Resident Evil - Incubação

Última atualização: 05/12/2017

Prólogo

Incubar:
Fertilizar um ovo (ovulo) para eclodir, multiplicar-se, crescer;
(Projeto) Incorporação gradual;
(Doença) Incubação.


Pensamentos malignos caem como gotas em um rio cristalino. Elas silenciosamente formam ondulações na água e pouco depois o rio está manchado como se fosse por lodo. O coração puro se perde, manipulado e preso por correntes como por uma maldição.
Há uma vila guiada por ensinamentos malignos, uma vila de tristeza. Não há flores na estrada, nem vozes alegres, nem traço de calor de vida é encontrado em lugar algum. A única pista de quem eram os aldeões que costumavam viver aqui está em rascunhos e bilhetes espalhados e deixados para trás.

***

Nesta vila, as pessoas estimavam os mais velhos, seus vizinhos e os rostos sorridentes das crianças. É uma vida simples e alegre, onde as pessoas trabalham duro para manter os velhos costumes e tradições. Uma vida pacífica. Durante essa época adorável, eu nasci, e voltei a terra. Eu amo esta vila.
Eu queria que ela tivesse continuado assim para sempre. Às vezes eu paro para pegar emprestados os escritos dos aldeões, e leio coisas a respeito dessa vila maravilhosa, para passar para as crianças ainda não nascidas das próximas gerações.
Tanto homens quanto mulheres trabalhavam duro na vila. Quando chegava a época do plantio, a vila inteira ficava ocupada com os preparativos.
No refrescante sol matinal, o sino tocaria, e as pessoas viriam das fazendas. Gotas de suor brilhavam nas testas dos homens que cultivavam o solo. As mulheres cantavam e conversavam umas com as outras, mas elas também estavam ocupadas ajudando no plantio. Ao meio dia, todos sentavam e descansavam, e comiam o almoço que estava preparado para eles. O pão assado fresquinho preparado pelas esposas dos homens os ajudava a se recuperarem de sua fadiga. E então, era hora de voltar ao trabalho.
Para os aldeões, trabalhar no campo era como cuidar de crianças. Com o amor dos aldeões, e a benção da natureza, eles teriam uma boa colheita em breve.
Para mim era assim também. Até as crianças começavam a ajudar cuidando das vacas e galinhas desde cedo. Como eram apenas crianças, era um trabalho duro transportar os baldes cheios de leite que os homens tiravam das vacas. Os laços sanguíneos eram fortes, pode-se dizer que a vila era uma grande família. Era uma ligação forte, que fazia com que todos na aldeia ajudassem uns aos outros. Todos os garotos da vila sabiam que quando crescessem, ajudariam a vila a prosperar com o melhor de seus talentos.
Meu pai era um homem de poucas palavras, mas tinha pulso firme para ordenhar as vacas, e me deixava experimentar um pouco de leite dos seus dedos. Tinha uma doçura leve, e um sabor muito rico. Era delicioso. Em algumas horas, iríamos tomar este leite em casa.
Na tarde de nosso dia de folga, um de meus amigos nos convidou para jantar. Ele estava trabalhando numa escavação no antigo castelo das redondezas. Como estava muito feliz por poder participar de um trabalho tão importante, ele nos contou a respeito e demonstrou muito orgulho. Eles tinham muitos pratos deliciosos enfileirados. Mas para mim, o maior prazer estava em sentarmos juntos, como uma família. Também nesta casa, eles valorizavam a mobília e os talheres antigos, e cuidavam bem deles. Levavam uma vida simples, assim como a nossa família, mas o modo como organizavam tudo era muito legal.
No jardim lá fora, eles tinham um pequeno canteiro de flores. Eles pararam em fila diante dele, e eu peguei meu pincel. Como agradecimento pelo jantar, eu pintei um retrato que eles poderiam dar ao seu bebê quando ele crescesse. Eles todos sorriram timidamente. Obrigado por seus doces rostos sorridentes.
Nesta vila, havia um conto que passava de geração para geração. Era um conto de louvor, do primeiro lorde do castelo, que combateu o paganismo neste lugar. Graças a este lorde, esta vila existe, e podemos continuar vivendo em paz. Geralmente, este conto é contado por avós para seus netos, enquanto a mãe e o pai da criança estão no trabalho. Na casa ao lado, a vovó contou para sua neta, enquanto plantava. E um dia aquela neta, provavelmente seria uma avó, e contaria o conto para a sua neta da mesma forma.
O verdadeiro lorde do castelo era um homem de um forte senso de justiça, que protegia os aldeões. Mas o atual lorde, Sir Ramon…
O tempo de colheita havia chegado! Parece que haveria uma excelente colheita este ano, que poderíamos vender a um bom preço na cidade vizinha. Com este dinheiro, poderíamos comprar coisas que não são encontradas na vila, como gasolina. Os aldeões trabalhavam todos juntos para carregar o caminhão com a safra excedente, e apesar de ser um trabalho duro, as crianças também ajudavam. O motorista pisou no acelerador, e o caminhão se foi. Crianças devem ser valorizadas, é o que todos na vila crescem sabendo. Todos desejam apenas que suas crianças cresçam fortes e saudáveis.
Quando o trabalho já estava feito, o sol já estava se pondo. Amanhã é o festival da colheita! Eu deveria ir dormir cedo hoje e acordar cedo amanhã.
Hoje é a celebração da colheita. Uma cerimônia para agradecer à natureza por nossa boa safra. Comer bem, o quanto quiser, dançar em círculo, e depois de toda a diversão, deitar-se no chão e observar o céu estrelado. E mesmo sendo tarde da noite, as crianças têm permissão para ficarem acordadas e brincar pelo tempo que aguentarem. Como é um dos dias festivos da vila, os pais estão dispostos a deixar as crianças ficarem acordadas apenas esta noite. E como todos trabalharam tão duro, eles aproveitam este dia especial juntos.
Por alguma razão, o chefe da vila não apareceu este ano. Mais provavelmente que o Sr. Mendez esteja na igreja com o padre, trabalhando duro, e não conseguiu vir, suponho.
Por aqui, muitas pessoas se juntam para cozinhar. Todos partilham de forma justa. Usamos a safra que cresce na vila, leite das vacas, ovos das galinhas, peixes dos rios, ingredientes que compramos coletivamente na cidade, e então todos levam a sua parte para casa. Meu irmão, que morava aqui perto, carregava seu caminhão com suas coisas, e nós dois íamos embora com o sol nos iluminando através das folhas. Ouvíamos pássaros cantarem, olhávamos as flores do lado da estrada, e nos divertíamos conversando o caminho todo para casa. A família do meu irmão saía toda para encontrá-lo, e quando ele acenava para eles, nós dois e o cavalo acelerávamos o passo enquanto elas entravam em casa. Ele amarrava o cavalo no portão. Ele carregava algumas coisas de nosso falecido pai que meu irmão ficara a cargo de cuidar. Já era minha hora de voltar para casa, mas tinha sido ótimo passar um tempo com meu irmão.
Como o chefe da vila havia anunciado que ele queria que todos da vila nos reuníssemos na igreja no próximo Domingo, eu lembrei minha esposa e minha filha que tínhamos que ir.


***

Depois que o chefe da vila havia terminado, lorde Saddler começou o sermão. Lorde Saddler era uma pessoa que o chefe da vila respeitava e reverenciava, e era o líder da organização religiosa “Los Illuminados”. Ele havia vindo para cá especialmente para o nosso bem, dos aldeões, e fez um maravilhoso sermão que durou horas. Em vez de apenas tentar purificar o sangue pecaminoso de descrentes como nós, ele tentou ensinar como limpar nossa alma, e encontrar o verdadeiro caminho para a felicidade.

***

Descrente, fico pensando se ele também era. Meu amigo, que nos convidou para jantar, é. Logo depois disto, sua personalidade havia mudado completamente, de calmo para violento. Era assustador… Se alguém não vai aos sermões, não poderá encontrar o caminho da felicidade.
A organização religiosa “Los Illuminados”, estava lá para nos proteger, e nos salvar de nós mesmos. Uma ação bem generosa, uma ação maravilhosamente generosa!
Para purificar nosso sangue pecaminoso, nossos corações tinham que se tornar um só. Tínhamos que colocar um fim à nossa linhagem sanguínea impura. Todos os aldeões ficaram em fila, para receber o sangue sagrado. Agora, era a vez do meu irmão. De repente, ele olhou para mim e gritou “Irmão! Me ajude!” Ele estava se recusando a participar da cerimônia. Para todos nós, aldeões nos tornarmos um só, era obrigatório que ninguém se recusasse. Todos os presentes consultaram o gentil chefe da vila e lorde Saddler a respeito do que fazer. Depois de terem falado com a família do meu irmão, eles também aceitaram a cerimônia, meu irmão aceitou pouco depois.
Neste dia, os aldeões souberam da verdade. O primeiro Lorde do castelo ficou com inveja dos “Los Illuminados”, e tentou ficar no caminho das suas boas ações. E lorde Ramon, para restaurar as relações com a organização religiosa, havia contribuído grandemente para a causa deles. O que significava que o conto passado de geração para geração era nada mais que uma grande mentira.


***

Fico pensando se o obstáculo estava fora do caminho deles agora… Minha esposa tossiu, e deixou a preocupação surgir em seu rosto. Pouco depois de jantarmos, minha filha começou a espumar pela boca! Seu rosto estava desfigurado como por uma terrível dor, e seus membros estavam tremendo furiosamente! Eu tenho que ajudá-la! Oh, meu Deus, o que eu deveria fazer?
Minha filha… minha preciosa filha… está MORTA!
Eu olhei para minha esposa, ela apenas continuou com um inexpressivo olhar em seu rosto. Simplesmente não posso acreditar no que acabou de acontecer… Eu me recuso a acreditar!
Eu corri até a casa do meu irmão o mais rápido que pude. Havia algo errado com seu filho. Ele estava doente de cama, e em volta de sua boca havia evidências de estar tossindo sangue. Eu perguntei a ele e ele disse que seu corpo inteiro doía. Seus olhos se fixaram em mim, manchados de insanidade, e eu tapei meus ouvidos, tentando evitar suas palavras de dor.
Nos dias seguintes, todas as crianças da vila haviam morrido. Nossas preciosas crianças haviam partido, não havia sobrado uma sequer. Nenhuma…
O número de adultos que estavam enlouquecendo, ou que haviam perdido todos os sinais de emoção, estava crescendo rapidamente. Alguns ficavam fazendo coisas estranhas, alguns se recusavam a comer, e outros ficavam resmungando, como se estivessem amaldiçoando alguém, sumiam por um tempo, e depois voltavam.

***

Nessa manhã… Eu também tossi sangue.

***

Nós recebemos uma mensagem do chefe da vila. “A vida do Lorde Saddler pode estar em perigo. Se alguém começar a bisbilhotar aqui, mate-o.” Mate quaisquer intrusos a vista.

***

A cabeça de um dos homens à minha frente se dividiu em duas.
Para nosso grande Lorde Saddler!
Por favor, nos abençoe com sua próxima ordem!

***

A vila agora está tomada pelo medo. Com pessoas que perderam seu rumo, pessoas conspirando, pessoas que buscam conflitos.


***

Esta passagem foi transcrita de um relato de um dos habitantes de um vilarejo no interior da Espanha. Vilarejo este, descrito antes do relato.

***

Massachusetts, Estados Unidos, 2004.
O Massachusetts Institute of Technology, o MIT, é uma das mais conceituadas e tradicionais instituições de Ensino Superior do planeta. Fundado em 1861, localizado em Cambridge, ele contém cinco escolas, uma Universidade, 32 departamentos e é frequentemente apontado como uma das melhores faculdades do mundo. O MIT tem reconhecimento internacional em suas pesquisas no campo das ciências físicas, engenharia, biologia, economia, linguística e comunicação. Seus egressos colecionam prêmios, dentre os quais se destacam os muitos Nobel conquistados em diversas áreas do conhecimento.
O ingresso no Instituto não é fácil. Só de estrangeiros, estima-se que mais de dois mil tentem o ingresso por ano. Pessoas provenientes de mais de cem países. Mas pouco mais de uma centena deles são admitidos. Para quem entra, no entanto, são ofertados cursos de graduação e pós-graduação, além da oportunidade de alojamento nos próprio Campus. Muitos são os alunos notáveis que entraram ou saíram dali. Muitos ficaram famosos depois. Portanto, se pode afirmar que não é incomum haver dentre os alunos, filhos de atores, grandes cientistas e políticos influentes cursando suas faculdades ali.
Desse modo, a filha do presidente dos Estados Unidos não chegava a ser uma personalidade isolada neste contexto. Ashley Graham era mais uma dos muitos acadêmicos do MIT. Por opção mais da família do que dela mesma, estava cursando sua graduação na área da computação, um dos destaques da instituição. Com seus vinte anos, a filha do presidente não curtia muito a posição que seu pai ocupava. Principalmente pelo fato de estar sendo constantemente vigiada pela Casa Branca. Reclamava da falta de liberdade para ir e vir, de ter de prestar contas a respeito do que falava, com quem falava e principalmente: pela falta de privacidade de sua vida virtual. Seu pai nunca deixava de dar uma “bisbilhotada básica” nas suas redes sociais. Tudo em nome da segurança nacional.
Ashley neste tempo era ainda uma adolescente em quase tudo, seu modo de pensar, de agir, de vestir. Seria um alvo fácil, pensava sua família, para algum ato de terroristas ou de pessoas que possivelmente quisessem intimidar o homem mais poderoso do mundo. Aliás, esse era o ponto nevrálgico. Após quatro anos de governo, Ashley não parece ter se dado conta da real importância do cargo de seu pai. Do quantitativo de pessoas, incluindo terroristas do mundo todo e de governos mesmo, que têm interesse em poder conseguir algo que colocasse o presidente norte americano em dificuldades. E a filha do homem mais poderoso do mundo era vista como um possível ponto fraco.
Neste sentido, toda a vigilância sobre ela nunca era de mais. Sempre acompanhada por pelo menos dois seguranças à paisana e vez por outra, com seguranças fardados mesmo, ambos em conjunto. Sempre a deixavam na porta do MIT e sempre estavam lá no horário em que as aulas acabavam. Tanto a segurança, quanto seu pai tinham um controle através do telefone celular dela, que rastreava a posição de Ashley através do GPS mostrando sempre a localização aproximada da garota. Se algo parecesse estranho, logo os seguranças que estavam de plantão eram acionados, caso os que estavam com ela não conseguissem ser contatados imediatamente. E isso irritava Ashley. Mas depois de três anos, ela até desistiu de tentar burlar as regras rigorosas que lhe eram impostas. E até já estava aceitando tudo numa boa. Mas sua grande torcida era para que seu pai perdesse a disputa eleitoral marcada para novembro. Então, sua vida voltaria ao normal. Era o que ela pensava.
O prédio era uma construção arquitetônica magnífica. Absolutamente simétrico, visto de cima em uma foto, era possível passar uma régua ao centro e ver que os mesmos elementos que estavam em um lado, estavam no outro. Ao centro do pátio, havia uma grande área verde, com árvores plantadas uma ao lado da outra, que iam da saída do prédio até a calçada. À frente, havia arbustos plantados à frente ao pátio, dando uma visão extremamente agradável a quem passe por ali. Há um espaço para caminhar que circunda o gramado que toma toda a parte central desta área verde, bem como um caminho ao centro dela que interliga os dois espaços. Assim, as pessoas podem caminhar por toda a extensão, sem pisar na grama.
Frontal a quem está passando pela calçada e olha para o MIT, é possível ver, entre as árvores, o prédio. Ele é todo em alvenaria, com a parte da frente apresentando um grande painel de vidro, que vai do chão até o teto. Existem três portas em madeira e à frente delas, dez colunas em estilo jônico. Sobre o teto, há uma grande abóbada, com as letras MCMXVI em baixo relevo, que em numerais romanos significam 1916, ano em que o atual Campus foi inaugurado. Com 68 hectares, ele se estende por um quilômetro e seiscentos metros ao longo da margem norte da bacia do rio Charles. Sobre as colunas, também em baixo relevo, está escrito MASSACHUSETTS INSTITUTE OF TECHNOLOGY.
Ashley Graham caminhava na calçada que circundava o prédio, dirigindo-se ao estacionamento, onde estava sendo aguardada. Usava uma blusa alaranjada, com uma espécie de cachecol. Usava uma saia verde e um cinto que combinava com o cachecol. Era de estatura mediana, magra, loura, com olhos azuis. Ela caminhava distraidamente, olhando para os lados. Estava estranhando um pouco o fato de não ter visto seus seguranças misturados às pessoas que transitavam pelo local. Normalmente estavam lá, procurando ficar invisíveis. Nos primeiros tempos ela nem percebia, mas com o passar dos anos, se familiarizou com os rostos dos seguranças e com a maneira como eles procuravam se misturar aos outros, sempre mantendo sua protegida sob constante vigilância até ela chegar ao carro que a conduziria para casa sã e salva. Mas neste dia, não havia ninguém. O que por um lado, deixou-a um pouco aliviada, mas logo em seguida com outro pensamento. Por quê? Mas logo deixou qualquer preocupação de lado. Sem demora, estaria no carro que a levaria à sua residência.
No entanto, mais alguns passos e outra surpresa. Havia umas quatro pessoas paradas, a observando. Ao que se percebia, estavam a esperando. E não eram os encarregados de sua segurança. Estavam todos em trajes militares, que ela logo reconheceu. Eram do Exército americano. Qual o motivo da mudança na rotina? Alguma coisa havia acontecido? Seu pai teria mandado militares virem escoltá-la? Se fosse, devia ter algum motivo relevante. Ashley foi se aproximando dos soldados, olhando para os quatro, um por um. Até que de repente, um deles deu um passo à frente. Devia ser quem estava comandando a operação. Era alto, de pele clara, olhos azuis e frios. Usava uma boina vermelha. Mas o que chamou sua atenção foi uma enorme cicatriz que ele tinha no rosto, que ia do olho esquerdo até a boca. Ela nem quis pensar em como ele conseguiu aquela marca. Ele tinha um olhar sério. Assim que a filha do presidente se aproximou, ele parou à sua frente, retesado, em posição de sentido.
- Senhorita Graham.
A voz dele era grave e ele falava em tom firme, como seria de se esperar de um militar. Ela suspirou e respondeu:
- Sim, sou eu. Está vendo a minha irmã por aí? Ah! Eu não tenho.
Ela deu uma olhada para os outros antes de continuar.
- Vocês não são as pessoas encarregadas da minha segurança. Onde eles estão? Até porque não sei se deu para perceber, mas vocês não são, digamos… discretos. Todos viram que são do Exército. Não seria melhor chamar menos atenção?
O militar não deu atenção ao que a filha do presidente disse e prosseguiu:
- Nós vamos levá-la. E respondendo à sua pergunta, nós não somos as pessoas que rotineiramente estão encarregadas da sua segurança pessoal. Somos oficiais do Exército e logo entraremos em contato com seu pai. Os seus seguranças foram mandados na frente. Há um plano para sequestrá-la. Terroristas querem tomá-la como refém.
Ashley prendeu a respiração. Seus olhos se arregalaram. Seu coração começou a bater rápido. Sim, se militares estavam ali para escoltá-la, é porque algo anormal estava acontecendo. Era a primeira vez que ela se sentiu realmente em perigo. Como seria ser sequestrada? Sentiu um calafrio percorrer sua coluna. Nunca tinha sido posta frente a frente com o perigo. E agora, tomava uma ducha de realidade. Sim, ela corria risco real. Então, era bom parar de ficar questionando e seguir as orientações passadas por aquele homem.
- O que eu tenho que fazer?
- Nada, apenas nos seguir.
Ashley assentiu com a cabeça.
- Sim senhor.
O militar fez um gesto com a cabeça para os outros três.
- Vamos.
Eles concordaram e se puseram a caminhar. Sequer olhavam para trás, pressupondo que Ashley estava os seguindo. Ela foi sem pensar, apenas queria que eles caminhassem com menos pressa. Eles não estavam calçando os sapatos dela. Mas viu que não adiantaria reclamar. Não demorou e pararam em frente a um carro. Era uma espécie de caminhonete do exército. Não tinha como não perceber. Os três soldados entraram, um no banco do motorista e os outros dois no banco de trás. O que aparentava ser o comandante deles, se virou para Ashley Graham.
- Entre, senhorita Graham. Não tem o conforto que costuma ter nos carros que anda, mas a situação exige que hoje seja assim.
A filha do presidente dos Estados Unidos viu que não teria escolha e entrou. Sentou-se exatamente no meio dos dois soldados que ficaram no banco de trás. Eles pareciam duas estátuas. Ela olhou bem para os dois e sentiu um pouco de medo. Algo lhe dizia que tinha algo errado, mas não sabia o que. Devia ser a quebra da rotina. O quarto militar entrou, sentou-se no banco do carona. O motorista deu a partida no motor e o carro saiu.
Enquanto o carro ia rodando, ela observou os três militares que acompanhavam o da boina vermelha. Usavam uma bandana na cabeça. Não diziam nada. Os dois ao seu lado sequer se moviam. Sua aparência não era muito boa. Pareciam pálidos e com olheiras. Ashley quase perguntou se estavam bem de saúde, mas desistiu, visto que tinham uma expressão de poucos amigos. Ela achou que não falariam nada. De repente, passaram por uma sombra e Ashley viu algo que a deixou amedrontada. Quando olhava para o militar à sua direita, no instante em que ficou escuro, um dos olhos do soldado ficou vermelho. Em seguida, voltou ao normal. Ashley olhou novamente para se certificar, mas pensou que fora impressão sua. Ela então se dirigiu ao líder deles. Este falava com ela.
- Só para saber. Como é o seu nome?
Ele se virou para trás.
- Jack. Jack Krauser. Seu pai me conhece. Sou o chefe de operações especiais.
- Então existe um plano para me sequestrar?
- Precisamente.
- E eu tenho muita sorte de vocês terem descoberto o plano e virem me salvar. Estou certa?
Krauser encarou a filha do presidente, se virando para trás em seu banco.
- Nem um pouco.
Agora ela ficou intrigada.
- Como assim? Vocês vieram para evitar que eu fosse sequestrada.
- Não vamos evitar.
O que ele está querendo dizer? Ashley estava ficando confusa.
- Mas vocês sabem que existe um plano para me sequestrar. Sabem quem quer me sequestrar?
- Precisamente.
- Certo. Mas se sabem quem quer e que vão tentar, como não vão conseguir evitar?
- Não viemos para evitar seu sequestro.
Ashley engoliu. Seu coração disparou. Ela percebeu que estavam fazendo um caminho totalmente diverso do que sempre fazia. Não estava indo para casa. A próxima pergunta poderia ter uma resposta que Ashley Graham já estava esperando, mas que não queria ouvir.
- E quem é que planeja me sequestrar?
Krauser sorriu antes de responder.
- Nós.
Jack Krauser fez um gesto com a cabeça para o militar à direita de Ashley. Ela sentiu que mãos seguraram seus braços e de repente, tudo ao seu redor começou a ficar embaçado. Um zumbido foi invadindo seus ouvidos e o teto do carro pareceu estar descendo ao seu encontro. Os sons foram ficando mais baixos até parecer que estava em um sonho. De repente, tudo ficou escuro e Ashley não viu mais nada.


Capítulo 1

Madri, Universidade de Madri, 2004. Dois meses antes do sequestro de Ashley Graham.
O Departamento de Biotecnologia da Universidade de Madri estava dentre os centros de pesquisa mais avançados da Europa. Muitos cientistas de gabarito faziam pesquisas ali, principalmente de países latino-americanos que aproveitavam as muitas oportunidades de bolsas de estudo em programas de pós-graduação. Espanhóis também, é claro, como o cientista Luis Sera.
Sera se formou na Universidade em Biologia e se especializou no estudo de organismos parasitas. Sempre se encantou por estes seres que conseguem viver dentro de outros, que dependem de outra forma viva para existir. Como ele chegou ali? De onde vem? Proveniente do povoado chamado “El Pueblo”, uma região interiorana, de características rurais. Luis Sera queria para si um futuro diferente dos demais familiares e foi para a capital com o intuito de estudar, se graduar e ter uma carreira. Então, passou a publicar seus estudos a respeito de colônias de parasitas e de como estas formas de vida se desenvolvem dentro de seus hospedeiros.
Dentro do laboratório, no entanto, um dos objetos chamava sua atenção, tanto por seu conteúdo, como pelo que ele representava, por sua história. Tratava-se de um cilindro de vidro lacrado. Dentro dele, havia uma espiral contendo a substância, um vírus trazido da América, mais especificamente dos Estados Unidos. Gravado no seu exterior, o símbolo de risco biológico. Segundo se afirma, ele tinha a capacidade de reanimar pessoas mortas. No entanto, ele acabou sendo um desastre. Seu objetivo, a princípio, seria o de curar doenças. Mas ele acabou se tornando uma arma biológica. As pessoas depois de mortas, passaram a ganhar nova vida, mas não como pessoas, mas como verdadeiras feras. Elas perdiam simplesmente a capacidade de raciocinar, uma vez que os cérebros não voltavam à vida, se transformando em zumbis que tinham como único instinto, a busca por alimento. E para isso, passavam a caçar todos os seres vivos que pudessem ser fonte de carne. Inclusive humanos. E o pior. Quando atacavam uma pessoa saudável e a mordiam, levando-a a óbito, esta pessoa também retornava à vida, mas infectada. Como outro zumbi. Aos poucos a pequena cidade de Raccoon City foi toda infectada e o governo lançou uma bomba atômica para conter a infecção. A versão oficial dava conta de um acidente nuclear, mas alguns poucos cientistas sabiam a verdade, ou pelo menos, sabiam de boatos sobre a esterilização da pequena cidade americana. A empresa que estava por trás deste vírus, a Umbrela, passou por um processo de falência e para todos os efeitos, ela deixou de existir. Mas sempre as pessoas se faziam a pergunta. Será verdade? Ninguém mais soube dizer.
Todos os dias, Luis Sera era o primeiro a chegar ao laboratório. Como não tinha família, nem muitos amigos na capital, seu passatempo era mesmo o trabalho. E ao contrário da maior parte dos pesquisadores, ele ainda não tinha um alto salário. Morava ainda de aluguel em um pequeno apartamento e tinha um carro compacto vermelho. Mas em uma segunda-feira, algo iria mudar sua vida. Quando ainda estava começando seu trabalho, um homem da recepção bateu à porta. Sera ainda estava procurando seu uniforme de trabalho, suas luvas e máscara de proteção, quando se deu por conta que o chamavam. Então, ele se dirigiu à porta e a abriu. O homem então perguntou:
- O senhor é Luis Sera, correto?
Sera olhou para o homem, com vontade de perguntar se havia mais alguém na sala, mas percebeu que não valia a pena se incomodar por coisas como estas.
- Sim, sou eu. Em que posso ajudar?
Sera procurava ser sempre cortês com as pessoas. Bem apessoado, alto, magro, com uma barba bem cuidada, com maneiras gentis, ele era visto como uma pessoa muito simpática. Não tinha muitos amigos ainda, pois passava muito tempo estudando e se dedicando às suas pesquisas, mas aqueles com quem se relacionava gostavam muito de sua companhia. O homem da recepção então, disse:
- Há alguns senhores que estão procurando pelo senhor.
Procurando por ele? Sera achou estranho.
- Procurando por mim? Tem certeza?
- Sim. Eles querem falar com o senhor Luis Sera. Portanto, não estou enganado.
- Você os conhece?
O homem ficou algum tempo pensando antes de responder.
- Não faço a menor ideia de quem sejam. Mando-os entrar?
- Sim, pode deixar passar.
Sera então, deixou de lado as luvas, que tinha acabado de apanhar e preparou lugares para suas visitas. O que queriam dele? Bem, agora, só saberia depois que eles chegassem. E não demoraram. Eram três sujeitos muito estranhos. Um deles, o cientista sabia quem era. O sujeito do meio. Muito alto, careca, usando um sobretudo marrom de lã batida, com um olho de cristal, com a pele clara. Tratava-se do chefe do vilarejo de El Pueblo, Bitores Mendez e Sera ficou se perguntando o que ele poderia querer. Os outros dois, ele não conhecia. Um, estava ao lado dele. Era alto, usando uma estranha túnica roxa, que escondia praticamente todo o seu rosto. No peito dele, havia uma insígnia bordada. Sera teve a impressão de já ter visto aquele símbolo em algum lugar, mas não conseguia se lembrar do seu significado. Ao lado deste, estava um homem baixo, com uma roupa esquisita. Vestia-se com um conjunto azul, com um chapéu da mesma cor sobre a cabeça. A aparência dele era de uma pessoa de idade, mas se veio do vilarejo, devia ser um morador novo. Sera não o conhecia. Todavia, se podia perceber que era uma pessoa de elevado poder aquisitivo. Então, como um bom anfitrião, o pesquisador foi se apresentando.
- Bom dia. Meu nome é Luis Sera. Em que posso ser útil?
O homem alto, do sobretudo marrom deu um passo à frente e tomou a palavra.
- Bom dia. Nós já nos conhecemos, senhor Sera. Sinto muito pelo seu avô. Sei que não é fácil perder alguém da família, ainda mais quando não se tem mais ninguém.
Luis Sera ficou um tempo em silêncio. Sim, seus pais haviam falecido antes. Seu avô era ainda o último que restava no vilarejo. Parece que uma doença estranha andava assolando as pessoas do local de onde viera. Então, ele levantou a cabeça e sorriu.
- Muito obrigado, senhor Mendez. Mas a vida segue.
Depois de um breve silêncio, Bitores Mendez voltou a falar.
- Muito bem, muito bem, antes de qualquer coisa vou apresentar meus dois acompanhantes.
Sera então interrompeu-o.
- Mas que indelicadeza a minha. Entrem. O local não é muito confortável, mas tem alguns assentos para vocês, sentem-se.
Bitores Mendez olhou para os outros dois e eles entraram.
- Muito obrigado.
Os três homens sentaram-se nos bancos e o chefe do vilarejo continuou falando.
- Este ao meu lado esquerdo, vem do vilarejo, embora você não o deva conhecer. Ele mora no castelo, que fica perto da vila. Chama-se Ramon Salazar. No entanto, da família dele, já deve ter ouvido falar muito, quando era mais novo.
Sim, ele ouviu. Eram os donos do castelo que ficava nas redondezas. Recentemente, ouviu-se comentários de que estavam reativando as minas e que aldeões estavam indo trabalhar lá. E que essa era a causa da estranha doença que vinha acometendo a população local. Luis Sera estendeu a mão ao pequeno homem.
- Muito prazer. Luis Sera, seu criado.
Salazar sorriu ao apertar a mão do cientista.
- O prazer é meu.
Sera, no entanto, ficou intrigado. Ramon Salazar devia ter uns sessenta anos, no mínimo. Mas como ele não o conhecia? Sim, quando era jovem, ele lembra-se de ter ido ao castelo e entrado em contato com a família Salazar. Mas nunca viu este homem por lá. Bitores Mendez continuou as apresentações.
- Este é Osmund Saddler. Líder de uma congregação religiosa, chamada Los Illuminados.
Los Illuminados? Sim, Sera sabia do que se tratava. Seus pais e seu avô sempre comentaram que em um passado distante, uma seita religiosa com este nome começou a tomar conta da região. Eles adoravam um parasita, chamado Las Plagas, que ao que parece, tinha poderes. Mas o primeiro castelão da família Salazar, os havia expulsado do local e selado o parasita no fundo da terra. Mas agora, Bitores Mendez trazia o líder dos Illuminados. E junto com os boatos da reabertura das minas e da doença misteriosa… será que Las Plagas tem algo a ver com isso? Era esperar para ver aonde esta conversa iria parar. Saddler estendeu a mão. Sera ficou um tempo observando aquele estranho cajado que seu visitante trazia. Parecia ter um ser vivo na ponta de cima, com pequenos tentáculos que se moviam. Mas no momento, não quis perguntar o que era, nem dar mostras de sua curiosidade.
- Osmund Saddler. É um prazer conhecer mais uma pessoa daquela vila tão amistosa.
Sera sorriu ao olhar para Saddler.
- O prazer é meu.
Sera ficou pensando um tempo antes de falar. Por outro lado, se eles estivessem atrás do parasita, isso poderia dar um bom tema de estudo, uma vez que era essa a sua especialidade. Primeiro, gostaria de saber mais do motivo que os trazia ali. Quem tomou a palavra, no entanto, foi Salazar.
- Muito bem, vamos ao assunto que nos trouxe aqui. Tenho lido alguns de seus textos e livros publicados. O senhor estuda parasitas. E há algo que tem me causado problemas. Eu recentemente reativei as minas. Contratei muitas pessoas do vilarejo onde o senhor já morou. Não vou negar que procuramos pelo parasita Las Plagas, pois ele já foi objeto de adoração da religião do senhor Saddler. No entanto, o que descobrimos, foi algo que nos assustou. Na verdade, ele infecta as pessoas e leva à morte, depois de causar diversos danos no sistema nervoso do infectado. Achamos que ele provavelmente passou por alguma mutação, depois de ter ficado tanto tempo fossilizado. Então, o que queremos do senhor? Precisamos de alguém que estude parasitas, para tentar encontrar a cura para este mal o quanto antes. Pessoas estão morrendo. O que o senhor me diz? É possível atender ao nosso pedido?
Tratava-se de uma questão humanitária. Eles queriam ajuda. Pessoas estavam morrendo. Então, Luis Sera faria o que fosse necessário para ajudar a encontrar uma cura. Sera, no entanto, não sabia bem o motivo, mas não conseguia confiar em Ramon Salazar, nem no homem da túnica. Algo parecia estar errado com eles. Então, resolveu fazer algumas perguntas.
- Muito bem, senhor Salazar. Está realmente preocupado com os aldeões? É isso o que o traz aqui?
Salazar primeiro fez uma expressão de desagrado, mas em alguns segundos, voltou ao normal para responder ao questionamento.
- Senhor Sera, sim, estou preocupado com eles por vários motivos. Primeiro, eles estão trabalhando nas minas. São meus empregados. Os contratei e pago salários a eles. Se ficarem doentes e não puderem trabalhar, vou ficar no prejuízo. Além do mais, se a infecção se alastrar, logo muita gente vai morrer e neste caso, terei de trazer trabalhadores de outras localidades. E eles irão querer vir? Correndo o risco de ficarem doentes? Eu acho que não.
- Sim, faz sentido. Então, temos a preocupação de um empresário que quer evitar prejuízos também.
- Mas veja bem, senhor Sera. Tem mais uma coisa. Olhe para mim e diga quanto anos o senhora acha que tenho? Seja sincero.
Agora, Luis Sera ficou pensativo. Geralmente a tendência era dizer que as pessoas são mais jovens do que aparentam. Isso as deixa satisfeitas. Então, ficou um tempo olhando para Ramon Salazar.
- Bem, tenho a impressão que o senhor é uma pessoa bem conservada, com boa saúde. Olha, mas não vou falar só para ser educado, mas não dou mais do que uns… cinquenta anos.
Então, Ramon baixou a cabeça.
- Então, o que vou lhe dizer vai deixá-lo simplesmente apavorado. Tenho somente… vinte anos.
O que? Sera nem conseguiu disfarçar o espanto. Este homem era um jovem? Tinha somente vinte anos? Sera olhou para ele e concluiu.
- Vejo o seu espanto. Sim, tenho somente vinte anos. Isso, é consequência da contaminação com Las Plagas. Eu estou infectado. Por isso venho lhe pedir para encontrar uma cura. Tenho a esperança de que consigamos achar a cura para o parasita antes de morrer. Eu sinto que minha saúde se deteriora dia a dia. Por favor. Vou lhe pagar o quanto achar justo. Para mim, dinheiro não é problema. Mas como não tenho herdeiros, de que adianta ser rico, se vou morrer e ninguém vai poder aproveitar minha herança?
Neste momento, Sera se compadeceu. Sim, era triste ver aquele homem. Ele estava morrendo. Jogava suas últimas esperanças de cura em Sera. Ele era a cartada final. Então, o pesquisador olhou para o pequeno homem.
- Senhor Salazar. Pode acreditar. Vou me empenhar para encontrar a cura. Mas para isso, vou precisar de um laboratório.
Neste momento, Osmund Saddler interrompeu a conversa.
- Senhor Sera. Minha organização religiosa tem interesse nessa pesquisa. Por isso, antes de virmos, já nos adiantamos e equipamos a casa de Bitores Mendez com todo o equipamento que um laboratório tem de ter. Sem contar que caso o senhor ache necessário, poderá fazer pedidos ou ir pessoalmente aos fornecedores adquirir tudo o que julgar necessário.
Luis Sera olhou para o líder dos Illuminados e questionou:,br> - Sim, mas qual é o interesse que sua organização religiosa tem em encontrar a cura para esta infecção? Pelo que eu saiba, seus seguidores no passado, adoravam este parasita, como um ser sagrado. Por que estariam querendo destruí-lo?
Saddler não deixou a expressão se alterar.
- Meu caro senhor Sera. As coisas mudam. Eu não sabia do que se tratava. Confesso que agora que pessoas estão sendo infectadas, ficando doentes e morrendo, vi que na verdade, Las Plagas não pode ser um ser sagrado. Nós temos sim de combatê-lo e ficar apenas com nossos rituais. Não vamos mais adorar este parasita.
- Compreendo. O senhor também está infectado?,br> - Não. Eu ainda não estou. Mas muitos de meus seguidores, inclusive pessoas do meu clero estão. E temo perder muitos fiéis por causa desta infecção. E o que será de uma religião se todos os seus seguidores morrerem? Ela deixará de existir. Não estou certo?
Sera encarou Saddler.
- Certamente que sim, senhor Saddler.
Fez-se silêncio e por fim, Sera tomou a palavra.
- Mas podem ter a minha palavra que irei lá. Só peço alguns dias para eu solicitar alguns dias de férias, que por sinal, eu já tinha direito a tirar para apanhar alguns pertences e me deslocar até El Pueblo. Em no máximo uns três ou quatro dias, estarei lá. No entanto, como faz algum tempo que não vou ao vilarejo, vou pedir para que alguém me leve até sua casa, senhor Mendez.
O prefeito do vilarejo então, já em pé, respondeu:
- O senhor pode ficar tranquilo. Estarei esperando-o na entrada do vilarejo, logo depois da ponte. Se eu não puder ir, alguém estará no meu lugar. Pode ser que eu esteja trabalhando na igreja ou terminando de arrumar seu laboratório.
Saddler então interrompeu eles:
- Acho melhor então que o senhor fique terminando os últimos retoques no laboratório. Estarei no vilarejo nestes dias. Eu mesmo o esperarei. É só telefonar para a casa do prefeito e avisar que chegou à região, que irei pessoalmente até a entrada de El Pueblo para lhe esperar.
- Pode deixar que eu aviso. Telefono quando estiver saindo e quando chegar ao povoado.
Os visitantes se levantaram das cadeiras e se dirigiram até a porta. Bitores Mendez foi quem se despediu pelos três.
- Adeus, senhor Sera. Agradecemos muito a sua disponibilidade em nos ajudar. Sabia que poderia contar com alguém que cresceu em nosso vilarejo para nos acudir neste momento de dificuldade.
Sera estendeu a mão.
- Podem contar comigo. Farei tudo o que for preciso para colaborar com o povoado onde nasci e cresci. A final, a Universidade não teria utilidade se nosso trabalho não servisse para melhorar a vida das pessoas.
Depois de um aperto de mãos, os três visitantes se retiraram. Luis Sera não sabia o motivo, mas não gostou nem um pouco do jeito deles. Algo estava errado. No entanto, seus motivos para pedirem sua colaboração eram nobres. Salvar vidas. Era isso o que iria fazer. Não importava muito se simpatizou com Salazar ou não. O que era importante era que devia fazer o bem, mesmo que para pessoas com quem não simpatizava. Pensou que no fim das contas, poderia estar enganado e que todos eles realmente fossem boas pessoas. Mal sabia Luis Sera, que seus instintos nunca estiveram tão certos. Mas ele só veria isso muito tarde.


