Última atualização: 20/11/2018

Capítulo 01


Ouvi um suspiro escapar dos seus lábios. Olhando para qualquer ponto fixo a minha frente, quase não percebi quando ele levantou do meio-fio. A proximidade de seu corpo cortou o vento que insistia em bagunçar meu cabelo incessantemente. Noah curvou-se em minha direção, segurando minha nuca e depositando um beijo um tanto demorado em minha testa. Não correspondi. Não olhei pra ele. E nem precisava para ter a certeza de que um sorriso triste se formava em seu rosto. Ele passou a mão pelos cabelos castanhos e colocou as mãos nos bolsos de sua calça jeans surrada - como sempre fazia quando algo o incomodava - e atravessou a rua, caminhando até a calçada onde um grupo de oito pessoas lançava olhares apreensivos, distribuídos entre nós dois, vez ou outra entornando um copo de cerveja.
Bex escondeu o rosto no pescoço de Ethan. Eu sabia o quanto minha amiga odiava términos, e provavelmente estava sofrendo mais do que eu. Pude perceber que Noah sussurrou algo no ouvido de , que me olhou um tanto preocupado de imediato.
Não ia dar certo e não era necessária clarividência alguma para perceber isso. Ele queria casar. Queria ter filhos e morar em um sobrado no subúrbio da cidade. Eu não queria só Londres. Queria a energia constante de Nova York, as praias da Califórnia, os perigos da Austrália, o ar rústico de Verona e a beleza clássica da Torre Eiffel. Ficar muito tempo no mesmo lugar me causava uma enorme sensação claustrofóbica. E eu não era uma garota pra casar. Nunca fui um exemplo de namorada, quem dirá de esposa. Perdi-o de vista assim que ele entrou na enorme casa de praia à minha frente, sendo engolido pela multidão embriagada que se encontrava lá dentro. Lancei um olhar significativo pra , que ainda me observava. Por ora, eu não queria um interrogatório ou sermão sobre a situação - só queria passar por aquela porta e encher a cara. Talvez dançar um pouco. Levantei do chão e caminhei até , que passou o braço direito por meu ombro enquanto me guiava pelo mesmo caminho que Noah acabara de fazer sem dizer uma só palavra. O agradeci intrinsecamente por isso. sempre me entendia e não era necessário que eu dissesse nada para isso – e essa era uma das coisas que eu mais amava em meu melhor amigo.


Senti o perfume amadeirado de invadir minhas vias respiratórias e afastar o gosto amargo daquela lembrança ruim no instante em que ele passou os dois braços em volta de minha cintura e prensou seu corpo no meu, apoiando o rosto na curva de meu pescoço e depositando um beijo carinhoso por ali, como costumava fazer ao me pegar de surpresa com suas carícias. Aquela varanda era o meu local preferido da casa – talvez exatamente pelo fato de ficar do lado de fora dela. O vento batia forte e gelado em meu rosto, impulsionado pela falta de construções altas naquela região. A vista dali era exata e absolutamente o nada. Algumas árvores se espalhavam por uma imensa extensão de grama, morrendo ao chegar às montanhas bem ao longe. Era outono, então, os galhos secos e carentes de folhagem davam àquele lugar um ar completamente fantasmagórico. Entre eles, podia ver a ponta de um lago reluzente, que se misturava com o branco acinzentado das nuvens e se perdia ao longe. Quem olhasse de fora, podia jurar que eu levava a vida perfeita, que toda mulher sonhava em ter e que eu não podia ser mais feliz – quando a verdade é que eu só queria gritar e sair correndo dali. Eu tinha me entregado à vida que eu sempre me neguei a ter. Aquela que eu sempre jurei não combinar comigo e repudiei por tanto e tanto tempo. Deixei-me iludir, pensando que por escolher estar ao lado da pessoa que mais me entendia, conhecia e protegia, ia me acostumar e passar a gostar daquilo tudo – exatamente como a maioria das garotas que ali residiam. Mas eu não era como elas. E agora eu simplesmente não conseguia magoar o meu melhor amigo e dizer que não era mais ali, ao seu lado, onde eu queria estar. Eu podia ser a filha da puta mais sem coração do mundo, mas quando o assunto era , toda essa pose parecia se esvair em um estalar de dedos.
- Tô indo pro trabalho. Até mais tarde – sua voz extremamente calma me despertou dos meus devaneios e eu me limitei a sorrir, por mais que soubesse que ele não podia ver. desvencilhou o corpo do meu e em poucos segundos eu já não sentia mais o seu calor. Debrucei-me sob o parapeito branco de madeira, pegando a enorme xícara de café que repousava um pouco mais ao canto e dando um pequeno gole no conteúdo quente e amargo. O último mês ali estava sendo ainda mais difícil, já que eu estava em período de férias do trabalho. Não que eu fosse apaixonada por marketing nem nada do tipo, mas era uma boa distração para a minha cabeça e uma ótima desculpa para ir ao centro da cidade todos os dias. O ronco do motor do Prius prata de chamou minha atenção, e eu olhei atentamente enquanto o veículo deixava a garagem e seguia pela vazia e pequena estrada que passava logo em frente da nossa casa.
Eu não tinha dúvidas de que o amava. O problema era que esse amor era muito mais fraternal do que romântico – quando com ele, as coisas eram o exato oposto. Não conseguia deixar de, consequentemente, pensar em Noah e o rumo que as coisas tomaram. Perdi muito mais um amigo do que um namorado quando decidi colocar um fim em nosso relacionamento, e isso parecia um ciclo vicioso pra mim. Eu era assumidamente viciada em términos e despedidas.
Me perguntava incansavelmente o que um homem como via em uma menina como eu. Ele era o tipo de cara que podia ter quem quisesse, com sua pinta de galã dos anos 50 e charme à la James Dean.
Eu tinha apenas dezessete anos quando o conheci - ele já vivia o auge dos vinte e seis. Era fácil perceber que até hoje ele ainda me via como a garota frágil e infantil que eu certamente não era – e eu meio que gostava disso. Tinha impressão de que seu olhar tirava, ao menos, vinte centímetros dos meus 1,70 de altura e uns bons quatro anos dos meus 23.
Não éramos casados nem nada do tipo. Eu gostava de dizer que éramos melhores amigos morando juntos, e que, por ventura, nos tornamos namorados. dizia o contrário: namorados que tinham a sorte de ser melhores amigos.
Fechei os olhos com um pouco de força, sendo pega de surpresa pela memória do dia em que tudo aquilo começou.

