Psicologia do Amor
Última atualização: 04/11/2017

Capítulo 1

A vida é cheia de imposições. Dia após dia somos cercados de pessoas que querem reger como devemos agir. Na antiguidade diziam: "Você deve ser recatada e do lar". Foi uma longa jornada até quebrar os paradigmas da sociedade – que até hoje tem os seus resquícios – e vivermos como bem entendêssemos. Porém, agora, a moda é outra. "Você deve sair, beber e beijar muito na boca". E, caso não o faça, é rotulado como a nerd, antissocial ou mesmo careta.
Pera lá, gente! Cadê a tão liberdade sonhada e conquistada?
Anos trabalhando para que nós pudéssemos agir como melhor nos convenhamos para agora essas mesmas mulheres estabelecerem o que eu devo fazer?
Isso está errado! Pura hipocrisia!
Por isso eu gosto de viver a minha vida ao meu modo. Se eu quiser dançar, eu danço; se me der vontade de beber alguma coisa, vou beber; se eu olhar o meu guarda-roupa e sentir vontade de usar alguma roupa, independente da ocasião, eu vou usar. Odeio que tentem me colocar em um cabresto para ser conduzido em uma vibe porque todo mundo tá indo pelo mesmo caminho.
“Ei, , aquele gatinho está te dando mole. Você não faz nada, é muito trouxa”. E daí? Se eu não quero ficar com ele eu não vou ficar. Acordem, pessoas!
Nunca senti vontade de ficar beijando um ou outro, mas, não condeno quem o faça, pelo contrário, sou a primeira a incentivar, porque ninguém tem paciência de ficar aguentando doce de ninguém, sendo que, na verdade, a pessoa tá morrendo de vontade de dar uns pegas.
Talvez eu seja fria, ou talvez, eu simplesmente não tenha encontrado alguém que eu queira de verdade. De qualquer forma, eu nunca namorei e ainda não tenho vontade. Quando chegar esse dia, estarei aqui de braços abertos, contudo, enquanto isso não acontece, continuo com o meu coração intacto. Quem nunca amou, não tem como ter um coração partido. Portanto, desse mal, eu nunca sofri.
Durante o meu curso aprendi que, quando somos nós mesmos, a vida fica mais leve. Fazer as coisas para agradar os outros é como trair o nosso próprio eu. Isso não gera alívio e nem aceitação. Os resultados são apenas cobranças externas em que você será tentada cada vez mais a satisfazer o outro ao invés de você mesma.
Ser autêntico e ter a sua própria identidade são primordiais em um mundo fadado pela imposição social. Caso contrário, seremos apenas como as folhas secas do outono, levadas sem rumo e direção por qualquer rajada de vento que vier.
Ah, caso não saibam, meu nome é e sou uma típica garota do interior que veio para a cidade grande estudar. Quando era adolescente não sabia muito bem o que fazer da vida, porém, graças a Deus, me encontrei no meu curso. Estou no penúltimo semestre de Psicologia e já estou ansiosa com a formatura no final do ano.
Hoje é o primeiro dia de aula do ano, estou revigorada de volta às aulas. Depois de um ano intenso, cheio de trabalhos, provas e seminários, nada melhor que passar as férias em casa, viajando e revendo os amigos antigos. Confesso que estou um pouco ansiosa. Não por ser o primeiro dia, mas sim porque é nesse semestre que eu terei aula com o professor mais carrasco do nosso curso.
Dizem que todo ano ele passa um baita trabalho, deixando todo mundo louco. Ele é super-rígido e exigente. As más-línguas dizem que se não desistirem do curso depois do semestre com ele, podem ficar tranquilos que a aprovação depois vem com louvor.
Nessa manhã, eu já havia tomado meu café e estava caminhando pelo campus em direção à sala de aula. Minhas mãos suavam um pouco, enquanto eu tentava acalmar a minha mente pensando em coisas aleatórias. Maldita ansiedade que sempre vinha me perturbar!
! – Uma voz gritou no meu ouvido, assustando-me, e senti um braço rodear o meu pescoço.
Rolei os olhos ao notar que era Denis, meu colega de turma, e dei um soco nele em resposta por ter me deixado surda momentaneamente.
— Ai! É assim que você me recebe depois de dois meses sem me ver, sua nordestina ingrata? – ralhou comigo, rindo, enquanto passava a sua mão no local em que eu havia lhe batido.
— Seria diferente se você não tivesse me proporcionado uma surdez aguda! – respondi, fazendo-lhe rir.
Denis era um garoto extremamente divertido. Ele era tão de boa com a vida quanto eu, por isso nos dávamos tão bem. O garoto não era tão alto, apenas um pouco maior que eu, e os seus cachinhos lhe davam um aspecto fofo e angelical. Bem que dizem que quem vê cara não vê coração, pois ali era o perigo da sociedade.
Antes que comecem a shippar ou qualquer coisa parecida, vou logo avisando, Denis e eu somos apenas amigos. Soletrem comigo: A-M-I-G-O, amigos. Ele havia dado em cima de mim na festa da calourada do primeiro semestre, porém, como ele mesmo disse, o fora foi tão colossal que ele largou de mão no mesmo instante e foi procurar outra. O sobrenome do Denis deveria ser Preguiça. Ele tinha preguiça até de investir em alguém. Se fosse difícil, ele caía fora no mesmo instante.
Eu não sei como ele conseguiu chegar até aqui no curso. Sério mesmo! O cara não fazia nada e eu acho que nem estudar para a prova ele deveria estudar. Como ele passava todo ano sem nem ficar para recuperação? Ah, acabo de me lembrar. O Denis era apto daquela pequena escorada básica, principalmente se tratando da minha pessoa. Como somos muito amigos, eu acabava relevando e sempre fazendo a parte dele nos trabalhos.
— Animada para a aula do terrível Dr. Benecke? – perguntou-me, imitando uma voz tenebrosa ao falar o nome do nosso professor.
— Um pouco. Estou tensa desde ontem. Acho que nem dormi direito – confessei para ele. Denis conhecia meus ataques de ansiedade e sabia como eu ficava antes de coisas desse tipo.
— Você precisa relaxar, ! Isso é falta de beijo na boca, eu já disse. Se quiser eu estou à disposição – gracejou para mim, fazendo biquinho na minha direção.
— Sai daqui! Eca! – coloquei a mão na boca dele, fazendo-o gargalhar.
— Você diz eca porque nunca provou a soberania da minha saliva! – falou orgulhoso, enchendo o peito.
— Nossa, você podia ser mais inconveniente, por favor? – ri para ele. Era isso que eu tinha que suportar todo o santo dia.
— Está mais calma?
— Sim! – respondi sincera, percebendo que as minhas mãos já não suavam como antes.
— Então eu não vou precisar ser mais inconveniente que isso não. - piscou para mim e continuamos a caminhar em direção a sala de aula.
Agradeci internamente entendendo o que ele havia feito. Denis me conhecia bem demais para saber que ele precisava fazer suas brincadeiras estúpidas para tirar a minha cabeça do nervosismo que eu estava.
Ao chegar à sala, sentei em uma carteira vaga qualquer que achei no fundo, tendo o meu amigo ao meu lado. Preferi não escolher alguma da frente, já que não queria encarar o professor carrasco cara a cara.
Não demorou muito, o Dr. Benecke chegou, exatamente na hora certa, sem um minuto a mais ou a menos. Seus cabelos eram grisalhos e ele tinha aquela típica cara de gente que chupou limão. Sério! Já dava para ficar assustada só pela expressão dele.
Um vinco enorme no meio da testa e a curva da boca levemente voltada para baixo. Seus olhos eram negros e pálidos e o seu nariz era enorme e pontiagudo. Parecia até o nariz do personagem principal do filme Meu Malvado Favorito.
— Bom dia! – a voz dele ecoou pela sala, fazendo todos nós nos calarmos no mesmo instante. — Vocês já devem ter ouvido falar sobre mim. Eu sou o Dr. Benecke, o professor de vocês durante essa disciplina. Não vou gastar o tempo precioso da minha aula para perguntar o nome de cada um de vocês, pois isso é irrelevante. Quando acabar o semestre, provavelmente eu não me lembrarei mesmo e eu pouco estou interessado em decorar nada. Aqui não é primário. Vocês precisam me conhecer e vocês têm que me agradar, não o contrário.
Mal tinha começado o discurso e eu já estava entendendo muito bem a fama que ele tinha. Acho que as línguas não estavam sendo más ao espalhar os boatos por aí. Realmente esse professor parecia ser osso duro.
— Desfaz essa cara de rato assustado, pois se não o professor vai notar e vai te pegar para cruz – Denis inclinou-se um pouco para o lado e cochichou baixinho para me alertar.
Engoli em seco e tentei me mostrar impassível, enquanto o ouvia continuar o discurso, agora falando sobre seu extenso currículo e todas as pesquisas que havia feito desde a época da graduação até o pós-doc em Portugal.
Creio que foi uma meia hora de falação sobre isso, depois ele começou a mostrar o plano de ensino para o semestre, apontando para o que ele ensinaria em cada data estipulada. Depois de algum tempo, chegou à parte mais temível, a distribuição de notas.
— Eu vou ser bem claro com vocês, pois odeio rodeios. Eu sou completamente contra a esse quadro engessado que muitos usam para avaliar os alunos, por isso, eu não dou provas.
Ao ouvir isso, vários murmúrios alegres soaram pela sala. Os alunos pareciam aliviados, porém eu, como já estava bem informada, fiquei quieta. Não ia me manifestar, pois já sabia que alegria de pobre dura pouco.
O Dr. Benecke apenas estendeu a sua mão e todos se calaram. Ele concertou os óculos em seu rosto e inspirou para continuar a falar e, pela sua expressão, eu já sabia que viria bomba.
— Comemorar antes da hora é sinal de pessoas precipitadas – falou, fazendo todos murcharem no mesmo instante. — Provas são métodos arcaicos e, como eu disse, não irei aplicar em minhas aulas. Do que adianta eu marcar uma avaliação e vocês decorarem para apenas gabaritarem e conseguirem nota? Não passará uma semana e vocês já não lembrarão nem uma vírgula do que escreveram no papel. Eu costumo fazer diferente. Cinco por cento da nota do semestre será da participação de vocês durante os debates que trarei para sala de aula. Como futuros psicólogos vocês precisam ter posicionamento diante de uma gama de casos diferenciados e precisam saber falar. A cada aula eu deixarei um artigo que será discutido na próxima, portanto, vocês nunca ficarão sem nada para fazer.
Bom... até ai estava tudo bem. Debater não era tão difícil assim. A única coisa ruim seria o tanto de material para ler em tempo hábil. Estava fácil demais para ser verdade, deve ser por isso que só valia cinco por cento da nota.
— Professor, mas e os outros noventa e cinco por cento da nota? – Pablo, um aluno que estava sentado perto de mim, perguntou.
— Se você esperasse eu terminar, saberia. Obrigado – o professor cortou-o. Simples assim, e continuou a explicação como se tivesse falado que 1 + 1 é 2. — O restante da nota eu avalio através de um trabalho individual que vocês precisam expor para a sala no final do semestre. É um trabalho extenso e complicado, devido a isso, vocês terão longos seis meses para pensar e se dedicarem totalmente ao projeto. Eu não tolero desmazelo. A forma que vocês apresentarão ele para mim mostrará o profissional que vocês serão no futuro.
O Dr. Benecke ajeitou os óculos pela quinquagésima vez e, ali, eu percebi que era algum tique que ele tinha, aliás, isso começou a me irritar para caramba.
— No final do ano vocês estarão formados, portanto, terão seus futuros pacientes e precisarão saber lidar com eles. O trabalho de vocês será uma prévia disso. Vocês terão seis meses para escolher uma pessoa que tenha algum caso justificável para terapia e precisão tratá-lo. O número das sessões quem vai definir serão vocês. Todas as escolhas e medidas, tudo será por conta própria, pois, no final, eu preciso saber se a análise do caso foi feita corretamente. Entretanto, não se preocupe, eu estarei à disposição durante o semestre para tirar dúvidas e não deixar que vocês piorem a situação do paciente de vocês, ao invés de ajudá-lo. Haverá erros, vocês são principiantes, mas também poderão concertá-los.
Os rostos de todos os alunos estavam lívidos. Era uma baita responsabilidade isso. Seria uma vida em nossa mão e se não soubéssemos fazer as coisas corretamente, poderíamos deixar tudo a perder.
Em contrapartida, apesar de ser um trabalho amedrontador, achei muito válido. Seria o nosso primeiro paciente. Na vida real nós não teríamos ninguém para supervisionar a gente, estaríamos por conta própria. Essa era a oportunidade de tentar e aprender, porém, não fazia o peso da responsabilidade diminuir.
— Vocês terão uma semana para escolher o paciente de vocês. Assim que fizerem isso, trarão os nomes para mim juntamente com a situação do paciente. Vocês relatarão em uma página o que levou vocês a essa escolha. Entenderam? – Dr. Benecke perguntou, após explicar os procedimentos para gente.
Vários tímidos 'sim' saíram de nossas bocas, recebendo um aceno de cabeça do professor em resposta.
Nem havia percebido que já havia passado uma hora da aula, somente quando o Dr. Benecke chamou a nossa atenção novamente com um monte de papéis na mão.
— Antes de saírem passem aqui e peguem o Termo de Responsabilidade e Autorização de uso de Imagem e Som. Esses serão documentos importantes que o paciente de vocês terá que assinar, permitindo que vocês utilizem as informações das sessões para fins didáticos. O termo deixa claro que, em nenhum momento, o nome do paciente será exposto na pesquisa e ele poderá desistir a qualquer momento que queira, afinal, eles não são obrigados a nada. Todos os direitos deles estão garantidos e, além disso, na folha atesta que eu sou o supervisor de vocês e que é um projeto pedagógico da disciplina, já que vocês não são psicólogos formados. Sem mais dúvidas, já estão liberados e até a próxima aula.
Um a um, os alunos iam se retirando e pegando os papéis com o professor. Levantei-me devagar e parei em frente a ele, que me entregou o meu sem nem olhar para o meu rosto.
Guardei rapidamente as folhas em minha pasta, escondendo o leve tremor dos meus dedos. Estava nervosa. Tinha apenas uma semana para rodar toda essa universidade, até achar alguém que pudesse encaixar na minha pesquisa e estivesse disposto a cooperar em meu trabalho, afinal, não é todo mundo que ia gostar de se abrir com uma estranha.
Assim que sai da sala, respirei fundo, tentando pensar positivo.
Vai dar tudo certo!
Quem sabe se eu perguntasse a , minha amiga, ela soubesse de alguém. Ela era professora, conhecia muita gente ali do campus.
Pensando nisso, fiquei até mais tranquila. Rapidamente eu acharia um caso brilhante e, ao final do processo, seria tudo tão esplêndido que eu me sentiria uma grande psicóloga. Para que me preocupar? Seria muito fácil e logo eu estaria com meu 10 nessa disciplina e, ao final do ano, com meu canudo em mãos.



Capítulo 2

— Eu estou desesperada! – choraminguei para Denis, encostando a minha cabeça na mesa.
A última aula da sexta-feira já havia acabado e estávamos fazendo um lanche na Tia da Cantina, uma pequena lanchonete que ficava ali no campus.
— Calma, . Você ainda tem dois dias. A aula é na segunda ainda, muita coisa pode acontecer até lá – meu amigo tentou me tranquilizar, mas nada tirava esse aperto que eu estava sentindo.
— Você diz isso porque já conseguiu o seu – retruquei, lembrando-me que no mesmo dia que o professor passou o trabalho, o infeliz do Denis se lembrou de uma peguete dele, fez contato e conseguiu a paciente “perfeita”.
— Você também vai achar. Já tentou falar com aquela amiga sua que você havia me dito?
— Sim. Só que a não soube me informar ninguém, além de mim ela não tem muito contato mais a fundo com os alunos para saber se eles passam por algum problema ou não – lamentei-me, recordando da conversa que eu havia tido com ela na quarta-feira.
— Por que não a usa mesmo? Ela não é a conhecida doutora do amor, meio alopradinha? – Denis sugeriu, girando o dedo perto do ouvido e mostrando que a minha amiga era doida.
— Não, Denis. Eu até pensei nisso, porém a já está “curada”, namorando e bem de vida. O me fez o favor de regular ela. Bem que ele podia ter esperado um pouquinho mais, não é? Eu agradeceria – falei, quase choramingando.
— Quem é que manda no coração, não é mesmo? Enfim, não adianta chorar pelo leite derramado. Vamos pensar em alguma alternativa. Se você quiser eu entro em contato com alguma garota da minha agenda. Já peguei muita maluca, na certa deve ter alguma que vai te servir.
— Eu não quero estudar nenhuma ex sua, Denis! – reclamei.
— Uai, mas por que não?
— Porque elas irão aceitar porque você pediu.
— Mas a intenção não é ter algum paciente? E daí se foi pelo meu pedido ou o seu? – perguntou sem me entender.
— E daí que elas passarão metade do tempo das minhas sessões querendo saber de você ou puxando o meu saco para que eu consiga te influenciar de alguma forma a querê-las de volta. Ou seja, vai lascar com o meu trabalho. Muito obrigada, mas eu passo. - expliquei para ele.
— Ah, então não reclama! É a única saída que eu posso te providenciar – falou rolando os olhos, já impaciente.
— Sério, Denis. Obrigada mesmo, porém prefiro dar o meu jeito. Se até domingo eu não conseguir ninguém eu juro que aceito a sua sugestão, ok?
— Tudo bem. Mas me fala mesmo, tá? Não vai pirar sozinha em casa. Eu vou te dar o prazo de até 23 horas e 59 minutos do sábado. Se não encontrar ninguém você me passa uma mensagem que eu te consigo uma paciente em cinco minutos – disse preocupado comigo, contudo eu só consegui rolar os olhos pensando na rapidez que ele teria para arrumar uma das suas ex-ficantes.
— Eu prometo para você – fiz num sinal com o dedo em juramento para ele.
— Ok. Agora preciso ir. Minha primeira sessão é hoje à noite – informou, levantando-se para ir embora, enquanto eu arqueei a sobrancelha com aquela informação.
— Sua primeira sessão é em plena sexta à noite? – perguntei rindo, já imaginando bem como seria aquela consulta.
— Claro! E ainda a levarei para conhecer o meu divã! – piscou para mim e abriu o seu sorriso Colgate.
— Credo, Denis. - Dei língua para ele, arrancando-lhe uma gargalhada. — Vai lá, seu imprestável. - Joguei um bolinho de guardanapo na cara dele.
— Tchau, chatonildes! Até mais! – despediu-se de mim e partiu em direção a noite possivelmente quente que teria, enquanto eu ia para casa, lamentando-me por não ter conseguido o meu caso.

