The Night Shift
Última atualização: 10/11/2018
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Prólogo

Afeganistão, 2006.
Era muito calor, o sol com certeza batia mais de quarenta graus na sombra, e lá estavam os três médicos, que haviam desistido de trabalhar em clínicas e hospitais particulares, para servirem o seu país na guerra. Uma guerra que havia sido iniciada alguns anos antes por causa de um maluco que resolveu jogar aviões em prédios, nos Estados Unidos.
Os três soldados corriam pelo sol escaldante até uma casa. Talvez aquele fosse o esconderijo de um dos chefes daquela célula terrorista, e se estivessem certos, um tiro certeiro e os três iriam se tornar heróis nacionais.
- , dá cobertura pela esquerda – dava as ordens aos seus parceiros – Thomas, vai pela porta de trás. Prestem atenção no rádio, é por onde darei as ordens. Se algo der errado, entre atirando.
e Thomas , irmão mais novo de , seguiram as instruções e nas suas posições, aguardavam as ordens do mais velho da equipe. , sem cautela alguma, empunhou seu fuzil em posição de ataque e chutou a porta da frente, encontrando, no meio da sala, um garoto. Não devia ter mais de quinze anos, com uma arma semelhante à dele na mão, o olhando assustado. recuou. Talvez ele estava lá como prisioneiro, aquela arma havia sido colocada ao seu lado com algum propósito. simplesmente não podia atirar em uma criança!
Ele ouviu pelo rádio seu companheiro e irmão fazendo perguntas, mas nada de respostas. Não demorou muito, a porta de trás foi aberta em um solavanco, revelando Thomas, do outro lado da sala.
- Thomas! – gritou.
A criança de quinze anos pegou a arma, rolou no chão e simplesmente soltou o dedo no gatilho do fuzil, atingindo todo o corpo de Thomas.
- Thomas! – gritou mais uma vez, agora, de desespero.
No mesmo instante, uma granada explodiu dentro da casa, jogando móveis, vidros e pessoas, o mais longe possível.
levou a mão à costela, onde sentia sangrar. Thomas estava morto. Ele não tinha notícias de . Se saísse vivo daquilo, iria pedir baixa do exército. estava decidido a voltar a atuar em segurança. Em campos de batalha onde ele definia as leis.


Capítulo 01

Estados Unidos, 2008.
acordou naquela manhã com a cabeça estourando, devido às bebidas que ela havia ingerido na noite anterior. Ela resmungou algumas palavras e afundou novamente a cabeça no travesseiro. Ela é uma psiquiatra, que cuidava da cabeça de depressivos a assassinos em série, não podia simplesmente colocar todo álcool no sangue, enlouquecer e achar que aquilo ficaria bem.
- Ser uma das psiquiatras mais procuradas do Texas e ficar bêbada, isso devia ser proibido – falou consigo mesma – Não, proibido devia ser a reclamar que eu já fiz mais horas que o permitido na semana e me obrigar a tirar a noite de folga.
Ela tateou a mesa de cabeceira e chegou na gaveta da mesma, onde haviam diversos tipos de remédios por lá. Ela levantou a cabeça, achou um comprimido para a dor e ingeriu sem a ajuda de água para passar pela garganta.
concluiu que ainda tinham doze horas até o seu plantão, e aquele teria que ser o tempo suficiente para a ressaca passar e mostrar-se apresentável não só à sua amiga e chefe, mas também para alguns possíveis pacientes: alguns pais que perderam seus filhos e não estão sabendo lidar com a perda, ou algum louco que entrou atirando em uma festa e foi derrubado pela polícia. Era os Estados Unidos, qualquer coisa poderia acontecer.
A menina então rolou na cama e sentiu um ar frio. Estava descoberta e então se descobriu sem roupa. Foi então que ela percebeu o chuveiro aberto dentro de seu banheiro. Maldita bebida. Havia prometido diversas vezes para si mesma que não iria levar mais ninguém para sua casa, que suas noites casuais seriam na casa de estranhos ou até mesmo motéis, mas não na sua casa.
Ela ouviu o chuveiro ser desligado e então se enrolou novamente no lençol. Não é como se aquele estranho nunca tivesse visto nada daquilo, mas ela não tinha ideia do nome daquela pessoa. Ou de seu rosto.
Não demorou muito para que a porta abrisse e de lá, enrolado em uma toalha, saísse um homem alto, moreno, com o cabelo na altura da orelha, barba e olhos escuros. Nada mau, Dra. .
- Bom dia! – ele falou e ela sorriu, mas sem mostrar os dentes.
- Bom dia.
- Eu precisei usar a toalha que estava pendurada no banheiro, espero que não se importe.
- Não, nem um pouco.
- Tudo bem – ele então andava pelo quarto buscando suas roupas da noite anterior – Eu vou me trocar e já vou.
- É, eu preciso trabalhar também – Mentira, mas aquele clima estava completamente estranho – Tem um quarto ali no fim do corredor – apontou – Eu vou tomar banho.
- Certo. Foi um prazer te conhecer.
- Eu que o diga – sorriu e o homem saiu do quarto.
Ela pulou da cama e foi para o banheiro, abrindo o chuveiro. Tomaria banho e voltaria para a cama, a fim de melhorar da ressaca. E esperava ter o plantão mais sossegado do ano, ela precisava desabafar com .
Ela então lembrou do homem que saiu apenas de toalha do seu banheiro alguns instantes atrás. Se ninguém a aplaudia por ter levado um homem daquele para sua casa, bem, ela aplaudiria para si mesma.

