FFOBS - Tudo passa, mas primeiro te atropela, por Yasmin Albuquerque


Tudo passa, mas primeiro te atropela

Última atualização: 21/12/2018

Prólogo

Não era um bom momento para o Brasil sediar uma Copa do Mundo FIFA.
Greve de servidores públicos federais, policiais militares, vigilantes bancários, professores, rodoviários, metroviários, profissionais da saúde. Metrópoles praticamente paradas, milhares de pessoas sem terem como se deslocar e outras milhares temendo pela própria segurança porque quem deveria cuidar dela cruzou os braços e exigiu reajuste salarial.
Os olhos do mundo inteiro voltados para o Brasil e tudo o que tínhamos para mostrar era o lado feio que tentávamos esconder de nós mesmos, tamanha nossa ignorância. Milhares de manifestações por dia, violência gratuita, ineficiência do Estado, corrupção governamental. Mas tudo o que a TV ressaltava eram as habilidades físicas de Neymar e a Claudia Leitte como a international superstar que todos sabiam que ela não era.
Não importava a quantidade de manifestações nas ruas ou se nem todos os estádios estivessem prontos. As repórteres da CNN que se machucaram logo ficariam curadas, os manifestantes uma hora acabariam indo pra casa e o fiasco da abertura logo seria abafado pelas rodadas de partidas de futebol. Tudo daria certo e nós ensinaríamos aos gringos o famoso jeitinho brasileiro e como conseguimos fazer milagres com ele.
Ia ter Copa sim e isso era inevitável.
Só que um fato incontestável sobre a vida que as pessoas insistem em não dar muita importância é que eventos muito grandes mascaram muitas coisas. Tudo bem, numa final entre Brasil e Argentina, por exemplo, ninguém quer saber quem acabou terminando um namoro na arquibancada ou quem começou um na fila de espera do lado de fora do estádio. Algumas coisas sobre os bastidores são eventualmente divulgadas, mas em sua maioria são detalhes técnicos, que no geral não fazem muito sentido nem são relevantes.
A Shakira encontrou o amor da vida dela na África do Sul em 2010, que por sua vez, foi o primeiro país do continente Africano a sediar uma Copa do Mundo FIFA. E no mesmo ano, o goleiro da Espanha, Iker Casillas, bateu um recorde ao conseguir ficar impressionantes 433 minutos sem tomar nenhum gol. Ninguém da muita atenção a detalhes pequenos.
Muitas vidas mudam em eventos desse porte, mas a gente nunca espera que seja a nossa.
Uma semana antes dos jogos começarem, eu tinha uma credencial da FIFA e uma missão: ir para onde estivessem as seleções italiana ou inglesa, não importando se fosse no Rio Grande do Sul ou no Amazonas. Deveria supervisionar, organizar e cuidar para que tudo estivesse lindo e impecável para ambas as seleções. Check ins e check outs feitos no prazo certo, academias com estrutura e aparelhos do agrado dos atletas, planos de voo, itinerários. Trabalhoso, não necessariamente difícil.
Mas a vida não teria graça se tudo que fizéssemos saísse exatamente como o planejado.
No dia 12 Junho ás 16:35, horário de Brasília, eu estava na Arena Corinthians assistindo o playback de Pitbull, Claudia Leitte e Jennifer Lopez e não fazia ideia do que me esperava durante aquele mês. Ainda não sabia que eu perderia o jogo da Espanha em Salvador no dia seguinte pra acompanhar o da Itália em Manaus no sábado. Ainda não sabia que a Suíça seria eliminada pela Argentina num jogo suado. Ainda não sabia que o Brasil seria eliminado na semi-final pela Alemanha de forma histórica e humilhante.
A ignorância, como muitos dizem, ás vezes é uma benção.