Capítulo 2

Jack Krauser chegou a El Pueblo. O carro que o trouxe ainda estava parado. Era a primeira missão a serviço de sua nova casa. O logotipo da empresa para quem trabalhava estava estampado na porta do veículo. Um enorme guarda-chuva aberto, com as cores branca e vermelha. Logo abaixo da figura, o nome da empresa, Umbrela. Como um ex-membro do Exército americano, que fora chefe de operações especiais, agora estava trabalhando para a Umbrela? Krauser ainda podia se lembrar do começo.
Krauser nunca tinha levado muito a sério a questão dos zumbis usados como armas biológicas. Ficou sabendo do incidente em Raccoon City, mas não era de sua área de atuação. No entanto, a missão Javier Hidalgo foi um divisor de águas em sua vida. Em todos os sentidos. A primeira coisa que chamou sua aten-ção, foi que havia meios de a pessoa ser infectada pelo vírus e permanecer consciente. Como era feito isso? Aparentemente havia duas formas de contaminação. A feita no laboratório e a ocasionada por incidentes com os zumbis infectados. Esta, sem controle algum, fazia com que as vítimas se tornassem zumbis também. Transformavam-se em seres irracionais, que se moviam como seres autômatos, sem vontade própria.
Jack Krauser ainda era assombrado por aquela imagem. Aquele objeto voando em sua direção. Foi tudo muito rápido. Quando a recordação do momento vinha, parecia tudo irreal, um filme. Tinha a sensação que daria para desviar. Mas no momento, o foco era a criatura que disparou o objeto. De repente, aquela coisa vindo em sua direção, e a dor. O ferimento. De início não pareceu tão grave. Mas o tempo passou e não parava de sangrar. Krauser e Leon derrotaram o monstro. Depois de levar Manuela Hidalgo para o heli-cóptero de resgate, a garota morreu de uma maneira que ele jamais vira. Ela se desintegrou.
Entretanto, o sangramento no braço não parava. Krauser perdeu muito sangue após a batalha. Era muito estranho. Mas ainda, enquanto o helicóptero seguia seu caminho de volta, foi possível enxergar um homem no alto de uma das montanhas. Devia ser Wesker. Leon falou bastante dele durante a missão. Que ele criara o vírus que contaminou Raccoon City e seria o presidente de uma empresa que trabalhava com armas biológicas. Porém, o militar tinha um pensamento diferente. E se o que Albert Wesker estivesse fa-zendo não fosse terrorismo? E se aquilo tudo fosse algo que beneficiasse a população? Sim, muitos experi-mentos deram errado. Os zumbis eram a prova disso. Mas em outros muitos casos, os infectados não perde-ram a consciência. E ficaram muito mais fortes e ágeis que seres humanos normais. Até tinham poder de se regenerar. E foi esse o ponto que atraiu Krauser. Será que ajudaria a recuperar seu braço? Ajudaria ele a recuperar sua força? A ser o soldado que sempre fora? Krauser se convenceu, depois de sua volta, que tinha de encontrar Wesker, custasse o que custasse. Nem que fosse para desistir da ideia. Mas não tinha como descartá-la sem ver com seus próprios olhos alguns resultados e sem tirar suas próprias conclusões.
De fato, Jack Krauser jamais conseguiu se recuperar totalmente do ferimento, e acabou dando baixa do Exército. Foi aposentado, pois chegou-se à conclusão de que ele não estaria apto a voltar ao campo de batalha. Isso deixou-o ainda mais arrasado. Depois de todos os anos de serviços prestados, Krauser se sentiu menosprezado. Acreditava que seria justo pelo menos alguma homenagem, mais respeito por tudo o que sempre fez, por todos os sacrifícios em nome do país. Mas em vez disso, simplesmente o dispensaram por acreditarem que Jack jamais voltaria a ser quem era e por pensarem que colocarem-no em alguma missão poderia ser um prejuízo maior do que o benefício que ele poderia trazer. Para o exército, ninguém é insubsti-tuível. Bastava treinar outro soldado, que este poderia desempenhar o papel de Krauser tão bem quanto o próprio. E foi essa a ideia que o revoltou. Sentiu-se como um ser descartável. Que quando não servia mais, simplesmente o jogavam fora e o substituíam por outro.
Mas graças ao seu passado no Exército, não fora nada fácil chegar à Umbrela. Para todos os efeitos, a empresa havia cessado suas atividades. Ninguém sabia nada a respeito de Wesker e Krauser sentiu-se perdi-do. Como poderia fazer? As pessoas, mesmo as que poderiam ter alguma ligação com a empresa, se negavam a ajudá-lo. E dava para compreender. Pensavam que apesar de ter dado baixa, ele poderia ainda ser alguma espécie de informante das forças armadas, ou mesmo, do governo. Então, o ex-militar teve uma ideia. As pessoas desconfiavam do Krauser militar. Mas e se ele morresse?
Apesar de não ser mais um militar da ativa, Jack Krauser ainda tinha acesso aos campos de treino, onde podia ser visto. Ainda era conhecido da maioria das pessoas do meio militar. Então, ele poderia ainda pedir para dar um passeio em um helicóptero, para se despedir das emoções da época em que estava na ativa. E foi assim que ele bolou um plano. Conseguiu um corpo para colocar dentro do veículo aéreo. Pediu aos antigos companheiros para voar uma última vez. Quando, depois de alguma negociação, consentiram, ele desceu em um ponto isolado, onde tinha deixado uma sacola com um cadáver. Depois, colocou-o no assento do piloto e levantou voo, assumindo os comandos do copiloto. Foi extremamente difícil convencer os solda-dos a deixarem-no ir sozinho, mas tinha de ser assim. Então, ejetou o seu banco e deixou a nave cair. Como todos na base sabiam que Krauser fora sozinho, quando descobriram o corpo dentro do helicóptero caído, não tiveram dúvidas. Era o ex-militar que estava ali.
Agora, Krauser estava livre de seu passado, pois estava oficialmente morto. Assim, foi mais fácil ir se chegando às pessoas que eram próximas à empresa. Alguns queriam perguntar o que ele poderia querer com Albert Wesker. Jack Krauser apenas respondia que sabia que ele poderia lhe ajudar. Alguns até queriam saber como. Krauser não queria sair falando do vírus, que tinha a intenção de ser infectado. Quando mencionou para algumas pessoas, a maioria falava que ele estava louco, ou que acreditava em bobagens, que este não era o ramo da Umbrela. Até que consentiram em levá-lo a Wesker.
Quando chegou ao local de encontro, exatamente na hora combinada, um carro grande encostou. Era todo preto e não tinha emblema algum. Um homem desceu. Usava uma roupa que lembrava um uniforme militar, com um colete a prova de balas, óculos escuros e um comunicador. Ele tinha o cabelo bem aparado, como os soldados costumam ter. Desceu do veículo e se aproximou rapidamente de Krauser, caminhando com passos firmes. Quando chegou, estacou e olhou diretamente ao sujeito que o estava esperando.
- Jack Krauser?
- Sim, o próprio.
Krauser nem viu o que se passou em seguida. De repente, tudo ficou escuro. Quando acordou, estava dentro do veículo e já estavam chegando. Havia mais dois homens no banco de trás, um de cada lado. À frente, o que foi encontrá-lo dirigia, com outro no banco do carona. Este se virou para trás, vendo que o ex-militar estava acordando.
- Desculpe-nos, senhor Krauser. É uma medida padrão. Por enquanto ainda não pode saber o caminho que estamos fazendo. Logo estará com Albert Wesker e ele decidirá se é confiável. Por enquanto, estamos seguindo o protocolo.
- Sim, compreendo.
Não seria diferente. Caso não fosse admitido na Umbrela, provavelmente iriam tentar matá-lo. Mas se não conseguissem, não podiam deixar que escapasse. No entanto, sabia que seria admitido. Que acabaria fazendo parte da empresa. O carro parou em frente a uma mansão. Todos desceram. O motorista disse:
- É aqui. Vamos.
Todos caminharam apressadamente pela floresta até chegarem a uma escada pequena, de alguns de-graus, que levavam à varanda. Nela, tinha duas colunas que sustentavam um pequeno telhado. Em frente aos degraus, uma porta em madeira, toda branca. Os homens que levavam Krauser abriram a porta e o conduzi-ram para dentro. Havia do lado de dentro, duas escadas, uma de cada lado da sala, que conduziam a um piso superior e uma porta bem em frente à entrada. O militar notou a presença de um quadro com um homem de terno, cabelo grisalho, aparentando mais ou menos uns sessenta anos. Ficou olhando-o por algum tempo. Um dos homens que o acompanhava, percebeu e disse, sem mais delongas:
- É o senhor James Marcus, fundador da Umbrela.
Krauser apenas continuou caminhando. Foi conduzido por uma porta lateral, passando por um corre-dor, entraram em outra porta e por fim, chegaram a um elevador, que os conduziu para baixo. Não deu para precisar quanto tempo exatamente ficaram dentro do elevador, mas dava para ter noção que desceram muitos metros abaixo da superfície. Então, a porta se abriu. Não demorou e entraram em outro corredor, agora, com uma aparência futurista. Não havia portas dos lados e a única iluminação provinha de lâmpadas fluorescentes no teto. Após intermináveis segundos, chegaram a uma porta. Os homens que trouxeram abriram-na e um deles entrou. Depois de alguns minutos, com todos ali fora em silêncio, ele saiu.
- Pode entrar, senhor Krauser.
Fez então, um gesto para que o militar passasse. Krauser assentiu com a cabeça e agradeceu.
- Obrigado.
Ao entrar na sala, ouviu a porta se fechando atrás de si. Krauser ficou admirado com o que estava vendo. Era uma sala enorme, com mesas e algo que parecia ser experimentos sobre elas, trancados em com-partimentos lacrados. Bem à sua frente, outra mesa e atrás dela, um homem sentado em uma cadeira apenas o observando. Usava terno e óculos escuros e o rosto exalava confiança, com um pequeno sorriso de canto de boca. Atrás dele havia um telão, com uma imagem que parecia ser da página de mapas vista por satélite. O homem sentado na cadeira em frente à mesa, olhava o recém-chegado, com as mãos cruzadas sobre a mesa. Então, ele estalou os dedos e disse:
- Muito bem, senhor Jack Krauser. Já me conhece?
Krauser escolheu melhor as palavras que usaria.
- Pessoalmente não, mas sei quem é. Senhor Albert Wesker. Presidente da companhia Umbrela.
Wesker riu.
- Por quem ficou me conhecendo? Quais foram as pessoas que falaram de mim?
- Recentemente estive em uma missão na América do Sul e meu então parceiro de campanha falou muito no senhor.
Wesker encarou Krauser e ficou sério.
- Poderia me dizer quem era seu parceiro de campanha na ocasião?
- Sim. Leon Scott Kennedy.
- Leon?
Wesker não gostou muito da notícia, então deveria se certificar de que não era uma armadilha.
- Senhor Krauser. Sabe exatamente quem é o senhor Kennedy?
- Sei alguma coisa. Ele trabalha como um agente para o governo e recebe ordens do presidente dos Estados Unidos diretamente.
- E o que ele falou a meu respeito?
- Falou sobre os experimentos com o Vírus T. Disse que oficialmente a Umbrela não existia mais, mas que as atividades da empresa continuaram clandestinamente.
- Certo. Vou dizer quem é Leon. Ele é um sobrevivente da tragédia de Raccoon City. Era policial na ocasião e trabalhou apenas um dia. Viu os zumbis e entrou nos laboratórios de nossa empresa. Para nós não é bom que os sobreviventes do incidente naquela pequena cidade continuem circulando por aí. Agora me diga. Por que eu o contrataria?
Agora Krauser teria de se expressar bem, para não armar uma cilada para si mesmo.
- Acontece que ao contrário de Leon, eu acredito que podemos evoluir com o Vírus T. Eu vi o que as pessoas são capazes de fazer, se a infecção for devidamente conduzida. E quero me voluntariar para ser in-fectado, desde que consiga manter minha consciência. Isso é possível?
Neste momento, Wesker riu.
- Quer ver?
Krauser ficou apenas pensando no que dizer. Enquanto isso, olhava seu interlocutor com um ar de curiosidade. De repente, Wesker retirou os óculos escuros e seus olhos estavam vermelhos. O militar nem teve tempo de refletir sobre o que vira. A imagem do presidente da Umbrela ficou um pouco borrada e antes mesmo de Jack Krauser piscar, estava suspenso, com os pés altos do chão. Wesker o estava segurando pelo tórax, com uma mão. Como se estivesse levantando um boneco. Então, ele disse:
- Se eu quisesse, senhor Krauser, o teria matado e nem teria visto.
Depois disso, Wesker colocou Krauser no chão e quando o militar olhou para frente, o presidente da Umbrela já estava sentado em sua cadeira, como se nada tivesse ocorrido, com os óculos no rosto e rindo da expressão do visitante.
- Senhor Krauser. Gostou da demonstração? Quer ficar igual a mim?
Krauser mostrou o braço ferido.
- Desde que fui ferido na missão na América do Sul, nunca mais fui o mesmo. Preciso recuperar a minha força.
- Sim. Mas antes, me diga uma coisa. Por que devo confiar que não irá nos trair e nos entregar ao governo americano?
- Para todos os efeitos, estou morto. Não vou entrar em contato com o governo. Eles nem sabem que estou vivo.
- Perfeito. E qual sua relação com o senhor Kennedy?
- Pretendo matar Leon.
Wesker escorou o queixo sobre as mãos cruzadas.
- Ótimo.
Albert Wesker era bom em perceber as reações das pessoas. E notou que havia algo ligando Jack Krauser a Leon. O militar nutria algum rancor pelo agora agente do governo. E como este era uma das pes-soas que sobreviveu à tragédia de Raccoon City, o presidente da Umbrela via duas saídas para ele: ou se juntar à empresa ou ser eliminado. E já tinha convicção de que não seria possível a primeira alternativa. A outra pessoa era Ada. Mas esta preferiu continuar viva.
Após algumas semanas dentro dos laboratórios subterrâneos da corporação, Krauser começou a ser submetido a testes até terem certeza de que poderia ser infectado e manter sua consciência. Para isso, iriam utilizar o antídoto. Quando o experimento foi finalizado, Krauser se tornou um dos melhores experimentos da Umbrela. Mas havia algo que ainda incomodava o militar. Mesmo com o poder de regeneração acelerado que passou a ter, seu braço seguia sendo seu ponto fraco. Sim, ele fora atingido por um monstro afetado pelo Vírus. Deveria ter alguma relação com o fato. Porém, sua força, seus reflexos e sua velocidade ficaram as-sustadores até para ele. Em um teste, Wesker tentou repetir o movimento que fez em sua sala, mas desta vez, Krauser conseguiu se desviar. Mas ainda era mais lento que o presidente. O militar ainda estava convencido de que poderia ficar mais forte do que estava. Entretanto, para isso, talvez precisasse encontrar uma forma alternativa de adquirir esta força. Desconfiava que Wesker não permitiria.
Foi nos treinamentos que Krauser conheceu Ada Wong. O militar nunca simpatizou com a espiã. Era contra seus métodos, de andar furtivamente, de conseguir o que precisava se escondendo, evitando o con-fronto com o inimigo. Todavia, mesmo ele sabia que nem sempre o combate era o melhor caminho. De vez em quando, a sutileza era o meio mais eficaz de se conseguir algo. Por isso, sabia que não podia colocar dúvidas sobre o trabalho dela. Mas não queria ter de ir a alguma missão em conjunto com a oriental. Sentia que ela trairia a organização na primeira oportunidade. Mal sabia ele o que estava por vir.
Durante uma das sessões de treino nos simuladores de realidade da Umbrela, o telefone celular tocou. Era Wesker. Krauser sentiu a adrenalina subir. Há algum tempo estava esperando receber alguma ordem do presidente da empresa. Sabia que logo iria fazer algo importante. Só podia ser isso. O dia havia chegado. Então, parou o que estava fazendo e se dirigiu à sala da presidência. Ainda podia sentir a euforia e a ansiedade tomando conta. A respiração ficando mais rápida e o coração acelerando. Sim, Wesker o mandaria para alguma missão. Era certo que sim. Ao abrir a porta, viu aquela ampla sala pela segunda vez. A primeira como membro da Umbrela. Wesker o estava esperando.
- Entre, senhor Krauser.
O militar entrou, sempre caminhando com passos firmes e cabeça erguida. Era um soldado, sempre seria. Ele pode ter saído do exército, mas o exército não saía dele. Assim que chegou a frente à mesa do pre-sidente da empresa, estacou e ficou em silêncio, apenas esperando seu superior falar.
- Muito bem. Sente-se.
Krauser, ainda em silêncio, sentou-se na cadeira em frente à mesa e continuou aguardando as palavras de Wesker. Este, sorrindo, encarou o militar.
- Muito bem. É com orgulho que posso dizer que você é um experimento bem sucedido da nossa empresa. E agora, chegou o momento que, acredito eu, temos esperado. Finalmente, entrará em ação. Temos uma missão para cumprir.
Krauser cruzou as mãos e estalou os dedos. Não falou nada, mas fez uma expressão de satisfação indisfarçável, estufou o peito e ficou apenas na espera das ordens. Wesker seguiu.
- Descobrimos um estranho fenômeno na Espanha. Enviamos alguns homens para lá e estamos aguardando o relato deles. Mas ao que tudo indica, existe um grupo de pessoas que está seguindo a um líder. Preciso que vá até o local e se infiltre entre os habitantes. Descubra o que está ocorrendo lá. As observações por satélite indicam que o movimento está crescendo muito em um vilarejo no interior espanhol. Relate tudo o que descobrir. Assim que tiver novas informações, o manterei informado.
Krauser sorriu, levantou-se da cadeira e encarou o chefe.
- Ordem dada, ordem cumprida. Pode considerar o serviço feito.
- É assim que se fala.
Depois disso, Krauser saiu da sala. Ele nem desconfiava, Ada sim, de que na verdade, Wesker iria trair a Umbrela. Estava procurando algum produto que pudesse vender e conseguir dinheiro para fundar sua própria empresa. Apesar de ser o presidente, não era o dono. E seus superiores, vez por outra, questionavam seus meios. Assim, sendo ele o próprio e único chefe, não precisaria prestar contas a ninguém.
Então, foi dessa maneira que Krauser chegou ao povoado no interior da Espanha. Via agora, casas pequenas, algumas de madeira, outras de alvenaria, com telhados de zinco. Árvores eram vistas dos dois lados da estrada, todas com as folhas começando a cair. As casas tinham as janelas tapadas com tábuas de madeira pregadas na horizontal, impedindo a visão de quem estava do lado de fora. Não havia flores, tão comuns nessas casas interioranas, nem crianças correndo por ali. E o clima era tenso, pesado. Sim havia algo errado ali. Qualquer pessoa podia perceber isso. Agora, teria de ver o que era.
Não demorou muito para que um grupo de aldeões viesse dar boas vindas ao militar intruso. Eles vieram se aproximando aos poucos. Krauser apenas ficou parado. Então, um deles gritou:
- Agarrem-no!
Todos correram ao mesmo tempo, armados com foices, arados e machados. Assim que um deles ati-rou uma foice e Krauser pegou-a no ar com a mão, os outros vieram correndo. Não viram que o visitante não era uma pessoa comum. Jack Krauser sequer usou as armas. Matou-os apenas usando sua força, com as pró-prias mãos. Mas o braço esquerdo era mais fraco que o direito. Chegou a se ferir. Sim, apesar da força so-brenatural que possuía, da velocidade e da capacidade de se recuperar dos ferimentos acelerada, o braço es-querdo era seu calcanhar de Aquiles.
Ele seguiu, correndo tão rápido que mal podia ser visto e aproveitou que a porta da igreja estava aberta e penetrou pela passagem que levava ao cemitério. Chegando ao túnel, encontrou alguns aldeões de-safortunados que morreram antes mesmo de saber o que os acertou. Então, chegou a uma longa escada de escalar. Ao subi-la, saiu de um poço e chegou a um cemitério. Atrás de uma colina, havia uma igreja. De onde estava, deu para ver um grupo de aldeões e alguns animais. Eram cães. E um homem com uma túnica roxa à frente de todos. Os aldeões lhe prestavam reverência. Devia ser o líder deles. Sim. Krauser iria falar com ele. Então, se pôs a caminhar na direção do templo.


Capítulo 3

Uma mulher caminha em um longo corredor. As luzes vêm de lâmpadas fluorescentes no teto, que vão se acendendo a medida que ela caminha. Para pessoas que visitavam o local pela primeira vez, isso cau-sava certa intimidação. Era como estar sendo vigiado o tempo todo, mas não para a mulher que caminha ali naquele momento. Ela nem olha para as luzes que vão iluminando o seu caminho. O aspecto do local é futu-rista. Não tem portas dos lados, apenas uma ao final, e é para lá que ela está indo, caminhando a passos fir-mes, confiantes. Com a confiança de quem conhece o local há muito tempo. E é um bom tempo, mais de seis anos.
A mulher usa um vestido longo cor de vinho. É uma asiática, de descendência chinesa. Tem a pele clara, os cabelos pretos e curtos. Usa óculos escuros e não perde tempo olhando para os lados. Desde 1994 que Ada Wong circula pelos laboratórios da Umbrela. Aquele lugar para ela, não é nada mais do que seu local de trabalho. Ao chegar à frente da porta, para e fica pensando no que irá falar. Quais serão os assuntos tratados? Bem, isso ela não fazia ideia, afinal de contas, Albert Wesker não revelou nada. Apenas disse que queria uma reunião. E pelo tom de voz, estava com pressa. Então, Ada bateu à porta, esperou por alguns instantes e entrou.
A sala também não era nenhuma novidade. Wesker era o presidente da Umbrela. Tratava-se de um local em forma de hexágono. Havia poltronas e mesas, com papéis de relatórios de experimentos da empresa para todos os lados. E em frente à porta, uma grande mesa, atrás do qual, havia uma cadeira giratória. Esta cadeira ficava à frente de um grande monitor de computador, e estava voltada para ele. Sobre a mesa, um teclado que controlava além do computador que estava ali, vários satélites de propriedade da empresa.
A tela exibia uma paisagem rural vista de cima. Aos poucos, a imagem foi aproximando até ser pos-sível identificar o que se passava. Era um vilarejo, com pequenas casas, uma igreja e um casarão, que deveria ser do prefeito local. Um pouco afastado dali, havia o que parecia um castelo. Sim, alguma família nobre deveria morar ali desde os tempos mais antigos. E com certeza ainda possuía alguma autoridade sobre aque-las pessoas mais simples. Mas qual o motivo de Wesker estar olhando para aquela tela? Só podia ter algo a ver com o vírus ou algo do gênero. Então, o presidente da Umbrela girou a cadeira e encarou Ada. Cruzou os dedos sob o queixo e ficou alguns segundos sorrindo, sem dizer palavra. A imagem da espiã refletiu nos óculos escuros de Albert Wesker, que enfim, quebrou o silêncio.
- Então, senhorita Wong. O que está vendo na tela?
Ela olhou por alguns instantes, procurando por algo que talvez lhe tenha passado despercebido em um primeiro olhar. Mas tudo ali parecia exatamente normal para um vilarejo interiorano.
- Ora, vejo uma comunidade rural.
Wesker continuava com seu sorriso no rosto.
- Poderia dizer em que lugar fica essa comunidade?
- Pode ser em qualquer lugar do mundo.
Ambos ficaram mais um tempo em silêncio. Então, Wesker voltou a falar.
- Esta comunidade rural está localizada em um vilarejo no interior da Espanha, chamado de “El Pue-blo”. As pessoas que lá moram são em sua grande maioria, fazendeiros. Gente simples do campo, que cuida de suas plantações, da criação de gado, de galinhas, dentre outros afazeres.
Wesker estudou o semblante de Ada antes de continuar. A espiã não conseguia saber aonde ele queria chegar. Então, o presidente da Umbrela continuou.
- Há uma igreja com um cemitério bem ali.
Apontou com um laser para o local.
- Essas comunidades costumam ser muito religiosas. E bem ali.
Agora, apontou o laser para o castelo.
- Existe um castelo de mais ou menos duzentos anos, pertencente à família que o construiu. Os Sala-zar.
Ada viu Wesker a encarar novamente e ficar esperando que ela dissesse alguma coisa. Então, a espiã tomou a palavra.
- Certo. Como muitas comunidades rurais do interior da Europa. Locais com um passado medieval, que mantém a tradição por causa do isolamento e conservadorismo das pessoas que lá habitam. Mas o senhor me chamou aqui para mostrar isso? O que há com esse vilarejo?
Neste momento, Wesker abriu um sorriso.
- Nossos espiões relataram fatos estranhos ocorridos lá. Então, mandei uma equipe ao local para fazer um relato do que eles viam. E sabe o que aconteceu?
- Não, mas acho que vou me surpreender.
Após dizer isso, Ada retirou os óculos escuros e ficou com um sorriso no canto da boca. Sim, havia algo anormal ali. Alguma coisa havia acontecido.
- Dos três espiões que foram ao local, dois foram brutalmente assassinados e um conseguiu fugir, mesmo sendo gravemente ferido. De um hospital em Madri, ele me enviou uma mensagem por e-mail. Wesker abriu o e-mail para ler melhor os pontos elencados.
- À primeira vista, tratava-se de uma pacata comunidade rural. Homens trabalhando cuidando dos animais, da pastagem, da agricultura. No entanto, algo chamou a atenção. Não havia flores. Nada que tor-nasse a paisagem mais suave, como sempre havia nesses locais. Normalmente as pessoas plantavam flores em vasos e colocavam nas janelas, no pátio. Mas não ali. As janelas estavam fechadas ou com tábuas pregadas, como que para evitar que se pudesse ver dentro das casas. As árvores não tinham folhas nos galhos. Mas resolveram continuar. Assim que encontraram os aldeões, tentaram entrar em contato com eles. Então, o que se seguiu foi totalmente surreal. Essa foi a palavra que eles usaram.
Wesker fez uma pausa para estudar a expressão de Ada e continuou.
- Eram três aldeões. Eles atacaram nossos espiões. Um com um arado, um com uma foice e outro com um machado. O que estava mais a frente foi decapitado ali mesmo, na frente dos seus companheiros de missão. Estes, saíram correndo. Então, entraram em uma casa para se esconderem. Não achavam que todos teriam o mesmo comportamento. Mas o dono da casa, ao vê-los, os atacou de igual maneira. O segundo es-pião foi morto, com uma facada. O único sobrevivente saltou pela janela. E correu de volta ao carro. A essa altura, já havia muitos aldeões. Ele engatou e correu o mais rápido que conseguiu para a ponte que dava acesso ao vilarejo. Muitos aldeões tentaram bloquear o caminho, e ele teve de dar marcha ré, batendo o carro em uma verdadeira muralha de pessoas. Então, ele olhou nos olhos de um deles. Estavam brilhando, verme-lhos. Mas não eram zumbis. Eles falavam, manejavam armas e tudo mais. Mas não estavam normais. Havia alguma coisa como que controlando os movimentos deles. De repente, um machado voou em sua direção e o atingiu em um braço, quebrando o vidro. Neste momento, ele acelerou, mesmo ferido. Atropelou uma imen-sidão de pessoas que estava bloqueando a ponte, mas conseguiu escapar. Quando se viu em uma cidade não muito longe dali, chegou a um hospital e apagou. Depois disso, acordou na capital espanhola. Já haviam se passado alguns dias. O médico lhe disse que quase teve de amputar o braço e que ele não morreu por pouco. Não sabia como conseguira chegar ao hospital, já que perdera muito sangue. Mas que iria se recuperar e em algumas semanas, poderia retornar. Então, o que você me diz?
Ada estava estarrecida com o que acabara de ouvir.
- Wesker, posso ler o e-mail?
O presidente da Umbrela assentiu com a cabeça. Ela então se aproximou da tela do computador e leu tudo com as palavras do homem responsável pelo relatório. Ela o conhecia, assim como os dois que foram mortos na missão. Se tudo aquilo ali era verdade, só podia se tratar de algum controle exercido sobre aqueles camponeses. Eles não teriam um comportamento tão agressivo naturalmente. Ninguém iria atacar uma pessoa estranha sem uma motivação. A não ser que estivessem sendo manipulados. Wesker ainda disse mais uma coisa:
- Tem mais um detalhe que não está no e-mail. Eu telefonei para nosso espião e ele disse uma coisa muito intrigante. Na ocasião pensou que isso não era tão importante, mas depois mudou de ideia. E acho que é importante. Alguns dos aldeões se referiam a outra pessoa, a quem eles chamavam de “Lorde Saddler”. Deve ser alguma espécie de líder deles, e o responsável por este comportamento violento.
Ambos ficaram em silêncio novamente. Então, Ada tomou a palavra.
- Certo. E qual é o nosso plano? - Você vai dar um passeio.
Então, girou novamente a cadeira, encarando a espiã.
- Vá para a Espanha. Quero relatos sobre tudo o que ver lá. E o mais importante. Que traga o que quer que esteja por trás deste comportamento dos aldeões. Se for um vírus, alguma substância, algum remédio, droga, seja lá o que for, quero que traga. Parece ser muito mais eficiente do que o Vírus T. O espião comen-tou que as pessoas ficam mais rápidas, resistentes e insensíveis à dor. Parecem com os zumbis, com a dife-rença que continuam com suas habilidades de antes de serem infectados e depois ficam fiéis a quem os con-trola. Precisamos poder controlar esses infectados. E descubra quem é Lorde Saddler.
Ada ficou um tempo pensando no que responder. Mas antes que falasse, Wesker concluiu.
- Você não irá sozinha. Jack Krauser já está lá.
Agora Ada ficou surpresa e não conseguiu disfarçar.
- Krauser? Por que ele?
Wesker escorou a cabeça na mesa e olhou para a espiã.
- Preciso testar ele em campo de batalha. Ele é um de nossos experimentos mais valiosos. Um dos melhores e por isso preciso saber do que ele é capaz.
Depois de alguns segundos em silêncio, Wesker concluiu.
- Krauser vai se infiltrar entre os aldeões. Tentará saber quem é Saddler e entrar para seu grupo. Para ajudar você, nossa inteligência prestará toda a assistência necessária. Tentaremos descobrir o máximo sobre os aldeões e do motivo que os faz agir da maneira como agem. Sendo assim, a reunião está terminada. Em-barca ainda hoje.
No helicóptero, Ada meio que acordou do devaneio. Estava se recordando da conversa que teve com Wesker nos laboratórios subterrâneos da Umbrela. Olhou pela janela e viu que já sobrevoavam o continente europeu. Logo estaria em terra firme. Então, abriu o computador portátil e repassou as instruções dadas por seu chefe, procurando ainda se lembrar de tudo o que vira naquele e-mail dos espiões. Para saber o que a esperava assim que colocasse os pés para fora da nave.