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O relógio marcava sete horas da noite. O turno da noite estava começando. Os atendentes de plantão começavam as suas rondas para saber como seus pacientes mais recentes estavam lidando com o pós-operatório. Outros entravam dentro dos quartos dando boas notícias, e os liberando para irem para suas casas. Alguns outros saíam das salas de cirurgia jogando suas máscaras longe, irritados. Talvez não tiveram sorte no procedimento.
- Olha se não é a nossa cirurgiã geral e chefe, Dra. ouviu uma voz conhecida, assim que parou no balcão principal do hospital.
A mulher alta olhou para o lado e riu, quando viu sua amiga, Dra. , psiquiatra do hospital, lendo alguns prontuários.
- Boa noite para você também, assinou um prontuário e devolveu à enfermeira. Ela se aproximou da amiga – Preparada?
- Pra quê? – virou de frente para a chefe, e amiga, de olhos arregalados – Por acaso hoje é algum dia especial e eu não sei?
jogou a cabeça para trás com a falta de conhecimento da amiga.
- Sabe, ler os e-mails informativos que eu envio semanalmente pelo mailing do hospital, não iria te matar.
- Vão todos direto para a lixeira – confessou e riu ao ver a amiga rolar os olhos – É o aniversário do James? – a chefe ficou confusa – Meu Deus, é o seu aniversário e eu não te comprei nem um cartão.
- Quê? Não! – exclamou e pegou a amiga pelo braço, enquanto as duas caminhavam em direção à sala da cirurgiã geral – Hoje chegam os novos membros da nossa equipe de emergência. O neuro e o cardiologista.
- Certo – olhou para a amiga e então pareceu que seu cérebro deu um estalo – Os malucos que se ferraram na guerra e agora querem voltar à vida normal!
- Às vezes eu me pergunto como foi que te contrataram e você virou a psiquiatra mais procurada do Texas, se não do país.
- Nós fizemos residência juntas, querida – lembrou – A diferença é que você caiu nas graças do antigo chefe que antes de se aposentar, indicou você como sucessora para o cargo dele – as duas chegaram ao elevador, apertou o botão e cruzou os braços, virando para a amiga – De qualquer forma, nunca que eu gostaria de ser chefe de cirurgia. Eu não teria tempo para dormir no plantão.
- Você o quê? – ficou indignada e riu da amiga. Ambas entraram no elevador, que começou a subir para o andar em que fica a sala da chefe – Os doutores e são médicos formados que decidiram servir o país na guerra do Afeganistão e hoje, sofrem de estresse pós-traumático. Principalmente o Dr. , que viu o irmão ser morto – arregalou os olhos – E logo depois disso uma granada explodiu perto deles. Os dois passaram algum tempo se recuperando fisicamente e mentalmente. Hoje eles até que estão bem – concordou com a amiga – Mas eles vão precisar de acompanhamento com você.
- Tá, e como isso vai ser?
- Eles vão trabalhar normalmente, e você vai abrir sua agenda para sessões com eles, como pacientes, duas vezes na semana. Não é difícil, considerando que você dorme em plantões, não é mesmo?
- ! – recriminou a amiga, que gargalhou – O que eu posso fazer se eu não sou chamada?
- Dormir, com toda certeza do mundo, e não tirando apêndice ou hérnia por aí!
O elevador chegou ao andar indicado e as duas foram andando até à sala de , quando a mesma recebeu uma mensagem e deu alguns pulinhos de alegria.
- Eles já estão na minha sala e... Cadê o Dr. James? Ele é residente, mas também integra essa equipe.
- Deus sabe do Bradley, deve estar tirando martelo do meio da testa de alguém.
- Provavelmente – chegou na porta da sua sala e abriu a mesma, encontrando dois homens sentados nas cadeiras em frente à sua mesa – Doutores! – ela exclamou e os dois se viraram.
Os dois homens se levantaram e viraram para as duas mulheres. sentiu as pernas vacilarem e um calor súbito. Os dois eram maravilhosos, fisicamente, mesmo embaixo do uniforme azul.
- , esse é o Doutor , nosso novo neurologista – o homem de cabelo mais curto, barba, bigode, olhos escuros, um nariz um pouco grande, e um sorriso torto, estendeu o braço a cumprimentando – E esse, nosso cardiologista, Doutor .
sorriu amarelo para o homem à sua frente. Naquele momento estava prometendo para si mesma que nunca mais iria beber até apagar pois, se ela não estivesse louca, aquele homem que agora iria trabalhar com ela, e ser seu paciente psiquiátrico, era o mesmo homem que saiu enrolado na toalha de seu banheiro naquela manhã.
- Rapazes, essa é a Dra. , ela é a nossa psiquiatra, e além de ser da nossa equipe, ela quem irá acompanhar vocês no tratamento de estresse pós-traumático.
se apoiou na amiga enquanto concordava com a cabeça a cada palavra que ela dizia. tinha um sorriso um tanto sacana no rosto, já que a surpresa havia passado. Tinha chego em San Antonio há dois dias, foi para um bar na noite anterior, conheceu uma garota incrível e hoje ela era sua psiquiatra e colega de trabalho. Ter ido para a guerra pode até ter sido uma experiência terrível para ele, mas dificilmente teria parado naquele hospital, se nunca tivesse se alistado.
- Muito prazer – a menina conseguiu falar e então virou-se para a amiga – , uma palavrinha ali fora, por favor?
- Claro – ela sorriu para a amiga e em seguida para os dois homens à sua sala – Com licença, doutores.
fechou a porta assim que as duas saíram e se escorou na parede, sentindo uma súbita falta de ar. olhou assustada para a amiga.
- Eu vou chamar ajuda – e ameaçou abrir a porta.
- Não! – pegou no braço da Dra. – Eu estou bem, é sério! – levantou o rosto e fez um coque em seu cabelo – Qual é a política de relacionamentos nesse hospital? Existe alguma regra de não confraternização entre os funcionários?
- Não, e você também não vai pegar nenhum deles. Eu sei, eu também quebrei a perna quando os vi, mas somos uma equipe e você mais ainda, é psiquiatra deles, você não vai se trancar no quarto dos plantonistas com um deles... Ou com os dois!
- Essa manhã o Dr. saiu do meu banheiro enrolado em uma toalha.
- Não! – gritou e levou uma mão à boca – Não, não e não! Você não entende em quantas diversas formas isso é errado e pior, antiético! – suspirou para a amiga – Eu não posso ter uma psiquiatra tendo relações amorosas com um paciente.
- , foi só sexo.
- Que se dane! Você não pode confraternizar com os seus pacientes. Você é a melhor psiquiatra do estado! As pessoas vêm de todo canto do país para ter acompanhamento psiquiátrico com você! Ai meu Deus – andava de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos de seu jaleco branco – Do jeito que começou, essa relação de vocês, já acabou. Entendeu? Acabou! – então parou a sua andança – Eu te dei folga, para você ir para casa e não enlouquecer depois de um assassino em série dar entrada no hospital, e você foi...
- Para um bar – a olhou em tom de culpa – Eu estava precisando extravasar na bebida, e então o Dr. me ofereceu uma bebida, e eu acabei não negando, e eu juro que só lembro dele saindo do banheiro essa manhã.
- Que bom. A gente vai fingir que isso nunca aconteceu, tudo bem? Você vai voltar para a sala, vamos conversar e pelo bem da medicina, e dos nossos novos médicos, a noite anterior, nunca existiu.
- Não é como se eu lembrasse muito mesmo – falou rolando os olhos.
- Ótimo! Está melhor, podemos voltar lá para dentro? – concordou – Perfeito! – abriu a porta novamente e já foi falando – Desculpem Drs., mas vocês entendem, psiquiatra, ela já fez uma análise rápida de vocês, como pacientes.
Foi então que ela percebeu que os médicos estavam em outras posições. estava sentado em uma cadeira, com o braço apoiado no encosto e sorrindo, enquanto estava no sofá que a chefe tem em sua sala, apoiado em seus joelhos enquanto gargalhava.
- Eu posso saber qual é a graça? – a chefe perguntou, esperando algum tipo de resposta, mas continuava sorrindo e gargalhando – O que aconteceu? – ela falou em um tom um pouco mais firme e então os dois olharam para ela.
- Eu não fiz nada – levantou as duas mãos em defesa – Seu novo neurocirurgião que tem algum problema e começou rir à toa.
- Eu? – se defendeu, mas ainda rindo – A Dra. enrijeceu e arregalou os olhos ao ouvir seu nome – Quase ficou sem pressão quando viu a gente, saiu correndo da sala, e você me fala que vocês se pegaram a noite passada – agora foi a vez de arregalar os olhos – Eu já amo San Antonio e esse hospital.
- É bom que ame mesmo, pois as principais ocorrências do Texas vem para cá e nossa equipe é altamente preparada para receber qualquer tipo de emergência. Aqui não tem nenhuma piada. O encontro deles foi casual, aconteceu e já acabou. Relacionamentos entre psiquiatras e seus pacientes são estritamente proibido e a Dra. sabe disso, inclusive, ela tem a plena consciência de que se soubesse que o Dr. fosse seu futuro paciente, essa relação não teria acontecido. Ela já acabou.
- Como assim “já acabou”? – o Dr. falou, demonstrando surpreso.
- Acabou! – elevou o tom de voz e os dois homens na sala ficaram calados – Eu posso ser amiga de vocês, mas eu também posso fazer as noites de vocês um inferno, é só decidirem.
Quando a Dra. acabou seu discurso, ela ouviu algumas palmas e ao olhar para trás, encontrou apoiada na porta a aplaudindo. Ela ergueu a sobrancelha e franziu as sobrancelhas, não entendendo a atitude da amiga.
- É por isso que quando o ex-chefe se aposentou, indicou o seu nome na reunião do conselho e diretoria do hospital. Ainda bem que eu sou a sua amiga desde que somos internas.
- Você é ridícula – ela então se virou para os outros dois homens – Alguma dúvida?
- Eu tenho – o neurocirurgião levantou a mão e ela respirou fundo e contou até o número mais alto que conseguia naquela fração de segundo. Ela murmurou, dando a entender que era para ele continuar – Você falou que é proibida a relação entre a Dra. , psiquiatra, e os pacientes, isso inclui o Dr. , vai me incluir – concordou – Mas e de funcionários com funcionários? Que são apenas colegas de trabalho, isso também é proibido? Quer dizer... Se a gente passa doze horas aqui dentro, e o resto do dia em casa descansando, concorda que é aqui que nós vamos conhecer alguém?
sentiu vontade de massagear as têmporas e demitir instantaneamente aqueles dois médicos. Não podia acreditar que eles foram soldados. Estavam mais para crianças.
- Não, Dr. , não é proibida a relação entre os funcionários.
- Ótimo! – ele sorriu e a chefe quase sentiu as pernas vacilarem. Quase.
Então a porta da sala da chefe foi aberta novamente e então revelou o membro final daquela equipe de cinco pessoas. Alto, bonito, loiro e de olhos azuis, o Dr. Bradley James era o único residente entre aqueles atendentes.
- Dr. James, onde você estava?
- Um martelo na cabeça, estava acompanhando a cirurgia.
- Eu disse – sussurrou e sorriu.
- Dr. Bradley, esses são os dois novos médicos da nossa equipe, Dr. , neurocirurgião e Dr. , cardiologista. Rapazes, esse é o nosso residente em traumas e meu mascotinho preferido – se apoiou no ombro do residente que rolou os olhos – Desculpa, Dr. James – ela se recompôs e pôs-se em posição ereta novamente – Mas particularmente, é o melhor residente da turma dele, e é por isso que eu roubei pra mim.
- Vocês estavam na guerra, não estavam? – Bradley comentou e e arregalaram os olhos. Ele ainda era um estudante, não estava totalmente polido para o atendimento sozinho. E talvez nem para falar com alguns atendentes – Vocês viram alguma bomba explodir?
abaixou a cabeça e naquele momento, queria mandar o residente para a clínica e tirar todas as verrugas possíveis de todas os glúteos das idosas que lá estavam reclamando. Mas ele caiu nas graças da chefe, é o mascotinho dela, e um dos poucos residentes plantonistas na emergência.
No mesmo instante, o pager de apitou e ela deu graças a Deus por ter sido salva pelo gongo, apesar dos dois homens estarem sorrindo. Ela deveria ter tido a mesma conversa que teve com , algum tempo antes, com Bradley.
- É isso, emergência, é hora de vocês dois me mostrarem porque vocês foram altamente recomendados e contratados por esse hospital – os cinco foram saindo da sala da chefe andando com pressa – Acidente de carro, uma mulher grávida de 25 anos estava sem cinto e voou pelo para-brisas. Vamos salvar essa mulher e essa criança!
Bradley saiu correndo para chamar o elevador, enquanto diminuiu o passo, abrindo uma porta, que era da sala dos plantonistas.
- Você não vem? – o Dr. perguntou a ela que deu de ombros.
- Não, eu não lido com pessoas ensanguentadas e morrendo. Depois que vocês fazem o seu trabalho e dão o veredito final, seja lá qual for, eu entro em ação – então o elevador apitou indicando que havia chego ao andar – Bem-vindos ao turno da noite.


