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Última atualização: 20/04/2022

Capítulo 35

não sabia como descrever, exatamente, o que tinha acontecido no retorno. Se lembrava nitidamente de ter corrido pela base de Garden State até alcançar o térreo, localizou Steve e Tony e, apressados, com o Tesseract em mãos e partículas suficientes para os três voltarem ao tempo ao qual pertenciam, eles saltaram de volta, apressados e felizes pelo sucesso da missão. Disto se lembrava, conseguia descrever com detalhes e com consciência como foi o retorno e como se sentiu diante dele.
A mesma sensação do teste, da ida à missão, foi a sensação que sentiu no retorno quando surgiu, em um piscar de olhos, de Nova Jersey, em 1970, a Nova Iorque, nos tempos presentes. A pressão do corpo sendo comprimido, a dor de tê-lo esticado novamente ao tamanho normal, a confusão mental momentânea. Tudo foi exatamente igual. Contudo, o que mudou para veio logo a seguir. Era o que ela já não conseguia mais descrever.
Ao tempo que pisaram todos de volta na plataforma e que se deram conta que estavam de volta, a sensação que tomou o ambiente foi de vitória absoluta. Com seus trajes recolhendo-se automaticamente e as roupas que vestiam na missão aparecendo abaixo, lembrava-se de olhar ao redor, da alegria imensa que sentiu ao contar com os olhos as seis Joias em mãos das pessoas espalhadas em volta dela, de trocar um olhar eufórico com Thor, ao seu lado. Tinham voltado. Como combinaram, eles dois estavam ali, de volta. se lembrava bem de Rhodes perguntando "vai me dizer que isso deu certo?", tão incrédulo quanto ela estava, descrente que aquela maluquice toda fosse, de fato, surtir algum efeito. E surtiu. Deu certo. Eles tinham conseguido.
Mas, como todo prêmio alto demais, alguma coisa no ambiente estava latentemente estranha. E descobriram no exato segundo seguinte à euforia da vitória que, na realidade, tinham fracassado de algum modo. Tinha pagado o mais alto dos preços para ter todas as seis Joias, um preço que nenhum deles esperava ou poderia pagar. Bruce foi quem perguntou primeiro. Com Clint totalmente encharcado, da cabeça aos pés, chorando sentido e com o olhar perdido em um canto qualquer da plataforma, ele caiu de joelhos ao chão. Fraco, vulnerável, machucado. A pergunta que fez na sequência de Bruce, exatamente a mesma, exatamente a que todos eles se faziam observando Clint ao chão, paralisados pela surpresa e pela incredulidade, se negando a acreditar que um deles não tinha voltado da missão. E não voltaria nunca mais.

— Clint, onde está Natasha?

Não precisava de resposta. Ele não tinha o que responder, porque todo mundo já sabia. Tinham ido à Vormir. Onde Thanos matou a própria filha para conseguir a Joia, aquela cujo nome referenciava a alma, desafiava veladamente a morte. Natasha foi e não voltou. Clint tinha a Joia da Alma em mão. Ela tinha se sacrificado. Tinha dado a sua vida em troca de conseguir aquela maldita Joia, tinha morrido para que pudessem reunir todas elas, para que pudessem chegar até ali. Tinha morrido para que todo o resto do universo pudesse viver. Nobre, egoísta e heroico como Natasha. Ainda na plataforma, chorou, observando Clint no chão. Nenhum deles conseguiu dizer sequer uma palavra. O que teriam a dizer, afinal?
Natasha estava morta.
E uma conta em especial não fechava para nenhum deles. Não conseguiam colocar vidas em balanças, não negociavam vidas, afinal. Steve tinha dito isso a Visão em Wakanda, cinco anos atrás. Visão também havia partido. não podia escolher entre ter seus pais de volta, Bucky, T’Challa e Shuri ou manter a vida de Natasha. Como Clint não conseguia escolher entre sua família e a pessoa que foi tudo para ele por tantos anos. Steve ficava repassando o olhar dela, o encarando antes de saltar no tempo enquanto dizia “Te vejo em um minuto”. Ele não a veria mais, não era justo. Ele pesava Sam com Natasha em uma conta mental que simplesmente não batia. Nenhum deles tinha que escolher. Era covarde e doloroso, não tinha que ter sido daquela forma. Eram todos eles ou ninguém. Onde estava Natasha?
Três dias haviam se passado desde que retornaram do Assalto ao Tempo e não saiu de seu quarto. Chorava, inconformada, com a morte de mais uma pessoa que amava e que perdeu porque cinco anos atrás eles falharam. Natasha não tinha desaparecido, não havia chance de voltar atrás e recuperá-la também, ela estava morta. Não era aquele o plano, não era o que eles tinham em mente, não era para ter sido do jeito que foi. não se conformava. Natasha tinha que estar ali, com eles, e, a cada manhã que acordava depois do retorno, esperava por ela bater à porta de seu quarto, a esperando para correrem juntas, para conversarem. esperava que fossem esquiar outra vez, tinham combinado, ela não podia ter feito aquilo, não podia.
Clint contou o que havia acontecido, horas depois do retorno. Contou exatamente como foi, imerso em lágrimas e no sentimento de culpa, de que deveria ter sido ele em seu lugar. Ninguém soube o que dizer, não havia o que ser dito. se recusou a participar da reunião de velório que, para ela, foi uma palhaçada desrespeitosa. Não havia um corpo ali, não havia o que ser velado, Natasha merecia mais, merecia ter se despedido, merecia que o mundo soubesse o sacrifício dela, de quem ela era, do que representava. Não houve sensibilidade, nem reflexões. Era só uma reunião deles em frente a um lago do Complexo, em que fariam o quê? Natasha não voltaria. Nunca mais. Tinha morrido por uma causa, por uma missão, por uma ideia que sequer tinham conseguido concretizar ainda. E, se tinha morrido por aquilo, tinham que fazer sua vida ter valido a pena.
O peso da responsabilidade em conseguir trazer todos de volta aumentou a partir dessa ideia. Quando a emoção da perda e do luto foi se transformando em uma raiva ainda maior de Thanos, em uma força furiosa e apressada por finalizar aquele plano de uma vez por todas. Deixando de ser uma ideia e se concretizando na própria vida de Natasha, agora, mais do que nunca, tinham que agir. Tinham que fazer aquilo dar certo. Uma obrigação silenciosa, mas presente em todos eles, uma pressão e uma responsabilidade que ganharam a partir do momento em que a perderam.
No terceiro dia depois do retorno, logo que acordou, teve coragem de ligar para Nate. Ele estava absurdamente preocupado com a falta de respostas dela, já tinha recorrido a Steve para ter notícias e saber se estava tudo bem. não tinha forças emocionais para conversar até aquele dia, não estava pronta para nada, senão dormir e se isolar de tudo. Estava baqueada pelo que tinha revivido com seus pais biológicos, destruída pela morte de Natasha, fisicamente machucada pelo que aconteceu com a STRIKE em 2012 e ansiosa, angustiada, por terem conseguido reunir as Joias.
Exatamente como cinco anos atrás, quando o período mais atormentador e doloroso de sua vida começou, aqueles últimos dias estavam matando por dentro um pouco mais.
Juntando forças que não sabia de onde tirou, ela, enfim, contou tudo a Nate. Da aparição de Steve em Berlim até aquele exato momento, uma semana depois. Contou do teste, de ter visto seus pais biológicos duas vezes, contou exatamente como foi, onde estavam, o que disseram, o que ela viu, o que viveu. Contou de 2012, mostrou a ele por videochamada as dezenas de marcas em seu corpo, como se quisesse comprovar que a história que lhe contava era mesmo real. E não poupou nenhum detalhe. A cada nova palavra, Nate insistia que iria até ela, que ficaria com ela, mas não queria, não podia querer. Havia um motivo muito maior pelo qual fez aquela ligação que durou horas, um motivo que ia além da saudade que tinha dele e de um pedido silencioso de ajuda.
tinha comprado uma passagem aérea para ele, naquele dia mais cedo. Uma passagem para Malta, para aquele dia. Pelas informações que ouvia de Thor e Steve, quando iam almoçar ou jantar com ela no quarto, Tony, Bruce e Rocket estavam trabalhando incansavelmente, noite e dia, em uma nova manopla, uma luva que aguentasse a pressão de reunir todas as Joias outra vez. E estavam perto de conseguir, estavam realmente perto. Com isso, perto também estava a chance, a possibilidade, de trazerem todos de volta. Nate tinha que estar em Malta quando a luva estivesse pronta. Tinha que estar lá outra vez porque, caso o novo estalo desse realmente certo, era lá que sua filha iria ressurgir.
E não via a hora de voltar para Wakanda. Ensaiou diversas vezes deixar o Complexo e esperar pelos seus no lugar onde os viu pela última vez, mas parte dela a impedia. Queria estar por perto quando o estalo acontecesse, tinha que ver com os próprios olhos e tinha que estar ali para caso não desse certo. Como reagiriam, o que fariam naquela possibilidade, ela precisava estar por perto. O momento era delicado, todo o time estava abalado o suficiente para quase não conversar entre si mais, desgastados, exaustos, cheios de expectativas no incerto. O melhor que podiam fazer era permanecerem juntos até terem certeza de que já não havia mais nada a ser feito.
Poucos minutos depois de ter desligado a ligação, Nate pegou a passagem que havia comprado e foi para Malta. Com uma mochila pequena nas costas, meia dúzia de documentos em mãos e toda a expectativa do mundo no coração. Nunca mais tinha estado lá, as memórias da perda eram tão violentas para ele, que jurou a si mesmo nunca mais se forçar àquilo. Era um lugar triste, solitário, desesperador e sufocante para ele. Mas Nate confiava em . Acreditava nela, no que estava dizendo, não brincaria com aquilo. Jamais. Ele viu como ela estava, viu a tormenta em seus olhos, a vulnerabilidade de suas palavras, as marcas no corpo. tinha uma alternativa real a oferecer e, dando certo ou não, para Nate, valia a pena a tentativa. Trocando mensagens ao longo do caminho, ele avisaria quando chegasse lá.
De Wakanda, Okoye atendeu a ligação de com entusiasmo, mas logo a enxurrada de informações a inundou de seriedade e preocupação. Nunca tinha gostado de trabalhar com hipóteses, era a pessoa mais segura e assertiva que havia conhecido em toda sua vida. Tudo era ou não era, não havia disposição em Okoye em trabalhar com a margem do talvez. Mas ela gostou do que ouviu. Gostou porque deu a ela, pela primeira vez em cinco anos, um sentimento que Okoye tinha certeza nunca mais sentir: a fé. E bastou a alguns minutos em contar-lhe resumidamente o que estava acontecendo para que ela começasse a se preparar para um possível retorno dos desaparecidos.
Aquele era um ponto crucial. Não tinham ideia de como isso aconteceria e a hipótese mais certeira era a de que voltariam do mesmo jeito que sumiram: repentinamente, da poeira e nos exatos mesmos lugares em que desapareceram. Por isso, para , era fundamental que Okoye soubesse do plano, que ela tivesse informações concretas sobre o que aconteceria, pois, caso desse certo, Wakanda seria um dos maiores palcos de retorno, ela tinha que esperar por aqui, tinha que ajudar os recém retornados, situá-los de volta ao tempo, contar-lhes o que aconteceu. O caos do sumiço daria lugar ao caos do retorno, tinham que se cercar como podiam.
decidiu sair do quarto depois de algum tempo que desligou a chamada com Okoye. Ter conversado por horas com Nate, ter visto Okoye, tinham feito bem a ela, a tinham seguramente confortado como sempre conseguiam fazer. Não adiantaria ficar para sempre isolada do mundo, nada do que aconteceu voltaria atrás e seria refeito, teve cinco anos para aprender a como lidar com aquele sentimento de impotência. Talvez, fosse melhor se focar no agora, em entender o que acontecia, se enturmar, ajudar como podia. E foi o que ela fez.
Jogado na ponta de um sofá com na outra, suas pernas esticadas se encontrando no centro, Thor contava exatamente como foi ter voltado a Asgard. A tinha encontrado andando pela casa minutos antes, vestindo um conjunto de calça e blusão de moletom mais curto, pretos, e tênis brancos. Ela tinha os cabelos meio presos para trás e parecia buscar algo para fazer. Thor ainda não tinha conversado com ninguém sobre aquilo, estava esperando por um momento em que se sentisse confortável em reviver aquela nova memória. Disse que viu sua mãe. Que pôde falar com ela, que ela o reconheceu, sabia que era de outro tempo. Thor tentou alertá-la de que morreria naquele dia, mas ela não pareceu ter medo ou qualquer reação negativa, pelo contrário, teve a sabedoria de dizer-lhe, com palavras amenas e carinhosas, que a morte também faz parte da jornada da vida. Ele viu seu irmão, rápido, de relance, estava preso na época. E viu Jane de longe. Thor sentia falta dela. Disse a que nunca tinha se sentido daquele jeito com outra pessoa, ainda era apaixonado por Jane.
o ouviu em silêncio, deixou que os sentimentos dele se externalizassem em palavras calmas e doloridas, tudo era difícil para Thor também. Estava sendo difícil para todos eles e se sentiu ligeiramente mal por ter dado as costas a eles naqueles três dias em que se trancou. Dividiam a luta e dividiam as dores, tinham que ficar juntos. Ela contou a ele o que tinha acontecido com ela, também. Sobre seus pais, sobre como perdeu o Tesseract, sobre o que viu em Nova Jersey. Contou sobre a surra que deu na Hydra outra vez, que Steve a tinha dado um beijo para distrair uma mulher no elevador. A tristeza em que se encontraram na sala foi dando espaço a risadas amenas, a um clima descontraído e leve. O silêncio foi virando perguntas eufóricas e, conforme a tarde fluía, e Thor encontravam um no outro, mais uma vez, forças para seguir.
No final da tarde, contudo, entre latas e mais latas de energético espalhadas pela mesa em frente à e Thor, Rocket apareceu na porta da sala em que estavam e, sem delicadeza alguma, gritou:

— Aí, rapaziada. — A voz dele chamou a atenção dos dois que, ao mesmo tempo, viraram-se para ele na porta. — O velhote está chamando vocês.
— Steve? — perguntou, levantando-se do sofá, segurando uma lata de energético e observando Thor fazer o mesmo enquanto respondia:
— Stark? — Ele virou todo o conteúdo da bebida que segurava de uma vez.
— Tem Bruce, também — olhou para ele.
— Rhodey, talvez? — Thor perguntou, pensativo, vendo a mulher dar de ombros.
— Quantos anos o Lang tem?
— Quantos anos você tem? — curioso, Thor virou-se para .
— Trinta e você? — ela sorriu e tomou um novo gole de seu energético, que foi cuspido no segundo seguinte quando o ouviu responder, casualmente, orgulhoso de si mesmo:
— 1.505.
— ‘TÁ BRINCANDO? — praticamente gritou, os olhos arregalados de surpresa enquanto limpava o líquido que escapou de sua boca. Não tinha porque se impressionar, afinal, vindo de qualquer pessoa dentro daquela casa, nada era impossível, improvável ou estranho demais. só não imaginava que ele fosse tão velho. E estava até que bem pela idade que tinha.
— Não ‘tô não — ele sorriu, orgulhoso de si mesmo, o peito estufado. — Até quando o tema é idade, eu ainda continuo sendo o maior Vingador.
— ‘Tá ‘tá ‘tá! Só tem velho nessa equipe, já entendi — Rocket massageou as próprias têmporas, gritando outra vez. — Capitão quer vocês dois no laboratório principal do arrogante-mor. Anda logo.

Engolindo as palavras ao ouvir aquilo, Thor e se entreolharam por um segundo. Sabiam que a montagem da luva estava já bem avançada e até esperavam que logo iriam acabar com aquela tensão, toda aquela expectativa, de uma vez. Mas ouvir aquilo tinha caído como uma bomba. Seus corações aceleram ao tempo que a ansiedade os fez respirar fundo e, finalmente, sair da sala rumo ao laboratório. Três passos para fora da sala, sem saber como ele tinha conseguido pegar aquilo de dentro do quarto dela, observou Rocket estender a Thor um comunicador auricular e, em seguida, virar-se para ela, não apenas com um comunicador, mas também com sua tornozeleira. Estranhando aquilo, só então reparou que ele também vestia seu traje.
Toda missão requeria um preparo. Estavam se aprontando para aquilo como quem se aprontava para uma guerra. Uma nova guerra.
Aceitando o comunicador, que logo colocou na orelha, e o pequeno objeto brilhante de vibranium enquanto seguia caminhando pelos corredores, ouviu Rocket dizer animado:

— Está na hora do show.


✽~✽~✽~✽



— A luva está pronta.

Espalhados pelo enorme laboratório, eles ouviram Tony dizer enquanto manuseava a nova manopla dentro de um suporte tecnológico de levitação. O laboratório estava bem iluminado, parte dele era cercado por um jardim de inverno bonito e minimalista, com finas árvores floridas. Estavam no meio da tarde, o dia claro e ensolarado lá fora trazia uma energia boa para dentro da casa, mas que, naquele dia, não seria bem aproveitada. Dentro do laboratório, em meio a móveis elegantes, alta tecnologia e utensílios mecânicos de Tony, todos eles haviam se encontrado para discutir como agir dali em diante, com exceção de Nebulosa — que nenhum deles, na verdade, sabia dizer onde estava, mas não se importavam muito. Algo maior estava para acontecer.
Mais de perto, a manopla parecia com uma luva da armadura de Tony, vermelha e dourada, com a diferença de ter as seis Joias cravadas nela, uma na direção exatamente de cada dedo e uma, a maior delas, ao centro da mão — exatamente na mesma disposição que se lembravam ver na manopla dourada de Thanos. Stark segurava a luva com cuidado e atenção, o medo de apressar as coisas, de inesperadamente fazer alguma das Joias funcionar, enquanto Rocket terminava de fechar o último compartimento dela, na palma. Ele seguia de frente para Tony, do outro lado da luva, enquanto Bruce mantinha-se por perto.
Ao redor, afastados, mas com os olhos grudados em cada movimento mínimo que os três faziam na manopla, Steve, Scott, Clint, Thor, Rhodes e estavam esperando qualquer que fosse o comando para fazer o que tinha que ser feito. O ponto era que, nenhum deles ali, dos nove presentes, sabia exatamente o que viria depois. A luva estava pronta, ótimo. E agora?

— A pergunta é: quem vai estalar os dedinhos? — Rocky perguntou, encarando Stark em sua frente. Estava praticamente em cima da mesa onde o suporte com a luva estava, um óculos de segurança em sua cabeça, mais sério do que de costume.
— Eu vou. — Sem hesitação, em seu look completo de moletom e luvas sem os dedos, Thor caminhou para perto da manopla. Sentada em cima de uma mesa mais ao lado, fechando sua tornozeleira na perna direita, suspirou e deu uma olhada despretensiosa em seu celular jogado ao seu lado. Ia começar a discussão outra vez.
— O que disse? — Tony perguntou, ao tempo em que todos os demais se viraram para Thor.
— Está tudo bem. — Sem parar de andar em direção à manopla, Thor aproximou-se ainda mais, mas foi logo impedido por Tony, Steve e Clint, enquanto Rocket manteve-se atento em segurar a luva. Thor não estava em condições de fazer aquilo. Eles se lembravam de ver como Thanos tinha ficado depois de estalar os dedos. Thanos. Fisicamente maior e mais resistente do que qualquer um deles ali, mas, ainda assim, quase morreu. As seis Joias juntas tinham um poder que eles não podiam sequer mensurar. A energia podia matá-los e não estava nos planos perder mais ninguém. Tinham que pensar, bem, em quem seria a pessoa a dar o estalo.
— Pare. Espere aí. — Tony manteve sua mão no meio do peito de Thor, o impedindo de se aproximar ainda mais.
— Thor, espera — Steve falou sério, mas suave, peitando-o de frente. — Ainda não decidimos quem vai usar.
— Ah, então vamos ficar aqui sentados, esperando a oportunidade certa? —impaciente e carregado de ironia, o asgardiano respondeu.
— Deveríamos ao menos discutir — Scott olhou o loiro, já próximo deles.
— Olha, olha… — Thor parecia instável, apontando para a manopla. — Ficar aqui, olhando a coisa, não vai trazer todos de volta.
— Nem se desesperar e fazer qualquer coisa improvisada — se pronunciou pela primeira vez, fazendo os olhares dos homens recaírem sobre ela. Thor a observou saltar de onde estava sentada e, virando-se de frente para ela, ele argumentou calmamente:
— Eu sou o Vingador mais forte, ‘tá? — ele abriu os braços e logo voltou-se de frente para onde Steve, Tony, Clint e Scott estavam. — Então, a responsabilidade recai sobre mim.
— Normalmente sim... — Stark tentou dizer, mas logo foi cortado por Thor.
— É meu dever.
— Mas não se trata disso agora — Tony completou, tentando empurrar Thor levemente para longe da luva. Qualquer movimento mínimo errado poderia comprometer tudo, ele tinha que ficar longe. Bruce acompanhava em silêncio mais ao fundo de onde estava, com na mesma linha lateral que ele, de braços cruzados.
— PARA! — Thor gritou com Tony, tentando se soltar. — Me deixa…
— Ei, amigo... — Tony o segurou com firmeza pelos braços, o encarando de frente. Com os olhos enchendo-se de lágrimas, Thor bateu suas mãos no peito de Tony, praticamente implorando.
— Só me deixa fazer isso. — A voz dele estava embargada pelo choro. — Deixa eu fazer uma coisa honrada, uma coisa certa.
— Olha, não é só porque essa luva pode iluminar um continente… — Tony explicou paciente, baixo, seus olhos nos de Thor entendendo o momento que ele passava. Os demais seguiam em silêncio, pensativos. — Estou dizendo, você não está em condições.
— O que acha que corre em minhas veias agora? — o Asgardiano insistiu, chacoalhando Tony, ligeiramente, pela camiseta. A resposta, contudo, veio de Rhodes, parado em sua armadura cinza do outro lado do laboratório.
— Requeijão? — Thor chegou a apontar para ele, esperando pela resposta correta, mas frustrou-se, claramente, ao ouvir aquele comentário infeliz. Exausta do comportamento infantil e irresponsável do homem, como se aquela fosse a última gota d’água para transbordar, praticamente gritou, a reação saindo dela com fúria, o pavio tão curto que explodiu ali mesmo:
— Nossa, Rhodes, você é mesmo muito engraçado — ela bateu palmas irônicas, o encarando enquanto dava passos firmes em direção a ele, sem sequer se dar conta daquilo. Rápido, vendo o circo se formar, Steve se colocou na frente dela, a segurando pelos braços enquanto a mantinha afastada de Rhodes, a impedindo de chegar perto dele. — Quer satirizar ainda mais a situação de Thor? — ela gritou mais alto, apontando o homem que, assustado pela reação, manteve-se calado, a observando, sério. — Por que não aproveita o momento propício para isso e faz mais piadas sobre a desgraça que ele está vivendo há cinco anos?
, tudo bem — Steve sussurrou tentando atrair a atenção dela, sem muito sucesso. — Tudo bem, está tudo bem.
— Não, Steve, não está bem. — tentou se soltar dele, sem sucesso. Apesar de delicado, Steve a segurava com firmeza pelos ombros. — Olha para ele, Rhodes, OLHA PARA ELE voltou a gritar enquanto apontava, agora, para Thor. Àquela altura, todos os demais a encaravam, preenchidos pela raiva que a mulher transbordava em suas palavras. A poucos passos dela, Thor deixou uma lágrima escorrer, a vergonha de si mesmo por estar daquele jeito, por ser tão exposto, o conforto de saber que, ao menos com , ele podia ser fraco, podia ser só humano. — Como você tem coragem de fazer piada? Você sabe como é ver todas as pessoas que você ama sendo mortas em sua frente? VOCÊ SABE COMO É?
Steve abaixou a cabeça na mesma hora enquanto Clint deu um passo em frente, concordando com ela em silêncio. Aquilo era delicado para alguns deles. Profundamente íntimo e delicado.
, eu não… — O homem tentou responder, mas sabia que não adiantaria naquele momento. Estava errado, sabia que estava.
— Você não sabe! Não tem o direito de hostilizar a situação dele quando não faz ideia do que ele passou — um tom mais calmo que antes, ela seguiu dizendo, seus olhos raivosos sem desviar dos de Rhodes, odiava aquela situação. — Você não estava lá, não teve sequer a chance de enfrentar Thanos. Não sabe como foi, não sabe. Se não tem o que acrescentar à conversa, então fique na sua.
— Me desculpe, eu não queria ofender — ele sussurrou tão baixo que mal pode ser ouvido por todos os presentes, vendo a mulher negar com a cabeça.

seguiu o encarando por mais um segundo até ter seu olhar desviado por Steve que, delicadamente, puxou o rosto dela para o lado, para que o olhasse. estava cansada em um nível absurdo, estava emocionalmente estressada, já não tinha mais paciência e não deveria ter, não quando cutucavam justamente a maior das feridas. Ela, mais do que ninguém, sabia pelo que Thor tinha passado. Ela o ouviu, o acolheu, o compreendeu. Ela tinha paciência com a situação dele, porque teve que aprender a lidar com algo parecido naqueles anos. Sabia como era, o quanto doía. E, talvez, nenhum deles naquela sala, com exceção de Clint, soubesse, também. Não tinham mesmo o direito de dizer nada. Ela tinha razão. Se não podiam ajudá-los, então que, ao menos, não piorassem ainda mais suas situações.
encarou os olhos claros de Steve por um momento, respirando fundo, tentando se acalmar. Tinha consciência de que tinha passado dos limites, mas não era do tipo que se calaria. Estava aguentando a tempo demais os comentários e piadinhas de Rhodes com Thor, sempre comentando algo sobre sua situação física, sobre como tinha ganhado peso, como parecia sujo, como estava sempre bêbado ou comendo, instável, como não mais era o deus que esperavam ele ser. Nada daquilo dizia respeito a ninguém mais, senão ao próprio Thor, e já não aguentava mais os comentários. Se não havia espaço para demonstrar fraqueza ali, se não podiam sentir e sofrer, deixar suas emoções transparecerem, o que estavam fazendo, afinal? Eram robôs ou seres humanos? E, como humanos, tinham a obrigação de permanecerem constantemente os mesmos? Fortes, estáveis, controlados, prontos para tudo? Talvez para Rhodes, escondido em uma armadura, ser um robô fosse uma prática. Para , nunca seria.
Thor enxugou discretamente a lágrima que deixou escorrer em seu rosto, assentindo com a cabeça, levemente, para , assim que seus olhares se cruzaram, como se dissesse, sem precisar externalizar sequer uma única palavra, que estava tudo bem. Steve esperou por ela se acalmar e a soltou, virando-se novamente de frente para onde os demais estavam, atentos com e com Thor, de olho na manopla. Por segurança, Tony continuou segurando Thor todo aquele tempo, enquanto Rocket ainda estava protegendo a luva.

— O que corre em minhas veias é eletricidade — limpando a garganta, Thor quebrou o breve silêncio, olhando ironicamente de Rhodes para Tony. — São raios.
Stark parou para pensar, ponderando se aquele era realmente um ponto a ser levado em consideração. Se Thor controlava os raios, podia resistir a eletricidade de todas as seis Joias juntas?
— Eletricidade não vai te ajudar. — Do canto do laboratório, mais atrás de todos eles, a voz baixa de Bruce chamou a atenção deles. — Tem que ser eu.

Bruce parecia sereno, mas não certo sobre aquela decisão. Ele deu dois passos para mais perto de onde os demais estavam, vendo Tony soltar Thor, que negava com a cabeça. Ele estava nitidamente triste em ouvir aquilo, completamente frustrado por não poder ser ele a carregar a responsabilidade de fazer algo certo depois de cinco anos, depois de ter fracassado em cortar a cabeça de Thanos no tempo certo. Estalar os dedos ali significava para Thor algo que nenhum dos demais poderia entender. Era como reparar um erro, como pedir perdão.
Contudo, todos concordavam que Thor não estava nas melhores condições físicas e mentais para encarar aquela responsabilidade. E, mesmo que estivesse, ainda seria arriscado demais.

— Viram o que as Joias fizeram com Thanos. — Bruce dava passos em direção a manopla. — Ele quase morreu. Nenhum de vocês sobreviveria.
— E como sabemos que você conseguirá? — Steve perguntou, preocupado, todos os olhos ao redor de Bruce o encarando parar de frente com a manopla, a encarando.
— Não sabemos — ele respondeu simplesmente, sério, concentrado. — Mas a maior parte da radiação é basicamente gama. Eu acho que é como se… eu tivesse sido feito para isso.

Reflexivos, eles se entreolharam. Bruce já tinha passado por uma injeção energética de portes sobre humanos uma vez. E, não bastasse aquilo, tinha ficado por meses em laboratório bombardeando a si mesmo com raios gama, testando formas de se fundir ao Hulk. O fato estava consolidado. Se tinha algum deles ali, em proporção, que poderia aguentar a energia do estalo, essa pessoa era, sem dúvida alguma, Bruce Banner. Estava se voluntariando a ir porque ele sabia que havia uma chance maior de aguentar o tranco.
Como se tivessem votando, um a um, Steve passou os olhos por cada pessoa presente ao seu redor, os vendo concordar com a cabeça ou consentir brevemente, em silêncio. Uma vez que todos estivessem de acordo e, mais do que isso, que Bruce estivesse pronto, podiam finalmente agir. Banner levou alguns minutos encarando a manopla abaixo e em sua frente, pensando se deveria mesmo ter se voluntariado. Estava longe de ser a pessoa mais corajosa daquela sala e longe também de ser o mais otimista. Apesar de acreditar que aquilo daria, sim, certo, uma parte dele o alertava sobre o perigo que correria. Mas para o que servia um dom super humano, senão para proteger pessoas, salvar vidas e doá-lo ao universo? Natasha não tinha dado sua vida em vão, não tinha se sacrificado para que Bruce não tivesse coragem o suficiente de seguir em frente.
Ele faria aquilo por ela.
Tardiamente, talvez, mas faria algo que nunca teve coragem de fazer, não a tempo: amaria a vida de Natasha e o que ela representava, a honraria, faria com que sua última vontade em vida fosse realizada. Traria todo mundo de volta. Tomado pela tristeza de se lembrar de Nat justamente naquele momento, ele fungou. Bruce não tinha muito mais em que pensar. E era melhor que fosse de uma vez, antes que seu senso de racionalidade o fizesse questionar demais aquela ação. Ele, então, virou-se levemente para o lado, olhando Steve, concordando com a cabeça. O último voto tinha sido dado.
Sem dizer uma só palavra, Rocket tirou a manopla do suporte com todo o cuidado e a entregou para Bruce que, sem perder tempo, dirigiu-se calmamente para o centro do laboratório. Ao redor dele, formando um círculo perfeito, todos os demais se posicionaram, olhos atentos ao que estava prestes a acontecer. Se pudesse descrever aquele momento, ela certamente não encontraria palavras o suficiente. Sentia que seu coração ia sair pela boca a qualquer segundo, pulsava tão rápido em seu peito que talvez pudesse ser ouvido. A concretização de que tinham mesmo conseguido reunir as Joias, de que a história surreal de viajar no tempo tinha dado certo, batia nela a cada segundo que observava ao redor.
Era como um sonho, daqueles que ela teve naqueles cinco anos, em que desejou, com todo seu coração, ter James, Karl, Everett, Samuel, T’Challa e Shuri de volta. sentia que estava a um passo de revê-los. Tinha pressa e tinha pressão. Consumida pela ansiedade, ela tentava respirar fundo, trocando seu olhar tenso e sério com os demais, a testa levemente franzida, o rosto com o ponto falso ainda colocado em seu rosto. Tinha chegado até ali. Era nada mais do que surreal.

— Está preparado? — Tony perguntou a Bruce, caminhando ao lado até o centro.
— Vamos lá. — Banner o encarou inexpressivo, desviando seu olhar na luva em suas mãos.
— Lembre-se, todos que o Thanos eliminou há cinco anos… — Stark pediu seriamente, afastando-se alguns passos dele, em direção onde Clint estava — … só vai trazê-los para o agora, para hoje. Não mude nada dos últimos cinco anos.

sabia que aquele era um lembrete pessoal. Tony não só sobreviveu ao estalo, como tinha podido manter Pepper e teve uma filha com ela naquele tempo. Não sabiam como exatamente um simples estalar de dedos podia eliminar ou retornar metade do Universo, mas aquela regra tinha que ficar clara para Banner. Nada podia ser alterado, exceto pelas pessoas que sumiram. Tony precisava se certificar daquilo e todos sabiam exatamente o porquê.

— Entendido.

Ao tempo em que Hulk consentiu, de trás dele, observou os demais se prepararem para o grande momento e, sem tempo a perder, ela acionou sua tornozeleira, atingindo-a levemente com o tornozelo da outra perna. Como nos velhos tempos em que o vestia, seu traje oficial abriu-se em segundo, tomando todo o seu corpo em um macacão de fibras de vibranium. Sua vida tinha corrido para outros caminhos e ela teve outros propósitos naqueles anos todos, era um fato. Mas a verdade era que, bem no fundo, sentia saudades de vestir aquela roupa. Os tons de preto e verde escuro brilhavam com os contornos discretos de nervuras e flores espalhados por todo o macacão. A letra “A” no braço direito, a flor de Neriine ao centro. sentia falta de toda a adrenalina e o peso da responsabilidade que recaiam sobre ela sempre que vestia aquela roupa. Mas ali estava ela outra vez, voltando exatamente de onde parou, seguindo a vida de cinco anos atrás como se o dia houvesse apenas amanhecido novamente.
Ao lado direito dela, empunhando seu escudo, Steve deu um passo à frente de , aproximando-se ligeiramente para cobri-la com o escudo, como se a quisesse proteger de qualquer que fosse a explosão que poderia sair da manopla. Ao lado dele, Scott e Rhodes fecharam os capacetes de seus trajes em seus rostos e, em seguida, do outro lado do laboratório, quase que de frente para , Thor deu um passo atrás e estendeu seu braço em frente a Rocket, se posicionando para o proteger com o próprio corpo. O guaxinim baixou seus óculos de segurança em seus olhos e deu passos curtos até ficar atrás de Thor. Na outra ponta do círculo, Stark acionou sua armadura que, enquanto abria-se e cobria seu corpo, espetacularmente brilhante e tecnológica, Clint posicionava-se ao lado dele, seu arco em mãos. Uma vez vestido, a armadura vermelha do Homem de Ferro cobriu o rosto de Stark com a máscara e abriu um escudo holográfico a partir de seu punho direito, protegendo a si mesmo e Clint.
Do meio deles, bem ao centro da roda que formaram, Bruce subiu seu olhar tenso da manopla para Stark em sua frente, brevemente concordando com a cabeça.

— Sexta-feira, pode ativar o protocolo Porta do Celeiro? — Tony pediu na sequência, em alto e bom som.
— Sim, chefe. — Bastou a inteligência artificial dizer para que, em meio segundo, todas as portas e janelas ao redor deles fossem completamente fechadas por placas grossas de metal cinza ou prateado. Vedada qualquer que fosse a fresta, estavam oficialmente trancados dentro daquele laboratório. Um mecanismo de segurança que, sabia , servia não apenas para conter uma possível explosão, mas, sobretudo, para isolar as Joias de qualquer eventual interferência externa. Algo que não tinha sido cogitado por eles até aquele momento, mas que não daria mais tempo de cogitar.

— Todo mundo volta para casa — Bruce sussurrou para si mesmo enquanto via a luva calmamente expandir-se para o tamanho exato do braço dele, assim que posicionou sua mão esquerda perto da entrada dela.

De onde estava, pressionando os lábios com força e semicerrando os olhos em preocupação, assistiu Banner colocar a luva e, assim que seu mecanismo se fechou no tamanho do braço dele, todas as Joias soltaram suas energias ao mesmo tempo, como se pudessem saber que estavam sendo manuseadas. A manopla tomou uma coloração vibrante, misturando as seis cores principais de cada uma das Joias, criando fluxos de energia tão intensos que eram possíveis de serem vistos aos olhos nus de todos eles. Pela pressão energética, Bruce caiu de joelhos no chão no instante em que os fluxos de energia se expandiram pela manopla, ligando uma joia a outra.
Deixando gritos altos e estrondosos de dor, ele tentou encaixar ainda mais a manopla em sua mão esquerda, usando a outra mão, a energia subindo por todo seu braço feito uma raiz de árvore no solo. não sabia se ele aguentaria por muito tempo, seus gritos aumentavam e inundavam o cômodo, misturando-se com o barulho alto que os fluxos de energia começaram a fazer, como se algo estivesse entrando em curto-circuito. Dentro do laboratório, completamente isolados e vedados, o barulho era tão alto, mas tão alto, que não podiam ouvir absolutamente nada de fora. Bruce seguiu apoiado sob um único joelho, no chão, seu braço esquerdo tremendo absurdamente, os gritos de dor sem cessar nem por um segundo.

— Tira isso! Tira! — Thor gritou, gesticulando para ele, com Rocket por sobre seu ombro, observando Banner sofrer.
— Não! Espere! — Steve gritou de volta, pedindo, com a mão, para que Thor ficasse em seu lugar e não se aproximasse. — Bruce, você está bem?
Ao contrário do esperado, Banner apenas gritou ainda mais alto, esticando seu tronco, as luzes dissipando-se da manopla por todo o ambiente, subindo pelo corpo dele.
— Bruce? — o chamou, apreensiva, seus olhos levemente arregalados pela surpresa em ter que assistir aquilo sem poder fazer nada.
— Fala comigo, Banner — Tony pediu na sequência, a um passo se arrancar aquilo dele, Bruce não iria aguentar. Contudo, ainda entre gemidos de dor, ele conseguiu responder.
— Eu ‘tô legal. — Ele tinha os olhos fechados fortemente, a cabeça baixa. — Eu ‘tô legal.

De onde estava, Thor fez um sinal de positivo em cada mão para ele, acompanhando, temeroso, toda a movimentação. Não queria perder o amigo, não queria que nada acontecesse com ele. Bruce seguiu gritando pela dor quente e corrosiva que, àquela altura, já tinha queimado parte de sua roupa e toda a pele de seu braço. Era possível ver, para além da energia colorida, fumaça saindo da luva, e, a cada instante que se passava ali, achava que morreria de infarto. Apertando as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo e a testa franzida, paralisada pela tensão absurda do momento, ela assistiu Bruce conseguir levantar a mão esquerda no ar, a amparando com a mão direita. E, com grande dificuldade de se concentrar, pela dor, e de manter o braço destruído no alto, Banner, finalmente, estalou os dedos.
Ao tempo em que terminou o estalo, do mesmo modo que e Thor lembravam de ter assistido em Wakanda, um clarão imenso tomou conta de todo o laboratório por um único segundo e, em seguida, assim que se dissipou no ar, Bruce caiu deitado para trás. Com o movimento, a manopla escorregou de seu braço pelo chão, sendo chutada para longe por Clint, enquanto Steve, Thor e Tony corriam em direção ao homem estirado no chão. Seu braço esquerdo estava completamente queimado, em tons escuros e acinzentados, cheirava a queimadura.

— Bruce! — Steve exclamou, horrorizado, assim que se aproximou dele, agachando-se ao lado do homem com Thor fazendo o mesmo ao seu lado.
— Não toquem nele — Stark advertiu, agachando-se do outro lado do homem, vendo , Rhodes e Scott darem passos mais próximos.
Ignorando completamente o pedido de Tony, Steve colocou a mão no ombro direito de Banner enquanto Tony usava o sistema de refrigeração de sua armadura para esfriar o braço esquerdo, queimado. Bruce arfava e, como se pudesse aliviá-la descontando em algo, pegou firmemente o antebraço de Steve, o apertando sincronicamente a dor violenta que sentia em todo seu corpo.
— Deu certo? — ele perguntou baixo, olhando Steve ao seu lado, mas foi Thor quem respondeu, passando a mão no rosto do amigo jogado ao chão.
— A gente não sabe ainda. Está tudo bem.

subiu seu olhar de Bruce até as paredes mais próximas, as vendo abrir novamente, sumir com as placas de metal que os vedavam. Tudo estava silencioso, o ambiente do laboratório sendo novamente iluminado pela luz do dia, ao tempo que a escuridão da vedação sumia automaticamente. Nada pareceu mudar. Mas tudo parecia estranho. Seu coração ainda batia acelerado, ansioso, suas mãos estavam suando, como suas costas, dentro do traje, parecia absorta. Absolutamente tudo se passava em sua cabeça, mas nada a fazia ter forças para dar um passo, para checar se tinha funcionado. Parte dela torcia para que sim, mas a outra parte tinha medo de descobrir que não.
Mais próximo à porta que já terminava de se abrir, viu Scott dar passos lentos em direção ao vidro que levava ao jardim de inverno. Onde antes do estalo havia apenas algumas árvores finas, agora voavam alguns passarinhos. Entorpecida, sentindo seu corpo formigar, sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas ao ver aquilo. Não podia ser coincidência, podia? Sentindo o ar faltar-lhe nos pulmões, o silêncio profundo do ambiente foi discretamente cortado pelo barulho de celulares vibrando sobre as mesas de vidro do laboratório. Incrédulo e tão emocionado como àquela altura, Clint foi em direção ao seu aparelho, lentamente.
Encorajada pela pequena movimentação que faziam ao redor, em busca de qualquer que fosse a evidência de que a metade desaparecida do universo havia retornado, caminhou insegura em direção ao seu celular, em cima da mesa onde antes estava sentada, quando chegaram ali. Vibrando sem parar, ela chegou a pegar o aparelho em mãos, a tempo de ver as notificações de mensagens chegando uma atrás da outra, frenéticas. conseguiu ver, pelo pop-up, mensagens de Nate escritas erradas, certamente pelo desespero, dizerem “, pelo amor de Deus, me liga. Ivy” e, em seguida, “eu encontrei Ivy”.
Trêmula, deixando as lágrimas escorrerem livremente pelo seu rosto, não sabia se de alívio, de felicidade ou pela pressão que sentiu até aquele momento, pensou em responder à mensagem. Contudo, antes mesmo que pudesse desbloquear o telefone, uma chamada entrou em seu celular, o fazendo vibrar outra vez. Permitindo-se chorar a dor que carregou por cinco anos, ela viu a tela do aparelho indicar que Karl a ligava. Karl. Seu pai. Estava vivo. Karl estava vivo. Desesperada em falar com ele, ela chegou a atender a ligação, mas uma dor repentina tomou conta de seu corpo violentamente, a fazendo cair para frente, de joelhos no chão, enquanto soltava o celular que, na queda, desligou.

? — Stark a chamou alto assim que a viu cair, atraindo a atenção de todos os demais até ela. não conseguiu responder nada, tamanha a dor que sentia.
? ! — preocupado, Steve a chamou, sem sucesso. Não sabia se deveria deixar Bruce para acudi-la, não sabia mais o que fazer, mas não precisou se mover dali, pois, assim que a viu no chão, Thor já correu para ajudá-la.

A mesma estranha sensação de cinco anos atrás tomava conta do corpo de como uma onda feroz. Uma dor aguda, sufocante, que parecia crescer dentro de si, espalhar-se por todo seu corpo. De joelhos no chão, gemeu alto de dor, sendo acudida, meio segundo depois que caiu, por Thor. Como cinco anos atrás, ele a segurou firmemente pela cintura, por trás, a deixando respirar ajoelhada no chão, com suas mãos apoiadas em frente, apertando-se. gritava de dor, sentindo como se algo tivesse tomando conta dela, como se brotasse em seu peito uma energia estranha, como se tivesse sendo envenenada.

? — Ela ouviu Thor a chamar. — Olha pra mim, Fada. Consegue olhar para mim?

não conseguiu. Sabia o que era aquilo, o que significava. Era o sinal que precisavam, a certeza dada diante dos olhos deles de que tinha funcionado. Como cinco anos atrás, eles assistiram, atônitos, a se reconectar com uma porção de natureza ao redor que não mais existia. A metade do que era vivo e conectado com tinha acabado de retornar, de uma vez só, e ali estava ela, sentindo a presença de tudo aquilo de uma única vez. Como uma porrada forte, a cada grito de dor que dava, a cada aperto agudo e profundo que sentia, ela tinha a sensação de que estava mais forte, de que não estava sozinha. tinha, outra vez, cinquenta por cento a mais de natureza para controlar.
Steve, Bruce, Tony, Rhodes e Rocket mantinham-se no centro do laboratório enquanto Scott, mais afastado dali, ainda olhava os pássaros voarem no jardim de inverno. Clint chegou a pegar seu celular em mãos e o atendeu, mas não teve tempo de conversar. A única coisa que puderam ouvir dele foi o sussurro da palavra “amor?”, tão baixo e sentido, que mal saiu de seus lábios. Do outro lado do laboratório, ainda tentando se recuperar do que acontecia, a última coisa que ouviu foi Scott dizer:

— Pessoal… — ele chamou baixo, feliz — acho que... funcionou.

Contudo, não deu tempo sequer de se recuperar daquele baque, nem de responder Scott ou dos demais fazerem algo, de se pronunciar sobre o que viam ali. A próxima coisa que sentiu foi o peso do corpo de Thor em cima do dela, a atingindo violentamente, depois de um barulho ensurdecedor de um míssil, explodindo o Complexo.

Capítulo 36

De costas para onde o míssil os atingiu, não conseguiu ver exatamente o que estava acontecendo e só se deu conta alguns minutos depois da explosão, quando percebeu que estava soterrada, deitada no chão de barriga para baixo com Thor deitado sobre suas costas, a abraçando firmemente. Tudo estava escuro, muito quente, empoeirado e, de onde estava deitada, conseguia ver, com pouca nitidez, que estavam em meio a centenas de escombros. Um zumbido estridente parecia gritar em sua cabeça e, não fosse pelo barulho de novas explosões acontecendo acima deles, não poderiam ouvir nada, o som estava tão abafado como eles ali.
Sua mente oscilou por um momento, como se sua pressão estivesse prestes a cair consideravelmente. Talvez pela adrenalina ou pelo choque de estar, aos poucos, entendendo o que acontecia, não sentia seu corpo, absolutamente nada dele. Não soube dizer quando e nem de onde as explosões tinham vindo, mas de um segundo a outro, todo o Complexo tinha ido abaixo e virado ruínas. Em seus lábios, podia sentir o gosto de sangue e, a tirar pelo modo em que estava deitada, com o lado direito do rosto pressionado no chão, certamente tinha se machucado inteira. Não fosse pelo vibranium de seu traje e por Thor, em cima dela, ter absorvido todo o impacto, pensou que, certamente, deveria ter se machucado ainda mais. Toda a poeira ao redor era sufocante e os barulhos de explosões não demoraram mais do que um minuto para cessar de uma vez por todas.

— Thor? — ela chamou-lhe baixo, tentando levantar sua cabeça, sem sucesso. O rosto do homem estava deitado entre seu pescoço e nuca, a impedindo de se mover. Thor era bem maior e mais pesado do que e, a tirar pelo fato de estar completamente imóvel, parecia desacordado. Ela não conseguia movê-lo de cima dela, a não ser que acordasse. — Thor? Thor!

Ao tempo em que passou deitada ali, tentando pensar em uma forma de tirar a si mesma e Thor daquele sufoco, foi sentindo os impactos em seu corpo, conforme tentava se mexer com cuidado, preocupada em mover Thor e tê-lo machucado. Não sabia dizer se a dor que sentia era ainda a mesma de antes, resultado do aumento repentino da fitocinese, ou se foi pelo soterramento da explosão, que os enfiou solo abaixo em um piscar de olhos. O fato era que tudo doía nela. Respirando fundo, ela esperou alguns minutos naquela posição, tentando acostumar sua visão e sua audição ao ambiente, tentando entender, mentalmente, o que infernos tinha acontecido. Tinham usado as Joias, sim. Mas será que a manopla tinha causado uma explosão tão grande a ponto de destruir tudo ao seu redor? Não era possível. Estavam soterrados. Algo os explodiu verticalmente, os afundou no solo. Se a manopla tivesse explodido, o raio de energia seria horizontal, provavelmente os atingiria como um raio de um círculo, os levaria à tangente, não ao solo. O que caralhos tinha acontecido?
De cima dela, Thor levou alguns minutos mais para acordar, completamente confuso. Sem se mexer pelos primeiros instantes, ele apenas abriu os olhos e tentou localizar a si mesmo, sua mente o fazendo lembrar que, no exato segundo em que ouviu o primeiro barulho de explosão, ele se jogou sobre , a protegendo sem sequer pensar em fazer aquilo, a abraçando pela cintura de costas para ele. Tinha uma força descomunal, aguentaria o tranco da queda e o que quer que viesse para cima dele, mas seu inconsciente sabia que não. No momento seguinte, ele já não se lembrava de mais nada, pois tinha batido a cabeça em algo que não conseguiu identificar com clareza e apagou. Thor não tinha ideia de onde estava e nem do que acontecia ali, se sentia aprisionado, seus pulmões pareciam não trabalhar direito, faltava-lhe ar e tudo estava quente, úmido, empoeirado.

— Thor? — o chamou outra vez, assim que o sentiu se mexer nas costas dela.
? Você está bem? — ele perguntou, alarmado, enquanto tossia, sua respiração estava pesada. Sem muito em que pensar, ele se moveu com dificuldade até conseguir ficar sobre quatro apoios, seus joelhos e mãos um de cada lado do corpo da mulher abaixo, dando-se conta da posição que estavam.
— Estou. Como você está? Consegue se mexer? — ela respondeu no mesmo tom preocupado, virando-se de barriga para cima, entre arfadas de dor, e logo encarando o homem parado ali, concordando com a cabeça.

Ao menos estavam acordados e, apesar dos machucados visíveis em seus corpos e rostos, estavam bem. Eles se encararam por um momento, pensando no que deveriam fazer, sem encontrar qualquer resposta racional para aquilo. Estavam confusos, era nítido, tinham sido pegos completamente de surpresa, aquilo não estava, definitivamente, nos planos. Planos. Como um raio em suas mentes, os dois pareceram só então notar que não havia mais ninguém ao redor deles. Na explosão, tinham sido separados e já não sabiam sequer onde os outros estavam e se estavam bem, vivos. Assustada com a possibilidade de algo ter acontecido com qualquer um deles, chegou a abrir a boca para perguntar algo, tinha ainda o comunicador enfiado na orelha, mas, antes mesmo que pudesse emitir qualquer palavra, ela ouviu Rhodes dizer, desesperado:

Mayday! Mayday! Alguém na escuta? Estamos no nível inferior, está inundando.
O quê? O quê? — A voz meio grogue de Scott pôde ser ouvida na sequência, mas seu comunicador estava falhando, dando interferência. Thor olhou atônito para a mulher abaixo de si, sem saber ao certo o que deveriam fazer.
Vamos nos afogar — Rhodes voltou a dizer apressado, desesperado. — Alguém na escuta? Mayday!
— Rhodey? Nos ouve? — Thor respondeu alto, como um urro, mas não teve qualquer resposta dos demais.
— Rocky? Banner? Alguém? — insistiu, preocupada. Estavam fundo demais no solo e, possivelmente, bastante longe uns dos outros para que seus comunicadores conseguissem sincronizar com clareza.
— Temos que sair daqui. — Thor desesperou-se, olhando de ao redor deles. Tinham pouco espaço para se movimentar, estavam, literalmente, cobertos por destroços. A mulher acompanhou o olhar dele por um momento, pensando rápido no que podiam fazer para não piorar a situação. Qualquer movimento errado poderia movimentar novamente os destroços e os soterrar ainda mais. Tinham que ser rápidos, precisos e muito atentos aos movimentos que fariam — ou poderia ser perigoso demais. Iluminada por uma ideia que lhe ocorreu repentinamente, enquanto passava a mão na terra pura sobre a qual estava deitada, soltou o ar pela boca com força.
— Certo, não se mova até eu falar, ok? — pediu baixo, atraindo o olhar de Thor novamente para si. Pelo olhar seguro dela, claramente tinha tido uma ideia.
— O que você vai fazer? — no mesmo tom e imóvel, ele perguntou de volta, obedecendo o comando.
— Tirar a gente daqui.

Ao tempo em que disse aquilo, com as palmas das mãos viradas para cima, sobre o chão de terra enlameada, ela as fechou calmamente, concentrando-se no que poderia ter ao redor para ajudá-los. Sem muito esforço, afinal a natureza tinha dobrado seu volume há poucos minutos, conseguiu atrair, para perto de onde estavam, quilômetros de raízes próximas, soterradas ao redor deles. Velozes, ligeiras e fortes, elas rapidamente se infiltraram nos escombros e amontoaram-se no entorno de e Thor, os cercando como uma bolha. Surpreso, e um tanto estupefato pela beleza de ver aquilo acontecer bem diante de seus olhos, Thor observava o movimento das raízes acontecer sobre ele e , engrossando-se na bolha que os envolvia em segundos, criando paredes tão espessas que, certamente, seriam duras de quebrar.
Quando atingiram a grossura pretendida, Thor viu simplesmente abrir as duas mãos de uma vez, uma em cada lado de seu corpo, e sussurrando um “boom” enquanto o encarava com um sorriso divertido, fez a bolha de raízes que os envolvia estourar para cima e para os lados, com força e brutalidade, afastando todo e qualquer escombro que ali se encontrava, de uma vez. Thor nunca tinha dado importância à natureza. Nunca parou para pensar na força que ela tinha e em como poderia manipular aquilo a seu favor. Em menos de três minutos, havia conseguido, com raízes, varrer em um círculo em volta deles, tudo o que os soterrou. Tinha aberto o caminho para saírem dali. Faltava só arrumar uma forma de, literalmente, se levantar daquele buraco em que foram enterrados.