Capítulo 4

Os habitantes do vilarejo de El Pueblo eram em sua grande maioria criadores de gado e agricultores. Pessoas simples do campo. E fervorosamente religiosos. Sempre compareciam à missa. Um dos principais locais onde as pessoas iam se encontrar, era a Catedral. Lá não era simplesmente um lugar em que se ia para rezar, mas também para ver amigos que moravam distante, para as festividades locais, enfim, lá era o centro da vida espiritual e social da vila. As casas eram simples, de alvenaria com telhados de zinco. Algumas em madeira. Nos galpões, o gado pastava, havia os poleiros para as galinhas e os cães dormirem. E era neles que se arma-zenava o alimento do gado também.
A maior prova do comprometimento dos habitantes de El Pueblo para com a religião era a Catedral. Localizada junto a um cemitério, eram as pessoas do vilarejo que trabalhavam nela voluntariamente. Apara-vam o gramado, cuidavam das lápides à sua frente, faziam a limpeza, tanto do cemitério, quanto do templo, além de sempre realizarem as reformas necessárias para manter a estrutura da igreja em bom estado. A Cate-dral também é um motivo de orgulho para a população local. Toda em pedra, é uma construção imponente, ao estilo gótico, com altas torres e um enorme vitral sobre a porta. A ideia do vitral é que na hora da cerimô-nia religiosa, marcada sempre para o pôr do sol, a luminosidade atravesse os vidros e ilumine o altar, dando à luz que ilumina o interior da igreja, as cores do vitral. Realmente, trata-se de uma grandiosa obra arquitetôni-ca.
Contudo, ao contrário do que pode-se imaginar, ao olhar para este templo, não se trata de uma igreja católica como na maior parte do país. A Espanha é um país onde o catolicismo é uma presença marcante his-toricamente. Mas não mais em El Pueblo. Agora, estes habitantes têm outra religião e são conhecidos como Los Illuminados. Veneram uma criatura que vive dentro das pessoas, um parasita, denominado Las Plagas. Parasita este, que controla a mente e o comportamento das pessoas. E o líder dessa religião, que em uma épo-ca remota já dominou essa região da Espanha e que está repetindo essa dominação, chama-se Osmund Saddler, chamado por todos ali de Lorde Saddler ou simplesmente, Lorde.
Saddler conta com aliados fiéis. O principal deles, dentro do povoado e o grande responsável pela conversão ou melhor, infecção dos habitantes do vilarejo, se chama Bitores Mendez. Mendez é prefeito do vilarejo de El Pueblo. Desde que assumiu a liderança do local, serve fielmente à família que controla a região, os ricos donos do castelo, os Salazar. Como recompensa, ele recebeu o poder de Saddler, o parasita Las Pla-gas em sua forma controladora. Assim, ele também tem o poder de controlar os parasitas em sua versão con-trolada, a que eles colocaram nos aldeões. Quem infectou Mendez, foi Ramon Salazar.
Ramon Salazar é o oitavo castelão, ou seja, dono do castelo que fica na vizinhança de El Pueblo. Com apenas vinte anos, perdeu seu pai. Sua família é conhecida pelo fato de terem expulsado justamente os mem-bros da seita Los Illuminados, quando o primeiro castelão comprou o castelo e se mudou para o local. No entanto, Ramon acabou se rendendo a Saddler e não só permitiu o retorno dos Illuminados a El Pueblo, co-mo cedeu seu castelo para que este se transformasse na sede da seita de Osmund Saddler. Ele, que com a infecção dos aldeões, passou a ser venerado como uma divindade por todo o local.
Saddler desceu do veículo que o trouxe. Normalmente, o líder dos Illuminados ficava no castelo, cui-dando dos experimentos que ele mesmo, com o auxílio dos monges faziam. Mas agora, tinha de vir a El Pue-blo, pois Luis Sera, o cientista que contrataram precisaria de instalações e de equipamentos para efetuar seus estudos. E Saddler queria se certificar de que os preparativos para receber seu visitante estavam sendo feitos. Era preciso se certificar que, caso os infectados começassem a se expandir, não haveria meios de eliminar o parasita do corpo das pessoas. Caso conseguissem comprovar a negativa, a dominação do mundo seria uma questão de tempo. Enviariam pessoas com o parasita para os mais influentes países primeiro. Infectariam os governantes e quando os ovos eclodissem, todos seriam apenas marionetes de Osmund Saddler. Era o come-ço de uma nova era.
Assim que colocou os pés no chão, Osmund Saddler observou as pessoas em seus afazeres. Alguns aravam o feno, outros estavam levando o gado para seus lugares, alguns recolhendo ovos nos galinheiros. Todos eles quando viram seu líder, pararam imediatamente o que estavam fazendo e foram prestar sua home-nagem. Prostraram-se diante de Saddler e repetiram em uníssono:
- Lorde Saddler.
E ficaram prostrados até que ele os liberou para retornarem às suas tarefas. Então, Osmund Saddler se dirigiu até uma pequena igreja que fica no vilarejo. Do outro lado do carro, desceu Bitores Mendez. O prefei-to caminhou apressadamente até alcançar Saddler.
- Lorde, precisa que alguém o acompanhe até o templo?
Saddler olhou de volta para o prefeito e respondeu:
- Não se preocupe. Eu não vou me perder. Continue com os preparativos pare recebermos nosso cien-tista que vem da capital.
Mendez fez uma cara de poucos amigos.
- Não gosto daquele sujeito.
- Não precisa gostar. Mas ele fará um trabalho importante para nós.
- Sim, Lorde. Estou indo até minha residência e chegando lá, vou direto ao laboratório me certificar a respeito dos preparativos para recebermos o senhor Sera.
- Muito bom.
Dito isso, Bitores Mendez deu meia volta e se dirigiu ao seu veículo novamente. Iria até sua casa. Saddler entrou na pequena igreja. O interior dela, no entanto, não era o de uma igreja. Havia uma mesa ao centro, algumas cadeiras, uma estante e uma prateleira. A iluminação era fraca, proveniente de uma vela co-locada sobre a mesa de centro. Na extremidade oposta, havia uma porta de madeira, que dava acesso à saída. Osmund Saddler abriu-a e chegou a um pequeno espaço que tinha atrás da porta. No outro lado da entrada, tinha um alçapão, que dava acesso a um nível inferior.
Saddler desceu e chegou a um túnel estreito, uma passagem, iluminado por velas. O líder dos Illumi-nados conhecia bem aquele túnel, afinal, fora ele quem comandou sua construção. Periodicamente os aldeões vinham trocar as velas quando estas se apagavam. O líder da seita foi caminhando vagarosamente, satisfeito com o modo como as coisas estavam correndo. O local era muito úmido, com pequenas gotas d’água caindo do teto, ou mesmo, correndo pelas paredes. Poças se formavam no chão, deixando pegadas de quem quer que passasse por ali. Havia pegadas frescas. Alguém passara por ali há pouco tempo. Mas ninguém circulava pelo local. Saddler olhou com atenção para as pegadas. Eram grandes, mais fundas que o normal. A pessoa que passou por ali era grande e mais pesada do que a maioria dos aldeões. Quem será? Era, no entanto, mais provável que algum dos aldeões tenha encontrado sapatos diferentes nos pés de algum forasteiro e o estava usando. Poderia ser Luis Sera? Não, os sapatos dele não têm aquelas marcas. Pareciam calçados feitos para andar em áreas inóspitas. O cientista usava sapatos sociais normalmente. O que não o excluía totalmente.
Assim que saiu do poço que dava acesso ao cemitério, localizado em frente à catedral, Osmund Saddler ficou um instante observando o cenário. Tudo estava quieto. Não havia ninguém ali, o que estava causando uma sensação de estranheza. Deveria haver alguns aldeões trabalhando na limpeza do cemitério, pelo menos. Saddler foi caminhando na direção da catedral. Olhou atentamente para as árvores, mas não viu nada além dos corvos em seus ninhos. O líder dos Illuminados procurou aguçar os ouvidos para tentar ouvir algum barulho suspeito, mas a única coisa que ouvia eram seus passos. Algo estava errado, isso ele podia sen-tir. Mas o que? Então, ele chegou a frente à porta e tentou abri-la. Estava trancada. Saddler possuía o objeto que servia de chave. Os aldeões que trabalhavam ali também. Mas devia ter gente no local. Ou pelo menos alguns dos colmillos*, que tomavam conta da propriedade, para evitar que intrusos penetrassem no templo. Apesar de estar muito estranho o local, não tinha nenhum sinal de que algo errado tivesse acontecido. Nem sangue, nem tiros, nem sinais de luta. Saddler abriu a porta da frente da catedral e entrou.
O lado de dentro da catedral estava tão quieto quanto o de fora. Não havia viva alma ali. Mas as ve-las estavam acesas e o local estava limpo, indicando que sim, havia tido gente há pouco tempo. Mas onde eles estavam agora? Não poderiam simplesmente ter sumido. Osmund Saddler estava ficando cada vez mais desconfiado de que alguma coisa havia acontecido. O que? Como os aldeões simplesmente desapareceriam? Então, o líder da seita subiu a escada que dava acesso ao nível superior e como dava para ver de baixo. Tudo estava absolutamente quieto. Deu a volta no local e chegou a uma porta que dava acesso a uma sala. Esta porta era secreta e só Saddler sabia como encontrá-la. Havia janelas para o lado de fora, mas para entrar na sala, só pela porta, pois a janela era muito alta. Só que no momento em que abriu a porta, Osmund Saddler começou a descobrir o motivo de não haver ninguém ali. Ou melhor, de não haver ninguém vivo ali.
Em frente à porta de entrada, havia uma mesa, com um mapa mundi fixado nela. A janela estava aberta. Deveria estar fechada, pois quem a abriria? Uma estante do lado esquerdo de quem entra exibia uma grande quantidade de livros, em sua maioria, falando sobre a seita “Los Illuminados”, escritos na época em que eles eram influentes na região, antes de serem expulsos pelos Salazar. À frente da mesa, uma cadeira, onde quem estivesse ali, com o líder da seita, poderia conversar com ele. Atrás da mesa, uma grande cadeira estofada, com o veludo vermelho, onde Saddler sentava-se. Mas havia alguém sentado nesta cadeira. E não era Osmund Saddler.
Osmund Saddler entrou em sua sala e fechou a porta, irritado com o que estava vendo. Como alguém entrou ali? E estava sentado em sua cadeira? Iria pagar. Não iria poder fugir. Isso era um desrespeito que ele não iria tolerar. Então, se virou e viu o homem sentado em sua cadeira. Era alto, usava um traje militar, do Exército dos Estados Unidos e uma boina vermelha. Tinha cabelos louros, um olhar duro e frio, semblante sério e uma cicatriz que ia do seu olho esquerdo até a boca. E olhava para Saddler sem medo. O líder dos Illuminados não demonstrou sua irritação com a situação, foi apenas caminhando até perto da mesa, enca-rando seu ocupante. Então, parou com seu cajado, coçou o queixo com a mão e depois de um tempo em si-lencio, tomou a palavra.
- Bom dia. Posso ajudar em alguma coisa?
O homem ergueu a cabeça, na direção de Saddler antes de falar.
- Aqui é uma igreja, não? Quem é o padre?
- Você é americano?
- Você não respondeu à minha pergunta.
Quem é esse insolente? Ficou pensando Osmund Saddler. Mas estava curioso para saber como ele chegou até ali.
- Sou o responsável por essa Catedral. Não somos católicos, mas eu lidero uma nova ordem religiosa.
O homem forçou um sorriso antes de continuar.
- Certo. Então, acho que temos alguns interesses em comum. E como você me perguntou antes, não tem muita coisa em que possa me ajudar. Na verdade, eu é quem vou ajudá-lo. E muito.
Saddler riu. Esse homem só pode estar louco, pensou ele. Mas como conseguiu entrar na minha sala? Isso realmente incomodava o líder dos Illuminados.
- Me ajudar? De que forma? O senhor nem deve saber com quem está falando.
O soldado cruzou os dedos das mãos sob o queixo e prosseguiu.
- Sei. Sei exatamente quem o senhor é. Mas o senhor não sabe quem sou.
- Sério? Então, diga-me o que sabe.
Saddler tinha certeza de que seu visitante indesejado estava blefando. Este, no entanto, passou a fa-lar.
- O senhor se chama Osmund Saddler e é o líder de uma seita religiosa, embora ainda ignore o nome exato dela. Sei que tem um grupo de fiéis que o venera e o defende arriscando suas vidas, caso seja necessá-rio. Sei também que eles atacam e tentam matar a todos aqueles que chegam de fora, os forasteiros. Mas o mais interessante é que essa devoção, a meu ver, não é totalmente voluntária. Eles são controlados por algum organismo colocado dentro dos seus corpos, como se fossem parasitas. Agora me diga: onde eu errei?
Como aquele homem sabe disso? Saddler estava estupefato com o que acabara de ouvir. Agora, que-ria continuar ouvindo.
- Quem é o senhor? Como sabe disso?
Agora, o visitante sorriu, encarou Saddler e prosseguiu.
- Acho que agora vamos nos entender. Meu nome é Jack Krauser. Antes de iniciarmos nossa conver-sa, vou perguntar uma coisa. Sabe como entrei aqui? Ah, mais uma coisa. Não percebeu que não havia um único de seus fiéis trabalhando no templo?
Saddler ficou em silêncio. Não sabia bem onde aquele estranho queria chegar, mas estava perturbado. Krauser se levantou e foi até a janela, que estava aberta.
- Senhor Saddler, venha até aqui e olhe.
Saddler foi até a janela e olhou para fora. Sim, ele não dera a volta na Catedral. Se o tivesse feito, teria visto o que aconteceu. Havia muitos corpos de aldeões, todos mortos. Havia colmillos ali também. O líder da seita olhou para o militar e perguntou:
- Que arma usou para fazer aqueles ferimentos?
Krauser levantou as mãos. E neste momento, Saddler viu que havia sangue nelas.
- Veja, estou desarmado. Eu sou uma arma. Matei todos eles com minhas mãos.
Não podia ser verdade. Mas ele realmente não tinha armas. Osmund Saddler se dirigiu à sua cadeira e ordenou que seu visitante se sentasse na cadeira em frente à mesa.
- Certo, senhor Krauser, é este o seu nome. Conte-me quem você é, para quem trabalha e por que está aqui. E o que quer.
Agora, Krauser iria ao ponto que queria.
- Vou começar pelo início. Eu em outra vida era militar dos Estados Unidos. Chefe de operações es-peciais. Fui designado para muitas missões, obtendo êxito em todas. Sem falsa modéstia, sei treinar muito bem qualquer grupo de soldados. Faço-os ficarem disciplinados, focados e fazerem o que for necessário para obterem êxito em suas missões. Fui condecorado muitas vezes.
Depois disso, ele ficou em silêncio, estudando o semblante de Saddler, que perguntou:
- Certo, e como isso vai me ajudar?
- Só que em uma missão, eu fui gravemente ferido. E o que recebi em troca pelos meus anos de servi-ço? Nada. Simplesmente deram baixa para mim e me afastaram das minhas funções. Quero demonstrar a eles que posso ser melhor do que qualquer um que colocaram no meu lugar. Quero vingança.
- Só isso? Mas como chegou a mim? E como sei que isso não é um blefe?
Krauser então apanhou seu atestado de óbito e entregou a Saddler.
- Oficialmente estou morto. Acontece que em uma de minhas missões, tive de lutar contra criaturas que para mim só existiam em filmes. Fiquei sabendo então do que se tratava. Uma empresa chamada Umbre-la criou um vírus capaz de reanimar pessoas mortas. Eles retornavam e ficavam praticamente imortais. A úni-ca forma de matá-los era atingindo-os na cabeça. Os chamados zumbis. A infecção começou por uma peque-na cidade dos Estados Unidos, chamada Raccoon City. O vírus criado por esta empresa, tinha como objeti-vo, criar imunidade ao corpo humano contra doenças, mas acabou tendo efeitos colaterais indesejados. No entanto, serviu a outros propósitos. Criar um exército de zumbis. Só que isso também não deu muito certo. As pessoas reanimadas pelo vírus T acabavam perdendo a capacidade de raciocinar e agiam somente pelos instintos mais básicos, que são ligados à sobrevivência. Assim os zumbis se tornaram verdadeiras bestas in-controláveis que apenas sentiam necessidade de se alimentar. E para isso, caçavam quaisquer seres vivos que encontrassem. E aí apareceu mais um problema. Todos os seres que eles matavam com as mordidas, acaba-vam contaminados e se tornavam zumbis como eles. E isso acabou gerando um efeito dominó. Em pouco tempo, a cidade de Raccoon City foi toda contaminada. Para evitar que a praga se espalhasse, o governo americano ordenou a esterilização do local. Foi largada uma bomba nuclear lá, destruindo a cidade e matan-do todas as pessoas. A Umbrela foi desligada de todos os programas do governo e faliu.
Saddler continuava olhando para Krauser.
- Certo, mas não sei ainda o que isso pode ser útil para mim. É apenas informação e nada relevante.
- Acontece que nem todos os infectados se tornaram zumbis.
- Ah, e deixa-me adivinhar… você é um exemplo bem sucedido.
- Exato. Meu ferimento causado por uma criatura infectada em uma missão na América do Sul, nunca cicatrizou e eu não consegui mais recuperar minha força. Então, procurei a empresa. Eles me infectaram, mas monitoraram a infecção, de modo que mantive minha consciência e não me tornei um zumbi. E foi assim que consegui matar todos aqueles ali fora, sem usar armas. Mas eu queria mais força. Sempre quis encontrar uma forma evoluída dos seres humanos. E passei a viajar pelo mundo, já que estava livre para isso. E cheguei a este vilarejo. Aqui encontrei seus fiéis.
- Estranha esta história. Mas prossiga. Eles chamaram sua atenção?
- Sim. Era noite e fui atacado por muitos aldeões. Eles tinham uma força fora do normal para pessoas como eles, sem treinamento. Foi quando feri um na cabeça que algo me chamou a atenção. Vi sair do pescoço dele algo semelhante a um chicote com pontas afiadas. Era o tal parasita. Percebi que eles continuavam ani-mados mesmo depois de mortos, pois aquela criatura os comandava. Depois de lutar com eles, cheguei a uma conclusão: eles podem ser muito mais úteis que os zumbis. Sabe por quê?
- Por quê?
- Eles têm muito mais força que uma pessoa normal, são resistentes à dor e é difícil para matá-los. Só que eles trazem um bônus. Não ficam irracionais como os zumbis. São leais a quem os controla. Então, eu pensei. Posso treiná-los para serem o melhor exército que o mundo já viu.
- Certo, mas iria me ajudar sem querer nada em troca?
Krauser sorriu.
- Não disse que não iria querer nada em troca.
Os dois ficaram em silêncio. Saddler então, perguntou:
- E qual é o seu objetivo com tudo isso?
Saddler estava mordendo a isca.
- Meu objetivo é evoluir. Se existe um parasita que é controlado, como os que vi saírem dos aldeões, deve haver um controlador, como este que está em seu cajado. Quero um destes para mim. Vi o prefeito do vilarejo. Ele está infectado com o parasita. Sei disso. Quero ficar igual a ele. Em troca, lhe ajudarei a conse-guir todos os seus objetivos e serei seu braço direito.
Saddler riu.
- Como sabe que tenho objetivos maiores?
- Ora, seria um desperdício ter um potencial destes nas mãos e não usá-lo. Poderia controlar o mundo todo. Ter as pessoas mais poderosas do planeta em suas mãos, o obedecendo como se fossem marionetes. E eu posso lhe dar isso.
- Como?
Krauser encarou Osmund Saddler.
- O que me diria se eu lhe entregasse controle total sobre o homem mais poderoso da Terra?
- E quem seria?
- O presidente dos Estados Unidos. Ele comanda a nação mais rica do mundo, o exército mais pode-roso do mundo e tem influência sobre quase todos os países do mundo. O que lhe pareceria se ele fosse um fantoche seu?
Saddler ficou um tempo em silêncio. Então, falou:
- Prossiga. E como isso seria feito?
- Eu iria lhe trazer ninguém menos que a filha do presidente. Nós a infectaríamos. Para o mundo, seria apenas mais um sequestro, uma ação terrorista. Nós exigiríamos um resgate. Pagariam o que pedíssemos. En-tão, depois, devolveríamos a garota para os seus pais. Eles pensariam que os problemas deles acabaram. Mas é aí que eles iriam começar. Contaminada, ela seria um fantoche seu. Iria contaminar seu pai. Com o tempo, ele é quem iria passar a seguir suas ordens e contaminaria outros membros do governo. Deste modo, seria apenas uma questão de tempo até você estar controlando o país todo. E depois disso, o controle do mundo seria apenas o próximo passo. O que me diz disso? Você está vendo? Posso lhe dar o mundo.
- E como sei que não vai me trair?
- Não ganharia nada com isso. Sem contar que vou ter minha participação neste novo mundo que vou ajudar a criar. É claro que sei que o senhor saberá me recompensar.
- Caso demonstre lealdade e cumpra tudo o que disse, irei sim lhe recompensar bem. Por outro lado, se me trair, acho que já deve saber o que vai lhe acontecer. E veja bem. Não sou como aqueles pobres coita-dos que você matou ali fora.
Neste momento Saddler abriu a boca e um olho apareceu dentro dela. Em seguida, em um movimento tão rápido que seria imperceptível a um ser humano comum, o líder dos Illuminados se levantou da cadeira e golpeou o militar. Só que Krauser não era um ser humano comum e conseguiu sair da cadeira, que foi feita em pedaços. Osmund Saddler ficou ali rindo.
- Parece que fala a verdade. Não foi blefe. Sim, você tem habilidades muito interessantes. Quanto tempo vai levar para me trazer a filha do presidente dos Estados Unidos?
- Uma semana. Quero mais dois homens para treinar. Eles serão úteis. Depois disso, posso me consi-derar parte de seus planos?
- Se me trouxer a filha do presidente dos Estados Unidos, conforme o combinado, sim. Fará parte dos meus planos. E será uma peça valiosa. A partir de agora, vou ordenar os aldeões que não o ataquem mais. Irá treinar um grupo para quando formos à América.
- Certo. Pode considerar o serviço feito.
Depois disso, Krauser se retirou. Saddler estava ainda cético no que acabara de ouvir, mas não custa-va nada tentar. Caso o soldado fosse burro o suficiente de traí-lo, teria de matá-lo. Mas isso não seria pro-blema.

* Cães contaminados com Las Plagas, que são fiéis aos membros da Seita Los Illuminados.


Capítulo 5

- Temos autoridade para fazermos o que quisermos com você. Com você e a garota.
A frase ecoava nos ouvidos. Os olhos estavam pesados. Era como se o som viesse de dentro da cabe-ça. Então, ele se viu dentro de uma sala, sentado em uma cadeira. Estava dentro de uma sala escura. O ar era pesado, denso. A respiração era difícil. O coração batia em disparada, como se quisesse saltar do peito. Leon Scott Kennedy olhava para os lados, mas não conseguia ver absolutamente nada. Isso se devia ao fato de estar bem no centro de um facho de luz que praticamente o cegava. Fora deste círculo iluminado, apenas a escuridão. Então, a única coisa que ele conseguia enxergar era um ponto vermelho piscando à sua frente, in-dicando que havia uma câmera. Havia alguém a operando? Isso, ele não sabia dizer, embora soubesse que o estavam vendo. E isso o deixava inquieto e com medo. Quem estava ali? Quais as intenções? Na situação em que estava, poderiam fazer o que quisessem com ele mesmo. Não era blefe de quem falava. Não era força de expressão. Mas ao que tudo indicava, eles iriam querer que ele fizesse alguma coisa. Mas o que seria?
- Deixe ela fora disso!
Leon gritava, sabendo que se quem quer que fosse, se quisesse fazer algo, faria. Mas tinha de falar igual. Então, a voz falou:
- Uma inocente carrega o anticorpo G. Não se preocupe. Estamos tomando conta dela muito bem. A verdade é que você tem a experiência que estamos procurando. Então, se quer que tudo termine pacificamen-te, você só tem uma opção. Trabalhe para a gente.
De repente, estava em outro local. O sol queimava, apesar de sua pele estar grudando, devido ao pro-tetor solar combinado com o suor, misturado a repelentes para mosquitos, que eram abundantes. Havia mui-tas árvores ao redor, altas, com muitas folhas nas copas. O chão de terra estava úmido, o que parecia ser algo constante ali, devido ao clima e à alta umidade relativa do ar. Quando caminhava, pisava em folhas, muitas delas caídas. E vez por outra, saíam por baixo destas folhas aranhas, sapos, rãs e outros animais pequenos. A vegetação também servia de esconderijo para outros animais, como insetos, aracnídeos, cobras, dentre outros. Era preciso ter cuidado ao pisar sobre as folhas e passar por galhos de árvores. Além do mais, o sol incomo-dava. Batia nos olhos, de forma a fazer com que eles tivessem de caminhar o tempo todo com a mão à frente para fazer sombra.
Leon parou e olhou para uma foto. Sim, era o homem que ele teria de capturar. De repente, um baru-lho atrás de si o fez se virar para trás. Um soldado vinha caminhando em sua direção, com uma cobra na pon-ta da faca, bebendo água de sua garrafa displicentemente. O agente quase fora atacado por uma cobra, mas o homem que vinha para o seu lado o havia salvado. Leon foi agradecer, mas Jack Krauser, jogando a cobra morta, perguntou:
- Você acha que armas biológicas realmente existem? Sim, diz que as enfrentou antes.
Ao dizer isso, Krauser passou por Leon, lhe jogando a garrafa com água. Depois parou à sua frente e ficou observando o terreno com seu binóculo. O agente estava trabalhando com o soldado pela primeira vez. Era o chefe de Operações Especiais e possuía uma grande fama, devido aos seus êxitos em campo de batalha. Mas não fazia diferença entre as criaturas de Raccoon City e armas biológicas. Krauser então se virou para Leon e disse:
- Vamos. Nosso guia deve estar nos esperando para irmos até onde Javier está escondido.
Sim, o homem da foto era Javier Hidalgo. Estava em uma missão na América do Sul, atuando em parceria com Jack Krauser. No entanto, o que eles enfrentaram lá não foram pessoas, mas zumbis. Leon Scott Kennedy não achou que enfrentaria aquelas criaturas novamente tão cedo. E na América do Sul? Era eviden-te que Javier tivera contato com a Umbrela e que estava fazendo experiências com as pessoas do povoado, as contaminando com o Vírus T. Então entraram em um galpão.
O chão de madeira estava parcialmente destruído e havia água. O local parecia ter sido construído sobre um rio. Uma garota estava sentada na parte do piso de madeira que restava, com as pernas na água. Seus braços estavam escorando seu corpo, apoiados no chão e ela olhava para a janela, por onde entrava a claridade. Ao lado dela, estava uma criatura quase que totalmente mergulhada, apenas com a cabeça para fora da água. Seus olhos eram dois pontos azuis. Krauser fez um sinal para Leon prestar atenção à criatura.
Leon então sacou a pistola e fez mira. A garota caiu no chão e o monstro se levantou da água e se dirigiu aos dois. Era uma criatura grotesca, com pernas? Tentáculos? Não dava para saber ao certo. Mas não teriam como enfrentar aquela coisa naquele momento. Então, enquanto um dos dois distraiu a criatura, o ou-tro apanhou a garota. Não dava para ver com clareza como a batalha seguiu, mas de repente, estavam em um barco, ele, a moça e Krauser. Ela usava um vestido branco, mas estava manchado de sangue. A pele dela era clara e o cabelo castanho claro. Seus olhos azuis olharam para os dois assustados. Leon sorriu para ela. - Não se preocupe. Não vamos lhe machucar.
Enquanto ele movimentava o leme do barco, junto ao motor, Krauser ia à frente, com um binóculo, para ver o que os esperava na margem, ou dos lados. À frente, havia uma espécie de represa. O barco foi na-vegando e Leon não teve mais certeza do que aconteceu. Tudo começou a ficar anuviado. Era como se esti-vesse tentando se lembrar de algo, mas não conseguia. Tudo ficou escuro, mas a sensação de inquietude au-mentava. Sentia-se tenso. Queria falar, mas não conseguia. A fala entalou na garganta. Então, de repente, voltou a enxergar.
Leon, Krauser e a garota estavam diante de um homem. Ele usava um casaco de couro, um colete e um colar. Seu cabelo era castanho claro. Seu rosto era emoldurado por uma barba aparada e um bigode sobre os lábios. Usava óculos escuros e tinha uma expressão dura no rosto. Estava olhando para eles do alto, dan-do-lhe uma imagem de arrogância. Ele falava algo com a garota, mas não dava agora para entender. Leon não ouvia sequer o que era dito, apenas viu que o homem falava algo. A garota era sua filha e parecia assustada. De repente, Krauser se virou para trás e para cima. Era como se estivesse ouvindo algo. Uma corrente de água invadiu o local, que se inundou e a garota se jogou na água, sendo levada para a represa.
De repente, os três estavam no alto da represa. Como foram parar lá? Não dava para saber. Leon e Krauser se aproximaram da garota. Ela retirou uma faixa do braço. O que eles viram… O braço dela parecia estar… com as veias e artérias todas aparentes. Sim, ela fora infectada. Enquanto ela falava, o agente sentiu um aperto no peito. Não sabia o motivo. Não conseguia ouvir o que era dito, mas algo estava provocando um sentimento estranho. Uma angústia. Queria sair dali. Queria estar longe dali. De repente se sentiu sozinho, não viu mais a garota, nem Krauser, nem ninguém. Parecia que estava caindo em um grande poço, sem luzes. Então, abriu os olhos e viu a claridade novamente.
Estava agora em meio à floresta, com a vegetação a lhe rodear. Folhagens, árvores, folhas caídas. Le-on estava com um binóculo, pesquisando o território. Via caminhões com um toldo a cobrir as carrocerias. Então, foi chamado e se virou para o lado. Era Krauser.
- Temos que cuidar da garota antes que seja tarde. É questão de tempo apenas. Até que ela se torne uma ameaça.
- Javier conseguiu impedir que Manoela se transformasse. Tenho de descobrir como.
Leon entregou um tablet contendo dados de sua missão. Krauser ficou olhando por algum tempo e viu que seu parceiro recebia ordens diretas do presidente dos Estados Unidos. Então, ele ergueu a cabeça e olhou para Leon.
- Minha missão é erradicar esse vírus de uma vez por todas.
Leon respondeu:
- Pretendo fazer isso, com a sua ajuda.
Krauser abaixou a cabeça e ficou em silêncio por alguns segundos. Então, falou:
- Sou apenas um soldado. Suas ordens são diretas do presidente. Estou do seu lado. Parece que sou apenas um peão neste jogo.
Depois disso, Krauser estendeu a mão e ele e Leon trocaram um aperto de mãos. Krauser riu.
- É hora de arrasar.
Então, estavam dentro de um laboratório. Havia estantes, prateleiras fechadas e dentro delas, grandes vidros com… órgãos humanos. Estavam fazendo experiências. Leon avançou para uma cortina e a abriu. O que ele viu atrás dela… eram seres humanos mortos e embalados em plásticos transparentes. Então, ouviu o baque de um corpo caindo no chão. Era a garota que viera com eles. Por uma porta lateral, o homem, que devia ser Javier apareceu. Krauser apontou a arma para o homem. Eles falaram algo, mas Leon não conseguia se lembrar.
Leon segurou a garota nos braços. Ela estava fraca. Parecia que perdia as forças e que poderia morrer. O agente se lembrou dos zumbis. Não podia deixar que ela morresse. Algo dizia a ele que ela se transforma-ria. O homem disse algo como ficar mais forte. Então, surgiu um monstro igual ao que estava na cabana de onde eles retiraram a garota saltou.
A criatura atirou algo que parecia uma estaca de madeira. Ela se cravou no chão. Leon recarregou a arma e passou a atirar naquela coisa. Era enorme. A cabeça era grotesca e ficava no meio do corpo. Os olhos eram dois pontos azuis brilhantes e parecia que aquela coisa tinha presas na boca, como uma grande aranha. De repente, o agente viu outra estaca daquelas voando. Agora na direção de Krauser, que disparou sua arma. Leon tentou acertar aquele objeto que voava. Iria atingir seu parceiro de missão. Leon quis gritar para Krau-ser, mas era óbvio que ele tinha visto que era o alvo da criatura. Seria atingido. O agente gritou.
E então, estava sentado na poltrona de um avião. O peito subia e descia. Sua respiração estava ofe-gante. Leon olhou para os lados e havia alguns passageiros olhando para ele. Estava suando, apesar de o cli-ma estar frio ali. Então, notou que suas mãos estavam contraídas e estava agarrando os encostos com tanta força que seus dedos estavam praticamente furando o estofamento. O coração batia acelerado. Dava para ouvi-lo. Leon se perguntou se os outros conseguiam ouvir também. É claro que não. O agente foi se acal-mando aos poucos, controlando a sua respiração até normalizar.
Então, a pergunta. Por que este sonho? Sim, ele passara por tudo isso. Foi a missão Javier Hidalgo, na América do Sul. Fora bem-sucedido, mas algo lhe incomodava profundamente. Sim, ficara algo mal resolvi-do. Leon sempre que se lembrava da ocasião, ficava com a impressão que Krauser fora ferido por sua culpa. Que ele poderia ter evitado. O ferimento fora grave. O soldado ficou praticamente fora de combate. E ficou inconformado. Krauser, que sempre fora ele a liderar os grupos do qual fazia parte. Que sempre era ele a res-gatar os outros e a ter êxito em suas campanhas. Daquele momento em diante, dependia de Leon. Isso feriu de morte o orgulho dele. Feriu também sua alma.
Tudo não teria passado disso, mas para piorar, o ferimento parece ter sido mais grave do que se pode-ria supor na ocasião. Leon soube que Krauser nunca conseguiu recuperar totalmente aquele braço e que teria sido aposentado algum tempo depois. Sim, aquele objeto que o monstro jogou certamente tinha algo além. Mas teria sido Jack Krauser infectado com alguma coisa? Leon não sabia dizer. Tudo a que se referiu ao mili-tar a partir daí, ficou envolto em uma espécie de cortina de fumaça. As informações eram desencontradas e não se sabia se eram verdade ou simplesmente boatos.
Algum tempo depois, circulou a notícia de que Krauser havia morrido em um acidente de helicóptero. Mas não houve nada de oficial nessa informação. Sequer houve algo no exército, nem velório, nem enterro. Se fosse totalmente verdade isso, certamente haveria alguma cerimônia com honras militares, a final de con-tas, Krauser era um dos melhores soldados e sempre fora uma peça valiosa nas forças armadas. Até aquela fatídica operação. Mas não se podia esquecer o que ele fizera, nem desprezá-lo por ter sido ferido em comba-te. Mas não adiantava ficar agora, divagando. Logo o avião iria descer no aeroporto de Madri, onde Leon estaria sendo esperado pela polícia local, que o ajudaria a chegar ao povoado, onde teria de cumprir sua mis-são. Leon olhou pela janela e ficou pensando no que o aguardaria.