Capítulo 02

Duas semanas se passaram desde a apresentação dos novos médicos à equipe e não tinha conseguido pegar nenhum deles para iniciar suas sessões de terapia. Era psiquiatra e se fosse necessário, iria receitar alguns remédios antidepressivos para os homens, mas ouvi-los, conseguir entender a cabeça deles e tudo o que passaram no Afeganistão, era o primeiro passo para curar eles do estresse pós-traumático.
Era quase meia-noite quando a médica passou pela recepção do pronto socorro e encontrou os dois médicos apoiados, finalizando alguns prontuários enquanto jogavam conversa fora. Aquela noite estava calma, mas era sábado, e sabia que em umas duas ou três horas, os primeiros loucos das baladas iriam pegar seus carros e jogá-los em postes.
Um pouco afastada, ela observou os dois homens que não haviam percebido a presença dela por lá. Eles estavam usando os tradicionais aventais amarelos da emergência, provavelmente tinham finalizado algum caso, e até naquela roupa estranha, os dois estavam bonitos. Claro, estavam se mostrando capacitados e se já não fossem, com eles o hospital com certeza viraria referência. Porém se fossem incapazes, ao menos eram alguns colírios para seus olhos. Pena que também eram seus pacientes. Ou ao menos ela estava tentando transformá-los nisso, visto que ambos fugiam dela.
Sorrateiramente, se aproximou dos dois e limpou a garganta, chamando a atenção, informando que estava por ali.
- Boa noite, Dra. falou e continuou escrevendo – Noite fraca essa, não?
- Pois é. Não tivemos nenhuma morte, nenhum louco, não precisei controlar nenhum pai, realmente, é uma noite fraca. Tão bom receber um dos mais altos salários do hospital e não fazer nada.
O Dr. assinou e fechou o prontuário e virou-se para ela.
- Você não pode receber o salário mais alto do hospital. Existe neurocirurgião e cardiologistas. Sua especialidade não está acima da deles.
- A diferença é que vocês precisam abrir o corpo de alguém para enxergar o problema. Eu ganho para entender a doença do paciente, somente com as palavras. Eu sei, é difícil aceitar a realidade e a inveja – ela sorriu – Mas vamos ao que interessa, quem vai?
- Quem vai pra onde?
- Para a primeira sessão comigo. Não sei se vocês lembram, mas existe uma cláusula nos seus contratos que obriga acompanhamento psiquiátrico para EPT.
- Eu não li isso – levou a mão ao queixo como se estivesse pensando e deu de ombros.
- Eu também não leio os boletins semanais que a envia para os nossos e-mails – ela sorriu – Mas olha só, que bom que o plano de saúde de vocês cobre sessões psiquiátricas com a melhor do estado... Eu! – ela se vangloriou – Então, quem vai primeiro?
- ... Quer dizer, Dra. – o cardiologista corrigiu – Já fazem dois anos que voltamos do Afeganistão. Nós já tivemos acompanhamento, já resolvemos todos os nossos problemas. Você pode simplesmente assinar alta para gente e nós pulamos essa parte.
- Uma coisa é vocês tirarem férias compulsórias por dois anos para se tratarem. Outra coisa é vocês voltarem à ativa e verem estragos em pessoas semelhantes aos que vocês viam na guerra. Dr. – ela virou para ele – Não me leve a mal, mas você viu o seu irmão ser atingido na guerra. Isso com certeza não é algo fácil e que você vai superar com facilidade.
- Dra. , nós realmente estamos bem – falou e a mulher rolou os olhos.
- Não estão.
No momento da discussão, a chefe de cirurgia e daquela equipe passava pela recepção e se aproximou deles. Sem ela perceber, o Dr. analisou a cirurgiã geral que vinha com um sorriso no rosto e as mãos no bolso do seu jaleco branco. Ele levou a mão ao pescoço e também sorriu, mas dessa vez, para o chão.
- O que está acontecendo aqui? – ela perguntou para os três médicos à sua frente.
- Estou tentando levar um deles para sua primeira sessão comigo, e nenhum aceita que eles têm um problema que precisa ser tratado.
- Como assim não aceitam? Ou vocês vão, ou eu suspendo os dois de cirurgia por pelo menos uma semana – ela sorriu – E então, como é que vai ser? Suspensão, ou sessões de terapia?
- Dra. , nós realmente não precisamos – o Dr. falou para a chefe em um tom de voz calmo, achando que aquilo iria convencê-la.
- Negação é o primeiro sintoma para aceitar a doença! – gritou e não só os três olharam assustados para ela, como alguns enfermeiros e funcionários do hospital que passavam por ali.
Então olhou novamente para a chefe de cirurgia e fechou seu prontuário.
- Tá bom, eu aceito ser o primeiro.
- Finalmente! – a médica bufou e virou de costas – Por favor, siga até a minha sala, Dr. – e saiu andando.
- Ela tem uma sala? – o Dr. perguntou assim que viu o amigo acompanhando a psiquiatra da equipe.
- Bom... – ainda estava com as mãos dentro do bolso do jaleco e deu de ombros – Ela é a melhor psiquiatra do estado, se não do país... Não é à toa que ela tem a própria sala e um dos mais altos salários do hospital – então a médica virou para a enfermeira que estava atrás do balcão – Eu vou descansar um pouco, me chame se aparecer um caso que necessite de mim.
E após a confirmação da enfermeira, a Dra. saiu do pronto socorro indo em direção à sua sala deixando um Dr. atordoado com as informações que tinha acabado de receber.

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Assim que entraram na sala da Dra. , ela apontou o sofá para que o Dr. ficasse confortável e foi até uma mesa, onde pegava uma prancheta, com algumas folhas e caneta. Ela então foi até a sua poltrona e encontrou o médico à sua frente já confortável no sofá, com a perna cruzada e um braço estendido pelo móvel.
- Então Dr. , eu posso ler aqui nos seus registros que você se formou médico, atuou por um tempo na área e de repente resolveu se alistar no exército, servir o seu país e ir para a guerra – ele concordou – O que te motivou a simplesmente deixar sua vida para trás e ir para o Afeganistão?
- Bom, eu e o somos amigos de infância – ela concordou – E a minha vida estava um tanto monótona. Ele então decidiu se alistar ao exército, pois estava cansado da situação em que estava. Ele tinha um bom trabalho, mas sempre foi altruísta e queria ajudar as pessoas que mais precisavam. Do dia pra noite se juntou ao exército e foi à minha casa me informar. Eu achei aquilo absurdo até o momento que recebi a notícia de que a minha noiva tinha acabado de ter um acidente e sofrido morte cerebral – ele riu – É, irônico a noiva de um neurocirurgião ter morte cerebral, mas eu não fui chamado e só fui informado depois.
- Eu sinto muito – a médica falou.
- Não sinta, foi até bom – ele continuou e arregalou os olhos – No velório dela apareceu quatro outros noivos dela, então saímos de lá e fomos os cinco babacas beber no bar próximo ao cemitério. De qualquer forma, aquilo fez com que eu pensasse na minha vida e eu decidi que eu queria algo diferente, foi onde eu me juntei ao e ao Thomas no exército.
- Thomas é...
- O irmão do respirou fundo e rabiscou algumas palavras em seus papéis – Apesar de sermos médicos, nós recebemos treinamento de guerra, para caso acontecesse alguma coisa, termos como nos defender e se necessário, atacar o nosso inimigo. Um dia a nossa base foi atacada. Nós três conseguimos escapar. Pegamos algumas armas e rádios, pois foi tudo o que conseguimos encontrar, um carro e simplesmente saímos. Até o momento em que chegamos ao que parecia ser o esconderijo do chefe de uma célula terrorista, motivo de estarmos lá.
- Okay, estou acompanhando o seu raciocínio, pode continuar.
- sempre teve espírito de liderança, então rapidamente ele armou um plano para capturarmos o cara, chamar reforços e virmos para casa como heróis. Estávamos a pouco tempo de ver pouco mais que areia às nossas frentes. Ele demorou para dar o sinal de ataque pois viu um adolescente armado. O adolescente estava plantado naquele esconderijo, e assim que Thomas entrou pela parte de trás, ele se virou e descarregou o fuzil no mini . Eu não vi ele morrendo, mas de repente próximo de nós, uma granada foi estourada e nós simplesmente fomos jogados para longe. Eu lembro de acordar em meio à areia e poeira, com o corpo machucado, e querer ir embora o mais rápido possível.
- E quando você voltou, como isso afetou a sua vida?
- Além de eu ter recebido com festa pela minha família por estar vivo? Ser recebido pela mãe do em abraços, mas com o filho mais novo dela em um caixão de madeira para ser enterrado? A minha vida continuou ao normal. Dra. , acredite em mim quando eu falo que eu realmente não fui afetado pela guerra. Passou. Eu não vou subir no heliponto para receber um paciente, olhar para um helicóptero e entrar em pânico achando que aquilo é o inimigo jogando bomba ou atirando na minha base. Eu estou bem.
- Quando você me diz que está bem, Dr. , eu realmente quero acreditar. Eu olho para você e vejo que você está bem, fisicamente, todo mundo está. Sua cabeça pode te dizer que está bem, mas o meu conhecimento sabe que estresse pós-traumático pode levar anos para ser curado. Você não está bem e eu quero ajudar.
- Dra. , você é muito amiga da Dra. , não é?
levantou a cabeça para olhar o médico à sua frente e teria erguido apenas uma sobrancelha, se conseguisse. Ao invés disso, ela franziu os olhos e negou com a cabeça.
- Esquece, não é porque você me contou parte da sua história no Oriente Médio que eu vou conversar com ela e pedir autorização para você ter alta das sessões de psiquiatria.
- Na verdade não era isso que eu ia pedir para você, mas já que você se adiantou, é uma pena – ele coçou uma orelha e então apoiou os cotovelos nos dois joelhos – Já que vocês são amigas, você podia talvez, sei lá... Conseguir o telefone dela para mim – e sorriu.
olhou incrédula para o colega e médico à sua frente. Ela jogou a caneta que estava em sua mão em que levou as mãos ao rosto, se defendendo.
- Sua maluca!
- Eu não sou cupido, eu sou psiquiatra – ela esbravejou com ele – E você não está aqui para me fazer de cupido. Eu estou tentando te ajudar, e não te arrumar um relacionamento!
- Mas olha pelo lado bom... Se você me conseguir o telefone dela, você está me ajudando, com toda certeza do mundo – ele viu ela respirando fundo – Qual é, ? – ele sorriu – É um bem que você vai estar fazendo para mim e para ela.
- , me faz um favor? – ela se levantou e estendeu a mão em direção à porta – Sai da minha sala! Agora!
O neurocirurgião se levantou e sorriu para ela.
- Isso por acaso quer dizer que eu estou recebendo alta? – ele arriscou.
- Não! – gritou – Isso quer dizer que você acabou de perder meu tempo porque essa sessão foi anulada! Agora sai antes que eu fale para ela te suspender de cirurgias!
- Não sabia que você era tão má assim, foi mal... – ele foi andando em direção à porta – Desculpa aí.
- E não comente nossa sessão com ninguém, não é ético, e temos o termo de confiabilidade entre médico e paciente.
- Mas você acabou de falar que ela foi anulada.
- Sai daqui agora, ! – ela gritou pela última vez e o médico saiu correndo de sua sala.
foi até seu sofá e deitou nele, levando a mão à testa. Ela era jovem, promissora, inteligente, diplomada e doutora por duas das melhores universidades do país, e então seu paciente resolve que ela também pode ser cupido. A mulher olhou para a janela do seu consultório onde seus diplomas de escolas da Ivy League estavam expostos. Cupido... Era só o que faltava para ela.

