Involutariamente
Última atualização: 04/05/2020

Prólogo

O rei, os conselheiros reais e os dois príncipes de Illéa estavam todos reunidos na sala de reunião, tentando pensar em um plano para aplacar o descontentamento da população com a atual gestão monárquica. Não era surpresa que os súditos não gostavam mais do atual governante como antes.
Suas constantes traições a esposa, mesmo que ela fosse muito ausente para o povo, faziam dele um dos reis com maior rejeição de toda história daquele reino. Mas tudo piorou no início daquela semana.
O que antes eram apenas publicações na internet, tornou-se uma revolta de fato, e o ápice aconteceu quando o príncipe e herdeiro direto da coroa, George Schreave II, foi gravado zombando de uma moça que ele tinha se relacionado. As palavras maldosas sobre ela ser uma plebeia fez todo o reino se revoltar e, depois de muito tempo, voltar a cogitar pedir o fim da família real. Fora tomates podres sendo jogados, lama e até pedras. O povo mandou um recado que não podia ser ignorado. Eles estavam mais que insatisfeitos com a linhagem Schreave e não iriam se calar por qualquer promessa ou pedido de desculpas.
- Nós não podemos ceder desta forma. - um dos conselheiros falou, irritado.
- Ninguém aqui está falando em ceder, John. Estamos falando que de alguma maneira a realeza tem que mostrar que ama e respeita esse povo. Tem que mostrar que é um deles, por mais que a gente saiba que isso não é verdade.
por pouco não rolou os olhos ao ouvir aquilo. Odiava quando todos falavam como se estivessem acima da população. Fora ensinado a vida inteira a viver para o povo, mas nunca viu aquilo na prática. Ou melhor, viu, mesmo que por pouco tempo, quando seu avô ainda era vivo.
- Podemos fazer uma caminhada com o povo e ao fim da mesma, o príncipe pede desculpa e explica que foi tudo um mal entendido. – um outro conselheiro sugeriu.
- Isso certamente não serviria. Ninguém iria a uma caminhada com alguém que eles querem ver longe do poder.
- Eu sugiro que tenha uma ideia melhor, Jhon. - o rei disse. - Não estou afim de perder meu tempo dentro desta sala escutando ideias fracassadas.
- Eu gostei da parte de dizer que foi um mal entendido. Poderíamos criar uma história para justificar aquele comportamento. - outro conselheiro, Mathias, comentou.
- Acontece que não foi um mal-entendido. - o príncipe se ouviu falando e logo se arrependeu.
Tudo que ele mais desejava era não estar naquela sala, mas já que fora obrigado, pretendia manter-se quase invisível. Então ele próprio acabou com seu plano.
- Há algo te incomodando, ? - seu pai lhe perguntou, de forma dura.
O rapaz respirou fundo, tentando manter todas as suas insatisfações silenciadas. Ele conseguiria, fazia isso muitas vezes ao dia.
- Você não deveria nem estar aqui, . - George disse, parecendo mais acuado do que irritado.
E sabia disto. Sabia do quanto seu irmão estava assustado com tudo aquilo. Desde novo, reinar sempre pareceu um peso muito maior do que qualquer ser humano possa carregar sem perder sua vida ou sua alma. O final sempre era a morte, nem que fosse a interior. E agora, com toda aquela polêmica, George via toda dificuldade triplicar. Um rei pouco amado significava um rei ainda mais infeliz do que todos os reis já eram aos seus olhos e aos olhos do irmão.
Mas, ainda assim, não conseguiu mais conter a raiva depois daquele comentário.
- De fato, eu não deveria estar aqui. Não consigo acreditar que estamos reunidos porque você fez a besteira de falar mal do seu povo daquela maneira. Talvez se você, ou melhor, vocês pensassem mais no povo que dizem tanto amar e menos em vocês mesmos, essa reunião não estaria acontecendo, e eu não estaria aqui.
Os segundos seguintes foram uma surpresa para todos naquela sala. O Rei George bateu forte na mesa em frente ao seu filho e parecendo ser capaz de matar, caso o mesmo reagisse, esbravejou:
- Quem você pensa que é para falar de amor ao povo? Quer ser mais um dos idealistas da internet? Pretende se tornar um deles? É muito fácil criticar nossas palavras quando se goza das regalias que todos aqui ganham ao usá-las. Você é apenas um moleque mimado e insolente que não sabe nada da vida. – depois disto, abaixou o tom apenas para falar de forma ainda mais dura – Seu irmão é um merda, mas até ele é melhor do que você.
- Ao menos eu sou o único desta sala que o povo não parece odiar. – falou, sem tirar os olhos do pai.
O príncipe George encarou o irmão em completo horror. Ambos sabiam o que provavelmente viria a seguir. Nem mesmo os conselheiros iriam impedir o poderoso George I de ensinar seus filhos a agirem do seu modo. E quase aconteceu, mas, antes disso, Mathias entrou no meio – talvez por ser o único dali que já tivesse presenciado algo parecido com o que iria acontecer – e com um sorriso nos lábios, falou:
- Majestade, não se irrite pelo príncipe ser exatamente o que o povo quer nesse momento. Ele é, no atual momento, nossa melhor saída.
Tanto o rei como os dois príncipes encararam o conselheiro, confusos.
- tem aquela paixão inocente pelo povo, embora não seja tão ativo, ele tem aquele ideal que o povo procura. – Mathias continuou – Vamos dar ao povo o que eles desejam, com direito a muitas câmeras e muito tempo na tevê.
- Como assim? – O rei perguntou.
- Além dos problemas de sempre, sabemos que o ápice é que o povo não se sente mais amado depois das palavras do príncipe George. Mas o príncipe não parece ter receio de plebeus, ele gosta deles. Então, vamos unir tudo de uma só vez. Proponho retomarmos aos primórdios da nossa história. Vamos retomar A Seleção.
- O quê? – os dois príncipes gritaram juntos.
- Isso acontecia com os herdeiros diretos do trono, e eu nem sou. Assim como o George não é, nem de longe, um bom pretendente aos olhos do povo. – disse, parecendo desesperado com aquela ideia.
- O príncipe George ter uma Seleção é fora de questão e todos nós sabemos disso. Já você, Alteza, é a escolha perfeita. Não ser herdeiro direto do trono só melhora as coisas. Assim ainda teremos dois sangues reais no trono.
- Essa ideia é arcaica, além do fato das duas últimas Seleções não terem dado muito certo. A do Rei Maxon terminou com um ataque que acabou levando seus pais, e da Rainha Edlyn literalmente não deu certo. Nem por um selecionado ela se apaixonou, além do fato de que ela decretou uma monarquia constitucional que custou muito para ser derrubada e voltar ao que somos hoje.
- Se você souber olhar, a do Maxon na verdade não foi nada ruim, eles foram talvez o casal mais amado da história de Illéa. Já a da menina, ela era uma tola, mas nossos estudos nos mostram que na época foi uma boa jogada o que ela fez. A dinastia Schreave se mantém até hoje por causa da sua estratégia.
- Não, não, não. – falou, mais pra ele do que para qualquer outra pessoa ali.
Aquilo não podia estar acontecendo, era surreal que aquela ideia fosse ao menos cogitada. A Seleção era apenas uma coisa contada em livros de história, totalmente fora da realidade daquela época. Não deveria acontecer.
- Pai, você não pode fazer isso com o . – George suplicou.
- E o que você sugere? Levar mais pedradas da próxima vez que sair às ruas?
Os irmãos se olharam, sem saber direito o que falar. Apenas sabiam que aquilo não era justo, mas usar este argumento certamente não serviria.
- Escute, . – rei falou, dessa vez manso e cuidadoso. – Você não precisa casar com ela, os tempos mudaram. O povo com certeza aceitará a condição de apenas um namoro e quem sabe casamento. Se tudo der certo, você casa com ela. Se não, espere seis meses e acabe o namoro.
- Não. Isso não daria certo. Eu não posso colocar minha vida amorosa nesse jogo.
O rei George respirou fundo para tentar manter a pose de pai compreensivo. Precisava que , mesmo ainda sem querer, ao menos criasse algum tipo de empatia por aquela situação.
- Seu dever é amar esse povo acima de si mesmo. Não foi isso que você falou agora pouco sobre sentir?
- Pai...
- , eu sinto muito, mas é seu dever como príncipe. Está na hora de crescer, rapaz. Aceite esses termos, e tudo ficará bem.
- Não faça isso comigo. – o príncipe suplicou.
- Desculpe, filho, mas eu declaro aceita a ideia do conselheiro Mathias. Teremos uma nova Seleção.


Capítulo Um

Eu estava em frente à tevê sem acreditar muito no que estava vendo e escutando. O Jornal Oficial estava anunciando uma nova Seleção? Era isso mesmo? Eu queria muito não acreditar naquilo.
Não me achava uma revolucionária, nem nenhuma rebelde, como o povo já foi muito chamado - Rebeldes lembravam o ataque que o falecido rei Clarkson e a rainha Amberly sofreram, além da morte de tantas outras pessoas. Ninguém queria rebeldes no país. Ninguém iria apoiar rebeldes. E era por isso que esse nome durava até hoje, era uma forma do governo fazer a população apoiá-lo e irem contra a quem pensava diferente. Uma forma de manter todos na rédea.- Mas eu tinha sim minhas reservas quanto a família real e até escrevia sobre isso em um site. E aquele anúncio me deixava ainda mais certa de que eu não pensava tão errado.
A Seleção, embora os livros de história viessem recheados de pontos positivos sobre a mesma, para mim sempre seria uma maneira de jogar com os sentimentos de outras pessoas. Uma espécie de pão e circo, e se você levasse em conta as duas últimas seleções que ocorreram, podia terminar em um circo catastrófico. Retomar com aquilo era insano.
- Será que o povo vai cair nisto? - minha mãe perguntou, parecendo também incomodada com aquele anúncio.
- Mas é claro que sim, mãe! - Jane, minha irmã disse. - Se eu não fosse noiva, estaria no primeiro lugar da fila.
Rolei os olhos. Jane às vezes era tão abobalhada.
- Quem vai querer ser a próxima plebéia a ser humilhada em público? Acho que o Príncipe George já fez isso muito bem. - comentei.
- , você é tão idiota. Já disse que você não vai casar, né?
- Para de falar isso, Jane! - meu pai repreendeu. - Ela só está sendo realista.
- Pai, nem é o George quem vai participar. - sim, ela se achava íntima da realiza.
- E você acha mesmo que ele iria querer encostar em alguém como nós? Ele provavelmente negou essa tentadora oportunidade.
- Vocês não vão brigar por isso, não é? - minha mãe questionou, impaciente. - Jane, você já é noiva, nem tem por que opinar. E , você nem se interessa por essas coisas, pare de amolar sua irmã.
- Não é amolar, mãe. A Jane só precisa pôr os pés no chão, não dá pra viver nesse mundo de fantasia. Tá tudo ruindo e pra Jane tá tudo bem.
- Melhor do que ficar aí, surtando e opinando sobre tudo, sendo que ninguém se interessa pelo que você fala. A única coisa que você consegue com isso é fazer com que nenhum cara queira se aproximar de você. Sabia que já me disseram isso? Você é a esquisita da turma, .
Eu queria humilhá-la como ela tinha feito comigo naquele momento, queria falar do quanto ela era uma idiota alheia ao mundo a sua volta e que só pensava em um bom casamento e uma boa grana, também haviam pessoas que comentavam isso dela. Mas eu não fiz nada. Porque, na verdade ela não estava falando nenhuma mentira, tinha mesmo muitos caras que queriam distância de mim por minha total falta de habilidade de sustentar uma conversa sobre coisas triviais, além do fato de que muitos me achavam uma rebelde em potencial, e ninguém queria isso. Ao menos, não aqueles que a gente convivia.
Levantei e saí da sala em total silêncio. Apenas com meus pais me observando e a Jane evitando contato visual comigo.

No dia seguinte acordei com batendo forte a porta do meu quarto e abrindo todas as janelas. O que era uma atitude típica dela.
- Bom dia, flor do dia! - ela exclamou animada.
- Eu espero muito que já tenha passado das nove, . Se não, eu juro que mato você.
- Bom, são nove e um. Acho que continuarei viva por hoje. - falou, rindo. - Esqueceu que combinamos de ir ao shopping hoje? Vamos comprar…
- Os vestidos para sua formatura. Eu sei, . Você não me deixa esquecer nunca. - falei, já levantando da cama e jogando meu travesseiro nela.
- Você viu que a Seleção vai voltar?
- Sim. E nem me fale nisso, acabei brigando com a Jane por causa desse assunto. - comentei enquanto seguia para o banheiro.
- Me deixa adivinhar: você odiou a notícia, a Jane amou. Acabaram acusando uma a outra de ser idiota, mesmo que por motivos diferentes e no fim estão sem se falar. - terminou, acertando tudo. - Mas vocês já se entendem. Eu amei essa notícia, não vejo a hora de ter a chance de me inscrever, mas eu já fazia ideia de que você não pensaria o mesmo.
e Jane eram muito parecidas. Na verdade, faria muito mais sentido as duas serem melhores amigas, mas a verdade é que e eu nos demos bem desde o primeiro olhar. Talvez porque tenhamos o que falta na outra, e isso faz com que as duas consigam um equilíbrio dentro de si.
- Eu também sabia que você tinha amado. - falei rindo, já me trocando. - Você vai mesmo se inscrever?
acabou dando uma gargalhada.
- Você acha mesmo que eu perderia esta oportunidade? Filha, eu nasci pra ser rainha.
- Illéa que tome cuidado. - disse, também rindo.

Nós até convidamos Jane para ir junto, - confesso que o convite partiu de , mas eu não me opus - mas ela não quis ir conosco. Então, lá estávamos nós duas passeando pelo shopping e fazendo o que todo mundo fazia lá: comprar e olhar as pessoas.
- Que movimentação é aquela ali na praça de eventos?
olhou pra os dois lados procurando pistas, mas tirando os passos apressados que muitas garotas davam rumo ao tumulto, não havia pista alguma.
- A impressa tá lá.
- Será que aconteceu alguma coisa? - indaguei.
- Então é uma coisa muito boa, as meninas estão indo todas sorrindo.
Puxei minha amiga pelo braço e apressei os passos como todas as outras garotas estavam fazendo.
- Vamos lá, estou curiosa.
Ao chegarmos ao local, encontramos uma multidão de garotas tirando suas maquiagens da bolsa e passando de forma veloz. Aquilo só podia, no mínimo, ser algum concurso de beleza.
- É da realeza. – falou, apontando para o brasão da família de Illéa. – Pode nos dizer o que tá acontecendo? – minha amiga perguntou a uma garota que passava.
- É a inscrição para a Seleção. Eles avisaram hoje cedo na tevê, muita gente nem sabe.
Vi minha amiga ficar branca como um papel e suspeito que até eu fiquei. Senti como se estivesse prestes a entrar em algo muito maior que eu, embora eu não pretendesse me inscrever.
- Fica calma e respira. – falei. – Você não pode desmaiar na fila.
- Fila?
Acabei rindo. estava beirando o pânico.
- Sim, . A fila para fazer a inscrição. – e apontei para onde as meninas estavam indo. – Você vai, não vai?
- Claro que vou. Eu só preciso respirar uns segundos antes disto.
Depois de esperar os segundos – que na verdade foram minutos – que pediu, seguimos para a fila. Eu estava ao lado dela enquanto esperávamos a sua vez, até que finalmente chegou a vez dela.
- Pode vim, garota. Vamos primeiro tirar uma foto sua e depois faremos algumas perguntas e te daremos uma ficha para preencher.
- Vai lá, te espero aqui.
Mas antes que eu virasse, segurou firme no meu braço.
- Não sei se consigo fazer isso, . – falou, baixinho.
- O quê? Você nasceu pra ser rainha, esqueceu? – tentei brincar.
Nosso cochicho acabou chamando a atenção da organizadora.
- Algum problema?
- Ela está apenas um pouco nervosa, mas já está indo. – respondi.
- Você não vem? – ela me perguntou.
- Não. – respondi com um sorriso sem graça.
- Ela pode entrar comigo? – perguntou.
A mulher ponderou por um tempo, mas logo nos liberou.
- Claro.
Quando entramos na estrutura que estava por trás das paredes improvisada, encontramos vários fotógrafos tirando fotos de garotas sorridentes que pareciam já se enxergarem no palácio. , aparentemente mais calma, sentou em frente a um dos bancos e escutou instruções do fotógrafo a sua frente.
- Não precisa ficar nervosa, okay? São apenas duas fotos, simples.
- Relaxa, . – incentivei.
Depois que minha amiga tirou as duas fotos, já íamos saindo quando o fotógrafo nos chamou.
- Você não vai, garota? – perguntou a mim.
- Ah, não. É só ela mesmo.
- Você não vai conseguir entrar com ela para a entrevista se não tiver tirado fotos. Uma etapa leva à outra.
- Tira, .
- , eu falei que não quero me meter nisto.
- São só duas fotos, quais as chances de você ser selecionada? Não me deixa sozinha nessa. – ela pareceu implorar.
- Ei! – lhe chamei atenção – Vai dar tudo certo, eu não preciso estar lá para isso. – tentei tranquilizá-la.
Pela primeira vez desde que nós duas, quando crianças, fomos pegas bagunçando na escola e paramos na diretoria, eu vi assustada.
- Por favor, . – suplicou.
- Tudo bem. – resmunguei.
Mesmo não estando empolgada, sorri para as fotos. Eu podia não querer estar ali, mas também não queria fotos feias minhas na mão do rei.
- Podem ir.
Depois das fotos chegou a etapa das entrevistas, onde respondíamos as mais variadas perguntas. Desde qual era a nossa cor preferida, até se ainda éramos virgens. Punições escolares e até ficha policial não passaram dos olhos e ouvidos atentos dos entrevistadores, e eu acabei rindo ao pensar em como estaria na hora de contar a punição que levamos mais novas. Será que ela contaria? Eu contei e ainda consegui uma risada do rapaz que me entrevistava.
Aparentemente nossas palavras sobre as punições e ficha criminal não valiam muita coisa, eles queriam provas e tivemos que dar nosso nome completo e também outros dados que deram a eles acesso ao nosso histórico escolar e nossa ficha na guarda. Acho que eles temiam que alguém se infiltrasse e fizesse algum mal a monarquia, inteligente da parte deles, mas não deixei de pensar que muita gente lutava por tempos melhores – ou até contra a monarquia - sem precisar sujar as mãos, eu escrevia tudo em site, por exemplo. Coisa que eles jamais descobririam.
Após isso, fomos para uma outra sala onde respondíamos perguntas de conhecimentos gerais. Coisas que aprendemos na escola ou vemos no jornal. Parecia que o príncipe queria mais que um rosto bonito para fazer seu povo de bobo.
Por último pudemos preencher nossas fichas. Cada vez que saíamos de uma sala para outra, e eu nos abraçávamos e eu lhe dava forças antes de nos separamos mais uma vez, mas naquela última sala pudemos ficar juntas, já que eram mesas com várias cadeiras. Suspeitei que aquela entrevista, assim como a pesquisa e as perguntas de conhecimentos gerais, serviam como uma espécie de pré-seleção. Nem todas as fichas chegariam ao palácio, eles apenas não achavam adequado contar aquilo para nós.
- Não achei que fosse ser um processo tão longo. – disse quando finalmente saímos da estrutura projetada para as inscrições. – Antigamente era apenas preencher a ficha e tirar uma foto, não era?
- Acho que estão mais rígidos dessa vez. Os tempos mudaram. – dei de ombros, sem pensar muito naquilo.