Capítulo 6

O carro compacto vermelho de Luis Sera atravessou a ponte de madeira que dava acesso a El Pueblo. Assim que parou o veículo, o pesquisador desceu. Em suma, tudo estava tal como era em sua lembrança, com pequenas casas, todas simples, estradas de terra batida, carros velhos parados perto das moradias. Ali o tempo parece ter simplesmente parado. Mas havia algo diferente. Sim, algo que deixava a paisagem triste, melancólica. O abandono. Tudo ali parecia abandonado.
Sera caminhou e não viu nada que lembrasse um povoado vivo, alegre, uma comunidade pulsante, como tinha em sua memória. Não enxergou grama plantada nos pátios das residências, nem flores, seja em canteiros, seja em vasos. Apenas viu árvores nativas, que estavam com as folhas começando a cair dos galhos, pois já se chegava ao outono. Não havia pássaros, apenas corvos nos galhos e no chão. Um deles parecia estar remexendo a terra com o bico, como que procurando algo. Assim que Luis deu alguns passos à frente, eles voaram. Tudo ali estava em silêncio. Os únicos sons que podiam ser ouvidos eram os corvos crocitando nas árvores e os passos de Luis Sera nas folhas que cobriam o chão.
As casas traduziam a sensação de abandono. A pintura delas estava descascando. Havia sinais de mofo nas paredes. Os telhados, em alguns casos, pareciam quebrados. E para completar, as janelas tinham tábuas pregadas e fixadas na horizontal, como se não quisessem que enxergassem do lado de dentro. Sera continuou caminhando pelo local. E notou que do lado de dentro de algumas casas, havia movimento. Parecia que o estavam espionando. Mas ninguém saiu para lhe receber. Mesmo se não se lembrassem dele, Sera imaginou que teria uma recepção. Será que estão com medo por causa da infecção? Foi o que pensou. Então, se dirigiu até o local onde deixara o carro, perto da ponte. Foi neste momento que aconteceu um fato que iria começar a mudar tudo o que estava pensando.
Ao passar pela casa próxima de seu carro, um dos aldeões saiu. Sera não se lembrava de quem era. Usava uma roupa simples, uma calça jeans, uma camisa bege e um casaco de lã fechado. O pesquisador sorriu e foi ao encontro do homem. Não haveria má vontade nem desconfiança que pudessem resistir a um largo sorriso e um aperto de mãos. Era o que pensava Sera.
- Bom dia meu senhor. Não sei se lembra de mim, mas eu morei aqui. Nasci e cresci aqui. Chamo-me Luis Sera.
Sera caminhou na direção do aldeão e estendeu a mão. O homem continuou caminhando na direção do pesquisador. Foi então que o visitante percebeu que o dono da casa tinha um machado na mão. E ele vinha na sua direção. De repente, Sera parou e ficou apreensivo. O aldeão não parava e seguia caminhando. Foi neste momento que Luis notou que a expressão do seu anfitrião não era nem um pouco amistosa. O aldeão apressou o passo e quando chegou perto, ergueu o machado. Sera recuou. De repente, o aldeão o atacou. Sera rolou para o lado, esquivando-se da arma. Então se levantou e continuou caminhando para trás. Neste momento, ouviu um barulho atrás de si e viu mais dois aldeões se aproximando por trás, um portando um arado e outro um facão. Os três estavam indo na direção do pesquisador. Um deles gritou:
- Um forasteiro! Agarrem-no!
O que? Estavam planejando matá-lo? Não podia ser verdade. Sera tentou ir para o lado, mas estava cercado. Não tinha para onde ir. Seria morto ali. Estava desarmado, cercado. Não teria como se defender. Não teria como fugir. Era o fim. Mas por que aconteceu isso? Fora chamado para uma armadilha? Mas por qual motivo? Então, quando os aldeões se aproximaram e Sera fechou os olhos, esperando pelo golpe que tiraria sua vida, tudo parou. E ouviu a voz de Osmund Saddler.
- Parem. Ele está aqui comigo.
Neste momento, os aldeões pararam e se voltaram para o seu líder, se prostrando. Todos repetiram:
- Lorde Saddler.
O que isso significava? Todos aqueles aldeões veneravam esse homem? Sera ficou admirado olhando aquela cena. Saddler veio até ele e estendeu a mão.
- Perdoe-me senhor Sera. Cheguei um pouco atrasado. Espero que eles não tenham lhe deixado em alguma situação desconfortável.
Desconfortável? Por pouco não me mataram, pensou o recém-chegado.
- Confesso que senti medo.
- Muito bem. Não precisa mais ter medo. Eles não lhe farão mal. Vamos, entre no meu carro. Vou levá-lo até a casa de Bitores Mendez.
Sera olhou para trás.
- Penso que seria melhor eu ir no meu carro.
- Não tem perigo algum aqui. Pode deixá-lo perto da casa do Esteban. Será melhor você chegar comigo, para que todos vejam que fui eu quem o trouxe.
- Certo.
Mesmo contrariado, Sera aceitou. Mas por que motivo estes homens estão tão violentos? Por que atacam as pessoas? Será algum efeito colateral da infecção? Mas este parasita teria algum poder sobre o comportamento das pessoas? Bem, era isso o que ele iria estudar. Era sobre isso que ele iria pesquisar. E esperava encontrar respostas.
- Senhor Saddler. Diga-me uma coisa. O que aconteceu a estes homens? Por que este comportamento?
Saddler dirigia sem olhar para o lado, apenas falou:
- É um comportamento causado por causa do parasita. Não temos certeza disso, apesar de estarmos convictos de que sim. É por isso que o senhor está aqui. Para descobrir se é isso o que muda o comportamento das pessoas e se há uma cura.
- Sim. O senhor pode ter certeza de que me empenharei o máximo que puder.
O carro seguiu até uma grande casa. Saddler não foi pelo caminho mais curto, mas sim deu uma volta contornando o povoado. Eles desceram e Bitores Mendez os estava esperando. Os dois seguiram até a entrada da casa. O anfitrião se adiantou.
- Bom dia, senhores. Lorde Saddler, Luis Sera. Espero que sua estadia aqui seja proveitosa. Vamos nos dirigir ao seu laboratório.
- Muito obrigado. Espero corresponder às expectativas.
Saddler deu um sorriso e olhou para o pesquisador.
- Tenho certeza que o senhor atingirá os objetivos.
Os três caminharam para dentro da casa. Sera ia observando o interior da moradia do prefeito da vila. Era um local com um mobiliário antigo, mas de boa qualidade. Tudo em madeira fina. Havia muitos quadros nas paredes também. Ele já andara pela casa de Mendez quando era jovem, mas pouco se lembrava. Então, de repente foram para uma escada que conduzia a um porão. Quando chegaram, o dono da casa quebrou o silêncio.
- Muito bem. Sinto muito não poder oferecer um local melhor, mas o único cômodo da casa com espaço para acomodar um laboratório era o porão. Terá de trabalhar aqui.
Luis Sera olhou para o local. Sim, era um porão, não teria ventilação adequada, mas poderia sim trabalhar ali. Havia um bom equipamento e então, sobre uma mesa, ele viu um cilindro, semelhante ao que tinha no local onde trabalhava na Universidade, com o mesmo símbolo de risco biológico. O cientista se dirigiu a ele e o apanhou, ficando o observando por algum tempo. Saddler então tomou a palavra.
- Esta é uma amostra do parasita. Esperamos que o senhor consiga desenvolver um bom trabalho.
Sera olhou para o líder da seita.
- Pode ter certeza que vou me empenhar ao máximo.
Mendez então, disse:
- Acho que primeiro vamos acomodar nosso visitante.
Sera olhou ao redor e respondeu:
- Preciso pegar meus pertences. Estão em meu carro. Vou ficar hospedado na casa de meu avô?
Bitores Mendez se adiantou e respondeu à questão.
- Senhor Sera, a casa dele já foi ocupada por outros moradores. Sem contar que acabará perdendo muito tempo indo e vindo. Ficará hospedado aqui em minha casa.
- Tudo bem. Só preciso de meus pertences.
- Vamos, eu lhe levo. Lorde Saddler, agora já está tudo sob controle. Acredito que já pode retornar à igreja.
- Sim, estou indo.
Mendez levou Sera até seu carro e os dois foram até a entrada do vilarejo, pelo mesmo caminho por onde Saddler veio. Depois, o cientista entrou no seu carro. Antes, o prefeito disse:
- Siga-me.
Enquanto dirigia de volta, sempre seguindo Bitores Mendez, Sera ficou se perguntando como Saddler conseguiu conter aqueles aldeões enfurecidos. Eles pareciam ter parado antes mesmo de ele falar. E será que agora teria segurança para circular pelo vilarejo? Será que agora os aldeões não mais o atacariam? Não demorou até que chegassem à casa do prefeito, que disse:
- Senhor Sera, se não se importa, tenho afazeres. Pode se acomodar. Se precisar de ajuda, tenho alguns empregados que o atenderão. Pode pedir auxílio a eles.
- Senhor Mendez. Tenho uma pergunta. Logo que cheguei, os aldeões me atacaram e poderiam ter me matado. Só não o fizeram por que o senhor Saddler impediu. Será que não é perigoso para mim, ficar sozinho?
- Não precisa mais se preocupar. Eles não o atacarão mais.
Dito isso, Bitores Mendez saiu. Enquanto isso, Sera foi se acomodando no quarto de hóspedes. Um dos aldeões que trabalhava ali mostrou o quarto. Sera perguntou:
- Olá, o que tem aqui em volta? Se precisar comprar alguma coisa, onde posso ir?
O aldeão olhou com a expressão fechada.
- É só falar com o senhor Mendez, que ele providenciará o que for necessário.
Sera começou o trabalho no laboratório. A primeira coisa que ele notou foi que apesar de ter uma liberdade relativa, não conseguia deixar o povoado. Sempre que precisava sair, era acompanhado por Bitores Mendez, algum aldeão ou esporadicamente por Osmund Saddler. Mas não tinha do que reclamar, no geral. Pelo que podia perceber, o líder do culto começava a depositar alguma confiança no pesquisador. Apesar disso, percebia que o mesmo não ocorria com relação aos outros dois homens que o contrataram. Vez por outra, Ramon Salazar aparecia no vilarejo. Mas não chegava a trocar muitas palavras com Sera. No entanto, com o tempo, alguns comportamentos tanto do dono da casa, como do próprio Saddler começaram a levantar algumas suspeitas. Principalmente pelo fato de que o cientista já tinha praticamente a certeza de que eles tinham algum poder sobre os aldeões. Sim, era possível afirmar com no mínimo noventa por cento de certeza que eles controlavam os aldeões como marionetes. Por isso tinham certeza de que não o atacariam mais. Por outro lado, se por algum motivo deixassem de dar proteção a Sera, tudo poderia mudar do dia para a noite.
Luis Sera começou a descobrir fatos sobre os parasitas que o deixaram muito intrigado e foram cada vez mais confirmando suas suspeitas sobre Osmund Saddler. Mas para ter a comprovação, seria preciso uma cobaia. Só que, usando as amostras do Las Plagas, foi possível compreender que os hospedeiros do parasita acabavam sendo manipulados por eles. Ou seja, além de infectar os contaminados, o parasita era capaz de interferir no sistema nervoso do ser a que estavam acoplados, modificando seu comportamento.
Sera implantou amostras do parasita em pequenos ratos que ele coletou. Chegou a uma conclusão que era ao mesmo tempo surpreendente e assustadora. Se os parasitas poderiam controlar seus hospedeiros, o que poderia acontecer se alguém controlasse o parasita? Teria uma multidão de pessoas sob seu controle. O problema é que, os infectados acabam morrendo. Será que o objetivo de Saddler com a pesquisa era permitir que eles continuassem vivos por mais tempo? Ainda era cedo, todavia, acabaria pondo a prova as reais intenções do líder da seita mais cedo ou mais tarde.
Um acontecimento chamou a atenção positivamente de Luis Sera. Com o tempo, Osmund Saddler foi confiando cada vez mais no pesquisador. E essa confiança foi colocada à prova quando este colocou frente a frente o líder dos Illuminados e o prefeito da vila. Estavam os três reunidos e Sera disse:
- Meus caros. Para poder levar a diante minhas pesquisas, precisarei de uma máquina que emita radiação. Semelhante a do laboratório que existe na ilha.
À essa altura, Saddler já tinha levado o pesquisador para uma ilha, onde estava montando uma instalação que lembrava uma base militar. Sera estava ficando inquieto e assustado com o que via, mas não queria levantar suspeitas de suas desconfianças. Saddler respondeu:
- Não temos como adquirir mais uma, mas você pode ir à ilha quando quiser.
Sera prosseguiu, sem saber até onde poderia esticar a corda.
- Preciso então, ter livre circulação entre o vilarejo, o castelo e a ilha. E no momento, a única maneira de sair é com a permissão de Bitores Mendez. Mas pode acontecer de eu precisar sair e não o encontrar.
Mendez fez cara de poucos amigos e disse em tom ríspido.
- Não há outra forma de sair que não seja com minha presença. Não sei se o senhor percebeu, mas a chave que abre o portão é o meu olho de cristal.
Saddler olhou com uma expressão séria para o prefeito.
- Então o senhor irá providenciar uma réplica para o nosso convidado. Ele não é nosso prisioneiro. Tem a liberdade de ir e vir. E se não o deixarmos levar a diante nossa pesquisa, pode acontecer de mais gente morrer por causa da infecção. Inclusive nosso amigo Salazar. E até você.
Bitores Mendez encarou o líder da seita.
- Dar uma réplica do meu olho?
Saddler fuzilou Mendez com os olhos.
- Questiona minhas ordens?
Bitores Mendez baixou a cabeça.
- De jeito nenhum.
Depois disso, Sera percebeu que gozava da confiança de Osmund Saddler, mas que isso despertava certo ressentimento em Bitores Mendez. Só que cada vez mais, o cientista via coisas que achava horríveis. Saddler fazia experimentos. Escondido, o cientista percorreu outros laboratórios tanto no castelo de Salazar, como na ilha e viu que eles estavam “fabricando” criaturas monstruosas. A ideia deles era fazer um exército obediente a Saddler. Mas Sera tinha de manter suas descobertas em silêncio. Então, um dia ele ouviu uma conversa que nunca mais esqueceu. Era de Saddler com Mendez.
- Senhor Mendez, nosso plano está em andamento.
- Mas o senhor confia naquele americano?
- Não. Mas ele já fez a sua parte. A garota já está na igreja. Sob nosso poder.
- Só que agora que ele trouxe a filha do presidente dos Estados Unidos, irá querer ter regalias.
- E ele merece. Mas agora, ficarei na ilha vigiando-o constantemente. Krauser não poderá fazer nada que eu não permita.
Sera saiu de perto para não ser visto. Mas eles estavam com a filha do presidente dos Estados Unidos? Era sequestro. Sim, Saddler não é do bem. Seu instinto estava certo. Os objetivos dele não poderiam ser bons com relação ao parasita. Com certeza estava querendo encontrar uma maneira de manter as pessoas sob seu controle.
Então, um dia, Sera teve um mal-estar terrível. Seu sangue pareceu ferver nas veias e a cabeça parecia que iria estourar. Depois de alguns autoexames e de se olhar no espelho, especialmente após ver alguma coisa estranha em seus olhos, chegou à conclusão. Fora infectado. Sim, sentiu uma manhã uma dor estranha no pescoço, como se tivesse sido picado. Achou que fora um inseto, mas certamente, fora uma agulha. Então, a partir de agora, a cura seria ainda mais necessária. Ele precisaria se curar.
A maneira que usaria para exterminar a plaga seria uma exposição à radiação. Poderia dar resultados, mas somente se o parasita não houvesse se desenvolvido por completo ainda. Nos ratos, isso havia dado resultado. Um dia, Sera arriscou. Uma das aldeãs que Sera observou. Parecia ainda não estar completamente com o parasita desenvolvido. O cientista a chamou dizendo que precisava encontrar o prefeito. Quando ela se distraiu, o cientista a pôs para dormir. Depois, levou-a escondido até a ilha, onde ficava o laboratório. E lá, a expôs à radiação. E como previa, aconteceu o que se esperava. O parasita foi destruído. Quando a aldeã acordou, já estava de volta ao vilarejo e livre do Las Plagas. A primeira coisa que ela disse foi:
- O que está acontecendo?
Sera olhou para a mulher. Sabendo que não teria como operar a máquina e ser ele mesmo a cobaia, teria de ter um colaborador. Mais alguém desinfectado. Então, disse:
- Você estava doente, mas eu consegui lhe curar. Agora, preciso que ajude a me curar também.
Sera explicou a ela como manipular a máquina e levou-a à ilha. Agora não precisou mais se esconder, pois estava com um dos aldeões. Estava sendo “vigiado”. Saddler e os demais não sabiam ainda que esta aldeã já não era mais infectada. Não obedecia mais a Saddler. Sera, no entanto, a preveniu.
- Se você não quiser morrer, terá de agir exatamente como os demais aldeões. Se eles desconfiarem de algo, irão matá-la.
Sera, no entanto, começou a ficar com medo. Não conseguia mais caminhar sem olhar para trás. Sem pensar que a qualquer momento poderia ser surpreendido por algum aldeão enfurecido. Ou até mesmo pelo prefeito da vila. Antes que fosse tarde, ele escreveu um e-mail a um amigo, ex-colega de faculdade, relatando o que presenciou e pedindo ajuda.

Caro Juan. Preciso urgentemente de sua ajuda. Fui contratado para trabalhar em meu vilarejo natal. Era para descobrir a cura de um parasita que vinha infectando a população local. Este parasita se chama Las Plagas. Só que quando iniciei as pesquisas, vi coisas horríveis. Na verdade, este parasita controla o comportamento de seus hospedeiros. E vi que as pessoas que me contataram controlam os parasitas. O que eles queriam era que eu não permitisse que o parasita fosse removido do hospedeiro. Eles me infectaram, mas consegui me curar. Livrei uma aldeã também do Las Plagas. Temo pelo que pode ocorrer a ela. Por favor, vou mandar minha localização neste mapa e tente chegar o mais próximo possível do vilarejo. Desconfio que se não sair logo, vou acabar sendo morto.

Alguns dias depois, Sera recebeu um e-mail em resposta. Mas não foi seu amigo Juan que respondeu.

Prezado Luis Sera. Seu amigo Juan está morto. Não se sabe como. Eu me chamo Ada Wong e trabalho para uma organização que vem vigiando este povoado há algum tempo. Estou me encaminhando para o vilarejo e vou lhe trazer em segurança para os Estados Unidos. Mas antes preciso de um favor. Consiga-nos uma amostra do parasita. Precisamos dele para produzir uma cura, caso Saddler resolva usar esta arma biológica para espalhar terror pelo mundo.

Luis Sera aceitou, a final de contas, não seria tão difícil conseguir uma amostra do parasita, principalmente pelo fato de ele ainda ter liberdade de se locomover pelo vilarejo, ao castelo e à ilha. Seria um problema a partir do momento em que se tornasse uma ameaça aos Illuminados. Mas por enquanto, gozava da confiança de Osmund Saddler. Não sabia, no entanto, por quanto tempo. Mas uma coisa o incomodou. Como esta mulher conseguiu ler o e-mail que ele enviou? Bem, isso pouco importava agora, desde que ela o ajudasse a sair dali.
Aos poucos, a aldeã curada foi vendo que o que se passava e foi falando a Sera os horrores que presenciava. Depois de ter se curado, Sera chegou ao dia mais crítico de sua pesquisa. Iria comunicar a Saddler que conseguiu descobrir a cura. Pensava em, caso fosse necessário, demonstrar que agora, com este conhecimento, faria o que o líder dos Illuminados quisesse. Então em frente a Bitores Mendes, o pesquisador estava cheio de confiança. No entanto, precisaria sair vivo dali. Tinha de conseguir ajuda.
- Senhor Sera. Em que posso lhe ajudar?
- Desejo falar com o Lorde agora.
Bitores Mendez não gostou nem um pouco do tom de voz do visitante.
- Não sei o que o senhor pode ter de tão importante para falar com Lorde Saddler, mas pode ter certeza que passarei o recado.
- Quero falar pessoalmente.
Mendez mais uma vez demonstrou contrariedade.
- O Lorde é muito ocupado. Fale comigo.
- É um assunto que tenho de passar primeiro a ele. Depois e só quando tiver certeza de que posso revelar o que descobri é que ele dirá aos demais.
Com muita contrariedade Mendez saiu. Não demorou para que Saddler viesse. Assim que o carro do prefeito do vilarejo encostou ao lado da casa, Sera ficou pensando em como iria se dirigir ao líder dos Illuminados. Não teve muito tempo para pensar. Logo os dois estavam entrando na casa. Bitores Mendez parou em frente ao pesquisador, com uma expressão séria no rosto. Então disse:
- Aqui está o Lorde.
Saddler, sempre com uma expressão risonha, saudou Sera.
- Muito boa tarde. Qual o assunto tão urgente para tratar comigo?
Sera pensou bem nas palavras que usaria, então, se dirigiu ao líder da seita.
- Senhor Saddler. Tenho excelentes notícias.
Saddler ficou sério, mas logo riu.
- Que ótimo. Conte-nos.
Pelo jeito, Bitores Mendez estaria junto com eles para ouvir. Então, Sera disse:
- Encontrei a cura.
Os dois arregalaram os olhos. Osmund Saddler então, voltando ao normal, perguntou:
- Como? Tem certeza?
Sera sorriu antes de prosseguir.
- Sim. Absoluta. Embora, para poder extirpar o parasita do corpo do hospedeiro, o desenvolvimento do hóspede não pode ter se completado. Caso contrário, o hospedeiro morre. Mas se ainda não houve o desenvolvimento completo do parasita, é possível curar a pessoa sim.
Saddler então, encarou Sera.
- E como o senhor pode afirmar que isso funciona?
Sera estava com medo, mas agora não tinha mais como recuar.
- Eu removi o parasita que tinha em meu corpo. Eu sei que acabei me infectando. Não sei como. Acredito que possa haver alguma forma de contaminação pelo ar. Foi assim que muitos mineiros se contaminaram, pelos relatos que ouvi. Certo?
Saddler sorriu.
- Sim. Os primeiros infectados na mina se contaminaram pelo ar que respiraram.
- Os primeiros?
- Sim. Os primeiros.
- E os demais?
Saddler riu. Sera não percebeu, mas estava cercado.
- Os demais? Eu mesmo me encarreguei de infectá-los. É uma pena que às vezes as coisas tomem rumos que não gostaríamos e, acredite. Eu estava começando a me afeiçoar a você.
Neste momento, Osmund Saddler deu meia volta e caminhou em direção à porta. Bitores Mendez o seguiu. O cientista tentou chamar o líder da seita, para convencê-lo que era de confiança, mas já era tarde. Quando Sera foi sair na direção que os dois tomaram, sentiu uma forte dor de cabeça e tudo ficou escuro. Quando acordou, sem saber quanto tempo havia se passado, não conseguia enxergar absolutamente nada, apesar ter aberto os olhos. Seus pulsos estavam amarrados, bem como seus pés. Então se deu conta de que estava dentro de algum móvel não muito grande. Começou a se debater. Devia ser alguma espécie de armário ou coisa do gênero. Depois de um tempo, desistiu. Sabia que ninguém o ouviria. E se ouvissem, não faria diferença mesmo, a final de contas, eram todos fiéis a Saddler. Com certeza, só sairia dali para morrer.