— Minha vez — Thor sorriu sem muita emoção e simplesmente esticou a mão para um lado qualquer.

Sem dizer nada, sentiu seu corpo ser puxado pela cintura e encostado no peito dele e, no mesmo instante, voaram buraco acima. Em sua mão direita, Thor carregava um martelo diferente, o mesmo que usou cinco anos atrás, em Wakanda. Era estrondosamente grande, lembrava um machado antigo, imponente, brilhante com fagulhas de raios passando por ele. Seu braço esquerdo estava passado pela cintura de , a segurando com firmeza e segurança, enquanto ela apoiava as mãos nos ombros dele. Inconsciente do porquê tinha pensado naquilo, lembrou-se de que da última vez em que alguém voou com ela, esse alguém foi Sam Wilson. Onde estava ele, afinal? Será que, àquela altura, tinha voltado também como seu pai? Como a filha de Nate? Uma sensação de urgência tomava conta de a cada novo pensamento, ela tinha que encontrar os seus.
Mas ela não teve muito mais tempo de pensar naquilo, pois, no instante seguinte em que levantaram voo, já estavam no solo, Thor a colocando delicadamente de pé no chão enquanto deixava o Stormbreaker de lado. A mulher deu uma olhada em si mesma, seu macacão estava cheio de arranhões espalhados, suas mãos sujas e, as passando pelo rosto, viu sangue grudar nas palmas. Tinha um corte pequeno aberto no queixo e outro perto do nariz, o lado direito do seu rosto latejava forte de dor e ardência. Ao lado dela, fazendo a mesma auto checagem, Thor percebeu-se igualmente sujo e machucado. Tinha menos ralados do que , cujo rosto estava bem vermelho e arranhado, mas suas costas doíam, provavelmente pelos impactos dos escombros diretamente nele.
Por todo o entorno deles havia nada mais do que o mesmo: destroços do Complexo, terra, em alguns pontos cheios de água e, em outros, fogo, um clima extremamente caótico. A noite já começava a cair e, com a escuridão do céu, misturava-se a névoa de calor e de poeira que havia subido com as explosões. Thor e não demoraram muito em notar que não estavam sozinhos ali. Pairando no céu, distante deles, havia uma nave imensa sobrevoando com seus porta-mísseis visivelmente apontados em direção ao que antes era o Complexo. Tinham sido propositalmente atingidos. Bombardeados por aquela nave, tinham levado uma chuva de mísseis. E tudo pareceu claro. O que ainda não fazia sentido, contudo, era quem havia feito aquilo e, principalmente, por que.
Mas aquelas perguntas não precisaram sequer serem feitas em voz alta. Dando um toque com seu ombro direito no braço esquerdo de , Thor indicou discretamente com a cabeça para onde seus olhos estavam cravados. Na direção deles, alguns bons metros à frente e abaixo, no meio do terreno, envolto aos destroços, uma figura bem conhecida desconcertou . Sentado calmamente e esperando algo que, àquela altura, não fazia ideia do que era, ela encarou Thanos, vivo, em carne, osso e histeria. Ele parecia sereno, como se absolutamente tudo estivesse sob controle. Diferente dele, contudo, parada em pé onde estava, sentiu a raiva tomar conta de si. Não era possível que passariam por aquele inferno outra vez, não era possível. Se tinham matado Thanos cinco anos atrás, o que diabos ele estava fazendo ali?

Se você mexer com o tempo, ele tende a reagir. — Foi o que ouviu Tony dizer pelo comunicador, como se respondesse exatamente a angústia que ela sentia.

Tinham brincado com algo que eles não entendiam plenamente. Mas, mais incompreensível ainda, para , era como tinham trazido Thanos até aquele tempo, até aquele exato lugar, com eles. Tinham sido eles? O que tinha acontecido para que Thanos voltasse dos mortos, do passado, para trazer caos e desespero outra vez? E, se estavam diante de uma pessoa morta no passado, havia chance de trazerem Natasha de volta? Nada daquilo importava, ao menos não naquele momento. O problema que tinham que enfrentar agora estava novamente bem em suas frentes e já tinha jogado a primeira peça no jogo. Já tinha os atacado, os machucado, tinha usado a tática covarde da surpresa, já tinha andado uma casa no tabuleiro. Contudo, se dependesse de e da raiva que sentia naquele momento, ele estava longe de dar o xeque-mate.
Não demorou muito para que, vindo por trás de onde estavam, Tony e Steve se juntassem a Thor e , respectivamente nesta ordem, parando lado a lado. Steve segurava seu escudo, encontrado por acaso por Tony no meio de todo aquele caos. Trocando um olhar rápido entre eles, buscando qualquer sinal de que estavam bem, eles focaram-se novamente em Thanos. A movimentação de chegada dos dois outros Vingadores, contudo, chamou a atenção do Titã que, ainda sentado sob um destroço e trajando uma armadura dourada brilhante, com uma arma parecida com uma espada fincada ao chão ao seu lado, subiu seu olhar calmo até as quatro pessoas em sua frente. Nenhum deles queria acreditar naquilo, era difícil e doloroso, era angustiante e inseguro, tinham em mente o que foi que aconteceu cinco anos atrás. E tinham medo, um desespero interno e latente, de que acontecesse outra vez. O medo do incompreensível, o medo da incerteza.
Thanos estava ali. E não precisaram pensar muito para entender o motivo.

— O que ele está fazendo? — Tony perguntou baixo, sem desviar seu olhar. Sua sobrancelha direita estava cortada e a lateral de seu rosto tinha sangue escorrido.
— Absolutamente nada — Thor respondeu, sério, no mesmo tom.
— As Joias — sussurrou para os outros três. — Ele veio por elas.
— Onde estão as Joias? — Foi a vez de Steve perguntar. Assim como os demais, também tinha um machucado grande perto do capacete que vestia, como se tivesse levado uma porrada forte ali.
— Em algum lugar debaixo disso tudo — apontando ao redor e virando-se levemente para Steve, Tony respondeu baixo. — Só sei que não estão com ele.
— Então, vamos deixar assim — fissurado na criatura metros à frente, Steve falou calmo, meia palavra bastando para que todos eles entendessem o que significava. Começariam a jogar o jogo.
— Sabem que é uma armadilha, não é? — Thor comentou, uma aura estranha parecia circular ao redor dele, o céu ventando conforme a fúria que ele sentia dentro de si crescia. Um sentimento que Thor havia perdido cinco anos atrás, uma carga elétrica que suas veias sentiam saudades.
— É… — Stark o olhou e dando de ombros, foi cirúrgico: — Só que eu não ligo.
— Que bom. — Thor mantinha-se focado em Thanos, mas o olhou de soslaio a tempo de ver os olhos deles tomarem uma coloração brilhante, azulada, enquanto dizia: — Já que estamos todos de acordo…vamos matá-lo direito dessa vez.

Respondendo ao comando silencioso dele, alguns raios quebraram o céu tormentosamente, ao tempo que um barulho alto de trovões cortou todo o ambiente. Thor esticou os dois braços desta vez, ambos sendo envolvidos por círculos de eletricidade, até ele ser atingido, na cabeça, pelos raios que caiam do céu. Em um segundo, no exato momento em que os raios saíam dele de volta às nuvens, Thor reapareceu com seu traje, a barba trançada, os cabelos meios presos para trás propositalmente parecido com o de e, para além do Stormbreaker, empunhando também o Mjolnir.
sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir aquilo. Sabia exatamente como Thor se sentia, entendia a vontade dele de carregar o sangue de Thanos nas mãos. Cinco anos atrás, Thanos tirou tudo deles. Matou Loki, fez Wanda matar a única pessoa que verdadeiramente amou e, não bastando assistir, refez a cena, matou Visão. Thanos sumiu com Peter de Nova Iorque, levou Bucky, Sam, T’Challa consigo. Ele dizimou Asgard, matou seu povo feito insetos, matou wakandanos a sangue frio, não se importou. Cinco anos atrás, Thanos deixou Tony Stark sozinho vagando pelo Espaço, à beira da morte. Desapareceu com Everett, com Karl, com Shuri. Levou metade de todo universo à poeira, forçou Natasha a sacrificar a própria vida. Cada passo que , Thor, Tony e Steve davam em frente, em direção ao Titã, todas as memórias violentamente intensas que tinham sobre o caos que aquela criatura deixou na vida deles vinha à tona. A cada passo, havia raiva. Tristeza. Solidão. Medo. Saudade. Cada passo trazia fúria, tormenta, dor, sofrimentos inigualáveis. Mas, muito mais do que a vontade de fazer justiça, a cada passo de cada um deles quatro, havia um sentimento muito maior, muito mais forte e intenso.
Havia a vontade de vingança.

— Não conseguiram viver com o próprio fracasso — Thanos comentou com sua voz rouca e grave, assim que viu os quatro próximos o suficiente para ouvi-lo. Estavam tensos, atentos e bastante cautelosos, seus movimentos eram cuidadosos demais. — Aonde isso levou vocês? — Ele parou por um novo momento e então sorriu leve, uma pergunta retórica. — De volta a mim.

achou que poderia matá-lo ali mesmo, mas esperou. Seu olhar seguia firme fulminando a criatura arroxeada, suas mãos fechadas com tanta força em punhos que podia sentir as unhas nas palmas enquanto seus pés davam passos firmes no chão. Não tinham se planejado para aquele momento, uma vez mais não tinham conseguido ter tempo para criar uma estratégia de ataque boa o suficiente. Parecia que, quando se tratava de Thanos, tudo tinha que ser no susto, tudo tinha que ser mal articulado por eles, tudo tinha que ser vulnerável. já estava cansada daquilo. Se não havia plano, seguiriam assim mesmo. Esperava que Steve os liderasse, sim, mas aquela situação pedia para que não pensassem tanto antes de agir, era hora de usar o melhor que podiam da improvisação. Como Tony Stark havia dito em seu surto de estresse cinco anos atrás, quando voltou à Terra, eles eram os Vingadores, afinal. Não os precavidos.

— Achei que, eliminando metade da vida, a outra metade prosperaria — Thanos voltou a refletir em voz alta. Os quatro espalharam-se ao entorno dele, desconfiados, sem tirar os olhos do que acontecia ao centro. — Mas mostraram a mim que isso é impossível. E, enquanto houver quem se lembre do que existia, sempre haverá os que são incapazes de aceitar o que poderia ser. Eles resistirão.
— É, porque somos teimosos — sem se importar com aquele discurso todo, Stark rebateu.
— Sou grato por isso — Thanos suspirou alto, tranquilo. — Porque, agora, eu sei o que preciso fazer. — Ele, então, se levantou e deu as costas aos quatro. deu alguns passos, aproximando-se mais dele, sua testa franzindo ao ouvir as palavras que vieram a seguir, enquanto observava o titã vestir um capacete e tirar sua arma fincada do chão. Ao lado dela, Steve, Tony e Thor também se aproximavam, colocando-se em posição. — Eu vou destruir este universo até o último átomo. E depois, com as Joias que vocês me trouxeram, vou criar um novo, enchendo de vida que não sabe o que perdeu, só o que recebeu. — Ao tempo em que ouviram aquilo, Thor energizou os dois machados que segurava, seus olhos tomando novamente a cor brilhante e azulada, enquanto nas pernas de começavam a subir raízes de plantas que se espinhavam feito cactos. Estavam a um passo de começar aquela briga outra vez. Thanos virou-se novamente de frente para eles e completou: — Um universo agradecido.
— Nascido do sangue — Steve rebateu, afrontoso, o encarando.
— Eles nunca saberão disso — Thanos respondeu, calmamente, olhando de Steve para mais ao lado. — Pois vocês não vão estar vivos para contar.
— Vamos acabar logo com isso — falou alto e revoltosa, já correndo em direção a Thanos, impaciente em continuar aguentando aquela conversa fiada.

Thor lançou-se à frente junto com a mulher, correndo em direção a Thanos, com Tony vindo pelo ar e Steve mais atrás. Sem cerimônia alguma, os quatro se jogaram contra o adversário, dividindo-se um em cada lado. Tony o golpeou por cima com o escudo de Steve que, atento ao movimento, o pegou no ar enquanto Stark foi jogado ao chão. tentou dar uma rasteira no titã, mas foi logo chutada para longe dali, ao tempo em que Thor descarregava a eletricidade que puxava ferozmente dos raios, usando os dois machados ao mesmo tempo, intercalando seus golpes de luta com os poderes que tinha. Tony colocou-se de volta no ar, mirando o canhão de plasma da palma de sua mão direita em direção a Thanos, que jogava Capitão para longe do epicentro da luta.
Tudo acontecia ridiculamente rápido e, na euforia do momento, não conseguiam raciocinar direito, mas conseguiam entender, pelo contexto e pelos anos de prática, exatamente qual era o jogo. Steve investia os golpes assim que Tony estava por perto e iam se revezando na luta, pelo ar e pelo chão, entre golpes dados com os próprios corpos, escudo e o que a armadura do Homem-de-Ferro tinha de melhor a oferecer. Quando caíam, quando eram afastados ou atingidos por Thanos, a dupla seguinte se colocava à vista em um piscar de olhos, dando tempo para que os outros dois se recuperassem. E aquele era o melhor movimento que conseguiam fazer, na improvisação, na pressa, na angústia e na raiva do momento.
estava atenta na contramão dos movimentos de Thor, golpeando Thanos agilmente com chutes, socos, joelhadas e tentando o derrubar no chão a todo custo, sempre no sentido contrário onde Thor estava. Se perguntava a todo tempo onde estavam Clint, Bruce, Scott, Rhodes, Rocket e Nebulosa e porque infernos não se juntavam logo a eles. Ela sabia que não tinha muitos recursos físicos a oferecer, Thor era, claramente e naquele sentido, maior e mais forte do que ela — talvez, de fato, o mais forte dos Vingadores. Mas havia aprendido em todos aqueles anos que não se podia dar todas as cartas de uma única vez em um jogo. Guardaria o que tinha de melhor para quando seu corpo já não mais pudesse aguentar, para quando os outros três já tivessem dado tudo de si e não restasse mais nada a oferecer. tinha aprendido a ser a solução final. E algo nela gritava que, àquela hora, a da cartada final, chegaria naquele evento também.
Thanos dividia-se calmamente em reagir aos quatro, mas era nítido que sua irritação estava aumentando a cada segundo, a cada vez que era atingido e, principalmente, a cada vez que conseguia golpear algum deles. Em dado momento, ainda mais sujos e machucados do que antes, limpou o sangue de sua boca com a parte de cima de sua mão, seu rosto ainda mais inchado e dolorido, e colocou-se de pé outra vez, como uma erva daninha, resistente, teimosa. Ela assistiu Steve ser jogado para o lado como um boneco, enquanto Thanos golpeava Tony com sua lança, espelhando o plasma para que refletisse em sua lâmina e se voltasse contra Stark. Poucos passos dali, Thor também se colocava em pé outra vez, seu olhar furioso, suas mãos calejadas, abertas em machucados expostos. Estava irado, toda a eletricidade que corria em suas veias externalizada no céu sobre eles, Thor estava atormentado.
Eram quatro contra um. Uma luta que pareceria desleal a qualquer ouvinte da história, mas que não estava nem perto de ser justa quando se tratava de Thanos. não soube dizer, exatamente, de onde aquilo tinha vindo, mas, meio segundo depois de levantar, Thanos impulsionou seu corpo em um giro rápido e lançou, na exata direção de , a arma que tinha. Sem conseguir desviar a tempo, a lâmina afiada da enorme arma atingiu de raspão a lateral do corpo de , o suficiente para cortar o Vibranium de sua roupa e, com ele, sua pele, bem abaixo do braço esquerdo. Com o impacto do raspão, ela caiu sentada para trás, um gemido alto de dor saindo de lábios, seus olhos descendo estarrecidos até a região, o tempo certo de ver o sangue manchar seu traje. Em sua mente, se perguntava como era possível Thanos ter um metal mais forte que o Vibranium de seu macacão e a imagem de Visão, um corpo feito de Vibranium, voltando da Irlanda totalmente destruído a fez responder aquela pergunta.
Nervoso com o que assistiu, Steve deu um grito alto enquanto correu em direção ao titã, mas Tony foi mais rápido, chamando a atenção de Thor e, no momento seguinte, abrindo uma espécie de canhão em formato de flor nas costas de sua armadura.

— Ok, Thor, pode mandar — ele pediu, simplesmente, sendo ouvido pelos demais através dos comunicadores.

Thor nem sequer hesitou. No segundo em que ouviu o comando de Stark, canalizou uma nova onda de eletricidade e, fechando as mãos de modo que pudesse juntar seus dois machados, direcionou toda a energia para as costas de Tony. O canhão de flor a absorveu instantaneamente e Tony logo passou a descarregá-lo de uma vez na criatura a sua frente. Aproveitando o novo movimento, deslizou sentada até perto da arma que Thanos havia lançado contra ela e, do mesmo modo, juntando toda a força que tinha dentro de si, ela a lançou de volta, conseguindo fazê-la cravar em cima de um dos pés do titã. Mas Thanos era resistente. E, mais do que isso, era esperto.
Tirando sua própria arma fincada de seu pé, ele a girou apressadamente, criando em frente de si mesmo uma espécie de escudo que o protegeu do disparo de energia advindo do Homem de Ferro. Apesar do fluxo de energia, a criatura foi se aproximando de Tony lentamente, dando passos pesados e lentos enquanto se protegia. Atento ao que acontecia ao redor, Thor jogou o Mjolnir para o ar e, em um movimento rápido e violento, o golpeou com o Stormbreaker em direção a Thanos. Mas foi um único segundo de atraso que fez tudo começar a desandar outra vez.
Thanos já tinha conseguido chegar perto o suficiente de Tony e desestabilizou o fluxo de energia, a fazendo dissipar-se pelo ar. No movimento seguinte, pegou Stark, uma mão em sua perna e outra em sua cabeça, e o levantou horizontalmente no ar, o usando como proteção contra o Mjolnir que, seguindo em direção a ele, colidiu exatamente no meio da armadura de Tony. Com o forte impacto, Stark foi empurrado muitos metros para trás por cima da cabeça de Thanos, caindo, desacordado, longe deles. Sua armadura brilhava com os raios azuis que tinham vindo de Thor, como se estivesse em curto-circuito e sua nuca atingiu com força um escombro, o que amorteceu sua queda.
Eram só três agora, para Thanos.
Mas ainda eram três para , Steve e Thor.
Steve chegou no exato momento em que Tony caiu desacordado, tentando golpear Thanos com a força de seu próprio corpo, mas, feito um inseto, foi socado para longe. Seu corpo atingiu uma placa de concreto próxima, o fazendo cair, exausto. Estava machucado, podia sentir seu corpo pesado, não estava mais conseguindo responder aos comandos de sua mente com tanta agilidade e força. Tinha apanhado, ainda estava apanhando, uma surra que não pensou que levaria. E, não bastassem os danos físicos, ainda estava emocionalmente sendo destruído. Estava vendo seus amigos apanhando, levando a mesma surra que ele levava, dando tudo de si e parecendo que nada era bom ou forte o suficiente. Estava com a estranha sensação de cinco anos atrás, de que estavam enxugando gelo, de que, no final, talvez não fossem mesmo o suficiente para lidar com aquilo.
Mas Steve sempre havia sido resistente. Aprendeu a levantar-se quando caía, aprendeu a ser insistente, aprendeu que a recorrência era melhor e sempre seria, do que a desistência. A verdade era que Steve não sabia como era desistir. Do jovem franzino do Brooklyn que conseguiu se meter em uma guerra e se transformar no que era, do soldado que teve um avião desaparecido e foi descongelado fora de seu tempo, do super-herói que salvou Nova Iorque de uma invasão a ter voltado no tempo para recuperar as Joias, Steve não sabia o que desistir significava. Por tudo que havia passado, por tudo o que havia perdido, por tudo que ele era, pelas pessoas que ele ainda tinha, ele seguiria em frente enquanto conseguisse respirar. Tinham que continuar tentando. Ele continuaria tentando e, vendo em um canto se levantar pela centésima vez enquanto Thor corria na direção do inimigo, Steve sabia que não tentaria sozinho.
Rastejando ajoelhado no chão para desviar da arma que Thanos atirou em sua direção e que voltou para ele como um boomerang, Thor quase o conseguiu atingir com o Stormbreaker, mas foi parado um milésimo de segundo antes disso acontecer, pela lâmina da arma. Encarando-se frente a frente enquanto soltavam grunhidos de força e de ódio, Thor conseguiu tirar de perto de Thanos sua arma, ao tempo em que Thanos tirou dele seu machado. Corpo a corpo, o titã o pegou pelo pescoço e o atirou para o lado, o derrubando em um amontoado de terra próximo, socando-o repetidas vezes. O asgardiano já não reagia mais, estava fraco e tinha, nitidamente, perdido os sentidos quando Thanos o jogou novamente, para o outro lado, e seguiu para cima dele, o esmurrando.
Thor chegou a esticar sua mão, chamando o Stormbreaker para perto, mas Thanos o pegou no meio do caminho. No jogo de forças que se seguiu, o deus do trovão tentava afastar o próprio machado que era forçadamente enfiado em seu peito, o gosto do sangue escorrendo em seu rosto até sua boca. Tinha certeza que iria morrer ali e foi a única coisa que ele conseguia pensar — na desonra, no fracasso, em não ter, uma vez mais, conseguido vencer Thanos, vingar as mortes das pessoas que ele amava. Contudo, metros atrás de onde isso acontecia, gritou o nome dele e esticou sua mão direita com raiva. Ao tempo em que fez este breve movimento, algumas raízes que estavam enroladas em seu corpo esticaram-se e estouraram o chão próximo a Thor, enrolando-se nos dois tornozelos dele. E, o que veio a seguir, foi um espetáculo.
Na mesma linha em que estava, mais ao lado, Steve já estava em pé e, sem saber como tinha feito aquilo, assim que viu desesperar-se em assistir Thor quase ser morto, também esticou sua mão. Não tinha a menor ideia do porquê tinha feito aquilo e muito menos esperava que, no segundo seguinte, fosse conseguir manipular o Mjolnir. Steve apenas sentiu uma conexão estranha, um medo absurdo, um desespero assustador. Não perderiam mais ninguém. Thanos não levaria mais nenhuma vida. Essa era a regra. O Mjolnir atingiu o titã na parte de trás da cabeça, o fazendo sair de cima de Thor, e voltou para Steve, no exato mesmo tempo em que conseguiu puxar Thor, pelas raízes e pelos tornozelos, o arrastando, deitado, no chão para longe dali.

— Eu sabia — Thor murmurou, sorrindo leve, enquanto era arrastado pelo chão pelas raízes de . Seus olhos estavam presos no Capitão América, a única pessoa digna de conseguir se conectar ao Mjolnir, depois dele mesmo. Steve empunhava o martelo e seu escudo, o poder e a raiva transbordando de seus olhos claros. puxava Thor para perto dela, uma cena que, em qualquer outro contexto, seria, no mínimo, cômica. Mas, no momento em que Thanos o viu passar deitado e arrastado ao seu lado, deu duas pisadas fortes nele, o fazendo apagar de vez.

Assim que viu Thor também ser apagado, soltou as raízes dele e de si mesma, as fazendo desaparecer de perto e voltarem para o solo. Tinha demorado demais, Thanos tinha sido mais rápido, mais uma vez. Steve, contudo, não deu sequer um milésimo de segundo para a criatura respirar e, girando o Mjolnir em sua mão direita, com o escudo empunhado na esquerda, correu na direção dele. Aproveitando a deixa, também foi na direção deles, se enfiando na luta que se seguiu do jeito que podia, com os golpes que conseguia. Thanos conseguiu a atingir com a lâmina da arma mais duas vezes, uma na parte de trás da coxa direita, outra no antebraço esquerdo, no mesmo lado que já sangrava.
A cada golpe que levava, mais de seu macacão era estourado, mais de seu corpo era machucado. já sentia seu rosto formigar, suas mãos estavam estouradas dos socos que insistia em dar em Thanos, a região dos joelhos e cotovelos de seu traje desgastados, já rompendo. E, embora Steve o tivesse conseguido derrubar, quebrar parte de sua armadura e o golpear com uma descarga de energia oriunda do Mjolnir, nada do que faziam parecia o suficiente. Estavam completamente destruídos fisicamente e Thanos não tinha nenhum arranhão, a não ser o pé machucado pelo corte que conseguiu fazer e alguns pontos de seu rosto que estavam avermelhados pelos socos que levou de Steve e Thor. Tentaram enforcá-lo, derrubá-lo, eletrocutá-lo, cortá-lo, mas nada parecia forte o suficiente. Se um Homem de Ferro, um Deus do Trovão, um Capitão América e uma Fada da Natureza não o podiam derrubá-lo, o que, de fato, poderia? Eles não sabiam e não tinham muito tempo para pensar naquilo.
desejava mentalmente que Stark e Thor acordassem outra vez quando foi chutava por Thanos para o lado oposto onde Steve foi esmurrado. Deixando o Mjolnir cair longe de si, o Capitão subiu seu olhar do martelo até a mulher de frente com ele, que estava de lado para Thanos. Steve ainda tinha seu escudo inteiro, lotado de sujeira e de arranhões, e aquilo o trouxe memórias repentinas. Observando respirar rapidamente, bastante cansada e ofegante, ele se lembrou de quando treinava com Natasha na Torre dos Vingadores, de quando tiveram que agir em Nova Iorque em 2012. A mente dele, então, se lembrou de saltando do avião, em pleno ar, quando estavam indo atrás de Bucky em Bucareste. Ela era ágil, forte, esguia e tinha coragem, um tanto de loucura, de fazer o que fosse preciso. Steve teve uma ideia.
De onde estava, o viu se agachar ligeiramente e apoiar seu escudo com firmeza em seu braço esquerdo, deixando-o paralelo a seu corpo formando uma rampa lateral. Steve olhou expressivamente para ela e, em seguida, para o objeto em seu braço, deu duas batidas leves no centro do escudo: um código silencioso para que ela fosse até ali. não sabia dizer se tinha entendido direito o que aquilo significava, mas vendo Thanos se reaproximar de Steve, ela não teve tempo para pensar. Fosse o que fosse, precisava fazer algo. Trocando um sorriso discreto e cúmplice com ele, ela foi em frente.
A mulher correu os metros que a separava de Steve e, perto o suficiente do amigo, pegou impulso e pulou, com os dois pés, no escudo que ele segurava. Assim que sentiu o peso do corpo dela sobre o braço dele, Steve a impulsionou ainda mais, a empurrando pelo ar, exatamente como fez com Natasha em 2012. Ágil e muito rápida, o corpo de deu uma cambalhota para trás no ar e a fez cair sentada, exatamente sobre os ombros de Thanos, nas costas dele. Ela, então, fechou seus joelhos em volta do pescoço dele e o tentou sufocar, ao mesmo tempo em que lhe dava sucessivas cotoveladas na cabeça, violentas e fortes. Thanos chegou a cambalear para trás por um momento, mas não durou muito. Gritando nervoso, ele puxou a mulher sentada em suas costas por uma única mão, pelo pescoço, e a jogou no chão com toda força que tinha. só se lembrava de ter caído de lado, sua coxa cortada batendo em uma pedra próxima, a fazendo gritar de dor enquanto a criatura a virou de barriga para cima com o pé. Em seguida, levou uma pisada forte no meio do peito, que a sufocou imediatamente e, sem conseguir respirar, desmaiou de vez por todas com um segundo pisão, na cabeça.
A olhando desacordada, jogada no chão, aos seus pés, Thanos pensou que nunca gostou de ervas daninhas.
Steve chegou a gritar por duas ou três vezes, mas, na ausência de resposta da amiga, parou. Seriam só ele e Thanos agora. Só Steve, toda sua raiva e a sensação de querer vingar o que aquela criatura infernal fez até aquele momento, e Thanos. Com os olhos pregados neles, Steve foi para cima uma última vez, mas não resistiria por muito mais tempo. Não demorou sequer cinco minutos para que ele também estivesse de volta ao chão, para que seu escudo fosse destroçado e seu corpo já não respondesse mais. Ainda assim, Steve não desistiria, nunca. Seria resistência enquanto aguentasse ser. Tinha sido criado para aquilo, estava preparado para aquilo e não importava o que custasse, ele sempre se levantaria outra vez.

— Em todos os meus anos de conquistas… — Thanos voltou a dizer, parado a alguns passos de onde Steve tentava se levantar com muita dificuldade, debruçado no chão — ...violência, massacre, nunca foi pessoal. Mas, devo dizer a vocês: o que estou prestes a fazer com seu planetinha irritante e teimoso… — ele encarava Steve ainda no chão — eu vou gostar. Eu vou gostar demais.

Com dificuldades de respirar e jogada a alguns metros de onde Steve estava, abriu os olhos. Sua cabeça parecia girar e sentia seu corpo formigar, como se algumas partes dele não pudessem mais ser sentidas. estava entorpecida e sabia que aquilo era normal. Pela porrada que levou e pela adrenalina que corria em suas veias, seu corpo estava absorvendo tudo o que tinha acontecido, estava tentando lidar com todos os machucados ao tempo que tentava reagir aos comandos de sua mente de colocar-se em pé outra vez. estava exausta. Acabada. Ainda deitada no chão, tentou passar as mãos pelo rosto, mas sequer conseguiu tocá-lo. Tudo doía absurdamente.
Em um movimento lento e cuidadoso, ela apoiou-se de cotovelos no chão, dando uma olhada assustada e desesperada ao redor, em busca de Thanos. Não tinha noção de que estava desacordada por não mais do que cinco ou dez minutos e não sabia o que esperar. Um medo repentino tomou conta dela. Medo de que Thanos tivesse matado Steve, de que tivesse encontrado as Joias. O pavor de que tivessem oficial e novamente perdido aquela luta, que fossem perder todos os que desapareceram uma vez mais. Não podia deixar que isso acontecesse outra vez, ela tinha que fazer algo. sentia sua respiração forçar-se em seu peito e, pela dor insuportável que sentia no tórax, tinha certeza absoluta de que estava com uma fratura na costela. Seus olhos pareciam que sairiam de seu rosto a qualquer instante enquanto ela olhava ao redor, apoiando-se lentamente, entre gemidos de dor, para conseguir se levantar pouco a pouco.
Ao tempo em que conseguiu colocar-se, finalmente, em pé, ela pôde ver Steve parado de frente para ela, a bons metros de distância. Ele estava tão ferido quanto , seu rosto estava tão sujo de sangue que mal podia vê-lo. O Capitão tinha a respiração eufórica, ofegante, pouco de seu escudo havia restado, metade dele. Steve observou por um único instante, o caos do que tinha acontecido refletido em cada parte do corpo dela. Sem dizer nada, ambos concentrados em suas respirações exaustas, Steve sentiu-se aliviado por vê-la colocar-se em pé outra vez, ao tempo em que agradeceu mentalmente a Bast por ele não estar morto. Mas algo estava estranho na atmosfera. Algo estava instável, parado demais. Onde estava Thanos? sequer precisou perguntar. Como se entendesse a confusão que transparecia no olhar da amiga, Steve apontou com o queixo em direção a ela e, então, desviou seu olhar para trás de onde ela estava.
Lentamente, com certa dificuldade de se mover, tentando se acostumar com a dor generalizada que sentia, virou-se de costas para ele, para olhar na direção que ele havia apontado. Tinha a mão direita segurando a própria costela, puxava o ar pela boca, seus cabelos bagunçados, ainda meio presos, estavam grudados no pescoço e com sangue. Esperava encontrar Thanos ali, parado e soberbo, esperando por eles para recomeçar a luta. Contudo, bastou a virar-se totalmente para entender o que estava acontecendo. O exato mesmo exército de criaturas que haviam lutado contra em Wakanda, cinco anos atrás, estava de volta. Saindo da nave que os sobrevoava, a quilômetros de distância deles, centenas de milhares daqueles bichos corriam furiosos, prontos para matar o que vissem pela frente. Enquanto isso, criaturas gigantescas e fortes eram libertas de coleiras no solo e outras, como amebas gigantes, do mesmo tipo que observou em Nova Iorque ao voltar no tempo, eram soltas no céu. conseguiu identificar a criatura esbranquiçada que abduziu Peter Parker, as outras duas contra quem lutou na Escócia e aquela que mandou rezar em Wakanda.
Thanos não só tinha voltado como também tinha trazido seu inferno particular com ele. Não estava contente com tudo o que já tinha feito, ele queria mais. Queria massacrar, lavar aquele solo com o sangue de todos que se colocavam em sua frente, ele queria ter a sensação de que estava no comando, de que era, sim, invencível. Inevitável.
sentiu seus olhos encherem de lágrimas, observando o terreno gigantesco do Complexo virar um novo campo de guerra. Seu coração batia acelerado, estava angustiada, apesar de, por fora, manter-se respirando fundo, concentrada. O céu estava escuro, o vento gelado batia neles e o barulho ensurdecedor das criaturas furiosas vindo em sua direção já começava a ficar evidente. Os quilômetros que os separavam foram diminuindo, virando metros, até chegarem perto o suficiente de Thanos e parar. Como um líder em uma guerra medieval, Thanos estava ao centro e à frente, seu exército o cercando alguns passos atrás, esperando um comando oficial para, finalmente, atacá-los.
Do outro lado do campo, contudo, de frente para eles, havia apenas e Steve. Seriam só eles dois novamente. E jamais seria o suficiente, sabiam o que estava prestes a acontecer. Um tanto de coragem e um tanto de loucura. Ela e Steve contra milhares de seres. Uma conta que jamais fecharia, era irreal, improvável, um suicídio. pensou em seus pais por um momento. Pensou se Benedict e Hellen tinham imaginado que ela estaria ali algum dia, se tinham ideia do quão grande era a filha deles. Pensou em Karl e Everett, onde estavam e por que não deu sequer tempo de respondê-los quando ligaram, há pouco. pensou em Bucky, como seria para ele quando tudo aquilo terminasse, como Sam reagiria em ver o que tinha feito por sua família. sentiu que não voltaria mais, que não haveria mais chances de rever T’Challa e Shuri em Wakanda.
Ela havia feito tudo o que fez para trazer todos que amava de volta. Mas, talvez, daquela vez, seria ela quem não voltaria mais para eles.
soltou o ar com força, pela boca, e engoliu o choro, seus olhos carregados de lágrimas. Ela, então, estendeu a mão direita para o lado do corpo e deu uma olhada por sobre o ombro esquerdo, para ver Steve. A metros atrás dela, ele deu alguns passos em frente, mancando, encarando do exército à . Steve sabia que tinha encontrado nela uma amiga de uma vida inteira. Sabia que tinha em uma irmã. Mas, a olhando parada ali, em frente a ele e um pouco ao lado, totalmente caótica, machucada, esperando por seu comando para seguir em frente, seus olhos carregados em lágrimas e em fúria, Steve teve a certeza absoluta de que tinha em a sua própria vida. À prova final, assim como ele, ela daria a sua vida por um propósito maior. E daria sua vida pela a dele.
Os dois se encaram por um breve momento. Steve chegou a apertar a fivela do que sobrou de seu escudo em seu braço, ignorando os machucados por dentro de sua roupa e parou de caminhar por um momento, mantendo-se metros atrás de onde estava, pensando no que poderiam fazer. Mas, antes que ele pudesse assentir ou dizer qualquer coisa à , para que começassem a luta de uma vez por todas, um chiado estranho rompeu seus comunicadores, como se ele estivesse falhando, mas alguém tentando dizer algo ao fundo chamou a atenção. franziu a testa, tentando se concentrar, até uma voz familiar surgir repentina e inesperadamente, clara, pelos comunicadores em seus ouvidos.

Ei, Cap, está na escuta?

Os dois pararam por um momento, atordoados, sem saber como reagir. Não sabiam dizer se estavam ouvindo aquilo por puro estresse do momento, pela pressão da responsabilidade que tinham, pelo medo, pela ansiedade, ou se era real. Havia uma chance de ser real? Steve sabia que tinha conversado com Okoye. Sabia que tinha contado a ela sobre o plano, que a tinha alertado sobre a possibilidade de ter todos de volta outra vez e que ressurgiriam, justamente, em seus locais de partida. Okoye estava em Wakanda, onde os demais deveriam também estar. Tinham tecnologia o suficiente para já saberem o que estava acontecendo no Complexo e para conseguir conectar novos comunicadores aos deles, afinal, Shuri também deveria estar de volta. Era possível? Talvez fosse real. sentiu seu coração bater tão forte que podia sair de seu corpo a qualquer momento. Ela conhecia aquela voz. Só não sabia, assim como Steve, como reagir a ela.

Cap, é o Sam. Está me ouvindo? — A voz clara de Sam saiu novamente do comunicador, como se quisesse responder aos pensamentos deles, na hora exata, tirando de e Steve arrepios em suas espinhas.

Ele tinha voltado, ele tinha mesmo voltado. E, ao menos que Steve e estivessem enlouquecendo juntos, ele estava se comunicando com eles, era Sam, era mesmo Sam Wilson. Vivo. Presente. Próximo. E, não bastasse sua vida poder novamente ser sentida, ainda poderiam, finalmente, pedir sua ajuda. sentiu seu corpo estremecer, de alívio, as lágrimas não deixando de marejar seus olhos. Steve deixou uma respiração exausta escapar, uma felicidade inesperada tomando conta de si, um alerta de que ainda havia uma chance para eles. Não estavam sozinhos, afinal, Sam surgiu como a salvação. Ao tempo em que ouviram o Falcão no comunicador, Stark e Thor recobraram suas consciências, já acordados, mas ainda permaneceram sentados no chão. De onde estavam, longe um do outro e alguns metros de e de Steve, tentavam entender o que acontecia ao redor deles, seus olhares, aliviados por também ouvir Sam pelo comunicador, corriam pelos dois amigos em pé por perto e pelo exército de criaturas à frente.
Apesar de abatidos, machucados e cansados, a batalha real sequer tinha começado ainda. virou-se novamente de frente para Steve, atônita com o fato de terem sim conseguido trazer todos de volta, de Sam os ter encontrado, de não estarem mais sozinhos. Ela, então, viu Steve colocar a mão direita em seu comunicador, enquanto respirava pesadamente pela boca, pronto para pedir ajuda para Sam, passar as coordenadas de onde estavam e do que estava acontecendo com eles. Mas não foi preciso dizer sequer uma única palavra, porque Sam disse uma última vez, fazendo Steve virar-se de costas.

À sua esquerda.

Exatamente à esquerda de Steve e ao tempo em que ele se virou, viu um portal redondo, em faíscas douradas e brilhantes, abrir-se rapidamente. E o que veio de dentro dele a fez dar dois passos para trás, sentindo toda a emoção que poderia ter dentro de si tomar conta de seu corpo de uma vez, como se uma bomba tivesse explodido de dentro para fora dela. De saudades, de encantamento, de desespero. Como se toda angústia e solidão que sentiu nos últimos cinco anos tivessem virado faíscas e desaparecido tão rápido quanto cinco anos antes assistiu as pessoas que mais amava na vida desaparecerem.
sentiu, naquele exato instante, que venceu. Que seu coração estava inteiro outra vez, que suas lágrimas tinham sido secadas e que havia nela mais nada além de vida de novo.
Okoye saia do portal com T’Challa e Shuri ao seu lado. Sérios, tensos, observando a frente com foco. Ao tempo em que desceu seus olhos por cada um deles, deixando algumas poucas lágrimas escorrerem por seu rosto, de felicidade e de alívio a todo aquele estresse extremo, T’Challa a olhou de volta. Paralisada em seu lugar, sem conseguir se mover pelo choque de vê-los outra vez, não teve tempo de dizer ou de fazer nada. A próxima movimentação de dentro do portal tirou dela o maior dos sorrisos que poderia dar e seus olhos acompanharam o Falcão voar por cima de onde Steve e ela, metros à frente, estavam. Ela não sabia se estava sonhando ou se eles realmente estavam ali, diante de seus olhos. Chegou a pensar, por um segundo, enquanto assistia dezenas de novos portais abrirem-se, como aquele primeiro e ao redor dele, que talvez pudesse estar morta; que Thanos a havia matado quando a atingiu, e que estava se encontrando com aqueles que ela perdeu, com todos os desaparecidos, com os mortos.
jamais conseguiria colocar em palavras tudo o que sentiu naquele momento. Não era possível dizer, porque ela não conseguia entender. Um misto absurdo de felicidade e de saudade, um grito de vitória ecoando em seu peito com tanta força que ela mal conseguia reagir. Pelos portais, pessoas que ela nunca tinha visto em toda sua vida saíam, atentas ao exército inimigo em frente, tentando entender, minimamente, o que acontecia ali e o que deveriam fazer. Steve parecia ficar mais satisfeito e seguro a cada pessoa nova que via se juntar a eles e deixou seu sorriso abrir ainda mais assim que viu o garoto pousar em cima de um escombro, metros de onde ela estava, olhando ao redor, confuso. Peter Parker não tinha morrido, também. A lembrança de vê-lo desaparecer em Nova Iorque e de, em Wakanda, cinco anos atrás, ter gritado seus pulmões afora perguntando por ele a atingiram tão fortes quanto vê-lo bem ali, vivo, bem.
Ao tempo que cada uma das novas pessoas aparecia pelos círculos, que aos olhos de pareciam ser abertos e controlados pelo mago que havia visto pelas imagens de Nova Iorque sendo invadida, cinco anos atrás, e outros como ele. Do mesmo modo que se lembrou de ouvir na última batalha que travaram juntos, sentiu um arrepio percorrer sua espinha assim que T’Challa gritou Yibambe. O grito em plenos pulmões que era repetido pelo exército de wakandanos que se levantava atrás de onde seu rei e sua general caminhavam, fortes, resilientes, prontos para defender a honra e a memórias daqueles que perderam da última vez que Thanos apareceu. A palavra que os preparava para uma nova guerra, que os dizia para terem garra e persistência, que resistissem em pé ao lado dos seus.
Junto com eles, naves de alta tecnologia sobrevoavam a batalha, se posicionando para atacar quando fosse a hora, enquanto, no chão, novas pessoas apareciam, formando um exército, se não tão grande quanto o do inimigo, ao menos mais poderoso do que ele. acompanhou a entrada de cada pessoa, uma a uma, aparecer por chão, pelo ar, voando ou correndo alguns passos à frente, até parar onde os primeiros da fila estavam parados. Formando uma parede das pessoas mais fortes e poderosas do mundo, o medo que sentiu de perder mais uma vez ou de não aguentar aquela batalha foi dissolvendo de até sumir de vez quando seus olhos caíram sobre a pessoa que ela mais sentia falta naqueles anos.
Calmo, como ela se lembrava dele, com um olhar sério e um tanto descontente, provavelmente dominado pelo medo e pela tristeza de estar em uma nova guerra, naquelas proporções, Bucky apareceu de dentro de um dos portais, acompanhado por Groot ao seu lado. Ele segurava a mesma arma que carregava cinco anos atrás, na batalha em Wakanda, tinha os cabelos compridos semi presos, como estavam os de naquele momento, apesar de bagunçados, e vestia o mesmo uniforme que ela mandou fazer para ele. Como se absolutamente nada tivesse acontecido em todos aqueles anos, como se nada tivesse mudado nele, não mudou, afinal.
Ali estava Bucky. Tão vivo quanto os demais, tão perdido e incompreendido quanto todos os que desapareceram, carregando dúvidas nos olhos claros que tanto amava, no azul que, por tanto tempo, ela se perdeu, nos dias em Wakanda e nos seus pesadelos mais tristes nas noites em Berlim. Ver Bucky de novo foi devastador, uma felicidade violenta, uma saudade reprimida que explodia dentro dela, foi avassalador. Fez o coração de querer pular para fora de seu corpo, bater tão acelerado que doía em seu peito. Era mesmo Bucky. Estava ali, com eles, outra vez, se dispondo a ajudar, pronto para mais uma luta.
Dando alguns passos inseguros em frente, Bucky passava seus olhos apressados pelo lugar. Os gritos altos dos wakandanos inundando seus ouvidos, com a escuridão da noite caindo ao seu redor e o vento gelado batendo em seus cabelos. Uma vez mais em sua vida, não incomum e não anormal, ele se sentia confuso. Não tinha tido tempo de entender o que havia acontecido. De repente sumiu, se viu virar pó e, como cinco minutos depois, se viu voltar, do mesmo pó que se desfez. No exato mesmo lugar que sumiu, em Wakanda, ele voltou, mas não havia mais nada lá. Nem a batalha que se lembrava de estar travando, nem Steve, nem mais ninguém, nem . Okoye o abraçou com tanta força que ele se assustou. E não demoraram dez minutos para que as poucas pessoas que, assim como ele, tinham aparecido de volta em Wakanda, fossem reunidas um pouco próximo a entrada do palácio e lhe fossem contadas a história mais atormentadora que Bucky já tinha ouvido em toda sua vida de violências e inconformidades: cinco anos haviam se passado.
Mas não tinham tempo de conversar, não naquele momento e nem naquele lugar. Okoye lhes disse por cima que tinham desaparecido quando Thanos conseguiu os vencer em batalha e acionou as Joias, dizimando cinquenta por cento de tudo que era vivo em todo o universo. Cinco longos anos tinham se passado, desde então, e muita coisa havia mudado para todos aqueles que ficaram. E, falando neles, estavam novamente travando uma guerra porque tinham, os que sobraram, conseguido encontrar uma forma de trazer os desaparecidos de volta. Tinham conseguido, mas precisavam de suas ajudas agora. Bucky não trocou uma só palavra com ninguém. Manteve-se fechado em seus próprios pensamentos, uma sensação brutal de insegurança rompendo sua mente, enquanto se perguntava incansáveis vezes onde estava , o que tinha acontecido com ela e se ainda estava viva, depois dos cinco anos que ele sumiu.
Atormentado pela ideia de, mais uma vez, ter morrido e voltado a vida sem sequer se dar conta disso, Bucky entrou pelo portal que se abriu diante dele, assim que um mago apareceu inesperadamente em Wakanda, pedindo ajuda. E seu coração ligeiramente se acalmou assim que seus olhos correram pelo lugar totalmente destruído ao seu redor e caíram sobre ela. Diferente da última imagem que tinha de , a que estava diante dele parecia bastante diferente. O encarando de volta, as mãos aos lados de seu corpo, metros de distância dele, a mulher estava mais magra, os cabelos mais curtos e bagunçados e estava tão fisicamente machucada, cheia de vermelhos, roxos e sangue, que ele se desesperou.
Por um segundo, se perguntou o que tinha acontecido com ela e desejou a todo custo tirá-la dali o mais rápido possível, ajudá-la, salvá-la de alguma forma. Mas a voz de Okoye rapidamente contando o que tinha acontecido minutos antes de chegarem ali fez um sentido enorme para Bucky naquele momento. havia sobrevivido àqueles cinco anos e mantinha-se em pé ali, naquele estado, porque estava dando sua vida para salvar a de todos eles. Estava lutando há mais tempo do que Bucky podia imaginar e os olhos carregados de alegria e alívio dela demonstravam o quanto estava se sentindo feliz por vê-los ali. Ele queria ir até ela, queria falar com ela, senti-la. Mas não havia tempo de mais nada, senão de começar a luta de suas vidas.
desviou seu olhar de Bucky para Groot, ao lado, assentindo brevemente com a cabeça para ele, que retribuía. Em seguida, ela reparou que Wanda estava também com eles, furiosa, magoada, com os olhos cravados em Thanos do outro lado do campo, mirando nele a vingança da morte de Visão. Indescritivelmente contente e orgulhoso por ver o seu povo se juntar a eles, Thor puxou o Stormbreaker de volta e se colocou em pé, ao mesmo tempo que centenas de outras pessoas apareciam, entre elas Pepper em uma armadura de Tony e Scott em sua versão gigante, colocando Bruce, Rhodes e Rocket no chão, todos em formação. Sem mais tempo a perder, deu alguns passos colocando-se ao lado de algumas pessoas que, de perto, pôde identificar como os Guardiões da Galáxia, que ouviu Rocket falar incontáveis vezes quando estavam estudando as Joias. Balançando o pescoço de um lado a outro e sentindo a violenta conexão, forte e poderosa, da natureza que vinha de Wakanda pelos portais atrás de si, abriu os braços, calma, concentrada e, ao tempo em que os levantou para cima e os desceu novamente para os lados de seu corpo com força e rapidez, um novo exército rompeu-se do chão, estremecendo tudo ao redor.
Assustadas, as outras pessoas olharam ligeiramente ao redor, a tempo de ver árvores gigantes desprenderem-se do chão atrás de onde estavam, saindo dos portais aos montes, devagar, caminhando em suas raízes para frente como se elas estivessem vivas. De onde estava, Peter reconheceu alguns passos ao lado dele e sorriu, incrédulo. Os olhos dela tomavam uma coloração verde clara e, ao redor de seu corpo, algumas folhas voavam, sem a encostar, como se uma energia invisível as fizesse mover-se. Encarando o exército inimigo em frente, estava concentrada em criar e mover o maior número possível de árvores gigantes, de diferentes espécies, quando a última coisa que ela ouviu foi o alto e forte grito de Steve, vindo do centro de onde eles estavam.

Vingadores — ele chamou a atenção de todos eles enquanto puxava o Mjolnir para si mesmo e, com uma breve pausa, rangendo os dentes, ele ordenou: — Avante.

Tudo aconteceu tão ridiculamente rápido que sequer se deu conta. Entre gritos ardentes e eufóricos, de raiva, de fúria, de vingança, assim que Steve deu o comando, todos eles correram em direção ao exército de Thanos que, ao perceber o movimento, indicou para que fossem na direção oposta deles, de frente. Como havia aprendido desde pequena, sabia que o lado a dar o primeiro tiro era sempre o lado que saia em vantagem em um duelo, mas não foi aquilo que a deu segurança naquele momento. O que fez ter certeza de que tudo seria diferente daquela vez foi a sensação de, finalmente, pertencer a algo. Em um momento bastante único de sua vida, ter a consciência de que era, sim, uma Vingadora. E estar lutando ao lado de tantos outros, que ali, com ela, enfrentavam o mesmo inimigo e jogavam o mesmo jogo, a deu uma sensação profunda de ter um lugar para chamar de seu no mundo.
Como fez em Wakanda da última vez, irada, ela puxou a terra abaixo de si formando degraus enquanto corria, subindo cada um deles com pulos firmes e rápidos até tomar a altitude necessária. E, no instante seguinte, saltou do último degrau pelo ar, dando uma cambalhota livremente e, assim que atingiu o solo, um raio de três ou quatro quilômetros ao seu redor foi atingido por raízes que saíam furiosas do chão como ondas, atingindo tudo o que encontravam pela frente e os soterrando no solo, feito areia movediça. Sem tempo a perder, enroscando-se no corpo dela como uma simbiose, partindo dela, movendo-se com autonomia e se remodelando de acordo com os movimentos que ela fazia, nervuras de folhas moviam-se enquanto ela lutava fisicamente, formando extensões de seu corpo como chicotes grossos, soltando esporos venenosos e criando espinhos pontiagudos.
atingiu e combateu o que quer que se colocou em sua frente, por algum tempo que não pode mensurar. Estava totalmente concentrada em lutar fisicamente enquanto usava a fitocinese para manipular o exército de árvores que, ao redor deles, destruía tudo o que estivesse por perto, soltando grossos e pesados galhos com força, atirando outros pontiagudos como se fossem flechas. Espinhos e plantas carnívoras apareciam e sumiam a todo tempo, enquanto nervuras de folhas e raízes se enrolavam em dezenas de criaturas ao mesmo tempo, dilacerando-as. Apesar de estar exausta e cada vez mais machucada, ela lutou como nunca antes havia lutado em toda sua vida, tirando de dentro de si uma força que jamais imaginou ter.
Ela matou o que queria matá-la e vingou-se deles por tudo que o que passou e sentiu naqueles cinco anos, como se fossem eles, todos, sem exceção, culpados. Foi bruta, foi violenta, não teve piedade de nada e nem de ninguém, senão dos seus, porque não estavam tendo piedade de nenhum deles. Vinham furiosos para machucá-los, atingi-los e, se conseguissem, matá-los de uma vez por todas. apanhou também, de certo. Foi ainda mais machucada, jogada ao chão, esmurrada, socada, mordida pelos dentes tão afiados daqueles bichos que ela mal os conseguia ver. Entre criaturas diferentes, não conseguia ordenar o que acontecia a seu redor. O caos, os gritos, a poeira que levantava, os barulhos altos, todos lutando para salvar suas próprias vidas e as vidas daqueles que lutavam ao seu lado até longos minutos depois de a guerra começar, o principal motivo pelo qual brigavam reapareceu em seus ouvidos, pelo comunicador.

