Perfeita Simetria
Última atualização: 19/01/2019

Prólogo

A terra batida já era uma velha conhecida. Chegar em casa cheio de lama e ter que ir direto para o banho era algo familiar a ele. Já tinha perdido as contas de quantas chuteiras tinham ido direto para o lixo desde que começara a jogar bola, com uns 4 anos de idade.
Mas ele não desistia do sonho.
Muitos diziam que o Jequitibá Futebol Clube era o fim de uma carreira que nem tinha começado, mas não para ele. Ele acreditava que aquilo era apenas um início. Ainda iria conquistar o mundo.
E era exatamente isso que ele pensava quando colocou a bola no chão para bater o pênalti. Ele não estava preocupado com aquele jogo, era apenas mais um de muitos.
Quando a bola entrou dentro da rede rasgada e saiu rodando para a torcida, ele não viu seus companheiros de time correndo, quando se deu conta, estava no chão.
Tinham ganhado a copinha, nome carinhoso que davam para aquele campeonato regional no sul de Minas Gerais. São Bento do Jequitibá era uma cidade pequena, pouco mais de 12 mil habitantes, mas tinha um time de futebol.
Naquele ano, o Jequitibá Futebol Clube jogaria a série C. E ele queria subir mais na tabela, nem que para isso precisasse carregar o time nas costas.
Futebol era um esporte em equipe, mas todo mundo precisava dar o máximo de esforço individual para conquistar seu espaço, principalmente quando jogava em um time tão pequeno.
E sabia que aquele ano seria uma mudança em toda a sua vida. Era a oportunidade que ele tinha de ser notado e se mudar para o Rio de Janeiro. Mas o que ele não sabia, era que futebol lhe traria a menor de todas as mudanças.


1.

A música estava alta na frente daquela casa toda ornamentada para um aniversário. Os balões na porta, a faixa de parabéns e as mesas com cadeiras espalhadas pelo quintal. não fazia ideia de quem era a aniversariante, ele só sabia que o tio tinha lhe obrigado a ir.
Maldita hora que ele não tinha tirado carteira quando teve oportunidade, agora dependia de carona dos outros. E, naquele dia, precisava que alguém o levasse para a concentração do Jequitibá F. C. pois sairiam logo cedo para um jogo em outra cidade.
O técnico, Gerson Soares, era um senhor de 50 anos de idade que acreditava nos seus garotos. E, por este motivo, ele havia tirado do próprio bolso um andar no único hotel em São Bento do Jequitibá para que os jogadores começassem o campeonato com uma concentração digna de um grande clube, mesmo que o JFC não tivesse caixa para esse tipo de gracinha e que seu salário fosse complementado com a venda de pães feitos pela esposa.
já deveria estar no hotel. O horário marcado tinha sido às 19h, mas com toda a sua bagagem, ele dependia de alguém para levá-lo. Sabia que escutaria a bronca do técnico por chegar tarde, mas não tinha como não passar por aquela festa.
Seu tio tinha dito que a aniversariante era afilhada dele, e, por isso, ele precisava levar um presentinho e dar um abraço na moça. se perguntava por que nunca tinha conhecido a menina, uma vez que os tios eram a única família que ele tinha.
A menina estava fazendo 23 anos, apenas três menos que e ainda assim ele se sentia tão velho.
26 anos já era muito para um jogador que ainda sonhava em ser contratado por algum time da série A. Ele já deveria ter desistido há um tempo, mas tinha aprendido com sua mãe a não desistir e ele iria honrar a memória dela.
A mãe de o tinha deixado quando ele tinha 18 anos. Um caminhão pegou o carro que seus pais estavam quando eles voltavam da capital para São Bento. Talvez fosse por isso que ele odiasse tanto pegar estrada, mesmo que vivesse viajando por causa do futebol. Alberto morrera na hora, mas Marília ainda foi para o hospital onde teve uma sobrevida da qual o filho pôde se despedir. Ele ainda se lembrava das últimas palavras de sua mãe:
— Filho, na vida a gente é testado o tempo inteiro. Muitas pessoas vão querer nos ver mal e sempre seremos colocados em situações desagradáveis. Nossos sonhos às vezes demoram a acontecer e muitos dias, eles parecem impossíveis. Mas você não pode desistir. Se agarre a eles e seja feliz.
E pensando exatamente nisso, fechou os olhos antes de ser arrastado para porta adentro daquela casa. Ele não conhecia ninguém ali além dos tios. Sua mochila com os uniformes e chuteiras haviam ficado no porta-malas do carro e ele só rezava para que ninguém mexesse no gol 2001 que o tio tinha.
A festa era simples. Uma decoração azulada na mesa de doces, um bolo de chocolate e diversas mesas espalhadas pelo salão. As pessoas conversavam animadamente e um alto-falante que tocava os últimos sucessos das rádios brasileiras deixavam o ambiente ainda mais aconchegante.
Fazia muito tempo desde que não ia a uma festa de aniversário sem ser dos colegas de time e, ainda assim, geralmente eram comemorados no único bar que ficava no centro da cidade.
Seu tio lhe tirou do seu devaneio para lhe apresentar a aniversariante. Era uma menina morena, baixinha, que vestia uma saia preta rodada e uma camiseta rosa com algum desenho que não ficou prestando atenção. O sorriso dela era lindo, na verdade, ela era toda linda. Mas como sempre, tentou não prestar atenção.
, essa é , a aniversariante. — Seu tio apertou o seu ombro como um alerta para ser educado.
— Oi. Feliz aniversário! — falou dando um beijinho no rosto da moça, tentando fingir que não queria estar ali de jeito nenhum.
— Obrigada! Fique à vontade e divirta-se. — E, da mesma forma que ela tinha aparecido, ela se afastou, indo em direção a uma mesa cheia de mulheres. suspeitou que fossem as amigas dela.
— Filho, vou atrás da sua tia. Você vai ficar bem? — olhou novamente para a direção que tinha ido e apenas assentiu para o tio.
A aniversariante desapareceu do seu campo de visão, mas não se importou. Andou até a mesa que ela tinha ido antes, observando o rosto das três garotas que conversavam animadamente. Tinha um rapaz de olhos azuis com os braços ao redor de uma delas e ele foi o primeiro a prestar atenção em .
— Tudo bom? — o rapaz perguntou, levantando uma sobrancelha.
— Posso sentar aqui com vocês? Eu estou meio de penetra aqui e não conheço ninguém. — respondeu com um sorriso sem graça.
— Claro! Fica à vontade! — Uma das meninas respondeu, apontando para a cadeira do seu lado. — Eu sou a Alana, essa é e esses são Renata e Marcelo. Nós estudamos com a na escola.
tomou o lugar ao lado de Alana. A garota tinha um sorriso bonito e um olhar claramente interessado nele. Se ele estava ali obrigado e ainda levaria a bronca pelo pequeno desvio, pelo menos ele poderia tentar dar uns beijos naquela noite.
— Prazer! Me chamo .

(...)


O rapaz até que estava se divertindo naquela mesa. Marcelo era um cara engraçado, mas Renata, a namorada, sempre dava um jeito de podar o rapaz. foi ficando irritado com aquilo. Onde já se viu namorada controlar o namorado? Isso não deveria acontecer.
e Alana, por outro lado, estavam super interessadas no jogador. Eles conversavam sobre a cerveja que estava sendo servida naquele dia e em como a ressaca ao ingerir uma grande quantidade dela não seria algo divertido.
se divertia com as investidas de Alana. A mulher de cabelos castanhos estava claramente interessada nele, mas parecia insegura em demonstrar qualquer coisa e levar um fora.
Ou talvez, ela só estivesse com vergonha de puxar para algum lugar e deixar de vela para o casal 10 que estavam prestes a entrar em uma briga. Por sorte, passou pela mesa avisando que iriam cantar o parabéns.
comemorou internamente. Talvez ele finalmente conseguisse convencer o tio de deixá-lo no hotel. Diego, melhor amigo de e goleiro do Jequitibá F. C., já tinha mandado algumas mensagens perguntando onde ele estava.
Os dois sempre dividiam o quarto quando viajavam e costumava achar que o único defeito de Diego era ter uma namorada. O cara era apaixonado por Luiza, e, por mais que a moça fosse muito gente fina, achava um desperdício se comprometer com outra pessoa.
Ele já era comprometido com o futebol e era o máximo de responsabilidades que ele queria ter. Podia sair e pegar quem quisesse, voltar a hora que bem entendesse e não precisava se preocupar com o que outra pessoa estivesse sentindo.
Todos se reuniram ao redor da mesa de doces, as luzes foram apagadas e a tradicional música "Parabéns pra você" (sim, pra, em Minas Gerais as pessoas não sabiam a norma culta portuguesa) tomou conta do lugar.
ficou um pouco mais afastado dos demais convidados, afinal, ele estava ali de penetra. Mas então Alana se aproximou dele, esperando a deixa do "com quem será" que sempre acompanhava os "parabéns" quando o aniversariante era solteiro.
Quando a atenção de todos estava voltado para a menina soprando as velinhas, Alana segurou a mão de e sussurrou no seu ouvido.
— Você não está a fim de dar um passeio lá fora?
olhou para a menina e sorriu da forma sacana que ele sabia muito bem fazer.
— Achei que você nunca fosse perguntar.
Juntos, eles saíram de fininho pela porta da frente. Alana já conhecia todos os cantos ao redor da casa da amiga, apesar de ter se mudado de São Bento para a capital do estado há alguns anos. Elas tinham crescido a poucas quadras de distância, e aquele bairro era um velho conhecido com todos os mistérios já revelados.
não perdeu tempo quando se viram sozinhos ao virar a esquina. Segurou o rosto da menina e juntou seus lábios sem nenhuma cerimônia. Aquele era um beijo apenas para matar a vontade, não tinha sentimento e os dois sabiam que não saberiam da vida um do outro depois daquela noite.
Alana se permitiu viver o momento e deixou que a guiasse. Passou os braços pelo pescoço do rapaz e se aproximou mais ainda dele. Não faziam ideia de quanto tempo ficaram ali, mas sabiam que precisavam voltar para a festa. Ficaria óbvio que eles tinham sumido e realmente precisava ir embora.
Ao se despedirem, não deixou nenhum detalhe dele com Alana. Ela não sabia quem ele era, apenas que era fã dos Beatles, tocava violão e também tinha crescido em São Bento do Jequitibá.
A garota ficou se perguntando por que eles nunca tinham se encontrado, ou quem seria aquele rapaz ou o porquê dele ter ficado na cidade. Era comum jovens da idade deles se mudarem para Belo Horizonte ou alguma outra cidade maior.
Mas tinha ficado. tinha um motivo para ficar. O Jequitibá Futebol Clube precisava dele e ele precisava o time. Era ali que ele se encontraria, mesmo que algum dia fosse para longe e realizasse seu sonho de jogar no Rio, o JFC seria sempre sua casa.


2.

