FFOBS - Tudo passa, mas primeiro te atropela, por Yasmin Albuquerque


Tudo passa, mas primeiro te atropela

Última atualização: 13/03/2019

Prólogo

Não era um bom momento para o Brasil sediar uma Copa do Mundo FIFA.
Greve de servidores públicos federais, policiais militares, vigilantes bancários, professores, rodoviários, metroviários, profissionais da saúde. Metrópoles praticamente paradas, milhares de pessoas sem terem como se deslocar e outras milhares temendo pela própria segurança porque quem deveria cuidar dela cruzou os braços e exigiu reajuste salarial.
Os olhos do mundo inteiro voltados para o Brasil e tudo o que tínhamos para mostrar era o lado feio que tentávamos esconder de nós mesmos, tamanha nossa ignorância. Milhares de manifestações por dia, violência gratuita, ineficiência do Estado, corrupção governamental. Mas tudo o que a TV ressaltava eram as habilidades físicas de Neymar e a Claudia Leitte como a international superstar que todos sabiam que ela não era.
Não importava a quantidade de manifestações nas ruas ou se nem todos os estádios estivessem prontos. As repórteres da CNN que se machucaram logo ficariam curadas, os manifestantes uma hora acabariam indo pra casa e o fiasco da abertura logo seria abafado pelas rodadas de partidas de futebol. Tudo daria certo e nós ensinaríamos aos gringos o famoso jeitinho brasileiro e como conseguimos fazer milagres com ele.
Ia ter Copa sim e isso era inevitável.
Só que um fato incontestável sobre a vida que as pessoas insistem em não dar muita importância é que eventos muito grandes mascaram muitas coisas. Tudo bem, numa final entre Brasil e Argentina, por exemplo, ninguém quer saber quem acabou terminando um namoro na arquibancada ou quem começou um na fila de espera do lado de fora do estádio. Algumas coisas sobre os bastidores são eventualmente divulgadas, mas em sua maioria são detalhes técnicos, que no geral não fazem muito sentido nem são relevantes.
A Shakira encontrou o amor da vida dela na África do Sul em 2010, que por sua vez, foi o primeiro país do continente Africano a sediar uma Copa do Mundo FIFA. E no mesmo ano, o goleiro da Espanha, Iker Casillas, bateu um recorde ao conseguir ficar impressionantes 433 minutos sem tomar nenhum gol. Ninguém da muita atenção a detalhes pequenos.
Muitas vidas mudam em eventos desse porte, mas a gente nunca espera que seja a nossa.
Uma semana antes dos jogos começarem, eu tinha uma credencial da FIFA e uma missão: ir para onde estivessem as seleções italiana ou inglesa, não importando se fosse no Rio Grande do Sul ou no Amazonas. Deveria supervisionar, organizar e cuidar para que tudo estivesse lindo e impecável para ambas as seleções. Check ins e check outs feitos no prazo certo, academias com estrutura e aparelhos do agrado dos atletas, planos de voo, itinerários. Trabalhoso, não necessariamente difícil.
Mas a vida não teria graça se tudo que fizéssemos saísse exatamente como o planejado.
No dia 12 Junho ás 16:35, horário de Brasília, eu estava na Arena Corinthians assistindo o playback de Pitbull, Claudia Leitte e Jennifer Lopez e não fazia ideia do que me esperava durante aquele mês. Ainda não sabia que eu perderia o jogo da Espanha em Salvador no dia seguinte pra acompanhar o da Itália em Manaus no sábado. Ainda não sabia que a Suíça seria eliminada pela Argentina num jogo suado. Ainda não sabia que o Brasil seria eliminado na semi-final pela Alemanha de forma histórica e humilhante.
A ignorância, como muitos dizem, ás vezes é uma benção.


Um

A voz grossa do piloto do avião anunciou em português, inglês e espanhol que estávamos há dez mil metros acima do solo e há quarenta e cinco minutos de aterrissar no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Era a primeira vez que eu ia a Manaus e, antes mesmo de sair de São Paulo, eu sabia que pelo menos durante o sábado eu não conheceria nenhuma reserva florestal. Cuidaria do jogo da Inglaterra contra a Itália e tentaria manter a Lia consciente de todas as possíveis merdas que poderiam acontecer naquele mês.
- Você nem gosta de futebol, Lia. Não sei por que está tão empolgada com isso.
- Como você pode não estar empolgada com isso depois de ter recebido cantadas de mais gringos do que eu posso contar com meus dedos?
- Você tem noção do quanto isso vai ser cansativo? No final disso tudo eu vou precisar de muito mais do que uma semana num spa para me recompor e eu não acredito que isso vá sair do bolso dos nossos chefes.
- É, vai sair do bolso do seu tio – o olhar que ela me direcionou indicava que ela estava verdadeiramente irritada, o que era raro, mas eu não liguei. Eu não precisava gostar de futebol só porque meu tio era Joseph Blatter. Não era coisa de sangue ou algo do tipo – Só aproveita, tá? Eu sei que você eventualmente vai conseguir ver todos os lados positivos disso.
Naquele momento, há dez mil metros do solo e tomando suco de laranja industrializado, eu tinha minhas dúvidas sobre a certeza de Lia quanto àquilo.
Não demorou muito mais tempo para que desembarcássemos e fôssemos direto para o hotel da seleção da Inglaterra, ver se eles estavam bem instalados e ter uma conversa séria com Joe Hart. No dia anterior, ao chegar em Manaus, ele deu uma declaração a imprensa de que estavam indo jogar no meio da selva. Claro que o comentário foi mal visto, principalmente pelo meu tio, e claro que o trabalho sujo sobrou para mim. Com 24 anos tendo que passar autoridade pra um marmanjo de 27 que não conseguia segurar a língua dentro da boca. Em alguns momentos eu era tomada pela realidade de que meu trabalho era meio surreal.
Eu sei que soa idiota que a sobrinha do presidente da FIFA não preferia assistir os jogos de camarote e viajar o país de jato particular. Era muito comum que o meu parentesco fosse constantemente jogado na minha cara quando eu me utilizava dele para algum propósito mesquinho. Família não era algo negociável ou da qual eu pudesse me livrar, então simplesmente cansei de todo aquele papo. Achei que, mesmo eventualmente aproveitando-me do sobrenome, deveria ser útil de alguma forma. Eu tinha dinheiro, mas heranças não duram para sempre e um extra não era nada mau, ainda mais um extra gordo como o que eu receberia. A pressão existia, principalmente pela minha idade, mas meu tio sabia que tudo o que eu fazia, dava o melhor de mim no processo. No fim das contas seria mesmo muito bom viajar pelo meu país de origem às custas dos meus chefes, com o adendo de ganhar muito bem para isso.
O carro estacionou em frente ao hotel na rua Humberto Candelaro, e eu coloquei o crachá antes de descer. Eu não gostava muito da hipótese de ser rudemente parada por um militar caso eu não estivesse identificada, e os arredores do hotel estavam cheios deles. Não era obrigação de ninguém conhecer meu rosto.
Conferi no iPad se tinha checado tudo para a estadia dos ingleses em Manaus e fui em direção à recepção. A plaquinha no bolso do uniforme me indicava que o nome da mulher que me dizia com uma voz nervosa que a seleção estava me aguardando na sala de reuniões do hotel, era Carmem. Eu não era nenhuma autoridade, apesar de chefiar uma equipe, mas gostava quando as pessoas agiam como se eu fosse. Talvez eu parecesse uma usando um vestido de corte reto e scarpin preto. Talvez eu parecesse mais velha também, e no momento era disso que eu precisava.
Ainda assim fiquei nervosa quando todos aqueles pares de olhos se viraram pra mim quando a porta foi aberta. Mais três pessoas me acompanhavam, incluindo Lia, mas todo mundo só tinha olhos pra mim, como se soubessem que a responsável ali fosse eu.
- Boa tarde a todos. Meu nome é Blatter e sou responsável por garantir que vocês sejam bem recebidos e tenham tudo o que precisarem enquanto estiverem em terras brasileiras. Peço desculpas por não ter conseguido chegar ontem, tive alguns contratempos com a abertura na quinta-feira.
- É um prazer conhecê-la, senhorita Blatter – o treinador da seleção, Roy Hodgson, se levantou e apertou minha mão. Ele não era muito alto, mas conseguia ser maior que eu, e percebi na forma como ele me olhou que tinha relacionado meu sobrenome à pessoa. Era o mesmo olhar que o caixa de alguma loja nos dá quando estendemos um Amex pra finalizar a compra – Agradecemos a hospitalidade dos brasileiros. A senhorita é brasileira?
- Metade de mim é – sorri, tentando soar simpática, mas sabendo que meu esforço era em vão. Não gostei nem um pouco dele. Ele parecia aquele tio que sempre queria que você sentasse no colo dele nas festas de Natal, mesmo você já sendo bem crescidinha – E tenho absoluta certeza de que vocês demonstrariam mais seu agradecimento sendo mais simpáticos com os locais – ele ergueu a sobrancelha para mim – Conheço mais britânicos do que poderia contar Sr. Hodgson, e sei bem que vocês são mesmo reservados, mas esse tipo de comportamento trás publicidade ruim. E sei que vocês concordam que ainda é muito cedo para publicidade ruim.
- Perfeitamente, senhorita – ele voltou a se sentar, sério. Era bom que eu não conquistasse a simpatia dele porque nunca fui boa em lidar com pessoas de quem não gosto.
- Sendo assim, meu número pessoal está a sua disposição, professor, e qualquer coisa que você, sua equipe ou qualquer um dos seus jogadores precise, não hesite em me chamar, estarei no Quality Inn – Roy balançou a cabeça e fez sinal para que ele e a equipe saíssem da sala – Mas já que falamos em publicidade ruim, gostaria de dar uma palavrinha com Joe Hart. A sós, se for possível.
- Comigo?
Se tinha algo que eu seria obrigada a admitir era que Joe Hart era a personificação do meu ponto fraco. Loiro, muito alto, de olhos verdes e, de acordo com as fotos que eu achei na internet ao pesquisar sobre ele, muito gostoso, com roupa ou sem.
As declarações que ele dera, entretanto, me faziam questionar se sua arrogância não teria o poder de estragar todo o resto.
- Se esse por acaso foi o nome que seus pais deram a você, Joe Hart, então sim, contigo.
- Não demore muito, sim, senhorita Blatter? Eles precisam treinar em trinta minutos – definitivamente Roy Hodgson perdeu qualquer simpatia que ele poderia ter comigo ao usar o tom que usou.
- Serei breve.
A equipe e o resto da seleção começaram a sair da sala e eu percebi o sorriso torto que Hart deu depois que Jack Wilshere sussurrou alguma coisa em seu ouvido. Fosse o que fosse aquilo me deixou de cabeça quente, porque algo de que eu não gostava nenhum pouco eram pessoas sussurrando coisas as quais não queriam que eu ouvisse e que talvez, por esse motivo, fossem sobre mim.
Quando a última pessoa fechou a porta e ficamos só eu e Hart dentro da sala, caminhei devagar até a janela, respirando fundo para tentar não perder a paciência com ele. Eu já imaginava que fosse uma missão meio impossível, mas não custava tentar.
- Você pode vir até aqui, por favor?
Demorou uns dez segundos para que ele levantasse suspirando e parasse ao meu lado. Aquela presença era intimidante; mesmo 12cm acima do meu tamanho normal, ele superava em muito a minha altura. E a minha estrutura física também; se por acaso parasse atrás de mim, qualquer pessoa que chegasse à sala não saberia que eu estava ali. Ele era grande e tinha um perfume delicioso que eu não achava que viesse de um vidro francês. Respirei fundo tentando me concentrar.
- Olhe bem pela janela e me diga se parece que estamos no meio da selva.
- Você deve saber que não foi isso o que eu quis dizer.
- Ah, claro que eu sei. Você se referiu ao clima, ao calor atípico, a alta umidade do ar. Mas ao se referir a essas coisas da forma que você fez, muita gente ignorante interpretou isso de outra forma. O twitter enlouqueceu com a sua declaração. Claro que metade da culpa por isso é da imprensa, mas você é uma pessoa pública, e infelizmente precisa prestar muita atenção nas coisas que fala.
Ele suspirou do meu lado, passando a mão nos cabelos curtos e apoiando os braços na janela. Se qualquer outra pessoa de qualquer outra parte do mundo fizesse o mesmo movimento, não teria o mesmo charme. As persianas deixavam que um pouquinho da paisagem de Manaus aparecesse e eu tinha que admitir que era uma cidade linda, mas um pouco sufocante, e o uniforme que eles usavam quase o tempo todo não deveria ajudar muito. Já havia sido uma mudança muito grande sair de UK pro Rio, eu entendia a situação deles. Sentia falta do meu apartamento em Zurique também. Não há nada como o lar da gente.
- Isso te trouxe muita dor de cabeça? – seu tom de voz não era o de alguém que parecia se importar.
- Poderia ter trago mais, não que você se importe – virei meu corpo pra ficar de frente pro dele e tentei me concentrar em outra coisa que não fosse o cheiro daquele homem ou como os olhos dele ficavam quando a luz do sol refletia neles - E se me permite um bom conselho, pose para uma foto ou duas, dê alguns autógrafos, por mais que eu ache isso tudo tanta besteira quanto você. Tente ser simpático, mesmo que isso seja uma missão difícil.
Ele deu o mesmo sorriso torto do sussurro de Jack Wilshere e aquela curiosidadezinha me incomodou outra vez. Eu não perguntaria; não vinha ao caso perguntar.
- Farei meu melhor.
- Obrigada – me encaminhei á saída da sala, mas antes de abrir a porta, voltei á olhar pra Joe, que me encarava insistentemente – Diga ao seu treinador que o hotel tem saunas ótimas para ajudarem vocês a terem maior resistência à temperatura. E diga também pra ele não dizer de novo que não gostaria de jogar em qualquer outro lugar do país ou eu pessoalmente darei meu jeito de fazer ele se arrepender disso. Ele não pareceu gostar muito de mim.
- Não vejo a razão.
Ele ainda sorria quando eu fechei a porta e soltei o ar preso em meus pulmões.
Eu tinha que comer e dormir, mas precisava encontrar a seleção da Itália. Ainda estava no segundo dia de Copa e a exaustão já tomava conta do meu corpo. Peguei um Red-Bull no restaurante do hotel e voltei para o carro.


