Resident Evil - Incubação

Última atualização: 09/05/2018

Prólogo

Incubar:
Fertilizar um ovo (ovulo) para eclodir, multiplicar-se, crescer;
(Projeto) Incorporação gradual;
(Doença) Incubação.


Pensamentos malignos caem como gotas em um rio cristalino. Elas silenciosamente formam ondulações na água e pouco depois o rio está manchado como se fosse por lodo. O coração puro se perde, manipulado e preso por correntes como por uma maldição.
Há uma vila guiada por ensinamentos malignos, uma vila de tristeza. Não há flores na estrada, nem vozes alegres, nem traço de calor de vida é encontrado em lugar algum. A única pista de quem eram os aldeões que costumavam viver aqui está em rascunhos e bilhetes espalhados e deixados para trás.

***

Nesta vila, as pessoas estimavam os mais velhos, seus vizinhos e os rostos sorridentes das crianças. É uma vida simples e alegre, onde as pessoas trabalham duro para manter os velhos costumes e tradições. Uma vida pacífica. Durante essa época adorável, eu nasci, e voltei a terra. Eu amo esta vila.
Eu queria que ela tivesse continuado assim para sempre. Às vezes eu paro para pegar emprestados os escritos dos aldeões, e leio coisas a respeito dessa vila maravilhosa, para passar para as crianças ainda não nascidas das próximas gerações.
Tanto homens quanto mulheres trabalhavam duro na vila. Quando chegava a época do plantio, a vila inteira ficava ocupada com os preparativos.
No refrescante sol matinal, o sino tocaria, e as pessoas viriam das fazendas. Gotas de suor brilhavam nas testas dos homens que cultivavam o solo. As mulheres cantavam e conversavam umas com as outras, mas elas também estavam ocupadas ajudando no plantio. Ao meio dia, todos sentavam e descansavam, e comiam o almoço que estava preparado para eles. O pão assado fresquinho preparado pelas esposas dos homens os ajudava a se recuperarem de sua fadiga. E então, era hora de voltar ao trabalho.
Para os aldeões, trabalhar no campo era como cuidar de crianças. Com o amor dos aldeões, e a benção da natureza, eles teriam uma boa colheita em breve.
Para mim era assim também. Até as crianças começavam a ajudar cuidando das vacas e galinhas desde cedo. Como eram apenas crianças, era um trabalho duro transportar os baldes cheios de leite que os homens tiravam das vacas. Os laços sanguíneos eram fortes, pode-se dizer que a vila era uma grande família. Era uma ligação forte, que fazia com que todos na aldeia ajudassem uns aos outros. Todos os garotos da vila sabiam que quando crescessem, ajudariam a vila a prosperar com o melhor de seus talentos.
Meu pai era um homem de poucas palavras, mas tinha pulso firme para ordenhar as vacas, e me deixava experimentar um pouco de leite dos seus dedos. Tinha uma doçura leve, e um sabor muito rico. Era delicioso. Em algumas horas, iríamos tomar este leite em casa.
Na tarde de nosso dia de folga, um de meus amigos nos convidou para jantar. Ele estava trabalhando numa escavação no antigo castelo das redondezas. Como estava muito feliz por poder participar de um trabalho tão importante, ele nos contou a respeito e demonstrou muito orgulho. Eles tinham muitos pratos deliciosos enfileirados. Mas para mim, o maior prazer estava em sentarmos juntos, como uma família. Também nesta casa, eles valorizavam a mobília e os talheres antigos, e cuidavam bem deles. Levavam uma vida simples, assim como a nossa família, mas o modo como organizavam tudo era muito legal.
No jardim lá fora, eles tinham um pequeno canteiro de flores. Eles pararam em fila diante dele, e eu peguei meu pincel. Como agradecimento pelo jantar, eu pintei um retrato que eles poderiam dar ao seu bebê quando ele crescesse. Eles todos sorriram timidamente. Obrigado por seus doces rostos sorridentes.
Nesta vila, havia um conto que passava de geração para geração. Era um conto de louvor, do primeiro lorde do castelo, que combateu o paganismo neste lugar. Graças a este lorde, esta vila existe, e podemos continuar vivendo em paz. Geralmente, este conto é contado por avós para seus netos, enquanto a mãe e o pai da criança estão no trabalho. Na casa ao lado, a vovó contou para sua neta, enquanto plantava. E um dia aquela neta, provavelmente seria uma avó, e contaria o conto para a sua neta da mesma forma.
O verdadeiro lorde do castelo era um homem de um forte senso de justiça, que protegia os aldeões. Mas o atual lorde, Sir Ramon…
O tempo de colheita havia chegado! Parece que haveria uma excelente colheita este ano, que poderíamos vender a um bom preço na cidade vizinha. Com este dinheiro, poderíamos comprar coisas que não são encontradas na vila, como gasolina. Os aldeões trabalhavam todos juntos para carregar o caminhão com a safra excedente, e apesar de ser um trabalho duro, as crianças também ajudavam. O motorista pisou no acelerador, e o caminhão se foi. Crianças devem ser valorizadas, é o que todos na vila crescem sabendo. Todos desejam apenas que suas crianças cresçam fortes e saudáveis.
Quando o trabalho já estava feito, o sol já estava se pondo. Amanhã é o festival da colheita! Eu deveria ir dormir cedo hoje e acordar cedo amanhã.
Hoje é a celebração da colheita. Uma cerimônia para agradecer à natureza por nossa boa safra. Comer bem, o quanto quiser, dançar em círculo, e depois de toda a diversão, deitar-se no chão e observar o céu estrelado. E mesmo sendo tarde da noite, as crianças têm permissão para ficarem acordadas e brincar pelo tempo que aguentarem. Como é um dos dias festivos da vila, os pais estão dispostos a deixar as crianças ficarem acordadas apenas esta noite. E como todos trabalharam tão duro, eles aproveitam este dia especial juntos.
Por alguma razão, o chefe da vila não apareceu este ano. Mais provavelmente que o Sr. Mendez esteja na igreja com o padre, trabalhando duro, e não conseguiu vir, suponho.
Por aqui, muitas pessoas se juntam para cozinhar. Todos partilham de forma justa. Usamos a safra que cresce na vila, leite das vacas, ovos das galinhas, peixes dos rios, ingredientes que compramos coletivamente na cidade, e então todos levam a sua parte para casa. Meu irmão, que morava aqui perto, carregava seu caminhão com suas coisas, e nós dois íamos embora com o sol nos iluminando através das folhas. Ouvíamos pássaros cantarem, olhávamos as flores do lado da estrada, e nos divertíamos conversando o caminho todo para casa. A família do meu irmão saía toda para encontrá-lo, e quando ele acenava para eles, nós dois e o cavalo acelerávamos o passo enquanto elas entravam em casa. Ele amarrava o cavalo no portão. Ele carregava algumas coisas de nosso falecido pai que meu irmão ficara a cargo de cuidar. Já era minha hora de voltar para casa, mas tinha sido ótimo passar um tempo com meu irmão.
Como o chefe da vila havia anunciado que ele queria que todos da vila nos reuníssemos na igreja no próximo Domingo, eu lembrei minha esposa e minha filha que tínhamos que ir.


***

Depois que o chefe da vila havia terminado, lorde Saddler começou o sermão. Lorde Saddler era uma pessoa que o chefe da vila respeitava e reverenciava, e era o líder da organização religiosa “Los Illuminados”. Ele havia vindo para cá especialmente para o nosso bem, dos aldeões, e fez um maravilhoso sermão que durou horas. Em vez de apenas tentar purificar o sangue pecaminoso de descrentes como nós, ele tentou ensinar como limpar nossa alma, e encontrar o verdadeiro caminho para a felicidade.

***

Descrente, fico pensando se ele também era. Meu amigo, que nos convidou para jantar, é. Logo depois disto, sua personalidade havia mudado completamente, de calmo para violento. Era assustador… Se alguém não vai aos sermões, não poderá encontrar o caminho da felicidade.
A organização religiosa “Los Illuminados”, estava lá para nos proteger, e nos salvar de nós mesmos. Uma ação bem generosa, uma ação maravilhosamente generosa!
Para purificar nosso sangue pecaminoso, nossos corações tinham que se tornar um só. Tínhamos que colocar um fim à nossa linhagem sanguínea impura. Todos os aldeões ficaram em fila, para receber o sangue sagrado. Agora, era a vez do meu irmão. De repente, ele olhou para mim e gritou “Irmão! Me ajude!” Ele estava se recusando a participar da cerimônia. Para todos nós, aldeões nos tornarmos um só, era obrigatório que ninguém se recusasse. Todos os presentes consultaram o gentil chefe da vila e lorde Saddler a respeito do que fazer. Depois de terem falado com a família do meu irmão, eles também aceitaram a cerimônia, meu irmão aceitou pouco depois.
Neste dia, os aldeões souberam da verdade. O primeiro Lorde do castelo ficou com inveja dos “Los Illuminados”, e tentou ficar no caminho das suas boas ações. E lorde Ramon, para restaurar as relações com a organização religiosa, havia contribuído grandemente para a causa deles. O que significava que o conto passado de geração para geração era nada mais que uma grande mentira.


***

Fico pensando se o obstáculo estava fora do caminho deles agora… Minha esposa tossiu, e deixou a preocupação surgir em seu rosto. Pouco depois de jantarmos, minha filha começou a espumar pela boca! Seu rosto estava desfigurado como por uma terrível dor, e seus membros estavam tremendo furiosamente! Eu tenho que ajudá-la! Oh, meu Deus, o que eu deveria fazer?
Minha filha… minha preciosa filha… está MORTA!
Eu olhei para minha esposa, ela apenas continuou com um inexpressivo olhar em seu rosto. Simplesmente não posso acreditar no que acabou de acontecer… Eu me recuso a acreditar!
Eu corri até a casa do meu irmão o mais rápido que pude. Havia algo errado com seu filho. Ele estava doente de cama, e em volta de sua boca havia evidências de estar tossindo sangue. Eu perguntei a ele e ele disse que seu corpo inteiro doía. Seus olhos se fixaram em mim, manchados de insanidade, e eu tapei meus ouvidos, tentando evitar suas palavras de dor.
Nos dias seguintes, todas as crianças da vila haviam morrido. Nossas preciosas crianças haviam partido, não havia sobrado uma sequer. Nenhuma…
O número de adultos que estavam enlouquecendo, ou que haviam perdido todos os sinais de emoção, estava crescendo rapidamente. Alguns ficavam fazendo coisas estranhas, alguns se recusavam a comer, e outros ficavam resmungando, como se estivessem amaldiçoando alguém, sumiam por um tempo, e depois voltavam.

***

Nessa manhã… Eu também tossi sangue.

***

Nós recebemos uma mensagem do chefe da vila. “A vida do Lorde Saddler pode estar em perigo. Se alguém começar a bisbilhotar aqui, mate-o.” Mate quaisquer intrusos a vista.

***

A cabeça de um dos homens à minha frente se dividiu em duas.
Para nosso grande Lorde Saddler!
Por favor, nos abençoe com sua próxima ordem!

***

A vila agora está tomada pelo medo. Com pessoas que perderam seu rumo, pessoas conspirando, pessoas que buscam conflitos.


***

Esta passagem foi transcrita de um relato de um dos habitantes de um vilarejo no interior da Espanha. Vilarejo este, descrito antes do relato.

***

Massachusetts, Estados Unidos, 2004.
O Massachusetts Institute of Technology, o MIT, é uma das mais conceituadas e tradicionais instituições de Ensino Superior do planeta. Fundado em 1861, localizado em Cambridge, ele contém cinco escolas, uma Universidade, 32 departamentos e é frequentemente apontado como uma das melhores faculdades do mundo. O MIT tem reconhecimento internacional em suas pesquisas no campo das ciências físicas, engenharia, biologia, economia, linguística e comunicação. Seus egressos colecionam prêmios, dentre os quais se destacam os muitos Nobel conquistados em diversas áreas do conhecimento.
O ingresso no Instituto não é fácil. Só de estrangeiros, estima-se que mais de dois mil tentem o ingresso por ano. Pessoas provenientes de mais de cem países. Mas pouco mais de uma centena deles são admitidos. Para quem entra, no entanto, são ofertados cursos de graduação e pós-graduação, além da oportunidade de alojamento nos próprio Campus. Muitos são os alunos notáveis que entraram ou saíram dali. Muitos ficaram famosos depois. Portanto, se pode afirmar que não é incomum haver dentre os alunos, filhos de atores, grandes cientistas e políticos influentes cursando suas faculdades ali.
Desse modo, a filha do presidente dos Estados Unidos não chegava a ser uma personalidade isolada neste contexto. Ashley Graham era mais uma dos muitos acadêmicos do MIT. Por opção mais da família do que dela mesma, estava cursando sua graduação na área da computação, um dos destaques da instituição. Com seus vinte anos, a filha do presidente não curtia muito a posição que seu pai ocupava. Principalmente pelo fato de estar sendo constantemente vigiada pela Casa Branca. Reclamava da falta de liberdade para ir e vir, de ter de prestar contas a respeito do que falava, com quem falava e principalmente: pela falta de privacidade de sua vida virtual. Seu pai nunca deixava de dar uma “bisbilhotada básica” nas suas redes sociais. Tudo em nome da segurança nacional.
Ashley neste tempo era ainda uma adolescente em quase tudo, seu modo de pensar, de agir, de vestir. Seria um alvo fácil, pensava sua família, para algum ato de terroristas ou de pessoas que possivelmente quisessem intimidar o homem mais poderoso do mundo. Aliás, esse era o ponto nevrálgico. Após quatro anos de governo, Ashley não parece ter se dado conta da real importância do cargo de seu pai. Do quantitativo de pessoas, incluindo terroristas do mundo todo e de governos mesmo, que têm interesse em poder conseguir algo que colocasse o presidente norte americano em dificuldades. E a filha do homem mais poderoso do mundo era vista como um possível ponto fraco.
Neste sentido, toda a vigilância sobre ela nunca era de mais. Sempre acompanhada por pelo menos dois seguranças à paisana e vez por outra, com seguranças fardados mesmo, ambos em conjunto. Sempre a deixavam na porta do MIT e sempre estavam lá no horário em que as aulas acabavam. Tanto a segurança, quanto seu pai tinham um controle através do telefone celular dela, que rastreava a posição de Ashley através do GPS mostrando sempre a localização aproximada da garota. Se algo parecesse estranho, logo os seguranças que estavam de plantão eram acionados, caso os que estavam com ela não conseguissem ser contatados imediatamente. E isso irritava Ashley. Mas depois de três anos, ela até desistiu de tentar burlar as regras rigorosas que lhe eram impostas. E até já estava aceitando tudo numa boa. Mas sua grande torcida era para que seu pai perdesse a disputa eleitoral marcada para novembro. Então, sua vida voltaria ao normal. Era o que ela pensava.
O prédio era uma construção arquitetônica magnífica. Absolutamente simétrico, visto de cima em uma foto, era possível passar uma régua ao centro e ver que os mesmos elementos que estavam em um lado, estavam no outro. Ao centro do pátio, havia uma grande área verde, com árvores plantadas uma ao lado da outra, que iam da saída do prédio até a calçada. À frente, havia arbustos plantados à frente ao pátio, dando uma visão extremamente agradável a quem passe por ali. Há um espaço para caminhar que circunda o gramado que toma toda a parte central desta área verde, bem como um caminho ao centro dela que interliga os dois espaços. Assim, as pessoas podem caminhar por toda a extensão, sem pisar na grama.
Frontal a quem está passando pela calçada e olha para o MIT, é possível ver, entre as árvores, o prédio. Ele é todo em alvenaria, com a parte da frente apresentando um grande painel de vidro, que vai do chão até o teto. Existem três portas em madeira e à frente delas, dez colunas em estilo jônico. Sobre o teto, há uma grande abóbada, com as letras MCMXVI em baixo relevo, que em numerais romanos significam 1916, ano em que o atual Campus foi inaugurado. Com 68 hectares, ele se estende por um quilômetro e seiscentos metros ao longo da margem norte da bacia do rio Charles. Sobre as colunas, também em baixo relevo, está escrito MASSACHUSETTS INSTITUTE OF TECHNOLOGY.
Ashley Graham caminhava na calçada que circundava o prédio, dirigindo-se ao estacionamento, onde estava sendo aguardada. Usava uma blusa alaranjada, com uma espécie de cachecol. Usava uma saia verde e um cinto que combinava com o cachecol. Era de estatura mediana, magra, loura, com olhos azuis. Ela caminhava distraidamente, olhando para os lados. Estava estranhando um pouco o fato de não ter visto seus seguranças misturados às pessoas que transitavam pelo local. Normalmente estavam lá, procurando ficar invisíveis. Nos primeiros tempos ela nem percebia, mas com o passar dos anos, se familiarizou com os rostos dos seguranças e com a maneira como eles procuravam se misturar aos outros, sempre mantendo sua protegida sob constante vigilância até ela chegar ao carro que a conduziria para casa sã e salva. Mas neste dia, não havia ninguém. O que por um lado, deixou-a um pouco aliviada, mas logo em seguida com outro pensamento. Por quê? Mas logo deixou qualquer preocupação de lado. Sem demora, estaria no carro que a levaria à sua residência.
No entanto, mais alguns passos e outra surpresa. Havia umas quatro pessoas paradas, a observando. Ao que se percebia, estavam a esperando. E não eram os encarregados de sua segurança. Estavam todos em trajes militares, que ela logo reconheceu. Eram do Exército americano. Qual o motivo da mudança na rotina? Alguma coisa havia acontecido? Seu pai teria mandado militares virem escoltá-la? Se fosse, devia ter algum motivo relevante. Ashley foi se aproximando dos soldados, olhando para os quatro, um por um. Até que de repente, um deles deu um passo à frente. Devia ser quem estava comandando a operação. Era alto, de pele clara, olhos azuis e frios. Usava uma boina vermelha. Mas o que chamou sua atenção foi uma enorme cicatriz que ele tinha no rosto, que ia do olho esquerdo até a boca. Ela nem quis pensar em como ele conseguiu aquela marca. Ele tinha um olhar sério. Assim que a filha do presidente se aproximou, ele parou à sua frente, retesado, em posição de sentido.
- Senhorita Graham.
A voz dele era grave e ele falava em tom firme, como seria de se esperar de um militar. Ela suspirou e respondeu:
- Sim, sou eu. Está vendo a minha irmã por aí? Ah! Eu não tenho.
Ela deu uma olhada para os outros antes de continuar.
- Vocês não são as pessoas encarregadas da minha segurança. Onde eles estão? Até porque não sei se deu para perceber, mas vocês não são, digamos… discretos. Todos viram que são do Exército. Não seria melhor chamar menos atenção?
O militar não deu atenção ao que a filha do presidente disse e prosseguiu:
- Nós vamos levá-la. E respondendo à sua pergunta, nós não somos as pessoas que rotineiramente estão encarregadas da sua segurança pessoal. Somos oficiais do Exército e logo entraremos em contato com seu pai. Os seus seguranças foram mandados na frente. Há um plano para sequestrá-la. Terroristas querem tomá-la como refém.
Ashley prendeu a respiração. Seus olhos se arregalaram. Seu coração começou a bater rápido. Sim, se militares estavam ali para escoltá-la, é porque algo anormal estava acontecendo. Era a primeira vez que ela se sentiu realmente em perigo. Como seria ser sequestrada? Sentiu um calafrio percorrer sua coluna. Nunca tinha sido posta frente a frente com o perigo. E agora, tomava uma ducha de realidade. Sim, ela corria risco real. Então, era bom parar de ficar questionando e seguir as orientações passadas por aquele homem.
- O que eu tenho que fazer?
- Nada, apenas nos seguir.
Ashley assentiu com a cabeça.
- Sim senhor.
O militar fez um gesto com a cabeça para os outros três.
- Vamos.
Eles concordaram e se puseram a caminhar. Sequer olhavam para trás, pressupondo que Ashley estava os seguindo. Ela foi sem pensar, apenas queria que eles caminhassem com menos pressa. Eles não estavam calçando os sapatos dela. Mas viu que não adiantaria reclamar. Não demorou e pararam em frente a um carro. Era uma espécie de caminhonete do exército. Não tinha como não perceber. Os três soldados entraram, um no banco do motorista e os outros dois no banco de trás. O que aparentava ser o comandante deles, se virou para Ashley Graham.
- Entre, senhorita Graham. Não tem o conforto que costuma ter nos carros que anda, mas a situação exige que hoje seja assim.
A filha do presidente dos Estados Unidos viu que não teria escolha e entrou. Sentou-se exatamente no meio dos dois soldados que ficaram no banco de trás. Eles pareciam duas estátuas. Ela olhou bem para os dois e sentiu um pouco de medo. Algo lhe dizia que tinha algo errado, mas não sabia o que. Devia ser a quebra da rotina. O quarto militar entrou, sentou-se no banco do carona. O motorista deu a partida no motor e o carro saiu.
Enquanto o carro ia rodando, ela observou os três militares que acompanhavam o da boina vermelha. Usavam uma bandana na cabeça. Não diziam nada. Os dois ao seu lado sequer se moviam. Sua aparência não era muito boa. Pareciam pálidos e com olheiras. Ashley quase perguntou se estavam bem de saúde, mas desistiu, visto que tinham uma expressão de poucos amigos. Ela achou que não falariam nada. De repente, passaram por uma sombra e Ashley viu algo que a deixou amedrontada. Quando olhava para o militar à sua direita, no instante em que ficou escuro, um dos olhos do soldado ficou vermelho. Em seguida, voltou ao normal. Ashley olhou novamente para se certificar, mas pensou que fora impressão sua. Ela então se dirigiu ao líder deles. Este falava com ela.
- Só para saber. Como é o seu nome?
Ele se virou para trás.
- Jack. Jack Krauser. Seu pai me conhece. Sou o chefe de operações especiais.
- Então existe um plano para me sequestrar?
- Precisamente.
- E eu tenho muita sorte de vocês terem descoberto o plano e virem me salvar. Estou certa?
Krauser encarou a filha do presidente, se virando para trás em seu banco.
- Nem um pouco.
Agora ela ficou intrigada.
- Como assim? Vocês vieram para evitar que eu fosse sequestrada.
- Não vamos evitar.
O que ele está querendo dizer? Ashley estava ficando confusa.
- Mas vocês sabem que existe um plano para me sequestrar. Sabem quem quer me sequestrar?
- Precisamente.
- Certo. Mas se sabem quem quer e que vão tentar, como não vão conseguir evitar?
- Não viemos para evitar seu sequestro.
Ashley engoliu. Seu coração disparou. Ela percebeu que estavam fazendo um caminho totalmente diverso do que sempre fazia. Não estava indo para casa. A próxima pergunta poderia ter uma resposta que Ashley Graham já estava esperando, mas que não queria ouvir.
- E quem é que planeja me sequestrar?
Krauser sorriu antes de responder.
- Nós.
Jack Krauser fez um gesto com a cabeça para o militar à direita de Ashley. Ela sentiu que mãos seguraram seus braços e de repente, tudo ao seu redor começou a ficar embaçado. Um zumbido foi invadindo seus ouvidos e o teto do carro pareceu estar descendo ao seu encontro. Os sons foram ficando mais baixos até parecer que estava em um sonho. De repente, tudo ficou escuro e Ashley não viu mais nada.


Capítulo 1

Madri, Universidade de Madri, 2004. Dois meses antes do sequestro de Ashley Graham.
O Departamento de Biotecnologia da Universidade de Madri estava dentre os centros de pesquisa mais avançados da Europa. Muitos cientistas de gabarito faziam pesquisas ali, principalmente de países latino-americanos que aproveitavam as muitas oportunidades de bolsas de estudo em programas de pós-graduação. Espanhóis também, é claro, como o cientista Luis Sera.
Sera se formou na Universidade em Biologia e se especializou no estudo de organismos parasitas. Sempre se encantou por estes seres que conseguem viver dentro de outros, que dependem de outra forma viva para existir. Como ele chegou ali? De onde vem? Proveniente do povoado chamado “El Pueblo”, uma região interiorana, de características rurais. Luis Sera queria para si um futuro diferente dos demais familiares e foi para a capital com o intuito de estudar, se graduar e ter uma carreira. Então, passou a publicar seus estudos a respeito de colônias de parasitas e de como estas formas de vida se desenvolvem dentro de seus hospedeiros.
Dentro do laboratório, no entanto, um dos objetos chamava sua atenção, tanto por seu conteúdo, como pelo que ele representava, por sua história. Tratava-se de um cilindro de vidro lacrado. Dentro dele, havia uma espiral contendo a substância, um vírus trazido da América, mais especificamente dos Estados Unidos. Gravado no seu exterior, o símbolo de risco biológico. Segundo se afirma, ele tinha a capacidade de reanimar pessoas mortas. No entanto, ele acabou sendo um desastre. Seu objetivo, a princípio, seria o de curar doenças. Mas ele acabou se tornando uma arma biológica. As pessoas depois de mortas, passaram a ganhar nova vida, mas não como pessoas, mas como verdadeiras feras. Elas perdiam simplesmente a capacidade de raciocinar, uma vez que os cérebros não voltavam à vida, se transformando em zumbis que tinham como único instinto, a busca por alimento. E para isso, passavam a caçar todos os seres vivos que pudessem ser fonte de carne. Inclusive humanos. E o pior. Quando atacavam uma pessoa saudável e a mordiam, levando-a a óbito, esta pessoa também retornava à vida, mas infectada. Como outro zumbi. Aos poucos a pequena cidade de Raccoon City foi toda infectada e o governo lançou uma bomba atômica para conter a infecção. A versão oficial dava conta de um acidente nuclear, mas alguns poucos cientistas sabiam a verdade, ou pelo menos, sabiam de boatos sobre a esterilização da pequena cidade americana. A empresa que estava por trás deste vírus, a Umbrela, passou por um processo de falência e para todos os efeitos, ela deixou de existir. Mas sempre as pessoas se faziam a pergunta. Será verdade? Ninguém mais soube dizer.
Todos os dias, Luis Sera era o primeiro a chegar ao laboratório. Como não tinha família, nem muitos amigos na capital, seu passatempo era mesmo o trabalho. E ao contrário da maior parte dos pesquisadores, ele ainda não tinha um alto salário. Morava ainda de aluguel em um pequeno apartamento e tinha um carro compacto vermelho. Mas em uma segunda-feira, algo iria mudar sua vida. Quando ainda estava começando seu trabalho, um homem da recepção bateu à porta. Sera ainda estava procurando seu uniforme de trabalho, suas luvas e máscara de proteção, quando se deu por conta que o chamavam. Então, ele se dirigiu à porta e a abriu. O homem então perguntou:
- O senhor é Luis Sera, correto?
Sera olhou para o homem, com vontade de perguntar se havia mais alguém na sala, mas percebeu que não valia a pena se incomodar por coisas como estas.
- Sim, sou eu. Em que posso ajudar?
Sera procurava ser sempre cortês com as pessoas. Bem apessoado, alto, magro, com uma barba bem cuidada, com maneiras gentis, ele era visto como uma pessoa muito simpática. Não tinha muitos amigos ainda, pois passava muito tempo estudando e se dedicando às suas pesquisas, mas aqueles com quem se relacionava gostavam muito de sua companhia. O homem da recepção então, disse:
- Há alguns senhores que estão procurando pelo senhor.
Procurando por ele? Sera achou estranho.
- Procurando por mim? Tem certeza?
- Sim. Eles querem falar com o senhor Luis Sera. Portanto, não estou enganado.
- Você os conhece?
O homem ficou algum tempo pensando antes de responder.
- Não faço a menor ideia de quem sejam. Mando-os entrar?
- Sim, pode deixar passar.
Sera então, deixou de lado as luvas, que tinha acabado de apanhar e preparou lugares para suas visitas. O que queriam dele? Bem, agora, só saberia depois que eles chegassem. E não demoraram. Eram três sujeitos muito estranhos. Um deles, o cientista sabia quem era. O sujeito do meio. Muito alto, careca, usando um sobretudo marrom de lã batida, com um olho de cristal, com a pele clara. Tratava-se do chefe do vilarejo de El Pueblo, Bitores Mendez e Sera ficou se perguntando o que ele poderia querer. Os outros dois, ele não conhecia. Um, estava ao lado dele. Era alto, usando uma estranha túnica roxa, que escondia praticamente todo o seu rosto. No peito dele, havia uma insígnia bordada. Sera teve a impressão de já ter visto aquele símbolo em algum lugar, mas não conseguia se lembrar do seu significado. Ao lado deste, estava um homem baixo, com uma roupa esquisita. Vestia-se com um conjunto azul, com um chapéu da mesma cor sobre a cabeça. A aparência dele era de uma pessoa de idade, mas se veio do vilarejo, devia ser um morador novo. Sera não o conhecia. Todavia, se podia perceber que era uma pessoa de elevado poder aquisitivo. Então, como um bom anfitrião, o pesquisador foi se apresentando.
- Bom dia. Meu nome é Luis Sera. Em que posso ser útil?
O homem alto, do sobretudo marrom deu um passo à frente e tomou a palavra.
- Bom dia. Nós já nos conhecemos, senhor Sera. Sinto muito pelo seu avô. Sei que não é fácil perder alguém da família, ainda mais quando não se tem mais ninguém.
Luis Sera ficou um tempo em silêncio. Sim, seus pais haviam falecido antes. Seu avô era ainda o último que restava no vilarejo. Parece que uma doença estranha andava assolando as pessoas do local de onde viera. Então, ele levantou a cabeça e sorriu.
- Muito obrigado, senhor Mendez. Mas a vida segue.
Depois de um breve silêncio, Bitores Mendez voltou a falar.
- Muito bem, muito bem, antes de qualquer coisa vou apresentar meus dois acompanhantes.
Sera então interrompeu-o.
- Mas que indelicadeza a minha. Entrem. O local não é muito confortável, mas tem alguns assentos para vocês, sentem-se.
Bitores Mendez olhou para os outros dois e eles entraram.
- Muito obrigado.
Os três homens sentaram-se nos bancos e o chefe do vilarejo continuou falando.
- Este ao meu lado esquerdo, vem do vilarejo, embora você não o deva conhecer. Ele mora no castelo, que fica perto da vila. Chama-se Ramon Salazar. No entanto, da família dele, já deve ter ouvido falar muito, quando era mais novo.
Sim, ele ouviu. Eram os donos do castelo que ficava nas redondezas. Recentemente, ouviu-se comentários de que estavam reativando as minas e que aldeões estavam indo trabalhar lá. E que essa era a causa da estranha doença que vinha acometendo a população local. Luis Sera estendeu a mão ao pequeno homem.
- Muito prazer. Luis Sera, seu criado.
Salazar sorriu ao apertar a mão do cientista.
- O prazer é meu.
Sera, no entanto, ficou intrigado. Ramon Salazar devia ter uns sessenta anos, no mínimo. Mas como ele não o conhecia? Sim, quando era jovem, ele lembra-se de ter ido ao castelo e entrado em contato com a família Salazar. Mas nunca viu este homem por lá. Bitores Mendez continuou as apresentações.
- Este é Osmund Saddler. Líder de uma congregação religiosa, chamada Los Illuminados.
Los Illuminados? Sim, Sera sabia do que se tratava. Seus pais e seu avô sempre comentaram que em um passado distante, uma seita religiosa com este nome começou a tomar conta da região. Eles adoravam um parasita, chamado Las Plagas, que ao que parece, tinha poderes. Mas o primeiro castelão da família Salazar, os havia expulsado do local e selado o parasita no fundo da terra. Mas agora, Bitores Mendez trazia o líder dos Illuminados. E junto com os boatos da reabertura das minas e da doença misteriosa… será que Las Plagas tem algo a ver com isso? Era esperar para ver aonde esta conversa iria parar. Saddler estendeu a mão. Sera ficou um tempo observando aquele estranho cajado que seu visitante trazia. Parecia ter um ser vivo na ponta de cima, com pequenos tentáculos que se moviam. Mas no momento, não quis perguntar o que era, nem dar mostras de sua curiosidade.
- Osmund Saddler. É um prazer conhecer mais uma pessoa daquela vila tão amistosa.
Sera sorriu ao olhar para Saddler.
- O prazer é meu.
Sera ficou pensando um tempo antes de falar. Por outro lado, se eles estivessem atrás do parasita, isso poderia dar um bom tema de estudo, uma vez que era essa a sua especialidade. Primeiro, gostaria de saber mais do motivo que os trazia ali. Quem tomou a palavra, no entanto, foi Salazar.
- Muito bem, vamos ao assunto que nos trouxe aqui. Tenho lido alguns de seus textos e livros publicados. O senhor estuda parasitas. E há algo que tem me causado problemas. Eu recentemente reativei as minas. Contratei muitas pessoas do vilarejo onde o senhor já morou. Não vou negar que procuramos pelo parasita Las Plagas, pois ele já foi objeto de adoração da religião do senhor Saddler. No entanto, o que descobrimos, foi algo que nos assustou. Na verdade, ele infecta as pessoas e leva à morte, depois de causar diversos danos no sistema nervoso do infectado. Achamos que ele provavelmente passou por alguma mutação, depois de ter ficado tanto tempo fossilizado. Então, o que queremos do senhor? Precisamos de alguém que estude parasitas, para tentar encontrar a cura para este mal o quanto antes. Pessoas estão morrendo. O que o senhor me diz? É possível atender ao nosso pedido?
Tratava-se de uma questão humanitária. Eles queriam ajuda. Pessoas estavam morrendo. Então, Luis Sera faria o que fosse necessário para ajudar a encontrar uma cura. Sera, no entanto, não sabia bem o motivo, mas não conseguia confiar em Ramon Salazar, nem no homem da túnica. Algo parecia estar errado com eles. Então, resolveu fazer algumas perguntas.
- Muito bem, senhor Salazar. Está realmente preocupado com os aldeões? É isso o que o traz aqui?
Salazar primeiro fez uma expressão de desagrado, mas em alguns segundos, voltou ao normal para responder ao questionamento.
- Senhor Sera, sim, estou preocupado com eles por vários motivos. Primeiro, eles estão trabalhando nas minas. São meus empregados. Os contratei e pago salários a eles. Se ficarem doentes e não puderem trabalhar, vou ficar no prejuízo. Além do mais, se a infecção se alastrar, logo muita gente vai morrer e neste caso, terei de trazer trabalhadores de outras localidades. E eles irão querer vir? Correndo o risco de ficarem doentes? Eu acho que não.
- Sim, faz sentido. Então, temos a preocupação de um empresário que quer evitar prejuízos também.
- Mas veja bem, senhor Sera. Tem mais uma coisa. Olhe para mim e diga quanto anos o senhora acha que tenho? Seja sincero.
Agora, Luis Sera ficou pensativo. Geralmente a tendência era dizer que as pessoas são mais jovens do que aparentam. Isso as deixa satisfeitas. Então, ficou um tempo olhando para Ramon Salazar.
- Bem, tenho a impressão que o senhor é uma pessoa bem conservada, com boa saúde. Olha, mas não vou falar só para ser educado, mas não dou mais do que uns… cinquenta anos.
Então, Ramon baixou a cabeça.
- Então, o que vou lhe dizer vai deixá-lo simplesmente apavorado. Tenho somente… vinte anos.
O que? Sera nem conseguiu disfarçar o espanto. Este homem era um jovem? Tinha somente vinte anos? Sera olhou para ele e concluiu.
- Vejo o seu espanto. Sim, tenho somente vinte anos. Isso, é consequência da contaminação com Las Plagas. Eu estou infectado. Por isso venho lhe pedir para encontrar uma cura. Tenho a esperança de que consigamos achar a cura para o parasita antes de morrer. Eu sinto que minha saúde se deteriora dia a dia. Por favor. Vou lhe pagar o quanto achar justo. Para mim, dinheiro não é problema. Mas como não tenho herdeiros, de que adianta ser rico, se vou morrer e ninguém vai poder aproveitar minha herança?
Neste momento, Sera se compadeceu. Sim, era triste ver aquele homem. Ele estava morrendo. Jogava suas últimas esperanças de cura em Sera. Ele era a cartada final. Então, o pesquisador olhou para o pequeno homem.
- Senhor Salazar. Pode acreditar. Vou me empenhar para encontrar a cura. Mas para isso, vou precisar de um laboratório.
Neste momento, Osmund Saddler interrompeu a conversa.
- Senhor Sera. Minha organização religiosa tem interesse nessa pesquisa. Por isso, antes de virmos, já nos adiantamos e equipamos a casa de Bitores Mendez com todo o equipamento que um laboratório tem de ter. Sem contar que caso o senhor ache necessário, poderá fazer pedidos ou ir pessoalmente aos fornecedores adquirir tudo o que julgar necessário.
Luis Sera olhou para o líder dos Illuminados e questionou:,br> - Sim, mas qual é o interesse que sua organização religiosa tem em encontrar a cura para esta infecção? Pelo que eu saiba, seus seguidores no passado, adoravam este parasita, como um ser sagrado. Por que estariam querendo destruí-lo?
Saddler não deixou a expressão se alterar.
- Meu caro senhor Sera. As coisas mudam. Eu não sabia do que se tratava. Confesso que agora que pessoas estão sendo infectadas, ficando doentes e morrendo, vi que na verdade, Las Plagas não pode ser um ser sagrado. Nós temos sim de combatê-lo e ficar apenas com nossos rituais. Não vamos mais adorar este parasita.
- Compreendo. O senhor também está infectado?,br> - Não. Eu ainda não estou. Mas muitos de meus seguidores, inclusive pessoas do meu clero estão. E temo perder muitos fiéis por causa desta infecção. E o que será de uma religião se todos os seus seguidores morrerem? Ela deixará de existir. Não estou certo?
Sera encarou Saddler.
- Certamente que sim, senhor Saddler.
Fez-se silêncio e por fim, Sera tomou a palavra.
- Mas podem ter a minha palavra que irei lá. Só peço alguns dias para eu solicitar alguns dias de férias, que por sinal, eu já tinha direito a tirar para apanhar alguns pertences e me deslocar até El Pueblo. Em no máximo uns três ou quatro dias, estarei lá. No entanto, como faz algum tempo que não vou ao vilarejo, vou pedir para que alguém me leve até sua casa, senhor Mendez.
O prefeito do vilarejo então, já em pé, respondeu:
- O senhor pode ficar tranquilo. Estarei esperando-o na entrada do vilarejo, logo depois da ponte. Se eu não puder ir, alguém estará no meu lugar. Pode ser que eu esteja trabalhando na igreja ou terminando de arrumar seu laboratório.
Saddler então interrompeu eles:
- Acho melhor então que o senhor fique terminando os últimos retoques no laboratório. Estarei no vilarejo nestes dias. Eu mesmo o esperarei. É só telefonar para a casa do prefeito e avisar que chegou à região, que irei pessoalmente até a entrada de El Pueblo para lhe esperar.
- Pode deixar que eu aviso. Telefono quando estiver saindo e quando chegar ao povoado.
Os visitantes se levantaram das cadeiras e se dirigiram até a porta. Bitores Mendez foi quem se despediu pelos três.
- Adeus, senhor Sera. Agradecemos muito a sua disponibilidade em nos ajudar. Sabia que poderia contar com alguém que cresceu em nosso vilarejo para nos acudir neste momento de dificuldade.
Sera estendeu a mão.
- Podem contar comigo. Farei tudo o que for preciso para colaborar com o povoado onde nasci e cresci. A final, a Universidade não teria utilidade se nosso trabalho não servisse para melhorar a vida das pessoas.
Depois de um aperto de mãos, os três visitantes se retiraram. Luis Sera não sabia o motivo, mas não gostou nem um pouco do jeito deles. Algo estava errado. No entanto, seus motivos para pedirem sua colaboração eram nobres. Salvar vidas. Era isso o que iria fazer. Não importava muito se simpatizou com Salazar ou não. O que era importante era que devia fazer o bem, mesmo que para pessoas com quem não simpatizava. Pensou que no fim das contas, poderia estar enganado e que todos eles realmente fossem boas pessoas. Mal sabia Luis Sera, que seus instintos nunca estiveram tão certos. Mas ele só veria isso muito tarde.


Capítulo 2

Jack Krauser chegou a El Pueblo. O carro que o trouxe ainda estava parado. Era a primeira missão a serviço de sua nova casa. O logotipo da empresa para quem trabalhava estava estampado na porta do veículo. Um enorme guarda-chuva aberto, com as cores branca e vermelha. Logo abaixo da figura, o nome da empresa, Umbrela. Como um ex-membro do Exército americano, que fora chefe de operações especiais, agora estava trabalhando para a Umbrela? Krauser ainda podia se lembrar do começo.
Krauser nunca tinha levado muito a sério a questão dos zumbis usados como armas biológicas. Ficou sabendo do incidente em Raccoon City, mas não era de sua área de atuação. No entanto, a missão Javier Hidalgo foi um divisor de águas em sua vida. Em todos os sentidos. A primeira coisa que chamou sua aten-ção, foi que havia meios de a pessoa ser infectada pelo vírus e permanecer consciente. Como era feito isso? Aparentemente havia duas formas de contaminação. A feita no laboratório e a ocasionada por incidentes com os zumbis infectados. Esta, sem controle algum, fazia com que as vítimas se tornassem zumbis também. Transformavam-se em seres irracionais, que se moviam como seres autômatos, sem vontade própria.
Jack Krauser ainda era assombrado por aquela imagem. Aquele objeto voando em sua direção. Foi tudo muito rápido. Quando a recordação do momento vinha, parecia tudo irreal, um filme. Tinha a sensação que daria para desviar. Mas no momento, o foco era a criatura que disparou o objeto. De repente, aquela coisa vindo em sua direção, e a dor. O ferimento. De início não pareceu tão grave. Mas o tempo passou e não parava de sangrar. Krauser e Leon derrotaram o monstro. Depois de levar Manuela Hidalgo para o heli-cóptero de resgate, a garota morreu de uma maneira que ele jamais vira. Ela se desintegrou.
Entretanto, o sangramento no braço não parava. Krauser perdeu muito sangue após a batalha. Era muito estranho. Mas ainda, enquanto o helicóptero seguia seu caminho de volta, foi possível enxergar um homem no alto de uma das montanhas. Devia ser Wesker. Leon falou bastante dele durante a missão. Que ele criara o vírus que contaminou Raccoon City e seria o presidente de uma empresa que trabalhava com armas biológicas. Porém, o militar tinha um pensamento diferente. E se o que Albert Wesker estivesse fa-zendo não fosse terrorismo? E se aquilo tudo fosse algo que beneficiasse a população? Sim, muitos experi-mentos deram errado. Os zumbis eram a prova disso. Mas em outros muitos casos, os infectados não perde-ram a consciência. E ficaram muito mais fortes e ágeis que seres humanos normais. Até tinham poder de se regenerar. E foi esse o ponto que atraiu Krauser. Será que ajudaria a recuperar seu braço? Ajudaria ele a recuperar sua força? A ser o soldado que sempre fora? Krauser se convenceu, depois de sua volta, que tinha de encontrar Wesker, custasse o que custasse. Nem que fosse para desistir da ideia. Mas não tinha como descartá-la sem ver com seus próprios olhos alguns resultados e sem tirar suas próprias conclusões.
De fato, Jack Krauser jamais conseguiu se recuperar totalmente do ferimento, e acabou dando baixa do Exército. Foi aposentado, pois chegou-se à conclusão de que ele não estaria apto a voltar ao campo de batalha. Isso deixou-o ainda mais arrasado. Depois de todos os anos de serviços prestados, Krauser se sentiu menosprezado. Acreditava que seria justo pelo menos alguma homenagem, mais respeito por tudo o que sempre fez, por todos os sacrifícios em nome do país. Mas em vez disso, simplesmente o dispensaram por acreditarem que Jack jamais voltaria a ser quem era e por pensarem que colocarem-no em alguma missão poderia ser um prejuízo maior do que o benefício que ele poderia trazer. Para o exército, ninguém é insubsti-tuível. Bastava treinar outro soldado, que este poderia desempenhar o papel de Krauser tão bem quanto o próprio. E foi essa a ideia que o revoltou. Sentiu-se como um ser descartável. Que quando não servia mais, simplesmente o jogavam fora e o substituíam por outro.
Mas graças ao seu passado no Exército, não fora nada fácil chegar à Umbrela. Para todos os efeitos, a empresa havia cessado suas atividades. Ninguém sabia nada a respeito de Wesker e Krauser sentiu-se perdi-do. Como poderia fazer? As pessoas, mesmo as que poderiam ter alguma ligação com a empresa, se negavam a ajudá-lo. E dava para compreender. Pensavam que apesar de ter dado baixa, ele poderia ainda ser alguma espécie de informante das forças armadas, ou mesmo, do governo. Então, o ex-militar teve uma ideia. As pessoas desconfiavam do Krauser militar. Mas e se ele morresse?
Apesar de não ser mais um militar da ativa, Jack Krauser ainda tinha acesso aos campos de treino, onde podia ser visto. Ainda era conhecido da maioria das pessoas do meio militar. Então, ele poderia ainda pedir para dar um passeio em um helicóptero, para se despedir das emoções da época em que estava na ativa. E foi assim que ele bolou um plano. Conseguiu um corpo para colocar dentro do veículo aéreo. Pediu aos antigos companheiros para voar uma última vez. Quando, depois de alguma negociação, consentiram, ele desceu em um ponto isolado, onde tinha deixado uma sacola com um cadáver. Depois, colocou-o no assento do piloto e levantou voo, assumindo os comandos do copiloto. Foi extremamente difícil convencer os solda-dos a deixarem-no ir sozinho, mas tinha de ser assim. Então, ejetou o seu banco e deixou a nave cair. Como todos na base sabiam que Krauser fora sozinho, quando descobriram o corpo dentro do helicóptero caído, não tiveram dúvidas. Era o ex-militar que estava ali.
Agora, Krauser estava livre de seu passado, pois estava oficialmente morto. Assim, foi mais fácil ir se chegando às pessoas que eram próximas à empresa. Alguns queriam perguntar o que ele poderia querer com Albert Wesker. Jack Krauser apenas respondia que sabia que ele poderia lhe ajudar. Alguns até queriam saber como. Krauser não queria sair falando do vírus, que tinha a intenção de ser infectado. Quando mencionou para algumas pessoas, a maioria falava que ele estava louco, ou que acreditava em bobagens, que este não era o ramo da Umbrela. Até que consentiram em levá-lo a Wesker.
Quando chegou ao local de encontro, exatamente na hora combinada, um carro grande encostou. Era todo preto e não tinha emblema algum. Um homem desceu. Usava uma roupa que lembrava um uniforme militar, com um colete a prova de balas, óculos escuros e um comunicador. Ele tinha o cabelo bem aparado, como os soldados costumam ter. Desceu do veículo e se aproximou rapidamente de Krauser, caminhando com passos firmes. Quando chegou, estacou e olhou diretamente ao sujeito que o estava esperando.
- Jack Krauser?
- Sim, o próprio.
Krauser nem viu o que se passou em seguida. De repente, tudo ficou escuro. Quando acordou, estava dentro do veículo e já estavam chegando. Havia mais dois homens no banco de trás, um de cada lado. À frente, o que foi encontrá-lo dirigia, com outro no banco do carona. Este se virou para trás, vendo que o ex-militar estava acordando.
- Desculpe-nos, senhor Krauser. É uma medida padrão. Por enquanto ainda não pode saber o caminho que estamos fazendo. Logo estará com Albert Wesker e ele decidirá se é confiável. Por enquanto, estamos seguindo o protocolo.
- Sim, compreendo.
Não seria diferente. Caso não fosse admitido na Umbrela, provavelmente iriam tentar matá-lo. Mas se não conseguissem, não podiam deixar que escapasse. No entanto, sabia que seria admitido. Que acabaria fazendo parte da empresa. O carro parou em frente a uma mansão. Todos desceram. O motorista disse:
- É aqui. Vamos.
Todos caminharam apressadamente pela floresta até chegarem a uma escada pequena, de alguns de-graus, que levavam à varanda. Nela, tinha duas colunas que sustentavam um pequeno telhado. Em frente aos degraus, uma porta em madeira, toda branca. Os homens que levavam Krauser abriram a porta e o conduzi-ram para dentro. Havia do lado de dentro, duas escadas, uma de cada lado da sala, que conduziam a um piso superior e uma porta bem em frente à entrada. O militar notou a presença de um quadro com um homem de terno, cabelo grisalho, aparentando mais ou menos uns sessenta anos. Ficou olhando-o por algum tempo. Um dos homens que o acompanhava, percebeu e disse, sem mais delongas:
- É o senhor James Marcus, fundador da Umbrela.
Krauser apenas continuou caminhando. Foi conduzido por uma porta lateral, passando por um corre-dor, entraram em outra porta e por fim, chegaram a um elevador, que os conduziu para baixo. Não deu para precisar quanto tempo exatamente ficaram dentro do elevador, mas dava para ter noção que desceram muitos metros abaixo da superfície. Então, a porta se abriu. Não demorou e entraram em outro corredor, agora, com uma aparência futurista. Não havia portas dos lados e a única iluminação provinha de lâmpadas fluorescentes no teto. Após intermináveis segundos, chegaram a uma porta. Os homens que trouxeram abriram-na e um deles entrou. Depois de alguns minutos, com todos ali fora em silêncio, ele saiu.
- Pode entrar, senhor Krauser.
Fez então, um gesto para que o militar passasse. Krauser assentiu com a cabeça e agradeceu.
- Obrigado.
Ao entrar na sala, ouviu a porta se fechando atrás de si. Krauser ficou admirado com o que estava vendo. Era uma sala enorme, com mesas e algo que parecia ser experimentos sobre elas, trancados em com-partimentos lacrados. Bem à sua frente, outra mesa e atrás dela, um homem sentado em uma cadeira apenas o observando. Usava terno e óculos escuros e o rosto exalava confiança, com um pequeno sorriso de canto de boca. Atrás dele havia um telão, com uma imagem que parecia ser da página de mapas vista por satélite. O homem sentado na cadeira em frente à mesa, olhava o recém-chegado, com as mãos cruzadas sobre a mesa. Então, ele estalou os dedos e disse:
- Muito bem, senhor Jack Krauser. Já me conhece?
Krauser escolheu melhor as palavras que usaria.
- Pessoalmente não, mas sei quem é. Senhor Albert Wesker. Presidente da companhia Umbrela.
Wesker riu.
- Por quem ficou me conhecendo? Quais foram as pessoas que falaram de mim?
- Recentemente estive em uma missão na América do Sul e meu então parceiro de campanha falou muito no senhor.
Wesker encarou Krauser e ficou sério.
- Poderia me dizer quem era seu parceiro de campanha na ocasião?
- Sim. Leon Scott Kennedy.
- Leon?
Wesker não gostou muito da notícia, então deveria se certificar de que não era uma armadilha.
- Senhor Krauser. Sabe exatamente quem é o senhor Kennedy?
- Sei alguma coisa. Ele trabalha como um agente para o governo e recebe ordens do presidente dos Estados Unidos diretamente.
- E o que ele falou a meu respeito?
- Falou sobre os experimentos com o Vírus T. Disse que oficialmente a Umbrela não existia mais, mas que as atividades da empresa continuaram clandestinamente.
- Certo. Vou dizer quem é Leon. Ele é um sobrevivente da tragédia de Raccoon City. Era policial na ocasião e trabalhou apenas um dia. Viu os zumbis e entrou nos laboratórios de nossa empresa. Para nós não é bom que os sobreviventes do incidente naquela pequena cidade continuem circulando por aí. Agora me diga. Por que eu o contrataria?
Agora Krauser teria de se expressar bem, para não armar uma cilada para si mesmo.
- Acontece que ao contrário de Leon, eu acredito que podemos evoluir com o Vírus T. Eu vi o que as pessoas são capazes de fazer, se a infecção for devidamente conduzida. E quero me voluntariar para ser in-fectado, desde que consiga manter minha consciência. Isso é possível?
Neste momento, Wesker riu.
- Quer ver?
Krauser ficou apenas pensando no que dizer. Enquanto isso, olhava seu interlocutor com um ar de curiosidade. De repente, Wesker retirou os óculos escuros e seus olhos estavam vermelhos. O militar nem teve tempo de refletir sobre o que vira. A imagem do presidente da Umbrela ficou um pouco borrada e antes mesmo de Jack Krauser piscar, estava suspenso, com os pés altos do chão. Wesker o estava segurando pelo tórax, com uma mão. Como se estivesse levantando um boneco. Então, ele disse:
- Se eu quisesse, senhor Krauser, o teria matado e nem teria visto.
Depois disso, Wesker colocou Krauser no chão e quando o militar olhou para frente, o presidente da Umbrela já estava sentado em sua cadeira, como se nada tivesse ocorrido, com os óculos no rosto e rindo da expressão do visitante.
- Senhor Krauser. Gostou da demonstração? Quer ficar igual a mim?
Krauser mostrou o braço ferido.
- Desde que fui ferido na missão na América do Sul, nunca mais fui o mesmo. Preciso recuperar a minha força.
- Sim. Mas antes, me diga uma coisa. Por que devo confiar que não irá nos trair e nos entregar ao governo americano?
- Para todos os efeitos, estou morto. Não vou entrar em contato com o governo. Eles nem sabem que estou vivo.
- Perfeito. E qual sua relação com o senhor Kennedy?
- Pretendo matar Leon.
Wesker escorou o queixo sobre as mãos cruzadas.
- Ótimo.
Albert Wesker era bom em perceber as reações das pessoas. E notou que havia algo ligando Jack Krauser a Leon. O militar nutria algum rancor pelo agora agente do governo. E como este era uma das pes-soas que sobreviveu à tragédia de Raccoon City, o presidente da Umbrela via duas saídas para ele: ou se juntar à empresa ou ser eliminado. E já tinha convicção de que não seria possível a primeira alternativa. A outra pessoa era Ada. Mas esta preferiu continuar viva.
Após algumas semanas dentro dos laboratórios subterrâneos da corporação, Krauser começou a ser submetido a testes até terem certeza de que poderia ser infectado e manter sua consciência. Para isso, iriam utilizar o antídoto. Quando o experimento foi finalizado, Krauser se tornou um dos melhores experimentos da Umbrela. Mas havia algo que ainda incomodava o militar. Mesmo com o poder de regeneração acelerado que passou a ter, seu braço seguia sendo seu ponto fraco. Sim, ele fora atingido por um monstro afetado pelo Vírus. Deveria ter alguma relação com o fato. Porém, sua força, seus reflexos e sua velocidade ficaram as-sustadores até para ele. Em um teste, Wesker tentou repetir o movimento que fez em sua sala, mas desta vez, Krauser conseguiu se desviar. Mas ainda era mais lento que o presidente. O militar ainda estava convencido de que poderia ficar mais forte do que estava. Entretanto, para isso, talvez precisasse encontrar uma forma alternativa de adquirir esta força. Desconfiava que Wesker não permitiria.
Foi nos treinamentos que Krauser conheceu Ada Wong. O militar nunca simpatizou com a espiã. Era contra seus métodos, de andar furtivamente, de conseguir o que precisava se escondendo, evitando o con-fronto com o inimigo. Todavia, mesmo ele sabia que nem sempre o combate era o melhor caminho. De vez em quando, a sutileza era o meio mais eficaz de se conseguir algo. Por isso, sabia que não podia colocar dúvidas sobre o trabalho dela. Mas não queria ter de ir a alguma missão em conjunto com a oriental. Sentia que ela trairia a organização na primeira oportunidade. Mal sabia ele o que estava por vir.
Durante uma das sessões de treino nos simuladores de realidade da Umbrela, o telefone celular tocou. Era Wesker. Krauser sentiu a adrenalina subir. Há algum tempo estava esperando receber alguma ordem do presidente da empresa. Sabia que logo iria fazer algo importante. Só podia ser isso. O dia havia chegado. Então, parou o que estava fazendo e se dirigiu à sala da presidência. Ainda podia sentir a euforia e a ansiedade tomando conta. A respiração ficando mais rápida e o coração acelerando. Sim, Wesker o mandaria para alguma missão. Era certo que sim. Ao abrir a porta, viu aquela ampla sala pela segunda vez. A primeira como membro da Umbrela. Wesker o estava esperando.
- Entre, senhor Krauser.
O militar entrou, sempre caminhando com passos firmes e cabeça erguida. Era um soldado, sempre seria. Ele pode ter saído do exército, mas o exército não saía dele. Assim que chegou a frente à mesa do pre-sidente da empresa, estacou e ficou em silêncio, apenas esperando seu superior falar.
- Muito bem. Sente-se.
Krauser, ainda em silêncio, sentou-se na cadeira em frente à mesa e continuou aguardando as palavras de Wesker. Este, sorrindo, encarou o militar.
- Muito bem. É com orgulho que posso dizer que você é um experimento bem sucedido da nossa empresa. E agora, chegou o momento que, acredito eu, temos esperado. Finalmente, entrará em ação. Temos uma missão para cumprir.
Krauser cruzou as mãos e estalou os dedos. Não falou nada, mas fez uma expressão de satisfação indisfarçável, estufou o peito e ficou apenas na espera das ordens. Wesker seguiu.
- Descobrimos um estranho fenômeno na Espanha. Enviamos alguns homens para lá e estamos aguardando o relato deles. Mas ao que tudo indica, existe um grupo de pessoas que está seguindo a um líder. Preciso que vá até o local e se infiltre entre os habitantes. Descubra o que está ocorrendo lá. As observações por satélite indicam que o movimento está crescendo muito em um vilarejo no interior espanhol. Relate tudo o que descobrir. Assim que tiver novas informações, o manterei informado.
Krauser sorriu, levantou-se da cadeira e encarou o chefe.
- Ordem dada, ordem cumprida. Pode considerar o serviço feito.
- É assim que se fala.
Depois disso, Krauser saiu da sala. Ele nem desconfiava, Ada sim, de que na verdade, Wesker iria trair a Umbrela. Estava procurando algum produto que pudesse vender e conseguir dinheiro para fundar sua própria empresa. Apesar de ser o presidente, não era o dono. E seus superiores, vez por outra, questionavam seus meios. Assim, sendo ele o próprio e único chefe, não precisaria prestar contas a ninguém.
Então, foi dessa maneira que Krauser chegou ao povoado no interior da Espanha. Via agora, casas pequenas, algumas de madeira, outras de alvenaria, com telhados de zinco. Árvores eram vistas dos dois lados da estrada, todas com as folhas começando a cair. As casas tinham as janelas tapadas com tábuas de madeira pregadas na horizontal, impedindo a visão de quem estava do lado de fora. Não havia flores, tão comuns nessas casas interioranas, nem crianças correndo por ali. E o clima era tenso, pesado. Sim havia algo errado ali. Qualquer pessoa podia perceber isso. Agora, teria de ver o que era.
Não demorou muito para que um grupo de aldeões viesse dar boas vindas ao militar intruso. Eles vieram se aproximando aos poucos. Krauser apenas ficou parado. Então, um deles gritou:
- Agarrem-no!
Todos correram ao mesmo tempo, armados com foices, arados e machados. Assim que um deles ati-rou uma foice e Krauser pegou-a no ar com a mão, os outros vieram correndo. Não viram que o visitante não era uma pessoa comum. Jack Krauser sequer usou as armas. Matou-os apenas usando sua força, com as pró-prias mãos. Mas o braço esquerdo era mais fraco que o direito. Chegou a se ferir. Sim, apesar da força so-brenatural que possuía, da velocidade e da capacidade de se recuperar dos ferimentos acelerada, o braço es-querdo era seu calcanhar de Aquiles.
Ele seguiu, correndo tão rápido que mal podia ser visto e aproveitou que a porta da igreja estava aberta e penetrou pela passagem que levava ao cemitério. Chegando ao túnel, encontrou alguns aldeões de-safortunados que morreram antes mesmo de saber o que os acertou. Então, chegou a uma longa escada de escalar. Ao subi-la, saiu de um poço e chegou a um cemitério. Atrás de uma colina, havia uma igreja. De onde estava, deu para ver um grupo de aldeões e alguns animais. Eram cães. E um homem com uma túnica roxa à frente de todos. Os aldeões lhe prestavam reverência. Devia ser o líder deles. Sim. Krauser iria falar com ele. Então, se pôs a caminhar na direção do templo.


