Última atualização: 24/06/2025

playlist | sweet nothing universe

your faithless love's the only hoax I believe in
don't want no other shade of blue but you
no other sadness in the world would do

UM

Eu levei exatos vinte e cinco minutos para me arrepender daquela decisão.
Ainda assim, lá estava eu, insistindo no que parecia ser uma péssima ideia.
Parada, ali, em Green Heaven, com duas malas na mão, a maquiagem borrada em meu rosto e uma saudade imensa de casa, me lembrei o motivo de ter vindo a Wellspring apenas uma vez. Tudo parecia acontecer mais devagar por ali. As pessoas não apenas andavam pelas calçadas; elas contemplavam a cidade. O som das sirenes não tremulava pelas ruas. Havia tempo para perceber a dança das nuvens e sorrir para as frésias cor-de-rosa derramadas ao chão a cada esquina. Os carros deslizavam sem pressa pelas avenidas e toda aquela insanidade da mão inglesa me deixava levemente confusa.
Como uma boa garota de Manhattan, o movimento frenético da cidade me acalmava. Havia algo especial em me sentir parte daquela desordem; eu simplesmente amava ser mais uma menina com grandes sonhos, flutuando pelas ruas da quinta avenida e contemplando as vitrines em busca de um par de Michael Perrys da última coleção como se minha vida dependesse daquilo. Gostava de ver as pessoas à minha volta indo e vindo como se estivessem sempre atrasados para alguma coisa, sentir o cheiro de café permeando cada esquina e o fato de conseguir comprar uma rosquinha de creme de framboesa com pasta de amendoim ou qualquer outra insanidade culinária às quatro e meia da manhã.
Era caótico e o caos me alentava. Eu me sentia importante — como se eu fizesse parte de algo muito maior do que a compreensão tangível, perdida entre os prédios de cinquenta e tantos andares e as luzes que subiam em direção ao céu, apagando as estrelas.
Conferi, mais uma vez, o nome que eu havia anotado em algum lugar entre os lembretes do meu celular. Royal Noir. Um título pretensioso para a pequena cafeteria que se revelava tímida à minha frente; duas portas de madeira maciça pintadas de azul escuro, espremidas entre um prédio de três andares com tijolos aparentes e uma acanhada floricultura coberta de ramos de erva daninha envolvendo a arquitetura vitoriana.
Pensei no que diria a quando o encontrasse. Imaginei ele abrindo os braços e o cheiro de seu perfume almiscarado invadindo minhas vias respiratórias; e então eu saberia que aquilo era o mais próximo que eu me sentiria de casa em um bom tempo.
Eu não sabia como estava seu cabelo. E nem se ele ainda usava aquele suéter verde musgo de cashmere que faziam seus olhos brilharem como turmalina líquida. E, principalmente — não sabia se meu irmão diria que aquela ideia era estúpida demais e, ao invés de me acolher, me mandaria de volta para o outro lado do oceano.
O vento frio tocou meu rosto e um sorriso involuntário desenhou meus lábios. Era irônico que o tempo estivesse se transformando em Junho e, no primeiro anúncio da manhã, nenhum raio de sol passasse pelas nuvens da cidade. havia me contado, no meio de uma ligação atrapalhada, sobre o verão em Wellspring. Me contou sobre como as ruas ficavam ainda mais bonitas com o sol deslizando pelas esquinas ao longo da manhã e riu ao falar dos fins de tarde, quando a vida contemporânea e a arquitetura antiga começavam a entrar em contraste para a chegada da noite.
Meu irmão tinha o dom de transformar tudo em poesia.
Ele havia me ensinado a olhar com mais cautela para as coisas banais do dia-a-dia. Coisas como as diferentes cores que pintavam o céu às seis horas da tarde e o som do vento nas copas das árvores durante a concretização do outono.
Ele era candura.
Eu era opulência.
Ele sempre fora o equilíbrio que eu precisava.
E era exatamente por isso que eu estava ali.
Se você estiver pensando em mim, eu realmente espero que seja algo indecente — a voz que um dia fora conhecida soou de repente, inundando meu peito com algo parecido à tormenta e saudade.
Em qualquer outra situação, meu primeiro ímpeto seria xingá-lo. Amaldiçoar aquele rostinho bonito e aquela língua afiada, sempre transbordando provocações. Mas, naquele instante, eu estava apenas agradecida por ver um rosto conhecido. E, bom… ele havia concordado em me ajudar.
Deixei um sorriso se desenhar em meu rosto — um sorriso tão cínico quanto o dele — enquanto encostava a ponta dos dedos gelados em minha pele, tentando me livrar dos rastros pretos em minhas maçãs.
— Ah, mas é claro. Pensar em você é tudo o que eu faço. Por favor, , me beije — proferi da maneira mais dramática e tediosa o possível em meio a um rolar de olhos.
Ele, então, não disse nada. Apenas entortou os lábios, daquele jeitinho enervante e perspicaz, que atingia uma área de perturbação em meu cérebro que apenas era capaz de acessar.
Faziam seis anos desde a última vez que eu o havia visto. Mas ainda estava tudo ali, exatamente como eu me lembrava. Ele ainda tinha o mesmo cheiro quente da combinação de sândalo, violeta e cardamomo. Ainda se escondia por trás dos olhos , que em mim tinham o mesmo efeito que o mar em ressaca; me atraíam com a mesma força que me avisavam para ficar longe. Os cabelos , jogados para o lado de um jeito despreocupado exatamente como a Hollywood dos anos 90 aprovaria, que o deixava tão bonito que era quase irritante. O nariz gracioso apontando para o céu e os lábios finos e rosados que faziam o contraste perfeito com o queixo anguloso. Tudo meticulosamente calculado para resultar naquela criatura irretocável.
Para mim, ele era tempestade e torta de maçã.
Eu odiava tempestades. E adorava torta de maçã.
Quando tinha dez anos, seus pais se separaram. Foi um enorme escândalo na nossa pequena comunidade — o senhor havia traído a esposa com uma das funcionárias de vinte e poucos anos do clube de campo que todas as famílias do círculo restrito do Upper East Side frequentavam. Eu tinha seis anos e me pouparam dos detalhes, mas sabia que a mãe de havia decidido deixar tudo para trás — o marido e os recursos — para voltar com o filho para a terra natal: a Inglaterra.
Mas ele ainda visitava o pai sempre que podia.
Nossas famílias sempre foram próximas.
Ele e eram melhores amigos.
E, desde que eu me lembrava, ele sempre esteve por perto. Nos feriados Martha's Vineyard. Nos finais de ano nos Hamptons. E até nas viagens ocasionais à Nantucket.
E eu sempre o detestei. Porque ele sempre mantinha longe de mim. Meu irmão era a minha pessoa preferida do mundo, e ele não saia do meu lado quando éramos apenas nós dois. Mas, quando chegava, era como se eu não existisse.
Ele tinha seu próprio irmão. Porque não podia deixar o meu em paz?
Eu era nova demais para ser compreensiva; cinco anos pode ser muito tempo de diferença quando se é criança. E não fazia por mal. Eu só fui perceber, anos mais tarde, que estava triste com toda a situação e simplesmente precisava do melhor amigo.
Mas angústias não passam assim. Podem até chegar de repente, mas qualquer assunto que envolva o coração precisa de tempo para desvanecer.
Houve um verão em que me ensinou a andar de patins. Eu tinha dez anos e ele quinze. Lembro que caí em um dos arbustos de azaleias que ladeavam o enorme jardim da casa que mamãe havia alugado para a temporada na praia de Harwich, em Cape Cod. E meu coração disparou quando ele limpou as lágrimas do meu rosto e deu um beijo carinhoso perto dos pequenos ralados em meu joelho.