Dois

Ao chegar no Quality Inn Hotel, quis na hora em que pisei no saguão subir para o oitavo andar e ficar no meu quarto até a hora do jogo no dia seguinte. Mas a recepcionista do Quality, muito mais eficiente e segura que a do outro hotel, assim que ouviu meu nome disse que a seleção da Itália me esperava no restaurante. Ótimo, pelo menos eu almoçaria – com um delay de duas horas.
Eu deixei minha equipe ir na frente e fui até o quarto trocar de sapato e deixar minha bolsa. A mala de tamanho médio já estava aos pés da minha cama, que me parecia muito convidativa com um edredom branco. Peguei uma sapatilha azul escura e tirei o iPad e o celular da bolsa. Conferi se o treino da seleção estava marcado e se a academia do hotel estava reservada, então larguei o tablet em cima da cama e fui em direção aos elevadores.
Nesse meio tempo, eu podia sentir na base da nuca que já suava. Prendi meu cabelo em um coque e tentei concertar a maquiagem que lentamente derretia com um lenço umedecido, antes que minhas olheiras ficassem á mostra. Fazia um calor dos infernos ali, mesmo com a refrigeração do hotel. Eu teria que pedir pra manterem o ar condicionado do quarto dos jogadores um pouco abaixo da média. E recomendar sauna pra eles também.
O elevador parou no oitavo andar e, quando as portas se abriram, Claudio Marchisio estava lá dentro.
Eu tinha que parar de me deslumbrar com aqueles jogadores, mas era muito difícil. Esportistas em geral tem um tipo físico padrão. Nadadores têm costas e ombros largos e coxas grossas. Tenistas têm panturrilhas grossas e firmes. Jogadores de futebol, entretanto, são abençoados e tem todas as partes do corpo esculpidas por Michelangelo. Por causa dos treinos e da rotina que eles levam, e também os jogos em si, que exigem muito esforço físico. Claudio Marchisio era o exemplo perfeito das bênçãos do futebol na vida de um homem. Eu só faltava babar.
- Desculpe, mas você é Blatter? A sobrinha de Joseph?
- Por acaso venho a ser – sorri, surpresa. Não era muito comum que as pessoas me reconhecessem de cara, mesmo aqueles inseridos no meio futebolístico.
- Um prazer te conhecer, bella – concentrei toda a minha força pra não me derreter pelo pseudo elogio.
Ele era indecentemente bonito. Toda a composição, das tatuagens que eu conseguia ver no braço, passando pelo maxilar marcado com a barba rala e pelos olhos, que mesmo tão de perto, eu não conseguia decidir se eram verdes ou azuis. Só sabia que eu não conseguia parar de olhar pra eles; eram a cor do mar do Caribe que eu me lembrava de uma antiga viagem. Todo aquele pacote embrulhado em uma roupa casual e era ele quem me chamava de bella.
- O prazer é todo meu – apertei sua mão e sorri, contida. Não demonstrar interesse, , não demonstrar interesse.
- Está indo ao restaurante?
- Sim, tenho que conferir se está tudo certo pra vocês durante a estadia.
- Então você é responsável pelo nosso bem estar?
- Digamos que eu e mais algumas muitas mãos.
- Mas parece tão jovem!
- Como sabe? Eu posso ter trinta e tantos anos e várias aplicações de botox! – ele riu alto, as duas mãos no bolso.
- Você mente muito mal, bella.
Eu ainda sorria quando chegamos ao restaurante e fui recebida pelo técnico da seleção de forma mais calorosa do que podia prever – e com mais elogios que me custaram muito esforço pra que eu não ficasse encabulada. Talvez fosse verdade o que estavam dizendo no twitter, que os italianos estavam sendo todos muito simpáticos por onde passavam. Sempre achei uma rede social inútil, mas se até o Papa criara uma conta, revi meus conceitos e consegui achar utilidade. Deixei os números do meu celular e do meu quarto com Cesare, me prontificando a atender á qualquer dúvida ou necessidade de qualquer um deles - o mesmo discurso de sempre. Comentei da sauna, que era uma estratégia que eles já estavam usando na Itália e também falei da simpatia. Brasileiros prezam esse tipo de coisa e não seria nenhum sacrifício. Finalmente fui para minha mesa checar quais opções de carboidrato o restaurante do hotel oferecia; estava faminta.


Eu comi e subi pra dormir, super contente que teria um tempinho pra descansar antes de acompanhar os treinos – porque surpreendentemente, até isso era da minha conta. Eu precisaria ter certeza de que o gramado fora aprovado – já que rolaram algumas polêmicas sobre ele -, se o vestiário estava suficientemente refrigerado, se tinham bebidas e toalhas em número satisfatório...
Não demoraria muito tempo até que eu virasse uma neurótica com pequenos detalhes.
Tirei meu vestido, diminuí a temperatura do ar condicionado e soltei o cabelo, penteando com os dedos mesmo. Tomaria um banho e dormiria duas horas antes de ir pra Arena da Amazônia preparar tudo para o treino.
Ou era isso o que eu tinha planejado antes de colocar a cabeça no travesseiro e não conseguir pregar os olhos.
Era compreensível meus hormônios serem afetados pelo tanto de homem bonito que eu encontrei, levando em conta que minha vida sexual não estava muito movimentada á alguns meses. Eu não tivera tempo, no fim das contas, pra uma transa casual no meio de toda a preparação para a Copa. Até na minha maldita vida sexual esse evento conseguiu se meter. A maldita vida sexual que já era escassa.
Lia dizia que sessenta por cento do meu estresse era por conta da minha vida sexual escassa. Isso me estressava mais ainda. Eu não achava divertido o simples ato de se abrir as pernas e conseguir um orgasmo só porque achara um cara gostoso além do normal. Não que sexo devesse ser divertido, mas dessa forma mecânica não tinha graça. Não era demais pedir um pouco de química e um pouco mais de intensidade; sexo deveria ser sobre mais do que só tesão.
Eram essas coisas que eram difíceis de achar, ainda mais com tempo livre escasso. Esses pequenos detalhes com os quais eu me importava muito á muito tempo.
Talvez fosse culpa do atraso, mas eu não parava de sentir o perfume do Hart rodeando o ar ao meu redor, como se estivesse entranhado na minha pele, e aquilo causava efeitos na minha calcinha. Eu continuaria em negação constante, me recusando á acreditar que aquele ser causava algum tipo de efeito sobre mim. Sua arrogância ocuparia o espaço suficiente pra nós dois em um ambiente pequeno como um quarto.
E só de imaginá-lo no meu quarto meu sono foi embora de vez.


Eram oito horas da noite, horário de Manaus, e fazia 27oC na Arena da Amazônia – umidade relativa do ar de 76%. Antes mesmo que começasse, eu já sabia que não seria um treino fácil.
A seleção da Itália já estava se aquecendo – e as câmeras já disparavam flashes para eles. Era bom que aproveitassem, porque o treino só seria aberto para a imprensa durante 15 minutos. Como sempre isso renderia especulações e exageros. “O que os italianos estão preparando para a Inglaterra em sua estreia?”, seria o título de uma mini reportagem, provavelmente do Corriere dello Sport. Era o que todos queriam saber e só descobririam na tarde seguinte.
Eu estava parada em pé próxima aos bancos, outra lata de Red-Bull em uma das mãos e o iPad na outra. Horários, lembretes, alarmes, e-mail, sites de notícias abertos; tudo naquele tablet. Era necessário muito foco e controle absoluto em tudo pra fazer o que eu fazia. Teoricamente, estressada por natureza como sempre fui, não era o trabalho mais recomendado pra mim, mas eu vinha conseguindo lidar bem com ele. Se as muitas latas de Red-Bull não me fizessem ter um infarto aos 24 anos, eu sairia quase ilesa do evento.
Fisicamente falando.
O técnico da Itália, Cesare Prandelli, de quem eu gostava muito de repetir o nome por causa da pronúncia, sentou do meu lado e bebeu metade de uma garrafa de Gatorade de um gole, como se ficar em pé roubasse muito líquido de seu corpo. E talvez fosse assim que ele se sentisse, com aquela quentura inexplicável subindo do gramado. Ele não era muito bonito, mas aparentava ter sido, alguns anos antes. Ainda tinha aquele charme europeu intrínseco no jeito de falar e de gesticular – o que ele fazia muito e ao mesmo tempo.
- Você gosta de futebol, bella? – ele me perguntou, quando os seguranças começaram á acompanhar os repórteres pra fora do estádio.
A forma descontraída com a qual ele pronunciou a palavra bella me fez pensar na forma como Marchisio havia dito aquilo pra mim, algumas horas antes. Era a mesma palavra, mas parecia ter conotações diferentes. Como se pra Cesare não fosse um elogio, só um pronome, e Marchisio quisesse dizer que eu era linda de verdade. Claro que o mais provável era que eu estivesse ficando maluca e os italianos fossem assim mesmo, calorosos, e chamassem todas as mulheres de bella, como se fosse uma gíria para “senhorita”.
- Gostar não é bem o verbo, senhor – mesmo que gostasse de pronunciar seu nome, paguei de educada. Ele era mais simpático do que o técnico da Inglaterra, então merecia meu esforço – Ainda existem coisas que não fazem muito sentido pra mim, mas aprendi a apreciar.
- Bonita a forma como você colocou isso. Como apreciador, acima de técnico, vejo o futebol como uma arte.
Era claro que eu não via, assim como também não achava a pintura O Grito, uma obra de arte. Pra ser sincera, também não vi muita graça na Mona Lisa, ocupando sozinha uma parede inteira do museu do Louvre. O conceito de arte é variável, de pessoa pra pessoa, dependente de fatores externos como nível cultural e experiências de vida. Se o técnico da seleção italiana achava que futebol era arte, quem era eu pra falar que não era?
- Talvez o senhor esteja certo.
Ele gostou da minha resposta; ela dava espaço para que ele explicasse sua tese.
- Veja bem como funciona: eu pego esse monte de atletas e trabalho duro com eles – acredite quanto ao trabalho duro. É como uma escola: temos que dar regras e disciplinar e nenhum deles é suscetível á regras nessa fase da vida. Alguns dos mais jovens, talvez, mas não todos. Então eu trabalho duro com eles, estabeleço metas, cobro resultados. Vou moldando seu estilo de jogar até ficar do jeito que eu quero. Como um artesão faz com um vaso de cerâmica. E se o conceito de arte é estimular a mente humana, as emoções, ampliar perspectivas, o que mais o futebol poderia ser, se não arte?
Ele falava com paixão. Era inspirador. Era como um pastor tentando convencer céticos á entrarem em sua igreja, experimentarem uma dose de suas palavras e ficarem para mais, caso gostassem – e sendo muito bem sucedido nisso. Se palavras e confiança fossem o suficiente, ele ganharia a Copa do Mundo, igualando a quantidade de títulos da Itália á do Brasil. Mas era preciso demonstrar aquela visão de futebol no campo, e mesmo que ele jogasse, nenhum jogador sozinho faz uma seleção.
- Ela vai se cansar de seus discursos, Cesare.
E lá estava Marchisio, aquele que me chamara de bella no real sentido da palavra, aquele que estava á menos de dois metros de mim exalando um cheiro maravilhoso e ridículo de suor e perfume, que seria nojento vindo de outra pessoa, mas dele era delicioso. Tentei evitar sorrir, mas nenhum esforço teria contido meus lábios de se curvarem. Pela presença e pelo inglês com sotaque forte.
- Não se preocupe, seu professor aqui é coerente no que fala, estou suficientemente entretida.
- Não é entretenimento suficiente nos ver jogar?
- A graça é quando é pra valer! O jogo de vocês vai me entreter só amanhã.
Ele sorriu pra mim e despejou uma garrafa de água gelada na cabeça. Foi um clichê de merda naquela hora. Vi cada gotinha descer em câmera lenta pelo seu rosto, entrando pela camisa do uniforme, deixando o tecido azul ainda mais escuro. Quis lamber cada uma delas. Congelei. Era o tipo de pensamento condenável que eu não tinha desde os dezesseis anos, quando os hormônios estão impossíveis, se manifestando em horas e com pessoas erradas.
Em poucos segundos, me peguei pensando em sua estranha simpatia, seus elogios dirigidos á mim, aquele clima pesado que não parecia ser por culpa da alta umidade do ar. Fiquei procurando razões em tudo aquilo, motivos plausíveis para aquela aproximação. Logo me reprimi; não havia nada de estranho em frases inofensivas e muito menos em ser simpático. Se eu recebera educação, mesmo que uma mista, ele poderia ter recebido também.
- Esse é o espírito, bella! – Cesare apertou meu ombro, me trazendo de volta pro presente. Sorri, um sorriso automático, quase sem graça, como se tivesse sido pega no flagra. O olhar de Marchisio pra mim parecia o de alguém que tinha pego outra pessoa no flagra. Engoli seco e tentei me recompor; não demonstrar fraqueza, não demonstrar interesse – Agora volte para o campo e foque no ataque pela esquerda com o Matteo e o Pirlo.
Claudio assentiu, como um cachorro treinado recebendo ordens e pronto para executá-las. Ele respirava fundo, com calma, tentando adaptar o próprio corpo ao ambiente. Imaginava que deveria ser difícil, se eu sentada ás vezes me pegava com falta de ar.
- Sei que não sou especialista, senhor, mas estou curiosa: acha que estão prontos para amanhã, nessas condições, contra a Inglaterra?
- Nós não só estamos prontos, como vamos ganhar amanhã, mia cara! – e ele sorria, mas não um sorriso de quem era apenas prepotente, era um sorriso de quem falava sério.
Acreditei naquele sorriso e no que ele queria dizer.