Um

A voz grossa do piloto do avião anunciou em português, inglês e espanhol que estávamos há dez mil metros acima do solo e há quarenta e cinco minutos de aterrissar no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Era a primeira vez que eu ia a Manaus e, antes mesmo de sair de São Paulo, eu sabia que pelo menos durante o sábado eu não conheceria nenhuma reserva florestal. Cuidaria do jogo da Inglaterra contra a Itália e tentaria manter a Lia consciente de todas as possíveis merdas que poderiam acontecer naquele mês.
- Você nem gosta de futebol, Lia. Não sei por que está tão empolgada com isso.
- Como você pode não estar empolgada com isso depois de ter recebido cantadas de mais gringos do que eu posso contar com meus dedos?
- Você tem noção do quanto isso vai ser cansativo? No final disso tudo eu vou precisar de muito mais do que uma semana num spa para me recompor e eu não acredito que isso vá sair do bolso dos nossos chefes.
- É, vai sair do bolso do seu tio – o olhar que ela me direcionou indicava que ela estava verdadeiramente irritada, o que era raro, mas eu não liguei. Eu não precisava gostar de futebol só porque meu tio era Joseph Blatter. Não era coisa de sangue ou algo do tipo – Só aproveita, tá? Eu sei que você eventualmente vai conseguir ver todos os lados positivos disso.
Naquele momento, há dez mil metros do solo e tomando suco de laranja industrializado, eu tinha minhas dúvidas sobre a certeza de Lia quanto àquilo.
Não demorou muito mais tempo para que desembarcássemos e fôssemos direto para o hotel da seleção da Inglaterra, ver se eles estavam bem instalados e ter uma conversa séria com Joe Hart. No dia anterior, ao chegar em Manaus, ele deu uma declaração a imprensa de que estavam indo jogar no meio da selva. Claro que o comentário foi mal visto, principalmente pelo meu tio, e claro que o trabalho sujo sobrou para mim. Com 24 anos tendo que passar autoridade pra um marmanjo de 27 que não conseguia segurar a língua dentro da boca. Em alguns momentos eu era tomada pela realidade de que meu trabalho era meio surreal.
Eu sei que soa idiota que a sobrinha do presidente da FIFA não preferia assistir os jogos de camarote e viajar o país de jato particular. Era muito comum que o meu parentesco fosse constantemente jogado na minha cara quando eu me utilizava dele para algum propósito mesquinho. Família não era algo negociável ou da qual eu pudesse me livrar, então simplesmente cansei de todo aquele papo. Achei que, mesmo eventualmente aproveitando-me do sobrenome, deveria ser útil de alguma forma. Eu tinha dinheiro, mas heranças não duram para sempre e um extra não era nada mau, ainda mais um extra gordo como o que eu receberia. A pressão existia, principalmente pela minha idade, mas meu tio sabia que tudo o que eu fazia, dava o melhor de mim no processo. No fim das contas seria mesmo muito bom viajar pelo meu país de origem às custas dos meus chefes, com o adendo de ganhar muito bem para isso.
O carro estacionou em frente ao hotel na rua Humberto Candelaro, e eu coloquei o crachá antes de descer. Eu não gostava muito da hipótese de ser rudemente parada por um militar caso eu não estivesse identificada, e os arredores do hotel estavam cheios deles. Não era obrigação de ninguém conhecer meu rosto.
Conferi no iPad se tinha checado tudo para a estadia dos ingleses em Manaus e fui em direção à recepção. A plaquinha no bolso do uniforme me indicava que o nome da mulher que me dizia com uma voz nervosa que a seleção estava me aguardando na sala de reuniões do hotel, era Carmem. Eu não era nenhuma autoridade, apesar de chefiar uma equipe, mas gostava quando as pessoas agiam como se eu fosse. Talvez eu parecesse uma usando um vestido de corte reto e scarpin preto. Talvez eu parecesse mais velha também, e no momento era disso que eu precisava.
Ainda assim fiquei nervosa quando todos aqueles pares de olhos se viraram pra mim quando a porta foi aberta. Mais três pessoas me acompanhavam, incluindo Lia, mas todo mundo só tinha olhos pra mim, como se soubessem que a responsável ali fosse eu.
- Boa tarde a todos. Meu nome é Blatter e sou responsável por garantir que vocês sejam bem recebidos e tenham tudo o que precisarem enquanto estiverem em terras brasileiras. Peço desculpas por não ter conseguido chegar ontem, tive alguns contratempos com a abertura na quinta-feira.
- É um prazer conhecê-la, senhorita Blatter – o treinador da seleção, Roy Hodgson, se levantou e apertou minha mão. Ele não era muito alto, mas conseguia ser maior que eu, e percebi na forma como ele me olhou que tinha relacionado meu sobrenome à pessoa. Era o mesmo olhar que o caixa de alguma loja nos dá quando estendemos um Amex pra finalizar a compra – Agradecemos a hospitalidade dos brasileiros. A senhorita é brasileira?
- Metade de mim é – sorri, tentando soar simpática, mas sabendo que meu esforço era em vão. Não gostei nem um pouco dele. Ele parecia aquele tio que sempre queria que você sentasse no colo dele nas festas de Natal, mesmo você já sendo bem crescidinha – E tenho absoluta certeza de que vocês demonstrariam mais seu agradecimento sendo mais simpáticos com os locais – ele ergueu a sobrancelha para mim – Conheço mais britânicos do que poderia contar Sr. Hodgson, e sei bem que vocês são mesmo reservados, mas esse tipo de comportamento trás publicidade ruim. E sei que vocês concordam que ainda é muito cedo para publicidade ruim.
- Perfeitamente, senhorita – ele voltou a se sentar, sério. Era bom que eu não conquistasse a simpatia dele porque nunca fui boa em lidar com pessoas de quem não gosto.
- Sendo assim, meu número pessoal está a sua disposição, professor, e qualquer coisa que você, sua equipe ou qualquer um dos seus jogadores precise, não hesite em me chamar, estarei no Quality Inn – Roy balançou a cabeça e fez sinal para que ele e a equipe saíssem da sala – Mas já que falamos em publicidade ruim, gostaria de dar uma palavrinha com Joe Hart. A sós, se for possível.
- Comigo?
Se tinha algo que eu seria obrigada a admitir era que Joe Hart era a personificação do meu ponto fraco. Loiro, muito alto, de olhos verdes e, de acordo com as fotos que eu achei na internet ao pesquisar sobre ele, muito gostoso, com roupa ou sem.
As declarações que ele dera, entretanto, me faziam questionar se sua arrogância não teria o poder de estragar todo o resto.
- Se esse por acaso foi o nome que seus pais deram a você, Joe Hart, então sim, contigo.
- Não demore muito, sim, senhorita Blatter? Eles precisam treinar em trinta minutos – definitivamente Roy Hodgson perdeu qualquer simpatia que ele poderia ter comigo ao usar o tom que usou.
- Serei breve.
A equipe e o resto da seleção começaram a sair da sala e eu percebi o sorriso torto que Hart deu depois que Jack Wilshere sussurrou alguma coisa em seu ouvido. Fosse o que fosse aquilo me deixou de cabeça quente, porque algo de que eu não gostava nenhum pouco eram pessoas sussurrando coisas as quais não queriam que eu ouvisse e que talvez, por esse motivo, fossem sobre mim.
Quando a última pessoa fechou a porta e ficamos só eu e Hart dentro da sala, caminhei devagar até a janela, respirando fundo para tentar não perder a paciência com ele. Eu já imaginava que fosse uma missão meio impossível, mas não custava tentar.
- Você pode vir até aqui, por favor?
Demorou uns dez segundos para que ele levantasse suspirando e parasse ao meu lado. Aquela presença era intimidante; mesmo 12cm acima do meu tamanho normal, ele superava em muito a minha altura. E a minha estrutura física também; se por acaso parasse atrás de mim, qualquer pessoa que chegasse à sala não saberia que eu estava ali. Ele era grande e tinha um perfume delicioso que eu não achava que viesse de um vidro francês. Respirei fundo tentando me concentrar.
- Olhe bem pela janela e me diga se parece que estamos no meio da selva.
- Você deve saber que não foi isso o que eu quis dizer.
- Ah, claro que eu sei. Você se referiu ao clima, ao calor atípico, a alta umidade do ar. Mas ao se referir a essas coisas da forma que você fez, muita gente ignorante interpretou isso de outra forma. O twitter enlouqueceu com a sua declaração. Claro que metade da culpa por isso é da imprensa, mas você é uma pessoa pública, e infelizmente precisa prestar muita atenção nas coisas que fala.
Ele suspirou do meu lado, passando a mão nos cabelos curtos e apoiando os braços na janela. Se qualquer outra pessoa de qualquer outra parte do mundo fizesse o mesmo movimento, não teria o mesmo charme. As persianas deixavam que um pouquinho da paisagem de Manaus aparecesse e eu tinha que admitir que era uma cidade linda, mas um pouco sufocante, e o uniforme que eles usavam quase o tempo todo não deveria ajudar muito. Já havia sido uma mudança muito grande sair de UK pro Rio, eu entendia a situação deles. Sentia falta do meu apartamento em Zurique também. Não há nada como o lar da gente.
- Isso te trouxe muita dor de cabeça? – seu tom de voz não era o de alguém que parecia se importar.
- Poderia ter trago mais, não que você se importe – virei meu corpo pra ficar de frente pro dele e tentei me concentrar em outra coisa que não fosse o cheiro daquele homem ou como os olhos dele ficavam quando a luz do sol refletia neles - E se me permite um bom conselho, pose para uma foto ou duas, dê alguns autógrafos, por mais que eu ache isso tudo tanta besteira quanto você. Tente ser simpático, mesmo que isso seja uma missão difícil.
Ele deu o mesmo sorriso torto do sussurro de Jack Wilshere e aquela curiosidadezinha me incomodou outra vez. Eu não perguntaria; não vinha ao caso perguntar.
- Farei meu melhor.
- Obrigada – me encaminhei á saída da sala, mas antes de abrir a porta, voltei á olhar pra Joe, que me encarava insistentemente – Diga ao seu treinador que o hotel tem saunas ótimas para ajudarem vocês a terem maior resistência à temperatura. E diga também pra ele não dizer de novo que não gostaria de jogar em qualquer outro lugar do país ou eu pessoalmente darei meu jeito de fazer ele se arrepender disso. Ele não pareceu gostar muito de mim.
- Não vejo a razão.
Ele ainda sorria quando eu fechei a porta e soltei o ar preso em meus pulmões.
Eu tinha que comer e dormir, mas precisava encontrar a seleção da Itália. Ainda estava no segundo dia de Copa e a exaustão já tomava conta do meu corpo. Peguei um Red-Bull no restaurante do hotel e voltei para o carro.


