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Resident Evil - Incubação






Última atualização: 29/09/2017

Prólogo


Incubar:
Fertilizar um ovo (ovulo) para eclodir, multiplicar-se, crescer;
(Projeto) Incorporação gradual;
(Doença) Incubação.


Pensamentos malignos caem como gotas em um rio cristalino. Elas silenciosamente formam ondulações na água e pouco depois o rio está manchado como se fosse por lodo. O coração puro se perde, manipulado e preso por correntes como por uma maldição.
Há uma vila guiada por ensinamentos malignos, uma vila de tristeza. Não há flores na estrada, nem vozes alegres, nem traço de calor de vida é encontrado em lugar algum. A única pista de quem eram os aldeões que costumavam viver aqui está em rascunhos e bilhetes espalhados e deixados para trás.

***

Nesta vila, as pessoas estimavam os mais velhos, seus vizinhos e os rostos sorridentes das crianças. É uma vida simples e alegre, onde as pessoas trabalham duro para manter os velhos costumes e tradições. Uma vida pacífica. Durante essa época adorável, eu nasci, e voltei a terra. Eu amo esta vila.
Eu queria que ela tivesse continuado assim para sempre. Às vezes eu paro para pegar emprestados os escritos dos aldeões, e leio coisas a respeito dessa vila maravilhosa, para passar para as crianças ainda não nascidas das próximas gerações.
Tanto homens quanto mulheres trabalhavam duro na vila. Quando chegava a época do plantio, a vila inteira ficava ocupada com os preparativos.
No refrescante sol matinal, o sino tocaria, e as pessoas viriam das fazendas. Gotas de suor brilhavam nas testas dos homens que cultivavam o solo. As mulheres cantavam e conversavam umas com as outras, mas elas também estavam ocupadas ajudando no plantio. Ao meio dia, todos sentavam e descansavam, e comiam o almoço que estava preparado para eles. O pão assado fresquinho preparado pelas esposas dos homens os ajudava a se recuperarem de sua fadiga. E então, era hora de voltar ao trabalho.
Para os aldeões, trabalhar no campo era como cuidar de crianças. Com o amor dos aldeões, e a benção da natureza, eles teriam uma boa colheita em breve.
Para mim era assim também. Até as crianças começavam a ajudar cuidando das vacas e galinhas desde cedo. Como eram apenas crianças, era um trabalho duro transportar os baldes cheios de leite que os homens tiravam das vacas. Os laços sanguíneos eram fortes, pode-se dizer que a vila era uma grande família. Era uma ligação forte, que fazia com que todos na aldeia ajudassem uns aos outros. Todos os garotos da vila sabiam que quando crescessem, ajudariam a vila a prosperar com o melhor de seus talentos.
Meu pai era um homem de poucas palavras, mas tinha pulso firme para ordenhar as vacas, e me deixava experimentar um pouco de leite dos seus dedos. Tinha uma doçura leve, e um sabor muito rico. Era delicioso. Em algumas horas, iríamos tomar este leite em casa.
Na tarde de nosso dia de folga, um de meus amigos nos convidou para jantar. Ele estava trabalhando numa escavação no antigo castelo das redondezas. Como estava muito feliz por poder participar de um trabalho tão importante, ele nos contou a respeito e demonstrou muito orgulho. Eles tinham muitos pratos deliciosos enfileirados. Mas para mim, o maior prazer estava em sentarmos juntos, como uma família. Também nesta casa, eles valorizavam a mobília e os talheres antigos, e cuidavam bem deles. Levavam uma vida simples, assim como a nossa família, mas o modo como organizavam tudo era muito legal.
No jardim lá fora, eles tinham um pequeno canteiro de flores. Eles pararam em fila diante dele, e eu peguei meu pincel. Como agradecimento pelo jantar, eu pintei um retrato que eles poderiam dar ao seu bebê quando ele crescesse. Eles todos sorriram timidamente. Obrigado por seus doces rostos sorridentes.
Nesta vila, havia um conto que passava de geração para geração. Era um conto de louvor, do primeiro lorde do castelo, que combateu o paganismo neste lugar. Graças a este lorde, esta vila existe, e podemos continuar vivendo em paz. Geralmente, este conto é contado por avós para seus netos, enquanto a mãe e o pai da criança estão no trabalho. Na casa ao lado, a vovó contou para sua neta, enquanto plantava. E um dia aquela neta, provavelmente seria uma avó, e contaria o conto para a sua neta da mesma forma.
O verdadeiro lorde do castelo era um homem de um forte senso de justiça, que protegia os aldeões. Mas o atual lorde, Sir Ramon…
O tempo de colheita havia chegado! Parece que haveria uma excelente colheita este ano, que poderíamos vender a um bom preço na cidade vizinha. Com este dinheiro, poderíamos comprar coisas que não são encontradas na vila, como gasolina. Os aldeões trabalhavam todos juntos para carregar o caminhão com a safra excedente, e apesar de ser um trabalho duro, as crianças também ajudavam. O motorista pisou no acelerador, e o caminhão se foi. Crianças devem ser valorizadas, é o que todos na vila crescem sabendo. Todos desejam apenas que suas crianças cresçam fortes e saudáveis.
Quando o trabalho já estava feito, o sol já estava se pondo. Amanhã é o festival da colheita! Eu deveria ir dormir cedo hoje e acordar cedo amanhã.
Hoje é a celebração da colheita. Uma cerimônia para agradecer à natureza por nossa boa safra. Comer bem, o quanto quiser, dançar em círculo, e depois de toda a diversão, deitar-se no chão e observar o céu estrelado. E mesmo sendo tarde da noite, as crianças têm permissão para ficarem acordadas e brincar pelo tempo que aguentarem. Como é um dos dias festivos da vila, os pais estão dispostos a deixar as crianças ficarem acordadas apenas esta noite. E como todos trabalharam tão duro, eles aproveitam este dia especial juntos.
Por alguma razão, o chefe da vila não apareceu este ano. Mais provavelmente que o Sr. Mendez esteja na igreja com o padre, trabalhando duro, e não conseguiu vir, suponho.
Por aqui, muitas pessoas se juntam para cozinhar. Todos partilham de forma justa. Usamos a safra que cresce na vila, leite das vacas, ovos das galinhas, peixes dos rios, ingredientes que compramos coletivamente na cidade, e então todos levam a sua parte para casa. Meu irmão, que morava aqui perto, carregava seu caminhão com suas coisas, e nós dois íamos embora com o sol nos iluminando através das folhas. Ouvíamos pássaros cantarem, olhávamos as flores do lado da estrada, e nos divertíamos conversando o caminho todo para casa. A família do meu irmão saía toda para encontrá-lo, e quando ele acenava para eles, nós dois e o cavalo acelerávamos o passo enquanto elas entravam em casa. Ele amarrava o cavalo no portão. Ele carregava algumas coisas de nosso falecido pai que meu irmão ficara a cargo de cuidar. Já era minha hora de voltar para casa, mas tinha sido ótimo passar um tempo com meu irmão.
Como o chefe da vila havia anunciado que ele queria que todos da vila nos reuníssemos na igreja no próximo Domingo, eu lembrei minha esposa e minha filha que tínhamos que ir.


***

Depois que o chefe da vila havia terminado, lorde Saddler começou o sermão. Lorde Saddler era uma pessoa que o chefe da vila respeitava e reverenciava, e era o líder da organização religiosa “Los Illuminados”. Ele havia vindo para cá especialmente para o nosso bem, dos aldeões, e fez um maravilhoso sermão que durou horas. Em vez de apenas tentar purificar o sangue pecaminoso de descrentes como nós, ele tentou ensinar como limpar nossa alma, e encontrar o verdadeiro caminho para a felicidade.

***

Descrente, fico pensando se ele também era. Meu amigo, que nos convidou para jantar, é. Logo depois disto, sua personalidade havia mudado completamente, de calmo para violento. Era assustador… Se alguém não vai aos sermões, não poderá encontrar o caminho da felicidade.
A organização religiosa “Los Illuminados”, estava lá para nos proteger, e nos salvar de nós mesmos. Uma ação bem generosa, uma ação maravilhosamente generosa!
Para purificar nosso sangue pecaminoso, nossos corações tinham que se tornar um só. Tínhamos que colocar um fim à nossa linhagem sanguínea impura. Todos os aldeões ficaram em fila, para receber o sangue sagrado. Agora, era a vez do meu irmão. De repente, ele olhou para mim e gritou “Irmão! Me ajude!” Ele estava se recusando a participar da cerimônia. Para todos nós, aldeões nos tornarmos um só, era obrigatório que ninguém se recusasse. Todos os presentes consultaram o gentil chefe da vila e lorde Saddler a respeito do que fazer. Depois de terem falado com a família do meu irmão, eles também aceitaram a cerimônia, meu irmão aceitou pouco depois.
Neste dia, os aldeões souberam da verdade. O primeiro Lorde do castelo ficou com inveja dos “Los Illuminados”, e tentou ficar no caminho das suas boas ações. E lorde Ramon, para restaurar as relações com a organização religiosa, havia contribuído grandemente para a causa deles. O que significava que o conto passado de geração para geração era nada mais que uma grande mentira.


***

Fico pensando se o obstáculo estava fora do caminho deles agora… Minha esposa tossiu, e deixou a preocupação surgir em seu rosto. Pouco depois de jantarmos, minha filha começou a espumar pela boca! Seu rosto estava desfigurado como por uma terrível dor, e seus membros estavam tremendo furiosamente! Eu tenho que ajudá-la! Oh, meu Deus, o que eu deveria fazer?
Minha filha… minha preciosa filha… está MORTA!
Eu olhei para minha esposa, ela apenas continuou com um inexpressivo olhar em seu rosto. Simplesmente não posso acreditar no que acabou de acontecer… Eu me recuso a acreditar!
Eu corri até a casa do meu irmão o mais rápido que pude. Havia algo errado com seu filho. Ele estava doente de cama, e em volta de sua boca havia evidências de estar tossindo sangue. Eu perguntei a ele e ele disse que seu corpo inteiro doía. Seus olhos se fixaram em mim, manchados de insanidade, e eu tapei meus ouvidos, tentando evitar suas palavras de dor.
Nos dias seguintes, todas as crianças da vila haviam morrido. Nossas preciosas crianças haviam partido, não havia sobrado uma sequer. Nenhuma…
O número de adultos que estavam enlouquecendo, ou que haviam perdido todos os sinais de emoção, estava crescendo rapidamente. Alguns ficavam fazendo coisas estranhas, alguns se recusavam a comer, e outros ficavam resmungando, como se estivessem amaldiçoando alguém, sumiam por um tempo, e depois voltavam.

***

Nessa manhã… Eu também tossi sangue.

***

Nós recebemos uma mensagem do chefe da vila. “A vida do Lorde Saddler pode estar em perigo. Se alguém começar a bisbilhotar aqui, mate-o.” Mate quaisquer intrusos a vista.

***

A cabeça de um dos homens à minha frente se dividiu em duas.
Para nosso grande Lorde Saddler!
Por favor, nos abençoe com sua próxima ordem!

***

A vila agora está tomada pelo medo. Com pessoas que perderam seu rumo, pessoas conspirando, pessoas que buscam conflitos.


***

Esta passagem foi transcrita de um relato de um dos habitantes de um vilarejo no interior da Espanha. Vilarejo este, descrito antes do relato.