O caminho para casa foi bem falante, não parava de pensar em como seria sua vida no palácio. Era como se a seleção já estivesse feita e ela fosse uma das selecionadas. Acabei rindo.
Chegamos em casa e antes que eu pudesse falar qualquer coisa, já foi contando as novidades.
- Sabiam que serei a próxima princesa de Illéa? – ela indagou enquanto dava um abraço na minha mãe.
- Como? – meu pai indagou e ela sorriu.
- Acabei de fazer minha inscrição, também se inscreveu.
É difícil dizer quem ficou mais chocado com aquele fato. Meu pai deixou o queixo cair e olhou para minha mãe como se buscasse respostas, já ela, me encarou de um jeito estranho, tive a impressão de ter visto um leve desapontamento. Jane foi um show a parte. Ela estava comendo quando falou. Deixou o garfo cair, engasgou e precisou que minha mãe corresse ao seu amparo.
- Respira, filha.
Assim que recobrou o ar e a possibilidade de falar, pareceu ter esquecido qualquer contratempo.
- Você se inscreveu? Você vai para o palácio? Já disse que te amo hoje? – e jogou-se nos meus braços como se estivesse abraçando qualquer pessoa, menos a irmã dela.
Larguei-me de seus braços sem muita cerimônia.
- Não, você não disse. E continua não dizendo. A pessoa que você diz amar talvez possa ser a . Eu apenas dei apoio a porque ela estava muito nervosa, entrei e acabei me inscrevendo por isso. Mas eu não quero saber de Seleção, não quero ser selecionada, não conhecerei o príncipe e muito menos morarei no palácio. Não precisa me agarrar por isso, Jane.
- Que tal se acalmar, ? – minha mãe advertiu erguendo uma sobrancelha.
- Tá bom.

O dia seguiu e embora todos em casa tentassem deixar de lado o papo Seleção para que eu não me irritasse, era nítido que todos pensavam nisto, até mesmo eu, que já imaginava se mudaria alguma coisa caso fosse para o palácio. Mas tentava deixar minha mente longe disto. Quando não consegui, resolvi me render ao assunto e fui ler notícias sobre o andamento da Seleção.
“A Seleção é uma prova de que o povo é amado. Queremos conhecer melhor essas garotas, saber de seus anseios, ver mais do mundo que muitas vezes as obrigações nos impedem de ver. Essas garotas serão grandes lutadoras e ficarei muito feliz de talvez ter uma delas na minha família.” O rei dizia em uma entrevista gravada.
Ele parecia ter total domínio sobre aquele assunto, mas quando questionado sobre o motivo do Príncipe estar no lugar que deveria ser ocupado pelo Príncipe George, foi claro seu incômodo.
“Há muitos anos este processo deixou de existir e a última vez que ocorreu deixou muitos incertos sobre sua eficácia. Sendo assim, não temos a intenção de forçar um casamento ou o povo de aceitar alguém que eles não desejam no poder. Estamos sendo mais cuidadosos.”
A mulher, muito ousada, diga-se de passagem, resolveu ir mais fundo e perguntou se ele duvidava da capacidade de uma plebéia de liderar o país junto com seu filho e também indagou se o próprio príncipe não teria pedido para não fazer parte, visto suas últimas palavras sobre o que ele achava de nós.
“Não aturarei insinuações, senhorita. Muito menos que ponha palavras na minha ou na boca do meu filho. Príncipe George jamais iria se opor a qualquer coisa decidida por nós para o bem do povo e do reino, ele sabe os deveres que deve cumprir. Assim como seu irmão, que mesmo não sendo o herdeiro principal do trono, também cumpre seus deveres.”
E foi ali, com aquelas palavras, que eu tive a certeza: A Seleção queria nos enganar e dar uma falsa esperança. Príncipe estava apenas cumprindo o dever de participar daquilo, mas largaria a moça assim que a poeira abaixasse. Eu precisava escrever sobre aquilo.
Sentei em frente ao meu computador e comecei a digitar o que tanto me incomodava.

“O atual pão e circo.
Não sabemos direito como essa expressão surgiu, é uma das muitas palavras ou frases que apenas falamos sem saber de onde vieram porque nossos livros de história não explicam. Mas sei que significa algo como um jogo de propagandas para entreter o povo e tirar o foco dos problemas. Não é isso que está acontecendo agora?
A Seleção foi abolida há anos, cerca de cinco reinados já vieram sem que houvesse menção a esse assunto, mas justo quando o povo está insatisfeito, quando o Príncipe George dá ao povo a prova de que somos deixados de lado, esse processo retorna.
Não sejamos bobos, em uma recente entrevista o rei, depois de não conseguir explicar com clareza por que o Príncipe George ficou fora dessa, deixou claro que o seu outro filho está apenas cumprindo um dever. E qual dever é esse? Antes, na época que A Seleção ainda acontecia, poderíamos dizer sem julgamentos que os príncipes tinham mesmo que participar. Mas hoje, depois de anos deixado de lado, por que enxergar a Seleção como um dever novamente?
A resposta é simples:
Não é a Seleção que é o dever do Príncipe , mas sim entreter o povo e dar a eles um circo enquanto nossa majestade pode continuar guiando seu reino da maneira que quer sem mais interferência. O circo está feito e o palhaço somos nós.”

Depois de escrever isso achei que esse assunto estava por fim tirado da minha vida por aquele dia, mas não podia estar mais enganada. Bastou chegar a hora de dormir para que eu não pudesse fugir de Jane.
- Ainda não consigo acreditar que você pode ser uma das selecionadas. - Jane falou, sentando em sua cama e balançando as pernas de um jeito empolgado. - Você vai conhecer o palácio. Já pensou nisto?
Rolei os olhos.
- Eu não vou conhecer nada, Jane. - falei com a voz cansada. - Se você visse o tanto de meninas que tinha, fora as que ainda iam chegar, iria ver que não tenho nenhuma chance de ser selecionada. Podemos dormir, agora?
- Claro que você tem. - ela desdenhou da minha resposta.
Eu amava minha irmã, não pensem o contrário. Mas na maior parte do tempo era bem difícil nossa convivência.
Jane era o oposto de mim em várias coisas e acho que não sabíamos lidar muito bem com aquilo. Naquele exato momento, por exemplo, tudo que eu queria era que ela sumisse da minha frente junto com seu papo sobre a Seleção. Não via a hora dela finalmente casar.
- São centenas, talvez milhares de meninas, Jane. Eu não tenho chance alguma.
Pela primeira vez desde que todo aquele papo de Seleção começou, lá quando passou no Jornal Oficial e discutimos, vi Jane olhar para mim de igual para igual e dar um sorriso um pouco condolente.
- Você ainda não percebeu, né? - ela parecia um pouco triste por algo que eu ainda não sabia. - Todas essas meninas têm que vencer a mesma quantidade que você. Então, você tem as mesmas chances que elas, que a . Se você acredita que pode ser chamada, aceite que você também pode. Alguém terá que ser chamada, . E sinto muito em dizer, mas esse alguém pode muito bem ser você.
Posto daquela forma, não tinha como negar que minha irmã estava certa. Senti meu coração apertar a quase esqueci como se respirava. Eu realmente tinha chance. Em um sorteio, seja ele sobre o que for, alguém tem que ganhar, não é mesmo? E eu podia, mesmo que não visse isso como ganho.
- Sei que você não gosta dessa ideia, mas é a realidade. E desculpe, mas eu ficaria bem feliz se você fosse uma delas.
E então toda complacência da minha irmã se esvaiu e ela voltou a ser a Jane de sempre. Onde na maioria das vezes não importa muito como o outro vai ficar, desde que ela fique bem.
- Tá bom, Jane. Agora, se não for pedir demais, me deixa dormir.
Virei para o outro lado bufando, mas não era pela minha irmã, e sim por mim. Como não pensei nisso antes? Se eu fosse chamada para aquela droga, poderia me negar a ir? Se sim, será que minha família não ficaria envergonhada? Se não, como eu iria conseguir lidar participando de algo que tanto repudiava? Como agiria perante um rei que eu não admirava? Como conviver com eles e não terminar sentenciada a algo terrível? Como iria fazer parte daquele show que visava apenas alienar as pessoas? Eu conseguiria fazer parte do jogo?
Me fiz tantas perguntas e me imaginei em tantas situações que acabei perdendo o sono. Quando finalmente consegui dormir, acordei - tive a sensação de que foi segundos depois - com Jane puxando meu cobertor e dizendo, com uma expressão maravilhada, assim que abrir os olhos:
- Bom dia, flor do dia. Saiba que suas chances acabaram de ser dobradas. Vão sortear duas de cada província para a Seleção. Você tem mais chances que nunca!


Capítulo Dois

O susto foi tão grande que me virei rápido demais da cama e acabei caindo da mesma.
Do que Jane estava falando?
- O que você tá falando?
- O site do Jornal Oficial acabou de publicar uma nota oficial falando sobre isso. Como as pessoas conseguiam viver sem internet antes, hein?
- Foco, Jane! Foco! – pedi, enquanto levantava do chão e passava as mãos nos cabelos. – O que essa nota dizia?
- Espera! – pediu, dando um pulinho – Vem aqui comigo ler.
Eu saí do quarto sendo puxada por Jane e com a mente a mil por hora.
- Olha aí. Foi essa a nota.
Olhei para a foto com o brasão de Illéa na parte superior, e com letras pequenas estava escrito:
“A coroa tem o prazer de anunciar que algumas outras mudanças foram feitas no processo da Seleção.
Serão sorteadas duas garotas de cada província, mesmo que apenas uma vá ser escolhida para integrar o time oficial da Seleção. E esse sorteio duplo é porque agora teremos a certeza que 36 garotas formarão o time de selecionadas oficias e terão chances de conquistar o coração do amado Príncipe . E uma delas quem irá escolher é a nossa amada nação de Illéa...”
Eu não assimilei muita coisa depois daquelas primeiras palavras.
Então agora duas garotas teriam parte de suas vidas mudadas e uma delas teria uma sobrevida que a levaria direto para o palácio. Senti o sangue escapar de meu corpo.
Depois da conversa com Jane na noite anterior, finalmente percebi o quanto poderia estar encrencada, e agora minhas chances haviam dobrado. Respirei fundo tentando convencer a mim mesma que ainda assim eram milhares de garotas para apenas dois nomes sendo puxados, mas o medo me impedia de seguir com essa linha de raciocínio por muito tempo.
Puxei o braço da minha irmã e lhe falei, quase como um pedido de ajuda:
- Eu não quero ir, Jane. Eu não quero ter chance de entrar naquele lugar.
Eu podia até correr risco de morte se encontrassem meu site, logo me passou pela mente. Mas para um bem da minha sanidade mental, guardei esse pensamento no fundo do meu cérebro.
Jane falando me trouxe novamente a realidade.
- Por que você fez isso se repudia tanto a Seleção, ? – indagou com uma careta. – Você parece pronta para ir para a forca só de ler isso, como pode ter se inscrito?
- Na hora não me pareceu nada demais. – falei, meio agoniada. – Eu só pensei que estava ajudando a , até nossa conversa eu nem achava que havia a mínima chance de ser sorteada.
- Acho que você perdeu o título de mais inteligente dessa casa, então. – Jane disse rindo. – E pense pelo lado bom, na pior das hipóteses você vai sair de lá com uma boa quantia, famosa e cheia de pretendentes. Não é esse sacrifício todo.
Dessa vez não briguei com Jane, apenas respirei fundo e fiquei repetindo para mim mesma que eu não seria sorteada. O universo não me pregaria essa peça, pregaria? Só Deus sabia o quanto eu não queria aquilo, e tinham milhares de garotas querendo, então, com certeza Ele faria outra pessoa ser sorteada.
Era isso! Eu não seria sorteada.

A noite o Jornal Oficial foi quase todo dedicado a explicações de como funcionaria a Seleção depois de tantas mudanças. Embora os dois príncipes estivessem lá com o rei e a rainha, apenas o rei estava falando:
- Muitos ainda parecem confusos depois da nossa nota oficial, então vamos explicar mais uma vez para vocês. Daqui a dois dias, quando o grande sorteio ocorrer, dois nomes de cada província serão tirados do cesto e a partir deste momento essas setenta moças já serão uma extensão da família real, se tornando prioridade vossa segurança. Mandaremos uma equipe especial acompanhar o dia a dia dessas moças e já no dia após o sorteio transmitiremos para vocês um especial com cada uma delas e uma votação será aberta para que vocês, amado povo de Illéa, possam garantir que uma dessas lindas garotas já esteja direto na Seleção. As outras sessenta e nove meninas serão avaliadas por nós e uma de cada província será selecionada para o time.
Conforme o rei ia falando, tudo me parecia ficar cada vez pior. Mais cedo Jane havia me dito que na pior das hipóteses eu sairia com uma boa quantia de dinheiro, famosa e cheia de pretendentes. Mas aquela garota que fosse sorteada e não chegasse a verdadeira Seleção apenas teria sua vida exposta e depois sairia disso tudo sem qualquer dinheiro e ainda parecendo pouco demais para tal evento.
- É uma mudança e tanto no processo. – minha mãe falou enquanto o rei continuava a falar.
- Isso faz com que minha irmãzinha tenha bem mais chances de chegar lá. – Jane disse me abraçando de lado e eu rapidamente fugi dos seus braços
- Não sou tão simpática assim, Jane. Dificilmente o povo me escolheria. Você mesma não me acha sem graça?
- Não precisamos que você seja escolhida, mas sim que seja sorteada com outra garota que tenha potencial de ser a escolha do povo. Não percebeu? Se obrigatoriamente eles terão que selecionar uma de cada província, aquela que tiver uma das meninas escolhidas pelo povo, terá apenas uma garota para a outra fase, garantindo assim que as duas estejam na Seleção.
Era verdade. Eu estava tão nervosa que nem havia pensado nisto.
- Eu nem tinha me tocado. – comentei.
- Como eu disse hoje cedo: você perdeu o posto de mais inteligente desta casa. – Jane disse com um risinho que não retribui porque minha mente estava bem mais longe que isso.
não apareceu em casa aquele dia, com certeza estava arrumando as coisas da sua formatura e eu fiquei grata por sua ausência. Não queira ter que falar sobre a Seleção, mas não queria ser grossa com ela também. Então, era melhor que pelos próximos dois dias a gente não se visse tanto. Até porque algo não saía da minha: e se eu fosse sorteada e ela não? E se nós duas fôssemos sorteadas e eu escolhida? Será que me culparia?

Durante aquela madrugada tive diversos pesadelos com a Seleção, e eles iam desde eu sendo sorteada e não, até eu tendo a infelicidade de casar com o príncipe.
No dia seguinte acordei com duas garotas sorridentes puxando meu cobertor. e Jane falavam coisas desconexas e insistiam em me tirar da cama.
- O que vocês querem?
- Que você saia já daí para finalizar os detalhes de amanhã comigo. Nem nos meus maiores sonhos eu teria a chance de me formar e ainda ser uma selecionada apenas em um só dia. – disse dando pulinhos empolgados.
- , não é querendo ser pessimista nem nada, mas você sabe que não é certeza, né? Será um sorteio.
- Um sorteio pré-selecionado, , eles mesmo meio que assumiram isso ao pedir nosso histórico e tudo mais. Nós estudamos em boas escolas, temos boas notas, somos meninas que sempre andaram na linha e somos lindas. Isso tudo já impedirá metade das garotas de terem seus nomes naquele cesto.
- Você estudou em boa escola, eu estudei em uma escola do sistema público. Isso significa que estou fora.
- Em uma das melhores escola do sistema público, e fala mais de uma língua. Não seja idiota. Nós duas seremos selecionadas.
Aquele parecia ser um sonho perfeito para , mas para mim era ainda pior que ser sorteada sozinha. Eu não queria competir com ela de maneira alguma, nem mesmo naquela pré-seleção das setenta garotas, e me recusava a imaginar nós duas no castelo. A Rainha America era a prova de que você não precisava querer a coroa para consegui-la, todos falavam que em sua Seleção ela demonstrava querer bem pouco ser escolhida até as últimas semanas, então, não querer a coroa não me impedia de ser concorrente de caso as duas chegassem lá.
- Vamos, vai logo tomar um banho. – Jane falou, me tirando do transe.
- Okay. – foi tudo que consegui dizer.

Cheguei a acreditar que a formatura de me faria esquecer do sorteio, mas todos naquele lugar me faziam lembrar que nosso futuro poderia ser selado em algumas horas. Inclusive, seus pais colocaram uma tevê enorme no meio do salão para todos nós podermos assistir juntos sua filha ser sorteada. Vendo toda aquela euforia, não deixei de orar para que estivessem certos, seria frustrante se algo saísse errado.
Tentei me distrair dançando e cantando com alguns conhecidos, estava mais solta do que nunca, tudo isso para fingir que não tinha nada a ver com o evento que logo mais viria. Quando finalmente comecei a esquecer, alguém gritou:
- Todos sentados, é a hora do Jornal Oficial!
Foi automático. A música parou, as luzes acenderam, a tevê foi ligada e um silêncio desesperador se instalou no salão.
Tudo foi passando como um borrão na minha frente, eu pouco entendia do que estava sendo falado na tevê. Tudo que conseguia fazer era apertar com força a barra do meu vestido e implorar para que tudo desse certo. Então os nomes começaram a serem tirados dos cestos, um a um. Éramos de Sonage, então, seríamos uma das últimas a serem sorteadas de acordo com a ordem que falaram.
- É agora, é agora! – alguém gritou e me fez abrir os olhos e me dar conta que éramos o próximo cesto.
- De Sonage, a senhorita Mitchell.
O salão explodiu em gritos, abraços e lágrimas. Ninguém mais olhava para a televisão e eu quase fiz o mesmo, mas foi aí que eu vi, mesmo que o barulho tenha me impedido de escutar, minha foto aparecer ao lado da foto de . Foi como receber um soco na boca do estômago, eu sentia a dor e o enjôo.
Indo contra todas as probabilidades, Jane e estavam certas desde sempre. Nós duas fomos sorteadas, eu, mesmo sem querer, era agora também uma das selecionadas.