Dois

Ao chegar no Quality Inn Hotel, quis na hora em que pisei no saguão subir para o oitavo andar e ficar no meu quarto até a hora do jogo no dia seguinte. Mas a recepcionista do Quality, muito mais eficiente e segura que a do outro hotel, assim que ouviu meu nome disse que a seleção da Itália me esperava no restaurante. Ótimo, pelo menos eu almoçaria – com um delay de duas horas.
Eu deixei minha equipe ir na frente e fui até o quarto trocar de sapato e deixar minha bolsa. A mala de tamanho médio já estava aos pés da minha cama, que me parecia muito convidativa com um edredom branco. Peguei uma sapatilha azul escura e tirei o iPad e o celular da bolsa. Conferi se o treino da seleção estava marcado e se a academia do hotel estava reservada, então larguei o tablet em cima da cama e fui em direção aos elevadores.
Nesse meio tempo, eu podia sentir na base da nuca que já suava. Prendi meu cabelo em um coque e tentei concertar a maquiagem que lentamente derretia com um lenço umedecido, antes que minhas olheiras ficassem á mostra. Fazia um calor dos infernos ali, mesmo com a refrigeração do hotel. Eu teria que pedir pra manterem o ar condicionado do quarto dos jogadores um pouco abaixo da média. E recomendar sauna pra eles também.
O elevador parou no oitavo andar e, quando as portas se abriram, Claudio Marchisio estava lá dentro.
Eu tinha que parar de me deslumbrar com aqueles jogadores, mas era muito difícil. Esportistas em geral tem um tipo físico padrão. Nadadores têm costas e ombros largos e coxas grossas. Tenistas têm panturrilhas grossas e firmes. Jogadores de futebol, entretanto, são abençoados e tem todas as partes do corpo esculpidas por Michelangelo. Por causa dos treinos e da rotina que eles levam, e também os jogos em si, que exigem muito esforço físico. Claudio Marchisio era o exemplo perfeito das bênçãos do futebol na vida de um homem. Eu só faltava babar.
- Desculpe, mas você é Blatter? A sobrinha de Joseph?
- Por acaso venho a ser – sorri, surpresa. Não era muito comum que as pessoas me reconhecessem de cara, mesmo aqueles inseridos no meio futebolístico.
- Um prazer te conhecer, bella – concentrei toda a minha força pra não me derreter pelo pseudo elogio.
Ele era indecentemente bonito. Toda a composição, das tatuagens que eu conseguia ver no braço, passando pelo maxilar marcado com a barba rala e pelos olhos, que mesmo tão de perto, eu não conseguia decidir se eram verdes ou azuis. Só sabia que eu não conseguia parar de olhar pra eles; eram a cor do mar do Caribe que eu me lembrava de uma antiga viagem. Todo aquele pacote embrulhado em uma roupa casual e era ele quem me chamava de bella.
- O prazer é todo meu – apertei sua mão e sorri, contida. Não demonstrar interesse, , não demonstrar interesse.
- Está indo ao restaurante?
- Sim, tenho que conferir se está tudo certo pra vocês durante a estadia.
- Então você é responsável pelo nosso bem estar?
- Digamos que eu e mais algumas muitas mãos.
- Mas parece tão jovem!
- Como sabe? Eu posso ter trinta e tantos anos e várias aplicações de botox! – ele riu alto, as duas mãos no bolso.
- Você mente muito mal, bella.
Eu ainda sorria quando chegamos ao restaurante e fui recebida pelo técnico da seleção de forma mais calorosa do que podia prever – e com mais elogios que me custaram muito esforço pra que eu não ficasse encabulada. Talvez fosse verdade o que estavam dizendo no twitter, que os italianos estavam sendo todos muito simpáticos por onde passavam. Sempre achei uma rede social inútil, mas se até o Papa criara uma conta, revi meus conceitos e consegui achar utilidade. Deixei os números do meu celular e do meu quarto com Cesare, me prontificando a atender á qualquer dúvida ou necessidade de qualquer um deles - o mesmo discurso de sempre. Comentei da sauna, que era uma estratégia que eles já estavam usando na Itália e também falei da simpatia. Brasileiros prezam esse tipo de coisa e não seria nenhum sacrifício. Finalmente fui para minha mesa checar quais opções de carboidrato o restaurante do hotel oferecia; estava faminta.


Eu comi e subi pra dormir, super contente que teria um tempinho pra descansar antes de acompanhar os treinos – porque surpreendentemente, até isso era da minha conta. Eu precisaria ter certeza de que o gramado fora aprovado – já que rolaram algumas polêmicas sobre ele -, se o vestiário estava suficientemente refrigerado, se tinham bebidas e toalhas em número satisfatório...
Não demoraria muito tempo até que eu virasse uma neurótica com pequenos detalhes.
Tirei meu vestido, diminuí a temperatura do ar condicionado e soltei o cabelo, penteando com os dedos mesmo. Tomaria um banho e dormiria duas horas antes de ir pra Arena da Amazônia preparar tudo para o treino.
Ou era isso o que eu tinha planejado antes de colocar a cabeça no travesseiro e não conseguir pregar os olhos.
Era compreensível meus hormônios serem afetados pelo tanto de homem bonito que eu encontrei, levando em conta que minha vida sexual não estava muito movimentada á alguns meses. Eu não tivera tempo, no fim das contas, pra uma transa casual no meio de toda a preparação para a Copa. Até na minha maldita vida sexual esse evento conseguiu se meter. A maldita vida sexual que já era escassa.
Lia dizia que sessenta por cento do meu estresse era por conta da minha vida sexual escassa. Isso me estressava mais ainda. Eu não achava divertido o simples ato de se abrir as pernas e conseguir um orgasmo só porque achara um cara gostoso além do normal. Não que sexo devesse ser divertido, mas dessa forma mecânica não tinha graça. Não era demais pedir um pouco de química e um pouco mais de intensidade; sexo deveria ser sobre mais do que só tesão.
Eram essas coisas que eram difíceis de achar, ainda mais com tempo livre escasso. Esses pequenos detalhes com os quais eu me importava muito á muito tempo.
Talvez fosse culpa do atraso, mas eu não parava de sentir o perfume do Hart rodeando o ar ao meu redor, como se estivesse entranhado na minha pele, e aquilo causava efeitos na minha calcinha. Eu continuaria em negação constante, me recusando á acreditar que aquele ser causava algum tipo de efeito sobre mim. Sua arrogância ocuparia o espaço suficiente pra nós dois em um ambiente pequeno como um quarto.
E só de imaginá-lo no meu quarto meu sono foi embora de vez.


