FFOBS - Passaporte Rússia, 2018, por Flávia Coelho

Última atualização: 19/10/2018
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Capítulo 7 – Brasil x Sérvia, Agora Vai!

- Então, você achava que eu namorava? – Ele comentou e eu balancei a cabeça, rindo em seguida.
- O que você queria que eu pensasse? – Coloquei as mãos no bolso de trás da calça. – Você estava lá, sorridente, com a sua filha e uma mulher linda do seu lado... Queria que eu pensasse o quê? – Ele gargalhou ao meu lado, abrindo o portão do centro de treinamento e eu passei pelo mesmo.
- Você poderia ter me perguntado. – Ele deu um sorriso de lado e eu suspirei.
- Eu pensei sobre isso. – Fiquei de frente para ele, andando de costas pelo corredor. – Mas eu não sabia como fazer essa pergunta sem parecer muito ciumenta ou grossa.
- Fico imaginando como seria isso. – Ri fraco.
- Oh não, isso não é algo que você mostra quando está conhecendo alguém. Provavelmente só depois do terceiro mês de namoro. – Ele riu ao meu lado e saímos para a área do campo.
- E como você descobriu? – Ele franziu a testa. – Apesar de que não sei como você não descobriu antes. – Suspirei.
- Eu achava que era algo novo, na sua ficha de pesquisa, que é tipo um briefing de cada jogador, estava como solteiro e de filiação só tinha seus pais e sua filha. – Dei de ombros.
- Então, quem te contou? – Ele perguntou. – Ederson? Cássio? Thiago? – Ri fraco, olhando para ele por alguns segundos.
- Tite. – Ele franziu a testa entrou no campo de treinamento e eu segui do lado de fora, beirando a grade.
- Ele? – Dei de ombros, me apoiando na grade há poucos metros do gol.
- Você sabe da aposta que está rolando, não sabe?
- Aquilo é serio? – Ele falou enquanto colocava as luvas. – Eu ouvi o pessoal falando, mas achei que fosse brincadeira.
- Pelo jeito é sério e todo mundo está envolvido, menos eu, você e os dirigentes. – Ele apoiou os braços na grade.
- Eles são loucos, não são? – Arqueei os ombros, balançando a cabeça.
- Vai saber. – Suspirei. – Mas e então? – Apoiei os braços na grade também, sentindo-o tocar nas laterais do meu corpo com as luvas. – Qual que vai ser? – Perguntei e ele ergueu o rosto para mim, com um sorriso nos lábios.
- Quais são as opções? – Me aproximei mais da grade, arqueando o corpo.
- Antes ou durante a copa. – Ele suspirou, assoprando o ar para cima.
- Eu estou muito tentado ao durante, mas eu gosto de ser bem respeitoso no meu trabalho. – Assenti com a cabeça.
- Eu pensei a mesma coisa. – Suspiramos juntos e rimos.
- Quantos jogos ainda faltam? – Ele cochichou em meu ouvido e eu ri.
- Esperando que dê tudo certo, cinco. – Ele fez uma careta, rindo em seguida.
- Vamos ver. – O empurrei levemente.
- Lembre-se que depois do fim da Copa vamos para lados diferentes. – Ele jogou a cabeça para trás.
- Ah. – Ele gemeu baixo. - Que consigamos chegar à final, então. – Ele me fez rir.
- Deus te ouça. – Falei. – Agora vai! Vai treinar para que possamos ficar até dia 15 aqui. – Ele assentiu com a cabeça, dando um rápido beijo em minha mão e se virou.
- Ah, caramba! – Ele falou ao ver Ederson atrás dele.
- Porra, Ederson! – Falei também me assustando. – O que você quer? – Passei a mão no rosto.
- O povo quer saber se a aposta já precisa ser paga ou não. – Alisson virou para mim e reviramos os olhos quase juntos.
- Deus me ajude! – Alisson falou, acenando com a mão. – Até mais. – Pisquei para ele, vendo-o se afastar em direção ao gol.
- E aí? – Ederson perguntou e eu suspirei.
- Me empresta essa bola? – Perguntei, apontando para a bola em sua mão e ele a jogou para mim. Ajeitei a mesma na mão, jogando em sua cabeça, vendo-o fazer uma careta.
- Ainda não? – Ele perguntou e eu mostrei o dedo para ele, ouvindo-o rir. – Não, galera! – Ele gritou para o pessoal e repeti as palavras de Alisson: “Deus me ajude”.
- Fagner! – Gritei para o mesmo. – Coletiva. Agora! – Falei pausadamente, saindo por fora da grade, vendo-o correr em minha direção.

Desliguei a televisão depois da Arábia Saudita ter ganho de dois a zero contra o Egito e, mesmo assim, ser eliminada junto da mesma pelo grupo A. Dei aquela rápida olhada na programação do dia.
Já eram sete da noite, tudo que eu precisava fazer naquele dia já estava feito, checado e repassado para todo mundo. Me levantei da escrivaninha e segui para a janela em “L”. O dia ainda estava claro, obviamente, o sol só começaria a se pôr dali uma hora, mais ou menos.
Observei o caminho que os jogadores faziam para voltar do campo de treinamento, mas vi ao longe alguns pontos azuis e verdes no campo. Ergui o relógio novamente e já era para o treino ter finalizado. Ponderei um pouco com a cabeça e peguei meu All-Star na lateral da cama e calcei o mesmo.
Abaixei a tela do notebook, coloquei meu celular no bolso e desci em direção ao centro do treinamento. Enquanto fazia o caminho, observei alguns membros da equipe técnica subirem com seus materiais, incluindo Taffarel, o treinador de goleiros. Acenei para eles rapidamente e pensei se não poderia estar rolando uma festinha a qual eu não fui convidada.
Passei rapidamente pelo corredor interior do Centro de Treinamento e saí para o campo pela porta principal, franzindo o rosto. Tirando os jogadores correndo de um lado para outro no campo, não tinha mais ninguém. As arquibancadas estavam vazias, os jornalistas tinham ido embora e só Tite e Rodrigo estavam ali, mas acompanhando de fora, apoiados na grade.
- O que está acontecendo, que ninguém me informou? – Perguntei, vendo Tite e Rodrigo se virarem para mim.
- Aí Alisson, agora dá para fazer dois times de 12. – Tite gritou e percebi Alisson do outro lado o campo, sentado sozinho.
- O que está acontecendo? – Perguntei, apoiando na grade também, ao lado de Rodrigo.
- Uma pelada inofensiva antes da viagem de amanhã. – Tite comentou e eu olhei para o jogo, onde parecia que ninguém estava muito inofensivo assim e os goleiros faziam mergulhos fortes para defender.
- Inofensivo? – Franzi a testa.
- Eu estou aqui para garantir que ninguém se machuque. – Rodrigo falou e eu não comentei nada, afinal, ele era o médico.
- Ei! – Alisson falou, após atravessar o campo.
- Ei! – Falei, sentindo-o dar um rápido beijo em minha bochecha.
- Foi cortado? – Brinquei e ele riu.
- Não, não! Acharam que eu estava treinando demais e que deveria dar espaço para outros.
- Talvez! – Fui honesta. – Não quero ninguém precisando te substituir. – Ele riu, afirmando com a cabeça.
- Vem, ! – Olhei para o campo, vendo o jogo parado e que Marcelo tinha me chamado.
- Que “vem”, Marcelo? Vou nada não. – Falei rindo, me afastando um pouco da grade e estendendo as mãos na mesma. - Ué, não era você que disse que era goleira? – Jesus perguntou, parando ao lado do número 12.
- Eu fui goleira! – Respondi. – Além de que eu não jogava com profissionais.
- A gente pega leve, vai! – Neymar parou ao lado do trio e eu revirei os olhos.
- Vocês são loucos! – Falei e Alisson olhou sugestivamente para mim.
- Vai lá! – Ele falou. – Você está me devendo alguns lances.
- Eu não estou te devendo nada. – Falei rindo. – E outra, do que você está falando?
- Teresópolis? – Ele falou em sinal de pergunta.
- Ah, fica quieto! – Falei rindo. – Você estava me provocando, eu só te provoquei de volta. – Tite e Rodrigo riram ao meu lado e Alisson ficou avermelhado.
- Vai! – Ele falou. – Uma defesa. – Ele me encarou com seus olhos azuis e eu respirei fundo. – Eu prometo que não peço para o Neymar bater.
- Poxa, estava pronto para me vingar daquela reunião. – Ele comentou e rimos juntos.
- Vai lá. – Tite comentou.
- Mano, vocês estão loucos. Sabe quanto tempo faz que eu não jogo assim?
- Acho que eu já ouvi essa história. – Alisson brincou, olhando para o além e eu respirei fundo. – Vai! – Ele falou. – Faça uma defesa que você pode sair daqui.
Ponderei por alguns segundos e vi que tinha certa expectativa por aquele momento. Internamente eu estava morrendo de vontade, mas externamente era como se eu estivesse na quarta série e fosse jogar com o pessoal do ensino médio... Ou pior.
- Você chuta! – Falei para Alisson, começando a amarrar meus cabelos e a tirar meu relógio e pulseira.
- Isso! – Ele e outros jogadores comemoraram e eu ri, balançando a cabeça.
Entreguei meus acessórios, crachá e celular para Tite e segui para dentro da grade, vendo os jogadores começarem a se afastar do centro do campo e Alisson me seguiu até o gol. Eu só conseguia pensar nas boladas que eu levaria do meu futuro-possível-namorado ou no vexame em não defender nada.
Não era inteiramente verdade que eu não jogava desde a época da faculdade. Às vezes eu encontrava alguns amigos dos tempos antigos e batia uma bola na quadra do condomínio ou até na praia, quando conseguíamos nos encontrar, além dos encontros de família que sempre acabava em pedala.
Mas estávamos falando dos 23 melhores jogadores do Brasil. Da Seleção Brasileira. Eu já tinha visto Alisson fazer alguns gols, algumas habilidades, mas eu nunca tinha visto em lance livre, como seria ali.
- Imagino que use G. – Ele falou me estendendo um par de luvas pretas e eu respirei fundo, soltando o ar lentamente.
- Estudando o tamanho das minhas mãos? – Perguntei, com um pequeno sorriso no rosto e ele somente riu.
- Pode ser da marca de pênalti? – Ele perguntou, se afastando de costas, enquanto eu ajustava as luvas em minhas mãos. Eu estava nervosa, as pontas dos dedos estavam geladas e eu sentia o suor escorrer por minhas têmporas.
- Só pega leve, ok? – Falei, travando as luvas e respirei fundo, olhando rapidamente em volta, estudando o tamanho do gol, da área e a distância da bola até mim. Esse primeiro campo era reduzido, mas mesmo assim, fazia tempo que eu não jogava nos padrões do futebol.
- Pode deixar! – Ele falou e os jogadores ficaram para trás da meia lua, mas todos atentos ao mico que eu pagaria ali. Acho que alguns até queriam ver isso. – Pronta? – Ele perguntou e eu puxei um pouco da calça jeans para cima, batendo as mãos uma com a outra. Tudo aquilo estava errado.
- Alguém filma isso, pelo amor de Deus. – Falei e ele riu.
- Pode deixar! – Alguém respondeu e eu só olhava para Alisson.
- Quando quiser. - Falei e ele colocou a bola na marcação e deu três passos para trás.
Alguém apitou e eu respirei fundo, tentando manter a atenção na bola e não em Alisson. Ele deu uma rápida corrida, chutando a bola, fazendo-a voar em direção ao centro do gol e eu não precisei nem me mexer, a bola se encaixou em minha mão, na altura dos meus olhos. Alguns olharam surpresos e outros aplaudiram.
- Fácil demais. – Falei, devolvendo a bola para Alisson.
- Tô pegando leve. – Ele falou e eu ri.
- Ok, aumenta o nível. – Dei uma girada no corpo, ouvindo alguns ossos estralarem e voltei à posição, vendo Alisson se afastar.
Esfreguei uma mão na outra e olhei para seus olhos rapidamente, tentando estudar para que lado ele chutaria. Apitaram novamente e ele rapidamente deu o chute, fazendo a bola vir rasteira pelo meu canto direito e eu somente estiquei a perna direita, dando uma bicuda na bola, que voltou para o meio do campo, e eu cai de bunda no chão com o impacto.
- Ok... – Ele falou, recebendo a bola novamente, queria sorrir por ele estar impressionado, mas queria manter a concentração. – Aumento mais um pouco?
- Vamos lá! – Falei, movimentando as mãos, sentindo a ponta dos dedos começarem a suar e soltei o ar levemente pela boca.
O apito foi soado e eu sabia que viria algo um pouco mais difícil do mesmo. Ele chutou a bola mais forte dessa vez, fazendo-a ir para o canto esquerdo do gol, o lado que não era meu forte. Eu pulei para o mesmo lado, pegando a bola com o peito, enquanto abraçava a mesma, apoiando o queixo na mesma.
- Caramba! – Ouvi alguém falando e me ajoelhei no gramado, jogando uma bola rasteira para Alisson, mas ele estendia a mão para mim, me ajudando a levantar.
- Tá perdendo a graça. – Ele falou e eu ri, sentindo a respiração um pouco mais forte. – Você está me enganando. – Ele se afastou, voltando para a marca de pênalti.
- Acho que nem ela sabe do potencial dela. – Ouvi Tite falando e dei uma risada fraca.
- Vamos ver! – Falei, batendo as mãos novamente e olhando para Alisson.
Apitaram e Alisson chutou para esquerda e por cima. A bola deveria fazer uma parábola e entrar atrás de mim pelo alto. Mas eu não ia deixar. Pulei para o mesmo canto da bola, estendendo a mão para o lado e senti a bola bater na ponta dos dedos e desviar, e eu caí no chão logo em seguida, encolhendo o corpo para tentar reduzir o impacto.
- Caralho! – Reconheci a voz de Cássio e sentei no gramado, vendo minha blusa azul escura com folinhas de grama colada na mesma.
- Eu estou abismado! – Alisson falou me estendendo as mãos e eu me levantei, com um largo sorriso no rosto, mas visivelmente cansada. – Mais uma? – Ele perguntou e eu ri.
- Agora eu gostei da brincadeira, né?! – Falei, voltando a minha posição e ele a dele.
Passei a luva rapidamente pelo rosto, sentindo algumas folhas no mesmo e centralizei novamente. Alisson se afastou um pouco mais e eu sabia que a bola viria por cima, para balançar com as estruturas. Alguém apitou e ele seguiu em direção à bola, chutando a mesma para o alto e para o centro do gol. Eu pulei, esticando a mão direita para a cima, sentindo a bola bater nas pontas dos dedos e sair por cima. Meu corpo arqueou para trás e eu tentei desviar, caindo para o lado, mas o baque foi inevitável, me deixando no chão.
- Porra! – Os jogadores comemoravam, algumas pessoas batiam palmas, mas eu estava quebrada, literalmente no chão.
Eu sentia minhas costelas e meu peito doer. Fazia anos que eu não dava uma dessa. Senti uma sombra quando Alisson se ajoelhou em minha frente e eu apoiei a mão no chão, me colocando sentada na grama novamente. Ele tinha um largo sorriso no rosto e eu deveria parecer que estava morrendo.
- Ah! – Reclamei, passando a mão na lateral do corpo. – Agora chega, vai! – Falei e ele riu.
- Você está bem? – Ele perguntou, passando a mão em meu cabelo, provavelmente tirando uma folha perdida por ali.
- Eu vou precisar de analgésico. – Falei e ele riu.
- Você foi demais! – Ele falou, me fazendo rir. – Se eu soubesse que você jogava assim, teria te obrigado bem antes. – Ri fraco, massageando a lateral do corpo.
- Me ajuda a levantar. – Falei, estendendo as mãos para cima. Ele se levantou e me puxou, fazendo tudo estralar. – Eita! – Reclamei, movimentando o corpo lateralmente. – Eu estou fora de forma. – Respirei fundo.
- Você foi ótima! – Ele falou e eu tirei as luvas.
- Essa última ia para fora. – Falei e ele riu.
- Provavelmente. – Ele concordou. – Chutei muito de bico, mas queria saber até onde você ia.
- Acho que eu vou direto para cama. – Falei e ele riu.
- Você foi demais! – Ederson se aproximou, abraçando Alisson pelos ombros e eu me afastei.
- Não se aproxima! – Falei, apoiando as mãos nos joelhos, respirando fundo. – Você já machucou o Tite, não me mata também. – Ele riu.
- Me manterei longe, mas isso foi foda para um caralho! – Ri fraco, negando com a cabeça.
- Mano, demais! – Os outros jogadores começaram a se aproximar e eu tentei manter meu corpo ereto, mas estava doendo demais.
- Foda!
- Parabéns! – Fiz um positivo com a mão, suspirando.
- Agradeço, gente, mas eu preciso sair daqui. – Fiz uma careta. – Eu provavelmente desloquei alguma coisa e ralei a barriga. – Falei, erguendo o corpo e apoiando a mão abaixo do seio.
- Eu te levo de volta para o hotel. – Alisson falou, estendendo meu braço livre e apoiando sobre seus ombros.
- Quer que eu dê uma olhada, ? – Rodrigo perguntou e eu abanei a mão.
- Acho que não. – Falei. – Eu vou olhar melhor, tenho pomada e remédio para dor lá no quarto, qualquer coisa, te aviso.
- Tem certeza? – Alisson cochichou para mim e eu assenti com a cabeça.
- Vamos dizer que eu não estou em forma, com a roupa adequada e nem deveria ter feito isso. – Ele riu. – Mas já fiquei com dores outras vezes e sei como sair dessa.
- Espero que fique bem. – Ele falou e eu agradeci pelos carrinhos de golfe estarem lá embaixo e ele me colocou sentada na parte de trás, sentando ao meu lado e outros jogadores encheram os outros lugares e eu respirei fundo.
- Você já pode ser da Seleção, . – Firmino falou e eu ri fraco, encostando minha testa no ombro de Alisson.
- Opa! – Falei ironicamente. – Titular ainda. – Brinquei e eles riram.
- Precisa de um pouco de treino, mas você foi muito bem. – Neymar falou e eu assenti com a cabeça.
- Na próxima Copa, talvez. – Falei e eles riram.