Capítulo Três


Naquela noite do sorteio, graças ao tumulto que se instalou na festa da por causa da sua “conquista”, consegui sair dali antes que notassem que meu nome também havia saído, mas infelizmente não consegui passar despercebida em casa. Assim que entrei, minha mãe me olhava num misto de horror e incredulidade, já meu pai parecia chocado demais para demonstrar qualquer emoção.
Ficamos em silêncio até que, quando eu estava caminhando para o meu quarto, minha mãe falou:
- Você odeia essa Seleção.
- Constatar o óbvio não vai ajudar em nada, mãe – respondi, segurando minha vontade de chorar.
- Como você conseguiu sair da festa sem que as pessoas te segurassem para comemorar?
- Todos tiraram os olhos da tevê assim que a foi sorteada.
- Eu sinto muito – meu pai finalmente falou e foi o que bastou para que eu caísse no choro.
Meu Deus, aquilo não podia ser verdade. Eu não podia ter sido sorteada. Com tantas pessoas naquela província, por que justo eu?
Chorei pelo que pareceu horas, mas na verdade foram apenas alguns minutos. Pretendia chorar ainda mais no colo dos meus pais, quando minha mãe falou:
- Eu acho melhor você ir dormir. Daqui a pouco a Jane vai se dar conta e não será um bom encontro.
- Ela vai me acordar e falará comigo do mesmo jeito.
Ainda tinha isso. Eu teria que lidar com a animação da Jane.
- Cuidaremos disso, . Apenas vá tentar descansar. Amanhã o dia será longo – meu pai disse com pesar.
Não discuti. Não estava pronta para ver Jane e toda sua felicidade egoísta.
Antes que eu tivesse tempo de deitar na cama e chorar até amanhecer, minha mãe bateu na porta segurando um copo de água e um comprimido.
- Toma esse remédio, é para dormir. Natural. Sei que você não quer falar sobre isso, mas amanhã isso estará cheio de câmeras, e acho que não vai te fazer bem aparecer com cara de choro.
Isso era outra coisa que eu não podia discutir. De fato, não ficaria bem aparecer com cara de choro. As pessoas podiam ver isso com maus olhos.
- Obrigada – falei e tomei o comprimido.
Depois disso derramei algumas poucas lágrimas antes de cair no sono. Não tenho certeza se foi um sonho ou realidade, mas tenho lembrança de Jane entrando no meu quarto. Se foi verdade, ela não conseguiu falar nada comigo.

👑👑👑


Meu pai estava certo sobre o dia seguinte. Ele foi longo como nunca. Uma vez na escola, ouvi sobre o tempo parecer passar mais devagar quando fazemos algo que não gostamos. Naquele dia tive certeza que aquilo era verdade. Cada segundo pareceu durar uma eternidade.
Eles filmaram minha casa, entrevistaram minha família e surtaram de felicidade ao descobrir que minha melhor amiga era a outra sorteada.
- Esse é um ótimo entretenimento. Tudo que precisávamos.
Quis vomitar ao perceber que agora eu era parte oficial da atração circense. Eu agora ajudaria a coroa a fazer o povo de palhaço.
Depois de filmarem meu quarto e me pedirem para fazer várias coisas que nem de longe eram coisas que eu fazia diariamente, eles falaram que precisávamos conversar a sós. Eu sabia o que viria a seguir: pergunta sobre virgindade. Que para meu alívio, eu podia responder que sim.
- Te daremos algumas roupas, então, precisamos que você olhe essa revista e diga quais cores você gosta mais, assim como quais modelos fazem mais seu estilo. Você será levada para uma pequena apresentação hoje à noite na praça. O Jornal Oficial será transmitido lá e você e sua amiga estarão no palco. Ainda hoje te entregaremos algumas roupas.
- Tudo bem – foi tudo que eu disse antes de pegar a revista e sair marcando o que gostava.
Depois disso eles foram embora e me informaram que uma equipe viria me arrumar e depois um motorista viria buscar a mim e minha família.
Bastou eles saírem para que eu caísse no choro.
Metade de mim queria poder correr na casa da e a abraçar forte na certeza de que concordando ou não comigo, minha melhor amiga me acalentaria. Mas a outra metade comemorava o fato de provavelmente ela estar ocupada demais para me ver.
Já pretendia seguir para o quarto quando o telefone tocou e minha mãe falou que era justamente minha amiga na ligação.
- Como você tá? – minha amiga foi logo perguntando.
- Sinceramente? Uma merda.
- Eu imaginei. Sabe, mas poderia ser pior se fosse apenas uma sorteada de cada província. Você não vai precisar chegar até o palácio – ela disse e eu pude perceber que de alguma forma isso a animava.
- Como assim?
- Eu quero muito ir, você não quer nem um pouco. É só não se mostrar disposta se tiverem que escolher entre nós duas. É óbvio que vou lutar para ser escolhida pelo público, afinal, quem for escolhida já terá uma chance bem maior. Óbvio que o rei vai dar mais atenção para a menina amada pelo povo, mas, sabe, de todas que podiam ter sido sorteadas, saber que foi você me alivia.
Aquilo acabou piorando ainda mais meu dia. Não queria que me ligasse para dizer aquilo. Ela era minha melhor amiga, deveria ter dito ao menos um sinto muito.
Aparentemente a coroa mexia com todos, mesmo antes de chegar perto de usá-la.
- , eu vou desligar, tudo bem? Estou cansada. Fico feliz que tenha conseguido o que tanto queria.
- Te chateei com algo, ?
Balancei a cabeça, mesmo que ela não pudesse ver e depois dei de ombros.
- Fica tranquila e curte seu dia. Vou deitar um pouco. Beijos.
Não esperei a resposta, coloquei o telefone no gancho e segui para o quarto. Dessa vez tão chateada que não me deu nem vontade de chorar.

Obviamente não consegui dormir a tarde sabendo que alguém poderia me acordar para me maquiar a qualquer momento. Quando já não aguentava mais rolar na cama, fiz o que já queria fazer desde a ligação de , mas que por medo de estar sendo espionada, me recusei: escrevi no meu site.

“O ego da coroa
Ontem tivemos setenta meninas sorteadas para viver o famoso entretenimento dos nossos livros de história: A Seleção. Como boa moradora de Illéa, acompanhei o sorteio ao vivo, assim como provavelmente todos vocês. Confesso que senti medo por cada nome que estava dentro daqueles cestos, mas me confortava pensar que apesar de tudo, elas ainda seriam elas.
Me enganei. Nem todas são!
O ego da coroa é algo quase que inerente a quem se aproxima. Não precisa se colocar a mesma na cabeça para pensar apenas em si e usar os outros. Algumas pessoas precisam apenas ter a possibilidade de colocá-la um dia. O que me faz questionar se o erro é apenas dos nossos governantes.
Seríamos qualquer um de nós iguais a eles se colocássemos uma coroa na cabeça? Todos nós temos um lado ruim que se mostra quando temos poder?
A atual família real é uma das piores desde que tivemos nosso adorado Rei Maxon e nossa amada Rainha America, não podemos negar. Mas talvez, só talvez, não sejamos tão melhores que eles. Ao menos alguns, aparentemente não são.
Então, só queria pedir a vocês, caros leitores, que não se esqueçam de serem diferença. Não melhoraremos nosso país sendo semelhantes a eles. Não deixe que setentas garotas maquiada e bem arrumadas querendo uma coroa, despertem o pior lado de vocês.
A proximidade da coroa já mudou algumas, não deixe a Seleção mudar vocês!”


Aquele era um texto diferente dos que eu costumava postar. Eu geralmente não colocava nosso povo contra a parede daquela forma. Mas como poderíamos querer mudança se agíssemos iguais a quem nos governa? Hipocrisia não nos levaria a lugar algum e eu precisava alertar isso aos outros.
Depois de cerca de uma hora a equipe, não penas uma pessoa para me maquiar, chegou com algumas opções de roupas, sapatos, joias e fotos de modelo de cabelo para eu escolher. Tenho que confessar que as três opções de roupas eram lindas, eles tinham mesmo levado minha opinião a sério. Os sapatos e joias também eram muito bonitos, embora as joias fossem um pouco extravagantes.
- Quero essa roupa, esse sapato e apenas essa pulseira – falei, apontando para cada coisa que queria.
- Desculpe, querida, mas você tem que escolher algum colar ou brinco. Pulseira é o que menos aparecerá na câmera – um rapaz da equipe falou, fazendo biquinho.
- Na verdade você deveria escolher um anel também. Ir completa, você é linda, menina. Olhe esse conjunto de esmeralda, vão ficar lindos em você, combina com seus cabelos negros – uma garota falou empolgada e quase cedi, apenas para não contrariá-la.
- Não. Já acho que irei desmaiar com tanta gente me olhando, não quero chamar ainda mais atenção.
Eu sabia que o conjunto era lindo, mas não queria ter que usar todas aquelas coisas e chamar ainda mais atenção pra mim.
- Promete que se for selecionada você usa esse conjunto quando for para o palácio? – o rapaz que me falou que precisava escolher ao menos um colar ou brinco, me pediu.
Lembrei de falando que eu não chegaria ao palácio e então foi fácil prometer. Seria uma promessa que nunca precisaria cumprir.
- Claro – falei e as quatro pessoas à minha frente bateram palminhas.
Logo o rapaz e a garota estavam pintando minhas unhas, passando minha roupa e até se oferendo para me trocar – o que neguei veemente. Depois uma segunda garota fez meu cabelo e uma terceira minha maquiagem. Cerca de duas horas depois de chegarem, eu estava pronta.
- Se olhe no espelho – o rapaz pediu.
Caminhei até o espelho e por um segundo fiquei sem saber como respirar. Eu estava linda, era verdade, mas nunca estive tão distante da garota que eu era.
Uma dor no peito parecia apertar meu coração e me tirar todo ar e para não cair, tateei pelas paredes até encontrar minha cama.
- Você está bem? – uma das garotas perguntou, não sei quem.
- Levanta, vai amassar toda sua roupa – outra disse.
Tentei manter a calma, inspirar e expirar algumas vezes, mas não consegui. Meus pulmões ardiam e meu cérebro parecia entrar em colapso. Eu não conseguiria fazer aquilo.
- Vão pegar um pouco de água. Ela está passando muito mal! – acho que ouvi o rapaz gritar.
Provavelmente minha mãe escutou e logo ela estava de joelhos na minha frente.
- )? Filha? Consegue me escutar? Filha, olhe pra mim, tente ficar calma. Respira, respira.
Eu queria chorar, mas nem mesmo lágrimas saíam dos meus olhos.
Aos poucos fui conseguindo focar na minha mãe e fazer o que ela me pedia. Não sei quanto tempo precisei até me acalmar, mas quando dei por mim, já estava dentro do carro rumo a praça. E eu só conseguia pedir aos céus para não desmaiar quando chegasse lá. Minha família não precisava daquilo.

A nossa aparição na praça foi muito melhor do que esperava. Não precisamos falar mais do que um minuto. O resto do tempo apenas assistimos o compilado com a vida de cada menina. Obviamente nossa reação estava sendo filmada e passada em miniatura no telão da nossa praça, mas ainda assim foi muito melhor do que eu pensava que seria.
Na saída do palco, acabou me abordando.
- Você foi maravilhosa, . Sempre se expressando tão bem – e vi que ela estava sendo sincera.
- Obrigada, . Você também foi – e sorri.
Eu já pretendia seguir, quando minha amiga me puxou para um abraço e percebi que ela chorava.
- Eu me sinto tão culpada por ter te metido nessa. A Jane me falou que você tava super mal o dia todo. , eu juro que não queria isso.
Afastei com cuidado minha amiga e sorri ao olhá-la nos olhos.
- , eu quis entrar com você. Obviamente não esperava que fosse sorteada, mas eu sou a responsável por isso. Era meu o dever de pensar nas consequências, não deixe de aproveitar esse momento apenas porque não estou tão feliz quanto você.
- E hoje eu fui tão egoísta. Minha intensão ao te ligar era mostrar que não precisava se desesperar, mas no fim apenas soou como se eu estivesse feliz com sua tristeza.
Não pude deixar de me sentir feliz ao ouvir aquilo. Eu não tinha perdido minha amiga. O ego da coroa não tinha a afetado como eu achava que tinha.
- Tá tudo bem, . Não se preocupa com isso.
- Obrigada e me desculpa por tudo isso.
Sabendo que tinham pessoas me esperando, puxei-a para um abraço e falei em seu ouvido:
- Deixa disso, não tem o que se desculpar. Te amo, . v- Te amo, ).

👑👑👑


Nos dois dias seguintes, que seriam os dias de votação, a gente ganhou acesso a um site compartilhado entre as setentas garotas, onde a gente tinha o dever de atualizar com qualquer que fosse a coisa, ao menos cinco vezes no dia. Eu me restringi ao número mínimo, assim como mais algumas, mas , por exemplo, postou mais que o dobro disso.
Pelo que via, já existiam as preferidas e algumas delas nem precisaram postar tanto para isso. Os prefeitos de algumas cidades estavam empenhados em levar sua garota para o palácio. Orgulhei-me ao ver que minha amiga, mesmo sem esse incentivo extra, estava nessa lista. Ainda não queria que ela ganhasse aquela votação – já que ela ganhar me colocaria direto dentro do palácio – mas queria que quando ela entrasse, já fosse querida.
No terceiro dia, onde só erámos obrigadas a postar três vezes, era o dia em que o resultado seria divulgado. Todas nós fomos levadas a Angeles, para estarmos todas juntas quando o resultado fosse dado. Cada dupla viajou em um avião.
- Dá pra acreditar nisso, ? Estamos em um avião real – disse, quicando na poltrona.
- Na verdade esses aviões não são reais, apenas foram alugados pela coroa.
- Para de ser estraga prazeres, sua chata – falou, me chutando de leve. – Aproveita o momento.
Ela estava certa. Mesmo que não concordasse com aquilo, eu precisava relaxar e aproveitar de um extremo conforto que provavelmente jamais voltaria a ter.
Tomei um pouco do suco que nos serviram e depois fechei os olhos agradecendo pelo fim que seria dado aquela história toda em poucas horas. Obviamente eu já não era um anônima, mas alguns meses depois eu, de certo, cairia no esquecimento e teria minha vida outra vez.
Eu não poderia estar mais enganada.


Eu nunca achei que usaria algo tão deslumbrante em minha vida como estava usando naquele momento. Meu vestido longo – exigido para todas as garotas – tinha um tom rosa claro. Os meus ombros eram cobertos por um tecido transparente com pérolas que também ficava por cima do vestido por completo. O vestido rosa claro não tinha mangas, além do tecido transparente, e era justo até minha cintura, onde ele se abria um pouco formando uma saia leve e cheia de tecido, mas não armada, já que me recusei a usar algo armado. Eu me sentia linda e feliz por saber que pegaria minha carta de alforria.
Sorri na frente do espelho e aceitei de bom grado o abraço da equipe que me desejava uma sorte que não fazia nem um pouco de questão de ter.
As setenta garotas foram distribuídas em dois grupos que ficaram no lado esquerdo e direito do salão de filmagem. Como eles queriam que as duas garotas de cada província sentassem perto, então um lado teve duas garotas a mais que o outro.
- Dá pra acreditar que estamos vestindo algo assim? – indagou quando chegou ao meu lado.
- Com toda certeza, não – respondi aos risos.
- Espero que possa levar pra casa, quero poder usá-lo antes de voltar ao palácio.
Não pude responder sua frase, já que no segundo seguinte pediram silêncio para começar a gravar.

O mestre de cerimônia oficial da coroa entrou no palco e começou a falar várias mentiras que justificavam a volta da Seleção. Depois disso a palavra foi passada ao rei, que falou de maneira breve mais algumas mentiras e depois foi anunciado quem daria o resultado.
- Eu cheguei aqui achando que quem anunciaria a ganhadora da votação seria eu, mas ao chegar aqui a nossa equipe achou que nada mais justo que o próprio príncipe dizer quem será sua primeira pretendente. Alteza, junte-se a nós e nos dê o prazer de saber quem dessas maravilhosas garotas foi escolhida para ser parte efetiva da Seleção.
Ainda bem que a câmera não estava focada no príncipe naquele momento, porque eu, que estava o olhando, pude ver o horror percorrer seu rosto ao receber aquela notícia e me perguntei por que não tinham avisado a ele antes. Príncipe precisou de alguns segundos para conseguir levantar e caminhar até nosso mestre de cerimônia, mas em fim chegou lá.
- Vocês ainda vão me matar de coração – ele brincou, certamente tendo noção que se a câmera estivesse focada nele na hora, todos de Illéa veriam sua reação.
- Jamais, alteza. Quero vê-lo bem e vê-lo feliz ao lado de uma dessas garotas – Cail, disse, puxando o príncipe pra um abraço. – Pode nos dar a honra de conhecer qual delas já faz parte das trinta e cinco garotas? – indagou enquanto colocava o envelope nas mãos do príncipe.
- Claro.
Eu tenho certeza que esperavam mais suspense e paciência do príncipe ao anunciar quem tinha ganhado a votação, mas ele foi rápido e desesperado. Não tive tempo de me preparar para o que estava por vir, antes que pudesse puxar o ar para meus pulmões escutei uma notícia ainda pior que ouvir meu nome sendo tirado daquele cesto três dias atrás.
- E a nossa amada Illéa decidiu que essa garota será: Mitchell.
gritou alto e depois me agarrou aos prantos. Demorei cerca de um minuto para chorar também. Mas enquanto ela me abraçava querendo compartilhar sua felicidade e chorava de prazer, eu a abraçava em busca de consolo e cada lágrima que caía era de tristeza e desespero.
tinha conseguido ganhar. era a primeira garota da Seleção. E eu, , a garota que escrevia contra o atual governo, era a segunda.


Capítulo Quatro

Todas as garotas já haviam sido encaminhadas para o hotel e seguiriam para suas casas no dia seguinte. Com exceção de Mitchell que permaneceria lá até que as outras participantes fossem selecionadas. Sua família seria encaminhada para o hotel para passar os próximos três dias que antecederiam a divulgação da lista oficial ao lado da garota.
Embora a divulgação da escolhida tenha dado uma das maiores audiência dos últimos tempos, o rei não parecia tão contente com o resultado.
- Você viu a forma com ele anunciou, Daisy? – o rei perguntou a esposa. – Viu como ficou nítido que aquilo era um sacrifício para ele?
- George, ele apenas estava nervoso. Você deveria entendê-lo. Há anos não existe Seleção. Não ficaria nervoso se tivesse passado por isso?
O Rei George deu um sorriso debochado para a esposa.
- Talvez uma Seleção fosse tudo que eu precisasse agora. Um monte de garotas lindas a minha disposição. Talvez eu até encontrasse uma melhor que você.
A rainha não pôde responder. Um dos conselheiros apareceu no momento, anunciando que a presença do rei era necessária na sala de reuniões para tratar de alguns assuntos orçamentários.
- Converse com seu filho, Daisy. Eu mato aquele garoto se isso não sair como planejei. – ele cochichou.
Como sempre era na frente das pessoas, ela retribuiu as palavras com um sorriso e um beijo no rosto do esposo como se tivesse escutado a mais linda declaração.
- Também amo você, George.
Assim que virou as costas falou consigo mesma.
- Um dia ele morre e você não precisará conviver com ele. Ele há de morrer.

