
— O que eu fiz para merecer vocês duas? — levantou da cama brava e saiu pisando forte em direção ao banheiro enquanto e Mel tentavam se controlar com a reação da garota.
Era fácil tirar do sério e era o hobby favorito de Melina do qual adorava participar. Quando eram mais novas, sempre ficava emburrada e havia aprendido a brincar com Mel sem se importar com a amiga.
Às vezes, achava que era mais amiga de Melina do que de . Mas sabia que não era verdade.
tinha estado ao seu lado na pior época da sua vida e ela era muito grata por isso.
E aquele dia iria ser mais um daqueles que ela precisaria reviver algumas memórias, mesmo que ela estivesse animada em voltar ao campo do Jequitibá Futebol Clube - e, principalmente, assistir aquele atacante gato jogar.
Quando pequena, era a maior torcedora do JFC que poderia existir. Ela ia para a escola com o uniforme completo do time, incluindo meião e chuteira. Todo domingo ela estava na arquibancada com o pai, cantando as músicas tão conhecidas e torcendo para o time que, mesmo não apresentando o melhor futebol do mundo, ainda era o time deles.
Mas, de um dia para outro, ela não teve isso mais. Ela precisou crescer, deixar de ser maria chuteira e se tornar mocinha, como sua mãe tinha repetido diversas vezes em sua orelha.
E os motivos para isso, nem todo mundo sabia.
, você está bem? — perguntou ao voltar para o quarto, já com o rosto lavado e o cabelo amarrado em um coque, e ver a amiga viajando sentada em sua cama.
— Estou sim!
— Você tem certeza que quer ir nesse jogo?
— Tenho. Não posso viver para sempre com essa sombra do passado me impedindo de viver. Chegou a hora. — abraçou a amiga que aceitou de bom grado o carinho.
— Se você quiser vir embora, em qualquer momento, é só falar que a gente vem. Não importa , não importa nada.
— Hm, então a senhorita admite que está indo nesse jogo por causa de um certo atacante com um sorriso bonito, né? — voltou ao tom brincalhão de sempre, como se nada tivesse acontecido.
— Tá. Eu admito que tem um certo atacante do JFC que é bem gato.
As duas riram e saíram do quarto para tomar café. O dia estava apenas começando.

(...)


Não foi difícil para as meninas acharem o local reservado para a torcida do JFC. A camisa verde musgo era a maioria nas arquibancadas e, para aqueles torcedores, o campo no fundo da prefeitura parecia um grande estádio europeu.
Tinha sido ali que o time realizara suas maiores conquistas. E também seria ali, perante a sua torcida, que eles conquistariam muito mais.
achou os acentos bem próximo ao campo. Era claro que os ingressos reservados para o atacante do JFC seriam lugares de luxo.
Ela deixou que Mel ficasse perto da grade que separava a torcida do campo, bem atrás do gol. Melina estava eufórica. Era sua primeira vez ali. Desde que a mais nova nascera, seus pais viviam no trabalho e tinham deixado de frequentar os jogos do time. E, além disso, desde aquele ano o time tinha um jejum de títulos.
Tinha sido em 2005 o último título, quando o Jequitibá Futebol Clube conquistou, pela última vez, a taça João Peçanha de Souza pelo campeonato de várzea da região da zona da mata.
Ninguém nunca soube o motivo de no troféu ter esse nome. Diz a lenda que João Peçanha tinha sido um ex-jogador do Ibiretá, time de uma das cidades vizinhas, e o primeiro da região e ir jogar em um time grande no Rio.
Mas ao procurar os registros desse tal jogador, não houve nem sequer sinal da sua existência. Mas se tinha uma coisa certa em futebol, era tradição. Mudar o nome de uma taça centenária com certeza não daria certo.
observava a grama a sua frente, sentada na cadeira e contando respirações. Ela queria estar ali. Tinha sido escolha dela. Mas então por que estava sentindo como se alguém tivesse arrastado ela até ali contra a sua vontade?
Futebol já tinha sido sua paixão. Ela era daquelas crianças que ia para a aula com meião, chuteira e camisa do JFC, mas em algum momento antes de chegar à adolescência, a menina tinha perdido todo esse amor.
sabia o motivo, e por isso mesmo se sentou ao lado da amiga e segurou sua mão.
— Ei, está tudo bem?
— Sim, só… memórias.
— Elas fazem parte.
— Eu sei. — esboçou um sorriso porque no fim ela sabia que estava tudo bem.
— OS JOGADORES ESTÃO ENTRANDO! OS JOGADORES ESTÃO ENTRANDO! — Melina começou a se agitar, dentro do seu peito o coração estava a mil.
— É apenas o aquecimento, Mel. Faltam uns 20 minutos ainda.
— Ah. — Mel pareceu decepcionada, mas apenas por alguns segundos. Viu entrando em campo, concentrado e distante, e apenas chamou . — Olha seu jogador moreno e sensual!
e olharam instantaneamente para . O rapaz parecia ainda mais bonito vestindo o uniforme e alheio a tudo que acontecia ao seu redor.
tinha a impressão que era esse tipo de cara: fora do campo era brincalhão, divertido, tranquilo. Em campo, ele era centrado, esperto e certeiro.
tinha o maior número de finalizações da história do JFC, e muitos se perguntavam por que o atacante ainda jogava em um time da terceira divisão em uma cidade pequena. Falando assim, parecia fácil.
Enquanto Mel aproveitava a atmosfera e brincava com outras crianças que também chegavam para assistir ao jogo, começou a reparar que o time tinha alguns jogadores bonitos. Mais do que ela esperava.
, pega o celular e começa a anotar os números para pesquisarmos depois. E começa pelo goleiro! Que homem lindo. — ficou babando no loiro de quase dois metros de altura que se jogava no chão para se aquecer e treinando defesas. — Me chama de bola e me pega, gato.
! — repreendeu a menina e as duas escutaram uma moça atrás delas comentar.
— Hm, desculpa, mas o goleiro bonitão já tem dona.
As duas olharam para trás, assustadas com a garota ruiva que tinha cara de ter apenas 15 anos, sorrindo para elas.
— Desculpa, não quis intimidar! — a ruiva disse rindo — Sou a Luiza, namorada do Diego, o goleiro.
— Ah oi! Eu sou a e essa assanhada aqui é a . — esticou a mão para Lu que aceitou em seguida.
— Vocês estão aqui com ingresso de qual jogador? Nunca as vi na área reservada.
tinha se esquecido que os ingressos de , além de serem nos melhores lugares da torcida, também estavam localizados na área fechada.
nos deu os ingressos. Ele é sobrinho do meu padrinho. — se apressou a responder antes que a menina tivesse a ideia errada.
— Sei. Enfim! Espero ver vocês mais vezes por aqui. Às vezes fico um pouco solitária na arquibancada. Isso quando consigo assistir. Hoje achei que não fosse conseguir sair do hospital a tempo, mas apesar de ter vindo direto, deu tempo.
Apenas quando Lu disse hospital que percebeu na roupa branca da menina.
— Você é médica? Meu Deus eu não dava mais de 15 anos para você. — perguntou recebendo um olhar reprovador de .
— Sim, sou e obrigada? — Luiza fez uma careta em um meio sorriso que arrancou risos das meninas.
— VAI COMEÇAR! VAI COMEÇAR! — Melina gritou atraindo atenção das mais velhas.
As meninas viram dar uma piscadela na direção delas e falar alguma coisa com , mas no segundo em que o juiz apitou o início do jogo, elas sabiam que os jogadores iriam esquecer completamente que elas estavam ali.


4.

A torcida inteira ficou quieta quando o juiz apitou o intervalo. O placar de 1 a 0 para o Pinus não deixava ninguém feliz, principalmente Diego.
Ele parecia que não estava com a cabeça no jogo desde que tinha levado o gol e sabia que era a pior coisa que poderia acontecer a um goleiro. Ele pensou em pedir para o técnico te substituir, mas era futebol e não aquele esporte sobre o gelo que insistia em assistir.
— Ei, tá tudo bem? — chegou ao lado do amigo lhe entregando uma garrafa d’água.
— Está, eu só…
— Eu sei. Ninguém gosta de perder, mas ainda temos 45 minutos de jogo. E o gol não foi culpa sua. Otávio e Ryan deveriam estar mais atentos, aquela bola não dava para você defender. — disse se levantando, mas parou quando Diego te chamou.
, eles são um time amador.
— E é por isso que vamos fazer pelo menos 5 gols nesse tempo.
Diego deu de ombros no comentário do atacante. Ele estava confiante demais que faria um bom trabalho e isso deixava Diego ansioso. Ele confiava em , mas será que seria o suficiente?
A saída de bola dessa vez estava com o JFC e Diego só pôde observar de longe toda ação que aconteceria no campo de ataque do time. Ele escutou alguém chamando seu nome, e então olhou para trás por um segundo para perceber que Luiza estava ali.
A namorada tinha conseguido sair a tempo de assistir ao jogo.
Voltou seus olhos para o campo e prestou atenção em todos os lances. Ele não poderia fazer feio na frente dela e só podia rezar para que estivesse certo e realmente marcasse.
Foi então que viu um buraco na defesa do Pinus Balela, fez sinal para que se posicionou no lugar ideal. recebeu a bola de Ryan enquanto Otávio marcava outros dois jogadores. Em uma rapidez impressionante, driblou um dos zagueiros do adversário e chutou a bola para , que dominou e mandou para dentro do gol.
1 a 1 aos 8 minutos do 2º tempo.
— VAMO QUE DÁ PRA VIRAR! — gritou para seus companheiros de time quando voltavam para seu campo para uma nova saída de bola.
Os jogadores do Pinus Balela até tentaram atacar mais uma vez, mas dessa vez Diego estava certo e agarrou a bola antes que o atacante pudesse chutar.
Diego passou a bola para Otávio, que fez um passe para Eduardo no meio do campo. Dessa vez, quando recebeu a bola ele não se preocupou em procurar . De fora da área o meio-campista chutou a bola que o goleiro adversário achou que fosse pra fora, porém ela entrou.
A torcida vibrou junto dos jogadores que saíram correndo comemorando. 2 a 1!
Mas o time da casa queria mais. O JFC não ia deixar barato principalmente porque os jogadores do Balela já estavam cansando e começaram a fazer faltas.
Com um espaço inacreditável, deu uma arrancada com a bola sozinho em um gol que já estava certo. Para evitá-lo, o zagueiro do outro time fez a falta. Dentro da área.
Pênalti para o JFC.
Otávio poderia ser zagueiro, mas contra todas as possibilidades, ele era o melhor batedor de pênalti do Jequitibá.
— Boa sorte. — falou ao entregar a bola ao amigo que rapidamente posicionou a bola na marca de pênalti.
Ele não olhou uma só vez para o goleiro. Seus olhos focaram na bola e ele apenas visualizou onde queria bater.
A torcida inteira fez silêncio e Otávio conseguia ouvir a respiração ansiosa dos torcedores. O juiz fez sinal, estava permitida a cobrança de pênalti.
Otávio chutou a bola como se aquela partida fosse uma final de Copa do Mundo. Gol.
Todos vibraram, comemorando aquela vitória espetacular do JFC. Não importava que o Pinus tinha feito aquele gol no primeiro tempo. Não importava que o Pinus era um time quase amador.
Para a fiel torcida do Jequitibá Futebol Clube, o que importava era a vitória. 3 a 1 após 90 minutos de jogo.
Os jogadores estavam cansados, mas felizes pelo resultado. Esse era o JFC. O time que tinha como família, a família que ele tinha escolhido para si.

(...)


— Vamos, Mel, junta suas coisas.
— Mas já, ? Por quê? — Melina estava feliz com a vitória, mas estava desolada que precisava ir embora do campo. E rapidamente encontrou uma companheira para seu dilema.
— É, , por que vocês já têm que ir embora? — Luiza perguntou descendo os degraus que as separavam.
— Uai, o jogo já acabou. Por que ficar?
— Porque agora que a festa está começando! — Luiza deu um grito quando Diego chegou por trás e a pegou no colo. — O que você está fazendo aqui?
— Vim ver meu namorado jogar. Pode?
— Oh se pode! — Diego puxou Lu para um beijo ignorando completamente a presença das outras meninas ali.
E com ele, os demais jogadores do Jequitibá chegaram para cumprimentar amigos e familiares e foi direto conversar com . Não era todo dia que ele tinha convidados na arquibancada.
— E aí? O que achou?
— Bom jogo. Mas você bem que poderia ter feito mais gols, não é? — brincou.
— Ah, na próxima eu faço um e dedico para você. — ele devolveu a brincadeira e agradeceu por não ter escutado. — Ei, cadê sua irmã?
— Oie! Eu tô aqui! — Melina deixou o amigo que tinha feito naquele dia correndo quando viu que era ao lado da irmã. Ela estava louca para entrar no campo e o menino contou que em breve deixariam que entrassem.
— Trouxe isso aqui para você. — entregou a bola do jogo para a menina que arregalou os olhos e começou a agradecer sem parar, o abraçando de forma desajeitada e logo saindo para exibir o seu novo brinquedo para o amiguinho que não pareceu tão impressionado assim, pois era filho do treinador Gerson.
— Você não precisava fazer isso. — agradeceu.
— Nada. Faz parte.
já estava estranhando que até então não tinha se aproximado dali, foi quando ela viu a garota conversando com Otávio de uma forma muito efusiva.
— Eu adorei aquele passe. — falou sorrindo e tocando de leve no ombro do jogador.
— Qual deles?
— Todos? — ficou se perguntou se deveria revelar ou não seus conhecimentos futebolísticos.
Os dois riam quando se aproximou com .
— Oi , tudo bom? — ele cumprimentou a menina com um beijo no rosto — Vi que você já conheceu o Otávio.
— Sim! Ele é um ser carismático.
— Oh, mas claro! Aqui é carisma puro docinho.
teve que segurar o riso do apelido inventado. Mas não pareceu se importar.
— Hm, muito bom saber.
Os quatro começaram a conversar, mas não demorou para outros dois jogadores se aproximarem. Ryan chegou se apresentando como zagueiro e achou o rapaz bonito. Moreno com olhos verdes e uma incrível habilidade em campo que não passou batida.
— Gostei daquela assistência que você deu ao gol do . — elogiou.
— E vocês achando que zagueiro só defendia. Aqui nois marca também. — riu do menino, achando adorável a falsa falta de modéstia.
— Oi, tudo bom? Qual seu nome? Eu sou o . — O meio-campista chegou pulando em cima de e Otávio.
— Esta é . — respondeu por ela. — Amiga da , você lembra? Que me levou na casa dela?
— Ah, sim. Oi . — olhou rapidamente para , mas voltou o olhar para . — Já que você parece entender de futebol, o que achou do meu gol?
— Podia ter sido melhor. — cortou o rapaz. — Otávio, você sabe onde fica o banheiro?
— Claro! Eu te levo até lá. — Otávio deu o braço para que chamou Mel para ir com ela pois a menina já estava reclamando que queria ir no banheiro há horas, mas se recusava a sair de perto do campo para isso.
acabou se despedindo de com uma promessa que se veriam de novo, e foi com a amiga pelo caminho que também levaria à saída do campo.
ficou parado apenas observando as meninas indo embora, com o orgulho ferido e o coração partido.
— É cara, se deu mal hein? — não iria perder a chance.
— Nada. Você vai chamar a morena para sair e convencer ela a levar a metidinha. Não desisto tão fácil assim não.
não aguentou e caiu na gargalhada atraindo a atenção dos outros jogadores que observaram ir de volta para o vestiário bufando e reclamando de . “Que garota mais antipática, mas tão bonito o rosto”.

(...)


— Ainda não entendi por que tivemos que ir embora antes de entrar no campo. me prometeu que eles iriam liberar! — Melina estava furiosa quando percebeu que não iriam voltar ao gramado.
— Porque esse time tem uns jogadores muito insolentes e eu queria ir embora. — explicou dando partida no carro.
— Você quem foi mal-educada. O menino só perguntou seu nome. — retrucou segurando para não rir da amiga.
— Que nada! Ele entrou no meio da conversa! — quis continuar explicando, mas sabia que não a deixaria em paz. — E eu não estou te entendendo, . Você ficou toda de conversinha com e tá aí enchendo o saco.
— Uai, ele quem convidou a gente queria que eu ignorasse o menino? Eu sei, estava sendo educada.
— Sei.
Melina tinha se calado e apenas observou as duas conversando. Ela podia ter só 12 anos, mas tinha sacado muito bem o que estava acontecendo ali e só podia admitir que a irmã tinha bom gosto. era um gato.
Mas os outros jogadores também não eram tão ruins assim…
— Ei, aquele moço que levou a gente no banheiro parece o cantor daquela banda que a gosta. — Mel resolveu que era melhor tirar o foco dos assuntos e .
— Quem? O Otávio? — perguntou.
— É. Ele tem olhos puxados.
— Ele deve ser descendente de japonês ou coisa assim. — arriscou. — Mas é bonitinho também.
— Ah pronto! Voltamos ao assunto homens bonitos. — revirou os olhos. — E não é japonês, é Coreano! Por que vocês têm tanto preconceito? E sim Mel, ele lembra um pouco o Jeremy Wong, mas ele não é cantor, é ator! E modelo. E digital Influencer. Tá que o Jeremy não é coreano, é chinês, mas o Otávio tem descendência coreana. Ah, vocês entenderam.
As meninas ficaram em silêncio apenas apreciando o surto de , até que Mel resolveu encher um pouco mais o saco da mais velha.
— Pra mim é tudo igual.
— Tô com a Mel nessa. — encetou a discussão.
deu de ombros e parou no único semáforo em Jequitibá. Aproveitou os segundos para ligar o som do carro e era claro que ia colocar uma música de kpop recebendo reclamação das irmãs .

(...)


Quando Luiza disse que a festa estava apenas começando, era isso que ela queria dizer. Todos os jogadores do JFC invadiram o apartamento de como normalmente acontecia nos pós-jogos, e Diego já tinha tomado conta da churrasqueira.
Se tinha uma coisa que não faltava no vestiário do Jequitibá Futebol Clube, era a vontade de fazer churrasco. O time ganhava? Churrasco de comemoração. O time perdia? Churrasco de consolação.
Lu ficou triste que as meninas foram embora, e irritada que não teve a decência de convidá-las para o pós-jogo. Mas alguma coisa lhe dizia que ela veria e novamente.
Luiza se sentia em casa no apartamento do . Eles se conheciam há tanto tempo que o limite de visitas pareciam não existir. Abrir armários da cozinha, usar toda a louça e largar a vasilha suja na pia porque sabia que antes do final da noite alguém teria a decência de encarar a pilha. Abrir o armário de toalhas e simplesmente trocar a suja do banheiro já que todo mundo sabia que não era o cara mais certo em termos de limpeza.
O fogão também estava disponível para quem quisesse usá-lo. E Luiza quem tomou a atitude de fazer qualquer coisa para complementar aquela dieta que, se deixasse com os jogadores de futebol, seria apenas carne e cerveja.
A verdade, era que ela queria ficar um pouco longe do barulho. Eram poucos os jogadores que tinham namoradas e, os casados, raramente iam a essas festas. Luiza tinha sido criada em um meio masculino e costumava não se importar, mas de vez em quando, fazia falta uma presença feminina ali. Ter uma amiga deveria ser interessante.
Ela colocou uma água para ferver e buscou um pacote de macarrão na prateleira. Estava tão distraída que não viu entrando na cozinha.
— O que você está fazendo?
— PUTA QUE PARIU! Menino, você quer me matar?
— Desculpa. — ele disse sincero.
— Vou fazer um macarrão pra mim e quem mais quiser. Não estou na vibe de carne e cerveja hoje e amanhã cedo tenho que estar de volta ao hospital. — Às vezes ela se perguntava se tinha feito a escolha certa no vestibular. Mas Lu sabia que, apesar de toda a correria, os estresses e as ausências que estavam apenas começando, ela era apaixonada por medicina e jamais trocaria os corredores do hospital por outra profissão.
Ela sabia que passava mais tempo com os livros do que com Diego e que, de vez em quando, ela só queria voltar para a rotina de estudo, festa e namorado. Porém, ela tinha consciência que estava fazendo a diferença ao escolher voltar para Jequitibá com o diploma debaixo do braço. Jequitibá precisava de Luiza Santana.
— Achei que dessa vez você fosse ficar. — sentia falta da amiga, mas entendia suas ausências.
— Vou ficar. Mas preciso manter minha cabeça no lugar.
— Entendo. — abriu a cerveja e se sentou na bancada observando Lu despejar o macarrão na panela que borbulhava. — Eu sinto sua falta, Lu. Quando éramos só nós três, eu, você e Diego. Sinto falta das poucas responsabilidades, do companheirismo. Não parece mais a mesma coisa.
— Você está é com medo de crescer. — Luiza deu um sorriso pro amigo. — A vida uma hora cobra da gente, .
Luiza tampou a panela e se sentou ao lado de .
— Eu sei. Estou com um saudosismo de uma época que não volta. É estranho. Eu estou feliz, mas falta algo, sabe? Naquela época não faltava, mas desde que você e Diego passaram a morar juntos, eu ando me sentindo só. — ele respirou fundo. — é idiota, eu sei.
— Você está é precisando de uma namorada. — Luiza zoou, rindo da cara de desespero de .
— Ha Ha. Muito engraçado doutora Luiza. Namoro não resolve nada, você sabe disso.
E sim, Luiza sabia disso. Namoro não resolvia nenhum problema de solidão, nenhuma dúvida e muito menos crises existenciais. As pessoas cresciam pelas situações da vida e não era justo esperar que outra pessoa fosse suprir aquela necessidade.
Mas Lu entendia o que queria dizer. Ela também sentia falta da época que era apenas os três. Que o trabalho não exigia tanto, que deitar no travesseiro era leve sem ter que se preocupar com as contas no fim do mês e, principalmente, ter tempo de ficar de bobeira. Agora, mesmo quando estavam em festas como aquelas pessoas, sua mente não estava exatamente ali.
— Namoro não resolve nenhum desses sentimentos, concordo. Mas ficar se sentindo mal também não é solução. E eu vi como você estava olhando para uma certa torcedora do JFC hoje.
ficou vermelho e tomou um gole da sua cerveja.
— Nem começa Luiza.
— Me conta daqui uns meses, pode ser? — Lu desafiou.
— Espera sentada doutora. — pulou da bancada deixando Luiza rindo sem parar da cara de desespero do rapaz em só pensar na hipótese de estar a fim de alguém.
— Aliás, eu adoraria que tivesse mais mulheres por aqui. E parece ser uma boa moça. Não se engane por muito tempo, . Não faz bem.
E, sem nem olhar para a amiga, saiu da cozinha rumo a baderna que tinha virado o seu apartamento. Estava um calor desgraçado e a cerveja em sua mão rapidamente esquentou. estava mal-humorado e ainda reclamava do fora que tinha levado no campo. tentou se divertir com as conversas de sempre, se empanturrando de carne e trocando ideias com Diego sobre as falhas que tinham acontecido em campo.
No fundo, tinha sido um bom dia. Mas, quando ele finalmente se deitou, só conseguiu lembrar das palavras de Luiza “Não se engane por muito tempo, . Não faz bem.”. Será que ele estava mesmo enganando a si mesmo quando ele dizia que estava bem sozinho?


5.