- E vamos para mais um. – Alisson falou entregando sua mala para o motorista do ônibus e eu tentei evitar de rolar os olhos com alguns torcedores ao redor das grades.
- Acho que eu não vou querer viajar por muito tempo quando voltar para casa. – Ele riu, ajeitando o boné em sua cabeça, e abriu espaço para que eu entrasse no ônibus. – Natais e Anos Novos serão no Rio.
- Seria bom, não é?! – Rimos juntos e eu segui para frente, junto da equipe técnica e ele foi para o fundo junto dos jogadores.
Seguimos até o aeroporto de Sochi e entramos no avião pela pista mesmo, como em outras vezes. O avião era enorme, para a quantidade de pessoas na equipe. Eu coloquei algumas coisas no bagageiro, o notebook na mesinha e me sentei no corredor. Ele se sentou na mesma fileira, mas do outro lado do corredor.
Eu e Alisson começamos a nos abrir, mas ainda era um tanto incerto o que a gente queria e o que a gente faria, então ele basicamente ficou me observando responder algumas coisas para a imprensa e às vezes eu dava palpite no jogo que ele brincava no celular.
Como sempre, nos separamos para sair do avião. Lucas fazia questão de tirar fotos de todos os momentos, incluindo minhas, mesmo que não fossem ser postadas no Flickr da CBF ou na CBF TV, mas eu estava criando um ótimo álbum de fotos e tinha até algumas com Alisson que eu poderia guardar de recordação.
Bóris fazia algumas filmagens e seguiu no carro da frente, pelo jeito Vinícius chegaria de Canarinho no hotel, onde Angelica já tinha sido informada da aglomeração de alguns torcedores. Eu não dei bola na hora. Grande erro!
Notei a desaceleração do ônibus quando nos aproximamos do hotel Renaissance em Moscou e logo ouvi os gritos e batidas na lateral do ônibus. Os jogadores logo se levantaram para ver o que acontecia e a turma da assessoria só se entreolhou.
O ônibus parou propositalmente do lado contrário ao que entraríamos e os seguranças foram os primeiros a aparecer. Os jogadores seguiram logo atrás, depois da equipe técnica, depois nós e, por último, a irrelevante equipe de dirigentes, que nem considerávamos muito da galera.
As grades estavam sendo contidas quase da mesma forma que o meu primeiro treino aberto lá na Granja Comary. Os guardas mantinham os braços e corpos distanciados da grade e empurravam-na com força, com medo delas penderam para frente. Os torcedores estavam muito animados, gritavam, cantavam e tinham sinalizadores das cores do Brasil acesos para cima. Mesmo anos indo atrás de bandas e cantores no Rio de Janeiro, eu nunca tinha visto aquilo. Aquilo era o poder do futebol.
- É, 58 foi Pelé! Em meia dois foi o Mané! Em sete, zero o esquadrão! Primeiro a ser tricampeão! – A torcida cantava animada, agitando bandeiras e os sinalizadores. - Ô 94 Romáriô! 2002 Fenomenô. Primeiro tetracampeão! Único penta é o Brasilzão! – Passei por Vinícius de Canarinho e ele me abraçou, me fazendo sorrir, vendo-o colocar a bandeira em sua mão em minhas costas e eu o chamei para dentro, vendo-o me pedir para esperar. - Ô Brasil olê, olê, olê! Brasil olê, olê, olê!
Fui puxada por um dos seguranças na porta e o resto da comunicação veio logo atrás. O barulho ficou para trás e eu e Angelica seguimos para a mesa da recepção, como sempre e o gerente logo nos passou as informações sobre os quartos e chaves. Esse hotel com certeza era um dos melhores.
- Vamos lá, gente! – Falei, batendo as mãos e chamando a atenção do pessoal. – Aqui serão quartos de dois, ok?! – Falei e eles gritaram, comemorando. – Bem mais fácil para dividir o banheiro, não é, não?! – Olhei os números das chaves com a lista de Angelica.
- Sendo quarto de dois, o Alisson e... – Comecei a ouvir Filipe Luís falando, mas Ederson foi mais rápido e colocou a mão na boca dele, fazendo-o ficar quieto. Ederson fez um sinal para calar a boca e sabia o que ele queria fazer, os dirigentes não podiam saber disso ou ferrava para todos os lados.
- Continuando! – Falei, ouvindo algumas risadas. – Faças duplinhas e venham pegar suas chaves.
- ! – Virei para o lado, vendo Bóris entrando correndo no hotel. – Vin... Ele... Él... – Ele tentava falar em várias línguas.
- What? – Perguntei firme.
- He was arrested! – Arregalei os olhos e soltei todas as chaves na mão de Angelica, ouvindo algumas caírem no chão e saí novamente do hotel, vendo um cerco de seguranças e dois policiais puxando o Canarinho para o lado e eu me aproximei dele.
- Hey, what’s going on? – Perguntei para um dos seguranças e ele se aproximou para ouvir. – He is with us. He is our mascot.
- Are you sure? – Ele perguntou.
- Yes! He is with us, he is also our filmmaker. – Movimentei as mãos, puxando o crachá do pescoço do Canarinho e mostrando a eles. – See? FIFA, CBF, he is with us.
- Sorry, miss. Have a good night. – Me desviei dos seguranças e puxei Vinícius pelos braços do Canarinho e entramos no hotel.
- Can you close the doors, please? – Pedi para o porteiro e ele assentiu com a cabeça. – Ok, acho que estamos todos aqui.
- Eu ia ser preso na Rússia! – Vinícius reclamou, puxando a cabeça do mascote e várias pessoas se seguravam para não rir. – Na Rússia! – Ele gritou a última parte.
- Relaxa! Tá tudo bem. – Tentei acalmá-lo. – Vamos relaxar. – Ele se sentou em um banco na recepção e eu voltei a pegar as chaves da mão de Angelica. – Chaves? – Dei um sorriso e as duplas começaram a aparecer ao meu lado.
Alisson passou com Firmino e pegou uma chave. Ele deu um pequeno sorriso e uma piscadela e eu somente retribuí o sorriso. As duplas foram se formando e só sobrou eu e Lucas lá embaixo.
- Me dá essa honra? – Ele brincou e eu estendi a última chave para ele.
- Vamos, Lucas. Você é a minha dupla desde Teresópolis. – Ele riu e entramos no elevador.
- Apesar de que você está me abandonando um pouco. – Ri fraco, negando com a cabeça. – Ele é mais bonito, mais forte, solteiro, mas... – Ele começou a rir sozinho e saímos do elevador. – Não quero que você se machuque, ok, minha amiga? – Suspirei, encontrando os jogadores levando as malas para dentro dos quartos.
- Eu... – Virei para trás, vendo que ele tinha parado na porta de um quarto.
- Eu cuido dela, beleza? – Ele gritou e imaginei que tinha sido para Alisson. O puxei pela mochila, tirando-o da porta do quarto, vendo Alisson aparecer logo em seguida, franzindo a testa.
- Ignora, ele tem problemas mentais! – Empurrei Lucas para ir à frente e Alisson riu, balançando a cabeça. – Boa noite. – Acenei e ele fez o mesmo, ainda rindo com a situação. Abri a porta e empurrei Lucas para dentro.
- Vocês precisam parar! – Falei para Lucas. – Vocês estão provocando demais... Cara, que quarto fantástico! – Falei, vendo as duas camas queen, a decoração em mostarda e vermelho e os detalhes vintage.
- Mas todo mundo já sabe. – Ele abanou os braços, se livrando de sua mochila. – Uau! – Ele falou também e rimos juntos.
- Para começar, ninguém sabe de nada, porque ainda não aconteceu nada. Segundo, os dirigentes não sabem e chegando à boca dos dirigentes, chega à boca da Michele e eu acho que eu não vim aqui para namorar. – Ele riu, se sentando no divã em frente a uma das camas. – Pode dar problemas para mim depois.
- Ah, . Mas vocês deram tão bem. Sério, vocês combinam em um nível que não tem nem o que falar. – Ele riu. – Ele é meio fechadão, mas parece que com você ele se abre, ele brinca mais, ele participa mais... – Suspirei.
- Não foi você que acabou de falar que não quer que eu me machuque?
- Sim, isso também, mas não quer dizer que você não possa dar uma chance. – Suspirei, começando a tirar meu tênis.
- Lucas, você sabe que se a gente ficar agora ou se ficarmos depois, vamos acabar nos machucando naturalmente, não é?
- Porque diz isso? – Ele perguntou e eu suspirei.
- Acabando a Copa ele vai para Roma, na Itália. Eu vou para o Rio. – Ele fez uma careta. – Como isso vai dar certo? – Suspirei.
- Ah! – Ele falou. – Neymar e Bruna também moram em países diferentes e parece que tem dado certo para eles. – Ele deu de ombros e eu parei para pensar.
- Verdade, né?! – Suspirei e ele riu.
- Vá devagar! – Ele falou. – Depois da final vocês pensam. – Suspirei, assentindo com a cabeça.
- Pode deixar! – Dei um sorriso de lado.
- Posso ir tomar banho ou quer ir?
- Pode ir! – Falei, abanando a mão e suspirei.
***
Tradução:
- O quê?
- Ele foi preso!
- Ei, o que está acontecendo? Ele está conosco. Ele é nosso mascote.
- Tem certeza?
- Sim! Ele também é nosso cinegrafista. Vê? FIFA, CBF, ele está conosco.
- Desculpe, senhorita. Tenha uma boa noite.
- Podem fechar as portas, por favor?
***


O dia que antecedeu ao jogo foi igual a todos os outros, mas com uma surpresa em especial. Acordei naquele dia e esperei Lucas finalizar seu banho e sair do quarto para que eu pudesse ter minha manhã de menina com mais privacidade. Me arrumei como todos os dias, dei aquela ajeitada nos cabelos e na maquiagem e coloquei tênis.
Desci para o restaurante, dando aquela leve ignorada na imprensa logo cedo e entrei no restaurante que estava reservado para nós. Duas longas mesas com equipe de um lado e jogadores do outro e uma longa mesa de buffet ao fundo. Olhei rapidamente pela mesa dos jogadores, vendo-os acenarem para mim e segui em direção ao buffet.
- Bom dia! – Alisson se levantou da ponta contrária da mesa e eu sorri, voltando alguns passos para trás.
- Ei! – Falei sorrindo e ele deu um curto beijo em minha bochecha.
- Dormiu bem? – Assenti com a cabeça.
- Tudo certo! – Falei sorrindo. – E você?
- Tudo bem! Tirando que o Firmino ronca para um caramba. – Rimos juntos.
- Ei! – Firmino reclamou do outro lado da mesa.
- Lucas tem algumas vantagens. – Alisson riu.
- Quer trocar? – Ele cochichou em meu ouvido e eu dei de ombros.
- Quem sabe? – Brinquei, tirando o boné de sua cabeça e virando-o para trás. – Talvez depois do jogo. – Ele sorriu.
- A gente consegue ouvir... – Firmino cantarolou e eu virei para ele.
- Estão se intrometendo onde não devem. – Dei um sorriso para ele e uma piscadela, vendo-o fazer uma careta. – Nos falamos depois? – Virei para Alisson que assentiu com a cabeça.
- Uhum. – Ele sorriu.
- E quem temos aqui? – Virei para o lado, franzindo a testa ao ver um 24º jogador, que com certeza não deveria estar aqui.
- Dani Alves? – Falei em tom de pergunta e ele riu.
- Você que é a...
- Tenho até medo como eles me apresentaram. – Falei e ele riu. – “Namorada do Alisson”? “Garota do Alisson”? Pode ser também a “goleira que não deixou nada do Alisson entrar”. – A mesa começou a gargalhar. – Essa última é boa porque pode ter várias conotações. – Ele riu e Alisson revirou os olhos, com o rosto avermelhado.
- Eu ia dizer a social mídia, para soar mais respeitoso... Mas já ouvi as outras versões. – Dani brincou e eu balancei a cabeça. – , certo?
- É um prazer te conhecer. – Trocamos beijos e abraços e ele sorriu.
- O prazer é meu. – Ele sorriu. – Tô sabendo que está cuidando bem da galera? – Ponderei com a cabeça.
- Vamos dizer que eles me amam antes do jogo e me odeiam depois dele. – Ele riu. – Depende do humor.
- Isso é bom! Pelo menos tem alguém para colocar eles na linha. – Rimos juntos.
- Era para você estar nessa turma, como está?
- Tudo certo! – Ele ponderou com a cabeça. – Lidando com um dia depois do outro.
- Que bom! – Assenti com a cabeça. – Que bom que veio conversar com eles, acho que estão precisando relaxar.
- Uns menos do que outros, não é?! – Fred bateu nos braços de Alisson que colocou a mão no rosto abaixando a cabeça.
- Sério, gente! – Me apoiei na ponta da mesa. – Vocês precisam parar! – Falei firme.
- Porque eu sinto que eles só estão começando? – Dani comentou e eu suspirei.
- E temos 20 dias de copa ainda. – Suspirei. – Deus me ajude! – Eles riram e eu voltei para o buffet.
O cronograma daquele dia foi mudado um pouco. Ao invés de fazermos o treino oficial no Estádio Spartak o fim da tarde, ele foi feito na parte da manhã e a tarde teria a coletiva de imprensa com Tite e Miranda, que seria o capitão dessa partida.
Bianca disse que acompanhava o treino no estádio e eu aproveitei sua fofura e fui andar com Vinícius e Bóris por Moscou para gravar mais algumas cenas do Canarinho. Acabamos indo para o estádio também, mas para a parte de fora. Não sei se era o dia ou o horário, mas tinham poucas pessoas andando ali em volta.
Fizemos algumas filmagens, eu acabei tirando algumas fotos mesmo e seguimos para um lugar com um pouco mais de emoção. Lá, até eu fiz um pouco de turismo! Fomos para a Praça Vermelha, o que eu aproveitei e tirei fotos do Kremlin, da Catedral de São Basílio, do Museu Histórico do Estádio, do Mausoléu de Lenin e do Teatro Bolshoi.
Lá estava mais cheia de torcedores, principalmente por ter uma das maiores fan fest da Copa e conseguimos fazer mais imagens e tirar mais fotos dos torcedores com o Canarinho. Principalmente crianças.
Voltamos para o hotel pouco antes da hora do almoço e depois do mesmo, Tite e a equipe técnica fizeram uma reunião com os jogadores para falar dos pontos fortes da Sérvia, nosso oponente de amanhã. Graças a Deus a imprensa tinha dado uma trégua e as poucas ligações que recebíamos, Bianca conseguia lidar com isso.
Eu não tinha o que fazer, então, acabei ficando na reunião. Eu parecia a aluna entediada e os jogadores, incluindo Alisson ao meu lado, tentavam absorver todas as informações que eles passavam. Até eu consegui absorver algumas coisas, principalmente o fato dos jogadores Sérvios serem muito mais altos do que os brasileiros e terem melhor desempenho em bola alta. Aquela porcaria de reunião só tinha conseguido me fazer ficar mais nervosa do que eu já estava.
A gente precisava ganhar, entende? Podíamos jogar por um empate, mas não. Isso nos faria depender do resultado da Costa Rica e da Suíça e meu coração não aguentava mais. Precisamos ganhar! Além de que eu não aguentaria ver Alisson tomando gol, meu coração ficava pequenininho.
Acabando a reunião, eu segui direto com Miranda e Tite para a coletiva de imprensa. Miranda tinha experiência, afinal ele era um dos mais experientes do time com 33 anos, então ele sabia falar, mas claro que tivemos aquelas perguntas as quais eu briguei com eles depois do jogo de sexta-feira: Neymar.
Miranda soube desconversar rapidamente sobre o choro e as quedas de Neymar no jogo contra a Costa Rica e falou uma frase que eu até anotei para usar em várias outras situações. “Não temos que pensar no individual”. E ele estava certo, eram 23 jogadores, não dá para pensar só nele sempre, tanto que o xingo, após o jogo, não foi individual, foi coletivo.
- Acho que eu vou tentar dormir mais cedo. – Alisson falou depois que voltamos para jantar.
- Nervoso? – Ele deu de ombros.
- Já viu algum goleiro calmo antes de jogo? – Ele perguntou e eu ri.
- Pior que não. – Suspirei. – Vai sim. – Falei, assentindo com a cabeça. – Eu vou tentar também, tenho uns 20 e-mails para responder, depois já vou.
- Vem. – Ele me segurou pela mão e entramos no elevador, subindo lado a lado até nosso andar.
- Qualquer coisa posso te infernizar no WhatsApp? – Ele perguntou e eu ri.
- Claro que pode! – Suspirei. – Mas espero que você durma antes disso. – Saímos do elevador.
- Também espero. – Ele suspirou. – Sempre sobra para o goleiro. – Ele se encostou na porta de seu quarto.
- Não pensa nisso. – Falei, passando a mão em sua barba. – Se exclua de tudo. Finja que só tem você no estádio. – Ele virou o rosto, dando um beijo na palma da minha mão.
- Difícil quando o estádio tem capacidade para 45 mil pessoas. – Ri fraco, negando com a cabeça.
- O de São Petesburgo era maior. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
- É! – Ele suspirou. – Mas a responsabilidade desse é maior. – Assenti com a cabeça.
- Vai dar tudo certo. Se Deus quiser. – Ele assentiu com a cabeça e ouvi um pigarro e virei o rosto, vendo Firmino, Thiago e Geromel nos encarando. – Boa noite! – Falei para Alisson e ele deu um rápido beijo em minha testa, entrando no quarto e eu acenei com a mão.
- E então... – Firmino deu seu sorriso e eu revirei os olhos.
- Boa noite, gente! – Falei, andando pelo corredor e acenando para eles, enquanto os ouvia rir.

Eu não conseguia dormir. Já passava das três da madrugada e nada de eu pregar os olhos. Eu acabei respondendo os e-mails rapidamente, afinal, era tudo meio que a mesma resposta, só precisava prestar atenção em que língua era veículo, para eu mandar na mesma língua que me foi pedido.
Depois eu liguei meu Netflix e acabei terminando a sexta temporada de Friends pela milésima vez e a bateria acabou enquanto eu assistia “A Barraca do Beijo”. Lucas ficou conversando comigo depois de um tempo, mas até ele que também não conseguia dormir, desmaiou após alguns papos aleatórios sobre vida, família, amor, trabalhos, etc...
Cogitei ligar a televisão e procurar algo na televisão russa, mas não queria acordar Lucas, não quando ele também tinha demorado tanto para dormir. Olhei meu WhatsApp, procurando alguma alma boa acordada, mas Alisson não estava online, pelo menos não me respondeu. Angelica e Bianca também nada. Eu deveria ter pego algum remédio para dormir, ficaria virada no dia seguinte e seria pior.
Joguei minhas cobertas para o lado, calcei os chinelos, coloquei um moletom por cima da regata e saí do quarto. Se fosse para eu ficar irritadiça, que eu ficasse sozinha, fora do quarto, sem morrer de tédio ou sem acordar ninguém.
Franzi a testa quando fechei a porta e encontrei outra alma sentada no corredor. Ela estava encostada em uma das portas, abraçando as pernas e olhando para o nada. Me aproximei do mesmo, notando que era Gabriel e ele ergueu o rosto até mim.
- Ei! – Falei e ele deu um meio sorriso. – Tá tudo bem?
- Oi ! – Ele falou.
- Posso me sentar? – Ele assentiu com a cabeça e me sentei em sua frente. – Não consegue dormir?
- Não! – Ele suspirou. – Nervoso por amanhã. – Assenti com a cabeça. – Parece que está tudo bem, até ficarmos sozinhos e fechar os olhos.
- Entendo. – Falei. – Também estou. – Ele suspirou.
- Mas aposto que não tem uma pressão em cima de você. – Assenti com a cabeça. – Quantos camisas nove não fizeram gols em Copas?
- Não pensa nisso. – Apoiei minhas mãos em seus joelhos. – Só não foi gol porque não era para ser ainda. – Ele deu de ombros.
- Você realmente acredita nisso?
- Você não? – Me endireitei no chão. – Tivemos várias chances de gol contra a Costa Rica e a bola simplesmente não entrava. – Dei de ombros. – Não só que o Navas defendeu, mas que foi mirado errado, que ia para fora ou que estava impedido. – Ele riu. – Você fez gol, Gabriel.
- Não valeu. – Rimos juntos.
- Eu sei! Mas terão outras oportunidades. – Suspirei. – E eu já falei para vocês não verem o que a imprensa fala de vocês.
- É meio inevitável. – Ele deu de ombros.
- Posso confiscar seu celular, se quiser. – Ele sorriu.
- Seria uma boa, mas acho que não adiantaria. – Ele deu de ombros. – Elas vêm de todos os cantos.
- Pelo menos tente. – Apertei seu joelho que assentiu com a cabeça. – Tire notificações, desinstale aplicativos, o que for. Só releve. – Ele deu um sorriso de lado.
- Obrigado! – Assenti com a cabeça, ouvindo outra porta se abrir e vi Miranda sair da mesma.
- Ei! – Ele falou, seguindo em nossa direção.
- Ei! – Falamos e ele se aproximou de nós.
- Também não conseguem dormir? – Suspirei.
- Não. – Respondi. – Mas vocês deveriam voltar para seus quartos. Amanhã é aquela tensão de novo. – Eles assentiram com a cabeça.
- Eu sei! – Miranda falou. – Mas quem consegue?
- Pois é! – Respondi, bufando.