***

Massachusetts, Estados Unidos, 2004.
O Massachusetts Institute of Technology, o MIT, é uma das mais conceituadas e tradicionais instituições de Ensino Superior do planeta. Fundado em 1861, localizado em Cambridge, ele contém cinco escolas, uma Universidade, 32 departamentos e é frequentemente apontado como uma das melhores faculdades do mundo. O MIT tem reconhecimento internacional em suas pesquisas no campo das ciências físicas, engenharia, biologia, economia, linguística e comunicação. Seus egressos colecionam prêmios, dentre os quais se destacam os muitos Nobel conquistados em diversas áreas do conhecimento.
O ingresso no Instituto não é fácil. Só de estrangeiros, estima-se que mais de dois mil tentem o ingresso por ano. Pessoas provenientes de mais de cem países. Mas pouco mais de uma centena deles são admitidos. Para quem entra, no entanto, são ofertados cursos de graduação e pós-graduação, além da oportunidade de alojamento nos próprio Campus. Muitos são os alunos notáveis que entraram ou saíram dali. Muitos ficaram famosos depois. Portanto, se pode afirmar que não é incomum haver dentre os alunos, filhos de atores, grandes cientistas e políticos influentes cursando suas faculdades ali.
Desse modo, a filha do presidente dos Estados Unidos não chegava a ser uma personalidade isolada neste contexto. Ashley Graham era mais uma dos muitos acadêmicos do MIT. Por opção mais da família do que dela mesma, estava cursando sua graduação na área da computação, um dos destaques da instituição. Com seus vinte anos, a filha do presidente não curtia muito a posição que seu pai ocupava. Principalmente pelo fato de estar sendo constantemente vigiada pela Casa Branca. Reclamava da falta de liberdade para ir e vir, de ter de prestar contas a respeito do que falava, com quem falava e principalmente: pela falta de privacidade de sua vida virtual. Seu pai nunca deixava de dar uma “bisbilhotada básica” nas suas redes sociais. Tudo em nome da segurança nacional.
Ashley neste tempo era ainda uma adolescente em quase tudo, seu modo de pensar, de agir, de vestir. Seria um alvo fácil, pensava sua família, para algum ato de terroristas ou de pessoas que possivelmente quisessem intimidar o homem mais poderoso do mundo. Aliás, esse era o ponto nevrálgico. Após quatro anos de governo, Ashley não parece ter se dado conta da real importância do cargo de seu pai. Do quantitativo de pessoas, incluindo terroristas do mundo todo e de governos mesmo, que têm interesse em poder conseguir algo que colocasse o presidente norte americano em dificuldades. E a filha do homem mais poderoso do mundo era vista como um possível ponto fraco.
Neste sentido, toda a vigilância sobre ela nunca era de mais. Sempre acompanhada por pelo menos dois seguranças à paisana e vez por outra, com seguranças fardados mesmo, ambos em conjunto. Sempre a deixavam na porta do MIT e sempre estavam lá no horário em que as aulas acabavam. Tanto a segurança, quanto seu pai tinham um controle através do telefone celular dela, que rastreava a posição de Ashley através do GPS mostrando sempre a localização aproximada da garota. Se algo parecesse estranho, logo os seguranças que estavam de plantão eram acionados, caso os que estavam com ela não conseguissem ser contatados imediatamente. E isso irritava Ashley. Mas depois de três anos, ela até desistiu de tentar burlar as regras rigorosas que lhe eram impostas. E até já estava aceitando tudo numa boa. Mas sua grande torcida era para que seu pai perdesse a disputa eleitoral marcada para novembro. Então, sua vida voltaria ao normal. Era o que ela pensava.
O prédio era uma construção arquitetônica magnífica. Absolutamente simétrico, visto de cima em uma foto, era possível passar uma régua ao centro e ver que os mesmos elementos que estavam em um lado, estavam no outro. Ao centro do pátio, havia uma grande área verde, com árvores plantadas uma ao lado da outra, que iam da saída do prédio até a calçada. À frente, havia arbustos plantados à frente ao pátio, dando uma visão extremamente agradável a quem passe por ali. Há um espaço para caminhar que circunda o gramado que toma toda a parte central desta área verde, bem como um caminho ao centro dela que interliga os dois espaços. Assim, as pessoas podem caminhar por toda a extensão, sem pisar na grama.
Frontal a quem está passando pela calçada e olha para o MIT, é possível ver, entre as árvores, o prédio. Ele é todo em alvenaria, com a parte da frente apresentando um grande painel de vidro, que vai do chão até o teto. Existem três portas em madeira e à frente delas, dez colunas em estilo jônico. Sobre o teto, há uma grande abóbada, com as letras MCMXVI em baixo relevo, que em numerais romanos significam 1916, ano em que o atual Campus foi inaugurado. Com 68 hectares, ele se estende por um quilômetro e seiscentos metros ao longo da margem norte da bacia do rio Charles. Sobre as colunas, também em baixo relevo, está escrito MASSACHUSETTS INSTITUTE OF TECHNOLOGY.
Ashley Graham caminhava na calçada que circundava o prédio, dirigindo-se ao estacionamento, onde estava sendo aguardada. Usava uma blusa alaranjada, com uma espécie de cachecol. Usava uma saia verde e um cinto que combinava com o cachecol. Era de estatura mediana, magra, loura, com olhos azuis. Ela caminhava distraidamente, olhando para os lados. Estava estranhando um pouco o fato de não ter visto seus seguranças misturados às pessoas que transitavam pelo local. Normalmente estavam lá, procurando ficar invisíveis. Nos primeiros tempos ela nem percebia, mas com o passar dos anos, se familiarizou com os rostos dos seguranças e com a maneira como eles procuravam se misturar aos outros, sempre mantendo sua protegida sob constante vigilância até ela chegar ao carro que a conduziria para casa sã e salva. Mas neste dia, não havia ninguém. O que por um lado, deixou-a um pouco aliviada, mas logo em seguida com outro pensamento. Por quê? Mas logo deixou qualquer preocupação de lado. Sem demora, estaria no carro que a levaria à sua residência.
No entanto, mais alguns passos e outra surpresa. Havia umas quatro pessoas paradas, a observando. Ao que se percebia, estavam a esperando. E não eram os encarregados de sua segurança. Estavam todos em trajes militares, que ela logo reconheceu. Eram do Exército americano. Qual o motivo da mudança na rotina? Alguma coisa havia acontecido? Seu pai teria mandado militares virem escoltá-la? Se fosse, devia ter algum motivo relevante. Ashley foi se aproximando dos soldados, olhando para os quatro, um por um. Até que de repente, um deles deu um passo à frente. Devia ser quem estava comandando a operação. Era alto, de pele clara, olhos azuis e frios. Usava uma boina vermelha. Mas o que chamou sua atenção foi uma enorme cicatriz que ele tinha no rosto, que ia do olho esquerdo até a boca. Ela nem quis pensar em como ele conseguiu aquela marca. Ele tinha um olhar sério. Assim que a filha do presidente se aproximou, ele parou à sua frente, retesado, em posição de sentido.
- Senhorita Graham.
A voz dele era grave e ele falava em tom firme, como seria de se esperar de um militar. Ela suspirou e respondeu:
- Sim, sou eu. Está vendo a minha irmã por aí? Ah! Eu não tenho.
Ela deu uma olhada para os outros antes de continuar.
- Vocês não são as pessoas encarregadas da minha segurança. Onde eles estão? Até porque não sei se deu para perceber, mas vocês não são, digamos… discretos. Todos viram que são do Exército. Não seria melhor chamar menos atenção?
O militar não deu atenção ao que a filha do presidente disse e prosseguiu:
- Nós vamos levá-la. E respondendo à sua pergunta, nós não somos as pessoas que rotineiramente estão encarregadas da sua segurança pessoal. Somos oficiais do Exército e logo entraremos em contato com seu pai. Os seus seguranças foram mandados na frente. Há um plano para sequestrá-la. Terroristas querem tomá-la como refém.
Ashley prendeu a respiração. Seus olhos se arregalaram. Seu coração começou a bater rápido. Sim, se militares estavam ali para escoltá-la, é porque algo anormal estava acontecendo. Era a primeira vez que ela se sentiu realmente em perigo. Como seria ser sequestrada? Sentiu um calafrio percorrer sua coluna. Nunca tinha sido posta frente a frente com o perigo. E agora, tomava uma ducha de realidade. Sim, ela corria risco real. Então, era bom parar de ficar questionando e seguir as orientações passadas por aquele homem.
- O que eu tenho que fazer?
- Nada, apenas nos seguir.
Ashley assentiu com a cabeça.
- Sim senhor.
O militar fez um gesto com a cabeça para os outros três.
- Vamos.
Eles concordaram e se puseram a caminhar. Sequer olhavam para trás, pressupondo que Ashley estava os seguindo. Ela foi sem pensar, apenas queria que eles caminhassem com menos pressa. Eles não estavam calçando os sapatos dela. Mas viu que não adiantaria reclamar. Não demorou e pararam em frente a um carro. Era uma espécie de caminhonete do exército. Não tinha como não perceber. Os três soldados entraram, um no banco do motorista e os outros dois no banco de trás. O que aparentava ser o comandante deles, se virou para Ashley Graham.
- Entre, senhorita Graham. Não tem o conforto que costuma ter nos carros que anda, mas a situação exige que hoje seja assim.
A filha do presidente dos Estados Unidos viu que não teria escolha e entrou. Sentou-se exatamente no meio dos dois soldados que ficaram no banco de trás. Eles pareciam duas estátuas. Ela olhou bem para os dois e sentiu um pouco de medo. Algo lhe dizia que tinha algo errado, mas não sabia o que. Devia ser a quebra da rotina. O quarto militar entrou, sentou-se no banco do carona. O motorista deu a partida no motor e o carro saiu.
Enquanto o carro ia rodando, ela observou os três militares que acompanhavam o da boina vermelha. Usavam uma bandana na cabeça. Não diziam nada. Os dois ao seu lado sequer se moviam. Sua aparência não era muito boa. Pareciam pálidos e com olheiras. Ashley quase perguntou se estavam bem de saúde, mas desistiu, visto que tinham uma expressão de poucos amigos. Ela achou que não falariam nada. De repente, passaram por uma sombra e Ashley viu algo que a deixou amedrontada. Quando olhava para o militar à sua direita, no instante em que ficou escuro, um dos olhos do soldado ficou vermelho. Em seguida, voltou ao normal. Ashley olhou novamente para se certificar, mas pensou que fora impressão sua. Ela então se dirigiu ao líder deles. Este falava com ela.
- Só para saber. Como é o seu nome?
Ele se virou para trás.
- Jack. Jack Krauser. Seu pai me conhece. Sou o chefe de operações especiais.
- Então existe um plano para me sequestrar?
- Precisamente.
- E eu tenho muita sorte de vocês terem descoberto o plano e virem me salvar. Estou certa?
Krauser encarou a filha do presidente, se virando para trás em seu banco.
- Nem um pouco.
Agora ela ficou intrigada.
- Como assim? Vocês vieram para evitar que eu fosse sequestrada.
- Não vamos evitar.
O que ele está querendo dizer? Ashley estava ficando confusa.
- Mas vocês sabem que existe um plano para me sequestrar. Sabem quem quer me sequestrar?
- Precisamente.
- Certo. Mas se sabem quem quer e que vão tentar, como não vão conseguir evitar?
- Não viemos para evitar seu sequestro.
Ashley engoliu. Seu coração disparou. Ela percebeu que estavam fazendo um caminho totalmente diverso do que sempre fazia. Não estava indo para casa. A próxima pergunta poderia ter uma resposta que Ashley Graham já estava esperando, mas que não queria ouvir.
- E quem é que planeja me sequestrar?
Krauser sorriu antes de responder.
- Nós.
Jack Krauser fez um gesto com a cabeça para o militar à direita de Ashley. Ela sentiu que mãos seguraram seus braços e de repente, tudo ao seu redor começou a ficar embaçado. Um zumbido foi invadindo seus ouvidos e o teto do carro pareceu estar descendo ao seu encontro. Os sons foram ficando mais baixos até parecer que estava em um sonho. De repente, tudo ficou escuro e Ashley não viu mais nada.