, minha filha, você precisa se alimentar direito. — Renata reclamou da filha quando, mais uma vez, levantou correndo e não teve tempo de tomar café.
— Mãe, a senhora sabe que não tenho fome a essa hora e prefiro dormir mais cinco minutos do que perder tempo comendo. — deu a justificativa que dava toda vez que a mãe enchia o saco com esse assunto.
A verdade era que era magra de ruim. A menina comia uma serra na hora do almoço, era viciada em fast food e se procurasse ela comendo fora de hora, achava. Mas às 7 da manhã estava com tanto sono que apetite não era uma preocupação.
— Vamos, Mel. — chamou a irmã que comia um pão com creme de avelã e estava quase dormindo em cima do prato.
Todo dia da semana saía um pouco mais cedo de casa para deixar Melina na escola. A cidade não era violenta e Mel estava acostumada a andar sozinha, mas gostava quando tinha esse carinho com ela.
As duas saíram de casa, sentindo o frio que começava a aparecer no início de Abril. Melina contava que naquele dia ela teria um trabalho de ciências sobre reciclagem e ela estava entusiasmada para aderir ao movimento em casa também.
— A gente precisa de 5 lixeiras, . Vai ficar muito bonito na área, todo colorido.
— Não acho que papai vai querer comprar lixeiras novas, mas eu já li que separar o reciclável do não reciclável e procurar um local de coleta já é uma ajuda e tanto. Podemos olhar isso depois.
— Você faria isso? — Mel disse toda empolgada.
— Claro! — abraçou a irmã quando chegaram no colégio, desejando boas aulas para a menina.
sentia falta de toda essa inocência da infância. Acreditar que era possível fazer um mundo melhor, que você poderia ser o que quisesse, que a vida era leve e feliz.
Mas, aos 23 anos, já sabia que não era assim. A cada dia que passava, ela se sentia mais privada dos seus sonhos e enxergava cada vez mais a bagunça que o país estava virando.
Às vezes, aquele famoso ditado tinha razão: “a ignorância leva à paz”. Mas também à estupidez.
A loja que trabalhava ficava em um bairro residencial de São Bento. Uma senhora tinha transformado a casa dela em loja uns 60 anos atrás, e hoje era um dos estabelecimentos que tinha a maior variedade em produtos de marca na região. Se não fosse na “Brilhos e Lírios”, as lojas com os mesmos produtos mais perto seria em Juiz de Fora. Então seus produtos eram caros e a clientela selecionada.
Em sua primeira semana na loja, teve receio em pegar todo tipo de peça. Ela tinha medo de acontecer um acidente e rasgar, manchar ou danificar de qualquer forma e ser descontado do seu salário. Ela não poderia ter esse luxo.
Felizmente, naquele dia tudo estava tranquilo. Uma cliente antiga tinha ido buscar um vestido de festa, um senhor, também empresário da região, tinha levado o presente que ganhara de aniversário para trocar por um tamanho maior. Mas fora isso, não tinha muito o que fazer.
Perto do meio-dia, já estava pensando na sua marmita quando a campainha tocou novamente. Aline, a outra vendedora e gerente da loja, atendeu o interfone e permitiu que o novo cliente entrasse.
, você pode atender esse? Estou precisando ir no banheiro e já aproveitaria para almoçar. Essa história de comer para dois não é fácil. — Aline estava grávida de três meses e já estava pensando do que seria dela na loja quando a moça entrasse de licença.
— Claro. — respondeu com um sorriso no rosto e foi até a porta abrir para o cliente. — Bom dia! No que… ?
? Não sabia que você trabalhava aqui. — o atacante ficou sem graça, mas o sorriso que formou no seu rosto foi o mais espontâneo possível — Bom te ver de novo.
Foi a vez da ficar sem graça. Ela não sabia dizer se o rapaz estava ou não dando em cima dela. Aparentemente, ele estava apenas sendo simpático e não via nada de errado nisso, eles eram amigos. E ela esperava que ele não achasse que ela fosse se interessar por ele depois de ter ficado com uma das melhores amigas dela.
— O que você manda hoje?
— Estava precisando olhar um presente para o Técnico Souza. O que vocês têm de camisa? — foi direto e o levou até a arara de camisas masculinas.
Os dois pareciam incomodados, como se aquela situação inusitada fosse algo fora do normal. sabia que esse pensamento não fazia nenhum sentido, ela não tinha vergonha de trabalhar ali. Era um trabalho digno que seria meio para algo a mais em sua vida, era um início.
E era um cliente como outro qualquer. Ela já tinha atendido conhecidos antes, mas parecia estranho ser ele ali.
— Encontrou algo que gostou? — ela perguntou depois de alguns minutos em um silêncio constrangedor.
— Sim. Vou levar essa camisa. — ele levantou uma camisa polo azul e rapidamente pegou a peça e seguiu em direção ao caixa.
Ele acertou e, enquanto ela estava embalando o presente, arriscou:
— Então, … você quer tomar uma cerveja outra hora? — Não era exatamente um encontro, mas era um pedido para sair.
abriu a boca para responder, mas na hora exata seu celular vibrou. Como um ato automático, ela olhou a notificação.
[Alana]: Ei, miga, aquela minha blusa do Sex Pistols ficou com vc?
sorriu com a coincidência. Ela precisava se lembrar que, por mais que o rapaz na sua frente fosse extremamente atraente, ele tinha um rolo com a amiga dela.
— Outro dia talvez.
— Outro dia. — deu um sorriso amarelo e se despediu da garota.
Quando já estava longe ele se xingou. Como ele poderia ser tão idiota? Chamar a menina para sair no trabalho dela? Era claro que ela não ia aceitar.
Ele respirou fundo. Talvez ela só não quisesse nada com ele mesmo e ele precisava aceitar. Não era fácil, mas ninguém tinha obrigação de gostar de ninguém.
E por que mesmo ele estava pensando em ? Ela tinha um sorriso encantador e uma pele bonita, mas ele ainda era contra relacionamentos. Espera, ele tinha pensando na pele dela?
ligou para perguntando se este gostaria de tomar uma cerveja, que foi aceito na hora. Em poucos minutos os dois já estavam na casa de com uma carne na air fryer e um latão aberto.

(…)

Se contassem para na semana anterior que ela estaria indo assistir a reprise de Missão Impossível com um jogador do JFC, ela diria que essa pessoa tinha fumado alguma erva estragada.
Mas ali estava ela, sem conseguir conter a sua ansiedade, aguardando sua companhia com um balde de pipoca na porta do único cinema de São Bento. Raramente passava algum filme que era lançamento e o lugar vivia de reprises e contava com o coração saudosista da população. Mas normalmente funcionava.
já tinha trabalhado no cinema quando era adolescente, e até cogitara a voltar à bomboneria e viver com cheiro de pipoca no nariz se isso significa que seus pais iam parar de perguntar o que ela iria fazer da vida.
Mas, com 22 anos, o cinema não aceitava mais a sua mão de obra e ela preferia deixar sua agenda em aberto. às vezes se odiava por não ter uma meta de vida tão certinha quanto a de Alana e , mas ela também sabia que queria ser feliz. E não trocava esse objetivo por nada.
— Desculpa a demora, tive que dar carona pro depois do treino. — Otávio chegou todo esbaforido e com o cabelo escuro ainda molhado.
— Tudo bem. Já comprei as entradas, então vamos logo porque não quero perder os trailers.
Otávio pegou a pipoca das mãos de que entregou os ingressos para o rapaz na frente da sala de cinema. Eles entraram na escuridão com apenas a luz da tela para acharem um lugar.
Por sorte, o cinema de São Bento não tinha lugar marcado e, naquele dia em especial, estava vazio. Começaram a subir quando Otávio escutou alguém chamando seu nome.
— Ei, Otávio! Sentem aqui! — Luiza estava com um grupo de amigas aguardando o filme começar.
Luly não tinha muito tempo livre, e o que tinha, tentava passar com Diego. Mas nas terças à noite, era sagrado sair com as amigas. Poderia ser um filme no cinema ou apenas uma reunião na casa de uma delas. Mas toda semana se reuniam para se atualizarem da vida uma das outras.
, não é?
— Sim. Tudo bem?
— Claro! Otávio, você deveria ter me dito que viria, eu teria chamado o Diego. — Luiza parou um pouco e olhou para os dois só então se tocando que ela poderia estar sendo um pouco inconveniente. — Ei, espera! Vocês estão em um encontro?
— Não! — e Otávio responderam em um uníssono.
— Definitivamente isso não é um encontro — Otávio reforçou.
— Ainda bem. — Lu respirou aliviada, mas ainda assim não estava totalmente convencida.
Otávio e poderiam não estar em um encontro, mas Lu achava que tinha coisa ali. Só esperava que não descobrisse.

(…)

— Eu não acredito que encontramos com a Lu no cinema. Qual a chance? — Otávio parecia desesperado com uma coisa tão simples que começou a se sentir ofendida.
— Uai, mas por quê? Não estávamos fazendo nada ilegal. — tentava se controlar para não xingar o zagueiro enquanto ele estava no volante.
— Não é isso… é que Lu vai contar pra Diego que viu a gente junto, e ele vai contar pra todos do time e vai todo mundo encher o saco.
olhou para a janela segurando firme o copo de refrigerante que tinha comprado no Giraffas antes de irem embora. Ela tentava parecer calma, mas a verdade é que não entendia por que Otávio estava fazendo uma tempestade em copo d’água sobre uma ida ao cinema. Nem sequer era um encontro!
— Olha, desculpa , isso realmente não é problema seu. Eu só não gosto de ser o centro das atenções no vestiário. Já tive que passar por muita merda nessa vida e desde então aprendi a ser invisível. — Otávio se arrependeu no momento em que jogou as palavras em cima da menina.
Ele tinha crescido em Jequitibá, mas cursara o ensino médio em Juiz de Fora dada a proximidade das duas cidades. E a vida em uma cidade maior que São Bento não tinha sido agradável para o garoto.
Seus olhos levemente puxados herdados do seu avô coreano não eram bem vistos quando ele tinha 16 anos. Talvez, se ele tivesse esperando a era do K-pop chegar, Otávio tivesse tido uma recepção diferente no colégio.
Mas na época ele era o japa, o esquisito, o diferente. O bullying o tinha deixado mais forte, ele aprendera a fazer piada de si mesmo e ignorar comentários maldosos.
Mas para não enlouquecer, Otávio também aprendera a viver fora dos holofotes. Ele não gostava de chamar atenção e só se permitia aparecer em campo. Quando a bola estava ao seus pés, todas aquelas diferenças eram esquecidas e ele mostrava quem era Otávio Cavalcanti.
Ele era considerado pelo amigos como o palhaço da turma, mas isso significava que ele era o líder da zoeira e nunca o alvo. Otávio odiava ser o alvo.
— Desculpa, eu não deveria ter falado assim.
— Você sente vergonha? — tentou fingir que estava bem, mas havia um limite em seu controle de palavras. — Você sente vergonha de ser visto comigo ou você tem vergonha de si mesmo? Sério, Otávio, qual o seu problema? Se você não queria sair, era só não ter aceitado o convite. Você mesmo disse, isso não é um encontro. Então por que está agindo como se tivesse sido um? — O carro parou na porta da casa de e ela não esperou uma resposta para descer. — Olha, eu quero ser sua amiga, e até acho você um gato, mas me liga só quando você resolver suas merdas.
Ela bateu a porta e saiu andando brava para casa. não era mulher de meias palavras e muito menos levava desaforo para casa. Ela tinha gostado de Otávio, ele era um rapaz educado, divertido e muito bonito, mas ela estava cansada de homens com baixa autoestima.
gostava de namorar, beijar na boca, sexo, se divertir, rir e se aventurar nas situações mais inusitadas da vida. já tinha saído com um equilibrista de um circo que passara na cidade, com um bartender que fazia malabares e com um guitarrista de uma banda de rock famosa que ela não contava de jeito nenhum qual era.
Mas nenhum deles ela escolheu para namorar. Nenhum deles tinha feito borboletas no estômago se agitarem, e era justamente isso que ela queria: diversão sem nenhuma borboleta.
Ela ainda não tinha beijado um jogador de futebol, mas naquela noite ela resolveu que este também não seria Otávio. Ele era legal, mas a carga emocional era muito além do que ela poderia suportar. Dramas, já bastavam os dela.

(...)

chegou em casa exausta e agradeceu que Melina tinha ido para casa de uma amiga depois da escola. Tinha sido um dia puxado e a última coisa que ela precisava era da irmã mais nova enchendo o saco.
Ela colocou o celular na tomada e foi tomar um banho, ligando uma playlist dos clássicos do punk para relaxar. poderia ter um estilo romântico, mas seu gosto musical era completamente o oposto do que ela apresentava.
Pretty Vacant, do Sex Pistols, começou a tocar e só então ela lembrou da mensagem que Alana tinha mandado de manhã. A visita de à loja tinha deixado a garota totalmente atordoada.
Não que ela tivesse gostado dessa sensação. Muito pelo contrário, estava irritada com o que lhe causava. As borboletas no estômago, a ansiedade ao falar com ele, as palmas das mãos suando. Ela odiava esses sintomas e odiava mais ainda o que eles significavam.
Principalmente quando lembrava que tinha ficado com Alana. E Lana mais uma vez voltou a sua mente, o que fez sair do banho e ligar imediatamente para a amiga.
Que susto! Você me ligou mesmo ou apertou o botão sem querer? — Lana atendeu o telefone assustada.
riu e confirmou que tinha ligado sim para ela. Existia essa função quase inutilizada no celular, mas que de vez em quando valia a pena usar.
— Então, Lana, primeiro respondendo à sua pergunta: sua camisa ficou aqui em casa sim. Acho que até deixei separado para você pegar no dia do meu aniversário, mas a senhorita estava ocupada demais para lembrar.
Alana riu e pediu desculpas. Mas não muitas.
— E falando em , Lana, eu precisava te perguntar uma coisa… — disse sem graça. Ela não queria falar do jogador, mas se não falasse para alguém iria enlouquecer. E sabia muito bem o que diria se contasse para ela.
O que tem ele?
— Você ainda é a fim dele? É porque… estamos conversando bastante um com o outro e queria saber se está tudo bem pra você...
, você está me pedindo permissão para ficar com um homem daqueles? Claro que pode! Não só pode como deve na verdade. — Alana falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Tem certeza?
Claro! Inclusive… Eu tô namorando! conseguiu escutar o sorriso no rosto da amiga.
— Sério? Ah, que coisa linda, Lana! Ansiosa para conhecê-lo.
Pode deixar, quando formos pra Jequitibá vocês se conhecem. E não deve demorar! Planejo passar Semana Santa em casa.
— Ai, venham mesmo. E tragam chocolates!
desligou o telefone se sentindo mais leve. Ela não planejava pular em cima de nem nada do tipo, até porque, ela tinha outras prioridades do que arrumar um namorado.
Mas também não iria enganar a si mesma com aqueles sintomas de paixão. “Deixa a vida me levar” nunca pareceu tão real para ela.


6.

não era um desses rapazes que saía namorando a primeira garota que aparecesse na sua frente. Ele também não era de sair beijando qualquer boca nas baladas da vida, mesmo que seus amigos achassem o contrário. era um cara seletivo, apesar de toda a pose de bad boy, as tatuagens nos braços e o sorriso malandro.
Ele também não era o tipo de pessoa que se apaixona à primeira vista. Pelo contrário, ele defende com todas as forças a ideia de que amor à primeira vista era uma invenção dos livros e filmes de romance para iludir moças inocentes. E se tinha uma coisa que ele era contra, era iludir alguém.
já tinha levado a sua cota de corações partidos, mesmo que essas histórias ficassem guardadas em uma gaveta com sete chaves. Sua autoconfiança e seu sorriso malandro escondia toda dor que somente um coração que já tinha sido partido tantas vezes pudesse suportar.
E, exatamente por isso, que ele tentou dizer a si mesmo que o que tinha sentido por tinha sido apenas uma atração. A menina era linda! Os cabelos castanhos claro, os olhos cor de mel e um sorriso que poderia iluminar o campo inteiro do Jequitibá. O problema? Aquele sorriso tinha sido direcionado a todo mundo menos para .
O rapaz tinha passado alguns dias remoendo o caso. Não era como se ele fosse beijar a menina ali, naquele momento, afinal, tinham acabado de se conhecer. Mas algo nela o chamava atenção, e ele não sabia explicar o que era.
E era este não saber que o incomodava tanto. Ele nunca tinha ficado tão impressionado com uma mulher antes, talvez por ser tão seletivo e só beijar meninas que realmente o tocava de alguma forma, ou que tinham algo de diferente.
Mas tinha tudo isso e muito mais, e ele mal tinha trocado três palavras com a mulher. começava a pensar que estava ficando louco.
E era exatamente por isso que, duas semanas depois do jogo, ele estava na cozinha do apartamento de implorando para o amigo, conhecido por nunca tomar atitude, em chamar as meninas para saírem.
— Sério, qual é o problema? — perguntava pela quinta vez para o atacante que continuava negado o pedido.
, você viu a menina uma vez e está todo babão aí!
— Exatamente por isso! Você conhece a amiga dela, ela é gata, por que não saímos os quatro? Não tô te pedindo algo tão difícil, . — estava quase chorando de desespero. Se visse ele naquele momento, com certeza iria negar o convite. — Se você chamar elas para saírem, eu te levo para o treino durante um mês. Que se dane! Eu te levo para um treino durante um ano!
estava se controlando para não rir da cara do amigo. Ele estava patético segurando a caneca com um café quase frio, olhos arregalados e o cabelo escuro todo bagunçado. nunca tinha visto tão desesperado para sair com alguém.
era sempre brincalhão, dava em cima de todo mundo e sempre era ele quem arrumava os encontros para , o tímido, calado que preferia sua cama a fria noite de São Bento. Ver os papéis se invertendo era até cômico.
A verdade era que não precisava ter pedido muito para convencer . Depois da conversa que tivera com Luiza no pós-jogo, não estava mais disposto em fugir. tinha recusado a cerveja, mas e se ele tentasse outra coisa?
Estava precisando de um empurrão para tomar coragem e telefonar para . Porque sim, ele ainda era um cara que gostava de costumes antigos e se recusava a pedir uma garota para sair por mensagem de celular. Coisa mais corta clima.
Mas ver o amigo implorando era extremamente divertido e ele poderia muito bem se beneficiar com essa carona por um ano…
— Carona por um ano? — quis confirmar.
— Só para o treino, não abusa. — se ajeitou na cadeira, se animando com a mudança de comportamento do amigo.
— Para os jogos também ou nada feito.
— Combinado! — O meio-campista faltou pular de alegria do banco que estava sentado.
pegou o celular no bolso e procurou nos contatos o número de . Já passava das 7 da noite, então ela já deveria ter chegado do trabalho. Ele mentiria se dissesse que não estava um pouco enjoado de nervosismo, mas não deixaria aquilo transparecer para um com um olhar infantil de uma criança que aguardava a sua vez na montanha russa e era o próximo da fila.
Alô? escutou aquela doce voz do outro lado da linha e foi impossível esconder um sorriso.

(...)


tinha chegado na casa de antes mesmo da dona de casa. Era comum ela passar mais tempo na casa da amiga do que na própria. Sua mãe trabalhava em casa como costureira e atualmente só sabia implicar com a filha que ela precisava tomar um rumo.
A verdade era que sabia disso, mas entre conseguir um emprego ou se inscrever em um concurso, ainda preferia ficar em casa. Ela tinha escolhido não cursar uma faculdade, e às vezes isso fazia falta. Às vezes não, sempre. Já tinha quatro anos que ela fazia bicos ajudando a mãe e até mesmo chegou a trabalhar em uma confeitaria depois de ter sido pedida educadamente para sair do emprego no cinema porque estava fora da faixa etária. Ou seja, estava ficando velha e não estava sentindo. Mas a verdade, era que sabia o que ela queria, só não poderia admitir. Ainda.
Melina chegou da escola e se jogou no sofá para assistir a nova temporada de Malhação. achava aquela novela horrível e reclamava da época de sua pré-adolescência dos quais personagens como Cabeção e Vagabanda tinham feito parte. Até hoje ela ainda se pegava cantando as músicas de Marjorie Estiano e o CD da cantora estava jogado em algum lugar.
Mas estava entediada demais para reclamar da escolha de Mel.
— Até que a trilha sonora dessa novela está boa. — disse declarando a mais nova vencedora.
— Sim! Ana Vitória é muito bom.
— Menina, você não conheceu Charlie Brown Jr. Aquilo sim era música, mas o doido do Chorão resolveu se matar. E…
Antes que continuasse a conversa, as duas escutaram entrando em casa e seu celular tocando ao mesmo tempo. A morena jogou as sacolas no chão e pegou o celular correto na bolsa.
— Alô?
Ei, ? Aqui é o .
— Oi, ! Tudo bom? — franziu o nariz no mesmo tempo em que e Melina desceram correndo as escadas ao ouvir o nome de um certo jogador.
Tudo joia e você? — Do outro lado da linha respirou fundo para tomar coragem. — É o seguinte, você tem algum compromisso para amanhã à noite?
— Amanhã? Não, por quê?
Eu estou indo em um cover do Nirvana que vai ter no Hops amanhã e queria saber se você queria vir… Ah, e pode chamar aquela sua amiga, o nome dela? perguntou para se ela tinha algum compromisso e a menina respondeu que ela sempre estava à toa.
queria recusar, era dia de semana e ela precisaria estar na loja no dia seguinte. Mas quando que um jogador de futebol charmoso iria lhe chamar para sair novamente? Ela olhou para Melina na tentativa da irmã lhe persuadir a desistir, mas era claro que a garota estava com uma papel escrito em letras garrafais “SIM” que ela nem sabia de onde tinha surgido.
— Uai, pode ser! falou que anima ir também.
Ótimo! Eu e buscamos vocês às 7, ok?
— Combinado. — Visto que não tinha mais nada a ser dito, os dois despediram e desligaram.
ficou parada olhando para como se não conseguisse acreditar no que tinha acabado de acontecer. Ela tinha acabado de concordar em sair com .
— Eu também quero ir! — Mel começou a pular no hall de entrada fazendo carinha do gato de botas do Sherek.
— Meli, você ainda não tem idade. E, de qualquer forma, você não quer ser A Vela, não é? — tentou ser a racional pela primeira vez na vida.
— Eles poderiam chamar o outro amigo deles pra mim. O coreano. Ele é lindinho e lembra esses cantores de kpop que gosta.
segurou o riso com a teimosia da irmã e teve que morder o lábio para não dar uma resposta atravessada. Ela tinha ficado com ciúmes? tinha dado um fora em Otávio, ela não deveria estar com ciúmes do rapaz, ainda mais porque ela tinha aceitado sair com o amigo dele no dia seguinte. podia ser um saco, mas ele era gato. Muito gato.
Se fosse outras pessoas, teria insistido para mais gente ir. Mas ela queria que a amiga fosse feliz e tinha visto o jeito que olhou pra ela. Eles poderiam não querer admitir, mas estavam se apaixonando, lento e gradativamente.
As meninas passaram o resto do dia maratonando Gilmore Girls na Netflix. não conseguia entender como que defendia o Logan como o par feito para a Rory.
Ele tinha feito com que Rory fosse presa, largasse Yale, traísse e diversas outras coisas que era impossível defender. Logan se dizia tão autêntico, mas quando de fato precisou ser, ele deu pra trás.
Jesse não. Ele poderia ter uma pinta de bad boy, mas apesar de tudo, ele tinha tomado um rumo em sua vida. Ele era um rapaz inteligente, com cabeça no lugar e que sempre despertara o melhor em Rory.
só não previu que Melina ia escolher justo uma cena do Jess para passar pela sala:
— Ei, é o ? — Ela perguntou genuinamente curiosa.
— Não, Mel, estamos vendo série. Mas, agora que você falou, o Jess lembra mesmo .