E então eu o odiei um pouco mais. Porque a brevidade da minha idade nunca havia me permitido sentir algo parecido e eu não queria que ele causasse aquilo em mim — eu queria odiá-lo.
Quando tinha vinte anos, sua mãe ficou doente. No aniversário de seus vinte e dois, ela faleceu. Por um longo momento, houve o luto. E depois dele veio toda a conversa empolgante sobre a nova aventura solitária de . Meu irmão simplesmente não parava de tagarelar sobre a nova vida incrível e independente que levava em Wellspring.
Um ano depois, saiu de casa. Para o desgosto de nossos pais, disse que não via mais sentido naquela vida de excessos, pratarias da Tiffany e roupas de cama de algodão egípicio. largou a faculdade de direito e se mudou para a Inglaterra para que ele e pudessem viver o sonho: — sério, era assim que eles chamavam aos vinte — montar uma banda.
havia tirado ele de mim mais uma vez.
E eu, mais do que nunca, o odiava.
— Vai me contar o que aconteceu? — ele enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, como se não soubesse o que fazer com elas. Aparentemente agora ele era legal demais para os casacos de linho com assinaturas nas etiquetas.
— É apenas curiosidade ou você realmente se importa? — inclinei a cabeça para o lado, procurando qualquer cintilância na arrogância opaca de seus olhos.
— Tem razão — ele meneou a cabeça quando um sorriso ausente de humor delineou seus lábios — É apenas curiosidade. Só estou aqui por causa de .
Ofereci um sorrisinho meio contrariado. Não era nada que eu não soubesse; realmente faria qualquer coisa por . Eu era apenas parte do pacote.
Quando pensei em soltar alguma resposta esperta, se inclinou em minha direção para pegar as malas.
— Eu consigo levar uma — peguei as alças de uma das malas cor-de-rosa antes que ele alcançasse e a arrastei para perto de mim — É sério.
Ele juntou as sobrancelhas.
— São três lances de escada…
— Eu disse que consigo, .
Sai deslizando as rodinhas pelo chão antes que ele tentasse argumentar novamente.
Três lances de escada. Pfff.
Nós entramos por uma porta de madeira escura e vitrais transparentes no canto esquerdo da loja de flores. O pequeno hall era inteiro branco, com uma estante de caixas de correspondência pintada de turquesa e uma extensa escada com corrimão de ferro dourado. Não havia poltronas ou espelhos. Nem mesmo um arranjo de flores.
Era… Charmoso?
E, no segundo andar, enquanto a monotonia das cores seguia pelos corredores, eu já estava arrependida de não ter jogado a tal mala no colo de para que ele subisse com ela também. Porque mesmo eu achei que conseguiria subir três andares com mais de vinte quilos de roupas nas mãos? Mas eu desmaiaria de exaustão antes de admitir isso a ele.
— Estou cansado de olhar para os seus pés. Parece que eles se acham melhores do que eu — resmungou atrás de mim e eu soltei uma pequena risada.
— Eles deveriam — parei por um segundo, levantando uma das botas pretas de veludo em sua direção — São Prada.
Eu nem precisava olhar para trás para saber que ele estava rolando os olhos e apertando os lábios em insatisfação.
Quando chegamos no terceiro andar, parou em frente a uma porta azul petróleo. Era a única colorida entre as outras, todas brancas. Sorri ao pensar que aquilo deveria ter sido ideia de . Aposto que tinha errado o apartamento em alguma noite embriagada e decidido pintá-la de uma cor diferente. Talvez ele até transformasse isso em uma canção. Era mesmo a cara dele.
— Você não disse nada pra ele, né? — mordi os lábios enquanto observava tirar um pequeno molho de chaves do bolso.
— Claro que não. Você me pediu para não contar.
Meu irmão era do tipo preocupado. E eu odiaria ter qualquer conversa complicada demais por telefone.
Segurei o ar em meus pulmões quando ele abriu a porta. Pensei que veria e que seu sorriso finalmente me ofereceria algum reconforto. Me vi presa entre seus braços. Quase senti o cheiro fresco de Amouage. Mas era um garoto de cabelos castanhos meio cacheados e pintinhas enfeitando o topo de seu nariz que nos encarava com curiosidade.
— Ei, quem é você? — ele andou em direção à porta, o olhar curioso, dançando entre mim e as duas malas cor-de-rosa no chão — A nova namorada de ?
Eu e nos entreolhamos, ambos contorcendo o rosto em uma careta.
— Não! — respondemos em uníssono, talvez um pouco mais alto ou insultados do que o necessário.
O garoto olhou confuso para . E eu olhei confusa para os dois. Ele também morava ali?
— Esse é apontou para o amigo e depois para mim — Ela é…
? O que está fazendo aqui?
. Era a voz de . Meu peito se contraiu em um alvoroço sôfrego. Fiquei na ponta dos pés para enxergar além dos ombros de — como agora eu sabia — e, finalmente, vi meu irmão.
Ai. Dois anos. Vinte e quatro meses. Setecentos e trinta dias que não o via. E ele estava ali. Na última vez que o vi, ainda usava o cabelo castanho todo arrumadinho, do jeito meio careta que costumava deixar as garotas loucas na costa leste de Nova York. Agora ele ostentava um topete modestamente despojado, no maior estilo Alain Delon. Ele não usava mais seu suéter verde; o cashmere havia deixado de abraçar seus músculos para dar lugar a uma camiseta preta do Pearl Jam. E ele continuava lindo. Era humanamente impossível não ficar lindo.
! — gritei, sem me importar se soava estridente ou espalhafatosa demais, e corri em sua direção — Céus, que saudade.
Meu irmão me abraçou, forte e carinhoso como ele, e apenas ele, poderia ser. Descansei a cabeça em seu peito e senti as lágrimas subindo pela minha garganta. De tristeza, de saudade, de alívio.
E de medo.
E frustração.
Porque ali, nos seus braços, como por tanto tempo sonhei em estar, eu não me senti em casa.
E era aquele o exato problema em criar expectativas; constantemente, elas levavam à decepção.
— O que aconteceu? O que você está fazendo aqui? — ele me pegou pelos ombros e me colocou em sua frente, olhando meticulosamente para o meu rosto, como se duvidasse da realidade da situação — Você está diferente. O que fez no cabelo? Ah, eu senti tanto a sua falta, ! — ele passou pelas palavras com pressa, apenas para me apertar em seus braços novamente.
E eu quase o puxei novamente quando ele se desvencilhou do meu abraço e seus olhos verdes brilharam em minha direção.
Ele estava esperando uma explicação.
E por mais que eu tivesse passado todo o discurso mil vezes por minha cabeça, ainda não sabia ao certo o que dizer. Eu terminei com Jake. Tudo ficou sério demais. Estou cansada de magoar as pessoas. Estou cansada de magoar a mim mesma.
E, claro — havia o fogo. Havia o sangue. E algumas lágrimas.
Muitas lágrimas.
Olhei para e na porta, um tanto incomodada. Não imaginava que teria que fazer isso na frente deles. Na verdade, estava esperando que eu não precisasse externar os recentes acontecimentos de maneira alguma.
Eu sabia que ele tinha muitas perguntas; sobre Jake, sobre os nossos pais, sobre a faculdade de moda. Sobre tudo que eu havia deixado para trás.
Mas eu também sabia exatamente o que dizer quando o assunto era o meu irmão.
— Eu… — dei um sorriso nervoso — As coisas ficaram tristes demais por lá, . Eu estava triste demais. Talvez eu finalmente tenha entendido o que você sempre tentou me dizer.