Eu não sei sobre os meninos, mas eu não consegui pregar os olhos nem por cinco minutos naquela noite. Nada. Zero. Depois de ficar um tempo com Miranda e Jesus no corredor, eu os obriguei a irem dormir. Eu até tinha responsabilidades, mas eles precisaram ter disposição para correr e pontuar durante 90 minutos.
Pela minha falta de sono, eu acabei desistindo de ficar na cama e já fui me arrumar, tomando banho, colocando minha calça jeans, camisa polo azul cheia dos patrocínios e o salto amarelo. Tive que dar aquela bela enfaixada nos pés com band-aid, para conseguir aguentá-lo por mais tempo.
Eu fui a primeira a chegar ao restaurante àquela manhã. Troquei as xícaras pelos copos e enchi de café puro. O jogo era só nove horas da noite, sairíamos daqui as sete e eu duvido que conseguiria um tempinho para dormir e, mesmo se eu conseguisse esse tempo, duvido que eu fosse dormir.
Os jogadores surgiram aos poucos, fazendo com que as mesas de enchessem aos poucos. Alisson apareceu algum tempo depois, quando eu enchi meu segundo copo de café e se sentou ao meu lado.
- Você está bem? – Ele perguntou. – Seus olhos estão vermelhos...
- Vamos dizer que...
- E aí, ? Conseguiu dormir? – Miranda se sentou em nossa frente e eu fiz uma careta.
- Não. – Respondi.
- Nada? – Alisson se virou.
- Nada! – Falei firme, bebendo outro longo gole de café. – E o dia vai ser longo. – Falei, suspirando.
- Meu Deus! Tu vai ter que arranjar um tempo para dormir, nem se for alguns minutos. – Gabriel falou e eu estiquei o copo.
- Vou me virando como posso. – Dei de ombros e eles olharam meio assustados para mim. – Não se preocupe, não é a primeira vez que isso acontece.
- Olha lá, hein?! – Miranda falou e eu assenti com a cabeça.
- Não acredito que não dormiu a noite toda. – Alisson cochichou ao meu lado e eu suspirei.
- Eu tentei! – Falei, colocando mais um pouco de ovo mexido na boca. – Eu juro que tentei, mas não deu. – Dei de ombros. – Lucas capotou, você não estava online, a bateria do meu iPad acabou. – Relaxei os ombros. – Fiquei andando pelo hotel, encontrei Gabriel e Miranda, depois eles foram dormir, eu voltei para o quarto... Quando vi já era sete da manhã, vim tomar café.
- Mano! – Alisson falou e eu passei a mão em seu braço.
- Relaxa. – Falei firme. – Eu só preciso de café, chocolate, energético e Coca-Cola. – Suspirei e os três em volta arregalaram os olhos.
- Meu Deus! – Miranda falou rindo. – Isso é uma bomba. – Dei de ombros.
- Se adiantar em me manter acordada... – Suspirei.
- ! – Bianca apareceu atrás de mim.
- Bom dia, Bi! – Os jogadores falaram e ela sorriu, acenando.
- Bom dia! – Ela riu em seguida. – , treta logo cedo.
- Ah, adoro tretas de café da manhã. – Me levantei, me afastando com ela um pouco. – Diga!
- Alguns jogadores da sérvia deram uma declaração na coletiva de ontem. – Suspirei.
- Pelo visto, falaram merda, né?! – Ela assentiu com a cabeça, me mostrando o celular.
“Jogadores da Sérvia dizem que Brasil não se defende bem. Só sabem atacar, fazer gols e se divertir”. – Franzi a testa.
- Ué... Mas estamos aqui para que? Cozinhar? – Ela riu.
- A gente não sabe se defender, é?! – Thiago Silva apareceu atrás de nós. – Espera só.
- Não se mete, Thiago. – Falei firme.
- E ele também falou que Tite liberou a escalação cedo, sendo uma provocação para eles. – Bianca falou.
- Mas ele sempre libera a escalação antes, por pedido nosso, na verdade. – Dei de ombros, suspirando.
- Eles querem ver o circo pegar foto, só pode. – Thiago falou.
- E você vai ficar quietinho quanto a isso. – Me virei, apoiando as mãos nos ombros de Thiago, e virando-o em direção à mesa. – Cai fora daqui, vai. – Ele saiu rindo, mas imaginei que já fosse compartilhar a informação.
- Eles querem uma declaração. – Bianca falou e eu suspirei.
- Eu posso falar, se quiser. – Thiago voltou e eu olhei brava para ele.
- Cai fora! – Falei e ele saiu erguendo as mãos.
- Português?
- Imprensa brasileira, para falar a verdade. – Ela falou e eu suspirei.
- Vai tomar seu café que eu cuido disso. – Ela agradeceu com a cabeça, me entregando seu celular.
- Obrigada! – Ela falou e eu respirei fundo, saindo do restaurante.
O dia se seguiu daquela maneira. Imprensa ligando, declarações desleixadas dos sérvios, imprensa louca atrás de informações e eu me entupindo de bebidas e comidas energizantes ao longo do dia.
Os jogadores ficaram andando de um lado para o outro no hotel, tentando passar o tempo também. Não tinha treino, não tinha espaço para eles treinarem, então eles tinham que se ocupar, principalmente com jogos de tabuleiro, a única coisa que pedimos era para eles ficarem longe da televisão. Não podíamos lidar com jogadores nervosos agora.
A cada vez que eu passava com uma lata diferente na mão, seja de refrigerante ou de energético, eu via os olhos de Alisson se arregalarem para mim, mas eu estava bem. Aquilo estava impedindo que eu não dormisse, o que já era muito bom.
- Você sabe que horas são? – Perguntei para um dos jornais que me ligava.
- Quase sete. – Ele respondeu.
- Exatamente! O jogo é em duas horas, o que é para ser, será, aguarde mais um pouco que eu saberei te dar até a minutagem dos lances se quiser. – Falei, percebendo que estava falando rápido demais.
- Obrigada senhora, mas eu queria...
- Sinto muito, preciso desligar, estamos indo para o estádio agora. Au revoir! – Falei, desligando o celular em seguida.
- Estamos indo mesmo! – Lucas falou na porta. – Pegue suas coisas e vamos! – Ele falou e eu coloquei o crachá em meu pescoço, pendurei a mochila nas costas e aproveitei para pegar mais um energético que eu deixei gelando no frigobar.
- Vamos! Vamos! Vamos! – Falei, saindo saltitante pelo corredor.
- Sério, você precisa parar de beber isso! – Lucas falou e eu virei mais um gole.
- Se eu parar agora, eu durmo.
- Eu acho que você vai passar mal daqui a pouco, isso sim. – Ponderei com a cabeça.
- Talvez. – Falei, saindo do elevador em seguida.
- Você almoçou, pelo menos? – Fiz uma careta.
- Vamos dizer que eu não tive tempo. – Entreguei a chave na recepção, fazendo positivo para o gerente e segui em direção ao ônibus, onde a maioria das pessoas já estavam esperando.
- Mano, você é louca! – Lucas falou, enquanto eu subia no ônibus.
- Ah, fica quieto! – Abanei a mão. – Pronto, galera? – Gritei, vendo a galera gritar junto e me sentei na primeira poltrona do ônibus.
- Essa adrenalina vai ter que ir para algum lugar. – Lucas falou e eu respirei fundo, desbloqueando meu celular e arregalando os olhos.
- Chupa! – Gritei, começando a pular animada no meu assento.
- Ela não tá no normal dela. – Tite comentou para Lucas que somente abaixou a cabeça. – O que foi agora, ?
- A Alemanha está fora da Copa do Mundo! – Falei animada, me levantando e vendo os jogadores fazerem o mesmo.
- O quê? – Os jogadores gritavam e batiam nas laterais do ônibus.
- Alemanha perdeu de dois a zero para a Coreia do Sul e está fuera!
- Nossa! – Eles debocharam e eu gargalhei, tentando me conter.
- Como isso foi acontecer?
- Não eram eles que a gente enfrentaria nas oitavas?
- Ei! – Chamei a atenção deles. – Estamos felizes porque a Alemanha está fora, mas agora foquem para não cair fora também. – Falei firme.
- Ela tá com uns parafusos soltos, mas ela está certa. – Tite falou e eu ri fraco. – Vamos prestar atenção! – Ele falou. – Ainda precisamos ganhar. – Me sentei novamente, finalizando a lata em um gole. – Foquem!
***
Tradução:
- Adeus.
***

Entrei no estádio seguido dos jogadores e comecei a organizar minhas coisas. Lucas tinha razão, a adrenalina precisava ir para algum lugar, eu já estava começando a suar. Abri os botões da blusa polo, fiz um coque alto e tirei os sapatos. Fucei minha mochila novamente e peguei uma última barra de chocolate, vendo-a ser tirada da minha mão.
- Não! – Alisson falou, jogando-a em seu armário.
- Ei! – Falei.
- Você tá nessa o dia inteiro, isso não vai te fazer bem, me escuta. – Ele falou e eu me sentei na bancada.
- Você não tem que treinar, não?! – Brinquei e ele riu.
- Tenho e vou levar seu chocolate comigo
- Hum, que delícia! Chocolate com suor ou chocolate com grama, não sei o que é melhor. – Ele riu fraco.
- Quer um pouco de mate? – Ele me estendeu a cuia e eu revirei os olhos
- Não! – Falei rindo. – Além de que depois de tudo que eu bebi, mate só vai ser uma bomba para mim.
- Sei não se o mate que vai ser uma bomba para você. Você está inteira vermelha. – Ele apontou para meu colo e eu bem que sentia que estava fervendo.
- Estou com calor, confesso, mas tenho ainda quase duas horas para me manter em pé. – Ele me olhou e entregou o chocolate de novo.
- Te juro que se a gente passar dessa...
- “Se”? Porque todo mundo está falando “se”? Vamos passar, pelo amor. – Falei um pouco mais alto para os outros jogadores ouvirem. – Vai ser hexa, gente. Foca! – Falei rápido demais e eles arregalaram os olhos.
- “Se” a gente passar dessa... – Alisson frisou. – Eu mesmo te faço dormir, se for necessário. Tirando a bomba que você está enfiando para dentro do seu corpo, olha a quantidade de gordura...
- Me faz dormir, é?! – Dei um sorriso malicioso e ele revirou os olhos. – E eu não sou a miss dieta, já avisando. Além de que perdi alguns quilos no fim do ano, fazia tempos que eu exagerava assim.
- Você está falando rápido demais. – Ele abanou a mão.
- Ela tá com pico de glicose. – Rodrigo falou, passando a mão na minha testa. – Tem certeza...
- Eu estou bem, ok?! – Falei, abanando os braços. – Vamos focar no que realmente importa. – Falei. – Brasil e Sérvia? – Alisson abanou as mãos e logo saiu junto dos demais jogadores para o treino.
Eu devorei minha última barra de chocolate enquanto eles estavam treinando e organizei todos os programas, drives e redes sociais. Logo eles voltaram e já se trocaram para o uniforme oficial de jogo. Eu estralava todas as partes do meu corpo e passava a garrafa de isotônico gelado em meu pescoço para ver se eu parava de derreter um pouco. E nem estava tão calor assim em Moscou.
- Vamos lá, gente! – Tite chamou a atenção do pessoal. – Último jogo da fase de grupos. Podemos nos classificar só com um empate, mas não deixaremos! Nós somos o Brasil e vamos mostrar do que somos capazes.
- É! – Os jogadores aplaudiram.
- A batalha não está sendo fácil, mas eu me orgulho de vocês e quero ver um jogo limpo, fantástico e com muita garra!
- É!
- Vamos lá e mostrar ao povo brasileiro do que somos capazes!
- É!
- Além de enfiar a bola na boca de alguns sérvios por falarem besteira! – Falei um pouco animada demais e me calei em seguida.
- É?! – Tite deu de ombros e caí na gargalhada.
- É! – Os jogadores gritaram e eu ri.
- Acabem com eles! – Gritei, batendo palmas e eles saíram do vestiário, batendo as mãos contra as minhas e eu acenei para Alisson. – Bom jogo! – Pisquei para ele que balançou a cabeça.
- Fica bem! – Ele falou e eu ri.
- Não deixe nada entrar que eu fico! – Ele riu enquanto eu acenava com a mão.

Respirei fundo ao ver os jogadores entrando no estádio e fiz alguns sinais da cruz, pedindo pelo amor de Deus que a gente conseguisse vencer aquele jogo e que, de preferência, ele não fosse tão sofrido como os dois últimos. Estendi as mãos para cima, estralando as juntas e aumentei a televisão, ouvindo o hino da Sérvia ser tocado.
Em seguida foi a ver do hino brasileiro, mostrando em ordem inversa o time. Quando chegou em Alisson, ele já estava vermelho novamente, de nervoso, provavelmente. Afinal, eu não estava lá para fazê-lo ficar com vergonha. Meu corpo se arrepiou pela primeira vez naquele dia quando o hino acabou e os torcedores do estádio seguiram cantando o hino à capella, fazendo com que as paredes do vestiário tremessem.
Os jogadores se cumprimentaram e se separaram. Miranda se aproximou dos juízes junto do capitão da Sérvia e logo eles se separaram novamente, Brasil ficando com a bola. Soltei a respiração algumas vezes, observando a escalação do Brasil e Coutinho tomar o centro do campo, pronto para a partida começar.
O árbitro autorizou a partida e tentei me manter calma, meu corpo suava loucamente, mas minhas mãos estavam geladas, como quando eu ficava nervosa. O Brasil fez uma tentaiva de gol logo nos primeiros minutos do jogo. Willian passou para Neymar que chutou para Coutinho que fez o chute e acertou em Jesus, mas logo o bandeirinha apitou, declarando o impedimento, Gabriel estava em posição errada.
Willian tentou a arrancada em seguida, caindo, sendo interrompido por um sérvio, aparentemente bravo pela falta ter sido dada. Brasil faz duas tentativas vezes seguidas, uma vez com Jesus que foi desviado pelo goleiro e depois com Neymar que chutou em cima do goleiro, mas também tinha o impedimento no primeiro passe para Gabriel.
Willian caiu novamente no chão, sendo desviado por um sérvio e eu cocei a cabeça. Sem derrubar meus jogadores, cara. A bola saiu, dando lance lateral para a Sérvia. A bola se aproxima do campo brasileiro, mas Thiago Silva tira da cabeça, caindo com força no chão. Thiago sumiu, o sérvio não, fazendo com que ele esbarrasse no sérvio e tropeçasse no mesmo, caindo.
Franzi a testa ao olhar o jogo parado, vendo Marcelo se aproximar da linha próxima a Tite e logo a equipe de Rodrigo se aproximou, trocando algumas palavras com ele. Marcelo anda de um lado para o outro, lentamente e o jogo foi recomeçado, enquanto Filipe Luís se arrumava para fazer a troca com Marcelo.
“Marcelo vai entrar”. – Dizia uma mensagem de Angelica em meu WhatsApp e acompanhei os passes de Marcelo dentro do campo, enquanto não fazia a troca.
Substituição. Sai Marcelo, entra Filipe Luís.
Fiquei olhando para a porta e para o jogo, à espera de Marcelo e da equipe médica. Nesse tempo Neymar se aproximou com a bola, na tentativa de uma finalização, mas a bola retorna para o campo brasileiro. Fagner divide bola com o sérvio e acaba derrubando-o no chão, dando a falta.
Observei a bola se aproximando de Alisson, mas ele foi mais rápido e socou a bola, fazendo-a sair rapidamente pela lateral. A bola retornou para a Sérvia, tentando novamente um gol, mas a mesma foi forte demais, fazendo com que Alisson se esforçasse para pegar a bola, evitando que ela desse escanteio para a Sérvia, mas ele deslizou na grana, me fazendo começar a gargalhar sozinha.
- Ah, Alisson virou meme de novo! – Falei sozinha, já fazendo o pedido dessa imagem para o pessoal do Rio, tentando parar de rir.
Willian cruzou o campo, tentando fazer o passe, mas foi forte demais, não tinha ninguém para receber o passe e a bola foi para fora. A cena mudou para um lance passado e eu fiz uma careta ao ver Miranda tentando chegar à bola, mas chutando, sem querer, eu espero, o saco do sérvio em sua frente.
- Miranda virou meme! – Falei também, enviando o pedido da imagem. O Brasil se aproximou com vontade, Neymar cruzou para Paulinho, mas a bola chegou antes do goleiro sérvio. Vamos, Brasil! Hora de abrir placar! Paulinho tentou logo em seguida, mas não, a defesa da Sérvia tirou antes, jogando a bola para linha de fundo.
Escanteio para a Sérvia novamente. Fechei um dos olhos ao ver o chute em câmera lenta, mas Alisson saiu do gol, estendendo as mãos e socando a bola novamente. Ufa! A bola cruzou o campo, dando outra chance para o Brasil, mas Neymar manda muito reto, seguindo para o outro lado do gol, o goleiro sérvio mal se mexeu. O jogo foi parado um momento enquanto Jesus ficou caído na área da Sérvia, tirando a chuteira rapidamente.
- Ei! – Virei para o lado, vendo Marcelo entrando com Rodrigo, apoiando nas paredes e eu me levantei rapidamente, estendendo minha mão a ele.
- Está tudo bem? O que aconteceu? Ninguém bateu em você, né? – Perguntei tudo ao mesmo tempo.
- Calma! – Rodrigo falou e eu ergui as mãos, vendo-o ajudar Marcelo a se deitar em uma das macas estendidas nas laterais do vestiário.
- Eu estou bem! – Marcelo falou, movimentando com as mãos. – Só preciso... – Ele fez uma careta.
- Foi só um espasmo na coluna. – Rodrigo falou. – Não é nada grave. – Assenti com a cabeça e voltei a me sentar no meu banquinho.
- Qualquer coisa, tô aqui. – Falei e Marcelo sorriu, visivelmente com lágrimas nos olhos, mas eu só dei um sorriso para ele, voltando a prestar atenção no jogo.
Olhei novamente para a TV e vi que Jesus tentava chutar para o gol, mas a bola rebateu no adversário, impedindo a passagem e saindo pela lateral. A bola voltou para o campo brasileiro e vi Thiago Silva ajudando um sérvio a se levantar, que reclamava de dor na cabeça. No replay mostrou o sérvio tentando cabecear uma bola baixa e Thiago seguindo com o pé, acertando na cabeça dele.
Em uma arrancada de Neymar, o sérvio deu uma entrada no mesmo, fazendo com ele, literalmente, saísse rolando por fora do campo, mas um adversário o ajudou a se levantar e estava tudo bem com ele, mas o replay era engraçado, aquilo precisava ser usado.
- Neymar virou meme e o sérvio ganhou um amarelo. – Marcelo riu atrás de mim e eu tinha me esquecido que não estava mais sozinha.
A Sérvia fez uma tentativa bonita de gol de bicicleta, mas o chute foi forte demais e Alisson nem precisou pular para defendê-la, ela passou por cima de sua cabeça. Olhei para o tempo no relógio e já passava de 34 minutos, o jogo da Suíça e Costa Rica já estava um a zero e estávamos em segundo na tabela.
- Vai Coutinho! – Gritei ao ver Coutinho correr na tentativa de um lance.
Ele fez um cruzamento e a bola encontrou Paulinho sozinho na área com a defesa da Sérvia inteira. Paulinho estendeu a perna digna de uma bailarina e deu um toque na bola, fazendo-a ir no fundo do gol, enquanto o mesmo tropeçava no goleiro e caía pouco antes da rede.
- GOL! – Gritei, virando para Marcelo.
- Gol! – Ele comemorou também, não na mesma intensidade, mas estendeu a mão para que eu batesse na dele.
- O gol foi lindo, Marcelo. Digno de bailarina. – Falei e ele riu.
- Deve ter sido mesmo. – Sorrimos e voltei a olhar para o jogo.
Falta em cima do Coutinho. Falta em cima da Sérvia. Não brinca, Brasil. Vamos lá! Respirei fundo, estralando os dedos novamente. A bola foi para a área do Brasil e só consegui ver Thiago Silva caído na área brasileira. Pois é, do lado errado. O juiz não deu nada com a queda e foi dado escanteio para a Sérvia, Alisson sai do gol e soca a bola, tirando-a para frente.
Willian passa a bola para Filipe Luís que passa para Neymar. O mesmo tenta uma arrancada e só vi o mesmo no chão, passando a mão no rosto. Aguardei o replay e vi o camisa 10 da Sérvia puxando o mesmo para baixo. Ney não vai se jogar não, conversamos sobre isso.
Acréscimo de dois minutos.
Neyma consegue atravessar a bola novamente, faz a tentativa de gol, com aquela curva perfeita, mas... Passou raspando pela trave superior. Goleiro sérvio nem precisou se mexer. O goleiro mandou a bola para o centro novamente, mas Paulinho fez com que ela voltasse, chutando na mão do goleiro Sérvio.
- Final do primeiro tempo. – Falei para Marcelo e saí do banco, me aproximando do mesmo. – Você está bem, mesmo?
- Está dando umas pontadas, eu tô com bolsa de água quente, mas demora para relaxar. – Peguei uma toalha em uma das caixas e a coloquei em sua testa.
- Você está suando demais.
- Você também. – Ele falou e eu ri.
- Eu estou suando porque eu estou elétrica, você não. – Apertei a toalha em sua testa e ele assentiu com a cabeça, em agradecimento.
- E aí, cara? – Os jogadores voltaram a entrar no vestiário e se aproximaram de Marcelo. Eu me afastei, voltando a me sentar no banco.
- Tá tudo bem. Tá tudo bem. – Marcelo aliviou o pessoal e Rodrigo se aproximou do mesmo, dando algo para ele tomar e desviei o olhar.
- Você, você e você, viraram memes! – Apontei para Alisson, Miranda e Neymar.
- Por quê? – Alisson perguntou. – Eu não fiz nada dessa vez.
- Você tentou buscar uma bola que ia para fora e derrapou sozinho na grama. – Falei, olhando para ele que riu.
- Você viu isso?! – Ele reclamou, se sentando em seu lugar.
- Eu e o mundo inteiro, querido. – Sorri. - E você chutou os países baixos de um homem. – Falei para Miranda.
- Ah, mano! – Ele falou rindo.
- E você saiu rolando, certeza que pensaremos em algo. – Falei para Neymar que começou a rir.
- Essa televisão tem zoom, por acaso? Ou sei lá o quê? – Neymar brincou e eu ri.
- E você! – Virei para Paulinho, subindo em cima do banco. – Gol maravilhoso! – Falei e ele sorriu. – Muito lindo! – Ele sorriu.
- Obrigado. – Ele falou rindo, me jogando um beijo e eu fingi que o peguei e me sentei novamente.
- Agora que a já falou, minha vez. – Tite falou e eu ri, franzindo o rosto e dando um sorriso de lado. – Vocês estão indo muito bem, os ataques cada vez mais precisos, a desmarcação da defesa mais acertada a cada aproximação e a defesa se posicionando e atingindo muito bem. – Ele falou de Alisson e eu sorri. – Continuem assim que vamos continuar abrindo vantagem. – Como está o outro jogo, ?
- Um a zero para Suíça. – Falei e Tite bateu as mãos.
- Estamos em primeiro no grupo. Vamos manter assim. – Ele falou e assenti com a cabeça. – Vamos! Vamos! Vamos! – Ele gritou e os jogadores voltaram a sair do mesmo, se preparando para o segundo tempo.