(...)


O Hobs não era grande. O típico lugar de cidade pequena: bem arrumado, bem servido, um pouco mais acima do que o orçamento da maioria, mas com música boa. Música muito boa. conhecia os meninos da “TeenSpirit”, cover de Nirvana que tocaria naquela noite, desde que eram crianças. Douglas, o vocalista, chegou a jogar futebol com ele e Diego no campinho improvisado no fundo da casa do Tio Carlos.
conversava animadamente com quando entraram no Pub. Algumas pessoas já se acomodavam na frente do palco, mas se dirigiu para as mesas que tinham no lado oposto. foi a primeira a deixar o grupo e seguir em direção ao palco. Assim que as meninas entraram no carro de , a garota fechou a cara se questionando por que tinha deixado a convencerem a ir no Pub.
Ela olhava para o garoto que parecia um labrador ansioso e se lembrava de como tinha dado errado o encontro com Otávio. E mais uma vez ela se xingava lembrando que aquilo não tinha sido um encontro. Eles eram apenas amigos. A-M-I-G-O-S.
ficou observando enquanto o guitarrista bonitinho terminava de afinar o instrumento e estava ansiosa para os primeiros acordes de Smells Like Teen Spirit que sempre dava início ao set list. Ela se distraía com os sorrisos travessos que o moço lançava para a pequena plateia feminina quando se assustou com :
— Você está bonita hoje.
— AI CARALHO! Que susto menino, quer me matar do coração?
— Não… Só queria dizer que você está bonita mesmo, ou melhor, você é sempre bonita, mas hoje está especialmente mais bonita.
olhou para a escolha que tinha feito de um jeans e camiseta simples e um All Star preto e sorriu, talvez não fosse tão ruim assim.
— Obrigada.
— Por nada. Então, você curte Nirvana?
— Gosto. — não quis falar mais nada pois viu a movimentação no palco escutando os primeiros acordes daquela banda que era uma de suas favoritas.
ficou um tempo apenas observando a menina. Ele queria oferecer a bebida ou falar alguma coisa, mas parecia tão absorvida em seu próprio mundo que ele não quis estragar a sua vibe.
— Achei que você fosse ficar com seus amigos. — Foi ela quem disse quando acabou a terceira música e a banda conversava com a plateia.
— Aqueles ali? — apontou para a mesa em que e conversavam efusivamente um com o outro. — Não tô a fim de ficar de vela hoje.
ficou perguntando se outros jogadores do JFC também tinham combinado de irem até o Hops, mas preferiu ficar calada. Ela e Otávio não tinham nada, só precisava aceitar.
— Então você resolveu tentar a sorte de galinhar pra cima de mim? — supôs subindo mais uma vez o muro que tinha construído.
— Não. Eu só quis dar espaço para os dois mesmo e não achei que você fosse se importar com a companhia.
saiu de perto, claramente chateado com o que a garota tinha dito. percebeu que tinha vacilado, o menino não era de tudo ruim. Mas o orgulho não permitiu que fosse atrás do meio-campista e focou no guitarrista bonitinho que tocava o solo de “Come As You Are”.

— Eu não acredito que você não sabe dirigir! — estava indignada com essa informação. Para ela, todo mundo acima de 21 anos tinha carteira de motorista, principalmente alguém que tinha dinheiro.
— Pois não sei. Nunca quis aprender, não sinto muita falta aqui em São Bento.
— Mas não é possível, ! Você mora sozinho, deve fazer falta.
— Ah, nem faz. Os meninos sempre me dão carona.
— Os meninos na verdade são escravizados para te carregar pra todo lado.— chegou mal-humorado sentando-se a mesa e virando uma cerveja de uma só vez.
— Opa opa, que bicho te mordeu? — questionou ao amigo que virou uma cerveja de uma vez, ignorando que era o motorista da vez. Ele precisava de álcool.
— Nada.
ficou mal-humorado e resolveu ignorá-lo, voltando a conversa com . A verdade era que ele estava morrendo de ansiedade por dentro, mas aparentava estar o mais calmo dos apaixonados.
— Um dia eu já sonhei em aprender a dirigir, sabe? Mas a vida acabou desviando essa ideia. — Foi a vez de tomar um gole bem grande de cerveja.
brincou com uma batata frita no prato a sua frente, percebendo que tinha muito mais naquela história de do que ele estava deixando transparecer. Seus olhos escuros tinham ficado tristes de repente, mas sabia que não era hora nem lugar para matar sua curiosidade.
se levantou para ir no banheiro e agradeceu por ficar sozinho com novamente. Ele tinha mil perguntas que queria fazer para a menina, mas estava se odiando por não saber por onde começar. “Pelo amor de Deus, você sabe chavecar.”
— Eu amo essa música! — declarou se levantando e correndo em direção à quando “About a Girl” começou a tocar. foi salvo pelo gongo. Ou melhor, pela música.
Lentamente ele foi atrás da menina e não teve como segurar o sorriso quando a viu se divertindo com a amiga. Queria ele ser tão solto assim.
E, diferente de , estava bem solto. Voltou para a pista brincando com as meninas, cantando e dançando com elas e até mesmo tentou fazer um rir, o que não era uma coisa fácil.
I need an easy friend I do whip her in to land cantou ao lado de , pulando ao som daquela batida grunge tão frenética que apenas Nirvana poderia produzir.
A banda anunciou a saideira, uma repetição de Lithium, e os quatro amigos entraram na batida, esquecendo todos os problemas. deixou de lado a decepção de Otávio não ter ido, de estar lhe dando foras um atrás do outro, a sua curiosidade por saber mais do que estava escondendo e , por sua vez, tentou reprimir todas as borboletas no estômago. Fala sério!

No carro, colocou sua playlist de sempre e All Time Low rapidamente preencheu todo o ambiente. ia ao lado do motorista e ficou entusiasmada cantando aquelas músicas que tinham feito parte de uma adolescência regada a muita rebeldia. dirigiu sem pensar em direção ao seu apartamento, acontece que ele estava bebendo cerveja sem álcool o tempo todo, mas era tão frenético que não percebeu a diferença.
Eles só se deram conta que estavam no caminho errado quando já estacionava na porta do prédio.
— Eita, meninas, desculpa. Vou manobrar o carro e levo vocês. — Ele ligou a seta para esquerda, mas então olhou o relógio. Não era nem onze e meia. — A não ser, é claro, que vocês queiram entrar.
olhou para , e apesar do bom senso contestar, resolveu que ela teria o direito de viver apenas aquela noite.
— Claro, por que não?
E aquelas três palavras fizeram dar o maior sorriso que poderia naquela noite.

(...)


O prédio era pequeno, como a maioria dos prédios em São Bento. morava no 5º andar, ou como ele gostava de chamar, na Cobertura, que de cobertura não tinha nada era só o último andar do prédio. Eles subiram devagar para não acordar os vizinhos que segundo o anfitrião, variavam entre senhores de idade e pais de crianças pequenas.
O apartamento em si não era grande. Tinha uma sala de televisão pequena, mas com um Xbox e uma prateleira com diversos jogos. A cozinha tinha um bar com pouquíssimas bebidas alcoólicas, e foi isso que reclamou quando ela pediu uma bebida e só respondeu que tinha cerveja.
— Se você não vai ter destilados, então pra que ter um bar?
— Sabe, algumas pessoas gostam de cozinhas e eu sou uma delas! Aqui sirvo petiscos enquanto o jantar não fica pronto. — confessou e foi até a geladeira buscar uma asinha de frango para esquentar.
fitou o garoto, mas quando a comida foi colocada na sua frente, até esqueceu onde estava. realmente sabia cozinhar, e se aquele petisco era apenas uma amostra, ela já queria se convidar para um jantar.
e tentaram segurar o riso dos amigos que só sabiam se provocar, e acabaram se sentando na sala, eventualmente ignorando a presença dos dois.
As borboletas no estômago não paravam de incomodar . A simples proximidade de era o suficiente pra lhe deixar sem ar. Ele estava se sentindo o adolescente que não tinha tido o direito de ser.
— Então…
— Então… — Ela o imitou e ambos riram.
— Normalmente eu não fico sem assunto.
— Tudo bem ficar sem assunto de vez em quando. Mas algo me diz que você está querendo falar alguma coisa. — era boa em ler pessoas e estava tenso demais para não ter algo sério a dizer.
Ele, por sua vez, colocou a mão no bolso da jaqueta, sentindo a textura do papel envelhecido. não sabia por que tinha escolhido justo aquele dia para buscar aquela carta. E muito menos por que teve vontade de compartilhar com . Poderia ter qualquer coisa ali.
— Eu… Não sei se deveria fazer isso, mas… — ele foi interrompido por um barulho de vidro sendo quebrado.
tinha esbarrado no copo e agora a sala estava com um cheiro forte de álcool e um não muito feliz por ter quebrado um dos seus copos favoritos. Era o que tinha o brasão do JFC, que eles tinham ganhado do time no Natal.
— Ai, me desculpa! Eu compro outro. — tentou consertar seu erro.
— Não tem como. — foi ríspido, logo secando o chão.
Ele percebeu que já estava um pouco alterada demais, e perguntou se ela não queria se deitar. Ela sorriu e saiu carregada pelo apartamento adentro.
voltou sua atenção para , que encarava o nada em uma expressão não muito divertida. Ela quis perguntar o que estava acontecendo, mas tinha medo de sua reação. às vezes poderia se fechar como uma ostra e ela ainda não o conhecia o suficiente para entender suas reações.
Mas ele mesmo tomou a decisão.
— Tem sim uma coisa que eu queria te mostrar. Não sei por que escolhi você de todas as pessoas, porque nunca contei isso para ninguém. Nem para Diego. Mas, antes do acidente, minha mãe tinha deixado uma carta no meu quarto. Ela estava indo viajar com meu pai e eu estava no treino quando o acidente aconteceu. Quando cheguei em casa, todo sujo de sangue e com a mente mais fodida possível, encontrei essa carta. — ele tirou um envelope todo amassado do bolso, escrito “” em uma caligrafia elegante — Nunca tive coragem de abrir. Já faz cinco anos e não tenho coragem de abrir.
A voz de começou a falhar e seus olhos arderam. Ele não queria chorar na frente de , mas falar da mãe era doloroso demais para resistir. Ele ainda se lembrava da sua expressão de dor, seus olhos escuros lutando até o fim antes que seu corpo não aguentasse mais.
não conseguia entender como a mãe, quem ele amara incondicionalmente, o tinha deixado. Ele culpava seu pai, ele quem estava no volante. Ele quem deveria ter prestado atenção no caminhão que vinha na direção contrária.
Mas já tinham se passado cinco anos, e tudo que ele poderia fazer era perdoar, mesmo que ainda não conseguisse.
— É por isso que você não quer aprender a dirigir, né? — segurou as mãos do jogador, se segurando para não se emocionar junto a ele. Ela tinha mil perguntas, mas sabia que nenhuma delas seriam respondidas, era um assunto doloroso demais para revirar.
— Sim. — Foi tudo que ele disse.
— Sabe, talvez você precise abrir essa carta. — olhou nos olhos de ao escutar aquela frase. — Talvez isto lhe dê o fechamento que você precisa. Essas foram as últimas palavras da sua mãe para você, e tenho certeza que ela gostaria que você perdoasse o seu pai e seguisse em frente. Você tem o direito de ser feliz, .
Nesse momento ele não conseguiu segurar e as lágrimas caíram em seu rosto, encharcando sua camiseta. Ele tremia segurando aquele envelope. Não saber era melhor do que saber, mas e se ali estivesse algo importante?
E, com ao seu lado, abriu o envelope.


7.

acordou com uma dor de cabeça assustadora. Ela tentou abrir os olhos, mas a claridade machucou seus olhos, então ela ficou deitada e esticou o braço em busca do celular. Foi então que ela percebeu que a cama em que estava era muito maior e muito mais macia do que a que ela estava acostumada.
Abriu os olhos e em um pulo levantou da cama. Ela não se recordava do quarto em que estava e, pior, vestia uma camiseta que não era a sua e estava apenas de calcinha por baixo. Foi então que duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: ela se deu conta que estava na casa de e a ânsia de vômito.
Ela se lembrava vagamente de um banheiro no corredor e, por sorte, não errou a porta. Depois que colocou tudo para fora e conseguir se acalmar, veio o desespero do que tinha acontecido na noite anterior. se sentou no chão frio, amarrou o cabelo em um rabo de cavalo e tentou, sem sucesso, se levantar antes que outra onda de vômito surgisse.
— Ei, calma. Respira. — chegou no banheiro segurando o cabelo da garota — Vai passar, respira.
finalmente conseguiu respirar e se levantou com a ajuda do rapaz. Ela não sabia se estava com vergonha pela aquela cena no banheiro ou pela noite anterior. Pelas suas roupas, ela poderia deduzir o que tinha acontecido e ela não sabia o que pensar.
— Me desculpa, eu...
— Não aconteceu nada, tá bom? — Ele disse antes que ela pudesse falar mais algo.
cruzou os braços e encostou no batente da porta. Ele queria dar privacidade para , mas estava com medo dela não estar passando tão bem assim. , por sua vez, não pôde deixar de reparar que o rapaz estava usando apenas uma calça de moletom, exibindo um peitoral definido pela profissão e tatuagens, muitas tatuagens. Ela teve que segurar o olhar em seu rosto pois sabia que se descesse o olhar para a linha do abdômen do rapaz, ela iria deixar escapar algo que não deveria.
— Obrigada. — Foi tudo que conseguiu dizer naquele momento.
— Por nada. Vou fazer um café e te espero na cozinha. E você vai tomar, não tem desculpa. Se quiser, tem um short de pijama na cômoda do quarto que você ficou. — saiu sem olhar para trás. Foi a vez dele resistir em não abaixar o olhar para as pernas nuas da garota.
teve que se conter com lavar o rosto na água fria, porque a verdade era que ela estava precisando de um banho de água fria. Escovou os dentes com o dedo na pasta de dente que encontrou na primeira gaveta e não teve como não perceber que era extremamente organizado.
Se entrassem no banheiro dela, teria maquiagens e produtos de beleza espalhados por todo canto e as gavetas eram uma zona. Mas não ali. Tudo no banheiro de era milimetricamente organizado, com produtos masculinos que nunca tinha ouvido falar separados por tamanho. De fato, o apartamento era pequeno, mas o rapaz sabia aproveitar muito bem o espaço.
puxou a camiseta que era um pouco grande para ela e foi rapidamente em direção ao quarto que tinha dormido. Sua cabeça ainda doía, mas só de saber que não tinha transado com ela já ficava mais calma. Vestiu o short xadrez e voltou pelo mesmo corredor que tinha ido.
O cheiro do café não estava irritando seu estômago como ela achou que iria. A cozinha do meio-campista era tão organizada quanto o seu banheiro. A louça lavada, a mesa posta, uma garrafa de café e uma cesta com pães. O carinho com que tinha organizado tudo era inédito para . As únicas vezes que alguém havia se preocupado com ela dessa forma depois que seu pai foi embora, tinha sido na casa de .
— Por que você está fazendo isso? — a menina falou em um tom verdadeiramente curioso. era a rainha das patadas, mas naquele dia ela estava grata por ter alguém por ela.
— Achei que você estivesse precisando depois de ontem à noite. — pegou um dos pães da cesta, cortando-o e passando manteiga.
— Que fique claro que eu não sou de beber daquela forma, foi só que…
— Você falou. Foi aniversário do sumiço do seu pai, né?
parou com a caneca de café no meio do caminho.
— Como você…
— Você falou ontem à noite. Quando te levei bêbada para o quarto numa tentativa de te tirar de perto do álcool.
— Obrigada. — Ela foi sincera, abaixando a guarda — Você não é tão ruim assim, .
Ele se limitou a sorrir, observando beliscar o miolo de pão que tinha ficado em cima da mesa. achava a uma das mulheres mais bonitas que já conhecera, mas depois de escutar a sua história na noite passada, ele tinha descoberto que ela também era uma das pessoas mais fortes que ele já conhecera. E era apenas um ano mais nova que ele…

(...)


, percebendo que precisava de um tempo, levou uma bêbada para o quarto. Primeiro, ele achou que ela estava com papo de bêbado, dizendo que ninguém a amava e que ela iria morrer sozinha, mas então ela quis beijá-lo, começou a tirar a roupa e a única coisa que ele pôde fazer foi pedir para ela parar, que não estava pensando direito. Buscou uma camiseta velha no armário e perguntou se ela não queria tomar um banho, recusou.
Ao invés de aceitar a proposta, ela se sentou na cama, seminua, e começou a chorar sem parar.
— Ei, o que foi? — perguntou, se segurando para puxá-la para um abraço, mas sem querer ultrapassar qualquer limite.
— Hoje é aniversário do dia que ele se foi. Oito anos. Não consigo nem sequer pensar no que esse número significa. Oito anos que meu pai resolveu que eu não era importante para ele. — começou a deixar que as lágrimas caíssem. — Ele acordou, disse que ia trabalhar, e nunca mais voltou. Mamãe ficou louca, começou a dizer que ele tinha uma amante e que tinha fugido com ela. Mas esse não era meu pai, Samuel me amava, ele não me deixaria com a louca da minha mãe. Ele sabia que mamãe nunca se interessou por mim de verdade, ele era tudo que eu tinha. Para falar a verdade, não estava nem aí se ele tinha outra família, eu só queria meu pai de volta…
mandou o bom senso para puta que pariu e abraçou a garota. Quando ela acalmou um pouco, ele entregou a camiseta do Patriots e a fez vestir. Então ela voltou a chorar, e ele deixou. A acomodou na cama e simplesmente ficou fazendo cafuné, deixando-a mais confortável possível, até que ela dormiu.

(...)


olhou mais uma vez para o envelope, agora aberto, que tinha deixado em cima da mesa na noite anterior. A coragem que tinha te dado para abrir o envelope se esvaiu no momento em que leu a caligrafia redonda de sua mãe. Ele precisou fechar os olhos para segurar as lágrimas, e só conseguiu começar a ler ao sentir ao seu lado.
Mas de todas as mensagens de carinho e amor que a mãe tinha lhe deixado, todas as explicações do porquê ela tinha entrado naquele carro em direção a Juiz de Fora, o parágrafo que mais lhe marcou estava no final do texto. O mistério pelo qual nunca suspeitara que existia em seus 26 anos de vida:

“Filho, eu sei que nenhuma dessas palavras deve ser fáceis para você, e espero que um dia você possa perdoar o seu pai e compreender os seus motivos. Mas, acima de tudo, espero que você tenha a chance de conhecer a sua irmã e amá-la como eu já a amo. Quando voltar de viagem, vamos lhe contar toda a história e espero que vocês possam se conhecer, tenho certeza que os 5 anos que os separam não vão ser problema.
Com amor, Sua mãe.”

No momento, entrou em choque. Ficou olhando para a carta como se fosse uma lista de feira e ainda conseguiu sorrir. perguntou para ele o que estava ali, ele mentiu, dizendo que era apenas um recado dizendo que estava indo para Juiz de Fora passear. Sua mentira fez doer mais ainda a perda dos pais. Ele nunca soube muito bem o que aconteceu no acidente e, aparentemente, ele jamais descobriria.
sabia que deveria ter contado a verdade para , mas ele simplesmente não conseguiu. Era o último segredo dos seus pais e ele queria que também fosse um segredo só dele por um tempo. Rapidamente pediu a garota se eles poderiam ir embora, a casa dela não era tão longe dali para que fossem a pé. De lá, ele seguiu para seu apartamento com a cabeça cheia demais para dormir.
Agora de manhã ele sentia que tinha cometido um erro. Se não deveria ter dividido esse peso com ela. Por sorte, ou azar, a campainha do seu apartamento começou a tocar insistentemente e se deu conta que já estava atrasado! Ele tinha treino em dez minutos e nem sequer tinha levantado da cama.
— Já vai caralho, puta que pariu! — Ele trocou de roupa o mais rápido possível e agradeceu por deixar a bolsa de treino sempre arrumada. Diego lhe esperava na porta girando a chave do carro com a maior cara de irritado.
— Porra, , se você quer se atrasar tudo bem, mas não me fode também não. — Aquele era o dia de Diego dar carona para o atacante. não estava tão errado assim quando dissera que escravizara todos os colegas para levá-lo ao treino.
Na verdade, era quem deveria estar ali, pelo tal acordo de um ano de carona sem reclamar, mas antes que pudesse perguntar, Diego respondeu.
ligou e disse que não estava passando muito bem e pediu para eu te levar. No mínimo é ressaca. Não sei o que vocês têm na cabeça de sair no meio de semana, ainda mais quando tem jogo no fim de semana. Volta Redonda está bem essa temporada.
apenas agradeceu a carona do amigo e se recusou a comentar sobre a noite anterior ou o Volta Redonda. Ele só esperava que o treino hoje fosse de musculação, pois não existia nenhuma possibilidade dele prestar atenção em tática naquela manhã.