Capítulo 1


Madri, Universidade de Madri, 2004. Dois meses antes do sequestro de Ashley Graham.
O Departamento de Biotecnologia da Universidade de Madri estava dentre os centros de pesquisa mais avançados da Europa. Muitos cientistas de gabarito faziam pesquisas ali, principalmente de países latino-americanos que aproveitavam as muitas oportunidades de bolsas de estudo em programas de pós-graduação. Espanhóis também, é claro, como o cientista Luis Sera.
Sera se formou na Universidade em Biologia e se especializou no estudo de organismos parasitas. Sempre se encantou por estes seres que conseguem viver dentro de outros, que dependem de outra forma viva para existir. Como ele chegou ali? De onde vem? Proveniente do povoado chamado “El Pueblo”, uma região interiorana, de características rurais. Luis Sera queria para si um futuro diferente dos demais familiares e foi para a capital com o intuito de estudar, se graduar e ter uma carreira. Então, passou a publicar seus estudos a respeito de colônias de parasitas e de como estas formas de vida se desenvolvem dentro de seus hospedeiros.
Dentro do laboratório, no entanto, um dos objetos chamava sua atenção, tanto por seu conteúdo, como pelo que ele representava, por sua história. Tratava-se de um cilindro de vidro lacrado. Dentro dele, havia uma espiral contendo a substância, um vírus trazido da América, mais especificamente dos Estados Unidos. Gravado no seu exterior, o símbolo de risco biológico. Segundo se afirma, ele tinha a capacidade de reanimar pessoas mortas. No entanto, ele acabou sendo um desastre. Seu objetivo, a princípio, seria o de curar doenças. Mas ele acabou se tornando uma arma biológica. As pessoas depois de mortas, passaram a ganhar nova vida, mas não como pessoas, mas como verdadeiras feras. Elas perdiam simplesmente a capacidade de raciocinar, uma vez que os cérebros não voltavam à vida, se transformando em zumbis que tinham como único instinto, a busca por alimento. E para isso, passavam a caçar todos os seres vivos que pudessem ser fonte de carne. Inclusive humanos. E o pior. Quando atacavam uma pessoa saudável e a mordiam, levando-a a óbito, esta pessoa também retornava à vida, mas infectada. Como outro zumbi. Aos poucos a pequena cidade de Raccoon City foi toda infectada e o governo lançou uma bomba atômica para conter a infecção. A versão oficial dava conta de um acidente nuclear, mas alguns poucos cientistas sabiam a verdade, ou pelo menos, sabiam de boatos sobre a esterilização da pequena cidade americana. A empresa que estava por trás deste vírus, a Umbrela, passou por um processo de falência e para todos os efeitos, ela deixou de existir. Mas sempre as pessoas se faziam a pergunta. Será verdade? Ninguém mais soube dizer.
Todos os dias, Luis Sera era o primeiro a chegar ao laboratório. Como não tinha família, nem muitos amigos na capital, seu passatempo era mesmo o trabalho. E ao contrário da maior parte dos pesquisadores, ele ainda não tinha um alto salário. Morava ainda de aluguel em um pequeno apartamento e tinha um carro compacto vermelho. Mas em uma segunda-feira, algo iria mudar sua vida. Quando ainda estava começando seu trabalho, um homem da recepção bateu à porta. Sera ainda estava procurando seu uniforme de trabalho, suas luvas e máscara de proteção, quando se deu por conta que o chamavam. Então, ele se dirigiu à porta e a abriu. O homem então perguntou:
- O senhor é Luis Sera, correto?
Sera olhou para o homem, com vontade de perguntar se havia mais alguém na sala, mas percebeu que não valia a pena se incomodar por coisas como estas.
- Sim, sou eu. Em que posso ajudar?
Sera procurava ser sempre cortês com as pessoas. Bem apessoado, alto, magro, com uma barba bem cuidada, com maneiras gentis, ele era visto como uma pessoa muito simpática. Não tinha muitos amigos ainda, pois passava muito tempo estudando e se dedicando às suas pesquisas, mas aqueles com quem se relacionava gostavam muito de sua companhia. O homem da recepção então, disse:
- Há alguns senhores que estão procurando pelo senhor.
Procurando por ele? Sera achou estranho.
- Procurando por mim? Tem certeza?
- Sim. Eles querem falar com o senhor Luis Sera. Portanto, não estou enganado.
- Você os conhece?
O homem ficou algum tempo pensando antes de responder.
- Não faço a menor ideia de quem sejam. Mando-os entrar?
- Sim, pode deixar passar.
Sera então, deixou de lado as luvas, que tinha acabado de apanhar e preparou lugares para suas visitas. O que queriam dele? Bem, agora, só saberia depois que eles chegassem. E não demoraram. Eram três sujeitos muito estranhos. Um deles, o cientista sabia quem era. O sujeito do meio. Muito alto, careca, usando um sobretudo marrom de lã batida, com um olho de cristal, com a pele clara. Tratava-se do chefe do vilarejo de El Pueblo, Bitores Mendez e Sera ficou se perguntando o que ele poderia querer. Os outros dois, ele não conhecia. Um, estava ao lado dele. Era alto, usando uma estranha túnica roxa, que escondia praticamente todo o seu rosto. No peito dele, havia uma insígnia bordada. Sera teve a impressão de já ter visto aquele símbolo em algum lugar, mas não conseguia se lembrar do seu significado. Ao lado deste, estava um homem baixo, com uma roupa esquisita. Vestia-se com um conjunto azul, com um chapéu da mesma cor sobre a cabeça. A aparência dele era de uma pessoa de idade, mas se veio do vilarejo, devia ser um morador novo. Sera não o conhecia. Todavia, se podia perceber que era uma pessoa de elevado poder aquisitivo. Então, como um bom anfitrião, o pesquisador foi se apresentando.
- Bom dia. Meu nome é Luis Sera. Em que posso ser útil?
O homem alto, do sobretudo marrom deu um passo à frente e tomou a palavra.
- Bom dia. Nós já nos conhecemos, senhor Sera. Sinto muito pelo seu avô. Sei que não é fácil perder alguém da família, ainda mais quando não se tem mais ninguém.
Luis Sera ficou um tempo em silêncio. Sim, seus pais haviam falecido antes. Seu avô era ainda o último que restava no vilarejo. Parece que uma doença estranha andava assolando as pessoas do local de onde viera. Então, ele levantou a cabeça e sorriu.
- Muito obrigado, senhor Mendez. Mas a vida segue.
Depois de um breve silêncio, Bitores Mendez voltou a falar.
- Muito bem, muito bem, antes de qualquer coisa vou apresentar meus dois acompanhantes.
Sera então interrompeu-o.
- Mas que indelicadeza a minha. Entrem. O local não é muito confortável, mas tem alguns assentos para vocês, sentem-se.
Bitores Mendez olhou para os outros dois e eles entraram.
- Muito obrigado.
Os três homens sentaram-se nos bancos e o chefe do vilarejo continuou falando.
- Este ao meu lado esquerdo, vem do vilarejo, embora você não o deva conhecer. Ele mora no castelo, que fica perto da vila. Chama-se Ramon Salazar. No entanto, da família dele, já deve ter ouvido falar muito, quando era mais novo.
Sim, ele ouviu. Eram os donos do castelo que ficava nas redondezas. Recentemente, ouviu-se comentários de que estavam reativando as minas e que aldeões estavam indo trabalhar lá. E que essa era a causa da estranha doença que vinha acometendo a população local. Luis Sera estendeu a mão ao pequeno homem.
- Muito prazer. Luis Sera, seu criado.
Salazar sorriu ao apertar a mão do cientista.
- O prazer é meu.
Sera, no entanto, ficou intrigado. Ramon Salazar devia ter uns sessenta anos, no mínimo. Mas como ele não o conhecia? Sim, quando era jovem, ele lembra-se de ter ido ao castelo e entrado em contato com a família Salazar. Mas nunca viu este homem por lá. Bitores Mendez continuou as apresentações.
- Este é Osmund Saddler. Líder de uma congregação religiosa, chamada Los Illuminados.
Los Illuminados? Sim, Sera sabia do que se tratava. Seus pais e seu avô sempre comentaram que em um passado distante, uma seita religiosa com este nome começou a tomar conta da região. Eles adoravam um parasita, chamado Las Plagas, que ao que parece, tinha poderes. Mas o primeiro castelão da família Salazar, os havia expulsado do local e selado o parasita no fundo da terra. Mas agora, Bitores Mendez trazia o líder dos Illuminados. E junto com os boatos da reabertura das minas e da doença misteriosa… será que Las Plagas tem algo a ver com isso? Era esperar para ver aonde esta conversa iria parar. Saddler estendeu a mão. Sera ficou um tempo observando aquele estranho cajado que seu visitante trazia. Parecia ter um ser vivo na ponta de cima, com pequenos tentáculos que se moviam. Mas no momento, não quis perguntar o que era, nem dar mostras de sua curiosidade.
- Osmund Saddler. É um prazer conhecer mais uma pessoa daquela vila tão amistosa.
Sera sorriu ao olhar para Saddler.
- O prazer é meu.
Sera ficou pensando um tempo antes de falar. Por outro lado, se eles estivessem atrás do parasita, isso poderia dar um bom tema de estudo, uma vez que era essa a sua especialidade. Primeiro, gostaria de saber mais do motivo que os trazia ali. Quem tomou a palavra, no entanto, foi Salazar.
- Muito bem, vamos ao assunto que nos trouxe aqui. Tenho lido alguns de seus textos e livros publicados. O senhor estuda parasitas. E há algo que tem me causado problemas. Eu recentemente reativei as minas. Contratei muitas pessoas do vilarejo onde o senhor já morou. Não vou negar que procuramos pelo parasita Las Plagas, pois ele já foi objeto de adoração da religião do senhor Saddler. No entanto, o que descobrimos, foi algo que nos assustou. Na verdade, ele infecta as pessoas e leva à morte, depois de causar diversos danos no sistema nervoso do infectado. Achamos que ele provavelmente passou por alguma mutação, depois de ter ficado tanto tempo fossilizado. Então, o que queremos do senhor? Precisamos de alguém que estude parasitas, para tentar encontrar a cura para este mal o quanto antes. Pessoas estão morrendo. O que o senhor me diz? É possível atender ao nosso pedido?
Tratava-se de uma questão humanitária. Eles queriam ajuda. Pessoas estavam morrendo. Então, Luis Sera faria o que fosse necessário para ajudar a encontrar uma cura. Sera, no entanto, não sabia bem o motivo, mas não conseguia confiar em Ramon Salazar, nem no homem da túnica. Algo parecia estar errado com eles. Então, resolveu fazer algumas perguntas.
- Muito bem, senhor Salazar. Está realmente preocupado com os aldeões? É isso o que o traz aqui?
Salazar primeiro fez uma expressão de desagrado, mas em alguns segundos, voltou ao normal para responder ao questionamento.
- Senhor Sera, sim, estou preocupado com eles por vários motivos. Primeiro, eles estão trabalhando nas minas. São meus empregados. Os contratei e pago salários a eles. Se ficarem doentes e não puderem trabalhar, vou ficar no prejuízo. Além do mais, se a infecção se alastrar, logo muita gente vai morrer e neste caso, terei de trazer trabalhadores de outras localidades. E eles irão querer vir? Correndo o risco de ficarem doentes? Eu acho que não.
- Sim, faz sentido. Então, temos a preocupação de um empresário que quer evitar prejuízos também.
- Mas veja bem, senhor Sera. Tem mais uma coisa. Olhe para mim e diga quanto anos o senhora acha que tenho? Seja sincero.
Agora, Luis Sera ficou pensativo. Geralmente a tendência era dizer que as pessoas são mais jovens do que aparentam. Isso as deixa satisfeitas. Então, ficou um tempo olhando para Ramon Salazar.
- Bem, tenho a impressão que o senhor é uma pessoa bem conservada, com boa saúde. Olha, mas não vou falar só para ser educado, mas não dou mais do que uns… cinquenta anos.
Então, Ramon baixou a cabeça.
- Então, o que vou lhe dizer vai deixá-lo simplesmente apavorado. Tenho somente… vinte anos.
O que? Sera nem conseguiu disfarçar o espanto. Este homem era um jovem? Tinha somente vinte anos? Sera olhou para ele e concluiu.
- Vejo o seu espanto. Sim, tenho somente vinte anos. Isso, é consequência da contaminação com Las Plagas. Eu estou infectado. Por isso venho lhe pedir para encontrar uma cura. Tenho a esperança de que consigamos achar a cura para o parasita antes de morrer. Eu sinto que minha saúde se deteriora dia a dia. Por favor. Vou lhe pagar o quanto achar justo. Para mim, dinheiro não é problema. Mas como não tenho herdeiros, de que adianta ser rico, se vou morrer e ninguém vai poder aproveitar minha herança?
Neste momento, Sera se compadeceu. Sim, era triste ver aquele homem. Ele estava morrendo. Jogava suas últimas esperanças de cura em Sera. Ele era a cartada final. Então, o pesquisador olhou para o pequeno homem.
- Senhor Salazar. Pode acreditar. Vou me empenhar para encontrar a cura. Mas para isso, vou precisar de um laboratório.
Neste momento, Osmund Saddler interrompeu a conversa.
- Senhor Sera. Minha organização religiosa tem interesse nessa pesquisa. Por isso, antes de virmos, já nos adiantamos e equipamos a casa de Bitores Mendez com todo o equipamento que um laboratório tem de ter. Sem contar que caso o senhor ache necessário, poderá fazer pedidos ou ir pessoalmente aos fornecedores adquirir tudo o que julgar necessário.
Luis Sera olhou para o líder dos Illuminados e questionou:,br> - Sim, mas qual é o interesse que sua organização religiosa tem em encontrar a cura para esta infecção? Pelo que eu saiba, seus seguidores no passado, adoravam este parasita, como um ser sagrado. Por que estariam querendo destruí-lo?
Saddler não deixou a expressão se alterar.
- Meu caro senhor Sera. As coisas mudam. Eu não sabia do que se tratava. Confesso que agora que pessoas estão sendo infectadas, ficando doentes e morrendo, vi que na verdade, Las Plagas não pode ser um ser sagrado. Nós temos sim de combatê-lo e ficar apenas com nossos rituais. Não vamos mais adorar este parasita.
- Compreendo. O senhor também está infectado?,br> - Não. Eu ainda não estou. Mas muitos de meus seguidores, inclusive pessoas do meu clero estão. E temo perder muitos fiéis por causa desta infecção. E o que será de uma religião se todos os seus seguidores morrerem? Ela deixará de existir. Não estou certo?
Sera encarou Saddler.
- Certamente que sim, senhor Saddler.
Fez-se silêncio e por fim, Sera tomou a palavra.
- Mas podem ter a minha palavra que irei lá. Só peço alguns dias para eu solicitar alguns dias de férias, que por sinal, eu já tinha direito a tirar para apanhar alguns pertences e me deslocar até El Pueblo. Em no máximo uns três ou quatro dias, estarei lá. No entanto, como faz algum tempo que não vou ao vilarejo, vou pedir para que alguém me leve até sua casa, senhor Mendez.
O prefeito do vilarejo então, já em pé, respondeu:
- O senhor pode ficar tranquilo. Estarei esperando-o na entrada do vilarejo, logo depois da ponte. Se eu não puder ir, alguém estará no meu lugar. Pode ser que eu esteja trabalhando na igreja ou terminando de arrumar seu laboratório.
Saddler então interrompeu eles:
- Acho melhor então que o senhor fique terminando os últimos retoques no laboratório. Estarei no vilarejo nestes dias. Eu mesmo o esperarei. É só telefonar para a casa do prefeito e avisar que chegou à região, que irei pessoalmente até a entrada de El Pueblo para lhe esperar.
- Pode deixar que eu aviso. Telefono quando estiver saindo e quando chegar ao povoado.
Os visitantes se levantaram das cadeiras e se dirigiram até a porta. Bitores Mendez foi quem se despediu pelos três.
- Adeus, senhor Sera. Agradecemos muito a sua disponibilidade em nos ajudar. Sabia que poderia contar com alguém que cresceu em nosso vilarejo para nos acudir neste momento de dificuldade.
Sera estendeu a mão.
- Podem contar comigo. Farei tudo o que for preciso para colaborar com o povoado onde nasci e cresci. A final, a Universidade não teria utilidade se nosso trabalho não servisse para melhorar a vida das pessoas.
Depois de um aperto de mãos, os três visitantes se retiraram. Luis Sera não sabia o motivo, mas não gostou nem um pouco do jeito deles. Algo estava errado. No entanto, seus motivos para pedirem sua colaboração eram nobres. Salvar vidas. Era isso o que iria fazer. Não importava muito se simpatizou com Salazar ou não. O que era importante era que devia fazer o bem, mesmo que para pessoas com quem não simpatizava. Pensou que no fim das contas, poderia estar enganado e que todos eles realmente fossem boas pessoas. Mal sabia Luis Sera, que seus instintos nunca estiveram tão certos. Mas ele só veria isso muito tarde.