O jogo recomeçou novamente e logo uma falta foi feita em cima de Jesus e o sérvio ganhou um cartão amarelo, o segundo dessa fase. Caso ele fosse para a segunda fase, o que não aconteceria em cima do Brasil, ele estará fora do próximo jogo. Neymar marca a falta, tentando o ataque, mas está impedido.
A Sérvia cruza e faz à tentativa, mas vai muito fora, fazendo Alisson ir buscar a bola. A bola atravessa novamente e Willian tenta o cruzamento, mas um adversário está bem posicionado e tira a bola com uma bicuda para fora.
Os acontecimentos do jogo estavam espaçados, isso fazia com que eu batesse meus pés no chão e a unha na bancada, fazendo Marcelo reclamar atrás de mim, mas eu ainda sentia que estava atacada e eu não conseguiria relaxar até o fim do jogo.
A Sérvia faz uma tentativa de ataque, mas Miranda está em perfeito posicionamento, esticando o pé direito e chutando a bola para fora. Brasil cruza o campo e Coutinho faz o passe para Neymar, mas vai fraco, seguindo nas mãos do goleiro.
Costa Rica empata, um a um contra a Suíça.
Escanteio para o Brasil, Neymar chuta a bola, batendo na cara de um Sérvio. Uh! Eu já levei algumas dessa e não é legal. Mas ele parecia legal. Sérvia cruza a bola, fazendo meu coração começar a bater mais forte. Eles chutaram alto, vindo pelo lado norte do campo, mas Alisson pega a bola.
- Falta no Neymar! – Falei, bufando, vendo-o mexer no braço, mas logo se levantar para bater a mesma.
A bola cruzou novamente e respirei fundo ao ver Alisson sair da área para meter um chute na bola, fazendo-a atravessar.
- Pelo amor, não faz isso! – Falei, me levantando, vendo a Sérvia voltar para o ataque. – Pega isso! Pega isso! – Alisson fez a defesa, mas devolveu a bola para a área e o sérvio deu de cabeça, mas Thiago estava bem posicionado, dando uma joelhada na bola que voltou para as mãos de Alisson. – Ufa! – Falei, me sentando novamente.
- O que houve? – Marcelo perguntou.
- Alisson e Thiago acabaram de me salvar de um ataque cardíaco. – Falei, pegando a gola da camisa e movimentando-a, tentando fazer um pouco de vento em meu pescoço. Marcelo riu fracamente.
A Sérvia tentou novamente, mas Thiago Silva já jogou a mesma de volta para o meio de campo. A bola volta, mas Alisson até vai atrás da bola, mas sem necessidade. Um terceiro lance seguido fez meu coração parar, mas Thiago Silva já tirou a bola. E na terceira vez, foi jogada para longe demais. Mostrou Alisson parado um pouco com o juiz e Thiago próximo a eles, mas tudo me pareceu ok.
Substituição. Sai Paulinho, entra Fernandinho.
Escanteio para o Brasil, Neymar tenta, mas a Sérvia tira. Escanteio de novo para o Brasil. Bufei, passando as mãos umas nas outras. Neymar bate, Thiago levanta e...
- GOL! – Gritei, batendo as mãos fortemente na mesa.
- De quem? – Marcelo pergunta.
- Thiago Silva! – Gritei animada. – Ele tá sucesso demais! – Ele riu e esticou a mão para cima e eu bati na mesma.
Coutinho fez uma tentativa de gol, mas chutou errado. Filipe Luís tentou em seguida, mas o goleiro bateu a mão na bola, jogando-a para fora. Neymar tentou, mas bateu na barreira Sérvia. Alguns minutos depois Casemiro tentou também, mas isolou a bola acima do gol. A Sérvia tentou fazer a bola cruzar, mas ao fazer a tentativa, chutou muito alto e para fora.
Substituição. Sai Coutinho, entra Renato Augusto.
Aos 36 minutos do segundo tempo, Neymar fez três tentativas seguidas, com poucos minutos de distância uma da outra. A primeira vez Willian fez o passe para ele, mas ele deu de bicuda, fazendo a bola subir alta. Na segunda vez, Neymar tentou dar um chapéu no goleiro, mas ele ergueu a mão, impedindo que a bola passasse por ele. E na última vez, a bola parou na barreira sérvia, no ricochete da bola, ela voltou.
Acréscimo de três minutos.
- Ok, dá para acabar. Vamos lá! Dois a zero, tá ok. – Respirei fundo.
A Sérvia fez duas tentativas nos acréscimos, uma foi impedida de se aproximar por Thiago Silva e, em seguida, a Sérvia voltou, mas a bola foi para fora. Neymar fez uma última tentativa de ataque. A bola chegou em seus pés, passou para Jesus que devolveu para ele que tentaria o chute se o goleiro não tivesse pego a bola de seus pés.
- Fim de jogo! – Gritei, subindo no banco improvisado e dei alguns pulos em cima do mesmo, fazendo Marcelo rir. – Estamos nas oitavas! Estamos nas oitavas! – Falei animada, fazendo uma dancinha sozinha.
- Quem disse que é chato assistir jogo sozinho, não?! – Marcelo brincou e eu ri.
- Mais uma semana em Sochi! Mais uma semana em Sochi! – Falei rindo, tentando um rebolado bem tonto.
- Onde eu acho o botão de desliga?
- Foi demais! – Falei alto, deslizando os pés pela caixa, ouvindo-o rir. – Ah, menino Ney! – Abri os braços quando os primeiros jogadores começaram a aparecer no vestiário e abracei o mais baixo, vendo-o rir. – Não teve gol, mas tiveram muito menos quedas, meus parabéns e muito obrigada! – Falei, segurando o rosto em suas mãos e ele riu.
- Obrigado! – Ele se afastou rindo.
- Menino Jesus! – Ele veio em seguida e eu o abracei também. – Não teve gol ainda, mas você nem só de gols se faz um atacante, os passes estavam perfeitos. – Ele riu, um tanto encabulado, e logo se afastou.
- Hum, obrigado! – Ele riu e olhei meu jogador favorito vindo ao fundo e abri um largo sorriso e os braços para ele que se aproximou olhando um tanto estranho.
- Ah, Alissinho! – Falei, vendo-o se aproximar enquanto bebia seu isotônico e eu segurei seu rosto com as duas mãos, estalando um beijo em sua testa, provavelmente deixando todos arrependidos e olhei seu rosto ficar muito vermelho. – Aquela sequência de defesas! Fantástico! – Falei rindo e ele estava travado.
- Voltei! – Thiago falou e eu soltei um grito animada, abraçando-o pelos ombros e tirando meus pés do chão por alguns segundos, sentindo-o me girar no ar e me colocar de volta em cima do banco. – Defesa, gol, defesa! Você é um cara completo! Muito bom, muito bom mesmo! – Ele riu.
- Valeu, .
- E você sabe o melhor? – Eles olharam para mim como se não soubessem. – Estamos nas oitavas!
- É! – Eles gritaram e eu ri, ouvindo todo mundo bater em algum lugar, comemorando.
Parei por um momento, sentindo minha barriga borbulhar um pouco e meu corpo começar a suar mais ainda. Soltei a respiração devagar por alguns segundos, passando a mão nas têmporas, sentindo as gotas começarem a pingar.
- Está tudo bem? – Alisson perguntou e eu balancei a cabeça negativamente.
- Não! – Falei, descendo correndo do banco e agradeci pelo banheiro ser por esse lado e entrei no mesmo rapidamente.
- Ei! – Ouvi alguns jogadores reclamando, mas ignorei.
Entrei em uma das cabines livres, tentando fechar a porta com o pé e ergui o assento da privada, vendo tudo que eu tinha, ou não tinha, bebido e comido ao longo do dia sair em duas talagadas, me fazendo sentir uma dor no peito com o movimento involuntário e respirei fundo. Coloquei a mão na testa, sentindo-a encharcada e suspirei.
Eu senti meu corpo acalmar quase imediatamente e tudo o que aconteceu nas últimas horas começou a passar em minha cabeça. Eu tinha feito muita merda e pagado muito mico, principalmente nesses últimos segundos. Suspirei, me encostando na porta da cabine aberta e soltava o ar lentamente.
- Ei! – Vi Rodrigo entrar no banheiro e senti uma dor de cabeça forte bater em minha cabeça e ele se ajoelhou ao meu lado. – Agora você vai ficar bem.
- O que aconteceu? – Perguntei, balançando a cabeça. – Porque isso aconteceu?
- Você ficou o dia inteiro a base de bebidas com bastante glicose e cafeína. Elas têm um tempo para fazer efeito sobre o seu corpo, como você não respeitou os intervalos de digestão, quando você parou de ingeri-las, elas assentaram. Junte isso ao fato de você não ter comido nada sólido, seu estômago funcionou literalmente como uma bomba, bateu e voltou. – Suspirei, sentindo-o passar a mão em minha cabeça.
- Ei... – Vi Alisson e outros jogadores entrando.
- Sai daqui, por favor. – Falei e Rodrigo balançou a mão. – Não quero que ninguém me veja assim.
- Eu sei! – Rodrigo falou me entregando um lenço. – Aqui! – Ele falou. – Já arranjo uma bala ou alguma coisa para ti.
- Que vergonha! – Falei e ele riu fraco.
- Da próxima vez que você não dormir, vamos certificar que você consiga um tempo de descanso apropriado, pode ser? – Suspirei.
- Amanhã mesmo eu vou atrás de um sonífero para evitar que isso aconteça. – Ele riu fraco.
- Eu vou pegar meu estetoscópio e o medidor de pressão, ok?! Ver se está tudo certo. – Assenti com a cabeça. – Ou prefere ir lá no vestiário?
- Eu tô bem. – Falei.
- Vamos sair do banheiro, pelo menos. – Ele me estendeu as mãos e eu segurei para me ajudar a levantar.
Eu passei na pia para dar uma lavada em meu rosto e fazer um gargarejo com água mesmo, pelo menos para tirar aquele gosto ruim na boca. Ele me sentou no corredor que antecedia o banheiro, ao lado do vestiário e saiu para o mesmo rapidamente. Ele trouxe os materiais que disse e começou pelo meu coração, ouvindo-o aos poucos.
- Tá um pouco acelerado. – Ele falou, pendurando-o no pescoço e colocou o medidor de pressão em meu braço, começando a apertar o mesmo, fazendo-o inflar e relaxar após alguns segundos. – Meu Deus! – Ele falou. – Sua pressão é sempre alta assim?
- Não. – Falei. – Normalmente é 11 por sete. – Falei, respirando devagar. – Até baixa.
- Está 14 por nove, . Eu vou te dar um remédio para abaixar isso, ok?! Pode te dar uma taquicardia. – Ele falou e eu respirei fundo.
- O que você quiser. – Suspirei, encostando minha cabeça na parede.

Ele voltou e conectou uma bolsa de 250 mililitros de soro em meu braço e injetou uma ampola de algo que fez meu corpo relaxar rapidamente, quase como desinchar igual um balão. Isso fez com que minha pressão caísse aos poucos e meu coração parasse de bater igual uma escola de samba.
Enquanto ele ficava comigo ali, o resto do pessoal acabou até jantando no estádio de Moscou, como era esperado. Eu não queria aparecer em público, mas precisávamos voltar para Sochi ainda. Agradeci por sempre andar com um casaco na mochila e o vesti, colocando o capuz na cabeça.
Tanto durante a ida de ônibus até o aeroporto, o voo de Moscou para Sochi e o ônibus de volta para o hotel, eu fui lá na frente, ao lado de Rodrigo, em partes, tentando fugir tanto de Alisson, dos jogadores e da minha própria equipe. Além de que Rodrigo queria continuar monitorando minha pressão, até que ela voltasse ao normal, o que aconteceu logo no começo do voo.
O que tinha sobrado era só vergonha por passar um vexame desses no meio de muitas pessoas famosas, conhecidas e que tinham virado minhas amigas. Pior que eu nem podia me fingir de tonta e falar que ninguém tinha me avisado, porque tinham. Eu só não quis ouvir.
Apesar de que eu já tinha feito isso em outras situações, principalmente após festas da faculdade onde eu teria que ir virada para a aula, ou em jogos importantes os quais eu não conseguia dormir. Acho que o caso principal foi à falta de comida sólida mesmo. Quando bateu, saiu de uma vez.
Assim que chegamos ao hotel em Sochi novamente, eu fui a primeira a descer do ônibus. Enquanto o pessoal esperava as malas, eu me desviei de todos e corri para o quarto. Agradeci pelos elevadores estarem no térreo e entrei no mesmo, apertando o botão do quarto andar rapidamente.
Apoiei a cabeça na parede do mesmo e aguardei até que o mesmo chegasse ao andar. Saí do mesmo, seguindo em direção ao quarto e coloquei a chave no mesmo, empurrando a mesma e entrei nele. Fechei a porta e me encostei na mesma, respirando devagar. Eu queria chorar, mas parecia que eu não tinha lágrimas naquele momento.
- ! – Ouvi um barulho na porta e me afastei da mesma, encarando se a mesma não abriria sozinha. – Vai, . É o Alisson, abre! – Respirei fundo, sentando na beirada da cama e as lágrimas finalmente saíram. – Por favor.
- , por favor. A gente quer saber como você está. – Reconheci a voz de Thiago e peguei meu travesseiro, abraçando o mesmo.
- , é o Rodrigo, eu quero medir sua pressão mais uma vez.
Por mais que eu não quisesse, ignorei todos e segui direto para o banheiro, fazendo as vozes ficarem abafadas. Eu tomei um longo banho, escovei os dentes três vezes para me certificar se o cheiro e gosto tinham saído e coloquei um pijama quente, entrando embaixo das cobertas e agradecendo por conseguir dormir em poucos minutos, ouvindo as vozes insistentes do lado de fora.



Capítulo 8 – Brasil x México, estão deixando a gente sonhar!