— Eu sei o que está pensando — coloquei as mãos no ar em frente ao seu rosto antes que ele continuasse, tentando distraí-lo da história pela metade — Que essa é mais uma daquelas decisões impulsivas e que vou acabar desistindo mais uma vez. Como as aulas de pintura ou o curso de francês. Mas não é assim, eu juro. E a única pessoa com quem eu posso contar é você. Mas se quiser eu posso ir…
— Não — ele me interrompeu, categórico — Claro que não. Você fica aqui. Temos um quarto sobrando, certo?
Meu irmão olhou para os amigos na porta e eu segui seu olhar. me olhava quase em martírio ao acenar positivamente com a cabeça e mantinha os braços cruzados enquanto encarava o teto com a testa franzida. Acho que era o jeito dele de dizer que não se importava.
Pela primeira vez no último mês, senti meu corpo relaxar. Meu irmão tinha me acolhido. Eu tinha um lugar para ficar. Eu podia tentar recomeçar.
E, enquanto o alívio ia começando a preencher meu corpo, comecei a realmente reparar no lugar à minha volta pela primeira vez desde que tinha entrado no apartamento.
A sala e a cozinha se encontravam em uma ilha de madeira pintada de cinza claro, apinhada de pacotes de salgadinhos pela metade. No chão, logo abaixo do sofá, havia um enorme tapete belga verde-escuro completamente desbotado e ao menos quatro pares de tênis espalhados por ele. Na mesinha de centro, garrafas vazias de cerveja e coca-cola de baunilha, cinzeiros cheios de cigarros e capas de discos de vinil estavam espalhados por todos os lados. Um aparador de mogno abrigava uma TV enorme e o sofá de couro preto tinha uma mancha suspeita na almofada direita.
Imaginei os meninos em uma noite de sexta-feira, comendo pizza, tomando cerveja e assistindo qualquer programa sobre música na MTV. O queijo gorduroso escorreria pela mão de diretamente para o sofá e ele não ligaria — porque, ei! É assim que funciona um apartamento ocupado por futuros rockstars de trinta e poucos anos.
Torci os lábios. Era assim o meu fim, eu sabia. : morta por sapatos de poliéster com cheiro de queijo suíço e uma mancha suspeita no sofá.
— Certo. Mudei de ideia. Eu posso procurar um hotel. , me ajuda a descer as malas, por favor.
Ele soltou uma risada rouca que fez cócegas irritantes em meus ouvidos.
— Era isso que eu estava esperando que acontecesse — apontou pra mim com os olhos enquanto pegava as malas — Vem, eu te levo até o quarto.



