The Night Shift
Última atualização: 12/07/2018
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Prólogo

Afeganistão, 2006.
Era muito calor, o sol com certeza batia mais de quarenta graus na sombra, e lá estavam os três médicos, que haviam desistido de trabalhar em clínicas e hospitais particulares, para servirem o seu país na guerra. Uma guerra que havia sido iniciada alguns anos antes por causa de um maluco que resolveu jogar aviões em prédios, nos Estados Unidos.
Os três soldados corriam pelo sol escaldante até uma casa. Talvez aquele fosse o esconderijo de um dos chefes daquela célula terrorista, e se estivessem certos, um tiro certeiro e os três iriam se tornar heróis nacionais.
- , dá cobertura pela esquerda – dava as ordens aos seus parceiros – Thomas, vai pela porta de trás. Prestem atenção no rádio, é por onde darei as ordens. Se algo der errado, entre atirando.
e Thomas , irmão mais novo de , seguiram as instruções e nas suas posições, aguardavam as ordens do mais velho da equipe. , sem cautela alguma, empunhou seu fuzil em posição de ataque e chutou a porta da frente, encontrando, no meio da sala, um garoto. Não devia ter mais de quinze anos, com uma arma semelhante à dele na mão, o olhando assustado. recuou. Talvez ele estava lá como prisioneiro, aquela arma havia sido colocada ao seu lado com algum propósito. simplesmente não podia atirar em uma criança!
Ele ouviu pelo rádio seu companheiro e irmão fazendo perguntas, mas nada de respostas. Não demorou muito, a porta de trás foi aberta em um solavanco, revelando Thomas, do outro lado da sala.
- Thomas! – gritou.
A criança de quinze anos pegou a arma, rolou no chão e simplesmente soltou o dedo no gatilho do fuzil, atingindo todo o corpo de Thomas.
- Thomas! – gritou mais uma vez, agora, de desespero.
No mesmo instante, uma granada explodiu dentro da casa, jogando móveis, vidros e pessoas, o mais longe possível.
levou a mão à costela, onde sentia sangrar. Thomas estava morto. Ele não tinha notícias de . Se saísse vivo daquilo, iria pedir baixa do exército. estava decidido a voltar a atuar em segurança. Em campos de batalha onde ele definia as leis.


Capítulo 01

Estados Unidos, 2008.
acordou naquela manhã com a cabeça estourando, devido às bebidas que ela havia ingerido na noite anterior. Ela resmungou algumas palavras e afundou novamente a cabeça no travesseiro. Ela é uma psiquiatra, que cuidava da cabeça de depressivos a assassinos em série, não podia simplesmente colocar todo álcool no sangue, enlouquecer e achar que aquilo ficaria bem.
- Ser uma das psiquiatras mais procuradas do Texas e ficar bêbada, isso devia ser proibido – falou consigo mesma – Não, proibido devia ser a reclamar que eu já fiz mais horas que o permitido na semana e me obrigar a tirar a noite de folga.
Ela tateou a mesa de cabeceira e chegou na gaveta da mesma, onde haviam diversos tipos de remédios por lá. Ela levantou a cabeça, achou um comprimido para a dor e ingeriu sem a ajuda de água para passar pela garganta.
concluiu que ainda tinham doze horas até o seu plantão, e aquele teria que ser o tempo suficiente para a ressaca passar e mostrar-se apresentável não só à sua amiga e chefe, mas também para alguns possíveis pacientes: alguns pais que perderam seus filhos e não estão sabendo lidar com a perda, ou algum louco que entrou atirando em uma festa e foi derrubado pela polícia. Era os Estados Unidos, qualquer coisa poderia acontecer.
A menina então rolou na cama e sentiu um ar frio. Estava descoberta e então se descobriu sem roupa. Foi então que ela percebeu o chuveiro aberto dentro de seu banheiro. Maldita bebida. Havia prometido diversas vezes para si mesma que não iria levar mais ninguém para sua casa, que suas noites casuais seriam na casa de estranhos ou até mesmo motéis, mas não na sua casa.
Ela ouviu o chuveiro ser desligado e então se enrolou novamente no lençol. Não é como se aquele estranho nunca tivesse visto nada daquilo, mas ela não tinha ideia do nome daquela pessoa. Ou de seu rosto.
Não demorou muito para que a porta abrisse e de lá, enrolado em uma toalha, saísse um homem alto, moreno, com o cabelo na altura da orelha, barba e olhos escuros. Nada mau, Dra. .
- Bom dia! – ele falou e ela sorriu, mas sem mostrar os dentes.
- Bom dia.
- Eu precisei usar a toalha que estava pendurada no banheiro, espero que não se importe.
- Não, nem um pouco.