Alana mentiria se dissesse que não ficou com na cabeça enquanto dirigia de volta para Belo Horizonte. Ela não estava imaginando ele na vida dela, até porque, não tinha espaço para um homem na sua vida atual. Sua correria entre faculdade e trabalho não permitia que ela quisesse algo.
Mas ela tinha ficado curiosa sobre o homem misterioso com quem havia trocado uns beijos. E que beijos! Se aquela esquina falasse, Alana sem dúvidas iria ficar vermelha. era um rapaz bonito. Muito bonito. E tinha sido uma noite legal apesar de terem ficado apenas nos beijos.
Chegando em casa, Alana rapidamente digitou o nome do rapaz no Google em busca de qualquer informação. Achou uma página da Wikipedia falando sobre o time de futebol que ele jogava e vários links para Instagrans. Aparentemente, era um nome comum.
Mas então, quando estava quase desistindo, achou o perfil @. Ela clicou como todos os outros, mas finalmente tinha achado o rosto do rapaz que procurava. E se assustou ao ver que ele realmente era jogador de futebol.
Única coisa que tinha no perfil dele era coisas relacionadas ao Jequitibá Futebol Clube e uma ou outra foto na praia. A foto de perfil mostrava ele em campo, com a camisa verde folha, concentrado aonde quer que a bola estivesse. As demais fotos ou eram com os colegas de time em campo, festas ou vestiário.
A vida de era aquele time que jogava na série C. É claro que Alana conhecia o JFC, quem de São Bento não conhecia o time? Mas a menina nunca tinha sido muito ligada com o time da cidade, só sabia que o time já tinha ganhado alguns jogos por causa de seu pai e irmão que, mesmo torcendo para o Atlético-MG, apoiavam o time quando precisava. Alana era mais a favor de torcer para o time da capital e chegava a ser chata do quanto era doente.
Alana ficou curiosa em saber por que tinha ido até o aniversário de . Eles não se seguiam no Instagram, o que mostrava que não eram exatamente amigos. Será que sequer chegavam a ser conhecidos?
[Alana]: , o que você sabe sobre o ?
se assustou ao receber aquela mensagem. Demorou alguns segundos para se situar quem era , e já tinha inclusive digitado "que ?" quando se lembrou do rapaz que seu padrinho tinha lhe apresentado.
[]: Ele é sobrinho do meu padrinho. Conheci ontem, sei nada dele além de que joga futebol.
[Alana]: Miga, ele é só o atacante do JFC. Tem times do Rio interessados nele!
[]: Bom pra ele! Lana, você sabe que eu não entendo nada de futebol. Nunca conversei com o homem na vida. Aliás, por que você ficou toda interessada?
conhecia Alana. Ela vivia dizendo que não estava atrás de homem, mas sempre que via um rostinho bonito tratava de procurar em todas as redes sociais até descobrir a vida inteira do sujeito. Parecia o próprio FBI dos crushs.
[Alana]: Dei uns beijos nele na festa. Mas não estou interessada, apenas curiosidade. Nunca conheci um jogador de futebol de perto.
[]: SEI! Inventa história para outra, Alana. Haha
sabia que Alana estava falando sério e que ela não estava interessada. Quem nunca beijou um homem numa festa e não ficou curiosa em descobrir quem ele era? entendia.
Mas ela não conseguiu não rir quando, alguns dias depois, o perfil @ apareceu perguntando, sem nem sequer falar um "oi" se ela tinha contado para Lana que jogava futebol. apenas respondeu que ele era uma figura pública e deveria trancar seu Instagram se não quisesse que as pessoas descobrissem que ele era jogador.
riu daquela resposta. A menina tinha um bom ponto. Ele nunca escondeu sua profissão, pelo contrário, era tudo que ele tinha.
Desde que seus pais morreram, tinha o JFC como família. Tinha o futebol como força para acordar todos os dias e continuar lutando. Tinha nos colegas de time os melhores irmãos que poderia ter escolhido, principalmente Diego.
Ele estava no apartamento do goleiro com e Otávio em um domingo de folga, não muito tempo depois daquela festa. Luiza, namorada de Diego, estava na cozinha fazendo uma farofa que acompanharia o churrasco que o dono da casa fazia na laje.
jogava vídeo game com esperando que Otávio voltasse com as cervejas. Os quatro jogadores eram amigos há muito tempo, desde pirralho quando corriam pelas ruas de terras chutando uma bola murcha descalços e usando chinelo havaiana como gol.
Diego sempre jogara na posição de goleiro. E, quando ele atingiu os quase dois metros com 15 anos, ele foi oficializado na posição do U-17 do Jequitibá Futebol Clube. Ele e começaram juntos no time, mesmo o atacante sendo dois anos mais jovem.
tinha contado com Diego e Luiza quando o acidente aconteceu aos 18 anos. Perder os pais de uma vez e ficar sem chão não tinha sido fácil. Ele nunca se sentira tão só e, ao mesmo tempo, não poderia se permitir abaixar a cabeça, tinha contas para pagar.
Por sorte, ele já tinha assinado o contrato profissional com o time assim que chegou à maioridade. E tinha os amigos para lhe ajudar a raciocinar. Oito anos depois e a falta dos pais ainda doía, mas sabia que ele não poderia se permitir sentir.
Ele precisava seguir em frente. Crescer, conquistar seu espaço, ser feliz. Era isso que seus pais desejavam para ele.
— Quem quer cerveja gelada? — Otávio entrou no apartamento fazendo barulho. O zagueiro estava sempre animado, fazendo piada, mesmo quando o sentimento era negativo.
Otávio Calvacanti era descendente de coreanos e os olhos puxados haviam sido motivo de muito bullying na infância, mas ao invés de deixar com que aquilo o atingisse, ele apenas ria. Com o tempo, as pessoas entenderam que Otávio tinha uma autoconfiança inabalável.
Ele estava sempre pensando no que poderia fazer para mudar o mundo, e não deixava que lhe dissessem que sonhava demais. Mas mesmo tendo toda essa segurança, Otávio às vezes se sentia sozinho e desejava encontrar alguém que o equilibrasse. A verdade, era que ele nunca tinha esquecido Natalia, a menina que roubara o seu coração quando ainda era adolescente e o trocara pela vida agitada em São Paulo.
— Vocês estão jogando o quê? — Otávio se jogou no sofá entregando uma cerveja para e outra para que estava sentado no chão.
— Fifa. — respondeu.
— Não sei porque pergunto, vocês só sabem jogar isso. — Ele abriu sua própria cerveja — Quem perder é minha vez!

(...)


ficou com aquela história de e Alana na cabeça por alguns dias. Nem o jogador nem a amiga tinham tocado de novo no assunto, mas não conseguia deixar de pensar.
Por sorte, ela tinha muitas coisas pra fazer. Estava começando no dia seguinte no emprego novo, uma loja de roupas de marca, do tipo que ela jamais imaginaria em comprar. e sua família não passavam dificuldades, mas eles também não tinham dinheiro sobrando.
Naquele domingo sua irmã, Melina, de 12 anos, estava no quarto que as duas dividiam cantarolando alguma música que crianças de 12 anos cantarolavam. via na irmã um pouco do que tinha sido ela naquela idade, e ficara feliz em saber que os pais permitiram que Mel fosse criança.
12 anos hoje era quase como 15 na época de . As meninas já estavam cheias dos namoricos quando deveriam estar brincando de boneca. Já queriam assistir séries sobre sexo quando deveriam estar vendo desenho animado.
— Loiro tem o João, Moreno o Pedro... — Melina escrevia em um caderninho que ela chamava de diário e murmurava alguns nomes.
— O que você tanto escreve, Mel? — perguntou ao sentar em sua cama e abaixar para tirar o tênis de corrida. Ela tinha acabado de fazer uma caminhada na beira do rio e precisava de um banho.
— É uma brincadeira nova que as meninas fizeram na escola. Tem uma música e você vai contando nos dedos, quando acabar os dedos é o menino que você vai casar. Mas eu nunca saio com nenhum que quero... — Melina fez uma carinha triste olhando para o caderno.
— Qual música? — se sentou ao lado da irmã na cama do lado.
— É assim, coloca um número nos dedos? — colocou nove dedos na cama, ela sempre gostou do número 9. — Loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia, capitão, loiro, moreno. , você vai casar com um moreno!
começou a rir. Aquela não era uma brincadeira nova, ela mesma já tinha brincado muito disso na idade de Melina.
— Mel, essa brincadeira é mais velha do que a vovó. — as meninas riram. — Mas gostei da ideia de casar com um moreno sensual.
Melina riu da irmã fazendo gracinha, tinha tirado ela mesma das suas preocupações.
, você conhece algum moreno sensual? — , por algum motivo, lembrou de . Ele era um moreno para lá de sensual. Mas riu da sua própria mente, claro que não iria olhar para ela, fala sério.
— Infelizmente não, Mel. E você? Conhece? Às vezes você me apresenta.
saiu do quarto com a tolha de banho nas mãos quando escutou Melina falando:
— O que você acha de um jogador de futebol?
— O quê? — voltou abrindo a porta do quarto.
— O Enzo! É meu amigo, ele joga futebol. Sei que jogador não está na lista para futuros namorados, mas será que pode?
— Mel, você sendo feliz, pode qualquer coisa. Até uma moça com sorriso bonito.
Melina sorriu para a irmã e anotou o nome de Enzo no caderno. saiu do quarto ainda rindo da irmã e foi para o banheiro com uma estranha sensação no estômago. Por que tinha pensado em ?

(…)


tinha chegado a São Bento novamente após outra viagem para jogar o campeonato mineiro. Ele precisava admitir que era seu campeonato favorito para se jogar com o Jequitibá. Ali, ele poderia jogar com times da série B e, numa sorte, pegar Cruzeiro ou Galo e tentar não perder muito feio.
Às vezes, se sentia de novo com 7 anos de idade e a liberdade de jogar bola apenas por jogar. O campinho de areia, o gol de chinelo havaiana, geralmente quebrada. Jogar futebol era sua profissão, mas ele sempre ria quando dizia "eu sou jogador de futebol". Não parecia real.
Ele já tinha pensando em fazer alguma faculdade, talvez administração ou psicologia. pensava sobre o que ele faria quando não fosse mais jogador de futebol, mas pensar nisso naquele dia, não era algo que o fazia bem e, como tudo em sua vida, apenas ignorava e continuava jogando.
E pensando nisso, ele foi andando até o supermercado. Como toda cidade pequena, São Bento do Jequitibá tinha apenas um supermercado e, em dias como aquele, ele ficava lotado.
Era um quinta-feira a noite. O dia em que chegava frutas e verduras e, convencionalmente, o dia que todo mundo ia no supermercado. odiava fazer compras para casa, principalmente porque tinha que carregar diversas sacolas à pé por cinco quarteirões. Mas desde que tivera que morar sozinho quando Diego resolveu ir morar com a namorada, ele teve que aprender a ter essa rotina.
Uma listinha para não esquecer as coisas que realmente precisaria comprar e a certeza que levaria muito mais coisa do que estava ali.
O cheiro do lugar era pesado, uma mistura de hortifrúti, com o frio das geladeiras de carne e água sanitária. Por que supermercados sempre cheiravam água sanitária?
Pegou o carrinho, quebrado para variar, e entrou no supermercado distraído com a lista em suas mãos. Passou direto pela parte de material de limpeza e se encontrou no corredor de balas e chocolates. Normalmente ele não entrava ali, tentava diminuir nos doces para que pudesse comer os famosos churrascos de fim de semana com cerveja e batata frita.
Mas naquele dia, a vontade de detonar uma barra inteira de Laka estava enorme e também era gente. Ao desviar o olhar para pegar o chocolate, sentiu um baque em seu carrinho.
— Fala jogador de futebol! Como você está? — ficou olhando a menina de cabelos claros a sua frente sem reconhecê-la.
Foi então que escutou uma voz familiar.
, você vai querer doce de leite com o sem co... Oi, ! — apareceu toda animada como era natural dela e jogou as duas latas de doce de leite no carrinho, se esforçando para não lembrar da conversa que tinha tido com Mel sobre um certo moreno sensual.
— Oi meninas, tudo bom com vocês? — a pose de galã tomou conta de ao reconhecer e então ele se lembrou do porquê não fazia ideia de quem era : ele não tinha prestado nenhuma atenção na menina naquela festa pois estava mais preocupado em dar em cima da amiga delas.
— Tudo ótimo, jogador. Que estranho te encontrar aqui. — falou, numa tentativa falha de dar em cima de quando na verdade ele estava, mais uma vez, prestando atenção em outra amiga dela.
poderia parecer o tipo de menina que sempre dava em cima de rapazes bonitos, mas o que ninguém sabia, era que esse jeitinho dela era apenas sua forma de ser. Quando ela realmente gostava de alguém, seu comportamento era bem diferente.
não percebeu em nada o que a amiga estava fazendo e continuou conversando com como se não estivesse ali.
— Como está meu padrinho?
— O tio está bem. Devo passar na casa dele amanhã depois do treino, levar os ingressos pro jogo de sábado.
— Vai ter jogo em São Bento sábado? — interrompeu novamente. — Ai, queria tanto ir. Já tem uns anos que não vou em um jogo do Jequitibá.
olhou para a amiga e sorriu. Ela sabia o porquê não ia em jogos e não fazia ideia do motivo da amiga tinha falado isso.
— Vocês deveriam ir! Se quiser posso deixar uns convites de cortesia na sua casa, . — ofereceu olhando para a morena e tentando decifrar o que aqueles olhos castanhos queriam dizer.
— Uai, pode ser! Nunca fui em um jogo do Jequitibá. Ah, mas será que posso levar a minha irmã também?
— Claro! Nos vemos no sábado então. — sorriu para as meninas e as deixou sozinhas no corredor do supermercado.
, olha que homem! E você viu como ele estava olhando para você?
— Cala a boca ! Nada a ver. Ele é gostoso, lindo e deve pegar todas as meninas que aparecem por aí. Tô fora! — pegou o carrinho delas e saiu andando em direção ao caixa.
— Pois se ele quisesse me pegar e jogar fora, eu não ia me importar nadinha.
! Primeiro, se dê valor! Segundo, respeita a sua amiga porque lembra que nem um mês atrás ele estava pegando a Alana?
deu de ombros e seguiu . A verdade era que Alana nem sequer lembrava mais de e tinha certeza que quando contasse para a amiga os olhares que o jogador de futebol estava dando para , ela seria a primeira a apoiar o casal.