Não saberia dizer quanto tempo passei deitada, olhando para qualquer ponto aleatório na cortina branca e esvoaçante do que seria meu novo quarto. Ele era pequeno; tão pequeno que eu tinha certeza de que uma parede fora erguida ali para transformar um só quarto em dois. Era a única explicação para um apartamento daquele tamanho ter três quartos.
Eu precisava de um banho. Estava com aquele ar horrível de aeroporto e mal tive coragem de me olhar no espelho, mas sabia que minha maquiagem estava bagunçada por todo meu rosto.
Por um instante, meu cérebro quis acrescentar notas sobre uma vida não vivida. Era sempre assim quando a meia-noite se aproximava; o silêncio do exterior me deixava ouvir os murmúrios internos que eu tentava, incansavelmente, silenciar. E eu sempre era jogada para o mesmo caleidoscópio frenético de dois verões atrás, quando o dia parecia mais simples e a noite não me fazia encarar a versão da que eu tentava esconder. Aquela rigidez impenetrável que me fazia acreditar ser capaz de deixar um rastro — de coisas e pessoas — pelo caminho e continuar, como se nada tivesse acontecido e como se ninguém houvesse sido ferido.
O som de três batidas na porta me trouxe de volta ao presente.
— Pode entrar — minha voz ressoou tão baixa que fiquei surpresa quando a maçaneta, de fato, girou.
Era .
Ele enfiou apenas a cabeça pelo vão da porta e eu movi minimamente o rosto para encará-lo.
Lá fora, tudo estava silencioso.
E eu quase pude ouvir um clamor melancólico quando seu rosto se contorceu.
Me perguntei se eu estava chorando sem perceber. E estava.
Pela primeira vez naquele dia, senti que olhava para mim, e não através de mim, como sempre costumava fazer. Como se eu não estivesse realmente à sua frente — e se eu estivesse, ele simplesmente não se importava.
Dessa vez, ele se importou.
E então nós apenas nos encaramos por alguns instantes.
Quando eu e éramos mais novos, em algum momento entre os meus onze ou doze anos, nossos pais nos levaram para passar o verão nos Hamptons. A casa em Cooper’s Beach ficava bem em frente ao mar. Quando eu pensava naquele verão, eu não lembrava das tardes que passei brincando na costa e tomando sorvete de cereja. Nem mesmo nas manhãs, quando o sol brilhava tão forte e ultrapassava as cortinas direto para os nossos rostos, dourando o quarto com a promessa de um dia glorioso. Eu me lembrava apenas das noites. Logo antes de dormir, deitada no quarto em que eu dividia com meu irmão, quando todas as luzes estavam apagadas e eu não podia ouvir nada além do som das ondas quebrando na areia. A melodia do mar era tão bonita e, ao mesmo tempo, tão assustadora. Eu pensava em todo aquele infinito oceano encontrando-se com o céu no horizonte em um imensurável espetáculo da natureza. Fazia eu me lembrar o quão pequena eu era em relação ao mundo.
E, enquanto a terra se afastava do sol, o barulho ficava cada vez mais alto, cada vez mais perto.
Me perguntava se as ondas podiam invadir meu quarto e me levar com elas. Me consumir naquele divino infindável.
E meu peito se revirava em tumulto, dividido entre vontades opostas. Queria me esconder entre as cobertas e me proteger do mar, porque não queria ir para longe. Ao mesmo tempo, queria ir até a sacada, contemplar o Atlântico e conhecer a parte do mundo que ainda me era estranha. Queria me deixar levar. Pelo mar, pelo desconhecido. Pela vida.
Eu não me lembrava daquela sensação há algum tempo — talvez até tivesse a apagado de dentro de mim. Mas ali, naquele exato instante, quando me permiti realmente olhar nos olhos de , fora exatamente o que eu senti.
Medo e curiosidade.
Tempestade e torta de maçã.
Um arrepio percorreu meu corpo e fez formigar a ponta dos meus dedos dos pés quando me perguntei se ele me abraçaria e enxugaria minhas lágrimas, como no verão em que caí de patins.
Não.
É claro que não.
não moveu nada além dos lábios, de onde cinco palavras flutuaram para dentro do quarto, soando, de alguma forma, relutante e resoluto de uma só vez.
— A gente ainda precisa conversar.