- Tudo bem – ele então andava pelo quarto buscando suas roupas da noite anterior – Eu vou me trocar e já vou.
- É, eu preciso trabalhar também – Mentira, mas aquele clima estava completamente estranho – Tem um quarto ali no fim do corredor – apontou – Eu vou tomar banho.
- Certo. Foi um prazer te conhecer.
- Eu que o diga – sorriu e o homem saiu do quarto.
Ela pulou da cama e foi para o banheiro, abrindo o chuveiro. Tomaria banho e voltaria para a cama, a fim de melhorar da ressaca. E esperava ter o plantão mais sossegado do ano, ela precisava desabafar com .
Ela então lembrou do homem que saiu apenas de toalha do seu banheiro alguns instantes atrás. Se ninguém a aplaudia por ter levado um homem daquele para sua casa, bem, ela aplaudiria para si mesma.

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O relógio marcava sete horas da noite. O turno da noite estava começando. Os atendentes de plantão começavam as suas rondas para saber como seus pacientes mais recentes estavam lidando com o pós-operatório. Outros entravam dentro dos quartos dando boas notícias, e os liberando para irem para suas casas. Alguns outros saíam das salas de cirurgia jogando suas máscaras longe, irritados. Talvez não tiveram sorte no procedimento.
- Olha se não é a nossa cirurgiã geral e chefe, Dra. ouviu uma voz conhecida, assim que parou no balcão principal do hospital.
A mulher alta olhou para o lado e riu, quando viu sua amiga, Dra. , psiquiatra do hospital, lendo alguns prontuários.
- Boa noite para você também, assinou um prontuário e devolveu à enfermeira. Ela se aproximou da amiga – Preparada?
- Pra quê? – virou de frente para a chefe, e amiga, de olhos arregalados – Por acaso hoje é algum dia especial e eu não sei?
jogou a cabeça para trás com a falta de conhecimento da amiga.
- Sabe, ler os e-mails informativos que eu envio semanalmente pelo mailing do hospital, não iria te matar.
- Vão todos direto para a lixeira – confessou e riu ao ver a amiga rolar os olhos – É o aniversário do James? – a chefe ficou confusa – Meu Deus, é o seu aniversário e eu não te comprei nem um cartão.
- Quê? Não! – exclamou e pegou a amiga pelo braço, enquanto as duas caminhavam em direção à sala da cirurgiã geral – Hoje chegam os novos membros da nossa equipe de emergência. O neuro e o cardiologista.
- Certo – olhou para a amiga e então pareceu que seu cérebro deu um estalo – Os malucos que se ferraram na guerra e agora querem voltar à vida normal!
- Às vezes eu me pergunto como foi que te contrataram e você virou a psiquiatra mais procurada do Texas, se não do país.
- Nós fizemos residência juntas, querida – lembrou – A diferença é que você caiu nas graças do antigo chefe que antes de se aposentar, indicou você como sucessora para o cargo dele – as duas chegaram ao elevador, apertou o botão e cruzou os braços, virando para a amiga – De qualquer forma, nunca que eu gostaria de ser chefe de cirurgia. Eu não teria tempo para dormir no plantão.
- Você o quê? – ficou indignada e riu da amiga. Ambas entraram no elevador, que começou a subir para o andar em que fica a sala da chefe – Os doutores e são médicos formados que decidiram servir o país na guerra do Afeganistão e hoje, sofrem de estresse pós-traumático. Principalmente o Dr. , que viu o irmão ser morto – arregalou os olhos – E logo depois disso uma granada explodiu perto deles. Os dois passaram algum tempo se recuperando fisicamente e mentalmente. Hoje eles até que estão bem – concordou com a amiga – Mas eles vão precisar de acompanhamento com você.
- Tá, e como isso vai ser?
- Eles vão trabalhar normalmente, e você vai abrir sua agenda para sessões com eles, como pacientes, duas vezes na semana. Não é difícil, considerando que você dorme em plantões, não é mesmo?
- ! – recriminou a amiga, que gargalhou – O que eu posso fazer se eu não sou chamada?
- Dormir, com toda certeza do mundo, e não tirando apêndice ou hérnia por aí!
O elevador chegou ao andar indicado e as duas foram andando até à sala de , quando a mesma recebeu uma mensagem e deu alguns pulinhos de alegria.
- Eles já estão na minha sala e... Cadê o Dr. James? Ele é residente, mas também integra essa equipe.
- Deus sabe do Bradley, deve estar tirando martelo do meio da testa de alguém.
- Provavelmente – chegou na porta da sua sala e abriu a mesma, encontrando dois homens sentados nas cadeiras em frente à sua mesa – Doutores! – ela exclamou e os dois se viraram.