(...)


Já era tarde da noite quando ligou para perguntando se ele não poderia lhe dar uma carona até a casa de . O meio campista chegou no pequeno apartamento de em menos de cinco minutos após a ligação com apenas uma pergunta:
— Quem é essa mulher que roubou seu coração? — revirou os olhos começando a fechar a porta na cara do amigo. — Ei, você quer carona ou não?
O atacante finalmente deixou entrar na sua casa e este foi logo se jogando no sofá. estava terminando de guardar as compras que tinha enrolado em cima da bancada e tentando, sem sucesso, ignorar as perguntas do amigo.
— É sério cara! Você me liga pedindo carona para te levar na casa de uma pessoa para entregar uns ingressos pro jogo de sábado e não quer que eu deduza que seja mulher? — colocou os pés na mesinha de centro e ficou esperando uma resposta.
não sabia por que estava demorando tanto para responder. Era sim uma moça bonita, mas não era da forma com que estava pensando.
Ele pegou uma Coca-Cola na geladeira, das antigas já que havia renovado o estoque, e entregou para quando sentou-se ao seu lado.
— É a afilhada do meu tio. Encontrei com ela e uma amiga no supermercado e a amiga da menina ficou entusiasmada para ir ao jogo e pensei, por que não? Pelo menos teremos torcida.
tomou um gole do refrigerante e deu de ombros concordando. Mas era impossível não pensar que teria mais coisa ali do que estava contando, só estava ansioso para descobrir.

(...)


Ainda reclamando apenas para encher o saco, dirigiu cantando alguma música do Legião Urbana que ficava repetindo no som do carro. já não aguentava mais a voz de Renato Russo em seus ouvidos, mas ele não iria reclamar da carona. Precisava mesmo tirar carteira...
— É aquela casa ali. — apontou para a casa de dois andares, hoje, iluminada apenas pelo poste na rua e uma das janelas do segundo andar.
"Será que não tem ninguém?" se perguntou. Mas então viu uma pequena movimentação pela janela iluminada e resolveu arriscar. Pediu que esperasse no carro e andou lentamente até o portão.
Não tinha uma campainha, então a forma que teve de chamar atenção foi bater palmas.
— Ô de casa! — quem nunca soltou essa frase nunca morou no interior.
Quando ele já estava quase indo embora, uma menina magrela com cabelo castanho e muito semelhante à abriu a porta e perguntou quem era.
— Oi! Meu nome é . Eu falei com a que passaria aqui hoje para deixar esse envelope, você poderia entregar para ela? — estendeu o pacote pela grade do portão.
— Qual a palavra mágica? — A garota cruzou os braços olhando com cara séria. Quem esse moço achava que era para aparecer a essa hora da noite na minha porta?
— Por favor? — tentou, com um pouco de falta de paciência.
Mas antes que Mel fosse até o portão, apareceu para salvar o jogador.
— Quem é Mel... Ah, oi ! — ela andou até o portão com as chaves na mão. — Vamos entrar!
— Hoje não, obrigado. Estou de carona. — apontou para que acenou do carro. — Espero ver vocês no sábado. — Ele sorriu deixando os ingressos com .
— Me desculpa pela Mel. Pré-adolescentes...
— Quem nunca, não é? Até. — saiu andando deixando as duas irmãs paradas observando o carro ir embora.
— Quem era? — Melina se adiantou.
. Ele joga futebol no time da cidade e é sobrinho do Padrinho Carlos.
Melina ficou um tempo calada. Entraram dentro de casa e Melina se sentou no sofá do lado do pai, onde assistiam a um filme qualquer na Netflix. Quando voltou para sala depois de guardar o envelope no quarto, Mel não teve como não perguntar deixando extremamente envergonhada.
— Ah, , ele é o jogador de futebol moreno e sensual?


3.

O jogo contra o Pinus Balela, time do triângulo mineiro, era de longe o mais fácil do campeonato. Pinus era quase um time amador, com jogadores fora de forma e sem nenhuma técnica. À frente deles, o Jequitibá parecia o Real Madrid.
Mas Diego, capitão e goleiro do JFC, jamais menosprezaria o adversário. Sabendo disso, Luiza tinha acordado mais cedo do que o namorado naquele dia e preparado um café da manhã reforçado. Ela amarrou os cabelos ruivos em um coque solto enquanto esquentava o pão dormido na frigideira, ovos mexidos e presunto já na mesa ao lado do iogurte favorito de Diego.
— Bom dia! — Diego abraçou a namorada por trás, se enrolado todo devido a diferença de altura dos dois.
— Oi amor. Ansioso?
— Sempre. — Diego se jogou na cadeira, parecendo bem maior do que ele era. — Obrigado. — disse olhando para Luiza e tendo certeza que tinha escolhido a mulher certa para dividir a vida.
— Não vou te prometer ir ao jogo. Preciso ir no hospital e você sabe que posso agarrar.
— Tudo bem, linda. Mas você sabe que eu adoraria você lá.
— Eu sei. — Luiza abriu um sorriso e puxou o namorado para um beijo.
Diego e Luiza eram assim. Um sempre tentando entender os motivos do outro, nunca brigavam e raramente discordavam em algo. Luiza tinha certeza que tinha ganhado na loteria por ter conhecido Diego.
Eles estavam juntos desde a adolescência e tinha sobrevivido 9 anos de namoro à distância quando Luiza foi para capital cursar medicina. Era o sonho da menina e Diego sempre fora o primeiro a apoiá-la, mesmo quando os pais disseram que não seria a qualidade de vida para uma mulher.
Mas Luiza não se importava. Ela queria fazer diferença no mundo e sempre foi aficionada por hospitais, principalmente com o de São Bento, que atendia tanta gente mesmo que nem sempre nas condições ideias.
Tinha um ano que Luiza tinha voltado para São Bento após concluir sua residência em clínica médica. Ela ainda queria fazer outra residência ou especialização, mas naquele momento, ela precisava voltar para casa.
E casa também tinha se tornado ao lado de Diego. O goleiro não aceitou que a namorada voltasse para a casa dos pais, e pediram educadamente para se mudar, estava na hora de crescer.

(...)


Não eram nem 9 da manhã quando chegou na casa dos com um saco de pães da padaria da esquina.
— Oi tio! Coloquei na conta do senhor. — a menina cumprimentou o pai de como se fosse da família. As meninas tinham crescido juntas então era como se realmente fossem irmãs.
e estudavam juntas desde o maternal, e seus pais se conheciam desde muito antes disso.
Pedro e Samuel tinham estudado juntos desde o ensino médio. Tinha sido Samuel o responsável por indicar Pedro a vaga na empresa têxtil que trabalhavam. , como Samuel era carinhosamente chamado, tinha atingido a gerência antes do Problema acontecer. Agora, era Pedro o responsável pela filial da fábrica em São Bento.
— Bom dia ! Obrigada pelo pão. — Pedro ainda estava de pijama e saiu rapidamente da cozinha antes que a esposa chegasse e reclamasse disso.
— Oi ! Você trouxe aquele pão com canela? — Mel chegou na cozinha já se sentando na mesa e abrindo o pacote que tinha levado.
— Claro! Não me esqueceria de você. — piscou enquanto tomou um gole do café.
A rotina na casa dos não era muito diferente de uma casa comum. Em um sábado, Pedro e Renata acordavam relativamente cedo. Ele tinha folga, mas ela trabalhava em uma loja de calçados no centro da cidade. Renata era uma mulher bonita, por volta dos seus 40 anos de idade e frustrada por nunca ter saído de São Bento. Com o tempo ela tinha aceitado sua vida pacata, mas talvez justamente por isso ela tinha colocado todas as suas expectativas na filha mais velha.
tinha crescido ouvindo que seu lugar era bem longe dali. E talvez fosse por isso que ela não se dava por satisfeita pelo curso de pedagogia que tinha terminado no final do ano anterior. Ela tinha planos que guardava para si mesma, ansiosa para realizá-los. Mas enquanto sua vez não chegava, ganhava um dinheiro numa loja de roupas.
tá apagada! Ela pegou folga do trabalho por causa do jogo, mas olha, não sei se ela levanta para ir não. — Mel mordeu um pedaço do pão. A menina já tinha vestido a camisa verde do Jequitibá e estava pronta para entrar em campo, mesmo que soubesse que fosse ficar apenas na arquibancada.
— O que você acha de acordamos ela? — levantou a sobrancelha, sapeca com a ideia.
— VAMOS!
Elas saíram da cozinha na ponta dos pés, correndo no corredor em direção ao quarto de Mel e .
— Fica aqui que vou ver se ela ainda está dormindo. — Melina disse abrindo uma fresta da porta e entrando no quarto ainda escuro.
estava enrolada nas cobertas, parecia estar tendo o sonho dos anjos e Mel sorriu ao ver que aquilo não iria durar.
— Vem. — Chamou que já estava pronta para a ação.
Acenderam a luz e começou a falar freneticamente.
— TALITA LEVANTA LOGO DESSA CAMA QUE LUCAS LUCCO ESTÁ NA PRAÇA! — começou a gritar e tirar a coberta de enquanto Mel já pulava na sua própria cama.
— VAMOS TALI!!!
abriu os olhos no susto, acordando com a barulheira. Ela olhou pro lado e viu Melina rindo incontrolavelmente e soube na hora que era mentira.
— O que eu fiz para merecer vocês duas? — levantou da cama brava e saiu pisando forte em direção ao banheiro enquanto e Mel tentavam se controlar com a reação da garota.
Era fácil tirar do sério e era o hobby favorito de Melina do qual adorava participar. Quando eram mais novas, sempre ficava emburrada e havia aprendido a brincar com Mel sem se importar com a amiga.
Às vezes, achava que era mais amiga de Melina do que de . Mas sabia que não era verdade.
tinha estado ao seu lado na pior época da sua vida e ela era muito grata por isso.
E aquele dia iria ser mais um daqueles que ela precisaria reviver algumas memórias, mesmo que ela estivesse animada em voltar ao campo do Jequitibá Futebol Clube - e, principalmente, assistir aquele atacante gato jogar.
Quando pequena, era a maior torcedora do JFC que poderia existir. Ela ia para a escola com o uniforme completo do time, incluindo meião e chuteira. Todo domingo ela estava na arquibancada com o pai, cantando as músicas tão conhecidas e torcendo para o time que, mesmo não apresentando o melhor futebol do mundo, ainda era o time deles.
Mas, de um dia para outro, ela não teve isso mais. Ela precisou crescer, deixar de ser maria chuteira e se tornar mocinha, como sua mãe tinha repetido diversas vezes em sua orelha.
E os motivos para isso, nem todo mundo sabia.
, você está bem? — perguntou ao voltar para o quarto, já com o rosto lavado e o cabelo amarrado em um coque, e ver a amiga viajando sentada em sua cama.
— Estou sim!
— Você tem certeza que quer ir nesse jogo?
— Tenho. Não posso viver para sempre com essa sombra do passado me impedindo de viver. Chegou a hora. — abraçou a amiga que aceitou de bom grado o carinho.
— Se você quiser vir embora, em qualquer momento, é só falar que a gente vem. Não importa , não importa nada.
— Hm, então a senhorita admite que está indo nesse jogo por causa de um certo atacante com um sorriso bonito, né? — voltou ao tom brincalhão de sempre, como se nada tivesse acontecido.
— Tá. Eu admito que tem um certo atacante do JFC que é bem gato.
As duas riram e saíram do quarto para tomar café. O dia estava apenas começando.

