Última atualização: 25/06/2019
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Prólogo

caminhava a passos lentos, enquanto apertava seu sobretudo em volta de seu corpo. Precisava sair do hotel, precisava respirar ar puro, mesmo que Seoul fosse uma das cidades do mundo que mais tentava combater a poluição do ar. No bolso do casaco, seu celular, passaporte e alguns wons sul-coreanos. Tudo o que ela precisava para uma eventual emergência. Talvez aquela situação fosse uma emergência e correr para Incheon e voltar para casa, fosse uma opção.
Ela conseguia sentir as temperaturas abaixando a cada passo que dava pela orla sul do Rio Han, na região de Gangnam. precisava que alguém tivesse dito a ela, um mês antes, que embarcar numa aventura intercontinental, por causa de um amor de verão, era loucura, insanidade. Não era como voar trinta minutos e estar no Rio de Janeiro. Ela levou exatas 51h desde o momento que seu avião decolou em São Paulo, para enfim, colocar seus pés na capital da Coréia do Sul. Ela sentia seu corpo pedir por cama, para dormir as mesmas 51h de forma ininterrupta, mas não conseguia, após o choque de vê-lo em todos os signs e outdoors da cidade.
Não sabe dizer de onde saiu forças para brigar com Siwon... Choi... Seja lá qual for o nome dele. Sentia suas mãos atadas. Que ela não o conhecia direito, ela sabia, mas jamais imaginou um segredo dessa magnitude. Estava se sentindo traída, e o músculo que bate constantemente em seu peito, estava apertado e retraído.
O sentimento estava claro. Ela gostava do homem com quem esteve algumas vezes. Não teria ido até a Ásia se não gostasse, porém a mentira ainda doía dentro de si. Se ele achava que ela iria gostar menos dele, não fazia ideia de como estava errado. Verdade e comunicação são as chaves de todo relacionamento, seja ele de qual tipo fosse.
Como num passe de mágica, um anúncio de um mega show de Super Junior apareceu no alto de um prédio, à sua frente. Grande, imponente, confiante, poderoso o suficiente para fazer as pernas de quebrarem, ela encarou a imagem de Siwon, que parecia olhar de volta para ela. Ela ficou hipnotizada com a troca de olhares, até que algumas vibrações no bolso do sobretudo chamaram sua atenção.
tirou o celular do bolso e olhou para a prévia que aparecia em seu descanso de tela. . Droga, havia esquecido de avisar a amiga que tinha chegado bem do outro lado do mundo. Havia uma área cinzenta sobre a definição de chegar bem. Ela havia chegado muito bem, porém estava sentindo que seus pedaços estavam desmoronando.

“Bom dia, Brasil. Boa noite, Coréia! Já chegou? Deu tudo certo? Não ficou entediada no avião? Encontrou o boy magia? Como é a imigração na Ásia? Mande notícias assim que possível!”

sorriu amarelo para o aparelho, como se pudesse vê-la. Já havia chegado, deu tudo certo, ela, com certeza, ficou entediada no avião, encontrou Siwon e a imigração foi mais simples do que ela imaginou que seria, mas só tinha uma resposta adequada para aquela mensagem.

“Choi não é exatamente a pessoa que ele diz ser.”

A resposta veio quase de imediato e em letras garrafais. Um imenso “do que você está falando?” apareceu na tela de e ela olhou novamente para a foto acima do prédio. O coração pareceu querer saltar pela boca ao encarar a foto dele novamente. De eles se encararem através de um outdoor.
Ele não é exatamente a pessoa que diz ser.
A brasileira voltou os olhos para o seu celular e voltou para sua lista de conversas. O nome Choi ainda estava lá, com uma mensagem não lida. Ela respirou fundo e abriu.

, onde você está? A recepcionista do hotel disse que você saiu, estou preocupado. Por favor, me dá uma chance de explicar as razões de eu ter escondido essa verdade durante todo esse tempo. Espero um sinal, Siwon.”

A máquina que bombeava sangue para seu corpo estava disparada à toda velocidade. Apesar da omissão, ele era o homem que fazia o coração de falhar e suas pernas bambearem. Ele foi a única pessoa por quem ela fez aquilo. Antes nunca imaginou viajar mais de 18 mil quilômetros por um homem, e Choi havia despertado aquilo nela. Tentar esquecê-lo iria ser como tentar saber mais sobre uma pessoa que ela nunca conheceu. Apertou o botão de resposta e suas mãos digitaram algo rápido.

“Acho que a gente tem muito para conversar, me encontra no hotel.”

Ela bloqueou o celular novamente e levou de volta para o bolso do sobretudo. cruzou os braços na altura do peito, em uma fraca tentativa de se proteger do frio, e adentrou Gangnam, em um caminho de volta ao seu hotel.
Ela queria olhar nos olhos dele, tentar entender o que estava acontecendo, e ter a sensação, mesmo que fosse temporária, de que tudo iria ficar bem.