Os dois homens se levantaram e viraram para as duas mulheres. sentiu as pernas vacilarem e um calor súbito. Os dois eram maravilhosos, fisicamente, mesmo embaixo do uniforme azul.
- , esse é o Doutor , nosso novo neurologista – o homem de cabelo mais curto, barba, bigode, olhos escuros, um nariz um pouco grande, e um sorriso torto, estendeu o braço a cumprimentando – E esse, nosso cardiologista, Doutor .
sorriu amarelo para o homem à sua frente. Naquele momento estava prometendo para si mesma que nunca mais iria beber até apagar pois, se ela não estivesse louca, aquele homem que agora iria trabalhar com ela, e ser seu paciente psiquiátrico, era o mesmo homem que saiu enrolado na toalha de seu banheiro naquela manhã.
- Rapazes, essa é a Dra. , ela é a nossa psiquiatra, e além de ser da nossa equipe, ela quem irá acompanhar vocês no tratamento de estresse pós-traumático.
se apoiou na amiga enquanto concordava com a cabeça a cada palavra que ela dizia. tinha um sorriso um tanto sacana no rosto, já que a surpresa havia passado. Tinha chego em San Antonio há dois dias, foi para um bar na noite anterior, conheceu uma garota incrível e hoje ela era sua psiquiatra e colega de trabalho. Ter ido para a guerra pode até ter sido uma experiência terrível para ele, mas dificilmente teria parado naquele hospital, se nunca tivesse se alistado.
- Muito prazer – a menina conseguiu falar e então virou-se para a amiga – , uma palavrinha ali fora, por favor?
- Claro – ela sorriu para a amiga e em seguida para os dois homens à sua sala – Com licença, doutores.
fechou a porta assim que as duas saíram e se escorou na parede, sentindo uma súbita falta de ar. olhou assustada para a amiga.
- Eu vou chamar ajuda – e ameaçou abrir a porta.
- Não! – pegou no braço da Dra. – Eu estou bem, é sério! – levantou o rosto e fez um coque em seu cabelo – Qual é a política de relacionamentos nesse hospital? Existe alguma regra de não confraternização entre os funcionários?
- Não, e você também não vai pegar nenhum deles. Eu sei, eu também quebrei a perna quando os vi, mas somos uma equipe e você mais ainda, é psiquiatra deles, você não vai se trancar no quarto dos plantonistas com um deles... Ou com os dois!
- Essa manhã o Dr. saiu do meu banheiro enrolado em uma toalha.
- Não! – gritou e levou uma mão à boca – Não, não e não! Você não entende em quantas diversas formas isso é errado e pior, antiético! – suspirou para a amiga – Eu não posso ter uma psiquiatra tendo relações amorosas com um paciente.
- , foi só sexo.
- Que se dane! Você não pode confraternizar com os seus pacientes. Você é a melhor psiquiatra do estado! As pessoas vêm de todo canto do país para ter acompanhamento psiquiátrico com você! Ai meu Deus – andava de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos de seu jaleco branco – Do jeito que começou, essa relação de vocês, já acabou. Entendeu? Acabou! – então parou a sua andança – Eu te dei folga, para você ir para casa e não enlouquecer depois de um assassino em série dar entrada no hospital, e você foi...
- Para um bar – a olhou em tom de culpa – Eu estava precisando extravasar na bebida, e então o Dr. me ofereceu uma bebida, e eu acabei não negando, e eu juro que só lembro dele saindo do banheiro essa manhã.
- Que bom. A gente vai fingir que isso nunca aconteceu, tudo bem? Você vai voltar para a sala, vamos conversar e pelo bem da medicina, e dos nossos novos médicos, a noite anterior, nunca existiu.
- Não é como se eu lembrasse muito mesmo – falou rolando os olhos.
- Ótimo! Está melhor, podemos voltar lá para dentro? – concordou – Perfeito! – abriu a porta novamente e já foi falando – Desculpem Drs., mas vocês entendem, psiquiatra, ela já fez uma análise rápida de vocês, como pacientes.
Foi então que ela percebeu que os médicos estavam em outras posições. estava sentado em uma cadeira, com o braço apoiado no encosto e sorrindo, enquanto estava no sofá que a chefe tem em sua sala, apoiado em seus joelhos enquanto gargalhava.
- Eu posso saber qual é a graça? – a chefe perguntou, esperando algum tipo de resposta, mas continuava sorrindo e gargalhando – O que aconteceu? – ela falou em um tom um pouco mais firme e então os dois olharam para ela.
- Eu não fiz nada – levantou as duas mãos em defesa – Seu novo neurocirurgião que tem algum problema e começou rir à toa.
- Eu? – se defendeu, mas ainda rindo – A Dra. enrijeceu e arregalou os olhos ao ouvir seu nome – Quase ficou sem pressão quando viu a gente, saiu correndo da sala, e você me fala que vocês se pegaram a noite passada – agora foi a vez de arregalar os olhos – Eu já amo San Antonio e esse hospital.