(...)


não sabia por que, mas quando disse que mataria o treino para cuidar dela, uma felicidade enorme a atingiu. Ela não conseguia parar de sorrir às pequenas coisas que o jogador dizia.
— Uma garrafa d’água para uma ressaca ir embora. — Ele lhe entregou a garrafinha quando ela estava jogada no sofá assistindo uma reprise de Bones.
— Obrigada.
ficou olhando para a TV sem prestar muita atenção. Ele não era muito de assistir séries, muito menos aquelas que passava na televisão. Se perguntava até pra que ainda tinha TV a cabo se ele só usava para assistir futebol e Discovery Chanel.
— Nunca entendi a apelação dessas séries policiais. Elas são sempre a mesma coisa e é muito fácil descobrir quem é o culpado.
— Mas o legal dessas séries não é descobrir quem é o culpado, mas sim ver como eles analisam os criminosos. Tem todo um estudo disso. — falou de uma forma extremamente efusiva sobre o assunto.
— Você deveria fazer faculdade disso. — ele disse inocentemente e apenas bufou. — Por que não?
— Porque não existe carreira disso no Brasil.
— E quem disse que você precisa ficar no Brasil?
olhou para como se ele tivesse falado a coisa mais absurda do mundo. Era claro que ela não ia sair do país, mal inglês ela sabia falar.
— Não é tão simples assim. — falou por fim, dando um gole na sua água.
— Eu sei. Mas até a última vez que eu conferi, sonhar era de graça. — apenas sorriu com aquele comentário e mudou de assunto. Se tinha uma coisa que ela odiava conversar era sobre seu futuro.
Nenhum dos dois falou mais nada por algumas horas. cochilou no sofá e ligou o vídeo game. A garota tinha lhe dado um dia de folga e ele só poderia agradecer, estava mesmo precisando de um dia de paz.
preparou uma macarronada ao pesto e um suco de laranja. elogiou as habilidades culinárias do rapaz, pois ela mesma não tinha nenhuma. O máximo que ela sabia fazer era o habitual arroz com feijão que tinha aprendido para sobreviver.
— Isso está fantástico. — elogiou.
— Obrigado. Eu sempre gostei de cozinhar, talvez seja algo que herdei do meu pai. Ele é chef de BH, mas meus pais se separaram quando eu tinha uns 7 anos e mudei para São Bento com minha mãe. Todas as férias eu passava em BH com ele no seu restaurante. Eram as melhores partes das férias. Isso e jogar futebol a hora que quisesse com os meninos no campinho. — relembrou de uma forma nostálgica uma época que parecia muito mais longe do que na verdade era.
— Deve ter sido uma boa infância. Quanto eu era criança, eu era apaixonada por futebol. Meu pai sempre me levava no campo, íamos a todos os jogos do JFC, sério, eu deveria ser a criança mais viciada em futebol possível. Arrumava briga com diversos adultos e um dia meu pai teve que me tirar da arquibancada a força porque comecei a xingar o juiz e a família dele estava atrás da gente. — riu se lembrando da cena. — Samuel era uma figura e tanto.
— Se ele era pelo menos um pouco parecido com a filha, tenho certeza disso.
sorriu envergonhada com o elogio. era completamente diferente do que ela imaginava. O meio-campista tinha um sorriso doce, mas era muito mais do que isso. Ele era atencioso, educado e sabia fazer piada no momento correto. tinha algo de especial que não conseguia explicar.
, por outro lado, só conseguia sorrir com a presença da menina. Ele tinha certeza que ela iria procurar todos os defeitos possíveis e jogar em cima dele. Ele poderia fingir que não, mas sabia que a garota tinha se apaixonado por Otávio, e competir com o amigo não era fácil. Otávio tinha tudo que ele não tinha. Herança, educação, cultura. tinha sido criado pela mãe professora de artes que se separou do pai porque não conseguiu morar na cidade grande.
Mas ele era muito grato pela vida que os pais tinham lhe proporcionado. Nunca faltara amor, e era isso que ele pensava quando olhava para . Ele poderia não ser a melhor opção, mas ele teria todo o amor possível para distribuir.
E assim que percebeu o que estava acontecendo, fez o que sempre fazia: fugiu.
— Eu preciso ir embora! — Disse rapidamente se levantando da mesa e saindo da cozinha em busca das suas coisas.
, o que houve? Eu falei algo que não deveria? — saiu preocupado.
— Não, , eu só preciso ir embora.
— Mas estava tudo bem e de uma hora para outra não mais? Sério, tem algo que eu possa fazer?
, eu sei que você me viu sem roupa ontem e esse charme todo é apenas para me levar para cama, não vou continuar caindo nessa. — soltou o verbo sem dó e piedade, mesmo que soubesse que não era verdade.
! Eu juro que não vi nada! — repetiu, tentando convencer que ele realmente não tinha visto a hora que ela tirou o sutiã.
— Você está mentindo! Eu acordei sem meu sutiã. Alguma coisa você deve ter visto!
— Você deve ter tirado dormindo , sério, eu simplesmente te entreguei a camiseta nada além.
— Duvido. — Ela desafiou, cruzando os braços na porta do apartamento do rapaz.
olhou para a garota sem acreditar em como que, em apenas segundos, um dia perfeito tinha se tornado naquela bagunça. Respirou fundo e resolveu que mulher nenhuma valia a pena a esse preço
— Problema seu. — Ele deu de ombros e deu as costas, voltando em direção à cozinha.
— Arrogante. — teve que segurar o sorriso ao ouvir a menina abrindo a porta e saindo. Ele tinha visto outro lado de , mas aquele lado sarcástico e teimoso era sem dúvida o seu favorito, ela o desafiava e, se estava achando que isso o tinha afastado, estaria bem enganada. Se ela era teimosa, ele era três vezes mais.

(...)


— Você está esquisito. — Diego tinha aceitado as desculpas de durante todo o dia, mas não poderia deixar o amigo em casa sem saber por que parecia tão distante e distraído.
— O quê? — olhou para Diego que dirigia o carro em direção ao seu apartamento. A verdade era que ele estava doido para chegar em casa, tomar um banho de verdade na sua ducha e ligar a televisão até que o sono chegasse. Conversar era a última coisa que queria naquele dia.
Diego conhecia a tempo demais para permitir que ele se isolasse. Diego sabia muito bem que, apesar de ser quieto, não era o feitio do amigo se isolar. era um ser sociável, gostava de saber tudo que estava acontecendo com o time, desde as jogadas mais importantes até quem tinha levado o último pé na bunda. Fazia parte da sua figura de liderança no JFC.
Mas naquele dia não queria saber nada da vida de nenhum dos seus amigos. Se isolar era a forma mais fácil que ele tinha de lidar com a bagunça que estava a sua cabeça.
— Você está esquisito, cara. Aconteceu alguma coisa com a ? — Diego insistiu, o que fez revirar os olhos.
— Nada, velho. Só me deixa quieto, ok? — respirou fundo, com raiva pela insistência.
— É, isso só me confirmou que você não tá bem. — soltou um olhar 43 para Diego que apenas respirou fundo. — Olha, você sabe que eu não sou muito bom com conselhos. Sou mais do tipo que apenas escuta quando alguém precisa desabafar, conselhos é mais a área da Luiza. Mas, se eu puder ajudar em algo, eu acho que você deveria ligar para . Não sei o que aconteceu, mas você precisa conversar com alguém. E pelo que tô vendo, é com ela que você quer conversar.
apenas assentiu e agradeceu a carona. Diego foi embora preocupado, mas não teria muito que ele pudesse fazer se não estivesse a fim de conversar. Às vezes, as pessoas simplesmente precisavam de um tempo porque estavam passando por um dia ruim, e o melhor a se fazer era dar espaço.
O atacante, por sua vez, ficou com a fala do amigo na cabeça. Entrou no banho com tantas questões que chegou a pensar que fosse possível explodir. sabia que ele deveria aceitar a proposta de sobre aprender a dirigir, aquilo passaria a ser essencial se ele finalmente se mudasse para o Rio no final da temporada.
Ele se sentia idiota ao estar pensando em uma coisa tão frívola como tirar carteira de motorista quando tinha descoberto algo que mudaria a sua vida. E talvez fosse por isso que ele estivesse guardando tanto para si mesmo aquela informação. tinha uma irmã de 21 anos. Toda vez que ele encontrasse com alguma menina em São Bento, ele iria pensar que não era ela. A única família que ele ainda possuía.
Mas ao mesmo tempo, isso significaria mudar todo um comportamento de bolha que tinha criado para si mesmo. Deixar outra pessoa entrar em sua vida, dar opinião, participar. Ele estava tão acostumado em ser sozinho que tinha medo. Medo do que essa garota poderia querer dele. Quem ela seria? Como será que ela era?
Deitou na cama naquela noite e não conseguiu dormir, apenas pensava em como seria sua irmã. Será que ela também gostava de futebol? Quais seriam suas bandas favoritas? E, principalmente, será que ela ainda morava em São Bento?
Já eram duas da manhã quando percebeu que não conseguiria dormir. Calçou um tênis e vestiu um moletom para proteger do frio que já começava a chegar em São Bento. Pelo menos as águas de Março tinham atrasado algumas semanas naquele ano e uma lua cheia brilhava no céu.
saiu andando sem rumo, e, quando deu por si, estava parado na porta da casa de . No seus fones de ouvido tocava uma música do Lifehouse que dizia “We made it through hell and back again we were slipping through the cracks, staring at the end”. Ele pegou o aparelho para mandar uma mensagem para , mas a garota tinha sido mais rápida.
[]: Por que o senhor está parado na porta da minha casa parecendo um psicopata? Olha, não temos nenhum bem valioso aqui não tá?
Ele riu da piada porque ela tinha razão. Estava patético parado ali sem nenhuma explicação. A verdade era que nem ele sabia por que estava ali, talvez a conversa com Diego tinha mesmo ficado no seu subconsciente.
E então ele digitou a única frase possível:
[]: Podemos conversar?


8.

vestiu o primeiro moletom que encontrou por cima do pijama e amarrou o seu cabelo em um rabo de cavalo. Se ela fosse uma pessoa mais vaidosa, teria passado um rímel para fingir que não estava tendo uma das piores insônias sem motivo possíveis, mas ela estava mais preocupada com sozinho sentado no meio-fio de madrugada do que com sua aparência.
Desceu as escadas tentando fazer o mínimo de barulho possível, não queria ter que explicar o que ela estava indo fazer na rua a essa hora. Abriu a porta sentindo a brisa em seu rosto. O frio estava começando a chegar e colocou o capuz do moletom, enroscando mais ainda em si mesma.
estava sentado no meio-fio do outro lado da rua. admirou como o rapaz era bonito. Sua pele morena, bronzeada de sol por causa dos treinos, o cabelo castanho bagunçado e barba por fazer. Ele não era perfeito, conseguia perceber o nariz torto, cicatriz de uma vez que ele quebrara batendo a cara na trave de um gol na adolescência. Ela também via como ele tinha um semblante triste, era apaixonado pela vida, mas tinha bagagem demais para se permitir ser feliz.
— Oi. — Ele disse timidamente, sorrindo para a garota.
— Oi. — Ela se sentou ao lado dele na calçada, observando-o na penumbra da rua, com a iluminação vindo apenas do poste que ficava na frente da sua casa. — Então, posso saber por que você me tirou da cama às 2h30 da madrugada? — Ela riu e ele a acompanhou.
sabia que não estava brava por isso, pelo contrário, ela mesma parecia não ter dormido nada até então.
— Me desculpa.
— Ah, tá tudo bem. Para falar a verdade eu não estava conseguindo dormir. — continuou com o tom divertido, mas quando falou novamente, ela percebeu que aquela conversa era muito mais importante do que aparentava ser.
— Não é isso. É que, eu menti para você. — encarava o chão, sem coragem de ver em qualquer expressão de decepção. — Sobre a carta da minha mãe. Não era apenas uma carta de despedida, tinha uma coisa importante ali que precisei digerir por alguns dias, mas não me parecia justo não te contar.
, você não precisa… — começou a dizer, acariciando o ombro do rapaz tentando confortá-lo de toda a agonia que ele aparentava sentir.
— Preciso. — finalmente olhou para . A menina estava linda com um rabo de cavalo bagunçado e nem uma grama sequer de maquiagem — Sabe, por muito tempo eu guardei as coisas que sentia para mim. Não queria me expor, dividir nenhum sentimento com ninguém, mesmo com os meninos. Desde que meus pais morreram, eu achei que era meu karma ficar sozinho, lidar com as coisas sozinho, principalmente as consequências das ações que eles deixaram para trás. Mas, naquele dia, você se dispôs a ficar comigo, a tentar me ajudar a entender, e ninguém nunca tinha tentado isso antes. Pra mim, é muito mais seguro não deixar ninguém entrar, mas por algum motivo, eu permiti que você enxergasse o meu lado vulnerável e então eu fugi. Por isso te peço desculpas.
ficou sem saber o que falar. Ela queria abraçar , confortá-lo do que quer que fosse que ele estivesse sentindo, e odiou que sua timidez não lhe permitisse fazer isso. Máximo que conseguiu foi segurar a sua mão e apoiar a cabeça em seu ombro. percebeu que era um momento que deveria apenas escutá-lo.
Ela olhou para ele, o encorajando a continuar e desviou o olhar encarando a rua novamente. Se perguntando se sua irmã não estaria em alguma daquelas casas, se ela estaria tão perto quanto era possível estar e talvez ele jamais fosse conhecê-la. Era isso que mais lhe doía. Saber que as chances de conhecê-la eram muito pequenas, que ele não poderia chegar tocando o interfone de casa em casa perguntando se tinha alguma menina ali que era filha de Alberto Mascarenhas. O mínimo que aconteceria era chamá-lo de louco.
ansiava saber o que se passava na cabeça do atacante. Ela queria gritar para que ele falasse logo, ao mesmo tempo que tentava segurar as suas próprias lágrimas ao ver a expressão em seu rosto o tanto que estava sofrendo. No fim, ela apenas segurou a mão dele mais forte, e deixou que em seu tempo, lhe contasse o que estava incomodando tanto.
As palavras saíram de sua boca um tanto quanto doloridas. Ele estava com raiva. Raiva do pai por ter traído a sua mãe, raiva do pai por ter escondido dele que ele tinha uma irmã, raiva do pai por ter morrido. Mas, no fundo, só estava triste. Ele apenas sentia falta de alguém que nunca tinha conhecido.
— Eu tenho uma irmã, . Em algum lugar de São Bento, eu tenho uma irmã 5 anos mais nova do que eu. Não faço ideia de quem ela possa ser, de como ela é ou sequer se ela ainda mora aqui. Pela carta, a garota teria 21 anos. Ela poderia muito bem ter se mudado para fazer faculdade e nunca mais olhado para trás. E eu acho que ela não faz ideia de que eu existo. Na carta da minha mãe, ela conta que descobriu a existência da menina pouco antes de morrer, e ela e meu pai estavam indo para Juiz de Fora conversar com um advogado para tentar custódia. Na época ela deveria ter uns 13 anos apenas. — A voz de começou a vacilar, ele podia sentir as lágrimas se formando no rosto. Justo ele, que raramente chorava, estava deixando a frustração tomar conta de si mesmo. — Eu só consigo pensar nessa garota, sozinha e tão perdida quanto eu. Saber que, por mais que eu tente, não vou conseguir encontrá-la, está me matando. Eu não consigo pensar em mais nada a não ser nela.
— Mas como você pode ter tanta certeza que nunca vai conhecê-la? — não iria deixar que a falta de motivação de a impedisse de ser otimista. Não se pode desistir do jogo antes do apito final.
— Uai , eu não tenho nenhuma informação sobre ela. Nada. Nem nome, nem foto, nem sei quem é a mãe dela. Ninguém nunca veio procurar meu pai depois que ele morreu. Se ao menos a amante tivesse ido atrás, mas nem isso! — agora estava irritado. Ele já tinha aceitado a derrota e não precisava de ninguém tentando convencê-lo do contrário. Mas por que parecia que tinha ido até justamente por saber que ela seria a única pessoa que não o deixaria desistir?
, descontar em mim a frustração ou ter esse tipo de comportamento não vai levar a lugar nenhum. Você já procurou nas coisas dos seus pais? — sugeriu, se afastando um pouco do rapaz com raiva da atitude negativa dele.
, foi eu quem empacotei todas as coisas depois que eles morreram. Boa parte foram doadas ou para o lixo. Não tem nada lá, acredite, se tivesse, eu saberia.
— Mas oito anos atrás você não sabia que tinha uma irmã. Estava abalado com tudo que estava acontecendo e pode ter deixado algo passar batido. — respirou fundo antes de continuar — Se você não quiser fazer nada a respeito e continuar com essa atitude de derrota, tudo bem. Vou aceitar e não tocarei no assunto novamente. Mas, se você quiser arriscar, estarei aqui pra te ajudar. Me liga quando tomar uma decisão.
se levantou e, sem olhar para trás e um pouco chateada, entrou em casa, deixando sozinho sentado no meio-fio e com a cabeça girando mais do que quando ele chegou. Será que ele tinha mesmo deixado passar alguma informação importante?

(...)


poderia dizer que tinha ficado tudo bem depois da noite que passara na casa de , mas a verdade era que ela estava se sentindo ainda mais esquisita. Era como se sua vida, que nunca teve um controle, estivesse saindo dos trilhos completamente. E, por mais que ela tentasse ser uma pessoa positiva, ficava difícil quando tudo que ela recebia era uma sequência de “nãos”.
Ela ainda tinha dentro de si o sonho de voltar a atuar. Desde criança sempre havia sido uma garota dos palcos. Dança, teatro, poesia. Tudo ela tinha participado. Mas como sua mãe sempre lhe dizia “Nada disso vai fazer você sobreviver”. Agora, com 21 anos, o circo estava cada vez mais se fechando e estava na hora de crescer. Estava na hora de desistir dos seus sonhos de princesa e encarar que a vida real não era exatamente como ela queria e, principalmente, não era exatamente como ela planejava.
Naquela terça-feira, estava no seu quarto, mais uma vez frustrada pelas respostas negativas. Ela tinha enviado um vídeo atuando para uma companhia de teatro no Rio e estava com o e-mail negando sua aprovação na sua frente. Frustração era pouco comparado com o que ela sentia no momento.
As lágrimas começaram a escorrer em seu rosto. Não eram lágrimas de tristeza, acreditava que seu caminho seria trilhado da melhor forma possível, mas, naquele momento, ela não queria dizer para sua mãe que mais uma vez tinha dado errado. Ou melhor, ela não queria que sua mãe tivesse ainda mais motivos de lhe chamar de inútil.
Desde que seu pai tinha sumido, escutava da sua mãe que ela era inútil. Que tinha sido culpa da incapacidade dela que o pai tinha ido embora, que ela jamais seria alguém e que talvez ela devesse pensar em começar a opções de trabalhos alternativos. sentia uma raiva enorme da mãe toda vez que escutava isso, mas ela não poderia responder. No fundo, ela se questionava se a mãe não estava certa e seu único futuro fosse mesmo este tipo de trabalho sujo.
Mas então ela respirava e se lembrava que ela era mais do que isso. Que seria alguém. Se não desse certo como atriz ou modelo, ela iria cursar a sua faculdade de psicologia. Ela um dia poderia ser como a JJ de Criminal Minds. Um exemplo que sempre esteve presente na sua adolescência.
— O que foi que a fresca arrumou agora? — escutou a última voz que esperava ouvir naquele momento. Pelo visto, veria no rosto da sua mãe mais uma vez a decepção que a mais velha julgava que ela era.
— Nada, — disse limpando as lágrimas — estava apenas assistindo uma cena triste de uma série.
Às vezes, escutar que era inútil e passava o dia à toa era melhor do que encarar a realidade: que seria uma eterna decepção.
— Quando você vai arrumar um emprego e sair de casa? Sua amiga está trabalhando naquela loja de ricos, você poderia arrumar uma coisa assim também. — Maria Antônia alfinetou como sempre fazia.
Era sempre a mesma coisa: fulano está sendo bem sucedido, ciclano casou, beltrano está trabalhando de gari, você poderia ser isso também. tinha que aguentar tudo isso calada porque ela sabia da verdade: estava tentando tudo que podia, mas seus sonhos eram maiores do que São Bento do Jequitibá. Ela sabia que estava destinada para algo grande, só não sabia como começar.
— Eles não tem vaga, mãe. Já deixei meu currículo lá. Não se preocupe, uma hora algo dá certo, estou correndo atrás. — era sua resposta de sempre porque não tinha mais nada que poderia dizer. Não era totalmente uma mentira, mas também não era uma verdade completa. sabia que ela precisava juntar um dinheiro para sair de São Bento, mas ela também já tinha trabalhado em lugares aleatórios para saber que, se fosse para fazer algo que não se encaixava, era melhor não fazer nada e continuar dedicando a aquilo que ela queria.
— Você não se esforça o suficiente. Vai ser uma inútil igual ao seu pai. Homem covarde que foi embora quando mais precisava dele.
— Não fale nada do meu pai. — finalmente se levantou e encarou a mãe.
— Você é igualzinha aquele traste. Espero que vá embora também. Ninguém se importa com você mesmo.
sentiu a raiva subindo dentro de si. Apertou firme as mãos até que sua palma começasse a doer. Sabia que não valia a pena discutir com a mãe e que ela sempre jogaria a história de seu pai para cima dela. podia ter ressentido o sumiço do pai por alguns meses quando ela tinha 13 anos, mas sua mãe não facilitava nada para ela e, sem Samuel, estava sozinha no mundo. Ela não conseguia acreditar que o pai tinha simplesmente lhe abandonado, alguma coisa tinha que ter acontecido para que ele a deixasse sozinha com o demônio que era sua mãe.
E, pensando nisso, pegou sua bolsa e saiu de casa, deixando sua mãe aos gritos atrás de si. Ela não era obrigada a escutar nada disso.

(...)


O tempo estava instável e uma tempestade começava a se formar acima do gramado de treino do JFC. A chuva começou a cair quando o técnico Gerson ainda cobrava dos jogadores formações táticas e estava tão concentrado que só se deu conta que estava ensopado quando tropeçou em uma poça d’água no gramado.
A verdade era que depois da conversa com , ele não tinha feito nada a não ser se concentrar no futebol. Sempre tinha sido no futebol que ele encontrara refúgio e agora não seria diferente. Chutava a bola como se sua vida dependesse que ela entrasse no gol e, se parasse para analisar, talvez de fato dependesse.
— Vai com calma aí, , não precisa furar a rede. — Diego brincou com o amigo e recebeu um olhar agressivo de volta.
Diego sabia que tinha algo de errado com há semanas, mas tentar conversar não tinha surtido efeito e, quando o atacante ficava assim, a única coisa que se podia fazer era dar espaço. Era claro que Diego estava preocupado com o amigo, mas se ele iria descontar todas as suas frustrações fazendo gols, não seria ele a reclamar.
Mas a chuva engrossou e o técnico achou por bem dispensar todo mundo mais cedo. ficou puto, tentou convencer Gerson que ele deveria dar mais umas voltas no gramado, mas o técnico apenas lhe respondeu que ele não ajudaria em nada ficando gripado para o próximo jogo no final de semana. Por fim, seguiu para o vestiário de cabeça baixa.
Quando não estava em campo, deixava seus pensamentos fluírem para andando de volta para sua casa decepcionada com ele. Ou pelo menos era o que ele achava. Ele até tentara revirar os papéis e fotos que seus pais tinham deixado, mas ele simplesmente não conseguira nem sequer abrir a porta do quarto onde estavam todas as lembranças.
Era doloroso demais pensar que eles não o veriam se tornando um jogador de ponta, nunca iriam no seu casamento, se é que um dia casaria. Que eles não conheceriam quem estava se tornando. E ele não conseguia saber o que era pior: pensar que estava sozinho no mundo ou saber que ele tinha uma irmã que jamais conheceria.
E foram justamente esses pensamentos insistentes que interrompera:
— Ei, zumbi, como estamos passando? Já resolveu se quer pegar ou não a famosa ? — encarou o meio-campista com olhar de poucos amigos. Aparentemente essa era sua nova expressão facial. — Ei, nem vem! Você que está andando para cima e pra baixo todo cabisbaixo. Eu sei que tá acontecendo alguma coisa, mas te conheço o suficiente para não ficar perguntando, mas isso não significa que eu não esteja preocupado. Se você quiser conversar, eu tô aqui. Você sabe né?
— Eu sei. Obrigado. — deu um meio sorriso que fez com que se animasse. Ele deu um tapinha no ombro do atacante e saiu em direção aos chuveiros.
— Ei, cara, vamo tomar uma! Aliás, vamos todos! — gritou chamando , Otávio e Diego. Já tinha um tempo que não saía apenas os quatro, sem mulheres, sem festas, apenas uma mesa de bar e muita coisa para conversar.
E, se estava vindo de , Otávio não tinha como recusar. Eles estavam estranhos um com o outro depois de toda a história com no jogo que a garota tinha ido. Otávio não tivera mais notícias dela depois do fatídico dia do cinema e se recusava a conversar com os amigos sobre isso. Não era fácil para Otávio admitir certas coisas quando se tratava de relacionamentos.
— Apoio isso aí ein? Uma hora no Cairo? — Otávio questionou.
— Fechado! — piscou para o amigo, demonstrando que o que quer que estivesse de errado entre eles era passado.
— Eu tenho que ver com a patroa, mas acho que fechado. Lu está de plantão e tenho que levar marmita para ela, mas passo no hospital e encontro vocês. — Diego sempre colocando Luiza em primeiro lugar, afinal, ela era a família dele.
, você não tem o direito de dizer não. — gritou.
— Fazer o que né? Mas você vai me levar em casa primeiro! — E assim, o atacante se sentiu novamente acolhido pelos amigos. Ele tinha passado tanto tempo se questionando sobre o passado que tinha esquecido como que, na verdade, ele nunca esteve sozinho.

