Involutariamente
Última atualização: 05/01/2020

Prólogo

O rei, os conselheiros reais e os dois príncipes de Illéa estavam todos reunidos na sala de reunião, tentando pensar em um plano para aplacar o descontentamento da população com a atual gestão monárquica. Não era surpresa que os súditos não gostavam mais do atual governante como antes.
Suas constantes traições a esposa, mesmo que ela fosse muito ausente para o povo, faziam dele um dos reis com maior rejeição de toda história daquele reino. Mas tudo piorou no início daquela semana.
O que antes eram apenas publicações na internet, tornou-se uma revolta de fato, e o ápice aconteceu quando o príncipe e herdeiro direto da coroa, George Schreave II, foi gravado zombando de uma moça que ele tinha se relacionado. As palavras maldosas sobre ela ser uma plebeia fez todo o reino se revoltar e, depois de muito tempo, voltar a cogitar pedir o fim da família real. Fora tomates podres sendo jogados, lama e até pedras. O povo mandou um recado que não podia ser ignorado. Eles estavam mais que insatisfeitos com a linhagem Schreave e não iriam se calar por qualquer promessa ou pedido de desculpas.
- Nós não podemos ceder desta forma. - um dos conselheiros falou, irritado.
- Ninguém aqui está falando em ceder, John. Estamos falando que de alguma maneira a realeza tem que mostrar que ama e respeita esse povo. Tem que mostrar que é um deles, por mais que a gente saiba que isso não é verdade.
por pouco não rolou os olhos ao ouvir aquilo. Odiava quando todos falavam como se estivessem acima da população. Fora ensinado a vida inteira a viver para o povo, mas nunca viu aquilo na prática. Ou melhor, viu, mesmo que por pouco tempo, quando seu avô ainda era vivo.
- Podemos fazer uma caminhada com o povo e ao fim da mesma, o príncipe pede desculpa e explica que foi tudo um mal entendido. – um outro conselheiro sugeriu.
- Isso certamente não serviria. Ninguém iria a uma caminhada com alguém que eles querem ver longe do poder.
- Eu sugiro que tenha uma ideia melhor, Jhon. - o rei disse. - Não estou afim de perder meu tempo dentro desta sala escutando ideias fracassadas.
- Eu gostei da parte de dizer que foi um mal entendido. Poderíamos criar uma história para justificar aquele comportamento. - outro conselheiro, Mathias, comentou.
- Acontece que não foi um mal-entendido. - o príncipe se ouviu falando e logo se arrependeu.
Tudo que ele mais desejava era não estar naquela sala, mas já que fora obrigado, pretendia manter-se quase invisível. Então ele próprio acabou com seu plano.
- Há algo te incomodando, ? - seu pai lhe perguntou, de forma dura.
O rapaz respirou fundo, tentando manter todas as suas insatisfações silenciadas. Ele conseguiria, fazia isso muitas vezes ao dia.
- Você não deveria nem estar aqui, . - George disse, parecendo mais acuado do que irritado.
E sabia disto. Sabia do quanto seu irmão estava assustado com tudo aquilo. Desde novo, reinar sempre pareceu um peso muito maior do que qualquer ser humano possa carregar sem perder sua vida ou sua alma. O final sempre era a morte, nem que fosse a interior. E agora, com toda aquela polêmica, George via toda dificuldade triplicar. Um rei pouco amado significava um rei ainda mais infeliz do que todos os reis já eram aos seus olhos e aos olhos do irmão.
Mas, ainda assim, não conseguiu mais conter a raiva depois daquele comentário.
- De fato, eu não deveria estar aqui. Não consigo acreditar que estamos reunidos porque você fez a besteira de falar mal do seu povo daquela maneira. Talvez se você, ou melhor, vocês pensassem mais no povo que dizem tanto amar e menos em vocês mesmos, essa reunião não estaria acontecendo, e eu não estaria aqui.
Os segundos seguintes foram uma surpresa para todos naquela sala. O Rei George bateu forte na mesa em frente ao seu filho e parecendo ser capaz de matar, caso o mesmo reagisse, esbravejou:
- Quem você pensa que é para falar de amor ao povo? Quer ser mais um dos idealistas da internet? Pretende se tornar um deles? É muito fácil criticar nossas palavras quando se goza das regalias que todos aqui ganham ao usá-las. Você é apenas um moleque mimado e insolente que não sabe nada da vida. – depois disto, abaixou o tom apenas para falar de forma ainda mais dura – Seu irmão é um merda, mas até ele é melhor do que você.
- Ao menos eu sou o único desta sala que o povo não parece odiar. – falou, sem tirar os olhos do pai.
O príncipe George encarou o irmão em completo horror. Ambos sabiam o que provavelmente viria a seguir. Nem mesmo os conselheiros iriam impedir o poderoso George I de ensinar seus filhos a agirem do seu modo. E quase aconteceu, mas, antes disso, Mathias entrou no meio – talvez por ser o único dali que já tivesse presenciado algo parecido com o que iria acontecer – e com um sorriso nos lábios, falou:
- Majestade, não se irrite pelo príncipe ser exatamente o que o povo quer nesse momento. Ele é, no atual momento, nossa melhor saída.
Tanto o rei como os dois príncipes encararam o conselheiro, confusos.
- tem aquela paixão inocente pelo povo, embora não seja tão ativo, ele tem aquele ideal que o povo procura. – Mathias continuou – Vamos dar ao povo o que eles desejam, com direito a muitas câmeras e muito tempo na tevê.
- Como assim? – O rei perguntou.
- Além dos problemas de sempre, sabemos que o ápice é que o povo não se sente mais amado depois das palavras do príncipe George. Mas o príncipe não parece ter receio de plebeus, ele gosta deles. Então, vamos unir tudo de uma só vez. Proponho retomarmos aos primórdios da nossa história. Vamos retomar A Seleção.
- O quê? – os dois príncipes gritaram juntos.
- Isso acontecia com os herdeiros diretos do trono, e eu nem sou. Assim como o George não é, nem de longe, um bom pretendente aos olhos do povo. – disse, parecendo desesperado com aquela ideia.
- O príncipe George ter uma Seleção é fora de questão e todos nós sabemos disso. Já você, Alteza, é a escolha perfeita. Não ser herdeiro direto do trono só melhora as coisas. Assim ainda teremos dois sangues reais no trono.
- Essa ideia é arcaica, além do fato das duas últimas Seleções não terem dado muito certo. A do Rei Maxon terminou com um ataque que acabou levando seus pais, e da Rainha Edlyn literalmente não deu certo. Nem por um selecionado ela se apaixonou, além do fato de que ela decretou uma monarquia constitucional que custou muito para ser derrubada e voltar ao que somos hoje.
- Se você souber olhar, a do Maxon na verdade não foi nada ruim, eles foram talvez o casal mais amado da história de Illéa. Já a da menina, ela era uma tola, mas nossos estudos nos mostram que na época foi uma boa jogada o que ela fez. A dinastia Schreave se mantém até hoje por causa da sua estratégia.
- Não, não, não. – falou, mais pra ele do que para qualquer outra pessoa ali.
Aquilo não podia estar acontecendo, era surreal que aquela ideia fosse ao menos cogitada. A Seleção era apenas uma coisa contada em livros de história, totalmente fora da realidade daquela época. Não deveria acontecer.
- Pai, você não pode fazer isso com o . – George suplicou.
- E o que você sugere? Levar mais pedradas da próxima vez que sair às ruas?
Os irmãos se olharam, sem saber direito o que falar. Apenas sabiam que aquilo não era justo, mas usar este argumento certamente não serviria.
- Escute, . – rei falou, dessa vez manso e cuidadoso. – Você não precisa casar com ela, os tempos mudaram. O povo com certeza aceitará a condição de apenas um namoro e quem sabe casamento. Se tudo der certo, você casa com ela. Se não, espere seis meses e acabe o namoro.
- Não. Isso não daria certo. Eu não posso colocar minha vida amorosa nesse jogo.
O rei George respirou fundo para tentar manter a pose de pai compreensivo. Precisava que , mesmo ainda sem querer, ao menos criasse algum tipo de empatia por aquela situação.
- Seu dever é amar esse povo acima de si mesmo. Não foi isso que você falou agora pouco sobre sentir?
- Pai...
- , eu sinto muito, mas é seu dever como príncipe. Está na hora de crescer, rapaz. Aceite esses termos, e tudo ficará bem.
- Não faça isso comigo. – o príncipe suplicou.
- Desculpe, filho, mas eu declaro aceita a ideia do conselheiro Mathias. Teremos uma nova Seleção.


Capítulo Um

Eu estava em frente à tevê sem acreditar muito no que estava vendo e escutando. O Jornal Oficial estava anunciando uma nova Seleção? Era isso mesmo? Eu queria muito não acreditar naquilo.
Não me achava uma revolucionária, nem nenhuma rebelde, como o povo já foi muito chamado - Rebeldes lembravam o ataque que o falecido rei Clarkson e a rainha Amberly sofreram, além da morte de tantas outras pessoas. Ninguém queria rebeldes no país. Ninguém iria apoiar rebeldes. E era por isso que esse nome durava até hoje, era uma forma do governo fazer a população apoiá-lo e irem contra a quem pensava diferente. Uma forma de manter todos na rédea.- Mas eu tinha sim minhas reservas quanto a família real e até escrevia sobre isso em um site. E aquele anúncio me deixava ainda mais certa de que eu não pensava tão errado.
A Seleção, embora os livros de história viessem recheados de pontos positivos sobre a mesma, para mim sempre seria uma maneira de jogar com os sentimentos de outras pessoas. Uma espécie de pão e circo, e se você levasse em conta as duas últimas seleções que ocorreram, podia terminar em um circo catastrófico. Retomar com aquilo era insano.
- Será que o povo vai cair nisto? - minha mãe perguntou, parecendo também incomodada com aquele anúncio.
- Mas é claro que sim, mãe! - Jane, minha irmã disse. - Se eu não fosse noiva, estaria no primeiro lugar da fila.
Rolei os olhos. Jane às vezes era tão abobalhada.
- Quem vai querer ser a próxima plebéia a ser humilhada em público? Acho que o Príncipe George já fez isso muito bem. - comentei.
- , você é tão idiota. Já disse que você não vai casar, né?
- Para de falar isso, Jane! - meu pai repreendeu. - Ela só está sendo realista.
- Pai, nem é o George quem vai participar. - sim, ela se achava íntima da realiza.
- E você acha mesmo que ele iria querer encostar em alguém como nós? Ele provavelmente negou essa tentadora oportunidade.
- Vocês não vão brigar por isso, não é? - minha mãe questionou, impaciente. - Jane, você já é noiva, nem tem por que opinar. E , você nem se interessa por essas coisas, pare de amolar sua irmã.
- Não é amolar, mãe. A Jane só precisa pôr os pés no chão, não dá pra viver nesse mundo de fantasia. Tá tudo ruindo e pra Jane tá tudo bem.
- Melhor do que ficar aí, surtando e opinando sobre tudo, sendo que ninguém se interessa pelo que você fala. A única coisa que você consegue com isso é fazer com que nenhum cara queira se aproximar de você. Sabia que já me disseram isso? Você é a esquisita da turma, .
Eu queria humilhá-la como ela tinha feito comigo naquele momento, queria falar do quanto ela era uma idiota alheia ao mundo a sua volta e que só pensava em um bom casamento e uma boa grana, também haviam pessoas que comentavam isso dela. Mas eu não fiz nada. Porque, na verdade ela não estava falando nenhuma mentira, tinha mesmo muitos caras que queriam distância de mim por minha total falta de habilidade de sustentar uma conversa sobre coisas triviais, além do fato de que muitos me achavam uma rebelde em potencial, e ninguém queria isso. Ao menos, não aqueles que a gente convivia.
Levantei e saí da sala em total silêncio. Apenas com meus pais me observando e a Jane evitando contato visual comigo.

No dia seguinte acordei com batendo forte a porta do meu quarto e abrindo todas as janelas. O que era uma atitude típica dela.
- Bom dia, flor do dia! - ela exclamou animada.
- Eu espero muito que já tenha passado das nove, . Se não, eu juro que mato você.
- Bom, são nove e um. Acho que continuarei viva por hoje. - falou, rindo. - Esqueceu que combinamos de ir ao shopping hoje? Vamos comprar…
- Os vestidos para sua formatura. Eu sei, . Você não me deixa esquecer nunca. - falei, já levantando da cama e jogando meu travesseiro nela.
- Você viu que a Seleção vai voltar?
- Sim. E nem me fale nisso, acabei brigando com a Jane por causa desse assunto. - comentei enquanto seguia para o banheiro.
- Me deixa adivinhar: você odiou a notícia, a Jane amou. Acabaram acusando uma a outra de ser idiota, mesmo que por motivos diferentes e no fim estão sem se falar. - terminou, acertando tudo. - Mas vocês já se entendem. Eu amei essa notícia, não vejo a hora de ter a chance de me inscrever, mas eu já fazia ideia de que você não pensaria o mesmo.
e Jane eram muito parecidas. Na verdade, faria muito mais sentido as duas serem melhores amigas, mas a verdade é que e eu nos demos bem desde o primeiro olhar. Talvez porque tenhamos o que falta na outra, e isso faz com que as duas consigam um equilíbrio dentro de si.
- Eu também sabia que você tinha amado. - falei rindo, já me trocando. - Você vai mesmo se inscrever?
acabou dando uma gargalhada.
- Você acha mesmo que eu perderia esta oportunidade? Filha, eu nasci pra ser rainha.
- Illéa que tome cuidado. - disse, também rindo.

Nós até convidamos Jane para ir junto, - confesso que o convite partiu de , mas eu não me opus - mas ela não quis ir conosco. Então, lá estávamos nós duas passeando pelo shopping e fazendo o que todo mundo fazia lá: comprar e olhar as pessoas.
- Que movimentação é aquela ali na praça de eventos?
olhou pra os dois lados procurando pistas, mas tirando os passos apressados que muitas garotas davam rumo ao tumulto, não havia pista alguma.
- A impressa tá lá.
- Será que aconteceu alguma coisa? - indaguei.
- Então é uma coisa muito boa, as meninas estão indo todas sorrindo.
Puxei minha amiga pelo braço e apressei os passos como todas as outras garotas estavam fazendo.
- Vamos lá, estou curiosa.
Ao chegarmos ao local, encontramos uma multidão de garotas tirando suas maquiagens da bolsa e passando de forma veloz. Aquilo só podia, no mínimo, ser algum concurso de beleza.
- É da realeza. – falou, apontando para o brasão da família de Illéa. – Pode nos dizer o que tá acontecendo? – minha amiga perguntou a uma garota que passava.
- É a inscrição para a Seleção. Eles avisaram hoje cedo na tevê, muita gente nem sabe.
Vi minha amiga ficar branca como um papel e suspeito que até eu fiquei. Senti como se estivesse prestes a entrar em algo muito maior que eu, embora eu não pretendesse me inscrever.
- Fica calma e respira. – falei. – Você não pode desmaiar na fila.
- Fila?
Acabei rindo. estava beirando o pânico.
- Sim, . A fila para fazer a inscrição. – e apontei para onde as meninas estavam indo. – Você vai, não vai?
- Claro que vou. Eu só preciso respirar uns segundos antes disto.
Depois de esperar os segundos – que na verdade foram minutos – que pediu, seguimos para a fila. Eu estava ao lado dela enquanto esperávamos a sua vez, até que finalmente chegou a vez dela.
- Pode vim, garota. Vamos primeiro tirar uma foto sua e depois faremos algumas perguntas e te daremos uma ficha para preencher.
- Vai lá, te espero aqui.
Mas antes que eu virasse, segurou firme no meu braço.
- Não sei se consigo fazer isso, . – falou, baixinho.
- O quê? Você nasceu pra ser rainha, esqueceu? – tentei brincar.
Nosso cochicho acabou chamando a atenção da organizadora.
- Algum problema?
- Ela está apenas um pouco nervosa, mas já está indo. – respondi.
- Você não vem? – ela me perguntou.
- Não. – respondi com um sorriso sem graça.
- Ela pode entrar comigo? – perguntou.
A mulher ponderou por um tempo, mas logo nos liberou.
- Claro.
Quando entramos na estrutura que estava por trás das paredes improvisada, encontramos vários fotógrafos tirando fotos de garotas sorridentes que pareciam já se enxergarem no palácio. , aparentemente mais calma, sentou em frente a um dos bancos e escutou instruções do fotógrafo a sua frente.
- Não precisa ficar nervosa, okay? São apenas duas fotos, simples.
- Relaxa, . – incentivei.
Depois que minha amiga tirou as duas fotos, já íamos saindo quando o fotógrafo nos chamou.
- Você não vai, garota? – perguntou a mim.
- Ah, não. É só ela mesmo.
- Você não vai conseguir entrar com ela para a entrevista se não tiver tirado fotos. Uma etapa leva à outra.
- Tira, .
- , eu falei que não quero me meter nisto.
- São só duas fotos, quais as chances de você ser selecionada? Não me deixa sozinha nessa. – ela pareceu implorar.
- Ei! – lhe chamei atenção – Vai dar tudo certo, eu não preciso estar lá para isso. – tentei tranquilizá-la.
Pela primeira vez desde que nós duas, quando crianças, fomos pegas bagunçando na escola e paramos na diretoria, eu vi assustada.
- Por favor, . – suplicou.
- Tudo bem. – resmunguei.
Mesmo não estando empolgada, sorri para as fotos. Eu podia não querer estar ali, mas também não queria fotos feias minhas na mão do rei.
- Podem ir.
Depois das fotos chegou a etapa das entrevistas, onde respondíamos as mais variadas perguntas. Desde qual era a nossa cor preferida, até se ainda éramos virgens. Punições escolares e até ficha policial não passaram dos olhos e ouvidos atentos dos entrevistadores, e eu acabei rindo ao pensar em como estaria na hora de contar a punição que levamos mais novas. Será que ela contaria? Eu contei e ainda consegui uma risada do rapaz que me entrevistava.
Aparentemente nossas palavras sobre as punições e ficha criminal não valiam muita coisa, eles queriam provas e tivemos que dar nosso nome completo e também outros dados que deram a eles acesso ao nosso histórico escolar e nossa ficha na guarda. Acho que eles temiam que alguém se infiltrasse e fizesse algum mal a monarquia, inteligente da parte deles, mas não deixei de pensar que muita gente lutava por tempos melhores – ou até contra a monarquia - sem precisar sujar as mãos, eu escrevia tudo em site, por exemplo. Coisa que eles jamais descobririam.
Após isso, fomos para uma outra sala onde respondíamos perguntas de conhecimentos gerais. Coisas que aprendemos na escola ou vemos no jornal. Parecia que o príncipe queria mais que um rosto bonito para fazer seu povo de bobo.
Por último pudemos preencher nossas fichas. Cada vez que saíamos de uma sala para outra, e eu nos abraçávamos e eu lhe dava forças antes de nos separamos mais uma vez, mas naquela última sala pudemos ficar juntas, já que eram mesas com várias cadeiras. Suspeitei que aquela entrevista, assim como a pesquisa e as perguntas de conhecimentos gerais, serviam como uma espécie de pré-seleção. Nem todas as fichas chegariam ao palácio, eles apenas não achavam adequado contar aquilo para nós.
- Não achei que fosse ser um processo tão longo. – disse quando finalmente saímos da estrutura projetada para as inscrições. – Antigamente era apenas preencher a ficha e tirar uma foto, não era?
- Acho que estão mais rígidos dessa vez. Os tempos mudaram. – dei de ombros, sem pensar muito naquilo.

O caminho para casa foi bem falante, não parava de pensar em como seria sua vida no palácio. Era como se a seleção já estivesse feita e ela fosse uma das selecionadas. Acabei rindo.
Chegamos em casa e antes que eu pudesse falar qualquer coisa, já foi contando as novidades.
- Sabiam que serei a próxima princesa de Illéa? – ela indagou enquanto dava um abraço na minha mãe.
- Como? – meu pai indagou e ela sorriu.
- Acabei de fazer minha inscrição, também se inscreveu.
É difícil dizer quem ficou mais chocado com aquele fato. Meu pai deixou o queixo cair e olhou para minha mãe como se buscasse respostas, já ela, me encarou de um jeito estranho, tive a impressão de ter visto um leve desapontamento. Jane foi um show a parte. Ela estava comendo quando falou. Deixou o garfo cair, engasgou e precisou que minha mãe corresse ao seu amparo.
- Respira, filha.
Assim que recobrou o ar e a possibilidade de falar, pareceu ter esquecido qualquer contratempo.
- Você se inscreveu? Você vai para o palácio? Já disse que te amo hoje? – e jogou-se nos meus braços como se estivesse abraçando qualquer pessoa, menos a irmã dela.
Larguei-me de seus braços sem muita cerimônia.
- Não, você não disse. E continua não dizendo. A pessoa que você diz amar talvez possa ser a . Eu apenas dei apoio a porque ela estava muito nervosa, entrei e acabei me inscrevendo por isso. Mas eu não quero saber de Seleção, não quero ser selecionada, não conhecerei o príncipe e muito menos morarei no palácio. Não precisa me agarrar por isso, Jane.
- Que tal se acalmar, ? – minha mãe advertiu erguendo uma sobrancelha.
- Tá bom.

O dia seguiu e embora todos em casa tentassem deixar de lado o papo Seleção para que eu não me irritasse, era nítido que todos pensavam nisto, até mesmo eu, que já imaginava se mudaria alguma coisa caso fosse para o palácio. Mas tentava deixar minha mente longe disto. Quando não consegui, resolvi me render ao assunto e fui ler notícias sobre o andamento da Seleção.
“A Seleção é uma prova de que o povo é amado. Queremos conhecer melhor essas garotas, saber de seus anseios, ver mais do mundo que muitas vezes as obrigações nos impedem de ver. Essas garotas serão grandes lutadoras e ficarei muito feliz de talvez ter uma delas na minha família.” O rei dizia em uma entrevista gravada.
Ele parecia ter total domínio sobre aquele assunto, mas quando questionado sobre o motivo do Príncipe estar no lugar que deveria ser ocupado pelo Príncipe George, foi claro seu incômodo.
“Há muitos anos este processo deixou de existir e a última vez que ocorreu deixou muitos incertos sobre sua eficácia. Sendo assim, não temos a intenção de forçar um casamento ou o povo de aceitar alguém que eles não desejam no poder. Estamos sendo mais cuidadosos.”
A mulher, muito ousada, diga-se de passagem, resolveu ir mais fundo e perguntou se ele duvidava da capacidade de uma plebéia de liderar o país junto com seu filho e também indagou se o próprio príncipe não teria pedido para não fazer parte, visto suas últimas palavras sobre o que ele achava de nós.
“Não aturarei insinuações, senhorita. Muito menos que ponha palavras na minha ou na boca do meu filho. Príncipe George jamais iria se opor a qualquer coisa decidida por nós para o bem do povo e do reino, ele sabe os deveres que deve cumprir. Assim como seu irmão, que mesmo não sendo o herdeiro principal do trono, também cumpre seus deveres.”
E foi ali, com aquelas palavras, que eu tive a certeza: A Seleção queria nos enganar e dar uma falsa esperança. Príncipe estava apenas cumprindo o dever de participar daquilo, mas largaria a moça assim que a poeira abaixasse. Eu precisava escrever sobre aquilo.
Sentei em frente ao meu computador e comecei a digitar o que tanto me incomodava.

“O atual pão e circo.
Não sabemos direito como essa expressão surgiu, é uma das muitas palavras ou frases que apenas falamos sem saber de onde vieram porque nossos livros de história não explicam. Mas sei que significa algo como um jogo de propagandas para entreter o povo e tirar o foco dos problemas. Não é isso que está acontecendo agora?
A Seleção foi abolida há anos, cerca de cinco reinados já vieram sem que houvesse menção a esse assunto, mas justo quando o povo está insatisfeito, quando o Príncipe George dá ao povo a prova de que somos deixados de lado, esse processo retorna.
Não sejamos bobos, em uma recente entrevista o rei, depois de não conseguir explicar com clareza por que o Príncipe George ficou fora dessa, deixou claro que o seu outro filho está apenas cumprindo um dever. E qual dever é esse? Antes, na época que A Seleção ainda acontecia, poderíamos dizer sem julgamentos que os príncipes tinham mesmo que participar. Mas hoje, depois de anos deixado de lado, por que enxergar a Seleção como um dever novamente?
A resposta é simples:
Não é a Seleção que é o dever do Príncipe , mas sim entreter o povo e dar a eles um circo enquanto nossa majestade pode continuar guiando seu reino da maneira que quer sem mais interferência. O circo está feito e o palhaço somos nós.”

Depois de escrever isso achei que esse assunto estava por fim tirado da minha vida por aquele dia, mas não podia estar mais enganada. Bastou chegar a hora de dormir para que eu não pudesse fugir de Jane.
- Ainda não consigo acreditar que você pode ser uma das selecionadas. - Jane falou, sentando em sua cama e balançando as pernas de um jeito empolgado. - Você vai conhecer o palácio. Já pensou nisto?
Rolei os olhos.
- Eu não vou conhecer nada, Jane. - falei com a voz cansada. - Se você visse o tanto de meninas que tinha, fora as que ainda iam chegar, iria ver que não tenho nenhuma chance de ser selecionada. Podemos dormir, agora?
- Claro que você tem. - ela desdenhou da minha resposta.
Eu amava minha irmã, não pensem o contrário. Mas na maior parte do tempo era bem difícil nossa convivência.
Jane era o oposto de mim em várias coisas e acho que não sabíamos lidar muito bem com aquilo. Naquele exato momento, por exemplo, tudo que eu queria era que ela sumisse da minha frente junto com seu papo sobre a Seleção. Não via a hora dela finalmente casar.
- São centenas, talvez milhares de meninas, Jane. Eu não tenho chance alguma.
Pela primeira vez desde que todo aquele papo de Seleção começou, lá quando passou no Jornal Oficial e discutimos, vi Jane olhar para mim de igual para igual e dar um sorriso um pouco condolente.
- Você ainda não percebeu, né? - ela parecia um pouco triste por algo que eu ainda não sabia. - Todas essas meninas têm que vencer a mesma quantidade que você. Então, você tem as mesmas chances que elas, que a . Se você acredita que pode ser chamada, aceite que você também pode. Alguém terá que ser chamada, . E sinto muito em dizer, mas esse alguém pode muito bem ser você.
Posto daquela forma, não tinha como negar que minha irmã estava certa. Senti meu coração apertar a quase esqueci como se respirava. Eu realmente tinha chance. Em um sorteio, seja ele sobre o que for, alguém tem que ganhar, não é mesmo? E eu podia, mesmo que não visse isso como ganho.
- Sei que você não gosta dessa ideia, mas é a realidade. E desculpe, mas eu ficaria bem feliz se você fosse uma delas.
E então toda complacência da minha irmã se esvaiu e ela voltou a ser a Jane de sempre. Onde na maioria das vezes não importa muito como o outro vai ficar, desde que ela fique bem.
- Tá bom, Jane. Agora, se não for pedir demais, me deixa dormir.
Virei para o outro lado bufando, mas não era pela minha irmã, e sim por mim. Como não pensei nisso antes? Se eu fosse chamada para aquela droga, poderia me negar a ir? Se sim, será que minha família não ficaria envergonhada? Se não, como eu iria conseguir lidar participando de algo que tanto repudiava? Como agiria perante um rei que eu não admirava? Como conviver com eles e não terminar sentenciada a algo terrível? Como iria fazer parte daquele show que visava apenas alienar as pessoas? Eu conseguiria fazer parte do jogo?
Me fiz tantas perguntas e me imaginei em tantas situações que acabei perdendo o sono. Quando finalmente consegui dormir, acordei - tive a sensação de que foi segundos depois - com Jane puxando meu cobertor e dizendo, com uma expressão maravilhada, assim que abrir os olhos:
- Bom dia, flor do dia. Saiba que suas chances acabaram de ser dobradas. Vão sortear duas de cada província para a Seleção. Você tem mais chances que nunca!


Capítulo Dois

O susto foi tão grande que me virei rápido demais da cama e acabei caindo da mesma.
Do que Jane estava falando?
- O que você tá falando?
- O site do Jornal Oficial acabou de publicar uma nota oficial falando sobre isso. Como as pessoas conseguiam viver sem internet antes, hein?
- Foco, Jane! Foco! – pedi, enquanto levantava do chão e passava as mãos nos cabelos. – O que essa nota dizia?
- Espera! – pediu, dando um pulinho – Vem aqui comigo ler.
Eu saí do quarto sendo puxada por Jane e com a mente a mil por hora.
- Olha aí. Foi essa a nota.
Olhei para a foto com o brasão de Illéa na parte superior, e com letras pequenas estava escrito:
“A coroa tem o prazer de anunciar que algumas outras mudanças foram feitas no processo da Seleção.
Serão sorteadas duas garotas de cada província, mesmo que apenas uma vá ser escolhida para integrar o time oficial da Seleção. E esse sorteio duplo é porque agora teremos a certeza que 36 garotas formarão o time de selecionadas oficias e terão chances de conquistar o coração do amado Príncipe . E uma delas quem irá escolher é a nossa amada nação de Illéa...”
Eu não assimilei muita coisa depois daquelas primeiras palavras.
Então agora duas garotas teriam parte de suas vidas mudadas e uma delas teria uma sobrevida que a levaria direto para o palácio. Senti o sangue escapar de meu corpo.
Depois da conversa com Jane na noite anterior, finalmente percebi o quanto poderia estar encrencada, e agora minhas chances haviam dobrado. Respirei fundo tentando convencer a mim mesma que ainda assim eram milhares de garotas para apenas dois nomes sendo puxados, mas o medo me impedia de seguir com essa linha de raciocínio por muito tempo.
Puxei o braço da minha irmã e lhe falei, quase como um pedido de ajuda:
- Eu não quero ir, Jane. Eu não quero ter chance de entrar naquele lugar.
Eu podia até correr risco de morte se encontrassem meu site, logo me passou pela mente. Mas para um bem da minha sanidade mental, guardei esse pensamento no fundo do meu cérebro.
Jane falando me trouxe novamente a realidade.
- Por que você fez isso se repudia tanto a Seleção, ? – indagou com uma careta. – Você parece pronta para ir para a forca só de ler isso, como pode ter se inscrito?
- Na hora não me pareceu nada demais. – falei, meio agoniada. – Eu só pensei que estava ajudando a , até nossa conversa eu nem achava que havia a mínima chance de ser sorteada.
- Acho que você perdeu o título de mais inteligente dessa casa, então. – Jane disse rindo. – E pense pelo lado bom, na pior das hipóteses você vai sair de lá com uma boa quantia, famosa e cheia de pretendentes. Não é esse sacrifício todo.
Dessa vez não briguei com Jane, apenas respirei fundo e fiquei repetindo para mim mesma que eu não seria sorteada. O universo não me pregaria essa peça, pregaria? Só Deus sabia o quanto eu não queria aquilo, e tinham milhares de garotas querendo, então, com certeza Ele faria outra pessoa ser sorteada.
Era isso! Eu não seria sorteada.

A noite o Jornal Oficial foi quase todo dedicado a explicações de como funcionaria a Seleção depois de tantas mudanças. Embora os dois príncipes estivessem lá com o rei e a rainha, apenas o rei estava falando:
- Muitos ainda parecem confusos depois da nossa nota oficial, então vamos explicar mais uma vez para vocês. Daqui a dois dias, quando o grande sorteio ocorrer, dois nomes de cada província serão tirados do cesto e a partir deste momento essas setenta moças já serão uma extensão da família real, se tornando prioridade vossa segurança. Mandaremos uma equipe especial acompanhar o dia a dia dessas moças e já no dia após o sorteio transmitiremos para vocês um especial com cada uma delas e uma votação será aberta para que vocês, amado povo de Illéa, possam garantir que uma dessas lindas garotas já esteja direto na Seleção. As outras sessenta e nove meninas serão avaliadas por nós e uma de cada província será selecionada para o time.
Conforme o rei ia falando, tudo me parecia ficar cada vez pior. Mais cedo Jane havia me dito que na pior das hipóteses eu sairia com uma boa quantia de dinheiro, famosa e cheia de pretendentes. Mas aquela garota que fosse sorteada e não chegasse a verdadeira Seleção apenas teria sua vida exposta e depois sairia disso tudo sem qualquer dinheiro e ainda parecendo pouco demais para tal evento.
- É uma mudança e tanto no processo. – minha mãe falou enquanto o rei continuava a falar.
- Isso faz com que minha irmãzinha tenha bem mais chances de chegar lá. – Jane disse me abraçando de lado e eu rapidamente fugi dos seus braços
- Não sou tão simpática assim, Jane. Dificilmente o povo me escolheria. Você mesma não me acha sem graça?
- Não precisamos que você seja escolhida, mas sim que seja sorteada com outra garota que tenha potencial de ser a escolha do povo. Não percebeu? Se obrigatoriamente eles terão que selecionar uma de cada província, aquela que tiver uma das meninas escolhidas pelo povo, terá apenas uma garota para a outra fase, garantindo assim que as duas estejam na Seleção.
Era verdade. Eu estava tão nervosa que nem havia pensado nisto.
- Eu nem tinha me tocado. – comentei.
- Como eu disse hoje cedo: você perdeu o posto de mais inteligente desta casa. – Jane disse com um risinho que não retribui porque minha mente estava bem mais longe que isso.
não apareceu em casa aquele dia, com certeza estava arrumando as coisas da sua formatura e eu fiquei grata por sua ausência. Não queira ter que falar sobre a Seleção, mas não queria ser grossa com ela também. Então, era melhor que pelos próximos dois dias a gente não se visse tanto. Até porque algo não saía da minha: e se eu fosse sorteada e ela não? E se nós duas fôssemos sorteadas e eu escolhida? Será que me culparia?

Durante aquela madrugada tive diversos pesadelos com a Seleção, e eles iam desde eu sendo sorteada e não, até eu tendo a infelicidade de casar com o príncipe.
No dia seguinte acordei com duas garotas sorridentes puxando meu cobertor. e Jane falavam coisas desconexas e insistiam em me tirar da cama.
- O que vocês querem?
- Que você saia já daí para finalizar os detalhes de amanhã comigo. Nem nos meus maiores sonhos eu teria a chance de me formar e ainda ser uma selecionada apenas em um só dia. – disse dando pulinhos empolgados.
- , não é querendo ser pessimista nem nada, mas você sabe que não é certeza, né? Será um sorteio.
- Um sorteio pré-selecionado, , eles mesmo meio que assumiram isso ao pedir nosso histórico e tudo mais. Nós estudamos em boas escolas, temos boas notas, somos meninas que sempre andaram na linha e somos lindas. Isso tudo já impedirá metade das garotas de terem seus nomes naquele cesto.
- Você estudou em boa escola, eu estudei em uma escola do sistema público. Isso significa que estou fora.
- Em uma das melhores escola do sistema público, e fala mais de uma língua. Não seja idiota. Nós duas seremos selecionadas.
Aquele parecia ser um sonho perfeito para , mas para mim era ainda pior que ser sorteada sozinha. Eu não queria competir com ela de maneira alguma, nem mesmo naquela pré-seleção das setenta garotas, e me recusava a imaginar nós duas no castelo. A Rainha America era a prova de que você não precisava querer a coroa para consegui-la, todos falavam que em sua Seleção ela demonstrava querer bem pouco ser escolhida até as últimas semanas, então, não querer a coroa não me impedia de ser concorrente de caso as duas chegassem lá.
- Vamos, vai logo tomar um banho. – Jane falou, me tirando do transe.
- Okay. – foi tudo que consegui dizer.

Cheguei a acreditar que a formatura de me faria esquecer do sorteio, mas todos naquele lugar me faziam lembrar que nosso futuro poderia ser selado em algumas horas. Inclusive, seus pais colocaram uma tevê enorme no meio do salão para todos nós podermos assistir juntos sua filha ser sorteada. Vendo toda aquela euforia, não deixei de orar para que estivessem certos, seria frustrante se algo saísse errado.
Tentei me distrair dançando e cantando com alguns conhecidos, estava mais solta do que nunca, tudo isso para fingir que não tinha nada a ver com o evento que logo mais viria. Quando finalmente comecei a esquecer, alguém gritou:
- Todos sentados, é a hora do Jornal Oficial!
Foi automático. A música parou, as luzes acenderam, a tevê foi ligada e um silêncio desesperador se instalou no salão.
Tudo foi passando como um borrão na minha frente, eu pouco entendia do que estava sendo falado na tevê. Tudo que conseguia fazer era apertar com força a barra do meu vestido e implorar para que tudo desse certo. Então os nomes começaram a serem tirados dos cestos, um a um. Éramos de Sonage, então, seríamos uma das últimas a serem sorteadas de acordo com a ordem que falaram.
- É agora, é agora! – alguém gritou e me fez abrir os olhos e me dar conta que éramos o próximo cesto.
- De Sonage, a senhorita Mitchell.
O salão explodiu em gritos, abraços e lágrimas. Ninguém mais olhava para a televisão e eu quase fiz o mesmo, mas foi aí que eu vi, mesmo que o barulho tenha me impedido de escutar, minha foto aparecer ao lado da foto de . Foi como receber um soco na boca do estômago, eu sentia a dor e o enjôo.
Indo contra todas as probabilidades, Jane e estavam certas desde sempre. Nós duas fomos sorteadas, eu, mesmo sem querer, era agora também uma das selecionadas.


Capítulo Três


Naquela noite do sorteio, graças ao tumulto que se instalou na festa da por causa da sua “conquista”, consegui sair dali antes que notassem que meu nome também havia saído, mas infelizmente não consegui passar despercebida em casa. Assim que entrei, minha mãe me olhava num misto de horror e incredulidade, já meu pai parecia chocado demais para demonstrar qualquer emoção.
Ficamos em silêncio até que, quando eu estava caminhando para o meu quarto, minha mãe falou:
- Você odeia essa Seleção.
- Constatar o óbvio não vai ajudar em nada, mãe – respondi, segurando minha vontade de chorar.
- Como você conseguiu sair da festa sem que as pessoas te segurassem para comemorar?
- Todos tiraram os olhos da tevê assim que a foi sorteada.
- Eu sinto muito – meu pai finalmente falou e foi o que bastou para que eu caísse no choro.
Meu Deus, aquilo não podia ser verdade. Eu não podia ter sido sorteada. Com tantas pessoas naquela província, por que justo eu?
Chorei pelo que pareceu horas, mas na verdade foram apenas alguns minutos. Pretendia chorar ainda mais no colo dos meus pais, quando minha mãe falou:
- Eu acho melhor você ir dormir. Daqui a pouco a Jane vai se dar conta e não será um bom encontro.
- Ela vai me acordar e falará comigo do mesmo jeito.
Ainda tinha isso. Eu teria que lidar com a animação da Jane.
- Cuidaremos disso, . Apenas vá tentar descansar. Amanhã o dia será longo – meu pai disse com pesar.
Não discuti. Não estava pronta para ver Jane e toda sua felicidade egoísta.
Antes que eu tivesse tempo de deitar na cama e chorar até amanhecer, minha mãe bateu na porta segurando um copo de água e um comprimido.
- Toma esse remédio, é para dormir. Natural. Sei que você não quer falar sobre isso, mas amanhã isso estará cheio de câmeras, e acho que não vai te fazer bem aparecer com cara de choro.
Isso era outra coisa que eu não podia discutir. De fato, não ficaria bem aparecer com cara de choro. As pessoas podiam ver isso com maus olhos.
- Obrigada – falei e tomei o comprimido.
Depois disso derramei algumas poucas lágrimas antes de cair no sono. Não tenho certeza se foi um sonho ou realidade, mas tenho lembrança de Jane entrando no meu quarto. Se foi verdade, ela não conseguiu falar nada comigo.

👑👑👑


Meu pai estava certo sobre o dia seguinte. Ele foi longo como nunca. Uma vez na escola, ouvi sobre o tempo parecer passar mais devagar quando fazemos algo que não gostamos. Naquele dia tive certeza que aquilo era verdade. Cada segundo pareceu durar uma eternidade.
Eles filmaram minha casa, entrevistaram minha família e surtaram de felicidade ao descobrir que minha melhor amiga era a outra sorteada.
- Esse é um ótimo entretenimento. Tudo que precisávamos.
Quis vomitar ao perceber que agora eu era parte oficial da atração circense. Eu agora ajudaria a coroa a fazer o povo de palhaço.
Depois de filmarem meu quarto e me pedirem para fazer várias coisas que nem de longe eram coisas que eu fazia diariamente, eles falaram que precisávamos conversar a sós. Eu sabia o que viria a seguir: pergunta sobre virgindade. Que para meu alívio, eu podia responder que sim.
- Te daremos algumas roupas, então, precisamos que você olhe essa revista e diga quais cores você gosta mais, assim como quais modelos fazem mais seu estilo. Você será levada para uma pequena apresentação hoje à noite na praça. O Jornal Oficial será transmitido lá e você e sua amiga estarão no palco. Ainda hoje te entregaremos algumas roupas.
- Tudo bem – foi tudo que eu disse antes de pegar a revista e sair marcando o que gostava.
Depois disso eles foram embora e me informaram que uma equipe viria me arrumar e depois um motorista viria buscar a mim e minha família.
Bastou eles saírem para que eu caísse no choro.
Metade de mim queria poder correr na casa da e a abraçar forte na certeza de que concordando ou não comigo, minha melhor amiga me acalentaria. Mas a outra metade comemorava o fato de provavelmente ela estar ocupada demais para me ver.
Já pretendia seguir para o quarto quando o telefone tocou e minha mãe falou que era justamente minha amiga na ligação.
- Como você tá? – minha amiga foi logo perguntando.
- Sinceramente? Uma merda.
- Eu imaginei. Sabe, mas poderia ser pior se fosse apenas uma sorteada de cada província. Você não vai precisar chegar até o palácio – ela disse e eu pude perceber que de alguma forma isso a animava.
- Como assim?
- Eu quero muito ir, você não quer nem um pouco. É só não se mostrar disposta se tiverem que escolher entre nós duas. É óbvio que vou lutar para ser escolhida pelo público, afinal, quem for escolhida já terá uma chance bem maior. Óbvio que o rei vai dar mais atenção para a menina amada pelo povo, mas, sabe, de todas que podiam ter sido sorteadas, saber que foi você me alivia.
Aquilo acabou piorando ainda mais meu dia. Não queria que me ligasse para dizer aquilo. Ela era minha melhor amiga, deveria ter dito ao menos um sinto muito.
Aparentemente a coroa mexia com todos, mesmo antes de chegar perto de usá-la.
- , eu vou desligar, tudo bem? Estou cansada. Fico feliz que tenha conseguido o que tanto queria.
- Te chateei com algo, ?
Balancei a cabeça, mesmo que ela não pudesse ver e depois dei de ombros.
- Fica tranquila e curte seu dia. Vou deitar um pouco. Beijos.
Não esperei a resposta, coloquei o telefone no gancho e segui para o quarto. Dessa vez tão chateada que não me deu nem vontade de chorar.

Obviamente não consegui dormir a tarde sabendo que alguém poderia me acordar para me maquiar a qualquer momento. Quando já não aguentava mais rolar na cama, fiz o que já queria fazer desde a ligação de , mas que por medo de estar sendo espionada, me recusei: escrevi no meu site.

“O ego da coroa
Ontem tivemos setenta meninas sorteadas para viver o famoso entretenimento dos nossos livros de história: A Seleção. Como boa moradora de Illéa, acompanhei o sorteio ao vivo, assim como provavelmente todos vocês. Confesso que senti medo por cada nome que estava dentro daqueles cestos, mas me confortava pensar que apesar de tudo, elas ainda seriam elas.
Me enganei. Nem todas são!
O ego da coroa é algo quase que inerente a quem se aproxima. Não precisa se colocar a mesma na cabeça para pensar apenas em si e usar os outros. Algumas pessoas precisam apenas ter a possibilidade de colocá-la um dia. O que me faz questionar se o erro é apenas dos nossos governantes.
Seríamos qualquer um de nós iguais a eles se colocássemos uma coroa na cabeça? Todos nós temos um lado ruim que se mostra quando temos poder?
A atual família real é uma das piores desde que tivemos nosso adorado Rei Maxon e nossa amada Rainha America, não podemos negar. Mas talvez, só talvez, não sejamos tão melhores que eles. Ao menos alguns, aparentemente não são.
Então, só queria pedir a vocês, caros leitores, que não se esqueçam de serem diferença. Não melhoraremos nosso país sendo semelhantes a eles. Não deixe que setentas garotas maquiada e bem arrumadas querendo uma coroa, despertem o pior lado de vocês.
A proximidade da coroa já mudou algumas, não deixe a Seleção mudar vocês!”


Aquele era um texto diferente dos que eu costumava postar. Eu geralmente não colocava nosso povo contra a parede daquela forma. Mas como poderíamos querer mudança se agíssemos iguais a quem nos governa? Hipocrisia não nos levaria a lugar algum e eu precisava alertar isso aos outros.
Depois de cerca de uma hora a equipe, não penas uma pessoa para me maquiar, chegou com algumas opções de roupas, sapatos, joias e fotos de modelo de cabelo para eu escolher. Tenho que confessar que as três opções de roupas eram lindas, eles tinham mesmo levado minha opinião a sério. Os sapatos e joias também eram muito bonitos, embora as joias fossem um pouco extravagantes.
- Quero essa roupa, esse sapato e apenas essa pulseira – falei, apontando para cada coisa que queria.
- Desculpe, querida, mas você tem que escolher algum colar ou brinco. Pulseira é o que menos aparecerá na câmera – um rapaz da equipe falou, fazendo biquinho.
- Na verdade você deveria escolher um anel também. Ir completa, você é linda, menina. Olhe esse conjunto de esmeralda, vão ficar lindos em você, combina com seus cabelos negros – uma garota falou empolgada e quase cedi, apenas para não contrariá-la.
- Não. Já acho que irei desmaiar com tanta gente me olhando, não quero chamar ainda mais atenção.
Eu sabia que o conjunto era lindo, mas não queria ter que usar todas aquelas coisas e chamar ainda mais atenção pra mim.
- Promete que se for selecionada você usa esse conjunto quando for para o palácio? – o rapaz que me falou que precisava escolher ao menos um colar ou brinco, me pediu.
Lembrei de falando que eu não chegaria ao palácio e então foi fácil prometer. Seria uma promessa que nunca precisaria cumprir.
- Claro – falei e as quatro pessoas à minha frente bateram palminhas.
Logo o rapaz e a garota estavam pintando minhas unhas, passando minha roupa e até se oferendo para me trocar – o que neguei veemente. Depois uma segunda garota fez meu cabelo e uma terceira minha maquiagem. Cerca de duas horas depois de chegarem, eu estava pronta.
- Se olhe no espelho – o rapaz pediu.
Caminhei até o espelho e por um segundo fiquei sem saber como respirar. Eu estava linda, era verdade, mas nunca estive tão distante da garota que eu era.
Uma dor no peito parecia apertar meu coração e me tirar todo ar e para não cair, tateei pelas paredes até encontrar minha cama.
- Você está bem? – uma das garotas perguntou, não sei quem.
- Levanta, vai amassar toda sua roupa – outra disse.
Tentei manter a calma, inspirar e expirar algumas vezes, mas não consegui. Meus pulmões ardiam e meu cérebro parecia entrar em colapso. Eu não conseguiria fazer aquilo.
- Vão pegar um pouco de água. Ela está passando muito mal! – acho que ouvi o rapaz gritar.
Provavelmente minha mãe escutou e logo ela estava de joelhos na minha frente.
- )? Filha? Consegue me escutar? Filha, olhe pra mim, tente ficar calma. Respira, respira.
Eu queria chorar, mas nem mesmo lágrimas saíam dos meus olhos.
Aos poucos fui conseguindo focar na minha mãe e fazer o que ela me pedia. Não sei quanto tempo precisei até me acalmar, mas quando dei por mim, já estava dentro do carro rumo a praça. E eu só conseguia pedir aos céus para não desmaiar quando chegasse lá. Minha família não precisava daquilo.

A nossa aparição na praça foi muito melhor do que esperava. Não precisamos falar mais do que um minuto. O resto do tempo apenas assistimos o compilado com a vida de cada menina. Obviamente nossa reação estava sendo filmada e passada em miniatura no telão da nossa praça, mas ainda assim foi muito melhor do que eu pensava que seria.
Na saída do palco, acabou me abordando.
- Você foi maravilhosa, . Sempre se expressando tão bem – e vi que ela estava sendo sincera.
- Obrigada, . Você também foi – e sorri.
Eu já pretendia seguir, quando minha amiga me puxou para um abraço e percebi que ela chorava.
- Eu me sinto tão culpada por ter te metido nessa. A Jane me falou que você tava super mal o dia todo. , eu juro que não queria isso.
Afastei com cuidado minha amiga e sorri ao olhá-la nos olhos.
- , eu quis entrar com você. Obviamente não esperava que fosse sorteada, mas eu sou a responsável por isso. Era meu o dever de pensar nas consequências, não deixe de aproveitar esse momento apenas porque não estou tão feliz quanto você.
- E hoje eu fui tão egoísta. Minha intensão ao te ligar era mostrar que não precisava se desesperar, mas no fim apenas soou como se eu estivesse feliz com sua tristeza.
Não pude deixar de me sentir feliz ao ouvir aquilo. Eu não tinha perdido minha amiga. O ego da coroa não tinha a afetado como eu achava que tinha.
- Tá tudo bem, . Não se preocupa com isso.
- Obrigada e me desculpa por tudo isso.
Sabendo que tinham pessoas me esperando, puxei-a para um abraço e falei em seu ouvido:
- Deixa disso, não tem o que se desculpar. Te amo, . v- Te amo, ).

👑👑👑


Nos dois dias seguintes, que seriam os dias de votação, a gente ganhou acesso a um site compartilhado entre as setentas garotas, onde a gente tinha o dever de atualizar com qualquer que fosse a coisa, ao menos cinco vezes no dia. Eu me restringi ao número mínimo, assim como mais algumas, mas , por exemplo, postou mais que o dobro disso.
Pelo que via, já existiam as preferidas e algumas delas nem precisaram postar tanto para isso. Os prefeitos de algumas cidades estavam empenhados em levar sua garota para o palácio. Orgulhei-me ao ver que minha amiga, mesmo sem esse incentivo extra, estava nessa lista. Ainda não queria que ela ganhasse aquela votação – já que ela ganhar me colocaria direto dentro do palácio – mas queria que quando ela entrasse, já fosse querida.
No terceiro dia, onde só erámos obrigadas a postar três vezes, era o dia em que o resultado seria divulgado. Todas nós fomos levadas a Angeles, para estarmos todas juntas quando o resultado fosse dado. Cada dupla viajou em um avião.
- Dá pra acreditar nisso, ? Estamos em um avião real – disse, quicando na poltrona.
- Na verdade esses aviões não são reais, apenas foram alugados pela coroa.
- Para de ser estraga prazeres, sua chata – falou, me chutando de leve. – Aproveita o momento.
Ela estava certa. Mesmo que não concordasse com aquilo, eu precisava relaxar e aproveitar de um extremo conforto que provavelmente jamais voltaria a ter.
Tomei um pouco do suco que nos serviram e depois fechei os olhos agradecendo pelo fim que seria dado aquela história toda em poucas horas. Obviamente eu já não era um anônima, mas alguns meses depois eu, de certo, cairia no esquecimento e teria minha vida outra vez.
Eu não poderia estar mais enganada.


Eu nunca achei que usaria algo tão deslumbrante em minha vida como estava usando naquele momento. Meu vestido longo – exigido para todas as garotas – tinha um tom rosa claro. Os meus ombros eram cobertos por um tecido transparente com pérolas que também ficava por cima do vestido por completo. O vestido rosa claro não tinha mangas, além do tecido transparente, e era justo até minha cintura, onde ele se abria um pouco formando uma saia leve e cheia de tecido, mas não armada, já que me recusei a usar algo armado. Eu me sentia linda e feliz por saber que pegaria minha carta de alforria.
Sorri na frente do espelho e aceitei de bom grado o abraço da equipe que me desejava uma sorte que não fazia nem um pouco de questão de ter.
As setenta garotas foram distribuídas em dois grupos que ficaram no lado esquerdo e direito do salão de filmagem. Como eles queriam que as duas garotas de cada província sentassem perto, então um lado teve duas garotas a mais que o outro.
- Dá pra acreditar que estamos vestindo algo assim? – indagou quando chegou ao meu lado.
- Com toda certeza, não – respondi aos risos.
- Espero que possa levar pra casa, quero poder usá-lo antes de voltar ao palácio.
Não pude responder sua frase, já que no segundo seguinte pediram silêncio para começar a gravar.

O mestre de cerimônia oficial da coroa entrou no palco e começou a falar várias mentiras que justificavam a volta da Seleção. Depois disso a palavra foi passada ao rei, que falou de maneira breve mais algumas mentiras e depois foi anunciado quem daria o resultado.
- Eu cheguei aqui achando que quem anunciaria a ganhadora da votação seria eu, mas ao chegar aqui a nossa equipe achou que nada mais justo que o próprio príncipe dizer quem será sua primeira pretendente. Alteza, junte-se a nós e nos dê o prazer de saber quem dessas maravilhosas garotas foi escolhida para ser parte efetiva da Seleção.
Ainda bem que a câmera não estava focada no príncipe naquele momento, porque eu, que estava o olhando, pude ver o horror percorrer seu rosto ao receber aquela notícia e me perguntei por que não tinham avisado a ele antes. Príncipe precisou de alguns segundos para conseguir levantar e caminhar até nosso mestre de cerimônia, mas em fim chegou lá.
- Vocês ainda vão me matar de coração – ele brincou, certamente tendo noção que se a câmera estivesse focada nele na hora, todos de Illéa veriam sua reação.
- Jamais, alteza. Quero vê-lo bem e vê-lo feliz ao lado de uma dessas garotas – Cail, disse, puxando o príncipe pra um abraço. – Pode nos dar a honra de conhecer qual delas já faz parte das trinta e cinco garotas? – indagou enquanto colocava o envelope nas mãos do príncipe.
- Claro.
Eu tenho certeza que esperavam mais suspense e paciência do príncipe ao anunciar quem tinha ganhado a votação, mas ele foi rápido e desesperado. Não tive tempo de me preparar para o que estava por vir, antes que pudesse puxar o ar para meus pulmões escutei uma notícia ainda pior que ouvir meu nome sendo tirado daquele cesto três dias atrás.
- E a nossa amada Illéa decidiu que essa garota será: Mitchell.
gritou alto e depois me agarrou aos prantos. Demorei cerca de um minuto para chorar também. Mas enquanto ela me abraçava querendo compartilhar sua felicidade e chorava de prazer, eu a abraçava em busca de consolo e cada lágrima que caía era de tristeza e desespero.
tinha conseguido ganhar. era a primeira garota da Seleção. E eu, , a garota que escrevia contra o atual governo, era a segunda.


Capítulo Quatro

Todas as garotas já haviam sido encaminhadas para o hotel e seguiriam para suas casas no dia seguinte. Com exceção de Mitchell que permaneceria lá até que as outras participantes fossem selecionadas. Sua família seria encaminhada para o hotel para passar os próximos três dias que antecederiam a divulgação da lista oficial ao lado da garota.
Embora a divulgação da escolhida tenha dado uma das maiores audiência dos últimos tempos, o rei não parecia tão contente com o resultado.
- Você viu a forma com ele anunciou, Daisy? – o rei perguntou a esposa. – Viu como ficou nítido que aquilo era um sacrifício para ele?
- George, ele apenas estava nervoso. Você deveria entendê-lo. Há anos não existe Seleção. Não ficaria nervoso se tivesse passado por isso?
O Rei George deu um sorriso debochado para a esposa.
- Talvez uma Seleção fosse tudo que eu precisasse agora. Um monte de garotas lindas a minha disposição. Talvez eu até encontrasse uma melhor que você.
A rainha não pôde responder. Um dos conselheiros apareceu no momento, anunciando que a presença do rei era necessária na sala de reuniões para tratar de alguns assuntos orçamentários.
- Converse com seu filho, Daisy. Eu mato aquele garoto se isso não sair como planejei. – ele cochichou.
Como sempre era na frente das pessoas, ela retribuiu as palavras com um sorriso e um beijo no rosto do esposo como se tivesse escutado a mais linda declaração.
- Também amo você, George.
Assim que virou as costas falou consigo mesma.
- Um dia ele morre e você não precisará conviver com ele. Ele há de morrer.

A Rainha Daisy tinha muitos defeitos. Era distante do povo e da família, dissimulada e ambiciosa, mas ninguém poderia contestar seu amor pelos filhos, embora ela demonstrasse pouco. Assim que deixou o marido no corredor, seguiu para o quarto do filho para tentar arrumar as coisas.
- Posso entrar? – perguntou.
- Claro, mãe.
levantou e como de costume beijou a testa da mãe e a abraçou rapidamente.
- O que te traz aqui?
- Seu pai não gostou muito do seu jeito no programa hoje. E embora eu odeie dar razão a ele, acho que realmente você poderia ter sido melhor na sua performance.
- Performance? Mãe, é o meu futuro que está em jogo!
- Filho, é o seu dever como príncipe. Você sabe que deve fazer o que for necessário para o bem do povo.
sabia que seria muito melhor se manter calado, mas ao ouvir aquilo toda sua tensão e seu estresse guardado desde que aquela maldita Seleção começou, atingiu o ápice.
- Dever? Isso não seria meu dever se meu pai realmente trabalhasse pelo bem do povo. Além do mais, isso está longe de ser pelo povo, é apenas pela coroa. E ainda que você estivesse certa, acho que seria a pessoa errada para me dizer isso.
Ele viu sua mãe mudar de feição e aos poucos seu rosto assumir uma expressão de indignação.
- Isso é uma crítica a sua mãe?
Era tarde demais para voltar atrás nas palavras ditas, agora iria até o fim.
- O que a senhora tem feito pelo povo? Qual foi a última vez que “sujou” suas mãos reais para fazer algo além de aparecer esporadicamente em eventos beneficentes? Até mesmo o rei faz mais do que você.
- Acha que nunca amei Illéa? Acha que sempre foi assim?! – a rainha indagou consternada. – Esse país já foi tudo para mim. Eu vim da Nova Escócia decidida a viver meu dever para com o povo. Mas há anos Illéa se transformou em meu motivo de vergonha. Não há uma vez em que eu saia em público e não tema encontrar uma das mulheres do seu pai. Eu já tive que me inclinar para uma plebeia porque ela exigiu que eu fizesse isso ou diria no meio do evento que dormiu com o rei. E quando fui falar com o George, sabe o que ele disse? Incline-se.
Escutar tudo aquilo somado a rosto consternado da mãe fez com que recuasse um pouco em suas palavras. Respirou fundo, baixou o tom e falou:
- Mãe, todas essas garotas estão vindo para o palácio sonhando com um romance encantado. Você viu a cara da menina que venceu? Mãe, ela chorava desesperadamente por ter sido selecionada. Aquilo não poderia ter me assustado mais. Elas estão vindo a procura de um amor que provavelmente não vão ter.
- Nem tudo se resume a amor, . Você vai estar dando a essa menina ao menos alguns meses de uma vida que sem a Seleção ela nunca teria. Ainda que acabe com ela, a vida dessa garota melhorará como ela nunca imaginou. E isso muitas vezes é o que basta. O que uma mulher poderia querer de melhor?
- Então talvez a senhora não tenha tanto o que reclamar assim da sua vida.
- Eu quase sempre odeio seu pai, mas minha família, embora tivesse título, estava fracassada. Não me arrependo de ter casado, morar com George é muito melhor que ter que vender todos os bens e viver como uma simples plebeia.
queria vomitar ao escutar aquilo. Que saudade sentia do avô. Fora a única pessoa com escrúpulos que chegou a conhecer.
- Além do mais, eu ganhei você e o George. E meu amor por vocês transforma tudo em algo suportável.
Mesmo diante daquela declaração ainda se sentia enojado.
- Por nós e pelo dinheiro.
- Sim. – a rainha respondeu com calma. – Mas ainda que você não me admire, não duvide do que sinto por vocês. Você e seu irmão seriam os únicos motivos que me fariam deixar o dinheiro de lado. Apenas vocês.
se manteve calado. Era muito melhor que dizer que não conseguia acreditar de verdade naquilo.
- Eu preciso ir. – a rainha falou – Mas não esqueça o que falei, . Gostando ou não esse é o seu dever, e sabendo quem é pai eu sugiro que o cumpra com excelência.
Assim que ficou sozinho no quarto quis quebrar tudo que tinha ali, mas a verdade é que ele nunca foi dado a esse tipo de atitude. Quando finalmente se acalmou escutou outra batida no seu quarto, mas decidiu ignorar, até que viu a porta ser aberta mesmo sem sua autorização e seu irmão aparecer lá dentro parecendo em pânico.
- Eu preciso que você faça alguma coisa pela outra menina que é da província da tal . Eu resolvi sair mais uma vez escondido e assim que cheguei no bar escutei algumas pessoas conversando e dizendo que já sabiam como mandar uma mensagem para a coroa. Era só atingir a única selecionada que eles têm acesso. Certamente será mais ovos e comida podre, mas ainda que seja algo que não mata, essa menina não tem culpa, .
- Como assim? Do que você tá falando?
- Não precisa ser muito inteligente para entender que se escolheremos mais uma de cada província, essa menina já está dentro, . O povo entendeu e quem nos odeia agora odeia ela também. Seu nome é e agora ela é o alvo.





Continua...



Nota da autora: Oláááá! Como podem perceber, ainda há muita coisa pra rolar antes da vida no palácio chegar.
E o que vocês acharam da rainha? Agora vocês conhecem todos os membros da família real.
Vocês podem ter entranhado não ter a pp narrando a história, mas queria explicar como vai funcionar. A maioria da história vai ser sim narrada por ela, mas quando o foco for os membros da realeza, assim como foi no prólogo, a narração será em terceira pessoa. Isso acontecerá poucas vezes, mas agora vocês já ficam sabendo.
Beijos e até a próxima atualização.




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Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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