Eram oito horas da noite, horário de Manaus, e fazia 27oC na Arena da Amazônia – umidade relativa do ar de 76%. Antes mesmo que começasse, eu já sabia que não seria um treino fácil.
A seleção da Itália já estava se aquecendo – e as câmeras já disparavam flashes para eles. Era bom que aproveitassem, porque o treino só seria aberto para a imprensa durante 15 minutos. Como sempre isso renderia especulações e exageros. “O que os italianos estão preparando para a Inglaterra em sua estreia?”, seria o título de uma mini reportagem, provavelmente do Corriere dello Sport. Era o que todos queriam saber e só descobririam na tarde seguinte.
Eu estava parada em pé próxima aos bancos, outra lata de Red-Bull em uma das mãos e o iPad na outra. Horários, lembretes, alarmes, e-mail, sites de notícias abertos; tudo naquele tablet. Era necessário muito foco e controle absoluto em tudo pra fazer o que eu fazia. Teoricamente, estressada por natureza como sempre fui, não era o trabalho mais recomendado pra mim, mas eu vinha conseguindo lidar bem com ele. Se as muitas latas de Red-Bull não me fizessem ter um infarto aos 24 anos, eu sairia quase ilesa do evento.
Fisicamente falando.
O técnico da Itália, Cesare Prandelli, de quem eu gostava muito de repetir o nome por causa da pronúncia, sentou do meu lado e bebeu metade de uma garrafa de Gatorade de um gole, como se ficar em pé roubasse muito líquido de seu corpo. E talvez fosse assim que ele se sentisse, com aquela quentura inexplicável subindo do gramado. Ele não era muito bonito, mas aparentava ter sido, alguns anos antes. Ainda tinha aquele charme europeu intrínseco no jeito de falar e de gesticular – o que ele fazia muito e ao mesmo tempo.
- Você gosta de futebol, bella? – ele me perguntou, quando os seguranças começaram á acompanhar os repórteres pra fora do estádio.
A forma descontraída com a qual ele pronunciou a palavra bella me fez pensar na forma como Marchisio havia dito aquilo pra mim, algumas horas antes. Era a mesma palavra, mas parecia ter conotações diferentes. Como se pra Cesare não fosse um elogio, só um pronome, e Marchisio quisesse dizer que eu era linda de verdade. Claro que o mais provável era que eu estivesse ficando maluca e os italianos fossem assim mesmo, calorosos, e chamassem todas as mulheres de bella, como se fosse uma gíria para “senhorita”.
- Gostar não é bem o verbo, senhor – mesmo que gostasse de pronunciar seu nome, paguei de educada. Ele era mais simpático do que o técnico da Inglaterra, então merecia meu esforço – Ainda existem coisas que não fazem muito sentido pra mim, mas aprendi a apreciar.
- Bonita a forma como você colocou isso. Como apreciador, acima de técnico, vejo o futebol como uma arte.
Era claro que eu não via, assim como também não achava a pintura O Grito, uma obra de arte. Pra ser sincera, também não vi muita graça na Mona Lisa, ocupando sozinha uma parede inteira do museu do Louvre. O conceito de arte é variável, de pessoa pra pessoa, dependente de fatores externos como nível cultural e experiências de vida. Se o técnico da seleção italiana achava que futebol era arte, quem era eu pra falar que não era?
- Talvez o senhor esteja certo.
Ele gostou da minha resposta; ela dava espaço para que ele explicasse sua tese.
- Veja bem como funciona: eu pego esse monte de atletas e trabalho duro com eles – acredite quanto ao trabalho duro. É como uma escola: temos que dar regras e disciplinar e nenhum deles é suscetível á regras nessa fase da vida. Alguns dos mais jovens, talvez, mas não todos. Então eu trabalho duro com eles, estabeleço metas, cobro resultados. Vou moldando seu estilo de jogar até ficar do jeito que eu quero. Como um artesão faz com um vaso de cerâmica. E se o conceito de arte é estimular a mente humana, as emoções, ampliar perspectivas, o que mais o futebol poderia ser, se não arte?
Ele falava com paixão. Era inspirador. Era como um pastor tentando convencer céticos á entrarem em sua igreja, experimentarem uma dose de suas palavras e ficarem para mais, caso gostassem – e sendo muito bem sucedido nisso. Se palavras e confiança fossem o suficiente, ele ganharia a Copa do Mundo, igualando a quantidade de títulos da Itália á do Brasil. Mas era preciso demonstrar aquela visão de futebol no campo, e mesmo que ele jogasse, nenhum jogador sozinho faz uma seleção.
- Ela vai se cansar de seus discursos, Cesare.
E lá estava Marchisio, aquele que me chamara de bella no real sentido da palavra, aquele que estava á menos de dois metros de mim exalando um cheiro maravilhoso e ridículo de suor e perfume, que seria nojento vindo de outra pessoa, mas dele era delicioso. Tentei evitar sorrir, mas nenhum esforço teria contido meus lábios de se curvarem. Pela presença e pelo inglês com sotaque forte.
- Não se preocupe, seu professor aqui é coerente no que fala, estou suficientemente entretida.
- Não é entretenimento suficiente nos ver jogar?
- A graça é quando é pra valer! O jogo de vocês vai me entreter só amanhã.
Ele sorriu pra mim e despejou uma garrafa de água gelada na cabeça. Foi um clichê de merda naquela hora. Vi cada gotinha descer em câmera lenta pelo seu rosto, entrando pela camisa do uniforme, deixando o tecido azul ainda mais escuro. Quis lamber cada uma delas. Congelei. Era o tipo de pensamento condenável que eu não tinha desde os dezesseis anos, quando os hormônios estão impossíveis, se manifestando em horas e com pessoas erradas.
Em poucos segundos, me peguei pensando em sua estranha simpatia, seus elogios dirigidos á mim, aquele clima pesado que não parecia ser por culpa da alta umidade do ar. Fiquei procurando razões em tudo aquilo, motivos plausíveis para aquela aproximação. Logo me reprimi; não havia nada de estranho em frases inofensivas e muito menos em ser simpático. Se eu recebera educação, mesmo que uma mista, ele poderia ter recebido também.
- Esse é o espírito, bella! – Cesare apertou meu ombro, me trazendo de volta pro presente. Sorri, um sorriso automático, quase sem graça, como se tivesse sido pega no flagra. O olhar de Marchisio pra mim parecia o de alguém que tinha pego outra pessoa no flagra. Engoli seco e tentei me recompor; não demonstrar fraqueza, não demonstrar interesse – Agora volte para o campo e foque no ataque pela esquerda com o Matteo e o Pirlo.
Claudio assentiu, como um cachorro treinado recebendo ordens e pronto para executá-las. Ele respirava fundo, com calma, tentando adaptar o próprio corpo ao ambiente. Imaginava que deveria ser difícil, se eu sentada ás vezes me pegava com falta de ar.
- Sei que não sou especialista, senhor, mas estou curiosa: acha que estão prontos para amanhã, nessas condições, contra a Inglaterra?
- Nós não só estamos prontos, como vamos ganhar amanhã, mia cara! – e ele sorria, mas não um sorriso de quem era apenas prepotente, era um sorriso de quem falava sério.
Acreditei naquele sorriso e no que ele queria dizer.