Capítulo 2


Jack Krauser chegou a El Pueblo. O carro que o trouxe ainda estava parado. Era a primeira missão a serviço de sua nova casa. O logotipo da empresa para quem trabalhava estava estampado na porta do veículo. Um enorme guarda-chuva aberto, com as cores branca e vermelha. Logo abaixo da figura, o nome da empresa, Umbrela. Como um ex-membro do Exército americano, que fora chefe de operações especiais, agora estava trabalhando para a Umbrela? Krauser ainda podia se lembrar do começo.
Krauser nunca tinha levado muito a sério a questão dos zumbis usados como armas biológicas. Ficou sabendo do incidente em Raccoon City, mas não era de sua área de atuação. No entanto, a missão Javier Hidalgo foi um divisor de águas em sua vida. Em todos os sentidos. A primeira coisa que chamou sua aten-ção, foi que havia meios de a pessoa ser infectada pelo vírus e permanecer consciente. Como era feito isso? Aparentemente havia duas formas de contaminação. A feita no laboratório e a ocasionada por incidentes com os zumbis infectados. Esta, sem controle algum, fazia com que as vítimas se tornassem zumbis também. Transformavam-se em seres irracionais, que se moviam como seres autômatos, sem vontade própria.
Jack Krauser ainda era assombrado por aquela imagem. Aquele objeto voando em sua direção. Foi tudo muito rápido. Quando a recordação do momento vinha, parecia tudo irreal, um filme. Tinha a sensação que daria para desviar. Mas no momento, o foco era a criatura que disparou o objeto. De repente, aquela coisa vindo em sua direção, e a dor. O ferimento. De início não pareceu tão grave. Mas o tempo passou e não parava de sangrar. Krauser e Leon derrotaram o monstro. Depois de levar Manuela Hidalgo para o heli-cóptero de resgate, a garota morreu de uma maneira que ele jamais vira. Ela se desintegrou.
Entretanto, o sangramento no braço não parava. Krauser perdeu muito sangue após a batalha. Era muito estranho. Mas ainda, enquanto o helicóptero seguia seu caminho de volta, foi possível enxergar um homem no alto de uma das montanhas. Devia ser Wesker. Leon falou bastante dele durante a missão. Que ele criara o vírus que contaminou Raccoon City e seria o presidente de uma empresa que trabalhava com armas biológicas. Porém, o militar tinha um pensamento diferente. E se o que Albert Wesker estivesse fa-zendo não fosse terrorismo? E se aquilo tudo fosse algo que beneficiasse a população? Sim, muitos experi-mentos deram errado. Os zumbis eram a prova disso. Mas em outros muitos casos, os infectados não perde-ram a consciência. E ficaram muito mais fortes e ágeis que seres humanos normais. Até tinham poder de se regenerar. E foi esse o ponto que atraiu Krauser. Será que ajudaria a recuperar seu braço? Ajudaria ele a recuperar sua força? A ser o soldado que sempre fora? Krauser se convenceu, depois de sua volta, que tinha de encontrar Wesker, custasse o que custasse. Nem que fosse para desistir da ideia. Mas não tinha como descartá-la sem ver com seus próprios olhos alguns resultados e sem tirar suas próprias conclusões.
De fato, Jack Krauser jamais conseguiu se recuperar totalmente do ferimento, e acabou dando baixa do Exército. Foi aposentado, pois chegou-se à conclusão de que ele não estaria apto a voltar ao campo de batalha. Isso deixou-o ainda mais arrasado. Depois de todos os anos de serviços prestados, Krauser se sentiu menosprezado. Acreditava que seria justo pelo menos alguma homenagem, mais respeito por tudo o que sempre fez, por todos os sacrifícios em nome do país. Mas em vez disso, simplesmente o dispensaram por acreditarem que Jack jamais voltaria a ser quem era e por pensarem que colocarem-no em alguma missão poderia ser um prejuízo maior do que o benefício que ele poderia trazer. Para o exército, ninguém é insubsti-tuível. Bastava treinar outro soldado, que este poderia desempenhar o papel de Krauser tão bem quanto o próprio. E foi essa a ideia que o revoltou. Sentiu-se como um ser descartável. Que quando não servia mais, simplesmente o jogavam fora e o substituíam por outro.
Mas graças ao seu passado no Exército, não fora nada fácil chegar à Umbrela. Para todos os efeitos, a empresa havia cessado suas atividades. Ninguém sabia nada a respeito de Wesker e Krauser sentiu-se perdi-do. Como poderia fazer? As pessoas, mesmo as que poderiam ter alguma ligação com a empresa, se negavam a ajudá-lo. E dava para compreender. Pensavam que apesar de ter dado baixa, ele poderia ainda ser alguma espécie de informante das forças armadas, ou mesmo, do governo. Então, o ex-militar teve uma ideia. As pessoas desconfiavam do Krauser militar. Mas e se ele morresse?
Apesar de não ser mais um militar da ativa, Jack Krauser ainda tinha acesso aos campos de treino, onde podia ser visto. Ainda era conhecido da maioria das pessoas do meio militar. Então, ele poderia ainda pedir para dar um passeio em um helicóptero, para se despedir das emoções da época em que estava na ativa. E foi assim que ele bolou um plano. Conseguiu um corpo para colocar dentro do veículo aéreo. Pediu aos antigos companheiros para voar uma última vez. Quando, depois de alguma negociação, consentiram, ele desceu em um ponto isolado, onde tinha deixado uma sacola com um cadáver. Depois, colocou-o no assento do piloto e levantou voo, assumindo os comandos do copiloto. Foi extremamente difícil convencer os solda-dos a deixarem-no ir sozinho, mas tinha de ser assim. Então, ejetou o seu banco e deixou a nave cair. Como todos na base sabiam que Krauser fora sozinho, quando descobriram o corpo dentro do helicóptero caído, não tiveram dúvidas. Era o ex-militar que estava ali.
Agora, Krauser estava livre de seu passado, pois estava oficialmente morto. Assim, foi mais fácil ir se chegando às pessoas que eram próximas à empresa. Alguns queriam perguntar o que ele poderia querer com Albert Wesker. Jack Krauser apenas respondia que sabia que ele poderia lhe ajudar. Alguns até queriam saber como. Krauser não queria sair falando do vírus, que tinha a intenção de ser infectado. Quando mencionou para algumas pessoas, a maioria falava que ele estava louco, ou que acreditava em bobagens, que este não era o ramo da Umbrela. Até que consentiram em levá-lo a Wesker.
Quando chegou ao local de encontro, exatamente na hora combinada, um carro grande encostou. Era todo preto e não tinha emblema algum. Um homem desceu. Usava uma roupa que lembrava um uniforme militar, com um colete a prova de balas, óculos escuros e um comunicador. Ele tinha o cabelo bem aparado, como os soldados costumam ter. Desceu do veículo e se aproximou rapidamente de Krauser, caminhando com passos firmes. Quando chegou, estacou e olhou diretamente ao sujeito que o estava esperando.
- Jack Krauser?
- Sim, o próprio.
Krauser nem viu o que se passou em seguida. De repente, tudo ficou escuro. Quando acordou, estava dentro do veículo e já estavam chegando. Havia mais dois homens no banco de trás, um de cada lado. À frente, o que foi encontrá-lo dirigia, com outro no banco do carona. Este se virou para trás, vendo que o ex-militar estava acordando.
- Desculpe-nos, senhor Krauser. É uma medida padrão. Por enquanto ainda não pode saber o caminho que estamos fazendo. Logo estará com Albert Wesker e ele decidirá se é confiável. Por enquanto, estamos seguindo o protocolo.
- Sim, compreendo.
Não seria diferente. Caso não fosse admitido na Umbrela, provavelmente iriam tentar matá-lo. Mas se não conseguissem, não podiam deixar que escapasse. No entanto, sabia que seria admitido. Que acabaria fazendo parte da empresa. O carro parou em frente a uma mansão. Todos desceram. O motorista disse:
- É aqui. Vamos.
Todos caminharam apressadamente pela floresta até chegarem a uma escada pequena, de alguns de-graus, que levavam à varanda. Nela, tinha duas colunas que sustentavam um pequeno telhado. Em frente aos degraus, uma porta em madeira, toda branca. Os homens que levavam Krauser abriram a porta e o conduzi-ram para dentro. Havia do lado de dentro, duas escadas, uma de cada lado da sala, que conduziam a um piso superior e uma porta bem em frente à entrada. O militar notou a presença de um quadro com um homem de terno, cabelo grisalho, aparentando mais ou menos uns sessenta anos. Ficou olhando-o por algum tempo. Um dos homens que o acompanhava, percebeu e disse, sem mais delongas:
- É o senhor James Marcus, fundador da Umbrela.
Krauser apenas continuou caminhando. Foi conduzido por uma porta lateral, passando por um corre-dor, entraram em outra porta e por fim, chegaram a um elevador, que os conduziu para baixo. Não deu para precisar quanto tempo exatamente ficaram dentro do elevador, mas dava para ter noção que desceram muitos metros abaixo da superfície. Então, a porta se abriu. Não demorou e entraram em outro corredor, agora, com uma aparência futurista. Não havia portas dos lados e a única iluminação provinha de lâmpadas fluorescentes no teto. Após intermináveis segundos, chegaram a uma porta. Os homens que trouxeram abriram-na e um deles entrou. Depois de alguns minutos, com todos ali fora em silêncio, ele saiu.
- Pode entrar, senhor Krauser.
Fez então, um gesto para que o militar passasse. Krauser assentiu com a cabeça e agradeceu.
- Obrigado.
Ao entrar na sala, ouviu a porta se fechando atrás de si. Krauser ficou admirado com o que estava vendo. Era uma sala enorme, com mesas e algo que parecia ser experimentos sobre elas, trancados em com-partimentos lacrados. Bem à sua frente, outra mesa e atrás dela, um homem sentado em uma cadeira apenas o observando. Usava terno e óculos escuros e o rosto exalava confiança, com um pequeno sorriso de canto de boca. Atrás dele havia um telão, com uma imagem que parecia ser da página de mapas vista por satélite. O homem sentado na cadeira em frente à mesa, olhava o recém-chegado, com as mãos cruzadas sobre a mesa. Então, ele estalou os dedos e disse:
- Muito bem, senhor Jack Krauser. Já me conhece?
Krauser escolheu melhor as palavras que usaria.
- Pessoalmente não, mas sei quem é. Senhor Albert Wesker. Presidente da companhia Umbrela.
Wesker riu.
- Por quem ficou me conhecendo? Quais foram as pessoas que falaram de mim?
- Recentemente estive em uma missão na América do Sul e meu então parceiro de campanha falou muito no senhor.
Wesker encarou Krauser e ficou sério.
- Poderia me dizer quem era seu parceiro de campanha na ocasião?
- Sim. Leon Scott Kennedy.
- Leon?
Wesker não gostou muito da notícia, então deveria se certificar de que não era uma armadilha.
- Senhor Krauser. Sabe exatamente quem é o senhor Kennedy?
- Sei alguma coisa. Ele trabalha como um agente para o governo e recebe ordens do presidente dos Estados Unidos diretamente.
- E o que ele falou a meu respeito?
- Falou sobre os experimentos com o Vírus T. Disse que oficialmente a Umbrela não existia mais, mas que as atividades da empresa continuaram clandestinamente.
- Certo. Vou dizer quem é Leon. Ele é um sobrevivente da tragédia de Raccoon City. Era policial na ocasião e trabalhou apenas um dia. Viu os zumbis e entrou nos laboratórios de nossa empresa. Para nós não é bom que os sobreviventes do incidente naquela pequena cidade continuem circulando por aí. Agora me diga. Por que eu o contrataria?
Agora Krauser teria de se expressar bem, para não armar uma cilada para si mesmo.
- Acontece que ao contrário de Leon, eu acredito que podemos evoluir com o Vírus T. Eu vi o que as pessoas são capazes de fazer, se a infecção for devidamente conduzida. E quero me voluntariar para ser in-fectado, desde que consiga manter minha consciência. Isso é possível?
Neste momento, Wesker riu.
- Quer ver?
Krauser ficou apenas pensando no que dizer. Enquanto isso, olhava seu interlocutor com um ar de curiosidade. De repente, Wesker retirou os óculos escuros e seus olhos estavam vermelhos. O militar nem teve tempo de refletir sobre o que vira. A imagem do presidente da Umbrela ficou um pouco borrada e antes mesmo de Jack Krauser piscar, estava suspenso, com os pés altos do chão. Wesker o estava segurando pelo tórax, com uma mão. Como se estivesse levantando um boneco. Então, ele disse:
- Se eu quisesse, senhor Krauser, o teria matado e nem teria visto.
Depois disso, Wesker colocou Krauser no chão e quando o militar olhou para frente, o presidente da Umbrela já estava sentado em sua cadeira, como se nada tivesse ocorrido, com os óculos no rosto e rindo da expressão do visitante.
- Senhor Krauser. Gostou da demonstração? Quer ficar igual a mim?
Krauser mostrou o braço ferido.
- Desde que fui ferido na missão na América do Sul, nunca mais fui o mesmo. Preciso recuperar a minha força.
- Sim. Mas antes, me diga uma coisa. Por que devo confiar que não irá nos trair e nos entregar ao governo americano?
- Para todos os efeitos, estou morto. Não vou entrar em contato com o governo. Eles nem sabem que estou vivo.
- Perfeito. E qual sua relação com o senhor Kennedy?
- Pretendo matar Leon.
Wesker escorou o queixo sobre as mãos cruzadas.
- Ótimo.
Albert Wesker era bom em perceber as reações das pessoas. E notou que havia algo ligando Jack Krauser a Leon. O militar nutria algum rancor pelo agora agente do governo. E como este era uma das pes-soas que sobreviveu à tragédia de Raccoon City, o presidente da Umbrela via duas saídas para ele: ou se juntar à empresa ou ser eliminado. E já tinha convicção de que não seria possível a primeira alternativa. A outra pessoa era Ada. Mas esta preferiu continuar viva.
Após algumas semanas dentro dos laboratórios subterrâneos da corporação, Krauser começou a ser submetido a testes até terem certeza de que poderia ser infectado e manter sua consciência. Para isso, iriam utilizar o antídoto. Quando o experimento foi finalizado, Krauser se tornou um dos melhores experimentos da Umbrela. Mas havia algo que ainda incomodava o militar. Mesmo com o poder de regeneração acelerado que passou a ter, seu braço seguia sendo seu ponto fraco. Sim, ele fora atingido por um monstro afetado pelo Vírus. Deveria ter alguma relação com o fato. Porém, sua força, seus reflexos e sua velocidade ficaram as-sustadores até para ele. Em um teste, Wesker tentou repetir o movimento que fez em sua sala, mas desta vez, Krauser conseguiu se desviar. Mas ainda era mais lento que o presidente. O militar ainda estava convencido de que poderia ficar mais forte do que estava. Entretanto, para isso, talvez precisasse encontrar uma forma alternativa de adquirir esta força. Desconfiava que Wesker não permitiria.
Foi nos treinamentos que Krauser conheceu Ada Wong. O militar nunca simpatizou com a espiã. Era contra seus métodos, de andar furtivamente, de conseguir o que precisava se escondendo, evitando o con-fronto com o inimigo. Todavia, mesmo ele sabia que nem sempre o combate era o melhor caminho. De vez em quando, a sutileza era o meio mais eficaz de se conseguir algo. Por isso, sabia que não podia colocar dúvidas sobre o trabalho dela. Mas não queria ter de ir a alguma missão em conjunto com a oriental. Sentia que ela trairia a organização na primeira oportunidade. Mal sabia ele o que estava por vir.
Durante uma das sessões de treino nos simuladores de realidade da Umbrela, o telefone celular tocou. Era Wesker. Krauser sentiu a adrenalina subir. Há algum tempo estava esperando receber alguma ordem do presidente da empresa. Sabia que logo iria fazer algo importante. Só podia ser isso. O dia havia chegado. Então, parou o que estava fazendo e se dirigiu à sala da presidência. Ainda podia sentir a euforia e a ansiedade tomando conta. A respiração ficando mais rápida e o coração acelerando. Sim, Wesker o mandaria para alguma missão. Era certo que sim. Ao abrir a porta, viu aquela ampla sala pela segunda vez. A primeira como membro da Umbrela. Wesker o estava esperando.
- Entre, senhor Krauser.
O militar entrou, sempre caminhando com passos firmes e cabeça erguida. Era um soldado, sempre seria. Ele pode ter saído do exército, mas o exército não saía dele. Assim que chegou a frente à mesa do pre-sidente da empresa, estacou e ficou em silêncio, apenas esperando seu superior falar.
- Muito bem. Sente-se.
Krauser, ainda em silêncio, sentou-se na cadeira em frente à mesa e continuou aguardando as palavras de Wesker. Este, sorrindo, encarou o militar.
- Muito bem. É com orgulho que posso dizer que você é um experimento bem sucedido da nossa empresa. E agora, chegou o momento que, acredito eu, temos esperado. Finalmente, entrará em ação. Temos uma missão para cumprir.
Krauser cruzou as mãos e estalou os dedos. Não falou nada, mas fez uma expressão de satisfação indisfarçável, estufou o peito e ficou apenas na espera das ordens. Wesker seguiu.
- Descobrimos um estranho fenômeno na Espanha. Enviamos alguns homens para lá e estamos aguardando o relato deles. Mas ao que tudo indica, existe um grupo de pessoas que está seguindo a um líder. Preciso que vá até o local e se infiltre entre os habitantes. Descubra o que está ocorrendo lá. As observações por satélite indicam que o movimento está crescendo muito em um vilarejo no interior espanhol. Relate tudo o que descobrir. Assim que tiver novas informações, o manterei informado.
Krauser sorriu, levantou-se da cadeira e encarou o chefe.
- Ordem dada, ordem cumprida. Pode considerar o serviço feito.
- É assim que se fala.
Depois disso, Krauser saiu da sala. Ele nem desconfiava, Ada sim, de que na verdade, Wesker iria trair a Umbrela. Estava procurando algum produto que pudesse vender e conseguir dinheiro para fundar sua própria empresa. Apesar de ser o presidente, não era o dono. E seus superiores, vez por outra, questionavam seus meios. Assim, sendo ele o próprio e único chefe, não precisaria prestar contas a ninguém.
Então, foi dessa maneira que Krauser chegou ao povoado no interior da Espanha. Via agora, casas pequenas, algumas de madeira, outras de alvenaria, com telhados de zinco. Árvores eram vistas dos dois lados da estrada, todas com as folhas começando a cair. As casas tinham as janelas tapadas com tábuas de madeira pregadas na horizontal, impedindo a visão de quem estava do lado de fora. Não havia flores, tão comuns nessas casas interioranas, nem crianças correndo por ali. E o clima era tenso, pesado. Sim havia algo errado ali. Qualquer pessoa podia perceber isso. Agora, teria de ver o que era.
Não demorou muito para que um grupo de aldeões viesse dar boas vindas ao militar intruso. Eles vieram se aproximando aos poucos. Krauser apenas ficou parado. Então, um deles gritou:
- Agarrem-no!
Todos correram ao mesmo tempo, armados com foices, arados e machados. Assim que um deles ati-rou uma foice e Krauser pegou-a no ar com a mão, os outros vieram correndo. Não viram que o visitante não era uma pessoa comum. Jack Krauser sequer usou as armas. Matou-os apenas usando sua força, com as pró-prias mãos. Mas o braço esquerdo era mais fraco que o direito. Chegou a se ferir. Sim, apesar da força so-brenatural que possuía, da velocidade e da capacidade de se recuperar dos ferimentos acelerada, o braço es-querdo era seu calcanhar de Aquiles.
Ele seguiu, correndo tão rápido que mal podia ser visto e aproveitou que a porta da igreja estava aberta e penetrou pela passagem que levava ao cemitério. Chegando ao túnel, encontrou alguns aldeões de-safortunados que morreram antes mesmo de saber o que os acertou. Então, chegou a uma longa escada de escalar. Ao subi-la, saiu de um poço e chegou a um cemitério. Atrás de uma colina, havia uma igreja. De onde estava, deu para ver um grupo de aldeões e alguns animais. Eram cães. E um homem com uma túnica roxa à frente de todos. Os aldeões lhe prestavam reverência. Devia ser o líder deles. Sim. Krauser iria falar com ele. Então, se pôs a caminhar na direção do templo.