Enquanto eu caminhava de volta para o meu lar, fiquei olhando de um lado para o outro. Vai que meu paciente surgia do nada, eu precisava estar atenta. Porém, para a minha infelicidade, não foi nada disso o que aconteceu. Eu já estava chegando à minha quitinete e nada de um milagre acontecer. Adentrei na portaria do prédio, digitei a minha senha e entrei, frustrada.
Eu morava em um edifício perto da universidade. Pode-se dizer que todos que residiam ali eram alunos da UFRJ. Os apartamentos, na verdade, eram quitinetes, por isso, o valor era mais barato e acessível para nós meros mortais que vivem da bolsa do auxílio estudantil e da iniciação científica.
Ao entrar em casa, tirei a minha roupa e fui tomar um banho relaxante. Nada melhor que uma água quentinha para trazer tranquilidade à alma.
Lavei com cuidado os meus cachos, recordando-me da época que eu havia inventado de esticá-los. Pobres fios dos meus cabelos, sofreram com a quantidade de química que passaram por eles. Foi um longo processo até conseguir fazer com que eles voltassem a ser naturais. Sofri, mas deu certo. Hoje tenho orgulho de cada cachinho meu, acho-os lindos. Porém, não sou contra quem queira alisar os seus, apesar de achar um desperdício.
Quem tem liso quer cachear e quem tem cacho quer alisar. Vai entender, né?
Estava cansada por causa da correria da semana, por isso fiz um mexido de ovo, algo bem rápido, só para encher a barriga mesmo e poder dormir. Depois que ganhei uma bela gastrite com a faculdade, tive que me alimentar de três em três horas corretamente, se não, nem omeprazol me salvaria.
Dormi como uma pedra, acordei só com o som do despertador maldito soando no outro dia. Coloquei na soneca, claro, e voltei a tirar aquele cochilo fantástico. Não sei quanto tempo durou, porém, quando comecei a despertar, ainda com os olhos pregados de remela, deparei-me com a tela piscando indicando que alguém estava me ligando.
— Alô? - atendi ainda sonolenta.
— Eu não acredito que ainda está dormindo, sua vaca! - uma voz alta gritou do outro lado do telefone. Era Hellen, uma amiga minha que também estudava comigo.
— Hoje é sábado, Hels. Me deixe em paz! Está cedo ainda!
— Já são meio dia! Já está na hora de levantar essa bunda morena da cama! - riu do outro lado da linha.
— Meio dia? Meu Deus! Agora só tenho a tarde e a noite para conseguir achar o meu paciente. Droga! - reclamei, levantando-me rapidamente e indo direto para o banheiro, em meio a alguns tropeços.
— É sobre isso mesmo que eu quis te ligar. Um passarinho lindo me contou que você está com problemas.
— O Denis é um fofoqueiro!
— Não o culpe, ele está preocupado. Ele só quer te ajudar!
— E você tá puxando o saco só porque ele tem um rostinho bonito! - ralhei, enquanto conversava e tentava jogar água no meu rosto ao mesmo tempo.
— Claro! Isso também conta… mas é sério, você precisa resolver isso logo. Escolhe qualquer paciente, não é como se fosse preciso à gente ter um mega caso. Somos estudantes, não temos nem preparação para tal coisa, o professor quer é nos ensinar o processo, que é o mais importante.
— Eu sei, Hels, o problema é que eu realmente não achei nada – suspirei. — Enfim… de qualquer forma, não precisa se preocupar, se tudo der errado o Denis tem uma lista feminina disposta a lhe fazer um favor.
Não era o que eu queria, mas fazer o quê? Com zero é que eu não ia ficar.
— Tudo bem, então! Eu ia te chamar para dar um rolê tomar um sorvete ou algo assim. Mas você vai ficar ocupada procurando isso, não é?
Tomar um sorvete seria ótimo, mas eu precisava tentar achar meu “paciente” com meus próprios méritos. Teria que adiar o convite.
— Infelizmente não vou poder. Mas a gente deixa para a próxima – respondi com lamento.
— Tudo bem, ! Beijos, qualquer novidade me liga, ok? Até segunda na aula.
— Até – falei antes que a ligação fosse desligada.
Sentei na cama novamente e esfreguei minhas têmporas com as pontas dos dedos. Eu precisava de um plano. Fui até a minha cômoda de roupas e peguei um casaquinho, pois havia visto pela janela um ventinho frio, e saí de casa meio sem rumo. Eu tinha a tarde e a noite para achar alguém plausível para o meu trabalho. Enquanto passava pelo corredor do prédio, vi uma grande movimentação para lá e para cá de universitários. Uns seguravam grades de cervejas, outros ornamentavam o local… Eu não sabia qual era a comemoração - não que eles precisassem de alguma data para poderem beber -, mas estava claro que haveria uma festa hoje. Sábado era dia de estudante vadiar. Estudantes que, ao contrário de mim, não precisavam se virar nos 30 para achar o seu trabalho da faculdade.
Resolvi parar em um pequeno restaurante que ficava na esquina do quarteirão do meu apartamento. Não era nada luxuoso, mas era o que dava para pagar, visto que eu vivia da bolsa permanência e da iniciação científica aqui no Rio. O lugar sempre era cheio de estudantes e, apesar de tudo, era um local confortável.
Fiz o meu prato e almocei rapidamente. Olhei as pessoas ao meu redor, eu gostava de analisá-los e era uma boa observadora, costumava acertar as coisas antes mesmo que me revelassem. Foi assim com a e o , um casal de amigos meus. Ela poderia jurar de pé junto que não sentia nada pelo cara, mas eu sabia que estava mais do que na cara que ela era amarradona nele. Assim que ela deixou as paranoias de lado, eles viraram um casal maravilhoso, que eu sempre soube que seriam.
Observei um casal que estava sentado não muito longe da minha mesa. Era um rapaz bonito e a garota igualmente linda. Ele estendeu a mão para segurar a dela, mas ela não parecia que estava querendo muito isso. Enquanto ele falava, os olhos dela desviavam de um lado para outro a todo momento. Ela não parecia muito confortável ou mesmo que quisesse estar ali. Ao contrário dele, que parecia ter os olhos brilhando em sua direção.
Suspirei, eu estava diante de um futuro coração partido. A recíproca não era verdadeira entre os dois, até um cachorro que visse esse casal saberia que a menina não ia demorar muito para chutar a sua bunda.
Quando os dois se levantaram, o cara pegou a mão dela e a entrelaçou em seus dedos e, em seguida, abriu a porta para ela passar. A garota rolou os olhos sem que ele visse e eu senti pena dele.
Em contrapartida, fiquei feliz por mim. Eu podia não ter desfrutado da magia do amor até hoje, mas, pelo menos, não tinha conhecido também a dor do coração partido; e aquele cara ali… teria seu coração destroçado logo, logo.

♥♥♥




Capítulo 3

Depois de ver o futuro trágico do casal, fui ao banheiro fazer minhas necessidades, tomar refrigerante sempre deixava a minha bexiga cheia.
Chegando lá, uma garota alta e magérrima vomitava na pia do banheiro. Aquele cheiro nojento estava por todo o lugar e eu tive que colocar a mão no nariz para que eu não começasse a vomitar junto com ela. Quase saí correndo, mas o meu senso de preocupação não me deixou ir, eu não ia deixar a menina passando mal lá dentro como se nada estivesse acontecendo.
Puxei a manga do meu casaco e coloquei perto do meu rosto, erguendo o braço, e dei alguns passos na direção da menina. A garota estava inclinada na pia, chorando. Sua maquiagem estava toda borrada, parecia uma cara de palhaço quando jogava água por cima. Tentei desviar desse pensamento para não rir, não era o momento para isso, ela parecia angustiada.
— Licença, moça, você está bem? - perguntei cautelosa, chegando mais perto e ignorando o fedor.
A garota virou o seu rosto para mim com fúria nos olhos e eu me perguntei o que tinha feito de errado para obter tal expressão dela.
— Eu por acaso pareço bem para você? - disse com rispidez.
— Desculpa, eu cheguei aqui e você parecia estar passando mal, fiquei preocupada! - Reuni toda a minha paciência para responder a grosseria dela. Reforcei mentalmente que a garota parecia estar doente, então eu não quis devolver na mesma moeda.
— Não, eu não estou passando mal! E não, eu não estou bem! Eu não pareço bem! Eu estou imensa, ridícula, gorda, balofa! Você não enxerga?! - Abriu os braços na minha frente e ia dizendo as palavras, subindo cada vez mais o tom de voz.
Ergui a sobrancelha tentando entendê-la. A garota era bem mais alta que eu e era tão magra que os ossos da clavícula dela estavam todos expostos com a blusa de alça fina que ela vestia. As canelas eram piores que de seriema, sinceramente, acho que a garota era pele e osso.
— Tá vendo? Você não entende! Ninguém entende! - exclamou, voltando a olhar para o espelho.
— Qual o seu nome? - perguntei com cautela.
— Melinda – suspirou e passou a mão pelas lágrimas que voltaram a jorrar.
Eu tinha ali na minha frente um quadro clássico de anorexia e/ou bulimia. Uma lâmpada acendeu em minha mente! Eu tinha ali um caso, poderia usar ele no meu trabalho e ajudar a garota. Eu só precisava tentar convencê-la a isso.
— Melinda… Você é linda! Eu sei que nesse momento você pensa o contrário, mas não é verdade! Eu não sei bem o que está passando, mas eu poderia te ajudar… Um ponto essencial da vida é aprender a nos amar como nós somos – tentei introduzir o meu pedido de forma mais sútil possível.
Melinda cruzou os braços em minha direção e franziu o cenho.
— Amar como nós somos? Querida… deixa eu te dizer uma coisa – deu dois passos em minha direção. — Só porque você é uma bola e gosta de ser assim, não quer dizer que todo mundo queira. Se você é feliz sendo imensa desse jeito, problema seu! Agora… da minha vida cuido eu. Se toca, garota!
Melinda jogou aquilo com tanto desdenho e raiva para cima de mim, que eu não tive tempo nem de ter uma reação. Ela apenas me ferroou com suas palavras, pegou sua bolsa e saiu correndo dali.
Que merda é essa que tinha acontecido?
A garota estava pior do que eu imaginava. Se eu tivesse a alma sensível talvez eu tivesse me sentindo atingida com aquelas palavras, mas eu era feliz com meu próprio corpo. Não que eu fosse à pessoa padrão de perfeição ou algo parecido. Se eu pudesse eu tiraria umas leves dobrinhas pequenas que tinha na minha cintura, mas nada que me incomodasse a esse ponto. Na verdade, nem era tão aparente assim e não seria agora que eu ia ser paranoica com isso.
Balancei a cabeça, tentando me situar novamente na realidade, e saí do banheiro. Até procurei a garota no restaurante, mas ela já havia ido embora. No final das contas eu estava preocupada com Melinda. Após muito buscá-la e perguntar se alguém tinha a visto, desisti. Esperava que ela pudesse conseguir alguma ajuda antes que o caso se agravasse. Situações como a dela era muito comuns, principalmente entre as meninas mais novas e, na maioria das vezes, não eram tratadas. Na realidade, grande parte dessas garotas nem ao menos tinham noção do quão profundo era esse problema e a maioria delas não tinham o apoio adequado para lidar com a situação.
Saí do restaurante e andei até uma pequena pracinha que tinha no bairro. Eu ainda precisava de um paciente e a única pessoa que eu havia encontrado me insultou e ainda saiu correndo de mim. Eu precisava dar um jeito nisso.
Caminhei sentindo a sombra das árvores que refrescavam e disfarçavam as ruas sem graça do Rio de Janeiro. Muitas pessoas gostavam de usar aquele local para passear com o cachorro, brincar com as crianças, fazer piqueniques, etc. Eu apreciava muito passar por ali, me fazia lembrar um pouquinho da minha terra, longe do amontoado de carros, buzinas e indústrias da cidade grande. Era um pedacinho da natureza em meio a esse caos. Ali você poderia esquecer-se do mundo tecnológico e curtir o som dos passarinhos cantando, os patos no laguinho e os calangos correndo pelo chão.
Entretanto, parecia que isso não atraía a todos. Enquanto eu traçava a minha rota, encontrei uma família que fazia um lanche no gramado. Um casal entregava um toddynho para uma menininha, que parecia ter uns quatro anos, e ria toda vez que via um passarinho. Aparentava ser a família perfeita até eu reparar em um adolescente, que estava um pouco distante deles. Ele usava um fone enorme nos ouvidos, um celular em uma mão e um tablet na outra. Sua mãe tentava chamar-lhe a atenção, mas o garoto apenas balançava a cabeça, fingindo ouvir. Não muitos minutos depois, o pai já estressado com isso, puxou seus fones de ouvidos e tentou tomar o seu tablet, mas o garoto emburrou e saiu batendo os pés, sentando-se em um banco mais longe, enquanto sua mãe suspirava frustrada.
Achei que os pais iriam atrás dele, porém, pelo visto, parecia que já estavam habituados com essa situação e preferiram deixar ele quieto.
Aproveitei esse momento para me aproximar do garoto, quem sabe ali seria um caso interessante? O menino poderia ser um viciado em games ou a tecnologia por si só. Quantas vezes damos mais atenção para o virtual do que aquilo que está no presente? Ficamos tão fissurados em nossos celulares, computadores e redes sociais que esquecemos que existe uma vida linda fora deles pronta para podermos viver.
Esgueirei-me disfarçadamente até o banco onde ele estava e sentei ao seu lado. Olhei para o lado e balancei o pé, tentando chamar a sua atenção de forma delicada, mas o menino não tirava o olho da tela do seu equipamento. Comecei, então, a cantarolar a primeira canção que havia aparecido na minha cabeça, mas depois dei um tapa na minha testa, lembrando-me que com aquele fone do tamanho de um tampão ele não ouviria nada.
Com cuidado eu cheguei mais perto e cutuquei o braço dele. O garoto franziu o cenho e com o canto do olho me mirou, voltando o seu olhar para o aparelho em suas mãos, sempre dividindo a atenção entre o tablet, que estava em aberto em algum jogo que eu não conhecia, e o celular, que tinha acesso ao Whatsapp.
Bufei irritada com a má educação do menino, ele viu que eu estava lhe chamando e me ignorou completamente. Tentei uma abordagem mais brusca, sacudindo o seu braço, porém, o adolescente apenas franziu o cenho, tentando fazer uma cara de bravo, e deslocou o seu corpo para ficar na ponta do banco e longe de mim.
Agora já chega! Esse menino ia se ver comigo e ia ser agora!
Fiquei em pé, parei em frente dele e dei um puxão em seus fones, fazendo-o lançar um olhar mortal para mim.
— Qual o seu problema? - exclamei, colocando as mãos em minha cintura.
— Até o momento? Você! - cuspiu para mim e tentou colocar o fone novamente em seu ouvido para me ignorar.
— Ah, na-na-ni-na-não! Você não vai fazer isso de novo, não vê que eu estou tentando falar com você?!
— Acho que ficou meio óbvio desde o momento que você sentou do meu lado – falou com voz de desdém e voltou a mexer seus dedos no tablet.
Eu juro que estava tentando ser paciente com esse garoto, mas ele não estava colaborando. Respirei fundo, contei até dez e pensei em todas as técnicas possíveis para me acalmar. Quando olhei para o garoto, ele ainda mantinha a sua atenção nos equipamentos, mas, pelo menos, não tinha voltado a colocar os seus fones.
— Olha, eu preciso da sua ajuda. É muito importante – comecei a dizer, sentando-me ao seu lado novamente e olhando para frente, observando os passarinhos como forma de me manter calma. — Eu receio que você esteja viciado nessas coisas – falei, balançando a mão em direção dos aparelhos. — Eu estava observando você… não que eu seja alguma perseguidora ou algo do tipo, não é isso. É porque eu tenho esse trabalho da faculdade e eu preciso escolher uma pessoa para ser tipo um paciente para mim e, se você permitir, eu irei te ajudar a sair desse vício… - parei, esperando que dissesse alguma coisa.
O garoto murmurou algo que eu tinha certeza de ter sido um “aham” e eu decidi continuar, enquanto ele ainda permanecia ao meu lado
— Nossa! Que ótimo! Para isso, então, eu vou precisar do seu contato e conversar com seus pais para autorizar! Você não sabe o quanto eu estava preocupada em não conseguir ninguém para esse projeto, ele é muito importante para mim – continuei explicando, enquanto virava para o lado, vasculhando a minha bolsa para achar um pedaço de papel e uma caneta para anotar os dados do garoto.
Com toda a empolgação, voltei meu corpo em direção do garoto novamente e tomei um susto. O infeliz não estava mais lá!
O garoto simplesmente sumiu das minhas vistas no instante que eu me distraí procurando a caneta e o papel! Filho da mãe!
Fiquei tão nervosa que, agora, encontrar aquele moleque era questão de honra!
Como ele ousava me deixar falando sozinha em plena praça pública?
Acho que demorei uns trinta minutos até encontrar o garoto. Enquanto eu me aproximava, ouvi-o gritar “Yeeees, peguei o Pikachu!”.
Percebi que aquilo era demais para a minha sanidade. Se em cada encontro que eu tivesse com ele para o projeto o garoto ficasse procurando Pokémon na minha sala, ou me ignorando, ou com aqueles fones altíssimos no ouvido, com certeza eu ia partir para agressão e não seria nada legal para a minha nota quando eu dissesse ao Dr. Benecke que eu perdi o paciente porque não tive paciência e soquei ele. Talvez um dia eu lidasse com um caso desse, mas na minha condição atual de estudante estressada e louca para tirar uma nota, eu preferia me abster.
Depois disso, fiz inúmeras outras tentativas de encontrar pacientes durante a tarde. Nessa aventura eu quase apanhei de uma garota ciumenta, fui perseguida por um maníaco e quase fiz um cara se jogar no asfalto, então, resolvi desistir.
Daqui a pouco eu que iria precisar de um psicólogo devido ao dia louco que tive. Todas as opções que me apareceram haviam terminado de forma bem ruim, então, com o rabo entre as pernas, decidi voltar para casa e finalmente aceitar a proposta do Denis.
Já era noite quando cheguei ao meu apartamento. Para piorar o dia catastrófico, hoje teria festa em algum dos apês do meu andar, ou seja, dificilmente eu dormiria e ainda por cima teria que aguentar os gritos dos bêbados pelo corredor.
Em dias de aula isso era uma merda. Muitas vezes eu precisava estudar e o barulho não ajudava nem um pouco. Hoje até que eu não me importaria muito, pois era apenas a primeira semana de aula.
Passei pelo trajeto do caos, esperando que não tivessem começado a farra tão cedo, mas, como em tudo eu sou o azar ambulante, eu poderia ter certeza que não era o caso.
Dito e feito. Quando cheguei ao meu andar, pessoas já se espalhavam por todos os lados, tive que sair me esgueirando entre eles até conseguir entrar pela minha porta. Já lá dentro suspirei, jogando-me de qualquer jeito na cama e enfiando a cara no travesseiro. Dei um grito abafado nele, tentando expulsar a minha decepção.
Não queria depender das peguetes do Denis, queria arranjar algo por mim própria. Era querer muito isso?
Abri o celular e coloquei o número dele na discagem, mas parei. Eu não precisava fazer isso agora. Ele tinha me dado o prazo até meia-noite, portanto, eu ainda tinha umas horinhas para me afundar na fossa antes dele esfregar na minha cara que eu poderia ter aceitado a ajuda dele muito antes de ter passado por esse reboliço todo.
Joguei-me na cama com meus cachos esparramados pelo lençol, segurei o celular com força na mão e fechei os olhos para ter meus momentos de bad sozinha.
Não sei quanto tempo fiquei ali, acho que até cochilei. Porém, fui despertada com um barulho forte de socos na minha porta. Levantei assustada, olhei as horas e ainda eram 23h30. O som alto da música rolava além das paredes, mas o que me deixou encafifada foram os socos que continuavam e uma cantoria desafinada do outro lado da porta.
Você foi à culpada desse amor se acabar…”
Porque homem não chora...”
Coloquei o meu ouvido na porta para entender melhor. O mais engraçado era ouvir isso no meio de um engasgo de choro e uma voz trêmula.
Os socos ficaram mais fortes e o que antes era uma canção muito desafinada e chorosa virou gritos e um choro compulsivo.
Fiquei preocupada e resolvi abrir a porta com cuidado, no entanto, ao destrancar, o peso do corpo da pessoa do outro lado fez força e fez com que a porta se abrisse por completo. Dei um pulo para trás com o susto e o cara caiu aos meus pés, cambaleando de tão bêbado que estava.
Parecia um rapaz jovem, tinha os cabelos castanho escuros, mas eu não conseguia ver o rosto do indivíduo porque ele estava literalmente beijando os meus pés enquanto cantarolava “você que destruiu a minha vida”.
Eu não sei quem ele pensava que eu era, mas com toda a certeza eu não me recordava de ter destruído a vida de ‘seu ninguém’.
O cara tinha uma garrafa de vodca na mão e abraçou os meus pés, rastejando-se no chão, enquanto começava a chorar.
— Ei, me larga! - tentei sapatear e desfazer o aperto dele, mas só o fez me segurar mais firme.
Por favor, não implora! - voltou a cantar e eu tive que revirar os olhos com o bêbado.
— Ai, meu saco! Ninguém merece isso. Ow, garoto, dá para por favor voltar para a sua festa e ir chorar em outro lugar? - falei alto para ver se ele saía do seu transe maluco e ia embora.
O rapaz levantou a cabeça e eu pude vê-lo pela primeira vez. Seus olhos estavam muito vermelhos, o rosto marcado pelas lágrimas e a aparência inchada pela bebida. Os cabelos estavam uma mistura de suor, colado em seu rosto, o cheiro do álcool impregnado e o canto dos lábios um pouco ferido. Ele não parecia ser um cara feio, mas estava tão derrubado e irritante que não dava nem para reparar melhor. Eu só precisava que ele me deixasse em paz e fosse curtir a sua fossa em qualquer outro lugar que não fosse o meu quarto.
— Por que você me deixou? - perguntou-me, franzindo o cenho e fazendo uma cara de choro, os olhos enchendo de água novamente.
Bufei irritada e me abaixei para falar com o intruso.
— Olha, eu não te deixei e nem sei quem foi que fez isso, dá para sair do meu apartamento agora? - implorei aproximando-me dele, ainda de pés atados e quase ficando bêbada com o cheiro da vodca barata que exalava do seu hálito.
— A mala já está lá fora… - resmungou e fechou os olhos, deitando sobre os meus dedos no chinelo.
Quando fui cutucá-lo novamente e insistir para sair, percebi que havia dormido. Agora eu estava ali no meu quarto, sozinha no meio da noite com um cara desconhecido, bêbado e chorão abraçado em minhas pernas, e sem saber o que fazer.