Capítulo 3

Uma mulher caminha em um longo corredor. As luzes vêm de lâmpadas fluorescentes no teto, que vão se acendendo a medida que ela caminha. Para pessoas que visitavam o local pela primeira vez, isso cau-sava certa intimidação. Era como estar sendo vigiado o tempo todo, mas não para a mulher que caminha ali naquele momento. Ela nem olha para as luzes que vão iluminando o seu caminho. O aspecto do local é futu-rista. Não tem portas dos lados, apenas uma ao final, e é para lá que ela está indo, caminhando a passos fir-mes, confiantes. Com a confiança de quem conhece o local há muito tempo. E é um bom tempo, mais de seis anos.
A mulher usa um vestido longo cor de vinho. É uma asiática, de descendência chinesa. Tem a pele clara, os cabelos pretos e curtos. Usa óculos escuros e não perde tempo olhando para os lados. Desde 1994 que Ada Wong circula pelos laboratórios da Umbrela. Aquele lugar para ela, não é nada mais do que seu local de trabalho. Ao chegar à frente da porta, para e fica pensando no que irá falar. Quais serão os assuntos tratados? Bem, isso ela não fazia ideia, afinal de contas, Albert Wesker não revelou nada. Apenas disse que queria uma reunião. E pelo tom de voz, estava com pressa. Então, Ada bateu à porta, esperou por alguns instantes e entrou.
A sala também não era nenhuma novidade. Wesker era o presidente da Umbrela. Tratava-se de um local em forma de hexágono. Havia poltronas e mesas, com papéis de relatórios de experimentos da empresa para todos os lados. E em frente à porta, uma grande mesa, atrás do qual, havia uma cadeira giratória. Esta cadeira ficava à frente de um grande monitor de computador, e estava voltada para ele. Sobre a mesa, um teclado que controlava além do computador que estava ali, vários satélites de propriedade da empresa.
A tela exibia uma paisagem rural vista de cima. Aos poucos, a imagem foi aproximando até ser pos-sível identificar o que se passava. Era um vilarejo, com pequenas casas, uma igreja e um casarão, que deveria ser do prefeito local. Um pouco afastado dali, havia o que parecia um castelo. Sim, alguma família nobre deveria morar ali desde os tempos mais antigos. E com certeza ainda possuía alguma autoridade sobre aque-las pessoas mais simples. Mas qual o motivo de Wesker estar olhando para aquela tela? Só podia ter algo a ver com o vírus ou algo do gênero. Então, o presidente da Umbrela girou a cadeira e encarou Ada. Cruzou os dedos sob o queixo e ficou alguns segundos sorrindo, sem dizer palavra. A imagem da espiã refletiu nos óculos escuros de Albert Wesker, que enfim, quebrou o silêncio.
- Então, senhorita Wong. O que está vendo na tela?
Ela olhou por alguns instantes, procurando por algo que talvez lhe tenha passado despercebido em um primeiro olhar. Mas tudo ali parecia exatamente normal para um vilarejo interiorano.
- Ora, vejo uma comunidade rural.
Wesker continuava com seu sorriso no rosto.
- Poderia dizer em que lugar fica essa comunidade?
- Pode ser em qualquer lugar do mundo.
Ambos ficaram mais um tempo em silêncio. Então, Wesker voltou a falar.
- Esta comunidade rural está localizada em um vilarejo no interior da Espanha, chamado de “El Pue-blo”. As pessoas que lá moram são em sua grande maioria, fazendeiros. Gente simples do campo, que cuida de suas plantações, da criação de gado, de galinhas, dentre outros afazeres.
Wesker estudou o semblante de Ada antes de continuar. A espiã não conseguia saber aonde ele queria chegar. Então, o presidente da Umbrela continuou.
- Há uma igreja com um cemitério bem ali.
Apontou com um laser para o local.
- Essas comunidades costumam ser muito religiosas. E bem ali.
Agora, apontou o laser para o castelo.
- Existe um castelo de mais ou menos duzentos anos, pertencente à família que o construiu. Os Sala-zar.
Ada viu Wesker a encarar novamente e ficar esperando que ela dissesse alguma coisa. Então, a espiã tomou a palavra.
- Certo. Como muitas comunidades rurais do interior da Europa. Locais com um passado medieval, que mantém a tradição por causa do isolamento e conservadorismo das pessoas que lá habitam. Mas o senhor me chamou aqui para mostrar isso? O que há com esse vilarejo?
Neste momento, Wesker abriu um sorriso.
- Nossos espiões relataram fatos estranhos ocorridos lá. Então, mandei uma equipe ao local para fazer um relato do que eles viam. E sabe o que aconteceu?
- Não, mas acho que vou me surpreender.
Após dizer isso, Ada retirou os óculos escuros e ficou com um sorriso no canto da boca. Sim, havia algo anormal ali. Alguma coisa havia acontecido.
- Dos três espiões que foram ao local, dois foram brutalmente assassinados e um conseguiu fugir, mesmo sendo gravemente ferido. De um hospital em Madri, ele me enviou uma mensagem por e-mail. Wesker abriu o e-mail para ler melhor os pontos elencados.
- À primeira vista, tratava-se de uma pacata comunidade rural. Homens trabalhando cuidando dos animais, da pastagem, da agricultura. No entanto, algo chamou a atenção. Não havia flores. Nada que tor-nasse a paisagem mais suave, como sempre havia nesses locais. Normalmente as pessoas plantavam flores em vasos e colocavam nas janelas, no pátio. Mas não ali. As janelas estavam fechadas ou com tábuas pregadas, como que para evitar que se pudesse ver dentro das casas. As árvores não tinham folhas nos galhos. Mas resolveram continuar. Assim que encontraram os aldeões, tentaram entrar em contato com eles. Então, o que se seguiu foi totalmente surreal. Essa foi a palavra que eles usaram.
Wesker fez uma pausa para estudar a expressão de Ada e continuou.
- Eram três aldeões. Eles atacaram nossos espiões. Um com um arado, um com uma foice e outro com um machado. O que estava mais a frente foi decapitado ali mesmo, na frente dos seus companheiros de missão. Estes, saíram correndo. Então, entraram em uma casa para se esconderem. Não achavam que todos teriam o mesmo comportamento. Mas o dono da casa, ao vê-los, os atacou de igual maneira. O segundo es-pião foi morto, com uma facada. O único sobrevivente saltou pela janela. E correu de volta ao carro. A essa altura, já havia muitos aldeões. Ele engatou e correu o mais rápido que conseguiu para a ponte que dava acesso ao vilarejo. Muitos aldeões tentaram bloquear o caminho, e ele teve de dar marcha ré, batendo o carro em uma verdadeira muralha de pessoas. Então, ele olhou nos olhos de um deles. Estavam brilhando, verme-lhos. Mas não eram zumbis. Eles falavam, manejavam armas e tudo mais. Mas não estavam normais. Havia alguma coisa como que controlando os movimentos deles. De repente, um machado voou em sua direção e o atingiu em um braço, quebrando o vidro. Neste momento, ele acelerou, mesmo ferido. Atropelou uma imen-sidão de pessoas que estava bloqueando a ponte, mas conseguiu escapar. Quando se viu em uma cidade não muito longe dali, chegou a um hospital e apagou. Depois disso, acordou na capital espanhola. Já haviam se passado alguns dias. O médico lhe disse que quase teve de amputar o braço e que ele não morreu por pouco. Não sabia como conseguira chegar ao hospital, já que perdera muito sangue. Mas que iria se recuperar e em algumas semanas, poderia retornar. Então, o que você me diz?
Ada estava estarrecida com o que acabara de ouvir.
- Wesker, posso ler o e-mail?
O presidente da Umbrela assentiu com a cabeça. Ela então se aproximou da tela do computador e leu tudo com as palavras do homem responsável pelo relatório. Ela o conhecia, assim como os dois que foram mortos na missão. Se tudo aquilo ali era verdade, só podia se tratar de algum controle exercido sobre aqueles camponeses. Eles não teriam um comportamento tão agressivo naturalmente. Ninguém iria atacar uma pessoa estranha sem uma motivação. A não ser que estivessem sendo manipulados. Wesker ainda disse mais uma coisa:
- Tem mais um detalhe que não está no e-mail. Eu telefonei para nosso espião e ele disse uma coisa muito intrigante. Na ocasião pensou que isso não era tão importante, mas depois mudou de ideia. E acho que é importante. Alguns dos aldeões se referiam a outra pessoa, a quem eles chamavam de “Lorde Saddler”. Deve ser alguma espécie de líder deles, e o responsável por este comportamento violento.
Ambos ficaram em silêncio novamente. Então, Ada tomou a palavra.
- Certo. E qual é o nosso plano? - Você vai dar um passeio.
Então, girou novamente a cadeira, encarando a espiã.
- Vá para a Espanha. Quero relatos sobre tudo o que ver lá. E o mais importante. Que traga o que quer que esteja por trás deste comportamento dos aldeões. Se for um vírus, alguma substância, algum remédio, droga, seja lá o que for, quero que traga. Parece ser muito mais eficiente do que o Vírus T. O espião comen-tou que as pessoas ficam mais rápidas, resistentes e insensíveis à dor. Parecem com os zumbis, com a dife-rença que continuam com suas habilidades de antes de serem infectados e depois ficam fiéis a quem os con-trola. Precisamos poder controlar esses infectados. E descubra quem é Lorde Saddler.
Ada ficou um tempo pensando no que responder. Mas antes que falasse, Wesker concluiu.
- Você não irá sozinha. Jack Krauser já está lá.
Agora Ada ficou surpresa e não conseguiu disfarçar.
- Krauser? Por que ele?
Wesker escorou a cabeça na mesa e olhou para a espiã.
- Preciso testar ele em campo de batalha. Ele é um de nossos experimentos mais valiosos. Um dos melhores e por isso preciso saber do que ele é capaz.
Depois de alguns segundos em silêncio, Wesker concluiu.
- Krauser vai se infiltrar entre os aldeões. Tentará saber quem é Saddler e entrar para seu grupo. Para ajudar você, nossa inteligência prestará toda a assistência necessária. Tentaremos descobrir o máximo sobre os aldeões e do motivo que os faz agir da maneira como agem. Sendo assim, a reunião está terminada. Em-barca ainda hoje.
No helicóptero, Ada meio que acordou do devaneio. Estava se recordando da conversa que teve com Wesker nos laboratórios subterrâneos da Umbrela. Olhou pela janela e viu que já sobrevoavam o continente europeu. Logo estaria em terra firme. Então, abriu o computador portátil e repassou as instruções dadas por seu chefe, procurando ainda se lembrar de tudo o que vira naquele e-mail dos espiões. Para saber o que a esperava assim que colocasse os pés para fora da nave.


Capítulo 4

Os habitantes do vilarejo de El Pueblo eram em sua grande maioria criadores de gado e agricultores. Pessoas simples do campo. E fervorosamente religiosos. Sempre compareciam à missa. Um dos principais locais onde as pessoas iam se encontrar, era a Catedral. Lá não era simplesmente um lugar em que se ia para rezar, mas também para ver amigos que moravam distante, para as festividades locais, enfim, lá era o centro da vida espiritual e social da vila. As casas eram simples, de alvenaria com telhados de zinco. Algumas em madeira. Nos galpões, o gado pastava, havia os poleiros para as galinhas e os cães dormirem. E era neles que se arma-zenava o alimento do gado também.
A maior prova do comprometimento dos habitantes de El Pueblo para com a religião era a Catedral. Localizada junto a um cemitério, eram as pessoas do vilarejo que trabalhavam nela voluntariamente. Apara-vam o gramado, cuidavam das lápides à sua frente, faziam a limpeza, tanto do cemitério, quanto do templo, além de sempre realizarem as reformas necessárias para manter a estrutura da igreja em bom estado. A Cate-dral também é um motivo de orgulho para a população local. Toda em pedra, é uma construção imponente, ao estilo gótico, com altas torres e um enorme vitral sobre a porta. A ideia do vitral é que na hora da cerimô-nia religiosa, marcada sempre para o pôr do sol, a luminosidade atravesse os vidros e ilumine o altar, dando à luz que ilumina o interior da igreja, as cores do vitral. Realmente, trata-se de uma grandiosa obra arquitetôni-ca.
Contudo, ao contrário do que pode-se imaginar, ao olhar para este templo, não se trata de uma igreja católica como na maior parte do país. A Espanha é um país onde o catolicismo é uma presença marcante his-toricamente. Mas não mais em El Pueblo. Agora, estes habitantes têm outra religião e são conhecidos como Los Illuminados. Veneram uma criatura que vive dentro das pessoas, um parasita, denominado Las Plagas. Parasita este, que controla a mente e o comportamento das pessoas. E o líder dessa religião, que em uma épo-ca remota já dominou essa região da Espanha e que está repetindo essa dominação, chama-se Osmund Saddler, chamado por todos ali de Lorde Saddler ou simplesmente, Lorde.
Saddler conta com aliados fiéis. O principal deles, dentro do povoado e o grande responsável pela conversão ou melhor, infecção dos habitantes do vilarejo, se chama Bitores Mendez. Mendez é prefeito do vilarejo de El Pueblo. Desde que assumiu a liderança do local, serve fielmente à família que controla a região, os ricos donos do castelo, os Salazar. Como recompensa, ele recebeu o poder de Saddler, o parasita Las Pla-gas em sua forma controladora. Assim, ele também tem o poder de controlar os parasitas em sua versão con-trolada, a que eles colocaram nos aldeões. Quem infectou Mendez, foi Ramon Salazar.
Ramon Salazar é o oitavo castelão, ou seja, dono do castelo que fica na vizinhança de El Pueblo. Com apenas vinte anos, perdeu seu pai. Sua família é conhecida pelo fato de terem expulsado justamente os mem-bros da seita Los Illuminados, quando o primeiro castelão comprou o castelo e se mudou para o local. No entanto, Ramon acabou se rendendo a Saddler e não só permitiu o retorno dos Illuminados a El Pueblo, co-mo cedeu seu castelo para que este se transformasse na sede da seita de Osmund Saddler. Ele, que com a infecção dos aldeões, passou a ser venerado como uma divindade por todo o local.
Saddler desceu do veículo que o trouxe. Normalmente, o líder dos Illuminados ficava no castelo, cui-dando dos experimentos que ele mesmo, com o auxílio dos monges faziam. Mas agora, tinha de vir a El Pue-blo, pois Luis Sera, o cientista que contrataram precisaria de instalações e de equipamentos para efetuar seus estudos. E Saddler queria se certificar de que os preparativos para receber seu visitante estavam sendo feitos. Era preciso se certificar que, caso os infectados começassem a se expandir, não haveria meios de eliminar o parasita do corpo das pessoas. Caso conseguissem comprovar a negativa, a dominação do mundo seria uma questão de tempo. Enviariam pessoas com o parasita para os mais influentes países primeiro. Infectariam os governantes e quando os ovos eclodissem, todos seriam apenas marionetes de Osmund Saddler. Era o come-ço de uma nova era.
Assim que colocou os pés no chão, Osmund Saddler observou as pessoas em seus afazeres. Alguns aravam o feno, outros estavam levando o gado para seus lugares, alguns recolhendo ovos nos galinheiros. Todos eles quando viram seu líder, pararam imediatamente o que estavam fazendo e foram prestar sua home-nagem. Prostraram-se diante de Saddler e repetiram em uníssono:
- Lorde Saddler.
E ficaram prostrados até que ele os liberou para retornarem às suas tarefas. Então, Osmund Saddler se dirigiu até uma pequena igreja que fica no vilarejo. Do outro lado do carro, desceu Bitores Mendez. O prefei-to caminhou apressadamente até alcançar Saddler.
- Lorde, precisa que alguém o acompanhe até o templo?
Saddler olhou de volta para o prefeito e respondeu:
- Não se preocupe. Eu não vou me perder. Continue com os preparativos pare recebermos nosso cien-tista que vem da capital.
Mendez fez uma cara de poucos amigos.
- Não gosto daquele sujeito.
- Não precisa gostar. Mas ele fará um trabalho importante para nós.
- Sim, Lorde. Estou indo até minha residência e chegando lá, vou direto ao laboratório me certificar a respeito dos preparativos para recebermos o senhor Sera.
- Muito bom.
Dito isso, Bitores Mendez deu meia volta e se dirigiu ao seu veículo novamente. Iria até sua casa. Saddler entrou na pequena igreja. O interior dela, no entanto, não era o de uma igreja. Havia uma mesa ao centro, algumas cadeiras, uma estante e uma prateleira. A iluminação era fraca, proveniente de uma vela co-locada sobre a mesa de centro. Na extremidade oposta, havia uma porta de madeira, que dava acesso à saída. Osmund Saddler abriu-a e chegou a um pequeno espaço que tinha atrás da porta. No outro lado da entrada, tinha um alçapão, que dava acesso a um nível inferior.
Saddler desceu e chegou a um túnel estreito, uma passagem, iluminado por velas. O líder dos Illumi-nados conhecia bem aquele túnel, afinal, fora ele quem comandou sua construção. Periodicamente os aldeões vinham trocar as velas quando estas se apagavam. O líder da seita foi caminhando vagarosamente, satisfeito com o modo como as coisas estavam correndo. O local era muito úmido, com pequenas gotas d’água caindo do teto, ou mesmo, correndo pelas paredes. Poças se formavam no chão, deixando pegadas de quem quer que passasse por ali. Havia pegadas frescas. Alguém passara por ali há pouco tempo. Mas ninguém circulava pelo local. Saddler olhou com atenção para as pegadas. Eram grandes, mais fundas que o normal. A pessoa que passou por ali era grande e mais pesada do que a maioria dos aldeões. Quem será? Era, no entanto, mais provável que algum dos aldeões tenha encontrado sapatos diferentes nos pés de algum forasteiro e o estava usando. Poderia ser Luis Sera? Não, os sapatos dele não têm aquelas marcas. Pareciam calçados feitos para andar em áreas inóspitas. O cientista usava sapatos sociais normalmente. O que não o excluía totalmente.
Assim que saiu do poço que dava acesso ao cemitério, localizado em frente à catedral, Osmund Saddler ficou um instante observando o cenário. Tudo estava quieto. Não havia ninguém ali, o que estava causando uma sensação de estranheza. Deveria haver alguns aldeões trabalhando na limpeza do cemitério, pelo menos. Saddler foi caminhando na direção da catedral. Olhou atentamente para as árvores, mas não viu nada além dos corvos em seus ninhos. O líder dos Illuminados procurou aguçar os ouvidos para tentar ouvir algum barulho suspeito, mas a única coisa que ouvia eram seus passos. Algo estava errado, isso ele podia sen-tir. Mas o que? Então, ele chegou a frente à porta e tentou abri-la. Estava trancada. Saddler possuía o objeto que servia de chave. Os aldeões que trabalhavam ali também. Mas devia ter gente no local. Ou pelo menos alguns dos colmillos*, que tomavam conta da propriedade, para evitar que intrusos penetrassem no templo. Apesar de estar muito estranho o local, não tinha nenhum sinal de que algo errado tivesse acontecido. Nem sangue, nem tiros, nem sinais de luta. Saddler abriu a porta da frente da catedral e entrou.
O lado de dentro da catedral estava tão quieto quanto o de fora. Não havia viva alma ali. Mas as ve-las estavam acesas e o local estava limpo, indicando que sim, havia tido gente há pouco tempo. Mas onde eles estavam agora? Não poderiam simplesmente ter sumido. Osmund Saddler estava ficando cada vez mais desconfiado de que alguma coisa havia acontecido. O que? Como os aldeões simplesmente desapareceriam? Então, o líder da seita subiu a escada que dava acesso ao nível superior e como dava para ver de baixo. Tudo estava absolutamente quieto. Deu a volta no local e chegou a uma porta que dava acesso a uma sala. Esta porta era secreta e só Saddler sabia como encontrá-la. Havia janelas para o lado de fora, mas para entrar na sala, só pela porta, pois a janela era muito alta. Só que no momento em que abriu a porta, Osmund Saddler começou a descobrir o motivo de não haver ninguém ali. Ou melhor, de não haver ninguém vivo ali.
Em frente à porta de entrada, havia uma mesa, com um mapa mundi fixado nela. A janela estava aberta. Deveria estar fechada, pois quem a abriria? Uma estante do lado esquerdo de quem entra exibia uma grande quantidade de livros, em sua maioria, falando sobre a seita “Los Illuminados”, escritos na época em que eles eram influentes na região, antes de serem expulsos pelos Salazar. À frente da mesa, uma cadeira, onde quem estivesse ali, com o líder da seita, poderia conversar com ele. Atrás da mesa, uma grande cadeira estofada, com o veludo vermelho, onde Saddler sentava-se. Mas havia alguém sentado nesta cadeira. E não era Osmund Saddler.
Osmund Saddler entrou em sua sala e fechou a porta, irritado com o que estava vendo. Como alguém entrou ali? E estava sentado em sua cadeira? Iria pagar. Não iria poder fugir. Isso era um desrespeito que ele não iria tolerar. Então, se virou e viu o homem sentado em sua cadeira. Era alto, usava um traje militar, do Exército dos Estados Unidos e uma boina vermelha. Tinha cabelos louros, um olhar duro e frio, semblante sério e uma cicatriz que ia do seu olho esquerdo até a boca. E olhava para Saddler sem medo. O líder dos Illuminados não demonstrou sua irritação com a situação, foi apenas caminhando até perto da mesa, enca-rando seu ocupante. Então, parou com seu cajado, coçou o queixo com a mão e depois de um tempo em si-lencio, tomou a palavra.
- Bom dia. Posso ajudar em alguma coisa?
O homem ergueu a cabeça, na direção de Saddler antes de falar.
- Aqui é uma igreja, não? Quem é o padre?
- Você é americano?
- Você não respondeu à minha pergunta.
Quem é esse insolente? Ficou pensando Osmund Saddler. Mas estava curioso para saber como ele chegou até ali.
- Sou o responsável por essa Catedral. Não somos católicos, mas eu lidero uma nova ordem religiosa.
O homem forçou um sorriso antes de continuar.
- Certo. Então, acho que temos alguns interesses em comum. E como você me perguntou antes, não tem muita coisa em que possa me ajudar. Na verdade, eu é quem vou ajudá-lo. E muito.
Saddler riu. Esse homem só pode estar louco, pensou ele. Mas como conseguiu entrar na minha sala? Isso realmente incomodava o líder dos Illuminados.
- Me ajudar? De que forma? O senhor nem deve saber com quem está falando.
O soldado cruzou os dedos das mãos sob o queixo e prosseguiu.
- Sei. Sei exatamente quem o senhor é. Mas o senhor não sabe quem sou.
- Sério? Então, diga-me o que sabe.
Saddler tinha certeza de que seu visitante indesejado estava blefando. Este, no entanto, passou a fa-lar.
- O senhor se chama Osmund Saddler e é o líder de uma seita religiosa, embora ainda ignore o nome exato dela. Sei que tem um grupo de fiéis que o venera e o defende arriscando suas vidas, caso seja necessá-rio. Sei também que eles atacam e tentam matar a todos aqueles que chegam de fora, os forasteiros. Mas o mais interessante é que essa devoção, a meu ver, não é totalmente voluntária. Eles são controlados por algum organismo colocado dentro dos seus corpos, como se fossem parasitas. Agora me diga: onde eu errei?
Como aquele homem sabe disso? Saddler estava estupefato com o que acabara de ouvir. Agora, que-ria continuar ouvindo.
- Quem é o senhor? Como sabe disso?
Agora, o visitante sorriu, encarou Saddler e prosseguiu.
- Acho que agora vamos nos entender. Meu nome é Jack Krauser. Antes de iniciarmos nossa conver-sa, vou perguntar uma coisa. Sabe como entrei aqui? Ah, mais uma coisa. Não percebeu que não havia um único de seus fiéis trabalhando no templo?
Saddler ficou em silêncio. Não sabia bem onde aquele estranho queria chegar, mas estava perturbado. Krauser se levantou e foi até a janela, que estava aberta.
- Senhor Saddler, venha até aqui e olhe.
Saddler foi até a janela e olhou para fora. Sim, ele não dera a volta na Catedral. Se o tivesse feito, teria visto o que aconteceu. Havia muitos corpos de aldeões, todos mortos. Havia colmillos ali também. O líder da seita olhou para o militar e perguntou:
- Que arma usou para fazer aqueles ferimentos?
Krauser levantou as mãos. E neste momento, Saddler viu que havia sangue nelas.
- Veja, estou desarmado. Eu sou uma arma. Matei todos eles com minhas mãos.
Não podia ser verdade. Mas ele realmente não tinha armas. Osmund Saddler se dirigiu à sua cadeira e ordenou que seu visitante se sentasse na cadeira em frente à mesa.
- Certo, senhor Krauser, é este o seu nome. Conte-me quem você é, para quem trabalha e por que está aqui. E o que quer.
Agora, Krauser iria ao ponto que queria.
- Vou começar pelo início. Eu em outra vida era militar dos Estados Unidos. Chefe de operações es-peciais. Fui designado para muitas missões, obtendo êxito em todas. Sem falsa modéstia, sei treinar muito bem qualquer grupo de soldados. Faço-os ficarem disciplinados, focados e fazerem o que for necessário para obterem êxito em suas missões. Fui condecorado muitas vezes.
Depois disso, ele ficou em silêncio, estudando o semblante de Saddler, que perguntou:
- Certo, e como isso vai me ajudar?
- Só que em uma missão, eu fui gravemente ferido. E o que recebi em troca pelos meus anos de servi-ço? Nada. Simplesmente deram baixa para mim e me afastaram das minhas funções. Quero demonstrar a eles que posso ser melhor do que qualquer um que colocaram no meu lugar. Quero vingança.
- Só isso? Mas como chegou a mim? E como sei que isso não é um blefe?
Krauser então apanhou seu atestado de óbito e entregou a Saddler.
- Oficialmente estou morto. Acontece que em uma de minhas missões, tive de lutar contra criaturas que para mim só existiam em filmes. Fiquei sabendo então do que se tratava. Uma empresa chamada Umbre-la criou um vírus capaz de reanimar pessoas mortas. Eles retornavam e ficavam praticamente imortais. A úni-ca forma de matá-los era atingindo-os na cabeça. Os chamados zumbis. A infecção começou por uma peque-na cidade dos Estados Unidos, chamada Raccoon City. O vírus criado por esta empresa, tinha como objeti-vo, criar imunidade ao corpo humano contra doenças, mas acabou tendo efeitos colaterais indesejados. No entanto, serviu a outros propósitos. Criar um exército de zumbis. Só que isso também não deu muito certo. As pessoas reanimadas pelo vírus T acabavam perdendo a capacidade de raciocinar e agiam somente pelos instintos mais básicos, que são ligados à sobrevivência. Assim os zumbis se tornaram verdadeiras bestas in-controláveis que apenas sentiam necessidade de se alimentar. E para isso, caçavam quaisquer seres vivos que encontrassem. E aí apareceu mais um problema. Todos os seres que eles matavam com as mordidas, acaba-vam contaminados e se tornavam zumbis como eles. E isso acabou gerando um efeito dominó. Em pouco tempo, a cidade de Raccoon City foi toda contaminada. Para evitar que a praga se espalhasse, o governo americano ordenou a esterilização do local. Foi largada uma bomba nuclear lá, destruindo a cidade e matan-do todas as pessoas. A Umbrela foi desligada de todos os programas do governo e faliu.
Saddler continuava olhando para Krauser.
- Certo, mas não sei ainda o que isso pode ser útil para mim. É apenas informação e nada relevante.
- Acontece que nem todos os infectados se tornaram zumbis.
- Ah, e deixa-me adivinhar… você é um exemplo bem sucedido.
- Exato. Meu ferimento causado por uma criatura infectada em uma missão na América do Sul, nunca cicatrizou e eu não consegui mais recuperar minha força. Então, procurei a empresa. Eles me infectaram, mas monitoraram a infecção, de modo que mantive minha consciência e não me tornei um zumbi. E foi assim que consegui matar todos aqueles ali fora, sem usar armas. Mas eu queria mais força. Sempre quis encontrar uma forma evoluída dos seres humanos. E passei a viajar pelo mundo, já que estava livre para isso. E cheguei a este vilarejo. Aqui encontrei seus fiéis.
- Estranha esta história. Mas prossiga. Eles chamaram sua atenção?
- Sim. Era noite e fui atacado por muitos aldeões. Eles tinham uma força fora do normal para pessoas como eles, sem treinamento. Foi quando feri um na cabeça que algo me chamou a atenção. Vi sair do pescoço dele algo semelhante a um chicote com pontas afiadas. Era o tal parasita. Percebi que eles continuavam ani-mados mesmo depois de mortos, pois aquela criatura os comandava. Depois de lutar com eles, cheguei a uma conclusão: eles podem ser muito mais úteis que os zumbis. Sabe por quê?
- Por quê?
- Eles têm muito mais força que uma pessoa normal, são resistentes à dor e é difícil para matá-los. Só que eles trazem um bônus. Não ficam irracionais como os zumbis. São leais a quem os controla. Então, eu pensei. Posso treiná-los para serem o melhor exército que o mundo já viu.
- Certo, mas iria me ajudar sem querer nada em troca?
Krauser sorriu.
- Não disse que não iria querer nada em troca.
Os dois ficaram em silêncio. Saddler então, perguntou:
- E qual é o seu objetivo com tudo isso?
Saddler estava mordendo a isca.
- Meu objetivo é evoluir. Se existe um parasita que é controlado, como os que vi saírem dos aldeões, deve haver um controlador, como este que está em seu cajado. Quero um destes para mim. Vi o prefeito do vilarejo. Ele está infectado com o parasita. Sei disso. Quero ficar igual a ele. Em troca, lhe ajudarei a conse-guir todos os seus objetivos e serei seu braço direito.
Saddler riu.
- Como sabe que tenho objetivos maiores?
- Ora, seria um desperdício ter um potencial destes nas mãos e não usá-lo. Poderia controlar o mundo todo. Ter as pessoas mais poderosas do planeta em suas mãos, o obedecendo como se fossem marionetes. E eu posso lhe dar isso.
- Como?
Krauser encarou Osmund Saddler.
- O que me diria se eu lhe entregasse controle total sobre o homem mais poderoso da Terra?
- E quem seria?
- O presidente dos Estados Unidos. Ele comanda a nação mais rica do mundo, o exército mais pode-roso do mundo e tem influência sobre quase todos os países do mundo. O que lhe pareceria se ele fosse um fantoche seu?
Saddler ficou um tempo em silêncio. Então, falou:
- Prossiga. E como isso seria feito?
- Eu iria lhe trazer ninguém menos que a filha do presidente. Nós a infectaríamos. Para o mundo, seria apenas mais um sequestro, uma ação terrorista. Nós exigiríamos um resgate. Pagariam o que pedíssemos. En-tão, depois, devolveríamos a garota para os seus pais. Eles pensariam que os problemas deles acabaram. Mas é aí que eles iriam começar. Contaminada, ela seria um fantoche seu. Iria contaminar seu pai. Com o tempo, ele é quem iria passar a seguir suas ordens e contaminaria outros membros do governo. Deste modo, seria apenas uma questão de tempo até você estar controlando o país todo. E depois disso, o controle do mundo seria apenas o próximo passo. O que me diz disso? Você está vendo? Posso lhe dar o mundo.
- E como sei que não vai me trair?
- Não ganharia nada com isso. Sem contar que vou ter minha participação neste novo mundo que vou ajudar a criar. É claro que sei que o senhor saberá me recompensar.
- Caso demonstre lealdade e cumpra tudo o que disse, irei sim lhe recompensar bem. Por outro lado, se me trair, acho que já deve saber o que vai lhe acontecer. E veja bem. Não sou como aqueles pobres coita-dos que você matou ali fora.
Neste momento Saddler abriu a boca e um olho apareceu dentro dela. Em seguida, em um movimento tão rápido que seria imperceptível a um ser humano comum, o líder dos Illuminados se levantou da cadeira e golpeou o militar. Só que Krauser não era um ser humano comum e conseguiu sair da cadeira, que foi feita em pedaços. Osmund Saddler ficou ali rindo.
- Parece que fala a verdade. Não foi blefe. Sim, você tem habilidades muito interessantes. Quanto tempo vai levar para me trazer a filha do presidente dos Estados Unidos?
- Uma semana. Quero mais dois homens para treinar. Eles serão úteis. Depois disso, posso me consi-derar parte de seus planos?
- Se me trouxer a filha do presidente dos Estados Unidos, conforme o combinado, sim. Fará parte dos meus planos. E será uma peça valiosa. A partir de agora, vou ordenar os aldeões que não o ataquem mais. Irá treinar um grupo para quando formos à América.
- Certo. Pode considerar o serviço feito.
Depois disso, Krauser se retirou. Saddler estava ainda cético no que acabara de ouvir, mas não custa-va nada tentar. Caso o soldado fosse burro o suficiente de traí-lo, teria de matá-lo. Mas isso não seria pro-blema.

* Cães contaminados com Las Plagas, que são fiéis aos membros da Seita Los Illuminados.


Capítulo 5

- Temos autoridade para fazermos o que quisermos com você. Com você e a garota.
A frase ecoava nos ouvidos. Os olhos estavam pesados. Era como se o som viesse de dentro da cabe-ça. Então, ele se viu dentro de uma sala, sentado em uma cadeira. Estava dentro de uma sala escura. O ar era pesado, denso. A respiração era difícil. O coração batia em disparada, como se quisesse saltar do peito. Leon Scott Kennedy olhava para os lados, mas não conseguia ver absolutamente nada. Isso se devia ao fato de estar bem no centro de um facho de luz que praticamente o cegava. Fora deste círculo iluminado, apenas a escuridão. Então, a única coisa que ele conseguia enxergar era um ponto vermelho piscando à sua frente, in-dicando que havia uma câmera. Havia alguém a operando? Isso, ele não sabia dizer, embora soubesse que o estavam vendo. E isso o deixava inquieto e com medo. Quem estava ali? Quais as intenções? Na situação em que estava, poderiam fazer o que quisessem com ele mesmo. Não era blefe de quem falava. Não era força de expressão. Mas ao que tudo indicava, eles iriam querer que ele fizesse alguma coisa. Mas o que seria?
- Deixe ela fora disso!
Leon gritava, sabendo que se quem quer que fosse, se quisesse fazer algo, faria. Mas tinha de falar igual. Então, a voz falou:
- Uma inocente carrega o anticorpo G. Não se preocupe. Estamos tomando conta dela muito bem. A verdade é que você tem a experiência que estamos procurando. Então, se quer que tudo termine pacificamen-te, você só tem uma opção. Trabalhe para a gente.
De repente, estava em outro local. O sol queimava, apesar de sua pele estar grudando, devido ao pro-tetor solar combinado com o suor, misturado a repelentes para mosquitos, que eram abundantes. Havia mui-tas árvores ao redor, altas, com muitas folhas nas copas. O chão de terra estava úmido, o que parecia ser algo constante ali, devido ao clima e à alta umidade relativa do ar. Quando caminhava, pisava em folhas, muitas delas caídas. E vez por outra, saíam por baixo destas folhas aranhas, sapos, rãs e outros animais pequenos. A vegetação também servia de esconderijo para outros animais, como insetos, aracnídeos, cobras, dentre outros. Era preciso ter cuidado ao pisar sobre as folhas e passar por galhos de árvores. Além do mais, o sol incomo-dava. Batia nos olhos, de forma a fazer com que eles tivessem de caminhar o tempo todo com a mão à frente para fazer sombra.
Leon parou e olhou para uma foto. Sim, era o homem que ele teria de capturar. De repente, um baru-lho atrás de si o fez se virar para trás. Um soldado vinha caminhando em sua direção, com uma cobra na pon-ta da faca, bebendo água de sua garrafa displicentemente. O agente quase fora atacado por uma cobra, mas o homem que vinha para o seu lado o havia salvado. Leon foi agradecer, mas Jack Krauser, jogando a cobra morta, perguntou:
- Você acha que armas biológicas realmente existem? Sim, diz que as enfrentou antes.
Ao dizer isso, Krauser passou por Leon, lhe jogando a garrafa com água. Depois parou à sua frente e ficou observando o terreno com seu binóculo. O agente estava trabalhando com o soldado pela primeira vez. Era o chefe de Operações Especiais e possuía uma grande fama, devido aos seus êxitos em campo de batalha. Mas não fazia diferença entre as criaturas de Raccoon City e armas biológicas. Krauser então se virou para Leon e disse:
- Vamos. Nosso guia deve estar nos esperando para irmos até onde Javier está escondido.
Sim, o homem da foto era Javier Hidalgo. Estava em uma missão na América do Sul, atuando em parceria com Jack Krauser. No entanto, o que eles enfrentaram lá não foram pessoas, mas zumbis. Leon Scott Kennedy não achou que enfrentaria aquelas criaturas novamente tão cedo. E na América do Sul? Era eviden-te que Javier tivera contato com a Umbrela e que estava fazendo experiências com as pessoas do povoado, as contaminando com o Vírus T. Então entraram em um galpão.
O chão de madeira estava parcialmente destruído e havia água. O local parecia ter sido construído sobre um rio. Uma garota estava sentada na parte do piso de madeira que restava, com as pernas na água. Seus braços estavam escorando seu corpo, apoiados no chão e ela olhava para a janela, por onde entrava a claridade. Ao lado dela, estava uma criatura quase que totalmente mergulhada, apenas com a cabeça para fora da água. Seus olhos eram dois pontos azuis. Krauser fez um sinal para Leon prestar atenção à criatura.
Leon então sacou a pistola e fez mira. A garota caiu no chão e o monstro se levantou da água e se dirigiu aos dois. Era uma criatura grotesca, com pernas? Tentáculos? Não dava para saber ao certo. Mas não teriam como enfrentar aquela coisa naquele momento. Então, enquanto um dos dois distraiu a criatura, o ou-tro apanhou a garota. Não dava para ver com clareza como a batalha seguiu, mas de repente, estavam em um barco, ele, a moça e Krauser. Ela usava um vestido branco, mas estava manchado de sangue. A pele dela era clara e o cabelo castanho claro. Seus olhos azuis olharam para os dois assustados. Leon sorriu para ela. - Não se preocupe. Não vamos lhe machucar.
Enquanto ele movimentava o leme do barco, junto ao motor, Krauser ia à frente, com um binóculo, para ver o que os esperava na margem, ou dos lados. À frente, havia uma espécie de represa. O barco foi na-vegando e Leon não teve mais certeza do que aconteceu. Tudo começou a ficar anuviado. Era como se esti-vesse tentando se lembrar de algo, mas não conseguia. Tudo ficou escuro, mas a sensação de inquietude au-mentava. Sentia-se tenso. Queria falar, mas não conseguia. A fala entalou na garganta. Então, de repente, voltou a enxergar.
Leon, Krauser e a garota estavam diante de um homem. Ele usava um casaco de couro, um colete e um colar. Seu cabelo era castanho claro. Seu rosto era emoldurado por uma barba aparada e um bigode sobre os lábios. Usava óculos escuros e tinha uma expressão dura no rosto. Estava olhando para eles do alto, dan-do-lhe uma imagem de arrogância. Ele falava algo com a garota, mas não dava agora para entender. Leon não ouvia sequer o que era dito, apenas viu que o homem falava algo. A garota era sua filha e parecia assustada. De repente, Krauser se virou para trás e para cima. Era como se estivesse ouvindo algo. Uma corrente de água invadiu o local, que se inundou e a garota se jogou na água, sendo levada para a represa.
De repente, os três estavam no alto da represa. Como foram parar lá? Não dava para saber. Leon e Krauser se aproximaram da garota. Ela retirou uma faixa do braço. O que eles viram… O braço dela parecia estar… com as veias e artérias todas aparentes. Sim, ela fora infectada. Enquanto ela falava, o agente sentiu um aperto no peito. Não sabia o motivo. Não conseguia ouvir o que era dito, mas algo estava provocando um sentimento estranho. Uma angústia. Queria sair dali. Queria estar longe dali. De repente se sentiu sozinho, não viu mais a garota, nem Krauser, nem ninguém. Parecia que estava caindo em um grande poço, sem luzes. Então, abriu os olhos e viu a claridade novamente.
Estava agora em meio à floresta, com a vegetação a lhe rodear. Folhagens, árvores, folhas caídas. Le-on estava com um binóculo, pesquisando o território. Via caminhões com um toldo a cobrir as carrocerias. Então, foi chamado e se virou para o lado. Era Krauser.
- Temos que cuidar da garota antes que seja tarde. É questão de tempo apenas. Até que ela se torne uma ameaça.
- Javier conseguiu impedir que Manoela se transformasse. Tenho de descobrir como.
Leon entregou um tablet contendo dados de sua missão. Krauser ficou olhando por algum tempo e viu que seu parceiro recebia ordens diretas do presidente dos Estados Unidos. Então, ele ergueu a cabeça e olhou para Leon.
- Minha missão é erradicar esse vírus de uma vez por todas.
Leon respondeu:
- Pretendo fazer isso, com a sua ajuda.
Krauser abaixou a cabeça e ficou em silêncio por alguns segundos. Então, falou:
- Sou apenas um soldado. Suas ordens são diretas do presidente. Estou do seu lado. Parece que sou apenas um peão neste jogo.
Depois disso, Krauser estendeu a mão e ele e Leon trocaram um aperto de mãos. Krauser riu.
- É hora de arrasar.
Então, estavam dentro de um laboratório. Havia estantes, prateleiras fechadas e dentro delas, grandes vidros com… órgãos humanos. Estavam fazendo experiências. Leon avançou para uma cortina e a abriu. O que ele viu atrás dela… eram seres humanos mortos e embalados em plásticos transparentes. Então, ouviu o baque de um corpo caindo no chão. Era a garota que viera com eles. Por uma porta lateral, o homem, que devia ser Javier apareceu. Krauser apontou a arma para o homem. Eles falaram algo, mas Leon não conseguia se lembrar.
Leon segurou a garota nos braços. Ela estava fraca. Parecia que perdia as forças e que poderia morrer. O agente se lembrou dos zumbis. Não podia deixar que ela morresse. Algo dizia a ele que ela se transforma-ria. O homem disse algo como ficar mais forte. Então, surgiu um monstro igual ao que estava na cabana de onde eles retiraram a garota saltou.
A criatura atirou algo que parecia uma estaca de madeira. Ela se cravou no chão. Leon recarregou a arma e passou a atirar naquela coisa. Era enorme. A cabeça era grotesca e ficava no meio do corpo. Os olhos eram dois pontos azuis brilhantes e parecia que aquela coisa tinha presas na boca, como uma grande aranha. De repente, o agente viu outra estaca daquelas voando. Agora na direção de Krauser, que disparou sua arma. Leon tentou acertar aquele objeto que voava. Iria atingir seu parceiro de missão. Leon quis gritar para Krau-ser, mas era óbvio que ele tinha visto que era o alvo da criatura. Seria atingido. O agente gritou.
E então, estava sentado na poltrona de um avião. O peito subia e descia. Sua respiração estava ofe-gante. Leon olhou para os lados e havia alguns passageiros olhando para ele. Estava suando, apesar de o cli-ma estar frio ali. Então, notou que suas mãos estavam contraídas e estava agarrando os encostos com tanta força que seus dedos estavam praticamente furando o estofamento. O coração batia acelerado. Dava para ouvi-lo. Leon se perguntou se os outros conseguiam ouvir também. É claro que não. O agente foi se acal-mando aos poucos, controlando a sua respiração até normalizar.
Então, a pergunta. Por que este sonho? Sim, ele passara por tudo isso. Foi a missão Javier Hidalgo, na América do Sul. Fora bem-sucedido, mas algo lhe incomodava profundamente. Sim, ficara algo mal resolvi-do. Leon sempre que se lembrava da ocasião, ficava com a impressão que Krauser fora ferido por sua culpa. Que ele poderia ter evitado. O ferimento fora grave. O soldado ficou praticamente fora de combate. E ficou inconformado. Krauser, que sempre fora ele a liderar os grupos do qual fazia parte. Que sempre era ele a res-gatar os outros e a ter êxito em suas campanhas. Daquele momento em diante, dependia de Leon. Isso feriu de morte o orgulho dele. Feriu também sua alma.
Tudo não teria passado disso, mas para piorar, o ferimento parece ter sido mais grave do que se pode-ria supor na ocasião. Leon soube que Krauser nunca conseguiu recuperar totalmente aquele braço e que teria sido aposentado algum tempo depois. Sim, aquele objeto que o monstro jogou certamente tinha algo além. Mas teria sido Jack Krauser infectado com alguma coisa? Leon não sabia dizer. Tudo a que se referiu ao mili-tar a partir daí, ficou envolto em uma espécie de cortina de fumaça. As informações eram desencontradas e não se sabia se eram verdade ou simplesmente boatos.
Algum tempo depois, circulou a notícia de que Krauser havia morrido em um acidente de helicóptero. Mas não houve nada de oficial nessa informação. Sequer houve algo no exército, nem velório, nem enterro. Se fosse totalmente verdade isso, certamente haveria alguma cerimônia com honras militares, a final de con-tas, Krauser era um dos melhores soldados e sempre fora uma peça valiosa nas forças armadas. Até aquela fatídica operação. Mas não se podia esquecer o que ele fizera, nem desprezá-lo por ter sido ferido em comba-te. Mas não adiantava ficar agora, divagando. Logo o avião iria descer no aeroporto de Madri, onde Leon estaria sendo esperado pela polícia local, que o ajudaria a chegar ao povoado, onde teria de cumprir sua mis-são. Leon olhou pela janela e ficou pensando no que o aguardaria.


Capítulo 6

O carro compacto vermelho de Luis Sera atravessou a ponte de madeira que dava acesso a El Pueblo. Assim que parou o veículo, o pesquisador desceu. Em suma, tudo estava tal como era em sua lembrança, com pequenas casas, todas simples, estradas de terra batida, carros velhos parados perto das moradias. Ali o tempo parece ter simplesmente parado. Mas havia algo diferente. Sim, algo que deixava a paisagem triste, melancólica. O abandono. Tudo ali parecia abandonado.
Sera caminhou e não viu nada que lembrasse um povoado vivo, alegre, uma comunidade pulsante, como tinha em sua memória. Não enxergou grama plantada nos pátios das residências, nem flores, seja em canteiros, seja em vasos. Apenas viu árvores nativas, que estavam com as folhas começando a cair dos galhos, pois já se chegava ao outono. Não havia pássaros, apenas corvos nos galhos e no chão. Um deles parecia estar remexendo a terra com o bico, como que procurando algo. Assim que Luis deu alguns passos à frente, eles voaram. Tudo ali estava em silêncio. Os únicos sons que podiam ser ouvidos eram os corvos crocitando nas árvores e os passos de Luis Sera nas folhas que cobriam o chão.
As casas traduziam a sensação de abandono. A pintura delas estava descascando. Havia sinais de mofo nas paredes. Os telhados, em alguns casos, pareciam quebrados. E para completar, as janelas tinham tábuas pregadas e fixadas na horizontal, como se não quisessem que enxergassem do lado de dentro. Sera continuou caminhando pelo local. E notou que do lado de dentro de algumas casas, havia movimento. Parecia que o estavam espionando. Mas ninguém saiu para lhe receber. Mesmo se não se lembrassem dele, Sera imaginou que teria uma recepção. Será que estão com medo por causa da infecção? Foi o que pensou. Então, se dirigiu até o local onde deixara o carro, perto da ponte. Foi neste momento que aconteceu um fato que iria começar a mudar tudo o que estava pensando.
Ao passar pela casa próxima de seu carro, um dos aldeões saiu. Sera não se lembrava de quem era. Usava uma roupa simples, uma calça jeans, uma camisa bege e um casaco de lã fechado. O pesquisador sorriu e foi ao encontro do homem. Não haveria má vontade nem desconfiança que pudessem resistir a um largo sorriso e um aperto de mãos. Era o que pensava Sera.
- Bom dia meu senhor. Não sei se lembra de mim, mas eu morei aqui. Nasci e cresci aqui. Chamo-me Luis Sera.
Sera caminhou na direção do aldeão e estendeu a mão. O homem continuou caminhando na direção do pesquisador. Foi então que o visitante percebeu que o dono da casa tinha um machado na mão. E ele vinha na sua direção. De repente, Sera parou e ficou apreensivo. O aldeão não parava e seguia caminhando. Foi neste momento que Luis notou que a expressão do seu anfitrião não era nem um pouco amistosa. O aldeão apressou o passo e quando chegou perto, ergueu o machado. Sera recuou. De repente, o aldeão o atacou. Sera rolou para o lado, esquivando-se da arma. Então se levantou e continuou caminhando para trás. Neste momento, ouviu um barulho atrás de si e viu mais dois aldeões se aproximando por trás, um portando um arado e outro um facão. Os três estavam indo na direção do pesquisador. Um deles gritou:
- Um forasteiro! Agarrem-no!
O que? Estavam planejando matá-lo? Não podia ser verdade. Sera tentou ir para o lado, mas estava cercado. Não tinha para onde ir. Seria morto ali. Estava desarmado, cercado. Não teria como se defender. Não teria como fugir. Era o fim. Mas por que aconteceu isso? Fora chamado para uma armadilha? Mas por qual motivo? Então, quando os aldeões se aproximaram e Sera fechou os olhos, esperando pelo golpe que tiraria sua vida, tudo parou. E ouviu a voz de Osmund Saddler.
- Parem. Ele está aqui comigo.
Neste momento, os aldeões pararam e se voltaram para o seu líder, se prostrando. Todos repetiram:
- Lorde Saddler.
O que isso significava? Todos aqueles aldeões veneravam esse homem? Sera ficou admirado olhando aquela cena. Saddler veio até ele e estendeu a mão.
- Perdoe-me senhor Sera. Cheguei um pouco atrasado. Espero que eles não tenham lhe deixado em alguma situação desconfortável.
Desconfortável? Por pouco não me mataram, pensou o recém-chegado.
- Confesso que senti medo.
- Muito bem. Não precisa mais ter medo. Eles não lhe farão mal. Vamos, entre no meu carro. Vou levá-lo até a casa de Bitores Mendez.
Sera olhou para trás.
- Penso que seria melhor eu ir no meu carro.
- Não tem perigo algum aqui. Pode deixá-lo perto da casa do Esteban. Será melhor você chegar comigo, para que todos vejam que fui eu quem o trouxe.
- Certo.
Mesmo contrariado, Sera aceitou. Mas por que motivo estes homens estão tão violentos? Por que atacam as pessoas? Será algum efeito colateral da infecção? Mas este parasita teria algum poder sobre o comportamento das pessoas? Bem, era isso o que ele iria estudar. Era sobre isso que ele iria pesquisar. E esperava encontrar respostas.
- Senhor Saddler. Diga-me uma coisa. O que aconteceu a estes homens? Por que este comportamento?
Saddler dirigia sem olhar para o lado, apenas falou:
- É um comportamento causado por causa do parasita. Não temos certeza disso, apesar de estarmos convictos de que sim. É por isso que o senhor está aqui. Para descobrir se é isso o que muda o comportamento das pessoas e se há uma cura.
- Sim. O senhor pode ter certeza de que me empenharei o máximo que puder.
O carro seguiu até uma grande casa. Saddler não foi pelo caminho mais curto, mas sim deu uma volta contornando o povoado. Eles desceram e Bitores Mendez os estava esperando. Os dois seguiram até a entrada da casa. O anfitrião se adiantou.
- Bom dia, senhores. Lorde Saddler, Luis Sera. Espero que sua estadia aqui seja proveitosa. Vamos nos dirigir ao seu laboratório.
- Muito obrigado. Espero corresponder às expectativas.
Saddler deu um sorriso e olhou para o pesquisador.
- Tenho certeza que o senhor atingirá os objetivos.
Os três caminharam para dentro da casa. Sera ia observando o interior da moradia do prefeito da vila. Era um local com um mobiliário antigo, mas de boa qualidade. Tudo em madeira fina. Havia muitos quadros nas paredes também. Ele já andara pela casa de Mendez quando era jovem, mas pouco se lembrava. Então, de repente foram para uma escada que conduzia a um porão. Quando chegaram, o dono da casa quebrou o silêncio.
- Muito bem. Sinto muito não poder oferecer um local melhor, mas o único cômodo da casa com espaço para acomodar um laboratório era o porão. Terá de trabalhar aqui.
Luis Sera olhou para o local. Sim, era um porão, não teria ventilação adequada, mas poderia sim trabalhar ali. Havia um bom equipamento e então, sobre uma mesa, ele viu um cilindro, semelhante ao que tinha no local onde trabalhava na Universidade, com o mesmo símbolo de risco biológico. O cientista se dirigiu a ele e o apanhou, ficando o observando por algum tempo. Saddler então tomou a palavra.
- Esta é uma amostra do parasita. Esperamos que o senhor consiga desenvolver um bom trabalho.
Sera olhou para o líder da seita.
- Pode ter certeza que vou me empenhar ao máximo.
Mendez então, disse:
- Acho que primeiro vamos acomodar nosso visitante.
Sera olhou ao redor e respondeu:
- Preciso pegar meus pertences. Estão em meu carro. Vou ficar hospedado na casa de meu avô?
Bitores Mendez se adiantou e respondeu à questão.
- Senhor Sera, a casa dele já foi ocupada por outros moradores. Sem contar que acabará perdendo muito tempo indo e vindo. Ficará hospedado aqui em minha casa.
- Tudo bem. Só preciso de meus pertences.
- Vamos, eu lhe levo. Lorde Saddler, agora já está tudo sob controle. Acredito que já pode retornar à igreja.
- Sim, estou indo.
Mendez levou Sera até seu carro e os dois foram até a entrada do vilarejo, pelo mesmo caminho por onde Saddler veio. Depois, o cientista entrou no seu carro. Antes, o prefeito disse:
- Siga-me.
Enquanto dirigia de volta, sempre seguindo Bitores Mendez, Sera ficou se perguntando como Saddler conseguiu conter aqueles aldeões enfurecidos. Eles pareciam ter parado antes mesmo de ele falar. E será que agora teria segurança para circular pelo vilarejo? Será que agora os aldeões não mais o atacariam? Não demorou até que chegassem à casa do prefeito, que disse:
- Senhor Sera, se não se importa, tenho afazeres. Pode se acomodar. Se precisar de ajuda, tenho alguns empregados que o atenderão. Pode pedir auxílio a eles.
- Senhor Mendez. Tenho uma pergunta. Logo que cheguei, os aldeões me atacaram e poderiam ter me matado. Só não o fizeram por que o senhor Saddler impediu. Será que não é perigoso para mim, ficar sozinho?
- Não precisa mais se preocupar. Eles não o atacarão mais.
Dito isso, Bitores Mendez saiu. Enquanto isso, Sera foi se acomodando no quarto de hóspedes. Um dos aldeões que trabalhava ali mostrou o quarto. Sera perguntou:
- Olá, o que tem aqui em volta? Se precisar comprar alguma coisa, onde posso ir?
O aldeão olhou com a expressão fechada.
- É só falar com o senhor Mendez, que ele providenciará o que for necessário.
Sera começou o trabalho no laboratório. A primeira coisa que ele notou foi que apesar de ter uma liberdade relativa, não conseguia deixar o povoado. Sempre que precisava sair, era acompanhado por Bitores Mendez, algum aldeão ou esporadicamente por Osmund Saddler. Mas não tinha do que reclamar, no geral. Pelo que podia perceber, o líder do culto começava a depositar alguma confiança no pesquisador. Apesar disso, percebia que o mesmo não ocorria com relação aos outros dois homens que o contrataram. Vez por outra, Ramon Salazar aparecia no vilarejo. Mas não chegava a trocar muitas palavras com Sera. No entanto, com o tempo, alguns comportamentos tanto do dono da casa, como do próprio Saddler começaram a levantar algumas suspeitas. Principalmente pelo fato de que o cientista já tinha praticamente a certeza de que eles tinham algum poder sobre os aldeões. Sim, era possível afirmar com no mínimo noventa por cento de certeza que eles controlavam os aldeões como marionetes. Por isso tinham certeza de que não o atacariam mais. Por outro lado, se por algum motivo deixassem de dar proteção a Sera, tudo poderia mudar do dia para a noite.
Luis Sera começou a descobrir fatos sobre os parasitas que o deixaram muito intrigado e foram cada vez mais confirmando suas suspeitas sobre Osmund Saddler. Mas para ter a comprovação, seria preciso uma cobaia. Só que, usando as amostras do Las Plagas, foi possível compreender que os hospedeiros do parasita acabavam sendo manipulados por eles. Ou seja, além de infectar os contaminados, o parasita era capaz de interferir no sistema nervoso do ser a que estavam acoplados, modificando seu comportamento.
Sera implantou amostras do parasita em pequenos ratos que ele coletou. Chegou a uma conclusão que era ao mesmo tempo surpreendente e assustadora. Se os parasitas poderiam controlar seus hospedeiros, o que poderia acontecer se alguém controlasse o parasita? Teria uma multidão de pessoas sob seu controle. O problema é que, os infectados acabam morrendo. Será que o objetivo de Saddler com a pesquisa era permitir que eles continuassem vivos por mais tempo? Ainda era cedo, todavia, acabaria pondo a prova as reais intenções do líder da seita mais cedo ou mais tarde.
Um acontecimento chamou a atenção positivamente de Luis Sera. Com o tempo, Osmund Saddler foi confiando cada vez mais no pesquisador. E essa confiança foi colocada à prova quando este colocou frente a frente o líder dos Illuminados e o prefeito da vila. Estavam os três reunidos e Sera disse:
- Meus caros. Para poder levar a diante minhas pesquisas, precisarei de uma máquina que emita radiação. Semelhante a do laboratório que existe na ilha.
À essa altura, Saddler já tinha levado o pesquisador para uma ilha, onde estava montando uma instalação que lembrava uma base militar. Sera estava ficando inquieto e assustado com o que via, mas não queria levantar suspeitas de suas desconfianças. Saddler respondeu:
- Não temos como adquirir mais uma, mas você pode ir à ilha quando quiser.
Sera prosseguiu, sem saber até onde poderia esticar a corda.
- Preciso então, ter livre circulação entre o vilarejo, o castelo e a ilha. E no momento, a única maneira de sair é com a permissão de Bitores Mendez. Mas pode acontecer de eu precisar sair e não o encontrar.
Mendez fez cara de poucos amigos e disse em tom ríspido.
- Não há outra forma de sair que não seja com minha presença. Não sei se o senhor percebeu, mas a chave que abre o portão é o meu olho de cristal.
Saddler olhou com uma expressão séria para o prefeito.
- Então o senhor irá providenciar uma réplica para o nosso convidado. Ele não é nosso prisioneiro. Tem a liberdade de ir e vir. E se não o deixarmos levar a diante nossa pesquisa, pode acontecer de mais gente morrer por causa da infecção. Inclusive nosso amigo Salazar. E até você.
Bitores Mendez encarou o líder da seita.
- Dar uma réplica do meu olho?
Saddler fuzilou Mendez com os olhos.
- Questiona minhas ordens?
Bitores Mendez baixou a cabeça.
- De jeito nenhum.
Depois disso, Sera percebeu que gozava da confiança de Osmund Saddler, mas que isso despertava certo ressentimento em Bitores Mendez. Só que cada vez mais, o cientista via coisas que achava horríveis. Saddler fazia experimentos. Escondido, o cientista percorreu outros laboratórios tanto no castelo de Salazar, como na ilha e viu que eles estavam “fabricando” criaturas monstruosas. A ideia deles era fazer um exército obediente a Saddler. Mas Sera tinha de manter suas descobertas em silêncio. Então, um dia ele ouviu uma conversa que nunca mais esqueceu. Era de Saddler com Mendez.
- Senhor Mendez, nosso plano está em andamento.
- Mas o senhor confia naquele americano?
- Não. Mas ele já fez a sua parte. A garota já está na igreja. Sob nosso poder.
- Só que agora que ele trouxe a filha do presidente dos Estados Unidos, irá querer ter regalias.
- E ele merece. Mas agora, ficarei na ilha vigiando-o constantemente. Krauser não poderá fazer nada que eu não permita.
Sera saiu de perto para não ser visto. Mas eles estavam com a filha do presidente dos Estados Unidos? Era sequestro. Sim, Saddler não é do bem. Seu instinto estava certo. Os objetivos dele não poderiam ser bons com relação ao parasita. Com certeza estava querendo encontrar uma maneira de manter as pessoas sob seu controle.
Então, um dia, Sera teve um mal-estar terrível. Seu sangue pareceu ferver nas veias e a cabeça parecia que iria estourar. Depois de alguns autoexames e de se olhar no espelho, especialmente após ver alguma coisa estranha em seus olhos, chegou à conclusão. Fora infectado. Sim, sentiu uma manhã uma dor estranha no pescoço, como se tivesse sido picado. Achou que fora um inseto, mas certamente, fora uma agulha. Então, a partir de agora, a cura seria ainda mais necessária. Ele precisaria se curar.
A maneira que usaria para exterminar a plaga seria uma exposição à radiação. Poderia dar resultados, mas somente se o parasita não houvesse se desenvolvido por completo ainda. Nos ratos, isso havia dado resultado. Um dia, Sera arriscou. Uma das aldeãs que Sera observou. Parecia ainda não estar completamente com o parasita desenvolvido. O cientista a chamou dizendo que precisava encontrar o prefeito. Quando ela se distraiu, o cientista a pôs para dormir. Depois, levou-a escondido até a ilha, onde ficava o laboratório. E lá, a expôs à radiação. E como previa, aconteceu o que se esperava. O parasita foi destruído. Quando a aldeã acordou, já estava de volta ao vilarejo e livre do Las Plagas. A primeira coisa que ela disse foi:
- O que está acontecendo?
Sera olhou para a mulher. Sabendo que não teria como operar a máquina e ser ele mesmo a cobaia, teria de ter um colaborador. Mais alguém desinfectado. Então, disse:
- Você estava doente, mas eu consegui lhe curar. Agora, preciso que ajude a me curar também.
Sera explicou a ela como manipular a máquina e levou-a à ilha. Agora não precisou mais se esconder, pois estava com um dos aldeões. Estava sendo “vigiado”. Saddler e os demais não sabiam ainda que esta aldeã já não era mais infectada. Não obedecia mais a Saddler. Sera, no entanto, a preveniu.
- Se você não quiser morrer, terá de agir exatamente como os demais aldeões. Se eles desconfiarem de algo, irão matá-la.
Sera, no entanto, começou a ficar com medo. Não conseguia mais caminhar sem olhar para trás. Sem pensar que a qualquer momento poderia ser surpreendido por algum aldeão enfurecido. Ou até mesmo pelo prefeito da vila. Antes que fosse tarde, ele escreveu um e-mail a um amigo, ex-colega de faculdade, relatando o que presenciou e pedindo ajuda.