Capítulo 7

“1998... Eu nunca vou esquecer. Nesse ano ocorreram terríveis assassinatos nas Montanhas Arklay. Logo depois, a causa foi descoberta e todo o mundo tomou conhecimento: umas armas virais secretas conduzidas pela Atividade Farmacêutica Internacional - Umbrela. O vírus brotou em uma pequena cidade nas montanhas – Raccoon City. Foi um golpe devastador, que deu fim à pacífica habitação. Para evitar riscos, o Presidente dos Estados Unidos pôs em marcha um plano de contingência para esterilizar Raccoon City. Depois, o governo americano decretou a suspensão indefinida das atividades empresariais de Umbrela. Mais tarde, suas ações caíram, o que acabou com a Umbrela.
Seis anos se passaram desde que o lugar ficou tão famoso pelos terríveis acontecimentos… Fui treinado por uma agência secreta seguindo as ordens diretas do Presidente. No meu novo emprego, sou encarregado de proteger a nova família presidencial. E a primeira missão foi pra lá de inesperada. Eu nunca pensei que teria que resgatar a filha do Presidente Graham logo assim de cara. Eu nem tinha visto a garota pessoalmente. E não tinha muitas esperanças quanto a ela quando chegasse lá. Parecia uma criancinha, mesmo já tendo vinte anos. Parecia indefesa. Talvez fosse tarde demais para seguir à sua busca. Mas era o meu trabalho. E tudo é melhor do que Raccoon City, embora este também fosse meu primeiro dia”.
Para cumprir a missão, Leon Scott Kennedy estava a bordo de uma viatura policial em um vilarejo da Espanha. O carro estava longe de ser confortável. Nada de controle de estabilidade, bancos de couro e condicionador de ar. Era inverno e estava muito frio, o carro pulava naquelas estradas ruins e havia um nevoeiro que nem deixava contemplar a paisagem do interior. Teria o serviço de inteligência americano apontado para o lugar errado? Leon não conseguia pensar que ali seria o cativeiro da filha do presidente dos Estados Unidos. Por quê? Qual a motivação para aquele sequestro? Nada parecia fazer sentido. Quem estava comandando aquelas pessoas? Para quem trabalhavam? Não estava convencido que encontraria muito mais além de aldeões agricultores que levavam suas vidas pacatas. Mas… era este o seu trabalho. E teria de pelo menos se esforçar ao máximo. Nem que fosse para ao fim, passar um relato dizendo que não encontrou Ashley Graham. Enquanto estava escorando a cabeça com o punho, praticamente em outro planeta, olhando, vez por outra pela janela, um dos policiais sentados no banco da frente falava com seu companheiro e chamou a atenção do agente americano.
- Por que eu sempre fico com os piores trabalhos?
Ele olhou para o passageiro por alguns segundos, antes de se dirigir a ele.
- Então, quem é você de verdade?
O motorista deu uma rápida espiada atrás e completou.
- Conte para a gente.
Leon, no entanto, não estava querendo conversar com aqueles dois policiais. Apenas olhou para a janela, na esperança que eles se dessem conta que queria apenas ficar em silêncio até chegar ao povoado. O policial que estava no banco do carona, no entanto, não pareceu adivinhar os pensamentos de Leon.
- Você está muito longe de casa, caubói. Você tem a minha simpatia.
Leon então se voltou para o policial que lhe dirigia a palavra. Não estava a fim de sorrir, mas era evidente que teria de falar alguma coisa a eles. Não adiantaria ficar em silêncio.
- Acho que é assim que os nativos quebram o gelo. De qualquer forma, você sabe do que se trata. Minha missão é resgatar a filha desaparecida do presidente.
O policial que estava no banco do carona virou-se para trás repentinamente, com indisfarçável ar de espanto.
- O que? Sozinho?
Leon então se desencostou do vidro lateral do carro e encarou o policial que insistia em puxar conversa, tentando ser o mais educado que conseguia.
- Acho que vocês não vieram para que pudéssemos cantar música ao redor da fogueira.
Depois de um tempo sem obter resposta nem do motorista, nem do carona, Leon completou sua frase.
- Bem, talvez sim.
O policial do banco do carona olhou para o lado, voltou-se para o passageiro do banco de trás e respondeu ao que ouviu.
- Americano maluco. É uma ordem direta do próprio chefe. Não vai ser moleza.
Leon encarou mais uma vez o policial no banco do carona e fez um sinal com a mão, apontando para este e para o motorista.
- Estou contando com vocês.
O policial no banco do carona fez um gesto, que Leon não soube interpretar. Logo depois, se virou novamente para frente, enquanto seguiam seu caminho. Alguns minutos mais tarde, o carro parou e o policial que não estava dirigindo desceu para urinar. O policial que estava dirigindo, apanhou um cigarro para fumar enquanto esperava pelo companheiro. Ofereceu um cigarro a Leon, que recusou.
Enquanto isso, Leon voltou a pensar na situação em que se metera. Que missão estranha era essa? Ainda parecia irreal. Deveria haver algum engano. Como iria encontrar a filha do presidente em um lugar daqueles? Não parecia ter a menor lógica.
“Foi pouco antes de eu assumir os deveres da proteção da filha do presidente que houve o seu sequestro. É por essa razão que estou nessa parte desolada da Europa. De acordo com nossa inteligência, há informações confiáveis de que uma garota muito parecida com a filha do presidente esteja aqui. Aparentemente ela refém de um grupo de pessoas não identificadas. Quem diria que a minha primeira missão seria um resgate?”
Enquanto isso, o policial lá fora estava aliviando sua bexiga apertada, pensando por que não tinha ido ao banheiro antes de sair? Sim, sabia que era uma longa viagem, e que se não fosse naquele momento, teria de sair durante o trajeto. Mas agora era tarde. Foi quando sentiu uma sensação estranha. Era como se houvesse alguém no meio daquele mato à sua frente. Mas olhou melhor e viu apenas árvores. Não havia ninguém. Mas sentiu um calafrio percorrendo todo o seu corpo. Parecia que a temperatura caía muito rápido. Deve ser por causa do rio que existe nas proximidades, pensou o policial, sem deixar de reclamar.
- Está congelando. Ficou muito frio de repente.
Então, caminhou apressadamente até o carro, mas quando se sentiu seguro, resolveu parar, ao lado da porta para dar uma olhada em redor. Examinou bem o local e concluiu que não havia nada o que temer.
- Deve ser a minha imaginação.
Logo depois de entrar, olhou para o motorista e para Leon.
- Desculpem a demora.
Seguiram viagem a partir de então, sem dizerem mais palavra. Quando chegaram a uma ponte de madeira, o cérebro de Leon parecia que estava pulando dentro de sua cabeça, de tanto que o carro sacolejava. Não se lembrava de ter andado em uma estrada tão ruim como aquela. Logo que cruzaram a ponte de madeira, o carro parou. Era o fim da viagem.
O policial que estava dirigindo apontou para a esquerda, onde ainda era possível ver apenas algumas árvores. Devido à cerração fechada, o campo de visão era muito curto.
- A vila é logo a diante.
Leon olhou para o lado que o motorista apontou antes de responder.
- Vou dar uma olhada.
O policial que estava de carona olhou para trás, antes de ser questionado por Leon.
- Vamos ficar vigiando o carro. Não queremos levar nenhuma multa.
Que desculpa ridícula, pensou Leon. Mas não quis responder o que estava pensando, pois teria de voltar com eles. E pelo jeito, não iria demorar muito ali. Mas respondeu com certo tom de ironia na voz.
- Multas, certo.
O policial que estava dirigindo ainda disse:
- Boa sorte.
Leon então abriu a porta do carro e desceu. Antes de sair caminhar pelo vilarejo, ainda questionou.
- Quem são esses caras?
O motorista abaixou o vidro antes de perguntar.
- Você disse alguma coisa?
Antes que Leon pudesse responder, um rádio transmissor via satélite que ele levava tocou. Era seu contato, Hunnigan. Do outro lado da linha, ela disse.
- Leon, espero que possa me ouvir. Eu sou Hunnigan e serei sua ajuda nessa missão.
Leon então olhou e viu que além de ouvir a pessoa com quem falava, havia a imagem dela também.
- Alto e claro. Pensei que você era mais velha. O nome da pessoa é Ashley Graham, certo?
- Correto. Ela é a filha do presidente. Então trate de se comportar, entendeu?
- Quem quer que sejam, escolheram a garota errada para raptar.
- Tentarei encontrar mais informações a respeito deles e de seus objetivos.
- Certo. Falo com você mais tarde. Desligando.
O cenário a frente de Leon não era dos mais animadores. Era a típica paisagem de um inverno rigoroso. Ele estava preparado para o frio. Usava um casaco bem grosso por cima do seu colete a prova de balas, que por si só já era bem pesado e esquentava bastante. À sua frente, desenhava-se uma floresta, com árvores já sem folhas, devido à época do ano. Alguns corvos descansavam em seus galhos nus. Não havia flores em nenhum lugar e o chão era basicamente terra com as folhas que caíram das árvores ainda no outono. A cerração impedia de enxergar longe. Sendo assim, teria de avançar com cuidado, pois poderia ser surpreendido por alguém que o estivesse esperando. Sacou a arma e começou a avançar. Uma placa indicava a direção do povoado. Neste momento, conseguia apenas ouvir seus passos e sua respiração, que formava uma pequena nuvem de vapor em frente ao seu nariz. De repente parou. Ouviu sons nas folhas. Olhou atentamente ao redor. Eram corvos. Assim que deu mais um passo, eles gritaram e voaram para os lados.
Avançou lentamente, olhando para os lados. Como não viu ninguém, foi seguindo a diante. Até chegar em frente a uma casa. A aparência dela era de uma casa de interior. Era de alvenaria com as janelas de madeira e com o telhado feito de telhas de barro. Havia um caminhão pequeno estacionado ao lado dela. Do outro lado, à esquerda de quem chega, havia uma carroça com uma caixa de madeira sobre ela. Deu a volta na casa e chegou até a escada que dava em uma varanda. Olhou ao redor para se certificar que estava seguro. Logo em seguida, procurou por sinais do dono da residência. Iria entrar de qualquer maneira. A porta estava aberta. Sim, pensou ele. Nesses locais do interior, as pessoas não costumam ter maiores cuidados com sua segurança. Não deve haver muitos casos de assaltos por aqui. Antes de entrar, mais uma vez pensou que não iria encontrar nada ali, a não ser um pacato aldeão, que olharia para a foto de Ashley e diria que nunca viu ninguém parecido. Depois, Leon andaria mais um pouco por ali e voltaria ao carro onde os policiais o aguardavam. Provavelmente iriam seguir para outras partes do povoado.
Leon entrou na casa. O piso era de madeira. A janela estava aberta, de modo que era possível enxergar o lado de fora. Havia uma estante, com pequenos objetos. Mas nada fora do normal. Coisas que qualquer pessoa possuiria. Iria, no entanto, procurar falar com o dono da propriedade, para confirmar o que já desconfiava. Que não tinha motivos para estar ali. Após dar mais alguns passos, ouviu alguém pigarrear. Sim, era seu anfitrião. Estava do outro lado da sala. Leon avançou, passou por uma parede que dividia parcialmente o cômodo onde ele estava da sala de estar. Apesar das aparências, procurou tomar cuidado ao entrar no outro ambiente. Não fez barulho e segurou a arma de modo que pudesse atirar rápido. Então que viu, não o surpreendeu. Existia uma lareira ao fundo da sala e um aldeão colocando lenha para queimar e remexendo para ativar a brasa. Era um pacato homem do campo. Meio sem jeito e o pior, sem falar espanhol, Leon se dirigiu até ele, torcendo para ser compreendido. De qualquer maneira, mostraria a foto de Ashley. Se aquele homem a vira, ele iria compreender. Caso contrário, o dono da casa faria algum sinal para deixar claro que não sabia de quem se tratava.
- Com licença, senhor.
O homem não demonstrou sinal nenhum de que ouvira o que Leon dissera. Talvez tivesse problemas de audição. Assim, o agente teve de contornar uma mesa colocada ao centro da sala e aproximou-se do dono da casa. Apanhou a foto de Ashley para mostrá-la.
Neste momento, o anfitrião parou o que estava fazendo e se voltou para Leon. O visitante mostrou a foto que apanhara do bolso e perguntou:
- Gostaria de uma informação. Consegue reconhecer a garota da foto?
O homem fez uma expressão de poucos amigos e respondeu de uma forma que Leon jamais esperava.
- Que diabos está fazendo aqui? Vá embora.
Leon não entendeu bem o que o dono da casa disse, pois não era fluente em espanhol, mas percebeu que não era bem-vindo. Tentando reunir toda a educação que tinha e a paciência que não tinha, para lidar com aquelas pessoas que nem sempre primam pelo polimento e educação, ainda disse em tom polido.
- Desculpe o incômodo.
Enquanto Leon se abaixou para guardar a foto de Ashley no bolso, no entanto, o cenário todo mudava radicalmente. O dono da casa apanhou um machado e quando Leon se deu conta, teve de se esquivar de um golpe que por muito pouco não tirou sua vida. Depois de desviar da lâmina do machado, o agente se levantou apontando sua arma para o aldeão.
- Parado.
O homem parecia não ouvir as palavras de Leon. Não dava a mínima para elas.
- Eu disse parado. Ou vou atirar.
Bem, pode ser o fato de o dono da casa não entender inglês, mas quando você tem alguém apontando um revólver para si, não se costuma avançar contra ele com um machado em punho. E o dono da casa continuou caminhando ameaçadoramente com o machado na direção de Leon. O homem ergueu o machado e desferiu mais um golpe na direção do visitante indesejado. Leon conseguiu esquivar e aproveitou que o dono da casa se desequilibrou para dar um chute nele, derrubando-o. Como o homem levantou novamente e veio para uma nova investida, Leon não teve escolha a não ser matá-lo. Disparou sua arma na cabeça do atacante. As lembranças de Raccoon City vieram à tona. Mas não, não poderia ser.
Logo em seguida, Leon ouviu o barulho do motor do caminhão que estava parado ao lado da casa ligar. Dirigiu-se até a janela para espiar o que era. Viu pela janela mais um homem chegando e ouviu barulhos vindos de longe. Eram gritos. Seriam os policiais que o acompanharam? Definitivamente, as coisas não estavam saindo conforme o planejado. Aqueles aldeões eram tudo, menos que Leon esperava que fossem. O rádio transmissor tocou novamente. Era Hunnigan.
- Tudo bem por aí?
Que hora para entrar em contato, pensou Leon. Mas ela não tinha culpa. Não sabia o que estava acontecendo. Teria de responder.
- Um nativo me deu problemas. Não tive escolha a não ser neutralizá-lo. Ainda há outros rodeando a área.
- Saia daí e vá até a vila. Pegue tudo o que for necessário para salvar a filha do presidente.
- Entendido.
Leon desligou o rádio e o guardou. Ouviu vozes de mais de um aldeão vindo do lado de fora da casa. Estavam cercando a propriedade. Teria de sair rápido e dar cabo deles. Estava correndo perigo. Dirigiu-se à porta por onde entrou, mas não conseguiu abri-la. Estava trancada. Teria de sair pela janela. Mas antes de sair, olhou para o homem que acabara de matar. E comprovou que não se tratava de um zumbi. Não era como em Raccoon City. Então, e só então, sentiu um cheiro muito desagradável. Foi até a escada que dava para o andar superior e sob ela havia vários cadáveres já em estado de decomposição. Sim, era óbvio que esta não era uma simples aldeia de pacatos homens do campo. Não devia haver enganos não. Já estava torcendo para que Ashley Graham estivesse viva e bem. Correu para uma das janelas e saltou para fora.
Leon caiu na terra e ao levantar, três homens armados já o cercavam. Teve de ser rápido para escapar de um golpe de foice. Então, sacou a arma e apontou para o homem mais próximo. Embora armados, nenhum estava com armas de fogo. Teriam de chegar perto para feri-lo. Então, com três tiros matou todos. Mirou na cabeça de todos. Ficou com esse hábito depois da última missão. Mal sabia ele, que teria de abandonar esse método para matar seus inimigos sem demora.
Leon correu até o local de onde viera para confirmar suas suspeitas. Sim, eram os policiais que estavam gritando. Quando chegou, não gostou nada do que viu. A ponte por onde vieram havia caído. Lá embaixo, no rio, estavam o caminhão que estivera parado ao lado da casa onde matara aquele aldeão e o carro da polícia que o trouxe. Após olhar bem para aquele cenário, Leon só conseguiu dizer uma palavra.
- Não.
Leon então partiu cumprir as ordens de entrar no povoado. Para isso, seguiu o caminho que antes estava bloqueado pelo caminhão, que agora estava caído no rio. No caminho, passou por pequenas casas de madeira. Não tinham piso, o chão era de terra. Ninguém devia morar nelas. Mais a frente, encontrou um cão preso em uma armadilha. O agente se abaixou e conseguiu soltá-lo. O cão saiu mancando, com a perna ferida. Leon esperava que ele ficasse bem. Seguiu o caminho.
Agora a situação mudou. Sim. Não se tratava de um pacato povoado de aldeões pacíficos, mas sim de uma população que não parecia disposta a tolerar ninguém que viesse de fora. Esperava encontrar Ashley o quanto antes, dar o fora e completar a missão.
Leon seguiu caminhando. Estava tenso. Sentia o coração acelerar. Tinha de ficar o tempo todo de guarda alta, pois não podia correr o risco de ser pego desprevenido. Os aldeões conheciam bem o território e podiam aproveitar-se das árvores e das inclinações do terreno para se esconder e armarem uma emboscada. Podiam se esconder nos casebres que havia ao lado do caminho. Foi quando observou que havia um homem o aguardando. Pelo jeito sua presença já era de conhecimento de outras pessoas. Sabiam que viria? Tudo estava ficando cada vez mais estranho.
O homem fez exatamente a mesma coisa que os outros. Armado com um arado, tentou atacar Leon. Mas apesar da ferocidade, eles pareciam não serem muito aptos. Quando não acertavam os golpes demoravam a se recompor, se tornando alvos fáceis. Leon aproveitou e o matou com a faca. Sim. Não queria fazer barulho. Devia haver mais deles por perto e um revólver disparando certamente atrairia muito mais atenção do que desejava.
Leon avançou mais um pouco e viu que suas tentativas de não fazer barulho não foram bem-sucedidas. Mais dois homens apareceram do nada. O agente, que no início queria evitar ter de matar muita gente, já estava esquecendo-se desse objetivo. Mirou o revólver na cabeça deles e os matou. Sim, eles estavam determinados a fazerem o mesmo com ele, então, não tinha escolha.
Chegou a uma ponte de madeira. Olhou ao redor. Havia um rio cruzando por baixo da ponte. Mais à frente, o caminho seguia para a esquerda. A paisagem não mudava. Foi então que Leon ouviu vozes e olhou mais para cima. Uns três ou quatro homens estavam o observando. Eles disseram algo entre eles.
- Um forasteiro. Vamos avisar os demais.
Dito isso, saíram correndo para a aldeia. Leon seguiu o caminho que dobrou a esquerda. Era uma leve descida. Do lado esquerdo, continuavam as árvores com casebres. Do lado direito, havia uma parede de pedras que formavam uma inclinação. Era por ali que aqueles homens passaram. Mas não tinha como subir e evitar que chegassem à aldeia e avisassem da sua presença. Certamente teria uma recepção calorosa lá. Continuou caminhando cuidadosamente, quando viu de canto de olho que alguém saiu de dentro da casa. Conseguiu evitar o ataque. Mas foi por pouco. Levantou o revólver e acertou o aldeão na cabeça. Continuou o caminho.
Chegou ao interior de um dos casebres que ladeavam o caminho. Havia apenas uma porta e duas janelas. Uma frontal e uma lateral. Era uma pequena construção de madeira, com o telhado de zinco. Assim que deu um passo para dentro, notou um vulto ao seu lado. Virou-se rapidamente e recuou para não correr o risco de ser atingido. E viu uma mulher. Uma aldeã. Usava uma camisa bege, um pano sobre os cabelos pretos compridos e uma longa saia verde. Estava morta. Com um arado em sua cabeça cravado na parede, fazendo com que seu corpo inerte ficasse dependurado. Por que mataram ela? Não era uma forasteira. Bem, isso agora não importava. Saiu de casa e seguiu o caminho. Foi então que chegou a um portão.
Era alto, com duas colunas o sustentando dos dois lados. Ficava entre duas paredes de pedra, de modo que não tinha como pular ele. Teria de abri-lo para passar. Parecia ser feito de metal. Tinha um desenho no centro. Lembrava alguma espécie de insígnia. Leon se aproximou do portão e o abriu. Quando entrou na aldeia, seu transmissor tocou mais uma vez. Ele pensou. Se não queria chamar a atenção, agora o plano acabara de ruir mesmo. Do outro lado da linha, Hunnigan falou:
- Leon, como você está?
- Péssima pergunta.
- Bem, qualquer coisa é só chamar pelo rádio.
- Sim, muito obrigado.
Leon desligou o transmissor. Andou por um caminho estreito até atrás de uma árvore. Parou lá e apanhou um binóculo a fim de sondar o terreno por onde teria de passar. O que viu, no entanto, foi assustador. A princípio, viu homens e mulheres trabalhando, levando feno de um lado para o outro, carregando baldes de água. Viu galinhas, vacas. Nada de mais. Foi quando olhou melhor e viu um dos policiais que vieram com ele. Estava… empalado em meio a uma fogueira. O que é isso? Pensou Leon. Que loucura. Não parece real.
Procurou entrar no vilarejo chamando menos atenção que pudesse. Caminhou furtivamente, enquanto os aldeões seguiam seus afazeres. Parou perto de uma mulher. Ela estava de costas e não percebeu a aproximação de Leon. Ficou um instante parado, esperando o que ela faria. Não queria desperdiçar munição nem matar pessoas desnecessariamente. Ela se abaixou, apanhou a água e saiu. Não foi preciso matá-la. Pelo menos agora. Continuou caminhando. Deveria chegar até o vilarejo para depois receber novas instruções de Hunnigan. Chegou perto de uma das casas. Eram todas parecidas. A única diferença básica é que algumas eram de dois andares e algumas de apenas um. Parou atrás e ficou em silêncio. Será que conseguiu chegar sem ser visto? Poderia ficar ali até receber a transmissão de Hunnigan? Achava difícil. Olhou para os lado e não ouvia nada, apenas os aldeões trabalhando. Mas estava tenso. Podia sentir seu coração batendo acelerado. Era a excitação. Queria, por um lado, definir tudo logo. Sair e enfrentar de uma vez aqueles homens que iriam querer matá-lo. Mas eram quantos? Poderia dar conta de todos? Ele tinha uma pistola. Mas os nativos eram em muito maior número. Além do mais, havia algo no olhar deles que Leon não conseguia identificar. Aqueles aldeões não pareciam se intimidar com nada. Não pareciam sentir medo. Mesmo sob a mira da arma eles não recuavam. O que há com essas pessoas? Por que eles aparentam essa fúria ensandecida? Foi quando um homem o viu. Ele parou e ficou um tempo olhando para Leon. Então, gritou para os outros.
- Aqui! Não o deixem escapar.
Pronto. Fosse como fosse, Leon agora seria obrigado a enfrentar todos aqueles aldeões. Se conseguiria dar conta de todos? Bem, só teria um jeito de saber. Se sobrevivesse, é por que conseguiu. Se não conseguisse, não iria saber. Outro aldeão gritou. Leon não podia vê-lo, apenas escutou sua voz.
- Agarrem-no.
A janela da casa atrás do qual Leon estava se escondendo estava aberta. O agente não teve dúvidas e saltou para dentro, torcendo para que não tivesse ninguém lá. Não tinha. Fechou a janela o mais rápido que pôde. Começou a trancar as entradas. Rapidamente correu fechar as janelas restantes e colocou obstáculos em frente às portas. Foi então que ouviu as vozes do lado de fora.
- Vão por trás. Vamos cercar a casa.
Leon não conseguia acreditar nisso. Quem eram aquelas pessoas? Elas tinham noção de cerco? O que iriam fazer? Logo iria descobrir, e não seria de uma forma muito agradável. Correu para uma basculante na parte de trás da casa, provavelmente a cozinha e observou os aldeões. Estavam fazendo algum tipo de estratégia de cerco à casa. Então, o que parecia que não podia piorar, piorou. E muito. Do meio daqueles camponeses, surgiu um homem com uma motosserra. Estava mascarado. Não era possível ver o rosto dele. E agora? Então, uma escada quebrou uma das janelas do andar de cima. Que ótimo. Agora eles vão entrar na casa e eu terei de desbloquear as portas caso precise sair. Mas nesse caso, eles vão poder entrar por ali também, pensou Leon. A situação era dificílima. Os aldeões iriam entrar por cima. A casa logo estaria infestada deles. Teria de enfrentar a todos dentro de um espaço mínimo. Por outro lado, se abrisse a porta, todos os que estavam ali entrariam pela frente também. E isso, sem contar o fato de que um deles tinha uma motosserra e que provavelmente iria serrar a porta. Iria para o combate. Já passara por situações piores. Já esteve? Não, pensando bem, não.
Então olhou para uma das janelas que estava parcialmente coberta com madeira. Um aldeão alto, magro de com um gorro na cabeça batia nela, gritando.
- Vou te matar.
Que animador, pensou Leon. Não era como Raccoon City. Aqueles não tinham consciência. Eram zumbis. Queriam morder tudo o que viam pela frente. Estes são conscientes de uma coisa. Querem matar especificamente a ele. Leon era o alvo deles. Sim, só podia ser por causa da missão que viera desempenhar. Tinha de ter relação com o desaparecimento de Ashley Graham. Leon subiu correndo as escadas e correu para uma das janelas superiores. Havia dois aldeões tentando entrar e Leon atirou neles, que caíram até o chão. Saiu da janela e caminhou sobre o telhado do primeiro piso, dando a volta na casa. Antes de sair, apanhou uma escopeta que estava em uma estante perto da janela. Devia pertencer ao dono da casa. Logo o homem da motosserra apareceu. Leon atirou nele com a arma recém pega. Outros vieram e foram mortos, mas o homem da serra parecia não ser normal. Depois de levar um tiro de uma calibre doze milímetros, ele levantou e veio enfurecido com a sua arma. O que era aquilo? Deu mais um tiro de escopeta. Bem, agora ele deve ter morrido. Quando Leon estava saindo, o homem levantou de novo. Não pode ser. Foi preciso dar mais três tiros com a arma apanhada na casa para finalmente conseguir matá-lo. Como um homem pode ser tão resistente? Era evidente que ele não era normal. Leon já tinha pensado que havia algo errado com os aldeões antes deste homem da motosserra aparecer. Agora tinha certeza de que algo muito sinistro estava ocorrendo naquela aldeia. Algo que tornava aqueles homens verdadeiras feras.
A situação, no entanto, não ficou mais fácil. Era desesperadora. Leon não sabia de onde saíam tantos aldeões, mas eles pareciam vir de todos os lados e por mais que eliminasse um a um, a quantidade parecia não diminuir. Leon já estava com medo de ficar sem munição. Se isso acontecesse, estaria perdido, pois teria de enfrentar a todos armado apenas com sua faca. Nem queria pensar nessa hipótese. Quando parecia que estava realmente perdido, ouviu algo que não lhe chamou a atenção, mas fez todos aqueles aldeões pararem. O sino da igreja. Um deles ficou estático, largou o machado e olhou para a direção de onde vinha o som e disse com uma voz de admiração, de reverência.
- O sino.
Outros falaram.
- É hora de rezar. Temos que ir.
Neste momento, todos os aldeões, que há alguns instantes estavam enfurecidos tentando matar Leon, de repente largaram as armas e saíram caminhando como zumbis, todos em bando, na mesma direção. Pronunciavam apenas um nome. “Lorde Saddler”.
Leon desceu do telhado. De repente, o vilarejo ficou completamente deserto. Teria de descobrir o que havia por trás daquele sinal. Para onde foram todos? Quem era Lorde Saddler? Sim, provavelmente esse era realmente o grupo que tinha Ashley Graham sob sua custódia. Mas quem eram essas pessoas? Simplesmente fanáticos religiosos? Loucos? Não, havia algo neles. Pareciam controlados por uma vontade externa. Não podia ser normal o comportamento daquelas pessoas. O transmissor tocou. Era Hunnigan. Leon falou depressa, quase cuspindo as palavras.
- Tenho más notícias. Confirmo a morte de um dos policiais. Aconteceu alguma coisa com as pessoas daqui.
- Procure por uma igreja. Procure por uma torre. Siga a trilha perto dela.
- Entendido.
Leon se dirigiu até a igreja onde os aldeões entraram. Mas a porta estava trancada por dentro. Colou o ouvido na porta, mas estranhamente não ouviu nada. Como assim? Não deviam estar em um culto com um líder religioso? Ao lado da igreja, havia um caminho, passando por outras casas. Encontrou um bilhete preso em uma parede de uma das construções por onde passava. Era do chefe do vilarejo.

“Recentemente, chegou a informação de que um agente do governo dos Estados Unidos está aqui investigando a vila.
Não deixem que este agente americano se aproxime da prisioneira.
Para os que ainda não sabem, a prisioneira está sendo mantida em uma casa velha depois da fazenda. Vamos transferi-la para um local mais seguro no vale, assim que estivermos prontos. A prisioneira ficará aqui até novas ordens. Enquanto isso, não deixem o agente americano chegar perto da prisioneira.
Não sabemos como o governo americano descobriu sobre nossa vila. Mas estamos investigando.
No entanto, sinto que esta infiltração neste momento em particular não seja apenas uma coincidência. Eu sinto a participação de um terceiro, além do governo dos Estados Unidos, envolvido nisso.
Meus companheiros, fiquem alerta.
- Chefe, Bitores Mendez.”

O caminho levava até outro portão. Em meio a dois muros de tijolos, este era de madeira, grande e abria no meio, empurrando as duas metades. O que o aguardava? Como conseguiria a chave para abrir aquela porta da igreja? Quantos aldeões enfurecidos encontraria ainda? Ashley estava em que local daquela vila? Estaria viva ainda? Ele conseguiria sair dali vivo? Para cada pergunta que se fazia, sentia até medo da resposta, pois cada uma parecia mais assustadora que a outra.