Capítulo 4

Devia ter quase meia hora que eu estava ouvindo o bêbado ressonar em um sono profundo no tapete felpudo do chão, ao lado da minha cama. Seu peito subia e descia lentamente, deitado de lado, uma mão agarrada ao travesseiro e outra embaixo do seu queixo.
Agora isso não parecia tão estranho quanto ontem à noite, quando tudo aconteceu. Já era de manhã e o meu novo inquilino ainda estava aqui no meu quarto e eu não fazia a mínima ideia de como tirá-lo. Ontem o meu coração bondoso não quis jogá-lo desmaiado no corredor afora. Até pensei nisso, o Denis falou que não seria esforço algum carregá-lo, mas preferi esperar até que ele acordasse. O problema era que já estava quase no horário do almoço e o infeliz ainda dormia como um bebê.
Na noite anterior, após ter caído à ficha que eu tinha um bêbado na minha casa, entrei em desespero, saquei o meu celular do bolso e liguei em pânico para o meu amigo. Acho que ele estava um pouco... ocupado. Tive que chamar várias vezes até que Denis me atendesse, o que valeu a pena, pois, assim que contei o ocorrido, ele xingou todos os nomes do outro lado da linha e veio rapidinho me salvar.
— Eu vou tirar esse imbecil daqui! - Denis falou com raiva assim que chegou e abriu a porta em um supetão. Segurou os pés do cara e já estava disposto a arrastá-lo.
Mordi o lábio, nervosa ao ver aquela cena. Na hora que o rapaz invadiu o meu apê eu tinha até levado numa boa, mas depois que ele desmaiou, mil pensamentos inundaram a minha mente. E se ele era algum assassino em série ou um estuprador?
Mas, em contrapartida, e se ele fosse apenas um cara com o coração partido? Alguém que passou por algum sofrimento e tinha ido só afogar as mágoas? Como eu conseguiria deixá-lo do lado de fora nesse estado?
— Eu não tenho certeza se devemos fazer isso... – murmurei, entrelaçando os dedos das minhas mãos.
— Como assim não sabe? , o cara invadiu a sua casa, bêbado! – exclamou. — Eu não vou deixar ele aqui com você sozinha, de jeito nenhum!
Meu amigo balançou a cabeça, reticente, contudo eu segurei o seu braço, fazendo-o parar.
— Denis, eu entendo, tá? Eu também tô com medo, mas vai que ele é uma boa pessoa? Quando acordar provavelmente vai nem se lembrar de como veio parar aqui. Lá fora as pessoas podem fazer algum tipo de ruindade, sei lá. Eu não vou me sentir bem se deixá-lo lá.
Denis bufou, rolou os olhos e cruzou os braços virando-se para mim com um olhar sério.
— Será que ele tá com algum documento ou celular? A gente pode tentar entrar em contato com alguém – opinei, pensando em alguma alternativa para aquela situação.
Abaixamo-nos e começamos apalpar os bolsos do cara, mas ele estava completamente liso. Aliás, para não dizer que não tinha nada, o rapaz estava com dez reais no seu bolso da frente.
— Esquece – Denis resmungou, sentando-se no chão, ao lado do corpo desmaiado.
— Pimentinha – chamei-o por seu apelido e fiz a minha melhor cara de pidona para ele. — Eu não vou me sentir bem, você me conhece! Você acha que eu ia conseguir dormir tranquilamente sabendo que deixei um cara à mercê de um povo louco de bêbado aí fora ou até mesmo drogado, vai saber que tipo de gente tem por aí. Não dá! Pode me chamar de doida, mas eu não vou deixar ele lá fora. – Bati um pé no chão, mostrando que não mudaria de opinião.
Meu amigo sabia que quando não tinha jeito quando eu decidia as coisas, por isso ele suspirou, colocou a mão na testa e olhou para mim, fuzilando-me.
— O que sugere, então?
— Olha, me ajuda a arrastar ele para o tapete do meu quarto, pelo menos ele não vai dormir no chão frio. Vamos esperar até amanhã e aí eu mando ele embora. Você pode dormir aqui no sofá, aí não corro risco de vida. Se eu tivesse um colchão podíamos colocar ele lá, mas como não tenho, o tapete já resolve - sugeri.
— Ah não, ! Você já estragou a minha noite. Você sabia que eu finalmente tinha conseguido sair com a gata da Cassandra da Assistência Social? Eu tive que ralar muito para conquistar ela e eu prometi que ia voltar.
Rolei os olhos, impaciente, sabendo que ele não teve que ralar coisa nenhuma, a única dificuldade que ele havia tido era fingir uma dúvida, atravessar o pátio e ir até ela para perguntar.
— Qual é, Denis?! Faz isso por mim, por favor! – Fiz uma cara de choro e um beicinho, sabendo que ele ia acabar cedendo.
Denis fechou os olhos e praguejou baixinho, deu um soco no chão e ficou em pé novamente.
— Mulheres! Acham que podem nos comprar com carinhas bonitinhas! Você vai ficar me devendo essa, dona . Ah, se vai!
— O que você quiser, Pimentinha! – Dei um salto para ele e apertei a sua bochecha, dando-lhe um beijo em agradecimento.
— Se eu fosse você não ficava tão animadinha, você sabe que meus pedidos são caros – ironizou.
— Desde que não venha querer me mostrar a "soberania" da sua língua ou do seu pau, a gente tá entendido. – Pisquei para ele ao final, assim que fiz o sinal de aspas com os dedos.
— Ah, se você soubesse... – Fingiu ficar pensativo e eu lhe dei língua. — Vai arrumar um lençol para mim, vai! Enquanto isso eu vou ligar para a Cassandra remarcando.
Lembrar disso agora me fazia rir. O Denis ficou a noite toda emburrado até pegar no sono. E foi assim que terminamos todos nessa situação pela manhã. O desconhecido dormindo ainda no tapete e Denis no sofá da sala.
Ouvi um leve resmungo e meu coração saltou assustado. Meus olhos fixaram no movimento do corpo do desconhecido, notando ele fazer alguns leves movimentos e franzir o cenho, parecendo que ia acordar.
O rapaz começou a espremer os olhos e logo levou a sua mão até eles, coçando-os. Quando finalmente os abriu, deu um salto no tapete e sentou-se de uma vez, dando um grito assustado. O susto que ele tomou foi tão grande que me assustou também e, quando percebi, havia gritado junto com ele e estava encolhida em cima da cama, com meus braços em volta das minhas pernas dobradas.
Ficamos com as respirações descompassadas, um encarando o outro, sem coragem de abrir a boca. Os olhos dele desviaram-se minimamente de um lado para o outro, observando o meu quarto. Em seguida ele fixou-se em mim, olhando-me lentamente dos pés a cabeça. Depois abaixou seus olhos e levantou lentamente o lençol que cobria seu corpo. Não sei o que ele estava fazendo, mas logo após esse ato ele ergueu a cabeça, soltou um suspiro profundo e se não me engano creio que ouvi um "ufa" ser sussurrado.
— Quem é você? Onde eu estou e que droga está acontecendo? – perguntou cautelosamente e depois deu um gemido, segurando a cabeça. Provavelmente era o resultado da tremenda ressaca que ele deveria estar sentindo no momento.
Meu coração ainda batia forte, mas ergui a voz para retruca-lo no mesmo instante.
— Acho que eu é que deveria fazer as perguntas aqui, já que eu é que tive a minha casa invadida por um cara estúpido, bêbado e cantando "Porque homem não chora"!
O rapaz passou a mão pelo seu cabelo desgrenhado e nojento, parecia até que todo óleo da cozinha havia sido jogado nele. Será que ele não tomava banho, não?
Ele franziu o cenho, parecendo perdido e sem entender o que estava acontecendo. Rolei os olhos impaciente e resolvi explicar a situação para ele, antes que pudesse ficar paranoico e dar mais algum chilique.
— Provavelmente você não se lembra de nada, mas como sou boazinha, vou resumir. Você estava bêbado, bateu na minha porta, falou um tanto de abobrinha que eu não entendi, cantou uma música de forma bem desafinada e desmaiou nos meus pés. Como eu sou um ser humano excepcional, fiquei com dó de te arrastar para fora e voi a lá, aqui está você. Agora é a sua vez. – Apontei a mão para ele, mostrando que agora queria respostas.
— Jura que eu fiz tudo isso? – perguntou, sua voz soando um pouco rouco e os olhos espremidos por causa da claridade, os cantinhos sujos de remela.
— Eu gostaria que fosse mentira, mas não é. Ou você acha que eu gosto de receber caras bêbados e desconhecidos na minha casa?
Eu às vezes até queria segurar a minha língua, mas tinha coisa que era tão óbvia... Por que as pessoas ainda perguntavam?
— Desculpe! – falou devagar, esfregando o dedo no canto do olho direito. Acho que ele ainda estava com resquício do álcool ou com muito sono, porque parecia mais lento que um jumento.
— E então? Vai me dizer quem é você?
O cara levantou um pouco estabanado e apoiando a mão na parede do meu quarto minúsculo. Bambeou um pouco, mas conseguiu ficar de pé e dar um passo para ficar na minha frente.
Levantei meus olhos para ele, notando que era alto. Seu corpo não era super atlético, mas também não era uma vareta. Era como um magro com músculos. Nada mal até.
— Meu nome é . Desculpe por... por tudo isso – disse e sua voz soou com pesar.
Ele aparentava estar triste e envergonhado, fiquei até com pena de ter sido tão dura com ele. Seus olhos desviaram de mim e miraram o chão, impedindo que eu o encarasse. Uma curiosidade me veio sobre ele, o que havia acontecido de tão ruim para que ele estivesse tão devastado? Eu já sabia que envolvia mulher, mas precisava ouvir dele para ter certeza.
— Não querendo ser bisbilhoteira, mas já sendo, por que ficou assim? Eu sei que as pessoas extravasam às vezes e gostam de tomar um porre, mas ontem à noite, pelas coisas que disse, parecia muito mais que isso.
O cara, que agora eu sabia que se chamava , mordeu o lábio inferior, ponderando se deveria abrir a boca. Mas, por fim, deixou cair os seus ombros e resolveu falar.
— Você me acharia ainda mais estúpido se eu dissesse que foi por uma garota? - perguntou, constrangido, colocando as mãos para traz do seu tronco e trocando o peso do corpo em seus pés.
— Sinceramente? De início sim. Mas eu sou uma excelente ouvinte, posso escutar o seu lado da história. - Sorri para ele, tentando deixá-lo mais à vontade.
Só eu mesmo para cuidar de um bêbado, morrer de raiva e depois ainda oferecer um ombro amigo no final. Bem que Denis vivia me dizendo que eu ainda me meteria em muita confusão na vida.
— É melhor não, eu acho que já causei muitos problemas. Vai por mim, minha vida é tediosa, triste e amargurada. Não foi sempre assim, mas depois... Esquece. Desculpe novamente, eu não queria ter feito isso, eu estava fora de mim. - Apontou para si mesmo e o tapete no chão.
parecia um cara agradável, mas havia uma nuvem de tristeza em sua volta que era impossível de não se notar. O jeito dele falar e a forma que ele se portava não escondia muito, além disso, seus olhos pareciam gritar "me ajude". Ao mesmo tempo em que ele parecia ser um cara transparente e fácil de ser lido, ele tinha também um ar de confusão.
Várias perguntas pipocavam minha cabeça. Por que ele bebeu? Ele fazia isso sempre? Por que estava com um aspecto tão sujo e desleixado? Há quanto tempo estava sofrendo? Qual era o motivo maior disso tudo?
Eu só precisei encará-lo mais uma vez para saber que era a caixinha que eu queria desvendar. Eu queria ajudá-lo. Um rapaz tão novo e apresentável não deveria estar chorando as pitangas bêbado e invadindo a casa dos outros.
— Às vezes tudo o que você precisa fazer é colocar para fora, sabia? – incentivei-o a dizer alguma coisa.
— Por acaso você é psicóloga? - Passou a mão no cabelo sujo e ironizou, elevando só um pouquinho o seu lábio.
— Uma psicóloga em formação, eu diria - Pisquei para ele e sorri.
deu de ombros e virou as costas para mim. Achei que era o sinal que eu havia ido longe demais ao perguntar algo íntimo, mas fiquei surpresa quando ele abaixou-se para pegar o lençol, começou a dobrá-lo e aproveitou essa distração para falar.
— Ela disse que eu não era o cara que ela queria para a sua vida. Mesmo depois de estar ao meu lado por anos e eu ter feito tudo por ela, ainda assim... simplesmente eu não era mais o cara. Não é uma grande história, afinal. Ela só terminou comigo, destruiu o meu coração e eu me afundei. E muito por sinal. Eu só preciso... – Colocou o lençol dobrado sobre a cama, olhou para mim e mordeu o lábio inferior. — Preciso descobrir como voltar a viver minha vida novamente.
Esse negócio de amor era complicado. As pessoas sempre acabam esperando algo da pessoa que se ama. A psicologia fala sobre o amor romântico e suas frustrações. Homens e mulheres tendem a idealizar demais e fazer projeções nos seus companheiros, sendo o resultado inúmeras frustrações por a pessoa não atender tudo aquilo que se esperou dela.
Era por isso que eu não pensava, idealizava e nem sonhava. Expectativas costumam nos decepcionar, a graça da vida estar em se deixar surpreender.
Uma luz veio na minha mente, assim que digeri o que ele havia falado. O que eu tinha a perder? Já havia tentado de todas as formas e estava mais encurralada que galinha presa no poleiro. Eu precisava tentar.
— E se eu te dissesse que posso te ajudar? – perguntei, deixando um sorriso enigmático se formar lentamente em meu rosto.
me encarou por alguns segundos com uma feição incrédula. Suas sobrancelhas arquearam-se e depois foram-se unindo vagarosamente, até que o seu cenho estivesse todo franzido.
— Desculpe, eu não estou pronto para ter outro relacionamento agora. Você é uma garota linda e em outro momento eu adoraria. Sério! Eu não pensaria dois segundos, mas hoje eu não posso e eu não quero te usar dessa forma para aplacar a minha dor. Mesmo assim, eu só tenho que te agradecer por tudo o que fez por mim. - Estendeu a palma da mão em minha direção, ao mesmo tempo em que recuou um passo para trás. Era quase contraditório isso.
Meu sorriso foi se desfazendo à medida que ele falava e eu percebia o que ele havia entendido da minha proposta.
Uma onda de raiva se apossou do meu corpo e fiquei indignada por ter achado isso. Pera lá, né?! Se eu fosse dar em cima de alguém eu tentaria uma abordagem melhor do que essa! Além disso, vê se eu ia querer um cara que estava fedendo a álcool, suor e sei lá quantos dias sem banho?!
— Pera lá, garanhão! – Estendi as palmas da minha mão, — Nem toda garota cai nos pés de um cara só porque ele tem um rostinho bonitinho, fica tranquilo que eu não estou interessada em você. Não dessa forma que você pensou.
deu uma leve encolhida com minhas palavras e seu rosto aparentava confusão e constrangimento.
— Desculpe, é que você disse... – tentou se justificar, mas eu o interrompi.
— Tá bom, tá bom, não importa! Você é um carinha agradável, passa na rua e as mulheres tendem a dar em cima de você, blá, blá blá, e achou que eu também queria a mesma coisa... Não vem ao caso. Não é nada disso. - Balancei a mão entediada por ter que dar aquele discurso, enquanto eu via a cabeça dele balançar várias vezes em negativa, porém nem dei moral, apenas prossegui a minha fala. — O negócio é o seguinte, eu te salvei. Você poderia estar apagado de bêbado do lado de fora, ter sido roubado ou sabe-se lá Deus o que mais poderia ter acontecido. Mas, mesmo você sendo insuportável ontem, eu te abriguei aqui e você me deve uma.
ficou paralisado na minha frente e engoliu em seco, cruzando uma mão na outra em seguida.
— É justo – respondeu, receoso. — O que você quer?
Abri meu sorriso novamente, sabendo que tinha jogado todas essas coisas para endossar a minha chantagem e que agora seria praticamente uma batalha ganha.
— Quero que seja meu paciente nos próximos meses.