Caro Juan. Preciso urgentemente de sua ajuda. Fui contratado para trabalhar em meu vilarejo natal. Era para descobrir a cura de um parasita que vinha infectando a população local. Este parasita se chama Las Plagas. Só que quando iniciei as pesquisas, vi coisas horríveis. Na verdade, este parasita controla o comportamento de seus hospedeiros. E vi que as pessoas que me contataram controlam os parasitas. O que eles queriam era que eu não permitisse que o parasita fosse removido do hospedeiro. Eles me infectaram, mas consegui me curar. Livrei uma aldeã também do Las Plagas. Temo pelo que pode ocorrer a ela. Por favor, vou mandar minha localização neste mapa e tente chegar o mais próximo possível do vilarejo. Desconfio que se não sair logo, vou acabar sendo morto.

Alguns dias depois, Sera recebeu um e-mail em resposta. Mas não foi seu amigo Juan que respondeu.

Prezado Luis Sera. Seu amigo Juan está morto. Não se sabe como. Eu me chamo Ada Wong e trabalho para uma organização que vem vigiando este povoado há algum tempo. Estou me encaminhando para o vilarejo e vou lhe trazer em segurança para os Estados Unidos. Mas antes preciso de um favor. Consiga-nos uma amostra do parasita. Precisamos dele para produzir uma cura, caso Saddler resolva usar esta arma biológica para espalhar terror pelo mundo.

Luis Sera aceitou, a final de contas, não seria tão difícil conseguir uma amostra do parasita, principalmente pelo fato de ele ainda ter liberdade de se locomover pelo vilarejo, ao castelo e à ilha. Seria um problema a partir do momento em que se tornasse uma ameaça aos Illuminados. Mas por enquanto, gozava da confiança de Osmund Saddler. Não sabia, no entanto, por quanto tempo. Mas uma coisa o incomodou. Como esta mulher conseguiu ler o e-mail que ele enviou? Bem, isso pouco importava agora, desde que ela o ajudasse a sair dali.
Aos poucos, a aldeã curada foi vendo que o que se passava e foi falando a Sera os horrores que presenciava. Depois de ter se curado, Sera chegou ao dia mais crítico de sua pesquisa. Iria comunicar a Saddler que conseguiu descobrir a cura. Pensava em, caso fosse necessário, demonstrar que agora, com este conhecimento, faria o que o líder dos Illuminados quisesse. Então em frente a Bitores Mendes, o pesquisador estava cheio de confiança. No entanto, precisaria sair vivo dali. Tinha de conseguir ajuda.
- Senhor Sera. Em que posso lhe ajudar?
- Desejo falar com o Lorde agora.
Bitores Mendez não gostou nem um pouco do tom de voz do visitante.
- Não sei o que o senhor pode ter de tão importante para falar com Lorde Saddler, mas pode ter certeza que passarei o recado.
- Quero falar pessoalmente.
Mendez mais uma vez demonstrou contrariedade.
- O Lorde é muito ocupado. Fale comigo.
- É um assunto que tenho de passar primeiro a ele. Depois e só quando tiver certeza de que posso revelar o que descobri é que ele dirá aos demais.
Com muita contrariedade Mendez saiu. Não demorou para que Saddler viesse. Assim que o carro do prefeito do vilarejo encostou ao lado da casa, Sera ficou pensando em como iria se dirigir ao líder dos Illuminados. Não teve muito tempo para pensar. Logo os dois estavam entrando na casa. Bitores Mendez parou em frente ao pesquisador, com uma expressão séria no rosto. Então disse:
- Aqui está o Lorde.
Saddler, sempre com uma expressão risonha, saudou Sera.
- Muito boa tarde. Qual o assunto tão urgente para tratar comigo?
Sera pensou bem nas palavras que usaria, então, se dirigiu ao líder da seita.
- Senhor Saddler. Tenho excelentes notícias.
Saddler ficou sério, mas logo riu.
- Que ótimo. Conte-nos.
Pelo jeito, Bitores Mendez estaria junto com eles para ouvir. Então, Sera disse:
- Encontrei a cura.
Os dois arregalaram os olhos. Osmund Saddler então, voltando ao normal, perguntou:
- Como? Tem certeza?
Sera sorriu antes de prosseguir.
- Sim. Absoluta. Embora, para poder extirpar o parasita do corpo do hospedeiro, o desenvolvimento do hóspede não pode ter se completado. Caso contrário, o hospedeiro morre. Mas se ainda não houve o desenvolvimento completo do parasita, é possível curar a pessoa sim.
Saddler então, encarou Sera.
- E como o senhor pode afirmar que isso funciona?
Sera estava com medo, mas agora não tinha mais como recuar.
- Eu removi o parasita que tinha em meu corpo. Eu sei que acabei me infectando. Não sei como. Acredito que possa haver alguma forma de contaminação pelo ar. Foi assim que muitos mineiros se contaminaram, pelos relatos que ouvi. Certo?
Saddler sorriu.
- Sim. Os primeiros infectados na mina se contaminaram pelo ar que respiraram.
- Os primeiros?
- Sim. Os primeiros.
- E os demais?
Saddler riu. Sera não percebeu, mas estava cercado.
- Os demais? Eu mesmo me encarreguei de infectá-los. É uma pena que às vezes as coisas tomem rumos que não gostaríamos e, acredite. Eu estava começando a me afeiçoar a você.
Neste momento, Osmund Saddler deu meia volta e caminhou em direção à porta. Bitores Mendez o seguiu. O cientista tentou chamar o líder da seita, para convencê-lo que era de confiança, mas já era tarde. Quando Sera foi sair na direção que os dois tomaram, sentiu uma forte dor de cabeça e tudo ficou escuro. Quando acordou, sem saber quanto tempo havia se passado, não conseguia enxergar absolutamente nada, apesar ter aberto os olhos. Seus pulsos estavam amarrados, bem como seus pés. Então se deu conta de que estava dentro de algum móvel não muito grande. Começou a se debater. Devia ser alguma espécie de armário ou coisa do gênero. Depois de um tempo, desistiu. Sabia que ninguém o ouviria. E se ouvissem, não faria diferença mesmo, a final de contas, eram todos fiéis a Saddler. Com certeza, só sairia dali para morrer.


Capítulo 7

“1998... Eu nunca vou esquecer. Nesse ano ocorreram terríveis assassinatos nas Montanhas Arklay. Logo depois, a causa foi descoberta e todo o mundo tomou conhecimento: umas armas virais secretas conduzidas pela Atividade Farmacêutica Internacional - Umbrela. O vírus brotou em uma pequena cidade nas montanhas – Raccoon City. Foi um golpe devastador, que deu fim à pacífica habitação. Para evitar riscos, o Presidente dos Estados Unidos pôs em marcha um plano de contingência para esterilizar Raccoon City. Depois, o governo americano decretou a suspensão indefinida das atividades empresariais de Umbrela. Mais tarde, suas ações caíram, o que acabou com a Umbrela.
Seis anos se passaram desde que o lugar ficou tão famoso pelos terríveis acontecimentos… Fui treinado por uma agência secreta seguindo as ordens diretas do Presidente. No meu novo emprego, sou encarregado de proteger a nova família presidencial. E a primeira missão foi pra lá de inesperada. Eu nunca pensei que teria que resgatar a filha do Presidente Graham logo assim de cara. Eu nem tinha visto a garota pessoalmente. E não tinha muitas esperanças quanto a ela quando chegasse lá. Parecia uma criancinha, mesmo já tendo vinte anos. Parecia indefesa. Talvez fosse tarde demais para seguir à sua busca. Mas era o meu trabalho. E tudo é melhor do que Raccoon City, embora este também fosse meu primeiro dia”.
Para cumprir a missão, Leon Scott Kennedy estava a bordo de uma viatura policial em um vilarejo da Espanha. O carro estava longe de ser confortável. Nada de controle de estabilidade, bancos de couro e condicionador de ar. Era inverno e estava muito frio, o carro pulava naquelas estradas ruins e havia um nevoeiro que nem deixava contemplar a paisagem do interior. Teria o serviço de inteligência americano apontado para o lugar errado? Leon não conseguia pensar que ali seria o cativeiro da filha do presidente dos Estados Unidos. Por quê? Qual a motivação para aquele sequestro? Nada parecia fazer sentido. Quem estava comandando aquelas pessoas? Para quem trabalhavam? Não estava convencido que encontraria muito mais além de aldeões agricultores que levavam suas vidas pacatas. Mas… era este o seu trabalho. E teria de pelo menos se esforçar ao máximo. Nem que fosse para ao fim, passar um relato dizendo que não encontrou Ashley Graham. Enquanto estava escorando a cabeça com o punho, praticamente em outro planeta, olhando, vez por outra pela janela, um dos policiais sentados no banco da frente falava com seu companheiro e chamou a atenção do agente americano.
- Por que eu sempre fico com os piores trabalhos?
Ele olhou para o passageiro por alguns segundos, antes de se dirigir a ele.
- Então, quem é você de verdade?
O motorista deu uma rápida espiada atrás e completou.
- Conte para a gente.
Leon, no entanto, não estava querendo conversar com aqueles dois policiais. Apenas olhou para a janela, na esperança que eles se dessem conta que queria apenas ficar em silêncio até chegar ao povoado. O policial que estava no banco do carona, no entanto, não pareceu adivinhar os pensamentos de Leon.
- Você está muito longe de casa, caubói. Você tem a minha simpatia.
Leon então se voltou para o policial que lhe dirigia a palavra. Não estava a fim de sorrir, mas era evidente que teria de falar alguma coisa a eles. Não adiantaria ficar em silêncio.
- Acho que é assim que os nativos quebram o gelo. De qualquer forma, você sabe do que se trata. Minha missão é resgatar a filha desaparecida do presidente.
O policial que estava no banco do carona virou-se para trás repentinamente, com indisfarçável ar de espanto.
- O que? Sozinho?
Leon então se desencostou do vidro lateral do carro e encarou o policial que insistia em puxar conversa, tentando ser o mais educado que conseguia.
- Acho que vocês não vieram para que pudéssemos cantar música ao redor da fogueira.
Depois de um tempo sem obter resposta nem do motorista, nem do carona, Leon completou sua frase.
- Bem, talvez sim.
O policial do banco do carona olhou para o lado, voltou-se para o passageiro do banco de trás e respondeu ao que ouviu.
- Americano maluco. É uma ordem direta do próprio chefe. Não vai ser moleza.
Leon encarou mais uma vez o policial no banco do carona e fez um sinal com a mão, apontando para este e para o motorista.
- Estou contando com vocês.
O policial no banco do carona fez um gesto, que Leon não soube interpretar. Logo depois, se virou novamente para frente, enquanto seguiam seu caminho. Alguns minutos mais tarde, o carro parou e o policial que não estava dirigindo desceu para urinar. O policial que estava dirigindo, apanhou um cigarro para fumar enquanto esperava pelo companheiro. Ofereceu um cigarro a Leon, que recusou.
Enquanto isso, Leon voltou a pensar na situação em que se metera. Que missão estranha era essa? Ainda parecia irreal. Deveria haver algum engano. Como iria encontrar a filha do presidente em um lugar daqueles? Não parecia ter a menor lógica.
“Foi pouco antes de eu assumir os deveres da proteção da filha do presidente que houve o seu sequestro. É por essa razão que estou nessa parte desolada da Europa. De acordo com nossa inteligência, há informações confiáveis de que uma garota muito parecida com a filha do presidente esteja aqui. Aparentemente ela refém de um grupo de pessoas não identificadas. Quem diria que a minha primeira missão seria um resgate?”
Enquanto isso, o policial lá fora estava aliviando sua bexiga apertada, pensando por que não tinha ido ao banheiro antes de sair? Sim, sabia que era uma longa viagem, e que se não fosse naquele momento, teria de sair durante o trajeto. Mas agora era tarde. Foi quando sentiu uma sensação estranha. Era como se houvesse alguém no meio daquele mato à sua frente. Mas olhou melhor e viu apenas árvores. Não havia ninguém. Mas sentiu um calafrio percorrendo todo o seu corpo. Parecia que a temperatura caía muito rápido. Deve ser por causa do rio que existe nas proximidades, pensou o policial, sem deixar de reclamar.
- Está congelando. Ficou muito frio de repente.
Então, caminhou apressadamente até o carro, mas quando se sentiu seguro, resolveu parar, ao lado da porta para dar uma olhada em redor. Examinou bem o local e concluiu que não havia nada o que temer.
- Deve ser a minha imaginação.
Logo depois de entrar, olhou para o motorista e para Leon.
- Desculpem a demora.
Seguiram viagem a partir de então, sem dizerem mais palavra. Quando chegaram a uma ponte de madeira, o cérebro de Leon parecia que estava pulando dentro de sua cabeça, de tanto que o carro sacolejava. Não se lembrava de ter andado em uma estrada tão ruim como aquela. Logo que cruzaram a ponte de madeira, o carro parou. Era o fim da viagem.
O policial que estava dirigindo apontou para a esquerda, onde ainda era possível ver apenas algumas árvores. Devido à cerração fechada, o campo de visão era muito curto.
- A vila é logo a diante.
Leon olhou para o lado que o motorista apontou antes de responder.
- Vou dar uma olhada.
O policial que estava de carona olhou para trás, antes de ser questionado por Leon.
- Vamos ficar vigiando o carro. Não queremos levar nenhuma multa.
Que desculpa ridícula, pensou Leon. Mas não quis responder o que estava pensando, pois teria de voltar com eles. E pelo jeito, não iria demorar muito ali. Mas respondeu com certo tom de ironia na voz.
- Multas, certo.
O policial que estava dirigindo ainda disse:
- Boa sorte.
Leon então abriu a porta do carro e desceu. Antes de sair caminhar pelo vilarejo, ainda questionou.
- Quem são esses caras?
O motorista abaixou o vidro antes de perguntar.
- Você disse alguma coisa?
Antes que Leon pudesse responder, um rádio transmissor via satélite que ele levava tocou. Era seu contato, Hunnigan. Do outro lado da linha, ela disse.
- Leon, espero que possa me ouvir. Eu sou Hunnigan e serei sua ajuda nessa missão.
Leon então olhou e viu que além de ouvir a pessoa com quem falava, havia a imagem dela também.
- Alto e claro. Pensei que você era mais velha. O nome da pessoa é Ashley Graham, certo?
- Correto. Ela é a filha do presidente. Então trate de se comportar, entendeu?
- Quem quer que sejam, escolheram a garota errada para raptar.
- Tentarei encontrar mais informações a respeito deles e de seus objetivos.
- Certo. Falo com você mais tarde. Desligando.
O cenário a frente de Leon não era dos mais animadores. Era a típica paisagem de um inverno rigoroso. Ele estava preparado para o frio. Usava um casaco bem grosso por cima do seu colete a prova de balas, que por si só já era bem pesado e esquentava bastante. À sua frente, desenhava-se uma floresta, com árvores já sem folhas, devido à época do ano. Alguns corvos descansavam em seus galhos nus. Não havia flores em nenhum lugar e o chão era basicamente terra com as folhas que caíram das árvores ainda no outono. A cerração impedia de enxergar longe. Sendo assim, teria de avançar com cuidado, pois poderia ser surpreendido por alguém que o estivesse esperando. Sacou a arma e começou a avançar. Uma placa indicava a direção do povoado. Neste momento, conseguia apenas ouvir seus passos e sua respiração, que formava uma pequena nuvem de vapor em frente ao seu nariz. De repente parou. Ouviu sons nas folhas. Olhou atentamente ao redor. Eram corvos. Assim que deu mais um passo, eles gritaram e voaram para os lados.
Avançou lentamente, olhando para os lados. Como não viu ninguém, foi seguindo a diante. Até chegar em frente a uma casa. A aparência dela era de uma casa de interior. Era de alvenaria com as janelas de madeira e com o telhado feito de telhas de barro. Havia um caminhão pequeno estacionado ao lado dela. Do outro lado, à esquerda de quem chega, havia uma carroça com uma caixa de madeira sobre ela. Deu a volta na casa e chegou até a escada que dava em uma varanda. Olhou ao redor para se certificar que estava seguro. Logo em seguida, procurou por sinais do dono da residência. Iria entrar de qualquer maneira. A porta estava aberta. Sim, pensou ele. Nesses locais do interior, as pessoas não costumam ter maiores cuidados com sua segurança. Não deve haver muitos casos de assaltos por aqui. Antes de entrar, mais uma vez pensou que não iria encontrar nada ali, a não ser um pacato aldeão, que olharia para a foto de Ashley e diria que nunca viu ninguém parecido. Depois, Leon andaria mais um pouco por ali e voltaria ao carro onde os policiais o aguardavam. Provavelmente iriam seguir para outras partes do povoado.
Leon entrou na casa. O piso era de madeira. A janela estava aberta, de modo que era possível enxergar o lado de fora. Havia uma estante, com pequenos objetos. Mas nada fora do normal. Coisas que qualquer pessoa possuiria. Iria, no entanto, procurar falar com o dono da propriedade, para confirmar o que já desconfiava. Que não tinha motivos para estar ali. Após dar mais alguns passos, ouviu alguém pigarrear. Sim, era seu anfitrião. Estava do outro lado da sala. Leon avançou, passou por uma parede que dividia parcialmente o cômodo onde ele estava da sala de estar. Apesar das aparências, procurou tomar cuidado ao entrar no outro ambiente. Não fez barulho e segurou a arma de modo que pudesse atirar rápido. Então que viu, não o surpreendeu. Existia uma lareira ao fundo da sala e um aldeão colocando lenha para queimar e remexendo para ativar a brasa. Era um pacato homem do campo. Meio sem jeito e o pior, sem falar espanhol, Leon se dirigiu até ele, torcendo para ser compreendido. De qualquer maneira, mostraria a foto de Ashley. Se aquele homem a vira, ele iria compreender. Caso contrário, o dono da casa faria algum sinal para deixar claro que não sabia de quem se tratava.
- Com licença, senhor.
O homem não demonstrou sinal nenhum de que ouvira o que Leon dissera. Talvez tivesse problemas de audição. Assim, o agente teve de contornar uma mesa colocada ao centro da sala e aproximou-se do dono da casa. Apanhou a foto de Ashley para mostrá-la.
Neste momento, o anfitrião parou o que estava fazendo e se voltou para Leon. O visitante mostrou a foto que apanhara do bolso e perguntou:
- Gostaria de uma informação. Consegue reconhecer a garota da foto?
O homem fez uma expressão de poucos amigos e respondeu de uma forma que Leon jamais esperava.
- Que diabos está fazendo aqui? Vá embora.
Leon não entendeu bem o que o dono da casa disse, pois não era fluente em espanhol, mas percebeu que não era bem-vindo. Tentando reunir toda a educação que tinha e a paciência que não tinha, para lidar com aquelas pessoas que nem sempre primam pelo polimento e educação, ainda disse em tom polido.
- Desculpe o incômodo.
Enquanto Leon se abaixou para guardar a foto de Ashley no bolso, no entanto, o cenário todo mudava radicalmente. O dono da casa apanhou um machado e quando Leon se deu conta, teve de se esquivar de um golpe que por muito pouco não tirou sua vida. Depois de desviar da lâmina do machado, o agente se levantou apontando sua arma para o aldeão.
- Parado.
O homem parecia não ouvir as palavras de Leon. Não dava a mínima para elas.
- Eu disse parado. Ou vou atirar.
Bem, pode ser o fato de o dono da casa não entender inglês, mas quando você tem alguém apontando um revólver para si, não se costuma avançar contra ele com um machado em punho. E o dono da casa continuou caminhando ameaçadoramente com o machado na direção de Leon. O homem ergueu o machado e desferiu mais um golpe na direção do visitante indesejado. Leon conseguiu esquivar e aproveitou que o dono da casa se desequilibrou para dar um chute nele, derrubando-o. Como o homem levantou novamente e veio para uma nova investida, Leon não teve escolha a não ser matá-lo. Disparou sua arma na cabeça do atacante. As lembranças de Raccoon City vieram à tona. Mas não, não poderia ser.
Logo em seguida, Leon ouviu o barulho do motor do caminhão que estava parado ao lado da casa ligar. Dirigiu-se até a janela para espiar o que era. Viu pela janela mais um homem chegando e ouviu barulhos vindos de longe. Eram gritos. Seriam os policiais que o acompanharam? Definitivamente, as coisas não estavam saindo conforme o planejado. Aqueles aldeões eram tudo, menos que Leon esperava que fossem. O rádio transmissor tocou novamente. Era Hunnigan.
- Tudo bem por aí?
Que hora para entrar em contato, pensou Leon. Mas ela não tinha culpa. Não sabia o que estava acontecendo. Teria de responder.
- Um nativo me deu problemas. Não tive escolha a não ser neutralizá-lo. Ainda há outros rodeando a área.
- Saia daí e vá até a vila. Pegue tudo o que for necessário para salvar a filha do presidente.
- Entendido.
Leon desligou o rádio e o guardou. Ouviu vozes de mais de um aldeão vindo do lado de fora da casa. Estavam cercando a propriedade. Teria de sair rápido e dar cabo deles. Estava correndo perigo. Dirigiu-se à porta por onde entrou, mas não conseguiu abri-la. Estava trancada. Teria de sair pela janela. Mas antes de sair, olhou para o homem que acabara de matar. E comprovou que não se tratava de um zumbi. Não era como em Raccoon City. Então, e só então, sentiu um cheiro muito desagradável. Foi até a escada que dava para o andar superior e sob ela havia vários cadáveres já em estado de decomposição. Sim, era óbvio que esta não era uma simples aldeia de pacatos homens do campo. Não devia haver enganos não. Já estava torcendo para que Ashley Graham estivesse viva e bem. Correu para uma das janelas e saltou para fora.
Leon caiu na terra e ao levantar, três homens armados já o cercavam. Teve de ser rápido para escapar de um golpe de foice. Então, sacou a arma e apontou para o homem mais próximo. Embora armados, nenhum estava com armas de fogo. Teriam de chegar perto para feri-lo. Então, com três tiros matou todos. Mirou na cabeça de todos. Ficou com esse hábito depois da última missão. Mal sabia ele, que teria de abandonar esse método para matar seus inimigos sem demora.
Leon correu até o local de onde viera para confirmar suas suspeitas. Sim, eram os policiais que estavam gritando. Quando chegou, não gostou nada do que viu. A ponte por onde vieram havia caído. Lá embaixo, no rio, estavam o caminhão que estivera parado ao lado da casa onde matara aquele aldeão e o carro da polícia que o trouxe. Após olhar bem para aquele cenário, Leon só conseguiu dizer uma palavra.
- Não.
Leon então partiu cumprir as ordens de entrar no povoado. Para isso, seguiu o caminho que antes estava bloqueado pelo caminhão, que agora estava caído no rio. No caminho, passou por pequenas casas de madeira. Não tinham piso, o chão era de terra. Ninguém devia morar nelas. Mais a frente, encontrou um cão preso em uma armadilha. O agente se abaixou e conseguiu soltá-lo. O cão saiu mancando, com a perna ferida. Leon esperava que ele ficasse bem. Seguiu o caminho.
Agora a situação mudou. Sim. Não se tratava de um pacato povoado de aldeões pacíficos, mas sim de uma população que não parecia disposta a tolerar ninguém que viesse de fora. Esperava encontrar Ashley o quanto antes, dar o fora e completar a missão.
Leon seguiu caminhando. Estava tenso. Sentia o coração acelerar. Tinha de ficar o tempo todo de guarda alta, pois não podia correr o risco de ser pego desprevenido. Os aldeões conheciam bem o território e podiam aproveitar-se das árvores e das inclinações do terreno para se esconder e armarem uma emboscada. Podiam se esconder nos casebres que havia ao lado do caminho. Foi quando observou que havia um homem o aguardando. Pelo jeito sua presença já era de conhecimento de outras pessoas. Sabiam que viria? Tudo estava ficando cada vez mais estranho.
O homem fez exatamente a mesma coisa que os outros. Armado com um arado, tentou atacar Leon. Mas apesar da ferocidade, eles pareciam não serem muito aptos. Quando não acertavam os golpes demoravam a se recompor, se tornando alvos fáceis. Leon aproveitou e o matou com a faca. Sim. Não queria fazer barulho. Devia haver mais deles por perto e um revólver disparando certamente atrairia muito mais atenção do que desejava.
Leon avançou mais um pouco e viu que suas tentativas de não fazer barulho não foram bem-sucedidas. Mais dois homens apareceram do nada. O agente, que no início queria evitar ter de matar muita gente, já estava esquecendo-se desse objetivo. Mirou o revólver na cabeça deles e os matou. Sim, eles estavam determinados a fazerem o mesmo com ele, então, não tinha escolha.
Chegou a uma ponte de madeira. Olhou ao redor. Havia um rio cruzando por baixo da ponte. Mais à frente, o caminho seguia para a esquerda. A paisagem não mudava. Foi então que Leon ouviu vozes e olhou mais para cima. Uns três ou quatro homens estavam o observando. Eles disseram algo entre eles.
- Um forasteiro. Vamos avisar os demais.
Dito isso, saíram correndo para a aldeia. Leon seguiu o caminho que dobrou a esquerda. Era uma leve descida. Do lado esquerdo, continuavam as árvores com casebres. Do lado direito, havia uma parede de pedras que formavam uma inclinação. Era por ali que aqueles homens passaram. Mas não tinha como subir e evitar que chegassem à aldeia e avisassem da sua presença. Certamente teria uma recepção calorosa lá. Continuou caminhando cuidadosamente, quando viu de canto de olho que alguém saiu de dentro da casa. Conseguiu evitar o ataque. Mas foi por pouco. Levantou o revólver e acertou o aldeão na cabeça. Continuou o caminho.
Chegou ao interior de um dos casebres que ladeavam o caminho. Havia apenas uma porta e duas janelas. Uma frontal e uma lateral. Era uma pequena construção de madeira, com o telhado de zinco. Assim que deu um passo para dentro, notou um vulto ao seu lado. Virou-se rapidamente e recuou para não correr o risco de ser atingido. E viu uma mulher. Uma aldeã. Usava uma camisa bege, um pano sobre os cabelos pretos compridos e uma longa saia verde. Estava morta. Com um arado em sua cabeça cravado na parede, fazendo com que seu corpo inerte ficasse dependurado. Por que mataram ela? Não era uma forasteira. Bem, isso agora não importava. Saiu de casa e seguiu o caminho. Foi então que chegou a um portão.
Era alto, com duas colunas o sustentando dos dois lados. Ficava entre duas paredes de pedra, de modo que não tinha como pular ele. Teria de abri-lo para passar. Parecia ser feito de metal. Tinha um desenho no centro. Lembrava alguma espécie de insígnia. Leon se aproximou do portão e o abriu. Quando entrou na aldeia, seu transmissor tocou mais uma vez. Ele pensou. Se não queria chamar a atenção, agora o plano acabara de ruir mesmo. Do outro lado da linha, Hunnigan falou:
- Leon, como você está?
- Péssima pergunta.
- Bem, qualquer coisa é só chamar pelo rádio.
- Sim, muito obrigado.
Leon desligou o transmissor. Andou por um caminho estreito até atrás de uma árvore. Parou lá e apanhou um binóculo a fim de sondar o terreno por onde teria de passar. O que viu, no entanto, foi assustador. A princípio, viu homens e mulheres trabalhando, levando feno de um lado para o outro, carregando baldes de água. Viu galinhas, vacas. Nada de mais. Foi quando olhou melhor e viu um dos policiais que vieram com ele. Estava… empalado em meio a uma fogueira. O que é isso? Pensou Leon. Que loucura. Não parece real.
Procurou entrar no vilarejo chamando menos atenção que pudesse. Caminhou furtivamente, enquanto os aldeões seguiam seus afazeres. Parou perto de uma mulher. Ela estava de costas e não percebeu a aproximação de Leon. Ficou um instante parado, esperando o que ela faria. Não queria desperdiçar munição nem matar pessoas desnecessariamente. Ela se abaixou, apanhou a água e saiu. Não foi preciso matá-la. Pelo menos agora. Continuou caminhando. Deveria chegar até o vilarejo para depois receber novas instruções de Hunnigan. Chegou perto de uma das casas. Eram todas parecidas. A única diferença básica é que algumas eram de dois andares e algumas de apenas um. Parou atrás e ficou em silêncio. Será que conseguiu chegar sem ser visto? Poderia ficar ali até receber a transmissão de Hunnigan? Achava difícil. Olhou para os lado e não ouvia nada, apenas os aldeões trabalhando. Mas estava tenso. Podia sentir seu coração batendo acelerado. Era a excitação. Queria, por um lado, definir tudo logo. Sair e enfrentar de uma vez aqueles homens que iriam querer matá-lo. Mas eram quantos? Poderia dar conta de todos? Ele tinha uma pistola. Mas os nativos eram em muito maior número. Além do mais, havia algo no olhar deles que Leon não conseguia identificar. Aqueles aldeões não pareciam se intimidar com nada. Não pareciam sentir medo. Mesmo sob a mira da arma eles não recuavam. O que há com essas pessoas? Por que eles aparentam essa fúria ensandecida? Foi quando um homem o viu. Ele parou e ficou um tempo olhando para Leon. Então, gritou para os outros.
- Aqui! Não o deixem escapar.
Pronto. Fosse como fosse, Leon agora seria obrigado a enfrentar todos aqueles aldeões. Se conseguiria dar conta de todos? Bem, só teria um jeito de saber. Se sobrevivesse, é por que conseguiu. Se não conseguisse, não iria saber. Outro aldeão gritou. Leon não podia vê-lo, apenas escutou sua voz.
- Agarrem-no.
A janela da casa atrás do qual Leon estava se escondendo estava aberta. O agente não teve dúvidas e saltou para dentro, torcendo para que não tivesse ninguém lá. Não tinha. Fechou a janela o mais rápido que pôde. Começou a trancar as entradas. Rapidamente correu fechar as janelas restantes e colocou obstáculos em frente às portas. Foi então que ouviu as vozes do lado de fora.
- Vão por trás. Vamos cercar a casa.
Leon não conseguia acreditar nisso. Quem eram aquelas pessoas? Elas tinham noção de cerco? O que iriam fazer? Logo iria descobrir, e não seria de uma forma muito agradável. Correu para uma basculante na parte de trás da casa, provavelmente a cozinha e observou os aldeões. Estavam fazendo algum tipo de estratégia de cerco à casa. Então, o que parecia que não podia piorar, piorou. E muito. Do meio daqueles camponeses, surgiu um homem com uma motosserra. Estava mascarado. Não era possível ver o rosto dele. E agora? Então, uma escada quebrou uma das janelas do andar de cima. Que ótimo. Agora eles vão entrar na casa e eu terei de desbloquear as portas caso precise sair. Mas nesse caso, eles vão poder entrar por ali também, pensou Leon. A situação era dificílima. Os aldeões iriam entrar por cima. A casa logo estaria infestada deles. Teria de enfrentar a todos dentro de um espaço mínimo. Por outro lado, se abrisse a porta, todos os que estavam ali entrariam pela frente também. E isso, sem contar o fato de que um deles tinha uma motosserra e que provavelmente iria serrar a porta. Iria para o combate. Já passara por situações piores. Já esteve? Não, pensando bem, não.
Então olhou para uma das janelas que estava parcialmente coberta com madeira. Um aldeão alto, magro de com um gorro na cabeça batia nela, gritando.
- Vou te matar.
Que animador, pensou Leon. Não era como Raccoon City. Aqueles não tinham consciência. Eram zumbis. Queriam morder tudo o que viam pela frente. Estes são conscientes de uma coisa. Querem matar especificamente a ele. Leon era o alvo deles. Sim, só podia ser por causa da missão que viera desempenhar. Tinha de ter relação com o desaparecimento de Ashley Graham. Leon subiu correndo as escadas e correu para uma das janelas superiores. Havia dois aldeões tentando entrar e Leon atirou neles, que caíram até o chão. Saiu da janela e caminhou sobre o telhado do primeiro piso, dando a volta na casa. Antes de sair, apanhou uma escopeta que estava em uma estante perto da janela. Devia pertencer ao dono da casa. Logo o homem da motosserra apareceu. Leon atirou nele com a arma recém pega. Outros vieram e foram mortos, mas o homem da serra parecia não ser normal. Depois de levar um tiro de uma calibre doze milímetros, ele levantou e veio enfurecido com a sua arma. O que era aquilo? Deu mais um tiro de escopeta. Bem, agora ele deve ter morrido. Quando Leon estava saindo, o homem levantou de novo. Não pode ser. Foi preciso dar mais três tiros com a arma apanhada na casa para finalmente conseguir matá-lo. Como um homem pode ser tão resistente? Era evidente que ele não era normal. Leon já tinha pensado que havia algo errado com os aldeões antes deste homem da motosserra aparecer. Agora tinha certeza de que algo muito sinistro estava ocorrendo naquela aldeia. Algo que tornava aqueles homens verdadeiras feras.
A situação, no entanto, não ficou mais fácil. Era desesperadora. Leon não sabia de onde saíam tantos aldeões, mas eles pareciam vir de todos os lados e por mais que eliminasse um a um, a quantidade parecia não diminuir. Leon já estava com medo de ficar sem munição. Se isso acontecesse, estaria perdido, pois teria de enfrentar a todos armado apenas com sua faca. Nem queria pensar nessa hipótese. Quando parecia que estava realmente perdido, ouviu algo que não lhe chamou a atenção, mas fez todos aqueles aldeões pararem. O sino da igreja. Um deles ficou estático, largou o machado e olhou para a direção de onde vinha o som e disse com uma voz de admiração, de reverência.
- O sino.
Outros falaram.
- É hora de rezar. Temos que ir.
Neste momento, todos os aldeões, que há alguns instantes estavam enfurecidos tentando matar Leon, de repente largaram as armas e saíram caminhando como zumbis, todos em bando, na mesma direção. Pronunciavam apenas um nome. “Lorde Saddler”.
Leon desceu do telhado. De repente, o vilarejo ficou completamente deserto. Teria de descobrir o que havia por trás daquele sinal. Para onde foram todos? Quem era Lorde Saddler? Sim, provavelmente esse era realmente o grupo que tinha Ashley Graham sob sua custódia. Mas quem eram essas pessoas? Simplesmente fanáticos religiosos? Loucos? Não, havia algo neles. Pareciam controlados por uma vontade externa. Não podia ser normal o comportamento daquelas pessoas. O transmissor tocou. Era Hunnigan. Leon falou depressa, quase cuspindo as palavras.
- Tenho más notícias. Confirmo a morte de um dos policiais. Aconteceu alguma coisa com as pessoas daqui.
- Procure por uma igreja. Procure por uma torre. Siga a trilha perto dela.
- Entendido.
Leon se dirigiu até a igreja onde os aldeões entraram. Mas a porta estava trancada por dentro. Colou o ouvido na porta, mas estranhamente não ouviu nada. Como assim? Não deviam estar em um culto com um líder religioso? Ao lado da igreja, havia um caminho, passando por outras casas. Encontrou um bilhete preso em uma parede de uma das construções por onde passava. Era do chefe do vilarejo.

“Recentemente, chegou a informação de que um agente do governo dos Estados Unidos está aqui investigando a vila.
Não deixem que este agente americano se aproxime da prisioneira.
Para os que ainda não sabem, a prisioneira está sendo mantida em uma casa velha depois da fazenda. Vamos transferi-la para um local mais seguro no vale, assim que estivermos prontos. A prisioneira ficará aqui até novas ordens. Enquanto isso, não deixem o agente americano chegar perto da prisioneira.
Não sabemos como o governo americano descobriu sobre nossa vila. Mas estamos investigando.
No entanto, sinto que esta infiltração neste momento em particular não seja apenas uma coincidência. Eu sinto a participação de um terceiro, além do governo dos Estados Unidos, envolvido nisso.
Meus companheiros, fiquem alerta.
- Chefe, Bitores Mendez.”

O caminho levava até outro portão. Em meio a dois muros de tijolos, este era de madeira, grande e abria no meio, empurrando as duas metades. O que o aguardava? Como conseguiria a chave para abrir aquela porta da igreja? Quantos aldeões enfurecidos encontraria ainda? Ashley estava em que local daquela vila? Estaria viva ainda? Ele conseguiria sair dali vivo? Para cada pergunta que se fazia, sentia até medo da resposta, pois cada uma parecia mais assustadora que a outra.


Capítulo 8

“Eu só aceitei essa missão para chegar mais perto dos meus objetivos. Não importa o que aconteça, eu não posso permitir que ninguém descubra. Mas não é meu estilo me esconder nas sombras. Portanto, terei de aparecer de vez em quando.” Era que pensava Ada Wong ao desembarcar no vilarejo. Havia chegado em um helicóptero com a missão de obter uma amostra do parasita Las Plagas.
Longe do vilarejo no interior da Espanha, em uma sala nos Estados Unidos, um homem sentado em uma cadeira aciona um dos satélites que a empresa que preside controla. O satélite tem uma gravura que lembra um guarda-chuva aberto, com as cores branca e vermelha alternadas. Ao lado do logotipo, o nome: Umbrela. O homem que manipula o satélite exibe um ar confiante. Sempre de peito estufado e seus inconfundíveis óculos escuros, Albert Wesker costuma controlar não só satélites de dentro de sua sala, mas uma gama enorme de pessoas, empregadas da empresa. Neste exato momento, é para o vilarejo que ele está voltando sua visão, e foi para lá que mandou dois encarregados: Ada Wong e Jack Krauser. Em sua tela, aos poucos, foram aparecendo formas que se tornaram humanas. Dava para observar pessoas, em seus afazeres típicos de uma sociedade rural. Um dos aldeões, com um arado, limpou o suor da testa.
As casas ali eram todas parecidas. De alvenaria, com as portas de madeira, umas com teto de zinco, outras, com telhas de barro. Uma delas apenas era de dois andares, todas as demais eram simples. A pintura estava bastante gasta, descascando. Outro detalhe é que as janelas tinham tábuas pregadas. Poucas estavam livres. Era como se os habitantes dali quisessem se esconder ou ao menos evitar que enxergassem dentro das casas. Sem dúvidas, não gostavam de receber visitas. Todas as casas tinham chaminé. Havia um estábulo, onde uma vaca comia capim calmamente. Ao lado da casa de dois andares tinha um galinheiro. A porta estava fechada e a única maneira de enxergar dentro dele era olhando através das tábuas de uma das janelas.
Uma mulher espantava as galinhas para dentro de um cercado. Depois, colocou a mão no quadril e ficou observando uma fogueira no meio do vilarejo. Embora fosse dia, provavelmente serviria de iluminação durante a noite. Enquanto isso, outra mulher corria sobre o telhado de uma das casas. Ela usava um vestido cor de vinho e observava a tudo. Sua intenção era não ser vista. A mulher que espantou as galinhas olhou na direção da espiã, pois ouviu um ruído sobre as telhas da casa atrás de si. Mas já não viu mais ninguém. Outro homem caminhava distraidamente com um arado e não prestou atenção.
Ada Wong então saltou no chão e se abaixou atrás de uma das casas e ficou observando os aldeões. Ela apanhou um monóculo para ver melhor e ficou furtivamente examinando o local. Havia três homens reunidos. Dois deles parecia que conversavam algo e um deles remexia a terra com um arado em frente à fogueira. Tudo absolutamente normal para um vilarejo rural de interior, se não fosse por um macabro detalhe. No centro daquela fogueira bem ao centro do vilarejo, havia um policial… empalado. Enquanto observava a cena, a espiã teve a impressão de ter ouvido passos atrás de si. Então, olhou por cima do ombro e viu dois aldeões. Eles a tinham visto e estavam ali para atacá-la. Eram um homem com um arado e uma mulher com uma foice. Ada saltou entre os dois, deu uma cambalhota e atirou um gancho com uma espécie de pistola. O gancho tinha uma corda presa à ponta e voltaria à pistola. Então, a espiã apertou o gatilho para recolhê-lo. A corda, ao ser recolhida, derrubou o homem. Com o impacto do gancho nas pernas deste, ele deu um salto e o arado que carregava atingiu a mulher ao seu lado, matando-a. O aldeão caiu com a cabeça na parede e quebrou o pescoço. Após esse incidente, o telefone da espiã tocou e ela o atendeu. Era Albert Wesker.
- Então você chegou a tempo, Ada.
- Sim. Mas tive um comitê de recepção.
- Eles sofreram lavagem cerebral. Atacam qualquer um que venha de fora da aldeia. O sino da igreja os tranquilizará um pouco.
- Parece que são boas pessoas.
- Mas não há tempo a perder. Descubra o que conseguir a respeito do parasita Las Plagas e termine o passeio.
Dito isto, Wesker desligou o telefone. Ada o guardou em uma espécie de bolsa que trazia. Além disso, a espiã trazia uma pistola com um gancho, que geralmente usava para escalar paredes, uma pistola nove milímetros, um óculos e uma metralhadora automática, mais uma quantidade respeitável de munição para as armas. Neste momento, escutou tiros. Quem seria? A espiã saiu de trás da casa e viu Leon cercado por aldeões. Ela ficou um tempo olhando. O agente entrou em uma das casas. Enquanto isso, os camponeses armaram uma armadilha para ele. Levaram escadas de escalar e cercaram a casa. E de repente apareceu um homem, que usava uma espécie de saco na cabeça com uma motosserra. Ada pensou em correr para a casa onde Leon estava para ajudá-lo. Mas não iria adiantar muito. Seria melhor tocar o sino da igreja. Assim, se o fizesse rápido, atrairia a atenção de todos os aldeões. Além do mais, Leon já passou por situações até piores, e saberia se virar nesse caso sozinho. A espiã correu até a igreja, que pelo que pôde observar, servia como passagem secreta para o verdadeiro local onde eram realizados os cultos. O local onde ela tocaria o sino. Mas a porta estava trancada. Teria de entrar nas casas e encontrar a chave.
Então o agente do governo estava no local. Era e ao mesmo tempo não era uma surpresa. Então, a informação de que Leon viera resgatar a filha do presidente era verdadeira. Krauser fora o responsável pelo sequestro. Ada esperou neste momento que a esta informação fosse um privilégio seu. Não queria que Wesker ficasse sabendo disso, tampouco seu parceiro de missão. Qual seria a reação deles? Não tinha como saber.
Alguns aldeões se separaram do grupo que estava no cerco à casa onde Leon estava e vieram atrás de Ada. A espiã usou a arma e matou-os com um tiro na cabeça de cada um. Então, o agente saiu de uma das casas, após matar o homem da serra elétrica e correu para cima do telhado. Ada entrou na habitação ao lado de onde isso acontecia. Mais um dos aldeões a seguiu, sendo morto assim que ela entrou na casa. Dentro da moradia do aldeão, sentiu um cheiro muito desagradável. Sobre uma mesa ao centro, havia pratos com restos de comida, mas ela cheirava mal. Possivelmente estava estragada. Um líquido molhava a toalha sobre a mesa. A espiã andou um pouco mais, dando uma geral e entrou em um dos quartos. O odor ali não melhorou. Observou uma cama em um dos quartos. O lençol estava sujo. Ele era branco, assim como o travesseiro. No entanto, havia muitas manchas de uma cor que puxava para um marrom escuro, quase um tom de ferrugem. Não saberia dizer o que seria. Sujeira simplesmente? Sangue? Estava seco e o fedor que contaminava todo o ambiente não ajudava a distinguir a substância ali presente.
Sobre uma mesa, estava a chave que abria a porta da igreja/passagem secreta. Agora teria de correr. Saiu da casa e ninguém veio atrás dela. Os aldeões estavam ocupados perseguindo Leon. A espiã então se dirigiu até a porta, colocou a chave na fechadura e ouviu o clique avisando que a porta estava destrancada.
Assim que abriu a porta, Ada se viu dentro de um local que não era realmente uma igreja. Não havia bancos para sentar e orar, nem um altar, nem um púlpito para o sacerdote, nem nada disso. Apenas uma mesa ao centro e uma porta na outra extremidade. Não tinha luz ali dentro e a única claridade vinha de fora, através de uma janela pequena, localizada no alto da parede da frente, ao lado da porta de entrada. A que usaria para sair era de madeira, sem pintura. Ela a abriu e ao fazer isso, a porta rangeu.
Ao passar pela porta, Ada entrou em um corredor. As paredes de alvenaria estavam com a pintura caindo e em vários locais, dava para ver os tijolos. A iluminação vinha de um lampião pendurado no teto. Mas o corredor não tinha saída. A única maneira de sair dali era pela porta por onde a espiã havia entrado. Então, ela olhou melhor e viu uma tampa de madeira no chão. Sim, era um alçapão. Levaria a um andar inferior, no subsolo. Ada caminhou até ela e a abriu. Havia um buraco e uma escada, que levava ao nível inferior. Ada desceu para seguir o caminho. Seria ele que a levaria até a igreja aonde deveria chegar.
Assim que desceu a escada, Ada Wong se viu em um túnel. O chão era em pedra, mas havia muita umidade ali. Teria de tomar cuidado para não escorregar. O caminho seguia em uma escada. Dos lados do túnel, nas paredes, corria água. Havia alguns espaços onde estavam colocadas velas para iluminar o caminho. Devia ser bastante utilizado. A escada seguia em curva e os degraus ficavam mais estreitos, conforme se descia. Ao fim da escada, chegou a um local plano, com uma poça d’água no centro. Agora, tinha um lampião pendurado no teto, iluminando o recinto. Ada ouviu passos e olhou para trás. Uma mulher e um homem a seguiam, ambos armados com uma foice e um machado, respectivamente. A espiã conseguiu se esquivar do ataque que quase a pegou de surpresa. Então, sem demora, liquidou com os dois aldeões. Teria de seguir rápido. Do outro lado, o túnel continuava.
Ada seguiu caminhando, agora, prestando muita atenção a qualquer barulho que pudesse indicar a presença de algum aldeão. Na sequência do túnel, a única claridade que tinha era de um buraco no teto, por onde entrava o sol que indicava que ainda era dia. Na porta ao final do túnel, havia duas velas, uma de cada lado, iluminando-a. A espiã se aproximou dela, não chegou a abri-la, pois aldeões abriram-na violentamente. Uma mulher com uma tocha na mão vinha na frente do grupo. Ela usava um vestido azul claro comprido até os pés. Ada apanhou a metralhadora da bolsa e matou os três rapidamente. Não podia perder tempo ali. Depois disso, abriu a porta e seguiu o túnel até uma escada de escalar. Pela claridade que vinha de cima, supôs que ali era a saída. Então, escalou rapidamente a escada.
Saiu em um poço e estava sendo aguardada por uma aldeã, armada com uma foice. Ada atirou na cabeça dela, matando-a. Assim que passou por ela, seguiu um caminho que dava em um cemitério. Tinha uma estrada de terra, ladeada por grama. Dois aldeões vieram correndo, sendo mortos com um tiro na cabeça. Mas Ada teve de ser rápida. A estrada de terra contornava o local, com abrigos logo ao lado da estrada. À frente, havia túmulos. A grama estava bem aparada. O caminho seguia por um terreno íngreme e no alto de uma colina, estava a igreja. Mas antes que Ada pudesse dar o primeiro passo, mais uma aldeã armada com uma foice se aproximou. A espiã se virou rapidamente e atirou na cabeça dela. Estava tendo de matar muitos aldeões. Isso era ruim. Mas não tinha escolha.
Um detalhe chamou a atenção da espiã. Sobre cada túmulo havia símbolos. Sim, a igreja não era católica, mas pertencia a uma seita, chamada “Los Illuminados”, cujo líder se chamava Osmund Saddler, a quem todos se referiam como Lorde. O fanatismo destes aldeões à seita, ao que tudo indica, está ligado a uma infecção causada pelo parasita, chamada Las Plagas. Era esse parasita que Ada estava encarregada de levar uma amostra para Wesker. Outro detalhe. Em alguns pontos, havia duas lápides juntas, mostrando que ali estavam enterrados dois irmãos gêmeos. As insígnias sobre o túmulo eram idênticas. A espiã seguiu até um portão no topo da colina, onde mais um aldeão a estava esperando. Ada foi mais rápida que ele e estourou a cabeça do homem. Ao lado da igreja, havia uma árvore, sem folhas nos galhos e alguns corvos crocitando, que saíram voando, assim que a espiã se aproximou. Ela se dirigiu à porta de entrada, mas ela estava fechada. Do lado, porém, tinha um caminho que levava a diante. Teria de seguir por ali. Era mais baixo do que o local onde estava.
Ada chegou até uma ponte de madeira, suspensa por pilares que vinham do chão, muitos metros a baixo e por grossas cordas que estavam presos no alto de um morro de pedra, sobre o qual estava a igreja. Uma aldeã estava parada sobre a ponte. Ada correu até ela, se esquivou do ataque e a jogou para baixo. Quando a mulher despencou da ponte, a espiã parou e olhou. Um rio passava por ali com uma forte correnteza. Com certeza, qualquer um que caísse ali, não sobreviveria. Mais dois aldeões saltaram sobre a ponte, em frente a Ada, que teve de atirar neles. Acabaram caindo da ponte também. A espiã seguiu o caminho pela ponte de madeira. Foi tomando cuidado. Prestando atenção a todo e qualquer movimento que pudesse denunciar a presença de alguém. Não apenas na ponte, mas também sobre os abrigos que ficavam ao lado, construídos sobre um barranco. Se fosse apanhada desprevenida, poderia facilmente ser derrubada da ponte, caindo para a morte certa. Não podia descuidar. Mas no momento, o único som que ouvia eram os próprios passos.
Seguindo a ponte, Ada começou a ver que no final, havia uma estrutura toda em pedra. Mas antes de chegar lá, anda sem ver o que a aguardava, ouviu o som de uma motosserra. Ainda sem sequer ver o inimigo, a espiã apanhou de dentro de sua mochila a metralhadora automática. Assim que ela saltou para o último trecho da ponte de madeira, antes de chegar à estrutura, uma mulher com a cabeça toda enfaixada e uma motosserra veio correndo, acompanhada de duas outras armadas de foices. Ada mandou uma rajada de tiros, matando as duas mulheres que estavam atrás da que tinha a cabeça enfaixada. Esta levantou-se. Como pode? Ada não podia acreditar. Recarregou a metralhadora o mais rápido que conseguiu e mandou mais uma rajada de tiros. Mais uma vez a mulher levantou. Então, Ada viu que a mulher tinha uma chave pendurada no pescoço. Ou seja, teria de cuidar para que ela não caísse na água, pois certamente iria precisar daquela chave para alguma coisa. Recarregou a arma e mandou outra rajada de tiros. Desta vez, a mulher da motosserra morreu. Ada se aproximou dela e apanhou a chave. Agora teria de retornar à igreja.
O caminho de volta foi tranquilo. Apesar disso, Ada tomou extremos cuidados. Nunca deixava de olhar por cima do ombro. Procurava respirar fazendo o menor barulho possível, para poder ouvir qualquer som diferente. Seus olhos esquadrinhavam todo o seu campo de visão e sempre que passava por um abrigo, espiava dentro antes de seguir. Nunca deixava de olhar para cima, nem para o morro ao lado da ponte. Mas não havia ninguém e mais uma vez, o único som que ouviu eram seus passos além da própria respiração. Sentia seu coração batendo acelerado e, embora não quisesse admitir, estava tensa. Escorria uma gota de suor do seu cabelo. Então, chegou ao fim da ponte e pisou no gramado novamente. A igreja estava do lado direito dela. A espiã foi até a porta, mas não deu certo. A chave que ela apanhou do pescoço da mulher da motosserra não se encaixava na porta. Mas ainda não iria voltar. Tentaria procurar por ali mesmo.
Então, Ada foi dar a volta por trás da igreja, para ver se encontrava a chave que coubesse na porta da entrada da igreja. Ela correu por um corredor que levava para a parte de trás do templo. Embora fosse sempre olhando para ver se não estava sendo aguardada pelos aldeões, para evitar cair em alguma emboscada, não encontrou ninguém. Olhou bem ao redor e quando passou por um arco, que na verdade era um portão de grades aberto, parou em frente a uma estrutura de pedra, com uma chave grande no centro. Estava dentro de uma grade, com os símbolos do cemitério ao seu redor. Um ponteiro apontava para as gravuras. Sobre ele dizia que teria de apontar para as insígnias dos gêmeos. Ada se recordava delas. Teria de conseguir rapidamente. Girou uma, duas, três, quatro, cinco vezes o ponteiro, até a grade abrir. Então, a espiã apanhou a chave grande, que na verdade era um objeto de encaixar em um buraco e partiu come ele até a porta de entrada da igreja.
Neste momento, o portão de grade se fechou e dois aldeões entraram por ali. Ela não perdeu tempo ao se livrar deles. Para poder abrir o portão, Ada teria de colocar algo que fizesse peso na estrutura de pedra, de onde retirara a chave. Então, apanhou uma pedra que viu no chão e a colocou. Assim, o portão se abriu novamente. Agora, a espiã poderia ir até a entrada da igreja. Ela caminhou e quando chegou perto do local que descia para a ponte, um grupo de aldeões a estava esperando. Ada nem pensou duas vezes. Apanhou a metralhadora automática e disparou, matando todos eles antes que pensassem em atacá-la. Então, Ada subiu os degraus que davam acesso à porta de entrada. Retirou da bolsa a chave, que na verdade era um objeto arredondado que encaixava perfeitamente no orifício da porta. Ela se abriu. Agora, poderia entrar na igreja.
A parte de dentro era uma igreja normal, a princípio. No centro, um corredor que levava ao altar, com um tapete vermelho. Dos lados, duas fileiras de bancos, uma de cada lado do corredor. Nas laterais, duas entradas, sendo que a da esquerda continha uma escada de escalar, que dava acesso ao piso superior do templo. Os bancos eram todos em madeira. Sobre a porta de entrada, um grande vitral colorido, colocado de tal maneira que na hora do pôr do sol, todo o ambiente ficasse iluminado nas cores do vidro. O que mudava de uma igreja católica tradicional era o que havia no altar. Reinante absoluta, na parede oposta à entrada, uma gigantesca insígnia da seita “Los Illuminados”. À frente dela, atrás do altar, onde Osmund Saddler realiza suas pregações, entre duas tochas altas, estavam dois aldeões. Aparentemente concentrados em alguma oração. Ada tentou escutar, mas parecia que repetiam alguma espécie de mantra. Quando ela tentou se aproximar, no entanto, os dois saíram do transe em que se encontravam e se viraram para ela. Mas nem tiveram tempo de apanhar qualquer coisa que pudessem usar como arma, pois ela disparou com a pistola na cabeça de ambos, matando-os. Ada sabia de um detalhe. Enquanto fosse dia, não havia perigo de as plagas nascerem. Ela já havia visto a cabeça de alguns aldeões explodirem e saírem do pescoço deles coisas parecidas com tentáculos. Vira isso em observações, usando o satélite da Umbrela. Mas isso só ocorria à noite. O parasita Las Plagas é sensível à luz solar. Uma das maneiras de matá-lo, inclusive, é expô-lo à luz.
Depois de se livrar dos aldeões no piso do térreo, se dirigiu ao corredor que ia até a escada. As paredes da igreja eram em pedra. Os blocos eram recortados em quadrados, mas não tinha pintura. Eram todas em cor natural. Sem dúvida antes de pertencer à seita, esta fora uma catedral católica, a final de contas, a Espanha segue essa religião. Ada escalou a escada até o piso superior. Assim que chegou ao lado de cima, quase foi surpreendida por um aldeão. Ela o derrubou. O homem caiu lá de cima. Era uma altura considerável. O baque que seu corpo produziu ao cair no chão de pedra já denunciava que ele havia morrido. Ela olhou só para se certificar e o viu em meio a uma poça de sangue.
O piso contornava a catedral. Ada passou pelo lustre que iluminava a nave central da igreja e chegou até a parede à direita de quem entra no templo. Havia uma porta de grade, mas estava aberta. Ela seguiu, vendo que mais à frente, havia aldeões a esperando. Não pareciam dispostos a sair em sua perseguição. Estavam aguardando que ela fosse até onde eles estavam. E Ada teria de ir, pois era exatamente onde se encontrava o mecanismo para acionar o sino da igreja. Mas algo lhe chamou a atenção no caminho. Havia uma porta de metal trancada. Ela parou e colocou o ouvido perto. Sim, havia alguém ali dentro. Eles tinham um prisioneiro. Provavelmente seria Ashley Graham. Mas a filha do presidente dos Estados Unidos não era problema seu. Leon fora enviado para resgatar ela. Sua missão era tocar o sino, exatamente para que o agente se livrasse daquela verdadeira horda de aldeões que o cercavam.
Enquanto caminhava até o local onde os aldeões a esperavam, Ada pensou em Leon. Como ele estava se virando com aquele cerco? Não queria nem pensar na hipótese de eles o terem matado, mas era possível. Preferia pensar que o agente era muito bem treinado e experiente. E que já enfrentara situações semelhantes, se não piores que a em que se encontrava no vilarejo. Mas sempre algo poderia dar errado. A final de contas, eram muitos. Se algum deles acertasse Leon, tudo poderia acabar. Era melhor não pensar nisso. Ela chegou. Quando os dois se precipitaram, ela derrubou o primeiro, que caiu de cabeça no chão de pedra metros a baixo. O segundo não veio correndo. Era mais cauteloso. Ada mirou exatamente na cabeça dele e atirou, acertando os óculos que ele usava, manchando-o de sangue. Em seguida, o aldeão caiu morto.
Exatamente sobre a porta de entrada, defronte à insígnia gigante dos Illuminados, estava o mecanismo que acionava o sino da igreja. Era composto por vários botões, e precisavam ser apertados em uma sequência. Ada teve de pensar e depois de analisar bem, conseguiu apertar os botões certos. Assim que acionou o mecanismo, duas grades desceram, bloqueando o caminho até a porta por onde Ada havia passado. A prisioneira ficaria isolada até que alguém acionasse o mecanismo novamente. De repente, ouviu um barulho vindo da torre. Eram engrenagens entrando em funcionamento. Então, em questão de segundos, o sino tocou.
Longe dali, os aldeões no vilarejo pararam o que estavam fazendo, inclusive a perseguição ao agente enviado para resgatar Ashley Graham e se viraram para o local de onde vinha o som. Eles largaram as foices, os arados e machados e começaram a caminhar na direção da igreja/passagem secreta. Leon os ouviu falando:
- A igreja. - É hora de rezar. Temos que ir.
Enquanto eles caminhavam, falaram em uníssono:
- Lorde Saddler!
A missão de Ada Wong fora cumprida com êxito. Ela se escondeu na igreja, fazendo sua especialidade: ficar invisível. Não demorou até que um grupo enorme de aldeões aparecesse. Agora Leon poderia seguir sua missão, pensou a espiã, desde que não tivesse sido ferido ou morto. Mas algo lhe dizia que o agente estava bem. E tinha quase certeza que o veria.
O telefone de Ada tocou. Ada o atendeu. Era Wesker novamente. Ele a cumprimentou e começou a relatar:
- Isso é tudo o que sei: Saddler é o líder de uma seita chamada “Los Illuminados”. Eles ressuscitaram algum tipo de parasita, chamado “Las Plagas”. Isso é tudo o que a organização sabe. No entanto, as atividades de Saddler devem ser investigadas.
Wesker fez uma pausa para tomar ar e continuou.
- A família Salazar, dona do castelo, possui o poder de controlar “Las Plagas”. A teoria de nossa organização é que os parasitas são sensíveis a uma frequência de som que os controla. Este mesmo princípio é usado com os cães. Isso é o que indica a análise dos tecidos. O tecido que contém um organismo que capta certas frequências. Os membros da seita carregam cetros cerimoniais. Me pergunto se os mesmos servem para emitir estes sons. Mas isto é pura especulação. A organização precisa de mais amostras para confirmar as teorias. E esse é o principal objetivo de nossa missão. E a maneira de provar de vez sua lealdade para com a Umbrela. As cartas estão sobre a mesa. Não há mais volta. Certo?
- Certo.
Dito isso, Wesker desligou o telefone por satélite. Logo ela teria mais uma missão a cumprir. O que esperavam de Ada? Que ela se apoderasse da amostra. A espiã, no entanto, viu que teria companhia. Além de Krauser, estava ali também Leon Scott Kennedy. Mas este, com outros objetivos. Ele vinha resolver o caso do sequestro da filha do presidente do país, sem ter a real noção de tudo o que isso envolvia. Para o agente, levar Ashley de volta seria sua grande missão, mesmo a princípio, sem saber que ela está infectada e que depois de voltar, terá de encontrar um meio de curá-la. Se não conseguirem, terão de sacrificar Ashley. Mas Ada não estava preocupada com isso. Leon que se preocupasse. Apesar de saber que mais para frente, seus objetivos e os de Leon poderiam entrar em conflito. O que faria? Ainda não sabia bem, mas não poderia deixar que nada a atrapalhasse. Nem o agente. E se fosse preciso lutar com ele? Ada preferiu não pensar nisso neste momento. Fechou os olhos por alguns segundos e disse para si mesmo. Se tiver que fazer, farei. Não vou deixar sentimentalismos me atrasarem.