Capítulo 3


Uma mulher caminha em um longo corredor. As luzes vêm de lâmpadas fluorescentes no teto, que vão se acendendo a medida que ela caminha. Para pessoas que visitavam o local pela primeira vez, isso cau-sava certa intimidação. Era como estar sendo vigiado o tempo todo, mas não para a mulher que caminha ali naquele momento. Ela nem olha para as luzes que vão iluminando o seu caminho. O aspecto do local é futu-rista. Não tem portas dos lados, apenas uma ao final, e é para lá que ela está indo, caminhando a passos fir-mes, confiantes. Com a confiança de quem conhece o local há muito tempo. E é um bom tempo, mais de seis anos.
A mulher usa um vestido longo cor de vinho. É uma asiática, de descendência chinesa. Tem a pele clara, os cabelos pretos e curtos. Usa óculos escuros e não perde tempo olhando para os lados. Desde 1994 que Ada Wong circula pelos laboratórios da Umbrela. Aquele lugar para ela, não é nada mais do que seu local de trabalho. Ao chegar à frente da porta, para e fica pensando no que irá falar. Quais serão os assuntos tratados? Bem, isso ela não fazia ideia, afinal de contas, Albert Wesker não revelou nada. Apenas disse que queria uma reunião. E pelo tom de voz, estava com pressa. Então, Ada bateu à porta, esperou por alguns instantes e entrou.
A sala também não era nenhuma novidade. Wesker era o presidente da Umbrela. Tratava-se de um local em forma de hexágono. Havia poltronas e mesas, com papéis de relatórios de experimentos da empresa para todos os lados. E em frente à porta, uma grande mesa, atrás do qual, havia uma cadeira giratória. Esta cadeira ficava à frente de um grande monitor de computador, e estava voltada para ele. Sobre a mesa, um teclado que controlava além do computador que estava ali, vários satélites de propriedade da empresa.
A tela exibia uma paisagem rural vista de cima. Aos poucos, a imagem foi aproximando até ser pos-sível identificar o que se passava. Era um vilarejo, com pequenas casas, uma igreja e um casarão, que deveria ser do prefeito local. Um pouco afastado dali, havia o que parecia um castelo. Sim, alguma família nobre deveria morar ali desde os tempos mais antigos. E com certeza ainda possuía alguma autoridade sobre aque-las pessoas mais simples. Mas qual o motivo de Wesker estar olhando para aquela tela? Só podia ter algo a ver com o vírus ou algo do gênero. Então, o presidente da Umbrela girou a cadeira e encarou Ada. Cruzou os dedos sob o queixo e ficou alguns segundos sorrindo, sem dizer palavra. A imagem da espiã refletiu nos óculos escuros de Albert Wesker, que enfim, quebrou o silêncio.
- Então, senhorita Wong. O que está vendo na tela?
Ela olhou por alguns instantes, procurando por algo que talvez lhe tenha passado despercebido em um primeiro olhar. Mas tudo ali parecia exatamente normal para um vilarejo interiorano.
- Ora, vejo uma comunidade rural.
Wesker continuava com seu sorriso no rosto.
- Poderia dizer em que lugar fica essa comunidade?
- Pode ser em qualquer lugar do mundo.
Ambos ficaram mais um tempo em silêncio. Então, Wesker voltou a falar.
- Esta comunidade rural está localizada em um vilarejo no interior da Espanha, chamado de “El Pue-blo”. As pessoas que lá moram são em sua grande maioria, fazendeiros. Gente simples do campo, que cuida de suas plantações, da criação de gado, de galinhas, dentre outros afazeres.
Wesker estudou o semblante de Ada antes de continuar. A espiã não conseguia saber aonde ele queria chegar. Então, o presidente da Umbrela continuou.
- Há uma igreja com um cemitério bem ali.
Apontou com um laser para o local.
- Essas comunidades costumam ser muito religiosas. E bem ali.
Agora, apontou o laser para o castelo.
- Existe um castelo de mais ou menos duzentos anos, pertencente à família que o construiu. Os Sala-zar.
Ada viu Wesker a encarar novamente e ficar esperando que ela dissesse alguma coisa. Então, a espiã tomou a palavra.
- Certo. Como muitas comunidades rurais do interior da Europa. Locais com um passado medieval, que mantém a tradição por causa do isolamento e conservadorismo das pessoas que lá habitam. Mas o senhor me chamou aqui para mostrar isso? O que há com esse vilarejo?
Neste momento, Wesker abriu um sorriso.
- Nossos espiões relataram fatos estranhos ocorridos lá. Então, mandei uma equipe ao local para fazer um relato do que eles viam. E sabe o que aconteceu?
- Não, mas acho que vou me surpreender.
Após dizer isso, Ada retirou os óculos escuros e ficou com um sorriso no canto da boca. Sim, havia algo anormal ali. Alguma coisa havia acontecido.
- Dos três espiões que foram ao local, dois foram brutalmente assassinados e um conseguiu fugir, mesmo sendo gravemente ferido. De um hospital em Madri, ele me enviou uma mensagem por e-mail. Wesker abriu o e-mail para ler melhor os pontos elencados.
- À primeira vista, tratava-se de uma pacata comunidade rural. Homens trabalhando cuidando dos animais, da pastagem, da agricultura. No entanto, algo chamou a atenção. Não havia flores. Nada que tor-nasse a paisagem mais suave, como sempre havia nesses locais. Normalmente as pessoas plantavam flores em vasos e colocavam nas janelas, no pátio. Mas não ali. As janelas estavam fechadas ou com tábuas pregadas, como que para evitar que se pudesse ver dentro das casas. As árvores não tinham folhas nos galhos. Mas resolveram continuar. Assim que encontraram os aldeões, tentaram entrar em contato com eles. Então, o que se seguiu foi totalmente surreal. Essa foi a palavra que eles usaram.
Wesker fez uma pausa para estudar a expressão de Ada e continuou.
- Eram três aldeões. Eles atacaram nossos espiões. Um com um arado, um com uma foice e outro com um machado. O que estava mais a frente foi decapitado ali mesmo, na frente dos seus companheiros de missão. Estes, saíram correndo. Então, entraram em uma casa para se esconderem. Não achavam que todos teriam o mesmo comportamento. Mas o dono da casa, ao vê-los, os atacou de igual maneira. O segundo es-pião foi morto, com uma facada. O único sobrevivente saltou pela janela. E correu de volta ao carro. A essa altura, já havia muitos aldeões. Ele engatou e correu o mais rápido que conseguiu para a ponte que dava acesso ao vilarejo. Muitos aldeões tentaram bloquear o caminho, e ele teve de dar marcha ré, batendo o carro em uma verdadeira muralha de pessoas. Então, ele olhou nos olhos de um deles. Estavam brilhando, verme-lhos. Mas não eram zumbis. Eles falavam, manejavam armas e tudo mais. Mas não estavam normais. Havia alguma coisa como que controlando os movimentos deles. De repente, um machado voou em sua direção e o atingiu em um braço, quebrando o vidro. Neste momento, ele acelerou, mesmo ferido. Atropelou uma imen-sidão de pessoas que estava bloqueando a ponte, mas conseguiu escapar. Quando se viu em uma cidade não muito longe dali, chegou a um hospital e apagou. Depois disso, acordou na capital espanhola. Já haviam se passado alguns dias. O médico lhe disse que quase teve de amputar o braço e que ele não morreu por pouco. Não sabia como conseguira chegar ao hospital, já que perdera muito sangue. Mas que iria se recuperar e em algumas semanas, poderia retornar. Então, o que você me diz?
Ada estava estarrecida com o que acabara de ouvir.
- Wesker, posso ler o e-mail?
O presidente da Umbrela assentiu com a cabeça. Ela então se aproximou da tela do computador e leu tudo com as palavras do homem responsável pelo relatório. Ela o conhecia, assim como os dois que foram mortos na missão. Se tudo aquilo ali era verdade, só podia se tratar de algum controle exercido sobre aqueles camponeses. Eles não teriam um comportamento tão agressivo naturalmente. Ninguém iria atacar uma pessoa estranha sem uma motivação. A não ser que estivessem sendo manipulados. Wesker ainda disse mais uma coisa:
- Tem mais um detalhe que não está no e-mail. Eu telefonei para nosso espião e ele disse uma coisa muito intrigante. Na ocasião pensou que isso não era tão importante, mas depois mudou de ideia. E acho que é importante. Alguns dos aldeões se referiam a outra pessoa, a quem eles chamavam de “Lorde Saddler”. Deve ser alguma espécie de líder deles, e o responsável por este comportamento violento.
Ambos ficaram em silêncio novamente. Então, Ada tomou a palavra.
- Certo. E qual é o nosso plano? - Você vai dar um passeio.
Então, girou novamente a cadeira, encarando a espiã.
- Vá para a Espanha. Quero relatos sobre tudo o que ver lá. E o mais importante. Que traga o que quer que esteja por trás deste comportamento dos aldeões. Se for um vírus, alguma substância, algum remédio, droga, seja lá o que for, quero que traga. Parece ser muito mais eficiente do que o Vírus T. O espião comen-tou que as pessoas ficam mais rápidas, resistentes e insensíveis à dor. Parecem com os zumbis, com a dife-rença que continuam com suas habilidades de antes de serem infectados e depois ficam fiéis a quem os con-trola. Precisamos poder controlar esses infectados. E descubra quem é Lorde Saddler.
Ada ficou um tempo pensando no que responder. Mas antes que falasse, Wesker concluiu.
- Você não irá sozinha. Jack Krauser já está lá.
Agora Ada ficou surpresa e não conseguiu disfarçar.
- Krauser? Por que ele?
Wesker escorou a cabeça na mesa e olhou para a espiã.
- Preciso testar ele em campo de batalha. Ele é um de nossos experimentos mais valiosos. Um dos melhores e por isso preciso saber do que ele é capaz.
Depois de alguns segundos em silêncio, Wesker concluiu.
- Krauser vai se infiltrar entre os aldeões. Tentará saber quem é Saddler e entrar para seu grupo. Para ajudar você, nossa inteligência prestará toda a assistência necessária. Tentaremos descobrir o máximo sobre os aldeões e do motivo que os faz agir da maneira como agem. Sendo assim, a reunião está terminada. Em-barca ainda hoje.
No helicóptero, Ada meio que acordou do devaneio. Estava se recordando da conversa que teve com Wesker nos laboratórios subterrâneos da Umbrela. Olhou pela janela e viu que já sobrevoavam o continente europeu. Logo estaria em terra firme. Então, abriu o computador portátil e repassou as instruções dadas por seu chefe, procurando ainda se lembrar de tudo o que vira naquele e-mail dos espiões. Para saber o que a esperava assim que colocasse os pés para fora da nave.