(...)


— Não demora ein? — advertiu quando parou o carro na frente do prédio do amigo.
não iria demorar. Seu interesse de passar em casa era apenas não deixar sua coragem ir embora. Buscou a carta de sua mãe na gaveta e resolveu ligar para o tio. Não fazia ideia por que não tinha pensado nisso antes. Talvez tio Carlos soubesse algo sobre sua irmã, às vezes dona Marília teria comentado algo com o seu irmão favorito.
— Tio, joia? Aqui, posso passar na sua casa mais tarde?
Claro, filho! Vou falar para sua tia preparar um lanche pra gente. — Carlos achou um pouco estranho pedir para fazer uma visita, normalmente ele tinha que implorar para o rapaz ir vê-lo. Ou então estava precisando de alguma carona para algum lugar.
Carlos assumira a responsabilidade de cuidar de depois do acidente. Claro que não de forma oficial, afinal, o rapaz já tinha 18 anos na época. Mas fora ele quem ajudara a resolver todas as burocracias e lidar com uma vida adulta que de um dia para o outro chegou em seu colo.
nunca se deu conta da importância que teve Carlos naquele período. Como bom adolescente, só queria ficar no seu mundo e nenhum adulto teria influência nas suas escolhas. Carlos compreendeu e lhe deu espaço. Ele ainda agia dessa forma e estava feliz com a ligação do sobrinho.
— Ah, tio, vou ver se a quer ir também. Preciso conversar com ela do mesmo assunto que tenho para tratar com o senhor.
Carlos apenas concordou, apesar de ficar com uma pulga atrás da orelha. Ele não fazia ideia que e tinham se aproximado daquela forma, e ele só poderia ficar feliz, afinal, faria bem para o sobrinho ter alguém como a afilhada por perto.
desligou o telefone com o tio e mandou uma mensagem para instantaneamente.
[]: Ei. Olha, você tem razão. Ficar lamuriando por algo que não posso corrigir não vai me levar a lugar nenhum, por isso resolvi ir no Tio Carlos hoje à noite ver se ele sabe de alguma coisa. Quer ir? Vai ter bolo.

recebeu aquela mensagem enquanto voltava para o trabalho depois do intervalo de almoço. Ela tentou disfarçar o sorriso bobo no seu rosto que aparecia involuntariamente toda vez que mandava alguma mensagem, mas foi inevitável.
— Alguém está de namorado novo! — Aline, sua colega de trabalho, não se conteve em zoar.
— Ah, cala a boca. Nada a ver, é só um amigo. — Foi tudo que respondeu para a colega enquanto digitava uma mensagem para passar na Brilos e Lírios às 18h.

(...)


No carro de tocava uma música do Fall Out Boys que o motorista cantarolava. não sabia por quê, mas naquele dia ele estava extremamente animado. Ele tinha acordado bem consigo mesmo, feito um treino sem grandes erros e estava confiante para o jogo do final de semana. Eram pequenos momentos assim que ele aprendera a valorizar.
Ele estava preocupado com . Alguma coisa tinha acontecido e era algo além de problema com mulher. não parecia ser uma pessoa sacana e ter destruído o coração de tão rápido assim, até porque, se estivesse falando a verdade, os dois ainda estavam na base da amizade.
sabia que gostava de . Estava escrito na testa do atacante com letras garrafais em caneta neon e pisca-pisca. Mas sabia que não lidava muito bem com sentimentos e, naquele momento, ele sentia um misto de coisas que não conseguiria expressar.
Ao mesmo tempo que o meia queria pressionar o amigo para contar o que estava acontecendo, ele sabia que o melhor a se fazer era dar tempo ao tempo. Que no momento certo, lhe procuraria. Ele só esperava que não fosse tarde demais.
— Acho que tem uma vaga ali. — apontou e fez a baliza para estacionar.
— Milagre uma vaga na porta do Cairo.
O restaurante ficava no centro da cidade que, apesar de ser pequena, ainda poderia ser bem movimentado no meio da semana. O Cairo era uma churrascaria, com self-service e nas noites de sexta, funciona como bar. O dono era um senhor de meia idade que conhecia os meninos desde quando eles ainda eram moleques e chegavam com pratinhas para comprar guaraná.
abriu a porta sentindo o ar condicionado lá dentro abafar o calor que estava na rua. Ele não via a hora do frio começar de verdade e parar com essa brincadeira de à noite fazer 10 graus e de de dia 35. Era muito põe casaco tira casaco para o gosto de .
Foi então que viu ficar rígido ao seu lado.
— O que... — Antes que pudesse perguntar o que tinha acontecido ele viu.
Otávio estava com em uma das mesas ao fundo, onde conversavam algo que parecia ser extremamente sério.


9.

Andar nas ruas de São Bento do Jequitibá era impossível de se perder. O centro era composto por duas ruas: uma subia e uma descia. Quando era criança, brincava que eles deveriam fechar as duas ruas e colocar um ar condicionado central e transformar aquilo em um center shopping. Seu pai sempre começava a rir e chamava a menina de preguiçosa, que fazia bem andar debaixo do sol.
Aquela memória agora apenas doía no coração da garota. Sentir saudades do pai naqueles dias que sua mãe resolvia lhe dizer que era inútil era inevitável. Na maior parte do tempo era uma garota alegre, que tinha aprendido a repreender todo e qualquer sentimento ruim. “Os outros não tem culpa das coisas que eu sinto, e nem precisam saber”, pensava.
E, com a visão toda embaçada das lágrimas e sem ideia de onde estava, sentiu alguém esbarrando nela e já estava se preparando para xingar quando viu quem era.
— Opa. — Otávio riu, segurando para que ela não fosse com a cara no chão. — Alguém está precisando aprender a olhar pra frente.
bufou com o comentário e já estava com a resposta mal-educada na ponta da língua quando Otávio percebeu que tinha algo errado.
— Ou, ei, está tudo bem? Pergunta idiota! Claro que não está. O que houve, ?
olhou para o rapaz falando seu nome de uma forma tão aveludada e sua vontade de chorar aumentou. Tentou segurar as lágrimas, mas foi impossível. Malditos jogadores de futebol bonitos que se importavam com ela.
— Vem cá. Combinei de encontrar os rapazes aqui, mas eles ainda vão demorar um pouco. Você claramente está precisando desabafar e de uma cerveja. — Otávio puxou para dentro do restaurante e se perguntou por que nunca tinham ido no Cairo antes.
O lugar era simples, mas extremamente bem arrumado. As mesas eram típicas de restaurante brasileiro, com toalhas vermelhas cobertas por folhas de papel, mas era aclimatado, tinha um aquário enorme com diversos tipos de peixes e parou de chorar assim que o viu.
— Eles têm aquele peixe com uma cauda grande. — Foi tudo que ela disse e Otávio teve que rir.
— São só peixes.
— Eu sei. Mas tem alguma coisa em aquários que me acalmam. — Ela deu um meio sorriso e Otávio a levou até uma mesa perto do aquário para que a menina pudesse observar os peixes e, se quisesse, conversar. — Uma cerveja?
— Até duas! — aos poucos estava voltando a ser ela mesma, algo na presença de Otávio que afastara as coisas ruins que ela precisava aguentar em casa. Ninguém tinha culpa daquela situação, ninguém além do seu pai. E, infelizmente, ela não fazia ideia de onde ele estava para poder jogar na cara do desgraçado o quanto ele tinha estragado com a vida perfeita dela.
Ela riu de si mesma ao pensar nisso. Vida perfeita? Sua vida nunca tinha sido perfeita, mesmo quando o pai ainda estava presente. Sua mãe implicava com ela desde sempre, e nunca entendeu se era excesso de amor doentio ou se a mais velha apenas colocava nela todas as expectativas de alguém que não tinha conseguido mais do que o mínimo na vida. De alguém que não tinha sido ensinada a ter ambição.
Eles se sentaram em uma mesa ao fundo, longe da porta e mais perto dos ar condicionados. Santo quem criou essa maravilha climatizadora.
— Você quer falar o motivo pelo qual te encontrei na rua em prantos? — Otávio cruzou os braços, se fingindo de bravo, o que deixou seus olhos pequenininhos e achou aquilo uma graça.
— Para falar a verdade, não muito. Não é algo que você pudesse mudar, pelo contrário, nem eu sei como arrumar isso e, por enquanto, eu só preciso lidar.
— Você sabe que não está sozinha né?
— Eu sei. — segurou na mão do rapaz por cima da mesa no momento em que as cervejas chegaram. Ela sabia que não estava sozinha, só não sabia como pedir ajuda. — Sabe, até que não foi tão ruim te encontrar assim…
— Sério? — Otávio se surpreendeu. Ele tinha certeza que ela nunca mais queria vê-lo depois daquele dia no cinema.
— Eu fiquei me sentindo mal da forma que te tratei. Estou tão acostumada com todo mundo que eu gosto indo embora, que sua falta de reação me fez pensar que seria da mesma forma. Eu estava gostando de você, sabe? — Só depois que as palavras saíram que percebeu que elas estavam no passado. E sim, gostava.
— Estava? — ele aumentou um pouco o tom de voz sem querer — Sério, eu achava que tinha sido colocado na friendzone.
riu.
— Não, não tinha. Mas agora talvez esteja.
Otávio não teve como não gargalhar daquela situação. Mas ele também não queria admitir para que ele a havia colocado na friendzone desde o início, por motivos que nem ele conseguia explicar direito. Ele fugia sempre que se via de frente a algum possível relacionamento, queria a presença da pessoa, mas não conseguia se imaginar sendo o namorado de alguém.
Otávio Calvalcanti sempre tinha sido um homem livre, e entendia essa liberdade como ser dono do próprio nariz sem ter que dar satisfação. Não que ele acreditasse que namorar fosse uma prisão, não era isso. Ele simplesmente não estava pronto para abrir mão das coisas que ele sabia que uma namorada exigiria.
— Ah, é assim? — Ele brincou a fazendo rir novamente — Tudo bem. Contanto que você fique feliz. — falou sério, olhando nos olhos da amiga.
— Eu vou ficar. — E de alguma forma, sabia muito bem o porquê ficaria bem.

(...)


ficou sem ação. Ele sabia que não queria nada com ele, mas isso não mudava o quanto ele estava se apaixonando por ela. Se apaixonando. Desde quando se apaixonava por uma garota sem que sequer tivesse beijado ela?
Mas era isso que estava acontecendo. E talvez, por este motivo, que pôde escutar seu coração rachar em diversos pedacinhos quando viu com Otávio tão íntimos.
— Ei, tá tudo bem? — Foi tudo que disse dando dois tapinhas no ombro de .
— Tá. — disse com uma clara ironia na fala — Vamos, preciso beber.
seguiu atrás do meia até a mesa que Otávio estava com a convidada inesperada. Ele estava sentindo que algo muito esquisito estava prestes a acontecer e começou a rezar para que Diego chegasse logo e não sobrasse para ele as farpas perdidas que seriam resultado daquele encontro.
Mas levantou da mesa, se despedindo de Otávio e virando para saída. Foi então que ela viu caminhando em sua direção, os cabelos pretos bagunçados e aquele meio sorriso sarcástico no rosto, as pontas das tatuagens saindo por baixo da camiseta, e ela se lembrou daquela manhã no apartamento dele onde ela tinha tomado café da manhã observando secretamente cada milímetro daqueles traçados negros.
— Oi. — sua voz falou ao cumprimentar o rapaz.
— Olá. Tudo joia? — respondeu já afrouxando a expressão ansiosa que estava antes. Talvez seu coração não estivesse tão rachado assim.
— Joia. — sorriu, um pouco sem graça, ao passar por ele, nem sequer dando conta da presença de ao lado do meio-campista. Então ela virou de supetão, reunindo toda a coragem que não sabia que tinha — Ei, me liga depois.
E, sem esperar a resposta do rapaz, ela saiu o mais rápido possível do restaurante, sentindo seu coração acelerar de uma forma que ela nunca achou que fosse ser possível. , por sua vez, abriu o maior sorriso e ficou vermelho quando e Otávio começaram a zoar. E ele sabia que ia só piorar quando Diego chegasse. Provavelmente ficariam até semana que vem imitando de uma forma extremamente exagerada dizendo “Me liga”.
— Agora tudo fez sentido. — Foi a última coisa que Otávio falou sobre . Em ele confiava, e se o rapaz estava tão nervoso quanto apresentava, ele tinha certeza que o amigo faria muito feliz.

(...)


Diego andava com um sorriso no rosto que chegava a ser irritante. Mas a verdade era que ele havia conquistado a famosa felicidade, e se achava um puto sortudo de ter chegado lá com 27 anos. Ele sabia que a vida não era o mar de rosas que estava aparentando, mas, por enquanto, as coisas estavam bem boas.
Ele abriu a porta do apartamento que dividia com Luiza repassando na cabeça tudo que queria fazer na próxima meia hora: pegar a marmita que eles haviam preparado na noite anterior, ir na venda da esquina comprar uma sobremesa para Lu, ir até o hospital e em seguida se juntar aos amigos no Cairo. Mas antes, xixi.
A sensação de alívio quando se estava apertado para ir ao banheiro era uma das favoritas de Diego. Assim que ele abaixou a tampa do vaso (A bronca quando ele esquecia era tão grande que se tornara um hábito abaixar a droga da tampa do vaso. Fora a lição de moral sobre dar descarga com a tampa aberta e os micro organismos que iam para a escova de dente ao lado da pia), ele viu na lixeira um objeto que ele só tinha visto em filmes antes.
Ele abaixou e pegou o teste de gravidez da cesta de lixo e ficou encabulado com aquilo. A caixa não estava ali para ler as instruções, então precisou buscar o celular no quarto e pesquisar como olhar o resultado naquele bendito teste. Dois tracinhos vermelhos: positivo.
Diego ficou olhando para o objeto, refletindo o que aquilo mudaria para ele e Luiza. Os dois tracinhos vermelhos gritando o que ele não achou que fosse acontecer tão cedo. Não antes de ter o tempo devido de fazer o pedido de casamento cheio de nove horas como ele sempre sonhara, não sem ver Luiza vestida de branco entrando na igreja sorrindo para ele e realizando um sonho. Os dois juntos viajando para a Lua de Mel e vários outros destinos antes que eles tivessem sonho de ser pais.
É claro que ele queria ter filhos. Ele se via brincando com um molequinho catarrento jogando bola no quintal de uma casa de dois andares que eles construiriam, ou de uma menininha brincando com os cabelos ruivos de Lu como se estivesse no salão de beleza. Sonhava em levar os filhos para o gramado, entrarem de mãos dadas com ele antes de um jogo do Jequitibá Futebol Clube.
Mas nada disso era imediato. Nada disso não seria planejado.
Agora, todos os planos que ele tinha guardado para si mesmo teriam que ser arquivados.

(...)


tinha dispensado Aline mais cedo, uma vez que a moça entraria em licença maternidade na semana seguinte e ela precisava organizar tudo para receber a substituta. se sentiu culpada em não ter sugerido a ocupar aquela vaga, mas apesar de amar a amiga, sabia que as duas não tinham a mínima capacidade de trabalhar juntas. era a própria bagunça em pessoa e tinha a mínima habilidade de lidar com cliente. não queria ser a pessoa que teria que puxar sua orelha.
Mas naquele dia, as coisas na Brilhos e Lírios estavam até tranquilas. dobrava as últimas peças no balcão, pensando em já fechar o caixa quando escutou o sino que anunciava cliente abrindo.
— Oi. — disse, um pouco tímido.
— Olá! O que podemos lhe ajudar hoje, senhor atacante do Jequitibá Futebol Clube? — Aparentemente estava com um bom humor que nem ela sabia que existia.
— Eu pisei na bola e vim me desculpar pessoalmente com uma jovem vendedora dessa loja. Por um acaso você a viu por aí?
chegou a corar, e sorrindo foi apressadamente guardar a pilha de camisetas M na gaveta, antes que percebesse a sua reação.
— Hm, não sei. Posso verificar para você.
riu, um riso que preencheu o ambiente com paz e harmonia. Ele também estava sem graça e não conseguia compreender o porquê. Era , pelo amor de Deus.
— Então, Tio Carlos me disse que ia esperar a gente com bolo. Espero que seja de cenoura com chocolate. É meu favorito e raramente posso comer.
— Já ia perguntar se bolo estava na dieta matematicamente balanceada que um atleta deveria ter. — Foi a vez de rir enquanto juntava todo o lucro do dia e desligava o computador. — Só preciso fechar as coisas e podemos ir.
— Ótimo. — levou os braços às costas e ficou observando a garota andar pra lá e pra cá.
era bonita. Não, ela era linda. Seus traços delicados, a forma de andar bem-humorada, o cabelo escuro liso sempre preso com alguma presilha ou gominha. tentou disfarçar que a estava observando. Por algum motivo, ela o fazia querer contar todos os segredos e hora nenhuma ele se sentia incomodado.
Este sentimento era novo para ele. Desde o acidente ele tivera dificuldade em confiar nas pessoas dessa forma. A certeza que elas iam dar as costas para ele e que mais uma vez ele ficaria sozinho. Era inconsciente e anos de terapia ainda não o tinha tirado desse looping de pessimismo.


10.

— Quando você disse que ia me buscar, eu fiquei imaginando como. — admitiu rindo enquanto arrancava o carro no estacionamento que o deixava toda vez que precisava ficar com o carro do pai. Tinha sido uma coincidência ela está com o Polo justo naquele dia.
— Com o meu meio de transporte favorito, a pé. — começou a rir e gargalhou da resposta.
— Justo.
Nunca foi um problema para não saber dirigir. Andava para todos os lados que precisava em São Bento, a cidade não era grande e usava de desculpa que estava ajudando o seu condicionamento físico. Mas era claro que jamais iria recusar carona, e, quando disse que tinha ficado com o carro, agradeceu o seu eu do passado que convidou a menina a ir com ele.
A casa do tio Carlos ficava do outro lado da cidade. Era uma boa caminhada até lá, mas para descobrir o que o tio sabia, valia a pena. queria ter conversado com no caminho, mas a única coisa que ele conseguia fazer era pensar na carta que a mãe tinha lhe deixado. Já tinha revirado as coisas dos pais algumas vezes desde que abriu o envelope, mas nada fazia sentido para ele. Como uma pessoa conseguia esconder uma outra família por tanto tempo e ninguém perceber?
Um álbum do He Is We tocava baixinho no carro de e só reconheceu a música quando “I Wouldn't Mind” começou a tocar pouco antes de chegar na casa do tio. Ele sorriu com aquela letra, olhando para e pensando que talvez fosse isso, ele não se importaria de passar o resto da vida com ela. Mas rapidamente desviou o olhar, por mais que estivesse com toda essa história em sua cabeça, precisava lembrar de focar no futebol. Ir para o Rio, jogar em algum time carioca, juntar um bom dinheiro para ter o resto da vida tranquila. Era este o plano.
Antes do fim da música, estacionou e os dois saíram do carro, ainda em silêncio, disputando quem teria coragem de se abrir primeiro. fingiu que não percebeu a olhando. Ignorou as borboletas no estômago que quase a fizeram bater o carro. E ela estaria mentindo se dissesse estar tranquila com aquela visita.
Ela amava o padrinho, tio Carlos era uma das melhores pessoas que ela conhecia, mas ela sabia que ele não ia deixar barato ela aparecendo com assim. Chegando em casa ela teria que aguentar as perguntas dos pais sobre quem era o rapaz e por que ela estava com ele. Sua mãe provavelmente daria um sermão sobre engravidar e o pai já estaria ligando para a Igreja para marcar o casamento.
nunca entendeu porque os adultos não podiam ver um menino e uma menina sendo amigos e já assumiam que ele seriam namorados, iriam casar, ter filhos, netos e tudo o mais. Parecia que sua vida já estava toda arrumada só porque você fez um amigo. não queria casar, nem tão cedo e nem nunca. Ela tinha sonhos bem maiores do que simplesmente formar uma família.
Ser mulher não significa ter filhos. Será que algum dia a sociedade iria conseguir compreender isso?
tocou a campainha da casa do Tio e não demorou para que Carlos viesse até porta, todo feliz que estava recebendo o sobrinho e a afilhada favoritos.
— Vocês finalmente chegaram! , quer colocar o carro na garagem? — Perguntou enquanto abraçava a garota.
— Você acha que precisa? Parei embaixo daquela árvore. — ela apontou para onde tinha estacionado.
— Tudo bem, tudo bem. , meu querido! Finalmente arrumou alguém para puxar sua orelha e vir visitar seu tio? Sentimos saudades de você, sabe?
ficou sem graça, mas pediu desculpas por ficar tanto tempo longe e usou o futebol de desculpa. A desculpa sempre era o futebol. Era sua vida, nada seria mais importante do que o JFC, nunca.
Tia Lila, esposa do tio Carlos, estava esperando na porta e também fez a maior festa com os meninos. O casal não tinha filhos e via no sobrinho a chance de ter um filho, mesmo que emprestado e mesmo que eles soubessem que jamais os teria como pais adotivos. Ele tinha perdido os pais novo demais, e ninguém jamais seria capaz de curar aquela ferida.
Ela os levou até uma mesa de café que tinha um pouco de tudo: pão, presunto, queijo, bolo de cenoura com chocolate, café, suco, leite. Um verdadeiro lanche e o estômago de roncou, a lembrando que nem sequer tinha almoçado naquele dia.
— Ai que coisa mais maravilhosa, madrinha! Vou ter que levar um pedaço desse bolo para Mel, já tô vendo ela reclamando que não trouxemos ela.
— Como vai a pequena inclusive? — Tia Lila perguntou servindo-se de café.
— A pequena está quase mais alta do que eu!
— Não que isso seja uma coisa difícil. — zoou, recebendo uma repreensão da tia, um soco no ombro de e uma gargalhada do tio.
chegou a se sentir culpado de ter que acabar com aquele clima agradável. Queria ele ter vindo fazer uma visita para os tios sem nenhum pretexto a não ser saudade. Mas não conseguia se abrir para as pessoas assim, ele precisava de justificativa ou então achava que estava causando algum mal e era a última coisa que o atacante queria.
Tia Lila percebeu que o rapaz estava tenso, mas ao mesmo tempo leve. A presença de o deixava leve. Ela rezou para que o sobrinho pudesse finalmente se permitir sentir.

(...)