Capítulo 9

Maria abriu os olhos e ficou observando o ambiente onde estava. O que estava acontecendo? Parecia tudo surreal. Estava em casa? Não. Que lugar era aquele? Um hospital? Poderia ser. Então, a mulher tentou se mexer. Foi nesse momento que ela notou que estava com os braços presos. Mas por quê? Teria feito algo que justificasse essa atitude? Não conseguia se lembrar de ter feito algo, mas não sabia como fora parar naquele lugar também. Estava assustada. Seu coração batia descompassado. A primeira coisa que fez, foi procurar detalhar todos os objetos ao seu redor e tentar descobrir onde estava.
Chegou a uma conclusão preliminar. Encontrava-se deitada sobre uma espécie de cama de hospital, com dois suportes nos braços que os prendiam. Tinha um objeto sobre ela, parecendo uma daquelas máquinas de dentista, apontando para a sua cabeça, pelo menos era o que parecia. Dos lados, havia monitores de computador, tubos de vidro, um piso superior que contornava as paredes, tonéis com substância inflamável dentro. Parecia ser um laboratório. Mas o que era feito ali? Não era possível reconhecer o local. Nunca estivera em nenhum lugar parecido. Era tudo totalmente estranho para ela. Pudera. Maria nunca saiu do vilarejo de El Pueblo. Era uma simples agricultora. Não tinha maiores conhecimentos do mundo, nem de tecnologia. Mas sabia o suficiente para ter noção de que estava em um local a que somente pessoas inteligentes tinham acesso. Cientistas? Médicos? Quem sabe? Mas era um desses locais.
O segundo passo foi procurar refazer os últimos passos que fizera. Tentar recordar o que pode ter acontecido para que ela acordasse naquele local totalmente estranho. Mas estava difícil. Foi como se tivessem apagado os últimos acontecimentos de sua mente. Porém algo ela ainda conseguia recordar. Estivera trabalhando, como sempre, recolhendo ovos das galinhas, retirando leite das vacas, arando feno, arrumando lenha para a lareira, para o fogão, limpando o terreno, a casa, dentre outras tarefas corriqueiras. Também lembra-se de ter ido à Catedral. Mas nos últimos encontros lá, passou a haver a presença constante de outro homem. A quem os aldeões chamavam de Lorde Saddler. Sim, era ele. O seu líder. Mas tudo isso ocorrera quando? Na verdade, Maria nem sabia que dia era.
Então, conforme foi se acalmando, foi conseguindo, aos poucos lembrar-se de algo que fizesse-a se localizar e a fazer alguma ideia do que acontecera nos últimos tempos. Então, se deu conta de que sentia muitas dores. Estivera doente? Poderia ser. Aliás, agora, começava a parecer algo provável. Não era apenas dor. Sentia como se seus membros estivessem alternando entre amortecimento e dor intensa. Parecia que estava sentindo um formigamento no corpo inteiro. O sangue parecia estar quente. A sensação era horrível. Aos poucos, no entanto, foi começando a melhorar o que estava sentindo. A visão já estava clara. De repente, um homem se aproximou. Vestia um guarda-pó branco. Tinha o cabelo preto, um pouco comprido, olhos castanhos e um bigode ralo e uma barba bem aparada. Caminhava em sua direção e estava com um sorriso no canto da boca. Ao chegar perto, parou ao lado da cama de hospital onde Maria estava deitada e ficou ali, olhando para ela. O que ele queria? Quem era ele? Então, o estranho quebrou o silêncio.
- Muito bem, você sobreviveu. Agora, pode me dizer qual é o seu nome?
Ela ficou um tempo em silêncio. Não tinha confiança naquele estranho. Por que diria algo a ele? O que este homem poderia estar querendo? Era um médico? Ainda era cedo para tirar alguma conclusão. Ele, rindo, continuou.
- É natural você estar assustada. Acredito que não deve se lembrar dos últimos dias. Mas pode ficar calma. Estou aqui para lhe ajudar. Eu sou um cientista e quero ver se consegui curar você.
Maria olhou assustada para ele.
- Eu estou doente? Pelo jeito, não mais, pensou Luis Sera.
- É exatamente o que eu estou tentando saber. Você estava, mas quero saber se consegui lhe curar. Havia um parasita em seu corpo. Ele controlava seu comportamento. Este parasita se chamava Las Plagas e foi injetado em seu corpo quando esteve na Catedral. As pessoas do culto Los Illuminados estão sendo manipuladas por um homem chamado Osmund Saddler. Ele é um cara mau. Tem que tomar cuidado. Agora, me diga. Qual é o seu nome?
- Maria. Por que Lorde Saddler é mau?
- Ele está controlando as pessoas. Estão injetando estes parasitas nas pessoas.
Sera apanhou um frasco com uma amostra do parasita.
- Eles injetam isso nos outros com uma seringa, ainda em forma de ovo. Quando ele choca, começa a se desenvolver dentro do organismo hospedeiro, no caso, vocês. Aparecem alguns sintomas. Dores de cabeça, no corpo, começam a tossir sangue. Consegue se lembrar disso?
Maria fez uma força e se lembrou. Sim. De repente, ela se lembrou. Das dores pelo corpo, dores de cabeça e de quando começou a tossir sangue. Depois, passou a ter ataques de raiva. Sentia que tinha de atacar pessoas de outros locais, gente de fora. Então, ela acordou neste local.
- Sim senhor. Consigo me lembrar de algo assim.
- Se lembra de ter sentido mais algo estranho? Não começou a sentir impulsos violentos? Vontade de bater em pessoas estranhas? Em forasteiros?
Ela ficou em silêncio. Como aquele estranho poderia saber de tudo isso?
- Seu silêncio é uma resposta.
- Sim. Tudo o que você fala é verdade. Mas agora sou eu que tenho perguntas. Quem é você e como sabe de tudo isso?
- Meu nome é Luis Sera. Sou um pesquisador. Há algum tempo fui contratado por Saddler para encontrar a cura para o parasita. Só que tem um detalhe. Conforme fui avançando em minha pesquisa e vendo o comportamento dos aldeões, cheguei a outra conclusão. Saddler não queria encontrar a cura, mas se certificar de que Las Plagas não poderia ser removido do corpo das pessoas depois de infectadas. Ele me infectou também. O que nem Saddler, nem Mendez, nem Salazar sabem é que eu encontrei a cura. Eu não tenho certeza do que estou falando, mas desconfio. Agora, vou pedir-lhe uma coisa.
Maria pensou um pouco e disse:
- Fale.
- Quero que se comporte exatamente como os outros aldeões. Não faça nada que levante suspeitas. Se o que desconfio for verdade, caso eles estranhem seu modo de agir, você poderá estar correndo sério perigo. Eu mesmo ainda não estou revelando minhas descobertas. Logo irei falar a Saddler que encontrei a cura. Neste momento, irei descobrir o que ele realmente quer com minha pesquisa. Se ele tiver as intenções que acho que tem, teremos de fugir daqui. Se eu estiver enganado, melhor.
Maria ficou um tempo pensando antes de responder.
- Certo.
- Agora, preciso que me ajude.
- Como?
- Levante-se e venha comigo.
Maria se levantou da cama hospitalar. Sentia-se frágil ainda, mas conseguia caminhar. Sera a levou até a frente de um monitor e de um teclado com botões. Ele apontou para alguns.
- Veja, Maria. Este botão. Eu consegui operar a máquina que eliminou o parasita do seu corpo através da exposição à radiação que sai daquela máquina sobre a cama. Mas preciso que alguém opere este mecanismo daqui para me curar. Vou estar deitado lá, onde você estava. Preciso que aperte este botão aqui quando eu der a ordem. Pode ser?
Maria ficou com um pouco de medo.
- E se eu fizer algo errado? Pode se machucar.
- Não tem problema. Se nada acontecer, vou acabar desenvolvendo o parasita em meu organismo e não poderei mais ser curado. Pode fazer isso para mim?
- Sim.
- Então, vou deitar naquela cama. Quando eu der o sinal, aperte o botão.
Luis Sera se deitou na cama e prendeu um dos pulsos. Chamou Maria até perto da cama e pediu que ela prendesse a sua mão que ainda estava solta, depois de ele ter prendido uma delas. Ela então, fechou uma espécie de algema que ficava presa à cama.
- Perfeito, Maria. Agora vá até o teclado e quando eu pedir, aperte o botão.
Ela caminhou até o local indicado e ficou esperando.
- Agora, aperte o botão que lhe mostrei.
Ela obedeceu. Imediatamente, aquela coisa sobre a cama se voltou para o peito de Luis Sera. Não dava para ver nada a olho nu, mas pelo monitor, se podia perceber que um raio atingiu em cheio o peito do homem. Ele se contorceu de dor. Maria ficou assustada com o que estava vendo, principalmente por pensar que isso acontecera com ela há alguns minutos. Então, depois de um tempo que pareceu não ter fim, Sera ficou quieto. Estático. Maria ficou apenas observando o homem deitado na cama hospitalar. Teria morrido? Então, ela se encaminhou para perto da cama vagarosamente. Tinha medo do que poderia ter acontecido. Chegou perto e ficou olhando, com o coração acelerado. Tudo era silêncio. A única coisa que ouvia era o seu coração batendo. Não sabia bem se estava ouvindo ou se estava sentindo-o se chocar contra o seu peito. Então, finalmente, Luis Sera abriu os olhos.
- Que alívio. Estou curado.
Sera se levantou da cama, ainda meio tonto. Pediu para se escorar em Maria e deu alguns passos. Estava fraco, mas conseguia caminhar. Então, olhando para os lados, disse:
- Vamos voltar ao vilarejo. Saddler não sabe que lhe trouxe. Se ficarmos muito tempo por aqui, poderá desconfiar de algo. Como disse, posso estar enganado, mas acho que não podemos confiar nele.
Maria ficou em silêncio. Apenas caminharam até a embarcação. Ela via soldados treinando por todos os lados. Há alguns dias, um soldado americano havia chegado ali. Fora ele quem trouxera a filha do presidente dos Estados Unidos. Como os seguidores de Saddler não o atacavam, era um mistério. Aliás, eles o seguiam. E pelo que podia ver, os soldados estavam ficando cegamente fiéis a este estrangeiro. Só podia ser uma coisa. Este militar conseguiu uma amostra do Las Plagas. Para que? Não podia ser para algo bom. O cientista não confiava nele. Então, chegaram à embarcação. O pesquisador deu a partida e ambos saíram. Depois de alguns minutos, Sera voltou a falar.
- Maria, preste atenção mais uma vez ao que vou dizer. Comporte-se exatamente como os outros. E nunca fale nada do que aconteceu. Se alguém souber o que fizemos, ambos corremos risco. Entendeu? Se os demais aldeões perceberem que você não está mais dominada pelo parasita, irão tentar matá-la. Se quiser viver, faça o que eu disse. Fui claro?
- Sim senhor. Pode deixar.
O barco parou e os dois desceram. Assim que voltaram ao vilarejo, Luis Sera foi para a casa de Bitores Mendez, onde seguiria trabalhando em seu projeto. Maria seguiria sua vida. Só que não foi bem assim. Logo que chegou a El Pueblo, viu que o comportamento das pessoas estava muito estranho. Em uma casa, havia corpos de pessoas mortas, já em avançado estado de decomposição. Aos poucos, foi vendo que seus vizinhos eram verdadeiras bestas. Não podia ser. E quando ela foi enviada à Catedral para trabalhar, encontrou uma garota feita prisioneira. Maira iria alimentar e fazer a limpeza da cela da refém. Mas por quê? Estava tudo ficando muito louco. Maria não conseguiria continuar morando ali e fazendo o que os outros faziam. Teria de dar um jeito de ir embora, de fugir, pois mais cedo ou mais tarde, acabariam descobrindo que ela era diferente. Então, um dia, resolveu descobrir quem era a garota e o que ela havia feito para estar presa. Assim que entrou na cela, perguntou:
- O que a senhorita faz aqui?
A garota estava assustada, mas vendo que Maria lhe dirigiu a palavra, resolveu falar, mas ainda de modo muito arredio.
- Me trouxeram aqui. Sou americana.
Americana? Ela vinha do outro continente. Maria aprendera isso na escola, mesmo tendo estudado pouco. Sabia que a América era um lugar longe. Queria que a garota visse que ela era diferente e que poderia confiar. A menina falava meio atrapalhada em espanhol, mas ambas conseguiram se entender.
- Está acontecendo alguma coisa estranha aqui no vilarejo. As pessoas estão ficando violentas. Não sei o que é. Mas agora eu estou vendo. Está ficando perigoso morar aqui.
A garota continuava desconfiada.
- Como assim?
Maria queria demonstrar que estava do lado dela. Afinal, ambas estavam em situação parecida e caso se ajudassem, poderiam conseguir sair dali. Mas a aldeã ainda não fazia a menor ideia de como tirar a estrangeira do local, porém, se ela conseguisse sair, poderia trazer auxílio de fora.
- As pessoas atacam e matam a todos que são de fora. O nosso prefeito era um homem muito bom, mas de uns tempos para cá, ele está estranho. Eu notei isso há uns dois dias. E desde então, estou tentando dar um jeito de ir embora. Mas não é fácil.
A garota viu que ela era diferente.
- Se você conseguir, teria como eu ir junto?
Maria gostaria de dar uma resposta afirmativa, mas teria de dizer que não a final de contas, não podia dar falsas esperanças a ela. Sem contar que seria mais perigoso. A estrangeira era uma adolescente e poderia acabar falando o que não devia e isso poderia colocar a aldeã e a garota em perigo.
- Eu gostaria, mas não acho que vou conseguir. Agora vou ir. Ele não pode saber que estamos conversando. Vai me castigar.
Maria saiu e continuou seguindo seus afazeres e imitando o comportamento dos demais aldeões, mesmo achando que eles tinham uma conduta totalmente horrível. Mas se esforçava ao máximo para não destoar dos outros. Não podia deixar ninguém desconfiar que ela estava diferente. Então um dia, Esteban parou em frente a ela.
- Maria. Precisamos de sua ajuda para uma tarefa.
Ela engoliu. Eles, ao que tudo indica, não estavam desconfiando de nada, mas se iriam lhe pedir para caçar algum estrangeiro, Maria não sabia se conseguiria. Teria de conseguir. Era questão de vida ou morte.
- Sim, Esteban, pode falar.
Ele olhou bem para ela, encarando-a.
- Nós descobrimos um traidor. Ele está tentando escapar. Precisamos do maior número de aldeões para cercá-lo.
- Tem certeza de que ele é um traidor?
- Sim. Já o estamos observando há alguns dias.
- O que tenho de fazer?
- Venha conosco. Vamos cercá-lo e matá-lo.
Maria estava suando. Seu coração batia descompassado. Mas teria de fazer o que esperavam que ela fizesse e sem dar bandeira.
- Sim, vamos.
Maria seguiu Estaban. Eles entraram no túnel e se dirigiram à pequena igreja que fica em El Pueblo. Saíram e do túnel, passaram para o vilarejo e Maria foi observando as casas. Quem seria? Será que Sera conseguiu curar mais alguém e este outro dera alguma bandeira? Então, de repente, um calafrio percorreu sua espinha. E se o traidor fosse o próprio Sera? Agora, essa foi a alternativa que lhe pareceu mais provável. Então, passaram pelo portão e havia mais aldeões ali os esperando.
- Olá Esteban. Olá Maria. Vamos até a casa onde ele está no momento.
Esteban olhou para os lados.
- Ele desconfia de algo?
- Achamos que não.
Falou um dos aldeões que os esperava. Enquanto caminhavam, Maria sentiu frio. Mas tinha de demonstrar que sentia o mesmo que os outros. Seu modo de agir não podia ser diferente. Mas era difícil. As árvores com as folhas caídas davam uma sensação de tristeza. Não havia uma única flor plantada nos canteiros e o chão era apenas de terra. Como El Pueblo mudou. Não dava para ver uma única criança correndo por ali. Estavam todas mortas. O que aconteceu? Em que monstros essas pessoas se transformaram? Mas não era culpa deles. Era culpa do maldito parasita que controlava o comportamento dessas pessoas, tão bondosas outrora, tão violentas hoje. Era culpa de Osmund Saddler. Será que algum dia o vilarejo voltaria a ser como era? Maria estava achando difícil. Tudo iria depender daquele cientista. Mas e se ele fosse o tal traidor? Eles o teriam atraído para um galpão para cercá-lo e matá-lo? Se isso fosse verdade, não haveria mais esperança de cura. Então, chegaram.
Era ao final de uma picada, tratando-se de um abrigo, não de uma casa. Havia mato dos lados. Era um casebre, de madeira, com o telhado de zinco. Possuía apenas uma porta, que estava aberta e duas janelas, com tábuas pregadas na horizontal, impedindo que se enxergasse o que havia do lado de dentro. Isso deixava-a incomodada. Por que faziam isso? Ela não sabia dizer, mas tinha de manter as aparências. Não queria ter o mesmo destino daquele infeliz que eles iriam encurralar naquele abrigo. Alguns corvos crocitavam nas árvores ao redor da pequena casa. Assim que se aproximaram, eles voaram. Um vento soprou e algumas poucas folhas, que resistiam nos galhos das árvores se moveram. Maria sentiu um calafrio e tremeu. Alguns aldeões desviaram o olhar para ela, que sentiu o estômago pesar. Pareceu que os intestinos se enrolaram e o coração bateu tão acelerado que Maria achou que iria saltar fora. Tinha a impressão que ele batia no pescoço. Então ela entrou na casa.
Neste momento, tudo mudou. Ela até então tinha medo de ter de tomar alguma atitude. Estava pensando no que faria quando visse os aldeões matando um homem. E o pior, se ela tivesse de dar algum golpe nele. Tinha medo que descobrissem que Maria também não estava mais infectada. Mas assim que entrou na casa, se perguntou por que ela entrou na frente? Quando se viu do lado de dentro, começou a ficar apavorada. Não tinha ninguém ali. O abrigo estava vazio.
- Ei, acho que ele escapou.
Maria tentou parecer irritada com a situação.
- Temos de encontrá-lo. Fazer uma armadilha. Precisamos cercá-lo.
Esteban estava ao lado dela dentro da casa.
- Está enganada, Maria. Nosso traidor não escapou. Ele está exatamente onde nós dissemos que estaria.
Ela já sabia a resposta, mas perguntou:
- Onde ele está?
Esteban olhou para fora, com mais aldeões entrando, um deles, com um arado na mão.
- Aqui dentro.
Sim, era ela. Eles descobriram e a atraíram para a casa. Agora nem adiantava mais sentir medo. Maria já sabia o que a aguardava. Nem teria como fugir. Estava totalmente cercada. A morte era agora a única saída. Não teria como mudar isso mesmo. Sentiu uma sensação de impotência e a certeza de que vivia seus últimos segundos. Sabia que eles sentiam que ela tinha este sentimento. Mais cedo ou mais tarde, acabaria acontecendo. Ela ainda recuou até a parede e encostou as costas ao lado da janela. Olhou para fora e viu que havia pelo menos uns vinte aldeões ali. Estava tudo acabado. Então, o que estava com o arado na mão o ergueu. Maria olhou para ele e viu as pontas chegando perto. De repente, tudo sumiu de sua visão e o mundo de Maria foi engolido pela escuridão.


Capítulo 10

Leon entrou em outra parte do vilarejo. O caminho de terra que percorria terminava em frente a uma propriedade rural. O terreno era contornado por uma cerca de madeira, com algumas galinhas caminhando por ali. Havia uma grande árvore já sem folhas devido à estação do ano. Dentro do cercado, a casa. Feita toda de madeira, grande, de dois pisos. No entanto, a pintura estava feia, dando-lhe um aspecto de velhice. O telhado era de zinco e as janelas pareciam todas serem basculantes. O agente se aproximou de um pequeno abrigo, que continha um poço ao lado e ficou um tempo em silêncio, apenas observando o terreno. Sem dúvidas, logo que colocasse o pé para fora, seria fatalmente localizado pelos aldeões e teria de lutar. Quantos eram? Que armamentos possuíam? Acreditava que seriam os mesmos que enfrentou até o momento, mas não tinha como ter certeza. Depois de ter passado por apuros, na outra parte da vila, não estava mais tão disposto a correr tantos riscos. A final de contas, se estivesse morto, não teria como resgatar Ashley.
Ao lado da casa existia um galpão, todo em madeira e sem pinturas. Tinha uma carroça e algumas vacas pastando. Leon começou a se aproximar deste local, ainda sem ver ninguém. Estariam na missa junto dos outros aldeões? Não sabia, mas não queria facilitar. Foi caminhando lentamente, com o revólver em punho, pronto para disparar e de tempos em tempos olhando para os lados e para trás. Não queria ser apanhado desprevenido. E pelo jeito, ao contrário dos zumbis de Raccoon City, estes homens eram espertos e tinham claras noções de como cercar uma pessoa. E estavam decididos a matá-lo. Ficava atento a cada barulho, a cada movimento das folhas das árvores e a cada sombra que aparecesse no chão. Sabia que tinha de estar pronto para tudo.
Avistou então, dois aldeões no galpão. Estavam arando o feno. Passou furtivamente por eles e sequer foi notado. Tentaria passar correndo por ali, pois não estava disposto a entrar em conflitos desnecessários. Mas não teria como sair desta parte da vila sem entrar na casa, pois havia uma cerca que impossibilitava fazer isso. Não demorou em entrar na casa.
A parte interna era tão feia quanto a externa. Não se tratava de uma moradia, mas sim de uma espécie de galpão. Havia alguma mobília, mas apenas composta por estantes e balcões. Também tinham alguns barris por ali. O piso era todo de madeira e o segundo piso não era completo, mas ia somente até a metade da extensão da casa. Uma escada de madeira portátil dava acesso a ele. Não enxergou ninguém, mas pelos barulhos que ouviu, sabia que não estava sozinho. Havia algum aldeão no local e deveria encontrá-lo antes de ser encontrado.
Leon escalou a escada e o encontrou. Estava arando feno lá em cima. Parecia estar colocando tudo em um monte. Nem teve tempo de ver que havia alguém atrás de si e foi alvejado por um disparo na cabeça, caindo já sem vida no chão. Com certeza o barulho do disparo atrairia mais deles, mas tentaria sair dali o mais rápido que pudesse. De repente, quando se virou ao ouvir alguém chegando pela frente, viu um machado pequeno voando em sua direção. Conseguiu se atirar no chão e desviar da arma improvisada, que cravou na parede. Quando se levantou, um dos camponeses estava escalando a escada. É, parecia que eles não eram muito espertos. Ao subirem a escada, teriam de usar as mãos para escalarem e se tornavam alvos fáceis. Leon apenas chegou perto e quando os dois já tinham alcançado uma altura considerável, visto que a casa era bem alta, derrubou a escada. Os dois caíram de costas, sendo que o que estava mais alto, bateu a cabeça na parede e morreu. O segundo, parece ter quebrado a perna, ou algo mais, pois passou a ter grande dificuldade em se mexer. Leon saltou até a parte de baixo novamente e abreviou o sofrimento do aldeão. Depois, recolocou a escada no lugar e subiu novamente ao segundo piso.
Havia uma janela que dava para uma espécie de recuo. O primeiro piso era maior que o segundo, de forma que dava para caminhar sobre o teto. Leon contornou a casa para ver se havia algo de suspeito ou se mais algum aldeão estava por ali. Não viu nada. Agora tudo estava em silêncio, a não ser pelos barulhos feitos pelos animais presentes na propriedade. Saltou então no chão. Estava agora do outro lado da cerca. Era o único meio de chegar à saída. Correu até um portão, que ficava no meio de um cercado. Também eram de madeira, tanto o portão, como o cercado. Abriu ele com cuidado, pois não sabia o que o aguardava do outro lado. Nem sabia que teria uma surpresa nada agradável bem logo.
Assim que atravessou o portão, deu de cara com uma escada, que ficava no meio do mato. O cenário era praticamente o mesmo. O chão de terra, com folhas caídas e as árvores de onde as folhas caíram, todas com os galhos nus. A escada, no entanto, era de madeira. Não tinha ninguém por ali, mas Leon sabia que todo o cuidado era pouco. Os aldeões sabiam de sua presença e o estavam esperando. Isso era certo. Se não estavam visíveis, não significava que não estivessem ali. O fato de não poderem ser vistos era muito pior, pois como conheciam bem o terreno, podiam armar emboscadas. Por isso, estava sempre alerta, com a arma pronta para entrar em ação. Apesar de que ela seria de pouca utilidade para seu próximo desafio. Começou a descer os degraus cuidadosamente, mas não conseguiu evitar que eles rangessem sob o seu peso. Sim, estavam ressecados pelo tempo, meio podres pelo contato com a água das chuvas e do orvalho e não tinha como passar por ali sem fazer nenhum barulho. Sabia que seria ouvido. Isso era uma armadilha perfeita. Olhava para os lados e via apenas árvores e mato. Mas é claro que ali poderiam estar os camponeses prontos para lhe atacarem. E loucos para o pegarem desprevenido. Teria de ser muito esperto e dar alguma sorte para sair vivo dali.
Foi quando ouviu um barulho. Não soube de imediato de onde vinha. Parecia vir do alto. Olhou para cima e viu uma pedra gigantesca desabando. Era arredondada, de forma que iria rolar pela escada. Teria de correr e muito para não ser esmagado. Saiu correndo o mais rápido que conseguia, na esperança de ver algum desvio, alguma saída por onde pudesse se desviar do caminho da pedra, mas não via nada. E por mais que corresse, a pedra era mais rápida. Iria esmagá-lo. Tinha de sair do caminho. Não tinha escolha, teria de pular para o meio do mato e arriscar que não houvesse alguma armadilha, e torcer para não sofrer alguma lesão que viesse a prejudicar sua mobilidade. Saltou, e em seguida, a pedra passou. Se tivesse ficado mais alguns segundos, teria sido esmagado. Leon observou a pedra passar pensando que fora por pouco. Habilidade, reflexo e sorte ajudaram. Mas não poderia continuar contando com a sorte, pois ela acaba uma hora. E era a segunda vez que era salvo por ela. Na verdade, não sabia que não fora bem a sorte que o ajudara no vilarejo, quando estava totalmente cercado. E nem ficaria sabendo quem tocou o sino. Teria de seguir e tentaria tomar mais cuidado.
Passou a caminhar, sempre tomando o cuidado de não baixar a guarda, pois a presença daqueles camponeses era constante. Pareciam que sempre o estavam observando. Que sabiam exatamente onde estava e o estavam esperando onde quer que fosse. Chegou a um túnel de pedra. Era muito escuro, não sendo possível enxergar praticamente nada. Assim que começou a atravessá-lo, morcegos passaram a rodeá-lo. Não queria fazer barulho, então tentou se livrar deles sem usar a arma. Logo chegou ao outro lado.
Assim que saiu, viu duas casas de madeira. Uma bem ao lado do túnel e outra mais ao fundo. Ambas estavam com a pintura descascada, dando-lhe um aspecto de velhice. Quando deu um passo para fora do túnel, viu que na verdade, a mais próxima não era uma casa e sim, apenas um telhado sobre alguns palanques. Foi quando viu dois aldeões. Empunhavam uma… banana de dinamite cada um deles, e estavam acendendo o pavio. Rapidamente, Leon atirou na cabeça de ambos e os matou antes que pudessem fazer o que pretendiam. Dinamite? Poderiam fazê-lo em pedaços antes de conseguir pensar. Ainda bem que os neutralizou antes de conseguirem o que queriam. A coisa estava ficando cada vez mais perigosa. Passou pelo telhado e viu algumas armadilhas para ursos. Desarmou elas e seguiu.
Leon chegou perto da casa que vira. O estado dela era lastimável. Toda em madeira, a pintura da parte externa estava toda descascada. O telhado já era, ficando apenas com o forro, ou o que restava dele sobre o piso. As paredes ainda estavam em pé, mas não ficariam por muito tempo ainda. As janelas não tinham venezianas e estavam com os vidros abertos. Não se notava mais nenhum movimento ali dentro, mas o agente não iria entrar lá sem se certificar de que realmente não tinha ninguém ali. Caso fosse apanhado, poderia ser cercado facilmente. Apanhou uma granada de mão e jogou pela janela. Quando entrou, encontrou três aldeões mortos. Às vezes é bom ser precavido.
Saiu pelos fundos da casa e avistou outra, que até então, não tinha percebido. Ficava ao fundo, atrás de algumas árvores, em uma pequena depressão no terreno. Era bem maior que as demais, sendo de dois pisos, com o telhado feito de telhas de barro. As janelas de vidro estavam fechadas. Ao redor dela havia um muro de tijolos, mas estava em péssimo estado, com partes caídas, inclusive. Apesar de esta casa ser bem maior do que todas que foram vistas até então, seu estado não era melhor. Também era toda em madeira, e a pintura estava descascada. À frente dela, existia uma escada, que dava para uma pequena varanda. Logo atrás, a porta. Para a surpresa de Leon, a porta era de ferro e estava trancada com um cadeado. Teria de arrombá-lo, o que não seria difícil. Não demorou em abri-lo.
Dentro, a casa estava ainda pior. A pintura estava completamente descascada. As janelas estavam horríveis. A mobília estava caindo os pedaços. Havia uma pequena mesa ao centro da sala, com cadeiras, tudo em madeira, mas parecia que tinham ficado ao relento. Dava a impressão de estarem podres e que se alguém sentasse nelas, poderia cair. Uma lareira estava no canto da sala, mas Leon imaginou que não seria seguro acendê-la, tendo em vista seu estado. Ao sair da sala, entrou em um pequeno corredor e quase caiu em uma armadilha. Uma bomba estava colocada no meio dele, com uma linha de laser. Se passasse por ela, iria pelos ares. Tecnologia avançada para um vilarejo rural. Estranho, muito estranho. Cada vez mais se comprovava que aqueles aldeões eram manipulados por alguém. Faltava descobrir quem e quais os objetivos da pessoa que estava por trás deles. E aí, com certeza, chegaria a Ashley.
Chegou à outra sala de estar. Esta tinha uma poltrona, uma mesa ao centro também, uma lareira no canto e algumas estantes. Tinha livros em algumas delas. Só que tudo estava em péssimo estado. As estantes pareciam estar caindo de podre. O sofá estava grosso de poeira e tinha a aparência de estar ali há pelo menos uns cinquenta anos. E os livros estavam se deteriorando. Mas o caminho terminava ali. Não tinha mais nenhum lugar para ir, a não ser voltar por onde entrara. Só que isso não ajudaria em nada. Tinha de encontrar alguma coisa que desse passagem a outro cômodo da casa. Procurou então, observar com extremo cuidado para ver se encontrava alguma abertura, algo que pudesse indicar uma passagem secreta para qualquer lugar que fosse. Então viu que uma das estantes estava em frente a uma passagem. Sim, era só empurrá-la. E foi o que fez. A estante saiu do lugar e Leon pôde passar para o outro cômodo. Quase a desmontou ao empurrá-la. Ao se distanciar do móvel, ficou com o casaco cheio de poeira.
O cômodo aonde entrou estava quase que completamente vazio, mas passou a ouvir batidas. Alguém estava batendo em alguma coisa de madeira. Foi caminhando vagarosamente, se escondendo atrás da parede. Virou-se e viu de onde vinha o barulho. Vinha de dentro de um armário. Ele balançava um pouco. Abriria? Quem ou o que estava lá dentro? Estaria correndo perigo? Ou seria alguma armadilha? Foi chegando sem fazer barulho perto do cômodo. As batidas não paravam. Leon parou em frente a ele. Lembrou-se de Raccoon City. Não, não havia zumbis ali. Todos estavam vivos. Pareciam não agir por vontade própria, mas estavam vivos. Entretanto, o que encontraria dentro daquele armário? Podia sentir sua pulsação cada vez mais rápida. Mas estava decidido. Iria abrir.
Leon chegou bem perto do armário. Encostou-se em um dos lados da porta, sacou a arma, deixou pronta para atirar e lentamente abriu-a. Mas antes mesmo de terminar, um homem caiu lá de dentro. Era muito diferente dos aldeões. Pele clara, cabelo liso e um pouco compridos, castanhos. Usava uma camisa de mangas compridas branca, um colete e uma calça jeans. Estava amarrado pelos pulsos e com uma fita adesiva tapando sua boca. Parecia apavorado. O agente americano se aproximou lentamente, sempre com a arma apontando para o homem que estava caído no chão. Então, retirou a fita adesiva da boca do homem que estava à sua frente. Este, olhando para Leon, falou:
- Um pouco rude, não acha?
Leon o virou de costas para soltar as mãos do homem, que continuou falando.
- Você não é como eles?
Enquanto desamarrava as mãos do homem, Leon foi falando, meio que automaticamente.
- Não, e você?
Depois de se soltar, o homem rolou pelo chão. Este estava visivelmente sentindo muitas dores nos pulsos. Pudera, estava amarrado. Ficou um tempo olhando para as mãos, então, ainda sem olhar para Leon, perguntou.
- Ok. Tenho uma pergunta muito importante. Tem um cigarro?
- Tenho um chiclete.
A conversa entre os dois, no entanto, durou pouco. Não demorou para que ouvissem grunhidos e passos. Então, chegaram dois aldeões. Um deles portava um arado e outro, um machado e estavam aparentando aquela fúria que para Leon não podia ser normal. Então, apareceu um terceiro homem. Mas este era diferente dos aldeões. Bem diferente. Para começar, devia medir mais de dois metros de altura, talvez uns dois e vinte. Era muito alto, o cara mais alto que Leon já vira em toda a sua vida. Caminhava pisando firme. Tinha pés e mãos enormes e parecia ser muito forte. Usava uma roupa escura. Era careca e tinha uma barba que ia até o seu peito. E para completar a visão assustadora, tinha um olho de cada cor. Um era castanho escuro, quase cinza e o outro quase marrom. Sua expressão era de desprezo por aquelas duas pessoas que estavam caídas. O homem que fora libertado por Leon apenas comentou.
- Perfeito.
Leon olhou para ele.
- Como assim?
- O chefão.
Leon então levantou e correu na direção daquele homenzarrão. Preparou seu melhor golpe e o acertou com toda a força. Mas… o homem apenas segurou o pé do agente americano com uma das mãos, sem sequer se mexer do lugar. Depois disso, atirou Leon para cima, como quem joga um boneco de pano. O agente secreto voou por alguns instantes e caiu de costas no chão. Depois disso, olhou para trás, mas começou a ouvir um zumbido nos ouvidos e tudo ficou escuro.