- É bom que ame mesmo, pois as principais ocorrências do Texas vem para cá e nossa equipe é altamente preparada para receber qualquer tipo de emergência. Aqui não tem nenhuma piada. O encontro deles foi casual, aconteceu e já acabou. Relacionamentos entre psiquiatras e seus pacientes são estritamente proibido e a Dra. sabe disso, inclusive, ela tem a plena consciência de que se soubesse que o Dr. fosse seu futuro paciente, essa relação não teria acontecido. Ela já acabou.
- Como assim “já acabou”? – o Dr. falou, demonstrando surpreso.
- Acabou! – elevou o tom de voz e os dois homens na sala ficaram calados – Eu posso ser amiga de vocês, mas eu também posso fazer as noites de vocês um inferno, é só decidirem.
Quando a Dra. acabou seu discurso, ela ouviu algumas palmas e ao olhar para trás, encontrou apoiada na porta a aplaudindo. Ela ergueu a sobrancelha e franziu as sobrancelhas, não entendendo a atitude da amiga.
- É por isso que quando o ex-chefe se aposentou, indicou o seu nome na reunião do conselho e diretoria do hospital. Ainda bem que eu sou a sua amiga desde que somos internas.
- Você é ridícula – ela então se virou para os outros dois homens – Alguma dúvida?
- Eu tenho – o neurocirurgião levantou a mão e ela respirou fundo e contou até o número mais alto que conseguia naquela fração de segundo. Ela murmurou, dando a entender que era para ele continuar – Você falou que é proibida a relação entre a Dra. , psiquiatra, e os pacientes, isso inclui o Dr. , vai me incluir – concordou – Mas e de funcionários com funcionários? Que são apenas colegas de trabalho, isso também é proibido? Quer dizer... Se a gente passa doze horas aqui dentro, e o resto do dia em casa descansando, concorda que é aqui que nós vamos conhecer alguém?
sentiu vontade de massagear as têmporas e demitir instantaneamente aqueles dois médicos. Não podia acreditar que eles foram soldados. Estavam mais para crianças.
- Não, Dr. , não é proibida a relação entre os funcionários.
- Ótimo! – ele sorriu e a chefe quase sentiu as pernas vacilarem. Quase.
Então a porta da sala da chefe foi aberta novamente e então revelou o membro final daquela equipe de cinco pessoas. Alto, bonito, loiro e de olhos azuis, o Dr. Bradley James era o único residente entre aqueles atendentes.
- Dr. James, onde você estava?
- Um martelo na cabeça, estava acompanhando a cirurgia.
- Eu disse – sussurrou e sorriu.
- Dr. Bradley, esses são os dois novos médicos da nossa equipe, Dr. , neurocirurgião e Dr. , cardiologista. Rapazes, esse é o nosso residente em traumas e meu mascotinho preferido – se apoiou no ombro do residente que rolou os olhos – Desculpa, Dr. James – ela se recompôs e pôs-se em posição ereta novamente – Mas particularmente, é o melhor residente da turma dele, e é por isso que eu roubei pra mim.
- Vocês estavam na guerra, não estavam? – Bradley comentou e e arregalaram os olhos. Ele ainda era um estudante, não estava totalmente polido para o atendimento sozinho. E talvez nem para falar com alguns atendentes – Vocês viram alguma bomba explodir?
abaixou a cabeça e naquele momento, queria mandar o residente para a clínica e tirar todas as verrugas possíveis de todas os glúteos das idosas que lá estavam reclamando. Mas ele caiu nas graças da chefe, é o mascotinho dela, e um dos poucos residentes plantonistas na emergência.
No mesmo instante, o pager de apitou e ela deu graças a Deus por ter sido salva pelo gongo, apesar dos dois homens estarem sorrindo. Ela deveria ter tido a mesma conversa que teve com , algum tempo antes, com Bradley.
- É isso, emergência, é hora de vocês dois me mostrarem porque vocês foram altamente recomendados e contratados por esse hospital – os cinco foram saindo da sala da chefe andando com pressa – Acidente de carro, uma mulher grávida de 25 anos estava sem cinto e voou pelo para-brisas. Vamos salvar essa mulher e essa criança!
Bradley saiu correndo para chamar o elevador, enquanto diminuiu o passo, abrindo uma porta, que era da sala dos plantonistas.
- Você não vem? – o Dr. perguntou a ela que deu de ombros.
- Não, eu não lido com pessoas ensanguentadas e morrendo. Depois que vocês fazem o seu trabalho e dão o veredito final, seja lá qual for, eu entro em ação – então o elevador apitou indicando que havia chego ao andar – Bem-vindos ao turno da noite.