Londres, 7 meses atrás

Uma generosa taça de vinho tinto repousava no braço do sofá, sendo apoiada quase que superficialmente por meus dedos. Deixar a cerveja de lado e amadurecer meu paladar fora uma resolução no começo do ano – mas eu voltaria atrás se soubesse o quanto uva fermentada era viciante.
Eu já devia estar no fim da segunda garrafa e, na TV, o terceiro filme de terror daquela noite passava. Eu simplesmente amava filmes de terror - o único problema é que meu medo era total e completamente proporcional à minha paixão ao gênero: descomunal. O nível de álcool no meu sangue não era o suficiente para me deixar bêbada; apenas um pouco mais desinibida. As madrugadas em claro com o melhor de Stephen King, Roman Polanski, Edgar Allan Poe e diversos outros na TV, um copo de qualquer bebida que tivesse na geladeira e meu pijama mais confortável eram rotina pra mim. Mas o medo, concomitante ao teor alcoólico, faziam-me imaginar, ver e ouvir coisas inexistentes - o que me dava absoluta certeza de que seria privada de uma boa noite de sono. A menos que subisse as escadas e batesse na porta do apartamento de . Toquei no celular ao meu lado, a fim de checar o horário. Quatro e quarenta e três da manhã. Era certo que ele estaria dormindo. Mas eu abandonaria até os mais doces dos meus sonhos se ele precisasse de mim - então, podia fazer o mesmo, certo? Ok, talvez eu pudesse apenas deitar ao seu lado e usufruir de sua companhia para dormir. Eu realmente odiava dormir sozinha. Virei o resto do conteúdo da minha taça de uma só vez e caminhei sem hesitar até o balcão da cozinha, pegando o molho de chaves que ali repousava. A TV dava ao ambiente uma iluminação um tanto sinistra, oscilando entre o claro e o escuro conforme as cenas na tela mudavam - mas eu nem me incomodei em desliga-la, uma vez que o breu me parecia ainda mais assustador. Em poucos segundos havia deixado o apartamento, subido um lance de escada e já estava destrancando a porta da casa de . A primeira coisa que fiz ao abrir a porta fora alcançar o interruptor da sala para ligar as luzes. O apartamento estava completamente em silêncio e eu lutava para desligar de minha mente todo pensamento mórbido que ousava se aproximar. Caminhei energicamente até a última porta do corredor, onde ficava o quarto de . Abri a porta com cuidado, tentando não acordar o garoto que se encontrava em um sono profundo, espalhado em sua cama de casal, em meio aos lençóis brancos. Com o mesmo cuidado, me ajeitei ao seu lado, tentando me mover o mínimo possível para não acordá-lo. Assim que o fiz, soltei um longo suspiro e fechei os olhos, a fim de relaxar o corpo e tentar cair no sono. 
- ? - um voz exatamente rouca e ligeiramente baixa preencheu o silêncio do ambiente, fazendo-me abrir os olhos subitamente e me causando um mini ataque cardíaco. 
- Você quer me matar de susto? - praticamente gritei, virando pra . Eu mal podia enxerga-lo. A única luz que adentrava o ambiente era proveniente das frestas da persiana na janela, que falhavam ao isolar a luz dos postes e da lua por completo.
- Eu? - sua voz saiu um pouco mais nítida, acompanha de um riso baixo - Você invade minha casa no meio da madrugada, deita ao meu lado em silêncio como uma psicopata prestes a me assassinar e sou eu quem quer te matar de susto? 
Soltei uma gargalhada, dando um tapa de leve no ombro nu de diante de sua piada, tendo a certeza de que estava um pouco alta – caso contrário, apenas teria fechado a cara para o comentário. Demonstrações espalhafatosas de afeto realmente não combinavam comigo.  
- Estou sem sono. O que acha de acordar pra me entreter? - soprei e, mesmo sem ver, tinha certeza que um sorriso de desaprovação havia surgido em seu rosto.
- Essa é a pior ideia que você já teve. E olha que você tem muitas ideias ruins - provocou, me fazendo bufar - Você tá fedendo a álcool.
- Uma bela fragrância pra se acordar, não? - disse divertida, assoprando fraco em seu rosto e sendo repreendida por uma mão espalmada em meus lábios. 
- Deixa eu adivinhar. Filmes de terror? - ele indagou e fora impossível não sorrir. me conhecia melhor até do que eu mesma.
- The Conjuring. É a milésima vez que assisto essa merda e mesmo assim morro de medo - rolei os olhos enquanto ouvia a risada de - Eu tô com fome. O que acha de assaltarmos sua geladeira e irmos até o telhado ver o sol nascer? 
- Você realmente não vai me deixar dormir, né? - neguei com a cabeça, mesmo sabendo que havia sido uma pergunta retórica - Vamos assaltar a geladeira e assistir algo na TV. Muito frio pro telhado. 
- Eu escolho o filme! - levantei em um pulo, dando-me por vencida diante de sua proposta. Sabia que não ia conseguir nada melhor vindo de um sonolento
Caminhei até o outro lado da cama e comecei a puxar pelos braços, com a certeza de que ele enrolaria ao menos uma hora ali se eu não o fizesse. Consegui fazê-lo levantar após algumas tentativas e caminhei saltitante até a sala, determinada a escolher algo que não envolvesse ocultismo, espíritos ou serial killers para assistir, enquanto vasculhava a geladeira em busca de algo pra comermos. Alguns minutos e vários canais depois, finalmente consegui achar algo que despertasse meu interesse
- The Seven Year Itch? De novo? - a voz de me despertou de minha concentração na tela. O garoto entrou em meu campo de visão; apenas de boxers, com os cabelos castanhos desgrenhados e os olhos um tanto avermelhados, carregados de sono. Ainda assim, extremamente charmoso. E gostoso. Sentou-se ao meu lado e me entregou um prato onde um pedaço de pizza requentada de mozarela repousava, fazendo meu estômago saltar de alegria.
Entre risadas e conversas, não demoramos muito a devorar a pizza e abrir uma garrafa de vinho - a minha terceira da noite, no caso. A esse ponto o sono de já tinha se esvaído, enquanto meus olhos já quase se fechavam. Minha cabeça repousava em seu peito e ele fazia um carinho gostoso em meus ombros com a ponta dos dedos. 
- O que você faria se fosse o Richard? - indaguei, levantando a cabeça para encara-lo.
- Até parece que você não me conhece - respondeu, fazendo a sua maior cara de cafajeste, me arrancando uma risada - É a Marilyn Monroe. Ela estaria na minha cama no mesmo dia em que batesse pela primeira vez na porta do meu apartamento. 
Soltei uma risada e voltei minha atenção pra TV. Na tela, passava a icônica cena em que Marilyn tem seu vestido branco levantando pela tubulação de ar do metrô.
- É... Ela é realmente maravilhosa - comentei, com certo deslumbre na voz. 
- Nada comparada a você - respondeu e eu não tive como conter uma gargalhada.
- Suas cantadas já estão ficando exagera... - parei de falar assim que voltei a olhar pra . Levei um susto ao encontrar seu rosto tão próximo ao meu, obrigando-me a encara-lo nos olhos – ? O que você...
- Shhh - ele sussurrou e levou uma mão até meu rosto, afastando uma mecha de cabelo que insistia em cair ali. Logo suas mãos escorregaram de meu cabelo por toda a lateral de meu corpo e só pararam ao atingir meus quadris. Pude sentir-me arrepiar dos pés à cabeça com seu toque, tão conhecido pelo meu corpo, e ao mesmo tempo tão inédito. Era como descobrir o interior de uma casa da qual você conhecesse a faixada como a palma de sua mão. Seus dedos fizeram o caminho inverso de segundos atrás, parando em meu ombro e logo trazendo consigo a manga da camiseta de pijama que eu vestia. Me encarando quase que corrosivamente, se inclinou e grudou suavemente os lábios no pedaço de pele que havia acabado de descobrir, fazendo-me fechar os olhos, como se aquele gesto fosse me ajudar a sentir mais  profunda e precisamente o seu toque. Embriagada com o momento e com os seus lábios que agora deslizavam sob minha pele, depositando beijos languidos por meu ombro e descendo gradativamente para meu colo, minhas mãos foram de encontro a sua nuca, onde iniciaram um carinho estimulante para seus beijos. Seus lábios trilharam o caminho por todo meu decote, passando pelo alto-relevo de meus seios, pescoço e rosto. parou as carícias subitamente ao alcançar o canto dos meus lábios, o que me fez abrir os olhos e o encarar, um tanto confusa. Foi quando eu entendi que ele parecia esperar algum tipo de aprovação da minha parte para levar aquilo adiante. Sem pensar muito, levantei meu corpo, passando uma perna por cada lado de suas coxas e sentando em seu colo. O sorriso um tanto tarado que surgiu nos lábios de pareceu mostrar satisfação com a situação, e o apertão que suas mãos deram em minhas coxas confirmaram minhas dúvidas. Em uma velocidade impressionante, ele deslizou uma das mãos pelas minhas costas e parou ao chegar em minha nuca, agarrando a maior quantidade possível de cabelos que conseguia e puxando-os sem delicadeza alguma, de forma que nossos rostos ficassem exatamente da mesma altura. Um turbilhão de sensações tomou conta do meu corpo assim que seus lábios entraram em contato com os meus, e nossas línguas começaram a se acariciar como se conhecessem e já fizessem aquilo há tempos. O beijo era acelerado, intenso e carregado de desejo. Era como se eu tivesse esperado por aquilo há décadas sem ao menos saber. Pressionei meu corpo contra o dele com força, a fim de selar qualquer distância ainda existente entre nós, e pareceu tremer com o gesto. Sua mão livre repousou em meu quadril, e enquanto acelerava o movimento de nossos lábios, apertou a minha bunda com força. Partimos o beijo de maneira contraditória ao sentirmos a necessidade de respirar um pouco. Abri os olhos, dando de cara com a imensidão dos olhos de já me encarando. Nos fitamos por algum segundos, e eu me perguntei se ele estava, assim como eu, tentando encontrar algum tipo de resistência por ali.  
- Eu quero você... – soprei fraco, fechando meus olhos e quase encostando meus lábios nos seus, deixando de lado qualquer vestígio de sanidade ainda presente em mim. Em um movimento rápido e com um sorriso pervertido nos lábios, me colocou deitada no sofá e trouxe seu corpo para cima do meu. Sem quebrar o contato visual, colocou as mãos por baixo da minha camiseta que ia até metade das minhas coxas, trazendo o tecido lentamente para cima. Seus olhos pareciam se carregar cada vez mais de luxuria a cada novo centímetro de pele descoberto e seu sorriso se identificou ao me ver apenas de calcinha embaixo de si. levou a boca até um de meus seios e uma de suas mãos deslizou por minha barriga até atingir minha intimidade por baixo do tecido da única peça que ainda restava em mim. Soltei um gemido alto só sentir seus dedos me invadirem sem aviso prévio, cravando as unhas em suas costas sem medir minha força,  com a certeza de que deixaria algumas marcas por ali. Com a concentração desafiada pelos movimentos de , levei atrapalhadamente as mãos até o cós de sua calça de moletom, puxando-a pra baixo junto com sua boxer, revelando sua excitação já mais que aparente. cessou as carícias e se concentrou em roçar o pênis em minha entrada de uma forma torturante. Meu rosto já começava a se contorcer de prazer e eu podia afirmar que ele estava se deliciando com isso. Se pôs dentro de mim com cuidado, parecendo ter medo de me machucar, e fazendo o prazer crescer dentro de mim. começou a investir de maneira lenta e forte, arrancando-me gemidos arrastados e me fazendo prender as pernas ao redor de seu corpo para estimular seus movimentos. Ele tirava seu membro inteiro de dentro de mim e voltava a estoca-lo por inteiro forte e de uma só vez, até o talo, fazendo-me revirar os olhos toda vez que o fazia. Seus urros de prazer me levavam a loucura! Soltei um gemido um tanto desesperado, desejando que ele fosse mais rápido, e o garoto pareceu entender o recado. Segurou minha cintura com as duas mãos e começou a investir com mais velocidade, porém com a mesma força de antes. Meu ponto máximo não demoraria a chegar e eu podia perceber que o dele também não. Comecei a movimentar meu quadril contra o seu, intensificando o movimento e sentindo-o atingir ainda mais fundo em mim. pareceu aprovar, já que apertou as mãos em minha pele e deixou um gemido grave e alto escapar. Senti meu corpo estremecer e contrair por inteiro enquanto aquela conhecida onda de prazer passava por toda sua extensão. mordeu o lábio inferior de um jeito extremamente sexy ao me ver atingir o orgasmo. Ele investiu mais algumas vezes e logo senti seu membro pulsar mais forte dentro de mim, me fazendo concluir que ele havia gozado. Soltou pesadamente o ar preso em seus pulmões e deixou o corpo cair por cima do meu, passando os braços em volta de mim e acariciando suavemente meus cabelos.
- Porque nunca fizemos isso antes? - sua voz, entrecortada pela respiração ofegante, me fez sorrir. Eu sabia que logo travaria uma luta interna sobre o que acabara de acontecer, mas, por hora, tinha me convencido a deixar a razão de lado e aproveitar o momento.
- É uma ótima pergunta - soprei e escorreguei meu corpo para o lado, de modo que eu pudesse apoiar a cabeça no peito de - E você ainda diz que eu tenho péssimas ideias... 
- Eu que levo o crédito por essa aqui - ele disse um tanto indignado, me fazendo achar graça.
- Quem veio até aqui te acordar, mesmo? - provoquei e olhei pra ele, a tempo de vê-lo rolar os olhos. 
- Detalhes técnicos. Está com sono? - indagou e eu apenas assenti com a cabeça, logo fechando os olhos e me aconchegando na curva de seu pescoço. A última coisa que senti após adormecer fora jogando a manta do sofá por cima de nós dois, cobrindo nossos corpos nus. 

xx


Abri os olhos e passei-os lenta e preguiçosamente pela sala de decoração preta e branca que, com certeza, não era a minha. O peito em que minha cabeça estava apoiada subia e descia calmamente, e a proximidade que estávamos permitia que eu ouvisse nitidamente seu coração bater com tranquilidade embaixo de mim. Ergui a cabeça para olhar . Ele dormia serenamente, e pude perceber que seus lábios rosados - e extremamente convidativos - estavam curvados para cima em um breve sorriso. Seu cabelo, geralmente bagunçado propositalmente em um topete descontraído, estava desgrenhado e caía um pouco sob seu rosto. E ele continuava simplesmente adorável.
Levantei-me com cuidado para não acorda-lo e logo percebi que estava sem roupa. Mordi o lábio e pus-me a procurar minha camiseta pelo chão, colocando-a logo em seguida. Assim que o fiz, deixei meu corpo cair pesadamente na poltrona localizada ao lado do sofá, ainda observando . A sensação angustiante de que eu havia feito algo errado começava a me tomar por completo e eu tive que controlar bravamente o impulso de sair correndo dali antes que acordasse. Eu não podia me permitir ser tão imatura e fria desse jeito. Não com . Levei as mãos à cabeça e comecei a massagear as têmporas, numa tentativa falha de aliviar a tensão ali formada. se remexeu um pouco no sofá e eu pedi mentalmente para que ele não acordasse. Queria um pouco mais de tempo para poder raciocinar como agir. Minhas preces não foram atendidas, já que alguns segundos depois, abria os olhos lentamente e olhava em minha direção. 
- O que está fazendo aí? - sua voz arrastada atingiu meus ouvidos e eu me limitei a suspirar. Levantei da poltrona e caminhei novamente até o sofá, deitando ao seu lado, como estava há alguns minutos atrás.
- ... - minha voz saiu alarmante, e eu não precisei continuar para que ele tivesse certeza do que eu ia falar. 
- Não pense demais sobre isso assim como você faz com todas as outras coisas. Só uma vez, deixa acontecer. Se der certo, deu. Se não, vou entender. 
Tentei procurar alguma falha em seu discurso, mas era o tipo de cara que tinha extrema segurança em tudo o que dizia. Suspirei, assimilando suas palavras e tentando dar-me por vencida.
- Eu não quero machucar você - sibilei, baixinho, com toda a sinceridade existente em mim.
- Você não vai - ele parecia ter certeza demais disso pra me deixar tranquila. Fechei os olhos com força e apenas assenti veemente com a cabeça. O problema é que o “e se...” com que estava contando não existia. Eu me conhecia bem o suficiente para ter a absoluta certeza de que eu faria algo para sabotar aquilo, assim como havia feito em todos os meus relacionamentos anteriores. Eu simplesmente não sabia me manter em um – sempre gostei de coisas passageiras, com data de validade e que durassem apenas uma noite. A diferença era que, se fizesse isso com , iria perder um grande amigo. O melhor deles. Assim como havia acontecido com Noah. O segundo problema é que eu mentiria para mim mesma se dissesse que não havia gostado do que acontecera e que cada pedacinho de mim não estava implorando pelo seu toque novamente. E eu sempre deixava meu corpo falar mais alto do que minha razão.


Um barulho de folhas secas sendo esmagadas me tirou repentinamente dos meus devaneios e assim que abri os olhos, uma figura tão familiar e ao mesmo tempo tão desconhecida entrou em meu campo de visão. Eu não sabia quem ele era, mas nas últimas duas semanas, o via passar aqui em frente ao menos quatro vezes ao dia. O emaranhado de cabelos que passava dois andares abaixo de mim deu lugar a um par de olhos quando o garoto levantou a cabeça e cravou o olhar em mim, da mesma forma que sempre fazia ao passar naquela quadra, logo abaixo de minha janela. Ele me olhava como se quisesse ver além do que eu estava disposta a mostrar. E eu, sem entender o porque, simplesmente não conseguia quebrar o contato visual. O que atraía minha curiosidade era que, assim como eu, ele não parecia se encaixar ali.
Voltava todo dia pra casa com uma garota diferente e estava visivelmente embriagado na maioria das noites – enquanto o resto das pessoas que preenchiam aquelas casas eram famílias engomadas, que forjavam descaradamente um nível inalcançável de felicidade e faziam de tudo pelas boas aparências.
O tipo de gente que eu detestava.
O garoto tinha um olhar calculista e parecia se envolver em algum tipo de atmosfera mórbida – o que contrastava muito bem com seu tom de pele cadavérico e os cabelos que revelavam alguns fios acobreados à medida que o sol batia em cheio em suas mechas. Tinha certeza que o combo de suas características o faziam parecer o garoto mais misterioso e problemático de qualquer lugar em que pisava. E todos os átomos do meu corpo pareciam ferver em êxtase ao ouvir a palavra “problema”.
A contraditória falta de um agasalho em uma tarde fria como aquela me permitia ver seus ombros largos e músculos bem desenhados por baixo da fina camiseta branca. Aparentava ter cerca de trinta anos muitíssimo bem conservados - o que não era de se espantar; homens mais velhos sempre foram os primeiros a me chamar atenção.
Em passos lentos, o garoto fazia questão de não disfarçar que acompanhava cada movimento meu com o olhar, e continuou a me encarar até alcançar o quintal de sua casa – um grande sobrado cinza com detalhes em madeira escura - que ficava apenas duas moradias depois da minha.