Capítulo 11

A entrada de trás da residência do prefeito do vilarejo Bitores Mendez estava aberta. A casa tinha mais de um andar, mas não era possível ter acesso a todos eles. Alguns eram secretos. Isso pouca gente sabia. Mas Ada sim, pois interceptara um e-mail de um cientista que trabalhou para os Illuminados. A residência do chefe dos aldeões era diferente das demais. Sim, era uma casa grande, com amplas janelas. Estavam apenas com os vidros fechados, ao contrário das do vilarejo, que as tinham cobertas por tábuas em sua grande maioria. O telhado era de telhas de barro. Ao redor da casa havia muitas árvores, mas todas estavam com os galhos nus, sem folha alguma. A estrada de terra que conduzia até porta dos fundos da residência de Mendes era ladeada por pequenos abrigos de madeira. Havia dois poços de tijolos na entrada do pátio. Por que dois? Um deles continha uma água tremendamente suja, com uma tampa aberta e escorada por uma tábua de madeira. O outro tinha uma escada que conduzia a um buraco muito profundo. Sequer dava para enxergar o fundo dele. Não havia barulho nenhum ali naquele momento, apenas alguns corvos nos galhos. Pelo chão, havia folhas secas, de modo que quando uma pessoa passasse por ali, ouviria seus passos sobre elas. O cenário, no entanto, não lembrava luxo e requinte, mas sim algo sombrio. O sol estava coberto por nuvens acinzentadas e grossas, deixando o céu nublado e acentuando o caráter melancólico da paisagem.
Assim que Ada deu os primeiros passos no meio da propriedade, os corvos que estavam sobre os galhos das árvores saíram voando, denunciando a presença de alguém ali. A espiã caminhou cuidadosamente até a entrada da casa. Ouvia claramente seu pisar sobre as folhas secas. Vez por outra, parava e prestava atenção se não ouvia mais passos, se certificando que estava sozinha. Olhava atentamente atrás de cada árvore por que passava. Não queria ter nenhuma surpresa desagradável. Mas não tinha ninguém, o que a deixava apreensiva. Onde estariam os aldeões? O que estariam fazendo? Quando chegou perto da mansão, atirou o gancho no telhado e se içou para cima. Iria fazer sua especialidade. Observar sem ser vista. Viu movimentação em um dos cômodos da casa e se posicionou de modo que pudesse espionar ali.
Viu um quarto de dormir com um enorme quadro de Osmund Saddler na parede. Possivelmente, o aposento de Bitores Mendez. No momento, as pessoas saíram do local, então ela, cuidadosamente, abriu uma das janelas e entrou. Apanhou um livro que estava sobre uma prateleira e o abriu. Entrava uma claridade pela janela que estava apenas com o vidro fechado. O piso de madeira fazia um rangido quando ela pisava, o que lhe desagradou, pois queria fazer o menor ruído possível, mas como a porta estava fechada, acreditou que não a ouviriam.O livro que estava lendo continha informações a respeito da seita de Saddler. Então, Wesker telefonou para a espiã novamente.
- Nós temos um problema.
O presidente da Umbrela foi seco. Ada estava acostumada com os modos de Wesker e nem estranhava mais. Wesker seguiu.
- O pesquisador que nós infiltramos foi descoberto pelos Illuminados.
- Você deve estar falando daquele vagabundo espanhol. Onde ele está agora?
- Ele está preso em uma casa abandonada a noroeste da vila. Até que ele recupere a mostra, não podemos deixá-lo morrer.
- Você não precisa ficar me lembrando disso o tempo todo.
Ada desligou o telefone e ficou um tempo pensando no que acabara de ouvir. Então Luis Sera estava preso. Não dava para deixá-lo sozinho. A espiã guardou o telefone e saiu para um corredor. Ela abriu a porta com cuidado. Assim que saiu, viu em uma extremidade do corredor um quadro de Saddler e na outra, um de Bitores Mendez. O corredor era estreito, com candelabros pendurados nas paredes, coberto com um carpete vermelho. Ela parou em frente ao quadro do prefeito da vila e o analisou por um tempo. E pensou em como ele podia ser tão feio. Era um homem com uma barba que ia quase até o peito, usando umas roupas escuras e com um olho de cada cor. Nossa, esse detalhe fechava a descrição dele com chave de ouro. Um deles parecia ser de vidro, ou outro material parecido.
A espiã desceu e dobrou à direita ao fim do corredor e desceu uma escada. Havia uma mesa posta no centro da sala. A comida estava servida e, ao contrário das casas dos demais aldeões, esta tinha um aspecto agradável. E cheirava bem. Bem no centro da mesa, uma garrafa de vinho. Na sala, havia diversos quadros pendurados nas paredes, vários com paisagens pintadas. Um deles tinha a igreja, de onde Ada acabara de vir. Ela caminhou por uma porta e chegou à outra parte da sala. Nesta parte, tinha diversas estantes com livros. Quando a espiã colocou os dois pés nesta parte da sala, no outro lado, em frente a uma prateleira, apanhando um livro, estava um aldeão. Ele se virou e veio na direção de Ada, que sacou a arma e atirou na cabeça dele, matando-o. Depois, Ada correu pela sala e chegou até a cozinha. Era pequena, com um armário no chão, uma estante e um fogão com uma panela e uma frigideira sobre ele. Havia outra garrafa de vinho sobre uma das prateleiras. Pelo jeito, o prefeito da vila tem um bom gosto, pensou Ada. Sua casa era ricamente ornamentada. Não era nada moderno, mas tinha um toque clássico. Móveis em madeira, estofados. Tinha o hábito da leitura, visto que havia muitos livros, tanto na sala quanto no quarto dele. E pelo jeito, Mendez também apreciava um bom vinho. Sim, ele era bem diferente dos demais aldeões. E se por algum momento, Ada chegou a estabelecer algum paralelo com os zumbis, esta visão quebrava de vez qualquer semelhança que o caso pudesse ter com o de Raccoon City.
Antes de sair, Ada deu mais uma vasculhada na casa, para ver se encontrava alguma pista de Sera. Então, abriu uma porta que ficava sob a escada por onde desceu. Era um banheiro. Ela olhou bem ali e notou que estava muito sujo. A higiene passou longe deste local, pensou ela. Fechou a porta torcendo o nariz. Não iria encontrar nada de útil naquele lugar. Ada saiu dali e passou por uma lareira. Era espantoso o número de quadros de Osmund Saddler na casa. O líder dos Illuminados realmente parece ser adorado por todos, refletiu a espiã.
Ada saiu da casa, agora usando a porta da frente. Não encontrou nada ali que pudesse ser útil. Assim que saiu, viu mais daquelas árvores sem folhas nos galhos, um cercado de madeira que formava uma estrada, um abrigo do lado direito da porta e um aldeão com um saco na cabeça e uma motosserra. Antes de ser vista. A espiã pegou a metralhadora automática de sua bolsa e andou com cuidado. Antes de ser notada, ela disparou uma rajada de tiros no homem, que caiu. Só que quando ela foi seguir caminhando, ele levantou. A espiã recarregou a arma o mais rápido que conseguiu e quando apertou o gatilho, já estava com a motosserra quase acertando sua cabeça. O homem voou para trás novamente. Na terceira rajada de tiros, o homem da motosserra morreu. Que é isso? Nunca precisou dar tantos tiros em uma pessoa para matá-la.
Depois de matar o homem da motosserra, Ada desceu por um caminho estreito, com alguns abrigos à esquerda. Quando chegou perto de um abrigo de alvenaria, com o telhado de zinco e as janelas cobertas por tábuas, um aldeão saiu ali de dentro. Ela rapidamente atirou nele, matando-o com um tiro na cabeça. Passou pelo inimigo já morto e deu uma espiada dentro da pequena casa, certificando-se de que não havia mais ninguém ali. O caminho terminava em um grande portão de madeira. Ela o abriu e se viu de volta ao vilarejo, onde iniciara sua missão. Quando entrou, notou que estava tudo em silêncio. Mas os aldeões já haviam voltado da igreja. Será que Leon havia conseguido sair dali? Ada voltou a pensar no que aconteceu ao agente. Mas não tinha tempo para ficar pensando nisso. Tinha muitas outras coisas a fazer para ficar se preocupando com Leon. A final, o agente sabia se cuidar muito bem sozinho.
O caminho por onde Ada foi terminava em frente ao galinheiro. Ela parou e deu uma observada nas casas dali. Mais uma vez as olhou. Todas estavam com a pintura descascando. E aquelas tábuas na frente das janelas a deixavam muito intrigada. Mas tudo estava quieto. Quieto demais, para dizer a verdade. Parecia não haver ninguém ali. Ada, no entanto, não baixava a guarda. Sempre olhava bem ao redor, atrás de cada sombra. Procurava olhar com atenção por trás das tábuas que cobriam as janelas para verificar algum movimento, mas não viu nada.
Então ela escalou uma escada, pois não quis entrar pela porta da frente da casa de dois andares. Ao chegar na janela, viu um aldeão. Ele estava virado para a escada que dava acesso ao primeiro andar. Obviamente, esperava que Ada entrasse pela frente. Ela o surpreendeu com um tiro na nuca. Logo outro subiu do andar de baixo, correndo. A espiã também o matou. Só então ela viu que caíra em uma armadilha. De repente a casa foi cercada. Uma escada de escalar foi colocada na janela. E aldeões começaram a subir para entrar no local. Ada foi rápida e derrubou a escada, fazendo dois caírem no chão. Depois, ela atirou lá de cima, matando os aldeões que tentavam subir até onde estava. Então, desceu ao primeiro andar. Não tinha ninguém ali. Ada deu uma espiada para o lado de fora por um pequeno buraco na parede e não viu nenhum movimento. Então, abriu a porta e saiu.
A espiã então passou a caminhar pelo local. Não encontrou nada que pudesse ajudar. Também não viu sinais de Leon. Provavelmente ele já saíra dali. Se o tivessem matado, certamente encontraria algum vestígio dele. Ou o próprio, largado em algum lugar. Como não viu nada, pensou que o agente saíra dali quando o sino soou. Mas Ada ainda entrou nas outras casas para procurar por pistas da amostra ou do cientista. Não viu mais nada que pudesse ajudar. Quando entrou na moradia que ficava quase de frente à igreja, foi atacada por um aldeão. Conseguiu se esquivar, mas a foice dele chegou a fazer vento no seu cabelo. Ada pegou a pistola e atirou na cabeça dele depois de se desviar do ataque. E quando saiu da casa sem encontrar nada, uma mulher a atacou com um arado. Mas Ada estava com a guarda alta e não foi surpreendida. Conseguiu se livrar da atacante sem maiores problemas. Depois de passar pelo estábulo, olhou em volta e não viu mais ninguém. Então, andou até um trilho que levava ao portão de saída. Tendo passado por todas as casas, sem encontrar qualquer rastro tanto de Sera, como de Leon, Ada avançou para a outra parte do vilarejo. Não se esquecia que custasse o que custasse, tinha de evitar que matassem Luis Sera.
Ao passar pelo portão, a paisagem praticamente não mudou. Ali, a diferença é que havia um cercado, dentro do qual corriam algumas galinhas. Mas não havia grama, nem flores, nem nada que pudesse dar uma enfeitada no local. As árvores estavam sem uma única folha nos galhos e sem qualquer flor ou fruto. Do lado esquerdo do portão havia um pequeno abrigo de madeira e um poço, que estava fechado. À frente, uma grande casa de madeira, branca, mas com a pintura descascando. O telhado era de zinco. Do lado esquerdo de quem entra, um cercado com um estábulo, dentro do qual havia uma vaca pastando distraidamente. E dentro do estábulo também, um homem arando feno, que se dirigiu a uma casa grande, branca de dois pisos. Ao lado dele, atrás do cercado, outro aldeão trabalhava, carregando dois baldes. Foi ele quem viu Ada primeiro e largou-os e saiu correndo de encontro à intrusa.
A espiã apontou a arma e atirou na cabeça dele antes de deixá-lo se aproximar. O aldeão caiu morto. Ela se dirigiu ao estábulo. Não tinha mais ninguém ali, mas havia marcas de sangue na parede. O que isso significava? Para ela, uma coisa. Leon passou por ali. De quem seria aquele sangue, no entanto? Do agente? Ela torcia para que não fosse. Dentro do estábulo, tinha uma carroça com feno sobre ela e vários barris de madeira. Ada passou por ele e chegou à parte de trás. Ali, tinha uma galinha correndo de um lado para o outro, duas vacas pastando e um cão, de pelo cinza, não muito grande, mas que parecia assustado. Saiu correndo quando a espiã se aproximou dele. O animal emitiu um som parecido com um choro. Mas havia um fedor ali inexplicável. A espiã caminhou por ali e então, atrás de um pequeno abrigo, onde havia um cocho para os animais, ela encontrou a fonte do mau cheiro. Em uma espécie de carro de mão, mas grande. Havia uma pilha de corpos humanos. Cadáveres. Não dava para identificar nenhum, o que deixou Ada aliviada. Não deviam ser nem Leon, nem Sera, pois aquelas pessoas, ao que tudo indicava, teriam sido mortas há algum tempo. E os dois estavam vivos no dia de hoje ainda. Mas onde? Ada então atirou o gancho no alto do estábulo, se içando sobre o telhado, para ter uma visão panorâmica do local. Mas não conseguiu ver nada que lhe ajudasse. Então, desceu.
Ada entrou na casa de madeira de dois andares e ao fazer isso, viu que na verdade tratava-se de um grande galpão. Não tinha quase nada ali, exceto estantes, barris de madeira, pilhas de feno e uma escada de escalar. A espiã parou por alguns instantes, para tentar ver se ouvia algum som que indicasse a presença de algum aldeão, mas em um primeiro momento, não ouviu nada. Escalou a escada e observou a parte de cima. Estava tudo vazio também. Nenhum sinal de aldeões, ou mesmo do cientista ou do agente. Mas ao que tudo indicava, como havia coisas quebradas ali, que Leon tinha passado pelo local. Ela então saiu da janela e percorreu sobre o recuo do primeiro piso. Quando chegou à borda, viu um aldeão na parte de baixo. Ele não a viu, no entanto. Ada mirou e atirou na cabeça dele, que morreu sem sequer ter visto quem atirou.
Depois disso, ela saltou e caiu na parte que dava acesso à saída. Havia alguns barris de madeira, caixas espalhadas e feno. Ada então, caminhou até um portão com a insígnia da seita bem ao centro. Antes de abrir, ela parou e olhou para trás. Ninguém a estava seguindo. Então, com cuidado, abriu-o bem devagar. Não queria ser apanhada de surpresa. O portão rangeu ao ser aberto. Todo o cuidado que teve foi para o espaço naquele momento.
Do outro lado, Ada viu um caminho com uma grama rala em forma de escada, uma espécie de picada. Dos lados, árvores. Todas sem nenhuma folha nos galhos. Sobre eles, alguns ninhos de corvos. Sobre o caminho, cruzava uma ponte de madeira. A espiã parou alguns momentos e olhou para cima, para se certificar de não cair em nenhuma armadilha. E de fato, havia dois aldeões com machados, pronto para atirá-los sobre Ada quando ela passasse por eles. Só que a espiã viu, sacou a metralhadora e matou os dois. Ela seguiu o caminho, descendo a picada. Olhando bem para a ponte, ela jogou o gancho e se içou para cima.
Sobre a ponte, Ada aproveitou para ter uma vista panorâmica do lugar. Deu para dar uma olhada de cima, mas tudo o que ela viu foi somente o terreno com as árvores sem folhas, a sequência da picada em forma de escada e mais pedras. Não parecia ter ninguém ali. E a espiã teria de descer, pois os dois lados da ponte estavam trancados. Os aldeões deveriam ter alguém para abrir, caso precisassem sair. Ela teria de descer como subiu. Enganchou a presa e desceu. Assim que caiu sobre a terra, seguiu passando pelas árvores, olhando atentamente atrás de cada uma delas. Não podia se dar ao luxo de ser atingida por um machado ou uma foice. Então, não podia baixar a guarda. Após passar por elas, chegou a um túnel. Era escavado na montanha que sustentava a ponte e não tinha nenhum ponto de iluminação dentro dele. Só dava para enxergar ali por ser dia. Havia uma série de obstáculos no caminho, fazendo com que Ada tivesse de perder tempo, desviando dos pedaços de madeira, de partes de muros de tijolos e outros pedaços de cadeiras. Então, chegou ao fim do túnel.
Protegida pelas sombras, Ada não saiu do túnel. Escondeu-se atrás de uma das paredes, ajudada também por um cavalete de madeira. Ela espiou e viu dois aldeões com uma banana de dinamite na mão. Então, apanhou a pistola e mirou na cabeça do que estava do lado de fora da casa e atirou. O aldeão morreu na hora. O que estava do lado de dentro da casa olhou para fora pela janela e não viu nada. Ficou olhando por um momento e antes de notar qualquer coisa, a espiã estourou a cabeça deste também. Antes de sair da escuridão, Ada deu mais uma verificada para ver se não seria surpreendida. Então, viu mais um aldeão atrás das árvores à sua esquerda. Ele estava parado, com uma dinamite na mão. Ela atirou na cabeça dele, matando-o também. Mais uma vez, notou que havia rastros de sangue por ali. Parecia que alguém fora morto e arrastado pelo chão. E ficava se perguntando quem teria sido? Sera ou Leon? Ou ainda algum aldeão morto? Não teria como saber. O que ela sabia no momento, é que o cientista estava sumido e em poder dos Illuminados. E que perdera Leon de vista depois de tê-lo deixado cercado por aldeões no vilarejo. Não sabia como ambos estavam, apesar de só Luis Sera ser sua responsabilidade.
Assim que saiu do túnel, observou bem o cenário. À frente, tinha uma casa de madeira. Em péssimo estado. A pintura branca estava toda descascada e a madeira, lascada em alguns pontos. O telhado era de telhas de barro, mas isso onde tinha telhado. A maior parte dele havia caído. As janelas não tinham venezianas e os vidros estavam abertos. Do lado direito, havia um abrigo com um poço, mas em estado igualmente péssimo. Dava para ver grossas teias de aranha na entrada. As armadilhas de urso estavam desarmadas, o que significa que alguém passou por ali. Tinha praticamente certeza que fora Leon quem as desarmou. O que poderia indicar que o agente estava bem. Mesmo assim, não conseguia deixar de se preocupar com ele. Se algo lhe acontecesse, certamente se culparia por não tê-lo ajudado quando o agente fora cercado na cabana. Mas ele saiu de lá. Então o que quer que acontecesse a ele depois disso, não poderia entrar para a conta de Ada. A não ser que ele tenha saído ferido do cerco e por causa disso, se tornado uma presa mais fácil. Mas não era bom ficar pensando nessas coisas.
Depois de esquadrinhar o terreno e ver que não havia mais ninguém ali, Ada correu até a casa. Aproveitou que estava com as janelas abertas e apanhou uma granada da mochila, retirou o pino e jogou-a para dentro. Ouviu a explosão e gritos. Sim, estavam esperando-a. Ela caminhou com cuidado, passando por trás da casa. Quando chegou perto da janela, saíram ainda mais dois aldeões. A espiã deu um passo para trás e conseguiu acertar o primeiro, matando-o com um tiro. O outro veio caminhando. Estava ferido da granada, mas ainda conseguia persegui-la. Ada se livrou dele sem maiores problemas.
Ada saltou dentro da casa. Não tinha móvel algum ali. A pintura por dentro estava tão ruim como por fora. Toda descascada. Uma parede interna dividia o local em dois cômodos. Ela passou para o outro lado. O forro estava caindo. Sem a maior parte do telhado, não era de surpreender, pois não tinha proteção contra o mau tempo. Também não tinha nenhuma mobília, a não ser uma pequena mesa no canto do cômodo, mas que parecia que iria cair, se colocassem até uma folha de papel sobre ela. O chão rangia a cada passo que ela dava e parecia que seu salto iria afundar na madeira a qualquer momento. A casa toda parecia que poderia cair a qualquer instante. Era um mistério que não tenha desabado com a explosão da granada que jogou. Então, Ada se aproximou da porta de saída, que se localizava na extremidade oposta à entrada do cômodo. Estava parcialmente coberta por tábuas pregadas na parede. Mas dava para enxergar o que acontecia do lado de fora. Serviria para os aldeões poderem ver os intrusos sem serem vistos. Agora, ela usaria esse método deles.
Ada chegou perto das tábuas que cobriam a porta e observou o cenário com o seu monóculo. À frente, havia uma depressão. A paisagem não mudava. Árvores com os galhos descobertos, o chão de terra com folhas secas caídas, nada de flores, grama ou qualquer cobertura para o solo. E corvos repousando sobre os galhos, crocitando vez por outra. Não se via ninguém caminhando mais por ali, mas alguém passara pelo local, pois as armadilhas de urso, que eram abundantes, estavam desarmadas. E certamente não foram os aldeões que as desarmaram. No centro da depressão, havia uma casa. Era maior que as outras, mas esse era o único detalhe que a diferia. O estado dela era péssimo também. Toda em madeira, tinha uma pequena varanda à frente, com uma escadinha de dois degraus. A pintura era um tom esverdeado desbotado, mas a mesma estava toda descascada. As telhas eram de barro. Dos lados da casa, havia um muro de pedra, que servia principalmente para evitar que a terra das partes mais altas do terreno desmoronassem. Assim como as outras casas, era um mistério como ela conseguia se manter em pé.
Então, de repente, a porta da frente se abriu. Alguém iria sair. Ada aproximou ainda mais a visão. Quem iria aparecer? Aldeões? O prefeito do vilarejo? Osmund Saddler? Luis Sera? Leon? Aqueles segundos antes de aparecer quem havia aberto a porta pareceram intermináveis. A espiã sentiu uma angústia misturada à expectativa. Tinha um mau pressentimento. No entanto, queria afastar esses pensamentos da cabeça. Pensou que provavelmente não seria ninguém além de aldeões ou de Bitores Mendez. Mas alguma coisa lhe dizia que logo saberia o que aconteceu a Sera ou a Leon. Então viu e confirmou os maus pressentimentos. Um aldeão saiu pela porta, carregando um homem sobre o ombro, desacordado. Esperava que assim fosse. Ou estaria morto? As pernas e braços pendiam inertes e o aldeão o levava como se fosse um saco de batatas. Ada prestou atenção. Não dava para ver de longe se estava vivo ou não, mas o homem que estava sendo carregado estava de sapatos, uma calça social cinza escuro, uma camisa branca com um colete. Sim, era Luis Sera. Então, a segunda má notícia. Atrás do primeiro aldeão, veio outro, trazendo outro homem nos ombros. Este usava uma calça jeans e um casaco marrom. Não restavam dúvidas. Tratava-se de Leon. Os dois estavam desacordados? Esperava que sim. Eram prisioneiros. Para aonde estavam sendo levados? Ada teria de descobrir e rápido, pois se estivessem apenas desacordados e não mortos, corriam risco. E poderiam acabar mortos se ela não conseguisse chegar a tempo de ajudá-los.
Ada saiu da casa e procurou chegar mais perto dos dois aldeões. Não podia se aproximar muito, pois não queria correr riscos. Tudo o que não precisava era ser presa também. Tinha de ter o máximo de cautela. O que iria dizer se o resgate de Sera acabasse sendo preso? Quem iria resgatar o resgate? Não. Tinha de se manter distante o suficiente para não ser vista. Enquanto os observava, viu o rosto de Leon. Estava inconsciente. Seus braços pendiam para baixo, assim como suas pernas e balançavam. O agente parecia um grande boneco de pano. Mas não aparentava estar ferido, por isso, Ada afastou da cabeça o pensamento de que ele estivesse morto. E Sera também não deveria estar. Mas para evitar o pior, tinha de agir. E rápido. Os aldeões foram se afastando em meio às árvores. Então, de repente, encobertos pela neblina, sumiram do campo de vista. Ada teria de segui-los.
A pergunta é: para que lugar estavam levando Sera e Leon? Provavelmente para a casa do prefeito. Ada sabia o caminho até lá. Não iria pelo mesmo que os aldeões tomaram, pois poderia ser que tinha mais deles por ali. E se voltasse por aonde veio, tinha certeza que chegaria mais rápido. Então a espiã voltou ao túnel que foi seu caminho de vinda. Só que os aldeões devem ter previsto que ela faria este caminho. Ou colocaram guardas nos dois lados. Havia dois deles na saída do túnel a esperando, armados com dinamites. Ada teve de ser rápida ao matar os dois, pois se acendessem as dinamites, poderiam mandar tudo ali pelos ares. E não seria nada bom se isso acontecesse.
A espiã chegou até a escada que dava acesso ao vilarejo novamente. Não tinha ninguém ali, mas mesmo assim, Ada sabia que teria de tomar cuidado. Não podia se esquecer da ponte. Se passasse por ali distraidamente, poderia ser alvo de algum deles. Se lhe atirassem um machado lá de cima, nem queria pensar no que poderia acontecer. Então, antes de cada passo, olhava cuidadosamente atrás de cada árvore e olhava para cima, tentando antever possíveis perigos. Então, quando terminou a escada, chegou ao portão com a insígnia dos Illuminados. Mais uma vez, teria de tomar cuidado ao abri-lo.
De volta ao vilarejo, tudo parecia normal. Não tinha ninguém ali, exceto as vacas pastando, as galinhas correndo de um lado para o outro e aquele cachorro que saiu correndo antes. Ele estava parado perto de uma das vacas e pareceu não ter notado a presença de Ada. Ela olhou bem dentro do galpão e do estábulo, mas não viu ninguém por ali. Tinha de se apressar, pois se Leon e Sera estivessem vivos, qualquer minuto poderia fazer a diferença. Dentro do abrigo do poço, também não tinha ninguém, então Ada correu na direção do portão que dava acesso à outra parte do vilarejo.
Assim que passou pelo portão, teve uma recepção. Dois aldeões, um homem e uma mulher a esperavam. Ela estava armada com uma faca de cozinha e ele, com um arado. Ada matou os dois. É claro que eles não a iriam matar, mas poderiam ferir ou ainda, fazer com que perdesse tempo. O caminho até a saída do vilarejo agora era perigoso. Tinha muitas casas, abrigos, estábulos e o galinheiro. Além de uma torre. Poderiam servir facilmente de abrigo a qualquer pessoa que estivesse com a intenção de atacá-la. E a torre daria um ótimo lugar para um atirador. Era bom tomar cuidado, mesmo que estivesse com pressa, teria de investigar bem o terreno antes de avançar, pois mais importante que chegar a tempo de evitar o pior, era chegar ao local viva e caminhando, não como Luis Sera e Leon.
Assim que ela chegou ao centro do vilarejo, estava sendo esperada por um verdadeiro comitê de recepção junto à fogueira onde estava o policial empalado. Todos ali estavam armados com armas improvisadas, como machados, foices e arados. Ada pegou a metralhadora de dentro da sua bolsa, recarregou enquanto ainda estava longe dos aldeões e se preparou para o embate. Teria de ser rápida e acertar os primeiros tiros pelo menos, para diminuir o grupo até que eles chegassem perto. Depois, com menos alvos, seria mais fácil. Só que eles pareciam saber disso, pois se espalharam.
Ada apontou a metralhadora e disparou, matando os aldeões que vinham na frente. Mas eram muitos. Ela precisou recarregar a arma e quando se deu conta, os demais já estavam perigosamente perto. Então, atirou, mas tendo de se esquivar de uma foice que veio voando em sua direção. Matou mais uma boa quantidade deles. Mas parecia que não acabavam. A espiã pensou só no tempo que estava perdendo ali. Então, depois da terceira rajada de tiros, conseguiu se livrar do grupo de aldeões.
A espiã seguiu, mas ficou com a impressão de ter visto alguns deles se separando do grupo. Ou seja, ainda teria mais aldeões para enfrentar antes de conseguir chegar ao portão que dava acesso à saída do vilarejo. Então, ela foi caminhando com cuidado. Ao passar pelo estábulo, parou, chegou perto da porta e espiou para dentro. Apenas a vaca pastava displicentemente ali, alheia a tudo o que ocorria ao seu redor. Ao passar pela última casa, antes de chegar ao portão, no entanto, um grupo de quatro aldeões saiu de dentro dela. Ada sacou a metralhadora automática e matou todos eles. Então, um detalhe chamou a atenção da espiã. Um dos aldeões mortos estava usando o casaco de Leon. Certamente era um dos que esteve com os que o levaram até a casa do prefeito. Se é que eles foram para lá. Era um palpite. Mas só poderia ser. Ada teria de correr.
Ada então passou pelo portão e deu uns passos, quando ouviu vozes. Eram os aldeões conversando. A espiã caminhou furtivamente e quando chegou atrás de um dos abrigos, entrou nele, para poder olhar melhor, antes se certificando de que não teria companhia indesejada. Ao ver que estava tudo limpo, parou e observou o cenário com o monóculo, aproximando a visão o máximo que conseguiu. Dois aldeões caminhavam atrás de um homem enorme. Sim, usava aquele mesmo sobretudo marrom escuro e era careca. Sem dúvidas, tratava-se de Bitores Mendez, o prefeito do vilarejo. Os três se dirigiram para a entrada da casa. Assim que entraram, fecharam a porta. Enquanto isso, do outro lado, Leon Scott Kennedy entrava na mansão de Mendez a procura de informações sobre Ashley. Ada não chegou a vê-lo.
O caminho até a casa era aberto, de maneira que Ada pôde dar uma boa observada e ver que não teria ninguém a esperando para uma emboscada. Então ela correu até a entrada. Ao chegar à porta, parou e colou o ouvido nela para escutar o que estava se passando dentro da casa. Ouviu uma conversa lá dentro. Pelo que conseguiu apurar, eram dois homens, deviam ser aldeões. Falavam em espanhol, se referindo ao efeito do parasita “Las Plagas”. Eles falavam alegremente, dando risada. Pareciam muito satisfeitos com o andar dos acontecimentos. De repente, silenciaram. Ada conseguiu ouvir uma voz que vinha do andar de cima. Esta, era em inglês.
- Parece que em nossas veias corre o mesmo sangue. Apesar de tudo, você ainda é um forasteiro. Lembre-se que se você se tornar um incômodo para nós, sofrerá graves consequências.
Ada subiu no telhado da casa, usando o gancho. Chegou a conclusão que o prefeito da vila só poderia estar falando aquilo a uma pessoa: Leon. Ada ficou atenta, olhou em volta da casa para ver alguma movimentação dos aldeões, mas tudo estava quieto. Então, procurou ficar atenta aos movimentos dentro da residência. De repente, ouviu um tiro. Devia ter vindo do quarto. A espiã desceu, usando o gancho até a altura da janela para averiguar o que estava acontecendo ali. Então, viu Bitores Mendez caminhando na direção de Leon, que estava caído. Sua arma, jogada no chão. Aparentemente, havia sido golpeado e caíra. Antes que o agente conseguisse se levantar, Mendes pisou sobre o peito do americano e começou a apertar. Ia matar Leon. Tenho que fazer alguma coisa, pensou Ada. Então, ela sacou a pistola e deu dois tiros nas costas do prefeito do vilarejo. Ele se virou para a janela. Pareceu ter sido picado por um mosquito. Como pode? A expressão dele se fechou quando viu Ada. Bitores Mendez correu em direção à janela e saltou, tentando atingir a espiã, que puxou o gatilho da pistola com o gancho, se içando para cima do telhado. O chefe do vilarejo passou reto e caiu no chão. Ada ficou apenas observando ele lá de cima. Mendes se levantou como se nada tivesse acontecido e ficou procurando Ada, sem encontrar. Bem, ela pensou, pelo menos sabia que Leon estava bem. Agora teria de encontrar Luis Sera.
O problema é que ao salvar a vida de Leon Scott Kennedy, Ada revelou sua posição. Agora, teria de correr para não ser ela a precisar de ajuda. Mendes olhou para cima. O telhado era o único lugar que ela poderia estar. Ada desceu pelo outro lado e saiu correndo pela estrada que dava acesso ao vilarejo, para se esconder, por enquanto. Até sentir que pudesse voltar a procurar pelo cientista. Agora viu que talvez não tenha sido uma boa ideia ter feito o que fez. Mas agiu por impulso. Por outro lado, nunca se perdoaria se Leon tivesse sido morto, pois sabia que daquela vez o agente não conseguiria escapar. Bitores Mendez o mataria. Só que quando chegou perto do portão, sua passagem foi bloqueada por um grupo de aldeões. Neste momento, Ada viu a enrascada em que estava metida. Ela recuou, sacou a pistola. Como iria passar? Então, sentiu uma picada na altura do pescoço, como um inseto. Depois, o corpo começou a amolecer e a visão turvou. Ada caiu no chão e a última coisa que se lembra de ter visto antes de apagar, foi o rosto de Bitores Mendez.
Tudo estava escuro. Ada ouvia vozes ao longe. Pareciam vir de outra dimensão. Não dava para entender o que diziam, mas era um grupo de pessoas falando a mesma coisa ao mesmo tempo. O corpo estava dormente. Não sentia nada, nem frio, nem dor, nem calor. Parecia estar flutuando. Os olhos não abriam, nem a boca. Parecia impossível mover qualquer músculo. A espiã tinha a impressão de ter perdido totalmente o controle sobre o seu corpo. Era como se estivesse fora dele. Ela começou a ficar nervosa, pois sabia que tinha de sair o mais rápido que pudesse por dois motivos: primeiro, porque cada minuto poderia significar a morte de Sera; segundo, do jeito que estava, era um alvo totalmente vulnerável. Aos poucos foi recuperando a consciência e sentiu que estava começando a sentir o corpo novamente. Neste momento, passou a entender o que as pessoas ao redor dela estavam falando.
- Morrer é viver! Morrer é viver!
Ada começou a entender o que estava acontecendo. Apalpou a superfície onde estava deitada. Era uma rocha. Era uma cerimônia daquela seita de Osmund Saddler. Ela estava em um altar e os aldeões repetindo aquela espécie de mantra. Pelo que ela sabia de rituais, isso só poderia acabar com um sacrifício. E pelo que podia notar, ela seria a criatura sacrificada. Então, de repente, eles pararam de repetir aquela frase. Ada abriu os olhos e viu um dos aldeões com um machado, pronto para dar o golpe de misericórdia. Ela teve uma fração de segundos para saltar de cima da rocha. Sem ver o que tinha acontecido, ela ouviu o som do metal do machado colidindo com a pedra. Ao olhar para trás, viu o aldeão com o machado na pedra, ainda se recuperando do baque. Sentiu um calor na perna e passou a mão no lugar. Havia sangue correndo. A lâmina do machado chegou a fazer um pequeno rasgo em sua pele.
Ada correu para trás, para se distanciar dos aldeões e viu que sua bolsa com as armas estava ali ao lado do altar. Pegou-a, sacou a pistola e atirou neles. Os aldeões não esperavam por aquilo. A espiã conseguiu acertar o primeiro, mas a visão ainda estava um pouco turva e seus reflexos pareciam ainda não terem se recuperado totalmente. Entretanto, havia só mais dois aldeões. Então, acertou o primeiro e quando o segundo chegou perto, atirou no rosto dele, matando-o. Estava em uma caverna. Olhou para a rocha onde estivera deitada. Havia uma mancha de sangue ali. Sem dúvida eles faziam rituais com sacrifícios naquele local. Mas o sangue na rocha estava seco, o que quer dizer que não sacrificavam ninguém ali há algum tempo. Algumas tochas iluminavam o local. Ada se dirigiu a um buraco. Ela saltou e foi para um nível mais a baixo.
Ali havia três aldeões. Um mais atrás acendeu uma dinamite e jogou onde Ada estava. Ela conseguiu subir rapidamente a escada e ouviu a explosão. Quando desceu, os três aldeões estavam mortos. Eles estavam atrás de uma trincheira, mas ela ficava voltada para o outro lado. Esperavam alguém que viria de fora. Ada passou por ela e saiu em uma escadaria de metal. Já era noite. Quanto tempo ficara desacordada? Provavelmente muito. Neste momento, Ada sentiu um frio percorrendo a espinha. Em todo esse tempo. Luis Sera pode ter sido morto. Isso iria significar provavelmente o fracasso da operação. Ou pelo menos seria bem mais difícil conseguir a amostra do parasita, pois esta estaria em poder dos Illuminados. E só ele sabia os atalhos dos locais para chegar a ela. Sem Sera, a missão seria bem mais difícil. Havia outro problema. À noite, as plagas saíam. Quer dizer que se estourasse a cabeça dos aldeões, poderia acontecer de o parasita sair do corpo deles. Seria mais difícil matá-los.
Ada subiu as escadas e entrou em uma espécie de sala de comando. O local era todo de tijolos, mas até a metade da parede, eles estavam expostos. Da metade para cima, a parede estava pintada. A luz vinha de lâmpadas fluorescentes no teto. Havia um teleférico parado ao lado da plataforma onde estava. Um painel deveria ativá-lo. Sobre uma mesa ao lado do painel, tinha uma chave de ferro grande. E não era para ligar o teleférico. Qual porta abriria? Era o que ela precisava descobrir. Na sala tinha alguns armários. A espiã abriu todos eles para ver se encontrava algo ali, mas não achou nada que pudesse ajudar. Depois disso, ela saiu de sala e desceu as escadas novamente. Desta vez, passou da parte de onde saíra e desceu ainda mais.
Chegou ao fim da escada. O local era escuro, com a claridade vindo de duas tochas que ficavam mais à frente, próximas a um portão. O chão era de terra. De um lado, uma montanha de pedra, por onde desciam as escadas de onde viera. Do outro, um penhasco. Não havia nada ali. Nem parecia haver aldeões. Teria de seguir em frente? Possivelmente sim. Ela seguiu até o portão, que estava trancado. Ada apanhou a chave que encontrou dentro daquela sala de comando e quando a girou, ouviu o barulho indicando que fora destrancado. Abriu o portão.
À frente, logo que passou pelo portão, viu um caminho estreito de terra, cercado por dois morros, com árvores sobre eles. A estrada era em curva, de modo que não se conseguia enxergar muito à frente, principalmente pela ausência de luz. Como consequência, Ada tinha de caminhar com mais cuidado, para não ser pega de surpresa. Caminhava sempre procurando enxergar o que tinha a frente, antes de dar o próximo passo. O caminho terminava em um grande galpão. Parecia não ter ninguém ali. Tudo estava muito quieto. Ada chegou perto da porta e encostou o ouvido para tentar escutar algo, mas tudo permaneceu em silêncio. Não conseguia acreditar que não houvesse ninguém ali. Mas teria de abrir a porta para se certificar. Quando abriu, a pouca claridade que tinha ali, iluminou uma mulher com a cara toda enfaixada e uma motosserra na mão. Mais dois aldeões estavam ali, cada um com uma tocha na mão. Foi nesse momento que Ada percebeu que algo no pescoço da mulher brilhava. A espiã sacou da bolsa, a metralhadora automática. Teria de usá-la.
Dois aldeões vieram na frente, com tochas nas mãos. Ada teve de ser rápida, pois não podia deixar que a mulher da motosserra chegasse perto. Atirou rapidamente nos dois, que caíram no chão. Em seguida, se virou para a mulher com as ataduras na cabeça, que corria na sua direção. A espiã disparou uma rajada de tiros, jogando-a para longe. Só que não a matou ainda. Quando Ada se deu conta, os aldeões que ela pensou ter matado, estavam em pé novamente. Só que não tinham mais cabeça. No lugar dela, uma coisa grotesca, da qual saía uma espécie de chicote com uma extremidade pontiaguda. Eles vinham agitando aquele chicote, tentando atingi-la. Mas Ada foi mais rápida, recarregou a arma e atirou naquelas coisas. Agora, os dois caíram definitivamente mortos. Mas a mulher com a motosserra ainda avançava. Ada mirou na cabeça cheia de ataduras e descarregou a metralhadora. Somente agora, a mulher caiu morta. A chave que ela carregava no pescoço caiu no chão e Ada a apanhou. Ainda não sabia para quê poderia servir. Não encontrou, no entanto, mais nenhuma pista sobre o paradeiro de Luis Sera. Então, foi até a saída do galpão e abriu a porta.
Depois de sair do galpão, correu até chegar ao portão. A cada segundo que perdia, não tirava da cabeça a ideia de que poderia estar deixando o pesquisador ser morto. Cada minuto perdido poderia fazer a diferença. De volta à escada de metal, Ada tomou o caminho de volta à sala de controle. Assim que a espiã terminou de subir a escada, um aldeão a estava esperando com um machado. Ele atirou assim que viu Ada, que se esquivou. Depois, atirou nele. Só que este também não morreu. A plaga nasceu do pescoço dele, e Ada teve de atirar naquela coisa de novo, até matá-lo definitivamente. O caminho era subir o teleférico, que ficava ao lado da sala de controle. Ada viu que para ligá-lo, teria de usar uma chave. Sim, seria a que pegou da mulher da motosserra. Então, a espiã colocou a chave no lugar, girou-a e começou a ouvir um ruído, que vinha da máquina ao lado. Olhou pela janela e viu que as engrenagens do teleférico começaram a se mover e as cabines penduradas nele, entraram em movimento. Agora era só subir em uma delas.
Ada foi até o local onde tomar o bonde do teleférico. Era na plataforma que ficava a cima do lance de escadas onde saíra após deixar a cerimônia de sacrifício. Onde ela seria sacrificada. O local tinha uma parte de tijolos, onde era a sala de controle. As demais paredes eram de zinco. Já era noite e a luz vinha de lâmpadas no teto. Ao longe, dava para visualizar um castelo. Certamente seria o da família Salazar, que devia ficar pela região. O teleférico andava vagarosamente, ligando esta parte da plataforma a outra no alto. A espiã teria de subir sobre um dos bondes e ir até a parte de cima. Ao desembarcar, Ada saiu em outra plataforma, agora no alto. O local onde estivera, agora era visível, mas estava muito pequeno. A espiã se encaminhou para uma escada, que descia para um terreno aberto.
Ao descer, caminhou sobre um caminho de terra, com uma cerca do lado direito que protegia de uma queda de muitos metros de altura. Do lado esquerdo, uma parede de zinco e madeira. Havia uma luz tremeluzente vindo das tochas que estavam dispostas em espaçamentos regulares. De repente, Ada passou por um grande portão de madeira, envernizado com uma face esculpida em alto relevo no centro. Faltava um olho na gravura. O outro era uma bola vermelha, parecendo algum tipo de leitor ou scanner. Ela teria de seguir.
Desceu o terreno até chegar a uma casa, toda em tijolos, com telhado de zinco. Não havia pintura, de forma que os tijolos estavam todos visíveis. O que era estranho é que não tinha ninguém ali. Ada sabia que isso podia ser até pior. Gostava quando os inimigos se revelavam de uma vez. Todas as vezes que chegava a um local e não via nenhuma movimentação, normalmente era uma armadilha. Então, a espiã passou a tomar o máximo de cuidado possível. Sabia que tinha de ser rápida, mas não podia ser descuidada. Ada contornou a casa e não viu nenhum aldeão. Parou perto da porta e apurou o ouvido para ouvir alguma movimentação suspeita do lado de dentro. Como não ouviu nada, entrou.
Do lado de dentro, não viu nada. Nem mobília, nem aldeões. Apenas alguns armários de metal, uns em pé, uns caídos. Havia uma mesa no canto da parede e as lâmpadas que forneciam a iluminação ao local estavam penduradas no teto. Era possível ver algumas caixas de madeira espalhadas pelo chão. Mas nem uma pista de onde Luis Sera pudesse estar. Ada estava começando a se preocupar. O que teria acontecido ao pesquisador? Estaria vivo ainda? Se estivesse morto, o que diria a Wesker? Então, Ada chegou a um portão, que levava de volta ao vilarejo. Mais uma vez ela teria de ir lá. Estava trancado. A espiã usou o gancho para se lançar sobre ele.
O local onde ela caiu era uma espécie de grande corredor. Havia tochas iluminando a escuridão, plataformas suspensas com barris de madeira, pedras sendo escoradas por pedaços de madeira e pequenos abrigos feitos de tábuas com o telhado de telhas de barro. Alguns deles, tinham uma cobertura de galhos e folhas. Havia mais portões à frente. Haveria alguém para impedir ou pelo menos tentar fazê-la perder tempo? Alguma coisa lhe dizia que sim. Quando Ada se dirigiu ao último portão, uma criatura gigantesca saltou, bloqueando a passagem. Era um dos monstros criados pela seita, conhecido como “o gigante”. É, o caminho para o vilarejo seria mais difícil do que estava pensando. Ada teria de perder algum tempo, brincando com aquele grandalhão. Sim, Bitores Mendez deixou duas saídas possíveis do povoado, mas fortemente guardadas. Uma delas, com um exército de ganados e a outra, com um gigante. Só que Ada estava fazendo o caminho contrário. Estava entrando no povoado.
O gigante veio correndo na direção de Ada e deu um soco. A espiã rolou para o lado e sentiu o chão tremer. Ela correu para a extremidade oposta, na direção de uma das casas. A criatura veio correndo. Era fácil localizá-lo, mesmo sem poder vê-lo, pois como ele é muito pesado, dá para se guiar pelo som dos seus passos. Ada entrou pela porta e saiu pela janela da casa de madeira à frente. O gigante apenas a viu entrando e golpeou o abrigo com toda a força. Ada aproveitou enquanto o monstro estava prostrado, com as mãos no chão e disparou uma rajada de tiros com a metralhadora. Ele então, levou as mãos à cabeça e se contorceu de dor, enquanto gritava. Das suas costas, saiu uma coisa que parecia uma grande centopeia vermelha. Ela correu e saltou sobre as costas do gigante. Pegou a metralhadora e disparou outra rajada de tiros naquela coisa que saía das costas da criatura, saltando no chão logo depois. A criatura soltou um urro de dor e desabou, quase caindo sobre a espiã, que teve de se atirar para o lado. O gigante estava morto. Agora era só seguir em frente, na direção do vilarejo.
Ada se aproximou de um portão de madeira. Abriu-o e foi por um caminho em subida. Era um túnel de madeira, fechado por todos os lados. Ao sair, se viu em um pátio cercado por um muro, também feito em madeira. Observou alguns abrigos dos lados e bem ao centro, uma casa de dois andares. Havia várias tochas iluminando o lugar. A grama era rasa e o vento frio dava calafrios. A casa era também toda de madeira, tinha a pintura descascada, o telhado de zinco e quase todas as janelas estavam quebradas. Algumas escadas de escalar estavam escoradas nas paredes. Parecia que haviam tentado entrar na casa pelas janelas de cima. Então, ouviu vozes. Ada correu até um dos abrigos nos arredores do terreno e procurou ver com atenção de quem se tratava.
- Esqueci-me de uma coisa. Vocês prossigam.
A porta da casa se abriu e a luz interior iluminou a parte da frente. De dentro da cabana, saiu um homem com uma camisa branca, colete e uma calça social cinza. Era Luis Sera. Estava vivo. Alguém o chamou. Ada conseguiu ver. Era Leon. Estava acompanhado de uma garota usando uma blusa alaranjada, um casaco verde sobre os ombros e uma saia da mesma cor. Era loira e aparentava ter uns vinte anos. Só podia ser Ashley Graham. Era ela quem Leon veio buscar. Quando os dois entraram novamente na casa, Ada se revelou. Luis Sera, que estava caminhando distraidamente, ao ver a espiã, abriu um sorriso.
- Olá, senhorita. Você tem fogo? E alguns cigarros para alegrar o meu dia?
Ada não estava sorridente. A espiã cruzou os braços e encarou com um ar de seriedade.
- Onde está a amostra?
Sera meneou a cabeça, olhou para o chão e falou:
- Certo, vamos pular as preliminares. Na verdade, eu estava indo pegá-la. E agora, me diga. Onde está o amor, doçura?
- Soa divertido para mim. É bom se apressar.
- Certo, senhorita, mas onde você fica nessa história? Para quem você trabalha?
Ada caminhou, virando-se de costas para Luis Sera.
- Tem coisas que é melhor que você não saiba.
- Tudo bem. Não me importa quem é você. Desde que você se encarregue do velho e de seus amigos religiosos. Cada um faz a sua parte.
Ao dizer isso, Luis Sera seguiu caminhando. Ada estava de costas para o pesquisador e não o viu sair, apenas escutou seus passos se distanciando, até não os ouvir mais. Sera passou por uma cerca de madeira e seguiu caminhando. Para aonde estava indo? Iria atrás da amostra. E a espiã esperava que ele não fosse capturado mais uma vez. Enquanto isso, ela também iria à procura da amostra. A final de contas, se a conseguisse, talvez não fosse mais necessário ficar bancando a babá daquele espanhol, evitando que qualquer coisa ruim lhe acontecesse.
Ada, por outro lado, ficou um tempo pensando consigo mesma. “De todas as pessoas envolvidas no caso, Luis é o que menos tem ligações. Ele não trabalha para nenhuma organização. Fui eu que avisei para a Umbrela sobre a importância dele. Fiz isso porque eu gosto dele. Seu entusiasmo me faz lembrar de mim mesma quando era mais jovem. Foi uma jogada de sorte quando interceptei sua mensagem pedindo por ajuda. Parece que ele não confia na polícia, então, ele mandou um e-mail para um velho amigo da faculdade, que ele pensava estar vivo. De qualquer forma, foi assim que consegui achá-lo. Aparentemente ele conduziu sua própria investigação sobre a seita enquanto estudava o parasita “Las Plagas”. Ele é um cientista brilhante. Conseguiu uma grande quantidade de informações e juntou tudo para saber o que significava. Deve ser por isso que Saddler o contratou. É uma pena que a pesquisa de Sera tenha levantado suspeitas. Quando eu disse a ele quem eu era, ele praticamente me implorou para ser preso. Dizia que precisava de proteção. Disse que não se interessava mais nem pelo parasita “Las Plagas”, nem pelos Illuminados. Queria apenas continuar vivo para poder seguir sua vida em paz. Eu ordenei que me trouxesse uma amostra como evidência. Parecia, no momento que ele era uma das poucas pessoas em que Saddler confiava. Então achei que seria possível, sem maiores dificuldades segui-lo e pegar a amostra. Mas agora, duvido que a seita o deixe escapar facilmente. Agora, terei de me assegurar de que tudo saia bem”. Apesar do que falava a Wesker, Ada sabia que ela tinha metido Luis Sera em uma enrascada. E que tinha obrigações morais com sua segurança. No entanto, ele precisaria colaborar também. Afinal de contas, se tudo desse certo, a Umbrela o compensaria muito bem. E ele, no fim das contas, aceitou o trabalho.


Capítulo 12

“Humanos fracos. Vamos lhes dar o nosso poder.”
Um homem com uma túnica roxa, enquanto falava, caminhava com uma espécie de seringa na mão. Ele se dirigiu até onde Leon estava preso e inseriu uma agulha no pescoço do americano, que apenas mexeu a cabeça, sem conseguir acordar. O homem começou apertar a parte superior da seringa, fazendo com que o conteúdo fosse introduzido no seu prisioneiro. Enquanto isso, ria. Então, continuou falando sozinho.
“Logo você será incapaz de resistir a esse poder intoxicante.”
Dito isso, terminou de inserir o conteúdo da seringa no pescoço de Leon, que de repente acordou. Levou um susto. Olhou ao redor. Estava em um cômodo fechado, sem aparentemente nenhum móvel. Apenas uma pá. Quando tentou se mexer, viu que estava preso, com as mãos amarradas. Atrás de si, também amarrado, estava o prisioneiro que salvara no armário. Perfeito. Agora os dois precisavam ser salvos. Leon começou a se balançar para tentar acordar seu “companheiro”.
- Ei, acorde.
Então, o outro prisioneiro levantou a cabeça, olhou para os lados e soltou uma exclamação de dor.
- Sair de um buraco para entrar em outro.
- Quer me contar o que está acontecendo?
O outro prisioneiro se voltou para trás e perguntou em espanhol.
- Americano, não?
Depois, seguiu falando em inglês.
- O que trás um homem como você a esta parte do mundo?
Leon mexeu as mãos e o outro se abaixou.
- Ei, cuidado seja lá quem você for. Está me machucando.
Leon apanhou a foto de Ashley do seu bolso e procurou colocá-la ao alcance da visão do outro prisioneiro.
- Meu nome é Leon e vim aqui procurando por esta garota. Você a viu?
Procurou colocar mais perto o possível da visão do homem preso atrás de si. Este ficou um tempo olhando para a foto antes de responder.
- Você é um policial ou algo assim? Não se parece com um.
- Talvez.
O outro prisioneiro ficou um tempo pensativo, olhou para cima e continuou falando.
- Certo, deixe-me tentar adivinhar… ela é a filha do presidente dos Estados Unidos.
O sangue de Leon gelou. Sentiu um arrepio que não sabia dizer se era de medo, excitação, otimismo ou o que quer que fosse. Aquele homem obviamente a vira. Devia saber onde estava, ou no mínimo em poder de quem estava.
- Certeiro demais para um chute. Acho que vai ter de começar a dar algumas explicações.
- Poderes psíquicos.
O prisioneiro olhou para trás e fez uma careta, enquanto Leon tentava se voltar para trás também.
- Não, estou brincando com você amigo. Ouvi alguns moradores daqui falando sobre manter a filha do presidente dos Estados Unidos na igreja.
O problema é que eles eram prisioneiros e estavam com a sentença de morte marcada. E para executá-la, um dos aldeões vinha se encaminhando ao local com um machado. Sem desconfiar que estavam prestes a receber visitas, Leon continuou interrogando o outro prisioneiro.
- E quem é você?
- Me chamo Luis Sera. Eu era policial em Madri. Agora sou apenas um imprestável que, por acaso, é o preferido das garotas.
- Por que desistiu de ser policial?
- Polícia… você arrisca sua vida e as pessoas nem reconhecem o seu esforço. Ser um herói não é mais a mesma coisa nos dias de hoje.
Ficaram um tempo em silêncio. Leon lembrou-se dos tempos em que era policial.
- Também fui um policial. Mas por apenas um dia.
- E eu achei que eu era ruim.
- De alguma forma me envolvi no incidente em Raccoon City no meu primeiro dia de corporação.
- Foi o incidente do vazamento de um vírus, certo? Acho que já vi algumas amostras deste vírus.
Então a conversa dos dois foi interrompida por um barulho de ferro arrastando no chão. Os dois olharam para o local de onde o barulho viera. Estava entrando na sala um aldeão, carregando um machado. Mas o estranho é que estava sangrando por um dos olhos. E não era pouco. O sangue estava manchando toda a sua roupa. Como os outros que Leon encontrou, ele dizia a mesma coisa.
- Vou te matar.
Ele veio caminhando vagarosamente com o machado arrastando no chão. Era evidente que não estava nada bem, pois caminhava com dificuldade. Enquanto isso, Leon e o outro prisioneiro tentavam se soltar a todo custo, pois se não fizessem nada, seriam partidos ao meio por aquele aldeão. O prisioneiro falou.
- Faça alguma coisa, policial.
- Depois de você. Agora.
Os dois se inclinaram para frente enquanto o camponês erguia o machado. Ele desceu a arma com todo o peso do corpo e acertou apenas a corda, libertando os dois, que rolaram pelo chão. O aldeão se levantou novamente e partiu na direção de Leon com o machado pronto para desferir mais um ataque. Mas desta vez, Leon acertou o aldeão com o pé e o atirou na direção da parede. Ele caiu de cabeça no chão e morreu. Luis Sera saiu correndo. Leon ficou sozinho na sala apenas pensando no que ocorrera. Mais uma vez escapou da morte por pouco. Mas continuava se perguntando até quando conseguiria? Foi então que o transmissor tocou.
- Aqui é Leon. Sinto não ter entrado em contato antes, mas eu estava um pouco… amarrado.
- Você está bem?
- Estou bem. Havia um homem mantido prisioneiro. De acordo do ele, Ashley está em uma igreja, em algum lugar por aqui.
- O que aconteceu com ele?
- Conseguiu fugir.
- Você tem a localização da igreja?
- Não, mas aparentemente existe uma passagem secreta que leva da vila até ela. Estou voltando para a vila.
Leon desligou o rádio transmissor e passou a procurar a saída da casa. Aparentemente não estava na mesma casa onde fora apanhado com Sera, pois esta era de alvenaria, apesar de não estar no melhor estado também. A pintura estava toda descascada, como todas as outras casas. As janelas estavam parcialmente cobertas por tábuas de madeira. Não havia mobília, a não ser algumas ferramentas agrícolas. Continuou caminhando até achar a porta que dava para fora. A porta era de madeira. Abriu-a e saiu para um pátio. Era todo cercado por um muro de tijolos com uma cerca de arame farpado na parte superior. Um portão era a saída daquele pátio. O que iria encontrar lá do outro lado? Bem, não importava. Teria de ir igual. Antes de atravessar o portão, espiou por uma brecha que havia no muro. E viu uma verdadeira multidão de aldeões. Bem, de qualquer modo, teria de atravessar. Apanhou o binóculo. Dava para enxergar um portão do outro lado.
O portão era de ferro e um tanto pesado. Leon tomou o cuidado de abri-lo fazendo menos barulho que conseguisse, pois não queria enfrentar todos ao mesmo tempo. Não adiantou. Assim que colocou o pé do outro lado do muro, acabou tendo uma recepção bem calorosa, pena que não muito amigável. O jeito foi tentar esquivar dos golpes dos aldeões e evitar a maior parte dos combates. Tentaria passar por eles o mais rápido que conseguisse, pois não queria desperdiçar munição matando todos, e sabia que o único jeito de chegar ao vilarejo era passando por ali. Não tinha volta. Não podia desistir. Tinha de encontrar a filha do presidente. O problema é que alguns dos aldeões estavam armados com dinamites. Estes, ele teria de matar, caso contrário, nem queria pensar no que poderia acontecer.
Mas o que era aquele cenário? Um emaranhado de pontes de madeira, que levavam a pequenas casas também de madeira, com telhados de zinco. Sobre elas havia mais aldeões e muitos, com bananas de dinamite. Teria de correr e muito. Chegou ao caminho de terra novamente. E este se dividia em dois, contornando uma casa. Quando passou por ela, vários aldeões apareceram como que do nada e bloquearam sua passagem. Olhou sobre o ombro e todos os que haviam deixado para trás o haviam alcançado. Estava cercado. Então, a salvação apareceu onde Leon menos esperava. Havia uma longa escada de madeira que conduzia até uma plataforma. Sim, antes havia um aldeão ali. Estava observando os movimentos do visitante, mas saiu dali quando foram bloquear o caminho da saída. O agente subiu o mais rápido que pôde. Agora estava com todos os aldeões na mira, como um atirador. Só que seus perseguidores tomaram uma atitude ainda mais estranha. Como que tomados por uma fúria que os privava do mais lúcido dos raciocínios, começaram a escalar a escada para apanhar Leon. O agente nem precisou gastar muita munição, pois na maior parte dos casos, se livrou deles, os esfaqueando quando chegavam ao topo da escada. Sem dúvida, aquelas pessoas tinham algo errado. Não estavam raciocinando como deveriam. Ninguém seria tão estúpido ao ponto de se atirar assim em perseguição ao seu alvo. Eles tinham de estar sofrendo alguma espécie de controle externo. Após acabar, saltou. Olhou para a esquerda e viu o portão. Só que mais uma vez, apareceram vários aldeões. Então, Leon percebeu que estavam todos próximos a um tonel vermelho. Deveria ser alguma espécie de explosivo. Atirou nele e tudo o que estava por perto foi pelos ares. A saída estava livre. O americano se apressou e atravessou o portão.
Do outro lado do portão, o cenário não era muito diferente. O chão de terra seguia, com algum mato pelos lados. Alguns barracos de madeira também estavam por ali. Leon caminhou com extremo cuidado, pois se houvesse alguém de emboscada, poderia ser facilmente surpreendido. Desta vez não havia ninguém. O agente caminhou e examinou bem o local. Estava tudo quieto. Quieto de mais. E isso não era bom. Não podia baixar a guarda. Tinha de ficar sempre atento, por mais que estivesse em um local aparentemente seguro, sem ninguém por perto. Aqueles aldeões sabiam se esconder e sair no momento exato para pegarem sua vítima de surpresa. E sabia que a qualquer momento, alguém poderia saltar de onde menos se espera e tentar acertá-lo, mesmo com aquelas armas improvisadas, como foices e arados. Aproximou-se de outro portão. O que havia do outro lado? Agora Leon tinha certeza que haveria outra recepção agitada. Era só abrir o portão para surgir gente de todos os lados. Pelo menos era o que estava esperando.
Mais uma vez, a surpresa. Não tinha ninguém ali. Como assim? Todos estavam lá naquele emaranhado de pontes? Não podia ser. Estava tudo quieto. Estava em uma sala. A construção agora era toda em alvenaria. Mas o estado era péssimo, como tudo o que vira até então. Não chegara a ver uma casa ou uma única construção em bom estado. As paredes tinham buracos, onde era possível ver a malha de metal que a sustentava. Tinha alguns móveis ali também, mas todos no mesmo estado de todos os que foram vistos. Eram velhos, estavam empoeirados e parecia estarem apodrecendo. Chegou a uma porta de ferro. Até agora ninguém apareceu. Estaria o local deserto? Estaria abandonado? Leon achava que não. O que o estaria aguardando do outro lado? Abriu a porta com cuidado.
Nem bem entrou e estava sendo esperado por um dos aldeões. Este estava aparentemente desarmado. Mas veio para cima de Leon com a mesma fúria dos demais. Matou-o com um tiro na cabeça. Chegou a um corredor, onde mais uns cinco aldeões o esperavam. Tinha uma parede demolida do lado esquerdo do corredor, onde viu mais alguns inimigos chegando. Teria de se livrar deles. Carregou a arma o mais rápido que pôde e mirou na cabeça deles para gastar o mínimo de munição que poderia. Escapou de alguns golpes de arado e de um machado que veio voando em sua direção por muito pouco, mas conseguiu dar cabo dos atacantes.
Passou pelo corredor até chegar em frente a duas janelas de vidro. Não tinha ninguém ali. Tudo estava quieto. Teria de pular para o outro lado das janelas. Antes, chegou perto e espiou. Parecia estar vazio o lugar, mas a visão era extremamente limitada. Havia muitas caixas empilhadas no outro lado, que as tornavam ótimos esconderijos em potencial. Os aldeões poderiam estar escondidos ali facilmente. Teria de saltar de qualquer modo. Era a única maneira de chegar à igreja e resgatar Ashley. Os vidros estavam fechados. Não tinha como abrir pelo lado que estava. Teria de quebrá-los. Correu para trás e se projetou para as janelas. Encolheu o corpo e quebrou os vidros. Ao cair no chão em uma pequena sala que havia ali, rolou e se levantou o mais rápido que conseguiu. Não queria servir de alvo a possíveis ataques. Quando se levantou, teve uma surpresa nada agradável.
Havia uns cinco aldeões escondidos na sala, sendo que dois deles estavam armados com dinamites. Teve de mirar primeiro neles. Um já tinha acendido seu explosivo, de modo que quando foi atingido e caiu, não demorou para haver uma explosão, matando mais dois aldeões, inclusive o outro que estava armado com a dinamite. Esta nem chegou a ser acesa. Tinha algumas barricadas feitas com sacos pano, atrás dos quais os aldeões se escondiam. Leon, depois de matá-los, começou a atravessar aquela sala. No entanto, ainda tinha perigo. O chão escuro camuflava uma série de armadilhas para ursos. Teria de tomar o máximo cuidado para não cair em nenhuma delas. Não tinha tempo de ficar desarmando todas, mas um descuido e poderia ficar sem a perna. Atravessou o lugar com toda a atenção do mundo. Passou por dois fornos enormes que estavam acesos. Conseguiu sair daquela sala. Entrou em outra.
Agora, o piso era mais baixo, e havia água ali. Não conseguiria caminhar em absoluto silêncio, por causa dela. Seria ouvido, mas por outro lado, se alguém se aproximasse, poderia saber também. A final, se os seus passos eram denunciados pela água, os dos aldeões também seriam. Chegou até outra porta sem ver ninguém. Abriu-a e chegou a uma escada. Era toda em pedra. As paredes dos dois lados também. Havia alguns canos nas paredes que acompanhavam o relevo do chão. Mais a frente, lâmpadas iluminavam o caminho. A escada dava em um corredor, que virava à direita. Ao sair dele, deparou com uma área mais ampla, com uma cerca em madeira e uma escada que levava até a um rio, alguns metros a baixo. E um aldeão o esperando sobre uma espécie de ponte de madeira ao lado do cercado. Leon o matou com um tiro na cabeça. Depois avançou por esta ponte até uma escada de escalar, que vinha desde o chão lá em baixo, na água.
Quando terminou de subir, estava novamente na superfície. Saíra de dentro de um poço. O cenário era o mesmo de antes, mas agora Leon até se sentiu melhor. Estava se sentindo asfixiado naqueles locais claustrofóbicos por onde havia passado. Sentia-se mais livre agora, sem aquelas paredes velhas ao seu redor. Havia um cercado de madeira. O chão era todo de terra, sem vegetação alguma de cobertura do solo. Havia um caminho que o levava até uma casa, com árvores ao redor, todas sem folhas nos galhos e alguns corvos estavam descansando, seja no chão, ou nos galhos dessas árvores. Todavia as duas primeiras tinham uma armadilha. Se Leon passasse por elas, uma bomba iria explodir. Atirou em uma delas bem de longe e apenas se protegeu da explosão. Pronto. Caminho livre. No entanto, quando deu mais alguns passos, se deparou com mais armadilhas para ursos. Esses aldeões estavam precavidos. Esperavam ser atacados? Passou por elas.
Chegou a uma grande casa de alvenaria. Tinha dois pisos. A pintura estava ruim, mas parecia em melhor estado do que todas as que vira até então. Ao lado da porta, era possível ver uma roda de carroça escorada na parede. A porta era de madeira e estava aberta. Uma escada se apresentava para que chegasse. De quem seria a residência? Quem morava ali? Parecia ser uma pessoa importante. O telhado era de telhas de barro. A janela de vidro estava fechada. Mas por que a porta estava aberta? Será que o estariam esperando? O jeito era entrar e descobrir. Leon se dirigiu até a escada de madeira, se certificando a cada passo que dava que ninguém o surpreenderia. Passou por um telhado sobre alguns troncos de madeira deitados. Seriam para fazer lenha, supôs. Olhou atentamente, mas não tinha ninguém ali. Continuou até a porta da casa.
A escada ficava entre duas paredes. Chegando ao topo dela, deparou-se com uma pequena peça, onde havia apenas uma vela na parede. Tinha outra porta. Para abri-la, teria de fazer uma combinação, para que um símbolo dentro de uma bola de vidro ficasse de acordo. Leon vira um símbolo antes, e procurou deixar aquele da bola de vidro igual ao que tinha visto. Dito e feito, quando conseguiu alinhá-lo, a porta se abriu.
Entrou em um quarto de dormir. Desta vez, a pintura da parede estava em bom estado. Era a primeira casa que vira assim desde que chegou ao vilarejo. A mobília, toda de madeira, parecia ser sofisticada. Era de um estilo clássico, mas podia-se notar que o material era bom. As paredes eram ornamentadas por vários quadros, dos quais se destacava o de um homem vestindo uma túnica roxa, com um capuz. Quem seria? Deveria ser algum líder daqueles homens, pois vira vários quadros iguais nas casas dos aldeões. Então, Leon se deparou com uma espécie de porta joias aberto e uma chave lá dentro. Essa chave tinha aquele símbolo que estava presente nas bandeiras por onde passara e na porta da igreja, onde os aldeões entraram quando soou o sino. Igreja essa que Leon estava desconfiado que fosse na verdade uma passagem secreta para fora do vilarejo. E que levasse à igreja onde Ashley estava em cativeiro. Teve certeza que essa chave abriria aquela porta. Passou por uma estante e ficou admirado com o número de livros presentes ali. Sem dúvidas, o dono da casa era uma pessoa culta. Inclusive, muitos daqueles livros eram escritos em inglês. Isso era surpreendente. Quem seria o dono daquela casa? Chegou perto de uma porta de ferro. O que haveria do outro lado? Leon parou um pouco, colocou o ouvido para escutar algo, mas não ouviu nada. O agente apanhou um bilhete assinado por Bitores Mendez, chefe do povoado.
“Como instruído por Lorde Saddler, estou com o agente confinado, vivo. Por que mantê-lo vivo?! Eu não entendi completamente quais são as intenções do Lorde. Mas pensei, contudo, que ele quisesse mantê-los separados. Não confinados juntos, como foi ordenado.
Não acredito que Luis confie em um estranho, mas se porventura eles se ajudarem, a situação pode ficar um pouco mais complicada. Se, por alguma razão, uma terceira pessoa estiver envolvida, não acredito que eles deixem uma chance dessas escapar.
Mas talvez seja tudo um plano de Lorde Saddler. Deixando-nos vulneráveis para que esta terceira pessoa se revele, isto é, se ela realmente existe… É uma possibilidade improvável, mas se houver um gatuno entre nós, então nossos planos podem ser arruinados.
Acho que o Lorde pensa que o risco vale a pena, se conseguirmos impedir qualquer que seja a conspiração que estiver em ação.
De qualquer modo, é uma ordem do Lorde, confiaremos no julgamento dele, como sempre.”

Leon abriu a porta com extremo cuidado. Entrou pé ante pé no corredor em frente ao quarto. Dava para ouvir algumas pessoas falando em espanhol. Deviam estar no andar de baixo. As paredes eram decoradas com um papel de parede, que estava começando a descascar na parte de baixo. Vários quadros as adornavam, entre os quais, chamou a atenção o do chefe do vilarejo. Aquele homem que o surpreendeu enquanto conversava com Luis Sera. Sim, era ele. Careca, com um olho de cada cor e a barba que descia até o peito. Ficou um tempo pensando em como um homem podia ser tão forte? Ainda se lembrava de como seu chute fora parado com apenas uma das mãos daquele sujeito. Foi quando sentiu que ouviu um passo atrás e se virou, mas nem teve tempo de ver quem era. Uma mão gigantesca envolveu seu pescoço. Sentiu que seus pés não estavam mais tocando o chão. Estava sendo erguido. Era Mendez.
Bitores Mendez levantou Leon do chão e começou a estrangulá-lo. Ficou fitando o agente americano enquanto apertava o seu pescoço. Foi neste momento que algo chamou a atenção do dono da casa. Os olhos de Leon mudaram de cor. De azuis, passaram a vermelhos. Então, o chefe do vilarejo largou o americano no chão e ficou o observando por alguns segundos antes de falar.
Leon ficou tossindo, se contorcendo no chão, tentando se recuperar do susto e da dor que sentia no pescoço, enquanto ouviu algo que não entenderia agora, mas mais tarde.
- Parece que em suas veias corre o mesmo sangue que em nós. De qualquer forma, ainda é um forasteiro. Lembre-se: se tornar-se um incômodo aos nossos olhos, enfrentará severas consequências.
Enquanto dizia isso, Bitores Mendes apontou o dedo para Leon, fitando-o atentamente. Então, virou as costas e saiu, deixando Leon se perguntando sobre o mesmo sangue correr nas veias dele e do chefe do vilarejo. Não estava entendo nada. Mas o que importava é que estava vivo. Tinha sido poupado por Mendez. O motivo, não entendia.