Capítulo 1

Para , poucas coisas na vida eram tão prazerosas quanto viajar. Sair da sua zona de conforto, conhecer lugares diferentes, independente se era no seu país, ou fora dele. Ela com certeza acreditava no ditado: viajar é trocar a roupa da alma. E depois de uma viagem incrível, voltar para o hospital onde trabalhava, era no mínimo, revigorador.
E mesmo na América Latina, as opções de visita eram únicas. Ter a oportunidade de conhecer a capital do Chile e seus arredores, estava sendo uma experiência simplesmente fantástica.
- Anda, , nós vamos nos atrasar.
A voz de ecoou pelo salão onde era servido o café da manhã naquele hostel, no bairro da Providência, em Santiago. estava de cabeça baixa, comendo seus ovos mexidos e deslizava os dedos pela tela do celular, tentando se manter atualizada de tudo o que acontecia no Brasil, enquanto estava fora. Ela levantou a cabeça, e encontrou a amiga com as mãos na cintura, ao lado da cadeira onde ela estava.
- Café da manhã – apontou para o prato à sua frente, e tomou um gole do café. Pela visão periférica, percebeu que não se mexeu, e pior, começou a bater um dos pés no chão. – Amiga, você sabe que não é culpa minha eu ter me atrasado.
- Mas pode parar de ler notícias e acelerar com esses ovos, para não perdermos o tour – ela então olhou no relógio de pulso. – Nosso guia passa no hostel em dez minutos e você ainda está se alimentando.
- Ok – foi tudo que se limitou a responder. Bloqueou a tela do celular, ingeriu todo o café em um gole só, e apressou a engolir todo o ovo que sobrou em seu prato. Ela então se levantou, colocou o telefone no bolso traseiro do short, e pegou a bandeja, para deixar na cozinha da acomodação – Vou escovar os dentes, passar um batom e nós já podemos esperar na calçada.
Alguns minutos depois, as duas já estavam com suas bolsas na frente do hostel, esperando o guia que as levaria a uma das mais conhecidas vinícolas do Chile. Não que elas não tivessem bebido vinho durante os cinco dias que passaram no país, mas finalizar o último dia por lá, conhecendo mais sobre a bebida, era como fechar a viagem com chave de ouro.
- Para não termos problemas, acho que nas próximas viagens, a gente tem que ficar em um hotel – quebrou o silêncio na van, que estava lotada de turistas de diversas partes da América Latina, enquanto atravessavam toda a capital chilena a caminho da vinícola onde fariam o tour – Eu acordei no horário previsto, não tenho culpa se nossa colega argentina se apossou do banheiro e resolveu dormir lá dentro.
não se aguentou e riu ao lado da amiga. Não conseguia acreditar que ela ainda estava falando sobre se atrasar.
- Amiga, eu sei que você acordou no seu horário meticulosamente calculado, e sair do país para ficar em um bom hotel, seria como ganhar na loteria, mas não se esqueça que a cardiologista aqui, é você. Eu sou apenas uma professora universitária no curso de engenharia química, que junta umas moedinhas de vez em quando e fica o resto do ano pagando a viagem.
rolou os olhos ao ouvir aquilo. Ela estava no último semestre da residência, não é como se ela já fosse a Dra. Cristina Yang e tivesse ganhado um emprego maravilhoso na Suíça. Era só um hospital universitário, e depois de todas as contas pagas, sobrava apenas alguns trocados para ela poder viver o resto do mês e economizar.
- Que exagerada – ela respondeu a . – O futuro dos países, estão nas mãos de professores. Não desfaça da sua profissão.
- Não me desfaço, infelizmente eu adoro o que faço, porque meu Deus, como um professor ganha mal no nosso país, ultimamente.
- Você sabia que no Japão, a única pessoa que não precisa se curvar para o imperador, é um professor? – falou para a amiga, que com um sorriso orgulhoso nos lábios, balançou a cabeça concordando. – Acho que você poderia aprender japonês, e tentar a vida por lá.
- Na Ásia? – franziu o cenho e diferentemente de instantes atrás, balançou a cabeça em negação. – Eu vou ter muitos problemas se for para a Ásia. Comida é o maior deles e acredite, a língua é o menor deles.
- Nem fala... – ficou pensativa. – Apesar do meu sonho de conhecer o mundo, acho que eu nunca vou conhecer o lado de lá dele – ela falou e tentou apontar para um dos lados, apenas se confundindo para a direção que estavam indo, e qual lado ficava o continente que falavam – Ou se por acaso eu for, vou ter que ir com uma mala cheia de macarrão instantâneo. Caso contrário, eu volto seca que nem um bacalhau, e provavelmente com alguma anemia.
E naquele papo sobre comer (ou não) as comidas asiáticas, elas continuaram o caminho até a maior e mais famosa vinícola chilena. O guia entregou os ingressos para o grupo, e os levou até onde seria o início do tour, no horário marcado no convite.
A parte mais legal de conhecer o mundo, era talvez, em momentos como aquele, que apesar de estar no Chile, pessoas do mundo inteiro faziam o mesmo passeio e então no mesmo ambiente, ela estava com europeus, africanos e asiáticos, e aquela mistura de culturas, a encantava.
- De onde vocês são? – o guia da própria vinícola perguntava aos grupos, à medida que caminhavam até a primeira estação.
- Brasil – as duas responderam.
- Colômbia.
- Espanha.
- África do Sul.
- Coréia!
e trocaram olhares ao ouvir o nome do país e olharam para trás. Um grupo de alguns garotos coreanos vinham por último no grupo e conversavam entre eles em um idioma que ela não entendia. Tinha certeza que nunca entenderia um a do que era dito nas línguas asiáticas, nem que fizesse ao menos dez anos de curso em vivência local. Era no mínimo irônico estar no mesmo passeio que um grupo asiático, quando basicamente o assunto no caminho, era a Ásia. As duas amigas apenas riram e voltaram a prestar atenção no que estava sendo dito.
Passando pelo meio das parreiras de uvas, ouvir sobre a coloração delas, e degustar alguns tipos de vinhos, o tour de cerca de duas horas chegou ao fim na loja do local. olhou para , que tinha certeza o que a amiga ia fazer.
- Você não vai comprar mais uma garrafa, vai? – apenas deu um sorriso sem mostrar os dentes, e começou a se perder pelas prateleiras com inúmeros rótulos à sua disposição. foi atrás da amiga – Eu estou pagando para ver como você vai levar tudo isso embora para casa.
- Bagagem de mão – deu de ombros e então parou em frente à prateleira dos roses. A garrafa branca, com arabescos em rosa, chamava sua atenção. Ela olhou para a etiqueta e pegou o celular, fazendo uma conversão rápida. Uma garrafa daquela custaria pelo menos o dobro daquilo no Brasil – Vou levar só uma garrafa!
- Além das outras nove que já estão guardadas no hostel, certo?
- E pensar que eu tinha intenção de te chamar para tomar uns bons vinhos comigo.
Depois de pagar pelo rótulo, as duas amigas saíram da loja e se juntaram ao grupo, que esperavam o momento de entrar na van.

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Ao invés de voltarem a seu hostel, e aproveitaram que o motorista da excursão deixou algumas pessoas no Centro de Santiago, e preferiram descer por lá. Era hora do almoço, e apesar de terem bebido excelentes vinhos, a fome estava batendo. Em uma rápida caminhada, elas chegaram ao Mercado Central da cidade, e em um dos inúmeros restaurantes que tem por ali, pediram uma comida típica, que todos os blogs de viagem indicavam comer: centolla.
- Eu me recuso a comer esse caranguejo – disse quando o garçom colocou o animal marítimo gigante na frente das duas – Esquece a Ásia, eu vou andar com macarrão instantâneo na bolsa para a vida toda. Olha isso.
- Ah, deixa de frescura. Olha só, o bicho é indefeso e está morto.
deu um sorriso amarelo para a amiga. Nada do que falasse iria convencê-la a comer aquilo, por que diabos havia sido deixada influenciar por ela?
Depois de muita insistência por parte de , mordiscou o animal, porém apreensiva. Ela então pediu uma taça de vinho e bebeu tudo, para tentar amenizar o gosto. Definitivamente, o que vinha do mar, não era para ela. Depois de um tempo, pagaram a conta e a olhou.
- O que nós vamos fazer? A gente já viu todos os pontos turísticos da cidade.
- La Moneda? – perguntou para a amiga – Sei lá, a gente pode dar uma última passada por lá, ficar embaixo de uma sombra. O que acha?
- A gente pode curtir uma balada e um chileno ou outro à noite? Despedida, vai – sorriu de forma maliciosa para a amiga, entendendo o que ela quis dizer, e já concordando. – Vamos lá fazer fotossíntese com o presidente da república então!
Depois de as duas amigas caminharem por cerca de vinte minutos, elas chegaram então ao Palácio de La Moneda. Era um local bonito, arborizado, bem guardado pelos militares chilenos e as duas começaram a tirar fotos e fazer brincadeiras na frente dele. O sol do começo da tarde estava judiando das duas, e resolveram ir para baixo das árvores, e sentar em um banco por ali.