(...)


Não foi difícil para as meninas acharem o local reservado para a torcida do JFC. A camisa verde musgo era a maioria nas arquibancadas e, para aqueles torcedores, o campo no fundo da prefeitura parecia um grande estádio europeu.
Tinha sido ali que o time realizara suas maiores conquistas. E também seria ali, perante a sua torcida, que eles conquistariam muito mais.
achou os acentos bem próximo ao campo. Era claro que os ingressos reservados para o atacante do JFC seriam lugares de luxo.
Ela deixou que Mel ficasse perto da grade que separava a torcida do campo, bem atrás do gol. Melina estava eufórica. Era sua primeira vez ali. Desde que a mais nova nascera, seus pais viviam no trabalho e tinham deixado de frequentar os jogos do time. E, além disso, desde aquele ano o time tinha um jejum de títulos.
Tinha sido em 2005 o último título, quando o Jequitibá Futebol Clube conquistou, pela última vez, a taça João Peçanha de Souza pelo campeonato de várzea da região da zona da mata.
Ninguém nunca soube o motivo de no troféu ter esse nome. Diz a lenda que João Peçanha tinha sido um ex-jogador do Ibiretá, time de uma das cidades vizinhas, e o primeiro da região e ir jogar em um time grande no Rio.
Mas ao procurar os registros desse tal jogador, não houve nem sequer sinal da sua existência. Mas se tinha uma coisa certa em futebol, era tradição. Mudar o nome de uma taça centenária com certeza não daria certo.
observava a grama a sua frente, sentada na cadeira e contando respirações. Ela queria estar ali. Tinha sido escolha dela. Mas então por que estava sentindo como se alguém tivesse arrastado ela até ali contra a sua vontade?
Futebol já tinha sido sua paixão. Ela era daquelas crianças que ia para a aula com meião, chuteira e camisa do JFC, mas em algum momento antes de chegar à adolescência, a menina tinha perdido todo esse amor.
sabia o motivo, e por isso mesmo se sentou ao lado da amiga e segurou sua mão.
— Ei, está tudo bem?
— Sim, só… memórias.
— Elas fazem parte.
— Eu sei. — esboçou um sorriso porque no fim ela sabia que estava tudo bem.
— OS JOGADORES ESTÃO ENTRANDO! OS JOGADORES ESTÃO ENTRANDO! — Melina começou a se agitar, dentro do seu peito o coração estava a mil.
— É apenas o aquecimento, Mel. Faltam uns 20 minutos ainda.
— Ah. — Mel pareceu decepcionada, mas apenas por alguns segundos. Viu entrando em campo, concentrado e distante, e apenas chamou . — Olha seu jogador moreno e sensual!
e olharam instantaneamente para . O rapaz parecia ainda mais bonito vestindo o uniforme e alheio a tudo que acontecia ao seu redor.
tinha a impressão que era esse tipo de cara: fora do campo era brincalhão, divertido, tranquilo. Em campo, ele era centrado, esperto e certeiro.
tinha o maior número de finalizações da história do JFC, e muitos se perguntavam por que o atacante ainda jogava em um time da terceira divisão em uma cidade pequena. Falando assim, parecia fácil.
Enquanto Mel aproveitava a atmosfera e brincava com outras crianças que também chegavam para assistir ao jogo, começou a reparar que o time tinha alguns jogadores bonitos. Mais do que ela esperava.
, pega o celular e começa a anotar os números para pesquisarmos depois. E começa pelo goleiro! Que homem lindo. — ficou babando no loiro de quase dois metros de altura que se jogava no chão para se aquecer e treinando defesas. — Me chama de bola e me pega, gato.
! — repreendeu a menina e as duas escutaram uma moça atrás delas comentar.
— Hm, desculpa, mas o goleiro bonitão já tem dona.
As duas olharam para trás, assustadas com a garota ruiva que tinha cara de ter apenas 15 anos, sorrindo para elas.
— Desculpa, não quis intimidar! — a ruiva disse rindo — Sou a Luiza, namorada do Diego, o goleiro.
— Ah oi! Eu sou a e essa assanhada aqui é a . — esticou a mão para Lu que aceitou em seguida.
— Vocês estão aqui com ingresso de qual jogador? Nunca as vi na área reservada.
tinha se esquecido que os ingressos de , além de serem nos melhores lugares da torcida, também estavam localizados na área fechada.
nos deu os ingressos. Ele é sobrinho do meu padrinho. — se apressou a responder antes que a menina tivesse a ideia errada.
— Sei. Enfim! Espero ver vocês mais vezes por aqui. Às vezes fico um pouco solitária na arquibancada. Isso quando consigo assistir. Hoje achei que não fosse conseguir sair do hospital a tempo, mas apesar de ter vindo direto, deu tempo.
Apenas quando Lu disse hospital que percebeu na roupa branca da menina.
— Você é médica? Meu Deus eu não dava mais de 15 anos para você. — perguntou recebendo um olhar reprovador de .
— Sim, sou e obrigada? — Luiza fez uma careta em um meio sorriso que arrancou risos das meninas.
— VAI COMEÇAR! VAI COMEÇAR! — Melina gritou atraindo atenção das mais velhas.
As meninas viram dar uma piscadela na direção delas e falar alguma coisa com , mas no segundo em que o juiz apitou o início do jogo, elas sabiam que os jogadores iriam esquecer completamente que elas estavam ali.


4.

A torcida inteira ficou quieta quando o juiz apitou o intervalo. O placar de 1 a 0 para o Pinus não deixava ninguém feliz, principalmente Diego.
Ele parecia que não estava com a cabeça no jogo desde que tinha levado o gol e sabia que era a pior coisa que poderia acontecer a um goleiro. Ele pensou em pedir para o técnico te substituir, mas era futebol e não aquele esporte sobre o gelo que insistia em assistir.
— Ei, tá tudo bem? — chegou ao lado do amigo lhe entregando uma garrafa d’água.
— Está, eu só…
— Eu sei. Ninguém gosta de perder, mas ainda temos 45 minutos de jogo. E o gol não foi culpa sua. Otávio e Ryan deveriam estar mais atentos, aquela bola não dava para você defender. — disse se levantando, mas parou quando Diego te chamou.
, eles são um time amador.
— E é por isso que vamos fazer pelo menos 5 gols nesse tempo.
Diego deu de ombros no comentário do atacante. Ele estava confiante demais que faria um bom trabalho e isso deixava Diego ansioso. Ele confiava em , mas será que seria o suficiente?
A saída de bola dessa vez estava com o JFC e Diego só pôde observar de longe toda ação que aconteceria no campo de ataque do time. Ele escutou alguém chamando seu nome, e então olhou para trás por um segundo para perceber que Luiza estava ali.
A namorada tinha conseguido sair a tempo de assistir ao jogo.
Voltou seus olhos para o campo e prestou atenção em todos os lances. Ele não poderia fazer feio na frente dela e só podia rezar para que estivesse certo e realmente marcasse.
Foi então que viu um buraco na defesa do Pinus Balela, fez sinal para que se posicionou no lugar ideal. recebeu a bola de Ryan enquanto Otávio marcava outros dois jogadores. Em uma rapidez impressionante, driblou um dos zagueiros do adversário e chutou a bola para , que dominou e mandou para dentro do gol.
1 a 1 aos 8 minutos do 2º tempo.
— VAMO QUE DÁ PRA VIRAR! — gritou para seus companheiros de time quando voltavam para seu campo para uma nova saída de bola.
Os jogadores do Pinus Balela até tentaram atacar mais uma vez, mas dessa vez Diego estava certo e agarrou a bola antes que o atacante pudesse chutar.
Diego passou a bola para Otávio, que fez um passe para Eduardo no meio do campo. Dessa vez, quando recebeu a bola ele não se preocupou em procurar . De fora da área o meio campista chutou a bola que o goleiro adversário achou que fosse pra fora, porém ela entrou.
A torcida vibrou junto dos jogadores que saíram correndo comemorando. 2 a 1!
Mas o time da casa queria mais. O JFC não ia deixar barato principalmente porque os jogadores do Balela já estavam cansando e começaram a fazer faltas.
Com um espaço inacreditável, deu uma arrancada com a bola sozinho em um gol que já estava certo. Para evitá-lo, o zagueiro do outro time fez a falta. Dentro da área.
Pênalti para o JFC.
Otávio poderia ser zagueiro, mas contra todas as possibilidades, ele era o melhor batedor de pênalti do Jequitibá.
— Boa sorte. — falou ao entregar a bola ao amigo que rapidamente posicionou a bola na marca de pênalti.
Ele não olhou uma só vez para o goleiro. Seus olhos focaram na bola e ele apenas visualizou onde queria bater.
A torcida inteira fez silêncio e Otávio conseguia ouvir a respiração ansiosa dos torcedores. O juiz fez sinal, estava permitida a cobrança de pênalti.
Otávio chutou a bola como se aquela partida fosse uma final de Copa do Mundo. Gol.
Todos vibraram, comemorando aquela vitória espetacular do JFC. Não importava que o Pinus tinha feito aquele gol no primeiro tempo. Não importava que o Pinus era um time quase amador.
Para a fiel torcida do Jequitibá Futebol Clube, o que importava era a vitória. 3 a 1 após 90 minutos de jogo.
Os jogadores estavam cansados, mas felizes pelo resultado. Esse era o JFC. O time que tinha como família, a família que ele tinha escolhido para si.

(...)