Capítulo 4


Os habitantes do vilarejo de El Pueblo eram em sua grande maioria criadores de gado e agricultores. Pessoas simples do campo. E fervorosamente religiosos. Sempre compareciam à missa. Um dos principais locais onde as pessoas iam se encontrar, era a Catedral. Lá não era simplesmente um lugar em que se ia para rezar, mas também para ver amigos que moravam distante, para as festividades locais, enfim, lá era o centro da vida espiritual e social da vila. As casas eram simples, de alvenaria com telhados de zinco. Algumas em madeira. Nos galpões, o gado pastava, havia os poleiros para as galinhas e os cães dormirem. E era neles que se arma-zenava o alimento do gado também.
A maior prova do comprometimento dos habitantes de El Pueblo para com a religião era a Catedral. Localizada junto a um cemitério, eram as pessoas do vilarejo que trabalhavam nela voluntariamente. Apara-vam o gramado, cuidavam das lápides à sua frente, faziam a limpeza, tanto do cemitério, quanto do templo, além de sempre realizarem as reformas necessárias para manter a estrutura da igreja em bom estado. A Cate-dral também é um motivo de orgulho para a população local. Toda em pedra, é uma construção imponente, ao estilo gótico, com altas torres e um enorme vitral sobre a porta. A ideia do vitral é que na hora da cerimô-nia religiosa, marcada sempre para o pôr do sol, a luminosidade atravesse os vidros e ilumine o altar, dando à luz que ilumina o interior da igreja, as cores do vitral. Realmente, trata-se de uma grandiosa obra arquitetôni-ca.
Contudo, ao contrário do que pode-se imaginar, ao olhar para este templo, não se trata de uma igreja católica como na maior parte do país. A Espanha é um país onde o catolicismo é uma presença marcante his-toricamente. Mas não mais em El Pueblo. Agora, estes habitantes têm outra religião e são conhecidos como Los Illuminados. Veneram uma criatura que vive dentro das pessoas, um parasita, denominado Las Plagas. Parasita este, que controla a mente e o comportamento das pessoas. E o líder dessa religião, que em uma épo-ca remota já dominou essa região da Espanha e que está repetindo essa dominação, chama-se Osmund Saddler, chamado por todos ali de Lorde Saddler ou simplesmente, Lorde.
Saddler conta com aliados fiéis. O principal deles, dentro do povoado e o grande responsável pela conversão ou melhor, infecção dos habitantes do vilarejo, se chama Bitores Mendez. Mendez é prefeito do vilarejo de El Pueblo. Desde que assumiu a liderança do local, serve fielmente à família que controla a região, os ricos donos do castelo, os Salazar. Como recompensa, ele recebeu o poder de Saddler, o parasita Las Pla-gas em sua forma controladora. Assim, ele também tem o poder de controlar os parasitas em sua versão con-trolada, a que eles colocaram nos aldeões. Quem infectou Mendez, foi Ramon Salazar.
Ramon Salazar é o oitavo castelão, ou seja, dono do castelo que fica na vizinhança de El Pueblo. Com apenas vinte anos, perdeu seu pai. Sua família é conhecida pelo fato de terem expulsado justamente os mem-bros da seita Los Illuminados, quando o primeiro castelão comprou o castelo e se mudou para o local. No entanto, Ramon acabou se rendendo a Saddler e não só permitiu o retorno dos Illuminados a El Pueblo, co-mo cedeu seu castelo para que este se transformasse na sede da seita de Osmund Saddler. Ele, que com a infecção dos aldeões, passou a ser venerado como uma divindade por todo o local.
Saddler desceu do veículo que o trouxe. Normalmente, o líder dos Illuminados ficava no castelo, cui-dando dos experimentos que ele mesmo, com o auxílio dos monges faziam. Mas agora, tinha de vir a El Pue-blo, pois Luis Sera, o cientista que contrataram precisaria de instalações e de equipamentos para efetuar seus estudos. E Saddler queria se certificar de que os preparativos para receber seu visitante estavam sendo feitos. Era preciso se certificar que, caso os infectados começassem a se expandir, não haveria meios de eliminar o parasita do corpo das pessoas. Caso conseguissem comprovar a negativa, a dominação do mundo seria uma questão de tempo. Enviariam pessoas com o parasita para os mais influentes países primeiro. Infectariam os governantes e quando os ovos eclodissem, todos seriam apenas marionetes de Osmund Saddler. Era o come-ço de uma nova era.
Assim que colocou os pés no chão, Osmund Saddler observou as pessoas em seus afazeres. Alguns aravam o feno, outros estavam levando o gado para seus lugares, alguns recolhendo ovos nos galinheiros. Todos eles quando viram seu líder, pararam imediatamente o que estavam fazendo e foram prestar sua home-nagem. Prostraram-se diante de Saddler e repetiram em uníssono:
- Lorde Saddler.
E ficaram prostrados até que ele os liberou para retornarem às suas tarefas. Então, Osmund Saddler se dirigiu até uma pequena igreja que fica no vilarejo. Do outro lado do carro, desceu Bitores Mendez. O prefei-to caminhou apressadamente até alcançar Saddler.
- Lorde, precisa que alguém o acompanhe até o templo?
Saddler olhou de volta para o prefeito e respondeu:
- Não se preocupe. Eu não vou me perder. Continue com os preparativos pare recebermos nosso cien-tista que vem da capital.
Mendez fez uma cara de poucos amigos.
- Não gosto daquele sujeito.
- Não precisa gostar. Mas ele fará um trabalho importante para nós.
- Sim, Lorde. Estou indo até minha residência e chegando lá, vou direto ao laboratório me certificar a respeito dos preparativos para recebermos o senhor Sera.
- Muito bom.
Dito isso, Bitores Mendez deu meia volta e se dirigiu ao seu veículo novamente. Iria até sua casa. Saddler entrou na pequena igreja. O interior dela, no entanto, não era o de uma igreja. Havia uma mesa ao centro, algumas cadeiras, uma estante e uma prateleira. A iluminação era fraca, proveniente de uma vela co-locada sobre a mesa de centro. Na extremidade oposta, havia uma porta de madeira, que dava acesso à saída. Osmund Saddler abriu-a e chegou a um pequeno espaço que tinha atrás da porta. No outro lado da entrada, tinha um alçapão, que dava acesso a um nível inferior.
Saddler desceu e chegou a um túnel estreito, uma passagem, iluminado por velas. O líder dos Illumi-nados conhecia bem aquele túnel, afinal, fora ele quem comandou sua construção. Periodicamente os aldeões vinham trocar as velas quando estas se apagavam. O líder da seita foi caminhando vagarosamente, satisfeito com o modo como as coisas estavam correndo. O local era muito úmido, com pequenas gotas d’água caindo do teto, ou mesmo, correndo pelas paredes. Poças se formavam no chão, deixando pegadas de quem quer que passasse por ali. Havia pegadas frescas. Alguém passara por ali há pouco tempo. Mas ninguém circulava pelo local. Saddler olhou com atenção para as pegadas. Eram grandes, mais fundas que o normal. A pessoa que passou por ali era grande e mais pesada do que a maioria dos aldeões. Quem será? Era, no entanto, mais provável que algum dos aldeões tenha encontrado sapatos diferentes nos pés de algum forasteiro e o estava usando. Poderia ser Luis Sera? Não, os sapatos dele não têm aquelas marcas. Pareciam calçados feitos para andar em áreas inóspitas. O cientista usava sapatos sociais normalmente. O que não o excluía totalmente.
Assim que saiu do poço que dava acesso ao cemitério, localizado em frente à catedral, Osmund Saddler ficou um instante observando o cenário. Tudo estava quieto. Não havia ninguém ali, o que estava causando uma sensação de estranheza. Deveria haver alguns aldeões trabalhando na limpeza do cemitério, pelo menos. Saddler foi caminhando na direção da catedral. Olhou atentamente para as árvores, mas não viu nada além dos corvos em seus ninhos. O líder dos Illuminados procurou aguçar os ouvidos para tentar ouvir algum barulho suspeito, mas a única coisa que ouvia eram seus passos. Algo estava errado, isso ele podia sen-tir. Mas o que? Então, ele chegou a frente à porta e tentou abri-la. Estava trancada. Saddler possuía o objeto que servia de chave. Os aldeões que trabalhavam ali também. Mas devia ter gente no local. Ou pelo menos alguns dos colmillos*, que tomavam conta da propriedade, para evitar que intrusos penetrassem no templo. Apesar de estar muito estranho o local, não tinha nenhum sinal de que algo errado tivesse acontecido. Nem sangue, nem tiros, nem sinais de luta. Saddler abriu a porta da frente da catedral e entrou.
O lado de dentro da catedral estava tão quieto quanto o de fora. Não havia viva alma ali. Mas as ve-las estavam acesas e o local estava limpo, indicando que sim, havia tido gente há pouco tempo. Mas onde eles estavam agora? Não poderiam simplesmente ter sumido. Osmund Saddler estava ficando cada vez mais desconfiado de que alguma coisa havia acontecido. O que? Como os aldeões simplesmente desapareceriam? Então, o líder da seita subiu a escada que dava acesso ao nível superior e como dava para ver de baixo. Tudo estava absolutamente quieto. Deu a volta no local e chegou a uma porta que dava acesso a uma sala. Esta porta era secreta e só Saddler sabia como encontrá-la. Havia janelas para o lado de fora, mas para entrar na sala, só pela porta, pois a janela era muito alta. Só que no momento em que abriu a porta, Osmund Saddler começou a descobrir o motivo de não haver ninguém ali. Ou melhor, de não haver ninguém vivo ali.
Em frente à porta de entrada, havia uma mesa, com um mapa mundi fixado nela. A janela estava aberta. Deveria estar fechada, pois quem a abriria? Uma estante do lado esquerdo de quem entra exibia uma grande quantidade de livros, em sua maioria, falando sobre a seita “Los Illuminados”, escritos na época em que eles eram influentes na região, antes de serem expulsos pelos Salazar. À frente da mesa, uma cadeira, onde quem estivesse ali, com o líder da seita, poderia conversar com ele. Atrás da mesa, uma grande cadeira estofada, com o veludo vermelho, onde Saddler sentava-se. Mas havia alguém sentado nesta cadeira. E não era Osmund Saddler.
Osmund Saddler entrou em sua sala e fechou a porta, irritado com o que estava vendo. Como alguém entrou ali? E estava sentado em sua cadeira? Iria pagar. Não iria poder fugir. Isso era um desrespeito que ele não iria tolerar. Então, se virou e viu o homem sentado em sua cadeira. Era alto, usava um traje militar, do Exército dos Estados Unidos e uma boina vermelha. Tinha cabelos louros, um olhar duro e frio, semblante sério e uma cicatriz que ia do seu olho esquerdo até a boca. E olhava para Saddler sem medo. O líder dos Illuminados não demonstrou sua irritação com a situação, foi apenas caminhando até perto da mesa, enca-rando seu ocupante. Então, parou com seu cajado, coçou o queixo com a mão e depois de um tempo em si-lencio, tomou a palavra.
- Bom dia. Posso ajudar em alguma coisa?
O homem ergueu a cabeça, na direção de Saddler antes de falar.