— Capitão? — segurando a manopla, Clint chamou, correndo, vendo Sam matar uma criatura gigantesca que antes o perseguia, fincando as pontas de suas asas de metal no peito dele enquanto gritava alto. — O que quer que eu faça com essa coisa?
— Leva as Joias o mais longe possível — Steve respondeu gritante, atingindo um outrider que o enfrentava, jogando-o para trás de si.
— Temos que levá-las de volta para o lugar delas — Bruce comentou perto de Steve, empurrando o corpo da criatura, que foi em sua direção, para longe dele.
— Não rola — Stark respondeu rápido. — Thanos destruiu o túnel quântico.
— O que a gente faz agora, então? — perguntou, preocupada, derrubando um outrider com força no chão.
— Não era a nossa única máquina do tempo — Scott comentou já de volta em seu tamanho normal, acionando o alarme de seu carro. No segundo seguinte, uma música alta soou pelo campo, sendo ecoada pelos escombros. Steve procurou ao redor, em um minuto de alívio na luta, mas não encontrou de onde o som vinha. Ele respirou fundo, perguntando:
— Conseguem ver uma van marrom em algum lugar?
— Sim — de cima de seu cavalo alado, Valquíria respondeu prontamente. — Mas não vai gostar de ver onde ela está parada. — Pela visão área que tinha, podia ver o veículo em meio ao campo inimigo, sendo cercado por centenas de milhares das criaturas que pareciam como lobos raivosos. observou ao seu redor um momento, respirando pesadamente, o rosto escorrendo sangue sujo, avistando Clint não muito longe dela.
— Lang, em quanto tempo consegue fazê-la funcionar? — Tony perguntou outra vez, pensativo, ouvindo Scott responder brevemente:
— Em uns dez minutos.
— Liga ela — Steve ordenou. — Vamos levar as Joias até você.
— Entendido, Cap — ao lado de Scott, Hope concordou e, tão logo assentiu para o homem, ambos se transformaram em versões minúsculas. Ela, então, pegou Scott pelo braço e voou com ele até a Van. Sem sequer serem notados pelo tamanho de insetos que estavam, conseguiram atravessar o campo em um minuto e entrar no veículo sem problemas ou interferências.

Enquanto Scott e Hope, já em campo inimigo, tentavam ligar a van por ligação direta, apressados, Clint voltou a correr em direção ao veículo, tentando atravessar o campo com a manopla em mãos. Sozinho e sem muitas possibilidades de se proteger, afinal, tinha que manter-se firme nas Joias, ele empunhou uma espada que estava acoplada em seu traje e defendia-se das criaturas que vinham, aos montes, em cima dele. Com um comando rápido das mãos, enquanto corria em sua direção, varreu o redor de Clint fazendo amontoados de terra engolirem os outriders, ao exato mesmo tempo em que T’Challa também se aproximou dele, atingindo outros que chegavam correndo e pelo ar.

— Clint — T’Challa o chamou alto, abrindo seu capacete momentaneamente.

Trocando um olhar cúmplice, parando lado a lado, e T’Challa sorriram um para o outro e logo voltaram seus olhares para frente, encarando Clint que os olhava de volta, silenciosamente grato por terem o ajudado.

— Deixa com a gente — completou.

Barton não disse nada. Apenas passou a manopla com as Joias para o rei de Wakanda que, assentindo para a mulher ao seu lado, pulou para longe dali. vinha correndo atrás dele, manipulando a natureza com tanta destreza que parecia, de fato, uma parte dela. Tentava livrar o caminho em frente a T’Challa, abrir espaço entre as criaturas que os atacavam e que vinham em suas direções, enquanto seu amigo seguia lutando, desviando e correndo para o mais perto possível que conseguiria chegar do veículo. Por um momento, lembraram-se das vezes em que treinaram juntos em Wakanda. Dos tempos que brincavam de batalhas, que fingiam ser o que, anos depois, se tornaram. Heróis.
T’Challa observou por um instante. O sorriso que ela abriu ao olhá-lo, depois de derrubar mais algumas dezenas de criaturas ao redor. O mesmo sorriso que ele se lembrou de ver nela quando ela se levantou aos dez anos, na primeira vez que Okoye a pegou para treinar. O mesmo sorriso dos treze anos, quando defendeu Shuri dos adolescentes idiotas que a perseguiam na escola, o mesmo sorriso dos dezesseis, quando derrubou vinte e duas Dora Milaje em um treinamento e, aos vinte, quando voltou com a primeira pista da Hydra em mãos. O sorriso que ela lançou irônico, curto, bonito, que demonstrava a consciência do poder que tinha, de quem era e do que podia fazer. Que mostrava força, coragem. Que transmitia a sensação de segurança que T’Challa nunca teve com outra pessoa, senão com a irmã que ganhou de presente das tragédias da vida.
Eles seguiram correndo e batalhando com o que quer que se colocasse em suas frentes até chegarem perto o suficiente do veículo, a ponto de o conseguirem ver a alguns metros dali. T’Challa não perdeu sequer um segundo. Colocou toda força, velocidade e impulso em uma corrida que, no final, não foi o suficiente. De onde estava, próximo a eles lateralmente, Thanos atirou sua lança no exato mesmo momento em que o Pantera Negra se impulsionou, pulando pelo ar sentido ao túnel quântico que, àquela altura, já estava ligado e em plena operação.
Notando o que acontecia, o titã agiu com rapidez e força, sua lança atingiu T’Challa em cheio e, fazendo um boomerang perfeito, pegou em no retorno. Sem ter tido tempo de ver o que acontecia, ela foi jogada para longe, para um lado, enquanto T’Challa foi forçadamente empurrado, pelo impacto da lança, para outro. De barriga para o chão, apoiando-se para se levantar, pode ver Wanda colocar-se entre T’Challa, caído, e Thanos em pé a alguns metros. Certamente conseguiria segurá-lo. Se tinha alguém deles que podia parar Thanos, essa pessoa era, sem sombra de dúvidas, Wanda Maximoff. E lá estava ela. Tão furiosa quanto uma tempestade, tão ferida quanto qualquer um deles ali, fazendo a sua chance de aliviar a dor que sentia, de vingar-se.
T’Challa levantou-se ao mesmo tempo que , do outro lado do campo, e pegou a manopla caída do chão, mais uma vez, mas não demorou mais do que um minuto para ser encurralado pelos inimigos — Fauce de Ébano manipulava restos do Complexo com T’Challa o prendendo no ar. Peter, contudo, surgiu rápido e preciso, gritando “minha vez”, e puxou a responsabilidade de carregar a manopla para si mesmo. Apesar de ser o mais novo do grupo, era ágil, forte e bastante esperto. Conseguiria dar conta. o observou afastar-se pelos ares, rapidamente, até cair no chão e, no instante seguinte, o ouvir dizer pelo comunicador “ativar morte súbita”. Sem saber o que aquilo queria dizer, ela deu de ombros, mas, antes que pudesse sair dali e voltar para o conflito que acontecia ao redor, uma voz grave, baixa, a fez paralisar.

— Você está acabada.
sentiu uma enorme vontade de chorar. A lembrança de ter ouvido aquela exata frase da última vez que o viu tomando sua mente com força, com saudade. Ela sorriu para si mesma, engolindo o choro.
— Um de nós dois realmente entrou na briga — respondeu a exata mesma frase que havia respondido da última vez, virando-se de costas até ver Sam sorrir para ela. — O outro é você.
— Dessa vez, vou ser obrigado a concordar — ele brincou, tirando dela um sorriso triste.
— Eu sinto muito — ela comentou, sincera. — Por tudo que aconteceu.
— Eu também sinto muito — no mesmo de voz que ela, Sam respondeu — por ter te deixado aqui cinco anos sem a minha presença. Deve ter sido horrível viver sem mim. Flora riu leve. Ninguém no mundo sabia o quanto ela sentia falta daquilo. — Já estou começando a me arrepender de ter chorado por você — ela revirou os olhos, sem esconder o sorriso, tirando uma risada de Sam. — Você? Chorando por mim? Essa é novidade — Sam deu um passo em direção à ela. — Ter você de volta também é — Flora tinha os olhos cheios de lágrimas, mas o sorriso não deixava seu rosto enquanto olhava o amigo. — Uma das melhores novidades, na verdade — ela riu, sincera. — Eu sinto muito mesmo, Sam, sinto muito por te deixar ir. — Não foi culpa sua, Fada — Sam respondeu rapidamente e então apontou para si mesmo. — Eu estou aqui agora e é isso que importa.

Sem dar tempo de dizer qualquer outra coisa, correu os poucos passos que os separavam e se jogou nos braços dele. Surpreso, mas extremamente aliviado de vê-la ali, Sam a abraçou de volta, com a mesma força e intensidade que ela o abraçava. Como se quisesse ter certeza de que ele era real, de que estava mesmo ali com ela. Como se quisesse senti-lo, como se gritasse, sem precisar dizer nenhuma só palavra, a falta que ele tinha feito. Sam não sabia o que ela estava sentindo. Não sabia pelo que ela tinha passado naqueles cinco anos, não tinha ideia do que tinha acontecido com . Mas sabia que não tinha sido fácil e sabia que ela tinha sido forte o suficiente para aguentar e estar ali.
se deixou sentir o que quer que fosse naquele instante e abraçou Sam por um momento, como se não tivesse mais nada ao redor deles. Observando a cena alguns passos dali, Steve sentiu seus olhos marejarem e seguiu afastando toda criatura que ousava aproximar-se deles. Os protegeria a qualquer custo. Daria o momento que necessitava ter para seguir em frente, porque ela, mais do que ninguém, merecia aquilo. E não durou mais do que poucos minutos até ela quebrar o abraço confortável, firme, tão carregado de amor e segurança, de memórias boas, de pertencimento, que seus olhos transbordaram o que estava sentindo.

— Não teve um único dia nesses cinco anos que eu não senti sua falta — em um sussurro tão baixo que mal pode ser ouvido, confessou.

Sam viu as lágrimas escorrerem calmas pelo rosto dela enquanto o sorriso brotava em seus lábios, assim que seus olhos se encontraram. Ele sorriu de volta, amoroso. A sensação crescendo dentro dele de ser, mais uma vez na vida, os dois contra o mundo. A sensação batendo dentro dela de ter, mais uma vez na vida, a sua família de volta. Olhando os olhos de Sam, viu Sarah, Cass e AJ. Viu a alegria deles em seus pensamentos ao saber que ele tinha voltado. E viu a angústia tomar conta de si mesma quando se deu conta, novamente, de que precisavam terminar com tudo aquilo antes de poder rever os seus, de reviver a vida que foi interrompida cinco anos atrás.

— Não vai ter que sentir mais — ele comentou baixo, sorrindo com segurança.

Ela assentiu com a cabeça para Sam, nenhum dos dois tinha mais o que dizer naquele momento. Mas, antes que pudessem pensar em fazer qualquer coisa, em voltar para a batalha, a gigantesca nave inimiga que pairava no céu acima deles direcionou seus canhões para o chão e, dois segundos depois, passou a disparar. e Sam se separaram por um instante e foram para lados opostos, ela correndo pelo chão para tentar desviar dos disparos, enquanto Sam levantou voo para tentar entender de onde vinha aquilo e, talvez, como poderia parar. De um instante a outro, tudo mudou. Foram de uma situação em que pareciam conseguir controlar para uma ofensiva inesperada que os atingia em cheio.

— Tem mais alguém vendo isso? — Pepper perguntou pelo comunicador, observando a barragem próxima ser rompida por um dos disparados e, por ela, começar a vir água para o campo de batalha. No chão, próximo a barragem, Strange correu alguns passos em sua direção e, usando seus poderes, a segurava como podia. Espalhados pelo campo, os demais tentavam se proteger nos “guarda-chuvas” que os magos abriam com seus poderes, em escombros ou simplesmente corriam de um lado a outro, enfrentando as criaturas que não paravam de vir para cima deles. correu alguns metros de onde encontrou Sam, mas logo foi atacada, novamente, pelos outriders.
— Eu cuido disso, eu cuido disso — pelo comunicador, Peter afirmava repetidamente, tentando se livrar das criaturas ao redor dele, sem sucesso. — Está bom, eu não cuido disso. — Ele, então, gritou: — Alguém me ajuda.
— Oh, Queens, olha para cima — Steve avisou, lançando o Mjolnir na direção dele. Peter lançou uma teia que grudou no machado, assim que passou por cima dele, e, pela força, o tirou dali. Não longe dali, um dos disparos da nave de Thanos, contudo, cortou a teia no meio do caminho, o fazendo se desprender do Mjolnir e cair ao chão. Mas, antes mesmo que ele pudesse atingi-lo, Pepper o pegou pelo braço, ligeiramente.
— Estou aqui, garoto. Eu te ajudo — ela falou, séria, mas logo o impulsionou para cima, jogando-o ao céu. Valquíria, que passava exatamente por ali naquele momento, o pegou no ar e o puxou para que montasse também em seu cavalo. Àquela altura, Peter estava tão confuso com o que estava acontecendo consigo mesmo que mal podia organizar o que sentia.
— Oi, é um prazer te conhecer — ele falou para Valquíria, que sorriu em resposta e acelerou seu voo de uma vez sentido chão, com Pepper vindo atrás. — Ai, meu Deus — Peter gritava alto, apavorado. O voo não durou mais do que alguns segundos, pois, embora Valquíria tivesse conseguido desviar de meia dúzia dos tiros das naves de Thanos, um, ainda assim, conseguiu os atingir, fazendo os dois irem ao chão. Peter amorteceu a queda com seu traje, ativado no modo Morte Súbita, e ainda conseguiu pegar a manopla no ar, correndo com ela alguns poucos metros no chão antes de um novo disparo o atingir. Machucado, com medo e sem saber o que fazer, ele permaneceu deitado no chão, abraçando a manopla com as Joias, encolhendo-se, tentando se proteger dos disparos que caíam impiedosos do céu.

Perto de onde ele caiu, Bucky atirava concentrado nos outriders, descontente e absurdamente cansado daquilo. Tinha a sensação de que quanto mais atirava, quanto mais acertava, mais deles vinham para cima. Já tinha perdido a conta de quantas criaturas matou naquela hora de batalha, ora com sua arma, ora com o braço de metal, e simplesmente não parecia o suficiente. De onde estava, não conseguia localizar Thanos e os mais próximos dele eram Rocket e Groot, que vez ou outra, pela posição que estavam, o protegiam de algum outrider que vinha por trás. Bucky procurou não se movimentar muito pelo campo, sabia que a melhor estratégia era deixar que viessem até ele, assim ganharia tempo para se sentir seguro no espaço e pouparia energia.
Mas aquela ideia foi absolutamente péssima quando os disparos da nave começaram a cair do céu. E não demorou muito para que ele também fosse atingido, conseguindo sair a tempo, um milésimo de segundo antes do disparo cair exatamente no lugar em que ele estava. Com a força da energia que emanava do disparo, Bucky foi jogado para frente, mas algo forte o atingiu em cheio de lado, o empurrando por um segundo no ar, até cair com ele no chão, impedindo que fosse atingido por outro disparo que vinha da nave. Bucky rolou no chão um momento, junto com a pessoa que o havia salvado, até, finalmente, parar deitado sobre ela, embaixo de um escombro que os protegia da chuva de fogo.

— Buck — com os olhos arregalados, totalmente arrebentada pela luta, ela o chamou levemente, amorosa. — — ele respondeu no mesmo tom, surpreso em vê-la ali. Sem que desse tempo de qualquer outra coisa, ele simplesmente largou sua arma no chão, ao lado, e a abraçou com força, como se dissesse silenciosamente que estava ali, com ela. retribuiu o abraço breve, tentando guardar em si a sensação que ela mais sentia em todos aqueles anos, de estar com ele, nos braços dele. — Você está bem? — perguntou em um sussurro, colocando as duas mãos no rosto de Bucky. — Estou — ele sorriu levemente — e odiando o fato de sempre nos encontrarmos em uma luta — riu leve. Estava tão ridiculamente feliz em vê-lo novamente que parecia nada mais importar. — Estou amando o fato de que, ao menos, a gente sempre se encontra — sorrindo de volta para ele, respondeu em um sussurro baixo. Seus olhos não deixavam os dele nem por um segundo, atônita, como se sua mente estivesse processando a realidade, a veracidade, do que acontecia ali. — Como você está? — preocupado, Bucky passou as mãos pelo rosto dela, afastando os cabelos bagunçados, olhando cada pedacinho dela com ternura e cuidado. — Estou bem, estou bem — ela sussurrou de volta, o olhando nos olhos. — Precisamos tirar você daqui, não vai aguentar por muito mais tempo, eu... — Bucky sentiu um pingo de desespero tomar conta de si. Nunca a tinha visto tão machucada daquela forma, era assustador. — Vou ficar bem, Buck — tentou soar confiante, mas não podia enganá-lo. Não a Bucky. Ele sabia que ela estava no ápice de sua adrenalina e que seu corpo, estourado como estava, logo começaria a falhar. Ela precisava de ajuda. Precisava descansar e precisava de um tempo para tirar a confusão que seus olhos carregavam — Só... muita coisa acontecendo, muita informação, não sei mais o que pensar nem o que sentir e tem uma guerra acontecendo. — O que aconteceu? — ele perguntou, carinhoso.

não conseguiu responder. Estava extasiada com a presença dele. Com seu corpo deitado em cima do dela, uma mão em cada lado, no chão, o mantendo ligeiramente acima, ele a encarava de volta, com um misto de ansiedade e alegria de vê-la, de tocá-la pela primeira vez desde que chegou ali. Os olhos marejados de lágrimas dela prenderam-se aos dele, o coração de batendo tão acelerado que talvez pudesse ser ouvido. Não era o jeito que ela queria tê-lo encontrado pela primeira vez depois de tantos anos, não era daquela forma. Mas estavam em meio a uma nova guerra, o que poderiam fazer? Ela passou por perto dele, o viu, conseguiu notar o disparo a tempo e o que poderia fazer, senão tudo o que podia para salvá-lo? Estava ali por ele também. Sem cerimônias, sem grandes encontros e sem beleza alguma. Eram só eles dois. Só e Bucky ali e aquilo já bastava para ela.
O tempo havia feito ela se esquecer de como era estar ali, de como era ser a pessoa responsável pelo sorriso sereno que Bucky abria. E, como se estivesse sendo inundada por um mar cujas águas a sufocaram por cinco anos, sentiu reacender dentro de si tudo o que ela, forçada e dolorosamente, enterrou para conseguir sobreviver na solidão. Sentiu todo o amor que tinha por ele, toda a calmaria, toda a vontade, o carinho. Sentiu saudades de estar daquele jeito com ele, em outros contextos, saudades das noites em que se encaravam daquela forma, saudades dos dias que nunca pareciam suficientes. De quando dançavam, de quando riam, de quando a vida foi o mais perto possível de ser o que ela verdadeiramente amou ser.
Como se, de um momento a outro, não tivesse mais que lutar por nada. Já tinha outra vez tudo aquilo que ela mais queria.
Bucky deixou-se ser observado por ela, o tempo que ela precisou, o tempo que ela quis olhá-lo. Mais do que qualquer pessoa, ele entendia exatamente qual era a sensação de perder alguém e, de repente, encontrá-la outra vez. Em outro cenário, de outra forma, mas, ainda assim, a mesma dor. A exata mesma dor que ele carregou por décadas e que se amenizou quando Steve apareceu dentro de seu apartamento em Bucareste, quando tudo começou. estava digerindo a ideia de não precisar mais viver o luto e aquilo era único, íntimo. Ele sabia como era. Sorrindo para ela, limpando as tímidas lágrimas que escorriam pelos olhos dela mais uma vez naquele dia, Bucky aproximou-se carinhoso e deu em um beijo leve e carinhoso. Um aviso sutil e apaixonado de que ele estava, sim, ali. Com ela.
sorriu, retribuindo o beijo leve e rápido, mas logo algo cortou sua atenção. O barulho dos disparos pareceu ser interrompido e a frequência deles havia sido alterada. Bucky olhou para o lado, receoso, e, sem ver nada cair sobre eles, levantou-se, puxando delicadamente do chão consigo. Em pé, os dois olharam para o céu, o campo de batalha silenciando-se curiosamente, assistindo algo quebrar a atmosfera. Eles se entreolharam, cautelosos, com medo do que mais poderia estar vindo atacá-los.

— O que é isso? — Sam perguntou, assustado, pelo comunicador, observando os canhões da nave girarem sentido o céu, disparando furiosos pelo ar, agora.
— Estão disparando em quê? — Tony perguntou baixo.

Do chão, todos eles podiam ver algo brilhante como o fogo descer pela atmosfera até atingir, de vez, a gigante nave que antes disparava, no céu, contra eles. Bastou alguns movimentos pelo ar mais próximos, entrando e saindo da nave como se fosse um raio, para que alguns deles já entendessem o que exatamente estava acontecendo ali. revirou os olhos do estrelismo de sempre da outra mulher, mas deixou um sorriso satisfeito escapar. Agora tinham alguém tão segura e pronta para a luta quanto e tão forte e poderosa quando Wanda.
Estavam perto do fim.

— Agora sim! — Rocket celebrou, gritando animado, assim que ouviu o aviso de um novo comunicador ser conectado ao grupo. — Achei que não ia vir, estrelinha brincou, ouvindo algumas risadas baixas saírem de seu comunicador. — Ninguém me convidou para a festa — Carol rebateu brevemente, prestando atenção em terminar de destruir logo a nave. — Não deu muito tempo de enviar convites dessa vez — deu de ombros.
— Danvers, consegue ajudar aqui? — Steve perguntou, aliviado, suspirando, assim que viu a nave gigantesca simplesmente desligar-se e cair do céu, destruída, dentro da água próxima, como se fosse nada além de um pedaço de papel.

Sam trocou um olhar impressionado com Rhodes que, já conhecendo Carol, deu de ombros. passou o olhar rapidamente ao seu redor, em busca das Joias, até ver Peter jogado perto dali. Carol certamente ajudaria. Mas, igualmente, ela certamente precisaria de ajuda. Dando uma última olhada em Bucky, que assentiu com a cabeça, entendendo que teriam que se separar, correu até lá. Teria tempo com James depois. Se vencessem, eles teriam tempo. Mas tinham que vencer ainda. Torcendo mentalmente para que tudo aquilo terminasse logo, Bucky voltou a mirar sua arma no sentido oposto onde Peter estava, na intenção de impedir que os outriders, que se aproximavam novamente, de fato conseguissem chegar ao garoto por aquele lado.
Sem responder a Steve, Carol pousou no chão fazendo seu redor estremecer, tão rápida quanto chegou pelos ares minutos antes, pouco antes que pudesse se aproximar.

— Oi, eu sou Peter Parker — ele falou, amigável, enquanto se levantava, tirando um sorriso sério de Carol. Ela notou o quanto ele era jovem e o quanto estava debilitado, vulnerável, abraçado a manopla como se fosse sua própria vida. Peter a encarava com um misto de alívio e curiosidade, escondidos embaixo de toda a dor que sentia. Danvers não era de se compadecer muito com situações como aquela, mas ver o garoto daquele jeito a deu uma sensação estranha de dó.
— Oi, Peter Parker — Carol respondeu, segura. — Tem alguma coisa para mim?
— Eu não sei como você vai atravessar aquilo tudo — ele comentou baixo, seus olhos deixando os de Danvers um momento para olhar atrás dela, onde centenas de milhares de outriders estavam. Receoso, ele estendeu-lhe a manopla, mas, antes mesmo que pudesse ter qualquer resposta da Capitã Marvel, um novo movimento ao redor deles chamou sua atenção.
— Relaxa — Wanda respondeu, dando alguns passos perto deles.
— Ela tem ajuda — Okoye completou, séria, atenta ao movimento em sua frente, ao tempo em que uma figura já conhecida por Peter apareceu em seu campo de visão e estendeu-lhe a mão, carinhosa.
— E você também tem — puxando Peter cuidadosamente para que ele ficasse em pé, completou, tirando um sorriso satisfeito de Carol. Peter seguiu a encarando feliz, um tanto atônito, sua mão dada a de
— Obrigado, — ele sorriu leve, sinceramente grato, mas pôde notar ele engolir o choro. Estava tão machucado quanto ela mesma, deveria estar exausto, dolorido. Se pudesse, pensou naquele instante, o guardaria em um potinho e cuidaria dele pelo resto da vida. Ela sorriu de volta e manteve sua mão segurando a dele, carinhosamente, até ela dizer:
— É tão bom te ver, Peter Parker.
— É ótimo, você continua bonita — ele disse, sincero, tirando uma risada baixa de , mas ele logo limpou a garganta, constrangido. — Quer dizer, que bom que... — ele deu uma olhada ao redor, envergonhado — que bom que estamos do mesmo lado agora.
concordou com a cabeça, sabendo que ele se referia à primeira e última vez em que tinham se encontrado, no aeroporto de Berlim, anos atrás. A verdade era que não importava mais o que tinha acontecido. Foi um equívoco de muitas partes, um erro que todos eles haviam cometido pelo calor do momento e das emoções. Nunca estiveram, verdadeiramente, em lados opostos. Sempre foram, todos eles, parte de uma mesma família.
— Acho que sempre estivemos — soltando a mão dele e deixando um sorriso no ar, virou-se de frente para onde as outras meninas estavam, avaliando o que aconteceria a seguir.

Ao redor de Danvers, que segurava a manopla, se posicionou com Wanda, Okoye, Shuri, Mantis, Gamora, Nebulosa, Pepper, Valquíria e, mais à frente, Hope. Encarando o campo inimigo de frente, com seus peitos abertos e suas cabeças erguidas, corajosas, sem qualquer insegurança ou medo, Peter sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao perceber que, sem combinarem e sem perceberem, todas as mulheres daquele lado da batalha tinham acabado de se unir, para proteger umas às outras. Como sempre deveria ser, eram um grupo único. Eram elas por elas mesmas, uma pelas outras dali em diante. E foram em frente.
Cada uma lutando como sabia, como podia, as dez mulheres abriam espaço para que Carol conseguisse avançar com as Joias sentido o veículo. voltou a manipular a natureza ao redor, o contato que tinha sido quebrado em algum momento quando foi brutalmente atingida e que fez com que ela perdesse o controle do exército de árvores que havia levantado. Groot, todavia, ainda conseguia manter algumas em pé, que resistiam e seguiam brigando. Contudo, alguns minutos depois que conseguir avançar, foi encurralada por tantos outriders, que sua mente não conseguiu contar rapidamente. E, no instante seguinte que se distraiu em combatê-los, a próxima coisa que sentiu foi o impacto de uma nova explosão, que a empurrou, outra vez, para longe de onde estava.
Danvers havia conseguido chegar perto o suficiente da van, mas Thanos, novamente, foi mais rápido do que ela e atirou sua lança com força em direção ao veículo. Emanando uma energia absurda, a força da lança desestabilizou o túnel quântico e o fez explodir de uma vez por todas. Carol foi jogada de um lado, a manopla de outro, e todas as pessoas no raio de, pelo menos, cinco quilómetros perto deles, foram fortemente atingidas. De onde estava caído, exausto, Tony conseguiu ver as joias rodopiarem no chão até chegarem perto dele e foi correndo em direção à elas, tentando empurrar o titã, de lado, para longe dali, sem sucesso.
Tirando Stark de perto da manopla, aproveitou o momento breve de distração e correu até o local, se jogando no chão de joelhos até conseguir pegar a luva. Mas, bastou ela encostar no metal, para Thanos virar-se e vir para cima dela. Com os punhos cerrados, puxando toda força que tinha em seu corpo, ele os direcionou para , ajoelhada no chão, que tentou se proteger com os braços em cima da cabeça, mas, por sorte, Thor foi mais rápido. Entrando no meio para proteger a amiga, ele conseguiu impedir que Thanos a atingisse e tirou, minimamente, a atenção dele das Joias. chegou a conseguir se levantar, mas, em meio a golpes que se defendia de Thor e outros que o tiravam alguns segundos de perto, o titã a atingiu pelas costas com um escombro, a fazendo cair de barriga no chão e soltar a manopla do lado.
Steve logo apareceu na briga, pegando Thanos pelas costas, enquanto Thor o tentava atingir com os dois machados pela frente. Por alguns segundos, eles conseguiram segurá-lo, mas não demorou até que o titã os tirassem de cena de vez, esmurrando Steve no chão, até ele desmaiar, e jogando Thor com força para cima do escombro que soterrou , o machucando o suficiente para fazê-lo perder as forças por um instante. Carol foi para cima de Thanos em uma investida bruta, mas já não conseguiu acompanhar. De onde estava deitada, com os farelos de uma placa de concreto em cima de seu corpo ao chão e com Thor jogado e desacordado ao lado dela, ela já não sentia mais nada, senão uma dor absurda.
O pouco que conseguiu se mexer, pela dor absurda que sentia e pelos sentidos que já não respondiam mais como ela gostaria, a fez perceber que algo havia fincado na lateral de seu corpo e estava já perdendo muito sangue. Seus olhos começaram a pender, exaustos, como se quisessem fechar-se de uma vez por todas e sua respiração falhava, tão rapidamente, como se ela estivesse sendo sufocada. Estava destruída. Fisicamente destruída. Seu traje já tinha parado de dar conta do impacto de toda violência que sofreu naquele dia e sentia tanta dor, que não conseguia sequer perceber a manifestação de qualquer sinal da natureza ao redor. A fitocinese não a ajudaria naquele momento, porque não tinha forças para se conectar com ela. Piscando pesadamente, viu Carol ser jogada para longe, desacordada, e Thanos, finalmente, vestir a manopla.
chegou a estender a mão e tentar gritar, para que alguém pudesse ajudar ali, mas quase todos estavam caídos ao seu redor. Seu coração quebrou-se em milhares de partes pela simples ideia de ter que reviver toda a dor de perder todas aquelas pessoas outras vez, de fracassarem uma vez mais, depois de tudo que fizeram. não saberia como carregar aquela angústia, não quando tiveram a chance de fazer tudo diferente, mas, ainda assim, o resultado parecia ser o mesmo. Ela não suportaria mais perder. Nem a luta, nem todos aqueles que ela amava.
Como se ouvisse ao suplício dela, Stark tentou impedi-lo a todo custo, mas não tinha força suficiente para combater Thanos sozinho. Era teimoso, era insistente, era mesquinho, arrogante a ponto de achar que ele conseguiria vencer aquela luta fisicamente, mas ele não podia. Talvez nenhum deles pudesse. tossiu algumas vezes, o gosto do sangue dentro de sua boca a fazendo se assustar, a fazendo sentir medo pela primeira vez desde que aquela guerra começou. Talvez eles tivessem mesmo que perder. Talvez dessa vez, ela não sobrevivesse. fechou os olhos com força, uma sensação terrivelmente dolorosa tomando seu peito quando ouviu Thanos dizer suavemente:

— Eu sou inevitável.

Talvez ele realmente fosse, ela pensou. Mas, no segundo seguinte que o ouviu estalar os dedos com a manopla e absolutamente nada pareceu acontecer ao redor, abriu os olhos novamente, atônita. Ela piscou pesadamente mais algumas vezes, seu olhar ficando turvo, sua audição se pendendo. Mas ela viu. Viveu o momento que nunca mais se esqueceria em toda sua vida. Thanos percebeu que a manopla que usava era, na verdade, uma luva do Homem de Ferro. Assustado, de frente para ele, Tony estava ajoelhado no chão. Fisicamente machucado, mas emocionalmente estável. viu que ele vestia a manopla com todas as Joias do Infinito, a energia colorida percorrendo seu corpo enquanto ele mantinha-se firme, sem se importar com a dor que sentia.
Tony Stark era teimoso. Era mesquinho e era um arrogante. Mas era, também, e sempre seria, o motivo pelo qual todos eles venceram daquela vez.
Dominada pela dor insuportável que sentia e respirando fundo, a última coisa que assistiu de seu lugar foi a mais vitoriosa e mais triste cena de sua vida. Foi ouvir a voz de Tony Stark, pela última vez, dizer, sereno, enquanto estalava os dedos.

— E eu — ele sussurrou, encarando Thanos — sou o Homem de Ferro.

Capítulo 37

— Estava pensando... você tem trinta anos agora, então?

Desviando o olhar do espelho em sua frente, riu, vendo Bucky se aproximar dela, a abraçando por trás com carinho e cuidado. Usando um vestido curto e preto, com os cabelos soltos e uma maquiagem leve que ainda mostrava alguns roxos e pequenos machucados em seu rosto e pescoço, estava pronta para ir. E, a tirar pela roupa que Bucky vestia, ele também estava. Prontos para enfrentar a última parte de uma guerra que parecia não ter fim. Mas já não havia muito mais o que ser feito – ao menos, não por eles dois.

— Pois é — tombou sua cabeça para o lado, encostando-a no peito dele. A imagem dos dois juntos no reflexo do espelho parecia uma miragem, um sonho que ela ainda não havia se acostumado a viver novamente em realidade.
— Pelo menos, são cinco anos a menos de distância entre a gente para seus pais se preocuparem — tentando descontrair o pensamento confuso que tinha, Bucky brincou, tirando um sorriso aberto da mulher.
— De onde você tirou isso?
— Ouvi Karl e Everett comentando hoje mais cedo, depois do café da manhã — ele deu de ombros, ouvindo a mulher rir baixo. — Fiquei pensando e, bom, eles têm razão.
— Acho que essa foi uma das poucas partes boas disso tudo — ela respirou fundo, pensativa.
— Fazer trinta anos?
— Não, ficar cinco anos mais perto da sua realidade — respondeu brincalhona, tirando uma risada fraca do homem atrás de si.
— E como foram as festas? Não me contou essa parte ainda — curioso e despreocupado, Bucky perguntou, mas se arrependeu no momento seguinte ao ver os olhos de murcharem levemente, junto com o sorriso.
— Não tiveram festas, na verdade — sorrindo triste, o olhou pelo reflexo do espelho. — Todo ano, perto da data, eu só conseguia me lembrar da última vez, da última festa, de tudo o que você fez, de você — a voz dela foi abaixando, como um sussurro —, dos meus pais, das pessoas de Wakanda e de como vocês não estavam mais... aqui, comigo. — Ele deu-lhe um beijo suave no topo da cabeça. — Não havia mais motivos para que eu comemorasse, não... comemorei, nenhum deles.
— Eu sinto muito por isso — sincero, Bucky comentou, a olhando.
— Não foi culpa sua — ela, então, se virou de frente para ele, presa no abraço carinhoso do homem — e você precisa parar de se desculpar por isso.
o olhou significativamente, falando mais sério do que gostaria.
— Eu sei, é só que... é estranho ter perdido tanto tempo — Bucky pensou alto. — É estranho ver que passou, mas não passou para mim, estranho não ter uma memória sequer desse tempo, é como... — ele respirou fundo, olhando a imagem dela pelo reflexo do espelho — é como a parte da minha vida que ainda não me lembro de como foi. Como se tivessem tirado as memórias de mim outra vez — ele sorriu novamente, triste, sem mostrar os dentes. — É só... estranho.
— Acho que a pior parte é termos que seguir fingindo certa naturalidade, ignorando essa parte toda como se ela simplesmente não tivesse acontecido — concordou, o vendo assentir com a cabeça. — Foram cinco anos inteiros, de desespero e de angústia, e, agora, a gente segue de onde parou como se esses anos não tivessem existido, é... surreal.
— E recente também — ele passou a pontinha do nariz dele no dela e, tentando amenizar o assunto que os rondava nos últimos dias, seguiu dizendo: — estou me acostumando com o fato de você ter ido ao espaço, voltado no tempo e de Alpine ter cento e cinquenta anos na idade dos gatos agora.
riu leve do comentário.
— Temos que nos habituar com isso, de alguma forma — ela tentou ser confiante, positiva, tirando dele um novo beijinho em seus lábios. — É muito recente, quer dizer, todo mundo está de volta há pouco tempo, precisamos de... tempo — ela fez uma pausa, pensativa — para pensar e digerir tudo isso. Já aconteceu e já passou, nós só temos que nos...
— Acostumar — ele completou a frase, afirmando mais para si mesmo do que para ela. Um verbo simples, uma ação costumeira, mas que estava sendo bastante difícil, ao menos, desde que tudo aconteceu.

Três dias haviam se passado desde a batalha que travaram contra Thanos e muita coisa, de novo, havia mudado. Para a maior parte da humanidade, contudo, as mudanças tinham vindo para melhor. Tinham conseguido trazer os seus de volta e aquilo já bastava. Era o suficiente e era o necessário, o que viesse a partir daí seria lucro, poderiam lidar com a presença daqueles que por tanto tempo sofreram as ausências. E, assim, o mundo assistiu a si mesmo se povoar novamente, encher-se por aqueles que haviam desaparecido cinco anos antes e que, como mágica, voltaram nos exatos mesmos lugares de onde sumiram.
Contudo, para uma parcela significativa da sociedade, as mudanças trouxeram também um ar tão caótico que parecia, desde as primeiras horas do grande retorno, impossível de lidar. Para aqueles que permaneceram, a vida continuou em muitos sentidos e entender aquilo estava sendo o primeiro e o maior desafio que todos eles, os que ficaram e os que chegaram, tinham que lidar.
Casas foram vendidas, empregos foram ocupados por outras pessoas, pertences foram doados. Os que ficaram, se mudaram, se relacionaram com outras pessoas, casaram novamente, tiveram novos filhos e envelheceram cinco anos. Mas, para os que chegaram, nada havia acontecido. Pelo contrário, tudo permaneceu como era antes. Como se tivessem dormido por cinco minutos, como se tudo não fosse mais do que um piscar de olhos, absolutamente nada tinha mudado para eles. E, como todas as pessoas que haviam retornado, Bucky ainda estava assimilando aquilo. sabia.
Era difícil para ele compreender a mudança de tempo, difícil entender que havia envelhecido, que o tempo havia passado para ela e, para ele, não. Era triste pensar no quão sozinha ela ficou, em tudo que sentiu e em tudo que teve que lidar. E era dolorido, a cada passo novo que dava no apartamento de Karl e Everett, a cada marca nova que via no corpo de e não reconhecia e a cada história nova que ela lhe contava e que ele não tinha participado, ter a consciência de que, por cinco anos, ele simplesmente não fez parte de nada daquilo. Como se a estivesse conhecendo pela primeira vez em sua vida ao tempo em que já conhecia parte essencial dela, a sensação era terrivelmente nova e terrivelmente estranha para ele.
Mas tinha razão em suas palavras. Não restava mais nada a eles, a nenhum deles, senão tentar se acostumar com aquele fato e seguir em frente. Para Bucky, seria só mais um episódio caótico e sufocante de sua vida, só mais uma porção de memórias que ele não tinha e de momentos que ele jamais poderia voltar atrás e viver. Mesmo diferente do que já tinha passado, ainda assim, ao fim e ao cabo, seria mais do mesmo. Da mesma sensação de impotência, da mesma sensação de confusão, da solidão e da incompreensão. Nada com o que ele não soubesse lidar. Nada que ele, estando com , não pudesse aprender a conviver e, quem sabe, superar. Se ela, depois de tudo que passou, estava disposta a se acostumar com aquilo tudo, por que ele não?
Carinhosamente, Bucky passou a mão direita dele pelo rosto de , observando atentamente os machucados que, àquela altura, não passavam de marcas e pequenas cicatrizes. Talvez, fosse realmente como uma flor. Que nasceu, que perdeu as pétalas com o tempo, que se consumiu em si mesma e que morreu. Mas no tempo, ali estava ela. Florescendo novamente. Forte, resiliente, suntuosa. estava ali. Estava em pé, estava encontrando em quem amava tudo o que precisava para enfrentar a parte final daquela luta interminável, estava disposta a engavetar os cinco anos passados e criar cinco novos anos pela frente. Ainda brilhava feito uma pedra preciosa, ainda conseguia sorrir e passar confiança com os olhos. Ela ainda conseguia dizer coisas boas sobre a vida e sobre o tempo, mesmo depois de tanto apanhar deles. E Bucky não conseguia entender e, talvez, nunca o fosse fazer, de onde ela tirava a força para sempre florescer outra vez. Mas ela florescia. Ela sempre florescia.
demorou algumas horas para acordar depois que perdeu sua consciência ao final da luta. Estava exausta, tinha perdido muito sangue e seu corpo simplesmente parou de funcionar. Ela tinha visto o que aconteceu, contudo. Viu Tony estalar os dedos, assistiu, com lágrimas escorrendo de seu rosto, todas as criaturas de Thanos virarem pó e desaparecerem. Ela viu. Ela viveu a vitória, mas não suportou o alívio de ter vencido. Seu corpo já não podia mais.
Soube que Thor a havia tirado do chão e que caminhou com ela no colo sem saber o que fazer, até Bucky os encontrar. E ele, então, a levou no colo de volta até Wakanda, aproveitando os portais que ainda se mantinham abertos pelos magos. Como estava acostumada, porque já tinha feito aquilo algumas outras vezes na vida, Shuri usou toda a tecnologia médica que tinham disponível no país e submeteu ao exato mesmo procedimento de cura que havia testado nela anos antes, quando ela voltou da Sibéria, destruída. Não levou mais do que algumas horas para que ela fosse recuperada e todas as feridas abertas fossem fechadas, pedaço a pedaço, como se tivessem, apenas, colocado esparadrapos. Bucky manteve-se com ela o tempo todo, não iria sair de perto nem mais um segundo, estava aflito, se sentindo terrivelmente assustado e o horror correu pela sua mente quando viu Shuri e uma médica terminarem de remover o traje dela. Com cortes abertos nas pernas, como se tivessem passado nela uma faca, a lateral do corpo cravejada com uma fina estaca de ferro e dezenas de marcas que pareciam ter sido feitas com armas de choque, Bucky ficou atormentado em vê-la. Confiava em Shuri e em toda tecnologia de Wakanda. Mas era inevitável não sentir o medo absurdo de simplesmente não aguentar tudo aquilo. De ter dado tanto de si que perdeu a si mesma.
E ele só se deu conta naquele momento de que, talvez, a luta tivesse começado muito tempo antes de eles terem se juntado a ela. E, pelas condições do lugar e de como , Steve, Thor e Tony estavam, pareciam que eram só eles quatro contra o mundo todo. Bucky se perguntou por um instante, observando a máquina fechar-se em , se ele teria tido coragem e energia para fazer o mesmo no lugar dela. Se, apesar de achar que todos os que amava estivessem mortos e carregar aquela culpa por cinco anos inteiros, ele ainda teria forças para continuar lutando por uma possibilidade, por uma chance. Pela incerteza, pela simples ideia de poder, talvez, trazê-los todos de volta.
Karl e Everett foram o mais rápido que conseguiram para Wakanda, assim que receberam a ligação de Bucky contando resumidamente o que acontecia. Chegaram ao tempo exato de acordar e, sem saber se era o alto estresse ou se era apenas a reação natural de alguém que reencontra aqueles que um dia perdeu, eles assistiram chorar por tanto tempo, que precisou de um medicamento para se acalmar. Ao redor dela, Everett, Karl, Bucky, Shuri, T’Challa, aqueles por quem chorou o desaparecimento por tanto tempo, estavam a olhando, deixando abraços, beijos, carinhos suaves em meio a um silêncio profundo. Não tinham o que dizer, porque nenhum deles tinha ideia de como foi. E só souberam dos detalhes daqueles cinco anos algumas horas depois, quando, se sentindo bem o suficiente para contar, e Okoye discursaram por horas enquanto jantavam todos juntos no laboratório médico em que a mulher seguia em observação.
Bucky soube que ela se mudou de Wakanda, que não suportou ficar ali. Soube que tentaram recuperar as Joias e acabaram matando Thanos, ouviu sobre Thor, sobre as tentativas de se encontrar em algum lugar, sobre a família de Sam e como a ajudaram a sobreviver naquele período. Karl e Everett souberam que ela não conseguiu entrar em seus apartamentos, nem em Nova Iorque, nem em Berlim e, por isso, voltaram nele e o encontraram exatamente como o deixaram. Souberam dos dias que Steve passou com ela, do apoio, das viagens que fez com Natasha e ouviram-na contar, entre lágrimas, que a mulher já não estava mais com eles. contou que tentou voltar à França, mas que acabou indo viver em Berlim. E falou sobre Nate. Sobre sua história, sobre como se tornaram amigos e, poupando detalhes, sobre como tinham encontrado um no outro o amor que lhes faltava.
Contudo, de todas as coisas que contou naquela noite, a que mais entristeceu Bucky foi ouvi-la dizer sobre o Assalto no Tempo. Do mesmo modo, impressionados, Karl e Everett a encaravam, tensos, nenhum deles tinha o que dizer. Cada palavra que ouviam dela parecia absurda e cada palavra dita por ela carregava ainda mais a história toda de angústia, de desespero. Apesar disso, eles notaram, eram faladas com tanto carinho, como se aquela fosse uma das memórias mais bonitas que tinha. E, de fato, era. A ouviram falar sobre o teste de volta ao tempo, sobre seus pais biológicos, sobre tê-los visto uma primeira vez e, depois, sobre poder ter tido a única chance em sua vida de conversar com eles. Contou sobre o que aconteceu com a Equipe Strike em 2012, as marcas que ainda estavam em seu corpo, sobre a base de Nova Jersey, sobre como Steve e Tony foram essenciais para que tudo aquilo acontecesse, para que todos eles ali voltassem e, mais do que isso, para ela.
E, apesar de ter falado muito em pouco tempo, também ouviu naquela noite. Ouviu a parte da história que já sabia, mas que a causava certa confusão. Bucky, Shuri e T’Challa contaram que a batalha terminou com o exército de Thanos desaparecendo feito poeira, como cinco anos atrás fizeram com eles, e soube, pela voz grave e baixa de Bucky, que Tony não tinha mesmo resistido. Continuou vivo alguns poucos minutos depois de estalar os dedos, mas a descarga energética das seis Joias ao mesmo tempo era demais para um ser humano resistir. Ela estava lá quando Thanos as usou pela primeira vez, viu o que tinham feito com ele e viu, depois, o que fizeram com Bruce. Tony Stark não resistiria e não resistiu.
E nunca teria a chance de se despedir dele.
Triste pela morte de mais um deles, talvez um dos mais importantes deles, exausta pela luta, recuperando-se de todos os machucados que tinha em seu corpo, sequer tinha forças para se levantar. Se deixou ser levada até seu antigo quarto do palácio por Bucky e, em um momento extremamente íntimo e silencioso, o deixou dar banho nela, limpar cada uma das feridas e cada gota de sangue que seu corpo carregava. Delicado, carinhoso, atento, Bucky não soube quanto tempo ficaram ali, debaixo do chuveiro, só os dois, em um silêncio profundo e entre carinhos. Ele não sabia o que poderia dizer, porque simplesmente não conseguia encontrar nada que fosse suficientemente bom para tirar dela tudo o que estava sentindo. Enquanto limpava , atento a cada marca e a cada ferida recém fechada, Bucky se perguntava pelo que ela tinha passado naqueles anos todos e desejava, do fundo de seu coração, que a água também levasse consigo toda a tristeza que ela carregava naquele momento.
dormiu naquela noite, nos braços de Bucky, se sentindo estranhamente incompleta. O vazio que só sente aqueles que um dia se conectaram com outras pessoas, que um dia fizeram de si mesmos, mesmo sem querer, um lugar de pertença. E, na manhã seguinte, assim que acordou, decidiu voltar com seus pais e Bucky para Nova Iorque.
O Complexo estava destruído, todos, certamente, estavam passando por um momento terrivelmente doloroso e confuso, ela não podia ficar longe deles. Não podia ficar longe de Steve naquele momento, não podia ficar longe de Thor e não queria ficar longe de Sam. Não mais. Voltou para a casa de seus pais e preencheu seu dia e sua mente os ajudando a reorganizar o apartamento, fechado por cinco anos, encontrando entre as caixas de mudança e o conforto das três pessoas que mais amava em sua vida um lugar confortável para conversar e para chorar. Para dizer tudo o que ainda não tinha sido dito, para se livrar das fraquezas e das vulnerabilidades que, com a saudade e a angústia, tinham morado nela por cinco anos.
E, na noite que se seguiu, deitada mais uma vez nos braços de um Bucky protetivo e carinhoso, conseguiu, finalmente, conversar a sós com ele a primeira vez desde o retorno. Conseguiu se desculpar por não ter conseguido impedir Thanos, por ter deixado tantos anos passar, por Nate. Bucky deixou que ela colocasse para fora tudo o que estava sentindo, a ouvindo atento e paciente. Não poderia culpá-la por nada. não tinha culpa pelo que Thanos fez, não teve culpa pelo tempo que passou e muito menos por ter tentado seguir sua vida. Merecia ser feliz com quem fosse, merecia amar e ser amada, merecia ter momentos bons e precisava de alguém que compartilhasse com ela o pouco que restava das coisas bonitas da vida. Bucky não a culpava e não a julgava.

— Fico feliz em saber que, ao menos em alguns momentos, você foi feliz, — ele disse a ela naquela noite, a observando chorar, deitada de frente para ele na cama. — Eu te amo e, justamente por isso, desejo que você seja feliz como for, como merece ser, como quer que seja — afastando uma mexa do cabelo dela de seu rosto, ele continuou dizendo baixo, sereno. — Você não tem que se culpar pelo que aconteceu e não tem que se desculpar por tentar ser feliz — observando as lágrimas dela aumentarem, ele a puxou para mais perto de si, a abraçando com mais firmeza. — Eu estou aqui, agora. Nós estamos aqui. E é só isso que importa, não é?

Bucky não conseguiu dormir naquela noite. Mas não se importou, já estava acostumado com aquilo. Permaneceu abraçando com força a noite toda, deixando levar-se pelo calor confortável dos cobertores, pelas luzes fracas que entravam pela janela do quarto, pelo silêncio que parecia gritar tanto. Estava pensativo, absorvendo tudo o que tinha acontecido e tudo o que tinham conversado naquela noite. Não conseguia organizar dentro de si mesmo a confusão e sabia que estava ainda mais confusa do que ele. Ela não entendia porque tudo tinha sido daquele jeito e não sabia o que deveria sentir primeiro. Estava feliz de ouvir o que ouviu de Bucky naquela noite e imensamente feliz de estar com ele outra vez, de estar com seus pais, de terem vencido. Mas outra parte dela custava a acreditar que pagaram um preço tão alto pela vitória. Tinham perdido Visão, Natasha e, agora, Tony.
seguia entre celebrar a vida e sofrer a falta dela.
O renascimento e o luto acontecendo ao mesmo tempo, um momento incompatível, anulador, irônico e carregado de amargura. Se sentia culpada em ficar feliz por ter os seus de volta, porque teve que perder outros que amava para que aquilo acontecesse. A vida e a morte lado a lado. Era difícil de lidar, impossível de entender. E, como ela, Bucky sabia que Steve também se sentia daquela forma. Tinham sofrido demais. Sofreram por ele, pela falta deles, tantos anos e, mesmo assim, apesar disso, ainda estavam ali.
Bucky sabia que não tinha culpa pelo que aconteceu, mas não conseguia deixar de se sentir mal por tudo. Passou anos sem se lembrar de Steve e anos conturbados com , com suas histórias se cruzando, e tiveram um respiro saudável e apaixonado por só dois anos até que o sofrimento voltou. A sensação incômoda e a ideia intensa de que, talvez, ele não fosse bom o suficiente para ela, não fosse certo, não conseguisse trazer nada mais além de sofrimentos e dor, brotou nele outra vez, naquela noite.
E, por isso, ele se desculpava sempre que podia. Estavam sendo bons os espaços que encontraram para conversar, conseguiam tirar de seus peitos as dores e as angústias que sentiam, mas, ainda assim, não pareciam verdadeiramente se livrar delas. E não poderiam tão cedo, ao menos não tão rápido daquela forma. Teriam que ser pacientes. Continuar falando e reafirmando cada detalhe do que tinha acontecido, dar tempo ao tempo, ficar juntos, vencer aquela etapa como venceram as demais, teriam que ser pacientes. Consigo mesmos e uns com os outros. Um dia de cada vez, como fez com ele a sete anos atrás. Uma etapa por vez.
acordou descansada, entre os beijos de bom dia e um café da manhã na cama trazidos por Bucky. Tinha se acostumado tanto a cuidar de si mesma que qualquer sinal mínimo de cuidado parecia estranho. Mas, apesar disso, era bom. Era ridiculamente bom e seguro. Karl havia saído cedo para comprar comida, enquanto Everett tratou logo de trazer novas roupas e um celular novo para , tendo em vista que uma parte de seus pertences foram destruídos junto com o Complexo. Entre conversas baixas e mais leves, com contando sobre Alpine, Bucky tomou café da manhã com ela até receber a ligação de Steve, os informando sobre o horário do compromisso que tinham naquele dia. O enterro de Tony.
E lá estavam eles. Fisicamente prontos para sair. Emocionalmente despreparados para, uma vez mais em suas vidas, terem que se despedir.