A Rainha Daisy tinha muitos defeitos. Era distante do povo e da família, dissimulada e ambiciosa, mas ninguém poderia contestar seu amor pelos filhos, embora ela demonstrasse pouco. Assim que deixou o marido no corredor, seguiu para o quarto do filho para tentar arrumar as coisas.
- Posso entrar? – perguntou.
- Claro, mãe.
levantou e como de costume beijou a testa da mãe e a abraçou rapidamente.
- O que te traz aqui?
- Seu pai não gostou muito do seu jeito no programa hoje. E embora eu odeie dar razão a ele, acho que realmente você poderia ter sido melhor na sua performance.
- Performance? Mãe, é o meu futuro que está em jogo!
- Filho, é o seu dever como príncipe. Você sabe que deve fazer o que for necessário para o bem do povo.
sabia que seria muito melhor se manter calado, mas ao ouvir aquilo toda sua tensão e seu estresse guardado desde que aquela maldita Seleção começou, atingiu o ápice.
- Dever? Isso não seria meu dever se meu pai realmente trabalhasse pelo bem do povo. Além do mais, isso está longe de ser pelo povo, é apenas pela coroa. E ainda que você estivesse certa, acho que seria a pessoa errada para me dizer isso.
Ele viu sua mãe mudar de feição e aos poucos seu rosto assumir uma expressão de indignação.
- Isso é uma crítica a sua mãe?
Era tarde demais para voltar atrás nas palavras ditas, agora iria até o fim.
- O que a senhora tem feito pelo povo? Qual foi a última vez que “sujou” suas mãos reais para fazer algo além de aparecer esporadicamente em eventos beneficentes? Até mesmo o rei faz mais do que você.
- Acha que nunca amei Illéa? Acha que sempre foi assim?! – a rainha indagou consternada. – Esse país já foi tudo para mim. Eu vim da Nova Escócia decidida a viver meu dever para com o povo. Mas há anos Illéa se transformou em meu motivo de vergonha. Não há uma vez em que eu saia em público e não tema encontrar uma das mulheres do seu pai. Eu já tive que me inclinar para uma plebeia porque ela exigiu que eu fizesse isso ou diria no meio do evento que dormiu com o rei. E quando fui falar com o George, sabe o que ele disse? Incline-se.
Escutar tudo aquilo somado a rosto consternado da mãe fez com que recuasse um pouco em suas palavras. Respirou fundo, baixou o tom e falou:
- Mãe, todas essas garotas estão vindo para o palácio sonhando com um romance encantado. Você viu a cara da menina que venceu? Mãe, ela chorava desesperadamente por ter sido selecionada. Aquilo não poderia ter me assustado mais. Elas estão vindo a procura de um amor que provavelmente não vão ter.
- Nem tudo se resume a amor, . Você vai estar dando a essa menina ao menos alguns meses de uma vida que sem a Seleção ela nunca teria. Ainda que acabe com ela, a vida dessa garota melhorará como ela nunca imaginou. E isso muitas vezes é o que basta. O que uma mulher poderia querer de melhor?
- Então talvez a senhora não tenha tanto o que reclamar assim da sua vida.
- Eu quase sempre odeio seu pai, mas minha família, embora tivesse título, estava fracassada. Não me arrependo de ter casado, morar com George é muito melhor que ter que vender todos os bens e viver como uma simples plebeia.
queria vomitar ao escutar aquilo. Que saudade sentia do avô. Fora a única pessoa com escrúpulos que chegou a conhecer.
- Além do mais, eu ganhei você e o George. E meu amor por vocês transforma tudo em algo suportável.
Mesmo diante daquela declaração ainda se sentia enojado.
- Por nós e pelo dinheiro.
- Sim. – a rainha respondeu com calma. – Mas ainda que você não me admire, não duvide do que sinto por vocês. Você e seu irmão seriam os únicos motivos que me fariam deixar o dinheiro de lado. Apenas vocês.
se manteve calado. Era muito melhor que dizer que não conseguia acreditar de verdade naquilo.
- Eu preciso ir. – a rainha falou – Mas não esqueça o que falei, . Gostando ou não esse é o seu dever, e sabendo quem é pai eu sugiro que o cumpra com excelência.
Assim que ficou sozinho no quarto quis quebrar tudo que tinha ali, mas a verdade é que ele nunca foi dado a esse tipo de atitude. Quando finalmente se acalmou escutou outra batida no seu quarto, mas decidiu ignorar, até que viu a porta ser aberta mesmo sem sua autorização e seu irmão aparecer lá dentro parecendo em pânico.
- Eu preciso que você faça alguma coisa pela outra menina que é da província da tal . Eu resolvi sair mais uma vez escondido e assim que cheguei no bar escutei algumas pessoas conversando e dizendo que já sabiam como mandar uma mensagem para a coroa. Era só atingir a única selecionada que eles têm acesso. Certamente será mais ovos e comida podre, mas ainda que seja algo que não mata, essa menina não tem culpa, .
- Como assim? Do que você tá falando?
- Não precisa ser muito inteligente para entender que se escolheremos mais uma de cada província, essa menina já está dentro, . O povo entendeu e quem nos odeia agora odeia ela também. Seu nome é e agora ela é o alvo.



Capítulo Cinco

A noite após o resultado foi uma das piores da minha vida. Eu não conseguia acreditar que um favor a uma amiga tinha mudado tanto meu caminho. Tentei conter as lágrimas que insistiam em cair. Sabia que provavelmente teriam fotógrafos no aeroporto e não queria estar de cara inchada em todos os jornais e revistas.
Conter as lágrimas até que foi uma tarefa fácil, mas dormir foi algo quase impossível. Eu tentava me enxergar no palácio e sempre acontecia algo de ruim no fim de cada visão. Eu perdia a amizade da , era presa, era presa em meu lugar e até mesmo eu casava com o príncipe e era condenada a uma vida infeliz ao lado de alguém que eu não admirava.
No dia seguinte, depois de ter dormido o que me pareceu poucos minutos, levantei crendo que teria ao menos uns três dias de vida normal, mas assim que abriram a porta do quarto em que eu estava e levantei com minha mala, fui recebida por um homem que parecia falar um monte de coisas sem nexo.
Ataque... sua casa... família... o tal homem continuava a contar uma história que meu cérebro ainda era incapaz de compreender.
- A senhorita está bem? – o homem perguntou, finalmente percebendo minha incapacidade de acompanhar a história.
- A-ata-atacaram minha família? – consegui me forçar a perguntar enquanto sentia meu corpo inteiro tremer.
- Não! Senhorita, mantenha a calma. Sua família está bem.
- Mas você disse...
Uma das criadas que me ajudou durante minha estadia no hotel se aproximou e me guiou até a cama.
- Fique calma, senhorita. Ele não disse que sua família foi atacada. Mantenha a calma.
- Isso mesmo. Estou dizendo que algumas fontes nos informaram que um grupo pretende ir até sua casa e jogar coisa em vocês, assim como fizeram com a família real. Acredito que a senhorita saiba o motivo.
Não. Eu não fazia a mínima ideia do porquê era alvo do ódio de pessoas que eu nem conhecia.
- Eu não faço a menor ideia.
- A senhorita, embora ainda não oficialmente, é uma das selecionadas. O povo percebeu isso e alguns decidiram atacá-la para então ferir a coroa.
Olhei para onde estava e rapidamente a possibilidade ser atacada sumiu da minha mente. Eu estava muito bem segura. Só que isso não me acalmava em nada. Apenas me deixava culpada. Enquanto me encontrava segura, minha família corria risco. Afinal, quem poderia me dar a certeza de que seriam apenas frutas e pedras?
- Minha família! Como está minha família?
- Foi dela que vim falar, senhorita. A senhorita não voltará para casa e sua família virá ao seu encontro até que todas as selecionadas sejam divulgadas e assim possamos fazer a segurança de sua família de forma direta.
- Eles virão para o hotel?
- Não podemos hospedar nenhum de vocês aqui. De acordo com as normas, a senhorita só poderá ter os privilégios de selecionada depois que anunciarem seu nome oficialmente. E hospedar vocês aqui seria dar a mesma coisa que a senhorita está tendo. Então, nossa ajuda será de forma informal e desde já peço que mantenha sigilo.
- Se vocês não podem fazer a segurança da minha casa e nem podem nos deixar aqui, o que irão fazer?
Eu não podia acreditar naquilo tudo. Uma decisão, e além de me colocar no meu maior pesadelo, agora tinha colocado minha família também.
- Nenhum lugar será mais seguro e longe de curiosos que o castelo. Claro que a senhorita e sua família não ficarão hospedadas efetivamente lá, mas tem uma casa, que era de um antigo funcionário, que fica dentro da propriedade e está desocupada. Ela abrigará vocês.
- Eu vou para o castelo?
- Preciso que a senhorita entenda que não frequentará o castelo de fato. Não chegará nem perto dele, para ser sincero.
Aquele homem parecia dizer aquilo como uma repreensão. Ele achava que eu ficaria desapontada ao escutar suas palavras, mas na verdade elas me confortavam. Tudo que eu menos queria era perder para aquela maldita Seleção meus últimos três dias perto da minha família, e diante das circunstâncias, onde de qualquer forma eu já os havia perdido, saber que eu ficaria bem longe do castelo de fato era um conforto.
Não sei se demorei tempo demais calada, mas quando dei por mim o homem já estava indo embora. Chorei assim que fiquei sozinha. Minha criada havia ido cuidar para que minha mala fosse levada ao castelo e eu me encontrava encolhida na cama, como se aquela posição me deixasse um pouco mais segura para o que viria.

👑👑👑

Quando cheguei à casa, minha família já estava lá. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa minha mãe veio me dar um abraço apertado.
- Filha, como você está? Você está bem? – ela indagou enquanto examinava cada parte do meu corpo com aquele olhar cuidadoso que apenas mães sabem ter.
Antes mesmo que eu pudesse responder, meu pai também veio me abraçar e fazer suas próprias perguntas.
- Foi calmo até aqui? Você sabe quando poderemos ir embora? Como você está? Pode nos falar a verdade.
- Gente, eu já falei pra vocês ficarem calmos. Olha só onde estamos. Acham mesmo que precisa de todo esse drama? – eu não precisei olhar para saber que aquela voz cheia de impaciência era da Jane.
- Jane, – comecei irritada – será que você sabe que fomos trazidos para cá porque pessoas queriam nos ferir de alguma forma?
- E agora nos encontramos no castelo. O lugar mais seguro que esse país tem. Não perdemos nada com isso. Só teremos mais conforto. Deixa de drama.
Não sei bem o motivo, mas quando percebi estava chorando e praticamente gritando com Jane.
- A família Schreave anda pouco se importando conosco por anos, Jane. O povo foi deixado de lado por todo esse tempo e agora, para tentar nos manipular, ela nos joga nesse jogo insano que é a Seleção. Eu passarei sei lá quanto tempo disputando com garotas que eu nem sei quem são. Disputarei algo que nem quero com minha melhor amiga. Nenhuma dessas garotas terá a chance de viver o conto de fadas que sonha porque sabemos que isso não passa de uma manipulação barata da coroa. E tudo, Jane, tudo que eu queria era poder ir pra minha casa e viver ao menos três dias da vida normal que eu tinha, mas em vez disso estou presa em um lugar com muros enormes porque minha família, quer sua mente oca enxergue ou não, está em perigo. Você acha que seria trazida aqui a troco de nada? A ameaça é real, Jane. Então não me peça para deixar de drama. Não me faça suportar menos você do que eu já não suporto várias vezes.
Assim que terminei de falar Jane me encarou de nariz empinado, mas com lágrimas nos olhos.
- Eu sinto muito de não ser a irmã que você sonhou em ter, mas se quer saber, prefiro muito mais eu que você.
Ela seguiu para onde provavelmente era o quarto e minha mãe foi atrás, já meu pai me deu um abraço.
- Entendo sua revolta e seu medo, mas não desconte em quem não merece, está bem? A Jane não faz por mal, ela apenas admira a família real, coisa que não é incomum. Não dá pra culpar um cachorro de caça por caçar, ele foi criado e educado para isso. E caso você queira mudá-lo, essa mudança não será da noite para o dia.
- Eu só... – eu sabia que tinha errado em algumas palavras, mas será que a Jane não podia ser um pouco mais sensível?
- Você está sobrecarregada e assustada, meu amor. Acredite se quiser, até mesmo a Jane sabe disso. – Ele disse e depois beijou minha testa. – Apenas não esqueça que sua família te ama e sempre estará com você.

Já era noite e Jane e eu ainda não tínhamos conversado, sendo muito sincera, eu não tinha certeza se queria ter aquela conversa. O dia havia sido pior do que eu imaginava e sentia que aquela conversa poderia deixá-lo ainda pior.
Estávamos sentados à mesa para jantar. Um funcionário do castelo havia deixado tudo pronto para nós e eu seria muito ingrata se falasse que a comida não era a melhor que eu já tinha colocado na boca.
- Minha nossa! – Jane exclamou assim que colocou a primeira garfada na boca.
- Isso é divino! – meu pai também exclamou aos risos e fez todos nós rirmos juntos.
- Eu poderia comer essa mesma coisa por toda a minha vida. – Minha mãe disse e eu concordei com a cabeça.
- Achei que eles fossem mandar os insumos para que nós mesmos fizéssemos nossa comida.
- Acredito que isso daria um pouco mais de trabalho. Eles teriam que permitir que algum de nós fosse ao castelo pegar o que a gente julga que precisa. E o homem que me visitou deixou claro que nem chegaríamos perto do castelo de fato.
- Quando o Justin souber... – Jane começou, mas eu a interrompi.
- Não! Não, Jane. Você não pode falar disso com ninguém. Nem mesmo com seu noivo.
- Quem vem ao castelo e guarda segredo? – ela perguntou, chocada.
- Havia até a possibilidade de que vocês fossem feridos, Jane. Por isso viemos para cá. Mas a coroa está fazendo isso por debaixo dos panos. Isso foi uma medida de emergência para tentar concertar um problema que eles mesmo causaram. Só que eu ainda não fui apresentada como selecionada, eu não deveria estar junto com vocês comendo essa comida deliciosa. A coroa não permitiu que nada disso fosse divulgado. Se essa história sair eu não sei de que forma podemos ser punidos.
- Eles te falaram isso?
- O que você acha?
- Mas o Justin...
- Filha, - minha mãe interveio – acho melhor não arrumarmos problemas para a e para nós mesmos.
- Esse segredo todo faz com que eu me sinta uma prisioneira. – Ela reclamou.
Jane finalmente havia visto as coisas da forma que todos nós víamos.
- É basicamente o que somos por esses três dias, Jane.
Tenho quase certeza que se a comida não fosse tão gostosa, Jane teria perdido o apetite. Porém ela comia tudo de maneira furiosa e magoada.
Antes que eu terminasse minha janta, pudemos ouvir alguém bater na porta e eu, como a responsável pela casa, fui atender. Grande foi o choque ao ver que quem estava do lado de fora era o príncipe George.
- Boa noite, senhorita.
Fiquei tanto tempo paralisada que quase esqueci que deveria fazer alguma reverência. Coisa que o príncipe parecia esperar.
- Alteza. – Finalmente falei e me curvei um pouco. – Aconteceu algo?
- Alteza?! – ouvi meu pai falar um pouco alto e quando virei, minha família estava chocada encarando o homem na porta.
- Boa noite a todos. Interrompi algo? – ele perguntou ao ver que Jane segurava um garfo.
Como minha família parecia chocada demais para falar, expliquei.
- Estávamos terminando o jantar, mas está tudo bem. Aconteceu alguma coisa? – tornei a perguntar.
O príncipe demonstrou perceber que talvez uma conversa na frente da minha família fosse algo grande demais para exigir segredo, então ele me convidou a sair da casa.
- Poderíamos conversar um pouco aqui fora, senhorita?
Eu não sabia se queria conversar com ele, mas achei prudente ir.
- Claro. – E então saí, fechando a porta atrás de mim.
- Meu irmão queria ser a pessoa que viria até aqui, mas você deve imaginar que a Seleção está deixando-o bastante ocupado. Fora que seria um escândalo imenso se descobrissem que vocês se viram.
- Compreendo.
- Então ele me pediu que viesse até aqui primeiro para se desculpar por todos os transtornos. E também para saber se estão bem instalados.
- É uma boa casa. – falei, sem saber bem o que responder.
- Quero que saiba que as desculpas dele também são minhas.
- Acredito que desculpas não mudarão muita coisa. – falei sem pensar e então me dei conta, ficando sem saber o que fazer.
- Não, senhorita, nossas desculpas não mudarão nada. Mesmo assim espero que as aceitem.
Fiquei calada. O príncipe acabou rindo.
- Percebo que o terá ao menos uma garota difícil para lidar. Informarei isso a ele.
- Não sou difícil. – Rebati – Apenas acho que não há clima bom para que algo legal seja dito.
- Não está feliz de ter sido selecionada?
Eu tinha a resposta pronta, mas eu sabia que não poderia falar a verdade. Aquilo poderia me colocar em problemas, ainda mais porque até onde eu sabia, o príncipe que estava falando comigo era o problemático.
- Não esperava que minha família corresse perigo. Apenas isso.
- Compreendo. Mas bom, gostei de você. – Ele falou com um sorriso no rosto. – Eu sempre gosto de alguém que possa tirar meu irmão do sério e você parece capaz disso. – E então ele acabou rindo de verdade, tanto que suspeitei ter perdido a piada. – Agora preciso ir, senhorita. Ninguém pode saber que estive aqui, peço sigilo da sua parte e da sua família.
- Manteremos segredo, Alteza.