Enquanto eu era arrastada para fora do meu quarto por uma Lia sorridente, o cansaço parecia se estabilizar sobre meus ombros. Eu não queria sair, não tinha estrutura para aquilo! Eram dez e quarenta e seis e tudo o que eu queria era me enrolar em um edredom e dormir as poucas horas que me restavam até o dia seguinte, como um adulto responsável faria. Dia de jogo era mais corrido; mesmo a partida só começando ás 18h e mesmo os jogadores só indo pra lá ás 16h, eu tinha que começar a cuidar de tudo bem cedo. Até da porcaria do café da manhã e do almoço. Nem da minha alimentação eu conseguia cuidar, e tinha que cuidar da deles!
Mas não, a Lia zen que conseguira tempo para fazer yoga durante as horas em que eu me estressava, a Lia que sabia canalizar suas energias pra ter pique de sobra, me tirara do quarto e me fizera colocar um sapato dela que espremia o meu pé e tudo aquilo supostamente uma hora ficaria divertido. Eu enxergava muitas possibilidades e nenhuma delas me parecia divertida. Eu já estava puta da vida antes de pisar na calçada.
- Você não vai me estressar, , eu saí da yoga há algumas horas e estou completamente imune á qualquer argumento que você venha a usar! – eu suspirei, entrando no carro – É só uma horinha, um drinque ou dois, música boa... E eu e você sabemos que algum gringo de passagem vai cruzar com você.
- Além de hispter virou vidente agora?
- Só fica quieta até a gente chegar! Depois da primeira dose você fica mais divertida.
Fiquei encarando a janela do carro, em silêncio, durante todo o caminho. Manaus era uma cidade bonita, histórica e rica em identidade cultural. Como uma cidade grande, escondia muitas coisas em vielas e ruas cujos nomes eu não sabia. Eu me interessava por esses aspectos, os que não eram revelados, os que tínhamos que correr atrás pra descobrir. A verdadeira história de Manaus que muitos de seus próprios moradores poderiam não conhecer. Eu poderia procurar essas histórias um dia, mas não naquele. Lia e o universo já tinham outros planos pra mim.
Eu poderia estar prestes á me tornar uma dessas histórias, paralelas ao caos da cidade grande, á atrasos de aviões e engarrafamentos no trânsito. Á placares de jogos de futebol e coletivas de imprensa. Não tinha como ter nenhuma noção disso. Chega a ser engraçada a inevitabilidade das coisas.
O carro parou na frente do hotel onde eu deixara o técnico da seleção inglesa nada satisfeito com minha falta de simpatia naquele mesmo dia mais cedo. Olhei pra Lia, a sobrancelha erguida, genuinamente surpresa com o rumo que aquela noite parecia estar tomando.
- O que a gente ta fazendo aqui? Achei que você tinha encerrado o trabalho por hoje – olhei para o meu vestido azul que terminava a quase dois palmos do meu joelho e tinha a cintura marcada por duas aberturas laterais; não era roupa pra trabalho.
- E encerramos, claro que encerramos! Só que um dos melhores bares da cidade, por acaso, é o desse hotel, e eu não poderia te levar á outro lugar que não aqui – eu já sabia antes que ela falasse, que aquela era a hora da frase de efeito clichê – O melhor para a melhor.
E ela sabia que eu sempre era vencida por suas frases de efeito clichês.
Descemos do carro, que não estaria á nossa disposição pelo resto da noite porque, tecnicamente, só deveríamos usá-lo como veículo oficial, e entramos no hotel. “Um dos melhores bares da cidade” ficava no canto esquerdo do hall de entrada, acessível por portas duplas de vidro. Eu conseguia ver por trás delas luzes nas mesmas cores do meu vestido, e me perguntei se Lia me arrastara para um bar ou para uma boate intimista. Ela abriu a porta e a música e a fumaça nos envolveram. Era tudo o que eu queria, ficar com o cabelo fedendo e sem tempo de lavá-lo.
A ironia me fez rir quando eu percebi que tocava a música da Shakira pra copa, aquela com uma participação do Carlinhos Brown tão pequena quanto a da Claudia Leitte na música oficial. E a ironia quase me fez chorar quando o refrão começou e eu encontrei os olhos de Joe Hart, sentado com Wilshere e Rooney em uma mesa no canto do bar, virados pra mim.
“Is it true that you want it? Then act like you mean it” nunca me pareceu de verdade uma expressão significativa, até aquele momento, inserida naquele contexto.
- Que porra eles estão fazendo aqui? – me esforçava para que o choque não chegasse ao meu rosto e se tornasse perceptível. Eles tinham um jogo difícil no dia seguinte, mas a julgar pelas caipirinhas na mesa do bar, discordavam de mim quanto ao nível de dificuldade a ser enfrentado - Parece que o trabalho vai sempre estar por perto – Lia percebeu no meu tom de voz que eu não estava feliz em constatar aquilo – Vou pegar uma mesa, me arranje uma dose dupla de tequila.
Eu não queria admitir, mas a verdade é que ele estava do outro lado do bar, acompanhando cada passo que eu dava pra longe dele e de seu campo de visão. Talvez fosse raiva o que ele sentia, por eu tê-lo feito parecer um adolescente inconsequente; mas talvez não. Consegui achar uma mesa bloqueada por uma pilastra que também me privava de um pedaço da mini pista, mas não era uma perda significativa. Não sei quanto tempo a Lia ia fazer aquilo durar, mas não queria ter que aguentá-lo olhando pra mim daquele jeito. Eu precisava daquilo - de uma pausa antes que as coisas entrassem no modo hard -, mas não sabia se conseguiria com ele tão perto. Até porque, os efeitos que ele causava em mim iam muito além de só estresse.
Talvez a Lia estivesse certa e eu só precisasse beber. E transar.
Por cinco minutos eu fiquei sentada na mesa, cantarolando e batendo as unhas na madeira, que não viam esmalte nenhum á semanas. No sexto minuto comecei á estranhar a demora da Lia. Era sexta-feira e até tinha uma quantidade razoável de pessoas por ali, mas não o suficiente pra que fosse assim tão difícil arranjar uma bebida. Ou algum gringo tinha chegado nela e ela se esquecera de mim ou ela se engraçara com o barman. No sétimo minuto eu já estava em um alto nível de impaciência, considerando muito a possibilidade de levantar e perder a mesa pra procurá-la pelo bar. No oitavo minuto começou a tocar Partition, o que fez com que eu pensasse em esquecer da Lia e fosse dançar sozinha. Que ela voltasse pro hotel sem mim também, com ou sem barman ou gringo charmoso. No nono minuto, quando resolvi levantar, assisti Joe Hart em câmera lenta contornar a pilastra que me servira de escudo e sentar no banco destinado a Lia. Ele tinha uma dose de tequila na mão que eu suspeitava que era a minha, mas não tive a chance de perguntar porque ele entornou o líquido pela garganta, sem sal nem limão, antes de sentar-se à minha frente.
- Abandonaram você? – ele fez a pergunta sorrindo, e o sorriso dele combinado com o olhar me fez ter certeza de que ele sabia o motivo de eu estar ali sozinha.
- Pois é, e você não perdeu tempo em vir me fazer companhia, não é? - ele riu e eu quis arrancar o sorriso da boca dele com minhas unhas sem esmalte. Vestido casualmente ele conseguia ser ainda mais gostoso. O cheiro ainda estava lá, junto com o cabelo bagunçado e as mãos enormes. Aquelas mãos... Nunca dei muita importância pra mãos, mas elas faziam muita diferença, como pagar mais caro por um quarto de hotel só pelo menu de travesseiros. As mãos dele pareciam valer o alto custo; não poderia esperar menos delas, por serem mãos de um goleiro. Eu comecei a gostar da ideia de investir para tê-las embaixo do meu vestido. Céus, nem ao menos poderia culpar o álcool por aquele tipo de pensamento, sóbria como estava – A tequila era minha?
- Acontece que a sua amiga é muito mais simpática do que você e parou pra falar com a gente.
- E ficou.
- E ficou – ele riu – Na verdade, Jack deu um bom motivo pra ela querer ficar.
- Se ofereceu pra uma partida de Twister?
- Digamos apenas que o banheiro vai ficar ocupado por um tempo – ele sorriu e malícia escorria por entre seus lábios.
- Você é um babaca.
- Já ouvi coisas piores.
- Aposto que ouviu - eu ri, coisa que ele não esperava que eu fizesse, pois ergueu as sobrancelhas, surpreso. Talvez eu tivesse um adversário à altura e aquele jogo fosse divertido de se jogar - Eu ainda quero minha bebida.
Ele se inclinou na mesa quando o refrão começou, e por ter mais ou menos uns cinquenta centímetros de diâmetro, conseguiu, com isso, ficar bem próximo.
- Pode pegar da minha língua, se quiser.
Não me permiti demonstrar minha surpresa. Meu Deus, ele estava flertando comigo! As palavras, só a malícia nelas, foram o suficiente pra fazer minhas coxas apertarem-se uma contra a outra. Como eu queria me inclinar e sentir a acidez da tequila de sua língua! E eu podia fazer isso, não existia nenhum impedimento físico! Minha autoestima, entretanto, seria esmagada como se fosse uma barata assim que eu o beijasse naquelas circunstâncias, e estava gritando em meu cérebro pra eu não deixá-la ser quase exterminada. Seria o mesmo que dizer que eu estava disponível pra uma rapidinha no banheiro mais próximo em qualquer momento que ele quisesse. Cair de forma explícita numa cantada barata, mesmo que a queda já tivesse ocorrido, seria provar que ele me tinha nas mãos. Homens gostam dessa coisa de ter controle sobre algo e eu não daria aquele gostinho á ele.
- Você adoraria, não é? Que eu fizesse isso – venci a distância que nos afastava e respirei fundo, meu hálito batendo no lábio entreaberto dele. O ar estava denso e eu estava me segurando muito pra conter os avanços dele e a minha vontade de beijá-lo – Nem se fosse a última dose de tequila do mundo.
Levantei da mesa com mais pressa do que eu previa e pensei que fosse escorregar, mas andei fina e plena até a porta do bar. Não encontrei Lia no meio do caminho e nem meu bom senso; que saída mais clichê, por Deus! Mas eu me conhecia bem o suficiente pra saber que era melhor ir embora antes que eu fizesse uma cena, feito uma criança birrenta. E o Hart ficaria sentado, rindo do meu descontrole, esperando o momento certo pra apertar o botão que me relaxaria – que era o equivalente á ele me agarrar pela cintura e me fazer sentir o gosto da tequila á força.
Nada mais de saidinhas casuais durante aquele mês.