Capítulo 02

Duas semanas se passaram desde a apresentação dos novos médicos à equipe e não tinha conseguido pegar nenhum deles para iniciar suas sessões de terapia. Era psiquiatra e se fosse necessário, iria receitar alguns remédios antidepressivos para os homens, mas ouvi-los, conseguir entender a cabeça deles e tudo o que passaram no Afeganistão, era o primeiro passo para curar eles do estresse pós-traumático.
Era quase meia-noite quando a médica passou pela recepção do pronto socorro e encontrou os dois médicos apoiados, finalizando alguns prontuários enquanto jogavam conversa fora. Aquela noite estava calma, mas era sábado, e sabia que em umas duas ou três horas, os primeiros loucos das baladas iriam pegar seus carros e jogá-los em postes.
Um pouco afastada, ela observou os dois homens que não haviam percebido a presença dela por lá. Eles estavam usando os tradicionais aventais amarelos da emergência, provavelmente tinham finalizado algum caso, e até naquela roupa estranha, os dois estavam bonitos. Claro, estavam se mostrando capacitados e se já não fossem, com eles o hospital com certeza viraria referência. Porém se fossem incapazes, ao menos eram alguns colírios para seus olhos. Pena que também eram seus pacientes. Ou ao menos ela estava tentando transformá-los nisso, visto que ambos fugiam dela.
Sorrateiramente, se aproximou dos dois e limpou a garganta, chamando a atenção, informando que estava por ali.
- Boa noite, Dra. falou e continuou escrevendo – Noite fraca essa, não?
- Pois é. Não tivemos nenhuma morte, nenhum louco, não precisei controlar nenhum pai, realmente, é uma noite fraca. Tão bom receber um dos mais altos salários do hospital e não fazer nada.
O Dr. assinou e fechou o prontuário e virou-se para ela.
- Você não pode receber o salário mais alto do hospital. Existe neurocirurgião e cardiologistas. Sua especialidade não está acima da deles.
- A diferença é que vocês precisam abrir o corpo de alguém para enxergar o problema. Eu ganho para entender a doença do paciente, somente com as palavras. Eu sei, é difícil aceitar a realidade e a inveja – ela sorriu – Mas vamos ao que interessa, quem vai?
- Quem vai pra onde?
- Para a primeira sessão comigo. Não sei se vocês lembram, mas existe uma cláusula nos seus contratos que obriga acompanhamento psiquiátrico para EPT.
- Eu não li isso – levou a mão ao queixo como se estivesse pensando e deu de ombros.
- Eu também não leio os boletins semanais que a envia para os nossos e-mails – ela sorriu – Mas olha só, que bom que o plano de saúde de vocês cobre sessões psiquiátricas com a melhor do estado... Eu! – ela se vangloriou – Então, quem vai primeiro?
- ... Quer dizer, Dra. – o cardiologista corrigiu – Já fazem dois anos que voltamos do Afeganistão. Nós já tivemos acompanhamento, já resolvemos todos os nossos problemas. Você pode simplesmente assinar alta para gente e nós pulamos essa parte.
- Uma coisa é vocês tirarem férias compulsórias por dois anos para se tratarem. Outra coisa é vocês voltarem à ativa e verem estragos em pessoas semelhantes aos que vocês viam na guerra. Dr. – ela virou para ele – Não me leve a mal, mas você viu o seu irmão ser atingido na guerra. Isso com certeza não é algo fácil e que você vai superar com facilidade.
- Dra. , nós realmente estamos bem – falou e a mulher rolou os olhos.
- Não estão.
No momento da discussão, a chefe de cirurgia e daquela equipe passava pela recepção e se aproximou deles. Sem ela perceber, o Dr. analisou a cirurgiã geral que vinha com um sorriso no rosto e as mãos no bolso do seu jaleco branco. Ele levou a mão ao pescoço e também sorriu, mas dessa vez, para o chão.
- O que está acontecendo aqui? – ela perguntou para os três médicos à sua frente.
- Estou tentando levar um deles para sua primeira sessão comigo, e nenhum aceita que eles têm um problema que precisa ser tratado.
- Como assim não aceitam? Ou vocês vão, ou eu suspendo os dois de cirurgia por pelo menos uma semana – ela sorriu – E então, como é que vai ser? Suspensão, ou sessões de terapia?
- Dra. , nós realmente não precisamos – o Dr. falou para a chefe em um tom de voz calmo, achando que aquilo iria convencê-la.
- Negação é o primeiro sintoma para aceitar a doença! – gritou e não só os três olharam assustados para ela, como alguns enfermeiros e funcionários do hospital que passavam por ali.
Então olhou novamente para a chefe de cirurgia e fechou seu prontuário.