Capítulo 02


Meus pés se moviam mais rápido do que meus pensamentos, e eu mantinha os braços juntos ao corpo, abraçando meu tronco em uma tentativa falha de me proteger do frio. Algumas gotas de chuva despencavam do céu, me obrigando a cerrar os olhos durante a caminhada que, nesse momento, me parecia interminável. Eu já podia ver a luz da minha varanda brilhar no segundo andar de minha casa, e meu corpo parecia aclamar pela ideia de calefação interna do ambiente. O que eu estava pensando quando decidi voltar a pé da cafeteria, uma vez que, claramente, iria cair um temporal? Minha cabeça estava a mil e eu tinha certeza de que me esperava impaciente. Ele havia sido promovido há pouco tempo no escritório de advocacia em que trabalhava e aquela era a primeira grande festa para a qual era convidado. Pensei em inventar qualquer desculpa para ficar em casa, como alegar que não estava me sentindo bem – mas sabia que ele insistiria em me fazer companhia e eu realmente não queria estragar a sua noite. Por sorte, altruísmo sempre fora o meu forte.
Concentrada em apressar meus passos e em meio a uma cambaleada e outra, senti uma superfície dura chocar contra meus ombros molhados, fazendo-me desequilibrar para trás com a força e deixar um grito esganiçado escapar involuntariamente pela minha garganta. 
- Caralho - uma voz rouca, acompanha de um tom áspero cuspiu o xingamento.
Senti meu coração dar um leve e repentino sobressalto assim que minha visão entrou em foco.
Um garoto me encarava.
Meu cérebro precisou de alguns segundos para conectar os pontos. Não era um garoto qualquer. Era aquele que meus olhos acompanhavam, religiosamente, todos os dias, ao passar bem embaixo da minha varanda.
O cheiro de nicotina invadiu rapidamente minhas vias respiratórias e reparei que segurava um cigarro entre os dedos trêmulos. Os cabelos se apresentavam mais escuros que o habitual e um pouco grudados na testa devido à chuva. Percebi um pequeno corte em seu rosto, bem no alto das maçãs. E ele parecia recente. Mantinha o maxilar trincado, formando um desenho simétrico em seu rosto perfeitamente esculpido, acompanhado do cenho franzido. Se eu pudesse chutar, diria que estava puto. E o motivo ia muito além da pequena trombada que havia dado em mim.
Com os olhos apertados e uma expressão nada amigável no rosto, ele parou para me encarar por um instante, contemplando cada detalhe de mim, sem pudor algum. Sob sua atenção, senti que ele podia invadir o mais íntimos dos seus segredos apenas com a intensidade cortante dos seu olhar, se assim desejasse. Antes que pudesse raciocinar para manda-lo a merda pela grosseria, o garoto me deu as costas, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta de couro preta e seguindo seu caminho, como se eu nem existisse.
-Babaca – xinguei em alto e bom som, fazendo questão de que ele ouvisse. Um murmúrio ininteligível reverberou de seu peito, embora ele não tivesse se dado ao trabalho de virar para trás.
O desagradável episódio pareceu triplicar o já péssimo estado de humor em que me encontrava. Respirei fundo uma, duas, três vezes antes de voltar a percorrer meu caminho no máximo de velocidade que meu corpo permitia.
Uns quarenta passos me fizeram alcançar minha tão amada porta de madeira branca e eu já entrei em casa me desfazendo de meus tênis e casaco, jogando-os de qualquer jeito no cabideiro ao lado da porta. Me direcionei diretamente à escada e a subi em passos rápidos. Sabia que já estava atrasada para me arrumar e ficaria me apressando nos últimos minutos de minha maquiagem – o que me estressava profundamente e fazia-me borrar a máscara de cílios diversas vezes.
Ouvi o barulho do chuveiro no instante em que adentrei meu quarto, o que denunciava que já estava se aprontando. Peguei uma toalha e corri para o banheiro social, tomando um banho quente e demorado. Cerca de meia hora depois, estava e sentada em frente à minha penteadeira, pronta para me maquiar. Aquilo era um tipo de ritual calmante pra mim – eu simplesmente adorava ficar em frente ao espelho, desenhando meu rosto e experimentando os mais diversos produtos do mundo da beleza; aquele era o meu momento de paz.
Muitos produtos e alguns minutos para escolher a roupa depois, me encontrei em frente ao meu grande espelho de ferro, mordendo o lábio inferior e pendendo a cabeça para o lado, enquanto observava minha imagem pelo que parecia ser a milésima vez em poucos minutos. Só faltava o perfume para que eu estivesse inteiramente pronta. Bem, isso e a vontade de ir àquela festa. 
Suspirei, dando-me por vencida e borrifando um pouco da minha fragrância preferida em meus pulsos e colo. Ouvi a porta do banheiro abrir e um extremamente cheiroso e arrumado entrou no meu campo de visão, fazendo com que um sorriso sincero brotasse em meu rosto. Vestia um terno preto perfeitamente alinhado, camisa branca e uma gravata rosa bebê – que eu tinha certeza que ele havia colocado por ser a minha preferida.
- Acho que vou causar inveja em alguns colegas de trabalho – disse em um tom brincalhão, pegando minha mão e me obrigando a dar uma voltinha – Você está linda.
- Você também não está nada mal – fingi uma careta, arrancando uma risada dele. Ele estava gostoso e sabia disso. Senti meu desânimo se esvair por um instante ao lembrar por que gostava tanto de . Aquele breve momento havia sido o mais gostoso que tive no dia inteiro. Ele tinha o poder de me fazer sorrir mesmo quando eu estava no pior de meus humores e nos mais profundos de meus lamentos – mesmo que ele não soubesse disso.
- Podemos ir? – ele indagou e eu apenas acenei positivamente com a cabeça.

Todos ali eram muito corretos e educados. A maioria dos homens, que agora conversavam em uma roda e bebendo um champanhe caro e amargo demais pro meu gosto, traziam consigo mulheres irretocáveis e as carregavam pela cintura como se fossem troféus. Eu estava sentada em um dos enormes sofás, rodeada por longos cabelos dourados e muito bem hidratos, combinando com a conversa extremamente fútil que aquelas mulheres insistiam em manter.
- Mas então, – a mulher esguia à minha frente me chamou atenção, com um sorriso simpático no rosto enquanto colocava uma mecha de cabelo atrás das orelhas – Você e estão casados há quanto tempo?
- Não somos casados – dei um sorriso amarelo – Namoramos há alguns meses. Apenas moramos juntos – tentei ser o mais simpática o possível, mas sabia que aquele tom forçado era o máximo que conseguia. Ela soltou um barulho engraçado com a boca, como se reprovasse a situação. Entediada e tentando fugir da conversa, beberiquei a minha taça de Martini e varri o lugar com o olhar, fixando-o nas enormes portas de vidro que revelavam a praia do outro lado. Largar aquela festa e sujar meus pés na areia me parecia uma ideia tão atrativa...
Suspirei fundo algumas vezes antes de procurar com os olhos no meio de tantos homens engravatados, e não demorou muito para que eu fosse atraída por sia silhueta, um pouco mais à frente, segurando uma taça de champanhe e conversando com dois homens de cabelos grisalhos e barrigas salientes. Pedi licença e levantei do sofá, apertando meu passo em sua direção e parei ao seu lado, passando o braço em volta de seu corpo em um abraço de lado meio desajeitado. Assim que me viu me aninhando ao seu corpo, me abraçou pela cintura e sorriu, como se me agradecesse por tira-lo de uma conversa entediante.
- Gary, Bill... Essa é , minha namorada – falou com uma entonação que transbordava empolgação. Eu ainda achava engraçado ser apresentada assim por ele. Os dois homens olharam pra mim, sorrindo da forma mais simpática que eu já havia visto.
- Prazer – ensaiei uma voz doce, tentando me igualar ao nível de educação deles.
- Com licença – disse aos dois assim que eu dei um pequeno apertão em sua cintura, fazendo-o entender que queria sair dali - Obrigado por me salvar – ele sussurrou em meu ouvido e depositou um beijo em meu rosto.
- Sua cara de interessado não me engana – sorri enquanto entrelaçava minha mão na sua e roubava um gole da sua taça.
- Essa festa é bem diferente das que a gente costumava ir, não é? Parece que estamos crescendo – o garoto disse, me arrancando uma risada silenciosa.
- Eu gostava mais delas – mordi o lábio, constatando o que ele já sabia.
- Não só você. Já viu a bebida ruim e cara que servem aqui? – fez uma careta pra taça entre seus dedos.
- Pois é! Cerveja quente e vinho barato all the way, baby! – brinquei, erguendo a mão em um discreto e desajeitado hi-five com ele, que soltava uma risada alta.
- Você sempre disse que não queria crescer...
- Ainda não quero – fiz uma careta - Pelo menos eu tenho você ao meu lado pra realçar minha juventude, não é vovô? Mas, quando eu chegar aos trinta pode se preparar pra uma puta crise! – completei e ele gargalhou, mexendo a cabeça negativamente.
- Tenho certeza que você vai continuar com a carinha de vinte e o bumbum de vinte e dois – soltou minha mão e apoiou a sua em minha cintura, logo escorregando-a discretamente até o topo do meu quadril e dando um leve apertão ali.
- ! – um homem de cabelos grisalhos e um terno que, provavelmente, valia tanto quanto um carro, surgiu em nossa frente. Sua cara me era familiar e eu tinha quase certeza que era o chefe de – Vamos estender os coquetéis para minha casa. Conto com sua presença – ele estendeu a mão para , que a apertou de prontidão enquanto dava um leve aceno de cabeça.
- Nós não precisamos ir... – ele disse, assim que o senhor se afastou.
- Eu não preciso ir – dei um sorrisinho – Vai você, não deixa de aproveitar a noite. Eu posso ir pra casa de táxi.
- Mas...
- Sem “mas”, . O tópico não está aberto para discussão.
suspirou e um sorriso triste apareceu em seu rosto. Não era preciso me conhecer muito à fundo para saber que eu não estava à vontade ali, e duas festas como aquela em uma só noite era overdose pra mim. E ele, é claro, sabia disso sem eu precisar me pronunciar.