Três

Quando o juiz deu o apito e a bola rolou, sentei no banco vazio mais próximo e respirei fundo.
Desde o início dos preparativos para o evento e do evento em si, eu não me lembrava de um dia tão cansativo. Levantara da cama ás seis e meia e, depois de um banho super rápido, desci pro restaurante pra checar junto às equipes o cardápio do café da manhã e almoço dos jogadores. Eles não comeriam nada com alto teor de gordura, como bacon, chocolate e massas folhadas. Predominavam os carboidratos, com muitos tipos de macarrão e arroz, além de carne branca e saladas. O resto da equipe tinha todo o menu do restaurante do hotel á disposição. Senti pena deles, mas enquanto comia minha torrada com Nutella sem saber quando seria minha próxima refeição, percebi que eles é que eram os sortudos, com os horários regulados e os check-ups frequentes. Antes de ir pro hotel da seleção inglesa ainda chequei o ônibus que levaria a seleção italiana pro estádio no estacionamento do Quality.
O técnico da seleção inglesa me esperava no saguão quando cheguei ao outro hotel. Ver sua silhueta pelas portas de vidro não me agradou muito, mas forcei simpatia do mesmo jeito que havia feito no dia anterior e perguntei se ele precisava de alguma coisa. Meu desagrado aumentou quando tudo o que ouvi foi ele tentando me ensinar á fazer meu trabalho, listando tudo o que seus meninos não poderiam comer em hipótese nenhuma. E me lembrando de que eu deveria ter certeza de que o ônibus estava em boas condições assim como se o vestiário tinha tudo o que os jogadores poderiam precisar, e se eu estava preparada para eventuais situações de pânico. Foi difícil segurar a língua e meu temperamento; eu merecia um bônus por ter que lidar com aquele tipo de pessoa prepotente.
A parte mais estressante nem fora essa; os hotéis eram paraísos comparados com o estádio e seus arredores. Demorou muito mais do que os quinze minutos habituais entre o hotel e o estádio, já que algumas das ruas de acesso foram fechadas e o restante estava lentamente se transformando em um estacionamento a céu aberto. E uma vez no estádio, com a segurança já reforçada, mesmo com as credenciais foi um parto entrar lá. A maratona pela infinidade de corredores e salas cansou minhas pernas e causou minha fome, então tratei de comer um salgadinho enquanto ainda não precisava ir para perto do gramado.
Toalhas, bebidas e segurança verificadas e eu finalmente sentei pra respirar, com a quarta latinha de Red-Bull do dia. A probabilidade de que eu tivesse um ataque cardíaco só aumentava. Se eu de fato chegasse a ter um naquele dia a culpa poderia ser de inúmeras outras coisas, o energético era apenas mais um adendo às probabilidades.
Nos primeiros quinze minutos de jogo eu só tentei recuperar as forças. Mandei mensagem pra Lia, querendo saber aonde ela se enfiara, já que as dez mil tarefas que ela tinha pra fazer eram, aparentemente, longe de mim. Não a via desde a noite anterior, e mesmo não levando ao pé da letra o que o Hart dissera sobre ela e o Wilshere, queria muito saber o que a fizera me abandonar sozinha numa mesa de bar. Que fosse, de fato, um motivo muito bom.
Ao deixar o celular de lado, comecei á prestar atenção no pé de quem a bola estava. A posse de bola era predominantemente da Itália, mas isso não estava parecendo fazer muita diferença. Imaginei como Cesare estava do coração, mas não pude ir perguntar. Não era muito ético os funcionários se relacionarem de forma além da profissional com as equipes, muito menos em meio público. Na maioria dos empregos, relacionamentos desse tipo eram desencorajados. Ali, na beira do gramado, pensei que esse tipo de regra estava dentro da lista das regras mais quebradas da humanidade.
A quinze minutos de acabar o primeiro tempo, a posse de bola quase invicta começou a trazer resultados. Pirlo fez uma jogada incrível e aos trinta e quatro minutos Marchisio marcou o primeiro gol. Não pude deixar de sorrir e de ficar feliz por eles, principalmente por Cesare, que tinha tanta confiança em seus meninos e deveria sentir naquele gol algo parecido com o gosto do chocolate que eles não puderam comer no café da manhã.
A comemoração italiana não durou muito porque logo Sturridge fez o primeiro gol da Inglaterra, empatando o jogo.
Pouco tempo depois veio o intervalo – e uma ligação da Lia.
No fim das contas eu não a vira mais durante a noite anterior e nem antes do jogo. Se ela de fato tivesse sumido com o Wilshere, me devia muitas explicações.
- Eu sei que você quer me matar.
- Que bom que você desenvolveu mais uma habilidade além da calma excessiva. Agora já consegue ler mentes!
- Não venha reclamar comigo! Se você tivesse um pouquinho de inteligência teria feito o mesmo que eu, só que com o Hart.
- Então você realmente deu pro Wilshere no banheiro do bar. Quanta classe, Lia!
- No banheiro do bar, no quarto dele, no banheiro dele... Classe é o que me falta e o que menos me importa.
- Sua safada!
- Me poupe, )! – a vi saindo dos bastidores e caminhando em minha direção, acenei enquanto ela desligava o celular e continuava o diálogo pessoalmente – Só porque você está numa seca eterna por vontade própria, não desconte na minha pessoa. Seja minha amiga e pergunte se ele é bom de cama.
- Ninguém com quem você transe necessariamente precisa ser bom de cama, com toda a sua elasticidade.
- Idiota – ela me deu um tapinha, mas sorriu. Não conseguiria ficar com raiva dela por muito tempo, eu sabia, mas ela me deixara sozinha numa mesa de bar a qual nem devíamos ter ido, em primeiro lugar, sem nenhuma justificativa plausível.
- Onde você estava, afinal?
- Atrás da imprensa. Depois das vaias da torcida no começo do jogo estão todos preocupados. Precisei sondar o que eles estavam falando sobre isso.
- Bem, ninguém pode culpá-los.
Da comissão técnica italiana, Marcos, o outro brasileiro da minha equipe, acenou pra mim. Mandei Lia checar a Inglaterra e fui em direção aos uniformes azuis. Aparentemente, as garrafas que separei no cooler para eles não eram suficientes. Quando dei meia volta para mandar trazer mais, percebi Marchisio vindo em minha direção com um puta sorriso no rosto. Enchi meu pulmão de ar para não ter que sentir o cheiro dele de novo.
- Bella!
- Não que eu entenda muito de futebol, mas foi um belo gol!
- Grazie – ele sorriu, aparentemente achando fofa a minha falta de jeito – Eu acho que foi sorte.
- Eu chamaria de habilidade – eu meio que andava em ovos enquanto conversava com ele e pensei ter quebrado um deles ao dizer o que disse sorrindo, mas não dava para engolir as palavras – Bem, eu vou buscar mais água e isotônicos pra vocês. Boa sorte no segundo tempo!
- Achei que era habilidade! – ele piscou e sorriu e eu ri, me achando meio estúpida, com raiva dele e de mim mesma.
Não sabia quanto tempo mais eu conseguiria continuar ignorante ao efeito inexplicável que ele tinha sobre mim. Tinha a impressão de que seria muito pouco.


