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Última atualização: 04/10/2020

Prólogo

estava nervosa.
As mãos tremiam e um leve suor acumulava-se em seu rosto. Aparecer daquele jeito, em rede nacional para milhares de pessoas, estava deixando-a paranoica. Não que a maquiagem fosse seu maior problema naquela noite, longe disso. A maior questão que ocupava um enorme espaço em sua cabeça era o conteúdo da entrevista que daria para Jimmy Fallon.
Mesmo que Jimmy fosse um apresentador exemplar, o conteúdo das perguntas a deixavam um tanto quanto apreensiva quando, pelo menos nos últimos três anos, o conteúdo delas era sempre o mesmo: processos de composições, o sucesso gigantesco que a cantora havia alcançado nos últimos anos após uma participação na criação do álbum da Rowdy e a pior delas: sua relação conturbada com , o vocalista da Rowdy.
odiava aquela pergunta, não importava a forma como esta era meticulosamente arranjada. Odiava a forma como os apresentadores realizavam a conhecida introdução "E agora, falaremos de um assunto polêmico: como está o coração de ?". Deus, como odiava aquele amontoado de palavras. Parecia que tudo o que a cantora fizesse era sempre voltado a quem ela havia escrito suas letras ou como se sentia com o fato de ela estar seguindo carreira no mesmo ramo que ele.
— Dona de três singles que ocuparam o topo das paradas em vinte e dois países, incluindo Estados Unidos, Inglaterra e Brasil, vamos receber uma artista que vai estar em replay por todos os lugares que vocês forem e também aguentou muito por nós, ! - Jimmy a chamou, tirando-a de seu transe para adentrar o estúdio do Saturday Night Live.
foi recebida com uma salva de palmas extremamente calorosa enquanto andava através do palco até a conhecida poltrona do programa de Jimmy, acenando para alguns fãs a medida em que se aproximava dele. Quando se aproximou, sorriu em direção à Jimmy que a envolveu em um abraço cuidadoso antes de voltar para seu lado da mesa.
— Como é bom te receber novamente! - Jimmy sorriu. - Como você está, ? Faz um tempo desde a última vez que te recebi nessa poltrona. Ouvi dizer que a senhorita estava ocupada demais para mim.
— Quem te disse isso? - riu. -Nunca estarei ocupada demais para você, Fallon, deixe de drama. - rolou os olhos, sorrindo para o apresentador. - Mas estou ótima e você, como está?
— Estou ótimo, mas vamos ao que interessa, sim? - ele se virou para trás, puxando algo que conseguiu identificar como sendo uma revista. - Pouco menos de três anos de carreira e a senhorita conseguiu uma capa na Vogue, como se sente com esse feito?
— Posso pegar? Eu ainda não vi pessoalmente. - Jimmy estendeu o exemplar em direção a , que observou com atenção os detalhes da capa com uma citação de um trecho da entrevista prestada algumas semanas atrás. - Deus, ficou ainda melhor do que eu pensei que ficaria.
— Não é? Digo, essa entrevista deu muito o que falar devido ao seu conteúdo. - o apresentador voltou a pegar o exemplar, colocando em cima da mesa. - Uma capa na Vogue e um papel principal em uma série sucesso da HBO, podemos dizer que você está aqui para ficar?
— Eu não sei. - estava sem graça. - Quero dizer, há alguns anos eu estava trabalhando como roadie para a banda do meu primo, agora eu estou produzindo meu segundo álbum de estúdio e com um contrato renovado para a segunda temporada de uma série. - ela cruzou os braços em cima de suas pernas. - Frequentemente eu penso que estou vivendo um sonho e, honestamente, se for um sonho eu prefiro continuar dormindo.
— E falando sobre seu passado antes de tudo isso... - oh, oh... escolha de palavras erradas, , pensou a cantora. - Recentemente você e Griffin postaram um vídeo cover em seu canal no Youtube, huh? - ele disse. - Para aqueles que estão perdidos: e Griffin Graham, baterista da banda Rowdy, são primos e recentemente postaram um vídeo fazendo um cover de Take Me Down da The Pretty Reckless, vamos ver um trecho.
E ambos se viraram para o telão onde um trecho do cover estava passando. e Griffin estavam sentados no sofá da cantora, dois microfones estavam dispostos em frente a cada um deles e Griff fazia os solos de guitarra e os backing vocals enquanto ela tocava seu violão e cantava as letras com uma afinação perfeita em harmonia com o rapaz, sorrindo e brincando vez ou outra com ele.
— E o cover foi um sucesso, notado pela vocalista da The Pretty Reckless, Taylor Momsen, em seu perfil do Twitter. - Jimmy voltou a encará-la. - Como vocês decidiram postar esse cover? As pessoas estão especulando bastante sobre como isso poderia ser uma indireta.
— Indireta? - a cantora riu, já imaginando onde aquele assunto iria acabar chegando.
— Para aqueles perdidos: fez uma grande participação no terceiro álbum de estúdio da banda Rowdy, o Bloom. O dueto dela com , "Bad Things”, ficou no topo da paradas por mais de vinte e seis semanas consecutivas. - Jimmy se virou para a cantora. - Fãs estão especulando que talvez isso tenha sido uma indireta para uma nova participação no próximo álbum da Rowdy.
— As pessoas têm uma imaginação muito fértil. - sorriu. - Eu e Griff estávamos compondo alguns arranjos para o meu próximo álbum e tivemos a ideia de fazer um cover juntos, achamos que seria uma boa ideia visto que nossas agendas costumam ser bem preenchidas e quase nunca nos vemos. - deu de ombros.
— Então é um "não" para qualquer participação entre você e a Rowdy?
— Não digo que não é possível que aconteça... - sentou-se mais ereta. - Eu ficaria honrada de fazer uma colaboração com a Rowdy novamente. Eu os admiro muito e foram eles quem me deram a oportunidade de ser o que sou hoje em primeiro lugar. - ela estava sendo sincera, afinal. - O processo de composição do Bloom foi uma das experiências mais ricas que já tive, musicalmente falando. Além disso, eu tenho um carinho enorme por eles e boa parte do tempo eu me sinto como se fosse uma mãe orgulhosa de seus filhos.
— Isso foi a coisa mais pessoal que você já disse sobre seu relacionamento com os garotos. - Jimmy se recostou na cadeira. - Então eu tenho que perguntar: como está o seu relacionamento com os outros membros da Rowdy atualmente? Sabemos que até quatro anos atrás eles eram uma constante em sua vida e vice-versa, surgiram até mesmo rumores que você e poderiam estar em um relacionamento.
— Você não deixa nada passar, né? - ela balançou a cabeça negativamente. - Eu tenho estado um tanto quanto distante dos meninos, principalmente por conta da distância, visto que eu passo a maior parte do meu tempo em San Francisco ou Nova Iorque enquanto todos eles moram em Los Angeles. Mas eu estou sempre conversando com eles por Facetime.
— Isso significa que você tem acompanhado os trabalhos deles, então?
— Definitivamente, "Bloody Valentine" e "Why Are You Here" estão na minha playlist pessoal desde o lançamento e eu estou bastante ansiosa pelo próximo álbum.
— E quanto aos projetos pessoais deles, você acompanhou?
— Só alguns, acompanhei os de Dom e Tommy e apesar de ter dado os parabéns eu tenho que fazer um adendo: "Parents" e "Scumbag" são obras de arte e se você ainda não escutou, deveria!
— Você tem certeza que não criou um fã-clube para eles? - Jimmy riu.
— Não posso confirmar ou desmentir nada. - levantou as mãos em rendição. - De verdade, os meninos são extremamente talentosos, é minha obrigação moral dar ênfase nisso.
— É ótimo saber que vocês continuaram a amizade mesmo seguindo caminhos diferentes, musicalmente falando. - o homem sorriu. - Todavia, podemos ver algo com mais influência do rock em seus próximos trabalhos? Algo mais parecido com Linkin Park, talvez? - Jimmy alfinetou, em uma referência clara aos citados anteriormente.
— Não é uma coisa que eu posso dar certeza ainda, mas é uma possibilidade. - puxou os cachos para suas costas. - Digo, muitas das minhas influências líricas vieram de Oasis e Blink-182, então tudo é um grande campo à ser explorado. Eu estou sempre tentando mesclar meus estilos preferidos, "All For Us" e "Replay" são os maiores exemplos, eles destoam muito entre um e outro.
— É ótimo ouvir isso , ficamos ansiosos para seus próximos lançamentos. - ele sorriu. - E agora, daremos um break para os comerciais e no segundo bloco teremos Billie Eilish!
Jimmy sorriu em direção às câmeras aguardando o sinal de que os comerciais já haviam começado. Quando a confirmação chegou, o apresentador virou em direção a com um sorriso tão sincero em seu rosto que a cantora não pode deixar de agradecer mentalmente pelas perguntas mais descontraídas que ele havia feito.
— Trate de me avisar com antecedência em relação ao novo álbum, sim? Faço questão de ser o primeiro a saber.
— Aye, sir! - bateu em continência, se levantando da poltrona para dar um abraço rápido de despedida no apresentador. - Você será o primeiro a saber.
A morena sorriu, se despedindo do homem e fazendo seu caminho até o backstage do estúdio para encontrar sua empresária com uma cara não muito agradável em seu rosto. Isso era algo que amava em Sabrina: tudo naquela mulher conseguia ser tão transparente feito uma taça de cristal polido.
A empresária e a cantora mantinham uma relação de amizade e profissionalismo desde que se conhecia por gente, ambas saíram de Toledo, Ohio e se mudaram para Nova Iorque para cursar Música e Produção Musical em Julliard, moraram juntas por todos os anos da graduação e quando assinou seu contrato como roadie da Rowdy, fez questão de a arrastar junto com ela poucos meses depois.
— Eu amei a entrevista, você serviu muito bem. - Brina sorria nervosa. - Mas o twitter está uma loucura e eu recebi uma ligação de Ashleigh que eu duvido que você vai querer saber do que se trata.
Brina pegou a mão de e a arrastou pelo backstage até o camarim que haviam designado para a breve estádia de no estúdio do programa. Quando entraram no pequeno cômodo, Sabrina fez questão de fechar a porta e passar a chave para que ninguém pudesse interromper a conversa que elas teriam naquele momento.
— Brina, você está me deixando um tanto assustada.
— Eu sei! - a empresária disse, sentando-se em frente à logo após a própria se sentar. - Não é proposital, ok?
— Ok! - riu fraco. - Poderia desembuchar?
— Ashleigh me ligou dizendo que estava acompanhando o programa e disse que os meninos querem que você participe na produção do próximo álbum de estúdio.
E foi naquele momento que entendeu: ela estava ferrada.


Capítulo 1: As Provações e Tribulações de Ter Uma Overdose

"Life's about making mistakes.
It's also about trying to be great."
(A vida é sobre cometer erros
Também é sobre tentar ser incrível.)
- At My Best, Machine Gun Kelly
Los Angeles, CA
Quatro anos antes



Sabe, existem uma infinidade de coisas que os filmes e seriados não mostram em relações a overdoses por drogas. A primeira delas, é o inferno que você passa quando é obrigado a ser internado em uma clínica de reabilitação. A internação nunca é a pior parte, as crises de abstinência são. Elas te fazem repensar as suas escolhas na vida enquanto você treme, grita e quase se autodestrói. Na maior parte do tempo você é como uma bomba relógio a ponto de explodir. E eu odiava essa sensação.