Capítulo 8

“Eu só aceitei essa missão para chegar mais perto dos meus objetivos. Não importa o que aconteça, eu não posso permitir que ninguém descubra. Mas não é meu estilo me esconder nas sombras. Portanto, terei de aparecer de vez em quando.” Era que pensava Ada Wong ao desembarcar no vilarejo. Havia chegado em um helicóptero com a missão de obter uma amostra do parasita Las Plagas.
Longe do vilarejo no interior da Espanha, em uma sala nos Estados Unidos, um homem sentado em uma cadeira aciona um dos satélites que a empresa que preside controla. O satélite tem uma gravura que lembra um guarda-chuva aberto, com as cores branca e vermelha alternadas. Ao lado do logotipo, o nome: Umbrela. O homem que manipula o satélite exibe um ar confiante. Sempre de peito estufado e seus inconfundíveis óculos escuros, Albert Wesker costuma controlar não só satélites de dentro de sua sala, mas uma gama enorme de pessoas, empregadas da empresa. Neste exato momento, é para o vilarejo que ele está voltando sua visão, e foi para lá que mandou dois encarregados: Ada Wong e Jack Krauser. Em sua tela, aos poucos, foram aparecendo formas que se tornaram humanas. Dava para observar pessoas, em seus afazeres típicos de uma sociedade rural. Um dos aldeões, com um arado, limpou o suor da testa.
As casas ali eram todas parecidas. De alvenaria, com as portas de madeira, umas com teto de zinco, outras, com telhas de barro. Uma delas apenas era de dois andares, todas as demais eram simples. A pintura estava bastante gasta, descascando. Outro detalhe é que as janelas tinham tábuas pregadas. Poucas estavam livres. Era como se os habitantes dali quisessem se esconder ou ao menos evitar que enxergassem dentro das casas. Sem dúvidas, não gostavam de receber visitas. Todas as casas tinham chaminé. Havia um estábulo, onde uma vaca comia capim calmamente. Ao lado da casa de dois andares tinha um galinheiro. A porta estava fechada e a única maneira de enxergar dentro dele era olhando através das tábuas de uma das janelas.
Uma mulher espantava as galinhas para dentro de um cercado. Depois, colocou a mão no quadril e ficou observando uma fogueira no meio do vilarejo. Embora fosse dia, provavelmente serviria de iluminação durante a noite. Enquanto isso, outra mulher corria sobre o telhado de uma das casas. Ela usava um vestido cor de vinho e observava a tudo. Sua intenção era não ser vista. A mulher que espantou as galinhas olhou na direção da espiã, pois ouviu um ruído sobre as telhas da casa atrás de si. Mas já não viu mais ninguém. Outro homem caminhava distraidamente com um arado e não prestou atenção.
Ada Wong então saltou no chão e se abaixou atrás de uma das casas e ficou observando os aldeões. Ela apanhou um monóculo para ver melhor e ficou furtivamente examinando o local. Havia três homens reunidos. Dois deles parecia que conversavam algo e um deles remexia a terra com um arado em frente à fogueira. Tudo absolutamente normal para um vilarejo rural de interior, se não fosse por um macabro detalhe. No centro daquela fogueira bem ao centro do vilarejo, havia um policial… empalado. Enquanto observava a cena, a espiã teve a impressão de ter ouvido passos atrás de si. Então, olhou por cima do ombro e viu dois aldeões. Eles a tinham visto e estavam ali para atacá-la. Eram um homem com um arado e uma mulher com uma foice. Ada saltou entre os dois, deu uma cambalhota e atirou um gancho com uma espécie de pistola. O gancho tinha uma corda presa à ponta e voltaria à pistola. Então, a espiã apertou o gatilho para recolhê-lo. A corda, ao ser recolhida, derrubou o homem. Com o impacto do gancho nas pernas deste, ele deu um salto e o arado que carregava atingiu a mulher ao seu lado, matando-a. O aldeão caiu com a cabeça na parede e quebrou o pescoço. Após esse incidente, o telefone da espiã tocou e ela o atendeu. Era Albert Wesker.
- Então você chegou a tempo, Ada.
- Sim. Mas tive um comitê de recepção.
- Eles sofreram lavagem cerebral. Atacam qualquer um que venha de fora da aldeia. O sino da igreja os tranquilizará um pouco.
- Parece que são boas pessoas.
- Mas não há tempo a perder. Descubra o que conseguir a respeito do parasita Las Plagas e termine o passeio.
Dito isto, Wesker desligou o telefone. Ada o guardou em uma espécie de bolsa que trazia. Além disso, a espiã trazia uma pistola com um gancho, que geralmente usava para escalar paredes, uma pistola nove milímetros, um óculos e uma metralhadora automática, mais uma quantidade respeitável de munição para as armas. Neste momento, escutou tiros. Quem seria? A espiã saiu de trás da casa e viu Leon cercado por aldeões. Ela ficou um tempo olhando. O agente entrou em uma das casas. Enquanto isso, os camponeses armaram uma armadilha para ele. Levaram escadas de escalar e cercaram a casa. E de repente apareceu um homem, que usava uma espécie de saco na cabeça com uma motosserra. Ada pensou em correr para a casa onde Leon estava para ajudá-lo. Mas não iria adiantar muito. Seria melhor tocar o sino da igreja. Assim, se o fizesse rápido, atrairia a atenção de todos os aldeões. Além do mais, Leon já passou por situações até piores, e saberia se virar nesse caso sozinho. A espiã correu até a igreja, que pelo que pôde observar, servia como passagem secreta para o verdadeiro local onde eram realizados os cultos. O local onde ela tocaria o sino. Mas a porta estava trancada. Teria de entrar nas casas e encontrar a chave.
Então o agente do governo estava no local. Era e ao mesmo tempo não era uma surpresa. Então, a informação de que Leon viera resgatar a filha do presidente era verdadeira. Krauser fora o responsável pelo sequestro. Ada esperou neste momento que a esta informação fosse um privilégio seu. Não queria que Wesker ficasse sabendo disso, tampouco seu parceiro de missão. Qual seria a reação deles? Não tinha como saber.
Alguns aldeões se separaram do grupo que estava no cerco à casa onde Leon estava e vieram atrás de Ada. A espiã usou a arma e matou-os com um tiro na cabeça de cada um. Então, o agente saiu de uma das casas, após matar o homem da serra elétrica e correu para cima do telhado. Ada entrou na habitação ao lado de onde isso acontecia. Mais um dos aldeões a seguiu, sendo morto assim que ela entrou na casa. Dentro da moradia do aldeão, sentiu um cheiro muito desagradável. Sobre uma mesa ao centro, havia pratos com restos de comida, mas ela cheirava mal. Possivelmente estava estragada. Um líquido molhava a toalha sobre a mesa. A espiã andou um pouco mais, dando uma geral e entrou em um dos quartos. O odor ali não melhorou. Observou uma cama em um dos quartos. O lençol estava sujo. Ele era branco, assim como o travesseiro. No entanto, havia muitas manchas de uma cor que puxava para um marrom escuro, quase um tom de ferrugem. Não saberia dizer o que seria. Sujeira simplesmente? Sangue? Estava seco e o fedor que contaminava todo o ambiente não ajudava a distinguir a substância ali presente.
Sobre uma mesa, estava a chave que abria a porta da igreja/passagem secreta. Agora teria de correr. Saiu da casa e ninguém veio atrás dela. Os aldeões estavam ocupados perseguindo Leon. A espiã então se dirigiu até a porta, colocou a chave na fechadura e ouviu o clique avisando que a porta estava destrancada.
Assim que abriu a porta, Ada se viu dentro de um local que não era realmente uma igreja. Não havia bancos para sentar e orar, nem um altar, nem um púlpito para o sacerdote, nem nada disso. Apenas uma mesa ao centro e uma porta na outra extremidade. Não tinha luz ali dentro e a única claridade vinha de fora, através de uma janela pequena, localizada no alto da parede da frente, ao lado da porta de entrada. A que usaria para sair era de madeira, sem pintura. Ela a abriu e ao fazer isso, a porta rangeu.
Ao passar pela porta, Ada entrou em um corredor. As paredes de alvenaria estavam com a pintura caindo e em vários locais, dava para ver os tijolos. A iluminação vinha de um lampião pendurado no teto. Mas o corredor não tinha saída. A única maneira de sair dali era pela porta por onde a espiã havia entrado. Então, ela olhou melhor e viu uma tampa de madeira no chão. Sim, era um alçapão. Levaria a um andar inferior, no subsolo. Ada caminhou até ela e a abriu. Havia um buraco e uma escada, que levava ao nível inferior. Ada desceu para seguir o caminho. Seria ele que a levaria até a igreja aonde deveria chegar.
Assim que desceu a escada, Ada Wong se viu em um túnel. O chão era em pedra, mas havia muita umidade ali. Teria de tomar cuidado para não escorregar. O caminho seguia em uma escada. Dos lados do túnel, nas paredes, corria água. Havia alguns espaços onde estavam colocadas velas para iluminar o caminho. Devia ser bastante utilizado. A escada seguia em curva e os degraus ficavam mais estreitos, conforme se descia. Ao fim da escada, chegou a um local plano, com uma poça d’água no centro. Agora, tinha um lampião pendurado no teto, iluminando o recinto. Ada ouviu passos e olhou para trás. Uma mulher e um homem a seguiam, ambos armados com uma foice e um machado, respectivamente. A espiã conseguiu se esquivar do ataque que quase a pegou de surpresa. Então, sem demora, liquidou com os dois aldeões. Teria de seguir rápido. Do outro lado, o túnel continuava.
Ada seguiu caminhando, agora, prestando muita atenção a qualquer barulho que pudesse indicar a presença de algum aldeão. Na sequência do túnel, a única claridade que tinha era de um buraco no teto, por onde entrava o sol que indicava que ainda era dia. Na porta ao final do túnel, havia duas velas, uma de cada lado, iluminando-a. A espiã se aproximou dela, não chegou a abri-la, pois aldeões abriram-na violentamente. Uma mulher com uma tocha na mão vinha na frente do grupo. Ela usava um vestido azul claro comprido até os pés. Ada apanhou a metralhadora da bolsa e matou os três rapidamente. Não podia perder tempo ali. Depois disso, abriu a porta e seguiu o túnel até uma escada de escalar. Pela claridade que vinha de cima, supôs que ali era a saída. Então, escalou rapidamente a escada.
Saiu em um poço e estava sendo aguardada por uma aldeã, armada com uma foice. Ada atirou na cabeça dela, matando-a. Assim que passou por ela, seguiu um caminho que dava em um cemitério. Tinha uma estrada de terra, ladeada por grama. Dois aldeões vieram correndo, sendo mortos com um tiro na cabeça. Mas Ada teve de ser rápida. A estrada de terra contornava o local, com abrigos logo ao lado da estrada. À frente, havia túmulos. A grama estava bem aparada. O caminho seguia por um terreno íngreme e no alto de uma colina, estava a igreja. Mas antes que Ada pudesse dar o primeiro passo, mais uma aldeã armada com uma foice se aproximou. A espiã se virou rapidamente e atirou na cabeça dela. Estava tendo de matar muitos aldeões. Isso era ruim. Mas não tinha escolha.
Um detalhe chamou a atenção da espiã. Sobre cada túmulo havia símbolos. Sim, a igreja não era católica, mas pertencia a uma seita, chamada “Los Illuminados”, cujo líder se chamava Osmund Saddler, a quem todos se referiam como Lorde. O fanatismo destes aldeões à seita, ao que tudo indica, está ligado a uma infecção causada pelo parasita, chamada Las Plagas. Era esse parasita que Ada estava encarregada de levar uma amostra para Wesker. Outro detalhe. Em alguns pontos, havia duas lápides juntas, mostrando que ali estavam enterrados dois irmãos gêmeos. As insígnias sobre o túmulo eram idênticas. A espiã seguiu até um portão no topo da colina, onde mais um aldeão a estava esperando. Ada foi mais rápida que ele e estourou a cabeça do homem. Ao lado da igreja, havia uma árvore, sem folhas nos galhos e alguns corvos crocitando, que saíram voando, assim que a espiã se aproximou. Ela se dirigiu à porta de entrada, mas ela estava fechada. Do lado, porém, tinha um caminho que levava a diante. Teria de seguir por ali. Era mais baixo do que o local onde estava.
Ada chegou até uma ponte de madeira, suspensa por pilares que vinham do chão, muitos metros a baixo e por grossas cordas que estavam presos no alto de um morro de pedra, sobre o qual estava a igreja. Uma aldeã estava parada sobre a ponte. Ada correu até ela, se esquivou do ataque e a jogou para baixo. Quando a mulher despencou da ponte, a espiã parou e olhou. Um rio passava por ali com uma forte correnteza. Com certeza, qualquer um que caísse ali, não sobreviveria. Mais dois aldeões saltaram sobre a ponte, em frente a Ada, que teve de atirar neles. Acabaram caindo da ponte também. A espiã seguiu o caminho pela ponte de madeira. Foi tomando cuidado. Prestando atenção a todo e qualquer movimento que pudesse denunciar a presença de alguém. Não apenas na ponte, mas também sobre os abrigos que ficavam ao lado, construídos sobre um barranco. Se fosse apanhada desprevenida, poderia facilmente ser derrubada da ponte, caindo para a morte certa. Não podia descuidar. Mas no momento, o único som que ouvia eram os próprios passos.
Seguindo a ponte, Ada começou a ver que no final, havia uma estrutura toda em pedra. Mas antes de chegar lá, anda sem ver o que a aguardava, ouviu o som de uma motosserra. Ainda sem sequer ver o inimigo, a espiã apanhou de dentro de sua mochila a metralhadora automática. Assim que ela saltou para o último trecho da ponte de madeira, antes de chegar à estrutura, uma mulher com a cabeça toda enfaixada e uma motosserra veio correndo, acompanhada de duas outras armadas de foices. Ada mandou uma rajada de tiros, matando as duas mulheres que estavam atrás da que tinha a cabeça enfaixada. Esta levantou-se. Como pode? Ada não podia acreditar. Recarregou a metralhadora o mais rápido que conseguiu e mandou mais uma rajada de tiros. Mais uma vez a mulher levantou. Então, Ada viu que a mulher tinha uma chave pendurada no pescoço. Ou seja, teria de cuidar para que ela não caísse na água, pois certamente iria precisar daquela chave para alguma coisa. Recarregou a arma e mandou outra rajada de tiros. Desta vez, a mulher da motosserra morreu. Ada se aproximou dela e apanhou a chave. Agora teria de retornar à igreja.
O caminho de volta foi tranquilo. Apesar disso, Ada tomou extremos cuidados. Nunca deixava de olhar por cima do ombro. Procurava respirar fazendo o menor barulho possível, para poder ouvir qualquer som diferente. Seus olhos esquadrinhavam todo o seu campo de visão e sempre que passava por um abrigo, espiava dentro antes de seguir. Nunca deixava de olhar para cima, nem para o morro ao lado da ponte. Mas não havia ninguém e mais uma vez, o único som que ouviu eram seus passos além da própria respiração. Sentia seu coração batendo acelerado e, embora não quisesse admitir, estava tensa. Escorria uma gota de suor do seu cabelo. Então, chegou ao fim da ponte e pisou no gramado novamente. A igreja estava do lado direito dela. A espiã foi até a porta, mas não deu certo. A chave que ela apanhou do pescoço da mulher da motosserra não se encaixava na porta. Mas ainda não iria voltar. Tentaria procurar por ali mesmo.
Então, Ada foi dar a volta por trás da igreja, para ver se encontrava a chave que coubesse na porta da entrada da igreja. Ela correu por um corredor que levava para a parte de trás do templo. Embora fosse sempre olhando para ver se não estava sendo aguardada pelos aldeões, para evitar cair em alguma emboscada, não encontrou ninguém. Olhou bem ao redor e quando passou por um arco, que na verdade era um portão de grades aberto, parou em frente a uma estrutura de pedra, com uma chave grande no centro. Estava dentro de uma grade, com os símbolos do cemitério ao seu redor. Um ponteiro apontava para as gravuras. Sobre ele dizia que teria de apontar para as insígnias dos gêmeos. Ada se recordava delas. Teria de conseguir rapidamente. Girou uma, duas, três, quatro, cinco vezes o ponteiro, até a grade abrir. Então, a espiã apanhou a chave grande, que na verdade era um objeto de encaixar em um buraco e partiu come ele até a porta de entrada da igreja.
Neste momento, o portão de grade se fechou e dois aldeões entraram por ali. Ela não perdeu tempo ao se livrar deles. Para poder abrir o portão, Ada teria de colocar algo que fizesse peso na estrutura de pedra, de onde retirara a chave. Então, apanhou uma pedra que viu no chão e a colocou. Assim, o portão se abriu novamente. Agora, a espiã poderia ir até a entrada da igreja. Ela caminhou e quando chegou perto do local que descia para a ponte, um grupo de aldeões a estava esperando. Ada nem pensou duas vezes. Apanhou a metralhadora automática e disparou, matando todos eles antes que pensassem em atacá-la. Então, Ada subiu os degraus que davam acesso à porta de entrada. Retirou da bolsa a chave, que na verdade era um objeto arredondado que encaixava perfeitamente no orifício da porta. Ela se abriu. Agora, poderia entrar na igreja.
A parte de dentro era uma igreja normal, a princípio. No centro, um corredor que levava ao altar, com um tapete vermelho. Dos lados, duas fileiras de bancos, uma de cada lado do corredor. Nas laterais, duas entradas, sendo que a da esquerda continha uma escada de escalar, que dava acesso ao piso superior do templo. Os bancos eram todos em madeira. Sobre a porta de entrada, um grande vitral colorido, colocado de tal maneira que na hora do pôr do sol, todo o ambiente ficasse iluminado nas cores do vidro. O que mudava de uma igreja católica tradicional era o que havia no altar. Reinante absoluta, na parede oposta à entrada, uma gigantesca insígnia da seita “Los Illuminados”. À frente dela, atrás do altar, onde Osmund Saddler realiza suas pregações, entre duas tochas altas, estavam dois aldeões. Aparentemente concentrados em alguma oração. Ada tentou escutar, mas parecia que repetiam alguma espécie de mantra. Quando ela tentou se aproximar, no entanto, os dois saíram do transe em que se encontravam e se viraram para ela. Mas nem tiveram tempo de apanhar qualquer coisa que pudessem usar como arma, pois ela disparou com a pistola na cabeça de ambos, matando-os. Ada sabia de um detalhe. Enquanto fosse dia, não havia perigo de as plagas nascerem. Ela já havia visto a cabeça de alguns aldeões explodirem e saírem do pescoço deles coisas parecidas com tentáculos. Vira isso em observações, usando o satélite da Umbrela. Mas isso só ocorria à noite. O parasita Las Plagas é sensível à luz solar. Uma das maneiras de matá-lo, inclusive, é expô-lo à luz.
Depois de se livrar dos aldeões no piso do térreo, se dirigiu ao corredor que ia até a escada. As paredes da igreja eram em pedra. Os blocos eram recortados em quadrados, mas não tinha pintura. Eram todas em cor natural. Sem dúvida antes de pertencer à seita, esta fora uma catedral católica, a final de contas, a Espanha segue essa religião. Ada escalou a escada até o piso superior. Assim que chegou ao lado de cima, quase foi surpreendida por um aldeão. Ela o derrubou. O homem caiu lá de cima. Era uma altura considerável. O baque que seu corpo produziu ao cair no chão de pedra já denunciava que ele havia morrido. Ela olhou só para se certificar e o viu em meio a uma poça de sangue.
O piso contornava a catedral. Ada passou pelo lustre que iluminava a nave central da igreja e chegou até a parede à direita de quem entra no templo. Havia uma porta de grade, mas estava aberta. Ela seguiu, vendo que mais à frente, havia aldeões a esperando. Não pareciam dispostos a sair em sua perseguição. Estavam aguardando que ela fosse até onde eles estavam. E Ada teria de ir, pois era exatamente onde se encontrava o mecanismo para acionar o sino da igreja. Mas algo lhe chamou a atenção no caminho. Havia uma porta de metal trancada. Ela parou e colocou o ouvido perto. Sim, havia alguém ali dentro. Eles tinham um prisioneiro. Provavelmente seria Ashley Graham. Mas a filha do presidente dos Estados Unidos não era problema seu. Leon fora enviado para resgatar ela. Sua missão era tocar o sino, exatamente para que o agente se livrasse daquela verdadeira horda de aldeões que o cercavam.
Enquanto caminhava até o local onde os aldeões a esperavam, Ada pensou em Leon. Como ele estava se virando com aquele cerco? Não queria nem pensar na hipótese de eles o terem matado, mas era possível. Preferia pensar que o agente era muito bem treinado e experiente. E que já enfrentara situações semelhantes, se não piores que a em que se encontrava no vilarejo. Mas sempre algo poderia dar errado. A final de contas, eram muitos. Se algum deles acertasse Leon, tudo poderia acabar. Era melhor não pensar nisso. Ela chegou. Quando os dois se precipitaram, ela derrubou o primeiro, que caiu de cabeça no chão de pedra metros a baixo. O segundo não veio correndo. Era mais cauteloso. Ada mirou exatamente na cabeça dele e atirou, acertando os óculos que ele usava, manchando-o de sangue. Em seguida, o aldeão caiu morto.
Exatamente sobre a porta de entrada, defronte à insígnia gigante dos Illuminados, estava o mecanismo que acionava o sino da igreja. Era composto por vários botões, e precisavam ser apertados em uma sequência. Ada teve de pensar e depois de analisar bem, conseguiu apertar os botões certos. Assim que acionou o mecanismo, duas grades desceram, bloqueando o caminho até a porta por onde Ada havia passado. A prisioneira ficaria isolada até que alguém acionasse o mecanismo novamente. De repente, ouviu um barulho vindo da torre. Eram engrenagens entrando em funcionamento. Então, em questão de segundos, o sino tocou.
Longe dali, os aldeões no vilarejo pararam o que estavam fazendo, inclusive a perseguição ao agente enviado para resgatar Ashley Graham e se viraram para o local de onde vinha o som. Eles largaram as foices, os arados e machados e começaram a caminhar na direção da igreja/passagem secreta. Leon os ouviu falando:
- A igreja. - É hora de rezar. Temos que ir.
Enquanto eles caminhavam, falaram em uníssono:
- Lorde Saddler!
A missão de Ada Wong fora cumprida com êxito. Ela se escondeu na igreja, fazendo sua especialidade: ficar invisível. Não demorou até que um grupo enorme de aldeões aparecesse. Agora Leon poderia seguir sua missão, pensou a espiã, desde que não tivesse sido ferido ou morto. Mas algo lhe dizia que o agente estava bem. E tinha quase certeza que o veria.
O telefone de Ada tocou. Ada o atendeu. Era Wesker novamente. Ele a cumprimentou e começou a relatar:
- Isso é tudo o que sei: Saddler é o líder de uma seita chamada “Los Illuminados”. Eles ressuscitaram algum tipo de parasita, chamado “Las Plagas”. Isso é tudo o que a organização sabe. No entanto, as atividades de Saddler devem ser investigadas.
Wesker fez uma pausa para tomar ar e continuou.
- A família Salazar, dona do castelo, possui o poder de controlar “Las Plagas”. A teoria de nossa organização é que os parasitas são sensíveis a uma frequência de som que os controla. Este mesmo princípio é usado com os cães. Isso é o que indica a análise dos tecidos. O tecido que contém um organismo que capta certas frequências. Os membros da seita carregam cetros cerimoniais. Me pergunto se os mesmos servem para emitir estes sons. Mas isto é pura especulação. A organização precisa de mais amostras para confirmar as teorias. E esse é o principal objetivo de nossa missão. E a maneira de provar de vez sua lealdade para com a Umbrela. As cartas estão sobre a mesa. Não há mais volta. Certo?
- Certo.
Dito isso, Wesker desligou o telefone por satélite. Logo ela teria mais uma missão a cumprir. O que esperavam de Ada? Que ela se apoderasse da amostra. A espiã, no entanto, viu que teria companhia. Além de Krauser, estava ali também Leon Scott Kennedy. Mas este, com outros objetivos. Ele vinha resolver o caso do sequestro da filha do presidente do país, sem ter a real noção de tudo o que isso envolvia. Para o agente, levar Ashley de volta seria sua grande missão, mesmo a princípio, sem saber que ela está infectada e que depois de voltar, terá de encontrar um meio de curá-la. Se não conseguirem, terão de sacrificar Ashley. Mas Ada não estava preocupada com isso. Leon que se preocupasse. Apesar de saber que mais para frente, seus objetivos e os de Leon poderiam entrar em conflito. O que faria? Ainda não sabia bem, mas não poderia deixar que nada a atrapalhasse. Nem o agente. E se fosse preciso lutar com ele? Ada preferiu não pensar nisso neste momento. Fechou os olhos por alguns segundos e disse para si mesmo. Se tiver que fazer, farei. Não vou deixar sentimentalismos me atrasarem.


Capítulo 9

Maria abriu os olhos e ficou observando o ambiente onde estava. O que estava acontecendo? Parecia tudo surreal. Estava em casa? Não. Que lugar era aquele? Um hospital? Poderia ser. Então, a mulher tentou se mexer. Foi nesse momento que ela notou que estava com os braços presos. Mas por quê? Teria feito algo que justificasse essa atitude? Não conseguia se lembrar de ter feito algo, mas não sabia como fora parar naquele lugar também. Estava assustada. Seu coração batia descompassado. A primeira coisa que fez, foi procurar detalhar todos os objetos ao seu redor e tentar descobrir onde estava.
Chegou a uma conclusão preliminar. Encontrava-se deitada sobre uma espécie de cama de hospital, com dois suportes nos braços que os prendiam. Tinha um objeto sobre ela, parecendo uma daquelas máquinas de dentista, apontando para a sua cabeça, pelo menos era o que parecia. Dos lados, havia monitores de computador, tubos de vidro, um piso superior que contornava as paredes, tonéis com substância inflamável dentro. Parecia ser um laboratório. Mas o que era feito ali? Não era possível reconhecer o local. Nunca estivera em nenhum lugar parecido. Era tudo totalmente estranho para ela. Pudera. Maria nunca saiu do vilarejo de El Pueblo. Era uma simples agricultora. Não tinha maiores conhecimentos do mundo, nem de tecnologia. Mas sabia o suficiente para ter noção de que estava em um local a que somente pessoas inteligentes tinham acesso. Cientistas? Médicos? Quem sabe? Mas era um desses locais.
O segundo passo foi procurar refazer os últimos passos que fizera. Tentar recordar o que pode ter acontecido para que ela acordasse naquele local totalmente estranho. Mas estava difícil. Foi como se tivessem apagado os últimos acontecimentos de sua mente. Porém algo ela ainda conseguia recordar. Estivera trabalhando, como sempre, recolhendo ovos das galinhas, retirando leite das vacas, arando feno, arrumando lenha para a lareira, para o fogão, limpando o terreno, a casa, dentre outras tarefas corriqueiras. Também lembra-se de ter ido à Catedral. Mas nos últimos encontros lá, passou a haver a presença constante de outro homem. A quem os aldeões chamavam de Lorde Saddler. Sim, era ele. O seu líder. Mas tudo isso ocorrera quando? Na verdade, Maria nem sabia que dia era.
Então, conforme foi se acalmando, foi conseguindo, aos poucos lembrar-se de algo que fizesse-a se localizar e a fazer alguma ideia do que acontecera nos últimos tempos. Então, se deu conta de que sentia muitas dores. Estivera doente? Poderia ser. Aliás, agora, começava a parecer algo provável. Não era apenas dor. Sentia como se seus membros estivessem alternando entre amortecimento e dor intensa. Parecia que estava sentindo um formigamento no corpo inteiro. O sangue parecia estar quente. A sensação era horrível. Aos poucos, no entanto, foi começando a melhorar o que estava sentindo. A visão já estava clara. De repente, um homem se aproximou. Vestia um guarda-pó branco. Tinha o cabelo preto, um pouco comprido, olhos castanhos e um bigode ralo e uma barba bem aparada. Caminhava em sua direção e estava com um sorriso no canto da boca. Ao chegar perto, parou ao lado da cama de hospital onde Maria estava deitada e ficou ali, olhando para ela. O que ele queria? Quem era ele? Então, o estranho quebrou o silêncio.
- Muito bem, você sobreviveu. Agora, pode me dizer qual é o seu nome?
Ela ficou um tempo em silêncio. Não tinha confiança naquele estranho. Por que diria algo a ele? O que este homem poderia estar querendo? Era um médico? Ainda era cedo para tirar alguma conclusão. Ele, rindo, continuou.
- É natural você estar assustada. Acredito que não deve se lembrar dos últimos dias. Mas pode ficar calma. Estou aqui para lhe ajudar. Eu sou um cientista e quero ver se consegui curar você.
Maria olhou assustada para ele.
- Eu estou doente? Pelo jeito, não mais, pensou Luis Sera.
- É exatamente o que eu estou tentando saber. Você estava, mas quero saber se consegui lhe curar. Havia um parasita em seu corpo. Ele controlava seu comportamento. Este parasita se chamava Las Plagas e foi injetado em seu corpo quando esteve na Catedral. As pessoas do culto Los Illuminados estão sendo manipuladas por um homem chamado Osmund Saddler. Ele é um cara mau. Tem que tomar cuidado. Agora, me diga. Qual é o seu nome?
- Maria. Por que Lorde Saddler é mau?
- Ele está controlando as pessoas. Estão injetando estes parasitas nas pessoas.
Sera apanhou um frasco com uma amostra do parasita.
- Eles injetam isso nos outros com uma seringa, ainda em forma de ovo. Quando ele choca, começa a se desenvolver dentro do organismo hospedeiro, no caso, vocês. Aparecem alguns sintomas. Dores de cabeça, no corpo, começam a tossir sangue. Consegue se lembrar disso?
Maria fez uma força e se lembrou. Sim. De repente, ela se lembrou. Das dores pelo corpo, dores de cabeça e de quando começou a tossir sangue. Depois, passou a ter ataques de raiva. Sentia que tinha de atacar pessoas de outros locais, gente de fora. Então, ela acordou neste local.
- Sim senhor. Consigo me lembrar de algo assim.
- Se lembra de ter sentido mais algo estranho? Não começou a sentir impulsos violentos? Vontade de bater em pessoas estranhas? Em forasteiros?
Ela ficou em silêncio. Como aquele estranho poderia saber de tudo isso?
- Seu silêncio é uma resposta.
- Sim. Tudo o que você fala é verdade. Mas agora sou eu que tenho perguntas. Quem é você e como sabe de tudo isso?
- Meu nome é Luis Sera. Sou um pesquisador. Há algum tempo fui contratado por Saddler para encontrar a cura para o parasita. Só que tem um detalhe. Conforme fui avançando em minha pesquisa e vendo o comportamento dos aldeões, cheguei a outra conclusão. Saddler não queria encontrar a cura, mas se certificar de que Las Plagas não poderia ser removido do corpo das pessoas depois de infectadas. Ele me infectou também. O que nem Saddler, nem Mendez, nem Salazar sabem é que eu encontrei a cura. Eu não tenho certeza do que estou falando, mas desconfio. Agora, vou pedir-lhe uma coisa.
Maria pensou um pouco e disse:
- Fale.
- Quero que se comporte exatamente como os outros aldeões. Não faça nada que levante suspeitas. Se o que desconfio for verdade, caso eles estranhem seu modo de agir, você poderá estar correndo sério perigo. Eu mesmo ainda não estou revelando minhas descobertas. Logo irei falar a Saddler que encontrei a cura. Neste momento, irei descobrir o que ele realmente quer com minha pesquisa. Se ele tiver as intenções que acho que tem, teremos de fugir daqui. Se eu estiver enganado, melhor.
Maria ficou um tempo pensando antes de responder.
- Certo.
- Agora, preciso que me ajude.
- Como?
- Levante-se e venha comigo.
Maria se levantou da cama hospitalar. Sentia-se frágil ainda, mas conseguia caminhar. Sera a levou até a frente de um monitor e de um teclado com botões. Ele apontou para alguns.
- Veja, Maria. Este botão. Eu consegui operar a máquina que eliminou o parasita do seu corpo através da exposição à radiação que sai daquela máquina sobre a cama. Mas preciso que alguém opere este mecanismo daqui para me curar. Vou estar deitado lá, onde você estava. Preciso que aperte este botão aqui quando eu der a ordem. Pode ser?
Maria ficou com um pouco de medo.
- E se eu fizer algo errado? Pode se machucar.
- Não tem problema. Se nada acontecer, vou acabar desenvolvendo o parasita em meu organismo e não poderei mais ser curado. Pode fazer isso para mim?
- Sim.
- Então, vou deitar naquela cama. Quando eu der o sinal, aperte o botão.
Luis Sera se deitou na cama e prendeu um dos pulsos. Chamou Maria até perto da cama e pediu que ela prendesse a sua mão que ainda estava solta, depois de ele ter prendido uma delas. Ela então, fechou uma espécie de algema que ficava presa à cama.
- Perfeito, Maria. Agora vá até o teclado e quando eu pedir, aperte o botão.
Ela caminhou até o local indicado e ficou esperando.
- Agora, aperte o botão que lhe mostrei.
Ela obedeceu. Imediatamente, aquela coisa sobre a cama se voltou para o peito de Luis Sera. Não dava para ver nada a olho nu, mas pelo monitor, se podia perceber que um raio atingiu em cheio o peito do homem. Ele se contorceu de dor. Maria ficou assustada com o que estava vendo, principalmente por pensar que isso acontecera com ela há alguns minutos. Então, depois de um tempo que pareceu não ter fim, Sera ficou quieto. Estático. Maria ficou apenas observando o homem deitado na cama hospitalar. Teria morrido? Então, ela se encaminhou para perto da cama vagarosamente. Tinha medo do que poderia ter acontecido. Chegou perto e ficou olhando, com o coração acelerado. Tudo era silêncio. A única coisa que ouvia era o seu coração batendo. Não sabia bem se estava ouvindo ou se estava sentindo-o se chocar contra o seu peito. Então, finalmente, Luis Sera abriu os olhos.
- Que alívio. Estou curado.
Sera se levantou da cama, ainda meio tonto. Pediu para se escorar em Maria e deu alguns passos. Estava fraco, mas conseguia caminhar. Então, olhando para os lados, disse:
- Vamos voltar ao vilarejo. Saddler não sabe que lhe trouxe. Se ficarmos muito tempo por aqui, poderá desconfiar de algo. Como disse, posso estar enganado, mas acho que não podemos confiar nele.
Maria ficou em silêncio. Apenas caminharam até a embarcação. Ela via soldados treinando por todos os lados. Há alguns dias, um soldado americano havia chegado ali. Fora ele quem trouxera a filha do presidente dos Estados Unidos. Como os seguidores de Saddler não o atacavam, era um mistério. Aliás, eles o seguiam. E pelo que podia ver, os soldados estavam ficando cegamente fiéis a este estrangeiro. Só podia ser uma coisa. Este militar conseguiu uma amostra do Las Plagas. Para que? Não podia ser para algo bom. O cientista não confiava nele. Então, chegaram à embarcação. O pesquisador deu a partida e ambos saíram. Depois de alguns minutos, Sera voltou a falar.
- Maria, preste atenção mais uma vez ao que vou dizer. Comporte-se exatamente como os outros. E nunca fale nada do que aconteceu. Se alguém souber o que fizemos, ambos corremos risco. Entendeu? Se os demais aldeões perceberem que você não está mais dominada pelo parasita, irão tentar matá-la. Se quiser viver, faça o que eu disse. Fui claro?
- Sim senhor. Pode deixar.
O barco parou e os dois desceram. Assim que voltaram ao vilarejo, Luis Sera foi para a casa de Bitores Mendez, onde seguiria trabalhando em seu projeto. Maria seguiria sua vida. Só que não foi bem assim. Logo que chegou a El Pueblo, viu que o comportamento das pessoas estava muito estranho. Em uma casa, havia corpos de pessoas mortas, já em avançado estado de decomposição. Aos poucos, foi vendo que seus vizinhos eram verdadeiras bestas. Não podia ser. E quando ela foi enviada à Catedral para trabalhar, encontrou uma garota feita prisioneira. Maira iria alimentar e fazer a limpeza da cela da refém. Mas por quê? Estava tudo ficando muito louco. Maria não conseguiria continuar morando ali e fazendo o que os outros faziam. Teria de dar um jeito de ir embora, de fugir, pois mais cedo ou mais tarde, acabariam descobrindo que ela era diferente. Então, um dia, resolveu descobrir quem era a garota e o que ela havia feito para estar presa. Assim que entrou na cela, perguntou:
- O que a senhorita faz aqui?
A garota estava assustada, mas vendo que Maria lhe dirigiu a palavra, resolveu falar, mas ainda de modo muito arredio.
- Me trouxeram aqui. Sou americana.
Americana? Ela vinha do outro continente. Maria aprendera isso na escola, mesmo tendo estudado pouco. Sabia que a América era um lugar longe. Queria que a garota visse que ela era diferente e que poderia confiar. A menina falava meio atrapalhada em espanhol, mas ambas conseguiram se entender.
- Está acontecendo alguma coisa estranha aqui no vilarejo. As pessoas estão ficando violentas. Não sei o que é. Mas agora eu estou vendo. Está ficando perigoso morar aqui.
A garota continuava desconfiada.
- Como assim?
Maria queria demonstrar que estava do lado dela. Afinal, ambas estavam em situação parecida e caso se ajudassem, poderiam conseguir sair dali. Mas a aldeã ainda não fazia a menor ideia de como tirar a estrangeira do local, porém, se ela conseguisse sair, poderia trazer auxílio de fora.
- As pessoas atacam e matam a todos que são de fora. O nosso prefeito era um homem muito bom, mas de uns tempos para cá, ele está estranho. Eu notei isso há uns dois dias. E desde então, estou tentando dar um jeito de ir embora. Mas não é fácil.
A garota viu que ela era diferente.
- Se você conseguir, teria como eu ir junto?
Maria gostaria de dar uma resposta afirmativa, mas teria de dizer que não a final de contas, não podia dar falsas esperanças a ela. Sem contar que seria mais perigoso. A estrangeira era uma adolescente e poderia acabar falando o que não devia e isso poderia colocar a aldeã e a garota em perigo.
- Eu gostaria, mas não acho que vou conseguir. Agora vou ir. Ele não pode saber que estamos conversando. Vai me castigar.
Maria saiu e continuou seguindo seus afazeres e imitando o comportamento dos demais aldeões, mesmo achando que eles tinham uma conduta totalmente horrível. Mas se esforçava ao máximo para não destoar dos outros. Não podia deixar ninguém desconfiar que ela estava diferente. Então um dia, Esteban parou em frente a ela.
- Maria. Precisamos de sua ajuda para uma tarefa.
Ela engoliu. Eles, ao que tudo indica, não estavam desconfiando de nada, mas se iriam lhe pedir para caçar algum estrangeiro, Maria não sabia se conseguiria. Teria de conseguir. Era questão de vida ou morte.
- Sim, Esteban, pode falar.
Ele olhou bem para ela, encarando-a.
- Nós descobrimos um traidor. Ele está tentando escapar. Precisamos do maior número de aldeões para cercá-lo.
- Tem certeza de que ele é um traidor?
- Sim. Já o estamos observando há alguns dias.
- O que tenho de fazer?
- Venha conosco. Vamos cercá-lo e matá-lo.
Maria estava suando. Seu coração batia descompassado. Mas teria de fazer o que esperavam que ela fizesse e sem dar bandeira.
- Sim, vamos.
Maria seguiu Estaban. Eles entraram no túnel e se dirigiram à pequena igreja que fica em El Pueblo. Saíram e do túnel, passaram para o vilarejo e Maria foi observando as casas. Quem seria? Será que Sera conseguiu curar mais alguém e este outro dera alguma bandeira? Então, de repente, um calafrio percorreu sua espinha. E se o traidor fosse o próprio Sera? Agora, essa foi a alternativa que lhe pareceu mais provável. Então, passaram pelo portão e havia mais aldeões ali os esperando.
- Olá Esteban. Olá Maria. Vamos até a casa onde ele está no momento.
Esteban olhou para os lados.
- Ele desconfia de algo?
- Achamos que não.
Falou um dos aldeões que os esperava. Enquanto caminhavam, Maria sentiu frio. Mas tinha de demonstrar que sentia o mesmo que os outros. Seu modo de agir não podia ser diferente. Mas era difícil. As árvores com as folhas caídas davam uma sensação de tristeza. Não havia uma única flor plantada nos canteiros e o chão era apenas de terra. Como El Pueblo mudou. Não dava para ver uma única criança correndo por ali. Estavam todas mortas. O que aconteceu? Em que monstros essas pessoas se transformaram? Mas não era culpa deles. Era culpa do maldito parasita que controlava o comportamento dessas pessoas, tão bondosas outrora, tão violentas hoje. Era culpa de Osmund Saddler. Será que algum dia o vilarejo voltaria a ser como era? Maria estava achando difícil. Tudo iria depender daquele cientista. Mas e se ele fosse o tal traidor? Eles o teriam atraído para um galpão para cercá-lo e matá-lo? Se isso fosse verdade, não haveria mais esperança de cura. Então, chegaram.
Era ao final de uma picada, tratando-se de um abrigo, não de uma casa. Havia mato dos lados. Era um casebre, de madeira, com o telhado de zinco. Possuía apenas uma porta, que estava aberta e duas janelas, com tábuas pregadas na horizontal, impedindo que se enxergasse o que havia do lado de dentro. Isso deixava-a incomodada. Por que faziam isso? Ela não sabia dizer, mas tinha de manter as aparências. Não queria ter o mesmo destino daquele infeliz que eles iriam encurralar naquele abrigo. Alguns corvos crocitavam nas árvores ao redor da pequena casa. Assim que se aproximaram, eles voaram. Um vento soprou e algumas poucas folhas, que resistiam nos galhos das árvores se moveram. Maria sentiu um calafrio e tremeu. Alguns aldeões desviaram o olhar para ela, que sentiu o estômago pesar. Pareceu que os intestinos se enrolaram e o coração bateu tão acelerado que Maria achou que iria saltar fora. Tinha a impressão que ele batia no pescoço. Então ela entrou na casa.
Neste momento, tudo mudou. Ela até então tinha medo de ter de tomar alguma atitude. Estava pensando no que faria quando visse os aldeões matando um homem. E o pior, se ela tivesse de dar algum golpe nele. Tinha medo que descobrissem que Maria também não estava mais infectada. Mas assim que entrou na casa, se perguntou por que ela entrou na frente? Quando se viu do lado de dentro, começou a ficar apavorada. Não tinha ninguém ali. O abrigo estava vazio.
- Ei, acho que ele escapou.
Maria tentou parecer irritada com a situação.
- Temos de encontrá-lo. Fazer uma armadilha. Precisamos cercá-lo.
Esteban estava ao lado dela dentro da casa.
- Está enganada, Maria. Nosso traidor não escapou. Ele está exatamente onde nós dissemos que estaria.
Ela já sabia a resposta, mas perguntou:
- Onde ele está?
Esteban olhou para fora, com mais aldeões entrando, um deles, com um arado na mão.
- Aqui dentro.
Sim, era ela. Eles descobriram e a atraíram para a casa. Agora nem adiantava mais sentir medo. Maria já sabia o que a aguardava. Nem teria como fugir. Estava totalmente cercada. A morte era agora a única saída. Não teria como mudar isso mesmo. Sentiu uma sensação de impotência e a certeza de que vivia seus últimos segundos. Sabia que eles sentiam que ela tinha este sentimento. Mais cedo ou mais tarde, acabaria acontecendo. Ela ainda recuou até a parede e encostou as costas ao lado da janela. Olhou para fora e viu que havia pelo menos uns vinte aldeões ali. Estava tudo acabado. Então, o que estava com o arado na mão o ergueu. Maria olhou para ele e viu as pontas chegando perto. De repente, tudo sumiu de sua visão e o mundo de Maria foi engolido pela escuridão.