— Você não sabe o quanto é bom ter você aqui — ela respondeu de volta, depois de um breve tempo em silêncio, encarando Bucky. — Às vezes, parece até mentira.
Os olhos claros e serenos de Bucky, que tanto fizeram falta, tomaram um brilho intenso, amoroso, enquanto ele sussurrava, confiante:
— E eu não vou a lugar algum, nunca mais.
— Eu espero que não mesmo — sorriu, sentindo um beijo leve em seus lábios. — Tem certeza de que quer mesmo ir?

parecia ligeiramente preocupada com aquele tema e, desde a hora que Steve havia ligado para confirmar o horário, já tinha perguntado aquilo meia dúzia de vezes para Bucky. Apesar de ser um evento que reuniria todas as pessoas que conheciam e que eram o mais próximo de amigos e família que poderiam ter, não era exatamente o ambiente mais confortável para Bucky. Não depois de tudo que ele fez com os pais de Stark, quando ainda estava sob controle da Hydra, e não depois de tudo que aconteceu anos antes, quando a verdade veio à tona para Tony, na Sibéria.
Bucky não sentia que era certo participar daquela despedida, Tony jamais gostaria de vê-lo ali, em meio à sua família, em um contexto tão íntimo e doloroso. Para ele, James só havia trazido perdas e sofrimentos. O Soldado Invernal tinha destruído uma parte importante e considerável de quem Stark era e a última coisa que poderia fazer era se redimir. Bucky tentou explicar. Tentou se desculpar. Mas o que seria suficiente para estancar uma ferida incurável como a morte de um pai e de uma mãe? Absolutamente nada. Bucky tinha consciência daquilo e sabia como ele se sentia, tinham falado sobre aquilo mais cedo.
Ele não precisava ir, se não quisesse. Mas ele queria. Porque algo dentro dele dizia que era o certo a ser feito, algo em seu coração sabia que, mesmo na morte, ele ainda devia desculpas à Tony Stark.

— Não pude me redimir com ele em vida, não posso carregar também a sensação de ter ignorado a morte dele — Bucky respondeu depois de um minuto pensativo. — Estou aqui, agora, porque ele se sacrificou. Devo muito a ele.
— Acho que sempre vamos dever — concordou. Não tinha tido a melhor das relações com Tony, mas, diferente de Bucky, teve tempo de conviver com ele e de, minimamente, acertar-se, redimir-se, entender-se com ele.
— E você, está bem para ir? Não acha que é muita informação em pouco tempo?
— É sim — ela suspirou, afastando-se lentamente dele. — Mas preciso ir. Quando eu não tinha nada, Tony me deu esperança de volta. — Bucky viu os olhos dela encherem-se de lágrimas. — Onde quer que ele esteja agora, eu vou estar com ele. — Bucky sorriu triste para ela, concordando com a cabeça. — E, por mais que tudo esteja terrivelmente ruim nesses dias, Steve, Thor, Bruce e Rocket foram a minha família. Não posso deixar de estar com eles agora.
— Tudo bem, então — concordando com a cabeça, Bucky chegou a dizer, mas logo foi interrompido por Karl, que parava no batente da porta do quarto de .
— Sam chegou — ele avisou sorridente — e disse que está com pressa.
— Que novidade — Bucky revirou os olhos.
— Só porque ele voa, acha que todo mundo precisa voar também — bufou, mas logo riu com Bucky, o acompanhando para fora do quarto.
— Não se esqueçam de que vamos estar esperando vocês quando voltarem para um almoço maravilhoso que eu mesmo farei — Karl riu animado, dando um beijo em sua filha, enquanto James já estava abrindo a porta da entrada para sair do apartamento.
— Falando em Sam, sabe que ele vai querer vir junto almoçar, não é? — comentou, caminhando para a saída.
— Conto com isso! — Karl respondeu, reparando Bucky revirar os olhos.

e Bucky não demoraram dois minutos para encontrar com Sam estacionado na entrada do prédio de Karl e Everett e, o cumprimentando rapidamente, seguiram rumo à casa de campo de Tony. No banco de trás, Bucky seguiu o caminho todo em silêncio, perdido em seus próprios pensamentos, enquanto e Sam conversavam, animados, no banco da frente. A naturalidade da conversa e a leveza do clima entre eles, que os acompanhou o caminho inteiro, fez a mulher pensar, por um instante, que absolutamente nada havia mudado. Mas, no instante seguinte, quando Sam deixou sua curiosidade transparecer e perguntou-lhe, simplesmente, como haviam sido aqueles cinco anos, a realidade bateu em novamente. E, do mesmo jeito que havia feito em Wakanda, contou a exata mesma história, com os exatos mesmos detalhes para Sam, que ouvia atento e reagia em algumas partes.
Sam pareceu verdadeiro em responder o que achava da situação. Como Bucky, jamais a julgaria por ter tentado seguir sua vida, era a coisa certa a se fazer, era o melhor para ela e era o que ele teria feito também. Contou sobre a conversa que teve com Steve no dia anterior, sobre o mesmo tema, ouviu dele as mesmas coisas que estava ouvindo de , mas se preocupava em saber como ela estava se sentindo diante de todo aquele caos. Sam entendeu que cinco anos tinham se passado do modo mais puro que entendia absolutamente tudo em sua vida: com seriedade, responsabilidade e, vez ou outra, tentando fazer piadas sobre a situação.
Apesar de saber que as pessoas tinham formas diferentes de lidar com os mesmos cenários, se sentiu mais confortável em conversar com Sam do que com Bucky ou mesmo com seus pais. Karl e Everett estavam, como sempre, tentando ser positivos e avaliar a situação com o maior senso possível de normalidade que, no fundo, não existia. Aquilo tudo não era normal e tinham perdido tanto, tinham vivido tantas coisas ruins, que não conseguia extrair o otimismo todo que seus pais, confiantemente, a passavam. Bucky, por sua vez, estava um tanto recluso, como naquele momento, no carro. Fechado em si mesmo como ela lembrava de tê-lo conhecido, sabia que enfrentava seus próprios questionamentos mentais e sabia que tudo aquilo tinha mexido com ele de uma forma única. Bucky tinha um contexto absurdamente violento em seu histórico e, quando parecia aprender a lidar com ele, alguma coisa acontecia novamente e o tirava da vida.
Sam era mais objetivo. Avaliava a situação de um ponto de vista que também tinha, parecia ter vivido com ela, ter sentido o que ela sentiu naqueles anos. Ele era mais prático, realista, tão pragmático que, às vezes, assustava. Não havia espaço para dramas ou para insensibilidades, Sam era humano, altruísta e muito empático, talvez a pessoa com o maior senso de alteridade que teve a chance de conhecer na vida. Ele sabia ouvir e sabia aliviar a tensão do momento, tirava dela risadas e, sem saber disso, naquela conversa enquanto ele dirigia, ele a ajudou a se reorganizar novamente.
Bucky sentiu um pingo de inveja de Sam.
Não por ciúmes ou por não ter sido incluído na conversa. Ele não queria realmente conversar. Mas por saber que alguém conseguia compreender de uma forma que, talvez, ele mesmo nunca fosse conseguir. Sam estava mais próximo de ser o que Steve era. Era mais expansivo, era mais seguro, mais corajoso e muito mais humano do que Bucky sentia ser. Não trazia à uma porrada de incertezas e de questões internas, mal resolvidas, dele. Conseguia apenas ouvi-la e tentar resolver os problemas dela, sem criar outros. Sem dramas e sem rodeios. Sam tinha a confiança e a segurança que Bucky queria ter também.
Propositalmente afastada da cidade, a casa dos Stark era longe de onde estava morando com os pais naquele dia e o caminho até lá demorou mais do que Sam havia estipulado. Chegaram ao endereço passado por Steve quando todos os outros já estavam lá, mas, ainda assim, antes do velório começar. A casa de Tony era bastante diferente do que estavam acostumados a ver, sem grandes tecnologias ou luxos por fora, parecia uma casa normal, de uma família nitidamente rica. Era confortável, segura, silenciosa, arborizada e muito tranquila. se sentiu amena ao chegar, talvez o contato com a natureza ao redor ajudasse, e muito, naquele momento.
Todos usando preto, todos em luto, os três recém chegados cumprimentaram os demais silenciosa e educadamente, sem grandes alardes. A quietude do local só era quebrada por conversas em sussurros tão baixos, que mal podiam ser ouvidos. Estavam ali só as pessoas mais próximas de Tony e tudo era tão reservado que causava certo estranhamento para todos eles. Tony era excêntrico. Era um homem de presença marcante e gostava de estar no centro das atenções. Se pudesse escolher, talvez, não teria feito nada tão calmo daquela forma.
Sam ficou em um canto conversando com Wanda e Rhodes, que lamentavam o que tinha acontecido, enquanto Bucky juntou-se a Steve, em outro. ficou pelo caminho para falar com Thor, que queria saber se ela estava bem, mas logo pediu licença a ele, por um momento, e foi em direção a Peter. Sentado em um banco na varanda da casa, sozinho, ele parecia transtornado em estar ali. Seu rosto estava inchado pelas lágrimas, ligeiramente vermelho, e ele olhava fixamente para o grande lago próximo à casa, como se esperasse que dele saísse alguma coisa. sentiu seu coração partir-se em mil pedaços quando seus olhos cruzaram com os dele e, a vendo se aproximar, Peter voltou a chorar.

— Vai ficar tudo bem — ela sussurrou, assim que se sentou no banco ao lado dele, o abraçando o mais forte e amorosa que conseguia.
— Eu não consegui salvá-lo — chorando, Peter falou, desesperado.
— Não foi culpa sua — sentindo seus olhos encherem-se de lágrimas, ela o apertou ainda mais no abraço. — Não foi culpa sua.
— Eu estava lá, , e eu não consegui salvá-lo.

Ela não respondeu mais nada. Absolutamente nada. Nada que dissesse tiraria aquela dor de dentro dele, ela sabia como era, o quanto doía. O abraçando sem soltá-lo nem sequer por um momento, apenas o deixou chorar por quanto tempo ele quis. E assim ficaram. Exaustos, entristecidos, fracos, ambientados naquele lugar que trazia memórias passadas e certa angústia. sabia o quanto Tony representava para Peter. Sabia, porque viu a relação deles quando os conheceu em Berlim, anos antes. Sabia, porque assistiu Tony ir, atordoado, atrás de Peter quando ele foi abduzido no ataque em Nova Iorque e ela estava lá quando Stark retornou ao Complexo, chorando a perda do garoto. “Eu não consegui salvar o garoto”, Tony dizia sem parar naquela noite. “Eu não consegui salvá-lo”, era o que Peter sussurrava no colo de .
Mais do que saber daquilo, teve um momento a sós, em que Peter, mais calmo, foi ao banheiro lavar o rosto, com a tia dele. May se apresentou cheia de ternura para a outra mulher, contou que ouviu Peter falar sobre ela algumas vezes e, simpática, agradeceu pelo carinho de com ele. Peter tinha o jeito amigável e carinhoso de ser de quem puxar. E, na breve conversa que tiveram ali, esperando Pepper aparecer e dar início ao enterro, descobriu que Tony Stark era a figura paterna que Peter nunca tinha tido. E aquela ideia a massacrou de tal forma, que ela não mais conseguiu pensar em outra coisa, senão em como ele estava se sentindo naquele lugar. No fundo, talvez, tivesse se identificado com Peter, entre tantas outras coisas, pelo fato de ele também estar em uma luta eterna por uma família e por um lugar ao qual pertencer. Uma luta que, até ali, ele só parecia ter perdido.
Tony Stark foi simbolicamente enterrado às 14h de um sábado.
O sol fraco tocava as poucas nuvens no céu quando Pepper, com sua filha ao lado, colocou o primeiro reator que Tony carregou em seu peito no lago, no quintal da casa que viveram aqueles cinco anos. Diferente dos demais, Tony teve a chance de ter uma família e de viver com ela. Mesmo assim, nunca seria, jamais, tempo suficiente. Ao lado de Bucky, Sam e Wanda, mais ao fundo e atrás de onde as quase 30 outras pessoas estavam, todos em pé, assistiu à despedida de um dos Vingadores mais emblemáticos que viveram na Terra. E para homenageá-lo, sem esforço algum e sem sequer se mexer, fez centenas de flores vermelhas e douradas brotarem no campo ao redor deles enquanto assistiam seu reator flutuar pela água. Steve, Thor, Clint e Bruce deixaram seus olhos encherem-se de lágrimas assistindo àquilo, mas as engoliram. Tony viveria dentro de cada um deles dali em diante. E faria uma falta absurda.
O velório e o enterro não duraram mais do que uma hora, Pepper não queria grandes cerimônias. Estava cansada e estava tão profundamente triste que só queria terminar de uma vez por todas com aquilo e se afastar por um tempo, fechar-se nas saudades que já sentia dele. Happy logo levou Morgan para outro lugar, a tirando daquele ambiente pesado e triste, enquanto os demais se espalhavam e se despediam.
— Vai voltar para New Asgard? — perguntou, assim que abraçou Thor uma última vez. Ao lado dela, Bucky apenas acompanhava a conversa, com as mãos nos bolsos da jaqueta, sem saber o que dizer. Pelo que tinha ouvido dela e pelo jeito que via Thor a tratar, tinham feito uma amizade sólida e muito cuidadosa naqueles anos.
— É o meu dever estar com o meu povo, mas não acho que quero ficar por lá. — E vai para onde? — ela franziu o cenho, curiosa.
— Ainda não sei — Thor a olhou nos olhos e sorriu. — Mas, se não encontrar lugar algum, vou para sua casa.
— De jeito nenhum — ela riu baixo e negou com a cabeça. — Acho que quero férias de você, um tempo, pelo menos.
— Qual é? Somos a melhor dupla de combate que esse universo já viu — ele deu um passo mais perto dela. — Não conta para o Steve.
— Eu ouvi — Capitão falou mais alto, alguns passos deles, se despedindo de Rocket e Nebulosa.
— Sabe que sempre vai ter um lugar comigo, certo? — respondeu, séria, sorrindo para ele. — Quando precisar de mim ou quando só quiser uma amiga, sabe onde me encontrar.
— Obrigado por tudo, Fada da Natureza — Thor a abraçou uma vez mais, sussurrando, sincero, mas logo se afastou, caminhando sentido à nave que o esperava. — Prometo lavar o cabelo, parar de beber e te atender quando você me ligar.
— Ele está mentindo. — Rocket se aproximou de , que ria do comentário do homem. Ela, então, se abaixou, abraçando rapidamente o Guaxinim. — Se cuide, ‘tá? E mande notícias, o Groot vai querer saber de você.
— Eu sou o Groot — ele concordou ao lado de Rocky, vendo virar-se em direção a ele e o puxar para um abraço também.
— Descobri que parte do que tem em mim vem da sua família — ela olhou para Groot, que sorriu. — Não sei o que aconteceu com ela e sinto muito você estar sozinho. Mas queria dizer que, para mim, nós — apontou para si mesma, Groot e Rocket — somos uma família agora, também. Como disse a Thor, vou estar sempre aqui esperando vocês.
— Vamos voltar — Rocket confirmou baixo. — E vamos estar de olho em você, caso precise da gente.
— Eu sou o Groot — a árvore afirmou, tirando de um sorriso.
— De jeito nenhum, ok? — Rocket rebateu áspero, empurrando Groot para a nave, que estendia uma mão para . — Ela não pode te adotar, ela tem mais o que fazer e já tem um gato. Vamos embora. — O Guaxinim, então, parou por um segundo, segurando Groot, e olhou para Bucky ao lado de . — Última chamada: quanto quer pelo braço?
— Não está à venda — Bucky respondeu a mesma coisa que da última vez, vendo Rocky dar de ombros e sair reclamando dali.

Scott tinha ido embora com Hope e os Pym, enquanto May, depois de passar seu número para para que pudesse mandar notícias do sobrinho, tirava Peter apático dali, seguindo para seu carro. Thor ia embora com os Guardiões da Galáxia, vendo Rhodes se despedir deles para fazer companhia para Pepper. T’Challa passou brevemente pelo velório e, tão logo havia terminado, voltou às pressas para Wakanda com Shuri e Okoye, pois tinham que restituir sua posse ao governo e aquilo estava gerando uma instabilidade gigantesca dentro do país. Wanda e Clint conversavam mais adiante, perto do lago, enquanto Strange e Wang caminhavam para onde estacionaram seu carro. Carol se despedia de Fury e Maria Hill, cada um direcionando-se para um lado diferente.
não teve tempo e nem contexto para conversar com boa parte das pessoas ali e seguiu sem conhecê-las. Lembrava de Hank Pym porque tinha ajudado Steve a assaltar o laboratório dele em 1970 e ficou interessada em conhecer os magos, mas, tirando o breve momento em que os cumprimentou e se despediu deles, não conseguiu sequer conversar. Tinha reconhecido Fury de rabo de olho e, pelo olhar dele nela, sabia que ele também a reconhecera. A estranheza dele em ver o fruto de um projeto que ele mesmo comandava bem ali; a sensação libertadora de em não ter mais dúvidas sobre sua família biológica e sobre seu passado.

— Ninguém mais acha estranho um guaxinim de roupa? — Sam perguntou, se aproximando de e Bucky, que o olharam ao mesmo tempo.
— Tony achava — ela respondeu, triste, lembrando-se do comentário dele quando viu Rocket pela primeira vez, cinco anos atrás.

Sam soltou uma risada fraca, nasalada, e nada mais disse. Observando as pessoas irem embora, ao seu redor, tomando seus respectivos rumos e caminhos, teve a sensação de que um ciclo havia se fechado. De que uma etapa tinha sido vencida e de que uma história tinha sido contada. Como se tivesse se iniciado com ele, parecia que Tony Stark tinha acabado de colocar, enfim, um ponto final em uma era.

Capítulo 38

Nova Iorque,
Duas semanas depois

Duas semanas haviam se passado desde o velório, quando chegou com Bucky, novamente, na casa de Tony Stark. Pouca coisa havia efetivamente mudado naqueles dias, mas o clima, certamente, parecia ter melhorado para todos eles. Nada podia ser melhor do que ter paciência, do que estar em companhia daqueles que se amava e dar tempo ao tempo, para que tudo voltasse novamente ao seu devido lugar. Apesar dos desencontros físicos de terem ido um para cada lado, , Bucky, Steve e Sam estavam mais próximos do que nunca. Estavam decididos a apoiar uns aos outros e a acelerar os processos de cura e de compressão em todo aquele caos.
Depois do velório de Tony, Sam, de fato, almoçou na casa dos pais de e, então, decidiu passar algum tempo na casa de sua irmã. Ainda não tinha visto Sarah e os meninos pessoalmente desde que retornou da poeira, ainda não tinha tido tempo de conversar tudo o que queria com ela, de rever sua família e de se sentir presente em algum lugar. Com a destruição do Complexo, Sam não tinha mais seus pertences e nem exatamente para onde ir e não queria ficar vivendo de favor no apartamento de Steve, que precisava de espaço para se reorganizar também. Ele chegou no meio da noite à casa de Sarah e vê-la ali, depois de tantos anos se escondendo na Europa, sem poder fazer contato, e depois de tantos anos desaparecido, foi um reencontro e uma sensação tão bons, que ele jamais pensou que viveria.
Steve manteve-se em seu apartamento, comprado alguns anos atrás, assim que Stark voltou do Espaço e que todos os Vingadores que sobraram saíram do Complexo. Nada novo aconteceu para o Capitão naquelas duas semanas, exceto pelo tempo que passou com Bruce, na casa de campo de Tony, tentando pensar em formas de reproduzir o túnel quântico. Apesar da calmaria e da sensação de normalidade naqueles dias, o que fazer com as Joias, contudo, era o que estava causando certas angústias em Steve e, sem exatamente saber o que fazer ou com quem deveria conversar sobre as ideias que tinha para elas, recorreu a única pessoa possível que o entenderia.
Bucky havia passado mais tempo com Steve naquelas semanas do que ele tinha se dado conta. viajou de volta à Berlim, tinha pendências a resolver da floricultura, tinha que buscar suas coisas para ficar mais tempo e mais confortável na casa de seus pais, tinha que pegar Alpine e, Bucky sabia, ela queria conversar com Nate. Ele havia ligado em uma manhã para conversar com ela, para dizer que estava com Ivy de volta à Alemanha e para agradecê-la por tudo que tinha feito por eles. tinha saído da vida dele tão rápido quanto entrou e precisavam conversar, precisavam terminar qualquer coisa que havia sido começada, manter a amizade que tinham antes.
Ela viajou com Everett, que foi convidado a revisitar a base da CIA no país para acertar seu antigo posto de trabalho, e lá ficariam por dez dias. , contudo, participava das chamadas em grupo que Steve aprendeu a fazer pelo celular, com Sam e Bucky, e acompanhou a adaptação de James em Nova Iorque. Naqueles dias, com tempo e se sentindo seguro em caminhar sozinho pelas ruas e reconhecer lugares que, por décadas, ele sequer se lembrava de já ter conhecido, Bucky sentiu algo que não se lembrava de ter sentido antes, senão com : a vontade de ficar. Tudo parecia tão familiar e confortável ali, tudo soava como uma casa que ele não tinha tido, como um lugar dele. E todo dia, quando saía pelas ruas, observando tudo ao seu redor, se sentindo seguro e ameno, ele se apegava a Nova Iorque um pouquinho mais.
Sem pensar muito, dominado pelas saudades e pelas sensações amenas que o lugar lhe trazia, ele tomou a primeira grande decisão de sua vida: a de viver ali. Talvez, se pudesse voltar ao antigo bairro e encontrar uma casa, talvez, se pudesse minimamente recuperar uma parte perdida de sua vida, conseguisse viver em paz, finalmente, conseguisse ser um pouco mais feliz, mais normal. Tudo havia começado e tudo havia terminado ali.
Ele gostaria de voltar, de continuar de onde parou e, quem sabe, de recomeçar tudo outra vez.
Como se tivessem correndo atrás do tempo perdido, como se fossem novamente só os dois garotos do passado, os amigos corajosos, irritantes e cheios de ideias duvidosas, Bucky pediu a ajuda de Steve para encontrar um apartamento no Brooklyn, que fosse próximo ao dele próprio e que ele pudesse pagar com um possível financiamento do banco. Steve, por sua vez, satisfeito e muito feliz com a decisão do amigo, o encorajou a ir em frente. Estava orgulhoso em vê-lo muito diferente de como era anos antes, de quando ainda vivia na sombra, no medo e na culpa do que um dia fez. Bucky parecia muito mais livre e muito mais confortável em ser quem era, em ter algo que fosse dele, em tentar reconstruir sua vida.
E ver aquilo, naqueles dias todos em que o acompanhou nas visitas em dezenas de imóveis por Nova Iorque, deu a Steve a certeza e a segurança que ele precisava para, definitivamente, decidir seguir em frente com a última de suas missões.
Steve havia pensado muito naquilo nos últimos tempos. Havia pensado na vida e em como vivê-la. Pensou em quem era, no que tinha feito, na vida que levou e nas pessoas que tinha conseguido trazer para si. Mas, mais do que isso, refletindo sobre Bucky, ele pensou em tudo que ainda faltava a si mesmo. Em tudo que ele queria ser algum dia, em tudo que ele poderia ter sido, se tivesse feito escolhas diferentes. Longe de ter arrependimentos, cético sobre a vida ser nada mais do que ela era, sem destinos ou forças do universo, ele não desejava que fosse totalmente diferente. Só queria ter tido a chance de poder ter aproveitado aquela parte que Bucky vivia agora com , aquele lado da vida que ele jamais conseguiu aproveitar.
E, em suas reflexões, viu, em tudo o que aconteceu naqueles últimos anos, uma possibilidade concreta de realizar aquele desejo. Steve pensou se deveria mesmo fazer aquilo e, na incerteza de seus anseios, conversou com Bucky, a única pessoa que verdadeiramente o entenderia e não o impediria de seguir com a ideia. A única pessoa de quem ele precisava ter a segurança de que poderia seguir a missão e que teve naquelas duas semanas. Uma de suas maiores preocupações era deixar seu amigo para trás e ter a certeza de que ele ficaria bem. Mas Bucky estava se recuperando de tudo. Ele tinha agora. Tinha outra vez. Alguém que o amava, que faria de tudo para protegê-lo e para o ver bem, alguém que não media esforços em fazer o que fosse preciso fazer. E ele teria Sam. Apesar de ainda não terem percebido, eram parecidos em muitos sentidos e, se deixassem seus orgulhos de lado, poderiam ser bons amigos.
Entre um encontro e outro que teve com seu melhor amigo, Steve chegou a oferecer a mesma alternativa que encontrou para si mesmo a Bucky. Uma chance real de poder voltar ao tempo e ser a pessoa que ele sempre quis ser. Sem Hydra, sem Soldado Invernal, sem nada mais além de si mesmo e das infinitas possibilidades de ter tido uma vida agradável e normal. Uma parte que ele desejou e que sonhou por décadas de sua vida, mas que ali, diante da oportunidade, não mais lhe brilhou os olhos.
Bucky tinha muito a perder. O preço que teria que pagar para poder voltar o tempo era alto demais e ele não queria. Não queria perder de forma alguma. Não valeria a pena ser o Bucky do começo do século novamente, porque naquele tempo ele não a encontraria lá. Por , por quem ele se transformou e por quem ele aprendia a amar cada dia mais, ele decidiu ficar. Decidiu que não importava o que tinha que carregar dentro de si, por , valeria a pena.
A segunda grande decisão da vida de Bucky, naquelas semanas, foi deixar Steve ir. Entendia o amigo. Entendia de verdade. E, talvez, em seu lugar, diante das condições concretas que ele tinha, da solidão e do desespero em se encaixar de volta em seu tempo, ele também teria feito o mesmo. Se aquela era a sua vontade e se aquilo o faria feliz, ele não o impediria de forma alguma.
havia voltado de viagem com seu pai no dia seguinte à conversa de Steve e Bucky e, em uma tentativa de fazer uma surpresa, no dia que ela chegou, Bucky preparou um jantar no apartamento que havia escolhido para si mesmo. Tinha assinado o contrato de aluguel naquela tarde, depois de conseguir autorização do banco para um empréstimo que, em realidade, era falso. Steve quem estava financiando. Em todos os anos que viveu desde que descongelou, Steve havia recebido uma bolsa mensal razoável do governo pelos serviços militares prestados à nação. Como Tony arcava com suas despesas e de boa parcela dos demais Vingadores, Steve havia conseguido guardar integralmente as bolsas e sabia que não mais precisaria daquele dinheiro.
Bucky demoraria a ser ou nunca seria reconhecido pelos serviços militares prestados, não depois de tudo que fez, e não conseguiria receber o mesmo benefício. Não era justo com ele, mas Steve achou justo dar-lhe o que tinha. Bucky não precisava saber, porque, caso soubesse, jamais aceitaria. Por isso, esperto e usando da boa influência e credibilidade que seu nome tinha, Steve comprou o apartamento do antigo proprietário, deixou no nome de Bucky e, ao banco, acordou uma documentação de empréstimo falsa para um aluguel que Bucky jamais pagaria.
Se pudesse deixar algo a seu amigo, antes de partir, gostaria de dar-lhe de volta toda a dignidade que, por anos, foi violentamente tirada dele.
Não haviam móveis no apartamento ainda e, por isso, e Bucky jantaram sentados no chão, sob uma toalha xadrez vermelha e branca, como se fizessem um piquenique no taco da sala. Entre as conversas animadas e baixas na baixa luz do ambiente, enquanto comiam, e Bucky puderam refazer planos de um futuro que foi interrompido anos atrás. Observando a chuva cair na rua lá fora pela janela, com taças cheias de um vinho cuja garrafa já acabava, Bucky a tirou para dançar ao som ameno de Formidable, de Stromae. Como se tivessem em uma festa feita só para os dois, eles conseguiram o tempo a sós que ainda não tinham tido, na correria de solucionar um caos que eles já imploravam não viver mais. Vez ou outra, brincando com Alpine que, finalmente, reencontrou seu dono, o casal se reconectou mais uma vez, como se pudessem começar de novo, como se fosse o tempo para que se apaixonassem uma vez mais. Bucky parecia absoluta e verdadeiramente feliz, completo, inteiro.
se sentia viva outra vez. Como se a vida lhe tivesse devolvido as cores e o coração, que um dia ela perdeu.
Eles transaram pela primeira vez, desde que Bucky voltou, naquela noite. Em uma calmaria absurda, em uma urgência tão controlada que durou horas, com o barulho da chuva lá foram abafando os sons que ecoavam dentro do apartamento. Se aproveitaram, se sentiram, se tocaram, se beijaram. Tudo com tanto cuidado e com tanta paixão que nenhum deles queria que acabasse, nunca mais. se sentiu realizada, grata e segura em tê-lo outra vez. E Bucky se sentiu apaixonadamente confiante em saber que, apesar de tudo, era ele quem ela escolheu ficar no final das contas. O bastante para que ele sentisse a certeza de que estava escolhendo certo, de que ficar naquele tempo, naquela história, era a melhor das opções para ele. E, assim, Bucky foi tomado, naquela noite, por uma vontade extrema de deixar o passado no passado e de seguir adiante, sem amarras, com ao seu lado.
Uma noite perfeita como nenhuma outra. Um tempo que parecia se amenizar, finalmente, que parecia colocar cada coisinha de volta em seu lugar.
Mas, como tudo na vida parecia tender a um equilíbrio, o momento em que a felicidade pôde voltar a reinar foi ligeiramente interrompido por uma ligação de Steve na manhã seguinte, pedindo que , Bucky e Sam se juntassem a ele e Bruce na casa de Stark. Ainda tinham uma parte da missão a ser concluída e Steve, apesar de não querer criar alardes, precisava de ajuda e queria terminar de uma vez por todas com aquilo. Deu o tempo que Banner pediu para ajustar todo o maquinário necessário e, tão logo estava pronto, convocou as pessoas que genuinamente queria que estivessem por perto dele naquele momento.
Bucky sabia o que aquilo significa, em realidade. Mas respeitou o momento e o pedido de Steve, a decisão de não contar para mais ninguém o que iria fazer até que estivesse, definitivamente, feito. Steve conhecia Sam e conhecia . Sabia que resistiriam à ideia de perdê-lo, que não aceitariam a decisão dele com tanto carinho e compreensão como Bucky o fez. Se já estivesse feito, contudo, seria mais fácil para eles dois digerirem e mais simples de lidarem. Por isso, Steve ligou para Bucky naquela manhã e logo depois de acordarem, ele e pegaram um café pelo caminho e foram em encontro aos demais.
— Chamei vocês aqui porque precisamos terminar o que começamos — sem demoras, Steve comentou, assim que cumprimentou e Bucky, vendo-os fazer o mesmo com Sam e Bruce, que já estavam por lá. Bruce tinha o braço do estalo enfaixado ainda, demoraria muito para se recuperar. — Não é seguro manter as Joias conosco.
— Como vamos fazer isso? — Sam perguntou, pensativo.
— É um túnel quântico? — perguntou para Banner, olhando a plataforma bem menor do que a última, construída no quintal do terreno de Tony, afastada da casa por segurança.
— Sim, uma versão menor e, espero, mais ágil — Bruce respondeu, dando de ombros.
— Legal, aí vamos nós — ela sorriu, animada, trocando um olhar empolgado com Banner, que riu baixo. Aparentemente, tinha alguém ali que tinha gostado de voltar no tempo. — Certo, temos que nos trocar antes — , então, olhou para Bucky e Sam, que concordou com a cabeça. Steve já estava com seu traje de Capitão América, mas os demais estavam em seus jeans e jaquetas, totalmente desconfortáveis para uma missão. Steve, contudo, logo negou, antes que eles pudessem pensar em fazer qualquer coisa.
— Não precisam se trocar, eu vou sozinho — Steve suspirou, sua voz transparecendo uma certeza estranha.
— Está ficando louco, Steve? — exasperou-se. — Você sabe muito bem o que tivemos que fazer para consegui-las, não vai conseguir devolvê-las sozinho.
— Vou conseguir, já passamos por isso uma vez, vai ser mais simples agora — ele insistiu.
— Você não acha que está seguro demais? — ela rebateu.
— Ela tem razão — foi a vez de Sam comentar, intrigado. — Não parece fácil demais?
— Parece — Bucky sussurrou, preocupado, alguns passos dali, mais afastado deles. Apesar de já saber exatamente o porquê de estarem ali, ainda sim estava achando perigoso Steve devolver as Joias sozinho.
— E é fácil — Steve sorriu, confiante. — Todo mundo quer alguma das Joias em algum momento da história, em algum lugar do Universo, e não somos nós que estamos roubando dessa vez. Consegui-las foi um problema. Devolvê-las, não.

Havia uma racionalidade no que ele dizia e os outros três precisavam concordar. Sam e Bucky pareciam confiantes em estar ali, mas confusos com aquela conversa, afinal, não entendiam plenamente o funcionamento do túnel quântico e não viveram o momento das discussões de como a operação de voltar ao tempo funcionava e o que era, ou não, possível de ser feito. , por sua vez, pensou por um instante. Steve era esperto e forte e Bruce era inteligente o suficiente para manipular a máquina a favor deles. Fazia sentido, se fossem mesmo naqueles moldes. Ele já conhecia os lugares, tinham estudado os cenários e poderia simplesmente colocar cada uma de volta em seu lugar e ir embora. Deixar o curso da história correr livre e normalmente, como tinha que ser.
— Tem certeza disso? — olhou Steve, apreensiva.
— Tenho.
— E o que nós viemos fazer aqui, então? — Sam gesticulou, impaciente. — Eu estava afim de participar dessa vez.
— Se alguma coisa der errada, vocês entram — Steve respondeu, simplesmente, vendo concordar com a cabeça, de braços cruzados.
— Lembra, hein — Banner abriu a maleta que estava em cima da mesa de comandos, revelando as seis Joias colocadas nela. — Você tem que devolver as Joias no momento exato em que pegamos ou vai abrir um monte de realidades alternativas doidas.
— Fica tranquilo, Bruce — Steve fechou a maleta e a travou. Parecia calmo e seguro até demais. — Sem ramificações.
— Olha, eu tentei — Banner abaixou seu olhar e sua voz. — Quando estive com elas, as Joias, eu tentei fazê-la voltar.

abaixou seu olhar também, sentindo tudo parar ao seu redor por um instante e uma fisgada no coração em ouvir aquilo. Bruce tinha levado duas semanas para finalizar o túnel quântico não porque estava tendo dificuldades em fazê-lo sozinho ou porque precisava de mais tempo para pensar em uma forma mais ágil ou seja lá o que fosse. Ele levou todo aquele tempo porque estava esgotando, incansavelmente, todas as possiblidades de trazer Natasha de volta, de revê-la. se lembrava de como ele ficou quando ela não voltou, ela se lembrava de como foi. Natasha fazia falta para ele, talvez mais do que fazia para qualquer outro. Bruce a queria ter de volta, mas não encontrou recursos ou possibilidades de negociar com o tempo. Já era tarde demais.

— Ela faz falta — Bruce sussurrou, chateado em ter fracassado.
— Muita — concordou baixo, recebendo um aperto amigável no ombro, de Sam. Bucky tinha seus olhos no chão, sem saber exatamente o que dizer. Não se lembrava de ter contatos com ela, exceto nas vezes que lutaram um contra o outro. Diferente de Stark, Natasha parecia querer dá-lo uma nova chance, parecia querer deixar o passado para trás, mas não tiveram tempo. Pelo que sabia dela, pelo que tinha ouvido de Steve e de sobre ela, talvez, pudessem ter sido bons amigos.
— Eu sei — Steve concordou, olhando dela para Bruce. — Só estamos aqui por ela e, por isso, devemos seguir. — Ele, então, virou-se para e abriu levemente os braços.
— O que é isso? — ela perguntou, franzindo a testa.
— Um abraço — Steve respondeu, com obviedade.
— Um abraço? — confusa, ela rebateu, o encarando.
— Qual é o problema de um abraço?
— Do nada assim? — ela riu levemente. — Parece estranho, Steve. Você está bem?
— Só quero um abraço para poder sair em missão, é pedir demais? — Steve respondeu, chacoalhando os braços levemente.

De fato, não era a pessoa mais carinhosa do mundo e sempre desconfiava de qualquer manifestação de carinho dele. Ela o encarou por um novo segundo, mas logo se rendeu, dando alguns passos em sua direção e o abraçando com força. Talvez, ele só estivesse com medo. Com medo de ir sozinho dessa vez, com medo de que algo acontecesse com ele, de não voltar. Com medo de não poder se despedir como Natasha não pôde, como Tony não pôde. Não havia mais margens para o tempo, não havia mais motivos para deixar o que se queria fazer e demonstrar para outro momento. Se tinham aprendido algo com Thanos, com os cinco anos mais avassaladores de todos, com a viagem no tempo, era que não havia mais nada senão o agora.
O tangível, o preenchível, o fator a ser vivido e o amor a ser dado, tudo sempre foi e sempre seria o agora. Tudo que tinham era agora e eles não podiam mais viver por outra coisa senão por isso. o abraçou com força, com vontade, sendo retribuída da mesma forma. Não sabia o que seria de Steve, não sabia mais o que poderia esperar de viagens no tempo e se o fosse perder também que, ao mesmo, pudesse se despedir dele.

— Por que parece que estamos nos despedindo? — afastou-se levemente dele, o encarando nos olhos. Steve sorriu, sincero.
— Uma das coisas mais sábias que aprendi é que não podemos deixar de amar quem amamos quando queremos amar. — sorriu para ele, não era comum ouvir Steve falar abertamente sobre seus sentimentos.
— Não podemos contar com o benefício do tempo, não é? — ela riu, serena, lembrando-se de ter aprendido aquilo com ele, no tempo que passaram juntos em Wakanda. Sorridente, Steve segurou a mão dela.
— Você foi uma das melhores coisas que me aconteceram em todos esses anos de vida, . Você é o meu lado mais humano, mais carinhoso, a minha parte mais amorosa. — Presos nos dele, ela sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, mas sorriu, apertando sua mão, o ouvindo continuar: — Você foi o motivo pelo qual cheguei até aqui como cheguei e devo muito a vocês. Não quero que se esqueça disso, de jeito algum.
— Nunca me esquecerei — ela sorriu mais abertamente. De onde estava, Bucky sentiu uma vontade enorme de chorar, assistindo se despedir dele sem sequer se dar conta disso. Eram bons amigos, como ele e Steve eram, não seria fácil para ela, não estava sendo fácil para Steve, ele sabia. — Jamais me esquecerei de nada do que vivemos, de nada do que você foi para mim e para esse mundo. Eu agradeço pelo tempo que vivi com você, Steve — ainda o olhava, sorrindo. — Onde eu for, você sempre vai estar comigo — ela engoliu as lágrimas, o vendo sorrir de volta para ela, carinhoso —, porque você é e sempre será o meu irmão.
— Nesse caso — Sam quebrou totalmente o momento, disfarçando a emoção de ter visto aquilo tudo —, o que aconteceu em 1970 foi um incesto?
— Você contou a ele? — praticamente gritou, vendo Bucky rir leve enquanto Steve dava de ombros e começava a caminhar para perto da plataforma, onde Bucky estava, com Sam ao seu lado.
— Eu sempre conto tudo para ele, você sabe.
— Eu te disse para não contar — protestou, bufando risonha. — Agora eu vou ter que aguentar isso pelo resto da vida.
— Tive uma ideia: e se você levasse ela com você e a deixasse para sempre em outra época? — Sam fingiu sussurrar para Steve. — Eu não ia achar ruim.

O olhando incrédula, de costas para ela, fez um movimento rápido com a mão, fazendo a terra abaixo de Sam fazer uma onda rápida, o desestabilizando e derrubando-o no chão, sentado. Steve, Bruce e Bucky riram baixo enquanto Sam se levantava, fuzilando com os olhos, que o encarava de braços cruzados, sorrindo com certo poder.
— Exibida.
— Insuportável — ela rebateu, mas logo foi ignorada por ele, que voltou a caminhar ao lado de Steve. manteve-se próxima a Banner, um tanto ansiosa.
— Se você quiser, eu posso ir com você — Sam comentou, novamente sério.
— Você é um bom homem, Sam — Steve parou por um instante, sorrindo para o amigo. — Só que é comigo agora.

Sam não respondeu nada. Conhecia Steve o suficiente para saber que, quando ele colocava algo em sua cabeça, não tirava jamais. Tinha um plano e o seguiria até o fim. Estava determinado a ir sozinho e, embora soubesse que tinha pessoas com quem poderia contar, ele não aceitaria colocá-los em risco novamente. Ficariam como cartas na manga, caso algo realmente acontecesse, saíssem de seu controle. Steve seguiu caminhando até onde Bucky estava e deixou a maleta com as Joias no chão, por um segundo, enquanto encarava o amigo, até dizer:
— Não faça nada estúpido até eu voltar — ele brincou. Os olhos apáticos de Bucky não passaram despercebidos por , que não entendeu o teor do momento, mas se apegou na mesma ideia de que Steve estava só se despedindo por precaução, por medo do que poderia acontecer.
— Eu não ia conseguir — Bucky riu fraco, negando com a cabeça e olhando o amigo. — Está levando toda a estupidez com você.
Sem mais esperar, os dois se abraçaram com força e não se demoraram muito, logo se soltaram, se encarando por um novo minuto, até Bucky dizer, sincero:
— Vou sentir sua falta.

trocou um olhar rápido com Sam, sem entender exatamente aquela fala. Tudo estava estranho, uma sensação esquisita de que Steve estava definitivamente indo para não voltar, como se ele soubesse de algo que não queria falar para ela e Sam. , contudo, não cogitou nenhuma possibilidade. Se Bucky soubesse de algo, ele certamente a teria dito. E eles estavam ali, afinal. Estavam de cobertura, em hipótese alguma perderiam Steve.

— Vai ficar tudo bem, Buck — Capitão respondeu, sereno, e, com o sorriso do amigo em resposta, subiu na plataforma.

Não demorou cinco minutos para que Steve se colocasse em posição, acionando o traje de viagem no tempo, que se abriu rapidamente sobre o corpo dele. Em pé na marca em que deveria entrar, ele segurava a maleta das Joias na mão esquerda e empunhou o Mjolnir, que Thor havia deixado de presente para ele, ao se despedir depois do velório de Tony, na mão direita. Do mesmo jeito que se sentiu quando subiu na plataforma a primeira vez, Steve estava ansioso, mas não quis transparecer. Tinha que se mostrar certo e confiante, tinha que ir e fazer o que precisava fazer, sem preocupar as pessoas que mais amava e que ali ficariam. Ele, então, deu uma última olhada em seus amigos ao redor, o encarando um tanto preocupados, mas confiantes, com sorrisos fracos.

— E quanto tempo isso vai durar? — curioso, Sam desviou seu olhar até Bruce.
— Para ele, o tempo que precisar — ele respondeu, apertando alguns comandos no painel de controle. — Para nós, cinco segundos.
O barulho da plataforma sendo acionada já podia ser ouvido e Steve virou-se, enfim, de frente para os outros três.
— Está pronto, Capitão? — Bruce perguntou uma última vez, vendo Steve assentir seguro. — A gente te espera aqui, ‘tá?
— Está bem — Steve concordou mais uma vez, fechando seu capacete.
— Certo... Então, ficando quântico em três, dois, um. — Bruce, então, apertou o botão central do comando, fazendo com que Steve desaparecesse da frente deles, sem mais tempo de dizer nada. Do mesmo modo, , Sam ou Bucky não tiveram tempo de reagir, porque, no instante seguinte, Banner já dizia: — E voltando em cinco, quatro, três… — tinha os braços cruzados enquanto Sam e Bucky mantinham suas mãos nos bolsos de suas jaquetas. Os olhares sérios, concentrados, estavam em cima da plataforma, esperando ansiosos pelo retorno de Steve. Sem erros, sem mais despedidas, só Steve — dois, um.

Mas Steve não voltou.
A plataforma manteve-se vazia, como se nunca alguém tivesse sequer subido nela. Bruce apertava rapidamente alguns botões em sua frente, no painel de controle, tentando entender o que poderia ter dado errado, mas nada acontecia. Simplesmente nada. E bastou apenas alguns segundos em silêncio, com seus corações batendo acelerados e suas mentes começando a pensar nos piores cenários possíveis, para que eles entendessem, de fato, que Steve havia se despedido porque, talvez, soubesse que já não mais iria voltar.
Ele não tinha voltado.

— Onde ele está? — Sam perguntou, encarando Banner.
— Bruce? — o chamou, assustada, aproximando-se dele para olhar o painel de controle. — Vamos entrar agora? Cadê Steve?
— Não sei, ele passou direto pela marca de tempo — Banner explicou desesperado. — Devia estar aqui.
De onde estava, Bucky sorriu sozinho, triste, e virou-se de costas silenciosamente para onde os demais começaram uma discussão fervorosa.
— Como assim “passou direto”? — exasperou-se.
— Traz ele de volta — Sam pediu, olhando do cientista para a máquina.
— Estou tentando — Banner respondeu alto, concentrado.
— Traz ele de volta agora — mais áspero e alto do que antes, Sam pediu novamente.
— Eu disse que estou tentando — Bruce o encarou impaciente. Estava realmente fazendo tudo o que era possível, mas não estava obtendo resultado algum. De onde estava, contudo, apertando os olhos ligeiramente para ter certeza de que via aquilo, Bucky os chamou sem alardes:
— Sam? ?

Os dois o olharam curiosos, atônitos e confusos, enquanto caminharam até perto dele. Bruce, enfim, parou o que tentava fazer e, sério, com a testa franzida, encarou o mesmo sentido que os demais iam. De todas as improbabilidades de toda aquela missão, estavam presenciando a maior delas.
Se tivesse que descrever aquele momento, ela certamente não conseguiria. Foi das sensações de desespero e angústia em não ver Steve de volta na plataforma para uma confusão absurda em ver o que acontecia. Sentia seu coração se acalmar, não mais batendo acelerado como segundos antes e sua mente dava voltas, entre lembranças que tinha com Steve até o momento. Mas não demorou a ela mais do que poucos instantes até, finalmente, tudo começar a se clarear, a fazer algum sentido. Steve estava sentado, de costas para eles, alguns metros de distância de onde estavam, em um banco de madeira próximo ao lago, observando o horizonte. Parecia calmo e atencioso ao seu redor. Fraco, debilitado. Não era mais o Steve que havia conhecido. Tinha envelhecido em cinco segundos.
Mas ela sabia que ele tinha vivido outra vida, que em cinco segundos tudo foi diferente.
Com lágrimas nos olhos, assistiu Bucky e Sam caminharem para mais perto dele e, assim que se aproximaram o suficiente, Bucky fez um sinal com a cabeça para que Sam seguisse em frente. Sam se aproximou de Steve com cuidado, curioso e tão confuso quanto ela estava. Ela não conseguia entender o motivo pelo qual Steve havia tomado aquela decisão, não conseguia entender o porquê de ele não ter contado a ela. Talvez, porque soubesse que ela o teria impedido ou que ela ficaria chateada, magoada. Talvez, porque ele já tivesse antecipado tudo aquilo que ela estava sentindo, a sensação estranha de ter pedido mais uma pessoa em sua vida, mas de ainda tê-la por perto. Por isso ele havia se despedido dela. De Sam. De Bucky.
Não porque tinha medo de não voltar mais. Steve se despediu porque já sabia que aquele Steve não voltaria nunca mais.
ficou parada onde estava, sem conseguir absorver o que exatamente acontecia ali, imersa em tantos pensamentos e sentimentos. Steve tinha sido tão egoísta que ela sentia que poderia esmurrá-lo, independentemente de ter fisicamente cem ou duzentos anos, agora. Ele havia deixado Bucky para trás, havia deixado ela, Sam, os Vingadores, toda a ideia que ele carregava, tudo o que ele significava para o mundo inteiro. Havia trocado seus ideais e seus propósitos de uma vida inteira por algo que correu outros rumos sem ele, que sobreviveu de outras formas. Se enfiou em uma história que já tinha começo, meio e fim sem ele. O que Steve tinha feito, afinal?
A resposta, contudo, brotou em como uma flor, assim que os olhos de Bucky voltaram-se rapidamente para ela e uma memória em especial correu sua mente como uma estrela.

“Dancem. Dancem por vocês e dancem por mim, que nunca tive a chance.
Estou feliz que tenham se encontrado, feliz de verdade, e vou embora hoje com a certeza de que, enquanto estiverem juntos, tudo ficará bem.”


O trecho da carta que Steve havia deixado para ela, quando foi embora de Wakanda sete anos atrás, resumia, talvez, um pensamento, um sentimento, que quase uma década depois ele ainda carregava em seu peito. Steve tinha feito tudo aquilo por nunca ter tido a oportunidade de ter o que Bucky havia conseguido. Era clara a parte que lhe faltava, sempre foi. Steve nunca tinha superado seu amor por Peggy e continuou lutando por ele. Essa era a luta de sua vida. E o que mais poderia mover um homem ao passado, a abandonar tudo o que construiu e o que fez, a abrir mão de todo seu presente, senão o amor? Steve era um homem que teve tudo, mas buscou pelo amor até seu último momento.
Tudo, então, faz sentido para , no final das contas. As reações dele quando foi buscá-la na floricultura, ter passado todo aquele tempo com ela a visitando na Alemanha, tê-la enviado para ver seus pais no teste, ter feito questão de que ela fosse na mesma equipe que ele durante a viagem ao tempo, o lenço que colocou em seu pescoço, o beijinho, a companhia, a última luta que se levantaram lado a lado. Steve estava criando memórias com ela, porque ele já sabia que faria aquilo desde o momento em que Scott apareceu com uma ideia de voltar ao tempo. Ele deu à a sensação de uma vida vivida com ele, ao tempo em que ele mesmo vivia o que queria com ela. Um presente e uma enxurrada de lembranças que ambos guardariam em seus corações até seus últimos dias naquele mundo.
Apesar de ter consciência do que acontecia e de entender os reais motivos dele, o que mais dava raiva em era a sensação de não saber o que ela faria dali em diante, o que Bucky e Sam fariam dali em diante, sem ter Steve.
Sam conversava com ele, enquanto ela caminhou para mais perto de Bucky, que a olhava. Pela reação dele, ela tinha certeza de que já sabia daquele plano desde o começo, mas o guardou para si como um segredo que Steve pediu para que guardasse. Tinham tido alguns encontros, alguns momentos em que estavam só os dois como os bons e velhos amigos do Brooklyn e certamente tinham conversado, e muito, sobre aquilo. Podia imaginar como Bucky estava se sentindo e, de certa forma, compartilhava das sensações com ele.
apoiou seu queixo no ombro de Bucky assim que chegou perto dele, o abraçando por trás enquanto assistiam Sam empunhar o escudo do Capitão América, depois de confirmar pelos olhos com Bucky se devia mesmo fazer aquilo. sorriu para Sam enquanto Bucky assentia, sorridente, silencioso. Sabia que Sam era a melhor das opções para continuar com o legado de Steve, para terminar de contar a história do Capitão América. Era um homem íntegro, responsável, disciplinado e muito honrado. Alguém que tinha um histórico de vida correto, que sempre tinha lutado pelo bem e pela humanidade. Alguém incorrompível, leal, o braço direito de Steve quando ele não tinha mais ninguém.
Tinha que ser Sam. Por motivos infinitos que e Bucky poderiam passar horas pontuando, era Sam Wilson quem deveria segurar o escudo e se responsabilizar pela América. E seria ele dali em diante. A beleza daquele momento foi indescritível, mas não durou muito mais. Sam já não tinha muito o que falar e Steve estava decidido a não contar nada sobre seu casamento e a vida comum que teve com Peggy, em um novo livro que escreveu, sem batalhas, sem vilões, sem missões, sem solidão. Preferia guardar para si mesmo todas as lembranças novas que criou. Sam, então, virou-se, enfim, para e gesticulou para que ela e Bucky se aproximassem de Steve.