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saiu do consultório da Dra. um pouco atônito. Ele tinha se aberto com a psicóloga, falou um pouco da guerra para, quem sabe, conseguir o telefone da chefe e cirurgiã geral, mas o tiro saiu pela culatra e a psiquiatra simplesmente o expulsou da sua sala. Em partes tinha sido engraçado, claro, mas ele queria o telefone da chefe de alguma forma. Perguntando para ela não era a solução, talvez entrando no sistema do hospital, mas aquilo não era certo. Ele deu de ombros e ia em direção ao quarto dos plantonistas. Se e Bradley podiam, ele também iria aproveitar aquela madrugada calma no hospital para tirar um cochilo.
Enquanto esperava o elevador, para ir até o andar em que ficava o quarto, ele observou algumas pessoas dando entrada no hospital. Nada grave. Algumas febres, espirros, até alguns membros quebrados, mas nada que precisasse de um neurocirurgião. Então o barulho do elevador indicando que tinha chego ao andar o despertou e ele foi entrando no mesmo, sem perceber que até então, alguém estava saindo.
- ! – o alertou, chamando sua atenção – Está com a cabeça na lua?
- Oi, , eu... – ele procurava algumas palavras, mas não estava conseguindo até então, formar uma frase na frente da chefe – O quarto dos plantonistas.
- Fica lá em cima – ela apontou com o dedo e observou o homem confuso – , você está perdido?
- Quem está perdido? – ele perguntou e a olhou de lado – Eu não estou perdido, eu estava indo tirar um cochilo.
- Agora? – a mulher perguntou rindo e saiu do elevador pegando no braço dele, levando-o de volta ao pronto socorro – Quanto mais tarde fica, maiores são as chances de alguém entrar sem vida nesse hospital e sabe o que eu gosto, ? – ela perguntou, mas não deu a chance dele responder – Quando a minha equipe traz o paciente de volta da morte – ela respirou fundo, como se estivesse sentindo um cheiro muito bom – É uma sensação mais gostosa do que comida de vó no fogão.
- Comida de vó... – ele deu um sorriso besta e logo se recompôs – Trazer paciente de volta da morte e não declarar morte cerebral, certo, conte comigo.
- Por isso eu te contratei, – ela sorriu – Agora vai pegar um avental amarelo e se prepara... A noite é uma criança!
deu um semi sorriso por causa do seu neurocirurgião e deu meia volta, indo até a sala de sua amiga. Não tinham nenhum paciente, e se a amiga não estivesse atendendo , após liberar , ela poderia sentar um pouco no sofá de e elas conversarem um pouco.
Ao chegar até a sala da amiga, a porta estava fechada, mas ao olhar pela persiana, pôde ver deitada no sofá mexendo no celular. Ela então voltou à porta, deu duas batidas e entrou, antes mesmo de ser convidada. A Dra. olhou para a amiga já fechando a porta e caminhando até a ponta do sofá onde estavam seus pés e se sentando, colocando os membros inferiores dela em seu colo.
- Achei que você estaria dormindo.
- Não consegui. Fiquei com medo de pegar no sono pesado, chegar alguma emergência e não acordar com a mensagem. Afinal, é sábado.
- Sábados são perigosos.
concordou com um murmúrio e viu que continuava a mexer no celular. Ela deu um tapa de leve nas pernas da amiga e puxou assunto.
- Finalmente conseguiu trazer um deles para a terapia, hein? – a chefe riu – Como foi com o ? Ele estava um pouco atordoado ali no corredor.
- Ah, ele estava atordoado? – bloqueou o celular e sentou-se cruzando as pernas – Conte mais sobre isso.
- Eu estava chegando na emergência depois de não conseguir dormir, e quando o elevador abriu, ele foi entrando sem nem ver que eu estava saindo. Aí eu tentei puxar assunto com ele, falar de como as noites de sábado são importantes e tudo mais e ele dava umas respostas desconexas. Não entendi nada. Ele deve ter se aberto sobre a guerra e ter sido difícil, não? Não me fala! – a chefe pulou no sofá – É antiético, mas eu realmente acho que deve ser complicado falar sobre isso. Com o vai ser pior.
- Ele queria o seu telefone.
- Não fala! – gritou e então se deu conta do que a amiga falou – Espera, ele queria o quê? Meu telefone?
- Lembra de todo aquele teatrinho lá embaixo, com ele e o falando que não precisavam, e o por algum motivo simplesmente aceitou vir de bom grado? No fundo ele só queria o seu telefone. E me irritar, é óbvio.
- E você não passou por quê? – choramingou para que a olhava assustada – Eu estou solteira há um tempo, e apesar dele ser meu subordinado, fala sério, aquele homem não é para se jogar fora, vai?
- Porque eu não sou cupido! – apontou para a parede onde estavam os seus diplomas – E porque ele tem estresse pós-traumático, ele precisa se curar antes de ter um relacionamento com alguém, principalmente se for com a minha melhor amiga.
- Mas...
- E é antiético! – gritou da mesma forma que havia gritado mais cedo com o neurocirurgião – Se eu não posso continuar transando com o cardiologista gostoso, você também não pode pegar neurologista gostoso.
- Mas você só não pode ter relações com o porque ele é seu paciente psiquiátrico. O não é meu paciente.
- Ele é seu empregado e subordinado. Então não pode.
formou um bico com os lábios e negou com a cabeça, indicando que ela não poderia fazer nada em respeito àquilo e desbloqueou novamente o celular, prestando atenção novamente no aparelho.
- Eu achei que você era minha amiga – ela fez chantagem.
- Eu também, mas vimos que só uma quer o seu bem – olhou fixamente para a tela – Não se mexe agora, tem um Vaporeon no seu colo.
- Tem um quê? – olhou para suas pernas e viu que não tem nada.
- Peguei! – comemorou e então encontrou a amiga assustada – Pokémon GO! Acabei de pegar um dos mais raros.
- Essa é a psiquiatra da minha equipe, senhoras e senhores – então o pager de tocou anunciando uma nova emergência e ela leu rapidamente.
- Vamos! – ela pulou do sofá e foi puxando a amiga.
- Epa! Eu só chego depois do apito final!
- Uma criança acabou de chegar com morte cerebral. Possível doadora de órgãos.
- Ai puta merda – e então as duas saíram correndo o mais rápido possível da sala da psiquiatra para a emergência.