xx


Já deviam passar das duas da manhã e eu estava cansada de ensaiar por tanto tempo com os olhos fechados sem obter sucesso algum. ainda não tinha voltado e estar sozinha na cama certamente me impedia de dormir tranquilamente. Era assim desde os meus cinco anos de idade. Suspirei e me esgueirei da cama, decidida a descer até a cozinha para preparar um chocolate quente. Leite morno sempre me ajudava a dormir mais rápido. Misturei os dois ingredientes na panela e peguei minha xícara para que eu pudesse beber lá fora, encarando a escuridão que se formava entre as árvores e ouvindo o vento bater entre as suas folhas. Era o típico cenário amedrontador de um filme de terror – mas que, surpreendentemente, parecia ter um efeito relaxante em mim.
Sentei-me no último degrau da entrada e me pus a encarar o nada enquanto dava um gole no achocolatado, distraída demais com pensamentos aleatórios para realmente prestar atenção no que estava vendo. Apalpei uma pequena rachadura no topo do corrimão da pequena escada de quatro degraus em que me sentava e alcancei meu maço de cigarros – eu sempre o mantinha ali de reserva para noites como essa, em que relaxar era impossível. Senti-me extremamente desanimada ao abrir a caixinha e constatar que não havia restado um só ali dentro. Suspirei, fechando meus olhos com força. Talvez estivesse tão concentrada em me lamentar internamente que nem percebi quando alguém se aproximou. Como se meus pensamentos fossem magicamente atendidos, ao abri-los, um cigarro apareceu em meu campo de visão e conhecido cheiro de nicotina prestes a ser queimada invadiu as minhas vias respiratórias. Meus lábios quase se curvaram em um sorriso, mas ele logo se desfez no momento em que levantei o rosto e vi quem segurava o objeto entre os dedos. 
- Pode pegar. Não vou morder – sua voz carregada de ironia pareceu perturbar minha cabeça. Mesmo que hesitante, arranquei o cigarro de seus dedos, e o garoto logo me estendeu um isqueiro prateado com a outra mão. Acendi e levei-o à boca em questão de segundos, sentindo uma enorme sensação de alívio preencher meu corpo ao dar a primeira tragada. Ele ainda estava parado à minha frente, me encarando. Perguntei-me há quanto tempo estava me observando; o que era, nó mínimo, assustador.
- Valeu pelo cigarro. Você já pode ir agora – fingi um sorriso simpático. O garoto não respondeu nada, e meu cérebro só conseguiu raciocinar a situação alguns segundos depois, me fazendo travar – Espera. O que está fazendo na minha casa?
- Estou em seu jardim, teoricamente – ele disse em meio a um sorrisinho esperto, me fazendo rolar os olhos. Eu odiava tecnicalidades.
Pela primeira vez pude perceber que seu sorriso fazia com que charmosas covinhas aparecessem discretamente em seu rosto.
- Eu aceitei seu cigarro, mas isso não foi um convite pra você ficar, sabia? Eu continuo te achando detestável – falei, calmamente, e ele não pode conter um riso completa e totalmente ausente de humor; o que me fez ter a certeza de que ele se lembrava da sua falta de educação ao trombar em mim naquele dia de chuva.
- Estamos quites, então – ele sacou outro cigarro do maço e dessa vez o levou à boca, ascendendo logo em seguida. Indaguei-me o que tinha feito para ele me achar detestável.
- Você veio até aqui só pra me encher? Sério? – fechei a mão livre em um punho, de forma que minhas unhas cravassem superficialmente em minha palma. A dor fraca do ato sempre parecia me acalmar um pouco.
- Vim te oferecer um cigarro. Achei que quisesse um – avançou alguns passos e tomou o lugar vazio ao meu lado, encarando meu rosto sem hesitar. Seus olhos adotaram um tom de azul marinho no escuro da noite e, por mais que não quisesse admitir, era inegável: encarar a intensidade de sua íris tão de perto me causava uma sensação estranha em todo o corpo. Eu só preferia acreditar que ela não era boa.
- Você é engraçado – ironizei, após uma risada de desdém.
- É uma das minhas maiores qualidades.
Optei por não dizer nada. Deixei um breve sorriso tomar conta do canto dos meus lábios e virei meu rosto, determinada a ignorar a presença dele ali.
- Você gosta de viver aqui? – ele indagou alguns longos segundos depois, apontando para minha casa com a cabeça. Franzi o cenho, fazendo mil cálculos sobre o porquê aquilo seria relevante para ele.
O garoto que nem ao menos me conhecia havia me perguntado exatamente o que eu queria que eu alguém me questionasse em todo esse tempo. Sem superestimar minha vida ou qualquer coisa do tipo. Por mais que eu soubesse que aquela era só uma forma de cortar o silêncio entre nós dois, ele havia feito a pergunta para qual eu tinha a resposta entalada na garganta há tanto tempo. Aquela que eu respondia negativamente pra mim mesma todos os dias. A pergunta que , mesmo me conhecendo como a palma de sua mão, nunca me fizera em todo esse tempo.
- E-eu... – gaguejei um pouco e quase deixei a frase morrer em um suspiro – Gosto.
- Não acredito no que diz - sua expressão era extremamente séria. O jeito que suas palavras foram proferidas, concomitante ao olhar sinistro em seus olhos, fizeram com que meu corpo se arrepiasse até nos mais impossíveis lugares.
- Eu não preciso que você acredite – usei a minha melhor voz de desdém e ele sorriu, como se não acreditasse em minhas palavras.
- É difícil conversar com você.
- Eu que o diga.
- Você é irritante, sabia? – pude perceber seu maxilar ficar tenso, denunciando que estava ficando nervoso.
- Não me comparo a você, pode ter certeza – meu tom era frio. Um leve pânico percorreu o meu corpo. Eu estava o deixando estressado e podia perceber isso. Eu não sabia quem era o cara direito e estava sozinha com ele àquela hora da manhã em um lugar sem testemunhas em potencial. E se o garoto me matasse ali?
Pude ouvi-lo suspirar pesadamente e logo em seguida se levantar, jogando o cigarro no chão e batendo as mãos na calça preta, tirando qualquer vestígio de terra que tivesse por ali.
- , prazer – ele disse enquanto enfiava as mãos nos bolsos e fitava a escuridão à nossa frente – Foi um prazer falar com você, . Mal posso esperar pra te ver na varanda amanhã. Então ele começou a andar – tranquilamente e como se não tivesse sido o maior babaca do mundo há dois minutos. E, é claro, me deixando completamente atordoada.
- Ei! – uma espécie de grunhido escapou quando um estralo atingiu minha mente, e por pouco não me assustei com a altura da minha voz – Como sabe meu nome?
me olhou por cima do ombro e um sorriso surgiu em seu perfil por um breve segundo. Ele não demorou a continuar seguir seu caminho, me fazendo entender que ficaria sem uma resposta.
Reprimi a vontade quase incontrolável que percorria meu corpo de agarrar seu braço e só o deixar sair quando me esclarecesse aquilo. Eu realmente odiava ficar curiosa e era meio sinistro ele saber algo de mim.
Eu o conhecia? Como não conseguia lembrar dele? Como me atreveria a não lembrar dele, aliás? O adorável tom de seus olhos não era algo que podia ser esquecido facilmente.
Acompanhei o garoto com o olhar enquanto ele se afastava, sem fazer menção alguma de virar pra trás. Aos poucos, a distância fez com que sua figura começasse a embaçar diante de meus olhos, logo sumindo completamente do meu campo de visão. Relaxei o corpo e levei o olhar até a imensidão azul-escura em cima de mim.  Pela primeira vez observei o quanto o céu estava bonito hoje e tão cheio de estrelas. Tentei me distrair com isso, mas meus pensamentos insistiram em ir à direção contrária. Meus olhos ameaçaram marejar, mas me obriguei a segurar as lágrimas antes que elas ousassem sair de meu canal lacrimal. Eu nem sabia ao certo porque estava chorando. Talvez por me sentir tão... sozinha. 
- Certo... chega! - disse a mim mesma, piscando os olhos com força e diversas vezes, afastando dali qualquer vestígio de lágrimas teimosas que pudessem insistir em cair. Levantei, batendo as mãos com um pouco de força em meu quadril para tirar qualquer sujeira imaginária que pudesse ter ficado ali.
Olhei o relógio antes de deitar. Três e quarenta e um da manhã e ainda não tinha voltado. Eu, realmente, teria eu dormir sozinha. Deitei e procurei relaxar o corpo, prometendo a mim mesma que não abriria os olhos até conseguir finalmente dormir.
E eu consegui. Mas, não sem antes me repreender pelo inquietante e proibido pensamento que minha mente insistia em não conseguir cessar.
e seus malditos olhos .


Capítulo 03


- O que você tá fazendo? – indagou ao entrar na cozinha, usando apenas uma calça verde musgo de moletom e com a cara amassada de sono, indo direto em direção à geladeira.
- Panquecas – sorri, feliz com a minha obra, enquanto despejava a massa na frigideira.
- Você? Cozinhando? – ele soltou uma risada alta e eu apenas o fuzilei com os olhos.
- Ai de você se comer e dizer que ficou ruim.
- Não preciso nem comer pra afirmar isso, pirralha – ele se apoiou na bancada ao lado do fogão e bagunçou meus cabelos, me arrancando uma risada sincera. Eu realmente era uma péssima cozinheira. Conseguia queimar pipoca e deixar até macarrão instantâneo com um gosto ruim.
plantou um beijo suave em meus lábios e depois voltou a sua posição anterior, sacando um copo cheio de suco de laranja da bancada e se deliciando com ele. Olhei pra e me perdi um pouco em seu rosto. Uma vontade imensa de ser sincera e dizer o quanto eu sentia falta de quando nossa relação se limitava a isso – ele me dizia alguma gracinha, mexia no meu cabelo ou fazia cócegas na minha barriga e parávamos por aí. Mas a possibilidade de machuca-lo minimamente levava pra longe de mim toda essa falsa coragem da mesma forma frenética que chegara.
Quase que em piloto automático, tirei uma panqueca do fogo e coloquei em um prato, apoiado em uma das bocas desligadas do fogão. Cortei um pedaço generoso e levei-o aos lábios, soprando-o forte e incessantemente.
- Prova – disse, erguendo o garfo na direção de , que me encarou com a feição mais engraçada do mundo.
- Tá tentando me envenenar? – ele fez um biquinho, como se negasse a panqueca.
- Preciso de uma cobaia. Anda, come! – aproximei ainda mais o garfo e ele riu de meu desespero enquanto abria a boca para abocanhar a fatia. Assim que deu a primeira mordida fez uma careta, entortando os lábios como se tivesse detestado.
- Socorro... – sussurrou, enquanto levava as duas mãos até o pescoço e fazia um barulho estranho com a garganta, forjando um engasgamento e me arrancando uma gargalhada alta.
- Para, seu idiota! – exclamei enquanto descarregava um tapa em seu ombro.
- Eu não sei como... – encenou uma pausa dramática - Mas ficou gostoso, ! – ele concluiu, em meio a risadas provindas de minha cara emburrada. Ia despejar um pouco mais de massa na panela quando senti seus dedos envolverem o meu pulso e me puxarem pra perto de si, posicionando meu corpo em frente ao seu e escorregando as mãos para o meu quadril – Assim como você.
O encarei e pude perceber que um ar de indecência tinha tomado conta de seu rosto. O respondi brevemente com um sorriso de canto e me apressei em passar os braços por seu pescoço, juntando nossos lábios e mergulhando em um beijo profundo e cheio de vontade. Esse era um ponto que eu não podia reclamar: o sexo era maravilhoso e , insaciável.
Sem descolar nossos lábios, ele me pegou pela cintura e me ergueu do chão, colocando-me sentada na bancada e se posicionando entre minhas pernas, que não demoraram a se enrolar em volta dele. colocou as mãos por baixo da enorme camiseta – dele – que vestia meu corpo e deixou-as correr livremente por ali, me causando diferentes sensações a cada centímetro de pele que alcançavam. Não demorou muito e a peça já estava no chão para que ele conseguisse realizar a tarefa com mais agilidade.
Suas mãos escorregaram de minha cintura para o meu pescoço, e quando seus dedos repousaram ali, ele fez um carinho gostoso em meu rosto enquanto me observava atentamente. Sua boa estava vermelha da pressão contra a minha, os cabelos ainda mais bagunçados e seu olhar brilhavam de um jeito adorável.
- Seus olhos estão com aquelas pintinhas verdes que eu tanto amo – disse e ele sorriu, antes de grudar seus lábios nos meus mais uma vez.
Era a verdade. A cor de seus olhos mudava constantemente de acordo com a luz, e eu não conseguia resistir quando eles adotavam aquele tom de azul esverdeado. Me lembrava o oceano.
Dedilhei o cós de sua calça e senti seu abdômen contrair sob meus dedos. Sua excitação, pulsante contra meu corpo, era óbvia – e o tecido fino de sua roupa colaborava pra isso. Estava prestes a passar minhas mãos pelo elástico quando o celular de vibrou na bancada. Ele fechou os olhos e xingou baixo, enquanto alcançava o aparelho com uma mão e apertava meu quadril com a outra. Concentrei-me em beijar seu pescoço enquanto meus dedos ainda provocavam o seu volume, e ele bufou antes de atender a ligação.
Era do trabalho, tinha certeza.
- – ele tentou firmar a voz, provavelmente amaldiçoando seu chefe de todos os palavrões possíveis – Claro. Entendo. Estarei ai em dez minutos.
desligou o celular e me olhou, com pesar.
- Precisa mesmo ir? – minha voz soou mais chorosa do que o planejado e meu namorado sorriu, dando um beijo em minha testa. Não era sempre que me mostrava vulnerável e ele sabia disso.
- Infelizmente. Mas prometo que não demoro a voltar pra você - ele suspirou, como se estivesse terminantemente culpado de ter que correr para o escritório – Quer sair pra jantar hoje?
- Está me convidando pra um encontro? – estreitei os olhos e disse em um tom de brincadeira. riu e apoiou um braço em cada lado no meu corpo, me prensando contra a bancada.
- Me daria a honra? - sibilou, em um falso tom galanteador.
- Me pegue às oito. Vamos ao meu restaurante preferido. E é melhor você saber qual é.
Um sorriso esperto iluminou o seu rosto.
É claro que ele sabia.