Quando o juiz apitou o final da partida, respirei aliviada e levantei do banco em que estava indevidamente sentada, organizando minhas coisas para ir em direção aos vestiários. Quase um dia a menos naquele mês que mal começara e parecia que não ia acabar nunca.
A Itália ganhou de dois a um e eu conseguia ver o enorme sorriso de Cesare de onde estava. O técnico inglês não parecia nada contente, mas não consegui ficar chateada por isso. Enquanto os jogadores se cumprimentavam e os repórteres quase saíam no tapa por uma entrevista rápida na zona mista, fui em direção aos vestiários para um check up final.
Quando entrei no vestiário da Inglaterra, me deparei com as costas do Hart.
Soltei um riso nasalado. Não porque achei engraçada a imagem dele com a cabeça entre as mãos, a pele das costas vermelha e a respiração pesada. Mas porque parecia um complô do universo colocá-lo sozinho na minha frente, sem camisa, com as costas brilhando de suor e aparentemente com raiva. Os mestres da psicologia tinham teorias interessantes acerca dos comportamentos impulsionados pela raiva. Balancei a cabeça e entrei.
- Veio rir?
Eu fazia a contagem das toalhas quando ouvi sua voz. Estava carregada, mas não com tom de choro. Ele realmente se esforçara no campo, mas não fora o seu dia; eu entendia totalmente ele estar com raiva. Sendo goleiro, não existia muito que o ele poderia fazer além de defender o gol e contar com a eficiência da zaga. Era frustrante, de fato. Portanto, me irritou profundamente ele julgar que eu fora até ali apenas para rir de algo que não era nada engraçado. Futebol poderia não significar grandes coisas para mim, mas era só olhar ao redor pra perceber que significa pra muita gente.
- Não sei porquê diabos eu faria isso. E me ofende você apresentar essa possibilidade – virei em sua direção, uma veia pulsando no meu pescoço – Sinceramente, Hart, pare de achar que me conhece. Se pelo menos sua implicância fosse justificada!
- O que tem pra conhecer? Provavelmente você é igual à sua amiga, interditando banheiros de bares com estranhos.
- Você não fala sobre a Lia – eu não conseguia ver, mas sabia que estava vermelha. Mais um pouquinho e eu enfiaria minha mão na cara dele. Não que eu achasse que fosse causar o menor dos efeitos – E não seja estúpido porque nós dois sabemos que você gostaria de ter interditado banheiros também.
Ele levantou rápido e sua altura, agora que eu me encontrava de tênis, me intimidou. Dei alguns passos cegos pra trás, mas não abaixei a cabeça; nunca fui do tipo que faria isso. Seus olhos verdes faiscavam e sua boca formava uma linha rígida. Eu respirava pesado e rápido e a respiração dele se misturava com a minha, tão próximos estávamos. Pensei que, se eu fosse um objeto, ele já teria me jogado do outro lado do aposento.
- Não se superestime, Blatter, você não é tudo isso.
- Quem disse que eu estava falando de mim?
Minhas costas bateram na estante onde as toalhas estavam. Ele avançava como um predador querendo estraçalhar sua presa, e embora eu não estivesse exatamente com medo, comecei a temer pela minha integridade física. Deveria ter pensado que era óbvio que ele não me faria mal, mas a última coisa que passava pela minha cabeça era a possibilidade de que ele me empurrasse ainda mais contra a estante e apertasse meu quadril. O ar ficou preso em meus pulmões.
- Nem se você fosse a última garota do mundo.
- Então por que você está com a mão na minha bunda?
Talvez eu não devesse ter sorrido. Meu sorriso não era uma demonstração de incômodo, era sarcasmo puro. E eu não sei se foi impulsionado pelo meu sarcasmo ou por seus próprios instintos e motivos que ele me beijou.
Foi bruto e inesperado e eu levei alguns segundos para me situar. Mas aqueles lábios finos nos meus e aquelas mãos enormes apertando meu corpo não me deixaram muito espaço pra nada que não fosse arranhar sua nuca e respirar com força, retribuindo. A língua dele era macia e o cheiro da pele dele... O cheiro me deixava meio tonta e completamente fora de mim.
Talvez a forma como meu corpo respondia ao dele fosse apenas a falta que eu sentia daquele tipo de contato. Mas em menos de um minuto eu tive que afastá-lo para respirar. Sua presença me entorpecia e eu perdia o controle sobre minhas funções. Não eram só hormônios, era aquele mais que condicionava minhas raras transas casuais.
Fiquei esperando que ele dissesse alguma coisa. Encostei a cabeça na estante e o encarei. Meu peito subia e descia e o dele me acompanhava. Desci os olhos pelos seus lábios, seu pescoço, sua clavícula. Acompanhei seus traços e engoli seco. Era sede o que eu sentia, mas não era de algo trivial como água.
Senti suas mãos subindo pelas minhas costas, as unhas curtas arranhando minha pele e entreabri os lábios. Seus dentes marcaram a curva do meu pescoço e eu sentia meu interior pegando fogo. Meu coração começou a bater mais forte quando ouvimos exclamações entrando no vestiário, vindas do corredor. Ele me encarou e eu não soube o que dizer; deixei-me ser arrastada para um dos boxes.
O espaço era pequeno demais para a forma como conduzíamos a situação. Ele não era carinhoso e eu não esperava nem queria que fosse; já estava com tanta raiva por ele me afetar daquela forma e ser um ser humano tão egocêntrico que a última coisa que passava na minha cabeça era carinho. Eu arranhava suas costas, mordia seu pescoço e arrancaria sangue dele se conseguisse, mas ele passeava pelo meu corpo com sua língua e suas mãos enormes e era difícil até respirar. Minhas reações eram atos involuntários; ele me entorpecia de verdade.
- Você poderia ter vindo de vestido – o ouvi dizer, meio ofegante, enquanto tentava tirar minha calça, ajoelhado na minha frente.
- Estou aqui a trabalho, existe um dress code! Além disso, eu não saí de casa com a pretensão de abrir as pernas pra você.
- Está aqui a trabalho? Então o que isso diz sobre você?
Levei mais tempo do que o normal pra entender as palavras dele. Quando as compreendi, foi como um tapa. O ergui pelos cabelos e o empurrei em direção à parede de ladrilhos azuis. Ele sorria e seus olhos brilhavam, mais bonito impossível, mas eu só conseguia sentir raiva.
- Por que você tem que ser tão filho da puta? – liguei o chuveiro.
Quando abri a porta, de sutiã e fechando o botão da calça, lá estava metade da seleção inglesa encarando meus peitos e aquele chupão horroroso perto do quadril. Peguei o primeiro casaco que vi na frente e corri pra fora do vestiário, tentando encontrar minha dignidade pelo caminho.
Se dependesse de Joe Hart, entretanto, eu passaria a vida procurando-a, frustrada.
Ele me alcançou depois de míseros dois corredores de distância, perto dos piores lugares possíveis: o hall da imprensa e a sala da administração geral do estádio. Segurou meu pulso e me virou com força. Seus olhos me diziam que ele estava puto por eu ter saído correndo, quando na verdade eu queria que ele estivesse sentindo muito pela escolha infeliz de palavras.
- Eu sou um merda, desculpa. Não quis dizer aquilo.
Ou talvez eu fosse muito ruim em interpretá-lo.
- Você quis dizer exatamente o que disse, Hart. Agora, larga meu braço.
- Eu vim te pedir desculpas, ), por que você tem que ser tão cabeça dura?
- Acho que estou em pleno direito de ser cabeça dura diante da situação em que você me colocou. Agora larga a porcaria do meu braço!
Tentei me desvencilhar do aperto, mas ele segurava meu pulso com facilidade, de forma firme. Apesar de ter conseguido fechar o casaco até o momento em que ele me encontrou, me sentia nua, deveras exposta com toda aquela situação. Minha blusa e minha credencial jaziam no vestiário da seleção inglesa, e não havia forma de eu voltar a entrar lá depois que parte dos titulares e dos reservas me viram sair de um box de sutiã, com o Hart à tiracolo.
Como ele não soltava meu pulso, resolvi tentar uma abordagem menos agressiva.
- Eu não posso ficar aqui parada o resto da noite – respirei fundo, olhando para os dois lados do corredor, ignorando os olhares aleatórios e desconfiados que recebíamos – Quanto mais cedo você soltar meu pulso, mais cedo a gente pode ir embora e esquecer que isso aconteceu.
- Não quero esquecer, cacete – sua resposta foi rápida e me pegou de surpresa - Quantos anos você acha que eu tenho?
- A julgar pelo seu comportamento, uns quinze.
Ele olhou feio pra mim, mas eu não estava mais com saco para aquilo. Meu tesão tinha escorrido pelo ralo junto com o suor dele quando abri o registro do chuveiro no box do vestiário. Apesar de o cheiro dele não ter ido junto, o desconforto era maior que qualquer fator externo que pudesse nublar meus sentidos. Mas ele ainda segurava meu pulso com firmeza, não parecendo que me deixaria ir. E ele, de fato, não o fez.
Me arrastou pelo corredor até encontrar um dos banheiros, se postando entre mim e a porta, uma muralha maciça. Esfreguei meu pulso, controlando a respiração tal qual Lia me ensinara, para não matá-lo, porque eu queria muito por minhas mãos em volta daquele pescoço e apertá-las ao redor dele até que lhe faltasse ar.
- Com certeza, Joe Hart, quinze anos pra menos.
Demorei um tempo pra processar e quando percebi que ele de fato estava me beijando, mordi seu lábio inferior com força. Joe se afastou instantaneamente, a mão no lábio, checando se eu não tinha lhe tirado sangue, que era mesmo a minha intenção original. Tentei contorná-lo, pensando que minha mordida fora distração o suficiente. Quase consegui. Antes que eu alcançasse a porta, sua mão envolveu meu pulso novamente e seu corpo, graças a deus coberto, na medida do possível, imprensou-me na parede. Ele era resiliente demais e eu era paciente de menos para aquele tipo de situação. Minha próxima ideia era chutá-lo bem no meio das pernas, mas ou essa era a atitude mais lógica ou ele leu meus pensamentos, porque antes que eu o fizesse, ele encaixou seu joelho entre as minhas pernas e a mão sobre meu peito, me imobilizando por completo.
- Qual é o teu problema? - o lábio inferior dele estava levemente inchado e eu me orgulhei pelo dano causado, pensando que poderia ter sido um pouco mais de estrago.
- Qual é o teu problema? De quantas formas diferentes eu preciso falar que é pra você me soltar até que você entenda? Seu cognitivo por acaso está afetado pelo seu ego gigante?
Ele me analisou por um tempinho, ignorando minha observação, fazendo meu plano de tirá-lo do sério e me deixar ir falhar. Eu tentava decifrar o que ele queria através de seus olhos, mas já tinha percebido que ou eu era muito ruim nisso ou ele conseguia contornar minhas habilidades de interpretação pessoal. Então ele tirou a mão do meu peito, apesar de seu joelho permanecer firme entre minhas pernas, não tão encaixado quanto eu gostaria - infelizmente, tinha que admitir minha fraqueza. Seus dedos compridos desenharam a curva do meu pescoço e se postaram em minha nuca, alguns fios de cabelo se embolando entre eles. Ergui a sobrancelha quando percebi a mudança na abordagem. E engoli seco quando me dei conta de que provavelmente funcionaria.
Éramos animais, no fim das contas, não éramos? Com consciência e controle sobre os próprios atos, na maioria das vezes. Na maioria das vezes, não sempre.
- Meu cognitivo está bem, mas talvez tanta negação esteja afetando o seu.
Hart não me beijou de imediato; não, ele brincou com meu psicológico primeiro. Ele amassou minha dignidade entre seus dedos junto com meus cabelos, que ele puxava de maneira a passear entre delicado demais e forte o suficiente pra me fazer querer reclamar, mas não chegar a tanto. Ele me fez pagar língua e deixar meu corpo transparecer que queria aquilo sim, mesmo inconscientemente, enquanto mordia a base do meu pescoço e ameaçava descer pelo fecho aberto do casaco, nunca indo longe o suficiente. Ele me fez ansiar para que aquele maldito joelho se encaixasse direito entre as minhas pernas. Ele me matou de raiva enquanto eu quase implorava por mais contato, que me era negado - e eu queria sentir mais, já que, fora seus lábios, sua mão em meu cabelo e seu joelho, mais nenhuma parte dele me tocava.
Pra tentar disfarçar o estado deplorável em que me encontrava, eu ri, apelando para o sarcasmo.
- Você não é tudo isso, Hart.
Ele não pareceu convencido e eu senti o sorriso na minha pele, sobre a minha clavícula, logo antes de sentir seus dentes. Talvez eu não quisesse de fato convencê-lo; talvez só estivesse buscando tempo pra tentar entender o que eu estava sentindo e arranjar um jeito decente de lidar com aquilo. Era muita coisa acontecendo muito rápido.
- Sabe, Blatter - ele ergueu a cabeça e olhou dentro dos meus olhos ao mesmo tempo em que seu joelho subia, pressionando no lugar certo com força suficiente pra me fazer estremecer. De novo, eu quis matá-lo -, eu acho que sou sim.
Sempre achei desculpa esfarrapada usar Aristóteles e sua teoria acerca da racionalidade do homem pra glorificar celibatários de sucesso ou pessoas que fazem voto de silêncio por toda a vida. Até mesmo a infidelidade possuía justificativas biológicas embasadas pelo comportamento de nossos ancestrais supostamente irracionais. Sempre se esqueciam do mais importante dos agravantes quando usavam esses discursos: a vontade, que a tal racionalidade deveria filtrar, mas não filtrava, porque no fim das contas éramos todos animais esperando o melhor momento para nos saciarmos.
- Vai se foder, Joe Hart - eu disse, antes de jogar qualquer ínfimo resquício de dignidade para o espaço e beijá-lo com vontade. Ele não pareceu surpreso e tal detalhe só me encheu de ainda mais raiva, que eu tentei descontar em seus lábios. Mas ele queria me provar que eu não tinha nenhum controle sobre o que estava acontecendo e o beijo se tornou uma briga silenciosa de egos, apesar de não perder sua intensidade.
- Uh, adoro dirty talking - ele mordeu meu lábio inferior com a pressão certa e de forma deliciosa - Por que não vamos juntos?
- Você age estupidamente como se me conhecesse - levei o dobro de tempo que levaria normalmente pra emitir a frase porque ele não tirava os lábios dos meus. Tirei as mãos de sua nuca, segurando sua cabeça e tentando mantê-lo parado.
- Talvez eu conheça.
Porra nenhuma!
O absurdo de toda aquela situação me tomou de repente. Estávamos em um banheiro público do estádio e era um tremendo milagre que ninguém tivesse aparecido por ali ainda. Os contornos daquele cenário indicavam um único caminho, e por mais que eu já tivesse deixado de lado todo o meu orgulho ao admitir que eu queria mesmo ir pra onde quer que ele quisesse me levar, ali não era lugar e aquela não era a hora. Éramos dois adultos e deveríamos agir como tal.
- Meu quarto é o 806 - achei que ele fosse perguntar algo, mas enquanto olhava nos meus olhos, a compreensão alcançou os dele - Eu realmente tenho coisas a fazer agora.
A mão que estava no quadril subiu até minha cintura, por baixo do casaco. Ele fez um carinho leve na minha pele, me beijando uma última vez e me deixando ir.


Quatro

Eu odiava barcos.
Também não gostava muito de aviões ou qualquer meio de transporte dotado de certa instabilidade, mas diferente dos voos, passeios de barco eram para ser supostamente recreativos, e não teria lógica eu me dopar de calmantes para suportá-los - ainda mais considerando que, naquele passeio específico, eu era a convidada da seleção italiana.
Depois da dificuldade que fora reservar tudo às pressas, me convidar era mesmo o mínimo que eles podiam fazer.
O sentimento entre os italianos após a vitória sobre a Inglaterra era de extremo otimismo acerca do penta campeonato. Iniciar a copa já com três pontos contabilizados após um jogo de grande qualidade técnica era de fato motivo suficiente para otimismo e comemoração. Mas então os italianos chegaram à conclusão de que apenas um jantar regado a muito vinho sul-americano não era celebração suficiente. Eles queriam uma experiência diferente, exótica como Manaus aparentava ser para os estrangeiros.
Então, Blatter teve que se virar nos 30 pra conseguir uma experiência suficientemente exótica para os italianos. Ao menos a proposta de nadar com os botos fora aceita com entusiasmo pelos jogadores e por Cesare – tanto entusiasmo que o convite se estendeu a mim.
E lá estávamos, no meio do Rio Amazonas, às 13 horas e alguns minutos, num calor infernal, a caminho de uma reserva em um barco alugado e que balançava demais para o meu gosto.
- Você me parece nervosa, bella.
Sob a proteção do óculos de sol, admirei Claudio Marchisio, sentado ao meu lado sem camisa e com uma garrafa de água nas mãos. Soava como uma brincadeira fodida do universo o quão gostoso, cheiroso e atencioso ele era. Depois da confusão em que o Hart deixara os meus hormônios na noite anterior, estava sendo muito difícil ignorar aquela presença ali tão próxima.
- Barcos não são meu meio de transporte favorito.
- E mesmo assim aceitou vir conosco?
- Eu não ousaria recusar nada ao Sr. Prandelli. – sorri, enquanto virava a cabeça em direção ao técnico, que conversava empolgado com Balotelli.
Claudio sorriu, um sorriso de um milhão de euros, como se aprovasse em demasia meu apreço por seu professor.
- Você pode segurar minha mão, se quiser.
Eu ri e empurrei de leve seu braço, agradecendo e dizendo que não era pra tanto, no mesmo minuto em que um solavanco me fazia pular no banco e morder o lábio pra conter um grito. Ele riu ao meu lado, provavelmente me achando estúpida, mas passou o braço por meus ombros, despretensiosamente, me trazendo pra perto de seu corpo.
Fiquei completamente sem reação, até mesmo pra me afastar. Mas Claudio deu segmento à conversa como se nada de extraordinário estivesse acontecendo; como se a calcinha do meu biquíni não estivesse umedecendo naquele exato minuto, só por causa daquele maldito cheiro e dos estranhos efeitos que seu toque causava em mim.
Aqueles homens... Eles iam me enlouquecer até o fim do mês.
Tentando não soar como um robô, fui respondendo suas perguntas. Ele parecia muito interessado nos caminhos que eu percorrera, apesar da pouca idade e do parentesco, que ele ignorava, o que me agradava muito. Desconversava quando o assunto era si próprio. Observando a marca de uma aliança em seu anelar esquerdo, aquilo não me cheirava nada bem. O espaço vazio naquele dedo por si só já dizia muito.
O barco gradativamente foi diminuindo enquanto nos aproximávamos da margem e o guia avisou, animado e num inglês bem carregado no sotaque, que estávamos chegando.
Respirei fundo, aliviada pelo fim momentâneo da viagem e de toda aquela proximidade.