Capítulo 03

Alguns dias se passaram desde a primeira tentativa de de levar tanto quanto para suas sessões de psiquiatria. O neurocirurgião a olhava com segundas intenções cada vez que passava perto e sempre que possível, se metia entre a amiga e ele, até nas conversas casuais de corredor.
A cirurgiã chefe, por sua vez, não deixava de analisar o médico que havia contratado há pouco tempo, claro, sem que ele percebesse, mas sabia que sua melhor amiga estava percebendo cada movimento dela, e ela não podia analisa-la, eram muito amigas para isso, mas ela não deixava de tentar entender a cabeça da amiga.
Até que então, um dia se irritou de ver os dois médicos no plantão, cuidando de seus pacientes e, olhando um para o outro, sem o outro perceber. Ela rolou os olhos e foi em direção a .
- Com licença! – ela falou para o paciente que ele atendia e o afastou, levando-o para um leito vazio – O que você está fazendo?
- Fazendo uma sutura na cabeça do meu paciente – ele respondeu como se fosse óbvio e levou um tapa no ombro da menina – Que foi, maluca? Alguém deveria suspender o seu direito de médica.
- Você quer o telefone da ? Ótimo, você vai ter! – ela puxou um papel do bolso e escreveu alguns números, entregando a ele.
olhou o papel e ficou um pouco confuso. Talvez estivesse faltando alguns números por lá.
- Erm, ... Não sei se você percebeu, mas está incompleto.
- Quer o resto? – ela sorriu – Você e o Dr. vão até o meu consultório abrir o jogo e me contar tudo do Afeganistão. Vocês vão aceitar o tratamento e assim, quem sabe, eu te dou o resto do telefone dela.
- Você não faz um jogo limpo – ele abriu a boca incrédulo e olhou para a psiquiatra que tinha um sorriso de satisfação nos lábios e os braços cruzados.
- Eu nunca disse que eu fazia um jogo justo – ela piscou para ele – E os meus pacientes sabem disso. Eu posso ter alguns meios ortodoxos, mas até onde eu sei, quem vai sair ganhando nessa história é você.
- Eu não tenho estresse pós traumático.
- Quantas vezes eu preciso falar que negação é o primeiro sintoma para começar a aceitar a doença? Você além de se curar, leva o prêmio. Não é como se eu não estivesse querendo o seu bem, por favor, né?
- Certo! – ele se irritou e dobrou o papel – Eu faço questão de colocar na agenda um horário semanal para conversar com você, em troca do telefone dela.
- Você e o Dr. !
- Mas... – reclamou – Como eu vou convencer ele a simplesmente aceitar sessões de psiquiatria com a mulher que ele dormiu?
- Seu problema, não meu. Além do mais, pelo que eu me lembre, ele é o seu amigo de infância. Persuadi-lo talvez não vá ser muito difícil.
Ela sorriu para o neurocirurgião, abriu a cortina do leito e saiu, contente com a sua primeira conquista. Tinha achado um jeito de convencer os dois ex-militares de se curarem e tornarem médicos melhores que já são. E não fazia a menor ideia que aqueles eram dois números aleatórios e não chegavam perto do telefone da melhor amiga.

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Na mesma semana, teve um chamado um tanto especial. Ela chegou junto de Bradley, e em um dos quartos e se encontrou com uma menina que deveria ter no máximo seus dezesseis anos. Ela estava junto com os pais e tanto a menina, quanto a mãe, esboçaram surpresa em seus rostos e vozes ao ver os dois médicos na sala.
- Eu sei, Sammy, eu tenho alguns seguranças lindos – ela olhava para e Bradley, que sorriam para a menina e ficou envergonhada – Dr. James, quer me apresentar à paciente?
- Claro – o residente loiro dos olhos azuis deu um passo à frente – Samantha Jones, quinze anos. Deu entrada essa manhã no hospital reclamando de dores abdominais e foi diagnosticada com apendicite, tendo que fazer a cirurgia tradicional, já que o apêndice está dilatado. Poderia ter feito uma cirurgia mais cedo, mas os pais preferiram esperar até agora e ter a Dra. como cirurgiã. Está medicada e em jejum, pronta para ser operada.
- Obrigada Dr. Bradley – ela sorriu para a menina e para os pais dela – Em algumas horas essa dor que você sentia Sammy, nunca mais vai voltar – piscou para a menina – Alguma dúvida? – ela perguntou para a paciente e também para os pais.
- Quais são os riscos, doutora? – o pai perguntou apreensivo.
- Quase nulos. É uma cirurgia, não vou falar para vocês que não tem risco. Mas é uma cirurgia simples demais. Em pouco tempo sua filha estará com vocês. A partir do momento que a cirurgia se iniciar, em até uma hora já acabamos e então, é só esperar a Sammy acordar da anestesia.
- Ótimo! – a menina respondeu – Vamos logo porque se os efeitos do remédio passam e eu sentir essa dor de novo, acho que eu mesma me abro e tiro esse tal de apêndice que ninguém chamou – todos na sala então riram.
- Combinado – beliscou com cuidado a menina, que não parava de sorrir, apesar das dores – Esses são quem vão me acompanhar na cirurgia. O Dr. James, residente, vai estar lá para aprender comigo. O Dr. , cirurgião cardiotorácico e a Dra. , nossa psiquiatra, que vai informando a vocês as etapas da cirurgia, para acalmá-los e se aparecer outra dúvida durante a mesma, vai poder sanar no meu lugar.
- Não me leve a mal, Dr. , mas qual a necessidade de ter um cardiologista na sala de cirurgia? – ela então virou para – Doutora, você mesmo acabou de falar que é um procedimento simples.
- E é mesmo – então entrou na conversa – Mas eu vou estar lá para monitorar os batimentos cardíacos da Samantha, e fazer com que o coração dela mantenha-se perfeito do momento que ela entra na sala da cirurgia, até que ela saia. Meu papel lá, é de observador e prevenção.
A mulher mostrou-se mais aliviada.
- Perfeito! – e então virou para a Dra. – Eu sabia que não iria me arrepender de esperar operar a minha filha com você e sua equipe. Já ouvi tanto sobre você.
- Obrigada por confiar – e então virou para a paciente – Então Sammy, o Dr. James vai te preparar e nos vemos na sala de operações, combinado? – a menina confirmou – Até já então.
Dessa forma, com exceção de Bradley, que ficou no quarto preparando a paciente, os outros três médicos saíram da sala. foi para a recepção conferir o prontuário da menina e levar para a sala de cirurgia, enquanto e foram se higienizar e ficarem preparados para o primeiro procedimento da noite.
- Soube que você e o Dr. aceitaram finalmente começar sessões com a Dra. falou enquanto lavava suas mãos e braços.
- E vou confessar que está sendo muito bom. Nós reclamamos, mas não dá pra negar que vocês do hospital fizeram isso apenas pelo nosso bem.
- Fico feliz Dr. – ela levantou as mãos enquanto um enfermeiro vinha ajudar a se paramentar – E saiba que eu não sou tão carrasco assim a ponto de querer impedir que você e tenham um relacionamento. Não fui eu quem defini as leis éticas da medicina.
- Dra. – ele se colocou ao lado dela, na mesma posição – Foi apenas uma noite.
- E vocês querem que eu acredite – ela gargalhou e entrou na sala de operações.