xx

Ainda faltava pouco mais de uma hora para o horário que havia combinado de sair com , mas eu já quase terminava de me arrumar. Sombras neutras e um delineado caprichado evidenciavam ainda mais meus olhos grandes e eu utilizava um babyliss para cachear as pontas dos meus compridos cabelos. Ele estava mais claro que o normal, com as mechas cor de caramelo ficando quase douradas.
Estava ponderando se devia voltar minhas madeixas ao castanho natural e a última mecha esquentava na barrinha de ferro quando meu celular tocou em cima da penteadeira. Soltei meus fios de qualquer jeito e apoiei o modelador no móvel, alcançando meu celular logo em seguida.
- Oi, ! – meu tom de voz denunciava meu estado: animada. O que era raro se ver recentemente.
- ... – sua voz soou alarmante e eu já sabia que coisa boa não vinha dai – Estou preso no trabalho, um processo está dando mais trabalho que o previsto. Não acho que eu consiga chegar a tempo de sairmos...
- Hm... – murmurei e esperei alguns segundos para não parecer tão desapontada com a notícia - Tudo bem.
- Me desculpe...
- Não tem problema, de verdade – o interrompi e dessa vez soei mais convincente – Bom trabalho. Até mais tarde.
Desliguei antes mesmo que ele pudesse responder. Toda a euforia de segundos atrás havia se esvaído. Eu entendia perfeitamente que ele precisava trabalhar, mas isso não me impedia de ficar chateada com a situação.
Larguei os apetrechos que utilizava em cima da penteadeira de qualquer jeito e peguei o vestido preto rendado que estava estendido em cima da cama, guardando-o novamente no armário e vestindo uma camiseta vinho comprida e um shorts cinza de moletom em seu lugar.
Droga. Eu só queria me distrair e, em vez disso, ganhava ainda mais horas sozinha em casa com muito tempo livre para pensar e criar crises existenciais em minha cabeça. Calcei um par de chinelos e andei até a varanda do quarto, com a certeza de que o vento gelado e a paisagem, que parecia tão sombria quanto eu, seriam uma boa companhia. O céu estava no crepúsculo do fim da tarde, e não havia hora no dia que eu achava mais bonita do que aquela. As cores oscilavam entre azul claro e escuro, com algumas poucas nuvens rosadas espalhadas. Estava escuro o suficiente para que os postes de luz na rua começassem a acender, mas não tanto para que fosse impossível enxergar sem eles. Peguei uma revista qualquer que repousava na mesinha de madeira branca ao meu lado e arrastei uma das cadeiras, da mesma cor e material, para perto do parapeito, sentando e começando a folhear as páginas.
- ! – estava tão absorta na leitura que levei um pequeno susto ao ouvir meu nome ser chamado. Olhei pra trás rapidamente, procurando por no quarto com os olhos, pensando na improvável possibilidade de ele ter conseguido sair mais cedo, mas sem achar vestígio algum de sua presença por ali.
- Está procurando no lugar errado – a voz pronunciou mais uma vez e então eu pude perceber que ela vinha lá de baixo. E que era, na verdade, a voz de .


Capítulo 04


- O que você pensa que está fazendo? – me debrucei na pequena mureta e vociferei, olhando pra baixo.
- Chamando você. O que parece que estou fazendo? – ele rolou os olhos, impaciente.
- Certo – cruzei os braços - Pode não fazer isso, então? – ele soltou uma risadinha de desdém.
- Não – o seu habitual sorriso irônico, que tanto me perturbava, apareceu.
Bufei.
- O que você quer comigo?
- Sua cara não me parece muito boa – disse, ignorando minha pergunta - O namoradinho perfeito não está dando conta do recado?
Senti o sangue subir à cabeça diante de suas palavras. Quem ele pensava que era pra falar comigo daquele jeito? Vire-me em meus calcanhares e caminhei em passos firmes e rápidos até o andar de baixo, abrindo a porta sem a menor delicadeza e me deparando com a figura extremamente serena de a alguns passos de mim.
- Não fale o que você não sabe, seu idiota. Quem te deu o direito de me tratar assim? – disse enquanto parava a poucos centímetros do seu corpo e o encarava com a feição mais detestável que eu era capaz de adotar.
- Já te disseram que você está linda hoje? - a calma em seu tom de voz me irritava ainda mais e eu tinha certeza que quase o fiz rir quando soltei um grunhido frustrado.
- Não ouse – rosnei entre dentes, fechando a mão em um punho. Se eu ouvisse mais um de seus charmes baratos, provavelmente voaria em seu pescoço – Vamos deixar algo bem claro. Eu não sou uma dessas mil garotas que você leva pra cama todos os dias, pra comer e depois jogar fora. Então, não perca seu tempo comigo.
- Engraçado você não citar o fato de ser comprometida nesse discurso fajuto – um sorriso convencido se formou em seus lábios.
- Você não teria chance mesmo se eu não fosse.
Uma penumbra sinistra tomou conta de sua íris assim que eu terminei de falar. O tom de seus olhos variou de ciano para petróleo, parecendo escurecer diante de mim no momento que ele os apertou, e eu estaria mentindo se dissesse que não senti um arrepio na espinha ao perceber isso. deu um passo pra frente, ficando perigosamente perto e eu, instintivamente, recuei.
- Garota... – ele começou a andar em minha direção enquanto falava, e a cada passo que ele dava pra frente, era um que eu dava pra trás – Você estaria na minha cama, de quatro, implorando pra eu te comer em um estalar de dedos se eu quisesse – dei um último passo e senti minhas costas se chocarem com a madeira da varanda de minha casa, sentindo um breve desespero tomar conta de mim ao perceber que não tinha para onde fugir. , por sua vez, parecia se deliciar com a situação, e não hesitou em apoiar um braço de cada lado do meu corpo bem na altura de meu rosto, me encurralando de vez.
- Preferia ter meus olhos arrancados agora mesmo do que ir pra cama com você – fingi um tom firme. Eu não sabia o que ele era capaz de fazer, mas mesmo assim, esse não era um motivo para que eu vacilasse em demonstrar que estava sob seu controle.
- Já disse que não acredito em você. E você vai se arrepender do que disse – era sinistro o quanto seu tom de voz permanecia calmo enquanto sua postura fazia-me acreditar que ele ia me matar a qualquer momento.
- Sai da minha frente. Agora – pronunciei pausadamente, tentando soar tão controlada quanto ele.
A diferença é que minhas palavras pareciam surtir efeito nenhum sob ele. aproximou o rosto ainda mais do meu, e quando o desespero tomou conta de meu corpo por achar que ele ia encostar os lábios em mim, ele desviou o caminho e foi parar em meu pescoço, bem perto de minha orelha.
- Você não quer que eu saia – as palavras deslizaram de sua boca para meu ouvido. Seu lábio macio roçou em meu lóbulo e era como se aquele centímetro de pele tivesse pegado fogo e incendiado cada parte de meu corpo junto. Seu tom era firme e seguro, como se o que estava falando tivesse sido estudado meticulosamente e comprovado por uma equipe de cientistas extremamente competentes.
- Não quero você perto de mim, porra. É difícil entender isso? – não soei tão calma dessa vez ao espalmar minhas duas mãos em seu peito, empurrando-o sem sucesso algum. Senti meus olhos marejarem de raiva e, em meio a um grito agudo que insistiu em escapar de minha garganta em sinal de frustração, disparei vários tapas e socos em seu peitoral e ombro, tentando, inutilmente, tirar ele da minha frente. Por mais que meus golpes não estivessem fazendo nem cosquinhas na parede de músculos em minha frente, pareceu se irritar com a situação e me segurou pelos pulsos, prendendo-os na parede bem acima de minha cabeça. Ele aproximou seu rosto perigosamente do meu, a ponto que nossos narizes roçassem.
Minha respiração foi interrompida. Por um momento, tudo o que eu conseguia sentir era o frescor da novidade que as sensações de sua pele de encontro com a minha me causava.
Achei que ele me beijaria. E eu me assustei por sentir que não tinha forças para interrompê-lo.
Mas seus lábios nunca encontraram os meus.
O garoto apenas fixou os olhos nos meus, de uma maneira irrevogavelmente intensa e talvez assustadora. Eu conseguia ver cada detalhe de sua pupila, emoldurada pelos seus cílios grossos que se encontravam em câmera lenta vez ou outra – e seus olhos nunca me pareceram tão familiares e ameaçadores como naquele momento.
Ele estava perto demais. Meu corpo estava ao seu dispor e fora de meu controle – meu estado estático denunciava isso. Ele sabia. Podia me controlar em um estralar de dedos.
E fora exatamente o que ele fez. O ar só voltou aos meus pulmões no momento em que ele balançou a cabeça, parecendo sair de algum tipo de transe e desviando, finalmente, de meus olhos. Ele soltou meus pulsos sem cautela e deu um passo pra trás. Meus olhos, no entanto, ainda pairavam nos dele, tentando buscar qualquer vacilo em sua expressão. Mas ela era vazia, como sempre.
Quando pensei em abrir a boca para dizer algo, simplesmente me deu as costas e começou a se afastar – provavelmente fazendo o caminho de sua casa. Simples assim, como se nada tivesse acontecido.
Senti meus joelhos fraquejarem e uma sensação ruim encher meu corpo inteiro. A lágrima que dançava em meus olhos desceu por minha bochecha e o gosto salgado atingiu em cheio a minha boca. Não pude deixar de imaginar o que aconteceria se chegasse e se deparasse com aquela cena. Ele nunca foi do tipo ciumento, mas o que se deve pensar ao chegar em casa e ver um cara qualquer em cima de sua namorada no meio da noite, perto o suficiente para um beijo estar acontecendo?
Recobrando a estabilidade de minhas pernas, me forcei a caminhar lentamente até o interior de minha casa e ir diretamente até o quarto, me jogando na cama e enterrando o rosto em meu travesseiro.
Ao mesmo tempo em que minha cabeça estava há mil, eu não sabia direito o que pensar. Eu não sabia quem era – mas ele me intrigava de uma forma inexplicável. E, nesse momento, me perturbava também. Era fácil colocar na minha cabeça que evita-lo era o mais sensato a se fazer, mas não era algo tão simples quando ele morava há menos de quarenta passos da minha casa.
Menos simples ainda porque, mesmo que inconscientemente, eu adorava problemas.
E , definitivamente, era um problema e tanto.