Odiava a forma como meus colegas de banda me olhavam, odiava a forma que minha própria filha me olhava e por isso eu não julguei Ashleigh quando ela me disse as seguintes palavras:
— Você vai para a reabilitação e quando sair, vai ser vigiado vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É a consequência por seus erros, . Você não pode continuar se destruindo e destruindo tudo ao seu redor.
Eu estava ferrado e havia aceitado de bom grado as consequências pela minha falta de responsabilidade, mesmo que pela maior parte do tempo eu me sentisse como uma criança que havia matado aula. A questão aqui era que eu tinha vinte e seis anos nas costas, uma filha de oito anos e uma banda que estava quase colapsando graças aos meus vícios autodestrutivos. Eu estava na merda. Ferrado em todos os aspectos da minha vida, principalmente porque a minha mais nova babá era ninguém menos que .
era um pé no saco, para dizer o mínimo. Linda, porém um pé no saco. tinha pouco mais de um metro e setenta de altura, seus cabelos negros eram cacheados e sua pele era de um tom marrom-claro. Ela poderia facilmente se passar por uma modelo se, em noventa por cento do tempo, ela não ficasse com a cara fechada em uma expressão que gritava "eu não quero ser sua amiga, não tente". Em um breve resumo: ela era amada por todos ao seu redor, até mesmo por minha filha e eu não era a pessoa preferida dela.
? - chamou minha atenção, me fazendo encará-la pela primeira vez naquele dia. - Eu quero te fazer uma pergunta bem simples e eu gostaria que você me respondesse com sinceridade, sim?
— Diga.
— Onde você estava com a cabeça?
— Perdão? - franzi o cenho, claramente confuso com suas palavras.
— Eu estou perguntando onde você estava com a cabeça quando resolveu injetar. - a voz dela estava calma enquanto ela dirigia pela Sunset Strip.
— As coisas estavam complicadas. - encarei a rua à minha frente, o céu pintado de laranja denunciava o pôr do sol. - É tudo o que você precisa saber.
— Vou respeitar o seu tempo, apesar de querer te agredir fisicamente.
— Vá em frente. - ri fraco
— Estou tentando ser compreensiva. - E então, da mesma forma que havia puxado assunto, voltou sua atenção para a rua.
O sol já havia se posto por completo quando parou seu carro diante da minha mansão em Hidden Hills. As luzes acesas denunciavam que a casa não estava completamente vazia e por um breve momento, me permiti sentir algo além da culpa que havia tomado conta de meu corpo nos últimos três meses em que havia estado longe. Deus, como eu havia sentido falta da minha casa.
— Você está entregue, fique á vontade para sair quando quiser, sem pressa. - me chamou e só então pude perceber que estava divagando em meus pensamentos novamente.
— Você não pode ser uma pessoa educada pelo menos uma vez? - a encarei.
— Esse é meu charme, você poderia achar que somos amigos se eu fosse uma pessoa agradável.
— Não seria uma má ideia. - abri a porta do Camaro 76, saindo para fora do veículo com certa dificultado devido à altura. - Já pensou em atualizar essa lata-velha? Quero dizer, é um bom carro, mas algumas melhorias não fariam mal.
— Não ouse ofender Luci dessa forma, você esteve bem confortável dentro dela. - me encarou como se eu tivesse acabado se direcionar os piores dos insultos ao seu carro. - Além do mais, posso cogitar a ideia se você começar a me pagar de acordo com tudo o que faço. Ou me comprar um Pontiac.
— Está afiada, huh? - a encarei.
— Tive tempo pra praticar. - deu de ombros. - Bom, acho que você não precisa mais de mim então esse é meu momento de ir. - ela me deu as costas, começando a ir em direção ao carro.
?
— Sim?
— Você poderia... - respirei fundo, me sentindo um completo idiota por deixar as palavras saírem por meus lábios. - Você poderia... hum... você sabe... - apontei para a porta de entrada. - Acho que Cassie gostaria de te ver.
— Você está com medo, não está?
— Aterrorizado.
— O que eu não faço para ajudar o próximo. - ela sorriu pela primeira vez desde que havia me buscado no estúdio, mas não sem rolar os olhos. - Vamos lá, medroso.
E como se ela fosse imbatível, passou por mim e abriu a porta, abrindo espaço para que eu pudesse entrar na mansão. Quando o fiz, apenas fechou a porta e me seguiu através do corredor até a sala de estar onde uma grande faixa escrito "BEM VINDO DE VOLTA PETER" estava pendurada de um lado à outro.
— BEM VINDO, PETER!
Uma orquestra de vozes berrou, me deixando desconcertado por alguns bons segundos. estava encostada em um dos pilares do portal de entrada com um sorriso orgulhoso no rosto, apenas fazendo um gesto para que eu andasse em direção ao centro da sala onde meus colegas de banda e amigos estavam.
— É bom te ter de volta, cara. - Griffin abriu seus braços quando eu cheguei próximo dele, me envolvendo em seus braços em um abraço com direito á tapinha nas costas. - Tivemos um trabalhão pra conseguir juntar todo mundo.
— É bom te ver também, Griff. - sorri de canto. - Onde está Cassie?
— Foi pegar algo pra você, disse que era uma surpresa. - Dominic deu de ombros, levando o copo de algo que parecia limonada até os lábios. - Você quer? É sem álcool.
— Estou bem, valeu.
— PAI!
Escutei Cassandra gritar, chamando minha atenção de imediato. Joguei minha mochila no chão e me abaixei, envolvendo minha filha em um abraço quando ela pulou em meu colo. Seus cabelos estavam cuidadosamente arrumados no topo de sua cabeça com alguns cachos caindo em seu rosto.
— Hey, princesa. - a encarei. - Você está linda, quem te arrumou assim?
. Ela me ajudou a fazer isso, também. - ela estendeu um embrulho amarelo. - Amarelo é sua cor favorita.
— Obrigado, princesa.
Sorri, sentando-me no chão e pegando o embrulho amarelo de suas mãos. Procurei pela melhor forma de abrir o pacote, desamarrando o laço vermelho que o envolvia antes de rasgar a fina camada de papel. Dentro da embalagem havia um porta-retratos com uma foto que havia sido tirada no mês anterior à minha overdose, no dia do meu aniversário. Na foto, Cassandra estava entre e eu, nos abraçando ao mesmo tempo. estava gargalhando de algo com um dedo do meio apontando para Griffin e todos os meus colegas de banda estavam com o rosto sujo de chantilly. E, em cima da foto, uma pulseira de prata repousava cuidadosamente.
— É pra você. - Cassie sorria. Peguei a pulseira, lendo o entalhe que havia sido escrito em seu interior: "Você é amado e importante". Senti meus olhos começarem a lacrimejar.
— Merda. - limpei as lágrimas antes que elas escapassem por meus olhos. - Isso é lindo, obrigado. - a abracei com força. - É a coisa mais legal que já fizeram pra mim, vocês são uns fodidos. - encarei meus amigos, balançando a cabeça. - Podemos começar essa festa ou...?
— Achei que isso não aconteceria. - Thomas bufou, estendendo uma garrafa de cerveja em minha direção. Balancei a cabeça em agradecimento e a peguei, me levantando do chão para colocar o porta-retratos em cima da lareira.
Griffin ligou a música em alguma playlist de rock clássico á medida em que todos se dispersavam no meio da sala, incluindo Cassie que agora estava nas costas de Dominic enquanto ele corria pela sala imitando um avião. Crianças, pensei.
Procurei por ao redor da sala, encontrando-a quando ela se esgueirava em direção aos fundos da casa com uma garrafa de cerveja em sua mão. Balancei a cabeça negativamente e comecei a desenhar meu caminho em direção à porta que ela havia saído, parando eventualmente para abraçar alguns outros amigos que chamavam minha atenção para dizer que estavam felizes por eu estar finalmente bem. Mal sabiam eles o inferno que eu estava passando naquele momento.
— Você tem que ser sempre tão antissocial, ? - chamei sua atenção quando finalmente passei pela porta, encontrando-a sentada em uma das cadeiras ao redor da piscina.
— A festa é sua, quem tem que estar ao redor das pessoas é você. - ela riu fraco, acendendo um cigarro entre seus lábios. - Como está se sentindo?
— E você se preocupa? - me sentei na cadeira á sua frente. - Posso ter um?
— Claro. - me empurrou o maço de cigarros, peguei um e coloquei entre meus lábios, sendo surpreendido por ela estendendo o braço para acendê-lo. - É meu trabalho me preocupar com vocês, shittyheads.
— Estou me sentindo ótimo. - murmurei, tragando o cigarro. - Obrigado por ter organizado isso.
— Achei que fosse legal ter pessoas que se importam com você agora. - me encarou. - Eu sei que posso ser um pé no saco às vezes, mas é meu trabalho e eu me importo contigo, tá? - ela deu um gole em sua cerveja. - Rowdy não seria a mesma sem você como vocalista.
— E guitarrista base, não esquece. - Soltei um riso fraco. - Ashleigh me disse que você cuidou da Cassie quando tudo aconteceu. - encarei a piscina á minha frente. - Eu não tenho como te agradecer por isso. Na realidade, acho que nunca vou conseguir te retribuir.
— Você não precisa. - ela deu de ombros. - Cass é uma criança maravilhosa, não me deu trabalho algum.
— Mesmo assim. - suspirei – Eu vou dar um jeito de te recompensar por isso, tá?
— Só não cometer os mesmos erros e eu já vou me sentir recompensada, ok? – o olhar que carregava me fez sentir como se eu fosse um filhote de golden retriever. – Você não está sozinho, tá? Existem pessoas que se importam com você, principalmente Cassie.
E era por esse motivo que eu não era um fã número um de . Ela tinha uma mania extremamente irritante de tentar tirar informações de mim com aquele joguinho de “oh meu deus, eu me importo com você" e te olhar como se você fosse um projeto de caridade.
— Você não cansa? – a encarei, recebendo como resposta o seu olhar confuso. – Você deveria parar com essa merda. Pelo amor de deus, , você está me olhando como se eu fosse a merda do seu projeto da escola.
— Você é inacreditável. – ela me encarou com um sorriso no rosto enquanto balançava a cabeça negativamente. – É incrível como você consegue ser um grande cuzão com pessoas que não fizeram absolutamente nada pra você. – ela se levantou. – Olha, , nós vamos ter que ficar juntos todos os dias por sabe-se lá quanto tempo, então eu sugiro que você comece a pagar uma terapia pra tratar seus problemas de confiança porque, honestamente, eu não sou paga pra aguentar suas mudanças de humor.
E simplesmente puxou a garrafa de cerveja de cima da mesa e me deu as costas, voltando para o interior da mansão sem ao menos olhar para trás. Ótimo. Passei as mãos por meu rosto e bufei, encarando o céu escuro tomado por estrelas com Oasis tocando como trilha sonora.
Escutei passos se aproximarem e voltei minha atenção para a porta, identificando Griffin com um copo de algo que provavelmente deveria ser whisky em sua mão.
Griffin Graham era meu melhor amigo desde os meus dezenove anos. O cara era um baterista monstruoso com um metro e sessenta de altura e um dos primeiros membros da Rowdy. E algo me dizia que ele nutria sentimentos por , já que ele era o membro número um de seu extenso fã-clube.
— Por favor, não venha me dar sermões sobre a sua namoradinha. – revirei meus olhos quando ele se sentou ao meu lado.
— Você acabou de se entregar, cara. – Griff me encarou. – Que merda aconteceu agora?
— O de sempre, metendo o nariz onde não foi chamada.
, você precisa parar com isso. – ele deu um gole no copo. – Se você tivesse ideia do quanto ela se ralou nos últimos três meses, não estaria assim agora.
— Me ilumine. – o encarei.
— Bom – ele levantou a mão, contando os acontecimentos nos dedos. – Ela dirigiu por quarenta minutos por Los Angeles pra ficar com a Cassie no dia da sua overdose, se ofereceu para ficar de babá dela quando eu não podia, levou e buscou a Cassie na escola todos os dias, organizou uma festa de boas vindas com todos os seus amigos mais próximos. – ele parou. – Ela até comprou o presente da Cassie pra que ela pudesse te dar algo, então o mínimo que você deveria fazer é tratá-la com um pouco mais de respeito, pra variar.
— Ela faz as coisas serem complicadas.
Ela faz? – ele riu fraco. – Eu diria que isso se chama tensão sexual. – Griffin sorriu. O típico sorriso de leprechaun.
— Vai se foder, Griffin.
— Quanto mais cedo você aceitar que se comporta como uma criança de doze anos tentando chamar a atenção da quedinha, melhor. – levantou as mãos em rendição. – Você pode fingir que eu sou a sua consciência e nesse momento ela está dizendo pra você parar de se comportar como uma criança birrenta.
—Por que eu ainda sou seu amigo?
— Porque eu sou um baterista do caralho e tenho os melhores conselhos para a sua cabeça zoada. – ele sorriu. – Mas, vem cá, como estão as coisas? Digo, verdadeiramente.
— Um inferno. – suspirei. – Eu me sinto como se fosse a pior pessoa do mundo todo e os olhares que vivem me lançando não ajudam muito.
— Os olhares?
— Sim. Tá todo mundo me olhando com pena, entende? Todo mundo tá me olhando como se eu tivesse perdido a merda da minha família. Foi só uma overdose.
— Eu acho que você tá projetando nos outros a forma como você se vê, .
— Não ouse vir com essa baboseira de psicologia pra cima de mim, você largou no terceiro semestre.
— Mas é verdade. – deu de ombros. – Você está vendo as pessoas pelo seu achismo e isso é perigoso, . Pode ter sido só uma overdose pra você, mas nos quase te perdemos, cara. Eu sei que você odeia escutar isso, mas você é importante pra gente. Pra todos nós, sem exceção. Apenas pense como nós ficamos quando recebemos a notícia que você estava entre a vida e a morte. Imagina o quanto a Cassie ficou aterrorizada por ter te encontrado do jeito que você estava. – engoli em seco. – Nós não estamos te olhando com piedade, estamos te olhando com preocupação. Você quase matou a gente do coração, .
Eu ao menos conseguia encontrar palavras para tentar contrariar Griffin. Eu estava enjoado e pela primeira vez em um longo tempo eu me vi apenas acatando tudo o que ele havia dito. Ele estava certo, estava certa e eu estava agindo como um enorme babaca ao tratá-la mal por simplesmente dizer o que todos queriam me dizer. Por isso eu não pensei duas vezes antes de me levantar.
— Ela saiu como um furacão daqui, não faço ideia de onde ela está. – Griffin sorriu. – Boa sorte.
Apenas respondi com um aceno de cabeça antes de deixar minha garrafa de cerveja pela metade em cima da mesa de vidro e me lançar para dentro da mansão novamente. Parei em frente à porta e observei a sala, procurando por todos os cantos antes de me sentir extremamente frustrado por não a encontrar.
— Procurando alguém? – Thomas parou ao meu lado.
.
— Da última vez que eu a vi, ela estava falando com a Cassie. Algo sobre piano, não faço ideia do que se tratava.
— Valeu.
Uma pequena luz se acendeu em minha cabeça. Claro que Cassie iria arrastar até o estúdio para obrigá-la a vê-la tocar algum dos instrumentos que estavam parados nos meses em que estive fora.
Fiz meu caminho em direção à mesa de bebidas, pegando dois copos vermelhos e os enchendo com refrigerante, pegando cada um deles em minhas mãos antes de voltar a fazer meu caminho em direção ao estúdio. Andei pelos corredores até chegar na porta que levava em direção ao estúdio, abrindo-a com um pouco de dificuldade devido aos copos em minhas mãos. Adentrei o estúdio e agradeci mentalmente as paredes isoladas do lugar, que me fizeram escutar sem ruído algum uma voz angelical de acompanhada do piano.
Você realmente sabe como me fazer chorar quando me olha com esses olhos de oceano, eu estou assustada, eu nunca cai tão alto caindo em seus olhos de oceano...
S
avannah tocava o piano como de ele fosse um antigo amigo. Cassie estava sentada ao seu lado, encarando-a com plena admiração à medida que a roadie tocava as notas. Não pude deixar de sentir certa inveja por presenciar a cena. carregava um talento admirável, para se dizer o mínimo e eu me encontrava hipnotizado por sua habilidade. Não que fosse uma novidade, claro. era responsável pela checagem de som e teste de instrumentos em todos os shows, não era impressionante que ela fosse tão boa no piano. O que era uma surpresa, no entanto, era a sua voz e a técnica vocal que ela nunca havia sequer mencionado anteriormente.
— Você poderia tocar mais uma, ? – Cassie pediu e eu me encontrei torcendo internamente para que ela o fizesse.
— Seu pai não vai ficar bravo de estarmos aqui?
— Papai não se importa, ele está ocupado com tio Griffin. – Cass sorriu. – Por favorzinho, papai quase nunca toca piano. – e foi naquele momento que eu me senti a pior pessoa de todo o mundo. Uma pessoa sem laços sanguíneos se preocupava mais com minha filha do que eu mesmo. Apenas respirei fundo e puxei a cadeira da mesa de mixagem silenciosamente, sentando-me ali para observá-las.
— Tudo bem. – riu. – Mas você tem que prometer que não vai contar pra ninguém, tá?
— Prometo. – Cassie envolveu o mindinho de com o seu próprio, sorrindo. – Você poderia tocar uma das suas?
— Minhas músicas não são feitas pra sua idade, baixinha. – nota mental: também era compositora, aparentemente. – Mas posso tocar outra coisa, sim?
— Tudo bem. – e no momento seguinte, começou a tocar algumas notas antes de começar a cantar.
Eu tenho visto anjos na minha sala de estar, que andaram no sol e dormiram na lua, cobertos na fragrância de seus próprios perfumes...
Consegui identificar a música como sendo alguma do Khalid e não pude deixar de cantá-la mentalmente, seguindo o tempo do piano com meus dedos à medida em que o fazia. Pouco tempo depois dela finalizou a música e eu enxerguei a minha deixa para finalmente conversar com ela. Levantei-me da cadeira e apertei o botão da mesa de mixagem para que as caixas do interior da cabine de gravação fossem ativadas.
? Posso falar com você por um momento? – ela deu um pulo ao escutar minha voz e se virou em direção ao vidro, visivelmente assustada.
— Claro. – se levantou, levando Cassie consigo para fora da cabine.
— Princesa, você poderia ir com o tio Griffin? Ele disse que ia fazer chocolate.
— Claro. – minha filha sorriu. – Não briga com a , tá? – e me deu um abraço antes de correr para fora da sala.
— Me desculpa por estar aqui, não deveria ter entrado sem ter pedido antes. – me encarou.
— Tá tudo bem. – suspirei, pegando um dos copos e estendendo para ela. – Oferta de paz? É Coca, sei que você tá dirigindo hoje.
— Valeu. – ela pegou o copo, encostando-se na mesa de mixagem com os braços cruzados. – Então...
Vocêestavacerta, eunãoseiaceitaras verdadesquandoelassãojogadasnaminha caraeeusintomuitoportersidoumbabaca. – me atropelei em minhas próprias palavras e apenas me encarou.
— Respira, fala de novo e com calma.
— Eu não sei aceitar as verdades quando elas são jogadas na minha cara. Você estava certa, me desculpe por ter sido um babaca.
— Griffin te mandou aqui, né? – uma de suas sobrancelhas estavam arqueadas, um sorriso se formava em seus lábios.
— Não realmente. – ri fraco. – Vamos apenas dizer que ele me deu uma sessão de terapia e eu acabei percebendo as coisas.
— Ok, aceito suas desculpas. – ela deu um gole da Coca-Cola no copo. – E aceito sua oferta de paz.
— Estamos bem?
— Claro. – ela deu de ombros. – Isso é tudo?
— Não exatamente. – tomei um gole do meu copo. – Por que você nunca comentou que sabia cantar? Você poderia estar nos ajudando com o álbum, uma participação até.
— Você escutou?
— Eu estou aqui tem um tempinho.
— Ah... – estava visivelmente desconfortável.
— Então...
— Eu tenho medo de palco. – agora ela estava encarando o sofá em sua frente.
— Você trabalha com palco todos os dias, .
— Eu trabalho no backstage. – corrigiu. – Eu nunca estou no meio de multidões e sou o centro das atenções.
— Você tá brincando, né?
— Não, eu nunca investi na carreira de musicista justamente por isso.
, você tem que mostrar isso para os outros. De verdade, imagine ter você no nosso próximo álbum? Seria estrondoso.
— Não, .
— Você poderia fazer turnês em conjunto com a gente, até mesmo abrir nossos shows. – virou o resto da Coca que estava em seu copo, jogando no lixo ao lado da mesa ao se levantar.
— Isso não está aberto a discussões.
— Pare de ser medrosa, qual é!
— Tchau, .
E simplesmente me deu as costas pela segunda vez em menos de uma hora, saindo pela porta do estúdio e me deixando sozinho em um silêncio absoluto.
Por sorte, eu não era do tipo que desistia fácil.


Capítulo 2: As Provações e Tribulações de Estar em Turnê

“How many special people change?
How many lives are living strange?
Where were you while we were getting high?”
(Quantas pessoas especiais mudam? Quantas vidas estão vivendo estranhamente?
Onde você estava quando estávamos nos drogando?)
-
Champagne Supernova, Oasis
San Diego, CA Três anos e sete meses antes



Encarei o relógio em meu pulso pela terceira vez em menos de trinta segundos, milagrosamente esperando que alguma notícia boa pudesse ser dita em meio ao caos que eu me encontrava no momento. Minhas mãos tremiam e meu coração batia tão rápido quando os tambores da banda marcial da Julliard. Eu. Estou. Fodida. Eram as três palavras que rodavam minha mente quando Dominic me disse que ele não fazia ideia de onde estava.
— Onde caralhos o está? Nós entramos em dez minutos, . – Rob me encarou como se milagrosamente eu pudesse materializar se me esforçasse o suficiente.
— Eu vou procurar ele, segura essa merda. – Entreguei o iPad que conectava com o teleprompter.
Respirei fundo e comecei a desenhar meu caminho pelo backstage, trombando em diversas outras pessoas enquanto corria. Veja bem, se você conhece minimamente algum roadie, você deve saber que nós somos a classe mais baixa de todo o universo. Quero dizer, somos os primeiros a chegar nos estádios, sempre os últimos a sair e nossa alimentação deveria ser considerada um crime contra os direitos humanos. Um fato bônus? Muitos de nós temos vícios. Cafeína ou nicotina, sua escolha. O meu? São ambos. Por isso eu nunca sou a pessoa mais indicada a correr por um backstage lotado. Entretanto, aqui estou eu, correndo feito uma idiota enquanto grito escandalosamente:
— ALGUÉM VIU O ?
Eu já deveria imaginar que a resposta seria negativa. Se eu não tinha ideia de onde ele estava, nenhum dos outros provavelmente saberiam também. Na realidade, minhas apostas seriam as seguintes: todos sabem onde ele está, nenhum deles tem coragem o suficiente para o que vai acontecer quando o encontrarem, então tudo é empurrado para a pessoa que vos fala neste exato momento.
Parei diante no meio do corredor dos camarins, apoiando me em meus joelhos enquanto tentava recuperar o ritmo da minha respiração ofegante. Eu nunca mais vou me prestar a esse papel. Ofeguei mais uma vez, apoiando minhas mãos em minha cintura uma última vez antes de andar rapidamente até o camarim de e pegar no trinco, girando-o apenas para perceber que ele estava trancado.
Eu já estou saindo, mete o pé daqui. – gritou, me fazendo grunhir. Por favor, não esteja usando. Por favor, não esteja usando.
— Pete, sou eu.
Escutei um grunhido dentro da sala e o clique da fechadura, voltei a girar a maçaneta e quando a porta se abriu, eu me lancei para dentro e voltei a trancar a porta. A cena que encontrei lá dentro, em contrapartida, fez meu coração quebrar em tantos pedaços que eu ao menos consegui brigar com pelo estresse de me fazer correr atrás dele.
— Hey, o que está acontecendo? – estava sentado no chão, a camisa rosa cavada deixava suas tatuagens à mostra como se elas fossem uma camiseta de manga. Suas costas estavam encostadas no sofá e as pernas estavam esticadas, seu cabelo estava bagunçado e ele estava tão pálido quanto um fantasma. – Fala comigo, Pete.
— Eu não consigo fazer isso, . – Ele murmurou, pegando o balde que estava ao seu lado e enfiando a cabeça dentro dele para vomitar. Merda.
— Okay, fica calmo. – Respirei fundo, tirando o walkie talkie do meu cinto. – Pessoal, achei o . Vamos precisar atrasar um pouco a entrada, o ponto dele está com defeito e eu vou precisar trocar, prolonguem o show de abertura por mais dez minutos.
Ok, . – Rob respondeu, me fazendo agradecer mentalmente a todos os deuses possíveis.
— Ok, vamos lá. – Me abaixei, sentando-me ao lado de para encará-lo. – O que está rolando? Você está usando de novo?
For Christ’s sake, . me encarou. – Você está comigo todo o tempo, não é como se eu tivesse tempo para isso. – Ele fechou os olhos. – Crise de ansiedade, talvez? Sei lá, , eu só sei que não estou conseguindo segurar caralho de comida nenhuma no meu estômago desde que cheguei.
— Menos ruim. – Murmurei, me arrastando em direção ao frigobar. – Uma garrafa de água? Sério? – peguei a garrafa lacrada, abrindo-a e estendendo para ele.
— Melhor uma do que nenhuma, certo? – ele riu fraco, pegando a garrafa e dando um gole. – Valeu.
— Vamos lá, eu tenho que te deixar inteiro em quinze minutos. – Voltei a me sentar ao lado de . Ele estava terrível, para dizer o mínimo. – Você precisa comer alguma coisa, não vai conseguir aguentar duas horas de palco sem ter comido nada.
— Ousado você pensar que não. – Ele sorriu, voltando a abraçar o balde para vomitar mais uma vez. – Ok, talvez você tenha razão.
— Claro que tenho. – Rolei os olhos, tirando uma barra de cereal do cinto para estender para ele. – Você está com medo de subir no palco.
— Vai se foder. – Ele puxou a barrinha da minha mão, abrindo o pacote e dando uma mordida. – Isso é normal para mim. Não pode ser isso.
— É isso ou você está grávido.
— Acredite ou não, eu não tenho os instrumentos para a segunda opção, então... – deu um gole na água. – Além disso, eu tenho apresentado em plateias maiores por anos.
— Você não tinha sofrido uma overdose quando tocou para essas plateias, . - estava olhando o teto. – É sua primeira apresentação desde a overdose.
— Eu definitivamente vou te demitir, estou cansado das suas suposições. – Rolou os olhos, rindo fraco. – O que eu posso fazer?
— Feche os olhos e imagine todo mundo pelado.
— Você quer me fazer parar de vomitar para ficar com o pau duro?
— Você é nojento, . – Fiz uma careta, empurrando-o e respondeu com uma risada.
— Faz parte. – Deu de ombros, a cor aos poucos voltando ao seu rosto.
— Se sentindo melhor?
— É, dá para aguentar duas horas de palco. – Deu de ombros, apenas balancei a cabeça e me levantei, estendendo minha mão em sua direção.
— Temos um show para começar. – Ele pegou minha mão, se levantando. – Pronto?
— Bastante. – Ele sorriu, se virando de costas para que eu pudesse passar o ponto e entregar para que ele os repousasse nos ombros. – Ainda acho que você deveria subir no palco junto com a gente.
— Nos seus sonhos, talvez. – Liguei o ponto, esperando que ele se virasse para mim. – Vai lá e faz o que você sabe fazer de melhor, tudo bem? Você é ótimo, seus fãs te amam e a prova disso é que o estádio está lotado. – Passei minha mão por seus cabelos bagunçados, tentando arrumá-los da melhor forma possível. – E, pelo amor de deus, lava esse cabelo depois do show.
— Vai se foder. – deu com ambos os dedos do meio. – Obrigado.
— É meu trabalho. – Olhei para o relógio em meu pulso, cinco minutos para a entrada. – Vamos, você tem cinco minutos.
Deu de costas para , destrancando a porta e a abrindo para que ele saísse, quando ele o fez, apenas fechei atrás de mim e fiz meu caminho ao seu lado silenciosamente pelos corredores, recebendo os olhares dos outros como se eu fosse um alien. Típica atitude de babaca. Tirei duas balas de menta e abri uma, colocando em minha boca e estendendo a outra para .
— Você está com bafo. – Ele rolou os olhos, aceitando a bala e abrindo o pacote com os dentes antes de enfiá-la na boca.
— Babaca.
— Covarde.
Ele me encarou por alguns segundos antes de apenas balançar a cabeça negativamente. Paramos na entrada ao lado do palco. Dom, Thomas e Griffin já estavam prontos para entrar enquanto o vídeo de introdução já passava no telão.
— Graças a deus. – Rob encarou . – trocou seu ponto?
— Sim, eu estou pronto. – Ele encarou Rob enquanto eu pegava a guitarra e colocava a correia nos pinos da guitarra. Ao terminar, apenas estendi a fender em direção ao vocalista que me agradeceu com um maneio de cabeça e passou a correia através do pescoço, prendendo-a em seu ombro. – Valeu.
— De nada. – Encarei os meninos. – Tá todo mundo pronto?
— Falta meu beijinho de boa sorte. – Dominic fez biquinho.
— Vai se foder, Dom. – rolei os olhos, parando diante dele. – O batom está borrado. – Segurei sua bochecha, passando o polegar pelo canto borrado do batom. – Agora sim. Vocês entram em 30 segundos, destruam esse palco e não ousem dar um show menos que perfeito, ok?
— Aye, sir. – eles bateram em continência, andei até Griffin e segurei seus ombros.
– Boa sorte, cuzão.
— Valeu, gatinha. – Sorri, depositando um beijo em sua bochecha. – Vamos lá, temos um show para fazer.
Encarei os garotos, fazendo um gesto com as mãos para que eles fizessem seu caminho até o palco quando as luzes se apagaram. Peguei o IPad do teleprompter com Rob e o segurei contra meu peito, sendo surpreendida com beijinhos de Dom, Tom e Griffin em minha bochecha antes que eles finalmente corressem em direção ao palco para tomar seus devidos lugares. foi o último deles, apenas dando um aperto fraco em meu ombro antes de ir para o palco e parar diante de seu microfone.
As luzes acenderam e os membros da Rowdy foram ovacionados por uma multidão de fãs enlouquecidos que gritavam e erguiam cartazes. Encostei em uma das barras do backstage e confirmei com a mesa de mixagem se tudo estava pronto, quando a confirmação me chegou apenas balancei com a cabeça positivamente em direção à .
— Boa noite, San Diego! – sorria. – Puta merda, é muito bom estar de volta. Eu senti falta de vocês. Mas, sem mais delongas, acho que deveríamos começar com uma das músicas do novo álbum, não? – encarou Griffin, que confirmou com a cabeça. – Eu escrevi essa música algumas semanas depois de sair da reabilitação, se chama No meu melhor, espero que gostem tanto quanto eu.
começou a tocar um conjunto de acordes enquanto Dom realizava alguns solos ao seu lado. Griffin tinha um sorriso no rosto que denunciava o quão orgulhoso ele estava de . Até eu, de certa forma, me sentia assim. Não era por menos, afinal, ele havia passado por poucas e boas durante seu tempo na reabilitação e aos poucos estava voltando aos trilhos. Havia voltado a compor e pelos últimos cinco meses havia se tornado um pouco mais aturável pelo nosso próprio bem. Ele estava evoluindo.
Eu escrevi essa música como um pedido de ajuda, pelo bem de qualquer que se identificar com ela. – A voz dele estava um pouco vacilante, ainda que afinada. – Eu escrevi essa carta para amenizar sua dor, porque todos os dias eu acordo me sentindo do mesmo jeito. – Ele fechou os olhos.
Eu estava encarando o que seria a apresentação mais pessoal de em anos de carreira, conseguia sentir a dor de seu peito em cada uma das palavras que saiam por seus lábios à medida em que ele cantava. Era tudo extremamente transparente, quase tanto quanto a lágrima solitária que caiu por sua bochecha quando ele finalmente finalizou a música.
— Ele está chorando? – Sabrina encostou seu queixo em meu ombro.
Sabrina Davis era um pesadelo em minha vida desde que eu me conhecia por gente. Nos conhecemos quando eu me mudei para Toledo aos nove anos de idade e nos tornamos inseparáveis desde então. Passamos por todas as piores fases, incluindo a fase de adaptação em Nova Iorque durante a faculdade, dividimos um apartamento fora do campus por cinco anos antes de Griffin me arrumar um emprego com a staff e eu finalmente arrastá-la junto comigo.
Em um resumo: ela era um pesadelo, mas era um pesadelo da qual eu nunca, em momento algum, cogitaria viver sem.
— Acho que sim. – Suspirei. – Não é por menos, a letra é bem pesada.
— Você vai chorar quando chegar a sua vez?
— Do que você está falando?
— Ah, você sabe... quando você tomar coragem para subir no palco junto com eles.
— Ainda nesse assunto? Está parecendo o .
— Então você anda confabulando com o inimigo e não teve a decência de me dizer? Estou desapontada.
— Eu não estou confabulando com ninguém. – Encarei a tela do tablet para verificar as luzes. – Eu estive com o todos os dias pelos últimos cinco meses e eu te disse que ele me viu com a Cassie no dia da festa de boas-vindas.
— Então ele vem tentando te convencer a cantar com eles desde então?
— Yep. – Liguei a luz avermelhada para o começo do cover de uma das músicas do Mötley Crüe. – E eu já disse não. Centenas de vezes, para ser honesta. – A encarei. – E ele mudou a abordagem.
— Você acendeu a chama que ele precisava quando não aceitou o pedido dele, algo me diz que ele não desiste fácil. – Ergui uma de minhas sobrancelhas. – O quê?
— Você está agindo em conjunto com ele. – Eu estava incrédula. – Minha melhor amiga está agindo pelas minhas costas.
— Eu não estou agindo pelas suas costas, eu estou tentando fazer com que você se dê a oportunidade de explorar algo que sabemos que vai te fazer feliz. – Ela me encarou. – Qual é, ! Vai te matar ao menos dar uma chance?
— Sim, eu vou entrar em combustão instantânea no minuto em que eu pisar dentro do estúdio. – Peguei o celular em meu bolso, desbloqueando a tela para entrar na câmera para gravar alguns segundos do show e enviar para Cassie.
— Você deveria se envergonhar.
— Perdão?
— Você estudou anos na Julliard, cansou de fazer aulas de composição e coral, vai mesmo jogar tudo isso fora?
— Eu tenho medo de palco, Brina.
— E é por isso que existe algo mágico chamado terapia, serve para te fazer superar traumas. – Sabrina parou em minha frente. – Você merece isso e só vai superar seu medo quando realmente tentar. – Ela sorria de canto. – Você ajuda todo mundo o tempo todo, mas sempre se esquece de fazer algo por você.
— Eu já faço, todos os dias. – Aumentei as luzes azuis e diminui as vermelhas. – Eu amo o meu trabalho e estou satisfeita em trabalhar no backstage, é meu emprego dos sonhos. Eu estou feliz assim.
— Vamos combinar algo, então.
— Eu não vou gostar disso, né?
— Seguinte. – Sabrina sorriu, os cabelos castanhos caindo em cascatas por suas costas quando ela passou suas mãos por eles. – Você tenta uma vez tentar compor algo com eles. Uma vez, sem compromisso.
— Você vai me colocar em problemas.
— Claro que não. – Ela gesticulou com a mão. – Você ainda está como babá do em tempo integral, todos da banda te amam então não existe nenhum contra.
— Você ainda vai causar a minha demissão.
— Isso foi um “sim"?
— Isso foi um “vou pensar sobre”. – Sorri de canto. – Agora, vai lá cuidar do que você tem que fazer, preciso manter o foco.
As pessoas são assim mesmo, a gente tenta ajudar e aí elas simplesmente nos expulsam. – Ela dramatizou, jogando os cabelos antes de sair andando em direção ao backstage.
Continuei ao lado do palco durante toda a hora restante que se passou depois disso, me certificando de que tudo estava em perfeito estado até o final do show.
Algumas músicas depois, o show estava chegando ao seu fim e a música que iria finalizar o show era a música solo de Dom e ele precisaria de um violão para começá-la. O maior problema era que a única pessoa no backstage lateral era eu. Absolutamente todas as almas presentes naquele espaço milagrosamente sumiram.
Engoli em seco, deixando o IPad em cima de uma das caixas de som e andando em direção ao violão de Dominic, que descansava cuidadosamente em seu apoio. Retirei-o dali e comecei a ajustar a correia nas tarraxas, parando para afinar o violão um tom acima que a afinação padrão para a música. Ao terminar, retirei o violão dos meus ombros e o segurei pelo braço, esperando a finalização da música para que Dom pegasse o violão.
Mordi meu lábio e aguardei até que Dominic fizesse menção de andar até o canto do palco para pegar seus instrumentos como ele sempre fazia. Mas, dessa vez, ele não o fez. Dom apenas ficou parado no mesmo lugar por alguns segundos antes de começar a gesticular para que eu andasse até ele para entregar o violão. Deus, como eu odeio essa banda. Respirei fundo, sentindo o pânico começando a se arrastar por dentro de mim. Engoli em seco e tomei coragem, andando em direção ao guitarrista antes que pudesse pensar duas vezes no que estava fazendo. É só não olhar para a multidão, vai ficar tudo bem, é só não olhar para a multidão.
— Valeu, ! – Dom sorriu, tirando a guitarra de seus ombros e estendendo-a para mim enquanto segurava o braço do violão com a mão livre. – Poderia me ajudar com o cabo? – ele sorriu e eu conseguia facilmente visualizar trinta e duas formas diferentes de assassiná-lo sem deixar provas.
— C-claro.
Sorri nervosa, buscando pelo cabo P10 e notando que ele havia caído no chão após ele ter tirado da guitarra. Merda, merda, merda. Eu estava tremendo. Respirei fundo mais uma vez, tentando manter o foco. Me abaixei para pegar o cabo e me arrependi instantaneamente ao ver a multidão de pessoas que ocupavam cada pequeno espaço livre do Mattress Firm Anphitheatre. Engoli em seco mais uma vez, sentindo uma gota de suor escorrer por minha bochecha.
— Tá tudo bem, ? Você está pálida pra caralho.
— E-eu estou bem, sim.
Murmurei, pegando o fio e passando ao redor da correia para conectar na entrada do violão, para sair correndo em direção ao backstage sem ao menos escutar o agradecimento de Dom.
Tudo estava girando e eu estava ofegante. Procurei pelo balde mais próximo ao lado do palco e o agarrei, enfiando minha cabeça quando todo o meu almoço resolveu sair por todos os buracos possíveis, menos o correto. Puta merda, eu odeio a minha vida.
Me sentei contra uma das diversas caixas empilhadas ao lado do palco, puxei o balde cuidadosamente e o coloquei entre minhas pernas. Me estiquei apenas o suficiente para pegar o Ipad para fazer o controle das luzes à medida e que Dominic cantava. Encostei minha cabeça contra a caixa e tentei normalizar minha respiração, curvando-me contra o balde mais uma vez.
Pelo tempo em que finalmente parei de vomitar, o show já tinha acabado e quatro homens estavam parados na minha frente com olhares preocupados.
— E aí, como foi o show? – tombei minha cabeça para trás, encarando os membros da Rowdy. – O meu foi legal pra caralho.
— Porra, . – Griffin murmurou, abaixando-se ao meu lado. – Isso tudo foi porque você subiu no palco?
— O que você acha, Griff? – o encarei. – Que merda, eu sempre deixei claro o porquê de não subir. – Passei a mão por meu rosto, limpando o suor frio que se acumulou ali antes de prender meu cabelo em um rabo de cavalo. – Qual de vocês, babacas, teve a brilhante ideia de fazer essa brincadeira?
— Eu sinto muito, , eu não imaginava que você tivesse tanto medo assim. – Dom me encarou. – Eu realmente sinto muito.
— Mas eu tenho, Dom. – suspirei, me apoiando em uma das caixas para me levantar. – Eu fico apavorada, cacete. – Empurrei o balde cuidadosamente com o pé. – Só não faz isso de novo. – Ele assentiu. – Isso vale para todos vocês.
— Não vamos fazer. – me encarou. – Preciso de um banho. - E então ele me deu as costas.
— Vocês três estão fedendo, façam o mesmo que o .
Os homens apenas confirmaram com a cabeça, seguindo pelo corredor lateral até seus respectivos camarins. Aguardei por alguns minutos e desliguei o teleprompter, apagando as luzes do palco. Peguei o balde no chão e o coloquei entre as toalhas sujas, fazendo meu caminho até os camarins o mais lentamente possível para que o meu estômago não resolvesse reclamar novamente. Coloquei o teleprompter em cima da mesa de equipamentos e parei diante da porta de , batendo três vezes antes de ouvir algo de dentro dela.
Entra, estou no banho.
Girei a maçaneta, entrando no ambiente para encontrá-lo com papéis por todos os lados. Balancei a cabeça negativamente, me aproximando da penteadeira que haviam colocado ali.
E você é minha droga, te respirando até meu rosto adormecer. – Li um pedaço do trecho da letra garranchada em uma das folhas. – Nada além dos saltos altos, perdendo a minha religião.
Gosta do que está lendo? – escutei , só então voltando minha atenção em direção a porta do pequeno banheiro do camarim. Os cabelos dele estavam molhados e caiam por seu rosto enquanto ele passava a toalha pelos fios, deixando-a pendurada em seus ombros. – Nós temos um tempo antes de ir para o hotel, resolvi tirá-las para ver se consigo algo bom.
— Me desculpe. – Sai de perto da penteadeira, sentando-me no sofá. – Você já tem alguma ideia de título?
— Ainda não. – Pendurou a toalha em uma das araras ao seu lado, andando até a penteadeira e pegando as letras antes de se sentar ao meu lado. – Eu estava pensando em fazer um dueto com isso.
— Acho que vai fazer sucesso se você o fizer, é uma boa letra. – Sorri de canto. – Colocar um trecho dela para começar a música, talvez?
— Eu estou escutando. – Pegou a caneta na mesinha de centro. – Me ajuda com essa.
— Foi apenas uma ideia, não quero me meter no seu processo de criação. – Ri fraco.
— Eu estou pedindo para você me ajudar. – Ele me encarou. – Você tem medo de palco, eu entendo. Isso não significa que você não pode me ajudar a compor.
— Você é um pé no saco. – Bufei. – O que você está pensando para essa?
— Não sei. – Ele colocou os pés na mesa de centro. – Eles poderiam ser como Bonnie e Clyde.
— Ladrões de banco suicidas?
— Não, babaca. – bufou. – Uma dupla que aceita tudo pelo outro. Que está lá independentemente do quão ruim as coisas estão.
— E posteriormente roubam bancos.
— Talvez uma invasão de propriedade privada, também. Quem sabe. – Ele riu fraco quando eu o encarei incrédula. – É liberdade poética, conhece?
— Vai se foder. – Balancei a cabeça. – Ok, uma dupla dinâmica que topa tudo. – Peguei a letra das mãos de . – Nada é tão ruim se te faz sentir bem?
— Eles são extremo opostos, mas se encontram nos gostos bizarros.
— Oh, eles também gostam de BDSM. Safados.
— Se te faz se sentir melhor, eles podem curtir uma depravação. – Deu de ombros.
— Eu estou enojada. – Ri fraco. – Okay, e se colocarmos algo antes dessa tentativa de convencimento?
— Tipo...
Se você soubesse das coisas ruins que eu gosto, não pense que eu consigo explicar. – Escrevi ao lado. - O que posso dizer? É complicado.
— Ok, ela se sente envergonhada dos gostos sexuais exóticos dela.
Você poderia parar de relacionar tudo à sexo? – ergui uma sobrancelha. – Deus, você parece um garoto de fundamental.
— Você quem começou com essa merda de BDSM, eu só estou mergulhando no seu processo.
— Vai se foder.
— É a segunda vez em menos de dez minutos. – Ele sorriu. – Eu estou contando.
— Vai se foder. – Balancei a cabeça. – E se colocarmos algo como “Não importa o que você faz, nem o que você diz. Eu apenas quero fazer coisas ruins com você”?
— Muda essa ordem. – Ele se virou para mostrar no papel. – Coloca “Não importa o que você diz, nem o que você faz", acho que fica mais harmônico e rimado.
— Tudo bem. – Apoiei meu queixo em minha mão. – Podemos voltar com o começo e isso poderia ser o refrão, quando as músicas são dueto o ideal é ter um refrão para não ficar confuso.
— Então já temos um refrão. – Ele encostou no sofá. – Estou ficando louco? Estou perdendo a cabeça? Se você soubesse das coisas ruins que eu gosto. – Me olhou. – O que acha?
— Boa, essa pode ser a introdução. – Anotei no papel, assoprando o cacho que caiu em meu rosto quando me inclinei. – Tão bom que você não consegue explicar, o que posso dizer? É complicado. Podemos colocar isso para finalizar o refrão.
— Eu gosto disso, pode colocar.
— Ok. – Escrevi o trecho na folha. – Prontinho. – Estendi a folha. – Sua música está pronta.
— Não está, ainda precisamos fazer a ponte. – Ele pegou a folha.
— Precisamos? – arqueei uma sobrancelha.
— Sim, precisamos. – Ele se levantou, andando até uma das araras para pegar uma camiseta de manga rosa. – Você está presa a mim noventa por cento do seu tempo, poderia me ajudar com outras composições.
— Pete, você está com as suas capacidades mentais em perfeito estado? – colocou a camiseta, cobrindo as tatuagens com o tecido rosa.
— Sim? – me encarou. – Qual é, nós dois sabemos que você sabe compor e faz isso muito bem, o que te impede? – e, novamente, estava enchendo o meu saco. – Responde.
— Eu te disse milhares de vezes que não, para de insistir.
, eu estou realmente tentando ser uma pessoa legal aqui e você não está me ajudando.
— Você está tentando me fazer ultrapassar limites que eu não posso ultrapassar. – O encarei. – Olha, eu vou ver Griffin. – Me levantei.
— Você não pode me deixar sozinho.
— Eu estou no camarim ao lado.
— Ainda não pode me deixar sozinho, Ashleigh foi bastante clara quando disse que eu seria vigiado vinte e quatro horas por dia.
— Você realmente está usando essa carta?
— Eu não desisto fácil e eu estou tentando te compensar aqui, tá?
— Você poderia me dar um carro novo, me sentiria plenamente compensada.
— Estamos no Natal e eu me tornei o Papai Noel?
— Não, você está mais para o Grinch. – Me virei, pegando a maçaneta e a girando. – Vamos lá, não posso te deixar sozinho.
sorriu, saindo para fora do camarim e parando ao meu lado quando fechei a porta atrás de mim. Andei em direção ao camarim de Griffin e abri a porta, encontrando-o jogado no sofá completamente pelado com seu celular em mãos. Visão do inferno, para dizer o mínimo.
— Pelo amor de Deus, Griffin! – berrei, fechando os olhos. – Bota uma roupa, agora.
— E é por isso que você bate antes de entrar, . – O escutei levantar-se, pegando alguma roupa e pulando, ria ao meu lado. – Pode abrir.
— Você é nojento. - Abri os olhos, encarando-o. – Sério, quem fica pelado jogado no sofá?
— Eu. – deu de ombros, me fazendo encará-lo. – O quê?
— Eu estou enojada. – Me sentei no sofá. – Como foi o show, Griff?
— Ótimo. – Encarou . – Ela te arrastou até aqui?
— Eu não arrastei ninguém, ele veio porque aparentemente não sabe ficar sozinho por cinco minutos.
— Você – ele apontou para mim. – Vai se foder. – Depois encarou Griffin. – Convence a sua namorada a me escutar.
— Namorada? – encarei . – Nojento.
— Ele colocou na cabeça dele que a gente se pega. – Griffin explicou. – O que está tentando fazer?
— Estou tentando convencê-la a me ajudar a compor algumas músicas. – me olhou. – Você já viu essa mulher compondo?
— Já. – Griffin me encarou. – Mas eu tenho tentado fazer isso que você está fazendo por bastante tempo. – Ele encarou a tela do telefone. – Nunca funcionou, ela tem um bloqueio...
— Vai se foder. – Apontei, interrompendo-o. – Deus, vocês não me dão um dia de paz. - Me levantei, passando a mão por meu rosto. – Eu estou saindo, não ouse vir atrás de mim. – Eu disse, encarando .
Sai do camarim de Griffin e andei rapidamente pelo backstage até a entrada lateral do palco. A maior parte dos roadies estavam começando a desmontar os instrumentos musicais para colocá-los de volta nos ônibus da turnê.
Respirei fundo e fiz meu caminho até o palco pela segunda vez naquele dia. O estádio agora estava vazio, sendo iluminado pelas luzes nos postes. Andei até o final do palco, sentando-me ali com as pernas suspensas no ar. Eu me sentia totalmente esmagada pela sensação de ser tão pequena perto do espaço enorme, uma vez lotado de pessoas. Me deitei no palco, encarando o céu estrelado antes de fechar meus olhos.
— Isso vai ser uma longa turnê.


Capítulo 3: As Provações e Tribulações de Confiar

“Your money is getting wasted
But you’re always getting wasted all the time.”
(Seu dinheiro está sendo perdido
Mas você está perdido o tempo todo)
— Dying In a Hot Tub, Palaye Royale
Três anos e cinco meses antes



O sol entrava pelas cortinas abertas de meu quarto, tornando impossível que eu conseguisse enxergar algo dentro da claridade em que meu quarto se encontrava. Minha cabeça doía da mesma forma que meu peito e eu mal conseguia me sentir bem o suficiente para levantar da cama naquele dia. Me virei em minha cama apenas o suficiente para conseguir me esticar em direção à mesa de cabeceira, pegando meu celular para encontrar um amontoado de mensagens preocupadas de meus amigos enchendo a tela de notificações.
Desbloqueei minha tela de celular e passei para o aplicativo de mensagens, respirando fundo antes de deixar o celular descansando em meu peito enquanto eu repassava em minha mente a imagem de Alyssa pegando suas coisas em meu armário e simplesmente me dando as costas no dia dos namorados.
— Eu não posso estar com alguém que tem medo de me assumir, , relacionamentos não funcionam assim.
Suas palavras se repetiam em minha mente como um looping e eu não conseguia ter uma reação diferente de inercia. Eu estava flutuando dentro de meus próprios pensamentos quando senti o celular vibrar em meu peito, rolei meus olhos e encarei a tela, avaliando se minha paciência estava grande o suficiente para lidar com os surtos de . Após alguns segundos, me dei por vencido e deslizei o botão para atender a chamada.
Pelo amor de deus, , você está fora de si? chiou.
— Bom dia para você também, estrelinha. – Murmurei. – O que foi?
Não ouse vir com seu sarcasmo e apelidos para cima de mim, . – Eu conseguia enxergá-la massageando suas têmporas. – Você fez um tweet suspeito e sumiu durante um dia todo, você entende a gravidade ou eu preciso desenhar?
— Foi um tweet autoexplicativo, não existe nada mais por trás dele. – fechei os olhos. – Agora que você já sabe que estou vivo, já pode desligar.
Alyssa realmente terminou com você no dia dos namorados?
— É.
Eu estou indo até aí.
Que porra?
Você teve sua festa de autopiedade e eu Ashleigh está preocupada, você precisa espairecer.
— Eu posso fazer isso sozinho, passo.
Tarde demais.
— Eu te odeio.
Posso viver com isso.
— Ashleigh deveria te demitir, você é extremamente irritante. – Provoquei, fechando meus olhos com força antes de me sentar na cama. - Se vai vir até aqui ao menos tenha a decência de bater antes de entrar.
E você é extremamente desagradável. FILHO DA PUTA! – ela gritou, me fazendo afastar o aparelho celular de perto do meu ouvido. – Desculpa, , um babaca me fechou em uma curva. De qualquer forma, eu estou com o Griffin, os meninos devem estar indo até aí também.
— Merda, , eu só queria um dia tranquilo sem a presença de vocês.
Eu sei, é por isso mesmo que isso é algo que não vamos fazer. Levanta da cama e se arruma, chego em quinze minutos.
E, sem nenhum aviso prévio, desligou o celular na minha cara. Suspirei pelo o que parecia ser a centésima vez naquele dia, coçando meus olhos antes de me levantar da cama e desenhar meu caminho em direção ao banheiro de meu quarto. Não me preocupei em me olhar no espelho, apenas foquei no banho que deveria levar menos que dez minutos se eu quisesse estar pronto antes de invadir a minha residência. Ao menos a água do chuveiro serviria para me fazer esquecer, mesmo que por alguns segundos, as dores musculares de ter corrido uma maratona por Hidden Hills apenas para me permitir esquecer os últimos dois dias.
Após longos minutos embaixo da água gelada, finalmente me senti bem o suficiente para sair do banheiro. Enrolei a toalha em minha cintura e andei em longas passadas em direção ao closet, pegando qualquer peça de roupa que fosse menos quente para aturar a primavera da California. Por fim, me permiti pegar o celular em minha cama, enfiando-o no bolso de minha bermuda antes sair de dentro do cômodo iluminado.
Desci as escadas pacientemente, encontrando meus adoráveis colegas de banda carregando coolers em direção à piscina na parte de trás de minha mansão. Balancei a cabeça negativamente, encarando Griffin com o meu melhor semblante irritado, mesmo que internamente eu estivesse agradecendo a companhia dos meus melhores amigos naquele momento.
— Bom dia, Raio-de-Sol. – Griff sorriu, dando leves tapinhas em minhas costas quando me puxou para um abraço. – Como está se sentindo?
— Eu consigo lidar. – dei de ombros, sabendo muito bem que aquilo era a última coisa que conseguiria lidar no momento.
acabou de estacionar, ela trouxe bastante coisa então estamos ajudando. Dom está com Cassie terminando de colocar as bebidas para fora.
— Ótimo. – balancei a cabeça, voltando a desenhar meu caminho até a porta de entrada onde os carros de meus amigos haviam sido estacionados. – Deus. Você está se mudando para a minha casa?
— Você bem que gostaria.
— Você comprou tudo isso?
— Não, o Griffin. – ela fez uma careta. – Estávamos juntos, não foi difícil juntar o resto do pessoal depois disso.
— Vocês estão fodendo? – perguntei, casualmente, enquanto puxava o último cooler que faltava no porta-malas e abaixava a porta.
Ew, não. – ela balançou a cabeça como se estivesse visivelmente ofendida pela pergunta. – De onde você tirou essa maluquice, ?
— Vocês vivem juntos, é quase como se fossem uma pessoa só, você fica de agarração com ele quando estamos só nós, é suspeito para dizer o mínimo. – Enumerei os fatores, voltando a encará-la. – Vai dizer que eu estou errado em perguntar?
— Quando estamos com outras pessoas eu estou trabalhando. – explicou. – Eu preciso manter o máximo de profissionalismo, além do mais, eu e Griffin nos conhecemos por um bom tempo, ele é o mais próximo de família que eu tenho. – deu de ombros. – Além do mais, é contra as minhas regras ter relações românticas com as bandas que eu trabalho.
— Sério? – arqueei uma de minhas sobrancelhas. – Nunca? Nenhuma?
— Eu já passei da minha fase starstruck. – Colocou o cooler em no chão ao lado da churrasqueira. – Depois de ver de perto como a indústria funciona, eu deixei de ficar realmente impressionada por ela, entende? E eu sinto que não conseguiria manter uma relação com alguém que estivesse cercado por holofotes e toda essa merda. Eu gosto do anonimato e da minha privacidade.
— Você diz isso porque molha as calças sempre que está próxima do palco. – provoquei.
— Pode ser que seja isso mesmo. – se abaixou, tirando a tampa de um dos coolers para pegar duas cervejas. – Mas, se um dia isso acontecer, eu vou pedir uma mudança de banda pra Capitol, eu prefiro isso do que ser pega no meio de um conflito de interesses.
— Você tem bolas, isso eu tenho que admitir. – peguei uma das garrafas de cerveja que ela estendeu em minha direção. – Valeu.
— Por nada. – ela sorriu de canto, arrancando a tapa lacrada da cerveja com ajuda do anel prateado que sempre ficava em seu dedo do meio. – Eu vou tratar ver como o Tommy está com as bebidas do bar.
— Vai lá.
E com um aceno de cabeça ela foi saltitando em direção à cozinha feito uma criança alegre. Balancei minha cabeça negativamente enquanto andava em direção à cadeira na beira da piscina onde Dom e Cass brincavam entre si.
— Ei, vocês. – chamei a atenção de ambos – O que estão fazendo?
— Estava falando para a Cassie o quanto você e fariam um casal fofinho.
— Vocês deveriam namorar. – Cassie soltou, casualmente, como se não significasse nada. – Ele é mais legal que a Alyssa.
— Olha as ideias que você está alimentando na minha filha, Dominic. – fiz uma careta. – Vocês dois, deixem a minha vida amorosa como está, já é complicado o suficiente. – dei um gole em minha cerveja e a deixei repousar na mesa ao meu lado.
— Papai, você poderia me dar seu celular para eu tirar uma foto?
— Claro, princesa. – sorri, tirando o aparelho de meu bolso e para entregar nas pequenas mãos de Cassie.
E me virei para a piscina, o que foi uma péssima decisão visto que menos de trinta segundos depois meus melhores amigos me fizeram o grande favor de me empurrar na água que se encontrava quente graças ao sol que se encontrava no topo do céu no momento. Deus, como eu odiava os meus amigos.
— Que porra foi essa, caras? – passei a mão em meu rosto em uma tentativa falha de tirar um pouco da água que havia se acumulado ali, somente para encontrar dois marmanjos velhos gargalhando com Cassandra.
— Cara... – a risada de Griffin era tão histérica que ele ao menos conseguia terminar a frase sem se apoiar em seus próprios joelhos. – Você caiu que nem um pedaço de bosta na água.
— Caralho, como eu amo trabalhar do lado de vocês puta merda. – Dominic limpou uma lágrima de seu olho. – Você é um gênio, Cass.
— Obrigada. – Minha filha riu e eu estava embasbacado com a traição da pequena garotinha.
— Cassie, você realmente me traiu dessa forma?
— Você estava triste... – ela disse, me encarando com um rosto que transbordava inocência.
— Eu realmente odeio vocês. – fiz um careta, andando em direção à beira da piscina para me impulsionar para fora dela. – Eu estou encharcado. – tirei a camisa e a regata, jogando-as em uma das cadeiras livres.
— Estranho seria se você não estivesse. – retornou com alguns potes de vidro com carne em seus braços e agora tinha um óculos de sol em seu rosto. – Esse é meio que o ponto de jogar alguém na piscina.
— Continue falando e eu faço questão de te jogar dentro dela também.
— Eu adoraria ver você tentar. – provocou, abaixando levemente os óculos para me encarar.
— Eu tomaria isso como um desafio. – Dom sorriu diabolicamente.
— Eu não deixaria, papai.
— Deixem-na pelo menos colocar as carnes na mesa antes. – Tommy berrou, colocando as bandejas que ele carregava na mesa para auxiliar com as que ela carregava.
— Que seja. – ela murmurou, ajustando o óculos de sol em seu rosto antes de pegar o celular e deslizar a tela, colocando em sua orelha enquanto falava com alguém que eu não fiz questão de saber quem eram-.
— Ashleigh está bastante carrasca nas últimas semanas, não? – Tommy mudou de assunto, tomando minha atenção. Apenas franzi o cenho visivelmente confuso com o que ele estava se referindo. – As gravações do próximo álbum, cara. Ela está maluca.
— Faz dois anos desde o último lançamento, ela está sofrendo com a pressão da Capitol, você poderia culpá-la? Dois anos sem um álbum, a minha overdose, o fato de que eu agora preciso de uma babá. – apontei em direção a , que falava com atenção no telefone. – É bastante coisa para lidar ao mesmo tempo.
— Ela quer que comecemos as gravações no próximo mês, cara. – Griffin me encarou rapidamente enquanto brincava de adoleta com Cassandra. – Você tem algo em mente?
— Na real... – peguei uma garrafa de cerveja, usando o avental de Tommy para abrir. – Eu tenho uma ideia, mas eu preciso de ajuda para convencer a pessoa em questão.
— Você realmente está cogitando isso? Cara, isso é praticamente impossível. – Griff parou de brincar com Cass.
— Eu perdi algo aqui? – Dom franziu o cenho. – Porque eu realmente estou tentando entender o que está rolando.
— Ele quer que a esteja no próximo álbum. – meu melhor amigo massageou as têmporas, balançando a cabeça negativamente.
— A nossa ? A garota que vomitou as tripas só de trocar uma guitarra em um palco? Nós realmente estamos falando da mesma pessoa? – Tommy levou a cerveja até os próprios lábios.
— Sim, a nossa . – Graham suspirou, voltando a brincar com Cassie. – Ela é formada em produção musical e tem especialização em composição pela Juilliard.
— Ela o QUÊ? – Dom cuspiu a cerveja. – Por que caralhos ela ainda está trabalhando para a gente? Quero dizer, não que nós não sejamos muito legais, mas com um currículo desses ela poderia estar, você sabe, mais famosa que a gente.
— Você acabou de responder sua pergunta alguns segundos atrás. – Griff riu fraco, pegando as bochechas de Cassie. – Ela tem medo de palco, têm sido assim desde sempre.
— Isso pode ser resolvido. – dei de ombros. – Ela me ajudou com a composição de uma música e, por mais que na maior parte do tempo ela seja irritante...
— Muito cuidado com as palavras que você vai dizer agora. – Griff censurou.
— Continuando. – o ignorei, - Por mais irritante que seja, ela tem o talento e uma voz que eu nunca ouvi em lugar nenhum, a música é simplesmente genial e a forma que ela compõe é fluída, nós precisamos dela.
— Você vai me render belas dores de cabeça. – o baterista me encarou.
canta muito bem. – Cassie me encarou. – Vocês podem cantar agora?
— Cassie, ela não vai fazer isso agora. – a encarei.
— Eu posso pedir.
— E vocês podem mostrar a nova composição que tanto disseram.
— Do que vocês estão falando? – finalmente apareceu, dessa vez com Sabrina ao seu lado. –
— Oi, pessoal. – Brina acenou e eu apenas meneei com a cabeça. – Como está, Pete?
— Ótimo. – dei de ombros. – Estávamos falando da sua participação no próximo álbum.
— E você estava pensando em me contar isso quando, ? – a empresária a encarou, com uma expressão não muito amigável.
— Isso nunca foi uma hipótese a ser considerada. – deu de ombros. – E eu achei que você já tivesse entendido o que eu te disse um mês atrás.
— Eu não esqueço fácil.
— Nem me diga. – balançou a cabeça.
— Qual é! – Dom a encarou. – Canta algo para a gente, parece que todo mundo aqui já te escutou cantando menos eu.
— E eu. – Tommy adicionou e a expressão de beirava o pânico. – Você tem pânico de palco, eu entendo, mas estamos entre pessoas que você conhece tem bastante tempo.
— Por favorzinho, . – Cassandra correu em direção a ela, encarando-a com a mesma expressão pidona, digna do Gato-de-Botas e eu apenas conseguia pensar no quanto eu mimaria aquela pequena garotinha por usar a sua influência sobre da maneira certa.
— Não.
— Você realmente vai negar isso pra Cassie? – joguei a última carta que me faltava na manga, rezando para que aquilo fosse suficiente para convencê-la.
— Olha para cara dela, . – Brina apontou para o rostinho pidão da minha filha. – Você realmente vai ser sem coração a esse ponto?
— Eu odeio todos vocês. – bufou. – Menos você, você é um anjinho. – se abaixou, depositando um beijo terno na testa de Cass. – Eu faço, mas é só porque Cassie realmente jogou baixo ao pedir isso, ok? – rolou os olhos. – Eu vou pegar o violão.
— Está no estúdio, você pode trazer as partituras que estão em cima do piano, quero ajuda nelas.
— Não abusa da minha boa vontade, . – murmurou, antes de me dar as costas e sumir dentro do interior da mansão.
— Você me deve um bolo de chocolate. – Cassandra me olhou e eu apenas abri meus braços, esperando que ela corresse me abraçar. – Você está molhado.
— Você vai ganhar todos os bolos do mundo depois disso. – Griffin a encarou, me cortando antes que eu pudesse ao menos respondê-la.
— Vocês realmente querem a no álbum ou é apenas um jeito de implicar com ela? – Brina cruzou os braços, me encarando. Sabrina era tão transparente quanto uma taça de cristal polido e era bem fácil de perceber que ela se encontrava em um misto de felicidade e receio.
— Cara, eu a quero no álbum mais do que qualquer coisa. – levantei as mãos em defensiva. – Eu tenho um plano novo para esse álbum e eu quero que ela esteja nele, tanto na composição quanto na faixa. Eu devo isso a ela depois de tudo.
— Eu apoio. – Brina sorriu. – Ela é uma musicista incrível e pelos últimos quinze anos eu tenho tentado incessantemente fazer com que ela siga na carreira, se vocês querem mesmo fazer isso, vão ter meu apoio.
— Vocês vão me colocar em uma encrenca fodida. – Griff balançou a cabeça. – Mas eu topo, ela é realmente talentosa.
— Não posso tirar conclusões antes de escutá-la. – Dom murmurou, mas o sorriso em seu rosto denunciava que ele apenas estava sendo do contra.
— Por mim o que vocês decidirem, está decidido. – Tommy deu de ombros.
— Eu ajudo. – Cassie riu, sentando-se ao lado de Griffin.
— Você fez o arranjo para a letra? – finalmente passou pela porta com o violão em mãos, se sentando na cadeira em uma distância segura, me estiquei para pegar o violão de suas mãos e ela apenas se afastou, me deixando confuso por alguns segundos. – Você está ensopado, eu posso tocar.
— Por mim tudo bem. – dei de ombros, pegando as partituras ao lado. – Você pode fazer as partes em vermelho e eu faço as em azul.
— Juntos nas grifadas em roxo? – franziu o cenho, eu apenas assenti. – Ok, o arranjo é Dó, Sol, Lá Menor, Dó com Sétima, Fá e Ré Menor? – eu assenti. – Beleza. – murmurou, prendendo os cabelos cacheados em um coque bagunçado no topo de sua cabeça, deixando alguns cachos caindo por seu rosto. – Vamos lá.
— Um, dois, três...
Fiz a contagem em voz alta, esperando que começasse a tocar os acordes um por um. Contei o tempo da música e notei que a roadie tremia levemente e encarava o papel com afinco antes de finalmente começar a cantar o refrão.
Estou fora da minha cabeça? Estou fora da minha mente? Se você ao menos soubesse das coisas ruins que eu gosto... – ela usou uma nota de cabeça, me fazendo encará-la. – Não ache que posso explicar, o que posso dizer? É complicado. respirou fundo, o balançar de sua perna denunciava o quão nervosa ela estava. – Não importa o que você diz, não importa o que você diz, eu apenas quero fazer coisas ruins com você, tão bom que você ao menos pode explicar, o que posso dizer? É complicado.
Encarei meus amigos rapidamente e eles se encontravam tão embasbacados como eu quando havia escutado a roadie cantando pela primeira vez. A técnica era incomparável, mesmo nervosa ela apenas seguia como se nada pudesse tirá-la do estado em que ela havia se posto. Era quase como se se trancasse dentro de uma pequena bolha longe de tudo e todos. Era talento em sua forma mais pura.
Nada é tão ruim se te faz sentir bem, então você volta como eu sabia que voltaria. – comecei minha parte, encarando que agora já estava com os olhos abertos e mudava o ritmo para a estrofe. – Nós dois somos selvagens e a noite ainda é uma criança, você é minha droga, respiro você até ficar chapado. – ela me encarou com um olhar reprovador, claramente fazendo referência a Cassie que escutava tudo atentamente. Continuei no verso. – Então você diz.
— Eu te quero para sempre, mesmo quando não estamos juntos.
¬– começamos o dueto, agora ela balançava a cabeça levemente. – Cicatrizes no meu corpo para que eu possa te olhar a qualquer momento.
— CA-RA-LHO. – Dominic nos encarava como se tivesse acabado de tomar um soco. – Que porra, ? Você tem que ajudar a gente no próximo álbum.
— Sou uma roadie, não uma cantora. – abraçou o violão. – Vocês podem encontrar outra pessoa.
— Nem fodendo. – Tommy se pronunciou. – Não vai ser metade do que acabamos de ver agora e se nós não queremos uma segunda opção, queremos você.
— Por favor, respeitem a minha decisão de não fazer isso.
... – Griffin a encarou e eu pude enxergá-la engolindo em seco.
— Você não, Griffin. – ela soava um tanto quanto desapontada.
— Você precisa deixar ir, . – ele a encarou. – Você não pode continuar deixando de fazer as coisas por isso.
— Você não entende.
— Você tem razão, eu não entendo. Mas eu sei que nada vai ser um motivo plausível para você ter deixado isso de lado, principalmente quando isso foi algo que você passou boa parte da sua vida fazendo. – todos nós estávamos em silencio, apenas observando o desenrolar da cena a nossa frente. -Você precisa deixar ir e não fingir que essa parte da sua vida não existiu.
— Porra, Griff, não torne as coisas mais difíceis do que já são, tá legal? Eu já tenho muita coisa para lidar e eu não posso pegar um compromisso que sei que não vou conseguir terminar. – se levantou, tirando a correia do violão de seu corpo e o segurando pelo braço. – A resposta é não. – e nos deu as costas, voltando para o interior da mansão.
— O que acabou de rolar aqui? – Dom alternou seu olhar entre mim e Griffin. – Tipo, real, o que caralhos acabou de acontecer?
— Não é meu segredo para contar. – Griffin se levantou. – Brie, poderia me ajudar com a comida?
— Claro. – a empresária sorriu terna em minha direção antes de seguir Griff em direção à churrasqueira.
— Ele sabe de algo. – Dom se sentou ao meu lado, constatando o obvio.
— Não me diga, Sherlock. – rolei os olhos, olhando para Cassie. – Ei, Cass, você quer ir comigo procurar a ? Acho que ela gostaria da sua companhia.
— A está brava, papai? – ela franziu o cenho, andando em minha direção.
— Acho que ela só está um pouco sem graça.
— Por quê?
— O quê? – a encarei.
— Por que ela está sem graça?
— Bom, isso acontece quando você tem vergonha de algo e as pessoas te perguntam sobre. – fiz o meu melhor para tentar contextualizar. – Nós enchemos o saco dela e agora ela está sem graça por isso.
— Você quem começou com essa ideia, nós só compramos. – Tommy apontou. – Além disso, eu ainda não acredito que vamos desistir tão fácil assim.
— Quem disse que vamos?
— Vocês estão agindo contra as costas da minha melhor amiga? – Sabrina encostou no balcão da área da churrasqueira.
— Depende. – a encarei. – Você vai contar se estivermos?
— Claro que não. – ela deu um longo gole em sua cerveja. – Serei a apoiadora número um da ideia, tenho tentado convencê-la desde sempre.
— Eu te adoro, sabe disso né?
— Espera um segundo, preciso gravar isso.
— Vai a merda. – rolei os olhos.
— Vai você.
— Linguajar, crianças no cômodo. – Griffin apontou.
— Eu vou procurar a sua namorada. – me levantei. – Cass? Papai precisa conversar com a tia , você poderia ficar com seus tios por um momento? – ela assentiu, correndo em direção a Tommy e Dom.
— Fiquem de olho, sim? Eu já volto.
Esperei pela confirmação de Brina e Dominic. Quando esta chegou, eu apenas desenhei meu caminho em direção ao interior da mansão buscando pela silhueta da roadie. Não tardou que eu a encontrasse sentada em uma das baquetas do meu bar particular, encarando o gargalo da garrafa de cerveja que, a este ponto, provavelmente se encontrava quente.
— Ei, estranha. – a chamei, me encostando no balcão de mármore. – Você veio até aqui para ficar se autoflagelando?
— De início, não. – ela me encarou. – Agora, todavia, eu posso estar considerando a ideia.
— Não fode. – puxei a banqueta a sua frente, me sentando em seguida. – O que te impede?
, não quero continuar com isso, por favor.
— Qual é! Acho que mereço o mínimo de honestidade considerando que eu fui sincero com relação à Alyssa.
— Eu só não consigo, tá? É algo bem mais profundo do que medo e eu não consigo deixar isso de lado.
— Você gosta disso?
— Sim, mas...
— Então não tem “mas”. – a interrompi. – , você é uma musicista completa, eu teria que ser muito maluco para deixar você desperdiçar seu talento assim.
— Eu gosto de onde estou agora.
— Eu vejo a forma como você fica quando toca pra Cassie ou quando compõe. A paixão no seu rosto é clara. – me levantei, dando a volta através do bar para pegar uma garrafa de whisky e dois copos. – Eu sou um arrombado, mas não sou cego.
— Eu estou dirigindo.
— Você pode passar a noite, eles também vão. – apontei em direção ao grupo que brincava de algo próximo da piscina. – A questão aqui é: do que você tem tanto medo? – servi a bebida em ambos os copos, estendendo o copo de vidro em sua direção.
— Para alguém que odeia falar sobre si, você está bastante interessado na minha vida. – ela pegou o próprio copo, dando um gole na bebida.
— Posso voltar a ser o babaca de sempre, é só você pedir com jeitinho, gatinha. – pisquei em sua direção, tirando um sorriso de seu rosto. – Eu estou falando sério.
— São muitas coisas que me impedem e eu não me sinto confortável o suficiente para falar sobre com você, sem ofensas.
— Não ofendeu. – suspirei. – Escuta, eu tenho uma proposta.
— Essa questão não está aberta a discussões, se é esse o seu plano.
— Agora você está me ofendendo. – apontei, franzindo o cenho. – De qualquer forma, é de conhecimento geral o seu pânico por palcos.
— De fato.
— Mas, segundo minhas fontes, você compõe.
— Ah, não. – balançou sua cabeça negativamente, massageando as têmporas. – Onde você está querendo chegar?
— Você compôs comigo, quero que me ajude a compor o resto do álbum. – me encarou, deixando o copo repousar em cima do balcão antes de começar a gargalhar. – O que foi?
— Você se escutou agora? Tipo, realmente escutou o que acabou de sair da sua boca?
— Eu acabei de te fazer uma proposta que não envolve cantar em um palco.
— Eu sou uma roadie, não uma compositora.
— Seu diploma da Juilliard me diz o contrário.
— Você está me stalkeando ou algo assim?
— Não é importante. – balancei minha mão. – Eu quero que você me ajude nas composições, você não precisa cantar se não quiser, apenas me ajudar nas letras e arranjos. – tomei um gole do líquido em meu copo. – E, se você em algum momento se sentir preparada e tiver vontade, podemos gravar algo. – suspirei. – Todos eles concordam e Cassie ficaria brava comigo pelo resto do ano se eu não propusesse isso a você. – joguei a última carta que me faltava, sabendo que o apego de por minha filha provavelmente faria com que ela ao menos pensasse com mais carinho na proposta.
— Eu te odeio.
— Funcionou?
— Não vou te dar esse gostinho. – ela me encarou, rolando os olhos. – Tá.
— Isso é um sim?
— Isso é um talvez. – pontuou, levantando o dedo em riste. – Mas a minha prioridade continua sendo a minha profissão de roadie e isso inclui ser sua babá. – assenti. – E eu não quero que outras pessoas saibam.
— Defina “outras pessoas”.
— O resto da equipe, com exceção da Ashleigh por motivos óbvios. – justificou. – Não quero dar margem para que as pessoas assumam coisas sobre mim.
— Como o que? Você estar dormindo com a banda toda?
— É.
— Por mim tudo bem. – levantei meu copo. – Então nós temos um acordo?
— Temos um “talvez”. – ela bateu seu copo contra o meu, virando o resto da bebida que restara dentro dele.
E foi naquele exato momento com o olhar vacilante de em minha direção que eu me permiti sentir algo além do misto de antipatia e gratidão que tomavam meu peito sempre que estava envolvida no assunto. Ela havia se permitido fazer algo que iria contra uma parte que ela negava com afinco.
E eu estava louco para descobrir o porquê.


Continua...



Nota da autora: Bom, chegamos com mais uma atualização dupla porque eu amo esses personagens e não consigo me segurar.
Acho que agora nós estamos conseguindo enxergar um pouco melhor a personalidade dos personagens e eu espero conseguir fazer com que vocês mergulhem na cabeça deles da mesma forma que eu.
The Roadie é sobre mudanças e sobre superar seus medos, então eu espero que vocês gostem de acompanhar o trajeto da pp enquanto ela supera os dela.
Nos vemos na próxima atualização. :)



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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