— Pode ir — Bucky comentou baixo, sorrindo confiante. — Acho que eu e ele já falamos muito nessas semanas — ele assumiu, sincero.
— Tem certeza? — incerta, ela o olhou cheia de expectativas.
— Agora ele precisa saber de você que está tudo bem — Bucky a encorajou. — Falo com ele depois.

caminhou a passos lentos e calmos em frente, aproximando-se do senhor Steve, que permanecia sentado no banco, observando a paisagem. Sam deu alguns passos mais atrás, para deixá-la mais a vontade e deu-lhe a mão rapidamente, assim que passou por ela. Muitas coisas diferentes se passavam pela mente e pelo coração de naquele momento. Tantas as lembranças que tinha com Steve, como se encontraram em Lagos a primeira vez, como se protegeram e lutaram juntos. As memórias dele em seu apartamento em Berlim, lutando junto com ela na Sibéria, a levando de volta para Wakanda. A carta que lhe deixou junto com as margaridas que ela ainda mantinha vivas em sua loja.
O tempo em que se comunicavam via holograma, em que Steve estava foragido, escondido e correndo feito um nômade. O dia em que se reencontraram na Escócia. A luta em Wakanda. A perda. O fracasso. A dor. Como ele absorveu tudo aquilo dela feito uma esponjinha, como se seu coração pudesse aguentar o que o de não conseguia. O dia em que a buscou na porta do apartamento de seus pais, quando a levou de volta para França e as primeiras semanas em que viveu com ela em Berlim, até que tudo ficasse minimamente mais ameno. As semanas, então, quando ele passava visitando-a. O dia que a buscou de volta na floricultura. O dia em que foi o começo daquele fim.
Cada palavra que ele disse a ela naquela tarde, como na tarde em que foram ao bar juntos em Wakanda, pela primeira vez. A confiança, o medo, a busca por uma segurança que ela não sabia que poderia dar a ele.
se lembrava de tudo.
De cada risada, de cada lágrima, de cada dia em que tudo que tinham era um ao outro. Se lembrava dos abraços, das brincadeiras, das provocações, das horas que passavam refletindo sobre a vida e seus propósitos, das confissões. Dos segredos que contavam, da intimidade de uma família que construíram sem se dar conta disso. E, parando de frente para onde ele estava sentado, assim que Steve olhou a mulher sorrir leve para ele, teve a certeza absoluta de que ele também se lembrava de tudo.
Steve sempre se lembraria dela.
E, sete anos depois, como escreveu na carta que entregou à , ele sabia que os dias em que passaram juntos nunca morreriam. Tudo ficaria bem.
Steve manteve-se em silêncio, observando a amiga enxugar as lágrimas que escorriam teimosas. Os olhos dela pareciam serenos e não precisava dizer uma só palavra para que ele entendesse exatamente o que ela sentia. Estava feliz por ele, feliz em observá-lo, em ver como estava vestido, em como parecia saudável, confortável e afetuoso. Estava feliz em vê-lo usar uma aliança de casado, plenamente realizada em descobrir que seu amigo tinha tido o que merecia ter, o que mais queria ter em sua vida. Mas parecia vulnerável. Não pelas lágrimas ou por sequer dizer uma palavra, mas pelos olhos que perguntavam a Steve o que os olhos de Bucky perguntaram no dia em que ele lhe contou sua ideia, o que os olhos de Sam perguntaram há pouco: o que fariam dali em diante, sem ele?
Com certa dificuldade para se levantar, Steve colocou-se em pé lentamente, apoiando-se no próprio banco. Preocupada, cuidadosa, aproximou-se dele rapidamente, parando em sua frente, mas Steve pareceu bem. Em pé, sem dizer nada, ele tirou um pequeno pedaço de tecido do bolso direito de sua calça e, então, virou-se novamente para . Alguns passos dali, Sam e Bucky assistiam atentos, curiosos, ao que acontecia. Com as mãos trêmulas, Steve ajeitou o pequeno pedaço de tecido de cetim, amarelo e laranja e olhou nos olhos, a um passo de distância em sua frente.
só então notou que o tecido era o exato mesmo lenço que ele havia colocado no pescoço dela, com intuito de esconder os machucados que tinha, quando voltaram no tempo, na base militar de Nova Jersey, em 1970. Sem conter as lágrimas e sem segurar o sorriso ameno, o observou colocar o lenço carinhosa e cuidadosamente em seu pescoço, dando um pequeno nó lateral nele, como o fez daquela vez. Ele, então, sorriu para ela.

Onde eu for, você sempre vai estar comigo — Steve repetiu baixo a frase que ela havia dito a ele há pouco, antes de devolver as Joias, e, ajeitando o lenço nela, ele completou: —, porque, por onde você estiver, , não importa onde ou quando seja, eu sempre vou estar com você.

Em cada um dos três, Steve havia deixado legados diferentes. A amizade, os recomeços, a história de uma vida inteira e as chances de um futuro em Bucky. A força, a esperança, a persistência e as memórias do passado em . A justiça, a lealdade, a liderança e o presente em Sam. Steve quis que justamente eles três estivessem ali, naquele exato momento, porque dali em diante eram eles que carregariam o seu legado. As partes mais bonitas e extraordinárias de uma história que ele não mais continuaria a contar.

— Obrigada, Capitão — agradeceu do mesmo modo que o fez em 1970 e, o abraçando delicadamente, sendo retribuída por um Steve sorridente, ela completou em um sussurro: — Obrigada por tudo, Steve.

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Bucky não demorou muito tempo conversando com Steve e, exaustos pelas emoções do dia, logo se despediram do Capitão. A idade pesava nele como nunca antes tinham imaginado pesar e Steve precisava voltar para sua casa, para descansar. Com a nova adaptação da realidade, não mais tinha seu apartamento e, em seu lugar, vivia em uma casa grande e espaçosa no Brooklyn. Preocupado com as condições de saúde dele, Sam fez questão de levar Steve para casa. Estava de carro e provavelmente passaria o caminho inteiro fazendo interrogatórios, que iriam de visitas ao médico até se ele precisava de alguém que pudesse cozinhar e ajudá-lo na limpeza da casa, no seu dia a dia.
e Bucky se despediram de Steve com a sensação estranha de não saber se o veriam novamente. Pela idade que estava, qualquer segundo novo de vida era extraordinariamente milagroso e, por isso, estavam incertos sobre como deveriam agir ou se sentir diante daquilo. Sam mandaria notícias assim que chegasse à casa de Steve e os manteria informados sobre os detalhes da vida nova do homem – imaginavam que precisaria de um cuidador ou ficar em uma casa de repouso, de trocentos remédios, visitas regulares, adaptações na casa e tudo o mais que uma vida idosa poderia demandar. Sam investigaria tudo e retornaria em breve.
O casal seguiu de volta para o centro de Nova Iorque, no carro de e com ela dirigindo, mastigando internamente cada detalhe daquele dia. Tudo parecia tão certo e tão errado ao mesmo tempo, nenhum deles conseguia ordenar o que dizer ou como dizer o que estava sentindo. A música baixa que saia do rádio os acompanhou por mais da metade do caminho, até chegarem a poucos quilômetros da cidade.

— Me desculpe não ter te falado nada sobre... isso tudo — Bucky suspirou, olhando desviar sua atenção minimamente da rua para ele, concordando com a cabeça. — Steve me disse que estava maturando a ideia ainda e que não queria causar incertezas em você ou Sam. Achei melhor respeitar, quer dizer... — ele fez uma pausa, meio confuso — a decisão era dele, não podia interferir.
— Não precisa se desculpar, Buck — ela sorriu. Sua voz era carinhosa. — Eu imaginei que Steve não quisesse contar. Ele é determinado e teimoso demais para querer que a gente opine nos planos dele.
— Imagine agora que ele está, literalmente, velho — Bucky brincou, tirando uma risada leve dela. — Será que devemos avisar alguém sobre isso? — ele, então, perguntou, pensativo. Imaginava que, mais cedo ou mais tarde, aquilo viria à tona e que, inevitavelmente, sobraria para eles. — Quer dizer, uma hora vão se dar conta de que o Capitão América sumiu e que ele envelheceu, como vai ser?
— Não sei como vai ser, mas sei que Sam vai saber lidar com isso, agora que herdou o escudo — respondeu no mesmo tom de voz reflexivo — e vamos ajudá-lo, no que ele precisar.
Sam não pareceu totalmente confortável com a ideia de seguir o legado de Steve, mas Bucky achou melhor esperar para ver. De repente, tudo pudesse se resolver mais rápido e mais fácil do que eles estavam imaginando, não restava muito senão esperar e ver o que poderia acontecer.
— Vamos estar aqui, sim — ele concordou e desviou seu olhar pela janela do carro, por um momento, pensando em algo que não tinha dito à ainda. Sem saber se aquele era o momento ideal ou não, Bucky decidiu comentar: — Steve me ofereceu a possibilidade de voltar também, com ele.

manteve-se em silêncio por um novo momento. Aquela informação batendo nela como uma onda feroz, como se algo tivesse acabado de colidir em si mesma. Não tinha pensado naquela possibilidade, estava focada demais em Steve e se esqueceu, por um momento, que aquela também era uma chance, real, de consertar toda a vida de Bucky. Uma chance que ela não o poderia dar, uma alternativa de viver as partes boas que ele perdeu, de apagar as partes ruins e violentas que ele viveu. Steve havia dado a Bucky a chance de recuperar os anos perdidos e ele simplesmente não quis.

— E por que não aceitou? — o misto de curiosidade e confusão saiu da voz de enquanto ela prestava atenção no caminho em frente. Carinhoso, Bucky colocou sua mão delicadamente nos cabelos dela e respondendo aquela pergunta como se fosse óbvia, ele sussurrou, a olhando:
— Porque lá não teria você.

Bucky viu carinhosa e abertamente sorrir para ele enquanto ele seguia a encarando, passando a mão em seus cabelos. A felicidade genuína transbordando de seus olhos, a paixão carregada nas entrelinhas daquela frase. Apesar de não conseguir se expressar como gostaria, porque nunca tinha sido tão bom com palavras, Bucky esperava que ela soubesse o que aquilo realmente significava. era a real chance para ele. Era a alternativa que ele não mais encontraria em outro lugar ou tempo, representava uma possibilidade, talvez a melhor delas, que nenhuma outra alternativa em cem anos poderia representar. estava feliz em saber daquilo. Feliz em entender o peso de ser quem era para Bucky, de vê-lo escolher por ela, livre e espontâneo.
Outra parte dela, contudo, sentia-se incerta, sem saber se, de fato, aquela era a melhor escolha. Sabia que, àquela altura de sua vida, quando deixou sua casa para entrar no Exército, Bucky já não tinha muito ao que se apegar. A tirar por Steve, que mais tarde perderia também para a guerra, sua família já estava perdida e Bucky já era mais sozinho do que ele queria admitir na época. Voltar para lá, para aquele contexto, seria doloroso, triste em muitos sentidos e bastante solitário. Mas não seria violento da forma que foi, não seria brutal a ponto de perder sua mente e o controle de si mesmo, a ponto de ter seu braço arrancado e colocado um de metal no lugar. Nada poderia ser tão doloroso quanto a realidade em que ele vivia e se perguntou se, de fato, ele tinha feito mesmo a melhor das escolhas.
Mas ela não teve muito mais tempo para pensar naquilo. Não, porque já era tarde demais agora. Ele tinha feito uma escolha e, como ele respeitou a de Steve, ela também respeitaria a dele. Bucky estava aprendendo a escolher por si mesmo, aprendendo os prazeres e as mazelas de ter controle sobre si mesmo, sobre suas decisões, e lá estava ele: feliz e certo do que tinha escolhido. Era sua vida, afinal. não interferiria.

— Eu te amo, James — ela comentou baixo, deitando sua cabeça levemente no braço dele, mas logo voltou à posição normal, atenta à direção. Bucky aproveitou para dar-lhe um beijinho na cabeça enquanto sussurrava de volta:
— E é o que basta para me fazer querer ficar.

Ela chegou a abrir a boca para responder-lhe algo, mas não teve tempo. Encostando o carro no farol que se fechou logo em frente, o clima gostoso e tão amoroso foi cortado junto com sua fala, pelos sons irritantes e seguidos de notificações chegando em seu celular, enquanto a tela iluminava-se. Com vários bipes seguidos, parados no farol, destravou o aparelho no suporte no painel do carro e abriu o aplicativo de mensagens a tempo de ler a sequência desesperadora e urgente de um número qualquer, que ela ainda não tinha salvado em seu aparelho novo.


? Preciso que me retorne o mais rápido possível.
Reabriram todos os seus processos, seus pais foram intimados a depor hoje e podem ser presos em 72 horas.
Precisamos conversar urgentemente.
Me liga, vamos nos encontrar.

trocou um olhar confuso com Bucky, que também pôde ler a mensagem pelo painel do carro, mas não tiveram tempo de dizer nada. Pela rapidez em que as mensagens chegavam e pelo fato de sequer conseguirem identificar a origem, tudo pareceu estranho demais, um tanto mentiroso, como se fosse um trote. desviou seu olhar ligeiramente para o farol em frente, que sinalizou estar aberto, assim que ouviu alguns carros buzinarem atrás dela. No segundo seguinte, apertando suas mãos com força no volante enquanto sentia seu corpo tremer em ansiedade, antes de voltar a dirigir, novas mensagens chamaram sua atenção e, como uma bomba, a fizeram cair de fato em realidade:

Caso não tenha mais o meu número, aqui é o Matt.
Murdock.


Capítulo 39

Matt estava acostumado a se meter em coisas que pareciam muito além de sua compreensão. Desde a época em que era apenas um estudante de direito, tinha uma inclinação a pegar os trabalhos com os temas mais complexos, a acompanhar professores em resoluções de casos que pareciam insolucionáveis e a meter as caras em processos que ninguém, nunca, queria defender. Talvez por todas as dificuldades que enfrentou na vida, talvez por nunca ter ninguém que o tivesse defendido, desde criança ele tinha um senso aguçado, alto e explosivo demais, em querer defender todos aqueles que pareciam cercados pelas possibilidades da injustiça. Um senso que, com o tempo, foi saindo dos papéis e dos tribunais, foi ocupando as ruas e os segredos que ele carregava.
Como um artesão que juntava pequenas peças delicadas e que compunha obras gigantescas, Matt levava seu trabalho com tanta responsabilidade, com tanta atenção e com tanta dedicação, como se a própria vida dele estivesse em jogo. Comprava brigas que não eram dele, como se fossem. Era curioso, era audacioso e era destemido. Gostava da emoção de nunca saber como os processos terminariam, gostava da ousadia de poder usar as entrelinhas para entender os casos e, mais do que isso, gostava da sensação de sair vitorioso. Custasse o que fosse, ele tinha que vencer. O que fazia dele um bom advogado, talvez. O que fazia dele a melhor das opções para , certamente.
Depois do Tratado de Sokovia e da não assinatura por parte de uma parcela significativa do que os governos equivocadamente chamavam, na época, de Vingadores — toda e qualquer pessoa dotada de habilidades especiais e/ou inumanas —, o mundo havia passado a olhar para aquelas pessoas com novos olhos. O que antes já dividia opiniões, sobre ser certa ou errada a existência, a atuação de pessoas como eles, a partir de Sokovia, passou a ser debatida fervorosa e publicamente, a ter redes de apoio e manifestações contrárias, a envolver outras esferas que extrapolavam as atuações da finada SHIELD e que já não podiam mais ser justificadas pela guerra com a, igualmente morta, Hydra.
não tinha assinado o Tratado de Sokovia. E, mais do que isso, tornou-se uma figura pública na exata mesma época. O mundo explodiu junto com o prédio de Lagos e estava no centro de um caos e da atenção que ela jamais imaginou um dia viver. Uma pessoa com um dos maiores poderes do mundo, o poder de controlar a natureza botânica, tinha acabado de surgir do nada e ninguém sequer sabia de sua existência até então. Entre questionamentos sobre sua vida pessoal, sobre o porquê de nunca ter se juntado aos Vingadores, sobre sua origem e sobre seu paradeiro, se tornou um dos assuntos mais comentados do momento e seguiu assim por anos, pelo tempo que passou reclusa em Wakanda até Thanos ressurgir.
O mundo assistiu aparecer tão rápido quanto sumiu. E, nesse meio tempo, com o fervor do assunto dos acordos internacionais acontecendo, ela passou a ser uma figura duvidosa, amedrontadora, para uma boa parte da população mundial, sobretudo aquela que aceitava os termos dos governos sobre controlar pessoas como ela. Como podiam confiar em quem não conheciam? Como podiam aceitar a existência de alguém cujas origens, poderes e intenções não eram claros? E o que ela faria com todo o poder que tinha, afinal?
De fato, ela nunca se importou com isso. Mas, com o vazamento dos arquivos sobre ela e seu passado, propositalmente feito por Zemo depois da Sibéria, e com a confirmação de tudo aquilo dada de bandeja por Sharon, o cenário mudou. foi oficializada uma criminosa internacional e o apelo popular pela busca e prisão dela, Sam, Bucky, Steve e, mais tarde, Natasha, e de qualquer outro foragido, que se opusesse às normas e leis de Sokovia, se intensificou. Matt era um advogado particular e, como tal, precisava de clientes para sobreviver. Como nunca gostou de pegar casos convencionais e que ele julgava simples de resolver, sempre esteve atento às notícias de pessoas que, assim como ele, precisavam de maior atenção e de cuidado jurídico. Como se já esperasse por uma bomba explodir, Matt acompanhava as movimentações pelas notícias e por amigos próximos que trabalhavam para agências de segurança e para o governo.
sempre despertou seu interesse em particular. Não só por ser alguém incomum, mas por ter escondido aquilo por tantos anos, pela persistência em manter-se presa à sua própria história, em encontrar sua família, em lutar uma luta única. E pareceu ainda mais interessante depois que leu os arquivos vazados por Zemo. Uma história complexa, como as que ele gostava de defender, como a dele próprio. Alguém que sucumbiu à solidão e à violência por anos e, mesmo assim, lutou pelo amor que ainda conseguia sobreviver dentro de si. Matt se voluntariou para a defesa de , sem sequer ter se encontrado com ela. Pelo fascínio pelo caso, sim. Pelo sentimento de compartilhar parte da dor que ela carregava e pela chance de libertá-la de todo aquele caos, sem dúvidas.
Na época, estava sob a proteção de Wakanda e, impenetrável, o país não permitiu que ele fizesse qualquer tipo de contato ou de visita a ela. Todas as dezenas de intimações que ela recebeu iam direto para o endereço dela em Berlim e Matt foi fazendo sozinho o que ele achou certo a ser feito, com total empenho e dedicação, até conseguir contatar Karl. Nos dois anos que passou reclusa, fugindo das consequências do caos que criaram depois de Sokovia e por terem resgatado Bucky da guarda legal da CIA, não acompanhou o desenvolvimento de seus processos judiciais, mas tinha consciência de que eram muito mais graves do que os que Sam ou Steve carregavam. Karl estava cuidando do tema com a ajuda de um advogado e, para ela, nas condições em que vivia, estava tudo bem, era suficiente.
Não podiam entrar em Wakanda, afinal. Ninguém ousaria ir atrás dela ou de Bucky, não havia o que temer naquela época.
A estabilidade caótica, contudo, ganhou um novo capítulo quando Thanos desapareceu com cinquenta por cento da população. , e os demais que sobreviveram, passaram a ter seus processos arquivados, de um lado porque as autoridades competentes também perderam muitos dos seus no estalo e, de outro, porque o discurso sobre eles mudou consideravelmente. O mundo teve a maior das provas de que precisavam de pessoas como eles. Precisavam de pessoas que não tinham medo de enfrentar o que quer que fosse, precisavam de forças que conseguissem combater outras forças como as deles, que estivessem prontas para o que quer que fosse. E, mesmo sendo quem eram, fazendo as coisas que podiam fazer, ainda assim não conseguiram vencer daquela vez.
se tornou, a partir daí, alguém em quem o mundo podia, ao menos, minimamente confiar. Alguém que sempre esteve preocupada com a vida na Terra, que sempre esteve cuidando e protegendo a natureza, que deu sua vida para salvar a do resto da humanidade sem pensar duas vezes, sem ter medo de perder a sua própria. Alguém que esteve na guerra do lado certo da luta. E toda desconfiança e insegurança que podiam ter sobre ela começou a ser amenizada. Steve havia ido a público contar sobre o que aconteceu em Wakanda, durante a guerra, e o nome de aparecia heroica e orgulhosamente em sua fala.
A credibilidade que Steve passava sobre ela atingiu as pessoas mundo afora e cada vez que comparecia às audiências que foi intimada a ir, em Berlim, depois que recebeu seus processos e antes de serem arquivados, o mundo conhecia um pouco mais a fundo a verdade que ela tinha a contar. E, assim, aos poucos, etapa a etapa, foi se tornando mais um dos portos seguros que o mundo tinha e foi criando apego nas pessoas a ponto de receber visitas diárias de curiosos, apoiadores e fãs em sua floricultura; de receber homenagens em pontos turísticos de grande atenção; de ser parada na rua para tirar fotos ou conversar com adoradores. A ponto de ter bonecos dela, peças de roupas, um sorvete com seu nome e crianças usando fantasias parecidas com seu traje no Halloween.
O que havia de ruim em desapareceu com metade do universo e foi arquivado junto com seus processos. Contudo, uma vez mais, o mundo mudou. E com ele, mais um novo capítulo se iniciava.
Matt tinha recebido o contato de um assistente do governo para que comparecesse à uma reunião especial sobre o tema dos super-humanos, duas semanas depois que tudo voltou ao antigo normal. Com ele, outros advogados e representantes legais estavam confusos e um tanto ansiosos pelo o que viria a seguir. Desde que o Blip aconteceu e, com ele, a outra metade do planeta retornou, órgãos de segurança de diferentes países estavam reunindo esforços para endereçar aquele tema. Não era possível ignorar a presença de pessoas como e Sam, não era possível simplesmente conviver com pessoas como Bucky solto na sociedade como se nunca tivesse feito nada, não era possível permitir que pessoas como Thor, que nem a Terra pertencia, ali pertencer. Contudo, com medo de que ameaças como Thanos fossem recorrentes, não podiam, igualmente, enrijecer seus controles contra eles.
O mundo em que viviam na época do Tratado de Sokovia já não era mais o mesmo e tinham consciência da dívida que tinham com os Vingadores. Com Natasha Romanoff e Tony Stark mortos, os aparelhos de segurança se viram na obrigação de não mais discutir o Tratado de Sokovia em si, mas agora entender o que e como lidar com a presença necessária e incômoda daquelas pessoas. Sem opiniões públicas e sem veredictos populares, a reunião aconteceu a portas fechadas e reuniu centenas de nomes importantes. A nova resolução acordada pelos governos signatários de Sokovia era bastante mais simples à primeira vista, mas um tanto mais complexa em termos de execução.
Cada país deveria se posicionar sobre a super-pessoa de sua jurisdição, por nacionalidade ou por território, e escolher como proceder com a presença e atuação dela. Os processos de cada um deles seriam reabertos e reestudados, de modo que pudessem rever todos os pontos e atos infracionais. Considerariam, ainda, os trabalhos e os esforços feitos ao longo dos anos de atuação para o bem da humanidade e, sobretudo, as últimas lutas. Dessa forma, por justiça ou por comodismo, chegariam a um acordo consensual, diretamente com o super-humano, que fosse bom para ambas as partes. Matt achou a resolução razoável e seria relativamente fácil de resolver se não estivesse, talvez, com um dos casos mais complexos de todos eles.

— Matt?

A voz delicada e um tanto preocupada de cortou a atenção do homem, fazendo-o levantar sua cabeça em direção a ela. Ele estava sentado em uma das mesas mais ao canto da elegante cafeteria, onde parecia mais isolado e tranquilo. Estava sozinho, vestindo roupas sociais bem passadas e parecia ser tão jovem quanto , talvez alguns poucos anos mais velho do que ela. Tinha os cabelos escuros e era bastante bonito, um charme diferente, misterioso. Ele segurava alguns papéis que lia com os dedos, em braile, e bastou notar aquilo para Bucky perceber que ele era cego. Os óculos escuros que vestia, com lentes levemente avermelhadas, não pareciam incomum a Bucky à primeira vista e ele não havia reparado no apoio de caminhar deixado ao lado da cadeira onde estava sentado.

, que bom que conseguiu vir — ele se levantou rapidamente para cumprimentá-la. Bucky se perguntou por um momento como ela havia sido reconhecida por uma simples palavra e como Matt sabia exatamente onde ela estava. — Me desculpe pelas mensagens inesperadas.

Matt tinha adaptado o programa de acessibilidade, que convertia sua voz em mensagens de texto, para também bloquear os sinais de transmissão. Dessa forma, não podia ser rastreado e evitava os radares das autoridades sobre ele e de inimigos que havia feito pelo caminho. Por isso, sempre que possível, preferia fazer os contatos por mensagem de texto. Viver uma vida dupla era um desafio e tanto para Matt. Não podia misturar seu trabalho como advogado ao que fazia como o Demolidor. Tentava ao máximo deixar seus clientes de fora daquela parte tão conturbada de sua vida, mesmo que, às vezes, uma coisa esbarrasse na outra.
Ele confiava em . E sabia que ela, talvez mais do que ninguém, entenderia quem ele era e as coisas que fazia. Podia pedir a ajuda dela quando precisasse e podia, quem sabe, se juntar ao grupo de pessoas que eram como ele. Mas Matt preferia manter seu segredo guardado a sete chaves. Enquanto ainda pudesse esconder o Demolidor, esconderia. Não queria trazer mais problemas ou violências para outras pessoas, estava dando conta do que fazia sozinho, seguiria sozinho o quanto aguentasse.

— Sem problemas, sabe que pode me procurar sempre que precisar — sorriu, carinhosa, abraçando-o brevemente e, então, se virou para Bucky. — Matt, esse é o Bucky.
— É um prazer finalmente te conhecer, James — sorriu e estendeu a mão em direção a ele. , contudo, deixou seus olhos caírem sobre as mãos dele, reparando nos machucados abertos nas falanges próximas. Preocupada, ela olhou para Bucky, que levantava seu olhar da mão do homem até ela. Conheciam bem aquele tipo de machucado. O tipo que se abria conforme se socava algo ou alguém.
— Só Bucky, por favor — estranhando, Bucky o cumprimentou com um breve aperto de mão. — O prazer é meu. fez ótimas referências sobre você.
— Fico feliz em poder ajudá-la — Matt sorriu em direção à e apontou para as cadeiras ao redor. — Sentem-se, por favor.
— Você está bem, Matt? — perguntou, preocupada, sentando-se na cadeira que Bucky puxava para ela, de frente para Matt. — Suas mãos estão…
— Machucadas, eu sei — ele completou e sorriu, pensando rápido no que poderia justificar aquilo. — Estou bem, sempre estou com as mãos machucadas, você sabe… de me… me apoiar nos lugares, sou um pouco… desastrado — ele riu, tímido. — Caí ontem, fui tentar me segurar na parede, mas acabei me ralando mais ainda.
— Eu sinto muito — sorrindo, triste, para ele, comentou, engolindo a estranheza daquela história.
— Está tudo bem, obrigado pela preocupação — ele agradeceu, sincero, mas logo desviou o assunto. — Podemos falar sobre a parte chata do nosso encontro?
— Por favor — concordou. — O que está acontecendo?
— Bom, sendo bastante objetivo: abriram novamente todos os seus processos — o advogado comentou, calmo, parecia escolher as palavras para evitar ser duro ou causar ainda mais desespero nela. — Não só os seus, no caso, mas de todos os envolvidos na não-assinatura do Tratado de Sokovia, o que esbarra em você também, Bucky, além de Steve, Sam, Wanda e, bom… Natasha, apesar de não mais poder responder por eles.
— Isso é ridículo — resmungou.
— Por que… fizeram isso? — Bucky franziu a testa, sério. — Como isso aconteceu?

Se o clima já tinha drasticamente mudado no carro, quando receberam as mensagens de Matt, naquele momento, diante daquela informação, tudo pareceu desmoronar de uma vez. havia contado para ele tudo o que tinha acontecido com seus processos e parecia segura sobre o fato de terem sido arquivados. Estava prestando um serviço que pouquíssimas pessoas poderiam prestar e ainda assim tinham governos dispostos a acabar com aquilo? não deveria ser um alvo. Pelo contrário, deveria ser alguém com quem se lutasse ao lado, alguém a ser protegida e mantida em sigilo, uma carta na manga para os governos, não uma inimiga. Bucky se sentiu confuso por um momento. Mas, mais do que aquilo, se sentiu triste e um tanto angustiado em saber que começava, outra vez em sua vida, uma nova batalha a ser enfrentada.
Ao lado dele, parecia tão confusa quanto. Seus olhos estavam cravados em Matt como se esperasse que alguma notícia boa saísse dele. Estava preocupada e ansiosa, seus dedos batiam levemente sobre a mesa, como se pudessem aliviar o estresse daquele assunto. Temia pelo que aconteceria consigo mesma, temia por terem envolvido seus pais naquela história, mas temia, principalmente, por Bucky. Se tinham aberto os processos dele também, dificilmente chegariam em um consenso bom para Bucky. Não havia muita justificativa para tudo o que ele fez, por tantos anos, e ele sequer tinha um advogado. Ela realmente achou que teriam um tempo ameno agora, que poderiam arrumar as coisas em suas vidas e seguir em frente, recomeçar de onde pararam, ter a tão sonhada liberdade. Mas estavam fodendo com tudo outra vez. E aquilo não parecia que acabaria bem.
cogitou por um segundo a possibilidade de voltarem para Wakanda, de se esconderem outra vez, mas a voz de Matt contando o que tinha acontecido interrompeu seu breve e irracional devaneio.

— Em resumo, fizeram reuniões na semana passada com todos os representantes dos países signatários de Sokovia e com os representantes legais de vocês — Matt explicava calmamente. — Foi de comum entendimento que os termos do Tratado já são obsoletos e estão desalinhados com o que precisamos hoje, depois de tudo o que aconteceu — ele fez uma pausa breve para tomar um gole de sua água e, então, continuou —, mas entenderam, também, que não é possível seguir adiante sem a atuação de vocês. Por isso, a decisão final que chegaram foi a de que cada país que apresenta um super-humano em seu território o reivindique e traga a responsabilidade para si. Os processos de todos vocês estão sendo reabertos para serem estudados e endereçados, de forma que possam entrar em um acordo com o país.
— Certo, e o que meus pais têm a ver com isso tudo? — voltou a perguntar, intrigada.
— Falando em especial do seu caso, , a União Europeia, como bloco, reivindicou sua jurisdição — Matt virou-se levemente para ela. — Querem que você tenha liberdade de atuação nos países do bloco, porque veem você como uma cidadã e como uma importante aliada. Vão garantir sua segurança e liberdade pelos territórios e pelo tempo que esse novo acordo estiver vigente.
— Existe um tempo de vigência, então? — Bucky olhou, ansioso, de Matt à , tentando encaixar as peças do quebra-cabeça. Se havia um tempo de vigência, então havia um tempo em que não mais teriam que se submeter àquilo. Uma vez o acordo feito e o tempo passado, eles poderiam ser livres novamente. Basicamente, era como se cumprissem uma pena em um regime aberto.
— Sim, as novas tratativas estão pedindo até seis anos para que os processos sejam definitivamente resolvidos internamente aos países participantes, mas isso pode ser revisto de acordo com o tamanho do problema e com que tipo de acordo será feito entre as partes.
— E meus pais? — apesar de tudo fazer sentido para , ainda não tinha entendido porque estavam ameaçando seus pais. Matt não demorou a responder:
— A França e a Alemanha estão liderando seus processos no bloco e deliberaram pela anulação da maior parte das acusações que você carregava antes, decorrentes do vazamento de documentos feito pelo Zemo. Eles reviram seus depoimentos nos anos que passou em Berlim e viram sua cooperação com a justiça com bons olhos — o advogado falava sério e calmamente, mas havia uma ponta de felicidade em sua voz, quase como uma realização pessoal em estar envolvido naquele caos. — Estão considerando o fato de você ter ajudado a trazer a outra metade da humanidade de volta, mas alguns detalhes do processo todo ainda estão em aberto, esperando tratativas de nossa parte para que eles cheguem em um consenso e proponham o acordo.
— E quais detalhes seriam esses? — franzindo a testa, perguntou mais uma vez. Estava tudo parecendo fácil demais até ali.
— Seus pais são funcionários de agências de segurança internacional há muitos anos e infringiram dezenas de regras e leis para protegerem você — Matt comentou por alto, resumindo. — Eles não podem ser julgados pelos crimes que cometeram usando a possibilidade do acordo, porque não são super humanos. Karl é alemão, o que facilita muito as coisas no processo, tendo em vista que a Alemanha já manifestou a anulação da parte do processo que esbarra nele, mas Everett é americano e vai ter que pagar pelos crimes que cometeu seguindo as regras daqui.
— Eles vão ser julgados separados? — o tom ligeiramente angustiado na voz de chamou a atenção de Matt.
— Provavelmente — ele confirmou brevemente. — Se Everett for realmente preso, por exemplo, Karl não vai poder sequer visitá-lo.
— Por Bast sussurrou atordoada. Não podiam separar seus pais, em hipótese alguma. Não podiam prender Everett, não podiam fazer nada com eles. Seus pais, não. Tanta coisa já tinha acontecido com eles, já tinha ficado tanto tempo longe deles que agora mereciam viver em paz, sem mais com o que se preocupar. Aquilo tudo era um pesadelo, não podia estar realmente acontecendo.
— Mas, calma, porque isso por ser revisto — Matt voltou a falar, fazendo cortar seus pensamentos e olhar para ele —, se, em 72 horas, apresentarmos uma peça consistente o suficiente que comprove que, na verdade, a culpa toda foi sua.
— Não foi culpa dela — Bucky interferiu prontamente, preocupado.
— Sabemos disso, mas é a saída mais rápida e assertiva que temos no momento — o advogado explicou, virando-se levemente na direção do outro homem. — Se assumir a culpa, conseguimos negociar isso dentro do acordo dela e afastar seus pais do processo. Não sairão totalmente ilesos, mas, igualmente, não serão tão prejudicados como o cenário que temos hoje nos aponta.
— Isso não vai… prejudicar ainda mais? — Bucky voltou a perguntar.
— Não, porque temos as vantagens do acordo — o advogado rebateu. — Se tivermos a narrativa correta, alinhada ao que já foi dito por nas audiências e depoimentos anteriores, podemos puxar a culpa, tirar Karl e Everett do processo e usar os benefícios do acordo para negociar. não fez nada de errado. Estava lutando para sobreviver e para destruir uma organização criminosa. Karl e Everett foram metidos nisso tudo sem realmente querer e não devem pagar por proteger sua família, quando o Estado foi omisso em protegê-los — Matt virou-se, uma vez mais, em direção à . — Mais do que nunca, agora é a hora de contar toda a verdade sobre si mesma para o mundo, . Em detalhes. Se souberem, de fato, o que aconteceu com você, com sua família, eles saberão porque Karl e Everett se meteram nesse vespeiro e as partes vão se solidarizar com eles.
— Eu já contei a verdade a eles, o mundo já sabe quem eu sou e o que fiz — protestou, exausta. Passar por tudo aquilo de novo, reviver a própria história, era doloroso e angustiante, não queria ter que fazer aquilo.
— Mas vamos contar de novo e de novo e quantas vezes forem precisas, até firmar a ideia de que estamos falando a verdade — o advogado insistiu. Matt era amigável e muito delicado na maior parte do tempo. Mas, quando se tratava dos casos que pegava e que queria vencer, ele conseguia ser bastante incisivo e persuasivo. — Temos provas, temos consistência, vamos tirá-los dessa história.
— Como faremos isso? — ela respirou fundo.

Bucky se desligou por um segundo, enquanto Matt instruía a gravar um vídeo, sozinha, contando tudo o que aconteceu consigo mesma, sem poupar detalhes, até o dia de hoje. Aquilo tudo era injusto. , mais uma vez, assumiria a culpa por algo que ela não tinha feito. E lá estava ele, calado, omisso, sem saber o que deveria fazer, sem poder realmente ajudá-la. A verdade, para Bucky, era que ele nunca pôde realmente fazer algo por . Pelo contrário, dava a ela uma preocupação atrás da outra, desmedidamente, um problema seguido do outro para ser resolvido. A encarando prestar atenção no que Matt dizia, com os olhos carregados de preocupação e de cansaço, Bucky se perguntou o que a mantinha escolhendo ficar com ele, no final das contas.
E, não bastasse aquela questão, alguma coisa no fato de ter sido reivindicada pela Europa e não pelos Estados Unidos o incomodou. Não tinha ideia de como aquele processo todo aconteceria e nem de como os acordos correriam, mas já sabia que nada seria fácil para eles dali em diante. Esbarravam nos processos um do outro e Bucky sentiu um medo genuíno de não conseguir escapar daquilo. Sentiu medo de ser preso outra vez, como foi na base da Força-Tarefa em Berlim, sentiu medo de ser torturado de novo, sentenciado à morte ou algo do tipo. já tinha alguma garantia de que poderia se beneficiar de um acordo com os países que escolheram acolhê-la, mas ele não. Não tinha nem noção, naquele momento, do problema que viria a seguir.

— Tudo bem, eu vou tentar gravar o vídeo assim que chegar em casa e… — dizia para Matt, mas Bucky logo a cortou.
— A culpa foi… minha — sua voz saiu quase em um sussurro e Matt podia sentir que ele estava envergonhado em dizer aquilo em voz alta, depois de longos minutos em silêncio, refletindo. — Não posso deixar assumir a responsabilidade por ter sido protegida por seus pais, quando, na verdade, eles a estavam protegendo de… mim.
— Buck, não… — ela o olhou assustada, tentando dizer, mas, novamente, foi interrompida por ele:
— Não, , pense — ele respirou fundo, a encarando. — Você sabe o que eu sou e sabe o que eu fiz. Sabe que não estaria aqui hoje se não fosse por minha causa. Tudo isso é culpa… minha.
— Não, Buck, eu sei quem você é e sei o que aconteceu com você — o corrigiu, preocupada com o tom de voz levemente atormentado dele. — Todos sabemos que não foi culpa sua.

Ele respirou fundo, tentando controlar o que sentia. Aquele era um tema vencido para e ele sabia disso. Sabia o que ela pensava e sabia que foi justamente por pensar daquela forma que ela estava ali, se fodendo, de novo, por causa dele. A culpa era dele. Sempre foi e sempre seria. Ele tinha que arcar com as consequências do que tinha acontecido, do que tinha feito. Ele deveria estar sendo punido. Ele quem deveria ter que fazer acordos com o governo. Só ele. Não , nem Steve, nem Sam, nem ninguém que se meteu naquele tormento todo simplesmente porque quis ajudá-lo. Ele não precisava de ajuda, no final das contas. Precisa ter ficado sozinho e precisava ter seguido a sua vida, sem interrupções.
Por um momento, Bucky sentiu raiva. De toda a situação, de si mesmo, de , de Steve, de Sam. Sentiu raiva por eles terem cruzado seu caminho, raiva por terem sido teimosos o suficiente para não o deixar em paz, raiva porem ter achado que ele estaria melhor com a ajuda deles quando, na verdade, tudo só piorou para eles. Bucky sentiu raiva de Matt. Por ter achado uma solução bosta que culparia , que a afundaria ainda mais naquela areia movediça. Ele queria ir embora, precisava ficar sozinho como sempre precisou, desde quando estava em Bucareste.

— Se podemos tirar Karl e Everett disso, eu vou assumir a culpa — engolindo a raiva, Bucky olhou para Matt. — O que tenho que fazer?
— Essa não é uma opção — tentou dizer, mas parecia ser ignorada.
— Não mesmo — ele a olhou, sério. — É uma decisão, eu já decidi.
Você já decidiu? — ela rebateu, rindo, irônica. — Eles são minha responsabilidade, são meus pais.
— Que se meteram nisso tudo trinta anos atrás por minha culpa — Bucky exasperou, rápido. — Não é justo que eles passem por isso e não é justo que você assuma mais nada aqui, .
— Você não pode decidir por mim — ela falou, abaixando a voz, olhando algumas pessoas nas mesas próximas os encarando discretamente.
— E não estou! Estou decidindo por mim, fazendo o que deveria ter feito quando vocês apareceram em Bucareste — Bucky gesticulou, impaciente, vendo se calar diante daquela informação. — Essa briga nunca foi sua e eu não vou deixar você se meter em mais problemas por minha causa.
— Acho que já é tarde demais para isso, Buck — suavizou o tom de voz, respirando fundo. Bucky olhou para um canto qualquer em cima da mesa, parecia pensativo, chateado.

estava tentando ser prática. Resolver tudo aquilo o mais rápido possível, manter seus pais longe de tudo aquilo e seguros. Faria o que fosse possível fazer para que eles saíssem ilesos daquela história toda. Não estava mais em jogo de quem era a culpa, não tinham que perder tempo com aquela conversa outra vez. fez tudo o que tinha feito em sua vida por livre e espontânea vontade, escolheu ficar ao lado de Bucky sabendo que haveria consequências e ali estavam elas. Chegou o momento de pagar as contas, o momento que tinham que resolver tudo e não complicar ainda mais. Mas nada com Bucky era ser simples, poderia ser? E saber que ele estava arrependido de ter aceitado a ajuda dela, anos atrás, a incomodou de uma forma estranha, de um jeito horrível.
Chateado, ele ficou em silêncio pensando no que deveria dizer. Se fosse honesto com tudo o que estava sentindo, quebraria a primeira coisa que visse pela frente, gritaria a plenos pulmões que ela deixasse que ele resolvesse a merda que ele mesmo armou e que se afastasse dele para não ser ainda mais punida injustamente. tinha consciência de que estava atolada naquela história por culpa dele e, pela primeira vez desde que a conheceu, Bucky a ouviu dizer aquilo em voz alta. A ouviu assumir que já era tarde demais para voltar atrás e ele se perguntou se ela gostaria mesmo de voltar e fazer tudo diferente. Talvez fosse melhor. Melhor para ela, para Steve, para Sam. Melhor para Everett e Karl. Melhor para todo o mundo, exceto para ele.

— Mesmo que você já tenha que responder por algumas ações que esbarram nos motivos pelos quais Karl e Everett fizeram o que fizerem, seu caso é mais delicado do que o de , há muito mais para ser resolvido, um problema bastante maior e não acho que colocarmos mais motivos para você ser culpado, agora, vá te ajudar — Matt tentou amenizar o clima entre eles, depois de alguns minutos em um silêncio tão profundo que Matt se perguntou, por um segundo, se eles tinham ido embora e o deixado ali.
— Eu não preciso de ajuda, Matt — Bucky o encarou ansioso. — Preciso saber se posso consertar todas as merdas que fiz.
— Pode, mas não desse jeito — murmurou, mas foi ignorada por ele, que seguiu perguntando para o advogado:
— O que eu preciso fazer?
— Bucky, você não está me ouvindo? — ela tentou outra vez, levantando um pouco a voz. — Você não tem que fazer isso.
— Eu não tenho que fazer isso — ele a olhou, um tom de voz mais firme, indelicado, os olhos confusos que conhecia bem, a postura ansiosa. — Eu preciso. Só me deixe… — ele engoliu em seco — consertar as coisas, .

Ela não disse mais nada. Pela urgência em sua voz e o jeito que ele a olhava, era como se estivesse suplicando. Bucky tinha o anseio de fazer alguma coisa certa, de recomeçar. Tinha aquela sombra terrível de seu passado sobre si e já não aguentava mais ser perseguido por ela. Queria se livrar, queria sentir que pôde se redimir, que pôde se desculpar de alguma forma para que, quando isso finalmente acontecesse, ele pudesse seguir em paz e, talvez, recomeçar. Por mais que entendesse aquilo, não conseguia realmente compreender. Não fazia muito sentido para ela, não entendia porque, de tempos em tempos, ele tentava afastar todo mundo, tentava seguir sozinho. Havia muito acontecendo naquele tempo, naquelas semanas desde que ele voltou do Blip, e Bucky estava cada dia mais distante de ser o Bucky que ela conheceu sete anos antes.
estava preocupada. Com ele, com o rumo das coisas. Estava preocupada com o que o Matt dizia, preocupada com seus pais, consigo mesma. Tinha a sensação de que nada mais estava sob seu controle e, pior, que já não conseguia mais fazer algo para ajudar. Nada por seus pais, nada por si mesma, nada pelo mundo, nada por Bucky. Tudo estava estressante e confuso. E ter discutido com Bucky ali, na frente de Matt, era só mais um exemplo disso.
Na ausência de resposta dela, e por insistência de Bucky, Matt passou a instruí-lo sobre como deveria se posicionar para que conseguisse puxar os processos de Everett e Karl para si mesmo. Bucky prestava atenção no que ele dizia, mas sua mente estava longe, exausta. Faria o possível para assumir a culpa e tirar os pais de do caos todo, mas nem ele mesmo estava conseguindo acompanhar a discussão direito. Matt falou por quase dez minutos, pensando com ele em estratégias que poderiam ser eficientes e que não o prejudicassem tanto, até logo emendar o assunto em outro.

— Agora, já que entramos no mérito dos processos de Bucky, passamos para a parte mais difícil de solucionar. — voltou a prestar atenção na conversa a seu redor, vendo Matt pegar algumas das folhas que estavam sobre a mesa e as estender para ela e Bucky. — Fui informado de que Bucky está correndo em um processo à parte e os Estados Unidos já mostraram interesse em mantê-lo sob sua jurisdição, ter sua responsabilidade, pelos anos de contribuição na guerra, o que é ótimo. Mas tudo o que veio depois disso está sendo incerto e difícil de entender por enquanto.
— Pode ser mais claro, Matt? — pediu, educadamente, sem ter entendido direito o que aquilo queria dizer.
— Claro, como Bucky nunca se apresentou diante do tribunal, nunca contou seu lado da história e ainda não apresentou nenhuma representação legal, o caso foi passado para avaliação e cuidados da S.W.O.R.D.
— S.W.O.R.D.? O que é isso? — Bucky perguntou, sério, sua expressão estava carregada, descontente. Estava desconfortável em descobrir que estavam tratando o caso dele como se ele sequer existisse, sem que ele soubesse de nada.
Divisão de Resposta de Observação de Arma Senciente respondeu, o encarando um momento e, antes mesmo que ele pudesse perguntar como ela sabia daquilo, ela completou: — Eles recolheram o corpo de Visão depois do que aconteceu... em... Wakanda.
Arma Senciente? É assim que me chamam agora? — ele riu, irônico. — É isso que eu… sou? — tentando engolir a tristeza e sem saber porque tinha dito aquilo em voz alta, Bucky olhou . Ela suspirou levemente e pegou na mão esquerda dele, por baixo da mesa. Sentia que a cada segundo aquela conversa ficava pior.

Bucky se fechou uma vez mais, ainda mais, preso em internalizar seus pensamentos e tudo o que sentia. De todas as coisas que o incomodavam em seu passado, ser tratado como uma arma, como alguém que viveria completamente e para sempre sob controle de outra pessoa era o que mais o incomodava. Aquilo ainda o machucava de formas inimagináveis e, apesar de ter dado passos em frente e se recuperado, em partes, do trauma e de tudo que viveu, ele ainda carregava e sempre carregaria aquele incômodo consigo mesmo. Parecia que não importava quanto tempo passasse e nem o que ele fizesse para redimir os crimes que cometeu, sempre seria o velho Soldado Invernal outra vez - uma arma poderosa e completamente manipulável.

— Não — na ausência de resposta, Matt decidiu falar —, eles só estão empenhados em manter sobre seus cuidados o máximo que puderem do que restou dos Vingadores e manifestaram interesse no seu caso, Bucky. De fato, eles são uma agência especializada em ameaças extraterrestres, mas, desde a queda da SHIELD, são a única agência de inteligência e antiterrorismo importante realmente capaz de lidar com esses temas.
— Eu não sou um terrorista — Bucky falou incomodado, tão baixo que mal podia ser ouvido.
— Sabemos disso e eles também sabem, por isso estão adotando uma postura firme em tentar te livrar dos processos, veja — Matt apontou para a folha de papel da frente deles, que apresentava o resumo do que a S.W.O.R.D. estava fazendo.

Estavam dialogando com o governo sobre o fato de Bucky ter sido vítima da Hydra por anos, estavam se apegando ao fato de ele “não ter tido as faculdades mentais sob seu próprio controle por décadas” e pareciam realmente eficientes em discorrer sobre a história dele, sobre os efeitos do soro do supersoldado e sobre toda a violência que sofreu. Afirmavam dezenas de vezes que Bucky poderia se recuperar e ofereciam um programa intensivo, aos cuidados do governo dos Estado Unidos, de terapias e acompanhamentos psiquiátricos. Bucky não teve tempo, ali, de ler tudo o que o documento dizia sobre ele, mas a vista rápida pareceu razoável e minimamente tranquilizadora. Certamente haviam partes mais complexas e certamente custaria a ele algo que ainda não parecia claro. Se tinha aprendido algo em tantos anos dentro de organizações era que nunca faziam nada sem garantir contrapartidas.

— Estão cuidando do caso da Wanda Maximoff também e, provavelmente, irão recolher os pertences de Natasha — Matt voltou a dizer. — De certa forma, todos vocês têm habilidades e poderes sobre-humanos e podem ser tratados por uma agência com as competências da S.W.O.R.D. O governo aceitou passar o caso para eles e devem entrar em contato com você em breve, para sinalizar os termos do acordo.
— E o que isso vai me custar, Matt? — desgostoso, Bucky se ajeitou na cadeira, encarando o advogado.
— Acredito que nada além do que custará a e aos demais — o advogado respondeu simplesmente, respirando fundo. — Vão te submeter a um acordo, você vai cumpri-lo pelo tempo estipulado e seguir com a vida depois disso. As coisas estão se resolvendo, só precisamos passar por mais esse momento, alinhar toda a estratégia juntos e ter paciência.

Paciência. Matt sabia que estava sendo generalista demais pelo tamanho do problema e pedir paciência a pessoas com os históricos de vida de e de Bucky era um absurdo. Eles não deveriam ter que passar por nada daquilo, mas não havia como escapar. Apesar das motivações terem sido genuínas, tinham cometido crimes e tinham que pagar por eles de alguma forma. De todas as possibilidades possíveis, aquela era a melhor delas, sem dúvidas. Cumpririam os termos do acordo em liberdade, sem prejuízos, sem grandes desgastes. E não duraria tanto tempo. Para Matt, aquela era uma grande vitória que nem mesmo ele poderia garantir.
Bucky, contudo, seguia temeroso. A situação de parecia bem mais controlada e ele foi tomado por uma sensação terrível de ansiedade. Queria saber logo o que seria dele, queria saber que tipo de acordo o submeteriam, queria ver quem eram essas pessoas da agência que tinham aceitado pegar o caso dele e o que fariam com ele, no final das contas. Uma simples conversa havia acabado de mudar todos os rumos de Bucky e ele se sentia tão atormentado pelos medos e pelos anseios, como se lembrava de viver antes de .

— Você disse que a parte mais difícil de resolver é justamente essa, o que isso quer dizer? — quebrou o breve silêncio, preocupada com a expressão apática de Bucky. Até ali, já tinham questões demais com as quais se preocupar, mas o pior ainda estava por vir.
— Não sei como dizer isso sem ser indelicado, me desculpem — Matt suspirou e sorriu, triste. — Mas vocês estão em jurisdições diferentes agora. A União Europeia não aceitou Bucky e os Estados Unidos não quer você, .

Era aquilo que custaria a eles, então. Nada podia ser tão simples, nada nunca foi fácil para eles dois, não seria dessa vez também. parou para pensar por um momento, seus olhos confusos indo de Matt até Bucky, que a encarou de volta. Teriam que cumprir seus acordos em lugares diferentes e não sabiam quanto tempo aquilo levaria. se sentiu sufocada de um jeito que nunca antes havia sentido na vida. Apesar do Tratado de Sokovia não mais existir, eles ainda assim estavam dando um jeito de controlá-los. Não estavam sendo consultados em relação àquilo e nem seriam. sabia que, uma hora ou outra, teriam que pagar pelas coisas que fizeram, mas se tinha que “ser bom para ambas as partes" porque não estavam ouvindo-os, afinal?
Aquele era o pior dia possível para se ter aquela conversa. estava carregando as emoções de ter que se despedir de Steve, estava preocupada com seus pais, preocupada com o que acontecia com ela e com Bucky e agora sufocava com a possibilidade de, mais uma vez, estar sozinha. Depois de cinco anos, depois de tudo, ela ainda não conseguia manter o pouco do pertencimento que construiu ao longo da vida. Estaria em outro país, sem Bucky, sem Sam, sem Steve. Estaria sempre na mira do governo, estaria longe de seus pais. não iria suportar mais um momento como aquele, como poderia suportar?

— Não tem nada que possamos fazer? — delicada, perguntou baixo.
— Vamos tentar negociar isso nos acordos, mas, por enquanto, até os termos serem firmados, não temos muito o que fazer em relação a isso — Matt respondeu triste, podia sentir o clima ruim que pairava no ar, podia imaginar como eles deveriam estar se sentindo. — Eu sinto muito. A União Europeia entendeu que parte dos processos que você carrega, , são… culpa de… decorrentes de Bucky e acham mais seguro isolar vocês dois, um do outro. A instabilidade da sua vida, , veio diretamente dele e eles não querem correr o risco de que algo aconteça com você ou que, por causa dele, você se volte outra vez contra o acordo.

Era a primeira vez que Bucky ouvia aquilo abertamente de outra pessoa. A primeira vez que alguém teve coragem de dizer em voz alta exatamente o que sentia. A culpa era dele. Sempre foi e sempre seria. Apesar de achar que já tinha superado aquilo depois de dois anos junto com , a verdade era que ainda estava latente dentro dele. E foi terrivelmente violento ouvir aquilo. Bucky abaixou seus olhos para seu próprio colo, tirando levemente sua mão de vibranium da de . Matt tinha afirmado algo que estava correndo pelas discussões dos processos e Bucky sabia que eles tinham razão naquele ponto. Sabia que, cedo ou tarde, aquele exato ponto voltaria ao centro da discussão. Tudo o que aconteceu com , absolutamente tudo, foi culpa dele. E não poderiam continuar ignorando aquilo para sempre.
foi sequestrada com cinco anos de idade por culpa dele, foi torturada, foi violada, foi testada feito uma cobaia animal. perdeu seus pais biológicos por conta dele, ganhou poderes que nunca quis ter e sofreu uma vida inteira para se acostumar, para controlá-los, para se proteger, para se esconder. Precisou viver aprisionada em Wakanda, perdeu parte de sua liberdade porque ele certamente a mataria se a encontrasse. Bucky era uma ameaça para ela, o que tinha de diferente agora? O maldito conto de fadas que estavam tentando viver era falso, uma mentira que contavam todos os dias para si mesmo para normalizar as chances que tinham de ficar juntos. Eles sabiam disso, no fundo eles sabiam. teve medo a vida toda, teve medo dele, das coisas que ele poderia fazer. Ela precisou fugir, se esconder, perder pessoas. Se fosse parar para pensar racionalmente em tudo aquilo, Bucky jamais deveria ter ficado por perto dela.
Jamais deveria ter deixado se apaixonar por ele. Não era certo.
Devia a ela um pedido de desculpas por ter estragado sua vida e deveria sumir do mapa. Deixar tentar resgatar o pouco de vida e esperança que ainda havia nela, deixá-la seguir em frente. Bucky se sentiu absurdamente egoísta naquele momento. Se perguntou se ele realmente deveria ter se apaixonado por ela, se realmente deveria tê-la deixado ajudá-lo. Não era justo com ela. se esforçou tanto em salvá-lo, mas quem estava salvando-a, no final das contas? Se não tivesse Bucky por perto, se ele tivesse conseguido escapar em Bucareste e nunca tivesse encontrado com ela, jamais teria aqueles processos para responder. Jamais teria que estar passando por tudo aquilo, jamais teria que provar ao mundo que ela era boa e que só estava protegendo-o todos aqueles anos. jamais teria sofrido por cinco anos a falta dele e seguiria a vida dela como ela merecia, como ela deveria seguir.
Bucky se sentiu tão mal em pensar tudo aquilo, em se dar conta de que havia feito escolhas terrivelmente erradas em relação à , durante todos aqueles anos, que seu estômago revirou. Não podia acreditar no quanto era egoísta, não podia aceitar aquilo. Cogitou a possibilidade de fazer como Steve e voltar no tempo, deixá-la ir, livrar dele e de todo o caos que ele trazia para a vida dela. Mas o que mais ele causaria nela senão novos sofrimentos? Ele não merecia e ela não merecia estar com alguém tão problemático e desprezível como ele. Bucky sempre seria quem era e sempre carregaria as coisas que fez em sua sombra. não tinha que passar por aquilo. Enquanto estivesse com ela, Bucky sabia, o ciclo de dramas e de dores iria se repetir. Ela não merecia aquilo.

— Com licença, eu acho que… preciso… eu vou… preciso ir para casa — Bucky gaguejou e, sem conseguir dizer mais nada, levantou-se e praticamente correu para fora da cafeteria. Tinha que pensar, tinha que sair de perto de tudo aquilo, respirar, acalmar a mente.
— Buck? Bucky? — tentou chamá-lo, sem sucesso, levantando-se de seu lugar. Já tinha uma ideia do que estava acontecendo, sabia o que ele estava pensando.
— Está tudo bem? — carinhoso e preocupado, Matt perguntou.
— Sim, é só… muita informação para ele, eu acho — a mulher suspirou.
— Talvez seja melhor você ir atrás dele — Matt comentou amigável, levantando-se da cadeira onde estava sentado. — Ele não pode fazer nada que, bom… piore ainda mais a situação jurídica de vocês, se é que me entende.

entendia. Entendia de verdade. Já estavam atolados até o pescoço de problemas para resolver, Bucky não podia ser impulsivo naquele momento. O que quer que precisasse fazer e para onde quer que fosse, desejou, por um momento, que não fizesse nada que pudesse ser, nem minimamente, comprometedor. Qualquer mero sinal que pudesse ser interpretado como violência ou descontrole por parte dele poderia estragar, piorar, ainda mais as coisas. Não era simples e nem fácil lidar com Bucky. E o governo não teria qualquer paciência em entender o ponto de vista dele. Se ele desse mais um motivo que fosse, mínimo, para que pudessem detê-lo, eles, finalmente, fariam isso.

— Claro, eu vou — concordou, pegando sua bolsa e indo em direção ao advogado para dar-lhe um abraço. — Por favor, me avise quando pudermos conversar novamente, queria ler o acordo com você antes de assiná-lo.
— Com certeza, te aviso assim que receber o documento — Matt concordou, dando um abraço rápido na mulher.
— Muito obrigada mesmo pela ajuda com tudo isso, Matt, você é o melhor — ela sorriu para ele, desejando que ele pudesse entender o quanto era realmente grata por tudo o que fazia por ela. Matt sorriu de volta.
— Sem problemas, estou aqui por você — ele a soltou, segurando nos braços dela delicadamente. — E só mais uma coisa antes de ir, : a partir do momento em que o acordo for proposto a você, eu não consigo mais ser seu representante, porque não posso atuar na Europa, meu registro como advogado não vale lá. Então, você precisa providenciar um advogado na França ou na Alemanha, o quanto antes.
— Tudo bem, conheço alguém.

✽~✽~✽~✽


Bucky estava destruído.
Tão quebrado quanto uma placa de vidro estilhaçada, cujos cacos eram tão minúsculos que nunca mais poderiam ser colados de volta. Estava sem rumo e não conseguia pensar no que, de fato, poderia fazer. Já não tinha mais Steve para poder conversar e pedir ajuda e não queria recorrer à . Não mais. Não estragaria ainda mais as coisas para ela. Precisava de um tempo e de um espaço seguro para que pudesse colocar tudo em seu devido lugar e sabia que, em dias como aquele, não era a melhor das companhias para ninguém. Mas ele não tinha ninguém, de todo modo. Estava sozinho. Bucky decidiu, então, ir para o apartamento recém alugado. O lugar era pequeno e bastante simples, ainda não tinha mobílias e era bastante diferente dos lugares onde estava acostumado a viver com . Sem luxos, sem tanto conforto, mas que, naquele momento, pareceu como um porto seguro.
Ele ficou imerso em seus pensamentos por um tempo, que sequer viu passar e, não fosse pelas ligações e mensagens de , querendo saber onde e como ele estava, ele não interrompeu seus devaneios. Estava em crise, angustiado, sem saber o que fazer ou por onde começar. Estava triste, magoado com tudo aquilo, com raiva de si mesmo por ser quem era. Se perguntava o que é que ele tinha feito de tão ruim para merecer ser punido constantemente e pensou que, talvez, deveria sair dali. Deveria sumir. Seria difícil no começo, magoaria de início, mas com o tempo, a longo prazo, seria melhor para ela. Não era o que ele queria, de forma alguma, mas dentro de si algo dizia, gritava, que era o certo a ser feito.
Deitado no chão do que seria a sala de estar do apartamento, ele chorou. Impiedosa e dolorosamente. Estava cego por todas as questões que passavam em sua mente, estava destruindo-se aos poucos e muito furioso com tudo. Não entendia por que ele era daquele jeito, odiou cada detalhe de sua história e envergonhou-se, culpou-se, por ter deixado tudo acontecer. Bucky estava perdido. Mais uma vez em sua vida, imerso nos problemas que a mente falha dele não podia resolver. E não queria, pela primeira vez em alguns anos, ser encontrado por ninguém. Deixou uma mensagem vaga para , dizendo que estava bem e que precisava de um tempo sozinho, para pensar, e desligou seu telefone. Ela ia se acostumar com a ideia de não ter mais ele. Ela perceberia naquilo o quanto ele podia ser egoísta e o quanto ela merecia alguém melhor.
já tinha refeito sua vida sem ele uma vez. Tinha encontrado outro cara que parecia bom para ela, que era normal, que tinha uma vida estável, segura, que a fez feliz. Ela refez a vida com a loja de flores, manteve-se em um dos lugares que amava viver, ela tinha seus pais de volta agora, tinha Sam. Podia ir para a França e, finalmente, viver a liberdade que tanto sonhou. Sem problemas, sem sofrimentos, sem dramas e sem carregar o eterno peso de ter que ajudá-lo. Ela tinha tudo para viver bem sem ele. Ela iria se acostumar.
Bucky se sentiu melhor dois dias depois.
Se sentiu encorajado a, pelo menos, atender as ligações de , a vê-la. Mas bastou ligar a televisão para que tudo mudasse repentinamente, outra vez. O vídeo de se apresentando e contando sua história de vida, em detalhes absurdamente minúsculos, estava sendo transmitido em todos os noticiários. O vídeo que Matt a havia instruído gravar, o vídeo que ela assumia a culpa, em claras palavras, por tudo o que seus pais tinham feito. Bucky não sabia se estava mais irritado por não ter respeitado a decisão dele ou triste pela situação, por ela estar se expondo daquela forma e se culpando por algo que não tinha culpa. não tinha o direito de ter feito aquilo, sem nem ao menos falar com ele. Decidiu sozinha o que fazer, passou por cima dele e do que tinham conversado com Matt, como se o fato de ele querer resolver os próprios problemas não importasse para ela. Desde que resolvesse logo, mais nada importava para ela.
Bucky estava irritado, profundamente chateado e ver aquilo fez um mal absurdo para ele.
Ele passou mais alguns dias trancado em seu apartamento, sozinho. Ignorou o fato de ter aparecido por lá todos os dias, em horários diferentes, batido na porta incansavelmente até desistir e ir embora. Acho que ela tinha noção do que tinha feito e agora estava correndo atrás para se redimir, quando, na verdade, ela só estava preocupada com ele. Ela pediu para que Sam tentasse fazer contato com ele, mas ele também não conseguiu. Bucky estava claramente tendo uma de suas crises. Mas, diferente das outras, ele estava profundamente recluso e isolado dessa vez. Profundamente. Internalizando o mal que fazia a sociedade, evitando magoar ainda mais as pessoas que amava, pensando um monte de merdas sobre si mesmo. estava tentando ser paciente, mas estava ridiculamente preocupada. A falta de contatos e a sensação de que nem mais ela era boa o suficiente, confiável o suficiente, para passar por aquilo com ele tomava conta de si.
Era a primeira vez, desde que se conheceram, que Bucky não quis a ajuda dela. A primeira vez, entre todas as brigas e discussões que tiveram como casal, que passaram dias longe um do outro, sem trocar uma única palavra. já não sabia mais o que pensar e nem se tudo aquilo tinha algum sentido para ela. Entendia que Bucky havia se magoado com toda a história do processo e imaginava que ele já tinha visto o vídeo e estava chateado por ela ter passado na frente dele e assumido tudo. Mas eram seus pais e Bucky estava recluso, a ignorando, o que ela poderia ter feito? Havia jeitos de superar aquela fase. Matt estava ajudando no caso, se eles cooperassem, talvez pudessem reduzir o tempo de vigência de seus acordos ou talvez até conseguissem derrubar a distância física que lhes seria imposta. tinha como viajar aos Estados Unidos sempre que quisesse, se conseguissem a permissão, qual era o problema? Qual era o problema com Bucky, afinal?
Em sua mente, ela chegou a pensar que, talvez, Bucky tivesse percebido o quanto o fazia mal, no final das contas. Se nunca tivesse insistido nele, nos dois, talvez metade dos problemas que estavam enfrentando fossem cortados pela metade. Bucky sempre tinha tido seus próprios demônios para lidar. Tinha recém voltado de cinco anos de desaparecimento e pegou um novo mundo, outra vez, no qual ele não pertencia. A única pessoa que ainda o dava um pouco de esperanças, Steve, tinha escolhido ir embora e ele estava oficialmente sozinho e deslocado da realidade agora. E não bastasse isso, ainda tinha que correr todos os riscos de viver em um país que parecia querê-lo preso ou morto, que o impediria de ficar com a única pessoa que restou em sua vida, quem ele amava.
Eram coisas demais acontecendo para ele e não tinha mais a certeza de nada, muito menos de se poderia ajudá-lo. Aparentemente, pela reclusão, não podia. Ela o conhecia. Conhecia todos os traumas e questões que carregava e sabia que Bucky estava se culpando por tudo o que estava acontecendo com ela. Matt foi sincero, precisava ser. E, de uma forma ou outra, cedo ou tarde, quando Bucky descobrisse aquilo, aquele detalhe, ele certamente internalizaria da maneira errada. Foi melhor que soubesse logo, sim. Mas não sabia mais o que pensar. Não sabia se dava espaço a ele, se insistia. Se corria atrás ou se tentava se comunicar de outra forma. Não sabia se deveria esperar por ele… ele voltaria? E quando voltasse, fingiria que estava tudo bem?
não sabia.
Bucky não sabia.
E, em paralelo a tudo aquilo, conforme os dias passavam, os trâmites legais iam acontecendo. pediu ajuda a Nate, que aceitou ser seu representante legal na Alemanha, pelo tempo que o acordo estivesse em vigência. Ele era um advogado criminalista, ainda eram amigos e ele ainda sentia que devia a ela muito mais do que poderia pagar. o colocou em contato com Matt e, ao longo dos dias, faziam reuniões para que Nate entendesse todos os detalhes do caso que, em breve, seria dele. O vídeo de contando tudo o que tinha acontecido com ela viralizou mundo afora e trouxe bons resultados, como Matt imaginou. Karl e Everett conseguiram sair do processo. Karl, contudo, perdeu seu emprego e Everett deveria ser alocado para alguma área administrativa com pouco impacto e prestígio, por algum tempo até tudo ser abafado dentro da CIA. Era um agente de excelência, não podiam negar. E tinha um conhecimento sobre Wakanda tão vasto que poderia ser muito útil à organização.
ficou bastante triste por eles, mas parte dela se sentiu aliviada. Ao menos ficariam juntos e ao menos estavam livres de qualquer consequência daquele caos todo. Seus pais estavam descontentes com a postura de James e, focados em reorganizar suas vidas, se esforçaram para ficar com o máximo possível. Queriam que ela sentisse que não estava passando por tudo aquilo sozinha e, sempre que podiam, a acompanhavam em tudo — de refeições a reuniões com seus advogados. Nate havia viajado para Nova Iorque, para encontrar-se com ela e com Matt, e Sam estava sendo a pessoa que estava sustentando , como se fosse a base que não a deixava desmoronar de vez.
Sam também tinha processos correndo contra si, mas eram tão mais amenos, que a ele ofereceram um trabalho dentro da Força Aérea dos EUA. Seria um aliado em campo, um soldado com poderes especiais, que atuaria para ajudar o mundo a se tornar um lugar mais seguro. Ao começo, não receberia por aquele trabalho, como forma de se redimir por ter fugido das leis por dois anos, mas, em cerca de um ano, teria um bom salário com o qual poderia se sustentar e viver confortavelmente bem. Apesar das ressalvas, estava satisfeito com o desfecho das coisas e deveria começar em breve. Sem mais Steve e sem mais os Vingadores, Sam já não tinha muito o que fazer senão aceitar aquela oportunidade e continuar a ser o Falcão.
Com Bucky ignorando todas as tentativas de contato dela, esteve tão imersa em tentar resolver tantas coisas ao mesmo tempo, que só se deu conta do tempo que passou longe de Bucky no final do décimo dia, quando ele ligou para ela. O clima não estava bom entre eles. se sentia confusa, meio perdida, engolida pela correria de tentar livrar seus pais dos processos, de tentar se livrar de tudo aquilo logo e de não saber o que estava acontecendo com ele. Parte dela entendia que Bucky precisava daquele tempo e espaço, ele havia pedido, mas se estavam juntos, não deveriam passar por aquela fase juntos também? O que havia de errado? E pensando naquilo, se pegou refletindo sobre o que talvez estava acontecendo. Em meio a todos aqueles pensamentos, o que mais a assustava, contudo, não era a hipótese de não darem certo, no final das contas. Mas o fato de que ele parecia não se importar muito com ela, diante de tudo que acontecia.
Mas cinco anos se passaram, afinal. Cinco anos sem ele. conseguia lidar com tudo sozinha e era o que estava fazendo.

— Obrigado por ter vindo — Bucky comentou, triste, assim que abriu a porta para ela entrar. Tinha pedido desculpas no telefone e pedido para que ela o encontrasse em seu apartamento.
— Como você está? — perguntou, preocupada.
— Melhor, eu acho — ele respondeu baixo.
— Estava preocupada com você, Buck. Não me atendeu nem respondeu minhas mensagens. Sam tentou falar com você, meus pais, Matt... O que aconteceu?

Bucky pensou por um segundo. Não queria falar a verdade para ela, jamais aceitaria o fato de vê-lo recluso porque achava que ele era o culpado por tudo o que estava acontecendo, por tudo o que tinha acontecido com ela. Já era um tema exaurido para , já tinham passado por aquela etapa há muito tempo, não havia mais espaços para aquela conversa. Bucky não queria trazer tudo de volta à tona, não queria ser mais um problema para resolver naquele momento. Achou melhor, mais racional e maduro engolir a verdade.

— Me desculpa, eu só… — ele engoliu em seco, envergonhado — surtei, eu acho. Precisava de um tempo para digerir tudo o que está acontecendo. Só queria sumir.
— As coisas estão se encaminhando. — Ela deu um passo em direção a ele, incerta sobre se deveria tocá-lo ou não. Tudo estava tão confuso.
— Estão? — A pergunta foi retórica, ela percebeu. Talvez as coisas estivessem mesmo se encaminhando, para ela. Mas, para ele, tudo sempre era diferente.
— Sim, Matt está cuidando de todos os detalhes, dos próximos passos, e Nate veio ajudar… — ela começou a dizer, mas logo foi cortada.
Nate? — Bucky franziu a testa, confuso. — Nathaniel está aqui?

Aquilo o incomodou um pouco mais do que ele gostaria. Sabia, era claro para ele, que e Nathaniel ainda eram amigos. Mas ele achava que mal tinham tido contato depois que ela viajou a última vez para a Alemanha, quando pôde conversar com ele e acertar as coisas. Desde então, tudo entre eles estava finalizado e a vida seguiu. , às vezes, comentava coisas superficiais sobre ele, sobre o passado e nunca sobre o presente. Nate não parecia mais presente na vida dela. Ele estava? Por que ela tinha recorrido a ele? Bucky não desconfiava dela e não tinha nada contra o cara. Mas, igualmente, não tinha que ter algo a favor dele. Sabia da decisão de e da escolha dela. Mas será que Nate tinha aceitado? Será que estava tudo bem por ele seguir na zona de amizade ou ainda estava por perto porque queria algo a mais? Bucky engoliu as merdas que estava pensando e esperou pela resposta de , que saiu um pouco estridente, desconfiada.

— Sim.
— E, por quê? — Ele estava visivelmente incomodado.
— Ele quem vai me representar a partir do momento em que eu tiver que voltar para Berlim — explicou, séria, se irritando levemente com o tom de voz desprezível dele —, por isso é importante que ele esteja por dentro de tudo o que está acontecendo.
— Por que Matt não pode fazer isso? — Bucky a encarava.
— Porque a licença dele só o permite advogar aqui e não na Alemanha — ela cruzou os braços.
— Entendi — ele respondeu, silencioso, seus olhos presos nos de com certa insegurança, carregado com perguntas que ele não sabia se deveria fazer.
— Qual é o problema, Bucky? — o olhava intensamente.
— Desde quando isso estava decidido? — ele suspirou. — Que precisaria de outro advogado e que seria justamente Nathaniel?

demorou um minuto para responder. Seus olhos sustentavam o olhar dele, séria, compenetrada. Bucky estava deixando escapar sua insegurança de um jeito que ela não conhecia. Ele estava com… ciúmes? Aquilo era ridículo. Mas havia alguma outra explicação para a quantidade de perguntas que estava fazendo, quase como uma sondagem desnecessária? Esteve recluso por tempo suficiente para se perder em todos os trâmites dos últimos dias e agora estava incomodado com a solução mais rápida, fácil e eficiente que havia encontrado? Não foi daquela forma que ele havia reagido quando ela lhe contou a verdade sobre Nate. Não foi defensivo, nem inseguro, muito menos ciumento. Pelo contrário, ele havia entendido o ponto de vista dela, havia entendido que ela tinha que ter seguido sua vida e havia entendido que Nate foi parte dessa nova etapa, mas que já tinha ficado para trás.
E ele era um amigo. Como Sam, como Steve, como T'Challa ou Matt. Era alguém que ela poderia confiar, que poderia pedir ajudar e que, naquele momento, era necessário para que tudo voltasse ao normal. O normal. se perguntou por um momento, refletindo, se aquilo tudo não era uma tentativa de Bucky não querer que as coisas voltassem a um possível normal. Ele tinha voltado em um mundo cinco anos diferente, Steve o tinha abandonado, estava sozinho e estava tendo que se adaptar. Não bastasse aquilo, ainda tinha todo o caos dos tratados, os acordos, uma mudança de vida que ele não havia se programado para viver. Absolutamente tudo estava diferente e nem mesmo era a mesma pessoa. Sem mais em quem ou no que se apoiar, ele estava sendo obrigado a sair da pequena e tão particular zona de conforto que criou nos dois anos em Wakanda. A bolha segura e intocável, o antigo normal que nunca mais existiria, que não queria mais que existisse.
E, talvez, aquele fosse o problema. Ela estava lutando no presente, por um futuro, ao tempo em que Bucky lutava para aceitá-lo e torcia para que voltassem, mesmo que minimamente, para aquele passado recente. O tempo em que só havia eles dois, uma ignorância generalizada de tudo que os pudessem atingir e sonhos que jamais se tornaram realidade.

— Desde o dia, na cafeteria, em que Matt me pediu para encontrar um advogado com licença para atuar na Europa. E você saberia disso, se não estivesse tentando resolver os problemas correndo deles — respondeu, áspera, impaciente. Bucky soltou uma risada sem graça alguma.
— Como eu devo interpretar isso, ?
— Desculpa? — ela franziu a testa.
— Você, mais do que ninguém, sabe — ele fez uma pausa, as palavras sendo mais difíceis de serem ditas do que de serem pensadas. — Sabe como me sinto em relação a tudo isso, a esse tipo de… controle, de novo, que não consigo me livrar nunca — Bucky desviou seu olhar do dela. — Sabe que eu não estou “correndo dos problemas”, eu só... precisava de tempo para… pensar, entender.
— E não foi o que você teve? — abriu levemente os braços e os deixou cair na lateral de seu corpo. — Estamos aqui, agora, porque você teve seu tempo para pensar. E não estou entendendo o que Nate tem a ver com isso.
— Também não entendo o que ele tem a ver com isso — Bucky voltou a olhar para ela, uma nova risada irônica deixando seus lábios junto com as palavras que ele não soube porque deixou escapar —, porque a sensação que tenho é de que sempre que eu saio, ele chega.
— O que você está insinuando? — O olhar dela era um tanto assustado pela fala injusta dele. Aquela conversa estava indo para um lado errado, não terminaria bem.
— Estou apenas dizendo o que me parece — ele rebateu no mesmo tom, sério.
— Vou deixar mais claro para você, então: fazem dez dias que você está me ignorando e agora sou eu quem preciso ficar dando explicações — riu sozinha. — Preciso justificar a vinda de Nate até minha casa, um amigo!
— O seu ex — Bucky a corrigiu. — Se é que podemos chamar assim. Podemos?
— O que você está dizendo? — franziu a testa, incrédula.
— Que você não soube respeitar a minha decisão, passou por cima de mim fazendo aquela merda de vídeo e agora, ainda, traz seu ex para dentro dessa merda toda, como se já não estivesse ruim o suficiente — ele cuspia as palavras, sem conseguir controlar o que sentia. — É isso que estou dizendo, . Eu não teria ficado tanto tempo “fugindo” se você tivesse, pelo menos, considerado o meu lado da história.
— Eu não considerei o seu lado? Você tem certeza disso? — ela arregalou os olhos, gesticulando rápido. — Assumi uma culpa que não é minha pelos meus pais, por você, para proteger as pessoas que eu amo. Isso não é errado e você também saberia se não estivesse preso aqui, me ignorando.
— Você não podia ter feito isso — Bucky negou com a cabeça. — São meus problemas, eu disse que eu os resolvo.
— É a minha vida, James — ela rebateu, alto. — É a vida dos meus pais. Você não tem o direito de se trancar aqui e chorar quando tem outras pessoas envolvidas que dependem de você. Eu fiz o que eu tinha que fazer, por eles, por mim e por você também.
— Você, mais do que ninguém, sabe o que isso significa para mim. Sabe que eu preciso me desfazer do passado, sabe que eu… preciso me livrar disso — os olhos dele se encheram de lágrimas a cada palavra, de raiva de tudo aquilo. — Eu. Eu preciso fazer. Sozinho. Eu, . Não você — ele apontou para ela. — Você sabe disso, sabe disso. E mesmo assim virou as costas para mim.
— Não dá para virar as costas para alguém que não estava presente, James — Bucky achava melhor ter levado um murro dela. Aquilo o atingiu no fundo do coração, uma dor aguda, um desespero latente de não conseguir entender o que estava acontecendo entre eles, porque estavam aos gritos, se magoando.
— Eu te pedi para não fazer isso, mas que merda — ele passou as mãos pelos cabelos, irritado. — Você precisa parar de fazer tudo por mim, sempre.
— Qual é o ponto aqui, Bucky? Sou eu, o vídeo, meus pais, o processo, Nate ou o quê?

Bucky não sabia responder aquela pergunta e, pelos olhos confusos e encharcados de , ela também não. Ele estava misturando toda frustração e irritação que carregava em si, com os pensamentos ansiosos que tinha, com as inseguranças e os medos que carregava. Estava despejando tudo em como se ela tivesse culpa por tudo, quando, na verdade, era justamente o contrário daquilo. Bucky soltou uma bufada alta, exausta. Estava se sentindo um idiota sem tamanho, não tinha chamado ela até ali para brigarem outra vez e para piorarem ainda mais a situação. Estava, uma vez mais, esmurrando com palavras que ele sequer sabia que estavam presas dentro dele, como se mal as pudesse controlar.

— Tudo. Tudo é o ponto aqui, — ele murmurou, impaciente. — Já estava tudo ruim o suficiente até aqui e você fodeu ainda mais quando mandou aquela porra de vídeo pro Tribunal e quando trouxe Nathaniel para dentro da sua casa — ele fechou os olhos por um breve momento, respirando fundo. — Que merda, porra.
— Você só pode estar brincando — negou com a cabeça, elevando a voz. — Isso é ridículo! Você sabe porque mandei o vídeo e Nate e eu somos amigos, você sabe disso e eu nem deveria ter que justificar a presença dele aqui. Ele só veio porque pode ajudar, não só a mim, veio por você também. Veio porque pode conseguir tirar a gente dessa porra toda e se você não consegue lidar com sua insegurança na presença dele, não deveria culpá-lo ou a mim por isso.

sabia que tinha sido rude demais nas palavras, mas estava exausta. Todos aqueles dias lidando com tanta coisa, sozinha, a estavam matando por dentro. E o silêncio ensurdecedor de Bucky, o sumiço, só piorava ainda mais a situação. Ele não deveria estar questionando quem tinha vindo ajudá-los, devia ser grato por ainda terem pessoas que se preocupavam com ele e que queriam vê-lo feliz, livre, de alguma forma. Bucky sempre parecia ver tudo pelo lado ruim, sempre encontrava problemas onde não deveria ter, sempre estava no centro de um caos que ele mesmo parecia armar.
Ela compreendia James, ela escolheu acolhê-lo, com tudo o que aquilo envolvia, mas estava cansada. Cansada de tudo e indisposta a discutir. E, naqueles dias, estava exausta de sentir que parecia que nada que fizesse por ele era bom o suficiente. Talvez estivesse no limite de entender que ela também não era o suficiente. Nunca seria, e deveria abrir mão de tentar. Já não sabia mais porque fazia de tudo por ele, talvez tivesse aprendido naqueles cinco anos que tinha mesmo que fazer só por si mesma.
Bucky, por sua vez, parou por um momento, pensando no que ela havia dito. Sabia que estava certa, que tinha razão. Ele não deveria estar nem desperdiçando o tempo que tinham com aquele assunto, haviam outras coisas mais importantes e mais urgentes que precisavam conversar e, mais uma vez, ele estava fazendo tudo errado. Mais uma vez estava preso em si mesmo, mais uma vez estava desgastando com coisas mal resolvidas dele. Sufocado por tudo o que pensava, ele sentia em si a urgência, a cada dia que passava, de lidar consigo mesmo antes que pudesse lidar com e com o que sentia por ela. Estava ficando insustentável. Estavam brigando, estava discutindo e quanto tempo mais ele levaria para magoá-la de uma vez por todas?

— Ele tinha mesmo que ter viajado até aqui? — com um tom de voz mais calmo, depois de longos minutos em silêncio, Bucky a olhou.
— Tinha — ela respondeu simplesmente.
— Por que não me contou que ele viria?
— Eu tentei — ela apontou para si mesma —, mas você não me atende há dez dias.
— Podia ter mandado uma mensagem, — Bucky insistiu.
— Você também podia.

A falta de vontade de responder mais do que o necessário era um indicativo forte de que ela não queria continuar aquela conversa. Um indicativo de que estava cansada daquilo e de que, provavelmente, queria ir embora. Bucky não tinha o direito de pedir que ela contasse a ele sobre o que estava fazendo e o que estava acontecendo, enquanto ele estava fora. Afastou-se porque quis se afastar, escolheu sozinho um jeito de lidar com os problemas e não a incluiu. não deveria incluí-lo também. Ele podia ter atendido, mas não quis. Poderia ter respondido as mensagens, mas não quis. Podia ter a recebido as vezes que tentou ir pessoalmente até onde ele estava, mas ele não quis. Se fosse pensar racionalmente, já era demais o fato de ter ido até ali, depois de dias sendo ignorada por ele. Bucky se sentia ridículo.
Era claro que não merecia alguém como , era claro que ela merecia mais. Merecia alguém que tivesse disposição em acompanhá-la, alguém que a ajudasse quando precisasse de ajuda, alguém que enfrentasse o que quer que fosse com ela. Talvez alguém como Nate e, talvez, justamente por saber daquilo, ele se incomodava com a presença dele. Nathaniel podia dar a ela o que ela merecia ter, podia fazê-la sentir o que ela tinha que sentir e o afastaria dos sofrimentos e do drama que Bucky sempre causava na vida dela. Bucky se sentia um verdadeiro babaca.

— Me desculpe — ele abaixou o olhar para o chão, quebrando o silêncio. — Me desculpe ter me afastado justamente agora, ter te deixado sozinha. Não deveria ter feito isso, me desculpe.
— Sinto muito por tudo ser dessa forma, sinto mesmo — ela respondeu baixo, olhando para o chão. — Precisava desesperadamente tirar meus pais disso, você sumiu, Matt pediu que tivesse um outro advogado e só confio em Nate para isso.
— Me desculpe — Bucky pediu novamente, passando a mão pelos olhos, tentando não desabar. — Nada disso é culpa sua.
— Eu só queria entender o que está acontecendo — os olhos confusos dela pareciam brilhar, esperando uma resposta mais consistente. Nada nele estava fazendo muito sentido.
— Eu não sei, — ele mentiu. — Eu não sei o que está acontecendo também.

Na estranheza e no desconforto do momento, não soube o que deveria responder. Apenas assentiu com a cabeça e, alguns minutos em silêncio depois, o encarando, reduziu o espaço entre eles em um abraço cuidadoso e delicado. Envolveu Bucky pelos ombros ao tempo que ele a envolvia pela cintura e assim ficaram. Em um silêncio que durou bastante tempo, sem pressa e sem ter mais o que dizer, eles só se abraçaram. Pareciam compreender o momento que um e outro estava passando, compreender aquilo como algo natural a quem se relacionava. Momentos de baixa, momentos que não eram tão bons, mas que, ainda assim, faziam parte de um casal. , contudo, se perguntava mentalmente o que estava acontecendo com ele e Bucky repetia para si mesmo todo o mal que achava que fazia a ela e a si mesmo, cedendo ao amor que sentia por ela.
Mas problemas que não eram resolvidos a tempo, em palavras claras, podiam rapidamente se transformar em mágoas, em feridas maiores, mais profundas, mais graves.
Confuso com tudo o que sentia e com tudo o que estava pensando, Bucky não quis mais voltar para a casa de Karl e Everett, onde estava ficando hospedada. Preferiu ter seu espaço e sua privacidade e concordou com aquilo. Talvez, ao menos naqueles próximos dias, fosse importante para eles dois ter mais momentos sozinhos do que juntos, mais tempo para refletir e rever o que estavam fazendo. Continuaram se encontrando e conversando nos dias que se seguiram, mas Bucky estava cada dia mais estranho, mais distante, evitando contatos físicos e se estranhando com Nate. tentou conversar com ele pelo menos uma dúzia de vezes sobre o que acontecia, mas a mesma desculpa de sempre era dada. “Era muito o que digerir”; “precisava de tempo”; “estava cansado de ter que sempre enfrentar algo”; “estava confuso e perdido”. Bucky lutava internamente contra o amor que sentia por , contra a vontade absurda de tê-la, de contar a verdade do que pensava para ela, de ficar com ela. Mas seguiu se segurando, porque era o melhor a ser feito por .
Um parâmetro, uma diretriz, uma nova regra dada a ele por ele mesmo, que foi sendo internalizada dia a dia, minuto a minuto.
Bucky havia lido em algum livro, que ainda não se recordava o nome, que quando se ama verdadeiramente alguém, você deixa partir, mesmo que doa ou machuque, se partir for o melhor para ela. ficaria melhor sem ele, ela já era melhor sem ele por perto. E Bucky reafirmava isso mentalmente a todo momento, tentando se convencer de que era a verdade, tentando se apegar àquela ideia sempre que a via com Nate. Se ela soubesse de tudo, se soubesse o que ele estava pensando, o que estava sentindo, ela certamente daria um jeito de ajeitar as coisas.
Certamente o convenceria do contrário, até alguma outra coisa acontecer e tudo voltar à tona para ele. Bucky estava cansado daquilo. Cansado de ser o epicentro de um terremoto que sempre atingia os poucos que haviam restado ao seu redor. Tinha que desgastar o que tinham para que entendesse que ele, enfim, já não era mais uma opção para ela.

Capítulo 40

A S.W.O.R.D. convocou Bucky para uma conversa quase uma semana depois. O processo de já havia corrido e o acordo que ela deveria assinar já estava pronto. Como era a única super-humana publicamente conhecida em toda a Europa, uma jurisdição gigante e sem cobertura até então, os termos do acordo foram bastante flexibilizados para ela. deveria viver em qualquer país de sua escolha dentro da União Europeia e prestar serviços de acordo com a necessidade dos governos do bloco — majoritariamente ambientais, eles disseram, mas eventuais ações para garantir a segurança e a ordem do continente poderiam ser solicitadas. T’Challa, que enfrentava certos problemas políticos internos em Wakanda, chegou a oferecer asilo para a amiga novamente, mas ela o recusou. Era grata por tudo o que tinham feito por ela naqueles anos todos, mas já não queria viver presa em Wakanda, submetida à suas regras, e não queria estar fora da lei. Já tinha tido problemas o suficiente com o Tratado de Sokovia, queria só resolvê-los agora e seguir em frente.
O acordo proposto para ela havia sido muito mais ameno do que Matt e Nate estavam esperando e deveria cumprir sua pena de trabalho compulsório na Europa por um ano e meio, sendo a cláusula temporal a ser revisada a cada seis meses pelo tribunal europeu. Suas únicas restrições eram a obrigação de cumprir os chamados do governo, comparecer aos encontros de revisão do acordo, além de não poder sair do continente e não poder se encontrar com Bucky em locais que não fossem públicos e/ou supervisionados por agentes do governo. Apesar disso, o bloco entendia Bucky como uma ameaça à estabilidade e à vida de e não queria que ele entrasse no continente por, pelo menos, o ano e meio de vigência do acordo — até ele ter cumprido com todas as sessões e análises psiquiátricas estipuladas pela tratativa dele.
Nate chegou a redigir uma contestação dessa parte do acordo e aconselhou a esperar antes de assinar. A União Europeia estava disposta a rever alguns detalhes, mediante novas contrapartidas de e, enquanto ela não assinasse, poderiam negociar aquilo. A guerra ainda não estava ganha por nenhuma das partes e parecia muito animada e confiante que conseguiriam quebrar aquela cláusula. Faltava a eles, contudo, antes de submeter a contestação, saber qual era a proposta de acordo a ser feita a Bucky. Precisavam entender o que estava sendo oferecido a ele e ver como poderiam negociar para que pudessem continuar juntos, sem supervisão e sem restrições geográficas. Matt havia sugerido que Bucky também não assinasse o acordo de primeira, para que eles pudessem ler juntos e entender o que acontecia, para que se cercassem de todas as margens e fizessem uma manobra assertiva.
acompanhou Bucky até a sede da S.W.O.R.D., a pedido dele, e ficou esperando no hall de entrada. Ele estava especialmente calado naquele dia, ansioso. Seus olhos não se firmavam nos dela e ele parecia angustiado, querendo terminar com tudo de uma vez por todas. repassou as perguntas que Matt havia instruído Bucky a fazer para o representante da organização, mas ela tinha certeza de que ele não as faria. Estava reflexivo demais, estava ansioso demais, relapso demais. Tão fechado em si mesmo, que não se abriria a fazer perguntas ou sequer a dizer qualquer coisa. Estava indo para ouvir.
Eles esperaram não mais do que cinco minutos quando chegaram, depois de avisar o recepcionista que estavam lá, atraindo olhares curiosos e, às vezes, tortos das pessoas no lugar, até Tyler Hayward, o diretor da S.W.O.R.D., os receber. Bucky deu um beijo rápido em e acompanhou o homem até sua sala.
Tyler tentou ser simpático, na medida do possível, enquanto caminhavam pelo comprido corredor, mas Bucky parecia desgostoso, desinteressado em ser amigável. Sua expressão era carrancuda e os olhos pareciam incertos, desconfiados, observando tudo ao seu redor, como tinha o costume de fazer sempre que estava na defensiva, em alerta, como se esperasse por algo terrível a acontecer. Ele tinha luvas de couro nas mãos, com a intenção de esconder a mão de metal, e as levava dentro dos bolsos da jaqueta igualmente de couro preto enquanto dava passos firmes, um centímetro atrás do outro homem. Bucky respondia monossilabicamente a tentativa de conversa casual, mas Tyler não demorou a parar de insistir. Não tinha paciência e, na realidade, nunca tinha ido muito com a cara de James.

— Bom, vamos direto ao ponto — Tyler começou a dizer assim que entraram em sua sala. O ambiente, apesar de refinado e organizado, era pequeno e um tanto escuro. — Antes de tudo, você precisa saber que o governo dos Estados Unidos da América deliberou a possibilidade de perdão de seus pecados, James.

Seu tom de voz era cínico, carregado de um ar de superioridade e tanto desprezo, que deixava Bucky extremamente desconfortável. Tyler se sentou em sua cadeira e apontou para a outra, do outro lado de sua mesa, em frente a ele. Bucky olhou, desconfiado, por um instante e, sem ter muita escolha, sentou-se também, desconfortável. Queria ir embora logo. Queria terminar com tudo aquilo o quanto antes fosse possível.

— Não sabia que tinha pedido perdão para o governo — Bucky respondeu baixo, irônico e emburrado, enquanto encarava fixamente o homem em sua frente.
— Você pode escolher não o aceitar e continuar vivendo como um foragido ou ser preso, a decisão é sua — o homem respondeu calmo, encarando Bucky de volta, sem qualquer hesitação.
— Quanta benevolência, vocês são mesmo muito caridosos — ele bufou.
— Escuta, James — Tyler começou a dizer, inclinando-se para frente, sobre a mesa. Bucky franziu a testa, não gostava do tom que ele usava. — Vou simplificar as coisas para você: você tem um passado violento, tem centenas de mortes de pessoas acumuladas em seu currículo e, até hoje, não apresentou nenhuma defesa aos processos que foi convidado a depor. — Bucky paralisou, o desprezo miserável saindo da voz de Tyler. — Você não assinou o Tratado de Sokovia, pelo contrário, fugiu dele e infringiu ainda mais leis, criou problemas para outros Vingadores que tinham a ficha limpa e zero problemas com o governo, e, agora, está sob orientação do nosso país. Temos regras aqui, e sei que você não está acostumado com isso, mas vamos cumpri-las. Agradecemos o que você fez pela humanidade, por ter ajudado a lutar contra Thanos e aquela coisa toda, mas não precisamos de você em liberdade, se é que me entende.

Aquela coisa toda. O idiota tinha acabado de resumir tudo o que viveram e enfrentaram em Wakanda, lutando contra Thanos e seu exército, em “aquela coisa toda”. Tinha se ferido, pessoas tinham morrido, eles tinham matado. E, no final das contas, tinham perdido a guerra, Thanos havia vencido e levado consigo metade de todas as criaturas vivas do universo. Do universo. E o filho da puta estava chamando aquilo de "coisa toda”. Bucky passou a língua entre os lábios, segurando a raiva que sentiu e o instinto de partir para cima de Tyler para o calar. Haviam outras coisas em jogo e a notícia de não “precisarem dele em liberdade” estava latejando em sua mente.

— O que isso quer dizer? — Bucky perguntou, segurando a irritação.
— Que você tem duas possibilidades a partir de agora: a primeira delas é seguir com esse comportamento inflexível que está tendo, não aceitar o que temos a propor e pagar pelos crimes que cometeu como um cidadão normal pagaria — ele sorriu cínico e juntou as mãos. — E quer meu conselho? Pela proporção dos crimes que cometeu, a traição contra seu país e todo o terrorismo envolvido, talvez você leve uma pena de morte. — Tyler parecia empolgado com aquele assunto. Bucky sentia alguma coisa fervendo dentro de si, de ódio, de injustiça, mas manteve-se calado, atento e encarando o homem. — E a outra opção, boas notícias agora: — ele gesticulou e se encostou na cadeira que estava sentado — é aceitar o acordo proposto e suas regras.
— O que diz o acordo? — frio, apático, Bucky perguntou.
— Vejo que já fez uma escolha sábia, meu amigo. — Tyler puxou um maço de papel de cima da mesa e o virou de frente para Bucky. A primeira folha não trazia nada além da frase "Acordo 2743 - Estados Unidos da América vs James Buchanan Barnes". O suficiente para saber do que todo o conteúdo se tratava. — Li nos seus arquivos que fritaram seu cérebro, mas parece que ainda há alguma coisa aí dentro que sabe tomar boas decisões.

Ele estava se divertindo, não estava? Estava achando o máximo toda aquela humilhação, estava se sentindo no comando, no controle, como se quisesse mostrar a Bucky que ele estava no poder. Bucky tinha asco de pessoas como ele, odiava estar em situações como aquela e, se não fosse sua única chance de sair impune daquele caos todo, ele certamente já teria socado aquele homem e ido embora. Estava sendo menosprezado, desrespeitado. Bucky perguntou um segundo o que diria, ou faria, se estivesse ali com ele e aquele pensamento foi o suficiente para trazê-lo de volta à realidade.
Tyler só estava reforçando tudo o que Bucky já estava internalizando todos aqueles dias. Como se soubesse o lixo que ele se sentia, como se soubesse do ponto mais vulnerável que carregava dentro de si, apesar de, por fora, parecer forte e defensivo, Tyler só estava dizendo mais do mesmo para ele. Bucky tinha consciência de que cada entrelinha das falas do homem visava o atingir, mantê-lo sob seu controle. Estava exausto de toda a cena que começava. Exausto de se sentir mal e, mais exausto ainda, de sentir que, nos últimos dias, parecia que todo mundo estava desenterrando o passado que ele tanto lutou em esconder e superar.
Não havia mais esconderijos para ele agora. Não haveria mais superação.

— O que diz o acordo? — Bucky voltou a perguntar, ainda mais sério do que antes. Expressou cada palavra pausadamente e o máximo que conseguiu tirar de Tyler foi uma risada abafada.
— Vamos lá. — O agente mexeu rapidamente nas folhas entre eles e foi apontando conforme foi falando. — O acordo considerou todos os detalhes da sua trágica história, e só para o caso de estar se perguntando como descobrimos: nos entregou os arquivos que tinha sobre o Soldado Invernal alguns anos atrás, quando estava fazendo uma limpeza nas suas coisas, tendo em vista que desapareceu, ou quando ela precisou depor para tentar limpar o próprio rabo, não me lembro direito a ocasião.

Bucky sabia daquilo, porque havia dito a ele. E sabia que, não fosse mais aquele ato dela, ele estaria ainda mais fodido naquela história toda de processos e acordos. Uma vez mais, um novo indicativo de que tinha se ferrado por culpa dele e, ainda, tinha se movido para tentar salvá-lo. O que ele tinha feito por ela, mesmo? O que fez para protegê-la e para livrá-la de todo o caos que ele mesmo criou ao longo da vida? Absolutamente nada. Tyler logo voltou a falar, sério, concentrado no tema e no homem em sua frente.

— Consideramos toda a violência e manipulação que você sofreu ao longo da vida e entendemos que não havia muita escolha de sua parte em cometer os crimes que cometeu. Ainda assim, são crimes e foram cometidos por você — ele apontou para Bucky. — Na balança da justiça também pesaram os fatos de você ter prestado serviços militares importantes a este país durante a Segunda Guerra Mundial, de ter se juntado aos Vingadores em algum momento e de ter sido libertado das amarras mentais.

Aquilo parecia um teatro, talvez um circo. Bucky bufou outra vez, sem deixar de encarar o homem. Não precisava que ele dissesse tudo aquilo. Já tinha plena consciência do que tinha feito na vida e Matt havia comentado sobre os termos que estavam considerando para redigir o acordo dele.

— Pode só… me dizer qual é a proposta do acordo, de uma vez por todas? — Bucky pediu e assistiu Tyler folhear rapidamente os papéis até parar em um em especial, que apresentava as conclusões do processo.
— Cinco anos de reclusão geográfica na América, com possibilidade de saída do país mediante aprovação de um conselho; um ano de terapia intensiva e de análise psiquiátrica, três vezes por semana, sem possibilidade de ausência e, se não se meter em conflitos nesse tempo, poderá viver em liberdade. Mágico, não é?
— E a contrapartida dessa merda? — com a testa franzida, Bucky voltou a perguntar.
— Sem faltar na terapia ou vai preso. Sem viagens não autorizadas ou vai preso — Tyler listava com os dedos, como se contasse. — Eventualmente, poderá ser solicitado para serviços específicos do governo e não pode recusar ou vai preso. E, claro, sem ou vai preso.
— O que ela tem a ver com isso? — Bucky inclinou-se levemente para frente. Parecia tão descontente com aquela informação que seu rosto ardia de raiva.

Apesar de concordar que não era justo com ficar com ele e todos seus problemas, queria ouvir de Tyler, em alto e bom som, porque estavam metendo-a em parte do processo dele. Matt havia dito que estavam em jurisdições diferentes agora e ele esperava que fossem forçados a ficar fisicamente separados. Mas não pareceu suficiente para Bucky e, muito menos, para a confusão mental que criou naqueles dias. aparecia no acordo dele também, aquilo queria dizer que ela também era um dos termos a serem considerados para a conclusão final da proposta. No que mais Bucky a tinha metido, afinal?

— Então é mesmo verdade que todo o esforço da vida dela em te encontrar e te proteger foi, na verdade, por amor? — Tyler desdenhou, curioso, e, na ausência de resposta dele, riu baixo. — Que coisa bonita.
— Isso não tem a ver com o que precisamos falar — Bucky rangeu os dentes.
— Já entendi, não gosta de falar da namoradinha com outros caras, é compreensível — o agente deu de ombros, indo direto ao ponto que queria chegar. — Não sei também o que ela viu em você e a qualquer momento pode deixar de ver, não é verdade? É melhor mesmo não falar dela para outros caras. Mas, pensando bem, agora que somos amigos, James, talvez Steve fosse um par melhor pra ela. — Tyler era tão irônico e tão arrogante, que dava nojo de ouvi-lo. O que ele sabia, afinal? Bucky fechou as mãos em punhos, segurando-se. — Mas ele não trairia o amigo, tudo bem, deixe-me pensar então… Samuel. Sam Wilson. Um homem íntegro, respeitoso, boa pinta. Ele seria uma opção boa para , não acha?

Sem mais conseguir segurar a fúria que sentiu diante daquilo, sem entender porque o homem dizia todas aquelas merdas para ele, Bucky deu um soco na mesa entre eles, com a mão esquerda. Por impulso, como se quisesse que ele se calasse, Bucky só percebeu o que tinha feito quando já estava feito. Por um segundo, entristeceu-se por não ter socado a cara de Tyler e, no segundo seguinte, arrependeu-se de ter feito aquilo, por ter socado a mesa. Quanto mais descontrole mostrasse, pior seria para ele. Não era hora de deixar sua fúria externalizar. Mas o cara o estava tirando do sério de propósito. O que ele queria?
Tyler estremeceu junto com a mesa e seu sorriso debochado transformou-se em uma expressão mais assustada do que ele gostaria de transparecer. Ele parou de falar no exato mesmo instante e sustentou o olhar raivoso de Bucky no dele por algum tempo enquanto o silêncio reinava na sala. Os olhos tristes e claros de Bucky pareciam um tom mais escuro e eram tão profundos, intensos, que Tyler temeu por um momento. Estava acostumado a lidar com seres extraordinários, mortos, na maioria dos casos, como Visão. Os vivos sempre eram um problema para ele e não tinha tato algum em lidar com seus comportamentos heroicos ou seus problemas passados.

— O que tem a ver com tudo isso? — quebrando o breve silêncio constrangedor, Bucky perguntou novamente.
— Você já deve saber, não é óbvio, James? — Tyler limpou a garganta, tentou voltar à sua postura habitual. — Ela não é uma cidadã americana, é francesa naturalizada wakandana. Não tem jurisdição neste país e não tem permissão para ficar aqui, não está cumprindo atividades do governo e nem sendo demandada por ele. — Ele fez uma pausa, como se medisse as palavras, e logo completou: — Não queremos ter a responsabilidade de ter que lidar com ela e, muito menos, de ter que lidar com a instabilidade que você causa nela. Já temos problemas demais.
— Ainda assim, vocês não podem controlar se e quando nos encontraremos — Bucky rebateu, confuso. Mas Tyler logo voltou a explicar:
— A lógica é simples, Sargento Barnes: podemos, porque somos nós quem fazemos as regras aqui. O Conselho Europeu não quer que você circule pela União Europeia e o governo dos Estados Unidos emitiu uma nota de proibição de circulação de por aqui.
— Os pais dela são cidadãos americanos, ela poderia… — Bucky tentou argumentar, mas Tyler logo o cortou.
— Everett é americano, mas não tem laços sanguíneos com ela — Tyler bocejou — e, por isso, a cidadania americana não foi e nem poderá ser transmitida a ela. E Karl é alemão, inclusive, deve ter sua permissão de residência nos EUA negada em breve, já que não presta mais serviços para este país.
— Disse que ainda posso pedir autorização para viajar, poderia vê-la em algum outro lugar que não fosse aqui ou na Europa — Bucky sugeriu, tenso.

Para Tyler, Bucky parecia se esforçar em querer encontrar qualquer brecha para poder negociar aquela cláusula. De certo, faria o possível para manter por perto. Para Bucky, contudo, todas aquelas perguntas eram um esforço de consolidação de seu plano inicial. Queria ter certeza do que estava fazendo, queria ter a noção do quão longe todas aquelas diretrizes dos acordos iam. Se estava decidido a deixar ir, tinha que se certificar de que estava fazendo o melhor para ela e, dessa vez, dentro das leis. Estava tentando entender como tudo funcionaria para eles dali em diante, o que poderia e o que não poderia fazer em relação a ela, quais argumentos poderia usar, caso tentasse dar um jeito de resolver tudo. Mas, acima de tudo, estava tentando entender o que tinha que fazer para não interferir negativamente na vida dela. Não mais.

— Nenhum país que se preze aceitou ter vocês juntos e, convenhamos, James, é mesmo o melhor para vocês. — Tyler virou-se levemente em sua cadeira. Bucky sentiu uma pontada em seu coração, frustrado em ouvir mais alguém concordar que aquela era a única e melhor solução possível para eles dois. — Você é como uma bomba relógio, prestes a explodir. Já temos problemas demais em lidar com você separado dela, juntos, então… nem queremos pensar em como seria.
não tem culpa pelas coisas que eu fiz e nem por eu ser… quem sou — Bucky negou com a cabeça, sério. — Não entendo nem por que estão a punindo.
— Por que você a meteu nisso tudo, James — Tyler deu de ombros, como se aquilo fosse óbvio. Era óbvio, Bucky sabia que era. Só estava se torturando o suficiente em ouvir dele o que precisava ouvir. — A estamos “punindo”, apesar de achar essa expressão um exagero dramático, porque ela fez o que fez para tentar salvar e proteger você. — Tyler parou para pensar um segundo, observando os olhos duros de James em cima de si, como se ouvir aqui o tivesse paralisado em seu lugar. — tem muito mais a oferecer, foi difícil negociar quem ficaria com ela, por isso toda a União Europeia entrou nesse consenso. Mas ninguém quer você — o homem riu amargo. — Ninguém quer arcar com a responsabilidade de ter o Soldado Invernal, de ter que lidar com as consequências do surto, caso ele aconteça. E entendemos que não pode mais arcar com isso também. Com tanta coisa acontecendo no mundo, ela precisa se focar no que pode fazer de melhor, precisa continuar trabalhando para a humanidade e não como a babá de um homem de cem anos, com todo respeito. Nós precisamos ficar com você porque é um cidadão americano e tem direitos, que nós, enquanto país, devemos garantir a você. Mas não é, não temos responsabilidades ou deveres com ela.