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Não era a primeira vez de Siwon no Chile. O coreano já tinha ido alguns anos antes ao país, com seu grupo, fazer um show e estava lá novamente pelo mesmo motivo, mas era a primeira vez que ele conseguia sair do hotel e dar algumas voltas, ver algo da cidade. Depois de passar pela Plaza de Armas, berço da capital chilena, e pela colorida Calle Bandera, o homem estava junto de um segurança, apreciando a beleza arquitetônica que é o Palácio de La Moneda. Na praça da Constituição, situado no lado norte do prédio, uma série de bandeiras do país formavam um V, reforçando o patriotismo.
Apesar de já ter ido para diversos lugares no mundo, Siwon não podia falar que conhecia as cidades por onde tinha passado. Era sempre muito rápido, e na maioria dos casos, por conta do fuso horário, o famoso jetlag o enchia de jeito, fazendo com que ele ficasse um caminhante zumbi, acordando praticamente na hora de entrar no palco. E quando ele estava se acostumando com a diferença de horários, lá ia ele novamente para dentro de um avião, para um destino diferente, com algumas horas a mais ou a menos, para afetar seu psicológico.
Para ele, também era quase impossível entrar em um relacionamento, estando em um grupo coreano. Nunca podia ser visto tendo demonstração pública de afeto com nenhuma mulher, talvez apenas em volta de quatro paredes, ou em um ambiente extremamente discreto. Ele via o quanto Sungmin sofria e chegava a ser praticamente desprezado pelas fãs, apenas por ter mantido um relacionamento discreto, e então, ter se casado. Era tentativa de boicote e até pedido de expulsão dele do grupo. Apenas por casar.
Siwon queria muito conhecer alguém e ter uma família. Já havia passado dos trinta anos. Seus pais diziam que ele tinha que amarrar um nó com alguém, mas como ele faria aquilo, sendo quem era e vivendo a vida que ele vivia? Flertes? Alguns eram possíveis, mas quase nunca passava de um sorriso e um sonho com o mesmo sorriso bonito que ele recebeu, durante a noite.
Andando em volta do prédio sede da presidência chilena, ele viu duas amigas sentadas em um banco, próximo a ele. Falando uma língua que ele não conseguia entender, com certeza era uma língua ocidental, uma delas falava enquanto mexia os braços e gargalhava, enquanto a outra apenas ouvia, se espreguiçando no banco.
Seus olhos fixaram na que não parava de falar. Cabelos médio, pouco abaixo da altura do ombro, escuro, mas não tanto quanto o dele, com ondas e bastante despenteado – e não se preocupando com aquilo.
Ela era bonita, muito bonita. E tinha certeza que no mesmo momento que ele estava parado, como em uma cena de filme, a observando, provavelmente mais alguns homens ao redor daquela praça, faziam o mesmo.
- Me dá o mapa – Siwon pediu em coreano, para o segurança que estava ao seu lado, e focou seu olhar nele, como se estivesse procurando algum lugar – O que ainda temos para ver aqui por perto?
- Não sei dizer – o segurança se aproximou e também focou seu olhar no mapa, a fim de encontrar outro destino para irem, no pequeno tour que estavam fazendo. – Talvez aqui? – e colocou o dedo em uma área verde – Cerro de Santa Lucía?
- Cerro de Santa Lucía – o coreano falou, em uma falha tentativa de treinar um pouco de espanhol, dobrou o mapa e devolveu para o segurança. – Segura aqui e não me segue – e então, saiu andando para perto das árvores.
- Siwon... – o homem tentou repreendê-lo. Ele era seu segurança, não tinha essa história de não segui-lo. Nunca se sabe quando uma fã desesperada iria aparecer.
- Não me segue! – ele olhou para trás em tom de súplica – Por favor.
O segurança então percebeu a direção que Siwon estava tomando, era o das duas garotas sentadas no banco embaixo da árvore. Ele respirou fundo e tentou ao menos disfarçar, abrindo novamente o mapa e o olhando, enquanto fazia cara de confuso e principalmente... De perdido.
- Hi! – Siwon se aproximou das duas, enquanto a morena continuava gesticulando – Vocês falam inglês? – perguntou e a mesma morena então parou e abaixou os braços. Ela deu um sorriso amarelo bastante sem graça,
então olhou para , que devolveu o olhar para a amiga. A ruiva então sentiu a gargalhada chegar na garganta, mas se controlou. tentou se recompor, antes de responder ao asiático que estava à sua frente.
Ele era alto, tinha mais de 1,80m sem dificuldade. O cabelo estava escorrido, caído e um pouco dos olhos estavam escondidos pela franja. Os olhos semiabertos, por conta da descendência asiática e boca bem carnuda. então aceitou as condições de seu cérebro, ele era um homem muito bonito, e já que era seu último dia no Chile... Por que não?
- Sim, nós falamos! – então respondeu para o asiático que estava à sua frente com um sorriso no rosto.
Siwon então não pode deixar de abrir um sorriso ao vê-la sorrindo para ele. O coreano sentiu suas bochechas corarem e ele podia dizer que, talvez, estava pisando nas nuvens.
- Será que uma de vocês pode me auxiliar? Eu e meu amigo – e então apontou para o segurança. – Nós estamos tentando chegar no Cerro de Santa Lucía, mas não conseguimos achar uma forma rápida de ir a pé.
Cerro de Santa Lucía? abriu a boca ao ouvir aquilo, e ficou completamente indignada. Era praticamente uma linha reta de onde eles estavam, não era possível que aquele asiático foi até elas pedir orientação para ir até lá. Se fosse no San Cristóbal, ela entenderia. Mas no Santa Lucía? Aquele homem só podia estar de sacanagem.
- Nossa, é muito fácil! – então se levantou e tirou de sua bolsa, o mapa que carregava sempre consigo – Como é seu nome mesmo?
Siwon travou. Nome... Ele não estava totalmente confiante nas duas amigas para dar seu nome verdadeiro.
- Choi! – respondeu sem pensar muito.
- Choi... – repetiu, como se quisesse aprender a língua. – Presta atenção aqui. Meu inglês não é muito dos melhores, mas se não tiver entendendo, pode pedir para eu parar e começo de novo, combinado?
Ele balançou a cabeça concordando e sorriu para ela. Ela se aproximou dele e Siwon pôde então sentir o cheiro do perfume que ela usava, entrar pelas suas narinas. Era o cheiro de flores, talvez rosas, mas um cheiro muito bom e inconfundível, ele não iria se esquecer dele por algumas semanas.
- Para chegar no Cerro daqui, é muito fácil. Nessa rua aqui ao lado – ela apontou pela direita, para o sentido dos carros – Você anda dois quarteirões. Depois disso, você vira à direita...