Capítulo 13

O transmissor tocou. Era Hunnigan.
- Leon, consegui algumas informações que podem ajudar.
- Diga.
- Aparentemente há um grupo religioso envolvido no caso. Se chamam “Os Illuminados”.
- “Os Iluminados”? Não tinham um nome melhor? Encontrei o chefe deste vilarejo há pouco.
- Mas você está bem, certo?
- Sim. Ele poderia ter me matado, mas me deixou viver. Mencionou algo sobre correr nas minhas veias o mesmo sangue que nas deles. Não sei o que isso significa.
- Corre o mesmo sangue… interessante.
- De qualquer maneira, tem coisas mais importantes a resolver do que isto agora.
- Está certo. Apresse-se e encontre a igreja.
Dito isso, desligou o transmissor. Leon olhou melhor para o corredor. Na outra extremidade, havia um quadro. O mesmo do homem da túnica roxa. Quem seria ele? Com certeza era superior ao chefe da vila. Parecia ser adorado pelos aldeões. Seria o fundador da ordem religiosa envolvida no caso? Provavelmente sim. Havia um tapete vermelho no chão, que só agora fora notado. Teria de seguir o homem que quase o matara. Mas desta vez tinha a impressão que o chefe do vilarejo não pouparia mais sua vida. Não daria tanta sorte de novo. Aliás, a sorte estava mesmo do seu lado. Mais uma vez deixara de morrer. Até quando continuaria? Não sabia, mas era preciso depender cada vez menos da boa fortuna. A final de contas, não é sempre que a sorte está sorrindo.
Mendez entrou justamente no quadro de onde Leon acabara de sair. Iria segui-lo? Para onde estava indo? Por outro lado, seria arriscado de mais. Quase morrera nas mãos daquele homem, que lhe dera um aviso para parar de se intrometer nos assuntos deles. Mas teria de desobedecê-lo. Sim, teria de arriscar sua vida. Esse era o seu trabalho. E teria de tentar resgatar Ashley de qualquer maneira. Nem que morresse tentando. Se não estivesse disposto a se arriscar, estaria em outro emprego qualquer, menos nesse. Caminhou furtivamente até a porta e abriu-a com cuidado, tentando não ser notado pelo dono da casa. A final de contas, sim, precisava se arriscar, mas não necessitava ser suicida também.
Só que nem bem colocou os pés dentro do quarto, foi atingido no rosto por Bitores Mendez. Será que o chefe do vilarejo sabia que seria seguido e o estava esperando? Leon disparou a arma sem direção, acertando um dos quadros com a imagem do homem da túnica. Então, caiu de costas no chão e a pistola voou de seu alcance. Antes que pudesse tentar se levantar e apanhá-la novamente, Mendez pisou no peito do agente com tanta força que o prendeu no chão. O dono da casa tinha pés enormes. Bem, para um homem de quase dois metros e meio, não chega a surpreender. Leon ficou sem ar, não conseguia sequer puxar o fôlego. Sentiu que seus ossos das costelas estavam sendo comprimidos. Iriam quebrar sem demora. Morreria ali, provavelmente. Agora a sorte acabou? Era o que se perguntava. Entretanto, mais uma vez, algo aconteceria. Ouviu dois tiros, que atingiram Mendez na altura do ombro, pelas costas. O chefe da aldeia se virou para trás. Leon quase conseguiu ver alguém na janela. Como poderia ser? Seria uma alucinação? Não, de fato, Bitores Mendez fora atingido por dois disparos, pois aliviou a pressão sobre o peito do agente e se virou para a janela. Então o dono da casa correu para lá e saltou para tentar atingir a pessoa que o ferira, sem sucesso. Aparentemente essa pessoa estava pendurada em uma espécie de gancho e se projetou para cima na hora em que o dono da casa saltou. Quem seria essa pessoa que salvou a vida de Leon? O agente não sabia, mas já lhe era grato. Não fosse por aquela distração, estaria morto agora, sem dúvidas. Enquanto ainda recuperava o fôlego, Leon saiu do quarto. Tinha de encontrar o caminho para aquela igreja, custasse o que custasse. E tinha, de uma vez por todas, que tomar mais cuidado. Já parara de contar o número de vezes que o acaso e a sorte lhe salvaram a vida. O que importava é que não morrera, mas tinha de ser mais cauteloso. Da próxima vez, poderia não ter acaso, nem sorte que conseguissem evitar o pior.
Desceu por uma escada toda acarpetada. Sim, sem dúvidas essa era a casa do chefe do vilarejo. Além de estar em muito melhor estado, tinha certo aspecto luxuoso que não poderia ser encontrado em uma moradia de um simples aldeão. Quando Leon terminou de descer a escada, um quadro lhe chamou a atenção. Era um retrato de um cemitério com uma igreja a cima de uma colina. O lugar era parecido com o vilarejo, inclusive pela vegetação, ou melhor, pela falta dela. Não havia grama, apenas terra, nem flores. Observou os túmulos com aquele símbolo que já vira tantas vezes desde que chegou. As árvores tinham os troncos sem folhas, como as outras do lugar. E a igreja ficava ao fundo do cenário. Sim, sem dúvidas era no vilarejo. E era o local onde deveria ir. Seria ali que estava confinada Ashley Graham? Esperava que sim e que ela estivesse bem. Era por enquanto a única pista para seguir sua missão de resgate. Teria de chegar a essa igreja, custasse o que custasse.
Leon aproveitou para dar uma observada no local. Caminhando, passou por uma mesa. Havia pratos e talheres sobre a mesa, além de taças e uma garrafa de vinho. Produtos bons, pelo que pôde notar. Sim, essas pessoas se alimentam como pessoas normais. Ou seja, aparentemente, são normais. Usam talheres para comer, o que indica que continuam minimamente civilizadas. Caminhando mais pelo local, encontrou outra estante com livros, vários deles também escritos em inglês. O que indicava que, apesar do aspecto um tanto peculiar, Bitores Mendez era, sem dúvidas um homem esclarecido e de gosto refinado. E que aprecia arte, apesar dos inúmeros quadros com aquele homem da túnica roxa, de um gosto um tanto duvidoso.
Leon então saiu da casa e percebeu que estava sendo esperado. Que surpresa maravilhosa. Além de alguns aldeões sedentos por sangue, ainda havia mais um homem com aquela motosserra. Não sabia bem o motivo, mas além de usarem aquela espécie de saco na cabeça, eles eram extremamente resistentes e era preciso disparar vários tiros até matá-los. Esse não seria diferente. Além de ter de ser rápido o bastante para escapar da serra.
Havia um caminho de terra, como em todo o vilarejo, cercado por aquelas árvores sem folhas nos galhos e pequenas casas de madeira. Estava guardado por aldeões. Primeiro, apareceram aos poucos, sendo facilmente eliminados. Chegou até a entrada do vilarejo, onde já havia passado. Era ali que ficava a igreja que Leon desconfiava ser na verdade uma passagem secreta, pois era pequena. Segundo seu raciocínio, não comportaria toda aquela multidão que viu entrando quando passou pela primeira vez por ali. Sem contar que logo depois que eles passaram pela porta, não dava para escutar um único som vindo de dentro do local. Eles não podiam estar ali. Só que tinha um pequeno problema. A entrada do vilarejo estava bloqueada. Leon teria de dar um jeito de passar. Eram quatro aldeões. Não teria como eliminar a todos. Teria de ser rápido, atirar nos que estavam no centro do bloqueio e passar correndo pelos outros dois. Normalmente eles não eram muito rápidos. Conseguiu passar por eles, bem como planejou. E chegou a um portão. Estava trancado. Rapidamente, retirou o pedaço de pau que o trancava e o abriu. Tinha uma maneira de trancar o portão por dentro. Colocou a madeira, de modo que os aldeões que restaram não pudessem abri-lo. E então se virou para seguir até a igreja.
Só que a situação estava feia. Muito feia. Não era possível saber de onde saíram todos aqueles aldeões, mas o fato é que Leon estava completamente cercado por eles. Teria de correr. E muito. Atirar em alguns, torcendo para acertar na cabeça deles e matá-los da cara e chegar logo até a igreja. Lá, trancaria a porta por dentro, para evitar que o seguissem e teria de torcer para ela ser mesmo uma passagem secreta, pois se houvesse um culto e aldeões lá dentro, seria como cair em uma jaula com leões. Estaria morto antes de ver o que aconteceu.
Ao chegar à porta e ver novamente aquela insígnia, que devia simbolizar a ordem religiosa “Os Illuminados”, apanhou a chave e abriu a porta. Olhou para trás e avistou uma verdadeira multidão de aldeões vindo em sua direção enfurecidos. Entrou, fechou a porta o mais rápido que pôde e passou a chave. Agora, olhou para trás para se certificar que estava sozinho e para sua sorte, estava. Não tinha absolutamente ninguém dentro da igreja. O que comprovou sua tese de que ela na verdade era uma passagem secreta. Agora, teria de descobrir como sair dela e para onde essa passagem o levaria.
A mobília não era de uma igreja. Havia alguns barris, uma mesa com cadeiras ao seu redor e uma estante. As janelas eram pequenas e para o alívio de Leon, não teria como alguém entrar por elas. Por enquanto, estava seguro. A pintura por dentro estava apresentando sinais de infiltração. Havia uma porta de madeira na outra extremidade do recinto. O agente americano foi até ela e a abriu. Do outro lado, um pequeno local. As paredes apresentavam os mesmo sinais de infiltração. Havia alguns ganchos e algumas tábuas escoradas nas paredes, com prateleiras sobre elas, escorando alguns objetos. Parecia que poderiam cair a qualquer momento. Uma luminária com uma vela dentro estava pendurada por uma corrente que descia do teto. E então, no chão, estava uma tampa. Sim, provavelmente de um alçapão, que o levaria à dita passagem secreta.
Sendo assim, quando levantou a tampa, a visão não o surpreendeu. Apenas confirmou sua expectativa. Sim, havia uma escada que dava para um caminho subterrâneo. Era uma espécie de túnel, iluminado por velas. Deve ser frequentemente utilizado, pois elas devem ser trocadas periodicamente. Caso contrário, o caminho ficaria escuro quando se apagassem. Seja como for, eles pelo jeito, são realmente tão humanos como ele, pois têm a mesma dificuldade de enxergar no escuro. Passou por algumas galerias, um lago e outras entradas nas paredes no caminho. Caminhou com toda a atenção que podia. Sempre tinha em mente o fato que era a primeira vez que andava por ali, mas que os aldeões conheciam aquele caminho como a palma da mão. Assim, seria fácil armar uma emboscada ali em baixo. Mas aparentemente não havia ninguém ali. Estava tudo quieto, o que deixava Leon preocupado. Sempre tinha a impressão de estar sendo observado. Talvez fosse sua imaginação, mas sempre preferira as situações onde seus inimigos se revelam, do que quando ficam escondidos, mesmo que no primeiro caso, fossem em maior número. Continuou caminhando, sempre tomando o cuidado de se certificar de que não havia ninguém escondido nas fendas do caminho, bem como de olhar por cima do ombro para ver que não estava sendo seguido. O caminho seguiu até uma escada de escalar. Aparentemente bastante longa. Devia sair em um lugar próximo daquela igreja.
Saiu em um poço dentro de uma pequena cabana. Logo que pôs os pés para fora, deu de cara com o cemitério e a igreja da pintura que vira no quadro pendurado na parede da casa de Bitores Mendez. Sim, não havia dúvidas de que realmente era esse o lugar. Era idêntico. Havia um cercado ao redor do cemitério. Os túmulos eram subterrâneos, de modo que apenas era possível ver as lápides. Cada uma delas tinha uma insígnia no topo, indicando alguma mensagem. Corvos voavam pelo local. Havia alguns sobre as lápides e descansando nos galhos das arvores. Todas estavam sem folhas. Curiosamente não havia uma só flor nas tumbas. Geralmente se colocam coroas de flores nos túmulos dos entes queridos. Não era o caso destes. A cima de uma colina estava a igreja a dominar todo o local. Deveria ter sido uma igreja Católica, a final, os espanhóis são muito religiosos normalmente, mas agora, servia àquela organização sinistra que estava por trás do sequestro de Ashley. O que pretendiam? Descobrir isto também era um de seus objetivos. Existia um caminho de terra que contornava o cemitério, com algumas casas de madeira. Ali dentro provavelmente alguns aldeões o estariam aguardando. Leon passou a caminhar com todo o cuidado, com a arma pronta para entrar em ação. Tudo parecia em silêncio, não fosse o crocitar dos corvos. Mas logo este silêncio foi quebrado.
Uma aldeã saiu de dentro da primeira casa com uma foice na mão, gritando para os outros a ouvirem que o forasteiro havia chegado. Logo viriam mais, portanto, Leon teria de se livrar dela o mais rápido que pudesse. Não chegou a ser um problema. Apesar da aparente fúria, os aldeões não tinham um treinamento militar e erravam com frequência seus ataques, se tornando alvos relativamente fáceis. Só dificultavam quando estavam em bandos. Mais um aldeão surgiu vindo da igreja. Mas estava desarmado e não chegou a ser difícil dar conta dele.
Então, Leon começou a subir a colina rumo à igreja. Agora o caminho passou a ser contornado por um gramado bem aparado e terminava em frente a um cercado alto, com um portão em frente à igreja. Dois aldeões estavam ali o esperando. Um deles estava armado com uma foice, outro com um arado. Precisaria se livrar pelo menos de um rápido, pois se deixasse os dois chegarem ao mesmo tempo, poderia ter problemas. Então, atingiu o que estava mais próximo na cabeça. Carregou rapidamente a arma e esperou o segundo chegar. Então, um terceiro chegou com uma banana de dinamite acesa. Estava a ponto de explodir, então, Leon mirou e acertou exatamente na mão deste homem fazendo com que o artefato explodisse , matando os dois. Assim, economizou um tiro.
A igreja era uma grandiosa obra. Uma pequena escada dava acesso à porta de madeira. Ela era alta, com uma torre onde havia um sino. Sim, fora ele que tocou e chamou os aldeões quando Leon estava cercado logo que entrou no vilarejo. Fora este sino que salvara sua vida naquela ocasião. Como de costume nas igrejas, havia vitrais nas janelas. Em frente à porta, ficava um telhado, sustentado por colunas, que deveria servir para acolher os fiéis no mau tempo. Tentou abrir a porta, sem sucesso. Então, Leon apanhou o transmissor e entrou em contato com Ingrid Hunnigan para relatar o que fizera e qual era a atual situação da missão.
- Hunnigan, aqui é Leon. A porta da igreja está trancada. Não consigo entrar.
- Não lhe ensinaram a arrombar fechaduras na academia?
- Acontece que não há uma fechadura. Parece que tem um entalhe na porta, onde deve-se encaixar algum objeto.
- Bem, não adianta ficar aí parado. Se Ashley está na igreja, tem de conseguir resgatá-la o quanto antes. Leon, você tem que encontrar alguma maneira de entrar nessa igreja.
Dito isso, desligou o transmissor. Sim, Leon teria de encontrar alguma maneira de entrar. Não adiantava saber que a filha do presidente estava ali e não conseguir entrar para resgatá-la. Então, saiu da frente da igreja e passou a contorná-la. Ela é toda feita em pedra, assim como o muro ao redor dela. Muro este que dava suporte à grade que rodeava tudo. Mais dois aldeões o esperavam com uma dinamite acesa. Leon nem perdeu tempo e atirou nela, fazendo os dois explodirem. Encontrou uma escultura em pedra, mas não havia nada nela. Teria de voltar. Então, fez o mesmo caminho de volta. Onde poderia encontrar o objeto que abriria a porta? Foi então que Leon percebeu que havia outro caminho ao lado do contorno da igreja. Esse descia. Também era rodeado por um muro gradeado. Era a única chance de encontrar a chave que daria acesso ao interior da igreja. Teria de ir.
O caminho terminava em uma ponte de madeira. Na verdade era um conjunto de tábuas sobre suportes que eram presos a palanques e cordas. Mas era alto, muito alto. E estava sendo aguardado por aldeões. Primeiro veio uma mulher com uma foice, que foi neutralizada com um tiro na cabeça. Mais dois aldeões vieram e Leon matou o primeiro e conseguiu derrubar o segundo. Ficou um tempo olhando enquanto ele caía até um rio que corria muitos metros abaixo da ponte. A ponte formava um caminho preso à encosta de um barranco. Havia algumas casinhas de madeira colocadas onde era possível no próprio barranco. Teria de passar com cuidado, olhando cuidadosamente uma por uma, pois poderiam perfeitamente servir de abrigo a um ou mais aldeões.
Leon entrou na casa que estava no barranco e encontrou uma espécie de carta dirigida aos aldeões. Era redigida por Bitores Mendez.
“Com relação aos dois fugitivos, a captura de Luis é nossa prioridade máxima. O agente americano é a segunda de longe. O que Luis roubou de nós é muito mais importante do que a garota.
Se não o pegarmos de volta, a garota se tornará inútil para nós. Precisamos recuperá-lo para executar nosso plano até o fim. Se chegar em mãos erradas, o mundo se tornará um lugar totalmente diferente do que Lorde Saddler previa.
Custe o que custar, não podemos deixar que isto aconteça.
No entanto, não descuidemos da garota, para garantir que o agente não chegue até ela. Eu tranquei a porta da igreja, onde a garota está sendo mantida.
Qualquer um que precisar acessar a igreja precisará primeiro ter a aprovação do Lorde Saddler.
Há uma chave depois do lago, mas deve estar a salvo, agora que o Del Lago fora acordado pelo nosso Lorde. Ninguém atravessará o lago vivo.
Além disso, nosso mesmo sangue corre pelas veias do agente. Será só uma questão de tempo até que ele se junte a nós. Assim que isso acontecer, não sobrará mais ninguém para vir atrás da garota.”

Então, Leon seguiu o caminho até chegar a uma plataforma de madeira, que terminava em uma porta. Em frente à porta, um aldeão o esperava e tentou atacá-lo, mas morreu antes mesmo de pensar em fazer isso. Leon não estava querendo perder tempo. Chegou à porta. O que o aguardaria do outro lado? Bem, teria de abrir a porta e entrar para saber. Não haveria outro jeito.
Deu de cara com uma espécie de corredor, todo em madeira e então saiu. Viu um local amplo, sem quase nada no centro, com o piso de pedra, mas com um cercado de madeira. Havia pequenas casas de madeira com o telhado de palha do lado direito e uma turma de corvos no chão. Leon passou a caminhar cuidadosamente, olhando para o interior de cada uma daquelas casas. Não tinha ninguém ali, aparentemente, mas ouvia um barulho intrigante. Não sabia dizer precisamente o que era, mas assustava. De quando em quando, se virava e olhava por cima do ombro para se certificar que ninguém o estava seguindo. Olhou para cima para tentar ver alguma coisa, mas nada. Além do cercado de troncos de árvore, ao redor, havia montanhas de pedra para todos os lados. Mas não tinha ninguém ali. Dirigiu-se a um portão aberto, todo em madeira. Estava com a porta presa por um tronco, que o mantinha aberto para cima. Chegou a um local que tinha duas saídas. Uma escada que dava para uma porta com a insígnia da organização religiosa e uma porta na sua frente.
A escada dava em uma porta com a insígnia que com certeza era o emblema da organização religiosa. Abriu e a atravessou. Tinha outra escada de madeira. Esta o levava até uma escada de escalar. Leon desceu-a. Caiu em um piso da madeira. Era uma plataforma, com vários caixotes empilhados e ao que parecia, dispostos aleatoriamente pelo local. Havia outros corredores com alguns cômodos, mas o agente não estava interessado em ficar passeando por ali. Deu uma olhada cuidadosa para ver se encontrava alguém ou se via alguma pista e procurou uma maneira de sair daquele lugar. Não tinha como sair dali, a não ser por onde entrou então, escalou a escada e subiu novamente ao local onde estava. Teria de usar a outra porta.
O caminho era estreito. Uma descida em meio a duas montanhas de pedra. Uma pequena casa de madeira ficava do seu lado direito, sem pintura alguma. Havia uma grama rala no chão e algumas árvores na beira do caminho, todas como sempre, sem uma única folha em seus galhos. Um nevoeiro à frente impedia de enxergar longe e denunciava a presença de um rio ou lago por perto. Passou a caminhar apressado. Pelo que podia ver, não teria como alguém se esconder naquela parte. Poderia correr. Foi então que ouviu um barulho vindo do alto das montanhas. Não podia acreditar. Eram aldeões empurrando uma pedra enorme, como acontecera no vilarejo. Teria de correr.
Conseguia ouvir o barulho da rocha esmagando tudo o que tinha em seu caminho, mas não podia olhar para trás e calcular a distância que tinha de folga. Apenas tinha de correr o mais rápido que conseguisse e tentar não tropeçar ou escorregar em nada que tivesse no chão, caso contrário, seria esmagado. Continuava correndo com toda a velocidade que conseguia empregar, sempre ouvindo a rocha atrás de si, esmagando os troncos de árvores por onde passava. Tinha de achar algum lugar para se esconder. Não conseguiria escapar correndo, pois não importava o quão veloz conseguia ser, a pedra sempre seria mais. Escutava ela chegando cada vez mais perto. O barulho ia ficando mais alto. Estava com medo de não conseguir. Estava chegando, iria achatá-lo. Tinha de conseguir. Tinha de ser mais rápido, mas suas pernas não conseguiam ir além do que estava indo. A rocha estava chegando. Jogou-se no chão em um declive no terreno e deu sorte. A rocha quicou e passou por cima de Leon. Estava salvo. Estava?
Quando levantou, continuou caminhando. Ainda estava ofegante, com o coração batendo acelerado. A adrenalina ainda elevada. Olhou rapidamente para os lados e então, se concentrou no que estava por vir. Via a frente, um rio e sobre ele, uma plataforma de madeira. A cerração fechada sobre a água o impedia de ver muita coisa, mas era possível ver um aldeão na entrada da plataforma. Com certeza, não devia ser o único. Pelas sombras, poria perceber que havia alguns abrigos no local, que poderiam esconder outras pessoas. Teria de ter o máximo de cuidado ao atravessar o local, pois com a visibilidade baixa e por não conhecer o local, poderia ser mais facilmente surpreendido por aqueles aldeões. Era evidente que no momento, o elemento surpresa era a principal arma que eles tinham à sua disposição.
Subiu sobre a plataforma. Era uma espécie de ponte que ligava uma margem do rio à outra, mas com escadas que davam dentro da água e alguns abrigos dos lados. Iria passar por eles sempre tomando o cuidado de verificar se não tinha ninguém dentro e nunca se esquecendo de dar uma espiada atrás para se certificar de não estar sendo seguido. Um aldeão estava na água e usou a escada para chegar até onde Leon estava. O agente se virou e quase foi surpreendido. Deu um chute no seu atacante, que caiu em uma armadilha. Houve uma explosão e o aldeão morreu. Leon se virou para o outro lado e de onde veio, uma verdadeira multidão estava chegando. Eram com certeza, do grupo que empurrou a pedra.
Leon então procurou atirar de longe ainda neles, visto que os aldeões não usam com frequência armas mais sofisticadas. Não conseguiram usar o elemento surpresa. Tinham só a vantagem numérica como trunfo. Apesar disso, o agente ficou em um local que dificultaria a ação deles em tentar cercá-lo, pois longe das escadas, eles teriam obrigatoriamente de vir pela ponte, o que os colocaria sempre de frente para o americano. E teriam de vir no máximo de dois lado a lado. Não tinha espaço para mais gente. Assim, não seria tão difícil se livrar daqueles ali.
Então, conseguiu chegar ao outro lado da margem. O cenário era uma continuação do que vira até então. Um caminho de terra, com uma grama rala dos lados, casinhas de madeira na beira da estrada e aldeões o esperando. Leon avançou até o primeiro. O segundo saiu de dentro da casa. Não teve trabalho para eliminar os dois. Das primeiras vezes não gostava de matar aqueles homens, pois sempre pensava que eram seres humanos e não os zumbis que enfrentou em Raccoon City. Mas nem pensava mais nisso agora. Até por que havia algo naqueles homens que os tornava quase próximos aos da pequena cidade dos Estados Unidos. Eles estavam vivos, mas tinha algo de anormal neles. Algo que os tornava próximos de seres irracionais. Pelo menos quando tinham seu alvo à sua frente. Sim, nesse momento pareciam os zumbis, com uma grande diferença. Estes sabiam o que estavam fazendo, não agiam simplesmente por impulso, como os mortos vivos. Sabiam inclusive agir em conjunto, usar o terreno, armar emboscadas e manejar armas.
Aquela cerração fechada o incomodava. Era muito difícil enxergar à frente. Continuou caminhando, agora subindo, pois o terreno passou a ser em aclive. Caminhou até chegar a um portão de madeira, cercado por duas montanhas de pedra. Aproximou-se e abriu. Não pensava que seria tão difícil entrar naquela igreja. E nem tinha parado para pensar no comunicado que lera antes, quando passava por aquela ponte de madeira próxima à igreja falando de uma espécie de monstro do lago que estaria protegendo a chave. Não tinha muito tempo para essas reflexões. Teria de chegar lá de qualquer maneira, com ou sem monstro no lago.
Do outro lado do portão, seguia a subida entre as montanhas de pedra, com as árvores sem folhas. Mas pelo menos, a cerração se dissipara e sua visão agora era nítida. Antes de seguir, se certificou de dar uma boa olhada para as partes superiores do terreno. Não queria ter de fugir de uma terceira rocha jogada em sua direção. Desta vez não viu ninguém. Então, como de costume, cuidando as árvores, os abrigos de madeira e o mato, Leon avançou com cuidado para não ser surpreendido por algum aldeão. A final de contas, as armas deles podiam ser improvisadas, mas ser ferido por uma foice ou um arado, lhe causaria um grande dano. Foi então que chegou ao topo do aclive. Parou na beirada e ficou observando um lago ao longe. Apanhou seu binóculo, pois teve a impressão de ver um barco.
Sim, era um barco pequeno, com dois aldeões. Eles estavam apanhando alguma coisa. O que? Era um dos policiais que haviam chegado com Leon ao povoado. O que iriam fazer? Parecia óbvio. Iriam jogar o corpo no lago. Mas com que finalidade? Se livrar dele? Mas ficaria boiando ali. Ficou observando um tempo para ver o que ocorria. Não demorou para ter a resposta. Com certo esforço, os dois aldeões jogaram o corpo do policial na água, deram meia volta com o barco e saíram dali o mais rápido que conseguiram. Pareciam com medo. Leon ficou alguns segundos intrigado, apenas olhando o corpo do policial boiando na água. Foi quando algo começou a acontecer. Aquele corpo inerte parecia tremer, como se algo estivesse mexendo a água. Foi quando uma forma surgiu de dentro do lago e abocanhou aquele corpo morto, voltando em seguida para dentro da água. O agente não conseguiu identificar direito o que era, mas deu para notar que tinha proporções enormes. Era o tal monstro do lago referido no comunicado de Bitores Mendez deixado naquela casa na ponte ao lado da igreja. E o pior. A única maneira de chegar até a chave que destranca a porta da igreja é passando por aquele lago. E pelo monstro. Teria de passar por ali de qualquer maneira. Mas como? Bem, não iria adiantar ficar ali pensando. A chave não viria por conta. Teria de ir.
Leon deu meia volta e desceu o caminho até uma bifurcação. Desviou de onde viera e tomou outro rumo. Passou por algumas pequenas casas de madeira e então viu uma maior que ficava junto de uma plataforma de madeira. Ao lado da plataforma, havia um pequeno barco. É, não teria jeito. Teria de subir e navegar até a outra margem, passando por que quer que fosse que estivesse no fundo daquele lago. E teria de contrariar o que estava no bilhete que dizia “ninguém passará vivo pelo lago”. Teria de passar. Era questão de ou ter sucesso na missão ou morrer tentando.
O agente subiu no barco e ligou o motor. Bem, agora era ir para frente e tentar chegar novamente até a igreja. O barco começou a percorrer o caminho. Leon olhou ao redor e não viu movimentação alguma na água. Continuou. E então começou a ouvir alguma coisa se movendo no fundo. Só podia ser o “Del Lago”, como era referido no bilhete. Teria de enfrentar o monstro. Leon começou a olhar para os lados, para ver por onde a criatura surgiria, sem saber que ela na verdade estava bem debaixo do barco.
Foi quando o Del Lago passou pelo barco e saltou bem em frente ao agente, quase o derrubando na água. Como se não bastasse, a âncora que prendia o barco se enroscou na cauda do monstro, fazendo com que o barco o seguisse para onde fosse. Dentro da embarcação havia arpões. Leon tentaria ferir o monstro com ele. Mas não era uma tarefa das mais fáceis, pois tratava-se de uma criatura extremamente rápida na água. Todavia, Leon conseguiu atingi-lo. Ferir o monstro o deixaria mais lento, pois o faria perder sangue. Del Lago submergiu, sumindo da visão de Leon. Momento de tensão. De onde ele surgiria? O agente ficou prestando atenção agora não ao que via mas às vibrações na água. Procurou sentir e notar cada movimento na superfície do lago. Então, começou a sentir algo embaixo do barco. Acelerou e saiu para o lado e bem onde estava, surgiu o monstro. Ele era mais inteligente do que parecia. E veio na direção da embarcação, com a boca aberta. Leon resolveu arriscar tudo. Apanhou o arpão e mirou dentro da boca do animal. Esperou até chegar bem perto e atirou com toda a força, puxando o barco para a direita com o máximo de rapidez que conseguiu. Viu o arpão entrar na boca do animal, que pareceu gritar de dor ao ser cortado por dentro. Del Lago se contorceu na superfície ainda antes de afundar, morto.
Mas quando o monstro afundou, a corda da âncora se prendeu no pé de Leon. Teria de ser rápido em cortá-la para não ir fazer companhia ao monstro no fundo do lago. E a corda estava esticando em alta velocidade. Tinha de ser muito rápido. Tirou a faca da bainha que sempre levava consigo e começou a cortar a corda. Era muito grossa. Daria tempo? Tinha de dar. Passou a cortar o mais rápido que conseguia. Já estava começando a ser puxado, quando conseguiu cortá-la. O monstro foi para o fundo sozinho. A corda desceu e Leon se deitou no barco e respirou fundo. Ficou um tempo olhando para o céu, apenas respirando aliviado. Entretanto, sabia que não poderia se demorar ali. Mas estava sentindo-se mal. Não estava pensando direito. Olhou para frente e viu um portão na outra margem, mas voltou. Iria se abrigar um pouco na cabana. Até se sentir melhor, pois desconfiava que não teria como seguir naquele estado. Tinha de descansar um pouco.
Ao sair do barco, estava sentindo dores terríveis pelo corpo e começou a tossir. Teria sido resultado da luta com Del Lago? Não podia ser. Por mais cansado e estressado que estivesse, não era motivo para causar aqueles sintomas. Parecia acometido por alguma doença. Algo dentro do seu corpo. Quando olhou para a mão após tossir, viu que havia escarrado sangue. O que? “O nosso sangue corre por suas veias.” “Logo se juntará a nós.” Essas frases vieram à sua memória. Abriu a porta e entrou na casa. Nem se preocupou e verificar se havia mais alguém ali. Simplesmente caiu de joelhos no chão e de repente, tudo ficou escuro.

Capítulo 14

Ashley acordou. Em um primeiro momento, parecia ainda estar sonhando. Sentia a cabeça pesada e os olhos foram abrindo aos poucos. Seu corpo estava meio dormente e ela tinha a sensação de estar toda formigando. Então, se deu conta de que estava acordando. E que não via nada. Olhou para os lados, mas quando se virou para o lado direito, sentiu uma fisgada no pescoço. Então, passou a mão no local e sentiu dor com uma ardência. Era como se algo a tivesse picado ali. Estava sentada no chão. Não via nada, mas era um chão duro e gelado. Tateou o piso e a parede onde estava encostada e viu que era tudo de pedra. A filha do presidente dos Estados Unidos arregalou os olhos e tentou enxergar algo, mas não conseguia. Quanto tempo ela dormiu? Era impossível saber. Onde estava? Não fazia a menor ideia. Foi então, que as lembranças do que ocorreu começaram a brotar em sua memória. Sim, ela fora sequestrada.
Então, de repente, logo que acordou, ela começou a ouvir vozes. O que estavam dizendo? Não conseguia entender. Ashley se aproximou da porta. Parecia que repetiam sempre a mesma coisa. Falavam todos juntos. Era um grupo de pessoas. Aos poucos, seus olhos começaram a se adaptar à escuridão. Viu que estava em uma sala. Não tinha quase nenhuma mobília ali, exceto algumas prateleiras e barris de madeira. Ela mais tateou do que viu. Que lugar seria este? Não tinha como saber. Procurou escutar melhor o que falavam para procurar começar a descobrir qualquer coisa que fosse. Mas ouviu só uma frase repetida muitas vezes. “Morir es vivir”. Repetiam isso. Então, uma coisa a filha do presidente norte americano descobriu. Eles falam em espanhol. Portanto, devia estar em algum local onde esta língua é predominante. Mas em que local?
Estaria em outro país? Teriam a levado ao México? Ou algum país mais distante, como a América do Sul? Ou quem sabe, para aquele país comunista? Sim, só podia ser. Eles odeiam os Estados Unidos, não? Sempre ouvira falar que Cuba era um dos países que patrocinava o terrorismo. Não seria de estranhar que quisessem sequestrar a filha do presidente dos Estados Unidos para quererem chantageá-lo. Mas ela tinha a firme convicção de que alguém iria buscá-la. Mas que lugar seria esse? Alguma espécie de cadeia? O porão de algum lugar? Sim, ela estudou que estes países latino-americanos em dado momento de sua história, tiveram revoluções financiadas pelo seu país, como no Brasil, na Argentina, no Chile e outros. [Nota-se que Ashley Graham desconhece que o idioma oficial do Brasil seja o português]. E nesses casos, os prisioneiros eram levados para serem torturados em porões. Seria esse o caso? Poderia ser. O local era escuro, úmido, frio. Era todo em pedra bruta, pelo que ela pôde notar. Tinha de ser algum local escondido em uma delegacia ou prisão. Então de repente, ouviu um barulho na fechadura. Alguém estava a abrindo. Ashley ficou tensa. Seu coração começou a bater rápido. O que veria? Quem entraria ali? Iriam fazer perguntas a ela? Iriam obrigá-la a falar alguma coisa que comprometesse seu pai?
Então, a porta se abriu e a claridade que entrou, ofuscou os olhos da garota. Seu primeiro movimento foi abaixar a cabeça e fechar os olhos. Aos poucos, ela foi conseguindo olhar para frente e o que ela viu foi algo que a surpreendeu. Esperava ver soldados, guerrilheiros ou até mesmo capangas dos seus sequestradores. Mas ela viu… monges. Dois deles. Como assim? Ela foi sequestrada por monges? Mas eram. Ou pelo menos, se vestiam como tais. Usavam um hábito preto, eram carecas e calçavam sandálias. Ashley olhou por cima deles e deu para ver a parte de fora do local onde estava. Parecia haver um grande lustre pendente do teto. Não dava para ver todo ele, pois ficava abaixo do nível em que estava. Então viu que cometera um erro. Não estava no porão, mas no segundo andar de algum local. E pelo jeito, tratava-se de uma igreja. Isso a deixou ainda mais confusa. Seus sequestradores eram monges. Ela estava presa em uma igreja. Isso não era nem um pouco normal.
Os dois monges apenas ficaram olhando para ela, que permanecia imóvel. Ela olhou para os dois antes de começar a fazer perguntas.
- Que lugar é esse? Quem são vocês? O que querem?
Os monges permaneciam impassíveis. Quietos, não manifestavam um único sinal em seu rosto. Parecia estarem usando máscaras. Ela continuou.
- Vão me manter prisioneira? Por quanto tempo? Qual é o preço para me libertarem?
Silêncio. Os monges não falavam. Ela ficou se perguntando se eles haviam feito voto de silêncio. Mas ouvira antes eles falando. Eram eles? De repente um terceiro homem apareceu. Este não era monge. Alto, muito alto. Usava um sobretudo marrom. Era careca e tinha uma barba preta que ia até o peito. Seus olhos eram um de cada cor, mas um deles não se movia. Era um olho de vidro, ou seja lá de que material que fosse. Não era natural. Tudo isso dava ao homem uma aparência que não era somente sinistra, mas horrível. Ele então, encarou Ashley.
- A senhorita acordou.
Ashley então, olhou para o homem.
- Você fala.
- Eles também. Mas só o que é necessário.
- Então digam o que vocês querem.
- Quem vai dizer isso é o Lorde.
- Pode me dizer onde estou? Estamos no México? Em Cuba? Em algum país da América do Sul?
Bitores Mendez ficou um tempo olhando para ela, sem entender, a princípio. Então, respondeu.
- Estamos em El Pueblo, em nossa igreja. Sou o prefeito do vilarejo.
- Certo, mas que país é este?
- A Espanha. A senhorita está na Espanha. Somos espanhóis, se é que não deu para perceber.
- Acontece que não são apenas os espanhóis que falam seu idioma.
Depois disso, fez-se silêncio. Ashley se deu conta. Estava na Espanha. Na Europa. Muito longe de casa. Quanto tempo ela dormira? E mais. Por que algum grupo espanhol a sequestraria?
- O que vocês planejam fazer comigo?
- Somente Lorde Saddler sabe dos planos. Nós apenas cumprimos o que ele ordena.
- Se vão me manter prisioneira, vou ficar aqui? E se eu quiser ir ao banheiro?
Mendes apontou para um pinico. Havia uma pia no canto da sala com uma toalha.
- De tempos em tempos, um de nossos encarregados virá ver como está e se é necessário trazer água, comida ou limpar o recipiente.
Bitores Mendez se dirigiu aos monges.
- Vamos, acendam as velas para que ela possa enxergar algo e tranquem a porta.
Os dois monges começaram a caminhar lentamente antes de responderem.
- Sim, mestre.
Eles acenderam duas velas que estavam sobre uma mesa. Em seguida, se dirigiram à porta. Ashley foi atrás deles.
- Meu pai vai mandar vir me resgatar. Vocês vão ver.
Mas a porta fechou e tudo ficou quieto novamente. Mas agora ela sabia onde estava. Ou pelo menos onde disseram que ela estava. Só que não conseguia entender o motivo de religiosos estarem por trás do seu sequestro. E quem é aquele homem? Por sinal, que cara horrível, pensou a garota. Se a intenção deles era deixá-la com medo, conseguiram. O tal prefeito do vilarejo assusta qualquer pessoa.
Os dias seguiram. Quantos? Ashley não sabia dizer. Nem sabia quando era dia e quando era noite. Vez por outra, monges entravam ali trazer comida e água e levarem o penico. Depois o traziam de volta. Às vezes eram pessoas do vilarejo. Uma mulher com um longo vestido azul claro vinha. Ela tinha o cabelo preto comprido. Usava um pano na cabeça e prendia o cabelo em forma de rabo de cavalo. Mas assim como os monges, ela também não falava nada. No entanto, um dia ela pareceu diferente.
Estava com um ar de assustada. Entrou com uma jarra com água e colocou sobre a mesa. Depois, ficou parada olhando para Ashley. E, para a surpresa da garota, a mulher perguntou:
- O que a senhorita faz aqui?
Ashley tinha noções de espanhol e tentou se comunicar com a mulher.
- Me trouxeram aqui. Sou americana.
A mulher pareceu surpresa. Mas ela já havia vindo. Como não sabia? Então, a aldeã continuou:
- Está acontecendo alguma coisa estranha aqui no vilarejo. As pessoas estão ficando violentas. Não sei o que é. Mas agora eu estou vendo. Está ficando perigoso morar aqui.
Ashley ficou intrigada com o que ouvira.
- Como assim?
- As pessoas atacam e matam todos que são de fora. O nosso prefeito era um homem muito bom, mas de uns tempos para cá, ele está estranho. Eu notei isso há uns dois dias. E desde então, estou tentando dar um jeito de ir embora. Mas não é fácil.
- Se você conseguir, teria como eu ir junto?
- Eu gostaria, mas não acho que vou conseguir. Agora vou ir. Ele não pode saber que estamos conversando. Vai me castigar.
A mulher saiu e nunca mais Ashley a viu. Será que ela conseguiu fugir? Algo lá no fundo dizia que não, mas a garota queria acreditar que sim. O mais provável é que descobriram que a aldeã estava diferente e a castigaram. Como? Provavelmente a torturaram e mataram. Era isso o mais provável. Mas a filha do presidente dos Estados Unidos queria pensar que a mulher conseguira escapar.
A partir daí, tudo voltou ao normal. Ninguém mais falou com ela. Os monges vinham a intervalos regulares e limpavam o penico, traziam água e comida. Mas não dirigiam uma única palavra. Ela notou que no escuro, os olhos deles brilhavam e ficavam vermelhos, como o soldado. Sim, ela vira por poucos instantes, mas o olho daquele soldado ficou vermelho. Tinha algo de anormal neles. Os monges também eram extremamente pálidos, tinham olheiras e eram muito magros. Todos se pareciam. O que havia de errado, no entanto, não tinha como saber. Então, Ashley se lembrou de que os olhos da mulher que falou com ela não estavam vermelhos, nem quando ela ficou no escuro. Ela estava diferente.
A incerteza do que a esperava era o mais angustiante. Por acaso iriam matá-la? Seu pai faria o que esse grupo terrorista pedisse para ter sua filha de volta? Claro que sim. Mas estes terroristas iriam devolvê-la? Iriam cumprir com sua palavra depois que o presidente dos Estados Unidos pagasse o resgate ou fizesse o que fosse preciso para libertá-la? Ashley tinha medo de pensar na resposta. E às vezes apenas se perguntava. Por que eu? Não podiam esperar até a eleição passar e sequestrar a filha do futuro presidente? Então, ela pensava em como estava sendo egoísta. Mas não. Era apenas instinto de sobrevivência.
O local era desconfortável. Tinha de dormir no chão de pedra. Estava ficando com uma dor nas costas insuportável. Se não fosse jovem e saudável, provavelmente já estaria com a coluna, os rins e os pulmões seriamente comprometidos. Pensou em fazer greve de fome e não comer nada nem beber a água que traziam. Mas pensando bem, se ficasse doente, iria deixar seu pai desolado quando fosse libertada. Queria estar saudável quando voltasse. Se voltasse. E quando pensava em saudável, era o mais saudável possível. Sentia-se extremamente constrangida de ter de usar o penico, mas não tinha alternativa. Era o jeito. Era um pesadelo. Mas ela tinha certeza de que iria acordar dele mais cedo ou mais tarde. Sim, isso teria de acabar.
Então, um dia, o inesperado aconteceu. Primeiro, ela ouviu tiros vindos do lado de fora. Alguém estava ali. E lutava contra os homens que cercavam a igreja. Mas de repente, os tiros pararam. Será que a pessoa que viera fora morta? Não podia ser. Então, depois de algum tempo, os tiros reiniciaram. Não demorou até que passaram para o lado de dentro. Sim, a pessoa que lutava contra seus sequestradores estava dentro da igreja. Ela ficou com o ouvido colado à porta. Então, ouviu passos. Era alguém usando salto alto. Era uma mulher. Os passos pararam em frente à porta. Depois seguiram a diante. De repente o sino tocou. E Ashley não ouviu mais passos. Tudo ficou novamente em silêncio.
Mas algum tempo depois, Ashley ouviu tiros novamente. Alguém passou ao lado da igreja, mas não ficou. As horas passaram. Alguma coisa estava acontecendo. Ashley começou a torcer desesperadamente para que alguém viesse. Tinha certeza que veria alguém que a tiraria dali. Sim. Tinha certeza disso. Então, de repente, os tiros recomeçaram. Ela ouviu cães latindo, rosnando e sendo mortos. Aldeões atacando alguém e mais tiros. Então, a porta da frente se abriu novamente. Momentos depois, ouviu o som de uma porta de grade sendo aberta. E de novo, alguém parou em frente à porta. Ashley sentiu medo.
De repente, a porta se abriu. Um homem olhou cautelosamente para dentro. Estava com uma pistola na mão. Era alto, louro de olhos azuis. Vestia um colete cinza e uma calça jeans. O cabelo caía sobre a sobrancelha do homem, ficando um pouco à frente do olho. Quem seria? Ashley lembrou-se daquele que a sequestrou. Estaria junto com ele? Ela não queria saber. Ao que tudo indicava, a garota não podia confiar em ninguém. Então, atirou um objeto na porta e correu para se esconder. Abaixou-se entre dois barris. O homem chamou pelo seu nome. Seria diferente dos outros? Ele falou alguma coisa, mas Ashley só entendeu quando disse que fora mandado pelo seu pai para resgatá-la. Então, ela se levantou. Seria verdade?
- Meu pai?
Ela caminhou na direção do homem, que apanhou uma espécie de transmissor e falou que encontrara a filha do presidente e que precisava saber o local de encontro para poder levá-la de volta. Nem precisou perguntar o nome dele, pois assim que iniciara o diálogo com quem quer que fosse que estava do outro lado da linha, ele disse. Era Leon. Seria quem a levaria para casa?