Capítulo 5

— Você o quê? – Denis exclamou assim que eu terminei de explicar para ele a proposta que havia feito ao .
— Eu disse que o cara bêbado será meu paciente no trabalho do Sr. Benecke.
— Você só pode estar louca. Você nem o conhece! Meu Deus, , ele chegou bêbado, entrou no seu apartamento do nada e ainda por cima agarrou os seus pés! Ele pode ser um maníaco tarado e você tá aí querendo ainda revê-lo!
— Ele não é nada disso, Denis. – Rolei os olhos. — Ele é um cara que teve o coração partido e agora não sabe lidar com a situação. No entanto, eu vou ajudá-lo. É uma troca de favores, ele me deve essa.
Meu amigo emburrou a cara e cruzou os braços, encarando-me.
— E ele topou? – Arqueou a sobrancelha, desconfiado.
— De início não, mas você sabe como eu sempre tenho ótimos argumentos – falei, recordando-me de como estava sendo incisivo em não querer participar. Contudo, eu joguei na cara dele que tive que aturar a sua bunda bêbada a noite toda sem ao menos conhecê-lo e acho que ele ficou com remorso, resolvendo topar em seguida.
— Eu ainda não acho uma boa ideia… – Denis resmungou.
— Você não precisa achar, Denis. Eu vou fazer e vai dar tudo certo – retruquei, fazendo meu amigo bufar com raiva.
— Ok então. Já que você é cabeça dura para não mudar de opinião, me diga, sabichona, como você vai ajudá-lo? , você é inteligente pra caramba, mas o que sabe sobre coração partido? Você nunca nem gostou de ninguém – exclamou, erguendo os braços.
— Isso não é verdade! Teve aquele garoto ruivo do parquinho que te contei…
— Você estava na primeira série, , ele nem conta! Você só ficou encantada porque ele te deu uma bala.
Rolei os olhos e me auto condenei por ter contado tantos detalhes da minha vida para Denis. Caso contrário eu poderia até enrolá-lo.
— Ah, não interessa, Denis. Para de avacalhar o meu trabalho e cuida do seu. Eu posso não saber na prática, mas entendo as teorias e como lidar com isso. Relaxa e vai lá usar o seu divã com a sua tal “paciente”. – Fiz um gesto de aspas com os dedos, mostrando o quão irônica eu estava sendo.
— Com muito prazer! – Denis primeiro me olhou ultrajado, mas logo respondeu, abrindo um sorriso safado.
— Nojento!
Denis sorriu e levantou-se, colocando a xícara de café suja na minha pia e largando-a lá. Folgado, achava que eu era empregada dele.
— Enfim, só me prometa que qualquer coisa que aconteça você vai me procurar. – Expirou, frustrado. — Posso ter, pelo menos, uma conversa com ele antes?
— Denis, pelo amor de Deus! Vai ficar tudo bem.
— Ok, ok! Agora vou lá porque tenho uma consulta marcada. – Imitou o meu sinal de aspas com as mãos e ergueu a sobrancelha dele duas vezes, deixando claro as segundas intenções daquilo.
Despedimo-nos e logo após fiquei repassando os acontecimentos da noite anterior e de hoje de manhã. Agora, finalmente, eu tinha o meu “paciente”.
Confesso que estava nervosa e que as palavras do Denis martelavam em minha cabeça, trazendo-me insegurança.
Será que eu, uma pessoa que nunca havia vivenciado de fato esse tipo de amor, poderia ajudar alguém com o coração partido?
Resolvi começar a pesquisar sobre o assunto na internet, afinal, para um bom trabalho, precisamos estar preparados e munidos de informações. Surpreendi-me quando encontrei um site chamado “Desabafos.com” e o slogan “Faça aqui o seu desabafo”.
Sério que realmente usavam esse tipo de coisa?
Cliquei lá e pude ver que havia as mais variadas categorias de assuntos. Desde desabafos sobre livros ruins, produtos extraviados, relacionamento com os pais, até política e morte de cachorrinhos. Na lateral direita do site tinha um link onde era possível filtrar as informações. Cliquei no botão e selecionei depois a opção “desabafos do coração”.
Comecei a passar o olho por toda aquela tonelada de relatos descritos ali. Nunca imaginava o número de pessoas que tiveram alguma desilusão amorosa era tão alto. Alguns eram mais leves, outros mais tensos, mas, no geral, todo mundo já tinha tido o coração partido, o que me fez sentir um certo privilégio por ter o meu intacto.
Comecei a deslizar o mouse durante e leitura e me deparei com alguns desabafos interessantes.

Tive meu coração partido quando me declarei pro boy e ele disse que gostava mesmo era da minha irmã. Na hora não escondi minha decepção, mas a mesma passou quando ele me pediu ajuda pra conquistar minha ‘sis’ (Cara de pau? Nem um pouco! Haha), dei meu melhor sorriso e mandei ele se arrombar rs...)” - F.S.

Uau, parecia até aquelas histórias de novela. Imagina que horrível gostar do cara que gosta da sua irmã? Ainda bem que eu era filha única, logo não correria esse risco.

Eu fiquei bem na bad quando eu fui em um encontro e o cara tava bem nem aí pensando na ex. Fiquei ouvindo músicas bad (alô, Ed Sheeran) e fiquei pensando que minha vida estava fadada a solidão.” - L.R.

Fala sério, hein?! Para que o cara resolveu sair, então? Ex a gente deixa enterrada! Tadinha dessa menina, espero que não tenha ficado traumatizada e que o próximo seja um zilhão de vezes melhor.
Rolei mais o mouse e passei para os próximos depoimentos, esperando que fossem menos catastróficos.

Enquanto eu tava ficando/namorando com o guri, ele do nada colocou que tava em um relacionamento sério com outra no Facebook. Quando fui tirar a limpo com ele, ele só respondeu "ah é, esqueci de te avisar". No primeiro dia eu tava tão ??? que eu só ri da situação, no segundo eu tava meio triste, e no terceiro eu já nem lembrava dele. Foi quando eu me dei conta que eu não gostava dele de verdade, só gostava de ter alguém pra conversar.” - C.B.

Gente do céu! Ler esses depoimentos estava me deixando horrorizada! Como existia esse tipo de pessoa no mundo? O que custava ter um papo cabeça com a menina e terminar o relacionamento? Mesmo se estivesse só ficando, é questão de caráter. Eu hein, que povo doido esse! Ainda bem que a menina entendeu que não estava tão envolvida assim, caso contrário às marcas poderiam ter sido muito profundas.

Só tive o coração partido uma vez e por um amor não correspondido. Fui vítima de uma aposta, quando eu tinha uns 14 anos de idade. Isso me deixou muito insegura e hoje quase aos 22 tenho medo de me entregar a qualquer relação, então fujo de qualquer pessoa que tente se aproximar de outra forma, não sendo amizade.” A.J.

Eu-estou-em-choque!
Na verdade, estou perplexa!
Gente, não seria possível a existência de pessoas tão babacas assim no mundo. Seria?
E eu achando que só encontrava esse tipo de coisa em livros e fanfics, mero engano.
Esse depoimento me fez até analisar certas situações que nos deparamos por aí. Nós vivemos lendo historinhas de apostas que o cara é babaca e se apaixona depois pela menina e vivem felizes para sempre. Nada contra, até porque eu já li e gostei de várias delas, mas, caramba! Olha aí a vida real! Na realidade não é nada legal e nada bonito!
No planeta Terra o carinha machuca o seu coração, você fica com cicatrizes e carrega os traumas ao longo da vida. É, garotas, precisamos analisar e ter o nosso pezinho no chão! O mundo não é das Alices e nem cor-de-rosa como pensamos.

Eu fiquei de coração partido quando terminei meu namoro e só sabia chorar. Foi bem tenso e meus amigos dizem que mudei drasticamente o comportamento, só queria ficar dentro de casa e não ver as pessoas. Sendo sincera, não consigo lembrar de muita coisa porque fiz questão de deletar todos esses sentimentos horríveis, mas eu lembro bem de chorar agarrada numa camiseta e de ficar andando de capuz algum tempo, até dentro de casa HAUAHU Até virou piada interna aqui em casa, quando alguém tá de capuz já soltam "alguém tá meio depressiva". Dou risada agora, mas machucou muito.” N.G.

Ler isso só me causava mais medo de me envolver com alguém, parecia tudo tão horrível. Tantas meninas machucadas e marcadas de alguma forma por culpa do coração. Tadinha da garota do depoimento, agora toda vez que eu sair na rua com um capuz iria me lembrar dela.

Um garoto que eu achava que gostava na sala do 1º ano queria mesmo era minha melhor amiga. Eu que apresentei eles, eu que fiz a ponta de contato, e ele me escondeu isso. Quando me declarei, ele falou que gostava msm era dela, msm assim a trouxa aqui queria ajudar ele (não a ficar com ela, mas consolar, sabe?). DETALHE: ELE TINHA NAMORADA E ELA TB!” - J.B.

Eita, lê, lê!
Tá aí uma coisa que eu não suporto! Traição.
Tá junto, então tá junto. Não quer, separa. É questão de caráter e respeito. Espero que se eles tenham ficado, pelo menos tenham terminado com seus parceiros antes. Relacionamento aberto é relacionamento aberto, agora, trair a confiança do outro, é outra coisa e é duro demais. No fim, acho que o que essa garota do depoimento teve foi um livramento por não se envolver com esse cara.


“Eu gostava mt do meu ex namorado, tipo mt mesmo. Nós namoramos um ano e meio, até que eu descobri que ele mentia sobre tudo da vida dele, e não mentia só pra mim, mentia pra família e pros amigos também. Foi uma decepção enorme, chorei muito na noite que descobri, fiquei mt mal por uns 3 dias, mas não ficava só no quarto sabe, eu saía de casa, ia na faculdade, continuava vivendo. Eu não aceitava ficar trancada no quarto por causa dele, ele não merecia isso. (...) Tenho essa consciência hoje e, na época, minha família me ajudou muito a entender isso. Na verdade, eu superei bem rápido, e devo muito à minha família por isso. Eu sofri sim, muito, mas não deixei isso me vencer.” - G.M.

Uma história triste, mas fiquei tão orgulhosa da menina! Um bom ponto para eu anotar na minha caderneta. Nessas horas difíceis, o apoio familiar é fundamental. Preciso lembrar de perguntar ao como é a relação familiar dele ou mesmo dos amigos. Em momentos como esse, o melhor a se fazer é cercar-se de pessoas que são importantes para gente.

“Olha, numa das minhas maiores paixões o cara me disse na cara que eu não era suficientemente boa para ele por ser gorda e feia e eu chorei que nem louca. E o que eu fiz depois????? Me fiz passar por uma outra rapariga e ele se apaixonou por mim xD fiz isso durante 1 ano, por vingança e até hoje não me arrependo pq o fiz pagar por meu sofrimento!!! Sei que foi errado, mas não podia deixar um cara me diminuir dessa maneira.” C.O.

Socorro! Li me sentindo em um episódio de Revenge! Ao mesmo tempo em que eu ria da esperteza da menina, eu ficava também chocada! Quem eu era para julgar como alguém deveria agir em uma situação como essa, não é? Ainda mais depois do cara ser tão ridículo e preconceituoso. Mas uma coisa era certa, depois dessa ele não aprontaria novamente.

“A primeira vez que chorei por um cara, foi pq ele foi totalmente sincero comigo e disse que ainda amava a ex dele e não queria me enganar, pq gostava de mim, mas não era o suficiente para esquecer ela. Eu achava que não teria vida pós "ele", que ia tudo desmoronar, e a gente nem namorava, hein!? KKKK ele foi o primeiro cara que eu fiquei gostando de verdade...” H.L.