observava orientando o asiático como chegar a um lugar que ela praticamente conseguia ver dali. era muito paciente, não era à toa que ela era médica, que tinha que tomar decisões rápidas e delicadas em questão de instantes. Além de tudo, ela sempre foi mais sociável que . Elas eram praticamente o oposto uma da outra, e sabe-se lá como e porque viraram amigas, mas tinham se tornado praticamente confidentes desde o momento que se conheceram.
Enquanto continuava falando, ela desviou o olhar para o coreano. Ele era um homem muito bonito, e podia ver a razão da amiga estar tão solicita para chegar a um lugar próximo dali. O homem parecia estar divagando para as palavras que a amiga lhe pronunciava, e apenas olhava para ela, com um sorriso besta no rosto. Sorriso de homem apaixonado. tinha esse certo poder nos homens, sem fazer nenhum esforço para isso.
Não que não tivesse poder e despertasse encantamento neles, ela tinha tudo aquilo. As duas tinham histórias de noites memoráveis para contar, e cada uma sempre atraía, à sua própria maneira, tipos diferentes de homens. Talvez era por aquilo que as duas formavam uma dupla tão imbatível.
- Entendeu? – então perguntou para o asiático ao seu lado, que parecia então, finalmente despertar de um sonho bom.
não pode deixar de rir da cena. Mais um que tinha sido pego pelo efeito . Pode entrar na fila, querido. Acredite, ela era longa.
- Entendi... – o homem então respondeu, um pouco na dúvida. – É só eu seguir essa rua...
- E em dois quarteirões você vira à direita e segue reto. Não tem erro e você vai chegar no portão do Cerro – ela sorriu para ele. sabia que não era porque ele era bonito, era só porque a amiga era bastante simpática.
- Acho que eu consigo chegar lá – o homem então falou, alternando o olhar para as duas. – Obrigado! – agradeceu também para , mesmo que ela não tenha dito sequer uma palavra desde o momento que ele chegou. Siwon olhou novamente para . Ela era linda, e o vento que passava pelas árvores balançava ainda mais seus cabelos médios – Muito obrigado. Tchau.
- Tchau! – abanou a mão para ele, que deu dois passos para trás, antes de se virar e ir então em direção a outro homem asiático.
- Ele não prestou um segundo de atenção no que você falou – afirmou, quando a amiga sentou novamente ao seu lado. – Você deixou o cara caidinho por você, mesmo tendo quase 100% de chances de vocês nunca mais se encontrarem na vida.
- Deixa disso, ! – respondeu, pondo novamente no colo a garrafa de vinho que tinha comprado na vinícola. – É só um turista perdido, quantas vezes nós não nos perdemos e tivemos que procurar algum local para nos pedir orientação?
- Exatamente, locais! Não duas turistas como ele.
- Eu detesto esse tipo de comparação e preconceito, mas se você for para a Ásia, você vai saber se a pessoa ao seu lado é japonesa ou chinesa? – negou com a cabeça – Então, ele viu duas ocidentais, há tanta chance de nós sermos chilenas, quanto se estivéssemos na Itália, e sermos nativas de lá.
- Okay, eu entendi seu ponto e você até tem um pouco de razão – ouvir aquelas últimas palavras fez abrir um sorriso satisfeito em seus lábios. – Mas que ele ficou mais preocupado em prestar atenção em você, do que qual realmente é o caminho até o Cerro, ele ficou. Arrisco inclusive dizer que ele veio aqui pedir orientação só para ter uma desculpa para falar com você.
- Besteira, deixa de pensar o pior das pessoas, . Fora que poderia ter sido você que tivesse dado orientação a ele.
- Olha lá então...
apontou o local onde o homem se reuniu novamente com o amigo. Siwon estava com o mesmo sorriso idiota nos lábios e o amigo olhou para ele.
- Satisfeito? – o homem perguntou – Sabe ao menos qual o nome dela? Ou como a gente chega no Cerro?
- Eu não faço a menor ideia do nome dela – Siwon confessou – E também não sei como chegar lá, mas, cara, que mulher maravilhosa.
O segurança de Siwon rolou os olhos. Ele conhecia bem a raça masculina. Era muito fácil de ser enfeitiçada, ele mesmo havia sido pego pelo feitiço feminino, alguns anos atrás, quando conheceu sua esposa.
- Você está apaixonado por uma ocidental, Siwon.
- Não estou apaixonado – ele fechou os olhos e suspirou. – Não é como se eu fosse ter a oportunidade de esbarrar novamente nela, por esse mundo imenso. Você sabe como é a minha vida. Ao menos dos meus sonhos durante a noite, só eu sei.
O homem não estava muito satisfeito com a resposta, mas aceitou mesmo assim. Apesar do companheirismo, Siwon ainda era seu chefe, mesmo que indiretamente. Não iria contestá-lo.
- Você quer visitar esse Cerro Santa Lucía antes de voltarmos para o hotel? – Siwon fez que sim com a cabeça e então o segurança abriu novamente o mapa. – Vamos rápido, pois você tem um festival para se apresentar essa noite, precisa descansar. Vamos lá, por onde vamos até o local?
- Ela falou alguma coisa de seguir essa rua aqui reto até um ponto... – Siwon disse apontando para o mapa.
De volta ao banco, e observavam os dois homens analisando o mapa. Eles pareciam perdidos, e o asiático que pediu orientação para , apontava para um lado, enquanto o segurança para o outro. Os dois homens iam, com toda certeza do mundo, se perder pelo centro de Santiago.
- Repito, ele estava mais interessado em prestar atenção em você – murmurou qualquer coisa, tentando ignorar e não acreditar no que a amiga estava falando – Eles nunca vão chegar no Cerro ou em qualquer lugar que eles queiram.
- Dê mais credibilidade aos homens, . Não sei porque você sempre vê maldade e malícia em tudo – a ruiva rolou os olhos.
- , aceita de uma vez por todas. Ele estava interessado apenas em falar com você, o Cerro foi uma desculpa e arrisco dizer que eles estão olhando o mapa e fingindo que não sabem como chegar lá, apenas como desculpa porque nós ainda estamos observando.
- E você continua vendo maldade em tudo. Tenho certeza que na verdade ele não entendeu nada do que eu disse, e ficou sem graça em pedir para repetir – e então levantou do banco – Anda, vamos voltar para o hostel. Temos que fazer nossas malas, você vai precisar carregar alguns dos meus vinhos...
- Eu sabia, ! – apontou para a amiga – Parece que nunca viu vinho na vida, mulher.
- Você não vem para o Chile e não sai daqui como uma mini adega para sua casa. E então, depois de arrumarmos nossas malas, merecemos um banho e uma última noite chilena, para nos despedir desse lugar encantador. Vamos?
- Vamos! – respondeu também se colocando em pé.
E no caminho em direção ao metrô, as duas amigas passaram novamente em frente aos dois asiáticos que pareciam estar em um entrave sobre qual lado ir e, involuntariamente, Siwon parou de prestar atenção no mapa, e perdeu até a vontade de ir ao Cerro, quando passou desfilando à sua frente, e sumiu por entre os prédios.
Merda, ele nunca mais iria vê-la, e não fazia ideia do seu nome, para ao menos pesquisar na internet.