Capítulo 15

Leon estava ainda deitado no chão da casa. Deve ter perdido os sentidos. Não conseguia abrir bem os olhos ainda. O corpo parecia pesar toneladas. Foi então, que sentiu como se fosse vomitar. Tossiu e acabou sentando no chão. Sentia dores pelo corpo e tinha a impressão que a cabeça iria estourar. A respiração ainda estava ofegante e o ar parecia doer quando era aspirado. O que aconteceu? Quanto tempo ficara desacordado? Dera muita sorte de não ter aparecido ninguém ali. Devem ter pensado que o monstro o matou, por isso não se preocuparam em vir no seu encalço. Se o tivessem encontrado desmaiado, teria sido uma presa muito fácil. Mas o que importava é que estava vivo.
De repente, sentiu uma presença. Foi como se alguém tivesse passado por Leon enquanto ele estava de cabeça baixa. Olhou ao redor, mas estava sozinho. No entanto, tinha certeza que vira uma sombra passar. Não podia ter sido sua imaginação. Alguém estava o observando. Mas quem? Não era um aldeão, caso contrário, o teria matado sem pensar duas vezes. Se havia realmente alguém ali, só podia ser uma pessoa que não queria matá-lo. Se fosse amigo, teria se manifestado. Pensou em Mendez, mas olhando em volta, não viu ninguém.
Então, as dores no corpo voltaram e com uma intensidade tremenda. Era como se houvesse alguma coisa dentro do corpo de Leon. Algum ser estranho. O que era? As dores ficavam cada vez mais fortes. O agente se curvou e ficou prostrado de joelhos, sem sequer pensar. Apenas se contorcia de dor. Começou a sentir uma comichão nos braços, nas veias, como se o seu sangue estivesse fervendo. Então olhou para os membros e começaram a aparecer contornos vermelhos. Eram exatamente suas veias. Pareciam que iriam saltar. O que estava acontecendo? Começou a gritar e então… acordou.
O agente se levantou lentamente, enquanto olhava ao redor. Fora apenas um sonho. E pelo visto, já estava totalmente recuperado e pronto para voltar ao combate. Sentia-se renovado. Estava precisando descansar, apesar de saber que não poderia ficar se dando esses luxos. Logo que ficou em pé, seu transmissor tocou. Era Hunnigan.
- Leon, já se passaram seis horas desde a última transmissão. Comecei a ficar preocupada.
Leon então ficou um tempo pensativo antes de responder. Seis horas? Era possível? Ficara desmaiado por seis horas? Dera muita sorte de ninguém ter vindo até a casa. Olhou pela janela e constatou que já era noite. Agora sua missão ficaria ainda mais difícil, pois teria de ir até a igreja à noite. A iluminação seria precária e os inimigos certamente utilizariam a escuridão para se esconder e preparar emboscadas. Teria que ficar muito esperto.
- Preocupada comigo? Estava me sentindo mal. Devo ter perdido a consciência por algum tempo.
- Como assim perdido a consciência? Talvez tenha alguma ligação com o que o chefe do vilarejo falou de você.
- Talvez, mas estou bem agora e vou continuar a missão.
Desligou. Antes de sair da casa, Leon avistou uma carta deixada sobre uma cama. Não se lembrava de tê-la visto quando esteve ali antes de enfrentar o monstro. E depois, bem, não se lembra praticamente de como entrou na casa. Era uma carta. Não continha assinatura. Apanhou-a para ler.
“Há um item importante escondido na cachoeira, se você conseguir chegar até lá, poderá tirar Ashley da igreja. Mas devo avisá-lo, a rota para a igreja não é um passeio no parque, de forma alguma. Eles criaram o que chamam de "El Gigante", então que Deus o abençoe.
Sobre o que está acontecendo em seu corpo, se eu pudesse ajudá-lo, eu o faria. Mas infelizmente isso está fora do meu alcance.”
Quem escrevera? Quem era a pessoa que deixara aquela carta ali? Quando o fizera? Foi enquanto lutava com o monstro? Pouco provável, pois não poderia prever que Leon voltaria àquele local. Certamente deixou aquela carta ali enquanto estava desacordado. E estaria querendo ajudá-lo a troco de quê? Seria simplesmente uma alma bondosa? E o que estava acontecendo com o seu corpo? Sim, sentia-se estranho há algumas horas. Mas aquele estado em que ficou após sair do barco não podia ser mesmo só cansaço e nervosismo causados pela luta com o monstro do lago. Agora confirmava que realmente tinha algo de errado com ele. Mas o que? Será que de alguma forma fora contaminado por o que quer que fosse que dominava aqueles homens da aldeia? Será que acabaria se tornando um deles? Foi então que se lembrou de um dos bilhetes deixados por Bitores Mendez em que afirmava que o agente logo se juntaria a eles e então ninguém mais viria atrás de Ashley. Complementou isso com a frase que o próprio Mendez dissera na casa sobre terem o mesmo sangue nas veias. Só podia ser. Leon estava, de alguma forma, contaminado pelo que dominava aqueles homens. Por isso tinha de correr e salvar a filha do presidente. Para cumprir sua missão antes que se tornasse um assassino, como aqueles pobres camponeses. Essa ideia o aterrorizou. Era como o caso de Raccoon City? Em que as pessoas viravam zumbis? Aqui elas se tornavam aqueles psicopatas sanguinários? Procurou afastar esse pensamento da cabeça e focar no que importava. Terminar sua missão. E depois, bem, isso não importava agora.
Leon saiu da casa. Era noite e estava chovendo, para complicar ainda mais. Teria de caminhar no meio do mato, em estradas de terra com chuva, o que poderia diminuir sua mobilidade. Por outro lado, diminuía a dos aldeões também. Só que eles eram em maior número. Mas se a carta estava certa, teria de passar em outro lugar antes de voltar. Teria de apanhar o objeto para abrir a porta da igreja. Essa era a finalidade de sua vinda.
O caminho até nem parecia mais o mesmo. A visibilidade estava muito ruim, apesar de haver algumas tochas perto das casas de madeira. Quem as acendeu? Não estavam ali quando viera. Por acaso alguém veio ali? Mas como não o viu? E quem foi que deixou aquela carta? Essas perguntas ainda ficavam na cabeça de Leon enquanto caminhava, sempre observando tudo ao seu redor. Foi quando ouviu barulhos no mato dos lados da estrada. Olhou, com o revólver em punho, pronto para atirar. Não viu ninguém. Mas sabia que estava sendo observado. Podia perceber algum movimento nos arredores. Quem estaria ali? Ou até, o que estaria ali? Ficou um tempo parado, apenas checando tudo. Sim, estava sendo rodeado. Via movimentações na vegetação, mas como estava escuro, não era possível ver quase nada. Só que dava para ouvir que havia um grupo se movimentando ali. Então ouviu algo que o deixou intrigado. Era um grunhido. Não eram pessoas, parecia um… rosnado. Então começou a ver pequenos sinais brilhantes no mato. Estavam se aproximando. Eram cães? Que ótimo. Vários deles. E não pareciam nenhum pouco amistosos. Vinham todos eles com os dentes arreganhados e rosnando. Caminhando lentamente, como um predador cercando sua vítima. Só que agora ele é que era a caça. Ficou estático. Quase nem respirava. Sabia que qualquer movimento em falso agora, significaria levar uma bela mordida. Esse expediente fora muito utilizado pela Umbrela. Lançar cães infectados contra seus inimigos. Esses não pareciam anormais, apenas ferozes. Podem ter sido treinados para atacarem quaisquer pessoas estranhas. Mesmo assim, não podia facilitar. Sentia o coração batendo acelerado. Sabia que cada movimento tinha de ser preciso e precisava dar um tiro em cada cão e matá-los na hora. Caso contrário, estaria perdido.
Então um deles saltou na estrada e algo terrivelmente estranho ocorreu. Saiu algo das costas do animal. Pareciam tentáculos. O que era aquilo? Sim, aqueles cães não eram normais. Estavam infectados com alguma coisa. Não eram como os da Umbrela, mas estavam sendo usados com o mesmo propósito. Teria de agir. E rápido. Não teve dúvidas, correu o mais rápido que pôde até o barco, que estava próximo. Os cães quase o alcançaram, mas conseguiu chegar à pequena embarcação, ligou o motor e se afastou do píer. Os cães chegaram até a beirada, mas não pularam atrás dele. Eram espertos. Não caíram na água. Por outro lado, ficaram ali no atracadouro. Bem, não deviam saber que o barco tinha arpões. Leon apanhou as armas e agora estava em uma posição segura para se livrar daqueles animais, ou melhor, daquelas criaturas.
Depois de se livrar dos cães, voltou ao caminho. Continuou caminhando com todo o cuidado, se certificando de que não teria outras surpresas desagradáveis. Não viu mais movimentação nenhuma na vegetação ao redor da estrada. Mesmo assim, mantinha seu revolver pronto para atirar, caso precisasse. Abriu o colete e verificou quantas granadas ainda havia. Não poderia desperdiçá-las. Tinha dentre elas, duas cegadoras, que apesar de não fazerem praticamente nenhum dano, eram extremamente úteis. Continuou caminhando até chegar a um portão alto de madeira, com duas tochas, uma de cada lado. Também tinha a insígnia do movimento religioso, indicando que tudo por ali era dominado por eles. Abriu para ver o que tinha do outro lado e continuar avançando.
Agora o caminho tinha bastante vegetação. Na verdade, mato. Dos lados da estrada, se erguiam duas montanhas de pedra. Havia tochas com fogueiras pelo trajeto, mas que forneciam uma parca iluminação. Leon prosseguiu tomando o cuidado de sempre olhar bem para os lados e para trás. A final de contas, a vegetação poderia esconder além dos aldeões, os cães também. Teria de ficar atento a qualquer movimentação suspeita e a qualquer ruído que parecesse estranho. De olhos bem abertos, caminhava com a arma em prontidão. Foi quando um dos aldeões apareceu vindo em sua direção. De frente.
Só que ele não parecia nada bem. Nada bem mesmo. Começou a se contorcer. Parecia estar sentindo fortes dores na cabeça. O que estava acontecendo com aquele homem? Leon sentiu medo em imaginar o que seria, mesmo sabendo que logo iria ver do que se tratava. Após intermináveis segundos naquela agonia, a cabeça do aldeão se partiu ao meio. O que era aquilo? E ele continuou caminhando, como se nada tivesse acontecido. Só que do seu pescoço, surgiu uma coisa. Sim, coisa era a melhor definição que o agente conseguia encontrar. Não sabia como descrever o que foi que brotou do pescoço daquele camponês. Era evidente que tinha alguma ligação com aquilo que saiu das costas daqueles cães que o cercaram. Sim, agora pelo menos suas dúvidas se dissiparam. Estes homens estavam infectados com alguma coisa. Coisa essa que devia controlar eles.
A coisa que ficou no lugar da cabeça do aldeão era uma espécie de cabeça monstruosa. Sem olhos, nariz ou boca. Era apenas uma espécie de suporte para algo que lembravam chicotes. Aqueles mesmos que saíam das costas dos cães que matara pouco antes. E agora? Teria de atirar exatamente naquela coisa. Seria o jeito. Tudo indicava que neste momento, o corpo do homem deveria estar sendo controlado por aquele estranho ser que saía do seu pescoço. Se o matasse, mataria o corpo junto. Deu um tiro certeiro e a coisa explodiu. O corpo caminhou mais alguns passos e esticou os braços como que querendo agarrar o pescoço de Leon, mas em seguida, caiu sem vida no chão.
Outro aldeão surgiu atrás daquele. Este parecia estar mais normal. Avançou com um machado para atacá-lo. Leon se preparou e atirou na cabeça dele. Teria sido como de costume se não fosse o fato de que depois de ter a cabeça estourada pelo tiro, o corpo continuou caminhando e correu na direção do agente, que se desviou do ataque. Então, Leon viu novamente surgir aquela estranha criatura saindo do pescoço do aldeão, como acabara de acontecer. Perfeito, Agora não poderia mais mirar na cabeça dos aldeões. Teria de matá-los de outras formas. Teve de colocar aquele ser na mira e acertar. Sim, tinha de ser certeiro, pois nem queria saber o que ocorreria se eles chegassem perto o suficiente para lhe desferir um ataque. Atirou e a coisa explodiu. Então, quando mirou na criatura, percebeu que havia espécies de pontas de lanças nas pontas dos chicotes. Sentiu arrepios só de pensar no que aconteceria se errasse o tiro e permitisse que o aldeão chegasse perto e pudesse usar aquelas lanças para atacar. Era melhor não ficar pensando nisso.
Leon chegou até uma escada de madeira, que ia até o topo de uma espécie de coluna de tijolos. Tratava-se de uma represa de rio. Havia três colunas através das quais, a água corria. Para chegar ao outro lado, o agente teria de saltar sobre elas. Não eram tão longe umas das outras, mas teria de se concentrar para executar os saltos. O menor erro e cairia na água. E teria de lutar contra a correnteza, que parecia estar bem forte. Olhou bem ao redor para se certificar de que não havia mais ninguém ali e saltou a primeira. Quando ficou na coluna do meio, mais uma vez olhou em volta. Não queria ser surpreendido no meio de um salto. Então, saltou para a outra e dali para a escada. Atravessou o rio.
O caminho seguia na margem. Do lado esquerdo, ficavam as águas revoltas do rio. Do lado direito, uma montanha. Leon passou a caminhar com mais rapidez, pois pelo menos por enquanto, só poderia haver pessoas o esperando à frente. Do rio, ninguém viria. Bem, pelo menos ninguém humano. Mas tantas coisas malucas já tinham acontecido desde que chegou, que nem chegava a duvidar de mais nada. Chegou até outro local onde deveria atravessar o rio. Agora, tinha uma plataforma de madeira, uma de tijolos ao centro e outra de madeira na outra margem. Saltou rápido e cruzou as águas. Então chegou a uma beirada de um precipício. Olhou para baixo.
Havia caixas de madeira penduradas por cordas à sua direita. Tinha um piso de madeira sobre a água. Uma das caixas estava sobre uma espécie de guindaste, não sabia dizer exatamente o que era, mas ficava rodeando. Qual era a finalidade daquilo? Bem, não tinha tempo de ficar ali filosofando. Teria de agir. Olhou para baixo à sua frente. Tinha uma corda, para descer, provavelmente. E uma estrutura de madeira, com um aldeão caminhando sobre ela. Estaria ali esperando Leon, com certeza. Mas fora visto. Se o agente descesse sem olhar primeiro, poderia ter sido surpreendido. O aldeão poderia saltar às suas costas e feri-lo com um machado que estava carregando. Então, Leon deu um tiro nele ali de cima. Certeiro. Matou-o instantaneamente. A questão era saber se aquele homem ali era o único. Achava que não.
Começou a caminhar pelo local. Não havia mais ninguém aparentemente. Mas também não sabia como sair dali. Não estava pensando em voltar, pois o único caminho para se chegar ao tal objeto que abre a porta da igreja tinha de ser por ali. Não tinha como ser de outra forma. Enquanto ficou ali parado, Leon pensou que talvez não tivesse sido necessário enfrentar o monstro do lago, pois viera por terra até ali. Mas depois lembrou-se que para voltar, teria de ir de barco. E enfrentar aquele monstro à noite, seria muito pior. Agora o problema era como sair dali. Observou que bem no meio do rio, havia uma ponte de madeira. Mas como chegar até ela? Ficou observando ao redor, quando se deu conta de que as caixas estavam ali por algum propósito. Eram de madeira, pareciam ser leves. O agente atirou na corda que sustentava a mais próxima. Ela caiu na água e boiou. Então seguiu a correnteza até se prender em uma grade de metal, que ficava à esquerda de Leon. Sim, poderia saltar sobre ela, pois era grande. Foi que fez. Depois de se equilibrar, saltou até a ponte.
Na ponte de madeira, olhou para a direita e viu que tinha uma cascata. Aparentemente ela tapava a entrada para uma caverna. Teria alguma maneira de fazer aquela água diminuir o fluxo? Se continuasse assim, não faria sentido ter aquela entrada, pois ninguém conseguiria ultrapassar aquela barreira de água. Observou mais duas caixas de madeira penduradas em cordas. Repetiu o procedimento da primeira. Saltou sobre elas e conseguiu chegar à outra margem.
Lá, caminhou até uma escada de escalar. Sim, teria de subir. Lá provavelmente encontraria algo que facilitaria sua passagem para dentro da caverna. Bem, pelo menos era o que esperava. Subiu-a. Quando chegou, viu uma alavanca de ferro, com a extremidade de borracha verde. Estava virada para a esquerda. Leon moveu-a toda para a direita para ver o que ocorreria. Sim, alguma coisa iria acontecer. Passou-se alguns segundos e um mecanismo entrou em ação. Uma parte da água que descia da cascata foi desviada para uma roda d’água, que entrou em ação. A roda começou a movimentar uma engrenagem, fazendo com que uma espécie de represa caísse sobre o rio. O fluxo da água foi desviado e como resultado… a cascata que bloqueava a entrada da caverna secou. Agora, o agente poderia entrar lá. O que ele esqueceu é que se ele poderia entrar, quem estava dentro, poderia sair.
Rapidamente, o agente saltou de onde estava e correu para as caixas de madeira. Saltou sobre a primeira, depois sobre a segunda e enfim, para a ponte. Agora era só se dirigir até a entrada. Então, teve outra surpresa daquelas nada agradáveis que vinha tendo desde que chegou. De dentro da caverna, saiu uma verdadeira multidão de aldeões. Ele ouviu quando disseram.
- Agarrem-no. Não o deixem que escape.
Então, Leon teve outra vez a ideia que teve quando estava lá naquele emaranhado de pontes e plataformas logo depois de se libertar do cativeiro onde se encontrava com Luis Sera. Correu até a escada onde acionara o mecanismo e subiu. Esperaria os aldeões ali. Até porque agora, sabendo que eles na verdade agiam controlados por outro ser, sabia que aqueles homens não deviam estar no pleno uso de todas suas faculdades mentais. Iriam atrás deles cegamente, querendo matá-lo, sem pensar nas consequências. E foi assim que aconteceu. Tentaram subir as escadas para alcançá-lo e o agente pôde matar todos. Enquanto fazia, pensava apenas que eram bestas. Se algum dia tiveram humanidade, já a tinham perdido. E depois de ver o que aconteceu àqueles dois que o encontraram no caminho, não sentiu mas remorso. Sim, aquelas pessoas ali não viveriam muito mais tempo. Logo, aquela coisa que infectou seus corpos iria acabar destruindo seu hospedeiro. Quando terminou de eliminar aqueles aldeões, um pensamento horrível fez com que um calafrio percorresse a espinha de Leon. Se Bitores Mendez disse que ele carregava o mesmo sangue nas veias e depois do súbito mal estar que teve na cabana, que o deixou desacordado por nada menos que seis horas, a pergunta. Pergunta não, a constatação. Sim, o agente também estava infectado. Se não conseguisse terminar sua missão, acabaria ele próprio se tornando uma daquelas feras? Fariam com ele o que ele estava fazendo com aqueles camponeses? Bem, se Leon chegasse a virar uma daquelas coisas, esperava que sim. E pensou que isso era apenas uma questão de tempo. Por outro lado, como faria para enviar Ashley para casa? Não poderia ir junto. Se completasse a missão, talvez a melhor coisa que faria seria se suicidar para não acabar como uma marionete nas mãos da pessoa que comandava aqueles camponeses. Para não virar ele um perigo para seu país e para aqueles que confiavam em seus serviços. Mas não podia ficar pensando nisso. Não agora.
O americano então voltou à ponte de madeira. Agora parecia não haver mais ninguém ali. Caminhou até a entrada da caverna. Aquela ponte estava apodrecendo. Pudera, a madeira está em contato permanente com a água. Mesmo que passe sobre o rio, como é muito próxima a ele, a umidade acaba deteriorando a madeira. A cada passo que dava a ponte rangia. Leon até pensou que algumas tábuas pudessem quebrar quando pisava nelas. Mas não ocorreu. Conseguiu chegar até a entrada da caverna.
Havia um túnel escuro. Quase não havia claridade, a não ser uma bem fraca que vinha de algum lugar à frente. Não tinha praticamente visibilidade nenhuma. Aqueles aldeões que saíram dali carregavam tochas, por isso enxergavam ali dentro. Leon tinha de ter uma lanterna. Não poderia ter saído sem uma. Mas acreditou que seria rápido em resolver o caso. Jamais imaginou que se meteria em uma situação daquelas. Pensava que teria de negociar com algum terrorista ou algo do gênero, não com pessoas infectadas com sabe-se lá o que as tornavam quase feras humanas. Continuou o caminho.
Então chegou a uma espécie de sala. Sim, uma sala dentro de uma caverna. Tratava-se de uma galeria, ampla, toda iluminada com velas. Parecia que ali era realizada alguma espécie de culto. O que acontecia com aquelas pessoas? Será que ficaria assim também? Agora parecia ridículo. Mas sabia que também estava infectado. Olhou ao redor. Bem à sua frente, uma parede com o símbolo da organização religiosa do lugar. E no centro, um objeto redondo encaixado na parede da caverna. Sim, só podia ser ele. Deveria retirar o objeto e levá-lo. Usaria para abrir a porta da igreja e resgatar Ashley. Tinha de ser isso, pois tinha o mesmo formato do encaixe na porta da igreja e não podia ser tanta coincidência. E segundo a carta, o objeto devia estar por este lugar mesmo. Caminhou até seu alvo e o retirou da parede. E então, mais uma surpresa. A parede onde o objeto estava encaixado subiu, revelando outra passagem. O túnel continuava agora. Sim, deve ter sido por ali que os aldeões que o atacaram vieram. Leon apanhou o transmissor para entrar em contato com Hunnigan e relatar o progresso de sua missão.
- Consegui um objeto que contém a insígnia da seita religiosa local.
- Excelente, Leon. Regresse à Igreja o mais rápido que puder. A segurança de Ashley é nossa prioridade.
Leon desligou o transmissor e continuou o caminho. O túnel agora era iluminado por tochas, o que melhorava a visibilidade. Não tinha ninguém ali, pelo que podia ver, nem humano, nem animal. Chegou até uma porta, que também continha o símbolo da seita. Ao sair, encontrou um ancoradouro, com um pequeno barco atracado. Subiu nele para retornar o mais rápido possível à igreja, resgatar a filha do presidente e dar por concluída a missão. Retornou exatamente ao local de onde havia saído. Subiria as escadas e passaria por aquele local rodeado de pedras e troncos de árvores até o caminho que leva de volta à igreja. Só que não seria tão simples como Leon estava imaginando. Além das condições climáticas, muitas outras coisas haviam mudado desde que saíra dali. E o agente americano mais uma vez teria surpresas nem um pouco agradáveis.
Subiu as escadas e estava de volta àquele estranho cenário em meio a montanhas de perda, cercado de troncos de madeira. Foi caminhando até o outro lado, onde ficava a porta que conduzia àquele caminho suspenso de madeira que conduzia até a igreja. Foi quando ouviu um barulho estranho. Estando já no meio do caminho, parou e olhou para cima. Não viu nada. Então, o portão que dava acesso à saída se fechou. Quando se voltou para trás, o que havia acabado de cruzar se fechou também. Estava preso. O que o aguardava? Era óbvio que se tratava de uma armadilha. Como sair dela? O que teria de enfrentar?
Então, muitos aldeões saíram de dentro de uma porta gigantesca, carregando uma corda. Um dos que parecia estar coordenando o grupo, falava em voz alta, em espanhol:
- Rápido, rápido. Usem os músculos. Rápido, rápido.
Outro falou:
- Por aqui, por aqui.
O que eles estão trazendo para fora? Leon não via ainda, mas era evidente que aqueles aldeões mesmos temiam o que estavam tentando libertar, pois queriam fazer logo e saírem do local assim que pudessem. O que estava atrás daquela porta? A corda de repente se soltou das mãos deles e um dos camponeses. Gritou.
- Isso é loucura.
Então, Leon viu do que se tratava. Uma mão gigantesca socou a porta, arrebentando tudo o que tinha ali, inclusive uma parte da montanha de pedra. Logo atrás da mão, uma cabeçorra surgiu. O que era aquilo? Um gigante. Sim, ele lera algo que mencionava “El gigante”. Só podia ser ele. A criatura saiu de dentro da porta, arrebentando-a. Como Leon poderia enfrentar aquilo? Estava ficando apavorado.
Em um acesso de fúria, o gigante destroçou um dos aldeões com um soco. Desmanchou o homem. Depois, esmagou outro com a outra mão. Era uma fúria jamais vista por Leon antes. Não teria como sair vivo dali, estava pensando. O gigante chutou outro aldeão que se espatifou na parede. Agarrou um e o esmagou na mão, como se fosse um inseto. Pisou em outro e o último até tentou sair correndo, mas o monstro jogou aquele aldeão esmagado em cima dele com tanta força que o matou. Não sobrou nenhum dos camponeses. Depois disso, o gigante se virou para Leon e deu um soco que acertou apenas o ar, pois o agente conseguiu se esquivar. A criatura se virou para ele e deu um grito ensurdecedor. De quantos golpes como aquele Leon conseguiria se esquivar? Esperava que de todos. Teria de usar o estoque de granadas que tinha no colete.
Jogou a primeira, que explodiu, atingindo em cheio o gigante. Saiu correndo fora do alcance do monstro, que ficou atordoado. Então, assim que se recuperou, a criatura apanhou uma árvore e a usou como se fosse um taco de baseball. Leon conseguiu se esquivar. Foi por muito pouco. O gigante arrancou outra árvore e veio para cima do agente americano, que conseguiu esquivar. Passou perto mais uma vez. Para sua sorte ele era muito mais rápido que o monstro com que lutava. Mas por quanto tempo conseguiria esquivar dos ataques? Acabaria cansando uma hora. Esperava que o gigante cansasse primeiro, apesar de não estar com maiores esperanças. Mas lutaria com todas suas forças, empregaria toda sua experiência em combate e usaria todos os seus truques. Se tudo falhasse, pelo menos teria tentado. Quando Leon estava cercado, um cão uivou lá no topo da montanha de pedra. Perfeito, agora teria aqueles cães ainda. Mas de repente Leon olhou bem e viu que não eram aqueles animais que o cercaram depois da luta contra o monstro do lago. Era um muito parecido, ou melhor, o próprio cão que ele havia libertado de uma armadilha, logo que chegou ao povoado.
O gigante se distraiu e foi tentar pegar o cachorro, que desceu a montanha e ficou latindo para a criatura. Enquanto isso, Leon apanhou sua pistola e atirou na cabeça do gigante. O monstro acusou o golpe e pareceu ter sido acometido por terríveis dores. Não poderia ser somente os ferimentos causados pela pistola. O gigante botou as duas mãos na cabeça e ficou se contorcendo de dor, Se abaixou, parecia que iria desabar. Ficou ajoelhado, quase encostando a cabeça no chão. O que iria acontecer. De repente as costas da criatura se abriram e saiu alto da coluna dele. O que era aquilo? Leon instintivamente saltou sobre o gigante, apanhou sua faca e golpeou com força aquela coisa que estava saindo de dentro do monstro. O que quer que fosse, com certeza era isso o que dirigia os seus movimentos e que controlava sua mente. Deveria destruí-la.
Depois de vários golpes, o gigante começou a se reerguer, e Leon saltou para o chão. Será que não tinha surtido efeito algum? Mas foi então que o agente percebeu que o gigante começou a gritar de dor. Ergueu as mãos e ficou atordoado. O que estava acontecendo? E então, de repente… ele desabou, fazendo o chão tremer. Leon levou as mãos ao rosto, para se proteger e quando olhou, a criatura jazia imóvel, já sem vida. Parecia mentira. Conseguiu se livrar daquela coisa. Já estava quase se conformando com a ideia de que morreria ali. Mas conseguiu. Olhou para o cão. Teria conseguido se ele não aparecesse? Este ainda não estava infectado. Que bom. Dava a esperança de encontrar mais pessoas não infectadas, como Sera. Os portões abriram. Poderia seguir o caminho para a igreja. O cão saiu correndo por um deles. Mentalmente. Leon agradeceu por aquele cachorro ter salvado sua vida. Mas era hora de prosseguir com a missão.
Não demorou e logo estava naquele caminho suspenso de madeira que conduziria até a igreja. Tinha de correr, pois a vida de Ashley poderia estar em perigo. A final, agora sabia quem eram as pessoas que a mantinham refém. Por outro lado, pensou enquanto corria: eles não farão nada que seu manipulador não queira que façam. Quem quer que fosse que tinha o poder sobre a coisa que infectou os aldeões, tinha poder sobre os atos daquelas pessoas também. E Leon não acreditava que iriam querer matar Ashley. Não agora. Primeiro tentariam algum resgate ou algo do gênero. Ninguém assassina seu refém, a não ser que acabassem as alternativas. E não era o caso no momento. Quando passou pela casa encravada na montanha de pedra, ao lado do caminho, o agente tomou especial cuidado. Não queria ser surpreendido. Não havia ninguém. Até era estranho isso. Percorreu todo o caminho sem encontrar um único aldeão. Era muito bom para ser verdade. Alguma surpresa estava reservada. Nisso ele estava certo.
O caminho terminava logo à frente. Ali estava o gramado, Leon olhou para cima e viu a igreja. Era ali que tinha de entrar, e agora já tinha o objeto que abria a porta da frente. Mas o que o aguardava? Estariam o esperando? O agente ficou algum tempo refletindo, pensando em como entraria. Teria muitos aldeões na entrada? Olhou para o colete. Ainda tinha algumas granadas, incluindo cegadoras, incendiárias e explosivas. Teria de usar alguma delas? Qual? Não queria ficar na dependência delas, pois deveria ter sempre algumas de reserva. Planejou mentalmente como chegaria à entrada do templo. Se houvesse muitos aldeões, teria de atirar em alguns e entrar o mais rápido que conseguisse na igreja. Depois disso, trancaria a porta. Como ela estava trancada, não deveria ter ninguém lá dentro. Pelo menos é o que esperava. Somente o líder deles parece ter a outra chave. A não ser que ele mesmo estivesse ali, não acreditava que encontraria alguém do lado de dentro. Passou a caminhar em direção à igreja. Então, ouviu um barulho muito familiar. O que era? Algo correndo na grama. Cães. Que beleza.
Eram quatro, iguais aos que enfrentara logo depois da luta contra o Del Lago. Vieram correndo. Teria de ser rápido. Tinha de matar cada um com um tiro na cabeça. Recarregou a arma o mais rápido que pôde e mirou no primeiro. Quando o cão saltou, atirou, e ele caiu morto. O segundo fez a mesma coisa e também morreu. Os outros dois ficaram parados no começo da subida, apenas mostrando os dentes e rosnando para Leon. Essa era uma situação pior, pois se atirasse em um, o outro poderia atacar, sem contar que a chance de errar era grande. Se fizesse qualquer movimento, os dois poderiam saltar juntos. Ficou apenas olhando para os dentes dos cães e imaginando o que poderia fazer em uma situação daquelas. Se fizesse algum movimento, tinha de ser extremamente preciso. Qualquer erro agora seria fatal.
Lentamente, Leon começou a movimentar sua mão em direção ao interior do colete, onde possuía as granadas. Deu um passo para trás, sempre com os cães em seu campo de visão. Eles rosnaram mais alto, mas não saíram do lugar. O agente passou a torcer para que continuassem ali parados. Deu mais um passo para trás, então sentiu que estava entrando novamente na ponte. Agora tinha de cuidar mais ainda, pois não podia olhar para trás. Se o fizesse, provavelmente os cães saltariam sobre ele sem titubear. Mas sem olhar para onde estava pisando, poderia desabar metros até o rio. E pela correnteza forte das águas, poderia imaginar que havia muitas pedras, fazendo com que se esborrachasse na queda. Decidiu que não iria mais para trás, a menos que fosse necessário. Vagarosamente apanhou uma granada e a tirou do colete. Os cães deram um passo à frente. Pareciam prontos para atacar. Então, Leon puxou o pino para ativá-la furtivamente, jogou-a entre os cães, que ficaram olhando aquele objeto cair no meio deles. Então veio a explosão. O agente teve de se jogar no chão de tábuas e se agarrar para não despencar para o rio. Quando se levantou. Os dois cães estavam mortos. Caminho livre.
Depois de se livrar dos cães, Leon caminhou até a entrada da igreja, Olhando bem para os lados, se certificou de que não tinha ninguém ali. Então, subiu os degraus que levavam até a entrada do templo. Era a porta de madeira, com o orifício no centro, onde deveria colocar a chave. Apanhou-a de dentro de uma abertura dentro do colete e colocou-a no lugar. Agora era só abrir e ver o que o aguardava do lado de dentro, Estava sentindo que logo iria para casa. Então, uma preocupação lhe passou pela cabeça. Iria mesmo? Se estava contaminado com aquela coisa, não seria melhor nem voltar? Poderia colocar outras pessoas em risco, caso viesse a ficar igual àqueles que estava combatendo. A não ser que conseguisse destruir a pessoa que controlava aquela infecção. Mesmo assim, estaria doente. Não sabia se iria viver muito tempo. Por outro lado, estava perto de concluir sua missão. E com sucesso. Mesmo que fosse a última. Abriu a porta.
Por dentro era uma igreja típica. Ao centro, um tapete vermelho colocado em um corredor central indicava o caminho por onde o sacerdote se dirigia à frente para realizar os cultos. O líder da ordem religiosa passava por ali. Os bancos eram de madeira. Havia janelas compridas com vitrais coloridos dos lados, bem como sobre a porta de entrada. Este, por sua vez era grande e redondo. À frente dos bancos, ficava a parte do altar. Sobre ele, existiam três velas sobre uma toalha vermelha. As dos lados eram maiores que a do centro. Observou duas estantes com velas acesas nas laterais do altar também. O fundo do local era arredondado, com duas colunas de mais ou menos um metro e setenta de altura, que pareciam suportes para colocar algo sobre elas. Seria uma típica igreja católica, não fosse por um detalhe. Aquele símbolo da seita religiosa “Os Illuminados” em um grande círculo atrás do altar.
Leon então deu a volta nos bancos e ao lado havia outro local. Este, dava acesso a uma escada de escalar. Até então, tudo estava muito estranho. Sim, esperava não ver ninguém ali, pois a igreja estava fechada. Mas até o momento, nenhum sinal de Ashley. Mas ainda tinha a parte de cima. Subiu para o andar superior na esperança de encontrar a filha do presidente. Saiu em um corredor de pedra e correu até encontrar uma grade bloqueando o caminho. Voltou alguns passos. Teria de chegar ao outro lado, mas a única forma de chegar lá era saltando sobre o lustre. Não pensou duas vezes. Teria risco de ele cair? Teria. Mas antes de saltar, olhou para o teto e presumiu que estava bem preso. Era tudo em pedra, portanto, acreditou que conseguiria chegar ao outro lado. Saltou e caiu sobre o lustre, que ficou balançando. Teria de saltar rápido para o outro lado. E teria de ser certeiro, pois e errasse o pulo, cairia mais ou menos uns quatro ou cinco metros, o que poderia lhe causar alguma fratura nas pernas ou nos braços, dificultando ou mesmo impossibilitando o restante da missão. Nem ficou refletindo muito. Aproveitou enquanto o embalo sobre o lustre ainda estava forte e saltou sobre o chão de pedras, caindo e quase batendo na parede. Bem, estava do outro lado.
Havia um mecanismo para fazer as grades subirem. Depois de um tempo estudando ele, conseguiu fazer com que o caminho ficasse livre. Agora era só chegar até as portas e verificar uma a uma. Em alguma delas, tinha de estar Ashley Graham. Passou a caminhar em direção à primeira, Havia uma de cada lado da igreja. Notou a presença de um enorme quadro com aquele homem da túnica roxa, que já tinha certeza, ser o líder da seita, e o homem que controlava os camponeses. Restava saber como. Parou em frente a uma porta de ferro. Ela continha uma pequena abertura na parte de cima, mas estava fechada. Se houvesse um prisioneiro ali, era por esta abertura que poderiam colocar coisas ali dentro, como a comida, por exemplo. Colou o ouvido à porta para ver se ouvia algo, mas estava tudo em silêncio. Abiu a porta com cuidado, sempre com a arma pronta para entrar em ação. Quando conseguiu enxergar algo, viu uma sombra correndo dentro da sala. Era uma garota. Só podia ser ela.
- Ashley Graham.
Sim, era ela. Baixa, magra, cabelos louros, até um pouco a baixo da cabeça, pele clara. Usava uma blusa amarela puxando para um alaranjado e uma saia verde, com um cinto marrom. Usava botas da cor do cinto e uma pulseira de pérolas no braço esquerdo. Atirou um objeto que encontrou no chão na direção de Leon. Estava com os olhos arregalados, apavorada. Seu corpo todo tremia.
- Não chegue mais perto.
Ela errou o alvo. Leon foi tentando se aproximar, falando com calma, para diminuir a tensão da prisioneira.
- Ashley, fique calma.
Ela correu para o outro lado da sala, gritando.
- Não, fique longe.
Na outra extremidade da sala, ela se abaixou e ficou em uma posição de defesa. Encolheu-se e ficou apenas olhando o agente, que estava estático. A filha do presidente estava visivelmente em estado de choque. O que passara naquele local? O que lhe fizeram? Pensava Leon. Era evidente que tinham-na torturado ou algo do gênero. Mas qual a finalidade daquilo? Bem, achava que descobriria. Seria pedir um resgate, com certeza. Mas agora tudo ficaria bem. Levaria Ashley de volta para os Estados Unidos e a entregaria ao seu pai. E a missão poderia ser dada por concluída com êxito. E então, teria de dar um jeito de se curar, embora não fizesse a menor ideia de o que poderia ser feito. Se tudo desse errado… bem, pelo menos dirão que cumpriu seu dever com êxito. No entanto, agora, sua missão era convencer Ashley Graham a lhe acompanhar.
- Procure se acalmar. Tudo vai ficar bem.
A expressão de medo no rosto da filha do presidente não mudava. Leon se aproximou e apanhou a foto que tinha em seu bolso.
- Estou sob as ordens do presidente, seu pai, para lhe resgatar e levar de volta aos Estados Unidos.
Quando ouviu mencionar seu pai, o rosto de Ashley começou a mudar.
- Meu pai?
Ela saiu daquela posição de defesa. Estava começando a sair daquele estado de pavor.
- Isso mesmo. Tenho que tirar você daqui. Venha comigo.
Ashley se levantou do chão e se dirigiu ao agente. Agora teriam de sair dali. Leon apanhou o transmissor para relatar que havia encontrado a filha do presidente, que ela estava bem e voltando para casa.
- Aqui é Leon. Estou entrando em contato, para comunicar que obtive sucesso na execução do objetivo.
- Bom trabalho. Enviarei um helicóptero imediatamente.
- Onde será o ponto onde o encontrarei?
- Há outro caminho que você pode pegar para sair do povoado. O helicóptero o apanhará fora do vilarejo.
- Entendido, estou a caminho.
Saíram da sala. Agora, Leon estava pensando em uma coisa. Aquela garota era totalmente indefesa e frágil. Teria de chegar até o ponto de encontro com o helicóptero a salvo. Mas o mais difícil seria manter a filha do presidente bem. Ela não sabe manusear armas, nem lutar. Será um alvo extremamente fácil para os outros. Terá de protegê-la de qualquer ataque. Estava torcendo para chegar logo ao ponto de encontro e entrar no helicóptero que os levará para casa. Não queria nem pensar no que diria se agora, que já resgatara a filha do presidente, algo lhe acontecesse. Justamente quando já estava em poder do objetivo. Não. Nada podia acontecer.
Desceram as escadas que levavam ao local onde eram celebrados os rituais. Passariam pelos bancos e sairiam pela porta. É claro que Leon teria de tomar todo o cuidado do mundo. Os aldeões já deviam saber a essa altura que Leon conseguiu resgatar Ashley e deveriam estar esperando por ele no lado de fora da igreja. Pelo menos era o que esperava. Mal sabia o agente que logo conheceria uma pessoa muito importante naquele lugar. Ao saírem da ala que levava às escadas e chegar em frente aos bancos de madeira, ouviu alguém falando.
- Eu fico com a garota.
Leon parou o olhou em volta. Em frente ao altar, um homem alto, mas menos que Mendez caminhava sobre o tapete. Vestia uma túnica roxa com um capuz na cabeça e carregava em uma das mãos uma espécie de cajado. Ele caminhava lentamente. Leon sabia que era o homem dos quadros, o líder da seita religiosa. Mesmo assim, perguntou:
- Quem é você?
O homem parou em frente a Leon para responder à pergunta.
- Já que precisa saber, meu nome é Osmund Saddler, o mestre desta maravilhosa comunidade religiosa.
Enquanto falava, Saddler olhou para cima e se voltou para Leon, com uma expressão de compadecimento. O agente continuou os questionamentos.
- O que você quer?
Saddler estava com uma expressão séria no rosto.
- Demonstrar ao mundo nosso poder, é claro. Os Estados Unidos vão perceber que não podem controlar o mundo para sempre. Então, sequestramos a filha do presidente. Para dar a ela nosso poder e enviá-la de volta.
Neste momento, Leon se voltou para Ashley, que olhou para o agente, aparentemente com muito medo.
- Não!
Ela se lembrou de algo. Estava semi-inconsciente, mas logo que chegou, pareceu estar sentada em uma cadeira e homens vestidos de monges lhe aplicaram algo em uma seringa. Achou depois que tinha sido um pesadelo, mas se o que Saddler falava agora era verdade, foi tudo real. O que isso significava? Leon tinha certeza, mas não queria acreditar. Eles infectaram Ashley. Quer dizer que logo ela também ficaria igual àqueles aldeões. Agora a situação ficava terrivelmente grave. Com Ashley infectada, teriam de achar alguma cura, caso contrário, de nada teria adiantado a missão, pois acabariam tendo de matar a filha do presidente. Se não fizessem isso, ela própria acabaria virando um perigo dentro da Casa Branca. Não, não podia ser verdade. Ela se voltou para o agente.
- Leon, acho que injetaram alguma coisa em meu pescoço.
O agente se voltou para Saddler enfurecido.
- O que você fez com ela?
Saddler veio caminhando lentamente na direção dos dois.
- Apenas colocamos nela um pequeno presente. Será uma grande festa quando ela voltar para os braços afetuosos do seu pai.
Osmund Saddler olhou para cima e deu uma gargalhada. E continuou falando.
- Mas tem outra coisa. Você pode não acreditar, mas custa muito caro manter uma igreja em funcionamento. Ainda mais uma desse porte. Então, pensei que poderia negociar com o presidente, uma pequena… doação.
- Fé e dinheiro não lhe levarão a lugar algum, Saddler.
Osmund Saddler apontou para o agente.
- Acho que esqueci de lhe contar que lhe demos o mesmo presente. Eu mesmo o presenteei.
Leon se lembrou de quando estava inconsciente. Das palavras de Bitores Mendez e do mal estar naquela casa depois da luta com Del Lago, de ter cuspido sangue. Sim, ele já sabia. Agora tudo estava esclarecido pelo próprio Saddler. Estava infectado, como os aldeões. E Ashley também. O que fazer agora? Saddler fez um gesto com os braços, como se estivesse em um culto.
- Espero que nossas pequenas e especiais contribuições estejam do seu agrado. Quando os ovos chocarem, se tornarão meus fantoches. Farão tudo o que eu mandar involuntariamente. Terei o controle total sobre suas mentes. Não acham que esta é uma maneira revolucionária de propagar nossa fé?
Ao dizer isso, o líder os Illuminados tinha um sorriso no rosto. Leon apontou o dedo para o dono da igreja.
- Para mim, isso parece mais uma invasão alienígena.
Leon mal terminou de falar, quando a porta da frente se abriu e uma multidão de monges começou a entrar, todos armados de bestas. Apontaram as armas para os dois visitantes. Leon olhou para Saddler, que deu um sorriso. Então, apanhou Ashley pelo pulso e puxou para o lado. Teria de saltar a janela. Enquanto corria, ouviu o zumbido de flechas passarem e ouviu duas delas e cravarem na borda de madeira da janela quando saltaram. Leon foi na frente e quebrou os vidros. Caíram em uma sala ao lado da igreja. Ashley foi quem caiu pior, saiu rolando pelo chão. Mas aparentemente não se feriu. Leon se apressou em ajudá-la.
- Você está bem?
Ela respondeu com outra pergunta.
- Leon, o que vai acontecer com a gente?
- Não se preocupe. Nós vamos sair dessa e bem.
Levantaram-se e olharam em volta. Os monges não insistiram no ataque. Parece que saíram do local, pois não se ouvia mais barulhos dentro da igreja. Se era verdade o que Saddler dizia, não teria motivos para matar a filha do presidente, uma vez que o plano do líder dos Illuminados era mandá-la de volta aos Estados Unidos, pois ela estaria contaminada e iria ser uma marionete de Osmund Saddler na América. A não ser que ele estivesse blefando. Só que Leon sabia que essa era uma hipótese pouco provável, pois Saddler tinha os meios para realizar o que disse e a disposição para fazê-lo. Sim, tanto Leon como Ashley deviam estar infectados. A questão era como conseguir a cura para esta infecção? Ainda não fazia ideia de como, mas teria de descobrir.


Capítulo 16

Ar livre. O dia. Respirava novamente o ar puro. Estava nublado, com um nevoeiro que dava uma visão embaçada, mas nada comparado a ficar preso. Luis Sera ficara trancafiado em um armário, com as mãos amarradas e com a boca fechada por uma fita adesiva, com a certeza de que só abririam a porta para lhe dar o golpe de misericórdia. De repente, um estranho abriu-a e o libertou. Depois, descobriu que se tratava de um americano que viera resgatar a filha do presidente dos Estados Unidos. Depois, os dois foram presos e mais uma vez a quase certeza da morte. Então, novamente, conseguiu escapar. Foram duas fugas em menos de um dia. Contara com a sorte nas duas oportunidades, mas não sabia se continuaria com ela. O jeito era conseguir a amostra o mais rápido que conseguisse e entregá-la àquela mulher para poder fugir deste lugar antes que fosse tarde. Tinha de sair dali vivo.
Mas para aonde ir agora? A primeira coisa que fez foi sair correndo e se embrenhar no meio da floresta. Acreditava que ali estaria mais seguro. Afinal de contas, os aldeões estavam atrás de Leon também. E o agente americano não usaria os atalhos e sim, as estradas principais. Dessa maneira, se encontrasse aldeões nas florestas o caçando, seriam em menor quantidade. E Sera estava armado. Não gostava da ideia de matar pessoas, mas nesse caso, era para defender a própria vida. Sem contar que estes aldeões não estão no completo uso de suas faculdades mentais, mas estão sendo dirigidos por outra vontade. O que os torna pouco mais que máquinas de matar. Eram quase zumbis. Apesar de ainda estarem vivos. O que os torna mais perigosos por manterem sua capacidade de raciocinar, de fazer estratégias e principalmente, de utilizarem armas e serem imprevisíveis.
Em quais locais ele poderia encontrar a amostra? Sera ficou pensando onde poderia ter um frasco com o parasita. O seu laboratório, na casa de Bitores Mendez seria o local mais provável. Só que voltar lá agora, seria meio arriscado, quase suicídio. Certamente, o prefeito da vila já deve estar com todos em alerta. A essa altura, deve saber que ele e Leon escaparam e não foram mortos, pois o agente saiu e já atacou mais um conjunto habitado pelos aldeões. Bitores Mendez deve presumir que escapei também e já alertou os camponeses a me procurarem, pensou o pesquisador. Ir até seu laboratório agora seria como correr em direção ao leão. Mas teria mais algum local onde poderia buscar a amostra? Até teria, mas ao que tudo indica, seria ainda mais arriscado. Iria até o castelo, atrás do próprio Saddler? Essa ideia parecia mais louca ainda.
Luis Sera tomou então um atalho até a casa de Bitores Mendez. A cada passo que dava, olhava atentamente para as árvores, para os galhos. Não tinha ninguém. Aparentemente, todos estavam ocupados na caça a Leon. Mas todo o cuidado seria sempre pouco. Ouvia o barulho dos seus calçados pisando sobre as folhas caídas das árvores. Sempre olhava para trás, buscando algum movimento suspeito, algum som que não fosse o de seus passos, mas ouvia apenas sua respiração e os corvos. De repente, ouviu passos. Alguma coisa vinha correndo, mas não era uma pessoa e quanto a isso, podia afirmar. Mas o que seria? Teriam soltado algum dos animaizinhos deles? Então, os passos foram ficando mais próximos. Sera pensou em subir em uma árvore, mas elas estavam com os galhos muito altos e ele já não tinha mais a agilidade de quando era criança. Seria provável que caísse. Se escondeu atrás de uma.
Então, os passos foram ficando próximos. A criatura foi chegando perto. Luis olhou, ela estava ali, na árvore e quando o pesquisador olhou novamente, se aliviou. Era um cão, marcando território. O animal olhou para ele e seguiu seu caminho. Estava ferido em uma perna, mancando e com manchas de sangue. Mas não era uma ameaça. Deve ter caído em alguma armadilha. Continuou caminhando, sempre atento a qualquer barulho. Sem contar que tinha de prestar muita atenção a cada passo que dava. O chão estava repleto de armadilhas de urso em muitos locais. Não queria cair em uma delas. Fariam um estrago enorme em sua perna. Todavia, não encontrou ninguém.
Chegou perto da casa de Bitores Mendez. Ficou apenas observando do meio das árvores. De onde estava, tinha uma boa visão. Era possível enxergar tanto a entrada pela frente, como os fundos. Foi quando viu que alguém vinha pela parte de trás. Saiu do poço. Quem seria? Quando olhou melhor, percebeu tratar-se de Leon. O agente caminhou cuidadosamente, sempre com a arma preparada para entrar em ação. Então, entrou pela porta de trás. Não demorou e uma mulher chegou pela frente. Ela teve um caminho mais complicado, pois alguns aldeões a estavam esperando, mas ela se livrou deles sem maiores dificuldades. E subiu o telhado utilizando uma corda que saía de um disparador, com um gancho na ponta.
Foi quando estava concentrado olhando a cena na casa de Bitores Mendez, que ouviu um pequeno estalo ao seu lado e nem pensou duas vezes. Atirou-se para o lado e ouviu um machado quebrar alguns galhos na árvore em que estava se escondendo. Sera buscou a pistola, mas se atrapalhou. Enquanto isso, o aldeão com o machado que quase o acertara vinha caminhando em sua direção. Sera foi rastejando para trás, tentando apanhar a pistola. O aldeão avançava e de repente, outro golpe e o pesquisador teve de rolar para o lado, vendo o machado bater no local onde estava e cravar no chão. Enquanto o aldeão lutou para removê-lo, Luis aproveitou para pegar a arma e atirar, matando quem o ameaçava. Depois olhou para os lados. Ficou com medo que o disparo tivesse atraído outros aldeões para o local onde estava. Cuidadosamente, ele se levantou e ficou olhando e aguardando alguma movimentação em sua direção, mas não reparou nada. Provavelmente aquele aldeão estava indo para a casa de Mendez e encontrou o cientista ali por acaso. Mas todo o cuidado sempre era pouco.
A mulher de repente, desceu o telhado, usando o gancho. Sera ficou prestando atenção à cena que se seguiu. Foi quando ouviu tiros. Ela atirou, usando uma metralhadora automática? Era o que parecia de longe. Logo em seguida, ela subiu e da janela, saltou Bitores Mendez. O prefeito da vila caiu no chão, saltando do segundo andar da casa e rolou. Dois camponeses saíram de dentro da casa e se aproximaram de seu líder. Mendez se levantou como se nada tivesse acontecido. Era surpreendente. Só podia ser por causa de Las Plagas. Ele falou algo aos aldeões que se aproximaram dele e os três olharam ao redor. De repente, Bitores Mendez apontou para o telhado da casa. Era ali que Ada estava.
Sera sabia que só podia ser a tal Ada Wong, que lhe enviara o e-mail. Como ela interceptou seu correio eletrônico? Isso ele não sabia, mas com certeza, ela deve trabalhar para alguma organização muito poderosa e influente. Seria para o governo americano? Não teria como saber agora. Leon trabalhava sob ordens do presidente. Ela também? Esperava poder perguntar pessoalmente. De repente, Ada desceu do telhado e se dirigiu de volta ao povoado, mas então, uma multidão chegou pelo portão. Um grupo enorme de aldeões bloqueou a passagem da espiã. Ela parou e quando foi voltar, caiu no chão. Atrás dela estavam Bitores Mendez e os dois aldeões que conversavam com eles. Ada se deteve perto da janela e agora caiu em uma cilada. Se tivesse fugido na hora, talvez isso não tivesse acontecido. Provavelmente ela fez isso para salvar alguém. Provavelmente para salvar Leon. O prefeito da vila devia ter encurralado o agente dentro da casa e a espiã atirou para distraí-lo.
O grupo de aldeões saiu e ficaram apenas dois de guarda no lado de fora da casa. Um aldeão e um daqueles que tem uma motosserra. Ficariam esperando por Leon. Não demorou muito e o agente saiu da casa. Ele não perdeu tempo e matou os dois. Depois, seguiu em direção ao vilarejo. Enquanto isso, pelo outro lado, o grupo de aldeões que cercou Ada, mais o prefeito do vilarejo, levaram a espiã como prisioneira. O caminho estava livre agora. Era provável que não houvesse ninguém na casa. Seria o momento adequado. Luis Sera teria de ser rápido. Tinha pouco tempo para descer até lá, entrar no laboratório e vasculhar tudo antes que alguém chegasse.
O cientista desceu de onde estava. Pensou que, por outro lado, se matassem Ada, para quem iria entregar a amostra? Para Leon, com certeza. E o agente americano o ajudaria a sair dali. Tinha de dar certo. Correu até a casa, sempre olhando atentamente para os lados. Não fora seguido, nem tinha ninguém por ali. Então, entrou na casa. Correu para o laboratório no porão. Tinha de ter alguma coisa ali. Passou a vasculhar tudo, mas o local estava uma bagunça. Parecia que retiraram dali tudo o que pudesse ter valor. Devem ter levado ou para o castelo, ou para a ilha. Enquanto procurava, Sera ficava atento se ouvia algo suspeito no andar de cima, mas não ouvia um único som. A casa estava deserta. Depois de uns quinze minutos, revirando todos os cantos, não encontrou nada. Teria de dar uma busca na casa inteira.
Subiu ao andar de cima, vasculhando as prateleiras, atrás dos quadros, nas gavetas, mas não viu nada. Olhou pela janela e viu dois aldeões passando por ali. Um deles parou e se dirigiu para a casa. Sera subiu a escada até o segundo andar e viu lá de cima, os dois entrando. Não tinha a intenção de matá-los, pois isso iria causar alguma desconfiança. Eles teriam de sair da casa e retornarem para os demais sem verem nada ali. Luis foi até o quarto de Bitores Mendez. Revirou a cama, as prateleiras, gavetas, guarda roupa, armário, estante de livros, atrás dos quadros, mas ainda não encontrou nada. Quando voltou, viu um dos aldeões na parte de baixo. Eles procuravam algo pelo jeito. Quanto tempo ficariam ali? Sera não podia se mexer enquanto eles não fossem embora. Não queria ter de matá-los. Só se fosse necessário. Depois de intermináveis minutos, os dois se retiraram. Sera ainda esperou mais alguns minutos até eles se distanciarem e desceu.
Sera se dirigiu até o vilarejo. Por onde passou, encontrou corpos de aldeões mortos. Chegou à vila. Leon havia entrado na Igreja há algum tempo. O cientista teria de passar por ali. Tinha outra casa utilizada pela seita. Ficava além do povoado, no caminho para a saída. Tratava-se de uma casa de dois andares. Achava pouco provável que a amostra estivesse lá, mas não se pode deixar nenhuma possibilidade de fora. Sempre era possível que tivessem deixado algo ali. Então, não podia deixar de vasculhar um único local. Teria a Igreja. Mas provavelmente Leon estaria se dirigindo para lá. Concluiu que se a amostra estivesse na Igreja, o agente a encontraria. E isso não seria bom para ele. Sera é quem tinha de encontrá-la.
O pesquisador avançou pelo vilarejo, sem encontrar mais ninguém vivo. Todos estavam mortos, inclusive um aldeão com uma motosserra. Sera passou pelo portão e foi para a outra parte da vila. Passou por dois galpões, por uma vaca pastando. Deu uma vasculhada pelos dois locais, mas não viu nada, além de mais aldeões mortos. Subiu até o segundo andar do galpão que parecia uma grande casa, mas com a pintura toda descascada. Ouviu que alguém passou pelo portão de entrada. Eram dois aldeões. Sera ficou espionando-os lá de cima. Eles reclamavam.
- Temos de limpar o local. Levar os corpos daqui.
O outro caminhava e respondeu:
- Sim. Depois vamos atirá-los ao Del Lago.
- Temos de alimentar nosso animalzinho.
Del Lago? O que seria isso? Que animalzinho seria? Sera sentiu calafrios de pensar. Esperou até eles saírem dali. Não tinha corpos onde ele estava, então, os aldeões não vieram. Mas não podia sair e denunciar sua posição. Depois de alguns minutos, Sera pôde descer do outro lado. Chegou em frente a um portão enorme. Para sua sorte, ele tinha a chave que abria. Para garantir que não seria seguido, fechou-o e trancou pelo outro lado. Seguiu por uma ponte de madeira, até chegar à cabana. Era uma casa de dois andares, usada normalmente para reunir os aldeões.
Sera entrou ali. Havia uma mesa ao centro no primeiro andar, estantes e prateleiras, além de armários. O cientista passou a procurar dentro de cada local destes para ver se encontrava algo, mas mais uma vez, não viu nada. Subiu ao segundo andar e vasculhou tudo, e novamente, não encontrou nada. Então, foi até a janela, pois teve a impressão de ter ouvido algum barulho. E não gostou nem um pouco do que viu.
Ao longe, dava para ver tochas. Já havia anoitecido. Sera nem percebeu este detalhe. Sim, já passavam das 19 horas. E pelo número de pontos brilhantes que havia, o número de pessoas era imenso. Iriam se dirigir até a cabana? De repente, outro detalhe chamou sua atenção. Pela ponte vinham duas pessoas. Isso ele percebeu por causa das tochas que a iluminavam. Eram duas pessoas. Eles chegaram ao outro lado e aquela multidão que vinha parou e cercou-os. Eram um homem e uma garota. Sim, Leon. Só podia ser ele. E a filha do presidente dos Estados Unidos. Eles quiseram retornar, mas do outro lado da ponte, vieram mais aldeões. Estavam cercados. Para aonde iriam? Os dois correram para a cabana onde Sera estava. Perfeito, pensou o pesquisador. Vão atrair todo aquele povo para a cabana.
Sera desceu ao primeiro andar o mais rápido que conseguiu e começou a trancar as janelas. Esperaria Leon entrar e lhe daria um pedaço de pau usado para trancar a porta de entrada. Teriam de conseguir bloquear as entradas o mais rápido que conseguissem para ganhar tempo, pois não seria possível impedir que os aldeões entrassem. A ideia seria impedir que todos entrassem ao mesmo tempo. Seria uma batalha completamente desigual. Centenas de aldeões contra ele e Leon. Como sair dessa? Bem, Sera já esteve em situações piores desde que fora apanhado. Agora, pelo menos, teria ajuda e uma arma. Sem contar que não estaria amarrado. Leon e Ashley entraram. Sera apanhou a tranca da porta para jogar para o agente. A brincadeira iria começar.


Capítulo 17

Alguns degraus levavam à saída. Bem, agora era sair e enfrentar o que quer que estivesse lá fora. E chegar até o local marcado. Esses eram os objetivos de Leon para o momento. Depois, se preocuparia com os outros problemas que pudessem ter. O agente foi caminhando na frente, com Ashley logo atrás. Ele colou o ouvido na porta para tentar ver se escutava alguma movimentação do lado de fora. Não ouviu nada, o que não o deixava mais tranquilo. Pelo contrário. Na verdade, o deixava mais apreensivo. Tinha convicção de que não os deixariam chegar facilmente até o local determinado. Abriu a porta com cuidado.
Do lado de fora, dava para observar uma imensidão de tochas acesas. E cada uma segurada por um aldeão. Isso dava a Leon uma perspectiva nada animadora. Teria de enfrentar todos e com o adicional de ter de evitar que Ashley fosse ferida ou recapturada, o que tornaria tudo mais difícil. Muito mais difícil. O jeito era evitar o confronto de frente com eles. Entrou na Igreja. Deixaria Ashley lá dentro esperando. Assim, poderia lutar sozinho contra aquela multidão, mas sem precisar se preocupar com a filha do presidente.
Só que quando entrou, ouviu uma flecha passar por eles. Sim, deve ter ficado algum daqueles monges por ali. Logo ele apareceu, vindo ao encalço dos dois. Deveria ter ordens para recuperar a prisioneira. Os outros devem ter seguido Osmund Saddler. Leon não teve maiores problemas em eliminá-lo. Só que apareceu mais um. Também não foi difícil se livrar deste. Teria mais algum ali dentro? Não veio mais ninguém. Depois de garantir que Ashley ficaria em segurança dentro do templo, Leon saiu para enfrentar a multidão de aldeões. Se não conseguisse, bem, nesse caso, tudo estaria perdido. Mas iria conseguir. Carregou a arma e saiu.
A sorte perecia estar mesmo do lado do agente americano. Logo que botou os pés para o lado de fora, viu que os aldeões estavam preparando uma armadilha para ele e Ashley. Pegaram uma carroça e encheram de explosivos. Estavam planejando empurrar para dentro da igreja. Só que Leon se antecipou e antes que o vissem, atirou no pavio de uma das dinamites, fazendo-o explodir. Com isso, houve uma reação em cadeia que fez com que todos os explosivos do carrinho fossem detonados, matando toda aquela multidão de aldeões enfurecidos. Caminho livre. Alguns escaparam e vieram correndo para a entrada do templo. Mas Leon agora estava em vantagem. Todos teriam de atacar pela frente e com isso, ficavam sob a mira de sua arma. Conseguiu eliminá-los. Agora poderia chamar Ashley para o lado de fora da Igreja. Seguiriam pelo túnel até o vilarejo. Lá tinha um portão que Leon já havia avistado, mas que não chegara a abrir. Era a outra saída. Iriam por ele até o ponto onde seriam apanhados pelo helicóptero.
Atravessaram o túnel subterrâneo que dá acesso à igreja do povoado. Ali não tinha ninguém ainda. Leon estava pensando em como seria a recepção lá no vilarejo. Esperava não encontrar muitos aldeões, mas todas as vezes que passou por ali havia uma verdadeira multidão o esperando. De onde vinha tanta gente? Parecia mesmo que eles brotavam do chão. E agora teria o complicador chamado Ashley Graham. Teria de garantir a segurança dela. Pelo menos até chegarem ao helicóptero. Seguiram caminhando até a escada que levava ao templo/passagem secreta.
Chegaram à Igreja, que na verdade, não tinha nada de templo religioso, além de sua aparência externa. Leon chegou perto da porta. Sabia que estariam os esperando ali fora. Então, recarregou a arma e se aprontou para o combate. Primeiro, tentou ouvir através da porta. Sem sucesso. Então, fez um sinal para Ashley ficar atrás de si e abriu a porta com cuidado, para ver primeiro como estava o terreno e o mais importante: ver os aldeões antes que os vissem. E realmente estavam ali.
E agora, pelo que o agente pôde perceber, já estavam em um estado mais avançado da contaminação, pois quando atirava e estourava a cabeça dos aldeões, aquela coisa saía do pescoço deles, fazendo com que continuassem se movendo, mesmo estando aparentemente mortos. Seriam como os zumbis, não fosse o fato de que tinha outro ser dentro deles os comandando. Então, tinha de atirar naquela criatura que saía de dentro dos aldeões para matá-los definitivamente. Antes de andar pela aldeia, subiu uma longa escada de escalar e deixou a filha do presidente lá em cima. Conseguiu chegar lá sem chamar a atenção dos camponeses. Feito isso, desceu e se encaminhou para as casas.
Havia alguns aldeões ali, mas desta vez não havia uma quantidade tão grande como das outras duas vezes que passou pelo vilarejo. Pudera, uma hora eles tinham de começar a diminuir. Não teve maiores dificuldades, apesar de que agora, teria de procurar não acertar mais a cabeça deles. Teria de matá-los sem expor aquela criatura que saía do pescoço deles. Se não, ficava mais difícil. Mas na maior parte das vezes, não foi possível. Após se livrar dos aldeões, chamou Ashley e foram até o portão que separava as partes da vila. Era por ali que iriam encontrar o caminho até o helicóptero que os levaria para casa.
Passado o portão, estava novamente em frente aos dois galpões, sendo que um deles se parecia com uma casa. Os animais ainda estavam por ali. Duas vacas no galpão à direita, agora do lado de dentro, e algumas galinhas, mas que pareciam estar dormindo, no mesmo galpão. Leon viu que não foram percebidos, então, logo que passaram pelo portão, olhou para o que parecia ser um depósito de lixo.
- Ashley. Você tem que ficar em um lugar seguro enquanto dou uma vasculhada no terreno. Preciso me certificar que não estará em perigo. Assim, preciso que entre nesta espécie de container.
Ela olhou com uma expressão de poucos amigos. Antes que reclamasse, Leon completou.
- Isso é uma ordem. Melhor ficar ali do que morrer.
Ashley viu que não teria escolha. Apenas baixou a cabeça, abriu a tampa daquele latão e começou a subir para pular para o lado de dentro. Ainda não estava totalmente convencida de que aquela era a melhor ideia, mas viu que não convenceria o agente a mudar de ideia. Logo estava do lado de dentro. Apesar de não ter lixo ali, o cheiro era insuportável. Leon olhou ao redor antes de falar com a filha do presidente.
- Para nossa sorte, ninguém nos viu. Vou fechar a tampa e fique em silêncio aí dentro. Não queremos que os aldeões percebam que está aqui, ou nosso plano irá falhar. Vou indo. Se alguém abrir a tampa, desde que não seja eu, grite. Virei em um piscar de olhos.
Ashley apenas assentiu com a cabeça. Leon fechou e saiu caminhando olhando bem para os lados, para se certificar de que não fora visto. Até agora, tudo parecia bem. Mas tinha sempre em mente que poderiam está-los vigiando. Não conseguiria se despreocupar, pois sabia que quando estivesse longe, Ashley poderia estar vulnerável. Mas acreditava que tê-la junto poderia ser ainda pior. Teria de arriscar e torcer para que todos viessem para cima dele e esquecessem a filha do presidente. Então, quando olhou para um abrigo do lado do poço, um pedaço de papel chamou sua atenção. Era mais uma carta do chefe do povoado, Bitores Mendez.
“O paradeiro de Sera ainda é desconhecido. Provavelmente ele esteja usando uma velha passagem secreta ensinada a ele por seu avô, que costumava caçar na região há tempos atrás. Estou bem certo de que ele está se escondendo em algum lugar fora de nossa propriedade na floresta.
Se seu avô ainda estivesse vivo, eu o usaria para encontrar Sera. Mas COMO ele descobriu sobre o ovo injetado em seu corpo? E o fato de o tê-lo removido antes que eclodisse é preocupante.
Outro fator que me preocupa é que Sera escapou de nossa propriedade pouco antes do agente americano chegar. Não acredito que seja só uma coincidência. Tem que haver outro jogador envolvido nisso.
Para controlar a situação toda, temos que capturar Sera e aguardar que os efeitos da droga passem antes de injetá-lo com outro ovo.
Uma vez que isso tiver sido feito, quem estiver por trás disso tudo aparecerá. Ninguém pode interferir em nossos planos. Aqueles que o fizerem sofrerão severas consequências.”
Agora o plano era vasculhar tudo o mais rápido que pudesse. E ao contrário das outras vezes, agora, Leon queria chamar a atenção, então, não fez nenhuma questão de não fazer barulho. Queria que viessem sobre ele. Avançou rapidamente até ao galpão que se parecia com uma casa, todo pintado em branco, com a tinta descascada, de dois pisos. Ao correr, ouviu os aldeões gritando uns para os outros que um intruso estava ali e que precisavam detê-lo.
Ao entrar no galpão, teve certeza de que estava sendo aguardado. Havia armadilhas de urso espalhadas por todo o primeiro piso e um aldeão estava com um arado esperando para golpeá-lo. Conseguiu se esquivar e escalou a escada que dava no segundo piso. Movidos pela fúria cega que acometia aos infectados com aquela coisa colocada por Saddler, eles nem pensaram duas vezes e subiram as escadas atrás. Leon conseguiu matá-los usando apenas a faca, pois ao escalarem as escadas, ficavam totalmente vulneráveis. Teria agora de se certificar que não haveria mais deles por ali.
Ainda havia mais três aldeões do lado de fora da casa, o aguardando. Dois estavam sobre o recuo do segundo piso do galpão. Leon saltou pela janela e caminhou sobre o telhado do primeiro piso. Quando eles viram o agente, este sacou a arma e deu dois tiros na cabeça deles. Teve sorte, pois a coisa não saiu do pescoço dos dois. Chegou na beirada do telhado e ficou observando o último. Estava guardando o portão de saída do vilarejo. À frente dele havia uma porção de armadilhas de urso. O americano sequer pensou duas vezes, Atirou uma vez só na cabeça do homem e torceu para que ele morresse. Deu certo. Agora era só chamar Ashley e sair dali.
Entrou na casa e deu um assovio bem alto. A filha do presidente abriu o tampão e olhou para a direção de onde veio o barulho. Leon fez um gesto para que ela o alcançasse. Quando ela começou a caminhar, o agente sentiu uma sensação estranha. E se algum dos aldeões estivesse escondido? E se aparecesse do nada agora? Estava longe, não estaria nas melhores condições de proteger Ashley. Mas não falou para ela correr, pois se houvesse alguém ali ainda, não queria chamar a atenção. Deveria ter ido até lá. Mas agora ela estava a caminho. Ficou observando tudo ao redor da garota enquanto ela caminhava até a casa. Quando ela cruzou a porta, o agente se aliviou. Foi até a escada esperar que ela subisse. O tempo que ela levou para sair do latão e chegar até onde ele estava pareceu uma eternidade. Mas enfim, chegou.
- Ashley. Preste atenção. Vamos ter de caminhar por cima deste telhado e saltar na outra parte ali na frente. Vai ter um portão de madeira trancado pelo outro lado. Vou ajudar você a pular ele. Destranque o portão para que eu possa passar. Logo em frente é o local combinado aonde um helicóptero irá nos buscar. Entendeu?
Ela ficou pensando algum tempo. Caminhou até a janela e observou o lado de fora. Dava para ver o portão a que Leon se referia. Ela se voltou ao agente.
- Mas Leon, mas nós estamos infectados. Vamos nos tornar um deles? Não seria melhor nem voltarmos?
- Nem diga isso. Com certeza vão encontrar alguma cura para nós quando chegarmos a casa.
- Se você está tão seguro disso…
Desceram a escada de escalar e chegaram em frente ao portão. Era todo em madeira e alto. Leon levantou Ashley nos ombros. Ela conseguiu passar para o outro lado e saltou. O agente torceu para que ela não acabasse se machucando na queda, pois parecia extremamente frágil. Como não ouviu nada além da queda dela, supôs que estava tudo bem.
- Consegui abrir, Leon.
Sim, tudo correu conforme o planejado. Agora era só passar pelo portão. A aventura em terras espanholas estava chegando ao fim. Ashley o estava esperando. Não demorou para avistarem uma ponte de madeira. Dos lados havia duas colunas altas, com tochas em frente, para iluminarem o caminho. Agora era só chegar ao outro lado e aguardar pelo socorro. Se aparecesse alguém ali, teria de dar cabo. Estava torcendo para não demorarem a buscá-los. Bem, mas tudo acabou conforme o planejado. Dentro de pouco tempo, estaria a caminho de casa. E então, iria começar a se preocupar com a infecção. Tinham de dar um jeito de curá-los. Se não conseguissem? Bem, nesse caso, era melhor nem pensar. Mas estava a caminho de casa agora. Quando estavam no meio da ponte, o transmissor de Leon tocou. Era Ingrid Hunnigan. Era algum comunicado do helicóptero? Estaria chegando? Provavelmente sim. Teria de passar a localização exata de onde estava.
- Leon, tenho más notícias.
- Prefiro não ouvir, então.
- Receio que tenha de dar as notícias você querendo ouvir ou não. Perdemos contato com o helicóptero que iria resgatá-los. Os aldeões devem tê-lo abatido, embora não possamos ter certeza disso.
- Que ótimo.
- Estamos preparando outro helicóptero para resgatá-los. Sendo assim, queremos que você vá ao ponto de encontro. Entendido?
- Entendido.
É, a situação não era das mais animadoras. Continuariam até o outro lado da ponte e veriam o que os aguardava. O problema é que as surpresas do local sempre eram muito desagradáveis. Leon nem sabia que haveria mais uma recepção para eles. Assim que chegaram ao fim da ponte, era possível ver ao fundo, uma casa. Era de dois pisos, com uma chaminé. Como era noite e tinha muita serração, não era possível ver muito além disso. A visibilidade era muito baixa e não se podia ver muito à frente.
Quando terminaram de cruzar a ponte, deram de cara com uma cerca enorme de madeira e uma porta aberta. Por ela veio uma verdadeira multidão de aldeões, todos carregando tochas. E agora? Fazer o que? Voltar? Quando se viraram para a ponte, viram muitas tochas ao longe se movimentando. Estavam cercados. À frente, os aldeões estavam os esperando. Na ponte, eles estavam correndo no seu encalço. Teriam para aonde irem?
- O que está acontecendo Leon?
- Odeio dizer isso, mas estamos cercados.
Olhando para os lados, Leon apontou para a direita.
- Rápido, para aquela cabana.
Os dois correram o mais rápido que conseguiram para a casa. Abriram a porta e entraram, torcendo para os donos da casa não estarem. Fecharam a porta e trancaram com a chave, mesmo sabendo que isso não os impediria de entrar. Leon sacou a arma e olhou para os lados atentamente para ver se estavam sozinhos. Quando ouviu passos atrás de si. Virou-se rapidamente para ver quem era. Ele jogou um pedaço de pau na direção do agente.
- Leon pegue isso e coloque na porta. Vai dificultar um pouco mais para eles entrarem.
Sim, era Luis Sera. O que ele estava fazendo ali? Não importa. Seria mais um. Como ele fora policial, segundo dissera a Leon, deveria saber manejar uma arma. Seria útil no cerco. Um a mais para ajudar, já que não poderiam contar com a habilidade de Ashley. Luis veio caminhando em direção aos dois.
- Mundo pequeno, não? Nossa… até que a filha do presidente não é de se jogar fora.
Ela olhou para o estranho com uma expressão fechada.
- Seu grosseiro. Acho bom me respeitar, eu sou a filha do homem mais poderoso do mundo. Quem é você?
- Queira me perdoar, vossa majestade. Talvez a jovenzinha deva se apresentar antes de perguntar o nome de alguém.
Enquanto isso, Leon corria pela casa, procurando colocar objetos na frente de possíveis entradas, como portas e janelas, com o intuito de dificultar uma iminente invasão. Ashley continuava com cara de poucos amigos.
- Meu nome é Ashley Graham, filha do presidente dos Estados Unidos.
Ao olhar nos olhos da garota, Luis sentiu um calafrio e chamou o agente americano.
- Leon, ela está… você sabe.
- Não se preocupe, ela está bem.
- Não tem importância. Deve existir algum sintoma aparente antes de você se tornar um deles.
Neste momento, Ashley apontou para uma das janelas.
- Olhem.
Através das tábuas de madeira colocadas nas janelas, era possível ver uma imensidão de tochas acesas, todas se dirigindo até a casa. Não era uma ilusão. Era uma invasão. Leon apontou para a escada.
- Ashley, lá em cima.
Ao dizer isso, se aproximou de uma das janelas, de arma em punho. Luis Sera sacou a sua também e comentou com o agente americano.
- Muito bem, é hora de jogar. Boa sorte para nós, pois vamos precisar.
Os dois ficaram um de cada lado da janela aguardando a chegada dos aldeões. Era questão de segundos até que estivessem lutando contra todos aqueles camponeses.
A invasão começou. Não dava para saber de onde haviam saído todos aqueles camponeses. Mas eles pareciam vir de todos os lados. É claro que os obstáculos colocados nas portas e janelas não suportariam muito tempo. Então, começaram a entrar. Leon e Luis teriam de ser muito rápidos. Se é verdade que os camponeses não tinham armas de fogo e contavam apenas com paus, arados, machados e foices, também é verdade que estavam em muito maior quantidade. E isso poderia fazer alguma diferença. Ainda mais pelo fato de que as armas de fogo têm munição limitada, e mesmo que Leon estivesse bem abastecido, teria de retirar os pentes de bala do colete e colocar na arma. O que demandaria algum tempo. Então, teriam de ter sorte à cima de tudo. E para completar, em muitos dos aldeões, quando se pensava que estavam mortos, aquela coisa saía da cabeça deles e continuavam se movimentando e atacando, mesmo já sem vida. A luta seria extremamente difícil. Sera se virou para Leon antes de comentar.
- Isso parece que não termina nunca.
Sim, realmente parecia que não terminava, Quanto mais se matava aldeões mais eles entravam. O número deles parecia não diminuir nunca. Lembrava o que ocorreu no vilarejo, quando Leon se viu cercado por muitos aldeões. Quanto mais eliminava, mais eles apreciam do nada. Na ocasião, teve a sorte de o sino tocar e eles saírem. Mas agora? Seria pedir muito sonhar com o sino novamente? Parecia que somente isso faria aqueles homens em fúria saírem dali. Se nada acontecesse, o agente temia que sua munição acabasse e fossem todos eles mortos por aqueles camponeses enlouquecidos. Então, o milagre aconteceu. Leon estava pensando no sino. Queria ouvir aquele barulho novamente. Torcia para isso. Estava ansiando por aquele som. Foi quando ouviu. Não acreditou. Só pensou que estava torcendo tanto para ele tocar que chegou a ouvi-lo. Mas então, os aldeões pararam. Soltaram as armas improvisadas e disseram uns para os outros.
- Vamos, é hora de irmos.
Sim, o sino tocou novamente. Salvo mais uma vez. Leon caiu de joelhos no chão, como que agradecendo. Nem olhou para mais nada por algum tempo. Ficou apenas ali. Finalmente aquela horda de homens furiosos estava indo embora. Já estava quase perdendo as esperanças. Já estava pensando na forma como voltaria morto aos Estados Unidos o que falariam dele. Fracassara? Mas não. Continuaria sua missão. Não poderia morrer agora. Não depois de ter chegado tão perto de concluí-la. Levantou-se e olhou em volta. Se virou para Sera.
- Parece que estão se afastando.
Luis veio caminhando na direção do agente americano.
- Certo. O que vamos fazer agora?
- A ponte que cruzei para chegar até aqui está quebrada. Então, a única escolha que temos é seguir em frente.
Enquanto os dois falavam, Ashley saiu de seu esconderijo e se aproximou furtivamente dos dois, apenas ouvindo o que falavam. Estava terrivelmente assustada. Sera foi quem falou:
- Leon, eu me esqueci de uma coisa. Sigam em frente.
Dito isso, saiu pela porta da frente. Para aonde ia? O que iria fazer? Quem seria realmente este tal de Luis Sera? Dava para confiar nele? Essas perguntas, Leon esperava tê-las respondidas, mas não acreditava que conseguiria. Pelo menos não por enquanto. O agente ficou apenas observando enquanto o homem que o ajudara na luta contra os aldeões se afastava. Sua imagem foi diminuindo na escuridão da noite, iluminada apenas pelas tochas que estavam colocadas perto da ponte e em alguns locais dos arredores da casa. A serração também não permitia uma melhor visão do terreno. Então, dentro de alguns segundos, Luis Sera desapareceu no meio do nevoeiro. Agora estava sozinho com Ashley. Teriam de seguir, pois não teriam como voltar. Sera iria ficar por ali antes de seguir. Não teria como esperá-lo, até por terem objetivos diferentes. Aliás, quais seriam os objetivos de Luis? Bem, isso não importava agora. A filha do presidente chegou ao lado de Leon. Ele fez um sinal de assentimento com a cabeça e abriram a porta para sair.
- Vamos Ashley. Temos de chegar a um ponto onde poderemos esperar o próximo helicóptero.
Ela olhou de volta e apenas fez um sinal de positivo com a mão. A jornada iria continuar. Mas o que Leon mal podia saber é que este nem foi o maior problema que ele teria. Logo teria de enfrentar coisa muito pior. O que poderia ser mais difícil do que isso? Logo descobririam.