Até que enfim um cara legal e honesto nesses depoimentos. A garota teve o coração partido, mas, pelo menos, o cara não foi um babaca. Se eu pudesse falar algo, diria assim “Garoto, não sei teu nome, mas fiquei orgulhosa com a sua atitude”.
Enfim, ainda assim, já tinha lido depoimentos o suficiente para querer nunca me apaixonar. Deus me livre de ter que passar por todos esses processos.
Não que eu fosse virar uma fugitiva do amor, mas também não ia dizer que estava morrendo de vontade de ter meu coração batendo mais forte por alguém. Na verdade, isso só tinha me deixado mais receosa. Porém, vamos que vamos, né? Se tem uma coisa que eu aprendi nos últimos tempos é que no coração não se manda. Minha amiga que o diga.
Fiz mais umas pesquisas a respeito e descobri que a depressão após o fim de um relacionamento acontecia muito mais do que eu imaginava. Haviam até artigos que comparavam o sentimento de um término com a abstinência de um viciado de drogas. E, pensando bem, fazia muito sentido.
Quando começamos a nos relacionar com alguém são liberados hormônios como a Ocitocina, conhecida como o hormônio do amor e responsável pela interação, desejo sexual, etc. E também a dopamina, que nos dá a sensação de bem-estar e prazer. Esses elementos associam-se com o cheiro e o rosto do parceiro que amamos, fazendo com que o cérebro capte a atenção que recebemos do boy como uma droga. Seguindo o baile, de acordo com o número de encontros ou o tempo que ficamos com a pessoa, nosso cérebro torna-se “viciado”, acostumando-se a viver naquele ciclo feliz e recompensatório dos hormônios.
Quando acontece uma separação, principalmente se ocorrer de forma repentina, o corpo vai reagir igual a um que está em abstinência, igual ao que acontece aos viciados em drogas. Sintomas como fúria, por exemplo, são super comuns. Há o desejo de recuperar aquilo que foi perdido e resgatar o relacionamento que foi acabado. O cérebro é treinado para tentar reverter essa situação, por isso a pessoa fica com raiva, diz que nunca mais quer falar com o cara e dez minutos depois já está de volta ao fundo do poço.
A Dra. havia me explicado que isso é completamente normal. Faz parte da lei da natureza e do sucesso da procriação, pois, caso contrário, se nós apenas nos desinteressássemos um pelo outro facilmente, era provável que a raça humana já tivesse se extinguido.
Sem a dopamina e a ocitocina, aquela sensação de felicidade e prazer que a pessoa sentia antes se acaba, sendo substituída pelo choro e podendo levar à depressão. Mesmo aquelas pessoas que seguem suas vidas podem ter seus momentos de crises. Um coração partido, independente por quem quer seja, não é bobagem e nem infantilidade. Além disso, cada um tem o seu tempo para lidar com a dor que sente.
Acho que todo mundo sabe de algum caso de gente que até adoeceu depois de um término. Isso acontece porque o corpo, vendo tudo isso que aconteceu, começa a estimular a liberação de cortisona, também conhecido como o hormônio do estresse. Esse hormônio faz o apetite diminuir e enfraquece o sistema imunológico da pessoa, por isso podemos ficar doentes no sentido mais literal da palavra.
A intensidade de como tudo isso acontece varia muito de pessoa para pessoa e do envolvimento que tinha com seu parceiro. Quando ele é tido como o “ideal” a sensação para o corpo é como a perda de um membro. Agora quando o relacionamento já não era lá essas coisas, é comum que se supere mais rápido. Da mesma forma essa diferença é vista conforme o tipo de término que ocorre. Quando o rompimento acontece aos poucos, já foi citado alguma vez, ou alguma coisa parecida, a pessoa fica mais preparada, então não sente o tamanho do baque. Agora se acontece sem nem se esperar, é muito pior.
Por isso, ao começar as sessões com , eu precisaria colher todas essas informações. Para assim conseguir compreender a dimensão do relacionamento dele, as motivações e como tudo aconteceu.
É fácil julgarmos por fora, mas só quem sente é capaz de mensurar o tamanho da dor e as reações, muitas vezes incontroláveis, que o seu corpo tem.
Fiquei um tempo fazendo anotações na minha agenda e fazendo o cronograma das minhas sessões com o . Precisava ser organizada e mostrar todo um lado profissional, por mais que o próprio Dr. Benecke não fosse exigir tanto da gente.
Agora eu precisava de um encontro mais formal com o meu novo paciente para conhecê-lo melhor e preencher a ficha dele. A madrugada aqui em casa nem contava, passou mais bêbado ou desmaiado do que falante. Além disso, eu ainda tinha minhas dúvidas do quão sóbrio ele estava quando resolveu aceitar o acordo.
Peguei meu celular e busquei o número de , que eu havia salvo antes dele ir embora. Cliquei em Bebum e esperei chamar até ele atender.
— Alô – atendeu com a voz sonolenta.
— Não está meio tarde para ainda estar dormindo?
— Quem é?
— A sua salvadora, agora vai lavar esse rosto para conversar comigo porque eu não quero que você alegue que eu te induzi a concordar com alguma coisa porque estava, dessa vez, bêbado de sono – gracejei e ouvi um resmungo do outro lado da linha.
…?!
— A própria! Já levantou?
— Você é sempre chata assim ou só quando respira? - retrucou e eu acabei gargalhando.
— Pelo visto pelo menos consegui te acordar.
— Desculpe. Eu tô com uma dor de cabeça do cão.
— Não me atingiu. Mas a sua dor é só resultado da bebedeira.
— É… eu sei – respondeu após alguns segundos de silêncio.
— Enfim, vamos ao ponto. Preciso me encontrar com você ainda hoje para preencher a ficha e preparar teu caso. A entrega para o meu professor é amanhã. Você lembra do nosso acordo, não é? – perguntei, torcendo para que ele não usasse seu estado não sóbrio para cair fora.
— Sim, eu prometi. É o mínimo que poderia fazer. Não que eu esteja gostando da ideia, mas uma mão lava a outra…
— Isso aí! – Sorri, ainda que ele nem pudesse ver. — Que tal ir no Fiammetta Pizza que fica aqui perto? – sugeri.
— Por mim tudo bem. Pode ser às sete?
— Fechou. Beijo, até mais!
Acho que ele ia responder alguma coisa, mas não consegui entender, pois tinha desligado a ligação. Agora estava dada a largada do meu trabalho e o primeiro passo era me encontrar oficialmente com .



Capítulo 6

Arrumei os meus cachos em frente ao espelho, de forma que ficassem bem modelados, passei meu perfuminho básico, peguei minha pastinha e saí de casa. Como havia marcado com em um local perto, não precisaria pegar ônibus e nem táxi. Melhor para mim, vida de estudante já é muito apertada, todo trocadinho ia para xerox.
Eu sentia um frio na barriga e o meu coração saltando com a expectativa. Tinha medo de sair tudo errado, dele achar uma merda às sessões, dele desistir, de tudo. Foi fácil marcar com ele, difícil seria agora para encará-lo, não queria me frustrar, meu trabalho dependia que tudo corresse bem.
Caminhei até o local marcado e ao chegar à porta, logo avistei os cabelos escuros de , que batucava a mesa com os dedos, parecendo entediado. Respirei fundo e segui em frente, tentando não ficar nervosa. Eu devia parecer o mais profissional possível e deixar a minha ansiedade de lado. Eu poderia fazer isso, pensamento positivo!
— Olá, chorão! – cumprimentei-o com gracejo, uma forma de omitir tudo aquilo que estava sentindo dentro de mim, e sentei na cadeira oposta, ficando de frente para ele.
enrugou o rosto em uma careta e estendeu a sua mão em minha direção.
— Oi, . E, a propósito, meu nome é .
Dei uma risada e respondi o seu gesto, dando graças a Deus que a minha mão não suava, caso contrário ele perceberia que eu estava nervosa e que esse meu jeito descolado agora era pura fachada.
— Tudo bem, eu só queria quebrar o gelo. Eu sei o seu nome, – falei, forçando um tom mais grave, e pousei meu cotovelo na mesa, observando-o.
Ele parecia bem diferente de quando estava no meu quarto, a começar que não estava fedendo a cerveja ou vômito, na verdade, logo que cheguei perto dele senti um perfume muito gostoso, que me deu até vontade de afundar meu nariz em seu cangote e inspirar profundamente.
Sem pensamentos sujos, por favor!
O negócio não era com , mas sim porque eu adorava perfume masculino, mas como eu nunca tive um homem para cheirar, tinha que me contentar quando alguém passava com algum delicioso perto de mim. Denis também usava alguns muito bons, mas ele se aproveitaria da minha fraqueza por aroma masculino para tentar me pegar, então eu dispensava.
Além disso, agora estava bem vestido, o cabelo não parecia mais um ninho de passarinho e a cara não estava inchada. Ele estava bem… Apresentável.
?
Pisquei e voltei a mim, não havia percebido que tinha entrado em transe nos meus pensamentos. Isso sempre acontecia comigo, começava a viajar na minha mente e se deixasse eu ia à China e voltava sem ninguém perceber. O problema era que eu estava olhando para , aliás, não necessariamente pra ele, meus olhos estavam em sua direção, mas eu estava perdida em minha própria cabeça. No entanto, agora ele poderia achar que eu estava o encarando, droga. Deve ser por isso que ele estava acenando com a mão em frente o meu rosto.
Corei um pouco, sentindo vergonha, mas tentei dar o meu melhor sorriso e fingir que nada tinha acontecido.
— Desculpe. Então, o que estava dizendo, ?
— Eu disse que tinha pensado em desistir, mas não seria justo com você. Eu dei minha palavra, então vou até o final, mas queria que você não expusesse nada que venhamos conversar – pediu, esfregando as mãos uma na outra e sacudindo uma das pernas.
— Você está nervoso? – Arqueei a sobrancelha e segurei o sorriso.
Não queria caçoar dele, só achava engraçado. Eu tinha chegado ali tão insegura e pelo visto ele estava tão tenso quanto eu.
— Isso é esquisito – Apontou para mim e para ele. — Não é todo dia que uma estranha pede para ser minha psicóloga e manda eu abrir a minha vida emocional para ela.
— Bom, se serve de consolo, não é todo dia que eu recebo caras bêbados desconhecidos na minha casa também. – Pisquei e sorri, tentando quebrar a tensão.
— Touché! – ergueu o rosto para mim e elevou um pouco o seu lábio em um pequeno sorriso.
Era a primeira vez que o via mais relaxado. Ele tinha uma aparência muito mais bonita quando sorria – ainda que eu nem pudesse considerar isso um sorriso de fato, havia sido só uma tentativa contida. Ainda assim, ele deveria fazer mais vezes, pena que eu ainda conseguia perceber a carga do seu olhar. Ele estava triste, os ombros caídos e os olhos sem brilho o denunciavam. Quem sabe até o final do meu projeto eu conseguisse trazer um sorriso verdadeiro e leve para ele…
— E então? Com vai funcionar esse esquema? – perguntou, curioso.
Animei-me com o questionamento e coloquei a minha pasta em cima da mesa para tirar o formulário, mas tocou o meu braço, fazendo-me parar. Tomei um susto com o seu ato e olhei para ele imediatamente.
— Vamos só pedir algo para comer primeiro, que tal? Aí podemos conversar à vontade – explicou e eu retirei meu braço, juntando-o ao meu corpo e acenando com a cabeça em confirmação.
fez um movimento com a mão para chamar o garçom e fez o nosso pedido. Uma pizza pequena, metade marguerita e metade frango com catupiry, que era o meu favorito. Pediu também um suco de abacaxi com hortelã para mim e um de frutas vermelhas para ele.
Assim que finalizou, apressei-me para abrir minha pasta e retirar de lá a ficha de cadastro e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que ele deveria assinar. Eu não teria assunto para ficar conversando com o ali enquanto comia, nós estávamos em uma saída puramente profissional, portanto, era melhor já ir falando o que realmente importava.
— Antes de começarmos você vai precisar preencher alguns dados para mim. Um é só algumas informações pessoais, mas que não serão divulgados, é só para eu fazer a sua ficha como meu paciente. A outra é um termo que você me autoriza a usar aquilo que for abordado durante nossas consultas, porém sempre preservando a sua identidade. Além disso, o termo lhe garante pular fora do projeto a qualquer momento, mas você não vai fazer isso comigo, vai? – Uni uma mão na outra em frente ao meu rosto, fiz a cara do gato de botas e pisquei meus cílios para ele.
deu uma pequena risada pela primeira vez, fazendo seus olhos ficarem apertados e quase tampados por causa dos seus longos cílios. Balançou a cabeça e passou a mão nos fios escuros que caíram em seus olhos com o movimento, retirando-os e jogando-os para trás.
— Eu já te dei a minha palavra. Não vou furar.
— Bom mesmo! – Sorri e voltei meus olhos para os papéis. — Eu pensei de fazermos seis encontros oficiais, creio que será o suficiente para o seu caso. Eu preferiria que fosse em um lugar público, mas como não seria muito profissional, pode ser lá em casa, eu ficaria mais à vontade e Denis não iria encher o meu saco achando que você vai me sequestrar ou algo assim – expliquei e ele arqueou a sobrancelha, arregalando os olhos assustados.
— Uau, eu causei mesmo uma má impressão ao seu namorado, hein!
— Eca, ele não é meu namorado. – Fiz uma careta de nojo e balancei a cabeça. — Denis e eu somos amigos, é o irmão que eu nunca tive. E sim, você causou uma péssima impressão. Vamos dizer que Denis não é muito fã de Pablo também – gracejei.
— Você nunca vai esquecer isso, vai? – Colocou a mão na testa e revirou os olhos.
— Lamento, , você me deu bagagem para te atazanar durante uma vida inteira.
— Isso não seria antiético? Atazanar o seu paciente… – Apontou para ele mesmo e arqueou uma sobrancelha, mordendo o lábio inferior para conter um sorriso que temia sair.
Até que esse garoto era divertido, quando não estava no seu momento depressivo e de lamentações. Semicerrei meus olhos em sua direção, coloquei meus cotovelos na mesa, cruzando as mãos embaixo do queixo para encará-lo.
— Agora não estamos em nossa sessão formal, então estou aproveitando enquanto posso – respondi e deixei meu lábio se elevar ao final.
Quando iria me retrucar, fomos interrompidos pelo garçom que chegava com a pizza, então fomos comer. Deliciei-me com a minha, ao ponto de quase lamber os dedos na frente dele, pois estava muito gostoso. Enquanto comíamos, ficamos em silêncio, querendo ou não nós não éramos amigos e havíamos acabado de nos conhecer, não tinha muito assunto além do objetivo que tinha nos trazido até ali.
Eu estava sem ideias de como quebrar o gelo e eu não queria mais lembrá-lo do seu micão tour, portanto, por incrível que pareça, preferi ficar quieta e esperar terminarmos de comer para acertamos as coisas do trabalho. Abaixei minha vista para o meu prato, dando uma garfada em um dos últimos pedaços da pizza, quando ouvi dar um pigarro, chamando a minha atenção.
— Então… Psicologia, hein? Parece ser um curso interessante. Você gosta? – perguntou e eu percebi que ele já havia terminado de comer.
Sorri pelo questionamento, falar de PSI sempre me deixava contente, era a minha paixão, ainda que outrora um dia não havia sido, mas, felizmente eu me encontrei.
— Se eu gosto? Eu amo! – respondi com ênfase.
— Poxa, que bacana. Fico feliz, seus olhos chegaram brilhar quando me respondeu – comentou com um tom suave, apontando em direção ao meu olho. — Sabe, é muito bom fazer aquilo que se quer, muita gente termina a faculdade e ainda fica frustrado, não se encontra no curso, sabe? Há uma tendência muito grande no mundo em determinar que todos têm que ingressar imediatamente em uma faculdade se não serão um zé-ninguém na vida. Isso acaba levando as pessoas a fazerem escolhas precipitadas e desperdiçar o seu tempo.
Pisquei surpresa com o assunto, não que eu não concordasse, só não esperava uma conversa tão reflexiva vinda do . Também, depois da primeira impressão que tive dele, eu não esperava era nada, mas fiquei feliz por me surpreender.
— Eu entendo. Para falar a verdade, eu passei um pouco por isso. Quando formei no ensino médio, eu não sabia muito bem o que queria, tive outras intenções que não deram certo e acabei caindo dentro da Psicologia. Não que eu não achasse um curso legal, mas não era a minha primeira opção, entende?
balançou a cabeça afirmando e pareceu compreender.
— Então… no início me senti insegura, fiquei com medo de não ser isso que eu queria para mim. Além do mais, quanto mais eu estudava, eu via a responsabilidade que teria na vida das pessoas, as situações que eu teria que ouvir e presenciar, tive medo de não saber lidar e não ser forte o suficiente para poder ajudar alguém. É aterrorizante pensar que você tem uma vida em suas mãos e que pode ajudar a transformá-la para melhor ou cagar tudo – confessei e dei uma leve estremecida só de pensar nisso.
— É por isso que fui para as exatas – gracejou, quebrando o peso daquela conversa.
— Garoto esperto. – Pisquei e sorri, em seguida dei a última golada no meu suco.
— Mas, … – chamou-me. — Tenho certeza que você terá competência suficiente para poder ajudar muita gente.
— Você nem sabe, ainda não começou as nossas sessões – retruquei.
abriu um pequeno e raro sorriso para mim e recostou as suas costas na mesa.
— Então vou guardar essa frase para o final e ainda vou dizer “eu te avisei”.
— Espero, . Espero! - Sorri de volta para ele, internamente grata pelas palavras de motivação.
— Deixa eu te falar algo, direto de uma pessoa que já se formou e entende do que tá dizendo. – Sua feição ficou mais séria, como se quisesse muito que eu o escutasse. — Essa sensação de impotência acontece com todos que se formam. A gente entra na faculdade achando que vai sair o Sabe Tudo. Mas a verdade é que recebemos sim conhecimento, porém a prática vem com o tempo. Formamos ainda muito inexperientes e imaturos, a perfeição demora. O que faz a diferença é a dedicação e empenho para prosseguir e melhorar. Todo mundo recebe a mesma bagagem e é jogado no mundo das profissões, é o teu empenho que vai te diferenciar. Uma dica é tentar fazer bastantes estágios, pois eles dão mais experiências, mas não se cobre demais, na caminhada você terá erros e acertos. Comemore as vitórias e aprenda com as derrotas, você não vai ganhar todas as causas, o que não pode é desistir – terminou, elevando sutilmente o canto do lábio e recostando suas costas na cadeira.
Seus dedos longos da mão direita batucavam a mesa e o braço esquerdo estava estendido na cadeira vazia ao seu lado. Ele parecia tranquilo, mas me encarava piscando mais vezes que o normal, aguardando que eu dissesse alguma coisa.
— Uau! – exclamei surpresa. — Tem certeza que você é de exatas? Eu quase pensei que o psicólogo aqui era você!
— Às vezes tenho meus momentos – deu de ombros e mordeu a parte interna da sua bochecha, corando levemente.
Era engraçado ver um cara ficando vermelho, até porque não era branquinho. Não sei se ele não era muito adepto a elogios, mas eu não poderia negar como aquela cena havia sido a coisa mais fofa que tinha visto nos últimos dias.
— Obrigada – respondi sincera. — Sério mesmo. Eu costumo ser ansiosa, vou tentar lembrar disso durante esses momentos.
— De nada, é o mínimo que posso fazer com a doutora que disse que vai costurar o meu coração – brincou, mas observei um vislumbre triste nos seus olhos, quando ele desviou dos meus, olhando para qualquer lado que não fosse o meu rosto.
— Verdade. – Pulei na cadeira, tentando parecer animada e não demonstrar que havia notado como ele ficou. — Falando nisso, já que terminamos de comer – apontei para o seu prato –, vamos aos documentos. – Peguei os termos e estendi para ele.
Mostrei para ele o que precisava preencher e ficou lá escrevendo e assinando os papéis. Assim que terminou, ele me devolveu e parecia um pouco apreensivo. Estava já começando a notar sinais característicos nos seus trejeitos sempre que a situação ficava desconfortável para ele.
— Isso vai ser difícil. – Passou a mão pela testa, preocupado.
— O quê?
— Me abrir sem parecer um palerma chorão. Na verdade, só falar disso é muito complicado, além de constrangedor. – Suspirou e ficou olhando para o seu prato vazio.
, eu estarei aqui para te ajudar – Dei um pequeno sorriso fechado e estendi a minha mão para tocar a dele sobre a mesa no impulso.
Eu não sei o que ele tinha, mas ver a sua tristeza me dava vontade de colocá-lo em um potinho e o proteger. Tinha vontade de abraçá-lo e dizer que estava tudo bem sofrer, uma hora isso iria passar.
olhou para a minha mão sobre a dele com os olhos um pouco arregalados, não esperando aquele movimento meu. Assim que aquele sentimento de empatia passou, fiquei constrangida com o meu ato e retirei minha mão rapidamente, remexendo-me na cadeira, desconfortável. Por um instante eu tinha esquecido que era apenas um desconhecido para mim, eu não estava consolando Denis, estava ali com uma pessoa que eu havia conhecido um único dia.
— Er… Obrigado – Ele também recolheu a sua mão e depositou-a em cima da sua perna. Não sei se ele tinha ficado sem graça pela minha invasão ou por ter percebido que eu havia ficado constrangida com o que eu tinha feito. Qualquer uma das duas opções já me deixava envergonhada o suficiente.
Eu odiava ficar em uma situação em que eu me sentisse desconfortável. Minha vontade era sempre sair correndo para casa e me enfiar debaixo do meu cobertor. Era terrível! Aquele frio na barriga que eu sentia antes de entrar na pizzaria voltou com fúria total e eu só queria um buraco para me enfiar.
— Não há de quê. – Desviei meu olhar do dele e guardei os papéis um pouco desajeitada, levantando-me da cadeira. — Acho que já podemos ir, não é? Tudo certo aqui, depois eu te ligo marcando a data do nosso próximo encontro… Er, quer dizer, da nossa consulta. – embolei-me com as palavras e olhei direto para a porta, querendo fugir daquele constrangimento.
Eu só estava piorando tudo.
— Ah… então tá bom. – Olhou para mim, arqueando levemente a sobrancelha esquerda, mostrando-se um pouco confuso. — Espera só um pouquinho que eu vou pagar a conta e te acompanho. – Levantou da cadeira também e começou a se virar em direção do balcão para chamar o garçom.
— Ai, como sou idiota! – Bati em minha testa e exclamei para mim mesma, porém ele me escutou e girou a cabeça em minha direção.
— O quê? – perguntou.
— A conta, eu já ia embora me esquecendo da conta, como sou tapada! – respondi, envergonhada. Mordi o lábio inferior e bati o pé no chão mais freneticamente, segurando meu cotovelo com a uma das mãos.
Eu estava tão sem graça e doida para ir embora que já ia deixando a conta para trás para o pagar. que era o meu paciente e estava ali somente para interesses profissionais, que não estava em um encontro e não tinha obrigação nenhuma de pagar a minha parte, pelo contrário, ele estava fazendo-me um favor participando do meu projeto.
Que vergonha!
— Ah, não foi nada. Relaxa – Balançou a mão e deu um sorrisinho, tentando me deixar confortável.
— Que isso, claro que foi! - Sentei-me de novo, sentindo o meu rosto quente.
Não consegui encarar novamente no intervalo de tempo que se sucedia. Não sei se era o constrangimento ou o garçom havia evaporado da face da Terra, pois parecia uma eternidade e essa conta não chegava. Desviei o meu olhar de o máximo possível e ele também não puxou assunto nenhum. O que será que ele estava pensando de mim?
Provavelmente uma retardada ou uma oportunista, e eu só queria sumir dali.
O garçom finalmente trouxe a conta e a gente rachou. Eu já ia me despedindo de ali mesmo na mesa e sair correndo outra vez, porém ele pediu que eu o esperasse e fez questão de me acompanhar até a porta do estabelecimento. Ele queria me levar até em casa, mas eu garanti que morava pertinho e não precisava. Precisei repetir veemente que aquilo não era necessário, até que ele concordasse.
— Então é isso. – Colocou a mão no bolso, abaixou a cabeça e levantou um pouco o olhar, me observando. — Vou esperar me ligar pra gente marcar a data. Espero estar preparado até lá. – Elevou o lábio direito e balançou levemente a cabeça, fazendo com que os fios escuros caíssem em seus olhos.
— Vai estar. Tchau, . Até mais – Estendi minha mão para ele, despedindo-me.
estendeu a dele, mas não parou aí, deu um leve puxão e inclinou-se em minha direção, dando um beijo em minha bochecha.
— Tchau, .
Despediu-se e, em seguida, virou-se e caminhou pela calçada, indo embora pelo lado oposto da minha casa, as mãos de volta para o bolso do seu jeans e chutando uma pedrinha pelo caminho, enquanto eu ainda estava no mesmo lugar, piscando e observando ele partir.