DOIS

— Não acho que tenha feito a coisa certa, . Jake era…
— Jake não era pra mim — interrompi Hazel assim que a reprovação em sua voz ressoou no telefone. Eu realmente não queria ouvir o nome dele.
— E Wellspring é pra você? — o desdém injetado firmemente em cada sílaba me fez imaginá-la retorcendo os lábios em uma careta do outro lado da linha enquanto enrolava uma mecha dos cabelos avermelhados.
Soltei um suspiro. Meus dedos apertaram instintivamente o anel de brilhantes em minha mão direita. Meu rosto se contraiu em um clamor silencioso de dor quando tentei tirá-lo mais uma vez. Merda.
Porque eu havia o colocado?
Não.
Melhor ainda: porque eu sequer havia o trazido comigo? Jake não havia o aceitado de volta — talvez esperasse que eu cedesse ao olhar sua resplandecência pela segunda ou terceira vez. Mas eu podia ter o deixado para trás, caramba! Ele ficaria tão melhor na minha prateleira imaginária de coisas-que-eu-quero-esquecer do que literalmente preso em meu dedo. Uma caixinha azul-marinho com o monograma da Winston devia mesmo ser meu sonho quando eu tinha dezenove, mas aos vinte e cinco anos eu me sentia literalmente sufocada. 
parece feliz aqui. E também… Eu acho — levantei os ombros ao experimentar um gole da taça de leite que eu havia acabado de servir, contemplando a sala vazia ao me apoiar na bancada da cozinha — Preciso ir, Hazzy.
— Mande um oi para o seu irmão por mim. E não deixe de mandar notícias, .
Dei um sorriso fraco antes de desligar o telefone. Eu não precisava realmente ir, mas a depreciação da minha amiga era algo com que eu, certamente, não estava querendo lidar.
Hazzy era ótima, na verdade. Lembrava de quando a conheci, em um brunch de um domingo ensolarado bem no meio de Agosto no The Ritz. Nós tínhamos treze anos e havia sobrado apenas uma éclair de chocolate em uma das bandejas de prata do buffet. Nós duas a queríamos. E então a dividimos em uma mesa ao lado das majestosas janelas do hotel, olhando para o Central Park enquanto fazíamos planos utópicos para o futuro. Foi amor à primeira vista.
E eu não podia culpá-la por tentar argumentar sobre Jake. O sobrenome dele vinha acompanhado de uma extensa linhagem de sucesso, que oscilava entre proprietários de grandes redes de hotéis espalhados pela América do Norte, até estaleiros de iates em toda a costa Europeia. E ele realmente tinha um futuro promissor jogando futebol americano, deixando todos os olheiros alvoroçados nas arquibancadas da NYU.
Jake Brentwood era alguém.
E eu sabia exatamente como era se importar com isso.
Eu havia dormido até mais tarde naquela quinta-feira; já passava do meio-dia quando abri os olhos e espiei o celular. Havia duas mensagens de explicando que precisara resolver algumas coisas e que estaria em casa de noite. Não podia dizer que eu não havia ficado decepcionada por acordar e não encontrá-lo aqui porque, bem… Eu meio que estava precisando do meu irmão.
Quando saí do quarto, o silêncio me contou que e também não estavam em casa. Então aproveitei a tranquilidade para ar um banho quente, demorado e necessário, enquanto pensava que eu devia mesmo ter trazido uma mala inteira recheada de shampoos e espumas de banho Olverum. Talvez a nuvem perfumada e reconfortante de eucalipto e lavanda de noventa e oito dólares amenizasse o caos das roupas espalhadas pelo chão e da quantidade exagerada de frascos de espuma de barbear vazias no gabinete da pia.
Estava prestes a molhar os lábios novamente quando um barulho metálico ecoou da porta diretamente para os meus ouvidos. ? Endireitei a coluna e vesti um sorriso diante do chacoalhar de chaves, pronta para vê-lo entrando e anunciando que conseguira chegar mais cedo do que quer que houvesse ocupado seu tempo. Talvez estivesse até trazendo uma sacola com um gigante pote de sorvete dentro; ele sabia que calda de morango era a única coisa capaz de me animar diante de qualquer adversidade da vida. Mas a felicidade em meu rosto afrouxou quando vi os cabelos de atravessando a porta.
E ele não estava sozinho.
O balançar de fios longos e castanhos se agitou diante de meus olhos e, antes de pensar direito no que eu devia fazer, me vi segurando a taça de leite entre os dedos com força e me abaixando atrás da bancada enquanto os dois atravessavam a sala.
Por um instante, fez-se silêncio. E então o barulho suave de suspiros abafados tremulou pelos ares, fazendo meus lábios se contraírem involuntariamente em desagrado.
Céus. Essa era mesmo uma ótima forma de começar meu segundo dia em Wellspring.
Apoiei a taça com cuidado no chão de madeira e tentei levantar sem fazer barulho. A ponta dos meus pés fez um ruído irritante contra o piso e eu quase soltei uma gargalhada, mas coloquei as mãos em minha boca antes que qualquer exaltação subisse pela minha garganta.
Eram quatro horas da tarde e eu estava levemente tonta. Porque mesmo eu havia adicionado rum à minha taça de leite? Ah, a beleza doentia de um coração sôfrego.
Tentei ser cuidadosa ao espiar por cima da bancada. Tinha certeza que, se eu estivesse olhando de fora, a cena seria digna de um daqueles filmes clichês de comédia romântica; meus cabelos, minha testa e meus olhos surgindo, gradualmente, por trás da bancada, enquanto uma música pop genérica e meio irônica preencheria o cenário. Algo como Lily Allen ou Kate Nash.
Do meu ponto estratégico, tudo o que eu podia ver era um emaranhado de pernas e braços deitados no sofá.
E a porta. Bem no meio do caminho entre a cozinha e o adorável casal.
Eu conseguiria sair sem ser percebida. Certo?
Olhei para baixo, apenas para constatar o óbvio: eu vestia uma camisola de cetim cor-de-rosa, macias pantufas de pelúcia lilás e um robe branco com direito a plumas nas mangas e tudo.
Mordi o lábio ao considerar as possibilidades e… Ah, quem se importa? Eu realmente preferia sair na rua de pijama do que ouvir transando.
Não me atrevi a pensar mais uma vez. No instante seguinte eu havia apanhado o meu celular da bancada, batido a porta atrás de mim e minhas pernas se moviam energicamente escadas abaixo enquanto uma risada divertida explodia de meus pulmões.
Ah, isso nunca teria acontecido em Nova York.
Quando o vento gelado tocou meu rosto e a placa azulada da modesta cafeteria brilhou diante do meu nariz eu soube que era ali onde eu me abrigaria pelas próximas horas. Então eu abri as portas e o cheiro de açúcar cristalizado e café fez minha barriga roncar.
É, eu devia estar com fome. Tanta fome que quase não percebi os olhares críticos em direção à minha roupa quando parei em frente à uma generosa vitrine de pães e doces que pareciam reluzir. Céus, eu poderia comer quatro potinhos de pudim de banana e uma rosquinha caramelizada de laranja facilmente.
  — Em que posso ajudar, Elle Woods?
Uma voz estridente chamou minha atenção para o topo da vitrine, onde um par de olhos acinzentados me encaravam com curiosidade.
A mulher levantou as sobrancelhas, como se esperasse uma resposta.
Ela tinha as pontas dos cabelos curtos pintadas de azul e vestia uma camisa flanelada xadrez da mesma cor. Segurava uma caneta em uma mão e a mantinha a outra apoiada em sua barriga, redonda e sobressalente, bem abaixo do avental branco.
— Obrigada, Juno, mas ainda estou escolhendo o que quero — coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e cruzei os braços ao dar um pequeno sorriso.
Droga. Às vezes eu não controlava minha língua.
Achei que a garota faria uma careta, ou até devolveria outra resposta engraçadinha.
Mas, para minha surpresa, os cantos de seus lábios se curvaram para cima em um sorriso divertido.
— Esse foi, provavelmente, o apelido mais maneiro que já me deram — ela agitou as mão enquanto me fazia rir da sua escolha de palavras — Eu sou a Avery. Nunca te vi por aqui.
Espiei o crachá preso em sua camisa, com o nome Avery Brown rabiscado em tinta preta. Ela devia ter, no máximo, vinte e oito anos. Seu rosto tinha traços arredondados e o cabelo colorido deixava seu visual bem… maneiro. É, ela era maneira mesmo ostentando uma barriga de prováveis cinco meses de gravidez.
— o sorriso sincero que ela abrira refletiu em meu rosto — Eu acabei de me mudar.