- Você não vai me deixar aqui sozinho, vai?
O sol forte das três da tarde combinado ao olhar que ele me dirigia com certeza me faziam querer entrar na água. Por deus, a cada minuto que passava era uma luta interna pra que eu não mergulhasse de cabeça e fosse nadando em sua direção. Eu já estava com vergonha da forma com que ele me fitava! Seria mais prudente manter distância e só ficar olhando-o da plataforma na popa do barco.
Mas prudência era um padrão de comportamento que eu não vinha mantendo já há alguns dias.
Eu também estava um caco, era preciso dizer. Devia ter alguns roxos pelo corpo - que eu poderia culpar a academia, se minha frequência fosse suficiente para tanto -, além de olheiras que eu inutilmente tentei disfarçar. Dormira quase nada e acordara muito cedo. Os motivos para o meu estado, entretanto, não eram bons de se lembrar naquele momento.
Era tentador só ficar ali fora, admirando-o, mantendo uma distância saudável. Mas naquela altura, eu já sabia que não tinha mais forças. Lia passara tanto tempo me dizendo que eu só precisava de sexo e depois que essa questão fora resolvida, eu só conseguia pensar que meu corpo queria muito mais – sem exigências quanto ao provedor. Provavelmente eram as tatuagens, a barba rala, os olhos, o jeito de me chamar de bella – ele não parecia querer facilitar minha vida.
Ou era nada, coisas que não faziam sentido nenhum, sensações desprovidas de sentido e razão de ser. Apenas a forma como meus hormônios respondiam aos dele era gritante demais pra se ignorar. Que mania feia a minha de ficar procurando motivos e justificativas.
Passava pela minha cabeça a possibilidade de tudo aquilo ser só uma interpretação minha, uma versão errada dos fatos. Eu olhava sua figura e absorvia sua simpatia, somatizava tudo e sentia coisas que na verdade não estavam ali. Mas acreditava que existia um limite pra até onde a mente de uma pessoa pode ir antes que ela fosse considerada louca. De certa forma, sentia que estávamos presos em uma bolha de ignorância, apenas esperando que subisse muito alto e implodisse. Dois tolos.
- Moço, você tem certeza que não tem piranhas aqui? - o guia riu pra mim.
- Absoluta, dona.
Suspirei e fiquei em pé, tirando meu vestido, sentindo meu corpo arrepiar pela forma com a qual ele me olhava, mesmo que eu não visse. Sabia não ter um pingo de malícia e aquilo me irritou, como muitas coisas bonitas costumavam me irritar. Seria tão mais fácil se ele agisse de forma idiota como o Hart! Ou pelo menos não parecesse demonstrar tanto interesse. Mas idiota era a comparação que eu fazia entre os dois; eram outras pessoas, outros conceitos, outras intensidades. Eu já sabia, antes de entrar no rio de águas quentes, que a única escolha inteligente era não escolher ninguém e sair correndo daquela confusão - se houvesse uma escolha como ele inconscientemente ou não fazia parecer.
- Se eu sentir alguma coisa que não seja um boto roçando em mim, vou sair daqui correndo.
Ele estava a uma distância segura e isso era bom; era assim que deveria continuar. Na verdade, eu precisaria de mais um metro e meio de distância pra me sentir segura de verdade do meu autocontrole. Eu estava tão fraca quanto ele me parecia estar, talvez até mais, e tudo aquilo estava piorando minha situação. Se tivesse a opção, voltaria ao dia anterior e não aceitaria convite pra passeio nenhum. Sem saber, contribuí para minha decadência.
- E vai me deixar aqui pra ser comido por peixes famintos? – ele se aproximava a cada palavra e eu não tinha iniciativa de contorná-lo. Não tinha como aquilo ser uma via de mão única.
- Você também tem pernas, Marchisio, é só me seguir.
- E pra onde nós iríamos? - Ele está muito perto agora, minha mente me avisava, mas a informação não chegava ao meu sistema locomotor, o que em parte era bom, porque eu sabia que tudo o que eu faria seria chegar ainda mais perto.
Era uma pergunta sem nexo considerando onde estávamos, mas ele não era bobo. Assim como o Hart, ele disse exatamente o que queria dizer, dando à frase uma conotação diferente. Eu tinha uma trilha sonora mental para aquele momento, e era o hino clichê italiano - porque era sexy e porque a intensidade na música era real, como a que nos rodeava.
Tudo se encaixava perfeitamente numa harmonia ilógica: a temperatura da água, o sol se preparando para se pôr, o fato de que todo o resto da equipe estava na proa do outro lado do barco, nos dando uma privacidade não solicitada, porém bem-vinda. Só ouvia o barulho da água denunciando nossa aproximação e um ou outro pássaro perdido pelas árvores ao redor.
Eu mergulhei a cabeça na água, pra não ver a distância entre nós diminuindo e pra molhar o cabelo, já afetado pela umidade. Quando levantei e a luz fez meus olhos arderem, fui recepcionada por seus olhos claros e seus lábios entreabertos, a centímetros. Quis uma foto daquele instante, pra congelar a devoção que eu via nos olhos dele, toda direcionada a mim.
Sabia que nada daquilo fazia sentido e toda aquela irrealidade, bem lá no fundo, estava sim me incomodando, mas eu não conseguia ser racional.
- Quero te beijar, bella mia.
Queria poder dizer que as palavras dele me deixaram perplexa e que a surpresa foi positiva e me afastou de tudo aquilo, mas não foi o que aconteceu. Meu cérebro recebeu e absorveu sua declaração e aquela sensação de “estou certa, porra!” me tomou por inteiro.
Nós dançávamos embaixo d’água, indo e vindo, testando o terreno pra ver se era seguro. Ambos sabíamos que não era uma boa ideia, mas parecíamos cegos demais para fazer algo quanto a isso.
- Eu sei.
Embaixo da água escura, ele pegou minha mão. Naquele inocente gesto eu percebi duas coisas: nada era criação da minha cabeça e, diferente de mim, ele não fazia esforços pra tentar se conter.
Levantei minha mão e o toquei com a ponta dos dedos no pescoço, como se estivesse com medo de tomar um choque ou de gostar do toque e querer mais dele. A barba dele me arranhava de leve e era a sensação mais deliciosa do mundo. Existia uma linha tênue que dividia minha parte racional da impulsiva, e ele estava lentamente atravessando essa barreira, tocando minha tatuagem na parte interna do pulso, uma veia pulsante se destacando na minha pele, da cor dos olhos dele. Presos naquele momento, não tínhamos noção do quanto tudo aquilo era feio e errado.
- Mas não podemos – me doía dizer aquilo porque doía muito querer algo com aquela intensidade e não poder ter. A consciência acerca daquilo agravava mais a vontade e a culpa.
Desenhei seus músculos com a ponta dos dedos até parar em cima do coração, que parecia ditar as batidas do meu. Espalmei a mão e só aquele pedacinho de pele a mais me fez fechar os olhos. Queria continuar olhando para aquele mar que eram os olhos dele, mas eu não conseguia mais fingir que nada daquilo não me afetava. Tudo me parecia muito lindo e muito errado. E doía também.
- Eu sei. - abri meus olhos.
- Então por que faz isso?
Ele ergueu meu pulso, tirando-o da água, escura demais pra deixar qualquer coisa aparecer. Love is easy marcava a minha pele, e ele levou meu pulso até seus lábios, frios como gelo. Mas não foi a mudança de temperatura que me fez arrepiar.
- Sua pele conta uma mentira.
- Não conta não. – apoiei minha palma em sua bochecha e ele fechou os olhos, sentindo meu calor – Amar é fácil, nós que complicamos tudo.
Talvez se eu usasse um discurso suficientemente moralista, apesar de falso, eu conseguiria tentar fazê-lo parar de nos levar para aquele lugar escuro que ele queria ir.
- Nós? – foi uma overdose de sensações quando ele enlaçou minha cintura com o braço livre e nossos troncos se encostaram – Ti sei innamorato di me, bella?
Seu leve sorriso me denotava que ele não falava sério. Até porque, como eu poderia? Fazia pouco mais de dois dias desde que encostara os olhos nele pela primeira vez. Aquilo não era ficção, as coisas não funcionavam daquela forma macarrão instantâneo. Uma história não poderia ser escrita em três minutos. Nem lembrava se nosso primeiro diálogo chegou a durar tudo isso. A lembrança daquela sexta-feira, contudo, não era propícia para aquele momento; o ar que nos rodeava parecia tão ou mais sufocante quanto o do elevador.
- Não. – os olhos dele me mostravam que ele sabia que minha resposta não terminava ali – Mas sei que posso chegar a tanto. - e não quero arriscar, acrescentei mentalmente. Não lhe devia justificativas e dá-las não ajudaria ninguém.
Sua mão envolveu o meu rosto e a marca da aliança em seu anelar esquerdo, que eu não conseguia ver mas sabia e sentia estar ali, evidenciava que aquele lugarzinho tinha dono. E me dei conta de que a pele dele contava uma mentira. A pele dele dizia que ele pertencia a alguém, mas ele se entregaria a outra pessoa, ignorando esse sinal. Mas eu via sinceridade demais naqueles olhos azuis da cor do mar, ás vezes da cor do céu, pra acreditar que ele tinha maldade em si pra fazer tudo isso de propósito.
A gente não tem controle sobre as coisas que sente e aquela era uma verdade que a vida parecia estar esfregando na minha cara durante aqueles dias.
- Não seria fácil amarmi?
Aquele mash up entre inglês e italiano não me ajudava a criar respostas coerentes. Era muito fácil me perder no charme de sua voz grossa e de seu sotaque, fora os olhos dele, que já eram uma distração e tanto. Eu nunca pensei que ligasse muito pra eles até olhar bastante pros de Marchisio. Não que eu acreditasse que isso fosse uma regra, mas eu sentia que poderia enxergar sua alma.
Também existia a possibilidade daquilo ser manipulação muito da bem feita, e ele me fazer pensar que eu poderia enxergar sua alma, não a revelando para mim de fato. Quão bom manipulador ele se mostraria ser, então, visto que eu caía como um patinho.
- Amar você seria doce como sorvete de creme com mel. – ele sorriu pra mim, um sorriso pequenininho e quase imperceptível, mas eu estava tão perto que consegui perceber. Levei minha mão até a dele, ainda presa em meu rosto – Mas você tem bagagem. – raspei as unhas na marca da aliança e o sorrisinho dele sumiu -, e eu não me sinto obrigada a ter que lidar com ela.
Minhas palavras foram cuidadosamente pensadas para que ele recuasse e nós seguíssemos o resto do campeonato trabalhando juntos, mas resumindo nosso relacionamento só até aí. Era pra ele tirar as mãos de mim e me deixar respirar sem culpa. Era a chance de ele voltar para o hotel, colocar a aliança de volta no dedo e se comprometer a levar a taça para a esposa na Itália. Deixar que eu resolvesse com Hart o que já era complicado e estranho sem que uma terceira pessoa fosse envolvida.
Eu deveria ter previsto que ele não faria isso.
- Você é tão especial quanto eu achei que fosse.
- Não sou não.
Minha teimosia o fez rir e sua risada me estressou. O sol já começando a descer significava que deveríamos nos apressar, mas ele não parecia ter pressa. Por que deveria ter, não é? Eu estava prestes a cair em tentação, ceder aos seus encantos. Um pouco mais de insistência, um pouco menos de distância, e eu sentiria seu gosto. Ele já havia me ganhado desde sexta, com o sorriso fácil e a simpatia. Mas eu tinha que fingir que era forte; tinha que fingir ter alguma espécie de vantagem.
Aquilo não era um jogo, eu perceberia eventualmente, mas as coisas não parecem tão complicadas quando a tratamos de forma estratégica.
- Você não é esse tipo de pessoa.
Eu queria acreditar que ele era uma boa pessoa, do tipo que honrava os votos de casamento e qualquer outro tipo de promessa. Mentiroso ele não conseguiria ser, com olhos como aqueles; pelo menos não um bom mentiroso, porque mentir, todos sabemos. Eu mentia pra mim mesma, tentando fingir que tinha princípios. Se ele não os tivesse, eu precisava ter por nós dois.
- Você não me conhece, bella. – e então eu vi, no meio de toda aquela transparência, tons mais escuros, ali onde a pupila se dilata. Vi tempestades naquele céu e percebi que ele tinha razão, eu não o conhecia, mas estava morrendo de vontade de conhecer e ali morava toda a porra do problema.
A ponta do meu nariz tocou a ponta do nariz dele e eu senti seus dedos fazendo carinho na base das minhas costas. Ele queria que eu quisesse conhecê-lo, apesar das promessas, do perigo e da sinceridade em seus olhos. Talvez eu estivesse enganada e ele soubesse mentir muito bem. Ou talvez ele só quisesse experimentar a sobrinha do presidente da FIFA, como muitos outros antes dele. Era mais fácil imaginar que ele era um canalha.
Teria que fazê-lo me convencer do contrário.
Teria que tomar as rédeas de toda aquela confusão que tomou conta de mim e, bem... Pagar pra ver.
- Viajo pra Salvador hoje de madrugada, mas vou pra Mangaratiba na quarta de manhã. Você tem até lá pra me convencer de que isso, apesar dos pesares, vale à pena.
- Você sabe porque está fazendo isso. – seus dedos longos traçaram a cordinha do meu biquíni, chegando até a lateral e me fazendo tremer. Se eu tivesse meus pés fixos em alguma coisa, nenhum dos dois aguentaria meu peso – Você já sabe se vale à pena ou não, só quer saber se eu acho o mesmo, se não vou mudar de ideia – eu estava impassível, como uma jogadora de poker com um full house nas mãos e não querendo entregar o jogo – Você me subestima, ragazza.
- O Hart chegou antes de você.
Levou um breve momento para a dúvida e logo depois a compreensão alcançarem o rosto dele. Talvez eu não devesse ter contado, mas não seria justo que ele não soubesse onde estava se metendo. Ele não pareceu gostar muito da notícia e eu o compreendia. Como no jogo no dia anterior, de repente eles eram adversários novamente. Ou assim eu pensava. No fim das contas, por querer demais, poderia ficar sem nenhum deles. Apenas a hipótese me desagradou e eu me senti uma criança mimada.
- Eu não sabia que isso era uma competição. – olhei pra ele, ainda com a expressão de jogadora de poker, mas já fragilizada. Eu não era o troféu da copa e nenhum dos dois precisava agir como se eu fosse um prêmio por um bom trabalho realizado. Eu queria e causaria muito mais do que um impacto superficial. – Eu ganhei ontem, bella. Vou ganhar você também.
- Eu não sou uma partida de futebol, Marchisio, eu sou uma pessoa. É importante que você aprenda a diferença.
Foi mais difícil do que pensei que seria conseguir tirar as mãos dele de mim. Também não foi fácil ignorar a vontade de prová-lo e sair da água. Mas a dificuldade diminuiria quando eu me afastasse o suficiente pra conseguir respirar, e pra digerir tudo o que tinha acontecido. Pra entender que eu tinha mentido quanto aos meus princípios. Tentei me convencer de que foi por uma boa causa.