Enquanto eu era arrastada para fora do meu quarto por uma Lia sorridente, o cansaço parecia se estabilizar sobre meus ombros. Eu não queria sair, não tinha estrutura para aquilo! Eram dez e quarenta e seis e tudo o que eu queria era me enrolar em um edredom e dormir as poucas horas que me restavam até o dia seguinte, como um adulto responsável faria. Dia de jogo era mais corrido; mesmo a partida só começando ás 18h e mesmo os jogadores só indo pra lá ás 16h, eu tinha que começar a cuidar de tudo bem cedo. Até da porcaria do café da manhã e do almoço. Nem da minha alimentação eu conseguia cuidar, e tinha que cuidar da deles!
Mas não, a Lia zen que conseguira tempo para fazer yoga durante as horas em que eu me estressava, a Lia que sabia canalizar suas energias pra ter pique de sobra, me tirara do quarto e me fizera colocar um sapato dela que espremia o meu pé e tudo aquilo supostamente uma hora ficaria divertido. Eu enxergava muitas possibilidades e nenhuma delas me parecia divertida. Eu já estava puta da vida antes de pisar na calçada.
- Você não vai me estressar, , eu saí da yoga há algumas horas e estou completamente imune á qualquer argumento que você venha a usar! – eu suspirei, entrando no carro – É só uma horinha, um drinque ou dois, música boa... E eu e você sabemos que algum gringo de passagem vai cruzar com você.
- Além de hispter virou vidente agora?
- Só fica quieta até a gente chegar! Depois da primeira dose você fica mais divertida.
Fiquei encarando a janela do carro, em silêncio, durante todo o caminho. Manaus era uma cidade bonita, histórica e rica em identidade cultural. Como uma cidade grande, escondia muitas coisas em vielas e ruas cujos nomes eu não sabia. Eu me interessava por esses aspectos, os que não eram revelados, os que tínhamos que correr atrás pra descobrir. A verdadeira história de Manaus que muitos de seus próprios moradores poderiam não conhecer. Eu poderia procurar essas histórias um dia, mas não naquele. Lia e o universo já tinham outros planos pra mim.
Eu poderia estar prestes á me tornar uma dessas histórias, paralelas ao caos da cidade grande, á atrasos de aviões e engarrafamentos no trânsito. Á placares de jogos de futebol e coletivas de imprensa. Não tinha como ter nenhuma noção disso. Chega a ser engraçada a inevitabilidade das coisas.
O carro parou na frente do hotel onde eu deixara o técnico da seleção inglesa nada satisfeito com minha falta de simpatia naquele mesmo dia mais cedo. Olhei pra Lia, a sobrancelha erguida, genuinamente surpresa com o rumo que aquela noite parecia estar tomando.
- O que a gente ta fazendo aqui? Achei que você tinha encerrado o trabalho por hoje – olhei para o meu vestido azul que terminava a quase dois palmos do meu joelho e tinha a cintura marcada por duas aberturas laterais; não era roupa pra trabalho.
- E encerramos, claro que encerramos! Só que um dos melhores bares da cidade, por acaso, é o desse hotel, e eu não poderia te levar á outro lugar que não aqui – eu já sabia antes que ela falasse, que aquela era a hora da frase de efeito clichê – O melhor para a melhor.
E ela sabia que eu sempre era vencida por suas frases de efeito clichês.
Descemos do carro, que não estaria á nossa disposição pelo resto da noite porque, tecnicamente, só deveríamos usá-lo como veículo oficial, e entramos no hotel. “Um dos melhores bares da cidade” ficava no canto esquerdo do hall de entrada, acessível por portas duplas de vidro. Eu conseguia ver por trás delas luzes nas mesmas cores do meu vestido, e me perguntei se Lia me arrastara para um bar ou para uma boate intimista. Ela abriu a porta e a música e a fumaça nos envolveram. Era tudo o que eu queria, ficar com o cabelo fedendo e sem tempo de lavá-lo.
A ironia me fez rir quando eu percebi que tocava a música da Shakira pra copa, aquela com uma participação do Carlinhos Brown tão pequena quanto a da Claudia Leitte na música oficial. E a ironia quase me fez chorar quando o refrão começou e eu encontrei os olhos de Joe Hart, sentado com Wilshere e Rooney em uma mesa no canto do bar, virados pra mim.
“Is it true that you want it? Then act like you mean it” nunca me pareceu de verdade uma expressão significativa, até aquele momento, inserida naquele contexto.
- Que porra eles estão fazendo aqui? – me esforçava para que o choque não chegasse ao meu rosto e se tornasse perceptível. Eles tinham um jogo difícil no dia seguinte, mas a julgar pelas caipirinhas na mesa do bar, discordavam de mim quanto ao nível de dificuldade a ser enfrentado - Parece que o trabalho vai sempre estar por perto – Lia percebeu no meu tom de voz que eu não estava feliz em constatar aquilo – Vou pegar uma mesa, me arranje uma dose dupla de tequila.
Eu não queria admitir, mas a verdade é que ele estava do outro lado do bar, acompanhando cada passo que eu dava pra longe dele e de seu campo de visão. Talvez fosse raiva o que ele sentia, por eu tê-lo feito parecer um adolescente inconsequente; mas talvez não. Consegui achar uma mesa bloqueada por uma pilastra que também me privava de um pedaço da mini pista, mas não era uma perda significativa. Não sei quanto tempo a Lia ia fazer aquilo durar, mas não queria ter que aguentá-lo olhando pra mim daquele jeito. Eu precisava daquilo - de uma pausa antes que as coisas entrassem no modo hard -, mas não sabia se conseguiria com ele tão perto. Até porque, os efeitos que ele causava em mim iam muito além de só estresse.
Talvez a Lia estivesse certa e eu só precisasse beber. E transar.
Por cinco minutos eu fiquei sentada na mesa, cantarolando e batendo as unhas na madeira, que não viam esmalte nenhum á semanas. No sexto minuto comecei á estranhar a demora da Lia. Era sexta-feira e até tinha uma quantidade razoável de pessoas por ali, mas não o suficiente pra que fosse assim tão difícil arranjar uma bebida. Ou algum gringo tinha chegado nela e ela se esquecera de mim ou ela se engraçara com o barman. No sétimo minuto eu já estava em um alto nível de impaciência, considerando muito a possibilidade de levantar e perder a mesa pra procurá-la pelo bar. No oitavo minuto começou a tocar Partition, o que fez com que eu pensasse em esquecer da Lia e fosse dançar sozinha. Que ela voltasse pro hotel sem mim também, com ou sem barman ou gringo charmoso. No nono minuto, quando resolvi levantar, assisti Joe Hart em câmera lenta contornar a pilastra que me servira de escudo e sentar no banco destinado a Lia. Ele tinha uma dose de tequila na mão que eu suspeitava que era a minha, mas não tive a chance de perguntar porque ele entornou o líquido pela garganta, sem sal nem limão, antes de sentar-se à minha frente.
- Abandonaram você? – ele fez a pergunta sorrindo, e o sorriso dele combinado com o olhar me fez ter certeza de que ele sabia o motivo de eu estar ali sozinha.
- Pois é, e você não perdeu tempo em vir me fazer companhia, não é? - ele riu e eu quis arrancar o sorriso da boca dele com minhas unhas sem esmalte. Vestido casualmente ele conseguia ser ainda mais gostoso. O cheiro ainda estava lá, junto com o cabelo bagunçado e as mãos enormes. Aquelas mãos... Nunca dei muita importância pra mãos, mas elas faziam muita diferença, como pagar mais caro por um quarto de hotel só pelo menu de travesseiros. As mãos dele pareciam valer o alto custo; não poderia esperar menos delas, por serem mãos de um goleiro. Eu comecei a gostar da ideia de investir para tê-las embaixo do meu vestido. Céus, nem ao menos poderia culpar o álcool por aquele tipo de pensamento, sóbria como estava – A tequila era minha?
- Acontece que a sua amiga é muito mais simpática do que você e parou pra falar com a gente.
- E ficou.
- E ficou – ele riu – Na verdade, Jack deu um bom motivo pra ela querer ficar.
- Se ofereceu pra uma partida de Twister?
- Digamos apenas que o banheiro vai ficar ocupado por um tempo – ele sorriu e malícia escorria por entre seus lábios.
- Você é um babaca.
- Já ouvi coisas piores.
- Aposto que ouviu - eu ri, coisa que ele não esperava que eu fizesse, pois ergueu as sobrancelhas, surpreso. Talvez eu tivesse um adversário à altura e aquele jogo fosse divertido de se jogar - Eu ainda quero minha bebida.
Ele se inclinou na mesa quando o refrão começou, e por ter mais ou menos uns cinquenta centímetros de diâmetro, conseguiu, com isso, ficar bem próximo.
- Pode pegar da minha língua, se quiser.
Não me permiti demonstrar minha surpresa. Meu Deus, ele estava flertando comigo! As palavras, só a malícia nelas, foram o suficiente pra fazer minhas coxas apertarem-se uma contra a outra. Como eu queria me inclinar e sentir a acidez da tequila de sua língua! E eu podia fazer isso, não existia nenhum impedimento físico! Minha autoestima, entretanto, seria esmagada como se fosse uma barata assim que eu o beijasse naquelas circunstâncias, e estava gritando em meu cérebro pra eu não deixá-la ser quase exterminada. Seria o mesmo que dizer que eu estava disponível pra uma rapidinha no banheiro mais próximo em qualquer momento que ele quisesse. Cair de forma explícita numa cantada barata, mesmo que a queda já tivesse ocorrido, seria provar que ele me tinha nas mãos. Homens gostam dessa coisa de ter controle sobre algo e eu não daria aquele gostinho á ele.
- Você adoraria, não é? Que eu fizesse isso – venci a distância que nos afastava e respirei fundo, meu hálito batendo no lábio entreaberto dele. O ar estava denso e eu estava me segurando muito pra conter os avanços dele e a minha vontade de beijá-lo – Nem se fosse a última dose de tequila do mundo.
Levantei da mesa com mais pressa do que eu previa e pensei que fosse escorregar, mas andei fina e plena até a porta do bar. Não encontrei Lia no meio do caminho e nem meu bom senso; que saída mais clichê, por Deus! Mas eu me conhecia bem o suficiente pra saber que era melhor ir embora antes que eu fizesse uma cena, feito uma criança birrenta. E o Hart ficaria sentado, rindo do meu descontrole, esperando o momento certo pra apertar o botão que me relaxaria – que era o equivalente á ele me agarrar pela cintura e me fazer sentir o gosto da tequila á força.
Nada mais de saidinhas casuais durante aquele mês.