No dia seguinte fomos abençoados com um café da manhã que parecia superar o jantar, se é que isso era possível. O almoço conseguiu superar as duas outras refeições. E o nosso segundo jantar quase fez todos chorarem.
- E eu achando que o que comíamos era comida. – Minha mãe falou.
- Você cozinha tão bem quanto eles, meu amor. – Meu pai lhe falou enquanto fazia carinho em sua mão.
Jane e eu suspiramos.
- Vocês são tão lindos. – Jane disse encantada.
Meus pais eram assim: do nada transbordavam amor. Jane e eu não poderíamos ser mais abençoadas de tê-los como pais.
- Eu não queria estar aqui, mas fico feliz que estejamos todos juntos. – Meu pai disse e a gente sorriu em resposta.
Ele estava certo. Aquilo era bem mais fácil tendo-os ali.
Não tardou para que escutássemos alguém batendo na porta. Todos levantaram num pulo suspeitando que era o príncipe como na noite passada. Estávamos certos.
- Alteza. – Todos falamos juntos.
- Boa noite. Senhorita , poderia me acompanhar? – e logo foi se retirando da casa.
- Ele nos ignora. – Ouvi Jane cochichar e fiquei triste por ela só ter percebido agora.
- Meu irmão praticamente me obrigou a vir aqui te entregar isso. Concluo que saiba que ninguém pode saber disso. – Ele advertiu enquanto me dava uma carta.
- Pode deixar.
- E isso inclui sua família. – Ele tornou a advertir.
- Pode deixar. – Repeti, mesmo com vontade de dizer que minha família era de muito mais confiança que ele.
- Não tornarei a essa casa, então acho prudente me despedir da sua família.
- Certo. – Foi o que consegui dizer.
Porém, quando achei que ele fosse entrar na casa, ele voltou-se para mim de maneira intrigada e falou:
- Eu queria acreditar que você é apenas uma menina irritante, senhorita . Ou que você é uma das muitas garotas apaixonadas que serão anunciadas amanhã, mas você não me convence em nenhum dos papéis. E se quer saber, isso me deixa bastante preocupado.
Meu coração gelou e eu achei que fosse colocá-lo pela boca. Meu Deus, ter o príncipe como inimigo quando se vai morar na casa dele é bem pior do que eu imaginava para os meus dias de seleção.
- Como? – consegui perguntar, mesmo com medo da resposta.
- Há algo que não sei decifrar, mas que me deixa preocupado. Não só pelo meu irmão, que pode acabar se machucando nesse processo, mas também por você. Meu pai certamente também perceberá isso e sinto informar, isso não será nada bom para você. Suspeito que meu irmão também vá, mesmo que sua beleza seja perturbadora. E bom, é um completo cavalheiro em noventa por cento do tempo, mas não o queira como inimigo.
- Eu não quero ser inimiga de ninguém. – falei com o coração aos pulos e com a mão tremendo.
Rapidamente coloquei as mãos para trás para que ele não percebesse.
- Mas apesar de tudo eu simpatizei com a senhorita, então, se quer um conselho, aprenda a jogar ou terá problemas nesses meses.
Uma ira cresceu dentro de mim ao ouvi-lo meio de forma discreta, chamar tudo aquilo de jogo. Isso foi mais um motivo para minha mão tremer.
Coloquei as mãos para frente e apertei uma a outra para tentar conter os tremores enquanto falava de forma controlada.
- É algo que envolve os sentimentos do seu irmão, acho que o senhor não deveria me mandar aprender a jogar numa situação dessa.
- A vida é um jogo, cara senhorita . E eu não sei você, mas gosto de saber para onde minha peça está sendo levada. Além do mais, a senhorita me parece esperta demais para entender o que quero dizer. Não vamos agir como rebeldes que problematizam tudo.
Eu sabia, bem lá no fundo, que ele não fazia ideia que estava falando com uma possível rebelde. Mas ouvi-lo proferir aquelas palavras me causaram calafrios e eu quis vomitar. Mesmo tentando manter uma postura equilibrada, passei os braços ao redor do corpo, poderia me fazer parecer frágil, mas era a única maneira de me manter em pé.
- Agradeço os conselhos, Alteza.
- Vamos entrar. Irei saudar e me despedir da sua família.
Tudo que o príncipe George falou lá dentro não foi captado por mim. Na minha mente um alarme havia soado e tudo que eu queria era estar bem longe dali, ou ao menos ter minha família longe. Se eu fizesse algo errado queria arcar com tudo sozinha.
Assim que ele nos deixou eu segui para o meu quarto com a desculpa que estava com dor de cabeça e peguei meu computador para escrever, mas eu não conseguia concluir nada. Eu queria dizer ao povo que vivíamos em um jogo maluco onde nós, súditos, além de não ditar nenhuma regra, ainda estaríamos sempre em desvantagem. Queria falar para eles que todos jogam, mesmo os que se omitem, mas nesse caso eles eram os peões do lado da monarquia, os sem título algum que eram quase sempre os primeiros a morrer. Mas nada disso eu conseguia colocar na página em branco que estava na tela do meu computador. Queria socar alguma coisa, era frustrante aquela sensação de estar de mãos atadas em uma situação em que você precisa muito fazer algo.
Depois de alguns minutos de choro eu decidi ler a carta que o príncipe havia me enviado. Sabia que havia possibilidades de me assustar ou me revoltar ainda mais, mas eu preferia a leitura a ter que ficar imóvel na cama.

“Boa noite, senhorita . Eu na verdade estou escrevendo isso durante à tarde, mas como sei que meu irmão só irá entregá-la à noite, resolvi te saudar no seu tempo e não no meu.
Provavelmente seus dias aqui no castelo devam estar sendo entediante e maçante, ainda mais quando não se pode sair de casa como é seu caso, mas eu espero que esteja gostando de algo. Assim como sua família, não podemos esquecer dela.
Queria começar lhe pedindo desculpas por todo o transtorno. Estou acostumado a viajar muito, mas sei que nada supri a sensação boa que é estar em casa. Então, me desculpe por tudo isso.
Sou muito próximo de meu irmão e de alguma forma me sinto próximo também de você, então queria pedir desculpas por qualquer besteira que ele tenha lhe falado e também pedir para não o odiar, ele fala demais, mas é um bom cara. E talvez você não deva ter essa impressão agora. Ele me falou que será engraçado lidar com você, que você parece difícil – de um jeito bom, – confesso que isso me deixou ansioso e assustado, mas estou tentando acreditar que é apenas uma brincadeira dele.
Não se pelo jeito implicante do meu irmão, ou algo assim, mas temo que você não seja uma das garotas mais empolgadas. Entenda que ele não me disse nada, mas anos de convivência me permitem lê-lo com uma certa facilidade. Mas espero não trazer mais tristeza para a senhorita.
Quando nos encontrarmos espero que separe um tempo para conversarmos. Estou ansioso para conhecê-la de fato.
Com cuidado, Príncipe Schreave.”

Ao terminar a leitura eu percebi que teria que ser ainda mais cuidadosa do que achava que fosse precisar. Embora o príncipe tenha dito que seu irmão não lhe disse nada, tinha ficado óbvio que ele estava com algumas ressalvas, e se eu não tomasse cuidado poderia me meter em muitos problemas.
A sensação de que estava aprisionada aumentou dentro de mim e antes que eu percebesse já estava derramando algumas lágrimas. Gozando do que poderia ser meu último grito de liberdade, resolvi escrever para o site.


“Está confuso para todos.
Eu não sei muito bem o que escrever para vocês hoje, mas algo dentro de mim queima dizendo que eu deveria fazer isso. Me sinto confusa, sem saber no que acreditar e parte de mim também está amedrontada. Eu não sabia que os últimos acontecimentos de Illéa poderia mexer tanto comigo. A verdade é que eu estou confusa e acredito que esteja ou vai ficar confuso para todo mundo.
Daqui a menos de vinte e quatro horas vocês conhecerão as 35 outras garotas – ou seriam 34? – que formarão o time das selecionadas. Cada passo dessas garotas vai chamar atenção de vocês, um por um. Os possíveis romances vão despertar sentimentos que parecerão estar sendo vividos por vocês e não por eles, e então vocês pouco lembrarão o que está acontecendo ao redor.
Que fique claro que eu não repudio quem assistir ao programa, eu mesma serei uma telespectadora presente, mas vocês não podem esquecer que são vidas, pessoas que têm vivência diferentes da nossa. E principalmente não podem esquecer que isso aqui ainda é um pão e circo, A Seleção continua tendo um objetivo muito diferente do contado.
As meninas não são vilãs, o príncipe – meu maior motivo de confusão – talvez seja, ou talvez não seja. Mas existe um vilão, e ele quer nos enganar. Consuma a cultura inútil que é A Seleção, mas não esquecendo que um dia ela acaba e os problemas do país não.
Está todo mundo confuso e eu sei. Mas não esqueça quem é o verdadeiro vilão e quem você deve combater de verdade.”

👑👑👑

A manhã do dia seguinte teve clima de despedida, embora ninguém tenha falado nada. Durante a tarde não houve muito tempo para este clima, já que entre o fim da manhã e o início da mesma os funcionários da família real nos levaram de volta para nossa casa a fim de que o prefeito pudesse me parabenizar quando meu nome fosse dito naquela noite. O plano anterior proposto pelos organizadores era que após o sorteio ainda houvesse mais dois dias para então sermos confinadas no palácio, mas graças ao problema que enfrentei os planos foram mudados e embarcaríamos na manhã seguinte.
- Nunca pensei que fosse dizer isso, mas estava com saudade daqui. – Jane falou e meus pais riram. – Sério!
- Todos nós estávamos, filha. – Meu pai disse enquanto beijava a testa dela.
- Vai ser estranho não te ter mais aqui, . – Minha irmã falou, do nada, e não consegui esconder a surpresa.
Provavelmente meus pais acharam que seria um bom momento para nos reconciliarmos, porque quando olhei eles já haviam nos deixado a sós.
- Vai ser estranho não ver mais vocês também.
- Não quero que vá embora assim. Não quero estar brigada contigo. Sabe-se lá Deus quando você volta.
- Acredito que rápido. – Respondi, ainda sem saber muito o que dizer. – Mas também não quero ir embora com a gente assim.
Jane ergueu um pouco a mão e então falou:
- Bem novamente?
Apertei sua mão em reposta.
- Bem novamente.
Jane me puxou para um abraço.
- , – começou a falar assim que me soltou – você sabe que as meninas receberão algo pelo tempo que ficar lá, né? Graças a Deus não passamos fome nem nada, mas esse dinheiro viria muito a calhar, principalmente para sua faculdade. Mamãe e papai se culpam por não ter me dado essa chance, embora eu já tenha explicado a eles que nem é meu sonho, e também que sou nova e posso fazer depois de casada. Você é a menina inteligente da casa, sabe que eles farão até o impossível para te dar isso.
- O que você quer dizer?
- Que talvez não seja bom você tentar vir logo. Quantos eles disseram que pagavam por semana?
- Ainda não falaram, só sei que recebe.
- Bom, dependendo de quanto for, tente ao menos sobreviver um mês lá.
- Não sei se consigo, Jane.
- Você é uma menina inteligente, não vai demorar pra perceber que essa é a melhor decisão.
- É. E eu terei a lá, talvez isso facilite as coisas.
- Isso se você não se apaixonar pelo príncipe e perder essa pose toda.
- Isso não vai acontecer – falei, brava.
- É o que veremos – Jane disse, rindo. Escolhi relevar para não brigarmos novamente.

Quando chegou a noite nós vimos os guardas, que até então nos vigiavam de forma oculta, se revelarem e fazerem guarda em frente de casa. O rei havia mandado guardas para as casas de todas as pré-selecionadas para que não houvesse nenhum imprevisto.
Embora eu já soubesse que faria parte do programa, a cada minuto a menos para o início do Jornal Oficial eu ficava mais ansiosa. Sentia que algo poderia acontecer a qualquer momento, só não sabia o quê.
- Está tudo muito parado. – Meu pai comentou enquanto olhava a janela.
- E o que você está esperando que aconteça? – minha mãe indagou, sem entender.
- Tentaram nos atacar quando se deram conta que a era uma das selecionadas. Tá parado demais para o dia oficial do sorteio.
- Não tá, não. – Jane falou apontando para a tevê e podemos entender do que ela falava.
Algumas pessoas, mais de cem isso eu posso afirmar, estavam sentadas na praça de Clermont segurando alguns cartazes. Não havia bagunça, apenas elas caladas, algumas com o rosto pintado mostrando o que queriam falar para a coroa.
“Esse jogo já nos levou uma.”
“O pão e circo não nos faz esquecer do presente e muito menos do passado.”
Não precisava de muito mais para entender de quem eles falavam. Celeste Newsome era o nome dela. Havia sido morta dentro do palácio, no dia em que o rei Maxon iria anunciar sua esposa entre Kriss Ambers e a rainha America.
Assim que os responsáveis pelo jornal se deram conta do que estava escrito, a filmagem foi cortada e voltou para o âncora.
- O que aconteceu com a linda jovem Celeste Newsome há muitos anos todos sabem que não foi culpa da coroa, mas sim de rebeldes, que se diziam pacíficos como esses que estão na praça, mas eram na verdade sanguinários que buscavam a destruição de toda Illéa. Admiro a coragem e fé da coroa em deixar protestos como esse acontecerem. Espero que estes manifestantes não matem mais ninguém. – O homem falou em um tom calculado para nos despertar certo medo.
- Matar! – Minha mãe gritou indignada. – Essas pessoas vão matar quem? Como? Usando cartazes como arma e matando uns aos outros? É óbvio que é um protesto pacífico.
Meu pai, que não costumava discordar da minha mãe, dessa vez mostrou um ponto de vista diferente.
- Meu amor, acontecimentos como aquele deixam marcas que jamais poderão ser esquecidas. Perdemos em um só dia dezenas de pessoas. Não é chocante que as pessoas ainda temam qualquer ato de rebeldia contra o governo.
- Mas eles estão com cartazes! – Ela interveio.
- Eu também acho que não farão nada. – Ele tentou, calmo – Mas eles não foram revistados, e essa talvez fosse a única maneira de provar algo.
- Eu concordo. – Jane disse e eu torci para que não viesse muita besteira. – Eu mesma estou assustada. Espero que realmente não matem ninguém.
Era um pouco difícil admitir para mim mesma, mas a verdade é que eu também estava assustada. E tinha ficado bem mais assustada na época em que me falaram do possível ataque a minha família. Eu até queria, mas não podia discordar de Jane, porque lá no fundo eu talvez fosse ao menos um pouco parecida com ela.
Minha mãe saiu pisando firme e não falamos mais nada sobre aquilo.

Ao começar o Jornal Oficial minha família voltou a se reunir, e embora soubéssemos que eu já era uma selecionada, todos pareciam muito ansiosos.
- Eu acho que vou ter um ataque. – Jane disse enquanto roía suas unhas.
- Acho que estou quase no meu estado que você, filha – minha mãe disse e então meu pai estendeu a mão para as duas.
- Fiquem calmas. Nós já sabemos o que irá acontecer com a , não precisa disso. Além do mais, nada mudará, continuaremos juntos. - Então ele pegou a mão da minha mãe e juntou à de Jane para que pudesse ficar com uma das mãos livre e segurar a minha.
As notícias foram dadas sem citar o protesto de Clermonte. Se por falta de tempo de inserir no jornal, ou receio que os manifestantes conseguissem aliados, eu não sabia. Alguns bons minutos depois foi chamado então o mestre de cerimônia, Klint Covy e a hora do anúncio finalmente chegou.
- Acho que todos vocês estão ansiosos para conhecer as adoráveis trinta e cinco belas garotas que se unirão à nossa linda nessa corrida rumo ao coração do nosso querido príncipe . Então, que tal começarmos? – Klint introduziu o sorteio, logo após ter entrado no palco e ser ovacionado com palmas entusiasmadas. – Mas antes, que tal chamarmos aqui nosso maravilhoso e encantador príncipe? Príncipe , por favor, venha aqui. Temos uma missão para você.
O príncipe levantou-se e pela sua reação concluí que ele já sabia que isso aconteceria. Tinha um sorriso calmo no rosto e caminhava com segurança.
- Boa noite, Klint. Qual será minha missão? Espero que não me coloque em nenhuma situação difícil.
Klint riu de uma forma só sua, que acabava arrancando ao menos um sorriso de todos que assistiam.
- Eu jamais faria isso, Alteza.
- Assim espero – o príncipe respondeu de forma brincalhona.
- Queremos apenas que Vossa Alteza seja o responsável por sortear o nome de cada cesto. Você sorteia, leio o nome e lhe mostramos uma foto da garota selecionada.
- É. Eu sou capaz de fazer isso.
- Então podemos iniciar o sorteio, plateia? Quantos de vocês querem saber quem serão as selecionadas?
Um barulho tomou conta do estúdio e só parou quando os cestos contendo dois cartões cada, foram entrando no palco.
- Pode começar, Alteza.
E então eu vi a confiança do príncipe vacilar. Por uma fração de segundo foi possível ver um certo medo tomar conta do rosto dele. Mas logo o príncipe vestiu sua capa de confiança e lançou a mão no primeiro cesto, o de Allens.
- E começando em ordem alfabética, vamos conhecer a selecionada de Allen. – Klint fez uma pausa dramática e depois falou – Senhorita Alicia Baker, você é uma das selecionadas.
A foto de uma linda garota ruiva apareceu na tela. Vimos também o rosto do príncipe que parecia sereno e sem muita surpresa.
- Ela é linda. – Minha mãe disse e todos nós concordamos.
- Agora é a vez de Angeles.
O príncipe foi rápido e logo Klint estava anunciando.
- E a selecionada se chama Mary Kudrow.
Mary era uma garota de cabelos morenos e curtos que faziam ela lembrar uma boneca. Desde que vi seus vídeos na época em que tínhamos que gravar, que achava isso.
O sorteio foi seguindo e quando estava perto de Sonage ser sorteado, o telefone tocou.
- ? – ouvi chamar do outro lado da linha.
- ! Que surpresa.
- Você está assistindo? Está ansiosa?
- Estamos todos na sala. E ansiosa não, mas com medo.
- Só queria dizer que estamos juntas, tá bem? Eu tecnicamente não poderia estar falando com você agora. Mas precisava te falar que você não está sozinha.
Sem nem perceber, eu já estava chorando.
- Obrigada, . Isso é bem importante para mim – falei tentando segurar o choro.
- Tchau, amiga. Até amanhã.
- Tchau, . Saudades.
Desligamos bem a tempo de escutar Klint avisando que Sonage seria o último e por isso iriam para Sota. Ele pegou o envelope da mão do príncipe e leu.
- A bela Rachel Cooper é a selecionada de Sota.
Rachel Cooper tinha a pele negra e lindos cabelos cacheados. Ela era linda.
O sorteio foi seguindo até chegar a vez de Zuni.
- De Zuni, senhorita Sarah Lee.
Eu pouco vi Sarah, já que estava em pânico por saber que logo em seguida viria meu nome.
- E Sonage só tem um envelope. Ansioso para ver novamente o rosto da moça, Alteza?
- Devo confessar que sim, Klint. – e pela primeira vez o príncipe sorriu de nervoso.
Algo dentro de mim também me deixou nervosa e me peguei ansiosa para ver a reação do príncipe.
Mesmo sabendo que era o meu nome que estava no envelope, o príncipe pego-o, entregou-o para Klint e o mestre de cerimônias abriu e leu:
- E nossa última selecionada a ser anunciada é nossa querida Benett.
Meus olhos não largaram a tevê e eu não me mexi um centímetro. Queria ver a reação do príncipe agora que ele tinha escrito para mim.
O príncipe fixou os olhos no que provavelmente era minha foto e depois virou-se, procurando alguém que suspeitei ser seu irmão. Então depois ele voltou a olhar para a câmera com um meio sorriso que não conseguia esconder seu nervosismo, mas também diversão. Pensei que provavelmente o príncipe George tinha feito alguma brincadeira sobre mim, só podia ser isso. E eu não sabia se gostava de ser uma diversão entre eles.
- Então é isso, amada Illéa. – Klint falou e eu despertei do transe em que minhas emoções me colocaram. – Agora podemos finalmente dizer que é fato. É oficialmente o início da Seleção.