?
As sobrancelhas de Avery se encontraram no meio da testa.
E então eu reprimi uma risada.
Céus, eu já estava imaginando onde aquilo iria chegar.
— Você deve conhecer o meu irmão… — seu semblante receoso deu lugar a um sorriso de canto diante das minhas palavras.
Um sorriso que eu havia visto a minha vida inteira.
Ela, com certeza, tinha uma queda pelo meu irmão.
— Eu não sabia que tinha uma…
? — a voz de Avery foi interrompida pelo meu nome em um que parecia conhecido. Me virei nos calcanhares apenas para encontrar me encarando de cima a baixo. Ele vestia uma camisa jeans que ressaltava a cor de seus olhos e seus lábios estavam comprimidos em uma linha, como se estivesse se segurando para fazer algum comentário.
era o tipo de cara que exalava tranquilidade. Eu podia imaginá-lo em um sábado à tarde em Bournemouth, com uma prancha de surf debaixo do braço, os cabelos cacheados com as pontas douradas queimadas pelo sol e sorrisos brilhantes lançados na direção de todas as turistas da estância. Ele tinha essa vibe. Olhá-lo era ter a certeza de que apenas acontecimentos alegres e tranquilos estavam se aproximando no horizonte.
! — soltei um pequeno guinchado animado antes de me virar para Avery e cochichar pela última vez: — Ainda precisamos continuar esse assunto, certo?
— Porque você está… — entortou os lábios mais uma vez ao analisar minha escolha de roupas.
— Por favor, não faça nenhum comentário.
Seus ombros tremeram ao abafar uma risada.
— Eu não ia — ele murmurou e estendeu os dedos para alcançar um saquinho de papel branco que Avery havia acabado de colocar no balcão — Pensei em levar um café para você. Achei que estaria com fome.
Olhei para minha barriga como se eu fosse uma criança de oito anos depois de uma tarde inteira na piscina e senti meu esago dançar.
, você acaba de se tornar o meu preferido. Sério, gosto mais de você do que de ! — gesticulei exageradamente antes de ar o pacotinho de suas mãos — Mas vamos ter que procurar uma mesa. O apartamento meio que tá ocupado.
? — ele ergueu uma sobrancelha ao indagar e eu tentei fazer com que meu rosto não demonstrasse uma óbvia careta.
Ah. Então aquilo era comum.
Minha língua estava prestes a bater em meus dentes quando uma voz carregada de entusiasmo flutuou atrás de mim.
É ela?
Pisquei os cílios para antes de me virar nos calcanhares. Um garoto me encarava com um sorriso contornado por covinhas e cabelos dourados cobrindo seus olhos cor de mel. E ele tinha o sorriso mais sincero que eu havia visto na vida, transbordando felicidade para as marquinhas que se formavam no canto de seus olhos.
— É uma ótima maneira de se apresentar para alguém, passou por mim e deu um soco amigável no ombro do garoto — , esse é o último elo da banda, .
Uma risada tremeu meus lábios. Último elo da banda? Quem falava assim?
— Espera aí. Você também mora com a gente? — sibilei, um tanto mortificada com a ideia de dividir o apartamento com mais um garoto.
— Nem pensar. Pra falar a verdade, estou até com pena de você, passou o braço pelos meus ombros ao me guiar para uma mesa ao lado da vitrine da cafeteria — Não sei como vai sobreviver morando com esses dois crápulas.
mora com a namorada. Ele e Sage meio que estão casados desde que nasceram — colocou a mão ao lado da boca, como se estivesse me contando um segredo.
— Uau. Quer dizer que ainda existem casais assim?
— Somos uma bela exceção — estufou o peito, fazendo rolar os olhos enquanto afastava uma mecha de cabelos do rosto.
— Ah, parece que alguém se acha o máximo! — cruzei os braços ao me apoiar na madeira escura da mesa redonda — A grande pergunta é: quando vou ver vocês no palco?
— Você já tem planos para sábado?
— Parece que agora eu tenho — sorri ao abrir o pacotinho que havia colocado em minhas mãos alguns minutos atrás.
— Isso é ótimo. Sage sempre reclama sobre ficar sozinha — ele fez um biquinho adorável, como se estivesse lembrando da namorada, solitária na platéia.
Dei uma mordida no que parecia ser um croissant de queijo e branco e geléia de framboesa e, minha nossa! Aquilo era o paraíso. Três semanas e eu estaria saindo dali com um cartão fidelidade.
— Ela não gosta muito da ideia de se tornando um astro do rock. Mesmo que estejamos longe disso — explicou, com um quê de provocação.
— Eu faço sucesso com as garotas. É isso que ele quis dizer — gesticulou como se estivesse falando uma verdade incontestável.
Dei uma gargalhada sincera. É, ele realmente se achava o máximo.
— Está tudo bem? — a pergunta baixinha veio de , após alguns segundos de silêncio quando se distraiu no celular.
Apertei os olhos, tentando entender porque ele estava sussurrando ao engolir mais um pedaço daquela iguaria francesa. E então lembrei que ele também estava na sala no dia anterior.
— Eu meio que não respondo essas perguntas — levantei os ombros — São sinceras demais.
— Dizer se está tudo bem? — pude ver o princípio de um sorriso se formando em seus lábios. Talvez pensasse que eu estava brincando.
— É. Gosto de sinceridade, e a resposta sincera é sempre complicada demais. Não vale a pena abrir essa porta.
me encarou por alguns segundos. Eu quase podia ver as engrenagens funcionando em sua cabeça, ponderando se me contrariaria ou entraria no meu jogo.
— Certo — disse, finalmente, ao endireitar a postura na cadeira — Prometo não perguntar se está bem novamente.
Ofereci um sorriso. É, era mesmo melhor assim.
— Você é ótimo, . Fico feliz em saber que nem todos os amigos de são babacas — cantarolei e, pela expressão divertida em seu rosto, tinha certeza de que ele sabia sobre quem eu estava falando — Obrigada mesmo pelo café e pela companhia. Agora, acho que preciso de ar fresco.
Levantei da mesa em meio a um aceno de cabeça e, mesmo sabendo que tentara dizer algo, não detive meus passos até alcançar a porta. Eu realmente precisava de ar fresco; e, por hora, da solidão que o acompanharia.
Quando o vento fez cócegas em minhas bochechas e um punhado de folhas farfalhou bem embaixo dos meus pés, uma sensação estranha navegou pela minha barriga até a ponta dos meus dedos. O tipo de sensação que antecipava as casualidades nocentes que a vida, vez ou outra, insistia em oferecer.
Mas intuição era apenas o tipo de bobagem quimérica à qual eu não me permitia dar ouvidos — ou, ao menos, era isso que eu me esforçava para acreditar.
Nos primeiros passos para um destino conhecido, me peguei pensando sobre como eu descreveria Wellspring para minha mãe. Eu sabia o que ela pensava sobre trocar um futuro seguro e irretocável por uma vida de incertezas; ainda assim, ela não era do tipo que externava desgostos. Era uma posição de privilégio, eu bem sabia — mas nunca havia me faltado gratidão para o acaso de realidade ao qual eu havia sido designada.
Meu pai era um pouco mais difícil. Mas, na casa dos , Ethan nunca discordava de Lily.
A vizinhança de Green Heaven parecia uma vila fictícia em um livro de fantasia. Uma estrada estreita serpenteava entre casas de telhados pontiagudos, amontoadas como se se protegessem do que houvesse além. Entre elas, vez ou outra, eu encontrava algumas mercearias de produtos orgânicos com letreiros desbotados, uma loja de discos que parecia não pertencer àquele tempo e uma sorveteria meio cafona com um ar oitentista. Do outro lado da estrada, uma vastidão de árvores se derramava por sobre a grama alta, engolindo tudo até morrer nas sombras das montanhas ao longe.
De dia, a vista era linda. Mas eu sabia que bastaria a luz sumir para que aquela floresta ganhasse ares de um segredo antigo e sombrio demais — como a antecipação de um sussurro prestes a ser ouvido.
Era irônico pensar que e haviam escolhido tentar iniciar a vida no lugar mais carente de vitalidade que eu podia imaginar.
Pelos minutos seguintes meus pés se agitaram veementemente pela estrada, guiados apenas pela esperança de que o movimento silenciasse o que gritava por dentro. A cidade foi se apagando ao meu redor. E, depois disso, só neblina. Como se minha mente tivesse borrado, de propósito, o intervalo entre o que doía e o que veio depois.