Três

Quando o juiz deu o apito e a bola rolou, sentei no banco vazio mais próximo e respirei fundo.
Desde o início dos preparativos para o evento e do evento em si, eu não me lembrava de um dia tão cansativo. Levantara da cama ás seis e meia e, depois de um banho super rápido, desci pro restaurante pra checar junto às equipes o cardápio do café da manhã e almoço dos jogadores. Eles não comeriam nada com alto teor de gordura, como bacon, chocolate e massas folhadas. Predominavam os carboidratos, com muitos tipos de macarrão e arroz, além de carne branca e saladas. O resto da equipe tinha todo o menu do restaurante do hotel á disposição. Senti pena deles, mas enquanto comia minha torrada com Nutella sem saber quando seria minha próxima refeição, percebi que eles é que eram os sortudos, com os horários regulados e os check-ups frequentes. Antes de ir pro hotel da seleção inglesa ainda chequei o ônibus que levaria a seleção italiana pro estádio no estacionamento do Quality.
O técnico da seleção inglesa me esperava no saguão quando cheguei ao outro hotel. Ver sua silhueta pelas portas de vidro não me agradou muito, mas forcei simpatia do mesmo jeito que havia feito no dia anterior e perguntei se ele precisava de alguma coisa. Meu desagrado aumentou quando tudo o que ouvi foi ele tentando me ensinar á fazer meu trabalho, listando tudo o que seus meninos não poderiam comer em hipótese nenhuma. E me lembrando de que eu deveria ter certeza de que o ônibus estava em boas condições assim como se o vestiário tinha tudo o que os jogadores poderiam precisar, e se eu estava preparada para eventuais situações de pânico. Foi difícil segurar a língua e meu temperamento; eu merecia um bônus por ter que lidar com aquele tipo de pessoa prepotente.
A parte mais estressante nem fora essa; os hotéis eram paraísos comparados com o estádio e seus arredores. Demorou muito mais do que os quinze minutos habituais entre o hotel e o estádio, já que algumas das ruas de acesso foram fechadas e o restante estava lentamente se transformando em um estacionamento a céu aberto. E uma vez no estádio, com a segurança já reforçada, mesmo com as credenciais foi um parto entrar lá. A maratona pela infinidade de corredores e salas cansou minhas pernas e causou minha fome, então tratei de comer um salgadinho enquanto ainda não precisava ir para perto do gramado.
Toalhas, bebidas e segurança verificadas e eu finalmente sentei pra respirar, com a quarta latinha de Red-Bull do dia. A probabilidade de que eu tivesse um ataque cardíaco só aumentava. Se eu de fato chegasse a ter um naquele dia a culpa poderia ser de inúmeras outras coisas, o energético era apenas mais um adendo às probabilidades.
Nos primeiros quinze minutos de jogo eu só tentei recuperar as forças. Mandei mensagem pra Lia, querendo saber aonde ela se enfiara, já que as dez mil tarefas que ela tinha pra fazer eram, aparentemente, longe de mim. Não a via desde a noite anterior, e mesmo não levando ao pé da letra o que o Hart dissera sobre ela e o Wilshere, queria muito saber o que a fizera me abandonar sozinha numa mesa de bar. Que fosse, de fato, um motivo muito bom.
Ao deixar o celular de lado, comecei á prestar atenção no pé de quem a bola estava. A posse de bola era predominantemente da Itália, mas isso não estava parecendo fazer muita diferença. Imaginei como Cesare estava do coração, mas não pude ir perguntar. Não era muito ético os funcionários se relacionarem de forma além da profissional com as equipes, muito menos em meio público. Na maioria dos empregos, relacionamentos desse tipo eram desencorajados. Ali, na beira do gramado, pensei que esse tipo de regra estava dentro da lista das regras mais quebradas da humanidade.
A quinze minutos de acabar o primeiro tempo, a posse de bola quase invicta começou a trazer resultados. Pirlo fez uma jogada incrível e aos trinta e quatro minutos Marchisio marcou o primeiro gol. Não pude deixar de sorrir e de ficar feliz por eles, principalmente por Cesare, que tinha tanta confiança em seus meninos e deveria sentir naquele gol algo parecido com o gosto do chocolate que eles não puderam comer no café da manhã.
A comemoração italiana não durou muito porque logo Sturridge fez o primeiro gol da Inglaterra, empatando o jogo.
Pouco tempo depois veio o intervalo – e uma ligação da Lia.
No fim das contas eu não a vira mais durante a noite anterior e nem antes do jogo. Se ela de fato tivesse sumido com o Wilshere, me devia muitas explicações.
- Eu sei que você quer me matar.
- Que bom que você desenvolveu mais uma habilidade além da calma excessiva. Agora já consegue ler mentes!
- Não venha reclamar comigo! Se você tivesse um pouquinho de inteligência teria feito o mesmo que eu, só que com o Hart.
- Então você realmente deu pro Wilshere no banheiro do bar. Quanta classe, Lia!
- No banheiro do bar, no quarto dele, no banheiro dele... Classe é o que me falta e o que menos me importa.
- Sua safada!
- Me poupe, )! – a vi saindo dos bastidores e caminhando em minha direção, acenei enquanto ela desligava o celular e continuava o diálogo pessoalmente – Só porque você está numa seca eterna por vontade própria, não desconte na minha pessoa. Seja minha amiga e pergunte se ele é bom de cama.
- Ninguém com quem você transe necessariamente precisa ser bom de cama, com toda a sua elasticidade.
- Idiota – ela me deu um tapinha, mas sorriu. Não conseguiria ficar com raiva dela por muito tempo, eu sabia, mas ela me deixara sozinha numa mesa de bar a qual nem devíamos ter ido, em primeiro lugar, sem nenhuma justificativa plausível.
- Onde você estava, afinal?
- Atrás da imprensa. Depois das vaias da torcida no começo do jogo estão todos preocupados. Precisei sondar o que eles estavam falando sobre isso.
- Bem, ninguém pode culpá-los.
Da comissão técnica italiana, Marcos, o outro brasileiro da minha equipe, acenou pra mim. Mandei Lia checar a Inglaterra e fui em direção aos uniformes azuis. Aparentemente, as garrafas que separei no cooler para eles não eram suficientes. Quando dei meia volta para mandar trazer mais, percebi Marchisio vindo em minha direção com um puta sorriso no rosto. Enchi meu pulmão de ar para não ter que sentir o cheiro dele de novo.
- Bella!
- Não que eu entenda muito de futebol, mas foi um belo gol!
- Grazie – ele sorriu, aparentemente achando fofa a minha falta de jeito – Eu acho que foi sorte.
- Eu chamaria de habilidade – eu meio que andava em ovos enquanto conversava com ele e pensei ter quebrado um deles ao dizer o que disse sorrindo, mas não dava para engolir as palavras – Bem, eu vou buscar mais água e isotônicos pra vocês. Boa sorte no segundo tempo!
- Achei que era habilidade! – ele piscou e sorriu e eu ri, me achando meio estúpida, com raiva dele e de mim mesma.
Não sabia quanto tempo mais eu conseguiria continuar ignorante ao efeito inexplicável que ele tinha sobre mim. Tinha a impressão de que seria muito pouco.