Capítulo Seis

O Jornal Oficial acabou e todos na sala entraram em um silêncio absoluto, nem mesmo Jane falou alguma besteira. Ficamos assim por cerca de três minutos até que minha mãe decidiu que todos precisávamos de um bom café.
- Acho que um café forte vai fazer bem a todos. – ela disse e segui para a cozinha.
Meu pai finalmente desligou a tevê, mas mesmo assim permaneceu em silêncio. Até que Jane finalmente resolveu falar.
- A gente já sabia disso. Tivemos tempo para aceitar tudo.
Ela não estava errada. Eu já sabia disso fazia dias. Todos sabiam. Não tinha muito sentido aquele sentimento de luto, mas ainda assim não consegui fazê-lo ir embora.
Minha mãe chegou com o café, embora cafeína naquele momento em que eu já estava com o coração a mil fosse péssimo, já que eu precisava dormir, aceitei sua oferta.
- Você precisa fazer suas malas.
Quando fomos levadas até o Jornal Oficial nos informaram que a gente não precisa levar muita coisa.
- Vou levar apenas roupa de dormir, uma para vir embora e mais umas poucas para que ainda possa me sentir eu mesma quando estiver lá.
- Quer ajuda? – Jane perguntou enquanto me olhava de forma sugestiva mostrando que as mãos da minha mãe tremiam.
Sabia o que ela queria dizer com aquele olhar. Era melhor que meu pai, e apenas meu pai, cuidasse da nossa mãe naquele momento.
- Sim. – Respondi.
- Posso ajudar também. – Minha mãe falou, mas me apressei a negar.
- Não, mãe. Não precisa. Acho que a Jane só se ofereceu porque quer me aborrecer um pouquinho antes de eu ir. – Tentei brincar.
- Fica comigo, querida. – Meu pai lhe falou de forma calma enquanto segura uma de suas mãos e levava até a boca.
Minha mãe quase sempre mantinha suas emoções sob controle. Era uma mulher explosiva, mas cuidava de sempre se manter longe de coisas que lhe tirasse do sério. Vê-la chorando era muito raro, acho que a última vez que tinha visto foi quando Jane levou uma queda e teve que pontear um ferimento. Jane fez minha mãe jurar que nunca esqueceria dela caso morresse e fez uma baita declaração. Era óbvio que Jane não morreria, e minha mãe sabia disso, mas a forma como Jane falava mexeu com todos nós.
Mas o autocontrole quase sempre presente e a falta de choro não significava que minha mãe não fosse vulnerável. Quando a vulnerabilidade finalmente ficava à mostra a víamos de forma totalmente diferente. Ela tremia, gritava, tinha falta de ar e mais um monte de coisas que embora fossem muito piores que uns choro, era a forma que seu corpo encontrava de colocar tudo para fora.
- Eu espero que ela fique bem sem você aqui. – Jane disse assim que entramos no quarto.
- Eu também, Jane.
- O papai sempre sabe como cuidar dela.
- Jane, mas cuide dela também. Acho que no início não será muito fácil.
Eu diversas vezes acusava Jane de ser egoísta, mas sabia que parte disso era culpa de seu jeito avoado que fazia ela não perceber muitas das coisas. Temia que na minha ausência ela se fechasse em seu namoro e não enxergasse nossa mãe.
- Me prometa que não vai dar atenção apenas para o Justin.
- Eu jamais faria isso! – ela se defendeu e em troca lhe olhei feio. – Tudo bem, talvez eu faça às vezes, mas não vou fazer agora.
- Promete?
Jane rolou os olhos, mas depois sorriu.
- Prometo.
Depois disso minha irmã procurou nas suas coisas uma bolsa e disse:
- Leva ela. Ainda acho que vão mandar você passar tudo para uma mala, mas caso não aconteça, essa minha tá bem mais bonita que a sua.
Eu poderia implicar com a frase de Jane, mas a realidade é que aquela atitude era mais bonita do que muitas coisas que eu poderia esperar dela. Jane me queria bem e não era para agradar o príncipe, mas porque queria cuidar de mim. E eu sabia dessa verdade.
- Ah, Jane. – falei, antes de puxar-lhe para um abraço. – Amo você, criatura chata.
- Também te amo.

Embora eu tenha tentado dar uma de forte durante aquele resto de noite, quando vi que todos dormiam eu fui até a cozinha, fiz um chá e depois segui para a sala. Enquanto tentava aproveitar cada minuto e memorizar cada uma das sensações que senti ao sentar-me naquele sofá, tomar chá naquela caneca entre outras ações que ficaria sem por algum tempo, comecei a chorar baixinho.
Será que mais alguma selecionada se encontrava chorando? Eu não esperava que fosse exatamente pelos mesmos motivos que os meus, mas será que alguma também temia não se reconhecer depois daquela experiência? Havia tantas coisas que eu temia além dos meus problemas com a monarquia.
Eu estaria me expondo por inteiro. Sendo julgada por milhares de pessoas que não fazia ideia de como era minha vida. Sendo avaliada por um rapaz que talvez nunca fosse querer me conhecer de verdade. E ainda teria que disputar esse tal rapaz com mais trinta e seis garotas. A ideia era até um pouco sexista, mas não julgava quem entrava na disputa. Era de livre e espontânea vontade, e sendo bem sincera, se você não odiasse aquela família, talvez não tivesse tanto a perder. Fama, comodidade e um pouco de grana. Um pacote completo se você não liga de mudar de vida.
Não sei bem que horas acabei pegando no sono lá mesmo no sofá, só sei que já devia estar perto de amanhecer quando acordei nos braços do meu pai que me levava para cama.

👑👑👑

- . , acorda. – Escutei Jane chamar e me movi na cama.
- Me deixa dormir um pouco mais. – Pedi sem nem abrir os olhos.
Minha irmã mesmo assim me tocou.
- Não dá. Os funcionários do palácio já estão aqui.
Abri então os olhos e encontrei os mesmos funcionários que cuidaram de mim da outra vez.
- Olá, lindinha. – Um dos rapazes disse e eu tentei sorrir.
- Podem me dar alguns minutos para tomar um banho e me arrumar?
- Ela pode te ajudar. – Ele falou novamente enquanto apontava para a garota.
Sabia que provavelmente teria que me submeter a isso dentro do palácio, mas enquanto pudesse, tomaria banho sozinha.
Jane acabou rindo.
- Eu queria uns minutos sozinhas. – comecei tentando não soar rude – Pode ser?
- Claro. – Os três responderam amigavelmente e eu suspirei aliviada.
Certamente demorou mais do que todos esperavam. Quando saí do quarto a equipe aguardava ansiosa.
- Você demorou. Estamos atrasados. Muito atrasados!
E então meu quarto virou um QG e todos andavam de um lado para o outro correndo para ver qual cor caía melhor no meu tom de pele. Qual sombra valorizava melhor meus olhos e um deles gritava que precisavam logo decidir tudo porque minhas unhas clamavam por uma boa camada de esmalte.
- Está decidido. Você irá com esse vestido mostarda – finalmente decidiram.
- Mas vocês acham que vai ficar bom?
- Decididamente poucas garotas escolherão mostarda. Queremos você diferente.
Embora eu tenha tido um pouco de receio ao saber a cor, quando me vi vestida tive a certeza de que eles sabiam mesmo o que faziam. O vestido era de um tecido fino e mesmo na parte superior, que era mais justo, não grudava no corpo. Da cintura – onde tinha uma faixa preta e branca que amarrava e dava um laço grande as costas - em diante ele se abria e seu cumprimento eram alguns centímetros abaixo do joelho. Pelo seu tecido leve, o vestido tinha um caimento bonito e o melhor, não armava, que era meu maior temor nas roupas que eu usaria dali em diante.
- Você está linda, . – Meu pai disse com um sorriso no rosto.
- Obrigada, pai. – Respondi um pouco envergonhada.
Eu precisava lidar melhor com elogios daquele dia em diante ou teria problemas.
Depois de pronta não tivemos muito mais tempo em casa. Logo já estávamos no carro a caminho da praça onde e eu receberíamos um adeus de toda província.
- Tente não fazer nada errado, . Não morra de vergonha. – Jane disse quando estávamos saindo do carro.
- Pare de amolar sua irmã, Jane. – Minha mãe repreendeu, mas ela não deu muita atenção.
- Você não está aqui para causar uma revolução, mas sim para fazer parte da Seleção, não esqueça – ela disse, dessa vez mais baixo para que ninguém que estava conosco escutasse.
- Jane! – meu pai ralhou.
- Não deixarei de ser eu mesma, Jane. E vai dar tudo certo.
Percebi que minha irmã queria dizer mais alguma coisa, porém olhou para os lados e preferiu ficar calada.
- Querida, dê um abraço na sua família. Você precisa subir. – Um dos rapazes da equipe disse.
Os três: minha mãe, meu pai e minha irmã me deram um abraço na mesma hora.
- Amamos você. – Minha mãe falou antes de me dar um leve empurrão para que eu seguisse em frente.

Quando cheguei no palco, já estava lá.
- ! – ela exclamou, me chamando pelo nome, sem apelidos.
- Você estava mesmo com saudade, né? Até me chamou de . – brinquei enquanto seguia para dar-lhe um abraço.
tinha cheiro de casa e acalmou os batimentos do meu coração que já começavam a acelerar por estar no palco.
- Eu estava com tanta saudade. – falei, sem lhe soltar nem afrouxar o abraço.
- Eu também.
Quando finalmente nos soltamos me olhou de cima a baixo e me puxou novamente.
- Meu Deus! Você está tão linda.
- Pare com isso. Você que está.
parecia brilhar em um vestido vermelho que conseguia ser atraente sem apelar para nenhum recorte que mostrasse muito.
- Nós duas estamos, então.
Eu queria conversar com ela por ainda mais tempo, mas infelizmente avisaram que precisávamos nos sentar em cadeiras que ficavam uma no lugar oposto a outra. Demos outro abraço rápido e então seguimos para nossos lugares.
O prefeito falou várias coisas e depois começou a tecer elogios que me faziam crer que ele não sabia de nada sobre e eu. Disse que eu era doce e obediente, e que era uma garota calma e tímida. Bastava olhar para para perceber que ele estava errado.
- Agora vamos ouvir nossa linda Mitchel se despedir.
se levantou e foi ovacionada por gritos e palmas. Ela era mesmo a mais querida de todas as selecionadas.
- Boa noite, meus queridos. – Minha amiga começou com um sorriso enorme no rosto e com uma desenvoltura que eu já sabia que ela tinha. – Acho que de tantos vídeos que fiz vocês já devem saber muito de mim. Quero agradecer a todos vocês pelo apoio e pelos votos que me deram. É uma honra ter sido a selecionada escolhida por vocês, uma verdadeira alegria. Prometo honrar a confiança que tiveram em mim. Estou indo para a Seleção com a missão de honrar e servir a vocês e a coroa.
Comecei a suar frio. Eu não conseguira falar aquilo. Eu poderia não ser a garota mais tímida do mundo, mas jamais conseguia falar as coisas que estava falando. Eu não iria para o palácio disposta a servir a coroa como ela estava dizendo que iria. Eu jamais conseguiria falar aquelas coisas.
As pessoas batiam palmas apaixonadas pela e eu nem sabia quais outras palavras ela havia dito. Mas certamente eram juramentos que eu já sabia ser incapaz de cumprir, ainda que minha amiga conseguisse.
- Chegou a hora de nos despedirmos da bela Benett.
- Boa noite a todos. – Comecei um pouco insegura, mas me forcei a não vacilar - Fico muito honrada que todos vocês tenham vindo se despedir de mim, tenho certeza que vocês estarão comigo durante esta jornada. E eu espero deixar vocês felizes na forma como seguirei na Seleção. Eu amo Sonage e amo Illéa, quero tomar decisões que possam honrar este amor. Obrigada a todos vocês. De coração.
Mesmo com um discurso menor, ouvi muitas palmas em resposta e isso me deixou confortada. Esperava que eles entendessem que tudo que eu fizesse era por amor ao país, mesmo que não fosse como a coroa queria.
O prefeito voltou a falar e depois dispensou a todos e fomos liberadas para dar um último adeus a nossa família. Corri para a minha assim que a vi.
- Você falou muito bem, minha filha. – Minha mãe disse e eu pude ver em seus olhos que ela estava orgulhosa. Isso bastou para que eu me sentisse confiante sobre cada palavra.
- Seja você, meu amor. Isso será mais que suficiente para orgulhar a todos. – Meu pai falou e quase me fez chorar.
- Você e arrasaram. – Jane falou.
- Precisamos levar sua família para casa e você para o avião, senhorita. – Um homem de preto avisou.
Dei um abraço nos meus pais e fui abraçar Jane.
- Não escreva nada lá dentro do palácio, . – Jane falou e eu senti meu coração gelar.
Jane sabia? Minha irmã conhecia meu site?
Olhei para ela assustada e confusa e a vi balançar a cabeça em um sim.
- Prometa que não fará isso. – Ela pediu de forma incisiva, mas eu estava nervosa demais para falar qualquer coisa. – Prometa, . – Jane pediu mais uma vez, apertando meu braço.
- Senhorita, o tempo acabou. Precisamos lhe levar.
- . – Jane tentou mais uma vez.
- Amo você. – me forcei a dizer antes de virar e entrar no carro.
Assim que entrei no carro me permiti tremer o tanto que meu corpo queria.
Coloquei os braços em volta do corpo enquanto tentava inutilmente normalizar minha respiração e não tremer.
Como Jane havia descoberto isso? Eu sempre tomei muito cuidado. Jamais deixava janelas abertas ou minha senha salva. Minha irmã era uma das pessoas que menos tinha controle na língua que eu conhecia, se ela falasse qualquer coisa eu estaria muito ferrada. E eu temia que ela acabasse contando aos meus pais, porque minha mãe não teria paz se soubesse.
- A senhorita está bem? – o motorista perguntou enquanto me olhava pelo retrovisor e só então eu me dei conta que chorava.
Eu estava ansiosa para o que viria, triste por estar separada da minha família e estar indo pra um lugar que não queria, e com muito medo de quais rumos minha vida tomaria daquele momento em diante.
A verdade era que eu tivera tempo, mas eu não estava pronta para a Seleção. E não, eu não estava nada bem.

👑👑👑

As selecionadas não voaram aquele dia, por isso dormi em um hotel. Não permitiram que meu quarto fosse próximo ao de e só a vi no saguão no dia seguinte.
- Dormiu bem? – perguntou cuidadosa.
- Digamos que maquiagem faz milagre. – Foi tudo que respondi, tentando rir.
Eu não havia pregado o olho até chegar perto das quatro da manhã e mesmo assim a maquiagem me deixou com cara de quem teve o mais longo sono de beleza.
Entramos em carros separados e seguimos para o aeroporto. Chegando lá fui informada que deveria ficar no carro para que entrasse primeiro. Eles queriam filmar a passagem de cada uma das selecionadas e como o público reagia a cada uma delas. Não precisei ver para saber que estava arrasando. Ela sempre arrasava.
Quando chegou minha vez saí do carro um pouco incerta, porém decidida a não passar vergonha. Dei tchau, sorri, agradeci e até tirei fotos com as pessoas que estavam lá. Era estranho pensar que elas mal me conheciam, mas já falavam me amar e me dirigiam elogios para qualidades que até então nem eu mesma sabia que tinha.
Havia cartazes e mais cartazes. Alguns carregavam apenas o nome de , outros apenas o meu, mas a maioria tinha uma torcida por nós duas. Fiquei feliz por isso.
- Meu Deus, eu não imaginava isso. – falei para assim que entrei no avião.
- Foi mágico, não foi?
Eu descreveria aquela experiência como surreal e até um pouco estressante, mas sabia que minha amiga e eu tínhamos opiniões distintas sobre aquele assunto.
- Como você está? – perguntei, indo abraçá-la.
- Nervosa. Com medo de que o príncipe e todos me odeiem.
- Ninguém te odeia, . – Desdenhei e ela ainda assim parecia aflita – É impossível te odiar, , e se isso acontecer é porque o príncipe não sabe mesmo de nada.
- Fale isso no palácio e então a odiada pelo príncipe certamente será você. – Escutei alguém falar e me virei à procura daquela voz.
Encontrei uma garota ruiva de cabelos ondulados que me encarava de sobrancelha erguida.
Não consegui lembrar quem era ela, mas logo fiquei sabendo.
- Melissa Yong. De Paloma – a garota se apresentou, estendendo a mão para mim.
- Benett de Sonage. – falei, retribuindo o gesto, mesmo que pouco confiante.
- Sei quem você é, na verdade sei quem são todas. Principalmente vocês duas.
Lhe olhei confusa e Melissa Yong logo se explicou.
- A garota escolhida pelo público – ela iniciou apontando para com a cabeça – e a garota que por tabela já estava dentro também. As primeiras selecionadas.
Melissa falava tudo isso com uma expressão de fadiga proposital no rosto e pelo canto dos olhos pude ver rolando os olhos.
- Entendi. – Respondi e Melissa deu de ombros.
Após algum tempo de espera uma mulher vestida toda de preto entrou no avião parecendo um pouco irritada.
- Nós teremos que esperar mais um pouco. A senhorita Sarah Lee de Zuni teve alguns problemas.
- Ela está bem? – perguntou.
A mulher balançou as mãos de um jeito desleixado, parecendo ter a intenção de dizer que não era nada demais.
- Algumas pessoas contrárias a Seleção resolveram protestar na porta do hotel que abriga a senhorita Sarah. Logo, logo ela estará aqui. – E antes que pudéssemos perguntar mais alguma coisa, ela se retirou.
- Ai, meu Deus! Será que farão alguma coisa contra ela?
- Você ouviu o que ela disse, logo, logo a garota estará aqui. – Melissa respondeu enquanto folheava uma revista qualquer.
não gostou de ter sido respondida daquela forma, mas apenas cruzou os braços emburrada.
- Fique calma – lhe pedi, antes que ela quisesse arrumar confusão com a garota.
Nós esperamos, esperamos e esperamos ainda mais. Já devia fazer mais de uma hora quando Melissa saiu de sua pose e baixou a guarda, parecendo preocupada.
- Vocês acham que aconteceu algo com ela? Quer dizer, ela já deveria ter chegado.
- Acredito que teriam nos contado.
- Não sei. Talvez apenas não queriam nos assustar.
Era óbvio que eu já havia pensado naquela possibilidade, mesmo assim neguei com a cabeça na tentativa e não as deixar em pânico.
- A realeza jamais deixaria. – falou, parecendo tranquila. Eu nunca quis tanto que ela estivesse certa em toda minha vida.
Alguns minutos depois a mulher de preto voltou parecendo ainda mais irritada, porém mantendo um sorriso forçado nos lábios.
- Nós iremos sem a senhorita Sarah Lee. Já nos atrasamos muito e não podemos esperar mais. Ela chegará depois.
- Ela já conseguiu sair do hotel? – Melissa perguntou, parecendo mesmo um pouco assustada.
- Lá no palácio vocês terão as notícias que forem necessárias.
Eu entendia a revolta das pessoas contra a Seleção, mas temia que estivessem descontando nas pessoas erradas. Aquilo me deixou preocupada com minha família.