xx


- Eu juro que estou bem, mãe - rolei os olhos, afirmando pela milésima vez em cinco minutos que não havia nada de errado.
- Tem certeza de que não está precisando de nada? - ela insistiu, me arrancando uma risada por sua teimosia. Tive a quem puxar. 
- Juro que não.
- Como está ? Estou com saudades de vocês! Venham me visitar os dois - o tom maternal com que ela se referia a fez meu estômago dar algumas voltas. Assim como eu o considerava um irmão, ela havia o adotado como um filho.
- Prometo que assim que tivermos um tempinho aqui vamos ver você - disse, sincera, mesmo sabendo das diversas vezes que essa visita não saiu apenas dos planos - E você sabe que pode vir quando quiser. Mande um beijo pro papai, sim? 
- Claro, filha. Amo você.
- Eu também, mãe. Beijo. 
- ! – sua voz soou mais alta no momento em que me preparava para apertar o botão. Ela sempre esquecia de dizer algo.
- Eu? – respondi, rindo.
- Matthew chega aí no fim de semana. Você bem que podia tentar colocar um pouco de juízo na cabeça do seu irmão.
- Me parece uma missão impossível – rolei os olhos enquanto ela ria.
Desliguei o celular e olhei pra , que sorria distraído enquanto guiava o carro. Mamãe e papai moravam do outro lado do oceano – Boston, para ser mais exata. Quando eles anunciaram que precisávamos ir pra lá por conta do trabalho do meu pai eu não pude fazer nada além de me negar a acompanhar. Aquele lugar não combinava em nada comigo e, há quatro anos, deixar a vida que eu levava em Londres para trás estava fora de cogitação. Mamãe ficara extremamente preocupada em me deixar morando sozinha aos dezoito – o que era compreensível, com a cabeça e o talento para me meter em confusões que eu tinha – então, saber que hoje eu morava com certamente a acalmava bastante.
Matthew era oito anos mais velho que eu – e faziam, pelo menos, dois que eu não o via. Quando fui visitar nossos pais no penúltimo natal, ele estava ocupado demais em uma temporada revigorante em Barcelona – citando suas próprias palavras. Provavelmente apenas um eufemismo para comer todas as espanholas. No último, tinha arrumado uma namorada no Canadá e jurara que não voltaria de lá sem uma aliança no dedo da tal menina. Acho que seu nome era Ashley e não durou mais de três meses.
Esse era Matt. Uma paixão a cada esquina. Ou país, em seu caso. O que não era muito difícil, já que seus cabelos castanhos, olhos verdes e corpo musculado o faziam parecer a personificação perfeita de um modelo da Abercrombie. Ao que parecia, ele estava decidido a voltar pra Londres por um tempo – o que eu achava ótimo! Adorava meu irmão e realmente sentia sua falta. De quebra, ele era conhecido por dar as melhores festas da região em seu casarão no centro da cidade.
Está aí outra coisa que eu sentia falta.
A manhã parecia um pouco mais ensolarada naquela segunda-feira. Estava voltando para o trabalho após 15 logos dias de férias. Não que eu amasse passar a tarde presa no escritório, mas ter algo para ocupar minha mente me parecia uma ideia muito atrativa no momento. Plantei um beijo leve nos lábios de assim que ele estacionou na porta do majestoso bloco cinza que levava um letreiro dourado com a palavra Triumph. Saltei do carro em um instante, atravessando o portão distribuindo alguns “bom dia” enquanto me dirigia para a minha sala, no quarto andar.
Eu trabalhava na parte de visual de uma conceituada empresa de marketing de Londres. Nunca achei que essa fosse a minha vocação, embora estética sempre fora algo a me chamar atenção. Sempre me imaginei em uma redação de revista de moda ou cuidando de organizações de eventos, mas eu até gostava do que fazia. Não era apaixonada e nem achava que havia nascido praquilo, mas gostava.
- ! – fui recebida por uma eufórica Bexley no instante em que apoiei minha bolsa na mesa vidro. A garota baixinha de curtos cabelos loiros apareceu na porta e veio em minha direção, me recebendo com um abraço apertado e demorado.
Antes de trabalharmos juntas, Bex e eu já éramos amigas na época da faculdade. Ela era uma ótima companhia para festas e não demorou muito a conhecer e toda a nossa turma que saia junta naquele tempo. Entre eles, Ethan. Um dos melhores amigos de e atual namorado de Bex.
- Bex, senti sua falta! – respondi, no mesmo tom animado, mesmo que estivesse incomodada com o PDA em excesso – Como foi na Itália? E como o Ethan está?
- Melhor do que eu imaginava! – minha amiga disse e ergueu a mão na altura do rosto enquanto soltava um grunhido animado. Demorei alguns segundos para perceber o que a menina me mostrava: a enorme pedra que brilhava em seu dedo anelar.
- Meu. Deus. Ele propôs? – perguntei, ainda extasiada com a informação, e ela acenou incessantemente com a cabeça – Bex, parabéns! Estou mais do que feliz por vocês, de verdade.
- Não preciso nem dizer que a vaga de madrinha é sua, né? – disse enquanto ainda admirava o anel em seu dedo.
- Ai de você se não fosse!
Não precisava de muito para perceber que eles eram perfeitos juntos e eu sentia um orgulho enorme em dizer que eu e havíamos formado o casal. Apresentamos os dois e, pouco mais de um mês depois, estavam com um relacionamento assumido. Bex era uma daquelas garotas que tinha a ideia de casar e ter filhos como um dos maiores sonhos e objetivos de vida, então, eu realmente não podia estar mais feliz por ela.
- E você e , como estão? – a garota indagou e eu não pude conter um suspiro discreto. Eu não compartilhava meus sentimentos e pensamentos facilmente com as pessoas, e até mesmo Bex não era exceção. Até onde ela sabia, eu era a garota mais feliz do mundo por estar ao lado dele.
- Estamos bem. Você sabe, nada de novo – fingi um sorriso.
A manhã passou mais rápido do que eu gostaria. Perdi-me no tempo ao tentar colocar em ordem tudo o que precisava fazer e entrar em dia com várias apresentações de diferentes clientes. Achei até que havia desaprendido a mexer no PhotoShop, mas em alguns minutos já éramos melhores amigos novamente.
Sem ao menos perceber, já eram cinco da tarde e eu estava entrando no Prius de , tomando o lugar vago no banco de carona.
- Como foi o dia? – perguntou enquanto me recebia com um selinho, em seu habitual bom humor. Eu estava pra conhecer alguém que andasse por aí todos os dias em um humor melhor que o dele.
- Igual a todos os outros... – fiz uma pausa, ansiosa pra dar a notícia - Bom, exceto pelo fato de que Ethan e Bexley estão noivos – tive que me segurar para não dar uma gargalhada da cara de surpreso que fez.
- Você tá brincando com a minha cara, né? – ele perguntou e eu fiz que não com a cabeça, achando graça de sua reação – Não acredito que aquele frouxo realmente a pediu!
- Pois é... Aparentemente o Ethan não é tão crianção assim.
- Digamos que eu o ensinei bem – ele fez um cara de convencido, me fazendo rolar os olhos – Agora podemos falar sobre o casal mais quente do pedaço?
- Blake Lively e Ryan Reynolds? Mila Kunis e Ashton Kutcher? Principe William e a Kate? – disparei, arrancando uma gargalhada alta dele.
- Você sabe que a gente deixa qualquer um desses no chinelo.
- Direto ao ponto, – gesticulei com as mãos para que ele falasse logo.
- O que acha de almoçarmos juntos amanhã? Sei que não é a mesma coisa que o jantar que te prometi outro dia, mas... É alguma coisa – ele disse e desviou o olhar da rua por um instante para me encarar.
- Eu adoraria, mas... Vai conseguir fugir do trabalho pra isso?
- Ele fez você esperar no outro dia. É a sua vez de fazê-lo esperar.
Não pude deixar de sorrir diante de suas palavras. Aquela necessidade que tinha em me fazer bem e me transmitir um carinho inexplicável em cada um de seus gestos e palavras era o que eu mais amava nele.
- Certo. Quero hambúrguer! – grunhi, realmente animada com a ideia de almoçar meu prato preferido e arrancando uma risada de .
- Você quem manda, patroa.