— Vamos, Mel, junta suas coisas.
— Mas já, ? Por quê? — Melina estava feliz com a vitória, mas estava desolada que precisava ir embora do campo. E rapidamente encontrou uma companheira para seu dilema.
— É, , por que vocês já têm que ir embora? — Luiza perguntou descendo os degraus que as separavam.
— Uai, o jogo já acabou. Por que ficar?
— Porque agora que a festa está começando! — Luiza deu um grito quando Diego chegou por trás e a pegou no colo. — O que você está fazendo aqui?
— Vim ver meu namorado jogar. Pode?
— Oh se pode! — Diego puxou Lu para um beijo ignorando completamente a presença das outras meninas ali.
E com ele, os demais jogadores do Jequitibá chegaram para cumprimentar amigos e familiares e foi direto conversar com . Não era todo dia que ele tinha convidados na arquibancada.
— E aí? O que achou?
— Bom jogo. Mas você bem que poderia ter feito mais gols, não é? — brincou.
— Ah, na próxima eu faço um e dedico para você. — ele devolveu a brincadeira e agradeceu por não ter escutado. — Ei, cadê sua irmã?
— Oie! Eu tô aqui! — Melina deixou o amigo que tinha feito naquele dia correndo quando viu que era ao lado da irmã. Ela estava louca para entrar no campo e o menino contou que em breve deixariam que entrassem.
— Trouxe isso aqui para você. — entregou a bola do jogo para a menina que arregalou os olhos e começou a agradecer sem parar, o abraçando de forma desajeitada e logo saindo para exibir o seu novo brinquedo para o amiguinho que não pareceu tão impressionado assim, pois era filho do treinador Gerson.
— Você não precisava fazer isso. — agradeceu.
— Nada. Faz parte.
já estava estranhando que até então não tinha se aproximado dali, foi quando ela viu a garota conversando com Otávio de uma forma muito efusiva.
— Eu adorei aquele passe. — falou sorrindo e tocando de leve no ombro do jogador.
— Qual deles?
— Todos? — ficou se perguntou se deveria revelar ou não seus conhecimentos futebolísticos.
Os dois riam quando se aproximou com .
— Oi , tudo bom? — ele cumprimentou a menina com um beijo no rosto — Vi que você já conheceu o Otávio.
— Sim! Ele é um ser carismático.
— Oh, mas claro! Aqui é carisma puro docinho.
teve que segurar o riso do apelido inventado. Mas não pareceu se importar.
— Hm, muito bom saber.
Os quatro começaram a conversar, mas não demorou para outros dois jogadores se aproximarem. Ryan chegou se apresentando como zagueiro e achou o rapaz bonito. Moreno com olhos verdes e uma incrível habilidade em campo que não passou batida.
— Gostei daquela assistência que você deu ao gol do . — elogiou.
— E vocês achando que zagueiro só defendia. Aqui nois marca também. — riu do menino, achando adorável a falsa falta de modéstia.
— Oi, tudo bom? Qual seu nome? Eu sou o . — O meio-campista chegou pulando em cima de e Otávio.
— Esta é . — respondeu por ela. — Amiga da , você lembra? Que me levou na casa dela?
— Ah, sim. Oi . — olhou rapidamente para , mas voltou o olhar para . — Já que você parece entender de futebol, o que achou do meu gol?
— Podia ter sido melhor. — cortou o rapaz. — Otávio, você sabe onde fica o banheiro?
— Claro! Eu te levo até lá. — Otávio deu o braço para que chamou Mel para ir com ela pois a menina já estava reclamando que queria ir no banheiro há horas, mas se recusava a sair de perto do campo para isso.
acabou se despedindo de com uma promessa que se veriam de novo, e foi com a amiga pelo caminho que também levaria à saída do campo.
ficou parado apenas observando as meninas indo embora, com o orgulho ferido e o coração partido.
— É cara, se deu mal hein? — não iria perder a chance.
— Nada. Você vai chamar a morena para sair e convencer ela a levar a metidinha. Não desisto tão fácil assim não.
não aguentou e caiu na gargalhada atraindo a atenção dos outros jogadores que observaram ir de volta para o vestiário bufando e reclamando de . “Que garota mais antipática, mas tão bonito o rosto”.

(...)


— Ainda não entendi por que tivemos que ir embora antes de entrar no campo. me prometeu que eles iriam liberar! — Melina estava furiosa quando percebeu que não iriam voltar ao gramado.
— Porque esse time tem uns jogadores muito insolentes e eu queria ir embora. — explicou dando partida no carro.
— Você quem foi mal-educada. O menino só perguntou seu nome. — retrucou segurando para não rir da amiga.
— Que nada! Ele entrou no meio da conversa! — quis continuar explicando, mas sabia que não a deixaria em paz. — E eu não estou te entendendo, . Você ficou toda de conversinha com e tá aí enchendo o saco.
— Uai, ele quem convidou a gente queria que eu ignorasse o menino? Eu sei, estava sendo educada.
— Sei.
Melina tinha se calado e apenas observou as duas conversando. Ela podia ter só 12 anos, mas tinha sacado muito bem o que estava acontecendo ali e só podia admitir que a irmã tinha bom gosto. era um gato.
Mas os outros jogadores também não eram tão ruins assim…
— Ei, aquele moço que levou a gente no banheiro parece o cantor daquela banda que a gosta. — Mel resolveu que era melhor tirar o foco dos assuntos e .
— Quem? O Otávio? — perguntou.
— É. Ele tem olhos puxados.
— Ele deve ser descendente de japonês ou coisa assim. — arriscou. — Mas é bonitinho também.
— Ah pronto! Voltamos ao assunto homens bonitos. — revirou os olhos. — E não é japonês, é Coreano! Por que vocês têm tanto preconceito? E sim Mel, ele lembra um pouco o Jeremy Wong, mas ele não é cantor, é ator! E modelo. E digital Influencer. Tá que o Jeremy não é coreano, é chinês, mas o Otávio tem descendência coreana. Ah, vocês entenderam.
As meninas ficaram em silêncio apenas apreciando o surto de , até que Mel resolveu encher um pouco mais o saco da mais velha.
— Pra mim é tudo igual.
— Tô com a Mel nessa. — encetou a discussão.
deu de ombros e parou no único semáforo em Jequitibá. Aproveitou os segundos para ligar o som do carro e era claro que ia colocar uma música de kpop recebendo reclamação das irmãs .

(...)


Quando Luiza disse que a festa estava apenas começando, era isso que ela queria dizer. Todos os jogadores do JFC invadiram o apartamento de como normalmente acontecia nos pós-jogos, e Diego já tinha tomado conta da churrasqueira.
Se tinha uma coisa que não faltava no vestiário do Jequitibá Futebol Clube, era a vontade de fazer churrasco. O time ganhava? Churrasco de comemoração. O time perdia? Churrasco de consolação.
Lu ficou triste que as meninas foram embora, e irritada que não teve a decência de convidá-las para o pós-jogo. Mas alguma coisa lhe dizia que ela veria e novamente.
Luiza se sentia em casa no apartamento do . Eles se conheciam há tanto tempo que o limite de visitas pareciam não existir. Abrir armários da cozinha, usar toda a louça e largar a vasilha suja na pia porque sabia que antes do final da noite alguém teria a decência de encarar a pilha. Abrir o armário de toalhas e simplesmente trocar a suja do banheiro já que todo mundo sabia que não era o cara mais certo em termos de limpeza.
O fogão também estava disponível para quem quisesse usá-lo. E Luiza quem tomou a atitude de fazer qualquer coisa para complementar aquela dieta que, se deixasse com os jogadores de futebol, seria apenas carne e cerveja.
A verdade, era que ela queria ficar um pouco longe do barulho. Eram poucos os jogadores que tinham namoradas e, os casados, raramente iam a essas festas. Luiza tinha sido criada em um meio masculino e costumava não se importar, mas de vez em quando, fazia falta uma presença feminina ali. Ter uma amiga deveria ser interessante.
Ela colocou uma água para ferver e buscou um pacote de macarrão na prateleira. Estava tão distraída que não viu entrando na cozinha.
— O que você está fazendo?
— PUTA QUE PARIU! Menino, você quer me matar?
— Desculpa. — ele disse sincero.
— Vou fazer um macarrão pra mim e quem mais quiser. Não estou na vibe de carne e cerveja hoje e amanhã cedo tenho que estar de volta ao hospital. — Às vezes ela se perguntava se tinha feito a escolha certa no vestibular. Mas Lu sabia que, apesar de toda a correria, os estresses e as ausências que estavam apenas começando, ela era apaixonada por medicina e jamais trocaria os corredores do hospital por outra profissão.
Ela sabia que passava mais tempo com os livros do que com Diego e que, de vez em quando, ela só queria voltar para a rotina de estudo, festa e namorado. Porém, ela tinha consciência que estava fazendo a diferença ao escolher voltar para Jequitibá com o diploma debaixo do braço. Jequitibá precisava de Luiza Santana.
— Achei que dessa vez você fosse ficar. — sentia falta da amiga, mas entendia suas ausências.
— Vou ficar. Mas preciso manter minha cabeça no lugar.
— Entendo. — abriu a cerveja e se sentou na bancada observando Lu despejar o macarrão na panela que borbulhava. — Eu sinto sua falta, Lu. Quando éramos só nós três, eu, você e Diego. Sinto falta das poucas responsabilidades, do companheirismo. Não parece mais a mesma coisa.
— Você está é com medo de crescer. — Luiza deu um sorriso pro amigo. — A vida uma hora cobra da gente, .
Luiza tampou a panela e se sentou ao lado de .
— Eu sei. Estou com um saudosismo de uma época que não volta. É estranho. Eu estou feliz, mas falta algo, sabe? Naquela época não faltava, mas desde que você e Diego passaram a morar juntos, eu ando me sentindo só. — ele respirou fundo. — é idiota, eu sei.
— Você está é precisando de uma namorada. — Luiza zoou, rindo da cara de desespero de .
— Ha Ha. Muito engraçado doutora Luiza. Namoro não resolve nada, você sabe disso.
E sim, Luiza sabia disso. Namoro não resolvia nenhum problema de solidão, nenhuma dúvida e muito menos crises existenciais. As pessoas cresciam pelas situações da vida e não era justo esperar que outra pessoa fosse suprir aquela necessidade.
Mas Lu entendia o que queria dizer. Ela também sentia falta da época que era apenas os três. Que o trabalho não exigia tanto, que deitar no travesseiro era leve sem ter que se preocupar com as contas no fim do mês e, principalmente, ter tempo de ficar de bobeira. Agora, mesmo quando estavam em festas como aquelas pessoas, sua mente não estava exatamente ali.
— Namoro não resolve nenhum desses sentimentos, concordo. Mas ficar se sentindo mal também não é solução. E eu vi como você estava olhando para uma certa torcedora do JFC hoje.
ficou vermelho e tomou um gole da sua cerveja.
— Nem começa Luiza.
— Me conta daqui uns meses, pode ser? — Lu desafiou.
— Espera sentada doutora. — pulou da bancada deixando Luiza rindo sem parar da cara de desespero do rapaz em só pensar na hipótese de estar a fim de alguém.
— Aliás, eu adoraria que tivesse mais mulheres por aqui. E parece ser uma boa moça. Não se engane por muito tempo, . Não faz bem.
E, sem nem olhar para a amiga, saiu da cozinha rumo a baderna que tinha virado o seu apartamento. Estava um calor desgraçado e a cerveja em sua mão rapidamente esquentou. estava mal-humorado e ainda reclamava do fora que tinha levado no campo. tentou se divertir com as conversas de sempre, se empanturrando de carne e trocando ideias com Diego sobre as falhas que tinham acontecido em campo.
No fundo, tinha sido um bom dia. Mas, quando ele finalmente se deitou, só conseguiu lembrar das palavras de Luiza “Não se engane por muito tempo, . Não faz bem.”. Será que ele estava mesmo enganando a si mesmo quando ele dizia que estava bem sozinho?


5.