O menino de cabelos pretos e maçãs do rosto proeminentes deu um beijo em minhas bochechas antes de se afastar. Ele tinha cheiro de sabonete de erva-doce e loção pós-barba.
Qual era mesmo seu nome? Cameron? Cooper? Tinha certeza que era alguma coisa com C.
Ele havia sentado ao meu lado no estacionamento vazio e contado sobre a última briga que teve com o namorado. Eu ofereci um gole do meu limoncello engarrafado e algum conselho sobre corações partidos que ouvi na terceira temporada de Sex And The City.
Me peguei sorrindo sozinha enquanto encarava meus pés. Era aquela a parte boa de chegar em uma nova cidade: tudo era novidade. As pessoas. Os lugares. Os sorrisos. Os sentidos.
As ruas calmas haviam me guiado para uma ponte. Ela devia ter a altura de um prédio de três ou quatro andares e a estrutura cinza metálica e absurdamente imponente quase não brilhava diante do céu escuro da noite.
Não havia nada perto dali; apenas uma loja de conveniência minúscula acoplada àquele estacionamento escuro. Era estranhamente pacífico. E estranhamente incômodo.
Balancei os dedos dos meus pés dentro das pantufas. Minha mente estava ligeiramente nublada; como se os pensamentos estivessem anuviados, fazendo meu corpo esquecer de sua própria existência, absolutamente perdido em um estado prolongado de quase-sonolência, vagando no tempo e nos pensamentos que ousavam atravessar minha consciência.
Como você veio parar aqui?
Coloquei a mão nos lábios para reprimir um pequeno grito de susto subindo pela minha garganta e, quando meus olhos voaram das plumas lilases em meus pés para o garoto à minha frente, o sobressalto se transformou em surpresa. se inclinava em minha direção, os braços cruzados no peito e a habitual expressão tediosa em seu rosto.
Meu cérebro fez cosquinhas em minha nuca, como se eu tentasse lembrar de alguma coisa e não conseguisse entender exatamente o que.
— Como você veio parar aqui? — rebati, soando mais insolente do que eu pretendia.
Ele deu uma breve risada e chutou uma pedrinha imaginária com o Vans preto antes de soltar um suspiro pesaroso. E então franziu o cenho ao examinar meu pijama de cima a baixo, em um olhar crítico que fazia eu me sentir como um ramo de alfazemas no meio de uma plantação de camélias. E eu fiz questão de devolver o mesmo olhar para o mole preto e a bermuda jeans de barra desfiada que ele parecia ter roubado de um adolescente de quinze anos.
— Você me ligou — ele se abaixou, flexionando os joelhos até ficar com o rosto na altura do meu — Aliás, nos falamos mais em cinco dias do que nos últimos cinco anos. E, nas duas vezes que o meu telefone tocou, era para eu te salvar de alguma coisa. Pelo menos hoje você não estava chorando — cerrou brevemente os olhos , que haviam adotado um mais escuro durante a noite — Olha, eu sei que você tá acostumada a fazer qualquer tipo de merda e tudo acabar bem, mas as coisas não funcionam assim por aqui.
Fiz um biquinho e inclinei a cabeça para o lado, tentando decidir se aquilo era um aviso amigável para me manter longe de problemas ou se ele estava apenas sendo um idiota.
Vindo de , a segunda opção era a mais provável.
— Ah, nem pense em começar com essa merda de meu mundo, seu mundo. Você é literalmente a última pessoa que pode me dar esse tipo de sermão — rolei os olhos enquanto apoiava a garrafa de vidro no chão e tentava me colocar em pé, um tanto cambaleante — E, se sou um estorvo tão grande, porque veio?
Seus lábios se curvaram brevemente para cima daquele jeito tão sagaz que chegava a ser irritante.
— Não se preocupe, é a última vez.
Fiquei encarando seu rosto por alguns segundos e um cenário turvo começou a se formar no fundo de minha mente. Eu lembrava de e . Lembrava de ter saído da cafeteria e andando por alguns minutos até encontrar uma adega no meio do caminho. Lembrava de ter andado mais um pouco, dessa vez com uma garrafa de vinho branco nas mãos. Lembrava de pensar em Jake. E então uma loja de conveniência, onde uma garota de cabelos pintados de carmesim fez alguma piada sobre um pacote de camisinhas. As garrafas de limoncello. Um estacionamento vazio. O anel de brilhantes preso em meu dedo. O nó em minha garganta. As lágrimas em meus olhos. O nome de brilhando no meu celular. E os lapsos de tempo, onde tudo o que eu via era um borrão de cenas e sonidos desconexos.
Eu havia mesmo ligado para ele?
Pisquei algumas vezes, deixando a lembrança confusa para trás enquanto voltava para a realidade. E a realidade era intacta retina: os olhos , tão profundos quanto o oceano, brilhando em dúvida e curiosidade ao me encarar como se eu fosse um quebra-cabeças em que as bordas não se encaixavam.
Tenho certeza que ele se perguntava o que eu estava pensando.
? — chamei baixando, ensaiando um de voz que fingia redenção.
O músculo em sua mandíbula se retesou e eu pude ver a paciência se esvaindo de seu corpo.
?
— Não nos falamos há seis anos, não cinco — parei por um instante, apenas para abrir um pequeno sorriso — E eu odeio você.
Ele soltou uma risada contida ao balançar a cabeça negativamente.
— Eu também não te acho a pessoa mais agradável do mundo. Agora que resolvemos isso, podemos ir pra casa? — ele apontou por cima dos ombros, onde a lataria de uma caminhonete preta tentava reluzir timidamente em meio à escuridão.
Mordi minhas bochechas. dirigindo uma caminhonete? Ah meu deus. Eu só podia estar em algum tipo de devaneio ou universo paralelo. Preparei um comentário engraçadinho, mas o capturei antes que escorregasse pela minha língua; podia até ser a última vez, mas, ainda assim, ele estava ali.
Ajeitei o cetim amassado em meus quadris e caminhei em direção ao carro, me concentrando para não tropeçar nas pantufas. Já não me sentia tonta, mas meu corpo estava ligeiramente mole. Estava alcançando a porta quando senti a mão de encostar em meu ombro.
— Obrigada, mas eu realmente consigo andar sozinha — murmurei, me encolhendo instintivamente para desviar de seu toque.
— Você está indo para o lado errado.
Parei de andar subitamente sob o entediante da sua voz. Olhei para ele. Olhei para o carro. E para ele de novo. E então soltei um grunhido frustrado.
Argh. A maldita mão inglesa.
— Vocês são estranhos.
Apressei o passo para dar a volta no carro e, quando abri a porta e me ajeitei no banco do passageiro, um embolado de tecido preto caiu no meu colo. Demorei alguns segundos para entender que aquilo era o mole que estava usando. Estreitei as sobrancelhas e olhei para ele, que colocava a chave na ignição e ajeitava o banco como se estivesse absolutamente sozinho ali.
Eu estava com frio? Olhei para os meus braços descobertos e minha pele estava toda arrepiada. O mais estranho era que eu tinha certeza que havia saído de casa com um robe de mangas compridas, mas tudo o que cobria meu corpo era uma camisola de alcinhas.
Minha mente, às vezes, me pregava peças como essa; havia uma coisa sobre a qual eu queria esquecer e, como se não conseguisse distinguir o útil do desagradável, tudo se emaranhava de uma só vez e as lembranças se tornavam um caleidoscópio frenético e incerto, cheio de falhas e imprecisões.
O motor do carro roncou enquanto eu vestia o agasalho, e, no instante seguinte, desejei não ter feito aquilo. O cheiro de invadiu minha vias respiratórias de uma só vez e inundou meus pulmões, me deixando levemente inebriada. Merda de Santal 33.
E não era só o casaco. Em um segundo de consciência, percebi que o carro inteiro tinha o cheiro de .
Me vi repentinamente agoniada, como se eu pudesse sentir cada áo do seu aroma impregnando a minha pele. E então me apressei em apertar o botão para abrir a janela ao meu lado. Um pouco de vento ia melhorar tudo; a intensidade do seu perfume e o derrame cerebral que eu parecia estar tendo. Respirei fundo e, por alguns minutos, apenas observei a cidade passando rápido diante dos meus olhos. O silêncio ou conta de nós dois e a tranquilidade das ruas no meio da madrugada, de alguma forma, se tornou reconfortante.
E eu devia ter passado o restante do caminho admirando a cidade, mas, antes que eu pudesse pensar duas vezes, me peguei virando na direção de . Meus olhos caíram em seu braço, apoiado no encosto entre nós dois, e eu não pude deixar de esboçar um sorriso.
— Ei! — encostei meus dedos em sua pele e os deslizei pelos desenhos coloridos — Você não tinha essas tatuagens antes.
Haviam galáxias, universos, planetas, flores e microfones mesclados em uma arte perfeitamente desenhada; ao mesmo tempo sombria e cheia de vida.
Um sorriso estúrdio se formou em seu rosto e ele puxou o braço para si, deixando meus dedos pairando no ar.
— Não gostou?
Meus dentes arranharam meus lábios inconscientemente enquanto o observava.
Aquilo me parecia uma pergunta retórica. podia vestir sacos de batata sujos de graxa e continuaria irretocável. Ele era lindo. Lindo do tipo mais bonito do que os homens das propagandas de Dior Homme.
Era sempre assim quando eu estava perto de . Ele me deixava nervosa e eu mal conseguia prestar atenção nos detalhes — mas, conforme o tempo ia passando, eu me lembrava de como lidar com ele e os pormenores se tornavam lentamente mais claros.
— Gostei. Elas combinam com você.
O canto dos seus olhos me alcançaram com aquele ar convencido que eu já tão bem conhecia.
— Então porque está fazendo essa cara? — ele soou provocante, com um sorriso pretensioso desenhando seus lábios.
— Você está dirigindo — apontei para a rua à nossa frente com os olhos — Não devia estar olhando para a minha cara.
Ele bateu os dedos no volante quando algo parecido com uma risada tentou de sua garganta.
— Está pronta para conversar comigo?
Ah, ótimo. Porque aquela carona não podia ficar pior.
— Desculpe, mas o que estávamos fazendo até agora? — mordi o lábio, um tanto nervosa por estar em um carro em movimento e não ter exatamente como sair correndo.