Capítulo 05


Destino e coincidência são duas coisas distintas. Eu defendia a ideia de que tudo era coincidência e que a ideia utópica aplicada ao destino não existia. Acreditava que as coisas aconteciam por acaso e que tudo era questão de estar no lugar certo na hora certa. Ou no lugar errado na hora errada. Alguns chamariam de destino, mas eu afirmaria veemente que fora uma extrema e infeliz coincidência ver entrando pela porta daquela pequena cafeteria em Clerkenwell naquele fim de tarde de terça-feira. 
O observei tirar os óculos escuros e se direcionar diametralmente ao balcão, parecendo tão mal humorado quanto sempre. Vestia uma calça preta e uma camisa social da mesma cor. As mangas dobradas até a metade do braço revelando seus músculos era o que quebrava o ar de homem de negócios que nada tinha a ver com ele - ao menos na minha percepção. Devia estar voltando do trabalho. Peguei-me curiosa, pensando o que ele fazia da vida.
Encolhi meu corpo instintivamente, como se o gesto, concomitante a minha escolha estratégica da mesa em que estava sentada - bem ao canto da cafeteira, reduzindo ao máximo qualquer chance de contato com qualquer pessoa por ali - fosse me manter fora do seu campo de visão. Fixei o olhar na xícara de café que ainda esfriava apoiada na mesa à minha frente e me pus a mexer o seu conteúdo com a colherzinha plástica que ainda aguardava o descarte dentro do recipiente.
Em um momento de falha no meu plano de parecer invisível ergui o rosto e encontrei os olhos de ao longe, fixos em mim.
Boa, .
Para minha surpresa, ele sorriu. Não um sorriso simpático, de quem esbarra casualmente com uma amiga por aí. Era aquele sorriso que só ele sabia dar e que causaria arrepios em qualquer um que tivesse o prazer de vê-lo. Aquele, que vinha acompanhado e suas palavras amargas e seu tom de desdém.  
O hambúrguer de mais cedo pareceu revirar no meu estômago. tinha que trabalhar até mais tarde justo hoje?
O observei pegar o seu copo térmico e o saquinho pardo do balcão e agradecer a atendente, provavelmente soltando uma gracinha pra moça, julgando pela risada envergonhada que ela não conseguiu conter. Quando eu estava quase suspirando aliviada pelo seu pedido conter todos indícios que indicavam ser "para viagem", desviou do caminho para a porta e andou em minha direção. Sem hesitar, puxou a cadeira que se encontrava vazia ao meu lado, apoiou seu lanche na mesa e deu um longo gole em seu copo, que trazia àquele pedacinho do local um cheiro adocicado de chocolate quente. 
- É incrível como você impõe sua presença diante de mim e se faz à vontade mesmo sem qualquer convite, não é? – resolvi me pronunciar, devido a sua falta de palavras.
- Quer uma carona pra casa? - indagou, ignorando meu comentário anterior, e eu estreitei a sobrancelha. Ele estava me oferecendo uma carona?
- Não precisa - forcei um sorriso - Sei me virar sozinha – “e quanto mais tempo eu demorar pra chegar, melhor”, pensei em completar, mas realmente não estava afim de estender aquela conversa e muito menos dar a ele detalhes sobre a minha vida.
- Você é sempre tão receptiva assim com as pessoas? – ele se debruçou um pouco sobre a mesa, me encarando mais de perto e me obrigando a recuar.
- Não sei se percebeu, mas o meu problema é com você – disse, entre dentes. Como ele podia ser tão cara de pau em conversar comigo naquela normalidade depois da cena de duas noites atrás?
O garoto soltou uma risada ausente de humor.
- A carona ainda está de pé - ele disse com um meio sorriso no rosto e, em um movimento rápido, se levantou da cadeira. Como de costume, me deixando atônita e sem palavras enquanto observava a sua silhueta se afastar e deixar a cafeteria.
Normalmente eu rolaria os olhos e bufaria por alguns minutos tentando me acalmar. Mas nem eu mesma estava pronta para a decisão que meu corpo tomou a seguir. Como se algum tipo de anestésico em alta dosagem estivesse correndo em minhas veias e os controles do meu corpo estivessem debilitados, me vi levantando e seguindo, cautelosamente, o caminho que fazia poucos metros a minha frente.
O vento acertou em cheio o meu rosto assim que coloquei os pés fora da cafeteria e senti a ponta do meu nariz ficar gélida. A noite caia suavemente e o céu começava a dar espaço para novos tons de azul, que dessa vez apareciam mais escuros.
O céu quase tirou a minha concentração do garoto à minha frente, e quando dei por mim, ele diminuía os passos enquanto sacava uma chave do bolso e desativava o alarme do Lamborghini preto, que tomava uma vaga a poucos metros de distância da cafeteria. Uma irônica e completamente audível risada escapou de minha garganta enquanto cruzava os braços para observar a cena.
- Acho que perdi a parte engraçada – ele não precisou virar para ver quem era e nem parecia surpreso por eu estar ali. Avancei alguns passos e encostei o dedo na lataria perfeitamente limpa e polida, enquanto escorava meu corpo na porta do banco traseiro.
- Você é mais previsível do que achei que fosse – sorri falsamente ao ver sua sobrancelha esquerda se erguer. Ele sabia que eu estava falando do carro.
- Você também – o mesmo sorriso brotou em seus lábios. E eu sabia que ele estava falando do fato de eu estar ali, mesmo depois de negar a carona.
- O caminho pra casa deve dar uns vinte e cinco minutos... – comecei, enquanto desencostava da lataria e ia até o banco de carona – Isso dá a oportunidade de você me encher, pelo menos, umas trinta vezes. E eu tô chutando baixo. Eu aceito a carona se você prometer passar o caminho inteiro em silêncio. Essa é a garantia de eu não voar no seu pescoço.
Coloquei a mão na maçaneta e levantei meu olhar até , que me encarava com um irritante meio sorriso nos lábios.
- É meio excitante você tentar mandar em mim – sua voz grossa encheu meus ouvidos com um alto teor de provocação e eu apenas abri a porta e entrei no carro, batendo-a um pouco mais forte que o recomendado e disposta a encarar a janela pelo resto do caminho.
As casas e prédios do centro da cidade foram, gradualmente, dando espaços para árvores secas - o que indicava que estávamos perto de casa. estava seguindo perfeitamente a minha exigência de permanecer calado e eu estava agradecendo mentalmente por isso a cada cinco segundos. Talvez estivesse tão absorta em pensamentos e em observar as cores do céu brincando entre as árvores. Só percebi que o velocímetro do carro tinha atingido o 0 quando o baque da porta do motorista se fechando quebrou o silêncio. Minha expressão era claramente confusa e eu só tinha uma certeza: aquela não era a rua da minha casa. Com a visão dificultada pela falta de iluminação elétrica naquele local, vi a silhueta de se afastando do carro em direção a um muro de pedras escuras que se situava poucos metros à minha frente. Que merda ele estava fazendo? Me levando pra alguma espécie de matadouro? Soltei-me do cinto e abri a porta em menos de um segundo, batendo-a atrás de mim com dez vezes menos cuidado do que quando entrei.
- Você me ofereceu uma carona pra casa! Ca-sa! – gritei enquanto andava um tanto rápido atrás do garoto – Onde a gente tá? – silêncio – ! Me responde, porra!
Ele parou de súbito. Pude ver, pelo movimento de seus ombros, que tinha deixado um suspiro escapar.
- Achei que você voaria em meu pescoço se eu dissesse algo – ele se pronunciou após um tempo de silêncio, ironizando minha frase de alguns minutos atrás.
Ele era mesmo um belo idiota.
Quando achei que ele iria se virar e explicaria que merda estávamos fazendo ali, fui pega de surpresa pelo movimento de seus pés indo mais adiante, e mais surpresa ainda para onde eles o guiaram: uma espécie de escada de ferro acoplada ao muro, que só seria perceptível para alguém que realmente conhecesse o local, uma vez que ela se perdia atrás das árvores e ficava mais discreta pelas plantas que cresciam à sua volta, cobrindo-a parcialmente.
apoiou um pé. E outro. Segurou-se com as mãos. Quando dei por mim, ele estava subindo a escada, rumo ao outro lado do muro.
- Que merda você está fazendo? – minha voz foi mais baixa dessa vez enquanto me aproximava, com a certeza de que íamos morrer assim que os proprietários daquele lugar aparecessem - Não ouse me deixar sozinha aqui!
- A única forma disso não acontecer é você vir comigo.
Um enorme idiota.
Ele não fez menção de parar e eu me vi sem outra escolha a não ser seguir seus passos. A primeira visão que tive quando ultrapassei o muro fora a dele caminhando calmamente até uma espreguiçadeira de madeira escura, sacando um cigarro do bolso e sentando confortavelmente, como se aquela casa fosse dele.
A segunda foi de uma casa moderna, com cortes retos e paredes envidraçadas. As luzes estavam apagadas, exceto pelas lanternas que iluminavam uma funda e convidativa piscina bem à nossa frente.
- Vamos sair daqui. Agora - sibilei, um tanto nervosa com a situação. Não é como se eu invadisse a casa de alguém todos os dias.
- Fique calma - ele revirou os olhos enquanto brincava com o cigarro, ainda apagado, entre os dedos - Não tem ninguém em casa.
- Como você pode ter tanta certeza?
Ele sorriu.
- Não sei se percebeu, mas não é a minha primeira vez aqui.
- Isso quer dizer que é de costume que você invada casas no meio da noite? – maneei a cabeça negativamente mais rápido que o habitual - Isso era pra fazer eu me sentir melhor?
Mais um sorriso, dessa vez sem resposta.
Respirei fundo uma, duas, três vezes. Uma coisa era certa: conseguia ser mais teimoso que eu.
Pensei por um segundo e cheguei à conclusão de que irritar o garoto não ia fazê-lo me tirar dali mais rápido – e sim o contrário. Tomei o lugar na espreguiçadeira ao lado da sua, sentando de frente para ele, ainda hesitante de estar ali.
- Não sabia que gostava de mentolado - mirei o objeto entre seus dedos - Coisas sutis não me parecem combinar com você.
- Tô tentando parar – respondeu vagamente e continuei o encarando com um óbvio ponto de interrogação na testa - Se você quer deixar de fazer algo que gosta, é só transformar isso algo não prazeroso - ele pegou um isqueiro e acendeu.
- Isso faz mais sentido que eu gostaria - ri - Não daria certo comigo. Eu gosto de menta.
travou seu olhar em mim, mas sem olhar diretamente em meus olhos. Trocou o objeto de mão e o estendeu em minha direção, na altura de minha boca. Fiquei hesitante e talvez tenha demorado mais tempo que o necessário pra reagir, mas quando dei por mim, estava dando uma tragada no cigarro que seus dedos compridos seguravam. Um sorriso de enviesado apareceu enquanto ele recolhia o braço e voltava a olhar para o nada e tragar.
- O que você acha de me entreter com um jogo? – sua voz me pegou de surpresa e eu soltei uma gargalhada, pois jurava que ele estava brincando... Até ser censurada por seu olhar.
A palavra jogo parecia extremamente suja saindo de sua boca.
- Está falando sério? Claro que não!
- Você podia ser mais simpática.
- Essa sou eu sendo simpática - rolei os olhos, me controlando para não implorar por mais uma tragada. Ele me deixava nervosa.
- Você nem ouviu minha proposta - apagou o cigarro no chão e guardou o restante em seu bolso, provavelmente para ninguém encontrar uma bituca por ali.
- Não preciso ouvir.
- Três perguntas - disse, de prontidão, enquanto encostava na cadeira com os braços flexionados atrás da cabeça - Eu te faço três perguntas. Você pode escolher não responder uma delas.
- E qual a minha vantagem nesse jogo?
- Se você cooperar, eu te deixo voltar pra casa ilesa. Se não... Vai ter que explicar pro seu namorado porque chegou toda molhada.
Segui seu olhar. Ele mirava fixamente a piscina em nossa frente.
- Você não teria coragem - disse, tentando convencer mais a mim mesma do que ele.
- Tem certeza que quer me testar?
Eu, certamente, não queria. Mordi o lábio inferior, pensando nas chances que tinha de me dar mal. Duas perguntas. Ok, eu podia lidar com isso.
- O que quer saber? – falei rápido e um sorriso iluminou seu rosto, apertando seus olhos de um jeito quase... fofo. Talvez fosse aquele o único sorriso sincero que já vira ele dar.
O garoto ponderou por alguns segundos, provavelmente escolhendo com cuidado o que diria?
- Porque resolveu morar justamente aqui, quando claramente não gosta desse lugar? – seu olhar pairava o nada e eu implorava internamente para que ele não o direcionasse para mim – Qual a sua história com aquele cara? E... Qual o seu problema comigo?
Pisquei algumas vezes, tentando raciocinar o turbilhão de palavras que pareciam ter o peso de uma manada de elefantes na minha cabeça e fazendo uma careta por ele ter chamado de aquele cara. Apesar de ter que pensar em respostas para suas perguntas, tudo o que se formou em minha mente foi mais uma indagação: Porque ele se importava?
- Eu não escolhi morar aqui. Digamos que foi apenas conveniente – entortei os lábios. Sabia que não era aquela resposta genérica que eu queria ouvir, e eu nem sabia por onde começar a replicar as outras duas.
Foi aí que uma bela ideia se formou em minha mente. Ou idiota, dependendo do ponto de vista.
Levantei e livrei-me da jaqueta jeans que me aquecia e dos par de tênis branco, percebendo que a temperatura estava mais baixa do que eu imaginava. Antes que pudesse dizer algo e antes mesmo que eu pudesse estudar aquela ideia direito, percorri rapidamente o pequeno caminho até a piscina e pulei.
Impulsividade era uma palavra que não existia em meu vocabulário, mas parecia me obrigar a levá-la como um objetivo de vida.
A água estava gelada. Muito gelada. Gelada pra cacete. Meu corpo tornou-se inverno ao voltar para a superfície e senti meu lábio inferior tremer levemente, tamanho o frio que sentia. Quando fui capaz de focar o olhar, notei uma expressão que nunca tinha visto ontem no rosto dele: surpresa.
- Teoricamente, a parte divertida era eu te empurrar – ele disse enquanto levantava e caminhava lentamente até a borda.
- Achei que o ponto fosse eu voltar pra casa molhada e não como isso ia acontecer – o frio deixava minha voz mais arrastada e eu movia minhas pernas embaixo d’água freneticamente. Isso não ajudava a esquentar o corpo?
Meu olhar acompanhava os movimentos do garoto a minha frente. E eu, certamente, não estava preparada para vê-lo tirar seus sapatos e a camisa social preta antes de pular na piscina, bem ao lado de onde eu estava. Torci para que ele não percebesse que meus olhos viajaram tempo demais nas formas perfeitamente esculpidas de seu corpo; os braços torneados e a barrigada deliciosamente desenhada.
- Talvez o ponto fosse te deixar molhada... – sua voz soou suave assim que ele emergiu. Senti a atmosfera entre nós pesar, dado ao duplo sentido de sua frase.
- Uma hipotermia estava em seus planos? – envolvi meu corpo com os braços trêmulos, em uma tentativa falha de me aquecer e desviar o rumo que aquela conversa estava tomando.
- Não está tão frio assim.
É, se eu tivesse aqueles músculos talvez não estivesse tremendo tanto.
- Mal consigo me lembrar da última vez que estive em uma piscina – divaguei, mais pensando alto do que querendo falar isso pra ele. O observei de soslaio e vi que seus dedos brincavam com a superfície da água.
- Quando foi a última vez?
- Na piscina da casa dos meus pais, provavelmente – sorri, sendo atingida por lembranças carregadas de felicidade – , Bex, Ethan e mais alguns amigos costumavam ir lá sempre. Era nosso ponto de festa particular – divaguei, como se ele conhecesse toda a turma.
- E o que mudou? – ele indagou de prontidão, provavelmente sentindo o tom nostálgico da minha voz.
- O que sempre acontece. A vida, o tempo – dei de ombros. Tombei a cabeça pra trás, constatando que as estrelas já brilhavam mais fortes em meio àquela imensidão escura. Eu adorava observar o céu – Ei! Você nunca me disse como sabia o meu nome – praticamente gritei quando esse estralo atingiu a minha mente.
riu.
- Não preciso dizer algo que você já sabe.
Sei? Me esforcei para tentar lembrar de qualquer cenário em que pudesse ter dito meu nome a ele e absolutamente nada me ocorreu.
- Eu não sei nada sobre você.
- Você também sabe meu nome. Não é o suficiente?
Mas eu tenho certeza que você me contou ele, pensei em rebater. Mas talvez fosse mais inteligente ir por outro caminho.
- Tô falando sério. Esse lugar não é exatamente onde trintões solteiros e atraentes costumam morar.
- Saiba que aquela casa é um belo imã para mulheres – seu olhar procurou o meu, acompanhado de um charmoso sorrisinho de canto – Não que o meu incrível magnetismo sexual não seja.
- Quem te deixou tão convencido assim?
- A vida, o tempo – percebi a provocação na sua voz e não pude deixar de rir; um dos poucos risos sinceros que havia dado em sua frente.
pareceu congelar por um segundo enquanto encarava meu rosto com atenção. Seu semblante adotou uma feição séria de súbito que, com a iluminação falha daquela piscina, muito se assemelhava a de um psicopata.
Eu realmente precisava parar de assistir filmes de terror.
Meus braços ainda envolviam meu tronco em uma tentativa falha de conter a temperatura e meu corpo pareceu tremer quatro vezes mais quanto o garoto deu dois passos em minha direção, ficando a uma distância mínima de mim. Meu rosto estava na altura exata de seu peitoral, e eu fazia um esforço enorme para encarar seu rosto e não me perder ali.
- O que...
- Seus lábios estão roxos – sua voz, firme, sobressaiu a minha.
- Eu disse que tá frio – me encolhi um pouco mais, como se aquilo fosse me afastar, ao menos um pouco, dele. E ele fez exatamente o contrário. Dando mais um passo em minha direção, ergueu as duas mãos até meus ombros, tocando-os suavemente. Com o mesmo cuidado, virou meu corpo de costas pra si. Meu corpo ficou estático, ansiando seu próximo toque.
E aquilo estava errado.
Muito errado.
Com um último passo ele chegou ainda mais perto – não o suficiente para que nossos corpos se colassem, mas o bastante para que nossas peles, vez ou outra, roçassem uma na outra; o que certamente era o motivo dos leves arrepios que sentia nesse momento. começou a deslizar as mãos lentamente pelos meus braços, em movimentos de vai e vem, que iam do meu ombro, até meus pulsos – o que parecia uma tentativa de me aquecer.
- Melhor assim? – sua voz rouca atingiu meus ouvidos e hálito bateu em cheio em o meu pescoço, fazendo meu coração acelerar repentinamente.
- E-eu... – mordi os lábios e me encolhi um pouco - Eu quero ir embora – senti o desespero tomar conta de mim quando me veio à cabeça. O jeito com que falava, se movimentava, me olhava e me tocava fazia com que até o menor e mais inocente de seus gestos parecessem provocativos e beiravam o sexual.
E isso seria, de fato, extremamente sexy e irresistível se eu não tivesse um namorado me esperando em casa.