- Aqui é uma igreja, não? Quem é o padre?
- Você é americano?
- Você não respondeu à minha pergunta.
Quem é esse insolente? Ficou pensando Osmund Saddler. Mas estava curioso para saber como ele chegou até ali.
- Sou o responsável por essa Catedral. Não somos católicos, mas eu lidero uma nova ordem religiosa.
O homem forçou um sorriso antes de continuar.
- Certo. Então, acho que temos alguns interesses em comum. E como você me perguntou antes, não tem muita coisa em que possa me ajudar. Na verdade, eu é quem vou ajudá-lo. E muito.
Saddler riu. Esse homem só pode estar louco, pensou ele. Mas como conseguiu entrar na minha sala? Isso realmente incomodava o líder dos Illuminados.
- Me ajudar? De que forma? O senhor nem deve saber com quem está falando.
O soldado cruzou os dedos das mãos sob o queixo e prosseguiu.
- Sei. Sei exatamente quem o senhor é. Mas o senhor não sabe quem sou.
- Sério? Então, diga-me o que sabe.
Saddler tinha certeza de que seu visitante indesejado estava blefando. Este, no entanto, passou a fa-lar.
- O senhor se chama Osmund Saddler e é o líder de uma seita religiosa, embora ainda ignore o nome exato dela. Sei que tem um grupo de fiéis que o venera e o defende arriscando suas vidas, caso seja necessá-rio. Sei também que eles atacam e tentam matar a todos aqueles que chegam de fora, os forasteiros. Mas o mais interessante é que essa devoção, a meu ver, não é totalmente voluntária. Eles são controlados por algum organismo colocado dentro dos seus corpos, como se fossem parasitas. Agora me diga: onde eu errei?
Como aquele homem sabe disso? Saddler estava estupefato com o que acabara de ouvir. Agora, que-ria continuar ouvindo.
- Quem é o senhor? Como sabe disso?
Agora, o visitante sorriu, encarou Saddler e prosseguiu.
- Acho que agora vamos nos entender. Meu nome é Jack Krauser. Antes de iniciarmos nossa conver-sa, vou perguntar uma coisa. Sabe como entrei aqui? Ah, mais uma coisa. Não percebeu que não havia um único de seus fiéis trabalhando no templo?
Saddler ficou em silêncio. Não sabia bem onde aquele estranho queria chegar, mas estava perturbado. Krauser se levantou e foi até a janela, que estava aberta.
- Senhor Saddler, venha até aqui e olhe.
Saddler foi até a janela e olhou para fora. Sim, ele não dera a volta na Catedral. Se o tivesse feito, teria visto o que aconteceu. Havia muitos corpos de aldeões, todos mortos. Havia colmillos ali também. O líder da seita olhou para o militar e perguntou:
- Que arma usou para fazer aqueles ferimentos?
Krauser levantou as mãos. E neste momento, Saddler viu que havia sangue nelas.
- Veja, estou desarmado. Eu sou uma arma. Matei todos eles com minhas mãos.
Não podia ser verdade. Mas ele realmente não tinha armas. Osmund Saddler se dirigiu à sua cadeira e ordenou que seu visitante se sentasse na cadeira em frente à mesa.
- Certo, senhor Krauser, é este o seu nome. Conte-me quem você é, para quem trabalha e por que está aqui. E o que quer.
Agora, Krauser iria ao ponto que queria.
- Vou começar pelo início. Eu em outra vida era militar dos Estados Unidos. Chefe de operações es-peciais. Fui designado para muitas missões, obtendo êxito em todas. Sem falsa modéstia, sei treinar muito bem qualquer grupo de soldados. Faço-os ficarem disciplinados, focados e fazerem o que for necessário para obterem êxito em suas missões. Fui condecorado muitas vezes.
Depois disso, ele ficou em silêncio, estudando o semblante de Saddler, que perguntou:
- Certo, e como isso vai me ajudar?
- Só que em uma missão, eu fui gravemente ferido. E o que recebi em troca pelos meus anos de servi-ço? Nada. Simplesmente deram baixa para mim e me afastaram das minhas funções. Quero demonstrar a eles que posso ser melhor do que qualquer um que colocaram no meu lugar. Quero vingança.
- Só isso? Mas como chegou a mim? E como sei que isso não é um blefe?
Krauser então apanhou seu atestado de óbito e entregou a Saddler.
- Oficialmente estou morto. Acontece que em uma de minhas missões, tive de lutar contra criaturas que para mim só existiam em filmes. Fiquei sabendo então do que se tratava. Uma empresa chamada Umbre-la criou um vírus capaz de reanimar pessoas mortas. Eles retornavam e ficavam praticamente imortais. A úni-ca forma de matá-los era atingindo-os na cabeça. Os chamados zumbis. A infecção começou por uma peque-na cidade dos Estados Unidos, chamada Raccoon City. O vírus criado por esta empresa, tinha como objeti-vo, criar imunidade ao corpo humano contra doenças, mas acabou tendo efeitos colaterais indesejados. No entanto, serviu a outros propósitos. Criar um exército de zumbis. Só que isso também não deu muito certo. As pessoas reanimadas pelo vírus T acabavam perdendo a capacidade de raciocinar e agiam somente pelos instintos mais básicos, que são ligados à sobrevivência. Assim os zumbis se tornaram verdadeiras bestas in-controláveis que apenas sentiam necessidade de se alimentar. E para isso, caçavam quaisquer seres vivos que encontrassem. E aí apareceu mais um problema. Todos os seres que eles matavam com as mordidas, acaba-vam contaminados e se tornavam zumbis como eles. E isso acabou gerando um efeito dominó. Em pouco tempo, a cidade de Raccoon City foi toda contaminada. Para evitar que a praga se espalhasse, o governo americano ordenou a esterilização do local. Foi largada uma bomba nuclear lá, destruindo a cidade e matan-do todas as pessoas. A Umbrela foi desligada de todos os programas do governo e faliu.
Saddler continuava olhando para Krauser.
- Certo, mas não sei ainda o que isso pode ser útil para mim. É apenas informação e nada relevante.
- Acontece que nem todos os infectados se tornaram zumbis.
- Ah, e deixa-me adivinhar… você é um exemplo bem sucedido.
- Exato. Meu ferimento causado por uma criatura infectada em uma missão na América do Sul, nunca cicatrizou e eu não consegui mais recuperar minha força. Então, procurei a empresa. Eles me infectaram, mas monitoraram a infecção, de modo que mantive minha consciência e não me tornei um zumbi. E foi assim que consegui matar todos aqueles ali fora, sem usar armas. Mas eu queria mais força. Sempre quis encontrar uma forma evoluída dos seres humanos. E passei a viajar pelo mundo, já que estava livre para isso. E cheguei a este vilarejo. Aqui encontrei seus fiéis.
- Estranha esta história. Mas prossiga. Eles chamaram sua atenção?
- Sim. Era noite e fui atacado por muitos aldeões. Eles tinham uma força fora do normal para pessoas como eles, sem treinamento. Foi quando feri um na cabeça que algo me chamou a atenção. Vi sair do pescoço dele algo semelhante a um chicote com pontas afiadas. Era o tal parasita. Percebi que eles continuavam ani-mados mesmo depois de mortos, pois aquela criatura os comandava. Depois de lutar com eles, cheguei a uma conclusão: eles podem ser muito mais úteis que os zumbis. Sabe por quê?
- Por quê?
- Eles têm muito mais força que uma pessoa normal, são resistentes à dor e é difícil para matá-los. Só que eles trazem um bônus. Não ficam irracionais como os zumbis. São leais a quem os controla. Então, eu pensei. Posso treiná-los para serem o melhor exército que o mundo já viu.
- Certo, mas iria me ajudar sem querer nada em troca?
Krauser sorriu.
- Não disse que não iria querer nada em troca.
Os dois ficaram em silêncio. Saddler então, perguntou:
- E qual é o seu objetivo com tudo isso?
Saddler estava mordendo a isca.
- Meu objetivo é evoluir. Se existe um parasita que é controlado, como os que vi saírem dos aldeões, deve haver um controlador, como este que está em seu cajado. Quero um destes para mim. Vi o prefeito do vilarejo. Ele está infectado com o parasita. Sei disso. Quero ficar igual a ele. Em troca, lhe ajudarei a conse-guir todos os seus objetivos e serei seu braço direito.
Saddler riu.
- Como sabe que tenho objetivos maiores?
- Ora, seria um desperdício ter um potencial destes nas mãos e não usá-lo. Poderia controlar o mundo todo. Ter as pessoas mais poderosas do planeta em suas mãos, o obedecendo como se fossem marionetes. E eu posso lhe dar isso.
- Como?
Krauser encarou Osmund Saddler.
- O que me diria se eu lhe entregasse controle total sobre o homem mais poderoso da Terra?
- E quem seria?
- O presidente dos Estados Unidos. Ele comanda a nação mais rica do mundo, o exército mais pode-roso do mundo e tem influência sobre quase todos os países do mundo. O que lhe pareceria se ele fosse um fantoche seu?
Saddler ficou um tempo em silêncio. Então, falou:
- Prossiga. E como isso seria feito?
- Eu iria lhe trazer ninguém menos que a filha do presidente. Nós a infectaríamos. Para o mundo, seria apenas mais um sequestro, uma ação terrorista. Nós exigiríamos um resgate. Pagariam o que pedíssemos. En-tão, depois, devolveríamos a garota para os seus pais. Eles pensariam que os problemas deles acabaram. Mas é aí que eles iriam começar. Contaminada, ela seria um fantoche seu. Iria contaminar seu pai. Com o tempo, ele é quem iria passar a seguir suas ordens e contaminaria outros membros do governo. Deste modo, seria apenas uma questão de tempo até você estar controlando o país todo. E depois disso, o controle do mundo seria apenas o próximo passo. O que me diz disso? Você está vendo? Posso lhe dar o mundo.
- E como sei que não vai me trair?
- Não ganharia nada com isso. Sem contar que vou ter minha participação neste novo mundo que vou ajudar a criar. É claro que sei que o senhor saberá me recompensar.
- Caso demonstre lealdade e cumpra tudo o que disse, irei sim lhe recompensar bem. Por outro lado, se me trair, acho que já deve saber o que vai lhe acontecer. E veja bem. Não sou como aqueles pobres coita-dos que você matou ali fora.
Neste momento Saddler abriu a boca e um olho apareceu dentro dela. Em seguida, em um movimento tão rápido que seria imperceptível a um ser humano comum, o líder dos Illuminados se levantou da cadeira e golpeou o militar. Só que Krauser não era um ser humano comum e conseguiu sair da cadeira, que foi feita em pedaços. Osmund Saddler ficou ali rindo.
- Parece que fala a verdade. Não foi blefe. Sim, você tem habilidades muito interessantes. Quanto tempo vai levar para me trazer a filha do presidente dos Estados Unidos?
- Uma semana. Quero mais dois homens para treinar. Eles serão úteis. Depois disso, posso me consi-derar parte de seus planos?
- Se me trouxer a filha do presidente dos Estados Unidos, conforme o combinado, sim. Fará parte dos meus planos. E será uma peça valiosa. A partir de agora, vou ordenar os aldeões que não o ataquem mais. Irá treinar um grupo para quando formos à América.
- Certo. Pode considerar o serviço feito.
Depois disso, Krauser se retirou. Saddler estava ainda cético no que acabara de ouvir, mas não custa-va nada tentar. Caso o soldado fosse burro o suficiente de traí-lo, teria de matá-lo. Mas isso não seria pro-blema.