Capítulo 7

— Eu não acredito! – Denis se jogou na minha cama gargalhando, enquanto eu sentei na cadeira da minha escrivaninha, emburrada.
— Dá pra parar de me zoar?
— Ai, meu Deus… – exclamou, quase sem fôlego de tanto rir. — Eu estou aqui imaginando a cena de você indo embora sem pagar! , você precisa de mais prática para sair com alguém, ia evitar bastante esses micos – falou, enxugando as lágrimas nos olhos.
— Primeiramente – estendi o dedo indicador para ele –, eu não estou saindo com o . A gente se encontrou para assuntos estritamente profissionais e eu só marquei com ele lá porque você falou que não era para receber ele aqui sozinha.
Denis rolou os olhos e jogou o braço sobre a testa, ainda deitado na minha cama, seus cachos esparramados pelo lençol e os dedos batucando em sua barriga.
— Mesmo assim. Você devia ter me contado isso durante a semana.
— Para você me atazanar todos os dias? Não, obrigada.
— Seria justo, já que você faz questão de me queimar para todo ser do sexo feminino que encontra pela frente. – Fez uma careta para mim e eu respondi dando língua para ele. Super maduro nós dois. Eu sei.
— Mas isso te faz ficar com menos meninas, faz?
Ele respondeu balançando a cabeça e abrindo um sorriso travesso.
— Então pronto, não me enche – Joguei uma almofada que estava ao meu lado em sua direção, mas ele a agarrou a tempo, gargalhando, e jogou de volta para mim, pegando-me desprevenida e atingindo bem na minha cara.
— Ai, você me acertou! – ralhei com ele, passando a mão na lateral da minha cabeça que ardia.
— Você começou, agora aguenta – Sorriu e sentou-se na cama, cruzando as pernas em cima dela. — Então, que horas que o Pablo vai chegar? – Apoiou o cotovelo em sua perna e a cabeça na mão, olhando para mim com aquela cara lavada que de anjo não tinha nada.
— Pablo?
— É, o seu paciente bêbado. – Rolou os olhos com impaciência e só de observar eu sabia que Denis estava incomodado com aquilo.
— Não fala assim dele, Denis. Desse jeito parece até que o cara é um alcoólatra, foi só uma noite ruim – defendi, mesmo sem conhecer a história de .
Na verdade, eu sempre fui o tipo de gente que odiava rotular as coisas e as pessoas. Por mais que eu brincasse com , eu jamais esperaria que ele fosse apenas aquilo que eu tinha visto no primeiro dia. São por causa desses pressupostos que muitas vezes fazemos julgamentos insensatos. Todo mundo deveria receber uma segunda chance, pois todos nós somos muito mais do que demonstramos ser.
Às vezes um erro, uma fala impensada, um gesto sem querer, ou um dia ruim. Apenas uma única coisa é responsável para que as pessoas nos rotulem e façam inúmeras suposições. E o restante da nossa vida que agimos diferente? Fica no churrasco. Pois ninguém quer saber.
Uma roupa, um gosto peculiar, um cabelo diferente. Tudo é motivo para nos escandalizarmos, como se as pessoas tivessem que entrar em uma máquina de clonagem para atender apenas ao nosso gosto ou ao nosso jeito de ser.
Somos feitos de erros e acertos, gestos e palavras, ninguém é uma coisa só. Somos uma roupagem de inúmeras facetas, mil e um pedacinhos diferentes e únicos que compõe o nosso ser.
— Diz isso porque você super o conhece, né? – Denis retrucou, injuriado.
— Ele me disse e eu acreditei. Qual o seu problema com ele? – lancei a pergunta com raiva, cansada de ter meu amigo alfinetando o a todo instante.
— O problema não é ele, é ele com você! – Levantou uma mão e passou pelos seus cachos, bagunçando-os, ele sempre fazia isso quando ficava nervoso.
— Hummm, alguém está com ciúmes, hein? – gracejei, aproximando-me e cutucando-o com o dedo.
Denis praguejou, segurou a minha mão e puxou-me para perto dele, derrubando-me na cama ao seu lado. Sua mão passou para a minha cintura e começou a deslizar seu dedo freneticamente, fazendo-me cócegas sem parar. Comecei a gargalhar e gritar para ele parar, quase sem fôlego, eu era muito sensível a cócegas e Denis sabia disso. Sempre usava esse fator contra mim quando eu o provocava.
Assim que ele viu que eu estava vermelha e quase sem ar, parou, e ficamos deitados na cama, rindo iguais dois bocós, até Denis voltar a ficar sério e olhar atentamente para mim.
— Eu não confio nele, . É isso. Espero que me entenda – falou, deixando o tom de brincadeira de lado e eu só pude rolar os olhos. — Qual é? O cara aparece na sua porta, bêbado, e isso é tudo que sabemos dele, você acha mesmo que vou deixar o cara se trancar com a minha amiga no apartamento dela e ficar de boas? Nem pensar. – Suspirou e voltou a tampar os olhos, de saco cheio.
— Tudo bem, eu entendo – rendi-me. — Você tem um pouco de razão em desconfiar. Mas eu não quero que o assuste, ok? Trate-o bem, ele é meu paciente para o trabalho, pelo amor de Deus, não o espante.
Denis tirou o braço que cobria seus olhos e sorriu para mim como se tivesse ganhado uma longa e árdua batalha.
— Tá bom. Mas se eu perceber que ele é um louco psicopata, eu mesmo vou cuidar dele.
— Tá, tá, brutamontes – Balancei a mão em descaso.
A campainha tocou e Denis levantou-se rapidamente da minha cama e correu para a porta. Eu corri atrás dele gritando, mas era tarde demais, ele parou em frente à porta e abriu-a de uma vez e eu, para a minha infelicidade, não consegui frear a tempo e trombei nas costas dele, caindo de bunda no chão.
— Er… ? Você está bem? – Era que estava ali parado na porta. Ele inclinou a sua cabeça para o lado, desviando de Denis, que estava na sua frente, e estendeu a mão para que eu pudesse levantar.
O idiota do Denis cruzou os braços e mordeu o lábio para segurar a risada, que eu tinha certeza que ele estava prendendo. Só passei um rabo de olho para ele, séria o bastante para que meu amigo notasse que se ele risse, ia se dar mal.
— Estou bem. – Sacudi a minha mão e recusei a dele, levantando-me em seguida.
Bati a mão na minha bunda e depois nas minhas roupas para me ajeitar, depois disso dei um leve beliscão em Denis escondido, que praguejou baixinho, fazendo morrer a sua cara de diversão. Abri o meu melhor sorriso em direção a , que ainda estava na porta com um semblante preocupado, e o convidei para entrar.
— Tem certeza que está bem? Foi uma queda feia. – Franziu a sobrancelha e me encarou.
— Tenho sim, estou ótima. Vamos entrando logo, senão vai ficar tarde – chamei-o. — Você – apontei para Denis – pode ficar lá no meu quarto enquanto isso.
Meu amigo colocou a mão no coração, enquanto pegava uma banana no fruteiro, fazendo uma cara de ultraje.
— Vai me enclausurar lá?
— Sim, Denis, era a condição, você lembra? – falei com os dentes cerrados. Ele havia prometido que não ia atazanar.
— Mas o Pab… – começou a falar, mas eu fechei a cara para ele, então ele se corrigiu. — Quero dizer, o não se importa que eu fique, não é, amigão? – Deu uma mordida na banana e um tapa no ombro do rapaz, que parecia perdido na situação.
— Bom, na verdade eu me importo sim – falou um pouco desconcertado e Denis abriu a boca, pois não esperava essa resposta dele.
Mas o que Denis queria? Que dissesse que estava louco para contar a sua trágica história de vida na frente de mais um desconhecido? Dessa vez fui eu que tive que segurar o riso para não zoar com meu amigo.
— Então acho que estamos todos claros. Denis, vai para o meu quarto, eu deixo você usar o meu notebook para você jogar aqueles jogos idiotas.
Meu amigo abriu um sorriso para mim, fez um sinal de ok com a mão e deu uma piscada, correndo para o meu quarto.
Eu não deixava o Denis mexer no meu computador desde que o peguei no flagra acessando certos tipos de sites, que é melhor eu nem expor aqui. Mas hoje era por uma boa causa, caso contrário ele avacalharia toda a minha sessão.
Assim que e eu ficamos a sós, dei um sorriso sem graça para ele, devido toda a confusão, e convidei-o para sentar-se no pequeno sofá que eu tinha na minha humilde sala. Ele sentou-se no canto, enquanto eu pegava a papelada para poder fazer as anotações. Apanhei o gravador que a Hels havia me emprestado na segunda-feira e coloquei-o em cima da mesinha de centro.
Assim que sentei na outra ponta do sofá, se mexeu, claramente desconfortável. Confesso que estava nervosa também. Meu coração batia forte e eu nem tinha conseguido dormir de noite direito, com medo de fazer alguma cagada. Estava muito ansiosa, tinha ensaiado as perguntinhas em frente ao espelho trocentas vezes para não gaguejar na hora.
— Preciso confessar que estou bastante nervoso – falou, mexendo uma mão na outra, que estava em seu colo.
— Tente relaxar. Pense que está conversando com uma amiga, não precisa ter vergonha. – disse para ele, mas também falava para mim mesma. Pela manhã eu já tinha feito à técnica da respiração que a minha antiga psicóloga havia me ensinado e melhorei bastante. Se precisasse eu ensinaria para ele também, mas não era o caso no momento, ele só parecia desconfortável mesmo por ter que abrir a sua vida assim.
— Tudo bem. – Respirou fundo e soltou o ar.
— Quero que você entenda que aqui nessa sala você pode falar sobre tudo sem medo, . Não estou aqui para te julgar ou te recriminar, apenas para te ajudar a passar por esse momento difícil. Vão ter momentos que você vai querer desistir, pois vamos mexer com sentimentos e momentos dolorosos, mas isso é importante para o seu acompanhamento.
— Ok, obrigado. – Sua boca se curvou em um pequeno sorriso e ele olhou-me por entre os fios de cabelo que caíam em sua testa.
Tentei dar um sorriso tranquilizador para ele e apertei o play do gravador, pegando o papel e a caneta em seguida.
— Então, vamos começar. , me conte um pouco sobre o seu motivo de estar aqui. O que está acontecendo com você?
Ele fechou os olhos e levantou um pouco a cabeça em direção ao teto, parecendo pensar. Em seguida, encarou-me com seus olhos castanhos profundos, que estavam levemente marejados, e engoliu em seco.
— Bom… – Mordeu o lábio e desviou o olhar. — A Vanessa e eu namoramos desde os 15 anos de idade. As pessoas sempre diziam que a gente ia acabar junto e realmente foi o que aconteceu. Primeiro amor de infância, éramos muito amigos, na verdade… Fazíamos tudo juntos. Quando chegou a adolescência foi tão natural que eu nem mesmo sei dizer ao certo como começou. Vanessa sempre foi mais do que uma namorada para mim.
Ele deu uma pausa e eu percebi como estava perdido naquela lembrança, seus olhos haviam se tornado opacos e encaravam além de mim. Além disso, era notório que ele segurava o choro e esforçava-se para manter o tom normal da sua voz. Ele estava fazendo um esforço enorme para não quebrar na minha frente, provavelmente envergonhado pela situação que eu já havia presenciado.
— Ela era a minha metade – recomeçou. — Sabe aquela pessoa que você pode contar toda a sua vida e que sempre vai estar lá para segurar a sua mão? A Vanessa sempre foi essa pessoa. Desde criança fazíamos planos juntos, quando começamos a namorar as coisas apenas tomaram um rumo mais sério. Eu… Eu achei que íamos ficar juntos para sempre, casar e formar uma família. Jamais… – Engoliu em seco novamente e abaixou a cabeça. — Jamais esperava que teríamos um fim – terminou, não conseguindo impedir que uma lágrima caísse em seu rosto.
virou a cabeça para o lado rapidamente e fingiu coçar o olho, enquanto enxugava a lágrima. Seu pé começou a bater no chão e ele ficou brincando com os polegares enquanto isso.
— Como você se sentiu com o término, ? – indaguei-o e ele fechou os olhos com força, como se sentisse uma dor física. Depois virou seu rosto para mim e deu um sorriso amargurado.
— Eu nunca imaginei que isso ia acontecer, então dizer que fiquei surpreso seria até uma ironia. – Balançou a cabeça e riu para si mesmo. — Quando ela falou… primeiro eu achei que ela estava brincando. Não podia ser verdade. Mas ela estava séria, como nunca havia visto antes. Então, eu olhei para os seus olhos… aqueles mesmos olhos que eu contemplava noite e dia, agora… agora estavam tão sérios e ao mesmo tempo tão tristes. E eu não conseguia entender, quando eu tinha feito isso com ela e não havia percebido? – Olhou para mim aflito, como se eu tivesse uma resposta para a sua indagação.
Retribui o seu olhar sem desviar, para que soubesse que poderia continuar.
— Nós éramos perfeitos, eu fazia tudo pela Vanessa. Eu lhe dava presentes, fazia todos os favores que ela pedia, sempre fui presente, eu deixei meus planos para ficar com ela, para que a gente ficasse junto. E ela simplesmente, em um belo dia de sol, vira para mim e diz que não dava mais?! – Sua visão triste tornou-se enraivecida. parecia inconformado.
Fiz uma anotação para perguntar em um próximo encontro quais eram esses planos dele. Por hora, eu apenas o deixaria desabafar sobre o término. Um passo de cada vez.
— Todo mundo sempre nos elogiava, nós ficamos sete anos juntos, será que isso não significou nada para ela?! Sete anos não são sete dias – Ergueu as mãos, levantando um pouco o tom da sua voz, enquanto eu permanecia vidrada no que ele dizia.
No fundo, vi a porta do meu quarto abrir um pouco e Denis aparecer pela gretinha, provavelmente deve ter escutado elevar a voz e isso chamou a sua atenção. Fiz um leve movimento com a cabeça quando meu paciente abaixou a sua, aproveitando a sua distração para fazer um sinal para o meu amigo de que estava tudo bem. Denis acenou e fechou a porta novamente, e eu voltei minha atenção para o rapaz despedaçado na minha frente.