Quando o juiz apitou o final da partida, respirei aliviada e levantei do banco em que estava indevidamente sentada, organizando minhas coisas para ir em direção aos vestiários. Quase um dia a menos naquele mês que mal começara e parecia que não ia acabar nunca.
A Itália ganhou de dois a um e eu conseguia ver o enorme sorriso de Cesare de onde estava. O técnico inglês não parecia nada contente, mas não consegui ficar chateada por isso. Enquanto os jogadores se cumprimentavam e os repórteres quase saíam no tapa por uma entrevista rápida na zona mista, fui em direção aos vestiários para um check up final.
Quando entrei no vestiário da Inglaterra, me deparei com as costas do Hart.
Soltei um riso nasalado. Não porque achei engraçada a imagem dele com a cabeça entre as mãos, a pele das costas vermelha e a respiração pesada. Mas porque parecia um complô do universo colocá-lo sozinho na minha frente, sem camisa, com as costas brilhando de suor e aparentemente com raiva. Os mestres da psicologia tinham teorias interessantes acerca dos comportamentos impulsionados pela raiva. Balancei a cabeça e entrei.
- Veio rir?
Eu fazia a contagem das toalhas quando ouvi sua voz. Estava carregada, mas não com tom de choro. Ele realmente se esforçara no campo, mas não fora o seu dia; eu entendia totalmente ele estar com raiva. Sendo goleiro, não existia muito que o ele poderia fazer além de defender o gol e contar com a eficiência da zaga. Era frustrante, de fato. Portanto, me irritou profundamente ele julgar que eu fora até ali apenas para rir de algo que não era nada engraçado. Futebol poderia não significar grandes coisas para mim, mas era só olhar ao redor pra perceber que significa pra muita gente.
- Não sei porquê diabos eu faria isso. E me ofende você apresentar essa possibilidade – virei em sua direção, uma veia pulsando no meu pescoço – Sinceramente, Hart, pare de achar que me conhece. Se pelo menos sua implicância fosse justificada!
- O que tem pra conhecer? Provavelmente você é igual à sua amiga, interditando banheiros de bares com estranhos.
- Você não fala sobre a Lia – eu não conseguia ver, mas sabia que estava vermelha. Mais um pouquinho e eu enfiaria minha mão na cara dele. Não que eu achasse que fosse causar o menor dos efeitos – E não seja estúpido porque nós dois sabemos que você gostaria de ter interditado banheiros também.
Ele levantou rápido e sua altura, agora que eu me encontrava de tênis, me intimidou. Dei alguns passos cegos pra trás, mas não abaixei a cabeça; nunca fui do tipo que faria isso. Seus olhos verdes faiscavam e sua boca formava uma linha rígida. Eu respirava pesado e rápido e a respiração dele se misturava com a minha, tão próximos estávamos. Pensei que, se eu fosse um objeto, ele já teria me jogado do outro lado do aposento.
- Não se superestime, Blatter, você não é tudo isso.
- Quem disse que eu estava falando de mim?
Minhas costas bateram na estante onde as toalhas estavam. Ele avançava como um predador querendo estraçalhar sua presa, e embora eu não estivesse exatamente com medo, comecei a temer pela minha integridade física. Deveria ter pensado que era óbvio que ele não me faria mal, mas a última coisa que passava pela minha cabeça era a possibilidade de que ele me empurrasse ainda mais contra a estante e apertasse meu quadril. O ar ficou preso em meus pulmões.
- Nem se você fosse a última garota do mundo.
- Então por que você está com a mão na minha bunda?
Talvez eu não devesse ter sorrido. Meu sorriso não era uma demonstração de incômodo, era sarcasmo puro. E eu não sei se foi impulsionado pelo meu sarcasmo ou por seus próprios instintos e motivos que ele me beijou.
Foi bruto e inesperado e eu levei alguns segundos para me situar. Mas aqueles lábios finos nos meus e aquelas mãos enormes apertando meu corpo não me deixaram muito espaço pra nada que não fosse arranhar sua nuca e respirar com força, retribuindo. A língua dele era macia e o cheiro da pele dele... O cheiro me deixava meio tonta e completamente fora de mim.
Talvez a forma como meu corpo respondia ao dele fosse apenas a falta que eu sentia daquele tipo de contato. Mas em menos de um minuto eu tive que afastá-lo para respirar. Sua presença me entorpecia e eu perdia o controle sobre minhas funções. Não eram só hormônios, era aquele mais que condicionava minhas raras transas casuais.
Fiquei esperando que ele dissesse alguma coisa. Encostei a cabeça na estante e o encarei. Meu peito subia e descia e o dele me acompanhava. Desci os olhos pelos seus lábios, seu pescoço, sua clavícula. Acompanhei seus traços e engoli seco. Era sede o que eu sentia, mas não era de algo trivial como água.
Senti suas mãos subindo pelas minhas costas, as unhas curtas arranhando minha pele e entreabri os lábios. Seus dentes marcaram a curva do meu pescoço e eu sentia meu interior pegando fogo. Meu coração começou a bater mais forte quando ouvimos exclamações entrando no vestiário, vindas do corredor. Ele me encarou e eu não soube o que dizer; deixei-me ser arrastada para um dos boxes.
O espaço era pequeno demais para a forma como conduzíamos a situação. Ele não era carinhoso e eu não esperava nem queria que fosse; já estava com tanta raiva por ele me afetar daquela forma e ser um ser humano tão egocêntrico que a última coisa que passava na minha cabeça era carinho. Eu arranhava suas costas, mordia seu pescoço e arrancaria sangue dele se conseguisse, mas ele passeava pelo meu corpo com sua língua e suas mãos enormes e era difícil até respirar. Minhas reações eram atos involuntários; ele me entorpecia de verdade.
- Você poderia ter vindo de vestido – o ouvi dizer, meio ofegante, enquanto tentava tirar minha calça, ajoelhado na minha frente.
- Estou aqui a trabalho, existe um dress code! Além disso, eu não saí de casa com a pretensão de abrir as pernas pra você.
- Está aqui a trabalho? Então o que isso diz sobre você?
Levei mais tempo do que o normal pra entender as palavras dele. Quando as compreendi, foi como um tapa. O ergui pelos cabelos e o empurrei em direção à parede de ladrilhos azuis. Ele sorria e seus olhos brilhavam, mais bonito impossível, mas eu só conseguia sentir raiva.
- Por que você tem que ser tão filho da puta? – liguei o chuveiro.
Quando abri a porta, de sutiã e fechando o botão da calça, lá estava metade da seleção inglesa encarando meus peitos e aquele chupão horroroso perto do quadril. Peguei o primeiro casaco que vi na frente e corri pra fora do vestiário, tentando encontrar minha dignidade pelo caminho.
Se dependesse de Joe Hart, entretanto, eu passaria a vida procurando-a, frustrada.
Ele me alcançou depois de míseros dois corredores de distância, perto dos piores lugares possíveis: o hall da imprensa e a sala da administração geral do estádio. Segurou meu pulso e me virou com força. Seus olhos me diziam que ele estava puto por eu ter saído correndo, quando na verdade eu queria que ele estivesse sentindo muito pela escolha infeliz de palavras.
- Eu sou um merda, desculpa. Não quis dizer aquilo.
Ou talvez eu fosse muito ruim em interpretá-lo.
- Você quis dizer exatamente o que disse, Hart. Agora, larga meu braço.
- Eu vim te pedir desculpas, ), por que você tem que ser tão cabeça dura?
- Acho que estou em pleno direito de ser cabeça dura diante da situação em que você me colocou. Agora larga a porcaria do meu braço!