* Cães contaminados com Las Plagas, que são fiéis aos membros da Seita Los Illuminados.

Capítulo 5


- Temos autoridade para fazermos o que quisermos com você. Com você e a garota.
A frase ecoava nos ouvidos. Os olhos estavam pesados. Era como se o som viesse de dentro da cabe-ça. Então, ele se viu dentro de uma sala, sentado em uma cadeira. Estava dentro de uma sala escura. O ar era pesado, denso. A respiração era difícil. O coração batia em disparada, como se quisesse saltar do peito. Leon Scott Kennedy olhava para os lados, mas não conseguia ver absolutamente nada. Isso se devia ao fato de estar bem no centro de um facho de luz que praticamente o cegava. Fora deste círculo iluminado, apenas a escuridão. Então, a única coisa que ele conseguia enxergar era um ponto vermelho piscando à sua frente, in-dicando que havia uma câmera. Havia alguém a operando? Isso, ele não sabia dizer, embora soubesse que o estavam vendo. E isso o deixava inquieto e com medo. Quem estava ali? Quais as intenções? Na situação em que estava, poderiam fazer o que quisessem com ele mesmo. Não era blefe de quem falava. Não era força de expressão. Mas ao que tudo indicava, eles iriam querer que ele fizesse alguma coisa. Mas o que seria?
- Deixe ela fora disso!
Leon gritava, sabendo que se quem quer que fosse, se quisesse fazer algo, faria. Mas tinha de falar igual. Então, a voz falou:
- Uma inocente carrega o anticorpo G. Não se preocupe. Estamos tomando conta dela muito bem. A verdade é que você tem a experiência que estamos procurando. Então, se quer que tudo termine pacificamen-te, você só tem uma opção. Trabalhe para a gente.
De repente, estava em outro local. O sol queimava, apesar de sua pele estar grudando, devido ao pro-tetor solar combinado com o suor, misturado a repelentes para mosquitos, que eram abundantes. Havia mui-tas árvores ao redor, altas, com muitas folhas nas copas. O chão de terra estava úmido, o que parecia ser algo constante ali, devido ao clima e à alta umidade relativa do ar. Quando caminhava, pisava em folhas, muitas delas caídas. E vez por outra, saíam por baixo destas folhas aranhas, sapos, rãs e outros animais pequenos. A vegetação também servia de esconderijo para outros animais, como insetos, aracnídeos, cobras, dentre outros. Era preciso ter cuidado ao pisar sobre as folhas e passar por galhos de árvores. Além do mais, o sol incomo-dava. Batia nos olhos, de forma a fazer com que eles tivessem de caminhar o tempo todo com a mão à frente para fazer sombra.
Leon parou e olhou para uma foto. Sim, era o homem que ele teria de capturar. De repente, um baru-lho atrás de si o fez se virar para trás. Um soldado vinha caminhando em sua direção, com uma cobra na pon-ta da faca, bebendo água de sua garrafa displicentemente. O agente quase fora atacado por uma cobra, mas o homem que vinha para o seu lado o havia salvado. Leon foi agradecer, mas Jack Krauser, jogando a cobra morta, perguntou:
- Você acha que armas biológicas realmente existem? Sim, diz que as enfrentou antes.
Ao dizer isso, Krauser passou por Leon, lhe jogando a garrafa com água. Depois parou à sua frente e ficou observando o terreno com seu binóculo. O agente estava trabalhando com o soldado pela primeira vez. Era o chefe de Operações Especiais e possuía uma grande fama, devido aos seus êxitos em campo de batalha. Mas não fazia diferença entre as criaturas de Raccoon City e armas biológicas. Krauser então se virou para Leon e disse:
- Vamos. Nosso guia deve estar nos esperando para irmos até onde Javier está escondido.
Sim, o homem da foto era Javier Hidalgo. Estava em uma missão na América do Sul, atuando em parceria com Jack Krauser. No entanto, o que eles enfrentaram lá não foram pessoas, mas zumbis. Leon Scott Kennedy não achou que enfrentaria aquelas criaturas novamente tão cedo. E na América do Sul? Era eviden-te que Javier tivera contato com a Umbrela e que estava fazendo experiências com as pessoas do povoado, as contaminando com o Vírus T. Então entraram em um galpão.
O chão de madeira estava parcialmente destruído e havia água. O local parecia ter sido construído sobre um rio. Uma garota estava sentada na parte do piso de madeira que restava, com as pernas na água. Seus braços estavam escorando seu corpo, apoiados no chão e ela olhava para a janela, por onde entrava a claridade. Ao lado dela, estava uma criatura quase que totalmente mergulhada, apenas com a cabeça para fora da água. Seus olhos eram dois pontos azuis. Krauser fez um sinal para Leon prestar atenção à criatura.
Leon então sacou a pistola e fez mira. A garota caiu no chão e o monstro se levantou da água e se dirigiu aos dois. Era uma criatura grotesca, com pernas? Tentáculos? Não dava para saber ao certo. Mas não teriam como enfrentar aquela coisa naquele momento. Então, enquanto um dos dois distraiu a criatura, o ou-tro apanhou a garota. Não dava para ver com clareza como a batalha seguiu, mas de repente, estavam em um barco, ele, a moça e Krauser. Ela usava um vestido branco, mas estava manchado de sangue. A pele dela era clara e o cabelo castanho claro. Seus olhos azuis olharam para os dois assustados. Leon sorriu para ela. - Não se preocupe. Não vamos lhe machucar.
Enquanto ele movimentava o leme do barco, junto ao motor, Krauser ia à frente, com um binóculo, para ver o que os esperava na margem, ou dos lados. À frente, havia uma espécie de represa. O barco foi na-vegando e Leon não teve mais certeza do que aconteceu. Tudo começou a ficar anuviado. Era como se esti-vesse tentando se lembrar de algo, mas não conseguia. Tudo ficou escuro, mas a sensação de inquietude au-mentava. Sentia-se tenso. Queria falar, mas não conseguia. A fala entalou na garganta. Então, de repente, voltou a enxergar.
Leon, Krauser e a garota estavam diante de um homem. Ele usava um casaco de couro, um colete e um colar. Seu cabelo era castanho claro. Seu rosto era emoldurado por uma barba aparada e um bigode sobre os lábios. Usava óculos escuros e tinha uma expressão dura no rosto. Estava olhando para eles do alto, dan-do-lhe uma imagem de arrogância. Ele falava algo com a garota, mas não dava agora para entender. Leon não ouvia sequer o que era dito, apenas viu que o homem falava algo. A garota era sua filha e parecia assustada. De repente, Krauser se virou para trás e para cima. Era como se estivesse ouvindo algo. Uma corrente de água invadiu o local, que se inundou e a garota se jogou na água, sendo levada para a represa.
De repente, os três estavam no alto da represa. Como foram parar lá? Não dava para saber. Leon e Krauser se aproximaram da garota. Ela retirou uma faixa do braço. O que eles viram… O braço dela parecia estar… com as veias e artérias todas aparentes. Sim, ela fora infectada. Enquanto ela falava, o agente sentiu um aperto no peito. Não sabia o motivo. Não conseguia ouvir o que era dito, mas algo estava provocando um sentimento estranho. Uma angústia. Queria sair dali. Queria estar longe dali. De repente se sentiu sozinho, não viu mais a garota, nem Krauser, nem ninguém. Parecia que estava caindo em um grande poço, sem luzes. Então, abriu os olhos e viu a claridade novamente.
Estava agora em meio à floresta, com a vegetação a lhe rodear. Folhagens, árvores, folhas caídas. Le-on estava com um binóculo, pesquisando o território. Via caminhões com um toldo a cobrir as carrocerias. Então, foi chamado e se virou para o lado. Era Krauser.
- Temos que cuidar da garota antes que seja tarde. É questão de tempo apenas. Até que ela se torne uma ameaça.
- Javier conseguiu impedir que Manoela se transformasse. Tenho de descobrir como.
Leon entregou um tablet contendo dados de sua missão. Krauser ficou olhando por algum tempo e viu que seu parceiro recebia ordens diretas do presidente dos Estados Unidos. Então, ele ergueu a cabeça e olhou para Leon.
- Minha missão é erradicar esse vírus de uma vez por todas.
Leon respondeu:
- Pretendo fazer isso, com a sua ajuda.
Krauser abaixou a cabeça e ficou em silêncio por alguns segundos. Então, falou:
- Sou apenas um soldado. Suas ordens são diretas do presidente. Estou do seu lado. Parece que sou apenas um peão neste jogo.
Depois disso, Krauser estendeu a mão e ele e Leon trocaram um aperto de mãos. Krauser riu.
- É hora de arrasar.
Então, estavam dentro de um laboratório. Havia estantes, prateleiras fechadas e dentro delas, grandes vidros com… órgãos humanos. Estavam fazendo experiências. Leon avançou para uma cortina e a abriu. O que ele viu atrás dela… eram seres humanos mortos e embalados em plásticos transparentes. Então, ouviu o baque de um corpo caindo no chão. Era a garota que viera com eles. Por uma porta lateral, o homem, que devia ser Javier apareceu. Krauser apontou a arma para o homem. Eles falaram algo, mas Leon não conseguia se lembrar.
Leon segurou a garota nos braços. Ela estava fraca. Parecia que perdia as forças e que poderia morrer. O agente se lembrou dos zumbis. Não podia deixar que ela morresse. Algo dizia a ele que ela se transforma-ria. O homem disse algo como ficar mais forte. Então, surgiu um monstro igual ao que estava na cabana de onde eles retiraram a garota saltou.
A criatura atirou algo que parecia uma estaca de madeira. Ela se cravou no chão. Leon recarregou a arma e passou a atirar naquela coisa. Era enorme. A cabeça era grotesca e ficava no meio do corpo. Os olhos eram dois pontos azuis brilhantes e parecia que aquela coisa tinha presas na boca, como uma grande aranha. De repente, o agente viu outra estaca daquelas voando. Agora na direção de Krauser, que disparou sua arma. Leon tentou acertar aquele objeto que voava. Iria atingir seu parceiro de missão. Leon quis gritar para Krau-ser, mas era óbvio que ele tinha visto que era o alvo da criatura. Seria atingido. O agente gritou.
E então, estava sentado na poltrona de um avião. O peito subia e descia. Sua respiração estava ofe-gante. Leon olhou para os lados e havia alguns passageiros olhando para ele. Estava suando, apesar de o cli-ma estar frio ali. Então, notou que suas mãos estavam contraídas e estava agarrando os encostos com tanta força que seus dedos estavam praticamente furando o estofamento. O coração batia acelerado. Dava para ouvi-lo. Leon se perguntou se os outros conseguiam ouvir também. É claro que não. O agente foi se acal-mando aos poucos, controlando a sua respiração até normalizar.
Então, a pergunta. Por que este sonho? Sim, ele passara por tudo isso. Foi a missão Javier Hidalgo, na América do Sul. Fora bem-sucedido, mas algo lhe incomodava profundamente. Sim, ficara algo mal resolvi-do. Leon sempre que se lembrava da ocasião, ficava com a impressão que Krauser fora ferido por sua culpa. Que ele poderia ter evitado. O ferimento fora grave. O soldado ficou praticamente fora de combate. E ficou inconformado. Krauser, que sempre fora ele a liderar os grupos do qual fazia parte. Que sempre era ele a res-gatar os outros e a ter êxito em suas campanhas. Daquele momento em diante, dependia de Leon. Isso feriu de morte o orgulho dele. Feriu também sua alma.
Tudo não teria passado disso, mas para piorar, o ferimento parece ter sido mais grave do que se pode-ria supor na ocasião. Leon soube que Krauser nunca conseguiu recuperar totalmente aquele braço e que teria sido aposentado algum tempo depois. Sim, aquele objeto que o monstro jogou certamente tinha algo além. Mas teria sido Jack Krauser infectado com alguma coisa? Leon não sabia dizer. Tudo a que se referiu ao mili-tar a partir daí, ficou envolto em uma espécie de cortina de fumaça. As informações eram desencontradas e não se sabia se eram verdade ou simplesmente boatos.
Algum tempo depois, circulou a notícia de que Krauser havia morrido em um acidente de helicóptero. Mas não houve nada de oficial nessa informação. Sequer houve algo no exército, nem velório, nem enterro. Se fosse totalmente verdade isso, certamente haveria alguma cerimônia com honras militares, a final de con-tas, Krauser era um dos melhores soldados e sempre fora uma peça valiosa nas forças armadas. Até aquela fatídica operação. Mas não se podia esquecer o que ele fizera, nem desprezá-lo por ter sido ferido em comba-te. Mas não adiantava ficar agora, divagando. Logo o avião iria descer no aeroporto de Madri, onde Leon estaria sendo esperado pela polícia local, que o ajudaria a chegar ao povoado, onde teria de cumprir sua mis-são. Leon olhou pela janela e ficou pensando no que o aguardaria.

Continua...



Nota do autor: (29/09/2017) Sem nota.




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