Capítulo 2

- Eu preciso falar com você!
Siwon entrou esbaforido no hotel em que estava hospedado na cidade de Santiago. O pensamento ainda estava longe, na morena que ele conheceu algum tempo antes, e estava encantado. Falante, bonita, educada e diferente, ao menos fisicamente, de todas as garotas com quem ele já esteve. Porém, de uma coisa ele tinha certeza, nunca mais iria vê-la.
Leeteuk passou pelo lobby do hotel no momento que Siwon entrou, e o homem alto puxou o amigo para dentro do elevador junto dele. Sem entender nada, o líder o seguiu e olhou confuso antes das portas se fecharem. Quando aconteceu, Siwon pareceu reaprender como respirava e sentiu-se mais livre.
- Eu acabei de conhecer a mulher mais incrível do Chile, possivelmente da América Latina inteira – desabafou por fim e colou as costas no espelho do elevador, olhando para cima. – E ela é linda!
O cérebro de Leeteuk parou em “acabei de conhecer uma mulher”. O companheiro de grupo de Siwon estava confuso. Não eram homens desesperados para conhecer mulheres. Já fizeram aquilo algumas vezes e já mantiveram relacionamento escondido da mídia, mas com a vida que eles levavam, o simples fato de conhecer alguém, era considerado como uma grande surpresa.
- Você saiu por uma hora para conhecer a cidade e voltou apaixonado? – Leeteuk perguntou empolgado, e viu Siwon retomar o olhar para ele e fuzilá-lo. Siwon não estava apaixonado. – Certo, o que aconteceu?
- Cara... – Siwon não pôde deixar de rir, mesmo depois de ouvir pela enésima vez que estava apaixonado. – Eu estava observando o prédio presidencial, quando uma risada chamou minha atenção. Eu procurei em volta, e ela estava gesticulando para a amiga enquanto falava, e vez ou outra, ria. Não resisti, inventei uma desculpa para falar com ela.
Leeteuk parecia ser uma menina de cinco anos enquanto ouvia uma história de conto de fadas. Faltava apenas que seus olhos brilhassem....
- E o que você falou para ela?
- Perguntei onde ficava um lugar, e pedi orientação – Siwon sorriu feito idiota. – E ela foi extremamente solícita em me fazer entender exatamente, perguntou de novo... E desde então eu tenho dúvidas se foi um sonho, ou se aquilo realmente aconteceu.
- Ah, Siwon... Se eu não o conhecesse... – Leeteuk deixou no ar as palavras para que ele entendesse. – Você ao menos chegou no lugar onde fingiu que queria ir?
Foi então a vez de Siwon gargalhar ao ouvir aquela frase. Ele não sabia dizer nem qual era o lugar que ele tinha perguntado as direções, quem dirá ir até lá.
- Naquele momento, eu não sabia dizer o meu nome, Leeteuk – o elevador então parou no andar escolhido por Siwon. – Quem dirá se eu saberia chegar em mais um ponto turístico.
- Você parece um adolescente apaixonado, tá besta, tá ridículo – Leeteuk repetiu para o amigo, afinal, eles tinham essa liberdade um com o outro, e ficou no elevador, quando Siwon saiu.
- Para de falar isso, eu não estou – Leeteuk deu de ombros. Para ele não fazia diferença, não era ele o tal apaixonado da história. – Onde você vai?
- Para a piscina – Leeteuk falou por fim. – Eu estava indo para lá quando você me puxou para dentro do elevador novamente.
- Ah... – Siwon ficou sem reação. – Perdão, eu precisava muito conversar e desabafar.
- Sem problemas – Leeteuk apertou novamente o botão para voltar ao andar térreo do hotel. – Siwon... Tenta esquecê-la. É uma em um milhão, e levando em conta o tamanho do mundo e a quantidade de pessoas que tem nele, você sabe quais são as chances de encontrá-la novamente.
- Eu sei, Leeteuk... Eu sei – Siwon falou por fim, com um ar decepcionado, antes das portas se fecharem, o amigo sumir, e ele ver apenas seu reflexo deformado nas portas douradas do elevador.

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- Mala fechada! – levantou do chão, depois de fechar sua mala. – Eu sei que a hora que eu chegar, vou ter que abrir para colocar a roupa novamente, mas...
- E eu que não tinha bagagem de mão, agora tenho, não é mesmo, dona ? – apontou a sacola para a amiga que riu. – Só por isso a gente vai beber esses vinhos juntas.
- Mas também... O que você acha que aconteceria comigo, se eu bebesse todas essas garrafas sozinha? – a morena perguntou e riu. – De qualquer forma, onde vamos essa noite?
olhou maliciosa para a amiga. Ela então pegou o celular, e levou um tempo até achar o que queria. Quando o fez, virou o aparelho para que simplesmente ficou boquiaberta.
- Pubcrawl? Você sabe que não dá muito certo eu em um pubcrawl.
- Exatamente – puxou o braço novamente. – Você vai nesse tipo de rolê, onde tem homens do mundo inteiro, e pega brasileiro... De São Paulo!
mordeu o lábio inferior, sentindo o julgamento das palavras. Não é como se ela fizesse de propósito.
- Eles chegam em mim falando inglês, vou saber que o cara é do Brasil?
- O melhor é quando eu falo com você, você responde em português, e o cara que você estava beijando há segundos vira “você é do Brasil?” – gargalhou lembrando da última vez. – Aquele cara em Buenos Aires foi foda.
- Ai, não lembra – travou a mandíbula. – Ainda queria meu telefone para a gente assistir um Netflix quando estivéssemos no Brasil. Xô gente, esse evento é pega e não se apega.
- Netflix, . Você sabe qual é o interesse quando a palavra usada é Netflix.
- Eu sei... – ela deu de ombros. – Mas para Netflix eu consigo arranjar lá em casa. Não precisa ser na Argentina ou aqui no Chile.
concordava com , que tinha razão. Qualquer coisa os aplicativos de relacionamento estavam lá para aquilo. Para uma sessão de Netflix.
- Mas ei... Vai que você encontra o seu asiático no pubcrawl? – rolou os olhos ao ouvir a amiga falando aquilo. – Ah, para! Eu sei do que estava falando. Ele estava olhando perdidamente para você. Tenho certeza que o cara estava vendo sua alma.
- Meu Deus, como é chata... – deu de língua para a amiga. – Mas okay, e se ele realmente estava? Spoiler alert, eu nunca mais vou vê-lo. E de qualquer forma, ele é homem, dois minutos depois já deve ter se encantado por outra mulher e nem lembra de mim. Acho que você está obcecada por ele.
- Ah não – esticou o braço e levantou um dedo, negando. – Você não vai virar esse jogo, . Não vai! Eu só estou falando que talvez, era uma chance de você pegar um carinha nessa viagem... Que não seja brasileiro! – e segurou o riso, ao falar a última frase.
ficou boquiaberta, mostrando indignação ao ouvir aquilo. Não é culpa dela se ela atraía brasileiros.
- Imagina se o “asiático” fez aspas com as mãos. – Na verdade mora lá em São Paulo? Imagina que louco! – as duas riram com a possibilidade. – Ai... Nunca mais vou ver o cara mesmo... Enfim... Vou passar um reboco na cara e logo a gente pode sair!