Acordei no dia seguinte e me senti nova. Tirando a vergonha, eu estava bem, como se nada tivesse acontecido. Os gritos da noite anterior tinham cessado e tinha um silêncio descomunal no corredor. Era dia de folga! Tite já tinha informado que caso passássemos, ele só queria ver os jogadores novamente na sexta-feira cedo, para se preparar para o jogo contra o México.
Saí da cama e fiz minha higiene matinal. Voltei para o quarto e abri as cortinas, deixando que o sol de Sochi entrasse em meu quarto pela janela em “L”. Segui até minha mochila e peguei meu celular, vendo-o desligado, provavelmente tinha acabado a bateria no meio da noite. O conectei na tomada e me assustei ao ver que passava já das 11 horas da manhã. Eu tinha passado uma noite inteira sem dormir, com certeza tinha conseguido recuperar o sono perdido.
Conectei o celular no wi-fi do hotel e segui para o armário, pegando shorts, uma camiseta que não fosse da CBF e me troquei. Meu celular começou a apitar loucamente, me preocupando que meu celular travaria ou explodiria com tantas mensagens.
Aguardei com que ele parasse de fazer barulho e puxei a aba de notificações. Tinha uma ou duas do Facebook, alguns e-mails da CBF e o resto era tudo mensagem do WhatsApp. O grupo da CBF tinha sido movimentado na noite anterior, não pela vitória, mas com perguntas de como eu estava e se alguém tinha alguma notícia minha. Cogitaram até que eu tivesse fugido pela janela, o que até me fez rir um pouco.
Depois, nas conversas individuais, tinha mensagem de Lucas, Vinícius, Bianca, Angelica, de todos os 23 jogadores, além de Tite e Rodrigo, perguntando como eu estava. Abri mensagem por mensagem, vendo se tinha algo diferente do “como você está?” e só fui limpando as notificações. Eu deveria responder o pessoal, mas confesso que não estava com paciência.
Parei por alguns segundos antes de abrir a mensagem de Alisson. Tinha várias mensagens dele, todas com horários espaçados.
“Ei, abre a porta”.
“Você está bem?”
“Estamos preocupados”.
“Não sou sair daqui até você abrir”.
“Estamos jogando truco na frente da sua porta”.
– Será que foi sério?
“Porque você está assim? É por causa do que houve mais cedo?”.
“Não vai abrir mesmo? Tá dando sono”.
– Ri com essa.
“Não entendo porque você está tão envergonhada, todos já levamos um porre na vida”. – Balancei a cabeça, rindo sozinha.
“Sei que você deve estar chateada, mas, acredite, nós ainda te adoramos e não vamos aguentar o resto da copa sem você. Isso são coisas que acontecem e que são feitas para aprendermos com nossos erros. Fala comigo”.
“Acho que você já foi dormir. Estou indo para o quarto, não saia agora e pense que eu sou um cara desalmado. Dorme com os anjos”. – Suspirei com essa última mensagem e olhei as informações de foto e horário e vi que ele estava online.
Pensei por alguns segundos o que responder e comecei a digitar alguma coisa como “estou bem” e “adorei suas mensagens, mas eu realmente já tinha ido dormir”. Antes de apagar as mensagens mil vezes e decidir o que respondia, ouvi uma batida na minha porta e franzi a testa. Deixei o celular na cama e segui para a porta, abrindo a mesma.
- Ah, você está bem! – Senti alguém me abraçar fortemente, me deixando perdida por alguns segundos. Só percebi que era Alisson pela altura e pelo cheiro do perfume.
- Hum, estou... – Falei um tanto em dúvidas e ele me soltou, me segurando pelos ombros.
- Tem noção do quão preocupados nós ficamos ontem à noite? – Ele falou e eu ri fraco.
- Vocês realmente jogaram truco na frente da minha porta?
- Sim! – Ele falou com o cenho sério e eu me senti culpada.
- Desculpe! – Falei, respirando fundo e fiz um movimento com a cabeça para ele entrar. – Eu precisava dormir e eu estava com vergonha. – Neguei com a cabeça.
- Eu entendo! – Me sentei na cadeira e ele se apoiou ao meu lado. – Mas somos jogadores de futebol, certeza que fizemos muito mais besteiras do que você. – Ri fraco, negando com a cabeça. – Não foi o Marcelo que fez um gol contra na abertura da copa de 2014?
- Foi! – Ri fraco. – Mas eu não tinha como olhar para vocês, olhar para você.
- Por quê? Porque eu saberia que a mulher que eu me apaixonei não é perfeita? – Dei um pequeno sorriso. – Que bom, porque eu cansei de gostar de bonecas, é difícil competir.
- Você está apaixonado por mim? – Perguntei e ele riu fraco, ficando envergonhado.
- Vamos falar disso depois, ok?! – Ele falou e eu sorri.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntei. – Vocês não estão de folga?
- Sim. – Ele cruzou os braços.
- Então, o que você está fazendo aqui? Não vai ficar com a sua família? Sua filha? – Dei de ombros e ele riu.
- Eu não ia sair daqui sem checar como você estava. Rodrigo estava aqui até agora perguntando de ti. – Suspirei, apoiando a mão no queixo. - Além de que combinei de encontrar meus familiares no fim do dia, todos os jogadores, na verdade. – Assenti com a cabeça. – Por isso, eu queria saber se você não gostaria de sair comigo, almoçar fora daqui, dar uma volta pela cidade... – Ergui o rosto para olhá-lo que tinha um pequeno sorriso no rosto.
- Você está me chamando para sair? – Cruzei os braços.
- Sim! – Ele sorriu. – Eles chamam de encontro, não é?! – Ri sozinha.
- Me dá uns 30 minutos para eu me arrumar decentemente, falar com a minha equipe, Rodrigo e podemos ir. Que tal? – Ele assentiu com a cabeça.
- Te encontro no corredor, então. – Ele falou e andou para trás, saindo do meu quarto e puxando a porta.
Respirei fundo, sentindo que eu tinha um cabide enfiado na minha boca e segui para o armário. Eu não sabia aonde iríamos, creio que nem ele sabia onde me levaria, então acabei colocando um vestidinho básico, que eu tinha trazido por precaução, e meu conhecido All-Star. Até poderia colocar um salto e ficar mais bonita, mas meus pés precisavam descansar para o próximo compromisso oficial e para o próximo jogo. Dei uma melhorada na cara, com aquele lápis preto e o batom rosado e soltei os cabelos.
Avisei no grupo da equipe que estava viva e bem e logo começou a surgir respostas felizes por saberem disso. Liguei para Angelica para saber o andamento do dia e ela disse que Tite tinha dado folga para todo mundo, inclusive para nós e que deveríamos aproveitar um pouco. Ótimo!
Rodrigo surgiu no meu quarto após minha aparição no grupo da CBF. Ele refez todo o check-up em mim, conferindo o coração e a pressão novamente e ficou aliviado por tudo já ter normalizado.
- Se não ficou claro, não faça aquilo de novo, ok?! – Ele falou e eu ri fraco, fazendo positivo com a mão.
- Vai aproveitar, Rodrigo. – Falei, empurrando-o para fora do quarto.
- Vejo que também vai. – Suspirei, abrindo um sorriso de lado. – Aproveita mesmo, acalma aquele garoto antes do próximo jogo. – Senti minhas bochechas esquentarem e assenti com a cabeça.
- Até mais. – Acenei com a mão e bufei, balançando a cabeça.
Peguei meu passaporte, alguns rublos e dólares guardados na minha carteira, além do cartão de crédito da CBF e a chave do quarto e ajeitei tudo em uma bolsinha que eu tinha enfiado dentro da maior e a cruzei em frente ao corpo. Achei que a usaria em dias de folgas, mas não para realmente sair com alguém.
Coloquei a mão na maçaneta e respirei algumas vezes antes de girar a mesma. Saí do quarto, deixando a porta fechar sozinha e virei o corredor, encontrando Alisson parado ao lado do elevador. Ele usava uma calça jeans, blusa preta, tênis e os cabelos penteados para o lado.
- Ei! – Falei e ele sorriu.
- Ei! – Ele respondeu. – Bom te ver sem aquela roupa da CBF.
- Nem fala! – Rimos juntos. – Então, aonde você vai me levar?
- Eu não tenho a mínima ideia! – Ele falou e rimos juntos. – Tentei procurar algo no Google Maps, mas só aparece em russo. – Ele apertou o botão do elevador. – Quais as chances de você saber falar russo?
- Zero! – Respondi rindo. – Mas podemos sair sem rumo, quando aparecer algum restaurante a gente para e se cansar, tenho sempre o Uber no meu celular. – Ele riu.
- Talvez seja uma boa. – Ele riu.
Nós saímos literalmente sem rumo, pela rua de trás do hotel. Ele perguntava sobre mim, do que eu gostava, da minha família, mas sempre acabávamos caindo no futebol. Era visível que ele se interessava sobre esse lado da minha vida, principalmente por ter pego cinco pênaltis dele alguns dias atrás. Apesar de ainda duvidar que ele tivesse dado duro de si. Já tinha visto algumas de suas habilidades com os pés e ele não tinha me mostrado todas aquele dia.
Eu já estava mais interessava nele, na sua família, na sua filha, em sua moradia na Itália, além de fazer questão de demonstrar minha surpresa em nunca tê-lo visto antes. Não só durante o Internacional, mesmo morando no Rio de Janeiro, eu sempre torci para um time paulista, mas eu não lembrava de tê-lo visto nem nas eliminatórias da Copa do Mundo, foi como se Alisson Becker tivesse nascido para mim no dia 14 de Maio.
Só tinha um pequeno problema. Parecia que estávamos em um bairro privativo. Estávamos andando e papeando há horas e não tinha aparecido nenhum comércio ou barraquinha de comida para sentarmos e dar aquela relaxada.
- Acho que... – Paramos por um momento e olhei os terrenos vazios na lateral.
- Não tem nada aqui. – Ele falou e eu abri o mapa pelo celular, dando um rápido zoom na área que estamos.
- Tem aquele restaurante mediterrâneo e a confeitaria perto do hotel, depois não tem mais nada por vários metros. – Falei rindo. – Tem até um sanatório aqui, mas um restaurante...
- Sério? – Ele perguntou e eu mostrei o celular.
- Sei lá, escreve parecido! – Ele riu.
- Porque a gente não volta? Pelo menos temos a praia do hotel, as piscinas... – Ele parou por um momento.
- O quê? – Perguntei.
- Mas é claro! – Ele riu fraco. – A gente tinha falado que se tudo desse certo ontem, faríamos um churrasco na piscina do hotel.
- Naquela quente? – Perguntei.
- A gente achou uma piscina separada, do lado de fora, com área para festa e tudo mais, meu pai até falou para improvisarmos uma churrasqueira e...
- Eu não sei o que me assusta mais, vocês improvisarem uma churrasqueira ou achar carne boa para fazer churrasco aqui na Rússia? – Falei e ele riu.
- Somos brasileiros, vai dizer que nunca fez uma loucura quando viajou para o exterior? – Ele olhou em meus olhos e ponderei com a cabeça.
- Acho que o que eu fiz ontem vale pela vida inteira. – Comentei e ele sorriu.
- Então, vamos? – Ele me estendeu a mão e eu ri, segurando a mesma.
- Quero só ver se vocês vão vir com carne boa mesmo. – Ele entrelaçou nossos dedos e eu olhei para baixo, tentando não denunciar o largo sorriso em meu rosto.
- Eu sou gaúcho e tenho tendência em ser exigência quanto a carne, mas com a fome que eu estou, aceito qualquer coisa. – Ri, caminhando ao seu lado.
- Você pelo menos tomou café, eu não como nada desde... – Deixei a frase no ar. – Bem, desde o café da manhã de ontem.
- Você não comeu nada hoje?
- Ah, eu acordei tarde, você apareceu com uma oferta que eu não poderia recusar e logo saímos. – Dei de ombros. – Eu estou com um buraco no estômago. Se quer saber, meu esporte favorito é comer. – Ele riu.
- Eu vi pela quantidade de barras de chocolate que você comeu. – Gargalhei, encostando o rosto em seu ombro.
- Acho que é a pior parte da dieta para mim. – Ele falou e eu ri em seguida.
- Essa é a pior parte de morar na Itália. Você vive de dieta por causa da profissão e mora no país com a melhor culinária do mundo.
- Nossa! – Falei rindo. – Quando eu fui para lá, eu fiquei pouco, mas eu acho que engordei uns sete quilos só por causa de pastas e pizzas e... – Balancei a cabeça, suspirando. – Foi igual na França, eu fiquei três dias e depois que eu comi o crepe francês, eu não parei mais. – Ele gargalhou.
- Sim! – Ele falou rindo. – É uma surpresa muito boa, não é?!
- Sim! – Falei animada. – Seria muito bom se tivesse um desses por aqui. – Suspirei. – Presunto cru, queijo emmental e ovo. – Coloquei a mão livre no peito. – Ou Nutella com banana. – Suspirei.
- Você tem noção que só estamos falando de comida? – Ele perguntou e eu ri.
- Desculpa! Acho que estou precisando de outro hobby. – Ele riu. – Sobre o que quer falar? – Ele suspirou.
- Bom, eu já sei sobre você, sua família, sua formação, seu amor pelo futebol, sua época de goleira das Focas de Laço Azul... – Comecei a rir sozinha.
- Esse nome era ridículo. – Comentei. – Elas mantêm até hoje. – Neguei com a cabeça.
- E sobre depois da copa? – Ele me perguntou e eu parei de andar, me virando para ele.
- O quê? – Perguntei, puxando-o pela mão.
- Conexão Roma Rio? – Dei um longo suspiro, soltando o ar pela boca e ponderei um pouco.
- Eu sou a primeira a sofrer por antecipação. – Falei. – Porque a gente não aproveita enquanto podemos? – Ergui uma mão para seu rosto. – Principalmente pelo fato de já ter vazado e os jogadores e equipe estarem dando tanto apoio para gente?
- Só não quero que seja algo de Copa, sabe? Que acabe no fim... – Não evitei em sorrir.
- Não vamos pensar nisso, ok?! Temos até dia 15 de julho aqui, depois alguns dias de comemoração e...
- Você realmente acredita que vamos ganhar? – Ele perguntou e voltamos a andar.
- Eu quero muito acreditar. – Suspirei. – Eu fico nervosa a cada jogo, parece que eu vou desmaiar com cada bola que chega perto de você ou que não entra no gol do adversário, mas eu realmente queria que fôssemos hexa, ainda mais que eu me afeiçoei tanto a vocês e acho que vocês merecem para caramba. – Ele sorriu. – Imagina?
- Seria muito legal! – Ele falou sonhador.
- Além de que faz 16 anos que fomos penta, eu tinha oito, eu nem lembro direito. – Ele riu.
- Verdade, não é?! – Ele riu. – Parece aquela propaganda de 2014, “eu nunca vi o Brasil ser campeão”. – Rimos juntos. – Pelo menos eu vi duas vezes.
- Eu também! – Falei rindo.
- Mesmo? – Ele perguntou.
- Eu tinha uns três meses, na verdade. Minha mãe brinca que a cada gol parecia que ela ia me jogar. – Ele gargalhou.
- Meu Deus! Sua família parece que também sempre foi ligada ao futebol, não? – Dei de ombros.
- Ah, nada profissional, eu fui a que chegou mais perto de jogar profissionalmente e ainda sim não era sonho, nem nada, foram coisas que foram acontecendo, mas a gente sempre gostou. – Sorri. – Meu avô materno foi o responsável por tudo isso. Ele adorava. – Suspirei. – Ele ia adorar me ver aqui com vocês, trabalhando para a CBF, na Rússia, com a Seleção Brasileira. – Suspirei. – Aposto que eu ia amar apresentar todos vocês para ele.
- Ele já se foi? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça.
- Sim, depois da copa de 2010. – Dei de ombros. – Tudo na vida acontece por um motivo, certo?
- Sim, com certeza! – Ele me trouxe para mais perto e eu suspirei. – Quem sabe você não leva uma lembrança do hexa para casa? – Ri fraco.
- Me senti a Mulan levando para casa a espada do imperador. – Ele gargalhou e soltou minha mão, passando o braço pelos meus ombros e me abraçando.
- Vem! Vamos ver o que eles estão fazendo com o meu churrasco. – Abracei-o pela barriga e entramos no hotel.

Eu realmente nunca tinha me ligado naquilo e me perguntava como os jogadores tinham descoberto isso. Ele ainda era no hotel, mas era um chalé escondido na própria praia privativa. Quase como um quarto privativo na praia.
Ali era quase como um hotel, tinha uma casa principal, com alguns quartos, salas, banheiros e afins e, do lado de fora, uma piscina, uma longa mesa digna de acampamento, alguns espaços abertos, um onde estavam reunidos os pais e outros os jogadores, um pequeno campo com algumas crianças e... Uma churrasqueira improvisada.
Eu havia contado 12 jogadores ali além de alguns familiares, 13 com a chegada de Alisson. Todos estavam bem relaxados, só de bermudão, aproveitando o tempo brasileiro da Rússia. Thiago Silva, Danilo, Douglas Costa, Marquinhos, Filipe Luís, Paulinho, Fred, Ederson, Fernandinho, Neymar, Phillipe Coutinho e Marcelo, único com a blusa azul da Seleção.
- Ah lá! Ah lá! – Neymar foi o primeiro a nos ver e já começou a gritar por nós, fazendo meu rosto esquentar novamente.
- Aí sim, hein?! – Paulinho gritou e eu revirei os olhos.
- Vocês são ridículos! – Falei, ignorando totalmente seus familiares, e Alisson só me segurou com mais firmeza pela mão.
- Vai galera, pode abrir a carteira! – Ederson falou se levantando e vi todo mundo começar a mexer nos bolsos dos shorts ou sair de perto para pegar suas mochilas.
- Ei, o que está acontecendo? – Perguntei ao ver Fernandinho dar 20 reais para Ederson.
- Acabou a aposta, ué! – Coutinho falou, entregando o dinheiro.
- Mas... – Franzi a testa em como falar isso.
- Não aconteceu nada, galera. – Alisson foi mais rápido e eu dei um sorriso sem graça. Os jogadores nos olharam e depois se entreolharam.
- Mas é lento, hein?! – Douglas falou e Alisson lhe estendeu o dedo.
- Não é por nada não, vocês podem não ter se pegado ainda, mas vocês já são um casal, isso ninguém nega. – Thiago falou e Alisson me abraçou. – Além de que são uma combinação perfeita.
- Paga, vai! Depois que a copa acabar a gente nem vai saber sobre esses dois. – Ederson falou e as notas de vinte voltaram a aparecer. – Depois eu cobro do pessoal que não está aqui e divido com quem ganhou.
- Ei, vamos prestar atenção aqui, ok?! – Falei, esticando a mão e pegando as notas da mão de Ederson. – Vocês apostaram em cima da gente. – Apontei para mim e para o Alisson. – Sem nosso consentimento. Então, nada mais justo, do que esse dinheiro ser nosso, ok?! – Dobrei o bolinho de notas e coloquei na minha bolsa.
- Ah, mas... – Ederson falou, ponderando com a cabeça.
- Ela tem razão. – Danilo falou e eu coloquei as mãos na cintura, sorrindo.
- Tá, pode ficar. – Ederson falou e eu sorri.
- Além de que 20, 30 reais não vai mudar em nada a situação de vocês, não é?! – Falei brincando e eles riram.
- E você, ? Como está? – Thiago perguntou, me abraçando rapidamente e dando um beijo em minha cabeça. – Ficamos preocupados.
- Eu estou bem. – Sorri, assentindo com a cabeça. – Com fome, para falar a verdade. – Suspirei.
- Estamos esperando o senhor Alisson aparecer. – Filipe falou. – Seu pai já acendeu, mas falta as coisas esquentarem. – Ri fraco.
- Bom, porque você não cuida da minha comida que eu vou lá no hotel pegar um biquíni e me coloco um pouco mais apresentável?
- Acho muito interessante. – Marcelo comentou e eu o empurrei pelo peito.
- Cai fora! – Falei, vendo-o rir. – Afinal, porque você está com essa blusa?
- Eu me esqueci de colocar a roupa para lavar. – Revirei os olhos.
- Falo nada. – Balancei a cabeça. – Continuando... – Virei para Alisson.
- Pode ser, mas porque você não vem conhecer minha família antes? Do jeito certo? – Ri fraco, assentindo com a cabeça e ele me puxou pela mão.
Ele me puxou para uma das rodinhas do grupo, me fazendo acenar brevemente para os familiares dos outros jogadores, alguns que eu tinha conhecido da pior forma possível, depois de xingar todo mundo naquele primeiro dia, e segui até a rodinha onde se encontrava a família Becker.
- Ah querido! – O que eu imaginei ser sua mãe, foi a primeira a se levantar. Ela segurou Alisson pelo rosto e estalou dois beijos na face do garoto, parecia que eu estava vendo ela cumprimentar uma criança... Não que ele fosse muito mais velho do que isso.
- Mãe, pai, Muri, eu quero te apresentar uma pessoa. – Ele falou e eu dei aquele sorriso lateral bobo de vergonha. – Essa é .
- Acho que já te vi em algum lugar. – Sua mãe falou e eu assenti com a cabeça.
- Sim! – Sorri. – Eu trabalho com eles aqui na CBF. – Sorri.
- É, a gente tá... – Alisson ponderou com a cabeça.
- Se conhecendo melhor. – Falei, vendo seu irmão rir com a definição.
- É! – Ele sorriu. – É Copa, compromissos, a trabalha com eles...
- Mas vocês parecem bem confortáveis juntos. – Sua mãe falou.
- A gente está se olhando desde o Rio de Janeiro e, como todo mundo já sabe, a gente está se permitindo aos poucos. – Falei e ela riu.
- Fico feliz! – Ela falou. – Sou Magali, mãe dele.
- É um prazer. – Falei, sentindo-a dar dois beijos em meu rosto.
- Meu pai, José. – Ele apontou para o pai que somente estendeu a mão e eu a apertei. – Meu irmão, Muriel. – Ele acenou de longe, enquanto segurava a loirinha de Alisson.
- Olá! – Ele sorriu animado.
- E essa é Helena! – Ele pegou a filha que foi rapidamente para seu colo. – Minha filha.
A menina ficou levemente envergonhada e escondeu o rosto no pescoço do pai. Eu fiz um carinho de leve em seu braço e sorri para Alisson, vendo-o cochichar algumas palavras para a menina.
- É um prazer conhecê-los, mesmo. – Sorri. – Está faltando a mãe dela, não?
- Verdade! Onde está Natalia? – Alisson perguntou.
- Ela sabe se colocar no lugar dela. – Seu pai falou. – Ela não quis atrapalhar. – Alisson assentiu com a cabeça e eu ri nervosa.
- Bem, seu José, ouvi falar que o senhor que vai fazer o churrasco para nós? – Ele riu.
- Ah não, querida, isso é com esse aí! – Ele apontou para Alisson e eu ri.
- Bem, você ouviu seu pai. – Falei. – Eu já volto. – Ele assentiu com a cabeça, dando um rápido beijo em minha bochecha.