Bucky parou para pensar naquilo por um momento. Aquele era um ponto de vista que em seus mais amargos pensamentos dos últimos dias ele havia considerado. E parecia tão verdadeiro quanto qualquer outro motivo para culpar-se por tudo que acontecia com que se passava em sua mente. tinha muito a oferecer. Sempre teve, desde criança, desde quando ganhou a fitocinese. Poderia trabalhar para o bem de tanta gente, poderia se dedicar ao mundo, à natureza, com a honra e a nobreza que Steve, Stark ou Sam se dedicaram. Tinham coisas extraordinárias demais em que, só agora, o mundo estava reconhecendo. Ela não deveria, mesmo, ficar presa a Bucky. Não era a pessoa certa para ficar fazendo vigia nele, perdendo tempo e gastando sua preocupação em matar os demônios que ele mesmo deveria matar. Era um absurdo pensar neles dois juntos, se olhasse sob essa ótica.
Pensando naquilo, Bucky se sentiu ainda mais envergonhado. Constrangido por a ter ocupado com ele mesmo, frustrado por não ter percebido aquilo antes. Ele se sentia um tremendo egoísta e chegou a pensar que tinha lutado tanto por sua liberdade, uma vida inteira, para ter-se aprisionado a ele no final das contas. Aquilo não era certo com ela, não era justo, não era o que ela merecia. E Bucky revirava cada um desses pensamentos com tristeza e desespero dentro de si, perdido, confuso, em silêncio, enquanto ouvia as palavras persuasivas e maldosas de Tyler fazerem o efeito nele que o governo esperava que fizessem.

— Tivemos cinco anos de vivendo e atuando completamente sozinha e pudemos ver e entender tudo o que ela é e tudo o que pode fazer, toda a sua disposição e potencial. Conseguimos lidar com ela. E vou te dizer, James, em uma única palavra que descreve o sentimento das autoridades sobre ela: encantadora. Poderosa, talvez — pela primeira vez desde que chegou ali, Bucky viu Tyler sorrir levemente. Suas palavras, apesar de duras para ele, pareciam honestas. — é uma aliada como nenhuma outra. Entendemos suas fragilidades, mas podemos e queremos ajudá-la. O que não queremos, de forma alguma, é que ela volte ao ponto inicial porque agora tem você novamente na vida dela. Não queremos que se torne uma inimiga, que as pessoas voltem a ter receio dela, medo, não queremos comprar uma briga com ela. Pelo contrário, queremos resolver as coisas, se me entende.

Ele entendia. Entendia até mais do que gostaria de entender daquela merda toda, mas não sabia o que deveria dizer. Nada seria bom o suficiente para expressar a mistura terrível de sensações que Bucky carregava. Já estava atormentado por um milhão de coisas ruins nos últimos dias e Tyler parecia colocar os pontos finais nas sentenças que Bucky tão dramaticamente escreveu. Como se ouvisse tudo o que ele precisava ouvir para tomar uma decisão final, já bastava. Bucky estava, enfim, decidido.

— A vigência do acordo é baixa, vocês sobrevivem — Tyler quebrou o breve silêncio, encarando Bucky de volta com desdém. — E vai ser ótimo para você, pense. Vai estar de volta e vivendo em liberdade, no lugar onde teve sua história interrompida. Vai conseguir se reerguer, vai receber um tratamento médico de primeira e ainda mudar sua imagem do assassino frio para um homem amigável. Quando tudo isso terminar e você puder voltar para , vai ser uma pessoa melhor para si mesmo e, principalmente, para ela.

Uma vez mais, ele parecia ter razão no que dizia, mas Bucky jamais assumiria aquilo em voz alta. Tyler não merecia ter o gostinho da razão. Cada palavra dele parecia calculada, como se ele soubesse exatamente o que Bucky sentia diante daquela situação. Amava com todas as suas forças, amava como nunca amou ninguém, como nunca achou que poderia amar. E, talvez, conseguisse se tornar o que precisava, o que ela merecia ter, naquele tempo que passariam longe. Talvez aprendesse, de fato, a ser alguém melhor, para que pudesse oferecer o que queria oferecer a ela: estabilidade, segurança, proteção, conforto, só as partes boas do amor. Viver uma vida em liberdade, em que só haveriam os dois e toda a felicidade do mundo. Era algo que Tyler conseguia deduzir. E era exatamente como Bucky se sentia.

— Imagino que você tenha uma lista de reparações muito grande, e as diretrizes do acordo junto com a terapia vão te ajudar com isso — Tyler suspirou falsamente enquanto descia seu olhar até o maço de papéis —, mas todos concordamos que é melhor te afastar de , antes que o nome dela apareça nessa lista também.
— Eu não sou capaz de machucá-la — mais vulnerável e surpreso do que gostaria de transparecer, Bucky sussurrou.
— Tem certeza disso? Porque parece que foi o que você fez nesses anos todos. — O agente parou de falar por um segundo, observando os olhos de Bucky finalmente saírem dele para um lugar qualquer em seu colo, olhando as próprias mãos nas luvas de couro.

Tyler tinha sido instruído a ter aquele tipo de postura, a ser incisivo, pegar pesado em seu discurso com James. Imaginavam que era uma pessoa quebrada, com muitas questões mal resolvidas presas em si e que bastava reforçar o que ele já deveria sentir e pensar sobre si mesmo para que ele assinasse o acordo sem grandes contestações. E ali estava ele, Tyler, protagonizando o grande espetáculo. Conseguindo, com sucesso, realizar mais um trabalho emblemático para a organização e para sua carreira. Se James aceitasse os termos sem contestações, Tyler teria em seu currículo a benevolência de ter acolhido e ajudado uma das pessoas mais perigosas e fortes do mundo, alguém que poderia lhe dever alguns favores no futuro, alguém que ele poderia se vangloriar de ter recuperado, um passaporte para seus planos ambiciosos no trabalho.
Tyler era fissurado em lidar com aquele tipo de ser. Fez o que fez para chegar até aquele exato ponto de sua carreira, ao topo, à direção e à decisão final. Se nunca houve margem para erros, agora não seria diferente, de forma alguma. Ele venceria aquela etapa, ele conseguiria o que queria, ele seria recompensado por ter voluntariamente acolhido James e por tê-lo feito entender e assinar aquele acordo. Já tinha o corpo de Visão, já estava cuidando de recolher os pertences de Natasha e estava prestes a ter o consentimento de James. O que mais poderia querer para a S.W.O.R.D.?

— Pense nisso, James. Nós não somos os caras maus dessa história. — Tyler recostou-se na cadeira, girando-se levemente de um lado a outro, despreocupado. — Só estamos tentando colocar as coisas em ordem outra vez e, talvez, você devesse fazer isso com a sua vida também e deixar organizar a dela.
— Já entendi, Tyler, agradeço a preocupação — Bucky revirou os olhos, descontente, pensativo. O outro homem sorriu, escondendo a satisfação em perceber que estava exatamente onde queria estar naquela conversa.
— Ótimo, então acho que já terminamos por aqui — Tyler levantou-se. — Você pode contestar qualquer parte do acordo, se quiser, estamos abertos a negociar. Vamos te dar um tempo para ler, absorver todos os detalhes, falar com algum advogado e voltamos a nos falar, ok?

Bucky não queria voltar a falar com ele. Na verdade, não queria voltar a falar sobre aquele assunto com ninguém. Já tinha clareza sobre o que acontecia e seu senso racional já gritava o que ele deveria fazer. Matt havia pedido para ele esperar para que pudessem entender todos os termos juntos e Nate esperava pelo fim daquela reunião para que pudesse submeter a contestação da separação geográfica dele e de à corte. Haviam ares muito favoráveis a ela e era possível que eles repensassem aquele ponto dos acordos, mas Bucky não sabia se era realmente o melhor para eles, o melhor para o mundo.
A contestação daria início a uma nova fase conturbada da vida dos dois, os desgastaria, os afastaria ainda mais do que ele se esforçava para os afastar naqueles dias e ele não queria mais que sofresse por tudo aquilo. Depois dos cinco anos que passou tentando seguir em frente, tentando se reerguer da maior das quedas que a vida já a havia dado, ela não merecia passar por nada daquilo. Bucky havia voltado e o que ele tinha trazido consigo, senão novos problemas para ela resolver, novas preocupações e um novo caos? Já era hora de acabar com aquilo. Sem contestações, sem novas fases, sem novos problemas. Sem mais processos e sem mais tristezas para . Bucky estava disposto a arcar com todo o sofrimento e com a responsabilidade de, enfim, deixar ser feliz.
Sentindo seu coração acelerar e seus olhos se encherem de lágrimas, que foram rapidamente engolidas, Bucky pegou a caneta em cima da pequena pilha de papéis e voltou-se para Tyler, uma última vez:

— Onde eu assino?

✽~✽~✽~✽


Do lado de fora da sala de Tyler, esperando no hall de entrada há quase uma hora desde que Bucky entrou, viu Wanda aparecer inesperadamente e furiosa. Matt havia dito que a S.W.O.R.D. também cuidaria do caso dela e chegou a pensar que ela também tinha reunião marcada com Tyler. Mas ela não teve muito tempo para pensar naquilo e não assistiu Wanda mais do que dois minutos na recepção, falando alto, sem se importar com nada a seu redor. chegou a se levantar para falar com ela, mas Wanda parecia tão irritada que sequer a viu se aproximar. A passos firmes, a ruiva caminhou até onde o recepcionista um tanto assustado indicou e, sem esperar que ele a liberasse, ela destravou a porta com seus poderes e entrou pelo corredor, sem olhar para trás.
parou de caminhar por um momento, atônita em ver aquilo. Os olhares surpresos e um tanto assustados das pessoas ao redor foram do corredor por onde Wanda caminhava até , como se pudessem encontrar nela uma resposta para o que tinha acabado de acontecer. também não sabia. Não tinha tido contato com Wanda desde o enterro de Tony, mas parecia que as coisas também não iam bem para ela. Wanda também tinha ficado sozinha em meio àquilo tudo, tinha perdido Visão e desaparecido por cinco anos. Estava vivendo o luto em meio à tentativa de se reencaixar no mundo e não era fácil para nenhum deles. Fosse o que fosse, tentaria falar com ela mais tarde, descobrir o que estava acontecendo e de que forma poderia ajudá-la.
Seus pensamentos, contudo, foram rapidamente cortados pelo toque de seu celular avisando que alguém a ligava. pegou o aparelho e, vendo o número de Matt piscar na tela, logo o atendeu, curiosa.

— Oi, Matt, tudo bem?
Oi, Flora, onde você está? — apesar de parecer calmo, sua voz transparecia uma certa pressa, uma urgência.
— Na sede da S.W.O.R.D., por quê? — ela estranhou.
Você está bem? — Matt parecia preocupado, ela quase podia ver a expressão dele fechar-se do outro lado do telefone.
— Estou bem e você? — respondeu.
Tudo certo. Preciso que olhe ao redor e me diga se há alguma movimentação estranha, próxima a você ou vindo em sua direção — Matt pediu delicadamente, apressado. olhou ao redor, enquanto, por instinto, dava alguns passos em direção à porta de saída do lugar. Se lá dentro tudo estava calmo e normal, então o problema deveria estar lá fora, mas nada parecia atípico por lá também.
— Não há nada aqui, nada de… diferente — ela respondeu em um tom de voz mais baixo, preocupando-se para que ninguém que passasse próximo a ela ouvisse a conversa. — Aconteceu alguma coisa?
E tem alguém perto de você? — ele voltou a perguntar. — Te cercando, induzindo, vigiando, algo?
— Não, estou completamente sozinha. — olhou outra vez ao redor, vendo a porta, por onde Wanda entrou, abrir-se novamente e dela sair Bucky. Ele tinha o olhar completamente apático, baixo, os cabelos tapando levemente seu rosto, como se estivesse envergonhado de algo. — Está me deixando preocupada, Matt.
Certo, então volte para casa agora, o mais rápido que puder — Matt pediu, sem mais hesitar.
— O que houve, Matt? Meus pais…? — ela deu mais alguns passos para fora do prédio da organização, assustada. E, mesmo pensando em todas as coisas que poderiam estar acontecendo para que aquela ligação estranha de Matt fosse necessária, naquele momento, jamais cogitou o que viria a seguir.
Acabamos de receber a notificação de que Bucky assinou o acordo dele e, com isso, consentiu formalmente com a separação de vocês — o homem respondeu, resumidamente, pelo telefone.

Esperava que entendesse o que estava acontecendo e que fosse embora, ao encontro dele, o mais rápido possível. Ela sabia o que aquilo queria dizer, ela sabia. Matt estava frustrado, muito descontente e com um pouco de raiva pela postura de James. Não esperava que ele fosse agir sozinho no caso, não depois de todo o apoio e ajuda que ele, Nate e o estavam dando no andamento do caso. O que havia mudado ele não sabia, mas tinha certeza de que não favorecia sua cliente em nada.
Diferente da reação que ele esperava, contudo, ficou muda no telefone. Todo o senso de pressa e preocupação que cresciam nela deu espaço a um sentimento terrível de traição, de desconfiança. Uma confusão enorme tomou seu peito, ao tempo que ela sequer conseguia ordenar o que sentir primeiro, o que deveria fazer diante daquela informação. Bucky havia assinado seu acordo. Havia assinado sem sequer contestar o fato de terem que ficar, anos, separados, sem poder se ver, sem ter falado com ela sobre aquilo, desdenhando do fato de ela estar há semanas se preocupando e fazendo de tudo para aquilo não acontecer.
não tinha assinado o acordo dela, esperando por ele. Estava colocando tudo a perder, mais uma vez, por Bucky e o que recebeu de volta? Por que ele havia feito aquilo? Estava se vingando dela por ter feito o vídeo e assumido a culpa por seus pais? Por que ele tomou a decisão sem consultar Matt, sem dizer nada a ela? Ele entrou já sabendo que assinaria ou alguma coisa havia acontecido lá dentro? tinha tantas perguntas naquele momento, mas a única que conseguiu colocar em palavras foi a que fez a Matt, pelo telefone:

— O quê?
Te explico melhor quando nos encontrarmos, mas, a partir de agora, temos que tirar você do país ou vão vir atrás de você. — Matt pareceu derrubar alguma coisa do outro lado da chamada, talvez pela pressa do que estava fazendo. Ele não estava conseguindo se concentrar direito, era nítido, não estava esperando por nada do que acontecia. sentia seu coração quase sair pela boca, o desespero tomando conta de si, enquanto ela olhava Bucky se aproximando, calado. Não podia ser verdade. Não era verdade, era?
— Matt, que porra é essa? — perguntou outra vez, pausadamente, como se tudo não passasse de uma brincadeira de mau gosto.
Te explico mais tarde, Flora, agora, por favor, só me encontre na casa dos seus pais. Nate está enviando sua assinatura para a corte, para que não seja ainda mais prejudicada nessa história e vou pedir ajuda de Karl para fazer alguma mala sua. Everett já está comprando as passagens.
— Matt, eu não estou…
Só venha embora, Flora — Matt disse uma última vez e desligou o telefone. Sabia que tinha sido um tanto mal educado, mas, não fosse aquilo, ficaria perguntando milhares de coisas e perdendo ainda mais tempo do que já estava. Tinha que tirá-la logo de lá. Rápido.
— Isso só pode ser brincadeira — sussurrou, seus olhos cheios de lágrimas, odiosos, indo do celular em mãos, que observava a chamada ser desligada, para Bucky, que se aproximou dela, a encarando com preocupação.
— O que aconteceu?
— Eu que te pergunto, Bucky — falou mais alto do que gostaria. Estava desconcertada, confusa. — O que aconteceu?
— Não aconteceu… nada — ele estava, claramente, fingindo casualidade.
— Nada? — repetiu, o encarando.

Aquilo, definitivamente, só podia ser brincadeira e de muito mal gosto. A sensação de quando o caos está prestes a acontecer pairava no ar. Pelo jeito confuso e um tanto nervoso de , Bucky já sabia que ela tinha consciência do que ele tinha feito. Não imaginava que seria tudo tão rápido daquela forma, mas Tyler o avisou que notificariam todas as partes da assinatura dele, ainda naquele dia. Matt já devia estar sabendo e devia ter avisado . O que ele poderia dizer a ela, afinal? Era melhor não dizer nada, era melhor conversarem em casa. Teriam tempo e teriam um espaço seguro, reservado, para que pudessem acertar o que seria deles dali em diante. Ao menos, essa era a expectativa de Bucky.
por sua vez, se perguntava por que Bucky estava fingindo que estava tudo bem. Havia alguma chance de, no final das contas, tudo ser um grande desentendimento? Se ele tinha mesmo assinado o acordo, por que não assumia de uma vez para ela? Bucky estava estranho. Absurdamente estranho, talvez até mais do que nos dias anteriores àquele. Seus olhos não se fixavam nos dela e ele parecia ansioso, olhando ao redor como se quisesse sair logo dali. Suas mãos abriam e fechavam em punhos, ao lado de seu corpo, o claro sinal de que estava angustiado. não entendia o que estava acontecendo. A ideia de que só ela estava por fora de alguma coisa sondava sua mente, a incomodava.

— O que você fez, Bucky? — pausadamente, perguntou, o encarando. O olhar dela era sério e carregado de uma mágoa que Bucky não podia descrever, não podia suportar. Ele desviou o olhar dela uma vez mais e, sem saber o que deveria dizer ou fazer, respondeu sincero.
— Assinei o meu acordo.

Apesar de já saber daquilo, ouvir aquelas palavras saindo da boca dele foi ainda pior. O sentimento de traição, de ter sido deixada de lado, desconsiderada, justamente por ele, tomou conta de como uma onda furiosa, tão real que doeu em seu peito. Ela sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas outra vez, mas as engoliu firmemente. Não daria o braço a torcer, não antes de entender exatamente o que estava acontecendo. Bucky deveria ter seus motivos, algo deveria ter acontecido para ele tomar aquela decisão sozinho. Bastava fazer as perguntas certas, ter paciência e conversar com ele.

— Por que você fez… Por que assinou sem dizer nada? — com os olhos presos nele, sem ter qualquer retorno, perguntou. Parecia controlar as emoções, como se estivesse se segurando.
— Por que não deveria ter assinado? — ele sorriu sem felicidade alguma. — Você toma suas decisões sozinha, eu também. — teve certeza que ele se referia ao vídeo — Por que acha que preciso te contar tudo?

Ele se sentia péssimo em agir daquela forma. Como se tivesse traindo a pessoa que mais amava na vida, como se tivesse silenciosamente deixando que ela percebesse que ele estava só… querendo ir embora. Era tormentoso, lento, torturante. Bucky não queria fazer nada daquilo, não queria, não deveria. Parte dele morria a cada pergunta confusa que o fazia, a cada olhar dela que ele não conseguia retribuir. Mas a parte mais forte dele implorava que fosse até o fim. Que terminasse com aquilo de uma vez, que magoasse a última vez possível para que, enfim, ela pudesse seguir em frente e ser feliz.
Bucólico, trágico, dramático e caótico. Como ele. Como ela não merecia.
Bucky tinha que ser firme em seus objetivos. Tinha que fazer entender que era melhor sem ele, que precisava se afastar dele. E só tinha um caminho claro para Bucky, para que pudesse alcançar aquele objetivo: tinha que magoá-la. sempre foi forte, teimosa e muito resistente. Sempre encontrava um jeito de se livrar dos problemas, de solucionar equações insolucionáveis, ela daria um jeito em dobrar os acordos, daria um jeito de fazer o possível e o impossível para ficar com ele, perto dele. Mas o que mais custaria a ela? O que mais ela teria que negociar para ficar com ele? O que mais faria ou, pior, em quantos novos problemas se meteriam para fazê-los darem certo? Bucky estava decidido. Magoado, destruído também. Estava ansioso, se sentindo péssimo, sofrendo calado e sem deixar transparecer qualquer indício.

— Não foi você quem me cobrou de ter te contado sobre a vinda de Nate? Agora mudou o lado do jogo? — Os olhos se enchendo de lágrimas de entregavam a confusão absurda que ela estava sentindo e aquilo doía para caralho em Bucky. — Eu preciso te contar tudo e você não precisa me contar nada, é isso?
— Aqui não é o melhor lugar para falarmos sobre isso — Bucky engoliu em seco, desviando o olhar.
— Mas aqui foi o melhor lugar para você decidir tudo sozinho? — ela ironizou. — Você tem noção do que você fez, James?
— Fiz o que eu tinha que fazer — ele voltou a olhar para ela, a preocupação transparecendo em seus olhos, vendo para onde tudo aquilo os estava levando. Bucky se sentia ridiculamente mal.
— Tínhamos decidido que faríamos isso juntos, para que pudéssemos continuar juntos — ela riu, sem graça alguma, com obviedade.
— Da mesma forma que decidimos que eu assumiria a culpa por seus pais e você fez tudo diferente, sozinha — ele riu da mesma forma que ela.
— Ainda estamos falando sobre isso? — A pergunta foi mais irônica do que ela gostaria.
— Não sei, se já estiver resolvido por você, então fica ainda mais sem sentido você me cobrar sobre ter assinado o meu acordo. — Bucky estava tão apático, irredutível, que estava assustando . Nunca tinham se tratado daquela forma que estavam se tratando naquelas semanas, o que estava acontecendo?
— Tínhamos conversado, tínhamos decidido… você… — ela negou com a cabeça, confusa, a cada segundo mais transtornada, sem saber ordenar as informações e sentimento — você disse que estava de acordo com o que Matt e Nate propuseram.
— Eles são seus advogados, não meus — Bucky respondeu baixo. Não sabia exatamente o que dizer.
— E por isso a vingancinha, então? Por isso decidiu tudo por mim também? Pelas minhas costas? — apontou para si mesma, perdendo a paciência a cada segundo que se passava e a cada falta de resposta clara de Bucky.
— Não decidi nada pelas suas costas, .
— Por Bast! — ela passou as mãos nos cabelos, nervosa. Nada nele fazia sentido algum para ela. — Que porra há de errado com você, Bucky?
— Não há nada de errado comigo, quem está histérica aqui é você.

Bucky engoliu em seco, sem querer realmente ter dito aquilo. O que ele estava fazendo? pareceu paralisar por um momento. Não sabia mais quem era aquele homem com quem estava conversando, tudo havia se perdido tão rápido, que Bucky estava irreconhecível. Nunca tinha falado com ela daquela forma, nunca tinha demonstrado aquele descaso todo. Ele desviou os olhos dela uma vez mais, querendo evitar a sensação terrível de ver a confusão, a mágoa que estava criando nela. Um mal necessário, na mente de Bucky. Um desentendimento que parecia piorar a cada segundo, na mente de .

— Histérica? — ela repetiu, ofendida. — Você está há semanas agindo como um babaca, me ignorando, fugindo de tudo, e agora eu sou a histérica por querer saber o que há de errado com você?
Agindo feito um babaca — Bucky riu, triste. — Bom saber o que você verdadeiramente pensa, quando estou tentando lidar com a porra de tudo que está acontecendo e que envolve você também.
— Por "lidar" você quer dizer fugir do problema e depois resolver o seu lado nele sem pensar em mais ninguém? — A pergunta cínica foi como uma facada neles dois — Só para esclarecer mesmo.
— Eu não tenho obrigação alguma de lidar com os problemas do mesmo jeito que você lida, — firme, ele rebateu, sendo sincero com ela pela primeira vez naquela conversa. — Eu fiz o que eu achei que fosse o melhor para nós dois… o melhor para você.
— Agora devo agradecer por estar pensando em mim? — ela ironizou. Bucky sentiu uma pontada violenta no peito, um sentimento horrível de ter consciência do que estava fazendo com ela. — Porque me parece que já resolveu o teu lado da história sozinho e nem sequer me considerou nele. Me deixou para trás.
— Você não entende. — Bucky parecia vulnerável. Um misto de fraqueza com nervosismo o tomava, suas falas mudavam de tom conforme a postura de , iam de tristes para acusatórias em um segundo. Ele estava confuso, caótico, era possível ver nos olhos dele. Estava angustiado e os sentimentos ruins cresciam dentro dele a cada segundo, observando os olhos magoados e perdidos de sobre ele.
— Então me explica, James! Por que você… — ela começou a perguntar, dando um passo em direção a ele, incrédula, perdida — por que está fazendo isso tudo? Por que está me afastando, me ignorando, me tratando dessa forma, do nada? Por que assinou o acordo?
— Eu tenho direito de assinar o meu acordo, tenho direito de livrar a minha pele disso tudo — Bucky rebateu, ríspido, ignorando as primeiras perguntas dela. Era difícil ver o quanto ela estava confusa e o quanto estava se machucando com ele, mas ele não podia dizer a verdade. Sem margens para erros dessa vez, não voltaria atrás. — É minha vida que foi discutida dentro daquela sala, é o perdão que eu preciso ter do governo para ter o mínimo de dignidade de volta — ele negou com a cabeça. — Eu só quero acabar com isso logo e viver em paz.
— Livrar a sua pele? — frisou, apontando para ele. — E quanto a mim? E quanto a gente? Você tem noção do que você fez? Nossos acordos foram redigidos em paralelo, o que você assinou diz respeito a mim também... isso muda tudo... — ela passou as mãos pelos cabelos, os olhos carregados de lágrimas de raiva, de tristeza. — Eu estava te esperando para assinar essa merda juntos, para não te prejudicar! Te esperando para contestar os acordos, para a gente conseguir, pelo menos, ficar geograficamente no mesmo lugar depois de... cinco anos, de... tudo o que aconteceu.
— E, mais uma vez, o problema é o mesmo! Você pensou em me perguntar se eu queria contestar alguma coisa? — Bucky apontou para ela. — Pensou em entender o que caralhos eu queria?
— EU TENTEI! — ela praticamente gritou. Sentia que não estava sendo ouvida por ele, que ele estava ignorando tudo de propósito. — Você estava lá quando o Matt falou o que estava acontecendo, você virou as costas e foi embora, sumiu por dias, não quis falar comigo — ela deixou uma lágrima escorrer, mas logo a limpou — e, quando voltou, eu tentei conversar com você. Várias vezes. Tentei saber o que estava acontecendo, o que tinha de errado, você foi claro em repetir que estava tudo bem — cuspia as palavras, desesperada.
— Você estava tomando conta de tudo sozinha, como sempre faz, e… — ele tentou dizer, mas ela logo o interrompeu, cansada de ter que repetir as mesmas coisas, como se não estivesse sendo ouvida.
— O que você esperava? Que eu ficasse te esperando até quando? A gente está atolado até o pescoço de processos, de… problemas. Karl perdeu o emprego, vai ser deportado. Everett quase foi preso, eu não tenho tempo para esperar você assimilar as coisas. — respirou fundo. — Tem mais do que você e seus problemas em jogo aqui.
— E você ainda está se sentindo deixada para trás? — ele perguntou, mentindo. Ele estava errado, sabia que estava. — Ouça a si mesma, . Você foi a primeira pessoa a tomar uma decisão sozinha aqui.
— VOCÊ ESTAVA JUNTO! — exasperou-se, negando com a cabeça. — Caralho, Bucky! Eu estava te esperando para assinar! Você conversou com Matt, conversou com Nate, viu o que estavam preparando e podia ter falado com eles, se algo não estava bom para você. Podia ter falado comigo! — ela apontou para si mesma, nervosa. — Mas decidiu ficar quieto e acabou de foder com tudo por um desespero seu, por um surto de egoísmo, que…
— Egoísmo? — ele a interrompeu, a encarando de volta. — Eu passei noventa anos sendo controlado por outras pessoas, sem ter a chance de escolher nada e quando eu decido alguma coisa por mim mesmo é um surto de egoísmo?
— O que é então, James? — voltou a perguntar. Sua mente estava desordenada com tanta informação, ela não conseguia encaixar as peças, nada em Bucky parecia claro o suficiente, até ouvi-lo, enfim, dizer:
— Já passou pela sua cabeça que talvez eu não queira mais ficar junto com você?

se calou. Aquilo não tinha passado pela cabeça dela, não tinha sequer cogitado aquela possibilidade. Tudo entre eles parecia estar voltando ao normal, desde que Bucky voltou e nada pareceu ter acontecido, para , para que Bucky tivesse aquela fala agora. Por um instante, contudo, ela pensou que talvez ele não tivesse voltado de fato. Talvez o Bucky que ela amava, que a amava, tinha desaparecido cinco anos atrás e o que retornou era mesmo uma versão bem diferente. Uma versão com um novo problema a resolver, com um novo momento trágico em sua história para se recuperar. Apesar de terem conversado sobre aquilo, não podia imaginar exatamente o impacto que o Blip teve para Bucky e sabia que era mais um desafio a ser superado por ele. Entre tantas questões que ele carregava dentro de si, talvez, dessa vez, dali em diante, ela já não conseguiria mais ajudá-lo a carregar.
O que ela não entendia, contudo, era o motivo pelo qual ele estava agindo daquela forma. Se tudo aquilo fosse mesmo sobre essas questões, ele poderia só ter tentado conversar, poderia ter sido honesto consigo mesmo e sincero com ela. Poderia ter respeitado a história dos dois, o espaço que construíram, ter considerado como alguém que fez absolutamente tudo por ele. Ela não merecia ser afastada daquela forma, não merecia que ele a tivesse apunhalado pelas costas, assinando, sozinho e silenciosamente, o acordo. Não merecia ouvir dele tudo o que estava ouvindo, ser tratada daquela forma.

— Olha essa merda toda, . Olha a que ponto chegamos, olha bem onde você está agora, sua... situação. Sendo babá de um cara de cem anos que não tem nada a te oferecer, longe da sua casa, longe das pessoas que você ama, tentando se adaptar em um país que você odeia, abrindo mão de tudo que poderia fazer para ficar com um homem que pode viver sozinho, sem você — gesticulando, nervoso, ele colocou para fora de uma vez, urgente. Apesar de estar sofrendo por dentro, se remoendo em dizer aquilo, Bucky não transparecia nada, senão um certo nervosismo. — Onde está a sua vida nisso tudo? Quem está fazendo algo por você? — ele perguntou, sincero, a vendo negar com a cabeça, desacreditada, desgostosa em saber que era daquela forma que ele a via, no final das contas. — Você acha mesmo que vamos conseguir ficar juntos? Depois de tudo o que aconteceu?
— Achava — ela concordou, engolindo o choro que se formava pela mágoa de ouvi-lo dizer tudo daquela forma rude e indelicada, como se não pudesse sequer respeitar o que tinham vivido, como se não enxergasse o amor dela. — Achava de verdade, até você pensar só no próprio umbigo e assinar essa porra de acordo sem fazer nada do que a gente tinha combinado. Matt pediu para ler o acordo com você antes de assinar. O que mudou?
— Eu mudei — Bucky passou as mãos pelos cabelos, aflito. — Eu não quero mais ficar dependendo de ninguém, para nada, não quero que tomem decisões por mim, eu quero ser livre, LIVRE.
— Isso é diferente — praticamente gritou, exasperada.
— Não, não é. Eu fiz a minha escolha. Escolhi aceitar o que me foi proposto e escolhi aceitar que não tem mais como ficarmos juntos. Minha vigência é de cinco anos… cinco anos. Você acha que vão nos deixar ficar juntos depois de tudo o que fizemos? Acha mesmo que vamos conseguir viver presos a contestações e processos que não terminam nunca, que vamos ficar cinco anos vivendo em continentes diferentes, falando por telefone, até o grande momento em que poderemos ficar juntos de novo? — A voz dele tinha muita ironia e um toque de incerteza. Os olhos azuis brilhavam com as lágrimas os enchendo a cada instante. O que ele estava fazendo? Não podia perder .
— Se não se lembra, eu passei cinco anos sozinha, sem você, e, quando voltou, aqui estamos nós, não é? — Ela abriu os braços, magoada.
— Não, não passou sozinha, você passou com outra pessoa. — Seu tom de voz parecia acusatório, triste. — E não, não estamos aqui.
— Então é sobre isso? Ainda é sobre Nate? — deu um passo atrás e riu com cinismo. — Está fazendo tudo isso porque está amargurando o fato de eu ter ficado com ele esses cinco anos, de ter tentado seguir com a minha vida enquanto você não estava aqui?
— Não é sobre isso — Bucky suspirou pesadamente, desviando seu olhar para um canto qualquer atrás dela, engolindo as lágrimas que se formavam em seus olhos. Se tinha que deixá-la ir, então tinha que deixá-la ir de uma vez por todas. Mesmo aquilo sendo a coisa mais difícil que ele teria que fazer, mesmo não querendo realmente fazer aquilo. — É sobre o fato de você não ter mais nada a me oferecer, — ele mentiu friamente. — Nada.
— Não, James — respondeu, silenciosa, deixando as lágrimas escorrerem em seu rosto —, não me use como desculpa para tentar justificar uma decisão que é sua, que você já tomou e só está me notificando.
— Pelo menos você sabe agora.

Bucky a encarou novamente. Uma das mentiras mais difíceis que ele precisou contar, uma das piores decisões que tinha tomado em sua vida toda. Seu coração batia tão acelerado e forte em seu peito, que ele desejou arrancá-lo de uma vez. Nenhuma dor que já havia sentido em sua vida se comparava com aquela, com a angústia cortante, crescente, com a censura de tudo o que verdadeiramente sentia pela pressão de se fazer o que ele achava ser o correto. Ele amava . Amava de uma forma única, intensa, profunda. Amava como nunca soube amar ninguém e como jamais amaria outra pessoa. E tinha certeza absoluta que continuaria a amando, daquela forma, pelo resto de seus dias.
Ele a assistiu chorar silenciosamente, incrédula, surpresa, conforme, achava ele, ela ia entendendo o que acontecia ali. Bucky estava terminando com ela. Estava atestando ser um egoísta irresponsável, dizendo em alto e bom som que já tinha tirado dela tudo o que ele precisava e agora ela já não mais servia a ele. Como uma peça de roupa antiga, deveria estar se sentindo usada, descartada. Incapaz de reagir, de dizer qualquer coisa, pega pela surpresa de um término que ela não imaginava acontecer, dominada pela tristeza e pela mágoa que ele deveria ter criado nela, como o monstro que ele era.
Seria melhor para ela assim, quando tudo passasse.
Bucky queria acreditar naquilo, queria acreditar que estava mesmo fazendo a coisa certa, mas, naquele instante, diante de uma chorosa, confusa e machucada, ele não podia acreditar. Não deveria acreditar nas merdas que sua mente estava criando. Não podia acreditar no que estava fazendo, que caralho ele estava fazendo, afinal? Mas Bucky não teve mais tempo de pensar naquilo, não teve tempo de voltar atrás e não teve tempo de dizer mais nada para ela.

Delacour Lamarck? — uma voz firme, feminina, despertou a atenção dos dois, os forçando a quebrar o contato visual e olhar para o lado.

A mulher, aparentemente uma agente da S.W.O.R.D., se aproximava deles do lado de fora do prédio, séria, com os olhos cravados em e segurando algumas folhas em mãos. Junto com ela, alguns policiais se aproximavam, criando um cerco calmo, casual, ao redor deles dois. limpou as lágrimas de seu rosto com as mãos e encarou a outra mulher de volta. Talvez fosse sobre aquilo que Matt estivesse se referindo quando perguntou se ela estava sendo cercada ou algo do tipo. já deveria estar em casa, ao menos, deveria ter ido embora. Aquilo tudo parecia um pesadelo, um inferno, que não tinha fim e que, certamente, não terminaria bem.

— Sim? — respondeu, franzindo a testa.
— Seguindo o acordo 2743 da revisão do Tratado de Sokovia, você está presa por ter entrado em território americano sem autorização da corte e por estar a menos de 500 metros de distância de James B. Barnes — a agente falou, ora olhando o papel em sua mão, ora olhando . — Por proteção a ele e a esta nação, você será expulsa dos Estados Unidos da América imediatamente.
— O quê? — em um sussurro confuso, perguntou, mas a agente continuou dizendo:
— Você tem direito de permanecer calada, tudo o que disser poderá ser usado contra você em um Tribunal. Tem direito a um advogado e, se não puder pagar por um, o Estado lhe assegurará um defensor público. Qualquer sinal de resistência pode te levar à prisão. Tem algo a declarar?
— Que porra é essa? — nervoso e igualmente confuso com o que acontecia, Bucky questionou, olhando de para a agente.
— Tem algo a dizer, senhorita Lamarck? — a policial voltou a perguntar, mais ríspida do que antes.
— Não — sussurrou, atordoada, sentindo alguns policiais a pegarem pelas costas e puxarem seus braços para trás de seu corpo.
— O que está acontecendo? Vocês não podem fazer isso — Bucky questionou irritado, observando ser algemada.
— Agora você tem um acordo firmado com o governo dos Estados Unidos, Sargento Barnes — a agente respondeu, impaciente. — Estamos só cumprindo o que o senhor voluntariamente assinou. Por gentileza, afaste-se dela. Não é seguro para o senhor.
— Não é seguro? Para mim? — ele riu, irônico.

Aquilo não podia ser verdade. De onde haviam tirado a ideia de que não era segura para ele, quando, na verdade, era justamente o contrário? Não deveria ser Bucky a ser tirado de perto dela? Não deveriam estar garantindo a segurança de , sua integridade, depois de tudo o que ela havia feito pelo mundo e por aquele país? Bucky estava confuso, perdido e sentiu o mundo arrebentar-se bem diante dele a cada segundo que entendia, finalmente, as consequências do que tinha feito. Ele tinha aceitado tudo aquilo, tinha armado todo aquele circo para proteger . E, no final das contas, estava só protegendo a si mesmo? Estava jogando a culpa de sua instabilidade nela, atestando que o governo tinha razão, que eram perigosos juntos e que podia tirar a pior parte dele quando, em realidade, foi ela quem deu-lhe tudo o que tinha de melhor a oferecer.
No final das contas, na briga dos acordos, tinham colocado ele contra . Um fechando portas ao outro, um anulando possibilidades do outro. Para defender a si mesmos era necessário atacar o outro. E, talvez, tivesse percebido aquilo mais cedo do que ele. Por isso havia insistido que esperassem para assinar, juntos; por isso Matt e Nate tinham pedido que ele esperasse. Mas Bucky não esperou. Bucky decidiu atacar sem que ela tivesse a chance de se defender. O que ele tinha feito com ela, afinal? O que ele tinha feito?

— Não encosta nela! — Bucky gritou, desesperado, e chegou a dar um passo em direção à agente, mas alguns policiais foram mais rápidos e, chegando por trás dele, encaixaram uma espécie de pulseira em seu braço de metal, que imediatamente neutralizou o vibranium, imobilizando completamente seu braço inteiro. Bucky olhou assustado da pulseira para o policial, sentindo os espasmos do neutralizador percorrerem seu corpo. Não tinha ideia de que algo como aquilo existia, mas não se importou muito. O que o atormentou, contudo, foi a ideia de que se tinham um neutralizador para ele, tinham também o de ?

E a resposta àquela pergunta veio no minuto seguinte, quando os olhos de Bucky caíram sobre ela no exato momento em que dois dos policiais a derrubavam no chão. não estava reagindo a nada, estava parada, assustada, claramente sem saber o que fazer, sem saber o que deveria dizer ou como agir diante daquela situação. Apesar de a agente ter dito que ela tinha um monte de direitos e que ela seria presa apenas em caso de recusa, os policiais não quiseram nem saber. Talvez, por medo do que ela poderia fazer; talvez, antecipando quaisquer reações dela, eles a derrubaram de joelhos no chão e, em seguida, um terceiro policial, que vinha logo atrás dos outros dois, injetou no pescoço de , sem cuidado algum, algo que Bucky imaginava ser o soro que neutralizava seus poderes — o mesmo que T'Challa usou em Berlim, quando Bucky a viu pela primeira vez, o mesmo que a S.W.O.R.D. deveria ter conseguido a posse, por "segurança", e replicado o líquido.
Bucky não conseguia descrever a sensação terrível e violenta de culpa que sentiu naquele momento, observando tudo acontecer tão rápido, sem poder fazer nada. gritou algumas vezes o nome de Matt para a agente e o número de telefone de Karl, o primeiro que veio em sua mente assim que terminaram de injetar o soro, como se implorasse para que eles entrassem em contato com eles e dissessem o que tinha acontecido. Ela estava exausta, era possível ver. Estava fragilizada, estava magoada com Bucky, estava machucada por tudo o que ele havia feito, dito, naquele dia, e agora estava ficando fisicamente fraca.
Ela se sentia sozinha. Tão solitária e tão abandonada que simplesmente deixou-se levar. Não reagiria ao que não sabia reagir, não lutaria com o que já tinha vencido e não pediria ajuda para a única pessoa ali que poderia lhe ajudar, porque estava desolada, porque já não mais o reconhecia. deixou as lágrimas caírem mais fortes, ao tempo que sentia a dor insuportável do líquido correr em suas veias. Ela segurava os gritos de dor e os mantinha presos em arfadas fortes enquanto chorava e se apoiava no chão, sendo amparada pelos policiais que esperavam, com dó e receio, que ela finalmente apagasse. Ela sabia que estava sendo tirada do país a força e sabia que estavam apagando-a por puro medo de fazer algo contra eles. Como Rhodes havia feito anos atrás, como se a história estivesse sendo recontada, com novos personagens.

? — Bucky chamou, horrorizado, amedrontado pelo que assistia, por tanta dor e por tanta culpa. Ele tentou dar alguns passos em direção a ela, mas foi impedido pelos policiais que o seguraram com brutalidade e pela agente que se colocou em frente a ele — ? Olha para mim.

Talvez, ela estivesse concentrada demais no que estava acontecendo consigo mesma. Talvez, ela não o tenha ouvido, em meio ao barulho dos policiais ao redor e dos gritos abafados de dor que soltava. Talvez, ela não tivesse mais forças para levantar seu rosto até ele. Mas, no fundo, Bucky sabia que ela não o olhou quando ele a chamou porque ela não queria mais vê-lo.

! — ele insistiu, aumentando seu tom de voz, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto junto com o arrependimento. — ? Por favor.

Como um suplício, ela o ouvia. Mas o que deveria fazer? Bucky tinha acabado de terminar com ela, tinha acabado de dizer que não precisava mais dela, que já tinha tirado tudo o que ela tinha a oferecer e não queria mais tê-la por perto agora. não fazia mais sentido algum para ele. Tinha acabado de assinar o maldito acordo que estava causando tudo aquilo nela, por que ela deveria atender a seu chamado? Não mais. Ela tinha feito suas escolhas, era hora de ela fazer as dela. Não seria mais a babá do cara de cem anos, se era isso que ele queria, se era isso que ele achava que ela era.
Bucky tentou tirar a pulseira que travava seu braço e tentou, outra vez, dar alguns passos em direção à , mas um dos policiais, o mais forte deles, o derrubou no chão firmemente. Desesperado, deixando as lágrimas caírem e deixando-se levar pelo tremendo remorso, pela culpa, enquanto tentava empurrar os policiais para se levantar, sem sucesso algum, ele chamou pela última vez, antes de sair de sua vida completamente:

— Por favor.

Capítulo 41

Nova Iorque, EUA
Seis meses depois


Bucky ainda se lembrava daquela cena.
Às vezes, do nada, se pegava lembrando de como terminaram. Às vezes, tinha pesadelos com aquele exato momento, com ele machucando-a. Tinha repassado tantas vezes tudo o que aconteceu em sua mente, que cada detalhe parecia vívido, real, como se tivesse acontecido no dia anterior, como estivesse vivendo aquela cena recorrentes vezes, mesmo seis meses depois. Ele se arrependeu do que fez, de toda a situação que armou, por insegurança, por culpa, por medo de enfrentar quem era, por medo de seu passado e por medo de saber que, agora livre, poderia começar a construir um futuro. Ele se arrependeu do que fez quando viu ser carregada pela Segurança Nacional para fora da sede da S.W.O.R.D. e quando Matt atendeu sua ligação, ríspido, irritado, extremamente triste e nervoso, depois de ignorá-lo por horas, e disse que ela já tinha saído do país com Nate e Karl e que Sam estava no apartamento com Everett, ajudando a recolher as coisas dela para levar até Berlim.
Ele tinha feito merda, ele sabia. Tinha acabado com a única coisa boa que tinha em sua vida, em anos, em décadas, por um surto, por ter se deixado influenciar por Tyler, por confiar demais em sua mente. Apesar de mais estável e não mais sob o controle de outras pessoas, sua mente ainda não era totalmente confiável, ainda estava o cercando de tudo que o fazia bem, ainda o alertava sobre não merecer qualquer sentimento bom, o afundava em angústia cujas origens estavam tão enraizadas no passado tormentoso e violento, que ele sequer conseguia se lembrar. Os traumas que ele passou a desvendar nas terapias que tinha que cumprir como parte do acordo que assinou, o passado que ele vasculhava e que justificava as merdas que estava fazendo no presente.
Bucky perdeu .
Perdeu porque quis perder, porque foi covarde, porque cometeu um erro grave e ridículo de acreditar que tudo seria melhor, para ela e para ele, se não estivessem juntos. Mas o que melhorou em seis meses depois que se afastaram? Para ele, absolutamente nada. Para ela, ele esperava, torcia, que muita coisa. O último contato direto que teve com foi na semana seguinte ao término, quando ele, desesperado em ter notícias dela depois de tudo o que aconteceu, com mais saudades do que conseguia suportar, tomou coragem o suficiente para ligar e tentou conversar com ela. Sem considerar o “olá” formal e o “sim” seco que ela respondeu depois que ele perguntou se ela estava bem, a única coisa que conseguiram dizer foi uma única frase cada um.

— Fico aliviado de saber que está bem, eu… estou ligando para saber o que você acha, se não se importa… eu gostaria de ficar com Alpine. — Foi o que ele conseguiu dizer, pelo telefone, em um tom de voz baixo e delicado, nitidamente nervoso. Não queria reivindicar nada e não queria magoar Flora, mais do que ela já parecia estar magoada com ele. Bucky não sabia o que dizer e, na falta de abertura dela para ter uma conversa com ele e diante do fato de Alpine ainda estar no apartamento de Karl e Everett, esperando uma decisão deles, foi tudo o que ele conseguiu pensar.
— Ela não te reconhece mais, James. —Ffoi o que Flora respondeu, sem poupar o desprezo em sua voz. — Nem ela te reconhece mais.

E, então, desligou o telefone.
Aquele foi o último contato que teve com . Sem conversas, sem tentativas de acerto, de reconciliação. Sem espaço para que ele pudesse vê-la ou para que pudesse gritar desesperadamente o quanto se arrependia, o quanto tinha tomado uma decisão errada, o quanto sentia falta dela todos os dias e o quanto ainda a amava. De todos os barulhos altos e ruídos que Bucky podia imaginar odiar no mundo, o silêncio dela estava sendo o pior deles. Queria contar a que tudo não passou de um surto dele. Que, agora, ele conseguia identificar aquele tipo de pensamento, com ajuda da terapia. Queria se desculpar, queria que ela soubesse da verdade. Mas se também nunca o tinha procurado de volta, talvez fosse o sinal de que ela estava bem e de que estava conseguindo cumprir o objetivo inicial de Bucky. Estava seguindo e estava feliz sem ele.
Bucky se pegava procurando pelo nome dela nos jornais impressos e não perdia o noticiário da televisão, todos os dias, à noite. Às vezes havia alguma notícia sobre ela, algum comentário sobre ações ambientais que ela fazia, fóruns internacionais sobre alimentação saudável que ela participava ou ofensivas do governo Alemão para garantir a segurança e a estabilidade da região. tinha ganhado permissão para voltar a circular na África e na Ásia e suas visitas à Wakanda voltaram a acontecer sem que houvesse acompanhamento do governo. Ela parecia ter sua imagem limpa e, a cada trabalho novo que aparecia dela nas notícias, Bucky se sentia feliz em vê-la bem e lutando pelo que era certo. Ao menos, naquele ponto, ele parecia ter feito algo de bom para ela.
A vida dele, contudo, não pareceu ter mudado tanto quanto ele gostaria. Seguiu morando no pequeno apartamento que arrumou no Brooklyn, mas não teve força de vontade para mobiliá-lo. Conseguiu comprar uma televisão e alguns utensílios de cozinha, sua vizinha havia doado alguns cobertores que ela não precisava mais para ele e Bucky seguia seu hábito militar de dormir em um fino colchão no chão. Estava se esforçando em desapegar dos hábitos antigos, se esforçando em criar novos hábitos, mas tudo parecia difícil para ele. O máximo que Bucky conseguiu mudar naqueles meses, talvez a única mudança realmente expressiva dele, foi ter cortado o cabelo. Sua terapeuta, doutora Christina Raynor, havia insistido, muito, para que ele começasse a deixar seu passado para trás com mudanças que poderiam ser significativas para ele, mesmo que fossem pequenas e discretas — e cortar o cabelo curto foi o máximo que Bucky conseguiu fazer.
Apesar de parecer pouca coisa, à primeira vista, tinha sido um movimento bom. Bucky demorou alguns dias para se acostumar com o corte novo, porque se sentia um tanto exposto, sem conseguir esconder seu rosto nos fios longos. Teve certo receio de o que poderia acontecer quando as pessoas passassem a reconhecê-lo e a perceber que agora estava vivendo livremente entre elas. Contudo, diferente de o que esperava, as pessoas pareciam olhar para ele com outros olhos. Não mais tão temerosas e desconfiadas, por outro lado, elas ficavam surpresas em vê-lo andando pelas ruas como se fosse uma pessoa qualquer e, boa parte delas, sequer o reconhecia daquela forma.
Dessa forma, à medida que ia saindo e que ia percebendo as reações discretas sobre ele, Bucky começou a se sentir mais confiante. Ele estava aprendendo a lidar consigo mesmo e com sua auto imagem, estava aprendendo a se sentir seguro, a sair em público sem ter medo do que achariam dele, a olhar no pequeno espelho que colocou em seu banheiro e ver um James diferente do que se acostumou a ver por um século inteiro. Mudanças tão simples, que estavam significando muito para ele.
Ainda assim, mesmo cada dia mais confortável em ser quem era, ainda não conseguia lidar exatamente bem com o fato de ter um braço de vibranium e seguia o escondendo em luvas de couro. E, apesar de sentir que avançava cada vez mais sentido ao autocontrole e à segurança de quem era e das coisas que tinha feito, tudo era bastante difícil para ele. Bucky ainda tinha certas recaídas, ainda tinha dias que simplesmente não conseguia sair de seu apartamento e dias que se pegava chorando, solitário e abandonado. Muitos dias ensaiava ligar para , mas não conseguia. Ignorava as mensagens de Sam e qualquer tentativa de aproximação dele e seguia pensando em Steve, sentindo falta de ter um amigo a quem pudesse recorrer, que pudesse entender o que caralhos acontecia com ele.
E muitas noites Bucky continuava a ter pesadelos com as coisas que fez. Sonhava com as missões que foi obrigado a fazer pela Hydra, sonhava com a sensação de ser o Soldado Invernal, com os rostos das pessoas que assassinou, com toda tortura que sofreu. Pesadelos longos, que pareciam não acabar nunca e que o acordavam nas madrugadas, o fazendo questionar se, de fato, estava conseguindo ter algum progresso. Tinha que se apegar às pequenas melhoras, sua terapeuta dizia, mas os dias ruins eram realmente difíceis de esquecer. Se lembrar de todas as coisas terríveis que fez o atormentava, o perseguia, o sufocava e ele sabia que aquela parte de sua vida jamais o deixaria em paz.
Naquela semana, em especial, Bucky estava tendo os exatos mesmos pesadelos. Alguns dias, sonhava com o momento em que perdeu e, outros, com um assassinato em especial. Aquela já era a quarta noite seguida que teve o sono interrompido pela violência que ele mesmo cometeu contra alguns homens que eram alvos da Hydra, cerca de duas décadas atrás. No pesadelo, na ocasião, ele havia invadido um hotel durante o começo de uma madrugada, assim que os homens voltaram de um jantar, e matou cada um deles friamente, sem esboçar qualquer reação, sem contestar, sem dizer nada senão o que sempre dizia antes de um alvo majoritário ser morto por ele: “Heil Hydra”. Como o bom soldado que era, estava fazendo o serviço sujo da organização que, por anos, foi responsabilidade dele e os pesadelos não o deixavam esquecer daquilo.
Contudo, o que tinha de especial naquele pesadelo, para além de toda tormenta que o trazia rever o banho de sangue, rever a si mesmo assassinando brutalmente pessoas sem sequer entender o que fazia, saber seus nomes ou suas histórias, era o fato de ter matado um homem em específico que ele sabia não ter relação com a missão que cumpria naquela noite. O homem, em seus vinte e poucos anos, talvez, usando roupas sociais, estava acompanhando os demais no jantar naquela noite e voltava para seu quarto quando tudo aconteceu. Ele não era um alvo, mas foi um efeito colateral. Deveria estar com eles a trabalho, fechando algum negócio, nada que fosse interesse da Hydra. Mas ele estava lá, na ponta do corredor, quando Bucky matou o último dos alvos, tão nervoso pela situação, apavorado, que suas mãos, trêmulas pelo medo, não conseguiam acertar o buraco da chave de seu quarto e foi tarde demais.
Bucky se lembrava de ter se aproximado dele, se lembrava de tê-lo olhado nos olhos, de tê-lo ouvido dizer, horrorizado, que ele “não contaria nada do que viu ali para ninguém”. Mas Bucky não sentia nada e, apesar de entender o que ele dizia, não conseguia fazer nada de diferente do que lhe fora solicitado pelo seu comandante. A ordem simples passando clara por sua mente enquanto sua expressão apática não conseguia nem mostrar um pingo de compaixão pelo garoto chorando nervoso, implorando por viver. Em casos como aquele, em que testemunhas podiam comprometer a organização, todos, sem exceção alguma, deveriam ter exterminado. Como um mal que se arranca pela raiz, vidas como a daquele homem tinham que ser tiradas. Sem piedade, sem remorsos, sem contestações.
Ele o matou com um tiro no meio da testa e foi embora. Uma de suas últimas missões sob o controle da organização, antes de, finalmente, conseguir começar a se libertar. Uma das missões mais vívidas e claras que carregava em sua mente e que o estava perseguindo especialmente naquela semana. E Bucky sabia o porquê. Sabia que estava recorrentemente se lembrando daquele homem que assassinou porque nos últimos seis meses o único amigo que havia feito era, justamente, o pai dele.