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A cirurgia de Sammy já estava chegando ao final, o apêndice foi retirado com sucesso e olhava feliz para o trabalho que havia feito. Ela estava tirando algumas esponjas de dentro do corpo da menina e após isso, se afastou e sorriu.
- Dr. Bradley, você quer fechar a paciente?
O residente olhou espantado para a chefe que estava encorajando-o.
- Claro! – ele se animou e tomou a posição em frente à paciente. Estendeu a mão para a enfermeira – Vycril 4, por favor.
A enfermeira entregou a agulha de sutura para o médico que ao se aproximar da paciente, notou algo estranho.
- Dra. , tem algo errado aqui.
, junto de , rapidamente se aproximaram da menina e seus olhos arregalaram. A menina estava sofrendo uma hemorragia.
- Tragam mais esponjas, tragam tudo que vai ajudar a conter essa hemorragia – a médica falou em um tom de voz rápido, anunciando emergência – , como estão os batimentos dela?
- Não param de subir – o cirurgião olhou pelo monitor – Você precisa conter essa hemorragia logo.
- É o que eu mais quero! – a médica gritou e começou a colocar toalhas no corpo da paciente – De onde isso está vindo?
A mulher remexia no corpo da garota procurando alguma veia ou artéria rompida durante a cirurgia e além de não achar, sentia que estava perdendo tempo: o sangue se acumulava na cavidade aberta do corpo e o Dr. continuava gritando que a menina estava entrando em arritmia e perdendo pressão.
O monitor de batimentos cardíacos começou a apitar de forma uniforme e levantou o rosto, vendo um ponto de interrogação no lugar dos batimentos cardíacos e uma linha reta.
- Sammy! – ela gritou para a paciente – Sammy fica comigo! – ela virou para a enfermeira – Traga o carrinho de parada e carregue em 200.
O aparelho foi colocado ao lado dela e as pás foram entregues à ela. O Dr. Bradley afastou o lençol que protegia o corpo da menina.
- Carregado! – a enfermeira anunciou.
- Afastem-se! – gritou e colocou as pás no peito da menina. Todos se afastaram, a garota levou um choque, fazendo seu corpo dar um leve salto na maca e a médica olhou novamente para o monitor, sem resposta – Carregue em 350! – ela gritou novamente e pôs novamente as pás na menina – Afastem-se! – ela gritou e após o choque, continuou sem resposta cardíaca – 400 – pediu dessa vez, já sentindo que o pior estava acontecendo e todos afastaram. Novamente, sem resposta cardíaca – Iniciar massagem cardiorrespiratória! – ela pediu e entregou as pás para a enfermeira.
- Eu faço! – assumiu a posição, já vendo que a cirurgiã estava em choque com o que estava acontecendo.
- Vai Sammy, vai Sammy! – pedia, na cabeceira da maca, apoiada na cabeça da menina – Não me abandona Sammy, não faz isso comigo!
E os minutos foram passando, sem nenhuma resposta cardíaca. O Dr. continuava a pressionar o peito da garota, cada vez com mais força, esperando pelo milagre e nada acontecia. A chefe de cirurgia começou a chorar enquanto o cardiologista continuava tentando trazer novamente a adolescente à vida.
Então o Dr. Bradley, já sem luva, levou a mão às de Dr. e balançou a cabeça em negação para ele.
- Já fazem vinte minutos que você está massageando e ela não volta. Nós a perdemos.
- Sammy! – gritou e apoiou a cabeça ao lado da menina, deixando as lágrimas escorrerem.
No instante, a porta da sala de cirurgia foi aberta e entrou com uma máscara escondendo seu rosto.
- Como estamos aqui?
A médica então observou a amiga chorando ao lado do corpo já sem vida da menina e então virou para o residente e atendente que ainda insistiam. Os dois balançavam a cabeça em negação.
- Leva ela daqui – Bradley pediu para que levasse a amiga embora.
se aproximou da amiga, que ainda chorava debruçada na menina e a pegou pelos braços.
- , vamos embora daqui, você não precisa ficar aqui para vê-la assim.
- Eu informo os pais dela – o Dr. falou e a Dra. levantou o rosto.
- Não – ela limpou as lágrimas que escorriam pelo seu rosto – Foi em mim que eles confiaram. É de mim que eles vão precisar ouvir.
- Depois que você se recompor – falou para a amiga, tirando o gorro dela – Vem comigo.
As últimas palavras que ouviu antes de sair da sala de cirurgia foi de Bradley, assumindo a responsabilidade de fechar a menina.
direcionou então a amiga para a sala dela, colocou-a sentada no sofá e pegou um copo de água para , puxando uma cadeira para perto dela e entregou a bebida para que ela se acalmasse.
- Ela estava bem – então começou a falar – Eu ofereci pro Bradley fechar ela, até que ele encontrou uma hemorragia. A gente não conseguiu achar a fonte dela, os batimentos foram aumentando até que... A Sammy morreu na minha mão. Eu perdi uma paciente no procedimento mais simples que tem.
- Você não é a primeira nem a última com quem isso vai acontecer – tentava consolá-la – Como você disse, é uma cirurgia e todas elas têm riscos. Aconteceu.
- Não era para ter acontecido. Não comigo – ela balançava a cabeça em negação – Eu vou falar com os pais dela, me leva até eles.
- Se acalma antes! – pediu para a amiga.
- Eu estou calma! – então gritou para e abaixou a cabeça – Não vai ter jeito delicado pra eu falar pros pais que a única filha deles acabou de morrer na mesa de cirurgia. Que eu matei a filha deles.
- Você não fez isso, presta atenção ao que você está dizendo! Houve uma complicação, ela começou a sangrar e isso a levou a óbito. Os pais dela sabiam dos riscos quando eles perguntaram para você. Eu estava naquela sala de cirurgia e fui eu quem levei os termos de consentimento para eles assinarem. Você fez tudo o que você pôde!
se jogou no sofá e fechou os olhos, respirando fundo. Era gratificante ser médica, sair de uma cirurgia e ir até a sala de espera falar para os acompanhantes de um paciente que chegou quase sem vida, que ele estava bem, respirando e tudo seguiria ao normal. Mas a pior parte, era a notícia ruim. Os olhares dos médicos denunciavam e já entregavam. Não era preciso palavras para explicar o acontecido.
Ela então se levantou do sofá e procurou um espelho em sua bolsa. Além de tudo era uma profissional, e se ela começou um procedimento, terminaria ele. Então, ela saiu da sala e seguiu até o elevador, seguida de . Assim que chegou ao andar, encontrou e Bradley já a esperando. Como dois seguranças, como ela mesma mencionou a Sammy mais cedo, os dois homens a acompanharam até os pais da menina, que se levantaram ao ver a equipe.
- Então... Como foi? – o pai dela parecia ansioso.
- Eu não tive problemas na retirada do apêndice da Sammy, porém quando nós fomos fechá-la, eu e o Dr. Bradley encontramos um sangramento e começamos a procurar a fonte dele, para estancarmos e poder fechar. Virou uma hemorragia, a pressão da Sammy caiu – a ansiedade no olhar deles foi se transformando em medo – E ela teve uma parada cardiorrespiratória.
viu que a amiga iria bambear a qualquer momento e a segurou pelo braço, empurrando o Dr. James para o discurso.
- Nós tentamos reanima-la com o carrinho de parada umas três ou quatro vezes e então junto com o Dr. , iniciamos a massagem cardiorrespiratória – a mãe de Sammy no momento já estava chorando com o rosto no peito do marido – Fizemos ela por mais de vinte minutos e... Nós sentimos muito.
A mãe de Samantha então virou para a cirurgiã geral que chorava novamente ao ouvir as palavras do Dr. Bradley e pegou na mão da médica.
- A Sammy morreu?
- Eu sinto muito Sra. Jones – chorava olhando para a mãe – Eu não posso imaginar como está sendo para a senhora receber essa notícia.
- A Sammy morreu – ela então afirmou e simplesmente abraçou a cirurgiã, que então, finalmente deixou as lágrimas escorrerem de vez, sentindo os braços da mulher em volta do seu corpo.
- A Dra. fez tudo que estava ao alcance dela para salvar a sua filha – falou para os pais. O homem acenou a cabeça para o cardiologista e levou uma mão ao ombro da esposa – Ela tentou diversas vezes parar a hemorragia, insistiu nos choques mais altos que o corpo de uma pessoa pode responder ao estímulo cardíaco e então eu assumi a massagem cardiorrespiratória. O que aconteceu com a sua filha, foi uma fatalidade.
- Eu sinto tanto – chorava abraçada na mãe da paciente e sentiu um braço masculino passando por ela, percebendo que era o pai da menina.
- A culpa não foi sua.
Ela não respondeu. Apenas franziu o rosto e balançou a cabeça em negação, e assim que eles soltaram do abraço, a Dra. assumiu a palavra.
- Eu preciso que vocês me acompanhem para o preenchimento de alguns documentos necessários – a psiquiatra informou – Eu sei que esse não é o melhor momento para isso, mas é preciso e saibam que se precisar conversar, uma ajuda para passar pelo momento do luto, eu estou disposta a atendê-los e se preciso, marcar um horário fora do meu plantão de forma que seja mais conveniente para vocês.
- Obrigado – o pai disse com sinceridade para a médica com que os falava – Será que nós... Podemos vê-la? Dar um último beijo na nossa filha? Você quer? – ele perguntou para a mulher, que concordou – Nós podemos?
- Claro, me acompanhem – Bradley pediu e então ele saiu acompanhado do casal, junto da psiquiatra.
Assim que ficou sozinha com , então saiu correndo para sua sala. A noite mal havia começado, mas ela já estava determinando que seu plantão havia chego ao fim.