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Siwon, junto com seus colegas de grupo, entraram no palco pela primeira vez no ano, naquela mesma noite. O famoso Estádio Nacional de Santiago não estava lotado, mas pessoas de toda a América Latina tinham viajado para a capital do Chile, para assistir os grandes nomes e também lendas da música pop coreana.
O homem estava aéreo no backstage, ao sair do palco. Siwon não conseguia parar de pensar na morena de cabelos médios que ele conheceu mais cedo no mesmo dia. Seu cérebro se pegava pensando como seria sentar e conversar sobre a vida com ela, ou seus filmes preferidos. Ele deu um sorriso de lado quando um pensamento passou pela sua cabeça. Tinha certeza que ela não sabia quem ele era, e podia apostar que ela não estava na plateia naquela noite, caso contrário, a morena era uma ótima atriz, e soube disfarçar bastante. Não... Siwon balançou a cabeça, definitivamente, ela não tinha noção de quem ele era. Provavelmente apenas mais um entre os inúmeros turistas que passam anualmente pelo país.
Leeteuk assistia Siwon perdido em seus próprios pensamentos. Ele então balançou uma mão na frente do amigo, que nem se abalou com aquilo. Parecia estar dormindo, porém de olhos abertos. Anos que o conhecia, e nunca o viu assim. Talvez nem com a ex-namorada, que poucas pessoas chegaram a saber do relacionamento, ou conhecer a mulher. Leeteuk balançou a cabeça tentando espantar os próprios pensamentos, mas foi em vão. Será que ele estava assistindo de perto o famoso caso de amor à primeira vista?
- Siwon? – ele então chamou pelo amigo que não respondeu. – Siwon!
O coreano então levantou os olhos na direção de Leeteuk e sorriu. Tinha certeza do que o amigo falaria, mas ele não conseguia se conter. Pensar na mulher que estava sentada em um banco na frente da sede da presidência chilena, era mais forte que ele. Ele tentava não pensar, mas, de repente, seu cérebro estava fazendo brincadeiras com ele.
- Eu sei o que você vai falar – Siwon finalmente então falou. – Que é para eu esquecer, mas eu tento. Aquele cabelo voando, e aquele sorriso sincero ficam voltando na minha cabeça.
- Você vai me odiar, Siwon, mas isso está com cara de amor à primeira vista – Leeteuk falou aquilo em voz alta, e fora de seus pensamentos, pareceu mais verdade. – Tenho certeza que se você não fosse Choi Siwon, e não fosse voltar para a Coréia amanhã, espalharia outdoors e anúncios nos jornais procurando a mulher.
Siwon cerrou os olhos, abaixou a cabeça e a balançou, transferindo o peso dos cotovelos em suas pernas de um lado para o outro.
- Mas eu sou Choi Siwon, não é mesmo? E a vida real me chama.
Mesmo tendo os olhos brilhando, Leeteuk conseguia ver tristeza no amigo. Talvez decepção com ele mesmo, por não ter pego nenhum contato da mulher. Não era mais hora de falar para ele parar de pensar nela, involuntariamente, ele iria, a vida iria acontecer, ele teria que gravar seus Doramas, suas responsabilidades com o Super Junior, suas fotos para revistas asiáticas e até seus trabalhos como embaixador da UNICEF. Porém, naquele momento, Leeteuk tinha certeza que Siwon precisava de uma palavra de conforto.
- Ei, cara – ele deu um tapa de leve no braço de Siwon. – Acredita em destino. Se o universo quiser que vocês se encontrem novamente, ele vai fazer isso. E sei lá... – Leeteuk riu. – Dado o seu histórico, acho que tem boas chances disso acontecer.
Siwon então abriu um sorriso ao ouvir aquele comentário. Sabia que aquilo era só um conforto que ele precisava naquele momento, mas apenas o suficiente para acalmar seu coração.
- Não precisa me iludir, Leeteuk – ele disse agradecido ao amigo. – Eu vou daqui do estádio para o hotel, e do hotel para o aeroporto amanhã. Eu definitivamente nunca mais vou encontrá-la. Mas obrigado pelas palavras, você é um ótimo amigo.

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O pubcrawl havia sido incrível. Quatro bares de Santiago e por fim, uma balada. Definitivamente uma noite incrível para fechar uma viagem incrível. e entraram dentro do hostel, enquanto ria e devolvia na mesma moeda, sobre os encantos que a amiga despertava.
- E eu que tenho o poder divino de fazer as pessoas se apaixonarem por mim, mesmo sem ter feito nada, não é mesmo?
- Me erra, riu do comentário. – Você já teve números mais impressionantes em uma noite e está aí, falando de mim.
- Opa, opa, estou com medo de adivinhar o que está escrito na minha testa depois desse comentário. Dois estrangeiros na mesma noite, amiga – levantou a palma da mão e entendeu que era para ela bater lá. – Nenhum brasileiro e nenhum chileno. Quero ser você quando crescer.
- Você perdeu algumas oportunidades também, vai. O mexicano que ficou apaixonado por você não era de se jogar fora – deu de ombros ao ouvir a amiga falando. – Já sei! Ficou pensando no asiático.
- Ainda nesse assunto? – se exaltou e então percebeu que era madrugada e as pessoas estavam dormindo no hostel, então abaixou o tom de voz. – Minha amiga, nessa noite regada de bebidas e algumas cantadas, eu não lembrei da fuça daquele homem. Não que não tenha sido um bom visual, mas a fila anda, .
- Ele passou o nome, não passou? – tinha uma vaga lembrança da conversa da qual ela não participou mais cedo. – Coloca o nome dele no Google, vai que você acha.
, que estava mexendo mais uma vez na sua mala, parou o que estava fazendo e virou, encarando a amiga na penumbra. Talvez o álcool tivesse consumido um pouco da capacidade de pensar de , além de ser tarde da noite e o sono estar falando alto.
- Que parte do “a fila anda”, você não me ouviu falar? Já era, eu nem lembro o nome dele. Por favor, ... A gente pode falar um pouquinho dos dois gringos que você beijou? Só um pouquinho?
- Pode! – quase foi convencida, mas continuou. – Depois que você procurar o nome do cara no Google, porque eu sei que você lembra.
A morena queria se jogar de costas no chão, talvez até apertar o pescoço da ruiva, mas conhecia . Sabia que ela não iria parar de insistir.
- Insuportável... Você não vai parar de falar nisso, vai? – negou com a cabeça. – Me dá meu celular, tá em cima da cama.
rapidamente alcançou o celular da amiga, e deu na mão dela, em seguida, sentou ao seu lado no chão. colocou a digital no sensor e logo teve acesso ao aparelho, com a vista da Cordilheira dos Andes do avião, na ida, como papel de parede. Ela então acessou o Google e digitou o nome do homem.
- Choi? – perguntou. – O nome dele é Choi?
deu de ombros.
- Foi o nome que ele me deu. Você já pensou que talvez, ele podia estar querendo despistar e não me dar o nome inteiro? – rolava os resultados do Google, sem sucesso. – Quantas vezes a gente já mentiu para conseguir dar um perdido?
- Ele é homem, , ele estava interessado em você. Não acredito que ele iria dar um nome falso depois de desejar você... – nem respondeu para a amiga. – Ei, o que está escrito aqui?
então voltou um pouco a rolagem e achou um resultado do Wikipedia.
- Ah. É um sobrenome coreano – ela então deu de ombros e bloqueou o celular, colocando de volta na cama. – Sobrenome, ele não quis falar o nome verdadeiro. Está contente? Podemos deitar, dormir por três horas, voltar para o Brasil e deixar o coreano no Chile? – ia responder, mas retomou a palavra. – O que acontece no Chile, fica no Chile, .
- Acho que você nunca pegou um coreano, pegou? – ignorou os comentários da amiga, e então a viu fuzilá-la com o olhar – Tá bom, boa noite, até amanhã, amo você!
Quando finalmente deitou, programou o despertador e recebeu o aviso de que ele iria tocar em duas horas e quarenta e três minutos. Ela respirou fundo, odiava dormir muito, mas também odiava dormir pouco. Não conseguia acreditar que a ideia de pegar um voo de volta cedo, havia sido dela, e nem que tinha topado sair na véspera do voo.
Ela então mexeu um pouco nas redes sociais e resolveu fechar os aplicativos. Passou novamente pelo navegador do Google, com a busca ainda aberta. O nome Choi estava destacado em todos os resultados e voltou para o Wikipedia. Havia uma lista extensa de coreanos famosos com aquele sobrenome. Ela coçou os olhos, sentindo o peso do cansaço, também fechou aquele aplicativo. Bloqueou o celular e virou para o lado, a fim de dormir o máximo possível.
Ela nunca mais iria vê-lo.