— Então, senhor Barnes, ainda tem pesadelos? — Christina tentou quebrar o profundo silêncio da sala, olhando seu paciente calado em sua frente. — James, eu fiz uma pergunta. Ainda tem pesadelos?

A sessão de terapia já havia começado há quase quinze minutos e Bucky simplesmente não tinha dito mais do que cumprimentos e que estava bem. Christina já havia percebido que ele estava mais calado do que o normal naquele dia, parecia preso em seus próprios pensamentos, como sempre acontecia quando ele tinha pesadelos ou quando se lembrava de , Steve ou algo importante que fez no passado. Ela sabia que tinha um desafio e tanto em mãos em ser a terapeuta de James, mas estava realmente disposta a ajudá-lo como podia. Já tinha estado no exército, tinha experiência com aquele cenário, tinha vivência com homens militares quebrados pela guerra e sabia, na pele, como se sentiam. Contudo, apesar dos anos de experiência, nenhum de seus pacientes tinha sido tão complexo quanto Bucky era. Nenhum deles sequer tinha chegado perto de ter vivido o que ele viveu ou de ter feito metade das coisas que ele fez.
Bucky era diferente, porque absolutamente todos os detalhes de sua vida eram diferentes. Ela estava aprendendo com ele, aprendendo sobre ele e se impressionava a cada nova sessão que tinham, apesar de nunca transparecer emoção alguma. Tinha que se manter neutra, um tanto apática, segurar um olhar de fora do que ele lhe contava, induzi-lo a pensar as situações por outro ângulo e, quem sabe, pela sorte ou pela ciência, fazê-lo sair daquele programa de terapia, fiscalizado pelo governo federal, uma pessoa muito melhor e mais bem resolvida do que quando chegou ali.

— Não.
— Já fazemos isso faz tempo e eu sei que está mentindo — ela insistiu. Sempre tinha que insistir com ele. — Parece meio desligado hoje, aconteceu alguma coisa recentemente?
— Não. — Bucky continuou respondendo monossilabicamente.
— Se lembrou de algo? Ou teve alguma data especial que passou essa semana? — a terapeuta tentou, sem sucesso.
— Não.
— Falou com , finalmente? — ela tentou outra vez, avaliando a expressão dele manter-se apática, mas os olhos pareciam tristes, indo para um canto qualquer do chão. — Ou a viu, de repente?
— Não. — Ele voltou a olhar para ela, cansado das perguntas simples que, no fundo, o atingiam como bombas.
— Você é um civil agora — Christina o relembrou o motivo de estar ali. — Com seu histórico, o governo precisa saber que você não vai… — Christina fez um sinal com o punho fechado, como se quisesse sinalizar algum tipo de violência. — É uma condição para o seu perdão, então me fala sobre seu último pesadelo.
— Eu não tive pesadelo — James rebateu, impaciente, a encarando.

Sabia como funcionavam as terapias e, para ser honesto, gostava mais de sua terapeuta de Wakanda. Era séria e muito profissional, como Christina, mas mais carinhosa e paciente com ele e com todas as suas questões. Christina era boa, era um fato. Mas ele sabia que ela tinha metas a cumprir com ele e que, na maior parte dos encontros que tinham, ela o forçava a falar coisas que ele não queria dizer a ninguém. Os relatórios de cada uma das sessões de terapia que fazia eram encaminhados por ela ao governo e à S.W.O.R.D., que os analisava e respondia com diretrizes sobre o que ela deveria falar, fazer ou perguntar para ele na sessão seguinte. Era um processo. Moroso, penoso e bastante chato, mas ele era obrigado a cumprir, se queria se livrar, de uma vez por todas, do que um dia ele foi.
Christina o esperou dizer qualquer coisa, o encarando de volta, e, na falta de resposta dele, ela simplesmente deu um clique na caneta que segurava e fez menção de anotar algo no caderno de progresso de James, que levava em seu colo. Não era fácil tirar coisas dele, James era absurdamente calado. Estava acostumado a manter-se em silêncio, a não se expor, a passar despercebido, a não poder falar sobre si mesmo e sobre o que estava sentindo. Se auto censurava quando não havia ninguém o censurando e mantinha-se tão quieto quanto se lembrava de ser antes de começar a se libertar do passado. Apesar de se esforçar, quando estava a fim, havia muito que ainda podia ser feito por ele.

— Ah, que isso? Vai fazer o lance do caderninho? Por quê? — Bucky exasperou-se, incrédulo. A doutora Christina sempre reagia daquela forma quando ele resistia às sessões de terapia, quando estava só de corpo presente. Ele sabia que qualquer coisa que ela anotasse ali seria lida pelo governo e pela S.W.O.R.D., seria mal interpretado e traria consequências a ele. Como uma forma de forçá-lo a falar, talvez, ela nem parecia se importar. — Isso é passivo-agressivo.
— Se você não fala, eu escrevo — simples daquele jeito, ela explicou, tirando um suspiro pesado dele.
— Está bem, está bem — Bucky revirou os olhos, se dando por vencido. — Eu cortei um nome da minha lista de reparação ontem.

A lista de reparação. A ideia mais infantil que ele já tinha tido nos últimos tempos, que foi aceita pelo governo. Bucky passou a fazer listas como um exercício terapêutico, desde que começou aquele programa. Lista de coisas que se lembrava, lista de nomes de seus familiares, lista de lugares que viveu, lista de coisas que gostaria de fazer, lista de coisas que se arrependeu de ter feito, lista do mercado, lista de absolutamente tudo. Como sempre teve problemas em expressar claramente o que pensava e o que sentia, a doutora Christina sugeriu que ele colocasse em tópicos, em listas, para facilitar o processo de autocompreensão e reduzir a ansiedade. Estava funcionando, mas ele jamais admitiria em voz alta.
E duas dessas listas, em especial, Bucky começou a fazer para si mesmo. Em um caderninho antigo, um tanto surrado, ele anotou os nomes de pessoas que gostaria de redimir-se pelo o que fez contra elas e outros que gostaria que se redimissem com ele pelo o que fizeram. Em uma lista, nomes de pessoas que perderam pessoas, que foram agredidas pelo Soldado Invernal, alvos que conseguiram escapar com vida, pessoas que ele magoou.
O primeiro nome da lista, aquele de quem ele tirou tudo, aquele quem ele machucou de diversas formas diferentes aos longos dos anos — pela violência, pela tortura, pela manipulação, pela perda, pelas lutas, pelo abandono, pelo sumiço, pelas palavras mentidas. estava no topo. Na esperança de, algum dia, ele poder se desculpar com ela. Em seguida, o segundo nome, o senhor Nakashima, pai do homem que ele matou por efeito colateral, com quem tinha pesadelos constantes. Abaixo deles, uma dúzia de pessoas que Bucky sabia que ainda viviam e que mereciam dele muito mais do que desculpas. De todas as listas que havia feito, aquela, sem dúvidas, era a pior delas para se lidar.
Na outra, colocou nomes de pessoas que trabalharam na Hydra, direta ou indiretamente, e que continuavam em cargos importantes, tomando decisões, que o feriram, que o machucaram, o forçaram a fazer coisas que ele não queria. Pessoas que deveriam ser presas, que deveriam ter seus crimes levados a público, que deveriam pagar pelo que fizeram. E Bucky sugeriu aquilo à Christina, que sugeriu ao governo, que o autorizou a riscar os nomes. Um a um, Bucky podia ajudar, dentro da lei, a identificar quem eram e entregá-los às autoridades competentes para serem julgados e presos.
A princípio, Christina não achou a melhor das ideias. Ainda não confiava em James o suficiente para achar que ele podia realmente agir de acordo com a lei e imaginava um cenário mais próximo de vê-lo saindo por aí fazendo justiça com as próprias mãos, limpando a violência do passado com mais violência no presente, um ciclo que ela imaginou que ele jamais conseguiria se livrar. Por isso, na desconfiança e na incerteza, ela conseguiu convencer o governo a demandar, exigir, 3 regras básicas dentro dessa ajuda que ele se propunha a dar.

— Não se preocupe, eu usei as suas três regras — ele continuou dizendo, meio debochado, e parou por um momento. Christina seguiu prestando atenção, silenciosa, até ouvi-lo dizer: — Senadora Atwood. Ela foi um peão da Hydra por anos. Ajudei-a a ser eleita quando fui o Soldado Invernal. E, depois que a Hydra dispersou, ela continuou a abusar do poder que eu dei a ela.
— Então, regra número 1: — a doutora suspirou, sem desviar seus olhos dos dele — você não pode fazer nada ilegal.
— Eu só dei informações à promotoria para condená-la e não estive envolvido em mais nada — ele mentiu. Na verdade, ele, de fato, deu às informações à promotoria, mas rastreou os movimentos da Senadora por alguns dias até se encontrar com ela em um estacionamento privado.
— Regra número dois? — sem acreditar muito nele, Christina continuou. Bucky a olhava sério, os olhos espremidos, tentando passar seriedade e veracidade em cada palavra que ele dizia.
— Qual era a regra número dois? — ele a provocou, fingindo se esforçar em lembrar.
— Ninguém se machuca — ela respondeu, cínica. — Essa é importante.
— Então, por que não é a regra número um? — James a encarou, igualmente irônico, mas, na falta de resposta dela, assumiu: — Eu não machuquei ninguém, eu juro.

Christina já estava há seis meses o atendendo, em sessões semanais de terapia. James a visitava três vezes por semana no começo, passou para duas e agora estava indo apenas uma vez. Conforme seu progresso ia sendo notado e sua confiança era estabelecida, o número de encontros podia ser reduzido. O fato era que ele já tinha passado tempo o suficiente com ela para que ela soubesse exatamente o que significava cada palavra do que ele dizia e cada comportamento que tinha quando se sentava ali. Estava enrolando em falar do nome que cortou na lista para evitar ter tempo de falar sobre os pesadelos e, pior ainda, para evitar a todo custo falar sobre ela.
Sentado de frente para ela, na ampla, confortável e bem iluminada sala, com as pernas abertas e as mãos cobertas em luvas de couro prato entrelaçadas, Bucky falava a verdade. Talvez não uma verdade cheia, mas uma verdade real. Ele não tinha machucado ninguém. Tinha dado um susto na Senadora, pilotando remotamente o carro que ela havia estacionado, o girando de um lado a outro feito um carro de brinquedo e, minutos antes de a polícia chegar, com a localização que ele passou, Bucky revelou-se para a mulher. Parado do lado de fora do carro, ele esperou que ela abrisse o vidro do passageiro e a encarou, cinicamente amigável. A Senadora parecia horrorizada e absurdamente surpresa em vê-lo.

— E quanto à regra número três? — com as pernas cruzadas, sem desviar seu olhar apático dele, Christina perguntou pacientemente. — O objetivo da reparação é a regra três.
— Sabe, você é muito desconfiada — ele provocou, sério. — É claro que eu cumpri a regra número três. — Bucky se lembrava de ter sorrido para a Senadora, da mesma forma que sorriu para Christina naquele instante, e dito as exatas palavras que aprendeu a dizer com a regra número três: — “Não sou mais o Soldado Invernal. Sou James Bucky Barnes e você faz parte do meu esforço para reparações”.
— Então, você fez tudo certo, mas não ajudou com os pesadelos — cirúrgica, a terapeuta o cutucou outra vez.
— Como eu disse, não tive pesadelos — Bucky respondeu suavemente.
— Olha… — Christina abaixou seu olhar, mas logo voltou-se a ele. — Um dia você vai ter que se abrir e perceber que algumas pessoas querem te ajudar e que pode confiar nelas.
— Eu confio em pessoas — Bucky abaixou o olhar, pensativo.
— Então, qual é o problema, James? — ela insistiu.
— As pessoas não podem realmente me ajudar — em um sussurro, ele assumiu, sem levantar seu olhar até ela.
— Ah, é? E como você chegou até aqui?

Bucky parou para pensar por alguns minutos. No silêncio que tomou a sala, morava a pergunta que Bucky evitava fazer a si mesmo, com medo de ter que respondê-la em voz alta. Havia chegado ali porque Steve o ajudou a se libertar da Hydra, destruindo a organização. Havia chegado ali, porque Steve insistiu em ir atrás dele, mesmo anos depois de ter sumido, mesmo depois da surra que levou. Estava ali porque tinha comprado aquela briga, porque ela se importava com ele, com a vida dele. Porque ela tinha aberto mão da própria liberdade para esconder-se com ele em Wakanda, porque tinha aberto sua vida e seu coração para ele. Estava ali, porque Steve e , outra vez, quase morreram para trazê-lo e tantos outros de volta do além e estava ali, em um programa de reparações, porque tinha conseguido convencer o governo de que ele merecia uma chance de ser reparado. Bucky conseguiu chegar até ali porque confiou em pessoas, porque amou Steve e e porque deixou-se ser amado por eles.
Christina já tinha ouvido aquelas histórias. Bucky já havia contado a ela sobre Steve e sobre . E ele o perguntava exatamente aquilo porque queria que ele pensasse exatamente o que estava pensando naquele momento. Nada que pudesse fazer na vida faria sozinho. Por mais que estivesse se esforçando em não meter mais ninguém em seu próprio caos, viver não era aquilo. Não podia e não deveria seguir daquela forma, já estava claro para ele. Mas não era tarde demais? Já não era tarde para quem se julgou egoísta demais em ter alguém? Bucky deixou um suspiro sair de seus lábios e soltou a única conclusão possível:

— Sozinho. Sendo egoísta.
— Não é egoísmo quando aceitamos ajuda de quem quer nos ajudar — Sabendo ao que ele se referia, Christina rebateu, calmamente, o olhando. — Steve e fizeram as coisas que fizeram por você porque também estava sendo bom para eles. Steve foi seu melhor amigo, ele sentiu sua falta nesses anos todos, e amou você, como uma parceira, como alguém que se apaixonou. Eles também precisavam de você e amavam você, James. Fazemos coisas por aqueles que amamos e aceitá-las não é egoísmo — ela assentiu com a cabeça. — Como confiou em Steve a vida toda, como aprendeu a confiar em , precisa aprender a confiar mais nas pessoas também.
— Eu confio nas pessoas — ele repetiu, subindo seu olhar até Christina.
— É? Me dá o celular — ela pediu, colocando seu caderninho de lado. Sem hesitar, Bucky tirou o aparelho antigo, de flipe, do bolso da jaqueta e estendeu para ela. Christina só levou um instante antes de voltar a falar: — Você não tem nem dez contatos aqui — ela concluiu. — Deixou as mensagens que te disse para enviar à no rascunho, há três semanas, e tem ignorado as mensagens do Sam — ela assentiu com a cabeça, pacientemente. — Olha, tem que desenvolver amizades. Eu sou a única pessoa para quem você ligou a semana toda, isso é muito triste — jogando o celular de volta para ele, ela o encarou. — Você está sozinho. Você tem 100 anos de idade, não tem história, nem família…
— Está querendo descontar em mim, doutora? Porque isso não é nada profissional, sabia? Quando isso começou? Quando começou a gritar com os pacientes? — Bucky a interrompeu, desacreditado, a assistindo pegar o caderninho outra vez e mencionar anotar algo nele. — Ah, o caderno, ótimo. — Ele parou por um instante e respirou fundo. — Me dá um tempo, estou tentando. Isso é… — ele desviou o olhar para um canto qualquer da sala, mas logo voltou. — Isso é novo para mim. Ainda não tive tempo de lidar com tudo, sabe? Eu tive um pouco de… calma, em Wakanda, com… — ele engoliu em seco, sem conseguir dizer.
— Diga. Vai te fazer bem dizer o nome dela — parando de anotar, Christina o incentivou.
— Com… — ele olhou para ela. — Tive um tempo de paz em Wakanda, com ela, foi… tirando isso, passo de uma luta para outra há 90 anos.
— Ok, agora que parou de lutar — Christina emendou, cuidadosa. — O que você quer?
— Paz — Bucky respondeu, calmamente, sincero. A terapeuta só não revirou os olhos porque seria indelicado demais.
— Isso aí é pura mentira sua.
— Você é uma terapeuta terrível — Bucky franziu a testa.
— Eu fui uma excelente soldada, então, vi vários cadáveres e sei como isso pode travar alguém. E, se estiver sozinho, é o seu inferno mais pessoal e silencioso. — A fala era dura, mas bastante necessária. — E, James, é muito difícil escapar. Eu sei que você passou por muita coisa, mas tem sua mente de volta, têm pessoas que estão dispostas a fazer coisas por você, está sendo perdoado. Quer dizer, são coisas boas. Você está livre.
— Para fazer o quê?

Liberdade sempre teve um preço alto demais para Bucky.
E, naquela altura de sua vida, não estava sendo diferente. Ele deixou o consultório refletindo sobre a pergunta que fez para a doutora Christina e que nem mesmo ela, com todo seu conhecimento e experiência, soube responder. Enquanto esteve preso na Hydra, Bucky sonhava com a liberdade. Quando começou a ter consciência de que estava sendo mentalmente controlado, ele desejava a liberdade. Quando estava fugindo em Bucareste ou preso em Wakanda, ele torcia pela liberdade. E agora que, finalmente, a tinha, o que deveria fazer com ela? Tinha perdido Steve, tinha perdido , não tinha mais ninguém. Sua família estava morta há anos, ele não tinha amigos, uma ocupação ou um emprego, não era útil ou necessário a nada, a mais ninguém. O que ele deveria fazer, afinal?
Estava realmente tentando seguir em frente, mas mudanças nunca tinham sido positivas para ele e era difícil se acostumar com elas. Já tinha cortado o cabelo, já estava fazendo terapia, já estava há seis meses longe de confusões, de lutas, e, diferente dos crimes que havia cometido, agora estava empenhado em denunciar os criminosos. Tinha uma casa para morar, podia sair livremente pelas ruas, podia viver, falar, fazer, escolher o que quisesse. Finalmente podia viver, mas porque parecia bem diferente da vida que ele queria realmente levar?
Sem querer entrar mais a fundo nos seus próprios pensamentos, Bucky decidiu seguir o seu dia. Já perto da hora do almoço, ele resolveu mudar seu caminho para se encontrar com o senhor Nakashima, como sempre tinham costume de fazer, e, talvez, mais tarde, daria conta de riscar outro nome de sua lista de reparações ou, quem sabe, responderia alguma das mensagens de Sam.

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Berlim, Alemanha
Um dia depois


Seu ex me mandou uma mensagem ontem à tarde, Fada.

Foi a primeira coisa que ouviu assim que atendeu o telefone. Em um conjunto de calça legging e top pretos, com os cabelos presos em um perfeito rabo de cavalo alto, ela estava correndo, como costumava fazer todo final de tarde desde que se mudou de volta para Berlim. Os fones sem fio nos ouvidos tiveram Santé, do Stromae, cortada pelo barulho da chamada telefônica e bastou a atendê-la para identificar quem era. A noite estava prestes a cair e o movimento da cidade, por onde passava, era bastante tranquilo e calmo. Gostava de ir correr naquele horário porque a temperatura era boa, as ruas estavam mais vazias e, especialmente, porque chamava menos atenção por onde passava.

— E você me ligou para isso? — revirou os olhos, reduzindo a velocidade da corrida, para ter fôlego em falar.
Sim — ele respondeu simplesmente, era quase possível vê-lo dar de ombros.
— Está mesmo fazendo uma ligação internacional, que custa quase 1 dólar por minuto, para isso? — ela negou com a cabeça, incrédula.
Sim — ele repetiu. Na verdade, não era para aquilo que ele havia ligado, mas não perderia a oportunidade de encher o saco dela.
— Qual é a novidade? Você é a única pessoa que ele tem contato agora e, pelo que sei, você quem mandou as mensagens primeiro. Ele só está respondendo, fim — ela rebateu, levemente irritada com o tema. Odiava falar de Bucky. — Pessoas conversam. Thor me manda mensagens uma vez por semana e Peter me enche de figurinhas e áudios sobre os colegas da escola, me sinto velha.
Você precisa rever os seus contatos, urgentemente.
— Verdade, a começar pelo seu — ela o provocou de volta.
Está toda na defensiva.
— Tchau, Sam. — Ela fez menção de desligar, mas ele logo emendou:
Sabe o que isso quer dizer, não é? Estar assim, toda durona, na defensiva...
— Que faz uma semana que você foi embora daqui e já está com saudades? — ela arregalou os olhos, dando uma olhada ao redor, por onde passava. — Oh, não, tenho um palpite melhor: que você é insuportável?
Talvez, para as duas opções — ele riu. — Mas acho que quer dizer mais que alguém ainda gosta dele.

Feito um verdadeiro adolescente, ele frisou a palavra “dele” como se não pudesse dizer seu nome em voz alta, tirando uma bufada impaciente de . O que ela deveria dizer? Sam a estava provocando como sempre fazia, na brincadeira, cutucando-a sobre Bucky para ter as certezas que ele já tinha. Era óbvio que ela ainda gostava dele. Não se pode esquecer um amor da noite para o dia, em pouco tempo como aquele que havia passado. Não havia dúvidas sobre aquilo. Não foi ela quem terminou o que eles tinham, não foi ela quem gerou toda aquela discussão, todas as mágoas, pelo contrário, foi ela quem estava movendo o mundo, custasse o que fosse, para conseguir ficar com ele, depois de cinco anos separados. Cinco anos que achou que o tinha perdido para sempre e, agora, ele tinha feito uma escolha. não sabia o que dizer quando se tratava de Bucky e, com o tempo passando, torcia para que aquele sentimento amenizasse dentro dela.
Mas estava sendo difícil.
Era difícil esquecer tudo o que sentia por ele, difícil apagar as memórias que compartilhavam, difícil não pensar nele, esquecer os olhos azuis. sabia que precisava se desintoxicar de Bucky, mas não sabia sequer por onde começar. Só guardar o pouco de lembranças que tinha dele em uma caixa que jamais abriria, em cima de seu armário menos utilizado, não tinha sido o suficiente. Era difícil não lembrar dele. Bucky estava em tudo, porque estava nela, porque ela ainda o amava. No fundo, gostaria que tudo não passasse de um grande pesadelo e que, no dia seguinte, fosse acordar ao lado dele. E toda manhã era a mesma tristeza, a mesma solidão.
Apesar disso, uma parte dela a assegurava de que jamais o veria novamente, porque não queria realmente vê-lo. Não depois de tudo o que ele fez, depois de tudo que falou a ela. sabia que não merecia nada daquilo e seguia confusa em entender o que realmente tinha acontecido para ele, de repente, agir daquela forma com ela. Se parasse para pensar, para avaliar, nada fazia sentido para ela. Mas nada nunca tinha feito sentido em Bucky. O que poderia esperar dele, afinal, senão caos e confusão? Ela estava decidida a não querer mais nada que viesse dele. Atendeu a única ligação que recebeu dele uma semana depois que chegou a Berlim e, apesar de ter doído nela e de esperar que ele a procurasse outras vezes, ela seguiu curta e grossa na ligação.
E, depois daquele contato, a única e última vez que teve notícias dele foi uma recaída, quando bebeu demais e sozinha e pediu para A.R.I.A. pesquisar informações sobre Bucky. A interface projetou algumas coisas que encontrou e uma delas, em especial, atingiu tão violentamente que ela passou a se recusar a falar sobre ele. Bucky tinha feito uma conta em um aplicativo de encontros. Estava buscando na internet, em qualquer pessoa, em gente que sequer conhecia, o que não pode ser para ele e aquilo a entristeceu profundamente. O álcool que deveria ajudar só piorou tudo e, chorando impiedosamente no chão de sua sala, pediu para A.R.I.A. apagar absolutamente tudo que tinha registro sobre ele. Bucky estava seguindo em frente, ela achava. Estava tentando recomeçar a vida, sem ela, sem talvez sequer se lembrar dela. Ela deveria fazer o mesmo.
Seis meses haviam se passado desde então. Seis meses solitários e bastante confusos para , meses em que ela se ocupava o quanto podia para não pensar nele. Expulsa dos Estados Unidos, na tarde em que Bucky assinou seu acordo na S.W.O.R.D. e que eles discutiram, foi levada direto a Berlim e acordou já em seu apartamento com Karl a fazendo companhia. Everett chegou com Sam no dia seguinte e, convidando Nate a se juntar a eles, a ajudaram a reorganizar o apartamento, a voltar todas suas coisas ao lugar, se ajustar no país. Entre as violentas dores no corpo que o soro lhe causou e a tristeza profunda pelo que tinha acontecido em relação a Bucky, contou a eles toda a situação enquanto jantavam na primeira noite que se mudou de volta. Nate não soube bem o que dizer, ao tempo que Sam esbravejava, nervoso, na mesa, enquanto assista Karl e Everett ficarem tão irritados e chateados quanto a própria parecia estar.
Tinham colocado Bucky para dentro de sua casa, de suas vidas, como se fosse alguém da família, tinham o acolhido, o ajudado como podiam, o protegido, se arriscado por ele. Tudo o que faltava a Bucky, Karl e Everett providenciaram e estavam cuidando, com carinho e atenção, de toda situação dele junto com a de sua própria filha. O que ele havia feito não foi entendido por eles de outra forma senão como a mais pura ingratidão. Tinha machucado da pior forma possível: a traído, a desprezado, a abandonado, a desrespeitado. A tinha feito se sentir usada, a feito sentir como se tudo que tinha feito por si mesma, pela busca de seu passado e por amor estivesse errado. Tinham oficialmente terminado. Um fato que foi celebrado pela União Europeia como um indicativo de que não tinham mais que se preocupar com Bucky, quando assinou seu acordo; um fato que ela vinha remoendo, digerindo, desde então.

— Quantos anos você tem, Sam? — ela riu, trocando o ritmo de sua corrida por uma caminhada.
Alguns a mais do que você, me respeite.
— Por isso mesmo deveria saber que está parecendo uma criança — insistiu, parando por um momento para atravessar a rua.
Falar do ex é um assunto proibido agora? — Sam estava decidido a tirá-la do sério, não tinha outra explicação.
— Sempre foi.
Desde quando?
— Desde quando ele decidiu, totalmente sozinho, terminar comigo, sem motivo algum, em um local público e me deixou ser presa, apagada e expulsa do país feito uma criminosa... ou uma planta, você decide.

Sam riu baixo, visualizando em sua mente a expressão amargurada que ela deveria estar fazendo. Aquele era um assunto delicado, apesar de Sam sempre tentar amenizar a situação, fazendo piadas com ela. Ele passou as duas primeiras semanas com em Berlim, a ajudando no que ela precisava. Vinte e quatro horas, sete dias por semana com ela, se certificando de que ela estava bem e de que ele não a deixaria se sentir sozinha ou abandonada naquela situação. Apesar de já estar acostumada com a cidade, de ter Nate como vizinho e de Karl, agora sem mais emprego e sem mais poder ficar nos Estados Unidos, ter voltado a morar no apartamento que tinha há alguns quarteirões de onde ela vivia, Sam ainda assim sentiu a necessidade de ficar. Por , sem dúvidas. Precisaria de um ombro amigo, precisaria ter com quem desabafar, falar mal de Bucky e dividir as garrafas de vinho francês. Mas ele também ficou por si mesmo.
Com a partida de Steve e com o desmantelamento oficial dos Vingadores, Sam também não tinha mais ninguém a quem voltar. De fato, havia sua família. Sarah e os meninos estariam sempre lá por ele, onde quer que ele precisasse, mas era diferente. Era estranho não ter ninguém que entendesse de seu passado recente, estranho não ter mais missões ou treinamentos, estranho não mais viver na Torre junto com os demais, não ter os dias preenchidos pelas agendas incansáveis de atividades que Steve fazia questão de passar para eles. Não havia mais lutas, nem guerras, nem conflitos. Não havia mais um time, uma equipe para proteger e para lutar junto. Não havia mais os Vingadores.
Mas ainda havia para ele. E ainda havia ele para . E, enquanto estivessem juntos, nas lutas e nas dores da vida de uma pessoa normal, eles ficariam bem.
Além disso, Sam também não quis voltar tão cedo porque sabia que tinha uma decisão importante a tomar. Com a partida de Steve sendo descoberta pelas autoridades e pela ciência de que seu escudo e seu legado tinham sido passados para ele, Sam tinha a importante missão de decidir o que fazer: assumir um papel que ele não sentir pertencer a ele ou passar o legado de uma vida de seu amigo para as mãos de quem, certamente, não o honraria. Nas noites que se pegava acordado, sem conseguir dormir pela diferença de fuso-horários, Sam se pegava encarando as fotos de com Sarah e com seus sobrinhos, nos cinco anos que ele desapareceu, e pensava no que deveria fazer.
A opinião de era clara e bastante energética: ele deveria assumir o papel que Steve queria que ele assumisse, que Steve destinou a ele, a história que pediu a Sam que continuasse a contar. Fim. Não havia discussão ou incerteza, era a vez de ele carregar o escudo. Steve confiou nele, na responsabilidade, na integridade, na honra e na força que ele tinha para ser o novo Capitão América. E confiava nele também, não via outra pessoa para assumir aquele manto senão ele. Mas Sam ainda tinha dúvidas. Perguntas que fez a nas inúmeras vezes que conversaram sobre o assunto naqueles dias. Perguntas cujas respostas só ele poderia ter.
Entre os dias difíceis em que parecia não lidar bem com o término, entre as conversas profundas e cheias de conselhos que tinham um com o outro, as risadas altas que preenchiam o apartamento, os jantares que faziam juntos, as noites que iam em um karaokê próximo encher a cara e os dias que ele a ajudava na floricultura, as duas semanas passaram e Sam, finalmente, voltou para os Estados Unidos. Decidiu devolver o escudo de Steve, apesar de toda a resistência de , e o fez em um evento pequeno e simbólico, com transmissão nacional. Sam sentia que aquilo não o pertencia, quase como se fosse errado, como se estivesse tomando o lugar de alguém que ele jamais queria tomar. Steve era o Steve, sempre seria e jamais poderia ser substituído por alguém. O escudo, devolvido às autoridades, seria parte da exposição dedicada a Steve, junto com outros pertences dele. O Capitão América e seu escudo envelheceriam em um museu, assim como Steve escolheu envelhecer.
Sam, enfim, seguiu sua vida depois disso. Passava boa parte do tempo ocupado, prestando serviços especiais à Força Aérea Nacional, como parte de seu acordo de perdão, e estava feliz em poder ajudar. Ao menos, tinha a sensação de ainda ser útil, de ainda poder se enfiar em desafios, em lutas que certamente venceria, em poder seguir o trabalho que nos anos passados começou a se dedicar. Não era nem parecido com o que já tinha vivido, mas estava sendo bom para ele. O vento batendo no rosto, a adrenalina de voar, de usar o seu traje, de ser o Falcão.
Sempre que podia, passava algum tempo com sua irmã e seus sobrinhos, cuidando do barco de sua família, tumultuando as casas e as vidas dos parentes que, por alguns anos e pelas consequências do ofício, afastou-se. E, às vezes, visitava , sempre de surpresa e sempre que conseguia conciliar os seus serviços com os dela. A amiga estava ocupada em colocar sua vida de volta em algum rumo, lidando com a floricultura e com os trabalhos que o governo pedia ajuda, como parte de seu acordo. Ela passava alguns dias fora lidando com queimadas, incêndios, reflorestando áreas comprometidas, desmantelando redes de tráfico de animais e plantas, garimpos, cultivando alimentos em locais com baixo acesso alimentar, repopulando a vegetação marinha, e tudo o mais que os governos julgavam ambientalmente urgente.
Naquele meio tempo, Sam ficou sabendo que Shuri a visitou por alguns dias. Trouxe as coisas de que haviam ficado em Wakanda, a ajudou a montar a interface de A.R.I.A. em seu apartamento e tirou alguns dias de folga, antes de voltar para a bagunça que o país vivia depois do retorno de seu rei. Karl a visitava quase todos os dias, costumavam almoçar juntos, fazer compras de final de semana, ir ao cinema, fazer companhia um ao outro, sobretudo nas semanas em que Everett estava atolado de trabalho. manteve contato com Nate, mesmo depois de ter todo o caos dos processos judiciais resolvido. Eram vizinhos e continuavam amigos, estavam sozinhos e recorriam um ao outro sempre que precisavam de alguém para conversar, sair ou só passar o tempo.
Sem mais ninguém a recorrer e ignorando o fato de ser um pouco perigoso, Nate deixava sua filha com , às vezes, quando precisava trabalhar para além do horário ou aos finais de semana. A menininha, Ivy, estava passando por um tempo complicado, sem ter a mãe e sem entender direito o que havia acontecido, e se apegava à a cada dia que passava com ela. sabia exatamente como era. Tinha perdido seus pais com os exatos cinco anos de idade que Ivy tinha e tudo mudou na vida dela a partir daquela idade, como estava mudando para Ivy, sem sua mãe. Nate fazia o que podia. Se desdobrava para ser o melhor pai do mundo, mas jamais poderia ocupar o espaço que sua esposa um dia ocupou na vida da pequena. E aquela era uma das frustrações que o aproximava de , nos dias em que passavam horas intermináveis conversando sobre a vida.
Ivy era curiosa, sorridente e muito fácil de lidar. Era doce como Nate, tinha os olhos e os cabelos escuros dele, mas os traços finos de sua mãe. Gostava que prendesse o cabelo dela em chuquinhas e, às vezes, fazia Nate a levar até o andar de cima, para que arrumasse o cabelo dela antes de ir para a escola. Ela gostava de desenhar borboletas e as colocar na porta da geladeira de , gostava de brincar que tinha um restaurante com seus bichos de pelúcia enquanto assistia desenhos e fazia milhões de perguntas sobre as flores que via na floricultura, quando acompanhava a mais velha até lá. Amava quando brincava de criar plantas, quando tinha presentes fora de época e quase sempre chorava quando Nate passava para buscá-la, porque não queria ir embora.
decidiu ensinar francês para ela. Contava-lhe tudo o que sabia, de modo que a garotinha pudesse entender, sobre botânica, e se pegou pensando, irracionalmente, algum dia qualquer, enquanto a assistia montar um quebra-cabeças e cantar uma musiquinha infantil em francês, que se tivesse que passar seu legado para alguém, como Steve havia feito com Sam, talvez pudesse estar diante dessa pessoa. Mas aquilo era totalmente ridículo. Ivy tinha só cinco anos e um mundo de possibilidades pela frente. Se fosse uma pessoa honesta e, quem sabe, uma botânica excepcional, já estaria feliz. E estava feliz em poder ajudar Nate, feliz em poder ajudar Ivy a não carregar o peso do luto como ela mesma carregou por tantos anos, sem seus pais, sem sua mãe.
Talvez fosse o mais próximo de uma figura materna que Ivy tinha, depois de perder sua mãe e com Nate mais recluso do que nos cinco anos que viveu sem sua família, tentando se manter estável e forte para sua filha. Talvez fosse, para , uma companhia a mais, sobretudo para os dias em que passava sozinha ou pensando em Bucky.
Ivy tinha perguntado sobre ele. Mais vezes do que gostaria de responder, na verdade, mas estava sendo paciente. Ela viu fotos dele em uma caixa quando estava procurando tintas para poderem fazer a lição de casa de artes e ficou curiosa. Ivy disse que ouviu seu pai falar que a “tia Flora” tinha um namorado que amava muito, mas ele não podia se mudar para Berlim e ficou longe dela, e ela quis saber se era ele. Sorrindo, achou a explicação fofa e agradeceu Nate por isso, mentalmente. Por entender o que acontecia, por ficar do lado dela sendo nada mais do que um ótimo amigo.
Era ele, era Bucky. Sempre seria ele.
Um dia Ivy entenderia como o amor funcionava. Entenderia como o pai dela se sentia quando via fotos da sua mãe, entenderia o que representava, o que foi, para o pai dela, e entenderia o que Bucky fez. Mas torcia para que ela jamais vivesse nada sequer parecido com aquilo. Torcia para que ela passasse longe da dor de amar alguém e não poder ser amada de volta.

Acho que prefiro planta criminosa, faz mais o seu estilo — ele brincou, risonho. — Tudo bem, não temos que voltar nesse assunto, por enquanto, estou só enchendo o saco.
— Está mesmo — sorriu, sozinha, atravessando a rua. — Espera! Vai me dizer que está em Berlim de novo? — Como se pudesse o encontrar de alguma forma, ela deu uma olhada rápida em seu redor e no céu.
Para sua total infelicidade, não.
— Finalmente uma notícia boa — ela brincou, o ouvindo resmungar alguma coisa sem sentido. — O que você quer, então, passarinho?
Sua ajuda. — O tom de voz pareceu ficar ligeiramente mais sério. Tinha ligado para para conversar sobre algo, de fato, importante.
— O que está rolando? — franziu a testa, caminhando de volta para sua casa.
Além do fato do seu ex ter decidido responder as minhas mensagens, depois de três meses que estou tentando fazer contato com ele? — ele voltou a dizer, como se aquilo fosse um fato extraordinário, o que, de certa forma, por se tratar de Bucky, era.
— Sam… — era quase um aviso.
Consegue travar a linha? — ele pediu, sério.
— A.R.I.A.? — chamou em um sussurro, olhando atentamente ao redor. Algumas crianças brincavam no gramado de uma casa e acenaram para ela, assim que ela passou. acenou de volta.
Sim, senhorita Florence?
— Isole a ligação, por gentileza, bloqueie interferências e rastreios... — pediu baixo, olhando para o relógio discreto em seu pulso — e projete o trajeto mais rápido para casa, por favor.
Isolando ligação — a interface falou prontamente, ao mesmo tempo que abriu o GPS no visor do relógio. estava há seis minutos de casa, se fosse correndo, chegaria mais rápido.
Torres, o militar que trabalha comigo, e que te falei outro dia... — ele fez uma breve pausa, até ouvi-la concordar em um murmúrio — foi agredido, ontem à noite, na Suíça.
— Ele está bem? — ela pareceu preocupada.
Vai ficar, quebrou o orbital só — Sam respondeu prontamente. — O fato é que ele estava rastreando um grupo rebelde em específico e as coisas saíram um pouco do controle. — Ele fez uma pausa, imaginando que , por ser responsável por todo o continente europeu, já soubesse alguma coisa sobre o tema. — Apátridas. Sabe algo sobre eles?
— Um grupo de pessoas, jovens em sua maioria, que preferia o mundo durante o Blip e não aceitou bem o que têm acontecido agora, que todos voltaram. — corria de volta para casa, falando o mais baixo possível, atenta ao redor. — São idealistas, não querem fronteiras ou marcos territoriais, querem que as sociedades se unam e compartilhem o que têm de melhor umas com as outras.
Torres disse que estão deixando manifestos por onde passam e que estão se espalhando rápido — Sam completou, sério, juntando as exatas mesmas informações que Torres havia passado para ele. Se já estava ciente, talvez fosse um problema maior do que ele estava imaginando a princípio.
— A União Europeia está ciente deles, me passaram as informações, mas comentaram que, por ora, não devemos intervir, porque não temos informações suficientes para saber o tamanho disso — ela dizia rápido, respirando pesadamente enquanto corria. — Não dá para usarmos recursos agora, sem saber o quanto deles precisamos.
Acho que isso pode estar prestes a mudar — Sam sugeriu, pensativo.
— O que quer dizer, Sam?
Vou te mandar o vídeo que Torres me passou, do que aconteceu ontem na Suíça, e você tira suas próprias conclusões — ele rebateu prontamente. — Mas, se posso te adiantar algo, é que são fortes. Fortes de um jeito que o mundo não viu desde 1945.
— Supersoldados? — incerta, surpresa, ela perguntou instintivamente, parando de correr repentinamente.

Não era possível, era? Não havia mais registros de soros como o de Steve e de Bucky, ela mesma havia vasculhado bases da Hydra o suficiente para concluir aquilo. Estavam replicando a fórmula? Como? Quem? A Hydra estava em pé novamente? A alguns poucos metros dali, já avistava seu prédio e voltava a caminhar em direção a ele. Estava curiosa com o tema e bastante preocupada com a teoria de Sam. Fazia algum sentido, de fato. Se o assunto já tinha chegado até ela e até Sam e, agora, estavam se falando sobre isso. Alguma coisa devia estar errada. queria ver o vídeo de Torres, investigar o que poderia estar tão errado a ponto de já terem sido notificados e chegar em casa era o primeiro passo para o sucesso.

É a minha hipótese — Sam concordou, seu tom de voz grave estava bastante sério, certamente estava tão preocupado quanto ela. — Mas, por enquanto, até termos mais evidências, vamos manter isso só entre nós três, ok?
— Me mande o que tiver sobre eles e compartilho com vocês o que A.R.I.A. conseguir encontrar sobre o grupo — concordou prontamente.
Vou avisar Torres que você está sabendo, que vai nos ajudar, e...
Ai meu Deus, Sam, você tem que ver isso. — A voz alta e um pouco desesperada de Sarah o cortou, sendo ouvida por do outro lado do telefone. — Diga à Flora que ligue o noticiário internacional, agora.

estranhou o comentário e o tom de Sarah, mas imaginou que, pelo tema da conversa que estava tendo com Sam até ali, ela estava se referindo a algo relacionado aos Apátridas ou à ação que haviam feito na Suíça, na noite passada. Ela deu alguns passos mais apressados e entrou no saguão de seu prédio, parando um segundo para respirar fundo enquanto passava as mãos pelo suor que escorria em sua testa. Guzman, o porteiro, estava sentado no confortável sofá preto de sempre, onde visitantes poderiam aguardar na recepção do prédio, próximo ao elevador, assistindo à televisão.
O aparelho estava ligado no canal 21, o WHiH, que fazia transmissão internacional sobre notícias mundiais. No centro do grande televisor, a imagem de um parlamentar aparecia, se posicionando em um púlpito ao ar livre, diante de centenas de jornalistas e cinegrafistas curiosos. Algum anúncio importante seria feito ao vivo, nos próximos segundos, e sequer uma chamada escrita tinha sido disponibilizada na televisão. Estranhando o clima daquilo, cumprimentou Guz rapidamente e manteve-se em pé, ao lado do sofá onde o senhor estava sentado, atenta aos movimentos do homem na televisão.

— Estou no prédio, Sam, vou ver o que está acontecendo e já te ligo.

Sam respondeu um “ok” breve e desligou a chamada telefônica, mantendo seus olhos presos à televisão em sua frente. Estava sentado na cadeira do pequeno escritório da casa de Sarah, com sua irmã em pé ao seu lado, prestando tanta atenção quanto ele mesmo na movimentação que aparecia na televisão. Sarah tinha visto, segundos antes, que falariam sobre o Capitão América e Sam aguardava o pronunciamento sem realmente saber sobre o que ele se tratava, embora já pudesse imaginar, pelo circo que se armava e pela postura firme e apreensiva de sua irmã. O homem na imagem cumprimentou a todos e, sem hesitar ou esperar por mais minutos, deu início a um discurso que encheu o mundo de expectativas.

A inquietação, decorrente dos eventos recentes nos deixou vulneráveis. A cada dia os americanos sentem mais. Enquanto amamos heróis que colocam suas vidas em risco para defender a Terra, também precisamos de um herói para defender este país. — Sam podia sentir seu coração bater tão acelerado que podia sair de seu peito. Estavam falando dele? O que estava acontecendo? — Precisamos de uma pessoa real que personifique os valores da América. Precisamos de alguém que nos inspire de novo, alguém que possa ser um símbolo para todos nós. franziu a testa, olhando tão séria para a televisão que podia quebrá-la ao meio com o olhar. Guz aumentou ligeiramente o volume do aparelho em frente. — Então, em nome do departamento de defesa e dos nosso comandante em chefe, é com grande honra que anunciamos aqui, hoje, que os Estados Unidos da América têm um novo herói. — Aquilo era uma surpresa para Sam? — Vamos dar as boas-vindas ao nosso novo Capitão América.

Diferente do que estavam esperando, contudo, não foi sobre Sam.
Um homem, que parecia ser alto e com um porte físico saudável, mas sequer parecido com o de Steve, entrou acenando, ao som dos aplausos altos e orgulhosos que tomavam conta do ambiente onde o pronunciamento foi feito. Ele era loiro, como Steve, era possível ver. Vestia uma versão que achou cafona e ridícula do traje do Capitão América e uma máscara cobria seu rosto. Ele tinha o peito estufado e estava orgulhoso de si, como se fosse alguém. Quem era ele?
Apesar da ira que ela sentiu ao se dar conta do que acontecia ali, assistindo a cena mais ridícula de toda sua vida, o que mais a incomodava era ver o escudo de Steve, de Sam, sendo empunhado por aquele homem qualquer. Desprezível, injusto e ridiculamente desnecessário. Que porra era aquela? Por que tinham feito aquilo? Quem era aquele homem e quem ele achava que era para ocupar um lugar onde ele jamais pertenceria? Steve tinha feito uma escolha. Tinha passado o escudo e tudo o mais que vinha junto com ele a Sam. E Sam fez uma escolha. Decidiu não substituir Steve, tinha seus motivos, era sua responsabilidade escolher e decidiu que não haveria mais um Capitão América. Nem ele, nem ninguém.
Símbolos não são nada sem os homens e mulheres que os carregam”.
Sam havia dito aquilo, exatamente aquilo, no evento que deixou o escudo de Steve no lugar onde sua memória estaria sempre viva. Não haveria mais Capitão América. A América, simbolicamente, estava morta. E seu símbolo já não mais deveria ser carregado, porque o homem por trás dele já não mais existia. O que estavam fazendo? Se queriam mesmo um novo Capitão América, deveriam ter recorrido a Sam. estava furiosa. Sua mente jorrava perguntas e afirmações sem parar enquanto seus olhos assistiam com desdém e raiva as imagens do homem na televisão, vangloriando-se por usar aquele traje, feliz em ser um novo herói. Um herói sem símbolo, um herói desonrado, um herói sem heroísmo, um herói sem uma história que o tornava um deles. Um herói que jamais seria um deles, que jamais seria Steve, Sam, ou como qualquer um dos Vingadores.
Do outro lado do mundo, se fazendo as mesmas perguntas mentalmente e compartilhando da mesma opinião, mais alguém assistia ao pronunciamento com tanto desdém, incredulidade e raiva quanto ela. Em seu apartamento, sozinho e sentado no chão, Bucky estava incomodado com o que tinha acabado de ouvir. Incomodado com a figura hilária do novo herói da América, incomodado com o desprezo que mostraram ter com a história e com a vontade de Steve. Não era para ser daquele jeito, não foi daquela forma que Steve escolheu. Mas parte de Bucky, diferente de , culpou imediatamente Sam por aquilo.
Ele deveria ter aceitado ficar com o escudo, deveria ter honrado a escolha de Steve, cumprido com o que veladamente prometeu ao amigo assim que recebeu o legado dele. Sam tinha errado em devolver o escudo e tinha errado em deixar que tudo aquilo acontecesse. Bucky não podia acreditar no que estava acontecendo. Se perguntou, por um momento, se Sam havia concordado com aquela palhaçada toda, mas imaginou que ele, ao menos, por se tratar de Steve e do Capitão América, falaria com Bucky antes. Mas, será que não tentou? Bucky ignorou todas as mensagens e tentativas de contato dele, talvez fosse Sam tentando conversar sobre aquilo. Sam, contudo, não estava no pronunciamento e sequer tinha sido citado nele. Não podia estar ciente e nem ter concordado com aquilo.
Bucky pensou em ligar para ele e perguntar, mas logo desistiu da ideia. Não sabia nem se Sam já tinha visto o que acontecia e não queria ser o primeiro a dar a notícia. Ele pensou, então, em ligar para . Mas, igualmente, desistiu da ideia assim que discou o número dela. Na melhor das hipóteses, ela o mandaria ir à merda e diria que ele deveria ter conversado com Sam antes, quando ele tentou fazer contato. Já era tarde demais. A merda estava feita. Mas Bucky, absurdamente incomodado com aquilo, não deixaria passar.
Assistindo as imagens do palhaço de vermelho, branco e azul na televisão, ele decidiu que não deixaria a memória de Steve morrer daquela forma e ser substituída por alguém qualquer. Bucky já havia perdido memórias demais ao longo de sua vida. Não perderia aquela e não deixaria o mundo a perder também.
Da casa de Sarah, Sam não soube o que dizer, porque sequer sabia o que pensar. Seguiu assistindo a televisão sem realmente prestar atenção nela, compenetrado em seus próprios pensamentos, triste. Estava se sentindo mal por ter devolvido o escudo, mal por ter sido substituído na primeira oportunidade que tiveram, mal por parecer que Steve tinha escolhido errado ao escolhê-lo. Contudo, de todos os detalhes que o entristeceram e o frustraram naquela situação, um em especial o incomodava profundamente. Um detalhe, talvez o mais importante deles, que o fez desistir de arcar com a responsabilidade de ficar com o escudo, um detalhe que o acompanhava naqueles dias todos desde que tomou uma decisão que julgou ser racional. Sam conhecia a América. Conhecia os Estados Unidos. Nasceu e vivia naquele país arrogante há tempo o suficiente para conhecer os seus símbolos. Para se perguntar se um homem negro podia mesmo ser um deles.
E, talvez, a resposta tivesse acabado de ser dada, naquele pronunciamento, naquela cópia barata e mal feita de Steve Rogers.
Havia uma explicação para terem escolhido um homem com o mesmo tipo físico de Steve? Havia uma explicação para não terem vindo falar com ele, contar sobre a ideia de ter um novo Capitão América, pedir-lhe uma opinião? Havia uma explicação para o ter desconsiderado como uma opção, sendo que ele foi o escolhido por Steve? Por que haviam aceitado a desistência dele com tanta passividade e acolhimento e, agora, estavam o substituindo daquela forma? Será que não tinha competência o suficiente ou será que não se parecia com Steve o suficiente para ser o heroico símbolo da América? Sam tinha tantas perguntas naquele momento. Perguntas abafadas pela tristeza que sentia, pela incerteza da escolha que havia feito e pelo arrependimento genuíno que nasceu nele, naquele momento, de não ter mantido o escudo consigo, de não ter sequer se dado a chance de lutar, para se tornar, enfim, o grande símbolo da América.
Em Berlim, Guzman observava a mulher ao seu lado encarando o televisor, silenciosa. Tinha consciência de que aquilo mudava muita coisa, mas não sabia que aquela notícia a abalaria daquela forma. Sem desviar os olhos nem por um segundo, viu, enfim, aparecer na televisão, o nome da missão que tinha acabado de dar a si mesma, mentalmente. Daria um jeito de resolver aquilo. Daria um jeito de Steve ter sua última vontade respeitada, de Sam ter o que ele merecia, o que lhe era de direito. Daria um jeito de mostrar ao mundo quem era o verdadeiro novo herói da América.
Daria um jeito em John Walker.


Continua...



Nota da autora: Um ano depois da estreia da série e quase nos tempos de começar as gravações de Cap. América 4, aí vamos nós para o novo fogo no parquinho – e o último deles. Passamos pelo primeiro episódio de FATWS e agora a pancadaria final está prestes a começar.
Me conta aí, nos comentários, pelo Twitter ou pelo nosso grupinho do WhatsApp, o que você anda sentindo pelo John Walker, vou amar saber.
Beijos e até a próxima att 😊 x



Nota da beta: Ai, eu ainda estou remoendo as mágoas que Bucky me causou no último capítulo, viu? 🗣️🗣️ mas ver que a Flora estava conseguindo se adaptar à nova vida, apesar do pesares, me deixou com o coração quentinho ❤️
Já quero saber o que ela está aprontando para John Walker hehehe


Outras Fanfics:

➽ Care Bears (Avengers - Finalizada)
➽ Vingt-Cinq (Spin-off de Project Neriine - Shortfic)
➽ Taste The Feeling (Originais - Em andamento)
➽ 11:11 (Spin-off de Taste The Feeling - Shortfic)


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.

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