Capítulo 04

Depois de chegar em sua casa no dia seguinte e deixar a água cair pelo corpo durante algum bom tempo, a Dra. rolou na cama até a madrugada e finalmente conseguiu dormir, mas não muito, visto que logo pela manhã já estava com os olhos abertos novamente.
Em nenhum momento ela deixava de pensar em Sammy, sua paciente tímida, e então nos pais dela, sofrendo o luto naquele momento. A vida era completamente injusta mesmo. Uma simples dor, uma ida ao hospital e a adolescente havia perdido a vida. A médica arrumava sua casa, mas em nenhum momento, esquecia do acontecimento da noite anterior.
Quando chegou perto do horário do plantão, ela tomou banho, se arrumou, pegou o carro e dirigiu até o San Antonio Memorial. Ela olhou para a fachada do hospital e se debruçou no volante. Sammy não era a primeira nem a última paciente que talvez ficaria em uma mesa de cirurgia dela. Mas com certeza foi a primeira que foi fazer uma cirurgia ridícula e não voltou.
Ela saiu do veículo e caminhou até a entrada do hospital, seguindo como sempre, diretamente para a sua sala, quando encontrou sua equipe de cirurgiões pelo meio do caminho.
- O que você está fazendo aqui? – perguntou para ela.
- Eu não estou de folga hoje – respondeu como se fosse óbvio.
- Não é questão de você ter folga ou não, você está emocionalmente abalada, você não tem condições de trabalhar hoje, Dra. – Bradley falou para a chefe.
- Ou você vai para casa, tirar folga de pelo menos uma semana, ou eu levo a sua situação para o conselho para eles te mandarem a força para casa – falou e então ele mesmo se surpreendeu com as suas palavras.
- O hospital não pode ficar sem um chefe de cirurgia – passou por eles e foi em direção ao elevador – Não tem a menor condição de eu não estar aqui. Eu não vou operar. Eu não confio em mim mesma para isso – os quatro olharam para ela – Eu não confio em mim com um bisturi na mão.
abaixou a cabeça e começou a escrever algo em um papel, enquanto a amiga estava chamando o elevador. Ela finalizou com um carimbo, que tirou do seu bolso, e sua assinatura.
- ! – ela chamou a amiga quando o elevador chegou.
A médica virou para a amiga e a viu chegando próximo dela com um papel na mão, a entregando.
- O que é isso? – a cirurgiã chefe leu e ficou incrédula – Você está declarando que eu sou incapaz de estar no meu ambiente de trabalho e me obrigando a ficar sete dias de licença em casa? Que merda é essa, ?
- Atestado de sanidade – a psiquiatra cruzou os braços e olhou para a melhor amiga – Vai pra Nova York, pro Caribe, fazer compras no shopping, sei lá. Mas sai desse hospital. Você não pode ficar aqui.
levantou o tal “atestado de sanidade” na altura dos olhos da amiga e se aproximou dela.
- Isso aqui pode me fazer te denunciar pro Comitê Nacional de Psiquiatria – praticamente esfregava o papel na cara da amiga – Nós somos amigas, mais que isso, você é praticamente a minha irmã. Não tem nada de ético você simplesmente decidir alegar falta de sanidade da minha parte.
- Você não vai fazer isso – falou firme para . Enquanto isso, , e Bradley olhavam para as duas médicas, amigas, e que brigavam – Você sabe que não está bem e a morte da Samantha te abalou. Não queira me enganar e pior, não se engane. Tá, ela não foi a primeira que morreu na sua mesa de cirurgia, mas você criou vínculos com aquela menina. Aceita! E vai para casa, porque eu estou fazendo isso para o seu próprio bem.
A chefe olhou para a amiga e então para os colegas de trabalho no fundo e entrou no elevador bravejando palavras de raiva que felizmente, estavam sendo inaudíveis.
- Você realmente assinou um atestado de sanidade de sete dias para ela? – Bradley perguntou para a colega que balançou a cabeça concordando – Você sabe que ela vai te perseguir para o resto da vida agora, não sabe?
- Confia em mim, Dr. Jones – apoiou novamente no balcão – Na verdade ela vai me agradecer.
observou aquilo tudo e então finalizou o prontuário que estava preenchendo, e o guardou. Em um momento de distração dos colegas, ele foi até o elevador, aproveitou que estava no térreo e entrou nele, apertando o andar em que ficava a sala da chefe.
O neurocirurgião parou em frente à porta e ponderou se tocava nela ou não. Até pensou em desistir, mas resolveu dar três batidas e esperou ela ser aberta, como não teve respostas, ele mesmo abriu e encontrou a chefe sentada à sua mesa, trabalhando em seu computador.
- Posso falar com você?
- Eu estou ocupada, Dr. .
- – ele falou e ela então levantou o rosto confusa – Meu nome é .
- Eu sei que esse é o seu nome, eu te contratei – ela olhou novamente para a tela do computador.
- Você pode me chamar de – ele entrou na sala e fechou a porta, indo em direção a uma cadeira em frente à mesa dela – O que você está fazendo?
- Trabalhando – ela respondeu para ele sem tirar os olhos do computador – Não só de cirurgia se vivem chefes de cirurgia, .
- – ele repetiu o seu nome e a médica rolou os olhos – Sabe – ele falou o nome dela com receio, mas a médica não pareceu se importar – Eu sei pelo que você está passando. Quando eu acordei daquela granada, mesmo sangrando e machucado, eu corri para tentar salvar o Thomas, mas ele já estava morto e mesmo assim eu e o tivemos que carrega-lo por um bom caminho, até encontrarmos um campo aliado e podermos fazer contato com alguma base americana. Sabe qual é a pior parte de ser médico na guerra? É ver o seu parceiro chegar todo ensanguentado, você saber que ele não vai sobreviver, querer ajuda-lo, mas ir dar atenção a um outro que talvez só foi atingido com um tiro, porque esse sim, tem chances de sobreviver. E talvez, nem isso. Ser médico de guerra não é fácil, e todos os dias eu tive que lidar com perda. Eu tive que deixar amigos para trás no chão para os abutres.
então parou de olhar para seu computador, abaixou a tela e cruzou os braços em cima da mesa.
- Por que você está me falando isso, ?
- Porque você não é a primeira pessoa que perdeu um paciente. Que fez tudo que estava em seu alcance para salvar uma pessoa. Eu procurei pelo seu nome na internet. Você é eximia no que faz, . Você é um soldado que não deixa ninguém para trás, e mesmo quando essa é a única opção, você evita ao máximo ter que usá-la – ele então levou o cotovelo até o joelho e se apoiou, ficando com o rosto mais próximo dela – Você usou o desfibrilador por umas quatro vezes nela, e fizeram massagem cardiorrespiratória nela por minutos. Não foi você quem matou a Sammy. Foi o apêndice dela que estava dilatado e estourou a aorta abdominal – o olhou em dúvida, como se perguntasse como ele sabia o que causou a morte da menina – Depois que você e os pais dela foram embora, eu acompanhei a autopsia da menina.
- Eu agradeço , de verdade – a médica falou apoiando a cabeça em uma de suas mãos – Mas o procedimento era simples. Eu faço uma cirurgia dessas em quarenta minutos no máximo, por ser detalhista. Como eu não vi que a aorta estava prestes a estourar?
- Não tinha como prever – ele se levantou – Você é um soldado Dra. , e honestamente, eu fico muito grato em poder estar na sua equipe.
- Obrigada , de novo – ela sorriu para o neurocirurgião que então, sorriu de volta para ela. Que sorriso maldito era aquele.
- Você vai para casa? – e então apontou para o atestado de sanidade que tinha assinado para ela em cima da mesa.
- Eu posso usar esse atestado para não operar por uma semana, como eu disse lá embaixo, eu não confio mais em mim com um bisturi nas mãos, mas eu ainda vou administrar esse hospital – ela sorriu para o médico.
- Pode contar comigo se precisar, tá bem?
A cirurgiã geral olhou para o homem à sua frente e o encarou por alguns segundos, enquanto ele fazia o mesmo. Os dois em silêncio. A sua vontade era passar ali mesmo seu telefone para ele. Ela só sorriu e abaixou a cabeça, levantando novamente a tela do computador enquanto ele saía e fechava a porta. A mulher olhou para a porta, escondida por trás da tela do computador. Ela não ligaria em ter a presença dele à sua volta. Ela não iria ligar se ele tivesse ficado na sala a impregnando com aquele perfume.

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chegou novamente ao pronto socorro e encontrou sozinha mexendo em seu celular. A psiquiatra desviou o olhar do celular e bloqueou o mesmo, levando para o bolso do jaleco e virou-se para o colega.
- Onde você estava?
- Conversando com ela.
- ... Você realmente está interessado nela, ou o seu único interesse é uma noite com a chefe? – ela abriu o jogo – Porque se for só uma noite, eu posso arranjar caras bem melhores que você, se é que me entende. Não me leva a mal, mas para sexo casual, ela pode ter um cara gostoso que ela nunca mais vai ver, e não um subordinado dela que passa ao mínimo doze horas do dia junto.
- , não me leva a mal, eu não sei se você falou de mim de sacanagem ou não, não sei nem se você gosta de mim, mas a sua amiga é uma mulher incrível. Ela é bonita, tem um corpo bonito, é uma excelente profissional, é carismática, é uma pessoa que exala alegria onde ela passa – a psiquiatra arregalou os olhos e se virou enquanto ele falava, procurando um papel e uma caneta e então, começou a rabiscar alguma coisa – Mas ela perdeu um paciente, eu sei o que é isso e eu realmente quero o bem dela. Por ela, e por ela ser o cérebro dessa equipe.
- Toma – estendeu.
- O que é isso? – o médico perguntou.
- O telefone dela – ela respondeu e sorriu – O telefone de verdade dela. Aquele lá que eu te dei foi só um jeito de conseguir levar você e o pra terapias – ela sorriu e então o olhou confuso – Você está de quatro pela chefe, e pelo seu bem, só você percebeu. E agora eu, depois dessa declaração – ela riu – Faça um favor para nós dois, chama ela pra sair, leva ela pro cinema, pro parque, pra um jantar, sei lá, me ajuda a trazer a minha melhor amiga de volta, porque eu juro que mato ela, se por causa da Sammy ela abandonar a cirurgia.
Ele olhou para o papel em suas mãos, colocou entre os dedos e apontou para ela.
- Isso não é alguma sacanagem comigo, é?
- Eu não estou fazendo isso por você – ela piscou e apontou para cima – Ela falou alguma coisa de ir embora?
- Disse que não vai operar, mas não vai deixar de trabalhar fazendo trabalhos administrativos do hospital não.
- Ela o que? – gritou e foi em direção ao elevador – Ela vai para casa nem que eu tenha que a levar arrastada pelos cabelos.
riu daquela psiquiatra maluca e viu o papel novamente em suas mãos.
- – ele gritou quando o elevador chegou no andar – Eu não estou de quatro por ela.
- Ah tá – ela riu – Eu sou sua psiquiatra, . Você não mente para mim – e sumiu no elevador, deixando o médico de nariz avantajado olhando para o papel.
- Talvez só um pouco – ele riu para si mesmo e guardou o telefone no bolso do uniforme.