Capítulo 10

Leon entrou em outra parte do vilarejo. O caminho de terra que percorria terminava em frente a uma propriedade rural. O terreno era contornado por uma cerca de madeira, com algumas galinhas caminhando por ali. Havia uma grande árvore já sem folhas devido à estação do ano. Dentro do cercado, a casa. Feita toda de madeira, grande, de dois pisos. No entanto, a pintura estava feia, dando-lhe um aspecto de velhice. O telhado era de zinco e as janelas pareciam todas serem basculantes. O agente se aproximou de um pequeno abrigo, que continha um poço ao lado e ficou um tempo em silêncio, apenas observando o terreno. Sem dúvidas, logo que colocasse o pé para fora, seria fatalmente localizado pelos aldeões e teria de lutar. Quantos eram? Que armamentos possuíam? Acreditava que seriam os mesmos que enfrentou até o momento, mas não tinha como ter certeza. Depois de ter passado por apuros, na outra parte da vila, não estava mais tão disposto a correr tantos riscos. A final de contas, se estivesse morto, não teria como resgatar Ashley.
Ao lado da casa existia um galpão, todo em madeira e sem pinturas. Tinha uma carroça e algumas vacas pastando. Leon começou a se aproximar deste local, ainda sem ver ninguém. Estariam na missa junto dos outros aldeões? Não sabia, mas não queria facilitar. Foi caminhando lentamente, com o revólver em punho, pronto para disparar e de tempos em tempos olhando para os lados e para trás. Não queria ser apanhado desprevenido. E pelo jeito, ao contrário dos zumbis de Raccoon City, estes homens eram espertos e tinham claras noções de como cercar uma pessoa. E estavam decididos a matá-lo. Ficava atento a cada barulho, a cada movimento das folhas das árvores e a cada sombra que aparecesse no chão. Sabia que tinha de estar pronto para tudo.
Avistou então, dois aldeões no galpão. Estavam arando o feno. Passou furtivamente por eles e sequer foi notado. Tentaria passar correndo por ali, pois não estava disposto a entrar em conflitos desnecessários. Mas não teria como sair desta parte da vila sem entrar na casa, pois havia uma cerca que impossibilitava fazer isso. Não demorou em entrar na casa.
A parte interna era tão feia quanto a externa. Não se tratava de uma moradia, mas sim de uma espécie de galpão. Havia alguma mobília, mas apenas composta por estantes e balcões. Também tinham alguns barris por ali. O piso era todo de madeira e o segundo piso não era completo, mas ia somente até a metade da extensão da casa. Uma escada de madeira portátil dava acesso a ele. Não enxergou ninguém, mas pelos barulhos que ouviu, sabia que não estava sozinho. Havia algum aldeão no local e deveria encontrá-lo antes de ser encontrado.
Leon escalou a escada e o encontrou. Estava arando feno lá em cima. Parecia estar colocando tudo em um monte. Nem teve tempo de ver que havia alguém atrás de si e foi alvejado por um disparo na cabeça, caindo já sem vida no chão. Com certeza o barulho do disparo atrairia mais deles, mas tentaria sair dali o mais rápido que pudesse. De repente, quando se virou ao ouvir alguém chegando pela frente, viu um machado pequeno voando em sua direção. Conseguiu se atirar no chão e desviar da arma improvisada, que cravou na parede. Quando se levantou, um dos camponeses estava escalando a escada. É, parecia que eles não eram muito espertos. Ao subirem a escada, teriam de usar as mãos para escalarem e se tornavam alvos fáceis. Leon apenas chegou perto e quando os dois já tinham alcançado uma altura considerável, visto que a casa era bem alta, derrubou a escada. Os dois caíram de costas, sendo que o que estava mais alto, bateu a cabeça na parede e morreu. O segundo, parece ter quebrado a perna, ou algo mais, pois passou a ter grande dificuldade em se mexer. Leon saltou até a parte de baixo novamente e abreviou o sofrimento do aldeão. Depois, recolocou a escada no lugar e subiu novamente ao segundo piso.
Havia uma janela que dava para uma espécie de recuo. O primeiro piso era maior que o segundo, de forma que dava para caminhar sobre o teto. Leon contornou a casa para ver se havia algo de suspeito ou se mais algum aldeão estava por ali. Não viu nada. Agora tudo estava em silêncio, a não ser pelos barulhos feitos pelos animais presentes na propriedade. Saltou então no chão. Estava agora do outro lado da cerca. Era o único meio de chegar à saída. Correu até um portão, que ficava no meio de um cercado. Também eram de madeira, tanto o portão, como o cercado. Abriu ele com cuidado, pois não sabia o que o aguardava do outro lado. Nem sabia que teria uma surpresa nada agradável bem logo.
Assim que atravessou o portão, deu de cara com uma escada, que ficava no meio do mato. O cenário era praticamente o mesmo. O chão de terra, com folhas caídas e as árvores de onde as folhas caíram, todas com os galhos nus. A escada, no entanto, era de madeira. Não tinha ninguém por ali, mas Leon sabia que todo o cuidado era pouco. Os aldeões sabiam de sua presença e o estavam esperando. Isso era certo. Se não estavam visíveis, não significava que não estivessem ali. O fato de não poderem ser vistos era muito pior, pois como conheciam bem o terreno, podiam armar emboscadas. Por isso, estava sempre alerta, com a arma pronta para entrar em ação. Apesar de que ela seria de pouca utilidade para seu próximo desafio. Começou a descer os degraus cuidadosamente, mas não conseguiu evitar que eles rangessem sob o seu peso. Sim, estavam ressecados pelo tempo, meio podres pelo contato com a água das chuvas e do orvalho e não tinha como passar por ali sem fazer nenhum barulho. Sabia que seria ouvido. Isso era uma armadilha perfeita. Olhava para os lados e via apenas árvores e mato. Mas é claro que ali poderiam estar os camponeses prontos para lhe atacarem. E loucos para o pegarem desprevenido. Teria de ser muito esperto e dar alguma sorte para sair vivo dali.
Foi quando ouviu um barulho. Não soube de imediato de onde vinha. Parecia vir do alto. Olhou para cima e viu uma pedra gigantesca desabando. Era arredondada, de forma que iria rolar pela escada. Teria de correr e muito para não ser esmagado. Saiu correndo o mais rápido que conseguia, na esperança de ver algum desvio, alguma saída por onde pudesse se desviar do caminho da pedra, mas não via nada. E por mais que corresse, a pedra era mais rápida. Iria esmagá-lo. Tinha de sair do caminho. Não tinha escolha, teria de pular para o meio do mato e arriscar que não houvesse alguma armadilha, e torcer para não sofrer alguma lesão que viesse a prejudicar sua mobilidade. Saltou, e em seguida, a pedra passou. Se tivesse ficado mais alguns segundos, teria sido esmagado. Leon observou a pedra passar pensando que fora por pouco. Habilidade, reflexo e sorte ajudaram. Mas não poderia continuar contando com a sorte, pois ela acaba uma hora. E era a segunda vez que era salvo por ela. Na verdade, não sabia que não fora bem a sorte que o ajudara no vilarejo, quando estava totalmente cercado. E nem ficaria sabendo quem tocou o sino. Teria de seguir e tentaria tomar mais cuidado.
Passou a caminhar, sempre tomando o cuidado de não baixar a guarda, pois a presença daqueles camponeses era constante. Pareciam que sempre o estavam observando. Que sabiam exatamente onde estava e o estavam esperando onde quer que fosse. Chegou a um túnel de pedra. Era muito escuro, não sendo possível enxergar praticamente nada. Assim que começou a atravessá-lo, morcegos passaram a rodeá-lo. Não queria fazer barulho, então tentou se livrar deles sem usar a arma. Logo chegou ao outro lado.
Assim que saiu, viu duas casas de madeira. Uma bem ao lado do túnel e outra mais ao fundo. Ambas estavam com a pintura descascada, dando-lhe um aspecto de velhice. Quando deu um passo para fora do túnel, viu que na verdade, a mais próxima não era uma casa e sim, apenas um telhado sobre alguns palanques. Foi quando viu dois aldeões. Empunhavam uma… banana de dinamite cada um deles, e estavam acendendo o pavio. Rapidamente, Leon atirou na cabeça de ambos e os matou antes que pudessem fazer o que pretendiam. Dinamite? Poderiam fazê-lo em pedaços antes de conseguir pensar. Ainda bem que os neutralizou antes de conseguirem o que queriam. A coisa estava ficando cada vez mais perigosa. Passou pelo telhado e viu algumas armadilhas para ursos. Desarmou elas e seguiu.
Leon chegou perto da casa que vira. O estado dela era lastimável. Toda em madeira, a pintura da parte externa estava toda descascada. O telhado já era, ficando apenas com o forro, ou o que restava dele sobre o piso. As paredes ainda estavam em pé, mas não ficariam por muito tempo ainda. As janelas não tinham venezianas e estavam com os vidros abertos. Não se notava mais nenhum movimento ali dentro, mas o agente não iria entrar lá sem se certificar de que realmente não tinha ninguém ali. Caso fosse apanhado, poderia ser cercado facilmente. Apanhou uma granada de mão e jogou pela janela. Quando entrou, encontrou três aldeões mortos. Às vezes é bom ser precavido.
Saiu pelos fundos da casa e avistou outra, que até então, não tinha percebido. Ficava ao fundo, atrás de algumas árvores, em uma pequena depressão no terreno. Era bem maior que as demais, sendo de dois pisos, com o telhado feito de telhas de barro. As janelas de vidro estavam fechadas. Ao redor dela havia um muro de tijolos, mas estava em péssimo estado, com partes caídas, inclusive. Apesar de esta casa ser bem maior do que todas que foram vistas até então, seu estado não era melhor. Também era toda em madeira, e a pintura estava descascada. À frente dela, existia uma escada, que dava para uma pequena varanda. Logo atrás, a porta. Para a surpresa de Leon, a porta era de ferro e estava trancada com um cadeado. Teria de arrombá-lo, o que não seria difícil. Não demorou em abri-lo.
Dentro, a casa estava ainda pior. A pintura estava completamente descascada. As janelas estavam horríveis. A mobília estava caindo os pedaços. Havia uma pequena mesa ao centro da sala, com cadeiras, tudo em madeira, mas parecia que tinham ficado ao relento. Dava a impressão de estarem podres e que se alguém sentasse nelas, poderia cair. Uma lareira estava no canto da sala, mas Leon imaginou que não seria seguro acendê-la, tendo em vista seu estado. Ao sair da sala, entrou em um pequeno corredor e quase caiu em uma armadilha. Uma bomba estava colocada no meio dele, com uma linha de laser. Se passasse por ela, iria pelos ares. Tecnologia avançada para um vilarejo rural. Estranho, muito estranho. Cada vez mais se comprovava que aqueles aldeões eram manipulados por alguém. Faltava descobrir quem e quais os objetivos da pessoa que estava por trás deles. E aí, com certeza, chegaria a Ashley.
Chegou à outra sala de estar. Esta tinha uma poltrona, uma mesa ao centro também, uma lareira no canto e algumas estantes. Tinha livros em algumas delas. Só que tudo estava em péssimo estado. As estantes pareciam estar caindo de podre. O sofá estava grosso de poeira e tinha a aparência de estar ali há pelo menos uns cinquenta anos. E os livros estavam se deteriorando. Mas o caminho terminava ali. Não tinha mais nenhum lugar para ir, a não ser voltar por onde entrara. Só que isso não ajudaria em nada. Tinha de encontrar alguma coisa que desse passagem a outro cômodo da casa. Procurou então, observar com extremo cuidado para ver se encontrava alguma abertura, algo que pudesse indicar uma passagem secreta para qualquer lugar que fosse. Então viu que uma das estantes estava em frente a uma passagem. Sim, era só empurrá-la. E foi o que fez. A estante saiu do lugar e Leon pôde passar para o outro cômodo. Quase a desmontou ao empurrá-la. Ao se distanciar do móvel, ficou com o casaco cheio de poeira.
O cômodo aonde entrou estava quase que completamente vazio, mas passou a ouvir batidas. Alguém estava batendo em alguma coisa de madeira. Foi caminhando vagarosamente, se escondendo atrás da parede. Virou-se e viu de onde vinha o barulho. Vinha de dentro de um armário. Ele balançava um pouco. Abriria? Quem ou o que estava lá dentro? Estaria correndo perigo? Ou seria alguma armadilha? Foi chegando sem fazer barulho perto do cômodo. As batidas não paravam. Leon parou em frente a ele. Lembrou-se de Raccoon City. Não, não havia zumbis ali. Todos estavam vivos. Pareciam não agir por vontade própria, mas estavam vivos. Entretanto, o que encontraria dentro daquele armário? Podia sentir sua pulsação cada vez mais rápida. Mas estava decidido. Iria abrir.
Leon chegou bem perto do armário. Encostou-se em um dos lados da porta, sacou a arma, deixou pronta para atirar e lentamente abriu-a. Mas antes mesmo de terminar, um homem caiu lá de dentro. Era muito diferente dos aldeões. Pele clara, cabelo liso e um pouco compridos, castanhos. Usava uma camisa de mangas compridas branca, um colete e uma calça jeans. Estava amarrado pelos pulsos e com uma fita adesiva tapando sua boca. Parecia apavorado. O agente americano se aproximou lentamente, sempre com a arma apontando para o homem que estava caído no chão. Então, retirou a fita adesiva da boca do homem que estava à sua frente. Este, olhando para Leon, falou:
- Um pouco rude, não acha?
Leon o virou de costas para soltar as mãos do homem, que continuou falando.
- Você não é como eles?
Enquanto desamarrava as mãos do homem, Leon foi falando, meio que automaticamente.
- Não, e você?
Depois de se soltar, o homem rolou pelo chão. Este estava visivelmente sentindo muitas dores nos pulsos. Pudera, estava amarrado. Ficou um tempo olhando para as mãos, então, ainda sem olhar para Leon, perguntou.
- Ok. Tenho uma pergunta muito importante. Tem um cigarro?
- Tenho um chiclete.
A conversa entre os dois, no entanto, durou pouco. Não demorou para que ouvissem grunhidos e passos. Então, chegaram dois aldeões. Um deles portava um arado e outro, um machado e estavam aparentando aquela fúria que para Leon não podia ser normal. Então, apareceu um terceiro homem. Mas este era diferente dos aldeões. Bem diferente. Para começar, devia medir mais de dois metros de altura, talvez uns dois e vinte. Era muito alto, o cara mais alto que Leon já vira em toda a sua vida. Caminhava pisando firme. Tinha pés e mãos enormes e parecia ser muito forte. Usava uma roupa escura. Era careca e tinha uma barba que ia até o seu peito. E para completar a visão assustadora, tinha um olho de cada cor. Um era castanho escuro, quase cinza e o outro quase marrom. Sua expressão era de desprezo por aquelas duas pessoas que estavam caídas. O homem que fora libertado por Leon apenas comentou.
- Perfeito.
Leon olhou para ele.
- Como assim?
- O chefão.
Leon então levantou e correu na direção daquele homenzarrão. Preparou seu melhor golpe e o acertou com toda a força. Mas… o homem apenas segurou o pé do agente americano com uma das mãos, sem sequer se mexer do lugar. Depois disso, atirou Leon para cima, como quem joga um boneco de pano. O agente secreto voou por alguns instantes e caiu de costas no chão. Depois disso, olhou para trás, mas começou a ouvir um zumbido nos ouvidos e tudo ficou escuro.