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- O Justin Bieber deve estar chegando no Chile, não é possível!
e chegaram de táxi ao Aeroporto Arturo Merino Benitez. Eram cerca de 8h da manhã, e o aeroporto estava tomado de, possivelmente, todas as adolescentes chilenas possíveis. O check-in já havia sido feito de forma online, mas precisavam chegar ao guichê da companhia aérea para despachar suas malas.
Usando um par de óculos de sol modelo aviador, tentava abrir caminho com sua mala enquanto carregava no braço, uma das sacolas que seriam sua bagagem de mão, carregada de garrafas de vinhos que ela havia comprado. Tinha certeza que qualquer ídolo teen estava chegando ao país, para ver tantas jovens gritando em sua orelha logo cedo.
Além do horário, tinha a tal da ressaca, que estava comparecendo, para lembrar ela e , da noite que haviam tido algumas horas antes. Esperavam um voo de volta sem turbulência e interrupções por parte das comissárias, pois a intenção era dormir em suas poltronas antes de decolar, e só acordar quando alcançassem o solo do aeroporto de Guarulhos.
Depois de dizerem adeus às suas malas que seriam despachadas, as amigas passaram na casa de câmbio para trocar alguns pesos chilenos que sobraram e, finalmente, entraram na sala de embarque, em direção à fila de emigração, para finalmente dar tchau ao Chile.
Ao terem seus passaportes carimbados, as duas amigas se arrastavam pelas lojas livre de taxas, enquanto tentavam chegar ao seu portão de embarque. e não conversavam entre si, o sono e o cansaço eram maiores que qualquer comentário que elas poderiam fazer, e quanto mais andavam, mais maquiagem e garrafas de bebidas apareciam em seu caminho.
- Acho que eu estou voltando para o Brasil a pé – finalmente quebrou o silêncio entre as duas amigas. – Ou ao menos voltando para o hostel... Nunca vi aeroporto tão grande.
se limitou em murmurar qualquer coisa concordando com a amiga e então finalmente chegaram ao penúltimo portão de embarque, onde um anúncio, em letras grandes e digitais em uma tela de televisão, anunciava que em breve ali teria embarque para um voo para São Paulo.
- Eu vou ficar sentada aqui – achou um banco vazio. – Eu me recuso a ficar em fila, tem poltrona marcada mesmo, me acorde quando for para eu entrar no avião.
apoiou a outra sacola com vinhos na poltrona ao lado da amiga, que tentava se aninhar em sua bolsa, procurando um conforto para tentar tirar um cochilo que fosse ao menos de dez minutos. A ruiva ficou em pé, observando o movimento, porém igualmente de óculos de sol, para tentar esconder as possíveis olheiras que estavam abaixo de seus olhos.
Uma movimentação estranha chamou sua atenção. Vindo na direção que ela estava, um grupo com vários homens caminhavam e se posicionavam próximos ao portão ao lado. Não era um homem, nem dois. Eram ao menos vinte deles, que caminhavam juntos. Todos eles tinham uma característica em comum... Os olhos marcantes que todo asiático tem. não pode deixar de dar uma risada nasalada, e ouviu murmúrio de , que apesar de estar de olhos fechados, queria saber o que estava acontecendo ali.
- Somente a maior ironia do destino possível – então respondeu à amiga. – Provavelmente todos os turistas asiáticos que estavam no Chile, estão pegando avião aqui do lado. Detalhe... A maioria deles são homens.
- ... – resmungou. – Você não se cansa desse assunto? Desde quando você ficou tão interessada assim pela Ásia e os homens de lá? – a morena, ainda de olhos fechados, reclamou. – Pode ficar com o Choi, amiga. Eu não ligo não.
Mas enquanto falava, os olhos de fixaram em uma pessoa em especial. Atrás dos óculos, ela os arregalou, para ter certeza que aquilo não era uma miragem criada pela sua ressaca ou a falta de horas de sono. Não, ela não podia acreditar no que estava vendo.
- ... – ela começou a chamar a amiga e então tirou os óculos. – , pelo amor de Deus, você não imagina quem está aqui.
- Me deixa... – choramingou.
- Levanta dessa poltrona, ... – a amiga então não se mexeu. Situações desesperadas pedem medidas desesperadas. – , o Choi está aqui na sala de embarque.
Com a cabeça apoiada na poltrona ao lado, abriu os olhos, que estavam escondidos atrás dos grandes óculos modelo aviador. Ela levantou a cabeça então e olhou na direção de , que discretamente, apontou para o lado e lentamente, a cabeça de girou 90° até alcançar o que estava apontando.
Cabelos escuros e caídos na altura dos olhos, a mesma boca carnuda, o corpo escondido atrás de um conjunto de moletom e aquele maxilar poligonal. tirou os óculos para poder enxergar melhor o que seus olhos estavam vendo. Ele conversava com um ou dois colegas e ria de forma leve e despretensiosa.
Até algumas horas atrás, ela tinha certeza que nunca mais ia ver aquele homem, e lá estava ele novamente, à sua frente, na mesma sala de embarque que ela. Aquilo só podia ser alguma brincadeira de muito mal gosto. Involuntariamente, a brasileira levantou da poltrona onde estava e ficou encarando o homem, sem vergonha, sem pudor.
Os olhos de Choi, pela visão periférica, a encontrou. Ele olhou para ela e abriu o melhor de seus sorrisos, incrédulo do que estava vendo. Teria que dar o braço a torcer para Leeteuk? Aquele era o destino agindo e colocando a mulher dos seus sonhos novamente na sua frente?
- Vai falar com ele – murmurou para quase que em um tom de súplica. – Pelo amor de Deus, amiga, você nunca mais vai ter outra chance dessa na sua vida.
- Eu não sei se sei o que falar para ele... – confessou, porém de forma discreta, abanou a mão para ele. – Oi, até ontem eu tinha certeza que nunca mais ia te ver? – ensaiou e virou para a amiga. – , me ajuda.
- Você tem cerca de dez segundos até ele estar aqui... Pensa logo.
Quando finalmente percebeu, Choi estava andando em direção às duas. Ela sentiu seu coração falhar e suar frio. Seu cérebro racional estava achando aquilo ridículo. Por Deus, era apenas o homem gato para quem ela tinha dado orientações no dia seguinte. Era apenas uma coincidência incrível eles estarem no aeroporto ao mesmo tempo.