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acabou que aceitou o atestado que sua amiga havia lhe dado e ficou uma semana em casa. Foi no shopping, cortou o cabelo, fez algumas compras, repaginou o armário – não que ela soubesse o motivo para isso, já que suas noites eram em um hospital vestindo um uniforme azul – enfim, aproveitou aquela semana para tentar espairecer e esquecer um pouco de Sammy, mas à noite, sozinha em seu quarto, aquilo era quase impossível.
Quão surpresa ela ficou quando seu telefone tocou, em uma tarde nesse pequeno recesso, e a voz de veio do outro lado da linha. Eles conversaram, ele continuou dando apoio para ela, eles riram, ele estava de folga naquela noite. Combinaram um jantar e se eles quisessem, estender a noite em um bar.
Era o último dia de folga da chefe e ela estava sentada na sala, assistindo televisão e comendo batata chips no fim da tarde, quando a campainha tocou. Ela se levantou do sofá e riu ao abrir a porta e ver escondida atrás de um pack de cerveja, erguido na altura de seu rosto e uma sacola na outra mão, que aparentava estar cheio de guloseimas. Nada do que ela já não estivesse comendo.
- Eu ainda tenho acesso livre à essa casa? – perguntou tirando as cervejas de seu rosto e fingiu estar em dúvida.
- Depende... Você está aqui como melhor amiga ou psiquiatra?
- O que é psiquiatra? – perguntou e as duas riram, enquanto a cirurgiã geral deu espaço para a amiga entrar em casa. foi até a geladeira da casa da amiga guardar as cervejas, mas pegou duas e foi até o sofá em que a amiga estava, entregando uma garrafa para ela – Então, como você está?
olhou desconfiada para a amiga.
- Você tem certeza que não está aqui como psiquiatra?
- Deixa eu me preocupar com você! – gritou, da mesma forma que sempre grita no hospital e as duas riram – Seu cabelo está mais curto, gostei da mudança.
- Foi você quem mandou eu ir no shopping – deu de ombros – Cortei o cabelo e comprei várias roupas novas.
- Então você está bem – afirmou e a amiga fez bico.
- Na medida do possível. É impossível não pensar na Sammy quando eu estou deitada em casa. Eu fico sozinha repassando mentalmente todos os procedimentos daquela cirurgia e cheguei à conclusão de que não tem nada que eu poderia ter feito de diferente para salvar aquela menina.
- Não tem mesmo, você é genial no que faz, e você não errou com ela. Poderia ter sido eu, James, o ou o naquela mesa tirando o apêndice, se algum de nós estivéssemos naquela mesma situação, nós também não iriamos sobreviver.
- Ai, pelo amor de Deus, vira essa boca para lá. , Bradley... – a menina falou receosa – Eles são a minha equipe. Você... Não, eu não sei o que faria sem você.
- Só estou falando que podia ter acontecido com qualquer um, tudo bem? – concordou para a amiga – Amanhã você volta para o hospital, não volta?
- Só para ficar na minha sala e talvez resolver um problema ou outro. Não quero chegar perto de uma sala de operações, não quero ver bisturi, pinça, nada na minha frente. Se eu ver uma bolsa de soro, acho que eu saio correndo – as duas riram – Você está de folga hoje?
- Estou, finalmente! – levantou as mãos para cima – E por isso eu vim ficar com você. Termos uma noite de meninas, fofocar, falar de homem, e esquecer o San Antonio Memorial.
- Tá certo... Você quer realmente esquecer o hospital? – concordou mais que rapidamente e a amiga riu – Você acabou de ganhar uma folga amanhã – a psiquiatra arregalou os olhos – É sério! Quem te vê não acredita, mas eu leio os seus relatórios, eu sei a quantidade de trabalho que você tem diariamente. Você até precisaria de um psicólogo, mas como eu sei que você vai analisar o seu analista – as duas riram – Fica mais um dia em casa. Dois dias... Finge que é fim de semana!
- É por isso que você é minha melhor amiga – pulou no pescoço da amiga – Amanhã o também tem folga, então acho que vai dar para celebrar um pouco!
- Meu Deus – fingiu indignação – De quantas formas diferentes eu vou ter que te falar que essa relação é antiética e não devia estar acontecendo de jeito nenhum?
- Você pode tentar falar de diversas maneiras, mas parece que a gente atrai um ao outro. Só falta eu trocar a fechadura da sala dos plantonistas e ter uma chave só minha – abriu a boca abismada – De qualquer forma, em breve, muito em breve, ele e o vão ter alta. Eles não tem mais EPT, eu só estou fazendo o ir às sessões para pentelhar ele. E o ... Bom, é uma hora a mais que a gente ganha.
- Eu vou reduzir o seu salário, Dra. !
deu a língua para a amiga.
- Não vai nada! – e então olhou para a televisão – O que você está assistindo?
- Maratona de Grey’s Anatomy – disse com o controle na mão.
- Não, muda de canal – pegou o controle da mão da amiga e passou os canais – Pronto, aqui tá passando maratona de Friends.
- Você nunca vai se cansar dessa série, não é? Rachel! – chamou a amiga pelo nome da personagem preferida dela.
- Se você está cansada de Friends, você está cansada da vida, Monica! – retrucou para que deu de ombros.
As duas continuavam assistindo televisão e rindo das cenas que assistiam de Friends, quando parece que lembrou de algo e virou novamente no sofá, em um pulo.
- Sabe o que eu queria te perguntar? – tomou um gole da sua cerveja, já devia ser a segunda ou terceira garrafa e murmurou para a amiga continuar – O te ligou?
Ao ouvir o nome do neurocirurgião, não pôde deixar de mordiscar o próprio lábio e sorrir um pouco envergonhada. riu daquilo e começou a cutucar a amiga, deixando ela mais sem graça do que já estava.
- Anda, me conta!
- Ele ligou no dia que teve folga. Foi por esses dias, sei lá. Nós saímos para jantar em um restaurante árabe que ele disse que gosta muito e como nós achamos que a companhia um do outro estava muito agradável para encerrar a noite, estendemos para um bar. E aí... No dia seguinte tinha um neurocirurgião que dormia sossegado ao meu lado.
- Fala de mim, mas está dormindo com o neurologista gostoso – beliscou a amiga e as duas riram – E aí, como ele é?
- O melhor sexo da minha vida – confessou e levou a mão à boca, ficando tímida – Simplesmente excepcional!
- De nada! – se vangloriou daquilo e passou o braço pelo sofá.
- “Eu não sou cupido, ele está com estresse pós traumático, precisa se curar antes de entrar em um relacionamento com alguém, principalmente a minha melhor amiga” – imitou as palavras da amiga de tempos atrás, de forma aguda e engraçada.
- Ah, me poupe rolou os olhos – Você estava precisando de muita ajuda, ele mostrou pra mim que estava de quatro por você e você estava precisando de um homem na sua vida – abriu a boca incrédula – Não venha com papo feminista, eu e você sabemos como é bom ter um homem pra dar uns bons pegas na gente.
- Ei... – disse com o dedo levantado para a amiga – Eu te amo.
- É, é.... piscou para – Eu sei.
Então uma voz vinda do corredor distraiu as duas.
- , você viu a blusa do meu uniforme? Eu não consigo achar pra pôr na mochila e levar pro hospital e... . Eu não sabia que você estava aqui.
- Ah... Olá . Eu não sabia que você frequentava a casa da chefe vestindo só uma toalha na cintura.
- Eu... Não – ele procurava as palavras – Não é bem assim.
- Ela já sabe de tudo, virou para ele e sorriu – Eu só sei a que você chegou hoje de manhã e entrou embaixo das cobertas – ele então ficou vermelho e envergonhado e gargalhou – Ela é minha melhor amiga!
- Estou te devendo um só de toalha amarrada na cintura.
- Combinado – as duas compartilharam um “high five” e voltou para o peguete que parecia não acreditar no que tinha acabado de ouvir – Não sei, você já olhou dentro da sua própria mochila?
- Certo – ele então deu as costas e voltou para dentro do quarto de .
- Todos eles têm o corpo assim? – perguntou – O também é olha... Uma entrada bem feita, não aquelas barrigas de cerveja.
- US Army – respondeu para a amiga.
- US Army! – concordou e as duas gargalharam e voltaram a assistir televisão.
Não demorou muito para que voltasse para a sala, já devidamente vestido e com sua mochila nas costas, com a chave de seu carro em mãos, que estava guardado na garagem de .
- Eu estou indo para o plantão, te vejo amanhã?
- De noite eu estou por lá – respondeu para ele e então olhou no celular, constatando que ele iria chegar atrasado – Ainda bem que a sua chefe não está lá por hoje.
- Que pena que ela não está por lá – ele se aproximou e deu um beijo na mulher e abanou para – Até amanhã.
- Não mesmo – a psiquiatra gritou para ele – Nossa chefe deu folga!
- Bom trabalho – gritou ao vê-lo sair pela porta.
- Amanhã à noite? – perguntou com um olhar safado para a amiga que riu.
- É, hoje eu vou passar a madrugada com a minha melhor amiga bebendo um monte, comendo porcaria e quero dormir o dia inteiro amanhã, antes de ir para o plantão – concordou com a amiga – A propósito, você tem uma chave extra aí?
As duas gargalharam e não demorou muito, saíram para o mercado. Compraram mais cerveja e mais guloseimas. Era raro elas terem uma oportunidade como aquela.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.






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