Capítulo 11

A entrada de trás da residência do prefeito do vilarejo Bitores Mendez estava aberta. A casa tinha mais de um andar, mas não era possível ter acesso a todos eles. Alguns eram secretos. Isso pouca gente sabia. Mas Ada sim, pois interceptara um e-mail de um cientista que trabalhou para os Illuminados. A residência do chefe dos aldeões era diferente das demais. Sim, era uma casa grande, com amplas janelas. Estavam apenas com os vidros fechados, ao contrário das do vilarejo, que as tinham cobertas por tábuas em sua grande maioria. O telhado era de telhas de barro. Ao redor da casa havia muitas árvores, mas todas estavam com os galhos nus, sem folha alguma. A estrada de terra que conduzia até porta dos fundos da residência de Mendes era ladeada por pequenos abrigos de madeira. Havia dois poços de tijolos na entrada do pátio. Por que dois? Um deles continha uma água tremendamente suja, com uma tampa aberta e escorada por uma tábua de madeira. O outro tinha uma escada que conduzia a um buraco muito profundo. Sequer dava para enxergar o fundo dele. Não havia barulho nenhum ali naquele momento, apenas alguns corvos nos galhos. Pelo chão, havia folhas secas, de modo que quando uma pessoa passasse por ali, ouviria seus passos sobre elas. O cenário, no entanto, não lembrava luxo e requinte, mas sim algo sombrio. O sol estava coberto por nuvens acinzentadas e grossas, deixando o céu nublado e acentuando o caráter melancólico da paisagem.
Assim que Ada deu os primeiros passos no meio da propriedade, os corvos que estavam sobre os galhos das árvores saíram voando, denunciando a presença de alguém ali. A espiã caminhou cuidadosamente até a entrada da casa. Ouvia claramente seu pisar sobre as folhas secas. Vez por outra, parava e prestava atenção se não ouvia mais passos, se certificando que estava sozinha. Olhava atentamente atrás de cada árvore por que passava. Não queria ter nenhuma surpresa desagradável. Mas não tinha ninguém, o que a deixava apreensiva. Onde estariam os aldeões? O que estariam fazendo? Quando chegou perto da mansão, atirou o gancho no telhado e se içou para cima. Iria fazer sua especialidade. Observar sem ser vista. Viu movimentação em um dos cômodos da casa e se posicionou de modo que pudesse espionar ali.
Viu um quarto de dormir com um enorme quadro de Osmund Saddler na parede. Possivelmente, o aposento de Bitores Mendez. No momento, as pessoas saíram do local, então ela, cuidadosamente, abriu uma das janelas e entrou. Apanhou um livro que estava sobre uma prateleira e o abriu. Entrava uma claridade pela janela que estava apenas com o vidro fechado. O piso de madeira fazia um rangido quando ela pisava, o que lhe desagradou, pois queria fazer o menor ruído possível, mas como a porta estava fechada, acreditou que não a ouviriam.O livro que estava lendo continha informações a respeito da seita de Saddler. Então, Wesker telefonou para a espiã novamente.
- Nós temos um problema.
O presidente da Umbrela foi seco. Ada estava acostumada com os modos de Wesker e nem estranhava mais. Wesker seguiu.
- O pesquisador que nós infiltramos foi descoberto pelos Illuminados.
- Você deve estar falando daquele vagabundo espanhol. Onde ele está agora?
- Ele está preso em uma casa abandonada a noroeste da vila. Até que ele recupere a mostra, não podemos deixá-lo morrer.
- Você não precisa ficar me lembrando disso o tempo todo.
Ada desligou o telefone e ficou um tempo pensando no que acabara de ouvir. Então Luis Sera estava preso. Não dava para deixá-lo sozinho. A espiã guardou o telefone e saiu para um corredor. Ela abriu a porta com cuidado. Assim que saiu, viu em uma extremidade do corredor um quadro de Saddler e na outra, um de Bitores Mendez. O corredor era estreito, com candelabros pendurados nas paredes, coberto com um carpete vermelho. Ela parou em frente ao quadro do prefeito da vila e o analisou por um tempo. E pensou em como ele podia ser tão feio. Era um homem com uma barba que ia quase até o peito, usando umas roupas escuras e com um olho de cada cor. Nossa, esse detalhe fechava a descrição dele com chave de ouro. Um deles parecia ser de vidro, ou outro material parecido.
A espiã desceu e dobrou à direita ao fim do corredor e desceu uma escada. Havia uma mesa posta no centro da sala. A comida estava servida e, ao contrário das casas dos demais aldeões, esta tinha um aspecto agradável. E cheirava bem. Bem no centro da mesa, uma garrafa de vinho. Na sala, havia diversos quadros pendurados nas paredes, vários com paisagens pintadas. Um deles tinha a igreja, de onde Ada acabara de vir. Ela caminhou por uma porta e chegou à outra parte da sala. Nesta parte, tinha diversas estantes com livros. Quando a espiã colocou os dois pés nesta parte da sala, no outro lado, em frente a uma prateleira, apanhando um livro, estava um aldeão. Ele se virou e veio na direção de Ada, que sacou a arma e atirou na cabeça dele, matando-o. Depois, Ada correu pela sala e chegou até a cozinha. Era pequena, com um armário no chão, uma estante e um fogão com uma panela e uma frigideira sobre ele. Havia outra garrafa de vinho sobre uma das prateleiras. Pelo jeito, o prefeito da vila tem um bom gosto, pensou Ada. Sua casa era ricamente ornamentada. Não era nada moderno, mas tinha um toque clássico. Móveis em madeira, estofados. Tinha o hábito da leitura, visto que havia muitos livros, tanto na sala quanto no quarto dele. E pelo jeito, Mendez também apreciava um bom vinho. Sim, ele era bem diferente dos demais aldeões. E se por algum momento, Ada chegou a estabelecer algum paralelo com os zumbis, esta visão quebrava de vez qualquer semelhança que o caso pudesse ter com o de Raccoon City.
Antes de sair, Ada deu mais uma vasculhada na casa, para ver se encontrava alguma pista de Sera. Então, abriu uma porta que ficava sob a escada por onde desceu. Era um banheiro. Ela olhou bem ali e notou que estava muito sujo. A higiene passou longe deste local, pensou ela. Fechou a porta torcendo o nariz. Não iria encontrar nada de útil naquele lugar. Ada saiu dali e passou por uma lareira. Era espantoso o número de quadros de Osmund Saddler na casa. O líder dos Illuminados realmente parece ser adorado por todos, refletiu a espiã.
Ada saiu da casa, agora usando a porta da frente. Não encontrou nada ali que pudesse ser útil. Assim que saiu, viu mais daquelas árvores sem folhas nos galhos, um cercado de madeira que formava uma estrada, um abrigo do lado direito da porta e um aldeão com um saco na cabeça e uma motosserra. Antes de ser vista. A espiã pegou a metralhadora automática de sua bolsa e andou com cuidado. Antes de ser notada, ela disparou uma rajada de tiros no homem, que caiu. Só que quando ela foi seguir caminhando, ele levantou. A espiã recarregou a arma o mais rápido que conseguiu e quando apertou o gatilho, já estava com a motosserra quase acertando sua cabeça. O homem voou para trás novamente. Na terceira rajada de tiros, o homem da motosserra morreu. Que é isso? Nunca precisou dar tantos tiros em uma pessoa para matá-la.
Depois de matar o homem da motosserra, Ada desceu por um caminho estreito, com alguns abrigos à esquerda. Quando chegou perto de um abrigo de alvenaria, com o telhado de zinco e as janelas cobertas por tábuas, um aldeão saiu ali de dentro. Ela rapidamente atirou nele, matando-o com um tiro na cabeça. Passou pelo inimigo já morto e deu uma espiada dentro da pequena casa, certificando-se de que não havia mais ninguém ali. O caminho terminava em um grande portão de madeira. Ela o abriu e se viu de volta ao vilarejo, onde iniciara sua missão. Quando entrou, notou que estava tudo em silêncio. Mas os aldeões já haviam voltado da igreja. Será que Leon havia conseguido sair dali? Ada voltou a pensar no que aconteceu ao agente. Mas não tinha tempo para ficar pensando nisso. Tinha muitas outras coisas a fazer para ficar se preocupando com Leon. A final, o agente sabia se cuidar muito bem sozinho.
O caminho por onde Ada foi terminava em frente ao galinheiro. Ela parou e deu uma observada nas casas dali. Mais uma vez as olhou. Todas estavam com a pintura descascando. E aquelas tábuas na frente das janelas a deixavam muito intrigada. Mas tudo estava quieto. Quieto demais, para dizer a verdade. Parecia não haver ninguém ali. Ada, no entanto, não baixava a guarda. Sempre olhava bem ao redor, atrás de cada sombra. Procurava olhar com atenção por trás das tábuas que cobriam as janelas para verificar algum movimento, mas não viu nada.
Então ela escalou uma escada, pois não quis entrar pela porta da frente da casa de dois andares. Ao chegar na janela, viu um aldeão. Ele estava virado para a escada que dava acesso ao primeiro andar. Obviamente, esperava que Ada entrasse pela frente. Ela o surpreendeu com um tiro na nuca. Logo outro subiu do andar de baixo, correndo. A espiã também o matou. Só então ela viu que caíra em uma armadilha. De repente a casa foi cercada. Uma escada de escalar foi colocada na janela. E aldeões começaram a subir para entrar no local. Ada foi rápida e derrubou a escada, fazendo dois caírem no chão. Depois, ela atirou lá de cima, matando os aldeões que tentavam subir até onde estava. Então, desceu ao primeiro andar. Não tinha ninguém ali. Ada deu uma espiada para o lado de fora por um pequeno buraco na parede e não viu nenhum movimento. Então, abriu a porta e saiu.
A espiã então passou a caminhar pelo local. Não encontrou nada que pudesse ajudar. Também não viu sinais de Leon. Provavelmente ele já saíra dali. Se o tivessem matado, certamente encontraria algum vestígio dele. Ou o próprio, largado em algum lugar. Como não viu nada, pensou que o agente saíra dali quando o sino soou. Mas Ada ainda entrou nas outras casas para procurar por pistas da amostra ou do cientista. Não viu mais nada que pudesse ajudar. Quando entrou na moradia que ficava quase de frente à igreja, foi atacada por um aldeão. Conseguiu se esquivar, mas a foice dele chegou a fazer vento no seu cabelo. Ada pegou a pistola e atirou na cabeça dele depois de se desviar do ataque. E quando saiu da casa sem encontrar nada, uma mulher a atacou com um arado. Mas Ada estava com a guarda alta e não foi surpreendida. Conseguiu se livrar da atacante sem maiores problemas. Depois de passar pelo estábulo, olhou em volta e não viu mais ninguém. Então, andou até um trilho que levava ao portão de saída. Tendo passado por todas as casas, sem encontrar qualquer rastro tanto de Sera, como de Leon, Ada avançou para a outra parte do vilarejo. Não se esquecia que custasse o que custasse, tinha de evitar que matassem Luis Sera.
Ao passar pelo portão, a paisagem praticamente não mudou. Ali, a diferença é que havia um cercado, dentro do qual corriam algumas galinhas. Mas não havia grama, nem flores, nem nada que pudesse dar uma enfeitada no local. As árvores estavam sem uma única folha nos galhos e sem qualquer flor ou fruto. Do lado esquerdo do portão havia um pequeno abrigo de madeira e um poço, que estava fechado. À frente, uma grande casa de madeira, branca, mas com a pintura descascando. O telhado era de zinco. Do lado esquerdo de quem entra, um cercado com um estábulo, dentro do qual havia uma vaca pastando distraidamente. E dentro do estábulo também, um homem arando feno, que se dirigiu a uma casa grande, branca de dois pisos. Ao lado dele, atrás do cercado, outro aldeão trabalhava, carregando dois baldes. Foi ele quem viu Ada primeiro e largou-os e saiu correndo de encontro à intrusa.
A espiã apontou a arma e atirou na cabeça dele antes de deixá-lo se aproximar. O aldeão caiu morto. Ela se dirigiu ao estábulo. Não tinha mais ninguém ali, mas havia marcas de sangue na parede. O que isso significava? Para ela, uma coisa. Leon passou por ali. De quem seria aquele sangue, no entanto? Do agente? Ela torcia para que não fosse. Dentro do estábulo, tinha uma carroça com feno sobre ela e vários barris de madeira. Ada passou por ele e chegou à parte de trás. Ali, tinha uma galinha correndo de um lado para o outro, duas vacas pastando e um cão, de pelo cinza, não muito grande, mas que parecia assustado. Saiu correndo quando a espiã se aproximou dele. O animal emitiu um som parecido com um choro. Mas havia um fedor ali inexplicável. A espiã caminhou por ali e então, atrás de um pequeno abrigo, onde havia um cocho para os animais, ela encontrou a fonte do mau cheiro. Em uma espécie de carro de mão, mas grande. Havia uma pilha de corpos humanos. Cadáveres. Não dava para identificar nenhum, o que deixou Ada aliviada. Não deviam ser nem Leon, nem Sera, pois aquelas pessoas, ao que tudo indicava, teriam sido mortas há algum tempo. E os dois estavam vivos no dia de hoje ainda. Mas onde? Ada então atirou o gancho no alto do estábulo, se içando sobre o telhado, para ter uma visão panorâmica do local. Mas não conseguiu ver nada que lhe ajudasse. Então, desceu.
Ada entrou na casa de madeira de dois andares e ao fazer isso, viu que na verdade tratava-se de um grande galpão. Não tinha quase nada ali, exceto estantes, barris de madeira, pilhas de feno e uma escada de escalar. A espiã parou por alguns instantes, para tentar ver se ouvia algum som que indicasse a presença de algum aldeão, mas em um primeiro momento, não ouviu nada. Escalou a escada e observou a parte de cima. Estava tudo vazio também. Nenhum sinal de aldeões, ou mesmo do cientista ou do agente. Mas ao que tudo indicava, como havia coisas quebradas ali, que Leon tinha passado pelo local. Ela então saiu da janela e percorreu sobre o recuo do primeiro piso. Quando chegou à borda, viu um aldeão na parte de baixo. Ele não a viu, no entanto. Ada mirou e atirou na cabeça dele, que morreu sem sequer ter visto quem atirou.
Depois disso, ela saltou e caiu na parte que dava acesso à saída. Havia alguns barris de madeira, caixas espalhadas e feno. Ada então, caminhou até um portão com a insígnia da seita bem ao centro. Antes de abrir, ela parou e olhou para trás. Ninguém a estava seguindo. Então, com cuidado, abriu-o bem devagar. Não queria ser apanhada de surpresa. O portão rangeu ao ser aberto. Todo o cuidado que teve foi para o espaço naquele momento.
Do outro lado, Ada viu um caminho com uma grama rala em forma de escada, uma espécie de picada. Dos lados, árvores. Todas sem nenhuma folha nos galhos. Sobre eles, alguns ninhos de corvos. Sobre o caminho, cruzava uma ponte de madeira. A espiã parou alguns momentos e olhou para cima, para se certificar de não cair em nenhuma armadilha. E de fato, havia dois aldeões com machados, pronto para atirá-los sobre Ada quando ela passasse por eles. Só que a espiã viu, sacou a metralhadora e matou os dois. Ela seguiu o caminho, descendo a picada. Olhando bem para a ponte, ela jogou o gancho e se içou para cima.
Sobre a ponte, Ada aproveitou para ter uma vista panorâmica do lugar. Deu para dar uma olhada de cima, mas tudo o que ela viu foi somente o terreno com as árvores sem folhas, a sequência da picada em forma de escada e mais pedras. Não parecia ter ninguém ali. E a espiã teria de descer, pois os dois lados da ponte estavam trancados. Os aldeões deveriam ter alguém para abrir, caso precisassem sair. Ela teria de descer como subiu. Enganchou a presa e desceu. Assim que caiu sobre a terra, seguiu passando pelas árvores, olhando atentamente atrás de cada uma delas. Não podia se dar ao luxo de ser atingida por um machado ou uma foice. Então, não podia baixar a guarda. Após passar por elas, chegou a um túnel. Era escavado na montanha que sustentava a ponte e não tinha nenhum ponto de iluminação dentro dele. Só dava para enxergar ali por ser dia. Havia uma série de obstáculos no caminho, fazendo com que Ada tivesse de perder tempo, desviando dos pedaços de madeira, de partes de muros de tijolos e outros pedaços de cadeiras. Então, chegou ao fim do túnel.
Protegida pelas sombras, Ada não saiu do túnel. Escondeu-se atrás de uma das paredes, ajudada também por um cavalete de madeira. Ela espiou e viu dois aldeões com uma banana de dinamite na mão. Então, apanhou a pistola e mirou na cabeça do que estava do lado de fora da casa e atirou. O aldeão morreu na hora. O que estava do lado de dentro da casa olhou para fora pela janela e não viu nada. Ficou olhando por um momento e antes de notar qualquer coisa, a espiã estourou a cabeça deste também. Antes de sair da escuridão, Ada deu mais uma verificada para ver se não seria surpreendida. Então, viu mais um aldeão atrás das árvores à sua esquerda. Ele estava parado, com uma dinamite na mão. Ela atirou na cabeça dele, matando-o também. Mais uma vez, notou que havia rastros de sangue por ali. Parecia que alguém fora morto e arrastado pelo chão. E ficava se perguntando quem teria sido? Sera ou Leon? Ou ainda algum aldeão morto? Não teria como saber. O que ela sabia no momento, é que o cientista estava sumido e em poder dos Illuminados. E que perdera Leon de vista depois de tê-lo deixado cercado por aldeões no vilarejo. Não sabia como ambos estavam, apesar de só Luis Sera ser sua responsabilidade.
Assim que saiu do túnel, observou bem o cenário. À frente, tinha uma casa de madeira. Em péssimo estado. A pintura branca estava toda descascada e a madeira, lascada em alguns pontos. O telhado era de telhas de barro, mas isso onde tinha telhado. A maior parte dele havia caído. As janelas não tinham venezianas e os vidros estavam abertos. Do lado direito, havia um abrigo com um poço, mas em estado igualmente péssimo. Dava para ver grossas teias de aranha na entrada. As armadilhas de urso estavam desarmadas, o que significa que alguém passou por ali. Tinha praticamente certeza que fora Leon quem as desarmou. O que poderia indicar que o agente estava bem. Mesmo assim, não conseguia deixar de se preocupar com ele. Se algo lhe acontecesse, certamente se culparia por não tê-lo ajudado quando o agente fora cercado na cabana. Mas ele saiu de lá. Então o que quer que acontecesse a ele depois disso, não poderia entrar para a conta de Ada. A não ser que ele tenha saído ferido do cerco e por causa disso, se tornado uma presa mais fácil. Mas não era bom ficar pensando nessas coisas.
Depois de esquadrinhar o terreno e ver que não havia mais ninguém ali, Ada correu até a casa. Aproveitou que estava com as janelas abertas e apanhou uma granada da mochila, retirou o pino e jogou-a para dentro. Ouviu a explosão e gritos. Sim, estavam esperando-a. Ela caminhou com cuidado, passando por trás da casa. Quando chegou perto da janela, saíram ainda mais dois aldeões. A espiã deu um passo para trás e conseguiu acertar o primeiro, matando-o com um tiro. O outro veio caminhando. Estava ferido da granada, mas ainda conseguia persegui-la. Ada se livrou dele sem maiores problemas.
Ada saltou dentro da casa. Não tinha móvel algum ali. A pintura por dentro estava tão ruim como por fora. Toda descascada. Uma parede interna dividia o local em dois cômodos. Ela passou para o outro lado. O forro estava caindo. Sem a maior parte do telhado, não era de surpreender, pois não tinha proteção contra o mau tempo. Também não tinha nenhuma mobília, a não ser uma pequena mesa no canto do cômodo, mas que parecia que iria cair, se colocassem até uma folha de papel sobre ela. O chão rangia a cada passo que ela dava e parecia que seu salto iria afundar na madeira a qualquer momento. A casa toda parecia que poderia cair a qualquer instante. Era um mistério que não tenha desabado com a explosão da granada que jogou. Então, Ada se aproximou da porta de saída, que se localizava na extremidade oposta à entrada do cômodo. Estava parcialmente coberta por tábuas pregadas na parede. Mas dava para enxergar o que acontecia do lado de fora. Serviria para os aldeões poderem ver os intrusos sem serem vistos. Agora, ela usaria esse método deles.
Ada chegou perto das tábuas que cobriam a porta e observou o cenário com o seu monóculo. À frente, havia uma depressão. A paisagem não mudava. Árvores com os galhos descobertos, o chão de terra com folhas secas caídas, nada de flores, grama ou qualquer cobertura para o solo. E corvos repousando sobre os galhos, crocitando vez por outra. Não se via ninguém caminhando mais por ali, mas alguém passara pelo local, pois as armadilhas de urso, que eram abundantes, estavam desarmadas. E certamente não foram os aldeões que as desarmaram. No centro da depressão, havia uma casa. Era maior que as outras, mas esse era o único detalhe que a diferia. O estado dela era péssimo também. Toda em madeira, tinha uma pequena varanda à frente, com uma escadinha de dois degraus. A pintura era um tom esverdeado desbotado, mas a mesma estava toda descascada. As telhas eram de barro. Dos lados da casa, havia um muro de pedra, que servia principalmente para evitar que a terra das partes mais altas do terreno desmoronassem. Assim como as outras casas, era um mistério como ela conseguia se manter em pé.
Então, de repente, a porta da frente se abriu. Alguém iria sair. Ada aproximou ainda mais a visão. Quem iria aparecer? Aldeões? O prefeito do vilarejo? Osmund Saddler? Luis Sera? Leon? Aqueles segundos antes de aparecer quem havia aberto a porta pareceram intermináveis. A espiã sentiu uma angústia misturada à expectativa. Tinha um mau pressentimento. No entanto, queria afastar esses pensamentos da cabeça. Pensou que provavelmente não seria ninguém além de aldeões ou de Bitores Mendez. Mas alguma coisa lhe dizia que logo saberia o que aconteceu a Sera ou a Leon. Então viu e confirmou os maus pressentimentos. Um aldeão saiu pela porta, carregando um homem sobre o ombro, desacordado. Esperava que assim fosse. Ou estaria morto? As pernas e braços pendiam inertes e o aldeão o levava como se fosse um saco de batatas. Ada prestou atenção. Não dava para ver de longe se estava vivo ou não, mas o homem que estava sendo carregado estava de sapatos, uma calça social cinza escuro, uma camisa branca com um colete. Sim, era Luis Sera. Então, a segunda má notícia. Atrás do primeiro aldeão, veio outro, trazendo outro homem nos ombros. Este usava uma calça jeans e um casaco marrom. Não restavam dúvidas. Tratava-se de Leon. Os dois estavam desacordados? Esperava que sim. Eram prisioneiros. Para aonde estavam sendo levados? Ada teria de descobrir e rápido, pois se estivessem apenas desacordados e não mortos, corriam risco. E poderiam acabar mortos se ela não conseguisse chegar a tempo de ajudá-los.
Ada saiu da casa e procurou chegar mais perto dos dois aldeões. Não podia se aproximar muito, pois não queria correr riscos. Tudo o que não precisava era ser presa também. Tinha de ter o máximo de cautela. O que iria dizer se o resgate de Sera acabasse sendo preso? Quem iria resgatar o resgate? Não. Tinha de se manter distante o suficiente para não ser vista. Enquanto os observava, viu o rosto de Leon. Estava inconsciente. Seus braços pendiam para baixo, assim como suas pernas e balançavam. O agente parecia um grande boneco de pano. Mas não aparentava estar ferido, por isso, Ada afastou da cabeça o pensamento de que ele estivesse morto. E Sera também não deveria estar. Mas para evitar o pior, tinha de agir. E rápido. Os aldeões foram se afastando em meio às árvores. Então, de repente, encobertos pela neblina, sumiram do campo de vista. Ada teria de segui-los.
A pergunta é: para que lugar estavam levando Sera e Leon? Provavelmente para a casa do prefeito. Ada sabia o caminho até lá. Não iria pelo mesmo que os aldeões tomaram, pois poderia ser que tinha mais deles por ali. E se voltasse por aonde veio, tinha certeza que chegaria mais rápido. Então a espiã voltou ao túnel que foi seu caminho de vinda. Só que os aldeões devem ter previsto que ela faria este caminho. Ou colocaram guardas nos dois lados. Havia dois deles na saída do túnel a esperando, armados com dinamites. Ada teve de ser rápida ao matar os dois, pois se acendessem as dinamites, poderiam mandar tudo ali pelos ares. E não seria nada bom se isso acontecesse.
A espiã chegou até a escada que dava acesso ao vilarejo novamente. Não tinha ninguém ali, mas mesmo assim, Ada sabia que teria de tomar cuidado. Não podia se esquecer da ponte. Se passasse por ali distraidamente, poderia ser alvo de algum deles. Se lhe atirassem um machado lá de cima, nem queria pensar no que poderia acontecer. Então, antes de cada passo, olhava cuidadosamente atrás de cada árvore e olhava para cima, tentando antever possíveis perigos. Então, quando terminou a escada, chegou ao portão com a insígnia dos Illuminados. Mais uma vez, teria de tomar cuidado ao abri-lo.
De volta ao vilarejo, tudo parecia normal. Não tinha ninguém ali, exceto as vacas pastando, as galinhas correndo de um lado para o outro e aquele cachorro que saiu correndo antes. Ele estava parado perto de uma das vacas e pareceu não ter notado a presença de Ada. Ela olhou bem dentro do galpão e do estábulo, mas não viu ninguém por ali. Tinha de se apressar, pois se Leon e Sera estivessem vivos, qualquer minuto poderia fazer a diferença. Dentro do abrigo do poço, também não tinha ninguém, então Ada correu na direção do portão que dava acesso à outra parte do vilarejo.
Assim que passou pelo portão, teve uma recepção. Dois aldeões, um homem e uma mulher a esperavam. Ela estava armada com uma faca de cozinha e ele, com um arado. Ada matou os dois. É claro que eles não a iriam matar, mas poderiam ferir ou ainda, fazer com que perdesse tempo. O caminho até a saída do vilarejo agora era perigoso. Tinha muitas casas, abrigos, estábulos e o galinheiro. Além de uma torre. Poderiam servir facilmente de abrigo a qualquer pessoa que estivesse com a intenção de atacá-la. E a torre daria um ótimo lugar para um atirador. Era bom tomar cuidado, mesmo que estivesse com pressa, teria de investigar bem o terreno antes de avançar, pois mais importante que chegar a tempo de evitar o pior, era chegar ao local viva e caminhando, não como Luis Sera e Leon.
Assim que ela chegou ao centro do vilarejo, estava sendo esperada por um verdadeiro comitê de recepção junto à fogueira onde estava o policial empalado. Todos ali estavam armados com armas improvisadas, como machados, foices e arados. Ada pegou a metralhadora de dentro da sua bolsa, recarregou enquanto ainda estava longe dos aldeões e se preparou para o embate. Teria de ser rápida e acertar os primeiros tiros pelo menos, para diminuir o grupo até que eles chegassem perto. Depois, com menos alvos, seria mais fácil. Só que eles pareciam saber disso, pois se espalharam.
Ada apontou a metralhadora e disparou, matando os aldeões que vinham na frente. Mas eram muitos. Ela precisou recarregar a arma e quando se deu conta, os demais já estavam perigosamente perto. Então, atirou, mas tendo de se esquivar de uma foice que veio voando em sua direção. Matou mais uma boa quantidade deles. Mas parecia que não acabavam. A espiã pensou só no tempo que estava perdendo ali. Então, depois da terceira rajada de tiros, conseguiu se livrar do grupo de aldeões.
A espiã seguiu, mas ficou com a impressão de ter visto alguns deles se separando do grupo. Ou seja, ainda teria mais aldeões para enfrentar antes de conseguir chegar ao portão que dava acesso à saída do vilarejo. Então, ela foi caminhando com cuidado. Ao passar pelo estábulo, parou, chegou perto da porta e espiou para dentro. Apenas a vaca pastava displicentemente ali, alheia a tudo o que ocorria ao seu redor. Ao passar pela última casa, antes de chegar ao portão, no entanto, um grupo de quatro aldeões saiu de dentro dela. Ada sacou a metralhadora automática e matou todos eles. Então, um detalhe chamou a atenção da espiã. Um dos aldeões mortos estava usando o casaco de Leon. Certamente era um dos que esteve com os que o levaram até a casa do prefeito. Se é que eles foram para lá. Era um palpite. Mas só poderia ser. Ada teria de correr.
Ada então passou pelo portão e deu uns passos, quando ouviu vozes. Eram os aldeões conversando. A espiã caminhou furtivamente e quando chegou atrás de um dos abrigos, entrou nele, para poder olhar melhor, antes se certificando de que não teria companhia indesejada. Ao ver que estava tudo limpo, parou e observou o cenário com o monóculo, aproximando a visão o máximo que conseguiu. Dois aldeões caminhavam atrás de um homem enorme. Sim, usava aquele mesmo sobretudo marrom escuro e era careca. Sem dúvidas, tratava-se de Bitores Mendez, o prefeito do vilarejo. Os três se dirigiram para a entrada da casa. Assim que entraram, fecharam a porta. Enquanto isso, do outro lado, Leon Scott Kennedy entrava na mansão de Mendez a procura de informações sobre Ashley. Ada não chegou a vê-lo.
O caminho até a casa era aberto, de maneira que Ada pôde dar uma boa observada e ver que não teria ninguém a esperando para uma emboscada. Então ela correu até a entrada. Ao chegar à porta, parou e colou o ouvido nela para escutar o que estava se passando dentro da casa. Ouviu uma conversa lá dentro. Pelo que conseguiu apurar, eram dois homens, deviam ser aldeões. Falavam em espanhol, se referindo ao efeito do parasita “Las Plagas”. Eles falavam alegremente, dando risada. Pareciam muito satisfeitos com o andar dos acontecimentos. De repente, silenciaram. Ada conseguiu ouvir uma voz que vinha do andar de cima. Esta, era em inglês.
- Parece que em nossas veias corre o mesmo sangue. Apesar de tudo, você ainda é um forasteiro. Lembre-se que se você se tornar um incômodo para nós, sofrerá graves consequências.
Ada subiu no telhado da casa, usando o gancho. Chegou a conclusão que o prefeito da vila só poderia estar falando aquilo a uma pessoa: Leon. Ada ficou atenta, olhou em volta da casa para ver alguma movimentação dos aldeões, mas tudo estava quieto. Então, procurou ficar atenta aos movimentos dentro da residência. De repente, ouviu um tiro. Devia ter vindo do quarto. A espiã desceu, usando o gancho até a altura da janela para averiguar o que estava acontecendo ali. Então, viu Bitores Mendez caminhando na direção de Leon, que estava caído. Sua arma, jogada no chão. Aparentemente, havia sido golpeado e caíra. Antes que o agente conseguisse se levantar, Mendes pisou sobre o peito do americano e começou a apertar. Ia matar Leon. Tenho que fazer alguma coisa, pensou Ada. Então, ela sacou a pistola e deu dois tiros nas costas do prefeito do vilarejo. Ele se virou para a janela. Pareceu ter sido picado por um mosquito. Como pode? A expressão dele se fechou quando viu Ada. Bitores Mendez correu em direção à janela e saltou, tentando atingir a espiã, que puxou o gatilho da pistola com o gancho, se içando para cima do telhado. O chefe do vilarejo passou reto e caiu no chão. Ada ficou apenas observando ele lá de cima. Mendes se levantou como se nada tivesse acontecido e ficou procurando Ada, sem encontrar. Bem, ela pensou, pelo menos sabia que Leon estava bem. Agora teria de encontrar Luis Sera.
O problema é que ao salvar a vida de Leon Scott Kennedy, Ada revelou sua posição. Agora, teria de correr para não ser ela a precisar de ajuda. Mendes olhou para cima. O telhado era o único lugar que ela poderia estar. Ada desceu pelo outro lado e saiu correndo pela estrada que dava acesso ao vilarejo, para se esconder, por enquanto. Até sentir que pudesse voltar a procurar pelo cientista. Agora viu que talvez não tenha sido uma boa ideia ter feito o que fez. Mas agiu por impulso. Por outro lado, nunca se perdoaria se Leon tivesse sido morto, pois sabia que daquela vez o agente não conseguiria escapar. Bitores Mendez o mataria. Só que quando chegou perto do portão, sua passagem foi bloqueada por um grupo de aldeões. Neste momento, Ada viu a enrascada em que estava metida. Ela recuou, sacou a pistola. Como iria passar? Então, sentiu uma picada na altura do pescoço, como um inseto. Depois, o corpo começou a amolecer e a visão turvou. Ada caiu no chão e a última coisa que se lembra de ter visto antes de apagar, foi o rosto de Bitores Mendez.
Tudo estava escuro. Ada ouvia vozes ao longe. Pareciam vir de outra dimensão. Não dava para entender o que diziam, mas era um grupo de pessoas falando a mesma coisa ao mesmo tempo. O corpo estava dormente. Não sentia nada, nem frio, nem dor, nem calor. Parecia estar flutuando. Os olhos não abriam, nem a boca. Parecia impossível mover qualquer músculo. A espiã tinha a impressão de ter perdido totalmente o controle sobre o seu corpo. Era como se estivesse fora dele. Ela começou a ficar nervosa, pois sabia que tinha de sair o mais rápido que pudesse por dois motivos: primeiro, porque cada minuto poderia significar a morte de Sera; segundo, do jeito que estava, era um alvo totalmente vulnerável. Aos poucos foi recuperando a consciência e sentiu que estava começando a sentir o corpo novamente. Neste momento, passou a entender o que as pessoas ao redor dela estavam falando.
- Morrer é viver! Morrer é viver!
Ada começou a entender o que estava acontecendo. Apalpou a superfície onde estava deitada. Era uma rocha. Era uma cerimônia daquela seita de Osmund Saddler. Ela estava em um altar e os aldeões repetindo aquela espécie de mantra. Pelo que ela sabia de rituais, isso só poderia acabar com um sacrifício. E pelo que podia notar, ela seria a criatura sacrificada. Então, de repente, eles pararam de repetir aquela frase. Ada abriu os olhos e viu um dos aldeões com um machado, pronto para dar o golpe de misericórdia. Ela teve uma fração de segundos para saltar de cima da rocha. Sem ver o que tinha acontecido, ela ouviu o som do metal do machado colidindo com a pedra. Ao olhar para trás, viu o aldeão com o machado na pedra, ainda se recuperando do baque. Sentiu um calor na perna e passou a mão no lugar. Havia sangue correndo. A lâmina do machado chegou a fazer um pequeno rasgo em sua pele.
Ada correu para trás, para se distanciar dos aldeões e viu que sua bolsa com as armas estava ali ao lado do altar. Pegou-a, sacou a pistola e atirou neles. Os aldeões não esperavam por aquilo. A espiã conseguiu acertar o primeiro, mas a visão ainda estava um pouco turva e seus reflexos pareciam ainda não terem se recuperado totalmente. Entretanto, havia só mais dois aldeões. Então, acertou o primeiro e quando o segundo chegou perto, atirou no rosto dele, matando-o. Estava em uma caverna. Olhou para a rocha onde estivera deitada. Havia uma mancha de sangue ali. Sem dúvida eles faziam rituais com sacrifícios naquele local. Mas o sangue na rocha estava seco, o que quer dizer que não sacrificavam ninguém ali há algum tempo. Algumas tochas iluminavam o local. Ada se dirigiu a um buraco. Ela saltou e foi para um nível mais a baixo.
Ali havia três aldeões. Um mais atrás acendeu uma dinamite e jogou onde Ada estava. Ela conseguiu subir rapidamente a escada e ouviu a explosão. Quando desceu, os três aldeões estavam mortos. Eles estavam atrás de uma trincheira, mas ela ficava voltada para o outro lado. Esperavam alguém que viria de fora. Ada passou por ela e saiu em uma escadaria de metal. Já era noite. Quanto tempo ficara desacordada? Provavelmente muito. Neste momento, Ada sentiu um frio percorrendo a espinha. Em todo esse tempo. Luis Sera pode ter sido morto. Isso iria significar provavelmente o fracasso da operação. Ou pelo menos seria bem mais difícil conseguir a amostra do parasita, pois esta estaria em poder dos Illuminados. E só ele sabia os atalhos dos locais para chegar a ela. Sem Sera, a missão seria bem mais difícil. Havia outro problema. À noite, as plagas saíam. Quer dizer que se estourasse a cabeça dos aldeões, poderia acontecer de o parasita sair do corpo deles. Seria mais difícil matá-los.
Ada subiu as escadas e entrou em uma espécie de sala de comando. O local era todo de tijolos, mas até a metade da parede, eles estavam expostos. Da metade para cima, a parede estava pintada. A luz vinha de lâmpadas fluorescentes no teto. Havia um teleférico parado ao lado da plataforma onde estava. Um painel deveria ativá-lo. Sobre uma mesa ao lado do painel, tinha uma chave de ferro grande. E não era para ligar o teleférico. Qual porta abriria? Era o que ela precisava descobrir. Na sala tinha alguns armários. A espiã abriu todos eles para ver se encontrava algo ali, mas não achou nada que pudesse ajudar. Depois disso, ela saiu de sala e desceu as escadas novamente. Desta vez, passou da parte de onde saíra e desceu ainda mais.
Chegou ao fim da escada. O local era escuro, com a claridade vindo de duas tochas que ficavam mais à frente, próximas a um portão. O chão era de terra. De um lado, uma montanha de pedra, por onde desciam as escadas de onde viera. Do outro, um penhasco. Não havia nada ali. Nem parecia haver aldeões. Teria de seguir em frente? Possivelmente sim. Ela seguiu até o portão, que estava trancado. Ada apanhou a chave que encontrou dentro daquela sala de comando e quando a girou, ouviu o barulho indicando que fora destrancado. Abriu o portão.
À frente, logo que passou pelo portão, viu um caminho estreito de terra, cercado por dois morros, com árvores sobre eles. A estrada era em curva, de modo que não se conseguia enxergar muito à frente, principalmente pela ausência de luz. Como consequência, Ada tinha de caminhar com mais cuidado, para não ser pega de surpresa. Caminhava sempre procurando enxergar o que tinha a frente, antes de dar o próximo passo. O caminho terminava em um grande galpão. Parecia não ter ninguém ali. Tudo estava muito quieto. Ada chegou perto da porta e encostou o ouvido para tentar escutar algo, mas tudo permaneceu em silêncio. Não conseguia acreditar que não houvesse ninguém ali. Mas teria de abrir a porta para se certificar. Quando abriu, a pouca claridade que tinha ali, iluminou uma mulher com a cara toda enfaixada e uma motosserra na mão. Mais dois aldeões estavam ali, cada um com uma tocha na mão. Foi nesse momento que Ada percebeu que algo no pescoço da mulher brilhava. A espiã sacou da bolsa, a metralhadora automática. Teria de usá-la.
Dois aldeões vieram na frente, com tochas nas mãos. Ada teve de ser rápida, pois não podia deixar que a mulher da motosserra chegasse perto. Atirou rapidamente nos dois, que caíram no chão. Em seguida, se virou para a mulher com as ataduras na cabeça, que corria na sua direção. A espiã disparou uma rajada de tiros, jogando-a para longe. Só que não a matou ainda. Quando Ada se deu conta, os aldeões que ela pensou ter matado, estavam em pé novamente. Só que não tinham mais cabeça. No lugar dela, uma coisa grotesca, da qual saía uma espécie de chicote com uma extremidade pontiaguda. Eles vinham agitando aquele chicote, tentando atingi-la. Mas Ada foi mais rápida, recarregou a arma e atirou naquelas coisas. Agora, os dois caíram definitivamente mortos. Mas a mulher com a motosserra ainda avançava. Ada mirou na cabeça cheia de ataduras e descarregou a metralhadora. Somente agora, a mulher caiu morta. A chave que ela carregava no pescoço caiu no chão e Ada a apanhou. Ainda não sabia para quê poderia servir. Não encontrou, no entanto, mais nenhuma pista sobre o paradeiro de Luis Sera. Então, foi até a saída do galpão e abriu a porta.
Depois de sair do galpão, correu até chegar ao portão. A cada segundo que perdia, não tirava da cabeça a ideia de que poderia estar deixando o pesquisador ser morto. Cada minuto perdido poderia fazer a diferença. De volta à escada de metal, Ada tomou o caminho de volta à sala de controle. Assim que a espiã terminou de subir a escada, um aldeão a estava esperando com um machado. Ele atirou assim que viu Ada, que se esquivou. Depois, atirou nele. Só que este também não morreu. A plaga nasceu do pescoço dele, e Ada teve de atirar naquela coisa de novo, até matá-lo definitivamente. O caminho era subir o teleférico, que ficava ao lado da sala de controle. Ada viu que para ligá-lo, teria de usar uma chave. Sim, seria a que pegou da mulher da motosserra. Então, a espiã colocou a chave no lugar, girou-a e começou a ouvir um ruído, que vinha da máquina ao lado. Olhou pela janela e viu que as engrenagens do teleférico começaram a se mover e as cabines penduradas nele, entraram em movimento. Agora era só subir em uma delas.
Ada foi até o local onde tomar o bonde do teleférico. Era na plataforma que ficava a cima do lance de escadas onde saíra após deixar a cerimônia de sacrifício. Onde ela seria sacrificada. O local tinha uma parte de tijolos, onde era a sala de controle. As demais paredes eram de zinco. Já era noite e a luz vinha de lâmpadas no teto. Ao longe, dava para visualizar um castelo. Certamente seria o da família Salazar, que devia ficar pela região. O teleférico andava vagarosamente, ligando esta parte da plataforma a outra no alto. A espiã teria de subir sobre um dos bondes e ir até a parte de cima. Ao desembarcar, Ada saiu em outra plataforma, agora no alto. O local onde estivera, agora era visível, mas estava muito pequeno. A espiã se encaminhou para uma escada, que descia para um terreno aberto.
Ao descer, caminhou sobre um caminho de terra, com uma cerca do lado direito que protegia de uma queda de muitos metros de altura. Do lado esquerdo, uma parede de zinco e madeira. Havia uma luz tremeluzente vindo das tochas que estavam dispostas em espaçamentos regulares. De repente, Ada passou por um grande portão de madeira, envernizado com uma face esculpida em alto relevo no centro. Faltava um olho na gravura. O outro era uma bola vermelha, parecendo algum tipo de leitor ou scanner. Ela teria de seguir.
Desceu o terreno até chegar a uma casa, toda em tijolos, com telhado de zinco. Não havia pintura, de forma que os tijolos estavam todos visíveis. O que era estranho é que não tinha ninguém ali. Ada sabia que isso podia ser até pior. Gostava quando os inimigos se revelavam de uma vez. Todas as vezes que chegava a um local e não via nenhuma movimentação, normalmente era uma armadilha. Então, a espiã passou a tomar o máximo de cuidado possível. Sabia que tinha de ser rápida, mas não podia ser descuidada. Ada contornou a casa e não viu nenhum aldeão. Parou perto da porta e apurou o ouvido para ouvir alguma movimentação suspeita do lado de dentro. Como não ouviu nada, entrou.
Do lado de dentro, não viu nada. Nem mobília, nem aldeões. Apenas alguns armários de metal, uns em pé, uns caídos. Havia uma mesa no canto da parede e as lâmpadas que forneciam a iluminação ao local estavam penduradas no teto. Era possível ver algumas caixas de madeira espalhadas pelo chão. Mas nem uma pista de onde Luis Sera pudesse estar. Ada estava começando a se preocupar. O que teria acontecido ao pesquisador? Estaria vivo ainda? Se estivesse morto, o que diria a Wesker? Então, Ada chegou a um portão, que levava de volta ao vilarejo. Mais uma vez ela teria de ir lá. Estava trancado. A espiã usou o gancho para se lançar sobre ele.
O local onde ela caiu era uma espécie de grande corredor. Havia tochas iluminando a escuridão, plataformas suspensas com barris de madeira, pedras sendo escoradas por pedaços de madeira e pequenos abrigos feitos de tábuas com o telhado de telhas de barro. Alguns deles, tinham uma cobertura de galhos e folhas. Havia mais portões à frente. Haveria alguém para impedir ou pelo menos tentar fazê-la perder tempo? Alguma coisa lhe dizia que sim. Quando Ada se dirigiu ao último portão, uma criatura gigantesca saltou, bloqueando a passagem. Era um dos monstros criados pela seita, conhecido como “o gigante”. É, o caminho para o vilarejo seria mais difícil do que estava pensando. Ada teria de perder algum tempo, brincando com aquele grandalhão. Sim, Bitores Mendez deixou duas saídas possíveis do povoado, mas fortemente guardadas. Uma delas, com um exército de ganados e a outra, com um gigante. Só que Ada estava fazendo o caminho contrário. Estava entrando no povoado.
O gigante veio correndo na direção de Ada e deu um soco. A espiã rolou para o lado e sentiu o chão tremer. Ela correu para a extremidade oposta, na direção de uma das casas. A criatura veio correndo. Era fácil localizá-lo, mesmo sem poder vê-lo, pois como ele é muito pesado, dá para se guiar pelo som dos seus passos. Ada entrou pela porta e saiu pela janela da casa de madeira à frente. O gigante apenas a viu entrando e golpeou o abrigo com toda a força. Ada aproveitou enquanto o monstro estava prostrado, com as mãos no chão e disparou uma rajada de tiros com a metralhadora. Ele então, levou as mãos à cabeça e se contorceu de dor, enquanto gritava. Das suas costas, saiu uma coisa que parecia uma grande centopeia vermelha. Ela correu e saltou sobre as costas do gigante. Pegou a metralhadora e disparou outra rajada de tiros naquela coisa que saía das costas da criatura, saltando no chão logo depois. A criatura soltou um urro de dor e desabou, quase caindo sobre a espiã, que teve de se atirar para o lado. O gigante estava morto. Agora era só seguir em frente, na direção do vilarejo.
Ada se aproximou de um portão de madeira. Abriu-o e foi por um caminho em subida. Era um túnel de madeira, fechado por todos os lados. Ao sair, se viu em um pátio cercado por um muro, também feito em madeira. Observou alguns abrigos dos lados e bem ao centro, uma casa de dois andares. Havia várias tochas iluminando o lugar. A grama era rasa e o vento frio dava calafrios. A casa era também toda de madeira, tinha a pintura descascada, o telhado de zinco e quase todas as janelas estavam quebradas. Algumas escadas de escalar estavam escoradas nas paredes. Parecia que haviam tentado entrar na casa pelas janelas de cima. Então, ouviu vozes. Ada correu até um dos abrigos nos arredores do terreno e procurou ver com atenção de quem se tratava.
- Esqueci-me de uma coisa. Vocês prossigam.
A porta da casa se abriu e a luz interior iluminou a parte da frente. De dentro da cabana, saiu um homem com uma camisa branca, colete e uma calça social cinza. Era Luis Sera. Estava vivo. Alguém o chamou. Ada conseguiu ver. Era Leon. Estava acompanhado de uma garota usando uma blusa alaranjada, um casaco verde sobre os ombros e uma saia da mesma cor. Era loira e aparentava ter uns vinte anos. Só podia ser Ashley Graham. Era ela quem Leon veio buscar. Quando os dois entraram novamente na casa, Ada se revelou. Luis Sera, que estava caminhando distraidamente, ao ver a espiã, abriu um sorriso.
- Olá, senhorita. Você tem fogo? E alguns cigarros para alegrar o meu dia?
Ada não estava sorridente. A espiã cruzou os braços e encarou com um ar de seriedade.
- Onde está a amostra?
Sera meneou a cabeça, olhou para o chão e falou:
- Certo, vamos pular as preliminares. Na verdade, eu estava indo pegá-la. E agora, me diga. Onde está o amor, doçura?
- Soa divertido para mim. É bom se apressar.
- Certo, senhorita, mas onde você fica nessa história? Para quem você trabalha?
Ada caminhou, virando-se de costas para Luis Sera.
- Tem coisas que é melhor que você não saiba.
- Tudo bem. Não me importa quem é você. Desde que você se encarregue do velho e de seus amigos religiosos. Cada um faz a sua parte.
Ao dizer isso, Luis Sera seguiu caminhando. Ada estava de costas para o pesquisador e não o viu sair, apenas escutou seus passos se distanciando, até não os ouvir mais. Sera passou por uma cerca de madeira e seguiu caminhando. Para aonde estava indo? Iria atrás da amostra. E a espiã esperava que ele não fosse capturado mais uma vez. Enquanto isso, ela também iria à procura da amostra. A final de contas, se a conseguisse, talvez não fosse mais necessário ficar bancando a babá daquele espanhol, evitando que qualquer coisa ruim lhe acontecesse.
Ada, por outro lado, ficou um tempo pensando consigo mesma. “De todas as pessoas envolvidas no caso, Luis é o que menos tem ligações. Ele não trabalha para nenhuma organização. Fui eu que avisei para a Umbrela sobre a importância dele. Fiz isso porque eu gosto dele. Seu entusiasmo me faz lembrar de mim mesma quando era mais jovem. Foi uma jogada de sorte quando interceptei sua mensagem pedindo por ajuda. Parece que ele não confia na polícia, então, ele mandou um e-mail para um velho amigo da faculdade, que ele pensava estar vivo. De qualquer forma, foi assim que consegui achá-lo. Aparentemente ele conduziu sua própria investigação sobre a seita enquanto estudava o parasita “Las Plagas”. Ele é um cientista brilhante. Conseguiu uma grande quantidade de informações e juntou tudo para saber o que significava. Deve ser por isso que Saddler o contratou. É uma pena que a pesquisa de Sera tenha levantado suspeitas. Quando eu disse a ele quem eu era, ele praticamente me implorou para ser preso. Dizia que precisava de proteção. Disse que não se interessava mais nem pelo parasita “Las Plagas”, nem pelos Illuminados. Queria apenas continuar vivo para poder seguir sua vida em paz. Eu ordenei que me trouxesse uma amostra como evidência. Parecia, no momento que ele era uma das poucas pessoas em que Saddler confiava. Então achei que seria possível, sem maiores dificuldades segui-lo e pegar a amostra. Mas agora, duvido que a seita o deixe escapar facilmente. Agora, terei de me assegurar de que tudo saia bem”. Apesar do que falava a Wesker, Ada sabia que ela tinha metido Luis Sera em uma enrascada. E que tinha obrigações morais com sua segurança. No entanto, ele precisaria colaborar também. Afinal de contas, se tudo desse certo, a Umbrela o compensaria muito bem. E ele, no fim das contas, aceitou o trabalho.


Continua...



Nota do autor: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus