Involutariamente
Última atualização: 13/11/2018

Prólogo

O rei, os conselheiros reais e os dois príncipes de Illéa estavam todos reunidos na sala de reunião, tentando pensar em um plano para aplacar o descontentamento da população com a atual gestão monárquica. Não era surpresa que os súditos não gostavam mais do atual governante como antes.
Suas constantes traições a esposa, mesmo que ela fosse muito ausente para o povo, faziam dele um dos reis com maior rejeição de toda história daquele reino. Mas tudo piorou no início daquela semana.
O que antes eram apenas publicações na internet, tornou-se uma revolta de fato, e o ápice aconteceu quando o príncipe e herdeiro direto da coroa, George Schreave II, foi gravado zombando de uma moça que ele tinha se relacionado. As palavras maldosas sobre ela ser uma plebeia fez todo o reino se revoltar e, depois de muito tempo, voltar a cogitar pedir o fim da família real. Fora tomates podres sendo jogados, lama e até pedras. O povo mandou um recado que não podia ser ignorado. Eles estavam mais que insatisfeitos com a linhagem Schreave e não iriam se calar por qualquer promessa ou pedido de desculpas.
- Nós não podemos ceder desta forma. - um dos conselheiros falou, irritado.
- Ninguém aqui está falando em ceder, John. Estamos falando que de alguma maneira a realeza tem que mostrar que ama e respeita esse povo. Tem que mostrar que é um deles, por mais que a gente saiba que isso não é verdade.
por pouco não rolou os olhos ao ouvir aquilo. Odiava quando todos falavam como se estivessem acima da população. Fora ensinado a vida inteira a viver para o povo, mas nunca viu aquilo na prática. Ou melhor, viu, mesmo que por pouco tempo, quando seu avô ainda era vivo.
- Podemos fazer uma caminhada com o povo e ao fim da mesma, o príncipe pede desculpa e explica que foi tudo um mal entendido. – um outro conselheiro sugeriu.
- Isso certamente não serviria. Ninguém iria a uma caminhada com alguém que eles querem ver longe do poder.
- Eu sugiro que tenha uma ideia melhor, Jhon. - o rei disse. - Não estou afim de perder meu tempo dentro desta sala escutando ideias fracassadas.
- Eu gostei da parte de dizer que foi um mal entendido. Poderíamos criar uma história para justificar aquele comportamento. - outro conselheiro, Mathias, comentou.
- Acontece que não foi um mal-entendido. - o príncipe se ouviu falando e logo se arrependeu.
Tudo que ele mais desejava era não estar naquela sala, mas já que fora obrigado, pretendia manter-se quase invisível. Então ele próprio acabou com seu plano.
- Há algo te incomodando, ? - seu pai lhe perguntou, de forma dura.
O rapaz respirou fundo, tentando manter todas as suas insatisfações silenciadas. Ele conseguiria, fazia isso muitas vezes ao dia.
- Você não deveria nem estar aqui, . - George disse, parecendo mais acuado do que irritado.
E sabia disto. Sabia do quanto seu irmão estava assustado com tudo aquilo. Desde novo, reinar sempre pareceu um peso muito maior do que qualquer ser humano possa carregar sem perder sua vida ou sua alma. O final sempre era a morte, nem que fosse a interior. E agora, com toda aquela polêmica, George via toda dificuldade triplicar. Um rei pouco amado significava um rei ainda mais infeliz do que todos os reis já eram aos seus olhos e aos olhos do irmão.
Mas, ainda assim, não conseguiu mais conter a raiva depois daquele comentário.
- De fato, eu não deveria estar aqui. Não consigo acreditar que estamos reunidos porque você fez a besteira de falar mal do seu povo daquela maneira. Talvez se você, ou melhor, vocês pensassem mais no povo que dizem tanto amar e menos em vocês mesmos, essa reunião não estaria acontecendo, e eu não estaria aqui.
Os segundos seguintes foram uma surpresa para todos naquela sala. O Rei George bateu forte na mesa em frente ao seu filho e parecendo ser capaz de matar, caso o mesmo reagisse, esbravejou:
- Quem você pensa que é para falar de amor ao povo? Quer ser mais um dos idealistas da internet? Pretende se tornar um deles? É muito fácil criticar nossas palavras quando se goza das regalias que todos aqui ganham ao usá-las. Você é apenas um moleque mimado e insolente que não sabe nada da vida. – depois disto, abaixou o tom apenas para falar de forma ainda mais dura – Seu irmão é um merda, mas até ele é melhor do que você.
- Ao menos eu sou o único desta sala que o povo não parece odiar. – falou, sem tirar os olhos do pai.
O príncipe George encarou o irmão em completo horror. Ambos sabiam o que provavelmente viria a seguir. Nem mesmo os conselheiros iriam impedir o poderoso George I de ensinar seus filhos a agirem do seu modo. E quase aconteceu, mas, antes disso, Mathias entrou no meio – talvez por ser o único dali que já tivesse presenciado algo parecido com o que iria acontecer – e com um sorriso nos lábios, falou:
- Majestade, não se irrite pelo príncipe ser exatamente o que o povo quer nesse momento. Ele é, no atual momento, nossa melhor saída.
Tanto o rei como os dois príncipes encararam o conselheiro, confusos.
- tem aquela paixão inocente pelo povo, embora não seja tão ativo, ele tem aquele ideal que o povo procura. – Mathias continuou – Vamos dar ao povo o que eles desejam, com direito a muitas câmeras e muito tempo na tevê.
- Como assim? – O rei perguntou.
- Além dos problemas de sempre, sabemos que o ápice é que o povo não se sente mais amado depois das palavras do príncipe George. Mas o príncipe não parece ter receio de plebeus, ele gosta deles. Então, vamos unir tudo de uma só vez. Proponho retomarmos aos primórdios da nossa história. Vamos retomar A Seleção.
- O quê? – os dois príncipes gritaram juntos.
- Isso acontecia com os herdeiros diretos do trono, e eu nem sou. Assim como o George não é, nem de longe, um bom pretendente aos olhos do povo. – disse, parecendo desesperado com aquela ideia.
- O príncipe George ter uma Seleção é fora de questão e todos nós sabemos disso. Já você, Alteza, é a escolha perfeita. Não ser herdeiro direto do trono só melhora as coisas. Assim ainda teremos dois sangues reais no trono.
- Essa ideia é arcaica, além do fato das duas últimas Seleções não terem dado muito certo. A do Rei Maxon terminou com um ataque que acabou levando seus pais, e da Rainha Edlyn literalmente não deu certo. Nem por um selecionado ela se apaixonou, além do fato de que ela decretou uma monarquia constitucional que custou muito para ser derrubada e voltar ao que somos hoje.
- Se você souber olhar, a do Maxon na verdade não foi nada ruim, eles foram talvez o casal mais amado da história de Illéa. Já a da menina, ela era uma tola, mas nossos estudos nos mostram que na época foi uma boa jogada o que ela fez. A dinastia Schreave se mantém até hoje por causa da sua estratégia.
- Não, não, não. – falou, mais pra ele do que para qualquer outra pessoa ali.
Aquilo não podia estar acontecendo, era surreal que aquela ideia fosse ao menos cogitada. A Seleção era apenas uma coisa contada em livros de história, totalmente fora da realidade daquela época. Não deveria acontecer.
- Pai, você não pode fazer isso com o . – George suplicou.
- E o que você sugere? Levar mais pedradas da próxima vez que sair às ruas?
Os irmãos se olharam, sem saber direito o que falar. Apenas sabiam que aquilo não era justo, mas usar este argumento certamente não serviria.
- Escute, . – rei falou, dessa vez manso e cuidadoso. – Você não precisa casar com ela, os tempos mudaram. O povo com certeza aceitará a condição de apenas um namoro e quem sabe casamento. Se tudo der certo, você casa com ela. Se não, espere seis meses e acabe o namoro.
- Não. Isso não daria certo. Eu não posso colocar minha vida amorosa nesse jogo.
O rei George respirou fundo para tentar manter a pose de pai compreensivo. Precisava que , mesmo ainda sem querer, ao menos criasse algum tipo de empatia por aquela situação.
- Seu dever é amar esse povo acima de si mesmo. Não foi isso que você falou agora pouco sobre sentir?
- Pai...
- , eu sinto muito, mas é seu dever como príncipe. Está na hora de crescer, rapaz. Aceite esses termos, e tudo ficará bem.
- Não faça isso comigo. – o príncipe suplicou.
- Desculpe, filho, mas eu declaro aceita a ideia do conselheiro Mathias. Teremos uma nova Seleção.


Capítulo Um

Eu estava em frente à tevê sem acreditar muito no que estava vendo e escutando. O Jornal Oficial estava anunciando uma nova Seleção? Era isso mesmo? Eu queria muito não acreditar naquilo.
Não me achava uma revolucionária, nem nenhuma rebelde, como o povo já foi muito chamado - Rebeldes lembravam o ataque que o falecido rei Clarkson e a rainha Amberly sofreram, além da morte de tantas outras pessoas. Ninguém queria rebeldes no país. Ninguém iria apoiar rebeldes. E era por isso que esse nome durava até hoje, era uma forma do governo fazer a população apoiá-lo e irem contra a quem pensava diferente. Uma forma de manter todos na rédea.- Mas eu tinha sim minhas reservas quanto a família real e até escrevia sobre isso em um site. E aquele anúncio me deixava ainda mais certa de que eu não pensava tão errado.
A Seleção, embora os livros de história viessem recheados de pontos positivos sobre a mesma, para mim sempre seria uma maneira de jogar com os sentimentos de outras pessoas. Uma espécie de pão e circo, e se você levasse em conta as duas últimas seleções que ocorreram, podia terminar em um circo catastrófico. Retomar com aquilo era insano.
- Será que o povo vai cair nisto? - minha mãe perguntou, parecendo também incomodada com aquele anúncio.
- Mas é claro que sim, mãe! - Jane, minha irmã disse. - Se eu não fosse noiva, estaria no primeiro lugar da fila.
Rolei os olhos. Jane às vezes era tão abobalhada.
- Quem vai querer ser a próxima plebéia a ser humilhada em público? Acho que o Príncipe George já fez isso muito bem. - comentei.
- , você é tão idiota. Já disse que você não vai casar, né?
- Para de falar isso, Jane! - meu pai repreendeu. - Ela só está sendo realista.
- Pai, nem é o George quem vai participar. - sim, ela se achava íntima da realiza.
- E você acha mesmo que ele iria querer encostar em alguém como nós? Ele provavelmente negou essa tentadora oportunidade.
- Vocês não vão brigar por isso, não é? - minha mãe questionou, impaciente. - Jane, você já é noiva, nem tem por que opinar. E , você nem se interessa por essas coisas, pare de amolar sua irmã.
- Não é amolar, mãe. A Jane só precisa pôr os pés no chão, não dá pra viver nesse mundo de fantasia. Tá tudo ruindo e pra Jane tá tudo bem.
- Melhor do que ficar aí, surtando e opinando sobre tudo, sendo que ninguém se interessa pelo que você fala. A única coisa que você consegue com isso é fazer com que nenhum cara queira se aproximar de você. Sabia que já me disseram isso? Você é a esquisita da turma, .
Eu queria humilhá-la como ela tinha feito comigo naquele momento, queria falar do quanto ela era uma idiota alheia ao mundo a sua volta e que só pensava em um bom casamento e uma boa grana, também haviam pessoas que comentavam isso dela. Mas eu não fiz nada. Porque, na verdade ela não estava falando nenhuma mentira, tinha mesmo muitos caras que queriam distância de mim por minha total falta de habilidade de sustentar uma conversa sobre coisas triviais, além do fato de que muitos me achavam uma rebelde em potencial, e ninguém queria isso. Ao menos, não aqueles que a gente convivia.
Levantei e saí da sala em total silêncio. Apenas com meus pais me observando e a Jane evitando contato visual comigo.

No dia seguinte acordei com batendo forte a porta do meu quarto e abrindo todas as janelas. O que era uma atitude típica dela.
- Bom dia, flor do dia! - ela exclamou animada.
- Eu espero muito que já tenha passado das nove, . Se não, eu juro que mato você.
- Bom, são nove e um. Acho que continuarei viva por hoje. - falou, rindo. - Esqueceu que combinamos de ir ao shopping hoje? Vamos comprar…
- Os vestidos para sua formatura. Eu sei, . Você não me deixa esquecer nunca. - falei, já levantando da cama e jogando meu travesseiro nela.
- Você viu que a Seleção vai voltar?
- Sim. E nem me fale nisso, acabei brigando com a Jane por causa desse assunto. - comentei enquanto seguia para o banheiro.
- Me deixa adivinhar: você odiou a notícia, a Jane amou. Acabaram acusando uma a outra de ser idiota, mesmo que por motivos diferentes e no fim estão sem se falar. - terminou, acertando tudo. - Mas vocês já se entendem. Eu amei essa notícia, não vejo a hora de ter a chance de me inscrever, mas eu já fazia ideia de que você não pensaria o mesmo.
e Jane eram muito parecidas. Na verdade, faria muito mais sentido as duas serem melhores amigas, mas a verdade é que e eu nos demos bem desde o primeiro olhar. Talvez porque tenhamos o que falta na outra, e isso faz com que as duas consigam um equilíbrio dentro de si.
- Eu também sabia que você tinha amado. - falei rindo, já me trocando. - Você vai mesmo se inscrever?
acabou dando uma gargalhada.
- Você acha mesmo que eu perderia esta oportunidade? Filha, eu nasci pra ser rainha.
- Illéa que tome cuidado. - disse, também rindo.

Nós até convidamos Jane para ir junto, - confesso que o convite partiu de , mas eu não me opus - mas ela não quis ir conosco. Então, lá estávamos nós duas passeando pelo shopping e fazendo o que todo mundo fazia lá: comprar e olhar as pessoas.
- Que movimentação é aquela ali na praça de eventos?
olhou pra os dois lados procurando pistas, mas tirando os passos apressados que muitas garotas davam rumo ao tumulto, não havia pista alguma.
- A impressa tá lá.
- Será que aconteceu alguma coisa? - indaguei.
- Então é uma coisa muito boa, as meninas estão indo todas sorrindo.
Puxei minha amiga pelo braço e apressei os passos como todas as outras garotas estavam fazendo.
- Vamos lá, estou curiosa.
Ao chegarmos ao local, encontramos uma multidão de garotas tirando suas maquiagens da bolsa e passando de forma veloz. Aquilo só podia, no mínimo, ser algum concurso de beleza.
- É da realeza. – falou, apontando para o brasão da família de Illéa. – Pode nos dizer o que tá acontecendo? – minha amiga perguntou a uma garota que passava.
- É a inscrição para a Seleção. Eles avisaram hoje cedo na tevê, muita gente nem sabe.
Vi minha amiga ficar branca como um papel e suspeito que até eu fiquei. Senti como se estivesse prestes a entrar em algo muito maior que eu, embora eu não pretendesse me inscrever.
- Fica calma e respira. – falei. – Você não pode desmaiar na fila.
- Fila?
Acabei rindo. estava beirando o pânico.
- Sim, . A fila para fazer a inscrição. – e apontei para onde as meninas estavam indo. – Você vai, não vai?
- Claro que vou. Eu só preciso respirar uns segundos antes disto.
Depois de esperar os segundos – que na verdade foram minutos – que pediu, seguimos para a fila. Eu estava ao lado dela enquanto esperávamos a sua vez, até que finalmente chegou a vez dela.
- Pode vim, garota. Vamos primeiro tirar uma foto sua e depois faremos algumas perguntas e te daremos uma ficha para preencher.
- Vai lá, te espero aqui.
Mas antes que eu virasse, segurou firme no meu braço.
- Não sei se consigo fazer isso, . – falou, baixinho.
- O quê? Você nasceu pra ser rainha, esqueceu? – tentei brincar.
Nosso cochicho acabou chamando a atenção da organizadora.
- Algum problema?
- Ela está apenas um pouco nervosa, mas já está indo. – respondi.
- Você não vem? – ela me perguntou.
- Não. – respondi com um sorriso sem graça.
- Ela pode entrar comigo? – perguntou.