- Tá bom, eu aceito ser o primeiro.
- Finalmente! – a médica bufou e virou de costas – Por favor, siga até a minha sala, Dr. – e saiu andando.
- Ela tem uma sala? – o Dr. perguntou assim que viu o amigo acompanhando a psiquiatra da equipe.
- Bom... – ainda estava com as mãos dentro do bolso do jaleco e deu de ombros – Ela é a melhor psiquiatra do estado, se não do país... Não é à toa que ela tem a própria sala e um dos mais altos salários do hospital – então a médica virou para a enfermeira que estava atrás do balcão – Eu vou descansar um pouco, me chame se aparecer um caso que necessite de mim.
E após a confirmação da enfermeira, a Dra. saiu do pronto socorro indo em direção à sua sala deixando um Dr. atordoado com as informações que tinha acabado de receber.

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Assim que entraram na sala da Dra. , ela apontou o sofá para que o Dr. ficasse confortável e foi até uma mesa, onde pegava uma prancheta, com algumas folhas e caneta. Ela então foi até a sua poltrona e encontrou o médico à sua frente já confortável no sofá, com a perna cruzada e um braço estendido pelo móvel.
- Então Dr. , eu posso ler aqui nos seus registros que você se formou médico, atuou por um tempo na área e de repente resolveu se alistar no exército, servir o seu país e ir para a guerra – ele concordou – O que te motivou a simplesmente deixar sua vida para trás e ir para o Afeganistão?
- Bom, eu e o somos amigos de infância – ela concordou – E a minha vida estava um tanto monótona. Ele então decidiu se alistar ao exército, pois estava cansado da situação em que estava. Ele tinha um bom trabalho, mas sempre foi altruísta e queria ajudar as pessoas que mais precisavam. Do dia pra noite se juntou ao exército e foi à minha casa me informar. Eu achei aquilo absurdo até o momento que recebi a notícia de que a minha noiva tinha acabado de ter um acidente e sofrido morte cerebral – ele riu – É, irônico a noiva de um neurocirurgião ter morte cerebral, mas eu não fui chamado e só fui informado depois.
- Eu sinto muito – a médica falou.
- Não sinta, foi até bom – ele continuou e arregalou os olhos – No velório dela apareceu quatro outros noivos dela, então saímos de lá e fomos os cinco babacas beber no bar próximo ao cemitério. De qualquer forma, aquilo fez com que eu pensasse na minha vida e eu decidi que eu queria algo diferente, foi onde eu me juntei ao e ao Thomas no exército.
- Thomas é...
- O irmão do respirou fundo e rabiscou algumas palavras em seus papéis – Apesar de sermos médicos, nós recebemos treinamento de guerra, para caso acontecesse alguma coisa, termos como nos defender e se necessário, atacar o nosso inimigo. Um dia a nossa base foi atacada. Nós três conseguimos escapar. Pegamos algumas armas e rádios, pois foi tudo o que conseguimos encontrar, um carro e simplesmente saímos. Até o momento em que chegamos ao que parecia ser o esconderijo do chefe de uma célula terrorista, motivo de estarmos lá.
- Okay, estou acompanhando o seu raciocínio, pode continuar.
- sempre teve espírito de liderança, então rapidamente ele armou um plano para capturarmos o cara, chamar reforços e virmos para casa como heróis. Estávamos a pouco tempo de ver pouco mais que areia às nossas frentes. Ele demorou para dar o sinal de ataque pois viu um adolescente armado. O adolescente estava plantado naquele esconderijo, e assim que Thomas entrou pela parte de trás, ele se virou e descarregou o fuzil no mini . Eu não vi ele morrendo, mas de repente próximo de nós, uma granada foi estourada e nós simplesmente fomos jogados para longe. Eu lembro de acordar em meio à areia e poeira, com o corpo machucado, e querer ir embora o mais rápido possível.
- E quando você voltou, como isso afetou a sua vida?
- Além de eu ter recebido com festa pela minha família por estar vivo? Ser recebido pela mãe do em abraços, mas com o filho mais novo dela em um caixão de madeira para ser enterrado? A minha vida continuou ao normal. Dra. , acredite em mim quando eu falo que eu realmente não fui afetado pela guerra. Passou. Eu não vou subir no heliponto para receber um paciente, olhar para um helicóptero e entrar em pânico achando que aquilo é o inimigo jogando bomba ou atirando na minha base. Eu estou bem.
- Quando você me diz que está bem, Dr. , eu realmente quero acreditar. Eu olho para você e vejo que você está bem, fisicamente, todo mundo está. Sua cabeça pode te dizer que está bem, mas o meu conhecimento sabe que estresse pós-traumático pode levar anos para ser curado. Você não está bem e eu quero ajudar.