Capítulo 06

Pedi pra que me deixasse duas quadras antes da minha casa. Não queria correr o risco de me ver saindo do Lamborghini e ter que inventar mil e uma explicações pra isso. Desejei que estivesse chovendo, para poder esclarecer o estado deplorável em que estava. Roupas molhadas, cabelos encharcados, com frio e a maquiagem potencialmente borrada.
Meu celular tinha duas ligações perdidas e uma mensagem de perguntando onde eu estava. Fiquei ainda mais nervosa no momento em que coloquei a mão na maçaneta da minha porta, já que não tinha ensaiado nenhuma desculpa plausível. Me deparei com a sala e, pra minha surpresa, ela estava vazia. Caminhei lentamente até a cozinha, que se encontrava na mesma: sem uma vivalma. Ele só podia estar no quarto. Ponderei correr até o banheiro e me enfiar embaixo o chuveiro, mas se ele escutasse a água, isso certamente pareceria suspeito. Eu nunca correria pro chuveiro sem ao menos dar um “oi” antes.
Subi as escadas rapidamente, talvez pela tensão, e alcancei a porta do nosso quarto. Uma onda de alívio inexplicável percorreu meu corpo. Eu não podia acreditar na minha sorte ao ver deitado e em um sono profundo, no meio de nossa cama.
O observei por alguns segundos antes de fechar a porta e correr para o banheiro. Assim que encostei-a silenciosamente atrás de mim, a angústia preencheu meu peito e senti meus olhos marejarem.
Não era aquilo que merecia. Uma namorada entrando em casa escondida no meio da noite, não atendendo suas ligações e sem poder dizer a ele onde ou com quem ela estava. Céus, ele era a última pessoa no mundo que merecia isso!
Joguei as roupas molhadas no cesto de roupa suja, entrando no chuveiro e deixando a água quente percorrer minha pele, aquecendo-a. Tentei colocar na minha cabeça a falsa imagem de que a água levava consigo pelo ralo todos meus pensamentos ruins e atitudes indevidas. Assim como o toque de . E a culpa de mentir pra .
Quando desliguei o chuveiro e coloquei o pé para fora do box, percebi que meu celular vibrava em cima da pedra de mármore do balcão da pia, e nome de Bex brilhava na tela.
Em cima dele, o horário.
7:14.
Droga. Como fui esquecer? Eu tinha combinado de encontrá-la em menos de vinte minutos.
Respondi sua ligação perdida com uma mensagem rápida, confirmando que logo estaria lá, e sai do banheiro me secando desajeitadamente enquanto andava em passos rápidos até meu quarto.
ainda dormia, e sair sem acordá-lo estava fora de cogitação. Aproximei-me da cama e sentei em seu lado esquerdo, levando a mão até seus cabelos e fazendo um carinho levemente ali.
- ? ...
Ele se mexeu e suas pálpebras gradualmente deram lugar aos seus olhos . Ele piscou algumas vezes, parecendo tentar se situar no que estava acontecendo.
- Estava com saudades – tinha certeza que o sorriso fofo que apareceu em seus lábios logo refletiu em meu rosto – Deita comigo.
- Preciso encontrar Bex e já estou atrasada. Ela deve estar surtando com a cor das toalhas de mesa do casamento ou algo do tipo – rolei os olhos enquanto ria.
- Se comporte, mocinha – fingiu um tom ameaçador, dessa vez, me fazendo rir – Porque voltou tão tarde?
- Eu passei no shopping – falei a primeira coisa que passou pela minha cabeça, me amaldiçoando por não ter bolado algo mais convincente no banho. Ele, por sua vez, pareceu acreditar, já que depositou um beijo em meus lábios, e voltou se aconchegar confortavelmente entre os lençóis.

xx


Havia duas coisas incontestáveis sobre Bexley.
Primeiro: ela era uma romântica incurável.
Segundo: ela bebia muito quando estava ansiosa.
Por isso, não foi surpresa vê-la sentada no sofá, com uma garrafa de vinho branco pela metade e um copo cheio pendendo de sua mão enquanto observava minunciosamente os vários pedaços de tecido que a rodeavam.
- Não me diga que já está bêbada. Não acha que tomou o suficiente, mocinha? – despertei sua atenção enquanto caminhava até o balcão da cozinha acoplada à sala para pegar uma taça pra mim.
- Álcool nunca é o suficiente, mon amour - ela piscou, enquanto arrumava os cachos pretos com a ponta dos dedos.
- Acho que vou concordar com você pela primeira vez na vida – disse enquanto me acomodava ao seu lado e estendia a minha taça pra ela encher
- O que você acha? – Bex alinhou três quadradinhos de tecido no espaço do sofá entre a gente – Qual vai ficar melhor para as toalhas de mesa? O bege champanhe, creme ou argila? – ela apontou pra cada um respectivamente. E todos pareciam exatamente a mesma pra mim.
Eu sempre gostei de moda. Roupas, tendências e a Vogue era a minha bíblia.
Mas comparar tons parecidíssimos de uma toalha de mesa era demais pra minha cabeça.
- O champanhe, com certeza – respondi de prontidão e ela ergueu as sobrancelhas.
- Sério? – ela aproximou dos olhos o tecido que tinha indicado como champanhe poucos segundos atrás, examinando-o minuciosamente.
- Bex. Eles são iguais. Mas esse era o que tinha o nome de bebida alcoólica, então me pareceu a escolha certa – quando eu achei que ela fosse me dar um sermão ou voar em meu pescoço pela resposta, tudo o que minha amiga conseguiu fazer foi soltar uma gargalhada.
- Talvez você tenha razão. Destino ou não, essa estava inclinada a ser a minha primeira opção.
Bex pegou o pedacinho de tecido e prendeu em uma espécie de prancheta, que tinha recortes de flores e rendas. Até chegava a ser bonitinho o quanto ela estava preocupada e empolgada com a ideia do casamento. Por mais que eu não compartilhasse o mesmo pensamento a entendia completamente, e havia prometido a mim mesma ser menos cética quanto ao assunto – ao menos em sua frente.
- Já escolheu o lugar?
- Mais ou menos – Bex se endireitou no sofá, virando de frente para mim – Tem uma pousada aqui perto, no meio da estrada até Holloway. , é o meu lugar dos sonhos! Uma área externa com uma vista linda pra fazer a cerimônia, um casarão enorme para os convidados. Eu e Ethan vamos até lá em duas semanas e, bom... Se você e quiserem ir, seria incrível ouvir seus infames comentários sobre a cerimônia por lá.
Não tenho certeza se Ethan já havia o convidado, mas estava implícito que seria um dos padrinhos.
- É claro que vamos. Não perderia um fim de semana inteiro te estressando por nada! – dei um gole na taça, finalizando seu conteúdo, e logo alcancei a garrafa para me servir de um pouco mais – Quer ouvir uma boa notícia?
- Sempre! – ela se endireitou no sofá.
- Matt chega esse domingo – sorri – Vai rolar algum tipo de confraternização de boas vindas em sua casa no centro no fim da tarde.
- Matthew vai dar uma festa de boas vindas para ele mesmo? – ela disse em meio a um riso.
- A cara dele, não?
- Você está estranha – Bex estreitou os olhos, me observando atentamente, como se eu fosse um dos tecidos de alguns minutos atrás.
- Estranha... Como? – estreitei os olhos, decidindo se ficava ofendida ou não pelo seu comentário e despreparada para a mudança de assunto repentina.
- Você tá mexendo na borda do copo há uns bons minutos e tá fazendo aquilo de encarar o nada por tempo demais, o que nós duas sabemos que você só faz quando algo te incomoda – ela tinha um ar superior e me olhava como quem sabia demais - O que você tem?
Encarei minhas mãos e percebi que o dedo do meio se apoiava superficialmente na borda do copo que eu segurava.
- Nada?
- ... – repreendeu.
- Achei que o assunto hoje fosse você – coloquei a taça na mesa de centro à nossa frente, enquanto Bexley rolava os olhos. Nem parecia que estava surtando sobre tecidos há um minuto.
- Não precisamos ser monotemáticas – ela provocou, me arrancando uma risada. Teimosia era contagiosa?
Ponderei, por segundo, contar para Bex o caos em que minha mente se encontrava. No segundo seguinte, enumerei os fatos que me faziam guardar todos meus devaneios até o último instante. Como eu me sentia sobre era algo que eu não conseguia dizer em voz alta nem pra mim – quem dirá compartilhar com alguém. E ... Eu não sabia ao certo o que pensar dele, tampouco o porque de ele ocupar uma parte tão grande dos meus pensamentos. Os ruins, claro.
- Quando vamos ver o seu vestido? – minhas sobrancelhas dançaram em minha testa, desafiando-a e sabendo que eu tinha tocado no ponto fraco.

xx


As luzes estavam apagadas e a casa em total e completo silêncio. Depois de tanta conversa e alguns goles de vinho, eu estava exausta. Subi as escadas e fui até o quarto, constatando o previsível: já dormia.
Ele devia estar exausto do trabalho e eu não pude evitar me sentir um pouco mal por não ter ficado nada com ele durante o dia todo.
Tentando não fazer barulho, alcancei o closet do nosso quarto na ponta dos pés, a fim de vestir algo mais confortável. Pensei em pegar um pijama, mas vi uma camisa social azul de um tanto embolada em uma das prateleiras mais altas do lado dele do armário que me fez mudar de ideia.
Não havia nada no mundo mais confortável do que roubar as suas camisas de algodão. Primeiro, pelo tamanho. Segundo, pelo seu cheiro.
Fiquei na ponta dos pés para alcançar a peça, e assim que puxei, mais três vieram junto. Abaixei-me para juntar e colocar tudo no lugar – eu odiava bagunças. Assim que terminei de recolher a última peça, senti meus joelhos falharem e o ambiente ficar um tanto sufocante.
Embaixo dela uma pequena caixinha de veludo azul marinho refletia em meus olhos.
Uma pequena caixinha azul marinho com as letras “H” e “W” gravadas em dourado.
Mais precisamente, uma pequena caixinha azul da Harry Winston.
Não hesitei em, com as mãos trêmulas, pegá-la. E certamente não passou na minha cabeça não olhar o que tinha ali dentro.
Desejei, com todas as forças, para que encontrasse uma pulseira, um brinco, um colar, ou até um chaveiro - qualquer coisa, exceto o que realmente tinha ali. Um reluzente anel de diamantes.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





Qualquer erro no layout dessa fanfic, avisar no meu e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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