Tentei me desvencilhar do aperto, mas ele segurava meu pulso com facilidade, de forma firme. Apesar de ter conseguido fechar o casaco até o momento em que ele me encontrou, me sentia nua, deveras exposta com toda aquela situação. Minha blusa e minha credencial jaziam no vestiário da seleção inglesa, e não havia forma de eu voltar a entrar lá depois que parte dos titulares e dos reservas me viram sair de um box de sutiã, com o Hart à tiracolo.
Como ele não soltava meu pulso, resolvi tentar uma abordagem menos agressiva.
- Eu não posso ficar aqui parada o resto da noite – respirei fundo, olhando para os dois lados do corredor, ignorando os olhares aleatórios e desconfiados que recebíamos – Quanto mais cedo você soltar meu pulso, mais cedo a gente pode ir embora e esquecer que isso aconteceu.
- Não quero esquecer, cacete – sua resposta foi rápida e me pegou de surpresa - Quantos anos você acha que eu tenho?
- A julgar pelo seu comportamento, uns quinze.
Ele olhou feio pra mim, mas eu não estava mais com saco para aquilo. Meu tesão tinha escorrido pelo ralo junto com o suor dele quando abri o registro do chuveiro no box do vestiário. Apesar de o cheiro dele não ter ido junto, o desconforto era maior que qualquer fator externo que pudesse nublar meus sentidos. Mas ele ainda segurava meu pulso com firmeza, não parecendo que me deixaria ir. E ele, de fato, não o fez.
Me arrastou pelo corredor até encontrar um dos banheiros, se postando entre mim e a porta, uma muralha maciça. Esfreguei meu pulso, controlando a respiração tal qual Lia me ensinara, para não matá-lo, porque eu queria muito por minhas mãos em volta daquele pescoço e apertá-las ao redor dele até que lhe faltasse ar.
- Com certeza, Joe Hart, quinze anos pra menos.
Demorei um tempo pra processar e quando percebi que ele de fato estava me beijando, mordi seu lábio inferior com força. Joe se afastou instantaneamente, a mão no lábio, checando se eu não tinha lhe tirado sangue, que era mesmo a minha intenção original. Tentei contorná-lo, pensando que minha mordida fora distração o suficiente. Quase consegui. Antes que eu alcançasse a porta, sua mão envolveu meu pulso novamente e seu corpo, graças a deus coberto, na medida do possível, imprensou-me na parede. Ele era resiliente demais e eu era paciente de menos para aquele tipo de situação. Minha próxima ideia era chutá-lo bem no meio das pernas, mas ou essa era a atitude mais lógica ou ele leu meus pensamentos, porque antes que eu o fizesse, ele encaixou seu joelho entre as minhas pernas e a mão sobre meu peito, me imobilizando por completo.
- Qual é o teu problema? - o lábio inferior dele estava levemente inchado e eu me orgulhei pelo dano causado, pensando que poderia ter sido um pouco mais de estrago.
- Qual é o teu problema? De quantas formas diferentes eu preciso falar que é pra você me soltar até que você entenda? Seu cognitivo por acaso está afetado pelo seu ego gigante?
Ele me analisou por um tempinho, ignorando minha observação, fazendo meu plano de tirá-lo do sério e me deixar ir falhar. Eu tentava decifrar o que ele queria através de seus olhos, mas já tinha percebido que ou eu era muito ruim nisso ou ele conseguia contornar minhas habilidades de interpretação pessoal. Então ele tirou a mão do meu peito, apesar de seu joelho permanecer firme entre minhas pernas, não tão encaixado quanto eu gostaria - infelizmente, tinha que admitir minha fraqueza. Seus dedos compridos desenharam a curva do meu pescoço e se postaram em minha nuca, alguns fios de cabelo se embolando entre eles. Ergui a sobrancelha quando percebi a mudança na abordagem. E engoli seco quando me dei conta de que provavelmente funcionaria.
Éramos animais, no fim das contas, não éramos? Com consciência e controle sobre os próprios atos, na maioria das vezes. Na maioria das vezes, não sempre.
- Meu cognitivo está bem, mas talvez tanta negação esteja afetando o seu.
Hart não me beijou de imediato; não, ele brincou com meu psicológico primeiro. Ele amassou minha dignidade entre seus dedos junto com meus cabelos, que ele puxava de maneira a passear entre delicado demais e forte o suficiente pra me fazer querer reclamar, mas não chegar a tanto. Ele me fez pagar língua e deixar meu corpo transparecer que queria aquilo sim, mesmo inconscientemente, enquanto mordia a base do meu pescoço e ameaçava descer pelo fecho aberto do casaco, nunca indo longe o suficiente. Ele me fez ansiar para que aquele maldito joelho se encaixasse direito entre as minhas pernas. Ele me matou de raiva enquanto eu quase implorava por mais contato, que me era negado - e eu queria sentir mais, já que, fora seus lábios, sua mão em meu cabelo e seu joelho, mais nenhuma parte dele me tocava.
Pra tentar disfarçar o estado deplorável em que me encontrava, eu ri, apelando para o sarcasmo.
- Você não é tudo isso, Hart.
Ele não pareceu convencido e eu senti o sorriso na minha pele, sobre a minha clavícula, logo antes de sentir seus dentes. Talvez eu não quisesse de fato convencê-lo; talvez só estivesse buscando tempo pra tentar entender o que eu estava sentindo e arranjar um jeito decente de lidar com aquilo. Era muita coisa acontecendo muito rápido.
- Sabe, Blatter - ele ergueu a cabeça e olhou dentro dos meus olhos ao mesmo tempo em que seu joelho subia, pressionando no lugar certo com força suficiente pra me fazer estremecer. De novo, eu quis matá-lo -, eu acho que sou sim.
Sempre achei desculpa esfarrapada usar Aristóteles e sua teoria acerca da racionalidade do homem pra glorificar celibatários de sucesso ou pessoas que fazem voto de silêncio por toda a vida. Até mesmo a infidelidade possuía justificativas biológicas embasadas pelo comportamento de nossos ancestrais supostamente irracionais. Sempre se esqueciam do mais importante dos agravantes quando usavam esses discursos: a vontade, que a tal racionalidade deveria filtrar, mas não filtrava, porque no fim das contas éramos todos animais esperando o melhor momento para nos saciarmos.
- Vai se foder, Joe Hart - eu disse, antes de jogar qualquer ínfimo resquício de dignidade para o espaço e beijá-lo com vontade. Ele não pareceu surpreso e tal detalhe só me encheu de ainda mais raiva, que eu tentei descontar em seus lábios. Mas ele queria me provar que eu não tinha nenhum controle sobre o que estava acontecendo e o beijo se tornou uma briga silenciosa de egos, apesar de não perder sua intensidade.
- Uh, adoro dirty talking - ele mordeu meu lábio inferior com a pressão certa e de forma deliciosa - Por que não vamos juntos?
- Você age estupidamente como se me conhecesse - levei o dobro de tempo que levaria normalmente pra emitir a frase porque ele não tirava os lábios dos meus. Tirei as mãos de sua nuca, segurando sua cabeça e tentando mantê-lo parado.
- Talvez eu conheça.
Porra nenhuma!
O absurdo de toda aquela situação me tomou de repente. Estávamos em um banheiro público do estádio e era um tremendo milagre que ninguém tivesse aparecido por ali ainda. Os contornos daquele cenário indicavam um único caminho, e por mais que eu já tivesse deixado de lado todo o meu orgulho ao admitir que eu queria mesmo ir pra onde quer que ele quisesse me levar, ali não era lugar e aquela não era a hora. Éramos dois adultos e deveríamos agir como tal.
- Meu quarto é o 806 - achei que ele fosse perguntar algo, mas enquanto olhava nos meus olhos, a compreensão alcançou os dele - Eu realmente tenho coisas a fazer agora.
A mão que estava no quadril subiu até minha cintura, por baixo do casaco. Ele fez um carinho leve na minha pele, me beijando uma última vez e me deixando ir.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Eita que eu já estou aqui me coçando querendo mais! ♥ Deixem um comentário!

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