Queria dizer ao que ele estava enganado, que se o relacionamento fosse realmente perfeito, ele não teria chegado ao fim. Talvez para ele tudo estava bem, mas um relacionamento não é feito de uma pessoa só, há duas visões, duas pessoas completamente diferentes e que pensam diferentes.
Sempre há um motivo, ninguém que ama acorda da noite para o dia e resolve se separar. Mesmo que não possamos enxergar ou ter consciência no momento, algo aconteceu. É como um câncer, ele começa a atingir aos poucos e de forma assintomática. Gradativamente aquilo vai crescendo e às vezes demora-se muito para perceber, vez ou outra aparecem alguns sintomas de que algo não está bem, que por muitos são ignorados e, quando realmente aquilo toma uma proporção inimaginável, já é tarde demais.
Por isso, eu tinha certeza que a Vanessa não tinha simplesmente acordado naquele dia e resolvido terminar com o , contudo, ele não percebia. Pelo menos não ainda. E ele não estava pronto para lidar com isso na primeira consulta, porém, eu acreditava que até o final das nossas análises, eu poderia o ajudar a enxergar isso.
— Como você lidou com isso? – perguntei assim que ele terminou de fazer a sua interjeição.
Observei-o se encolher levemente, envergonhado. Foi inevitável não se lembrar da cena da bebedeira, mas a gente precisava passar por isso se quiséssemos chegar a algum lugar.
— Acho que está claro que eu não estou conseguindo aceitar bem isso. No dia a gente brigou, ficamos nervosos, eu retruquei, mas ela foi reticente. Depois… – Ele abriu a boca, mas não saiu som algum. Tentou de novo, mas, em seguida, franziu os lábios e abaixou a cabeça, pousando a sua mão na testa, os cabelos entre os seus dedos.
– chamei-o. — Nada do que disser é motivo de vergonha. Vocês tinham um relacionamento e terminaram, o sofrimento faz parte do processo, assim como superá-lo. Você está indo bem, já está acima das minhas expectativas para hoje, continue. O que aconteceu depois?
suspirou e seus olhos encheram-se de água.
— E-eu c-chorei. – Piscou e uma lágrima desceu por seu rosto. — Eu sei que é ridículo e que tem todas essas coisas que homens não devem chorar, mas não consegui, e-eu… eu a abracei e implorei para que ela não me deixasse. Naquele momento eu não liguei para dignidade, ou qualquer outra coisa, eu só queria a minha Vanessa comigo. Foi como… Foi como se me faltasse o ar, era inacreditável, eu não podia aceitar que aquilo estava acontecendo – respondeu gaguejando um pouco e naquele momento ele pareceu até esquecer a sua vergonha, pois as lágrimas rolaram por seu rosto.
Eu queria atravessar aquele espaço e abraçá-lo, se houvesse uma forma milagrosa de pegar aquela dor e jogar fora, eu faria. Odiava ver alguém sofrer, meu coração ficava apertadinho. Porém eu precisava manter uma aparência tranquila e forte, como psicóloga eu teria que lidar com depoimentos muito mais tristes e profundos, e muito mais cabulosos também. Não podia absorver todas as coisas que eu ouviria, caso contrário, eu não teria estruturas para poder ajudar os meus pacientes.
— Ela desviou dos meus braços e eu pude sentir o frio, e foi esmagador – prosseguiu. — Ela pegou as coisas dela que ficavam na minha casa e virou as costas sem nem olhar para trás. E eu tentei muito consertar seja lá o que tinha de errado, porque eu acreditava em nós, eu acreditava piamente que podíamos ficar juntos de novo. Eu não sei mais o que é viver sem ela, nós convivemos o tempo todo juntos, ela cuidou de mim quando ninguém mais o fez, ela foi meu alicerce, ela era a minha melhor amiga e eu perdi não só a minha namorada, eu perdi tudo isso no momento que ela me deixou.
Os cantos do nariz de estavam avermelhados e ele passou o dorso da mão pelos olhos para enxugá-los. Aparentava menos incomodado por eu presenciar o seu choro e fiquei feliz por aquilo, era um sinal que ele estava sentindo-se confortável em minha presença.
— Vocês conversaram depois disso? – indaguei-o.
— Eu tentei várias vezes. Ela ignorou minhas mensagens e quando atendia era pedindo para que eu parasse de incomodá-la. Ela não quis me dar outra chance, falei para a gente tentar de novo, que não podíamos jogar nossa história fora dessa maneira sem pelo menos dar outra chance. Só que ela disse que… – Engoliu em seco e tampou o rosto, falando algo abafado entre as mãos.
, desculpa, não consegui entender, poderia repetir? – Inclinei um pouco o corpo na direção dele e fiz o pedido.
Ele abaixou as mãos e virou a cabeça lentamente em minha direção, me fazendo ver seus olhos rajados em vermelho e um sofrimento cruel em sua feição.
— Ela disse que não tinha volta porque ela não me amava mais. Como foi mesmo que ela disse? – perguntou para si mesmo, dando uma risada debochada e olhando para cima. — “Eu não quero te iludir, , acabou. Aquele sentimento que eu tinha por você não existe mais.”. Foi isso, exatamente essas palavras. – Balançou a cabeça em negativa. — Como eu não percebi? A gente ia aos encontros da família, ela vivia lá em casa, a gente se beijava, nós… – parou de falar e mordeu o lábio. — Esquece. O que quero dizer é que para mim tudo estava igual, enquanto para ela tudo tinha mudado. – Colocou as mãos por sobre o rosto novamente.
, por que você bebeu aquele dia? – questionei-o.
Sabia que seria difícil para ele falar, ele se constrangia por aquela situação, mas nós precisávamos tocar naquele ponto, até porque fora justamente o motivo que o trouxera até ali.
— Eu nunca fui de beber, espero que não pense que sou um pinguço – tentou gracejar em vão. — Naquela noite um amigo em comum nosso falou que ela estaria nessa festa que aconteceu aqui no seu prédio. Eu nunca fui muito de sair, sou do tipo mais caseiro, quem gostava dessas coisas era a Vanessa. Quando fiquei sabendo que ela ia vir… foi mais forte que eu. Eu não sei nem explicar o que me passou pela cabeça, talvez tentar ser uma pessoa diferente, mais descolada, qualquer coisa que pudesse chamar a atenção dela.
— Por isso você bebeu? Para fingir ser outra pessoa? – Franzi um pouco o cenho, sem entender muito bem.
— Na verdade, não. De início eu peguei uma garrafa e bebi um pouco, nada que pudesse me tirar da realidade. Isso até o momento que eu a vi em volta de um grupo de amigos. Eu me escorei no balcão para observá-la e ela estava tão linda – falou de uma forma doce. — Parecia a minha garota da época adolescente, quando íamos para os rocks escondidos. Ela sempre gostou de dançar e ali ela parecia leve, tinha um sorriso imenso nos lábios, ela sorria para todos que estavam em volta dela.
piscou, enquanto mirava a parede, hipnotizado em meios aos seus pensamentos.
— Naquele momento eu vi a menina que eu conheci, ela estava bem sem mim, eu soube no momento que a avistei maravilhosa, enquanto eu estava no fundo do poço. Ela estava feliz. Não parecia sentir o peso do término, pelo contrário, era como se estivesse… aliviada. Sem um peso nas costas. – Passou a mão por seu cabelo, derrotado pela confissão. — Eu não fui falar com ela naquela noite. Não consegui. Peguei uma garrafa de uísque que tinha na bancada e fui para o outro lado beber. Eu só queria por uma mísera e estúpida noite esquecer aquela dor que eu estava sentindo. Eu passei dias e dias enclausurado, chorando, tentando entender o que estava acontecendo, não conseguia comer, não conseguia dormir…
Fiz outra anotação lembrando que tínhamos que corrigir isso, precisava sair, ficar entocado em casa só o auxiliaria a entrar em um processo depressivo.
— … e enquanto isso ela estava em festas, com outros amigos, sorrindo e se divertindo. Eu queria isso também, queria esquecer, qualquer coisa que apagasse aquela dor terrível que eu sentia aqui. – Tocou o coração e franziu os lábios, olhando em minha direção. — Eu sei que fui ridículo e isso não vai mais acontecer, juro. – Fez um sinal para mim com os dedos cruzados para mim e eu inevitavelmente sorri para ele.
— Fico feliz em ouvir isso, . – Olhei para o relógio e vi que havia passado já uma hora. Eu nem mesmo havia notado como o tempo passou rápido, estava imersa nos relatos de . Voltei o meu olhar para ele e observei o quanto estava esgotado.
Já estava bom por hoje, como eu disse, um passo de cada vez. havia se aberto de uma forma que eu não imaginava. Forçar mais poderia atrapalhar todo o processo, também faz parte de um bom atendimento saber a hora de parar.
— Creio que por hoje é o suficiente. Quero dizer que estou orgulhosa de você, , e gostaria de agradecer pela confiança. Não se constranja pelos momentos que tivemos aqui, como eu te disse antes, o sofrimento faz parte do ser humano, não é questão de vergonha alguma. Eu jamais vou te julgar por qualquer coisa que você disser. – assentiu e deu uma pequena fungada no nariz.
— Obrigado, . Sinceramente, eu achava que isso era uma grande perda de tempo e confesso que sempre fui um pouco preconceituoso em relação a esse negócio de psicólogo. Sempre achei que isso era um pouco coisa de doido. – Levantou um pouco o lábio superior, envergonhado. — Mas agora, não sei explicar… Não teve nada de mais, no entanto, eu me sinto um pouco mais leve por ter desabafado.
— Um dos pontos é exatamente esse. – Pisquei para ele e sorri. — Aos poucos você ficará mais à vontade e juntos nós vamos descobrir como melhorar essa situação que você está passando agora. Muitas vezes, tudo o que precisamos é desabafar e em outras precisamos de ajuda para nos descobrir e enxergar a melhor saída para nossos problemas, seja o que for, o psicólogo é importante para qualquer um, até porque, todo ser humano nessa terra passa por uma situação de conflito na vida. O profissional será apenas uma mão a mais para te ajudar nessa empreitada.
— Você é boa. – Abriu um sorriso fraco, a tensão anterior se dissipando aos poucos.
— Quero ser – respondi, feliz com o elogio.
Peguei um caderninho que tinha deixado em cima da mesinha e estendi para ele.
— Tome, esse vai ser seu exercício diário. – Entreguei para ele. — Não sei se gosta de escrever ou não, por isso não vou colocar um limite grande. Pode ser até apenas uma linha, o importante e o que eu quero é que você todos os dias diga algo sobre como se sente. Toda vez que vier um sentimento negativo, você pode desabafar por aqui – falei dando um toque no caderno.
— Vou tentar. – Pegou o caderno das minhas mãos e colocou sobre o seu colo. — Obrigado.
— Ah, outra coisa, a próxima sessão será daqui uma semana e depois passará para 15 em 15 dias. Mas se você quiser adiantar ou ver alguma necessidade, sinta-se livre também. Organizei assim para que a gente possa fazer um período de três meses e ter alguns intervalos. Lembrando de novo, podemos marcar alguma consulta nesse espaço de tempo sem problema algum, tudo bem?
— Ok.
— Então estamos encerrados. – Alarguei o meu sorriso para ele, satisfeita, e nos levantamos.
— Obrigado por me ouvir, , e desculpa qualquer coisa – pediu, enquanto caminhava até a porta.
— Já te disse para parar com isso – ralhei, fingindo um mau humor e ele deu aquele sorriso pequeno de sempre.
— Desculpa, é inevitável.
Quando chegamos à porta, lembrei-me que precisava dizer-lhe uma última coisa.
— Para a nossa próxima sessão eu quero que você pense um pouco sobre seu relacionamento com a Vanessa. Use desses dias para meditar como vocês eram, mas não só as partes boas e maravilhosas, pense naqueles momentos não tão legais. Eu sei que eles existem, nenhum relacionamento vive de flor o tempo todo, ainda mais durante sete anos. Tenta refletir nele do começo ao fim e traga essas reflexões, ok?
— Vou fazer o possível – respondeu, encolhendo os ombros.
— Tchau, . E eu que agradeço por ter me dado essa chance.
— Eu acredito que no fim eu serei o único a beijar os seus pés. Estou ficando com toda a parte boa, você é que sofre tendo que ouvir os meus lamentos – gracejou, escondendo a tristeza e piscou os seus cílios longos, o que eu notava que ele fazia com mais frequência quando estava sem graça.
— Vai por mim, não é incomodo algum, afinal é a profissão que escolhi e eu amo isso.
— Estranha – brincou e colocou a mão no bolso, escorando no batente da porta.
Eu parecia uma miniatura de pessoa na frente dele, era alto e, como estava um pouco magro, aparentava ainda maior. Seus cabelos estavam desgrenhados de tanto que ele havia passado a mão molhada de lágrimas durante a sessão, porém não estava feio, depois que eu havia reparado em , dificilmente eu o acharia feio novamente.
— Então é isso… Vou lá. - Desencostou e tirou uma das mãos do bolso para acenar para mim.
— Até a nossa próxima consulta – respondi e inclinou-se para dar um beijo em minha bochecha, sorriu e virou-se para ir embora.
Continuei a observá-lo partir e dessa vez ele não foi embora direto. virou um pouco a cabeça, me fitando ainda parada na porta. Seu lábio curvou-se um pouco para cima e eu repeti o movimento em resposta. Em seguida ele voltou a olhar para frente e continuou a caminhar, enquanto eu sentia uma estranha sensação de satisfação e euforia pelo sucesso da minha primeira consulta.