- Oi! – Choi então finalmente falou para as duas.
queria gritar na cara da amiga que ela estava certa, que ele estava olhando para ela, porém discretamente, pegou sua bagagem de mão e foi para a fila de embarque que já estava formada.
- Que coincidência você aqui – então falou, tentando se recompor. – Para onde vai?
- Casa – Siwon então respondeu a ela. – E o caminho vai ser longo.
Ela olhou para ele que fingia fazer cara de sofrimento e então olhou o anúncio no portão ao lado: Sydney, Austrália. Realmente, era um longo caminho.
- E onde fica exatamente sua casa? – ela teve curiosidade em saber – Choi, certo?
- Certo – ele queria abrir um largo sorriso ao ver que ela lembrava de seu nome. – Um longo caminho para chegar em Seoul – ah, Wikipedia, você dificilmente erra, não é mesmo? – E você? Para onde vai e qual o seu nome?
- Eu sou a – Siwon se sentiu vencedor. Finalmente aquele rosto e sorriso iluminados tinham um nome. Muito lindo, por sinal. – Meu voo dura um pouquinho mais de três horas para chegar em São Paulo.
- Brasil? – ele perguntou e ela balançou que sim com a cabeça e ele percebeu algo errado nela. – Você está com sono? Estou te incomodando?
- Não! – ela então se assustou um pouco com a pergunta e pegou no braço dele, como se não quisesse que o homem fosse embora. Ele sendo sul-coreano, tinha certeza que se deixasse ele escapar no aeroporto, nunca mais o veria na vida... Mesmo. – A tequila aconteceu ontem à noite, só isso.
Siwon mordiscou o próprio lábio inferior. Tinha mais do que certeza que ela não estava entre o público do festival que ele cantou na noite anterior. Que era uma mulher de espírito livre que foi para uma festa com a amiga. A cada palavra que ela falava, por mais simples que fosse, ele se encantava com ela.
- E você? – apontou para os outros coreanos que estavam na fila que antes ele estava. – Excursão, ou algo do tipo?
Siwon não sabia o que responder. Contava quem ele era e o que realmente havia ido fazer no Chile?
- Convenção anual da empresa em que eu trabalho – finalmente falou. Não era uma mentira por completo. – E você veio com uma amiga?
- Todo ano eu e a escolhemos um destino para viajar. Essa vez, escolhemos o Chile.
- E que sorte a minha – involuntariamente, Siwon completou e ela não pôde deixar de soltar um sorriso envergonhado. – Desculpe, acho que isso foi impróprio.
- Não se preocupe, não foi nem um pouco impróprio – ia dar o braço a torcer para ? Ia, mas estava adorando o andamento daquele papo.
Um anúncio na saída de áudio do aeroporto chamou a atenção dos dois. Em espanhol e inglês, uma funcionária da companhia aérea que ela ia voar, estava chamando para o voo. Logo em seguida, ela sentiu-se como uma flor murcha, triste, sem vida.
- É o meu voo – ela confessou a ele. – Acho que eu vou precisar ir.
- Me dá seu telefone – Siwon falou sem pensar muito. – A gente pode trocar mensagens, se você não se importar.
- Não me importo nem um pouco – e de repente, a flor voltou a desabrochar. – Tem algum lugar para anotar?
Siwon então tirou o seu aparelho celular do bolso, desbloqueou e acessou a agenda de contatos, dando o aparelho na mão dela. aceitou, digitou seu número de telefone, com o código brasileiro, e no nome, digitou ao lado de uma bandeira do Brasil.
- É para você saber de onde conhece uma – ela sorriu para ele, que estava satisfeito. Tinha um nome e um número de telefone. Leeteuk tinha muita razão.
então pegou sua bolsa e sua sacola cheia de vinhos.
- Não se preocupe, nem que eu quisesse eu iria me esquecer de você – e num impulso, Siwon se aproximou e beijou a bochecha dela.
Involuntariamente, fechou os olhos ao sentir os lábios dele tocar sua pele. Na fila de embarque, que já estava andando, arregalou os olhos com aquilo. Na fila para Austrália, alguns coreanos também estavam boquiabertos.
- Boa viagem – Siwon então falou para ela. – Eu vou te mandar mensagem.
- Boa viagem para você também... E eu vou esperar.
Com muita dificuldade, pois parecia que Choi era um ímã muito potente que estava a atraindo, então se afastou e se juntou a na fila de embarque para retornar a São Paulo.
Siwon retornou à fila junto com seus colegas e ficou assistindo o momento que as duas amigas entregavam o passaporte com suas passagens para a funcionária que confirmava as duas no voo, e autorizavam sua entrada na aeronave.
Antes de entrar pelo túnel, virou para trás e encontrou o homem olhando para ela. A morena levantou a mão em um discreto aceno, e quando ele devolveu, sorriu satisfeita e entrou pelo túnel, sumindo completamente da vista de Siwon.
- É ela? – Leeteuk então perguntou, vendo o amigo estar sonhando acordado.
- É ela... – e então virou para o colega de grupo – É ela!





Continua...



Nota da autora: Olá, pessoal, como estamos? Espero que estejam todas bem! Cheguei de São Paulo hoje e já estou correndo para enviar atualização. Fui assistir a goleada da nossa seleção brasileira, em cima da seleção peruana, na Copa América. Foi um feriado incrível, eu estou bem cansada, mas não podia deixar de enviar a atualização para vocês.
Bem, quem diria que Siwon e nossa PP já iriam se reencontrar? E o melhor (ou pior?) no aeroporto cada um voltando para sua casa. Quero muito saber os palpites de vocês para o desenvolvimento dessa história. Obrigada pelos comentários e receptividade nesse universo KPOP. Acreditem, é muito importante todo esse warm welcome! Encontro vocês no terceiro capítulo! Beijo grande, Liih!





Nota da beta: Ah, meu Deus, amo essa amiga da pp, cara, ainda bem que ela estava acordadinha e viu quando o Siwon entrou na sala de embarque… Hhahaha eu ri da mentirinha leve dele sobre estar em uma convenção anual da empresa rs! Ele beijou a bochecha delaaa, chocada! Só continua logo, Liih! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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