Voltei para o hotel, coloquei um biquíni, recoloquei o vestido por cima e peguei uma toalha. Retornei ao lugar onde a festa acontecia e a música já rolava solta e o cheiro de carne queimando já subia pelos ares.
O dia foi ótimo, claro que as brincadeiras comigo sempre pareciam ser mais interessante, mas o bom era que eu circulava por todos os ambientes. Com Alisson, com os jogadores, com a família de Alisson, com as famílias dos jogadores, com algumas crianças que pareciam ter se afeiçoado comigo, até com Helena que parecia querer começar a se abrir.
Acabei até entrando na piscina um pouco, claro que teve toda aquela zoação de “olha ela” de novo, mas eu já estava acostumada com isso. A brincadeira era de duas vias, eles me zoavam, eu os zoava.
Depois acabei me aproximando de Alisson e da churrasqueira e pegava as melhores partes da carne, antes de ser passada para o resto do pessoal. Eu poderia ficar ali pelo resto da vida. Sentindo a brisa de leve no corpo molhado, as carnes mal passadas chegando aos poucos, Alisson me dando olhares sugestivos, os jogadores brincando e se divertindo. Era quase um churrascão em família. Mas o dia amanhã começava cedo e eu não podia me esquecer de que estava lá para trabalhar. Além de que estávamos nas oitavas, as coisas começariam a engrossar agora.
- Eu vou subir. – Falei mais para Alisson, mas tive reação de todos os lados.
- Pô, . Qual é! – Douglas comentou.
- Senta aí! – Coutinho falou e eu ri.
- Queria gente, mas é quase uma da manhã, amanhã voltamos ao horário normal e eu preciso regular meu relógio interno. – Falei e todos começaram a se entreolhar.
- Ela está certa. – O pai de Alisson falou e eu dei um sorriso.
- A gente se fala amanhã, ok?! – Falei para Alisson que deu um rápido beijo na minha testa.
- Eu subo contigo. – Ele falou. – Depois eu volto aqui para ajudar a arrumar.
- Pode ir, bonitão. – Marcelo falou, batendo nas costas de Alisson e rimos.
- A gente se vê depois. – Alisson falou rapidamente para os pais e deu um beijo em Helena que dormia no colo da avó e eu acenei para eles rapidamente.
- Prazer em te conhecer, . – Muriel falou e eu sorri, acenando para os pais.
- Obrigada! – Sorri. – O prazer é meu. – Falei, acenando rapidamente dos familiares restantes dos jogadores e acenei para eles. – E quero todo mundo sete horas no café da manhã.
- Oito! – Ederson falou e eu ri.
- Aí você vê com o Tite. – Brinquei, acenando para eles e saindo dali.
- Foi legal hoje. – Alisson falou e eu ri, ajeitando a barra do meu vestido.
- Foi mesmo! – Sorri. – Fazia tempo que eu não me divertia tanto.
- A turma é legal. – Ele sorriu.
- Sinto que alguns familiares ainda querem me matar, mas pelo menos vocês gostam de mim. – Dei de ombros e ele sorriu.
- Alguns mais que outros. – Ele comentou e eu o empurrei pelo ombro levemente, sentindo-o passar o braço em volta de meus ombros. – Você está gelada.
- Agora esfriou. – Falei rindo. – Mas agora eu tomo um banho bem quente, me cubro e tá tudo certo. – Ele sorriu.
- Espero que ninguém fique doente por isso.
- Nem brinca! – Falei rindo. – Falando nisso, viu que deu uma crise de gripe na seleção do México?
- Sério? – Ele falou e eu afirmei com a cabeça.
- Sim! Seria melhor ainda se eles não pudessem jogar e a gente ganhasse de W.O., só para eles pararem de falar besteira.
- Nem me abalo! – Alisson falou. – Peixe morre pela boca, sabia?
- Você tem razão. – Apertei o botão do elevador, aguardando-o.
- Meus pais parecem ter gostado de ti. – Assenti com a cabeça.
- Seu pai é meio quieto. – Falei.
- Desde sempre! – Ele riu. – Eu e o Muri ganhamos lá em casa de tanto falar. – Ri, entrando ao seu lado. – Mas ele gostou sim, principalmente Muri, ele sempre foi minha inspiração.
- Legal ouvir isso. – Sorri, vendo as portas do elevador se abrirem em nosso andar novamente. – Eu e minha irmã sempre fomos coladas, aí eu fui para o Rio de Janeiro e nos afastamos um pouco, mas só fisicamente, a gente ainda conversa, ri e alopra uma a outra todo dia. – Ele riu.
- Assim que é bom, né?! Ter alguém tão próximo assim da gente, que mesmo longe, parece que sempre está lá, não é?! – Assenti com a cabeça, procurando a chave do quarto e tirando-a da bolsinha.
- Sim! Adoro ir de férias ou ela vir para o Rio e a gente falar besteira e colocar a conversa em dia. – Ele riu. – “Vir”? Até parece que estou no Rio. – Ele gargalhou. – Estamos longe de casa. – Suspirei.
- Bem longe. – Ele sorriu e eu abri a porta.
- Bem, essa é a minha deixa. – Suspirei. – Vamos que amanhã temos um longo dia pela frente.
- É! – Ele sorriu.
Ele me encarou por alguns momentos e fiquei em dúvidas se ele o faria ou se eu teria que fazer, mas ele aproximou o corpo do meu lentamente, me fazendo encostar as costas no batente da porta. Ele segurou meu pescoço com uma das mãos e colou os lábios nos meus levemente, fazendo meu corpo arrepiar. Ergui uma mão para seu peito, amassando sua blusa, mas mantendo-o por perto por mais tempo.
- Você demorou demais. – Falei, ainda com os olhos fechados, somente sentindo sua respiração perto da mim.
- É? – Ele cochichou e eu ri sozinha.
- Espero isso desde o Rio. – Abri os olhos, encontrando seus olhos verdes ali.
- Nem fala! – Ele cochichou, acariciando meu pescoço.
- Não vamos esperar mais. – Cochichei e ele me encarou.
- Mesmo? – Ele perguntou e eu respondi com uma leve mordida em seus lábios e escorreguei para dentro do meu quarto, vendo-o entrar logo atrás e bater a porta.
Ele me segurou pela cintura e nossas bocas se uniram novamente, dessa vez com bem mais intensidade de antes. Ele me apoiou na escrivaninha e eu passava as mãos pelas suas costas e barriga. Ele mesmo puxou sua blusa para fora e eu passei minhas pernas em sua cintura, bagunçando seus cabelos com as mãos a cada beijo que ele depositava em meus lábios, bochecha, escorregando pelo pescoço, até o colo.
Meu vestido encontrou sua blusa logo em seguida e ele me levantou da escrivaninha, fazendo com que eu apertasse meus braços em seus ombros e ele me levasse para a cama. Ele me deitou sobre a mesma e se certificou de tirar seus shorts antes de se deitar sobre meu corpo gelado de biquíni.
Ele beijava as partes do meu corpo e eu me sentia impotente perto dele, só sendo capaz de soltar suspiros pelos lábios e apertar suas mãos que seguravam as minhas. Logo meu biquíni e sua sunga úmidos tocaram o chão e o quarto começou a ficar quente, abafado e nossas respirações falhassem aos poucos.
Eu passei a mão em seus cabelos colados na testa e joguei-os para trás. Ele tinha a respiração abafada, mas um largo sorriso no rosto. Passei a mão em seu rosto, também tentando normalizar a respiração e ele abriu um largo sorriso, fiz o mesmo, puxando seu pescoço para mais um beijo.
Ele se deitou ao meu lado, me trazendo para perto de si e ficamos um tempo em silêncio, aguardando que nossas respirações normalizassem e o suor parasse de escorrer por todas as dobras do meu corpo. Virei o corpo, colando meu peito em cima do dele e passava as mãos lentamente sobre seu peito cabeludo, sentindo-o acariciar minhas costas e dar curtos beijos em minha testa.
- Aqueles malditos sapatos amarelos. – Ele falou e eu ergui o rosto, vendo os sapatos jogados na porta do banheiro.
- O quê? – Perguntei, rindo em seguida.
- No momento em que eu te vi com eles, entrando na primeira reunião lá na Granja, eu sabia que você tinha algo de diferente. – Sorri, passando o braço pela sua barriga.
- Uma garota no meio de vários homens. – Falei e ele riu.
- Não, não foi só isso. – Ele suspirou. – Eu vi a cena em câmera lenta. Os sapatos, as pernas, o corpo, os seios, os cabelos, a boca, os olhos... – Ele riu sozinho. – Era perfeito! – Sorri.
- Uma digna cena de filme.
- É! Tipo isso. – Ele riu e eu suspirei.
- Quando eu entrei na Granja e vi todo mundo lá, eu achei que fosse desmaiar. Eu já estava te estudando há um tempo, mas naquele momento eu simplesmente travei. Deveria ter cavado um buraco e sumido. – Ele gargalhou.
- Eu lembro! Todo mundo parou para te olhar e depois todo mundo comentou de você no grupo do WhatsApp. – Ri fraco. – Foi demais!
- Ainda bem que alguns dias foram o suficiente para gente se acertar. – Ele sorriu. – Imagina só se todo mundo tivesse ficado quieto.
Rimos sozinhos e eu suspirei, sentindo-o me apertar mais contra seu corpo e fechei os olhos, sabendo que eu dormiria a qualquer instante, mas não querendo que aquele momento acabasse por nada nesse mundo.
- Bom, acho que agora a aposta acabou mesmo. – Ele falou, acariciando meus cabelos e eu ri, erguendo o rosto para olhá-lo.
- Vou ganhar mais uma graninha! – Ele riu. – Louca para saber quem achou que aguentaríamos até depois da Copa.
- Nem o Tite apostou nessa opção, deve ter sido o retardado do Firmino, Geromel... Eles se acham os certinhos. – Rimos juntos.
- Amanhã a gente descobre. – Suspirei.
- É, amanhã! – Ele falou, dando um último beijo em minha testa.

Ouvi o despertador tocar e franzi a testa, virando meu corpo na cama e percebendo que o espaço era menor do que o esperado e sorri ao me lembrar da noite passada. Desliguei o despertador do celular e virei para o lado novamente, vendo que Alisson já coçava seus olhos e bocejava.
- Bom dia! – Ele falou e eu passei a mão em seu peito, ajustando a corrente de cruz que ele carregava sempre no peito.
- Bom dia! – Falei, apoiando os cotovelos na cama e ficando virada para ele.
- Fazia muito tempo que eu não dormia tão relaxado assim. – Ele falou e eu ri. – E nem posso falar que o colchão é ruim, porque ele é bom demais.
- Foi isso que fez o Marcelo ter o espasmo no último jogo. – Comentei e ele apoiou os cotovelos para trás e arqueou o corpo. – E você, eu acho que precisava só extravazar. – Comentei e ele riu.
- Que belo jeito, não?! – Ele passou uma mão em meu cabelo e eu arqueei o corpo para frente, colando nossos lábios rapidamente.
- Bem, o dia foi bom, a noite também, mas precisamos voltar a trabalhar. – Falei, me sentando na cama e tirando as cobertas de cima da gente.
- Ah não! – Ele falou, me puxando pelo braço e eu ri.
- É sério, Alisson! Você tem treino, eu preciso pegar alguém para a coletiva, tem treino aberto... – Me levantei. – Pelo menos hoje não tem jogo e eu não preciso ficar trancada aqui dentro.
- Pode me ver treinar. – Ele falou, virando o corpo nu na cama e começando a procurar pelas suas roupas.
- Além de outras coisas. – Falei e ele riu, calçando a cueca e os shorts.
- Melhor você ir, antes que o pessoal saia do quarto e te veja aqui. – Ele vestiu a blusa.
- Não é por nada não, mas depois que eu não voltei ontem... – Ele se aproximou, passando os braços pelo meu corpo ainda nu.
- Eu sei! Ninguém ali é santo. – Ergui as mãos para seu corpo, fazendo um carinho de leve.
- Mas eu vou para tomar um banho, trocar de roupa... – Ele falou.
- Vai sim! Eu também vou, nos encontramos no café? – Ele me segurou pelo pescoço e colou os lábios nos meus por alguns segundos, me fazendo sorrir.
- Com certeza, social mídia! – Ri fraco, batendo a mão levemente eu seu braço e segui em direção ao banheiro, vendo-o sair de fininho pela porta.
Olhei minhas roupas jogadas no chão e pendurei o vestido na cadeira, que poderia estar um pouco úmido ainda e peguei o biquíni e pendurei no boxe, lavando-o quando fui para o banho. Fiz minha rotina como todas as manhas, a diferença é que eu tinha acordado com alguém ao meu lado. Peguei meu celular para dar aquele oi diário para minha família e pensei em mandar mensagem para Bernardo, eu precisava compartilhar aquilo com ele, mas a história era longa demais para eu contar por telefone, precisava fazer aquela pipoca caramelizada com leite em pó que a gente gostava e uma bela dose de chocolate quente com tequila para acompanhar, tudo isso, só para contar essa história.
Vesti uma calça jeans limpa e uma das polos azuis que tinham voltado da lavanderia após o jogo. Olhei para os sapatos amarelos no chão e cogitei em calçá-los, já que estava causando uma boa impressão, mas preferi manter no All-Star, eu iria para o campo hoje.
Saí do quarto ajeitando o crachá e encontrei Alisson fazendo o mesmo, trocamos um sorriso e ele estendeu a mão, me puxando para o elevador. Ele me deu um rápido beijo na bochecha e a porta do elevador se abriu. Separamos as mãos e saímos do mesmo.
- Eita nós! – Ouvi um dos jogadores falar e eu e Alisson nos entreolhamos, fingindo que não era com a gente.
- Como foi a noite? – Fernandinho perguntou, vi Alisson se sentar-se à mesa dos jogadores e me aproximei do mesmo.
- Muito boa, e a sua? – Retruquei, apoiando as mãos no ombro do mesmo.
- Ótima! – Ele falou rindo.
- Então, onde estavam os pombinhos? – Neymar perguntou e eu deixei que Alisson respondesse essa pergunta e dei a volta na mesa, apoiando as mãos nos ombros de Ederson.
- Bom dia, . – Ele falou e eu sorri.
- Bom dia! – Falei. – Não vamos nos esquecer de que você ainda tá me devendo uma grana. – Ele se virou para mim.
- A aposta acabou? – Ele perguntou e eu dei de ombros, saindo de perto da mesa.
- Uou! – Ele e outros jogadores que estavam perto falaram e eu segui para o buffet, rindo sozinha.

Dei uma leve batidinha nos ombros de Casemiro e saímos da parte interna do centro de treinamento após a coletiva. Ele correu para o campo e eu parei por alguns segundos, pensando no que eu faria. Os jogadores estavam fazendo um jogo no campo, todos os jogadores estavam no campo, incluindo os goleiros, o que fez com que eu cruzasse os braços e tentasse entender porque Alisson, Cássio e Ederson estavam jogando na linha e porque não tinha ninguém no gol.
Me aproximei da grade, apoiando os braços na mesma e percebi que além dele ser muito bom com as mãos e ter um movimento muito bom, não só no futebol, obviamente, ele ainda era bom com a bola no pé, fazendo passes, embaixadinhas e driblar os jogadores que tentavam tirar a bola de seus pés. Claro que ele e os goleiros eram minoria, então a bola ficava pouco tempo em seus pés.
- Ei! – Virei para o lado, vendo Taffarel se aproximar e sorri.
- E aí, Cláudio, tudo bem? – Ele deu um rápido beijo em minha bochecha enquanto ria.
- Chamando o Tite de Adenor, eu de Cláudio... – Ele riu, se apoiando na grade.
- Sabe como é, estamos tão próximos que parecemos até uma família. – Ele riu.
- Então, fiquei sabendo que você defendeu alguns pênaltis um dia desses.
- Alguns. – Falei, ponderando com a cabeça.
- Fiquei sabendo que defendeu todos. – Ri, balançando a cabeça.
- Eu ainda acho que Alisson estava pegando leve comigo. – Ele ponderou com a cabeça.
- Talvez, mas porque pensa isso? Não acha que seria capaz? – Franzi a testa, olhando para eles.
- Eles são profissionais. Se o Coutinho chuta uma bola do meio de campo em mim, das duas uma, ou eu quebro meu corpo para defender, ou eu saio correndo em desespero.
- Você tem cara de ser alguém que não nega desafios. – Ponderei com a cabeça. – Tanto que permitiu que Alisson chutasse cinco bolas em sua direção e pegou todas. – Suspirei.
- Estávamos no campo menor, a distância era pequena, duvido que ele tenha chutado com toda potência de suas coxas...
- Para de se colocar para baixo! – Ele falou. – Você defendeu, é o que importa. – Ele segurou minha mão e eu sorri.
- Valeu!
- Além de que eu vi o vídeo, aquela última definitivamente ia para fora.
- Não é?! – Falei, rindo em seguida. – Fiquei com dor para caramba à toa.
- Você foi na bola, é o que a gente fala para eles. Que vá para fora, mas e se não fosse? – Suspirei.
- Bom ponto. – Ele sorriu, apertando minha mão. – Eu vou voltar. – Ele falou e eu acenei com a mão, vendo-o se aproximar de Tite e a equipe técnica.
- ! – Virei o rosto, vendo a família de Alisson chegando junto dos outros familiares e olhei no relógio, quatro em ponto, era a hora dos familiares chegarem.
- Oi gente, tudo certo? – Perguntei, me aproximando deles. Lá estavam os pais de Alisson, o irmão, a filha, a mãe da filha, outra mulher, a qual suspeitei ser esposa de Muriel e outras crianças, que imaginei serem filhos.
- Tudo certo! – Eles sorriram.
- Então, aqui é o seu habitat natural? – Dona Magali perguntou e eu ri.
- Mais ou menos, estou acostumada a ficar dentro de escritórios, esperando as informações chegarem. – Ela riu. – É bom sair.
- Que bom! – Ela sorriu.
- Natália, certo? – Perguntei para a mulher que segurava Helena. – Acho que não tivemos muita chance para conversar. – Ela riu e andou comigo um pouco mais a frente.
- Não se preocupe, você não é a primeira que foge achando que eu e Alisson somos alguma coisa. – Rimos juntas. – Já fomos sim, agora eu só participo por causa de Helena.
- Pelo menos vocês se viram conforme podem. – Ela assentiu com a cabeça.
- Sim. É difícil lidar com essa separação ele em Roma, eu no Brasil, mas a gente vai lidando como pode.
- Parece que vocês estão fazendo dar certo. – Dei de ombros e ela sorriu.
- Um dia de cada vez. – Ela riu e olhei para a filha de Alisson que pulava no colo da mãe. Os cabelos loiros e olhos claros como da avó.
- Oi! – Helena falou animada, acenando para mim e eu ri, segurando sua mãozinha.
- Oie! – Falei rindo.
- Então, vocês... – Natalia perguntou e eu suspirei.
- Não sei, para falar a verdade. Estamos nos provocando há mais de um mês e agora que parece que as coisas estão andando.
- Ele gosta de você, sabia? – Ela falou e eu olhei Alisson ao longe. – Ele estava falando de você naquele dia, antes de você aparecer.
- Ele te falou isso? – Perguntei.
- Ele não precisa falar, fica claro em seus olhos quando ele fala de quem gosta. – Assenti com a cabeça, sorrindo. – Quem sabe não dá certo? – Suspirei.
- Não sei... – Cocei a cabeça. – É o que você falou, ele em Roma, eu no Brasil... É difícil adivinhar o que vai acontecer depois da Copa.
- Se vocês realmente se gostarem, vocês dão um jeito. Itália é ali do lado, não? – Ri fraco, suspirando.
- Se Deus quiser temos mais duas semanas aqui, eu gostaria de conversar sobre isso, mas ainda é cedo. – Balancei a cabeça. – Não quero assustá-lo. – Ela riu.
- Ele não costuma se assustar fácil, mas entendo o que diz.
- Faz só um mês só que nos conhecemos, tudo isso está acontecendo, tem um turbilhão de emoções à nossa volta. É esse clima Copa que nos deixa agitados e empolgados... – Respirei fundo. – Além de que duas semanas ou menos é um tempo muito curto para definir nosso futuro. – Ela assentiu com a cabeça.
- Deus sempre mostra o caminho. – Natália segurou minha mão e eu assenti com a cabeça.
- Vou deixar nas mãos Dele mesmo. – Brinquei e ela sorriu.
Olhei para o campo rapidamente, vendo os filhos de Neymar e Fagner invadirem o campo junto dos pais. Dei uma rápida olhada pelo campo e franzi a testa ao ver Alisson falando com alguém da imprensa.
- Natália, você me dá uma licencinha? – Perguntei. – Eu preciso trabalhar um pouco.
- Claro! – Ela falou e eu praticamente saí correndo de onde eu estava para me aproximar de Alisson, relaxando o corpo quando notei que era só Vinícius fazendo algum vídeo falado para colocar na CBF TV.
- ...Acredito que com o México não vá ser diferente, a gente trabalhou muito bem agora, nos últimos dias. Estamos preparados, com a cabeça muito boa, mentalmente forte, que é aquilo que o Tite sempre pede para gente. E melhorar o desempenho a respeito à última partida, ser efetivo na frente, e consistente defensivamente. – Ele finalizou e Vinícius fez um positivo.
- Obrigado! – Vinícius falou, abaixando a câmera e eu cruzei os braços.
- Já ia perguntar o que a imprensa estava fazendo aqui dentro e entrevistando meu jogador. – Vinícius e Alisson riram.
- Eu pedi para colocar no cronograma de hoje.
- Não olhei o cronograma hoje.
- Estava ocupada demais para olhar, é?! – Vinícius me zoou e eu ri fraco.
- Cai fora daqui! – Falei e ele riu. – E você! – Virei para Alisson. – Não quero ninguém só mentalmente forte, quero fisicamente também. – Ele riu.
- Pode deixar! – Ele piscou e eu revirei os olhos, saindo de perto deles.

As portas do elevador se abriram novamente, ajeitei a mochila nas costas e a mala de rodinha e vi que todos os jogadores já estavam aguardando o ônibus no lobby do hotel. Entreguei minha chave na recepção, esperando que eu pudesse pegá-la novamente depois do jogo de segunda-feira. Agora era mata-mata e minhas mãos até tremiam só de pensar nisso.
- Ah lá! – Ouvi Thiago falar e me afastei da recepção, olhando para a mesma televisão que todos encaravam, onde passava a coletiva de imprensa do técnico do México.
- “Esperamos uma jogo decente, onde a arbitragem não seja fraca e parcial, como quando pegamos nas últimas quartas na Copa de 2014”. – Ele falava. – “Além disso, queremos que os jogadores joguem limpo, que não fiquem fingindo quedas desnecessárias e que joguem futebol. É o que viemos fazer, certo?”
- Oi? – Falei, me aproximando da mesma.
- “O técnico não citou nomes durante a coletiva, mas o meia Andrés Guardado, de 31 anos, simpatizou com a resposta do técnico e falou de Neymar”. – Mudou a imagem, mostrando o jogador. – “O Neymar, todos nós conhecemos, acho que não cabe a mim, nem a nós, julgarmos, mas aos árbitros, a FIFA e, agora com o VAR, eles precisam ver. Eles devem ver seu estilo de jogo e o árbitro deve saber administrar isso, sabemos que ele gosta de exagerar quando sofre faltas. Ele gosta muito de se jogar”. – Arregalei os olhos, cruzando os braços.
- Vamos ver em campo, ô engomadinho! – Neymar falou e os jogadores riram.
- Sabe o que eu vou fazer com esse mexicano? – Virei para Neymar. – Eu vou pegar ele pelo pescoço e vou...
- Êpa! – Eles falaram e eu fechei a mão em punho.
- Eu resolvo isso em Samara. – Falei, abanando as mãos. – Vamos! – Acenei, vendo o ônibus parar ao nosso lado.
Entramos no avião e seguimos até o aeroporto de Sochi, mostramos nossos crachás e documentos e entramos na aeronave da empresa russa que estava nos levando para todos os lugares. Ajeitei minha mochila no bagageiro e me sentei na janela, vendo Alisson se acomodar ao meu lado rapidamente, me fazendo abrir um sorriso.
- Vamos lá. – Ele falou, segurando minha mão e eu sorri, apoiando minha cabeça em seu ombro.
A viagem até Samara durou pouco mais de duas horas e um fuso para frente, fazendo com que eu arrumasse meu relógio. Eu e Alisson acabamos assistindo Pantera Negra que tinha no próprio sistema multimídia do avião. Eu até tentava ver o filme, mas ele me roubava alguns beijos em toda oportunidade que tinha, tirando totalmente minha concentração.
Chegamos ao Lotte Hotel com festa da torcida brasileira novamente, mas dessa vez mais calma. Apesar das grades separando os torcedores, dos seguranças em excesso e da cantoria, não tinha pessoas amontoadas e nem sinalizadores das cores do Brasil dessa vez.
Entramos no hotel e eu continuava abismada com esses hotéis que estávamos ficando, era um mais bonito e mais luxuoso que o outro. E eu achando que meu quartinho cinco por quatro no Brasil era superconfortável e fazia questão de deixá-lo apresentável. Tentei abanar a cabeça, pensando nas diárias que eu receberia por esse trabalho e no belo bônus que Michelle tinha falado. Claro que só pela viagem com tudo pago, eu não precisaria ganhar mais nada, mas ainda viria uma graninha extra, além do salário e benefícios. Era bem reconfortante.
Ouvi meu celular tocar, além de alguns outros na sala, e puxei o mesmo da lateral a mochila, vendo um e-mail da CBF, me fazendo franzir a testa. O assunto só dizia “Convocação” o que me deixou bem confusa e nervosa. Abri o mesmo rapidamente e olhei as primeiras linhas do e-mail: “Senhorita , devido ao seu excelente e contínuo trabalho durante a Copa do Mundo da Rússia 2018, te convocamos para continuar conosco durante os próximos quatro importantes compromissos internacionais da CBF, caso a Seleção venha a participar de todos, Copa América 2019, no Brasil. Olimpíadas 2020, no Japão. Copa das Confederações 2021, lugar a ser definido. E Copa do Mundo 2022, no Catar. Após o retorno da sua jornada, mais informações serão dadas a você, mas saiba que também serão providenciados alguns cursos de línguas, caso tenha o interesse em participar. Esperamos que esteja bem e aguardamos seu retorno. Antônio Nunes, presidente da CBF”. - Caramba! – Falei, colocando a mão na testa e puxando alguns fios de cabelo, totalmente impactada com a notícia.
- ? – Ouvi a voz de Alisson abafada e distante.
- Ah, de novo não. – Tite falou e eu senti alguém me sacudir levemente. – ! – Ele falou e eu saí do transe.
- Não é só ela não, chefe! – Alguém falou e virei o rosto para Bianca, Lucas e Vinícius que também tinham os celulares nas mãos e as mesmas feições no rosto.
- Você também? – Lucas perguntou e eu acenei com a cabeça.
- O e-mail da CBF? – Bianca perguntou e eu assenti com a cabeça.
- Porra! – Vinícius gritou e nós quatro demos gritos estridentes, correndo nos abraçar, gargalhando igual loucos.
- Alguém pode explicar o que está acontecendo? – Tite perguntou e eu ri fraco, virando para os meninos.
- A gente... – Balancei a cabeça.
- Eu não sei nem como isso é possível. – Lucas falou e eu ri.
- Nós quatro já fomos convocados para os próximos quatro compromissos da Seleção. – Falei, rindo sozinha. – Incluindo a copa no Catar.
- Se participarmos... – Bianca frisou.
- Já mandei parar de falar ‘se’, vamos participar. – Eles riram.
- Isso é possível? – Willian perguntou e eu dei de ombros.
- Pelo jeito é! – Lucas falou rindo e eu abanei a cabeça.
- Mas... – Virei para Angelica que tinha um largo sorriso no rosto. – Você...
- Essa é a minha última copa, queridos. – Ela sorriu. – Já estou na minha terceira, daqui quatro anos vocês terão outra pessoa para aloprar. – Ela suspirou. – Mas fico imensamente feliz por vocês. Eu fiz a indicação para Michelle por esses dias e parece que ela gostou da ideia.
- Obrigada! – Cochichamos juntos e ela suspirou.
- Ah, sem chorar. Vamos focar! – Ela falou e os jogadores nos aplaudiram, me fazendo rir cada vez mais.
- Agora eu quero ver todos vocês ou boa parte de vocês na Copa América, e em todos os outros compromissos, ok?! – Falei e eles riram.
- Vamos esperar por isso. – Thiago sorriu e eu assenti com a cabeça.
- Bom, vamos lá. – Passei as mãos embaixo dos olhos, olhando para a lista que Angelica me mostrava. - Olha que felicidade, gente. Quanto mais jogos vocês vão ganhando, melhores ficam os quartos. – Falei rindo. – Quartos de dois. – Eles comemoraram com gritos e eu ri. – Façam seu par e venham pegar suas chaves.
Eles viram dois a dois, fazendo gracinhas e brincadeiras, alguns nos parabenizando pela ‘convocação’ e seguiam para o corredor. Angelica fazia questão de anotar as duplas que estavam em cada quarto para futuras necessidades, por assim dizer. Alisson passou com Ederson, fazendo questão de dar uma piscadela e um rápido abraço antes de subir.
Sobrei com Vinícius naquele dia. Eu fui tomar um banho, me troquei e fui direto para a cama, pegando o celular e ficando de papo com Alisson enquanto o sono não batesse. Vinícius saiu do banho e também se deitou em sua cama. Desligamos as luzes e logo ouvi Vinícius roncando ao meu lado, me fazendo rir baixinho.
“Vinícius morreu ao meu lado”. – Enviei para Alisson que mandou uma carinha risonha.
“Acho que estou ouvindo seus roncos daqui”. – Ri, ajeitando a cabeça no travesseiro.
“Se cair uma bomba aqui, ele nem vai ouvir”. – Enviei de volta, suspirando e ergui o corpo na cama um pouco, checando se ele realmente estava dormindo e tirei uma foto, enviando para Alisson.
“Clássico!” – Ele falou. - “Esperando o Ederson dormir para fazer o mesmo”. – Sorri, suspirando.
“Talvez nós devêssemos dormir, amanhã o dia é aquela correria e tensão novamente”. – Respondi.
“Só mais um pouco”. – Ele respondeu e eu suspirei.
Ouvi um toque na porta e franzi a testa, deixando o celular na cama e joguei as cobertas para o lado, calcei os chinelos e me aproximei da mesma, abrindo uma frestinha, impedindo que a luz do corredor cegasse Vinícius.
- Ederson? – Franzi o rosto quando o vi na porta.
- Cai fora daqui. – Ele falou, abrindo a porta e entrando em meu quarto.
- Quê? – Perguntei.
- Eu estou sendo o amigo legal que deixa o casalzinho namorar. Agora vai! – Ele me empurrou e eu ri. – Só esteja aqui antes das seis para trocarmos ou eu vou encontrar vocês dois pelados lá no quarto. – Soltei uma risada fraca e ele fechou a porta do meu quarto.
Segui pelo corredor, encontrando a porta do quarto deles aberta e entrei no quarto com a luz a meia fase, encostando a porta devagar. Alisson estava sentado na cama, somente de bermudas, também balançando a cabeça para os lados.
- Isso vai dar merda! – Falei baixo e ele riu, me chamando com a mão.
- Foi ideia dele e eu não poderia negar! – Ri fraco e ele me puxou para sentar em seu colo.
- Ele é louco. Você é louco. Não deveríamos estar fazendo isso, se os jogadores não podem ficar com namoradas e esposas nos hotéis, aposto que você também não pode. – Ele riu fraco, apertando as mãos em minha cintura e coxa.
- Eu sei, mas...
- Se isso detonar minha convocação, eu te mato. – Passei a mão em seu pescoço, acariciando seus cabelos levemente.
- Vai nada. Angelica que te indicou e ela sabe da gente. – Ele deu um curto beijo em meus lábios.
- Só não sabe do que estamos fazendo agora. – Falei, erguendo a outra mão para seu pescoço e ele riu contra meus lábios.
- E o que estamos fazendo? – Ele cochichou, subindo a mão para minha cintura e eu senti meu corpo arrepiar.
- Eu... – Suspirei contra seus lábios e acabei com a pouca distância, esquecendo-me do que eu precisava responder.

O dia que antecedeu o jogo correu como sempre, os jogadores tentando se ocupar de alguma forma, até tentando treinar na quadra de futebol society que tinha no hotel, mas Tite não queria que eles abusassem, eram outras características, eles poderiam se machucar.
Eu e Bianca ficamos ouvindo as especulações da imprensa e tentando dar alguma resposta plausível ou alguma que os fizessem largar da gente por um tempo. Dessa vez, pelo menos, eu comi, me dei todas as refeições, para não acontecer o que tinha acontecido em Moscou.
Pouco antes do treino, Alisson e Thiago Silva fizeram uma visita à fisioterapia, me deixando nervosa, mas não era nada, só algumas massagens para relaxar os músculos, nada que fosse afetar o jogo de amanhã.
Logo após isso, jogadores saíram para o treino oficial na Arena Samara, como Vinícius acordou com uma virose horrível, além de se assustar com Ederson em minha cama, o deixamos no hotel e nada de sair com Canarinho nas ruas, ele precisava ficar bom para o jogo. Eu segui com Bianca para o treino do estádio, só para acompanhar a coletiva. Claro que eu acabei olhando Alisson treinar. Eu adorava vê-lo saltar para defender as bolas e como seu corpo arqueava, deixando aparecer um pouco de seu abdome.
Voltamos para o hotel quando já era noite. Paramos direto no restaurante do hotel e já jantamos. O clima tava pesado para variar, mas dessa vez até eu estava quieta, tinha ouvido muitas besteiras de jornais mexicanos e dos próprios jogadores e técnicos do México sobre o jogo de amanhã, além dos boatos que o técnico do México tinha alguns métodos não ortodoxos. Eles estavam procurando e eu queria realmente pegar o pescoço de cada um e quebrar ao meio, mas, se Deus quisesse, isso seria resolvido facilmente em campo.
Ah lá, até eu estava começando a falar “se”.
Eu deveria estar lá para Alisson, para todos, na verdade, mas eu estava travada e não conseguia parar de mexer em meu prato, levando a comida de um lado para outro. Eventualmente, Tite acabou expulsando todos os jogadores para dormir.
- Você não vai subir? – Alisson perguntou e eu saí de um transe, olhando para ele.
- Eu tenho algumas coisas para combinar com Bianca sobre amanhã. – Ele assentiu com a cabeça. – Dorme bem, ok?! E sem gracinhas. – Cochichei a última parte, fazendo-o rir.
- Pode deixar! Boa noite! – Ele falou e me deu um rápido beijo na cabeça e eu acenei para o mesmo, vendo-o sair.
Aquilo era mentira, eu não tinha nada para resolver com Bianca, ela nem estava mais lá, para falar a verdade, mas eu precisava relaxar um pouco. Eu estava segurando o nervosismo o dia inteiro.
Olhei para a televisão e vi que a prorrogação do jogo entre Croácia e Dinamarca tinha finalizado em um a um e que iria para pênaltis. Eu não me lembrava de uma copa ser tão sofrida assim, espero que consigamos resolver em 90 minutos e que não chegasse à prorrogação ou pênaltis.
- Ei! – Desviei o olhar da televisão e vi Thiago se sentar ao meu lado. – Jogo sofrido, hein?!
- Que o nosso não seja assim. – Ele riu fraco.
- Tenho traumas com pênaltis. – Ele falou e eu suspirei.
- Você não deveria subir, não? – Perguntei.
- Estava conversando com Tite sobre o jogo de amanhã.
- Verdade! Você é o capitão de novo! – Ele riu fraco. – Eu te disse, você acaba sempre sendo nosso capitão.
- Não vai subir?
- Deveria, mas eu estou bem nervosa sobre amanhã. Eu nem ouvia o que o Alisson dizia no jantar. – Ele riu fraco.
- Não se preocupe com isso, posso te garantir que todos estão muito nervosos sobre isso, principalmente ele que tem uma posição muito importante e muito julgadora. – Assenti com a cabeça. – Faz parte. – Ele sorriu e eu assenti.
- Sim, você está certo. – Falei e ele me deu um rápido beijo em minha testa.
- Não demore, ok?!
- Pode deixar, capitão! – Falei rindo e olhei para a TV, aguardando o início dos pênaltis.

- Acho que eu vou aceitar um pouco. – Falei quando Alisson me ofereceu sua cuia e eu segurei a bomba e dei um longo gole na mesma, sentindo aquilo ferver e arrepiar meu corpo ao mesmo tempo, me fazendo tremer.
- Tentando se acalmar? – Ele perguntou e eu ri.
- É para isso que você toma isso, não é?! – Ele ponderou e deu uma risada fraca.
- Vamos lá, Brasil! – Tite falou batendo as mãos fortemente, chamando a atenção de todos e eu dei um rápido abraço em Alisson.
- Bom jogo! Pense que a bola sou e agarre-a, ok?! – Cochichei próximo ao seu ouvido e ele gargalhou.
- Pode deixar! – Ele me deu um rápido beijo na testa e observei os jogadores saírem do vestiário e ouvi os torcedores gritarem acima de mim.
Fui para minha posição, dessa vez com Vinícius de companhia. Ele ainda estava vomitando e evacuando bastante, não tinha como fazer as filmagens lá fora, pelo menos tínhamos Bóris. Estralei todos os dedos possíveis de meu corpo, além de pescoço e costas e encarei a TV, aguardando os protocolos a serem seguidos para finalmente dar início a partida.
- Vamos, Brasil! – Vinícius cochichou ao meu lado e respirei fundo, fechando os olhos durante o hino, ouvindo-o ser reproduzido à capella novamente.
Os jogadores se concentraram no centro do campo, a bola começando com o time mexicano e eu fiz aquele rápido sinal da cruz e aquela reza silenciosa, para que pudéssemos passar e continuar esse sonho. O apito foi soado e eu comecei a sentir meu coração bater forte novamente.
A primeira chance de gol veio do time mexicano, antes dos dois minutos. O mexicano fez o chute, Alisson deu um soco na bola e ela seguiu para a área, tendo o rebote de outro jogador, mas que foi parada pelo lombo de Miranda.
Fagner levou uma falta de um mexicano logo no começo, mas tudo estava bem, tirando minha raiva deles. Paulinho tentou atravessar a bola para o gol, mas também não deu, só serviu para darem uma entrada violenta em Neymar. Vai começar!
Neymar recebeu a bola de Paulinho e fez a finalização, batendo nas mãos de Ochoa, o goleiro mexicano. A bola chegou novamente para o lado de Alisson, me fazendo pressionar as mãos na mesa, mas ela se afastou, me fazendo relaxar. O ataque do México estava forte, parecia que todos os 10 jogadores estavam lá.
Escanteio para a seleção do México, até Vinícius ergueu o rosto da toalha que ele segurava com tanta força. A bola foi para a área, cabeceada por um mexicano e Alisson deu um soco na bola, tropeçando em um mexicano e caindo em cima dele, me fazendo gargalhar, mas estaria impedido.
- Que lance fantástico! – Vinícius falou e eu sorri.
- Esse é meu homem! – Falei e ele esticou a mão, batendo na minha, me fazendo rir.
Esses primeiros 15 minutos estavam me matando, o nervosismo tinha valido a pena. O jogo estava inteiro no campo do Brasil, os mexicanos estavam todos atacando forte e a gente não conseguia avançar para o campo deles. Vamos, Brasil. Mudança de tática, vai.
- Vai, Brasil. É a sua chance! – Falei, ao ver uma chance de escanteio para o Brasil. – E... Saiu! – Sentei novamente, apoiando os cotovelos na bancada.
A bola atravessou novamente, mas a bola explodiu nas pernas de Filipe Luís antes de chegar em Alisson. Enquanto os mexicanos pressionavam os brasileiros, Fagner pressionava os mexicanos, causando diversas faltas e eu já podia pensar que isso poderia dar merda lá para frente, no próprio jogo ou com a imprensa amanhã.
Jesus se aproximou do campo adversário e tentou fazer a finalização, mas o México fechou para ele. Ele enviou a bola para Neymar, mas foi retirada pelo México. A bola voltou para o campo brasileiro, mas na hora de finalização Casemiro recebeu uma nas pernas.
- Meu Deus! – Falei, sentindo minhas mãos tremerem. – Vamos, Brasil. Acorda! Muda de tática! Qualquer coisa! – Gritei, vendo Vinícius se levantar novamente para o banheiro.
A bola alta foi cabeceada pelo Filipe Luís que enviou para Neymar, ele se aproximou da área, dando vários olés nos mexicanos e tentou o chute que rebateu em Ochoa. Ela caiu nos pés de Coutinho, que passou para Jesus, que passou para Willian que enviou para Jesus e... Foi cabeceada por um mexicano.
Falta no Coutinho. Neymar fez a cobrança, a bola voou para a área, Ochoa socou, Paulinho tentou cabecear, mas ela foi para trás. Jesus tentou finalizar, mas rebateu nas pernas do mexicano. Willian devolveu a bola para Jesus de cabeça que tentou cruzar, chegando nos pés de Neymar, que passou para Coutinho e chutou para o gol...
- Fora! – Vinícius falou e eu suspirei.
Neymar atravessou a bola, fazendo o passe para Coutinho, mas foi pego por um mexicano, voltando a atravessar. O mexicano tentou fazer uma finalização de meio de campo, mas passou muito longe, Alisson nem precisou se mexer. Fagner cruzou a bola para Neymar, mas foi tirado novamente.
Paulinho trouxe a bola para o campo do México novamente e passou para Willian, ele tentou o chute, mas rebateu nas pernas dos adversários. Ele tentou novamente, mas escorregou, saindo correndo para dividir a bola com mais dois mexicanos e perdeu.
Casemiro pegou a bola, passou-a para Thiago Silva, devolveu-a para Filipe Luís, que devolveu para Casemiro e Thiago Silva. A bola passou por Phillipe Coutinho, chegou em Jesus que driblou de alguns mexicanos e fez o chute, sendo espalmado por Ochoa. Coutinho insistiu, mas a bola foi jogada para trás novamente.
- Tá parecendo o jogo da Costa Rica e eu não vou aguentar outro jogo igual aquele.
- Calma! – Vinícius falou. – Eles aquecem no segundo tempo.
- Ah meu Deus! – Suspirei, balançando a cabeça.
Coutinho tentou trazer a bola para o campo mexicano novamente, mas, ao finalizar, chutou para muito longe. A bola chegou em Fagner de novo, em seguida, fazendo-o causar outra falta no jogador mexicano.
- Fagner vai acabar matando os mexicanos. – Falei. – Não que eu esteja reclamando, mas...
- ! – Vinícius me repreendeu rindo.
- O quê? – Dei de ombros e ele riu.
Coutinho tentou se aproximar, fazendo uma finalização longa e rebate nas pernas de Jesus. A bola voltou e fizeram uma falta em Neymar.
- Tite tá falando muito palavrão também. – Falei ao ver os lábios de Tite falando “puta que pariu”.
- Nunca vou me esquecer da sua cara depois do jogo da Costa Rica.
Neymar cobrou a falta e... Fora! Bufei, coçando a cabeça e olhei para o tempo no relógio, 40 minutos. Brasil tentou mais algumas vezes, uma com Coutinho que fez um cruzamento muito longo, quase que Willian não conseguisse pegar do outro lado. Uma de Neymar, que rebateu nas pernas dos mexicanos.
Filipe Luís deu uma entrada violenta no jogador mexicano, levantando outro cartão amarelo. Ótimo, agora eram quatro na berlinda. A falta foi feita, mas Alisson somente esticou as mãos e a bola encaixou em sua mão, me fazendo dar um pequeno sorriso, me lembrando do que eu havia falado para ele antes do jogo. A bola cruzou, mas Ochoa estava para fora da área, dando um forte chute.
Fim do primeiro tempo.
- Eita! Sem acréscimo? – Eu e Vinícius nos entreolhamos e suspirei.
- Vem! – Chamei Vinícius que franziu a testa e o puxei para o banheiro. – Foi um péssimo primeiro tempo, vem bomba aí! – Falei, entrando em uma cabine e ele fez o mesmo, entrando em outra.
Abaixei minha cabeça, apoiando-a nos braços e ouvi os jogadores entrando aos poucos no vestiário e algumas portas sendo batidas. Senti minha respiração acelerada, mas só soltava o ar pela boca devagar.
- Assim não dá! – Ouvi Tite, me fazendo fechar os olhos. – Eles comandaram esse primeiro tempo, os primeiros 30 minutos foram só do México. As bolas sempre aqui atrás, sempre aqui com o Alisson, elas precisam ficar no campo deles. – Ouvia sua voz abafada. – Espero que eles tenham se cansado, que agora é a nossa hora de aproveitar isso e avançar em cima deles. Paulinho se aproxime mais de Casemiro. Gabriel se desloque um pouco mais para direita, as finalizações de Coutinho estão batendo em você. Fagner desvie da marcação, mas tente fazer menos faltas, ok?! Não precisamos de mais um jogador com cartão. – Eu sentia meu corpo suar e nem era de nervoso, estava muito quente aqui em Samara. – Vamos resolver isso nos próximos 45 minutos, sem prorrogação, sem pênaltis. Combinado?
- Sim! – Os jogadores gritaram e logo ouvi a movimentação novamente. Ouvi algumas descargas e logo tudo se fez silêncio novamente.
Abri a cabine devagar, olhando em volta e bati na de Vinícius, saímos da mesma e voltamos para o vestiário, tudo estava quieto novamente. Respirei fundo, balançando a cabeça e peguei uma das garrafas de isotônico, virando-a em minha boca e voltei a me sentar.