, minha filha, você precisa se alimentar direito. — Renata reclamou da filha quando, mais uma vez, levantou correndo e não teve tempo de tomar café.
— Mãe, a senhora sabe que não tenho fome a essa hora e prefiro dormir mais cinco minutos do que perder tempo comendo. — deu a justificativa que dava toda vez que a mãe enchia o saco com esse assunto.
A verdade era que era magra de ruim. A menina comia uma serra na hora do almoço, era viciada em fast food e se procurasse ela comendo fora de hora, achava. Mas às 7 da manhã estava com tanto sono que apetite não era uma preocupação.
— Vamos, Mel. — chamou a irmã que comia um pão com creme de avelã e estava quase dormindo em cima do prato.
Todo dia da semana saía um pouco mais cedo de casa para deixar Melina na escola. A cidade não era violenta e Mel estava acostumada a andar sozinha, mas gostava quando tinha esse carinho com ela.
As duas saíram de casa, sentindo o frio que começava a aparecer no início de Abril. Melina contava que naquele dia ela teria um trabalho de ciências sobre reciclagem e ela estava entusiasmada para aderir ao movimento em casa também.
— A gente precisa de 5 lixeiras, . Vai ficar muito bonito na área, todo colorido.
— Não acho que papai vai querer comprar lixeiras novas, mas eu já li que separar o reciclável do não reciclável e procurar um local de coleta já é uma ajuda e tanto. Podemos olhar isso depois.
— Você faria isso? — Mel disse toda empolgada.
— Claro! — abraçou a irmã quando chegaram no colégio, desejando boas aulas para a menina.
sentia falta de toda essa inocência da infância. Acreditar que era possível fazer um mundo melhor, que você poderia ser o que quisesse, que a vida era leve e feliz.
Mas, aos 23 anos, já sabia que não era assim. A cada dia que passava, ela se sentia mais privada dos seus sonhos e enxergava cada vez mais a bagunça que o país estava virando.
Às vezes, aquele famoso ditado tinha razão: “a ignorância leva à paz”. Mas também à estupidez.
A loja que trabalhava ficava em um bairro residencial de São Bento. Uma senhora tinha transformado a casa dela em loja uns 60 anos atrás, e hoje era um dos estabelecimentos que tinha a maior variedade em produtos de marca na região. Se não fosse na “Brilhos e Lírios”, as lojas com os mesmos produtos mais perto seria em Juiz de Fora. Então seus produtos eram caros e a clientela selecionada.
Em sua primeira semana na loja, teve receio em pegar todo tipo de peça. Ela tinha medo de acontecer um acidente e rasgar, manchar ou danificar de qualquer forma e ser descontado do seu salário. Ela não poderia ter esse luxo.
Felizmente, naquele dia tudo estava tranquilo. Uma cliente antiga tinha ido buscar um vestido de festa, um senhor, também empresário da região, tinha levado o presente que ganhara de aniversário para trocar por um tamanho maior. Mas fora isso, não tinha muito o que fazer.
Perto do meio-dia, já estava pensando na sua marmita quando a campainha tocou novamente. Aline, a outra vendedora e gerente da loja, atendeu o interfone e permitiu que o novo cliente entrasse.
, você pode atender esse? Estou precisando ir no banheiro e já aproveitaria para almoçar. Essa história de comer para dois não é fácil. — Aline estava grávida de três meses e já estava pensando do que seria dela na loja quando a moça entrasse de licença.
— Claro. — respondeu com um sorriso no rosto e foi até a porta abrir para o cliente. — Bom dia! No que… ?
? Não sabia que você trabalhava aqui. — o atacante ficou sem graça, mas o sorriso que formou no seu rosto foi o mais espontâneo possível — Bom te ver de novo.
Foi a vez da ficar sem graça. Ela não sabia dizer se o rapaz estava ou não dando em cima dela. Aparentemente, ele estava apenas sendo simpático e não via nada de errado nisso, eles eram amigos. E ela esperava que ele não achasse que ela fosse se interessar por ele depois de ter ficado com uma das melhores amigas dela.
— O que você manda hoje?
— Estava precisando olhar um presente para o Técnico Souza. O que vocês têm de camisa? — foi direto e o levou até a arara de camisas masculinas.
Os dois pareciam incomodados, como se aquela situação inusitada fosse algo fora do normal. sabia que esse pensamento não fazia nenhum sentido, ela não tinha vergonha de trabalhar ali. Era um trabalho digno que seria meio para algo a mais em sua vida, era um início.
E era um cliente como outro qualquer. Ela já tinha atendido conhecidos antes, mas parecia estranho ser ele ali.
— Encontrou algo que gostou? — ela perguntou depois de alguns minutos em um silêncio constrangedor.
— Sim. Vou levar essa camisa. — ele levantou uma camisa polo azul e rapidamente pegou a peça e seguiu em direção ao caixa.
Ele acertou e, enquanto ela estava embalando o presente, arriscou:
— Então, … você quer tomar uma cerveja outra hora? — Não era exatamente um encontro, mas era um pedido para sair.
abriu a boca para responder, mas na hora exata seu celular vibrou. Como um ato automático, ela olhou a notificação.
[Alana]: Ei, miga, aquela minha blusa do Sex Pistols ficou com vc?
sorriu com a coincidência. Ela precisava se lembrar que, por mais que o rapaz na sua frente fosse extremamente atraente, ele tinha um rolo com a amiga dela.
— Outro dia talvez.
— Outro dia. — deu um sorriso amarelo e se despediu da garota.
Quando já estava longe ele se xingou. Como ele poderia ser tão idiota? Chamar a menina para sair no trabalho dela? Era claro que ela não ia aceitar.
Ele respirou fundo. Talvez ela só não quisesse nada com ele mesmo e ele precisava aceitar. Não era fácil, mas ninguém tinha obrigação de gostar de ninguém.
E por que mesmo ele estava pensando em ? Ela tinha um sorriso encantador e uma pele bonita, mas ele ainda era contra relacionamentos. Espera, ele tinha pensando na pele dela?
ligou para perguntando se este gostaria de tomar uma cerveja, que foi aceito na hora. Em poucos minutos os dois já estavam na casa de com uma carne na air fryer e um latão aberto.

(…)

Se contassem para na semana anterior que ela estaria indo assistir a reprise de Missão Impossível com um jogador do JFC, ela diria que essa pessoa tinha fumado alguma erva estragada.
Mas ali estava ela, sem conseguir conter a sua ansiedade, aguardando sua companhia com um balde de pipoca na porta do único cinema de São Bento. Raramente passava algum filme que era lançamento e o lugar vivia de reprises e contava com o coração saudosista da população. Mas normalmente funcionava.
já tinha trabalhado no cinema quando era adolescente, e até cogitara a voltar à bomboneria e viver com cheiro de pipoca no nariz se isso significa que seus pais iam parar de perguntar o que ela iria fazer da vida.
Mas, com 22 anos, o cinema não aceitava mais a sua mão de obra e ela preferia deixar sua agenda em aberto. às vezes se odiava por não ter uma meta de vida tão certinha quanto a de Alana e , mas ela também sabia que queria ser feliz. E não trocava esse objetivo por nada.
— Desculpa a demora, tive que dar carona pro depois do treino. — Otávio chegou todo esbaforido e com o cabelo escuro ainda molhado.
— Tudo bem. Já comprei as entradas, então vamos logo porque não quero perder os trailers.
Otávio pegou a pipoca das mãos de que entregou os ingressos para o rapaz na frente da sala de cinema. Eles entraram na escuridão com apenas a luz da tela para acharem um lugar.
Por sorte, o cinema de São Bento não tinha lugar marcado e, naquele dia em especial, estava vazio. Começaram a subir quando Otávio escutou alguém chamando seu nome.
— Ei, Otávio! Sentem aqui! — Luiza estava com um grupo de amigas aguardando o filme começar.
Luly não tinha muito tempo livre, e o que tinha, tentava passar com Diego. Mas nas terças à noite, era sagrado sair com as amigas. Poderia ser um filme no cinema ou apenas uma reunião na casa de uma delas. Mas toda semana se reuniam para se atualizarem da vida uma das outras.
, não é?
— Sim. Tudo bem?
— Claro! Otávio, você deveria ter me dito que viria, eu teria chamado o Diego. — Luiza parou um pouco e olhou para os dois só então se tocando que ela poderia estar sendo um pouco inconveniente. — Ei, espera! Vocês estão em um encontro?
— Não! — e Otávio responderam em um uníssono.
— Definitivamente isso não é um encontro — Otávio reforçou.
— Ainda bem. — Lu respirou aliviada, mas ainda assim não estava totalmente convencida.
Otávio e poderiam não estar em um encontro, mas Lu achava que tinha coisa ali. Só esperava que não descobrisse.

(…)

— Eu não acredito que encontramos com a Lu no cinema. Qual a chance? — Otávio parecia desesperado com uma coisa tão simples que começou a se sentir ofendida.
— Uai, mas por quê? Não estávamos fazendo nada ilegal. — tentava se controlar para não xingar o zagueiro enquanto ele estava no volante.
— Não é isso… é que Lu vai contar pra Diego que viu a gente junto, e ele vai contar pra todos do time e vai todo mundo encher o saco.
olhou para a janela segurando firme o copo de refrigerante que tinha comprado no Giraffas antes de irem embora. Ela tentava parecer calma, mas a verdade é que não entendia por que Otávio estava fazendo uma tempestade em copo d’água sobre uma ida ao cinema. Nem sequer era um encontro!
— Olha, desculpa , isso realmente não é problema seu. Eu só não gosto de ser o centro das atenções no vestiário. Já tive que passar por muita merda nessa vida e desde então aprendi a ser invisível. — Otávio se arrependeu no momento em que jogou as palavras em cima da menina.
Ele tinha crescido em Jequitibá, mas cursara o ensino médio em Juiz de Fora dada a proximidade das duas cidades. E a vida em uma cidade maior que São Bento não tinha sido agradável para o garoto.
Seus olhos levemente puxados herdados do seu avô coreano não eram bem vistos quando ele tinha 16 anos. Talvez, se ele tivesse esperando a era do K-pop chegar, Otávio tivesse tido uma recepção diferente no colégio.
Mas na época ele era o japa, o esquisito, o diferente. O bullying o tinha deixado mais forte, ele aprendera a fazer piada de si mesmo e ignorar comentários maldosos.
Mas para não enlouquecer, Otávio também aprendera a viver fora dos holofotes. Ele não gostava de chamar atenção e só se permitia aparecer em campo. Quando a bola estava ao seus pés, todas aquelas diferenças eram esquecidas e ele mostrava quem era Otávio Cavalcanti.
Ele era considerado pelo amigos como o palhaço da turma, mas isso significava que ele era o líder da zoeira e nunca o alvo. Otávio odiava ser o alvo.
— Desculpa, eu não deveria ter falado assim.
— Você sente vergonha? — tentou fingir que estava bem, mas havia um limite em seu controle de palavras. — Você sente vergonha de ser visto comigo ou você tem vergonha de si mesmo? Sério, Otávio, qual o seu problema? Se você não queria sair, era só não ter aceitado o convite. Você mesmo disse, isso não é um encontro. Então por que está agindo como se tivesse sido um? — O carro parou na porta da casa de e ela não esperou uma resposta para descer. — Olha, eu quero ser sua amiga, e até acho você um gato, mas me liga só quando você resolver suas merdas.
Ela bateu a porta e saiu andando brava para casa. não era mulher de meias palavras e muito menos levava desaforo para casa. Ela tinha gostado de Otávio, ele era um rapaz educado, divertido e muito bonito, mas ela estava cansada de homens com baixa autoestima.
gostava de namorar, beijar na boca, sexo, se divertir, rir e se aventurar nas situações mais inusitadas da vida. já tinha saído com um equilibrista de um circo que passara na cidade, com um bartender que fazia malabares e com um guitarrista de uma banda de rock famosa que ela não contava de jeito nenhum qual era.
Mas nenhum deles ela escolheu para namorar. Nenhum deles tinha feito borboletas no estômago se agitarem, e era justamente isso que ela queria: diversão sem nenhuma borboleta.
Ela ainda não tinha beijado um jogador de futebol, mas naquela noite ela resolveu que este também não seria Otávio. Ele era legal, mas a carga emocional era muito além do que ela poderia suportar. Dramas, já bastavam os dela.