O voo até Angeles foi rápido devido a proximidade das províncias. Tentei puxar conversa com Melissa, mas ela parecia muito interessada em beber champagne e ler revistas que eu nunca tinha ouvido falar. Aparentemente você só conseguia falar com Melissa quando ela tivesse vontade, fora isso seria ignorada.
Assim que pousamos a mulher voltou para falar conosco. Nada foi dito sobre Sarah. Apenas algumas instruções básicas de como seria nossa chegada.
- Para evitar possíveis transtornos nós pedimos que vocês não parem para falar com ninguém. Apenas deem um aceno e saiam o mais rápido possível. Até porque estamos atrasadas. – A mulher falou, parecendo alterada.
Nós três nos levantamos, e antes que chegássemos as escadas do avião, Melissa chamou por e eu.
- Acho que seria bom se nós chegássemos juntas. Eu não sei vocês, mas estou um pouco assustada com as coisas que estão acontecendo.
não parecia disposta a dar essa ajuda e eu tinha que concordar que o jeito de Melissa não ajudava, mas entendi o medo dela.
- É uma ótima ideia.
Descemos juntas e não nos separamos um minuto sequer conforme passávamos pelo espaço rodeado de pessoas. Embora nossos passos fossem um pouco apressados, ainda tivemos tempo de ler alguns cartazes e posar para uma foto as três juntas.
Mesmo que ainda levasse uma pequena vantagem na quantidade de cartazes, eu diria que a torcida estava bem dividida.
Quando eu já estava entrando no carro vi um cartaz que mexeu com toda a minha estrutura.
“Vocês se venderam, mas nós não.”
Desde que me vi na primeira fase da seleção que eu tentava não me sentir uma mercadoria para a coroa, mas aparentemente as outras pessoas já viam e eu me senti enojada por ter me tornado aquilo. Eu nunca quis contato com a coroa, e agora era uma mercadoria adquirida por ela. Logo me perguntei se já não éramos todos assim. Uma mercadoria, um simples brinquedo que a coroa levava para onde quisesse.
Por causa dos meus pensamentos fui o caminho inteiro calada e percebi que isso deixou um pouco triste. Mas eu já havia feito coisas demais pensando em , não podia me forçar a ficar bem quando não estava.
- Chegamos. – O motorista falou após o carro parar para que um enorme portão fosse aberto.
Eu estava na janela e se jogou por cima de mim para poder encostar no vidro e ver detalhes daquele lugar que embora ela não soubesse, eu já tinha visto. Já conhecia aqueles portões, a linda entrada do castelo e aquela grama que parecia ser mais verde do que em qualquer outro lugar do mundo.
- Não é lindo? – ela me perguntou.
- É sim, .
Pouco tempo depois nós já estávamos prontas para descer do carro.
A mesma mulher que nos acompanhara no avião já estava no primeiro degrau da calçada nos esperando.
- Como ela chegou aqui tão rápido? – Melissa cochichou no meu ouvido e eu apenas ri.
- Vou guiar vocês até o local. Já estão esperando vocês. Peço que não se distraiam. Já estamos bastante atrasadas.
Sem mais uma palavra ela saiu andando por dentro do palácio e não pararmos para olhar os detalhes daquele lugar foi uma tarefa difícil.
- Essa é a Biblioteca Newsome, mais conhecido por Salão das Mulheres. Algumas pessoas estão esperando vocês. Nos despedimos aqui. Boa sorte.
Não houve abraços ou tempo para resposta. Rapidamente a mulher bateu na porta e sumiu assim que a mesma se abriu.
- Meu Deus, estávamos em pânico por causa de vocês. Corram, corram! As estações onze, doze e trezes estão disponíveis. Vão já para elas.
Nós três seguimos para as estações e nos sentamos parecendo, as três, um pouco assustadas.
- Olá. Qual o seu nome?
- Benett.
A moça procurou meu nome em uma pasta grossa.
- A gente vai te avaliar e depois sugerir mudanças, está bem?
Apenas balancei a cabeça em um sim e vi um rapaz surgir para me avaliar junto com a moça.
Eles tocaram no meu cabelo e começaram a negar com a cabeça.
- Acho que você poderia tirar essas mechas iluminadas. Voltar a sua cor natural. Totalmente morena. O que acha?
Meu cabelo era um moreno levemente iluminado e eu até gostava dele assim, mas achei que poderia ser uma boa ideia voltar para minha versão original.
- Pode ser. – dei de ombros.
- E poderíamos cortar, n...
- Não! – falei, apressada. – Eu não quero cortar.
- Mas você ficaria linda!
Voltar a minha cor natural era algo totalmente normal para mim, mas eu não estava pronta para um corte.
- Gosto dele grande.
A garota fez um biquinho e tentou.
- A gente entende muito disso, sabe?
- Eu sei, mas não quero. Apenas pintem, por favor.
Eles não pareceram felizes, mas depois de tantos anos e tantas lutas femininas, ter direito sobre o próprio cabelo era o mínimo que eles poderiam me dar.
- Nós vamos arrumar suas unhas e sua sobrancelha também. Depois você vai para a parte de vestuário.
- Certo.
Começaram pelo meu cabelo e enquanto a tinta agia foram arrumando minha sobrancelha, minhas unhas foram perdendo as cutículas extras e sendo pintadas.
- Essa unha vai combinar total com a paleta de cores que temos de você.
- Eu tenho uma paleta de cores? – perguntei, meio confusa, mas também achando graça.
- Sim, querida. Óbvio que tem. E suas unhas vão ficar maravilhosas.
Apenas sorri em resposta e deixei que terminassem o trabalho.
Quando finalmente fui liberada daquela parte, me mandaram para outro lugar onde tinha uma arara repleta de roupas.
- Você pode escolher uma dessas que está nessa arara.
- Será a roupa que usaremos para ficar aqui?
- Na verdade, vocês já verão o príncipe hoje. E tirarão fotos com ele. Irá passar no Jornal Oficial. Então, se arrume para as fotos.
Comecei então a procurar a roupa que eu queria para aquele momento e fiquei feliz que meus gostos – que perguntaram quando ainda estava na fase antes do sorteio – estavam sendo levados em conta.
- Quero esse. O que acha? – indaguei para a mulher a minha frente.
A mulher pegou a roupa que mostrei e segurou-a ao meu lado. Depois sorriu.
- Acredito que ficará ótimo em você.
Então eu segui para um biombo onde poderia trocar de roupa. Quando saí, segui para um espelho e fiquei maravilhada.
O vestido que eu usava era de um marrom claro, que lembrava terra, e era feito de um tecido que eu achava ser tule, cheios de aplicações de flores. Ele marcava na cintura e depois se abria de forma leve e tinha o cumprimento de alguns dedos abaixo do joelho. Meu cabelo estava com uma traça cascata e todo cheio de ondas, me fazendo parecer uma princesa. Eu não me achava feia, longe disso, mas naquele momento me senti a mulher mais linda do mundo e por algum motivo desconhecido fiquei ansiosa para que o príncipe me visse assim.

- Olá, meninas. Atenção! – uma mulher chegou falando um pouco mais alto e todo burburinho cessou. – Me chamo Anne e serei uma espécie de mentora de vocês. Trabalho para a família Schreave como cerimonialista faz alguns anos e também desempenho outras funções. Com vocês irei ter a função de apresentá-las e prepará-las para uma vida real. O senhor Peter me ajudará com isso – ela disse, apontando para um homem que aparentava ter cerca de trinta anos. – O príncipe logo mais virá conversar com vocês e cada uma tirará algumas fotos para que sejam apresentadas no Jornal Oficial. Minha primeira tarefa será guiá-las para saber se portar nesse encontro. Prontas?
- Sim. – Quase gritamos.
- Primeira lição é que não precisam gritar. Vocês não devem, em hipótese alguma, levantar a voz, até os seus gritos não devem passar de pouco mais de uma exclamação. Isso não é elegante. – Ela nos repreendeu e todas apenas balançamos a cabeça em um sim. – O príncipe chegará dentro de no máximo meia hora e irei lhe passar as seguintes instruções: mesmo que você saiba que é sua vez, não chegue até ele sem que seja chamada; nada de abraços, a não ser que ele lhes dê isso; vocês terão algum tempo para se entrosar e tirar as fotos, então usem esse tempo para se conhecerem e fale educadamente. Agora, cada uma procure uma cadeira e sente-se, irei lhes mostrar como sentar-se de forma elegante.
E então ela nos mostrou toda aquela etiqueta de não cruzar as pernas, que eu achava uma completa bobagem, mas entendia que todo lugar requer etiquetas distintas.
O tempo passou muito rápido, e quando nos demos conta Peter estava dando ordens para que os criados tirassem as cadeiras e as organizassem lado a lado porque o príncipe chegaria em breve.
- Senhorita Anne, uma das meninas que viria conosco não chegou ainda, pode nos informar sobre ela? – indaguei e tive a impressão que minha pergunta não foi bem recebida.
- Não. – Ela falou categoricamente e seguiu como se eu não fosse ninguém.
Então um criado entrou informando que o príncipe desejava entrar e logo ele teve permissão. E todas nós ficamos de pé.
- Boa tarde, senhoritas. – Ele saudou.
- Boa tarde, Alteza. – Falamos juntas e eu tinha certeza que foi alto demais para o padrão de Anne. Assim como nossa reverência deve ter sido meio desengonçada.
- Podem sentar-se. Aguardo cada uma de vocês para as fotos.
Eu podia sentir meu coração bater acelerado, mesmo que não soubesse o motivo. Como sentei ao lado de , tentei conversar com ela para distrair.
- Você está nervosa? – lhe perguntei.
- Muito. – Confessou parecendo sem ar enquanto falava – E você?
- Também. Acho que estou com medo de não conseguir tirar boas fotos.
- Se sua preocupação é essa, fique calma – ela falou, abanando as mãos. – Eles vão nos ajudar.
- , - lhe chamei mais uma vez – e qual é sua preocupação?
- O príncipe não gostar de mim, óbvio. Acho que só você não tá com medo disso.
Virei para o outro lado um pouco perturbada com aquela resposta. Embora eu tentasse falar para mim mesma que meu único medo era o que contei para , algo dentro de mim dizia que estava errada e eu também compartilhava do mesmo medo que ela. E aquilo não era bom.
Quando olhei, a segunda garota já era chamada por Peter.
- Senhorita Amberly While. Por favor.
Amberly, que era de Carolina, levantou-se confiante e eu admirei isso nela. Não parecia estar com medo de nada.
Fiquei prestando atenção nela quando chegou perto do príncipe. Já que abraços não eram permitidos sem que ele tomasse tal atitude, – e eu suspeitava que ele não tomaria com nenhuma de nós – Amberly fez de tudo para encostar no príncipe. Ela jogava seus cabelos loiros de modo que tanto seus braços como seu cabelo encostassem nele e até fingiu perder o equilíbrio.
- Acho que ela tem muita chance de se dar bem. – cochichou no meu ouvido.
- Achei ela fingida. – Respondi e deu de ombros.
- Acha que não é preciso um pouco disso para se dar bem aqui?
disse aquela frase e riu logo em seguida, mas aquilo me atingiu em cheio. Eu não estava pronta para me perguntar quais atitudes da minha amiga eram verdadeiras, ou fingidas para conseguir seu objetivo. E menos preparada ainda para ter que me perguntar isso sobre trinta e seis garotas.
Depois de Amberly, America Clark de Columbia, uma jovem de pele escura e cabelos lisos foi chamada. Após ela foi a vez de Ane Mason de Yukon e então chegou a minha vez.
- Senhorita Benett, por favor.
Levantei e quase me arrependi dessa atitude. Tudo pareceu rodar por alguns segundos. Eu não conseguia acreditar que estava tão nervosa.
Andei o mais lento que pude, tentando me equilibrar no salto enquanto as coisas paravam de rodar na minha cabeça e assumiam seus verdadeiros lugares.
- Vocês terão um minuto de conversa e depois irão tirar as fotos. – Peter me disse quando cheguei perto.
Segui para perto do príncipe que me esperava sentado em uma cadeira.
- Sente, senhorita . – Ele pediu e sentei ao seu lado, me esquecendo até de fazer uma reverência. Ele não pareceu perceber meu erro.
- Oi. – falei sem saber o que dizer e me senti idiota logo depois ter me calado.
- Olá. – Ele respondeu, rindo um pouco. – Finalmente nos conhecemos. Devo lhe confessar que estava ansioso para esse encontro.
Aquela revelação me deixou ainda mais nervosa.
- Ansioso?
- Como falei, sinto que nos conhecemos um pouco. Mas me conte, de Sonage, o que você gosta de fazer?
- Eu não sabia que essa conversa pareceria um encontro. – Confessei.
- E não é, mas nada me impede de saber seus gostos para investir em um primeiro encontro depois. – Ele confessou rindo e eu ri também, mas logo constatei que certamente todas estariam ouvindo aquilo.
- Você fez essa pergunta a todas elas?
O príncipe me olhou desconfiado, mas mesmo assim respondeu.
- De certo modo, sim. Isso te incomoda?
Dei de ombros e neguei, porque de certo modo aquilo realmente não me afetava. Na verdade, era bom que ele encontrasse mesmo alguém.
- Estamos todas aqui para ter inúmeros encontros com vossa alteza, não é? – indaguei tentando esconder meu tom de sarcasmo.
pareceu surpreso com minha resposta e abriu a boca para responder, mas não teve tempo. Fomos interrompidos pelo fotógrafo.
- Poderiam levantar-se para tirar as fotos? Nós iremos tirar várias, a melhor irá passar no Jornal Oficial.
- Claro. – O príncipe respondeu e colocou a mão na parte de baixo da minha coluna, me incentivando a levantar.
Depois que levantamos, o príncipe se encostou um pouco em mim e falou baixo:
- Pode me chamar de você quando estivermos a sós. E vocês são bem mais do que minhas acompanhantes. – falou firme e pousou sua mão na minha cintura.
Não gostei daquele tom, nem da nossa proximidade e muito menos do sorriso que ele dava. Parecia que ele estava ofendido, mas cumprindo o papel de sair da forma mais linda na foto.
- Sorria, senhorita . – O fotógrafo pediu e me dei conta que estava de cara fechada.
- Você parece brava. – O príncipe cochichou enquanto eu tentava sorrir.
- E você também. – Rebati, virando para ele.
- Sorria. Não esqueça de sorrir. – Ele instigou e eu rolei os olhos, o que fez o príncipe rir de verdade.
- O que foi? – indaguei, dessa vez parecendo mesmo brava.
E então o príncipe fez algo que eu não esperava. Sua mão se moveu delicadamente para os meus cabelos e ele colocou uma das mechas atrás da minha orelha enquanto sorria, assim como a gente sempre sonha que o príncipe faça e que depois que crescemos achamos a coisa mais boba do mundo.
O que nunca esperava era que aquela atitude fosse mexer tanto comigo. Mas quando percebi estava perdida em seu ato e lhe encarava com cara de boba.
- Ótimo. – o fotógrafo gritou e eu acabei pulando para o lado. – Você não é muito de sorrir, mas acho que temos a foto perfeita. Pode se retirar, vamos chamar a próxima.
Não olhei para trás e não me despedi do príncipe. Saí dali sem saber o que estava sentindo, mas decidida a nunca mais ter aquela dúvida novamente.
Eu odiava a Seleção. Odiava a família Schreave. Odiava aquele pão e circo. Eu jamais me renderia a ele.

Finalmente as fotos haviam acabado e fomos liberadas para sair da Biblioteca Newsome, ou Salão das Mulheres, como era mais chamado. Sarah Lee, uma garota de cabelos lisos e com olhos levemente puxados chegou quando já estávamos perto de ser liberadas. Ela provavelmente havia se arrumado em um dos quartos, pois já chegou pronta para as fotos.
- Olá. – falei assim que me aproximei dela.
Sarah me olhou confusa e , que estava próxima de mim, resolveu explicar melhor.
- Nós duas e a Melissa estávamos no avião que você perdeu. Ficamos preocupadas.
- Ah. – ela respondeu, parecendo comovida com aquilo. – Eu estou bem. Foi apenas uma pequena confusão lá na frente do hotel. Nada muito sério. Mas acabou gerando grandes transtornos.
- Silêncio! – Anne pediu – Vamos agora guiá-las até seus quartos. Os quartos ficam no primeiro andar e hoje não teremos muito tempo para mostrar detalhes. Vocês estão cansadas demais para isso. Suas criadas estão lhes esperando no quarto e para facilitar tem o nome de cada uma de vocês na porta de seus respectivos quartos. Me acompanhem!
Silenciosamente, para não levar nenhuma bronca, nós fomos seguindo Anne e Peter até os quartos. O palácio era ainda mais lindo por dentro e a cada passo a gente descobria uma nova obra de arte maravilhosa. O corrimão das escadas parecia de ouro e eu não duvidava que pudessem mesmo ser.
Eu queria poder comentar cada observação com , mas o medo de receber bronca de Anne falava mais alto. Meu quarto era um dos primeiros, e por isso logo me despedi do grupo.
Quando entrei no quarto, duas lindas mulheres me esperavam. E fizeram uma pequena referência assim que me viram.
- Olá. – Saudei.
- Olá, senhorita . – As duas falaram juntas e novamente fizeram uma reverência.
Me apressei para chegar até elas e levantei as duas.
- Não façam isso, meu Deus. Eu não sou da realeza.
- Queremos deixar claro que a respeitamos. – uma delas disse.
- Não duvidarei disso. Mas não façam isso, tudo bem?
As duas se olharam e eu sustentei o olhar, mostrando que eu não voltaria atrás no pedido.
- Tudo bem. – responderam juntas.
- Agora queria saber o nome de vocês.
- Eu me chamo Abigail. – a mulher de cabelos negros e cacheados disse.
- E eu me chamo Stephany.
- Oi, meninas. Eu sou Benett de Sonage. Eu não sei bem qual é a função de vocês, pra ser sincera.
- Nós iremos lhe vestir, maquiar, pentear e lhe banhar.
Senti o rosto esquentar.
- Desculpem-me, mas eu vou me banhar sozinha.
- Nós somos profissionais, senhorita. Prometemos. – Stephany disse e eu neguei com a cabeça.
- Não duvido de nada disso, mas não me sinto a vontade, entendem?
Novamente elas não pareceram gostar, mas também não queriam me contrariar.
- Certo, senhorita. Mas não conte as outras meninas, pode ser que isso nos coloque em problemas.
- Claro. Pode deixar.
- Está cansada? Podemos preparar seu banho.
Senti todo meu corpo amolecer só de ouvir a palavra banho.
- Eu adoraria, meninas. – falei e elas sorriram, felizes em servir de alguma forma.
As meninas insistiram para ao menos me ajudarem com os botões da roupa. Não permiti que me vissem nua. Eu não tinha problema algum que me vissem de calcinha e sutiã, mas nua já era um pouco demais. Assim que entrei no banheiro, tirei minhas roupas intimas e entrei na banheira grata por aquele momento.
Quando saí, as meninas me esperavam com uma comida colocada na mesa que havia no quarto. Me informaram que por causa da hora a comida teria que ser servida no quarto e eu agradeci por isso, já que estava cansada demais para socializar. Na hora de dormir Abigail e Stephany se despediram de mim e deitei na cama mais gostosa que eu já havia visto.