- Dra. , você é muito amiga da Dra. , não é?
levantou a cabeça para olhar o médico à sua frente e teria erguido apenas uma sobrancelha, se conseguisse. Ao invés disso, ela franziu os olhos e negou com a cabeça.
- Esquece, não é porque você me contou parte da sua história no Oriente Médio que eu vou conversar com ela e pedir autorização para você ter alta das sessões de psiquiatria.
- Na verdade não era isso que eu ia pedir para você, mas já que você se adiantou, é uma pena – ele coçou uma orelha e então apoiou os cotovelos nos dois joelhos – Já que vocês são amigas, você podia talvez, sei lá... Conseguir o telefone dela para mim – e sorriu.
olhou incrédula para o colega e médico à sua frente. Ela jogou a caneta que estava em sua mão em que levou as mãos ao rosto, se defendendo.
- Sua maluca!
- Eu não sou cupido, eu sou psiquiatra – ela esbravejou com ele – E você não está aqui para me fazer de cupido. Eu estou tentando te ajudar, e não te arrumar um relacionamento!
- Mas olha pelo lado bom... Se você me conseguir o telefone dela, você está me ajudando, com toda certeza do mundo – ele viu ela respirando fundo – Qual é, ? – ele sorriu – É um bem que você vai estar fazendo para mim e para ela.
- , me faz um favor? – ela se levantou e estendeu a mão em direção à porta – Sai da minha sala! Agora!
O neurocirurgião se levantou e sorriu para ela.
- Isso por acaso quer dizer que eu estou recebendo alta? – ele arriscou.
- Não! – gritou – Isso quer dizer que você acabou de perder meu tempo porque essa sessão foi anulada! Agora sai antes que eu fale para ela te suspender de cirurgias!
- Não sabia que você era tão má assim, foi mal... – ele foi andando em direção à porta – Desculpa aí.
- E não comente nossa sessão com ninguém, não é ético, e temos o termo de confiabilidade entre médico e paciente.
- Mas você acabou de falar que ela foi anulada.
- Sai daqui agora, ! – ela gritou pela última vez e o médico saiu correndo de sua sala.
foi até seu sofá e deitou nele, levando a mão à testa. Ela era jovem, promissora, inteligente, diplomada e doutora por duas das melhores universidades do país, e então seu paciente resolve que ela também pode ser cupido. A mulher olhou para a janela do seu consultório onde seus diplomas de escolas da Ivy League estavam expostos. Cupido... Era só o que faltava para ela.

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saiu do consultório da Dra. um pouco atônito. Ele tinha se aberto com a psicóloga, falou um pouco da guerra para, quem sabe, conseguir o telefone da chefe e cirurgiã geral, mas o tiro saiu pela culatra e a psiquiatra simplesmente o expulsou da sua sala. Em partes tinha sido engraçado, claro, mas ele queria o telefone da chefe de alguma forma. Perguntando para ela não era a solução, talvez entrando no sistema do hospital, mas aquilo não era certo. Ele deu de ombros e ia em direção ao quarto dos plantonistas. Se e Bradley podiam, ele também iria aproveitar aquela madrugada calma no hospital para tirar um cochilo.
Enquanto esperava o elevador, para ir até o andar em que ficava o quarto, ele observou algumas pessoas dando entrada no hospital. Nada grave. Algumas febres, espirros, até alguns membros quebrados, mas nada que precisasse de um neurocirurgião. Então o barulho do elevador indicando que tinha chego ao andar o despertou e ele foi entrando no mesmo, sem perceber que até então, alguém estava saindo.
- ! – o alertou, chamando sua atenção – Está com a cabeça na lua?
- Oi, , eu... – ele procurava algumas palavras, mas não estava conseguindo até então, formar uma frase na frente da chefe – O quarto dos plantonistas.
- Fica lá em cima – ela apontou com o dedo e observou o homem confuso – , você está perdido?
- Quem está perdido? – ele perguntou e a olhou de lado – Eu não estou perdido, eu estava indo tirar um cochilo.
- Agora? – a mulher perguntou rindo e saiu do elevador pegando no braço dele, levando-o de volta ao pronto socorro – Quanto mais tarde fica, maiores são as chances de alguém entrar sem vida nesse hospital e sabe o que eu gosto, ? – ela perguntou, mas não deu a chance dele responder – Quando a minha equipe traz o paciente de volta da morte – ela respirou fundo, como se estivesse sentindo um cheiro muito bom – É uma sensação mais gostosa do que comida de vó no fogão.
- Comida de vó... – ele deu um sorriso besta e logo se recompôs – Trazer paciente de volta da morte e não declarar morte cerebral, certo, conte comigo.