A mulher ponderou por um tempo, mas logo nos liberou.
- Claro.
Quando entramos na estrutura que estava por trás das paredes improvisada, encontramos vários fotógrafos tirando fotos de garotas sorridentes que pareciam já se enxergarem no palácio. , aparentemente mais calma, sentou em frente a um dos bancos e escutou instruções do fotógrafo a sua frente.
- Não precisa ficar nervosa, okay? São apenas duas fotos, simples.
- Relaxa, . – incentivei.
Depois que minha amiga tirou as duas fotos, já íamos saindo quando o fotógrafo nos chamou.
- Você não vai, garota? – perguntou a mim.
- Ah, não. É só ela mesmo.
- Você não vai conseguir entrar com ela para a entrevista se não tiver tirado fotos. Uma etapa leva à outra.
- Tira, .
- , eu falei que não quero me meter nisto.
- São só duas fotos, quais as chances de você ser selecionada? Não me deixa sozinha nessa. – ela pareceu implorar.
- Ei! – lhe chamei atenção – Vai dar tudo certo, eu não preciso estar lá para isso. – tentei tranquilizá-la.
Pela primeira vez desde que nós duas, quando crianças, fomos pegas bagunçando na escola e paramos na diretoria, eu vi assustada.
- Por favor, . – suplicou.
- Tudo bem. – resmunguei.
Mesmo não estando empolgada, sorri para as fotos. Eu podia não querer estar ali, mas também não queria fotos feias minhas na mão do rei.
- Podem ir.
Depois das fotos chegou a etapa das entrevistas, onde respondíamos as mais variadas perguntas. Desde qual era a nossa cor preferida, até se ainda éramos virgens. Punições escolares e até ficha policial não passaram dos olhos e ouvidos atentos dos entrevistadores, e eu acabei rindo ao pensar em como estaria na hora de contar a punição que levamos mais novas. Será que ela contaria? Eu contei e ainda consegui uma risada do rapaz que me entrevistava.
Aparentemente nossas palavras sobre as punições e ficha criminal não valiam muita coisa, eles queriam provas e tivemos que dar nosso nome completo e também outros dados que deram a eles acesso ao nosso histórico escolar e nossa ficha na guarda. Acho que eles temiam que alguém se infiltrasse e fizesse algum mal a monarquia, inteligente da parte deles, mas não deixei de pensar que muita gente lutava por tempos melhores – ou até contra a monarquia - sem precisar sujar as mãos, eu escrevia tudo em site, por exemplo. Coisa que eles jamais descobririam.
Após isso, fomos para uma outra sala onde respondíamos perguntas de conhecimentos gerais. Coisas que aprendemos na escola ou vemos no jornal. Parecia que o príncipe queria mais que um rosto bonito para fazer seu povo de bobo.
Por último pudemos preencher nossas fichas. Cada vez que saíamos de uma sala para outra, e eu nos abraçávamos e eu lhe dava forças antes de nos separamos mais uma vez, mas naquela última sala pudemos ficar juntas, já que eram mesas com várias cadeiras. Suspeitei que aquela entrevista, assim como a pesquisa e as perguntas de conhecimentos gerais, serviam como uma espécie de pré-seleção. Nem todas as fichas chegariam ao palácio, eles apenas não achavam adequado contar aquilo para nós.
- Não achei que fosse ser um processo tão longo. – disse quando finalmente saímos da estrutura projetada para as inscrições. – Antigamente era apenas preencher a ficha e tirar uma foto, não era?
- Acho que estão mais rígidos dessa vez. Os tempos mudaram. – dei de ombros, sem pensar muito naquilo.

O caminho para casa foi bem falante, não parava de pensar em como seria sua vida no palácio. Era como se a seleção já estivesse feita e ela fosse uma das selecionadas. Acabei rindo.
Chegamos em casa e antes que eu pudesse falar qualquer coisa, já foi contando as novidades.
- Sabiam que serei a próxima princesa de Illéa? – ela indagou enquanto dava um abraço na minha mãe.
- Como? – meu pai indagou e ela sorriu.
- Acabei de fazer minha inscrição, também se inscreveu.
É difícil dizer quem ficou mais chocado com aquele fato. Meu pai deixou o queixo cair e olhou para minha mãe como se buscasse respostas, já ela, me encarou de um jeito estranho, tive a impressão de ter visto um leve desapontamento. Jane foi um show a parte. Ela estava comendo quando falou. Deixou o garfo cair, engasgou e precisou que minha mãe corresse ao seu amparo.
- Respira, filha.
Assim que recobrou o ar e a possibilidade de falar, pareceu ter esquecido qualquer contratempo.
- Você se inscreveu? Você vai para o palácio? Já disse que te amo hoje? – e jogou-se nos meus braços como se estivesse abraçando qualquer pessoa, menos a irmã dela.
Larguei-me de seus braços sem muita cerimônia.
- Não, você não disse. E continua não dizendo. A pessoa que você diz amar talvez possa ser a . Eu apenas dei apoio a porque ela estava muito nervosa, entrei e acabei me inscrevendo por isso. Mas eu não quero saber de Seleção, não quero ser selecionada, não conhecerei o príncipe e muito menos morarei no palácio. Não precisa me agarrar por isso, Jane.
- Que tal se acalmar, ? – minha mãe advertiu erguendo uma sobrancelha.
- Tá bom.

O dia seguiu e embora todos em casa tentassem deixar de lado o papo Seleção para que eu não me irritasse, era nítido que todos pensavam nisto, até mesmo eu, que já imaginava se mudaria alguma coisa caso fosse para o palácio. Mas tentava deixar minha mente longe disto. Quando não consegui, resolvi me render ao assunto e fui ler notícias sobre o andamento da Seleção.
“A Seleção é uma prova de que o povo é amado. Queremos conhecer melhor essas garotas, saber de seus anseios, ver mais do mundo que muitas vezes as obrigações nos impedem de ver. Essas garotas serão grandes lutadoras e ficarei muito feliz de talvez ter uma delas na minha família.” O rei dizia em uma entrevista gravada.
Ele parecia ter total domínio sobre aquele assunto, mas quando questionado sobre o motivo do Príncipe estar no lugar que deveria ser ocupado pelo Príncipe George, foi claro seu incômodo.
“Há muitos anos este processo deixou de existir e a última vez que ocorreu deixou muitos incertos sobre sua eficácia. Sendo assim, não temos a intenção de forçar um casamento ou o povo de aceitar alguém que eles não desejam no poder. Estamos sendo mais cuidadosos.”
A mulher, muito ousada, diga-se de passagem, resolveu ir mais fundo e perguntou se ele duvidava da capacidade de uma plebéia de liderar o país junto com seu filho e também indagou se o próprio príncipe não teria pedido para não fazer parte, visto suas últimas palavras sobre o que ele achava de nós.
“Não aturarei insinuações, senhorita. Muito menos que ponha palavras na minha ou na boca do meu filho. Príncipe George jamais iria se opor a qualquer coisa decidida por nós para o bem do povo e do reino, ele sabe os deveres que deve cumprir. Assim como seu irmão, que mesmo não sendo o herdeiro principal do trono, também cumpre seus deveres.”
E foi ali, com aquelas palavras, que eu tive a certeza: A Seleção queria nos enganar e dar uma falsa esperança. Príncipe estava apenas cumprindo o dever de participar daquilo, mas largaria a moça assim que a poeira abaixasse. Eu precisava escrever sobre aquilo.
Sentei em frente ao meu computador e comecei a digitar o que tanto me incomodava.

“O atual pão e circo.
Não sabemos direito como essa expressão surgiu, é uma das muitas palavras ou frases que apenas falamos sem saber de onde vieram porque nossos livros de história não explicam. Mas sei que significa algo como um jogo de propagandas para entreter o povo e tirar o foco dos problemas. Não é isso que está acontecendo agora?
A Seleção foi abolida há anos, cerca de cinco reinados já vieram sem que houvesse menção a esse assunto, mas justo quando o povo está insatisfeito, quando o Príncipe George dá ao povo a prova de que somos deixados de lado, esse processo retorna.
Não sejamos bobos, em uma recente entrevista o rei, depois de não conseguir explicar com clareza por que o Príncipe George ficou fora dessa, deixou claro que o seu outro filho está apenas cumprindo um dever. E qual dever é esse? Antes, na época que A Seleção ainda acontecia, poderíamos dizer sem julgamentos que os príncipes tinham mesmo que participar. Mas hoje, depois de anos deixado de lado, por que enxergar a Seleção como um dever novamente?
A resposta é simples:
Não é a Seleção que é o dever do Príncipe , mas sim entreter o povo e dar a eles um circo enquanto nossa majestade pode continuar guiando seu reino da maneira que quer sem mais interferência. O circo está feito e o palhaço somos nós.”

Depois de escrever isso achei que esse assunto estava por fim tirado da minha vida por aquele dia, mas não podia estar mais enganada. Bastou chegar a hora de dormir para que eu não pudesse fugir de Jane.
- Ainda não consigo acreditar que você pode ser uma das selecionadas. - Jane falou, sentando em sua cama e balançando as pernas de um jeito empolgado. - Você vai conhecer o palácio. Já pensou nisto?
Rolei os olhos.
- Eu não vou conhecer nada, Jane. - falei com a voz cansada. - Se você visse o tanto de meninas que tinha, fora as que ainda iam chegar, iria ver que não tenho nenhuma chance de ser selecionada. Podemos dormir, agora?
- Claro que você tem. - ela desdenhou da minha resposta.
Eu amava minha irmã, não pensem o contrário. Mas na maior parte do tempo era bem difícil nossa convivência.
Jane era o oposto de mim em várias coisas e acho que não sabíamos lidar muito bem com aquilo. Naquele exato momento, por exemplo, tudo que eu queria era que ela sumisse da minha frente junto com seu papo sobre a Seleção. Não via a hora dela finalmente casar.
- São centenas, talvez milhares de meninas, Jane. Eu não tenho chance alguma.
Pela primeira vez desde que todo aquele papo de Seleção começou, lá quando passou no Jornal Oficial e discutimos, vi Jane olhar para mim de igual para igual e dar um sorriso um pouco condolente.
- Você ainda não percebeu, né? - ela parecia um pouco triste por algo que eu ainda não sabia. - Todas essas meninas têm que vencer a mesma quantidade que você. Então, você tem as mesmas chances que elas, que a . Se você acredita que pode ser chamada, aceite que você também pode. Alguém terá que ser chamada, . E sinto muito em dizer, mas esse alguém pode muito bem ser você.
Posto daquela forma, não tinha como negar que minha irmã estava certa. Senti meu coração apertar a quase esqueci como se respirava. Eu realmente tinha chance. Em um sorteio, seja ele sobre o que for, alguém tem que ganhar, não é mesmo? E eu podia, mesmo que não visse isso como ganho.
- Sei que você não gosta dessa ideia, mas é a realidade. E desculpe, mas eu ficaria bem feliz se você fosse uma delas.
E então toda complacência da minha irmã se esvaiu e ela voltou a ser a Jane de sempre. Onde na maioria das vezes não importa muito como o outro vai ficar, desde que ela fique bem.
- Tá bom, Jane. Agora, se não for pedir demais, me deixa dormir.
Virei para o outro lado bufando, mas não era pela minha irmã, e sim por mim. Como não pensei nisso antes? Se eu fosse chamada para aquela droga, poderia me negar a ir? Se sim, será que minha família não ficaria envergonhada? Se não, como eu iria conseguir lidar participando de algo que tanto repudiava? Como agiria perante um rei que eu não admirava? Como conviver com eles e não terminar sentenciada a algo terrível? Como iria fazer parte daquele show que visava apenas alienar as pessoas? Eu conseguiria fazer parte do jogo?
Me fiz tantas perguntas e me imaginei em tantas situações que acabei perdendo o sono. Quando finalmente consegui dormir, acordei - tive a sensação de que foi segundos depois - com Jane puxando meu cobertor e dizendo, com uma expressão maravilhada, assim que abrir os olhos:
- Bom dia, flor do dia. Saiba que suas chances acabaram de ser dobradas. Vão sortear duas de cada província para a Seleção. Você tem mais chances que nunca!




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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