👑👑👑

Acordei no outro dia com as criadas me chamando de forma calma.
- Senhorita , está na hora de levantar-se. As selecionadas têm obrigações agora cedo.
- Ainda é madrugada. – Murmurei ignorando-as e me virando para dormir mais.
Pude escutar as duas rirem.
- Não, senhorita. Já são sete da manhã. E vocês precisam estar prontas às oito e meia, porém ainda temos que lhe preparar para isto.
- Não posso ir assim? – indaguei, agora olhando para elas.
As duas novamente riram e Abigail me tocou com carinho.
- Jamais, senhorita! Ou a senhora e nós duas seríamos motivos de chacota.
- Eu não importo. – respondi rindo. – Vocês se importam?
- Totalmente! – Stephany falou enquanto me dava a mão para que eu levantasse.
Muito a contra gosto eu me levantei e segui para o banho. Depois as meninas escovaram meu cabelo e prenderam em um rabo de cavalo bem feito. A maquiagem foi rápida, já que era bem leve.
- Vocês usarão o uniforme de selecionada. Pelo que foi dito, esses dias serão de aulas e por isso não há necessidade de roupas com modelos individuais. A não ser, é claro, que o príncipe solicite um encontro com a senhorita.
Algo dentro de mim falava que isso provavelmente aconteceria, mas fiquei calada para não soar soberba.
Vesti o vestido bege que era acinturado e sem nenhum detalhe, mas que feito de tão bom tecido que ainda assim ficava lindo em qualquer pessoa que vestisse.
- A senhorita está linda. – as meninas me falaram e eu apenas sorri em agradecimento.
Alguns minutos depois Peter apareceu para nos levar a uma pequena tour pelo palácio.
- Não toquem em nada, está bem? – ele nos pediu.
rapidamente correu ao meu encontro e me deu um abraço apertado.
- Não parece um sonho? – me perguntou.
- Sim. – respondi, omitindo que para mim estava mais para pesadelo.
Passamos pela biblioteca – uma que realmente era cheia de livros –, um enorme salão que não lembro bem sua função, algumas salas que nos informaram que não poderíamos entrar, o lugar onde seria gravado o Jornal Oficial quando fôssemos aparecer e depois fomos guiadas para fora do castelo.
- Aqui temos a piscina que pode ser usada por vocês, mas não agora. Ela ficará rodeada de placas para melhor privacidade das selecionadas, de modo que os funcionários não as vejam. Mas ainda assim vocês só terão permissão de ficar aqui à noite todos os dias, de oito às dez da manhã e depois das quatro nas sextas-feiras, e o dia todo no domingo. Claro que vocês não terão este tempo todo, visto suas obrigações como selecionadas, mas não custa torcer. Ali, bem ao fundo – Peter apontou e nós olhamos – fica uma sala de diversão feita especialmente para o entretenimento de vocês, com alguns jogos, um mini spa entre outras coisas. Essa sala só será liberada para uso durante os sábados e à noite nos outros dias, ou durante encontros que o príncipe queira ter com alguma. Lembrando que qualquer atividade liberada durante à noite só poderá durar até às oito. O jantar normalmente é servido às seis da noite aqui.
Concluí que no fim só teríamos em média uma hora de lazer naquele lugar durante a noite.
- Agora a senhora Anne nos espera no Salão das Mulheres para uma aula e também café da manhã.
Só de ouvir a palavra meu estômago roncou. Havia acordado às sete e já chegava perto das dez.
Seguimos para o Salão das Mulheres e o cheiro gostoso de comida tomava conta do ambiente.
- Sentem-se e não toquem em nada. Hoje vamos aprender como se portar à mesa.
Anne começou a nos explicar sobre pratos, talheres, copos e maneira de segurar cada uma das coisas. Eu não prestava muita atenção porque o cheiro da comida estava me desconcentrando, mas me esforcei para parecer muito focada.
- Senhorita Luna, você por acaso não sabe diferenciar direita de esquerda? – Anne perguntou parecendo irritada.
Sem saber do que se tratava, virei em direção a Luna Garcia, que pelo que lembrava vinha de Bonita, e vi que ela segurava o talher com a mão errada. Luna, que tinha a pele mais branca que eu já tinha visto na vida, ficou tão vermelha que suspeitei que até seus cabelos dourados fossem ficar vermelhos também.
- Me desculpe. – ela falou tão baixo que mal pudemos escutar.
Anne não respondeu o pedido de desculpas, apenas virou e continuou sua aula.
- Eu tenho medo dela. – me contou baixinho.
- E quem não tem? – perguntei rindo um pouco.
Depois do que pareceu uma eternidade fomos finalmente liberadas a comer.
Assim que todas colocaram o primeiro pedaço de comida na boca ouvi um barulho de satisfação igual ao que minha família fez quando comemos a primeira vez, porém dessa vez mais alto já que éramos tantas. Conforme o café da manhã ia seguindo, os cochichos de conversas entre as selecionadas iam tomando conta.
- Vocês souberam? – Melissa, que estava ao lado de , perguntou do nada.
- De quê? – perguntou, confusa.
- O príncipe teve dois encontros ontem, mesmo depois de todas aquelas fotos.
Vi todo o sangue do rosto de sumir.
- Ele... ele... ele já começou a convidar as garotas? – ela perguntou e eu suspeitei que quisesse chorar.
- Sim. E já convidou mais duas garotas, pelo que fiquei sabendo.
Antes que chorasse, toquei em se braço e falei.
- Vai chegar a vez de todas.
- Eu achei que por ter sido escolhida pelo povo ele iria fazer questão de me conhecer melhor.
- Também achei. Fiquei até preocupada com você. – Melissa disse e eu quis tapar a boca dela.
Ela não parecia ter feito por mal, Melissa tinha jeito de quem falava tudo que pensava, mas vi que aquilo mexeu ainda mais com minha amiga.
- A Sarah, a menina que deveria ter vindo conosco foi uma das convidadas de hoje. Estou ansiosa para saber se também serei chamada. Nós dois parecemos nos dar bem ontem. Como foi com vocês?
Isso fez a tristeza do rosto de sumir e logo ela estava dando um sorriso.
- Foi mágico. Acredito que nossa foto tenha ficado linda. Ontem assisti o Jornal Oficial no meu quarto na esperança de ver a foto. Fiquei frustrada quando contaram que por falta de tempo só mostrariam hoje.
- Eu adorei cada segundo ao lado dele. – Melissa falou, como se fosse capaz de flutuar. – E você, ?
Ela e olharam para mim com expectativa e eu não soube bem o que dizer. Meio sem jeito, tentei dar uma resposta que pudesse satisfazê-las.
- Acho que correu tudo bem, só não sei se a foto realmente saiu boa. Mas foi legal.
- Quando o rei e a rainha terminarem de comer, automaticamente vocês terminam também, então sugiro que vocês não conversem tanto. – Anne falou, impaciente com nossas conversas.
Perto do fim daquele café da manhã mais duas garotas, Zoe Stern de Lakedon e Kris Smith de Hansport, receberam bilhetes e pela animação ficava claro que era um convite do príncipe.

Voltei para meu quarto um pouco incerta sobre minha trajetória na seleção. Algo me dizia que meu pequeno desentendimento com o príncipe na hora das fotos e a ausência de convite poderia resultar na minha eliminação. Diferente de pela manhã, eu já não acreditava que seria convidada. E eu estava certa.
Naquele dia almoçamos no quarto e à noite jantamos juntas para mais uma aula, porém Zoe não estava conosco. Na manhã seguinte foi a vez de Kris se ausentar da aula no café da manhã e Constance Miller de Fennley, receber um convite.
- , eu não acredito que você nos escondeu o jogo desta maneira! – Melissa me abordou enquanto saímos do café da manhã.
- Hã?
- Sua foto. – , que havia chegado junto com Melissa e Olivia Aniston – Você teve a foto mais íntima de todas.
- O que você fez para conseguir aquilo? – Olivia perguntou num tom acusatório.
Encarei Olivia e me perguntei quem era ela. Logo lembrei da garota ruiva que havia aparecido na tela quando Baffin havia sido anunciada.
- Como assim o que eu fiz?
- Ele te tocou. Vocês pareciam um casal apaixonado! – Melissa explicou a foto.
Eu não havia assistido o Jornal Oficial na noite passada e por isso não sabia bem o que dizer. Mas as lembranças daquele dia me fizeram ter uma ideia do que as meninas falavam.
- O fotógrafo percebeu que eu estava com dificuldade. Apenas tentamos tirar uma foto boa. – respondi, querendo sumir daquele lugar.
Elas não pareceram se convencer e me olhou desconfiada, mas graças aos céus meu quarto era um dos primeiros e pude logo me despedir.
- Agora preciso descansar, meninas. Anne disse que hoje vamos participar do Jornal Oficial e as garotas que me ajudam precisam de mim para terminar os ajustes do vestido.
Entrei rapidamente no quarto e suspirei aliviada por me livrar daquele interrogatório.

O vestido que Abigail e Stephany tinham feito havia caído perfeitamente em mim. Eu suspeitava que nunca mais na vida fosse vestir algo tão bonito como aquilo.
O vestido era de um tecido como tule nas mangas e tinha o tom de um rosa claro, mas que também parecia lilás. Era justo no busto e ali começava com a mesma cor das mangas, mas ia escurecendo até chegar no roxo bem forte. Quando chegava na cintura ele se abria e virava um enorme vestido bufante, cheio de tule. Começando com a cor roxa e depois fazendo um degradê até voltar a ter a mesma cor das mangas.
Abigail havia ficado responsável pelo meu cabelo e o prendeu como um coque, deixando apenas alguns fios soltos perto do rosto. Já Stephany tinha me maquiado e suavizado no olho para que toda atenção ficasse na minha boca, onde eu usava um batom de cor forte que se assemelhava muito com o roxo do vestido. Em comum acordo não usei nenhuma joia.
- Eu nunca estive tão bonita na minha vida.
- Você já é linda, senhorita . – Abigail disse, como se eu sempre fosse como me via no espelho.
- Igual estou agora eu sei que não. – falei rindo.
Stephany veio até mim e tocou delicadamente nos meus ombros.
- Senhorita , nós temos informações que nos fazem crer que a senhorita depois da foto de ontem é uma das preferidas pelo povo. Sua falta de interesse em assistir o Jornal Oficial e levantar cedo me fazem crer que talvez a senhorita não ligue tanto para isso, mas hoje peço que se agarre um pouco ao carinho que o povo tem por você e verá que ninguém brilhará mais que a senhorita.
Eu fiquei sem palavras. Não apenas pelo que Stephany disse, mas também a forma que disse. Ela me olhava séria e parecia ter uma fé em mim que eu não sabia que alguém algum dia teria. Seu pedido não parecia apenas uma frase motivadora, mas um conselho de alguém que acreditava que eu podia ser ainda melhor do que eu já era. E mesmo que estar ali não fosse os melhores dos meus sonhos, decidi que ela e quem acreditava em mim merecia que eu seguisse suas palavras.
- Pode deixar, Stephany.
Os dias seguintes ainda eram uma incógnita, mas ao menos aquela noite eu sabia como seria: eu iria arrasar.

Encontrei com que estava desta vez acompanhada de Sarah e Olivia. As três estavam absurdamente lindas também. com um vestido dourado que lhe deixava parecida com o sol, Sarah com um vestido azul claro que valorizava suas feições angelicais e Olivia com um vestido tão vermelho como seu cabelo, lhe deixando incrivelmente sexy.
- Vocês estão lindas. – falei assim que chegaram perto de mim.
- Obrigada, . Você também está deslumbrante.
- Sarah, nos conte como foi seu encontro com o príncipe.
- Ah, meninas, foi maravilhoso. Ele estava tão preocupado comigo, valeu a pena todo o medo que passei antes de chegar aqui. Passaria por aquilo mil vezes. Ele foi extremamente atencioso e escutou meu relato com tanto carinho, pensei que ele fosse chorar quando contei que jogaram uma pedra no carro. Lhe contei da tentativa dos manifestantes de queimar o carro e ele me deu o abraço mais forte que eu já recebi na vida...
Conforme Sarah ia contando do seu encontro eu ia me chocando cada vez mais com a forma como ela mentiu da primeira vez que lhe perguntamos sobre o ocorrido.
- Achei que você tivesse dito que não havia sido nada demais naquele dia. Isso não me parece nada demais. – Comentei sem conseguir me conter.
Sarah pareceu despertar de seus sonhos com o príncipe e seu rosto foi tomado por um completo horror.
- Meu Deus! Me prometam que não contarão nada disto a ninguém. Por favor! – ela suplicou.
- Mas por que não? – indaguei.
- Porque vocês não podem.
Olivia e parecia prontas para acatar, mas eu ainda tinha mais dúvidas.
- Por que não podemos? É a verdade e você está bem.
Sarah me olhava sem ter resposta e parecendo ficar irritada.
- Acho que não devemos sair por aí mentindo. – falei mais uma vez.
- Foi comigo que aconteceu, está bem, ? Eu não quero que ninguém saiba. Não sabia que você gostava de fofoca.
- Não se trata de fofoca. Só não entendo por que mentiu pra gente.
- É a minha vida, eu conto o que quiser. Não queria contar e já me arrependo de ter contado agora.
- Não queriam que você contasse? – insisti e interveio.
- !
- É a minha vida, . Por favor, tome conta da sua.
Sarah saiu sem olhar para trás, muito mais brava do que eu esperava que ela fosse ficar.
- , por que você fez isso? – Olivia quis saber, demonstrando estar do lado de Sarah.
- Eu só queria saber se mandaram ela mentir pra gente. – Me defendi.
- E se sim, o que há de demais nisso?
- É nossa segurança e das pessoas que amamos que está em jogo.
- Se você não confia que a coroa pode te proteger, acho que não deveria estar aqui. – Olivia comentou e assim como Sarah, se afastou.
- , se você ficar fazendo coisas assim ninguém irá querer ficar perto de você. Talvez apenas a Melissa, que consegue fazer comentários tão desagradáveis quanto. – disse, também parecendo brava.
Eu não havia tido a intenção de ser rude ou algo daquele tipo, mas diferente das meninas que só estavam focadas na Seleção, eu tinha outras preocupações. Porém jamais entenderia aquilo.
- Sugiro que deixe aquele seu jeito para fora do palácio ou irá se meter em problemas. – Ela falou, também me deixando sozinha e indo se juntar a Olivia.

Mesmo que claramente Sarah não me quisesse perto, assim que entrei no local onde Jornal Oficial acontecia fez um sinal para que eu me juntasse a elas. Ela havia guardado um lugar para mim ao seu lado, de forma que havia minha amiga e Olivia entre Sarah e eu. Quando eu finalmente cedi e estava pronta para chamar Sarah e me desculpar, a produção do programa no avisou que o mesmo estava prestes a começar e a partir daquele momento não poderíamos mais nos levantar ou conversar.
- Boa sorte, meninas. – falou, segurando minha mão a de Olivia que por sua vez também segurava a de Sarah.
Foi dado o sinal e estávamos ao vivo. Eu já havia estado ao vivo outra vez, mas eu sentia uma sensação totalmente nova. Era como se cada movimento meu pudesse ser julgado por milhares de pessoas que não me conheciam e talvez nunca viessem a conhecer.
Cail entrou no palco e começou o show daquela maneira que só ele sabia fazer.
- Boa noite, Illéa. Hoje é uma noite maravilhosa! Perceberam como esse lugar está mais bonito? Estamos com as trinta e sete garotas comuns mais famosas e conhecidas de toda nação. Deem um oi para o povo, senhoritas.
Todas nós acenamos, o que resultaria em broncas depois, já que definitivamente não foram tão graciosos quanto Anne gostaria.
Depois disto o rei foi chamado para anunciar algumas coisas sobre contas e logo depois Cail retornou.
- Gostaria de saudar os nossos dois príncipes e dizer que vocês estão mais lindos que nunca. – Cail brincou e até mesmo o príncipe George ficou sem jeito. – Mas a estrela hoje é você, príncipe . Alteza, poderia se juntar a mim aqui na frente?
O príncipe fez que sim com a cabeça e logo se levantou para se juntar a Cail.
- Alteza, ficamos sabendo que nesses últimos dois dias você teve alguns encontros, verdade?
- Sim, Cail. Foram momentos ótimos.
- Ontem o jornal mostrou alguns, mas que tal vermos os últimos?
- Claro.
E então nós passamos alguns minutos assistindo um compilado de aparentes melhores momentos dos encontros do príncipe com as selecionadas. Não deixei de perceber que tanto ele quanto as meninas não pareciam tão à vontade assim, se pela presença da câmera ou a falta de intimidade eu não sabia.
- Alteza, você deixou as câmeras filmarem tudo? – Cail perguntou quando a câmera voltou a ser focada neles.
- Não, Cail. Assim não teríamos privacidade alguma. E vocês me perdoem, mas eu preciso disso com as garotas. – A pouca plateia presente explodiu em risadas e o príncipe acabou ficando vermelho, mas tentou ignorá-las. – Então chega um momento que ficamos a sós.
- Entendi. Isso é bom. Eu acho. – Cail brincou, dando uma risadinha que novamente envergonhou o príncipe.
- Cail, comporte-se. – Ele tentou brincar para não parecer bobo.
Eu acabei rindo enquanto via aquela cena.
O príncipe claramente não gostava de ser alvo de risadas, isso lhe deixava desconcertado, porém ele parecia odiar ainda mais demonstrar isso. Então ele tentava brincar na intenção de mostrar que nada daquilo o abalava, acho que muita gente acreditava naquela tentativa dele, mas bastava olhar seus olhos para perceber a verdade, já que ele sempre acabava piscando mais que o normal quando fazia isso.
- Alteza, fiquei sabendo que você tem um anúncio a fazer. E queria dizer que nós também temos um que será novidade até para você. Está pronto?
- Devo fazer o meu primeiro? – ele perguntou, parecendo ansioso para a novidade.
- Calma, Alteza. – Cail pediu, rindo. – Primeiro queria dizer ao povo de Illéa que hoje eles terão outra chance de participar desta Seleção.
Eu olhei de maneira interrogativa para as meninas, que também tinham a mesma expressão.
- Hoje, após o seu anúncio, será aberta uma votação em nosso site e o povo terá cinco minutos para escolher uma garota que terá um encontro com você, príncipe . É isso mesmo, povo de Illéa, vocês irão decidir quem será a próxima garota a ter um encontro com o príncipe .
Ouvi suspiros de alívio das meninas, que acredito que esperavam uma eliminação de forma repentina.
- Alteza, agora é a sua vez. Qual o seu anúncio?
O príncipe mexeu um pouco as mãos e olhou para onde nós, selecionadas, estavam.
- Hoje farei a primeira eliminação, Cail. Quatro dessas maravilhosas garotas nos deixam hoje.
E antes mesmo de saber quem era, já pude ouvir choro de algumas das meninas.
O jogo tinha mesmo começado.




Continua...



Nota da autora: Oieee! Confesso que esse capítulo foi difícil, viu? O maior até então. DEZESSEIS FOLHAS NO WORD! Eu espero de coração que vocês gostem, uma das minhas dificuldades neste capítulo foi por medo de frustrar vocês. Me digam o que vocês acharam, por favor.
E até a próxima. Prometo usar essa quarentena para tentar adiantar minhas histórias - a propósito, vocês já leram minha outra história em andamento? Se chama Secrets.
Ah, e queria convidar vocês a entrarem no grupo do Facebook. Os looks citados nessa história – os da pp – foram postados no grupo.
Beijos!




Outras Fanfics:
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02. Me voy [Ficstape RBR]
Meu Anjo [Challenges]
Our Love is Not a Lie
Quem Matou Ashley
Secret
The Better Part of Me
Todos os lados do dia dos namorados
You Happened

Nota da beta: Olha esse capítulo, senhor!!!!!! Só eu acho que a amizade da pp com a amiga azedou? Amei e estou bem ansiosa pra saber quais foram as eliminadas.

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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