Capítulo 18

Leon e Ashley saíram da casa e a contornaram. Havia um pequeno galpão ao lado, onde havia outra carta escrita por Bitores Mendez. O agente a apanhou para ler. Falava sobre as rotas possíveis para sair dali.

“Agora há pouco, fui informado pelo Lorde Saddler de que nossos homens derrubaram um helicóptero militar dos Estados Unidos. Não deve haver mais interferências externas por um tempo agora. A não ser que o governo dos Estados Unidos descubra quem é o traidor, eles só podem iniciar pequenas operações secretas.
Devemos usar este tempo para tomar frente e recapturar a garota. Os dois americanos só podem fugir de nosso território usando duas rotas. É onde vamos detê-los.
Devemos fazer uso de nossas forças de maior grau. Despacharemos um grande número de ganados em uma das rotas para garantir que eles não escapem de nós. Na outra rota, deixaremos a tarefa para El Gigante. Qualquer que seja a rota que tome, o agente nunca sairá daqui vivo. Não com a garota, pelo menos.”


Ganados? Então era esse o termo usado para definir aqueles aldeões? Sim, em espanhol significa “gado”. Pode ser que se refira ao fato de eles estarem sendo conduzidos por outra pessoa. Sim, Saddler era a mente por trás daqueles aldeões. Como ele os controla? Através daquelas coisas injetadas neles. E essas coisas também foram injetadas nele e na filha do presidente. Acabaria sendo também uma marionete de Saddler com o passar do tempo? Não, isso não poderia acontecer. E Ashley? Ela também estava infectada. Olhou para a filha do presidente. Frágil e indefesa. Mas e depois de dominada por Saddler? Como seria? Seria agressiva? Passaria a ser um perigo para o país? O que ela poderia fazer quando estivesse sendo controlada por outra mente? Não podia responder ainda.
Os dois chegaram a uma estrutura em madeira. Havia uma porta e uma alavanca bem no meio. Com certeza deveriam movê-la para um dos lados. Como a carta falava em duas rotas, seria para escolher uma delas. Se tudo estava conforme o bilhete, em uma delas haveria uma multidão de “ganados” os esperando. Na outra, um gigante. Leon se lembrou da luta que teve logo depois de derrotar Del Lago. Já fora extremamente difícil sozinho. Agora, tendo de garantir a integridade de Ashley, seria praticamente impossível. Era torcer para não escolher a rota dele. Por outro lado, teria nesse caso, de enfrentar outra horda de aldeões enfurecidos. E agora, sem a ajuda de Luis Sera. Bem, de qualquer maneira, seria muito difícil sair ileso dali. Ou melhor os dois saírem. Seria dificílimo.
Leon escolheu o lado esquerdo e acionou a alavanca. Uma engrenagem girou e a porta do lado esquerdo abriu. Agora era ver o que aconteceria. Entraram por um túnel em declive. Percorreram-no até uma porta. Tudo era em madeira. Pararam um pouco para tomar ar. Acabaram de sair de uma enrascada e iriam cair em outra. Mas não tinham escolha. Teriam de abrir a porta. Assim que abriu-a, uma camponesa com uma tocha na mão quase conseguiu apanhar o agente desprevenido. Leon foi rápido o suficiente para neutralizá-la antes de ser ferido. Não seria um passeio. Correram até um latão de lixo próximo a uma casa. Leon só olhou para Ashley, que fechou a expressão novamente.
- Já sei Leon. É para eu me esconder e ficar esperando aqui. Certo?
Leon não falou nada, apenas ficou atento à movimentação dos aldeões. Eles estavam vindo. Não teriam muito tempo. A filha do presidente entrou e fecharam a lata sem fazer quase nenhum barulho. De repente começou a surgir aldeões de todos os lados. Leon recuou até um local onde não poderia ser cercado. Todos teriam de atacá-lo de frente e sem se aglomerar. Tinha uma quantidade boa ainda de munição no colete, mas não seria boa ideia usar tudo agora. Foi quando Leon viu que atrás deles havia um carrinho com explosivos. Deu um tiro nele e houve uma explosão. Abaixou-se para se proteger e quando se levantou, todos os camponeses estavam mortos. Poderia seguir.
Contornou a casa. Ao lado dela, uma estrutura de madeira formava um corredor onde só uma pessoa poderia passar. Caminhou sempre procurando observar se a cada contorno da casa não haveria algum aldeão lhe esperando. Encontrou dois, mas não teve maiores dificuldades em se livrar deles. Então chegou a uma escada de escalar. Teria de subir e ver o que havia lá em cima. Havia alguns “ganados” o esperando, mas não chegou a ser difícil lidar com eles. Não era esse o nível de dificuldade que Leon estava esperando. Estava tudo muito quieto. Apenas uns três aldeões ali? Não poderia ser verdade.
O agente passou a caminhar cuidadosamente pela estrutura, olhando atentamente para tudo o que pudesse ser um esconderijo. Mas não via nada. Nem um único movimento. Isso o deixava apreensivo. De repente se lembrou de que havia deixado Ashley sozinha. Rapidamente espiou o local onde ela estava, mas não via nem uma movimentação suspeita. Continuou caminhando até chegar a um conjunto de escadas de escalar que levavam a uma área circular. Ficava em baixo de onde estava. Olhou bem e viu que havia uma porta. Teria de descer para chegar a ela. Abriria e sairia dali. Será mesmo? O que aconteceria quando descesse? Estava tudo quieto. Podia ouvir sua respiração. Mas tinha a impressão que quando colocasse os pés no chão depois de saltar, tudo iria mudar. Bem, nisso ele estava totalmente certo.
Quando Leon tocou os pés no chão, surgiram duas mulheres com a cabeça enfaixada, apenas com uma abertura para enxergar. Era possível ver os olhos delas. Mas as faixas estavam sujas de sangue na altura dos olhos, o que dava um arrepio na espinha só de olhá-las. O que teria lhes acontecido? Nem era bom ficar pensando, até por que elas carregavam motosserras e pareciam ansiosas em usá-las em Leon. Não teria muito tempo. Teria de sair dali. E se eram como aqueles dois homens que enfrentou antes. Teriam também uma resistência absurda. Teria de conseguir subir as escadas antes que elas chegassem mais perto.
Após subir as escadas, saiu correndo e saltou para baixo da estrutura e ficou novamente no lugar em que não poderia ser cercado. Assim, teriam todos que vir pela frente. Além das mulheres com a motosserra, teria de lidar com vários aldeões que saíram sabe-se lá de onde. Teria de ser certeiro nos tiros. As duas mulheres com a cabeça enfaixada tinham uma resistência fora do normal. Será que é a motosserra que deixa eles assim? Não, eles equipavam algumas pessoas com aquelas armas exatamente por terem mais resistência. O que era injetado neles para ficarem daquele jeito? Era melhor nem saber. Deu muito trabalho. Leon teve de gastar muita munição para se livrar das duas mulheres da motosserra. Mas conseguiu. Agora poderia passar por aquela porta. Só que ainda não havia passado o perigo. Antes, o agente chamou Ashley, que não demorou em alcançá-lo.
Abriram a porta e o caminho continuou igual. De ambos os lados, havia estruturas em madeira. Mas quando avançaram, passaram a encontrar pequenas casas de madeira. Entraram com cuidado para se certificar de não terem outras surpresas desagradáveis. Não encontraram ninguém ali. Mas Leon sabia que era bom achar algum lugar seguro para deixar Ashley. Afinal de contas, deveria haver ainda mais situações em que estariam correndo risco de vida. O bilhete era claro que teriam destacado o que eles tinham de melhor no exército de “ganados”. Então era bem provável que o perigo ainda não tivesse passado. Nisso, Leon estava certo mais uma vez.
Passaram por uma casa, também em madeira, que estava vazia, pelo menos aparentemente. O agente entrou e chamou a filha do presidente para que o seguisse rapidamente. Ela obedeceu. Leon observou cuidadosamente todo o recinto. Havia um porão, então o americano desceu e deu uma geral na parte de baixo. Subiu rapidamente. Olhou e verificou que havia uma janela coberta apenas por algumas tábuas, que poderiam ser facilmente quebradas. Então ele mesmo as quebrou e saltou para o outro lado, mas não havia ninguém ali. Também não tinha como entrarem. Portanto, o único acesso ao interior da casa, seria pela porta da frente, o que o próprio agente se encarregaria de impedir. Sendo assim, este seria o lugar onde deixaria sua “companheira” de aventura.
- Ashley, você aguarda aqui. Dei uma vistoriada em tudo. Ninguém pode entrar aqui a não ser pela porta da frente, o que pretendo conseguir evitar que o façam.
Leon apanhou mais um pente de munição que guardava entre os que trouxe e se preparou para o embate. Olhou novamente para a filha do presidente.
- Bem, não é para vir ninguém. Se por acaso algum aldeão aparecer por aquela porta, tente fugir pela janela. Eu quebrei as tábuas, mas tem objetos ali do outro lado que podem impedir a entrada dos aldeões, pelo menos até que eu chegue. Se eu não vier, bem é melhor nem pensar nisso. É por que não tive sucesso em detê-los. Mas eu vou conseguir. Pode ficar tranquila.
Tranquila? Isso era a última coisa que Ashley ia ficar. Mas ela fez um sinal de assentimento com a cabeça, mais para animar Leon. O agente olhou para fora, abriu a porta vagarosamente e saiu. Caminhou cuidadosamente até uma porta larga, que dava acesso a um espaço cercado por aquelas estruturas de madeira. E ali, no centro, havia uma enorme concentração de aldeões, com tochas, foices, machados e arados. E ao avistarem-no, ouviu os gritos avisando que eles o avistaram. Eles vieram correndo na direção do intruso, que teria de ser muito hábil para não desperdiçar toda a munição que tinha guardada.
Teve de atirar na cabeça deles e quando aquela coisa estranha brotava do pescoço dos aldeões mortos é que era o problema. Eles continuavam caminhando mesmo depois de mortos, mas agora aqueles tentáculos com o que pareciam pontas de lanças. Elas passaram perigosamente por Leon, que teve de ser muito rápido para conseguir se esquivar, mas como tinha de economizar balas, teria de esperar eles se aproximarem para matar com um tiro só ou até na faca. E foi o que fez. Não demorou muito para se livrar deles, apesar de ter sofrido alguns ferimentos leves. Esperava que isso não potencializasse sua infecção, pois não queria pensar na hipótese de ele próprio se tornar uma ameaça para Ashley.
Quando terminou, chamou Ashley, que estava no interior daquela casa de madeira. Deu um assovio e ela veio correndo. Então, Leon observou o cenário à sua frente. A estrutura era composta por espécies de andaimes, onde os aldeões o estavam aguardando. Muitos saltaram lá de cima, o que deixou o agente intrigado. Era uma altura assustadora. E eles saltaram como se fosse brincadeira. E sequer caíam ao pousarem no chão. Pareciam gatos. Com certeza aquela infecção os dava uma força e uma agilidade bem maiores que teriam em seu estado normal. Sem contar que retirava dos aldeões qualquer noção de medo, apesar de claramente afetar sua capacidade de raciocínio. Ainda fazia com que perdessem quase que completamente a sensibilidade à dor e os tornava bem mais resistentes. Sim, em uma pessoa normal, teria de disparar menos vezes para conseguir matar. Neles, as vezes, eram necessários vários disparos. Além do que havia aquela coisa que brotava dos pescoços deles depois que morriam.
Ao fundo daquela estrutura, havia uma parede de madeira. Esta, ao contrário das laterais, era uma parede realmente e não apenas troncos dispostos um ao lado do outro. E ao centro, uma grande porta, que deveria ser aberta ao meio. Uma tábua atravessada a trancava. Era só retirá-la e estaria do outro lado. A porta era vermelha e tinha uma tocha do lado direito a iluminando. Dois degraus à sua frente eram a única coisa que ainda os separavam de sair daquele local. Mas, o que teria do outro lado? Descobriria de qualquer forma. Leon olhou para a filha do presidente.
- Vamos Ashley. Temos de atravessar esta porta agora. Se ficarmos muito tempo aqui, podem mandar mais aldeões atrás de nós. Temos de seguir em frente, pois parados aqui, não vamos conseguir sair deste lugar. E temos de conseguir chegar a um local onde possam nos resgatar.
Ashley apenas concordou com a cabeça e seguiu Leon. Ela parecia ainda estar em choque. Não falava quase nada e ficava apenas com uma expressão apavorada no rosto. Caminhava acompanhando o agente e corria quando tinha de correr. Bem, pelo menos assim estava sendo mais fácil do que se ela começasse a questionar as ordens que recebia. Decerto havia se dado conta do problema em que estava metida.
Quando atravessou a porta, Leon chegou a ter uma vertigem do outro lado, e olhou rapidamente para Ashley, se certificando de que ela manteria a calma.
- Ashley, fique calma. Não olhe para baixo. Segure a minha mão.
Estavam a uma altura gigantesca e uma queda significaria morte certa. Do outro lado, montanhas de pedra, e um caminho que levava a algumas casas em uma parte mais baixa, na sua direita e a uma escada à sua esquerda. Ao centro, um enorme portão, com uma gravura. Mas para chegar ao outro lado, teriam de passar por uma ponte, feita também em pedra. Só que esta ponte era estreita, de modo que só passava uma pessoa por vez. E que não tivesse medo de altura. Se ficasse tonto, seria fatal. Dos dois lados, somente a queda os aguardava. Não havia nada em que se escorar ou se agarrar, em caso de se desequilibrar. Leon sabia que chegaria ao outro lado, mas tinha medo por Ashley. Se ela caísse e morresse, todos os seus esforços teriam sido em vão. Por isso, colocou a mão para trás e disse para a filha do presidente segurá-la. Esperava com isso, dar mais segurança à garota. Só que se ela caísse, os dois iriam juntos rumo ao chão.
Para Leon, o caminho até o outro lado da ponte pareceu uma eternidade. Se estivesse sozinho, atravessaria correndo, isso não era uma novidade para ele. Mas com Ashley junto, não teria como fazer isso. E caminhar daquele jeito, lentamente sobre aquela ponte era mais difícil do que imaginara. Ainda mais, com a filha do presidente agarrada à sua mão, praticamente fazendo o sangue estancar. Pensou que iria gangrenar até chegar ao outro lado. Nem olhava para trás. Não podia arriscar, pois qualquer passo em falso significaria uma queda de muitos metros e morte. Para completar, a cada passo que dava, o fim da ponte parecia mais distante. Estava tenso, com o coração saltando pela boca. Parecia que ele se chocava contra o peito. Respirava lentamente. Sentia que se o fizesse muito rápido, poderia se desequilibrar, então segurava a inspiração de ar. Os olhos estavam atentos. Agora, e só quando já estava para lá do meio da ponte é que se lembrou que se fossem atacados por aldeões naquele momento, seriam presas fáceis. Era só eles se posicionarem dos lados da ponte e atirarem seus objetos, fosse o que fosse. Não teriam como escapar. Então, depois de incontáveis minutos que pareceram horas, chegaram ao outro lado. Leon olhou para trás e respirou aliviado. Ashley teve um calafrio e se afastou o mais que pôde daquele penhasco. Mas conseguiram. Agora, era seguir a missão.
Tomaram o caminho da direita, descendo por uma encosta até chegarem a um plano mais baixo. Dava para ver uma casa de alvenaria com o telhado de zinco. Parecia estar sem pintura. As janelas basculantes estavam abertas. O que encontrariam lá? Era melhor se certificar que não teriam surpresas antes de prosseguir. Ao redor da casa, havia alguns latões de lixo. Leon pensou que em caso de emergência, esconderia Ashley ali, afinal de contas, ela já devia estar começando a se acostumar a se esconder nesses locais. Passaram pela casa e encontraram uma escada. Subiram-na. Dava para enxergar praticamente todo o local. Não havia ninguém. Aparentemente, tudo estava em silêncio. Será que eliminara toda a população do vilarejo? Não acreditava nisso. Ao olhar para frente, enxergou o imenso portão que ficava do outro lado, que dava acesso à saída daquele local. Aonde sairiam? Estava ansioso para descobrir.
Desceram a escada e entraram na casa. Não havia quase nada dentro dela, a não ser alguns armários. As paredes estavam sem pintura, de modo que os tijolos ficavam aparentes. A porta era de metal, e apresentava sinais de ferrugem. Mas havia uma carta deixada sobre um armário caído. Também era assinada por Bitores Mendez.

“Eu claramente subestimei a capacidade do agente americano. Ele ainda está vivo. Pensei que pudéssemos esperar até que o ovo eclodisse, mas de qualquer forma, ele poderia destruir a vila inteira antes que isso acontecesse. Devemos cuidar deste estorvo. Devemos mudar nossas prioridades - por enquanto, vamos cessar nossa caça por Luis e atacar os dois americanos. Há uma construção usada para pegar traidores pouco depois do ponto onde se desce do teleférico. É o local perfeito para pegá-los. Se todo o resto falhar, eles ainda teriam que me enfrentar para poder passar pelo último portão que dá para fora da vila. Somente diante da minha vista o portão se abrirá.”

Então aquele portão definitivamente dá acesso à saída do vilarejo. Mas Leon não entendeu muito bem o que poderia significar aquela última frase. Somente com a vista de Mendez o portão se abrirá. O que isso significava? Olhou atentamente todos os armários. Não tinha ninguém na casa, mas conseguiu uma importante informação. Além do mais, sabia agora em que local estava sendo esperado e encontraria os aldeões. Depois do teleférico. Agora não poderiam mais usar o fator surpresa, pois o agente estaria preparado. Saíram os dois da casa.
Subiram o caminho de volta e pararam em frente ao portão que dava acesso à saída do vilarejo. Era enorme, em madeira, todo trabalhado. Sim, era bonito. Havia gravuras simétricas dos dois lados e bem ao centro, no local onde as duas metades se encontravam, um rosto. Então, um detalhe chamou a atenção de Leon. Um dos olhos era uma bola vermelha. O outro estava faltando. E parecia que havia alguma espécie de leitor de retina. Sim, entendeu tudo agora. Quando Bitores Mendez se referiu à sua vista para abrir o portão, era exatamente isso. Ele colocaria o olho em frente àquele leitor de retina para abri-lo. Como poderia ele abrir aquele portão? Só restava um modo. Teria de matar o prefeito da vila e retirar o olho. Então, teria de prosseguir e enfrentar Mendez. E as lembranças que Leon teve dos encontros com o prefeito da vila, não eram nada agradáveis. Das três vezes em que estiveram frente a frente, o agente foi totalmente dominado pelo chefe do vilarejo, sendo que em duas oportunidades, este poderia tê-lo matado. Mas não teria alternativa. Nem cogitava a hipótese de Mendez permitir que ele e Ashley saíssem dali. Teria de ser na força bruta.
Seguiram o caminho. Era uma subida estreita. De um lado uma parede de pedra, do outro, um penhasco de muitos metros de altura, ainda mais alto do que o da ponte. Mas agora, uma cerca os protegia de uma queda livre para a morte. Então chegaram a uma escada, que levava a outra estrutura. Tudo ali era em madeira, com exceção dos degraus, que eram de lata. Chegou à parte superior. A estrutura era em madeira, mas as paredes eram de zinco. Formava um “U”, onde um teleférico estava em funcionamento. Sim, esse era o ponto referido na carta de Mendez. Depois deste teleférico eles eram aguardados. Então, Leon se aproximou de uma das extremidades da plataforma para tentar visualizar o que os aguardava. Como não foi possível ver nada, deu meia volta e se dirigiu à entrada do teleférico.
Subiu em um dos bondinhos com Ashley e começou a descer. Até pensou em deixar a filha do presidente ali em cima. Por outro lado, seria muito longe e se por acaso ela fosse atacada, agora era melhor estar por perto. Não teria como subir de volta para socorrê-la. O ritmo do teleférico era muito lento para Leon. Já pensava que daria tempo para todos os aldeões se prepararem para atacá-lo. Foi quando algo o surpreendeu. Em alguns dos bondinhos que subiam, aldeões estavam vindo, com machados. Ao chegarem mais perto, jogaram a arma, mas nem chegaram perto de acertar Leon. Então ele se deu conta. Eles estavam mirando no cabo do teleférico. Malditos. Eram mais inteligentes do que supôs. O agente sacou a arma e deu um tiro em cada um, derrubando-os do bondinho. Depois disso, enfim, chegou à parte de baixo.
Desceram em outra estrutura em forma de “U” na parte de baixo. As paredes também eram de zinco. Logo que pisaram no chão, já passaram a caminhar para contornar a área de desembarque do teleférico. Leon sabia que deveria ter gente por ali, então, todo o cuidado era pouco. Deixou a arma preparada e sempre mantinha o olhar voltado também para o lugar de onde vieram, para não serem apanhados de surpresa.
À frente havia uma parede de tijolos. A pintura era clara, mas não pegava a parede toda, de forma que em vários pontos, era possível ver os tijolos. Duas janelas grandes de vidro mostravam uma sala. Deveria ser ali o controle do teleférico. Leon entrou na sala pelas janelas, que estavam com os vidros quebrados. Do lado de dentro, uma cadeira em frente a um painel de controle e mais nada, apenas alguns armários. Não havia ninguém ali dentro, o que o deixava intrigado. Se o estavam esperando no teleférico, como poderia não ter ninguém ali? Teria sido um blefe por parte de Mendez? Será que sabia que o agente leria a carta e teria escrito apenas para intimidá-lo? No entanto, até o momento, essa não era uma das características do prefeito do vilarejo. E não esperava que ele tivesse mudado a forma de agir. Sim, logo deveria ter surpresas. Antes de sair da sala, desligou o teleférico.
Saiu da sala e chegou a uma escada de metal. Havia alguns lances, mas Leon sabia que seria agora que teria de ter mais cuidado. Havia locais nas proximidades com entradas, como cavernas. Se houvesse alguma emboscada, seria ali. Muitos aldeões poderiam estar escondidos e saltarem das cavernas para pegar os intrusos despreparados.
Após descer o primeiro lance de escadas, os dois pararam em frente a uma ponte de madeira, que levava a uma caverna. Leon olhou para a filha do presidente.
- Espera aqui um minuto. Espero não demorar. O teleférico está desligado, então, não deve vir ninguém por cima. Se você ver algo estranho, suba até a sala de controle e se esconda por lá. Mas acho que não vai precisar, devem estar dentro da caverna. Vou dar uma averiguada. Se passássemos reto, poderiam nos encurralar lá em baixo. Entendido?
Ashley fez um sinal de positivo com a mão, mas não disse nada, até para não fazer barulho. Leon respondeu com o sinal de positivo e entrou na caverna. Era em curva, de modo que não podia ver muito a frente. Teria de avançar para ver o que o aguardava. Quando chegou, viu uma barricada, com aldeões o esperando. Um deles acendeu uma banana de dinamite, mas foi surpreendido. Leon correu na direção deles e subiu uma escada de escalar. Sem saber o que fazer o aldeão viu a dinamite explodir em sua mão, matando ele e todos os aldeões que estavam ali. Na parte de cima, outro túnel. Leon encontrou outro aldeão, mas que estando sozinho, não foi um grande obstáculo, mesmo com o fato de que aquela coisa saiu do pescoço dele depois de morto. Contudo, Leon conseguiu eliminar este também. Caminhou pelo restante do túnel para verificar que estava realmente sozinho. Constatou que não havia ninguém ali. O agente já se encaminhava para a saída, quando algo chamou sua atenção. Havia um altar, com duas tochas acesas, uma de cada lado. Atrás dele, um pano com o símbolo da seita dos Illuminados. Sobre o altar, parecia haver sangue, Leon chegou perto, mas não conseguiu ter certeza. Sim, ali fora realizado algum ritual. Mas não havia tempo para ficar pensando no que ocorrera ali antes de ele chegar. Tinha de sair logo, pois Ashley o estava esperando do lado de fora.
Continuaram descendo as escadas de metal. Sempre tomando o cuidado de ver se não havia ninguém escondido nas esquinas. Não encontraram ninguém até chegarem à base da escada. Encontraram então um caminho que levava a outro portão de madeira. Leon admitiu que esperava por mais dificuldades para chegar até ali. Mas não teve tanta resistência. Atrás daquele portão, encontraria o que? Possivelmente estava chegando a hora de confrontar com Bitores Mendez. E Leon sabia que agora não poderia contar com a sorte, nem com a misericórdia do chefe do vilarejo. Sabia que desta vez ele estará disposto a matar o agente americano, que já está causando muitos estragos no vilarejo.
Ao se aproximar do portão, Leon sentiu o coração bater acelerado. Sim, era um agente experiente, bem treinado e que já tinha passado por situações muito difíceis. Tinha a confiança do presidente, o que não é pouca coisa. Mas não tinha como negar que o que estava por vir poderia ser a luta mais difícil de sua vida. Bitores Mendez parecia não apenas ser forte e grande, mas também rápido. Teria de evitar o confronto corpo a corpo, pois não conseguira sequer acertar o prefeito da vila com seu chute na primeira vez. O homem parou seu pé com apenas uma mão. Se é fato que a infecção os torna mais velozes e resistentes, teria de ter muito cuidado. Leon ainda não estava assim, mas também não era controlado por Saddler. Mendez sim. Abriram o portão.
Do outro lado do portão, o caminho seguia com a mesma paisagem que Leon vira desde que chegou. As árvores sem folhas, a estrada de terra, pouca ou nenhuma vegetação rasteira. A estrada dava em frente a um grande galpão. Teria de entrar. E não teria alternativa se não lutar com Bitores Mendez. A final, a única forma de sair dali era levando o olho do chefe do povoado para passar pelo leitor de retina. Não teria alternativa. O agente olhou para Ashley e fez um sinal para correrem até o galpão. Ela o acompanhou. Chegaram em frente à porta. Leon parou, segurou o trinco mas antes de abrir, olhou para a filha do presidente. - Acho melhor você se esconder e esperar aqui do lado de fora.
Ela olhou com medo.
- O que tem aí dentro Leon?
- Acredito que o prefeito da Vila esteja aqui. Pela carta que li antes, ele está me esperando.
Ela tremeu.
- Você vai ficar bem?
Leon nunca teve tanto medo de mentir na vida.
- Sim, pode ficar tranquila. Espero não demorar. Logo sairei por aqui e vamos embora deste vilarejo.
- Sim, tomara que esteja certo.
Leon mais uma vez olhou para a porta e para Ashley.
- Certo, agora se esconda. Se Bitores Mendez sair dali de dentro, tente se esconder. Nesse caso, e somente nesse caso, significará que ele me venceu. Mas isso não vai acontecer.
- Ele vai matar você?
- Bem, eu acho que é isso o que ele quer. Mas não vai conseguir. Pode ter certeza que quem vai sair por esta porta serei eu.
Leon queria ter tanta certeza disso quanto demonstrava, mas não podia deixar passar uma imagem de insegurança para a filha do presidente. Isso iria apavorá-la. Tinha de se mostrar confiante, mesmo que não estivesse. Ela então se apressou em cumprir o pedido do agente e se escondeu. Ele pegou em um dos trincos da porta e se preparou para abrir. O que veria do outro lado? Já iria saber.
Ao entrar, a surpresa. Nada. Tudo estava quieto. Olhou melhor, enquanto foi caminhando lentamente, com a arma em punho, sempre cuidando todos os detalhes, qualquer movimento. Mas com todo aquele tamanho, seria meio difícil para Bitores Mendez se esconder. Sentindo o coração bater no pescoço, a saliva grossa e o suor correndo na testa, Leon apenas observava o local. E até preparava uma estratégia para o combate. Viu que estava em um grande galpão, com muitos barris de gasolina. Era fundamental ter cuidado para que nenhum explodisse quando ele estava por perto. Por dentro ele era todo de madeira, o que queria dizer que provavelmente se colocassem fogo ali, ele se alastraria rapidamente. Havia duas escadas de escalar que levavam a uma estrutura acima deles, que contornava a parede do fundo e as laterais. Talvez precisasse subi-las. Mas cadê o chefe do vilarejo? Será que estava tramando trancá-lo ali dentro e tocar fogo no local? Não, Mendez não faria isso, pois não teria como ter certeza que Leon estaria morto. Poderia escapar. O prefeito do local iria querer matá-los com as próprias mãos para se certificar de que o agente não incomodaria mais. Então, subitamente, uma sombra passou pela frente de Leon, quando ele se virou para o lado esquerdo. O que poderia ser? Estava sozinho, mas algo se moveu muito depressa. Sim, não foi uma piscada de olho. Sua visão foi escurecida por algo que passou por ele. Só poderia estar atrás do agente, que se virou rapidamente para trás e se preparou para atirar.
Nesse momento, nem chegou a ver quem estava ali, mas sentiu uma mão enorme agarrando seu pescoço. Sentiu seus pés saindo do chão e então viu Bitores Mendez. O prefeito do vilarejo então, atirou Leon contra uma tábua de madeira. Ele bateu as costas na barra de madeira e caiu no chão. Sentiu como se todo o ar tivesse escapado dos seus pulmões. Mas tinha de se levantar o quanto antes. Mendez deu as costas ao americano e se dirigiu à porta. Pegou os trincos e os torceu com tamanha força que eles pareceram ser feitos de borracha. Agora, Leon não teria como sair dali. Não estava pensando em fugir da luta, mas o chefe do local torara essa hipótese impossível. Ao contrário das outras vezes em que se encontraram, agora, somente um deles sairia dali vivo. E Leon esperava muito que não fosse o prefeito. Mas ele tinha uma força descomunal.
Mendez então se virou para Leon e veio caminhando lentamente até onde o agente estava. Este lembrou-se da última oportunidade em que se encontraram, que alguém atirou no chefe da vila, mas que ele aparentemente nem sentiu os tiros. Como fazer? O que fazer? Não importa, teria de ser rápido. Bitores Mendez fechou a enorme mão e se preparou para o golpe. E então se atirou sobre Leon, que se esquivou a tempo. O prefeito tentara agarrar seu pescoço novamente. O americano, no entanto, caiu perto de um dos barris de gasolina e o derrubou. O líquido escorreu na direção de Mendez, que ficou olhando para o chão. Leon apontou para a gasolina e engatilhou.
- Até logo.
E atirou. O líquido se inflamou e o fogo rodeou o prefeito. Leon se atirou para longe e houve uma explosão. Não atingiu mais latas, o que não fez com que todo o galpão fosse pelos ares. Seria o fim do prefeito? O agente ficou apenas observando Bitores Mendez, sua camisa se desmanchou. Sua pele foi queimando. Então, uma terrível surpresa aconteceu. Mendez não estava morrendo, estava passando por uma metamorfose. Duas coisas brotaram das costas do chefe do vilarejo. Pareciam tentáculos, ou algo do gênero, vermelhos. E a coluna de Mendez se esticou, rasgando seu corpo. Ele ficara uma criatura monstruosa agora. Tinha como que quatro braços, sendo que dois saíam de suas costas, mas sem mãos. Em lugar delas, havia duas pontas. E sua espinha ficou esticada, com a coluna e costelas expostas, mas ele passava a ter quase a altura do galpão. No entanto, ele caminhava todo desajeitado Porém, se acertasse um único ataque, poderia ser fatal. Provavelmente seria, pois aquelas pontas em seus braços eram piores que espadas.
Leon apanhou uma das granadas que ainda tinha no colete e atirou antes que aquela coisa chegasse perto. Deu certo. Ela explodiu, derrubando-o. Havia mais dois latões de gasolina e Leon atirou em um deles, que ficava perto de onde o prefeito estava. Era o mais longe. Deu sorte, com a explosão, o prefeito caiu novamente, sendo gravemente ferido. Mas não estava morto. E com uma velocidade anormal, Mendez se levantou e veio até onde Leon estava, atacando ferozmente. O agente se esquivou e uma daquelas pontas zumbiu o seu ouvido, se cravando no chão. Nem deu tempo de respirar e veio a outra ponta. Quase acertou. Por quanto tempo conseguiria se esquivar? O chefe do vilarejo estava a uma distância perigosa. Tinha chegado muito perto. Foi quando Leon viu uma coisa.
Naquela coluna anormal que surgiu quando o prefeito pegou fogo e que agora totalmente exposta, havia algo que ficara na altura que deveria ser o abdome de Mendez quando ele estava em sua forma humana. Sim, era uma espécie de coração. Algo que vibrava, que parecia se contrair e expandir. Estava muito perto. Seria um tiro. Leon apanhou seu revólver e mirou bem de perto naquele lugar. Não poderia errar. Se falhasse, iria ser atingido pelo próximo ataque de Mendez. Apertou o gatilho e a bala saiu da arma. Quando acertou o órgão, deu para ver o sangue espirrando. Bitores Mendez recuou e se dobrou, caindo no chão. Sim, fora atingido em um ponto vital. Leon vencera? Então, mais uma surpresa. O prefeito lançou aqueles enormes braços que nasceram de suas costas para o alto e se agarrou a uma das vigas de madeira suspensas no teto e se içou para cima. As pernas e a coluna dele ficaram no chão. Mendez agora era só cabeça, peito e braços. Uma parte de sua coluna e costelas o acompanharam e ficaram monstruosamente expostos. Seu sangue pingava do alto, mas ele estava vivo. E não iria parar enquanto Leon continuasse vivo.
Então, como que aproveitando o momento de atordoamento de Leon, Mendez veio se pendurando nas vigas de madeira suspensas sob o teto com aquelas coisas que saíam de suas costas e quando chegou perto, lançou a extremidade pontiaguda na direção do agente, que por puro reflexo conseguiu escapar para o lado. Então, mirou e acertou a cabeça do prefeito da vila, que caiu no chão. Leon levantou e olhou para aquela coisa. Não estava morto ainda, não adiantava ter esta esperança. Bitores Mendez ergueu novamente aquela espécie de tentáculo para se içar novamente ao teto, quando o agente percebeu um tonel de gasolina bem ao lado do seu adversário. Não pensou duas vezes. Atirou antes que o chefe do vilarejo conseguisse se alçar ao alto novamente. A bala saiu do revólver e acertou em cheio o tonel, que explodiu.
A explosão abriu um buraco na parede lateral. O local estava começando a incendiar por completo. Bitores Mendez caiu no chão e olhou para cima. Tentou mexer um daqueles braços com a extremidade pontiaguda, mas não conseguiu. Quando forçou para levantá-lo, apenas saiu sangue de sua boca e ele soltou um grito de agonia. Depois disso, caiu em definitivo no chão. Ainda voltou-se para Leon, mas seus olhos já não viam mais nada. Neste momento, o olho de cristal caiu de seu rosto e rolou pelo chão. Era essa a chave para abrir o portão que dava acesso à saída do vilarejo. Bitores Mendez estava morto.
Leon conseguiu saltar pela janela. O caminho já estava parcialmente bloqueado pelas chamas, mas não teve maiores problemas. Ao sair, ouviu movimentação. Levantou-se rapidamente, mas apenas ouviu Ashley. Sim, era ela, óbvio.
- Está tudo bem, Leon?
- Sim, está tudo bem. Vamos agora até o portão. Temos a chave para sair do vilarejo.
Ashley olhou para o agente e deu um sorriso largo, que fez o agente sorrir também. Os dois saíram correndo. Ela pela ansiedade para sair do vilarejo. Leon, por este motivo e por saber que o galpão deveria explodir a qualquer momento devido ao incêndio perto dos latões de gasolina. Eles passaram novamente pelas escadas de metal em direção ao teleférico. O agente entrou na sala de comando e ativou novamente os bondinhos. Agora iria voltar ao portão. Leon colocou o olho de cristal frente ao leitor de retina e o portão se abriu. Estavam finalmente fora do povoado. O que iriam encontrar agora?
O caminho seguia uma subida guardada por dois aldeões. Mas eles sequer tentaram fazer qualquer coisa. Antes, um caminhão desceu atropelando tudo o que havia na frente. Leon teria de ser rápido, se não ele e Ashley seriam esmagados pelo veículo. Atirou nos pneus no caminhão. Para chegar onde os dois americanos estavam, o motorista teria de fazer uma curva. Com os pneus estourados, não conseguiu e o caminhão tombou. Leon e Ashley passaram pelo caminhão tombado. O motorista havia morrido no acidente também. Entretanto, o portão por onde entraram abriu e ouviram que mais aldeões entraram e passaram a correr atrás deles. Os dois correram até uma ponte de pedra, que levava a um castelo. Quando pararam na entrada, viram um enxame de tochas vindo em sua direção por todos os lados. Os dois se olharam.
- Ashley, acho que não vamos ter alternativa se não nos abrigarmos neste castelo.
Ela olhou para os aldeões enfurecidos e teve de concordar. Ambos correram para dentro do castelo. Assim que atravessaram a ponte, Leon olhou para Ashley novamente.
- Você está vendo estas manivelas? Elas irão levantar a ponte. Vamos girá-las ao mesmo tempo. Se não fizermos rápido, logo aqueles aldeões estarão todos aqui.
- Certo.
Os dois giraram as manivelas o mais rápido que conseguiram. Quando os aldeões chegaram perto da ponte, ela já estava erguida e não conseguiram seguir os dois americanos. Eles ficaram batendo na ponte. Comentaram entre si.
- Malditos de merda.
Os dois então adentraram no castelo. De quem seria? Era a pergunta que Leon se fazia. Ashley também estava apreensiva. Os donos seriam amigáveis? Seriam como os aldeões? Estariam infectados? O agente e a filha do presidente de fato não sabiam, mas estavam entrando na propriedade de Ramon Salazar, que doou-a para a organização religiosa de Osmund Saddler e é seu mais ilustre servo. Os americanos não sabiam, mas tinham acabado de entrar no ninho das cobras. Agora iriam defrontar com um dos mais importantes membros da seita Los Illuminados.

Capítulo 19

El Pueblo, Espanha, século XVIII.
A Espanha tem e sempre teve como grande característica o catolicismo fervoroso. No século XV, a unificação espanhola se deu sob a égide da religião, quando os reis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os reis Católicos uniram os dois reinos com seu casamento. A partir de então, eles unificaram também seus esforços na Guerra da Reconquista, expulsando os muçulmanos da região, fazendo-os voltar para a África pelo Marrocos. O último reino reconquistado foi Granada. Foi na Espanha onde se deu uma das mais poderosas Inquisições da Europa. E foi na Espanha que Napoleão sofreu uma de suas maiores derrotas, por ter os membros da Igreja Católica como adversários.
No entanto, no interior da Espanha, em uma região agrária, um culto começou a se difundir entre os aldeões. Em um povoado, chamado El Pueblo, a grande Catedral foi transformada em sede de uma seita que cultuava um parasita, denominado Las Plagas. Essa seita ficou conhecida como Los Illuminados. O parasita tinha como característica controlar o comportamento de seus hospedeiros. Por este motivo, passou a ser considerado uma divindade. A princípio, os membros desta seita não tinham um líder, como a Religião Católica, que tem o Papa, mas sim, várias lideranças, que presidem os cultos. O que poucos sabiam é que existiam duas formas de parasita. O Las Plagas em sua forma controlada e o na forma controladora, sendo que este é que estabelece relações de subordinação entre os infectados. Os segundos comandam os primeiros. Tanto as lideranças, quanto liderados eram infectados. Acreditavam que ao injetarem o parasita em seus corpos, as pessoas estavam se purificando, se livrando de seus pecados.
No princípio, a seita de Los Illuminados foi passando despercebida, sem receber atenção, a final de contas, os fiéis seguiam suas vidas normalmente, sem incomodar ninguém. No entanto, com o passar do tempo, os líderes do culto começaram a ficar cada vez mais ousados. Passaram a tentar cooptar pessoas mais influentes dentro do vilarejo, como o prefeito de El Pueblo. Os monges que continham as plagas na forma controladora passaram a fazer ameaças veladas. Passaram a espalhar que quem não se purificasse seria considerado pecador, impuro e teria de expiar pelos seus pecados. Um dia, um dos monges chegou ao prefeito do Vilarejo, chamado Artur Diaz e passou da ameaça velada para a ameaça explícita.
Sentado na poltrona da sala de estar da casa do prefeito, ele, com os braços descansando sobre a poltrona em frente à lareira, encarou Diaz e disse:
- Meu senhor. Meus fiéis não aceitam que o senhor, sendo a grande autoridade do vilarejo seja um pecador, um infiel. Como irei apascentar minhas ovelhas? Eles acabarão se revoltando e não poderei assegurar sua segurança.
O prefeito se levantou da poltrona. Já tinha ouvido muito.
- O senhor está me ameaçando?
Sem perder a calma, o monge ergueu a cabeça para continuar encarando o prefeito.
- De forma alguma, meu senhor. Estou apenas lhe avisando.
O prefeito caminhou até a porta e abriu-a.
- Estou convidando-o a se retirar.
O monge se levantou e caminhou até a porta. Antes de sair, ele olhou para trás e disse:
- O senhor irá se arrepender amargamente por este momento.
Não demorou muito, e o prefeito Artur Diaz foi até o dono do castelo que morava nas redondezas. Estava preocupado com as ameaças que ouviu daquele monge maluco. Mas o que ele poderia fazer? Era o que Diaz pensava. Mas em pouco tempo, ele viu que realmente as ameaças do monge poderiam se tornar realidade. A final de contas, os aldeões eram muitos. E se todos já estavam seguindo aquela estranha seita e realmente pensassem que ele era um infiel pecador que merecia ser eliminado, o que poderia fazer?
Na conversa que teve com Roberto Salazar, o dono do castelo, Diaz deixou claro que a situação poderia ficar muito difícil se a seita não fosse destruída o quanto antes. Era inegável que os monges tinham planos de expandir seu número de fiéis, e isso implicava converter os poderosos do lugar. O prefeito e o dono do castelo. Salazar não sabia, mas os Illuminados tinham planos para o castelo. Logo ele saberia, no entanto, que os líderes da seita queriam tornar o castelo a sede do seu culto. E ficou sabendo disso em uma visita que um dos líderes, o monge foi explícito.
- Senhor Salazar. Como já disse ao prefeito, não convém que nossas lideranças estejam ainda trilhando o caminho do pecado. Por isso, venho até aqui para convertê-lo.
Roberto Salazar, primeiro, fez o jogo do seu visitante.
- Sim. E como seria esta conversão?
O monge se animou.
- Temos de purificá-lo. Essa purificação é feita em um ritual, onde o senhor receberá nossa divindade.
Salazar ficou sabendo que injetariam o parasita Las Plagas em seu corpo, o transformando em uma marionete dos monges.,br> - Meu caro monge. Agora não vou responder, mas prometo pensar em algo e dar a resposta assim que chegar a alguma conclusão.
O monge se levantou da poltrona onde estava sentado e se dirigiu até a saída.
- Não vamos esperar muito. E mais uma coisa. Quando o senhor se converter, como forma de pagar por anos de pecado, aceitaríamos que o senhor oferecesse seu castelo para ser a sede de nossa religião.
Salazar riu.
- Prometo pensar com carinho em sua proposta. Logo darei a resposta.
No entanto, os acontecimentos atropelaram tudo o que Roberto Salazar havia pensado. Os aldeões mataram o prefeito e colocaram um seguidor da seita no seu lugar. O dono do castelo sabia que ainda tinha homens fiéis e que estavam a salvo da loucura daquela seita. Então, aproveitou enquanto ainda havia tempo e declarou guerra aos Illuminados. Em um ataque surpresa, seus homens atacaram e arrasaram o local onde a seita Los Illuminados fazia um culto. Para terminar o serviço, eles conseguiram enterrar todos os parasitas Las Plagas muitos metros a baixo do solo, selando todos eles. Assim, aquela loucura deixava de ser uma ameaça e El Pueblo voltava ao normal aos poucos. Salazar conseguiu eliminar a ameaça de Los Illuminados. Era o que ele pensava.

Isso ocorreu na época do primeiro dono do castelo, logo que ele terminou de ser construído. Mais de duzentos anos se passaram. Roberto Salazar ainda era jovem, envelheceu, morreu e foi sucedido por mais seis gerações. O sétimo castelão, no entanto, Dom Juan Carlos Salazar foi quem voltou a se defrontar com a seita. Na verdade, ela nunca deixou de existir. Apesar de ter sido praticamente extinta e de os parasitas Las Plagas terem sido selados, nem todos os vestígios do organismo ficaram em isolamento. Isso porque seu líder, na verdade nunca morreu e esteve o tempo todo por trás da movimentação para fazer o culto ressurgir.
O monge que conversou com Artur Diaz, o prefeito de El Pueblo e depois com Roberto Salazar era um homem estranho. Alto, com cabelos grisalhos, usando uma túnica roxa, ele tinha sempre ao seu lado um cajado ainda mais estranho. Parecia conter algo vivo na ponta, pois ele se mexia. O que era aquilo? Ninguém, no entanto perguntou. Ele o usava em seus cultos, assim como outros altos sacerdotes de Los Illuminados. O nome deste estranho monge era Osmund Saddler. Na verdade, sua aparência humana esconde um monstro, mas poucos sabem disso, apenas alguns monges mais graduados. Com a morte da maioria dos cultistas, Saddler passou mais de duzentos anos recuperando suas forças e procurando um meio de libertar os parasitas selados. No entanto, isso seria impossível enquanto a determinação dos Salazar em impedir com que Los Illuminados voltassem ao povoado seguisse. Foi quando uma notícia que abalou o vilarejo chamou a atenção do líder da seita.
Nasceria o primogênito de Salazar. Mas algo deu errado e a esposa de Juan Carlos faleceu a dar a luz. Seu filho, Ramon, nasceu prematuro e com uma saúde muito precária. Acabou sobrevivendo, mas seria uma criança frágil. Ramon Salazar não teria como sair muito longe, visto que sempre precisava de cuidados médicos. A educação dele se deu no castelo. Ramon tinha poucos amigos e pouca interação com o mundo exterior. Juan Carlos conseguiu com que alguns aldeões levassem suas crianças para brincar com ele. No entanto, como era muito frágil, Ramon se machucava muito e ficava doente com muita facilidade. Seu amigo, no entanto, além de seu pai, era o mordomo, Sergio Valdez, com quem mais convivia. E desde pequeno, Juan Carlos sempre o advertiu que se algum dia se deparasse com os membros do culto Los Illuminados, que tomasse muito cuidado com eles.
Quando completou 14 anos, Ramon em uma curta caminhada que dava ao redor do castelo para tomar um pouco de ar puro e pegar sol, foi surpreendido por um grande cão. O animal parou e ficou rosnando. Ramon estava sozinho, pois foi em um momento em que o mordomo se distraiu, pois a princípio, não haveria maiores ameaças dentro do pátio. Mas naquele momento, o pequeno Salazar não sabia o que fazer. Sabia que se movesse um músculo, se fizesse qualquer movimento, seria atacado. Mas se continuasse ali parado, era questão de tempo para que o cão saltasse sobre ele. E o animal foi chegando perto e rosnando. Ramon deu um passo para trás e acabou se desequilibrando e caiu. Então, o cão correu na direção dele. O menino fechou os olhos e esperou sentir os dentes do cão em seu corpo, mas então… apenas ouviu uma voz. Era um homem que deu uma ordem para que o cão parasse. Mas não era seu pai, nem o mordomo. Quem era?
Ramon Salazar se levantou e ficou olhando para o homem estranho. Ele parecia ter alguma autoridade sobre o animal, mas este parecia temer aquele. Então, o cão saiu correndo e o estranho se aproximou de Salazar e lhe estendeu a mão. Após se levantar, o menino ficou um tempo olhando para o seu salvador. Era alto, de cabelos grisalhos e usava uma túnica roxa, com um capuz sobre a cabeça que lhe cobria parte do rosto. Carregava um cajado estranho. Ele sorriu.
- Me desculpe por ter invadido a propriedade, mas vi o portão que dá acesso à estrada aberto e a ponte abaixada e este cão entrando por ali. Então, observei que o senhor estava caminhando pelo pátio desacompanhado e resolvi entrar atrás do animal, pois pensei que poderia acontecer algo ruim. Estes animais selvagens nem sempre são mansos. Acho que fiz bem. Ou estou enganado?
Salazar ainda estava confuso com o que ocorreu, mas respondeu:
- Muito obrigado. Como é o seu nome?
O homem sorriu.
- Me chamo Osmund Saddler.
Então era ele? Sim, Ramon Salazar já tinha ouvido este nome. Seu pai o expulsara algumas vezes do castelo e dissera que era uma pessoa ruim.
- Meu pai disse para eu não conversar com você.
Saddler riu.
- Seu pai não me conhece. Bem, eu poderia tê-lo deixado ser atacado por aquele animal.
- Sim, eu lhe agradeço.
Salazar ficou pensando em por que seu pai não gostava de Saddler? Ele parecia uma boa pessoa. E o salvou daquele cão. Se não fosse por ele, poderia estar morto.
- Muito obrigado, senhor Saddler. Você viu o mordomo?
Osmund Saddler olhou ao redor antes de responder.
- Não vejo ninguém. Deixa que eu o levo até o castelo. Pode ser que aquele cão ainda esteja por perto.
Salazar seguiu Saddler em silêncio alguns passos, enquanto o menino ainda se recuperava do susto. Então, ele, com a curiosidade das crianças, começou a fazer perguntas.
- O que o senhor faz?
Osmund Saddler, com um semblante risonho, respondeu:
- Sou líder de uma comunidade religiosa.
Era um religioso? Mas seu pai nunca foi contra a religião, pelo contrário, Sempre traz padres para rezarem para eles na capela do castelo. Por que não gostava deste homem, que parecia ser tão bondoso?
- E por que meu pai não gosta do senhor?
- Acho que ele ouviu histórias ruins de minha comunidade religiosa, mas nunca se fez essas perguntas que você está se fazendo. Simplesmente cumpriu o que seus pais disseram, assim como os pais dele. Uma vez, o primeiro dono do castelo brigou com o líder da minha comunidade religiosa. E desde então, os Salazar são inimigos dos Illuminados, a minha comunidade. Eu tentei falar com seu pai para terminar com essa rivalidade, mas ele não quer me ouvir.
Ramon Salazar olhou para Saddler, com um olhar pueril.
- Vamos lá em casa falar com meu pai. Vou contar o que o senhor fez e ele vai pensar melhor. Tenho certeza que vai. Ele é uma pessoa muito boa.
Saddler riu.
- Tenho certeza de que sim.
Então, o mordomo chegou correndo.
- Patrãozinho. Eu vi um enorme cão. Consegui expulsá-lo do castelo. - Senhor Valdez. Seria bom manterem a ponte fechada. O cão entrou por lá. E ladrões podem entrar também.
O mordomo estava com cara de poucos amigos.
- O senhor entrou. Isso é o maior motivo para mantermos a ponte fechada.
- Se eu não estivesse aqui, o senhor Salazar estaria morto, pois você, que deveria estar cuidando dele, estava distraído.
- Como vou saber que não foi o senhor quem trouxe o cão?
Neste momento, Ramon gritou.
- Pare com isso, senhor Valdez. O senhor não sabe o que aconteceu. O senhor Saddler me salvou. Ele é uma boa pessoa.
O mordomo parou e olhou para Ramon Salazar, como quem olha para alguém que não sabe o que está dizendo.
- O senhor é muito jovem. Não sabe ver a maldade nas pessoas.
Salazar retrucou.
- Eu acho que o senhor e o pai é que só sabem ver maldade nas pessoas. O senhor Saddler vai entrar comigo e vamos tomar um chá.
O mordomo não quis contrariar. Estavam quase na entrada do castelo, e não adiantaria dizer que não.
- Está certo.
Enquanto o mordomo preparou o chá e serviu a mesa, Ramon Salazar continuou fazendo perguntas.
- Mas por que o primeiro dono do castelo brigou com as pessoas da sua religião?
- Não sei bem o motivo. Foi há muito tempo atrás. Às vezes, as pessoas brigam por besteiras. E depois as famílias continuam brigando sem nem saberem o motivo de a rivalidade ter iniciado. É por isso que há algum tempo, venho tentando fazer as pazes com sua família, mas seu pai está obstinado a não fazer.
Salazar então, com um olhar inocente, encarou Osmund Saddler.
- Vou tentar convencer meu pai a ficar de bem com vocês novamente.
Acontece que enquanto eles tomavam o chá, Juan Carlos Salazar chegou e ficou chocado ao ver Osmund Saddler sentado à mesa de sua casa, tomando chá com seu filho. O sangue ferveu e o castelão deu um grito.
- O que significa isso?
Saddler se levantou calmamente de sua cadeira e olhou sorridente para o dono do castelo.
- Olá senhor Salazar. Estou conversando com seu filho. Nem sabe o que ocorreu hoje.
Juan Carlos caminhou a passos firmes até perto da mesa.
- Não sei o que aconteceu, mas se você estava por perto, não pode ter sido nada de bom. Acho que disse que não queria que ninguém daquele seu culto maluco chegasse perto do meu castelo. E muito menos, do pequeno Ramon, ou não fui claro o suficiente?
Juan Carlos sabia das plagas enterradas e que Saddler com certeza iria querer tentar ter acesso a elas. O líder dos Illuminados olhou para o pequeno Salazar antes de responder.
- Acho que nosso amiguinho aqui tem uma coisa a lhe dizer.
Juan Carlos Salazar olhou para o filho e ficou esperando o que ele diria.
- Há algumas horas, o mordomo e eu fomos caminhar no jardim, mas ele se distraiu. Não sabíamos que poderia haver algum perigo. Mas a ponte que dá acesso à estrada estava aberta e um cão selvagem entrou por ali. Ele teria me matado, mas o senhor Saddler entrou atrás e me salvou. Eu poderia estar morto, se não fosse por ele.
Saddler apenas ouviu o que a criança dizia, com uma expressão de satisfação no rosto. O dono do castelo não se deixou convencer.
- E não foi você quem trouxe o cão?
Mas o garoto interveio.
- Papai, pare de ver maldade nas pessoas. O senhor Saddler é um homem bom.
Bastava. Seu filho estava defendendo aquele homem. E estava se voltando contra o próprio pai. Não podia ser verdade. O sangue ferveu nas veias de Juan Carlos, que explodiu.
- Ponha-se daqui para fora. Se não sair caminhando, vou chamar meus guardas para expulsarem-no daqui.
Saddler, sem se deixar perturbar, passou a caminhar. Não sem antes, olhar para o menino.
- Senhor Ramon Salazar. Foi muito agradável a nossa conversa. Mas agora, creio que tenho de ir. Vemos-nos em outra oportunidade.
Juan Carlos encarou Saddler com os olhos injetados.
- Não haverá próxima oportunidade. Vou mandar meus guardas mostrarem o caminho da saída.
- Ora, eu sei. Não há necessidade de me conduzirem até lá.
O líder da seita Los Illuminados se dirigiu à saída. Sem que seu pai visse, Ramon Salazar saiu correndo e alcançou Saddler. Antes que este saísse, o menino o chamou.
- Me perdoe, senhor Saddler. Meu pai não sabe o que faz. Eu prometo que quando eu assumir este castelo, vou fazer as pazes com sua religião e seus monges poderão usar o castelo como sede. Vou fazer isso para me redimir pelo que meus familiares vêm fazendo de mal a vocês por todos esses anos.
Saddler riu.
- Menino, ainda é muito cedo para dizer isso. Seu pai ainda é jovem e vai viver muito tempo. Eu nem sei se estarei vivo ainda quando o senhor se tornar o castelão.
- Claro que vai.
Ramon Salazar não sabia, mas selou o destino de seu pai. Em pouco tempo, Juan Carlos foi acometido de uma doença misteriosa e morreu. Ramon tinha 16 anos e passou a governar o castelo, sendo tutelado por Sergio Valdez. E apesar da oposição do mordomo, aos poucos, Osmund Saddler passou a se tornar uma presença constante no castelo. Até o momento em que o local virou oficialmente a sede da seita Los Illuminados.
A busca por Las Plagas iniciou. Aldeões vieram de El Pueblo para escavar as minas. Salazar mandou comprar máquinas modernas para as escavações. E em algum tempo, eles as encontraram. Valdez ficou aterrorizado com o que estava acontecendo. O que ele ouvira que havia ocorrido há mais de dois séculos voltaria a acontecer. A loucura de Los Illuminados, que Roberto Salazar achou que tinha terminado voltaria. Não podia ser. Mas não havia nada que ele pudesse fazer para evitar.
Os primeiros aldeões contaminados voltaram a El Pueblo. Ao que parece, as primeiras infecções se deram pela respiração de Las Plagas em forma de esporos. Depois, conforme Saddler foi conseguindo trazer as formas fossilizadas à vida, eles criaram em laboratório, frascos com amostras, que eram injetadas nas pessoas. Diziam que estavam purificando aqueles que recebiam o parasita. E não demorou para que o próprio Ramon Salazar fosse infectado. Depois dele, foi a vez do prefeito, Bitores Mendez. Eles receberam a forma controladora, para poderem manipular os aldeões, os monges e os monstros que Saddler estava criando nos porões do castelo.
Por fim, foi a vez do mordomo. Eles o colocaram sentado em uma cadeira e injetaram o parasita. Sergio Valdez pensou até que seria melhor assim, pois se era para ver tudo aquilo, seria menos pior não ter consciência do mal que estava acontecendo. Seria mais uma marionete de Osmund Saddler. Mas antes de perder totalmente a sua autonomia, o mordomo ainda escreveu uma carta e deixou no castelo, na esperança que alguém de fora viesse e colocasse fim àquela loucura. Que conseguisse matar Osmund Saddler e até Salazar e ele, se fosse necessário. Tudo seria bom para acabar com esse culto de lunáticos que começava a tomar conta de El Pueblo.
Ramon Salazar começou a sofrer uma estranha mutação. Seu corpo foi todo envelhecendo, e aos vinte anos, ele parecia ser um idoso. Mas seu poder era grande, sobre todas as criaturas infectadas com as formas submissas de Las Plagas. As criaturas que ele podia controlar incluíam dois monstros, os Verdugos, que até pareciam seres humanos, pois tinham cabeça, membros, pés e mãos. Mas eram grotescos, com garras, presas, além de uma força e velocidade descomunais. Eram verdadeiras bestas a serviço dos Illuminados. Mais criaturas foram sendo feitas nos porões do castelo. E Salazar foi ficando cada vez mais poderoso. Sempre ao lado de seu agora mestre, Osmund Saddler.


Continua...



Nota do autor: Sem nota.



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