Luiza estava exausta. Tudo que ela queria era um banho e uma cama, Diego que procurasse algo para comer. Não tinha sido um plantão fácil, não estava sendo uma semana fácil. Ela sempre soube o que significava voltar para São Bento com um diploma de medicina e uma residência debaixo do braço. Trabalhar no interior significava aceitar tudo e trabalhar horas a fim.
Abriu a porta do apartamento que dividia com o namorado com o pensamento no chuveiro, mas teve que parar quando viu Diego parecendo o Dobby sentado no sofá extremamente animado com uma sacola nas mãos.
— Oi? — Ela falou tentando não rir.
— Oi! Comprei uma coisa para você.
Luiza deixou a bolsa na mesa de centro e foi insegura pegar o pacote. Ela levantou a sobrancelha sem entender nada quando viu o que tinha ali. Por que Diego iria comprar uma camisa infantil do JFC? Só então que ela se lembrou do teste de gravidez que tinha jogado fora na lixeira do banheiro.
Já tinha uns dois dias e assim que viu aqueles dois tracinhos, correu para fazer exame de sangue. Sua menstruação estava atrasada, mas ela sabia que com o ritmo de trabalho que ela estava tendo, poderia não ser nada. Como de fato tinha afirmado o exame de sangue que ainda estava esquecido em sua bolsa.
— Diego…
— Não, Lu! Tá tudo bem, mesmo. A gente vai dar um jeito. Mamãe pode ajudar, tenho certeza que seu pai também não vai se importar de ser babá quando eu precisar estar fora da cidade, e eu sei que você não vai diminuir o ritmo no hospital e...
— DIEGO, PARA, EU NÃO ESTOU GRÁVIDA! — Luiza gritou tudo de uma vez, não conseguia ouvir nem mais uma palavra daquele discurso — Desculpa que você achou o teste. Eu esqueci de tirar o lixo, não era para você ter visto. Foi um falso positivo, fiz o exame de sangue.
Ela se levantou e buscou o papel todo amassado na bolsa.
— Tá vendo? Negativo.
Diego ficou olhando para o papel em suas mãos sem conseguir acreditar naquele “negativo” escrito em negrito. Ele não iria ser pai. Seus planos ainda poderiam continuar, nada precisava mudar.
Mas então por que ele estava se sentindo totalmente decepcionado? Era claro que Luiza não iria esconder isso dele. Justo Diego, que sempre sonhou em ser pai, ter uma família, talvez até mesmo um time de futebol juvenil.
Ele escutou Luiza ligando o chuveiro. Olhou para a porta do banheiro e teve a certeza que ele não queria um falso positivo. Ele não queria prolongar mais a vida que os dois sonhavam em viver juntos desde a adolescência. Estava na hora de viver o sonho.

(...)


— Então, tio, apesar de estar adorando a convivência de vocês dois, preciso dizer que vim aqui por um motivo. — olhou para antes de tomar coragem de contar o porquê estava ali. — Encontrei uma carta da minha mãe. E… Melhor você mesmo ler.
entregou a carta para Carlos. colocou a mão na sua coxa por baixo da mesa, mostrando que estava ali com ele, independente do que o tio contaria.
— Eu lembro da sua mãe comentando que suspeitava que seu pai estivesse tendo um caso, mas ela nunca falou sobre a suspeita de uma filha. — Tio Carlos disse tirando o óculos e passando o papel para Lila que estava calada o tempo todo.
— Eu sabia. — Carlos olhou assustado para a esposa e começou a sentir seus olhos encherem de lágrimas. — Ou melhor, eu suspeitava. Quando Marilia me contou que Alberto estava tendo um caso, ela também disse que não faria nada a respeito. A princípio eu achei que fosse por sua causa , não queria que você crescesse sem seu pai e muito menos que o culpasse por qualquer coisa. Mas ao mesmo tempo, eu conhecia Marilia. Ela jamais abaixou a cabeça para homem algum, e se não tinha chutado seu pai, teria que ser um motivo maior do que apenas você. Eu não sabia que era uma menina, mas desconfiava que ele tivesse outro filho. E, principalmente, que a criança estava numa situação pior do que a de vocês. Nunca tive a chance de confrontá-la sobre minhas suspeitas.
estava calado. Ele não conseguia acreditar que a mãe tivesse se sujeitado a isso para protegê-lo. Para proteger a sua irmã, alguém que ela nem sequer conhecia. Mas não era difícil de acreditar ao ler a carta deixada por Marilia. Ela tinha perdoado Alberto e compreendido quaisquer que fossem os seus motivos, e estava disposta a ajudar a menina.
— Você tem ideia de com quem ele teria tido um caso? — Foi quem teve coragem de fazer a pergunta de um milhão de dólares.
— Não, minha filha. E você não tem ideia do quanto me arrependi de não ter questionado mais, ter ido a fundo nessa história. Tem dez anos que guardo essas suspeitas comigo, sem coragem de abrir a caixa de pandora. tem ido tão bem, não via motivo de cavar isso. Mas talvez, tenha finalmente chegado a hora.
apenas assentiu e pediu mais um pedaço de bolo. queria que ele reagisse de alguma forma, mas tinha ficado mais uma vez mudo. Ele iria ignorar o assunto até que conseguisse falar. E sabia que isso poderia demorar a acontecer às duas da manhã.
Ela teve vontade de abraçá-lo e ainda estava calado quando ela o deixou em casa. Ela esperou vê-lo acender a luz do seu apartamento antes de arrancar. era um ser humano complicado, e estava começando a compreender seus motivos.

(...)


já tinha pegado no telefone várias vezes depois que deixara os rapazes no Cairo, mas a coragem de ligar para estava pouquíssima. Mas se ele não ligasse, ela iria pensar que ele não queria nada com ela. Mas ele queria. Se não beijasse aquela boca atrevida logo ele iria ter um treco.
Então, sem pensar demais, ele buscou o contato dela e ligou. “Porra, quem ainda telefonava nos dias atuais?” Mas mandar uma mensagem parecia um tanto impessoal.
Achei que você não fosse ligar mais. sorriu ao escutar justamente a voz atrevida que ele tinha pensado momentos antes.
— Eu não costumo fugir de desafios.
Eu sou um desafio agora?
— Isso depende. O quão rápido você consegue ficar pronta? — se sentiu idiota em fazer isso. “Porra, isso lá era flerte?”
Salto ou tênis?
— Tênis. Não tenho grana para lugar que precisa de salto, apesar de você merecer.
Me dê vinte minutos.
mandou o endereço dela por mensagem e saiu correndo para se arrumar. Merda, ele não fazia ideia do que estava fazendo. “Não tenho grana para lugar que precisa de salto? Sério?”.
Mas em dezoito minutos cronometrados no relógio ele estava na porta da casa dela, vestindo uma bermuda com uma camisa listrada, o cabelo escuro ainda úmido do banho e a sua tradicional playlist tocando no som do carro. Ele não sabia que tipo de música gostava, mas resolveu que não teria erro em deixar aquelas músicas que tinham embalado sua adolescência.
saiu de casa com uma calça jeans, tênis e um moletom vermelho. Ela se vestia de forma simples, mas sempre achava ela a mulher mais bonita que já tinha visto. estava esperando por ela encostado na porta do carro aberto para que ela entrasse, e logo em seguida assumiu o seu lugar no banco do motorista.
— Bela playlist. — Foi a primeira coisa que notou quando uma música do Paramore começou a tocar — Mas confesso que ando em uma onda mais pop.
— Não me diga que você fica escutando kpop. — olhou para se fingindo de bravo.
— E qual o problema? — ela cruzou os braços.
— Nada. — resolveu mudar de assunto antes que eles começassem a brigar logo no início do encontro. “Espera, isso era um encontro?”
observou a rua por um tempo. Não tinha muitos lugares que ela não conheceria em São Bento, mas por algum motivo ela não estava reconhecendo aquele caminho. Ela não gostava muito de surpresas, mas não estava com cara de que iria revelar o segredo. Porém ela tentou ainda assim.
— Será que o senhor jogador de futebol pode me contar aonde estamos indo?
— Você respondeu a própria pergunta, .
A garota ficou alguns segundos sem entender, mas então ela viu na sua frente uma quadra de futebol society que ela nem sequer sabia que tinha na cidade. começou a gargalhar. Não era possível que fosse tão clichê.
— Não acredito, ! Você é tão óbvio! — ela sorriu olhando para ele enquanto estacionava o carro.
— Eu sei que você curte futebol e pensei: por que não?
— Justo.
No caminho até a quadra, os dois foram de mãos dadas. Nenhum dos dois sabia quem tinha tomado a coragem, mas aquele contato, por mais simples que fosse, parecia íntimo demais. soltou a mão de assim que entraram. Tinha um jogo amistoso terminando e puxou para uma mesa mais afastada da lanchonete.
— O jogo já está terminando e a quadra será nossa, mas por enquanto quero passar despercebido.
— Ser reconhecido em todo canto não deve ser fácil né? — Ela olhou para a mesa, um pouco envergonhada em só agora estar se dando conta de quem era . Ele podia não ser a estrela do time, o artilheiro, e tudo o mais que defendia, mas ele era um excelente jogador. Aos olhos de , até melhor do que .
Futebol era sobre fazer gols. Mas também era sobre armar jogadas, fazer passes, dar assistências. E de vez em quando marcar um gol ou outro em momentos importantes. Este era o . O meio campista tinha uma visão de jogo que poucos jogadores renomados possuíam. , como uma amante de futebol, sabia reconhecer o talento do rapaz de longe, e ela não conseguia entender como ele ainda estava no JFC. O time estava jogando a série C, pelo amor de Deus! deveria estar jogando na Europa!
— Não, não é. Eu não ligo muito, sabe? Gosto bastante desse reconhecimento da torcida. A gente não estaria ali jogando se não fossem eles. Sou grato pela torcida do time por me permitir realizar o meu sonho. Mas em dias como hoje, eu preferia não ter um nome tão conhecido, sabe? — franziu a testa e deu um meio sorriso.
sorriu junto e sentiu um quentinho crescer dentro do seu peito. Por algum motivo, saber que ele se importava com ela o suficiente para querer que fosse segredo, a fazia se sentir muito, mas muito especial.
Ela começou a brincar com a manga do moletom, tirando o foco de por alguns minutos. estava começando a se sentir muito confortável com ele, e isto era apavorante para ela. Desde que seu pai sumiu, tinha aprendido a não confiar em ninguém. Eventualmente todos iam embora. Alana tinha ido, eventualmente também iria, e continuaria sozinha presa em São Bento. Ela sempre falara que queria mudar de cidade, fazer alguma coisa da sua vida, mas no fundo sabia que nada disso seria possível e ela odiava estar tão perdida.
Percebendo que tinha viajado para longe, ofereceu um refrigerante que ela rapidamente aceitou. “Foco no presente, . Depois você terá tempo para lamentar sua vida”.
A Coca-Cola e a água com gás chegaram e o silêncio continuou. queria falar algo de importante, mas a única coisa que conseguia pensar era que era um saudável chato do caramba.
— O quê? — Ele perguntou quando percebeu que ela mordia o lábio para não falar algo.
— Nada.
— O que, inferno?
— Por que você pediu água com gás?
teve que segurar o riso com a pergunta. Várias coisas passaram pela sua cabeça, menos que iria questionar o seus hábitos alimentares.
— Não gosto de refrigerante.
— Ah, não! Para, . Quem não gosta de refri?
— Eu! E quando o preparado físico pediu para a gente cortar açúcar durante a temporada, para mim não foi nenhum esforço. Gosto de me alimentar saudável.
— Nerd.
não conseguiu segurar o riso e já sentia a bochecha doer do quanto que estava sorrindo. Estar com o jogador era fácil, tranquilo, calmo. Ela nunca tinha conhecido alguém com uma energia tão boa assim antes.
Quem estava ocupando a quadra finalmente foi embora. A lanchonete também estava fechando e comprou duas águas - sem gás - e uma porção de batata frita. comeu quase toda a batata enquanto eles conversavam de frivolidades como bandas favoritas, livros favoritos e séries de TV. Definitivamente e não tinham nada em comum, mas por algum motivo, tentavam incansavelmente se conhecerem.
— Vamos. — se levantou oferecendo a mão para a garota que aceitou de bom grado.
— Para onde?
— Você achou mesmo que iríamos vir para uma quadra de society apenas por causa da batata frita?
pegou a bola na sala do zelador e chutou para , que segurou a bola com os pés.
— Sair com jogador de futebol sempre tem que envolver futebol?
deu de ombros.
— É… talvez.
— Ótimo!
começou a correr com a bola nos pés, foi de encontro a ela, mas a garota era boa de bola e driblou o rapaz sem dificuldade, chutando a bola para o gol e marcando. começou a fazer uma dancinha da vitória e teve que sentar no chão porque não conseguia parar de rir.
— Não acredito que você estava escondendo o ouro este tempo todo. Sabe, o JFC poderia muito bem usar você no lugar do . — Foi a vez de dar de ombros. — Só não conta para ele que eu disse isso.
riu enquanto pegava a bola e jogava para .
— Será que você consegue me driblar agora, jogador?
ajeitou a bola nos pés, ficando frente a frente para e começou a correr em direção ao gol. Mas ele não conseguiu dar muitos passos uma vez que a garota chutou a bola para fora, desarmando o seu ataque.
— Ah não , agora você quer roubar o lugar do Otávio também? Dessa forma é melhor te contratarem mesmo para jogar no JFC.
— Desculpa se sou sensacional. — fez uma reverência exagerada e riu buscando a bola.
— Joga melhor que muito homem por aí.
foi até o gol e, só quando ia mandar a bola de volta para , percebeu que a garota tinha ficado brava e cruzados os braços.
— O que foi agora?
— Por que eu ser boa em futebol tem que ser comparado a um homem? Eu sou boa e pronto.
— Foi um elogio, . Não estava te comparando, apenas disse que você joga excepcionalmente bem.
se aproximou de , ela tinha entendido o que ele quis dizer, mas o que ele disse a deixou chateada.
— Eu não quero jogar em um time masculino para provar que sou boa, . Eu gosto de futebol, sempre gostei, e aprendi a jogar. Fim.
— Eu sei. Foi só uma brincadeira! Poxa, a gente tá brincando, não ligo se você quiser fazer mil gols. Eu só quero passar um tempo com você, caramba. Por que você sempre tem que dificultar tudo? — estava claramente chateado. A última coisa que ele queria era implicar com a menina justo naquela noite.
— Eu estou dificultando?
— Está! Se não posso dizer que você joga melhor que muito homem é pra eu falar o quê?
— Dizer que joga bem já é o suficiente.
respirou fundo, tentando se acalmar.
— Desculpa. Mesmo. Eu não queria ofender, muito pelo contrário! Caralho, por que toda vez que eu acho que tô fazendo a coisa certa com você, no momento seguinte eu descubro que na verdade estava pisando na bola? Escolhi um programa que seria só nós dois, sem torcedor perguntando do jogo do fim de semana, sem nossos amigos enchendo a paciência, uma coisa que eu achei que você fosse gostar. Cara, sério, eu desisto, . — jogou a bola no chão, extremamente frustrado. Ele nunca tinha tratado ela com menos do que todo o respeito do mundo. Ele ajudou quando ela estava bêbada, cuidou dela da melhor forma possível, elogiou a forma como ela jogava bola e ainda assim tudo parecia errado. — Eu sinceramente não sei mais o que posso fazer para te mostrar o quanto me importo com você.
tomou coragem para olhar para . Ela ainda tinha uma ruga de raiva na testa, mas parecia estar mais irritada do que com raiva. Ela sabia que tinha exagerado. Não tinha sido intenção dele comparar ela com homem algum, apenas tinha zoado os próprios amigos e constatado um fato. sabia o quão boa de bola ela era, e o quanto ela tinha ficado frustrada quando não deixaram ela continuar na escolinha de futebol só porque era mulher. Talvez este fosse o motivo da raiva, não .
— Me beija.
— O quê? — ele murmurou, totalmente atordoado.
— Me beija. — repetiu com firmeza e ele não esperou que ela dissesse outra vez para colar os seus lábios nos dela.


11.

entrou em casa emocionalmente exausta. Tinha sido uma noite agradável, mas com um final pesado. Ela sabia que fora necessário, que se ela não estivesse ali, não teria se aberto daquela forma. Por algum motivo o rapaz confiava nela. E ela faria de tudo para honrar essa confiança.
Ela só não contava em encontrar deitada na sua cama escutando Jonas Brothers e conversando com Melina. Quando isso acontecia, ela sabia que tinha algo importante para contar, mas antes que ela expulsasse a irmã do quarto, Mel contou qual era a novidade.
tá namorando! tá namorando! — Melina estava claramente mais empolgada do que a própria .
— Oi? — começou a rir histericamente e apenas observou quando abriu um sorriso enorme de quem tinha aprontado, mas rapidamente fechou a boca. Ela tinha prometido para que não iam contar da noite deles para ninguém.
Principalmente do que eles tinham feito depois que saíram da quadra e foram para a casa dele. Ela poderia ter passado o resto da noite com , mas ela precisava de um tempo para conseguir digerir tudo que tinha acontecido naquela noite. gostava de e sabia que queria ficar com ele muitas vezes mais, mas ao mesmo tempo, um tempo para ela depois de um turbilhão de emoções era a melhor escolha.
— Eu não tô namorando. — Foi tudo que ela disse saindo do quarto de .
— Tá sim que eu vi ele te deixando aqui! E aquilo não foi um beijo no rosto! — Mel gritou do quarto e seguiu a amiga em direção ao banheiro. — Pena que não deu para ver o rosto dele…
Melina continuou murmurando e conjecturando quem poderia ser o rapaz, mas as mais velhas não escutavam mais a menina. começava a sentir uma sensação de déjà vu, e se preocupar era sua única opção.
. — não iria forçar a amiga a dizer nada, mas ela também esteve presente quando tinha resolvido pegar qualquer coisa que andasse no ensino médio. Ela sabia que essa era a forma dela lidar com a ausência do pai e todas as coisas que tinha que suportar com a mãe, mas também tinha visto como aquilo tinha destruído a amiga.
segurou a porta do banheiro antes de a fechasse.
— Não é como daquela vez, ok? É só um cara. E vai continuar sendo só um. Eu só não quero contar agora porque ainda está tudo no início e preciso me dar o direito de aproveitar isso sozinha.
— Tudo bem. — assentiu antes de fechar a porta porque ela também não estava a fim de contar com quem tinha passado o início da noite.
De repente, ela sentiu o peso da vida adulta. Quando eram adolescentes, , e Alana contavam tudo uma para a outra. Se uma achava um menino bonito na escola, as outras duas rapidamente já tentavam descobrir quem ele era, se tinha namorada e ainda tiravam mil fotos escondidos. Elas tinham contado sobre o primeiro beijo, e Alana tinham contado sobre as primeiras vezes, ainda na adolescência.
percebeu que isso estava mudando quando ela não contou sobre a dela. Já estava na faculdade e a única coisa que disse era que tinha rolado, ninguém pediu nenhum detalhe nem nada do tipo. Era uma coisa comum, era uma coisa banal.
Mas sabia que não tinha usado isso de forma banal. Com 16 anos, tinha descoberto sua sexualidade e transformado aquilo numa fuga. E em uma escola pequena, em uma cidade pequena, isso tinha sido péssimo para ela. Em 2011 as coisas ainda não eram tão esclarecidas e as meninas ainda não sabiam lidar com isso.
tinha se fechado, quase entrara em depressão, mas e Alana nunca saíram do lado dela. Mas, talvez por tudo que tinha acontecido em sua vida, ainda estava perdida. via em seus olhos o quanto ela estava insegura, como todas essas incertezas a deixava incomodada. Porém ela não poderia fazer nada se a amiga não se abrisse, e, naquele momento, ela só poderia rezar para o rapaz, quem quer que ele seja, soubesse cuidar bem de .

(...)


Alguns dias já tinham se passado quando se viu em um lugar que antes nunca imaginara estar. Se perguntasse para o porquê ela tinha ido até ali, ela não teria a resposta. Assim que recebeu a mensagem de perguntando se ela queria ir para a casa dele, ela respondeu sim. Não pensou no que aquilo significava, se estaria tudo bem com ele, ela apenas resolveu ir. Normalmente ela teria mandando mensagem para as amigas, se questionado diversas coisas. Mas fazia com que ela quisesse tomar atitudes impulsivas.
Ela poderia até justificar que estava preocupada com ele. Que tinha sumido depois da conversa com os tios, mas a verdade era que ela simplesmente queria vê-lo. Não apenas para ter certeza que ele estava bem, mas porque ela sentia falta da convivência dele. Da sua risada, das coisas sem noção que ele falava, daquele olhar que sempre parecia esconder mais coisa do que estava mostrando.
Às vezes era necessário fazer coisas sem um motivo claro. Muito porque sabia que aquilo iria fazer bem, mesmo que não fizesse lógica alguma. E, naquele momento, fazia muito bem.
— Então, eu não sou muito bom na cozinha, mas tentei. — estava sorrindo quando colocou a macarronada na mesa. Um prato simples, mas que ainda estava saindo fumacinha de quente.
havia se preparado para encontrar um sem tomar banho há dias, com olheiras e cara de sono. Mas o que ela tinha visto, fora aquele sorriso no rosto do rapaz quando ele abriu a porta. Ela estava feliz que ele estava feliz.
— Está ótimo! Lá em casa eu não teria nada pra jantar porque hoje é o dia que meus pais vão pro clube com a Mel.
— E por que você não vai?
— Ela tem aula de natação 5 e meia e eu só saio do trabalho às 18. Mas eu gosto, porque é um dos poucos momentos que tenho a casa só pra mim. — estendeu o prato para que ele servisse a massa com molho branco.
— E eu atrapalhando esse momento.
— Que isso, ! De vez em quando é bom fazer algo diferente — Ela sorriu e ele sorriu de volta.
— Então tá bom.
Eles conversaram sobre trivialidades enquanto comiam. contou que nem só de futebol ele era feito e que amava tocar violão. pediu que ele tocasse pra ela porque ela era uma negação com música, apesar de gostar bastante de escutar.
contou do seu sonho de estudar editoração. Que ela amava lidar com livros, e que desejava ter uma carreira onde estivesse cercada de livros, mas que em São Bento isso era um sonho impossível. a fez prometer que ela não iria desistir. não era de revelar este seu sonho para qualquer um, nem e Alana sabiam do seu desejo de fazer outra faculdade. Mas por algum motivo, ela quis contar para .
— Sabe, não acho que vá dar certo. Pelo menos não enquanto eu não tiver um emprego estável. Enquanto isso não acontece, eu vou fazendo o Enem. — Ela cruzou os talheres no prato.
— Sei como é. Ir pro Rio é meu sonho, sabe? Eu vejo os meninos mais novos sonhando em chegar na Europa, idolatrando o Neymar. Eu particularmente não me enxergo assim. Sempre quis ir pro Rio, desde a primeira vez que pisei em terras cariocas. — tomou um gole do refrigerante antes de continuar. — Eu deveria ter uns 12 ou 13 anos, fomos eu e Diego em uma excursão da escola. Não sei explicar o que senti quando me vi chegando no Rio de Janeiro. Sei que a cidade tem vários problemas e juro que não foi apenas pelas belezas naturais. Sei lá, eu senti como se pertencesse ali, sabe?
— Sei. É como se ali fosse o seu destino, mesmo que no momento parecesse impossível chegar até ali.
— Exatamente. — sorriu pra . Os dois ficaram se olhando por um tempo, sorrindo, sem ter coragem de falar mais nada.
Mas não poderia ignorar para sempre o elefante no meio da sala.
, você conseguiu mais alguma coisa? Eu posso te ajudar a procurar e...
— Shh — Ele colocou o dedo indicador na frente dos lábios de para que ela não falasse mais — Não quero falar sobre isso hoje. Estou bem e quero continuar bem. Te chamei aqui porque queria passar um tempo com você, sei lá, gosto da sua companhia. E é claro que aceito sua ajuda com aquela outra coisa, mas não hoje.
— Tudo bem. — Ela sorriu, sentindo milhares de borboletas no estômago se agitarem.