Eram 10 horas e 42 minutos quando o telefone do quarto tocou.
Fazia quase 34 graus celsius do lado de fora do quarto e eu havia acabado de ajustar o ar condicionado para 22 graus enquanto secava o cabelo com uma toalha. Não achava que ele fosse aparecer, então pedi uma massa pelo serviço de quarto, lavei o cabelo e coloquei meu pijama. Mas lá estava ele na recepção, se anunciando para subir.
Não havia nada que eu pudesse fazer além de ser honesta e explícita e dizer sim.
Ele tinha minha camisa e minha credencial nas mãos quando abri a porta. Dei passagem para que ele entrasse, agradecendo por ter trago meus pertences de volta. O deixei sozinho no quarto enquanto levava a toalha molhada para o banheiro e fechava a porta do mesmo. Da janela panorâmica de vidro eu tinha uma vista muito bonita da cidade, que foi o assunto do primeiro comentário dele, sentado na poltrona de frente para a cama, antes de dizer que meu pijama era "legal".
- Você parece menos inofensivo sem raiva. - ele ergueu a sobrancelha, a sombra de um sorriso nos lábios. Com exceção das pequenas luzes da cidade iluminando o quarto pela janela, estávamos no escuro - Não foi uma crítica, só um comentário. - falei, erguendo as mãos.
- Aliás, desculpe por aquilo tudo.
- Não desculpo.
Não dei muito tempo nem espaço para que ele reagisse. Me aproximei, sentando em seu colo no sofá, cada perna de um lado de seu quadril.
Ele pareceu surpreso, e por mais que não fôssemos mais levar aquilo como um jogo, contabilizei um ponto a mais pra mim. Eu estava nervosa e quanto menos demonstrasse isso, melhor.
- O que eu posso fazer para que me perdoe? - suas mãos estavam em minhas coxas de forma comportada, e era engraçado que ele estivesse calmo e contido depois do furacão que se mostrara anteriormente.
O beijei, ignorando em absoluto que algumas horas antes eu estava completamente avessa à ideia, com raiva daquele ego gigantesco e por ele estar inteiramente certo sobre como me fazia sentir. Era absolutamente antiético além de uma loucura completa levar aquilo adiante, considerando que eu não era o tipo de pessoa "sexo casual" e as coisas estavam fluindo de forma mais rápida do que eu conseguia controlar. E era mais loucura ainda considerar a probabilidade de levarmos aquela insanidade até que a Inglaterra fosse desclassificada ou se consagrasse campeã.
Lia estava certa quando dizia que eu me preocupava demais com as coisas. Poderíamos discutir quaisquer termos existentes depois que houvesse de fato algo a ser discutido.
Aquelas mãos absurdas apertaram minhas coxas e me puxaram em sua direção quando me aproximei de seu pescoço.
- Você pode me fazer gritar.



Cinco

O apito encerrou a goleada da Alemanha contra Portugal e deu início às vaias contra Cristiano Ronaldo, que havia mesmo feito uma péssima partida.
A zona mista já estava fervendo e, apesar do semblante de decepção no rosto do CR7, eu não estava preocupada com eventuais declarações ambíguas que poderiam dar margem a matérias tendenciosas – e nem deveria, porque a seleção portuguesa não era problema meu, mas a alemã era.
Não fora, de fato, um jogo difícil para os alemães. Apesar da estranha decisão de Joachim Löw de deixar nomes proeminentes como Schurrle e Podolski no banco, a entrada de ambos como substituição de Özil e Müller foi de grande valorização do futebol alemão. Como Prandelli gostava de dizer, uma verdadeira obra de arte.
Convenhamos que com um goleiro como Manuel Neur, melhor do mundo pela FIFA no ano anterior, era de se esperar que tudo corresse bem.
Enquanto eu supervisionava os voluntários que orientavam as seleções e a imprensa, assisti Lia vir em minha direção, do vestiário. Parecia que ela lia minha mente, porque o sorriso que descansava em seus lábios era o de alguém que sabia em que goleiro de verdade eu estava pensando.
- Não olha assim pra mim, faz com que eu me sinta promíscua.
- Somos todos promíscuos nessa copa do mundo, não tenho dúvidas quanto a isso. – revirei os olhos, dando atenção ao tablet em minhas mãos – Mas vou ter que mudar meu olhar, porque na verdade eu queria dizer o quão hipócrita você é.
Das piores decisões que eu já tomei na vida – ter transado com o Hart, provavelmente, inclusa -, contar pra Lia o que tinha acontecido sábado à noite durante o nosso voo pra Salvador foi com certeza a pior delas. O voo decolou às 20h35min, depois de 25 minutos de atraso e, com a diferença de fuso horário, deveríamos chegar a Salvador mais ou menos às 11 horas. Eu pretendia cochilar durante aquelas três horinhas, pois o dia seguinte começaria cedo e meu corpo já demonstrava sinais de exaustão pelo fim de semana intenso, mas quando se deu início o interrogatório de Lia, ela não me deixou parar de falar e a trilha sonora do nosso voo foi um monólogo de três horas de Blatter.
Nenhum detalhe foi poupado e na metade do voo eu já estava completamente inquieta em meu assento, com minha calcinha dando sinais de que meu corpo reagia às lembranças - porque o Hart me fizera mesmo gritar, e a falta de isolamento acústico nos quartos fez com que a recepção ligasse perguntando se estava tudo bem. Duas vezes. Às quase quatro da manhã eu caí exausta na cama, depois da terceira vez e do quarto orgasmo, dizendo que era melhor ele ir embora, que eu precisava dormir. Ele eventualmente foi, pouco antes dos meus olhos fecharem e meu corpo momentaneamente ceder.
Passei todo o domingo após o passeio de barco esperando uma mensagem ou uma ligação do meu tio me retirando da comissão organizadora da copa, dizendo em um textão de palavras polidas e muito irritadas o quão irresponsável eu demonstrei ser com minhas atitudes insensatas. Quando uma mensagem dele de fato chegou, achei que fosse enfartar, mas contrariando minhas expectativas, ele apenas me demonstrou estar contente com meu trabalho até ali, ressaltando que o técnico italiano falara muito bem de mim.
- Vai à merda, Lia. Eu não devia ter te contado nada. – como não fiz com relação a Marchisio, pensei.
- Relaxa, ! Com mãos como aquelas não podem haver julgamentos.
Eu ri, prestes a dizer que ela não tinha ideia de nada, mas não tive tempo de responder, pois dois braços fortes rodearam minha cintura e tiraram meus pés do chão. Dei um grito, pelo susto, mas reconheci a risada alta ecoando em meus ouvidos.
- Bastian, seu idiota, me põe no chão!
Bastian Schweinsteiger solenemente ignorou minha ordem e me deu um beijo estalado na bochecha. Como fora poupado do jogo naquela tarde, estava com o colete de reserva e cheirando a sabonete de limão e desodorante masculino.
- Também estava com saudades, katze.
Minha história com Bastian não era complicada nem extensa. Nada de sexo envolvido, só uma noite bêbada numa boate em Munique cerca de uns dois anos antes durante as minhas férias que culminou num porre homérico e uma amizade improvável. Quase não nos víamos pessoalmente, mas se tinha algo que eu poderia dizer sobre aquele alemão era que ele guardava as pessoas que amava dentro de um coração enorme.
Ele me pôs no chão e eu pude virar para abraçá-lo decentemente.
- Você é empolgado demais.
- E você é empolgada de menos! – pude ouvir Lia rindo, uma concordância sutil - Aumente minha empolgação e diga que vai acompanhar a gente.
- Vou só supervisionar uma equipe enquanto cuido da Itália e da Inglaterra lá no Rio. - o sorriso aberto que brotou em seus lábios morreu em dois segundos e eu apertei suas bochechas.
- Malditos sortudos.
Ri, olhando pra trás para encontrar uma Lia analisando-nos milimetricamente. Ergui a sobrancelha e balancei a cabeça, descrente de que os pensamentos dela realmente estavam indo por aquele caminho. Daquela forma, ela me convenceria de que éramos mesmo todos promíscuos.
- Bastian, essa é a Lia, ela trabalha comigo na comissão.
O cinema retrata muito bem o momento em que o interesse numa pessoa é explicitado pela outra. Utilizam recursos como iluminação e câmera lenta e uma trilha sonora marcante. Eu não tinha nada daquilo ali e os alto-falantes do estádio tocavam Summer do Calvin Harris, mas eu percebi a forma como o olhar do Bastian mudou ao colocar os olhos em Lia. Que clichê fodido era aquele em que estávamos metidas!
- Prazer em conhecê-la, schön. – ele me empurrou com o quadril, de leve, e pegou a mão de Lia, a levando até os lábios. Prendi um riso, quieta no meu canto, assistindo enquanto ela ficava sem graça – É você que vai cuidar da gente?
Meu celular vibrou no bolso e era uma mensagem de Marcos, perguntando onde estávamos. Fui obrigada a interromper o momento dos dois, antes mesmo de conseguir soltar alguma piadinha.
- Não, não é ela, e eu sei o quão triste você está, mas não se preocupe que eu mando o número dela pra você, porque agora nós temos que ir.
Deixei um beijo na bochecha de um Bastian muito sorridente e puxei uma Lia muito puta em direção ao interior do estádio.
- Sua filha da puta! – dançava na minha língua aquele gostinho de vingança.
- Você vai querer me agradecer depois.