Capítulo 8

Após um restante de semana de muitas reflexões e anotações, a segunda-feira chegou voando. Depois que havia saído, eu expulsei Denis também, pois queria aproveitar que estava tudo fresquinho na minha cabeça para começar a redigir o meu trabalho.
Agora estávamos na aula do Sr. Benecke, quase no final do debate de um artigo cabuloso que ele havia passado em inglês para a gente discutir. Apesar de parecer muito carrasco, o professor deixava a gente a vontade para falar o que pensávamos, estando certos ou não. Quando falávamos algo que não estava na linha correta de raciocínio, ele não nos reprimia, ao contrário disso, ele nos fazia mais perguntas para que nós mesmos pensássemos e fôssemos formulando novas respostas até chegar ao ponto crucial do estudo.
Na semana passada, havíamos também entregue os dados dos nossos pacientes e o Dr. Benecke havia pedido que, no prazo máximo de duas semanas, sempre levássemos o relatório parcial para sala, a fim de que ele ficasse a par da situação, pudesse tirar dúvidas ou fazer observações. E era uma forma dele saber também que realmente estávamos fazendo o projeto, ao invés de deixarmos para a última hora.
Quase no final da aula – ainda restavam uns minutos –, o professor liberou os alunos, com exceção de mim, já que ele pediu que o esperasse um instante. Tremi com medo mesmo sem saber o que ele queria falar comigo. Existe coisa mais aterrorizante do que alguém chegar para você e dizer “Precisamos conversar”?
— É o seu nome, não é? – perguntou sem olhar para mim, seus olhos fitando o papel em sua mão apenas.
— Sim – respondi em um fiapo de voz.
— Gostei do seu posicionamento no debate hoje, a senhorita articula bem. Como anda o seu trabalho semestral?
— Está bem, eu acho – respondi, insegura. — Semana passada eu fiz a primeira sessão, o paciente participou bem, creio que teremos bastante progresso.
— Isso é bom. – Continuou a folhear os papéis na sua mesa e aquilo já estava me irritando.
Para que ele havia me chamado se não podia nem me olhar nos olhos e me dar um pingo de atenção?
— Já tem algo escrito para mim? – questionou-me.
— Está quase pronto, só preciso fazer alguns acertos no relatório.
— Isso é bom – respondeu e eu rolei os olhos, ele não estava vendo mesmo.
— Então… já vou, professor. – Remexi a alça da bolsa no meu ombro e movi o peso do meu corpo de uma perna para outra.
— Ainda não. – Ergueu a mão em um sinal de pare e franziu aquele imenso nariz pontiagudo dele.
Acho que passei mais de dez minutos parada de frente para ele, enquanto eu via seus olhos correrem pelas folhas sobre a mesa.
Eu já estava no meu pico de irritação, mas eu jamais que ia extravasar para cima do pior professor da faculdade.
Meu nariz começou a coçar por causa do ar-condicionado gelado da sala e eu espirrei, chamando a atenção do Sr. Benecke e sendo o único instante que ele olhou de verdade para mim.
— Você ainda está aqui? – Enrugou a sua testa e eu tive vontade de gritar.
— Você pediu que eu esperasse – resmunguei, fechando minha mão em punho com força.
— Ah, é verdade. – Inclinou o seu corpo para baixo, até a sua maleta no chão, e tirou de lá um livro, inclinando-o em minha direção. — Leia esse livro, é de um psiquiatra que conta a história de dez pacientes com casos clínicos complexos como problemas de solidão, depressão, luto crônico, compulsão sexual e outros. É muito interessante.
Um lado meu queria responder a ele perguntando por que não havia me entregado o livro logo em vez de me deixar dez minutos esperando, o outro ficou grato pelo auxílio, então, para o meu próprio bem, preferi fazer a linha simpática e o agradecer.
— Muito obrigada, Sr. Benecke, vou lê-lo. – Sorri e passei meus olhos pela capa do livro, que se chamava Psicologia do Amor do Irvin D. Yalom.
Meu professor não respondeu nada, somente abaixou a cabeça, pegou um lápis e começou a rabiscar os papéis que ele tinha em mãos e eu decidi que era hora de ir embora. Coloquei o livro dentro da minha bolsa e virei-me para sair, louca para ficar longe do gelo que era aquela sala de aula e ir para o sol fresco do lado de fora.
– chamou-me, antes que eu tivesse dado um passo, e me olhou por cima dos cílios, com sua cabeça um pouco abaixada para a mesa ainda. — Pacientes tendem a criar um vínculo emocional com os seus terapeutas. Você verá um caso clássico nesse livro. Tenha cuidado e mantenha sempre uma atitude profissional. Não deixe que o seu paciente transfira a atenção dele para você como forma de refúgio da sua própria dor. Entendido?
Balancei a cabeça e engoli em seco pela forma dura que ele havia soado. Será que ele achava que eu ia me envolver com o meu paciente?
Por Deus, eu não era formada, mas era uma profissional.
Nunca teria a mínima possibilidade de rolar nem mesmo um lance entre nós dois. Primeiro porque eu estava muito despreocupada da minha vida amorosa para ter meu coração batendo logo pela pessoa mais imprópria da face da Terra. Outra que, até onde o mostrava, por enquanto, ele era completamente apaixonado pela ex. As sessões ajudariam a lidar melhor com isso, mas não era garantia de esquecimento nenhum.
Ainda assim, fiquei perturbada com o pensamento. Foi difícil até concentrar no restante das aulas, fiquei aérea e preocupada.
Por que ele tinha que encher a minha cabeça de minhoca? Agora eu ia ficar grilada com isso.
As aulas da manhã passaram e eu me condenei por não ter conseguido prestar atenção direito. Até a Hellen percebeu que eu não estava no melhor dia e correu logo para me perguntar o que era, assim que a aula terminou.
— Passei o final de semana todo estudando o artigo que o professor Benecke passou e escrevendo o projeto, não descansei muito bem, é só isso.
Vi um leve enrugar da testa de Hellen, no entanto ela logo suavizou e mudou a sua expressão para um sorriso.
— Tudo bem, vamos almoçar porque saco vazio não para em pé e o dia hoje é longo.
Passou o seu braço pelo meu, me arrastou até o pequeno restaurante que ficava perto do prédio em que estávamos e fomos almoçar. Ao fim, resolvemos escolher algum banquinho – de preferência debaixo de alguma árvore – para descansar, já que não teríamos a próxima aula.
— O Denis vai ficar bravo que você não o esperou para comer – Hellen observou, jogando-se no banco de concreto e colocando as suas coisas no chão.
— E você acha mesmo que ele está se lembrando de mim nesse momento? – Rolei os olhos e ri. — Eu o vi saindo com aquela caloura do primeiro período. Não quero nem imaginar o que eles devem estar fazendo agora – completei, fechando os olhos e apreciando os momentos de descanso pós-almoço.
Ao abri-los, franzi o cenho ao notar um cara muito conhecido saindo do prédio da Assistência Social.
— Merda! – ralhei e Hellen abriu os seus olhos, assustada.
— O que foi? – Levantou o seu corpo, sentando-se no banco.
— Não pergunta nada, só preciso que você entre na minha frente e que a gente saia de fininho – respondi, recolhendo a minha bolsa vagarosamente para não chamar a atenção.
, eu não tô entendendo nada – resmungou, mas fez o que eu disse.
Recolheu as suas coisas que estavam espalhadas perto do banco e nos colocamos em pé para sair.
Ao virar o corpo, percebi que havia parado poucos metros de onde tinha saído e tinha colocado a mão por sobre os olhos, tentando enxergar contra o sol em minha direção.
Congelei e arregalei meus olhos e, quando ele percebeu que era eu, levantou a mão para acenar, contudo, eu fui mais rápida e me virei, antes que ele completasse o ato, fingindo que não havia o visto.
— Eu acho que ouvi alguém te chamar – minha amiga comentou, enquanto começávamos a caminhar na direção contrária a de .
— Só ignora.
— Eu acho que ele está te seguindo – sussurrou, virando a sua cabeça para trás.
— Não olha! – ralhei, sem fazer o mesmo movimento que ela. Precisava fingir que não tinha o visto e nem o escutado.
, larga de ser louca, o cara está correndo vindo para cá e te chamando. – Hellen freou os pés e puxou o meu braço, obrigando-me a parar.
Eu queria torcer o pescoço dela naquele momento, mas tive que manter a calma, pois agora não tinha mais jeito. estava já a poucos passos e tinha um sorriso no rosto, enquanto acenava com a mão para mim.
O problema não era ele, se o Dr. Benecke não tivesse falado nada, eu não teria ficado tão grilada, mas com as palavras recentes na minha cabeça, eu não tinha tido tempo para digerir e me preparar psicologicamente para encará-lo sem pensar que ele poderia acabar apaixonado por mim.
— Ei, , que coincidência. – estendeu a mão para mim e eu retribuí, só tomei um pequeno susto quando ele me puxou para um beijo no rosto.
Eu ainda precisava acostumar que ele sempre cumprimentava e se despedia assim, sem exceções.
— Oi, . – Sorri em cumprimento. — Essa é a minha amiga Hellen – apresentei e ele fez o mesmo gesto com ela.
A Hels abriu um sorriso do tamanho do mundo em sua direção, deixando um beijo no rosto dele um pouco demorado demais para quem nunca nem tinha o visto. Não que tivesse passado de dois segundos, mas eu já tinha achado além da conta.
— É um prazer, – falou com a voz mais aveludada que conseguiu.
Meu paciente enfiou uma mão no bolso e deu um pequeno sorrisinho para ela, suas maçãs do rosto tornando-se levemente avermelhadas, e eu fui obrigada a rolar os olhos quando vi a minha amiga encará-lo do jeito mais felino possível.
— Então, o que te traz aqui? – resolvi puxar o assunto, antes que minha amiga falasse qualquer coisa que pudesse deixar constrangido. — Faz assistência?
— Ah, não. Já sou formado, sou de exatas, esqueceu? – Balançou a mão, gesticulando, e sorriu. — Análise de Sistemas.
— Ah, que legal! – Hellen exclamou e eu balancei a cabeça concordando.
— Estou fazendo um trabalho conjunto com um grupo de pesquisa do pessoal da Assistência Social. Um aplicativo, para ser mais exato.
— Nossa, isso é bem legal, !
— É sim! Parece que vamos nos esbarrar por aí às vezes, isso é, quando você não estiver correndo de mim – gracejou, mas as suas próprias maçãs ficaram ainda mais vermelhas na hora, e provavelmente as minhas também.
Hellen mordeu o lábio, segurando para não rir da situação, e eu queria enfiar a minha cara dentro de um buraco de tanta vergonha. Eu pensei que tinha sido sutil, mas pelo visto não. Abri a boca para respondê-lo, mas na hora nada me veio à cabeça. Gaguejei um pouco até balançar a cabeça, piscar, desviar o seu olhar para o chão e depois para mim.
— Desculpa, não era a minha intenção te constranger, eu só não entendi mesmo o motivo para tudo isso. Eu só não fui embora e acabei vindo até aqui porque pensei que talvez você tivesse desistido daquele projeto – falou, sem graça.
— Não, não, não! – Balancei as mãos e a cabeça ao mesmo tempo. — Claro que não. Você tem um compromisso comigo até o final do projeto, mocinho, não adianta tentar fugir agora – tratei de desfazer o mal entendido.
— Claro, não cogitei fazer isso. Pelo menos não depois que tivemos nossa primeira consulta. – Arqueou levemente o lábio, mas percebi que estava reflexivo, a sua frase aparentava muito mais do que queria transpassar, e eu sabia que era um sinal que estava refletindo nas coisas que eu havia pedido para ele.
— Ótimo – respondi contente.
— Mas isso não responde o motivo dela ter fugido de você, não é, ? – Hellen se intrometeu e eu não consegui conter o olhar furioso que dei na direção daquela aprendiz de Denis.
Isso que dá o convívio. Eu me livrava do meu melhor amigo e acabava com uma cópia perfeita dele, mas na versão feminina.
Respirei fundo e virei-me para a minha amiga, contando até dez mentalmente.
— O é o meu paciente no projeto do Professor Benecke. Já tivemos a primeira sessão semana passada – expliquei, mesmo que ela talvez já tivesse sacado isso por causa da nossa conversa. — Não era a minha intenção fugir, . Eu só quis colocar um espaço entre nós como psicóloga e paciente, para que não haja confusão das coisas. O local para tratarmos as coisas será sempre no meu consultório. – Preferi ser direta e falar a verdade, com exceção da parte da paixão que o Dr. Benecke tinha falado. Aquilo era exagero.
— Você quer dizer na sua casa, né? – ele brincou, achando graça.
— É, minha casa é meu consultório. – Dei de ombros.
— Então quer dizer que por causa do seu projeto nós somos proibidos de falar ‘oi’ um para o outro na rua e devemos nos tratar como dois estranhos? – Arqueou a sobrancelha e pude ouvir a minha amiga falando ‘ouch’ atrás de mim.
Senti-me meio envergonhada da minha atitude infantil, mas confesso que na hora eu estava com a cabeça muito cheia para lidar com ele. Eu queria fazer tudo direitinho e as palavras do professor ainda estavam fresquinhas na minha cabeça. Falando dessa forma agora, realmente havia sido muito estúpido e tempestuoso da minha parte.
— Eu sinto muito, . Claro que a gente pode se falar, foi um exagero um tanto enorme o que eu fiz. Meu professor havia acabado de me instruir quanto à relação que devemos ter com os pacientes e eu acabei agindo no impulso por zelo. Não era problema algum com você. A culpa é minha e das preocupações loucas da minha cabeça, me desculpe – expliquei, realmente sentida.
Eu era conhecida por falar a verdade ou o que eu pensava, não faria diferente agora. Claro que a gente não deve sair contando as coisas de forma nua e crua. Verdade sem amor e carinho, mata. A gente deve pincelar e transparecer da melhor forma que conseguir, mas sem deixar de ser sincero.
Creio que não esperava uma resposta tão franca, pois seus olhos estavam levemente arregalados e olhava sem piscar em minha direção.
— Gosto de você – soltou, fazendo que até Hellen engasgasse na hora.
Quando percebeu o que tinha dito, seus olhos se arregalaram ainda mais e ele balançou a cabeça, desconcertado.
— Gosto do seu jeito, não de você – tentou consertar, gaguejando um pouco, depois praguejou e colocou a mão na testa. — Não que você não seja uma pessoa legal, só… merda! – Respirou fundo, mentalizou por alguns segundo e soltou o ar, voltando a olhar para mim. — O que eu queria dizer é que gosto do seu jeito honesto de ser. Se todo mundo fosse assim, evitaríamos muitas confusões durante a vida. Um dos muitos problemas das pessoas é ir acumulando as coisas até a hora que elas explodem e causam um dano irreversível – explicou e eu sabia que ele estava falando dele e da Vanessa.
— Eu entendi – aliviei-me e sorri para tranquilizá-lo. — Realmente, a vida não é complicada, nós é que a complicamos.
acenou com a cabeça e o silêncio se fez presente. Querendo ou não, os constrangimentos que passamos haviam pesado um pouco ambiente. Eu com a minha atitude infantil e com seu mau jeito com as palavras. Ambos estávamos constrangidos e agora não conduzíamos conversa nenhuma. E para completar, Hellen, que era ótima para bater papo, parecia muito mais preocupada com um crush que ela conversava no celular do que ajudar a gente aqui.
— Vou embora, só tinha que fazer algumas coisas aqui mesmo. Foi bom te ver, . – optou por despedir-se, salvando a nós dois daquela situação embaraçosa.
— Te ligo para combinarmos a próxima sessão semana que vem.
— Vou esperar – respondeu e inclinou-se para me dar um abraço e um beijo no rosto.
Acho que eu nunca me acostumaria com isso.
virou-se para ir embora e eu o observei partir, até ser interrompida pela gargalhada da minha amiga, que agora guardava o celular no bolso e olhava para mim com um olhar superestranho.
Ééé, amiga, boa sorte com o seu paciente! – Inclinou-se para mim e me deu um beijo no rosto também, imitando e virando-se em seguida com um sorriso nos lábios.





Continua...



Nota da autora: Chegou a nossa Madrugada do Amor <3
Nossa pp já começou a ficar com um pé atrás agora que o professor alertou. O que será desse nosso casal platônico? Já conheceram um pouco da nossa Hellen, né? Sensacional haha
Quanto ao pp, o que dizer? Eu só suspiro com a fofura desse garoto!
Até a próxima atualização.




Nota da beta: Aaaai, dá vontade de colocar o pp em um potinho e guardá-lo para mim, ele é muito fofo! Sr. Benecke está prevendo o futuro, hein? Hahahaha, amando isso tudo e ansiosa por mais! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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