(...)


buscou o violão e levou para o seu quarto-sala. Seu apartamento não era grande, mas ele soube aproveitar bem os espaços. Dedilhou algumas notas no violão. Fazia alguns meses que não tocava, já começava até a sentir seus calos sumirem, mas não importava. o estava fazendo lembrar do porquê gostava tanto de música.
— Algum pedido especial?
— Conhece alguma do Engenheiros do Hawaii ou Kid Abelha? — ela sorriu se sentindo culpada pelo gosto musical de velho.
— Amo!
começou a tocar “Como eu quero” e o acompanhou na voz. Os dois cantaram aquela música relembrando tempos passados, uma infância tranquila, com poucas responsabilidades. Nenhum deles perceberam o que significava a letra daquela música, apenas se divertiram. Se permitiram se sentir jovens, inconsequentes, sem pensar que no dia seguinte toda aquela noite acabaria e a realidade bateria na porta novamente.
Tira essa bermuda que eu quero você sério, drama dos sucesso no particular, solos de guitarra não vão me conquistar.
Os dois conversaram entre as músicas, contaram lembranças da infância. contou dos pais, de como sua mãe era uma pessoa maravilhosa, sempre pronta para ajudar quem precisasse. Ele era muito grudado nela e depois que ela morreu, ele sentiu como se seu mundo tivesse acabado. tinha mudado e muito, não o julgou por isso, mas desejou secretamente ter conhecido ele antes. Ver o feliz, animado e sensível que estava conhecendo naquela noite, esta deveria ser a personalidade dele antes da sua vida virar do avesso.
se aconchegou na cama dele, olhava para com um meio sorriso no rosto que ela não conseguia disfarçar. Ele era lindo. Tinha uma energia diferente, uma garra, uma vontade de viver que nunca tinha visto em outra pessoa.
começou a dedilhar aquela música que era uma das favoritas dele. Ele queria poder dizer para que aquela letra era tudo para ela, mas ele não tinha coragem. Ele ainda não estava pronto de permitir que outra pessoa se aproximasse dele dessa forma. Mas sorriu ao ver a cor do All Star que ela tinha usado naquela noite que agora estava no chão do seu quarto.

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as índias, mas a terra avisto em você
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário
Estranho é gostar tanto do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador, aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
Continuar aquela conversa que não terminamos ontem
Ficou pra hoje.
- Nando Reis, All Star.

tentou ficar de olhos abertos, mas o cansaço tomou conta e, involuntariamente, ela fechou os olhos. Adormeceu ali, escutando a voz melódica de tocar aquela música tão clichê.
O rapaz terminou a música, guardou o violão e puxou a coberta para cobrir . Ele não conseguia explicar o que estava sentindo, o que o fazia sentir. Mas sentia que era certo, que era a coisa mais certa que ele já tinha feito em muito tempo.

(...)


acordou sem entender onde estava. Demorou alguns minutos para se recordar que tinha adormecido na casa de , o rapaz dormia ao seu lado e ela percebeu que tinha roubado toda a coberta.
Ela começou a gargalhar do que tinha acontecido. Ela nunca tinha passado na casa de um garoto antes e já estava rindo de antecedência do que (e Melina) iriam falar sobre.
— O que foi? — resmungou acordando — Sério, o que é tão engraçado?
— Eu roubei a coberta.
— É. Eu percebi.
Eles começaram a rir mais ainda. Toda aquela situação era engraçada.
— Não acredito que peguei no sono.
— Você ficou entediada comigo cantando.
— Nada. Foi o contrário. Normalmente eu tenho sérios problemas para dormir. — Ela sorriu para ele, ainda deitados na cama. Ela não tinha mentido, era raro uma noite que ela conseguia relaxar para dormir de verdade, e na casa de ela conseguiu se acalmar o suficiente para descansar.
— Café. — Foi a última coisa que ele disse antes de levantar e ir para cozinha.
pegou o celular para olhar as horas. Eram apenas 6h30, mas ela não resistiu em mandar mensagem pro grupo.
[]: Eu fiz uma coisa muito estúpida. Ou engraçada porque eu só tô sabendo rir.
[Alana]: O QUÊ?
[]: POR QUE VOCÊS ESTÃO ACORDADAS?
[Alana]: Porque eu tenho aula daqui a meia hora? E você?
[]:
começou a rir novamente. com certeza tinha dormido na casa do tal “não namorado”. Bem, dessa vez, não seria que poderia julgá-la, mesmo que ela e fossem só amigos.
— Café? — chegou na porta do quarto com duas xícaras com o logo do JFC que rapidamente aceitou uma.

(...)


Uma semana depois o feriado favorito de finalmente chegou. Algumas pessoas gostavam do Natal, outras preferiam Carnaval, mas para , o melhor feriado de todos era Semana Santa. Quando estava na escola, achava o máximo porque tinha uma semana inteirinha de recesso e no Domingo ainda poderia comer chocolate no café da manhã, no almoço e no jantar.
Naquele ano, estava ansiosa para o feriado por outro motivo. Alana tinha mandado uma mensagem avisando que estava indo para São Bento, e era a primeira vez que ela voltava para casa depois das férias.
tinha muita saudades de conviver com Alana, e ela sabia que não era a mesma coisa de quando eram adolescentes, mas ainda era uma boa companhia. Alana a entendia melhor do que , e por mais que amasse , às vezes ela só queria conversar com alguém sem dramas, sem receios. Alguém que conseguisse entendê-la.
Quando contou no grupo que tinha dormido na casa do , as duas zoaram, e muito. Mas nenhuma delas duvidou que não tinha rolado nada, porque elas conheciam . E também sabiam que a menina tinha alguns problemas para se permitir viver certas histórias. Alana apenas desejou que daquela vez fosse diferente, a amiga merecia viver um romance arrebatador que mudasse toda a sua rotina.
A campainha na casa de tocou e ela e , que tinha dormido ali para esperar Alana, saíram correndo para atender.
— Não acredito que você finalmente está aqui! — pulou em cima da amiga e ficou segurando a porta, com um sorriso no rosto.
— Nem eu, ! Sério, último semestre de faculdade é uma merda.
— Fato — concordou abraçando a recém-chegada. — Alana, quem?
apontou para uma menina que estava um pouco mais atrás. Alana sorriu e buscou a garota ruiva, que vestia uma saia xadrez e uma camiseta preta e estava toda tímida.
, , conheçam Marcella. Minha namorada.


12.

4 meses atrás
As férias tinham feito bem para Alana. Estava para começar o último semestre da faculdade de Arquitetura e a única coisa que ela estava conseguindo pensar era no seu TCC. E se não estava pensando no tal projeto de conclusão, estava no trabalho rezando para ser admitida no final do contrato.
Alana já deveria ter formado. Mas acabou atrasando a faculdade com um intercâmbio e o foco em outras coisas que não em passar nas matérias. No final do semestre ela seria finalmente arquiteta, e começaria a fazer os projetos que tanto quis fazer.
Para falar a verdade, ela pensava em retornar a São Bento. Não que ela tivesse algum namorado perfeito esperando por ela em casa, mas porque não conseguia vê-la entrando no mercado de trabalho em BH, e talvez São Bento lhe trouxesse outras oportunidades.
Ou pelo menos era isso que ela tentava se convencer quando estava correndo na esteira da academia e Paramore tocava a toda altura no seu fone de ouvido. Ela ainda não tinha esquecido aquele beijo com o . Sabia que ele não era namorado dela, sabia que ele provavelmente nem sequer lembrava do seu nome e Alana poderia falar com e o quanto que fosse que tinha sido só um beijo, mas ela tinha gostado demais para ser só isso.
Lana não era de se apaixonar com um beijo. Não era de se apaixonar nem depois de uma noite juntos. Gostava de casos de uma noite só e isso não iria mudar tão cedo. Estava concentrada demais em si mesma para pensar em relacionamentos. Mas tinha gostado de , por algum motivo que ela não conseguia explicar. Sabia que não deveria, mas se pegava stalkeando ele nas redes sociais de vez em quando e odiando que ele não postava tantas fotos assim. E quando postava era sobre futebol.
Um dia, quando postou uma foto sem camisa correndo em um campo com uma legenda totalmente sem sentido, mas tinha feito Alana refletir sobre quem era . Um rapaz fechado, melancólico e talvez um pouco workaholic. A vida dele significava futebol, e ela sabia que queria que a dela significasse muito mais do que apenas a sua profissão.
Estava tendo uma semana péssima. O TCC não estava saindo, por mais que tentasse. No trabalho, as coisas estavam corridas, mas mesmo com tantas coisas para fazer, Alana se sentia sozinha. A dor no seu peito por ficar em uma cidade que não conseguira criar um vínculo de verdade com outras pessoas machucava.
Ela sabia que todo aquele sentimento estava fazendo mal a ela. Chegar em casa e apenas vazio nos seus ouvidos. Não aguentava mais ouvir a própria voz, muito menos suas playlists no Spotify. A Netflix já não surtia mais o efeito que um dia tivera e o preço pela independência estava sendo caro demais.
Sem perceber, Lana começou a sentir uma falta de ar enorme quando foi organizar sua agenda. Seus métodos não estavam surtindo efeito, a janela aberta parecia que estava fechada pois o ar não chegava a seus pulmões, e ela precisou se concentrar para respirar. “Crise de ansiedade? Isso mesmo, Alana?”, ela não conseguia acreditar em si mesma. Justo ela que sempre levou a vida de uma forma tão tranquila.
Era verdade o que diziam então, que os vinte e poucos anos poderiam ser desesperadores, principalmente com o futuro incerto que o país estava. Ela agradecia por ter um trabalho, não reclamava do que lhe era exigido, sabia que tinha sorte. Mas naquele momento, ela se sentiu a pior pessoa do mundo.
No dia seguinte, depois de uma noite de sono tumultuada, ela tinha acordado decidida: Não iria deixar que os sentimentos ruins da noite passada atrapalhasse seus sonhos. Voltar para São Bento não era uma escolha, mesmo que tivesse cogitado antes.
Ela foi para a faculdade, e, no meio do caminho, escutou no rádio uma especialista dizendo que praticar Yoga ajudava a ansiedade e na flexibilidade. Ela sempre gostou de ginástica e sentia falta de se exercitar, uma vez que teve que parar a academia por causa da rotina.
No primeiro sábado que seguiu aquele dia, decidida, ela buscou uma escola de Yoga na região. Procurou várias escolas, mas nenhuma delas lhe trouxe confiança, ou então estavam completamente fora do orçamento de uma estagiária poderia pagar.
Quando estava quase desistindo e apelando para o Youtube, Lana encontrou uma página no Facebook com uma logo arrumadinha, um perfil cheio de mensagens positivas e um grupo de professores que lhe transmitiram paz. Ligou no número que estava indicando e marcou uma aula com uma das sócias do lugar para o próximo final de semana. Sábado era o melhor dia para ela, o único que ela poderia contar como de verdade dela.
Lana passou a semana ansiosa, lendo tudo que podia sobre Yoga na internet. Descobriu que existiam diversas modalidades, mas não foi isso que mais lhe chamou a atenção. Ela sempre achou que Yoga era coisa de gente hippie ou velha, mas a medida que ia descobrindo novas páginas com testemunhos de praticantes, ela descobriu que Yoga era muito mais do que um exercício físico. Era um estilo de vida.
Quando o sábado finalmente chegou, ela vestiu sua roupa mais confortável e foi andando até o espaço que não ficava muito longe de sua casa. Ao chegar, não dava nada pela fachada e até pensou que estava no lugar errado. Mas arriscou entrar na pequena porta que dava para uma escada que apenas de subir você chegava lá sem ar. A professora, Marcella, tinha dito no telefone para ela fazer uma aula experimental, sem compromisso, Alana topou.
Ela tocou a campainha e uma moça ruiva de olhos claros atendeu a porta. Lana ficou encantada com a beleza da menina, não sabia que era possível existir uma pessoa tão bonita.
— Oi! Você deve ser a Alana. Sou a Marcella, prazer. — a professora estendeu a mão e Alana a apertou. — Entra, entra! Nosso espaço é modesto, mas tem muito amor.
— Com licença. — Lana foi tirando os sapatos e deixando na porta, como indicava o cartaz na entrada.
A sala era ampla, cheia de colchonetes no chão. O ar tinha um cheiro pesado de incenso, mas Lana gostava. Apenas isso já era o suficiente para acalmá-la e ela se perguntou por que não tinha comprado incensos para a própria casa.
Ao fundo, uma música instrumental tocava, deixando o ambiente ainda mais calmo.
Marcella sentou em um dos colchonetes no chão com as pernas cruzadas e fez sinal para que Alana se sentasse na frente dela.
— Então, o que você sabe sobre Yoga e por que quis procurar aulas?
— Não sei muita coisa, mas comecei a ter alguns ataques de ansiedade e quis buscar algo para melhorá-los. Não sei explicar o porquê da Yoga. — Lana também cruzou as pernas e ficou segurando o queixo enquanto observava Marcella.
— Ah, o mal do jovem contemporâneo. Se eu te contasse tantas pessoas que procuram a Yoga por este motivo… — Alana olhou ao redor, se questionando se teria outros colegas de sala, mas apenas as duas estavam na casa — Não se preocupe, gosto de dar a primeira aula individual, faz parte de um autoconhecimento também.
Alana sorriu timidamente, ela não queria dar este tipo de trabalho para Marcella, mas a garota parecia feliz com o que fazia. Lana sabia o que era amar o trabalho, e sentiu que tinha encontrado o lugar correto para buscar ajuda quando Marcella começou a explicar um pouco sobre história da Yoga, respiração e relaxamento. Pela primeira vez em muito tempo, Alana se sentiu em casa.

Três meses antes - Um mês depois da primeira aula
Já tinha um mês que Lana estava frequentando as aulas de Marcella. Ela sempre tentava encaixar a Yoga na rotina, mesmo que cada dia frequentasse uma turma diferente. No início tinha sido difícil, mas então ela se viu praticando um dos exercícios de respiração no meio de uma prova complicada na faculdade e percebeu que já estava começando a ver alguns resultados.
Era novamente um sábado e Alana tinha feito aula com um rapaz que não tinha decorado o nome. Enquanto estavam guardando os colchonetes, Marcella fez um convite:
— Ei, vocês já foram naquele pub novo que abriu na Savassi?
— Eu nem sabia que tinha aberto um pub na Savassi. — O rapaz comentou.
— Ah, o que vai ter o cover de Maroon 5? — Lana perguntou soltando o cabelo que estava preso em um rabo de cavalo.
— Este mesmo! — Marcella mostrou fotos do lugar no celular — Meu irmão está nessa banda e vai tocar. Animam?
— Poxa, não vai rolar. Tenho aniversário da minha namorada para ir.
— Tudo bem. E você, Lana?
Alana percebeu o tom triste de Marcella quando ele recusou, será que ela tinha uma crush no aluno? Lana não era muito desse tipo de programa, mas poderia fazer um esforcinho. Estava mesmo precisando dar uma espairecida.
— Claro! Me mande o convite lá no Facebook.
Marcella sorriu e digitou no celular convidando Alana. O lugar parecia mesmo interessante.

(...)


Alana ficou pronta mais cedo do que o esperado. Vestia uma calça jeans com uma bata soltinha e se perguntou por que batas haviam saído de moda. Era a melhor parte do guarda-roupa: escondiam a barriga, era confortável, e ainda tinham em diversos modelos. Definitivamente deveriam fazer batas voltar para as prateleiras.
Ela olhou o celular e ainda faltava meia hora para Marcella passar na porta do seu prédio. Por algum motivo, ela estava ansiosa. Alana já tinha saído muito quando se mudara para BH, cada fim de semana era uma balada, uma festa, e quando não tinha nada disso o barzinho perto da faculdade era uma excelente opção.
Mas dessa vez as coisas pareciam diferente. Talvez fosse apenas porque ela tinha perdido o costume, afinal, fazia meses que não saía na noite belorizontina.
[Alana]: O que vocês andam fazendo?
na hora respondeu:
[]: Vendo filme de criança com a Mel. Honestamente, na nossa época os nossos filmes eram melhores.
[Alana]: A mel não é mais criança, tali.
[]: Eu sei, mas ainda assim estamos vendo filme de criança.
[]: , eu tô chegando aí na sua casa com os refrigerante, já faz a pipoca!
[Alana]: TÔ CHEGANDO COM OS REFRI RAPAZIADA
[]: kkkkkkkkkkkkkkkk
[]: Eu mesma, Neymar . Kkkkk
[Alana]: Ai, saudades de vocês e desses programas de São Bento.
[]: Saudades nada, vc fica aí na capital e esqueceu que a gente existe.
[]: Verdade. Nem lembra mais do ovo que é isso aqui.
Alana estava com um sorriso bobo no rosto. Ela sentia falta das amigas todos os dias, mas sabia que cada uma tomaria um rumo diferente da vida, e estar longe era o preço que ela pagava por ir atrás do seu sonho. Isso não significava que ela não amasse as meninas, pelo contrário, Lana não sabia o que seria da sua vida sem e , mas às vezes era preciso dar as costas para o passado se quisesse construir um futuro melhor. E saber que ela sempre poderia voltar para casa, era um conforto que a fazia se manter forte nos dias mais difíceis.
Quando se deu conta, Marcella já estava ligando dizendo que estava na porta do prédio com Uber. Lana se despediu das meninas enquanto descia o elevador e respirou fundo antes de sair do prédio.
— Oi! Você está ótima! — Marcella cumprimentou assim que Alana entrou no carro.
— Você também! Vai ser uma boa noite.
— Assim espero.

(...)


O pub não tinha nada a ver com o chamado pub de São Bento. O ambiente era mais escuro, menor, com um bar ao fundo e mesinhas do outro lado do salão. Uma escada dava para o andar de cima e Lana teve certeza que cairia se inventasse se subir ali.
A banda ainda não tinha começado, mas tocava uma seleção de músicas do anos 2000 que fez Alana se sentir nostálgica. Ela já fora mais ligada com música, mas atualmente não tinha muito tempo de ficar no computador procurando artistas novos e, para ser sincera, tinha perdido um pouco o tesão por esta brincadeira depois que ficara tão fácil achar artistas no Spotify.
— Vou pegar uma bebida. Aceita?
— Vamos lá!
Marcella guiou Alana até o bar onde pediram duas cervejas. O celular de Marcella tocou, Lana achou que fosse mais amigos dela chegando, mas então ela disse que seriam só as duas naquela noite, mas que o irmão dela perguntou se não gostariam de conhecer o backstage.
Alana gostou da ideia e, poucos minutos depois, ela estava conversando com os integrantes da banda.
— Este é meu irmão, o Vitor, ele é o vocalista da banda!
— Prazer! — Alana deu o famoso cumprimento com beijinho de mineiro, mesmo que ela odiasse isso.
— Não sou o Adam Levine, mas a gente tenta criar um clima legal para o show. Espero que você goste!
— Irei me divertir, prometo. — Lana riu sem graça e Marcella continuou introduzindo as pessoas que estavam ali.
— Este é o Bernardo, ele toca baixo, o Henrique, batera e o Gustavo que de vez em quando toca guitarra também, mas depois que a filha dele nasceu as coisas ficaram mais difíceis. Pra que mesmo você quis casar novo hein?
O garoto de cabelos castanhos riu e cumprimentou Alana, ignorando o comentário de Marcella. Ele apresentou a esposa, Duda, e Alana se pegou conversando de futebol com a menina que aparentemente era fanática pelo Borussia Dortmund.
— Você precisa conhecer a minha amiga , ela fala do BVB umas 300 horas por dia.
— Adoraria conhecê-la! Da próxima vez que minha cunhada estiver na cidade vou te falar. Tenho certeza que ela vai amar conhecer o meu cunhado.
Mas antes que Alana pudesse perguntar o porquê, o produtor avisou que o show iria começar e Marcella a chamou para a pista. Lana percebeu o olhar do baixista para ela, e se esforçou a lembrar o nome do rapaz de cabelos escuros. Ele não era tão bonito quanto o , mas para dar uns beijos no sábado à noite, Alana não iria se importar.

(...)


Maroon 5 sempre deixava Alana inebriada, mesmo quando era uma banda cover. De fato, Victor poderia não ser o Adam, mas estava cantando com tanta paixão quanto.
— Seu irmão arrasa muito! Ele tem planos de seguir carreira profissional? — Lana tomou um gole da cerveja e olhou para Marcella, cujos olhos azuis estava brilhando.
— Não! Ele está formando em direito e seu sonho é ser juiz. Mas adoro o shows deles, e concordo com você, ele deveria largar tudo e virar artista.
Gustavo dedicou uma música para a esposa, Duda, e Lana sorriu vendo o quanto os dois eram apaixonados. Normalmente Lana ignorava casais, mas com o tempo que estava passando sozinha, ela vinha se perguntando por que sempre fugia de relacionamentos. Ela já tivera oportunidade de namorar, mas correra mais que Usain Bolt quando as coisas começaram a ficar sérias demais e ela simplesmente assumiu que não fora feita para relacionamentos sério. Estava feliz sozinha.
E, pensando nisso, ela se permitiu beber mais duas cervejas com Marcella, cantaram as músicas favoritas, dançaram até as pernas doerem e, quando o show acabou, Lana ficou até triste de não poder pedir bis.
Os integrantes da banda vieram para a pista de dança quando um cover do One Republic assumiu o palco e Alana começou a trocar olhares com o baixista, que depois de muito esforço lembrou que o nome era Bernardo.
O rapaz foi até ela, e Lana já começava a sentir toda aquela ansiedade que acontecia quando um ser do sexo masculino se aproximava.
— Ei, você vem sempre aqui?
Alana caiu na gargalhada da cantada idiota, até que percebeu que ele também estava rindo. Era uma piada, das mais idiotas possíveis.
— Na verdade não, sabe? Minha toca não me deixa sair muito.
Ele fingiu que entendeu a piada e sorriu.
— Eu ofereceria uma bebida, mas vejo que sua garrafa ainda está cheia. — Bernardo apontou para a garrafa nas mãos da menina.
— A Marcella vem repondo o suprimento de álcool a noite todinha.
— Marcella sabe muito bem como entreter as suas convidadas. Eu não sabia que você estava com ela, desculpa.
O rapaz se afastou e Alana ficou completamente sem entender. O que tinha a Marcella a ver com ela querer dar um beijo no moço?
Lana não conseguiu se divertir depois disso, mesmo que Duda também tivesse ido até elas e conversado bastante com as meninas, principalmente sobre como era difícil ser mulher em um ambiente cheio de homens. Alana descobriu que Duda estava com Gustavo desde a adolescência, e mais uma vez aquela sensação ruim de que ficaria sozinha lhe atingiu.
Quando o casal maravilha resolveu ir embora, Lana também anunciou que iria.
— Espera — Marcella a chamou antes da porta – Já vai mesmo? Tá cedo.
— Eu estou um pouco cansada.
— Eu vou com você então.
Mesmo Alana insistindo que a amiga não precisaria ir, que estava tudo bem, Marcella saiu do pub e foram andando juntas até um ponto de táxi, mas antes que Lana pudesse chamar um carro, Cella a puxou para um canto.
— Ei, o que houve? Sei que não é cansaço porque você estava bem até o Bê ir falar com você.
— Homens são um saco, só isso. Sempre as mesmas cantadas baratas, mas mesmas cobranças, acham que a gente está ali apenas para eles. O Bernardo não fez nada, sabe? Mas às vezes o não fazer nada é o maior dos problemas! Eu só tô cansada do sexo masculino, só isso. E ao mesmo tempo não queria ficar sozinha, tô cansada de ficar sozinha nessa cidade que parece que cada um vive fechado no seu mundinho sem compreender nada. Eu fico pensando se eu quero ou não um relacionamento sério, e se quero este relacionamento apenas com homens.
Alana falou sem pensar. Quando viu, já tinha admitido para Marcella uma coisa que nunca tinha falado com ninguém. Nem nem sabiam que Alana de vez em quando beijava meninas e como às vezes ela se sentia melhor do que beijando meninos.
Mas ao invés de parecer assustada ou questionar, Marcella falou algo que deixou Alana completamente perdida.
– Você sabe por que eu te convidei hoje?
– Hã?
– Um pouco foi porque achei que você estava precisando de um tempo da sua rotina e percebi que sozinha, você não iria conseguir isso. Mas o principal motivo, era porque eu estava doida para fazer isso desde o dia que te conheci.
Marcella se aproximou e Alana só percebeu o que tava acontecendo, quando sentiu os lábios da garota tocando aos seus e não perdeu tempo puxando a garota para mais perto e a beijando de volta.


13.

e ficaram alguns segundos tentando absorver aquela informação. Marcella pegou na mão de Alana, em uma tentativa de dar apoio para a namorada, mas a verdade era que ela mesma estava nervosa com a recepção das meninas. Os sogros? Tranquilo. As melhores amigas de Lana? Era preocupante.
foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Por que eu não estou nem um pouco surpresa? — Alana e olharam para ela questionando a indagação. — Sério, Lana sempre comentava das meninas do colégio. Eu achava que era por falta de assunto, mas isso faz todo sentido.
— Pensando bem, você tem toda razão. Estou me sentindo tapada aqui. — concordou dando um tapa na sua própria testa, porque de fato, Lana sempre comentava das meninas da mesma forma que elas comentavam dos meninos, elas só ignoravam porque não fazia nenhuma diferença. — Seja bem-vinda Marcella! Só não repara na loucura que é quando a gente se encontra.
deu um abraço na garota e a puxou para dentro de casa, mostrando onde era o banheiro, a escada que dava para o quarto de e o principal, a cozinha onde Renata, mãe de , tinha deixado um mega lanche antes de sair.
— Você está feliz? — perguntou para Alana.
— Muito. — a garota abriu o maior sorriso e acompanhou. Lana estar feliz era a única coisa que importava.
— Não vai achando que você vai se safar de contar toda a história só porque ela veio com você, porque você vai ter que contar! Nem que eu tenha que ligar para o e pedir para ele a distrair.
Só depois que percebeu que tinha falado demais. Ela era amiga de , todo mundo sabia disso, mas não que eles estavam tão próximos e não queria ter que explicar isso justo para Alana. Ela poderia estar com Marcella agora, mas sabia que tinha sido difícil para a amiga superar o jogador de futebol, mesmo que ela tivesse dito várias vezes que estava tudo bem. Agora, elas estavam frente a frente, talvez fosse hora de tirar essa história a limpo.
— Eu… — tentou começar.
, já te falei antes e vou repetir: se você gosta dele e ele gosta de você, seja feliz. Não é da minha conta o que você faz ou deixa de fazer com e nem qual é o tipo de relação de vocês. Eu já superei há muito tempo, antes mesmo de conhecer a Cella. Só que quero que você seja feliz, de verdade.
— Obrigada. — sorriu e abraçou a amiga, aquele apoio era a coisa mais importante que ela poderia ter — Mas só para deixar registrado: não aconteceu nada, somos só amigos e eu realmente acho que vamos ficar só nisso.
— Aham, ta bom. Isso é o que veremos.
Alana abraçou pelos ombros e juntas elas foram atrás de e Marcella que já estavam acomodadas na mesa da cozinha devorando todos os pasteizinhos na mesa.
Não demorou muito para elas escutarem passinhos correndo na escada.
— A Melzinha está em casa? — Alana se levantou correndo em direção ao corredor gritando com a Mel. A menina pulou nos braços da Lana, que agora não conseguia mais carregá-la no colo — Você está crescendo muito rápido menina!
— Mês que vem faço 13 anos e nem parece!
— Eu tô idosa gente! — Lana disse e as meninas à mesa riram. concordou que elas estavam ficando muito velhas e Melina ignorou todo mundo atacando a comida que ainda restava na mesa.
— Eu achei que vocês não fossem deixar sobrar pra mim.
— Não deveria mesmo não, você tem que parar de crescer porque eu tô me sentindo velha real. — Alana tirou a vasilha com pão de queijo da frente da Mel e fez beicinho.
— Você não está velha amor, para com isso e deixa a menina comer. — Marcella não conseguia parar de rir da namorada. Estar com o trio estava sendo divertidíssimo e ela chegou a ficar um pouco triste de não ter conhecido Alana quando ela ainda morava em São Bento.
— Ainda bem que você me ama. — Lana deu um selinho em Marcella e só então Melina percebeu a presença da professora de yoga.
Mel abriu a boca e demorou a recuperar a palavra.
— Lana, quem …? Por que você beijou ela…
— Mel, essa é Marcella, minha namorada. — Marcella estendeu a mão para Melina com um belo sorriso no rosto e os olhos claros iluminados.
Melina aceitou, mas ainda estava muito confusa.
— Mas ela é uma mulher!
— E? — quem respondeu a irmã.
— Uma mulher pode amar outra também, Mel. — Marcella explicou.
— Eu sei. Eu amo a minha mãe, a e as meninas, mas não quero beijar elas! Isso é estranho! — Mel fez uma cara de nojo, mas todos perceberam que ela estava confusa. Mesmo com tanta informação na internet, São Bento ainda era uma cidade pequena, com hábitos de cidade pequena e estes assuntos ainda não tinha chegado à sexta série. Melina sabia que existia homens que gostavam de homens e mulheres que gostava de mulheres, mas ela nunca tinha visto um casal na sua frente. Depois de um tempo de silêncio, foi a fez de , que por algum motivo estranho havia ficado calada este tempo todo, conversar com Mel.
— Mel, você já gostou de algum garoto na escola?
— Sim! Eu gosto do Enzo na verdade — Melina já tinha falado dele com , mas a mais velha não estava entendendo o rumo que estava levando à conversa.
— Você gosta dele e quer beijá-lo, ou ele é só seu amigo?
— Eu quero beijar ele um dia, mas acho que ele não gosta de mim. Mas sim, quero beijar ele.
— Então, a Lana gosta da Marcella da mesma forma que você gosta do Enzo, e ela beija a Marcella porque a Marcella também gosta dela. — Demonstrando o que falava, Lana passou o braço pelas costas da cadeira de Marcella abraçando a garota — As duas são felizes, se respeitam, e resolveram ficar juntas. Não tem nada de estranho ou errado nisso.
Melina olhou desconfiada para as duas por algum tempo, mas então deu de ombros e resolveu aceitar. O mundo já era complicado demais para reclamar disso também. As cinco continuaram conversando animadas, e depois que Melina se cansou de comer e subiu para assistir televisão, e começaram o interrogatório. Queriam saber tudo de Marcella: o que fazia da vida, como eram seus pais e, principalmente, as intenções dela com Alana, pergunta que gerou uma sequência de gargalhadas por parte do casal, mas Cella teve que responder da mesma forma:
— Eu quero fazer de Lana a mulher mais feliz do mundo.
Isso arrancou suspiros de e uma com corações imaginários nos olhos.
Marcella passou o resto do dia observando as três amigas. Elas comentavam as mesmas coisas vendo filmes, riam das mesmas idiotices e ela precisou sair correndo para o banheiro fazer xixi do quanto estava rindo quando resolveu que era hora de recordar a adolescência. Alana tinha sido uma pessoa incrível e se tornava uma mulher mais incrível ainda, o que fez Marcella perceber que ela tinha se apaixonado um pouquinho mais pela namorada naquela tarde.
Outra coisa que ela tinha entendido, era que mesmo as três sendo completamente diferentes, de alguma forma, elas formavam uma perfeita simetria. Um equilíbrio que ela vira em poucas pessoas, uma harmonia que encaixava todas as notas musicais, mesmo que algumas pausas e sustenidos acontecesse. A vida era um pouco disso. A perfeição onde não existia nada além do cotidiano.
Ao final do dia, quando elas finalmente voltaram para casa dos pais de Alana, a arquiteta se sentia mais leve. As amigas tinham amado Marcella, tinha sido muito, mas muito melhor do que ela tinha imaginado e ela não poderia estar mais feliz.

(...)


Era Páscoa. A casa de estava lotada. tinha ido com a mãe para o almoço e, pela primeira vez, Alana também tinha levado os pais e a namorada. O casal vinte voltaria para a capital à noite, mas isso não estava impedindo ninguém de aproveitar o feriado.
Melina tinha comido chocolate logo no café da manhã e, como todo ano, reclamava estar com dor de barriga na hora do almoço. ajudava a mãe terminando a bacalhoada e tentava não empapar o arroz.
Pela primeira vez desde que tinha começado a ficar com , ficou triste por ter resolvido manter aquilo em segredo. Ela quis poder convidar o rapaz para aquela festa, dar um abraço nele desejando Feliz Páscoa sem se importar com o que as pessoas iriam dizer. Ou melhor, com o que a sua mãe iria dizer.
Maria Antônia, mãe de , estava tendo dias bons. Isso significava que não precisava se preocupar em vigiar a mãe o tempo inteiro ou que ela estivesse a perseguindo, mas sabia que isso poderia mudar de uma hora para outra. Ainda não estava preparada para arrastar para a confusão que era sua família. Tão pequena e tão difícil.
Mas assim que desligou o fogão, percebeu uma coisa que não tinha notado antes: a família dela não era tão pequena assim. De alguma forma, ela, e Alana tinham conseguido unir os parentes em uma festividade originalmente família. E, mesmo sem ser de sangue, aquilo havia se tornado uma grande família.
O pai de , Pedro, estava conversando com Marcella sobre yoga. Ele tinha descoberto um canal no youtube com algumas meditações e resolvera tentar fazer. A professora de yoga, por sua vez, dava dicas para ele de como não se machucar copiando as posições do youtube. A mãe de conversava animadamente com Renata, mãe de , e só poderia esperar que ela não estivesse fazendo a garota passar vergonha a chamando de inútil pela milésima vez. Renata percebeu que estava encarando e piscou para a menina, que sorriu tentando se acalmar. Ela sabia que tia Renata a conhecia desde as fraldas e que nada que Maria Antônia dissesse poderia prejudicá-la.
Alana e Mel estavam jogando baralho na mesa da sala. Por algum motivo, Alana sempre foi muito próxima de Melina e sempre tentava estar ao lado da garota. Na sexta, Lana tinha confessado que estava com medo da reação da Mel sobre Marcella, de como isso iria alterar o relacionamento das duas, mas aparentemente tudo estava normal.
então começou a refletir sobre aquele cenário e percebeu que alguma coisa faltava ali. O vazio no seu coração que ela conseguia esconder muito bem estava se tornando superficial. Seu pai não estava ali. Samuel não iria fazer a piada do pavê quando este fosse colocado em cima da mesa na hora da sobremesa. Ele não iria tirar um cochilo no sofá e fingir que continuava dormindo quando as meninas fossem assistir o filme que estivesse passando na TelaMaxima daquele domingo. Ele não iria levar as sobras para casa para preparar os restos no dia seguinte.
Pensando nisso sentiu uma lágrima cair dos seus olhos. Normalmente ela não demonstrava as fraquezas, mas Páscoa era sempre uma época complicada para . O vazio da falta do pai seria eterno, e nada nem ninguém mudaria isso.
— Está tudo bem? — perguntou escorando na bancada ao lado da amiga.
— Está sim. — secou as lágrimas que teimavam a escorrer — Está tudo bem. Só senti saudades do meu pai. Não saber é pior do que achar que ele está morto. Sei lá.
abraçou a amiga.
— Você sabe que não está sozinha né?
— Eu sei.
As duas se abraçaram novamente e, antes que alguém pudesse puxar outro assunto, o telefone de tocou.
— Hm, né? Sei. — zoou a amiga quando viu quem estava ligando para ela no visor, mas saiu de perto dando-lhe privacidade.
ainda rindo, completamente sem graça de ter sido descoberta, atendeu o telefone saindo disfarçadamente da cozinha e subindo as escadas para seu quarto. Ela não queria esconder o telefonema, mas não estava a fim de explicar para a família inteira que ela e eram apenas amigos.
— Alô?
— Oi . Feliz Páscoa!
— Feliz Páscoa ! Ganhou chocolates?
— Melhor! Churrasco e cerveja na casa do Diego e da Lu. O que você está fazendo? — ela não teve como deixar de notar que ele parecia um pouco alterado.
, você está bêbado? — já estava rindo antes mesmo de ouvir a resposta.
— Um pouco, só um pouco... Quê? Quê? Ah, cala a boca ! — escutou alguém falando ao fundo e percebeu que eram os rapazes enchendo o saco, o que só a fez rir mais daquela ligação inesperada.
, o que foi? Estou começando a achar que você não me ligou apenas para desejar Feliz Páscoa.
— Não, não… Uhn, ? Aquela aula de direção ainda está de pé?
ficou assustada com aquela pergunta. Antes ela tinha oferecido porque achava que ele só tinha preguiça de aprender a dirigir, mas agora que conhecia o verdadeiro motivo, aquilo parecia uma grande estupidez.
— Claro, ! Mas… por quê? O que te fez mudar de ideia? — ela estava genuinamente curiosa e talvez a honestidade de um bêbado fosse a única forma dela descobrir o motivo.
— Você, . Você me fez mudar de ideia.
Então a ligação foi encerrada e ela ficou sem saber de onde aquilo tinha saído. Estava sentada na cama e ficou alguns segundos olhando para o celular. O que tinha acontecido? tinha mesmo mudado de ideia sobre dirigir ou que merda tinha sido aquela?
abriu a porta do quarto, assustando .
— Está tudo bem? — A menina perguntou sentando ao lado da amiga com cara de assustada.
— Está. Está sim. — começou a rir histericamente. — O que significa quando um cara te liga bêbado dizendo que quer sua ajuda para uma coisa?
— Geralmente significa que ele está tentando tirar suas calças.
A gargalhada foi a única resposta que deu e logo a acompanhou. Talvez fosse esse o objetivo de . Mas, se de outras vezes teria fugido e ignorado o rapaz, por algum motivo, com ele, ela estava cogitando não se importar.

(...)


À noite, quando finalmente chegou em casa, estava se sentindo leve. Tinha sido um dia feliz, como há muito ela não sentia. Se despedir de Lana tinha sido difícil, mas depois de tantos anos elas já estavam começando a acostumar. Mas o que mais a tinha deixado tranquila, fora a forma como sua mãe parecia bem.
Lidar com Maria Antônia fora algo que ela precisava fazer desde os 13 anos. E, por mais que ela sentisse ondas de raiva, reclamasse e ainda planejasse fugir para o outro lado do planeta, sabia que sua mãe seria sua responsabilidade. Ela não tinha com quem dividir.
Não que Maria Antônia tivesse alguma doença, mas ela tinha se tornado uma pessoa extremamente dependente. Tinha o seu trabalho como costureira que era a renda das duas. sabia que ela precisaria arrumar um trabalho o mais rápido possível, mas enquanto não conseguia, ela se esforçava em ajudar a mãe nas encomendas.
Mas o contato com a mãe nem sempre era bom para a garota. Maria a perseguia, impunha regras que não fazia sentido para a garota de 21 anos e era a responsável por deixar a casa em ordem. Ela nunca chamava suas amigas para lá, porque sabia que em algum momento sua mãe poderia aprontar alguma e inventar diversas mentiras. Ela já tinha tentado fazer com que a mãe procurasse um médico, mas a matriarca continuava se negando a buscar ajuda. E continuava sofrendo.
Mas pensar naquilo naquele domingo de Páscoa não era bom. O dia tinha sido agradável. preferia focar nas partes boas do que insistir nas coisas que ela não poderia mudar.
— Aceita alguma coisa? — Perguntou para a mãe assim que ela ligou a televisão.
— Não.
não recebia nem um obrigado. Nada em troca de tantas coisas que ela resolvia. Ela respirou fundo e foi para o seu quarto, não iria sofrer com aquilo mais do que o necessário.
O cômodo não era amplo, mas tinha uma cama confortável, um armário que cabia suas roupas e livros, uma escrivaninha com um notebook que tinha lhe dado de aniversário um tempo atrás e uma foto dela com o pai no estádio do JFC. sentiu as lágrimas mais uma vez formando em seus olhos e, trancada no quarto, se permitiu chorar.
A dor era profunda. Ela sentia falta dos pais nos dias bons e também nos dias ruins. Sempre se perguntava o que ele iria dizer se estivesse ali. Como iria tratar sua mãe e se os dois ainda estariam morando com ela, mesmo passando por todos os problema que Maria Antônia trazia.
não conseguia se lembrar de uma época em que sua mãe não fosse desconfiada de tudo, sempre achando que estava fazendo algo errado, mesmo quando a garota ainda era pequena e nem tinha noção de certo e errado. Quando seu pai sumiu, essa mania de perseguição piorou.
Maria achava que iria trocá-la pela família de e um dia chegou a confrontar Renata, mãe da amiga, na padaria na frente de toda a cidade. Na adolescência, as amigas sabiam que tinha tido uma fase ruim. Ela não se orgulhava de ter usado sexo para tapar todas as suas frustrações, mas ela não era mais a adolescente que um dia fora.
Deitada na sua cama, tentou se acalmar, e, talvez sentindo que a menina precisasse de conversar, seu celular começou a vibrar com uma chamada de . sorriu, ela tinha sentido falta de notícias dele durante o dia, mas sabia que fora ela quem escolheu escondê-lo.
— Oi. — Ela disse baixinho, tentando esconder o choro dele.
— Oi linda! Ei, você está chorando? — O tom de preocupação dele a fez esquecer do juízo e soltou as lágrimas novamente.
— Não é nada. Só saudade do meu pai.
— Quer que eu vá até aí?
cogitou. Ela gostaria de um abraço no momento, mas então se lembrou que tinha estado no churrasco o dia inteiro com os amigos. Ele chegar alcoolizado na porta da casa dela não seria uma boa forma de convencer sua mãe que ele era uma boa pessoa. Ela nem sequer tinha resolvido se contaria ou não para a mãe sobre ele.
Maria sempre implicava com os amigos de , mas a garota não poderia culpá-la. Mais uma vez, o erro tinha sido dela em causar a desconfiança da mãe de que ela não era responsável o suficiente para lidar com a própria vida.
Mas o dia tinha sido tão bom. Sua mãe estava vendo TV e logo iria dormir, que mal faria?
— Tudo bem. Mas me avisa do carro quando chegar que eu te encontro na porta.
Ele concordou e desligou o telefone. limpou as lágrimas e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo, tentando, sem sucesso, apagar os vestígios de que tinha estado chorando.
Mais uma vez, foi até o quarto da sua mãe perguntar se queria algo. A mulher ficou olhando para a filha com uma cara estranha, com certeza reprovando que ela tinha chorado. poderia ser boa em esconder as coisas com piada, mas não era tão boa assim.
— Desliga a TV por favor. Vou dormir. — Ela disse de forma seca, se acomodando debaixo das cobertas e fechando os olhos.
desligou a televisão e encostou a porta, de certa forma agradecendo que a mãe já estava dormindo. Assim ela poderia conversar com em paz na porta de casa.

Não demorou muito para o rapaz chegar e ele deixou o carro estacionado alguns metros antes da casa de . A garota já estava esperando por ele na calçada, sentada enroscada em um moletom puído e um short curto. nunca entendeu como meninas conseguiam usar moletom e short, ou estava calor ou estava frio. Mas que era uma combinação estranhamente sexy, isso era. Principalmente em .
Ele colocou as chaves do carro no bolso e sorriu, um sorriso doce de quem só queria o seu bem. retribuiu o sorriso e se levantou indo até ele e o abraçando. aninhou a garota em seus braços e não disse nada. Era um silêncio que significava muito, mas muito mais do que qualquer coisa que um deles poderia dizer. Era um silêncio de quem dizia que estava ali, que ela não estava sozinha, que ele não iria a nenhum lugar.
sentiu o calor do corpo de e não reprimiu as lágrimas. Seus olhos já estavam doendo do quanto ela tinha chorado naquele dia, mas ali com ele, eram lágrimas mistas de saudade com felicidade. Ela estava feliz em tê-lo em sua vida, e ao mesmo tempo que isso lhe trazia conforto, ela também tinha medo de que ele fosse embora.
, o que a gente está fazendo? — Ainda envolta por seus braços, olhou nos olhos negros do rapaz.
— Como assim?
— A gente. O que significa isso?
— O que você quiser que signifique. — Ele deu um beijo na testa dela que retribuiu com um sorriso.
— Eu gosto de você. — Ela finalmente admitiu.
— Eu também gosto de você.
Eles ficaram se olhando por algum tempo, até que ele levou uma das mãos até o rosto de e a acariciou com o polegar, em seguida a puxando para um beijo. Um beijo diferente dos outros que eles já tinham experimentado. Um beijo calmo, delicado, ambos sentindo a presença um do outro, lentamente sentindo aquele sentimento leve que estava começando a crescer.
Ela se afastou alguns centímetros, apenas para que pudesse olhar nos olhos dele, que ainda estavam semifechados. pensou em tudo que ela tinha medo, de tudo que ela queria protegê-lo e de que afastá-lo talvez não fosse a melhor solução. Pensou em como tinha se sentido ao ver Alana e Marcella juntas, uma apoiando a outra e o quanto ela queria aquilo para si mesma. O quanto ela queria aquilo com . Foi então que ela resolveu mandar a cautela para longe.
?
— Hm?
— Você quer namorar comigo? — Ele sorriu em resposta e a puxou para outro beijo, mas afastou novamente. — Mesmo com toda a encrenca que eu sou? Você ainda não sabe todos os problemas e eu não sei se estou pronta para contar para as pessoas e…
. — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos dessa forma, a diferença de altura deles não era tão grande, fazendo com que ela olhasse diretamente para ele — Quando você estiver pronta, eu sei que vai me contar todos esses problemas. Eu não me importo com as pessoas, eu só me importo com você. Eu só quero ter você ao meu lado, mais nada.
Foi a vez dela o beijar como resposta, voltando a se proteger em seus braços. Ela sabia que, enquanto estivesse ali, nada de ruim iria acontecer. Ele estava se tornando seu porto seguro.

(...)


Meia hora tinha se passado desde a hora que chegara ali. E, por mais que quisesse passar a noite com ele, ela precisava entrar e ter certeza que sua mãe estava dormindo e ela mesma descansar. Estar com era como estar coberta com uma nuvem de felicidade, e precisava se recordar que sua vida era muito mais do que o melhor de dois mundos. Infelizmente ela não era Hannah Montana.
Se despediu do, agora namorado com um beijo rápido e entrou em casa, andando no escuro até seu quarto. Mas, antes que pudesse finalmente relaxar, viu um vulto no quarto da mãe.
— Quem é aquele garoto? — Maria falou acendendo a luz do corredor e fazendo pular.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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