Fiz uma careta. Ele devia estar falando sério. nunca me chamava de . Nem quando estava puto.
— Estou bêbada, . Você não quer conversar comigo desse jeito.
— Talvez seja melhor assim — ele levantou a sobrancelha ao direcionar o olhar para mim — Quem sabe você não me diz a verdade.
Soltei um suspiro consternado. Eu não estava bêbada. O limoncello tinha evaporado completamente do meu sangue no instante em que havia entrado naquele carro, mas achei que meu argumento ia funcionar.
— Não sei porque está insistindo nisso. Você literalmente estava na sala quando contei tudo o que aconteceu para o e…
— Você não está falando a verdade — ele me interrompeu, o sorriso espero puxando os lábios para cima.
… — rolei os olhos, esperando que ele percebesse a inutilidade daquela conversa para ele. E daí se eu não estava contando a história toda?
— Seus lábios não combinam com seus olhos quando você está mentindo e você começa a piscar demais. É como se seu corpo estivesse rejeitando a ideia de ser algo além de sincera. Você faz isso desde pequena. Sério, é adorável.
Mas que merda era aquela?
Eu odiava quando ele tentava me lembrar que me conhecia bem; principalmente porque não era verdade. Haviam mais de dez anos de distância entre a garota que ele conhecia e a mulher que estava sentada ao lado dele.
— Para o carro — soltei um grunhido quase ininteligível.
— O que?
— Para o carro. Não vou fazer isso com você olhando para a estrada e nem olhando pra mim enquanto dirige. Não quero morrer. Não com você, não essa noite. Então, para o carro.
O pneu clamou contra o chão quando virou a caminhonete para a direita da forma mais rápida e desajeitada possível, parando em um meio-fio bem frente a uma daquelas lojas de incenso e artesanato com placas de neon demais na vitrine. desligou o motor e imediatamente sacou um maço de Parliament do bolso da calça de sarja preta. Ele segurou um cigarro entre os dedos adornados por um par de anéis dourados e o colocou entre os lábios.
Torci o nariz enquanto virava meu corpo em sua direção. E então tirei o cigarro de sua boca, jogando-o no lixinho de couro pendente da marcha. Ele olhou para mim com o cenho franzido. E então soltou uma pequena risada incrédula antes de pegar outro cigarro no maço e colocar na boca novamente.
E eu o tirei e joguei no lixo mais uma vez.
— Para com isso, é nojento — fiz uma careta, por mais que eu não achasse realmente nojento. Era apenas preocupação consternada saindo da forma mais banal possível.
Ele virou brevemente o rosto, cravando o olhar em mim sem esboçar qualquer expressão. E sacou mais um cigarro do maço, colocando-o novamente em seus lábios. Sem tremer os olhos; como se estivesse me desafiando. Mas, dessa vez, quando levantei meus dedos para tirá-lo, sua mão me parou no meio do caminho.
— Eu posso fazer isso a noite toda. Sério — seus dedos seguraram os meus firmemente e ele me afastou, guiando minha mão até o meu colo com tanta certeza que não fui capaz de contrapor.
Movi minimamente os lábios, mas o olhar resoluto cravado em mim me fez parar. Então fiquei apenas o observando enquanto ele tirava um isqueiro preto metálico da porta do carro e acendia o branquinho.
— Você sabia que existe um site pornô apenas para fumantes? Quer dizer, eles literalmente fumam enquanto fodem. Boys Smoking ou algo do tipo — apontei para ele com o queixo — Aposto que um vídeo seu faria sucesso.
Ele deu uma tragada e a fumaça deixou seus lábios junto a uma risada.
— Não sei se estou fascinado ou intrigado por você saber disso. E esse é seu jeito de dizer que fico sexy com um cigarro na boca?
Inclinei a cabeça enquanto o observava. É, provavelmente era por isso que minha mente tinha seguindo esse caminho. Mas é claro que eu não diria pra ele.
— Pensando bem, o que acha de fumar dois ao mesmo tempo? Não seria o fim do mundo você morrer mais cedo — dei um sorrisinho amarelo, tentando convencer a mim mesma que não estava imaginando ele em um daqueles vídeos que eu e Hazel assistíamos juntas no dormitório do primeiro ano de faculdade. Eu podia até ver o título. Rockstar gostoso fuma enquanto goza no banco do carro.
?
Sua voz me trouxe de volta à realidade. Ah, meu Deus. Será que fiquei muito tempo o encarando? Aposto que minhas bochechas estavam vermelhas.
Balancei a cabeça, tentando organizar meus pensamentos. Os olhos de sobre mim me deixavam ainda mais agitada. Sem saber escolher ao certo quais palavras para começar, apenas levantei a mão direita em frente ao seu rosto, onde um anel de brilhantes colossal reluzia entre os nós avermelhados dos meus dedos.
A exaltação fora quase imperceptível, mas tenho certeza de que um lampejo de desespero passou pelos seus olhos. As íris faiscaram entre meu rosto e minha mão pelo que pareceu uma eternidade. A expressão, antes relaxada pelo alívio da nicotina, parecia rija. Quase feroz. Ele apagou o branquinho no próprio isqueiro e virou o corpo em minha direção.
— Você está… — a voz de saiu em um fio.
— Não! Céus, não! — o interrompi ao trazer a mão de volta para o meu colo — Jake me pediu em casamento. E eu não aceitei. Eu… — soltei um suspiro, sem saber ao certo como continuar — Eu não sirvo pra isso, . Jake era absolutamente perfeito — senti as lágrimas se formarem e me apressei a fugir do olhar do garoto à minha frente — Passei quase dois anos com ele e não sei se o amava. Eu sentia que o enganava todos os dias. Eu… Eu não sei o que é isso. Não sei se sou boa o suficiente pra sentir esse alvoroço no peito em que as pessoas colocaram um nome fantasioso.
Eu sabia… no fundo, eu sabia que o problema sempre fora aquele: eu me apaixonava facilmente pelas pessoas à minha volta, mas nunca me permitia amá-las. Também fazia com que se apaixonassem por mim com frequência — e então via, um a um, todos transformarem aquele sentimento em amor. O problema era que, para mim, aquilo era o começo e o final de tudo.
Os olhos de cintilavam ao observar meu rosto com atenção. Sua testa estava franzida e eu quase sentia o desalento emanando de seu peito.
, você é… — ele soprou, mas eu balancei a cabeça antes que continuasse.
— Não. Não precisa me consolar com amenidades — apertei os olhos em uma tentativa inútil de não deixar as lágrimas escorregarem por minhas bochechas — Talvez o problema nem seja Jake ou buraco oco em meu peito. Talvez Jake só tenha me dado um pretexto para algo que eu já devia ter feito faz tempo. Quer dizer, você lembra como era? — levantei o olhar em sua direção — Todos os eventos sociais em que você sorrir e exibir seu novo colar de pérolas ou as abotoaduras de ouro monogramadas, mesmo que sentisse sua vida desmoronando? Ou o fato de parecer que haviam planejado seu futuro inteiro pra você?
meneou a cabeça lentamente, parecendo estar distante dali.
— Pensei que você gostasse disso.
Soltei uma risada cínica.
— Era pra ser assim, não? Devo mesmo estar quebrada — senti o nó adormecido em minha garganta começar a apertar — Foi na noite após o baile anual de debutantes. E eu pensei em aceitar. Por um segundo. Foi o tempo que eu levei para perceber que dizer sim era o mesmo que me ver presa naquele salão pro resto da vida. E então eu parti o coração dele — a lágrima que eu havia segurado escorreu solitária pelo meu rosto — Três dias depois eu te liguei. Você e já tinham deixado aquilo tudo pra trás e eu pensei que vocês iriam entender. Você conhece meus pais, é claro que eles foram contra daquele jeito meio silencioso. Mamãe sempre planejou meu casamento com alguém como Jake desde que eu tinha dez anos. Não parece uma merda arcaica? Tipo casamento arranjado? Mas no final isso era mesmo algo que eu precisava fazer sozinha. Então eu penhorei minhas argolas de ouro branco preferidas para vir até aqui sem precisar usar o dinheiro do papai.
Um sorriso singelo se formou no rosto antes angustiado de e a diversão cintilou em seus olhos .
— E quem te deu as argolas? — ele sussurrou ao se inclinar em minha direção.
Meu pai. Droga.
— Porque você faz isso? Você gosta de me ver infeliz? Meu sofrimento te diverte? — soltei um gritinho frustrado — Quer saber? Eu espero que os dois lados do seu travesseiro estejam quentes essa noite.
soltou uma gargalhada e eu não pude conter um sorriso. Aquela risada me lançava diretamente para as lembranças dos meus onze anos, onde a vida era mais simples e assuntos do coração não eram tão complicados assim.
Nossos olhares se encontraram e ficamos apenas ali, nos encarando, por alguns instantes. E então a atenção de flutuou para o brilhante em meu dedo anelar. A pele ao redor do anel estava completamente avermelhada e sensível. Eu havia mesmo tentado tirá-lo até machucar meus dedos. — Escuta, … — ele se inclinou em minha direção e passou a língua nos lábios. E então houve um breve momento de hesitação — É melhor irmos pra casa.
Uma risada sem humor ressoou em meu peito.
Balancei a cabeça em concordância. Eu tinha certeza de que não era isso o que ele queria dizer. Tinha certeza que ele sabia que ainda haviam mais capítulos não contados sobre aquela história. E também tinha certeza de que ele tinha alguma opinião formada e ocultada sobre aquilo tudo — mas acho que era assim mesmo. Manter a distância era profilático.
E eu sabia pois fazia exatamente o mesmo.
Ajeitei meu corpo no banco, avisando que estava pronta para irmos embora.
— Certo. Agora podemos falar sobre o fato de você dirigir uma caminhonete? — dei um tapinha no porta-luvas — Você usava camiseta polo e calça de linho e agora tem uma caminhonete?
— Aposto que você passou o caminho querendo dizer isso.
Levantei os ombros. É, eu passei.
— Eu não…
— Odeio tirar a piada dos seus lábios, mas a caminhonete é do seu irmão.
Fiz uma careta. Primeiro, porque odiava nada. Ele se divertia.
E, segundo…. dirigindo uma caminhonete? Aquilo parecia ainda mais absurdo.
— Posso perguntar uma coisa?
— Eu tenho escolha?
— Não — sorri — Vocês têm milhares de discos de vinil espalhados pela casa. Onde está a vitrola?
— No andar de cima.
— Espera aí — levantei a mão — A gente tem dois andares e eu estou naquele quarto menor do que um armário de vassouras?
— Não — ele soltou uma risada, ajeitando o carro na pista com tranquilidade — No telhado. É onde a gente ensaia.
Assenti com a cabeça, mesmo sem entender exatamente como aquilo funcionava. Parecia meio inseguro.
— Outra pergunta.
— Manda.
— Ouvi dizer que você tem um banheiro no seu quarto… — pisquei os cílios inocentemente — Eu posso usar?
A verdade é que eu tinha ouvido o barulho de água corrente retinindo de lá na última noite.
me olhou por alguns segundos em completo silêncio.
— Não.
— Você é mesmo insuportável — rolei os olhos ao cruzar os braços, tentando me convencer que dividir o banheiro com dois garotos não era muito pior do que dividir com um enquanto amaldiçoava o sorriso presunçoso naquele rostinho bonito.
— E você é mesmo péssima em disfarçar que adora isso.
Correção. Dividir o banheiro com dez garotos era infinitamente melhor do que dividir o ar da rua com .


Continua...



Nota da autora: escrevi grande parte desse capítulo ao som de imgonnagetyouback e ele tem essa exata sonoridade pra mim!!!!! espero que estejam gostando da forma que tudo tá tomando e curtindo esses personagens tanto quanto eu ♡ tô doidinha pra retratar os quatro como banda em breve.
beijinhos e nos vemos no próximo capítulo!




Longfics:
Shades Of Cool | Restritas – Originais – Finalizadas

Shortfics:
Chaos Theory | Restritas — Originais — Shortfic
Once Upon a Time In… Hollywood | Atores — Shortfic

Ficstapes:
09. Broken Parts | Ficstape #180: The Maine — You Are Ok
08. Something About You | Ficstape #194: McFly — The Lost Songs
05. my tears ricochet | Ficstape #227: Taylor Swift — folklore
08. Paper Rings | Ficstape #182: Taylor Swift — Lover
08. In My Feelings | Ficstape #186: Lana Del Rey — Lust For Life
04. Brooklyn Baby | Ficstape 187: Lana Del Rey — Ultraviolence
13. i love you | Ficstape #195: Billie Eilish — When We All Fall Asleep, Where Do We Go?


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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