E começa o segundo tempo.
A tentativa do primeiro gol veio logo no começo, mas Neymar teve dificuldades em cruzar a bola, fazendo-a recuar. Neymar tentou novamente, rebatendo nas costas do mexicano. Escanteio brasileiro, Neymar cobra, Coutinho chuta e Ochoa defende. Neymar cobra escanteio novamente, mas vai muito longe. Fagner tentou se aproximar, mas a defesa estava bem montada e foi muito rente à linha, fazendo o mexicano ter facilidade em tirar.
O México tentou cruzar a bola, e eu vi a defesa vazia do Brasil. Ele fez o chute, mas jogou muito alta, Alisson somente olhou a bola passar por cima de sua cabeça. Senti meu corpo tremer e me levantei, respirando fundo.
A bola cruzou novamente e os brasileiros voltaram para o ataque. Paulinho passou para Casemiro que passou para Coutinho, que passou para Neymar, que chutou de calcanhar para Willian que adentrou a área e fez o cruzamento. A bola passou por entre as mãos de Ochoa, as pernas de Jesus, mas Neymar alcançou a bola, dando aquele carrinho com o pé e...
- GOL! – Gritei, pulando em meu lugar, vendo Vinícius voltar correndo do banheiro. – Gol, porra! – Gritei, socando o ar em comemoração.
O mexicano aproveitou a bola no centro de campo e cruzou-a, se aproximando do gol, mas Paulinho tirou com o pé. Escanteio para o México, Brasil tirou de cabeça, mas ela ricocheteia, Filipe Luís tenta, mas não consegue impedir que a bola cruze, o jogador chega por baixo, mas cai pelo fundo, fazendo os jogadores brasileiros se exaltarem.
- Pelo amor, não façam nada! – Falei e vi Thiago reclamar e que eles gostariam de ser tiro de meta ou escanteio.
O escanteio foi dado, a bola rebate novamente, mas Alisson estende as mãos, pegando a bola firmemente. Cartão amarelo em seguida para o México, após ter puxado Willian pela camisa. Neymar fez a cobrança, mas os mexicanos tiram de cabeça. A bola voltou novamente e Neymar chutou, seguindo para fora. A bola cruzou e os mexicanos tentaram, ela chegou aos pés de Willian que recuou para Alisson que...
- Mandou para fora, Alisson? – Revirei os olhos.
- Até parece que não é bom com os pés.
- Não só com os pés. – Respondi Vinícius que riu.
- Vocês parecem que estão bem, não é?! – Dei de ombros.
- Estamos nos descobrindo aos poucos. – Suspirei. – Sem pressa, sem decisões precipitadas, só aproveitando. – Dei de ombros.
Filipe Luis passou a bola para Neymar que não conseguiu cruzar e repassou para Jesus que estava na área. A bola voltou para Neymar, ele tentou um chute, mas rebateu. Ele passou para Willian que rebateu para Fagner que chegou pela parte superior do campo e passou para Jesus que...
- Porra! Como foi para fora? – Gritei, respirando fundo.
O lance foi dado novamente e me distraí por alguns segundos, somente ouvindo um apito e vi um mexicano no chão. O juiz ergueu o cartão e eu bati a mão na mesa quando vi que era Casemiro que tinha levado.
- Porra! Casemiro tá fora do próximo jogo. – Falei, suspirando.
- Caramba! – Vinícius comentou e eu bati as pontas das unhas na mesa, encarando a tela.
O México cruzou e tentou finalizar, a primeira rebateu na defesa brasileira e depois foi par cima, fazendo Alisson dar aquele toquinho na bola por cima. O escanteio foi cobrado, mas Casemiro tirou a bola de cabeça. A bola cruzou novamente, indo direto para o gol e Alisson ergueu as mãos, segurando a bola.
Falta no Neymar, fazendo-o cair para fora do campo, de boa. Até o mexicano segurá-lo pela cintura e levantá-lo, me fazendo arregalar os olhos. Pelo menos o quarto juiz estava ao lado para ver.
- Tá folgado, hein, Layún? – Falei do jogador, revirando os olhos. – Toca no Ney de novo que eu arranco esse seu cabelo tingido na mão. – Vinícius arregalou os olhos e não falou de novo. – Aí, agora tá perseguindo. – Vi Neymar ser empurrado por trás novamente, dessa vez sem bola nos pé.
O jogo seguiu e Willian faz a tentativa de gol e Ochoa meteu as mãos na bola, desviando-a para trás. A bola tentou se aproximar do campo brasileiro, mas passou rente ao gol, Alisson nem precisou se mexer com a mesma. Alisson fez tiro de meta e...
- Fora! – Vinícius gritou e eu ri.
- Não é seu dia, Alisson. – Suspirei.
A bola cruzou novamente e falta no Neymar. Dessa vez ele ficou no chão, passando a mão no tornozelo direito, fazendo-o franzi o rosto algumas vezes, mas ele logo se levantou. Segue o jogo.
A bola voltou para o campo mexicano, Willian chegou pela direita, passou para Neymar que tentou fazer a finalização, mas foi para fora. Tirando o gol pouco antes dos cinco minutos, o segundo tempo estava morno. O coração até estava mais calmo, mas queria mais um para dar uma garantida.
Um dos mexicanos de cabelos descoloridos chegou pela esquerda, fazendo o cruzamento, a bola foi desviada por Thiago Silva, mas outro mexicano chegou pelo meio e meteu uma bomba, acertando-a em Paulinho. A bola atravessou e Willian ficou no chão. O Willian não.
Tiro de meta para a seleção brasileira, Alisson chutou e Neymar a recebeu no peito rente ao lado esquerdo, ele tentou controlar e saiu ele, mexicano e bola para fora, fazendo Neymar cair no chão. O mexicano pegou a bola e o juiz apitou várias vezes. A câmera focou em Neymar caído que estava quase em uma convulsão.
- Que porra aconteceu? – O juiz já evitou que Fred, Ederson e Cássio se aproximassem de Neymar e Coutinho apareceu do outro lado.
- Alguma coisa com o tornozelo. – Vinícius falou e eu respirei fundo.
O replay passou e o mexicano, ao pegar a bola, pisou no tornozelo de Neymar que ele já tinha pisado antes. Não foi sem querer, foi intencional. É claro que foi! Ele meteu as travas de propósito no tornozelo dele.
- Ele merece um vermelho na hora. Ele tá provocando faz tempo. – Vinícius falou e eu tentei respirar fundo.
- Me segura depois desse jogo, que eu vou lá do outro lado acabar com a raça desse mexicano.
- Você está exaltada, .
- Você acha? – Perguntei, colocando as mãos na cintura e ele se calou. – Eu vou pegar esse cara e esfregar a cara dele no asfalto.
Voltei a prestar atenção ao jogo, onde a bola era recuada para Alisson que enganava o jogador mexicano e chutava para outro lado. Falta do Casemiro. Nada! Jesus atravessou, passou para Paulinho, devolveu para Casemiro que chutou para Willian que se aproximou do meio e Ochoa pegou facilmente. A bola foi muito rasteira.
Falta no Neymar novamente. Tite começa a se revoltar. Aquilo está totalmente perseguido, eles vão só no tornozelo direito, onde causou a cirurgia no dedinho. Dessa vez pelo menos tivemos cartão no mexicano de cabelo descolorido.
Queda de Coutinho, sem marcar falta. Eles tentaram fazer o contra ataque, mas Fagner tira a bola para linha de fundo. Alisson tocou para Thiago e a bola voltou para o jogo. A bola atravessou e Coutinho tentou fazer a finalização, mas foi derrubado e a falta não foi marcada. Os mexicanos cruzaram e tentaram fazer a finalização, mas Alisson pegou a mesma.
Substituição. Sai Paulinho, entra Fernandinho.
Falta no Thiago Silva ao lado do gol brasileiro, cotovelada nele. Alison e Miranda se aproximam e eu só conseguia pensar em “não arranja encrenca, Alisson”. Foi assim que Buffon foi expulso de um jogo na UEFA, por reclamar com um juiz. Thiago se recompôs e o jogo retornou.
Olhei para o relógio e estava em 40 minutos. Pelo amor de Deus, acaba com essa coisa logo! Eram quase oito horas da noite, eu já estava ficando com fome. A bola voltou para o campo do Brasil, mas a defesa estava posicionada e a tirou antes de entrar na área e depois de cabeça por Fagner.
Substituição. Sai Coutinho, entra Firmino.
Escanteio para o México, os brasileiros cabeceiam para o chão. Ela volta e direção ao gol e Alisson vai longe para bater a mão na bola, caindo de ombros, me fazendo franzir a testa. Essa deve ter doído.
O segundo gol veio quando eu menos esperava. A bola foi recuada para o Ochoa, que tentou atravessar, mas Fernandinho roubou a bola, ele a chutou para Neymar que correu sozinho para a área. Ele enxergou Firmino do outro lado, da mesma forma que o outro gol. Ele enganou o goleiro quando esse foi em cima da bola e jogou para Firmino que deu um toquinho gol, entrando junto com a bola.
- GOL! – Vinícius gritou, comemorando e eu até sentei aliviada, suspirando.
- Gol! – Falei rindo e Vinícius bateu na minha mão novamente. – Agora vamos acabar isso.
Acréscimo de 6 minutos.
- Ê, caramba! – Suspirei, balançando a cabeça, batucando a ponta dos dedos na mesa.
Falta novamente no Neymar. A bola até tentou cruzar, mas foi muito longa e Alisson só fez um tiro de meta. Brasil tentou cruzar novamente, fazendo Firmino brigar com um mexicano com a bola e Neymar chegou, mandando a bola para fora. O México tenta de novo, mas Thiago Silva meteu o pé na bola, tirando-a da área brasileira. A bola volta, Thiago Silva cabeceia e Alisson pega. Eles tentaram de novo e Thiago tirou pela terceira vez seguida.
Um mexicano cai no chão, querendo falta, mas o juiz deu tiro de meta para o Brasil e Filipe o ajuda a se levantar, da mesma forma que fizeram com o Neymar mais cedo. A bola cruzou e chegou nos pés de Ochoa, ele fez um lançamento, dando oportunidade do México tentar um último lance, mas perdeu a chance e o juiz apitou.
- ACABOU! – Gritei, me levantando novamente e Vinícius me abraçou, me tirando do chão alguns segundos, fazendo os saltos saírem dos pés.
- Vamos para as quartas! – Ele gritou abafado e eu suspirei.
Peguei uma toalha em uma das caixas e passei meu rosto e colo, sentindo o suor deslizar pelo meu rosto. Me sentei novamente, bebendo mais um pouco do isotônico e girei o corpo, encostando na mesa e vi a porta ser aberta, trazendo os jogadores de volta.
- Estamos nas quartas! – Neymar foi o primeiro a me abraçar e eu sorri, apertando-o fortemente.
- Você foi demais! – Falei, segurando-o pelo rosto. – Você não fez firula, não provocou, foi ótimo! – Ele sorriu. – Tá tudo bem? – Perguntei e ele ponderou com a cabeça.
- Tá sim! – Ele falou rindo e eu revirei os olhos, dando um tapa em sua cabeça, empurrando para ver o próximo jogador.
- Você não fez gol, mas eu considero que sim. – Segurei Gabriel pelos ombros. – Foi a bola, você e o Neymar, então considero três gols só daquela vez. – Ele me abraçou rapidamente e eu ri, deixando-o sair.
- Obrigado!
- Você também. – Apontei para Firmino que se aproximou sorridente. – Gol de bola e seu junto, dois gols! – Ele riu, me abraçando fortemente e eu sorri. – Demais!
- Vamos para as quartas! – Ele comemorou e eu ri, deixando-o passar.
- Meu capitão! – Vi Thiago entrando no vestiário e ele se aproximou de mim com os braços abertos e me tirou do chão, me girando. – Eu vi sua queda, está tudo bem?
- Tá sim! – Ele sorriu e eu baguncei seus cabelos.
- Você, senhor Fagner, precisa tomar cuidado para não matar ninguém. – O mais baixo riu. – Eles estavam merecendo, mas você não pode levar cartão.
- Eu achei que ela fosse entrar no campo para matar alguns mexicanos! – Vinícius falou e eu dei meu sorriso medonho que fez os jogadores rirem.
- Ninguém mexe com a minha galera. – Falei, sorrindo.
Cumprimentei os jogadores que foram chegando com abraços e beijos e olhando sempre por cima para ver se meu goleiro não chegava. Tite entrou com um largo sorriso no rosto e me abraçou também.
- Eu li todos os seus palavrões. – Falei e ele riu. – Não passou na hora, mas pelo jeito você já virou meme por correr para comemorar o gol.
- Mas de novo? – Ele brincou e eu ri.
- Esteja vivo e seja uma figura pública, você sempre vai virar meme. – Bati em seus ombros e vi Alisson entrando no vestiário.
Tite se afastou e Alisson seguiu em minha direção. Ele jogou suas luvas no chão e me abraçou pela cintura, me pegando no colo em um abraço desajeitado. Apoiei minhas mãos em seus ombros e o senti me deslizar pelos seus braços e abriu um largo sorriso para mim. Eu ia falar alguma coisa, mas ele ignorou tudo e todos no vestiário e colou os lábios nos meus, me pegando de surpresa.
Os jogadores e equipe começaram a gritar, mas eu ignorei, segurei-o pela nuca e deixei com que ele liderasse o beijo, fazendo com que o local ficasse mais quente e abafado. Senti um gelado escorrer pelas costas, me separando dele, sentindo os jogadores virarem os isotônicos na gente.
- Ah, vocês estão com inveja! – Alisson gritou e eu ri, abraçando-o e encostando minha cabeça em seu peito.

Fechei minha mala novamente e me levantei. Ainda bem que a mala estava no ônibus ou eu teria que voar de volta para Sochi com um uniforme dos jogadores ou ter que esperar a roupa secar ao relento. Apesar de que com esse tempo em Samara, até dava, estava abafado, parecendo o Rio de Janeiro.
Saí do banheiro, puxando a mala e ouvindo os papos dos jogadores no vestiário enquanto terminavam de ajeitar tudo para irmos jantar no estádio e depois pegarmos o voo de volta para Sochi. Coloquei a mala no canto, junto das caixas, utensílios e algumas mochilas e coloquei a minha novamente em cima da mala.
Voltei para a sala e franzi a testa ao ver os jogadores tentando se arrumar para tirar uma foto. Todos eles já estavam vestidos novamente com aquela calça de moletom azul escura, a blusa polo do mesmo tom da minha e tênis, na maioria pretos.
- Junta mais! – Lucas falou apontando para o lado direito. – Não vai cair, Casemiro. – Soltei uma risada, vendo todos os jogadores sorridentes e me senti feliz também. – Sorriam! – Ele falou e eu ouvi o barulho do obturador algumas vezes e suspirei. – Agora vai, todo mundo mostrando o quatro. – Ele gritou.
- Faltam três! – Eles gritaram e eu sorri, encostando a cabeça no ombro de Vinícius que me abraçou de lado. Alisson deu uma piscadela em minha direção e eu sorri.
- Pronto! – Lucas falou. – Vamos comer! – Ele falou e os jogadores foram saindo do vestiário, descendo da mesa em que eu mantinha as coisas e, por último, os jogadores que estavam em pé na mesma, incluindo Alisson.
- Menos um! – Ele falou, me abraçando pelos ombros e eu o abracei de lado, entrelaçando os dedos nos dele.
- O que deu em você para me beijar na frente de todo mundo? – Perguntei, olhando para ele.
- Eu estou muito feliz. – Ele falou rindo. – Além de que... Porque esconder? – Ele olhou para mim, encostando o nariz no meu. – Todo mundo já sabe.
- Todo mundo, menos...
- Ah, os dirigentes, mas eles só sabem assistir aos jogos da tribuna, não convivem com a gente, não acompanham treinos, reuniões, nem nada... – Ele deu de ombros. – O resto aqui sabe e apoia a gente. – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Com certeza! – Marcelo falou em nossa frente e eu ri. – Quer que eu leve sua mala?
- Se você faz questão. – Brinquei e ele puxou minha mala, saindo do vestiário. Me afastei um pouco de Alisson, pendurando minha mochila nos ombros e fomos em direção ao restaurante do estádio, com Alisson me abraçando pelos ombros.



Continua...



Nota da autora: Acho que esse foi o capítulo mais esperado, não é?! É TETRAAAAAA! Finalmente pp e Alissinho estão juntos! Ah, como isso é lindinho! <3 Pena que demorou meia Copa para isso acontecer!
E esse jogo? Meu Deus, como eu queria matar alguns mexicanos (e morro de vontade de ir para lá). Eles foram muito baixos nas declarações e o pisão no pé do Neymar não passarás! Mas para registrar esse jogo, nada melhor do que essa foto, a cara dele é a melhor! E VAI ALISSINHO!
Mas eles ficaram para trás e, infelizmente, só tem mais um jogo antes da final para nós e dois capítulos para o fim de PR! Se segurem e vamos para os finalmente!
By the way, o que acharam da divisão da fic, ficou lindinha, né?! <3
É isso, gente! Beijos, beijos!



HAHAHA "Estão deixando a gente sonhar", ai Ronaldinho Gaúcho, melhor pessoa! É TETRA É TETRA! E.... Pera, ficou lindinha a divisão, obrigada, de nada. ♥

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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