(...)

chegou em casa exausta e agradeceu que Melina tinha ido para casa de uma amiga depois da escola. Tinha sido um dia puxado e a última coisa que ela precisava era da irmã mais nova enchendo o saco.
Ela colocou o celular na tomada e foi tomar um banho, ligando uma playlist dos clássicos do punk para relaxar. poderia ter um estilo romântico, mas seu gosto musical era completamente o oposto do que ela apresentava.
Pretty Vacant, do Sex Pistols, começou a tocar e só então ela lembrou da mensagem que Alana tinha mandado de manhã. A visita de à loja tinha deixado a garota totalmente atordoada.
Não que ela tivesse gostado dessa sensação. Muito pelo contrário, estava irritada com o que lhe causava. As borboletas no estômago, a ansiedade ao falar com ele, as palmas das mãos suando. Ela odiava esses sintomas e odiava mais ainda o que eles significavam.
Principalmente quando lembrava que tinha ficado com Alana. E Lana mais uma vez voltou a sua mente, o que fez sair do banho e ligar imediatamente para a amiga.
Que susto! Você me ligou mesmo ou apertou o botão sem querer? — Lana atendeu o telefone assustada.
riu e confirmou que tinha ligado sim para ela. Existia essa função quase inutilizada no celular, mas que de vez em quando valia a pena usar.
— Então, Lana, primeiro respondendo à sua pergunta: sua camisa ficou aqui em casa sim. Acho que até deixei separado para você pegar no dia do meu aniversário, mas a senhorita estava ocupada demais para lembrar.
Alana riu e pediu desculpas. Mas não muitas.
— E falando em , Lana, eu precisava te perguntar uma coisa… — disse sem graça. Ela não queria falar do jogador, mas se não falasse para alguém iria enlouquecer. E sabia muito bem o que diria se contasse para ela.
O que tem ele?
— Você ainda é a fim dele? É porque… estamos conversando bastante um com o outro e queria saber se está tudo bem pra você...
, você está me pedindo permissão para ficar com um homem daqueles? Claro que pode! Não só pode como deve na verdade. — Alana falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Tem certeza?
Claro! Inclusive… Eu tô namorando! conseguiu escutar o sorriso no rosto da amiga.
— Sério? Ah, que coisa linda, Lana! Ansiosa para conhecê-lo.
Pode deixar, quando formos pra Jequitibá vocês se conhecem. E não deve demorar! Planejo passar Semana Santa em casa.
— Ai, venham mesmo. E tragam chocolates!
desligou o telefone se sentindo mais leve. Ela não planejava pular em cima de nem nada do tipo, até porque, ela tinha outras prioridades do que arrumar um namorado.
Mas também não iria enganar a si mesma com aqueles sintomas de paixão. “Deixa a vida me levar” nunca pareceu tão real para ela.


6.

não era um desses rapazes que saía namorando a primeira garota que aparecesse na sua frente. Ele também não era de sair beijando qualquer boca nas baladas da vida, mesmo que seus amigos achassem o contrário. era um cara seletivo, apesar de toda a pose de bad boy, as tatuagens nos braços e o sorriso malandro.
Ele também não era o tipo de pessoa que se apaixona à primeira vista. Pelo contrário, ele defende com todas as forças a ideia de que amor à primeira vista era uma invenção dos livros e filmes de romance para iludir moças inocentes. E se tinha uma coisa que ele era contra, era iludir alguém.
já tinha levado a sua cota de corações partidos, mesmo que essas histórias ficassem guardadas em uma gaveta com sete chaves. Sua autoconfiança e seu sorriso malandro escondia toda dor que somente um coração que já tinha sido partido tantas vezes pudesse suportar.
E, exatamente por isso, que ele tentou dizer a si mesmo que o que tinha sentido por tinha sido apenas uma atração. A menina era linda! Os cabelos castanhos claro, os olhos cor de mel e um sorriso que poderia iluminar o campo inteiro do Jequitibá. O problema? Aquele sorriso tinha sido direcionado a todo mundo menos para .
O rapaz tinha passado alguns dias remoendo o caso. Não era como se ele fosse beijar a menina ali, naquele momento, afinal, tinham acabado de se conhecer. Mas algo nela o chamava atenção, e ele não sabia explicar o que era.
E era este não saber que o incomodava tanto. Ele nunca tinha ficado tão impressionado com uma mulher antes, talvez por ser tão seletivo e só beijar meninas que realmente o tocava de alguma forma, ou que tinham algo de diferente.
Mas tinha tudo isso e muito mais, e ele mal tinha trocado três palavras com a mulher. começava a pensar que estava ficando louco.
E era exatamente por isso que, duas semanas depois do jogo, ele estava na cozinha do apartamento de implorando para o amigo, conhecido por nunca tomar atitude, em chamar as meninas para saírem.
— Sério, qual é o problema? — perguntava pela quinta vez para o atacante que continuava negado o pedido.
, você viu a menina uma vez e está todo babão aí!
— Exatamente por isso! Você conhece a amiga dela, ela é gata, por que não saímos os quatro? Não tô te pedindo algo tão difícil, . — estava quase chorando de desespero. Se visse ele naquele momento, com certeza iria negar o convite. — Se você chamar elas para saírem, eu te levo para o treino durante um mês. Que se dane! Eu te levo para um treino durante um ano!
estava se controlando para não rir da cara do amigo. Ele estava patético segurando a caneca com um café quase frio, olhos arregalados e o cabelo escuro todo bagunçado. nunca tinha visto tão desesperado para sair com alguém.
era sempre brincalhão, dava em cima de todo mundo e sempre era ele quem arrumava os encontros para , o tímido, calado que preferia sua cama a fria noite de São Bento. Ver os papéis se invertendo era até cômico.
A verdade era que não precisava ter pedido muito para convencer . Depois da conversa que tivera com Luiza no pós-jogo, não estava mais disposto em fugir. tinha recusado a cerveja, mas e se ele tentasse outra coisa?
Estava precisando de um empurrão para tomar coragem e telefonar para . Porque sim, ele ainda era um cara que gostava de costumes antigos e se recusava a pedir uma garota para sair por mensagem de celular. Coisa mais corta clima.
Mas ver o amigo implorando era extremamente divertido e ele poderia muito bem se beneficiar com essa carona por um ano…
— Carona por um ano? — quis confirmar.
— Só para o treino, não abusa. — se ajeitou na cadeira, se animando com a mudança de comportamento do amigo.
— Para os jogos também ou nada feito.
— Combinado! — O meio-campista faltou pular de alegria do banco que estava sentado.
pegou o celular no bolso e procurou nos contatos o número de . Já passava das 7 da noite, então ela já deveria ter chegado do trabalho. Ele mentiria se dissesse que não estava um pouco enjoado de nervosismo, mas não deixaria aquilo transparecer para um com um olhar infantil de uma criança que aguardava a sua vez na montanha russa e era o próximo da fila.
Alô? escutou aquela doce voz do outro lado da linha e foi impossível esconder um sorriso.

(...)


tinha chegado na casa de antes mesmo da dona de casa. Era comum ela passar mais tempo na casa da amiga do que na própria. Sua mãe trabalhava em casa como costureira e atualmente só sabia implicar com a filha que ela precisava tomar um rumo.
A verdade era que sabia disso, mas entre conseguir um emprego ou se inscrever em um concurso, ainda preferia ficar em casa. Ela tinha escolhido não cursar uma faculdade, e às vezes isso fazia falta. Às vezes não, sempre. Já tinha quatro anos que ela fazia bicos ajudando a mãe e até mesmo chegou a trabalhar em uma confeitaria depois de ter sido pedida educadamente para sair do emprego no cinema porque estava fora da faixa etária. Ou seja, estava ficando velha e não estava sentindo. Mas a verdade, era que sabia o que ela queria, só não poderia admitir. Ainda.
Melina chegou da escola e se jogou no sofá para assistir a nova temporada de Malhação. achava aquela novela horrível e reclamava da época de sua pré-adolescência dos quais personagens como Cabeção e Vagabanda tinham feito parte. Até hoje ela ainda se pegava cantando as músicas de Marjorie Estiano e o CD da cantora estava jogado em algum lugar.
Mas estava entediada demais para reclamar da escolha de Mel.
— Até que a trilha sonora dessa novela está boa. — disse declarando a mais nova vencedora.
— Sim! Ana Vitória é muito bom.
— Menina, você não conheceu Charlie Brown Jr. Aquilo sim era música, mas o doido do Chorão resolveu se matar. E…
Antes que continuasse a conversa, as duas escutaram entrando em casa e seu celular tocando ao mesmo tempo. A morena jogou as sacolas no chão e pegou o celular correto na bolsa.
— Alô?
Ei, ? Aqui é o .
— Oi, ! Tudo bom? — franziu o nariz no mesmo tempo em que e Melina desceram correndo as escadas ao ouvir o nome de um certo jogador.
Tudo joia e você? — Do outro lado da linha respirou fundo para tomar coragem. — É o seguinte, você tem algum compromisso para amanhã à noite?
— Amanhã? Não, por quê?
Eu estou indo em um cover do Nirvana que vai ter no Hops amanhã e queria saber se você queria vir… Ah, e pode chamar aquela sua amiga, o nome dela? perguntou para se ela tinha algum compromisso e a menina respondeu que ela sempre estava à toa.
queria recusar, era dia de semana e ela precisaria estar na loja no dia seguinte. Mas quando que um jogador de futebol charmoso iria lhe chamar para sair novamente? Ela olhou para Melina na tentativa da irmã lhe persuadir a desistir, mas era claro que a garota estava com uma papel escrito em letras garrafais “SIM” que ela nem sabia de onde tinha surgido.
— Uai, pode ser! falou que anima ir também.
Ótimo! Eu e buscamos vocês às 7, ok?
— Combinado. — Visto que não tinha mais nada a ser dito, os dois despediram e desligaram.
ficou parada olhando para como se não conseguisse acreditar no que tinha acabado de acontecer. Ela tinha acabado de concordar em sair com .
— Eu também quero ir! — Mel começou a pular no hall de entrada fazendo carinha do gato de botas do Sherek.
— Meli, você ainda não tem idade. E, de qualquer forma, você não quer ser A Vela, não é? — tentou ser a racional pela primeira vez na vida.
— Eles poderiam chamar o outro amigo deles pra mim. O coreano. Ele é lindinho e lembra esses cantores de kpop que gosta.
segurou o riso com a teimosia da irmã e teve que morder o lábio para não dar uma resposta atravessada. Ela tinha ficado com ciúmes? tinha dado um fora em Otávio, ela não deveria estar com ciúmes do rapaz, ainda mais porque ela tinha aceitado sair com o amigo dele no dia seguinte. podia ser um saco, mas ele era gato. Muito gato.
Se fosse outras pessoas, teria insistido para mais gente ir. Mas ela queria que a amiga fosse feliz e tinha visto o jeito que olhou pra ela. Eles poderiam não querer admitir, mas estavam se apaixonando, lento e gradativamente.
As meninas passaram o resto do dia maratonando Gilmore Girls na Netflix. não conseguia entender como que defendia o Logan como o par feito para a Rory.
Ele tinha feito com que Rory fosse presa, largasse Yale, traísse e diversas outras coisas que era impossível defender. Logan se dizia tão autêntico, mas quando de fato precisou ser, ele deu pra trás.
Jesse não. Ele poderia ter uma pinta de bad boy, mas apesar de tudo, ele tinha tomado um rumo em sua vida. Ele era um rapaz inteligente, com cabeça no lugar e que sempre despertara o melhor em Rory.
só não previu que Melina ia escolher justo uma cena do Jess para passar pela sala:
— Ei, é o ? — Ela perguntou genuinamente curiosa.
— Não, Mel, estamos vendo série. Mas, agora que você falou, o Jess lembra mesmo .

(...)