- Por isso eu te contratei, – ela sorriu – Agora vai pegar um avental amarelo e se prepara... A noite é uma criança!
deu um semi sorriso por causa do seu neurocirurgião e deu meia volta, indo até a sala de sua amiga. Não tinham nenhum paciente, e se a amiga não estivesse atendendo , após liberar , ela poderia sentar um pouco no sofá de e elas conversarem um pouco.
Ao chegar até a sala da amiga, a porta estava fechada, mas ao olhar pela persiana, pôde ver deitada no sofá mexendo no celular. Ela então voltou à porta, deu duas batidas e entrou, antes mesmo de ser convidada. A Dra. olhou para a amiga já fechando a porta e caminhando até a ponta do sofá onde estavam seus pés e se sentando, colocando os membros inferiores dela em seu colo.
- Achei que você estaria dormindo.
- Não consegui. Fiquei com medo de pegar no sono pesado, chegar alguma emergência e não acordar com a mensagem. Afinal, é sábado.
- Sábados são perigosos.
concordou com um murmúrio e viu que continuava a mexer no celular. Ela deu um tapa de leve nas pernas da amiga e puxou assunto.
- Finalmente conseguiu trazer um deles para a terapia, hein? – a chefe riu – Como foi com o ? Ele estava um pouco atordoado ali no corredor.
- Ah, ele estava atordoado? – bloqueou o celular e sentou-se cruzando as pernas – Conte mais sobre isso.
- Eu estava chegando na emergência depois de não conseguir dormir, e quando o elevador abriu, ele foi entrando sem nem ver que eu estava saindo. Aí eu tentei puxar assunto com ele, falar de como as noites de sábado são importantes e tudo mais e ele dava umas respostas desconexas. Não entendi nada. Ele deve ter se aberto sobre a guerra e ter sido difícil, não? Não me fala! – a chefe pulou no sofá – É antiético, mas eu realmente acho que deve ser complicado falar sobre isso. Com o vai ser pior.
- Ele queria o seu telefone.
- Não fala! – gritou e então se deu conta do que a amiga falou – Espera, ele queria o quê? Meu telefone?
- Lembra de todo aquele teatrinho lá embaixo, com ele e o falando que não precisavam, e o por algum motivo simplesmente aceitou vir de bom grado? No fundo ele só queria o seu telefone. E me irritar, é óbvio.
- E você não passou por quê? – choramingou para que a olhava assustada – Eu estou solteira há um tempo, e apesar dele ser meu subordinado, fala sério, aquele homem não é para se jogar fora, vai?
- Porque eu não sou cupido! – apontou para a parede onde estavam os seus diplomas – E porque ele tem estresse pós-traumático, ele precisa se curar antes de ter um relacionamento com alguém, principalmente se for com a minha melhor amiga.
- Mas...
- E é antiético! – gritou da mesma forma que havia gritado mais cedo com o neurocirurgião – Se eu não posso continuar transando com o cardiologista gostoso, você também não pode pegar neurologista gostoso.
- Mas você só não pode ter relações com o porque ele é seu paciente psiquiátrico. O não é meu paciente.
- Ele é seu empregado e subordinado. Então não pode.
formou um bico com os lábios e negou com a cabeça, indicando que ela não poderia fazer nada em respeito àquilo e desbloqueou novamente o celular, prestando atenção novamente no aparelho.
- Eu achei que você era minha amiga – ela fez chantagem.
- Eu também, mas vimos que só uma quer o seu bem – olhou fixamente para a tela – Não se mexe agora, tem um Vaporeon no seu colo.
- Tem um quê? – olhou para suas pernas e viu que não tem nada.
- Peguei! – comemorou e então encontrou a amiga assustada – Pokémon GO! Acabei de pegar um dos mais raros.
- Essa é a psiquiatra da minha equipe, senhoras e senhores – então o pager de tocou anunciando uma nova emergência e ela leu rapidamente.
- Vamos! – ela pulou do sofá e foi puxando a amiga.
- Epa! Eu só chego depois do apito final!
- Uma criança acabou de chegar com morte cerebral. Possível doadora de órgãos.
- Ai puta merda – e então as duas saíram correndo o mais rápido possível da sala da psiquiatra para a emergência.




Continua...



Nota da autora: Oi pessoal, tudo bem? Desculpem a demora na atualização de The Night Shift. De repente fiquei um pouco atolada na vida, passou um furação (bom) e me tirou dos eixos, mas aos poucos estou me encontrando e voltando ao normal.
A história tem poucos capítulos (cinco), mas não se acostumem, as coisas não costumam ser tão calmas assim no San Antonio Memorial.
Até a próxima! Beijos!






Nota da beta: Socorro, que neurocirurgião engraçadinho 😂. Estou amando cada pedacinho dessa estória, Lih.

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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