Ao entrar em meu quarto, no sétimo andar do Royal Tulip, no Rio, deixei a bolsa e os recados que recebera na recepção em cima da mesinha da antessala: um da Lia, avisando que estava a caminho de Mangaratiba e não tinha conseguido contato comigo via telefone, e um de Joe Hart, com dois números distintos, o de seu quarto e o respectivo ramal.
Fui tomada por um sentimento de incredulidade com o quão simples e conveniente era o fato de estarmos hospedados no mesmo hotel e ele já ter ciência desse fato.
O próximo jogo a que eu teria que comparecer seria em quatro dias e uma linda folga de 24 horas me esperava para o dia seguinte. Minhas intenções para ela eram dormir metade do dia e ficar na piscina do hotel durante a outra metade. A maratona que eu percorrera em quatro dias ultrapassava todos os limites aos quais eu já expusera meu corpo – a maratona de sexo inclusa. Mas eu não queria ter que pensar em sexo ou Joe Hart ou Claudio Marchisio no momento. Tinha a impressão de que poderia enlouquecer.
Quando saí do banho, lá para as nove e meia da noite, o papel timbrado do hotel com o número do ramal do quarto que ele com certeza dividia com outro jogador ainda jazia inerte no mesmo lugar em que eu o deixara, e pensar em tudo foi inevitável.
Meu celular tocou dentro da bolsa e apesar de saber que não poderia ser o Hart, visto que não trocáramos telefones, minha mente me traiu, deixando meu corpo alerta. Era a Lia.
- Estou muito impressionada negativamente com a dificuldade de conseguir sinal nesse lugar.
- Boa noite pra você também, Lia! Sim, fiz uma ótima viagem até o hotel, obrigada por perguntar.
- Será que liguei pra pessoa errada?
- Muito engraçada, você, nossa! – sentada no sofá cor de sorvete de creme, menos confortável do que parecia, eu encarava a mim mesma no espelho do armário, de roupão e cabelos presos no topo da cabeça – Como estão os italianos?
- Decepcionados que não foi você que os recebeu. – eu ri, mais alto do que pretendia – O que magoou um pouquinho meu ego, mas isso não durou muito porque, meu deus, como eles são maravilhosos!
Todos os átomos do meu corpo concordaram veementemente com ela.
- Eu sei – mas, de forma sensata, controlei qualquer tipo de reação que pudesse denunciar que eu sabia mesmo, bem mais do que superficialmente – Mas e a estrutura? Eles gostaram das acomodações, das instalações do CT?
- Algumas divergências sobre o gramado, mas acho que é só falta de ambientação, o clima anda meio seco por aqui. É amanhã que você vem?
- Amanhã eu vou experimentar o prazer de não precisar fazer nada. – meu coração se aqueceu com a perspectiva. Eu precisava muito descansar, mental e fisicamente.
- Vaca sortuda! – ri, levantando da poltrona e indo em direção a mala aberta em cima da minha cama, colocando o celular no viva voz ao lado da mesma – Vai aproveitar pra dar a noite inteira de novo?
- Lia, para de ser escrota! – a perspectiva não era ruim, mas eu não acreditava ter fôlego suficiente pra deixar que Hart entrasse em meus poros outra vez tão cedo. Ele me entorpecia de forma grave, inconscientemente derrubando barreiras invisíveis e me vendo, figurativamente, nua, vulnerável – Você mantém contato com o Wilshere?
- Nah, ele é um neném, mas está focado. Primeira Copa, eu entendo. A sede pela conquista é maior que pelo meu corpinho.
- Você é ridícula. – ela ria tanto quanto eu, e me bateu uma saudade de tê-la por perto. Lia fora a primeira com quem criei laços quando entrei efetivamente na FIFA, um arco-íris no meio da formalidade que o ambiente da sede em Zurique possuía. Tê-la em minha vida era maravilhoso não só pela amizade que criáramos, mas porque grande parte do motivo pelo qual eu ainda não precisava de terapia era a habilidade que ela tinha de conseguir manter meus dois pés no chão. Eu tinha em mente que, depois de tudo aquilo, talvez apenas ela não fosse o suficiente.
- O que não é o caso do seu homem, eu tenho certeza.
- Ele não é meu homem, é só um homem. – larguei o roupão em cima da cama e coloquei o pijama que, lá em Manaus, Joe achara legal antes de quase rasgá-lo – E a propósito, não sei muito bem o que fazer com ele.
- O que você quer dizer?
Abri meu peito pra Lia. Expliquei sobre o recado na recepção e a surpresa que me tomou ao recebê-lo, porque quando eu o deixara entrar lá em Manaus eu não esperava que ele fosse voltar, embora pouca coisa (quase nada) sem conotação sexual tenha sido dita depois que ele começou a arrancar minhas roupas. Mesmo que o sexo não saísse da minha cabeça. Nada ficou explícito além da vontade mútua e talvez aquele tenha sido meu erro, não expor em que pé não estávamos. Mas o que me causava mais angústia era justamente a vontade de admitir, nem que fosse apenas pra mim, que eu queria estar em algum pé com ele sim.
- Me sinto estúpida e infantil.
- Você está mesmo sendo estúpida e infantil! – era por aqueles tapas na cara que eu vivia. Precisava de alguém que os desse e os da Lia eram sempre certeiros – Onde dois querem a mesma coisa, não existe problema, então pare de inventar um!
- Tem muita coisa em jogo, Lia. Eu gosto muito do meu emprego, obrigada!
- Ninguém vai te demitir por se relacionar com um jogador, . Eu li as normas de conduta que nos regem mais vezes do que posso contar, porque sou a pessoa menos ética que eu conheço, e nada é dito sobre isso em lugar nenhum.
- Mas e se a Inglaterra for desclassificada e isso chegar a público? Se por falta de sorte ele fizer um desempenho ruim a mídia inteira vai cair matando em cima de mim! Já é suficiente tudo que eu leio sobre meu tio ser o motivo de eu estar onde estou.
- Foda-se a mídia, você já é uma pessoa pública, vai tirar de letra como sempre tirou!
A razão das palavras dela me tomou e eu me joguei na cama, respirando fundo, admitindo a derrota.
- Você tem razão.
- Lógico que eu tenho! – como sempre, eu tinha que admitir – Você é a pessoa mais bem resolvida que eu conheço, aja como tal.
- Obrigada.
- Não há de que! Agora vai ligar pro seu homem.
- Já disse que não é meu!
- Blábláblá – sorri. Ela era impossível – Ah, antes que eu me esqueça: nenhum contato de algum Bastian Schweinsteiger e eu espero que continue assim.
- Muito obrigada por me lembrar, vou providenciar um assim que possível!
Fechei minha mala, me despedindo enquanto ela desligava o telefone e me xingava em pelo menos duas línguas. Coloquei a mala em um banco na lateral do quarto, guardei o roupão úmido no banheiro e resgatei o recado de Joe da antessala. Deitei de lado na cama, olhando o telefone. Eu precisava respirar fundo, tomar vergonha na cara e parar com a insegurança.
Tirei o aparelho do gancho e disquei. Me atenderam no terceiro toque.
- Yes? – não era o Hart. Merda.
- Oi, posso falar com o Joe, por favor?
- Quem é?
- .
Houve uma leve exclamação de surpresa, depois uma risada antes que o dono da voz que me atendera chamasse o Hart pelo sobrenome. Me perguntei se ele já espalhara para metade do elenco inglês a forma como eu gemi desesperada o nome dele todas as quatro vezes antes de gozar e se por acaso ele não teria feito parecer que gostara menos do que na realidade. Fiquei com raiva por ele conseguir plantar dúvidas na minha cabeça sem dizer nada e pelos caminhos que a minha mente tomava quando se tratava dele.
Respirei fundo. Aquele não era o melhor caminho.
- Hey. – ele parecia contente. Mordi o lábio, segurando um sorriso.
- Oi, eu recebi seu recado. Precisa de alguma coisa?
- Não imaginei que você fosse ligar.
- É meu trabalho, cá estou. – ele riu, uma risada gostosa – E então?
- Posso ir até aí? Não quiseram me dizer o número do teu quarto. – o tom que ele usava era hesitante, como se imaginasse se eu por acaso não vetara o acesso dele àquela informação.
- É o procedimento padrão. – ele fez um som de concordância. Temi estar soando profissional demais - Escuta, eu preciso descansar. Não tenho o fôlego de vocês atletas e os últimos dias foram intensos pra caramba. Além do mais, você tem treino amanhã cedo.
- Que eu me lembre você tem bastante fôlego sim.
Não consegui não rir. Ele me acompanhou, ignorando meu alerta.
- Para de tentar me deixar sem graça.
- Não paro se estiver funcionando. – fui pega de surpresa pela leveza no tom que usávamos e de repente não me pareceu má ideia deixá-lo ir até lá – E então, o que me diz?
- Você vai ter que me deixar descansar. – vulgo nada de sexo - E nada de dormir aqui.
- Prometo que vou tentar.
- Tentar não é o suficiente pra me fazer dizer sim, Joe Hart.
- É tudo o que dá pra garantir! – eu ri, descrente, pensando que provavelmente falharíamos feio tentando cumprir essa meta. Pelo menos eu teria folga, problema dele se quisesse gastar parte de sua noite de sono comigo.
- Ok, então. Quarto 702.


Acordei com o telefone tocando ao lado da minha cabeça, a luz do sol escapando pelas cortinas e um braço pesado sobre minhas costas.
Que merda.
- Alô.
- , desculpe te acordar cedo na sua folga, mas ninguém consegue achar o goleiro titular da Inglaterra, eles saem daqui 15 minutos e o técnico está muito puto no restaurante do hotel.
Puta que pariu, que merda federal.
Se Roy Hodgson já não tinha adquirido uma boa impressão de mim quando me conheceu em Manaus, se ele soubesse que seu goleiro sumido estava sem camisa no meu quarto, a antipatia que ele nutria evoluiria e se tornaria um problema sério.
Avisei a Marcos que resolveria o problema e me virei na cama. Joe me olhava sonolento. Me puxou em sua direção e beijou meus lábios. Não me deixei ser consumida pela surpresa.
- Você precisa ir embora.
- Você tem que parar com essa mania de me expulsar.
- Isso é sério, Joe! – tentei levantar da cama, mas sua força subjugava em muitos graus a minha, e fui impedida – Sua comissão técnica está te procurando. Não sei como ninguém apareceu aqui ainda.
- Eu pedi ao Rooney pra não dizer nada. – ele esfregou o rosto com a mão livre e virou na cama, me arrastando junto, deixando-me em cima de seu corpo – Bom dia.
Durante diversos momentos na noite anterior ele me dirigira aquele olhar; quando ele me perguntava coisas pessoais e eu não hesitava em responder – quando as respostas o agradavam. Quando eu devolvi as perguntas, revelando minha curiosidade. Quando eu o fazia rir dublando o que o dublador do canal Animal Planet dizia em português. Depois que eu aceitei seu beijo. Quando fui de encontro às minhas próprias palavras, deixando que ele ficasse.
Me lembrava a fascinação de um palestrante ao ver que suas palavras estão alcançando a mente daqueles que o ouvem e despertando dúvidas sobre o tema. Era interesse genuíno e uma espécie de fascinação, ainda que tímida. Provavelmente eu devolvera o olhar em vários momentos com a mesma medida. Era um olhar perigoso, ainda mais acompanhado daquela cara de sono adorável que ele exibia pra mim.
- Bom dia. Agora para de flertar comigo e vai tomar um banho.
- Você me acompanha?
- Joe, você sabe que horas são? – me estiquei até a mesa de cabeceira e, meio torta, consegui pegar o celular – Sete e vinte da manhã.
- Fuck.
- Sugiro que você corra.
Saí de cima dele, sem resistência daquela vez. Assisti, deitada na cama, enquanto ele vestia a camisa com pressa. Era uma puta cena e eu tinha certeza de que estava explicitando meu interesse, deitada de lado, apoiando a cabeça na mão como estava. Mas durante a noite ele conseguira mudar muito o meu ponto de vista sobre si mesmo e sobre o que ele queria – ou descobriu querer -, então não me importei.
Antes de correr em direção à porta, inclinou-se sobre a cama, me dando um beijo intenso com gosto de plástico e um tapa na bunda.
Tombei o corpo sobre o colchão, rindo completamente descrente, sentindo-me ótima.




Continua...



Nota da autora: Muito obrigada à todas, vocês maravilhosas que andaram comentando teorias aqui embaixo! Eu também tenho um lado favorito, mas nem sob tortura conto qual é! Continuem comentando e deem uma olhada nas minhas outras histórias do site. Até a próxima! xoxo




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