O Hobs não era grande. O típico lugar de cidade pequena: bem arrumado, bem servido, um pouco mais acima do que o orçamento da maioria, mas com música boa. Música muito boa. conhecia os meninos da “TeenSpirit”, cover de Nirvana que tocaria naquela noite, desde que eram crianças. Douglas, o vocalista, chegou a jogar futebol com ele e Diego no campinho improvisado no fundo da casa do Tio Carlos.
conversava animadamente com quando entraram no Pub. Algumas pessoas já se acomodavam na frente do palco, mas se dirigiu para as mesas que tinham no lado oposto. foi a primeira a deixar o grupo e seguir em direção ao palco. Assim que as meninas entraram no carro de , a garota fechou a cara se questionando por que tinha deixado a convencerem a ir no Pub.
Ela olhava para o garoto que parecia um labrador ansioso e se lembrava de como tinha dado errado o encontro com Otávio. E mais uma vez ela se xingava lembrando que aquilo não tinha sido um encontro. Eles eram apenas amigos. A-M-I-G-O-S.
ficou observando enquanto o guitarrista bonitinho terminava de afinar o instrumento e estava ansiosa para os primeiros acordes de Smells Like Teen Spirit que sempre dava início ao set list. Ela se distraía com os sorrisos travessos que o moço lançava para a pequena plateia feminina quando se assustou com :
— Você está bonita hoje.
— AI CARALHO! Que susto menino, quer me matar do coração?
— Não… Só queria dizer que você está bonita mesmo, ou melhor, você é sempre bonita, mas hoje está especialmente mais bonita.
olhou para a escolha que tinha feito de um jeans e camiseta simples e um All Star preto e sorriu, talvez não fosse tão ruim assim.
— Obrigada.
— Por nada. Então, você curte Nirvana?
— Gosto. — não quis falar mais nada pois viu a movimentação no palco escutando os primeiros acordes daquela banda que era uma de suas favoritas.
ficou um tempo apenas observando a menina. Ele queria oferecer a bebida ou falar alguma coisa, mas parecia tão absorvida em seu próprio mundo que ele não quis estragar a sua vibe.
— Achei que você fosse ficar com seus amigos. — Foi ela quem disse quando acabou a terceira música e a banda conversava com a plateia.
— Aqueles ali? — apontou para a mesa em que e conversavam efusivamente um com o outro. — Não tô a fim de ficar de vela hoje.
ficou perguntando se outros jogadores do JFC também tinham combinado de irem até o Hops, mas preferiu ficar calada. Ela e Otávio não tinham nada, só precisava aceitar.
— Então você resolveu tentar a sorte de galinhar pra cima de mim? — supôs subindo mais uma vez o muro que tinha construído.
— Não. Eu só quis dar espaço para os dois mesmo e não achei que você fosse se importar com a companhia.
saiu de perto, claramente chateado com o que a garota tinha dito. percebeu que tinha vacilado, o menino não era de tudo ruim. Mas o orgulho não permitiu que fosse atrás do meio-campista e focou no guitarrista bonitinho que tocava o solo de “Come As You Are”.

— Eu não acredito que você não sabe dirigir! — estava indignada com essa informação. Para ela, todo mundo acima de 21 anos tinha carteira de motorista, principalmente alguém que tinha dinheiro.
— Pois não sei. Nunca quis aprender, não sinto muita falta aqui em São Bento.
— Mas não é possível, ! Você mora sozinho, deve fazer falta.
— Ah, nem faz. Os meninos sempre me dão carona.
— Os meninos na verdade são escravizados para te carregar pra todo lado.— chegou mal-humorado sentando-se a mesa e virando uma cerveja de uma só vez.
— Opa opa, que bicho te mordeu? — questionou ao amigo que virou uma cerveja de uma vez, ignorando que era o motorista da vez. Ele precisava de álcool.
— Nada.
ficou mal-humorado e resolveu ignorá-lo, voltando a conversa com . A verdade era que ele estava morrendo de ansiedade por dentro, mas aparentava estar o mais calmo dos apaixonados.
— Um dia eu já sonhei em aprender a dirigir, sabe? Mas a vida acabou desviando essa ideia. — Foi a vez de tomar um gole bem grande de cerveja.
brincou com uma batata frita no prato a sua frente, percebendo que tinha muito mais naquela história de do que ele estava deixando transparecer. Seus olhos escuros tinham ficado tristes de repente, mas sabia que não era hora nem lugar para matar sua curiosidade.
se levantou para ir no banheiro e agradeceu por ficar sozinho com novamente. Ele tinha mil perguntas que queria fazer para a menina, mas estava se odiando por não saber por onde começar. “Pelo amor de Deus, você sabe chavecar.”
— Eu amo essa música! — declarou se levantando e correndo em direção à quando “About a Girl” começou a tocar. foi salvo pelo gongo. Ou melhor, pela música.
Lentamente ele foi atrás da menina e não teve como segurar o sorriso quando a viu se divertindo com a amiga. Queria ele ser tão solto assim.
E, diferente de , estava bem solto. Voltou para a pista brincando com as meninas, cantando e dançando com elas e até mesmo tentou fazer um rir, o que não era uma coisa fácil.
I need an easy friend I do whip her in to land cantou ao lado de , pulando ao som daquela batida grunge tão frenética que apenas Nirvana poderia produzir.
A banda anunciou a saideira, uma repetição de Lithium, e os quatro amigos entraram na batida, esquecendo todos os problemas. deixou de lado a decepção de Otávio não ter ido, de estar lhe dando foras um atrás do outro, a sua curiosidade por saber mais do que estava escondendo e , por sua vez, tentou reprimir todas as borboletas no estômago. Fala sério!

No carro, colocou sua playlist de sempre e All Time Low rapidamente preencheu todo o ambiente. ia ao lado do motorista e ficou entusiasmada cantando aquelas músicas que tinham feito parte de uma adolescência regada a muita rebeldia. dirigiu sem pensar em direção ao seu apartamento, acontece que ele estava bebendo cerveja sem álcool o tempo todo, mas era tão frenético que não percebeu a diferença.
Eles só se deram conta que estavam no caminho errado quando já estacionava na porta do prédio.
— Eita, meninas, desculpa. Vou manobrar o carro e levo vocês. — Ele ligou a seta para esquerda, mas então olhou o relógio. Não era nem onze e meia. — A não ser, é claro, que vocês queiram entrar.
olhou para , e apesar do bom senso contestar, resolveu que ela teria o direito de viver apenas aquela noite.
— Claro, por que não?
E aquelas três palavras fizeram dar o maior sorriso que poderia naquela noite.

(...)


O prédio era pequeno, como a maioria dos prédios em São Bento. morava no 5º andar, ou como ele gostava de chamar, na Cobertura, que de cobertura não tinha nada era só o último andar do prédio. Eles subiram devagar para não acordar os vizinhos que segundo o anfitrião, variavam entre senhores de idade e pais de crianças pequenas.
O apartamento em si não era grande. Tinha uma sala de televisão pequena, mas com um Xbox e uma prateleira com diversos jogos. A cozinha tinha um bar com pouquíssimas bebidas alcoólicas, e foi isso que reclamou quando ela pediu uma bebida e só respondeu que tinha cerveja.
— Se você não vai ter destilados, então pra que ter um bar?
— Sabe, algumas pessoas gostam de cozinhas e eu sou uma delas! Aqui sirvo petiscos enquanto o jantar não fica pronto. — confessou e foi até a geladeira buscar uma asinha de frango para esquentar.
fitou o garoto, mas quando a comida foi colocada na sua frente, até esqueceu onde estava. realmente sabia cozinhar, e se aquele petisco era apenas uma amostra, ela já queria se convidar para um jantar.
e tentaram segurar o riso dos amigos que só sabiam se provocar, e acabaram se sentando na sala, eventualmente ignorando a presença dos dois.
As borboletas no estômago não paravam de incomodar . A simples proximidade de era o suficiente pra lhe deixar sem ar. Ele estava se sentindo o adolescente que não tinha tido o direito de ser.
— Então…
— Então… — Ela o imitou e ambos riram.
— Normalmente eu não fico sem assunto.
— Tudo bem ficar sem assunto de vez em quando. Mas algo me diz que você está querendo falar alguma coisa. — era boa em ler pessoas e estava tenso demais para não ter algo sério a dizer.
Ele, por sua vez, colocou a mão no bolso da jaqueta, sentindo a textura do papel envelhecido. não sabia por que tinha escolhido justo aquele dia para buscar aquela carta. E muito menos por que teve vontade de compartilhar com . Poderia ter qualquer coisa ali.
— Eu… Não sei se deveria fazer isso, mas… — ele foi interrompido por um barulho de vidro sendo quebrado.
tinha esbarrado no copo e agora a sala estava com um cheiro forte de álcool e um não muito feliz por ter quebrado um dos seus copos favoritos. Era o que tinha o brasão do JFC, que eles tinham ganhado do time no Natal.
— Ai, me desculpa! Eu compro outro. — tentou consertar seu erro.
— Não tem como. — foi ríspido, logo secando o chão.
Ele percebeu que já estava um pouco alterada demais, e perguntou se ela não queria se deitar. Ela sorriu e saiu carregada pelo apartamento adentro.
voltou sua atenção para , que encarava o nada em uma expressão não muito divertida. Ela quis perguntar o que estava acontecendo, mas tinha medo de sua reação. às vezes poderia se fechar como uma ostra e ela ainda não o conhecia o suficiente para entender suas reações.
Mas ele mesmo tomou a decisão.
— Tem sim uma coisa que eu queria te mostrar. Não sei por que escolhi você de todas as pessoas, porque nunca contei isso para ninguém. Nem para Diego. Mas, antes do acidente, minha mãe tinha deixado uma carta no meu quarto. Ela estava indo viajar com meu pai e eu estava no treino quando o acidente aconteceu. Quando cheguei em casa, todo sujo de sangue e com a mente mais fodida possível, encontrei essa carta. — ele tirou um envelope todo amassado do bolso, escrito “” em uma caligrafia elegante — Nunca tive coragem de abrir. Já faz cinco anos e não tenho coragem de abrir.
A voz de começou a falhar e seus olhos arderam. Ele não queria chorar na frente de , mas falar da mãe era doloroso demais para resistir. Ele ainda se lembrava da sua expressão de dor, seus olhos escuros lutando até o fim antes que seu corpo não aguentasse mais.
não conseguia entender como a mãe, quem ele amara incondicionalmente, o tinha deixado. Ele culpava seu pai, ele quem estava no volante. Ele quem deveria ter prestado atenção no caminhão que vinha na direção contrária.
Mas já tinham se passado cinco anos, e tudo que ele poderia fazer era perdoar, mesmo que ainda não conseguisse.
— É por isso que você não quer aprender a dirigir, né? — segurou as mãos do jogador, se segurando para não se emocionar junto a ele. Ela tinha mil perguntas, mas sabia que nenhuma delas seriam respondidas, era um assunto doloroso demais para revirar.
— Sim. — Foi tudo que ele disse.
— Sabe, talvez você precise abrir essa carta. — olhou nos olhos de ao escutar aquela frase. — Talvez isto lhe dê o fechamento que você precisa. Essas foram as últimas palavras da sua mãe para você, e tenho certeza que ela gostaria que você perdoasse o seu pai e seguisse em frente. Você tem o direito de ser feliz, .
Nesse momento ele não conseguiu segurar e as lágrimas caíram em seu rosto, encharcando sua camiseta. Ele tremia segurando aquele envelope. Não saber era melhor do que saber, mas e se ali estivesse algo importante?
E, com ao seu lado, abriu o envelope.




Continua...



Nota da autora: Sejam bem-vindos à São Bento do Jequitibá! Uma cidade pacata do interior que abriga moradores intrigantes, apaixonantes e muito, muito ambiciosos. Se quiserem entrar mais na sintonia dessa história, venham conhecer a playlist com músicas que embalam os capítulos.




Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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